Cornucópia repleta de fertilidade, abundância e riqueza de mitos e tradições é a que traz consigo a deusa romana Fortuna, como a mesma Tique grega[1]. Ao seu lado, a roda de leme transformada naquela do destino no século VI d. C. pelo escolástico Boécio na sua De Consolatio Philosophiae[2]. Filosofia consoladora que levaria depois os nautas de Cristo ao porto seguro feito santo por intervenção divina salvadora da aflição humana no humor revolto do Mar das Hespérides, Atlântidas ou Atlante-ilhas, corria o século XV.

O Arquipélago da Madeira é ele mesmo a cornucópia da Fortuna repleta dos mais felizes mitos consumados em tradições que se perdem na noite dos tempos. As mesmas encomiam os ilhéus como privilegiados de verdadeira Ilha de Utopia bafejada pelo empíreo dos deuses sobre o vasto oceano por eles beijado sob a forma de estrelas, as quais brilham em homens e mulheres de raridade superior mental e coracional que aqui têm aportado e deixado o testemunho no património das suas obras primorosas, umas discretas, outras exuberantes.

É na literatura clássica greco-latina que se encontram as mais antigas referências à Ilha da Madeira, observando-se nas cosmografia e geografia dos clássicos a presença do senso sagrado onde o mytus se transforma em mystèrion ou mistério, e assim mesmo se apresenta sob dupla leitura, aparente e velada, nos textos clássicos chegados até hoje ornando a Madeira como a verdadeira Ilha da Ventura, extremo-mar da Europa portuguesa que em Y irradia para o Norte e o Sul do quinto continente, a América, quiçá para El Moro no Novo México, EUA, e São Lourenço no Sul de Minas Gerais, Brasil.

Na Madeira sente-se ou tão-só pressente-se ser ela (ao par dos Açores, Canárias e Cabo Verde, possessões portuguesas de que a guanche só no século XVI a perderíamos definitivamente para Castela) herdeira sobrevivente desse afogado continente que dá pelo nome de Mu, Kusha ou tão-só Atlântida, donde Atlântico, existido nas Eras Geológicas Secundária, Terciária e começo da Quaternária do Mundo[3]. Seriam seus sobreviventes humanos aquele “povo vermelho” que dá pelo nome de fenícios, os inventores da escrita com que se passou da Proto à História, considerado povo  navegador mercajedor e civilizador, progenitor dos cartagineses que depois, ao par dos romanos, em poderosas embarcações sulcariam a costa mediterrânea e o seu mar indo além das Colunas de Hércules ora descendo a costa africana, ora subindo a costa hispânica e até se arrojando em empresas de mar de longo chegando a aportar aqui na Madeira. É Plínio, o Velho,  o naturalista e cronista romano do I Século d. C., na sua Naturalis Historiae, chamando à Madeira e ao Porto Santo de Insulae Purpurariae, as Ilhas Púrpuras, adiantando que o apelido provinha da “fabricação de corantes púrpura estabelecida na ilha pelo rei Juba II da Mauritânia”[4], portanto, de descendência cartaginesa vassalo de Roma no século I.

O facto é que a cor púrpura foi inventada pelos fenícios cujo segredo de fabricação foi dos mais guardados na Antiguidade, que como cor do planeta Júpiter, Jove, Zeus, Zyaus ou Deus, era este associado à mais elevada realeza e pontifical, pelo que só as classes elevadas dominantes na política e na religião a podiam exibir. Só quando os imperadores e cônsules romanos passaram a ostentar essa cor nos trajes da sua condição superior, é que veio a saber-se que a mesma obtinha-se do molusco múrex, cuja exclusividade e comércio foi fenícia durante gerações. Mesmo assim, depois dos romanos o terem obtido, foi resguardado o segredo da fábrica da púrpura por quase dois milénios. Vai neste sentido, sobre este assunto, a descrição dada no Century Dictionary, de 1899, considerado dos melhores dicionários norte-americanos[5]. Diz a tradição que só no século XVIII o conhecimento da mesma se generalizou a partir de França, quando a arte de tinturaria foi tornada pública pelo “Superior Incógnito” chamado Conde de Saint-Germain, este que, pela Missão Secreta de que estava incumbido na Europa, ocultou-se em vários títulos com que se apresentou às cortes europeias: Marquês de Montferrat, Marquês de Aymar, Conde de Welldone, etc.

