Carta ao Teósofo sobre Brasilidade e Teosofia – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Mar 28 2016 

Bom dia, Exm.º Sr. e Venerável Irmão.

Confesso ter hesitado bastante em responder à sua carta e respectivo anexo boletim de política controversa por esse senhor … afiliado em uma organização brasileira dita espiritualista, sobretudo com as dores que me devoram na zona dos rins desde que anteontem – Sábado de Aleluia – entrei no Santuário Akdorge de Portugal e, ao agachar-me para agarrar algo, elas sobrevieram mais uma vez, impondo-me uma espécie de Cruz dolorosa, e assim estou esperando que passem. Quem imita Cristo ou quer imitar Cristo – o Divino Senhor da Compaixão (Bodhisattva) –  fica sujeito a tudo a ver com Ele, sobretudo as Suas dores por uma Humanidade tão desavinda como é a de hoje.

Entro assim directamente no assunto em pauta. A “Brasilidade” proclamada por esse senhor … é a mesma nascida do Movimento Verde-Amarelismo fundado em 1924 por Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Plínio Salgado. Movimento literário modernista brasileiro, propunha um nacionalismo puro, com a interferência de algumas características europeias, sobretudo luso-francesas, mas sem tendências nativistas. Esse movimento viria mais tarde a incorporar-se em um outro fundado pelo mesmo jornalista e político Plínio Salgado, que o fundou em 7 de Outubro de 1932: a Acção Integralista Brasileira conhecida pelo seu grito de guerra “Anauê” (invenção linguística baseada na língua tupi), desde o primeiro instante imitando o método do fascismo italiano  de Benito Mussolini e abertamente simpático às políticas de conquista e domínio de Adolf Hitler. Com a instauração do Estado Novo durante a vigência do Presidente Getúlio Vargas, esse movimento foi oficialmente extinto em 10 de Novembro de 1937, mas subsistiram adeptos simpatizantes activos do mesmo durante toda a II Guerra Mundial em solo brasileiro os quais vêm até hoje. É desses movimentos nacionalistas de Direita que nasce a noção patriótica de “Brasilidade”, divulgada por uma propaganda literária apoiada em teses de natureza histórica-filológica-arqueológica rebuscadas à Antiguidade Brasileira, de que tiveram a primazia os verde-amarelistas Bernardo Ramos e a sua tese do “Brasil Fenício”, Gustavo Barroso e a sua tese do “Brasil Atlante”, Ludwig Schwennhagen com iguais teses “Fenícia e Atlante” na origem do Brasil, com a preocupação particular de criar distâncias históricas de Portugal ao querer reduzir a importância de Pedro Álvares Cabral na Descoberta do Brasil e o início da miscigenação com os autóctones do território, os índios (tupinambás, tupis e só depois guaranis), esses que são os brasileiros originais, pois todos os outros são de origem importada por via de emigrações, com os portugueses à cabeça.

Começa aí a teoria esdrúxula de “a culpa é do Cabral”, alimentada e propagandeada até se tornar “palavra de fé” a partir do 1.º de Abril de 1964, data da instauração da Ditadura Militar ou a Quinta República Brasileira, quando os movimentos de Esquerda são reprimidos e anacronicamente os seus intelectuais e artistas aproveitam as ideias nacionalistas da Direita, mas para chorralharem as culpas dos seus males político-sociais com origem nos “portugueses colonialistas”. Com o fim da Ditadura Militar em 15 de Março de 1985, a História do Brasil é feita e ensinada de um modo notoriamente esquerdista, sempre preocupada em diminuir e apresentar Portugal como antiga potência que destruiu o país nos seus alicerces psicossociais. É assim que aparece esse senhor … incorporado num rol imenso de simpatizantes dessa teoria, logo não sendo de estranhar que chame a “Portugal país de ladrões e assassinos”, dentre outros mimos do género, onde “o pior da sociedade europeia foi habitar e espoliar o Brasil”, o que está errado e é mentira óbvia a toda linha: quem começou a habitar o Brasil foi a nata aristocrática portuguesa, brasonada e ilustrada próxima da Coroa, acompanhada dos mais eruditos cavaleiros da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus-Cristo e da Ordem Terceira de S. Francisco da Província de Portugal, juntando-se-lhes depois os Capuchinhos, e após a Ordem do Carmo e a Companhia de Jesus. Acompanharam-nos vagas de gente humilde mas também abastada, em breve juntando-se aos autóctones, donde resultaria a etnia luso-indígena Mameluca, e sem impor trabalho escravo – mesmo com essa ou aquela excepção mas que não faz a regra geral – antes respeitando as tabas ou territórios indígenas. Para a mão-de-obra escrava usou-se o africano a partir da segunda metade do século XVI, e mesmo esse usufruía de regalias que não haviam noutras partes, como a das facilidades de educação e alforria, vindo também o africano a miscigenar-se no território com portugueses e índios. A “caça ao índio” é feita pelos holandeses no século XVII, sobretudo no período em que Portugal estava sob domínio dos Filipes de Espanha, mas foram os mesmos índios que aliando-se aos portugueses venceram os franceses na Batalha de Guanabara – quando o Rio de Janeiro era chamado “Nova França” e “França Antártida” – e escorraçaram-nos do território, e assim também no interior com as Bandeiras dos exploradores lusos já domiciliados e com carta passada de origem lusa mas com cidadania brasileira, mais que contra os índios aliando-se com estes contra as forças ocupantes holandesas, inglesas e espanholas.

Agora o seguinte: o conceito de Brasilidade não nasce no século XX pela mão da Direita e posterior aproveitamento da Esquerda. Ela nasce com Pedro Álvares Cabral e Frei Henrique Soares de Coimbra, expande-se com Mem de Sá, Martim Afonso de Souza, António de Mariz, etc., e vem até ao Império Brasílico do português D. Pedro I do Brasil, IV de Portugal. O encómio erudito e místico ao Brasil é feito por diversos historiadores portugueses entre os séculos XVI-XIX, propagandeado pelas crónicas capuchinhas e jesuítas – sobretudo as de São Paulo de Piratininga, cidade onde não falta o topónimo “Nova Cintra”, hoje freguesia do Espírito Santo – e é assim que Pedro de Mariz, nos seus “Diálogos de Vária História”, em 1594 chama o Brasil de “Nova Lusitânia”, seguindo-se a “Feliz Lusitânia” como era chamado, em 1616, o núcleo primitivo de Belém do Pará (Santa Maria de Belém do Grão-Pará, porta da Amazónia). Talvez como últimos ecos da noção original de Brasilidade nascida da Portugalidade, serão o escritor e político José de Alencar e o cónego carmelita Raimundo Ulisses de Pennafort.

Brasileiro dos “sete costados” desde a sua infância, o Professor Henrique José de Souza certamente conheceria todos esses elementos e em breve os adaptaria à sua visão teosófica da História do Brasil, mas sem ostracizar a origem portuguesa, antes realçando-a com raro trato carinhoso, inscrevendo-a em três períodos distintos ainda assim interligados: Brasil Atlante – Brasil Fenício – Brasil Iberoameríndio, aqui com grande realce para a figura incontornável de Pedro Álvares Cabral. Mas “não há bela sem senão”: a sua noção esotérica da História do Brasil adaptava-se e adapta-se perfeitamente às ideias particulares de “direitistas” e de “esquerdistas”, motivo porque em breve nos conceitos de muitos ela perdeu o seu sentido transcendente e até místico e ficou só o imediato politizado, exaltando-se os efeitos em detrimento das causas que a Teosofia de H.J.S. aponta mas que hoje poucos atendem, com o tresando insuportável de proximidade à xenofobia encapotada de “misticismo” por parte de alguns pretendentes à soberania brasileira do Mundo no plano social imediato, o que objectivamente revela-se absolutamente contrário ao que se vê hoje no Brasil, país jovem que naturalmente ainda procura a sua independência histórica, nisto entrando alguns com mais literacia que servindo-se de factos históricos, uns prováveis e outros improváveis mas quase todos aflorados pela rama ou a superfície, superfluamente tentam impor a sua visão particular da História Brasileira, por norma quase ou mesmo geral só aceites entre os seus pares de crença, seja mística ou seja política, pior ainda quando os dois vectores se misturam aumentando a confusão.

Confusão como essa dos Três Poderes Políticos (Legislativo – Executivo – Judiciário) e a própria estrutura do próprio Edifício Político brasileiro basear-se no norte-americano, apesar de adaptado à idiossincrasia nacional que alguns apodam de “gostinho tropical”, no sentido pejorativo de adaptar-se ao “jeitinho brasileiro para corromper-se e corromper”, no que não concordo e sim e só nas facilidades corruptivas que esse género de estrutura política suscita. Todos aí dizem mal dos norte-americanos mas no entanto imitam-nos em tudo, e pelo que se vê hoje na sociedade da América do Norte há muito pouco de digno e edificante para imitar. Até as igrejas carismáticas que inundam o Brasil, pretensamente saídas da Aliança Evangélica norte-americana, além dos repórteres de TV, imitam os norte-americanos, sobretudo no seu modo de falar agressivo e explosivo “à cowboy”. Ah, sim, o Brasil ainda não se encontrou desde a sua independência em 1822, e o que o Professor Henrique José de Souza vaticinou para esse país maior que um continente ainda não existe, está sendo construído, lenta mas seguramente, e sempre atendendo a que a noção de tempo dos homens não é a mesma da dos deuses. Além disso, as novas gerações, mais informadas e inconformadas com as ideias conservadoras, sejam “vermelhas” ou sejam “verde-amarelistas”, dos mais velhos, assim como as próprias forças militarizadas em franca mudança mental recusando-se atacar o povo, logo recusando qualquer espécie de uma nova ditadura militar, por certo haverão de pôr fim definitivo a tal “corrupção crónica” que parece estender-se de um Lula a um Aécio e vice-versa, passando por todos(as) os outros(as), todos produtos de uma época social – orbitando entre o capitalismo e o proletariado, e vice-versa, incluindo as hodiernas noções pretensas de monarquismo ou de algum tipo teocrático desejado por determinado “evangelismo”, por noção repasta de uma cobiçada maior e totalitária fonte de riqueza, dita “dízima”, à escala nacional imposta por radicalismo religioso – cuja razão de existir já passou, queira-se ou não.

