J.H.S. entre as Valquírias – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Dez 26 2017 

Sempre que este assunto é abordado, por norma em recato no óbvio receio do seu conhecimento público, o incómodo é manifesto e o arremate é sempre “deixe-se para lá” como final abrupto de tema indesejado, malquisto, de todo incompreendido. Refiro-me a Helena “Iracy” Gonçalves da Silva Neves, a Hercília Gonçalves de Souza e a Helena Jefferson de Souza, as misteriosas mulheres de Henrique José de Souza.

Os biógrafos do assunto – Sebastião Vieira Vidal e Carlos Lucas de Souza, sobretudo estes que afirmariam e selariam o seu entendimento por um colectivo institucional que o aceita por crença irreflectida, impensada, havendo minoria que suspeita por reflexão pensada  – afirmam que Helena Iracy faleceu vítima de acidente em Lisboa no ano 1899, que Hercília Gonçalves casaria com Henrique José de Souza no início do século XX e tiveram vários filhos, um deles uma menina que recebeu o nome da primeira que entretanto fora trocada pela original algum tempo depois de nascida, de modo que essa segunda Helena, para efeito imediato, seria sempre filha de Henrique e Hercília, e que um membro da família Ferreira – António Castaño Ferreira – registaria depois essa criança como sua “irmã” para evitar a fama de pederasta a Henrique José de Souza, de quem era amigo e seguidor das suas crenças esotéricas, assim o furtando à justiça penal se o caso viesse a ser denunciado, como de facto aconteceu.

Este assunto “explodiu” por volta de 1932-34, por ocasião da morte Hercília Gonçalves e antes do casamento com Helena Jefferson de Souza, quando Henrique José de Souza junto de pessoas da sua confiança encetou explicações esotéricas relativas às mulheres de sua vida, baseado nos conhecimentos do Budismo Tibetano relativos ao chamado Tulkuísmo e Avatarização. Tais confidentes, gente “prática”, manhosa até nas lides metafísicas, dotada de precaríssimos conhecimentos que não iam mais além do simplismo da linguagem dos conceitos do espiritismo kardecista (como ainda hoje acontece), ouviram tudo isso como coisa exótica intragável, bizarra, para todo o efeito, absolutamente ininteligível, e ficaram só pelo “óbvio” da pederastia de Henrique José de Souza. Vieram para a praça pública e denunciaram o caso nos jornais, deu-se o escândalo e Henrique José de Souza acabou envolvido com os tribunais. A polémica varreu a opinião pública brasileira e sul-americana de lés-a-lés. Ele foi ilibado mas a má-fama ficou até hoje, a ponto de quando no ano 2002 me entrevistei, em São Paulo, com conhecido editor e maçom de alto grau brasileiro, ter-me avisado para ter cuidado com essa seita muito malvista, que até o seu líder estuprara e engravidara a própria filha!!! Tentei explicar que esse era um grande equívoco, ignoro se debalde ou não.

1941 foi o ano do início da campanha difamatória contra Henrique José de Souza, por consequência afectando a Sociedade Teosófica Brasileira por ele fundada em 1928, começada por Armando Salles, colaborador da revista A Cigarra, e movida pela chamada tríade “TEB” (Taba – Edmundo – Bento, ou sejam Tabaja Bolanos Barbosa, Edmundo Gouveia Cardillo e Bento Martins), campanha que só terminou em 1944 depois de ter sido desmascarada em tribunal, ficando provada a sua má conduta cívica e moral. No ano anterior, 15 de Junho de 1943, essa tríade publicara num jornal no Norte do Brasil, em Belém do Pará, um artigo contra o Professor Henrique José de Souza e a S.T.B., mas a campanha difamatória não foi adiante. Com efeito, em 15 de Setembro de 1943, foi arquivado o Processo de Inquérito Judicial contra o Professor Henrique José de Souza, instaurado em virtude da denúncia feita à polícia pelos supraditos, sendo o despacho de arquivamento do mesmo feito pelo Procurador do Distrito Federal (Rio de Janeiro), dr. Romão C. Lacerda, e publicado no Jornal do Comércio. Por fim, em 24 de Setembro de 1944, a pedido da Directoria da Sociedade Teosófica Brasileira, para que o público geral fosse esclarecido acerca da campanha sinistra da tríade “TEB” (espécie de segundo tomo do casal Coulomb detrator de H. P. Blavatsky) e o bom nome do Professor Henrique José de Souza, da sua família e da S.T.B. ficassem limpos de toda e qualquer infâmia, nessa data foi publicado no Jornal do Comércio a notícia seguinte com valência jurídica:

JORNAL DO COMÉRCIO DE 24 DE SETEMBRO DE 1944

Publicações a pedido – A Sociedade Teosófica Brasileira ao Grande Público do País.

Relativamente a uma publicação dos Srs. Bento A. Martins e Edmundo G. Cardillo, feita na secção “a pedido” deste jornal, número do dia 17.09.1944, a Sociedade Teosófica Brasileira, com o único objectivo de esclarecer o grande público do País, tem a dizer o seguinte:

1.º) Os Srs. Bento A. Martins e Edmundo G. Cardillo foram sócios da Sociedade Teosófica Brasileira, durante seis anos.

2.º) Afinal, por motivos graves e devidamente comprovados, acabaram sendo eliminados dos quadros sociais da S.T.B.

3.º) Tudo fizeram os sócios eliminados para arrastar consigo os outros membros da S.T.B. o que, como é notório, jamais conseguiram; e, assim, dos três directores que iniciaram a campanha de difamação, só restam eles dois (Bento Martins e Edmundo Cardillo), de vez que o terceiro deles já se desligou, conforme carta endereçada à Directoria da S.T.B., em 28.10.1943.

4.º) Tomados de verdadeiro acesso de ódio e despeito, Bento e Edmundo continuam, por todos os meios e modos e a propósito de tudo, uma pertinaz e insidiosa campanha de vingança, campanha que não atemoriza e nem sequer atinge aqueles contra os quais é dirigida.

5.º) Ao contrário do que falsamente afirmam os Srs. Bento A. Martins e Edmundo G. Cardillo, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA não está sendo e nunca foi processado por qualquer das Varas Criminais desta Capital; quem no-lo afirma, desmentindo-os, são os próprios Distribuidores da Justiça, segundo se vê das certidões que, linhas abaixo, vão transcritas. Já a mesma coisa não poderá dizer Edmundo Gouveia Cardillo, funcionário do Ministério da Justiça, exercendo as funções de secretário do Director do Serviço de Obras do citado Ministério, que, por um crime contra a família, que confessou ao ser lavrado o respectivo flagrante, ESTÁ SENDO PROCESSADO pelo Juízo da 6.ª Vara Criminal desta Cidade. São estas as explicações que a “SOCIEDADE TEOSÓFICA BRASILEIRA” deve ao grande público do País.

CERTIDÃO DO DISTRIBUIDOR DO 8.º OFÍCIO

Eu, bacharel Aníbal Monteiro Machado, serventuário do Oitavo Ofício de Distribuidor de Justiça local do Distrito Federal, CERTIFICO que, revistos os livros de registo de distribuições de INQUÉRITOS, FLAGRANTES, CONTRAVENÇÕES E DEMAIS FEITOS aos Juízes de Direito das Varas Criminais, no período de quinze de Setembro de mil novecentos e trinta e quatro até quinze de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro, deles nada consta contra o nome por extenso de HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA.

O referido é verdade e dou fé. Capital Federal, em vinte de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro. Eu (rubrica ilegível), escrevente juramentado a dactilografei e eu, Paulo Mello Gouveia, substituto, a assino. Ass.) Paulo M. Gouveia.

CERTIDÃO DO TERCEIRO OFÍCIO

CERTIFICO que, dos livros criminais deste Cartório e, nos termos do pedido supra, nada consta contra o nome por extenso de Henrique José de Souza, de primeiro de Janeiro de mil novecentos e trinta e quatro (1934) a dezoito de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro. O referido é verdade e dou fé. Distrito Federal, dezoito de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro. Ass.) João Máximo de Andrade.

CERTIDÃO DO SEGUNDO OFÍCIO

O Doutor Hermes Valverde da Cunha Vasconcelos, serventuário do Segundo Ofício e Distribuidor da Justiça local do Distrito Federal, nomeado na forma da lei, CERTIFICA, depois de ter revisto os livros de seu cartório relativamente às distribuições CRIMINAIS, que NÃO CONSTA distribuição alguma contra o nome por extenso de HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, desde dezoito de Setembro de mil novecentos e trinta e quatro. O referido é verdade e aos mesmos livros me reporto e dou fé. Eu, João Valverde de (ilegível), escrevente auxiliar a dactilografei. Eu, João Silveira, escrevente substituto subscrevo e assino. Distrito Federal, dezanove de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro. Ass.) João Silveira.

CERTIDÃO DO PRIMEIRO OFÍCIO

O Doutor Olegário da Silva Berrardes, serventuário vitalício do Primeiro Ofício Distribuidor da Justiça do Distrito Federal, nomeado na forma da lei, CERTIFICA, depois de ter revisto os livros de seu cartório relativos às distribuições criminais desde dezoito de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro, NÃO CONSTA distribuição alguma contra HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA. Certifica mais que esta certidão abrange as varas ímpares criminais e todas as outras a partir de primeiro de Março de mil novecentos e quarenta. O referido é verdade e aos mesmos livros me reporto e dou fé. Capital Federal, dezanove de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro (19.09.944). Eu (ilegível), primeiro distribuidor, a subscrevo e assino. Ass.) Olegário Berrardes.

Rio de Janeiro, 23 de Setembro de 1944. J. HENRIQUE DA SILVA QUEIROZ, Director Geral da S.T.B.

Apesar de todos os desmentidos formais da Justiça brasileira sobre a pressuposta pedofilia pederasta de Henrique José de Souza, ilibando-o a toda a linha, o boato ganhou raízes e inclusive até hoje faz estremecer e duvidar muitos dos afiliados na Sociedade por ele fundada. A coscuvilhice e a intriga têm muita força nas mentes emocionais, sempre prontas para o assassínio moral seja de quem for, por isso não raro a crença feroz de hoje amanhã pode ser descrença odiosa. Déjà vu… Deixo isso na poeira da pobreza d´espírito dos que têm pudor em falar do que não houve e despudor em dizer o que não há, e passo de imediato aos factos biográficos dos personagens em causa, dando-lhes interpretação iniciática à luz desta Obra Divina em colisão aberta com o conspurco das estreitas mentes ordinárias, “práticas” e “espertas” do comércio da manipulação, mesmo que seja com o mais sagrado e puro, como recentemente disse a familiar próximo de António Castaño Ferreira, o tal «comparsa» de Henrique José de Souza:

Bom dia ————-

Recebi a sua correspondência a contento, muito obrigado pela atenção. Primeiro que tudo, devo lamentar – como já lamentei diversas vezes, em privado e em público – o descaso que a directoria da antiga Sociedade Teosófica Brasileira fez do respeitável Sr. Eng.º António Castaño Ferreira, num momento em que ele e a família necessitavam urgentemente de apoio humano, moral, económico, etc., deixando-o e aos seus entregues à triste sorte. Isto foi, é e será profundamente reprovável indigno de humanidade minimamente saudável psicomentalmente (em emoções e pensamentos), além de demonstrar ingratidão desmedida de gente de mau trato e inculta, pois se sabe que quanto mais inculto mais fanático, beato se torna. Henrique José de Souza, fundador desse movimento teosófico no Brasil em 1928, assim como a sua (segunda) esposa Helena Jefferson de Souza, sobretudo esta, quiseram auxiliar o Eng.º Ferreira mas as directorias dos departamentos da S.T.B. em São Paulo e no Rio de Janeiro, sobretudo a de São Paulo, obstaculizaram de maneira a mais descarada, infame e desprezível. Por que? Tão-só por ciúmes, vaidade e fanatismo.

António Castaño Ferreira foi um sábio, foi o primeiro a introduzir e a divulgar a Teosofia (“Sabedoria Divina”) nos departamentos da Sociedade Teosófica Brasileira, falava mais do que escrevia e era dotado de uma intuição invulgar. Conhecia obras literárias, de cunho esotérico e académico, de cor e salteado. Dotava-se de uma memória e dicção extraordinárias. Era ímpar e Henrique José de Souza tinha-o na maior das considerações, motivo de inveja para muitos outros.

Nos anos finais da sua vida (faleceu em 28 de Janeiro de 1958 no Hospital das Clínicas, em São Paulo, estando sepultado no cemitério do bairro da Vila Mariana, na Rua Lacerda Franco, na mesma capital paulista), cansado de tanto fanatismo e idolatria à pessoa de Henrique José de Souza que pedia constantemente que não o fizessem – tenho documentação particular nesse sentido, agora mesmo a meu lado – para não o cobrirem ainda mais de ridículo na praça-pública, e vendo os seus ideais de pensamento superior substituídos por crencismo cego, fanático, idólatra, Castaño Ferreira afastou-se da S.T.B. e foi para o Sul do Brasil, para o Paraná, onde viveu algum tempo. Quando regressou a São Paulo, a sua relação com a S.T.B. havia esfriado irremediavelmente, ainda frequentou algum tempo a sede do departamento paulista da S.T.B., mas já não era a mesma coisa, a organização já lhe era estranha e considerava-a nada teosófica por causa dos comportamentos dos mais destacados da mesma, arrastando atrás de si um rebanho enorme de “marias vão com as outras”, de “vaquinhas de presépio”, de “puxa-sacos ouve aqui, conta ali”, deficiência psicológica de quem se revela psiquicamente fraco, débil, inseguro de si, “manada de impuberdade” que até hoje preenche essa organização. O próprio Henrique José de Souza disse e escreveu várias vezes, nessa ocasião, que se arrependia de ter fundado a S.T.B. ante o rumo que a mesma tomara.

Acerca do regime frugívoro. Um dia este poderá ser, quando o espécime humano estiver dotado de organismo mais compatível com ele, a principal dieta, mas não actualmente, só servindo para purificações orgânicas com prazo limite, como a própria Medicina prescreve. O regime misto – frutas, legumes, carne e peixe, etc. – continua a ser o mais indicado para o Homem. Admito que o Eng.º Ferreira tenha sido extremado nesse regime que adoptou por sua própria iniciativa e que em si mesmo não faz mal, a não ser que seja exagerado. Jejuns e frugívoros são aconselhados, repito, até pela Medicina, mas com prazos muito limitados para não causar danos irreversíveis no organismo.

Seja como for, a postura e o pensamento metafísico de que se dotava o Eng.º António Castaño Ferreira, assim como qualquer outro(a) com as mesmas postura e pensamento, inevitavelmente entra sempre em choque com o meio humano geral de quem possui postura e pensamento “práticos” desafins a qualquer expressão religiosa ou metafísica, consequentemente não entendendo essas posturas e até as censurando por as considerar anormais no comportamento e lógica do senso comum. Nisto, o pensamento místico, metafísico, colide sempre com o pensamento “prático” comum estranho e até hostil àquele.

Compreendo a revolta do senhor seu pai nas notas que me repassou. Era filho, certamente não gostou e revoltou-se por ver o pai, a mãe e os irmãos passarem tão mal como passaram e que seria perfeitamente evitável se, repito, houvessem pessoas de boa índole capazes de dar a mão – invés de só apontar e criticar – nem que fosse por gratidão ao que fora, logo a seguir a Henrique José de Souza, o mais importante dessa organização. Haviam pessoas de muitas posses nessa ocasião que podiam ter ajudado facilmente, e não o fizeram por estarem mentalmente envenenadas por outros com cargos de destaque.

Com essa revolta e incompreensão, para mim ambas compreensíveis, aparecem algumas contradições nas notas que me repassou, que também compreendo. Aliás, a questão Henrique – Helena é o grande “calcanhar de Aquiles” nessa organização até hoje. Henrique José de Souza, por volta de 1932-34, deu a um ou a dois confidentes, inclusive ao Eng.º Ferreira, sobretudo a este, uma explicação esotérica para essa relação e a do seu primeiro casamento, mas o que disse extravasou para fora e foi de imediato interpretado com o senso comum de incesto, pederasta, etc. A coisa chegou a tribunal três vezes, e três vezes Henrique foi absolvido – a meu lado estão os documentos das sentenças dos juízes. Não foi isso que ele disse aos seus confidentes, mas as cabecinhas ordinárias da gente “prática” levou o assunto para o plano da sexualidade e incesto. O facto é que o rumor pegou e mantém-se vivo até hoje, não importando o que foi dito e provado três vezes em tribunal.

Henrique José de Souza – nascido em Salvador em 15 de Setembro de 1883 e falecido em São Paulo em 9 de Setembro de 1963 –  ainda não tinha quatro anos de idade quando foi assistir com os pais à exibição do Circo “Pery”, tendo ficado encantado com as façanhas de uma trapezista, Laureta ou Laurete Sabatini. Chegado a casa, morando no Portão da Piedade em Salvador da Bahia, foi imitar o que viu a artista fazer empoleirando-se nas grades com lanças do portão da casa. Desequilibrou-se e caiu, perfurando o peito. Aconteceu no dia 13 de Maio de 1887.  Por volta de 1914, Henrique perdeu a fortuna que herdara do pai no negócio de trapiche por causa do deflagrar da I Guerra Mundial, saiu de Salvador e foi até Nazaré procurar novos negócios que lhe possibilitassem a sobrevivência e a dos seus. Regressou depois a Salvador e mudou-se para o Rio de Janeiro, indo viver em Niterói. Nessa altura ele já era casado, desde 1903, com Hercília Gonçalves, filha de José Gonçalves e Custódia Gesteira Gonçalves, nascida em 18 de Setembro de 1886 e falecida em 17 de Agosto de 1931. Henrique casaria depois em segundas núpcias com Helena Jefferson de Souza – Helena Jefferson Ferreira, adoptando o sobrenome “de Souza” após casada – em 4 de Abril de 1937, na Conservatória do Registo Civil no Rio de Janeiro. Ele jurou até ao fim da tarde que antecedeu a noite em que morreu, na Clínica São Lucas, na capital paulista, que até à data do casamento nunca tocara sexualmente Helena, mesmo sentindo uma grande afeição por ela a que Hercília nunca fora alheia e por isso tinha muitos ciúmes, posto os seus dotes mentais e empatia metafísica serem muito restritos, era mais uma senhora “prática” com a sua vaidade feminina que os bens herdados da sua família lhe permitiam ter. Doente cardíaca foi sempre apoiada por Henrique, que a assistiu, foi-lhe dedicado e fiel até à hora de fechar os olhos. Henrique tivera o nome de batismo Honorato José de Souza por ter sido batizado à pressa em casa – o batismo repetiu-se depois e tenho aqui a certidão do seu batismo na Bahia – por doença de varíola que quase o fulminou sete dias após nascido. Depois o seu nome foi mudado para Henrique.

António Castaño Ferreira nasceu em São Paulo em 8 de Novembro de 1903, teve como irmãos Helena Jefferson Ferreira (de Souza) nascida em Pontalete, Minas Gerais, em 13 de Agosto de 1906, e Clementina Castaño Ferreira nascida no Rio de Janeiro em 12 de Outubro de 1914. Os seus pais foram João Augusto das Neves Ferreira, português natural da cidade do Porto com negócios em Viana do Castelo, e Agostina Castaño Ferreira, espanhola galega de Muxia ou de Orense nas proximidades de Santiago de Compostela, capital da Galiza. Fizeram parte das emigrações luso-galegas que no último quartel do século XIX embarcaram de Vigo e de Viana do Castelo para o Brasil, em busca de vida melhor. O famoso poeta e político Abílio Manuel Guerra Junqueiro foi primo direito de João das Neves Ferreira, e de facto um dos seus tios, João Maria Ferreira do Amaral, foi Governador de Macau em 1846, tendo antes se distinguido nas armas em 24 de Fevereiro de 1823 no Brasil, tomando parte na Batalha de Itaparica, onde foi ferido perdendo um braço. Depois, já em Macau, participou na Primeira Guerra contra o Ópio. Foi assassinado a cutiladas por chineses do narcotráfico na cidade macaense, em 22 de Agosto de 1849. Nasceu em Lisboa em 4 de Março de 1803.

Posto isso, tudo isso não desculpa o tratamento indigníssimo que o digníssimo Sr. Eng.º António Castaño Ferreira e seus familiares receberam da parte daqueles que tudo lhe deviam, no sentido doutoral de transmissão de conhecimentos sagrados até à época inéditos no Brasil. Não tem justificação possível tais atitudes e prova bem quanto baixa e doentia pode ser a condição humana sob o pretexto de uma crença qualquer que, bem parece, nem se sabe qual seja realmente. A minha visão e postura sobre Henrique José de Souza e António Castaño Ferreira são absolutamente diversas do que se apregoa nesse meio pseudo-esotérico. O que sei de ambos colide abertamente com o apregoado, tanto em teoria como em prática.

Mais uma vez, muito obrigado pela sua atenção e queira aceitar os meus mais respeitosos cumprimentos com os votos dos maiores sucessos para si e seus familiares.

Acerca do “Mistério Hercília”, para levantar o véu do seu enigma profundo torna-se necessário dispor os personagens seguintes:

HONORATO JOSÉ DE SOUZA – O sósia e tulku de Henrique José de Souza, na realidade, o Adepto AT-NIAT-DWIJA. Estava programado para casar com Hercília Gonçalves e tal aconteceria se não fosse a ocorrência trágica do acidente de Lisboa, no cruzamento da Rua Augusta com a Rua da Conceição, com Helena Gonçalves, na 5.ª feira de 27 de Julho de 1899 (Lua Nova), fazendo com que Henrique voltasse ao Brasil, mesmo assim tendo ido antes até ao Norte da Índia, a Srinagar, “Lugar dos Jinas”. Este Adepto leva o nome HONORATO  (HONORATUM, HONRADO) por ser aquele dado à pressa a Henrique quando do seu batismo apressado após sete dias de nascido e caindo às portas da morte fortemente atacado de varíola, como já disse, doença que foi debelada com o auxílio visível de dois médicos da família (drs. Manuel Vitorino Pereira e Manuel Pereira de Mesquita) e o invisível dos Auxiliares espirituais do mesmo Henrique, nomeadamente Maximus Tertius, Akadir, Kadir, Rabi-Muni, Senhor dos Munis”, e Samael, o famoso John King das façanhas psicomentais de H. P. Blavatsky, ou seja, o “Rei João” ou “Rei dos Jinas” (Todes).

