Com a firmação do Tratado de Tordesilhas e a chegada à América de Cristóvão Colombo ao serviço dos reis de Espanha, o rei de Portugal apressou-se a reclamar e a oficializar como pertença da sua Coroa as terras mais a Sul do dito continente. Para tanto enviou em 1500, já morto D. João II e reinando D. Manuel I, uma poderosa armada com destino oficial a Calicute, Índia, mas cuja missão principal era aportar no Brasil e protestar a oficialização da sua descoberta para a Coroa portuguesa. Comandava-a o capitão-mor D. Pedro Álvares Cabral, cujas Armas familiares eram das mais ilustres do Reino.

Com efeito, em 9 de Março de 1500, os navios da esquadra de Pedro Álvares Cabral zarparam da praia do Restelo, defronte à ermida da Memória de Santa Maria de Belém, coeva do Infante D. Henrique de Sagres, e tomaram a rota sudoeste. Ao todo partiram cerca de 1200 homens repartidos por 13 embarcações, 11 das quais pertenciam ao rei de Portugal, uma a um fidalgo português e outra ao banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni (1).

Na hora da partida, quando já todos pisam a areia umedecida pelo mar de Lisboa, o rei D. Manuel, o Venturoso, pára e encara o grupo dos seus responsáveis nomeados e de nomeada. São eles: Gaspar de Lemos, comandante da nau dos mantimentos, que voltará da Terra de Vera Cruz com a nova do “achamento”, estando o monarca em Sintra; Luís Pires, que morrerá ao largo do Cabo da Boa Esperança no naufrágio da sua nau; Pedro de Ataíde, que Pedro Álvares encarregará da primeira façanha militar dos Portugueses no Índico; Diogo Dias, irmão e tantas vezes companheiro de Bartolomeu Dias, que na tempestade do Cabo se perderá da armada, à qual só voltará a reunir-se já na viagem de regresso, em pleno Atlântico, depois de ter aportado à costa oriental da Ilha de Madagáscar e errar pelo Mar da Arábia; Nuno Leitão da Cunha, que no massacre dos Portugueses na feitoria de Calicute salvará a vida do filho de Aires Correia, de doze anos de idade; Nicolau Coelho, companheiro de Vasco da Gama na viagem do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, e que trouxera a D. Manuel I a esperançosa notícia a bordo da Bérrio; Simão de Pina, que será outro dos quatro capitães tragados pela tempestade no Cabo da Boa Esperança; Aires Gomes da Silva, que comanda a nau Anunciada (2), armada conjuntamente pelo conde de Portalegre, por D. Álvaro de Bragança e pelo banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni; Vasco de Ataíde, cuja nau será, de toda a armada, a primeira a desaparecer, a única que não participou do “achamento”; Bartolomeu Dias, o pré-descobridor do caminho marítimo para a Índia, o melhor caravelista português do Atlântico, que embarcava para a sua última viagem: depois de ter deslumbrado os índios tupis do litoral, ou seja, os tupinambás, com a proeza de apanhar um tubarão que depois lhes ofereceu, morreria também, com toda a sua equipagem, no naufrágio no Cabo da Boa Esperança, a que ele pusera o nome de Cabo das Tormentas; Simão de Miranda, genro do feitor-mor da Índia, Aires Correia; o castelhano Sancho de Tovar, soto-capitão da armada; por fim, é a vez do capitão-mor (3).

A Armada de Pedro Álvares Cabral no "Livro das Armadas". Códice quinhentista pertencente à Academia das Ciências de Lisboa

A Armada de Pedro Álvares Cabral no “Livro das Armadas”. Códice quinhentista pertencente à Academia das Ciências de Lisboa

Pedro Álvares Cabral pertencia a família que estava dispensada de prestar vassalagem aos Reis de Portugal, os quais tinham os Cabrais em tal plano de honradez e devoção à causa da Coroa e do Reino que não lhes eram exigida a correntia formalidade do juramento de fidelidade ao monarca. Foi nesta linhagem de fidalgos ilustres, sempre mesclada aos principais acontecimentos portugueses durante a Dinastia de Avis – e até anteriores a ela – que veio a nascer o “Grande Caprino” que lançou a “Pedra de Fundação” do Brasil Ibero-Ameríndio.

Nasceu em plena Beira Baixa, em Belmonte, vila situada num cabeço – o Monte da Esperança, ou de Nossa Senhora da Esperança – onde ainda lá estão as ruínas do castelo dos Cabrais, próxima da igreja-panteão familiar sob o Orago Santiago. Aí terá nascido Pedro Álvares, em 1467 ou 68. Esse castelo talvez seja tão antigo como a Nacionalidade, porém, sofreu remodelações e reedificações, como tantos outros, no reinado de D. Dinis. A povoação recebeu foral de D. Sancho I, em 1188, quando florescia aí a comunidade judaica sujeita à jurisdição da Ordem dos Templários no lugar; esse foral foi confirmado por D. Dinis e renovado pelo Rei Venturoso (1510). As tradições da vila fundem-se com as da família dos Cabrais, seus alcaides-mores e adiantados (fronteiros) da Beira. O primeiro varão ilustre desse nome foi Aires Pires Cabral, que teve várias mercês de D. Afonso III. Relembra-se ainda os feitos de Fernão Cabral, o Gigante da Beira, que usava como arma uma maça de ferro com o peso de uma arroba (15 quilos). (4)

Belmonte, “Belo Monte” ou “Monte de Bel”, o Caprino ou Cumara, vai bem com o brasão de Armas desta família. O lugar também vai bem com a missão futura de Cabral ante o Ex Occidens Lux. Além de estar situado a leste da vila levando o significativo nome de Caria ou Cária, nos arredores de Belmonte está o estranho e antiquíssimo edifício de Centum Cellas, com dois andares e cantaria bem aparelhada, cuja origem e utilização não foram até hoje determinadas, mas pessoalmente atribuo a obra fenício-romana ligada à exploração de estanho de que o concelho é rico.

Dos Cabrais diz o Armorial Lusitano (5):

“CABRAL. Família antiga cuja origem se ignora. O mais antigo do apelido de que se encontra menção é Pedro Anes Cabral (ou Aires Pires Cabral?), porteiro e reposteiro-mor de D. Afonso III no ano de 1271. Os Cabrais principiaram a tornar-se mais conhecidos na História com o bispo da Guarda D. Gil Cabral e com Álvaro Gil Cabral, que se recebeu com a filha única e herdeira de Diogo Afonso de Figueiredo e de sua mulher, Constança Rodrigues Pereira, esta terceira neta por bastardia de D. Afonso III. Daquele matrimónio nasceram filhos, continuando na sua linha primogénita o senhorio de Azurara e a alcaidaria-mor de Belmonte.

“De Álvaro Gil Cabral e sua mulher foi terceiro neto Pedro Álvares Cabral, o Navegador, e Diogo Fernandes Cabral, o qual teve de Maria de Macedo a Jorge Dias Cabral, que serviu o Imperador Carlos V. Pelos actos de valor deu-lhe o Imperador novas Armas, que D. João III lhe confirmou em 22-7-1530.

“João Rodrigues de Sá, senhor de Matosinhos, nas suas coplas, não se esqueceu dos Cabrais, escrevendo a seu respeito as seguintes:

“Aludem os últimos versos à prerrogativa que tiveram de, pela sua muita lealdade, não prestarem menagem da alcaidaria. Igualmente D. João Ribeiro Gaio, bispo de Malaca, os cantou nesta quintanilha:

“As Armas que usam os desta linhagem são: De prata, com duas cabras de púrpura, uma sobre a outra. Timbre: uma das cabras.”