Com respeito aos dois cidadãos cujos nomes aponta na sua carta, as suas atitudes, que tenho acompanhado de perto desde os inícios dos anos 80 do século passado, tornaram-me crente de serem fanáticos incapazes de sair da órbita limitada das suas crenças já de si estreitas, acreditando que os fins justificam os meios, sejam quais forem, em nome de uma mística para-religiosa abscôndita, onde por um lado divinizam personalidades humanas, e por outro galvanizam um país como soberano “metafísico” do Mundo, a despeito do estado em que todo o mundo o vê. Desses cidadãos, um é brasileiro e vizinho do outro, português, ambos tomados de ideias muito pessoais da Teosofia de JHS e ambos com uma ora aberta, ora encapotada, hostilidade a Portugal e aos Portugueses. Servem-se da retórica e lógica para afirmarem tese, mas retórica nunca foi sinónima de lógica e a lógica nem sempre é certa. A premissa poderá estar correcta, mas a proposição poderá ser incorrecta. Esse cidadão português assaltou com os seus próximos os Templos da Obra em Sintra e no Porto, nos inícios dos anos 80, acredito que tomado de zelo fanático; contatei-o ainda nos anos 80, tentando uma proximidade espiritual entre Portugal e o Brasil (como igualmente fizera antes com o finado senhor Udo Oscar Luckner, fundador do seu “Monastério Teúrgico do Roncador”, na época da minha primeira deslocação ao Brasil em 1983 e que foi a mais longa, quase um ano de permanência aí), perseguindo sempre o que o Professor Henrique José de Souza procurara estabelecer nos fins dos anos 50 e inícios dos 60 entre os dois Países, mas não resultou e os detalhes deixarei para uma outra ocasião; tentei o mesmo já nos anos 90 com a dita Instituição espiritualista, sujeitando-me ao que considero equívocos de doutrina e política da mesma (eu vinha da experiência de director da Rama “Alvorada” da Sociedade Teosófica de Portugal e de Membro activo da Comunidade Portuguesa de Eubiose, no que não era um principiante imaturo), e como também resultou debalde, afastei-me. Conservo os documentos e as carteiras de identificação desses períodos que vivi (de que certos sabidos feitos e confiados por MIM hoje alardeiam sem saberem do que falam, metendo-se nas vidas alheias que não lhes diz respeito algum, chafurdando no que é público e publicado e fazendo chafurdo em proveito próprio de quanto lhes confiei, não importando que por menos da metade, jamais em tempo algum sendo da Hierarquia de JHS, e que na época desses acontecimentos da minha vida não passavam de miudagem vadiando ao gosto das idades e temperamentos). Hoje, se algum ou todos dos familiares vivos descendentes do Professor Henrique José de Souza pretenderem estabelecer uma aproximação comigo nesse sentido de união internacional, por certo a minha disposição mantém-se e por respeito exclusivo ao Professor H.J.S. a aceitarei, mas desde que se respeitem as idiossincrasias próprias deste meu país, Portugal, relativamente à Obra, como eu e os Portugueses da Obra respeitamos as idiossincrasias próprias do Brasil. Há muitos traços de proximidade, as linhas gerais são semelhantes mas não são idênticas: igual é só o Mestre JHS.

Brasil e JHS

Ainda ao longo dos anos 90 e até hoje mantenho relações privadas com discípulos directos que conviveram com o Professor Henrique José de Souza. Aceitaram-me entre pares pelos meus pergaminhos ocultistas e teosóficos, e todos reiteraram que o meu pretenso de unidade Portugal – Brasil sempre foi aquele do Mestre. Isto lembra-me certa ocasião no Hotel Jina, em São Lourenço (MG), em que estando o apartamento de Roberto Lucíola repleto de membros da dita Instituição espiritualista além dele e de mais dois ou três ainda da época do Professor, tendo-o conhecido pessoalmente e dele recebido instruções directas, esses membros novos assombraram-se com o discurso dos antigos por ser absolutamente estranho ao que lhes ensinam hoje em dia. Fica à reflexão, se assim se entender.

Mas há uma razão esotérica para ter Portugal e o Mundo como subalternos do Brasil: é que São Lourenço e as 7 Cidades do Sistema Geográfico Sul-Mineiro dirigem os 7 Postos Mundiais e com isso o Mundo. Trata-se de uma corrupção hodierna do ensinamento de JHS e uma verdadeira inversão de um princípio básico da Teosofia: cada Posto Mundial é afim a um Chakra Planetário ou Centro Bioenergético do Logos da Terra, sendo o 8.º de São Lourenço algo em formação alimentado pelos demais. Os Sub-Postos Mineiros são espécie de Sub-Chakras que recebem essas Energias dos Chakras canalizando-as para o 8.º, jamais o inverso porque o 8.º não está formado, pois se estivesse formado a Terra seria um Planeta já integrado à Divindade Absoluta, e o que se vê é exactamente o oposto: a Humanidade desavinda com Deus, as “células” do Logos Planetário que somos nós, humanos, ainda agitando-se doentes afectando todo o organismo que é o Globo Terrestre. Só o exclusivismo da impuberdade nacionalista de alguns pode explicar essa inversão de factos e valores, como se uma coisa em formação pudesse animar algo já formado e animador, tal como um Chakra para um Sub-Chakra, onde este passa a ter primazia vital sobre aquele. Não confere! Nessa inversão assumida como verdade, é que se impõe a noção exclusivista de soberania do Brasil sobre o Mundo. Poderá sê-lo um dia, mas não hoje nem tão cedo, talvez na próxima 5.ª Ronda da Terra, talvez antes, na 7.ª Raça-Mãe Atabimânica deste Período Ário.

Na carta desse cidadão brasileiro que o senhor anexa, repetem-se os complexos nacionalistas (do género “sejam os brasileiros atlantes, fenícios, cários, tudo o que se quiser menos portugueses, escória entre a escória europeia”! Déjà-vu…) misturados com muitos chavões de conhecimentos teosóficos respigados dos escritos que já identifiquei como sendo de Sebastião Vieira Vidal. Chavões porque não passam de frases feitas, repassadas sem mais e nenhum aprofundamento, como esse do “Brasil ser o terreno geológico mais antigo do Mundo”. Será, mas também a Mongólia Interior, o Planalto do Tibete, a Bacia do Eufrates, a África Setentrional e Central, a própria Península Ibérica, etc. Também o “Brasil Fenício” não possuía dois Reinos, um ao Norte e outro ao Sul, e sim duas imensas Feitorias litorais (“reinos” é modo prosaico de descrever), e é por isso que a maioria das descobertas arqueológicas são feitas nesses espaços, atribuindo-as a esse período histórico esquecido da História Brasileira, e “esquecido” hoje em dia por andar colado às velhas tendências políticas “verde-amarelistas”. A única pessoa que transpôs as noções do “Brasil Atlante e Fenício” para um patamar superior teosófico e apolítico, foi o Professor Henrique José de Souza. Essas noções, repito, são hoje assacadas à exaustão para aplicações nacionalistas tanto por “esquerdistas” como por “direitistas”, facções presentes nessa Sociedade hoje dita “religiosa” (o que contraria os princípios universais regentes da Sociedade Teosófica, apolítica e irreligiosa nos sentidos de sectarismo), as quais trazem-na na maior das confusões e conflitos internos. Tudo isso por lhe faltar um líder verdadeiramente espiritual, disposto acima dos gostos e desgostos das facções capaz de as conciliar, e também por aqueles que têm mais alguns conhecimentos se enclausurarem no exclusivismo “esotérico e patrioteiro” afunilando o conhecimento invés de o abrirem e o tornarem mais atrativo à Humanidade.

Ainda na carta em questão, há muitos erros de índole doutrinária onde os chavões repetem-se numa manobra de repetição própria da inteligência emocional. Não apontarei a todos que é por demais exaustivo, deixo só duas rectificações: a Maçonaria Egípcia apodava as Três Luzes do Governo Oculto do Mundo de Menfis – Maisim – Misraim, enquanto a Maçonaria Especulativa – segundo o mito de fundação atribuída a Kunaton, fundador da Rosacruz dos Andróginos ou Rosacruz Andrógina, em 1370 a. C.– só surge no Brasil após a data da sua fundação em Inglaterra, em 1717, levada de Portugal para aí e cujo Grau máximo, ainda no tempo do imperador D. Pedro I, era o de Rosacruz no Rito Adonhiramita, o primeiro a ser instituído no Brasil, cuja Potência e Palácio Maçónico sediava-se no Rio de Janeiro.

Finalmente, colar geopolímeros (facto conhecido de qualquer arqueólogo versado em egiptologia, como sejam as pedras amolecidas com água talhadas no local) com vimanas ou “discos-voadores” tendo a “confirmação” de textos sagrados do Oriente e do Ocidente, tudo dentro das famosas teorias da conspiração e silêncio dos governos, etc., como essa das “forças do Reich, durante a II Guerra Mundial, procurarem as Embocaduras para os Mundos Subterrâneos em Minas Gerais”, facto de todo improvado e indocumentado ao contrário do que aconteceu no Norte do Brasil mas com os interesses nipónicos, é realmente “a maneira mais simples de desconstruir uma Nação, de fazer com que uma Nação seja um aglomerado de pessoas sem um ideal comum, é fazer com que esse povo, essa Nação não tenha História, não tenha Passado”, porque estórias da carochinha não convencem ninguém, por mais crédulo que seja.

Tenho dito. Respeitosa e fraternalmente,

Vitor Manuel Adrião

P.S. – No dia 22 de Abril de 1500, no oitavo dia da Páscoa cristã, a frota de Pedro Álvares Cabral teve o primeiro contacto visual com um elevado cume que por motivo da data recebeu o nome de Monte Pascoal, e à terra descoberta de Vera Cruz, ou seja, a da Verdadeira Cruz do Calvário cultuada neste período do calendário litúrgico. Depois passou a chamar-se Terra de Santa Cruz. Desembarcados os navegadores, levantou-se na hoje Santa Cruz Cabrálica, município baiano, um padrão em forma de Cruz feito com o pau brasil, diz-se, e Frei Henrique Soares, com os seus quatro companheiros do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, realizaram a Missa Pascal do Espírito Santo, a primeira realizada no Brasil com portugueses e índios unidos na mesma celebração. É por isto que a Festa da Páscoa tem especial relevo entre o povo brasileiro, por para ele ser a primeira do calendário litúrgico. Não há acasos… e sim muitas causalidades.

V.M.A.

MEMÓRIAS TROCADAS…

Boa tarde, Exm.º Sr.

