Projecto “Fátima Subterrânea” – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Maio 19 2016 

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No início do ano 1998 fui convidado pela Firma Risco, do senhor arquitecto Vittorio Gregotti, a concorrer, em nome dela, ao concurso de decoração sacra de um futuro espaço subterrâneo, onde caberiam cerca de sessenta mil pessoas, a nascer sob a praça defronte ao Santuário de Fátima, o de maior afluência Mariana do Mundo. Isso por já não caber mais gente, sempre a aumentar em número, no recinto exterior e as condições deste serem pouco abonáveis ao conforto dos que piamente aí vão.

Ponderei o convite. Acedi e concorri. A minha Proposta (datada de 7.3.1998) de decoração sacra de dois “grandes espaços cobertos para assembleias” (GECAS) gorou-se, não por motivos culturais-religiosos (em cujo projecto iria dispor de vasta equipe dos mais renomeados desenhistas, pintores, ceramistas e escultores preferencialmente só portugueses) mas simplesmente por razões económico-fiduciárias, conforme alegou como desculpa a Reitoria do Santuário. Foram apresentadas ao concurso três propostas, cada uma de um país diferente. Perderam a meu favor os espanhóis e perdi a favor dos gregos, apesar do minha Proposta ter merecido Menção Honrosa. Seja como for, o facto é que perdi e como essa Proposta agora só serve para enriquecer o curriculum pessoal – vendo as obras concluídas pelos gregos nessa nova igreja defronte ao Santuário na qual não caberão mais de seis a nove mil pessoas, cujo custo final duplicou ou triplicou (fala-se em setenta milhões de euros mais dez milhões para acabamentos) sobre o orçamento inicial, ultrapassando em largos milhões de euros a Proposta portuguesa que iria ficar bem num lugar de culto todo ele português, mas que a cúria romana não quis – achei por bem, invés de a abandonar e esquecer numa gaveta, trazê-la aqui para mais-valia do enriquecimento cultural e espiritual do leitor, acrescendo à Proposta o significado esotérico, aqui revelado mas que não fiz junto da cúria romana, subjacente ao imobiliário decorativo dos dois espaços – duas assembleias, o que engloba duas igrejas.

No íntimo persegui aquilo que o Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, nos inícios do século XX, idealizou e realizou na arquitectura e decoração da sua Quinta da Regaleira em Sintra: deixar um testamento esotérico e exotérico (velado e desvelado, racional e confessional afins à teologia e à catequese) à posteridade, ao entendimento iluminado e à devoção popular.

Enfim, Carvalho Monteiro conseguiu realizar. Eu, somente idealizar… contrariado pelos fortes “lobbies” dos poderes económicos.

Antes de adentrar a exposição da minha Proposta, acho por bem discorrer um pouco sobre a génese histórica e espiritual da vila de Fátima (hoje elevada a cidade, no sopé da serra de Aire que fica no concelho de Leiria), e igualmente aflorar o fenómeno das aparições da Virgem aos três pastorinhos aí, na Cova da Íria.

Assim, ter-se-á de recuar ao ano 1158 quando a metade Sul de Portugal, do Tejo ao Algarve (Al-Garb transposto a Allah-Garden, “Jardim de Deus” postado no “Ocidente” ou Garb), era ainda território do Islão. Numa manhã de São João desse ano longínquo, conta a lenda assumida história, saiu do castelo de Alcácer do Sal (antiga Salácia romana, depois a árabe Al-Cassir, “O Castelo”, ainda assim prevalecendo aquela nos salacianos) um garrido cortejo moiresco de moços e moças indo em alegre inocência divertir-se nas margens do rio Sado.

Mas eis que os jovens moiros caem numa emboscada preparada pelos cavaleiros portucalenses chefiados pelo temível “tragamoiros” D. Gonçalo Hermingues. Os que se salvaram da surtida foram feitos cativos e levados para Santarém, à presença de D. Afonso Henriques. Como recompensa do feito pelo capitão cristão, o rei concedeu-lhe a mão da mais bela das cativas: Fátima, filha do walî da wilaya alcacerense, tendo esse nome por se a considerar da descendência directa de Ismael, portanto, de linhagem fatimida originada naquela outra Fátima, quinta filha do profeta Mahometh.

Desposada à-força com o cavaleiro infiel e batizada cristã, por certo também à-força, a bela Fátima recebeu o novo nome de Oureana (que faz lembrar o de Orejona, a deusa Vénus que veio povoar a Terra como contam as tradições maias e polinésias). Com esse laço nupcial mesclou-se o sangue real de Borgonha com o sacerdotal Fatímida, para não dizer, o patrístico e o matrístico em que afinal assenta a Patrologia Lusitana, e assim, em conformidade aos documentos disponíveis anteriores ao século XIX, desde já podendo afirmar não ter havido nenhuma surtida, nem emboscada e tampouco matança, a não ser na fantasia romântica de certos autores oitocentistas. A haver núpcias terá sido com consentimento mútuo por afeição mútua, podendo-se muito bem concluir que o cavaleiro cristão e a donzela moira estariam deveras enamorados entre si. Se nas bodas esposais esteve presente a Ordem do Templo, a Tradição informa que essa servia de “escudo defensivo” a uma outra muito mais secreta e soberana de quantas haviam na Península Ibérica, a Ordem de Mariz, a real emissora da aprovação do consórcio através da Ordem do Templo que estava para a Ordem de Mariz como estava a Ordem de Santa Maria de Montesa do lado espanhol. Essa Milícia, publicamente, exercia funções idênticas às que exerceu a portuguesa Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas internamente, cerrada ao século, seria dinamizada pelos próprios raros mas insignes confrades da Ordem de Mariz, os “Caballeros del Grial”, como os consignou o ilustríssimo Dr. Mário Roso de Luna nos volumes da sua Biblioteca das Maravilhas.

A História conta-nos que a Ordem Militar de Santa Maria de Montesa, ramo aragonês saído do Templo, remonta à sua aprovação pontífica por João XXII e reconhecimento do rei Jaime II de Aragão em 10 de Junho de 1317, recebendo a Regra da Ordem de Cister. Extintos os templários no território aragonês a despeito dos protestos de Jaime II, o Justo, em 1312, o monarca temeroso que numerosos bens do Templo caíssem na posse de estranhos ao reino e à Ordem, solicitou do papa Clemente V autorização para constituir Milícia que substituísse aquela e tomasse a seu cargo as suas propriedades móveis e imóveis. Não foi atendido por esse papa e sim pelo seu sucessor João XXII, tendo-lhe enviado a bula de aprovação da nova Ordem, assim adjudicando à Ordem de Montesa todos os bens que os templários possuíam em território aragonês. O castelo de Montesa, no reino de Valência, foi a sede da nova institução militar, motivo aparente do nome adoptado para ela. Os seus membros deram muitos exemplos de heroísmo e esplendor, batendo-se em campanhas tanto dentro como fora da Península. A insígnia adoptada por ela, após várias vicissitudes, é a de Alcântara, em sable, com uma cruz plana de goles.

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Pois bem, recorrendo aos anais ocultos da Tradição Espiritual da Península Ibérica, verifica-se que Afonso Henriques, (Anrique, o Terrível, ou melhor, El Rike ou Allah-Rishi, o Rei Divino) era na época o próprio Chefe Supremo da Soberana Ordem de Mariz, consequentemente, esta terá na sua real pessoa apadrinhado os esposais Hermingues e Oureana nos paços de Santarém. Dessa maneira o sangue lusitano se fundiu na fina essência arábica, nomeadamente a de Fátima, para todo o efeito, tronco delfim feminino do próprio Profeta assim expressando a Allatah, a Mãe Divina na Fé corânica, tal qual Ester e Maria as são para judeus e cristãos. Fátima (português), Fatmah (árabe) ou Fathan (aghartino), como “libertadora das mentes humanas pela insuflação de novas ideias”, aquivale ainda à Sakali hindu, a Goberum atlante em quem a “Estrela” Algol incarnou, a fim de tornar-se Rainha de Agharta.

Essas são realidades sibilinas que se velam no críptico da mais Alta Iniciação, para todo o efeito, sendo facto provado a união consanguínea de duas castas raciais opostas, com isso unindo a Haste Lunar da Tradição à Haste Solar da mesma, passando o touro de Ismael e o cordeiro de Cristo a pastar juntos no mesmo prado pastoral.

Afonso Henriques fez oferta da vila de Abdegas aos recém-casados, e então o lugar mudou de nome tomando o da sua nova dona Oureana, hoje Ourém.

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Quando Oureana entregou ainda moça a alma a Deus, Gonçalo Hermingues, desgostoso, abjurou ao mundo e fez-se monge na abadia cisterciense de Alcobaça, a trinta quilómetros de Ourém, recentemente fundada a pedido do próprio S. Bernardo de Claraval e que funcionava além de mosteiro como escolástico, deixando mesmo supor, como vários indícios documentais transpiram, a presença da praxis heterodoxa própria de um colégio iniciático, nessa que foi a Casa-Mãe da Ordem de Cister em Portugal.

Com o passar dos anos, os cistercienses alcobacenses quiseram fundar um outro mosteiro da serra mesmo ao pé. Como rezam as crónicas, foi ao próprio frei Gonçalo Hermingues atribuída essa incumbência, por certo por sua virtude e dedicação. Apenas terminada a capela, apressou-se a mandar trasladar para lá o corpo da saudosa esposa amada, aí ficando para sempre sem nenhuma inscrição a assinalar a sepultura. Em volta desse mosteiro um pequeno povoado edificava-se a breve trecho: Fátima tinha nascido.

O edifício desapareceu em meados do século XVI, mas a capela com os restos mortais da bela princesa foi poupada. Todavia, com as restaurações e transformações posteriores, tornada igreja paroquial da então vila, em pouco tempo desapareceu a capela sob o chão da actual que assenta em lajes sepulcrais.

O valoroso amigo senhor Hermínio de Freitas Nunes, notável investigador da história da região já com vasta e preciosa colheita literária editada, chamou-me a atenção para a possibilidade da míngua bibliográfica no tocante a Gonçalo Hermingues – Fátima /Oureana. Concordei com ele e passo a transcrever parte da carta (datada de 28.1.1999) que lhe enderecei referente ao assunto, adiantando os devidos respeitos:

“Começo por D. Gonçalo Hermingues, o “Tragamoiros”. O que se depreende na leitura da Monarquia Lusitana, Livro X, pág. 181, sobre a Comenda cisterciense de Tomaréis, a “escassos dez quilómetros” da Comenda Velha (Templária) da Sabacheira, ter sido uma fundação senhorial pelo capitão do primeiro rei português, possivelmente para “servir de panteão familiar e assegurar a narração futura da gesta e dos actos heroicos do iniciador da dinastia”, não está errado. Tampouco há contradição com o que escrevi, talvez ou decerto só insuficiência descritiva, que agora comatarei.

“Vamos, pois, aos factos. Ainda cavaleiro da Ordem de S. Bento de Avis, D. Gonçalo Hermingues, estremenho com morada em Tomaréis, toma parte activa na fundação da Casa e Comenda de Cister, aquela “encostada” a esta tal a pouca distância que as separa, possivelmente em troca de favores dos conhecimentos (agrários, alfabetização e assistência religiosa) da freiria cisterciense, a fim de desenvolver e promover o espaço do seu senhorio. O laborare et orare dos cistencienses de Alcobaça, traduzido como trabalho intelectual e manual, aos quais o Portugal de hoje deve muitíssimo no sentido do progresso socioeconómico alavancando o país rural para o industrial, é facto atestado pelo próprio fr. Fortunato de São Boaventura, alcabacense professante na Ordem de Cister desde 25 de Agosto de 1795. Diz ele nas suas Considerações Gerais sobre a Santidade dos Institutos Religiosos, Cap. I, Tit. I da sua História Cronológica e Crítica da Real Abadia de Alcobaça, edição de 1827: “Limito-me agora a ponderar que as virtudes cristãs, em que sobressaíam estes monges, foram o primeiro móvel de quantos benefícios se originaram dos seus institutos; que sucedendo outros males e a ignorância, eles, como professos de uma religião que não teme os sábios e que preza as ciências, salvarem estas de um naufrágio iminente, e nos guardaram os mais preciosos monumentos da literatura clássica dos gregos e latinos. Era a virtude da penitência que os fazia lançar mão da enxada e da charrua, para desbravar as terrras incultas; pois lembrados da pena que se cominara ao primeiro homem, queriam levá-la em todo o rigor, adquirindo o sustenho à custa de suores e fadigas”.

“Após a morte precoce porque ainda jovem da sua esposa, talvez por doença o que não era raro na época, o viúvo choroso ter-se-á recolhido primeiro aí em Tomaréis, o que leva a pensar ter abandonado o seu palácio em Ourém, possivelmente por estar impregnado das memórias da falecida chorada que o traria em desgosto permanente. Depois, talvez influenciado pela comunidade cisterciense de Tomaréis, indo contrair e professar votos perpétuos na Casa-Mãe portuguesa de Cister, ou seja, o Real Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Daí, passados anos, fr. Gonçalo Hermingues iria partilhar na fundação de uma nova Casa de Cister, em torno da qual se desenvolveu povoado modesto que seria a génese da vila de Fátima, em cuja paroquial ainda lá está apagado e esquecido, sob o soalho, o túmulo da malograda princesa moura de linhagem fatimida, portanto, descendente do tronco familiar do próprio Mahometh.

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“De maneira que o percurso cisterciense de fr. Gonçalo inicia-se em Tomaréis, passa a Alcobaça e finalmente a Fátima. Em Abdegas, hoje Ourém, teve domínio senhorial, acastelado, oferecido por D. Afonso Henriques a ele e sua esposa Fátima/Oureana. A sua linhagem nobiliárquica apesar de importante é pouco destacada pela historiografia. Pessoalmente, estou em crer que ela é a família Ourém de que fala o Armorial Lusitano, pág. 408: “Ourém. Família de origem desconhecida, cujo apelido deve ser tomado da Vila de seu nome. Atribuem-se-lhe as seguintes Armas: de prata, com uma águia estendida de negro, armada de vermelho. Timbre: a águia do escudo”. E é tudo, tal a pobreza ou intenção deliberada de diminuir ou até apagar a memória de tão grande vulto que teve a suprema audácia de miscenizar à Alma e ao Sangue de Portugal a descendência directa do próprio autor do Alcorão. Ficou só a lenda e o apodo de “Tragamoiros”, mesmo assim porque, por tudo o dito, em verdade “tragou, assimilou o Sangue Moiro, Moria, Maru, Mariz”…

“O seu domínio primitivo, presumo que herdado de seu pai que o teria recebido do conde D. Henrique de Borgonha em uma das surtidas ao Sul, seria de facto Tomaréis, o qual doaria à Ordem de Cister introduzida no país por S. Bernardo de Claraval e seu sobrinho, D. Afonso Henriques, aquele consignado fundador espiritual de Portugal e este fundador temporal do mesmo que, desde a primeira hora da fundação, é posto sob o padroado geral de São Miguel Arcanjo e de Santa Maria Maior, esta também evocada como Sagrado Coração de Maria expressivo do Graal-Consciência de que o Graal-Objecto é representação simbólica.

“Tudo isso é o que deduzo de todos os autores consultados, não raros, se não todos, com insuficiências descritivas.”

Foi em torno da meseta da serra de Aire que se desenrolaram os mais renhidos combates entre cristãos e mouros jogando o destino da formação do novo país… bem à vista de Fátima, tendo o justo equivalente em Nossa Senhora da Conceição, posto participarem do atributo comum de Deusas de humana justiça e espiritual nutrição.