HERCÍLIA GONÇALVES (DE SOUZA) – Casou-se com Henrique José de Souza, em primeiras núpcias, em 1903. Nasceu em 29 de Agosto de 1886 e faleceu em 18 de Julho de 1931, sendo filha de José Gonçalves, falecido em 1900, e de Custódia Gesteira Gonçalves, falecida em 1885 (parecendo inverosímil a data 1935 dada por alguns biógrafos para o seu falecimento), ambos brasileiros. Do casamento de Hercília com Henrique houveram oito filhos: Valter Orion de Souza, Carlos Gonçalves de Souza, Alberto de Souza, Isabel de Souza, Alzira de Souza, Altair de Souza, Selene de Souza e Altina de Souza, segundo Carlos Lucas de Souza; ou então Alberto, Isabel, Helena Iracy, Carlos, Alzira, Alina, Altair, Selene e Valter, segundo Sebastião Vieira Vidal.

Que o casal teve prole vasta é facto provado em registo notarial e em fotos de família, e é também facto impossível o que aparece nas notas do filho de Castaño Ferreira dizendo que Henrique casou Hercília que era viúva rica já mãe de filhos. Ora, Hercília na ocasião do seu casamento com aquele ainda não teria 17 anos de idade, o que torna impossível já ser viúva e mãe de vários filhos. Bastava apontar essa discrepância para derrubar todas as mais insinuações inventadas no controverso processo.

Segundo as Revelações Iniciáticas, HERCÍLIA era uma Mónada sob a égide do 4.º Senhor ATLASBEL que, por “favor kármico” devido aos bons resultados do seu casamento com Henrique, evoluiu para o nível superior do 5.º Senhor ARABEL, portanto, do Emocional ao Mental, o que vai bem como significado do seu nome, “Orvalho Matutino”, e motivo para HENRIQUE ter nomeado o seu filho Valter Orion de Souza “Guardião da Montanha Sagrada Moreb” (São Lourenço, Sul de Minas Gerais) e “representante do Senhor dessa, Rabi-Muni”. Mas o verdadeiro consorte de HERCÍLIA no Plano Interno era o próprio HONORATO, este claramente para o 5.º Senhor e que serviu de elo ou ponte para a transição de Hercília ao seu nível, ficando equiparados. Mas, “Hercília foi a Mãe de Helena Gonçalves manifestada como Helena J. Souza”. Dito assim, há algo que não confere e até sugere o travo amargo de um incesto póstumo. A verdade é a seguinte: Hercília foi a Mãe ADOPTIVA ou Tutora de Helena J. Souza que fora para a sua família (isto é, do Professor Henrique) ainda bebé, por os familiares desta – o pai viúvo e pobre – na ocasião não terem meios pecuniários para a sustentarem, e o Professor na altura fazer parte das famílias ricas de Salvador. Neste processo inter-famílias entrou também a SILVA NEVES que apadrinhou o processo. É daí que vem o realce do sobrenome paterno, das Neves, dado a Hercília, também pelos motivos que se seguirão. Quanto a Helena Gonçalves, tão-só manifestava a sua Consciência no Duat através da novel Helena na face da Terra, tendo esse processo de “avatarização sumária”, direi assim, sido encetado na Rua do Pilar, n.º 63, de São Salvador da Bahia, com a bebé de tenra idade. A saúde débil (obesidade afectando o sistema cardíaco) de D. Hercília e as privações que teve de suportar após a perda da fortuna do marido em 1914, por causa da Conflagração Mundial que então estourara afectando as Bolsas do Mundo, levou-a a morrer ainda nova, em 18 de Julho de 1931, com 45 anos e alguns meses de idade. Dessa sua “esposa morganática” (por não ser a sua verdadeira contraparte ou Shakti original), disse o Professor Henrique José de Souza no Livro da Reconstrução do Pramantha do Ciclo de Aquarius (Carta-Revelação de 2.1.1962):

Examinemos superficialmente o mistério de Hercília. Como se sabe, era ela e Honorato os dois nossos Tulkus que deviam fundar Dhâranâ, etc., por causa real ou verdadeira da Obra como nossos Anunciadores, mas não o foram devido ao acidente de Lisboa. Como minha esposa, Hercília foi mãe de filhos que, a bem dizer, foram frutos cármicos do 5.º, por sinal que todos dignos e valiosos. Sim, os primeiros não tendo sido meus (isto é, do 6.º Senhor, esotericamente falando – nota VMA), e mais quatro meus (do segundo casamento – nota VMA), isto é, aqueles sob a influência do 5.º, sendo que Walter, como se sabe, foi criança trocada, em 1922, por Ser do Duat, etc., e a quem armei Cavaleiro Rosacruz e dei outros privilégios bem merecidos. Hercília, como minha primeira esposa, espécie de esposa morganática, apresentava-se ao meu lado nos teatros e cinemas, que foram meus, ricamente vestida e coberta de jóias. Toda a plateia não tirava os olhos do nosso camarote. Viveu feliz a meu lado até que me levaram toda a fortuna. Então, a mesma mulher chegou ao ponto de cozinhar, de lavar roupa, etc. Morreu no colo de Helena, como seu Tulku. Não devemos falar do muito que sofreu, pois foi uma grande mártir na vida, mas recebeu a devida recompensa indo ter a Goberum, onde hoje se acha ao lado de Arabel. Ainda hoje os nossos inimigos continuam armando intrigas ou cigarreando injúrias, calúnias e difamações, que nós vamos vencendo à custa da nossa inteligência. Enquanto eles, asfixiados na sua ignorância, pedem esmolas aos “pés do Mestre”, ou no colo da Mestra, como quem mama na Vaca Astral.

HELENA “IRACY” GONÇALVES (DA SILVA NEVES) – Nasceu em 1884. Pressuposta irmã de Hercília Gonçalves, para a sua educação esmerada foi entregue bebé ainda aos cuidados da família dos padrinhos, os ricos armadores Barões Henrique e Helena da Silva Neves, sendo levada para Goa, antiga Índia Portuguesa, onde viveu na Vila Neves (com uma linda estátua desse deus solar Apolo no jardim dianteiro da residência) na Rua das Flores, n.º 19, nas proximidades da igreja de São Lourenço, em Agaçaim. O tupi Iracy, “Lua Faceira”, é alcunha teatral que lhe foi dada depois, possivelmente no Brasil, onde esteve com a Companhia Teatral Infantil “Tim-Tim por Tim-Tim”, que em 1899 actuou no Teatro São João de Salvador, capital baiana. Foi aí que conheceu Henrique José de Souza, tomaram-se de amores que consumaram em Caixa-Pregos, nos encantos da paradisíaca Ilha de Itaparica, fronteira à cidade, e com ela grávida (dos corpos predestinados aos Bodhisattvas AKDORGE E AKGORGE, dizem as Revelações) Henrique fugiu da casa paterna, embarcando após assinar o livro de bordo com o nome Honorato da Silva Neves, querendo passar também ele por afilhado do Barão, para acompanhar Helena no regresso a Lisboa, onde ainda nesse ano desapareceria de forma trágica num acidente de carruagem na Rua Augusta, mas antes já tendo ambos viajado a São Lourenço de Ansiães, Trás-os-Montes, e a Sintra, para que o Mistério ficasse completo. Esta é a PRIMEIRA HELENA, a ORIGINAL, cujas vestes kármicas ou corpo psicomental (kama-manásico) subsistiu até 1949, sendo incinerado em 24 de Dezembro desse ano no Caijah, capital do Mundo de Duat, mas cuja essência das mesmas vestes integrou-se em Helena Jefferson Souza, isto é, esta tomou posse plena da consciência das suas experiências do passado.

HELENA JEFFERSON FERREIRA (DE SOUZA) – Nasceu em 13 de Agosto de 1906 em Pontalete, Minas Gerais, filha de João Augusto das Neves Ferreira, português, falecido em 25 de Dezembro de 1945, e de Agostinha ou Agostina Castaño, espanhola, falecida em 1935. Helena Jefferson Ferreira teve como irmãos António Castaño Ferreira, nascido em São Paulo em 8 de Novembro de 1903 (dizendo as Revelações que a sua Mónada ou Essência Espiritual havia saído pela Embocadura de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, indo reencarnar em São Paulo), e Clementina Castaño Ferreira, nascida no Rio de Janeiro em 12 de Outubro de 1914. Após a morte da sua mãe adoptiva, D. Hercília Gonçalves de Souza, casou no cartório carioca com Henrique José de Souza, de quem teve os quatro filhos conhecidos de todos (Hélio, Selene, Jefferson e Hermés). Esta é a SEGUNDA HELENA, a “CONSEQUÊNCIA KÁRMICA” DA ORIGINAL.

Observando a coisa do ponto de vista estritamente profano, de acordo com o senso comum do ordinário ou vulgar, já antes a primeira ida em 1921 do Professor Henrique José de Souza a São Lourenço (MG) com a jovem Helena Ferreira, ele mesmo o jura nas suas cartas privadas e manteve até á hora de cerrar os olhos para o mundo, não se deveu a quaisquer interesses sexuais inconfessados a consumar longe dos olhares da sociedade, mas exclusivamente a ela ser tratada de mal de saúde nessa estância hidromineral, aproveitando a ocasião para também visitarem os familiares dela em Pontalete. O grande respeito do Professor por D. Hercília e pela sua memória póstuma, levou a que só passados sete anos de viuvez casasse com D. Helena, no Registo Civil do Rio de Janeiro em 4 de Abril de 1937, nascendo o primogénito do casal, Hélio Jefferson de Souza, em 1 de Março de 1938, e em 26 de Agosto de 1940 Selene Jefferson de Souza, depois Jefferson Henrique de Souza em 13 de Maio de 1942 e o falecido Hermés Jefferson de Souza em 6 de Fevereiro de 1944.

Como se observa, tendo ao meu lado toda a documentação oficial e oficiosa, tanto jurídica como esotérica, sobre o caso, a história humana desta família é como a de tantas outras e não se lhe descobre alguma mácula referente a incestos e outras coisas baixíssimas do género ou piores… Confesso que o assunto é-me sumamente enojante, e se tomou as proporções conhecidas foi porque nenhum dos seguidores (?) de JHS soube interpretar devida e correctamente o problema iniciático que ele lhes propusera na intimidade da confiança depositada (e traída), muito pelo contrário, levaram tudo para o pior possível no ser humano e fizeram alarde disso na praça pública da época, redundando em escândalo de grande alarido pelos jornais e tribunais cujo eco ressoa até hoje.

Mas também não foi só por isso que ele ficou malquisto e malvisto na sociedade profana e nos meios espiritualistas no quase geral brasileiro: foi e é igualmente por ciúme e despeito, não conseguindo o emocional de muitos superar o mental de um único, e pela sua relação próxima com certos políticos de nomeada da época (Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Adhemar de Barros, etc.) que fizeram a História Contemporânea do Brasil, alguns deles hoje considerados o pior que o país já teve política-economicamente. A incompreensão grassa, e a sociedade dita esotérica fundada em 28 de Setembro de 1969 pelo primogénito do Professor Henrique, invés de desfazer os equívocos gerais quanto a JHS, desgraçadamente aparenta aumentá-los com exemplos distónicos do apregoado à vista geral, que descareço descrever. O imediatismo profano parece impor-se ao sentido sagrado, iniciático ou espiritual que assiste à História da Obra do Eterno na Face da Terra.

HELENA (DOLORES GUZMÁN ou GUSMÃO ou GUSMÕES) DA SILVA NEVES – Espanhola, possivelmente nascida no povoado de Mariz, próximo de Oviedo, Astúrias, foi esposa do Barão HENRIQUE ÁLVARO ANTUNES DA SILVA NEVES (Portugal, 1849 – Brasil, 20.11.1944), abastado português transmontano, consignado Chefe Temporal da ORDEM DE MARIZ sob o nome secreto Malaquias (considerado Dharani de 1.ª Categoria), que enriqueceu prosseguindo o negócio de armador marítimo da família, repartindo a sua residência entre Lisboa, Goa e finalmente São Salvador da Bahia. Reservado mas muito activo, subsidiou a Companhia Teatral Infantil “Tim-Tim por Tim-Tim” em 1898-1899, e serviu de paraninfo do jovem Henrique José de Souza na vinda deste a Portugal, acompanhando Helena Iracy. Na capital portuguesa, o insigne casal residiu nas cercanias da Rua do Barão (de Alvito) que é vizinha da Sé Patriarcal.

De origem judaico-cristã, sabe-se que a família Neves fixou-se na Covilhã ainda no século XII, e nesse século ou no seguinte terá misturado o seu sangue com o tronco familiar dos Silvas, donde Silva Neves.  Está provado que a família Neves possui raízes judaicas sefarditas, e com a adesão ao Cristianismo de alguns dos seus membros terá adoptado por Orago Nossa Senhora das Neves, evoco máximo associando-a a Santa Maria Maior, por certo bem aceite pelos não conversos do tronco familiar identificando-a à “Santa Ester” expressiva da Virgem Branca, forma titular de descrição da própria Shekinah, a “Presença Real de Deus” associada ao Espírito Santo. Os Silva Neves espalharam-se por quase todo o Norte do País, desde o Douro Litoral e Interior até Trás-os-Montes e Minho (neste fixados próximo de Barcelos, em Mariz, berço genealógico da família deste nome), daí migrando mais para Sul, para Coimbra e Lisboa.

O casal de Barões da Silva Neves teve vários filhos, um deles António da Silva Neves, o “Antoninho”, que ficou por Goa mas acabou mudando de residência para Benares. Helena da Silva Neves foi a Mãe adoptiva de Helena Iracy em Lisboa e em Goa, a qual teve por Tutor o pintor francês, apodado “Adepto de Pondicherry” por Henry Stell Olcott, Jean Dubonnet Beauville (Abraxis), que a foi aprimorando física e espiritualmente até finalmente se tornar veículo perfeito da Consciência Celeste da Mãe Divina, Allamirah – “Olhos do Céu” – ou Maria, tanto vale.

Para demonstrar que a vinda a Portugal dos jovens enamorados em 1899-1900 não foi mera “blague” ou “lenda de fundação” inventada pelo Professor Henrique José de Souza, e que tampouco a família dos Barões da Silva Neves é pura invenção, como a de ter vivido em Goa, Lisboa e Salvador, respigo dois apontamentos históricos. O primeiro: ao fim de 18 dias de governação, em Fevereiro de 1835, o Governador da Índia Portuguesa, o goês Bernardo Peres da Silva, por carta régia de D. Pedro, Duque de Bragança, é impedido de exercer o seu cargo por uma revolta dirigida pelo governador militar, e refugia-se em Bombaim de onde ainda tentou repor a legalidade, em vão. Regressará a Lisboa em 1838 como deputado por Margão, frustrando-se assim a merecida governação da Índia Portuguesa por um goês, em parte devido às suas medidas reformistas tidas por demasiado rápidas. Médico, participante das lutas liberais na metrópole, no Brasil, publicara um Diálogo entre um Doutor em Filosofia e um Português na Índia sobre a Constituição Política de Portugal.

O segundo apontamento: por volta de 1937, em Lisboa subiu a cena a revista teatral “Zás-Trás-Pás”, na qual ficou famosa a canção de nome “Cinzas” interpretada pela cantora Maria das Neves. A dado trecho, cantava-se: “Cinzas da fogueira de um grande amor… envolto nas brumas da lenda”. E toda a Lisboa da época andava com a cantiga na boca trauteando, afinal… a memória de 1899 dos amores inflamados na Ilha de Itaparica entre os Gémeos Espirituais, deixando para trás as cinzas, as brumas e a lenda que, com “arte e manha”, no Teatro em Portugal, se poria toda a Lisboa a cantar o idílio amoroso, mesmo sem o saber, de Henrique e Helena com o Mar Grande a beijar-lhes os pés e os corpos se estreitando num amor puro como é o primeiro. E depois para a mesma Lisboa vieram…

Posto tudo isso, indispensável para clarificar todas e quaisquer situações, algumas e não poucas as mais desagradáveis, avançarei agora para o mistério avatárico de Hercília e os três Luzeiros (Ishvaras) que ao manifestarem-se tomam a forma de Planetários (Kumaras). Tudo baseado no fenómeno do Tulkuísmo, este que consiste na projecção da Consciência de um Mestre sobre o seu discípulo que pode ou não ter noção imediata disso. No seu estudo acerca dos Jinas Tibetanos e seus Tulkus (publicado na revista Dhâranâ n.º 106, Outubro-Dezembro 1940), o Professor Henrique José de Souza assim define o termo:

Por diversas vezes temos falado dos Shamanos ou Jinas (Homens Régios conquistadores, Sábios, Imortais, etc.), porém, até agora, não nos ocupámos da maneira como os mesmos se comunicam com os homens vulgares (ou “mortais”), ou, se o quiserem, como com os mesmos estão ligados directamente. Tal maneira de “comunicação” ou “ligação” possui no Tibete o nome de tulku, que anagramaticamente (por temura ou permutação de sílabas) faz-nos lembrar a palavra latina cultus, ou a veneração dispensada pelos “mortais” a tudo aquilo que desconhecem, por isso mesmo reconhecendo como superior, inclusive, as fugazes aparições astrais, ou mesmo físicas, daqueles “Imortais”, como ainda as manifestações tangíveis operadas através dos tulkus.

Se o tulku é um “Buda Vivo”, ou melhor, a mayávica ou ilusória sombra viva projetada por um Buda ou Mestre, o la-ma ou lha-ma é o seu discípulo encarnado, na razão das duas raízes lha, espírito, e ma, matéria, Mãe Natureza ou Mater-Rhea, etc., onde o Espírito tomou o seu corpo astral. O neófito, ou seja, aquele que não alcançou ainda o necessário desenvolvimento psíquico para o grau do “discipulado”, é por sua vez um trapa ou aluno.

A palavra tulku significa literalmente “uma forma criada por processo mágico”. Assim, de acordo com o que ensinam os sábios e místicos tibetanos, devemos considerar os tulkus uma espécie de fantasmas, emanações ocultas, verdadeiros arlequins (mas nunca um frankenstein, um monstro humano) fabricados por um mago, para que fiquem às suas ordens ou serviço, digamos, uma espécie de “estátua viva” onde se reflete a vontade do seu criador ou ”escultor”.

Uma grosseira interpretação para o fenómeno tulkuístico, é aquela da repercussão hiper-fisica que se dá entre o hipnotizador e o seu sujet: sendo o primeiro tocado por um estranho, o segundo acusa o lugar, justamente em que aquele foi tocado. O mesmo se dá quando, por meio de um alfinete, o sujet lançando um grito de dor leva a mão, automaticamente, ao lugar onde o operador foi ligeiramente espetado. E isso porque tal sujet não é mais do que um autómato da vontade do operador. Por isso mesmo, seu duplo ou tulku.

Sobre o que seja Avatara, o Professor Henrique José de Souza define-o em termos sucintos: “Avatara, Avatar, Avata, é termo sânscrito que significa – A encarnação ou manifestação cíclica do Espírito de Verdade, do Verbo, de Deus na Face da Terra”. Indo ao encontro do que dissera antes Helena Petrovna Blavatsky no seu Glossário Teosófico: “Avatara é a descida da Divindade na forma ilusória de uma personalidade que no Plano Físico toma aparência objectiva, mesmo realmente não a sendo. Essa aparência ilusória, essa forma ilusória não tem passado nem futuro, em virtude de não possuir encarnações anteriores e nem subsequentes nascimentos, pelo que nela não há intervenção da Lei do Karma, da Lei do Equilíbrio Universal. Muito misteriosas são, sem dúvida, essas encarnações que fogem ao círculo geral dos renascimentos”.

Trata-se do Mistério da Divina Encarnação num corpo humano, previamente preparado para tão transcendente desiderato, em cada um dos Ciclos em que se reparte a Vida Universal, onde cada Avatara ou Messias poderá trazer consigo a potencialidade de 100%, 75% ou 50% da Consciência do Absoluto, donde a sua classificação como Avataras Totais, Parciais e Momentâneos. Há ainda o avatara tulku, que foi comum no Budismo Tibetano, onde uma consciência poderosa podia agir num corpo físico alheio como se fosse o seu, algo semelhante mas não idêntico ao fenómeno espírita das “incorporações” mediúnicas.

Conforme está nas Cartas-Revelações no Livro de Tsong-Kapa (B), do Venerável Mestre JHS, ainda assim propositadamente truncadas (por isso fazer parte da mecânica do processo de Iniciação Assúrica ou Mental – rumo ao Intuicional e o Espiritual – do mesmo JHS), observa-se que Hercília – Honorato faziam parte da Corte do 4.º Luzeiro ATLASBEL, ela sendo mesmo Arauta Dele, mas que por influência benéfica, impulsionando-a para um escalão imediatamente acima, de Helena “Iracy” e de Henrique “Honorato”, passou a integrar a Corte do 5.º Luzeiro ARABEL. Helena Iracy, de quem Hercília foi Tulku, era Arauta do 5.º Senhor ou Dhyan-Choan (Logos Planetário), e todo o Trabalho inicial da Obra fez-se sob a égide da mesma Divindade – desde Lisboa e Sintra, como 5.º Posto Universal, até aos Dois Bodhisattvas AKDORGE e AKGORGE, “frutos” do 5.º Senhor dos quais ela abortou, vítima do Acidente de Lisboa, mas para os brotar finalmente em 10 de Fevereiro de 1935, no Mundo de Duat!… Honorato – Hercília passaram de Colunas do 4.º Senhor a Colunas do 5.º, com isso a Vasos de Eleição ou Veículos da Consciência Universal dos respectivos ARABEL e GOBERUM, esta a forma humana (ADAMITA) da estrela ALGOL, a contraparte sideral do antigo desterrado para a Terra, para a Geração Humana, Terceiro Luzeiro (A)LUZBEL, acompanhado da respectiva Corte de Anjos “Assúricos” revoltados – em 1963 redimida por AKBEL, enquanto aquele em 1948 – que sonegaram a Ordem do Eterno (Oitavo Logos) em prosseguir avante a Evolução que haviam iniciado no terceiro Globo da anterior Cadeia Lunar.

Entretanto, António Castaño Ferreira e Tancredo de Alcântara Gomes aprimoraram-se em vida junto de JHS, adquirindo os elementos que careciam à integralidade das suas consciências humanas, isto é, Ferreira à Sabedoria inata acrescentou o AMOR, e Tancredo à Devoção natural juntou a SABEDORIA. Foram Colunas de empréstimo do 5.º Senhor ARABEL à forma humana (JHS) do 6.º Senhor AKBEL. Após falecerem, eles voltaram ao seu verdadeiro Senhor, ou seja, o Quinto.

