Na Quinta Nova ou Quinta do Nogueira, junto a Penas Róias, no concelho de Mogadouro, distrito de Bragança em Trás-os-Montes, em pleno campo surpreende a aparição súbita de um estranho monumento barroco semiarruinado que até hoje traz intrigados os estudiosos de História e Arte sobre a sua função. Trata-se de um monóptero que, diz-se, terá sido dedicado a São Gonçalo.

Monóptero é um templete em rotunda, circular, sem paredes e sustentado por uma só ordem colunata. Diz-se que as suas características baseiam-se no modelo grego do tholos (século IV a. C.), que no sentido amplo designa um “templo circular”. Mas ao contrário desse o monóptero (do grego ὁ μονόπτερος, menopteros) não possui cela, donde o seu significado de “singular” e “único” conforme o politónico μόνος. Na Antiguidade clássica greco-romana, especialmente a romana, o monóptero servia inter alia como uma forma de baldaquino para uma imagem de culto. Na arquitectura barroca e clássica, o monóptero foi classificado como “templo de musas” e tornou-se motivo popular no embelezamento dos jardins durante o Romantismo francês, inglês e alemão, sem esquecer o português, onde no Parque da Pena de Sintra o pai do rei D. Fernando II mandaria erguer o “templo das colunas” ou templete-mirante (o “quiosque” para o vulgo, obra de 1840), no alto da colina de St.º António, que na realidade é um monóptero cilíndrico com doze colunas compósitas e a particularidade de se apresentar emparedado, havendo uma porta à frente e uma janela atrás, com a pequena rotunda interior com quatro nichos laterais e a Cruz da Ordem de Cristo, vermelha em medalhão, na cúpula[1].

Mas o monóptero de São Gonçalo destaca-se pela singularidade dos seus contornos, no que é exemplar barroco único na Península Ibérica e de grande raridade em toda a Europa. É uma construção em granito, tipo pavilhão, de planta circular (excepto a cúpula abobadada) assente sobre um soco de quatro degraus circulares em forma de toro. Sobre o soco erguem-se seis plintos paralelepipédicos onde assentam seis colunas torsas salomónicas de 1,90 m de altura, cada uma encimada por capitéis jónicos. Sobre estes correr um travejamento circular de 3 m rematado pela cornija do tipo balaustrada, constituindo o seu remate superior, donde nasce uma cúpula (quase totalmente destruída) feita em material cerâmico aparelhado com saibro, que teria a função de protecção dos seus ocupantes. No interior, encostado a cada plinto, tem-se um banco em cantaria de granito. O pavimento lajeado igualmente em granito, apresenta no centro uma cavidade rectangular de 87×58 cm, onde estaria implantada a base da imagem de São Gonçalo. A construção deste monóptero na antiga propriedade da família Távora, foi comparticipada pela população local com o fim de albergar a imagem do santo. Portanto, destinava-se a “assinalar um lugar santo, tal como a cruz assinalava as cabeceiras das igrejas paroquiais abandonadas”[2].

Com efeito, o monóptero de São Gonçalo veio substituir a função cultual do orago que se fazia na desaparecida ermida da sua invocação, vizinha deste. Fora fundada em 1571 na Quinta Nova, propriedade do marquês Luís Álvares de Távora, linhagem que durante muito tempo senhoreou a vila de Mogadouro em acumulação com a alcaidaria da cidade de Miranda do Douro, pelo piedoso ermitão Fernão de Álvares, para nela manifestar a devoção a São Gonçalo e “poder dizer missa e celebrar ho ofisio debino”[3]. Mas em 1720 esse templo encontrava-se já bastante arruinado. A descrição que em Abril desse ano Agostinho Dias da Silva, pároco de Azinhoso, faz da ermida, revela que nessa data apenas subsistia a capela-mor, transformada em estábulo onde se recolhia o gado[4]. Mas esse padre também informa que nesse local fora erguida, a expensas da população, uma outra construção para albergar a imagem do santo, em alabastro, ou seja, essa nova arquitectura do monóptero, cuja edificação deverá situar-se nesse ano de 1720: “em memoria da devoção que os lugares vezinhos tinhão ao santo eregião sobre a mesma caza um chepitel sobre colunas à salamonica em que esta a imagem de S. Gonçalo obrada de alabastro labastro [sic] mas com a impossibilidade de celebrar nella o santo sacraficio [sic] da missa”[5].

