Se D. Pedro o Infante das Sete Partidas – irmão do Infante Henrique de Sagres – foi um português europeu, D. Fernando II – marido de D. Maria II, pai de D. Pedro V e de D. Luís I e avô de D. Carlos I – foi um europeu português (1).

D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha (Viena de Áustria,  29.10.1816 – Lisboa, 15.12.1885) marcou decisivamente meio século da sociedade portuguesa do século XIX e  ora por ingerência directa, ora por mecenato projectou-se magnificamente na História da Arte em Portugal (desde a cerâmica ao desenho e à pintura, passando pela arquitectura, sem nunca descurar o teatro, a ópera e o belo canto), como igualmente nas Letras (tendo sido mecenas de muitos e exímios escritores, dentre eles Alexandre Herculano), mostrando aqui e ali, igualmente, a sua feição velada de esoterista que escolheu Sintra para morada ideal. Assim se conjuga a sua natureza de Rei-Artista e Rei-Iluminado!… Se ele não teve necessidade de nascer português para como português os portugueses o aceitarem entre os Maiores, o facto de não nascer português fê-lo europeu de adopção portuguesa e grato levou  Portugal  a ser assinalado nas Letras e Artes, igualmente na Tradição Hermética, como a provável alavanca primaz do Pensamento que move o Mundo… decididamente arrancando o País da semiobscuridade da Europa culta para cabeça dela toda, como sempre fora mas sem o devido reconhecimento unânime.

Johann Wolfgang von Goethe (Frankfurt am Main, 28.8.1749 – Weimar, 22.3.1832), o grande escritor considerado “pai” Romantismo germânico, estava morto há apenas quatro anos quando D. Fernando de Saxe Coburgo-Gotha avistou a Serra de Sintra e entrou no Tejo, avistou a Torre de Belém e desembarcou em Lisboa – em 8 de Abril de 1836. Desde “6 de Dezembro, mas com a data de 1” está assinada a convenção matrimonial que o trazia a Portugal; casado por procuração com D. Maria II desde o primeiro dia de Ano Novo e em pessoa no dia seguinte ao da sua chegada a Portugal, na Sé Patriarcal de Lisboa, cerimónia fixada em tela por Tony de Bergue. Foi o conde de Lavradio – negociador desse casamento – “o primeiro portuguez” que conheceu esse jovem de dezanove anos de idade recém-chegado a Portugal, e a ele se referiu em plena Câmara dos Dignos Pares: “Elevado caracter, excellente educação, e distinctas qualidades e virtudes” – “um decidido amor da justiça e da verdade”.

Mas quem era D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha? Com o nome completo de Ferdinand August Franz Anton von Sachsen-Coburg-Gotha, como disse nasceu em 29 de Outubro de 1816 e foi o primeiro filho do príncipe Ferdinand Georg August, Duque de Sachsen-Coburg-Gotha e de sua mulher, a princesa de Kohary, Marie Antoinette Gabrielle, filha e herdeira do príncipe Franz Joseph de Kohary, senhor de Casabrag e de outras terras na Hungria, casados em 2 de Janeiro de 1816 em Viena de Áustria.

Fernando chegava a Portugal numa altura em que a Dinastia Brigantina se havia quebrado e fechado ao francesismo. Receava-se agora que se abrisse ao germanismo. Mas, nem uma coisa nem outra: o príncipe de Saxe pegou na cultura germânica, sim, mas moldou-a à natureza de Portugal, respeitando as suas tradições e a sua Tradição. O seu consórcio com D. Maria II permitiu restabelecer a Dinastia de Bragança e dar início venturoso a uma segunda “Ínclita Geração”.

D. Maria II, a Educadora e a Boa Mãe, reinou de 1826 a 1853, em período fortemente conturbado por mudanças radicais políticas, económicas, sociais e eclesiásticas. Nasceu no Rio de Janeiro em 14 de Abril de 1819, filha de D. Pedro IV e de D. Maria Leopoldina. A seguir à abdicação do pai, é aclamada rainha de Portugal em 1826 mas só assumiu a função régia em 1834. É aceite como noiva (casamento por palavra de futuro) por seu tio D. Miguel, mais tarde rejeitando-a como noiva e como rainha. Enquanto D. Miguel é sucessivamente regente e rei em Portugal, D. Maria, em Paris e em Londres, tem a servi-la uma regência colegial, com sede nos Açores, nomeada por D. Pedro IV e presidida pelo futuro duque de Palmela (1830). Após a vitória liberal, o seu pai (como regente) e o Governo realizam profundas reformas no País. Em 18 de Setembro de 1834, D. Pedro pede escusa da regência por doença grave e, por sua sugestão, as Cortes declaram a rainha antecipadamente maior. D. Maria nomeou o duque de Palmela para seu primeiro presidente do Conselho, e em 26 de Janeiro de 1835 casou com o príncipe Augusto de Leuchtenberg, que faleceu pouco tempo depois. Em 1836, em plena crise dinástica e com os ventos da Revolução Francesa ameaçando o nosso País, casou com o príncipe consorte da Casa de Saxe, que viria a ser D. Fernando II.

Do casamento de D. Maria II com D. Fernando II, houveram os seguintes filhos:

Pedro (D. Pedro V);
Luís (D. Luís I);
João;
Maria Ana (casada em 1859 com Jorge de Saxe);
Maria Antónia (casada em 1851 com Leopoldo Hohenzollern);
Fernando;
Augusto;
Maria;
Leopoldo (morto em criança);
Maria (morta em criança);
Eugénio (morto em criança).