Ao par de Insulae Purpurariae, Plínio, o Velho, chamou à Ilha da Madeira de Junonia, pelo grande número de pombas (Columba Junoniae) que foram vistas a voar nas suas encostas, as quais certamente seriam as alvas “pombas do mar”, as gaivotas. Tais espécies de pombas foram dedicadas à deusa romana Giunone, ou seja, Juno, contraparte de Jove ou Júpiter, sendo Pronuba como protectora dos casamentos e nela, deusa, se realçando a dignidade espiritual e humana da Mulher. Pronuba pode hoje encontrar-se representada na padroeira da ilha, Nossa Senhora do Monte, afim ao tema hagiográfico da Assunção da Virgem, tal qual Juno está ascendida junto a Júpiter.

Igualmente Estrabão, na sua Geografia, volume II, baseado na Corografia de Pompónio Mela, volume III, e na De illustris Viris, de Cornélio Nepos (aliás, citado por Plínio na sua História Natural), descreve a história de Eudóxio, grego de Cizico na Ásia Menor, que se teria mudado para o Egipto e daí para a Índia por via marítima. Ao transpor as Colunas de Hércules, onde hoje está Gibraltar, as correntes arrastam o navio até uma ilha que se supõe ser a Madeira. Também na sua obra, Biblioteca Histórica, Diodoro Sículo ou da Sicília narra que alguns marinheiros fenício-cartagineses de Gades, ao navegarem pela costa africana, foram arrastados na direcção oposta durante alguns dias até aportarem numa grande ilha que se supõe ser Porto Santo. Por alguma via que o historiador não diz, os etruscos, cujo poderio naval não tinha rival, vieram a saber dessa descoberta e quiseram apropriar-se dela, talvez em data próxima de 474 a. C., mas esse propósito nunca veio a ser concretizado.

Finalmente, na Biografia de Sertório, escrita por Plutarco, lê-se que marinheiros de Gades ofereceram-se para levar Sertório a determinado ponto do Oceano Atlântico onde existiam duas ilhas muito férteis e de clima muito suave. Plutarco chama-lhes “Ilhas Afortunadas”[6].

Essas são algumas das informações disponibilizadas pelos autores clássicos da Antiguidade greco-latina sobre o conhecimento do arquipélago da Madeira, certamente do conhecimento de frei Gaspar Frutuoso (1522-1591), sacerdote e historiador açoriano considerado a maior sumidade insular que deixou preciosa obra em seis tomos, escritos entre 1586 e 1590, sobre os arquipélagos das Canárias, Açores e Madeira, este quem dedicou o segundo volume[7]. Por fim,  resta enquadrar o sentido de insula occultam – ilha escondida, proibida ou vedada – na ideia mágica e religiosa dos sábios antigos, no tema sendo a mais notável a insula brandonis ou Ilha de São Brandão, que Thomas More no fim do primeiro quartel do século XVI disporia como a Ilha da Utopia habitada por homens sábios e santos, ela mesma na rota atlântica da Ilha da Madeira, a Medera apontada por Rosemarie Erika Horch[8], e que só poderá ser a “floresta mágica” de Laurissilva, húmida subtropical ocupando área com cerca de 15.000 hectares.

Isso mesmo está registado numa gravura seiscentista onde ao lado das Canárias aparece a Ilha Afortunada, a mesma “Pérola do Atlântico”, tendo mais acima uma baleia em cujo dorso é consumado o sacrifício da santa missa, e por cima domina a Ilha de S. Brandão. Entra-se assim no plano dos símbolos sagrados por que se expressa o verbum mutis – a língua muda – revelador da transcendência espiritual da Iniciação.