Pouco tenho a acrescentar à campanha de difamação e perseguição que esse cidadão Jorge António Oro vem promovendo contra mim desde 2012. Primeiro, admirava-me e dizia-se meu fã, até publicou um vídeo com um livro meu (“História Secreta do Brasil”), esgotadíssimo, tecendo os maiores elogios ao mesmo. Depois, como viu que eu não me convertia às suas ideias particulares, passou a difamar-me e a perseguir-me por tudo quanto é sítio. Não sou da Sociedade Brasileira de Eubiose, e o que herdei de privado foi-me dado pelos próprios discípulos de Henrique José de Souza, a maioria deles já falecidos e que esse cidadão (assim como o seu comparsa assaltante dos Templos do Porto e de Sintra, um mau português espécie de “brasileiro” de empréstimo) têm-nos no apodo de “TRAIDORES”, por pressupostamente terem “traído os seus juramentos”, o que é afirmação falsa a toda a linha e tampouco sabendo o que fosse um Discípulo de JHS, este que estipulara os Juramentos Internos a MAITREYA, o CRISTO UNIVERSAL,  e não a esta ou aquela personalidade dúbia como é toda a natureza humana não sublimada. O facto do meu apodo de “Makara” tem a ver com função exercida na Obra e não com a Hierarquia de Ser, que esse é o Adepto Perfeito, posto o Makara ser a Mónada do Munindra. Não gosto de gurulatria, menos ainda de desencaminhadores mentirosos e assassinos morais, para não dizer pior.  Se não “brincassem às missas” e fossem pessoas de boa índole, gente de bem como é uso dizer-se, poderia ser que talvez um dia, havendo oportunidade, deixasse que penetrassem algum dos nossos Templos e comungassem da nossa Ritualística, mas sendo como são, maus e cegos, continuarão de fora eternos PROFANOS, que é dizer, profanus, “ante ou fora do Templo”, consequentemente, fora, à margem, apartados dos Mistérios Iniciáticos. Que eles fiquem pelas elucubrações fantásticas feitas de analogias fantasistas, mitómanas penetrando a loucura clínica. Tenho tido a maior deferência na utilização desses escritos iniciáticos privados de JHS confiados, e sempre dentro do pensamento livre que distingue todo e qualquer teósofo, seja da Índia seja do Brasil. Consequentemente, nada de «secreto» pretendi dessa organização nem pretendo. Isso é fantasia mentirosa desse senhor António, ao confundir troca de informações com pedidos exuberantes, pois o que me repassassem eu repassaria em dobro. Já agora, repasso o link do vídeo onde esse senhor faz elogios ao meu livro “História Secreta do Brasil”, mas agora parece que já não presta porque eu não lhe pedi autorização pessoal. Deixo à sua consideração.

A HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL – YouTube ▶ 2:10:23 https://www.youtube.com/watch?v=pxTz-qhQ-U4 1. Semelhante 25/02/2011 – Carregado por Fernando Piti PROGRAMA VIDA INTELIGENTE – A HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL … sob o Atlântico, oceano que …

Esse cidadão António Oro quer ser ele a fazer o prólogo do livro de Roso de Luna, O Tibete e a Teosofia, e para isso não olha a meios para alcançar os fins. Sou um investigador da História, por vezes faço citações de Henrique José de Souza (mas também de Blavatsky, de Roso de Luna, etc.) para reforçar as ideias apresentadas, e foi nessa condição que escrevi com o maior gosto o Prólogo à obra do Dr. Roso de Luna. Esse tal António não diz que o meu Prólogo já feito está errado, diz que eu não devo falar de Henrique José de Souza porque não sou da Sociedade a que ele pertence; assim, nesta linha anti-teosófica, também não se deveria falar de Blavatsky, de Roso de Luna e de tantos outros mais citados em milhares e milhares de livros teosóficos e não teosóficos. Para mim, isso não tem sentido algum, e só encontro explicação no seu “ciúme ofendido” e na pretensão descarada de querer brilhar seja de que maneira for, de modo a encantar o seu pressuposto séquito eleitoral que, na realidade, não passa de minoria entre as minorias do Brasil. Resulta, em  consequência disso, o meu pedido para não editarem o meu Prólogo, no que fui atendido a contragosto pelos teósofos espanhóis, que assim também não editarão uma só palavra referente ao Professor Henrique José de Souza. Apesar desse incidente provocado desnecessariamente, alguma coisa de positiva irá acontecer no sentido de contrariar essa decisão do grupo de trabalho teosófico espanhol que contrapôs com uma outra sem eliminar aquela. Fique-se para ver…  De modo que este Grande Teósofo Henrique José de Souza, revelado Adepto Vivo, continua a ser o mais ostracizado, quando não completamente desconhecido, no meio iniciático internacional e mesmo nacional, a começar pelo brasileiro, tudo graças ao fanatismo e interesses instalados dos seus exclusivos «administradores». É assim que esse cidadão António Oro empolgado na sua autossatisfação revela a los nuestros hermanos teósofos españoles: …”en 1969, cambiamos para Eubiose (um neologismo criado por Henrique José de Souza), dando início a una tercera fase que vá a permanecer asta cuando devemos cambiar nuevamente nuestro nombre para Orden de Maytrya.” Palavras bem reveladoras do que parece(m) andar aprontando: fundar uma “ordem de maytrya” (Maitreya é o termo correcto, digo eu) dando fim à sbe tal como acabaram com a S.T.B., e então já não haverão eubiotas mas só “maytryas”. Deixo à reflexão geral, que há mistérios que ultrapassam a minha compreensão. Com toda essa minha incapacidade de compreender, mesmo assim acredito que isso irá acontecer quando Hélio Jefferson de Souza, primogénito do segundo casamento de Henrique José de Souza, já não estiver neste mundo, de certeza que muito pouco tempo após a sua passagem e a interesseira divinização da sua pessoa. O que ele não é em vida passa a ser depois… invenção inescrupulosa de mitómano(s). Dejá-vu, dejá-vu

Em 2004 estive mais uma vez no Brasil, e corria a teoria de que em 2005 viria Maitreya em pessoa aparecer na Terra, na estância hidromineral de São Lourenço no Sul de Minas Gerais. Eu e alguns condiscípulos de Henrique José de Souza contrapusemos essa teoria com princípios básicos da Teosofia, demonstrando o esdrúxulo da coisa, nessa hora em que se falava abertamente em suicídio e até agressão corporal ao filho mais velho de Henrique J. Souza, que deveria ser «avatarizado» por Aquele, se nada acontecesse, isto é, se Maitreya não aparecesse, e obviamente não apareceu. Creio ter contribuído em São Lourenço, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Salvador da Bahia, em Brasília, etc., para evitar um descalabro maior, que as crenças afirmadas iam todas nessa direcção. Possuo a documentação particular de todos esses eventos. Obviamente não me perdoaram, mas ainda assim mantiveram-se calados, até que depois da farsa de “2012 fim do mundo” que eu desmascarei temendo, mais uma vez, o fenómeno psicossocial de suicídio colectivo, como é comum nas seitas milenaristas e apocalípticas como medida desesperada quando não encontram saída para a confirmação das suas crenças, esse cidadão virou-se contra mim e tive que lhe responder a preceito. Daí para cá, tem sido um descalabro da parte dele, metendo tudo e todos nas confusões que apronta. Pessoalmente não o conheço senão por correspondência que encetou enviar-me e eu responder-lhe após.

Tudo isso vale o que vale, para mim nada, mas é de uma pobreza teosófica que nunca vi em parte nenhuma do mundo e só empobrece a organização que esse cidadão diz representar. Se um teósofo não pode falar de Henrique José de Souza sem a autorização da mesma, também Adyar deveria proibir que se falasse de H. P. Blavatsky, o Ateneu que se proferisse Roso de Luna, etc. Onde já se viu tal coisa? Assim, como pode avançar no Mundo a Teosofia, se alguns sequazes não querem que sejam outros a fazer para só eles poderem brilhar, e para isso vale tudo a começar pelo assassínio moral? Deixo tudo isto à sua consideração que nada mais tenho a dizer, excepto que para mim seria uma honra maior ser um teósofo ibérico a prefaciar o maior Teósofo da Ibéria, fancarias tropicais à parte.

Os meus mais respeitosos e fraternos cumprimentos.

V.M.A.

13659126_894806367290916_2649173575805808_n

A ETERNA MANIA DE QUERER MANDAR NOS OUTROS

Fiz parte dos quadros de sócios da SBE em 1994-1995, e cumpri no exigido pela mesma até à Apostila n.º 5 da sua Série Peregrino, recebendo a correspondência directamente de São Lourenço (MG) e de nenhuma outra representação portuguesa afim, com quem nunca contactei para esse efeito. Afastei-me dessa organização passados cinco meses por total desempatia de ideias que via e vejo não serem afins às originais teosóficas do fundador, Henrique José de Souza, sobretudo as singulares crenças milenaristas e messiânicas em tudo idênticas às que observo abundantemente nas chamadas religiões evangélicas ou protestantes, além de que assume vícios e manias psicofísicas que indesmentivelmente imitam as da catequese católica nas similitudes das crenças professadas, como repara qualquer um com o mínimo de conhecimento de ciência das religiões e seus métodos. Tentei que houvesse uma interrelação superior, verdadeiramente teosófica. Não houve, então afastei-me por iniciativa própria, não que alguém precisasse afastar-me. Estou lendo os documentos da época agora ao meu lado para não cometer imprecisões. Antes, em 1987-1988 mantive relações com a representação portuguesa da SBE e recebi duas colecções policopiadas de textos sem indicativos de quaisquer graus mas que afirmavam serem graus. Foi uma relação muito esporádica que interrompi, como primeiro embate com o excesso de zelo ou fanatismo ou puritanismo ou o que seja com os sócios dessa entidade, e deitei no lixo o dito recebido por descrédito e descrença no mesmo, além de haverem erros gritantes até na mais elementar Teosofia. Tudo isso apesar de já estar na entidade teosófica desde muito jovem (fiz a minha primeira conferência com 16 anos em Vila Nova de Cacela, no Algarve) cuja relação durou até 1978-84 (eu já estivera na Sociedade Teosófica de Portugal, onde dirigi o Ramo “Alvorada”, e também na Comunidade Portuguesa de Eubiose onde alcancei o seu Grau Karuna, portanto, não era um novato, um neófito vendado nestas lides quando contactei a organização brasileira), já intercalada com as actividades culturais-espiritualistas da Comunidade Teúrgica Portuguesa em cuja fundação estive à dianteira, primeiro em Sagres (1978, tinha 21 anos de idade), depois em Sintra (1982, tinha 25 anos) e finalmente em Lisboa com a sua abertura ao público (1984, tinha 27 anos de idade).

CPE, SBE, VMA

Conhecedores do meu trajecto teosófico empático com o pensamento de Henrique José de Souza e a dedicação exclusiva ao mesmo, manifestada sobretudo através da escrita como ensaio que edito desde sempre, vários(as) discípulos(as) daquele relacionaram-se comigo desde cedo e deles vim recebendo consecutivamente, ao longo dos anos, o confio espontâneo do legado que receberam do líder da entidade Sociedade Teosófica Brasileira, repito, sempre de espontânea vontade sem alguma vez eu ter pedido alguma coisa ou pressionado nesse sentido, o mais que houve foi solicitação de informações para pelas mesmas encetar diálogo produtivo e esclarecedor de ambas as partes em diálogo ou conversação.

A prova da veracidade das minhas palavras está, por exemplo, no acontecido no ano 2004 na cidade de São Lourenço (MG), propriamente no Hotel Jina, quando de livre e espontânea vontade, à vista de todos(as) que enchiam o apartamento, a maioria meus desconhecidos mas que estão identificados(as), um discípulo já finado do Professor Henrique José de Souza ofereceu-me todo o seu espólio literário pessoal, desde o mais privado ao mais público. Factos idênticos a esse passaram-se com muitos outros e muitas outras, cujos nomes reservo à evocação no lugar apropriado se for caso disso, coisa que não acredito venha a acontecer porque há muitos “telhados de vidro” e não convém a certa gente andar a atirar pedras com risco de mandar a sua casa abaixo.

