A Gnosiologia (também chamada Gnosilogia) é o ramo da Filosofia preocupado com a validade do conhecimento em função do sujeito cognoscente, ou seja, daquele que conhece o objecto. Este, o objecto, por sua vez é questionado pela Ontologia que é o ramo da Filosofia que se preocupa com o ser. Fazem-se necessárias algumas observações para evitar confusões. A Gnosiologia não pode ser confundida com Epistemologia, termo empregado para referir-se ao estudo do conhecimento relativo ao campo de pesquisa, em cada ramo das ciências. A Metafísica também não pode ser confundida com Ontologia, por ambas se preocuparem com o ser, porém, com a Metafísica pondo em questão a própria essência e existência do ser limitado e mortal. Em outras palavras, a grosso modo a Ontologia insere-se na teoria geral do conhecimento, ou Ontognosiologia, preocupando-se com a validade do pensamento e das condições do objecto e da sua relação com o sujeito cognoscente, enquanto que a Metafísica procura a verdadeira essência e condições de existência do ser.

A Teoria do Conhecimento tem por objectivo buscar a origem, o valor e os limites do conhecimento, da faculdade de conhecer. Os principais problemas da Teoria do Conhecimento, são:

– A possibilidade do conhecimento (possível);

– A origem do conhecimento (fundamento);

– A essência do conhecimento (princípio);

– As formas do conhecimento (expressões);

– O valor do conhecimento (veracidade).

Havendo conhecimento humano existe verdade em si mesma, até na mentira ou na falsificação do conhecimento observado, pelo que a verdade e a mentira são expressões da inteligência racional e da inteligência afectiva em adequação proporcional à coisa observada e/ou analisada (segundo a concepção Aristotélica-Tomista). Com a existência da verdade, há consequentemente a existência da certeza, que é transferir a inteligência, seja racional ou afectiva, à verdade conhecida. A inteligência humana tende a fixar-se na verdade conhecida, seja ela qual for e que esteja em simpatia com a sua apercepção sensorial do meio ambiente circundante, pelo que todas as verdades racionais e afectivas são relativas, pois são apercebidas e apreendidas segundo as capacidades cognoscentes de cada ser singular. Metodologicamente, há primeiramente o conhecimento, depois a verdade e finalmente a certeza.

Tal tomada de posição perante o primeiro problema da crítica ante a verdade expressa, é chamado de dogmatismo, sempre defendido por filósofos realistas como, por exemplo, Aristóteles e Tomás de Aquino. Se, ao contrário, sustentar-se que a inteligência permanece, em tudo e sempre, sem nada afirmar e sem nada negar, isto é, sem admitir nenhuma verdade e nenhuma certeza, sendo a dúvida universal e permanente o resultado normal da inteligência humana, está se defendendo o cepticismo.

O problema crítico representa um passo além do dogmatismo e do cepticismo. Uma vez que se admite a existência da verdade (valor do conhecimento) e da certeza, pergunta-se então onde está a essência das coisas (o princípio das mesmas): só na inteligência, como querem Platão, Kant e Hegel (Idealismo); só na matéria, como ensina Marx (Materialismo); no intelecto humano e na matéria, como dizem Aristóteles e Tomás de Aquino (Realismo); ou só na razão, como afirma Descartes (Racionalismo).

Para o Idealismo, o ente, isto é, o ente transcendental, compõe-se somente de ideias. Para o Materialismo, unicamente de matéria. Para o Realismo, de ideias e matéria. Para o Racionalismo, é só razão.

Investigando os fundamentos de todo o conhecimento apresentado ou manifestado nas suas multivariadas expressões, nunca aceitando ou recusando a priori em simples manifestações de credulidade ou cepticismo que é sempre irracional e incognoscio, a crítica é a base indispensável de todo o saber científico e filosófico, inclusive da própria Ontologia. Por isto não se pode substituir Gnosiologia por Epistemologia, uma vez que a Epistemologia está contida na Gnosiologia.