O casamento político de D. Maria com D. Fernando depressa se tornou um casamento por amor recíproco, que durou até à morte da rainha, por parto, em 15 de Novembro de 1853. Isso depreende-se da correspondência trocada entre ambos durante a fase, direi, de namoro oficial: “J’attends avec impatience le moment qui doit nous unir.” – Príncipe D. Fernando em carta a D. Maria II. Bruxelas, 16.II.1836. “Parece-me que já gosto delle sem o conhecer porque me parece pellas informações que tenho delle que hade fazer tanto a felecidade da Nação portuguesa como a minha.” – Rainha D. Maria II em carta ao conde do Lavradio. Lisboa, 20.II.1836.

D. Maria II

D. Maria II

A maior prova está nas cartas dolorosas que o recém-viúvo escreveu após a morte da esposa. Esse momento de despedida final é narrado, com toda a tragédia inerente ao acontecimento, por José Teixeira (2):

A rainha Vitória, que conhecia por ela própria os problemas da gravidez, fez remessa a D. Fernando II de certas quantidades de clorofórmio, que vinha sendo estudado pelos melhores médicos ingleses, pensando mitigar ou evitar a repetição de complicações agudas. Mas tudo se tornou pesadelo, e a duquesa de Ficalho, que chegara ao Paço à meia-noite do dia 14 de Novembro, tanto mais que testemunhara a boa disposição da rainha durante toda a tarde, pôde contar que até de manhã a augusta senhora esteve assistida pelo dr. Manuel Carlos Teixeira, e depois, também, pelo dr. Kessler, chamados ao Paço às onze. Veio mais tarde a restante equipa, mas os seus esforços foram vãos para lhe dar a salvação.

Presente estava a imperatriz D. Maria Amélia, que, vendo a iminente catástrofe, confidenciou a D. Fernando II: “A Rainha deve-se confessar” (3). Este ordenou que com toda a urgência se chamasse o Patriarca. “Não é nada como das outras vezes”, desabafava ainda D. Maria II, e às onze e meia daquela manhã, fazendo sinal que queria repousar “descançou a cabeça sobre a almofada e deo o ultimo suspiro”.

O rei D. Fernando assistia no seu posto à tragédia, “apoiado a um dos balaustres do leito deixando cahir as lagrimas sobre o mesmo leito e contemplando a triste scena”. Alguém presenciou o impressionante quarto de hora em que se abraçou em estado de choque à sua finada esposa. Os príncipes choravam convulsivamente assaltados pelos acontecimentos, e a maior consternação pairava na avalanche dos presentes.

Sem excepção a imprensa fez coro nos lamentos da perda irreparável, e todas as grandes qualidades de Mãe e de Educadora foram louvadas até à saciedade:

Povo! Uma prece de christãos, uma lagrima das mães
Um ramo de myrto dos seus velhos companheiros de desterro
à memória de D. Maria II, que foi rainha de Portugal!
(4)

Milhares de pessoas desfilaram na capela-ardente, esperando largas horas para o poderem fazer. Foi preciso uma das noites voltar a abrir as portas porque a multidão não arredava pé – “o povo entrou em massa na capella e salas adjacentes e alli ficou até alto dia”.

O préstito saiu do Palácio das Necessidades para o panteão da Casa de Bragança em S. Vicente de Fora, e intermináveis filas de pessoas bordejavam as ruas e engrossaram o pomposo cortejo de dor.

Eis que acontece o inesperado: a descida do Céu à Terra do Espírito Santo, abençoando a Casa de Bragança na pessoa real da falecida e como que dando legitimidade divina a D. Fernando II. Emoção electrizante se gerou quando uma pomba branca veio pousar sobre o coche da Coroa que transportava a urna, só levantando voo quando iniciou o regresso ao Paço.

Ocorrência que estimulou o lirismo de diverso leque de poetas, mas sendo a obra do ultra-romântico João de Lemos, O Funeral e a Pomba, a tornar-se o hino da derradeira homenagem a D. Maria II (5). Eis alguns versos:

I

E eil-a que ali vae sem vida
que inda era há pouco viçosa
como a flor;
E, flor do tufão perdida,
Agora da Mãe, da Esposa
Resta a dor!

II

Baixou mais perto; e, pairando, vê-se
Mimosa pomba, que dos ceus voou,
Eil-a veloz se precipita agora
e sobre um carro funeral poisou!

III

É sobre o carro que levava a c’roa!
De susto isenta, como poisa assim?!
E quêda, quêda… mas de novo o carro
Segue o cortejo… levantou por fim.

O rei D. Fernando entrou na regência do Reino em virtude do articulado da lei de 7 de Abril de 1846 e do Acto Adicional à Carta Constitucional de 1852, e jurou entregar o governo logo que o príncipe D. Pedro atingisse a maioridade. Foram actos de Estado que teve de despachar em plena dor.

Se foi grande o amor de D. Fernando II por D. Maria II, extremado o terá sido por Elise Friedericke Hensler, com quem casou após ter enviuvado de sua real esposa.

De origem suíço-alemã filha de Friederich Conrad Hensler e de sua mulher, Louise Hensler, nasceu a 22 de Maio de 1836 em La Chaux-de-Fonds, no Jura, perto de Neuchâtel. Aos doze anos de idade, Elise Hensler emigrou com os seus pais para Boston, na América do Norte. Recebeu especiais cuidados na educação, não faltando o cultivo das Letras e das Artes. Tendo os seu estudos sido orientados para o belo canto, viria a completar a sua formação na Europa.

