Fala-se amiúde do português mais como europeu e género antropológico caldeado e saído de várias etnias do Passado, caracterizando-o como raça distinta que, longe de ser ultramontana “orgulhosamente só”, é naturalmente expansiva afim a diáspora onde os cinco continentes revelam-se o limite. Durante o Estado Novo fez-se a propaganda da Raça Lusa ou Género Português, hoje interpretado como patrioteiro e modalidade de afirmação nacionalista do antigo regime caracterizado pelo sistema de ditadura romana. Até poderá ser, mas não está errada a premissa do português como género singular na Europa e de Portugal como o país mais antigo da mesma em quase meio milénio.

Característica do Sagrado Português, justificação apologética do mesmo, é a tripeça da Língua, do Género e da Geografia por que a Formula Mens Lusitanea tem se manifestado ao longo dos séculos pela Arte e a Filosofia Portuguesa, inclusive pelo singular da religiosidade nacional, onde a pia devotioni não raro aparece aparelhando com os encómios patrióticos aos feitos d´armas dos seus maiores.

Comece-se pela Língua. A fala de um povo é a manifestação em sons vocais, conjugados pelo sopro e a pausa, da Ideia Original, arquetípica que o assiste e distingue de outros povos dando a perceber a sua condição psicomental e consequente evolução. Trata-se da Ideia Raiz da potência do Logos dirigindo o Corpo Nacional pela qual a Língua, distinta das outras, faz com que aqueles que a falam agreguem-se em núcleo antropológico cultural e social distinto manifestando pelo sopro e o som, no estado imediato visível, o Arquétipo invisível que os assiste, tal qual a ideia manifestando-se pelo cérebro tomando forma através dos órgãos sensoriais como verbum facundus.

Raciocine-se sobre o fenómeno da linguagem; pense-se um pouco sobre o fenómeno da palavra. Alguém tem uma ideia, uma imagem lhe vem ao cérebro, os órgãos vocais são movimentados e pronuncia-se um som convencional. A vibração transmite-se pelo ar, atinge o ouvido de outro homem, dá-se uma série de fenómenos ainda não bem explicados e aquela vibração, aquele som é interpretado pelo outro homem com a mesma ideia que havia surgido no cérebro do primeiro. Pois bem, nas chamadas sagradas, purushicas, línguas primevas, havia uma correlação directa do som com o objecto, ou seja, o som era a expressão sonora directa e consciente do objecto ou pensamento. Com a decorrer dos tempos e o avanço da Kali-Yuga, a presente Idade do Ferro marcada pelo materialismo sombrio, as línguas foram se deteriorando indo perder o seu sentido original, tomando a condição prakritica de línguas dessacralizadas pelo rompimento do arquétipo com o protótipo, do pensamento com o som, pelo que hoje em dia são raros os idiomas que ainda mantêm essa ligação. As que a mantém são utilizadas na ciência sacerdotal das diversas religiões do mundo como forma de expressão e intercomunicação directa entre o Divino e o Humano. O latim antigo, o grego arcaico, o sânscrito, o hebraico original e até o tupi e o português galaico, são algumas das línguas que ainda mantêm algo desse poder. Daí a razão da Cabala, no seu vector gemátrico de estudo do poder do alfabeto hebreu, onde se combinam as suas letras como se combinam os símbolos da Química indo obter-se ideias e significados.

Como disse, a Língua Portuguesa ainda contém muito desse Poder de Espírito Santo – Verbum Creator – pelo que se a pode considerar Língua Sagrada ou de Purusha em sua essência, muito mais sendo uma fusão fonética e gramatical de várias línguas de veneranda ancestralidade (grego, latim, semita, eslavo, bretão e galaico), onde igualmente se apresentam vocábulos fenícios que durante a Idade do Bronze na Península Ibérica foram parentes do alfabeto mais antigo da Europa e, quiçá, do Mundo, como seja o cónio, cúneo ou cinete, povo que subiu do Sul ao Norte do que é hoje Portugal, inclusive tendo fundado Conimbriga, berço proto-histórico da actual Coimbra.

Posto assim, a Língua Portuguesa revela-se como idioma sintético com a potência do flogístico ou espiritual na sua derradeira essência, em sua relação não rompida de arquétipo – protótipo, de objecto – expressão. Apesar da Língua Portuguesa conter 40.000 verbos, ela possui apenas dez potências que estão na raiz ou no fundo de todos os fonemas, repartindo-se em quatro grandes géneros afins às quatro forças naturais Fogo, Ar, Água Terra[1]. Assim, tem-se:

a) O das explosivas: G – K; D – T; B – P.

b) O das sopradas: Z – S; V – F; J – X.

c) O das líquidas: N – Nh; M ~ (m – n); L – Lh – l.

d) O das vibrantes: R – Rr – r.