Senhora da Conceição que, ao lado do Dragão Verde dos Lusos, igualmente figurou no estandarte da Ala dos Namorados (ou os figurados Andróginos em separado), indo abençoar no campo de Aljubarrota a vitória retumbante dos portugueses sobre as armas de Castela, ficando garantida a Independência Nacional pelo feito glorioso do Condestável Nuno Álvares Pereira, depois, ingresso na Ordem do Carmo, Fr. Nun´Álvares de Santa Maria, que Pinharanda Gomes muito justamente apodou de “Galaaz do Carmelo”. Sim, vitória retumbante das armas de Portugal nesse 14 de Agosto de 1385, coroando a dinastia de Avis (ou Siva, anagramaticamente, assinalado pela Avis raris do Espírito Santo) já de si incorporando a glória das gestas passadas da dinastia de Borgonha.

Como se repara, Portugal sempre esteve sob o manto protector da Mãe Divina, donde a Sua evocação constante, quer lhe chamem Fátima ou Senhora da Conceição, ou algum outro dos Seus atributos locais, como antanho a chamavam Ísis e antes desta, aqui na Península Ibérica, de Atégina e Lusina, a Grande Deusa-Mãe, cedo esculpida, pintada e iconografada Virgem Negra por ser a Primordial ante-Criação que assiste à génese desta, por isto sendo a Única e Soberana Mãe do Verbo em Sua Concepção ou Conceição feliz, o Aspecto Feminino do Criador como a própria Criação Universal – a Natura Naturante et Naturada.

No lugar da Ortiga terá aparecido o “Anjo da Paz”, também chamado “Anjo de Portugal”, aos três pastorinhos Francisco, Jacinta e Lúcia (a única a restar viva até há poucos anos e que cedo entrou em reclusão religiosa em Casa da Ordem do Carmelo), sendo que da terceira vez apareceu na Loca do Cabeço, corria o Outono de 1916 (estranhamente essa data coincidia com a sexta-feira de 13 de Outubro de 1307, quando Filipe IV de França ordenou a prisão massiva dos cavaleiros da Ordem do Templo dando início ao processo da sua extinção, acontecimento que doravante marcaria a “sexta-feira 13” como data azarenta, superstição possivelmente tendo a sua origem na próprio Portugal Templário reinando D. Dinis), portando o cálice e a hóstia (evocativos da Eucaristia) e evocando a presença da Santíssima Trindade, esta que assim se reflecte na carne, no sangue e na alma lusitana. Por fim, em 13 de Outubro de 1917 a Virgem Celeste, sob o patronímico “Senhora do Rosário”, apareceu pela última vez aos pastorinhos, episódio desfechado com o “milagre do Sol” ante mais de setenta mil pessoas, mesmo nem todas vendo o que outras ao seu lado viam: o astro-rei girando em velocidade vertiginosa de encontro à Terra, efeito espectacular de fenómeno astro-telúrico de maya-vada ou espelhismo, certamente provocado pela excitação psíquica colectiva. Isso culminando as três aparições da Senhora cuja primeira aconteceu em 13 de Maio de 1917, como conta a voz corrente. Não deixa de ser interessante a igreja paroquial da Ortiga ser consagrada a Nossa Senhora cuja imagem no altar mor, só por “acaso”, é a de uma Virgem Negra medieval, possivelmente coeva dos templários.

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O próprio apelativo “Nossa Senhora” deve-se a São Bernardo, pois, conforme a sua hagiografia miraculosa, dirigiu-se à Senhora do Leite (de quem há igualmente uma imagem nas cercanias de Fátima, possivelmente coeva de Cister e do Templo) nos seguintes termos: Monstrate Matrem, “Mostra-te Materna”, resultando logo a seguir, por corrupção fonética, em Noster Mater, “Nossa Mãe”, “Nossa Senhora”, ficando assim como o primeiro a tratá-La tão familiarmente, indo depois compor o belíssimo hino Ave Maris Stella dedicado a Maria como “Estrela do Mar” – Vénus, a Misericórdia que ilumina – servindo de estrela polar aos navegadores a bordo da Barca da Fé cruzando o mar incerto do corporal mundano.

Ante a vasta presença medieval de Cister e do Templo na região tendo o epílogo na Senhora da Azinheira, centro da devoção simples mas sincera do povo mariano reunido em Fátima, acode-me à memória essa outra lenda templária galega da Virgen de la Encina, ou seja, a Virgem da Azinheira. A sua história tem lugar na comarca do Bierzo, ou “Berço”, e conta que nos meados do século V São Toribio de Liebana trouxe da Palestina para a Galiza várias relíquias, dentre elas a imagem da Virgem. Alguns séculos depois, durante as guerras sarracenas, para evitar o saqueio todas essas relíquias foram escondidas por diversos sítios. Passaram-se os anos, os decénios e mesmo alguns séculos, até que cerca de 1178 quando os cavaleiros da Ordem do Templo construíram um castelo naquele lugar, um deles, encarregado do corte das árvores, viu um resplendor que saía da floresta. Ao chegar perto do sítio de onde a luz emanava, viu uma azinheira que tinha uma abertura no tronco, e olhando para dentro descobriu a imagem da Virgem que ali estava escondida há tanto tempo. Em breve a imagem miraculosa tornou-se motivo de veneração geral sob o patrocínio da Ordem dos Templários.

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Realmente, volvendo ao espaço estremenho português, tudo quanto tem a ver com a mística de Fátima prende-se de raiz aos templários e os seus mentores, os cistercienses, uns cavaleiros-monges, outros monges-sacerdotes, todos trajando o branco alvo da Pureza. Tudo tresanda a mistério, a arcanum templarium. Tomar é logo ali ao lado, estendendo-se por toda essa meseta bailios e granjas do Templo e de Cister!… Também não deixo de anotar a hostilidade mais ou menos declarada da “Fátima eclesial” à “Fátima mesquital”, como a tentativa constante de apagar a segunda da memória colectiva.

O ano 1917 (cujo valor 17 marca numerologicamente o biorritmo de Portugal) foi importante em Aparições Marianas: em 13 de Fevereiro de 1917 aconteceu a aparição da Virgem Negra a Endoxia Andrianova, na Rússia, tendo os cristãos ortodoxos passado a chamá-la Kervajnaie, “tornada branca”, a “Nossa Senhora Branca” por estar vestida dessa cor. Logo a seguir, em 13 de Maio desse mesmo ano, deram-se as aparições de Fátima, mas sem esquecer as anteriores em La Sallete em 1848, em Obernaebach, Baviera, nesse mesmo ano, e ainda em Lourdes em 1858. Aparições sucedendo sempre em lugares telúricos, hídricos e junto ou dentro de grutas, onde no passado distante já haviam cultos matriciais à Mãe-Terra, ou seja, à Grande Deusa-Mãe Primordial, Ghea ou Rhea, que mais tarde, com a cristianização territorial, tomaria forma iconológica em alguma santa, fosse qual fosse desde que fosse mulher, posto o género feminino santificado ser a expressão mundanal do Divino Espírito Santo que toma forma na Matéria como a própria Mater-Rhea.

Segundo a Teosofia, os Três Logos ou Hipóstases do Logos Único, como sejam os Três Tronos constituindo a Santíssima Trindade, assim se dispõem no Esquema de Evolução Planetária:

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Raio ou Fluxo de Vida, Energia e Consciência provindo do Eterno Logos Solar, tanto vale. O Quarto Raio, aquele que predomina na actual etapa da Evolução Humana influindo no desenvolvimento Mental (Superior e Inferior) em consonância com as características do Quarto Globo em que tudo e todos vivemos e evoluímos, é o que une o Espírito à Matéria conferindo Unidade às Hipóstase dos Logos que assim se torna Uno-Trino, que é dizer, Um mais Três como valor do Quarto Raio gerador da Harmonia Universal entre os pólos contrários.

Reconhece-se sem dificuldade que hoje campeia a fantasia, não raro grotesca e bizarra como essa dos improváveis “discos-voadores extraterrestres”, vindo a terreno pretender explicar o acontecimento dito milagroso da Aparição da Virgem de Fátima aos três pastorinhos. Já para não falar em teorias da conspiração e outras coisas mais e más do género, por haver para todos os gostos e feitios: basta escolher de acordo com o paladar. São «explicações» descontextualizadas tanto do fenómeno espiritual como dos cânones tradicionais. A mecânica oculta da Natureza age provocando os ditos “milagres” aos olhos do povo ingénuo e crédulo, mas também sincero na sua devoção, “milagres” esses que para os entendidos ou formados na Sabedoria Divina, que é dizer Teosofia, são apenas os efeitos visíveis de causas ocultas naturais, pois não acreditam em milagres e sim em forças ou energias postas em acção pela Alma Universal que é a mesma Mãe Natureza (Íria, Ísis, Sophia, Maria, etc., tanto vale). De maneira que, cingindo-me exclusivamente à Tradição Iniciática das Idades como a única salvaguarda segura para o entendimento correcto do Transcendente ou Espiritual manifestado como Patente ou Psicomaterial, os fenómenos psico-telúricos ocorridos na Cova da Íria em 1917 apontam como sendo o que a Teosofia chama manifestação de forças elementais da Natureza a ver com os silfos ou “elementais do Ar”, aos três meninos pastores (assim sendo videntes congénitos, de visão e sensibilidade psíquicas activadas pela intensidade hidro-telúrica do espaço natural de seu habitat. Ademais, quantas não são as crianças que vêem “Nossa Senhora”, o “Menino Jesus”, os “Anjos”, os “amiguinhos anões e gnomos”, etc., nos primeiros anos da sua vida inocente, para depois, no decurso dos anos de vida corporal com os sentidos voltados exclusivamente para a atenção exterior, essa visão etérica embotar-se e desaparecer?), com os subsequentes fenómenos de mayas-vadas ou espelhismo, como já foi dito, pelos que os presenciaram (o Sol movendo-se de encontro à Terra, os flocos ectoplasmáticos caídos do céu visíveis mas não tangíveis, etc.).

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Com tudo isso, de maneira alguma pretendo afirmar que a Divindade Feminina acaso não tenha se manifestado por meio dessas forças elementais ou primárias da Natureza. Os Mahatmas ou “Grandes Almas” costumam agir dessa maneira, tanto quanto sei, mas quanto ao resto o crédito parece impossível… ficando só o credo sincero das bocas e nas almas do povo simples que aí vai adorar a Mãe de Deus, criando e alimentando poderosa Egrégora viva ou “Forma Psicomental Colectiva”.

Todo o território em redor de Fátima é intensamente telúrico, mas a construção da gigantesca rede ferroviária do Entroncamento acabou afectando os veios e nódulos telúricos locais provocando como que uma alteração, perturbação ou rompimento da tela etérica ou vital do espaço local e com isso alterando o estado fisioanímico dos habitantes locais mais sensíveis, tornando-se mais propensos a cultos mediúnicos nesse espaço ambiental alterado propício a aparições… “marianas”, ou seja, de cariz lunar como é todo o medianimismo. E assim se tem Fátima, Ladeira do Pinheiro, Alcaria…

Falo das possibilidades e fundamento oculto dos pretensos “milagres”, deixando inteiramente de lado a incoerência das especulações fantásticas e o charlatanismo, porque senão ir-se-á encontrar “terra sim, porta sim” uma “vidente milagreira” e um “messias santeiro”… a justificar os famosos fenómenos do Entroncamento.

Maio é o mês das Maias, da fecundação aquando a Natureza regurgita vibrante lançando para fora as suas sementes dando flor e fruto. É o mês da alegria, da comunhão, do Touro sideral e totem sinergético da Terra. Antanho, os romanos costumavam imolar um boi branco a Apolo, tal como os cretenses um touro a Mitra. Hoje, tem-se a sua memória no sacrifício do touro como parte do programa da Festejo Popular do Império do Divino Espírito Santo, em Sintra, em Alenquer, nos Açores e demais lugares do mundo onde o Português o levou.

Também na Lua Cheia de Maio, correspondendo ao signo de Touro e a Vénus, os antigos druidas e druidisas cortavam com uma foicinha de ouro o visco que nasce nos ramos de certas árvores, como a azinheira, o carvalho, a pereira, etc. Tido como possuindo propriedades miraculosas, o visco tornou-se sagrado entre os celtas, gauleses e bretões; Ram consagrou-lhe a Memória, instituindo a Festa do Natal, a do Solis Invictus como depois lhe chamaram os latinos. Os discípulos de Ram andavam por toda a Cítia com os seus ramos de visco, sendo considerados mensageiros divinos e o seu mestre um deus.

O número 13, do dia da primeira Aparição da Virgem aos pastorinhos, assinala a Rota da Iniciação no acto de transformar a vida-energia em vida-consciência, pois sendo o valor do Arcano da Morte (Yama) esta dá-se em toda a natureza inferior no sentido de gerar, ressurgir como natureza superior, pelo que no Tarot sacerdotal Aghartino tem o significativo nome de A Grande Mãe. Na Teurgia e Teosofia, o 13 de Maio não deixa de ser considerado como Dia das Mães, e dele diz o Professor Henrique José de Souza num texto datado de 1952:

“O dia 13 de Maio, a própria Igreja consagra a Nossa Senhora de Fátima – ao par da das Graças – considerada “como a mais milagrosa”. A maior prova que se tem do caso é feita ao lugar onde Ela se acha, na gloriosa Terra Lusitana, da qual, na sua grande maioria, os Brasileiros descendem. Sim, o sangue nobre dos Portugueses infundido na Raça autóctone (a Tupi), da qual surgiu a nossa.

“Sim, “Bendito seja o fruto do ventre de Maria”, mas também o de todas as Mães ou Mulheres que sabem honrar tão dignificantes nomes.”

Passo, agora, à descrição da minha Proposta de Decoração Sacra do Grande Espaço Coberto para Assembleias (GECAS), destinado a nascer subterraneamente defronte ao actual Santuário de Fátima.

Pessoal - Vitor Manuel Adrião

PROJECTO DO “GRANDE ESPAÇO COBERTO PARA ASSEMBLEIAS” (GECAS)

No perímetro interior do G1 figurarão as 14 estações da Via Sacra, representadas em cruzes latinas de madeira de carvalho, simples mas torneadas nas extremidades em flores-de-lis, incrustadas nas paredes distadas uma das outras 33 metros, idade com que Jesus morreu, como é de tradição nos santos evangelhos. 14 x 33 = 462, e 4+6+2 = 12, Arcano O Sacrifício, expressivo da Paixão e Morte do Senhor e consequente descida aos Mundos Interiores ou Inferiores (donde Inferius e o seu derivado latino Infernus, como seja o Mundo Subterrâneo dos “Mortos-Vivos”, dos Iluminados, ao qual a Tradição chama Duat), para ao terceiro dia de Aleluia ressuscitar, sempre amparado pelo Arcanjo de Deus Todo-Poderoso, Al-Djabal ou o mesmo São Miguel. A Via Crucis é o caminho da Morte garante da Ressurreição para os crentes verdadeiros na verdadeira Fé, esta nada tendo a ver com crença simples e petitiva, pois ao primeiro desaire pode descobrir-se que quem crê muito poderá descrer ainda mais…

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – O formato estipulado para o altar corresponde ao da tampa navegante do Santo Sepulcro, tendo sido o adoptado nos templos dos antigos cavaleiros templários e de São João do Hospital de Jerusalém (depois de Rodes e por fim de Malta). Os seus suportes jónicos relacionam-se simbolicamente à finalidade feminina ou mística (coracional) da ara, mara ou aram, onde se praticam os sacrifícios devocionais ao Senhor das Eternidades, que no particular representa-se na Mulher (ara) como base do Homem (sacrifício), nisto incarnado pelo presbítero tendo altar e ofício adiante de si, ou como se canta no Hino Exaltação ao Graal: “Sol e Lua à sua frente”. Tampa “navegante” porque levantada sobrenaturalmente pelos Anjos de cujo sepulcro saiu Cristo Ressuscitado triunfante da Morte. Geosoficamente, também o rectângulo de Portugal defronte ao Mar Oceano dos Vivos e dos Mortos, como Reino dos Lusos ou “Filhos da Luz” em guisa de Duat aflorado sobre a Terra, vem a simbolizar a tampa ou portal de Cordo Maris (“Coração do Mar”), já não tanto como Sepulcro mas Lugar Iluminado da Aliança de Deus com o Homem, a Humanidade, nisto participando a assinalada Montanha Sagrada de Sintra, Salém, Shamballah, etc., variando os nomes mas não o sentido que deve corresponder com justeza e perfeição ao interiorizado Lugar da Pax, o Locus Amoenus ou o mesmo Paraíso Terreal teoplasmação do Paraíso Celeste.

