A Teosofia e a Lei da Polaridade – Por Zélia Scorza Pires Quarta-feira, Out 18 2017 

Quando uma obra de caridade é criada, frequentemente encontra ela muitos interessados; mas, se o seu progresso depender de estudos e pesquisas da parte de seus membros, o número dos adeptos da mesma obra diminuirá sensivelmente. Poucos são, na verdade, aqueles que, dentro de uma fraternidade, sentem atracção pelos estudos. O que se nota, para tristeza dos Deuses e atraso da Evolução Humana, é um permanente interesse pelos fenómenos psíquicos, chamados muito erradamente, por alguns, de “milagres”, e que em nada colaboram para o progresso espiritual da criatura humana.

Os verdadeiros milagres são sempre fenómenos naturais, realizados por Seres estudiosos das forças da Natureza. São os TAUMATURGOS – Seres que agem, verdadeiramente, dentro das Leis da Teosofia. Há, também, seres que, mesmo ignorando (aparentemente) as forças da Natureza, nascem com a missão de serem “canais” por onde o Poder Divino pode fazer fluir parte da sua força, a fim de aliviar o sofrimento humano.

Ora, estamos num ciclo em que os fenómenos psíquicos não mais deveriam ser encarados com tanto interesse. O que deve ser objecto de atracção para uma criatura humana interessada em evoluir, é o desenvolvimento da Inteligência, o despertar da Mente Superior, que é aquela que nos liga, definitivamente, ao nosso Deus Interior ou Centelha Divina. É esta Mente que fará de cada um de nós um Ser teosófico.

É, sem dúvida, um atraso imperdoável essa atracção pelos fenómenos psíquicos, pois isso significa permanecer num estado de consciência anímico, que foi o atributo desenvolvido na Raça Lemuriana, anterior à Raça Atlante, portanto. Ora, nós já estamos no final da Raça Ariana, quando deveria sobressair o Mental Abstracto, a Mente Superior, que é a Mente do raciocínio superdesenvolvido, do discernimento apurado, das ideias, da percepção das coisas subjectivas, das coisas dos Céus… No entanto, o que se vê é algo inteiramente diferente. Vê-se a quase totalidade das pessoas sentirem-se atraídas pelo animismo, cooperando, dessa forma, para um enorme e irrecuperável atraso na Evolução Humana. A Nova Era, que se aproxima a passos gigantescos, exige desta mesma Humanidade que dê, também, passos agigantados, no que se refere ao seu adiantamento espiritual, sob pena de não ser aproveitada para o Novo Ciclo uma grande parte desta mesma Humanidade. A Terra, segundo nos ensina o Mestre J.H.S., está com a sua rotação mais rápida. O tempo urge, portanto. É necessário que acompanhemos esta nova velocidade ou dimensão… Não há em tal exigência qualquer excesso, como poderia parecer aos não estudiosos do assunto. Trata-se da realização de um trabalho cósmico, que não pode ser prejudicado ou atrasado, pois abrange a tudo e a todos. Estamos no ciclo do rigor, do “ajuste das contas”… A época das súplicas e dos alertas dos Deuses já passou, pois que, lamentavelmente, tais súplicas e alertas não foram atendidas pelos homens, que, insensíveis, persistem nos erros. Referimo-nos aqui aos erros prejudiciais à colectividade, uma vez que os erros restritos, relativos a cada ser humano em particular, são, de certa forma, naturais, já que a Vida é “um perene cair e levantar”… à semelhança da Via Crucis de Jeoshua Ben Pandira, o Jesus bíblico, que mostrou, no seu trajecto até ao Gólgota, o que a própria Humanidade tem que passar para evoluir. Todos os nossos erros (desde que neles não reincidamos deliberadamente), após conscientizados, servem, admiravelmente, de experiências valiosas para a Evolução Humana. Há, porém, actos que são tão desastrosamente nocivos que chegam a atingir a toda uma colectividade, ao povo, à nação, à Humanidade e, finalmente, ao próprio planeta.

É o que se vê actualmente, com as sucessivas e catastróficas experiências nucleares, afectando a segurança da própria Terra e fazendo-a sofrer. Como diz o nosso Mestre, “sofrem até os animais no fundo dos mares”…

Será terrível o que vem por aí como consequência das nossas “brincadeiras” perigosas e irresponsáveis… Sobre tudo isso o nosso Mestre fartou-se de alertar, de suplicar mesmo… Nesse sentido, foram enviadas mensagens até mesmo à ONU, chamando a atenção para o perigo do degelo dos pólos, da energia nuclear “roubada” do Núcleo da Terra… Mas, a face da Terra continua a ser castigada impiedosamente. O tributo a ser pago por nós, por todos esses males impostos à Mãe Natureza, será pesado e doloroso, sem dúvida. Dele ninguém poderá escapar, pois o tempo da tolerância já se esgotou. De facto, atravessamos o ciclo dos efeitos, relativos às causas por todos nós geradas. Estamos num ciclo totalmente lunar, e a Lei do Rigor (KARMA) impõe ao Mundo a sua Justiça perfeita! É o Quinto Planetário agindo com o Rigor que lhe compete, em todo o orbe terrestre, a fim de realizar a selecção da SEMENTE ou dos “Eleitos do Novo Ciclo”!

Os Seres que já têm despertada a Mente Superior, Abstracta, não são compreendidos pelos medíocres e, como consequência, são sempre combatidos, perseguidos até, pois raciocinam muito além do nível da massa comum. Os grandes Génios (ou Jinas) são Seres Solares que raciocinam dentro das leis da TEOSOFIA e, por isso mesmo, sofrem ataques dos lunares, sendo por eles ridicularizados, escarnecidos e caluniados.