O legado teosófico inteiro do Professor Henrique José de Souza que chegou à minha posse aconteceu da maneira descrita acima, não da forma com que dois «artistas» de vaidade ofendida, arrastando mais uns quantos(as) pobres de espírito, acharam dever começar campanha de calúnia contra mim: por roubo ou plágio de bens e pessoas, estas as da tal organização das quais sou livre de discordar inteiramente das suas palavras e atitudes. Se não concordo, como posso plagiar ou roubar aquilo que discordo? Não confere. Deixo à aferição geral.

Vitor Manuel Adrião

Anúncios

Hermetismo do Jogo de Xadrez – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Mar 11 2016 

Hermetismo do Jogo de Xadrez - capa

Há jogos tão conhecidos de todos que na sua vulgarização levou à perda do seu significado oculto, iniciático, assim como da sua origem e finalidade primeira, como seja o dominó, as damas e o xadrez. Este último, como jogo de estratégias aparentemente militares e no todo indiciando o desenvolvimento e evolução de uma sociedade em meio a lances vitais à sua ordem e progresso rumo à vitória final assinalada na tomada de um mais amplo desenvolvimento psicossocial pela conquistada de um maior estado de consciência relativo ao anterior, vem também a marcar o intercâmbio entre a Escolástica e a Mística, entre a Catequese e a Gnose, entre a Maçonaria e a Igreja, motivo de estar presente em ambas como jogo hermético de intercâmbios tanto simbólicos como energéticos afins à Alma Colectiva ou Egrégora de cada uma dessas correntes de Tradição.

O flagrante disso mesmo avista-se na fachada dianteira da igreja paroquial de Vico Pancellorum, em Bagno di Lucca, Toscana, que é uma das mais antigas do Val di Lima mas devido aos sucessivos restauros sofridos ao longo dos tempos torna-se difícil situar com certeza a data da sua edificação, apesar da primeira notícia documental sobre ela datar do ano 873, quando o presbítero Alpari comunica a Gherardo, bispo de Lucca, a intenção de fundar aí a cabeça paroquial sob a evocação do Apóstolo São Paulo. Num outro documento posterior, de 18 de Março de 942, o bispo de Lucca, Corrado, dirige-se ao presbítero Lamperto de Vico Pancellorum em termos que identificam esta igreja já como sede paroquial. Aparecem também muitos outros documentos posteriores ao ano Mil que referem esta paróquia, um deles, emitido pela diocese de Lucca em 1260, descreve haver nesta igreja paroquial de São Paulo uma dependência onde viveria um ou mais eremitas. Seria, pois, um eremitério, o que estaria em conformidade com o cristianismo eremítico que marcou a Idade Média europeia. Finalmente, outros comprovativos documentais igualmente medievais fazem referências à presença da Ordem dos Templários em Vico Pancellorum.

Esta igreja de implantação basilical, com a sua torre campanária, apesar das reformas recebidas no século XVI mantém a traça românica fortemente geometrizante, sobretudo destacando-se sobre o pórtico de entrada o insólito friso decorado com figuras sacras permeio a um escaqueiro de jogo de xadrez, o mais antigo de Itália, o que tem sido motivo de especulações e debates mas mantendo-se a incerteza de quem o terá mandado esculpir e qual a finalidade ou sentido dessa estranha inscultura.

vico-pancellorum-3[1]

No friso sobre a entrada, da esquerda para a direita, vê-se um Cristo Crucificado, uma árvore, um homem com uma espada, um escaqueiro e a Senhora com o Menino, parecendo ser obra medieval coeva da época dos Templários (início do século XIV) e cuja disposição das figuras pressupõe de imediato conter uma mensagem esotérica ou hermética, por certo relacionada a algum tipo de Iniciação Templária onde Cristo e Maria sobre o escaqueiro ou xadrez do Templo terão tido função axial como Rei e Rainha da Cristandade jogada pelos Templários que tinham São Paulo como o fundador intelectual ou espiritual da Igreja, enquanto São Pedro teria sido o fundador social ou temporal da mesma.

A figura do cavaleiro central está picada, terá sido apagada propositadamente em tempos idos quando a Ordem Templária se acercava do seu final dramático sob as mais torpes acusações, mas ainda assim nota-se bem os seus contornos e apesar de ser identificado a um cavaleiro templário poderá ser antes o Apóstolo São Paulo, Orago desta igreja, motivo de estar centralizado sobre o pórtico, portando a espada com que tradicionalmente é descrito na iconologia cristã.

Essas figuras sugerem alegorizar aquelas peças do jogo de xadrez. Assim, pode-se relacionar Cristo ao Rei, a Virgem à Rainha, o Apóstolo com a espada ao Bispo e ao Cavaleiro, a Árvore à Torre, o Escaqueiro ao Peão representativo da assembleia dos fiéis movendo-se sobre o chão sagrado da Igreja.

Considerado um jogo intelectual ou mental de estratégia, defesa e ofensiva, tanto militar quanto religiosa, e por ambas as vertentes agiu a Ordem dos Templários que procurou implantar uma sociedade nova, mais justa e perfeita, no xadrez geopolítico e espiritual da Europa, o xadrez foi uma invenção sagrada da religião védica do Norte da Índia destinada reproduzir os movimentos cósmicos dos deuses celestes e infernais sobre a Terra, aplicada como método lúdico de reflexão mental pelos intervenientes ou jogadores, logo se estendendo ao Tibete, China e Pérsia, posteriormente chegando à Arábia indo espalhar-se por todo o Médio Oriente, de onde os Cruzados trouxeram-no no século XIII para a Europa, mesmo já tendo entrado antes (século X) por via arábica do Al-Andaluz introduzindo-se com grande êxito nos hábitos da nobreza cristã, ponto inicial de adaptação das figuras e seus nomes às das classes principais da época.

Acerca do nome xadrez, a analogia das palavras échec, scacchi, chess, scaphspiel e zatrichion, pelas quais franceses, italianos, ingleses, alemães e gregos modernos designam este jogo, inspirados no termo persa schah, “rei, real”, indica suficientemente a sua origem oriental. Os próprios persas afirmavam ter recebido este jogo da Índia, de onde o teriam importado no século VI da nossa Era sob o reinado de Cosróis, o Grande. Os chineses, por sua vez, também atribuem origem hindu-tibetana ao xadrez, e fontes tradicionais chegam mesmo a apontar o primeiro Vyassa dos 28 dessa linhagem e nome como o seu criador, a despeito da lenda firmar ter sido o brahmane Lahur Sessa quem inventou o chaturanga, predecessor mais antigo do xadrez, a pedido do Raja hindu Balhait, dizendo outros que seria o Rei persa Ardshir, como descreve o autor árabe Al-Sephadi.

O xadrez joga-se sobre o tabuleiro quadrado chamado escaqueiro, o qual divide-se em 64 quadrados ou casas, 32 brancas e 32 negras, alternando-se e formando oito fileiras iguais chamadas tiras. Cada jogador tem 16 peças: 1 Rei, 1 Rainha, 2 Loucos ou Bispos, 2 Cavaleiros 2 Torres e 8 Peões. O valor 16 indica a manifestação do Espírito na Matéria e o jogo estratégico que tem de realizar para triunfar da mesma, que por ele se iluminará o qual, por sua vez, conquistará maior consciência na trama da Vida Universal. De maneira que no jogo reproduz-se a batalha cósmica entre Purusha e Prakriti, Espírito e Matéria, representada pelos adversários, e essas as forças em acção e oposição estão em pé de igualdade ao início, pelo que as possibilidades de vitória são iguais para os contendores. Resta-lhes a destreza mental nas estratégias que ditarão as suas sortes.

No Tarot Sacerdotal de Agharta o Arcano 16 assinala a Rebeldia Celeste que marcou o final precoce da anterior Cadeia Lunar e o início antecipado da posterior Cadeia Terrestre com os Deuses celestes caindo na Geração Humana, momento marcante onde o Homem passou a evoluir pelo atrito que o Karma impôs. Passou a conquistar o “pão diário”, ou seja, a sua evolução paulatina, com o “suor do rosto”, isto é, pelos seus próprios esforços. Acompanhando a Evolução Humana, os Deuses caídos também eles procurando a Redenção final por terem sonegado a Ordem do Eterno. Isso já o conseguiram, dizem as Revelações do Novo Ciclo pela Boca do Anjo da Palavra, encoberto na sigla JHS. Por isso, vêem-se dois Reis, um coroado, Epimeteu (Akbel), e outro descoroado, Prometeu (Arabel), caindo de uma torre na lâmina 16 do Tarot de Marselha. O Celeste em auxílio do Terrestre, o Amoroso apiedado do Revoltado… “Porta aberta aos Três Reis pelo Arcano Dezasseis”, canta a estrofe da Exaltação ao Graal. O Arcano 16 é a Rebeldia Celeste, sim, indo desfechar na Ruína do Trono, no nível imediato sendo o trono de todos os dirigentes humanos, de todos os vigentes sistemas político-religiosos mais que falidos, sem soluções douradoras para o progresso e felicidade da Humanidade. Os Três Reis do Oriente – Akdorge, Akadir, Kadir – já vieram para o Ocidente em 1963, devido à Ira de Deus (Dies Irae) por imperar entre os homens Adharma, a Lei injusta e imperfeita. Neste Arcano Aghartino, um Deva gesticula com uma espada e faz apagar todo o quadro à sua frente. É a ideia do Destruens et Construens, a preparação do terreno social para a Nova Semeadura, a Nova Era, a Nova Jerusalém… no Ocidente.

Arcano 16

“Mas (diz ainda JHS)… aí estão os Três Reis Magos do Oriente em busca do Ocidente, para renovar as consciências e firmar os alicerces da Nova Era. E então novamente se diz, embora em sentido mais amplo: – Em verdade, em verdade vos digo que amanhã (um futuro próximo) estaremos todos juntos ao redor do Trono Celeste. Este Trono não é senão o do Avatara, o do Redentor do Mundo no presente Ciclo. Até lá, muitas coisas terão acontecido. Os homens enlouquecerão e morrerão, agarrados às suas religiões, aos seus credos políticos, à sua ciência materialista, aos seus próprios destinos kármicos…”

Esses “Três Reis solicitadores do Ciclo” vieram accionar o Karma Planetário pela afirmação da Lei Justa e Perfeita, Dharma, a fim de efectivar a limpeza do Ciclo para a implantação final da Sinarquia ou Concórdia Universal, pois que todos os sistemas de governação, como todos vêem, mostram-se completamente falidos… ante o problema magno da Felicidade Humana. A limpeza ou purificação kármica vem sendo realizada através da guerra, da fome, da miséria e da doença, logo, da Natureza revoltada. Se o Homem não quis evoluir pelo Amor, resta-lhe evoluir pela Dor!… Os “Reis solicitadores do Ciclo” projectam a sua influência em vários seres na face da Terra: religiosos, políticos, militares, autoridades em geral e qualquer outra entidade que a Lei exija servi-La. Eles se incumbem de realizar a necessária depuração kármica dos seus respectivos povos, afectando os vizinhos, mas sendo, muitas vezes, quando abusam dos poderes que lhes foram confiados, eles mesmos aniquilados. Previne JHS: “Não esquecer que a Lei, na sua originalidade, é uma, mas os homens a podem fazer outra”.