No conjunto das “explosivas” está-se, de facto, perante explosões de sons; além disso, são explosões descontínuas, o que se verifica proferindo-as repetidamente.

O que caracteriza o conjunto seguinte (fricativas) é a continuidade própria de qualquer som. Por outro lado, são proferíveis sem som vocálico auxiliar, o que não acontece com as primeiras.

O terceiro grupo é muito mais complexo. Não, como aqueles, isomórfico. Há aspectos que aproximam as potências, outros que as distanciam. Essa é, porém, a natureza própria deste lugar, líquida com as ondas da maré num perpétuo ir-vir.

O R é com as sopradas, proferível sem auxílio de vogal, mas distingue-se delas por ser intermitente. Tríplice na forma, é a vibrante por excelência.

Sendo as letras potências que se idealizam conjugadas como palavras e se exprimem como frases, a referida tétrade fonética se dispõe por três colunas, de acordo com a Árvore das Sephiroths da Cabala. À direita as labiais, à esquerda as dentais e ao centro as pálato-guturais.

Diz Vulliud[2]: “A definição dos sephiroths varia consoante a ordem na qual venham a ser considerados. Na ordem do conhecimento, são dez luzes que iluminam a inteligência. Na ordem dos nomes, são dez atributos do Santo, bendito seja. Na ordem da revelação, são dez aspectos pelos quais a Essência Divina se dá a conhecer, as dez vestes em que aparece, os dez degraus proféticos para as comunicações do Alto. Na ordem cosmogónica, são as dez “palavras” por meio das quais Deus criou o Mundo, os dez sofrimentos que movem o Mundo e o vivificam, os dez números com que o nomeia, mede e pesa. Na ordem beatífica, sãs as dez espécies de glória que fruem as almas e os espíritos puros. Enfim, como o Universo é uma harmonia, é fácil estabelecer a série de correspondências alquímicas, astrológicas, etc.”

Demonstra-se assim, por este meio de Tradição ancestral, que o alfabeto da Língua Portuguesa é também ele uma Cabala Gemátrica cuja estrutura sagrada afim às potências naturais possibilita atingir o mais verídico Conhecimento. Motivo para o Professor Henrique José de Souza (1883-1963), fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, reiterar constantemente que a Língua Portuguesa haverá de ser o Idioma geral do Futuro, da Nova Sociedade Humana encabeçada pela Raça Ibero-Ameríndia[3].

A Língua plasmou-se na Literatura Portuguesa que cedo se dimanou e universalizou, ela também explanando-se por três épocas distintas comportando sete períodos distintos, que devido à grandeza e vultos dos seus verbos contribuiu notavelmente para o desenvolvimento vocabular de outras línguas europeias, inclusive as hoje consideradas mais apuradas como as de origem anglo-saxónica. Tem-se:

I – ÉPOCA TARDO-MEDIEVAL (séculos X – XV)

1.º Período (séculos X – XV):

Crónicas, cronicões e lais mosteirais (séculos X – XII); poesia dos trovadores e prosa dos jograis, anónimos ou não (séculos XII – XIV);

2.º Período (séculos XIII – XV):

Poesia palaciana, prosa didáctica e crónicas.

II – ÉPOCA CLÁSSICA (séculos XVI – XVIII)

3.º Período (século XVI):

Influência italiana; Maneirismo (exemplo, Os Lusíadas); Renascimento.

4.º Período (século XVII):

Cultismo e Conceptismo.

5.º Período (século XVIII):

Iluminismo, Arcadismo e Arcaicismo.

III – ÉPOCA CONTEMPORÂNEA (séculos XIX – XX)

6.º Período (1825 – 1870):

Romantismo e Neoclássico.

7.º Período (desde 1870):

Realismo e Abstraccionismo.

Foi sobretudo pela palavra oral e escrita, geralmente por ambas[4], que Portugal se alavancou na Civilização e se impôs, partindo de diáspora – gesta dei per portucalensis, divisa manuelina – para a criação de império, nisto afim ao sentido cabalístico de Malkuth, “O Reino ou o Mundo” (Assiah)[5], pois que no Mundo se projectou e dominou nos cinco continentes, como seja: Portugal = Brasil, Guiné, Moçambique, Angola, Cabo Verde, S. Tomé, Príncipe, Índia, Macau e Timor. A diáspora da lusofonia serviria de fermento à constituição da futura Raça Humana agregando todos os povos do Mundo onde também convivem, sob uma forma sintética todos os representantes do Passado, colectiva e paulatinamente empenhados na edificação da Concórdia Universal[6], independentemente das crises psicossociais próprias de qualquer período interciclos que é o actual.