A origem do Nome e das Armas Cabralinas não deixa, ainda, de estar ligada a uma lenda de fundação correndo em Belmonte, em plena Beira Baixa, a qual me parece de origem judaica. Resumidamente, conta que um pastor teve um sonho premonitório de que em Belém da Serra da Estrela descobriria um tesouro, sonho esse que se repetiu por três vezes: “Vai a Belém e lá encontrarás o teu bem”. Mas não deu com tesouro algum… desanimado regressou a casa. Pelo caminho cruzou-se com um almocreve, entabularam conversa acabando o pastor por desabafar a sua saga infrutífera. Então, o almocreve revelou-lhe: “Eu também sonhei que no sítio de Belo-Monte, nas bandas da Serra da Estrela, há uma penha à boca de uma caverna onde uma cabra amarela se deita todos os dias com o seu cabrito, e que a cabra e o cabrito são de ouro”. Despediram-se, e cada qual seguiu o seu caminho. Logo o pastor correu ao sítio do sonho do almocreve e, para sua grande satisfação, descobriu dentro de umas fragas o tesouro maravilhoso de uma cabra e de um cabrito de ouro. Com tão extraordinário tesouro em sua posse, decidiu oferecer ao rei de Portugal o cabrito de ouro, ficando com a cabra para si. Assim fez. Mas o rei, apesar de encantado com tão generosa oferta, preferiu a cabra de ouro. Então o pastor ofereceu-lhe as duas peças. Como recompensa, o monarca ofereceu-lhe o senhorio das terras de Belo-Monte e as Armas de Nobreza distinguidas com um nome: Cabral.

Cabral ou Caprino, como o Cumara Real saído de alguma caverna privilegiada no cume da Serra da Estrela, é bem verdade conforme a lenda. Mas o nome Cabral, segundo outra origem filológica, também se liga a Calmão ou “Rabino”, porque segundo uma crença da época, divulgada mais ou menos por todo o país, os rabinos judeus “teriam cauda”, isto é, estariam pactuados com o Calmão ou Demo, seriam mesmo da sua corte, “demónios com cauda e chifres”, pois o seu saber em tanto transcendia a catequese da religião oficial, “única e verdadeira”, que ele só poderia provir do Anjo maldito. Isto poderá muito bem indicar que os Cabrais andaram de ligações à Sabedoria Hermética da Sinagoga, a mesma Kaballah como a Ciência Secreta “Calmã” ou Rabínica. Acaso estará nisto o inexplicável ostracismo a que Pedro Álvares Cabral foi tão ingrata e injustamente votado pela Coroa e restantes autoridades oficiais, subjugadas pelo peso da cúria romana, após o seu regresso da Índia em cuja viagem, e muito por «acaso» (!!!), deu ao Mundo o conhecimento oficial do Brasil, “acontecimento tão fortuito ou fugaz de menor importância que só provocou coisa mínima”: a mudança radical do mapa geopolítico do Mundo, de há 500 anos a esta parte! Realmente, é «coisa mínima»… para um Ser Divino com porte de Kumara ou Cumara (Cuma-Mara, Cume-Mara, Cume-Maris…).

Com a subida ao trono de D. João I, o novo rei de Portugal galardoou, por sua fidelidade à sua causa enquanto Mestre de Avis, o citado D. Álvaro Gil Cabral com a “doação de juro e herdade das terras da Coroa de Azurara da Beira, Valhelhas, Manteigas e Tavares” (6).

É perfeitamente conhecida a confirmação, na pessoa de seu filho, Luís Álvares Cabral, de todos os seus privilégios, rendas e haveres – documento assinado pelo próprio rei D. João I, datado de 6 de Outubro de 1385.

Luís Álvares Cabral, mencionado como herdeiro de sua tia Maria Gil e alcaide-mor de Belmonte, bisavô de Pedro Álvares Cabral, foi vedor do Infante D. Henrique. É, pois, o mais antigo que se conhece na relação entre a família Cabral e as Navegações Portuguesas – mas outros surgirão ainda, anteriores à escolha de Pedro Álvares para comandar as naus da Índia que, pelo caminho, “acharam” a Terra de Vera Cruz.

Luís Álvares casou duas vezes: a primeira, com a sua prima, D. Constança Eanes de Loureiro, de quem teve três filhos: Fernão Álvares Cabral, D. Isabel e D. Brites. Pela segunda vez, casou com Leonor Domingues, de quem não teve descendência.

Em 1433, o rei D. Duarte confirma toda a Casa, haveres e privilégios dos Cabrais a Fernando Álvares Cabral, cavaleiro e criado do Infante D. Henrique, de quem era vedor – persiste, como se vê, a ligação da família Cabral com o cérebro das explorações marítimas portuguesas. Fernando Álvares casou com D. Tereza de Novaes, ou de Andrade, avó de Pedro Álvares, que era viúva de um Mello – Estevam Soares de Mello – e neta paterna de D. Nuno Freyre de Andrade, vassalo do rei D. Fernando; este fidalgo foi aio de D. João, bastardo de D. Pedro, que viria a ser Mestre de Avis, “defensor do Reino”, e D. João I, o rei de Boa Memória. O avô paterno de Pedro Álvares morreu em combate no cerco de Tânger.

Fernão Cabral, pai de Pedro Álvares, devia ser ainda muito novo quando o seu progenitor, Fernando Álvares, morreu a combater nos muros de Tânger. Em 1464, era fidalgo da Casa Real de D. Afonso V, o Africano, e regedor da justiça na comarca e correição da Beira; em 1486, era adiantado da comarca da Beira, e o rei escrevia dele que “era do nosso conselho”. Nesse mesmo ano foi-lhe atribuída uma tença, que em 1492 passou para o seu filho primogénito, o morgado dos Cabrais, irmão mais velho de Pedro Álvares, João Fernandes Cabral, “fidalgo da Casa do Duque” – o Duque de Beja, primo de D. João II, mais tarde D. Manuel I, o Venturoso.

Era casado com D. Isabel de Gouveia, mãe de Pedro Álvares, filha de João de Gouveia, senhor de Almendra e alcaide-mor de Castelo Rodrigo, e de Leonor Gonçalves, colaça do rei D. Duarte (7).

Panteão da família Cabral na igreja de Santiago, Belmonte

Panteão da família Cabral na igreja de Santiago, Belmonte

Por fim, no ano 1467 ou 68, ao que tudo indica no solar dos Cabrais ou no castelo de Belmonte, nasceu Pedro Álvares de Gouveia, filho segundo de Fernão Cabral e de D. Isabel de Gouveia, que tiveram onze filhos (8).

Era a esse nobilíssimo Pedro Álvares Cabral que D. Manuel I, naquele dia de 9 de Março 1500, no areal da praia do Restelo, fitava longo e gravemente confiando-lhe a missão secreta de trazer o Brasil para o conhecimento do Mundo sob o bom fado da tutela Lusitana.

