A cultura céltica, nomeadamente a hispânica celtibera (celta e ibera), pelos dados históricos disponíveis, dá a entender que marcou decisivamente a organização Templária desde o Sul de França até para cá dos Pirinéus, como igualmente a sua actuação numa sociedade essencialmente rural, o que irá ser motivo de análise neste estudo.

Assim, além das culturas romana e árabe, quase nos primórdios do Período Histórico encontra-se a civilização celta incorporada à autóctone ibérica de que sairiam os lusitanos ou lugsignan, identificados aos ligures da Península Itálica que terão sido povo com sangue atlante descendente directo dos mais míticos que mitológicos Tuatha de Danand, os quais estão na origem da tradição e civilização ibérica e hibérnica (irlandesa)[1].

De raízes neolíticas, os lugsignan (mistura de celtas e iberos) certamente foram os arquitectos da monumentalidade lítica que hoje é testemunha dos primórdios da presença humana nesta nossa Península, eles os intuídos que cedo souberam estabelecer uma simbiose telúrica entre o espaço sideral e a Terra, a sua estrutura vital aflorada à superfície por campo de nódulos e correntes energéticas envolvendo todo o Globo. O celtibero e o lusitano conectaram a sua vivência com a disposição desse espaço energético, sacralizaram-no plantando monumentos (cromeleques, tholos, dólmens, antas, antelas, menires, etc.) onde eram mais intensa a afluência telúrica, e assim deram nascimento ao culto da Grande Deusa, a Deusa-Mãe, afinal, a própria Terra, fecundada pelo Sol e fecundante pelo poder das suas energias vitais, o que se revelava nas boas águas para beber e pescar, nos bons terrenos para semeadura e colheita, nos ares saudáveis e nos espaços verdejantes para pastorícia e saúde do gado. Essa foi a primitiva religião agrária, nómada por um lado, por se mover sob o pretexto de busca constante de terras e águas boas, e sedentária por outro, indo plantar castros e citânias para habitação em lugares oferecendo essas condições indispensáveis à manutenção da vida, as quais só poderiam atribuir à Grande Deusa, Mãe Primordial de todos os demais deuses zoomórficos e antropomórficos em que se constituía o seu monopanteísmo original, de que deixaram testemunho à posteridade nesses lugares, repito, previamente demarcados por basta e variada monumentalidade lítica.

Nascem assim os bosques sagrados, os lagos sagrados, as montanhas sagradas, as grutas sagradas, etc., sempre assentes em confluências de telurismo intenso, como acontece no aro megalítico do Alentejo, que junto com Sagres e Sintra formam o espaço telúrico de maior intensidade do país[2]. Esses conhecimentos geomânticos primitivos viriam a ser recuperados pelos Templários para se instalarem em espaços já anteriormente demarcados e consignados sagrados pela religiosidade celta, os quais vieram a dar no que hoje se convencionou chamar de “enclaves mágicos” do Templo, tão celebrizados por uma cultura marginal “pop new age” mais urbana que rural, campesina, paisan ou “pagã” como era na origem.

Herança desse dominador mágico celta herdado pelo Saber Templário em meio de uma sociedade predominantemente rural, tem-se:

1 – As bases geométricas da Arquitectura, como se repara, por exemplo, na composição dos cromeleques “quadrados” com o menir fálico, da pujança viril, cravado ao centro, que viriam a estar na inspiração geométrica do “quadrado da terra” e do “padrão” ou mundus da arquitectura românica nascida dos colegia fabrorum ou de artífices da Roma antiga. Há mesmo casos repetidos de antas primitivas terem sido posteriormente adaptadas a ermidas e capelas cristãs, como também o do aproveitamento do espaço de antigos cromeleques para sobre eles se assentarem as bases de igrejas e castelos, e assim igualmente o aproveitamento de muitas mamoas para “mães d’água”.

2 – O conhecimento geomântico exacto do movimento das linhas telúricas da Terra e os pontos de encontro de várias delas como nódulos telúricos, assim sabendo onde estavam as terras e águas boas para semeadura e consumo, como igualmente o lugar preciso para plantar um edifício, sacro ou não, que ficasse isolado das correntes negativas afectando o espaço ambiental e meteorológico, e assim aos temperamentos humanos e dos restantes seres vivos (animais, vegetais e minerais).

3 – O conhecimento exacto das propriedades medicinais das plantas e minerais, ou seja, a farmacognosia, aplicada como farmacologia natural sendo claramente um saber taumatúrgico herdado dos celtas. Foram os médicos do Templo quem descobriram a causa da lepra negra (assim chamada por deixar os corpos enegrecidos, em putrefacção ainda vivos, contaminando de imediato outros): estaria no centeio (com que se fazia o pão) plantado em zonas pantanosas próximas do mar, contaminado pelo salitre e pelos insectos.

Esses são exemplos da recolha feita do saber celta pelos mais doutos do Templo, e que tanto a religião como a medicina populares, do conhecimento dos mais antigos, ainda preserva[3].

Cromeleque "quadrado" do Xarez em Reguengos de Monsaraz, Alentejo

Cromeleque “quadrado” do Xarez em Reguengos de Monsaraz, Alentejo

Bem antes da presença celta regista-se na Península Ibérica a existência dos ligures, a quem Saint-Yves d’Alveydre (nos seus Arqueómetro e Missão dos Judeus) chama de “mestres do mar”, ao decompor a palavra em li+guru, o que lhes atribui origem além-Atlântica, isto é, atlante, cujos conhecimentos de navegação igualmente se reflectiram naqueles outros fenícios proto-históricos. Os ligures ter-se-ão mesclado aos iberos e dado essa etnia nova dos lugsignan ou lusitanos, cuja existência longa iria atravessar vários milénios a ponto de virem a fundir-se depois tanto nos celtas, dando os celtiberos, como nos romanos, dando os luso-romanos.