Norteando todo o processo de manifestação tulkuística no desenrolar humano no seio da Obra Divina, na sua cúspide está o 6.º Ishvara e a sua divina contraparte ou Shakti, como sejam AKBEL (Mercúrio) e ALLAMIRAH (Vénus), apossados das formas físicas de Henrique J. Souza (El Rike) e Helena J. Souza (El Lena), integralmente naquele, parcialmente naquela; após a desencarnação e volvimento das suas Colunas humanas, Ferreira e Tancredo,  ao Mundo de Duat, RABI-MUNI e TARA-MUNI passaram a ser as suas Colunas internas, cujos corpos ocuparam após a morte física. Como Arauta do 6.º Senhor aí está LORENZA Feliciani Domiciani, Shakti de LORENZO Paolo Domiciani (vulgo Monsieur le Comte Saint-Germain, assim reconhecido na França e restante Europa do final do século XVIII), representada sobre a Terra por Helena J. Souza, algumas vezes veiculando parcialmente a sua Consciência, sobretudo no Templo.

A fim de facilitar o entendimento de todo este intricado, exponho a seguir um pequeno esquema, posto ser este assunto que quase ninguém hoje sabe interpretar com a correcção e decência mínimas, tornando-se igualmente, por factores puramente imediatos os mais profanos, para não dizer os mais ordinários possíveis, ainda mais melindroso.

No mistério do tulkuísmo das consciências e dos avataras dos corpos está a solução deste problema magno, que, verdade se diga, não é para qualquer cabeça. Mesmo assim, creio que agora o assunto fica suficientemente clarificado.

À luz das Revelações da Obra, “cavando cada vez mais fundo [para servir ao Rei do Mundo]”, falarei agora de ADAMITA, a “Primeira Mulher”, a “Primeira Mãe”. Esta é a Filha primogénita de AKBEL e ALLAMIRAH, seus progenitores celestes, o que significa ser irmã de AKDORGE, o Filho dos mesmos Pais, aparelhando ao lado do consorte ARABEL, ela como a mesma primitiva Rainha atlante GOBERUM, que deu de si os 7 Dhyanis-Budhas do Novo Ciclo e com aquele “Deus da Ara” chefia-os da direcção humana e espiritual do Mundo desde o escrínio do Templo Jina do Roncador (Mato Grosso, Brasil), o de ARAKUNDA.

Agora discorrerei um pouco agora sobre o mistério da partogénese a ver com a mesma ADAMITA. Desde domingo de 17 de Setembro de 1899 até ao próximo 24 do mesmo mês, os Adeptos encabeçados por ABRAXIS (ou GABRIEL, o “ANJO DO NATAL”), já no Norte da Índia, levaram o jovem Henrique José de Souza – com a sua Essência Espiritual ocupando temporariamente o corpo de Lorenzo Paolo Domiciani – em sono paranishpânico (paranirvânico, monádico ou divino) ao Templo Subterrâneo de Srinagar (Jara-Lagpa ou Jara-Khan-Lhagpa), situado no Mundo de Badagas, indo juntar-se a Helena Iracy Gonçalves da Silva Neves que para aí fora levada desde o escrínio jina de Lisboa – Serra de Sintra, aquando do seu acidente “fatal” na capital portuguesa quase um mês antes, com a sua Essência Espiritual ocupando temporariamente o corpo de Lozenza Feliciani Domiciani. Apadrinharam-nos dois Kumaras, com dois outros, SANAT e sua contraparte KALI, acompanhando depois a sua viagem iniciática; estando o jovem casal em completo sono físico mas inteiro despertamento espiritual, esses seus corpos físicos constituíram um 8.º casal, ou 8.ª Essência Paranirvânica ou Monádica, que serviram de base a 7 outros casais, igualmente em sono paranishpânico, que nada mais eram que os “Meninos e Meninas do Tim-Tim por Tim-Tim”, indo ser avatarizados pelas 7 Krittikas (Plêiades) e os 7 Rishis (Ursa Maior) enquanto os seus Espíritos imortais desprendiam-se dos invólucros físicos (só permanecendo o duplo etérico, para manter a vida corporal), indo directamente para Agharta onde cada casal foi acolhido por um dos sete casais de Reis e Rainhas do Gar-Edon. Foi assim que tiveram início os 7 Rituais Manúsicos em 7 dias consecutivos.

Esses corpos vazios serviram de base física ao 8.º casal que agiu como MAHA-RISHI e MAHA-KRITTIKA, e durante sete dias consecutivos ocuparam cada casal dos sete, vibrando nele no mais transcendente dos consórcios amorosos, indo bem a sua Chave de Pushkara corporal com o nome do lugar da 7.ª Cidade Aghartina onde se realizou a divina Geração, onde se geraram os 7 Rebentos do Futuro, os Príncipes de Srinagar – vindo a ser os 7 Dhyanis-Jivas, e depois, a partir de 1949, Dhyanis-Budhas – que nasceriam 9 meses depois, sendo levados por excelsos tutores e tutoras para lugares determinados do Mundo onde receberiam primorosa educação, ficando alguns deles assinalados nos anais históricos sob nomes diversos.

Do consórcio amoroso de Henrique-Helena nos corpos de Lorenzo-Lorenza, expressando a Consciência do Andrógino Celeste ARDHA-NARISHA-KUMARA, por sua vez incarnando a Consciência Dhyan-Choânica de AKBEL – ALLAMIRAH, tendo por apoio imediato as Consciências Supremas dos Mundos de Duat e Agharta, como sejam RABI-MUNI – TARA MUNI e BAAL-BEY – BAAL-MIRAH, nasceu em SIMLAH, cidade pouco abaixo de Srinagar, ADAMITA, no domingo de 8 de Julho de 1900. A Essência Espiritual de ADAMITA passou a vibrar em Agharta, na contraparte feminina do “5.º Kumara de Projecção”, que era a própria LORENZA, aí vibrando ao lado de LORENZO, como forma concreta do mesmo Kumara. A Essência Psicomental dessa Dhyani passou a vibrar no corpo kama-manásico de HELENA IRACY, que depois seria levada para o Duat mas mantendo-se o seu corpo físico em Badagas. De maneira que só lhe faltava uma veste corpórea na Face da Terra, para por ela puder manifestar a sua consciência hiperfísica, supra-espiritual…

Isso aconteceu com uma segunda Helena (H2), a mesma Helena Iracy novamente reencarnada (ficando os seus antigos corpos em custódia nos Mundo Jinas), nascida em 13 de Agosto de 1906 em Pontalete, Minas Gerais, filha dos supraditos srs. João Augusto das Neves Ferreira e Agostinha Castaño Ferreira. Devido às grandes dificuldades económicas por que passava esse casal de emigrantes, entregou a sua filha recém-nascida, no final desse ano, aos cuidados amigos do empregador rico de João Augusto no trapiche no porto de São Salvador da Bahia, precisamente o Professor Henrique José de Souza e a sua primeira esposa, Hercília Gonçalves de Souza.

Em 24 de Fevereiro de 1907, morando o Professor Henrique José de Souza na Rua do Pilar, n.º 63, em São Salvador (BH), nessa noite chuvosa riscada pelos relâmpagos de furiosa trovoada, aconteceu que o Chefe das Forças do Mal pretendeu raptar a criança, o que resultou debalde após luta terrível com JHS de espada em riste (arrancada de sua própria coluna vertebral como a flamejante de Kundalini materializada), coadjuvado por AKADIR (Adepto ocultado na aparência ilusória do ferreiro baiano António Maceió), tendo a atenção diabólica sido atraída pelo facto das energias psicomentais da consciência de ADAMITA, nessa data, terem começado a vibrar na menina Helena, o que constituiu uma «troca» mas não tanto de corpos e sobretudo de consciências… questão francamente tulkuística. Aos poucos, com o passar dos anos, a consciência da menina – que viria a ser Helena Jefferson de Souza – foi se adaptando à da Grande Mãe, até se integrar definitivamente Nela na Noite de NATAL de 24 de Dezembro de 1949.

Em SIMLAH foi gerada ADAMITA, e em SRINAGAR foram gerados os 7 DHYANIS-JIVAS, todos como Filhos da Terra ou Eva, consequentemente, do 4.º Luzeiro ATLASBEL, e aprovados pelo Rei do Mundo, RIGDEN-DJYEPO (“Rei dos Jivas”), que os assinalou como “Jóias da Coroa”, a Cúspide Monádica expressiva da mais alta evolução do Género Humano.

Conceição ou concepção amorosa sem paixão, da qual Henrique e Helena, nos corpos de Lorenzo e Lorenza, foram os principais protagonistas, acto físico mas da maior transcendência espiritual onde estiveram implicadas diversas Hierarquias, desde o Céu do Segundo Logos (ADAM-KADMON) perpassando a Face da Terra (ADAM-HEVE) e chegando ao Seio do Mundo (ADAM-CHEVAOTH), a Shamballah mesma, cujo Sol é a expressão do 4.º Logos Planetário afim à 4.ª Cadeia em que tudo e todos estamos.

Tanto que não houve paixão cobiçosa que Henrique, servindo de intermediário ou expressão de AKBEL no consórcio sexual entre os 7 Meninos e as 7 Meninas do novo e transcendente “Tim-Tim por Tim-Tim”, chegou a confessar que na ocasião “nem sequer viu as Sri-Aghartinas” (Carta-Revelação de 17.02.1957). Para arredar de vez qualquer insinuação enviesada erótico-passional (afirmando as Revelações que o hímen rompido das jovens foi refeito após os seus partos, graças às mesmas Santas Virgens Rainhas Sri-Aghartinas desse Mundo), vale o decreto capital inserto na Mensagem provinda da Confraternidade de Simlah (Confraternity of Simlah), como consta na Carta-Revelação de 15.11.1948: – Morte ou loucura para quem se aproxime da Sacerdotisa-Mãe com segundas intenções!

Adianto ainda mais alguns pormenores relativos a este tema, respigados às Revelações da Obra dos Deuses. Quando se deu o Acidente de Lisboa, Henrique e Helena foram recolhidos ao Templo Badagas de L∴N no escrínio da Serra de Sintra. Aí foram depositados sobre duas aras onde já estavam os corpos adormecidos de Lorenzo e Lorenza, vigiados por dois Kumaras Primordiais (DHYANANDA e SANAT-SUJAT ou SANAT-BERUM como afim ao próprio Lorenzo ou São Germano). As almas dos Gémeos Espirituais transferiram-se para os corpos daqueles, cujas almas desceram para Agharta. Nesses corpos de Lorenzo e Lorenza, Henrique saiu por cima, pela Face da Terra onde tinha a sua Missão, a caminho do Norte da Índia, e Helena prosseguiu por baixo rumo ao mesmo destino. Encontraram-se em SIMLAH como Oitavos Dirigentes dos Sete Meninos (avataras dos Rishis – Agnisvattas) e das Sete Meninas (avataras das Plêiades – Barishads) onde consumaram o “Tim-Tim por Tim-Tim”, ou seja, como Assuras (Maha-Rishi e Maha-Krittika) deram origem à Oitava Dhyani-Jiva ou Mãe Humana, que Henrique batizou de ADAMITA. Por isso são Oitavos. Todo o processo da partogénese deu-se em Badagas e não na Face da Terra, que “apenas” veio a acolher os frutos do consórcio amoroso entre os deuses terrenos, frutos benditos de milhares e milhares de anos de evolução pelos próprios esforços.

A Consciência ASSÚRICA dos Gémeos Espirituais na Terra junto à Consciência ISHVÁRICA de Akbel e Allamirah no Céu, produziram do atrito amoroso a manifestação de EVA, isto é, a Oitava Dhyani-Budhai ADAMITA, tal qual ALLAMIRAH é a Oitava Dhyan-Choan ou Luzeira Mãe dos 7 Luzeiros manifestados. São sempre os Oitavos os Originais da Criação, seja a que nível for. Se Akbel identifica-se à Face Masculina do Eterno (Oitavo Logos Original ou Sol Central do Sistema de Evolução Universal), Allamirah identifica-se à Face Feminina do Eterno. Por isso é a Mãe dos Deuses, e leva o nome aghartino ZIONE (Mãe), enquanto Ele o de ZAIN (Pai).

Houveram duas Helenas que coexistiram até 1949, não raro uma por vezes fazendo as vezes da outra, como seja a Iracy (H1) substituindo a Souza (H2), coisa que o dentista de família suspeitou quando verificava a dentição prejudicada de uma, para logo a “sósia” apresentar dentição perfeita. O homem nunca percebeu como isso era possível. Isto pode muito bem explicar o facto de Helena J. Souza assinar muitas vezes como Helena Iracy, como se verifica, por exemplo, na certidão de batismo (consagração) do seu primogénito Hélio Jefferson de Souza, datada do Rio de Janeiro, 17 de Abril de 1938.

Tal como coexistiram duas Helenas, assim também houveram duas Blavatskys. Uma, a verdadeira, era a aventureira das várias partes do mundo, discípula e emissária dos Mahatmas orientais, como também a escritora profícua. O seu nome, Helena Petrovna Fadeev van Blavatsky, a UPASAKA. Outra, a Blavatsky Adepta, a própria UPASIKA que avatarizou H.P.B. quando esta foi lanceada mortalmente durante a batalha de Mentana, onde perfilou ao lado do general Garibaldi contra as forças papais, ou melhor, do “papa negro” dos jesuítas. Recolhida para uma tenda de campanha esvaindo-se em sangue já moribunda, eis que momentos depois reaparece ressuscitada como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu: a UPASIKA original havia ocupado o seu corpo, substituindo a sua consciência pela dela. A partir de então, findaram as viagens e aventuras, e aparece a Blavatsky mestra, grave, serena, fundadora da Sociedade Teosófica e “embaixatriz” da Grande Loja Branca.

Como os restos kármicos da personalidade da Blavatsky original vibraram durante algum tempo na 1.ª Helena Iracy e na 2.ª Helena Ferreira, admito as palavras do Professor Henrique José de Souza sobre essa “Tulku de HPB reencarnada numa filha de Selene e Udomeri”. O que esse viu por clarividência seria a entidade afim a HPB junto da criança, como seu guia espiritual, tendo usado o trocadilho astral para dizer o que afirmou. O nome da criança: Lísia Helena Jefferson de Souza Carvalho, filha do casal Selene Jefferson de Souza e Udomeri Jorge de Carvalho. O mesmo vale para a segunda filha desse casal, Ana Maria Jefferson de Souza Carvalho Ribeiro, de quem se diz “ter sido Annie Besant”, coisa que as apetências e capacidades imediatas da própria desmentem de cima a baixo. Igualmente para o terceiro filho Henrique Alcides Jefferson de Souza, dizendo-se “ter sido um grande navegador espanhol”, isto é, o próprio Francisco Pizarro. Ou que o recentemente falecido Hélio Jefferson de Souza Filho tivesse sido Assoka e depois Henry Stell Olcott, ou Glória Helena Fernandes Jefferson de Souza fosse a reencarnação de Anita Garibaldi, ou Neusa Fernandes Jefferson de Souza tivesse sido a santa Joana d´Arc. Tudo isso é impossível à luz das vidas dos actuais. Admito terem sido projecções astro-mentais dos seus guias espirituais nas suas infâncias e adolescências, talvez e com dúvidas ainda hoje, mas quanto a serem efectivamente essas personagens históricas é coisa afigurando-se impossível aceitar, porque não vejo como se possa “andar de cavalo para burro”, ou seja, ser ontem uma criatura muito evoluído e hoje o que se vê e sabe… em contradição flagrante com o mais elementar da Lei de Evolução da Vida e da Consciência.

Finalmente, repasso mais alguns traços biográficos acerca das Colunas Vivas, CAF e TAG, de JHS.

ANTÓNIO CASTAÑO FERREIRA era natural de São Paulo, tendo nascido no dia 8 de Novembro de 1903. Instrutor e orador emérito da Sociedade Teosófica Brasileira, a sua ficha de inscrição nas fileiras de Dhâranâ – Sociedade Cultural-Espiritualista consta do dia 30 de Agosto de 1925, mas é bem possível que em 1924, segundo diversos relatos, já militasse na mesma. Levando de nome real ou espiritual CHELA-TAIJASI, como COLUNA J actuava ao lado do Professor Henrique ocupando-se, principalmente, das responsabilidades de ensino, conforme pode ler-se na interpretação que o Mestre fez do seu nome: CAF, que em aghartino significa “O que vê de frente”, isto é, o que recebe em primeira mão as Revelações e, comentando-as, as oferece em segunda mão aos discípulos avançados. Estes, por sua vez, oferecem como instrutores da Instituição e Obra, como Templos Vivos onde quer que estejam, essa mesma sabedoria amoldada ao grau de consciência de cada ser humano seu auditor. Os discípulos mais antigos definem o Engenheiro (agrónomo) António Castaño Ferreira como um “homem extraordinário”, que pela sua proximidade com o Professor Henrique também era chamado de Professor Castaño Ferreira. Em São Paulo, em 28 de Janeiro de 1958, a dolorosa separação provocada pela morte arrancou-o do convívio terreno no meio teosófico.

TANCREDO DE ALCÂNTARA GOMES era natural do Estado do Paraná, tendo nascido no dia 28 de Outubro de 1876, filho do Dr. Leonel Pereira Gomes, natural do Paraná, casado com D. Francisca Raymundo Xavier de Alcântara (falecida no Estado do Espírito Santo), natural do Rio de Janeiro, filha do Comendador da Ordem de Torre e Espada e Capitão de Mar e Guerra da Marinha Imperial Brasileira, Francisco Xavier de Alcântara, “O Envinagrado”. Tancredo de Alcântara Gomes foi batizado no dia 25 de Novembro de 1876 na Catedral de Nossa Senhora da Luz, cidade de Curitiba, Paraná, conforme consta no seu registo paroquial: “Aos vinte e cinco dias do mês de Novembro de mil oitocentos e setenta e seis nesta matriz de Curitiba, o Reverendo José Rodrigues baptizou e pôs os Santos Óleos ao inocente Tancredo nascido aos vinte e oito de Outubro deste ano, filho legítimo de Leonel Pereira Gomes e Dona Francisca Raymundo Xavier de Alcântara. Padrinhos Joaquim Pereira Gomes e o Tenente Coronel Pedro de Alcântara Buarque, todos paroquianos. Para constar mandei fazer este assento”.

Seguindo a carreira militar na Marinha de Guerra, Tancredo de Alcântara Gomes foi Primeiro Tenente Armador e depois Capitão de mar e Guerra. Casou-se no dia 14 de Maio de 1904 com Marieta de Paula Toscano, natural do Rio de Janeiro, filha do Capitão de Mar e Guerra Clemente de Alcântara Toscano e de D. Maximina Eulydes Galvão Toscano, conforme consta no seu registo de casamento na Capital Federal (Rio de Janeiro): “Aos quatorze de Maio de mil novecentos e quatro nesta Capital Federal em a Casa número 50 da Rua Dona Mariana onde veio o Doutor José Calheiros de Mello, Juiz de Direito (…), comigo abaixo assinado nomeado e na presença das testemunhas Orlando Marcondes Machado e António Tancredo Castro Menna receberam-se em matrimónio o Primeiro Tenente Armador Tancredo Alcântara Gomes, com vinte e sete anos de idade, solteiro, natural do Estado do Paraná, Militar, morador a Rua São Pedro número trinta e seis, e Dona Marieta de Paula Toscano, com vinte e seis anos, filha legítima do Capitão de Mar e Guerra Clemente de Alcântara Toscano e de Dona Maximina Eulydes Galvão Toscano, solteira, natural desta Capital e moradora nesta casa os quais neste acto declaram que não são parentes entre si nem tem impedimento algum que os inibam de casar um com o outro. Preenchidas as formalidades legais o M. Doutor Juiz os declarou legitimamente casados desde este momento e mandou lavrar este termo que lido assina com os nubentes. Eu, António Afonso de Miranda Sobrinho escrevente (…) o escrevi. Eu Francisco José Pinto de Macedo escrivão que subscrevo”.

A ficha de inscrição de Tancredo de Alcântara Gomes nas fileiras de Dhâranâ – Sociedade Cultural-Espiritualista consta do dia 4 de Março de 1926. Membro honrado da depois Sociedade Teosófica Brasileira exerceu a função de Director-Social da mesma, encarregando-se da sua administração, e levando de nome real ou espiritual SKANDHA-BHANTE-NAZAR teve a nobre missão de ser a COLUNA B do Supremo Dirigente, Professor Henrique José de Souza. O capitão Tancredo, ornamento da Instituição, ao transpor pela primeira vez o Portal do Templo, dentre dezenas de discípulos já presentes no Santuário, alguns dos quais estavam procurando-o por toda a parte para que prestasse o seu compromisso de admissão ao Colégio Iniciático, foi recebido pelo Mestre JHS com palavras que outros jamais ouviram: “Este sim, é o meu verdadeiro Amigo e Discípulo de outras encarnações”. No dia 9 de Abril de 1936, no Rio de Janeiro, deixou a sua veste física e desapareceu para sempre na penumbra do escrínio dos Deuses. No dia 15 de Abril desse mesmo ano, foi homenageado pelo Professor Henrique com um estudo iniciático acerca do seu nome: TAG, palavra que provém do tibetano com o significado de “Montanha, coluna, colosso, baluarte, contraforte” e, portanto, Justiça ou Bohaz, para completar com a anterior da Sabedoria ou Jakim, ambas permeio a JHS.

Os Três juntamente com Helena (H2) expressaram na Obra Divina o Excelso CRUZIAT (Cruzeiro do Pramantha, “Ciclo”) concorrendo para o Centro florido assinalado pelo Rei do Mundo (CHAKRAVARTI). Num esquema significativo de JHS no seu Livro da Pedra, têm-se os dois palos laterais do cruzeiro em neutralidade: o de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) afim a CAF, e o de Porto Seguro (Bahia) afim a TAG. Essa neutralidade ou EQUILÍBRIO PERFEITO está para o positivo do palo superior assinalado pelo Roncador (Mato Grosso), Fraternidade “Masculina” (CABAYU) donde proveio a Mónada “feminina” de EL LENA para reencarnar em Salvador da Bahia. O palo inferior é o negativo indicativo de Vila Velha (Paraná), Fraternidade “Feminina” (GARÁ) de onde saiu a Mónada “masculina” de EL RIKE para se manifestar no mesmo Salvador da Bahia. Todos concorrendo para o Centro (SHAMBALLAH) indo “cavar (obrar) cada vez mais fundo (maior desenvolvimento espiritual e humano) para servir ao Rei do Mundo” (CHAKRAVARTI, MELKITSEDEK, ROTAN, etc.). Era assim que representavam o Governo Oculto do Mundo (G.O.M.) na Face da Terra, encaminhando os antigos Marambas do Quinto Senhor para o estado integrado de Munindras do Sexto Senhor. Com tudo, compreende-se o provado da afirmação de JHS às portas da morte na Clínica São Lucas: “Realizei numa única vida o trabalho inteiro de uma Ronda”!