Sendo as cores do escaqueiro branca e negra elas não deixam de ser expressivas das primordiais verde e vermelha afins às duas Energias Universais de Fohat e Kundalini, respectivamente, Luz e Força, Electricidade e Electromagnetismo, Fogo Frio Celeste e Fogo Quente Terrestre que procedem ao jogo vital da evolução de tudo e todos no maior escaqueiro ou esquema do Universo cujas peças são as Mónadas em desenvolvimento.

Esquema de Evolução

O tabuleiro do xadrez vem a representar o Plano da Evolução Universal, onde tudo e todos progridem, com destaque para o Género Humano em sua Iniciação Colectiva de transformação da Vida-Energia (Jiva) em Vida-Consciência (Jivatmã), segundo a definição magistral de Kut-Humi, através das cambiantes casas brancas e negras expressivas dos dias e das noites, dos manvantaras e dos pralayas como períodos de “actividade” e de “repouso”. Também o número de casas do escaqueiro tem o seu significado esotérico, pois o valor 64 indica o cubo de 4 (4x4x4) e o quadrado de 8 (8×8) vindo expressar o quaternário do Mundo formal constituído de quatro elementos (Ar, Fogo, Água, Terra) harmónicos entre si; donde dizer-se que o número 64 expressa o Presente elevado à sua terceira potência que é a máxima, isto é, à plenitude da sua expansão, o que na Geometria Sagrada dos antigos cabalistas e maçons operativos representava-se pelo octonário como desdobramento do quaternário, revelando múltiplos sentidos iniciáticos sendo que um deles é o da Cruz tendo ao centro Cristo-Rei como Rosa de Salvação, facto remetendo para o emblema da Rosa+Cruz designativa da Pedra Filosofal e chave do «absurdo» da Geometria: a Quadratura do Círculo, formando o octógono como forma mediadora entre o quadrado e o círculo, que é dizer, entre a Terra e o Céu, dispondo-se o círculo dentro do quadrado, pois é o Espírito (Purusha) quem anima de dentro para fora a Matéria (Prakriti).

Ainda acerca do desdobramento do quaternário em octonário (4 x 8 = 32), levando à Rosa+Cruz assinalada ao par da Estrela Flamejante ambas sob o nome cabalístico Tetragramaton como afirmação da Lei do Quaternário, tem-se que os verdadeiros Iniciados possuem desenvolvidos 32 Poderes espirituais ou Sidhis correspondentes aos 32 Portais da Sabedoria cujos Caminhos estão expressos nos tramos da Árvore da Vida (Otz Chaim) que unem entre si as Esferas Divinas ou Sephirots, sendo o 33.º Poder o sintético dos anteriores assinalado no 33.º Portal – Caijah ou Haiah – conforme os Iniciados cabalistas.

Para Louis Claude de Saint-Martin, o símbolo numérico 64 é o “complemento do círculo octonário, onde o número poderoso, depois de ter percorrido todas as profundezas das regiões e da existência dos seres, restabelece a unidade em seu número simples, onde ela estava dividida, e a acção onde reinava o nada e a morte”. Assim, ainda para esse insigne Iluminado, o algarismo par 64 vem a ser o da realização estática da Unidade Cósmica na plena manifestação da Beatitude. Mas também vem a expressar o valor de Samsara, a Actividade Universal onde a natureza humana actua em consonância com a natureza espiritual. Segundo a tradição budista, a mãe do futuro Budha Gautama nasceu em uma família dotada de 64 atributos, tendências ou skandhas. A tradição chinesa afirma que Confúcio nasceu 64 gerações depois de Hoang-Ti, fundador da sua dinastia, assim como, segundo S. Lucas, Jesus teria nascido 64 gerações depois de Adão. Na teologia hindu, existem 64 Devas da classe Abhavara, os Deuses do Som, da Luz e da Cor dos três Planos Superiores do Esquema Planetário: Nirvânico, Búdhico e Manas Arrupa, ou seja, Espiritual, Intuicional e Mental Superior ou Causal, princípios de que se reveste a Unidade da Mónada Imperecível.

Como disse Francisco Feitosa em seu estudo O Jogo de Xadrez e o Tabuleiro da Vida (revista “Dhâranâ” digital, n.º 13, Fevereiro a Maio de 2016), o número 64 é o mesmo que 82 ou 8×8. Sobre isto, adianta o ilustre autor: “O n.º 8 está ligado ao Arcano da Justiça, e assim sendo temos (8×8): a Justiça Divina e a justiça dos homens. Quando conseguirmos basear as acções da segunda na primeira, encontraremos o Perfeito Equilíbrio. A quantidade de casas brancas é de 32. O n.º 32 é igual a 5 (3+2 = 5), ligado à Lei do Dharma. O n.º 32 também está ligado aos 32 Portais da Sabedoria, que no corpo humano estão expressos pelos dentes. Os 32 dentes estão na boca de onde sai o som, a vibração, ligado ao Chakra Laríngeo, ao poder da criação do Verbo (Jesus afirmava que o mal não está no que entra e sim no que sai da boca do homem!). Esse mesmo número, na Kaballah, relaciona-se às 10 Sephiroth da Árvore da Vida e os seus 22 Caminhos da Sabedoria, os quais as interligam. Em linguagem mística da Luz, quando nos iniciamos no tabuleiro da existência somos recebidos pelas forças brancas, ou seja, os peões com suas forças brancas. Eles nos dão as boas-vindas, indicando que começamos a evoluir. Como nada na Natureza é estático, poderá chegar o momento em que, por descuido, possamos ser tomados pelas garras das forças involutivas. A quantidade de casas pretas, que também é de 32 (3 + 2 = 5), está ligada à Lei do Karma. Na linguagem mística da Treva, as casas pretas são a decadência, a disfunção e a morte, formando a polaridade. Tem-se também a Guarda de Honra ao Santo Graal com os seus 32 Membros e os 32 Munis da Montanha Sagrada Moreb. Há ainda os 32 Raios Primordiais e tantos outros significados cabalísticos para esse enigmático número 32, os quais estão muito bem alegorizados em nossa Obra”.

Esses 32 Raios do Sol Oculto ou Primordial do nosso Universo como Siget ou Essência Única, vêm a repercutir no Sol Central da Terra por sua vez irradiando-os a todo o Globo já como Raios Planetários, o que perfaz a quantia 64 de casas no escaqueiro ou esquema da Evolução. Esses Raios Primordiais do Seio da Terra ascendem pelo cóccix dos 32 Membros da Guarda de Honra do Santo Graal (Goros – Cavaleiros – Arqueiros) como Fogo do Espírito Santo (Kundalini) animando a potência endócrina do seu organismo, estando um Raio para cada Guarda numerado. Por sua vez, os Raios do Seio do Céu projectam-se através dos 32 Munis que assim vibram sobre a corona de cada um dos 32 Guardas numerados vivificando a potência cerebral tornando-a patente, nisto como ideias superiores dirigindo a acção física que assim também será de intenção superior, verdadeiramente espiritual.

Com efeito, o Mental dinâmico do Homem fá-lo Rei da Criação manifestada por possuir potencialmente os sete princípios e naturezas expressos em síntese na sua própria cabeça, o ponto mais elevado do corpo humano, o pico do seu Monte Místico que de caveira ou gólgota pode muito bem arremessar o mesmo Homem para a ascese e união ao Divino por via do mesmo Mental Iluminado, juntando o patente ao já potente, o que os Iniciados orientais designam pelo termo místico Manas Taijasi. É pela Mente que a Evolução se processa, sem descuidar de lhe unir o calor do Coração. “Quando a Mente e o Coração estiverem em Perfeito Equilíbrio, o Homem alcançará na Terra as maiores Venturas do Céu”, afirmava o Professor Henrique José de Souza, reconhecido Mestre JHS na Obra do Eterno na Face da Terra.

Nas peças do jogo de xadrez, o Rei é a peça principal e os hindus mantiveram o seu nome original de Raja, enquanto os persas adaptaram-na à figura do seu chefe de Estado, o ou Shah. Esta adaptação veio a originar a expressão xeque-mate, que é a transliteração de shah mat, significando “rei emboscado, encurralado”.

A Rainha ou Dama no chaturanga era a peça chamada Mantri, derivada do sânscrito Matri, com o sentido óbvio de “mãe, genitora”, mas interpretada como “conselheira real”. Entre os persas esta peça foi primeiro denominada pharz ou farzin, e depois ferz ou firz, “general”. Sendo peça inicialmente masculina, no século X os árabes transliteraram ferz para alfferza, “porta-bandeira” (alfferz), e mencionam pela primeira vez a Dama no poema Versus de Scachis (cerca do ano 997), descrita em latim como Regina, “Rainha”. No Libro de los Juegos (1238) é detalhada a função do alfferz. Na Itália a peça foi denominada ferzia ou fercia, e na França fierce ou fierge, indo trocar de sexo devido à homofonia francesa entre fierge e vierge, significando “donzela” ou “virgem”. A sua posição ao lado do Rei no tabuleiro elevou o seu status à realeza, sobretudo nos países onde havia presença marcante de rainhas na monarquia. Isso coincidiu, a partir dos meados do século XII, com o culto à Virgem Mãe e o amor cortês. Assim, nos países católicos passou a utilizar-se o vernáculo correspondente de Domina, evocativo de Nossa Senhora, enquanto na Alemanha e Inglaterra protestantes, por recusa do culto mariano, optou-se pela utilização do termo secular Rainha. É assim que aparece até hoje.

O Bispo ou Louco tinha no chaturanga o nome fil, “elefante”, cujas presas vieram depois a lembrar o formato da mitra dos bispos, donde derivou o árabe alfil que entrou no espanhol alfiln, presente do baixo-latim arphillus e que aparece no francês arcaico auphin ou dauphin, tendo passado para o moderno delfim. É no Romance da Rosa (escrito em três fases, 1230, 1275 e 1280) que se vê pela primeira vez esta peça chamada pelo seu nome actual. Mas no Grande Acedrez do rei Afonso X de Leão e Castela, de 1283, a peça aparece identificada como cocatriz ou “crocodilo”, atribuindo-lhe origem oriental, predispondo-a ao lado do Rei e da Rainha. Enquanto na Espanha árabe reteve-se o nome original alfil, na Itália foi modificado para alfieri, “porta-estandarte” (alferes, em português), enquanto em França tem o nome inicial de aufin e depois fou, “louco” (bobo da corte), que permanece até hoje. Na Alemanha e Dinamarca toma o nome läufer e looper, “corredor”, e finalmente na Inglaterra é chamado bishop, “bispo”, provavelmente pela influência da peça ao lado do Rei no tabuleiro e do status da Igreja como principal conselheira da Monarquia.

