História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 22 2017 

APRESENTAÇÃO PÚBLICA E CONTEÚDO DO LIVRO

APRESENTAÇÃO PÚBLICA (ENTRADA LIVRE) DO LIVRO “HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL (FLOS SANCTORUM BRASILIAE)”, POR VITOR MANUEL ADRIÃO.

ESPAÇO MULTICULTURAL “ESPIRAL”, PRAÇA ILHA DO FAIAL 14 A, LISBOA. DIA 26 DE MAIO (6ª FEIRA) ÀS 19:30 H.

CONTAMOS CONSIGO. TRAGA UM(A) AMIGO(A). SAUDAÇÃO FRATERNA.

Livro com mais de meio milhar de páginas, profusamente ilustrado e documentado, composto em 22 capítulos (ficando em consonância com o Arcano XXII, “O Mundo”, que é o do Brasil).

PREFÁCIO – Por David Caparelli
INTRODUÇÃO – Por Vitor Manuel Adrião
CAPÍTULO I – BRASIL, O GIGANTE ADORMECIDO
CAPÍTULO II – BRASIL PRÉ-HISTÓRICO
CAPÍTULO III – BRASIL PROTO-HISTÓRICO
CAPÍTULO IV – BRASIL FENÍCIO
CAPÍTULO V – HY-BRAZIL: DELENDA PHOENICIA
CAPÍTULO VI – A “CÁRIA” BRASILEIRA
CAPÍTULO VII – BRASIL AMERÍNDIO
CAPÍTULO VIII – NAVEGAÇÕES PRÉ-CABRALINAS
CAPÍTULO IX – BRASIL IBERO-AMERÍNDIO
CAPÍTULO X – ILHAS PERDIDAS E CARTAS ACHADAS
CAPÍTULO XI – BRASIL NA ROTA DO CRUZEIRO
CAPÍTULO XII – BRASIL BANDEIRANTE
CAPÍTULO XIII – SÃO BENTO DE PIRATININGA
CAPÍTULO XIV – RIO DE JANEIRO, MOSAICOS DE HISTÓRIA INSÓLITA
CAPÍTULO XV – SÃO TOMÉ DAS LETRAS
CAPÍTULO XVI – MISTÉRIOS DA BANDEIRA DE SÃO LOURENÇO (MG)
CAPÍTULO XVII – SÃO LOURENÇO DE MINAS GERAIS (CAPITAL ESPIRITUAL DO BRASIL)
CAPÍTULO XVIII – ITAPARICA, BERÇO DO BRASIL
CAPÍTULO XIX – ODE AO RONCADOR (FUTURO DO GÉNIO BRASILEIRO)
CAPÍTULO XX – BRASÍLIA E O BRASIL FUTURO (ALVORADA DA NOVA ERA)
CAPÍTULO XXI – A MAÇONARIA E O BRASIL INDEPENDENTE
CAPÍTULO XXII – O BRASIL À LUZ DAS SUAS ARMAS

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Crenças sobrenaturais saloias – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 8 2017 

O espaço demográfico do Termo dos Saloios – mormente os Concelhos de Odivelas e Loures, como igualmente os de Sintra e Mafra – é prenhe de lendas e tradições que, quando interpretadas, não raro apresentam base no “pensamento mágico” de natureza quase inevitavelmente invocatória/petitória e sempre com fundo moral, mesmo havendo outras de natureza exclusivamente recreativo cujos enredos por norma envolvem-se num halo sobrenatural e que, igualmente, rematam em lição moral.

Dessas últimas lembro a Lenda do Senhor da Ribeira de Frielas, já descrita num livro meu editado pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Loures (Ode a Loures – Monografia Histórica, 1993), e ainda numa outra obra minha editada pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros” (Frielas – Memorial Histórico, 1996). Além dessa lenda, há ainda outras narrativas, a maioria orais, acerca de grutas mágicas e santões misteriosos, como aquela da pressuposta gruta do Conventinho da Mealhada (Loures) que ligava ao Mosteiro de Odivelas, ou então a da igreja matriz de Frielas comunicando subterraneamente com a ermida desfeita da Senhora do Monte da Ramada. Todos dizem que é verdade, sim senhor, porque “fulano ouviu de sicrano que já lá foi”, remetendo-se sempre para o passado e para outro, pouco importando que a improbabilidade prossiga.

Não sendo eu, por natureza e método de trabalho, só um teórico que se fica por respigos bibliográficos de outréns, senti necessidade de deslocar-me ao terreno onde se deram esses “factos fantásticos” que as lendas contam e afirmam terem realmente acontecido, indo tentar averiguar se acaso haveria “algum fogo no meio de tanto fumo”…

Respeitante à Lenda do Senhor da Ribeira, ainda hoje ela é atestada num pequeno silhar de azulejos coloridos e legendado (“Senhor da Ribeira”), junto ao Casal do Monte, no cimo da Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), entretanto tendo desaparecido a fonte de “água santa” que o mesmo silhar decorava. Ao lado, havia um aparelho de azenha medieval que cheguei a ver, mas agora está plantado sobre ele um prédio.

Outro vestígio é aquele das grutas da Idade do Cobre na Quinta das Gaitadas, cujas casas apresentam resquícios manuelinos. A quinta está no sopé da Serra de Montemor (Loures), dizendo-se que as grutas prolongam-se por toda a serra e sob a Cidade Nova – Santo António dos Cavaleiros. Isso não pude comprovar, apesar de ter adentrado uma dessas cavidades e avançado, cerca de um quilómetro e meio, com água pela cintura até esbarrar numa obstrução natural. De maneira que não posso afirmar a verdade ou a mentira da lenda… Mas posso afirmar que o Casal do Monte é a maior jazida paleolítica do Vale do Tejo (até agora poupada à inclemência da construção civil graças ao bom senso da edilidade, cujo presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Cavaleiros, na ocasião, aconselhou-se pessoalmente comigo nesse sentido, o da preservação desse espaço patrimonial), habitada por povos colectores, e inclusive havia aí até há pouco restos circulares do que pareciam templos dedicados a algum tipo de culto astrolátrico pré-histórico, como seja à Lua (nas grutas das Gaitadas) e ao Sol, deste os seus restos ficaram sob o centro comercial que se construiu no cimo da Cidade Nova, junto às Torres da Bela Vista e vizinho da estrada de Montemor.

Espólio arqueológico recolhido pelo autor em prospeções no Concelho de Loures

Para terminar, repasso um outro exemplo na chamada lenda “atlante” de Bucelas, a qual acabou levando-me à anta neo-calcolítica do Zambujal, onde realmente pude confirmar que “não há fumo sem fogo”… Essa estória bucelense, pouquíssimo conhecida, consta da Lenda dos Ferreiros e assim se passou em tempos esquecidos na memória dos homens (in Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por João Raymundo Alves. Lisboa, Instituto Geral das Artes Graphicas, Rua das Pretas, 17, 1911):

“Nas proximidades de Bucelas há dois montes bastante elevados e de forma mais ou menos cónica. É crença popular que dois ferreiros, dizem que irmãos, foram estabelecer as suas forjas cada um em seu monte, mas que possuindo ambos um só malho, dele se serviam alternadamente.

“Os montes, na sua parte superior, distam uns dois quilómetros um do outro, e quando o Melo (assim se chamava um dos ferreiros) precisava do malho, chegava à porta da forja e gritava pelo Jerumelo (assim se chamava o outro), para este lho atirar. Isso repetia-se todas as vezes que trabalhavam.

“Os dois ferreiros eram gigantes, porque só assim podiam ter força para arremessar o malho a tão grande distância.