Igualmente não se deverá confundir a razão da crítica com a malícia da censura, aquela “a mais poderosa tribuna do aperfeiçoamento humano”, no dizer do Professor Henrique José de Souza, e esta a manifestação afectada da inteligência afectiva, que é a visível e hodierna condição psicológica mais predominante tanto na classe desenvolvida intelectualmente como na condição subdesenvolvida e quase autista. Pelo que se demonstra do menor pessoal ao maior impessoal do ser, isto é, do incognoscente ao cognoscente: malícia > censura > crítica > auto-crítica > supra-crítica.

A supra-crítica encontra equivalentes no “conhece-te a ti mesmo” de Jesus e Platão. É a Gnosiologia Platónica que se encontra em empatia filosófica com a Tradição Espiritual, mormente entre os Espirituais portugueses, que na Idade Média e inícios da Renascença manifestaram-se através de várias Ordens religiosas, particularmente a Franciscana, dando forma e conteúdo à Filosofia Portuguesa consubstanciada na Formula Mentis Lusitanea.

Pois bem, a Gnosiologia Platónica manifesta-se por dois ramos principais chamados Maiêutica e Hermenêutica. Criada por Platão, servindo-se do heterónimo Sócrates, no século IV a. C., a Maiêutica é o momento do “parto” mental da procura da Verdade no interior (ser transcendente) do Homem. Ela é formada de dois momentos: 1.º – Platão/Sócrates levava os seus discípulos (ou interlocutores) a pôr em dúvida o seu próprio conhecimento de determinado assunto em questão; 2.º – Platão/Sócrates levava os interlocutores a ter uma nova ideia, uma nova opinião sobre o assunto em questão. E é por isto que Maiêutica significa o “parto das ideias”, do grego maiêutiké, a “arte de assistir aos partos”, a “arte de parturejar”. Pelo que na espiritualidade tradicional se parturejam os arquétipos, os atributos e tendências da natureza psicomental tanto de uma unidade particular como de uma colectividade singular, quer estejam ou não afins com a mesma.

A auto-reflexão, expressa no grego nosce te ipsum, “conhece-te a ti mesmo”, dispõe o Homem na demanda das verdades universais que são o caminho para a prática do Bem e da Virtude, ideia implícita nas próprias palavras de Jesus: “Faze por ti que Eu te ajudarei”. Assim, se Maiêutica é o método que consiste em gerar ideias novas a partir de perguntas simples articuladas dentro de um contexto ou assunto conhecido, e assumido como resolvido ou explicado até ao momento, ela tem o seu equivalente na Filosofia Oriental chamado de Maya Budista. Esta é o método utilizado para promover, através da motivação, o despertar para as realizações, para o estudo, para a pesquisa de algo.

Será importante proceder à análise da palavra Maiêutica, aplicando a Cabala Fonética importando a Etimologia, na explicação (des)velada do sentido original dos termos.

MAI, MAIA ou MAYA – termo sânscrito, significa “ilusão”, o “relativo”, mas também “força expressa”. É o poder do nómeno ou essência transcendente que permite a manifestação do fenómeno, como substância gerada aparecendo ao Homem como a aparência, a realidade objectiva ou visível e tangível.

EU – termo grego, expressivo do Ego, do Eu ou Deus Interior, o Génio ou Daimon de Sócrates.

TICA ou ÉTICA – termo português, a ciência da moral, do comportamento, dos códigos de conduta. Porém, a Ética tem muito pouco a ver com a Moral comum. Tem-se de compreender a Ética como uma ciência normativa em consonância com as leis patronímicas do Universo e com as regras estabelecidas por uma dada civilização, sociedade, época, tantas vezes falsas, hipócritas, egoístas, farisaicas.

O segundo ramo da Gnosiologia Platónica é a Hermenêutica. Este termo provém do grego hermeneuein e significa “declarar, anunciar, interpretar, esclarecer” e, por último, “traduzir”. Significa que alguma coisa é “tornada compreensível” ou “levada à compreensão”. Este ramo da Filosofia é o que se debate com a compreensão humana e a interpretação dos textos escritos. Atribuiu-se a fonte da palavra ao nome do deus grego Hermes, o mensageiros dos deuses, a quem os antigos gregos atribuíam a origem da linguagem e da escrita, considerando-o patrono da comunicação e do entendimento humano.

