A mitologia greco-romana outorga fundação divina à Lusitânia e ao seu natural, o lusitano, pretendendo-o descendente de Luso (pressuposto filho do deus Baco ou Dioniso e da semi-deusa Ariadne), que com a sua progénie veio povoar as actuais terras do Centro de Portugal e da Estremadura espanhola.

Esta suposta existência genesíaca do deus Luso deriva da expressão lusum enim Liberi patris contida na obra Naturalis Historia, de Plínio, o Velho (Como, 23 – Stabia, 79 a.C.). Muitos autores contemporâneos consideram errada a interpretação lusum ou lusus como nome próprio, em vez de um simples substantivo que significa “jogo”. Mas Marco Terêncio Varrão (116 – 27 a.C.), numa interpretação livre dessa obra, informa que “(…) o nome Lusitânia deriva dos jogos (lusus) do Padre Baco, ou da fúria (lyssa) dos seus acólitos frenéticos, e que era o governador de toda a região” (1). Isto teria sido lido por André de Resende como “(…) o nome Lusitânia deriva de Luso do Padre (pai ou mestre) Baco (…)” (2), e portanto foi interpretado que Luso seria um companheiro ou filho do furioso deus. É esta a leitura contida na estrofe XXII do Canto III de Os Lusíadas, de Camões:

Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os Íncolas primeiro.

Mas para a mitologia romana foi Baco quem conquistou a Ibéria, dizendo o grego Plutarco (46 – 119 d.C.): “Depois de Baco ter conquistado a Ibéria, deixou a governar como seu representante, que deu o seu nome à região, chamando-a de Pania, que por corruptela se tornou em Hispânia”.

Quanto à expressão grega lyssa, literalmente “fúria frenética” ou “loucura”, típicas de Baco/Dioniso, será alusão ao estado exaltado dos participantes dos Mistérios (“Jogos”) de Lusus, mistos de guerreiros e apologéticos entre os lusitanos, que os romanos associaram ao culto dos Faunos filhos de o filho de Baco, donde atribuírem origem báquica à Lusitânia e tomarem como o seu governador sobrenatural. Os Mistérios de Lusus eram em Roma os de Baco, e na Grécia os Dionisianos de que saíram os Órficos, de Orfeu.

Se Zeus/Júpiter é pai de Baco/Dioniso, associado a Hermes ou Mercúrio, e este o progenitor de Pã ou Saturno jovem (contrário ao Saturno velho que é Cronos, deus do Tempo), então o Luso é topónimo mítico que os autóctones da Ibéria receberam da cultura greco-romana mercê desta confundir a religião natural daqui com os deuses antropomórficos da sua própria mitologia religiosa.

Isso por os deuses lusitanos terem estado em sintonia tanto com os do panteão celta como do romano, assimilando elementos cultuais de ambas as etnias, que influenciariam as crenças locais; por sua vez, várias divindades lusitanas foram assimiladas pelos romanos.

O panteão dos deuses lusitanos e calaicos ou galaicos foi bastante rico, apesar de hoje só existir cerca de uma centena de registos acerca deles. Todavia, acredita-se que no Passado da Lusitânia houveram mais de mil divindades, sendo a sua maioria relacionada com lugares de incidência geotelúrica como, por exemplo, bosques, grutas, montanhas e rios.

Na Lusitânia e Callaeci o culto era politeísta, excepto na tribo Cónia que era monoteísta. O deus único dos Cónios era Elohim, mas as restantes tribos veneravam vários deuses sistematizados numa cosmogonia plural sui-generis, que tornava os cultos diversos entre si, de tribo para tribo. No entanto haviam pontos em comum, como os dos cultos solar e lunar e o necrolático da memória dos ancestrais. Igualmente existiam cultos tutelares de tribos e de locais distintos. Nesses locais havia adoração natural a certas árvores, rios, ribeiros, lagos, montanhas, grutas, etc. Na prática religiosa e de forma a apaziguar os deuses, estes povos praticavam a imolação. Era comum sacrificarem cabras, ovelhas ou touros, sendo mais incomum o sacrifício de cavalos e de homens, estes  que por norma eram prisioneiros de guerra. Uma das características principais das religiões da Lusitânia eram os presságios ou augúrios, e para isto consultavam os astros, consultavam as entranhas dos animais, observavam o voo das aves e o crepitar do fogo nos actos divinatórios.

