Se há lugar em Portugal onde se apresenta com toda a pujança o mito ou a realidade do Mundo Subterrâneo, o Reino encantado teimando em não se descobrir sob o seu nome Agharta, que é a Paradhesa ou Paraíso Terreal universalmente tomado como a derradeira esperança de um porvir melhor para o Género Humano, esse lugar está exactamente aqui, na Quinta da Regaleira de Sintra, esta que já de si é reconhecida como Serra Sagrada desde os alvores da civilização humana, inclusive pela sua relação ctónica com a mesma Terra Oca de que falam com relativa abundância as crónicas e lendas locais, das mais antigas às mais recentes[1].

Com efeito, um intrincado complexo de túneis e grutas perfaz as artérias sobre que assenta este complexo monumental. Além da cripta da capela, do lago subterrâneo próximo à alameda das estátuas mitológicas, da torre levantada aos céus com a estátua de Leda-Melusina no seu interior, há ainda dois pressupostos «poços» que de tal nada têm, antes sendo torres subterrâneas levantadas no ventre da serra.

A entrada na torre mandada construir pelo dr. António Augusto Carvalho Monteiro, a dita maior, mais profunda e completa, faz-se pelo cimo da quinta, atravessando um dólmen artificial (a roche surprise, “rocha surpresa”, no plano original de Lusseau), também mandado fazer por aquele, para logo transpor um pesado portão de pedra, cujo mecanismo de tão secreto que era não havia outro igual no país[2]. Por certo este monumento no mínimo insólito fazia parte de um cenário mítico antecipadamente concebido por Carvalho Monteiro, muito antes de aceitar o projecto de Manini, posto que num dos desenhos aguarelados de esquissos de Henri Lusseau destinados ao jardim da Regaleira, surge a seguinte indicação: Porte surprise – ouvre pour descendre (“Porta surpresa – abre para descer”)[3]. Com a altura aproximada de 33 metros repartidos por 9 patamares, terminando no lanternim, cada um deles com 15 degraus, perfazendo o total de 135, no fundo da torre vê-se configurada no seu chão ladrilhado a estrela heráldica constante no brasão da família Carvalho, mas que alguns identificam ora como uma “cruz templária”, ora como uma “rosa-dos-ventos”. A cerca de um terço da altura da torre há duas entradas para ela, sendo a mais significativa aquela que se faz junto à fonte onde estão duas esculturas de dragões, crocodilos ou lagartos enleados. No fundo da torre abre-se uma galeria de portal em arco de pedra suportado por quatro colunelos, junto ao qual está, à direita, uma fonte esculpida em forma de bilha, possível alusão à Fons de Sée (donde Sagesse ou Sabedoria) da lenda de Melusina, como consta no seu romance medieval. Prosseguindo por essa galeria, a dado momento ela bifurca-se na direcção da entrada oriental, onde está o lago que tinha uma linda cascata, havendo antes uma outra bifurcação à direita que vai dar à segunda torre subterrânea menor, aparentemente incompleta, possivelmente mandada fazer após 1830 pelo proprietário da Quinta da Regaleira anterior a Carvalho Monteiro, ou seja, Manuel Bernardo Fernandes, que é o único interveniente neste espaço a ser claramente identificado como maçom[4]. Por certo pretenderia com a construção inacabada dessa torre reproduzir a ideia hermética do V.I.T.R.I.O.L. adoptada pela Maçonaria desde a primeira hora da sua fundação. Mas as fundações do terreno seriam aproveitadas por Carvalho Monteiro para completar a obra, todavia com sentido diverso do pressuposto de Manuel Bernardo.

As galerias subterrâneas estão forradas com pedras de coral para aqui trazidas das proximidades de Peniche, segundo Maria Regina Anacleto, ou das proximidades da Boca do Inferno em Cascais, segundo Manuel Joaquim Gandra, ou talvez de ambas as partes, segundo me parece. Carvalho Monteiro quis iluminá-las electricamente e dar-lhes animação com uns bonecos maquinados vestidos de mouros, como conta a sua neta Maria de Nazaré: “As grutas para o meu avô eram os contos das mil e uma noites. Ele “sonhou” tudo aquilo e depois concretizou. Numa das grutas – a das Moiras Encantadas – ele queria pôr autómatas vestidas de moiras, que se levantassem e cumprimentassem o visitante”[5].