Acompanhada da mãe e integrada na Companhia de Ópera de Laneuville, cerca de 2 de Fevereiro de 1860 chegou a Portugal, estreando-se no Teatro S. João, no Porto. Depois seria escriturada para o Real Teatro de S. Carlos, em Lisboa, a fim de cantar no “Propheta” e no “Roberto do Diabo”, nos papéis de Bertha e Elisabeth. Estreava-se assim em Lisboa a 12 de Outubro desse mesmo ano.

Elise Friedericke Hensler

Elise Friedericke Hensler

Melómano de gostos refinados, D. Fernando II não perdeu uma só das actuações de “o luminoso meteoro” nos dois grandes teatros portugueses. Da Música e do Teatro nasceria o Amor que iluminaria toda a actuação de duas vidas fadadas à união eterna pelos laços da divina Arte. Seria a Infanta D. Isabel Maria, tia de D. Maria II, a mediadora e madrinha nos laços afectivos entre a actriz e o rei, uma feita no Teatro da Vida e outro na Escola da Humanidade.

Com efeito, a 10 de Junho de 1869 celebrou-se o inevitável consórcio real no Palácio Devisme, em Benfica, tendo o príncipe Ernesto de Saxe Coburgo-Gotha agraciado Elise Hensler com o título de Condessa d’Edla. Os Contemporâneos Ilustres, tomo II, p. 282, 1878, assim retrata a Condessa:

“A condessa d’Edla estava de certo modo fadada para ser a esposa de um homem como D. Fernando, tão protector das artes e dos artistas e ao mesmo tempo tão ilustrado!

“Possuindo uma educação esmeradíssima, conhecendo a fundo e falando perfeitamente sete dos principais idiomas da Europa cultivando as artes com ardor, apaixonada pelo belo, amado o retiro e vivendo sem ostentação, a condessa d’Edla é uma senhora de muita consideração pública, porque alia ao seu género artístico um coração benfazejo.”

Para além de cantora e actriz, a condessa d’Edla era ainda música, escultora, ceramista, pintora, arquitecta, floricultora e, muito provavelmente, ocultista, tal como o seu real esposo. Enfoque-se nesta ilustre senhora a dedicação da sua vida a um rei companheira inseparável da sua presença, continuando num caminho de ausência, até ao seu falecimento em 1929 no seu palácio de Santa Marta, em Lisboa, aos 93 anos, sempre honrando a memória do seu “bon et cher Roi Ferdinand”.

Condessa d´Edla e D. Fernando II

Condessa d´Edla e D. Fernando II

Depressa D. Elise interessou-se pelos trabalhos do Palácio da Penha, vulgo Pena, em Sintra, começados por impulso de D. Fernando em 1839 e que apenas terminariam com a sua morte, em 1885. As plantações do Parque, já muito importantes entre 1840 e 1850, intensificaram-se a partir de 1869, como por exemplo as das “Feteiras da Condessa”. É a ela que se deve, nessa altura, a introdução de certas espécies arbóreas da América do Norte, onde passara quase toda a sua juventude, como conta Mário de Azevedo Gomes na sua Monografia do Parque da Pena, escrita cerca de 1910.

No meio desse parque tão amado pelo par real, a condessa morganática levou a efeito, a partir de 1869, com o mestre de obras Gregório, a construção de um chalet, antecipando assim uma moda que conheceria grande sucesso alguns anos depois, na costa do Estoril e de Cascais, tendo aqui neste último, em 1873, e sobre o antigo Forte da Conceição, Thomas Henry Wyatt construído o primeiro chalet da costa para os Palmela.

Tendo em consideração a cultura humanista de D. Elise, acompanhada da influência cerrada do imaginário cavaleiresco contido nas óperas dos maiores clássicos (Verdi, Meyerbeer, etc., nas quais actuou), e não ignorando o acentuado pendor Rosa+Cruz como grau maçónico de D. Fernando, acrescido da conceição imaginária neo-“céltica” e neo-“arábica”, inscritas no programa corográfico escultural do Parque da Pena, incluindo o Palácio, tudo recriando a saga da Quête ou Demanda do Santo Graal, não me custa admitir que a ilustre senhora fosse também ela afecta a tamanhos Mistérios Iniciáticos!… Aliás, os pratos que pintou e estão expostos no Palácio da Pena, repletem-se de alegorias e símbolos ocultistas insertas no tema Sebástico-Nacional através do figurino mitológico greco-romano mas na feição neo-barroca,  sempre realçando a Mulher, o Mar e a Barca, simbolismo matrístico transpirando tanto ao venusto Duat ou Hades quanto a Cordo Mariz.

Sempre que fitei aquele singelo chalet, tão cheio de candura e sentimento, que o conheço há tantos anos por dentro e fora, ele nunca me pareceu um vulgar edifício  feito por pessoa vulgar, por não o serem (6). Letizia Rattazzi o reconhece (7): “Um Chalet de um gosto inimitável. É a Arcádia, uma Arcádia civilizada onde de bom grado se pode viver e morrer. Sente-se que a vida, a saúde e a felicidade residem ali”.

Do muito a dizer sobre D. Fernando II, conter-me-ei em dois aspectos que considero indispensáveis ao entendimento mais aprofundado da sua pessoa e dos seus actos aparentemente díspares: a sua acção política em Portugal face à restante Península Ibérica e ao Mundo, e a sua filiação esotérica, sobre o que muitos «amigos de Sintra» têm especulado.