Os lusitanos, já então celtiberos, receberam o legado cultural e mágico dos primitivos lugares (isto é, lug+ara, “altar de Lug”) consagrados ao culto desse deus supremo do panteão ligure, a par de sua esposa Lusina, destinada à eleição de padroeira dos construtores-livres no período cristão, tanto sob a feição de Santa Madalena como de Santa Luzia. São marcas indeléveis da presença de Lug os referidos lugares “Lug” ou “Lux”, no contexto geral a Lusitânia inteira, como “Terra de Luz”, e no mais particular Lisboa, Logroño e Lugo, por exemplo, no caminho da peregrinação a Santiago de Compostela e nos caminhos encobertos da Intra-História peninsular. Lug (depois assumido como deus Endovélico pelos celtiberos e que o judaico-cristianismo identificaria a Mikael ou São Miguel, tudo em conformidade à sucessão dos ciclos religiosos nas respectivas antropologias civilizacionais), obreiro universal, demiurgo, mestre de artes e alquimista, músico, guerreiro e mago, o poderoso deus tutelar da Lusitânia que os ligures e os celtas transportaram consigo na sua marcha para onde o Sol se põe, as Occidens, com os olhares fixos no caminho estelar de Santiago ou a Via Láctea e tendo por guia o Canis Majorem, a estrela do Cão (símbolo jacobeo do guia, guardião e protector do peregrino viandante ou itinerante), chegando finalmente as finis Terrae, onde toda uma civilização megalítica e castreja foi plantada junto à orla atlântica ornando o espaço do que é hoje Portugal[4].

O caminho tortuoso da Iniciação Ligure ficou assinalado nos labirintos decorando o espaço interior de várias catedrais cristãs, como a de Chartres[5] e a de Santiago de Compostela, nesta última palmilhado pelo peregrino que a adentra indo prestar homenagens ao Apóstolo, desde o Pórtico da Glória com a Coluna de Jessé até à descida na cripta onde repousam os pressupostos restos mortais de São Tiago Maior, encerrados num sarcófago de prata. Este labrys ou redondo para o ponto central de si mesmo, é representado em uma escala simples e lúdica pelo simbolismo do Jogo da Glória ou do Ganso, “oca” em espanhol, e que foi o emblema de Lusina adoptado como insígnia dos construtores-livres medievais, pois, como se vê nas estelas funerárias do antigo cemitério de Iria Flávia,  a maioria deles assinava as suas obras com um pé de ganso, forma estilizada simples da flor-de-lis, esta considerada na Tradição Iniciática símbolo da Consciência Universal como lótus sagrado de Agharta.

Rafael Alarcón[6], acerca do Jogo do Ganso ou da Pata (a pata do ganso, a meu ver, já que o pato é a expressão mais doméstica do ganso, aquele mais passivo e aquático e este mais irreverente e ígneo), diz o seguinte:

“Há um complicado puzzle de símbolos ancestrais que querem significar algo muito mais distinto do que representam: um cisne e uma pata têm três filhos, dois pequenos cisnes e uma pequena pata; a pequena pata é raptada por um herói grego, já cinquentão, que havia conseguido entrar e sair do labirinto de Minos vencendo os seus perigos graças aos ensinos dum centauro; os irmãos cisnes vão resgatá-la para evitar que Helena-pata sofra a sorte de Ariadne, abandonada pelo seu herói pouco depois de ter sido raptada. Anos mais tarde a pequena pata, já crescida, será raptada por um troiano; serão então todos os gregos a quererem-na resgatar, provocando a conseguinte guerra no transcurso da qual se inventará o Jogo da Pata.

“É desde logo uma mitologia “labiríntica”, plena de símbolos com duplo e triplo sentido, que só pode ser desmascarada seguindo um fio subtil. Talvez o fio de Ariadne, levando à porta do labirinto? Labirinto espiralado que os Companheiros puderam percorrer, indistintamente, no lombo da Jaca-Cábala, a pé com as suas patas palmeadas, ou cavalgando sobre um caracol…

“Retornando aos nossos Companheiros medievais, há certos signos ou elementos simbólicos que lhes são próprios correspondendo-se paralelamente com elementos do Caminho Jacobeo e do Caminho da Pata, ainda que seja, quiçá, mais acertado dizer que determinadas casas do Jogo da Pata estão marcadas, definidas, pelos simbólicos elementos ocultos do Caminho de Santiago…

“A entrada, podemos comprovar em todos os tabuleiros, antigos e modernos, fica assinalada pela pessoa “mágica” do personagem que, sobre o desenho, vai realizar a peregrinação. O dito personagem, que pode aparecer tanto numa casa especial sem número como na número um, adopta as mais variadas características: um jogral, um gnomo, um mago ou astrólogo, um peregrino, etc., o qual costuma aparecer numa destas duas posturas: ou está em atitude de lançar os dados para começar o jogo, ou então conduz uma pequena bandada de patas incitando-as com a sua vareta a caminhar pelo caminho espiralado. Em qualquer dos casos fica claro que o nosso personagem simboliza o Mestre Iniciador, disposto a guiar-nos pelo caminho com a ajuda da sua vareta mágica ou com as instruções contidas nas medidas harmónicas dos dados, verdadeiras pedras angulares do jogo, como de toda a construção teórica.”

Realmente, a disposição desse jogo é muito significativa. O tabuleiro compõe-se de 63 casas, valor que reduzido teosoficamente dá 9, número dos ciclos da Terra (e a cada 9 casas dá-se novo período de jogo), e à divisão do círculo em “9” os monges-construtores chamavam de “pata de ganso”, sendo daí que o jogo recebeu esse nome. Na casa 58 (valor que somado e reduzido dá o Arcano 13) tem-se a “Morte”, e quem a vencer ou transpor fica a 5 casas de chegar à Glória, à Vitória, à Perfeição Humana que é o que o 5 alegoriza.

Sobre a Iniciação Ligure praticada pelos Lusitanos, tive oportunidade de descrevê-la na minha História Oculta de Portugal (cap. 15, pp. 300-302):

“Voltando aos dólmens, eram formados por uma câmara octogonal, interiormente da altura de um homem e com um pequeno corredor de acesso, com cerca de 1,2 m de altura. Assim constituído teria o formato de um útero, o útero da Mãe-Terra onde só podiam entrar, logicamente, pessoas do sexo masculino, devido aos opostos macho-fêmea.

