O falar típico do çaloio, o “homem do campo”, que com o tempo tem vindo a degenerar e desaparecer por perda do sentido territorial face ao avanço do estado urbano absorvendo a condição campesina, e com isso o falecimento dos seus usos e costumes sui generis como imobiliário imaterial das tradições etnográficas do Termo, ainda assim sobrevivem aqui e ali, muito dispersas, essas modalidades de expressão sobretudo entre os mais idosos da Murteira, mas também nos de Caneças, de Bucelas e de Loures.

Apesar de parecer estranha ao ouvido contudo é linguagem não-algaraviada, antes alterada pela vocabularização do português arcaico possuído tanto de verbos gregos e latinos como, sobretudo, árabes. Originalmente este linguarejar seria puro arábico, tendo após a Reconquista posto com o latinismo borgonhês, portanto, franco, indo tornar-se arcaico face às novas falas na urbe tomada pelo estrangeiro.

Todavia e enfrentando os posteriores séculos de civilização, o saloio manteve-se fiel às raízes arábicas e a sua linguagem hoje rústica é bem um monumento mudéjar, cujo apogeu teria sido a primeira metade do século XVI, aquando o “homem do campo” entrou na literatura e nas falas da cidade através do teatro vicentino.

A língua saloia terá passado do árabe ao mudéjar, incorporando elementos menos gregos e mais latinos, indo chegar ao arcaicismo. No seu vocabulário ainda se encontram termos arábigos, como azebro, ou mudéjares, como almácega, almácica ou almaça.

A vastíssima literatura de cordel do século XIX deu ao falar saloio um efeito cómico, pela estropiação de palavras e incorrecções sintáticas a par de alterações fonéticas. Vale por ter trazido a terreno termos já há muito caídos em desuso, com intenção de reproduzir o falar meridional ou estremenho do saloio.

Por essa literatura também se vislumbra a sabedoria do camponês saloio, orbitando entre o jocoso e o grave, a par do seu espírito de independente dos costumes do homem urbano, apesar de comparticipar da vida (comercial) da cidade, e isso como se fosse resquício subconsciente da marginalidade original a que foi remetido o árabe após a Reconquista, atirando-o para os campos além das muralhas da urbe. Na comédia O Saloio cidadão, de Carlos Francisco Moura (1790), impresso várias vezes em Lisboa, alinham-se, entre muitos, os seguintes desaparecidos ou hoje transformados ditos: “galinha de monturo não quer covo; por linha lhe vem a tinha; filho de burro não pode ser cavalo; ao médico, ao confessor e ao letrado deve-se falar toda a verdade”.

Ou então a bem gostosa anedota: um taful da cidade, ao encontrar uma saloia alcandorada no seu jumento, com um longo cortejo deles atrás carregados de trouxas de roupas, atirou-lhe o seguinte remoque, ao que ela ripostou com a maior compostura e desembaraço:

– Adeus, mãe de burros!

– Adeus, meu filho!

Com essa parece-se uma outra: caminhava um saloio com o seu jumento. Encontrou-o um janota que lhe perguntou por caçoada: – Onde ides vós ambos? Respondeu o rústico: – Buscar palha para nós três.

Hoje tudo está em mudança acelerada. A saída das raparigas para a cidade, como empregadas domésticas, e dos rapazes primeiro para a tropa, depois para pequenos empregos no comércio e na indústria, fotram imbuindo os saloios de novos costumes e de novas formas de vida, de tal maneira que hoje passam totalmente despercebidos.

Memória do passado ainda se mantém o vastíssimo património artístico-cultural, etnológico e etnográfico, do Termo dos Saloios (Loures, Cascais, Sintra, Mafra indo quase até Óbidos), reclamando a preservação a todo o custo.

Do falar arcaico, rústico, rural do Termo, em defecho, recolhi alguns termos orais e escritos (recorrendo parcialmente ao interessante estudo de Maria Isabel Ribeiro, O Saloio de A a Z, em Boletim Cultural´93 da Câmara Municipal de Mafra. Ele baseia-se nos estudos anteriores de João de Almeida Lucas, O Falar Saloio, em A Língua Portuguesa: revista de Filologia: publicação mensal para o estudo, divulgação e defesa da Língua Portuguesa, vol 2, págs. 65-72, 1930-31; e de João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e carácter: fisiologia, psicologia, etnografia, Porto, 1948), com os quais compus um pequeno glossário como homenagem ao mais singular ramo étnico que já conheci: o Saloio.

