A lenda que vou contar anda ligada a uma antiga família de Portugal, os Pimentéis de Trás-os-Montes[1]. Consta que este apelido procedeu de uma alcunha imposta pelo rei Afonso III, por volta do ano 1260, a um moço fidalgo chamado Vasco Martins de Novais, que se evidenciou pela esperteza e celeridade que em tudo mostrava. No brasão da família Pimentel estão incluídas as conchas (vieiras) da nossa lenda, que também estão representadas na torre do castelo de Bragança. Por outro lado, e como conta a história, as vieiras são o distintivo dos servos de Santiago, e os peregrinos que se dirigiam antigamente em peregrinação a Compostela levavam-nas como indicativo da finalidade da sua jornada.

Passou-se a história que vou contar no ano 44 da Era de Jesus Cristo.

Certa manhã, saiu a passear um ilustre cavaleiro da Maia chamado Caio Carpo Palenciano. Com ele ia a mulher, que desposara há pouco tempo, a nobre Claudina Lopo Zalenco, e vários outros parentes e amigos. Estava-se no Verão e, por esta razão, saíram cedo da vila, tentando aproveitar o fresco da manhã. Era uma cavalgada vistosa a que se dirigia à praia de Matosinhos: um pouco à frente iam Caio e Claudina, conversando calmamente, e seguindo-os ia um grupo animado do qual por vezes sobressaía um jovem fazendo caracolar o cavalo à volta de alguma dama. Era realmente um belo espectáculo, reluzente de armas, colorido de tecidos finos.

Cavalgavam pelo areal quando alguém avistou no mar uma barca, navegando com proa ao norte. Pararam todos para observar a majestosa beleza da embarcação, que vogava calmamente com todo o pano desfraldado. Estavam assim, um pouco esquecidos do tempo, entretidos a olhar o mar quando, repentinamente, o cavalo de Caio correu para a água. O cavaleiro tentou refrear o animal, mas este, obedecendo a uma força desconhecida, mergulhou no mar e desapareceram. Ambos voltaram à tona, entretanto, à beira da embarcação, e o cavalo, dando um impulso, subiu para bordo. Estavam os dois cobertos de vieiras.

Caio, espantado com tantas maravilhas, perguntou aos marinheiros quem eram e porque lhes aconteciam tais coisas.

Responderam os navegantes:

– Somos cristãos, discípulos de um homem santo chamado Tiago. Vimos de muito longe, fugidos ao ódio de homens que perseguem os seguidores de Cristo e trazemos aqui, nesta barca, o corpo do nosso Mestre Tiago.

– E porque vos dirigis para estas bandas? Foi o vento que vos trouxe ou fostes vós que traçastes a rota?

– Vamos para terras da Galiza, senhor, onde o nosso Mestre pregou o Evangelho de Jesus Cristo. Aí esperamos encontrar irmãos nossos e conseguir dar descanso ao corpo deste Apóstolo.

– E como explicais o prodígio operado pelo meu cavalo?

– Isso, senhor, significa que sois um escolhido de Nosso Senhor! As conchas de que vos vedes coberto são o sinal de Santiago, que quer ver-vos na lei de Jesus Cristo. A partir de hoje, distinguirão os servos deste santo homem!

Caio estava profundamente comovido pelo que ouvia, pelos milagres que via. Dentro de si sentia crescer um sentimento desconhecido, uma espécie de paz total que o levou a pedir aos marinheiros que o considerassem um dos seus. Foi assim que Caio Carpo Palenciano recebeu o baptismo da água, sobre as ondas, segurando as rédeas de um cavalo coberto de conchas.

E uma vez desembarcado e novamente reunido à esposa e aos amigos, converteu-os a todos com a narração de tão pasmoso caso.

"Fuente del Carmen", Padrón, mostrando o baptismo do peregrino e a barca fúnebre de Santiago

“Fuente del Carmen”, Padrón, mostrando o baptismo do peregrino e a barca fúnebre de Santiago

Esta lenda jacobeia portuguesa, inspirada na Lenda Áurea coluna dorsal de toda a tradição santiaguista, coloca os seus personagens no período gallo-romano (cerca 40-45 d. C.) e assinala o início da evangelização peninsular a partir do actual território português. Três elementos circunstanciais compõem a mesma, remetendo para o sentido profundo do simbolismo tradicional: a barca com os discípulos do Apóstolo finado; o cavaleiro Caio e a sua montada mergulhando nas águas; o cavaleiro e o cavalo saindo das águas para bordo da embarcação.

