Hoje[1], Dia de Portugal, que é dizer do início da Portugalidade no Mundo como País soberano cerca de 500 anos á dianteira dos demais europeus, que estruturados em feudos com os seus duques e condes isentavam-se de um poder central, é, pois, neste velhinho rectângulo pátrio que irrompe a diáspora da fé, do saber e das armas assinaladas, inicialmente a todas as partes da Europa, e depois às do Mundo. Ser português é uma maneira de estar, de sentir, pensar e ser… sempre duvidoso das suas capacidades reais de realizar e, anacronicamente, sempre ansioso de as realizar.

Em um aspecto particular isso mesmo regista-se no saloio, etnia arábica provinda de Saleh, cidade marítima da Mauritânia, nos finais do século VIII para estas bandas ocidentais da Europa, depressa miscenizando-se aos cristãos submetidos ao jugo árabe ocupante, pelo que em breve eles mesmos se tornariam moçárabes, “como que árabes”, desde logo mal vistos pelos de puro sangue árabe, não corrompido pela mistura ao de outras etnias consideradas inferiores, assim remetidos ao desprezo das fainas mais humildes, contudo essenciais à vida, do cultivo dos campos arredores das grandes urbes estremenhas, particularmente de Lisboa.  De maneira que ao natural de Saleh deverá depois a sua origem o “homem do campo”, o saloio.

A origem da designação saloio tem sido motivo de estudo desde há largo tempo. Apesar de eu considerar a sua marginalização fora dos muros das urbes ainda durante o período árabe, o Padre Rafael Bluteau remonta a sua origem aos tempos de D. Afonso Henriques: “(…) deixando el-Rei Dom Afonso Henriques ficar no termo de Lisboa os Mouros, em suas fazendas, e lugares (…), a estes chamaram Saloios ou Çaloyos, que quer dizer gente de Çalaa, e daquela seita de Mouros”[2].

Já Frei João de Sousa[3] associa a denominação saloio a três significados distintos, todos eles com origem árabe: (1) Çala – Salah, que significa “oração, deprecação”, por derivação do verbo sálla, “orar, rezar, deprecar”; (2) Çalá Ben Çala – Saléh Ben Saléh, nome próprio que significa “o justo” ou “filho do justo”, por derivação do verbo Saleha, de “ser justo, perfeito ou completo”; (3) Çaloyo – Çalauio, referente ao “Çalatino, homem natural de Çalé, cidade marítima da Mauritânia, donde creio que se deriva o dito nome em razão de alguns dos seus habitantes terem vindo talvez povoar os subúrbios de Lisboa”.

Nisso, David Lopes[4] considera que o termo saloio deriva de Çala, no sentido atribuído por frei João de Sousa (“oração, seita de mouros”) ou de Salé, e introduz a referência ao pão cozido, considerando que o vocábulo çalaio era o “tributo que se pagava do pão cozido na cidade e Patriarcado de Lisboa. (…) Ainda hoje, como é sabido, se vende pão saloio pela cidade, trazida a ela em burros e dentro de alforges. Çalaio é, cremos, a mesma palavra que saloio, mas romanizada”[5].

Devo informar que o nome moçárabe, aliás escrito na forma plural, aparece pela primeira vez no foral que Afonso VI (1101) concedeu à cidade de Toledo, onde o monarca refere os súbditos quos vulgo mozarabes vocitant, de onde se infere que o nome carecia de uso nas instituições culturais e jurídicas[6]. Essencialmente, como já disse, o moçárabe é o “como que árabe”, ou seja, o árabe miscenizado ao cristão e o cristão inserido e subordinado à estrutura social muçulmana, excepto na religião, ainda que a Cruz e o Crescente em muito se identifiquem através dele[7].

Durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, o Estado islâmico limitou a propagação judaica e cristã a guetos ou lugares de delimitação fixa. Assim, a paróquia é o gueto dos cristãos, como a alfama ou aljama é o asilo ou gueto dos judeus (e após a Reconquista cristã criar-se-ia, imitando o modelo islâmico, o gueto da moirama, isto é, a mouraria), com a diferença de que a paróquia – nome gótico – se designa, no direito muçulmano, por al-kenîssah, ou kulicia. Al-kenîssah não é apenas um templo, nem uma capela, nem uma ermida no monte. É, mesmo na forma evolutiva da palavra (kenîssah, caniça, caneça), uma cabeça de assembleia cristã: a sede paroquial[8], que na cidade de Al-Usbuna (Lisboa) situava-se em São Cristóvão de Alfama que na época era Santa Maria de Alcamim, de “Entre-Hortas”[9].

O desenvolvimento da rede paroquial durante a Reconquista cristã alerta para a função da freguesia nas acções da conquista e da consolidação do domínio das caneças contra as assembleias mesquitais. Algumas dessas caneças feneceram, ocupadas pela moirama e logo transformadas em mesquitas e mesquitelas, enquanto outras vingaram durante os séculos de ocupação. Caneça, ou caneças, é uma igreja paroquial onde ocorrem semanalmente as populações circunvizinhas, as populações desse gueto cristão tornado mais importante em regime de hábito disperso, como sucedia em toda a região da Estremadura, mormente nas terras saloias de Loures, Mafra, Sintra e Cascais, as quais se estendiam etnologicamente, por um lado, até Torres Vedras[10], inclusive registando-se vestígios da cultura saloia em Óbidos; por outro lado, ia até à região sadina de Setúbal, Arrábida, Sesimbra e Espichel[11].

Dentro da caneça o moçárabe é cidadão de pleno direito, freguês, felgrês, feligrês ou filius Ecclesia, “filho da Igreja” (donde a freguesia ser extensão da paróquia, tal qual, numa sociedade tradicional, o Poder Temporal é justificado e confirmado pela Autoridade Espiritual), mesmo que a mulher sirva de lavadeira ao califa.

O modelo jurídico islâmico, por sua perfeição aristotélica, serviria de inspiração ao senado latino dos cristãos, reformulado por D. João I mas cuja origem recuará a D. Afonso II. O senado islâmico era a shari’a, o tribunal no qual o cadi ou juiz actuava como representante do califa. Por via de regra, era um muçulmano do sexo masculino, de bom carácter e comprovado saber. Embora a sua jurisdição abrangesse ao mesmo tempo a lei civil e a lei penal, na prática o Estado encarregava-se da maior parte da última. Ora, era exactamente isso que o senado latino fazia: mantinha a lei civil e só aplicava a penal após ordens expressas do Estado vigente[12].

