Dragão Celeste e Astrologia Kármica – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 21 2017 

As Revelações dizem que em 1921 “o Dragão voltou a cauda do Ocidente para o Oriente e a cabeça do Oriente para o Ocidente”, alusão à transferência cíclica dos valores espirituais e humanos de um para outro hemisfério do Globo. Neste sentido de trasladação implicando movimento, acção vital, tem-se o Dragão d´Ouro como figurativo do Governo Oculto do Mundo (G.O.M.), a partir dessa data focando a sua dinâmica desde o Sul da Europa até ao Sul da América, o “Novo Mundo”, como seja de Portugal ao Brasil, acelerando o fenecimento do Ciclo de Peixes e o nascimento do imediato Ciclo do Aquário, processo iniciado desde 1899, ano que marcou o final dos primeiros 5.000 anos da Kali-Yuga ou Idade do Ferro.

Com efeito, informa a Tradição Iniciática das Idades, o Governo Oculto do Mundo, agindo desde Agharta, sempre necessitou de uma representação viva na Face da Terra, de um elo de ligação. Este elo estabeleceu-se nos últimos séculos por intermédio de um Governo Trino existente no Tibete. No topo do mesmo estava o Bogdo-Gheghen, o Budha-Vivo da Mongólia, tendo por Colunas Vivas na sua representação um Chefe Temporal, o Dalai-Lama, e um Chefe Espiritual, o Teshu-Lama. Esta Tríade representou, até 1921, o Governo Oculto do Mundo. Dali irradiavam as energias espirituais que, através de determinadas organizações, controlavam a evolução da Humanidade. Com o desaparecimento do 31.º Budha-Vivo da Mongólia e o aparecimento do 32.º Budha-Vivo e 1.º do Ocidente, Baal-Bey, acompanhado de sua contraparte Baal-Mirah, de 1924 em diante começou a firmar-se sobre a Terra o Ex Occidens Lux acompanhando o Ex Oriens Umbra. Tudo em rigorosa conformidade à Lei dos Ciclos que rege o mapa da Evolução Universal, cumprindo-se na Terra o que é programado nos Céus a fim de dar realização ao princípio hermético de “o que está em cima é como o que está em baixo, e vice-versa, para ser consumada a Grande Obra dos Deuses”.

A escolha da imagem do dragão para figurar o Governo Oculto do Mundo, não foi de modo algum arbitrária. No Hinduísmo, esse animal mítico representa o Princípio Divino assinalado no deus Agni, figurativo do Fogo Sagrado. Com isso, associa-se ao significado que lhe é dado no Taoísmo chinês, assinalando-o como a Omnipresença da Potência Celeste na Terra, que na figura do imperador – representante do Imperador do Mundo, o Chakravarti, Supremo Dirigente do G.O.M. – ordena e regula a evolução geral dos seres.

A figura do dragão também está presente no simbolismo aquático. Se os dragões vivem no alto de montanhas intransponíveis, igualmente vivem na água, fazem brotar as fontes; se o Rei-Dragão é o Rei dos Nagas, os “Homens Serpentes” ou Iniciados Perfeitos, logo identifica-se também à serpente figurativa da força hidrotelúrica, donde o dragão estar sobretudo ligado à produção da chuva e da tempestade, manifestações da actividade celeste sobre a Terra. Unindo a terra e a água, ele é o símbolo da chuva celeste fecundando a terra. Nas sociedades rurais, as danças do dragão, a exposições de dragões de cor apropriada – ora amarelos para a legislação e a erudição, ora azuis para as águas, ora vermelhos para as terras – permitem obter a chuva, bênção do céu. Em consequência, o dragão é um sinal de bom augúrio, a sua aparição é a consagração dos reinados felizes, podendo acontecer que da sua goela saiam folhagens, símbolo de germinação.

As tradições chinesas narram a seguinte lenda:

“A água que na terra corre assemelha-se à nuvem que voa no céu; ambas têm a mesma natureza. Só diferem na aparência. A humidade fecunda o Universo, como o caminho do céu fecunda o pensamento dos homens.

“Nada melhor mais fugitivo, mais activo, mais universal que a água; mas se as suas acções não se unem, a água do céu nada pode na Terra e a água da Terra nada pode na nuvem do céu. Por isso, na água da Terra, o peixe, e na água do céu, a ave Hae, vivem separados e são imperfeitos. Mas, se a tempestade elevar as águas ou o calor do dia as evaporar, e se um leve nevoeiro descer sobre a Terra, então se fará a união das duas águas, a terrestre e a celeste. A ave Hae baixará à terra como as nuvens; o peixe elevar-se-á pelos céus como a água do rio; quando se encontrarem, a ave Hae emprestará ao peixe as suas asas e o peixe emprestará à ave o seu corpo e as suas escamas. Surgirá, então, o Grande Peixe, que traz escrito no dorso os preceitos da Lei. E logo que o seu dorso tocar as nuvens baixadas, tornar-se-á o Dragão.”

Dessa lenda podem-se extrair os seguintes conceitos: a água simboliza a Substância Primordial (Svabhâvat, Ain-Suph), que se polariza em água do céu (Espírito, Purusha) e água da terra (Matéria, Prakriti). Constitui o Pai-Mãe Celeste (Adam-Kadmon, Zain-Zione) das tradições iniciáticas e que é figurada pelo entrelaço do dragão verde celeste e do dragão vermelho terrestre. O peixe do mar e a ave do céu, isolados, são imperfeitos. Da sua união surge, então, o Dragão Cósmico, figurativo do Demiurgo ou o Logos Criador, que como Deus, Zyaus ou o Logos dos platónicos, expressa também a própria Lei Divina, Dharma, corporizada na Terra na Terra como corporação Shuda-Dharma-Mandalam, a Grande Fraternidade Branca, o Governo Oculto do Mundo.

Astrologicamente, o Dragão Celeste é configurado pela órbita da Terra em torno do Sol e pela órbita da Lua em volta da Terra, esta última órbita geocêntrica periodicamente cruzando aquela heliocêntrica, sendo o ponto mais elevado da órbita geocêntrica chamado Nodo ou Nódulo Lunar Norte, figurado como Caput Draconis (Cabeça do Dragão); o ponto mais baixo dessa órbita chama-se Nódulo Lunar Sul e corresponde à Cauda Draconis (Cauda do Dragão). Em eterna mas complementar oposição, Cabeça e Cauda do Dragão relacionam-se aos Hemisférios Norte e Sul (Câncer e Capris) da Terra, enquanto o seu Corpo perpassa o Equador (Libra). Por seu sentido hidrotelúrico, os nódulos lunares do Dragão Celeste são determinantes na ciência tradicional da geomancia. O primeiro autor a desenvolver este tema foi o hindu Maharishi Parasara no Brihat Parashara Hora Shastra, obra básica da Astrologia hindu escrita no século sétimo ou oitavo da Era Comum. À Cabeça do Dragão ou Nódulo Norte chamou Rahu, e à Cauda do Dragão ou Nódulo Sul deu o nome Ketu, o que também se relaciona a Pravriti-Marga – descida da Mónada ou Anupadaka à Matéria – e a Nivriti-Marga – subida da Mónada ao Espírito – e que por igual não deixa de relacionar-se ao simbolismo solsticial cristão do São João Batista (Caminho Veraneal, Câncer) e do São João Evangelista (Caminho Invernal, Capris).