A certa distância, toda a corte assistia à despedida do rei aos capitães. Pedro Álvares Cabral ajoelha e beija a mão do Venturoso. Estão os dois sozinhos à beira da água. Majestoso, D. Manuel ergue a mão beijada por Pedro Álvares e lentamente com ela desenha no ar, sobre o busto ainda curvado do servidor, o gesto solene da sua bênção real. Todas as músicas, todas as palavras, todos os sons se calaram nesse instante – só a voz do mar murmura, marulhando na areia arrendada de branco aos pés do rei e do seu capitão-mor. E quando este se reergue, ungido, fica um pouco perplexo, como surpreendido por esse momento há muito esperado; afasta-se devagar nos primeiros passos, mas logo lestamente embarca no batel oscilante, onde a bandeira real drapeja ao vento que do mar sopra para terra. Respira-se por toda a praia uma emoção que dói. E quando os remadores começam a impelir os batéis para o meio do Tejo, a artilharia das naus rebenta em salvas festivas, que ficam reboando pelo ar, e a cada estampido surge um novo novelo branco entre os azuis do rio e do céu.

Junto das espumas brancas, a jusante, negreja o povo acenando para bordo da armada. Há muitas mulheres que choram e riem. Mães, esposas e filhas dos que vão partir – tanto daqueles que hão-de voltar como dos outros, que vão para morrer. E nem sabem ainda quais dentre elas é que ficarão de luto quando regressar a armada – mas sabem que haverá então muitas órfãs, muitas viúvas, e muitas mães pranteando um filho morto. Por isso choram umas pelas outras, sem saberem exactamente por quem estão chorando, se por elas próprias, se pelas companheiras – mas setenta anos de Descobrimentos já tinham ensinado às mulheres portuguesas que cada armada que sai do Tejo nas miragens do longe representa um muito maior número de mortos sem sepultura que de velas tenha essa armada. Por saberem isso é que elas nunca deixam de ir à beira d’água, dizer adeus aos homens que partem a cumprir o destino de Portugal.

É como canta doloroso Fernando Pessoa na Mensagem, no poema Mar Português:

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral

De maneira e segundo João de Barros, “e não somente se assentou no conselho o número das naus e gente de armas, que havia de ir nesta armada, mas ainda o capitão mor dela, que por as qualidades de sua pessoa foi escolhido – Pedro Álvares Cabral, filho de Fernão Cabral”. Acrescentando sobre a data da partida e para onde se dirigiam: “Ao dia seguinte, que eram nove do mês de Março, desferindo suas velas que estavam a pique, saiu Pedro Álvares com toda a frota, fazendo sua viagem às ilhas de Cabo Verde, para aí fazer aguada, onde chegou em treze dias” (9).

De facto, conforme a descrição da viagem Cabralina por Pêro Vaz de Caminha, por Mestre João e pelo Piloto Anónimo (10), a esquadra passou ao largo das Canárias e foi aportar na ilha de S. Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde, o que descreve ao rei de Portugal o talentoso escrivão Pêro Vaz de Caminha com a sua costumada precisão: “A partida de Belém foi na segunda-feira, 9 de Março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e as 9 horas, nós nos achámos entre as Canárias, mais perto da Grã-Canária. E ali andámos todo aquele dia em calma, coisa de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às 10 horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber, da ilha de S. Nicolau, segundo disse o piloto Pêro Escobar” (11).

No dia seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, perdeu-se da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem que houvesse vento forte ou contrário, e apesar das diligências para o encontrar não apareceu mais! (12) Este desaparecimento da nau de Vasco de Ataíde com toda a sua tripulação, desquitadas as hipóteses de tempo desfavorável que o justificasse ou de deserção ou motim a bordo, é um dos muitos pontos obscuros da empresa Cabralina. Avento indagando: acaso terá Vasco de Ataíde ficado propositadamente para trás a fim de proteger na retaguarda os seus companheiros de eventuais espiões doutros países que seguissem à distância a sua rota secreta? (13)

Prossegue Pêro Vaz de Caminha: “E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 de Abril, estando da dita ilha (S. Nicolau) obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topámos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira, pela manhã, topámos aves a que chamam fura-buxos”.

É por esse excerto da carta de Caminha que se confirma não ter sido acidental a descoberta do Brasil. Combinando a estimativa do caminho percorrido até Porto Seguro (690 léguas) com as latitudes arbitradas pelos portugueses a S. Nicolau (16º 40’ N) e a Porto Seguro (17º S) e o valor linear que atribuíam ao grau terrestre (17,5 léguas), conclui-se que ao afastar-se a frota de Sul para Oeste, não tendo havido qualquer tempestade que a forçasse nessa direcção, o desvio só podia ser intencional, tanto que a navegação fora de longo, isto é, sem voltas, “seguindo o nosso caminho” (14).

Sabiam e bem aonde se dirigiam, tanto que nesta armada ia, entre outros mareantes experimentados, o próprio Duarte Pacheco Pereira, a quem D. Manuel I, dois anos antes, mandara descobrir “a parte ocidental, que fica além do mar-oceano”. Tanto que “navegar de longo”, ou seja, a direito, só poderá ser para Ocidente, por estarem “obra de 660 ou 670 léguas além da ilha de S. Nicolau, onde avistaram sinais de terra”, os quais só existem precisamente a Oeste. Ademais, na linguagem dos marinheiros, navegar de longo é o mesmo que a direito, e navegar de largo é o mesmo que circular na vastidão oceânica (15).

Continuando a seguir o caminho de longo por esse mar, após os primeiros sinais de terra próxima, resultou: “Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o Capitão pôs nome – o Monte Pascoal – e à terra – a Terra de Vera Cruz.” – In Caminha.

Isso aconteceu no dia 22 de Abril, e a 23 ancoraram em frente da terra a que chamaram Vera Cruz, dando-se o primeiro contacto dos Portugueses com os Índios, no maior dos prazeres e com muita festa. Acabara de nascer o BRASIL IBERO-AMERÍNDIO!

A esse respeito, Francisco A. Silva e Pedro A. Bastos (16), escrevendo sobre a posterior etnia brasileira vêm a dividi-la em três grandes grupos, formados no período do Brasil Ibero-Ameríndio:

“Fundamentalmente, três grandes grupos étnicos – o Branco, o Negro e o Índio – entraram na formação do Povo Brasileiro num longo e lento processo. Como resultado da miscigenação (cruzamento) entre estes três grupos, originaram-se vários tipos de mestiço: o Mulato: mestiço de branco com negro; o Mameluco (caboclo): mestiço de branco com índio; e o Cafuso: mestiço de negro com índio.

“1.º) O Elemento Branco: pelo menos até meados do século XIX, o principal elemento branco foi o Português, considerado como o mais qualificado para colonizar uma região como o Brasil, devido à sua facilidade de miscigenação e aclimatação a regiões tropicais. Dele herdamos quase a totalidade das nossas instituições sociais, políticas e económicas.

“2.º) O Elemento Negro: de origem africana, os negros, que já conheciam o trabalho agrícola, o uso dos metais e o pastoreio, eram comprados por bugigangas de vidro, facões, fumo e cachaça. Foram trazidos para o Brasil em navios negreiros (tumbeiros) e desembarcados principalmente em Salvador, Recife e Rio de Janeiro.

“Dos grupos de negros trazidos para o Brasil, os principais eram:

“– Sudaneses: oriundos da Nigéria, Daomei, Costa do Ouro (iorubas, geges, fanti-ashantis);

“– Bantos: divididos em dois grupos: angola-congaleses e moçambiques;

“– Malés: sudaneses islamizados.

“3.º) O Elemento Índio: de acordo com uma classificação tradicional, baseada em critérios linguísticos, os índios do Brasil foram divididos em quatro grandes nações:

“– Tupi: espalhados por toda a costa atlântica e várias áreas do interior;

“– ouTapuia: ocupa o Planalto Central brasileiro;

“– Nuaruaque: ocupa a Bacia Amazónica até aos Andes;

“– Caraíba: ocupa o norte da Bacia Amazónica.”