Causa estranheza substituir uma ermida por um monóptero salomónico plantado no meio de nenhures onde é impossível celebrar eficazmente os passos da missa, ainda por cima dando destaque a um santo que não o é mas tão-só beato. Tudo tresanda a heterodoxias religiosas recambiando para o hierático, para outros herege, dos consignados enclaves sagrados. Afinal está-se nos domínios da antiga Ordem dos Templários tão acostumada a esses afazeres mistéricos, parecendo continuados pela Ordem de Cristo nestas portuguesíssimas paragens das comendas velhas de Penas Róias (penhas rubras, vermelhas), Mogadouro (lugar de monges), Algoso (Algol), etc., de que dá notícia Nuno Villamariz Oliveira[6]. Ainda mais escolhendo como orago Gonçalo de Amarante, santo português exclusivo da hagiografia nacional.

Jorge Campos Tavares, na sua obra descritiva da hagiografia e iconografia do santoral cristão[7], assim descreve São Gonçalo de Amarante: “GONÇALO DE AMARANTE (Em 10 de Janeiro e 1.º sábado e domingo de Junho). Terá nascido no princípio do século XII em Arriconha, freguesia de Tagilde, concelho de Guimarães. Estudou na arquidiocese de Braga e foi ordenado sacerdote, sendo-lhe dada uma paróquia. Peregrinou à Terra Santa e regressou catorze anos depois. Foi mal recebido pelo sacerdote e afastou-se dela, dedicando-se à pregação. Ao fazê-lo, confirmava a doutrina com milagres para espanto e edificação dos fiéis. Entrou na Ordem de S. Domingos e recebeu o hábito das mãos de S. Pedro Gonçalves Telmo. Fixou-se depois como eremita em Amarante, onde morreu por volta de 1260. Atribui-se-lhe a construção (ou o restauro) da ponte de Amarante e é considerado como santo promotor de casamento de mulheres já longe da juventude. Foi beatificado por Pio IV em 1561. Nunca foi canonizado. Representa-se com báculo de abade, hábito dominicano, um livro na mão e a maquete de uma ponte”.

O principal biógrafo de S. Gonçalo de Amarante foi Francisco Fernandes Galvão em 1591, no seu livro Sermões das Festas dos Santos escrito no Mosteiro d´Anunciada em Lisboa, obra publicada alguns anos depois[8]. Ele e os demais biógrafos do santo taumaturgo foram unânimes em destacar de todos os milagres que fez aquele da construção ou reconstrução da ponte, o que o converte num mestre construtor igual a outros tantos anónimos ou não de agremiações e confrarias de monges-construtores medievais espalhadas ao longo dos caminhos santiaguistas ou jacobeos, como este de Penas Róias – Mogadouro – Algoso, patrocinados e protegidos pela Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Jerusalém[9].

Mas a ponte de Amarante fica longe desta Quinta Nova, resta saber se porventura nesta também haja algum elemento afim capaz de inscrevê-la no simbolismo miraculoso da ponte. Há, com efeito, nas proximidades da desaparecida ermida a ribeira de S. Gonçalo a qual tinha obrigado à construção de duas pontes, conforme informação prestada em 1768 pelos homens da governança de Penas Róias[10], adiantando Luís Alexandre Rodrigues, no seu valioso estudo citado, não se conhecerem as razões que levaram à sua degradação.