Com efeito, o simbolismo das festividades do duplo São João é herança das festas solsticiais de Jano que os antigos colégios de artífices romanos, Collegia Fabrorum, cultuaram e transmitiram à posteridade, nomeadamente ao Cristianismo. João ou Johanan é tanto o Arauto pré-Cristo como pós-Cristo, sendo que hanan em hebraico tanto significa misericórdia como louvor, sendo que a misericórdia é evidentemente “descendente” e o louvor “ascendente”, o que se relaciona às duas faces alegre e triste de Jano, ou seja, o “João que chora”, que implora a misericórdia de Deus, é João Batista, e o “João que ri”, que lhe dirige louvores, é João Evangelista. Há nisto uma relação com o simbolismo solsticial do ciclo anual (agrícola, litúrgico ou qualquer outro) expressivo do Grande Ciclo de descensão e ascensão da Essência Divina. Assim, segundo a cosmologia hindu, tem-se a fase descendente afim ao Pitri-Yana ou “Porta das Homens” (correspondendo ao Solstício de Verão, quando se celebra São João Batista), marcada por Câncer; a fase ascendente relacionada ao Deva-Yana ou “Porta dos Deuses” (afim ao Solstício de Inverno, quando se festeja São João Evangelista), é assinalada por Capris. A esses portais celestes está relacionado o sentido axial das duas portas e das “portas santas” nos templos da Cristandade.

O Caminho para o Sol apontado por Rahu demarcando os planetas luminosos ou Lokas, é o das Almas Superadas, libertas do Karma individual e colectivo, viventes do Dharma pessoal e universal. Representa o Dragão d´Oiro da mais elevada espiritualidade e sabedoria, cujo guardião vem a ser o próprio Arcanjo Mikael – expressão de Akbel – à dianteira dos Munis luminosos. Em oposição, o Caminho ou Cone da Lua, o sinistro “Portal de Dante”, é assinalado por Ketu, para onde vão as almas perdidas, escravas do seu próprio e insuperável Karma que invés de o terem debelado, aumentaram-no imensuravelmente vida após vida. Representa o Dragão Negro Gezebruth, a Egrégora colectiva da mais baixa bestialidade humana, e para que nenhuma alma escape ao seu destino fatal na Roda ou Ronda da Evolução, o Arcanjo Samael – expressão de Luzbel – à dianteira dos Todes, veda-lhes qualquer possibilidade de fuga. O Karma Cósmico gerado na Cadeia Lunar e repassado à presente Cadeia Terrestre, com todas as consequências dramáticas e até fatais que até hoje se registam, tudo isso tem a ver com a existência de Ketu desde que a Lua se separou da Terra e sucedeu a batalha no Akasha Médio entre os Assuras Luminosos e os Suras Sombrios, com a derrota e queda destes na Geração Humana. As crenças e práticas anticivilizacionais do chamado “satanismo” ou goécia, como ciência proibida por Lei de Evolução, que dão especial ênfase ao culto do Dragão Sinistro e aos planetas sombrios que são as Talas ou regiões infernais para onde vão as almas perdidas, os seus prosélitos deveriam dar maior atenção ao que o Destino fatal lhes reserva, e ter maior conhecimento dos mistérios do Dragão Celeste, inclusive da estrela Algol que um dia fez parte do Cruzeiro do Sul, por onde a Mãe Celeste – Allamirah – se manifesta como Mãe da Humanidade – Adamita. Mas estes são mistérios interditos os prosélitos das trevas e aos seus empáticos. Ignorância é afim à cegueira, e nenhum cego pode ver a Luz, quanto muito só a pressentir… Fica o alerta a quem o quiser tomar, com isso tomando consciência dos seus actos sinistros que numa vida podem perder por toda a eternidade, pois que a duração de uma Ronda ou Cadeia é verdadeira eternidade em tempo. Procure-se conquistar o Samadhi na Terra para chegar aos gozos do Céu, invés de se procurar o Avitchi caótico que leva às penas do Inferno.

Os nódulos lunares são fáceis de explicar. Eles são pontos que representam não um corpo celeste qualquer mas a relação entre Terra, Lua e Sol, os três pontos mais importantes do mapa astrológico, associáveis ao Corpo, à Alma e ao Espírito, assim mesmo ao Filho, à Mãe e ao Pai, tanto os Cósmicos como os físicos de todo o indivíduo, revelando o seu projecto de vida, de onde vem e para onde vai ou deve ir. A Cabeça e a Cauda do Dragão estão sempre fazendo uma oposição exacta no horóscopo, ou seja, estão ocupando signo/grau exactamente opostos entre si. Consequentemente, estarão sempre ocupando casas opostas.

Geralmente é aceite que os nódulos lunares são os elementos principais para o entendimento de cada vida como parcela de um tecido contínuo. Há até astrólogos que acreditam terem os nódulos lunares mais importância que o resto na carta natal. Para um conhecedor experimentado, sobretudo iniciado nos Mistérios do Universo, a interpretação do Sol, da Lua e das posições dos nódulos lunares podem revelar os lances da vida passada e os feitos da vida presente deixando antever as causas-efeitos que tecerão a vida futura.

A Cauda Draconis representa sempre o passado do Homem e a sua natureza material como personalidade manifestada, consequência da reencarnação anterior. É sempre uma combinação de eventos, ideias, atitudes, pensamentos e emoções, cujos efeitos acumulados e não resolvidos deram origem ao que se é e pode na vida actual. Se, por isto, o Nódulo Sul é limitador, contudo as suas fundações no passado, firmes e amplas, são o motivo que traz à vida actual a fruição da possibilidade de realização.

A Caput Draconis expressa o futuro, a realização de novas experiências ampliando a vida e a consciência. Todo o homem, cada qual à sua maneira, o apercebe e alguns até o vislumbram intuitivamente. Mas no comum das gentes não deixa de gerar apreensões pelo desconhecido, pelo risco de novas experiências nunca tentadas, ainda assim esta posição nodal exercendo curiosa atracção magnética atraindo a alma para o seu futuro de maior crescimento. O Nódulo Norte representa a área de expressão mais elevada a ser atingida na vida presente, portanto, deve ser interpretado pelas mais altas qualidades do signo e da casa onde estiver localizado na carta natal. É assim um novo problema por resolver: revela o descontentamento de todo o homem que anseia novas e maiores realidades permanentes ante a impermanência dos modos antigos e insuficientes de viver que marcavam o seu passado, levando-o ao desejo de descobrir e explorar os potenciais do seu futuro. Este Nódulo identifica-se à natureza espiritual como individualidade em formação.

No desenvolvimento horoscópico dos nódulos lunares se consubstancia a chamada Astrologia Kármica. Resta saber o que seja o Karma e como actua no colectivo e no individual, Lei indissociável daquela outra Lei da Reencarnação.

Independentemente de quaisquer mecanismos astrológicos, que somente servem para ajudar a compreender mas que não são a compreensão, tal qual o conhecer não é o saber e assim mesmo a especulação teórica difere da certeza da vivência, o que será o destino futuro da pessoa só a própria o decide no presente, sobre o que o diz o Professor Henrique José de Souza: “Quem semeia um pensamento colherá um facto; semeia um facto e terá um hábito; semeia um hábito e formará um carácter; semeia um carácter e obterá um destino”.

Se não se admitir a reencarnação jamais se poderá compreender a trama da Vida, com as suas complexidades e incoerências aparentes. Mas também é preciso ter uma noção muito clara do que seja a reencarnação.