Todavia, deve-se notar que, conforme já foi assinalado, além dessas quatro grandes nações indígenas, existe um grande número de nações menores. Assim, destaco a importância da pesquisa dos autores citados e não desprezo nenhuma informação que sirva para maior e melhor esclarecimento. Sobre a caldeação racial, remata feliz mas incompleto o pensamento de Gilberto Freyre (17): “Todo o brasileiro, mesmo alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo (…), a sombra ou, pelo menos, a pinta do negro”, e do índio, completo eu.

Vítimas da política económica do corso negreiro, os africanos roubados a sua terra como se fossem gado inumano, viram-se postos à venda no mercado de escravos que foi primeiramente a Capitania de São Salvador da Bahia. Esta é a cidade do negro, do caboclo hoje livre e que alinda o mapa turístico brasileiro por via do folclore e etnografia baianas trazidas de África a bordo dos porões inumanos da escravatura, lei abominável que Portugal e as suas Cortes do Brasil foram os primeiros do mundo civilizado a banir do mapa da condição humana. Ao Liberalismo iluminado pelo pensamento humanista da Maçonaria, reconheça-se, deve-se grandemente a Lei da Abolição, visto a maioria dos liberais e abolicionistas da época serem maçons, contrários ao secularismo jesuíta, já não tanto amancebado em Oitocentos à Coroa Portuguesa mas, sim e abertamente, aos interesses comerciais franco-holandeses! Os próprios primeiros navios negreiros, assim como a maioria deles durante quase três séculos, convém não esquecer para não estropiar os factos da História, eram holandeses. Além disso, as feitorias e engenhos no Brasil que empregavam a mão d´obra da escravatura, mais africana que ameríndia, relacionavam-se directamente aos interesses imediatos do Geral da Companhia de Jesus que se encontrava em Lima, no Peru, mesmo aqueles sendo protestantes. Foi ela quem acirrou os holandeses do Brasil a empreenderem o triste período da “caça ao índio”, aproveitando o momento de fraqueza de Portugal sob o domínio da Espanha Filipina.

Com efeito, a Companhia das Índias Ocidentais que actuou no Brasil no século XVII, era holandesa e flamenga de comerciantes calvinistas. Dedicava-se à exploração das riquezas naturais e ao comércio de escravos. Os índios aliaram-se aos portugueses e expulsaram-nos do Brasil, onde se cobriu de glória nas armas D. Diogo de Menezes na vitória militar de Pernambuco. Por outro lado, a Companhia Britânica das Índias Orientais, fundada por comerciantes de Londres em 1600, fazia comércio de chá contrabandeado dos holandeses para a América do Norte, tendo recebido um golpe fatal em Boston, em 16 de Dezembro de 1773. Ambas as Companhias desapareceram faz muito tempo.

Mas se o negro foi escravo no corpo, a sua alma continuou livre e deu continuidade, ludibriando o algoz escravizador, quando não fugia para o sertão e fundava quilombos, às suas crenças e tradições ocultas sob a capa do catolicismo. Assim nasceu o candomblé, associado ao culto dos deuses naturais ou forças primárias da Natureza, posteriormente prosodiado umbanda, quimbanda, macumba, etc., etc., designativos tardios resultantes da associação com elementos de crenças não africanas, estudo antropológico de foro neuro-onírico que deixo para os especialistas.

O que se sabe é que muitos aspectos das culturas ocidentais africanas chegaram ao Brasil e afectaram facetas da vida deste grande país, entre elas a expressão religiosa de largo sector do povo brasileiro, a qual me interessa focar aqui, impondo uma cultura religiosa própria à oficial católica, adoptando os santos e símbolos desta, tornando-se autóctone e vingando-se dos antigos senhores, assim encontrando justificativa plena a afirmação do frequentador do terreiro, descendente do escravo africano: Kosi mi fara alejo – Não há nada que possa contra mim, nem mesmo os estrangeiros! (18)

Nessas culturas africanas predominavam elementos religiosos comuns, destacadamente um panteão de divindades originalmente pertencentes ao povo Ioruba. Essas divindades, um tanto semelhantes aos deuses, heróis e semideuses clássicos da Grécia e da Roma antigas, tinham, como eles, relações sociais e familiares entre si e dispunham de largos poderes diversificados, apresentando-se com características e atributos próprios. Ora, toda essa corte celestial mitológica foi transferida através do Oceano Atlântico da costa ocidental da África para o Brasil, este onde na altura só havia uma religião oficial – o catolicismo. Porém, os credos e as divindades africanas resistiram ao impacto que essa transferência forçada causou, e também a todas as tentativas de supressão por parte das autoridades locais, nomeadamente os jesuítas interessados em integrar os africanos na sua cultura religiosa europeia.

A repressão dessas religiões milenares africanas, recuando ao longínquo período lemuriano-atlante, se assim me posso exprimir, acabou por ser um tanto superficial e muitas das suas divindades integraram-se no santoral católico, assumindo assim os aspectos exteriores dos santos cujas imagens povoavam os altares das igrejas, capelas e oratórios das mansões senhoriais da cidade e de imponentes fazendas no mato. Num compromisso típico, essas divindades sobreviveram desse modo e o seu culto manteve-se, com as compreensíveis inconsistências de uma tal extrapolação. Desta maneira, a transferência foi feita mais ou menos dentro destes moldes:

O Pai dos deuses da religião do povo Ioruba, Olurum, também chamado Elemi – Senhor da Vida – é uma espécie de Zeus – Júpiter Todo-Poderoso, que vive rodeado por uma corte de múltiplas divindades – os orixás. Olurum ocupou o lugar de Jeová, o Deus Todo-Poderoso dos católicos, e a sua corte celeste foi logo assimilada à concepção católica dos Céus, tendo nela os orixás assumido as funções de anjos e arcanjos, santos, beatos e bem-aventurados. Os orixás servem de intermediários entre Deus e os crentes, tendo os mais importantes missões específicas, variadas, patrocinando aspectos da vida humana e possuindo um passado e até mesmo uma complexa vivência colorida.

De todos os orixás, o mais importante é Iemanjá, mãe de numerosas divindades, do Sol, da Lua e deusa das águas. De facto, Yeye significa “mãe”, e eja, “água”; daí ela ser a deusa dos peixes, dos pescadores e protectora daqueles que andam sobre as águas do mar.

É, pois, fácil de inferir que todos os africanos que cruzavam o Atlântico a caminho do Brasil, nas piores condições imagináveis, ao sobreviverem à travessia se tornavam, com a lógica da sua fé, fervorosos devotos da grande Iemanjá, indo depois transmitir o seu culto aos  descendentes e familiares, o que explica a larga popularidade que Iemanjá goza hoje no Brasil.

Como os africanos, ao chegar, viam-se na impossibilidade de lhe prestar culto nos seus moldes tradicionais, optaram por considerar a Virgem Maria – vestida de azul e branco, com a Lua aos pés, tida pelos católicos como Mãe de todos – a expressão local de Iemanjá, confundindo assim a imagem da Virgem com a divindade africana. Passaram, pois, a ser profundamente devotos da Virgem Maria, prestando-lhe culto e venerando-A à sua maneira.

Da mesma forma, e por processo idêntico, o orixá Orixalá ou Oxalá foi confundido com Jesus Cristo, sucedendo o mesmo com outros orixás importantes.