Se o nome Gonçalo deriva do latim “Deus salvo”, em tal salvação entrará a ponte que leva do mundo dos perigos corporais àquele dos espiritualmente salvos, o que transfere para a heterodoxia do simbolismo religioso da ponte indicativa do pontifex latino, no entendimento de S. Bernardo de Claraval (in Tratactus de Moribus et Officio Episcoporum, III, 9, 1126): “O pontífice, como indica a etimologia da palavra, é uma espécie de ponte entre Deus e o Homem[11]. Com este sentido familiar do pontífice máximo da Arte Sacerdotal, ao ser construída a ponte por mãos de mestre, juntando o místico ao operático, ela é também indicativa da Arte Real, expressão mantida até hoje pela Maçonaria[12].

Com efeito, o título de pontifex, que foi o do imperador romano e permanece sendo o do papa, significa precisamente construtor de ponte. O pontífice é ao mesmo tempo o construtor e a própria ponte, como mediador entre a Terra e o Céu, o intermediário perfeito entre Deus e o Homem, o Criador e a Criação. Também nisto há duplicidade no entendimento do saber apreendido e do saber aplicado. Pode ser apreendido como gnose ou esotérica, e pode ser aplicado ou transmitido como teologia exotérica, de foro exclusivamente confessional. Motivo de muitos teólogos também serem iniciados. É nisto que entra o simbolismo das pontes do diabo, pomo de inumeráveis superstições e lendas populares onde se alternam Deus, o Diabo e seus adoradores. Nessa denominação observa-se uma espécie de reconhecimento da extrema dificuldade em construir tamanhas obras de arte e arquitectura causando espanto por sua beleza, polidez e firmeza. O conhecimento proibido ou inacessível ao vulgo é sempre considerado danado, criação da mente conspurcada do próprio príncipe das trevas, como pretende a demonologia, um dos ramos da teologia, que tem na Gnose ou Sabedoria Divina a maior adversária à ordem teologal instituída. Assim, na “ponte enfeitiçada por artes malignas”, a alma do primeiro passante deverá pertencer ao diabo: é a quota dele; de outro modo, teria trabalhado à vista de todos sem ser em segredo e no nocturno secreto, mas ele fora enganado pelas artes mistéricas do diabo, fixara a ponte para um enclave mágico onde a fé e a religião sofriam a mácula do erro e da heresia condenadas pela Igreja do populi. Diz-se também que a primeira pessoa que atravessa a “ponte maldita” morre naquele ano. As lendas populares indicam, em todos os casos, a angústia que suscita uma passagem difícil sobre um local perigoso e reforçam a simbólica geral da ponte e a sua significação onírica: um perigo a superar e, do mesmo modo, a necessidade de se dar um passo. A ponte coloca o homem sobre uma via estreita, onde ele encontra inexoravelmente a obrigação de escolher. E sua escolha o dana ou o salva[13].

No caso deste enigmático monóptero, se o beato Gonçalo vem a ser representação do próprio pontífice servindo de medianeiro postado no seu centro fechado pelas colunas salomónicas, então, como bem diz Luís Alexandre Rodrigues, o próprio monóptero será figuração simbólica do Sanctum Sanctorum do antigo Templo de Salomão, a porta de acesso das almas salvas, eleitas por seus próprios méritos, à Jerusalém Celeste, sob a mediação psicopompa do taumaturgo português.

O protótipo salomónico do Santo dos Santos influenciou a forma de muitos sacrários e tabernáculos, razão pela qual foram construídos segundo um modelo centralizado, em rotunda figurativa da hóstia – para Francisco de Holanda – expressiva da Mónada ou Nous que por sua circulatura expressa a infinidade divina, “sem princípio nem fim”, com isto encomiando e exaltando o Santíssimo Sacramento que a devoção conheceu nos tempos pós-tridentinos, em reacção ao cisma protestante que não aceitava a presença de Cristo – Agnus Dei – na Eucaristia. Por isso, Carlos Barromeo evidencia a conveniência do tabernáculo da Eucaristia ser colocado no altar maior definindo para a sua configuração planimetrias centralizadas, circulares ou poliédricas, como as mais apropriadas ao estado de perfeição: “Octogonal o redonda, en la medida que parezca más elegante y religiosamente apropriado para la forma de la iglesia”[14].