O simbolismo da baleia liga-se simultaneamente ao da entrada na caverna e ao do peixe. No mito bíblico de Jonas, a baleia representa a arca, a barca, o Paraíso Terreal assinalado no Oriente – e também no Ocidente – como Agharta ou Asgardi. A entrada de Jonas na caverna iniciática, isto é, ser engolido pela baleia, assinala a entrada no período de obscuridade ou pralaya, intermediário entre dois estados ou modalidades de existência (manvantara). Jonas no ventre da baleia é a morte iniciática, e a sua saída expressa o renascimento após a prova da caverna de iniciação (cripta ferrata). A saída de Jonas, ser vomitado pelo mamífero marinho, é a ressurreição, o novo nascimento, tal como demonstra, de modo particularmente explícito, a tradição islâmica[9]. Com efeito, nun (ن), a vigésima nona letra do alfabeto árabe, significa “peixe” e especialmente “baleia”, que por transposição semântica transcreve-se al-hût. Essa é a razão pela qual o profeta Jonas, Sayyidnâ Yûnus, é chamado de Dhûnl-nûn. Na Kaballah judaica, a ideia do novo nascimento, no sentido espiritual, está ligada a essa letra nun. O novo nascimento iniciático inscreve-se no tema messiânico assinalado no Evangelho de Mateus (12:39-40), onde Cristo dá como único e verdadeiro dessa identidade o “Sinal de Jonas”, o que vem a inscrever-se no tema sebástico-parúsico madeirense do imobiliário legendário sebastianista tão caro a Porto da Cruz. É o Sinal do Messias, do Avatara, daquele que vem de Cordo Maris ou do “Coração do Mar”, falado por Lusitanus nos seus Sinais dos Tempos[10].

Por fim, sendo símbolo de continente secreto ou perdido, como o da Atlântida de que as ilhas e ilhéus do Atlântico podem ser os resquícios geológicos sobreviventes do terrível Dilúvio que a afundou como afirma a Tradição, é também simbólica do tesouro escondido e, às vezes, igualmente da desgraça ameaçadora, a baleia contém sempre em si a polivalência do desconhecido e do interior invisível ou ocultado; é o centro de todos os opostos que podem vir a ser. Por este motivo, também já se comparou a sua massa ovóide à conjunção de dois arcos de círculo simbólicos do mundo do alto e do mundo de baixo – o Céu e a Terra – que o ritual da missa une no momento litúrgico da hora sagrada.

Na sequência, a ilha, a que se chega depois de uma navegação ou de um vôo apoiado pelas invisíveis mas vigorosas mãos de anjos, é o símbolo por excelência de um centro espiritual, mais precisamente, do Centro Espiritual Supremo ou Primordial. A ilha é assim um mundo em miniatura, uma imagem do cosmos completa e perfeita, pois apresenta um valor sacral concentrado. Sob este aspecto, a sua noção neosética aproxima-se daquelas noções de templo e de santuário. Simbolicamente, a ilha é um lugar de eleição, de silêncio e de paz, em meio à ignorância e à agitação do mundo profano. Representando o Centro Primordial, a sua cor fundamental de pureza é sempre a branca.

Foi assim que na Idade Média as ilhas perdidas e achadas (“trobadas”) tornaram-se um dos mitos fundamentais do Paraíso Terrestre afim à ideia da Idade de Ouro, herança mitogénica do Orfismo e do Neopitagorismo. Hesíodo descreve-as em Os Trabalhos e os Dias, dizendo: “É lá que moram, com o coração livre de cuidados, nas Ilhas dos Bem-Aventurados, à borda dos turbilhões profundos do oceano, heróis afortunados para os quais o solo fecundo produz, três vezes por ano, delicadas e florescentes colheitas”[11].

A Escola Náutica de Sagres, liderada pelo Infante D. Henrique de Borgonha, filho de D. João I de Portugal, estando num país cuja maior parte é mar, cedo arrojou-se na vastidão do mesmo, desbravou-o e dele tomou posse[12]. Este Infante Henrique de Sagres – letrado nos clássicos da Antiguidade, herdeiro da cartografia marítima da Ordem do Templo de que a Ordem de Cristo, de quem era o 8.º Mestre e Administrador Geral, por sua vez era herdeira universal directa – sabia de antemão haver terra firme a Ocidente, e nessa direcção mandou navegar os capitães e pilotos da nova cruzada marítima, e após que seguissem a rota sudoeste, motivo da estranheza geral dos espiões ao serviço de Castela e de Génova infiltrados na corte portuguesa[13].

