Ao cruzeiro ou padrão quatrocentista integrado no espólio do Museu Arqueológico de Barcelos[1], anda associada a curiosa lenda do galo e do enforcado[2], e apesar  dessa ave não ser o ex libris oficial de Portugal mesmo assim destaca a sua natureza predominantemente jacobeia e o próprio símbolo do Caminho Jacobeo Português[3].

De forma resumida, a lenda conta que os habitantes do burgo andavam alarmados com um crime de morte e, mais ainda, por não se ter descoberto o criminoso que o cometera. Certo dia, apareceu um galego que se tornou suspeito. As autoridades prenderam-no e, apesar dos seus protestos, ninguém acreditou nele. Não houve quem julgasse crível que o galego se dirigisse a São Tiago de Compostela em cumprimento de uma promessa, que ele fosse devoto fervoroso do santo que ali se venera, como também o fosse de São Paulo e de Nossa Senhora. Por isso foi condenado à forca. Mas antes de ser enforcado rogou que o levassem à presença do juiz que o condenara. Concedida a autorização levaram-no à residência do magistrado, nesse momento num banquete com alguns amigos. O galego voltou a reafirmar a sua inocência e, face à incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a mesa, sentenciando: “É tão certo eu estar inocente como certo é esse galo cantar quando me enforcarem”. Risos e sarcasmos não se fizeram esperar, mas, pelo sim e pelo não, não fosse o diabo tecê-las, ninguém tocou no galo. O que parecia impossível tornou-se, porém, realidade! Quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo assado ressuscitou, ergueu-se na mesa e cantou. Caíram por terra as suspeitas sobre o condenado. Correu o juiz à forca e viu o desgraçado de corda ao pescoço, mas o nó lasso, impedindo o estrangulamento. Imediatamente solto, foi mandado em paz. Passados anos, voltou a Barcelos e fez erguer o monumento em louvor à Virgem e a São Tiago.

Cruzeiro de "o galo e o enforcado", Barcelos

Cruzeiro de “o galo e o enforcado”, Barcelos

Esta lenda velhinha (contada em diferentes versões mas sendo igual no desfecho com a salvação miraculosa de São Tiago que suportou o inocente não deixando que fosse estrangulado) é das muitíssimas do espólio oral medieval que corriam entre os peregrinos jacobeos ao longo caminho português, que passa por Barcelos, quase todas elas, senão todas, abrigando valiosas referências míticas ou herméticas à Tradição Primordial, assim impondo o sagrado ao profano, a peregrinação complexa ao simples passeio, ao andar por andar sem outro sentido ou nexo.

Em primeiro lugar e antes de tudo o mais, o sentido moral desta lenda é o da advertência para o respeito e consolo que se deve dar a todo o peregrino de Santiago, ou seja, o de nunca lhe recusar a hospitalidade como cumprimento do voto maior do amor caridoso, repetindo as palavras do Codex Calixtino que o Papa Calixto II (que fora abade de Cluny e irmão do conde regente da Galiza, Raimundo de Borgonha) escreveu no século XII: “Todo o mundo deve receber com caridade e respeito os peregrinos, pobres ou ricos, que venham ou vão ao solar de Santiago, pois todo o que os recebe e hospeda com esmero terá como hóspede não só a Santiago mas ao próprio Senhor, segundo as suas palavras no Evangelho: O que a vós receber, a Mim recebe“.

Por sua aura de mistério e segredo, durante séculos o peregrino jacobeo foi visto como um ser sagrado, espécie de anacoreta santo num constante vaivém por rotas maravilhadas, traçadas numa cartografia sobrenatural pontilhada pelas estrelas da estrada celeste e pelos rios, vales e montanhas dos caminhos da terra assim abençoada com sua presença peregrina, espargindo do mais profundo do seu ser ao espírito do próprio Apóstolo São Tiago Maior.

Atentar contra o peregrino era o mesmo que atentar contra o próprio Apóstolo de Cristo, era atentar contra Cristo cujos membros são os seus apóstolos e sub-apóstolos. Daí o respeito que os caminhantes da Fé infundiram e desfrutaram em toda a religiosidade europeia da Idade Média e Renascença. Eles eram os padrões volantes ou caminhantes, o homo viator, homens representativos do espírito original do Evangelho nestas plagas lusitanas, tomando Barcelos ou Bar+Cellis como o “Monte do Céu”, o que está mais pertinho da Santa Cruz que um dia, nos alvores da Cristandade, o Apóstolo Tiago aqui fincou. Culto cristão substituto do primitivo fenício-romano, de importação egípcia, de Serapis, o deus ctónico mesopotâmico cultuado em Barcelos antes da implantação do Cristianismo, cujo busto ainda se pode ver no Museu Arqueológico desta cidade.