“A câmara octogonal devia situar-se sobre o cruzamento de dois lençóis de água subterrâneos, ponto nevrálgico para onde o telurismo converge fazendo se sentir mais. O formato em octógono, para os Lugsignan, permitia a recepção máxima dessa força e a sua reflexão para o centro da câmara onde o iniciado, nos momentos propícios ao acto solene, mantinha-se de pé 24 horas[7].

“O dólmen possuía tradicionalmente uma tríplice porta, duas entradas laterais e uma central, todas com cerca de 1,6 m de altura, o que forçava, a quem a transpunha, baixar a cabeça – sinal de veneração e humildade perante a cerimónia de iniciação que se iria desenrolar. O momento escolhido era decidido em função do posicionamento dos astros, no instante em que as forças telúricas atingissem, no entendimento esotérico dos druidas, o máximo de fixação e irradiação local[8].

“Depois disso o iniciado era obrigado a inclinar o tronco para atravessar o pequeno corredor, de 1,2 m de altura, até à câmara. Acreditavam os druidas (termo oriundo do celto-bretão dru-vid, “o que possui a sabedoria e o poder”) que essa posição forçada lhes permitia a valorização do nível emocional do corpo humano. Eles acreditavam existir 3 níveis – o mental para o cérebro, o emocional para o coração e o impulsivo para o baixo-ventre –, quase se anulando o primeiro e o último níveis naquela posição. Havia mesmo dólmens (como o de Torres Novas, por exemplo) em que o corredor só podia ser transposto rastejando… como a serpente, simbólica das sinuosas correntes telúricas, facilitando assim uma comunhão mais íntima com as forças interiores da Mãe-Terra.

“Em conformidade sintónica com o momento ideal de recepção do máximo de telurismo vibrante, entravam na câmara octogonal e durante 24 horas mantinham-se de pé no seu centro, o tempo necessário para a rotação completa da Terra. Estavam prontos, depois, já devidamente instruídos, para desempenhar a missão que lhes iria ser confiada como novos druidas.”[9]

O "tellus draconis" celta no Castelo Templário de Tomar

O “tellus draconis” celta no Castelo Templário de Tomar

Pois bem, quando os celtas, vindos da Gália e da Bretanha, atravessaram os Pirinéus e se instalaram na Península Ibérica, incorporaram o elemento autóctone ibero-lusitano o qual, por sua parte, também os incorporou, e assim nasceram os celtiberos.

O nome celta ou kelta tem a sua raiz no etimólogo ligúrico eld, ald ou oold, que encontramos na kaldeia ou aldêia, a comunidade hindu, e igualmente na aldeia, a comunidade rural portuguesa. O termo celta ou ka-eld indica, pois, a “assembleia dos anciãos”, ou sejam os druidas, cujo colégio constituía o poder central da pequena sociedade rural que era a aldeia e cujo modelo serviu, depois, para os Templários organizarem e dirigirem o espaço social inserto no território sob a sua jurisdição com o governo centralizado em alguma Casa sua.

Esses eram os primitivos galos oriundos da Gália, aos quais a Galiza deve o nome, dizendo Jorge Ramos[10] que os seus condutores espirituais, os druidas, não só tinham como centro referencial do seu culto o Sol, Oiw, como igualmente cultuavam a Ísis céltica, Ceres ou Ceridwen, afinal, a Natura Naturante et Naturata.

Júlio César dedica aos druidas três capítulos dos seus Comentários, e Estrabão e Artemido comparam os seus ritos aos de Samotrácia, apesar de Dionísio de Halicarnasso (8. a. C.) os equiparar aos de Baco, ainda que, em boa verdade, possuíssem todas as características do Rito Mitraico. Por Diógenes Laércio e Júlio César sabe-se que o método druida de instrução era por símbolos, enigmas e alegorias, sendo a explicação só oral, enquanto por escrita era proibida (coisa que os Templários também terão feito, e daí a dificuldade em encontrar hoje documentação de sua própria lavra). Também se diz que as suas cerimónias de iniciação admitiam tanto homens como mulheres (tal qual como entre os Templários), e exigiam muita purificação física, moral e mental. A iniciação dividia-se em períodos trimestrais, celebrando-se durante os Equinócios (para as mulheres) e os Solstícios (para os homens), compreendendo três graus em que se dividia a hierarquia druida, cujo conselho dos 12 anciães estava organizado em torno de um 13.º, o arquidruida.

Portanto, tem-se:

Joaquim Gervásio de Figueiredo[11] diz que os principais mandamentos impostos aos druidas, eram: “Obediência à Lei Divina. Interesse pelo bem-estar da comunidade. Suportar com fortaleza todos os males da vida”. Adianta o mesmo autor que terminando o seu período probatório, vestiam o candidato com uma túnica de estrias brancas, azuis e verdes, cores da Verdade, Devoção e Simpatia, alegorizando os Mundos Espiritual, Psíquico e Material; encerravam-no numa tumba com o formato interior de um corpo humano e aí ficava deitado durante três dias em transe profundo (que nada tem a ver com os famosos “estados catalépticos” da confusa psicanálise e nem, tampouco, com os “transes animistas” do deplorável espiritismo, ou melhor, animismo psíquico, mas mais com a consciência desdobrada da forma física em projecção ao nível espiritual). Após despertar, o iniciado mantinha-se sob as ordens do Iniciador e este fazia-o dar nove voltas no santuário, com um passo comedido no começo mas aumentando até terminar numa carreira rápida. Enquanto fazia essas circunvalações, ouviam-se instrumentos musicais e recitações em louvor daqueles que foram heróicos na guerra, corteses na paz e amigos na religião. Terminada essa cerimónia, o neófito jurava guardar segredo e passava por diversos actos nos quais representava vários personagens, exclamando entre outras coisas: “Eu morri” e “Eu ressuscitei”, em alusão à morte e ressurreição místicas. A este respeito comenta o dr. Olivier na sua History of Initiation, pág. 146: “Nisto consistiam a morte e o sepultamento celebrados nos Mistérios Druídicos. Ao terminar os nove meses, dizia-se que o aspirante havia nascido de novo do ventre da deusa Ceridwen e declarava-se que, por isso, era agora uma pessoa regenerada, purificada de suas antigas impurezas”.