JHS entre as Mulheres, também poderia ser o título deste trabalho. Por respeito exclusivo à sua pessoa, fi-lo de uma assentada nesta noite e dia de Natal de 2017. Com o mesmo tentei mais que refutar, eliminar os pressupostos libidinosos e incestuosos com que alguns e algumas mancham o seu Nome. Particularmente, não posso admitir que esbanjei a minha vida enganado pelo carisma de um licencioso da pior espécie. Não posso admitir nem acredito a pretexto algum. Também já passei por isso, não sou alheio à perversão de conceitos superiores em considerandos libidinosos: quando, perante certo auditório reservado, eu falei do Andrógino do Futuro Quinto Sistema (Ronda), pormenorizando o que seja, com tudo essa questão do Homem endócrino substituindo o actual Homem cérebro-espinal foi por alguns interpretada como apelo sub-reptício ao homossexualismo (!!!). E vão para a praça pública alardear que eu faço propaganda de actos perversos, indo os pobres de espírito que se perdem em intrigas e maledicências, sempre prontos a assassinar moralmente o alheio, efeminadamente pseudo-fraternos, acreditar nisso. Que mais posso dizer? Como entendo Henrique e como entendo Ferreira.

Descarece dizer que todos os personagens retratados neste estudo, assim como os lugares onde viveram e deixaram registo, são do meu conhecimento e relação pessoal desde há largos anos. Com isso, poderia dar à estampa muitíssima mais documentação, inclusive as certidões de nascimento e batismo de Henrique, Helena e Hercília, e até as moradas e as trocas de correspondência pessoal com descendentes em Lisboa e Goa dos Barões da Silva Neves, mas basta o que aí está. Não disse tudo o que sei, mas disse mais que o suficiente para assombrar a muitos, demasiados com a presunção de estarem, ante esta Instituição e Obra, em mais algum esquisso anárquico conformado ao simplismo indiscriminado tipológico do “new age”, próprio para “casas de maria joana sem rei nem roque”, ou seja, sem Ordem nem Regra. Aqui, neste Portugal “pai” do Brasil, a Ordem que mantém a idiossincrasia lusa no chão Pátrio, e a Regra que sustém na alma Mariz o potentado aghartino assegurado pelos Makaras e Assuras de JHS.

Termino respigando um trecho do Livro Vozes Celestes, de Fra Diávolo, que deixo à reflexão do leitor como chave d´ouro neste desfecho de quanto ficou dito:

Qualquer Vaso Corporal, formado com a argila ou barro da Terra mas que se torne Eucarístico, pode receber a mais excelsa de todas as Essências, inclusive a da contraparte de Akbel… Só o Espírito se assenta na Matéria. Tesouros desta natureza não podem ser guardados em qualquer Escrínio. Mister se faz que este seja o mais valioso possível, para ser condizente com os mesmos Tesouros. “Os Tesouros de Deus não se guardam na lama”. Todas as pedrarias do Seio da Terra são poucas para construir o precioso Escrínio onde os mesmos devem ser conservados. Assim também o corpo humano, donde um dia se irradiará o precioso Sol da Consciência Imortal, como fragmento desse mesmo Deus num Escrínio Humano.

Por isso, conforme o Hino dos Serapis – Sétima Linha do Novus Palux:

Viemos de Shamballah
Velsungos somos nós
Do Reino dos Serapis
Não podíamos vir sós.

E assim, com as nossas damas,
Em formas duais,
Ao mundo apresentamo-las,
Valquírias sem iguais…

Um tão grande e puro Amor,
Pelas Sibilas cantado,
É a Era do Redentor,
Do Deus Vivo, coroado!

 

BIJAM

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“Cabala Volante” no Reguengo da Carvoeira – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Dez 7 2017 

O “REI DA ERICEIRA”

 

No início dos anos 90 do século passado, chamaram-me a atenção para a existência de uns pressupostos “cruzeiros cabalísticos” no Reguengo da Carvoeira, dentro de um raio de cinco quilómetros na região limítrofe da Ericeira, concelho de Mafra.

Mas eu sabia desses cruzeiros desde que estudara a capela da Senhora do Ó, situada junta à povoação da Carvoeira, todavia tendo deixado o seu estudo para momento futuro que agora se apresenta.

Como muito bem diz Victor Mendanha[1], a região do Reguengo da Carvoeira era assim chamada por ainda no século XIX depender directamente da coroa e não da autarquia, como aliás também acontecia no Reguengo de Colares.

Contudo, ao contrário do que se anuncia, não existem quatro mas cinco cruzeiros, o mais antigo (1688) dentro do pátio da ermida da Senhora do Ó.

Igualmente deve-se incluir no programa, para ficar completo, a fonte miraculosa de São Julião e Santa Basilisa (datada de 1788 e restaurada em 1961), junto da praia com o nome do santo, próxima da “pedra de roseta”, a chave da leitura dos cruzeiros, embutida na parede ocidental do alpendre da ermida de São Julião, ostentando no portal a data de 1768.

Antes de entrar em leituras mais profundas, necessariamente esotéricas, desde já uma dupla pergunta se impõe: quem mandou construir esses monumentos e com que finalidade?

Sabe-se quem os mandou construir, mas a finalidade continua incerta. Ainda assim, posso adiantar algumas hipóteses. Uma delas, a mais plausível, a do célebre “rei da Ericeira”, Mateus Álvares, que se tinha como el-rei D. Sebastião reaparecido de Alcácer-Quibir.

Mateus Álvares nasceu no meado do século XVI na vila da Praia da Ilha Terceira. Era filho de um mestre de obras ou pedreiro e de relações estabelecidas com a família Mourato, residente na ilha desde o século XV. Esta família de astrólogos e alquimistas[2] de origem moura tornou-se muito apreciada em toda a Terceira, tendo se convertido a cristã nova por influência de um frade da Ordem de Cristo.

Mateus Álvares foi educado primeiramente na Ilha Terceira, no convento dos franciscanos de Nossa Senhora da Conceição. Edificado à beira-mar, posteriormente, no período da revolução de 1832, o convento passou para as mãos de particulares, tendo o terramoto de 1841 o lançado por terra.

Já homem feito, Mateus Álvares enlevou-se de amores por Zara Mourato, que não lhe correspondeu. Desgostoso, abandonou os Açores, emigrou para o continente e aqui veio iniciar a sua saga.

Entrou como noviço no convento de S. Miguel, junto a Óbidos, passando depois para o convento da Cortiça, na Serra de Sintra. Não querendo submeter-se à rigidez do normativo conventual dos capuchos, abandonou-os e foi tornar-se eremita por “conta-própria”, passando a residir num eremitério junto da Ericeira onde se fixou.

Entretanto, Filipe II de Espanha acabara de ser aclamado rei de Portugal, mas o povo ansiava o regresso de D. Sebastião que não acreditava morto, antes desaparecido. Enquanto isso, crescia a fama de Mateus Álvares como profeta visionário e místico. Começou a ser acreditado como o próprio D. Sebastião finalmente reaparecido, não só pela massa popular mas também por alguma nobreza abastada fiel à dinastia portuguesa, cuja linha legítima fora interrompida com o trágico desaparecimento de D. Sebastião e o afastamento do cardeal-rei D. Henrique, já que D. Teodósio governou fugazmente e o mais que legislou ficou assinado em um ou dois documentos a que ninguém deu importância. É então, a partir daí, que tudo se precipita…

O proprietário abastado de Rio de Mouro, Pedro Afonso, jurou que antes do dia de S. João Batista havia de sentar no trono a Mateus Álvares, e este nomeou-o conde de Monsanto, senhor da Ericeira e governador de Lisboa. A filha deste importante nobre foi escolhida para sua esposa e coroada rainha de Portugal com o diadema pertencente à imagem do Orago da Ericeira, Nossa Senhora da Conceição. O pretendente ousou mesmo enviar uma carta ao cardeal-arquiduque Alberto, ordenando-lhe que saísse do reino. Espalharam-se proclamações convocando o povo às armas. A insurreição tornou-se séria. Reuniu à sua volta mais de mil homens com provisões, armas e munições. Todas as autoridades da corte enviadas à Ericeira, ou foram trucidadas ou foram lançadas ao mar do alto das escarpas. Deram-se furiosas batalhas, até que, por fim, diz-se que próxima à fonte miraculosa da Praia de São Julião, Mateus Álvares e os seus foram emboscados e derrotados pelas tropas filipinas, após demorada e sangrenta luta.

Feito prisioneiro, Mateus Álvares entrou a ferros em Lisboa no dia 12 de Junho de 1585, e, a 14, foi-lhe cortada a mão direita pelo carrasco, mão com que assinara alvarás e proclamações; depois enforcado, logo decapitado, a cabeça separada do tronco ficando durante um mês exposta no pelourinho, e o corpo (isto quase faz lembrar o sacrifício de Osíris…) retalhado em pedaços, foi repartido pelas portas da cidade.

Mateus Álvares foi mais que um simples visionário alucinado, mais que um pseudo-D. Sebastião no rol dos muitos que entretanto apareceram (e vez por outra até hoje aparecem…). Foi sobretudo um sebástico patriota que soube bem incarnar a alma da nação em momento de sufoco e aflição onde carecia de um salvador, de um encoberto libertador, de um espírito messiânico em corpo manifestado, um messias que restaurasse os valores nacionais anulados pela abolição dos mesmos; por isso foi tão bem aceite pela maioria do país ocupado e temido pelo regime filipino, a ponto de o ter retalhado mesmo depois de morto, por certo receando o nascimento do mito da ressurreição após assassinado. Mesmo dando aso a um Sebastianismo Vermelho, nacionalista e político[3],  não raro politiqueiro baseado em profecias duvidosas e acontecimentos improváveis, com tudo parece credível ter sido Mateus Álvares um patriota iluminado que ofereceu a sua vida pela honra ofendida da pátria-mãe, e só por isto bem merece um monumento comemorativo junto da Praia de São Julião, que espaço vazio não falta para tanto que é tão pouco a quem muito deu.

Repara-se também que Mateus Álvares não era alheio às ciências esotéricas e à influência dos espirituais franciscanos. Nisto, estou em crer que o seu ideal messiânico, aparte a sua apologia de messias-rei, foi depois prosseguido, secretamente, pela mesma espiritualidade franciscana na região mafrense, ficando a via crucis onde se desenrolou a epopeia e tragédia do “rei da Ericeira” assinalada em enigmáticos cruzeiros, assim mesmo igualmente assinalando uma rota telúrica, mágica e até parúsica. Como Oragos de tal rota, ficaram São Julião e Santa Basilisa, e como a meta da mesma a Virgo Pariturae – a Senhora do Ó.

 

A PARELHA MARTIRIAL

 

Tal como Mateus Álvares recebeu uma iniciação martirial, igualmente no santoral cristão São Julião e sua esposa, Santa Basilisa, estão nessa categoria da santidade pelo martírio[4], e inclusive a vida daquele possui muitas semelhanças com as destes.

Sintetizando a história dessa parelha santa, ela dispõe-se em Antióquia nos últimos anos do século III e primeiríssimos do IV, por ser entre os anos 304 e 309 que se situa cronologicamente o suposto martírio de São Julião[5], e nessa ocasião já haviam passado vários anos desde que Santa Basilisa transpusera vitoriosa as fronteiras do Céu. Conta-se de ambos que, ainda enamorados mas desejando fervorosamente dedicar a sua vida e virgindade ao Altíssimo, tiveram uma visão celeste que os pôs em contacto com Ele, permitindo-lhes cumprir o seu desejo sem contudo renunciarem à cerimónia puramente formal do matrimónio. Logo que casaram, fundaram cada qual um mosteiro – ele de monges e ela de monjas, entenda-se – nos quais começaram um labor de captação e proselitismo tão eficaz que, ao fim de pouco tempo, já as monjas falecidas baixavam do Céu para anunciar à abadessa Basilisa o dia e a hora exacta da sua passagem. Foi depois desta que começou uma terrível perseguição, tendo sido detido o abade Julião e levado diante do cruel governador pagão. Perante este e as repetidas negações em “fazer sacrifícios aos deuses”, juntamente com a surpresa do próprio filho do verdugo ter se convertido ante o valor do abade Julião, começou a série de torturas martiriais da qual o santo saiu incólume, até que o degolaram. Feito o crime sacrílego, sobreveio um terrível terramoto que matou os espectadores pagãos e os verdugos. A história do infeliz São Julião – e subsidiariamente da pobre Santa Basilisa – foi teologicamente interpretada como uma ameaça da Igreja a quem ousar atentar contra as suas cabeças reitoras.

São Julião e Santa Basilisa são interpretados, esotericamente, como o casal alquímico sublimado pelo sacrifício da incarnação do Espírito na Matéria, esta representada pela Mãe Grávida – a mesma Senhora do Ó da Ribeira (da Carvoeira), astrologicamente assinalada por Vénus, alter-ego da Terra.

Ora Vénus era representada entre os egípcios por Ísis e, curiosamente, a tradução do nome grego de Basilisa dá “rainha” (ou “trono” = Ísis), e o de Julião, na mesma língua, significa “lindo”. Juntando os onomásticos “rainha” e “lindo”, tem-se astronomicamente a Bela Rainha, a mais brilhante Estrela d’Alva que é Vénus, tanto valendo por Ísis, aliás, representada erecta e adorada sobre um cipo com o sistro na mão, num silhar de azulejos a meio da coxia no lado direito desta ermida da sua antiga vocação, assim testemunhada mesmo após tomar feição cristã.

 

A PEDRA CABALÍSTICA

 

É precisamente na popularmente denominada “pedra mágica” (ou de “roseta”) da ermida de São Julião que os dois últimos parágrafos encontram a sua confirmação esotérica. A peça, encravada no interior do alpendre do templo de lado para a entrada, é de conteúdo legendado notoriamente anagramático, o que denota uma óbvia influência da presença do pensamento pitagórico que assistiu, aliás, à construção dos chamados “quadrados mágicos” caríssimos na Idade Média à matemática astronómica da Cabala, ciência que algumas facções esotéricas viriam a prosseguir depois, mas com notórias alterações tanto na numeração como no significado alfabético. Essa vertente cabalística não deixou de ser muito apreciada por certas correntes do Cristianismo, a que não terão sido alheios os franciscanos de Mafra no século XVIII, vizinhos e apoiantes do neo-pitagorismo patenteado, por exemplo, nas ideias do já de si neo-pitagórico Santo Agostinho de Antióquia, cujo ideal sinárquico subentende-se na sua obra Civitas Dei, “Cidade de Deus”. A aproximação do franciscano ao pitagorismo alia-o, por essa via, à Cabala Profética judaico-cristã. Consequentemente, o esoterismo que se encontra nesse espaço do Reguengo da Carvoeira é notoriamente judaico-cristão, e esta será a vertente onde terei de me mover para um melhor e maior enquadramento e possível interpretação do conjunto monumental.

Cabala ou Kaballah significa, em hebraico, “Tradição”, ou, simplesmente, “Conhecimento”. Dentro da Cabala podem-se distinguir duas tendências que confluiriam, com o decorrer dos tempos, em duas correntes de pensamento tradicional: o Cabalismo Profético, atribuído a Abrahão Abulafia, e o Cabalismo Rabínico, atribuído a Isaac Luria[6].

Dessas correntes, é no Cabalismo Profético que se encontra o domínio da Inspiração sobre a Tradição. Esta vertente de adopção sefardita originou-se na Região Oeste da Europa por volta do ano 1200 d.C., sobretudo no Centro-Oeste de Portugal, na Estremadura e Andaluzia espanholas e no Centro-Sul de França. Por esta razão, é também conhecida pelo nome de Cabalismo Ibérico, em contraposição ao asquenaze Cabalismo de Safed, cidade da Palestina onde viveu Luria.

A finalidade da doutrina de Abulafia é, segundo as suas próprias palavras, “desvelar a alma, desatar os nós que a emperram”. Para conseguir esse fim, estabeleceu um objecto absoluto de meditação: a ideia da contemplação mística das letras e das suas formas, como sendo constituintes do Nome de Deus.

Partindo desse conceito, Abulafia desenvolveu uma disciplina particular que denominou Hokmath Ma-Tseruf, isto é, a “ciência da combinação das letras”. É produto dessa ciência o que se pode encontrar na “pedra cabalística” de São Julião e Santa Basilisa.

A “pedra cabalística” da Carvoeira é de formato octogonal e apresenta três quadrados com anagramas unidos por um dos ângulos, formando assim entre eles um espaço interior triangular onde se patenteia, como símbolo central, um Sol radiante, esotericamente designando o Ouro dos Filósofos Iluminados, como sendo a cristalização da Suprema Divindade.

Nesse formato encontra-se o Teorema de Pitágoras, no qual em todo o triângulo rectângulo o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual à soma dos quadrados construídos sobre os catetos.

Mas também se encontra a ideia de Quadratura do Círculo (representação geométrica simbólica da Pedra Filosofal), indo formar o octógono como forma mediadora entre o quadrado e o círculo, que é dizer entre a Terra e o Céu. Tem-se exemplo claro disso na Charola do Convento de Cristo, em Tomar, cidade-mãe da Província portuguesa da antiga Ordem dos Templários.

Afinal, trata-se de redimir coagulando a prata da Terra e solvendo o ouro do Céu. Sim, a Quadratura da Terra no Círculo do Céu, na maior Alquimia mediante a qual se obtém o Elixir da Vida Eterna – a Iluminação Espiritual garante da Imortalidade.

Na legenda superior da lápide, lê-se: ECCE CRU+CEM DOMINE – “Eis o Cruzeiro (e não “cruz”, que em latim se escreve crucis) do Senhor”. Crucem está dividida por uma cruz que possui abaixo o salvífico IHS, Iesus Homnibus Salvatorem – “Jesus Salvador dos Homens”, sendo também sigla iniciática que indica sempre o Messias ou Avatara; o H está coroado pela mesma cruz, com que designa a venusta energia rítmica ou equilibrante da Natureza, Rajas, expressiva da Anima-Mundi como Alento Universal, e assim mesmo a Hermes ou Mercúrio coroado, o divino Varão ou Andrógino Celeste.

Como cercadura de todo o corpo inscrito, unindo-o, encontra-se gravada quatro vezes a frase ORAPRONOBIS – “Ora por nós”.

O conjunto forma ainda dois triângulos médios contendo a flor do lírio, o que remete à frase bíblica: “Eu sou a Rosa de Sharon, o Lírio dos vales” (Cântico dos Cânticos, 2:1).

Tem-se assim a Rosa e a Cruz filosóficas, veladas mas subentendidas, na peça lítica. Não se deve ignorar que a Ordem Rosea+Crucis esteve activa até ao início do século XVIII, e muitos dos seus adeptos procuraram refúgio no reduto franciscano do qual Mafra não terá escusado abrigo contra a Mesa Censória, quando a Ordem Franciscana teve o convento à sua tutela.

Os dois triângulos inferiores da peça apresentam ao centro a estrela de oito pontas a qual, além de designar a Cavalaria Espiritual, igualmente designa a Stella Maris, a “Estrela do Mar”, Vénus, a Matutina mas também Vespertina. Vem a ser exactamente o quadrado principal, mas em posição inferior, que esses triângulos ladeiam. Esse “quadrado mágico” possui 81 casas ordenadas em 9 linhas verticais e 9 horizontais, estando o seu centro na 5.ª linha marcado pela estrela Vénus. A partir daí, em qualquer direcção, inicia-se a leitura pela letra M que, com as restantes, formam a palavra Matutina. Estrela e palavra dão Stella Matutina, que, repito, é a Stella Maris. A Mãe Divina está assinalada sob o quadrado na frase AVE MARIA… ou “Ave Marinha”.

O 3×9 (81), ou 999, é o número cabalístico da Lua, da Mulher em complementação do Sol, do Homem, formando os dois o casal alquímico ou hermético, expressão do Andrógino Perfeito assinalado em São Julião e Santa Basilisa.

O quadrado superior da esquerda constitui-se do nome JULIAM (Julião), e o superior da direita contém o nome BAZILIZA (Basilisa), lendo-se ambos no sentido destrocêntrico. Cada quadrado possui um total de 49 letras ordenadas em 7 linhas verticais e 7 horizontais, o que dá 3×7 (49), ou 777.

Segundo a fonte teosófica, 49 é o número de Adeptos Independentes – B∴ J∴ ou Bhante-Jauls, “Irmãos da Pureza” – e o do valor da Pedra Filosofal na Quadratura do Círculo. 777, além de também ser o valor esotérico da Hierarquia Assura ou Arqueu, a dos “Senhores da Mente”, é igualmente o número cabalístico de Júpiter que, afinal, é quem rege a Península Ibérica através de “Vénus Passiva”, ou seja, da Lua, representada na serra que leva o nome dessa, Sintra.

Ademais, se em grego Julião significa “lindo”, já no latim ele é Iulius, cuja filologia associa-se astronomicamente a Júpiter por significar, literalmente, “Filho de Elion”, por outras palavras, “Filho do Altíssimo”, o Sol aqui associado a Júpiter-Vénus, tanto valendo por Pai-Mãe, Osíris-Ísis e Julião-Basilisa.

Volvendo ao quadrado inferior e o maior dos três, Vénus na 5.ª casa da 5.ª linha, indicia o Quinto Luzeiro Arabel, o “Senhor da Ara (de Luz)”, Al-Djabal, o “Todo-Poderoso”, que a fonte iniciática aponta como o verdadeiro Encoberto do Quinto Reino Espiritual a manifestar-se no Quinto Império Terreal, o dos Lusos ou “Filhos da Luz”, esse mesmo sebástico sob a flama do Espírito Santo assinalado precisamente por Vénus, cujo cujo patronato está o futuro 5.º Globo de Evolução, na Ronda imediatamente posterior ao do 4.º Globo  da Terra.