Oxum e Oiá, deusas de rios, foram confundidas com St.ª Bárbara e St.ª Catarina (e também com St.ª Maria Madalena, St.ª Joana d’Arc e St.ª Ana, cujas imagens partilhavam, frequentemente, os altares com aquelas primeiras). Ogum, deus da guerra e dos ferreiros, tinha a sua representação adequada na popular imagem de S. Jorge, emplumado, a cavalo, matador do temível dragão. Oxossi, deus da caça e orientador do tiro das flechas, encontrou a sua réplica em S. Sebastião, soldado e mártir, que tem como atributo as flechas do seu martírio. Omolu, deus protector de doenças causadoras de chagas, foi prontamente identificado com a imagem de S. Roque, chagado e sofredor. Com idêntica razão, os deuses gémeos Ibeji foram tomados pelas inseparáveis imagens de S. Cosme e S. Damião. Até Ifa ou Exu, o deus mensageiro, rápido, malicioso e vivo, da mitologia Ioruba, foi transformado numa versão do Demónio judaico-cristão, tornando-se mesmo merecedor dum culto respeitoso e acautelado (19).

Esse esquema de devoções transpostas não passou despercebido à Igreja Católica, que fez e faz esforços por contrariar essas iniciativas, mas os condicionamentos da vivência local e a enorme dificuldade em desfazer a confusão impediram e impedem uma destrinça efectiva ao nível do culto popular. E, assim, por esses processos um tanto irregulares é hoje possível encontrar imagens de santos católicos que, em certas circunstâncias, representam entidades onde se reflectem as divindades da África longínqua…

Brasil! Pátria ecuménica do Pensamento Humano. Desde há muito assinalado com encómios apologéticos como “Ilha da Bem-Aventurança”, “Ilha dos Bem-Aventurados”, “Ilha Venturosa” ou a “Terra da Ventura”, não raro associado à “Ilha da Utopia” de Thomas Moore, à “Ilha de São Brandão” e à própria Agharta no que esta tem de “intransponível e inviolável” como Paraíso Terral, Locus Amoenus, cedo o Brasil foi considerado prolongamento ou desfecho apologético de Portugal, tendo Pedro de Mariz (20) lhe reservado talvez o maior dos encómios exaltantes de sua singular e promissora condição:

“Todavia chamar-lhe-ia eu a NOVA LUSITÂNIA. Ali também a Província de Santa Cruz, que é terra no mundo nova, e NOVAMENTE acrescentada à Coroa de Portugal, que antigamente, e ainda hoje se chama Lusitânia.”

Já ao núcleo inicial de Belém do Pará os portugueses batizaram de Feliz Lusitânia.

Prossegue Pêro Vaz de Caminha: “E fomos ao longo da costa (…), para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nos demorássemos, para aqui tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertamos.”

Esse trecho, junto a um outro facto, comprova que Cabral não navegou ao acaso nem descobriu acidentalmente o Brasil. Se a água e a lenha “não minguavam” na armada, por que mesmo assim fizeram, naquela escala, quatro abastecimentos de água e lenha, só para “nos acertarmos”, isto é, só para as renovarem? Se a nau de mantimentos, de que dependia a sorte de toda a armada em sua longa viagem, fora classificada de “velha e imprestável” para afrontar o Cabo das Tormentas, por que mesmo assim fora escolhida para missão tão crucial ao bom êxito da empresa? Só se pode explicar que se destinava a chegar ao Brasil e nunca a transpor o Cabo africano com toda a probabilidade de naufragar, inviabilizando assim a chegada à Índia da frota de Pedro Álvares Cabral dela dependente. Portanto, a renovação das provisões estaria prevista antecipadamente, quando chegassem à costa brasileira e a nau de mantimentos voltasse para trás, indo dar a boa nova ao rei D. Manuel I, no seu Paço de Sintra. Talvez, mais uma vez avento por carência atroz de documentação coeva do acontecimento, a nau de Vasco de Ataíde a aguardasse entre Cabo Verde e as Canárias, para lhe dar escolta até Lisboa, sabendo-se pela sua aparição que a missão tivera êxito.

A frota navegando ao longo da costa ancorou e desembarcou a tripulação no ilhéu da Coroa Vermelha no Porto Seguro, actual Baía Cabrália, no sul do litoral baiano: “O Capitão (…) saiu, ele com todos nós, em um ilhéu grande, que na baía está e que na baixa-mar fica mui vazio.” – In Caminha.

Gráfico da fundeação da Armada de Pedro Álvares Cabral (estudo e documento do autoria do professor Jaime Cortesão)

Gráfico da fundeação da Armada de Pedro Álvares Cabral (estudo e documento do autoria do professor Jaime Cortesão)

Seguiu-se a primeira Missa da Oitava da Páscoa (Domingo in Albis), cuja Palavra tem-se no Evangelho de São João, sendo o paramental branco (in albis, ou da deposição das vestes brancas) e depondo-se no altar cuidado a imagem navegante de Nossa Senhora da Esperança, que segurando o Menino fitando uma Pomba branca na destra materna, a qual era da devoção particular de Pedro Álvares Cabral que a trouxe de seu domínio de Belmonte, de cuja vila é Orago e aí está hoje na igreja de Santiago.

Nossa Senhora da Esperança no igreja de Santiago em Belmonte

Nossa Senhora da Esperança no igreja de Santiago em Belmonte

Foi oficiante o frei sacerdote Henrique Soares de Santa Cruz de Coimbra, franciscano ao serviço da Ordem de Cristo e geral da companhia dos cinco franciscanos, contando com ele, que iam na armada. Como nota breve, frei Henrique Soares foi o primeiro bispo de Olivença (terra portuguesa perdida para o país vizinho em 6 de Junho de 1801, em consequência da curta Guerra das Laranjas que opôs Portugal a Espanha e à França) e o seu túmulo encontra-se na capela de Jesus Crucificado na antiga igreja matriz de Santa Maria Madalena desta cidade.

Mais uma vez e para descrever bem o acontecimento sagrado da primeira Missa, recorro à Carta de Pêro Vaz de Caminha, ela que é o primeiro Codicilo Espiritual do Brasil:

“Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. Mandou a todos os Capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperavel (dossel), e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali, com todos nós outros, fez dizer missa, a qual foi dita pelo Padre Frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

“Ali era com o Capitão a bandeira (da Ordem) de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho.

“Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos (ao serviço da Ordem de Cristo), o que foi muito a propósito e fez muita devoção.

“Enquanto estivemos à missa e à pregação, seria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como a de ontem, com os seus arcos e setas, a qual andava folgando. E olhando-nos, sentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e a dançar um pedaço.

“Acabada a pregação, voltou o Capitão, com todos nós, para os batéis, com a nossa bandeira alta. Embarcámos e fomos todos em direcção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo, na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife (…).”

Desembarque de pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500. Pintura a óleo de Óscar Pereira da Silva (1867-1939)

Desembarque de pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500. Pintura a óleo de Óscar Pereira da Silva (1867-1939)

A segunda Missa com o antecedente soerguimento da Vera Cruz, feita de pau-brasil, aconteceu a 1 de Maio de 1500, tendo Lusos e Tupis comungado juntos na Coroa Vermelha (do Espírito Santo). Para não fugir à regra, também desta vez me valho da Carta de Caminha a D. Manuel I:

“Sexta-feira, 1 de Maio:

“E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de Maio, pela manhã, saímos em terra, com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar (assentar, implantar) a Cruz, para melhor ser vista. Ali assinalou o Capitão o lugar, onde fizessem a cova para a chantar.

“Enquanto o ficaram fazendo, ele (Cabral) com todos nós fomos pela Cruz abaixo do rio, onde ela estava. Dali a trouxemos com esses religiosos e sacerdotes, cantando em maneira de procissão.