Desconheço a existência de algum documento coevo dos Templários explicitando que também eles realizavam o rito da morte e ressurreição, mas conheço vários monumentos funerários seus nos quais os interiores dos túmulos estão cavados em forma humana, como se verifica, por exemplo, em Monsanto e em Vila Franca de Xira, domínios que foram seus.

Tanto nas Gálias como na Bretanha, os druidas foram tratados com o máximo rigor pelos invasores romanos depois de uma heróica e tenaz resistência, devido ao poder da sua influência política e religiosa sobre o povo, como relata Tácito e outros. Mas no norte de Inglaterra eles subsistiram ainda até 714 d. C., aquando os monges de Iona foram expulsos da Escócia pelo rei picto Nechtan, e o seu lugar foi em grande parte ocupado pelos culdeus da Irlanda, que parece terem seguido a mesma tradição até ao século XIV, quando desapareceram dos anais históricos da Europa, mas não sem antes terem infundido na religiosidade cristã e rural esses cultos e crenças pré-cristãs, cuja fase mais notória da sua infusão foi precisamente a páleo-cristã (visigótica).

Todo o itinerário lusitano e celtibero desde Sagres a Finisterra está sulcado de testemunhos megalíticos assinalando a sua presença, e nesses mesmos espaços telúricos onde estão não raro os Templários construíram próximos a eles castelos, conventos, igrejas, capelas e ermidas, como que assimilando a potência antiga Druida à novel Templária[12].

O autor junto ao Menir do Outeiro ou Penedo Comprido, em Monsaraz, o maior da Península Ibérica

O autor junto ao Menir do Outeiro ou Penedo Comprido, em Monsaraz, o maior da Península Ibérica

Chega-se mesmo a ver dólmens convertidos em capelas, o que dá continuidade à tradição do megalitismo agora no terreno da Cristandade que a recebeu em boa parte graças, decerto, à influência do saber geomântico dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão. Um caso notável tem-se no limiar da povoação de Alcobertas, junto da Serra de São Bento, a caminho de Rio Maior. Vê-se aí a singular igreja de Santa Maria Madalena com um dólmen do Paleolítico transformado em ermida adossada a ela. E diz a lenda que foi a própria santa quem transportou à cabeça todas aquelas pedras para ali, impondo assim a construção da igreja arrimada ao dólmen e destruindo todas as noites as tentativas de edificação noutro lugar[13].

A «pecadora» galileia, Myriam Ben Magdala, é bem a versão cristã e cortês de Melusina ou Lusina (a mesma Atégina celto-lusitana)[14], a Deusa-Mãe dos povos proto-históricos destinada a ser Orago dos construtores-livres. Esposa do deus Lug, observa-se este na nova versão tanto do Apóstolo Lucas como do mártir Lourenço, o santo que, por «acaso», está sempre presente nos enclaves mágicos dos Templários, lugares igualmente propícios à observação dos fenómenos celestes como esse das “chuvas de estrelas”, às quais o povo chama de “lágrimas de São Lourenço”. Santo solar ou ígneo, indicia sempre um itinerário da mesma natureza pelo que, com as devidas e raras excepções, marca  presença no começo ou final deste, razão de ser dessas capelas de São Lourenço em Tomar, de Carnide em Lisboa, junto à Pontinha desta, de Azeitão, às portas da Serra da Arrábida, ou ainda de Budens, a caminho do Promontório de Sagres pouco antes da “Vila” do Infante D. Henrique, ou seja, a Quinta da Guadalupe.

O saudoso amigo Juan Garcia Atienza, não hesita em atribuir a São Lourenço a “advocação graálica”[15], cuja lenda hagiográfica é claramente decalcada das tradições gahélicas dos Tuatha-de-Danand transmitidas pelos monges culdeus irlandeses dos primeiros séculos da Idade Média, por cujas narrativas acabaram transformando o céltico Caldeirão de Daghda no cristão Santo Cálice assumido o da Última Ceia e do Calvário.

Já Maria Madalena é identificada simbolicamente ao Útero Materno da Terra, à Cripta, ao Hipogeo, rezando as tradições provençais que após a sua chegada à Europa recolheu-se numa caverna no Sul de França, conhecida como Saint Baume (“Gruta Santa”), onde diariamente orava as sete Horas canónicas[16]. Este episódio encontro-o repetido tanto em São Bento da Porta Aberta, no Minho, como na Gruta do Monge, no Parque da Pena de Sintra, transformada de dólmen em oratório de um anacoreta jerónimo da Serra da Lua[17].

Assim como Santa Madalena e São Lourenço foram personagens caríssimos no Santoral Templário, igualmente não se deve esquecer Santa Brígida.

Brígida nada mais é que Brigite, a divindade céltica reverenciada em todo o Ocidente europeu. Era filha de Daghda, o mítico deus-rei dos Tuatha-de-Danand, e esposa de Bress, rei do povo Fomoré. Dele teve três filhos: Brian, Iuchar e Uar, que foram tidos por génios da inspiração. E o embróglio mítico-simbólico desfeche com o feito dos três engendrarem um só filho de todos eles a quem chamaram Ecné (cujo fonema soa Hermé ou Hermes), significando “saber, ciência ou poesia”. A Brigite também chamaram Dana, donde os Tuatha-de-Danand terem sido o “povo de Dana” ou Brigite. Houve mesmo cidades que foram levantadas em honra desta divindade feminina, como Braccara (Braga) e Brigantium (Bragança)[18].