Contudo, bem se sabe, sempre houveram “ovelhas ranhosas” em todos os tempos e imensas vezes os peregrinos foram molestados e desdenhados na caridade por gentes sem fé nem humanidade, vindo após as lendas e narrativas afirmar que esses acabavam pagando caro e dolorosamente os seus actos indignos, por sinais manifestos da ira de Deus, intervindo por fogos e outros poderes ígneos castigadores afins à própria natureza do “Filho do Trovão” (Boanerges), Sant´Iago Zebedeu[4]. A Protecção Celeste nunca descarecia – jamais descarece! – o caminheiro da Grande Via, bem assinalada na “viande” ou vieira (que com a cabaça estão esculpidas nas colunas interiores na igreja-matriz de Barcelos, ponto de encontro dos peregrinos desde o século XIV 81325-1328), que antes era na capela da Senhora da Ponte, na  margem oposta do Cávado, pertencente à freguesia de Galegos de Santa Maria[5]).

Ponte sobre o Rio Cávado, em Barcelos, passagem obrigatório dos peregrinos de Santiago de Compostela

Ponte sobre o Rio Cávado, em Barcelos, passagem obrigatório dos peregrinos de Santiago de Compostela

Palmilhar a Grande Via em solo português ou Porto-Graal expressa exactamente isso: a Realização do Graal, a Taça Sagrada expressiva do estado de Consciência Espiritual, meta última do viandante, conquistando-a paulatinamente nas etapas do Caminho Iniciático que é sempre Solar, no sentido de expansivo e evolucional, nisto se enquadrando no próprio perfil do Gallo ou Homo Gallaeci inserido no que em sânscrito se apelida Surya-Vansa, “Linhagem Solar”, tendo à sua dianteira os Mestres de Espiritualidade, guias dos homens, palmilhando esse mesmo Caminho da Iniciação Verdadeira, aqui prefigurado pela rota jacobeia. É nisto que entra o sentido mais restrito do nome Tiago, a quem Louis Charpentier atribui o significado de Sábio, ao associá-lo ao Maxa-Jaun da mitologia basca[6] possuído do sentido de “Mestre da Natureza”, igual ao Jaunak galego, o primitivo Tuatha de Danand destas partes ibéricas chamado Tuatha de Gaedhil, indo dar em Jaun, Jacques, Jaime, Jacobo, Iacobo, Iago e finalmente Tiago. Ora, Jaun é Jina ou “Génio”, em sânscrito, sobre quem a Tradição Iniciática das Idades adianta que Jinas vêm a ser os Mestres da Humanidade, Santos e Sábios, Homens Perfeitos ocultados no próprio seio da Mãe-Terra, uma vez por outra, ciclicamente, aflorando à face do Globo para transmitir a sua Sabedoria Divina aos homens e assim impulsionar avante o progresso universal[7]. Bem parece que a nós, ibéricos, particularmente aos luso-galaicos, transmitiram-nos a Tradição do Santo Graal sob a forma da Lenda Áurea de Santiago Maior. Ao encontro disto parece vir o próprio Charpentier, quando escreve na sua obra citada: “Desde a partida no caminho de Compostela, que a cor é “anunciada”. Trata-se de um caminho iniciático de pessoas que vão procurar, no seu ofício e mediante o seu ofício, um conhecimento superior ao mesmo tempo que uma transformação profunda de si próprios… e iniciando-se nessa procura através de não se sabe que cerimónias, primitivamente no próprio seio da Mãe-Terra de onde vem todo o saber e toda a transformação”.

As estrelas envolventes da Taça Eucarística símile do Santo Graal, em Santiago de Compostela

As estrelas envolventes da Taça Eucarística símile do Santo Graal, em Santiago de Compostela

Sendo a Rota do Graal velada pelo Caminho Jacobeo e tendo este sido fundada na própria Galiza, então esta só poderá significar a Terra do Caminho Santo. Com efeito, aquando do domínio romano o Noroeste ibérico era conhecido por Gallicia, no natural galo-céltico, e Calaecia em latim, sendo os seus habitantes – os gallaici ou calaicos, posteriormente o aportuguesado galegos – a principal tribo céltica da Lusitânia. Calaecia é a prosódia latina do original celta Calacia, nome aglutinante dos termos cala e aku, respectivamente, “caminho” e “santo”. O nome Calaecia ou Gallicia significa, portanto, Terra do Caminho Santo.