O Cavalo ou Cavaleiro aparece no chaturanga como forma representativa da cavalaria e do seu papel crucial como é descrito das obras épicas hindus Ramayana e Mahabharata, onde o exército montado é chamado hasty-ashwa-ratha-padatam no qual a palavra sânscrita ashwa designa o “cavalo”. No idioma persa esta peça designava-se asp e em árabe faras, ambas com o mesmo significado que em sânscrito e assim se mantendo na Península Ibérica (Portugal e Espanha). No entanto, em França, Inglaterra e Itália o seu significado foi alterado de modo a representar a cavalaria, o cavaleiro modelo de perfeição em conformidade à moral medieval que utilizava o jogo como metáfora para retratar a sociedade. Só na língua alemã a peça adquiriu uma nomenclatura diferente, onde é denominada springer com o significado de “saltador”.

A Torre figura no chaturanga com o nome sânscrito ratha, designativo de biga ou carro de guerra movido por cavalos. Quando os persas assimilaram o xadrez, o nome desta peça foi traduzido como rukh, sendo representada por um elefante carregando uma fortificação na qual estavam homens armados, e até ao século XV era a peça mais forte do jogo. Os árabes que aprenderam com os persas mantiveram o nome rukh, mas substituíram esse animal por um pássaro mítico gigante, o rokh, sendo desta palavra que se tira o verbo (francês) roquer, que serve para designar uma manobra do jogo. Rokh conhece-se na língua portuguesa como roca, que os italianos transliteraram para rocco com sonoridade semelhante a rocca, termo com que designam “fortaleza”. Isto levou a maioria dos países europeus a denominarem a peça com o significado de Torre, excepto na Inglaterra que transliterou novamente o significado da palavra para rook, ainda assim sendo conhecido como castle, entre os leigos ao jogo, devido á sua representação como uma torre ou turret. Em francês a peça é chamada de tour, em alemão de turn e em holandês de kastell.

O Peão aparece no chaturanga como forma representativa da infantaria sob o nome sânscrito padatam, “soldado”. Na Pérsia foi chamado de piyada, “soldado apeado”, e piyon, “valete”, que na Arábia tem o nome de baidaq, “soldado a pé”. De piyon derivou o italiano pedina, o espanhol peon e o português peão, sendo em inglês pawn e em alemão Bauer, mantendo-se em todas as línguas o significado comum de “homem a pé”, “soldado raso”, sempre ligado ao conceito de infantaria.

peças de xadrez

Cada peça tem um movimento diferente no xadrez. O Rei move-se em todos os sentidos, mas só pode ocupar uma das casas imediatamente vizinhas à sua. Mesmo representando o “Senhor do Universo” ou Escaqueiro da Evolução Universal, na Matéria só pode conquistar esta casa a casa, degrau a degrau ou grau a grau. A Rainha move-se em todas as direcções, e como Senhora da Matéria pode transferir-se, caso nada a impeça, de uma extremidade à outra do escaqueiro. Os Loucos só se movimentam pela diagonal, representando a medida perpendicular entre a Terra e o Céu, ou seja, a de serem pontífices ou medianeiros entre os dois Mundos. As Torres movem-se nos sentidos vertical e horizontal, como expressivas da Iluminação Celeste e da Iniciação Terrestre. Os Cavaleiros movimentam-se, por assim dizer, em quadrado, expressando a Iniciação dinâmica dentro da quadratura da Matéria. Os Peões só podem passar por cima das casas imediatamente às suas, representando terem galgado uma etapa do Jogo da Iniciação. O Rei, como peça principal, nunca pode ser tomado, destronado e profanado como indicativo do Eu Real. Em consequência, quando ele está em xeque, ou seja, numa posição em que qualquer outra peça seria tomada, é obrigado a mudar de lugar. Assinala a crise da Iniciação que inicialmente invade o neófito. Mas quando o Rei não pode mover-se sem se expor a novo perigo, indicativo de fracasso moral e intelectual do neófito à Iniciação, diz-se que ele é mat (do árabe math, “morto”) e a partida termina.

De maneira que transpondo as peças do xadrez para o simbolismo iniciático do que elas realmente representam como afins aos 7 Princípios de Vida e Consciência do Universo e do Homem, do Macrocosmos de que o Microcosmos é parcela reflectora dele, tem-se que:

O Rei é o Espírito (Atmã) que não pode desaparecer, que não se pode aniquilar, que “não pode ser posto em xeque”. Mas ao descer na Matéria e encarcerado num corpo sólido, as suas possibilidades ficam reduzidas, e embora ele se “desloque em todos os sentidos”, que é dizer, seja omnipresente, nem mesmo assim pode afastar-se do seu ponto inicial. Ele é o Eu Real, o Homem Verdadeiro, a Estrela Interna fulgindo em embrião minúsculo no homem comum e sendo Sol de Sabedoria no homem superior.

A Rainha é a Intuição (Budhi) que na Matéria tem possibilidades mais amplas que o Rei, mas cuja veracidade pode “ser posta em xeque”. Estando a Rainha ao lado do Rei, expressam o Homem e a Mulher trabalhando na Grande Obra do Eterno a fim de conquistarem o Androginismo, o de tornarem-se Parelha Manúsica (Deva-Pis) como Gémeos Espirituais.

O Bispo é o Mental (Manas) Superior e Inferior, aquele representado pela lança e este pela gadanha com que a peça por vezes se apresenta. Nisto é representativo da Mãe Divina (Maha-Shakti) fabricando corpos (lança) e desintegrando defeitos (gadanha). Os Lanceiros da Guarda de Honra do Santo Graal (Ordem) porventura serão o maior exemplo ilustrativo da Actividade Universal assinalada por essa mesma Deusa grega Vénus-Urânia. Como peça desloca-se em “diagonal”, apreendendo com o Mental Superior e apercebendo pelo Mental Inferior, no que se revela o Génio ou Jina.

O Cavalo é o Astral (Kamas) que “salta” por cima dos obstáculos. Como diz Francisco Feitosa (ob. cit.), “o Cavalo é a única peça que dá saltos sobre as outras. Representa a Ousadia e o Valor, para eliminar o Medo; os seus movimentos descrevem o esquadro, tão importante nos estudos maçónicos. Simboliza a força que se vai adquirindo através do trabalho, com a energia sexual transmutada, sublimada. Simboliza, também, a Inteligência, a Amizade e o Triunfo”.

A Torre é o Duplo Etérico (Linga) que se desloca “perpendicularmente” ao Corpo Físico, animando a este como Físico Superior. Representa o estado de perceção e alerta como “vigilância dos sentidos”, isto correlacionado à energia sexual devendo ser regrada pela força mental, facto representado pelo cimento da torre que na Idade Média extraía-se da própria pedra com que era feita, material que assim veio a representar tradicionalmente a própria energia da líbido, ao início dominante (torre negra) da natureza do neófito e depois dominada (torre branca) pelo mesmo através da disciplina iniciática.

O Peão é o Físico (Sthula), os sentidos que se podem enganar e aos quais é proibido recuar, isto é, negar a sensação, sendo obrigados sempre a avançar. Sobre isto, diz ainda Francisco Feitosa: “Os Peões simbolizam os soldados do Rei, que é a base dos planos para que avance. O seu movimento é sempre para a frente e não podem recuar. Os oito Peões são as oito Virtudes da Mãe Devi-Kundalini, que são: Compreensão, Vontade, Verbo, Reto Pensar, Reto Sentir, Reta Maneira de ganhar a vida, para que haja Paz e haja Amor”.

Os próprios jogadores, agindo sobre o escaqueiro, são análogos ao Demiurgo que governando o Mundo, contudo não comparticipa dele. Impessoal, exerce a influência constante de Destruens et Construens no tear da evolução dos seres criados mas mantendo-se acima como Ser Criador. É o Chakravarti, o Melkitsedek ou “Rei do Mundo”, o mesmíssimo Rotan dos antigos Rosacruzes que a Maçonaria Antiga chamava de Superior Incógnito.

O caríssimo M∴ M∴ Francisco Feitosa não deixa de reconhecer tudo isso, quando descreve no seu precioso estudo citado:

“O Tabuleiro é o Jogo da Vida e não sabemos se estamos jogando a última partida. Os Quadrados Brancos e Pretos. Positivo e Negativo. O Equilíbrio em tudo. O Pavimento em Mosaico e a Dualidade. Dizia o nosso Mestre JHS: “O que mais desejava dos discípulos é que entendessem a Lei da Polaridade”.

“Todo o jogo do xadrez consiste em colocar o Rei em uma situação tal que não possa mover-se, quando se lhe dá a morte, o xeque-mate. É sabido que, terminada uma partida de xadrez, pode-se iniciar mais uma vez, segundo os acordos dos jogadores, porém, o Rei segue sendo o Rei e este não muda; assim é o nosso Ser Real. É o que foi, o que é e o que será.

“A Rainha não poderia faltar no Tabuleiro da Existência, e no xadrez é o elemento feminino, o Princípio Universal da Vida, o qual resplandece em toda a Obra, o próprio Deus; o Rei desdobrado em Mulher, o Eterno Amor que flui e reflui em todo o ser criado. Desde criança pedimos as suas ternuras, porque Ela é a outra metade do nosso Ser, e vice-versa. Sem a Dama, a Rainha, em uma partida de xadrez, sentimo-nos sem o Poder Supremo, estamos perdidos. A liberdade de movimentos da Rainha, num tabuleiro de xadrez, é formidável.

“Os valores fundamentais do xadrez são o Tempo, ou seja, a Rapidez, para realizarmos, os planos, o espaço, o domínio do maior número de defeitos. Se as jogadas no xadrez serem bem-feitas e com força suficiente, se o desenvolvimento e as circunstâncias forem maravilhosos, o resultado será a Vitória.

“Na vida, o Homem depara-se com inúmeros problemas; cada pessoa necessita saber como resolver cada um desses problemas. Inteligentemente, todo xadrezista sabe que a solução está no próprio problema. É mister que haja tranquilidade e equilíbrio perfeitos entre a Mente, a Emoção e o Centro Motor para encontrá-la.

“No mundo existe uma enorme quantidade de pessoas a quem se proporcionam elementos para triunfar na vida, porém, carecem de hábitos e de capacidade para raciocinar logicamente. Podemos assegurar que todos os seres humanos são como pedras de xadrez no Tabuleiro da Vida. Cada um de nós está, em todo o momento, repetindo acções, movimentos de partidas anteriores, de vidas passadas. O somatório dessas acções, boas ou más, é o que vale, para que, quando iniciarmos uma nova partida, estejamos de facto mais bem preparados para a Vitória.