O mundo ainda está longe de ser um mundo teosófico, mas em todas as épocas, por mais difícil que tenha sido, sempre houve Seres que vivenciaram a TEOSOFIA, que tentaram, à custa de muitos sacrifícios, propagá-la. Graças a esses primorosos Seres, a TEOSOFIA, como uma rosa desfolhada, deixou, em várias partes do mundo, um pouco do seu precioso perfume…

Um dos aspectos mais importantes da MISSÃO do nosso Mestre, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, foi o de “despertar” a Humanidade para a TEOSOFIA, através do Movimento que , em sua primeira fase, tomou o nome de DHÂRANÂ, e que, em sua segunda fase, ficou conhecido como SOCIEDADE TEOSÓFICA BRASILEIRA, em homenagem à incomparável mártir do século passado, que foi Helena Petrovna Blavatsky, de cujo trabalho foi o nosso Mestre, neste século, o continuador, mas no sentido de ir adiante, ir além, vindo por isso a dar-lhe a designação própria de Teosofia Eubiótica, ao criar o neologismo EUBIOSE. Aliás, toda a vida do nosso Mestre constitui-se num exemplo incomparável de “vivência eubiótica”, razão por que ela só foi compreendida por aqueles que alcançaram, realmente, a condição de discípulos verdadeiros. Discípulos verdadeiros de J.H.S. são aqueles que aceitam e vivem a TEOSOFIA EUBIÓTICA. Ora, viver a EUBIOSE é transformar o Eu inferior, animal, em Eu Superior ou Divino. O homem educado, desde pequenino, eubioticamente, viverá sempre em harmonia com as Leis da Natureza e será, no futuro, um homem superior (ou “super-homem”, no sentido filosófico). Eis porque a Humanidade do Futuro será uma Humanidade feliz, harmónica, perfeita…

Todos nós somos uma miniatura do Universo e, também, um espelho que o reflecte. Enquanto não vivermos em sintonia perfeita com ele, seremos como um espelho partido, a reflectir imagens deformadas. Eis uma das razões para a crença popular que afirma “dar azar” o espelho partido. Sim, porque enquanto a Personalidade reflectir imagens defeituosas, não estará adequada a ser veículo de expressão do nosso próprio Ego Divino ou Deus Interior. A palavra EUBIOSE é composta pelo prefixo grego EU, que quer dizer “bem, belo, excelente”, e BIOSE, “vida, vivência”, de fácil adaptação, próspero (na mais alta acepção espiritual), de fácil adaptação às Leis do Universo!

Como todos devem saber, nas escolas e nas faculdades os estudos não são de natureza teosófica, pois estão muito distanciados da Lei Universal e da Ciência Iniciática, além de contrariarem, na maioria das vezes, as verdadeiras tendências e anseios dos alunos pela forma como são apresentados. Os estudos num verdadeiro Colégio Iniciático, como é o nosso, obedecem a uma outra sistemática, sendo dados, em grande parte, de modo teatralizado, pois que são encenados ritualisticamente, para que haja a vivenciação, pelo discípulo, dos ensinamentos do nosso Mestre. Tem-se, neste caso, a educação e a instrução, simultaneamente. Conforme afirma um Grande Ser (Dr. Maurus), a Instrução refere-se à Inteligência e a Educação refere-se à Emotividade. Diz Ele ainda que “uma instrução que cansa, uma educação que oprime, não é eubiótica… Deve-se pôr o educando em condições de continuar aperfeiçoando-se por si mesmo, quando já não esteja sob a direcção dos seus mestres”… Foi justamente isso que o nosso Mestre, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, fez com os seus discípulos.

Dando-nos as necessárias “ferramentas”, resta agora manejá-las com equilíbrio, sem fanatismos, pois o exagero, em tudo, é sempre nocivo, prejudicial, doentio. Por isso mesmo, é preferível não se crer em coisa alguma a se tornar um fanático. Continuando, diz o mesmo Grande Ser que “é desbiótica (e, portanto, nociva) a preguiça, a avareza, o orgulho, a vaidade, e muito pior que todas elas, o egoísmo”.

Com a teatralização do ensino em nosso Colégio Iniciático, o aluno sincero aprimora o físico, o emocional e o mental. Aprimora o físico porque as músicas (mantrans) e as yogas da nossa Obra têm o poder de transformar, aos poucos, os órgãos físicos, de modo a torná-los mais sensíveis à espiritualidade. Esta transformação não se opera só visivelmente, mas sobretudo internamente. Vai ocorrendo uma lenta e progressiva sublimação desses órgãos, cujos resultados se fazem notar na parte emocional ou psíquica. Por seu lado, as emoções grosseiras, banais, fúteis, inferiores (e sempre prejudiciais), vão sendo transmutadas em emoções nobres, subtis, delicadas, superiores, dando como resultado um aumento considerável do potencial do intelecto, transformando-o em Inteligência Superior, em Sabedoria Divina.

A Mente passa, então, a raciocinar abstractamente, ou seja, passa a usar a Razão superior, que é o elo que nos permite o desenvolvimento de atributos ainda mais subtis dos estados de consciência mais elevados, ligando-nos de vez ao TODO, a DEUS, do qual, um dia, todos viemos, o que nos comprova que a TEOSOFIA sempre existiu em nosso próprio interior, tendo sido por nós esquecida, ficando adormecida, entorpecida pelos múltiplos aromas emanados dos vários Planos em que se manifesta a Vida Universal. Com o despertar da Mente Superior ou Abstracta, realiza-se uma espécie de “Eucaristia Mental e Coracional”, fazendo com que se transborde, aos poucos, o Conhecimento Divino, que é a mesma TEOSOFIA, e que todo o ser humano traz, latente, dentro de si… Esta Sabedoria Divina já existe, portanto, como uma “enciclopédia orgânica”, impressa dentro de cada ser humano, faltando apenas, a cada um, abri-la, folheá-la, o que se consegue fazer através dos vários renascimentos e mortes, ou seja, das sucessivas reencarnações. É a chamada Roda da Vida.

Dentro do simbolismo da nossa Obra, a POLARIDADE (ou Dualidade) manifesta-se como “Face do Rigor” e “Face da Misericórdia” ou “Face do Amor”… Para seguir as Leis da Teosofia Eubiótica, a criatura humana tem que expressar, em si mesma, essas duas “Faces”, equilibrando-as. A do “Rigor”, para consigo mesma, para com os seus pensamentos, as suas atitudes, solicitações íntimas, etc., mantendo-se, em consequência, sempre respeitosa para com as coisas divinas, ou seja, trabalhando com dedicação para a rápida realização dos planos da Lei. Sim, porque nem todo o trabalho é eubiótico. A esse propósito, diz o mesmo Grande Ser que há pouco mencionámos que “não é eubiótico o trabalho que desperdiça as faculdades em vez de desenvolvê-las; não é eubiótico o que esgota as forças além do reparável; não é eubiótico o trabalho que não deixa uma sensação de prazer ou de felicidade”… Quanto à “Face da Misericórdia” (ou do Amor), devemos manifestá-la para com todas as pessoas e coisas, mesmo quando recebemos ofensas e calúnias. Assim foi HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA; assim é a TEOSOFIA, que pode ser resumida nas três palavras: Trabalhar, Amor e Perdoar… Esse é o lema do nosso Mestre e é o que Ele espera dos seus discípulos. A “Face do Rigor” expressa a Justiça, o Poder Temporal, o Poder realizador, o Poder de comando, o Poder guerreiro (mas o verdadeiro, que é o da luta contra a ignorância), e a “Face da Misericórdia” (ou do Amor) expressa a Redenção, a Bênção, a Salvação, a Compaixão, a verdadeira Mística, a Revelação, etc.