Em consequência dessas orientações, conclui Luís Rodrigues, afirmar-se-ia a tendência para os sacrários passarem a ser construções independentes ao mesmo tempo que na sua organização não raro se contemplavam algumas das possibilidades estéticas oferecidas pelas diversas correntes arquitectónicas, mas que se enquadrassem no sentido primacial de Santo dos Santos como este salomónico do enclave sagrado da Quinta Nova.

Redondo foi o formato proposto por Francisco de Holanda para a fábrica de “uma sumptuosíssima igreja ou capela em glória e exaltação e memória do Santíssimo Sacramento”, a construir em Lisboa, empresa completada com os desenhos de uma “charola pola parte de dentro onde há de estar o sacrário”, um sacrário e ainda uma custódia[15]. Essa igreja está assinalada como sendo a do Alto de Santo Amaro, na capital. Exemplos de sacrários com planta centralizada são conhecidos de Norte a Sul de Portugal. No entanto, por justificarem a aceitação regional do mesmo formulário, convém dar conta desses modelos na Sé de Miranda do Douro ou na igreja do antigo mosteiro franciscano de Mogadouro. Já a Jerusalém Celeste está retratada nos frescos na capela-mor do Convento de S. Francisco de Bragança.

O supracitado Luís Alexandre Rodrigues, justificando Francisco de Monzon que no século XVI equiparava Lisboa a Jerusalém e enaltecia as contribuições de D. João III para obras públicas, religiosas e militares, sentenciando que “bien puede Salomon y todos los príncipes de la tierra dar ventaja al Rey Don Juan Nuestro Señor”[16], apresenta vários rostos de baldaquinos condizentes com o do Templo de Jerusalém e com a própria Jerusalém Celeste, testemunho desse figurino simbológico ser conhecido dos autores clássicos greco-latinos, nomeadamente a gravura na portada do tomo III de Apparatus urbis, AC Templi hierosolymitani, obra de cariz tipográfico intitulada In Ezechielem Explanationes, da autoria dos padres jesuítas Jerónimo do Prado e João Baptista Villalpando, cujos três volumes foram impressos em Roma entre 1595 e 1606. Também aparece o rosto da edição de 1678 do tratado de Arquitectura civil recta y obliqua, considerada y debuxada en el Templo de Jerusalem, de Caramuel de Lobkowitz (1606-1682), engenheiro militar madrileno que em 1635 estava em Portugal.

Interessa particularmente a gravura da portada que representa um baldaquino de quatro colunas salomónicas, onde a inscrição Templum Salomonis não deixa lugar a dúvidas sobre o modo como o novo Santo Sepulcro – Templum Domini – devia ser representado[17], sendo flagrante a sua semelhança com o monóptero de S. Gonçalo.

Se o monóptero está para o Santo dos Santos lugar central do Templo por que se interage com a Jerusalém Celeste expressiva do estado de Graça usufruto eterno dos 144.000 eleitos do Paradisi que haverão que consumar na Terra a Parúsia ou Advento prometido do Agnus Dei, do Filho de Deus, tem-se que tal número simbólico 144 somado dá 9 de ADM (Adam), expressivo do próprio Homem, sobretudo do Homem que habitará o Paraíso Terrestre correspondendo à Idade Futura do Espírito Santo, demarcada pelos enclaves sagrados e de que é símbolo o próprio monóptero. Se, por um lado, Jerusalém expressa a visão de paz, de justiça e da união para todas as tribos de Israel (Salmo 122), por outro lado, o principal unanimemente aceite pelas três religiões monoteístas do Livro, manifesta o reino messiânico aberto a todos os povos, ideia alvissareira que no século XVII tomou forma em Portugal como a do Quinto Império, a de uma Nova Idade de Humanidade afim àquela da Jerusalém Celeste conforme descreve o Apocalipse 21:1-6, dando-a como a nova ordem psicossocial justa e perfeita que substituirá o estado caótico do mundo actual no fim dos tempos, isto é, de final de um ciclo de evolução pelo dealbar de um outro mais promissivo para o Género Humano.