Agora, resta iniciar o itinerário da Via Crucem, posto estarem lançados os dados, os mesmos que se vêem num pormenor do aparelho de azulejaria na sacristia (lugar do “Santo Cristo”, onde este se assume ou paramenta na pessoa do sacerdote) da ermida de São Julião, defronte para a porta de saída…

 

O PRIMEIRO CRUZEIRO

 

Na traseira da ermida de São Julião, próxima da Foz do Falcão, está o primeiro cruzeiro do itinerário, datado de 1783 (MDCCLXXXIII). Como os restantes, alia-se à ideia de salvação das almas do purgatório e à absolvição dos pecados, temas onde Julião e Basilisa, como santos martiriais, intercedem pela salvação das almas, ele assumindo o papel do Padre Eterno e ela a da Madre de Deus.

Este cruzeiro e o da Carvoeira assinalam uma ligação às “confrarias da Misericórdia”, de inspiração franciscana, destinadas a recolher esmolas para as missas de salvação das almas do purgatório, este que tanto vale pelo astral dos ocultistas ou o limbo dos alquimistas.

Ora, no rectângulo central de azulejos, muitíssimo danificados, do cruzeiro, vê-se precisamente, num lance ainda intacto, um homem caindo num precipício e por baixo uns dizeres invocando São Julião. É alegoria da alma precipitada no purgatório. Não deixa de ser curioso o cruzeiro estar à beira de um precipício tendo ao fundo uma abertura para o interior da Terra… o Inferno toma aqui o sentido de dor, mas também, e fundamentalmente, de iniciação. Assim, a concepção de “inferno” varia segundo a dimensão em que se dispõe, se direcionada a lugares paradísiacos (lokas), se precipitada a espaços tenebrosos (talas).

Por baixo dessa alegoria a frase PELAS ALMAS coroa um quadrado com as palavras PADRE NOSSO, lendo-se PADRE do centro para a periferia e NOSSO para baixo ou para cima. O Pai no interior e a Humanidade no exterior, tal poderá ser a intenção gemátrica.

Abaixo do PADRE NOSSO o evoco AVE MARIA. Inclino-me a ver nessas palavras a composição cabalística (de duplo sentido, confessional e sapiencial) da ladainha: “Padre Nosso. Ave Maria. Pelas Almas”.

Abaixo do AVE MARIA, a sigla epigráfica

que José Cardim Ribeiro interpreta como TEIXEIRA e Manuel Joaquim Gandra confirma, ao dizer num seu estudo que a autoria destes cruzeiros cabalísticos do Reguengo da Carvoeira é da “mestria gemátrica de Manuel Teixeira, ilustre cabalista, quiçá frequentador da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra”[7]. Adianta ainda que esse Manuel Teixeira “surge citado no testamento de João Fernandes da Conceição, ermitão de S. Julião (2 de Dezembro de 1764), falecido no ano de 1766, tendo-lhe deixado o seu capote de ourelo”.

Muitos dos enviados da corte filipina a Mateus Álvares foram, sem dó nem contemplação, atirados ao mar dessas escarpas… afinal, sem dúvida, um purgatório para esses desgraçados.

 

O SEGUNDO CRUZEIRO

 

Situado no alto da Serra de São Julião, evocativo do Gólgota, este cruzeiro é uma invocação aos Céus para atenuar as dores do calvário humano.

Ostenta os símbolos dos principais objectos do martírio no Gólgota, bem visíveis por alguém devoto do povo local ter pintado os insculpidos em cor azul.

Datado de 1794, ostenta de baixo para cima, na trave vertical, as insculturas seguintes evocativas do Calvário: uma caveira (a morte), uma turquês (a passagem além-morte), uma escada adiante da qual se cruzam uma lança e uma vara com a esponja do vinagre na ponta (a subida probatória do Calvário e consequente amargura), um cravo (a fixação da ideia subjacente), um martelo (o meio de fixar), uma chaga (donde escorre o Sangue Real – Sang Greal – do Divino Rei dos Reis, Imperador Universal, o qual na Idade Média também foi sinal de reconhecimento e iniciação entre os construtores livres) e um jarro (a água que mata a sede do supliciado, do “cordeiro inocente” na subida ao encontro do destino fatal, mas igualmente a versão exotérica do Santo Vaso, a Taça Eucarística onde foi foi recolhido o precioso Sangue do Messiah ou Avatara desse Ciclo de Piscis, também chamado o das Necessidades).

Dois exemplares dos “cruzeiros cabalísticos” do Reguengo da Carvoeira

No topo da cruz a sigla INRI, de dupla tradução: Ieseus Nazarenus Rex Iudeorum – “Jesus Nazareno Rei dos Judeus” – e igualmente: Ignis Natura Renovatur Integra – “Pelo Fogo se Renova a Natureza inteira”. Esta frase foi o santo-e-senha dos Rosa+Cruzes nos séculos XIV-XVIII, alusiva da superação da personalidade mortal pela metástase ao Ser Imortal, ao Cristo Interno assim ressuscitado, tal qual a Fénix ressuscita das cinzas do fogo das paixões entretanto transformadas no Amor à Humanidade por quem tudo se dá, até a própria vida, como o fez o castus Agnus Dei, o Christus qui tollis peccata mundi.

 

O TERCEIRO CRUZEIRO

 

Encontra-se na Carvoeira e data de MDCCLXXIX (1779). Apresenta um conjunto alegórico muito rico. Na dianteira, mostra um painel de azulejos com a cena de Jesus nos braços de sua Mãe Dolorosa após retirado da Cruz. Como cercadura da ilustração, lê-se no sentido destrocêntrico: VIRGEM DA PIEDADE, e em rodapé: ORAPRONOBIS (“Ora por nós”).

Por debaixo, aparece um quadrado cabalístico onde está inscrita SALVE RAINHA, lendo-se SALVE do centro para a periferia nas quatro direcções, e RAINHA como cercadura, leitura que também se faz da esquerda para a direita. Revela-A como Soberana Absoluta de todas as direcções do Mundo.

Dentro desse quadrado há quatro quadrados menores. Em cima, à esquerda, um coração envolto numa coroa de espinhos encimado por uma cruz. Assinala o Sagrado Coração de Jesus – a Terra ou Coagula. Ao lado, um outro quadrado também ostenta um coração atravessado por duas espadas coroado por uma flor-de-lis. Representa o Sagrado Coração de Maria – Vénus ou Solve.

O Professor Henrique José de Souza afirmou que a flor-de-lis é o “Loto Sagrado de Agharta” simbólico da Realeza Divina (do 2.º Mundo Celeste), consequentemente, da Consciência Universal, e o alquimista Fulcanelli vai ao encontro disso vindo reforçar a tese da influência do Adeptado Rosa+Cruz presente na feitura desta Via Crucem, portadora de mensagem claramente hermética-cabalística, quando diz[8]:

“A flor-de-lis corresponde efectivamente à rosa hermética. Junta à cruz, ela serve, como a rosa, de insígnia e brasão ao cavaleiro praticante que, pela graça divina, realizou a pedra filosofal.”

O radical lis ou liz também está presente no nome do Rio Lizandro, que separa o belo vale da Carvoeira (nome das primitivas bafometarias árabes ou comunidades corânicas instaladas em cabos-mares ou nas suas proximidades) de São Julião.

Sob esses quadrados, outros dois com alegorias do Calvário: três cravos cruzados, a escada com a lança e a vara do fel, todos sinais de iniciação martirial.

Nas costas do cruzeiro, duas outras alegorias azulejadas. Acima, Jesus na Cruz tendo aos pés a sua Santa Mãe, Maria Madalena e João Evangelista. Abaixo, um Anjo e um Franciscano (presumivelmente o próprio São Francisco de Assis) salvando as almas do purgatório.

Adensa-se, solidifica-se cada vez mais a tese da influência secreta ou tão-só discreta de Rosea+Crucis, “amancebados” ao Franciscanismo, na idealização deste projecto cabalístico volante, os quais, aliás, são referidos no livro de Alquimia dedicado a D. João V e à vila de Mafra em 1732, Ennoea, de Anselmo Caetano Munhoz de Abreu[9]. Ademais, essa “amancebia” é testemunhada numa frase gravada no lado direito do cruzeiro, a qual é muito comum nas Misericórdias locais que são, como se sabe, de origem franciscana:

IRMAM
SALVA
ACRVS
ACAMPA
NHETE
IEZVS

“Irmão salva a Cruz. Acompanhe-te Jesus.” Ou “Irmão, a Cruz salva. Acompanhe-te Jesus.”

Além do apelo à conservação da Fé, há nisso uma outra mensagem, deixada não só aos da época mas também aos vindouros, de interpretação ad litteram: conservar incólumes os cruzeiros, com isso deixando intacta a Via Crucem iniciática por eles assinalada.

Saibamos todos respeitar a mensagem, nem que seja por esmola, porque “a esmola que dais a vós mesmos a dais”, no dizer da inscrição na base do cruzeiro.

 

O QUARTO CRUZEIRO

 

E possivelmente o primeiro da série por ser o mais antigo: data de 1688. Encontra-se dentro do pátio da ermida da Senhora do Ó da Ribeira, ou Nossa Senhora do Porto do Reguengo da Carvoeira. Na sua base, a frase latina: AVE CRUX SPES ÚNICA – “Ave Cruz Esperança Única”.

Nesta série de cruzeiros encontram-se sempre uma letra e uma palavra que se repetem, como se quisessem significar mais do que aparentam na sequência lógica dos termos e frases: a letra S e a palavra Ave.

A primeira, muito ligada à ideia de “Fogo Serpenteante” como Força Ígnea do Espírito Santo, tanto valendo por Kundalini e Maha-Shakti representada pela Virgem Negra, mas também ligada à ideia de “sebástico”, corresponde ao khi na língua grega, adquirindo o significado esotérico do rasto helicoidal do Sol que no espaço chegou ao zénite da sua curva (e este cruzeiro está junto à curva da estrada), no momento final de um ciclo (assinalado no cemitério mais adiante).

Já a ideia sebástica patente no S remete a uma hierarquia de valores oculta no nome Sebastião o qual, em seu tempo, foi sinónimo de “Mestre Universal” e “embaixador ou representante do Espírito Santo” (Avis, anagramaticamente, Siva ou Shiva)[10].

Quanto à palavra Ave, em sequência directa da letra anterior, como saudação remetida a Maria (a Avis Raris in Terris revelada na forma alva de Pomba do Espírito Santo), lida de trás para a frente dá Eva, a primeira Mãe da Humanidade, ou por outra, Adamita, esposa de Adam ou Adamito; mas colocando o v adiante do a e o e a seguir a este, tem-se: vae, vai, segue… Dessa maneira, poder-se-ia ler a frase do cruzeiro: SEGUE A CRUZ, A ÚNICA ESPERANÇA!

Aparece assim novamente a ideia de rota, de caminho a palmar tanto para o vulgar devoto como para o singular iniciado. Rota feita na Tradição Ocidental e no mais ocidental da Europa, neste martírio da personalidade mortal a favor da Individualidade imortal, em paulatina cruzada onde o Fogo Divino (INRI) joga papel determinante.

Acerca da Senhora do Ó, Deusa-Mãe Primordial, com isso Ela é ligada à ideia de Mater-Prima, Anima Mundi fecundadora da Matéria, o que leva a ser considerada divindade propiciatória das colheitas e partos. Fulcanelli diz dela[11]:

“Vários monumentos muito anteriores ao Cristianismo a designam sob o nome de Virgo Pariturae, ou seja, a Terra antes da sua fecundação e que os raios do Sol hão-de em breve animar. É também a Mãe dos Deuses, como atesta uma pedra de Die: Matri Deum magnae ideae. Não se pode definir melhor o sentido esotérico das nossas Virgens Negras. Elas representam, na simbólica, a Terra Primitiva, a que o Artista deve escolher para objecto da sua Grande Obra. É a Matéria-Prima no estado mineral, tal como sai dos jazigos metalíferos, profundamente enterrada sob a massa rochosa.”

A Senhora do Ó (grávida do Menino que é igualmente expressivo da Idade Futura, se for inserido no tema sebástico-imperial do Espírito Santo) identifica-se assim com a Virgem Negra Ísis (ou I515, cuja soma e redução dá o valor 30, que sem o zero é designativo da Terceira Pessoa da Trindade, e como 15 assinala a “Força Diáblica da Inteligência”, como seja a corporização do deus Astaroth) e com a galo-celta Lusina, esposa do deus Lug, padroeira dos artífices romanos agremiados em collegia fabrorum. L da inicial do nome da deusa que é traçado ou esquadrado pelo itinerário dos cruzeiros desde a praia de São Julião até ao cemitério da Carvoeira, sendo a “dobra” precisamente este 4.º (e originalmente o primeiro e único) cruzeiro. A letra L significa a realização da Grande Obra Hermética e a consumação das Três Luzes da Santíssima Trindade, sendo igualmente a inicial do quinto signo do Zodíaco, Leo, consequentemente, afim ao ouro filosófico que se obtém da Pedra Filosofal, indicativa de Iluminação Integral correspondente ao estado supra-humano do Andrógino ou Adepto Perfeito. Este será o Homem Endócrino do Quinto Sistema de Evolução, como hoje no Quarto Sistema domina o Homem Cérebro-Espinal.

De volta à Senhora do Ó, a primeira de todas as Virgens da Cristandade por ser aquela escolhida pelo Eterno, anunciada pelo Anjo e promanada pelo evangelista Lucas, o título dessa invocação é justificado pelas antífonas recitadas pela Igreja oito dias antes do Natal, começando pela letra O: “O Sapiente, O Adonai, O Radix Jesse, O Calvis David, O Oriens, O Rex Gentium, O Emmanuel”; justificativa também encontrada na forma ovóide do ventre saliente da Senhora e no facto da letra O simbolizar a imortalidade de Deus. O Concílio de Toledo, no ano de 656, ordenou a celebração de uma festa em Sua honra em toda a Hispânia, a 18 de Dezembro. Santo Ildefonso deu-lhe o nome de Senhora da Expectação, a mesma Senhora da Esperança (que Pedro Álvares Cabral levaria ao Brasil). O Papa Gregório XIII (1572-1585) aprovou-a, porém, após o Concílio de Trento (1545 a 1563) muitas Senhoras do Ó foram retiradas dos altares ou sofreram grandes transformações, por não corresponderem às exigências impostas pelas directivas da Contra-Reforma quanto à decência das imagens e ornamento dos objectos de culto. Representada com o ventre entumescido, sobre o qual, geralmente, coloca uma das mãos, a sua iconografia tem origem apocalíptica ou pré-existente: a Mulher que há-de parir à Luz[12].

O QUINTO CRUZEIRO

 

Este encontra-se dentro do cemitério da Carvoeira e tudo indica que o “campo santo” tenha se desenvolvido à sua volta, posto estar precisamente ao centro.

A peça apresenta um quadrado de sete letras sobre um rectângulo de dezoito letras. De permeio, a data 1833, possivelmente a da sua feitura, ou então a da reconstrução sobre a original, o que me parece mais evidente.

Há nisso uma charada gemátrica, tradição muito comum entre os cabalistas quando pretendiam, ou pretendem, deixar uma mensagem do presente para o futuro. Fazem-no assim para chamar a atenção do curioso, obrigando-o a resolver o enigma pelo exercício e consequente desenvolvimento da sua faculdade intuitiva. É uma forma de iniciação pelo raciocínio, própria do método cabalístico de Abulafia, mas visando ir além do próprio raciocínio.

Antes de avançar nas suposições possíveis na resolução do enigma, convirá que primeiro exponha o alfabeto hebraico e o seu correspondente valor numérico, a fim de haver melhor e maior entendimento do que me parece ser o único método de descodificação, posto ter sido feito no exclusivo molde cabalístico gemátrico judaico-cristão.

Para se interpretar um nome deve-se primeiro fazer a transposição das letras para os números. Isso é feito de acordo com a tabela seguinte (Tabela de Abulafia):

Na Cabala, as somas e as subtracções efectuam-se de modo diferente[13] – chama-se soma cabalística de um nome a soma dos números correspondentes às letras desse nome. Subtracção ou redução cabalística é a soma dos algarismos que deverão compor-se de um de qualquer número inferior a 22.

Postos esses preliminares, passo à leitura dos quadrados do cruzeiro. Começarei pelo primeiro, atribuindo-lhe os números e as correspondentes letras hebraicas:

Beth representa simbolicamente a boca humana, a morada da Sabedoria, o interior do Homem ou Alma. Hieroglificamente designa a dualidade, a Mulher.

Cheth simboliza uma cerca. Hieroglificamente representa a existência elementar, o princípio da vida assinalado na frase: “Do pó vieste e ao pó voltarás”… Est tem a ver com o latino estõ e significa “ser, conforme”.

Yod representa o dedo indicador. Hieroglificamente designa a manifestação potencial, a adoração eterna.

2+8+10 = 20 = Khaph. Esta letra simboliza a mão no acto de pegar alguma coisa. Hieroglificamente representa a vida reflectida e passageira, facto assinalado no próprio cemitério.

As oito letras do quadrado dão o duplo quatro, equivalente a Daleth, representando a porta e o quaternário universal, a fonte de toda a existência física, que começa no berço e acaba no túmulo.

Haverá, pois, uma mensagem oculta referente à vida humana passageira, para a qual a melhor das representações será o próprio cemitério, a maior de todas as verdades do futuro terreno de todo o ente mortal.

Se as letras forem ordenadas no seu valor sequencial, intuo uma outra mensagem relacionada com a transposição acima.

Ou seja:

Santa Basilisa. Sois toda a Esperança do Mundo Cristão.

O segundo quadrado complica muito mais a charada. Contudo, o processo de resolução será o mesmo.

A soma e redução de todos os números dão 3, Ghimel, correspondente à ideia de expansão e crescimento.

Somando e reduzindo as 18 letras do quadrado obtém-se 9, que corresponde à letra Teth. Esta simboliza uma serpente, e hieroglificamente representa a casa do homem, o tecto, o abrigo, a resistência, um escudo e protecção[14].

Há cinco epígrafes, tomando por principal a segunda contando de baixo (a única gramaticalmente coerente), constituindo frases inteira-mente decompostas. Trabalharei agora na sua possível ordenação.

 

Sobra um M, de “Mãe”. Resultado: Clamo à Mãe.

Resultado: A Rota, o Caminho, Conduzir.

Resultado: Lázaro, o Ressuscitado, o Salvo.

Resultado: Campo da dor.

Ordenação e composição dos resultados de ambos os quadrados:

SANTA BASILISA
SOIS TODA A ESPERANÇA
DO MUNDO CRISTÃO.

CLAMO À MÃE DE AMOR
QUE ME LEVE À SALVAÇÃO
ALÉM DO CAMPO DA DOR.

Este foi o meu método e valência na tradução da epigráfica mensagem velada dos cruzeiros, e velada por conhecedores aprofundados da Cabala, os quais utilizaram o método gemátrico dando-lhe, pelo peregrinar na rota dos cruzeiros, feição “volante”. A ciência dos números e letras é de origem universal, porém, na tradição hebraica acha-se com toda a pujança e é, por quanto se expôs, na Cabala judaico-cristã que a resposta ao enigma da via crucem do Reguengo da Carvoeira deve ser procurada.

Acredito mesmo não haver outra alternativa senão a da Tradição.

 

NOTAS

 

[1] Victor Mendanha, O Mistério dos Quatro Cruzeiros. Matutino Correio da Manhã, 8.5.1991.

[2] Manuel António Ferreira Deusdado, Quadros Açóricos. Angra do Heroísmo, 1907.

[3] Oliveira Martins, Sistema dos Mitos Religiosos. Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1951.

[4] Juan Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[5] Não confundir com o outro São Julião chamado o Hospitalário, relacionado com o tema dos santos caçadores.

[6] António Castaño Ferreira, Mistérios e Misticismos da Bíblia. Revista Dhâranâ, n.º 33, 1970/73, Brasil.

[7] Manuel J. Gandra, A ideia do Monumento de Mafra: Arquitectura e Hermetismo. Texto inserto no Boletim Cultural “94”, edição da Câmara Municipal de Mafra.

[8] Fulcanelli, As Mansões Filosofais. Edições 70, Lisboa.

[9] Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal, Lisboa Ocidental, 1732. Esta obra foi reeditada em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Fevereiro de 1987, com nota de apresentação de Yvette Kace Centeno, quase em simultâneo com uma outra reedição no mesmo ano, desta feita em Mafra, com nota preambular de Manuel Joaquim Gandra. Conta esta última com uma dedicatória final de Anselmo Caetano a D. João V e ao elogio do V Império, que a primeira não possui apesar de melhor apresentada e organizada que a segunda.

[10] Numa breve análise filológica do nome Sebastião, lembro que o étimo grego sebàs originalmente significava “pudor” e “temor”, vindo depois a exprimir as qualidades de “santidade” e “majestade”, originando o tardio sebastòs, sinónimo de “venerável” e “augusto”, sendo que sebastocrator designava o “príncipe real primogénito” na corte bizantina. Ora, o nome Sebastião origina-se do Sebastòs grego, de significado idêntico ao árabe Al-Sabah, “Majestade Divina”. Em hebraico, como este não possui vogais e se lê da direita para a esquerda, por ser semântica lunar, o seu radical é SBSH, “serpente, dragão”, lendo-se saraf, palavra na origem de safardim e sefardita, expressiva do postulado da Cabala Profética judaico-hispânica que, inclusive, batizou a Península Ibérica de “Terra de Sefarad”. O radical SBHS encontra-se igualmente na letra simples samekh, “serpente”, do mesmo alfabeto hebraico. Portanto, sbhs, sefarad, samekh igual a “serpente, dragão”, símbolos zoomórficos do Fogo ctónico, subterrâneo, infernal, inferior (inferius) ou interior (interiora) de Kundalini como a principal “matéria-prima” do consignado “Laboratório do Espírito Santo”, assinalado no Oriente como sendo Shamballah e no Ocidente como Salém, termos distintos para uma real e única coisa que é o Sol ou Núcleo Central da Terra.