A Consciência Cósmica (ou Deus), em sua função criadora, é sempre dual ou polarizada.

Assim sendo, a POLARIDADE é o aspecto básico da Manifestação, do Demiurgo! As Centelhas, saídas da Consciência Universal dual ou polarizada, constituem as Mónadas Humanas. Seguindo o caminho evolucional, as Centelhas atravessam os vários Planos da Forma, atraindo para si os elementos materiais de cada Plano. Desse modo, elas atraem para si a matéria chamada RAJAS, que representa a Emoção, formando a Alma ou Corpo Psíquico. Uma vez formada a Alma, as Centelhas continuam a sua trajectória evolucional e atraem a matéria denominada TAMAS, que é a mais densa, constituindo com ela o Corpo Físico. Essas matérias (ou energias), chamadas RAJAS e TAMAS, representam-se de forma mais subtil ou menos subtil, conforme os Planos e subplanos em que é repartida a Vida Universal. Na marcha da Evolução, a polaridade “latente” nas Centelhas ou Mónadas Humanas se desprende e cada parte adquire corpos adequados à sua vibração, sendo cada qual contraparte perfeita do outro, isto é, conformando pares ou casais, que devem se identificar nos vários Planos da Matéria. É a essa união espiritual (ou “casamento cósmico”) que se refere a conhecida frase: “O que Deus uniu, o Homem não pode separar”… Esse é o significado da tradição de Adão e Eva.

É a “maçã inteira”, que pode simbolizar a Centelha Divina ou Mónada Humana, e a “maçã partida” ou “provada”, que pode simbolizar a polaridade, ou os casais.

Apesar da frequência vibratória dessas Centelhas ou Mónadas ir-se modificando à medida que atravessam Planos mais densos, no entanto, elas mantêm intactos os dons divinos que lhes são próprios. No Plano da face da Terra, podemos considerar esse dom divino como sendo a Voz da Consciência ou o Deus Interior. Cada Mónada Humana (completa, isto é, polarizada) tem uma finalidade de ser e de existir que lhe é dada pela Consciência Universal: é a missão de cada um… seja ela grande ou pequena, pouco importa, pois todas fazem parte dos planos divinos. No interior de cada um pulsa o verdadeiro Ser, que no seu aspecto universal é chamado de Homem Cósmico, e que é o mesmo JEHOVAH das Escrituras Sagradas. Em seu aspecto polarizado esse Homem Cósmico é o mesmo ADAM-KADMON das tradições cabalistas, o qual, na face da Terra, é conhecido como ADAM-HEVE ou Adão e Eva!

O DEVER de cada ser humano é procurar conhecer esta Lei que vive dentro de si mesmo, e cumprir a missão para a qual foi destinado. Por isso, a Iniciação realizada num verdadeiro Colégio Iniciático, como é o nosso, concede aos discípulos as preciosas “ferramentas” para uma rápida conscientização. Sem a Iniciação Real, a ampliação da consciência processa-se lentamente, podendo até ocorrer que o total dos renascimentos concedidos pela LEI não seja suficiente para certas criaturas. De certa forma, a Humanidade passa, actualmente, por uma Iniciação Real, que é a do sofrimento, a do chamado “resgate kármico colectivo”, como prestação das dívidas acumuladas em vidas passadas.

Eis, pois, a razão do existir: sabermos quem somos, de onde viemos e para onde vamos. São as três enigmáticas questões da Esfinge propostas a todos os Peregrinos da Vida, que somos todos nós. Essas perguntas, no entanto, deixam de ser enigmáticas para todos os que se iniciam nos Grandes Mistérios! A própria LEI estabelece, na Suprema Perfeição, que o ser humano que não lograr se conscientizar plenamente da razão do existir, ao longo das 777 encarnações previstas, ficará fora da Roda da Evolução. Uma famosa sentença, de grande sabedoria, afirma que “a caravana passa, embora ladrem os cães”… Ela demonstra a dinâmica da Evolução, pois a “caravana” é a própria Lei Evolucional em sua marcha para o Infinito, e os “cães” representam os seres que falam muito mas que não resolvem nada, que não querem esforçar-se para evoluir. Os valores espirituais são, pois, os únicos que seguem connosco após a morte do corpo físico. Para que haja um acúmulo de tais valores (como verdadeiras pérolas no colar da Divina Mãe), a LEI concede a cada ser humano a oportunidade de 777 vidas (ou renascimentos), para que no final desse prazo (que abrange milhões e milhões de anos) cada um tenha se encontrado, isto é, tenha despertado o seu Deus Interior.

O Eu Superior (ou Divino) à medida que vai descendo nos Planos Inferiores ou Humanos, vai perdendo a noção da sua realeza em virtude da crescente densidade dos Planos, por isso mesmo chamados de “Planos tenebrosos da Matéria”… e que facilmente iludem a todos e mais ainda aos que não mantêm a Vigilância dos Sentidos, como bem diz a nossa Grã-Mestrina D. Helena Jefferson de Souza.

Para escapar dessas mayas (ou ilusões) há que se praticar o “Vigiai e Orai” recomendado por Jeoshua Ben Pandira, o Cristo, e que é a mesma Vigilância dos Sentidos.

O processo de Evolução, que é representado pela Roda da Evolução ou a divina Cruz Suástica (a positiva, portanto), consiste em fazer voltar ao seu ponto de origem as Mónadas Humanas (ou Centelhas Divinas), porém trazendo as experiências acumuladas durante os milénios e milénios de existência nos vários Planos em que é repartida a Vida Universal.

