Não há país sem bandeira nem bandeira sem país. Ipso facto. Tudo porque as sinergias manifestadas deste estão estampadas naquela como que expressando o Arquétipo primordial. A esta regra primeiríssima obviamente não escapa o pavilhão sintrense, como expressão da sua própria idiossincrasia de concelho inserto no todo do Espírito Nacional; tal como tudo evolui da condição mais primária e rude à mais elaborada e rarefeita, o mesmo aconteceu às Armas de Sintra, evoluindo desde totem lítico altaneiro às penhas da serra a bandeira desfraldada ao vento sudoeste.

Que não há país sem símbolo ou sem bandeira, é um facto. Por detrás de cada símbolo ou bandeira oculta-se uma verdade cíclica. A bandeira é a expressão sintética de certa verdade universal, ligada a um povo ou a uma raça, em determinado ciclo evolutivo. Os símbolos, como as bandeiras, são verdadeiros mantos protectores para que determinados princípios mais elevados de um povo não pereçam durante a luta pela sua evolução, permitindo assim que esse mesmo povo possa atravessar, são e salvo, os “invernos” a que periodicamente está sujeito e ressurgir assim, na etapa ou época justa, como a fénix, renascida de suas próprias cinzas, com uma formação superior na ciência, na filosofia, na religião, nas artes e na política social e económica.

Na bandeira de cada povo se acha expresso o propósito oculto de suas gentes e o sentido secreto da sua formação e desenvolvimento, e também a maneira como deverá florescer a sua civilização, o que, na verdade, constitui um aspecto particular do “processo evolutivo universal”, por intermédio do qual evolui a “Mónada Humana”, palmilhando o “Caminho” (ou “Tao”) que outro não é senão o místico Itinerário de “Io” (ou do Eu, de Ísis, que se esconde por detrás do véu ilusório das formas, das mutações…).

Nos símbolos, nos emblemas e nas bandeiras que ornam os monumentos, os templos e os palácios, concentram-se representações de atributos e qualidades que assumem uma forma definida e objectiva no inconsciente do povo, de tal modo que poderá dizer-se haverem em tais emblemas como que deuses tutelares ou heróis guardiões personificando-os, nos quais sempre se encontram os vestígios dessa incorruptível linguagem universal dos símbolos. Até mesmo os caracteres alfabéticos, hierogramas ou pictogramas usados pelos homens nas suas várias fases de evolução, dela se derivam e nela se amoldam.

As bandeiras encerram sempre uma grande força mágica, exercendo, por isso, poderosa influência sobre os povos a que elas presidem. Como símbolos do inconsciente colectivo, expressam uma força psicológica de excepcional transcendência capaz de promover a transmutação da energia latente, adormecida no imo de cada um, em energia patente, dinâmica. Isto torna-se mais efectivo e evidente à medida em que as populações cerram fileiras, conscientemente, em torno do seu emblema maior, pois a bandeira recebe sobre si a transferência das aspirações do povo, devolvendo-lhe a seguir todo o potencial energético captado, mas devidamente transmutado e adaptado sob a forma de nobres sentimentos patrióticos e ímpetos realizadores. Esta é uma transformação mágica que se vem operando através dos tempos, de etapa em etapa, de ciclo em ciclo, desde as origens da Humanidade até aos nossos dias, por meio da representação simbólica, dos emblemas e, sobretudo, das bandeiras que põem em actividade os poderes interiores do Homem, sobretudo as forças da sua identidade psicossocial.

É como diz Carl Gustav Jung: “Todo o desenvolvimento psíquico se expressa por meio de símbolos. Historicamente, sempre foi representado por símbolos e é através destes que ainda hoje se manifesta o desenvolvimento individual e colectivo da personalidade. Este processo permite que o obscuro dê movimento à luz, que o inconsciente se torne consciente”.

O símbolo, o emblema ou a bandeira não assumem tão-somente a categoria de causa, senão também a de efeito. Assim é que a dinâmica dos símbolos comporta duas fases distintas:

a) A da construção, quando exercem a função de sustentação do processo (que pode ser evolutivo ou involutivo, conforme a natureza do símbolo construído).

b) A da identidade, quando já adquiriram autonomia no seu dinamismo, permitindo ao povo que se identifique com eles. Em tal fase, constituem-se em “arquivos” das verdades interiores de cada época e das experiências da Humanidade, exercendo, assim, como arquétipos, a função de elementos inspiradores “no número, na cor, na forma e no som”, este como hino que acompanha o símbolo mor nacional.

Etimologicamente, o termo bandeira é correntemente considera-do proveniente de uma língua eslava, talvez germânica, pois em godo bandwa significava “sinal, insígnia”. No entanto, não é de excluir a hipótese de ser celta a sua raiz, uma vez que está documentada em regiões de fala celta da Península Ibérica a divindade pré-romana Bandua, conotada com a ideia de “atar, laço”, associada a grupos de guerreiros celtiberos e lusitanos ligados por vexilo; e, em alguns linguajares célticos, ban quer dizer “altura, saliência”.

As tropas romanas usaram dois tipos de signas no topo de uma haste: uma continha uma figura sagrada ou signo – o signum; a outra exibia um pedaço de tela colorida – o vexillum. Por isso se chama vexilologia ao “estudo das bandeiras”. No entanto a novidade das bandeiras, quando se generalizaram a meio da Idade Média juntamente com a heráldica, residiu não apenas na materialização de um significante não linguístico a duas dimensões, em tecido seguro numa haste, mas também na fixação de um rudimento de código que permitiu a proliferação do seu uso dentro de uma ordem essencial. Num sentido lato que é hoje o mais comum, a bandeira abrange todas as signas vexilológicas. Antigamente, porém, quando se generalizou e ordenou o uso dessas signas, a terminologia delas não correspondia à actual. Havia mesmo distinções das signas segundo a forma. E só uma delas era denominada bandeira. Em Portugal, até fins do século XV, valia o estabelecido no Libro de las Siete Partidas do rei de Castela, Afonso X, o Sábio, avô paterno do rei luso D. Dinis. Deverá ele ter-se inspirado no Armorial Borgonhês trazido para a Península Ibérica por D. Raimundo, contemporâneo de Afonso VI de Leão e Castela. As signas eram:

O estandarte, quadrado, que era usado pelo príncipe soberano, contendo as armas deste;

A bandeira, rectangular, cuja composição era totalmente diferente das armas do representado;

O pendão, ou balsão, que abrangia todas as outras formas de signas, como o pendão caudal (rectângulo terminando em segmento de círculo, usado por ricos-homens) e o guião (pequena signa quadrada ou de ponta farpada); os pendões, em geral, não ostentavam o brasão, e sim cores diferentes desse brasão ou da libré, ou simples emblemas (como sucedeu na balsa ou balsão da Ordem do Templo).

Parece, pois, que inicialmente se chamava estandarte à bandeira real, que diferia das outras por ser quadrada e não rectangular. Mas cedo começou a empregar-se também o termo “bandeira” para a signa real institucional.