A cruz latina, cujos palos devem desfechar em flores-de-lis mas despossuída da figura de Jesus Crucificado, além de corresponder à Igreja do Ocidente, a Romana, igualmente corresponde ao entrosamento real (donde a supracitada flor, além de designar a Realeza Divina do Segundo Trono expresso pelo Cristo Universal e por isto mesmo considerada Lótus Sagrado de Agharta indicativo da Consciência Universal, tendo sido adoptada como insígnia dos Companheiros do Dever saídos da correnteza operática dos Construtores Livres ou Monges-Construtores medievais) do Poder Espiritual com a Força Material (Purusha – Prakriti, em sânscrito, Espírito – Matéria), exercício realizado pelo ancião ou presbítero, o preste, pai ou chefe espiritual da comunidade dos crentes. Esse, juntando o seu título presbitérico (do grego, πρεσβυτερος, presbyteros) ao do tutelar São João da Igreja de Jerusalém (Iod ou Jod-He-Shadai), onde se encontra o Santo Sepulcro, resulta o latino Pater Iohanis, Pai, Preste ou Presbítero João, a misteriosa representação medieval do mesmíssimo Melki-Tsedek, o Rei do Mundo por em si reunir a Arma e o Sacerdócio, e cuja emanação universal (este o sentido literal da palavra grega católico, “universal, universalista”) o presbítero deve incarnar no acto do sacramento, na liturgia da ressurreição dos vivos e dos mortos onde Deus, o Espírito e o Homem fazem-se um.

O Arcanjo S. Miguel, Custódio do Céu e da Terra (particularmente de Portugal, prerrogativa instituída por D. Afonso Henriques e oficializado o seu culto por D. Manuel I), como Mikael é o “Assistente da Sinagoga” e como Mirraïl é o “Assistente da Mesquita”. Aclamado Chefe das Milícias Celestes, a tradição judaico-cristã situa-o no topo da Árvore da Vida como “Pólo Celeste” (Metraton) para o “Pólo Terrestre” (Sandalphon) expresso como Shekinah, a “Presença Real de Deus”, de quem o presbítero é a expressão corporal diante da assembleia dos fiéis. Assim, a Pax e a Lex dos Pólos Celeste – Terrestre (Kether – Malkuth, a primeira e a última sephiroths ou “emanações da Árvore da Vida – Otz Chaim) tomam forma racional como Magistério e Dogma da Igreja desde o mais alto Céu à Terra na inter-relação psicopompa Arcanjo – Presbítero.

De altura entre o natural e o atlante, mais atlante ou agigantado em virtude da vastidão do espaço G1, S. Miguel figurará com a balança na sinistra e a espada flamejante (mizna) na destra, apresentando-se como guerreiro alado com as asas abertas em modo de dar a impressão de abarcar com a sua presença toda a assembleia, o que se enquadra no seu anagrama cabalístico Malaki, “Meu enviado”, isto é, “Enviado de Deus”, ou por extenso, Maleak-Ha-Elohim, “Anjo no qual é Deus”, a ponto de ambos se confundirem em um só (tal qual o sacerdote na liturgia deve confundir-se com o Divino) indo suscitar entre os latinos a interrogação pasmada: Quis ut Deus, “Quem é Deus”? Respondendo os fatimidas: Mirraïl Al-Djabal, “Miguel, o Todo-Poderoso”.

As 14 estações da Via Sacra ou Via Crucis correspondem ao Caminho das Angústias, afinal, a Via do Discipulado irrevogavelmente Cristocêntrica, por nela a criatura humana, caindo e levantando sempre, realizar interiormente a sua transformação rumo à superação e consequente metástase com o seu Deus Interno, Único e Verdadeiro, para que, de facto e direito, seja verdadeiramente cristã.

Acompanhando o compasso quaternário da Terra (Bhumi) e as fases de solstícios e equinócios, tem-se também as 14 estações da Via Sacra corresponderem ao “desatar dos nós” ou nadhis e cada uma das quedas de Cristo corresponder a uma Pessoa da Trindade, com Ele de rosto contra o pó, ou não estivesse Deus no Centro da Terra… O desenrolar do caminho último da Paixão encontra as seguintes similitudes astro-teosóficas:

EQUINÓCIO DA PRIMAVERA

1.ª Estação = Jesus é condenado à morte

2.ª Estação = Jesus carrega a cruz às costas

3.ª Estação = Jesus cai pela primeira vez > Chakra Raiz > Manifestação do Espírito Santo

4.ª Estação = Jesus encontra a sua Mãe

SOLSTÍCIO DE VERÃO

5.ª Estação = Simão Cirineu ajuda a Jesus

6.ª Estação = Verónica limpa o rosto de Jesus

7.ª Estação = Jesus cai pela segunda vez > Chakra Cardíaco > Manifestação do Filho

EQUINÓCIO DO OUTONO

8.ª Estação = Jesus encontra as mulheres de Jerusalém

9.ª Estação = Jesus cai pela terceira vez > Chakra Coronário > Manifestação do Pai

10.ª Estação = Jesus é despojado das suas vestes

11.ª Estação = Jesus é pregado na cruz

SOLSTÍCIO DO INVERNO

12.ª Estação = Jesus morre na cruz

13.ª Estação = Jesus morto nos braços de sua Mãe

14.ª Estação = Jesus é descido ao sepulcro

Como os solstícios são os períodos em que o Sol se “acende (Verão) e apaga (Inverno)” em relação à Terra, isso vem a representar a Tríade Superior imanifesta. Como os equinócios são os períodos em que o Sol se “apaga (Outono) e acende (Primavera)” relativamente ao nosso Globo, com isto representa-se o Quaternário Inferior manifesto.

Como já disse, as cruzes latinas indicam a ocidentalidade da Igreja e, aparte as flores-de-lis torneadas, o restante das peças é simples e nu em madeira de carvalho (árvore que para os antigos celto-lusitanos tinha o significado de templo), de maneira a melhor e mais intensamente inspirar à nudez ou despojamento dos habituais e viciosos hábitos físicos, morais e mentais e à adopção de outros mais simples e saudáveis, naturais e mais eficientes na vida do corpo e da alma para o Espírito de Deus poder finalmente manifestar-se em um e todos.

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GECA 1

2.9 – CAPELA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO = Altar-mor de três patamares; no topo, imagem de Jesus Cristo em Glória. Abaixo, imagem de Nossa Senhora de Fátima tendo aos pés os três pastorinhos ajoelhados. Por fim o sacrário, no terceiro patamar, onde se guardará o Santíssimo Sacramento.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – Os três patamares ou andares equivalem aos três Planos Universais do Espírito, da Alma e do Corpo, correspondendo aos Três Tronos (Santíssima Trindade, Orago do GECA), ficando no topo Cristo para o Pai (“Não ireis ao Pai senão por Mim”, João 14:6), desde logo em Glória, Ressuscitado, não Morto para sempre Imortal. No Plano Intermédio a Mãe Divina, onde os pastorinhos a seus pés simbolizarão, mais que o acto místico da Aparição, as três gunas (em sânscrito, “cordas” ou cordame de enlace, encadear, unir) ou “qualidades subtis da Matéria” (Mater-Rhea, Mãe-Terra): Satva – Rajas – Tamas, ou seja, energia centrífuga, energia rítmica ou equilibrante, energia centrípeta. Finalmente, no patamar o Plano Inferior iria dispor-se o Santíssimo Sacramento, o Santo Vaso (Saint Vaisel) repositório eucarístico do Sangue Real (Sang Greal, San Grial, Santo Graal) como ideoplasmação do Terceiro Trono, Deus Espírito Santo.

2.5 – PRESBITÉRIO = Altar rectangular com tampa navegante suportada por quatro colunelos jónicos. Crucifixo tradicional de proporções ajustadas às dimensões do espaço. À direita do altar, lado da Epístola, a imagem, conformada à iconologia tradicional, do Arcanjo Custódio de Portugal e das Almas como Primeiro em deus, S. Miguel (Quis ut Deus).

GECA 2

Entre as 1.ª e 2.ª colunas (todas jónicas, atendendo à Iniciação Matrística, Coracional ou Feminina por que se distingue Fátima), do lado direito, imagem pia de S. Francisco de Assis. Entre as 1.ª e 2.ª colunas, do lado esquerdo, imagem pia de S. Bento de Núrsia (evocativa da sua Regra Trinitária conformada ao dogma da Santíssima Trindade, Orago do GECA). Entre as 2.ª e 3.ª colunas, do lado direito, imagem pia de St.ª Clara de Assis. Entre as 2.ª e 3.ª colunas, do lado esquerdo, imagem pia de St.ª Teresa do Carmelo. No espaço a partir da 3.ª coluna, no parietal lateral direito, representação pictórica de: a) Anjo da Paz falando aos três pastorinhos; b) Nossa Senhora sobre a azinheira falando aos três pastorinhos. No espaço a partir da 3.ª coluna, no parietal lateral esquerdo, representação pictórica de: a) Papa Pio XII; b) Papa Paulo VI, ambos devotos de Fátima, aquele promulgador da peregrinação e este peregrino à Cova da Íria (tanto valendo por Loka de Ísis, a que não falta a procissão das velas como antanho se fazia nas nocturnas a essa deusa).

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SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – S. Francisco e St.ª Clara expressam o aspecto Patrístico ou Masculino (Pingala) da Igreja, representado no Franciscanismo expressivo do ideal de pobreza e pureza. St.ª Teresa de Ávila do Menino Jesus refere-se ao aspecto matrístico ou Feminino (Ida) da mesma Igreja, assinalado no Carmelo como ideal de contemplação e adoração. Ambas as vertentes encontram-se em S. Bento, cuja Regra Trinitária uniu a Cristandade Oriental à Ocidental, dando assim à Igreja carácter universal (católico) e andrógino (Sushumna) no sentido perfeição absoluta, de maneira que esta assembleia vem a transmitir a ideia benta de Scalae Coeli, “Escada do Céu”, como lugar de recolhimento, adoração e assunção.

ÁTRIOS / NÁRTEX

1.0 – ANDRO = Fonte com escultura de Santa Luzia, de rosto moreno, tendo na destra o cálice eucarístico donde sobressaem dois olhos de que irrompem dois pequenos repuxos (alusivos aos “olhos d´água” e ás “águas matriciais”, as que devolvem a luz aos cegos de quem esta santa é padroeira, cegueira essa tanto corporal como espiritual).

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – Foi esta peça a que maior confusão provocou nas cabeças do Reitoria do Santuário de Fátima. Expliquei o significado dela mas sem o aprofundar, de maneira a não chocar as mentalidades conservadoras, e os responsáveis acabaram aprovando. Além de ir decorar e dar ar de frescura a entrada larguíssima, há um outro sentido em tudo isso: Luzia, Deusa-Luz (que ilumina os cegos corporais e sobretudo espirituais), nada mais é que a cristianizada deusa celta Lusina (feita Melusina nas trovas e prosas medievais), Virgem Negra raiz matricial de toda e qualquer espécie de culto hidro-telúrico, seja ou não ctónico. O cálice eucarístico alude ao Santo Graal e os olhos irrompendo dele tão-só o convite a ver e compreender com “outros olhos” quanto o crente e o não crente venham a avistar dentro das assembleias.

1.1 – ÁTRIO PRINCIPAL = Escultura do Papa João Paulo II, declarado devoto e peregrino de Fátima, a quem atribuiu a salvação da sua vida após sofrer um atentado na Praça de S. Pedro, no Vaticano.

1.9 – ÁTRIO SECUNDÁRIO = Defronte à igreja da Reconciliação, escultura da Rainha Santa Isabel no acto de deixar cair do regaço, com a sinistra, as rosas do seu milagre tradicional, e com a destra segurando recto o bastão em tau de peregrina jacobeia, o qual foi sepultado com ela na igreja das franciscanas de Santa Clara a Velha, em Coimbra.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – Sendo rainha e santa, Isabel deve apresentar a cabeça coroada de cujo aro da coroa sobressaem cinco flores-de-lis estando o interior fechado de modo a sobressair do centro a cruz de Cristo sobre o globo do mundo, ela, rainha santa, verdadeira Budai (como feminino de Buda) cujas rosas de amor e caridade, evocando a Misericórdia do Céu, reconciliou Portugal com o seu rei e o seu Deus, donde o merecido epíteto de Anjo da Paz. O ano: 1336; o lugar: Estremoz, indo ela interpor-se entre exércitos prestes a bater-se; o rei: D. Afonso IV, seu filho; o opositor: D. Afonso XI de Castela. O Deus: reencontrado na Páscoa Rosada (donde a lenda do “milagre dos rosas”) correspondendo ao período da Quaresma, antecedendo quarenta dias a Páscoa. Também por intermédio da Ordem Terceira (da Regra) de S. Francisco, a rainha santa instituiu em Alenquer a celebração do culto do Império Popular do Divino Espírito Santo, no que a Ordem de Cristo auxiliou sobremaneira na sua propagação dentro e fora de fronteiras, dando início ao tempo da translatio imperii (tema depois assumido como os cinco Impérios do padre António Vieira, o derradeiro sendo o Português divinamente chancelado pelo Espírito Santo) e da gesta Dei per Portucalensis (que teria o seu auge no período ecuménico das Descobertas Marítimas).

2.1 – NÁRTEX = Permeio às colunas, ao centro a escultura do Anjo da Paz ladeada pelos escultóricos tradicionais da Fé, Esperança, Caridade e Obediência.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – As estátuas das quatro Normas, em mármore fino da região de Coimbra, tomariam aspecto antropomórfico para assim a humanidade simples dos crentes melhor as entender e apreender. Ao centro ficaria o Anjo da Paz, que é o mesmo da Obra de Deus (Theos-Ergon, em grego, Teurgia). Ele seria configurado com longos cabelos louros em cascata, vestido de túnica branca em tau e com asas brancas de cisne (simbólico da comunhão espiritual); carregaria na mão esquerda um globo azul anilado onde se inscreveria triangularmente em letras douradas a palavra Pax, e a mão direita configuraria, com três dedos erectos e dois recolhidos, a bênção sacerdotal (trishulahastra, em sânscrito, designando a Trimurti ou Trindade). Em representação do Senhor do Mundo (Ardha-Narisha, Chakravartin ou Melkitsedek, tanto vale), teria como emissários outros quatro Anjos (todos com asas de cisnes) representativos dos Senhores da Evolução: Manu (Legislador) para a Obediência; Yama (Executivo) para a ; Karuna (Judiciário) para a Esperança; Astaroth (Coordenador) para a Caridade. Sendo os cinco Anjos afins aos respectivos cinco Reinos da Natureza: Espiritual, Humano, Animal, Vegetal, Mineral, ficando tudo sintetizado num Pentalfa dourado (Tetragramaton) aos pés do Anjo da Pax, marcando assim o tradicional “centro do mundo”.

LAUSPERENE

5.3 – PRESBITÉRIO = Escultura evocativa do Sagrado Coração de Maria, tendo na base um listel onde se inscreve, em caracteres góticos, a legenda latina: Ave Mariz Nostra.