Vimos, anteriormente, que a POLARIDADE é a Lei da Manifestação. Assim, temos os mais variados pares de opostos, como por exemplo: o dia e a noite, a sabedoria e a ignorância, o espírito e a matéria, o bem e o mal, o quente e o frio, o positivo e o negativo, a luz e a treva, o homem e a mulher, a força centrífuga e a força centrípeta, a alegria e a tristeza, o oriente e o ocidente, a sinarquia e a anarquia, o amor e o ódio, o movimento e o repouso, o nascer e o morrer, o inspirar e o expirar, o fogo e a água, o plantar e o colher, a suástica e a sovástica, a vigilância e o sono, o círculo e o quadrado, o anjo e o assurim, o Amor de Deus e a Ira de Deus, a paz e a guerra, , a Luz de Deus e a Sombra de Deus, Deus e Diabo, etc., etc.

Todos esses pares de opostos filosóficos que citámos são apenas alguns exemplos da Lei da Polaridade manifestada em todo o Universo. A frequência vibratória e o estado de consciência de todos os elementos existentes, variam conforme os Planos a que pertencem. Os elementos fogo e água nos Planos mais subtis, por exemplo, não podem ser comparados com os elementos fogo e água que conhecemos no nosso Plano, pois são reflexos daqueles. Assim também o é em relação ao Sol que nós vemos, que é reflexo ou espelho de um outro Sol, o SOL CENTRAL existente no interior da Terra, conforme ensina o nosso Mestre J.H.S.

O homem teosófico é um Homem Verdadeiro, no seu alto sentido, e é assim definido pelo Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA: “O Homem Verdadeiro, estando colocado no centro, não participa mais do movimento das coisas, mas na realidade dirige esse movimento, por sua simples presença, porque nele se reflecte a Actividade do Céu”… Tal Ser usa, com assiduidade, a Linguagem do Segundo Trono (Céu), que é doce e branda. Foi esta Linguagem que deu origem à poesia, à música, ao ritmo, à harmonia, ao bailado sagrado, à divina estética e à delicadeza de costumes. Tal Linguagem fica gravada no espaço sonoro do AKASHA Médio, que é uma espécie de biblioteca do Universo. Se os cientistas, dentro da avançada tecnologia moderna, descobrissem um aparelho capaz de captar o que vibra no AKASHA Médio, poderiam ouvir a Voz dos Grandes Mestres do Passado, dos Avataras, que são “Manifestações de Deus” ou a “Descida da Lei” em corpo físico, humano.

A nossa Obra é um Trabalho Universal.

Revista Aquarius, Ano 3, N.º 12, 1977

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Padre António Vieira, o Paiaçú da Cultura Luso-Brasileira – Por Hugo Martins Terça-feira, Out 3 2017 

No passado dia 23.6.2017, no Largo Trindade Coelho junto à igreja de São Roque, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi inaugurada a estátua do padre António Vieira, única no País, da autoria do escultor Marco Fidalgo. Local marcado por forte carga simbólica e pela intensidade dos sermões proferidos pelo religioso nesta igreja, Vieira foi o jesuíta aclamado pelos tupinambás, tupis, aimarés, etc., autóctones do Brasil, o Manu ou Paiaçú, “Grande Pai”, carinhoso protector dos índios, dos escravos, dos negros, dos judeus, das crianças desamparadas, enfim, dos desprotegidos da sorte, ao par de escritor profícuo de verbo inflamado propagador do ideal português de Quinto Império, eivado de conceitos herméticos tendo-lhe valido a prisão várias vezes, sob suspeita de heresia, nos cárceres da Inquisição em Coimbra e Lisboa; também por isso, foi consignado vate e “Imperador da Língua Portuguesa” pelo grande poeta Fernando Pessoa. É no encontro com esta personagem singular marcante da religiosidade e cultura luso-brasileira, iluminado por excelência no conceito salvífico de iluminação espiritual do Mundo no seu derradeiro V Império ou Tempo de Espírito Santo, que hoje celebramos e honramos a sua vida profícua, o seu ideal de vida e a sua vida intelectual cujo legado deixado nos seus inúmeros escritos é património da Humanidade, dedicando-lhe este pequeno artigo, em guisa de bosquejo biográfico,  ficando para memória pública do leitorado geral.

A Companhia de Jesus e o Sacerdócio

O Padre António Vieira (Lisboa, Bairro da Sé, 6.2.1608 – São Salvador da Bahia, Mosteiro de Jesus Salvador, 18.7.1697), numa abordagem simplificada, pode se definir como orador e escritor, nisto sendo também patriótico, simpático incontestável do partido do duque de Bragança, futuro rei D. João IV, filantropo e caritativo na execução constante da maior das virtudes teologais, a caridade, e sebastianista possuído de ideais heterodoxos afins à “transladação imperial” (translatio imperii) de cunho lusíada que chocaram frontalmente, inúmeras vezes, com a ortodoxia romana vigente. Filho de pais de condição modesta, as suas origens surgem dos percalços de um amor proibido que se sobrepôs à visão moralista e segregacionista da sociedade de então. O seu avô, criado dos condes de Unhão, enamorara-se de uma mulata que também os servia. Expulsos da casa senhorial, foram depois readmitidos nela, porque o “pecado” do amor acabara tendo no casamento a sua sagração aceite pela Igreja. Este episódio dá a Vieira origem africana e inclusive herdando ele próprio o aspecto mulato, se bem que na sua biografia sejam incertas e mínimas as referências ao facto, mesmo com isso dando-lhe a força vigorante de um crisol de raças que defenderia calorosamente da prepotência dos poderes políticos e religiosos instituídos, como foram os judeus segregacionados na Europa, os negros escravizados de África e os índios perseguidos no Brasil.

Em 1614, com 6 anos de idade, partiu com a sua família para o Brasil, instalando-se na então capital São Salvador da Bahia, por o seu pai servir na Relação então criada, o que o obrigou a vir buscar a família. Foi nessa cidade, no colégio dos jesuítas, que António Vieira passou de aluno aplicado a noviço dedicado, com 15 anos de idade. Relata-se que isso relaciona-se com o episódio de certa noite, fortemente impressionado com o que ouvira no sermão de padre Fernando Cardim acerca do Inferno, o rapaz fugira da casa paterna para ir pedir aos religiosos que o admitissem como noviço na Companhia.