Os autores dos séculos XVI e XVII (decerto apoiando-se em fontes acaso hoje já não existindo) dão como primeira Bandeira de Portugal, cabível ao reinado do primeiro rei, D. Afonso Henriques, a da Casa de Borgonha: pano quadrado com fundo branco atravessado em todo o comprimento e altura por cruz azul de braços iguais. Isto é contestado por muitos autores contemporâneos: informam que a cruz dos cruzados era vermelha e não azul, ademais nem Afonso I e nem seu pai, o conde D. Henrique, foram alguma vez cruzados! Permito-me retorquir: a cruz azul designa, no caso, não a Cruzada mas o cristianíssimo Condado Real de Borgonha, praticamente berço genesíaco de França que a esta deu tantos reis e rainhas saídos dos Capetos, sendo, além disso, cor da libré que para sempre ficou na bandeira desse país, a par do branco. Que o conde D. Henrique e o seu filho Afonso I nunca tenham sido cruzados, é um grande equívoco! Afonso VI apelou à Casa de Borgonha precisamente para dar combate ao invasor árabe da Hispânia, e os da Casa responderam ao apelo vindo como cruzados, tanto mais que inicialmente a Cruzada não se processou extra-continentalmente, no ultramar, e sim intra-continental-mente, no processo de reconquista chamado Pelágio, exactamente desde o Sul de França para baixo.

A cruz azul de braços iguais igualmente indica a grega do rito bizantino, o primeiro a instalar-se em Portugal vigorando incorporado ao rito moçárabe durante a ocupação árabe da Península Ibérica desde o Chark ao Gharb, o Oriente e o Ocidente da mesma. Essa bandeira depressa sofreu alterações, quase todas inspiradas no mito fundacional do país, como seja o milagre cristológico de Ourique, pelo que as cinco estrelas do pendão islâmico, então em vigor, foram substituídas pelas cinco quinas (este termo deriva da palavra latina designativa de cinco em plural neutro – quina) ou chagas do Salvador, para o número já então fixado também em cinco dos escudetes e besantes. A dominante Lua crescente foi substituída pelos escudetes comportando as quinas, de maneira a configurarem geometricamente a cruz pátea da Ordem do, que era então a vanguarda defensiva do país, em formação e expansão, das investidas agarenas.

De maneira que, desde a mais recuada Proto-História, o Homem se manifesta e impõe no meio circundante por intermédio de formas geométricas, conferindo o seu cunho pessoal às mesmas e assim originando a emblemática.

Um conjunto de símbolos (podendo ser só dois, como a Rosa+Cruz, por exemplo) forma um emblema. E esse emblema, quando é consignado a designar os atributos e predicados psicossociais, religiosos e mesmo míticos fundacionais de dada família ou lugar, é denominado brasão, escudo d’armas assinalando emblematicamente os valores qualitativos da alma sinergética, inconsciente colectivo ou egrégora grupal de um conjunto humano idóneo agrupado corporificando a ideia plástica expressa nas figuras do seu brasão, podendo ser de natureza solar, lunar, terrígena, etc., de acordo a simbologia plasmada nele. Brasão é a honra e glória, na linguagem heráldica, conquistadas por determinado agregado familiar ou populacional, aos quais só caberão foros de nobreza se tiveram (ou têm) uma intervenção directa junto do trono real, e houvessem membros relacionados consanguineamente, de um ou outro modo, com o mesmo trono.

O brasão é o santo-e-senha de família nobiliárquica no meio social, age como catalisador e dimanador psíquico de agregado distinto de pessoas. Quanto mais antigo é o brasão mais poder possui, por aglomerar permanentemente forças sinergéticas afins a essa família ou mesmo população, indo determinar os seus momentos de nascimento, crescimento, apoteose, decrescimento, decadência e desaparecimen-to, conformados à Lei do Destino e da Evolução de uma família, cidade, país, continente e civilização.

Tanto assim é que se vê grandes Casas de respeitável brasonato terem existido, jogado os lances principais da evolução ibero-europeia e, logo depois, de acordo com a ciclicidade da sua manifestação, extinguirem-se, como foi o caso, dentre outras, dos Távoras e dos Marizes (apesar de ainda haverem resquícios desses últimos em Sintra, no sítio do Lourel ou do “Louro” de Apolo – o Sol – como registam os sobrenomes de vários locatários daí).

Em todas as vezes que fiz parte de comissões para a aprovação de brasões autárquicos (Loures, Santo António dos Cavaleiros, Frielas, etc.), afirmei que a Heráldica “não é uma ciência democrática”, posto obedecer a regras muito rígidas nascidas com ela. Também é aquela que mais e melhor unifica a Cavalaria Espiritual com o Governo Temporal, do ponto de vista da Tradição Simbólica. É, como diz o Marquês de Abrantes, o relacionamento, sob determinados aspectos, da Magia Branca com a Armaria Medieval, especialmente no que toca à Simbologia.

No campo da Heráldica Portuguesa medieval, devem-se considerar três períodos principais: prolonga-se o primeiro até meados do século XII, isto é, até ao primeiro embate com influências extrapeninsulares, designadamente a franco-bretã; o segundo vai até ao último quartel da centúria seguinte e ao início da influência anglo-normanda; e o terceiro, portando elementos dos dois anteriores, acaba no século de Quatrocentos, marcando o final da Idade Média.

Todavia, a Emblemática não possui data de origem específica, ela é intemporal, eterna e cósmica. É a Língua Universal, como diz a Tradição Iniciática, pela qual os deuses se intercomunicam e interferem junto dos homens. À sua leitura e interpretação, segundo os clássicos gregos, chama-se neose.

Na antiga Cítia, 5.000 anos a.C., a qual se estendia do Oceano Atlântico aos mares polares e que foi pátria do lendário Ram, Manu ou Legislador dessa raça, cada tribo possuía uma contra-senha de reunião, sob a forma de um animal totémico. Os chefes ostentavam nos frontões dos seus palácios de madeira águias, cabeças de javali, de urso ou de búfalo, etc., o que historicamente constitui a origem dos brasões. A insígnia preferida dos citas era o touro, que Ram substituiu pelo carneiro por motivos psicossociais, espirituais e astrológicos de passagem do signo ou signa de Taurus a Áries.

Por sua vez e magistralmente, Helena Petrovna Blavatsky faz com grande e douta valia o desenvolvimento da diferença entre símbolo e emblema, no volume II da sua A Doutrina Secreta:

“Conforme o demonstrou o sábio mação e teósofo Kenneth Mackenzie em sua Royal Masonic Cyclopoedia, há uma grande diferença entre emblema e símbolo. O primeiro “compreende uma série de pensamentos maiores que os do símbolo, o qual se deve antes considerar como destinado a esclarecer uma só ideia especial”. Daí resulta que os símbolos – solares ou lunares, por exemplo – de vários países, compreendendo cada qual uma ideia ou série de ideias especiais, formam colectivamente um emblema esotérico. Este último é “uma pintura ou signo concreto visível, que representa princípios ou uma série de princípios, compreensíveis para aqueles que receberam certas instruções (iniciados)”. Para dizer ainda com maior clareza, um emblema compõe-se geralmente de uma série de pinturas gráficas, consideradas e explicadas alegoricamente e que desenvolvem uma ideia em vistas panorâmicas, apresentadas uma depois das outras. Diz ainda a mesma autoridade: “Todas as sociedades esotéricas fizeram uso de emblemas e símbolos – como a Sociedade Pitagórica, a dos Eleusianos, as Confrarias Herméticas do Egipto, os Rosa+Cruzes e os Franco-Mações. Muitos desses emblemas não convém que sejam divulgados; e uma diferença muito pequena pode modificar consideravelmente a significação do emblema. Os selos mágicos, ainda que pareçam monstruosos e ridículos aos olhos dos ignorantes, transmitem todo um corpo de doutrina aos que souberem reconhecê-los”.”