Ciência voltada para a interpretação dos símbolos gráficos e pictóricos (Neose), a Hermenêutica foi aplicada durante séculos nas primitivas academias portuguesas que eram as casas mosteirais, detentoras do saber. Ela é vulgarizada nos séculos XVII e XVIII e aplicada no sentido de uma interpretação correcta e objectiva da Bíblia, sendo Spinoza um dos precursores da Hermenêutica bíblica. Com Friedrich Scheleiermacher (1768-1834), no início do século XIX a Hermenêutica recebe a reformulação germânica e é assim que entra definitivamente no âmbito da Filosofia clássica, muito diferente do seu sentido original.

Com o seu sistema gnosiológico, Platão visionou um tipo de sociedade humana fundada na dignidade, no amor e na sabedoria, registo deixado na sua obra magistral República. Platão foi um “Filho da Sabedoria” (Philosophus) no seu tempo, viveu a sua Filosofia. Por isso, disse Hume: “A Filosofia é Platão e Platão é a Filosofia, posto que nenhum sábio latino pode acrescentar uma só ideia às suas maravilhosas categorias”. Emerson chamava-o de Homem Representativo por excelência.

As bases do sistema filosófico de Platão são de proveniência asiática, daí o nome de Filosofia Académica. Esta, que se vem repetindo desde há muitos séculos, deriva dos Jardins de Academus, os jardins onde era ministrada a filosofia da vida, onde eram discutidos os problemas da época e onde se reflectia sobre o sentido filosófico das coisas. Os gregos e latinos clássicos que descuraram a pesquisa das línguas à luz da ciência etimológica, julgaram ser Academus o onomástico de um homem, não se apercebendo do facto de Cadm significar Oriente. As ciências orientais foram as primeiras a criar e a utilizar o alfabeto escrito. Por ter ido beber nas fontes da Ásia e volvido à Grécia, todo o sábio, durante muito tempo, era considerando um oriental, um cadmus, e todo o lugar consagrado à instrução a Cadmia ou Academia.

Cadmus, o grego, associado ao deus Hermes, poderá ter a sua origem no termo hebraico Kadmon, o suposto inventor das letras do alfabeto na Europa e na Ásia Menor. Na língua sânscrita da Índia existe o termo Cadana, muito anterior àqueles, para designar os preceitos ritualísticos, os mandamentos religiosos grafados.

Chegado a este ponto, requer-se a abordagem, mesmo que sucinta, da teoria dos processos de estudo, aprendizagem e ensino no Conhecimento tradicional que constitui um triângulo dialéctico cujos ângulos são: Filosofia > Teosofia > Sabedoria, ou, Sendo, Ser, É!

Filosofia (do grego, philo+sophia, “Amizade, Amor à Sabedoria”) – Como antítese da Filodoxia (do grego, philo+doxos, “Amizade, Amor à Opinião”), é a ciência da aprendizagem e culturação intelectual. Informa e ensina sobre os processos de estudar a Didáctica, aos discentes e docentes – é o Método; a comparar escolher e julgar – é o Juízo; a medir, analisar e definir – é o Valor; a raciocinar, perquirir, conhecer e convencer – é a Lógica; a afirmar o critério na verificação da verdade – é a Crítica; e a alcançar uma finalidade – Mística.

Filosofia é, portanto, a arte de estudar, aprender e tomar consciência da Teosofia, ou seja, a viver com Sabedoria Divina.

Teosofia (do grego, theo+sophia, “Sabedoria Divina”) – É a Sabedoria decorrente da Lei Única promanada do Logos Eterno como Três Hipóstases ou Princípios: a Periodicidade Universal (o Eterno criando o Universo), a Harmonia Universal (o Ritmo do Eterno imposto no Universo) e a Analogia Universal (em que no Universo tudo é idêntico ao Eterno).