“Somos jogadores, até então inconscientes, que não aprenderam a jogar inteligentemente. Os lances das nossas peças são as nossas acções, que no final de cada jogo, ou de cada vida, serão pesadas, contadas e medidas, para que tenhamos, ou não, a oportunidade de iniciarmos um novo jogo, muito bem alegorizada no Julgamento do Tribunal de Osíris, na tradição egípcia.

“A criatura humana sem um Ensinamento Superior é como uma partida de xadrez sem Peões, curta de inteligência e com muitas limitações, ignorando que dentro de si há tremendas possibilidades que, devidamente desenvolvidas, a levariam à Vitória Final.

“Os Excelsos Ensinamentos da Sabedoria Iniciática das Idades convidam-nos, mediante o jogo-ciência, a vir a ser jogadores inteligentes e conscientes, fazendo-nos Homens Reais e Verdadeiros.

“O objetivo é, ao longo de cada partida, transformar a Vida-Energia em Vida-Consciência, requisito fundamental para vencermos a Roda de Samsara, a Roda da Vida. Com isso, passaremos a ser orientadores e não mais jogadores inconscientes.

Roda da Vida

“E assim segue a Humanidade, tropeçando, caindo e levantando, até que desperte e tome consciência do seu Deus Interior (Iniciação), para que, através de um Trabalho Interno, consiga cruzar o Tabuleiro da Vida (Pavimento Mosaico), realizando os Doze Trabalhos de Hércules para que, de facto, possa encontrar o seu Mestre Interno, e posteriormente, auferindo méritos, ascender ao Oriente, para receber de um Querubim a Espada Flamígera, símbolo do despertar de Kundalini, dos sete princípios evolucionais, fazendo-se Uno ao Pai.”

Dessa maneira, desfecho este estudo do xadrez, inspirado nos mosaicos do chão templário, nada mais pretendendo do que incentivar outros ao estudo e desenvolvimento dos «vulgares» jogos tradicionais que, sob a capa lúdica de expressões recreativas, encobrem páginas brilhantes da Excelsa Tradição Iniciática das Idades.

Sintra, Serra Sagrada – Entrevista a Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Mar 3 2016 

Entrevista de Gisela Oliveira, de Mil Pétalas Magazine, a Dr. Vitor Manuel Adrião, Fevereiro de 2016.

P. – Desde tempos primordiais, Sintra é considerada como serra mágica. O que leva a que Sintra tenha este atributo?

R. – Sintra, hoje património universal da Humanidade, realmente é muito mais que vila romântica e retiro burguês da elite social do século XIX. A sua história é longuíssima, perde-se nas funduras dos tempos, do mesmo modo os seus segredos e mistérios que levam a utopia de uma espiritualidade superior a confundir-se harmoniosamente com o factual histórico, antropológico, etnológico e mesmo filológico.

Através da História e das Confraternidades Iniciáticas abertas ou fechadas que a fizeram, na sua marcha civilizacional do Oriente ao Ocidente, chegou até hoje um vasto legado patrimonial cujo simbolismo reverte à representação e desígnio da oculta e iniciática Missão Universal desta bela e barda Serra Sagrada de Sintra, para não dizer de todo o Portugal. E “sagrada” porque sacralizada pela Tradição Iniciática das Idades incarnada nos Homens Representativos da mesma que sulcaram os milénios feitos de séculos. Tradição Iniciática essa que já dispunha desde tempos imemoriais a Serra de Sintra como um dos Qtubs árabes ou Chakras védicos do Planeta, este entendido como corpo físico da Divindade que o anima, como seja, em termos teosóficos, o Logos Planetário. É assim entendida como Áxis-Mundi no Ocidente da Europa, Paradhesa, Paridaîza ou Paraíso original, verdadeira “Arcádia de Deuses” onde o Céu, a Terra e o Inferno ou Inferior Lugar fazem-se presentes nas alturas serranas, nas florestas da serra e nas suas cavidades, mais ou menos profundas mas afins nisto afim à tradição críptica do Reino de Agharta cuja presença se pressente e sente aqui com maior intensidade. Esses três níveis interligados são a premissa indispensável a considerar-se Sintra, Serra Sagrada.

P. – Pode-se considerar Sintra como um dos lugares sagrados e cosmo-telúricos do país?

R. – Sem dúvida. Nesta Serra Sagrada o Céu se une à Terra, isto é, a Energia Celeste, chamada Fohat pelos Iniciados orientais, se funde harmoniosamente com a Força Terrestre, que os mesmos Iniciados chamam Kundalini. Por sua feição serpentária notadamente ctónica, cedo a Serra de Sintra foi associada a portal para os Infernos ou Inferiores Lugares, tanto por místicos como por materialistas, onde apenas diferem as leituras e conclusões. No caso desses últimos, abundam as citações à ocacidade da serra desde o século XVII até aos anos 60 do século XX, aquando o Serviço Geológico Nacional elaborou um mapa geomagnético da Península Ibérica. Nele são encontradas três zonas como locais de maior magnetismo – as chamadas anomalias no campo magnético – tendo por base a natureza dos minérios aí existentes. Além do Promontório de Sagres e do périplo alentejano do megalitismo, é identificada Sintra e toda a zona arredor. Já Helena Abreu, especialista em magnetismo do Instituto de Meteorologia, não deixou de afirmar: “Sintra é um antigo vulcão e por isso é natural que seja um grande maciço magnético”. Com efeito, a serra de Sintra deve a sua origem ao fenómeno geológico chamado intrusão magmática, consistindo esta no aprisionamento de uma bolha de magma no interior da Terra por o manto terrestre ser constituído por ele, que se encontra a grandes temperaturas e consequentemente fundido. Por ser menos denso, esse material tende a subir em direcção à crosta e até mesmo a atravessá-la, dando origem aos vulcões. Por vezes o magma fica retido e não alcança a superfície. Quando a profundidade onde está retido é de cerca de 3 a 15 km, o magma acaba por arrefecer dando origem a rochas plutónicas, as chamadas “pedras velhas” por alguns desavisados confundidas e misturadas com significados lapidares místicos tomados de avulso. No caso de Sintra, a solidificação do magma permitiu a formação dos cristais que constituem o granito. É pelo facto dessa massa de rochas plutónicas ter-se “encaixado” noutros tipos de rocha que se utiliza a designação intrusão. As movimentações tectónicas empurraram, muito lentamente (alguns milímetros por século), essa massa de granito em direcção à superfície e, ao mesmo tempo, as camadas de crosta que se encontravam por cima foram sendo erodidas. Finalmente, alguns milhões de anos depois, o granito começou a surgir à superfície dando origem à serra. Foi assim que a Serra de Sintra (ou Maciço Eruptivo de Sintra) se formou há cerca de 80 milhões de anos, aparecendo à superfície há cerca de 30 milhões de anos. A formação deste maciço está associada ao processo de abertura do Oceano Atlântico.

Esse vulcão deveria ser gigantesco em largura e comprimento e se distenderia até à região de Lisboa colando-se à Serra de Monsanto onde ainda existe uma chaminé vulcânica, junto à antena de televisão. Por outra parte, os lapiás de Negrais prolongando-se à diaclase de Salemas seriam originados dele. Esta é a origem geológica da Serra de Sintra, e já o seu clima único, verdadeiro microclima, deve-se à sua orientação EW, ou seja, Oriente-Ocidente (por isto é o Grande Ocidente da Europa direcionado ao Grande Ocidente do Mundo cujo centro geodésico está no Planalto Central do Brasil), e à destacada altitude da serra na plataforma litoral dando-lhe condições climáticas muito peculiares que, conjugadas com as características edáficas (características do solo), facultam à vegetação um ambiente muito próprio, contrastando com o da área, bem mais seca, que rodeia a serra a norte e a sul.

Terá sido nesta lomba serrana, na realidade uma montanha «lombada» se recorrer à ancestralidade da sua origem primitiva, que se originou a mais famosa tradição iniciática onde diversas correntes espirituais se encontram: a Demanda do Santo Graal (la Quête du Saint Graal), originalmente celta, depois judaico-arábica e finalmente cristã, entendendo-o como Cálice de Vida. Nisto Sintra, na fisionomia geográfica de Portugal, está no lugar do nariz que é o canal respiratório da nação, centro fundamental do quinto elemento ou alento vital (o Akasha ou Éter) cuja dinâmica activa a biorrítmica do país vivificando-o e, por anexo, à Europa inteira.

P. – Sintra foi conhecida como Promontório Magno e Monte da Lua. Que relação existe entre Sintra, os seus monumentos e os sete planetas alquímicos?

R. – Com efeito, nos tempos da invasão romana da Península Ibérica, Sintra estava compreendida no chamado Promontório Ulissiponense, também conhecido por Magno, Sacro e Artabro. A raiz toponímica desta idílica estância estremenha é várias vezes milenar. O célebre geógrafo Edrisi, que viveu no século XII, chama-lhe Xentra e Sentra ou Al-Shantara, termos arábico e moçarábico. Chamava-se antes, em celta, Cynthia ou Cyntia, vulgarizando-se no século XVII a grafia Cintra. E ainda hoje ela se impõe ao presente modo de a escrever, como se quis a partir dos anos 30/40 do século XX: Sintra. Este topónimo actual Sintra, divide-se em Sin e Tar, termos aglutinantes turânicos significando, respectivamente, “Lua” e “Monte”. O turânico Sin foi adoptado pelos caldeus e hebreus para designar a Lua, e Tar o lugar elevado do seu culto, como sucede com o onomástico Sinai, igualmente presente na Quinta da Penha Verde, na capela de Santa Catarina do Monte Sinai.

Todos esses lugares são afins aos pontos de maior intensidade bioenergética na Serra Sagrada, como sub-aspectos ou “subcapas” do Chakra único animador do Sistema Geográfico Sintriano assinalando o itinerário da iniciação hermética que aqui a Mónada ou Essência humana recebe ao longo do seu percurso evolucional na transformação da vida-energia em vida-consciência. Nisto consiste a verdadeira Iniciação. Falarei um pouco do que seja Sistema Geográfico no que o Professor Henrique José de Souza revelou na antiga Sociedade Teosófica Brasileira, cujos ensinamentos são hoje prosseguidos no solo português e sintrense pela Comunidade Teúrgica Portuguesa, que encabeço desde há vários decénios, nisto tendo sido pela mesma que iniciei o Ciclo Espiritual de Sintra para a Nova Era de Promissão a partir de 1978.

Um Sistema Geográfico é como se fosse o Sol e os seus sete primeiros Planetas transportados para a Terra, daí o nome “geográfico”; no centro, como se fosse o Sol, fica a cidade principal, como síntese das outras sete que lhe ficam ao redor, à semelhança dos Planetas e obedecendo, mais ou menos, às distâncias, embora que relativas, da cidade central. A escolha dos locais onde deveriam sediar os Sistemas Geográficos teriam que obedecer a normas rígidas da Evolução, bem como à determinação dos países e sítios especiais para tal intento. Este processo é muito antigo, já era conhecido na Índia antiga, conforme se pode comprovar na gravura achada no centro de um Zodíaco hindu, onde se vê sete cidades em torno de uma oitava, como síntese de todas.