Além da Santa Brigida da Suécia canonizada pelo Papa Bonifácio IX em 1401, que viveu entre 1303 e 1373 e foi fundadora da Ordem do Santíssimo Salvador e mãe da também Santa Catarina de Siena, não devendo ser confundida com aquela de Alexandria no século IV, a homóloga Santa Catarina (do grego Katharós, “Puríssima”, cuja derivante é Katter, raiz de Cátara como “Pura”, caríssima à devoção Templária, e que estará na génese do ramo familiar Costo ou Costa), aparece uma outra mais obscura Santa Brígida decalcada directamente da Brigite celta, sobre quem pouco se sabe excepto que viveu entre os séculos X-XI, era natural da Escócia ou da Irlanda e filha dum tal Duptaco (Daghda?). Para se consagrar inteiramente a Deus sem que fosse incomodada pelos apetites carnais dos homens, já que era muito bela, Ele desfigurou-lhe um olho e assim tornou-a feia; dessa maneira pôde começar um rol de milagres em nome do Altíssimo, um deles o de fazer brotar fontes de água cristalina para dessedentar os caminhantes sedentos[19].

É esta última Santa Brígida que se vai encontrar no Santoral Templário, achando-se notícia exacta da mesma em Lisboa, na parede exterior lateral à entrada da igreja de São João Baptista do Lumiar (termo de raiz Lug ou LuzAlumiar, reforçado por outros tantos nomes de localidades vizinhas com igual sentido luminoso: Odivelas e Loures), estando encrostadas nela três sepulturas, lendo-se na terceira a epigrafia lapidar seguinte:

Os ditos três Cavaleiros (parecendo apontar à sugestão do mito hibérnico ou irlandês dos três filhos de Brigite) seriam Templários, pois que a igreja de São João do Lumiar estava antanho dentro dos terrenos do lugar da Ameixoeira que era pertença da Ordem do Templo e que a Ordem de Cristo herdou como “comenda velha”, conforme informam as Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, na parte IV, Título II, “Das Comendas e Fazendas da Ordem”, página 147, Lisboa, 1746: “Os bens que a Ordem tem na Ameixoeira, também estão dados por emprazamento”.

Em 1283 era Grão-Mestre Provincial do Templo em Portugal D. Frei João Fernandes, que andou de ligações estreitas com D. Dinis e D. Afonso, o Sábio, tendo detido três Mestrados: os de Portugal, de Leão e de Castela, quase tendo obtido também o da Catalunha, como informa Frei José de Brito nas suas Memórias da Ordem do Templo (inédito existente na Biblioteca Nacional de Lisboa).

Não deixa de ter interesse para o caso o facto dos saloios da Ameixoeira serem precisamente apodados de “catalões”. Terá isso a ver com alguma emigração hispânica para aí promovida pelos Templários? Seriam catalões os cavaleiros que trouxeram para aqui a cabeça de St.ª Brígida da Hibérnia ou Ibérnia, a Irlanda, a mando do Grão-Mestre D. João Fernandes?

Mas, mais importante, por que só a cabeça? Há em tudo isto uma forte sugestão bafomética, atendendo a quanto já se disse anteriormente, o mesmo acontecendo com a cabeça de St.ª Iria. Ainda hoje se cultua nesta igreja de São João Baptista do Lumiar a relíquia de Santa Brígida da Irlanda: uma parte do crânio, depositada numa urna de prata dourada, elegantíssima, estilo D. João V, que se diz ter vindo do Mosteiro de São Dinis de Odivelas.

Mais além do Lumiar e passando a ermida de S. Sebastião, tem-se a escassos quilómetros a igreja e convento de Nossa Senhora da Luz que foram da Ordem de Cristo, tendo a primeira sido fundada no reinado de D. Afonso V em 8 de Setembro de 1464, então uma simples ermida votiva em memória da Virgem ter aparecido em “Luz” aí, junto à chamada Fonte da Machada, ao cavaleiro Pêro Martins. Mas já antes, em 13 de Setembro de 1442, o rei doara ao seu sobrinho, o Infante D. Henrique, essa mesma paróquia de Carnide[20].

Paulo Pereira diz com muito acerto[21]: “Deve registar-se, neste caso, a proximidade de um topónimo com conotações “luminosas” idênticas: Lumiar. E é quase certo que entre a Luz e o Lumiar, através da ermida de São Sebastião e até à igreja de São João Baptista, se perpetue um antigo “caminho dos mortos” ou “estrada do Sol”, segundo a tradição das leys”[22]. Sem dúvida, porque a igreja de S. João Baptista está anexa ao cemitério da Ameixoeira, e a de N.ª Sr.ª da Luz está próxima do cemitério de S. Lourenço de Carnide, cuja igreja e adro anexo ainda conservam alguma memória da presença Templária.

Além disso e indo à sua filologia, Carnide é nome comportando o tema egeu-anatólico car ou kar, “pedra”, aproveitado pela língua celta, enquanto o feminino ker encerra o sentido de “morte”, pelo que se poderá interpretar o etimólogo Carnide com o significado de “caminho da morte”, ademais sendo Ker a divindade feminina psicopompa que conduz as almas dum lado ao outro do caminho da vida, a qual, com a advento do Cristianismo, foi substituída por N.ª Sr.ª da Boa Morte, Hipóstase da Mãe de Deus que todos esperamos venha a rogar, a interceder por nós na hora de nossa morte e nos leve em Luz ao seu Divino Filho, para Este nos julgar em conformidade às nossas acções neste vale de lágrimas. Por esta razão necrolática, Carnide tem por Orago Nossa Senhora da Luz, reforçado pelo igualmente luminoso ou solar São Lourenço, ambos anunciados logo à entrada do “caminho das almas” por São João Baptista, o que transporta o etimólogo Carnide à aproximação daquele outro asiânico, Aragata, “Cordeiro Santo”, tanto valendo por Agnus Dei, afinal, atributo iconográfico do Anunciador.