Os deuses lusitanos e calaicos teriam essencialmente três funções: de poderes infinitos (justiça, bem), de guerra (bravura, força física, soberania) e de fecundidade e bem-estar. De entre os deuses mais venerados, sobreviveram até ao presente os nomes de alguns deles: Quangueio (o criador, a fecundidade), Arência e Arêncio (guerreiro, a força), e Trebaruna (a soberania), pelos lusitanos; Bande (a soberania), Nabia (a fecundidade) e Reve (a força), pelos calaicos; Endovélico (o poder civil), Atégina (a produção social, a fecundidade) e Runesius (a classe militar) pelos celtiberos; finalmente os cónios, que adoravam o deus único Elohim. Acreditavam que a morada divina dos deuses seria a constelação da Barca ou a Ursa Maior.

Na obra épica de Luís de Camões, Os Lusíadas (dedicada aos mesmos lusos, com primeira impressão em 1572), Luso foi o progenitor dos lusitanos e o fundador da Lusitânia. Para os portugueses do século XVI, era importante olhar para o passado anterior ao domínio árabe e encontrar as origens da Nacionalidade. Os visigodos não seriam os antepassados ideais, devido ao arianismo que professavam, considerado herético pelas autoridades eclesiásticas desse século. Assim, olhou-se para a mais alta cultura de Roma, origem de um catolicismo puro, e para o povo que habitava o território de Portugal antes e durante o domínio desse império.

Com o impulso da obra literária de Camões, e posteriormente com a ênfase que lhe foi dada durante o Estado Novo, ter-se-á popularizado pelo mundo a interpretação da existência de Luso como personagem mitológica entrada no domínio histórico.

Da mitologia e etnografia religiosa lusitana ficou, para sempre, a figura principal do seu bestiário cedo aproveitada para encimar as Armas portuguesas: o dragão. Popularizou-se a tradição mítica desse animal fantástico ter estado no pano da pressuposta bandeira do caudilho lusitano Viriato, e que continuou sendo a dos lusos mesmo depois daquele ter sido assassinado, enquanto dormia, pelos seus três companheiros subornados por Cipião, governador romano da Lusitânia, corria o ano 140 a.C., ou sejam, Audax, Ditalkon e Minuros.

Segundo a mesma lenda patrológica, a bandeira dos lusitanos era muito simples: um pano branco com um dragão verde ao centro. O branco ficou como cor síntese realçando o verde do dragão, cujos pés de leão significam a fortaleza, as asas de águia a sabedoria e a velocidade, e a cauda de serpente a astúcia, a estratégia e a vigilância. O verde foi inspirado não só por causa dos bosques exuberantes da Lusitânia mas sobretudo como indicativo do poder telúrico da mesma Natureza, ao qual os celtas davam essa forma dracónica chamando-lhe wyvern, topónimo adoptado na cultura popular portucalense como coca e serpe, a quem a cidade alentejana de Serpa deve o nome, enquanto a cidade do Porto mantém nas suas Armas o mesmo dragão telúrico dos celtas e calaicos. Quanto ao verde, ele permanece na última versão da Bandeira portuguesa e na actual do Brasil.

Seja como for, convém ressalvar, não há nenhum registo escrito contendo a forma correcta da bandeira dos lusitanos, havendo divergência entre os autores sobre a forma do dragão e o seu posicionamento no pano da mesma. A versão aqui apresentada é a mais aceite.

Muito cedo o dragão verde passou a figurar na heráldica nacional e com ele figurando na bandeira dos cavaleiros da Ala dos Namorados, chefiados por D. Nuno Álvares Pereira, Portugal garantiu a sua independência com a vitória na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de 1385.