Às prodigiosas capacidades do estudante não faltavam as virtudes que melhor as poderiam fecundar. Era faminto de saber e ainda mais do prazer de agir, a ponto de – conforme declara na sua defesa perante a Inquisição – numa fase do seu noviciado ter feito voto de dedicar-se exclusivamente à actividade de catequizador dos índios, renunciando à exclusividade da ortodoxia do sacerdócio indo aprofundar-se no conhecimento das línguas indígenas, necessárias para essa missão. Os seus superiores quiseram desviá-lo desse propósito e demovê-lo de tal voto. Os talentos do jovem estudante eram demasiado elevados e raros para serem despendidos em misteres que outros, de bem mais modestas capacidades, bem o podiam substituir. Mas sem o desviar inteiramente dessa devotado vocação pela actividade pastoral junto dos menos favorecidos, a quem tantos e generosos esforços haveria de consagrar, desde cedo foram-lhe confiadas missões onde as suas elevadas aptidões tiveram oportunidade de brilhar. Mesmo antes de receber a ordenação sacerdotal, em 1635, estreou-se como diácono no púlpito e na catequese dos índios. Em 1640, na igreja de Nossa Senhora da Ajuda de Salvador da Bahia, pregou o célebre Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, abominando a perseguição aos índios pelos holandeses, protestando a ilegitimidade da sua presença no solo português da colónia, defendendo a legitimidade soberana de D. João IV de Portugal, revelando assim o seu alto senso patriótico.

A Corte de Lisboa e a Defesa dos Fracos – Índios e Judeus

De 1641 a 1652 ocorreu a sua primeira estadia na Europa, e no ano de 1644, retido pelo rei, António Vieira vem a Portugal acompanhando D. Fernando de Mascarenhas, filho do vice-rei, para prestar homenagem ao novo monarca, D. João IV. Este a quem ele próprio, no seu Sermão dos Bons Anos, transferiu a fé e a incarnação que os sebastianistas depositavam no rei perdido, D. Sebastião, em Alcácer Quibir. Ganhou o prestígio e a protecção do monarca que o elegeu pregador da corte, e a sua influência foi intensa a ponto de mover o clero, a nobreza e o povo na contribuição, em móveis, imóveis e pessoas para a Guerra da Independência do jugo filipino de Espanha, teimosa em manter-nos numa forçada união que durante 60 anos procurou transformar em sujeição: Vos estis sal terrae (“Vós sois o sal da terra”), foi o termo impulsionador que utilizou em 13 de Junho de 1654 no seu Sermão de Santo António aos Peixes, como exórdio aos homens, pregado na igreja de S. Luís do Maranhão, no qual revela grande sagacidade no manejo e aplicação da simbólica aos conhecimentos teológicos e cosmográficos da época, aplicando-a, por exemplo, numa analogia dos três elementos naturais com os três estratos sociais: fogo/clero, ar/nobreza, e água/povo. Além de pregador real, também foi confessor e conselheiro do rei, que o nomeou embaixador do reino, encarregado de espinhosas missões, em França, Holanda e Itália.

De 1652 a 1661, António Vieira está no Brasil, por licença régia, não para repousante trégua da sua pugnacidade mas para retomar a vida missionária, aplicando-a a nova luta. Levou consigo um decreto real para a libertação dos índios. Esta luta seria agora contra os colonos ricos, donos de fazendas e roças, cuja economia não podia evitar as entradas no sertão, a caça aos índios para os fazer escravos necessários aos trabalhos forçados dos engenhos de açúcar, dos cafezais e de quanto mais se cultivava na terra. Provocou as reacções violentíssimas violentas dos colonos – momento alto foi quando pregou os então famosos Sermões do Rosário e de Santo António aos Peixes. Sobre a escravatura do índio, colocou na sua defesa as seguintes palavras:

“O que não são [os índios], sem embargo de tudo isto, senão escravos […], nem ainda vassalos. Escravos não, porque não são tomados em guerra justa; e vassalos também não, porque, assim como o espanhol ou o genovês cativo em Argel, contudo é vassalo do seu rei e da sua república, [também] assim o não deixa de ser o índio, posto que forçado e cativo, como membro que é do corpo e da cabeça política da sua nação, importando igualmente para a soberania da liberdade, tanto a coroa de penas como a de oiro, e tanto o arco como o ceptro.”

Adiantando dirigindo-se directamente à aristocracia agrária do Maranhão: “Só resta a última razão, ou sem razão, por que os senhores desprezam os escravos, que é a vileza e miséria da sua fortuna. Oh fortuna! […] Virá tempo, e não tardará muito, em que esta roda dê volta, e então se verá qual é a melhor fortuna, se a vil e desprezada dos escravos ou a nobre e honrada dos senhores”. Rematando: “[…] solteis as ataduras da injustiça, e que deixais ir livres os que tendes captivos”.

Nessa sua acção missionária, marcadamente revolucionária, despendeu enorme esforço pastoral na tentativa de mudar as mentalidades, tendo até conseguido do rei dispositivos legais contra os excessos inumanos do colonato, num autêntico apostolado em nome da Companhia de Jesus. Isto gerou-lhe a antipatia feroz não só dos senhores escravocratas, mas igualmente de outras ordens religiosas, como a Dominicana e a do Carmo, rivais do Apostolado Inaciano, às quais não se estenderam os privilégios e vantagens feitos à Companhia. A oposição sobretudo político-económica chegou ao ponto de depois, no século XVIII, os jesuítas serem expulsos do Brasil, ao grito de: Abaixo os urubus! Fora os urubus!

Na sua segunda estadia na Europa (1661-1681), marcada pelo Sermão da Epifania perante a rainha regente de Portugal D. Luísa de Gusmão e da sua corte na Capela Real de Lisboa, em 1662, Vieira defenda a Missão no Maranhão como lugar onde ocorreu a Segunda Criação e onde ocorrerá a Segunda Epifânia. Prova a responsabilidade da Coroa Lusitana com a propagação da Fé mediante três alegorias factuais: a alegoria da Criação do Mundo, a alegoria da conversão dos Reis Magos e a alegoria do Bom Pastor. Nessa sua transposição do texto bíblico ao messianismo nacional, Vieira revela abertamente a sua afeição ao milenarismo hierático que haveria de atirá-lo nos cárceres da Inquisição em Coimbra (1665-1667).