Vestígios templários no adro da igreja de São Lourenço de Carnide

Vestígios templários no adro da igreja de São Lourenço de Carnide

A igreja de N.ª Sr.ª da Luz, mandada fazer pelo cavaleiro de Cristo Pêro Martins e inaugurada na supradita data de 8 de Setembro de 1464, pela Festa da Natividade de Nossa Senhora, recebeu então na sua capela a miraculosa do Orago, a cujo acto estiveram presentes o bispo de Lisboa, D. Afonso Nogueira, o rei D. Afonso V, a corte e muito povo, como descreveu Frei Roque do Soveral[23].

A imagem da Virgem miraculosa foi descoberta em 1463 por Pêro Martins, na pequena gruta sobre que assenta a igreja e cujo altar-mor ergue-se precisamente sobre a fonte de águas santas ou miraculosas, o que denuncia uma arquitectura de características geomânticas e levando, pelos atributos de luz ou fogo e água, a associar o Orago à própria deusa primitiva dos construtores-livres, Lusina, enquanto Lug está mais adiante, assinalado em São Lourenço na sua capela.

Com efeito, a imagem morenada da Senhora, junta ao seu atributo, Luz, não deixam de sugerir tratar-se da encapotada Virgem Negra Lusina, assim como a fonte milagrosa a capacidade miraculosa de Santa Brígida em fazer irromper nascentes, ambas ligadas a um tipo de culto notoriamente linfo-matriártico e cripto-lunar.

Pêro Martins deu com a imagem depois da Virgem lhe ter aparecido em sonhos repetidamente durante um mês, na altura em que estava prisioneiro dos mouros em Tânger, numa data incerta, talvez 1437, talvez 1459. As palavras consoladoras de Nossa Senhora ao desgraçado cavaleiro cativo, são reproduzidas pelo mesmo Frei Roque do Soveral:

“Filho, consola-te. Eu te livrarei do cativeiro em que ora estás. E como te livrar, ainda que sejas pobre e de parentes necessitados, não deixarás de fazer o que agora te digo. Irás ao lugar de Carnide no Termo de Lisboa, donde és natural, e fazer-me-ás sobre a Fonte da Machada uma ermida como tu puderes. E será a invocação de Santa Maria da Luz, por ser este o nome que me convém e de que meu Filho é servido me chame. Nesse lugar há-de ser meu nome glorificado, honrado e aumentado com muitas maravilhas e milagres que nele serão feitos por minha intercessão em muitas pessoas devotas. E quando chegares, já lá acharás de minha luz e claridade os sinais, que teus naturais hoje vêem sobre a mesma Fonte da Machada. Aí acharás (buscando-a) uma imagem minha, a que farás o que te digo, e nela mostrarei o que sou.”

Liberto o cavaleiro de seu cativeiro, graças à intercessão da Ordem dos Trinos ou da Trindade, logo se apressou a achar a imagem e dar início à construção do templo sobre a cripta donde, narram todos os autores, irradiava uma luz semelhante ao arco-íris, o que veio a ser grafado no topónimo actual do sítio e da titular: Luz. A própria fala lendária da Senhora ao cativo mais parece um incitamento à conquista do V.I.T.R.I.O.L.: Visita Interiora Terris Rectificando Invenies Occultum Lapidem – “Visita o Interior da Terra e rectificando encontrarás a Pedra Oculta”.

Como disse, Pêro Martins deu com a imagem na gruta donde irrompe a água milagrosa que vai alimentar a anexa Fonte do Machado ou da Machada, como já aparece grafada num documento de 27 de Maio de 1311. A sobredita era Urraca Martins Machado ou Machada, donatária de Chelas e freira cisterciense no mosteiro de São Bernardo em Carnide, cujos votos abandonou optando pela vida civil[24].

Regista-se a notícia de já em 1325 haver “casa religiosa” de freiras da Ordem de São Bernardo nesta freguesia de Carnide[25]. Igualmente os freires bernardos (cistercienses após a reforma da Ordem) aqui tiveram “casa religiosa” anexa à igreja de São Lourenço, os quais vieram do mosteiro de Seiça (Montemor-o-Velho, Coimbra), conforme noticiaram Frei Bernardo de Brito (in Crónica de Cister, pp. 854-855, Lisboa, 1720) e o Dr. Baltazar de Faria (in Corpo Diplomático Português, V, p. 242, Lisboa, 1874).

Como já foi dito, a hierarquia tradicional de valores dos Druidas celtiberos terá influenciado a posterior hierarquia Templária numa sociedade, repito, mais rural que urbana, desde a herança de conhecimentos tradicionais à respectiva ordenação escatológica. Inclusive pode fixar-se uma tabela de similitudes nas principais funções de ambas as estruturas, como sejam:

Igualmente encontra-se na arquitectura uma proximidade que liga por sua disposição de forte sentido simbólico a megalítica à medieval do Templo, como se regista principalmente na feitura dos kraks ou castelos deste, os quais originalmente englobavam a cidadela, tal qual os fortificados celtas incluíam a citânia, simbolismo denotado nas cidades lídias caracterizando-se por uma tríplice cintura muralhada que, aquém do sentido iniciático, as protegiam das investidas inimigas, como se verificou nas antigas cidades gregas de Lerna, Tirinto, Micenas, etc., e nas portuguesas de Leiria, Tomar, etc.[26]

Essa cintura muralhada tríplice, entre os citas que deram nos celtas, possuía um grande sentido simbólico, apresentando-se a disposição geral formada por três quadrados concêntricos ligados entre si por quatro linhas em ângulo recto, expressando as artérias principais.

Para Paul Le Cour e René Guénon[27], trata-se do simbolismo da “tríplice muralha” dos castros fortificados celtas cujo significado metafísico, além do utilitário imediato, os sacerdotes dessa raça, os druidas, vieram a propagar de tal maneira que acabou vulgarizando-se em várias formas de jogo, como o “jogo do moinho” e até, com menos traços mas não deixando de ser, na marcação dos campos de futebol.

Com efeito, para os druidas a “tríplice muralha” representaria os três graus da sua hierarquia sacerdotal: druida, vate e bardo, isto é, sacerdote, profeta e instrutor. O candidato ia subindo na hierarquia até chegar ao grau supremo, equivalente ao “Grande Centro” ou Pantheon dos Heróis dessa primitiva religião europeia, como já tive ocasião de dizer quando analisei figura idêntica à que está acima, gravada na parede lateral à entrada na Escola de San Rocco, em Veneza[28].