A “Serpente” (de Sabedoria) ou Saraf como Sumo-Pontífice, equivalia entre os hebreus ao Kohen-Tsedek. Este grau consciencial e hierárquico correspondia, analogamente, na Céltida ao “Mestre dos Druidas”, o Arquidruida. Já na corte bizantina era conhecido como Pantocrator (“o que tudo governa”), e assim chama-ram a Santiago Maior nos caminhos de Compostela, de hierarquia equivalente ao Pthamer egípcio ou ao Jivamukta hindustânico, o Maha-Guru ou Maha-Choan, “Supremo Dirigente da Grande Confraria Branca dos Bhante-Jaul”.

Obviamente a letra radical de Sebastião é o s que, como inicial de “serpente”, aqui serpente real (a naga hindu, a naja etíope como a mesma naha hebraica, figurativas do Adepto Real) por se reportar ao rei, indica a Iniciação pelo Fogo Kundalini ascendendo da Terra ao Céu, provocando o apartamento definitivo da velha consciência profana pela nova luz iniciática, inicialmente podendo ser dolorosa a presença dessa consciência infante, pelo que Fernando Pessoa relaciona a letra S às “lagrimas alchymicas do Christo” (in O Caminho da Serpente, no livro Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética. Texto organizado por Yvette Centeno. Editorial Presença, Lisboa, 1985). Já Dalila Pereira da Costa (in Da Serpente à Imaculada. Lello & Irmão Editores, Porto, 1984) relaciona a serpente à Iniciação Feminina da Mátria Lusitana, e, no mesmo sentido de Iniciação Colectiva da Raça dos Lusos em relação com o simbolismo serpentário, afirma Pinharanda Gomes (in A Patrologia Lusitana. Lello & Irmão Editores, Porto, 1983) que “é o sinal remoto que nos introduz numa das genealogias a divinis do povo lusitano e dos seus valores religiosos. A serpente apresenta-se como símbolo do conhecimento global: a serpente enroscada, a boca tocando o rabo, denomina simbolicamente o universo do saber; a unidade do ser (…)”.

Após o desaparecimento do rei Sebastião, o messianismo peninsular tomou forças novas e assumiu-se sebastianismo nacional, popularmente bandarrismo, sob duas vertentes, uma “branca” e outra “vermelha”, aquela metafísica e esta política, e foi esta que vingou para a posteridade deturpando o sentido original do sebastianismo messiânico (cf. Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002).

[11] Fulcanelli, O Mistério das Catedrais. Edições 70, Lisboa.

[12] Maria do Carmo Vilar, O Dogma da Imaculada Conceição, pág. 111, in O Eterno Feminino no Aro de Mafra (Roteiro Monográfico). Edição da Câmara Municipal de Mafra, Setembro 1994.

[13] Francisco Valdomiro Lorenz, Noções elementares de Cabala – A Tradição Esotérica do Ocidente. Editora Pensamento, São Paulo, 1979.

[14] William What, Mistérios Revelados da Cabala. Fundação Educacional e Editorial Universalista, Porto Alegre, Março 1982.

Madeira: arquipélago de mitos e tradições – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Dez 1 2017 

Cornucópia repleta de fertilidade, abundância e riqueza de mitos e tradições é a que traz consigo a deusa romana Fortuna, como a mesma Tique grega[1]. Ao seu lado, a roda de leme transformada naquela do destino no século VI d. C. pelo escolástico Boécio na sua De Consolatio Philosophiae[2]. Filosofia consoladora que levaria depois os nautas de Cristo ao porto seguro feito santo por intervenção divina, salvadora da aflição humana no humor revolto do Mar das Hespérides, Atlântidas ou Atlante-ilhas, corria o século XV.

O Arquipélago da Madeira e Porto Santo é ele mesmo a cornucópia da Fortuna repleta dos mais felizes mitos consumados em tradições que se perdem na noite dos tempos. As mesmas encomiam os ilhéus como privilegiados de verdadeira Ilha de Utopia bafejada pelo empíreo dos deuses sobre o vasto oceano por eles beijado sob a forma de estrelas, as quais brilham em homens e mulheres de raridade superior mental e coracional que aqui têm aportado e deixado o testemunho no património das suas obras primorosas, umas discretas, outras exuberantes.

É na literatura clássica greco-latina que se encontram as mais antigas referências à Ilha da Madeira, observando-se nas cosmografia e geografia dos clássicos a presença do senso sagrado onde o mytus se transforma em mystèrion ou mistério, e assim mesmo se apresenta sob dupla leitura, aparente e velada (“letra” e “espírito”, exotérica e esotérica), nos textos clássicos chegados até hoje ornando a Madeira como a verdadeira Ilha da Ventura, a Ilha Afortunada extremo-mar da Europa portuguesa e que em Y irradia para o Norte e o Sul do quinto continente, a América, quiçá para El Moro no Novo México, EUA, e São Lourenço no Sul de Minas Gerais, Brasil, assim unindo o português ao ameríndio.

Na Madeira sente-se ou tão-só pressente-se ser ela (ao par dos Açores, Canárias e Cabo Verde, possessões portuguesas de que a guanche canária só praticamente no final do século XV a perderíamos definitivamente para Castela) a herdeira sobrevivente desse afogado continente que dá pelo nome de Mu, Kusha ou tão-só Atlântida, donde Atlântico, existido nas Eras Geológicas Secundária, Terciária e começo da Quaternária do Mundo[3]. Seria seu sobrevivente humano aquele “povo vermelho” que dá pelo nome de fenícios, os inventores da escrita com que se passou da Proto à História, considerado povo navegador mercajedor e civilizador, progenitor dos cartagineses que depois, ao par dos romanos, em poderosas embarcações sulcariam a costa mediterrânea e o seu mar indo além das Colunas de Hércules, ora descendo a costa africana, ora subindo a costa hispânica e até se arrojando em empresas de mar de longo chegando a aportar aqui na Madeira. É Plínio, o Velho, naturalista e cronista romano do I Século d. C., quem o diz na sua Naturalis Historiae, chamando à Madeira de Insulae Purpurariae, a “Ilha da Púrpura”, adiantando que o apelido provinha da “fabricação do corante púrpura que fora estabelecida na ilha pelo rei Juba II da Mauritânia”[4], portanto, de descendência cartaginesa e vassalo de Roma no século I.

O facto é que a cor púrpura foi inventada pelos fenícios cujo segredo de fabricação foi dos mais guardados na Antiguidade, que como cor do planeta Júpiter, Jove, Zeus, Zyaus ou Deus, era este associado à mais elevada realeza e pontifical, pelo que só as classes elevadas dominantes na política e na religião a podiam exibir. Só quando os imperadores e cônsules romanos passaram a ostentar essa cor nos trajes da sua condição superior, é que veio a saber-se que a mesma se obtinha do molusco múrex – a murex brandaris ou a “púrpura tíria” – cuja exclusividade e comércio foi fenícia durante gerações[5]. Mesmo assim, depois dos romanos o terem obtido, foi resguardado o segredo da fábrica da púrpura por quase dois milénios. Vai nesse sentido, sobre este assunto, a descrição dada no Century Dictionary, de 1899, considerado dos melhores dicionários norte-americanos[6]. Diz a tradição que só no século XVIII o conhecimento da mesma se generalizou a partir de França, quando a arte de tinturaria foi tornada pública pelo “Superior Incógnito” chamado Conde de Saint-Germain, este que, pela Missão Secreta de que estava incumbido na Europa, ocultou-se em vários títulos com que se apresentou às cortes europeias: Marquês de Montferrat, Marquês de Aymar, Conde de Welldone, etc.[7]

Ao par de Insulae Purpurariae, Plínio, o Velho, chamou à Ilha da Madeira de Junonia, por motivo do grande número de pombas (Columba Junoniae) que foram vistas a voar nas suas encostas, as quais certamente seriam as alvas “pombas do mar”, as gaivotas. Tais espécies de pombas foram dedicadas à deusa romana Giunone, ou seja, Juno, contraparte de Jove ou Júpiter, sendo Pronuba como protectora dos casamentos e nela, deusa, se realçando a dignidade espiritual e humana da Mulher. Pronuba pode hoje encontrar-se representada na padroeira da ilha, Nossa Senhora do Monte, afim ao tema hagiográfico da Assunção da Virgem, tal qual Juno está ascendida junto a Júpiter.

Igualmente Estrabão, na sua Geografia, volume II, baseado na Corografia de Pompónio Mela, volume III, e na De illustris Viris, de Cornélio Nepos (aliás, citado por Plínio na sua História Natural), descreve a história de Eudóxio, grego de Cizico na Ásia Menor, que se teria mudado para o Egipto e daí para a Índia por via marítima. Ao transpor as Colunas de Hércules, onde hoje está Gibraltar, as correntes arrastaram o navio até uma ilha que se supõe ser a Madeira. Também na sua obra, Biblioteca Histórica, Diodoro Sículo ou da Sicília narra que alguns marinheiros fenício-cartagineses de Gades, ao navegarem pela costa africana, foram arrastados na direcção oposta durante alguns dias até aportarem numa grande ilha, que se supõe ser Porto Santo. Por alguma via que o historiador não diz, os etruscos, cujo poderio naval não tinha rival, vieram a saber dessa descoberta e quiseram apropriar-se dela, talvez em data próxima de 474 a. C., mas esse propósito nunca veio a ser concretizado.

Finalmente, na Biografia de Sertório, escrita por Plutarco, lê-se que marinheiros de Gades ofereceram-se para levar Sertório a determinado ponto do Oceano Atlântico, onde existiam duas ilhas muito férteis e de clima muito suave. Plutarco chama-lhes “Ilhas Afortunadas”[8].

Essas são algumas das inúmeras informações disponibilizadas pelos autores clássicos da Antiguidade greco-latina acerca do seu conhecimento do arquipélago da Madeira, certamente também do conhecimento de frei Gaspar Frutuoso (1522-1591), sacerdote e historiador açoriano considerado a maior sumidade insular que deixou preciosa obra em seis tomos, escritos entre 1586 e 1590, sobre os arquipélagos das Canárias, Açores e Madeira, este quem dedicou o segundo volume[9].

Por fim, resta enquadrar o sentido de insula occultam – ilha escondida, proibida ou vedada – na ideia mágica e religiosa dos sábios antigos, no tema sendo a mais notável a insula brandonis ou Ilha de São Brandão, que Thomas More no fim do primeiro quartel do século XVI disporia como a Ilha da Utopia, habitada por homens sábios e santos, ela mesma na rota atlântica da Ilha da Madeira, a Medera apontada por Rosemarie Erika Horch[10], cuja “floresta mágica” (madre selva) poderá muito bem ser a de Laurissilva, húmida subtropical ocupando área com cerca de 15.000 hectares.

Isso mesmo está registado numa gravura em madeira do século XV, onde ao lado das Canárias aparece a Ilha Afortunada, a mesma “Pérola do Atlântico”, tendo mais acima uma baleia em cujo dorso é consumado o sacrifício da santa missa, e por cima domina a Ilha de São Brandão. Entra-se assim no plano dos símbolos sagrados por que se expressa o verbum mutis – a língua muda – revelador da transcendência espiritual da Iniciação.

O simbolismo da baleia liga-se simultaneamente ao da entrada na caverna e ao do peixe. No mito bíblico de Jonas, a baleia representa a arca, a barca, o Paraíso Terreal assinalado no Oriente – e também no Ocidente – como Agharta ou Asgardi. A entrada de Jonas na caverna iniciática, isto é, ser engolido pela baleia, assinala a entrada no período de obscuridade ou pralaya, intermediário entre dois estados ou modalidades de existência (manvantara). Jonas no ventre da baleia é a morte iniciática, e a sua saída expressa o renascimento após a prova da caverna de iniciação (crypta ferrata). A saída de Jonas, ser vomitado pelo mamífero marinho, é a ressurreição, o novo nascimento, tal como demonstra, de modo particularmente explícito, a tradição islâmica[11]. Com efeito, nun (ن), a vigésima nona letra do alfabeto árabe, significa “peixe” e, especialmente, “baleia”, que por transposição semântica transcreve-se al-hût. Essa é a razão pela qual o profeta Jonas, Sayyidnâ Yûnus, é chamado de Dhûnl-nûn. Na Kaballah judaica, a ideia do novo nascimento, no sentido espiritual, está ligada a essa letra nun. O novo nascimento iniciático inscreve-se no tema messiânico assinalado no Evangelho de Mateus (12:39-40), onde Cristo dá como único e verdadeiro dessa identidade o “Sinal de Jonas”, o que vem a inscrever-se no tema sebástico-parúsico madeirense do imobiliário legendário sebastianista, tão caro a Porto da Cruz. É o Sinal do Messias, do Avatara, daquele que vem de Cordo Maris ou do “Coração do Mar”, falado por Lusitanus nos seus Sinais dos Tempos[12].

Por fim, sendo símbolo de continente secreto ou perdido, como o da Atlântida de que as ilhas e ilhéus do Atlântico podem ser os resquícios geológicos sobreviventes do terrível Dilúvio que a afundou, como afirma a Tradição, a baleia é também simbólica do tesouro escondido e, às vezes, igualmente da desgraça ameaçadora, pois ela contém sempre em si a polivalência do desconhecido e do interior invisível ou ocultado; é o centro de todos os opostos que podem vir a ser. Por este motivo, também já se comparou a sua massa ovóide à conjunção de dois arcos de círculo simbólicos do mundo do alto e do mundo de baixo – o Céu e a Terra – que o ritual da missa une no momento litúrgico da hora sagrada.

Na sequência, a ilha, a que se chega depois de uma navegação ou de um vôo apoiado pelas invisíveis mas vigorosas mãos de anjos, é o símbolo por excelência de um centro espiritual, mais precisamente, do Centro Espiritual Supremo ou Primordial. A ilha é assim um mundo em miniatura, uma imagem do cosmos completa e perfeita, porque apresenta um valor sacral concentrado. Sob este aspecto, a sua noção neosética aproxima-se daquelas noções de templo e de santuário. Simbolicamente, a ilha é um lugar de eleição, de silêncio e de paz, em meio à ignorância e à agitação do mar revolto do mundo profano. Representando o Centro Primordial, a sua cor fundamental de pureza é sempre a branca[13].

Foi assim que na Idade Média as ilhas perdidas e achadas (“trobadas”)[14] tornaram-se um dos mitos fundamentais do Paraíso Terrestre afim à ideia da Idade de Ouro, herança mitogénica do Orfismo e do Neopitagorismo. Hesíodo descreve-as em Os Trabalhos e os Dias, dizendo: “É lá que moram, com o coração livre de cuidados, nas Ilhas dos Bem-Aventurados, à borda dos turbilhões profundos do oceano, heróis afortunados para os quais o solo fecundo produz, três vezes por ano, delicadas e florescentes colheitas”[15].

A Escola Náutica de Sagres[16], liderada pelo Infante D. Henrique de Borgonha (Porto, 4.3.1394 – Raposeira de Vila do Bispo, Sagres, 13.11.1460), filho de D. João I de Portugal, estando num país cuja maior parte é mar, cedo arrojou-se na vastidão do mesmo, desbravou-o e dele tomou posse[17]. Este Infante Henrique de Sagres – letrado nos clássicos da Antiguidade, herdeiro da cartografia marítima da Ordem do Templo de que a Ordem de Cristo, de quem era o 8.º Mestre e Administrador Geral, por sua vez era herdeira universal directa – sabia de antemão haver terra firme a Ocidente, e nessa direcção mandou navegar os capitães e pilotos da nova cruzada marítima, e após que seguissem a rota sudoeste, motivo da estranheza geral dos espiões ao serviço de Castela e de Génova infiltrados na corte portuguesa[18].

A espionagem e a contrainformação, notícias falsas que repetidas à exaustão acabaram tornando-se verdades oficiais de Estado moldando a opinião pública, poderão explicar o controverso explorador e mercador genovês Lancelotto Malocello (Varazze, 1270 – Génova, 1336), que em navio luso descobriu as Canárias em 1312 sob o comando de Manuel Pessanha, o qual em 1317 assumiu o almirantado português. Em 1336, o genovês descobriria ainda a Ilha da Madeira, isso apesar de estar acamado em Génova em cuja data faleceu. Atesta essa descoberta efabulada o famoso Atlante Mediceo ou Atlas dos Medici, datado de 1351 mas que a historiografia acusa ter sido composto em data bastante posterior, talvez furtado das mesas de trabalho dos cartógrafos portugueses da Escola de Sagres, por os lugares assinalados no mesmo – como o Cabo Bojador – serem do exclusivo e exacto conhecimento marítimo português.

Vai na mesma direcção a estória de Robert Jacob Machin ou Robert Machim que vindo incidentalmente das ilhas britânicas teria descoberto a Ilha da Madeira muito antes dos portugueses, ou seja, em 1344. E na enseada onde aportou teria batizado de Machico, inspirado no seu nome Machim. A estória ganhou raízes e ficou até hoje, sobretudo para favorecer os interesses britânicos na ilha. Conta-se assim: um cavaleiro escocês da corte de Eduardo III de Inglaterra, Robert Machim, apaixonara-se por uma jovem nobre inglesa de nome Ana de Arfet, e como os pais de ambos não concordavam com o casamento deles casaram em segredo. Descoberto o acto, fugiram de Bristol para o sul de França, com o conluio dum amigo chamado Jorge. Ao atravessarem o Canal da Mancha, a embarcação que os levava foi arrastada por correntes fortes para o mar alto: o barco desceu em direcção ao Golfo de Biscaia, continuou à deriva passando o Mar dos Mortos na costa da Galiza, passou ao largo do Norte de Portugal, e sem se desviar para os Açores acabou acostando na Ilha da Madeira, depois de alguns anos à deriva no oceano. Assim se descobriu a Madeira. Desembarcados os pobres transviados da sua rota original, acolheram-se dentro do tronco oco de uma árvore que de tão grande era cabiam no espaço cinco a seis pessoas. Entretanto, Ana de Arfet adoeceu de febres e acabou falecendo. O desgostoso marido sepultou-a e marcou o lugar com uma cruz, depois descoberta pelos portugueses que sobre a sepultura construiriam a capela do Senhor dos Milagres (século XV, das mais antigas da rede paroquial da ilha). Robert de Machim, vendo-se nessa desgraça e só, decidiu construir uma tosca jangada e fez-se de novo ao mar, indo parar nas costas da Mauritânia onde os mouros o faz escravo. Seria depois resgatado pelas tropas do rei de Castela que o levaram para a corte deste onde, com toda a gala, foi recebido o infeliz nobre escocês, outros dizem que também era inglês. Tudo isso passa-se durante o período da Guerra dos Cem Anos entre Inglaterra e França, onde as relações entre os dois países estavam cortadas. Tudo isso revela igualmente que mais-valia terá ser escocês, inglês, francês, espanhol e até mauritano, travestido de “Robinson Crusoé”, do que “corso” português. Enfim, invejas e cobiças.

Essa estória “trágico-marítima”, com alguma comicidade histórica nas diferentes versões tornando-as contraditórias entre si, recua a 1507, a Francisco Alcoforado, cavaleiro da Ordem de Cristo ao serviço da Casa do Infante D. Henrique, entretanto falecido, e a terá bebido da edição que fez dela o impressor Valentim Fernandes de Morávia, dito o “Alemão”, apesar de ser português mas tendo vivido nessa cidade germânica, estabelecido em Lisboa em 1490, que terá ouvido a estória de um tal Morales de Sevilha, pressuposto companheiro de prisão de Machim entre os mouros, que os portugueses do Infante D. Henrique capturaram quando ele foi resgatado e se dirigia para Castela, tomando assim conhecimento da existência da Ilha da Madeira indo logo apressurá-la[19]. “Literatura-de-cordel”, novelística ficcionada… Foi a partir da edição de Fernandes de Morávia que o italiano Giulio Landi (1498-1579) escreveu e publicou em Piacenza, em 1574, La Discrittione de Isola de la Madera, onde narra a estória de Robert Machim mas dando-o como francês com o nome italiano Il Macino. Foi a partir deste autor que se universalizou a lenda de Robert Machim, sobretudo entre os britânicos.

Observa-se na escritura de Giulio Landi características semelhantes às daquelas linhas seguidas por Erasmo de Roterdão e Thomas More, portanto, dispondo a narrativa no plano simbólico-hermético remetendo-a para o tema da “Ilha da Utopia” – insula occultam – a que se chega pela navegação hermética ou de Espírito Santo, onde o nauta entrega-se plenamente nos braços da Providência que fará Anjos invisíveis tomarem o timão da barca fazendo-a chegar finalmente a porto seguro (foi assim com Santiago Maior marinero morto de Jerusalém a Padrón, foi assim com St.º Adrião e St.ª Natália nautas, e com tantos outros da hagiografia religiosa). Nisto entra sempre um casal de enamorados, um par hermético indicativo do Rebis alquímico – sinalético do Andrógino Primordial – por onde se vai mareando os elementos naturais através da chamada Via Húmida ou Navegante – Mista – da Alquimia. Isto nota-se com grande clareza no texto galante e barroco, estilo de que foi o expoente máximo peninsular, de Francisco Manuel de Melo (Lisboa, 1608 – Alcântara,1666) que deu forma poético-teatral, como fundo hermético de cujo conhecimento não era alheio, à lenda de Machim e Arfet na sua Epanáfora Amorosa (1654), tendo se baseado na relação do cavaleiro de Cristo, Francisco Alcoforado[20].

A divulgação dessa estória coincidiu com o período difícil da História de Portugal que foi o da restauração da independência de 1640, época em que de facto houve algumas concessões da Coroa portuguesa. Por ocasião do casamento da princesa Catarina de Bragança, filha de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão, com Carlos II de Inglaterra, a rainha portuguesa fez dádiva de algumas possessões ultramarinas no contrato nupcial da sua filha de minoridade, para assegurar a aliança com a Inglaterra perante a ameaça da poderosa Espanha. Nesse contrato, aprovado pelo Conselho de Estado, cedia-se à Coroa britânica a cidade e fortaleza de Tânger e a Ilha de Bombaim na Índia Oriental, para que a sua armada protegesse as praças portuguesas em África e na Índia, contrato que foi assinado em 23 de Junho de 1661. Consta que D. Luísa de Gusmão teria acrescentado ao dote da princesa a doação da Ilha da Madeira, mas tal não aconteceu, e cremos que a cedências das praças ultramarinas seria apenas temporária, duraria só até ao final da guerra da restauração, mesmo que depois os ingleses ficassem aí, mas devolvendo os territórios ao legítimo donatário, a Coroa portuguesa. É impossível admitir que, em plena guerra de restauração e independência de Portugal, anacronicamente a rainha portuguesa andasse a oferecer a título definitivo territórios nacionais ao estrangeiro. As cláusulas do contrato, repito, não parecem ir nesse sentido: cedência comercial dos territórios, sim; cedência territorial definitiva, não. Em troca: a garantia de auxílio militar britânico ao seu aliado português, a qual nem sempre foi muito profícua nem pronta no atendimento (os “amigos de Peniche”…).