Devo informar, antes de tudo o mais, que a Família Saxe Coburgo-Gotha era daquelas, em conformidade às necessidades gerais do momento, directamente protegida pelas chamadas “forças secretas” do Governo Oculto do Mundo. É o Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, quem o diz (8): “Abra-se um livro, que raramente se consulta na época actual, e em cada trono da Europa se encontrará um Saxe Coburgo-Gotha. A família desse príncipe é protegida em segredo por todas as Sociedades Iniciáticas, por lhes ter permitido dar “o primeiro tiro de canhão maçónico”. Além disso, por se tratar de uma família real, também tem o apoio do clero”.

Canhão "maçónico" de D. Fernando II no Palácio da Pena de Sintra, que disparava ao meio-dia.

Canhão “maçónico” de D. Fernando II no Palácio da Pena de Sintra, que disparava ao meio-dia.

Com efeito, a família de D. Fernando II na época estava instalada nos tronos mais proeminentes da Europa. Sendo filho do duque Fernando Jorge Augusto, era irmão do duque reinante de Saxe Coburgo-Gotha, Ernesto I (1784-1844), cuja influência se estendia por todo o norte europeu, e de outros dois poderosamente colocados: o rei Leopoldo (1790-1865), primeiro monarca da Bélgica, designado em 1831, casado em primeiras núpcias com a princesa Charlotte (+ 1817), filha de Jorge V, rei de Inglaterra, e em segundas núpcias com a princesa Luísa Maria de Orleães, filha do rei dos franceses Luís Filipe I; e ainda Maria Luísa Vitória (1786-1861), casada em segundas núpcias (1818) com o duque de Kent, e mãe da futura rainha Vitória (1819-1901), vindo esta a desposar um seu primo, Alberto (1819-1861), filho de Ernesto I (9).

As circunstâncias documentadas levam a acreditar consistir a política secreta dos Saxe Coburgo-Gotha no acto de manter as soberanias nacionais da Europa correndo o risco de dissolver-se em algum novo “sacro” Império Romano, exclusivamente temporal, depois das experiências redundadas em fracasso total com o imperialismo napoleónico e germânico. Rainer Daehnardt vem ao encontro dessas minhas palavras quando escreve (10): “O sonho francês de criar uma Europa unida, por baixo do seu ceptro imperial, teve, como resultado imediato, o acordar geral do patriotismo e nacionalismo adormecido da maioria das nações submetidas, que se levantaram contra o jugo estrangeiro, reconhecendo a sua própria identidade como resultado da necessária autodefesa.

“A destruição do Santo Império Romano da Nação Germânica e a sua tentativa de substituição por um novo império, de estilo romano clássico mas centrado em Paris, teve, como consequência, a divisão da Alemanha em trinta e três estados independentes. O lema “dividir para reinar” tinha sido aplicado in extremis e a falta de visão de muitos dos reinantes, que só procuravam o mais rápido e directo conforto próprio, impossibilitava a saída da miséria em que vivia grande parte da população do centro da Europa, ainda flagelada pela recente guerra. Começou, então, a grande onda migratória da Europa para a América.”

Certa influência jacobina e carbonária esteve presente e gizou o europeísmo feudalista do “dividir para reinar”,  distopia avessa à utopia da Sinarquia, nesta onde todos os povos entre si se identificam sem implicar perderem as suas soberanias e consequentes identidades nacionais, quer vistas no estritamente temporal ou quer no amplexo espiritual. A Fraternidade Universal dos Povos, da Humanidade em que se traduz a Sinarquia, implica respeito comum na diversidade das nações. Esta terá sido, por certo, a mensagem maior do Romantismo português com D. Fernando II à testa. Mas lá irei. Primeiro e para entendimento mais aprofundado da época em questão, devo transcrever novo e deveras singular excerto do estudo já citado do Professor Henrique José de Souza, que diz após descrever a tragédia de Napoleão Bonaparte I e a queda de França:

“Eis aí, a França desmembrada. Os maçons começam a fazer a sua pequena história de libertação das inteligências pelo ateísmo. Agindo assim, eles, por sua vez, vão contra a Maçonaria Universal, por isso mesmo, são posto de lado, aparecendo então a Franco-Maçonaria, que mesmo assim não deve ser confundida com aquela.

“A seguir, aparece um outro homem na Itália. O seu nome é Louis Napoleon Bonaparte. Iniciado no Carbonarismo, jurou lançar o Papa por terra. Note-se bem que era livre tanto em o fazer como em não o fazer… Jura, ainda, “sem que ninguém lho pedisse”, que tudo fará para aniquilar o Papado, se lhe dessem o Poder. Ele sobe ao trono por meio de um golpe de Estado, que se qualificou de irregular mas que se tornou regularíssimo, como sempre, por parte daquele que sai vitorioso. Uma vez no poder, Napoleão III esqueceu tudo quanto, de “motu próprio”, prometeu. Não pensa que existe um Papa, nem uma Itália. Então, se lhe enviam vários bilhetes (uma espécie de “bilhete azul”… em nossos dias), que ele encontra atravessados, sempre, por um punhal. E como continuasse a não ligar importância, se lhe envia um tal Orsini, que antes lhe dirigiu uma mensagem toda especial. Desta vez, ele compreendeu. Tropas francesas são mobilizadas e enviadas para a Itália. O Papa é privado do seu poder temporal (que nunca deveria ter, diga-se de passagem, como o mesmo António Vieira foi o primeiro a demonstrar… “que o Poder Temporal é um, e o Espiritual bem outro”). Napoleão III esquece de novo a sua promessa. Foi então que se passaram os seguintes factos que, em síntese, vamos relatar:

“A missão de formar um grupo com todos os Estados da Europa foi confiada a um novo soberano. Era Guilherme I, rei da Prússia. Comprometido, por juramento, a constituir a Federação dos Estados Alemães, e mais tarde a dos Estados da Europa, foi admiravelmente auxiliado na primeira etapa por um chanceler sagaz e um tanto brutal, mesmo em seu modo diplomático de arranjar as coisas … e também de “golpe de punho um tanto fácil”. Chamava-se Bismarck, como o mundo inteiro o sabe. Com semelhante auxiliar, foi capaz de cumprir a sua promessa. Poderia ter colocado os membros de sua família em todos os tronos da Alemanha, e no entanto não o fez. Poderia ter escolhido melhor alguns personagens de mérito, para esses mesmos lugares. Se errou, não o fez por maldade. Do mesmo modo, não se deixou conduzir, como outros o fizeram, pelas famílias reinantes da Alemanha. Todos conhecem a que ponto chegou o referido país, no que diz respeito ao seu formidável poder industrial, como comercial… e até militar, e finalmente ninguém ignora a rivalidade existente entre ele e a Inglaterra, que já em 1914 mediam forças, ao lado da França, etc. Em tal época, a Alemanha sob o férreo pulso de Guilherme II, que “acaba por morrer no exílio, no seu castelo em Endem, na Holanda”, e que por sua vez, embora o mundo ignore, também estava ligado por um Juramento idêntico ao de Napoleão, com certas Associações Secretas… acabou por se sentir tão poderoso que não mais quis dar ouvidos a nenhuma delas… e o resultado foi aquele que se viu…”

D. Fernando II veio dessa época imperial de autoritarismo absolutista, com um pé atrás na idade velha (representada pela submissão ao antigo poder,  estabelecido desde longa data, que muitos preferiam simplesmente para manter a paz e o sossego, ou por medo do desconhecido), e com o outro pé adiante já na idade nova (representada pela industrialização crescente, pela liberdade de expressão e de criatividade e pela representatividade de todas as correntes de opinião no acesso ao poder legislativo). Aprendeu com os erros do passado e alinhou no dever, sentido por todo o meio estudantil alemão da época, de criar um mundo mais igualitário. O Romantismo vem ao encontro disso, tendo como foco inicial o sentimento cavaleiresco ideal e cavalheiresco social, recriando a ambiência psicossocial (neo)medieval em que se reflectisse a justiça e a perfeição almejadas para o Género Humano, sentimento partilhado pela maioria estudantil manifestamente disposta a sacrificar-se pelo seu ideal. D. Fernando vibrava com as obras de Schiller (sinónimo da revolução estudantil) e meditava com as de Goethe. Compartilhava dessa abstrata Saudade – palavra só portuguesa – que os poetas e líricos alemães sentiam em relação aos países do sul da Europa, a maioria por Itália, mas ele por Portugal, ademais informado como estava da sua Missão cíclica conformada à marcha precessional do Sol no esteiro do Zodíaco: de Jerusalém (Áries – Ciclo do Pai) a Roma (Piscis – Ciclo do Filho) e desta a Lisboa (Aquarius – Ciclo do Espírito Santo), implicando Sintra. Por certo isto não seria novidade para D. Fernando II, erudito como era decerto conhecia a obra-prima de Camões, a “Bíblia dos Lusos”, e o que esse escrevera em Os Lusíadas, VI-7:

Via estar todo o céu determinado
De fazer de Lisboa nova Roma;
Não no pode estorvar, que destinado
Está doutro Poder que tudo doma.

Avisado como estava ante o fracasso total dos imperialismos franco e germânico, igualmente do britânico, e sabendo do perigo que daí adviria para a Europa e o Mundo por se tratar dum gigantesco sistema feudalista assim mesmo governado por um soberano único, que fatalmente acabaria propenso à execução de uma política xenófoba, chauvinista e retrógrada ao progresso psicossocial colectivo, logo avessa ao que se idealizava de uma Idade de Ouro em que o Espírito norteasse a Matéria e todos os povos fossem concordes entre si, D. Fernando, já príncipe regente de Portugal, recusou quatro coroas que lhe ofereceram para ocupar os respectivos tronos: a da Grécia, a da Itália, a do México e a de Espanha. Certamente pelas razões referidas, opôs-se vivamente a quaisquer uniões políticas de Estados europeus, notoriamente a união ibérica, onde ele percebia a implicação directa de Napoleão III pretendendo influenciá-lo através do duque de Saldanha. Isto mesmo transparece em carta sua ao seu filho, o rei D. Luís (11): “Não receio tanto a republica como o Saldanha e o Imperador dos Franceses que por força ha de fallar como falou”. Decorrido pouco mais de um ano, o momento político agudizou-se desencadeando a reacção violenta de D. Fernando, traduzida em outra carta a D. Luís (12): “Li com toda a atenção a carta do Imperador dos Franceses e peço-lhe que lhe responda da minha parte que não cederei nunca a minha firmíssima resolução, de não aceitar o throno de Espanha. Pode acrescentar que sou o maior antagonista da união ibérica e que serei inabalavelmente fiel a esta minha crença venha o que vier“.