“Uma vez zangou-se o Jerumelo com o companheiro, e atirou-lhe o malho com tanta violência que, desencravando-se este no ar, foi cair o ferro na encosta do monte Melo, e logo daí brotou uma fonte de água férrea, e o cabo, que era de madeira de zambujo, foi espetar-se na terra a mais de dois quilómetros de distância, reproduzindo-se um zambujo, que deu o nome a uma povoação que fica a quatro quilómetros dos referidos montes, e a que por isso se chama Zambujal.”

Gruta da Diaclase de Salemas, Loures

Deixando de lado a interpretação da lenda que remete para o deus ctónico Vulcano, passo de imediato às lendas de foro mágico, as quais têm origens diversas quase sempre inextrincavelmente misturadas: celtas, judaicas e árabes. O elemento celta está presente no culto dos elementos da Natureza; o judaico na magia talismânica aplicada à actividade agrícola das semeaduras, crescimento e colheitas, sempre dependentes dos humores climatéricos os quais a magia campesina pretende domá-los segundo a vontade do agricultor; e o árabe vê-se-o na espargiria ervanária, revelando-se base da medicina popular, campesina, através de unguentos, defumações, rezas, benzeduras, etc.

Esses elementos celtas, judaicos e árabes, de qualquer forma por norma entram juntos no imobiliário das lendas saloias, susceptível de explicar a vida e a morte num contexto marginal ao critério científico e ao crédito religioso, neste a religião por todos aceite mas “à maneira de cada um”, assim o plural presente sujeito ao singular assente.

O mouriscado çahroi (saloio) moçarábico

Imobiliário esse até há pouco tempo atrás sustentado pelos velhos da terra e pelas “pessoas com virtudes”, com dotes sobrenaturais capazes de falar com os “espíritos”, fazer quebrantos e enguiços, enfim, as bruxas d’aldeia. Elas eram o pilar-mor da religião popular, mais animista que espiritual, reunindo em um mesmo efeito causas divinas e causas diabólicas, sem mais preocupações senão que resultassem favoráveis aos seus intentos.

Em Loures, como em todo o território saloio, o que o padre-cura não resolvia consertava a bruxa ou a curandêra. Maria Rosa Lila Dias Costa (in Murteira – Uma Povoação do Concelho de Loures. Junta Distrital de Lisboa, 1961, com reedição em Dezembro de 1993) conta que na Murtêra não era estranho nem misterioso as pessoas, mais mulheres do que homens, consultarem pessoalmente a feitecêra.

Contudo, os saloios faziam distinção entre bruxa, a mulher que faz males ou bruxedos, e curandeira, que por meio de benzeduras vê e cura o mal que as bruxas fizeram.

As bruxas, geralmente médiuns ou sensitivas psíquicas, na magia campestre por norma representam o lado psíquico e lunar da Natureza, enquanto as curandeiras, não raro também “endireitas” dos ossos quebrantados e conhecedoras das plantas medicinais com que exerciam a sua medicina, agindo assim como as antigas druidisas, assinalam o lado espiritual e solar da Natureza. Talvez por isso o exercício de “endireitar ossos” fosse exercido maioritariamente por homens, pólo sexual positivo, activo ou solar, enquanto a actividade psíquica cabia sobretudo a mulheres, pólo sexual negativo, passivo ou lunar.

Essa distinção entre mulheres “de bem” e “de mal”, lembra o episódio homérico da perda do sentido de sacralidade pelas vestais, sibilas e pitonisas, acompanhando o declínio dessa civilização, a ponto de elas se transformarem em simples adivinhas animistas e sendo degredadas para fora das urbes por causa da sua influência nociva, o que ainda hoje se regista nas bruxas que vivem isoladas e marginalizadas da restante sociedade, principalmente nos lugares rurais onde a magia campesina disputa as almas ao par da religião de facto.

Sobre este tema tão interessante como aliciante, não deixo de aconselhar o interessante estudo de Amália Caetano, Medicina Popular na Região de Mafra, inserto no Boletim Cultural´94 publicado pela Câmara Municipal de Mafra.

Quanto aos exemplos que Maria Lila Costa dá da feitiçaria popular na Murteira, a verdade é que os mesmos aconteciam um pouco por todo o interior rural do Concelho de Loures, onde deparei com crenças idênticas em Bucelas, Lousa, Pinheiro, etc., para não falar em Odivelas, Sintra e Mafra.

Acreditava-se na existência de lobisomens, labisongos, meio-homens e meio-lobos que ficaram assim por serem munto pucadores, dando-lhes Deus como castigo transformarem-se em bestas demoníacas todas as meias-noites de Lua Cheia. Os fantasmas, pantasmas ou búltemos, eram outra crença. Com eles só os médiuns ou “intermediários” podiam comunicar directamente. Como não podia deixar de ser, numa sociedade rural fechada, tais médiuns, geralmente mulheres, eram muito concorridos pelo povo local e dos subúrbios, assediando-os com os mais diversos tipos de pedidos que, se fossem satisfeitos, lograriam para tal médium a fama de “pessoa de virtude” e “uma santa”, “não importando que a Igreja não aceite, porque o padre não sabe senão as rezas escritas no Livro que não me curaram dos males que a bruxa da vizinha me fez, mandando-me búltemos”…

De passagem mas com importância maior do que se possa presumir, anoto que o exercício da mediunidade e a prática de todo e qualquer culto animista encontra pela frente a desaprovação total da Tradição Espiritual assumida por toda e qualquer corrente religiosa tradicional (seja católica, islâmica, judaica, hindu, etc.), mas o desenvolvimento do por que não vem ao caso e, por conseguinte, prosseguirei o presente.

Rosa Lila refere ainda, para além das benzeduras e rezas utilizadas pelos endireitas dos ossos afectados e das más colheitas, havendo nisto, mais uma vez, certo sabor de nostalgia druídica, algumas regras de astrologia agrícola e mesmo cabalística. Por exemplo: os sentomas davam-se de 3 a 14 de Dezembro, quando os velhos, reparando no estado de tempo, prediziam que as condições meteorológicas de cada um dos doze dias corresponderia ao estado de tempo de cada mês do ano seguinte. Também se acreditava na influência magnética das fases da Lua, agindo nos diversos aspectos da vida quotidiana; assim, toda a novidade hortícola deveria ser semeada sempre em quarto minguante, e as galinhas recolhidas sempre em quarto crescente. Os números nonos, isto é, nunes ou ímpares, preferiam-se aos números pares: na quinta-feira da Ascensão guardavam-se, para dar sorte e ter pão todo o ano, 3, 5 ou 7 espigas de trigo; para o fabrico de chouriços, esperava-se que a carne estivesse de conserva 5, 7 ou 9 dias, para que ficasse bem curtivada e não se estragasse durante o ano.

Quando alguém tinha a espinhola caída, para se curar deveria estar deitado 3, 5, 7 ou 9 dias, conforme a gravidade da doença.

Em todas as benzeduras e rezas empregavam-se, como ingredientes de defumação, 3 ou 5 pedaços de certas plantas, sendo 3 as vezes que se repetia uma reza, em 3 (ou múltiplo de 3) dias sucessivos.

Outros costumes, fazendo parte das crenças sobrenaturais do saloio, sem dúvida supersticiosas desviadas e alteradas irremediavelmente de alguma tradição mais séria e menos absurda, mais espiritual e menos psíquica, e tomando por partida o lugar da Murteira, eram os seguintes: a partir do meio-dia não se devia deitar lixo nem água-vai para a rua. Também não se devia levantar a mesa logo que terminassem as refeições, porque os “inginhos tem fome e quer comer”.

Para que o leite não secasse nas vacas, nunca se devia queimar nas proximidades dos estábulos ou dos “palheiros”, onde elas viviam, madeira de figueira.