O que reencarna não é a pessoa, a personalidade, e sim o Ego Superior, pois o Mental Abstracto ou Corpo Causal é quem cria um quaternário novo (intelectivo, emocional, vital e denso) em cada nova manifestação, a partir dos respectivos átomos-sementes. Pode-se fazer uma comparação com um actor e os papéis que ele representa. O Ego Superior é o Actor. Cada vida é um papel por Ele representado. Quando o actor hoje representa Hamlet, ele lembra-se que antes representou Fausto. Mas o Hamlet da peça ignora a existência de Fausto. A experiência adquirida num papel permite ao actor melhorar a sua representação na peça seguinte. Por esta comparação simples, pode-se ter uma ideia de como de uma para outra reencarnação do mesmo Ego se propagam os resultados das experiências, mas não a lembrança dessas experiências. É como quem estudou piano e acabou esquecendo os exercícios, mas ficando com a técnica adquirida por meio deles. Assim acontece com o homem, com o desenvolvimento das suas virtudes ou defeitos provenientes das reencarnações anteriores do seu Ego, mas sem a lembrança dessas vidas anteriores. Quando, porém, pelo desenvolvimento espiritual expande a sua consciência física e consegue ligar-se à consciência causal e intuicional do Ego, pode obter a noção de todas as suas reencarnações passadas. Quem consegue isso torna-se um Iluminado, adquirindo o direito de afirmar: “Eu sou quem sou”. Estando identificado à Consciência do seu Espírito Divino, com o qual é Um, possui na sua memória imediata, física, a soma total dos acontecimentos adquiridos em todas as suas vidas anteriores. Os raros Seres que alcançam esse desenvolvimento supra-humano não necessitam reencarnar mais na face da Terra, pois nada mais têm a aprender e a debitar nela. Tornam-se centrífugos e Eles, sim, podem partir à demanda de novos Globos, de novas Estrelas povoando o espaço deste Quarto Sistema de Evolução Universal. Os que ficam voluntariamente em Missão na Terra, a favor da Evolução desta, recolhem-se aos seus Mundos Interiores de onde passam a vigiar e encaminhar avante a marcha da Humanidade e demais seres viventes.

Quanto a preconizar o período de tempo ou intervalo mediando entre duas reencarnações da alma humana, tal é muitíssimo difícil e mesmo controverso, por causa da duração desse período estar condicionado pelo karma pessoal de cada um, acrescentando-se o facto das vidas astral e mental serem multivariadas e não haver duas almas com experiências literalmente iguais; ademais, deve-se estar ciente de que o tempo e o espaço nos Planos Internos não são idênticos aos do Plano Físico. Já algum poeta intuído afirmava que “um ano na Terra é uma eternidade no Céu, mas também no Inferno”…

Tão-só se poderá dizer que após a morte física, em que o homem abandona para sempre os corpos denso e etérico, passa ao Mundo Astral onde permanece algum tempo até passar pela segunda morte, quando se liberta desse corpo e penetra o Plano Mental Concreto (o Céu ou Paraíso Celeste das religiões ocidentais, o Devakan ou Bardo das religiões orientais), onde encontra o repouso espiritual antes de nova reencarnação, quando passa pela terceira morte – a de livrar-se do corpo Mental Concreto para criar um outro, por acção do átomo-semente causal contido no corpo Mental Superior, que irá projectar uma nova personalidade numa nova reencarnação.

Pelo acúmulo de experiências conscientizadoras e a sua consequente espiritualização, a alma demora mais tempo a reencarnar e usufrui cada vez mais dos Planos Superiores, o que é indício claro da sua evolução verdadeira e do esgotamento do seu karma. Com a alma menos evoluída, logicamente, o processo é inverso: demora menos tempo a reencarnar e pouco usufrui dos Planos Superiores, por não ter ligação ou simpatia consciencial com eles. Mas ambos os tipos de almas, repito, colhem no presente o que semearam no passado.

Sendo o Karma, como Lei da Justiça Universal, representado por uma balança, ele não deve ser encarado dogmaticamente como “olho por olho” ou “dente por dente”. Se se der em alguém 21 chicotadas, não significa que se vá receber de volta 21 chicotadas. O processo é o seguinte: se se der em alguém 21 chicotadas, ir-se-á provocar nesse alguém uma dor de intensidade X, portanto, por Lei de Retribuição, ir-se-á passar por uma dor de intensidade X, e essa dor poderá ser causada por uma doença, por um desgosto moral, etc. Além disso, o homem é julgado pela intenção e não pela acção. O importante é o móbil que levou à acção. Por exemplo: matar alguém é crime, mas é importante saber se o crime foi voluntário ou involuntário. Além disso, o tipo de punição vai depender do grau de consciência do criminoso.

O problema moral do certo e do errado está ligado ao grau de consciência do homem. Quando a mente e a emoção se equilibram ele alcança Deus. Quanto maior for a sua consciência, que só o conhecimento pode facultar, maiores danos vão-lhe causar os seus erros; já para o homem pouco evoluído, um grande erro pode lhe causar apenas uma pequena dor. Tudo depende do grau de consciência já alcançado.

No Universo tudo tem de caminhar dentro de um equilíbrio, mas o homem usando do seu livre-arbítrio faz o que quer. Ora, fazendo o que quer, ele tem em si mil possibilidades de errar e uma de acertar, e errando ele provoca um desequilíbrio. Existem leis para os pensamentos, para as emoções e para os actos, logo, o homem erra quando pensa, emociona-se e age negativa ou inaturalmente. E errando provoca desequilíbrio. Portanto, errar significar desequilibrar algo no tom do ritmo cósmico, e tem-se de “pagar” por esse desequilíbrio. A Lei não aceita que o homem o desconheça. É claro que quanto maior for o conhecimento do homem, maior é a sua responsabilidade. A Lei cumpre-se nos seus mínimos detalhes para que o equilíbrio se processe.

O jogo de luzes difusas do Bem e do Mal, esse xadrez cujo enigma do lance a fazer que é o do jogo do Karma, é afinal o jogo do Perfeito Equilíbrio, esse da Justiça Suprema que cobra ou premeia. Se todo o homem quando pensa, emociona-se ou age desequilibra o ritmo da Lei, tem de responder pelo retorno do equilíbrio, advindo daí a dor e os sofrimentos consequentes. Ora, a dor e o sofrimento são causados pelo Karma – tanto pessoal como colectivo – e indicam o retorno ao equilíbrio.

Se não houvesse um sistema de reajustamento kármico, certamente a Humanidade se destruiria. Tal reajustamento é determinado por quatro Deuses Cósmicos chamados Anjos do DestinoSuras-Lipikas ou Devas-Lipikas, os Senhores do Karma Planetário através das suas respectivas Hostes. Eles são os Reguladores Kármicos para que cada homem possa suportar o retorno ao equilíbrio, ou seja, suportar o karma negativo que criou cujas impressões são registadas ou plasmadas na sua matéria mental e que irão determinar a acção futura do átomo-semente causal na formação de um novo corpo em uma nova vida, enfim, irão tecer um bom ou mau destino. São Eles quem, com a sua Sabedoria, fazem um escalonamento de maneira à dor do retorno ao equilíbrio ser suportável e educativa. Portanto, o Karma não é mecanismo cego nem tampouco insensível.

Para que haja equilíbrio é muito importante o cultivo das virtudes, pois um karma negativo só pode ser destruído por uma vida virtuosa.

Na balança simbólica do Karma, o prato de prata é o das emoções que impulsionam a acção, enquanto o prato de ouro é o da mente ou conhecimento de como agir. Quando se vive sob o domínio das emoções, erra-se mais, e esse prato torna-se mais pesado, desce, logo, o outro sobe, ficando ambos em desequilíbrio. E quando se paga um karma e logo se adquire outro, por falta de conhecimentos, o prato das emoções mantém-se o mais pesado. Para que haja equilíbrio entre os dois pratos, é necessária a aquisição do conhecimento ou o desenvolvimento da mente, pois só pelo prato do conhecimento se pode dominar as emoções.

A transformação das nidanas em skandas, dos vícios em virtudes, do Karma em Dharma relativamente à evolução da Onda de Vida Humana, tem ainda a ver com a Lua e as “pegadas deixadas pelos Dragão”, poeticamente falando, ou seja, os chamados asterismos lunares cujo enigma profundo tanto tem a ver com o desenvolvimento do Jiva quanto do Jina, o Homem da Face e do Seio da Terra (Bhumi).