Os “selos e quadrados mágicos” foram muito usados pelos cabalistas judaico-cristãos portugueses na Idade Média, uso prolongado, ainda que esporadicamente, até aos finais do século XVIII. Dentre três exemplos flagrantes, um monumental e dois literários, há o da “Pedra Mágica” evocativa da Stella Maris exposta no alpendre da igreja de São Julião da Carvoeira, inserida no Aro de Mafra, a qual se integra num conjunto de cruzeiros onde se patenteia claramente a Cabala Gemátrica, sendo tudo obra dos finais do século XVIII e da possível autoria do cabalista Manuel Teixeira[1]; o outro exemplo da prática de lapidação de “quadrados mágicos” em livros e monumentos, conformada ao exercício quase corrente, ainda assim velado, nos séculos XVII-XVIII da Cabala Gemátrica, é notícia dada por D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) na sua obra póstuma[2], não deixando de referir um outro grande cabalista português seu contemporâneo, o dr. Manuel de Valle de Moura; o terceiro exemplo encontra-se no livro raro de frei Tiago Boaventura Hepburn de Escócia (1573-1621), que deixou praticamente uma “pedra de roseta” dos diversos alfabetos conhecidos e desconhecidos usados para a composição cabalística de “selos e quadrados mágicos”[3]. Dou em seguida três exemplos de “selos mágicos” consignados a Júpiter, usados pelos antigos hermetistas que giraram em torno e dentro da Serra Sagrada de Sintra.

Portanto, como disse atrás, na prossecução da leitura do objecto em presença, o brasão vem a ser o pólo sinergético fundamental de uma família, vila, cidade, país ou continente, pelo qual actua o lar ou espírito familiar (com certa relação ao manes encerrado no vaso canópico dos antigos romanos, o mesmo que serviu para a lenda árabe do “génio da lamparina”), o mesmo anjo tutelar ou deva-grupal, e o qual, brasão, igualmente narra na discorrência dos seus símbolos a origem e destino desse mesmo agregado humano.

Sendo a Heráldica a “arte ou ciência dos brasões”, ou um “conjunto de emblemas de brasão”, ela mesma é uma linguagem cifrada cuja leitura neosética cabe unicamente ao heraldista ou heráldico, cujo significado etimológico, heraldo, indica a sua função específica: heraldus, que traduzido do latim é arauto, anunciador, mensageiro, de que dá notícia Alfredo Souto Feijoo (vd. bibliografia no final):

“Digamos duas palavras sobre as “justas” e “torneios” a que já aludimos e em cujos actos tinham intervenção específica os heraldos. Eram os festejos por excelência na época medieval, como a ocasião que se apresentava aos cavaleiros para medir as suas armas e patentizar a destreza no manejo delas. Apesar do carácter “bélico” destes encontros, como não se tratava de defender a ideia de Deus, nem de debater questões de honra, de que já desfrutavam a inteira satisfação, ficava a terceira invocação, a dama (já então se aplicava o aforismo de cherchez la femme em qualquer assunto), por quem irrompiam no palanque os esforçados cavaleiros e esgotavam as suas energias para oferecer o tributo à dona de seu coração. Os anunciavam os heraldos de viva voz, dando os nomes dos rivais, seus títulos, dignidades, feitos de armas, hierarquias e qualidades. Os heraldos dirigiam, na realidade, os combates, velavam pelas normas cavaleirescas e, por fim, resolviam em última instância todo o regulado ao caso, proclamando os vencedores ou desqualificando a quem saía das condições estipuladas.”

Por sua vez, no seu precioso estudo Heráldica, Gastão de Mello de Matos e Luiz Subbs Saldanha M. Bandeira, dão atributos mais latos aos heraldos que os unicamente “bélicos”. Com efeito, chamavam-se Oficiais de Armas os indivíduos encarregados de regular e pôr em prática as leis heráldicas.

Foram estabelecidos três Oficiais de Armas, correspondentes a cada um dos reinos de Portugal, Algarve e Índia. Os Reis de Armas tinham nos diferentes países nomes variados, mas em Portugal tiveram os nomes dos reinos, sendo Portugal Rei de Armas o principal.

Heraldo Rei de Armas

Os três oficiais de categoria imediatamente inferior eram os Arautos, que tinham, respectivamente, os nomes das principais cidades dos reinos: Lisboa, Silves e Goa. E os de terceira categoria eram os Passavantes, respectivamente chamados Santarém, Lagos e Cochim, as vilas mais importantes dos mesmos reinos.

O Rei de Armas principal dirigia todos: exercia especialmente as suas funções no que era respeitante ao reino de Portugal, desde os serviços de assentamentos da Casa Real, organização do armorial e genealogia das diferentes linhagens, assim como também tomava nota dos feitos notáveis de cada um dos nobres do reino.

Seguiam-se os Arautos, cuja principal função era levar aos príncipes estrangeiros as comunicações que el-rei lhes mandava entregar; reconheciam os aventureiros que tomavam parte em justas, torneios, etc. Os Passavantes acompanhavam os Arautos em diferentes funções, e substituíam-nos quando fosse preciso.

Para ser titular de cada um desses cargos era necessário – depois do pretendente ser julgado apto, moral e materialmente, a desempenhá-lo, e ter jurado cumprir fielmente os seus deveres – que passasse pela cerimónia do batismo real, que lhe era conferido por el-rei, após o que se lhe entregava a copa que servira na cerimónia e se proclamava o seu nome, para que todos os interessados o conhecessem.

Esses Oficiais distinguiam-se nas vestes, porque usavam cotas de armas diferentes. Os Passavantes (adaptação do francês poursuivant) eram os únicos que podiam abandonar a sua carreira, porque para isso os Arautos e os Reis de Armas precisavam de autorização especial.

De maneira que o latim heraldus acerca-se do grego herakles, Hércules ou Hermes e até mesmo Henrique: o Sol Mercurial exposto na brasa ou brasão. Assim, tem-se o brasão como uma mensagem simbólica, cifrada, exposta em caracteres ígneos ou solares, no sentido de universais.

O brasão, às vezes designado por cotas de armas, destinado a identificar famílias, clãs, corporações, lugares, cidades e nações, contém em si a inteira potência manifestativa dos mesmos lugares ou/e grupos, nos três Planos ou Vias por que apercebe tanto a Vida como a Consciência universais.

1.º – O Plano Espiritual, relacionado com a Consciência do Pensador – Imago.