É assim que René Guénon classifica o significado esotérico das três muralhas como expressivo dos três graus básicos do sistema de iniciação, de tal maneira que o seu conjunto pode muito bem ser, de certo modo, a representação da hierarquia druídica como expressão tradicional do ensinamento iniciático. Com essa mesma explicação, o sentido das quatro linhas dispostas em cruz, que ligam as três muralhas, torna-se de imediato muito claro: serão os canais por meio dos quais o ensinamento da doutrina tradicional se comunica de cima a baixo, a partir do grau supremo, que é o depositário legal desse mesmo ensinamento, repartindo-se hierarquicamente pelos demais graus. A parte central da figura corresponderá, portanto, à “Fonte da Tradição”, de que falam Dante e os Fidelli della Amore, e a disposição crucial dos quatro canais que dela partem identifica-se aos quatro rios do Pardes ou Paraíso. Nesse caso, o centro da figura, como “Fonte da Tradição”, corresponde à Autoridade Espiritual ou Sacerdotal, e os canais subalternos expressam o Poder Temporal ou Real, onde a interacção entre os dois poderes é permanente mas com o primeiro revelando-se pelo segundo, tal qual o Paraíso Celeste se manifesta no Paraíso Terrestre, assim como o Centro Supremo do Mundo (Salém, Shamballah, etc.) se revela nos Centros Sagrados esparsos pelo mesmo Mundo.

Na Idade Média e um pouco por toda a Europa, também foram construídos castelos com tríplice muralha em lugares previamente assinalados pela Tradição Primordial como sendo propícios a uma maior proximidade ao Mundo Espiritual por via das poderosas energias telúricas aí concentradas, e igualmente das boas conjunções dos astros auspiciando esses assim consignados “lugares mágicos”, o que se conformava às primitivas regras das leys.

A “tríplice muralha” medieval acabou assimilando o significado que tinha entre os celtas e veio a assinalar a hierarquia da Cavalaria: cavaleiro, escudeiro e pajem, cuja evolução do candidato à nobreza das armas começava do mais exterior para o “Grande Centro”, este representado pelo rei do país ou pelo governador do lugar.

Também na Idade Média mas para a espiritualidade judaico-cristã, essa figura geométrica sintetizava o sentido do bétilo, ou seja, da “pedra sagrada, considerada como morada de um deus”. É assim que aparece a figurar o próprio Templo de Salomão, em Jerusalém, como o descreve a Bíblia (I Reis, 7:12), com a sua tríplice cintura que separava o povo dos levitas e estes do sumo-sacerdote, o único com acesso ao centro onde estava o “Santo dos Santos” (Sanctum Sanctorum), lugar reservado à Arca da Aliança. Como o Templo de Salomão representava o próprio Paraíso Terrestre, então o simbolismo geométrico da “tríplice muralha” será, em última análise, figurativo desse mesmo Éden Primordial.

A haver Paraíso Terreal haverá Paraíso Celestial como seu modelo, o qual é indicado no Apocalipse (21, 11:22) como a Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados. Para que a figura geométrica a represente, deve colocar-se diagonalmente as quatro linhas em cruz em relação aos dois quadros extremos, a fim do espaço compreendido entre eles ficar dividido em doze triângulos rectângulos iguais, simbolizando as doze portas do Paraíso Celeste.

Do ponto de vista do simbolismo numérico, o conjunto dos três quadrados forma o duodenário, e dispostos da forma assinalada por último em relação à Jerusalém Celeste, vêm a constituir a figura pela qual os antigos inscreviam o Zodíaco (como se vê numa inscultura junto às “escadinhas dos clérigos (trinos)”, em Sintra), o que vai muito bem por a mesma Jerusalém Celeste expressar o Universo inteiro, tal qual o Zodíaco.

Essa figura também era considerada como a da Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados, o que possui uma relação evidente com o significado que se indicou para a figura quadrangular da tríplice muralha, a qual  significa o Paraíso Terrestre. É exactamente esta formação geométrica de sentido astronómico que se repara numa inscultura Templária à entrada da igreja de S. Pedro em Óbidos, terra natal do almirante-mor do Templo, D. Fuas Roupinho.

Para denominaram as supracitadas muralhas, os latinos dispunham de um termo de origem iraniana: pari, o qual aparece no composto pari-daiza, ou seja, “cintura” (pari) e “modelo” (daiza). Paridaiza ou Paradhesa é a arquetípica das palavras hindu-europeias indicativas de Paraíso.

Tudo leva a crer que no interior dos seus kraks os Templários terão criados núcleos sinárquicos no esforço imediato de reproduzirem o Paraíso de Deus, de qual fala o inspirado St.º Agostinho na sua magistral Civitas Dei, e decerto por isso regiam-se no seu meio por regras muito suas, sem darem satisfações detalhadas do que faziam a ninguém de fora, inclusive ao papa e ao rei.

De maneira que a simbiose entre a Jerusalém Celeste e o Paraíso Terrestre, representado no plano imediato da Tradição pela Jerusalém Terrestre, tem a sua expressão efectiva no relacionamento entre a Autoridade Espiritual e o Poder Temporal, entre o Sacerdócio e a Realeza, esta encontrando a legitimação por aquela. Isto mesmo pode ser lido no Midrash Tankhuma, obra teológica judaica que trata da relação entre os dois Poderes Espiritual e Temporal, simbolizados pela Jerusalém “axis coeli” e a Jerusalém “axis terris”, na qual São Bernardo acaso terá se inspirado para o seu Louvor à Nova Milícia e inclusive ingerir na escritura da Regra. Diz esse texto judaico:

“Vós vereis que existe uma Jerusalém do alto que corresponde à Jerusalém de baixo. Por amor da Jerusalém terrestre, Deus fez uma no alto. Eu não entrarei na Jerusalém Celeste antes de ter entrado na Jerusalém Terrestre.”