Com tudo isso, premissas indispensáveis ao entendimento da génese do Círio dos Saloios à Virgem de Mu ou Espichel, tema que aqui me traz, pretendo agora afirmar que, com a maior das possibilidades, tal Círio Votivo ou Giro seria já cardápio do devocional do saloio moçárabe no tempo da ocupação árabe, cuja lei era permissiva e não repressiva da fé cristã submetida, desde que a mesma não se convertesse em política anti-estatal subversiva. Ficar-se pela fé, respeitava-se; extravasar-se para a política, reprimia-se[13].

Tanto assim é que não raros autores de obras consignadas a leitura obrigatória nesta área historiográfica, como Frei Bernardo de Brito (in Monarquia Lusitana, Parte I, Livro IV) e Manuel de Faria e Sousa (in Europa Portuguesa, cap. I, IX), afirmam que a devoção a Nossa Senhora da Pedra de Mua, de Mu ou do Cabo é remotíssima e muitíssimo anterior a 1410 [14] e até mesma mesmo a 1215 [15] e 1275 [16], cujo primeiro registo documental consta na Chancelaria de D. Pedro I,  em sua carta régia de 14 de Abril de 1366: os lugares do Termo de Sesimbra “jazem em huu dos cabos do mundo e fora de todo o caminho salvo os que vaão em romeria a Sancta Maria do cabo”. 1414 é o ano em que D. João I doou ao Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, terrenos no sítio do Cabo Espichel para ele, devoto confesso de Nossa Senhora do Carmelo, dar ao povo Casa condigna à devoção da Virgem, sendo edificada a Ermida de Santa Maria da Pedra de Mua, vulgo Ermida da Memória, humilde resto de formato kaábico do antigo espaço carmelita do qual ainda sobejam as ruínas ao lado da actual basílica (1701-1707)[17]. A pequena ermida, mais sendo oratório de ermitão ou homem do deserto, como Santo Antão que lá está em azulejo fazendo o sinal de silêncio, foi restaurada em 1758, data dos seus painéis de azulejos que indicam ser esse o “próprio lugar onde a milagrosa imagem de Nossa Senhora do Cabo se manifestou aos venturosos velhos de Caparica e Alcabideche e em que primeiro foi venerada”, segundo Frei Bernardo de Brito.

Ermida da Memória, Cabo Espichel

Ora, o primitivo culto celta estremenho (Estremadura, Oestrymnia) à Grande Deusa-Mãe prolongou-se até ao período visigótico e depois moçárabe, já aqui na forma hagiográfica da Mãe Divina, fixando-se definitivamente, por via do Santo Condestável D. Fr. Nuno Álvares de Santa Maria, na popularização da romaria, giro ou bodo à Virgem Santíssima, esta mesma Santa Maria do Cabo, a Stella Maris inspirada no episódio bíblico protagonizado pelo Profeta Elias (I Reis, 18) onde aparece como “homem de fogo”, abrasado pelo amor de Deus, e que faz parte do imobiliário simbológico da Ordem do Carmelo, inclusive associando Espichel a novel Carmelo Lusitano, nisto corporificando a oração trecentista do Flos Carmeli (“Flor do Carmelo”):

Do Carmo a Flor
vide florida
do Céu esplendor.
Virgem fecunda,
singular,
Mãe sem par
de homem ignorada!
Ao Carmo vem dar
a tua ajuda,
Ó Estrela do Mar!

Foi grande a devoção popular ao Santo Condestável, devotadíssimo de Santa Maria do Cabo, a ponto da devoção feminina saloia ter-lhe dedicado várias danças e cantares mouriscos, chacóinas ou chaconas, de natureza apologética abertamente matricial, inclusive atribuindo-lhe o “poder de ressuscitar os mortos”, o que vai bem com igual atributo da Deusa-Mãe agora corporificada na pessoa do “Cavaleiro Santo”, do “Galaaz do Carmelo”, no dizer de Pinharanda Gomes, tanto mais que a Iniciação Cavaleiresca, Senhorial, é sinónima de Iniciação Mariana. Convém, sim, não confundir Cavalaria Espiritual com Cavalaria Militar. A propósito da Chacona do Condestável, de origem medieval, ela foi recolhida e integrada no reportório do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, que gentilmente cedeu-ma pela mão do seu presidente na ocasião, senhor José Henriqueta. Passo a descrevê-la[18]:

DANÇA: É somente dançada por mulheres. Tem a sua origem na Procissão ao Carmo de Lisboa, organizada em primeira mão pelo próprio D. Nuno Álvares Pereira. Para esta dança, tal como na judenga, era obrigatória a comparência, em caso de falta haveria castigo de multa.

MÚSICA: É baseada em quatro notas que procedem por graus unidos, sobre os quais se fazem muitas consonâncias e coplas sempre com a mesma volta.

LETRA (ortografia semi-medieval):

A CHACONA

Do Restelo a Sacavém
Nem ningola nem ninguém
Tem semelho ao Condestabre
Que le prouge e que le preze
Ho fazermos tanto bem.

E BEM E BEM

O rapaz das coberturas
Que mórre, e cahe pra tráz,
Já não vai à sepultura
Que outra vez, vive o rapaz:
E ho Conde le fizo o bem.

E BEM E BEM

Á filha de Joana estés
Que finou por non mamar
Ao do moinho do Cubo
Que finou por se afogar
Viventa o Conde também.

E BEM E BEM

O mal daquela alfayata
O gram dor de Lopo Afonso
Nos les chega aos corações
Que o Santo Conde los guarde:
Y todo por fazer bem.

E BEM E BEM

E bem Condestabre Santo
Cobrimos com nosso manto
Com nosso manto de Galés
Defendimentos dos males
E fagamos muito bem.

E BEM E BEM

É ainda a Arqueologia a comprovar quanto antigo é o culto à Grande Deusa-Mãe, independentemente dos nomes que adopte de acordo com a ciclicidade dos movimentos religiosos imperantes na mentalidade do tempo de dado espaço histórico, no Cabo Espichel, outrora conhecido dos cronistas gregos e árabes como Promontório Barbárico, e dos latinos como Capresicum Lugum, isto é, Cabo de Capris ou da Cabra[19].