Com efeito, no campo mitológico português o dragão é o maior exemplo de difusão ancestral, com o duplo significado de domínio e protecção, e por ser verde os antigos associaram-no ao planeta Vénus, o Lúcifer dos latinos e a Stella Matutina dos povos pastores. Além de pressupostamente ter figurado na bandeira dos lusitanos, o dragão figurou igualmente na dos suevos e hoje é representado na dança da coca, no Minho, propriamente na vila de Monção, por isto mesmo conhecida como a “terra da coca”, esta chamada de “santa coca” ou “coca rabixa”. Com referências recuando ao século XVI, mas possivelmente sendo muito anterior, ela é realizada no dia da Festa do Corpus Christi, sendo a coca o dragão que luta com S. Jorge a cavalo, e aqui trata-se do domínio do Homem sobre a força bruta ou indomada da terra, dando ao dragão o sentido “maléfico”, luciferino. Por isto, nas iluminuras sagradas medievais, como a da coroação da Virgem Maria por Cristo, aparece a trombeta celeste avisando do perigo do dragão “maléfico”, e por isso havia o cuidado de rodeá-las de um escudo, de uma ovalização ou de uma quadratura celeste. Tal prática é similar na sustentação das Armas, chamando-se tenentes às figuras sacras e suportes às figuras terrenas.

Na heráldica portuguesa a serpe aparece como um dragão de duas patas e é distinta da forma clássica dracónica (que na figuração ocidental possui sempre quatro patas); no lugar das patas dianteiras apresenta duas asas, e também não possui a habilidade de cuspir fogo (simbolismo dracónico dos fogos vulcânicos ou do seio da Terra), embora às vezes seja retratada fazendo-o. Outra característica que a diferencia do dragão é a falta ou menor número de escamas, conferindo-lhe uma aparência mais “lisa”. Portanto, a serpe vem a ser a “forma simplificada” do dragão. Os testemunhos etnográficos e filológicos da mesma predominam mais no Sul de Portugal, enquanto no Norte tem-se a coca.

A coca é representada por um dragão escamado. De todas a mais célebre é a supradita coca de Monção, que consiste numa estrutura de madeira com um homem no interior e a qual vai lutar com um cavaleiro representando S. Jorge, com capa vermelha, elmo e lança. A coca é empurrada pelos populares, vestidos de verde, contra o cavalo, enquanto o cavaleiro desfere golpes contra a carapaça. Finalmente S. Jorge vence com um golpe sobre a orelha da coca, que sem a mesma perde a força. Assim, mais uma vez, o Mal é vencido pelo Bem, ficando garantidas as boas colheitas do ano agrícola.

Festa da Coca em Monção, no início do século XX

Na Galiza a coca é igualmente representada por um dragão e também celebrada no dia do Corpus Christi, em Redondela. A representação da coca, com uma abóbora iluminada, faz parte do património imaterial galaico-português. Na Galiza é tema na festa das caliveras ou samhain e assume vários nomes: calacús, caveiras de melón, calabazotes, colondros, etc. (3)

Na literatura oral a coca é tema das cantigas de embalar, tal como o bicho-papão que rouba criancinhas ou a Maria-da-Manta que tem fogo nos olhos, é um ser que assusta as crianças, que está sempre à espreita (está sempre à coca) e impede que o sono chegue. O sono é muitas vezes personificado por outro ser mítico, o João Pestana (4).

Vai-te coca, vai-te coca
Para cima do telhado.
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado.

No Auto da Barca do Purgatório (1518), de Gil Vicente, um menino identifica o diabo como o “coco”:

Mãe: E o coco está ali
queres vós estar quedo co´ele?
Demo: Passa passa tu per i.
Menino: E vós quereis dar em mi
Ó demo que o trouxe ele.

Nas Décadas da Ásia (1563), João de Barros descreve como o nome do coco (fruto) teve origem na tradição dracónica que o povo transpôs para a “coisa fantástica e medonha” assustadora da infância: “(…) por razão da qual figura, sem ser figura, os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer cousa, com que querem fazer medo às crianças, o qual nome assi lhe ficou (…)”.