2.º – O Plano Mental, relacionado com a Ideia do Pensador – Imaginare.

3.º – O Plano Físico, relacionado com a Imagem do Pensador – Visionare.

Essas três Esferas de acção, interpenetradas e logo inseparáveis umas das outras, vinculam-se às três ciências que entram na Heráldica. Assim:

a) – O Plano Espiritual o está com a Filosofia – Conceber.

b) – O Plano Mental o está com a Aritmética – Equacionar.

c) – O Plano Físico o está com a Geometria – Solucionar.

Logo, o Símbolo possui:

I   – Um conceito que o distingue.

II  – Um valor numérico que lhe é próprio.

III – Uma figura colorida que o caracteriza.

Isso vem demonstrar que o símbolo sagrado, por exemplo, não tem a mera e profana finalidade morta de simples decoração geométrica, antes sendo o veículo de expressão de determinada potência espiritual, destinado a evocador/invocador de afim Consciência e Força vivas, encerrando, além do mais, determinadas ideias em síntese tanto de natureza religiosa como filosófica e científica. Pelo ritual, os símbolos inertes tomam forma viva, são vivificados.

A propósito, transcrevo parte de texto interno respigado ao corpus doutrinal da Comunidade Teúrgica Portuguesa:

“Convém informar que o símbolo é um catalisador físico de determinada (ou determinadas) energia universal, representando igualmente uma realidade cósmica. Portanto, é um organismo    geométrico material com vida própria que lhe concederam as forças a que esteja interligado. O segredo teúrgico para activar sensivelmente essa energia condensada no objecto canónico, reside em fórmulas mágicas certas mantrânicas e múdricas, isto é, “verbais” e “gestuais”, sonoras e mudas. Desde logo, o Simbolismo não é mera decoração geométrica da arquitectura. É antes de tudo um condensador de poderosas voltagens energéticas que em templo o templário exerce e aplica cientificamente de acordo com as Leis da Natureza, e das mesmas recebe a resposta afim à sua evolução, pessoal e colectiva”… influindo decisivamente no poder de imaginare et creare do observante.

Posto isso, pode dispor-se a Heráldica tridividida no tríplice nível de coexistência e a sua função cósmica quer no Plano do Sagrado (como simbologia esotérica ou iniciática), quer no nível do profano (como emblemática designativa dos “feitos d’armas” de uma família ou população).

Dadas as bases de entendimento do desenvolvimento da origem e função esotérica/exotérica da ciência heráldica, intimamente ligada à falerística, o “estudo dos emblemas e símbolos”, e à sigilografia, a “ciência das matrizes e selos”, que em Portugal teve o seu clímax entre os séculos XII e XV, avanço agora para o motivo central deste estudo: a falerística da Pedra d´Armas da veneranda vila de Sintra.

Importa-me sobretudo o significado teúrgico e teosófico, iniciático, do simbolismo transposto do brasão sintrense, muito mais que a leitura imediata, exotérica ou profana, sempre vaga e incerta porque em si só incompleta, vagando sempre para a inquietação da dúvida insatisfeita. Na venusta heráldica (soli)lunar de Sintra, nas suas figuras esquivas aos olhares mais despercebidos do seu conteúdo mistérico, a pequena e amorável vila revela-se bojo da aventura espiritual ibero-bretã que veio a ser gesta maravilhada de la Quête du Graal.

A antiga Pedra d´Armas de Sintra, cujas figuras signitárias recuam à Idade Média sintrense, foi mandada retirar do frontal da capela da Misericórdia pelo antigo presidente da autarquia, dr. Joaquim Fontes, erudito arqueólogo, e que está hoje no Museu Municipal da edilidade. Essa pedra gravada, rectangular, com a medida maior no sentido horizontal, mede 0,44X0,33 m e, pela forma característica do desenho, recuará ao século XV ou ao início do século XVI, o que já é pouco provável.  A gravação apresenta o que se assinalará como o mítico castelo amourisco do Santo Graal, a mesma râbita do vaso Djin, sendo a sua característica arquitectónica lunisolar, ou árabe-europeia medieval, para não dizer islâmica-cristã e assim dispor o imóvel como moçárabe, desta maneira baseando a sua arquitectura nas mesmas e consignadas tradições espirituais oriental-ocidental, indo conferir-lhe um carácter eclético, universal; consta de seis torres na base com mais três torres sobrepostas, entre as quais se vêem dois zimbórios sobre muralhas recolhidas. Todas as nove torres estão encimadas por coruchéus, no topo das quais vêem-se sete crescentes e duas estrelas, estas à direita do observador. Até D. João V estas Armas eram usadas oficialmente, como consta do seu sinete de prata também existente no mesmo museu.

O número 9 é omnipresente neste brasão primitivo (9 torres + 9 astros = 18; 1+8 = 9. Logo, 999, número cabalístico da Lua), sendo precisamente o valor numérico do Homem Primordial Adão ou Adam, que se escreve em hebraico Adm, o qual designa tanto o Iniciado Perfeito quanto a Humanidade evoluinte, Adam-Heve, ascendente à origem divina no Logos Criador, Adam-Kadmon, sendo o seu valor matemático oposto ao 666, algarismo da Humanidade involuinte ou descendente do Mundo Divino ao seio da Matéria, representada por Adam-Chevaoth.

Dessa maneira, o número 9 das antigas Armas sintrianas, “moçarábicas”, antes, morabitas ou marabutas de inspiração Maridj, direi assim, com as luas elevadas às estrelas (Vénus), transfere do palco da Evolução Universal para o particular geográfico, reproduzindo na Terra um mesmo Sistema Planetário, como seja assinalar o Axis Mundi, Centro Primordial ou Tebaida Geradora aonde se recolhem os verdadeiros Iluminados que, sempre e infalivelmente, estão em consciência e acção à dianteira da Humanidade presente, por serem da Humanidade futura, esta que até o mais comum das gentes deseja ser mais justa e perfeita para o Mundo; assim, esses Homens Representativos decerto serão os Guias, a Cúspide Humana e Espiritual da Humanidade presente. São eles os transformadores da Distopia em Utopia, da Anarquia em Sinarquia, do sonho de ontem na realidade de hoje, e certamente quem trarão a solução do magno problema humano: o da felicidade entre todos os povos, do homem consigo mesmo e do homem com o seu próximo.

No século XX, porém, após a implantação da República, a Câmara Municipal de Sintra encarregou, em 1929, o ilustre heraldista (e esoterista, ao que soube) Afonso de Dornelas, de estudar as novas Armas e o Estandarte da vila, capital espiritual da Europa, o que ele fez. De maneira que as novas Armas do concelho, vingando até hoje, foram aprovadas pelo Instituto Histórico de Sintra na sua sessão de 15 de Agosto de 1929, conforme o parecer elaborado pelo dr. Joaquim Fontes (in Heráldica de Domínio – Sintra, no Elucidário Nobiliárquico, revista dirigida por Afonso de Dornelas, volume II, pp. 275-279, Lisboa, 1929).