Cabo Espichel, Sesimbra

Com efeito, as Lapas do Bugio e do Fumo, ambas de muito difícil acesso pela alcantilada escarpa costeira sesimbrense, forneceram descobertas surpreendentes dentre vário espólio eneolítico (c. 300 a.C.): junto à entrada da Lapa do Bugio encontrou-se um esqueleto cujo crânio fitava o mar, tendo sido intencionalmente desmembrado e os ossos serrados[20], o que sugere um tipo de ritual funerário isíaco, o que aliás indaga Manuel Joaquim Gandra[21]. Na outra Lapa do Fumo, encontraram-se mais ossadas humanas intencionalmente serradas, e cerâmica de fabrico demasiado esmerado para poder considerar-se de carácter meramente utilitário, campaniforme, argárica, com ornatos a cores, datável da Idade do Ferro e Medieval, designadamente do Período Muçulmano, este também representado por oitenta quirates (moedas) cunhados em Silves, que se verificou haverem sido lançados sobre as sepulturas de presumíveis homens santos (çalás ou “justos” nos cargos de mulâs (ملا) ou “mestres” na teologia e na lei maométicas) venerados pelo Islão[22]. Que terá o mulâ a ver com a mula com que no cabo Nossa Senhora subiu escarpa acima, segundo a lenda sagrada? Ou mesmo com essa outra mula (buraq, termo árabe familiar de baraqa, “bênção”) com que Mahometh subiu ao Céu? Haveria algum ponto de encontro entre o Islão xiita e o Cristianismo heterodoxo, onde a Virginis Aeternis, a mesma Marah corânica, seria o pólo comum?

A acrescer tudo isso, a existência de diversas pistas de dinossáurios, com maior realce nas escarpas da enseada da praia dos Lagosteiros, pretexto para as pegadas deixadas na Pedra de Mua pela burrinha (mula ou muar) que transportou a Senhora encosta acima[23], transpondo-se assim o óbvio geológico para a maior valia da aparição sobrenatural da Virgem, o que recata à finalidade consagratória desse mais um finis-terrae ou lugar sagrado. Assim quis o povo e assim está muito bem, na sua maneira simples e ingénua mas sincera de pensar e sentir o sobrenatural, insensível à discussão científica esclarecida mas sensível à simplicidade da fé iluminada pela graça da Virgem Mãe, a Stella Maris, o que reporta à devoção ao Divino Espírito Santo, soprando onde quer sobre o Oceano da Vida, por aqueles homens e mulheres que dados às fainas do mar caprichoso a Ele e a Ela tantas vezes recorrem nas horas de aflição, ou esses camponeses dependentes, também eles, das boas colheitas que os caprichos da Mãe-Natureza lhes concede. São motivos mais que suficientes para cultuar a Senhora do Cabo, Orago dos saloios que vivem da terra, mas também daqueles que vivem do rio e do mar.

É assim que nasce a fruição hagiográfica da aparição da Senhora da Mua, que os velhos contavam oralmente e que depois Frei Agostinho de Santa Maria transpôs literalmente ao seu Santuário Mariano (liv. II, tit. 72), tendo por personagem central o nauta irlandês S. Brandão, o que coloca o Cabo de Mu na rota marítima das “ilhas perdidas ou encantadas” de algum finado e mítico continente da Atlântida, aqui reachado[24] e até confirmado pelo achado da Tábua Árabe na Lapa 4 de Maio (dia do Senhor das Chagas), na Serra da Azóia, no ano 2000 pelos espeleólogos Rui Francisco e Miguel Amigo, na qual está escrita dois dois lados a Sura 39.ª do Alcorão, prometendo aos justos que “Ele (Allah) o introduzirá em jardins, abaixo dos quais correm os rios”[25].

A lenda sagrada contada por Frei Agostinho de Santa Maria, é a seguinte:

“[Cerca] de 1215 pouco mais ou menos […] uma nau em direitura a Lisboa, no fim de alguns dias estando já na altura de Lisboa, não longe da costa lhe anoiteceu, e sobreveio juntamente uma tão terrível tormenta, e com uma cerração tão obscura que todos se davam por perdidos. A cada instante julgavam tocar em um baixo ou despedaçar-se a nau naquela brava costa; porque além de serem (como estrangeiros) pouco versados nela com a obscuridade da noite, não sabiam onde estavam, nem ainda que o soubessem, lhes podia aproveitar pelo desmalado furor dos ventos, e braveza dos mares, que não deixavam que a nau obedecesse ao leme. Todos os que vinham nesta nau eram cristãos e católicos, como o eram então todos os Ingleses e entre eles vinha um Religioso Eremita de meu Patriarca S. Agostinho chamado Haildebrant (isto é, Brandão), que devia ser Capelão da nau, ou de um fidalgo, que também ali vinha, chamado D. Bartolomeu. Trazia este bom Religioso consigo uma Imagem de Nossa Senhora, com que tinha especial devoção […] a foi buscar no seu camarote para se recomendar a ela, e a pedir-lhe que lhe valesse, e a todos os mais que vinham na nau. Mas não a achou no lugar em que a trazia […]: começou a dar vozes ao céu para que lhe valesse naquele grande aperto, em que ele, e todos se achavam pedindo-lhe valesse: o mesmo fizeram os mais desamparando o governo da nau, pondo-se de joelhos em oração e pedindo com lágrimas a Nosso Senhor que lhes acudisse interpondo o socorro de sua Santíssima Mãe. Eis que de improviso viram em um alto uma grande luz, que no meio daquela escura noite lhe alumia a nau e a viram como o podiam fazer com a luz do Sol em um dia claro. Após isto sossegaram os mares, abrandaram as ondas e se amansaram os ventos, quando a nau à Lua em tranquila bonança. Entenderam por estes sinais ser do Céu aquela luz, e aquela maravilha e assim animados e seguros navegaram para ela, até que vendo-se junto da costa lançaram ferro e se deixaram estar surtos até amanhecer o dia dando muitas graças a Deus, que de tão evidente perigo os havia livrado. Notaram que a luz os guiara e o lugar onde aparecera, para que tanto que fosse claro o dia, irem saber o que aquilo era. Chegou a manhã e saindo a terra Haildebrant (Brandão) com alguns dos principais da nau e subindo ao lugar notado, em que tendo visto a luz, descobriram a mesma Imagem da Rainha dos Anjos que o Religioso Padre Haildebrant trazia no seu camarote e que lhe havia falado dela na ocasião da tormenta em que [a] buscava. Admirados todos de tão grande maravilha e agradecidos juntamente à Senhora pelo singular benefício que lhes fizera, não cessavam de dar graças a Deus e também a sua Mãe Santíssima. Consideravam que o achar-se a Santa Imagem em aquele lugar milagrosamente era mostrar-lhes que tinha feito eleição dele, e que ali queria ser venerada, e assim se resolveram a não a tirar daquele sítio, sendo o principal voto desta deliberação o do nosso Eremita Haildebrant (Brandão), de quem era a Santa Imagem. E para que ficasse decentemente naquele lugar, com esmolas que juntou dos companheiros, e com licença do Bispo de Lisboa, lhe edificou boa Ermida em o mesmo lugar, e junto a ela uma cela, ou aposento para si, e para D. Bartolomeu, que os quis acompanhar naquela solidão tão áspera […].”