Da Filosofia à Sabedoria discorre-se da maneira seguinte:

Sabedoria (do grego Sophia, “Saber, Consciência”) – Adquire-se quando se eleva o mental intelectivo ao mental intuitivo, tornando-o consciência da Divindade Eterna nos Planos do Espírito e da Matéria, logo, possui-se a Consciência Integral.

A Consciência Integral ou Sabedoria Divina pode ser adquirida através de dois caminhos ou meios: pela Meditação (técnica mística, coracional) ou pela Filosofia (técnica intelectiva, mental).

É a Teosofia quem unifica o binómio Amor e Sabedoria, o ponto de fusão ou metástase intuitio – intelectus como Iluminação Coracional e Iniciação Mental. Assim tem-se o santo e o sábio em uma só pessoa: o Perfeito, no Oriente chamado Dwija, “duas vezes nascido”: pelo Corpo ou Maternidade e pelo Espírito ou Iniciação Espiritual, Perfeita.

Sendo a Filosofia um processo de ensino dedutivo, é igualmente indutivo no método de alcançar a Verdade como Sabedoria Divina, ao longo da sua aprendizagem.

O método indutivo é espiritual (Purusha) e desce da essência à existência por via da consciência; o método dedutivo é material (Prakriti) e sobe da existência à essência por via da consciência.

Filosofia é, em suma, um sistema de princípios e leis de raciocínio – lógica; um processo racional indutivo e dedutivo (ciência) de aprendizagem – método; e destina-se a agrupar, logicamente, uma ordem de fenómenos (arte) para os estudar (cultura), verificando a certeza (crítica) e conferindo a verdade (certeza).

Sendo a lógica o primeiro patamar da Filosofia, interessa saber o que seja. Lógica, do grego logos, significa razão. Razão é a relação matemática entre a consciência e a inteligência; entre o conhecido e o por conhecer; entre o certo e o errado; entre o bem e o mal; entre o útil e o inútil, enfim, a relação consciencial das polaridades dialécticas. A razão é, assim, a balança discriminativa do Homem no que deve e não deve fazer. Em suma, é o poder que o mental confere de auto-análise e autodeterminação.

Lógica, em Filosofia, é a ciência das leis ideais do pensamento e a arte de aplicar o raciocínio correctamente, e assim demonstrar a exactidão dos conceitos na cogitação da verdade. A aplicação do raciocínio apresenta-se como:

A lógica teórica cogita sobre as ideias e conceitos nas suas inter-relações naturais, concordantes entre si, e nos seus princípios e regras que têm aplicação prática. A lógica prática concebe, analisa e julga essas ideias e conceitos mediante os seus princípios particulares e regras específicas. Instrumentos da lógica:

Conceito, do latim concipere, é a ideia definida e relacionada com o objecto ou forma objectiva. Noção, do latim noscere, é a ideia suscitada na mente por sensações externas dadas pelos sentidos. Ideia, do latim eidos, “imagem”, é a expressão própria da mente, como órgão energético possuído da faculdade de pensar, elaborar ideias e reflecti-las em imagens como imaginação (do latim, imaginicere, “mente em acção”) pelo órgão energético emocional.

Termo é a expressão verbal de uma ideia, noção ou conceito; a expressão de uma ideia pode comportar várias palavras. Juízo é a operação mental que determina, decide e julga as relações entre ideias, noções e conceitos, e as expressa por outros termos. Proposição é a expressão verbal do juízo. O juízo comporta três elementos: um sujeito, do qual se cogita; um predicado, aquilo que se cogita do sujeito; um verbo, a decisão ou afirmação verbal. Raciocínio é o encadeamento discursivo de ideias, noções e conceitos. O raciocínio é o instrumento fundamental da inteligência na indagação e aquisição de conhecimentos através dos sentidos, e acumulados como ideias, noções, conceitos e imagens na estrutura psicomental do Homem. Argumento é a expressão verbal do raciocínio, sendo o silogismo a aplicação lógica do mesmo raciocínio no processo de aprendizagem do conhecimento.