Iniciarei, pois, a leitura da mítica sintriana à luz da sua heráldica não menos mítica, sagrada, ao ponto de consignar este lugar como sede e cerne privilegiado do V Império do Mundo proclamado pelo padre António Vieira e os demais vates da Portugalidade, ou seja, o Grande Ocidente Ibero-Ameríndio projectado desde a Praia Grande de Sintra ao Mar Grande de Itaparica, defronte à Bahia de Todos os Santos, no Brasil, este a “Nova Lusitânia” como a consignou Pedro de Mariz no século XVII nos seus Diálogos de Vária História.

TORRE – Antes, torre torreada, ou seja, torre sobreposta a outra, de formato arábico, assim designando o primitivo castelo árabe altaneiro à vila no topo do Morro dos Penedos. Essa duplicação da torre esotericamente indica a dupla função que a fortaleza possuía: a de fortificação militar e a de santuário religioso, desta maneira convertida em râbita, “templo-fortaleza”. Esse culto espiritual estaria na via da Mahaba ou Amor Divino, cuja maior difusora foi a célebre sufi Râbi`a al-`Adawiyyah (713-801 d.C.), desde logo possuiria característica lunar, matricial, ademais assinalado no nome do Orago da anexa mesquita de Fátima (que, com a ocupação cristã, seria transformada em capela de S. Pedro de Penaferrim), quinta filha do Profeta Mahometh e expressão maior corânica das fathmas ou “mulheres oráculos”, videntes e sibilas, na linha daquelas mais antigas celtiberas, depois greco-romanizadas, que das altas penhas da Montanha da Lua perscrutavam os lances do futuro e imolavam pombas e coelhos brancos à deusa Cyntia à luz luxuriante das Luas Cheias, sempre prenhas de mágicos sortilégios de encantamento e beleza.

No brasão, a torre é amarela dourada por fora e azul índigo por dentro. Cores do Munindra ou o “Pequeno Sábio”, vêm a ser a referência esotérica astral ao fluxo do Sol (amarelo), exterior, e ao refluxo de Vénus – Lua (azul), interior, de maneira que mais uma vez se denota que em todos os consignados lugares sagrados onde haja culto lunar, feminino, igualmente há culto solar, masculino, e vice-versa, a fim do equilíbrio dos opostos estar sempre presente, tal qual acontece nesse Mundo Jina ou dos Deuses que é Agharta, ou melhor, Duat, sendo esse o sentido oculto do cipo romano descoberto na Praia das Maçãs, onde figuram um Sol e uma Lua juntos.

Foi o culto solar, expressado pela Cristandade cuja difusão era encabeçada pela Ordem do Templo em seu tempo, particularmente em Sintra, quem abraçou e abarcou o culto lunar, corânico do Islão, fincando-se aqui, na idílica serra, a mais harmónica união dos dois e tal maneira que foi única na Europa, facto expresso e também testemunhado na arquitectura singular do magnífico Palácio da Penha, vulgo Pena, construído sobre o antigo Convento de São Jerónimo pelo rei iluminado D. Fernando II, no século XIX, cuja ala esquerda (a que se acede pela Porta do Inferno, a Morte – Janua Mors) é em estilo árabe granadino, expressando o Oriente, enquanto a ala direita (a que se acede pela Porta do Céu, a Vida – Janua Vita) é de linha franco-bávara, indicando o Ocidente, unidos arquitectonicamente no próprio edifício.

A Torre, que ao assinalar o castelo-santuário com isso assume o predicado de turris fides, possui em baixo uma porta e duas janelas laterais amouriscadas. Transpondo o seu significado esotérico para o sentido da anatomia oculta do Homem, tem-se nisso a representação dos canais físico-etéricos discorrendo ao longo da coluna espinhal: a janela direita fica para o canal solar ou masculino (Pingala), activo, a janela esquerda para o canal lunar ou feminino (Ida), passivo, e a porta como o canal central, andrógino ou neutro, mercuriano afim ao estado terrígeno (Sushumna). Os seus contornos são semelhantes aos de fechaduras, cuja chave – replicando aquela outra apocalíptica à entrada da Alhambra, em Granada – está sobre o portal de adentro do Palácio da Pena, apontando abaixo, para o seio mesmo da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria, representada pelas penhas verdejantes no brasão. Com isso, tem-se assinalado o sentido velado de demanda e conquista ou realização da Consciência Iluminada – que o Hinduísmo designa pelos termos altamente místicos Manas Taijasi e Budhi Taijasi – posto ao par da Infera Viaticu, a iniciática descida aos Infernos, Inferiores ou Interiores Lugares dos Deuses, o misterioso seio da Terra cuja entrada, abertura ou deslocamento da lápide vitriólica está simbolicamente guardada pelo tritão Gerião, o lendário “Atlante do Mar de Sintra”, que domina a fachada dianteira deste palácio de D. Fernando II. Tritão ou triturador, transformador das humanas imperfeições jivas (nidhanas) nas sobrehumanas ou jinas perfeições (skandhas) assinaladas na estátua erecta do “Guerreiro” próximo ao mesmo palácio, afinal, o divino Akdorge ou São Jorge de Portugal, Senhor do V Império dos Lusos, os “Filhos da Luz” (Assuras ou Arqueus).

Na mesma correnteza interpretativa, as cinco ameias da subtorre constituem a coroa dignitária do Iluminado, do que despertou em si a Chama crepitante de Kundalini, como seja o Fogo Criador do Divino Espírito Santo na sua expressão de Mãe Divina, cujo Templo Universal, diz a Tradição, vela-se no bojo desta mesma Serra Serra. Já a sobretorre carrega as quinas antigas de Portugal, em azul, formando uma cruz sinalética da crucificação da Energia Celeste (Eléctrica, verde, Fohat) vertical (assinalada no pentagrama de evoco Tetragramaton) com a Força Terrestre (Electromagnética, vermelha, Kundalini) horizontal (apontada na Lua sob o evoco Chaitânia).

Assim como a subtorre designa, nesta leitura esotérica, a 4.ª Iniciação de Chrestus ou Arhat e a consequente descida ao Mundo Subterrâneo, a sobretorre representa, no mesmo contexto, a 5.ª Iniciação, a Ressurreição, o Adeptado Coroado ou Real, enfim, o “Caminho Iluminado pelo Sol Espiritual” (Shin – Tao – Ram = Sintra), sempre se sobrepondo e mesmo distando, imensamente além, quase ou mesmo ao infinito, de todas e quaisquer vias e modalidades das vãs curiosidades profanas e vulgares excitações oníricas, psíquicas onde inevitavelmente, como é da sua natureza, a imagem impõe-se sempre à ideia, determinando posturas e atitudes carismáticas em afirmativas de teor “messianista” em diversos do comum das gentes.

A torre assinala ainda a assunção à “Casa de Deus”, a qual é sempre figurada pelo sentido de “Montanha Sagrada da Iniciação” que, aqui e para todo o efeito neste extremo ocidente da Europa, é Sintra. Esta, espiritualmente está sob a égide do Arcano 5 do Tarot, “O Hierofante”, e temporalmente sob a influência do Arcano 16, “A Casa de Deus”, lâminas que São Germano intitula respectivamente de “O Mestre dos Arcanos” e “A Queda da Grande Torre”. Por sua parte, o Professor Henrique José de Souza designa-as de “O Poder Religioso separado do Temporal” e “A Queda do Espírito na Matéria”.