Por essa razão primaz da divindade e universalidade da simbólica Jerusalemita, é que os Templários cunharam moeda com a efígie do Templo de Salomão de que se assumiam, afinal, guardiães, certamente não tanto das suas ruínas mas mais da Tradição Primordial representada pelo mesmo, indo reflectir-se no binómio sinárquico Autoridade-Poder, o qual certamente conheciam e exerciam, como se observa no testemunho deixado nas figuras decorativas de vários edifícios que construíram, por exemplo, a igreja de São Pedro de Rates, no Minho, onde junto à pia baptismal lavraram na pedra duas figuras: um bispo com o báculo na mão esquerda faz o sinal hierático com a destra a um rei coroado, com uma mão no peito e a outra empunhando a espada. Cena de sagração e investidura: bispo e báculo dominando = Autoridade Espiritual; rei e espada dominado = Poder Temporal. Algo idêntico a Purusha originando Prakriti, ou seja, o Espírito dar de si a Matéria, o que reverte novamente ao conceito da Jerusalém Celeste e Terrestre, paradigmas máximos da Autoritas e da Potens.

Para terminar e volvendo ao celticismo, a corrente celta pôde sobreviver culturalmente através do Templo e continuar, em boa parte através da cultura rural, após esse dar desenvolvimento aos Monges-Construtores, por um lado, e aos Rosa+Cruzes, por outro. Destes últimos brotaram as posteriores Correntes Iniciáticas do Ocidente, com o propósito único de restaurar os laços psicossociais e espirituais rompidos, após a destruição do Templo, entre o Oriente e o Ocidente, e assim contribuírem universalmente para a restauração da Tradição Primordial e consequente edificação de uma Sociedade Humana mais justa e perfeita.

NOTAS

[1] Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal (Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2000 e 2002.

[2] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[3] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

[4] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta (Capital do V Império). Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Abril de 2007.

[5] Sonja Ulrike Klug, Catedral de Chartres (A Geometria Sagrada do Cosmos). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2002.

[6] Rafael Alarcón, A la Sombra de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1986.

[7] Rudolf Steiner, Centres Iniciatiques (Origines-Influences). Editions Anthroposophiques Romandes, 13, Rue Verdaine, 1204 Genève/Suisse, 1977. T.G.E. Powell, Os Celtas. Editora Verbo, Lisboa, 1965.

[8] Acerca do culto lunissolar Lusitano, transcrevo uma passagem importante do livro do professor Adriano Vasco Rodrigues, Os Lusitanos, Mito e Realidade. Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998:

“O culto solar, saído das épocas mais remotas do Neolítico e do Bronze, aparece testemunhado em documentos arqueológicos do período romano. Prende-se às festividades solsticiais, expressas nas orvalhadas da manhã de S. João, e aos festejos desse dia, inclusive as danças de purificação, que originariamente só incluíam a passagem do gado pelo meio de filas de fogueiras. O sacrifício do cordeiro sobrevive na imolação do anho, que serve as ceias da noite de S. João, entre os povos do Norte, com particular relevo para o Porto. Liga-se ao Solstício. Sabemos que os Lusitanos efectuavam danças religiosas nas noites de plenilúnio. Os planetas Marte, Vénus e Lua seriam motivadores de danças rituais. O culto da Lua, nas populações lusitanas, prende-se à estrutura económica ganadeira, e no Norte da Península, ao matriarcado, por influência daquela nos ciclos menstruais.”

[9] Raymundo de Burlet, Pitágoras e os Druidas. Revista “Dhâranâ”, Ano XII, n.º 103, Janeiro-Março 1940, Rio de Janeiro. Ten. L. Verdera Franco, Galicia, celta. Revista “Ejército”, Março, 1969.

[10] Jorge Ramos, O que é a Maçonaria. Editorial Minerva, Lisboa, 1983.

[11] Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo, 1974.

[12] Cf. Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Paisagens Arcaicas, vol. I. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Março de 2004.

[13] Cf. Francisco Hipólito Raposo, Estremadura e Ribatejo em passeio de braço dado. Edição da Mobil Oil Portuguesa, Março de 1987.

[14] Vitor Manuel Adrião, Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Março de 2007.

[15] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1988.

[16] As sete Horas canónicas distribuíam-se ao longo do dia do seguinte modo: 1.ª Matinas (24 horas) e Laudes (3 horas); 2.ª Prima (6 horas); 3.ª Terça (9 horas); 4.ª Sexta (12 horas); 5.ª Nona (15 horas); 6.ª Vésperas (18 horas) e 7.ª Completas (21 horas).

[17] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006. E Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, 2007.

[18] D´Arbois de Jubainville, El Ciclo Mitológico Irlandés. Vision Libros, Barcelona, 1981.

[19] Alonso de Villegas, Flos Sanctorum. Barcelona, 1775.

[20] In Místicos, Livro 3.º, fl. 138 vº, A.N.T.T., citado por José Baptista Pereira, Memórias de Carnide, 1914, pág. 169.

[21] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Idades do Ouro, vol. III. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Agosto de 2004.

[22] Na Idade Média e durante a Renascença, as leys consistiam em padrões ou alinhamentos de faixas ou linhas invisíveis cuja potência teoriza, demarca e liga entre si determinados espaços sagrados e naturais como lugares mágicos. Hoje essa teoria antiga já perdeu o seu foro de ciência tradicional e é apresentada pelas hodiernas crenças neo-espiritualistas que a popularizam como radiestesia, energia psíquica ou mística, etc.

[23] Frei Roque do Soveral, História do insigne aparecimento de N. Senhora da Luz e suas obras. Lisboa, 1610.

[24] Pedro A. de Azevedo, Urraca Machado, Dona de Chelas, in Archivo Histórico Portuguez, III (1905), p. 10, documento VII.

[25] Pedro A. de Azevedo, ob. cit.

[26] Juan G. Atienza, la mística solar de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1983.

[27] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, S. Paulo, Brasil.

[28] Vitor Manuel Adrião, Guia de Veneza Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010.

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