“Eram já aí alguns deles, obra de setenta ou oitenta (índios); e, quando nos viram assim vir, alguns se foram meter debaixo dela, para nos ajudar. Passámos o rio, ao longo da praia, e fomo-la pôr onde havia de ficar, que será do rio obra de dois tiros de besta (cerca de trezentos metros). Andando-se ali nisto, vieram bem cento e cinquenta, ou mais.

“Chantada a Cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiramente lhe pregaram, armaram altar ao pé dela.

“Ali disse missa o Padre Frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos (freires sacerdotes). Ali estiveram connosco a ela obra de cinquenta ou sessenta deles, assentados todos de joelhos, assim como nós.

“E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram connosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornando-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como nós estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção.

“Estiveram assim connosco até acabada a comunhão, depois da qual comungaram esses religiosos e sacerdotes e o Capitão com alguns de nós outros.

“Alguns deles, por o sol ser grande, quando estávamos comungando, levantaram-se, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinquenta ou cinquenta e cinco anos, continuou ali com aqueles que ficaram. Esse, estando nós assim, ajuntava estes, que ali ficaram, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles falando, lhes acenou com o dedo para o altar e depois apontou o dedo para o Céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomámos.

“Acabada a missa, tirou o Padre a vestimenta de cima e ficou em alva; e assim se subiu, junto com o altar, em uma cadeira. Ali nos pregou do Evangelho e dos Apóstolos, cujo é o dia, tratando, ao fim da pregação, deste vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, o que nos aumentou a devoção.

“Esses, que estiveram sempre à pregação, quedaram-se como nós olhando para ele. E aquele que digo chamava alguns que viessem para ali. Alguns vinham e outros iam-se. E, acabada a pregação, como Nicolau Coelho trouxesse muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda, houveram por bem que se lançasse uma ao pescoço de cada um. Pelo que o Padre Frei Henrique se assentou ao pé da Cruz e ali, a um por um, lançava a sua cruz atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha primeiro beijar e alevantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançaram-na todas que havia, que seriam obra de quarenta ou cinquenta.

“Acabado isto (segundo o cronista, perto das treze da tarde), fomos assim perante eles beijar a Cruz, despedimo-nos e viemos comer.”

A primeira missa no Porto Seguro de Vera Cruz. Pintura de Vítor Meirelles, exposta no Museu Nacional de Belas Artes

A primeira missa no Porto Seguro de Vera Cruz. Pintura de Vítor Meirelles, exposta no Museu Nacional de Belas Artes

Por seu turno e para agravar a causalidade da chegada de Cabral a Porto Seguro, escreveu Roberto Lucíola com a lucidez que lhe era peculiar (21):

E por falar em “índios”, bem poucos conhecem o facto de que as cores de nosso pavilhão são as mesmas que ornavam o sagrado MARACÁ (pendão, estandarte, símbolo de uma Nação indígena) da tribo dirigida por TIBIRIÇÁ, o másculo chefe dos TUPINAMBÁS. Esse MARACÁ era tecido com arte e gosto, com linhas e raras penas de arara, nas cores Verde e Amarelo, encimado por um campo formado com uma esfera Azul anil e “comboíras” brancas (comboíras ou contas, feitas de sementes). TIBIRIÇÁ, com o concurso do Sumo Sacerdote SAIXÊ e do Chefe dos Guerreiros, ICARAÍ, coordenou a recepção a CABRAL. As 10 tribos que participaram de tão importante acontecimento foram as seguintes:

Realmente as cores da actual Bandeira do Brasil estavam presentes nos tocares dos chefes das tabas que receberam Cabral: “Outros traziam carapuças de penas amarelas; outros de vermelhas; e outros de verdes», descreveu Caminha. Por seu turno, Icaraí também foi assinalado pelo mesmo escrivão: “Andava aí um que falava muito com os outros que se afastassem, mas não que a mim me parecesse que lhe tinham acatamento ou medo”. Já Saixê poderá ser o índio que apontou o altar e depois o Céu, como se dissesse “algo de bem” aos seus, talvez: – Vede, os recém-chegados amam a nós os Tupis desta Taba de Tupã!

O certo é que “andavam mais mansos e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles. Neste dia, enquanto por ali andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril dos nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus.” – In Caminha.

Para se chegar a tamanho evento e consolidação do Sangue Real Luso com o Sangue Nobre Tupi, para sempre modificando a História da Humanidade antevendo já uma Nova Era de Promissão para o Mundo a partir do Brasil, três factores primordiais, mais ou menos registados historiograficamente, terão concorrido para tal:

1.º) A América Índia inteiramente preparada para receber os Iberos em 1500;

2.º) A sua promoção pela Escola de Navegação de Sagres;

3.º) A Ordem de Mariz, detrás de todo o processo ecuménico, cujo Grão-Chefe era o próprio Infante Henrique de Sagres, tendo lateralmente por Colunas Vivas a Colombo e a Cabral.

Assim como Frei Henrique Soares, franciscano enviado em missão pastoral pelo Geral do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, foi o primeiro representante vivo da Autoridade Espiritual de Mariz em solo brasileiro, igualmente Pedro Álvares Cabral foi o primeiro representante vivo do Poder Temporal de Mariz na mesma Terra Venturosa de Vera Cruz, assim se outorgando por correspondência simbólica os três Caprinos das suas Armas aos descendentes da antiga Cária e presentes sumos dignitários da Nação Tupi: TIBIRIÇÁ (Rei e Sacerdote – PAI) – SAIXÊ (Sacerdote – FILHO) – ICARAÍ (Rei – ESPÍRITO SANTO), atributos notáveis de MELKI-TSEDEK, o “Planetário da Ronda”, como Caprino ou Cumara Primordial, de maneira que poderei conformar:

Nada disto se estranhará se atender-se a que Pedro Álvares Cabral herdou de seu pai, Fernão Cabral, a erudição da Corte Hermética de D. Afonso V, o Rei-Alquimista que inclusive chegou à fábrica do Ouro Filosófico (22), e terá convivido de perto com os saberes cabalísticos da Sinagoga de Belmonte (cuja comunidade se instalou aí, mantendo diáspora prolongada até além do século XVIII, altura em a sua judiaria, alfama ou colónia judaica passou a ser identificada com o nome de bairro de “Marrocos”), onde terá aprendido o sentido oculto da Navegação Hermética, dentre outras coisas; a comunidade judaica beirã foi afamada em todo o país pela promoção dada às livrarias especializadas em Kaballah e Alquimia, inclusive tendo sido procurada e professada pelos mais doutos da Península Ibérica. É constante a presença nela de Isaac Abarnavel, rabi-mor do Reino e conselheiro particular de D. Afonso V, o Africano, além de músico, poeta e hermetista afamado.

Com tudo, pode deduzir-se que a cultura de Cabral não seria unicamente a vulgar de cátedra mas sobretudo a iniciática de Ordem, e talvez seja essa a razão do desprezo ostracista a que foi votado após o seu regresso da Índia pelo caminho de ida “achando” o Brasil, numa época em que já se sentiam os ecos da Contra-Reforma próxima (encetada após o Concílio de Trento realizado entre os anos de 1545 e 1563) e estava declarada a perseguição aberta ao judaísmo e demais modalidades consideradas heréticas. Contudo, ante tantos indícios que o tempo não conseguiu apagar, a par do homem de armas e do grande navegador tem-se também e sobretudo o Grande Iniciado. O Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira (1928-1969) e notável pedagogo, não se escusou apontá-lo nesse último sentido (23):

A missão de Cabral não é mais do que um codicilo para o espiritual Testamento de Cristóvão Colombo. Foi ele – como Pedro – a Pedra fundamental, ao raiar do século XVI (1500), do Grande Edifício Humano.