Sobre o simbolismo da figueira, aproveito para retificar aqui o que li algures acerca do mesmo: ao contrário do que li referente ao fruto da figueira simbolizar o Pai Eterno por Este se manifestar súbita e misteriosamente, tal qual a figueira que não dá flor e aparece o fruto sem que se espere, a verdade é que aparecem os bolbos a partir dos meados de Abril para que em Junho-Julho se colham os figos, que nos finais de Agosto já estão secos. Foi assim que os vi nas muitas figueiras que varejei em minha infância, no Algarve junto dos pais da minha mãe adoptiva. Portanto, essa interpretação do símbolo está incorrecta, não se devendo esquecer que a figueira ou kurma, em árabe, ajustando-se ao tema hindustânico karma, “acção”, e na cultura judaico-cristã ocidental estará sempre associada ao episódio bíblico de Jesus a ter amaldiçoado (Mateus, 21:19; Marcos, 2:12 s.). Segundo é tradição geral, o simbolismo da figueira tem dupla interpretação: como árvore viçosa, repleta de frutos, simboliza a Ciência Sagrada cujos frutos são os preferidos dos seus postulantes; como árvore seca, morta, expressa a heresia e o mal representados pelos seus ramos dissecados, num dos quais Judas herege terá se enforcado. De maneira que associar o símbolo do figo ao Pai e esquecer que Jesus amaldiçoou essa árvore, vale o mesmo que o absurdo do Salvador ter abjurado ao Progenitor da Criação…

Voltando aos saloios, no tratamento de certas doenças, como a erisipela, empregava-se para pincelar a parte do corpo afectada uma pena de galinha preta.

Quando o lume estava a fagulhar, era bom deitar-lhe algumas pedras de sal e de seguida voltar-lhe as costas.

Não era bom tocar caxa velha, pois acontecia alguma desgraça.

Era de mau agoiro ouvir piar os mochos, pois era sinal de morte no lugar.

Não era bom partir vidros.

Para que as bruxas não entrassem em casa, era conveniente colocar atrás da porta um banco de pernas para o ar, ou então uma vassoura (resquício alterado na memória popular das baguetas das primitivas druidisas) também de pernas para o ar.

Todo esse ritualismo crencista, supersticioso e pagão ou paissan, “camponês”, ainda assim não deixa de ter a sua razão de ser, o que me leva a deduzir, mais uma vez, tratarem-se de resquícios degenerados muitíssimo e irredutivelmente afastados de uma original, verdadeira e completa Tradição Iniciática, talvez moçarábica, mista de Cristianismo oriental com Arianismo ocidental, tudo com halo arábico, a qual seria ministrada no esconso reservado das caneças não raro anexas às mourarias, detentoras do supervisionamento. Com a posterior expulsão dos mouros para fora dos muros das cidades onde tinham os seus colégios, a cultura moçarábica seguiu-os e aos poucos foram extinguindo-se como etnias distintas, com eles a cultura e religião próprias, só ficando, como testemunho fragmentado ainda assim mantendo-se por herança genética alimentada por via oral de velhos a novos, as crenças sobrenaturais do Termo, resquício psíquico de um período áureo irrevogavelmente morto. Ao Homem cabe nascer, crescer, decrescer, morrer… assim também com as civilizações, logo, igualmente aos seus usos e costumes, sejam sagrados, sejam profanos, sejam ambas as coisas inter-relacionadas.

Para terminar esta ligeira abordagem às crenças sobrenaturais do saloio estremenho, desfecho com um breve glossário de termos saloios, extraído, com a devida vénia, do livro de Maria Rosa Lila Dias Costa (ob. cit.), dividido em duas partes: a primeira, sobre astros e fenómenos atmosféricos; a segunda, sobre superstições e crenças.

ASTROS E FENÓMENOS ATMOSFÉRICOS

Acoitar – Abrigar do tempo.

Alando d´auga – Grande quantidade de chuva.

Amolinhar – Chuviscar ou chover com pouca intensidade.

Andar numa ruvadoura – Diz-se dos dias ventosos e frios.

Arco-Novo – Arco-íris; meteoro luminoso, em forma de arco, que apresenta as sete cores do espectro solar.

Arco-da-Velha – O mesmo que arco-íris.

Armar uma trevoada – Tornar-se o céu escuro para trovejar.

Auga à granela – O mesmo que alando d´auga.

Aventar – Fazer muito vento.

Barbas-de-gato – Diz-se do aspecto do céu quando o Sol aparece por detrás de nuvens leves.

Biquêras – Pingos de água que caem dos telhados.

Biquêra-morta – Pingos de água barrenta caindo das telhas.

Borriçar – O mesmo que amolinhar.

Borriços – Chuva leve e pouca intensa.

Cair um banquete – Chover abundantemente.

Carmêlo branco – Gelo que se forma à superfície da água deixada ao relento durante o Inverno.

Carmêlo negro – Gelo de cor terrosa, que se forma sobre as novedades e as encarquilha e queima.

Casacada d´auga – Grande bátega de chuva grossa.

Chover borriços – O mesmo que amolinhar.

Chover molinha – Chover com pouca abundância.

Choverão – O mesmo que casacada d´auga.

Corisco – Designação vulgar de algumas pedras polidas da Idade Neolítica; o mesmo que pedra-de-raio.

Derremunho – Encontro de ventos opostos em rajada, movendo-se circularmente.

Dia de amores – Dia de sol.

Dia cerrado – Dia enevoado.

Dia de cravos – O mesmo que dia de amores.

Dia desnorteado – Dia de chuva e vento.

Escurecer a noite – Anoitecer.

Estar de boiça – O mesmo que amolinhar.

Estar brabo – Dia de chuva e vento.

Estar d´estoirões – Chover abundantemente e trovejar.

Estar de nèvoêro – Diz-se do dia cerrado, com nevoeiro.

Estar à panga – Estar à chuva sem se recolher.

Estrada-de-Santiaugo – Estrada de Santiago, nebulosa ou mancha esbranquiçada que se vê no céu, em noites claras; Via Láctea.

Estrela-boiante – Estrela de alva, ao nascer da qual os vaqueiros se levantam para ir tratar do gado.

Estrela-da-madrugada – O mesmo que estrela boiante.

Estrela-da-manhã – Vénus, o mesmo que estrela boiante.

Fazer sol – Diz-se quando já despontou o sol.

Forrar o escuro – Amanhecer.

Geada – Orvalho congelado que forma camada branca sobre os telhados, solos, plantas, etc.

Inchente – Cheia dos cursos de água.

Invernêra – O mesmo que dia brabo.

Luzir o buraco – Nascer o dia.

Mingante – Fase da Lua; quarto minguante.

Mudar o tempo – Deixar de chover. Ou deixar de fazer sol.

Néuva – Nevoeiro.

Nuve encarnada – Nuvem avermelhada indicadora de bom tempo.

Orruvalho – Camada de humidade que, sob a forma de pequenas gotas, se deposita, durante a noite, sobre os corpos expostos ao ar livre.

Panção d´auga – O mesmo que alando d´auga.

Porrada d´auga – O mesmo que alando d´auga.

Relampo – Relâmpago.

Restelazinha de sol – Pequeno raio ou rástea de sol.

Revalho – O mesmo que o orruvalho.

Sete-estrelos – Constelação, o mesmo que Plêiades.

Tempo arriba – Tempo mau com tendência para melhorar.

Tempo péssemo – o mesmo que dia desnorteado.

Tempo vil – Mau tempo.

Ventanêra – Vento forte e contínuo, ventania.

Vintinho – Vento fraco e agradável.

Xaroco – Vento frio que sopra da ponta do mar.

SUPERSTIÇÕES E CRENÇAS

Aime – Qualidade que uma pessoa tem de interrogar os espíritos.

Aperseguir – Acção de atormentar, por parte dos maus espíritos.