Aparte do campo de visão do Ostensório, nas paredes laterais figurarão três peças pictóricas retratando os Mistérios da Encarnação, da Cruz e da Eucaristia.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – O Sagrado Coração de Maria tem conotação mística ao Graal-Consciência como cerne de demanda de si mesmo pela tomada definitiva da Consciência Divina, onde a Mente Espiritual é o afloramento mais próximo da condição passageira do ser mortal. A legenda em caracteres góticos, estilo marcando a ascese ou assunção, designa tanto o Salve Nossa Mãe como Salve Nossa Mariz, legenda essa que é o lema da Ordem Soberana que tomou esse nome Mariz, de acordo com as fontes da Tradição, e apesar da História a desconhecer quase por completo ela marcou indelevelmente os destinos de Portugal e da Europa, até mesmo do Brasil, a partir do século XII quando foi fundada por D. Afonso Henriques nas proximidades de São Lourenço do Pombal de Ansiães, Carrazeda de Ansiães, dizem as mesmas fontes tradicionais. Estas adiantam que essa Ordem Iniciática Secreta seria como que quinta Rama de entre as sete que constituem a Árvore frondosa da Comunhão dos Santos e Sábios, os Mestres ocultados da Humanidade agregados em Grande Fraternidade Oculta distendida estrategicamente por todo o Orbe.

Essa Ordem de Mariz constituída em Carrazeda mas familiarmente formada e tomando o solar próximo de Barcelos, constituía-se dos melhores intelectual e moralmente da Raça Humana desde o Centro ao Sul da Europa com extensão a África, donde as suas características alquímicas, cabalísticas e gnósticas afins ao pensamento heterodoxo da Tradição Iniciática das Idades, sempre tomando por Orago a Mãe Divina expressiva do Divino Espírito Santo, tomasse o nome que tomasse mas sendo sempre Ela, como se denota na sua ladainha já de si participando da herança evocativa de outras expressões anteriores suas, conforme demonstra o quadro sinóptico da Ladainha à Virgem extraído do tomo III de Ísis sem Véu da magistral Helena Petrovna Blavatsky:

Tabela da ladainha mariana

Estando a igreja do Lausperene desta assembleia subterrânea vocacionada sobretudo para a meditação e a oração, sob a direcção das Servas de Maria, congregação feminina fundada por Lúcia, a mais velha dos três pastorinhos (falecida com 97 anos de idade em 13.2.2005), todo este espaço votivo, circular ou redondo, centraliza-se na Hóstia Sagrada (expressiva da Mónada Divina) no Ostensório, ficando à guarda das religiosas do Santuário. Acrescentarei ainda que a freiria feminina católica com contracção perpétua de voto de castidade, simbolicamente casadas com o Eterno corporificado em Cristo-Deus como se fosse as suas contrapartes femininas (shaktis) em ponto menor, têm o seu precedente nas virgens consagradas a Ísis, no Egipto, nas vestais a Vesta, em Roma, nas pitonisas a Pítia, na Grécia, nas goris do Islão, nas devasis de Nari, na Índia, etc., todas elas vivendo em celibato rigoroso.

O espaço da igreja do Lausperene deve estar inteiramente pintado de azul claro suave, cor rajásica da Mãe Divina, expressiva da Fé e do Amor, igualmente propícia à meditação, adoração e elevação da alma do crente em solilóquio consigo mesmo, essa sendo a cor do Céu ou do protector Manto Azul (do Akasha ou Éter) da Excelsa Mãe como Alma Universal, presente não só nos templos cristãos mas igualmente egípcios e hindus.

Os Mistérios da Encarnação, da Cruz e da Eucaristia possuem significado cosmogónico e antropogónico: referem-se às respectivas Involução do Espírito à Matéria, Manifestação do Espirito na Matéria e Evolução da Matéria ao Espírito no Esquema do Universo, da Terra e do Homem, pelo que no contexto do ser humano aqui se lhe apresenta o convite mudo à reflexão sobre a sua encarnação, carnação e desencarnação de volta à Eternidade.

IGREJA DA RECONCILIAÇÃO

5.13 – SACRAMENTO = Imagem de Nossa Senhora do Rosário, em destaque. Haverá, em ambas as paredes laterais, quatro peças pictóricas ou quadros: a) evocação do Purgatório; b) evocação do Céu; c) evocação da Ascensão de Jesus; b) evocação da Ascensão de Maria.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – A imagem beatíssima evocativa do Rosário, além de padronizar o conselho dado pela Virgem aparecida aos pastorinhos à prática do mesmo, conselho já antecedido pelo Anjo da Paz, conforme é tradição corrente, significa mais ocultamente a evolução da Mãe-Terra ao longo do extenso rosário de Cadeias, Globos, Rondas e Raças por que o Logos e o Homem têm de passar. O Purgatório é o Mundo Inferior ou Astral como Tala, e o Céu é o Mundo Superior ou Mental como Loka. A Ascensão de Jesus representa a Libertação do Espírito, e a de Maria a Sublimação da Matéria, isto no Esquema de Evolução Universal por meio das duas Energias Cósmicas básicas: Fohat (Electricidade, Fogo Frio Celeste) e Kundalini (Electromagnetismo, Fogo Quente Terrestre). Do atrito de ambas, tudo se locomove no esteiro da transformação da vida-energia em vida-consciência até à Reconciliação final, a Reintegração do Tudo no Todo.

Volvendo ao rosário, o uso deste foi introduzido em Portugal durante o século XIII pelos religiosos de S. Domingos de Gusmão, os dominicanos também chamados frades pregadores (Ordo Praedicatorum). S. Domingos teria adoptado do Islão o uso do rosário, durante as suas viagens pelo Médio Oriente. Esse uso islâmico terá sido importado das práticas religiosas asiáticas, nomeadamente hindu-tibetanas, objecto que por norma é utilizado como suporte de mais fácil concentração mental em determinada ideia ou coisa, indo servir como instrumento de encantação e base mnemo-técnica.

O rosário cristão consta de um conjunto de contas enfiadas num fio que se fazem desfiar uma a uma por entre os dedos, enquanto se vai recitando Padres Nossos e Ave Marias. Compõe-se de 15 Mistérios ou dezenas, ou seja, de 150 contas que se vão desfiando contando-as no rosário da interiorização: Utiliza-se da maneira seguinte: reza-se um Padre Nosso e a Gloria Patri para cada conta mais grossa; para cada conta menor, reza-se a Ave Maria. A divisão da terça parte do rosário composta de 50 contas (evocativas dos cinco Mistérios principais da vida de Cristo: Nascimento, Batismo, Transfiguração, Crucificação, Ressurreição), chama-se terço.

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Por norma, as contas do rosário são de madeira torneada e escavada (também podendo ser feitas de alguma outra matéria mais rica) e enfiadas num fio ou corrente (nisto possuindo o sentido oculto de Cordão de Sutratmã, o elo espiritual que liga as criaturas e os mundos entre si).

Por sua vez, o “colar de reza” ou salah muçulmano consta de 99 contas esverdeadas, número cíclico referente aos Nomes de Deus. A centésima conta, não manifestada, exprime o retorno do Múltiplo à Unidade, do Manifestação ao Princípio.

A redução teosófica de 99 conduz sempre ao algarismo 9, que é o número cabalístico do Santo e Sábio da Comunhão Apostólica, o Adepto Perfeito como Iluminado Espiritual. Esse número leva-me ao outro 432, que somado e reduzido também dá 9. Ora, 432 acrescido de sete zeros equivale a um Dia de Brahma segundo a concepção cosmogónica hindu, ou seja, um período de Manifestação Universal ao qual chamam Manvantara (4.320.000.000 anos).

É precisamente no Hinduísmo que o rosário como fileira de pérolas enfiadas num fio ou cordão toma o seu significado de Cordão de Sutratmã, descrito no Bhagavad-Gïta (“Cântico do Senhor”) como sendo o fio Atmã ou Purusha no qual todas as coisas são enfiadas, encadeadas, todos os Mundos, todas os estados da Manifestação. Purusha, o Espírito Universal, liga esse Mundos entre si através do seu Sopro ou Prana que lhes dá o Jiva, a Vida. Por isto, em princípio a fórmula pronunciada para cada conta do rosário deve estar ligada ao ritmo da respiração (pranayama, “disciplina do sopro ou do respirar”).

Na tradição hindu, o rosário possui 108 contas (12×9), cifra cíclica do Homem Universal (Brahma) percorrendo as 12 casas do Zodíaco em um só Dia que é o seu, motivo de normalmente ser aplicado à expressão de desenvolvimento da Manifestação Universal (Prakriti, a Matéria) representada nas próprias contas. Na mesma teologia hindu, atribui-se o rosário ao Pensamento de Brahma e da sua Shakti ou consorte, Sarasvati (equivalendo no Cristianismo ao Padre Eterno e á Madre Celeste), fixado como o alfabeto, ou alfa e beta em grego, como seja o “princípio” e a “boca” ou beth, em hebreu, consequentemente, o Poder Criador da Palavra produzido pelos Dois – Vishnu, Vâch ou o Verbo como Filho. O seu rosário (akshamala) comporta 50 contas (aksha) correspondentes às 50 letras do alfabeto sânscrito, de a a ksha. Como sempre acontece no caso de guirlanda de letras, o rosário hindu está ligado ao seu Criador (Shabda) e ao sentido da Audição (Akasha-Tatva).

No Lamaísmo tibetano o rosário também tem 108 contas, por vezes as dezenas sendo separadas por aros de prata. A matéria e a cor do “colar de reza” (donde rosário) variam segundo as personagens do seu santoral: rosário amarelo para os Budas; contas azuis para os Bodhisattvas; contas de coral ou então contas brancas feitas de conchas para aquele que converteu o Tibete arrancando-o da necromancia nefasta, Tsong-Kapa; para o terrível Yamantaka, o “domador da Morte” como o mesmíssimo Yama hindu, rodelas cranianas, pintadas de vermelho, de nadjorpas ou eremitas santões falecidos; para as Divindades do Yoga (Tchakram-Bija-Avataras), sementes de um arbusto chamado tulosi; finalmente, para os simples mortais, ele é feito em madeira comum e pintado de negro.

CAPELAS LATERAIS

6.2 – CAPELA 1 = Altar com imagem evocatória de S. João Evangelista e a águia.

6.3 – CAPELA 2 = Altar com imagem evocatória de S. Marcos e o leão.

6.4 – CAPELA 3 = Altar com imagem evocatória de S. Lucas e o touro.

6.5 – CAPELA 4 = Altar com imagem evocatória de S. Mateus e o anjo.

6.6 – CAPELA 5 = Altar com imagem evocatória S. Tiago Maior, Padroeiro da Península Ibérica e primeiro Peregrino Mariano.

6.7 – CAPELA 6 = Altar com imagem evocatória de S. Cristóvão, protector dos peregrinos, romeiros e viajantes, ele mesmo Kristus-Baal como Cristo Andante ou Volante, ou seja, o Princípio Crístico activo ou a activar na criatura humana.

6.8 – CAPELA 7 = Altar consagrado ao Divino Espírito Santo com a iconografia tradicional da Pomba dentro do Triângulo em resplendor.

NOTA: – Em todas essas capelas laterais deve figurar uma imagem subsidiária de Nossa Senhora de Fátima: nas quatro primeiras em azulejaria de painel de caixilho, colorida onde sobressaia o azul; nas três restantes em peças escultóricas, coloridas nos tons tradicionais a ver com os respectivos ícones, de proporções modestas mas não ínfimas.

As secções restantes dos GECAS deverão receber decoração apropriada ao espaço sagrado, conforme a utilidade de cada uma delas, exceptuando as secções destinadas ao uso profano, as quais nada deverão receber por serem desapropriadas à evocação Divina.

Terminei. E logo alguém sussurrou-me ao ouvido: “Está tudo muito bem, mas esqueceu-se do principal: falta S. Pedro, o primeiro Bispo de Roma…”, ao que respondi, também em sussurro:

– Não esqueci: ignorei. Ainda assim ele aí está nessa nova imagem de Pio XII, o Pietrus Christi, hoje com as Chaves da Salém Celeste abrindo o seu Portal ao Advento do Divino, e com isto não creio que me esteja percebendo. Mas certamente perceberá que em Terra Portuguesa manda Portugal e nenhum outro e qualquer império psicofísico, pois que assim é desde D. Afonso Henriques e também porque a Igreja de Roma é afinal vassala da que foi fundada antes dela por Apóstolo de Cristo e Devoto de Maria, S. Tiago Maior, aqui mesmo, na Península Ibérica, começando em Braga e desfechando em Compostela. Sempre foi aqui, a esta Terra de Santa Maria Maior, Terra de Luz do Divino Espírito Santo, que desde sempre peregrinam papas, imperadores e reis prestando-lhe a vassalagem da sua devoção. Com isto, fica tudo dito.

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A Ordem dos Templários e a Mística Judaica – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Maio 3 2016 

Geograficamente, o centro axial da espiritualidade ocidental e médio oriental foi, incontestavelmente, Jerusalém. Para ela concorreram, e ainda concorrem, as três principais religiões do Livro: a judaica, a cristã e a islâmica, consignando-a Cidade Santa como modelo do Centro Primordial do Mundo, Salém, a “Cidade da Paz”, equivalendo à hindu-tibetana Shamballah e até mesmo à escandinava Walhallah, “Vale de Allah” ou “Morada de Deus”.

Jerusalém como Centro do Mundo. Gravura de Heinrich Buting´s em "Travels according to the Scriptures" (1581).

Jerusalém como Centro do Mundo. Gravura de Heinrich Buting´s em “Travels according to the Scriptures” (1581)

Com efeito, desde a origem que o carácter teóforo de Jerusalém é evidenciado pelo nome divino Salém ou Shalem, mencionado em Génesis, 14:18, a propósito da história de Abraão e Melkitsedek. A equivalência de Salém com Jerusalém-Sião é visivelmente admitida na literatura bíblica, da mesma forma que faz fé na utilização indistinta de Salém e de Sião como sinónimos no Salmo 72:2: “Salém é a tenda e a morada está em Sião”. Aliás, na etimologia popular esse elemento teóforo que se descobre tanto em Salém como em Jerusalém, a saber, o nome da divindade Shalem, está identificado praticamente com o nome hebreu Shalom, a Paz, de onde vem o nome de Schlomoh, Salomão, dado ao donatário do Templo.

Assim, dentro da perspectiva primeiro só judaica e depois judaico-cristã, concebe-se a elevação de Jerusalém ao título de “Cidade da Paz” por expressar directamente a esse Centro Primordial onde reina a Pax perene, a Pax Mundi segundo a concepção teológica medieval perfilhada pelos místicos e cruzios europeus demandante dessa Terra Santa plantada próxima de onde fora o Jardim do Génesis onde apareceu a primeira parelha humana – Adam e Heve.

Tal concepção encontra, sem dúvida, a sua expressão mais marcante no Salmo 122, composto após o exílio, onde “a Paz sobre Jerusalém” é a palavra-chave. Mais expressamente ainda, Shalem e Shalom estão identificadas em Hebreus 7:1-2, com a paráfrase do episódio já citado do encontro de Abraão (Ab-Ram) com Melkitsedek: “Com efeito, esse Melkitsedek, Rei de Salém, Sacerdote do Deus Altíssimo, que foi ao encontro de Abraão que voltava do massacre dos reis, e o abençoou, a quem Abraão ainda atribuiu o dízimo de tudo”, desde já de quem interpretamos o nome como Rei de Justiça (Adonai-Tsedek) e que também é Rei de Salém (Koro-Tsedek), que quer dizer “Rei de Paz”. Passando a peregrinação do deserto, o profeta percebe o Monte de Sião onde o Eterno encontrará “o lugar de seu repouso”. O objectivo final da saído do Egipto não é estabelecer em Eretz um foco nacional mas uma Morada de Deus, “a residência da tua santidade” (Nevé quedoskha), é o que ele diz no versículo 13 de Êxodo.

Por que ele chama-a de “monte da herança”? A noção de herança, no sentido amplo, implica uma tripla relação entre YHWH, Israel e a Terra, pois todos os três são objectos de herança. Israel é a herança do Senhor (Êxodo, 34: 9), como o Senhor é, Ele próprio, herança de Israel (Salmos, 16: 5), e a Terra é prometida a Abraão a título de património hereditário (Génesis 15:18). Eis, pois, que se é levado à marcha de Abraão para a Terra Santa.