Na Catalunha, este ser fantástico é chamado de cuca ou cucafera e é frequentemente representado por um dragão. De modo que o mito do coco também se espalhou no país vizinho tendo origem no fantasma português, como consta no Dicionário da Real Academia Espanhola, chamando-lhe “el coco” e “el cuco”: “Del port. coco, fantasma que lleva una calabaza vacía, a modo de cabeza. Fantasma con que se mete miedo a los niños”.

A popularização da figura do dragão na Idade Média, através dos bestiários da Igreja Católica, foi a forma que esta encontrou para, narrando histórias de dragões malignos enfrentados e vencidos por nobres heróis cristãos, fazer a sua própria apologia contra as antigas tradições locais, mormente celtiberas. Pode-se fazer até mesmo um paralelo entre as famosas armas de sopro draconianas e a pregação dessa religião: um dragão que sopra nuvens venenosas, por exemplo, pôde e pode ser usado como metáfora para blasfémias “venenosas” proferidas por falsos profetas pagãos.

A tenaz e impiedosa perseguição eclesial às tradições e cultos locais maioritariamente de origem celta, indistintamente malignos para Igreja, poderá ser a explicação para a procissão dos diabos, cortejo que tem lugar no dia 24 de Agosto celebrando o regresso dos “Diabos de Amarante” (um diabo e uma diaba) a essa cidade.

Na segunda metade do século XIX os “Diabos de Amarante” foram adquiridos por um inglês que os expôs, em 1889, na Feira Internacional de Paris. Depois de diversos esforços diplomáticos, os diabos devolvidos e à sua chegada recebidos em massa pela população, e desde então é feita uma procissão até ao Largo de S. Gonçalo. Durante as celebrações são transportados em andores e no cortejo seguem mais de 300 mascarados de diabos e diabas, com trajes vermelhos ou negros, depois tendo lugar o baile dos mafarricos, que termina à meia-noite com uma queimada.

O “Diabo e a Diaba” são estátuas em madeira talhadas no início do século XIX e estiveram, até 1809, no Mosteiro de S. Gonçalo de Amarante, fazendo parte do culto da fertilidade, apresentando-se com trajes sacerdotais. Danificados pelos soldados franceses durante as invasões, foram depois roubados ao mosteiro. O “Diabo”, de falo ostensivo, foi castrado por ordem do bispo de Braga. No dia 24 de Agosto a população local acreditava que o Diabo andava à solta, não trabalhava e fazia-lhe oferendas.

Casal de “Diabos de Amarante”

Vizinho da coca ou “bicho-papão” é esse outro mito rural do gambuzino cuja existência deve-se à pareidolia, fenómeno psicológico envolvendo um estímulo vago e aleatório, geralmente uma imagem ou um som, sendo percebido como algo distinto e com significado, como se regista, por exemplo, no fenómeno ‘pop’ urbano de “new age”, onde a alucinação onírica é tomada como realidade, valendo mais a imagem fantasiada que a ideia reflectida.

Os gambuzinos são criaturas imaginárias que, segundo a superstição popular, vivem no campo, embora algumas espécies também habitem locais sombrios e húmidos nos parques das cidades. No Dicionário são descritos como uma espécie de pássaros ou peixes, mas outros pensam serem parecidos com o pirilampo ou o ouriço. Há quem acredite serem vegetais e viverem debaixo da terra, pelo que no princípio do século XX eram descritos como pequenos bolbos da espécie do lírio e comestíveis.

A caça aos gambuzinos faz-se geralmente à noite, sendo popular em Portugal e em várias regiões da Espanha, sobretudo na Galiza, onde a estação de caça está aberta o ano inteiro e não exige licença especial para a sua prática. Tradicionalmente, são usados sacos de serapilheira para os capturar, sem esquecer o apito ou um pau para bater no saco atraindo para dentro dele a discreta e esquiva criatura. É costume organizar caçada aos gambuzinos  convidando pessoas ingénuas para irem junto, sendo frequentemente amigos, irmãos ou sobrinhos mais novos.