Desconheço se São Brandão acaso seja o capitão de mar-e-guerra Sancho Brandão, da mesma época, pertencente à Marinha de Guerra da Ordem do Templo e que, segundo Assis Cintra baseado nos escritos do padre jesuíta Manuel Fialho, terá chegado numa expedição de reconhecimento à “Ilha Perdida do Mar do Ocidente”, apontada como o Brasil, notícia comunicada pelo Rei de Portugal ao Papa Clemente VI, em 12 de Fevereiro de 1343 [26]. Igualmente desconheço se Sancho Brandão acaso será São Brandão… Para todo o efeito, tem-se a navegação sobrenatural afim à via húmida da Alquimia – Macho/Fêmea, Fohat/Kundalini, Sol/Lua, aliás, estes últimos pintados em painéis laterais à entrada interior da Basílica do Cabo, conferindo-lhe carácter astrolátrico correlacionado ao tema da lenda sagrada: Cristo para o Sol e Maria para a Lua, mas também Maria como Lua vestida de Sol; a heterodoxia da leitura iconográfica inclusive é aconselhada pela legenda do azulejo junto ao altar-mar: “Ver o outro sentido além do aparente” – e que é a Arte Magna de Espírito Santo. Assim, há igualmente a crença na presença discreta da Ordem do Templo na divulgação inicial deste santo lugar marítimo do Cabo Espichel[27], desconheço se tal aconteceu, até ao momento não obtive provas disso apesar de saber que os Templários ocuparam vários lugares da margem sul, inclusive povoados dentro do Giro do Círio, mas se isso aconteceu significa que só depois interviu a Ordem do Carmo, encarregada da propagação e popularização da Hipertúlia, do culto miraculoso à Virgem, as Virgini Maris.

A publicação em Lisboa em 1707 do acontecimento milagroso de salvação dos marinheiros ingleses e posterior aparição inexplicável da imagem da Virgem no cimo do cabo, veio a dispô-lo no ciclo e no circuito hipertúlico justificado pelas aparições miraculosas da Virgem. Mais que isso, veio corroborar o que antes, em 1409-10, acontecera com uma velha saveira do Monte da Caparica (a Capa-Rica, tanto quanto a que depois se depôs sobre a imagem) e com um velho saloio de Alcabideche, vizinho de Sintra e freguês de Cascais, que sem se conhecerem tiveram uma visão idêntica: viram uma brilhante estrela levantada sobre o Mar (Stella Maris), ao longe, alumiando sobre o Cabo Espichel, lugar que Nossa Senhora lhes revelara em sonhos, advertindo-os que ali achariam a sua imagem, escondida desde há séculos numa fraga pelo próprio S. Brandão pelo ano de 1215, reinando D. Afonso II de Portugal, tendo a Virgem acrescentado que os devotos lhe deveriam prestar culto[28]. O romeiro saloio e a velha caparicana viriam a encontrar-se em romaria ao Cabo, e depois de aí orarem, ambos fizeram uma ermidinha de alecrim, arbusto saturnino que vegeta abundantemente no lugar, e dentro colocaram a pequena imagem da Virgem Mãe achada entre fragas.

Quererá isso dizer, além do sentido imediato do acontecimento maravilhoso e maravilhado, que terá sido por essa data de 1410 que o Condestável Santo – novel “São Malaquias” da Gesta de Avis, Siva ou do Espírito Santo, empático ao Carmelo, que em egípcio se diz Espichel, tornando este um Carmelo Lusitano em Cabo de “Fim do Mundo” (Finis Terrae), tema aglutinador e revelador do Genius Loci (Espírito do Lugar), para onde confluíram as três grandes religiões monoteístas afro-mediterrâneas (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo) – começou a interessar-se pela fé popular dos saloios e saveiros na Virgem do Cabo, e, com o amplo apoio do mesmo povo, acrescido do real e do religioso carmelita, seria iniciada em 1414 a construção da Ermida da Memória do Milagre aí ocorrido em 1215, possivelmente o ano em que o culto à Virgem Celeste assumiu definitivamente o modelo cristão, e possivelmente largado o primitivo de feições arábicas, antes, moçarábicas.

Ambos esses acontecimentos da salvação da nau de Brandão e da construção da Ermida da Memória, constam nas crónicas posteriores às visões sobrenaturais dessas duas pessoas anciãs, que é dizer, de juízo formado, e serviram para publicitar o privilégio da «descoberta» do Santuário eleito pela Senhora, isto é, o seu enquadramento no Cristianismo, ou melhor, a aceitação e oficialização pelas autoridades eclesiásticas do culto mariano realizado  aí pelo povo desde, quiçá, muito antes da Nacionalidade, como narra a primeira das três lendas (duas já estão narradas, a do nauta S. Brandão e a dos velhos romeiros de visão comum) do Cabo Espichel, cuja origem poderá remontar ao período moçárabe, mesmo tendo forte sabor carmelitano. Diz ela[29]:

“Conta a lenda que na venturosa noite em que a Virgem Mãe deu à luz o Menino Deus, a Serra da Arrábida foi coberta por um clarão extraordinário, que iluminou por completo o Promontório Barbárico (Cabo Espichel). Viu-se então uma enorme nuvem, cheia de resplendores, a qual, como se fora o Sol no seu declínio, foi cair nas águas revoltas do oceano (Stella Maris), onde se sumiu […].”