Esse “sonho” de Carvalho Monteiro parece ter nascido da mitologia nacional de carácter sebástico inspirada em determinados trechos das escrituras sagradas, temas que serviriam a alguns escritores cristãos para dispor no Centro do Mundo o conceito sinárquico de sociedade perfeita, a Quinta Monarquia ou Império, e o próprio Messias também aí. O sebástico frei Sebastião de Paiva é talvez o principal a desenvolver o tema em 1641, e quiçá tenha sido nele que Carvalho Monteiro se inspirou para transformar a alegoria sagrada em realidade cenográfica. Com efeito, o religioso trinitário diz[6]:

“[…] a qual cláusula é de notar se não cumpriu em tempo de nenhum dos nomeados nas outras exposições, e que se cumprirá, sem dúvida, em o justo governo da Quinta Monarquia; e acho particular mistério em se pintar este que há-de sair da raiz da cobra ou serpente, de quem sabemos que diz o mesmo Isaías, cap. 11, n. 8, que faz sua morada em escondidas cavernas: “in caverna reguli”; e Jeremias diz destes bichos, “quibus non est encantatio”, que não se deixam enganar.

“Sinais com que atrás fica qualificada esta pessoa, que com tantos rodeios e hieroglíficos nas Divinas Letras se nos pinta. E já por esta razão Esdras, lib. 4 e 5, n. 6: “Regnabit quem non sperant, qui habitant super terram”, que reinará aquele que os moradores da terra não esperam, porque como se há-de esperar uma cousa ao parecer tão repugnante a toda a prudência; pois esta tal que dá princípio a obra tão insigne, se diz que há-de ser abatido, pobre, necessitado, escondido falto de forças. Traças certo que só no abismo da divina sabedoria e no pego inexausto da divina providência se abonam.”

O tema é retomado por Lusitanus, pseudónimo de Abel de Sousa Vasconcelos (1865-1937), autor da obra sebástica Sinais dos Tempos[7], onde diz no capítulo com o sugestivo título “Ilha Encoberta”:

“Esdras indica-nos o nome da região (Arezareth) – paradeiro das 10 tribos de Israel – e refere que a sua entrada foi no Eufrates, secando-se este, miraculosamente, na sua passagem, devendo secar-se, novamente, no seu regresso (Isaías, no cap. XI, faz idêntico vaticinio). Essa região é desconhecida, devendo estar oculta, aos nossos olhos. Vaticina também que um Filho de Deus, conservado por seu poder há muitos anos – qui conservat multibus temporibus – e que surgirá, por esse mesmo poder, do coração do mar – ascendens corde maris – para chefiar as 10 tribos de Israel, no combate contra os exércitos dos reis da Terra coligados, implantando depois o Reino de Deus na Terra.

“Esdras não indica a situação geográfica dessa região marítima. Ressalta do seu vaticínio que essa criatura já pisou a crosta terrestre, e vive numa ilha ou cidade marítima, visto sair de corde maris.

“Ora, tendo de reaparecer as 10 tribos de Israel, desaparecidas há 29 séculos, fenómeno extraordinariamente maravilhoso, não é maior maravilha conservar Deus mais esse seu “Filho Macho” ou Varão em lugar oculto e invisível a nossos olhos, para executar todos esse plano grandioso da conversão geral da Humanidade, ou do estabelecimento do seu Reino na Terra convertendo-a num Céu, como diz Isaías?

“Não poderá Deus, por seu poder infinito e para quem não existem impossíveis, conservar nessa ilha esse seu “Filho”, que há-de sair de corde maris para ser instrumento da grandiosa Obra que tem em vista, assim como hão-de reaparecer as 10 tribos de Israel, desaparecidas há 29 séculos, para serem cooperadoras dessa mesma Obra?”

Talvez por esse motivo da insula occulta de que o mar ou maris é símbolo das águas genesíacas referentes ao Centro Primordial originador da Vida, é que Carvalho Monteiro terá escolhido as pedras de coral para forrar as galerias subterrâneas da Regaleira, por serem pedra marinha formada no fundo do oceano. Por tudo isso, também Helena Petrovna Blavatsky proferiu as palavras flagrantes[8]:

“O reino das trevas e da ignorância desaparece rapidamente, mas há ainda regiões inexploradas pelos sábios e que são tão negras quanto a noite do Egipto. Os clérigos benévolos que, sob a menor das provocações, estão sempre prontos a mandar-nos ao Tártaro e às regiões infernais, não suspeitam o bom voto formulado a nosso respeito, e qual o grau de santidade que deveremos adquirir para poder entrar num local tão sagrado. Falar-se, por conseguinte, de alguém que houvesse descido aos Infernos equivalia, na Antiguidade, a designá-lo como um Iniciado Perfeito.”