No Entre Douro e Minho, esse animal imaginário é conhecido por pio-pardo. No Baixo Alentejo, conhecem-no por gramutilho. Na Galiza, é chamado de biosbardo, gazafello ou cocerello. Na Catalunha é apelidado de gambosí ou gambutzí; na Estremadura de gangüezno; nas Astúrias de  cordobeyo; em Aragão de bambosino. Não se conhece exactamente a origem do significado gambuzino. No entanto, poderá ter alguma relação com as palavras gambito (ardil para prostar o adversário) e gambina (perna), no sentido de “passar a perna”, de acordo com o folclorista catalão Joan Amades, em sua obra Costumari Català (1950), dando como origem do nome o provençal gambosí ou gabuzo (“engano”).

Gambuzino

Aparte isso e volvendo ao simbolismo do dragão dos lusos, ele aparece também nas figuras das cartas de jogar portuguesas. Com efeito, as lâminas divinatórias do tipo português (que no século XIX passaram a ser impressas na Bélgica e na Alemanha, já alteradas), vulgo cartas do dragão, apontam a influência oculta de Marte. Com efeito, nas ditas cartas ele aparece sobressaindo de um “graal” na forma de um dragão carregando uma espada, símbolo esotérico do mesmo Marte e de São Jorge ou Akdorge – segundo a Tradição Iniciática, o futuro Rei do Mundo portador do Santo Graal. Isso além de designar tanto a Linha Serapis como representar emblematicamente a cidade de Coimbra que, diz a Tradição, nela estava instalada a antiga Sede Externa da Soberana Ordem de Mariz. A esse baralho genuinamente português, poderei com justeza batizá-lo de Tarot Lusitano. A sua criação inspirou-se naquele outro Tarot Marselhês que os ciganos – esse “judeus errantes” sem Pátria certa e sem Norte definido… – importaram para a Península Ibérica e que em 1420 já circulava nas rotas de peregrinação a Santiago de Compostela, sendo que em 1490, reinando D. João II, a sua difusão era tamanha a ponto do monarca proibir severamente o seu uso (5).

“Proibição do vício do jogo de cartas”. Tábua de altar da igreja da Virgem do Carmo de Évora

Inspirado no baralho cigano é que Garcia de Resende (1470-1536), sob encomenda de D. Manuel I, criou o tipo português de baralho ou as 48 “cartas do dragão”, notícia inserta no seu Cancioneiro Geral (6), divididas em dois grupos de 24 Damas ou de Louvor, e de 24 Cavaleiros ou de Deslouvor.

Apesar da aparência de sua finalidade lúdica imediata, como inocente jogo de salão que D. Manuel I terá dedicado a uma sua pretensa concubina, D. Joana de Mendonça, a verdade parece ir muito além disso e ser muito mais dignificante e séria. O primeiro indicativo está no próprio Dragão dos Lusos atravessado pela espada e saindo da taça, de que já falei. O segundo indicativo está no Louvor ou Vitória assinalada na Dama, o que dá ao baralho característica feminina, matricial, bem conformada ao tempo do Rei Venturoso – o de Maris Nostrum sob a apologése de Santa Maria. O terceiro indicativo está no número 24, o apocalíptico indicativo dos 24 Anciãos da Revelação acompanhados das sibilas suas contrapartes femininas, as almas augures, as do vaticínio da boa ou má sorte que o Destino reserva. O quarto indicativo será o valor final 48, acrescido de mais 1 como o próprio jogador(a), indo dar 49, este o número cabalístico ou canónico que corresponde ao de Adeptos Independentes da Grande Loja Branca ou os Apóstolos da Igreja de Melkitsedek, 7 para cada Raio de Luz, logo, 7×7 = 49.

Ases das “cartas do dragão”, o Tarot Português

Com a fundação de Portugal em Guimarães, o culto primitivo do tellos draconis (dragão telúrico) tem o seu espaço ocupado pelo do Spiritus Sanctus a quem o Reino é consagrado, na pessoa de Maria propagada pela escolástica eclesial assegurando o Marialis Cultus, que na sua expressão erudita vem a ser a Iniciação Senhorial característica da Honra e da Ordem de Cavalaria, na qual eram iniciados os futuros cavaleiros que deviam ser tão puros e honrados quanto pudessem à semelhança do que é a Mãe Celeste, esta que dá de si a Matéria-Prima com que se faz o Mundo e, no particular, Portugal. Razão de se dizer que o Espírito Santo toma forma feminina em Maria, mesmo que, essencialmente, Ele participe das duas naturezas do Filho e da Mãe, esta que iconograficamente O traz sempre em Seus braços, no regaço ou colo, como demonstrativo velado da dupla natureza ou estado andrógino do Santo Espírito.