O mesmo aconteceu durante a guerra peninsular, quando as forças militares britânicas ocuparam o Arquipélago da Madeira, a primeira vez, chefiadas pelo coronel William Henry Clinton, de 23 de Julho de 1801 a 27 de Janeiro de 1802, sem ingerência directa na administração civil; a segunda vez, entre 1807 e 1814, tendo a 24 de Dezembro de 1807 o Estado-Maior do Tenente-Governador William Carr Beresford se instalado no Funchal, no Palácio de São Lourenço, então residência do Governador Pedro Fagundes Bacelar d´Antas e Menezes, onde, como em todas as fortalezas da ilha, foi hasteada a bandeira de Inglaterra e depois publicada uma proclamação onde a população era obrigada a reconhecer Jorge III do Reino Unido como o seu legítimo soberano. A situação manteve-se até à assinatura do Tratado de Restituição da Madeira (Londres, 16 de Março de 1808), arrancada a ferros pela diplomacia portuguesa, cuja cópia só chegou à Madeira em fins de Abril desse ano (vem daí a expressão popular “já chegámos à Madeira?”, isto é, já chegou o documento de restituição?). O arquipélago foi então devolvido à administração civil e Beresford seguiu para Lisboa, tendo uma guarnição britânica permanecido estacionada no arquipélago até Setembro de 1814.

É por essa época da ocupação britânica que a lenda de Robert Machim toma foros de verdade oficial, e quando os ingleses quiseram cartografar a Madeira e Porto Santo entregaram a tarefa ao português Paulo Dias de Almeida (c. 1778 – 1832), cartógrafo militar, a feitura da planta geral do arquipélago, que a executou com perfeição. Os ingleses não gostaram do trabalho mas reclamaram-no como da sua autoria, remetendo para as calendas do ostracismo o português – que andava de “candeias às avessas” com eles – e tudo que fosse obra portuguesa[21].

Obra portuguesa primaz nos fins da Idade Média e início da Renascença, importando o Maneirismo de que sairia o Barroco, é a cartografia. Para a Ilha da Madeira ela não assinala algum Machim no nome do município de Machico, mas indica um significativo lugar que é o mais rico em vegetação e água do Algarve (onde se situava a Escola de Sagres), cuja paisagem é comparável à do Machico. Com efeito, no Mapa de Portugal (Roma, 1561) do cartógrafo português Fernão Álvares Seco, na Madeira aparece o Machico grafado como Mochiques (Móchique), e no Mapa, do mesmo ano 1561, de Pedro Teixeira Albernaz, surge o nome Montachique, isto é, Monchique (do latim Mons Ficus, “Monte dos Figos” ou das Figueiras), topónimo que será o original estranho a qualquer Machim, tanto que o próprio cartógrafo italiano Benedetto Bardone, no seu Mapa (Veneza, 1528), já assinalava o lugar madeirense como Moncrico, que é o mesmo Monchique português[22] e que a voz popular encurtou em Machico, de quem Tristão Vaz Teixeira foi o primeiro capitão donatário em 1395.

Controvérsias à parte, é facto cabal que em 1418 o Infante D. Henrique, baseado nos antigos mapas dos dois séculos anteriores e na cartografia árabe onde apareciam as ilhas que reivindicaria para a Coroa Portuguesa, encomendou a empresa aos capitães de mar João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira de descobrirem terra firme a sudoeste, já do conhecimento dos portugueses. Assim fizeram, tendo chegado nesse ano à Ilha de Porto Santo, originalmente chamada Porto Seguro por lhes ser abrigo protector na aflição de terrível tempestade entretanto desabada no mar[23].

Com esse sucesso, o primeiro do Período das Descobertas, ainda na Gesta Henriquina, o Infante D. Henrique tratou logo de colonizar a ilha, “Ilha Dourada” que é a jóia mais antiga de Portugal. Ordenou a João Gonçalves Zarco e a Tristão Vaz Teixeira que voltassem a Porto Santo, dando-lhes por companheiro um outro criado da sua Casa, Bartolomeu Perestrelo. Foi nessa segunda viagem que descobriram ou demandaram a Ilha da Madeira, saindo Tristão Vaz e Gonçalves Zarco do Porto Santo, no dia 1 de Julho de 1419, indo aportar à Madeira na ponta a que chamaram de São Lourenço, nome do navio que os conduziu. Depois fizeram em torno da ilha uma viagem de circum-navegação, indo batizar os diferentes acidentes da costa. Nessa viagem, a sua principal baía recebeu o nome de Baía do Funchal (oscilando a origem do termo entre o “funcho” e a “fundeação” do navio português), e a uma grande lapa onde se abrigavam lobos marinhos, que os navegadores caçaram, deram o nome de Câmara de Lobos, tendo o próprio João Gonçalves Zarco e os seus descendentes tomado desse sítio o apelido de Câmara. Quanto a Bartolomeu Perestrelo, apesar de não ter participado da descoberta, veio a ser o primeiro capitão donatário da Ilha de Porto Santo, cuja filha Filipa Moniz viria a casar com Salvador Gonçalves Zarco, o famoso almirante português ao serviço dos reis católicos de Aragão e Castela, ou seja, Cristóvão Colombo. Demorando-se na ilha sob pretexto de fazer aguada e recolher mantimentos durante a empresa marítima que o levou a descobrir a América do Norte em 12 de Outubro de 1492, Cristóvão Colombo foi visita assídua na sede capitania da Ordem de Cristo no Funchal, motivo causador de estranheza[24]: um navegador pressuposto galego, castelhano ou genovês ao serviço de país rival andar de intimidades com os capitães de mar portugueses, e, como se não bastasse, casar com uma nobre portuguesa e estabelecer casa familiar na vizinha Ilha de Porto Santo[25]. Ou os oficiais portugueses da época andavam muito distraídos, fazendo pouco caso dos espiões estrangeiros, ou, o mais certo, a história colombina poderá estar toda ela mal contada[26].

Ainda sobre a estadia de Cristóvão Colombo na Ilha da Madeira[27], hóspede do capitão João Esmeraldo, é o seu filho Fernando Colombo (ob. cit.) a descrevê-la:

“Allí en la villa de Funchal le fué hecha mucha cortesía y grato acogimiento por el capitán de la isla, com el que se detuvo algunos días para proveerse de lo necessário, hasta el sábado después del mediodía, en que se dió a la vela.”

A Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, em diminutivo Ordem de Cristo, era donatária exclusiva das ilhas do Oceano Atlântico onde se incluíam, obviamente, a Madeira e Porto Santo[28]. Nas Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, lê-se: “Pertencem à Mesa Mestral desta Ordem todas as ilhas do mar oceano, porque as rendas do espiritual elas estão unidas à Ordem, por Bulas Apostólicas, que dos Santos Padres impetrou o Infante D. Henrique, filho del Rei D. João o I, além dos direitos reais, que S. Majestade nas ditas ilhas tem, como Rei e Senhor”[29].

Se havia ligação temporal à Coroa com direito legal à dízima ou décima parte dos bens taxados pelas Comendas da Ordem proprietária da maioria dos terrenos do arquipélago madeirense, que aforava aos agricultores, assim como do pescado no mar da sua costa, já a ligação espiritual e a prestação de relatórios ao Eclesiástico e ao Papa, sobre o bom andamento das missões pastorais junto dos insulares, pouco mais seria que convencional, porque conforme o seu normativo o Mestrado da Ordem só respondia perante o seu Administrador Geral, como se lê na Tavoada e Reportório da Primeira Parte da Chancelaria da Ordem de Cristo[30]: “[…] porque o Infante D. Henrique defendeu aos cavaleiros da Ordem que não respondessem perante as justiças seculares que não entendessem neles por serem isentos de sua jurisdição” (fls. 17-17v)[31].

Isso possibilitou à Freiria de Cristo dar largas à sua teologia heterodoxa que já vinha da antecessora Ordem do Templo[32], motivo de se encontrarem nestas ilhas, em antigos imóveis da Ordem ou em espaços onde ela interveio, elementos decorativos de natureza esotérica inspirados nos compêndios herméticos medievais[33], muitos deles impossíveis de encontrar no continente. Na mesma senda, próxima da Milícia de Cristo, andou nestas ilhas a Ordem Franciscana da Província de Portugal[34], cujos espirituais da custódia deram largas à manifestação gnóstica do seu pensamento heterodoxo[35], informando o vigário geral do bispado do Funchal, fr. Nuno Cão, em 20 de Fevereiro de 1499, que “os franciscanos possuíam uma tradicional liberdade de movimento e uma grande independência de acção”[36], nisto se incluindo a manifestação do pensamento livre[37], como se apresenta na capela da Morgada na igreja de Nossa Senhora da Piedade (construída entre 1430 e 1446, apesar de pilhada quase por completo por corsários franceses nos fins do século XVI), em Porto Santo, nos seus motivos geometrizantes e até, no centro do camarim, na pintura do Noli me tangere (“Não me toques”), narrando o aparecimento de Cristo Ressuscitado a Maria Madalena. Já na Madeira, em Ponta Delgada, na igreja do Senhor Bom Jesus (possivelmente erigida em 1470) o seu aparato decorativo, sobretudo no altar-mor e na capela dos Reis Magos, remete para ideais herméticos a que acaso não terá sido estranho Manuel Afonso Sanha, fixado nesta freguesia e sepultado nesta igreja em 1507, servidor da Casa do Infante D. Henrique, governador da Ordem de Cristo e senhor no temporal destas ilhas[38]. A própria cruz processional na Matriz de Nossa Senhora da Assunção do Funchal (começada a erigir cerca de 1493), obra notável da ourivesaria portuguesa do século XVI atribuída ao mestre Gil Vicente, acaso poderá expressar algum simbolismo de carácter hermético inspirado no tema brandónico, sobretudo a meio dela onde o cinzel talhou o Templo ladeado pelos Profetas e cujo formato geral sugere uma ilha, quiçá a própria Madeira como insula sacra que, elevada ao alto na procissão, a todos aviva a memória do espaço sagrado onde vivem[39].

Quanto às dignidades da Ordem de Cristo, a primeira e principal, depois do mestre, era o prior-mor, com jurisdição no espiritual e no temporal, exercitando a autoridade espiritual junto dos clérigos e também ao pé dos cavaleiros. Ao prior-mor competia convocar por cartas o capítulo geral para nova eleição de mestre, a quem tomava o juramento de obediência à Ordem e após ao Papa, geral da religião professada. A segunda dignidade era a de comendador-mor, que presidia na ausência do priormor, e por falecimento do mestre, no ínterim da vacante, cabia-lhe governar a Ordem. Seguia-se o claveiro-mor, cujo ofício era ter as chaves de todas as comendas, competindo-lhe ainda a distribuição dos mantimentos e a anotação dos gastos que se faziam. Seguia-se o sacristão-mor, a quem pertencia em capítulo ter os selos da Ordem. A quinta e última dignidade era o alferes-mor, que levava a bandeira da Ordem nas procissões e em todos os actos de guerra em que ia o mestre[40].

Sob a aparência da ortodoxia da religião, conservadora da moral e da ordem estabelecidas, a heterodoxia das ideias avançava, alcançando o cume no século XVIII com os ideais iluministas, reformadores da sociedade pela razão esclarecida, soprando de França sobre Portugal e os territórios insulares, afectando-os decisivamente. Muitos religiosos católicos abraçaram o Iluminismo, imensos do grupo heterogéneo da fidalguia madeirense também. Reuniram-se em segredo, discutindo e decidindo da vida social e espiritual segundo as novas ideias. Em 24 de Junho de 1717 fundava-se em Londres a Maçonaria Especulativa, dava-se início ao Rito Escocês Antigo e Aceite. Em breve repassaria a Paris, França, e daí ao resto da Europa alcançando a Madeira e o Porto Santo. Ante a laicidade do novo culto humanista não confessional, a janela de oportunidades democráticas que a sua estrutura oferecia permitia aos afiliados participarem activamente isentos de autorização apostólica, pelo que nestas ilhas em breve trecho raros eram aqueles que não seriam maçons, dignidades eclesiásticas incluídas.

Em 1768 foi fundada no Funchal a primeira Loja Maçónica por “alguns dos principais desta Ilha”, segundo António Loja[41]. Dentre eles destacou-se Aires de Ornelas Frazão, que ocupou o cargo de Venerável, irmão de Agostinho de Ornelas e Vasconcelos, 10.º morgado do Caniço, que em 1767 desempenhava o cargo de escrivão da Mesa Grande da Alfândega do Funchal. Referidos em 1770 pelo então governador António de Sá Pereira, como “os espíritos inquietos, livres, soberbos e indomáveis da nobreza”, surgem os nomes Agostinho de Ornelas e Vasconcelos, do seu outro irmão, Francisco de Ornelas Frazão, de Nuno de Freitas da Silva e de António Correia Brandão Henriques, todos membros da elite municipal funchalense. São ainda mencionados como membros dessa Loja no Funchal, em 1770, Mendo de Brito de Oliveira e Pedro Júlio da Câmara Leme. De todos, só Aires de Ornelas Frazão foi preso e enviado para a metrópole. Segundo Oliveira Marques[42], Ornelas Frazão teria recebido a Luz da Ordem Maçónica entre 1768 e 1770, mas Octávio Pimenta Sousa contrapõe[43], e parece-me o mais certo, que em 1767 ele já seria Venerável, pelo que terá sido admitido na Maçonaria muito antes das datas indicadas pelo ilustre historiador. Depois da sua prisão em 1770, em 1773 conseguiu evadir-se do cárcere em Lisboa, homiziando-se em Espanha e depois na Inglaterra. Regressou à Madeira em 1779, e novamente foi perseguido e obrigado a fugir para os Estados Unidos da América em 1792, após denunciado ao Santo Ofício[44].

Enquanto durou o ministério do marquês de Pombal, a Maçonaria foi respeitada e acolhida. Mal o ministro do reino foi afastado, iniciou-se a perseguição aos maçons em 1790, mais feroz ainda que a de 1770, tendo a rainha D. Maria I assinado o Edital do Santo Ofício, de 10 de Abril de 1792, que legalizava a perseguição, prisão e tortura dos “mafarricos de avental”. Foi a época de clandestinidade e de maior resistência da Ordem na Madeira e Porto Santo, nunca tendo deixado de existir, aumentar em número de membros e chegar à actualidade. Em verbetes no seu Dicionário da Maçonaria Portuguesa, volumes I e II, Oliveira Marques assim descreve:

“FUNCHAL – A cidade do Funchal, na Ilha da Madeira, foi, porventura, a segunda localidade portuguesa onde houve Maçonaria. Sabese da existência de uma Loja, de 1768 a 1792, certamente fundada pelos ingleses residentes na Ilha da Madeira. Por volta de 1790 ter-seia instalado uma segunda Loja, activa até 1792 e, talvez em 1791, uma terceira, que igualmente parou a sua actividade em 1792 devido às perseguições. Despois desta fase, só nos começos da década de 184050 ou nos finais da anterior voltou a organizar-se a Maçonaria funchalense, com as Lojas Constância (II), n.º 3000, e Firmeza (II), criadas no seio do Grande Oriente Lusitano. Numa terceira fase e já no seio do Grande Oriente Lusitano Unido, fundaram-se: em 1871, a Loja Liberdade I, n.º 66, do REAA (Rito Escocês Antigo e Aceite), desaparecida em 1894 mas reconstituída pouco depois e activa até à clandestinidade; Trabalho, n.º 75, do REAA, activa de 1873 a 1883; União Liberal, n.º 111, do REAA, activa de 1877 a 1883; Cinco de Junho, n.º 118, do mesmo REAA, trabalhando de 1878 a 1883; uma nova Trabalho, n.º 219, sempre do REAA, com actividade de 1901 a 1923 e de 1930 a 1935; Evolução e Progresso, n.º 231 do RF (Rito Francês), em 1902, cujo quadro não chegou a ser aprovado; Britanic, n.º 282, do RY (Rito de York), com trabalhos de 1908 a 1913; Cinco de Outubro II, n.º 351, do REAA, de 1911 a 1916, de 1919 a 1929 e de 1929 à clandestinidade; Pátria Portuguesa, n.º 385, do REAA, instalada em 1916 e desaparecida só durante a clandestinidade; Agrippa, n.º 433, do REAA, organizada em 1928 mas que não chegou a funcionar; e Atlântida, n.º 469, instalada em 1933 e já desaparecida em 1937.

“PORTO SANTO – Na Ilha de Porto Santo (Madeira) fundou a Loja Liberdade I, n.º 66, do Funchal, o Triângulo n.º 33, do REAA. Durou de 1903 a 1908.”

As inquirições do Tribunal do Sacro Ofício em 1792, segundo João Pedro Ferro[45], apenas vieram confirmar o que todos suspeitavam: os poderes políticos e religiosos da Madeira encontravam-se representados na Maçonaria, incluindo o próprio governador, alguns dos principais magistrados, membros da primeira nobreza, grandes proprietários, importantes mercadores, deões e cónegos da Sé, curas de aldeia, juízes, advogados, médicos, funcionários públicos e até artífices e clientes. A Câmara Municipal era controlada pela Maçonaria, sempre em busca de um ideal humanitário para uma sociedade mais justa e perfeita. O Governo Central de Lisboa não teve outro remédio senão arquivar o processo, e ninguém foi preso[46]. Ainda assim, a perseguição resultou num clima de desconfiança e discriminações sociais e religiosas, inclusive levando ao exílio de alguns maçons, os mesmos portugueses que estariam presentes na fundação dos Estados Unidos da América do Norte e na implantação da Ordem Maçónica nesse país, sempre com a cobertura de dois Superiores Incógnitos escapados do Terror francês na Europa tendo se deslocado para o Norte-América nos fins do século XVIII, dizendo-se terem aportado na Madeira para se abastecerem de água e mantimentos: São Germano e Cagliostro, acompanhados de outros personagens insignes, diz a Tradição Iniciática, na rota certa de conquista espiritual e humana do Oeste, a caminho de Washington – Cimarron, no Novo México[47].

Particularmente activo na disseminação desse clima persecutório, esteve o bispo do Funchal, D. José da Costa Torres, que apavorado via-se cercado de maçons perigosos atentadores do conservadorismo da própria Igreja, como diz Fortunato Almeida[48]. Com efeito, descobriu-se que pertenciam à Maçonaria o governador do bispado, sete cónegos e beneficiados da Sé, dois vigários-gerais do bispado, o tesoureiro e o capelão do bispado, o visitador-geral, quase todos os curas das freguesias orientais da ilha (a parte mais povoada), o director do seminário e vários professores, o capelão da principal fortaleza militar da ilha e até o confessor do convento feminino do Funchal[49]. A maioria dos eclesiásticos que desempenhavam funções na Sé foi demitida ou suspensa, sendo muitos proibidos de pregar e confessar[50]. Imagine-se o impacto que este fenómeno teve junto da população que, ao dirigir-se ao confessionário, não sabia se se dirigia a um clérigo que pertencia à Ordem proscrita pela Igreja Católica[51]. Reacção que deixou vestígios nos meados do século XIX e abalou o seguinte, cimentado já o preconceito reacionário, ultramontano e bafiento que, na essência última, a espiritual ou iniciática, não tem sentido algum.

A Igreja e a Maçonaria têm a mesma fonte comum: a Tradição Iniciática das Idades. Aquela é dirigida aos simples como confessional. Esta é encaminhada aos eruditos como iniciática. Ambas como um só propósito salvífico e libertador, espiritualmente falando. Nisto, as bulas papais condenatórias da Ordem Maçónica, como essa carta encíclica Humanum Genus do Papa Leão XIII, de 20 de Abril de 1884, deixam de ter sentido, só restando a ignorância mãe de todas as superstições, a estreiteza mental matriz dos preconceitos[52]. Essa proximidade espiritual Igreja – Maçonaria ficaria registada aqui mesmo num imóvel religioso madeirense: a igreja de São Jorge, no concelho de Santana (Santa Ana, mãe da Virgem Maria, que aliás não figura nos evangelhos sinópticos mas exclusivamente nos apócrifos), ao norte da ilha.

A origem da igreja de São Jorge recua a 1475, quando foi fundada a primitiva ermida com esta invocação – talvez a pedido do Infante D. Henrique atendendo aos seus antecedentes britânicos da parte materna, sendo São Jorge o santo nacional da Inglaterra – no Sítio do Calhau, destruída por um grande incêndio em 1598. Em 19 de Julho de 1660, o morgado Francisco de Carvalhal e Vasconcelos fez doação do terreno do Sítio da Achada para a construção da nova igreja, mantendo-se a antiga invocação, e as obras foram iniciadas em 4 de Setembro desse ano. Elas demoraram, fizeram-se ampliações, melhoramentos, embelezamentos até que finalmente, em 17 de Setembro de 1761, o bispo do Funchal, D. Afonso da Costa Brandão, procedeu à bênção e sagração da nova igreja[53].

Mas a sua história replete-se de atribulações insólitas, como essa do incêndio de 1598 que o povo local de imediato atribuiu ao castigo divino por ter sido contrariada a ordem do rei D. Sebastião[54] – que em 12 de Março de 1574 dotara da tença anual de 5.000 réis a fábrica deste templo – em perpetuar secula seculorum a Colegiada de São Jorge[55], extinta em 18 de Março de 1578. Depois, satisfazendo o pedido do pároco António Fernando Barradas em 10 de Outubro de 1727, o bispo do Funchal nomeou provisoriamente o padre Sebastião Gonçalves para coadjutor do vigário, em 28 de Agosto de 1728. Segundo é dito, mais por via oral do que documental, esse padre andou de proximidades com os heréticos calvinistas e protestantes franceses e ingleses que habitavam a ilha, muitos deles com fama, e talvez proveito, de serem fina-flor maçonista. Dizem até que havia momentos em que só eles podiam estar fechados na igreja e mais ninguém, tocando-se um sino quando saíam. Verdade ou não, o facto é que o padre Barradas foi admoestado várias vezes pela diocese, até que em 3 de Outubro de 1731 recebeu a visitação da cónego doutor Bernardo Rodrigues Nogueira, comissário do Santo Ofício, que o admoestou severamente – sob pretexto do pouco asseio e abandono da igreja – e o afastou da paróquia. Em Setembro de 1732, iniciou funções como vice-vigário o padre Francisco Marques de Mendonça, mas passado algum tempo, em 3 de Julho de 1734, também ele foi examinado para vigário de São Jorge, sendo o padre Barradas afastado para a Calheta. Essas suspeições eclesiásticas de alguns dos seus partilharem do maçonismo, agravavam-se ainda mais por Aires Ornelas de Frazão ser dos principais beneficiários, senão o principal, da igreja de São Jorge, inclusive um seu familiar, o morgado Diogo de Ornelas de Frazão Figueirôa e sua mulher, D. Isabel Maria Brito, em 24 de Setembro de 1776 terem lavrado a escritura de doação do terreno anexo à igreja designado por Passal[56].