Passo assim ao Género. A natureza sui generis e a idiossincrasia do Homem Ibérico fazem dele um Manu, um Guia civilizacional de dupla fácies, introvertido (português intuitivo, pisciano) e extrovertido (espanhol mental, sagitário), dando um tipo psicológico único que só para cá dos Pirenéus se encontra. Isto tem levado antropólogos e sociólogos a afirmar que se a Península Ibérica cessasse, cessaria toda a Europa. Segundo Francisco da Cunha Leão e de maneira genérica, são os seguintes os modos comportamentais do espanhol – português[7]:

1 E.) Religiosidade imediata. Relação directa do Homem com Deus, na Mística, excluindo o termo médio. Firmeza na crença, inseparável da expressão prática. Carmelitanismo.

1 P.) Religiosidade imediata, através da Natureza e da Saudade, e pelo amor às criaturas. Franciscanismo.

2 E.) Homem como agente de ideal. Primazia da acção. Militantismo. Flamenco.

2 P.) Homem como estado de alma. Tendência para o sonho. Desigualdade temperamental: ledícia e dor de viver. Fado.

3 E.) Indiferença à Natureza cósmica. Natureza lugar-onde, palco da História. Realismo antropológico.

3 P.) Sensibilidade à Natureza vista animadamente, e ao mistério. Naturalismo transcendente e saudosista.

4 E.) Vida, afirmação e luta. Valorização do pessoal. Dramatismo. Código de honra. Morte – acesso à glória.

4 P.) Vida – afirmação pelo sentimento e assimilação humana. Gosto da aventura. Espírito de missão.

5 E.) Extremação entre o amor e a sexualidade. Amor natural, sem intrincamento.

5 P.) Amor-adoração. Supervivência amorosa. Carácter absorvente, complexo. Insegurança, queixa, transcendência.

6 E.) Ironia cortante, ácida. Apreensão realista do tipo humano. O picaresco. Ludismo verbal.

6 P.) Ironia sentimental. Agudeza ao ridículo. Realismo emotivo e crítico.

7 E.) Solidariedade contra as intervenções alheias. Orgulho e hermetismo nacional.

7 P.) Solidariedade pela comunhão dos afectos e transmissão do sangue. Coesão pela saudade.

8 E.) Reacção perante a adversidade pelo refúgio no foro individual – isento de derrota. Soledade. Senequismo. Alternância com o desespero colectivo expresso em luta e aniquilamento iconoclasta.

8 P.) Resistência à adversidade pela esperança e crença nos imponderáveis. Sebastianismo. Desespero confinadamente individual.

9 E.) Tendência para o categórico. Nitidez dos contrastes, menosprezo dos valores intermediários. Firmeza das opiniões, pouco permeáveis à dúvida.

9 P.) Sentido das cambiantes e das sombras. Hesitação alternada com o ímpeto e o heroísmo das execuções supremas, geralmente ponderadas, amadurecidas.

10 E.) Desinteresse pelo mundo.

10 P.) Interesse pelo exótico.

11 E.) Teimosia aberta: obstinação. Desapego das comodidades.

11 P.) Teimosia surda, aquosa. Plasticidade. Antinomias profundas.

Finalmente, tem-se a Geografia. A cartografia antiga sempre privilegiou Portugal dispondo-o na cabeça da Europa apresentada como figura humana, assim mesmo contextualizada como Geosofia ou Geografia Sagrada onde no mapa continental ele ocupa o lugar cimeiro.

Se Europa como filólogo provém do celta Ur-Rope, “Região do Fogo”, segundo outros vem a ter a sua formação no vocábulo euro, o “vento de leste”, conhecido já por helénicos e latinos, varrendo águas, poeiras e sementes para o lado “onde o Sol se põe”, o Occidis ou “Lugar da Morte”, esta entendida como o molinete da transformação da alma inerte dos elementos e do Homem na vida activa, espiritualizada, logo harmonizada com a Suprema Lei Universal que a tudo a todos rege.

A Europa teve, entre os rios Reno e Volga, como dirigentes os acadianos e os celtas na sua origem, encontrando-se colocada entre dois grandes blocos continentais: o asiático e o “quinto continente”, realçando-se neste a América do Sul. Por isso é a “ponte” antropológica que a Vaga Humana, “empurrada” pelo Vento de Leste, atravessa num crucial Itinerário, hoje entre o Oriente, espiritualmente falido como também socioeconomicamente, e o urgente Grande Ocidente ibero-americano do Sul que começa a brilhar como “Luz das Nações”, parafraseando os Actos dos Apóstolos, 13:47, promessa tomada de Isaías, 49:6.