De maneira resumida, os asterismos lunares explicam-se da maneira seguinte: na sua órbita em redor da Terra, a Lua leva hoje 28 dias para a completar. Esses dias são chamados, precisamente, de asterismos lunares, os quais nem sempre duraram o mesmo número de dias. Nos zodíacos hindus ancestrais apareciam apenas 27 asterismos ou dias para a Lua completar uma volta em redor da Terra. Certamente nessa época a Lua seria mais rápida na sua órbita ao redor da Terra, realizando a volta em 27 dias. Hoje, em vista da mesma ter perdido velocidade através dos milénios, realiza a mesma órbita em 28 dias, não atingindo ainda os 29 dias.

Portanto, em cada um dos doze signos haviam apenas 27 asterismos lunares, e não 28 como hoje acontece, o que significa que o mês lunar era mais curto. Veja-se, agora, os seus nomes sânscritos e posições nos signos segundo a Astrologia Védica ou Jyotisha, a mais próxima da Sabedoria Arcaica de Assuramaya, o Rishi atlante fundador original do sistema de Astrosofia e Astrologia.

O facto de se começar pelo signo de Peixes e não do Carneiro, dividindo o mês lunar em 27+1 asterismos, comprova a grande antiguidade do Zodíaco hindu na Jyotisha, ciência instrucional do Rig-Veda e da mesma forma um Vedanga, ou “parte separada” dos Vedas, por certo para a destacar como ciência de Tradição Ancestral. Comprova também o conhecimento exacto da Hierarquia Jiva ou Hominal ser regida por Piscis, sendo que é pela Onda Humana que inicia sempre e incontornavelmente toda a evolução para maiores e mais vastos estados de Ser e Consciência.

A precessão dos equinócios aponta hoje para a Era de Peixes astrologicamente já finada a favor do dealbar da Era de Aquário às 15 horas de quarta-feira (dia de Mercúrio) de 28 de Setembro de 2005. Também daí o início dos signos zodiacais em Carneiro, que é o signo precedente de Peixes, e do qual provém a tradição da festa móvel judaico-cristã do Cordeiro pascal, a Pessah ou Páscoa.

A relação do Grande Dragão Celeste que acaba mordendo a própria cauda formando o Zero (O) do Infinito abstracto que se torna concreto ao ser povoado e delimitado pelas constelações dos doze signos em torno do Sol Central deste Universo centralizando o foco de atenção na própria Terra em que todos estamos, dizia, essa relação chama-se Quadrante Cósmico constituído por quatro Quadrantes Planetários, segundo o sistema de Astrologia Esotérica, portanto, Astrosofia hindu, donde derivam todos os sistemas de astrologia e astronomia ocidentais, inclusive o simbolismo da parábola (para-bola) para contextualizar a Roda de Ezequiel (Zodíaco) em que assenta o sistema cabalístico da Merkabah no presente Quarto Sistema de Evolução Universal.

O círculo zodiacal, já se sabe, representa o esquema de Evolução geral no presente Sistema Planetário, desde a descida da Vida-Consciência (JivatmãPurusha) do seio do Eterno (Svabhâvat) até à sua manifestação na Espaço Com Limites como Vida-Energia (JivaPrakriti), e o consequente retorno ao Espaço Sem Limites do mesmo Eterno, já não em estado indiferenciado mas diferenciado e sublimado.

Portanto, o círculo ou ciclo zodiacal representa sempre o ritmo da Vida-Consciência no acto da manifestação como Vida-Energia, esta que se vai depurando e apurando no palco do Teatro da Vida pelo acúmulo de experiências, dilatando o campo da sua consciência transformando a sua natureza íntima de virginal em potestade. Essas experiências realizadas, em realização ou a realizar estão indicadas de maneira geral na “carta astrológica” de cada Mónada renascida num novo ciclo de manifestação, seja humana ou cósmica, esta no sentido de Logos Planetário encarnado num Planeta ou Globo que é o seu Corpo.

Na realidade, o círculo zodiacal é um segmento da Esfera celeste cortado pelo plano da Eclíptica. As linhas de direcção que formam as suas divisões são os quadrantes, os decanatos e os graus são os raios emanados do ponto central de concentração, ou seja, donde se expande a Energia Criadora promanada da Substância Única (Svabhâvat). Os 12 raios definidores dos 12 signos são aquelas 12 energias cósmicas correspondentes às 12 Hierarquias Criadoras ou Consciências Universais, precisamente assinaladas nas constelações que ali se encontram.

Cada uma das 12 constelações tem a sua morada natural em um dos 12 signos, os quais são denominados de casas signatárias ou mansões astrais (no sentido de astros). Se considerar-se as relações entre os signos, os planetas e as casas, encontra-se a mesma divisão ternária baseada nas Gunas ou “qualidades subtis da matéria”. Senão, observe-se: os signos correspondem a Satva (energia expansiva, espiritual), ou seja, aos elementos essenciais da Manifestação; os planetas estão relacionados a Rajas (energia rítmica, equilibrante, psíquica), isto é, ao desenvolvimento daqueles elementos naturais no decorrer do factor Tempo; as casas têm a ver com Tamas (energia centrípeta, física), o que vale dizer: têm a ver com as circunstâncias e resultados desse desenvolvimento no Espaço ou Plano da Matéria (Prakriti). Cada signo é, desde logo, uma combinação de cada um desses elementos com outros afins, chamados em Astrologia de quadruplicidades e triplicidades (em sânscrito, respectivamente, kandrakonam e trinokonam). Esses elementos (Tatvas) identificam-se respectivamente aos Tan-Mâttras (“medidas vibratórias dos elementos”) e às Gunas da Filosofia Esotérica em que afinal assenta a Astrologia Védica. Influem no Homem como geradores dos cinco sentidos físicos de que o mais subtil, audição, ainda está em formação, tal qual a 5.ª Ronda Planetária em projecção para as outras quatro já projectadas nesta 4.ª Cadeia Planetária.

Em termos de Astrologia, as Gunas produzem e regem as três quadruplicidades e os Tan-Mâttras as quatro triplicidades. Segundo as Gunas, os signos classificam-se em cardeais, variáveis e fixos (em sânscrito, angulares, sucedentes e cadentes – kendra, parana, apokalima). Os cardeais representam a essencialidade dos quatro elementos, os quais constituem as 12 energias cósmicas que se conhecem pelo nome de signos.

SIGNOS CARDEAIS – SATVA

AR – BALANÇA
FOGO – CARNEIRO
ÁGUA – CARANGUEJO
TERRA – CAPRICÓRNIO

Os signos variáveis representando a modalidade da transformação, são os seguintes:

SIGNOS VARIÁVEIS – RAJAS

AR – GÉMEOS
FOGO – SAGITÁRIO
ÁGUA – PEIXES
TERRA – VIRGEM

Os signos fixos representam a modalidade da realização:

SIGNOS FIXOS – TAMAS

AR – AQUÁRIO
FOGO – LEÃO
ÁGUA – ESCORPIÃO
TERRA – TOURO

De acordo com as Gunas, os signos agrupam-se em quatro triplicidades. Cada elemento (Tatva) rege então três signos:

AR (VAYU) = BALANÇA, GÉMEOS, AQUÁRIO

FOGO (TEJAS) = CARNEIRO, SAGITÁRIO, LEÃO

ÁGUA (APAS) = CARANGUEJO, PEIXES, ESCORPIÃO

TERRA (PRITIVI) = CAPRICÓRNIO, VIRGEM, TOURO

O mistério criador das três Gunas e dos quatro Tatvas está representado em um gesto muito conhecido dos cristãos, como seja o do sinal da Cruz. Ao persignar-se tocando em quatro pontos do seu corpo, o cristão pronuncia o nome da Trindade: Pai, Filho, Espírito Santo. É justamente da combinação dos quatro elementos (Tatvas) e da sua tríplice modalidade de manifestação (Gunas) que nasceram os signos. O carácter de cada signo é determinado pelo seguinte:

1.º) Elemento ao qual ele pertence, seja o Ar, o Fogo, a Água ou a Terra.