Bruxa – Mulher que faz pactos com o demónio e realiza sortilégios malfazejos.

Búltemo – Suposta aparição de silhueta imprecisa, fantasmagórica, que se atribui a artes mágicas, aparecendo de noite.

Cubrante – Resultado mórbido produzido pelo mau-olhado.

Curadêra – Curandeira, mulher a que o povo atribui supostos poderes para curar certas doenças.

Espirtos – Entes imaginados e malignos que vêm habitar o coração das pessoas.

Estoiro – Estampido forte provocado pelos lobisomens.

Fadoiro – Encanto que uma pessoa possui dado por um poder sobrenatural.

Feitecêra – Feiticeira, mulher possuidora de artes maléficas.

Figa – Acto de fechar a mão, metendo o dedo polegar entre o indicador e o médio; emprega-se para afugentar os maus espíritos.

Hora mortal – Hora tardia da noite em que aparecem os vultos fantasmagóricos e os lobisomens.

Incruzilhada – Cruzamento de caminhos, onde as bruxas e os lobisomens costumam passar.

Labisome – Homem que se transforma em animal para cumprir um fadoiro.

Labisongo – O mesmo que labisome.

Males – Bruxedos.

Mestero – Mistério, acontecimento estranho e inexplicável.

Mardomo – O mesmo que labisome.

Nonos – Diz-se de dias ímpares, julgados benfazejos e propícios à realização de certos trabalhos, tanto agrícolas, como medicinais e mesmo mágicos.

Pantasma – Fantasma, imagem ilusória de aspecto macabro; abantesma.

Penar – Cumprir um fadoiro.

Remorsos – Pressentimento.

Sumo – Desaparecimento atribuído a causas fantásticas.

Terpel – Tropel, barulho intenso e medonho que se supõe provocado por entes sobrenaturais.

Falar Saloio – As Gentes do Termo (de Lisboa) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 8 2017 

O falar típico do çaloio, o “homem do campo”, que com o tempo tem vindo a degenerar e desaparecer por perda do sentido territorial face ao avanço do estado urbano absorvendo a condição campesina, e com isso o falecimento dos seus usos e costumes sui generis como imobiliário imaterial das tradições etnográficas do Termo, ainda assim sobrevivem aqui e ali, muito dispersas, essas modalidades de expressão sobretudo entre os mais idosos da Murteira, mas também nos de Caneças, de Bucelas e de Loures.

Apesar de parecer estranha ao ouvido contudo é linguagem não-algaraviada, antes alterada pela vocabularização do português arcaico possuído tanto de verbos gregos e latinos como, sobretudo, árabes. Originalmente este linguarejar seria puro arábico, tendo após a Reconquista posto com o latinismo borgonhês, portanto, franco, indo tornar-se arcaico face às novas falas na urbe tomada pelo estrangeiro.

Todavia e enfrentando os posteriores séculos de civilização, o saloio manteve-se fiel às raízes arábicas e a sua linguagem hoje rústica é bem um monumento mudéjar, cujo apogeu teria sido a primeira metade do século XVI, aquando o “homem do campo” entrou na literatura e nas falas da cidade através do teatro vicentino.

A língua saloia terá passado do árabe ao mudéjar, incorporando elementos menos gregos e mais latinos, indo chegar ao arcaicismo. No seu vocabulário ainda se encontram termos arábigos, como azebro, ou mudéjares, como almácega, almácica ou almaça.

A vastíssima literatura de cordel do século XIX deu ao falar saloio um efeito cómico, pela estropiação de palavras e incorrecções sintáticas a par de alterações fonéticas. Vale por ter trazido a terreno termos já há muito caídos em desuso, com intenção de reproduzir o falar meridional ou estremenho do saloio.

Por essa literatura também se vislumbra a sabedoria do camponês saloio, orbitando entre o jocoso e o grave, a par do seu espírito de independente dos costumes do homem urbano, apesar de comparticipar da vida (comercial) da cidade, e isso como se fosse resquício subconsciente da marginalidade original a que foi remetido o árabe após a Reconquista, atirando-o para os campos além das muralhas da urbe. Na comédia O Saloio cidadão, de Carlos Francisco Moura (1790), impresso várias vezes em Lisboa, alinham-se, entre muitos, os seguintes desaparecidos ou hoje transformados ditos: “galinha de monturo não quer covo; por linha lhe vem a tinha; filho de burro não pode ser cavalo; ao médico, ao confessor e ao letrado deve-se falar toda a verdade”.

Ou então a bem gostosa anedota: um taful da cidade, ao encontrar uma saloia alcandorada no seu jumento, com um longo cortejo deles atrás carregados de trouxas de roupas, atirou-lhe o seguinte remoque, ao que ela ripostou com a maior compostura e desembaraço:

– Adeus, mãe de burros!

– Adeus, meu filho!

Com essa parece-se uma outra: caminhava um saloio com o seu jumento. Encontrou-o um janota que lhe perguntou por caçoada: – Onde ides vós ambos? Respondeu o rústico: – Buscar palha para nós três.

Hoje tudo está em mudança acelerada. A saída das raparigas para a cidade, como empregadas domésticas, e dos rapazes primeiro para a tropa, depois para pequenos empregos no comércio e na indústria, fotram imbuindo os saloios de novos costumes e de novas formas de vida, de tal maneira que hoje passam totalmente despercebidos.

Memória do passado ainda se mantém o vastíssimo património artístico-cultural, etnológico e etnográfico, do Termo dos Saloios (Loures, Cascais, Sintra, Mafra indo quase até Óbidos), reclamando a preservação a todo o custo.

Do falar arcaico, rústico, rural do Termo, em defecho, recolhi alguns termos orais e escritos (recorrendo parcialmente ao interessante estudo de Maria Isabel Ribeiro, O Saloio de A a Z, em Boletim Cultural´93 da Câmara Municipal de Mafra. Ele baseia-se nos estudos anteriores de João de Almeida Lucas, O Falar Saloio, em A Língua Portuguesa: revista de Filologia: publicação mensal para o estudo, divulgação e defesa da Língua Portuguesa, vol 2, págs. 65-72, 1930-31; e de João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e carácter: fisiologia, psicologia, etnografia, Porto, 1948), com os quais compus um pequeno glossário como homenagem ao mais singular ramo étnico que já conheci: o Saloio.

Abafar = Tornar mais confortável a casa, e por extensão, resguardar e aquecer o fermento para que levede. Ou ainda, nivelar o terreno com a grade.

Aboticado = Hipotecado.

Abrincadura = Brincadeira.

Acanho = Acanhamento.

Àcenha e cênha = Azenha.

Acólitos = Incógnitos.

Acolhia-se = Tirava-se.

Acostumar = Costumar.

Ajeitivado = Ajeitado, acomodado, posto a jeito.

Alembranças = Lembranças.

Alembrar = Lembrar.

Alemões = Alemães.

Alimais = Animais.

Álinterna = Lanterna.

Almaça = Tanque.

Almácega = Pequeno tanque ou lavadouro particular.

Amanhem = Amanhã.

Amerdois = Ambos os dois.

Almuinha = Horta.

Andar na maltosinha = Andar com a malta, ou na brincadeira, referindo-se a garotos.

Antoino = António.

Apartar = Dividir.

Aplique de proplexe = Ameaça de apoplexia.

Apolinhado = Pálido.

Assistir = Morar.

Atamoiçado = Adoentado.

Azebro = Tabuado que serve de divisória numa casa. Do árabe azzarbe, “a sebe”.

Bailharito = Bailharico.

Balaizo = Balázio, no sentido de pedregulho.

Balizar = Pensar.

Balhar = Bailar.

Baltizado = Batizado.

Baltizar = Batizar. Empregam-se também os derivados baltismo e baltizado.