Cabe insistir sobre a forma quadrada da Jerusalém Celeste, que a distingue do Paraíso Terrestre, geralmente representado sob uma forma redonda: é que este é o Céu na Terra, enquanto a Nova Jerusalém é a Terra no Céu. As formas circulares dizem respeito ao Céu; as quadradas, à Terra. A transmutação do Universo representado pela Nova Jerusalém, não é o regresso ao passado idílico, mas sim decisivamente a projecção do futuro sem precedentes[18].

Parece não ter existido conflito entre o pensamento mistérico e o pensamento confessional, entre a hermenêutica esotérica e a hermenêutica sociológica que terá assistido à fundação e finalidade do monóptero de S. Gonçalo. Se por um lado terá servido de estímulo ao reforço da identidade nacional na zona de fronteira, não sendo fácil esquecer o esforço de consolidação da Restauração, com os sucessos relativos a 1710 quando o exército castelhano depois de tomar Miranda e saquear Moncorvo corria impunemente toda a zona do Douro internacional, por outro lado o figurino sagrado em presença perpassa o imediatismo do sentido patriótico, recambiando tanto para a leitura teológica como para a interpretação gnóstica ou teosófica, não colidindo entre elas porque sendo uma Palavra o seu entendimento é diverso, conformado do menor ao maior aprofundamento das Escrituras Sagradas segundo a capacidade de quem as lê e aplica, indo do confessional ao mistérico, do exoterismo ao esoterismo[19].

Com efeito, há três modos de ler a Bíblia, do mais superficial ao profundo:

Não é raro observar-se o teólogo procurando aprofundar o seu conhecimento adentrando o campo gnóstico, sobretudo a gnose judaico-cristã de inspiração grega, e é quando se inicia nos Mistérios Cristãos – como o fizeram Paulo de Tarso, Jâmblico, Plotino, etc. – realizando os seus passos ou graus até à sua completa realização espiritual, à sua absorção em Cristo Deus (Logoi) e poder finalmente afirmar na plenitude: “Eu e o Pai somos Um!” – João 10:30.

Essa é a Teurgia, a Obra Divina como a mais Excelsa Magia assistindo tanto ao acto das Iniciações nos Mistérios como aos mistérios dos Sacramentos. Sobre isto, diz Annie Besant[20]:

“De Jâmblico, o grande teurgo do terceiro e quarto séculos depois de Cristo, muito há a aprender com relação à finalidade dos Mistérios. A Teurgia era a Magia, “a parte mais adiantada da Ciência Sacerdotal”[21]; ela era praticada nos Mistérios Maiores, para evocar a aparição de Seres Superiores. Resumida em poucas palavras, a teoria que serve de base aos Mistérios é a seguinte: primeiramente o Único[22], anterior a todos os seres, imóvel, concentrado na solidão da sua própria Unidade. Dele emana o Deus Supremo[23], Gerador de Si mesmo, o Bem, a Fonte de todas as coisas, a Raiz, o Deus dos Deuses, a Causa Primária, cuja manifestação é a Luz. Desta surge o Mundo Inteligível ou Universo Ideal, a Mente Universal, o Nous, do qual dependem os deuses incorpóreos e intelectuais. Do Nous procede a Alma do Mundo, à qual pertencem as “formas divinas intelectuais que acompanham os corpos visíveis dos deuses”. Em seguida, vêm as diferentes Hierarquias de Seres super-humanos, os Arcanjos, os Arcontes (Governadores), os Cosmocratores, os Anjos, os Daimones, etc. O Homem constitui uma Ordem menos elevada mas de natureza análoga à deles, pode chegar a conhecê-los, a experiência mostrou isso nos Mistérios e conduz à união com Deus.