De volta a Frei Agostinho de Santa Maria, ele é o único autor a dispor a Virgem montada numa jumentinha ou burrinha subindo a escarpa do Espichel, o que remete para tradição claramente moçarábica. Diz[30]: “[…] afirmam que a Senhora aparecera na praia (dos Lagosteiros) que lhe fica embaixo da mesma penha, onde se edificou a Ermidinha, e que aparecera sobre sua jumentinha, e que esta subira pela rocha acima, e que ao subir ia firmando as mãos, e os pés na mesma rocha, deixando impressos nela os vestígios das mãos, e pés. […] De ser isto assim o afirmava a tradição dos que viram estes mesmos sinais, que hoje tem gastado, e consumido o tempo”, acrescentando que a ermida “se fundou no lugar aonde a Senhora parou, naquela liteirinha vivente que a levava”, e que a capela “desfez muitas vezes o tempo; mas a devoção dos que a servem, a reformou outras tantas vezes, apesar dos seus rigores”.

Segundo documentação reservada na Biblioteca Nacional de Lisboa, a oficialização do Círio Saloio do Termo ou do Bodo, constituído pelo Giro entre freguesias (inicialmente 30) da margem norte do Tejo, com deslocação anual e rotativa ao Santuário da Senhora do Cabo,  terá tido início cerca de 1430, “21 anos depois do aparecimento da milagrosa imagem”[31], presume-se por acordo tácito popular, tendo sido canonicamente organizado com o passar do tempo: a Bula Apostólica confirmada em 15 de Maio de 1585, aprovada por Provisão do Cardeal Arcebispo de Lisboa, em 19 de Setembro de 1697, estabelecia que não se criaria aos romeiros “algum impedimento em os caminhos ou passagens de mar aos carreiros, almocreves, barqueiros e mais pessoas que os servirem pelo meirinho dos clérigos ou outras justiças”. O ano de 1606 será o da instituição da Confraria de Nossa Senhora do Cabo, estando o seu compromisso datado de 1671, aquando os “Giros” já se efectuavam há largo tempo[32]. Foi pouco depois dessa última data que D. Pedro II, em 1701, mandou construir a Basílica de Santa Maria de Mua, com traço do Arquitecto real João Antunes, obra terminada em 1707 e de imediato se transladou para a Real Basílica a imagem primitiva da Senhora. Entre 1715 e 1794 edificaram-se as casas destinadas a alojar os romeiros, as hospedarias sobre arcaria com terreiro (arraial) anexo. Também D. João V, D. José I e D. João VI mandaram fazer importantes obras aí, sendo que o primeiro encomendou ao cenógrafo Lourenço da Cunha a pintura monumental do tecto, em arquitectura perspectivada retratando a Assunção; o segundo mandou refazer os altares laterais e repintar o tecto.

O Círio do Termo à Senhora de Mu inclusive chegou, cerca de 1849, pela pompa e aparato que a realeza lhe devotou, a ser chamado de Real Círio dos Saloios, e a a fama de que usufrui até hoje provém sobretudo da protecção que a Coroa lhe deu. Com efeito, a rainha D. Carlota Joaquina confeccionou o manto riquíssimo (Capa-rica – posta em analogia com o Véu ou Manto de Ísis) que revestiu a imagem da Virgem, tendo antes disso o rei D. José I e a rainha D. Maria I oferecido à Confraria do Cabo a bandeira com a imagem de Nossa Senhora bordada a ouro, bem como a monarca D. Maria Pia oferecido, em 1887, a bandeira que os “anjos” usaram no Círio desse ano.

O Círio Real dos Saloios ainda resplandecia de importância no último quartel do século XIX, em todas as freguesias do Termo por onde ele girava. Tal era acompanhado da maior assistência aos romeiros. É como diz Luís Chaves[33]: “Hia antigamente ao Sítio do Cabo no Círio do Termo ou dos Saloios, hum cirurgião da Caza-Real, por conta do Infantado, e levava uma Botica (Farmácia) volante para acudir aos Romeiros em cazo de necessidade”.

Círio é a grande vela de cera acesa benzida e sagrada pela devoção a Orago comum, no caso, Santa Maria do Cabo, expressiva do Espírito Santo vogando sobre o Oceano da Vida justificativo dos predicados de votivo e itinerante em itinerário praviamente demarcado pelo qual vai gradualmente identificando-se com o Divino até á absorção Nele no final da jornada, ou tão-só a Sua aclamação como Pater Majorem dos fregueses, os filius Ecclesiae, dispondo a freguesia como fiel de Maria, Mater Prima, Sua protectora e consoladora, no que o Espírito Santo é Nela.  No fundo, o Círio não deixa de ser peregrinação, e peregrinação é sempre, não importa se consciente ou inconscientemente, uma iniciação móvel, neste caso particularizada como iniciação mariana popularizada na etnia saloia, esta que, acaso, pode não se gostar à primeira, vai-se aprendendo a gostar… Hoje mesmo ela é a nata do povo, simples e rude mas sincero e bom, sempre acreditando nas boas intenções de “seus senhores”, esses “mandantes lá de Lixbôa” que, desgraçadamente, acabam esquecendo a palavra dada com muitíssima mais facilidade que a capacidade de hoje separar o rural do urbano. De maneira que ambos sofrem na mesma medida.