O silogismo é o processo de raciocínio de três proposições dispostas de maneira que a terceira, chamada conclusão, deriva logicamente das duas primeiras, chamadas premissas. O silogismo baseia-se no princípio de que: duas ideias que convêm a uma terceira, convêm entre si. Este princípio, por sua vez, firma-se no axioma matemático do Teorema de Pitágoras: duas quantidades iguais a uma terceira, são iguais entre si.

Silogismo comporta o método (do grego meta-odos, “caminho para”), que é a orientação adequada e criteriosa a seguir nos processos de aprendizagem, aquisição e transmissão do conhecimento. Quanto à orientação da consciência, ou inteligência, o método pode ser indutivo ou dedutivo.

A indução (“levar a”) parte da essência, do conhecimento sintético das premissas que estipulam a lei para o estudo e determinação qualitativa e quantitativa da forma. É o método de Filosofia Mística, Indutiva ou Intuitiva, Platónica.

A dedução (“aperceber a”) parte da análise e conhecimento da natureza e constituição das formas para a legítima definição da lei. É o método de Filosofia Analítica, Dedutiva ou Racional, Aristotélica.

Quanto às etapas a seguir, o método, ou melhor, os processos mentais, podem ser: a) inventivo; b) sistemático; c) didáctico. O primeiro, pesquisa as verdades; o segundo, sistematiza os resultados; o terceiro, transmite o conhecimento adquirido.

O processo inventivo, pode ser: a) intuitivo ou sintético; b) inspirado ou analítico. O processo sintético corresponde ao método indutivo, filosófico, consistindo em explicar os efeitos considerando o estudo das causas. O processo analítico corresponde ao método dedutivo, científico, o qual consiste em explicar as causas pelo estudo do conhecimento e compreensão lógica e analógica dos efeitos.

O processo sistemático tem por finalidade definir com clareza e precisão os conceitos e proposições na descoberta e afirmação de uma verdade, comprovando-a, e seguidamente classificá-la no quadro de conhecimentos sucessivos e analógicos, em progressividade e reciprocidade.

O método didáctico, pode ser: a) esotérico, “reservado”; b) exotérico, “vulgarizado”. O processo de aplicação poderá ser sintético ou sistemático, expositivo. Também pode ser feito pelo processo analítico-sintético, como sucede na pedagogia teosófica.

Quando existe a pretensão de escrever ideias reservadas, de foro sagrado ou transcendente, por exemplo, recorre-se à parábola, que contém um outro sentido além do aparente, e a línguas originais cujo sentido ainda não esteja adulterado pelo vocabulário ordinário destituído de sentido e com perda do sentido original dos termos. Tais línguas prístinas, raras hoje em dia, são chamadas de Linguagem Subjectiva ou Purushica (Espiritual), enquanto a maioria é chamada de Linguagem Objectiva ou Prakritica (Material). Isto vai bem com a composição geral da escrita:

Dentro das línguas da primeira categoria, forçosamente expressando-se pelas da segunda, está o Português, como das línguas mais faladas no mundo, e em português se pensou, escreveu e expressou a Filosofia Portuguesa, tendo quase na cumeeira, se não mesmo na cumeeira dos autores antes de Portugal o ser mas que o pensaram ou idealizaram, Paulo Orósio de Braga, no século IV expressando-se num límpido latim  eclesiástico entremesclados a termos da cultura celto-galaica local e que viria a estar na raiz da nossa Língua Mãe.

Com efeito, a língua portuguesa desenvolveu-se na parte ocidental da Península Ibérica a partir do latim falado, chamado latim vulgar, trazido pelas legiões romanas desde o século III a. C., indo a insuflar no falar ibérico da Lusitânia e da Galécia, que veio a coincidir com o território político do Reino Suevo, e só posteriormente, com a Reconquista, foi avançando pelo que é actualmente o Centro-Sul de Portugal. Porém, a configuração actual da língua foi largamente influenciada por dialectos moçárabes falados no Sul. Durante muito tempo, o dialecto latino da Província Romana da Lusitânia e depois do Reino Suevo, desenvolveu-se apenas como uma língua falada, ficando o latim reservado para a língua escrita.