PENHAS – O termo penha, donde deriva “penedo”, igualmente significa “prenha”, antes, “pedra prenha”, “pedra de gigante” ou “pedra gigante” (que o rito, o mito, a lenda e a crença haverão de tornar “pedra sagrada” e “pedra santa”), assim perfilando no significado desse outro megalítico menir. Salpicados de verdejante, os penedos são de cor negra, em heráldica correspondendo à terra e significando honestidade, clareza de costumes. Segundo se pode contar em exemplares do brasão desta vila, ainda que não seja número fixo porque varia em diversos exemplares, o monte é formado por 17 penhas, e, por feliz causalidade, 17 é o Arcano de Portugal, “A Estrela dos Magos” ou “O Candelabro Celeste”, a quem o Professor Henrique José de Souza apelida “As Sete Trombetas, como Voz do Logos Criador”. Tal estrela não é outra senão Sirius correlacionada a Vénus, vindo a expressar sideralmente o Terceiro Logos Criador como Espírito Santo, o que demarca na Terra a marcha peregrina da Mónada Humana, marcha cíclica essa de Norte a Sul e de Oriente a Ocidente que leva de nome Itinerário de Io.

No brasão, as penhas amontoadas representam a Serra de Sintra, antanho chamada Cyntia em celta, Sentra em latim e Xentra em árabe, como a grafava Edrisi, o célebre geógrafo do século XII, e que veio a ser a origem do tepónimo actual. Como Serra da Lua, os lugsignan ou lusitanos chamavam-na Cyntia, outra não sendo senão a expressão da velhinha Deusa-Mãe dos povos estremenhos paleolíticos e neolíticos que fizeram desta sua serra todo um altar de devoção a Ela, origem dos seus foros sagrados.

Com tais foros sagrados, Sintra é o Mons Salvat (topónimo que entra na geografia sintrense, quer como Monserrate, o mesmo Montserrat do poema Os Segredos, de Goethe (1784), quer como o mais singular Monte Salvo, junto à Estrada de Colares, e que é aquele do Parsifal, de Wagner, estreado em 13.1.1882), a Montanha ou Monte da Salvação inserida na Epopeia do Santo Graal, conforme atesta a Tradição Iniciática do Ocidente. Sabe-se hoje que a Taça do Santo Graal peregrinou do Médio-Oriente à Europa no rumo certo da Sé Patriarcal de Lisboa, no século XII, e dela para Sintra, o mesmo Mons Salvat “wagneriano” situado “algures” nos confins da Europa, como seja o extremo cabo-mar da Península Ibérica. Acerca disso, lembro o que contou, a dado trecho da célebre ópera, Gurnemanz, cavaleiro da Ordem do Santo Graal, aos seus irmãos de fé e ideal:

“Na tarde em que Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo celebrou a última ceia com os seus discípulos, bebeu o vinho por um cálice que, mais tarde, José de Arimateia usou para recolher o sangue vivificante que escorria de um dos lados do Redentor. José de Arimateia guardou igualmente a lança ensanguentada e conservou estas relíquias consigo, através de imensos perigos e perseguições. Enfim, os Anjos o guardaram até que, certa noite, um mensageiro místico enviado por Deus apareceu a Titurel, pai de Amfortas, ordenando-lhe que fizesse construir um castelo que servisse de abrigo às santas relíquias. Assim se construiu, sobre uma alta Montanha, o castelo de Mons Salvat onde se guardaram os sagrados tesouros, sob a vigilância de Titurel e de uma companhia de santos e castos cavaleiros. Esse castelo tornou-se um centro de onde se projectaram sobre o mundo exterior poderosas influências espirituais.”

Quase de certeza terá sido esse excerto que levou Richard Strauss, aquando da sua visita a Sintra em 1909, a exclamar extasiado ante a visão deslumbrante do Palácio da Pena: “Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conheço a Itália, a Sicília, a Grécia e o Egipto, e nunca vi nada, nada, que valha a Pena. É a coisa mais bela que tenho visto. Este é o verdadeiro jardim de Klingsor e, lá no alto, está o Castelo do Santo Graal”.

Com efeito, além da Pena sua expressão, o castelo encantado do Santo Graal subsiste inviolável às vicissitudes e incertezas no rosário inconstante dos tempos, sim, existe ainda nem que seja como o mais belo e alvissareiro sonho da espiritual infância da criatura humana. Ele é sabido do que ousou espreitar além do “espelho de Alice”, na peugada do coelho, e descobrir o “País das Maravilhas”, elevado sobre iniciáticas grandezas, onde a injustiça, a doença, a fome e a ignorância não existem jamais. Ele é a Terra de João Ninguém, a Terra Santa do Preste João, a mesma dos Jinas da Agharta imortal que ressoam palavras de conforto e incitamento nas almas dos que sonham belos sonhos e vão além realizá-los. Isto remete-me àquelas outras palavras de Helena Petrovna Blavatsky, em Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria:

“Os verdadeiros sobreviventes dos Maçons são esses do Templo Inferior, ou a Cripta, lugar sagrado da Iniciação; são os únicos guardiões dos verdadeiros segredos maçónicos perdidos agora para o mundo.

“Falar-se de alguém que houvesse descido aos Infernos equivalia, na Antiguidade, a designá-lo como um Iniciado Perfeito.

“Os clérigos benévolos que, sob a menor das provocações, estão sempre prontos a mandar-nos ao Tártaro e às regiões infernais, não suspeitam o bom voto formulado a nosso respeito, e qual o carácter de santidade que deveremos adquirir para entrar num local tão sagrado.”

Estou a referir-me ao Mundo de Duat, o mesmo Hades dos gregos, a Ermedri dos latinos ou o Amenti dos egípcios, aqui, à sua Quinta Cidade, Loka ou Cantão, consignada às “Três Luzes” do Eterno de que a venusta “Lua Azul” é reflexo feminino representado nesta serra pela Lagoa Azul seu “espelho”, junto à Penha Longa.  Tem-se assim sob Sintra, diz a Tradição Iniciática das Idades, o Templo Universal do Submundo de Badagas sob a égide de Júpiter e do Touro. Nisto me fico, com tais frases estranhas, bizarras mesmo, mas propositadas, deixando que o doce e etéreo sonho azul tome posse do respeitável leitor despertando-lhe elevados pensamentos e sentimentos.

A cor verde, encrostada nas penhas negras do brasão, além de associar-se à clorofila vegetal, designa igualmente o Poder Criador da Natureza-Mãe impulsionada pelas energias luni-solares (azul-amarelo da bandeira) que a sustêm. Da fusão cromática do azul com o amarelo extrai-se, precisamente, o verde, ocultamente a cor da força mental.