É crível que meses depois fosse o próprio imperador de França a promover a anuência ou a resignação de D. Fernando, na sequência de um jogo diplomático notável, quer através de Olozaga, em Paris, quer de Montholon, ministro francês em Lisboa, embora conhecesse a posição inglesa assente no corolário inflexível de que seria acordado solenemente que as coroas de Espanha e Portugal jamais se unissem sob o mesmo rei. E foi esta condição inglesa a utilizada pelo rei D. Fernando motu próprio, como cavalo de batalha para a sua recusa. Veja-se que o programa mínimo dos requisitos que estabeleceu para o caso de vir “a dar tal passo”, expresso em Julho de 1870, em novo quadro conjuntural, considerava:

1.º – É preciso, para que eu possa ser rei de Hespanha, que immediatamente se combine a sucessão, ou que, pelo menos, se estipule bem claramente que as duas corôas de Hespanha e Portugal jamais possam cahir na mesma cabeça.

2.º – Egualmente me parece necessario que a votação em cortes não seja inferior a três quartas partes, pelo menos, dos deputados que compõem a Assembléa Constituinte.

3.º – No estado actual das coisas, parece-me da maior conveniência que as quatro nações occidentaes, Inglaterra, França, Hespanha e Portugal estejam de acordo na minha candidatura.

4.º – Por ultimo devo acrescentar que nada resolverei definitivamente neste negócio sem intervenção do governo portuguez.

5.º – Em caso de abdicação ou d’outra qualquer eventualidade, que me forçe a retirar-me à vida particular, eu fique com a mesma dotação, garantida pela Hespanha, que actualmente tenho em Portugal.

6.º – Emquanto à Condessa d’Edla, é do meu decoro que tenha a alta posição que lhe compete como minha esposa em todos os actos que não sejam officiaes.

Favorável à política francesa para Espanha, pondo no trono desta D. Fernando e assim ficando livre para assumir a regência de Portugal, o duque de Saldanha de há muito andava em conflito aberto com o príncipe regente que, desconfiado das suas intenções, avisou claramente D. Luís (13):

“Não penso que a loucura criminosa de um homem octogenário chegue a este ponto, eu porem lhe digo solenemente é que eu, se só um indício palpavel tiver, de taes tenções, pela minha parte heide fazer um protesto à face de toda a nação portuguesa.”

Os acontecimentos atingiram tal ponto extremo que se abriu conflito militar entre o Ministro do Reino, o conde de Tomar, com as suas forças no Porto, e o duque de Saldanha, Chefe do Estado Maior General, com as suas forças em Lisboa, donde saiu a dar combate àquelas. Estava anunciada e iminente a guerra civil: o Norte contra o Sul de Portugal. Ia correr sangue português; ia perigar a soberania nacional. O francesismo oportunista do jacobino Saldanha ia bater-se com o portuguesismo tradicional do Ministro do Reino. A borrasca sangrenta estava por horas!… Então, o Governo da Nação decidiu entrar na campanha nomeando D. Fernando para Comandante-Chefe. Apesar de estrangeiro D. Fernando “sentia-se português e não desejava abdicar de ser português” (palavras suas quando lhe ofereceram a Coroa da Grécia em 1862), mas ele era um homem bom, culto, amigo da paz e amante das belas artes, a sua índole pacífica dispunha-o a não desejava ser o iniciador de uma guerra civil em Portugal, país que tanto amava. Ainda assim lá partiu à frente de poderoso exército, mas sem pressa, devagar, pesaroso, indo alcançar as forças militares, muitíssimo inferiores às suas em homens e poder bélico, do duque de Saldanha em Coimbra, junto às margens do Mondego. Os homens e peças do exército real ocuparam posições, e ante a desproporção do adversário antecipava-se a vitória certa!

Os estudantes de Coimbra juntaram-se aos revoltosos, as populações arredor também, sentindo o mesmo entusiasmo pela causa de Saldanha. Vendo isso, D. Fernando II não mandou abrir fogo e, apesar de estar em vantagem, encetou negociações. Foi insultado e viu-se desamparado de toda a sua divisão, a maioria fugindo para o Porto, deixando-o só. Regressou a Lisboa, tristemente, com escasso grupo de militares fiéis que não o quiseram abandonar. D. Maria II (isto passou-se com ela ainda viva, desde 8 de Outubro até Junho de 1847 e que correspondeu à Patuleia, esta o prolongamento da Revolta de Maria da Fonte, no Minho, em Abril de 1846) viu-se obrigada a ceder, a demitir o conde de Tomar e a encarregar o duque de Saldanha de organizar novo Governo. Entregou-lhe também o comando do exército, que pertencera a seu marido.

Por causa dessa sua atitude que ninguém compreendeu, D. Fernando II passou à História como “o pior militar que Portugal já teve”, e Rafael Bordalo Pinheiro, artista ceramista, cartonista e crítico, taxou-o de “Zé Nabo”. Nada mais injusto! O príncipe regente foi humilhado na altura, mas pode-se afirmar que quem venceu essa terrível batalha interior foi o amor de D. Fernando a Portugal. Não se disparou um só tiro! Não morreu ninguém! Não houve reacender de ódios nem vinganças! Sofreu em silêncio, sem esperar gratidão ou reconhecimento de alguém, tendo como único conforto a consciência de ter feito o que tinha de fazer, o de cumprir a missão de salvar Portugal da guerra civil “com o primeiro tiro do seu canhão”. Ainda hoje poucos se apercebem que ele não via a sua posição de militar com os mesmos olhos com que muitos políticos gostam de a ver: como simples braços executores de uma vontade governativa! Para D. Fernando ser militar tinha mais a ver com o juramento da Bandeira (onde se jura defender a Pátria) que com um governo que acaso os ventos políticos hajam momentaneamente dado à terra. Ser militar significava, para ele, ser defensor do destino do País, independentemente da compreensão ou não da geração que o rodeava (14).