“A essa Terra Abraão deu o nome de YHWH yirê: “o Eterno verá”; de alguma maneira como dizemos hoje em dia: “Sobre a montanha o Eterno será visto” (Génesis, 22:14).”

O caminhar de Abraão, “pai” da Raça Hebraica, é uma dupla marcha: “marchai na minha presença e sede perfeito” (Génesis, 17:1), indica bem o título desse seu caminhar: Lekhlekha (Ide!); ele marcha em direcção a uma terra a princípio desconhecida, depois marcha sobre o país de Moriah, onde deverá sacrificar o seu filho Isaac. O nome de Moriah acerca-se do de Yaréah, significando “temor”. Assim, os cabalistas judaico-cristãos vêem no Monte Moriah (Har-Habayit) “a montanha do temor de Deus”. Após ter marchado três dias na obscuridade da Fé, “Abraão levantou os olhos e viu o lugar (makom) de longe” (Génesis, 22: 4). Ele o viu na bruma: “O lugar é uma predestinação” (Sanh., 14b).

De facto, a Cidade-Templo (Shalem ou Shalmon-Shulmanu) pré-israelita, governada pelo Rei Melkitsedek que oficiava no Santuário de “El Elion” (o Deus Altíssimo), foi hebraizada porque aí ficava o Hieros Logos do sacrifício de Isaac por seu pai Abraão (Génesis, 22) sobre o Monte Moriah, que desde esse tempo imemorial está associado à fundação de Jerusalém.

Esse monte será tardiamente considerado por II Crónicas, 3:1, como sendo o próprio Monte Sião. Aí, na área de Arauna, o Anjo do Senhor parou de atormentar o povo (II Samuel, 24: 16). Aí David ergueu o Altar e Salomão edificou o Templo. É, portanto, o lugar “que o Eterno vosso Deus” escolheu, diz a Bíblia, e a visão de Abraão vai a partir de então concretizar-se com a fixação ou sedentarização das doze tribos, a partir da conquista da Terra Santa por Moisés e Josué. A visão concretizada revela-se na edificação do Templo consagrado ao Deus de Israel (Ish-Ra-Elli), segundo a tradição conservada por Crónicas, 15:16-22.

De Abraão chega-se agora a David, que vai fazer de Jerusalém (Milich-Ha-Shadai) a pedra angular de Israel.

É verdade que a Paz não nasce da divisão, ainda que a pronúncia futura entre os hebreus de Yeroushalaïm seja dual, embora a ortografia seja a do singular. Se Élie Benamozeg vê nessa dualidade a união de Israel e da Humanidade, resta que a união supõe a dualidade e não a unidade. Mas a Yeroushalaïm do “Volume da Santa Lei” é de facto um singular e representa a Unidade, onde reina o Único.

“Escuta, Israel, o Eterno teu Deus, o Eterno é o Único”, frase do Shema que será definida por Cristo (Mateus, 22, 36-40) como o primeiro mandamento pelo Amor que dele decorre: “E tu amarás o Senhor teu Deus, etc.”[1]

É dentro desse contexto de Unidade, e de Unicidade do Universo manifestado, que a Shalem dos primórdios anuncia a Shalem dos tempos futuros que serão “Plenitude e Paz”: “A Justiça produzirá a Paz” (Isaías, 31:17)[2].

A abraamização do lugar de Moriah ou Sião fará dele posteriormente o centrum in trígono centri do monoteísmo mediterrâneo e, portanto, o sinal de uma Tradição Única. Tudo isso começa na visão do pai dos crentes, visão cujas consequências inscrevem-se no património espiritual confiado a Jerusalém mencionado pelo profeta Isaías, 2: 8: “De Sião sairá a Torah”. Visão que igualmente prefigura o objectivo do êxodo de Moisés e do povo de Israel na saída do Egipto; visão, em Moisés também, do “Monte da Herança”, segundo a fórmula de Êxodo, 15:16-17:

“Que passe, esse povo que Tu escolheste.

Tu o farás vir e Tu o fixarás sobre a montanha da Tua herança;

Morada para Tua residência que tu fizeste, Senhor,

Santuário, ó Senhor, edificado por Tuas mãos.”

Com efeito, Moisés acabara de atravessar o mar de caniços, pantanoso e barrento (donde o apodo vermelho), com o povo escolhido de Israel. Ele se manifesta em acções de graças pela intervenção de Deus e canta o seu cântico da Libertação. Jerusalém aparece então numa luz pascal. Moisés celebra apenas as maravilhas passadas, mas o Espírito lhe revela ainda as maravilhas futuras. Vê o povo em marcha para o Sinai onde ele receberá a Torah, depois para a Terra Prometida onde entrará para Sião, onde o Templo será construído, enfim, não por Israel mas pelas mãos do próprio Deus. Pelas “suas duas mãos”, sublinha Rashi, embora o Mundo tenha sido criado com uma só mão, conforme Isaías, 48: 13. Isso para significar, é claro, que a construção do Templo é uma obra maior que a criação do Mundo.

De maneira que o duplo binómio Melkitsedek – Abraão e Salém – Jerusalém, assim se dispõe:

MELKITSEDEK, SENHOR DE SALÉM

(Cidade Santa Primordial encoberta)

recebeu o tributo da dízima de

ABRAÃO, “PAI DE ISRAEL”

(Doze Tribos)

e concedeu-lhe MORIAH, centro de JERUSALÉM

(Cidade Santa Primordial descoberta)

Melkitsedek legou a Abraão a tríplice herança em graças da dízima recebida:

A Israel como herança do Eterno;

O Eterno como herança de Israel;

A Terra Prometida como herança da prole de Abraão.

Por isso é que as escrituras sagradas consideraram Jerusalém o centro espiritual de Israel, logo, toda ela assumida Terra Santa pelo Povo do Livro descendente dos filhos de Abraão, Isaac (judeus) e Ismael (árabes).

Nos inconciliáveis históricos desde há 5000 anos opondo judeus e árabes, ainda assim houve um período de conciliações, apesar de frequentemente interrompidas por motivações mais geopolíticas que religiosas, que correspondeu à fase de implantação da Ordem do Templo na Terra Santa, talvez graças ao espírito ecuménico exercido por ela que, é notório, recebeu forte influência do Judaísmo, mormente na parte gnóstica ou velada do seu doutrinal, e com essa mesma religião, afinal de contas, sempre andou de relações estreitas, mormente em Portugal, onde exerceu um papel de «policiamento» junto do saber sinagogal.

Melkitsedek com o Santo Graal abençoa o Mestre Gualdim Pais, fazendo as vezes de Abraão, “pai” da raça Judaica, mas aqui incarnando a Perfeição da Alma Templária Lusitana. – Pintura de Gregório Lopes, da Escola Portuguesa da primeira metade do século XVI, exposta na igreja de São João Baptista, em Tomar.

Melkitsedek com o Santo Graal abençoa o Mestre Gualdim Pais, fazendo as vezes de Abraão, “pai” da raça Judaica, mas aqui incarnando a Perfeição da Alma Templária Lusitana. – Pintura de Gregório Lopes, da Escola Portuguesa da primeira metade do século XVI, exposta na igreja de São João Baptista em Tomar

A posse efectiva da Terra Santa implicava possuir a sua Tradição Primordial e ser parte integrante dela. Estará nisso a causa suprema de quantas Cruzadas e Crescentadas houveram de parte a parte.

Reduzidas a gueto (aljama ou alfama) dentro do seu próprio centro espiritual de Jerusalém pelos muçulmanos desde o ano 634-644 d. C., muitas famílias judaicas optaram pelo êxodo e encetaram diáspora na direcção do Ocidente rumo à Europa, principalmente as descendentes da linhagem de Benjamim em cujas veias corria o sangue de vários dos primeiros reis de Israel, nomeadamente de Saúl, inconformadas com tão humilhante quão castrante opressão do árabe intolerável.

Surge assim em vagas sucessivas, com intensidade crescente, ao longo da orla costeira mediterrânea indo até ao extremo ocidental da Europa, o estabelecimento de comunidades judaicas. que a partir do século XI ganharam notoriedade devido a boa adaptação social, política, cultural e religiosa com os povos europeus. Contudo, não se ignora haver registo da presença judaica na Europa já antes da era cristã, e que essa população judaica europeia cresceu substancialmente após a conquista romana da Judeia e da Palestina pouco antes do século I d. C.[3]

Face à impossibilidade de recuperarem militarmente a Terra Santa, no século XII os judeus da diáspora decerto viram os propósitos de conquista ultramarina pela Ordem do Templo servirem perfeitamente aos seus propósitos. Isso tanto no aspecto militar, como no político e no religioso. Daí financiarem largamente as Cruzadas; daí iniciarem propositadamente vários e distintos cavaleiros templários nos segredos mais selectos do Judaísmo, ou seja, na Kaballah, a “Tradição Velada do Livro”.

Nesse sentido, pode-se aventar não ter sido escolhida ao acaso a cidade de Troyes para a realização em 1128 do concílio solicitado por São Bernardo a pedido de Hugues de Payens e seus oito companheiros, a fim de ser aprovada oficialmente a nova Milícia do Templo. A maioria deles tinha laços familiares à Casa de Borgonha a qual, significativamente, esteve na fundação de Portugal. Ora, nessa cidade francesa, domínio do conde Hugues de Champagne, residia o próprio cavaleiro Hugues de Payens, parente do conde seu feudatário, ambos íntimos do pensamento heterodoxo do rabino Rashi da Escola de Estudos Rabínicos de Troyes, onde o estudo da Kaballah ocupava lugar destacado, a qual prosperava desde 1070, época de Godofredo de Bouillon[4]. Além disso, o próprio São Bernardo possuía proximidade familiar aos cavaleiros requerentes da nova Ordem, sendo sobrinho do cavaleiro André de Montbard por sua mãe, Alette, ter casado com Técelin de Montbard, senhor do feudo de Fontaine, todos com grande proximidade ao esoterismo sinagogal[5]. Será ainda na cidade de Troyes que nascerá um trovador célebre, Chrétien de Troyes, que cerca de 1160 iniciará o ciclo literário do maior dos mitos medievais: o do Santo Graal, que um trovador templário posterior, Wolfram Von Eschenbach, irá atribuir a sua posse efectiva à Cavalaria da Ordem do Templo.

Rashi de Troyes (1040-1105)

Salomon Rashi de Troyes (1040-1105)

Já antes de 1128, em 1125, o cavaleiro português Arnaldo da Rocha e o francês Hugues de Payens firmaram juntos um documento onde assinaram respectivamente “o Grão-Prior e o Grão-Mestre”, o qual confirma a existência de um plano secreto de consolidação do Templo que o posterior concílio apenas viria oficializar[6]. Inclusive há quem chegue a afirmar que já em 1114 a Ordem era conhecida do Papado, talvez por ter recorrido a arquivos e a documentos hoje irremediavelmente perdidos, como foi o caso de Pedro de Mariz que escreveu em 1672: “Porque no tempo do Pontífice Pascoal II, no ano do Senhor de 1114, teve princípio a Ordem dos Cavaleiros Templários em Jerusalém, fonte, e origem, de todas as mais Ordens de Milícia, que houve na Europa”[7].

Conscientes da impossibilidade de restaurar o Templo de Salomão assim como a linhagem divina dos reis de Israel, interrompida definitivamente, os judeus benjamitas da diáspora desviam os olhares do Médio Oriente e fixam as atenções no mais Ocidente da Europa, na Terra de Sefarad ou dos sefarditas que aqui eram, neste mesmo País então em formação destinado a abrir um novo ciclo de Humanidade. Servindo-se do pretexto da política militar de reconquista da Península Ibérica ao Islão, impelem os Barões de França, liderados por D. Henrique de Borgonha, à consagração do novo Condado Portucalense como Terra Santa, sentido místico que cedo incutiram neste finis Terris in Occidis, por certo prevendo que cedo o Condado se tornaria País independente, o primeiro da Europa feudal, e teria todas as condições para nele se fundar a nova Israel. Posteriormente, os cavaleiros templários trariam para esta outra Terra Santa, o “Porto do Graal” (como está no sinal rodado nas cartas de doação de Tomar e Sintra por D. Afonso Henriques a Gualdim Pais, Mestre Provincial do Templo), essa mesma Arca da Aliança, as Tábuas de Moisés, o Cálice de Salomão, enfim, expressões diversas para uma única Sabedoria Iniciática alegorizada no Saint Vaisel, que como objecto cerrado vem a simbolizar o saber velado, trazido para aqui possivelmente pela mão de Arnaldo da Rocha, em segredo, encarregando-se o Mestre Gualdim Pais de soerguer um novo e terceiro Templo de Salomão digno de albergar a Santa Relíquia vinda do Oriente. Ideia escondida mas que deu concepção e nascimento à Charola ou Rotunda octogonal em torno da qual se formaria o Convento de Cristo em Tomar, a região mais ao centro de Portugal, construída como réplica exacta da Cúpula do Rochedo em Jerusalém que assenta sobre as antigas ruínas do Templo de Salomão.

Exterior da Charola Templária de Tomar

Exterior da Charola Templária de Tomar

Estavam lançadas as base do novis Templis Salomonici, em Tomar e ao centro do Reino, como se fosse o centro do Mundo para que concorreriam as mais diversas correntes de pensamento numa nova demanda espiritual da novis Civitas Hierosilimita ad Occidis Mundi. Padrão sinalético da transferência dos valores espirituais do Oriente ao Ocidente, eis aqui a Charola tomarense soerguida cerca de 1170, cujo formato octogonal revela o valor solar 8 do número cabalístico do Cristo, 608, assim  reunindo a potência da Idade do Pai (Ciclo de Jerusalém) e a essência da Idade do Espírito Santo (Ciclo da Lusitânia), ficando a do Filho (Ciclo de Roma) assegurada pela própria Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo. Esta construção em octógono, consagrada à Ressurreição de Cristo, só pode revelar ter sido construída com intenção mística, posto que em arquitectura militar o octógono tem interesse nulo, pelo que o seu valor para a Ordem pertenceria ao exclusivo plano do transcendente, ademais sendo a figura geométrica determinada pela sua Cruz pátea, insígnia da Cristandade.

Com efeito, a Charola, Rotunda ou Oratório dos Templários foi mandada edificar por D. Gualdim Pais possivelmente aos Monges-Construtores da Ordem de Cister, resultando uma réplica exacta da mesquita de Omar e da igreja do Santo Sepulcro, ambos edifícios de planta circular, em Jerusalém, ocupando o espaço do antigo Templo de Salomão. Como disse, considera-se que a construção da Charola de Tomar teria o objectivo de representar um novo Templo Jerusalemita no extremo ocidental da Península Ibérica, indo adaptar-se ao Ocidente o espírito tradicional do Oriente capaz de reunir num só Templo de Deus Único e Verdadeiro as três religiões do Livro (judaica, cristã e islâmica). Trata-se, pois, do translatio imperii, a “trasladação do império”, tema de ciclicidade subjacente ao intento velado da construção da Charola.

Também como disse, ela era o Oratório dos Templários, baseada no tipo clássico das mesquitas sírias, e originalmente deveria ser muito simples. Mas quando, em 1356, Tomar passou a ser a Sede da Ordem de Cristo, abolida a dos Templários, a Charola recebeu muitos enriquecimentos e foi adaptada às funções do novo Convento da nova Ordem de Cristo pelo Infante D. Henrique, que a tornaria capela-mor da igreja. São do século XVI a maioria das pinturas e frescos (quase só cenas bíblicas) e a estatuária dourada sob a sua cúpula bizantina. A planta da Charola é octogonal pelo interior (o tambor central possui oito faces), pelo que as suas paredes exteriores possuem – ou possuíram – dezasseis panos reforçados por sólidos e altos contrafortes (dois destes panos de parede foram eliminados nas obras de engrandecimento manuelinas, no século XVI).