2.º) A modalidade da Guna à qual ele pertence, seja Satva (essencial), Rajas (transformador) ou Tamas (realizador).

3.º) A sua orientação, isto é, a sua colocação ou situação em um dos quadrantes do Zodíaco relacionados aos quatro reinos da Natureza: Humano, Animal, Vegetal, Mineral.

A Astrologia Védica é de procedência antiquíssima, herança directa dos Rishis ou Reis atlantes, como tal difere muito das modalidades de processamento da actual Astrologia ocidental. Um dos pontos mais difíceis de ajustamento entre esses dois sistemas, é precisamente a falta de dados suficientes para determinar a diferença exacta entre o primeiro ponto das constelações zodiacais, que os astrólogos hindus chamam Nirayama-Sphutam, e o Equinócio da Primavera no começo da Eclíptica, por eles chamado Sayana-Sphutam. Essa diferença chamam-na ayanamsa. Em vez de partirem do primeiro ponto do signo do Carneiro, os brahmanes iniciados iniciam desde a posição da estrela Revati, que actualmente alguns astrólogos ocidentais identificam como sendo a estrela Zeta na constelação de Peixes, para a sua classificação zodiacal.

Conforme o Quadrante Cósmico apresentado mais atrás, os Vedas fornecem dados que permitem atribuir aos signos zodiacais as influências seguintes:

MINAM (PEIXES)

Fusão mística: passagem da curva direita para a esquerda, fora do círculo de manifestação.
Tatva: Apas, Água, dissolução fecundante.
Guna: Rajas, actividade rítmica, transformação.
Transição do Quadrante: Sublimação das Energias ao Quadrante da Involução, dentro da Indiferenciação ou Identificação com o Absoluto.

MESCHAM (CARNEIRO)

Impulso criador e de transmutação: Curva descendente ou Involutiva.
Tatva: Tejas, Fogo, expansão transmutativa criadora.
Guna: Satva, Essencialidade ou o Espírito como Essência Prima.
1.º Quadrante: Energias Cósmicas indiferenciadas.

VRISHABHA (TOURO)

Receptividade magnética bioplástica, indiferenciada: Curva esquerda, descendente, Involutiva.
Tatva: Pritivi, Terra, receptividade bioplástica formadora.
Guna: Tamas, realização na Matéria.
1.º Quadrante: Energias Cósmicas indiferenciadas.

MITHUNA (GÉMEOS)

Fusão: Concepção.
Curva descendente: Involutiva.
Tatva: Vayu, Ar, elemento fluídico móvel.
Guna: Rajas, actividade transitiva de união.
Transição do Quadrante: das Energias indiferenciadas para aquelas da individualização.

KATAKAM (CARANGUEJO)

Gestação: Nascimento.
Curva esquerda descendente: Involutiva.
Tatva: Apas, Água, elemento dissolvente, fecundante.
Guna: Satva, essencialidade.
2.º Quadrante: Individualização.

SIMHAM (LEÃO)

Individualização: Vontade.
Curva esquerda: Descendente, involutiva.
Tatva: Tejas, Fogo, elemento impulsivo, expansivo, transmutador.
Guna: Tamas, realização na Matéria.
2.º Quadrante: Individualização.

KANYA (VIRGEM)

Disposição: Inteligência.
Passagem da 1.ª Curva: Involutiva para a 2.ª Curva, Evolutiva.
Tatva: Pritivi, Terra, receptividade bioplástica formal.
Guna: Rajas, união transitiva.
Transição do Quadrante: Individualização, dissociação ao Quadrante, associação, síntese.

TULAM (BALANÇA)

Equilíbrio: Associativo, intuitivo.
Curva ascendente: Evolutiva.
Tatva: Vayu, Ar, elemento fluídico móvel.
Guna: Satva, essencialidade.
Quadrante das Energias: Associativas, sintéticas, coordenativas.

VRISCHIKA (ESCORPIÃO)

Histólise: Metamorfose.
Curva da direita: Ascendente, evolutiva.
Tatva: Apas, Água, dissolução, fecundação.
Guna: Tamas, realização na Matéria.
3.º Quadrante: Associação coordenadora sintética.

DHANUS (SAGITÁRIO)

Coordenação: Síntese.
Curva direita ascendente: Evolutiva.
Tatva: Tejas, Fogo, elemento impulsivo, expansivo, transmutador.
Guna: Rajas, associação, coordenação.
Transição ao Quadrante: Síntese ao Quadrante, sublimação.

MAKARAM (CAPRICÓRNIO)

Ascetismo: Busca da Perfeição.
Curva ascendente: Evolutiva.
Tatva: Pritivi, Terra, receptividade bioplástica formal.
Guna: Satva, essencialidade.
4.º Quadrante: Sublimação.

KUMBHA (AQUÁRIO)

Iluminação: Superação de si mesmo.
Curva ascendente: Evolutiva.
Tatva: Vayu, Ar, elemento fluídico móvel.
Guna: Tamas, realização na Matéria física.
Quadrante: Das Energias sublimadas.

Foi a partir do Quadrante Cósmico que veio a desenvolver-se o Quadrante Terrestre o qual, por via da matemática e da geometria, transpôs-se o seu elevado sentido esotérico ao prático do quadrante da ciência náutica, instrumento indispensável aos marujos lusos de Quinhentos navegando por mares ignotos. No mais, resta saber os nomes dados pela Astrologia Védica aos sete Planetas tradicionais correspondentes às vibrações dos sete Tatvas que presentes nos sete dias da semana:

SURYA (SOL) – PRITIVI – LARANJA – DOMINGO

CHANDRA ou CHENDRA (LUA) – APAS – VIOLETA – SEGUNDA-FEIRA

MANJALA ou KUJA (MARTE) – TEJAS – VERMELHO – TERÇA-FEIRA

BUDDHA (MERCÚRIO) – ANUPADAKA – AMARELO – QUARTA-FEIRA

BAKASPALI ou KURA (JÚPITER) – ADI – PÚRPURA – QUINTA-FEIRA

SHUKRA ou ÇUCRA (VÉNUS) – AKASHA – AZUL – SEXTA-FEIRA

SANI ou SHANI (SATURNO) – VAYU – VERDE – SÁBADO

Desde tempos imemoriais que se fala e estuda, no escrínio dos Colégios Iniciáticos, da relação íntima existente entre o Cosmos, a Terra e o Homem. Isso quer dizer que há afinidade total e correlação entre o Macrocosmos, o Universo, e o Microcosmos, o Homem. Há no entanto um ponto intermediário, justamente o Planeta em que vivemos, neste caso a Mãe que desune/une o Pai (Universo) e o Filho (Homem). Em todas as catequeses religiosas, em todas as teogonias prevalece o princípio de que o Homem só alcança o Criador através do Aspecto Feminino da Divindade, a Sua Shakti, que no fundo vem a ser a Mater-Rhea, a Mãe-Terra ou Matéria, a Eva de todas as tradições como Prima Mater de todos os seres vivos. Esta é a chave do Grande Arcano que permite, de facto, compreender a verdadeira razão das influências zodiacais na Terra, nos deuses, nos homens, nos animais, nos vegetais e minerais, enfim, em toda a Natureza visível e invisível.

OBRAS CONSULTADAS

Henrique José de Souza, O Simbolismo do Dragão Celeste. Revista O Luzeiro, Ano I, n.º 3, Agosto 1952, São Paulo.

Paulo Albernaz, As Estrelas do Céu. Edição do autor, São Paulo, 2003.