Caricatura de D. Fernando II por Rafael Bordalo Pinheiro

Caricatura de D. Fernando II por Rafael Bordalo Pinheiro

É depois disso que D. Fernando II se recolhe cada vez mais ao cultivo das Belas Artes, cuja Escola fundou e financiou. Dela saíram os maiores românticos da época, muitos deles passando ao exercício das artes arquitectónica e pictórica em Sintra, mudando decididamente a sua paisagem, cuja serra desde então era morada quase permanente do rei, só indo à capital quando os deveres de Estado assim lho exigiam. Afastou-se cada vez mais das intrigas da corte, mas sempre vigilante às investidas dos adversários. Ele que inicialmente, antes das querelas políticas os separarem, fora muito amigo do duque de Saldanha, havendo mesmo notícias de várias vezes passearem juntos pela Serra de Sintra. Será muito natural que assim seja, pois ambos perfilhavam do ideal da Maçonaria, um mais pelo seu aspecto político (Saldanha), outro mais e exclusivamente pelo seu aspecto simbólico e esotérico (D. Fernando) (15), também isso, “fraternidade entre irmãos”, tendo contribuído para o recuo militar do rei contrariando a sua vitória certa.

Muitos dos amigos mais chegados e alguns parentes de D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha mantinham relações e até afiliações à Maçonaria, inclusive o seu preceptor Dietz, iniciado no Grande Oriente Irlandês ou Prussiano, que se estabeleceu em Lisboa pouco depois da chegada de D. Fernando. Dietz poderia, pois, corroborar que a “actividade maçónica” circulava em casa de seus amos. É igualmente conhecida a protecção neste período dada à Maçonaria pelo arquiduque João, Grão-Mestre da Ordem de Cavalaria Zur Blauen Erde, de que passaram a fazer parte o príncipe Guilherme da Prússia, o arquiduque Carlos Augusto de Weimar e o príncipe Leopoldo de Saxe-Coburgo (tio de D. Fernando e futuro rei dos belgas). Perante tão solene e ilustre envolvência, D. Fernando não caminhou imune e sabe-se que em Lisboa mantinha as melhores relações com a fina flor da botânica maçónica, que acolhia intimamente o embaixador do Brasil, tido como “bom mação”, e que já afastado das lides políticas ainda era conhecedor actualizado, por tais fontes, das movimentações e planos no que respeitava a ataques contra a Coroa ou golpes de ambição político-militar. Conta a imprensa, com muitos erros, que por conflitos insanáveis lhe retiraram o malhete de Grão-Mestre, mas inequívoco é ter recebido votos em eleição para aquele cargo (16).

Realmente D. Fernando II de Saxe-Coburgo Gotha foi Maçom do Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite, tendo concorrido no Grande Oriente Lusitano Unido, para seu primeiro Grão-Mestre no Supremo Conselho do Grau 33.º, em 30 de Outubro de 1869, eleição que perdeu a favor do 2.º conde de Paraty, D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha (31.7.1820 – Lisboa, 22.4.1884), o qual tomou posse a 16 de Dezembro do mesmo ano. cargo que ocupou até 1881. Antes, entre 1859 e 1869, o conde de Paraty fora o 17.º (ou 1.º e único depois da sua reunificação) Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, e o 12.º Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho afecto ao G.O.L.

D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha, 2.º Conde de Paraty, com o traje e insígnias maçónicas.

D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha, 2.º Conde de Paraty, com o traje e insígnias maçónicas.

Pelas relações conceituais, simbológicas e falerísticas com a tradição hermética judaico-cristã do Grau maçónico de Príncipe Rosa+Cruz, o de maior prestígio na maçonaria da época, D. Fernando II acabaria por ser associado a esse título iniciático, motivo porque entre teúrgicos e teósofos afins à mística Sintra, que foram os primeiros a criá-la e propalá-la nos últimos decénios,  ele ser cognominado Principis Rosea+Crucis, reconhecido pelo Sinal e Palavra Sagrada do 18.º Grau de Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosa+Cruz no Rito Escocês Antigo e Aceite: pés em esquadria, mãos cruzadas sobre o peito, pronunciando Emmanuel… que é dizer: Manuel ou El Manu, o Legislador e Condutor de Raça, neste particular afim ao de Sintra, Portugal, considerado um dos sete Centros de Vida (Qtubs ou Chakras, em árabe e sânscrito, respectivamente) do Mundo e o único na Europa,   destacando-se a figura régia de D. Fernando II, que mais que Rei-Artista  expressou ao Elias Artista (o Logos Criador) da Kaballah e Alquimia, ou seja, Rei-Iluminado pela Graça e Sabedoria do Divino Espírito Santo, que é dizer, da Avis raris in Terris (17).