Interior da Charola Templária em Tomar

Interior da Charola Templária de Tomar

Por esse esquisso da Charola – palavra que revela a forma circular do edifício, associada ao termo francês carole, uma dança encadeada, “em roda” – tem-se presente o octógono e o respectivo número oito das suas faces. O simbolismo medieval de ambos ajusta-se inteiramente às primitivas funções de oratório e altar-mor da Charola como lugar de passagem da mortalidade à imortalidade, logo, com a função psicopompa ou medianeira entre os mundos visível e invisível, assim representando a Arca da Aliança de Deus com a Humanidade.

O octógono representou na Idade Média a figura de passagem entre o quadrado – a Terra – e o círculo – o Céu – pelo que assumia o simbolismo espiritual do trânsito, ou seja, da Ressurreição de Cristo e o começo da Perfeição Humana. É assim que o octógono expressa o Poder Divino na Mundo Humano, o que veio a ser representado como a descida da Jerusalém Celeste na Terra, ideia programática assinalada pela Charola.

O significado cabalístico do número oito reforça o sentido do simbolismo octogonal. Número figurativo do duplo quadrado da Terra e do Homem em equilíbrio, a tradição cristã considera o valor oito como o da Redenção e Prosperidade. Oito é sete mais um, o transbordar da Plenitude. A Plenitude judaica (o sete) foi ultrapassada por Cristo em sua Ressurreição na manhã do oitavo dia. O oitavo dia passou assim a ser o primeiro dia (o dia do Senhor, Domenica dies), domingo, em oposição ao sábado (Shabath, descanso, sétimo dia em que o Senhor descansou da Obra da Criação). Por isso as grandes festas cristãs (Natal, Páscoa) têm uma oitava, isto é, celebram-se durante oito dias, sendo o domingo dessa oitava o prolongamento da grande festa celebrada. Sendo o oitavo dia o Dia da Ressurreição em que os cristãos são associados, pelo baptismo, ao Mistério Pascal de Jesus Cristo, é também comum encontrar, na arquitectura, a forma octogonal como planta muito frequente dos baptistérios. Também as estrelas de oito pontas (dois quadrados sobrepostos e rodados que simbolizam a transformação espiritual) da arte românica e as rosáceas com oito pétalas têm o mesmo significado.

A Charola lusitana, novel Tabernáculo de Ouro salomónico, é toda ela uma construção cifrada, um enigma de pedra que lembra o estipulado no artigo 8 dos pressupostos Estatutos Secretos do Templo: “Lá onde construirdes grandes edifícios fazei os sinais de reconhecimento”.

Planta do Convento de Cristo em Tomar

Planta do Convento de Cristo em Tomar

Em volta da Charola está o Castelo desta maneira assumido Reduto ou Râbita como “Templo-Fortaleza”, construção iniciada antes daquela, ou seja, em 1 de Março de 1160 por ordem de Gualdim Pais, no topo do monte que as sortes deitadas por três vezes pelo Mestre por três vezes lhe apontaram esse lugar, como diz a lenda, e após isso o Mestre Gualdim encetou montada a um porco montês indo tomá-lo já morto no topo do mesmo cabeço. Diz o vozerio popular que desse episódio adveio o nome Tomar[8]. Mas como as montadas e especialmente os “jogos de sorte e azar” eram expressamente proibidos aos templários, então ter-se-á de perceber um outro sentido nesse episódio lendário, ou seja, o da demanda do centro axial aliado à prática geomântica, onde os “dados lançados” serão referência à escolha do terreno e ao lançamento da pedra fundamental do edifício da Nova Casa de David cujo filho, Salomão, aí tomaria forma na própria Milícia do Templo, ao mostrar-se reformadora e parúsica, sustentáculo ecuménico de uma Nova Igreja, não de Roma mas do Amor: consoladora da Humanidade afligida; compadecente da Humanidade desejosa de ciência.

Michelet afirmaria a esse propósito[9]: “(…) o ideal do Templo, mais elevado e geral do que o da Igreja, planava, de certo modo, acima da religião. A Igreja tinha idade, o Templo não a possuía. Contemporâneo de todas as eras, constituía como que o símbolo de perpetuidade religiosa. (…) A Igreja é a Casa de Deus, o Templo a do Espírito Santo”.

Segundo Manuel Joaquim Gandra[10], no que parece estar muito bem, a Ordem do Templo visava o aperfeiçoamento intelectual e moral da Humanidade, motivo porque não dissociava (como se vê nos escultóricos exteriores no Convento de Cristo, em Tomar) o Querubim (Anjo da Sabedoria) do Serafim (Anjo do Amor): sabia que só no Amor existe Sabedoria.

O Querubim (Sabedoria) e o Serafim (Amor) no Convento de Cristo, Tomar

O Querubim (Sabedoria) e o Serafim (Amor) no Convento de Cristo, Tomar

De maneira que, inspirado pelo saber judaico e idealizado pelo messianismo templário, é levantado o Novo Templo de Salomão, não no Oriente mas nos confins do Ocidente, na região mais ao centro de Portugal, sobre a sua “coluna espinhal” que sobe de Sagres a Santiago (de Compostela), assim feita simbólica e geosófica Árvore de Jessé de cujo tronco, segundo as profecias, há-de advir o Paracleto, o Imperador do Espírito Santo, Julgador e Consolador das Nações, identificado à Parúsia Universal como o Cristo em seu segundo Advento.

Assim, bem parece que se firmou na velha Sellium, Nabância ou Tomar a mítica Dinastia do Santo Graal, onde os descendentes de Isaac e de Ismael vão se encontrar e até irmanar na Paz (Shalom) em Terra de Luz (Shalem), o que remete para a Concórdia Universal ou Sinarquia que a Cristandade Templária bem tentou perpetuar. O facto parece estar assinalado no resto de um tímpano medieval encrostado na parede frontal exterior da igreja de S. João Baptista desta cidade (possivelmente provindo do templo primitivo antes dos restauros que recebeu no século XVII). Nele observa-se à direita o leão (de Judá) e à esquerda o cão ou, mais certo, atendendo ao nome do Orago S. João Baptista e os seus símbolos iconográficos, cordeiro (de Cristo), tendo permeio um caule longo em formato de taça donde sobressai a flor-de-lis (de Ismael), designativa tanto da Realeza Divina quanto daquele que a assumia em seu tempo: o “Ancião da Montanha Primordial” ou Alborj, o mesmo Al-Bordi, como seja o mesmo Monarca Universal para os Assacis ismaelitas, também aqui plantado graças à visão ecuménica do Templo, quiçá numa antevisão de que com a perda da Terra Santa do Oriente o Rei do Mundo haveria de deslocar o foco da sua actividade, em um outro movimento axial, para esta outra Terra Santa do Ocidente.

Alegoria corânica semelhante à do frontal exterior da igreja de S. João Baptista, em Tomar.

Alegoria corânica semelhante à do frontal exterior da igreja de S. João Baptista, em Tomar

Curiosamente, relacionada com a simbologia dessa pedra esculpida encontra-se no Beatus Facundus, manuscrito com iluminuras moçárabes de cerca de 1047 ilustrando os comentários sobre a Revelação de S. João pelo Beato de Liebana no século VIII, o mesmo tema servindo de comentário a uma passagem do Apocalipse (V, 5:10). Diz:

“(…) Eis aqui o Leão de Judá, a raiz de David, que pela sua vitória alcançou o poder de abrir o Livro e de desatar os seus sete selos.

“E olhei e vi no meio do Trono e dos quatro Animais e no meio dos Anciãos um Cordeiro como morto que estava em pé, o qual tinha sete cornos e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus, mandados por toda a Terra.

“E veio e tomou o Livro da mão direita do que estava sentado no Trono.

“E tendo aberto o Livro, os quatro Animais e os vinte e quatro Anciãos se prostraram diante do Cordeiro tendo cada um a sua cítara e a sua redoma cheia de perfume, que são as orações dos Santos.

“E cantavam um cântico novo, dizendo: Digno és, Senhor, de tomar o Livro e de desatar os seus selos, porque tu foste morto e nos remiste para Deus pelo teu sangue, de toda a Tribo e de toda a Língua e de todo o Povo e de toda a Nação.

“E nos tens feito para o nosso Deus, Reis e Sacerdotes: e reinaremos sobre a Terra.”

Iluminura moçárabe do "Beatus Facundus"

Iluminura moçárabe do “Beatus Facundus”

Esse tímpano teve uma leitura arqueoastronómica por parte de Maurice Guinguand e Beatrice Lanne (in ob. cit.), que assim dizem: “Em frente do miradouro [do Castelo de Tomar] foi construída uma igreja a que foi dada o nome tradicional de São João Baptista – posição do Sol no solstício –, que fica também defronte do campanário octogonal. Na fachada foi esculpido um baixo-relevo.

“Dois animais de tamanhos diferentes, colocados de cada lado do motivo central, estão virados um para o outro. O maior representa um cão, indicando a constelação do Cão Maior, cuja estrela principal é Sírio ou Sothis. O outro, um leão, está relacionado com a constelação do mesmo nome e com a sua estrela Régulo.

“Quanto à figura central, trata-se de uma taça estilizada, relacionada com a constelação da Taça. O ângulo que parte do centro é de trinta e quatro graus, idêntico ao ângulo formado por esta constelação. Perto do baixo-relevo, para a direita, encontra-se uma pedra bastante pesada com uma cabeça de esfinge, formando um relevo bastante pronunciado, que nos recorda que é conveniente consultá-la para podermos compreender o significado da placa.

“Nela encontramos, evidentemente, todas as indicações necessárias e até outras. A constelação do Leão forma com a da Taça e a estrela Sírio, do Cão Maior, um ângulo de trinta e quatro graus à meia-noite real do dia 20 de Janeiro. Esta data coincide com a festa de São Sebastião, um dos santos padroeiros dos Templários.”

A verdade é que os atributos de São Sebastião indiciam-no Hommo Teluricus, e toda a sua hagiografia e posterior iconografia inserem-no, postam-no como axis do ideal aghartino, ctónico, diáblico e assim mesmo soberano, de maneira que se o vai encontrar idealmente identificado tanto a esse outro São Jorge (patente no tímpano desta igreja, recuando o seu culto aqui a D. João I e sua esposa, D. Filipa de Lencastre, e igualmente no claustro do Convento de Cristo próximo) quanto à enigmática e caprina figura do Baphometh, igualmente exposto em fecho de abóbada no claustro de Santa Bárbara no mesmo convento.

Tímpano medieval no exterior da igreja de S. João Baptista, Tomar.

Tímpano medieval no exterior da igreja de S. João Baptista, Tomar

Tudo aponta o Mestre Gualdim Pais (n. Amares, Braga, 1118 – m. Tomar, 13.10.1195) como o principal consolidador da Milícia de Agnus Castus (Sacerdotes), simultaneamente Domine Canes (Guerreiros), “Cães do Senhor”, ou seja, Guardiões da Fé, que foram os templários em Portugal (e igualmente nas outras Províncias). Em volta do Ideal Templário agregou as três correntes tradicionais do Livro e deu-lhes como que feição dinástica reunidas no culto ao mais santo dos objectos medievais: o Santo Graal, expressivo do Saint Grial ou Sangue Real que, afinal de contas, tanto poderá ser o de Cristo como o de todos os Fundadores da Fé.

Até esse Mestre (nado próximo de Braga, Primaz da Hispânia, e nesta vivido possivelmente em casa localizada na actual Rua de D. Gualdim), a Casa-Mãe da Ordem em Portugal era em Ceras (1159-1160), e antes em Santarém (1147-1159), Soure (1128-1147) e Fonte Arcada (1125-1128). Foi ele que a transferiu ad perpetum para Tomar que, assim, para sempre ficaria ligada ao seu nome.

Gualdim Pais foi eleito Mestre da Província de Portugal no início de 1159, quer pelo Capítulo reunido, quer pela vontade real, sucedendo no Mestrado a D. Fr. Pedro Arnaldo. Isto após ter feito a Guerra Santa no Oriente onde esteve presente no cerco de Ascalon, como testemunha uma lápide com caracteres latinos maiúsculos entrelaçados trazida do Castelo de Almourol e mandada colocar à entrada da capela-mor, por sobre a porta da sacristia velha do Convento de Tomar, pelo Infante D. Henrique quando era administrador da Ordem de Cristo:

“Era de 1209[11]. O Mestre Gualdim certamente de nobre geração natural de Braga, existiu no tempo de Afonso, ilustríssimo Rei de Portugal. Abandonando a milícia secular em breve se elevou como um Astro, porquanto, soldado do Templo, dirigiu-se a Jerusalém onde durante cinco anos levou vida trabalhosa. Com seu Mestre e seus Irmãos, entrou em muitas batalhas, movendo-se contra o rei do Egipto e da Síria como fosse tomada Ascalona, partindo, logo para Antioquia pelejou muitas vezes pela rendição de Sidon. Cinco anos passados, voltou, então, para o Rei que o criara e o fizera. Feito Procurador da Casa do Templo em Portugal, fundou, neste, o castelo de Pombal, Tomar, Zêzere e este que é chamado Almourol, e Idanha e Monsanto.”

Gualdim Pais trouxe consigo do Oriente as ideias religiosas de Bizâncio, inculcadas em muita da monumentalidade que mandou construir e decorar em Portugal, assim como também trouxe a relíquia sacra da mão direita de São Gregório Nanziazeno – que juntamente com São João Evangelista provaram a divindade de Cristo – “que em Tomar se guarda incorrupta, assim como o resto do corpo se guarda em Roma, com igual incorrupção”, segundo Viterbo no seu Elucidário, vol. II, pág. 580. A relíquia já não está na capela de São Gregório que em Tomar se construiu no século XVI, apesar da evocação do santo aqui recuar ao período de Gualdim Pais. De planta octogonal, esse pequeno templo sugere todo ele uma imitação ou réplica da Rotunda dos Templários, inclusive não lhe faltando o busto pequeno do “Ancião dos Dias” ou Adam-Kadmon, o Logos Planetário como Deus da Terra marcando os seus Ciclos ou Dias e do qual Melkitsedek é o mais próximo, algo assim como a Alma para o Espírito. Quanto à capela, apresenta um altar de talha popular ao fundo e azulejos de dois painéis de Setecentos vindos das Trinas de Lisboa; três portas – alusivas às 3 Pessoas da Santíssima Trindade aonde se recolhem as almas dos crentes, e durante largo tempo aqui funcionou como capela mortuária – dão-lhe entrada, com a do meio, rectangular, apresentando um curioso desenho formado por troncos e folhagens que se encontram na verga atados por nós em pedra esculpida, tendo ao centro a pequena e inesperada cabeça de homem barbado, o mesmo Adam-Kadmon como se vê na iconologia cabalística do Judaísmo. A sua cobertura é de abóbada. Um alpendre de oito colunas ligadas duas a duas, deixando três entradas livres, tem quatro águas irregulares, tudo numa feição rústica que vai resistindo ao tempo[12].

Entrada central da capela de S. Gregório, Tomar

Entrada central da capela de S. Gregório, Tomar

A função mortuária da capela de São Gregório (o “gargarejo”, gregório e gregorina como garganta emissora da voz orante cantada) assume assim carácter psicopompo ligado à Mãe das Almas, Nossa Senhora da Piedade, que do seu Monte próximo cola a este sítio por ladeira de degraus empedrados que os romeiros sobem e descem por altura da festa religiosa à Virgem, indo reflectir a subida das almas à Salvação e após encaminhando-se para o lugar do Trono do Padre Eterno, representado pela própria Charola. Com efeito, Manuel Gandra ao inscrever no plano da cidade uma circunferência configura nesta alguns triângulos isósceles, um deles formado nos ângulos por São Gregório, a Sinagoga e a Charola[13]. Isso é muito significativo e não deixa de corroborar o que acabei de dizer da condução das almas por intercessão de São Gregório junto da Senhora da Piedade, que as levará ao Céu do Eterno. A presença da Sinagoga impõe o seu padroeiro, São Miguel, também de carácter psicopompo antecedendo o santo bizantino.