A Europa, o quarto continente, do ponto de vista mítico, ou melhor, esotérico, é realmente a expressão física ou incarnada de poderosa divindade criadora, um Arqueu ou Assura, segundo as cosmogonias tradicionais do Ocidente e do Oriente. E sendo a Europa um Corpo, então Fernando Pessoa não usou de “blague” ao dizer que Portugal era o rosto da mesma. Este conceito geosófico antiquíssimo da corporalidade continental, veio a ser ressuscitado pelo cognoscio vivaz de autor contemporâneo, Manuel Joaquim Gandra[8], seguindo o primaz igualmente contemporâneo desta tese, o mesmo Fernando Pessoa, como se verifica na primeira parte, “Brasão”, e primeiro poema, “O dos castelos”, da sua Mensagem.

Certamente Fernando Pessoa inspirou-se em autores mais antigos e de nomeada hermética para esse seu belíssimo poema, assim constando:

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é um ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Acordando com o conceito pessoano, escreveu Manuel J. Gandra[9]:

“Com efeito, encontramo-nos perante a ideia tradicional: a Europa é detentora de um corpo com cabeça, tronco e membros. Ela é o palco para a actuação da Lei matriz que concerne à Era Adâmica e tem por desígnio a rubificação, ou seja, a incorporação consciente da Luz de Glória (Xvarnah para os persas, o Espírito Santo para os cristãos) por todos e cada um dos seres humanos.”

No século XIV (1335-37) a tal ideia foi dada forma gráfica, ou melhor, cartográfica, visto tratar-se de uma carta, da qual são pelo menos conhecidas três versões, da autoria de Opicinus de Canestris. Posteriormente, o franciscano de Basileia, Sebastian Münster, inspirado nessa carta medieval editará uma semelhante em 1544, na sua Cosmographia. A carta de Münster receberia, poucos anos depois, acréscimos de um seu colega conterrâneo, Heinrich Bünting, que a publicaria em 1581 na sua obra principal, Itinerarium Sacrae Scripturae, contendo as correcções feitas em 1544 à obra de Münster pelo humanista português Damião de Góis, no seu trabalho intitulado Pro Hispaniae Defensio[10]. No século XVII (1624), Julião de Castilho, em sua Historia de los Godos, faz da Europa uma mulher de que a Espanha é a cabeça e Portugal a coroa, indo suscitar em 1631 o comentário de António de Souza Macedo nas Flores de España, Excelencias de Portugal, página 6: “(…) en lo que dá a Portugal la mayor honra, porque si bien ay cabeças que honran coronas, vulgarmente las coronas honran las cabeças”. E o próprio Luís de Camões perfilha da mesma ideia que expõe no Canto III, estâncias 17 e 20, do seu poema imortal, Os Lusíadas:

Eis aqui se descobre a nobre Espanha
Como cabeça ali da Europa toda
Em cujo senhorio e glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda (…)

Eis aqui, quase cume da cabeça
Da Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa (…)

Posto assim, tem-se a Península Ibérica como a cabeça da Europa; a Península Itálica (em forma de bota) são os pés da Europa (de tal maneira que até a Igreja do ciclo precessional de Peixes lá está situada). A cabeça e os pés da Europa quase se tocam, enquanto os braços estão lançados para trás, como se aprestasse a lançar nas águas do Atlântico com o “rosto” Português fitando gravemente a América do porvir. Posto desta maneira, verifica-se que a Europa possui cabeça, tronco e membros e, portanto, cada nação é como se de um órgão se tratasse. De qualquer modo, todos os órgãos são indispensáveis. Contudo, o coordenador de todos eles é a cabeça que estabelece todas as directrizes, que coordena todos os movimentos. A cabeça, neste caso, é a Península Ibérica. Portugal e Espanha são um todo, embora hajam certas especificidades nas respectivas culturas demarcando as respectivas independências nacionais.

Por isso, não é por acaso que se diz que a cultura helénica é o pai e a mãe da Europa e dela se estudam duas facetas: a jónica (feminina) em Atenas, e a dórica (masculina) em Espanha. Por isto, pode-se afirmar que a Europa é um corpo hermafrodita (macho-fêmea).