Por isso mesmo, acaso ou por certo ele teria perfilado entre os membros incógnitos ou secretos dessa misteriosa mas soberana Ordem dos Marizes (Marus, Maurus, Mouros, Moryas…), a qual possuía por alter-ego a mesma Sintra, diz a Tradição Iniciática; também  por isso mesmo terá querido quis fazer dela (de certa maneira fê-lo) Capital Espiritual e Temporal do V Império Lusitano de toda a Terra, ideia soberana e transcendente igualmente indiciada na conversão que fez ou mandou do antigo convento jerónimo de Nossa Senhora da Pena em espécie ideal de Palácio do Rei do Mundo, que com a chave “apocalíptica” (esculpida sobre o arco de entrada no espaço palaciano) parece destinada a abrir o novo Império – o do Espírito Santo como Terceira Pessoa assinalada nas três rosas sobre a clave, igualmente sinaléticas tanto de Maria como Mãe Trina (donde Maitreya…) do Céu, da Terra e do Inferno, como ainda de Mestre ou Adepto Perfeito – ou a nova Idade (Ciclo) de Demanda, nisto a cumprir-se desde serrania paradisíaca da venusta Cynthia, destinada a espiritualmente alimentar a Humanidade “arrancando mel das suas próprias pedras”, parafraseando São Bernardo de Claraval.

O (neo)Templarismo renascentista e romântico reavivou-se em Sintra e nela teve o auge.  No topo da serra, o Palácio de Saxe (ao qual Richard Strauss, na sua visita aí, extasiado chamou de “Palácio do Santo Graal”) é como o Templo fundado por Titurel no cume do Mons Salvat,  para aí nele depor o Santo Cálice e as Sagradas Relíquias, tendo sido o próprio Mago Merlim a dirigir essa construção misteriosa. A Fede Santa da Cavalaria Espiritual do Santo Graal torna-se aqui a Massenia, ou seja, a Maçonaria Ascética cujos membros se chamam os Templários, ligados ao Centro Supremo representado por esse Templo ideal que se quis entronizado nesta barda e sibilina Montanha Sagrada de Sintra, já de si consignada o Quinto Centro Jina do Planeta que assim vai cumprindo A REALIZAÇÃO DE DEUS.

Posto tudo o dito, agora será mais fácil entender por que D. Fernando II quis Sintra Capital Espiritual da Europa?

Sintra de quem o rei era apaixonado incondicional, dizendo da serra em uma das suas inúmeras cartas (c. 1844):

“Sintra é de facto um sítio magnífico, que não se deixa comparar facilmente com outras regiões. A minha querida Pena é, conforme o meu critério, a coroa da região sintrense. Ainda ontem passámos lá uma das tardes mais maravilhosas que se podem imaginar e regressámos a casa ao luar. Não existe algo de mais belo do que uma das calmas tardes locais, porque a luz é quase sempre serenamente bela e todas as coisas se mostram numa nitidez muito especial.”

E fitando todo Portugal, quiçá desde as altas penedias da sua “querida Pena”, este Português por adopção remata num arrebate de graças  em uma das suas primeiras cartas enviada de Lisboa a Coburgo:

“Portugal, criado verdadeiramente pelo Céu para ser unicamente feliz”!

NOTAS


(1)
Lopes Rodrigues, D. Fernando II e a Toponímia, in Romantismo – Figuras e factos da época de D. Fernando II. Ed. Instituto de Sintra, 1988.

(2) José Teixeira, D. Fernando II – Rei-Artista, Artista-Rei. Edição Fundação da Casa de Bragança, 1986.

(3) Conde do Lavradio, Memórias, vol. III, parte II, p. 330.

(4) O Portuguez, 19.XI.1853.

(5) O Funeral e a Pomba, 13.ª edição do Poema em 5 Cantos do Sr. João de Lemos, Lisboa, 1853.

(6) Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada. Sintra, 1990, 1994, 1998, finalmente a última edição em 2007 pela Dinapress, Lisboa.

(7) Marie Letizia Rattazzi, Portugal de Relance. Lisboa, 1881.

(8) Henrique José de Souza, Cagliostro e São Germano. Revista Dhâranâ, 28.9.1941.

(9) O rei Leopoldo houvera já escrito a seu irmão o duque Fernando Jorge manifestando-lhe “um grande desejo de ver concluída a projectada aliança”. – ANTT, Estrangeiros, Cx. 22, n.º 3, ofício de 18.IX.1825 do conde do Lavradio.

(10) Rainer Daehnhardt, Páginas Secretas da História de Portugal, vol. I. Ed. Nova Acrópole, Lisboa, Maio 1993.

(11) AHMF, Cartório da Casa Real, Maço 9, doc. 128-6, carta datada de Mafra de 24.VIII.1836.

(12) Ibidem, Maço 9, doc. 128-9, de 27.VII.1847.

(13) Ibidem, 18.IX.1837.

(14) Rainer Daehnhardt, ob. cit.

(15) Victor Mendanha entrevista Vitor Adrião, Seguindo o caminho de D. Fernando II na procura do Santo Graal. Matutino Correio da Manhã, 5 e 6 de Janeiro de 1986. E ainda pelo mesmo jornalista no mesmo jornal, caixilho com pequena entrevista de Vitor Adrião acerca do Tesouro Escondido de Sintra, em 17.7.1987.

(16) AHMF, Cartório da Casa Real, maço 12, doc. 305-27, carta do rei D. Fernando II a seu filho o rei D. Luís de 25.VIII.1870. E Diário de Notícias, 15.VI.1869.

(17) Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual na Igreja e na Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.