Cristo fica participando da natureza do Pai como Espírito e Maria, como Mãe ou Matéria, em estado Santo ou de Santidade participa da natureza de Seu Filho, a quem oferece ao Mundo. Donde se conclui:

Se o Conde D. Henrique de Borgonha sonhou ou visionou a Divindade precipitar-se em forma cometária no rio separando a Galiza do Minho, que o levou e à progénie que para aqui trazia, no mesmo sonho ou visão, a exclamar: “Porto Graal! Porto Graal! Porto Graal!”, este o símbolo maior do Divino Espírito Santo, tanto como objecto como estado de consciência, já o seu filho Afonso Henriques oferece o Reino sonhado ao Divino mas não à humanidade de Roma, tendo Cristo no Cruzeiro lhe aparecido em vésperas da Batalha de Ourique, decisiva para a independência definitiva da terra sua e de Deus que lhe garantiu os favores do Céu e a Bênção eterna à gente portucalense.

Mais tarde, a Rainha Santa Isabel de Portugal e Princesa de Aragão, oficializa o culto do Divino acompanhado das prerrogativas sobrehumanas da Páscoa Rosada em que se traduz o célebre “Milagre das Rosas”. Independência ameaçada, “Terra de Luz” (Luxcitânia, Lusitânia) perigando apagar-se, eis aí no século XIV, o “Galaaz de Portugal”, o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, depois Frei Nuno de Santa Maria, levando D. João I, em vésperas da Batalha de Aljubarrota, a ter a visão exaltada de Nossa Senhora da Oliveira acompanhada de S. Bernardo de Claraval. Mais uma vez, o Céu abençoou a Terra Pátria por Deus escolhida, e o perigo foi vencido. Finalmente, após os “60 anos fatais” da profecia, correspondendo ao tempo de ocupação Filipina de Portugal, D. João IV liberta o país da mesma e oferece a Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, a coroa dos reis portugueses, investindo-a, além de Mãe dos Céus que já era, Rainha de Portugal. Desde então, nunca mais as nossas rainhas (e até os reis) tornaram a usar coroa, que dignidade não concebiam para tanto comparando a sua míngua humana à grandeza Divina da Mãe Soberana.

Conclui-se que desde a primeira hora Portugal está consagrado ao Divino Espírito Santo em Cristo e Maria sob o evoco Conceição, e, seja por qual e misteriosa maneira for, a Sua protecção nunca escusou aos seus filhos desta “Terra de Luz”, a caminho de um Império de Espírito que também é o Seu, abraçando a toda a Terra numa unidade de Amor e Graça.

O dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria foi proclamado pelo Papa Pio IX, em 1854, com a bula Ineffabilis Deus. Esta solene definição pontifícia foi resultado do desenvolvimento da devoção popular aliada a intervenções papais e infindáveis debates teológicos. O calendário romano já incluíra a festa em 1476. Contudo, no sétimo século esta celebração já existia na Igreja Oriental e cedo entrou na Hispânia através do rito visigótico ou paleocristão. Em 1570, Pio V publicou o novo Ofício e em 1708 Clemente XI estendeu a festa, tornando-a obrigatória a toda a Cristandade.

Em Portugal, o culto foi oficializado sob feição patrística por D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança assim aclamado no 1.º de Dezembro de 1640, quando se iniciava a Festa da Imaculada Conceição. Seis anos depois, com a aprovação das Cortes de Lisboa, o monarca dedicou à Virgem Imaculada todo o Portugal e seu vasto Império de então, fazendo-a sua Rainha e Padroeira, e fê-lo através da Ordem honorífica por si fundada no Alentejo: a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em cuja igreja matriz está a imagem do Orago e celeste Soberana da pátria comum à lusitana gente (7).