Bonecrêro = Saltimbancos que corriam de aldeia em aldeia apresentando os bonecros.

Bi caúdo = Expressão intimidando ao silêncio, “boca fechada”.

Breçozinho = Berçozinho.

Brincar = Dançar.

Botou = Deitou.

Buscari = Buscar.

Cabedulho = Trato de terreno entre a estrada ou caminho público e a terra cultivada.

Cabidela = Cabimento.

Cabrêro = Cabreiro.

Cacetim = Moca.

Cadino e cadinar = O termo cadino aparece formando expressão com guloso, dizendo-se guloso cadino, talvez no sentido de inveterado. Daí o sentido que o verbo cadinhar tomou, exprimindo o facto de se andar às frutas nas herdades, roubando por guloseima.

Cachaporrada = Pancada com pau.

Calçães = Calções.

Caganeiroso = Presumido, afectado.

Calibre = Clima.

Cal-te = Cala-te.

Caminhito = Caminho.

Campicho = Indivíduo canejo ou que possui deformação nas pernas.

Campou = ganhou.

Canêra = Caneira.

Capitões = Capitães.

Carronca (levar) = Levar pancada.

Catacismos = Sinapismos.

Catramalhos = Sinapismos.

Cedade = Cidade.

Charficar = Mortificar.

Chafurdas = Etimólogo popular do francês chauffeur.

Chaparrão = Mal-educado, grosseiro. Exemplo: Aquèl home é mêmo chaparrão.

Cinzêro = Barriga, buxo, papo. Exemplo: Onde tà a ânha marenda? Já cá tá no cinzêro.

Claustro = Cáustico.

Confurtativo = Facultativo.

Conspirar = Transpirar.

Córteirão = Quarteirão.

Delgado = Delegado.

Desenxugar = Enxugar.

Déspio = Déspota.

Eclesiástico = Entusiasmo.

Eiva = Doença da fruta.

Emplamação = Inflamação.

Engulhos = Vómitos.

Enha = Minha. Pode também pronunciar-se ánha.

Enodada = Suja.

Ensabocar = Estrangular, estrafogar.

Entulhar = Enjoar.

Esganerelo = Casamento por força.

Estar em pensamentos = Estar moribundo.

Estar vestido = Estar bem arranjado; em gíria, estar lichado (estar linchado).

Estarraçar-se = Cair de chapa, estampar-se.

Estragação = Diz-se de qualquer coisa estragada. Exemplo: Uma estragação de sopas.

Estragador do Concelho = Administrador do Concelho.

Espinhola = Espinhela. Exemplo: Ter a espinhola caída.

Faliseu = Xergão.

Fanado = Doente.

Faniquito = Desmaio.

Fartão = Termo que exprime uma grande porção de qualquer coisa. Exemplo: Um fartão de gente.

Flautenta = Flatulenta.

Foro = Foram.

Franfantão = Indivíduo que mete vista, por ter um perfeito tipo de beleza ou por vestir bem.

Friâmulos = Porcos.

Galera = Carro puxado por muares ou bois, destinado a transportar produtos hortícolas ou as trouxas de roupas.

Gomitoiro = Vomitório.

Graçôna = Galinhas de pescoço pelado. Deve derivar do termo francês garçonne.

Graviel = Gabriel.

Humanidade = Unanimidade.

Hume = Homem.

Intrépio = Adversário.

Joelheira = Espécie de caixote sobre o qual a lavadeira se ajoelhava à beira-rio.

Juiz espanadeiro = Juiz pedâneo.

Juro = Júri.

Lavandêra = Lavadeira.

Lídico = Líquido.

Liquori = Licor.

Lisbom = Lisboa.

Loires = Loures.

Mafrão = Mafrense.

Ma-lo = Mais.

Manchita = Mão-cheia.

Mané = Manuel. Exemplo: Mané Bimbas, Mané Manso.

Marjabantes = Bonecos.

Maroiço d´imparar = Bloco construído de pedra e areia, junto das paredes das casas mais antigas.

Matchecar = Comer, patuscar; escarnecer, amesquinhar.

Matrona = Seio.

= Meu.

Mecê = Você.

Memoira = Memória.

Mentéus = Toalha de mesa.

Merca = Compra.

Milordens = Milordes.

Murta e murtar = Multa e multar.

Murtêra = Murteira.

= Não.

Noa = Nódoa.

Ofa = Cansaço.

Ofender = Magoar, tocar, ferir.

Olivél = Libelo.

Orate = Louco.

Orfo = Órfão.

Órina = Urina.

Passeira = Útero.

Pedra-lavadiça = Pedra negra e grande dos rios, boleada pela acção mecânica das águas.

Pescuradores = Procuradores.

Piano de cavalariça = Harmónica, realejo.

Pilémica = Polémica.

Piloto = Galo.

Piscalhar = Piscar, mas em sentido irónico. Exemplo: Piscalhar o olho.

Planta forma = Plataforma.

Palateia = Plateia.

Plefice = Superfície.

Polucia = Polícia.

Ponto de palaio ou ponto de orela = Ponto que remata as bainhas das saias de baixo.

Pós lombrigatigos = Pós para lombrigas.

Pra = Para.

Prove = Pobre.

Pulga = Purga.

Ràpaterrão = Exprime uma limpeza geral, de cima a baixo, por exemplo, quando se está a lavar uma casa muito suja, diz-se que vai de ràpaterrão.

Ratinho = O bombo da festa.

Reizes = Reis.

Riba = Ripa.

Rio = Pode também ser o lavadouro público.

Rustigo = Forte.

Saibo = Sábio.

Sansodorninho = São Saturnino, significando também beato falso.

Se = Senhor. Exemplo: Se Tònho.

Senhora = Nome dado à freguesa.

Sintrão = Sintrense.

Sismatura = Cisma, cismar.

Solitos = Solicitações.

Suscetivle = Susceptível.

Suspiração = Respiração.

Tenica = Ténue.

Testães = Tostões.

Tiorgo = Órgão.

Tocador = Músico.

Toicinho mastrunçado = Toucinho esmigalhado com pão.

Tolã = Logro, burla.

Toque = Stock, no sentido de loja. Exemplo: na avenida há um grande toque com muita fazenda.

Tosse confúcia = Tosse convulsa.

Treatro = Teatro.

Tresler = delirar com febre.

Trouxa = Embrulho.

Tu = Tua. Exemplo: Tu mãe, tu horta, etc.

Vei = Vê.

Verdigairo = Verde-gaio.

Vesionário = Revolucionário.

Vitro = Vitorioso, Vitor.

NOMES

Também as corruptelas não deixam de ser expressão da verdade. Elas variam de lugar para lugar. Assim: José deu Jzé e Zé; Manuel, Manel e M´nel; Joaquim, Jaquim, Jequim e Quim; Francisco, Fracisco, Farcisco, Frecisco e Fercisco; Inácio, Nácio; Jerónimo, Jerolmo e Jarolimo; Isabel, Zabel; Gertrudes, Estrudes. Assim por diante.

Gnosiologia Filosófica e Gnose Teosófica – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 1 2017 

A Gnosiologia (também chamada Gnosilogia) é o ramo da Filosofia preocupado com a validade do conhecimento em função do sujeito cognoscente, ou seja, daquele que conhece o objecto. Este, o objecto, por sua vez é questionado pela Ontologia que é o ramo da Filosofia que se preocupa com o ser. Fazem-se necessárias algumas observações para evitar confusões. A Gnosiologia não pode ser confundida com Epistemologia, termo empregado para referir-se ao estudo do conhecimento relativo ao campo de pesquisa, em cada ramo das ciências. A Metafísica também não pode ser confundida com Ontologia, por ambas se preocuparem com o ser, porém, com a Metafísica pondo em questão a própria essência e existência do ser limitado e mortal. Em outras palavras, a grosso modo a Ontologia insere-se na teoria geral do conhecimento, ou Ontognosiologia, preocupando-se com a validade do pensamento e das condições do objecto e da sua relação com o sujeito cognoscente, enquanto que a Metafísica procura a verdadeira essência e condições de existência do ser.