Abafar = Tornar mais confortável a casa, e por extensão, resguardar e aquecer o fermento para que levede. Ou ainda, nivelar o terreno com a grade.

Aboticado = Hipotecado.

Abrincadura = Brincadeira.

Acanho = Acanhamento.

Àcenha e cênha = Azenha.

Acólitos = Incógnitos.

Acolhia-se = Tirava-se.

Acostumar = Costumar.

Ajeitivado = Ajeitado, acomodado, posto a jeito.

Alembranças = Lembranças.

Alembrar = Lembrar.

Alemões = Alemães.

Alimais = Animais.

Álinterna = Lanterna.

Almaça = Tanque.

Almácega = Pequeno tanque ou lavadouro particular.

Amanhem = Amanhã.

Amerdois = Ambos os dois.

Almuinha = Horta.

Andar na maltosinha = Andar com a malta, ou na brincadeira, referindo-se a garotos.

Antoino = António.

Apartar = Dividir.

Aplique de proplexe = Ameaça de apoplexia.

Apolinhado = Pálido.

Assistir = Morar.

Atamoiçado = Adoentado.

Azebro = Tabuado que serve de divisória numa casa. Do árabe azzarbe, “a sebe”.

Bailharito = Bailharico.

Balaizo = Balázio, no sentido de pedregulho.

Balizar = Pensar.

Balhar = Bailar.

Baltizado = Batizado.

Baltizar = Batizar. Empregam-se também os derivados baltismo e baltizado.

Bonecrêro = Saltimbancos que corriam de aldeia em aldeia apresentando os bonecros.

Bi caúdo = Expressão intimidando ao silêncio, “boca fechada”.

Breçozinho = Berçozinho.

Brincar = Dançar.

Botou = Deitou.

Buscari = Buscar.

Cabedulho = Trato de terreno entre a estrada ou caminho público e a terra cultivada.

Cabidela = Cabimento.

Cabrêro = Cabreiro.

Cacetim = Moca.

Cadino e cadinar = O termo cadino aparece formando expressão com guloso, dizendo-se guloso cadino, talvez no sentido de inveterado. Daí o sentido que o verbo cadinhar tomou, exprimindo o facto de se andar às frutas nas herdades, roubando por guloseima.

Cachaporrada = Pancada com pau.

Calçães = Calções.

Caganeiroso = Presumido, afectado.

Calibre = Clima.

Cal-te = Cala-te.

Caminhito = Caminho.

Campicho = Indivíduo canejo ou que possui deformação nas pernas.

Campou = ganhou.

Canêra = Caneira.

Capitões = Capitães.

Carronca (levar) = Levar pancada.

Catacismos = Sinapismos.

Catramalhos = Sinapismos.

Cedade = Cidade.

Charficar = Mortificar.

Chafurdas = Etimólogo popular do francês chauffeur.

Chaparrão = Mal-educado, grosseiro. Exemplo: Aquèl home é mêmo chaparrão.

Cinzêro = Barriga, buxo, papo. Exemplo: Onde tà a ânha marenda? Já cá tá no cinzêro.

Claustro = Cáustico.

Confurtativo = Facultativo.

Conspirar = Transpirar.

Córteirão = Quarteirão.

Delgado = Delegado.

Desenxugar = Enxugar.

Déspio = Déspota.

Eclesiástico = Entusiasmo.

Eiva = Doença da fruta.

Emplamação = Inflamação.

Engulhos = Vómitos.

Enha = Minha. Pode também pronunciar-se ánha.

Enodada = Suja.

Ensabocar = Estrangular, estrafogar.

Entulhar = Enjoar.

Esganerelo = Casamento por força.

Estar em pensamentos = Estar moribundo.

Estar vestido = Estar bem arranjado; em gíria, estar lichado (estar linchado).

Estarraçar-se = Cair de chapa, estampar-se.

Estragação = Diz-se de qualquer coisa estragada. Exemplo: Uma estragação de sopas.

Estragador do Concelho = Administrador do Concelho.

Espinhola = Espinhela. Exemplo: Ter a espinhola caída.

Faliseu = Xergão.

Fanado = Doente.

Faniquito = Desmaio.

Fartão = Termo que exprime uma grande porção de qualquer coisa. Exemplo: Um fartão de gente.