FUNDO VERMELHO PÚRPURA DO ESCUDO – O vermelho indicado para o campo de armas representa em heráldica o sangue derramado no serviço nobre e leal das Armas assinaladas, mesmo que Sintra não tenha sido tomada pelo cristão ao árabe pela guerra e sim por cordiais e concordatas palavras. Sendo purpurado (cor resultante da fusão do verde celeste com o vermelho terrestre), igualmente representa aqui a influência astral de Júpiter sobre Sintra, por cuja constelação do Sagitário age sobre o lugar dimanado-se a toda a Península Ibérica, a ela se associando essa outra constelação do Touro, com a intervenção de mais dois importantes constelados: a Ursa Maior e a Lebre. Energias astro-telúricas que são espargidas de maneira harmónica pelo serrano Anjo Tutelar (Genius Loci) tomando forma iconográfica em Santa Eufémia (a “Boa Fêmea”), mas que possui o nome oculto de Ab-Sin (“Senhora da Lua”).

CRESCENTES E ESTRELAS – O crescente selenita, cor de prata, assinala a religião Islâmica e o brasão como emblema lunar. O pentagrama, de matiz prateado, aponta os “cinco elementos subtis da Natureza” (Tatvas), princípios, alphas, hálitos ou alentos vitais dimanados desde o primeiro contando como quinto afim ao respectivo planeta sagrado: Vénus, o alter-ego da Terra. Nos elementos fundamentais da Natura-Naturante que formam o Pentalfa Flamejante (Tetragramaton) como signa do Supremo Demiurgo, tem-se:

Na Pedra d´Armas da bela e altaneira Sintra, crescente e estrela são duplos, nisso esotericamente assinalando a duplicidade alternada, como sístole e diástole marcadas por Sol e Lua. Representam também as duas Taças referidas pelo Professor Henrique José de Souza em A Voz do Espírito de Verdade: “A Taça da Amargura, de Soma ou da Lua transformada na Taça da Exaltação, da Glória e da Justiça, que é a de Shukra ou Vénus”.

DOURADO E AZUL FUNDAMENTAIS – No pano da bandeira, heraldicamente o amarelo ouro significa nobreza, fé e poder, enquanto o azul corresponde, ainda em heráldica, ao ar, à visão ampla. Traduzem as “qualidades fundamentais da Matéria”, chamadas tradicionalmente Gunas (literalmente, “cordas”, podendo-se traduzir como “encadeação da qualidade tríplice da Matéria”): Satva, a energia amarela da actividade, e Rajas, a energia azul rítmica ou equilibrante. São o Espírito e a Alma da “coisa” sintrã. Quanto ao Corpo, ou seja, Tamas, o atributo vermelho da estabilidade, está assinalado na cor de fundo do escudo. De um modo mais profundo, tem-se patentes as relações secretas de Sintra com Shamballah: o amarelo liga-se a Agharta sob a égide de Mercúrio (Pai – Aleph); o azul a Duat auspiciado por Vénus (Mãe – Mem); o vermelho a Badagas sob a influência de Marte (Filho – Schin); já o listel branco em meia-lua sob o brasão, corresponderá aqui à Face da Terra (reunião das Três “Pessoas”, antes, Hipóstases, ou a Santíssima Trindade). Ora havendo uma predominância de amarelo e azul, adiantando-se o vermelho como Filho gerado pelo Pai-Mãe, tem-se assim expostas as três Gunas em relação directa com a natureza dos Mundos Jinas e o sacrossanto nome transhimalaio de Maitreya, ou seja, o Cristo Universal, Senhor dos Universos, concretizando a Parúsia Sintriana em um Novo Ciclo de Humanidade.

Segundo a Teurgia e a Teosofia, são precisamente Mercúrio e Vénus (amarelo-azul) que maior influência exercem na construção do Homem Futuro, do futuro “Andrógino Alado” ou Adepto Perfeito, se assim posso dizer. A Lua, por seu turno, exerce uma pressão tremenda sobre os sensitivos psíquicos, recambiando para o desabrochamento das suas faculdades medianímicas que, se não tiverem o espiritual apoio do Sol, tecerão o seu fatal destino psíquico com o lastro das mais desoladoras neuroses e vícios, em suas multivariadas manifestações e consequências letais, motivo de todos os Grandes Iluminados do Passado e os livros sagrados de todas as religiões desaconselharem gravemente os cultos psíquicos e o desenvolvimento do medianimismo, por serem manifestações óbvias de involução humana. Ao invés de paralisar na fase anímica ou emocional, deverá o Homem avançar para o desenvolvimento e domínio do mental, no rumo certo do espiritual.

LISTEL E FRASE – Por debaixo das Armas, um listel branco com a frase Vila de Sintra, a negro. A faixa branca, em formato de crescente, designa a Lua. A frase a negro, possui o significado oculto: “Velo a Lua, Ísis ou Ió”. O branco assinala a Manifestação, o Manvantara, o Cosmos, e o negro o Repouso, o Pralaya, o Caos.

Tudo isso, repito, visto exclusivamente pela perspectiva esotérica, e não pela exotérica ou imediata, pois ainda que ambas as perspectivas se encontrem em muitos aspectos, contudo não são iguais, e confundi-las levará inevitavelmente à queda na fantasia pueril, tanto da parte académica como da ocultista. O mal de uma e outra partes é exactamente este: não saberem fazer as devidas distinções, cada uma querendo a exclusividade para si como se a outra não existisse, quando na realidade ambas se completam como dois domínios de um só panorama mental.

ELEMENTOS RESTANTES – Os cordões e borlas da bandeira são de ouro e azul. A lança e a haste, igualmente de ouro, sugerem a lança do centurião romano Longino, Longuino ou Lanké (em grego), com a qual trespassou, no Calvário, o peito do Redentor. A lança simboliza a acção penetrante do Verbo ou Filho. Quanto à coroa mural de quatro torres, além de representar as quatro freguesias locais (Santa Maria, S. Miguel, S. Martinho e S. Pedro, correspondendo exactamente às cores heráldicas azul, dourado, vermelho e verde ou negro), aponta a Rota ou Caminho Real da Iniciação, aliás, apontada num anagrama cabalístico, ornado por uma rã, num vitral do Palácio da Pena. As coroas murais figuram somente nos brasões de vilas e cidades, por causa de designarem colectividades populacionais e não colectividades ou agregados familiares.

Esse Caminho Real da Iniciação está assinalado nos sete mais um pontos-chaves ou jinas da Serra Sagrada de Sintra, como sejam:

8) Trindade da Serra (Quinta) – Theotrim, Síntese
7) Capuchos e S. Saturnino da Peninha – Kassiel, Saturno
6) Penha Longa e Lagoa Azul – Anael, Vénus
5) Parque e Palácio da Pena – Sakiel, Júpiter
4) Seteais e Regaleira – Rafael, Mercúrio
3) Paço e igreja de S. Martinho – Samael, Marte
2) Santa Eufémia da Serra – Gabriel, Lua
1) Castelo dos Mouros – Mikael, Sol

A Serra de Sintra possui tradições remontando à mais esquecida noite dos tempos. Ptolemeu, geógrafo romano dos séculos I-II d.C., transmitiu à posteridade um conhecimento tradicional sobre Sintra muitíssimo anterior ao seu tempo. Juntando os cultos hidrotelúricos da serpente e do coelho totémicos à veneração aos heróis passados ou santos Jinas, assim como ao culto mistérico da profecia e da iniciação, forte cunho de eleição sagrada marca até hoje esta montanha. Ritos de iniciação e de revelação oracular, pela força ctónica dos deuses, vinculados ao hidrotelurismo assinalado na Lua, no coelho e na serpente ou ophiussa, unem-se na tradição mitogénica de Cyntia. Nela o azul da água mansa se acasala com o dourado do Sol ardente. O próprio Camões o diz em Os Lusíadas (III, LVI): “E nas terras da Lua conhecidas, / Subjuga a fria Sintra, o duro braço, / Sintra onde as Náiades escondidas / Nas fontes, vão fugindo ao doce laço / Onde Amor as enreda brandamente / Nas águas acendendo fogo ardente”.