A rota vem a ser assinalada no étimo Rãs, em cuja igreja está o Senhor dos Caminhos, que é o Orago dos caminhos jacobeos portugueses. Rota ou, anagramaticamente, Taro. Desta palavra Taro, em língua semita e usando-se o método da temurah ou permuta de letras, resulta Tora(h), a quem os rabinos denominam de “Lei”. Taro (ou Tarot) acha-se composto dos vocábulos tar, “via, caminho”, e ro (ros, rog…), “rei, real”, traduzindo-se o conjunto como o Caminho Real da Vida (As-taroth), que é onde se processa a dinâmica da Iniciação Verdadeira de tudo e todos, tão bem assumida e assinalada no nome de aldeia próxima de Barcelos: Mariz, berço genealógico da família deste nome da qual alguns membros entrecruzariam os seus destinos com aquela Ordem Iniciática Secreta de étimo igual, fundada no mesmo século XII da aparição borgonhesa dessa família mas desta feita em São Lourenço de Ansiães,  consignada Ordem Espiritual Portuguesa que, informa a Tradição Iniciática das Idades, a mesma Tradição Primordial, em guisa de encoberta todavia permanentemente activa, esteve por detrás por principais lances da Portugalidade no Mundo.

Assim, voltando à lenda ex libris do romanceiro barcelense, a quem se deve o famoso “galo de Barcelos” (ex libris do artesanato local), parece ter sido ela quem fez derivar o nome da cidade dum latim tardio: Barcalus, que decomposto em bar e calus significa “Filho do Monte Celeste ou Sagrado”[8], título este que se perpetuou na famosa Festa das Cruzes local (talvez as mesmas estrelas de Santiago mas aqui transformadas em cruzeiros sinaléticos da rosta costeira), de medieva idade também andando associada à belíssima lenda que liga Barcelos a Matosinhos e à Praia de Fão, por causa de três cruzes saídas do mar por divinais intentos, uma delas, a de Barcelos, reza a lenda, coberta de vieiras.

Sendo os Mestres Espirituais Homens Solares no sentido já descrito, obviamente que o seu símbolo só poderia ser o galo, a ave simbólica do Sol Levante incarnado no Cristo, ou seja, da madrugada esplendorosa que esconjura as trevas da noite. O facto de no conto ele ter ressuscitado, não deixa de induzir a ideia da Fénix mítica que “renasce das próprias cinzas”, e é assim mesmo que aparece, num aparelho de azulejaria no antigo convento das beneditinas de Santa Escolástica de Barcelos, como galo-fénix contemplando-se no speculum magicum, como atesta a legenda sob ele: “Só se compõe bem quem se vê ao Divino Espelho”. Ao ser associado ao Enforcado na lenda, com esta designa um rito de passagem marcado por uma iniciação martirial, ou seja, a entrega dócil e incondicional à Divina Providência, aqui, a fé na certeza absoluta no socorro final de Santiago.

Isso mesmo é relevado numa das faces do padrão de “o galo e o enforcado”: Santiago, trajando de peregrino, suporta o enforcado, e logo acima apresenta-se o galo a que se sobrepõe o Senhor Crucificado. O significado da alegoria será: a crucificação iniciática do iniciado jacobeo cuja aurora da ressurreição espiritual o galo anuncia. Equivale ao estado de consciencial de Chrestus ou Arhat, em grego e sânscrito.

A providência de Santiago presente na lenda de "o galo e o enforcado"

A providência de Santiago presente na lenda de “o galo e o enforcado”

Com efeito, sendo o galo considerado universalmente um símbolo solar, por o seu canto anunciar o nascimento do Sol, a tradição hindu atribui-lhe a personificação de Skandha e Prana, ou seja, a Virtude e a Energia Vital provinda do mesmo Astro-Rei. Por ser também um emblema do Cristo, nele recai a ênfase do seu simbolismo solar: Luz e Ressurreição. Já no Livro de Job o galo é símbolo da inteligência recebida de Deus, cuja sabedoria é atributo exclusivo do Homem[9]. Como o Messias (Messiah ou Avatara), o galo anuncia o nascer do dia do esclarecimento espiritual que sucede às trevas da noite da ignorância das coisas divinas[10]. Por sua função de arauto – como o foi S. João Baptista, cuja cabeça degolada é venerada na igreja matriz de Barcelos – cabe ao galo ser colocado no lugar mais alto, nas flechas das igrejas e nas torres das catedrais. Essa posição, no cimo dos templos, evoca a supremacia da influência espiritual na vida humana, a origem celeste da iluminação salvífica, a vigilância da alma atenta para perceber, nas trevas da noite que morre, os primeiros clarões do Espírito que se levanta. Por isto, o Talmud faz do galo um mestre de polidez, porque ele apresenta o seu Senhor, o Sol, anunciando-o com o seu canto.