A espionagem e a contrainformação, notícias falsas que repetidas à exaustão acabaram tornando-se verdades oficiais de Estado moldando a opinião pública, poderão explicar o controverso explorador e mercador genovês Lancelotto Malocello (Varazze, 1270 – Génova, 1336), que em navio luso descobriu as Canárias em 1312 sob o comando de Manuel Pessanha, o qual em 1317 assumiu o almirantado português. Em 1336, o genovês descobriria ainda a Ilha da Madeira, isso apesar de estar acamado em Génova em cuja data faleceu. Atesta essa descoberta efabulada o famoso Atlante Mediceo ou Atlas dos Medici, datado de 1351 mas que a historiografia acusa ter sido composto em data bastante posterior e talvez furtado das mesas de trabalho dos cartógrafos portugueses da Escola de Sagres, por os lugares assinalados no mesmo – como o Cabo Bojador – serem do exclusivo conhecimento marítimo exacto português.

Controvérsias à parte, é facto cabal que em 1418 o Infante D. Henrique, baseado nos antigos mapas dos dois séculos anteriores e na cartografia árabe onde apareciam as ilhas que reivindicaria para a Coroa Portuguesa, encomendou a empresa aos capitães de mar João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira de descobrirem terra firme a sudoeste já do conhecimento dos portugueses. Assim fizeram tendo chegado nesse ano à Ilha de Porto Santo, originalmente chamada Porto Seguro por lhes ser abrigo protector na aflição de terrível tempestade entretanto desabada no mar.

Com esse sucesso, o Infante D. Henrique tratou logo de colonizar a ilha. Ordenou a João Gonçalves Zarco e a Tristão Vaz Teixeira que voltassem a Porto Santo, dando-lhes por companheiro um outro criado da sua casa, Bartolomeu Perestrelo. Foi nessa segunda viagem que descobriram ou demandaram a Ilha da Madeira, saindo Tristão Vaz e Gonçalves Zarco do Porto Santo no dia 1 de Julho de 1419, indo aportar à Madeira no ponto a que chamaram de S. Lourenço, nome do navio que os conduziu. Fizeram depois em torno da ilha uma viagem de circum-navegação indo batizar os diferentes acidentes da costa. Nessa viagem a principal baía da ilha recebeu o nome de Baía do Funchal (oscilando a origem do termo entre “funcho” e a “fundeação” do navio português), e a uma grande lapa onde se abrigavam lobos marinhos, que os navegadores caçaram, deram o nome de Câmara de Lobos, tendo o próprio João Gonçalves Zarco e os seus descendentes tomado desse sítio o apelido de Câmara. Quanto a Bartolomeu Perestrelo, apesar de não ter participado da “descoberta” veio a ser o primeiro capitão donatário da Ilha de Porto Santo, cuja filha Filipa Moniz viria a casar com Salvador Gonçalves Zarco, o famoso almirante português ao serviço dos reis católicos de Leão e Castela, ou seja, Cristóvão Colombo. Demorando-se na ilha sob pretexto de fazer aguada e recolher mantimentos antes de arrojar-se na empresa marítima que o levaria a descobrir a América do Norte em 12 de Outubro de 1492, Cristóvão Colombo foi visita assídua na sede capitania da Ordem de Cristo na ilha, motivo causador estranheza: um navegador pressupostamente galego, castelhano ou italiano ao serviço de país rival andar de intimidades com os capitães de mar portugueses e, como se não bastasse, casar com uma nobre portuguesa e estabelecer casa familiar em Porto Santo. Ou os oficiais portugueses da época andavam muito distraídos fazendo pouco caso dos espiões estrangeiros, ou, o mais certo, a história colombina poderá estar toda mal contada[14].

Com efeito, a Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, em diminutivo Ordem de Cristo, era donatária exclusiva das ilhas do Oceano Atlântico onde se incluíam, obviamente, a Madeira e Porto Santo. Nas Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, lê-se: “Pertencem à Mesa Mestral desta Ordem todas as ilhas do mar oceano, porque as rendas do espiritual elas estão unidas à Ordem, por Bulas Apostólicas, que dos Santos Padres impetrou o Infante D. Henrique, filho del Rei D. João o I, além dos direitos reais, que S. Majestade nas ditas ilhas tem, como Rei e Senhor”[15].