O Giro do Círio à Senhora da Pedra de Mua tinha como cabeça dele a Freguesia de Belas, onde os procuradores se reuniam impreterivelmente a 25 de Março de cada ano para prestar contas e realizar eleições para os novos cargos. O prior de Belas era o juiz executor e o de Barcarena o seu tesoureiro perpétuo. Como disse, inicialmente o Giro compunha-se de 30 Freguesias do Termo dos Saloios, mas após o 10.º Giro 4 delas resolveram abandoná-lo: Bucelas (1709), Unhos (1711), Arranhó (1716) e Mafra (1722), ficando as restantes 26, número que se mantém até hoje. A sua ordenação e a data em que iniciaram o Giro é a seguinte:

1 – S. Vicente de Alcabideche (1431)
2 – S. Romão de Carnaxide, hoje Linda-a-Velha (1432)
3 – S. Julião do Tojalinho, hoje Tojal (1433)
4 – S. Pedro de Penaferrim de Sintra (1434)
5 – Nossa Senhora da Misericórdia de Belas (1435)
6 – Santa Maria de Loures (1436)
7 – S. Lourenço de Carnide (1437)
8 – Nossa Senhora da Purificação de Bucelas (1438)
9 – S. Pedro de Barcarena (1439)
10 – S. Pedro de Lousa (1440)
11 – S. Silvestre de Unhos (1441)
12 – Santo Antão do Tojal (1442)
13 – Nossa Senhora da Purificação de Oeiras (1443)
14 – Nossa Senhora do Amparo de Benfica (1444)
15 – S. Domingos de Rana (1445)
16 – S. João das Lampas (1446)
17 – S. Lourenço do Arranhol, hoje Arranhó (1447)
18 – Nossa Senhora da Purificação de Montelavar (1448)
19 – Nossa Senhora de Belém de Rio de Mouro (1449)
20 – Nossa Senhora da Ajuda de Belém (1450)
21 – Ascensão e Ressurreição de Cascais (1451)
22 – Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas (1452)
23 – S. Martinho de Sintra (1453)
24 – Santo André de Mafra (1454)
25 – S. Pedro de Almargem do Bispo (1455)
26 – Santo Estêvão das Galés (1456)
27 – Nossa Senhora da Conceição da Igreja Nova (1457)
28 – S. João Degolado da Terrugem (1458)
29 – S. Saturnino de Fanhões (1459)
30 – Santa Maria e S. Miguel de Sintra (1460)

Nos primeiros tempos do Círio, a passagem de testemunho de uma freguesia do Giro a outra, era feita no próprio Santuário do Cabo e concretizada através da entrega da bandeira da Confraria pelo juiz da freguesia que saía ao juiz da freguesia que entrava. Saliente-se que tendo em conta o número de freguesias participantes no Giro (26), cada uma delas só festeja a Senhora do Cabo de 26 em 26 anos. No ano de 1751, essa bandeira foi substituída por uma imagem da Virgem feita à semelhança da original – que nunca saiu do Santuário – e a partir dessa data começou a acompanhar os Círios.

Círio de S. Vicente de Alcabideche em 1909

Inicialmente, a procissão do Círio organizava-se segundo uma coreografia de cortejo, que abria com um friso de anjos, seguindo-se a música e os carros enfeitados transportando os romeiros – o que se ajustava a um ludismo que, situado na transição do popular folclórico para o ritmo sagrado, orientava a função colectiva para os Mistérios Iniciáticos.

Em 1893 e devido à pouca afluência de romeiros ao Cabo, foi necessário tomar novo compromisso, onde se consignou que os festeiros se limitariam a levar a imagem peregrina de freguesia em freguesia sem deslocação ao Cabo Espichel, e só quando chegasse a vez da última freguesia do Giro – St.ª Maria e S. Miguel de Sintra – todas elas iriam em procissão ao Santuário de Mua e aí seria entregue a imagem aos festeiros da primeira freguesia – Alcabideche –, recomeçando assim um novo Ciclo ou Giro (o que se enquadra naquele princípio teosófico do Terceiro Logos Criador das Rondas e Cadeias dos Planos de Matéria e peregrinando por elas, evoluindo e fazendo evoluir os seus seres viventes). O facto é que, desde essa data, a imagem peregrina nunca mais voltou ao Cabo, verificando-se assim uma adulteração do ritual primitivo, por ela passar directamente de freguesia para freguesia após 26 anos de ausência. Foi também nessa altura que se perdeu o hábito dos procuradores dos vários Círios se reunirem em Belas, no já referido dia 25 de Março de cada ano, para aí serem prestadas as contas.

Em 1910 e logo a seguir à promulgação da lei separativa do Estado e da Igreja, foi assaltada a igreja-matriz de Alcabideche onde se encontrava a imagem peregrina, provocando-lhe vários danos. A este facto sucedeu um interregno de 15 anos nos festejos a Nossa Senhora do Cabo, que recomeçaram em 1926 com Odivelas a ser a primeira freguesia a reclamar a imagem tomando a iniciativa de a ir buscar à Ressurreição de Cascais, onde fora recolhida do vendaval jacobino anti-eclesiástico, de maneira que foi o Círio do Santíssimo de Odivelas quem suscitou a retoma do Giro.

Comissão de Festeiros de Odivelas e carro dos “anjos” defronte ao Mosteiro de S. Dinis e S. Bernardo (1926)

Depois disso as romarias continuaram, mas já destituídas da grande pompa que possuíam outrora, até que, mais uma vez, foram interrompidas desde 1976 a 1979.

Até finais do século XIX o Círio durava cinco dias[34]. Saía da freguesia que tinha a imagem da Senhora na terça-feira que antecedia a Ascensão (40 dias após a Páscoa: quinta-feira da Ascensão ou da Espiga), e ia depositá-la na Capela de Nossa Senhora das Dores, em Belém. No dia seguinte atravessava o Tejo, enquanto as fortalezas davam salvas de 21 tiros, desembarcando de galeotas e bergantins da Casa Real em Porto Brandão (que herda o nome do santo da lenda descrita pelo supradito Frei Agostinho de Santa Maria).

Uma vez em terra, o cortejo reorganizava-se, fazendo paragem na Capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Daí seguia para a Ermida de Nossa Senhora do Cabo na Banática e para a homónima da Caparica (Quinta da Piedade de Domingos da Costa e Almeida, antiga propriedade de meus familiares), seguindo para o Cabo Espichel pela beira-mar, ao longo do areal. Os romeiros costumavam chegar ao Cabo na véspera da Ascensão, entrando o cortejo no terreiro e dando três voltas a este antes de se dirigir para o interior da basílica.