Nisso e na mais restrita ortodoxia da doutrina católica, Jesus Cristo foi um Iniciado Perfeito porque também ele desceu aos Infernos, como diz S. Mateus, 12:40: “O Cristo ficou três dias e três noites (isto é, desde o alvorecer da quinta-feira até ao do domingo) no coração da Terra, com a porta do túmulo fechada”. O Cristo havia descido não “à terra” e sim “às partes baixas da Terra” que são o seu Centro (Efésios, 4:9), e isto traz à memória o significativo encabeçamento dos títulos das Cartas Paulistas (Epístolas de S. Paulo) vertidas para a Vulgata Latina por S. Jerónimo: Agharta-al-Galatim, Agharta-al-Ephesim, Agharta-al-Romin, etc., ou seja, “Agharta aos Gálatas”, “Agharta aos Efésios”, “Agharta aos Romanos”[9].

Subterrâneos da Quinta da Regaleira de Sintra

Subterrâneos da Quinta da Regaleira de Sintra

O retorno ou viagem espiritual ao Centro Primordial – chame-se-lhe Salém, Shamballah, Walhalah ou simplesmente Agharta – está representado na Regaleira na própria ordenação labiríntica das suas galerías subterrâneas, dizendo René Guénon[10]: “O labirinto tem uma dupla razão de ser, no sentido de que permite ou impede, segundo o caso, o acesso a um certo lugar no qual nem todos devem penetrar indistintamente. Apenas os que estão “qualificados” poderão percorrê-lo até ao fim, enquanto os demais serão impedidos de penetrá-lo ou se extraviarão no caminho. Vê-se de imediato que existe aí a ideia de uma “selecção” que se refere de modo evidente à admissão na iniciação. O percurso do labirinto é exactamente, sob esse ângulo, uma representação das provas iniciáticas. E é fácil conceber que, quando servia de facto como meio de acesso a certos santuários, podia estar disposto de tal forma que os ritos correspondentes fossem cumpridos durante o próprio percurso. Além disso, encontra-se nele ainda a ideia de “viagem”, na medida em que está associada às próprias provas (…)[11]. Outro simbolismo equivalente é o da “peregrinação”. Podemos lembrar a propósito os labirintos traçados antigamente sobre o pavimento de certas igrejas, e cujo percurso era considerado como um “substituto” da peregrinação à Terra Santa. Afinal, se o ponto em que termina esse percurso representa um lugar reservado aos “eleitos”, ele é na verdade uma “Terra Santa” no sentido iniciático da expressão, ou seja, esse ponto nada mais é que a imagem de um Centro Espiritual, da mesma forma que todo o local de iniciação”.

A origem mitológica do labirinto é o palácio cretense de Minos, onde estava encerrado o minotauro e donde Teseu só conseguiu sair com a ajuda do fio de Ariadne. O minotauro representa a natureza animal, o labirinto a caminho tortuoso da Iniciação a ser percorrido por Teseu, o Iniciado, e sair triunfalmente do mesmo graças ao fio de Ariadne, ou seja, à ligação permanente à sua Alma ocultada sob a veste carnal. Vencer a besta animal em si mesmo equivalia a alcançar o Centro e triunfar na Iniciação, neste caso, sair incólume do labirinto equivalia a ser Cristóforo, ou seja, a Luz Crística revelada no Iluminado verdadeiro. Relacionados com isto e ao mesmo tempo, os labirintos traçados no chão de algumas igrejas medievais eram a assinatura das confrarias iniciáticas de construtores livres, servindo também aos que não tinham posses para viajar para substituir a peregrinação efectiva à Terra Santa. Por isto, às vezes encontram-se no centro do labirinto as figuras ou do próprio arquitecto ou do Templo de Jerusalém, expressando o Eleito que chega ao Centro do Mundo representado pelo mesmo Templo salomónico. Assim, o crente que não podia realizar a peregrinação real fazia-a em imaginação através do labirinto, até chegar ao ponto central, ao lugar santo: era peregrino sem sair do lugar, fazendo devotamente o trajecto de joelhos.

Na tradição cabalística, retomada pelos alquimistas, o labirinto preencheria uma função mágica, que seria dos segredos atribuídos ao rei Salomão. É por esta razão que o labirinto das catedrais (sendo uma série de círculos concêntricos interrompidos em certos pontos de modo a formar um trajecto bizarro e inextrincável) era chamado de labirinto de Salomão. Aos olhos dos alquimistas, tratava-se de uma imagem do trabalho inteiro da Grande Obra Hermética com as suas dificuldades principais: o caminho estreito mas seguro que o alquimista devia percorrer para alcançar o Centro, representando a Pedra Filosofal, sinónima de Iluminação ou Realização Espiritual, com a sua natureza superior (representada nos metais nobres, como o ouro e a prata) dando combate à sua natureza inferior (assinalada nos metais impuros, como o chumbo e o ferro); esses conhecimentos equivaliam a vencer e sair incólume do intrincado labirinto da Iniciação. Esta interpretação ia ao encontro da professada na doutrina ascética de alguns místicos cristãos e árabes: concentrar-se em si mesmo, em meio dos mil rumos incertos das sensações, das emoções e das ideias, eliminando todo o obstáculo à intuição pura, e volver-se à Luz espiritual sem se deixar prender nos desvios das veredas sensoriais e mentais. A ida e volta no labirinto eram o símbolo da morte e da ressurreição espiritual.