Tendo o seu cerne profundo em Sintra, conforme fica atestada na leitura teosófica feita sobre a heráldica local, de Bandarra ao padre António Vieira afirma-se uma Tradição que é, para o génio insofismável de Fernando Pessoa, a Tradição genuinamente Lusitana, logo, Universal, porque a Lusitânia, “Terra de Luz” ou “Pátria-Luz”, está em tudo e em todos, citando, em remate final, o trecho extraído do seu livro Sobre Portugal, página 177:

“Que Portugal tome consciência de si mesmo. Que rejeite os elementos estranhos. Ponha de parte Roma e a sua religião. Entregue-se à sua própria alma. Nela encontrará a tradição dos romances de Cavalaria onde passa, próxima ou remota, a Tradição Secreta do Cristianismo, a Sucessão Super-Apostólica, a Demanda do Santo Graal. Todas essas coisas, necessariamente dadas em mistério, representam a verdade íntima da alma, a conversação com os símbolos.”

ALEA JACTA EST

“A sorte está lançada”

Cumpra-se o Destino!

NOTAS

[1] Esse Manuel Teixeira era um ilustre cabalista e possível frequentador da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, surgindo citado no testamento de João Fernandes da Conceição, ermitão de São Julião (2 de Dezembro de 1764), falecido no ano de 1766. – Cf. Manuel J. Gandra, A ideia do Monumento de Mafra: Arquitectura e Hermetismo. Texto inserto no “Boletim Cultural “94”, edição da Câmara Municipal de Mafra.

[2] D. Francisco Manuel de Melo, Tratado da Ciência Cabala, Lisboa Ocidental, 1724. Reeditada pela Editorial Estampa, Lisboa, 1972, por intercessão do saudoso amigo pessoal Dr. José Blanc Portugal, antigo cônsul de Portugal em Brasília, coevo e amigo do filósofo da Parúsia Lusitana, José Marinho, assim como de tantos outros, nomeadamente Pinharanda Gomes, dados às antigas e célebres tertúlias de Lisboa donde saíram as conceições nunca antes concebidas por inteiro da Filosofia Portuguesa.

[3] Frei Tiago de Boaventura Hepburn de Escócia (1573-1621), Virga Aurea (“Vara Dourada”). Apesar das tentativas dos falecidos dr. José Eduardo Pisani Burnay e de André Jean Paraschi, chegando a ser meus correspondentes durante largos anos, sobretudo o primeiro, essa obra nunca foi devidamente publicada e muitíssimo menos dada ao conhecimento geral. Escrita após uma peregrinação de frei Tiago a Santiago de Compostela, a obra é consagrada à eterna Virgini Maris e ao secular Papa Paulo V. A Virga Aurea constitui-se de um “Calendário Perpétuo de Magia Natural das coisas secretíssimas”, classificando e resumindo a quase totalidade dos conhecimentos esotéricos da Teogonia, Cosmogonia, Angeologia, Astrologia, Magia, Talismânica, Alquimia, etc.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Helena P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, volume II. Editora O Pensamento, São Paulo.

Helena P. Blavatsky, Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria. Editora O Pensamento, São Paulo.

Henrique José de Souza, A Verdadeira Iniciação. Fundação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1966.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, Apostila n.º 19 – A Boa Liz Governadora, Grau Peregrino.

Jean-Charles de Fontbrune, História e Profecia dos Papas. Publicações Europa-América, Mem Martins.

Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

Fernando Pessoa, Moral, Regras de Vida, Condições de Iniciação. Textos estabelecidos e comentados por Pedro Teixeira da Mota. Edições Manuel Lencastre, Lisboa, 1988.

Roberto Lucíola, Princípios da Sinarquia. Colecção Fiat Lux, Caderno n.º 28, Agosto de 2001, São Lourenço do Sul de Minas Gerais, Brasil.

G. Jung, Psychologie et Alchimie. Éditions Buchet/Chastel, Paris, 1970.

Aquarius-Pesquisa, Simbolismo das Bandeiras. Revista Aquarius, ano I, n.º 3, 1975, Rio de Janeiro.

Pedro Álvaro Bernardi, Uma breve introdução ao estudo da Heráldica. Revista Dhâranâ, edição 236, ano 76, Agosto 2000, São Paulo.

Oliveira Martins, História da Civilização Ibérica. Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Augusto Ferreira do Amaral, As bandeiras de Portugal. In A Monarquia Portuguesa (Reis e Rainhas na História de um Povo). Edições das Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, Abril de 1999.

Marquês de Abrantes, O Estudo da Sigilografia Medieval Portuguesa. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, Dezembro de 1983.

Alfredo Soto Feijoo, Diccionario y Ciencia Heraldica. Editora Siler, Madrid, 1957.

Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Edição Representações Zairol, Lda, Lisboa, 1961.

Manuel de Sousa, As origens dos apelidos das famílias portuguesas. SporPress, Sociedade Editorial e Distribuidora, Lda, Mem Martins.

Cristóvão Alão de Morais, Pedatura Lusitana (Nobiliário de Famílias de Portugal). Edição da Livraria Fernando Machado, Porto.

Domingos de Araujo Affonso e Ruy Dique Travassos Valdez, Livro de Oiro da Nobreza, com Prefácio do Dr. José de Sousa Machado. Publicação patrocinada pela Academia Nacional de Heráldica e Genealogia, na Tipografia da PAX, Braga, MCMXXXIII.

Armando de Mattos, Brasonário de Portugal. Edição da Livraria Fernando Machado, Porto, MCMXLIII.

Visconde de Juromenha, Cintra Pinturesca. Lisboa, 1838.

Cyntra – Archivo Histórico. Dezembro de 1907.

Braamcamp Freire, Brasões da Sala do Palácio de Sintra, vol. I, pág. 56 e segs. Coimbra, 1921.

José Alfredo da Costa Azevedo, Velharias de Sintra, vol. I. Publicação da Câmara Municipal de Sintra, 1980.

António Machado de Faria, Uma Pedra Antiga com As Armas de Sintra. Publicações da Câmara Municipal de Sintra, 1960.

Afonso Dornelas, Heráldica de Domínio – Sintra. In Elucidário Nobiliárquico, revista dirigida pelo autor, II volume, Lisboa, 1929.

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