Os festejos iniciavam-se nessa quinta-feira, dia consagrado, com missa de Requiem, aos festeiros falecidos. No sábado havia solenidade consagrada a S. Joaquim (aludido pai da Virgem Maria), e no domingo acontecia a festa que faziam os que entregavam a imagem de Nossa Senhora. Nesse dia, à tarde, realizava-se a procissão, na qual se incorporavam os festeiros dessa freguesia e da que ali a iam receber. Seguia-se-lhe a entrega da bandeira, no interior do santuário, com Te Deum, Ladainha e Sermão. Os festeiros que entregavam, mais o respectivo prior, o juiz com a bandeira e três anjos, todos se colocavam do lado direito do altar-mor, e os que recebiam, do lado esquerdo. O mestre de cerimónias, que era o prior do santuário, tirava a capa de asperges dos ombros do prior da freguesia que entregava, pondo–a nos do que acompanhava a que recebia. Ao entregarem o Círio, os festeiros passavam todos para o lado esquerdo do altar. Concretizada a entrega era-lhes oferecido um copo de água (tradição que teve início, segundo Ribeiro Guimarães[35], apenas em 1752), ao qual sucedia a entrega das alfaias, lavrando-se acta do sucedido, assinada por todos os presentes. Conservavam-se os festeiros no local até a segunda-feira seguinte, dia em que ocorria o regresso.

Depois da travessia do Tejo para Belém, iniciava-se a caminhada para o respectivo destino, para a freguesia de eleição do Giro. Abria uma força de cavalaria, de imediato o carro do Fogo, seguido pelos juízes com a bandeira e acompanhantes, mais os ternos de chamarelas e três anjos a cavalo, vestidos de soldados romanos. A imagem peregrina era conduzida na sua berlinda puxada por duas parelhas, ladeadas por doze devotos com as tochas acesas. Após ela, os carros triunfais dos anjos das loas (louvores), do padre, dos procuradores, uma galera que levava a música e o habitualmente longo cortejo com a multidão dos festeiros[36].

Berlinda processional da Senhora de Mua chegando a Odivelas vinda de Cascais (2003)

Houve oito freguesias que não foram abrangidas pelo compromisso seiscentista, as quais organizaram os seus próprios Círios a Nossa Senhora do Cabo Espichel[37]: Lisboa (terceiro domingo após o Espírito Santo), Seixal e Arrentela (2.ª oitava do Espírito Santo), Almada (domingo da Trindade), Palmela (15 de Agosto), Azeitão e Sesimbra (primeiro domingo de Setembro). Os Círios organizados na Costa da Caparica possuíam uma organização semelhante à do Giro das freguesias do Termo de Lisboa. A Freguesia era dividida em 4 Varas: 1.ª – Monte da Caparica (onde vivi nove meses e fiz a 1.ª classe da primária escolar, cuja igreja da Capa Rica guarda, como quer a lenda, um tesouro, encobrindo igualmente o segredo que lhe dá acesso – são observáveis dois retábulos azulejares os quais, significativamente, têm por tema o Dilúvio Universal) e Porto da Caparica (Porto Brandão, onde, também infante, ia morrendo afogado e sem ninguém próximo para dar a mão de socorro, contudo “força misteriosa” ou “mão de anjo caridoso” empurrou-me para terra seca. São coisas que não se esquecem…); 2.ª – Trafaria; 3.ª – Costa da Caparica; 4.ª – Sobreda, as quais se revezavam anualmente na organização do Círio e na manutenção da bandeira numa ermida própria até à festa seguinte[38].

Hoje, tudo mudou e muito. Os usos e costumes, sem dúvida. A fé, acaso não. Como também não as freguesias do Giro, e assim também o Santuário do Círio do Termo dos Saloios[39]. Ele lá está, sentinela solene, debruado sobre o Mar Atlântico lavrando as escarpas de Mu. Nada falta, em remate final, para devolver à solenidade litúrgica a pompa mais que justificada merecida de outrora, não faz muito tempo, e que era prova tamanha da unidade social portuguesa reunida em torno de uma única Fé, de uma única Mãe: Santa Maria dos Saloios, do Espichel, de todo o Portugal que é dele este dia[40].

Honra e Glória, pois, à Pátria amada que nos é berço, Portugal, e a todos quantos, no rolar dos séculos idos, por certo votando naqueles do porvir, fizeram as suas grandezas que tão bem e imortalmente a Musa de Camões soube cantar, cujo eco abrasa o coração e empolga a mente. Portugal das Armas, Portugal da Fé, Portugal das Letras, Portugal do Povo que não tem casta e que é todo o Português no Mundo da nossa Diáspora. Morrer a Ideia e a Pátria, jamais! Transformar e Evoluir a Ideia e a Pátria, sempre!

Com esta oração, tenho dito.

 

NOTAS

 

[1] Conferência pública, aqui revista e aumentada, que proferi em 10 de Junho de 2003, no anfiteatro da antiga cisterna da cidadela militar de Cascais, perante as autoridades religiosas, militares e civis, além de vasto povo, por ocasião da chegada aí do Círio Real dos Saloios devotos da Virgem do Cabo Espichel, com a posterior ida para a paróquia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, sede de concelho.

[2] Raphael Bluteau, Vocabulario Portuguez e Latino. Coimbra, 1712.

[3] Frei João de Sousa, Vestigios da Lingoa Arabica em Portugal, ou Lexicon etymologico das palavras, e nomes portuguezes, que tem origem arábica. Lisboa, 1830.

[4] David Lopes, Cousas arábico-portuguesas: algumas etimologias. In Boletim da Segunda Classe da Academia das Ciências de Lisboa, 1917.

[5] Cf. Ana Lúcia Rodrigues Fernandes Vaz, A identidade e o património imaterial saloio: contributos para a criação de uma oferta turística sustentável. O caso do concelho de Mafra. Instituto Politécnico de Leiria – Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, Setembro 2015.

[6] Alexandre Herculano, Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, 84. Obra publicada em quatro secções pela Academia das Ciências de Lisboa entre 1856 e 1917.

[7] Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.

[8] Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

[9] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Sagrada e Profana. Euedito, Lisboa, 2016.

[10] Carlos Guardado da Silva, A estruturação e o povoamento da defesa na Estremadura Islâmica: elementos para o seu estudo. In Turres Veteras V: História Militar e da Guerra. Edição Câmara Municipal de Torres Vedras, 2003.

[11] Francisco Keil do Amaral, O Santuário de Nossa Senhora do Cabo no Espichel. Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1964.

[12] Augusto Vieira da Silva, Dispersos, volume I. Lisboa, 1968.