Martin Schulman, Os Nódulos Lunares. Editora Ágora Ltda, São Paulo, 1975.

Max Heindel, El Mensaje de las Estrellas. Editorial Kier, Buenos Aires, 1946.

René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo, 1990.

Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1990.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, Textos Internos. Sintra, Portugal.

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O Sagrado Português: Género e Ser (Cabala da Língua, do Género e da Geografia) – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jul 16 2017 

Fala-se amiúde do português mais como europeu e género antropológico caldeado e saído de várias etnias do Passado, caracterizando-o como raça distinta que, longe de ser ultramontana “orgulhosamente só”, é naturalmente expansiva afim a diáspora onde os cinco continentes revelam-se o limite. Durante o Estado Novo fez-se a propaganda da Raça Lusa ou Género Português, hoje interpretado como patrioteiro e modalidade de afirmação nacionalista do antigo regime caracterizado pelo sistema de ditadura romana. Até poderá ser, mas não está errada a premissa do português como género singular na Europa e de Portugal como o país mais antigo da mesma em quase meio milénio.

Característica do Sagrado Português, justificação apologética do mesmo, é a tripeça da Língua, do Género e da Geografia por que a Formula Mens Lusitanea tem se manifestado ao longo dos séculos pela Arte e a Filosofia Portuguesa, inclusive pelo singular da religiosidade nacional, onde a pia devotioni não raro aparece aparelhando com os encómios patrióticos aos feitos d´armas dos seus maiores.

Comece-se pela Língua. A fala de um povo é a manifestação em sons vocais, conjugados pelo sopro e a pausa, da Ideia Original, arquetípica que o assiste e distingue de outros povos dando a perceber a sua condição psicomental e consequente evolução. Trata-se da Ideia Raiz da potência do Logos dirigindo o Corpo Nacional pela qual a Língua, distinta das outras, faz com que aqueles que a falam agreguem-se em núcleo antropológico cultural e social distinto manifestando pelo sopro e o som, no estado imediato visível, o Arquétipo invisível que os assiste, tal qual a ideia manifestando-se pelo cérebro tomando forma através dos órgãos sensoriais como verbum facundus.

Raciocine-se sobre o fenómeno da linguagem; pense-se um pouco sobre o fenómeno da palavra. Alguém tem uma ideia, uma imagem lhe vem ao cérebro, os órgãos vocais são movimentados e pronuncia-se um som convencional. A vibração transmite-se pelo ar, atinge o ouvido de outro homem, dá-se uma série de fenómenos ainda não bem explicados e aquela vibração, aquele som é interpretado pelo outro homem com a mesma ideia que havia surgido no cérebro do primeiro. Pois bem, nas chamadas sagradas, purushicas, línguas primevas, havia uma correlação directa do som com o objecto, ou seja, o som era a expressão sonora directa e consciente do objecto ou pensamento. Com a decorrer dos tempos e o avanço da Kali-Yuga, a presente Idade do Ferro marcada pelo materialismo sombrio, as línguas foram se deteriorando indo perder o seu sentido original, tomando a condição prakritica de línguas dessacralizadas pelo rompimento do arquétipo com o protótipo, do pensamento com o som, pelo que hoje em dia são raros os idiomas que ainda mantêm essa ligação. As que a mantém são utilizadas na ciência sacerdotal das diversas religiões do mundo como forma de expressão e intercomunicação directa entre o Divino e o Humano. O latim antigo, o grego arcaico, o sânscrito, o hebraico original e até o tupi e o português galaico, são algumas das línguas que ainda mantêm algo desse poder. Daí a razão da Cabala, no seu vector gemátrico de estudo do poder do alfabeto hebreu, onde se combinam as suas letras como se combinam os símbolos da Química indo obter-se ideias e significados.

Como disse, a Língua Portuguesa ainda contém muito desse Poder de Espírito Santo – Verbum Creator – pelo que se a pode considerar Língua Sagrada ou de Purusha em sua essência, muito mais sendo uma fusão fonética e gramatical de várias línguas de veneranda ancestralidade (grego, latim, semita, eslavo, bretão e galaico), onde igualmente se apresentam vocábulos fenícios que durante a Idade do Bronze na Península Ibérica foram parentes do alfabeto mais antigo da Europa e, quiçá, do Mundo, como seja o cónio, cúneo ou cinete, povo que subiu do Sul ao Norte do que é hoje Portugal, inclusive tendo fundado Conimbriga, berço proto-histórico da actual Coimbra.

Posto assim, a Língua Portuguesa revela-se como idioma sintético com a potência do flogístico ou espiritual na sua derradeira essência, em sua relação não rompida de arquétipo – protótipo, de objecto – expressão. Apesar da Língua Portuguesa conter 40.000 verbos, ela possui apenas dez potências que estão na raiz ou no fundo de todos os fonemas, repartindo-se em quatro grandes géneros afins às quatro forças naturais Fogo, Ar, Água Terra[1]. Assim, tem-se:

a) O das explosivas: G – K; D – T; B – P.

b) O das sopradas: Z – S; V – F; J – X.

c) O das líquidas: N – Nh; M ~ (m – n); L – Lh – l.

d) O das vibrantes: R – Rr – r.

No conjunto das “explosivas” está-se, de facto, perante explosões de sons; além disso, são explosões descontínuas, o que se verifica proferindo-as repetidamente.

O que caracteriza o conjunto seguinte (fricativas) é a continuidade própria de qualquer som. Por outro lado, são proferíveis sem som vocálico auxiliar, o que não acontece com as primeiras.

O terceiro grupo é muito mais complexo. Não, como aqueles, isomórfico. Há aspectos que aproximam as potências, outros que as distanciam. Essa é, porém, a natureza própria deste lugar, líquida com as ondas da maré num perpétuo ir-vir.

O R é com as sopradas, proferível sem auxílio de vogal, mas distingue-se delas por ser intermitente. Tríplice na forma, é a vibrante por excelência.

Sendo as letras potências que se idealizam conjugadas como palavras e se exprimem como frases, a referida tétrade fonética se dispõe por três colunas, de acordo com a Árvore das Sephiroths da Cabala. À direita as labiais, à esquerda as dentais e ao centro as pálato-guturais.

Diz Vulliud[2]: “A definição dos sephiroths varia consoante a ordem na qual venham a ser considerados. Na ordem do conhecimento, são dez luzes que iluminam a inteligência. Na ordem dos nomes, são dez atributos do Santo, bendito seja. Na ordem da revelação, são dez aspectos pelos quais a Essência Divina se dá a conhecer, as dez vestes em que aparece, os dez degraus proféticos para as comunicações do Alto. Na ordem cosmogónica, são as dez “palavras” por meio das quais Deus criou o Mundo, os dez sofrimentos que movem o Mundo e o vivificam, os dez números com que o nomeia, mede e pesa. Na ordem beatífica, sãs as dez espécies de glória que fruem as almas e os espíritos puros. Enfim, como o Universo é uma harmonia, é fácil estabelecer a série de correspondências alquímicas, astrológicas, etc.”

Demonstra-se assim, por este meio de Tradição ancestral, que o alfabeto da Língua Portuguesa é também ele uma Cabala Gemátrica cuja estrutura sagrada afim às potências naturais possibilita atingir o mais verídico Conhecimento. Motivo para o Professor Henrique José de Souza (1883-1963), fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, reiterar constantemente que a Língua Portuguesa haverá de ser o Idioma geral do Futuro, da Nova Sociedade Humana encabeçada pela Raça Ibero-Ameríndia[3].