Por isso a capital baiana de Cristóvão Colombo traz o nome de Cristo ou Salvador, enquanto a do outro, BAÍA CABRÁLICA ou VERA CRUZ.

1500! Ano de Cristo ou Cristiano, como o verdadeiro ROSACRUZ. Sim, a rubra (ou ensanguentada) FLOR Crística (cor da referida Ordem – de CRISTO – em Portugal) cercada de espinhos… no centro de uma CRUZ.

Um século que finda: Colombo. Outro século que começa: Cabral. Séculos XV e XVI. O Kumara, a Casa de Deus, segundo os mesmos Arcanos.

Tanto o Brasão de Colombo como o de Cabral são cercados de ramos partidos do mesmo tronco. Tronco divino e não humano, Tronco deífico ou Aghartino. Cabral, Capris, Capricórnio, Kumara, etc. Cristóvão Colombo simbolizando a 3.ª Pessoa (que ele mesmo saudava de modo velado) da Trindade ou Espírito Santo.

O facto de alguém se chamar Pedro Álvares Cabral e adoptar por Brasão vários ramos de uma Árvore (a Árvore Genealógica dos Kumaras ou Cabires), tendo em baixo, no escudo, dois CABRITOS, e em cima ou no cume, na cúspide, etc., um outro, um pouco menor, na razão de uma Trindade Kumárica ou Pai, Mãe e Filho, denota superiores conhecimentos esotéricos que não os podem ter homens vulgares, por mais ilustres que sejam. Bastava isso para confirmar tudo quanto dissemos a seu respeito.

Salve, Árvore Genealógica dos Cabires, honrada nos preciosos nomes Cristóvão Colombo e Pedro Álvares CABRAL!

A verdade é que, segundo a obra secreta Livro das Vidas, lavrada sobre o mais profundo esoterismo pelo mesmo Professor Henrique José de Souza em 1933, ele indica Pedro Álvares Cabral como a 3.ª Alma Peregrina ou “Vida Esparsa” do 3.º Sub-Aspecto do 7.º Aspecto da Linha dos SERAPIS, ou seja, inserido no 3.º Sub-Raio dos 7 que compõem o 7.º Raio (cada Raio é composto de 7 Sub-Raios, em guisa de decomposição cromática das promanações solares do respectivo Logos ou Divindade Central do Sistema Solar em torno do qual orbitam 7 Logos Planetários).

Cavando um pouco mais fundo na procura esotérica do que fosse a natureza oculta tanto da pessoa como da missão de Cabral, informa a Tradição Iniciática das Idades que os Serapis (Seres Divinos, Ser+Apis) estão profundamente ligados aos mistérios do Seio da Mãe-Terra, caracterizando-se essa Linha pelos atributos seguintes:

– 7.º LOGOS – 7.º RAIO.

– A ORDEM dos RITMOS naturais.

– O Poder ou Força que ajusta as relações internas às externas, adaptando umas às outras, dando forma à Essência no Plano Físico.

– A Essência adaptada ou revestida de matéria apropriada a poder agir no campo da Matéria.

– ESPÍRITO e MATÉRIA.

– ORDEM na acção física ou o agir correctamente no Plano Físico.

– A MAGIA como Cerimonial ou Acto Ordenado.

– Todas as Energias relacionadas com o Plano Físico denso, fazendo parte deste prodigioso Logos. Portanto, o novo Sol nascente que deve percorrer o seu Zodíaco ou Ciclo evolucional através dos signatados “12 Trabalhos” de Hércules ou Herakles.

– O Físico denso contendo em si o Vital ou Etérico – FÍSICO NO FÍSICO.

– Mundo das Formas – Reencarnação.

– SOL (no Solo, Seio da Terra) – Kumara MIKAEL.

– Linha SERAPIS – MANU (Legislador).

Assim, a Linha dos SERAPICOS ou SERAPIS constitui-se na representação vertical do Pai Eterno. São os “Ferreiros” do Seio da Terra, os que laboram directamente com o Fogo Terrestre ou Kundalini, logo, com o Fogo de Marte, assim fixando Saturno (SAT-OM) na Terra. A tónica desta Linha é a Magia Cerimonial como caminho espiritual e método de acção. Por serem Seres votados à manipulação das forças naturais e sociais, construindo e destruindo sociedades e civilizações em conformidade aos seus ciclos de duração e karma ou dividendos acumulados, estes Seres Divinos como Agentes dinâmicos dos Senhores do Karma na Terra estão por isso isentos de qualquer Karma, mesmo quando aparentemente se mostram implacavelmente destruidores, pois não fazem senão cumprir as Ordens da Face do Rigor da Divindade. Por isso aos Serapis também se lhes chama Atikarmas. Profundamente relacionados aos 3.º e 5.º Raios, eles são os detentores da Alta Magia Divina, os TEURGOS e TAUMATURGOS por excelência.

Já as 4.ª e 7.ª Linhas dando consecução ao Trabalho Vertical da Grande Fraternidade Branca de Agharta para a Face da Terra, constitui assim a objectivação da Autoridade Espiritual (Tsedek) na Terra, o que se relaciona com toda a Obra Templária da Ordem do Santo Graal, preparando o Advento do Espírito de Verdade por sobre o mesmo Mundo (24).

Desfecham os Maiores da Raça o vaticínio de caber ao Brasil, sendo primeiro eco ou arauto Cabral, ser a Terra Venturosa escolhida por Deus para seu Trono.

Após a fundação gloriosa do Brasil Ibero-Ameríndio por Pedro Álvares Cabral – Tibiriçá, o Grande Navegador realizou a sua missão oficial em Calicute e Cochim, na Índia, e regressou ao Reino onde D. Manuel I, parecendo embriagado pelo prestígio imenso e a enorme agitação internacional à sua volta, mal o onerou e depressa o esqueceu, apesar dos protestos junto do monarca mal-agradecido dos amigos e admiradores de Cabral, dentre eles o vice-rei da Índia, D. Afonso de Albuquerque (25).

Sem talentos para adulador, discreta mas decididamente Pedro Álvares retira-se da Corte e da Lisboa febris e fixa residência na Quinta do Rosário, perto de Santarém, refugiando-se na vida agrícola onde passa o resto dos seus dias, no sossego merecido do Herói em terras e mares distantes e na memória contemplativa da Grandeza feita, morrendo quase anónimo em 1520 (26).

Diz-se ter sido sepultado na capela de S. João Evangelista da igreja de Nossa Senhora da Graça dessa cidade escalabitana, cuja legenda tumular, em caracteres góticos, com referência brevíssima a ele mostra bem a censura inquisitorial sobre a sua pessoa, parecendo mesmo querendo-a apagar da memória da História da maneira mais infame possível: “AQUI JAZ PEDRALVAREZ CABRAL…” – e é só. Mas a legenda tumular prossegue com referências à sua esposa D. Isabel de Castro que mereceu maiores encómios, não por ser a mulher do Grande Navegador mas tão-só por ter sido a camareira-mor de D. Maria Manuela de Portugal, filha do rei papista D. João III que odiava tudo quanto tivesse a ver com judeus, árabes e outras raças e crenças que não estritamente as apostólicas romanas (27).