[13] A repressão aos cristãos moçárabes de Lisboa e a sua consequente chacina, a ponto de poucos vestígios da sua presença na cidade sobreviverem até hoje, deve-se anacronicamente aos cruzados cristãos que conquistaram a urbe e cujos legados papais depressa impuseram à força o direito da lei romana ao direito da lei hispânica. Com efeito, depois da conquista da cidade em 1147 pelas forças chefiadas por D. Afonso Henriques, houveram quezílias entre os católicos romanos e os cristãos moçárabes, talvez o mais grave a posse do senhorio da paróquia de S. Cristóvão, sinal da sua grande importância já na época, vindo o rito romano impor-se ao rito hispânico que aos poucos feneceu até desaparecer completamente. Mesmo assim, permanece a memória, pouco ou nada apercebida, da incorporação moçarábica do santoral arábico que passou ao romano, como seja exemplo a figura do próprio Cristóvão identificado àquela do Kadir por via Miracula (literatura hagiográfica relacionada ao culto histórico), sendo o principal pomo da discórdia histórica e teológica, inclusive litúrgica, entre moçárabes e católicos. Kadir é identificado pelos árabes como um dos companheiros de Moisés, dando a este o nome de Beliah Ibne Fáligue ou Ibne Nuh (Noé), indo encarnar um esoterismo islâmico onde se compreendem ou sintetizam tradições hebraicas relativas ao Patriarca Elias e ao Arcanjo S. Miguel, este o assistente da Sinagoga (Mikael) mas também da Mesquita (Mirrail), que como assistente da Igreja é Miguel. Segundo a lenda sagrada, Kadir terá descoberto a Fonte da Vida Eterna e bebido dela, pelo que não morreu e ainda é vivo, estando em parte incógnita aguardando o momento de ressurgir entre os fiéis. Se Kadir conduz o povo eleito a terra salva do Dilúvio Universal, por sua vez o gigante Cristóvão ou Christoferens é o que “carrega o Cristo” Menino, conduzindo-o a salvo através das águas caudalosas de um vau furioso à outra margem, lenda piedosa indicadora da fé que resiste a todos os caudais de descrença e mantém incólume a Igreja no caminho dos séculos. Por isto, tal como Kadir foi o condutor do seu povo, também Cristóvão é o padroeiro dos peregrinos e viajantes.

[14] Francisco Ildefonso dos Santos, Memórias sobre a Antiguidade das Romarias, e Romaria ao sítio de Nossa Senhora do Cabo. BNL, Ms. 98 da Colecção Pombalina, 1854-1857.

[15] Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, volume II, Lisboa, 1874. Raposo Botelho, Nossa Senhora do Cabo – Resumo Histórico, Lisboa, 1928.

[16] BNL, manuscrito 74, 1585, Apparições de Nossa Senhora da Luz, do Cabo Espichel, etc.

[17] INTT, Chancelaria de D. Afonso V, Livro 24, fl. 40-40v.

[18] Vitor Manuel Adrião, Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993. Vitor Manuel Adrião, Frielas (Memorial Histórico). Edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas, 1996.

[19] Vitor Manuel Adrião, Os trilhos da História Sadina. Revista Cidades, S. Pedro do Estoril, 1988.

[20] Agostinho F. Isidoro, A Lapa do Bugio (Necrópole pré-histórica da Azoia). Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. XIX, fasc. 1, Porto, 1963. José Luís Cardoso, A Lapa do Bugio. In Setúbal Arqueológico, vol. 9-10, pp. 82-225, 1992.

[21] Manuel Joaquim Gandra, Os Círios ou aspectos da Grande Deusa na Estremadura. In Comunicações, publicadas pela Câmara Municipal de Loures, das Jornadas sobre Cultura Saloia – 2 e 3 de Dezembro de 1994.

[22] Eduardo da Cunha Serrão, Cerâmica pré-histórica da Lapa do Fumo – Sesimbra – com ornatos coloridos e brunidos. In Zephyrus, 9, n.º 2, pp. 177-186, 1958.

[23] Miguel Telles Antunes, Dinossáurios Eocretácios de Lagosteiros. Lisboa, 1976.

[24] W. Scott-Elliot, Lendas da Atlântida e Lemúria. Madras Editora, São Paulo, 2002.

[25] Vd. Nova Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra. Edição Câmara Municipal de Cascais, 2011.

[26] St. Brendan´s Search for Paradise. In A brief history of the European Myth of the Garden. Press American Studies and the University of Virginia, 2001.

[27] Maria Clara de Almeida Lucas, A literatura visionária na Idade Média portuguesa. Biblioteca Breve, vol. 105, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1.ª edição – 1986.

[28] J. Raposo Botelho, Nossa Senhora do Cabo (Resumo Histórico), pp. 8-9. Sintra, 1928.

[29] J. Raposo Botelho, ob. cit., pp. 6-7.

[30] Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, t. 2, liv. II, tit. 34, pp. 348-353. Lisboa, 1707.

[31] BNL, Memórias, cod. Pombalina 98.

[32] Francisco Sousa, O Círio dos Saloios a Nossa Senhora do Cabo. In Aspectos Religiosos e Profanos das Festas Populares em Loures, edição do Museu Municipal de Loures, 1993.

[33] Luís Chaves, O Archeologo Portuguez, 21, 70 – 1916.

[34] Manuel Joaquim Gandra, ob. cit.

[35] Ribeiro Guimarães, Summario de Varia Historia. Lisboa, 1872.

[36] Olegário Paz, Loas a Nossa Senhora. In Jornal de Sintra, 12 de Setembro de 1986. Pinharanda Gomes, O Carmo em Loures. Edição da Comunidade Paroquial de Santo António dos Cavaleiros, Loures – 1979. O Trabalho e as Tradições Religiosas no Distrito de Lisboa. Exposição de Etnografia, Governo Civil de Lisboa – 1991.

[37] Frei Cláudio da Conceição, Memórias Prodigiosas de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa, 1817.

[38] Conde dos Arcos, Caparica através dos séculos. Cacilhas, 1974.

[39] Diogo Francisco da Piedade e Costa, História de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa, 1899.

[40] Tanto o Círio à Senhora de Mu – secundado por aquele à Virgem Negra da Nazaré – como a Festa Popular do Império do Divino Espírito Santo, não deixam de ter a influência secreta da pouca ou nada conhecida, pouco importa, Ordem de Mariz, para todo o efeito, bojo da Portugalidade no Mundo dando a este as sementes do seu Futuro que se deseja promissor.

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