Tendo sucedido ao Mestre D. Pedro Arnaldo que governara até então a Ordem através de um Colégio Magisterial ou Mestral, o novo Mestre D. Gualdim Pais, junto com a edificação da do Castelo de Tomar e da Charola mandou (re)construir a igreja de Santa Maria do Olival, na margem do Rio Nabão oposta ao castelo, obra iniciada em 1160 e terminada em 1175. A Casa Capitular da Ordem teve assento aqui, sendo cenóbio dos monges cavaleiros antes de puderem habitar dentro da cerca fortificada. Entretanto, juntara-se população e Santa Maria do Olival (sendo Orago a Senhora do Leite, a mesma do milagre da lactação de São Bernardo), que certamente se completou com a fachada terminada já em estilo evoluído na segunda metade do século XIII, foi bailio da Ordem e nela se instalou o panteão dos Mestres, cujos túmulos hoje não se vêm todos por causa de destruição perpetrada pelas más obras de «restauro» que lhe infligiu D. João III e o seu prior capataz, Fr. António de Lisboa[14].

De facto, até ao reinado de D. João I a igreja de Santa Maria do Olival foi “corporal” ou panteão dos Mestres do Templo em Portugal, desde D. Gualdim Pais até D. Lourenço Martins. Depois serviu igualmente de “corporal” aos Mestres da Ordem de Cristo, desde D. Gil Martins até D. Lopo Dias de Sousa.

Por causa das obras de demolição havidas no reinado de D. João III, hoje só sobra nesta igreja para memória daqueles Mestres Templários dois epitáfios tumulares, o de D. Gualdim e o de D. Lourenço. A daquele, colocada na capela lateral do lado direito da assembleia, escrita em latim assim se poderá traduzir:

“Morreu Frei Gualdim, Mestre dos Cavaleiros do Templo em Portugal, na era de 1233[15], terceiro dos idos[16] de Outubro. Este castelo de Tomar, como muitos outros, povoou. Descanse em paz. Ámen.”

Inscrição tumular de Gualdim Pais na igreja de Santa Maria do Olival, Tomar

Inscrição tumular de Gualdim Pais na igreja de Santa Maria do Olival, Tomar

A cruz inicial da legenda, a sua grafia, o seu pautado e o seu latim bárbaro dos princípios da Nacionalidade, são provas sobejas dela ser coeva da morte do Mestre, acontecida em 13.10.1195 da era cristã. Na do segundo, lê-se: “Aqui jaz D. Lourenço Martins que foi Mestre do Templo em Portugal. Passou em dia um de Maio da era de 1346 [1308]”[17].

Sobre esse último Mestre, escreveu José Manuel Capêlo[18]: “Renuncia ao Mestrado [em 1293], desgostoso, porventura, por notícias que lhe chegavam da situação por que passava a Ordem no Ultramar, depois da morte do Mestre da Palestina, Guillaume de Beaujeu – aquando da rendição de São João de Acre e da retirada para a ilha de Chipre do que restava da Milícia. Disse a lenda [ou a palavra posterior e demasiado fácil] que teria previsto, depois de tudo isto, a queda da Ordem. Assim, para não passar por vexames, devia evitar estar no seu governo quando tal acontecesse. Passou a simples cavaleiro, mas requereu a Comenda de Santarém”.

As prerrogativas, regalias e usos da igreja da Senhora do Olival, conservadas intactas até D. João II, são referidas por José António dos Santos que dá notícia da grande importância do lugar[19]:

“A egreja de Santa Maria do Olival foi bailia e matriz de todas as egrejas que a ordem de Christo possuia no reino, nas ilhas, em Africa, nas Indias e no Brazil. Gozava das honras de cathedral, e tinha ao seu serviço, como se vê em todas as sés, um masseiro com o bastão ou sceptro, e outros com massas de prata. Era isempta da jurisdicção dos bispos, não reconhecendo superioridade senão ao papa. O seu prelado tinha honras de bispo, celebrava pontifical e gosava de poderes quasi episcopaes na extensa prelazia de Thomar. Era n’esta egreja que as duas ordens do Templo e de Christo celebravam as suas solemnidades, apesar de ficar distante cerca de um kilometro do castello, onde tinham a sua residencia principal e templo com capacidade sufficiente para os mesmos actos.

“Havia n’esta egreja um livro similhante ao de Nôa do convento de Santa Cruz de Coimbra, no qual se iam registando todos os acontecimentos notaveis nao só da ordem e do paiz mas tambem da christandade e do mundo, os obitos dos mestres da ordem e dos soberanos do reino, as victorias alcançadas contra os infieis, o martyrio e canonisação de santos, terramotos, calamidades geraes, etc., constituindo assim interessantissimos annaes. Este livro, que denominam Bezerro, perdeu-se, infelizmente. Talvez que alguem o achasse.”

Se a igreja de Santa Maria do Olival destinava-se originalmente ao culto divino pelos tempreiros (como os consigna Viterbo no seu Elucidário), convém não ignorar que dentro do recinto do castelo, ao sul da alcáçova e não muito distante dela, havia um outro templo da invocação de Santa Catarina, anteriormente de Santa Maria do Castelo, que era destinado aos ofícios das tempreiras. Arruinado desde há longo tempo foi demolido no século XIX o que restava de pé, por ameaçar desabar. Respeitou-se apenas o campanário que, apesar de meio tapado, ainda se eleva acima da muralha.

Campanário da desaparecida igreja de Santa Catarina das templárias do castelo de Tomar

Campanário da desaparecida igreja de Santa Catarina das templárias do castelo de Tomar

É tradição, confirmada por um documento pertencente ao cartório do Convento de Cristo, que houve freiras templárias e tinham o seu convento dentro do Castelo de Tomar anexo à citada igreja de Santa Catarina, tendo uma fidalga de nome Justa, em 1271, lhes doado todas as casas que possuía intramuralhas para as usufruírem para todo o sempre, segundo notícia dada por Frei Bernardo da Costa[20]. Quanto ao documento comprovativo é uma escritura feita a 17 de Maio de 1290, na ocasião em que se celebrava o Capítulo Geral da Ordem do Templo presidido pelo Grão-Mestre D. Afonso Gomes, mandada lavrar por D. Maria (ou Mécia) Peres, senhora ilustríssima que foi mulher de D. Estevão Pires Espinal. Estes cônjuges já nesse tempo estavam separados: ele era freire templário e comendador de Santarém, e ela era freira templária tendo professado a Regra até ao fim dos seus dias.

Sobre o assunto e com muita acuidade, diz José Manuel Capêlo[21]:

“Tem-se, como em tudo o que à Milícia do Templo diz respeito, especulado com a existência de freiras templárias.

“Por vezes nos mesmos recintos, mas em casas separadas, onde viviam os monges-guerreiros, existiram conventos de templárias. Estas que nada tinham de guerreiras [que se saiba], apenas se confinavam à sua condição de monjas. Recebiam, para a Ordem, em seu nome, doações [a mais das vezes daquelas que nela queriam ingressar], bem como senhoras oriundas da alta e média nobreza, que, pelas mais variadas razões, procuravam professar. Ou porque tivessem enviuvado ou porque os respectivos maridos teriam professado no Templo como monges, chegando nalguns casos, como vimos a comendadores.

“A grande maioria, como se deixou dito, eram viúvas e, muito poucas, separadas. Raramente as solteiras pretendiam professar nesta Ordem essencialmente masculina. O rigor eclesiástico e a existência presbiteriana eram ainda maiores que as exercidas em outras congregações de religiosas. Também era raríssimo alguma abandonar, depois de ter, em consciência, professado.

“Em Portugal, os casos mais conhecidos destas figuras históricas, depois da rainha D. Teresa se ter tornado a primeira confrade da Ordem, em 1126, são:

“D. Maria Mendes, no Mestrado de D. Fr. Fernão Dias. Foi mulher de Aires Dias, que igualmente foi recebido como familiar;

“D. Maria Vasques, no Mestrado de D. Fr. Martim Sanches. Não se tem absoluta certeza de que se tenha tornado templária. Foi mulher de Pedro Ferreiro. Ambos requererão, através de doações feitas em nome da Ordem, a protecção desta, não só para si mesmos como para os seus descendentes;

“D. Fruíla Ermiges, no Mestrado de D. Fr. Guilherme Fulcon. Foi mulher de D. Afonso Ermiges, que professara e veio a ser comendador de Castelo Branco;

“D. Sancha Martins, no Mestrado de D. Fr. Martim Martins;

“D. Maria Pires, no Mestrado de D. Fr. Gonçalo Martins;

“D. Mécia [ou Maria] Peres, no Mestrado de D. fr. Afonso Gomes. Quando professou encontrava-se separada de seu marido, D. Estevão Pires Espinal, igualmente templário e comendador de Santarém.

“De que se tenha conhecimento, só em Tomar, no interior do castelo, parece ter existido um mosteiro para freiras templárias. Ao contrário de seus irmãos templários, aquando da extinção da Ordem, as religiosas filiadas no Templo, que viviam em Tomar, não ingressaram na nova Ordem e tiveram que mudar de hábito.”

Apesar de não se terem descoberto provas concretas da existência de mosteiros de templárias fora de Tomar, ainda assim mantém-se a suspeita, isto tanto para os seus territórios de Castelo Branco, como para Monsanto e Idanha-a-Velha e mesmo para Sintra, dentre outros lugares.

Essas monjas realizavam quase sempre trabalhos de hospital, mas algumas vezes dedicavam-se a confeccionar os uniformes dos cavaleiros: mantas, mantos, dalmáticas, etc. (o que era considerado trabalho de pano), e também se dedicavam às actividades de semeadura e colheita nos campos e ao cuidado do gado. Cabia-lhes armazenar todas as colheitas e os produtos lácteos que fabricavam (queijos, etc.) para os enviar aos cavaleiros na Terra Santa. Também lhes cabia a recepção das doações à Ordem, principalmente da parte de outras donatárias ilustres e abastadas, muitas das quais vieram a ingressar na Ordem.

Com efeito, houveram muitos mosteiros de monjas templárias espalhados pela Europa, como aquele que existiu em Combe-aux-Nonnains, na Borgonha, que dependia da Comenda de Épailly. Ainda em França, cito igualmente a filiação de madre Inês, abadessa de Camaldules de Saint-Michael de Ermo, e de toda a sua comunidade, à Ordem dos Templários. De igual modo casos similares em Lyon, Arville, Thor, Metz, etc.

O mesmo ocorreu com Azalais, mulher nobre de Roselon em 1133, que se entregou de corpo e alma a Deus e à Santa Cavalaria de Jerusalém, a do Templo, “para servir a Deus e viver sem bens sob a autoridade do Mestre”. Para isso entregou como esmola o seu feudo de Vilamolaque, com o consentimento dos seus dois filhos: “E que Deus me conduza até à verdadeira penitência e ao seu Santo Paraíso”[22].

Outro caso é o de D. Joana de Chaldefelde, esposa de Ricardo de Chaldefelde de Inglaterra, que entre 1189 e 1193 contraiu votos como irmã do Templo ante Azo, bispo de Wilshire. Este enviou-a com um certificado à Casa do Templo, “tendo em conta que havia superado a idade em que podia levantar suspeitas”. O curioso neste episódio de D. Joana é que ele proporciona um exemplo claro de uma postulante que observa as formalidades da Regra Latina e contrai votos ante o bispo da Diocese, que a envia ao Mestre provida de um certificado[23].

Monja templária em documento inglês da Ordem (fins do século XIII)

Monja templária em documento inglês da Ordem (fins do século XIII)

Volvendo ainda à igreja de Santa Maria do Olival, ou dos Olivais, defronte a ela eleva-se uma torre quadrada sua coeva medieval, depois mandada restaurar por D. João III. Entra-se nela por uma estreita porta ogival onde uma escadaria leva ao topo. A sua finalidade tem sido objecto de controvérsia por parte dos investigadores: para uns, destinava-se a proteger os Templários das razias agarenas, que assim resistiam até vir ajuda do castelo; para outros, seria uma espécie de zigurate caldaico ou observatório astronómico igualmente destinado, em épocas pré-fixadas, à celebração de certos ritos marginais à religião oficial (facto indesmentível é que no seu topo erguem-se dois vasos alquímicos). Poderá ser, tanto que não há memória nem registo de qualquer ataque agareno a Santa Maria do Olival, apesar de estar fora da protecção das muralhas.

Tanto mais que a caneça ou gueto dos cristãos moçárabes aí estaria, fora de portas (sinal de marginalização ante a sociedade religiosa e civil dominante, no caso, a árabe), e há memória de terem havia outras igrejas em volta desta: a de S. Pedro Fins, que se julga ter pertencido ao mosteiro de beneditinos ali existente in illo tempore; a capela de S. Miguel, situada defronte desta igreja; a capela de St.ª Maria Madalena, que se erguia junto à fachada setentrional da igreja de St.ª Maria do Olival. Foram todas destruídas num período prolongando-se desde o reinado de D. Maria I até à reforma de 1840, sendo os seus materiais aplicados na construção dos muros da vedação do cemitério próximo.

Terá sido estreita a relação entre a caneça eclesial e a alfama sinagogal tomarenses, aquela fornecendo a esta os óleos necessários para alimentar as lamparinas da sinagoga, por ser donatária do vasto olival arredor, e esta dando àquela os livros necessários ao entendimento da Fé.

Tem-se assim Luz e Fé, onde o Mikael sinagogal aparelha com a Myriam eclesial nas expressões de igreja celebrante e torre estrelada reflectindo, neste contexto, a Merkabah e a Shekinah, o “Carro da Luz” e a “Torre da Fé”, conceitos judaico-cristãos utilizados para expressar a Divindade no Céu e no Seio da Terra e que, como Homem Cósmico ou Adam-Kadmon, vem a ser assinalada na Estrela de Salomão, ou seja o pentagrama, afinal de contas, decorando a cimalha exterior da cabeceira e da entrada desta igreja “corporal” dos Mestres do Templo. Pentagrama ou pentalfa esse – igualmente esconjurativo das trevas vindo a expressar ao próprio Cristo, adoptado como signa dos primitivos monges-construtores – que viria a servir de logotipo às quinas das Armas de Portugal, aqui mesmo, nesta que foi a matriz ou sede prelatícia de todos os santuários marianos de Portugal Continental e Ultramarino.

Igreja de Santa Maria do Olival e Torre anexa, Tomar

Igreja de Santa Maria do Olival e Torre anexa, Tomar

Tão boa e próxima terá sido a relação entre judeus e cristãos que a mulher de Afonso Lopes Sapaio (ou Sampaio), trovador de origem judaica residente em Tomar, está sepultada nesta igreja de Santa Maria.

A Judiaria de Tomar (que ocupava inteiramente o espaço da Rua Nova, actualmente Joaquim Jacinto) é no mínimo anterior aos primeiros anos do século XIV (como prova a inscrição na lápide funerária do rabi Ioseph de Tomar, falecido em Faro no ano de 1315), e a sua sinagoga, alma do complexo alfamita, deu-lhe real importância no século XV, altura em que foi construída, entre 1430 e 1460, segundo Santos Simões[24], sendo indesmentível o contributo judaico fundamental para o crescimento de Tomar entre os séculos XV e XVI.

Na arquitectura desta Sinagoga de Tomar que conseguiu resistir às vicissitudes do tempo, ainda se vêem nas paredes as doze mísulas que simbolizam as doze tribos de Israel. As quatro colunas representam as quatro matriarcas: Sara, Rebeca, Lea e Raquel, estas duas últimas as gémeas filhas de Labão. É por isso que os capitéis decorados com motivos vegetais são em duas colunas e diferentes nas restantes.