Contudo, não estou falando da propagação do povo jónico (jónio) por toda a Grécia e Europa, nem da disseminação igualmente antropológica do povo dórico (dório) nas ilhas gregas e daí à Península Hispânica, coisa que não aconteceu (e se aconteceu foi em escala demasiado reduzida para poder ser contabilizada), e sim da propagação da cultura etnológica, com as suas modalidades científicas, plásticas, filosóficas e religiosas, dos primeiros em toda a Grécia, e dos segundos da Grécia à nossa Península e desta expandida a toda a Europa. Falo, pois, de surto cultural e não de surto civilizacional, apesar de ambos não estarem separados de todo graças à dominante influência helénica.

Voltando ao corpo da Europa e começando por baixo, seguindo a descrição feita por Manuel Gandra, tem-se os pés e as pernas na Península Itálica, a região genital nos Balcãs. A base da coluna vertebral está situada aí, relacionada com o Leste europeu, exactamente aquela zona da Europa donde procede a Energia vermelha chamada pelos orientais de Kundalini, o serpentino Fogo do seio da Terra. A Austro-Hungria, o plexo solar, a zona do umbigo, dos intestinos, ainda relacionada com o Leste. Os pulmões relacionados com a Suíça, com a Europa do Centro e que é a zona de circulação fiduciária (o dinheiro, o capital) que faz funcionar todo o organismo social; o coração, a França e o Luxemburgo (tanto a palavra Lusitânia como a palavra Luxemburgo, significam o mesmo: “Lugar da Luz”, e o curioso é que do Luxemburgo vieram os fundadores do Condado Portucalense), onde todas as doutrinas se fundem de uma forma harmónica. Os braços estão na zona industrial da Europa, o Norte da Europa, Alemanha, Países Baixos, Inglaterra, Escandinávia e que é a Europa braçal. A cabeça é a zona que vem desde os Pirenéus até ao Extremo Ocidental da Península Ibérica, sendo Portugal (incluindo a Galiza) o rosto e a fronte coroada de todo o organismo europeu. Disto conclui-se ser um completo absurdo pretender forçar Portugal a reger-se pela bitola político-social das potências económicas europeias (como estas têm sido sujeitas pelo império económico norte-americano) quando, na realidade e para maior harmonia de tudo e de todos, antes deveriam ser elas a sustentar a Cultura que é o Espírito de Portugal e a seguir o Cruzeiro Lusitano. Ademais, desde quando os órgãos inferiores dominam o cérebro? Quanto muito podem afectá-lo, mas sabe-se de sobejo que com a sua morte todo o organismo se extingue.

Quando se diz à “boca-cheia” que Portugal socioeconomicamente sempre foi um país quase subdesenvolvido e assim está na “cauda” da Europa, não é de todo verdade, ainda que haja nisso uma verdade oculta: sendo o Mental Arquetipal ou Causagístico, não deixa de reflectir em si os fortúnios e infortúnios do restante corpo de que é cabeça, ou seja, as virtudes e os vícios, as pazes e as crises, etc., tudo por sua natureza bioplástica, adaptável, assimiladora. Mas também é ele quem dimana as ideias e os ideais superiores, como aquele de criar o V Império do Mundo (e não “no Mundo”, que tal coisa o P.e António Vieira jamais grafou), logo, Universal, não colonialista mas civilizacionalmente Espiritual. Por tudo isto, garante a Profecia de Sintra revelada por um dos Maiores da Lusophia: – Quem nasce em Portugal é por Missão ou Castigo!

OBRAS CONSULTADAS

[1] António Telmo, Gramática Secreta da Língua Portuguesa. Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1981.

[2] Paul Vulliud, La Kaballe Juive, Histoire et Doctrine. Émile Nourry, Éditeur, Paris, 1923. Cf. Sepher Yetzirah (O Livro da Criação), na versão do Rev. Dr. Isidor Kalisch. Editora Renes, Rio de Janeiro, 1978.

[3] Henrique José de Souza, O Verdadeiro Caminho da Iniciação. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1 de Março de 1978.

[4] Alberto Pinto Gouveia, O Português, Língua Sagrada e Cabalística. Revista Dhâranâ, ano 68, n.º 10, 1994.

[5] João Roque, Cabala. Revista Dhâranâ, ano 59, n.º 1, 1985.

[6] Carlos Lucas de Souza, Civilização Eubiótica. Brasília, Junho 1968.

[7] F. da Cunha Leão, O Enigma Português. Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1973.

[8] Manuel J. Gandra, Da Face Oculta do Rosto da Europa (Prolegómenos a uma História Mítica de Portugal), em A Europa tem rosto? Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1997.

[9] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal, em Cavalaria Espiritual e Conquista do Mundo. Gabinete de Estudos de Simbologia, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986.

[10] Rainer Daehnhardt, Páginas Secretas da História de Portugal, volume I. Edições Nova Acrópole, Lisboa, Maio 1993.

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