A Teoria do Conhecimento tem por objectivo buscar a origem, o valor e os limites do conhecimento, da faculdade de conhecer. Os principais problemas da Teoria do Conhecimento, são:

– A possibilidade do conhecimento (possível);

– A origem do conhecimento (fundamento);

– A essência do conhecimento (princípio);

– As formas do conhecimento (expressões);

– O valor do conhecimento (veracidade).

Havendo conhecimento humano existe verdade em si mesma, até na mentira ou na falsificação do conhecimento observado, pelo que a verdade e a mentira são expressões da inteligência racional e da inteligência afectiva em adequação proporcional à coisa observada e/ou analisada (segundo a concepção Aristotélica-Tomista). Com a existência da verdade, há consequentemente a existência da certeza, que é transferir a inteligência, seja racional ou afectiva, à verdade conhecida. A inteligência humana tende a fixar-se na verdade conhecida, seja ela qual for e que esteja em simpatia com a sua apercepção sensorial do meio ambiente circundante, pelo que todas as verdades racionais e afectivas são relativas, pois são apercebidas e apreendidas segundo as capacidades cognoscentes de cada ser singular. Metodologicamente, há primeiramente o conhecimento, depois a verdade e finalmente a certeza.

Tal tomada de posição perante o primeiro problema da crítica ante a verdade expressa, é chamado de dogmatismo, sempre defendido por filósofos realistas como, por exemplo, Aristóteles e Tomás de Aquino. Se, ao contrário, sustentar-se que a inteligência permanece, em tudo e sempre, sem nada afirmar e sem nada negar, isto é, sem admitir nenhuma verdade e nenhuma certeza, sendo a dúvida universal e permanente o resultado normal da inteligência humana, está se defendendo o cepticismo.

O problema crítico representa um passo além do dogmatismo e do cepticismo. Uma vez que se admite a existência da verdade (valor do conhecimento) e da certeza, pergunta-se então onde está a essência das coisas (o princípio das mesmas): só na inteligência, como querem Platão, Kant e Hegel (Idealismo); só na matéria, como ensina Marx (Materialismo); no intelecto humano e na matéria, como dizem Aristóteles e Tomás de Aquino (Realismo); ou só na razão, como afirma Descartes (Racionalismo).

Para o Idealismo, o ente, isto é, o ente transcendental, compõe-se somente de ideias. Para o Materialismo, unicamente de matéria. Para o Realismo, de ideias e matéria. Para o Racionalismo, é só razão.

Investigando os fundamentos de todo o conhecimento apresentado ou manifestado nas suas multivariadas expressões, nunca aceitando ou recusando a priori em simples manifestações de credulidade ou cepticismo que é sempre irracional e incognoscio, a crítica é a base indispensável de todo o saber científico e filosófico, inclusive da própria Ontologia. Por isto não se pode substituir Gnosiologia por Epistemologia, uma vez que a Epistemologia está contida na Gnosiologia.

Igualmente não se deverá confundir a razão da crítica com a malícia da censura, aquela “a mais poderosa tribuna do aperfeiçoamento humano”, no dizer do Professor Henrique José de Souza, e esta a manifestação afectada da inteligência afectiva, que é a visível e hodierna condição psicológica mais predominante tanto na classe desenvolvida intelectualmente como na condição subdesenvolvida e quase autista. Pelo que se demonstra do menor pessoal ao maior impessoal do ser, isto é, do incognoscente ao cognoscente: malícia > censura > crítica > auto-crítica > supra-crítica.

A supra-crítica encontra equivalentes no “conhece-te a ti mesmo” de Jesus e Platão. É a Gnosiologia Platónica que se encontra em empatia filosófica com a Tradição Espiritual, mormente entre os Espirituais portugueses, que na Idade Média e inícios da Renascença manifestaram-se através de várias Ordens religiosas, particularmente a Franciscana, dando forma e conteúdo à Filosofia Portuguesa consubstanciada na Formula Mentis Lusitanea.

Pois bem, a Gnosiologia Platónica manifesta-se por dois ramos principais chamados Maiêutica e Hermenêutica. Criada por Platão, servindo-se do heterónimo Sócrates, no século IV a. C., a Maiêutica é o momento do “parto” mental da procura da Verdade no interior (ser transcendente) do Homem. Ela é formada de dois momentos: 1.º – Platão/Sócrates levava os seus discípulos (ou interlocutores) a pôr em dúvida o seu próprio conhecimento de determinado assunto em questão; 2.º – Platão/Sócrates levava os interlocutores a ter uma nova ideia, uma nova opinião sobre o assunto em questão. E é por isto que Maiêutica significa o “parto das ideias”, do grego maiêutiké, a “arte de assistir aos partos”, a “arte de parturejar”. Pelo que na espiritualidade tradicional se parturejam os arquétipos, os atributos e tendências da natureza psicomental tanto de uma unidade particular como de uma colectividade singular, quer estejam ou não afins com a mesma.

A auto-reflexão, expressa no grego nosce te ipsum, “conhece-te a ti mesmo”, dispõe o Homem na demanda das verdades universais que são o caminho para a prática do Bem e da Virtude, ideia implícita nas próprias palavras de Jesus: “Faze por ti que Eu te ajudarei”. Assim, se Maiêutica é o método que consiste em gerar ideias novas a partir de perguntas simples articuladas dentro de um contexto ou assunto conhecido, e assumido como resolvido ou explicado até ao momento, ela tem o seu equivalente na Filosofia Oriental chamado de Maya Budista. Esta é o método utilizado para promover, através da motivação, o despertar para as realizações, para o estudo, para a pesquisa de algo.

Será importante proceder à análise da palavra Maiêutica, aplicando a Cabala Fonética importando a Etimologia, na explicação (des)velada do sentido original dos termos.

MAI, MAIA ou MAYA – termo sânscrito, significa “ilusão”, o “relativo”, mas também “força expressa”. É o poder do nómeno ou essência transcendente que permite a manifestação do fenómeno, como substância gerada aparecendo ao Homem como a aparência, a realidade objectiva ou visível e tangível.

EU – termo grego, expressivo do Ego, do Eu ou Deus Interior, o Génio ou Daimon de Sócrates.

TICA ou ÉTICA – termo português, a ciência da moral, do comportamento, dos códigos de conduta. Porém, a Ética tem muito pouco a ver com a Moral comum. Tem-se de compreender a Ética como uma ciência normativa em consonância com as leis patronímicas do Universo e com as regras estabelecidas por uma dada civilização, sociedade, época, tantas vezes falsas, hipócritas, egoístas, farisaicas.

O segundo ramo da Gnosiologia Platónica é a Hermenêutica. Este termo provém do grego hermeneuein e significa “declarar, anunciar, interpretar, esclarecer” e, por último, “traduzir”. Significa que alguma coisa é “tornada compreensível” ou “levada à compreensão”. Este ramo da Filosofia é o que se debate com a compreensão humana e a interpretação dos textos escritos. Atribuiu-se a fonte da palavra ao nome do deus grego Hermes, o mensageiros dos deuses, a quem os antigos gregos atribuíam a origem da linguagem e da escrita, considerando-o patrono da comunicação e do entendimento humano.