A Língua plasmou-se na Literatura Portuguesa que cedo se dimanou e universalizou, ela também explanando-se por três épocas distintas comportando sete períodos distintos, que devido à grandeza e vultos dos seus verbos contribuiu notavelmente para o desenvolvimento vocabular de outras línguas europeias, inclusive as hoje consideradas mais apuradas como as de origem anglo-saxónica. Tem-se:

I – ÉPOCA TARDO-MEDIEVAL (séculos X – XV)

1.º Período (séculos X – XV):

Crónicas, cronicões e lais mosteirais (séculos X – XII); poesia dos trovadores e prosa dos jograis, anónimos ou não (séculos XII – XIV);

2.º Período (séculos XIII – XV):

Poesia palaciana, prosa didáctica e crónicas.

II – ÉPOCA CLÁSSICA (séculos XVI – XVIII)

3.º Período (século XVI):

Influência italiana; Maneirismo (exemplo, Os Lusíadas); Renascimento.

4.º Período (século XVII):

Cultismo e Conceptismo.

5.º Período (século XVIII):

Iluminismo, Arcadismo e Arcaicismo.

III – ÉPOCA CONTEMPORÂNEA (séculos XIX – XX)

6.º Período (1825 – 1870):

Romantismo e Neoclássico.

7.º Período (desde 1870):

Realismo e Abstraccionismo.

Foi sobretudo pela palavra oral e escrita, geralmente por ambas[4], que Portugal se alavancou na Civilização e se impôs, partindo de diáspora – gesta dei per portucalensis, divisa manuelina – para a criação de império, nisto afim ao sentido cabalístico de Malkuth, “O Reino ou o Mundo” (Assiah)[5], pois que no Mundo se projectou e dominou nos cinco continentes, como seja: Portugal = Brasil, Guiné, Moçambique, Angola, Cabo Verde, S. Tomé, Príncipe, Índia, Macau e Timor. A diáspora da lusofonia serviria de fermento à constituição da futura Raça Humana agregando todos os povos do Mundo onde também convivem, sob uma forma sintética todos os representantes do Passado, colectiva e paulatinamente empenhados na edificação da Concórdia Universal[6], independentemente das crises psicossociais próprias de qualquer período interciclos que é o actual.

Passo assim ao Género. A natureza sui generis e a idiossincrasia do Homem Ibérico fazem dele um Manu, um Guia civilizacional de dupla fácies, introvertido (português intuitivo, pisciano) e extrovertido (espanhol mental, sagitário), dando um tipo psicológico único que só para cá dos Pirenéus se encontra. Isto tem levado antropólogos e sociólogos a afirmar que se a Península Ibérica cessasse, cessaria toda a Europa. Segundo Francisco da Cunha Leão e de maneira genérica, são os seguintes os modos comportamentais do espanhol – português[7]:

1 E.) Religiosidade imediata. Relação directa do Homem com Deus, na Mística, excluindo o termo médio. Firmeza na crença, inseparável da expressão prática. Carmelitanismo.

1 P.) Religiosidade imediata, através da Natureza e da Saudade, e pelo amor às criaturas. Franciscanismo.

2 E.) Homem como agente de ideal. Primazia da acção. Militantismo. Flamenco.

2 P.) Homem como estado de alma. Tendência para o sonho. Desigualdade temperamental: ledícia e dor de viver. Fado.

3 E.) Indiferença à Natureza cósmica. Natureza lugar-onde, palco da História. Realismo antropológico.

3 P.) Sensibilidade à Natureza vista animadamente, e ao mistério. Naturalismo transcendente e saudosista.

4 E.) Vida, afirmação e luta. Valorização do pessoal. Dramatismo. Código de honra. Morte – acesso à glória.

4 P.) Vida – afirmação pelo sentimento e assimilação humana. Gosto da aventura. Espírito de missão.

5 E.) Extremação entre o amor e a sexualidade. Amor natural, sem intrincamento.

5 P.) Amor-adoração. Supervivência amorosa. Carácter absorvente, complexo. Insegurança, queixa, transcendência.

6 E.) Ironia cortante, ácida. Apreensão realista do tipo humano. O picaresco. Ludismo verbal.

6 P.) Ironia sentimental. Agudeza ao ridículo. Realismo emotivo e crítico.

7 E.) Solidariedade contra as intervenções alheias. Orgulho e hermetismo nacional.

7 P.) Solidariedade pela comunhão dos afectos e transmissão do sangue. Coesão pela saudade.

8 E.) Reacção perante a adversidade pelo refúgio no foro individual – isento de derrota. Soledade. Senequismo. Alternância com o desespero colectivo expresso em luta e aniquilamento iconoclasta.

8 P.) Resistência à adversidade pela esperança e crença nos imponderáveis. Sebastianismo. Desespero confinadamente individual.

9 E.) Tendência para o categórico. Nitidez dos contrastes, menosprezo dos valores intermediários. Firmeza das opiniões, pouco permeáveis à dúvida.

9 P.) Sentido das cambiantes e das sombras. Hesitação alternada com o ímpeto e o heroísmo das execuções supremas, geralmente ponderadas, amadurecidas.

10 E.) Desinteresse pelo mundo.

10 P.) Interesse pelo exótico.

11 E.) Teimosia aberta: obstinação. Desapego das comodidades.

11 P.) Teimosia surda, aquosa. Plasticidade. Antinomias profundas.

Finalmente, tem-se a Geografia. A cartografia antiga sempre privilegiou Portugal dispondo-o na cabeça da Europa apresentada como figura humana, assim mesmo contextualizada como Geosofia ou Geografia Sagrada onde no mapa continental ele ocupa o lugar cimeiro.

Se Europa como filólogo provém do celta Ur-Rope, “Região do Fogo”, segundo outros vem a ter a sua formação no vocábulo euro, o “vento de leste”, conhecido já por helénicos e latinos, varrendo águas, poeiras e sementes para o lado “onde o Sol se põe”, o Occidis ou “Lugar da Morte”, esta entendida como o molinete da transformação da alma inerte dos elementos e do Homem na vida activa, espiritualizada, logo harmonizada com a Suprema Lei Universal que a tudo a todos rege.

A Europa teve, entre os rios Reno e Volga, como dirigentes os acadianos e os celtas na sua origem, encontrando-se colocada entre dois grandes blocos continentais: o asiático e o “quinto continente”, realçando-se neste a América do Sul. Por isso é a “ponte” antropológica que a Vaga Humana, “empurrada” pelo Vento de Leste, atravessa num crucial Itinerário, hoje entre o Oriente, espiritualmente falido como também socioeconomicamente, e o urgente Grande Ocidente ibero-americano do Sul que começa a brilhar como “Luz das Nações”, parafraseando os Actos dos Apóstolos, 13:47, promessa tomada de Isaías, 49:6.

A Europa, o quarto continente, do ponto de vista mítico, ou melhor, esotérico, é realmente a expressão física ou incarnada de poderosa divindade criadora, um Arqueu ou Assura, segundo as cosmogonias tradicionais do Ocidente e do Oriente. E sendo a Europa um Corpo, então Fernando Pessoa não usou de “blague” ao dizer que Portugal era o rosto da mesma. Este conceito geosófico antiquíssimo da corporalidade continental, veio a ser ressuscitado pelo cognoscio vivaz de autor contemporâneo, Manuel Joaquim Gandra[8], seguindo o primaz igualmente contemporâneo desta tese, o mesmo Fernando Pessoa, como se verifica na primeira parte, “Brasão”, e primeiro poema, “O dos castelos”, da sua Mensagem.

Certamente Fernando Pessoa inspirou-se em autores mais antigos e de nomeada hermética para esse seu belíssimo poema, assim constando:

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é um ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Acordando com o conceito pessoano, escreveu Manuel J. Gandra[9]:

“Com efeito, encontramo-nos perante a ideia tradicional: a Europa é detentora de um corpo com cabeça, tronco e membros. Ela é o palco para a actuação da Lei matriz que concerne à Era Adâmica e tem por desígnio a rubificação, ou seja, a incorporação consciente da Luz de Glória (Xvarnah para os persas, o Espírito Santo para os cristãos) por todos e cada um dos seres humanos.”