Labirinto da Catedral de Chartres, França

Labirinto da Catedral de Chartres, França

De maneira que o labirinto expressa o caminhar do homem para o interior de si mesmo, para uma espécie de santuário ou cripta misteriosa, expressando o que há de mais misterioso e sagrado nele. É aí, nessa cripta, verdadeiro templo do Espírito Santo na alma em estado de Graça, que se reencontra a unidade perdida do Ser, entretanto dispersado na multidão dos desejos. A chegada ao centro do labirinto, como no fim de uma iniciação, introduz o iniciado numa cela invisível, que os artistas dos labirintos sempre deixaram envolta em mistério, ou melhor, que cada um podia imaginar segundo a sua própria intuição ou afinidades pessoais.

O emaranhado aracnídeo das galerias subterrâneas da Quinta da Regaleira (esquema cenográfico encomendado por Carvalho Monteiro a Luigi Manini e que por volta de 1904 já estava feito[12], quase de certeza tendo o artista italiano se inspirado no formato daquela outra torre subterrânea de S. Patrício em Orvieto, Umbria, Itália, para construção da idêntica na Quinta da Regaleira) sugere a configuração de uma suástica ou swástika, a cruz jaina ou jina que na Ásia é reconhecida como insígnia do próprio Chakravarti, o “Rei do Mundo”.

Esquisso da torre subterrânea de S. Patrício (1527), em Orvieto, Umbria, Itália, o interior desta e a sua semelhança com o da torre maior subterrânea da Regaleira de Sintra

Esquisso da torre subterrânea de S. Patrício (1527), em Orvieto, Umbria, Itália, o interior desta e a sua semelhança com o da torre maior subterrânea da Regaleira de Sintra

Não afirmo que o complexo subterrâneo configure uma swástika, porque não a configura, antes digo que a sugere… e, sugerindo-a, torna-se forçoso saber o significado real desse símbolo tão mal entendido no Ocidente e de triste memória desde as usurpações hitlerianas, e por isso começo citando Laurentus, pseudónimo de Henrique José de Souza (1883-1963)[13]: “Raros são também aqueles que sabem interpretar os símbolos conhecidos pelos nomes de suástica e sovástica, pois a maioria chega ao ponto de confundi-los. O primeiro representa o movimento da esquerda para a direita, que é o dos astros em torno do Sol, a maneira de se abrir uma porta ou dar corda em u´a máquina. Em suma, é o símbolo do movimento, da evolução. Já o segundo, que gira na direcção contrária, é tido por jainos e budistas, na Índia, como “nefasto e perigoso”. Foi este último, justamente, o escolhido por Adolf Hitler, por ser o génio da destruição e da morte. É um símbolo, pois, de involução e decadência”.

Como o itinerário nas grutas se realiza do Ocidente para o Oriente, ou seja, da esquerda para a direita, isso vem a simbolizar o movimento destrocêntrico (pradakshina, em sânscrito, e dextroversum, em latim) que é o mesmo dos astros em torno do Sol, e igualmente o da própria descida pelas torres maior e menor da Regaleira.

Mário Roso de Luna corrobora o conceito de swástika e itinerário quando diz[14]:

“O misterioso IT jina, que não é outro senão a cruz jaina, svástica ou molinete eléctrico, símbolo da Vida Universal, que no fundo de tudo late, por sua vez é radical de palavras importantíssimas, tais como as de IT em latim, de ITer, itineris, “caminho, senda”, ou seja, o nosso típico itinerário.”

Adiantando numa outra obra[15]:

“A esvástica, como é sabido, consta de uma cruz ordinária cujos quatro braços iguais estão dobrados em ângulo recto. O equivalente da sua figura é o chamado “molinete eléctrico” que pode ver-se em todos os tratados de Física, e ela mesma em si não é senão um quádruplo agregado de esquadros ou ângulos rectos, ou melhor, um quádruplo conjunto de outros tantos triângulos rectângulos que se une no centro dela com os quatro dobrados extremos, extremos que se curvam e prolongam convenientemente podendo chegar a descrever uma circunferência, passando assim o símbolo ao consabido da cruz no círculo, de onde ele é originário. Na realidade, não há uma mas duas esvásticas contrapostas e de sinal contrário, masculino-feminino, segundo a maneira de estarem dobrados os braços: em sentido dextorsum (segundo a marcha aparente das estrelas no céu e das agulhas de um relógio) ou em sentido sinistorsum (marcha contrária do Sol e dos planetas ao longo do Zodíaco). O primeiro símbolo é o da Magia Branca, solar, do fogo ou positiva, e o segundo o da Magia Negra, lunar, negativa ou da água, anulando-se entreambas quando se sobrepõem na figura de um quadrado perfeito. Para pontualizar ambas as esvásticas, basta recordar que a positiva está representada por um homem com o braço direito dobrado para cima, a cabeça para a esquerda, o braço esquerdo dobrado para baixo e a perna esquerda dobrada para a direita. Na realidade, a esvástica, como cruz primitiva, é o símbolo do homem espiritual crucificado na cruz do seu corpo, porque, como disse Annie Besant, nos primitivos templos o simbolismo da cruz e do crucificado eram uma e mesma coisa, e a cruz do nosso corpo o sublime instrumento da nossa glorificação pela boa obra que aqui realizamos, tomando o nosso corpo como o melhor dos instrumentos de luta e triunfo.

“Dentro do inesgotável de todo o simbolismo, como o presente, cabe derivar do da esvástica ensinamentos de alto valor relativos ao enlace do Jainismo, que a adoptou, com as demais religiões troncais que, mais ou menos, deduziram deste simbolismo fundamental uma infinidade de outros que podem servir-nos para depurar tais nexos, a saber: pelos quatro esquadros com o martelo de Thor, Thot ou Hermes, tanto símbolo troncal do Hermetismo egípcio, quanto do primitivo Paganismo nórdico dos Eddas proto-semitas; pelos quatro triângulos rectângulos com o célebre símbolo de “os Desposórios”, vulgarmente conhecido por “Teorema de Pitágoras”, e com todo o Pitagorismo; por sua cruz interior com o mito da Crucificação, tanto dos primitivos mexicanos quanto dos cristãos modernos, etc., etc.”

Sendo a swástika o sinal do Pólo Primordial como ponto fixo no centro da Roda do Mundo, marcando a sua rotação, esse mesmo Pólo poderá estar marcado pela torre erecta ao céu da Quinta da Regaleira, enquanto as duas outras subterrâneas poderão igualmente associar-se ao simbolismo do eixo solsticial (torre maior) e do eixo equinocial (torre menor), motivo representado pela cruz clavígera ou dupla swástika de sentidos opostos entrelaçados, dizendo René Guénon[16]: “Tem-se, desse modo, duas chaves opostas segundo um eixo vertical, e duas outras segundo um eixo horizontal. Em relação ao ciclo anual, cuja relação com o simbolismo de Jano se conhece, o primeiro desses dois eixos é um eixo solsticial, e o segundo um eixo equinocial. Aqui, o eixo vertical ou solsticial relaciona-se com a função sacerdotal, e o eixo horizontal ou equinocial com a função real”.

Com efeito, a partir da swástika saíram todas as cruzes conhecidas. Ela contém em si a quadratura do círculo formando o octógono, como forma mediadora entre o quadrado e o círculo, que é dizer, entre a Terra e  o Céu, na linguagem muda dos símbolos. A quadratura do círculo é igualmente representada pelo emblema da Rosa+Cruz, igualmente  símbolo hermético da Pedra Filosofal, de maneira indirecta assinalada na estrela heráldica do brasão da família Carvalho patente no fundo da torre maior da Regaleira. Redimir coagulando a prata da Terra e solvendo o ouro do Céu, é o seu sentido velado, sim, a quadratura da Terra no círculo do Céu, na maior Alquimia mediante a qual se obtém o Elixir da Vida Eterna: o estado de imortalidade do Homem Perfeito.

Torre da Quinta da Regaleira, simbólica do Pólo Primordial

Torre da Quinta da Regaleira, simbólica do Pólo Primordial

De todas as entradas para o mundo subterrâneo da Regaleira, a mais interessante e simbólica é sem dúvida a da fonte monumental situada a cerca de um terço da altura da torre maior, e que está defronte para outra torre parecida com um zigurat caldaico no lado oposto do pátio. O conjunto escultórico apresenta duas grandes estátuas de dragões acorrentados de cujas cadeias sobressaem folhas de hera. Seguram um búzio que é lucerna de onde escorre água para um vaso hexagonal cujo frontíspicio, aos pés dos dragões, é decorado por uma cabeça de golfinho aureolada por chamas.

Bem se sabe que o dragão foi sempre o animal mitológico elegido para representar o Fogo da Sabedoria Divina e que no Reino Animal é representado pela salamandra, réptil vivendo junto a águas e em cavidades subterrâneas havendo-o com fartura nesta serra, tal como rãs de volume considerável, pois ambas as espécies já vi e toquei muitas vezes nos caminhos serranos.