“Conforme as doutrinas professadas nos Mistérios, “todas as coisas procedem do Único e para Ele voltam”, “o Único é superior a tudo”. Ademais, esses diferentes Seres eram invocados e apareciam ora para instruir, ora para elevar e purificar apenas com a sua presença.

“Os deuses benevolentes e misericordiosos – diz Jâmblico – difundem liberalmente a luz aos teurgos; atraem para eles as almas destes, unindo-as a eles e habitando-as, embora ligadas aos corpos, a se separarem destes e a evoluíram para a Causa Eterna e Inteligível”. Porque como a alma tem uma dupla vida, uma com o corpo e outra distinta do corpo, é indispensável aprender a separar a alma do corpo, a fim de que ela possa unir-se aos deuses por sua parte intelectual e divina, e aprender, com os verdadeiros princípios do Conhecimento[24], as verdades do mundo inteligível. A presença dos deuses dá-nos a saúde do corpo, a virtude da alma, a pureza da inteligência, numa palavra, a volta de tudo que está em nós às causas próprias… O que não é corpo, ela o representa como corpo aos olhos da alma, por intermédio dos olhos do corpo. Nas epifanias dos deuses, as almas recebem a perfeição extraordinária e extrema, e participam do Amor divino e da Alegria indivisível. “É assim que nós obtemos uma vida divina e nos tornamos, na realidade, divinos”.

“O ponto culminante dos Mistérios era a transformação do Iniciado em Deus, seja pela união com um Ser divino exterior, seja abrindo os olhos à existência divina dentro dele.”

Finalmente, para terminar, a mensagem parúsica que o monóptero de S. Gonçalo parece reter, igualmente bem parece ajustar-se bem àquelas outras palavras no Sermão V de São Bernardo de Claraval, da Vinda intermediária de Cristo e a fundação do seu Reino sobre a Terra com o Homem e Jerusalém renovados[25]:

Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta, não. Na primeira vinda o Senhor apareceu na Terra e conviveu com os homens. Foi então, como Ele próprio declara, que viram-no e não o quiseram receber. Na última, todo homem verá a salvação de Deus (Lc. 3:6) e olharão para aquele que transpassaram (Zc. 12:10). A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos O vêem em si mesmos e recebem a salvação. Na primeira, o Senhor veio na fraqueza da carne; na intermediária, vem espiritualmente, manifestando o poder da Sua graça; na última, virá com todo o esplendor da Sua glória.

Esta vinda intermediária é, portanto, como um caminho que conduz da primeira à última: na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; na intermediária, é nosso repouso e consolação.

Mas, para que ninguém pense que é pura invenção o que dissemos sobre esta vinda intermediária, ouvi o próprio Senhor: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele (cf. Jo. 14:23). Lê-se também noutro lugar: Quem teme a Deus, faz o bem (Ecl. 15:1). Mas vejo que se diz algo mais sobre o que ama a Deus, porque guardará suas palavras. Onde devem ser guardadas? Sem dúvida alguma no coração, como diz o profeta: Conservei no coração vossas palavras, a fim de que eu não peque contra vós (Sl. 118:11).

Guarda, pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo da tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem e tua alma se deleitará na fartura. Não esqueças de comer o teu pão para que teu coração não desfaleça, mas que tua alma se sacie com este alimento saboroso.

Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará. Virá a ti o Filho em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém e fará novas todas as coisas. Graças a essa vinda, como já refletimos a imagem do Homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do Homem celeste (1Cor. 15:49). Assim como o primeiro Adão contagiou toda a Humanidade e atingiu o Homem todo, assim agora é preciso que Cristo seja o Senhor do Homem todo, porque Ele o criou, redimiu e o glorificará.