Se havia ligação temporal à Coroa com direito legal à dízima ou décima parte dos bens taxados pelas Comendas da Ordem proprietária da maioria dos terrenos do arquipélago madeirense que aforavam aos agricultores, assim como do pescado no mar da sua costa, já a ligação espiritual e a prestação de relatórios ao eclesiástico e ao papa sob o bom andamento das missões pastorais junto dos insulares pouco mais seria que convencional por o Mestrado da Ordem só responder perante o seu Administrador Geral, como se lê na Tavoada e Reportório da Primeira Parte da Chancelaria da Ordem de Cristo: “[…] porque o Infante D. Henrique defendeu aos cavaleiros da Ordem que não respondessem perante as justiças seculares que não entendessem neles por serem isentos de sua jurisdição” (fls. 17-17v).

Isso possibilitou à Freiria de Cristo dar largas à sua teologia heterodoxa que já vinha da sua antecessora, a Ordem do Templo, motivo de encontrarem-se nestas ilhas, em antigos imóveis da Ordem ou em espaços onde ela interveio, elementos decorativos de foro gnóstico retirados dos compêndios herméticos medievais, impossíveis de encontrar no continente. Na mesma senda, próxima da Milícia de Cristo, andou nestas ilhas a Ordem Franciscana da Província de Portugal, cujos espirituais beguinos deram largas à manifestação esotérica do seu pensamento heterodoxo, informando o vigário geral do bispado do Funchal, fr. Nuno Cão, em 20 de Fevereiro de 1499, que “os franciscanos possuíam uma tradicional liberdade de movimento e uma grande independência de acção”[16]. Inclusive na manifestação do pensamento heterodoxo, como está presente na capela da Morgada na igreja de Nossa Senhora da Piedade (século XV), em Porto Santo, nos seus motivos geometrizantes e até na pintura central do Noli me tangere (“Não me toques”), narrando o aparecimento de Cristo Ressuscitado a Maria Madalena. Já na Ilha da Madeira, em Ponta Delgada, a igreja do Senhor Bom Jesus (erigida possivelmente em 1470), sobretudo o altar-mor e a capela dos Reis Magos, o seu aparato decorativo remete para ideais herméticos a que acaso não terá sido estranho Manuel Afonso Sanha, fixado nesta actual freguesia e sepultado nesta igreja em 1507, servidor da Casa do Infante D. Henrique, governador da Ordem de Cristo e senhor no temporal destas ilhas[17]. A própria cruz processional na matriz de Nossa Senhora da Assunção do Funchal (obra iniciada cerca de 1493), na Madeira, obra notável da ourivesaria portuguesa do século XVI atribuída ao mestre Gil Vicente, acaso poderá expressar algum simbolismo de carácter hermético inspirado no tema brandónico, sobretudo a meio dela onde o cinzel talhou o Templo ladeado pelos Profetas e cujo formato sugere uma ilha, quiçá a própria Madeira como ínsula sacra que elevada ao alto na procissão a todos aviva a memória do espaço sagrado onde vivem.

Quanto às dignidades da Ordem de Cristo, a primeira e principal, depois do mestre, era o prior-mor, com jurisdição no espiritual e no temporal, exercitando a autoridade espiritual junto dos clérigos mas também dos cavaleiros. Ao prior-mor competia convocar por cartas a capítulo geral para nova eleição de mestre, a quem tomava o juramento de obediência à Ordem e após ao papa, geral da religião professada. A segunda dignidade era a de comendador-mor, que presidia na ausência do prior-mor, e por falecimento do mestre, no ínterim da vacante, lhe pertencendo governar a Ordem. Seguia-se o claveiro-mor, cujo ofício era ter as chaves de todas as comendas, competindo-lhe ainda a distribuição dos mantimentos e a anotação dos gastos que se faziam. Seguia-se o sacristão-mor, a quem pertencia em capítulo ter os selos da Ordem. A quinta e última dignidade era o alferes-mor, que levava a bandeira da Ordem nas procissões e em todos os actos de guerra em que ia o mestre[18].