Flautenta = Flatulenta.

Foro = Foram.

Franfantão = Indivíduo que mete vista, por ter um perfeito tipo de beleza ou por vestir bem.

Friâmulos = Porcos.

Galera = Carro puxado por muares ou bois, destinado a transportar produtos hortícolas ou as trouxas de roupas.

Gomitoiro = Vomitório.

Graçôna = Galinhas de pescoço pelado. Deve derivar do termo francês garçonne.

Graviel = Gabriel.

Humanidade = Unanimidade.

Hume = Homem.

Intrépio = Adversário.

Joelheira = Espécie de caixote sobre o qual a lavadeira se ajoelhava à beira-rio.

Juiz espanadeiro = Juiz pedâneo.

Juro = Júri.

Lavandêra = Lavadeira.

Lídico = Líquido.

Liquori = Licor.

Lisbom = Lisboa.

Loires = Loures.

Mafrão = Mafrense.

Ma-lo = Mais.

Manchita = Mão-cheia.

Mané = Manuel. Exemplo: Mané Bimbas, Mané Manso.

Marjabantes = Bonecos.

Maroiço d´imparar = Bloco construído de pedra e areia, junto das paredes das casas mais antigas.

Matchecar = Comer, patuscar; escarnecer, amesquinhar.

Matrona = Seio.

= Meu.

Mecê = Você.

Memoira = Memória.

Mentéus = Toalha de mesa.

Merca = Compra.

Milordens = Milordes.

Murta e murtar = Multa e multar.

Murtêra = Murteira.

= Não.

Noa = Nódoa.

Ofa = Cansaço.

Ofender = Magoar, tocar, ferir.

Olivél = Libelo.

Orate = Louco.

Orfo = Órfão.

Órina = Urina.

Passeira = Útero.

Pedra-lavadiça = Pedra negra e grande dos rios, boleada pela acção mecânica das águas.

Pescuradores = Procuradores.

Piano de cavalariça = Harmónica, realejo.

Pilémica = Polémica.

Piloto = Galo.

Piscalhar = Piscar, mas em sentido irónico. Exemplo: Piscalhar o olho.

Planta forma = Plataforma.

Palateia = Plateia.

Plefice = Superfície.

Polucia = Polícia.

Ponto de palaio ou ponto de orela = Ponto que remata as bainhas das saias de baixo.

Pós lombrigatigos = Pós para lombrigas.

Pra = Para.

Prove = Pobre.

Pulga = Purga.

Ràpaterrão = Exprime uma limpeza geral, de cima a baixo, por exemplo, quando se está a lavar uma casa muito suja, diz-se que vai de ràpaterrão.

Ratinho = O bombo da festa.

Reizes = Reis.

Riba = Ripa.

Rio = Pode também ser o lavadouro público.

Rustigo = Forte.

Saibo = Sábio.

Sansodorninho = São Saturnino, significando também beato falso.

Se = Senhor. Exemplo: Se Tònho.

Senhora = Nome dado à freguesa.

Sintrão = Sintrense.

Sismatura = Cisma, cismar.

Solitos = Solicitações.

Suscetivle = Susceptível.

Suspiração = Respiração.

Tenica = Ténue.

Testães = Tostões.

Tiorgo = Órgão.

Tocador = Músico.

Toicinho mastrunçado = Toucinho esmigalhado com pão.

Tolã = Logro, burla.

Toque = Stock, no sentido de loja. Exemplo: na avenida há um grande toque com muita fazenda.

Tosse confúcia = Tosse convulsa.

Treatro = Teatro.

Tresler = delirar com febre.

Trouxa = Embrulho.

Tu = Tua. Exemplo: Tu mãe, tu horta, etc.

Vei = Vê.

Verdigairo = Verde-gaio.

Vesionário = Revolucionário.

Vitro = Vitorioso, Vitor.

NOMES

Também as corruptelas não deixam de ser expressão da verdade. Elas variam de lugar para lugar. Assim: José deu Jzé e Zé; Manuel, Manel e M´nel; Joaquim, Jaquim, Jequim e Quim; Francisco, Fracisco, Farcisco, Frecisco e Fercisco; Inácio, Nácio; Jerónimo, Jerolmo e Jarolimo; Isabel, Zabel; Gertrudes, Estrudes. Assim por diante.

Advertisements