Segundo René Guénon[2], dentre os emblemas que foram outrora os do deus romano Janus [bicéfalo], o Papado herdou e conservou, além das duas chaves, a barca, atribuída paralelamente a S. Pedro e tornada a figura da Igreja[3] com o  Sumo Pontífice à proa da mesma: o carácter «romano» de Janus e do Papado exigiu essa transmissão dos símbolos, sem a qual ele não teria representado senão um simples facto geográfico sem conteúdo real e efectivo, marcando o Papado, desde a sua origem, como predestinado a ser «romano» na razão da situação de Roma como capital do Ocidente, desde a primeira hora amancebada ao Império, o que lhe deu esse estatuto dominante. No entanto tem-se aqui, na lenda, a deslocação da barca para o extremo ocidente da Europa, como designando o Apostolado de Tiago superior ao de Pedro ao ir mais avante na sua marcha cíclica e assim os seus tripulantes possuírem conhecimentos mais profundos que os da barca «romana», o que transfere para o seu sentido da Igreja ministrante e a Igreja ministrada, o Primaz e a Cúria, o que sabe e o que crê. Na primeira situação está a Igreja braco-galaica; na segunda, está a Igreja romano ou latina. É nisto que entra o sentido da “Grande Barca” (Maha-Yana) de Tiago Maior, indicativa da Tradição Primordial exercida como Arte Sacerdotal por via do Ministério e Instrução, superiores aos exercícios ministeriais e catequeses romanas indicadas pela “Pequena Barca” (Hina-Yana) de Pedro, esta destinada a pescar almas para a Igreja dos crentes, aquela vocacionada a salvar almas para a Igreja dos perfeitos. Tem-se nessas duas modalidades o Sacerdócio de Aarão (exotérico) e o Sacerdócio de Melkitsedek (esotérico), este cuja santidade e sabedoria exigidas fá-lo incorruptível e logo inviolável, facto figurado pelo sentido supremo da Terra Santa a quem os hindustânicos chamam Agharta, cujo símbolo é a próprio barca d´ouro do deus Osíris, oposto daquela barca d´prata da deusa Ísis.

A imagem da navegação foi frequentemente utilizada na Antiguidade greco-latina, tendo-se como exemplos mais notáveis a expedição marítima dos Argonautas à conquista do Tosão de Ouro no Jardim das Hespérides ou Hispânias e a viagem de Ulisses, vindo do mar da Grécia fundar Ulisipa (Lisboa), não esquecendo as referências feitas por Virgílio e Ovídio. Igualmente na Índia se encontra por vezes esta imagem, e no texto sagrado Atmã-Budha tem-se uma expressão singularmente semelhante à utilizada por Dante na Divina Comédia (Paradiso, II, 1-18): “O Yogui, diz Shankaracharya, tendo atravessado o mar das paixões, está unido com a tranquilidade e possui o “Ser” na plenitude”. O “mar das paixões” é evidentemente a mesma coisa que as “ondas da cupidez” e nos dois textos aparece o tema da “tranquilidade”, a qual representa o final da navegação simbólica e a conquista da Grande Paz[4]. Desde logo esta pode entender-se de dois modos, segundo se reporte ao Paraíso Terrestre ou ao Paraíso Celeste: neste último caso identifica-se à Luz de Glória e à Visão Beatífica; no outro, é a Paz propriamente dita, no sentido restrito, mas ainda assim diferente do significado profano[5]. Na lenda jacobeia aqui narrada, a barca do Apóstolo deve conduzir a humanidade dos crentes ao Paraíso Celeste, assim fazendo o papel do Papado (ou Sacerdócio, função dos Brahmanes, “sacerdotes”), enquanto o Cavaleiro sagrado, dessa maneira fazendo o papel do Imperador (ou Realeza, função dos Kshatriyas, “cavaleiros”), deve guiá-la ao Paraíso Terrestre, o que também não deixa de ser uma navegação[6]. Eis porque a Terra Santa das diversas tradições não é outra coisa senão o Paraíso Terrestre, frequentemente representado por uma ilha elevada, indicadora do núcleo de santidade e sabedoria privado das agitações públicas, imutável no meio das ondas da cupidez passional, e por isso é o “Santuário da Paz”, a “Montanha da Paz” ou, em termos bem jacobeos da peregrinação com Compostela à vista, o Monte do Gozo[7].

Falei em dois tipos de baptismo, como sejam o da água e o do fogo, o da catequese e o da gnose, manifestação de duas modalidades distintas, apesar de interligadas, de entender e viver o tema jacobeo como forma dinâmica de Iniciação, expressada pela peregrinação, facto retratado numa pintura medieval representando três pessoas montadas num cavalo branco, simbólico da própria Tradição Espiritual: Santiago Maior de permeio a Teodoro (aspecto esotérico) e Atanásio (aspecto exotérico), os seus discípulos tradicionais, todos com trajes de peregrinos, portanto, em pleno acto de Iniciação votiva ou móvel.