António Vieira, na metrópole, já não possuía a mesma protecção que tivera antes de D. João IV, antes encontrava uma corte hostil inteiramente diferente daquela que o favorecera e que se formara em torno do novo rei D. Afonso VI, sob a administração do Conde de Castelo Melhor, primeiro ministro plenipotenciário. Mas o bom padre jesuíta não tinha contra si apenas o ódio dos escravocratas de aquém e além-Atlântico: contava ainda com a oposição dos inimigos do judaísmo, enfurecidos por tudo quanto ele obtivera de D. João IV a favor da gente-de-nação – os judeus batizados – cujos recursos económicos e fiduciários haviam contribuído, e esperava-se obter maior contribuição ainda, para a defesa da Monarquia e da Independência Nacional em perigo. Sobretudo, eram contra ele os dominicanos do Santo Oficio, alarmados, na rigidez da sua teologia segregacionista, com a proclamada ideia do Quinto Império Português, a qual naturalmente acolheria os hebreus, os africanos, os árabes e os índios do Brasil, todos convertidos no batismo em Cristo. O grande missionário, nos longos e místicos solilóquios durante as suas andanças pelo sertão brasílico, lendo o Livro de Horas e lembrando as profecias bíblicas ajustadas ao conceito de Quinto Império Universal que partiria de Portugal, reconhecia que essas promessas divinas haveriam de cumprir-se, por serem o único meio legítimo na Palavra de, num prazo compatível com a Vontade de Deus, poder realizar-se a cristianização da Humanidade inteira. Mas por meios exclusivamente humanos ou ordinários, dizia-lhe a experiência ser impossível tal sonho, tamanha utopia tornar-se realidade. Mas quem seria o Soberano desse Quinto Império? Cristo assegurado por São Bento alumiado pelo Divino Espírito Santo? Poderia ser, a escritura sagrada o assegurava. D. Sebastião assegurado por seu homónimo S. Sebastião? Também poderia ser, já que no Quinto Império do Mundo o trono (rei) estará colado ao altar (santo). O Soberano do Quinto Império é o Rei do Povo (Humanidade) que, mais do que nenhum outro, em lonjura de tempo e largueza de espaço, empenha-se em colaborar com Deus Pai (Patris) na efectivação do seu Reino (Pátria). Sobretudo o Povo que os profetas nacionais – Gonçalo Anes o Bandarra, principalmente – indicavam como o Eleito de Deus para tal Missão, ou seja, o Português de Porto-Graal, conforme está no sinal redondo afonsino.

Processo de Inquisição e Processo de Defesa

É neste ponto que gostávamos de deixar ao leitor, antes de descrever o processo, a homenagem ao grande historiador e ensaísta Hernâni António Cidade, responsável pelo estudo e divulgação do processo inquisitorial de António Vieira publicado em edições sob o título Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, na Universidade Federal de Salvador, Bahia, 1957, e depois em dois grossos volumes pela Editora Arcádia, Lisboa, insertos na colecção “A Obra e o Homem”, 1979. Posto isso, avancemos para o Processo de Inquisição ou Inquirição ao padre António Vieira.

Padre António Vieira (quadro em óleo sobre tela, 90 x 66 cm, autor desconhecido). Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Após a morte de D. João IV, seu protector, a vida do padre António Vieira complicou-se pelo número de inimizades geradas, não só pelo humanismo e senso de justiça social da sua acção missionária, incansável e sincera, mas também pelo idealismo hierático com que encarava e expunha, à luz das visões proféticas da Bíblia e dos biblicistas, a História do Mundo. O leitmotiv da acusação contra ele foram as cartas que enviara ao seu amigo e irmão de Companhia, o bispo do Japão, André Fernandes, nas quais expusera a sua tese acerca do já referido Quinto Império Universal, considerada próxima ou mesmo herética por sua proximidade às ideias messiânicas do judaísmo. Denunciada essa correspondência incriminatória e sem alternativa para proteger o seu amigo, o bispo André Fernandes foi obrigado a entregá-la ao censo do Tribunal do Santo Oficio, vindo a constituir a base de acusação de heresia ao padre Vieira que na ocasião estava em Coimbra onde foi detido.

A Inquisição, convocando-o à mesa do Santo Tribunal, sabendo-o já sem a protecção do rei e da corte, deu largas ao seu ódio contra o santo padre. Durante dois anos têm-no detido com residência fixa numa casa de repouso ou retiro da Companhia, nos arredores da cidade coimbrã. Depois encarceram-no e retêm-no mais dois anos, sob a acusação de heresia e conspurcação da fé tomando ad litteram o texto de Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda Vida de el rei D. João o Quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo Padre António Vieira. Acusaram-no de anunciar a ressurreição de D. João IV, entretanto morto, com base no judaísmo de Bandarra, e augurar para esse rei um império ao mesmo tempo espiritual e temporal, de grandeza jamais sonhada, cuja cabeça seria Portugal. Tomando a sua própria defesa perante o Tribunal do Eclesiástico, António Vieira fê-la vigorosamente demonstrando profundo conhecimento teológico, político-social, argúcia e técnica retórica; o inquisidor Alexandre Silva, encarregado dos interrogatórios, teve de aceitar a sua derrota perante aquela inteligência lúcida servida por poderosa dialética, que a doença não chegava para destruir. Só em 1667, velho achacado já cansado de lutar, aceitou as censuras e confiou na piedade do Sacro Tribunal, na estreita cela da sua prisão, doente, cada vez mais enfraquecido por hemoptises frequentes, agravadas por sangrias, normais na medicina do tempo; desdenhando isso, constantemente, várias vezes por dia, os “santos” inquisidores arrancavam-no do cárcere, arrastavam-no para a mesa da inquirição e, à vista da ameaça dos instrumentos de tortura, sujeitavam-no a cerrados e longos interrogatórios, procurando obrigá-lo a reconhecer de viva voz e por escrito que as suas proposições eram de heresia, ao que ele contrapunha sempre que as mesmas não eram heréticas por não transgredirem a ortodoxia da escritura sagrada, tanto na parte velha como na nova. Por fim, ao ouvir que o próprio Sumo Pontífice Clemente X declarara a sua doutrina como confusa da fé, sucumbiu, deu-se por derrotado, mas não sem antes entregar ao Conselho Geral do Sacro Tribunal a sua Representação ou Defesa que foi escrevendo no cárcere, sem outro auxilio senão não o da memória. A leitura da própria Bíblia fora-lhe proibida, só lhe sendo consentido o manuseio do Breviário. Apesar de tudo, foram numerosíssimos os sábios convocados ao conclave teológico que, ao apelo da sua memória, em espírito se reuniram no seu cárcere, dando-lhe apoio e fornecendo-lhe argumentos. A defesa de António Vieira é densíssima em erudição e poderosíssima em dialética. Nela há surtos admiráveis de eloquência, às vezes veemente, às vezes lírica, sempre certeira. Também não faltam as amargas reacções contra a injustiça dos homens e, segundo o providencialismo de Vieira, o abandono de Deus…

“Mas é Deus tão bom e liberal, que os prémios com que paga uma pequena faísca de zelo, ao mais indigno operário desta vinha, são, como diz o mesmo S. Paulo, vincula et carceres!”