Pois bem, no tocante a Sintra – a “serpente de sete substâncias” (Tatvas), no dizer do Professor Henrique José de Souza, o Mestre JHS para Teúrgicos e Teósofos – praticamente desde o século XII existem sete mais um lugares de maior intensidade bioenergética por onde escoam as energias do seio da Terra e que hoje identificam-se nos seguintes pontos perfazendo um Sistema Geográfico na própria Serra Sagrada: Castelo dos Mouros – Sol; Santa Eufémia – Lua; São Martinho – Marte; Seteais – Mercúrio; Pena – Júpiter; Lagoa Azul – Vénus; São Saturnino – Saturno; Trindade – Sol Central. A Coroa da Rainha dos Céus e da Terra com as cinco estrelas de sete pontas onde se inscrevem as letras do nome Maria, no frontal do altar-mor de ermida de Nossa Senhora da Peninha, remetem prontamente para o sentido encoberto de Sistema Geográfico. De maneira que o Sistema Geográfico Sintriano apresenta-se disposto sob a égide da Mãe Divina (Maria, Maris, Mariz…) na sua função de Rainha do Mundo (Chakravartini, em sânscrito), em conformidade à Força Criadora do Espírito Santo (Terceiro Logos) que escoa pelo vau ou garganta que no Homem é a Laringe onde o Verbo soa e a Revelação toma corpo. A Fraternidade Jina de Sintra tem origem na Atlântida (Kusha, nas escrituras védicas) que nesta parte do Globo levava o nome Kurat. O seu ciclo terminou definitivamente. Nada tem em comum com a Face da Terra e que há em comum com esta é a Ordem Iniciática Secreta de Mariz por ser constituída de Adeptos Humanos cujo trabalho em segredo relacionou-se com a recepção, encaminhamento e remissão dos melhores da Raça Humana entretanto incarnados na Terra Lusa, ao mesmo tempo que preparava o terreno favorável ao aparecimento do Grande Ocidente no futuro Ciclo de Aquário, nisto tendo sido o processo ecuménico das Descobertas Marítimas o seu eco máximo.

Sistema Geográfico de Sintra

P. – Que relação existe entre a serra de Sintra e a serra da Arrábida em termos energéticos?

R. – No século VI a. C., segundo Schülten, o Promontório do Cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa e terminação da aresta montanhosa de Sintra, chamava-se, no périplo marselhês utilizado por Rufo Festo Avieno, em sua Ora Marítima, no século IV da era cristã, Promontório de Ofiússa, esta palavra significando “serpente”, portanto, “Promontório da Serpente”. Ptolomeu denomina-a “Serra da Lua” e ao seu extremo cabo-mar “Promontório da Lua”, “Cabo da Lua” ou Capum Lunarum.

Isso é muito interessante porque o mesmo Festo Avieno, na sua obra citada, informa que Ofiússa era o nome de um povo habitando o périplo ulissiponense descendente de um outro chamado Oestrymnia, ambos adoradores da Serpente e antediluvianos. Ora Ofiússa significa Serpens ou Serpente, e neste contexto antediluviano ou atlante, Manuel Joaquim Gandra (in O Eterno Feminino no Aro de Mafra, edição da Câmara Municipal de Mafra, Setembro de 1994) fornece a justificativa geológica para a origem atlante do Capum Lunarum de Sintra, informando que esta avançava muitas centenas de quilómetros para Sudoeste e depois sofreu grande afundamento originando-se dele o actual estuário do Tejo, que antes (Mioceno) desembocava com o Sado num extenso delta comum, o qual abrangeria a região desde Ferreira do Alentejo a Alenquer.

Conclui-se que Sintra e a Arrábida faziam parte de um corpo comum durante o Mioceno, e hoje entendem-se em termos geosóficos ou de geografia sagrada como elevações sinaléticas da Lua e do Sol, já de si a Lua para Vénus e o Sol para Saturno, o que está assinalado na capela de S. Julião da Carvoeira, no aro de Mafra, na enigmática “pedra de roseta” onde a Stella Maris (Vénus) é o centro do tema, enquanto o oposto Cabo Espichel era chamado pelos antigos gregos e romanos de Capum Capresicum, do Capricórnio como signo de Saturno, nisto relacionando-se ao culto ctónico proto-histórico do povo Sárrio que daria o seu nome ao rio Sado, conforme está descrito nas Antiguidades da Lusitânia de André de Resende (século XVI). Seja como for, conclua-se sempre que em todos os lugares sagrados onde haja um culto solar há igualmente um culto lunar, e vice-versa, para que assim Sol e Lua, Espírito e Alma, Masculino e Feminino completem-se entre si na mais perfeita das realizações lunissolares, a caminho do futuro estado andrógino ou de Homem Perfeito.

P. – Numa perspectiva alquímica, pode considerar-se Sintra contendo o princípio feminino, a energia do Mercúrio Filosófico, e Arrábida o princípio masculino e a energia do Enxofre Filosófico? Se assim é, qual será o Sal Filosófico que une os outros dois elementos? Ou seja, que une Sintra a Arrábida?

R. – Disponha-se os três “Espíritos da Alquimia” em relação com os três Princípios de Vida e Consciência do Homem: a essência do Enxofre ou Sulfur para o Espírito e a Vontade de Deus, o Pai; a essência do Mercúrio ou “Água dos Filósofos” para a Alma e o Amor-Sabedoria de Deus, a Mãe; a essência do Sal ou Nitro para o Corpo e a Actividade Inteligente de Deus, o Filho como Espírito Santo.

Pois bem, se os antigos grafavam o nome de Xentra, Cynthia ou Sintra com a inicial S, é porque esta letra designa a Sabedoria, a Serpente, o serpentear selenita em torno do Sol. Fernando Pessoa, em seu tratado O Caminho da Serpente, atribui a esta o Ouroboros – a Realização da Grande Obra Alquímica. E se grafada com C representa a Casa, o crescente elevado ou sal lunar sublimado (o nitro alquímico… representado em Haiah ou Caijah). E se com X é a condensação, o aprisionamento ou fixação do Verbo na sua própria Carne ou Matéria. Daí a origem do termo greco-latino Mater-Rhea, Mãe-Terra ou Matéria, iconograficamente sempre representada pela Virgem Anima-Mundi, vulgarmente da Concepção ou Conceição, primitivamente a Senhora do Ó, a qual se via em imagem de tamanho natural na Quinta da Trindade e ainda se vê num altar lateral da capela de St.ª Eufémia da Serra.

Sintra, como Alma da Europa de quem é capital espiritual, resume em si a potência da Arrábida para o Espírito em formação, e a potencialidade de Lisboa para o Corpo formado, de onde ser capital temporal do País e ponto intermédio entre as duas serras, tal qual na Alquimia ou Química Divina (Allah-Chêmia) o Mercúrio não age sem o Nitro e sem Mercúrio o Sulfur permanece abscôndito, oculto, imanifestado.

P. – Sintra é um ponto de partida de um caminho iniciático?

R. – Pelas respostas dadas anteriormente, só poderei reiterar afirmativamente. É o caminho do Ecce Occidens Lux que na Rota Sudoeste (SW) une a restante Europa a Portugal e este ao Novo Mundo, a América do Sul, mais o propriamente ao Planalto Central do Brasil, já de si destinado às maiores realizações futuras do Género Humano. Até filologicamente Sintra está presente na cultura brasílica: segundo Teodoro Sampaio (em O Tupi na Geografia Nacional. Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1987), de acordo com a língua Tupi, a maior nação indígena do Brasil, a palavra Sintra insere-se nela como Sy-nh-atyara. Decompõe-se e traduz-se da seguinte maneira: Sy igual a “Lua”, mais nh, igual à partícula de ligação, mais atyara igual a “monte, elevação”. Portanto, Sy-nh-atyara é igual a Sintra por ter o mesmo significado de Monte da Lua, correspondendo ao Selene Oros de Ptolomeu e ao Mons Lunae dos latinos. Pormenor curioso este da existência de uma palavra tão semelhante e com o mesmo sentido entre culturas tão distintas e tão distantes. Um dado novo, susceptível de interesse no destrinçar de uma outra meada que dá pelo nome de Atlântida. E mesmo certas tradições afirmam que em tempos hoje cobertos pela poeira dos milénios Portugal e Brasil integravam-se num mesmo continente, em pleno Período Terciário, durante o Mioceno e boa parte do Plioceno.

árvore sefirótica e sintra

P. – Que caminhos nos podem levar a um despertar interior?

R. – Se cingir-nos ao Sistema Geográfico de Sintra e aos seus pontos bioenergéticos em conformidade com a Ordem e Regra da Teurgia Portuguesa nos seus Ensinamentos e na sua Ritualística, teremos os mesmos afins ao despertar dos sete estados de consciência do Homem, como sejam: Parque da Pena – Júpiter para o Espírito; Seteais – Mercúrio para a Intuição; Lagoa Azul – Vénus para o Mental Superior; São Saturnino – Saturno para o Mental Inferior; São Martinho – Marte para o Emocional; Santa Eufémia – Lua para o Vital; Castelo dos Mouros – Sol para o Físico. A Trindade – Sol Oculto expressará em termos simbólicos a Mónada Divina em seu Tríplice Aspecto de Poder – Sabedoria – Actividade. Se abrir-nos a um leque mais amplo, todos os caminhos espiritualmente reconhecidos por serem de Ordem e Regra, com estas protegendo de resvalar-se na confusão do onírico com o espiritual, poderão ser de realização verdadeira, seja pela via cristã, islâmica, judaica, védica, budista, etc., e até mesmo pelas vias maçónica, teosófica ou teúrgica. Esses são caminhos consignados e reconhecidos válidos pela Tradição Iniciática das Idades, mas por certo haverão outros também de reconhecida validade.

P. – Qual é a força oculta da Vida que nos faz ser mediadores entre o Céu e a Terra?

R. – Essa “força oculta” da Vida chama-se Prana, o Alento Vital que participa da natureza celeste de Fohat e da natureza terrestre de Kundalini, respectivamente a Electricidade Cósmica e o Electromagnetismo Planetário. Para o desenvolvimento correcto, justo e perfeito, dessa Energia que anima os Chakras ou “Centros de Vida” do Homem, é indispensável a integração num Colégio de Iniciação credenciado capaz de guiar o discípulo com segurança e fortaleza no caminho da sua evolução, sem correr riscos psicofísicos desnecessários que, para todo o efeito, são sempre nocivos em termos de saúde mental, emocional e física. Assim, realmente poderá tornar-se um mediador entre o Céu e a Terra, um representante de Deus junto da Humanidade.