Pintura medieval de Santiago e seus Apóstolos montados num só cavalo

Pintura medieval de Santiago e seus Apóstolos montados num só cavalo

O sacramento do Baptismo, revelador da Espírito Santo ao crente, torna-o parte efectiva do corpo místico da Igreja ministrante (Clero) à Igreja ministrada (Assembleia). Os antigos gnósticos cristãos de Alexandria por vezes utilizavam o termo bafé métous (que os romancistas dos séculos XVIII-XIX transformaram no filólogo baphometh) para traduzir a ideia de “baptismo da sabedoria”, o do Fogo Sagrado do Espírito Santo, aferidor da condição de “Filho do Homem” ou Imortal e não mais de “Mulher” ou mortal, este relacionado com o Baptismo pela Água após o nascimento físico de todo o ser humano, aquele ultrapassando a condição material pela consciencial do Baptismo de Fogo cuja Iniciação Gnóstica, para não dizer Teosófica, confere não aos muitos chamados mas aos raros Eleitos o lume da Imortalidade, equivalente da posse efectiva da consciência integral do Tudo no Todo e do Todo (Divino) no Tudo (Humano).

Acerca-se do sentido de bafé métous a função do botafumeiro, o maior incensário do mundo que é o elemento histórico mais popular da catedral de Santiago de Compostela e que, balançando sobre as cabeças, cruza o espaço da nave enorme purificando espiritualmente as almas dos crentes com o fumo de incenso sagrado que, assim, também não deixa de ser uma espécie de Baptismo de Fogo em rolos de fumo perfumado.

O gigantesco incensário balançando na nave durante as missas dos peregrinos e outros actos importantes, além do referido significado transcendente tem um outro mais humilde e prático[8]. O início do rito do botafumeiro datará dos meados do século XIII, quando a peregrinação a Santiago já se convertera numa verdadeira rota e chegavam milhares de pessoas, saturando a catedral, indo provocar no seu interior um odor desagradável motivado pelo cheiro das roupas sujas dos peregrinos impregnadas da sua transpiração durante a caminhada. Foi quando se inventou e passou a utilizar-se o botafumeiro, para aspergir com perfumes (do latim perfumum, “pelo fumo, através do fumo”) a multidão, purificando-a espiritualmente mas também fisicamente, diminuindo os maus odores[9].

Para ser movido, o botafumeiro necessita de um grupo de oito homens conhecidos como tiraboleiros (do latim thuribulum, “lançador de fumo”), que se vestem de vermelho e são treinados para efectuar o referido manuseio através de cordas. No século XVI, o rei Luís XI de França presenteou a catedral com um incensário construído em prata no estilo renascentista e foi nesse século que, para facilitar a sua utilização, construiu-se sob a cúpula da igreja um mecanismo de polias, desenhado por Juan Bautista Celma, que permite o perfeito funcionamento do botafumeiro. Uma vez o mesmo desgastado pelo seu uso, é recolhido ao museu catedralício. O mais antigo deles que se conserva data de 1851, e outro de 1971, presente da Irmandade de Alféreces Provisionales.

Ritual do botafumeiro na catedral de Santiago de Compostela

Ritual do botafumeiro na catedral de Santiago de Compostela

O botafumeiro actual é de latão banhado em prata, pesa 62 kg vazio (originalmente pesava 60 kg, mas em 2006 acrescentou-se um banho de prata que fez aumentar a sua massa para o peso actual) e chega a pesar 80 kg quando está cheio de combustível, medindo 1,60 m de altura. Esta peça sacra foi criada em Santiago de Compostela pelo ourives Xosé Losada, em 1851. A corda que a suspende, atada do cruzeiro da catedral, é actualmente de um material sintético, mede 65 m, tem 5 cm de diâmetro e pesa 90 kg. Anteriormente as cordas eram feitas de cânhamo ou de esparto[10].

Voltando ao Baptismo no Noûs, a Mónada Divina, seja um Baptismo na Água da Geração ou no Vinho da Transmissão, ou ainda um Baptismo de Fogo no crisma do mesmo Espírito, comporta sempre uma metamorfose ou transformação, a metanoia, do iniciado por uma completa realização gnóstica ou teosófica. Por isso está escrito no Tratado IV do Corpus Hermeticum – De Hermes a Tat: o Vaso ou a Mónada: “Os que escutaram a proclamação e foram baptizados pelo Noûs, participam da Gnose e se tornam Homens Perfeitos, por terem recebido o Noûs[11].