Os registos mais antigos da língua portuguesa aparecem em documentos notariais do século IX d. C., escritos em latino-romance, língua escrita de base tardo-latina com muitas interferências do vernáculo. O mais antigo documento latino-português conhecido, datado de 870 d. C., é a Doação à Igreja de Souselo. E o mais antigo documento latino-português original conhecido é a Carta de Fundação e Dotação da Igreja de S. Miguel de Lardosa, datada de 882 d. C. (escrita em letra visigótica cursiva).

A Notícia de Fiadores, de 1175, é, segundo vários autores, o documento datado em escrita portuguesa mais antigo conhecido. Trata-se de uma pequena lista de nomes que termina com uma única frase que apresenta sintaxe e morfologia portuguesas. Todavia, a caracterização da Notícia de Fiadores como o “documento mais antigo” não é consensualmente aceite na comunidade de filólogos portugueses.

Segundo outros estudiosos, o Pacto de Gomes e Ramiro Pais deve ser considerado o texto mais antigo escrito em português. No entanto, é apenas datável por conjectura (possivelmente anterior a 1173) e contém muitas formas gráficas latinas.

Outro importante documento, a Notícia de Torto, não datado, terá sido escrito entre 1211 e 1216: é uma longa narrativa dos agravos que o nobre Lourenço Fernandes da Cunha sofreu às mãos de outros senhores. Permanece o mais antigo documento particular datável conhecido, escrito em português.

O Testamento de D. Afonso II de Portugal, datado de 1214, é o texto em escrita portuguesa mais antigo que se conhece (é consensualmente aceite como tal pela comunidade científica). Conservam-se dois testemunhos deste documento, um em Lisboa e outro em Toledo. Foi o primeiro de três testamentos que o monarca lavrou, mas apenas este foi redigido na scripta portuguesa que na época se estava a desenvolver na corte. Estes documentos estão conservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

O vernáculo escrito passou gradualmente para uso geral a partir do final do século XIII. Com a independência nacional em 1139, com o rei D. Afonso I, a separação política entre Portugal-Galiza e Castela (mais tarde, Espanha) permitiu a evolução linguística em direcções opostas do latim vernáculo presente nos dois países. Em 1290, o rei D. Dinis criou a primeira Universidade portuguesa (o Estudo Geral) em Lisboa e decretou que o português, que então era chamado “linguagem”, fosse usado em vez do latim no contexto administrativo, e em 1296 o português foi adoptado pela Chancelaria Real. A partir desse momento, a língua portuguesa passou a ser usada não só na poesia mas também na redacção das leis e nos notários.

Até 1350, a língua galaico-portuguesa permaneceu apenas como língua nativa da Galiza e Portugal. Mas em meados do século XIV, o português tornou-se uma língua elaborada, dotada de uma tradição literária riquíssima, e inclusive foi adoptada por muitos poetas e prosadores leoneses, castelhanos, aragoneses e catalães. Durante essa época, a língua na Galiza começou a ser influenciada pelo castelhano (raiz do espanhol moderno), tendo-se iniciado a sua introdução como única forma de língua culta. Em Portugal, a fixação da corte em Lisboa, o surgimento da imprensa e a profunda textualização das classes predominantes (aristocracia, clero e burguesia), levaram, a partir dos séculos XV-XVI, ao desenvolvimento e elaboração de uma língua padrão de características centro-meridionais e à “exportação” de variedades linguísticas, despojadas das marcas setentrionais, para os novos territórios descobertos e povoados pelos portugueses. Por fim, as sucessivas reformas e mudanças ortográficas trouxeram à actual maneira de falar e escrever a língua portuguesa.

Para terminar, de volta à Filosofia Portuguesa, dá o remate final o axioma magistral do Professor Henrique José de Souza:

Gramática é a ciência da linguagem.
Linguagem é a expressão da ideia.
Ideia é a manifestação da inteligência.
A Inteligência é o Espírito de Deus no Homem.
No futuro, a IDEIA será permanente no Homem.

Anúncios