Igualmente no Islão o galo de goza de uma veneração sem igual em relação aos outros animais, e o Profeta Mahometh em pessoa dizia (Alcorão, sura 8:60): “O galo branco é meu amigo. Ele é o inimigo do inimigo de Deus… O seu canto assinala a presença do Anjo”. Atribui-se, da mesma maneira, ao Profeta a proibição de maldizer o galo que convida à oração. Mahometh ter-lhe-á conferido uma dimensão cósmica: “Dentre as criaturas de Deus – teria dito ele – há um galo cuja crista está debaixo do trono, os pés assentados na terra inferior e as asas no ar. Quando passarem dois terços da noite e só restar um terço a passar, ele bate as asas e diz: ‘Louvor ao Rei Santíssimo, digno de exaltação e santidade, e que não tem associado’. Nesse momento, todos os animais batem as asas e todos os galos cantam”[11].

Na outra face do padrão vê-se o Senhor Crucificado sobre um dragão, significando tanto a esconjuração das heresias quanto a saída da treva para a Luz, da noite para o dia. Aparecem também Santa Maria e São Paulo, além de uma Lua e um Sol. Maria é a Mater Mundi, e Paulo, com a espada e o livro, expressa a Pacis Cognoscio, a “Paz do Conhecedor”, este que expressa a Igreja Claustral, a da pastoral apostólica afim à própria natureza heterodoxa ou livre de Maria, corporificação do Espírito Santo ou Espírito Livre, cuja condição andrógina ou lunissolar (Sol e Lua), no fim de contas, é desde o primeiro momento prerrogativa do próprio caminho jacobeo, palmilhado por todas as condições humanas sem distinção de sexos, raças e credos.

Ressurreição e elevação é, afinal, a mensagem implícita no padrão velhinho de que nasceu a lenda agora tratada, passada às margens do Cávado ou Gab-Atu mesopotâmico, o parda ou rio das “Águas Celestes”, sobre o qual anuncia a aurora triunfante o galo cristóforo, ave sacralizada que faz de Barcelos jóia singular de Portugal que não é “cauda” mas cabeça de uma Europa orgânica constituída meio milénio após ele[12].

Enfim, paragem obrigatória no caminho jacobeo, visitar e peregrinar por esta linda cidade é, sobretudo, percorrer a via-sacra que leva da Cruz ao Monte e deste ao Céu, sendo tão-só o que significa Barcelos.

NOTAS

[1] Teotónio da Fonseca, O Concelho de Barcelos Aquém e Além-Cávado, volume I de II. Reprodução fac-similada da edição de 1948. Barcelos, 1987.

[2] Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, 6 volumes. Edições Amigos do Livro, Lisboa, 1988.

[3] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição Dinapress, Lisboa, 2011.

[4] Juan G. Atienza, Leyendas del Camino de Santiago. Editorial Edaf, S.A., Madrid, 1998.

[5] Ernesto Amorim Magalhães, Barcelos no Passado e no Presente. Barcelos, 1958.

[6] Louis Charpentier, Santiago de Compostela, enigma e tradição. Editorial Minerva, Lisboa, 1973.

[7] Na Bíblia, no Livro de Job (28: 3-4, 20-23 e 27-28), lê-se: “O homem põe um limite às trevas, e esquadrinha, com exactidão, as rochas que estão em densa obscuridade. Abre galerias longe dos lugares habitados, que são ignoradas pelos pés dos transeuntes, porque estão em lugares inacessíveis. […] Donde vem, pois, a sabedoria? Onde está o lugar da inteligência? Está oculta aos olhos de todos os viventes, e até às aves do céu está escondida. O inferno e a morte dizem: Apenas ouvimos falar dela. Deus é quem conhece os seus caminhos e sabe da sua morada. […] Ele viu-a e descreveu-a, penetrou-a e conheceu-a ao fundo. Depois, disse ao homem: O temor do Senhor é a sabedoria, e fugir do mal é a inteligência”.

[8] Batalha Gouveia, A origem etimológica de Barcelos. “Jornal do Incrível”, Lisboa, 1983.

[9] Job, 38:36 – Quem pôs a sabedoria no coração do homem? Ou quem deu inteligência ao galo?

[10] Também a Maçonaria veio a adoptar o simbolismo do galo, dispondo-o na sua “câmara de reflexões” que antecede a entrada do neófito no templo, pondo-o como signo da vigilância e do advento da luz espiritual por via da transmissão iniciática. Na Alquimia, corresponde ao mercúrio hermético.

[11] Toufic Fahn, La naissance du monde selon l´Islam. In Sources Orientales, Paris, 1959.

[12] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

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