Mas há quem considere que essas figuras fantásticas esculpidas são crocodilos ou jacarés e inclusive faça um exercício de Cabala Fonética associando o termo jacaré ao jaccara, de joccari, “jogar, simular”, e nisto está muito certo! Sim, porque toda a alegoria esotérica reserva sempre alguma mensagem iniciática, tornando-se necessário jogar com os elementos simbólicos apresentados para apreender o sentido simulado. No simbolismo tradicional, o crocodilo é tomado como o animal psicopompo representativo do Caos Primordial, o Leviathan da Bíblia, facto assinalado nas trevas cavernosas que levam ao interior da torre subterrânea da qual estes animais são os guardiões da entrada. Além disso, teosoficamente o crocodilo também simboliza o Makara – assinalado no mapa estelar por Marte e o Escorpião – associado ao sentido cosmogónico do Kama-Deva hindu que, por sua vez, equivale ao Cúpido latino, o deus tanto do Amor como da Paixão, esse mesmo Fogo subtil alegoricamente escorrendo da lucerna para resplandecer no coração ou arder no ventre.

Dispostos como se vêem, os dragões vêm a ser alegóricos do solve et coagula hermético, ficando o solve para a escultura à direita do observador, e o coagula à esquerda. As folhas de hera entrelaçadas nas cadeias, representam a própria Era a cujo início de manifestação os sobreditos Makaras ficaram encadeados, passando a servir de intermediários entre o Mundo manifestado (Cosmos, Luz) e o Mundo imanifestado (Caos, Treva), ou por outros palavras, entre o Espaço Sem Limites e o Espaço Com Limites, que é dizer, Purusha e Prakriti, “Espírito e Matéria”.

Portanto, neste figurino os “Dragões de Sabedoria” ou Makaras representados serão a imagem do Pralaya, do Caos ou Período Cósmico e Humano de absoluto repouso exterior, só havendo a absoluta actividade interior. Pralaya esse assinalado pelo búzio ou shanka, em sânscrito, tradicionalmente representado como contendo as sementes (as “águas genesíacas da Criação”) do futuro Manvantara, Cosmos ou Período Cósmico e Humano de absoluta actividade exterior, só existindo o absoluto repouso interior. Segundo René Guénon[17], “o búzio encerra o Som Primordial e Imperecível (Akshara), o monossílabo Om”. Consequentemente, o búzio representa o Som ou Verbo que deu início à manifestação da Vida, como assinala a frase latina Fiat Lux, e de imediato jorraram as águas celestes de que se alimenta a mesma Criação.

A cabeça de golfinho na fácies do vaso, com auréola chamejante, representa Sat, o “Ser Puro”, como individualização da Substância Única (Svabhavat) acompanhando a manifestação da Vida, e por este motivo de pureza absoluta como Criação directa de Deus, o Demiurgo, além de ser sinónima da Pedra Filosofal a “cabeça de delfim” equivalia entre os antigos hermetistas à Suprema Realização. Esta realiza-se sempre num espaço interior, que é tanto o seio da Terra como o lugar do coração. Este motivo terá levado a que se desse forma hexagonal ao vaso ou vaisel onde as águas caem, representativo do coração cujo “ar vital” é soprado por Saturno de quem a folha de hera copada foi o símbolo para os hermetistas medievais. Mas para Carvalho Monteiro, possivelmente ciente de todo esse simbolismo e que acaso transpôs para o seu “nacionalismo gnóstico” afim à noção que tinha de “religião pátria”, o delfim chamejante inscrever-se-ia no tema sebástico do Infante destinado a cabeça toda iluminada da Quinta Monarquia ou V Império do Mundo a irromper da “ilha encoberta”, designação dada ao Mundo Subterrâneo, que misteriosos dragões ou crocodilos guardam.

Ainda sobre o “coração e a caverna”, há a conhecida expressão tradicional “caverna do coração” de que fala René Guénon (in revista Études Traditionnelles, Paris, Dezembro de 1937). Com efeito, a palavra sânscrita guhâ é geralmente utilizada para designar uma “caverna”, mas também sendo aplicada à cavidade interna do coração, por conseguinte, ao próprio coração. A “caverna do coração” é o centro vital onde reside não só o Jivatmã ou “Espírito Condicionado” mas também o Atmã ou “Espírito Incondicionado”, idêntico a Brahma como Deus Supremo, equivalendo ao Pai. De maneira que a caverna indica a entrada para a Satya-Loka, “Lugar de Luz”, tal qual o coração aponta a embocadura para a Satya-Yuga, “Idade de Fulgor”.