O acto de D. João IV foi confirmado pelo Papa Clemente X, que aprovou a solene declaração régia de 25 de Março de 1646. Esta fora rezada de joelhos e em voz alta pelo monarca, na capela real dos Paços da Ribeira, em Lisboa, nos termos seguintes:

Dom João, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, de aquém e de além mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia, etc., faço saber aos que esta provisão virem, que sendo ora restituído por mercê muito particular de Deus nosso Senhor à Coroa destes meus Reinos e senhorios de Portugal.

Considerando que o Senhor Rei Dom Afonso Henriques meu progenitor e primeiro Rei deste Reino, sendo aclamado e levantado por Rei, em reconhecimento de tão grande mercê, de consentimento de seus vassalos, tomou por especial advogada sua a Virgem Mãe de Deus Senhora nossa, e debaixo de sua sagrada protecção e amparo Lhe ofereceu todos seus sucessores, Reino e vassalos com particular tributo em sinal de feudo e vassalagem.

Desejando eu imitar seu santo zelo, e a singular piedade dos Senhores Reis meus predecessores, reconhecendo ainda em mim avantajadas e contínuas mercês e benefícios da liberal e poderosa Mãe de Deus nosso Senhor, e por intercessão da Virgem Nossa Senhora da Conceição.

Estando ora juntos em Cortes com os três Estados do Reino, lhes fiz propor a obrigação que tínhamos de renovar e continuar esta promessa, e venerar com muito particular afecto e solenidade a festa de sua Imaculada Conceição. E nelas, com parecer de todos, assentamos de tomar por Padroeira de nossos Reinos e senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição, na forma dos Breves do Santo Padre Urbano VIII, obrigando-me a haver confirmação da Santa Sé Apostólica, e Lhe ofereço… à sua Santa Casa da Conceição sita em Vila Viçosa, por ser a primeira que houve em Espanha desta invocação, cinquenta cruzados de ouro em cada ano, em sinal de tributo e vassalagem.

E da mesma maneira prometemos e juramos com o Príncipe e Estados, de confessar e defender sempre (até dar a vida sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original… esperando com grande confiança… que por meio desta Senhora (Deus) nos ampare e defenda de nossos inimigos para glória de Cristo nosso Deus, exaltação da nossa Santa Fé Católica Romana, conversão das gentes e redução dos hereges.

E se alguma pessoa intentar coisa alguma contra esta nossa promessa… queremos que seja logo lançado fora do Reino; e se for Rei (o que Deus não permita) haja a sua e nossa maldição, e não se conte entre nossos descendentes… e esta minha provisão se guarde no Cartório da Casa de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, e na nossa Torre do Tombo.

Dada nesta nossa cidade de Lisboa, a 25 de Março de 1646 – El-Rei.

NOTAS

(1) Lorenzo Hervás, Catálogo de las Lenguas de las Naciones conocidas, y numeracion, division, y classes de estas, segun la diversidad de sus idiomas y dialectos, vol. IV., trat. III, pt. II. Madrid, 1804.

(2) André de Resende, As Antiguidades da Lusitânia, Lisboa, 1593. Reedição pela Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996.

(3) Teófilo Braga, Romanceiro Geral Português, três volumes. Ed. Vega, Lisboa, 1982.

(4) José Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, volumes XX e XXXII. Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1934.

(5) Fernanda Frazão, No tempo em que jogar às cartas era proibido. Apenas Livros Ltda., 2003.

(6) Garcia de Resende, Cancioneiro Geral, Lisboa, 1516, com edição póstuma em 1554. Mendes dos Remédios, Obras de Garcia de Resende, 5 volumes, Coimbra, 1917. A. de Pimpão e Aida Fernanda Dias, Obras de Garcia de Resende, 2 volumes, Coimbra, 1973.

(7) Pe. Miguel de Oliveira, Pe. Moreira das Neves, A Padroeira de Portugal. Edições Letras e Artes, Lisboa, 1940.