No século XIV (1335-37) a tal ideia foi dada forma gráfica, ou melhor, cartográfica, visto tratar-se de uma carta, da qual são pelo menos conhecidas três versões, da autoria de Opicinus de Canestris. Posteriormente, o franciscano de Basileia, Sebastian Münster, inspirado nessa carta medieval editará uma semelhante em 1544, na sua Cosmographia. A carta de Münster receberia, poucos anos depois, acréscimos de um seu colega conterrâneo, Heinrich Bünting, que a publicaria em 1581 na sua obra principal, Itinerarium Sacrae Scripturae, contendo as correcções feitas em 1544 à obra de Münster pelo humanista português Damião de Góis, no seu trabalho intitulado Pro Hispaniae Defensio[10]. No século XVII (1624), Julião de Castilho, em sua Historia de los Godos, faz da Europa uma mulher de que a Espanha é a cabeça e Portugal a coroa, indo suscitar em 1631 o comentário de António de Souza Macedo nas Flores de España, Excelencias de Portugal, página 6: “(…) en lo que dá a Portugal la mayor honra, porque si bien ay cabeças que honran coronas, vulgarmente las coronas honran las cabeças”. E o próprio Luís de Camões perfilha da mesma ideia que expõe no Canto III, estâncias 17 e 20, do seu poema imortal, Os Lusíadas:

Eis aqui se descobre a nobre Espanha
Como cabeça ali da Europa toda
Em cujo senhorio e glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda (…)

Eis aqui, quase cume da cabeça
Da Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa (…)

Posto assim, tem-se a Península Ibérica como a cabeça da Europa; a Península Itálica (em forma de bota) são os pés da Europa (de tal maneira que até a Igreja do ciclo precessional de Peixes lá está situada). A cabeça e os pés da Europa quase se tocam, enquanto os braços estão lançados para trás, como se aprestasse a lançar nas águas do Atlântico com o “rosto” Português fitando gravemente a América do porvir. Posto desta maneira, verifica-se que a Europa possui cabeça, tronco e membros e, portanto, cada nação é como se de um órgão se tratasse. De qualquer modo, todos os órgãos são indispensáveis. Contudo, o coordenador de todos eles é a cabeça que estabelece todas as directrizes, que coordena todos os movimentos. A cabeça, neste caso, é a Península Ibérica. Portugal e Espanha são um todo, embora hajam certas especificidades nas respectivas culturas demarcando as respectivas independências nacionais.

Por isso, não é por acaso que se diz que a cultura helénica é o pai e a mãe da Europa e dela se estudam duas facetas: a jónica (feminina) em Atenas, e a dórica (masculina) em Espanha. Por isto, pode-se afirmar que a Europa é um corpo hermafrodita (macho-fêmea).

Contudo, não estou falando da propagação do povo jónico (jónio) por toda a Grécia e Europa, nem da disseminação igualmente antropológica do povo dórico (dório) nas ilhas gregas e daí à Península Hispânica, coisa que não aconteceu (e se aconteceu foi em escala demasiado reduzida para poder ser contabilizada), e sim da propagação da cultura etnológica, com as suas modalidades científicas, plásticas, filosóficas e religiosas, dos primeiros em toda a Grécia, e dos segundos da Grécia à nossa Península e desta expandida a toda a Europa. Falo, pois, de surto cultural e não de surto civilizacional, apesar de ambos não estarem separados de todo graças à dominante influência helénica.

Voltando ao corpo da Europa e começando por baixo, seguindo a descrição feita por Manuel Gandra, tem-se os pés e as pernas na Península Itálica, a região genital nos Balcãs. A base da coluna vertebral está situada aí, relacionada com o Leste europeu, exactamente aquela zona da Europa donde procede a Energia vermelha chamada pelos orientais de Kundalini, o serpentino Fogo do seio da Terra. A Austro-Hungria, o plexo solar, a zona do umbigo, dos intestinos, ainda relacionada com o Leste. Os pulmões relacionados com a Suíça, com a Europa do Centro e que é a zona de circulação fiduciária (o dinheiro, o capital) que faz funcionar todo o organismo social; o coração, a França e o Luxemburgo (tanto a palavra Lusitânia como a palavra Luxemburgo, significam o mesmo: “Lugar da Luz”, e o curioso é que do Luxemburgo vieram os fundadores do Condado Portucalense), onde todas as doutrinas se fundem de uma forma harmónica. Os braços estão na zona industrial da Europa, o Norte da Europa, Alemanha, Países Baixos, Inglaterra, Escandinávia e que é a Europa braçal. A cabeça é a zona que vem desde os Pirenéus até ao Extremo Ocidental da Península Ibérica, sendo Portugal (incluindo a Galiza) o rosto e a fronte coroada de todo o organismo europeu. Disto conclui-se ser um completo absurdo pretender forçar Portugal a reger-se pela bitola político-social das potências económicas europeias (como estas têm sido sujeitas pelo império económico norte-americano) quando, na realidade e para maior harmonia de tudo e de todos, antes deveriam ser elas a sustentar a Cultura que é o Espírito de Portugal e a seguir o Cruzeiro Lusitano. Ademais, desde quando os órgãos inferiores dominam o cérebro? Quanto muito podem afectá-lo, mas sabe-se de sobejo que com a sua morte todo o organismo se extingue.

Quando se diz à “boca-cheia” que Portugal socioeconomicamente sempre foi um país quase subdesenvolvido e assim está na “cauda” da Europa, não é de todo verdade, ainda que haja nisso uma verdade oculta: sendo o Mental Arquetipal ou Causagístico, não deixa de reflectir em si os fortúnios e infortúnios do restante corpo de que é cabeça, ou seja, as virtudes e os vícios, as pazes e as crises, etc., tudo por sua natureza bioplástica, adaptável, assimiladora. Mas também é ele quem dimana as ideias e os ideais superiores, como aquele de criar o V Império do Mundo (e não “no Mundo”, que tal coisa o P.e António Vieira jamais grafou), logo, Universal, não colonialista mas civilizacionalmente Espiritual. Por tudo isto, garante a Profecia de Sintra revelada por um dos Maiores da Lusophia: – Quem nasce em Portugal é por Missão ou Castigo!

OBRAS CONSULTADAS

[1] António Telmo, Gramática Secreta da Língua Portuguesa. Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1981.

[2] Paul Vulliud, La Kaballe Juive, Histoire et Doctrine. Émile Nourry, Éditeur, Paris, 1923. Cf. Sepher Yetzirah (O Livro da Criação), na versão do Rev. Dr. Isidor Kalisch. Editora Renes, Rio de Janeiro, 1978.

[3] Henrique José de Souza, O Verdadeiro Caminho da Iniciação. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1 de Março de 1978.

[4] Alberto Pinto Gouveia, O Português, Língua Sagrada e Cabalística. Revista Dhâranâ, ano 68, n.º 10, 1994.

[5] João Roque, Cabala. Revista Dhâranâ, ano 59, n.º 1, 1985.

[6] Carlos Lucas de Souza, Civilização Eubiótica. Brasília, Junho 1968.

[7] F. da Cunha Leão, O Enigma Português. Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1973.

[8] Manuel J. Gandra, Da Face Oculta do Rosto da Europa (Prolegómenos a uma História Mítica de Portugal), em A Europa tem rosto? Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1997.

[9] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal, em Cavalaria Espiritual e Conquista do Mundo. Gabinete de Estudos de Simbologia, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986.

[10] Rainer Daehnhardt, Páginas Secretas da História de Portugal, volume I. Edições Nova Acrópole, Lisboa, Maio 1993.