Sob a aparência da ortodoxia da religião, conservadora da moral e da ordem estabelecidas, a heterodoxia das ideias avançava, alcançando o cume no século XVIII com os ideais iluministas reformadores sociais pela razão esclarecida soprando de França sobre Portugal e os territórios insulares, afectando-os decisivamente. Muito religiosos católicos abraçaram o Iluminismo, imensos do grupo heterogéneo da fidalguia madeirense também. Reuniram-se em segredo, discutindo e decidindo da vida social e espiritual segundo as novas ideias. Em 24 de Junho de 1717 fundava-se em Londres a Maçonaria Especulativa, dava-se início ao Rito Escocês Antigo e Aceite. Em breve repassaria a Paris, França, e daí ao resto da Europa alcançando a Madeira e o Porto Santo. Ante a laicidade do novo culto humanista não confessional, a janela de oportunidades democráticas que a sua estrutura oferecia permitindo aos afiliados participarem activamente isentos de autorização apostólica, nestas ilhas em breve trecho raros eram os que não seriam maçons, dignidades eclesiásticas incluídas.

Em 1768 foi fundada no Funchal a primeira Loja Maçónica por “alguns dos principais desta Ilha”, segundo António Loja[19]. Dentre eles destacou-se Aires de Ornelas Frazão, que ocupou o cargo de Venerável, irmão de Agostinho de Ornelas e Vasconcelos, 10.º morgado do Caniço que, em 1767, desempenhava o cargo de escrivão da Mesa Grande da Alfândega do Funchal. Referidos, em 1770, pelo então governador António de Sá Pereira, como “os espíritos inquietos, livres, soberbos e indomáveis da principal nobreza”, surgem os nomes de Agostinho de Ornelas e Vasconcelos, do seu outro irmão, Francisco de Ornelas Frazão, de Nuno de Freitas da Silva e de António Correia Brandão Henriques, todos membros da elite municipal funchalense. São ainda mencionados como membros dessa Loja no Funchal, em 1770, Mendo de Brito de Oliveira e Pedro Júlio da Câmara Leme. De todos, só Aires de Ornelas Frazão foi preso e enviado para o reino. Segundo Oliveira Marques[20], Ornelas Frazão teria recebido a Luz da Ordem Maçónica entre 1768 e 1770, mas Octávio Pimenta Sousa contrapõe[21], e parece-me o mais certo, que em 1767 ele já seria Venerável, pelo que terá sido admitido na Maçonaria muito antes das datas indicadas pelo ilustre historiador. Depois da sua prisão em 1770, conseguiu evadir-se do cárcere em Lisboa em 1773, homiziando-se em Espanha e depois na Inglaterra. Regressou à Madeira em 1779, sendo mais tarde novamente perseguido e obrigado a fugir para os Estados Unidos em 1792 após denunciado ao Santo Ofício[22].

Enquanto durou o governo do marquês de Pombal, a Maçonaria foi respeitada e acolhida. Mal o ministro do reino foi afastado, iniciou-se a perseguição aos maçons em 1790, mais feroz ainda que a de 1770, tendo a rainha D. Maria I assinado o Edital do Santo Ofício, de 10 de Abril de 1792, que legalizava a perseguição, prisão e tortura aos “mafarricos de avental”. Foi a época de clandestinidade e maior resistência da Ordem na Madeira e Porto Santo, nunca deixando de existir, aumentar em número de membros vinda até à actualidade. Aliás, esse ano de 1790 foi o da aparição, na Ilha da Madeira, da Maçonaria Cavaleiresca da Ordem da Cruz Tripla, de origem francesa e baseada na mitologia das Cruzadas medievais na Terra Santa. Em verbetes no seu Dicionário da Maçonaria Portuguesa, volumes I e II, Oliveira Marques assim descreve:

“FUNCHAL – A cidade do Funchal, na Ilha da Madeira, foi, porventura, a segunda localidade portuguesa onde houve Maçonaria. Sabe-se da existência de uma Loja, de 1768 a 1792, certamente fundada pelos ingleses residentes na Ilha da Madeira. Por volta de 1790 ter-se-ia instalado uma segunda Loja, activa até 1792 e, talvez em 1791, uma terceira, que igualmente parou a sua actividade em 1792 devido às perseguições. Despois desta fase, só nos começos da década de 1840-50 ou nos finais da anterior voltou a organizar-se a Maçonaria funchalense, com as Lojas Constância (II), n.º 3000, e Firmeza (II), criadas no seio do Grande Oriente Lusitano. Numa terceira fase e já no seio do Grande Oriente Lusitano Unido, fundaram-se: em 1871, a Loja Liberdade I, n.º 66, do REAA (Rito Escocês Antigo e Aceite), desaparecida em 1894 mas reconstituída pouco depois e activa até à clandestinidade; Trabalho, n.º 75, do REAA, activa de 1873 a 1883; União Liberal, n.º 111, do REAA, activa de 1877 a 1883; Cinco de Junho, n.º 118, do mesmo REAA, trabalhando de 1878 a 1883; uma nova Trabalho, n.º 219, sempre do REAA, com actividade de 1901 a 1923 e de 1930 a 1935; Evolução e Progresso, n.º 231 do RF (Rito Francês), em 1902, cujo quadro não chegou a ser aprovado; Britanic, n.º 282, do RY (Rito de York), com trabalhos de 1908 a 1913; Cinco de Outubro II, n.º 351, do REAA, de 1911 a 1916, de 1919 a 1929 e de 1929 à clandestinidade; Pátria Portuguesa, n.º 385, do REAA, instalada em 1916 e desaparecida só durante a clandestinidade; Agrippa, n.º 433, do REAA, organizada em 1928 mas que não chegou a funcionar; e Atlântida, n.º 469, instalada em 1933 e já desaparecida em 1937.

“PORTO SANTO – Na Ilha de Porto Santo (Madeira) fundou a Loja Liberdade I, n.º 66, do Funchal, o Triângulo n.º 33, do REAA. Durou de 1903 a 1908.”

As inquirições do Tribunal do Sacro Ofício em 1792, segundo João Pedro Ferro, apenas vieram confirmar o que todos suspeitavam: os poderes políticos e religiosos da Madeira encontravam-se representados na Maçonaria, incluindo o próprio governador, alguns dos principais magistrados, membros da primeira nobreza, grandes proprietários, importantes mercadores, deões e cónegos da Sé, curas de aldeia, juízes, advogados, médicos, funcionários públicos e até artífices e clientes. A Câmara Municipal era controlada pela Maçonaria, sempre em busca de um ideal humanitário para uma sociedade mais justa e perfeita. O Governo Central de Lisboa não teve outro remédio senão arquivar o processo, não sendo ninguém preso[23]. Mesmo assim, a perseguição resultou num clima de desconfiança e discriminações sociais e religiosas, levando mesmo ao exílio de alguns maçons, os mesmos portugueses que estariam presentes na fundação dos Estados Unidos da América do Norte e na implantação da Ordem Maçónica nesse país, sempre com a cobertura de dois Superiores Incógnitos escapados do Terror francês na Europa para o Norte-América nos fins do século XVIII, dizendo a tradição terem aportado nesta ilha madeirense para abastecerem-se de água e mantimentos: São Germano e Cagliostro, acompanhados de outros personagens insignes, diz a Tradição Iniciática, na rota de conquista espiritual e humana do Oeste, a caminho de Washington – Cimarron, no Novo México.

Particularmente activo na disseminação desse clima persecutório, esteve o bispo do Funchal, D. José da Costa Torres, que apavorado via-se cercado de maçons perigosos atentadores do conservadorismo da própria Igreja, como diz Fortunato Almeida[24]. Com efeito, descobriu-se que pertenciam à Maçonaria o governador do bispado, sete cónegos e beneficiados da Sé, dois vigários-gerais do bispado, o tesoureiro e o capelão do bispado, o visitador-geral, quase todos os curas das freguesias orientais da ilha (a parte mais povoada), o director do Seminário e vários professores, o capelão da principal fortaleza militar da ilha e até o confessor do convento feminino do Funchal[25]. A maioria dos eclesiásticos que desempenhavam funções na Sé foi demitida ou suspensa, sendo muitos proibidos de pregar e confessar[26]. Imagine-se o impacto que este fenómeno teve junto da população que, ao dirigir-se ao confessionário, não sabia se se dirigia a um clérigo que pertencia à Ordem proscrita pela Igreja Católica[27]. Reacção que deixou vestígios nos meados do século XIX e abalou o seguinte cimentado já o preconceito reacionário que, na essência última, a espiritual ou iniciática, não tem sentido algum.