Nada desdiz que moçárabes e judeus fossem coevos e que ambas as comunidades não tenham sido «enquadradas» posteriormente pela Ordem do Templo, simultaneamente «policiando-as» servindo de garante à transmissão do conhecimento de que eram depositárias. A própria disposição geográfica e toponímica do Castelo dos Templários, no cabeço do monte da Mata dos Sete Montes, enquadra-se nessa intenção esotérica: segundo a geografia do Centro Espiritual Supremo, tem sete faces o Monte Meru, a Montanha Primordial (Har-Qadim ou Arcádia), morada da Shekinah, Casa de Deus e Tabernáculo dos seus Anjos[25].

A própria disposição geométrica da sinagoga reflecte a disposição canónica da Casa de Deus, morada dos Justos e Perfeitos. A própria casa árabe, assim como a judaica (as quais a casa saloia da Estremadura tomou como modelo), fora este ou aquele excesso destoante, assentou originalmente sobre a raiz quadrada de dois (√2), portanto, sobre uma planta quadrada, tendo a habitação judaica no seu centro a casa de fora, ou de entrada, por onde se acedia às restantes divisões, enquanto a habitação árabe fechava-se em torno de um claustro quadrado encerrando no seu centro um jardim ou fonte, ou ambos: trata-se de um universo fechado em quatro dimensões (centro, altura, comprimento, largura), cujo jardim central é evocação do Éden, do Paraíso Terreal (presente em todos os espaços ajardinados monásticos com cerca em volta), aberto exclusivamente à influência celeste[26].

Para Abu Ya’qûb, o quaternário era o valor perfeito: o da Inteligência e o do Nome Divino, ALLH. Não há, pois, diferenças marcantes entre o significado atribuído às construções de planta quadrada, no Ocidente e no mundo judaico-islâmico[27].

Imitando o modelo judaico, observa-se que na cidade islâmica o elemento base é a casa, não a rua. A casa, como a mesquita e a madrasa, é um lugar sagrado, como diz acertadamente Hélder Manuel Ribeiro Coutinho[28]. Afirma o Al-Corão, cap. XLIX: “O interior da tua casa é um santuário: os que o violam chamando-te, quando estás nela, faltam ao respeito que devem ao intérprete do céu. Devem esperar que saias de lá: a decência o exige”.

Sendo a casa a imagem do homem, do seu morador e dono, vê-se na Idade Média a combinação das proporções, a unidade da medida ser determinada a partir das dimensões da figura humana, geometricamente representada pelo quadrado, aplicando-se frequentemente na arquitectura do Renascimento, ainda que durante o Gótico já fosse comum para o traçado das catedrais, o uso do sistema de proporções inteiramente derivado do quadrado (ad quadratum). Esta concepção foi traduzida no célebre desenho, o vitruvium de Leonardo da Vinci, onde o Homem, como Microcosmos, aparece inscrito no círculo e no quadrado. A largura dos seus braços estendidos é igual à altura do tronco e pernas unidas, portanto, formando uma cruz (o quaternário) correspondendo à medida do lado do quadrado. Sendo o Homem considerado o centro do Universo, segundo Pico della Mirandola, e elo de ligação entre Deus (o círculo celeste) e o Mundo (o quadrado dos quatro elementos da Natureza), a sua individualidade está impressa na robustez, humilde ou rica, da sua casa, por ela concretizando a quadratura do círculo, problema geométrico «insolúvel» que servia para assinalar a ascese mística como era corrente entre os neoplatónicos, ou seja, aquela permissora da elevação do homem racional à esfera divina.

Sinagoga de Tomar e a sua planta quadrada

Sinagoga de Tomar e a sua planta quadrada

A planta quadrada sinagogal vê-se ainda, de maneira estupenda, na tampa de sepultura de um rabi coevo do Infante Henrique de Sagres, tendo sobre ela o báculo ou ábaco do seu ministério. Essa peça funerária está depositada no pequeno museu de arte sacra de Vila do Bispo, Algarve, tendo sido achada nas suas cercanias, o que comprova ter havido aí presença judaica e possível influência cabalística junto do Ínclito Infante dos Mares.

Para diferenciar a sinagoga da igreja, deu-se vazão no século XIII à tradição do cruzeiro adiante da segunda, mas nem por isso deixando de ser herança judaica da disposição do primitivo Tabernáculo do Deserto e do Templo de Salomão, pois onde ele está estariam idealmente o Altar das Oferendas no centro do adro defronte ao Tabernáculo, e o Mar de Bronze dos Sacrifícios no Templo salomónico.

Isso porque as medidas geométricas do Templo cristão são as mesmas canónicas herdadas por via bíblica do antigo Templo judaico. Ademais, em matéria de Tradição Espiritual nada é feito ao acaso: o Conhecimento é transferido dos Anciãos (Profetas) aos Novos (Apóstolos) por herança regular, sem desvios de espécie alguma, e só os transvios poderão ocorrer após a transmissão, mas desta nunca há desvio.

Não devo terminar sem referir a maior herança etnográfica judaico-cristã sobrevivendo até hoje e exclusiva de Tomar: a Festa da Romaria dos Tabuleiros.

Sendo festejo consagrado ao Divino Espírito Santo mas em versão diferente da tradicional de Alenquer e Sintra, terá sido na Idade Média que os templários cristianizaram esta celebração popular genuinamente judaica da Festa dos Tabernáculos, sobrepondo-lhe o ideal messiânico (Joaquimita) da Igreja do Amor, pelo que se vê no topo de cada tabuleiro a coroa do Espírito Santo encimada pelo ícone da pomba, ou então a Cruz Salvífica de Cristo, sendo aí mesmo lugar o lugar cimeiro ou majestático da Shekinah, a “Presença Real de Deus”. Os pães de 400 gramas cada, tipo “tabuleiros”, alongados e roliços com cintura, são enfiados em grupos de seis em cinco canas ou varas, ao todo 30, cujos cestos só podem ser transportados à cabeça por mulheres, apoiadas pelos seus pares masculinos, tal qual os de Proposição que as mulheres de Israel acompanhadas dos maridos levavam ao Templo de Jerusalém, pela Festa do Tabernáculo na Primavera, e as flores que os decoram serão as da germinação de um novo ciclo de prosperidade o qual, para o conceito de Parúsia dos templários, certamente seria sinal mais amplo da futura Idade do Espírito Santo.

Bandeira do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar

Bandeira do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar

O grande cortejo dos Tabuleiros (festa que se realiza a 4 de Julho em cada 4 anos) onde fiadas de casais desfilam pelas ruas de Tomar, é seguido dos carros triunfais com a carne, o pão e o vinho (que no dia seguinte são distribuídos pelos necessitados do concelho, acto semelhante ao bodo mas aqui chamado pêza), os quais são puxados por bois de cornos dourados e fitas pendentes – os bois do Espírito Santo.

De maneira que sendo o pão e o vinho generosamente distribuídos na eucaristia dos pobres, tal acto recorda-me aquelas outras palavras de São Clemente de Alexandria: “Bem-aventurados aqueles que alimentam os que têm fome de justiça pela distribuição do Pão”. Ora os Pães de Proposição dos hebreus também não tinham significado diferente desse. E o pão ázimo – de que hoje se compõe a hóstia – “representa ao mesmo tempo a aflição da privação, a preparação para a purificação e a memória das origens”, diz São Martinho.

É tradição que Beith-El, a “Casa de Deus”, que é Lusa, a “pedra de cabeceira” erguida por Jacob, se tenha transformado em Beth-Lhem, a “Casa do Pão”. A pedra se transforma em pão, ou seja, a presença simbólica de Deus se converte em presença substancial, em alimento espiritual impondo-se ao inteiramente corporal. O pão, ainda, nas vivências eucarísticas relaciona-se tradicionalmente com a vida activa, claustral, e o vinho com a vida contemplativa, clausural; o pão com os Pequenos Mistérios, e o vinho com os Grandes Mistérios, a catequese e a teologia. Isso  aproxima-se do que dizem os Evangelhos acerca do milagre dos pães (a sua multiplicação), sendo esse de ordem quantitativa, e do milagre do vinho (nas bodas de Caná), que é de ordem qualitativa.

O simbolismo do fermento exprime-se, nos textos evangélicos, sob dois aspectos: de um lado, ele é o princípio activo da panificação – símbolo de transformação espiritual; a sua ausência comporta, por outro lado, e aqui volta-se ao significado do pão ázimo, a noção de pureza e sacrifício.

Também se distribui a carne, e nisto entra o simbolismo do boi, ou melhor, do touro de chifes dourados e enfeitado por fitas coloridas. Símbolo da Força Criadora da Mãe-Terra, o touro representou o Deus El da Israel do Deserto, sob a forma de uma estatueta destinada a ser presa à extremidade de um bastão ou de uma haste: uma insígnia portátil, semelhante à do Bezerro de Ouro. O culto de El, praticado pelos patriarcas hebreus, foi proscrito por Moisés, ainda que tenha subsistido até ao reinado de David. Já no Templo de Salomão (I Reis, 7: 25), doze touros carregavam o Mar de Bronze destinado a conter a água lustral: “Este repousava sobre doze bois, dos quais três olhavam para o norte, três para o oeste, três para o sul e três para o leste; o Mar se elevava sobre eles e a parte posterior dos seus corpos estava voltada para o interior”.

De modo que se está perante um festejo de raízes judaicas mas já aqui cristianizadas, e ao mesmo tempo, por via do seu carácter agrário ou campesino, com sabor céltico, o que vai bem com a herança sociológica medieval da cultura rural pelos templários. Nisto, o touro El hebreu seria o cornúpeto Lug céltico, logo aproveitado para montada «bafomética» do Espírito Santo na forma de Shekinah encoberta no Centro da Terra, ou seja, em seu Sanctum Sanctorum.

Touros do Divino Espírito Santo, na Festa dos Tabuleiros de Tomar

Touros do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar

Por isso, ainda hoje a Romaria dos Tabuleiros faz-se na parte baixa da cidade, desde a igreja de São João Baptista e indo atravessar a ponte sobre o Nabão em direcção a Santa Maria do Olival, cujo Leite dá a beber, idealmente, aos filhos da Sua devoção. Filhos esses que são conduzidos a Ela pelos próprios templários, os cavaleiros de manto branco sobreposto pela cruz vermelha, afinal as cores daqueles devotos carregando hoje os tabuleiros quais assacis modernos: nelas a faixa vermelha perpendicularmente sobre longo vestido branco, e neles a gravata vermelha sobre camisa branca e calças pretas.

O Tabernáculo era a parte mais reservada e sagrada do Templo de Salomão (algo semelhante à Custódia no altar-mor da igreja), por nele se conter a Arca da Aliança. Representava o macrocosmo universal sintetizado, contido no microcosmo humano: era a “Morada de Deus” (Êxodo, 26:11), pelo que “o mundo inteiro está descrito no sinal sagrado do Tabernáculo”, segundo São Jerónimo, Epístola 64 para Fabíola. No Altar de Proposição ou de Oferendas do Templo de Salomão haviam doze pães (representativos das doze tribos de Israel, auspiciadas pelos doze signos do Zodíaco) que, como alimento místico, assinalavam a Sabedoria a qual, a par do néctar ou seiva vital da Mãe da Criação, associa-se ao Amor, logo, Panis Vitae alimentando as mentes e os corações dos justos e perfeitos, cada par carregando o seu tabuleiro florido como se fosse uma coluna de luz da Jerusalém Celeste que, nesta Festa tomarense, por momentos é testemunhada na Terra.

Romaria da Festa dos Tabuleiros, Tomar

Romaria da Festa dos Tabuleiros, Tomar

Assim cada romeiro(a) transforma-se tanto em arauto como em pontífice ou medianeiro do Céu com a Terra, carregando o pão espiritual alimento de toda a Humanidade para que, enfim, possa se consumar a suprema Eucaristia Mental e Coracional de Deus com o Homem e a Nova Idade de Promissão floresça finalmente em todo o Orbe, que não é tão-só a Lusitânia mas toda a Terra em Luz.

Essa é a maior mensagem da Festa dos Tabuleiros. Realizá-la, depende de um e de todos.

NOTAS

[1] Os Dez Mandamentos cristãos provêm do Kodesh hebraico. O “primeiro mandamento” é o do Deuteronómio, 6: 4-5 (cf. também Marcos, 12: 29-32), e o “segundo mandamento”, igual ao primeiro, decorre do Levítico, 19:18: “Tu amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Eterno”.

[2] Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2006.

[3] John R. Hinells, Dicionário das Religiões. Editora Cultrix, São Paulo, 1995.

[4] Rafael Alarcón, La otra España del Temple. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[5] Maurice Guinguand e Beatrice Lanne, O Ouro dos Templários (Gisors ou Tomar?). Livraria Bertrand, Lisboa, 1978.

[6] R. Röhricht, Regesta Regni Hierosolymitani. Innsbrück, 1839, p. 19 doc. n.º 83, e p. 25 doc. n.º 105.

[7] Pedro de Mariz, Diálogos de Vária História dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderam achar. Lisboa, por António Craesbeek de Mello, impressor da Casa Real, ano 1672.

[8] Vieira Guimarães, Thomar, Santa Iria. Lisboa, 1927. E ainda, segundo Manuel Gandra, Pedro Álvares, Escrituras da Ordem de Cristo, in Arquivo Nacional da Torre do Tombo, gaveta 15, maço 3, n.º 15; Mestrados, fl. 93v.

[9] J. Michelet, Procès des Templiers (Collection des Documents inédits sur l´Histoire de France). Paris, 1841-1851.

[10] Manuel J. Gandra, Martinets de Pasquallys e a Tradição Quinto-Imperial. Lisboa, 1979.

[11] Ano 1171, da era de Cristo.

[12] José-Augusto França, Tomar. Editorial Presença, Lisboa, 1994.

[13] Manuel J. Gandra, O Projecto Templário e o Evangelho Português. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda., Lisboa, Março 2006.

[14] Monumentos de Portugal, Thomar. Litografia Nacional, Porto, 1929.

[15] 1195 d. C.

[16] Terceiro dos idos, o mesmo que treze.

[17] Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, A Igreja de Santa Maria dos Olivais, n.º 27, Março de 1942.

[18] José Manuel Câpelo, Portugal Templário. Relação e sucessão dos seus Mestres [1124-1314]. Aríon Publicações, Lda., Lisboa, 2003.

[19] José António dos Santos, Monumentos das Ordens Militares do Templo e de Christo em Thomar. Typografia da Bibliotheca Universal, Lisboa, 1879.

[20] Frei Bernardo da Costa, História da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo. Officina de Pedro Ginioux, Coimbra, 1771.

[21] José Manuel Capêlo, ob. cit., pp. 205-206.

[22] Gigues Alexis Marie Joseph André, Marquis d´Albon (1866-1912), Cartulário geral da Ordem do Templo, 1119? – 1193, carta n.º LXVIII – 1150. Deste Cartulário do Marquês foi feita depois a recolha e inventariado das suas cartas por Emmanuel de Grasset, tendo cabido o reportório dos registos e dos papéis a Joseph Billioud, investigadores ao serviço do Arquivo Departamental da Câmara Municipal de Marselha, 1966.

[23] Beatrice A. Lees, Records of the Templars in England in de twelfth century: the inquest of 1185. Munchen, Kraus Reprint, 1981.

[24] J. M. Santos Simões, Tomar e a sua Judiaria. Edição do Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto, Tomar, 1943.

[25] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal. Lisboa, 1986.

[26] Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. Paris, 1906.

[27] Jaime Manuel Sousa, Arquitectura Alentejana: o Quadrado. In “O Estudo da História”, Boletim dos Sócios da Associação de Professores de História, n.º 5-6 (II Série), 1988.

[28] Hélder Manuel Ribeiro Coutinho, Al-Usbuna – a Lisboa Muçulmana. In revista “História”, n.º 96, Outubro de 1986.