Apesar de tudo, o grande jesuíta, o genuíno apóstolo de Jesus, foi condenado na tarde de sexta-feira de 25 de Dezembro de 1667 (in Torre do Tombo, Lisboa, Manuscritos da Livraria, n.º 2453). Ele sucumbira dando-se por vencido, quando foi informado de que a sua alegada teimosia já não era apenas contra os juízes da mesa do Tribunal mas também contra o próprio Sumo Pontífice. Resignou-se, cessou de opor-se, aceitou o destino a que os homens, no seu abandono de Deus, o condenavam. Quando foi mandado levantar para ouvir a leitura da sentença, deu-se um episódio curioso. Todos os seus irmãos em religião, presentes, levantaram-se com ele. Todos sentiram que o golpe atingia a Companhia inteira, assim desferido pela rivalidade dos dominicanos. A condenação privava-o de voz activa e passiva, fixava-lhe residência em Colégio da Companhia, que a Inquisição escolhesse, que seria a Casa do Noviciado em Lisboa, e sobretudo proibia-o de escrever e pregar!

Processo Inquisitorial do padre António Vieira. 1659-04-29 / 1668-06-30. Portugal, Torre do Tombo, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 1664.

Mas a pena condenatória não duraria muito tempo. Durante esse período ocorreu o golpe de Estado que repusera no poder os seus amigos – Infante D. Pedro e seus partidários – e fizera de D. Afonso VI o prisioneiro do Palácio de Sintra, e de Castelo Melhor o exilado de Inglaterra e de Milão. Esse acontecimento veio abreviar-lhe a condenação. Logo que foi posto em liberdade, não tardou a procurar, em Roma, refúgio contra o recrudescimento das oposições provocadas, e num Breve Pontifício a isenção pessoal da jurisdição inquisitorial portuguesa. Por súplica do Provincial da Companhia de Jesus, dirigida ao Santo Ofício, foi solicitada a anulação e perdão das penas que foram impostas ao padre Vieira. O pedido foi aceite por despacho do Conselho Geral do Santo Ofício, em 12.6.1668. Em 30.6.1668, o réu foi chamado à Casa do Despacho da Inquisição de Lisboa, onde lhe comunicaram o respectivo perdão e assinou o seu termo. Meses depois, com licença régia, em Agosto de 1669, o padre António Vieira partiu para Roma.

Ei-lo de novo na posse de si mesmo e da liberdade para os seus voos de águia. Viveu em Roma, Itália, de 1669 a 1675, pregando então algumas das suas melhores peças oratórias. Fulgurou nos púlpitos, pregando já em italiano, já em português, e não deixou de manobrar junto da Cúria a favor das pretensões que os cristãos-novos apresentavam contra o Santo Ofício português. A rainha Cristina, da Suécia, que para a cidade eterna havia transferido a sua corte, teve-o como pregador régio, e nos seus salões o sábio e santo jesuíta encontrou o melhor acolhimento da sua pessoa e os maiores aplausos ao seu génio.

Regressou a Portugal em 1675, logo encetando a publicação dos seus Sermões. Mas não se reteve muito tempo na corte lisboeta, que, sob regência de D. Pedro II, e apesar de escandalosamente lhe ter lisonjeado o casamento com a cunhada e a rapidez do aparecimento do primeiro filho, já não lhe dava já o acolhimento a que D. João IV o habituara.

Em 1681, iniciou a sua última estadia no Brasil: no retiro da Quinta do Tanque, na Bahia, preparou as suas obras para a impressão. Entre 1688 a 1691, apesar dos anos, ainda exerceu alto cargo de Visitador do Brasil. Dessa maneira, em Salvador prosseguiu a actividade pastoral e literária que a velhice, em crescimento acelerado, não conseguia pôr cobro. Preparou a publicação dos seus Sermões e continuou escrevendo as suas Cartas, sempre interessado pelas coisas deste mundo, no seu espírito missionário de homem feito para a acção, ele que um dia, já distante, escrevera:

“Sabei, amigo, que a melhor vida é esta (a que lhe decorria na actividade missionária no Brasil). Ando vestido de um pano grosseiro cá da terra, mais pesado que forte; como farinha de pau, durmo pouco, trabalho de pela manhã à noite […]. Finalmente, ainda que com grandes imperfeições, nenhuma coisa faço que não seja com Deus, por Deus e para Deus, e para estar na bem-aventurança só me resta vê-Lo, que seria mais grata, mas [se]não maior felicidade”.

Faleceu quase nonagenário, com 89 anos em 18 de Junho de 1697, no Colégio da Companhia em S. Salvador da Bahia.

V Império e Sebastianismo “Branco” ou Intelectual

Foi o padre António Vieira, orbitando entre o Sebastianismo Intelectual (“branco”) e o Sebastianismo Político (“vermelho”, como definiu António Sardinha), acaso ou decerto sabedor do sentido último ou primaz da doutrina messiânica, quem teve maior e mais destacado papel no contexto político-social português após a Restauração de 1640. Depois da morte de D. João IV, em 6 de Novembro de 1656, o padre António Vieira afirmou, no já citado sermão pregado no Maranhão, que D. João IV haveria de ressuscitar para operar prodígios, e para isso apoiou-se na autoridade profética do sapateiro Bandarra. Essa ideia já a expusera, aliás, num sermão ainda em vida do rei, que posteriormente ficaria documentada no escrito intitulado Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda Vida de el rei D. João o Quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo Padre António Vieira. Falou, portanto, na “segunda vida” de D. João IV, e citou como principal autoridade o Bandarra.