A palavra guhâ deriva da raiz guh, com o sentido de “encobrir” ou “ocultar”, do mesmo modo que a raiz similar gup, de onde vem gupta, aplicada a tudo o que tem carácter “secreto” e não se manifesta exteriormente; é o equivalente do grego kryptos, origem da palavra “cripta”, também podendo ser sinónima de caverna. Essas definições filológicas referem-se ao Centro, na medida em que é considerado como o ponto mais interior e, portanto, o mais oculto. Ao mesmo tempo, referem-se ainda ao segredo iniciático, seja em si mesmo, seja enquanto simbolizado pela disposição do lugar onde se realiza a iniciação, lugar sempre oculto ou encoberto, isto é, inacessível aos profanos, defendido por uma estrutura “labiríntica” ou por qualquer outra forma, mas sempre considerando-o imagem do Centro Primordial, que como “caverna da montanha” e “caverna do coração” como acessos para a “caverna do céu”, podem ser figuradas da maneira seguinte:

Por outro lado, é importante observar que o carácter oculto ou secreto, no que diz respeito aos Centros Espirituais ou à sua figuração, implica que a Verdade ou a Sabedoria verdadeira (Sanatana-Dharma) desde há muito não é acessível indiscriminadamente, o que implica atravessar-se uma época de “obscurecimento” ou “trevas” (Kali-Yuga), cuja relatividade é superada pela iniciação verdadeira e consequente transmissão iniciática, reservada à elite ou os eleitos que pelos seus próprios esforços acabam recebendo a graça da sua Luz. Isto permite “situar” o sentido do simbolismo no decurso do processo cíclico, ou seja, da passagem da Idade da Treva à Idade da Luz.

Na Teosofia, o Mundo Subterrâneo e o Espírito Santo são conceitos interligados, como se depreende das palavras do Professor Henrique José de Souza[18]: “Ao próprio seio da Terra se denomina “Laboratório do Espírito Santo”, por ser o lugar onde vive em actividade o Fogo Cósmico que tanto vale por Kundalini. É ainda esta a razão por que se dá a tal região o nome de “ônfalo” ou umbigo, seio, útero, etc., da Terra. A força Kundalini achando-se “na extremidade inferior da coluna vertebral”, ou cóccix do homem, está em relação com o chakra ou “centro de força” Muladhara (“chakra raiz”, como sede dos demais), o qual possui 4 pétalas, ou melhor, é dividido em forma de cruz, na mesma razão da Terceira Emanação Divina ou Espírito Santo”.

A passagem das trevas à luz parece ser figurada, na Regaleira, atravessando por cima de quinze pedras intervaladas num percurso serpenteante sobre o lago onde estava a cascata, o que reproduz as cenas de iniciação entre os antigos egípcios e hindus que se encaminhavam para o Centro Oculto onde finalmente recebiam a Luz, algo idêntico ao recebimento da Graça do Divino Espírito Santo para os cristãos. Diz ainda o Professor Henrique José de Souza, desta vez sob o pseudónimo Laurentus[19], com que desfechamos este estudo:

“A Teosofia ensina que “cada um dos sete Dhyan-Choans (Luzeiros, Logos Planetários) dirige um dos sete estados de consciência que a Mónada tem de percorrer em toda a sua trajectória evolucional durante uma Ronda ou Ciclo”. Na arte musical – como expressão de tamanha verdade – a escala é formada de sete notas. E quantas vezes a mesma seja repetida (digamos 7×7 = 49, na razão de sete Raças-Mães e sete sub-raças para cada uma delas), um acorde – composto de três notas – também aí pode ser repetido, como se fora a referida Mónada deslizando do Divino (o Agudo) ao Terreno (o Médio) e o Infraterreno (o Grave), ou seja, o seio da Terra, o Sanctum-Sanctorum, onde se acha o Grande Mistério Espiritual do nosso Globo, pouco importando as opiniões contrárias… É o Lugar onde elaboram as chamas do Fogo Sagrado, o Fogo Serpentino ou Kundalini. Aquele mesmo “Fogo que, através da sarça ardente, falou a Moisés, ordenando-lhe que se descalçasse, pois estava pisando em terra sagrada”…

Lago da Cascata atravessado por quinze pedras serpenteando. Quinta da Regaleira de Sintra

Lago da Cascata atravessado por quinze pedras em trajecto serpenteante. Quinta da Regaleira de Sintra.