Ciência voltada para a interpretação dos símbolos gráficos e pictóricos (Neose), a Hermenêutica foi aplicada durante séculos nas primitivas academias portuguesas que eram as casas mosteirais, detentoras do saber. Ela é vulgarizada nos séculos XVII e XVIII e aplicada no sentido de uma interpretação correcta e objectiva da Bíblia, sendo Spinoza um dos precursores da Hermenêutica bíblica. Com Friedrich Scheleiermacher (1768-1834), no início do século XIX a Hermenêutica recebe a reformulação germânica e é assim que entra definitivamente no âmbito da Filosofia clássica, muito diferente do seu sentido original.

Com o seu sistema gnosiológico, Platão visionou um tipo de sociedade humana fundada na dignidade, no amor e na sabedoria, registo deixado na sua obra magistral República. Platão foi um “Filho da Sabedoria” (Philosophus) no seu tempo, viveu a sua Filosofia. Por isso, disse Hume: “A Filosofia é Platão e Platão é a Filosofia, posto que nenhum sábio latino pode acrescentar uma só ideia às suas maravilhosas categorias”. Emerson chamava-o de Homem Representativo por excelência.

As bases do sistema filosófico de Platão são de proveniência asiática, daí o nome de Filosofia Académica. Esta, que se vem repetindo desde há muitos séculos, deriva dos Jardins de Academus, os jardins onde era ministrada a filosofia da vida, onde eram discutidos os problemas da época e onde se reflectia sobre o sentido filosófico das coisas. Os gregos e latinos clássicos que descuraram a pesquisa das línguas à luz da ciência etimológica, julgaram ser Academus o onomástico de um homem, não se apercebendo do facto de Cadm significar Oriente. As ciências orientais foram as primeiras a criar e a utilizar o alfabeto escrito. Por ter ido beber nas fontes da Ásia e volvido à Grécia, todo o sábio, durante muito tempo, era considerando um oriental, um cadmus, e todo o lugar consagrado à instrução a Cadmia ou Academia.

Cadmus, o grego, associado ao deus Hermes, poderá ter a sua origem no termo hebraico Kadmon, o suposto inventor das letras do alfabeto na Europa e na Ásia Menor. Na língua sânscrita da Índia existe o termo Cadana, muito anterior àqueles, para designar os preceitos ritualísticos, os mandamentos religiosos grafados.

Chegado a este ponto, requer-se a abordagem, mesmo que sucinta, da teoria dos processos de estudo, aprendizagem e ensino no Conhecimento tradicional que constitui um triângulo dialéctico cujos ângulos são: Filosofia > Teosofia > Sabedoria, ou, Sendo, Ser, É!

Filosofia (do grego, philo+sophia, “Amizade, Amor à Sabedoria”) – Como antítese da Filodoxia (do grego, philo+doxos, “Amizade, Amor à Opinião”), é a ciência da aprendizagem e culturação intelectual. Informa e ensina sobre os processos de estudar a Didáctica, aos discentes e docentes – é o Método; a comparar escolher e julgar – é o Juízo; a medir, analisar e definir – é o Valor; a raciocinar, perquirir, conhecer e convencer – é a Lógica; a afirmar o critério na verificação da verdade – é a Crítica; e a alcançar uma finalidade – Mística.

Filosofia é, portanto, a arte de estudar, aprender e tomar consciência da Teosofia, ou seja, a viver com Sabedoria Divina.

Teosofia (do grego, theo+sophia, “Sabedoria Divina”) – É a Sabedoria decorrente da Lei Única promanada do Logos Eterno como Três Hipóstases ou Princípios: a Periodicidade Universal (o Eterno criando o Universo), a Harmonia Universal (o Ritmo do Eterno imposto no Universo) e a Analogia Universal (em que no Universo tudo é idêntico ao Eterno).

Da Filosofia à Sabedoria discorre-se da maneira seguinte:

Sabedoria (do grego Sophia, “Saber, Consciência”) – Adquire-se quando se eleva o mental intelectivo ao mental intuitivo, tornando-o consciência da Divindade Eterna nos Planos do Espírito e da Matéria, logo, possui-se a Consciência Integral.

A Consciência Integral ou Sabedoria Divina pode ser adquirida através de dois caminhos ou meios: pela Meditação (técnica mística, coracional) ou pela Filosofia (técnica intelectiva, mental).

É a Teosofia quem unifica o binómio Amor e Sabedoria, o ponto de fusão ou metástase intuitio – intelectus como Iluminação Coracional e Iniciação Mental. Assim tem-se o santo e o sábio em uma só pessoa: o Perfeito, no Oriente chamado Dwija, “duas vezes nascido”: pelo Corpo ou Maternidade e pelo Espírito ou Iniciação Espiritual, Perfeita.

Sendo a Filosofia um processo de ensino dedutivo, é igualmente indutivo no método de alcançar a Verdade como Sabedoria Divina, ao longo da sua aprendizagem.

O método indutivo é espiritual (Purusha) e desce da essência à existência por via da consciência; o método dedutivo é material (Prakriti) e sobe da existência à essência por via da consciência.

Filosofia é, em suma, um sistema de princípios e leis de raciocínio – lógica; um processo racional indutivo e dedutivo (ciência) de aprendizagem – método; e destina-se a agrupar, logicamente, uma ordem de fenómenos (arte) para os estudar (cultura), verificando a certeza (crítica) e conferindo a verdade (certeza).

Sendo a lógica o primeiro patamar da Filosofia, interessa saber o que seja. Lógica, do grego logos, significa razão. Razão é a relação matemática entre a consciência e a inteligência; entre o conhecido e o por conhecer; entre o certo e o errado; entre o bem e o mal; entre o útil e o inútil, enfim, a relação consciencial das polaridades dialécticas. A razão é, assim, a balança discriminativa do Homem no que deve e não deve fazer. Em suma, é o poder que o mental confere de auto-análise e autodeterminação.

Lógica, em Filosofia, é a ciência das leis ideais do pensamento e a arte de aplicar o raciocínio correctamente, e assim demonstrar a exactidão dos conceitos na cogitação da verdade. A aplicação do raciocínio apresenta-se como:

A lógica teórica cogita sobre as ideias e conceitos nas suas inter-relações naturais, concordantes entre si, e nos seus princípios e regras que têm aplicação prática. A lógica prática concebe, analisa e julga essas ideias e conceitos mediante os seus princípios particulares e regras específicas. Instrumentos da lógica:

Conceito, do latim concipere, é a ideia definida e relacionada com o objecto ou forma objectiva. Noção, do latim noscere, é a ideia suscitada na mente por sensações externas dadas pelos sentidos. Ideia, do latim eidos, “imagem”, é a expressão própria da mente, como órgão energético possuído da faculdade de pensar, elaborar ideias e reflecti-las em imagens como imaginação (do latim, imaginicere, “mente em acção”) pelo órgão energético emocional.

Termo é a expressão verbal de uma ideia, noção ou conceito; a expressão de uma ideia pode comportar várias palavras. Juízo é a operação mental que determina, decide e julga as relações entre ideias, noções e conceitos, e as expressa por outros termos. Proposição é a expressão verbal do juízo. O juízo comporta três elementos: um sujeito, do qual se cogita; um predicado, aquilo que se cogita do sujeito; um verbo, a decisão ou afirmação verbal. Raciocínio é o encadeamento discursivo de ideias, noções e conceitos. O raciocínio é o instrumento fundamental da inteligência na indagação e aquisição de conhecimentos através dos sentidos, e acumulados como ideias, noções, conceitos e imagens na estrutura psicomental do Homem. Argumento é a expressão verbal do raciocínio, sendo o silogismo a aplicação lógica do mesmo raciocínio no processo de aprendizagem do conhecimento.

O silogismo é o processo de raciocínio de três proposições dispostas de maneira que a terceira, chamada conclusão, deriva logicamente das duas primeiras, chamadas premissas. O silogismo baseia-se no princípio de que: duas ideias que convêm a uma terceira, convêm entre si. Este princípio, por sua vez, firma-se no axioma matemático do Teorema de Pitágoras: duas quantidades iguais a uma terceira, são iguais entre si.