O propalado Quinto Império no escrito citado de António Vieira (integrando pequeno escol de jesuítas iluminados no saber esotérico rabínico, simultaneamente imbuído de forte pendor nacional ou patriótico, assim se distando largamente das regras ordinárias constituintes da Companhia), é simultaneamente espiritual e temporal, sacerdotal e real, com cabeça em Portugal, e a partir deste ir alcançar-se a unidade universal da Humanidade. Passa, portanto, de um sebastianismo bragantino e político para uma mais lata e pura sebástica universal e intelectual, cuja retórica é sempre profética feliz das premissas do Futuro. No Quinto Império inscrevem-se indiscriminadamente gentios, pagãos, judeus, mouros, africanos, cristãos, etc., todos em adoração ao mesmo Senhor Soberano. Esse também o desejo comum de uma Cristandade ou Espiritualidade Universal encabeçada pelo Messias cumpridor da Parúsia ou Segunda Volta, o Avatara único que haverá de reinar sobre todos os povos da Terra. A escatologia mítica do Quinto Império enlevou António Vieira, sobre ele dissertou largamente e quis fazer da Utopia uma plenirealidade feliz. Os seus textos sebástico-messiânicos ocuparam quase toda a sua vida e hoje são considerados o principal da sua obra. Nos escritos (incompletos) que constituem a sua História do Futuro, o iluminado padre sebástico anuncia o advento de um V Império Português ao Mundo indo suceder, lógica e necessariamente, aos quatro anteriores: Império Assírio-Babilónico, Império Persa, Império Grego e Império Romano, cujos prolongamentos romanos ou latinos ainda se viviam intensamente em seu tempo. Baseou-se sempre na autoridade dos textos sagrados:

“Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida, tiradas de diferentes lugares de textos sagrados que vão citados à margem, e o não pusemos no corpo da História para não embaraçar o desenho dela, […] o que resta e importa mostrar he que haja de aver sem duvida este novo e prometido Império a que chamamos Quinto.”

António Vieira, aliás, sublinhou sempre a autoridade dos Profetas, ao par do poder dos Patriarcas, dos quais detinha largo conhecimento claramente demonstrado nos seus inúmeros sermões. A profecia encerra, para ele, a verdade histórica mais pura. Assim, na literatura messiânico-politica do século XVII, o padre António Vieira não foi o exclusivo intérprete do sebastianismo bragantino. Nisto mesmo tendo sido, em rigor, um joanista, cuja importância política para a época realçaria assumindo a sua real natureza de sebastianista. Mas o padre António Vieira não foi só joanista, foi sobretudo sebastianista e como tal assim começou. Prova-o o seu Sermão de S. Sebastião, pregado na igreja do mesmo santo em Acupe (Bahia), em 1634, repleto de alusões ao vencido de Alcácer-Quibir comparando o seu desaparecimento fatal ao sacrifício do homónimo no santoral. Para terminar, através do mito e da mítica do Quinto Império Universal dos Lusos, para cuja criação setecentista apoiou-se no seu profundo saber teológico e no vasto conhecimento bíblico ao par do grande conhecimento da História do Mundo, o padre António Vieira é por excelência aquele que inaugura o ciclo do Sebastianismo Intelectual, para isso estabelecendo a aliança da Profecia com a História.

Pensamento de António Vieira e o seu Património Cultural

No espólio de António Vieira, destacamos como obras publicadas: Sermões, 1679-1748, em 15 volumes, Livro Anteprimeiro da História do Futuro, 1718, História do Futuro, 1718, e Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, 1957, em dois volumes, mas continua inédita a sua obra, deixada incompleta na qual trabalhou largos anos, intitulada Clavis Prophetarum (“Chave dos Profetas”). Como orador, contemporâneo de alguns (nomeadamente Bossuet e Bourdaloue) dos maiores vultos da oratória sacra de todos os tempos, se não iguala a majestade da construção harmoniosa dos sermões de Bossuet nem a força apostólica da lógica implacável na eloquência de Bourdaloue, supera-os na opulência da imaginação e na agudeza de uma inteligência posta ao serviço de uma ideia que ele como ninguém soube expor, desenvolver e fundamentar num encadeamento envolvente de imagens, conceitos e argumentos, que, cativando a atenção deslumbrada pelo jogo dos raciocínios, arrebatava tanto o universo humano de Portugal e do Brasil como o requintado mundo dos cardeais da cúria romana. Índice da perene actualidade dos sermões do padre António Vieira, é o facto de em 1960 terem sido editados em Milão quatro, apresentados como lição político-social aos homens de Estado. Pouco antes disso, o arcebispo local (depois Paulo VI) fizera publicar o Sermão da Sexagésima, como modelo para os pregadores que iam participar numa missão pastoral na sede da arquidiocese. Expoente da oratória sacra portuguesa e um dos maiores da oratória universal, foi político, missionário, defensor dos fracos, crítico audaz dos poderosos e patriota de visão transcendente. A sua inteligência excepcional proporcionou-lhe numa nitidez implacável como moralizador, ao encarar a vida nos seus mais ínfimos pormenores. O seu visionário talvez não excessivo casava-se com o dinamismo desmedido no campo da acção imediata. Apesar de ter sido, ao que parece, tuberculoso crónico, atravessou sete vezes o Atlântico e percorreu milhares e milhares de quilómetros, muitas vezes a pé ou em fracos meios de locomoção. Dessa raríssima conjunção, por vezes quase atingindo as raias da divina loucura, resultou uma clarividência singular, a qual lhe permitiu retratar ao vivo os actores do grande “teatro” do mundo com uma ironia finíssima, frequentemente tocada pela embriaguez da subtileza, mas certeira em escalpelizar os vícios dos homens seus contemporâneos e de todos os tempos.

São todas essas definições extraordinárias do vulto magnânimo de António Vieira, que sobreviveram ao ordinário do tempo como uma onda gigantesca levantada após maremoto, chegando como espuma do mar ao Modernismo Português na belíssima poética de Fernando Pessoa, batizando-o como “Imperador da Língua Portuguesa”, igualmente nas famosas Conversas Vadias, transmitidas em canal público, RTP1, nos idos anos 90 pelo filósofo e ensaísta Agostinho da Silva, e nas longas-metragens cinematográficas do realizador, internacionalmente reconhecido, Manoel de Oliveira, com os filmes da Palavra e Utopia, o V Império e Non ou a Vã Glória de Mandar. Que a robustez do bronze da estátua do padre António Vieira erigida em Lisboa, faça com que ele permaneça fixo na memória e no imaginário colectivo português, e que a mensagem do grande homem oriente por bons caminhos os destinos da Humanidade na sua nova Diáspora para a construção do tão almejado Quinto Império Espiritual do Mundo.

Adveniat Regnum Tuum

 Obras consultadas

Hernâni Cidade e Carlos Selvagem, Cultura Portuguesa, volume nº9. Empresa Nacional de Publicidade, 1972.

Hernâni Cidade, Padre António Vieira: a Obra e o Homem. Editora Arcádia, Lisboa, 1979.

J. Lúcio de Azevedo, História de António Vieira, vol. 1. Clássica Editora, Lisboa, 1992.

Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.