Ainda assim, resta saber se os despojos mortais de Pedro Álvares estarão realmente aí. Isto porque a sepultura foi aberta em Agosto de 1882, para confirmar a sua presença, tendo sido encontradas três ossadas humanas, duas masculinas e uma feminina. Causou ainda forte estranheza a presença do esqueleto de uma cabra no interior do túmulo, mas para muitos isso provava que aí jazia Pedro Álvares Cabral: o escudo dos Cabrais ostenta três cabras. Para todo o efeito, dou interpretação absolutamente diversa ao caso, do género aqui “charada” iniciática: fica a cabra e vai o Cumara… Para onde? Eis o busílis da questão. Para agravar a questão, por volta de 1903 o túmulo foi reaberto, e dessa vez continha oito corpos, cinco ossadas masculinas, uma feminina e duas de crianças. Mesmo tendo sido utilizado como depósito sepulcral, o facto é que assim o enigma adensa-se e, para mim, acaba só tendo maior valor o sentido velado da cabra no lugar do Cumara.

Túmulo de Pedro Álvares Cabral na igreja da Graça, Santarém

Túmulo de Pedro Álvares Cabral na igreja da Graça, Santarém

Seja como for, é impressionante a cortina de silêncio lançada sobre o nome e a pessoa de Pedro Álvares Cabral, logo após o seu regresso triunfal da Índia em 1501.

As únicas duas cartas que o apresentam como retirado da Corte e com residência fixa em Santarém, onde pretende alargar as suas propriedades, são datadas de 1509. E o nome de Pedro Álvares só volta a aparecer nos documentos com relação ao ano de 1518, já perto da data da sua morte, onde consta do Livro de matrícula dos moradores da Casa del-Rei D. Manuel como cavaleiro do seu Conselho, com a pensão mensal de 2437 reais.

Segundo Metzner Leone (in ob. cit.), tudo o que se conhece como remuneração régia para os serviços prestados por Pedro Álvares Cabral é de uma exiguidade que chega a envergonhar quem concedeu mercês tão mesquinhas por tão altos serviços recebidos: em 4 de Abril de 1502 são mandadas pagar a Pedro Álvares duas importâncias, uma de 13 mil reais e outra de 30 mil reais, “de sua tença”; em 6 de Março de 1504, mais 30 mil reais; e há um recibo, assinado pelo próprio Pedro Álvares em 10 de Janeiro de 1515, que lhe conferia a importância de 200 mil reais, da tença anual.

Reparando em toda essa anormalidade, dá vontade de supor que não foi Pedro Álvares Cabral quem fez a mais extraordinária e a mais significativa viagem marítima de toda a Gesta Henriquina e consequente Período das Descobertas – pois tal suposição seria a única hipótese de inocentar quem assim o recompensou como homem, e quem assim o inutilizou como português ao serviço da sua terra e da sua gente. Mas não há dúvida nenhuma de que o mesmo Pedro Álvares Cabral nomeado, por uma carta régia, Capitão-mor da armada da Índia é o mesmíssimo a quem Caminha chama simplesmente o Capitão, a quem o Piloto Anónimo chama Pedro Álvares, e a quem a História Universal chama apenas Cabral.

Não importa, é a sina fatal de todo o Grande Iniciado cujos feitos épicos, imortais, vulgarmente são pagos com desdém e abandono. Não importa, é sempre assim o mundo vulgar, profano… cuja sobrevivência depende inteiramente, contudo e anacronicamente, daquele, tanto em riquezas humanas quanto espirituais.

Importa, sim, saber “Qual dos Gigantes morto rolará?”, Portugal ou o Brasil, na interrogação incómoda que faz o imortal Castro Alves, no final da sua Ode ao Dois de Julho.

Nenhum deles rolou nem rolará, respondo eu, pela razão de se tratar de um fenómeno cíclico da maior transcendência na História, como seja a da descida das Mónadas ibéricas para se fundirem na Raça Autóctone brasileira, ou seja, “a Raça nobre e guerreira dos Tupis”. Com isto se consolidaram os laços humanos e espirituais que até hoje unem estreitamente as duas privilegiadas Pátrias-Gémeas: PORTUGAL E BRASIL.

Assim se cumpriu o Ciclo Luso-Ameríndio no Quinto Continente, berçário de um Quinto Império Universal da Humanidade, na mais excelsa e arrojada iniciativa cabrálica ou cumárica na Nova Lusitânia unida à progenitora desde Praia Grande de Sintra a Mar Grande de Itaparica. Pelo que:

NOTAS

1) António G. Mattoso, Compêndio de História Universal. Depositária Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1962.

2) Dos treze navios da Armada de Pedro Álvares Cabral, apenas se conhecem os nomes de três: Anunciada, El-Rey e S. Bento.

3) Metzner Leone, Pedro Álvares Cabral. Editorial Aster, Lisboa.

4) Raúl Proença, Guia de Portugal – II Beira Baixa e Beira Alta, volume III. Edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

5) Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Lisboa, 1961.

6) António Pedro de Sousa Leite, Novos Elementos para o Estudo da Grande Família dos Gouveias Humanistas. Braga, 1965.

7) Luís Peter Clode, Genealogia da Família Cabral. Funchal, 1968.

8) Metzner Leone, ob. cit.

9) João de Barros, Décadas. Com selecção, prefácio e notas de António Baião. Vol. I, livro 5, cap. I, p. 102. Colecção de Clássicos Sá da Costa, Lisboa.

10) Foi Mestre João quem primeiro representou, em carta cosmográfica, a constelação do Cruzeiro do Sul. Não só era cosmógrafo como cartógrafo, físico, cirurgião e sábio em leis.

11) Jaime Cortesão, A Carta de Pêro Vaz de Caminha. Rio de Janeiro, 1943.

12) Fernão Lopes de Castanheda (1500? – 1559), História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, em 10 tomos cobrindo toda a história do Império Português no Oriente, desde as suas origens até à década de 1540. Episódio citado no liv. IV, cap. XXXVII, pp. 439-441 da edição de Pedro de Azevedo e P. M. Laranjo Coelho, Coimbra, 1928.

13) Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora, São Paulo, 2004.

14) Jaime Cortesão, A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil. Lisboa, 1922.

15) Joaquim Ribeiro, Carta de Pêro Vaz de Caminha. Edição crítica. Rio de Janeiro, 1928.

16) Francisco Silva e Pedro Bastos, História do Brasil. Editora Moderna, São Paulo.

17) Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala. Pernambuco, 1933.

18) Teresa Mesquitela, Os deuses que vieram de África. In revista História, n.º 76, Fevereiro de 1985, Lisboa.

19) Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão – Editores, Porto, 1990.

20) Pedro de Mariz, Diálogos de Vária História (Dedicados aos Diogo Soares), Diálogo V, p. 454. Editados por António Craesbeek de Mello, impressor da Casa Real, Lisboa, 1672.

21) Roberto Lucíola, Brasil desconhecido. Revista Aquarius, Ano I, n.º 3, 1975, Rio de Janeiro.

22) Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2003.

23) Henrique José de Souza, Colombo e Cabral. Revista Dhâranâ, n.º 110, Out./Dez. 1941, São Paulo.

24) Comunidade Teúrgica Portuguesa, Apostilas 57 e 58 da Série Interna do Munindra ou Integração.

25) Luiz Bivar Guerra, Pedro Álvares Cabral e a sua representação de facto e de direito. Lisboa, 1960.

26) Jaime Cortesão, A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil. Lisboa, 1922.

27) Alberto de Carvalho, Memória a respeito da sepultura rasa do descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral, na igreja da Graça, em Santarém. Lisboa, 1902.