“O “Poder do Fogo” e a “Mãe do Mundo” são nomes dados a Kundalini, como um dos poderes místicos, digamos, o principal que faz do discípulo um Adepto ou Homem Perfeito. A sua “câmara” é o coração, mas a sua “morada” está no chakra Muladhara, situado no cóccix (uma espécie de “Bela Adormecida ou Branca de Neve à espera do Príncipe encantado, em seu túmulo de cristal”…). Tal “centro de força” ou chakra acha-se em oposição ao situado no vértice ou alto da cabeça, com o nome de chakra Coronal (Sahasrara, Brahmananda, etc.). A “coroa” dos sacerdotes, dos reis, donde “reis divinos”, do mesmo modo que a auréola dos santos da supracitada Igreja, tem a sua origem em tudo quanto acabamos de dizer.

“Conhece-se aquela maravilhosa passagem da vida do Padre António Vieira, quando ele diante do altar da Virgem Maria (com o seu papel também de Ave ou Espírito Santo) sente um estalo na cabeça, e perde os sentidos… Daquela hora em diante o discípulo ignorante passou a Mestre, Adepto, Homem Perfeito ou Iluminado. Começou a ter “o conhecimento perfeito das coisas”. Trata-se do fenómeno da “manifestação de Kundalini”, aquele mesmo que, no Dia de Pentecostes, manifestou-se sobre as cabeças dos doze Apóstolos do Cristo.

“Em resumo, mais uma vez dizemos: o Espírito Santo manifestado em todas as religiões, lendas e tradições, é a Ave Sagrada da Sabedoria Divina. E como tal, representa o Terceiro Logos. Segundo foi dito em outros lugares, a sua Morada é o Sanctum-Sanctorum (que no homem é figurado no Muladhara) da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria. Algo assim como se disséssemos que o Espírito (Purusha) aí se une com a Matéria (Prakriti).”

NOTAS

[1] Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, Abril de 2007.

[2] Leonor Figueiredo, Palácio de Fadas espera em Sintra um multimilionário. Jornal “Correio da Manhã”, 29.1.1985.

[3] Quinta da Regaleira – Luigi Manini (Imaginário & Método – Arquitectura & Cenografia). Edição da Fundação Cultursintra, 2006.

[4] A. H. Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal (das Origens ao Triunfo), três volumes. Editorial Presença, Lisboa, 1990.

[5] Leonor Figueiredo, Monteiro Milhões, o nosso “Luís da Baviera” – Quem era o homem que queria fazer de Sintra terra das mil e uma noites. Jornal “Correio da Manhã”, 30.1.1985.

[6] Frei Sebastião de Paiva, Tratado da Quinta Monarquia, pp. 242-243. Colecção Pensamento Português, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2006.

[7] Lusitanus, Sinais dos Tempos (Fim das Nações – Império Universal – Triunfo da Cruz – Fim do Mundo), pp. 261-262. Imprensa Lucas & C.ª, Lisboa, 1924.

[8] Helena Petrovna Blavatsky, As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo.

[9] Saint-Yves d´Alveydre, La Misión de la India en Europa. Luis Cárcamo, Editor, Madrid, 1988.

[10] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo.

[11] Sobre isto, Maria Regina Anacleto (in Arquitectura neomedieval Portuguesa, 1780-1924, Coimbra, 1997) conta uma estória relacionada com a Regaleira que me parece fábula «iniciática» a acrescentar ao número das muitas lendas urbanas que correm sobre a quinta. Diz: “Na casa estava instalado um gerador eléctrico que permitia inundar de luz não só o palacete, como toda a quinta e até, parcialmente, as galerias. Conta a tradição que Carvalho Monteiro inundava o salão da “catedral” de água, transformando-o num lago e que, seguidamente, ele e os seus convidados, efectuavam a travessia de barco. Seria nessa altura, possivelmente, que se processavam os ritos iniciáticos”.

[12] Na Regaleira, as grutas aparecem materializadas a partir das belíssimas maquetes cenográficas que Manini produziu para as óperas Mefistófeles, de Arrigo Boito, Macbeth, de Giuseppe Verdi, e Carmen, de Georges Bizet.

[13] Laurentus, Ocultismo e Teosofia. Edições em 1949, 1966, 1983, 2003. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro.

[14] Mário Roso de Luna, De Gentes del Otro Mundo. Librería de la Viuda de Pueyo, Madrid, 1917.

[15] Mário Roso de Luna, El Simbolismo de las Religiones del Mundo y El Problema de la Fidelidad (Comentários a “La Doctrina Secreta” de H. P. Blavatsky, fundadora de la Sociedad Teosófica). Editorial Eyras, Madrid, 1977.

[16] René Guénon, A Grande Tríade. Editora Pensamento, São Paulo, 1989.

[17] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo.

[18] Henrique José de Souza, O Verdadeiro Caminho da Iniciação. Edições em 1939, 1957, 1966, 1978, 2001. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro.

[19] Laurentus, Ocultismo e Teosofia. Edições em 1949, 1966, 1983, 2003. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro.

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