Silogismo comporta o método (do grego meta-odos, “caminho para”), que é a orientação adequada e criteriosa a seguir nos processos de aprendizagem, aquisição e transmissão do conhecimento. Quanto à orientação da consciência, ou inteligência, o método pode ser indutivo ou dedutivo.

A indução (“levar a”) parte da essência, do conhecimento sintético das premissas que estipulam a lei para o estudo e determinação qualitativa e quantitativa da forma. É o método de Filosofia Mística, Indutiva ou Intuitiva, Platónica.

A dedução (“aperceber a”) parte da análise e conhecimento da natureza e constituição das formas para a legítima definição da lei. É o método de Filosofia Analítica, Dedutiva ou Racional, Aristotélica.

Quanto às etapas a seguir, o método, ou melhor, os processos mentais, podem ser: a) inventivo; b) sistemático; c) didáctico. O primeiro, pesquisa as verdades; o segundo, sistematiza os resultados; o terceiro, transmite o conhecimento adquirido.

O processo inventivo, pode ser: a) intuitivo ou sintético; b) inspirado ou analítico. O processo sintético corresponde ao método indutivo, filosófico, consistindo em explicar os efeitos considerando o estudo das causas. O processo analítico corresponde ao método dedutivo, científico, o qual consiste em explicar as causas pelo estudo do conhecimento e compreensão lógica e analógica dos efeitos.

O processo sistemático tem por finalidade definir com clareza e precisão os conceitos e proposições na descoberta e afirmação de uma verdade, comprovando-a, e seguidamente classificá-la no quadro de conhecimentos sucessivos e analógicos, em progressividade e reciprocidade.

O método didáctico, pode ser: a) esotérico, “reservado”; b) exotérico, “vulgarizado”. O processo de aplicação poderá ser sintético ou sistemático, expositivo. Também pode ser feito pelo processo analítico-sintético, como sucede na pedagogia teosófica.

Quando existe a pretensão de escrever ideias reservadas, de foro sagrado ou transcendente, por exemplo, recorre-se à parábola, que contém um outro sentido além do aparente, e a línguas originais cujo sentido ainda não esteja adulterado pelo vocabulário ordinário destituído de sentido e com perda do sentido original dos termos. Tais línguas prístinas, raras hoje em dia, são chamadas de Linguagem Subjectiva ou Purushica (Espiritual), enquanto a maioria é chamada de Linguagem Objectiva ou Prakritica (Material). Isto vai bem com a composição geral da escrita:

Dentro das línguas da primeira categoria, forçosamente expressando-se pelas da segunda, está o Português, como das línguas mais faladas no mundo, e em português se pensou, escreveu e expressou a Filosofia Portuguesa, tendo quase na cumeeira, se não mesmo na cumeeira dos autores antes de Portugal o ser mas que o pensaram ou idealizaram, Paulo Orósio de Braga, no século IV expressando-se num límpido latim  eclesiástico entremesclados a termos da cultura celto-galaica local e que viria a estar na raiz da nossa Língua Mãe.

Com efeito, a língua portuguesa desenvolveu-se na parte ocidental da Península Ibérica a partir do latim falado, chamado latim vulgar, trazido pelas legiões romanas desde o século III a. C., indo a insuflar no falar ibérico da Lusitânia e da Galécia, que veio a coincidir com o território político do Reino Suevo, e só posteriormente, com a Reconquista, foi avançando pelo que é actualmente o Centro-Sul de Portugal. Porém, a configuração actual da língua foi largamente influenciada por dialectos moçárabes falados no Sul. Durante muito tempo, o dialecto latino da Província Romana da Lusitânia e depois do Reino Suevo, desenvolveu-se apenas como uma língua falada, ficando o latim reservado para a língua escrita.

Os registos mais antigos da língua portuguesa aparecem em documentos notariais do século IX d. C., escritos em latino-romance, língua escrita de base tardo-latina com muitas interferências do vernáculo. O mais antigo documento latino-português conhecido, datado de 870 d. C., é a Doação à Igreja de Souselo. E o mais antigo documento latino-português original conhecido é a Carta de Fundação e Dotação da Igreja de S. Miguel de Lardosa, datada de 882 d. C. (escrita em letra visigótica cursiva).

A Notícia de Fiadores, de 1175, é, segundo vários autores, o documento datado em escrita portuguesa mais antigo conhecido. Trata-se de uma pequena lista de nomes que termina com uma única frase que apresenta sintaxe e morfologia portuguesas. Todavia, a caracterização da Notícia de Fiadores como o “documento mais antigo” não é consensualmente aceite na comunidade de filólogos portugueses.

Segundo outros estudiosos, o Pacto de Gomes e Ramiro Pais deve ser considerado o texto mais antigo escrito em português. No entanto, é apenas datável por conjectura (possivelmente anterior a 1173) e contém muitas formas gráficas latinas.

Outro importante documento, a Notícia de Torto, não datado, terá sido escrito entre 1211 e 1216: é uma longa narrativa dos agravos que o nobre Lourenço Fernandes da Cunha sofreu às mãos de outros senhores. Permanece o mais antigo documento particular datável conhecido, escrito em português.

O Testamento de D. Afonso II de Portugal, datado de 1214, é o texto em escrita portuguesa mais antigo que se conhece (é consensualmente aceite como tal pela comunidade científica). Conservam-se dois testemunhos deste documento, um em Lisboa e outro em Toledo. Foi o primeiro de três testamentos que o monarca lavrou, mas apenas este foi redigido na scripta portuguesa que na época se estava a desenvolver na corte. Estes documentos estão conservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

O vernáculo escrito passou gradualmente para uso geral a partir do final do século XIII. Com a independência nacional em 1139, com o rei D. Afonso I, a separação política entre Portugal-Galiza e Castela (mais tarde, Espanha) permitiu a evolução linguística em direcções opostas do latim vernáculo presente nos dois países. Em 1290, o rei D. Dinis criou a primeira Universidade portuguesa (o Estudo Geral) em Lisboa e decretou que o português, que então era chamado “linguagem”, fosse usado em vez do latim no contexto administrativo, e em 1296 o português foi adoptado pela Chancelaria Real. A partir desse momento, a língua portuguesa passou a ser usada não só na poesia mas também na redacção das leis e nos notários.

Até 1350, a língua galaico-portuguesa permaneceu apenas como língua nativa da Galiza e Portugal. Mas em meados do século XIV, o português tornou-se uma língua elaborada, dotada de uma tradição literária riquíssima, e inclusive foi adoptada por muitos poetas e prosadores leoneses, castelhanos, aragoneses e catalães. Durante essa época, a língua na Galiza começou a ser influenciada pelo castelhano (raiz do espanhol moderno), tendo-se iniciado a sua introdução como única forma de língua culta. Em Portugal, a fixação da corte em Lisboa, o surgimento da imprensa e a profunda textualização das classes predominantes (aristocracia, clero e burguesia), levaram, a partir dos séculos XV-XVI, ao desenvolvimento e elaboração de uma língua padrão de características centro-meridionais e à “exportação” de variedades linguísticas, despojadas das marcas setentrionais, para os novos territórios descobertos e povoados pelos portugueses. Por fim, as sucessivas reformas e mudanças ortográficas trouxeram à actual maneira de falar e escrever a língua portuguesa.

Para terminar, de volta à Filosofia Portuguesa, dá o remate final o axioma magistral do Professor Henrique José de Souza:

Gramática é a ciência da linguagem.
Linguagem é a expressão da ideia.
Ideia é a manifestação da inteligência.
A Inteligência é o Espírito de Deus no Homem.
No futuro, a IDEIA será permanente no Homem.