 

NOTAS

 

[1] Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, Abril de 2007.

[2] Luís Alexandre Rodrigues, O monóptero de S. Gonçalo: uma proposta de leitura. Departamento de Ciências e Técnicas do Património, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Actas do II Congresso Internacional do Barroco, pp. 411-421, Porto, 2001.

[3] A.D.B., Mitra, Cx. 37, doc. n.º 17. A par com a indicação para o documento se arquivar no cartório do Cabido também se pode ler: “doação de hu ermitão da Bemposta que lhe fes Luis Alvares de Tavora”.

[4] Jozé Botelho de Mattos, Documentos vários para a Historia Eclesiastica do Bispado de Miranda, 1896. B.N.L., Res., COD. 154, fl. 99v.

[5] Jozé Botelho de Mattos, ob. cit. B.N.L., Res., COD. 154, fls. 99v-100.

[6] Nuno Villamariz Oliveira, Castelos Templários em Portugal. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda, Lisboa, Outubro de 2010.

[7] Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão Editores, Porto, 1990.

[8] Francisco Fernandes Galvão, Sermões das Festas dos Santos. Ed. Pedro Crasbeeck, Lisboa, 1613.

[9] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Livros Dinapress, Lisboa, Maio de 2011.

[10] A informação, assinada pelo juiz da Ordenação, Procurador e dois vereadores, tinha o Provedor da comarca como destinatário e fazia parte de um processo destinado a ouvir os governantes das várias localidades sobre a disponibilidade para aceitarem uma finta destinada à reconstrução da ponte de Castrelos nas proximidades de Bragança. A.N.T.T., Desembargo do Paço, Repartição do Minho e Trás-os-Montes, Mç. 49, Cx. 60. Cf. Luís Alexandre Rodrigues, ob. cit.

[11] Patrologia Latina, CLXXXII 807-834A. Esta obra compõe-se de uma enorme colecção de escritos dos Padres da Igreja, editada em Paris por Jacques-Paul Migne entre 1844 e 1855, sendo os índices publicados entre 1862 e 1865.

[12] René Guénon, O Rei do Mundo. Editorial Minerva, Lisboa, 1978.

[13] Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1990.

[14] Carlos Barromeo, Instrucciones de la fábrica y del ajuar eclesiásticos. Universidade Nacional Autónoma de México, México, 1985.

[15] Francisco de Holanda, Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, 1571. Livros Horizonte, Lisboa, 1984.

[16] Francisco de Monzon, Libro primero del perfecto christiano. Lisboa, 1544.

[17] René Taylor, Juan Bautista Villalpando y Jerónimo de Prado: de la arquitectura prática a la reconstrucción mística, in Dios Arquitecto. Ediciones Siruela, Madrid, 1991.

[18] Gérard de Champeaux, Sébastien Sterckx, Introduction au monde des symboles. Ed. Zodiaque, Paris, 1966.

[19] António de Macedo, Cristianismo Iniciático. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda, Lisboa, Março de 2011.

[20] Annie Besant, O Cristianismo Esotérico. Editora Pensamento, São Paulo, 1978.

[21] Thomas Taylor, Jâmblico sobre os Mistérios Egípcios. Ed. Chiswick Whittingham, Londres, 1821.

[22] Substância Absoluta Informe, Ain-Suph, Svabhâvat, Tudo-Nada, etc., segundo as diversas escatologias mistéricas e religiosas (nota do autor).

[23] O Logos Original dotado de Três Hipóstases que estão na base das diversas Trindades religiosas e esotéricas (nota do autor).

[24] Gnose, Teosofia, Gupta-Vidya, Sabedoria Divina, Conhecimento Secreto, etc. (nota do autor).

[25] São Bernardo, Sermo V in Adventu Domini: Opera Omnia. Editiones Cisterciensis, Roma, 1966.

Anúncios