Foi assim que na lenda jacobeia, após receber o Baptismo da Água, o cavaleiro Caio se tornou puro ou “branco”, que é o que significa o seu nome, e o pulo com a sua montada para bordo da barca e a bênção que lhe foi concedida pela apostólica tripulação, equivaleu ao Baptismo do Fogo, assinalado nas vieiras indicativas da luz esplendorosa de Vénus, a Stella Maris.

Tem-se, pois, a Cavalaria como Arte Real (Império), reconhecida e sagrada pela Apostólica como Arte Sacerdotal (Pontificado)[12]. Contém-se nesta lenda portuguesa, enfim, no prefigurado cavaleiro Caio tão-só o sinal de reconhecimento sagrado da própria Ordem Militar e Religiosa de Santiago, custódia dos caminhos jacobeos para o centro comum de Compostela, em plena terra galaica, solar e sagrada que uma vez pertenceu a Portugal.

NOTAS

[1] Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, 6 volumes. Edições Amigos do Livro, Lisboa, 1988.

[2] René Guénon, Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. Éditions Véga, Paris, 1984.

[3] A barca simbólica de Janus podia deslocar-se nos dois sentidos, quer para a frente, quer para trás, o que corresponde aos dois rostos do próprio deus, assinalados pela chave de prata (passado) e pela chave de ouro (futuro), que para a tradição hindustânica são referências às duas Leis Universais do Karma (chave de prata) e do Dharma (chave de ouro) incarnadas na pessoa do Brahmatmã, com função análoga à do Chakravarti ou Melkitsedek, isto é, Imperador e Pontífice Universal.

[4] Esta mesma conquista por vezes é representada sob a figura de uma guerra santa, como se encontra no Bhagavad-Gîta e na literatura árabe apologética da Jihad, havendo um simbolismo do mesmo género nos romances de cavalaria da Idade Média que embeberam de religiosidade as armas cristãs. Vem a ser sobretudo a luta espiritual do homem inferior, mortal, consigo mesmo, o Homem Superior, imortal.

[5] É isto que indicam muito claramente os diferentes sentidos da palavra hebraica Shekinah, “Presença Real de Deus”, como indicativa do próprio Espírito Santo manifestado sobre as Águas geradoras da Criação, configuradas nas funções psico-orgânicas femininas, o que vem a configurá-la na imagem da Mãe Divina. Os dois modos ou aspectos referenciados são aqueles que as palavras latinas Gloria et Pax designam na fórmula: Gloria in excelsis Deo, et in terra Pax hominibus bonae voluntatis. Na catedral de Santiago de Compostela, a Luz de Glória está exposta no pórtico da Glória, do Mestre Mateo, e a Grande Paz no pórtico das Pratarias, com o crisma central.

[6] Isso reporta ao simbolismo dos dois oceanos, o das “águas superiores” e o das “águas inferiores”, o do conhecer e o do crer, e igualmente aos dois tipos de baptismo comuns a todas as doutrinas tradicionais. Já o chuvisco é associado ao sentido de “influência espiritual” (baraqa, em árabe), e por isso se diz que o peregrino é abençoado pela chuva que caia em Santiago de Compostela, Cidade Santa marcada pela presença da Shekinah na forma da Arcam Majorem.

[7] Juan G. Atienza, Los Peregrinos del Camino de Santiago. Editorial Edaf, S.A., Madrid, 2004.

[8] Juan R. Sanmartín, O Botafumeiro: Parametric pumping in the Middle Ages. In American Journal of Physics, volume 52, Issue 10, Outubro 1984.

[9] Após a Missa do Peregrino, durante séculos foi tradição os peregrinos subirem ao terraço da catedral e lançarem nos queimadores que aí estão as vestes gastas e sujas que utilizaram durante a jornada. De maneira que viam-se rolos espessos de fumo subirem permanentemente do alto da catedral. Até neste costume, muito pouco conhecido actualmente, vê-se a presença do elemento ígneo que é o afim e constante do Apóstolo São Tiago Maior, o “Filho do Trovão”.

[10] O botafumeiro em toda a sua história, caiu apenas quatro vezes sem nunca ter ocorrido acidente de ordem pessoal. Uma das quedas foi no ano de 1499, na presença de D. Catarina, que ia a caminho de Inglaterra para casar-se com o Príncipe de Gales, e uma outra queda em 23 de Maio de 1622, tendo o botafumeiro se desprendido das cordas projectando-se pela porta das Pratarias indo despenhar-se na praça defronte, sem tocar em alguém da imensa multidão de pessoas presentes, o que desde logo foi considerado milagre.

[11] Frithjof Schuon, Gnosis Divine Wisdom. Ed. World Wisdom. Inc., Bloomington, 2006.

[12] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição Dinapress, Lisboa, Maio de 2011.

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