Edificada no estilo barroco chão, com porte grandioso, a igreja de São Jorge possui um belíssimo altar-mor em talha dourada, barroca e rococó, obra de 1751 do talhador Julião Francisco Ferreira e do dourador José António da Costa. Nele se evoca a Exaltação da Santa Cruz. As pinturas parietais, retratando a vida de São Jorge, por via das suas ilustrações muito hieráticas como não podiam deixar de ser num santo nascido da lenda sagrada[57], inclinam-se para leituras tanto teológicas como herméticas, segundo o entendimento de cada um.

Nisso tem-se o Anjo do Apocalipse – Mikael ou São Miguel, de que São Jorge é a teoplasmação terrena daquele celeste – sobre o púlpito, tocando a trombeta que anuncia o “Final dos Tempos” ou o término de um ciclo de evolução humana pelo dealbar de outro, quiçá, mais promissivo e próspero para o Mundo. Também é o caso do empíreo pintado no tecto do altar-mor, com os seus três céus – do tema cosmológico de Virgílio e de Dante, prosseguido por Camões em Os Lusíadas – povoados por 78 Anjos, número que, dentre outras interpretações, remete para os 78 Génios da Kaballah judaico-cristã plasmados no figurino dos 78 Arcanos do chamado Livro de Thot ou Tarot, termo oriundo do fenício-caldaico Astaroth ou Asta-Roth, o “Caminho Real da Iniciação”. Esta Iniciação é acessível só a alguns ou a todos? A todos, registo verificado na separação do Tarot em Arcanos Maiores (primeiras 22 lâminas) sinaléticos dos Mistérios Maiores, nisto ficando para a Ordem Maçónica, e em Arcanos Menores (restantes 56 lâminas) indicativos dos Mistérios Menores, nisto ficando para a Igreja Católica. Uns e outros são inseparáveis como integrantes de um mesmo conjunto, como inseparável deve ser o trono do altar, a arte sacerdotal da arte real, a autoridade espiritual do poder temporal, nisto os espíritos esclarecidos incompreendendo as vicissitudes ordinárias levantadas entre avental e batina. Se esta é confessional e salvífica, aquela é mistérica e libertadora. Ambas se completam nas suas funções próprias. E completam-se aqui sob o evoco do Rei do Mundo – Melkitsedek na Bíblia, Chakravarti nos Vedas, Rotan na Maçonaria – em que se reconhece a figura lendária do santo Jorge, George ou Gheoergon, o Obreiro Universal.

Se existe um mito autenticamente ancestral no santoral dos cristãos, um mito acumulador de chaves e significados procedentes do passado mais remoto do paganismo, seguramente é o que está reflectido em São Jorge, o santo cavaleiro andante que liberta donzelas, luta com dragões e propicia o esplendor das colheitas. Se existe um santo osmótico por definição, capaz de assimilar em sua personalidade a dezenas de outros santos, sem contar deuses proibidos e heróis simbólicos, esse ser é São Jorge[58].

São Jorge do Norte, da Terra de João Ninguém ou a Terra do Nunca, São Jorge da Capadócia ou da Arménia no Extremo Norte da Europa, o que remete para a ideia de um Extremo Norte do Mundo, sobretudo telúrico, assim localizando-o o Paraíso Terreal, a Agharta das tradições transhimalaias, e ele líder pacífico de hostes de anjos espatários como ideal de perfeição da Cavalaria, da Massenia como a do Santo Graal, assim mesmo corporificação de todas as virtudes sobre-humanas de que o cavaleiro devia estar armado e couraçado.

São Jorge vem de longe, tanto no nome como no mito, por regra nada menos que da Geórgia arménia cantada devotamente pelos mais excelsos poetas da latinidade. É o Homem da Geórgia, o Homem Primordial procedente de uma terra que era tão mítica em si mesma que mitificava quanto continha e a quanto se estendia. A lenda fez-se militar[59], porém, não pertence a legião nem corte alguma, antes parece ir por anexo para justificar uma armadura – couraça do espírito – e umas armas que haveriam de convertê-lo em paladino, não tanto da fé confessional mas sobretudo da mais pura tradição iniciática. E se algo faltava, a lenda martirial converteu os seus sagrados suplícios numa serena iniciação que se prolongou, como no âmbito dos Mistérios, durante sete anos, na presença de setenta reis, com provas vitoriosas onde os suplícios com rodas, lanças, fornos e pedras de moinho foram sucessivamente superados, antes de alcançar a gloriosa apoteose depois de três ressurreições.

Não será demais acrescentar que determinadas passagens das primeiras paixões relatam como Jorge, em meio dos terríveis suplícios, se declarou disposto a “sacrificar aos ídolos”, o que provocou que o Papa Gelásio I, no século V, as condenasse, proclamando-as escritas por hereges, e que o hagiógrafo Nicétas de Paphlogonie ou Nicétas David, no século X, confessasse havê-las lido “indignado”. Por desgraça, dessas primitivas paixões não ficaram mais que refundamentos expurgados muito posteriores nas obras de inspiração mais ou menos directa que escreveram, na Baixa Idade Média, recompiladores como Tiago de Voragine[60], no século XIII.

Porém, o santo georgiano esconde outra faceta simbólica da sua personalidade: a de uma perdida divindade fecunda, com evidentes conotações agrárias e florestais[61]. James Frazer aponta as festividades centro-europeias que se faziam em honra de São Jorge[62], as de Jorge o Verde, nas quais um camponês revestia-se com ramos e folhas de bétula e a imagem do santo era conduzida processionalmente até um rio, onde a sua efígie era atirada nas águas. Também descreve ritos amorosos sobre os sulcos onde haviam crescido as primeiras espigas de trigo. Por seu lado, Joan Amades dá notícia de toda uma série de cerimónias agrárias sob o invoco deste santo que têm ou tiveram lugar em terras catalãs[63], as quais vêm confirmar o carácter de São Jorge como herdeiro de um deus perdido da fecundidade, o que condiz com a sua data litúrgica, 23 de Abril, em plena Primavera.

É, pois, a fecundidade, o progresso assegurado por um santo guerreiro e agrário que, para terminar, evoco para o Arquipélago da Madeira e Porto Santo, desejando a todos e todas as maiores venturas e realizações espirituais e humanas, como ontem hoje e sempre.

 

NOTAS

 

[1] Comunicação do autor realizada no Grémio Literário da Madeira. Funchal, 4.11.2017.

[2] La Consolación de la Filosofia. Introdução, tradução e notas de P. Rodríguez Santridrián. Biblioteca temática – Clássicos da Grécia e Roma. Alianza Editorial, Madrid, 1999.

[3] Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2004. Nova edição revista e ampliada, com o mesmo título, em Lisboa pela Euedito em 2017.

[4] Gaius Plinius Secundus, Historiae naturalis. Impresso em Venesia, Bartolomeo Zani, 1489.

[5] Eva Heller, Psychologie de la couleur: effets et symboliques. Pyramyd Éditions, Paris, 2009.

[6] Whitney William Dwi, Century Dictionary & Cyclopedia. Hardcover, 1899.

[7] Isabel Cooper-Oakley, The Comte de St. Germain – The Secret of Kings. London, 1911.

[8] Geraldo Cantarino, Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro. Mauad Editora Ltda, Rio de Janeiro, 2004.

[9] Doutor Gaspar Fructuoso, As Saudades da Terra – Historia das Ilhas do Porto-Sancto, Madeira, Desertas e Selvagens. Manuscripto do seculo XVI annotado por Alvaro Rodrigues de Azevedo. Typ. Funchalense, Funchal, 1873.

[10] Rosemarie Erika Horch, Quais as fontes para os Mapas da Novae Insulae de Sebastian Münster? Revista da Universidade de Coimbra, Separata, vol. XXXIV, 1988.

[11] Jean Chevalier e Alain Gherbrant, Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1990. Adalberto Alves, As Sandálias do Mestre – O Islão Iniciático na Formação de Portugal. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda, Lisboa, Outubro 2009.

[12] Lusitanus (pseudónimo de Abel de Sousa Vasconcelos, 1865-1937), Sinais dos Tempos (Fim das Nações – Império Universal – Triunfo da Cruz – Fim do Mundo). Imprensa Lucas & C.ª, Lisboa, 1924.

[13] René Guénon, Le Roi du Monde. Éditions Gallimard, Paris, 1958.

[14] Motivo por que o Infante D. Henrique utiliza a expressão de “novamente achei” na Carta de doação à Ordem de Cristo do espiritual e temporal das ilhas e dos lugares de além-mar, datada de Tomar, 18 e 19 de Setembro de 1460 (A.N.T.T., Ordem de Cristo, n.º 235, 3.ª pt., fls. 10-12), em seguimento da Carta do Infante D. Henrique que estabelece as missas a rezar por sua alma na Madeira e Porto Santo, datada de Tomar, 18 de Setembro de 1460 (A.N.T.T., Ordem de Cristo, n.º 235, 3.ª pt., fls. 7-8).

[15] Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias. Tradução Mary de Camargo Neves Lafer. Editora Iluminuras, São Paulo, 1989.

[16] Pouco importa que a Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres estivesse sedeada na baía de Lagos e que o nome sagrense surja graças à concessão de 1443 do regente D. Pedro a esse seu irmão que lhe pediu essa região para fundar uma vila (Raposeira). Se a Escola Náutica de Sagres veio a ser coberta de halo de mito e mistério, deve-se aos escritos apologéticos de João de Barros (1496-1570), justamente apodado o “Grande” ou o “Tito Lívio Português”, desenvolvidos pelo cronista inglês Samuel Purchas (1575-1626) em 1625. Um facto é certo: o Infante D. Henrique reuniu na sua Escola ou Academia – não se deverá ignorar a sua faceta de universitário e reformador da Universidade portuguesa – sábios, capitães e gentes de mar de diversas nacionalidades, que ficaram ao abrigo do espiritual e temporal da Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, em troca exigindo-lhes  os compromissos de silêncio e segredo, indispensáveis para que Portugal viesse a ser o exclusivo empório marítimo dos séculos XV-XVI, facto que atraiu invejas e cobiças de outros países que não se coíbiram em inventar estorietas onde reclamavam para si, através de acontecimentos fantasiados, a primazia das descobertas marítimas que, acusavam, afinal os portugueses só haviam secundado. Nisto, também a Madeira e o Porto Santo não escaparam aos reclamos tresandando a política corsa por via do invento de personagens e nomes fictícios destinados a semear a confusão a favor da instalação de interesses político-económicos, financeiros e militares estrangeiros.

[17] Peter Russel, Henrique o Navegador. Livros Horizonte, Lisboa, 2004.

[18] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2011.

[19] Armando Cortesão, A História do Descobrimento das Ilhas da Madeira. Junta de Investigações do Ultramar, Coimbra, 1973.

[20] D. Francisco Manuel de Melo, Descobrimento da Ilha da Madeira, Ano 1420, Epanáfora Amorosa. Livraria-Editora Ler, Limitada, Lisboa, 1975.

[21] Rui Carita, Arquitectura Militar na Madeira dos Séculos XVI a XIX. Catálogo da Exposição das Comemorações Nacionais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Funchal, Zona Militar da Madeira, 1981. Paulo Miguel Rodrigues, A Política e as Questões Militares na Madeira: O Período das Guerras Napoleónicas. Funchal, 1999.

[22] Maria Fernanda Alegria, O Povoamento a Sul do Tejo nos séculos XVI e XVII. Análise comparativa entre dois Mapas e outras Fontes históricas. Revista da Faculdade de Letras – Geografia, I Série, Vol. I, pp. 179-206, Porto, 1986.

[23] Elucidário Madeirense, obra de cunho enciclopédico cuja primeira edição no Funchal, em 1921, constou de dois volumes coordenados pelo padre Fernando Augusto da Silva (1863-1949). Atribuir-se ao Porto Santo qualquer outra origem toponímica, como a da pressuposta descoberta de um navio do período cartágo-fenício, que nunca alguém viu e tampouco documentou, é absolutamente avulsa, mesmo com a forte possibilidade de navios dessa civilização terem cursado estes mares na mais alta Antiguidade.

[24] António Ferreira de Serpa, Salvador Gonsalves Zarco (Cristóbal Colon). Lisboa, 1930.

[25] Fernando Colón, Vida del Almirante Don Cristóbal Colon. Versão castelhana da Historia del Almirante, México, 1947.

[26] Mascarenhas Barreto, O Português Cristóvão Colombo (Agente secreto do rei Dom João II). Edições Referendo, Lisboa, 1988.

[27] Visconde do Porto da Cruz, A Estada de Cristovam Colombo na Madeira. Funchal, 1936.

[28] Damião Peres, História dos Descobrimentos Portugueses. Porto, 1943.

[29] Fr. Damião das Neves, Compêndio da Regra e Definições dos Cavaleiros da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, com alguns breves pontifícios e privilégios reais, etc. Lisboa, 1607.

[30] ANTT, Ordem de Cristo, códice 234, 1.ª e 2.ª partes e códice 235, 3.ª e 4.ª partes.

[31] Cf. Isabel L. Morgado de Sousa e Silva, A Ordem de Cristo (1417-1521). Fundação Eng.º António de Almeida, Porto, 2002.

[32] Aleixo Tavano e José Augusto da Silva, Notícia histórica das ordens militares e civis portuguesas, etc. Lisboa, 1881.

[33] W. Eamon, Science and the Secrets of Nature: Books of Secrets in Medieval and Early Modern Culture. Princeton University Press, New Jersey, 1996.

[34] Fernando Augusto da Silva, Subsídios para a História da Diocese do Funchal. Funchal, 1946.

[35] Os chamados “discursos secretos” estavam em junção com os “livros de segredo”, tendo como matrizes os tratados de Hermética, cuja influência abrangeu desde as artes e ofícios até obras filosóficas e religiosas, discurso inclusive aplicado em círculos restritos de Ordens aparentemente de rígida ortodoxia confessional. Vários acontecimentos censórios, condenatórios e persecutórios registados na História Eclesiástica ante e durante a alta Idade Média haviam concorrido para esse ambiente de segredo e secreto em núcleos selectos no seio da própria Igreja. Por exemplos, os seguintes: no ano 380 inicia-se a perseguição aos gnósticos; Prisciliano é condenado à morte no ano 385; no ano 405 os Livros Sibilinos são queimados; no ano 451 o Concílio de Calcedónia proíbe as sociedades secretas; no ano 495 é emitido o decreto de pseudo-Gelásio I, Cânone dos Livros Santos, proibindo os livros apócrifos; no ano 553 é condenada a doutrina da pré-existência ou metempsicose, por outra, o conceito universal da reencarnação. Contudo, só no ano 1054 a Igreja Católica formalizou-se tal como hoje se vê, mantendo a mesma postura fechada a quaisquer ideias alheias à teologia oficial, o que valeu ao abade Joaquim de Flora, por exemplo, em 1215 ser anatemizado no Concílio de Latrão IV, só se levantando o anátema cerca de 1335, com ele já morto (1202).

[36] ANTT, CSF, avulsos, mç 11, doc. 1.

[37] Ana Cristina Machado Trindade, Plantar Nova Christandade: um desígnio jacobeu para a Diocese do Funchal. Frei Manuel Coutinho, 1725-1741. Funchal, 2012.

[38] Fernando Augusto da Silva, Elucidário Madeirense, 2.ª edição. Funchal, 1940.

[39] Gaspar Fructuoso, Saudades da Terra: Ilhas de Porto Santo, Madeira, Desertas e Selvagens, obra anotada por Álvaro Rodrigues de Azevedo. Typographia Funchalense, Funchal, 1873. Padre Manuel Juvenal Pita Ferreira, A Sé do Funchal. Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, 1963.

[40] Aleixo Tavano e José Augusto da Silva, Notícia histórica das ordens militares e civis portuguesas, etc. Lisboa, 1881. J. Vieira da Silva Guimarães, A Ordem de Cristo. Lisboa, 1901.

[41] António Loja, A Luta do Poder contra a Maçonaria. Quatro perseguições no século XVIII. Imprensa Nacional, Lisboa, 1986.

[42] A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa – I. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[43] Octávio Pimenta Sousa, A Maçonaria na Madeira. Alocução do autor editada em 3 de Dezembro de 2014.

[44] ANTT, Doc. Nº 17304, texto em três folhas da denúncia feita por Anastácio Neri da Silva ao cónego João Venâncio de Vasconcelos, comissário do Santo Ofício no Funchal, em 5 de Maio de 1792. Esse personagem fora introduzido no convívio da fina-flor da Maçonaria funchalense com o objectivo de denunciar a “Sociedade dos Pedreiros Livres” na ilha, pôr a descoberto as suas figuras principais, com destaque para “Diogo de Ornelas Frazão Figueiroa, morador na Calçada do Convento de Santa Clara”, no Funchal, juntamente com António José de Ornelas, Francisco António de Souza, Luís Vicente de Carvalhal, etc.

[45] João Pedro Ferro, O Clero Português na Maçonaria (1790-1820). Boletim da RT LT Fénix, N.º 493, n.º 1, Julho de 1993.

[46] Miguel António Dias (Cavaleiro R+C da Maçonaria Eclética ou Rito Lusitano, idealizado desde 1834), Bibliotheca Maçonnica, ou Instrucção Completa do Franc-Maçon, seis tomos. Casa de J. P. Aillaud, Paris, 1840-1842. Miguel António Dias, Annaes e Codigo dos Pedreiros Livres em Portugal. Lisboa, 1853. Reedição Sol Invictus, Ericeira, Novembro 1990. Manuel Borges Grainha, História da Franco-Maçonaria em Portugal (1733-1912), Lisboa, 1912. Reedição Colecção Janus, Editorial Vega, Lisboa, 1976.

[47] Henrique José de Souza, Livro Síntese (da Missão dos Sete Raios de Luz). Edição privada, Rio de Janeiro, 1935.

[48] Fortunato Almeida, História da Igreja em Portugal, vol. III. Livraria Civilização Editora, Porto, 1970.

[49] Rui Carita, História da Madeira, vol. V. Secretaria Regional de Educação, Funchal, 1999.

[50] João Pedro Ferro, José Anastácio da Cunha, i. e., João Pedro Ferro – Em torno da Maçonaria. Lisboa, 1995.

[51] Ana Madalena Trigo Sousa, O Exercício do Poder Municipal na Madeira e Porto Santo na Época Pombalina e Pós-Pombalina. Centro de Estudos de História do Atlântico, Funchal, 2004.

[52] Rev. Gerald C. Treacy, S. J., Humanum Genus, Encyclical Letter of His Holiness – Pope Leo XIII on Freemasonry. Tan Books & Publishers, Charlotte, North Carolina, United States, 1992.

[53] Padre Silvério Aníbal de Matos, São Jorge e suas Ermidas. Edição da Câmara Municipal de Santana, 2000.

[54] Em comunicação feita à Associação dos Arqueólogos Portugueses em 1924, Alfredo António de Castro Teles de Meneses de Vasconcelos de Bettencout de Freitas Branco, visconde do Porto da Cruz (Funchal, 1.1.1890 – 28.2.1962), descreve a lenda sebástica insular corrente para os lados do Faial, concelho do Machico, na Madeira: quando o Sol se põe aparece no horizonte uma ilha envolta em brumas, onde D. Sebastião, o “Rei Desejado”, dorme, desde a fatídica batalha de Alcácer-Quibir, um “sono de encantamento”. Refere que “a credulidade popular é tão sincera e espontânea que todos os anos, na noite de S. João, quando o povo desce do arraial, vai ao mar ver a sua sombra, ou ouvir os clamares distantes da cidade encantada. Perdidos entre o marulhar das ondas, é vulgar soarem as trovas regionais invocando o rei D. Sebastião e pedindo-lhe que deixe o seu encantamento de Arguim para vir à terra que lhe serviu de berço e para o povo que tanto o amou”. Narra ainda a outra lenda da espada de D. Sebastião, tendo como cenário a paisagem ao fundo do Porto da Cruz: “Olhando dos lados do Faial, a Penha de Águia apresenta uma encosta acessível, muito verde e fértil, mas sobre o Porto da Cruz ela é árida, a prumo, rasgando-se em grandes cavernas onde nunca entrou um ente humano e que, ao romper do dia ou ao anoitecer, lembram os grandes olhos negros e sombrios dos monstros das lendas que detiveram durante tanto tempo a audácia dos navegadores e a expansão da Europa. Sobre o mar, onde a rocha corta verticalmente, numa só linha, como se engenhos de homens assim a talhassem, destaca-se uma elevação, que serviu de motivo à fantasia popular para criar a lenda de que a espada de el-rei D. Sebastião ali está enterrada… E o bom povo lastima-se de não poder subir ao cabeço mágico e, tomando pelos copos a espada encantada, arrancá-la da rocha e trazer com o Rei Desejado o bem e engrandecimento desta pátria”.

[55] Visconde do Porto da Cruz, Lendas do Arquipélago da Madeira. Funchal, 1954.

[56] Rui Carita, Ficha de Monumento. Pt, 2003.

[57] Galeno Amorim, São Jorge o o Dragão. Editora Callis, São Paulo, 2008.

[58] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[59] Jerónimo Gasques, São Jorge, o santo guerreiro. Editora Paulus, São Paulo, 2016.

[60] Jacopo de Varazze, Aecebispo de Génova, Legenda áurea: vidas de santos. Companhia das Letras, São Paulo, 2003.

[61] Maria Goretti Ribeiro, Imaginário da Serpente de A a Z. Editora da Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande – PB, 2017.

[62] James George Frazer, La rama dorada: magia y religión. Fondo de Cultura Económica, México, 2011.

[63] Joan Amades, Costumari Català, cinco volumes. Editorial Salvat, Barcelona, 1952.