A Igreja e a Maçonaria têm a mesma fonte comum: a Tradição Iniciática das Idades. Aquela é dirigida aos simples como confessional. Esta é encaminhada aos eruditos como iniciática. Ambas como um só propósito salvífico e libertador, espiritualmente falando. Nisto, as bulas papais condenatórias da Ordem Maçónica, como essa Humanum Genus do papa Leão XIII, de 20 de Abril de 1884, deixam de ter sentido, só restando a ignorância mãe de todas as superstições, a estreiteza mental matriz dos preconceitos. Essa proximidade espiritual Igreja – Maçonaria ficaria registada aqui mesmo num imóvel religioso madeirense: a igreja de S. Jorge, no concelho de Santana (Santa Ana, mãe da Virgem Maria, que aliás não figura nos evangelhos sinópticos mas exclusivamente nos apócrifos), ao norte da ilha.

A origem da igreja de S. Jorge recua a 1475, quando foi fundada a primitiva ermida com esta invocação no Sítio do Calhau, destruída por um grande incêndio em 1598. Em 19 de Julho de 1660 o morgado Francisco de Carvalhal e Vasconcelos fez doação do terreno do Sítio da Achada para a construção da nova igreja mas sob a antiga invocação, sendo as obras iniciadas em 4 de Setembro. Elas demoraram, fizeram-se ampliações, melhoramentos, embelezamentos até que em 17 de Setembro de 1761 o bispo do Funchal, D. Afonso da Costa Brandão, procedeu à bênção e sagração da nova igreja[28].

Mas a sua história replete-se de atribulações insólitas, como essa do incêndio de 1598 que o povo local logo atribuiu ao castigo divino por ter sido contrariada a ordem do rei D. Sebastião[29] – que em 12 de Março de 1574 dotara da tença anual de 5.000 réis a fábrica deste templo – em perpetuar secula seculorum a Colegiada de São Jorge, extinta em 18 de Março de 1578. Depois, satisfazendo o pedido do pároco António Fernando Barradas, em 10 de Outubro de 1727, o bispo do Funchal nomeou provisoriamente o padre Sebastião Gonçalves para coadjutor do vigário, em 28 de Agosto de 1728. Segundo é dito, mais por via oral do que documental, esse padre andou de proximidades com os heréticos calvinistas e protestantes franceses e ingleses que habitavam a ilha, muitos deles com fama, e talvez proveito, de serem fina-flor maçonista. Dizem até que havia momentos em que só eles podiam estar fechados na igreja e mais ninguém, tocando-se um sino quando saíam. Verdade ou não, o facto é que o padre Barradas foi admoestado várias vezes pela diocese, até que em 3 de Outubro de 1731 recebeu a visitação da cónego doutor Bernardo Rodrigues Nogueira, comissário do Santo Ofício, que o admoestou severamente – sob pretexto do pouco asseio e abandono da igreja – e afastou o pároco. Em Setembro de 1732, iniciou funções como vice-vigário o padre Francisco Marques de Mendonça, mas passado algum tempo, em 3 de Julho de 1734, também ele foi examinado para vigário de São Jorge, sendo o padre Barradas afastado para a Calheta. Essas suspeições eclesiásticas de alguns dos seus partilharem do maçonismo, agravavam-se ainda mais por Aires Ornelas de Frazão ser dos principais beneficiários, senão o principal, da igreja de São Jorge, inclusive um seu familiar, o morgado Diogo de Ornelas de Frazão Figueirôa e sua mulher, D. Isabel Maria Brito, em 24 de Setembro de 1776, terem lavrado a escritura de doação do terreno anexo à igreja designado por Passal[30].

Edificada no estilo barroco chão, com porte grandioso, a igreja de São Jorge possui um belíssimo altar-mor em talha dourada, barroca e rococó, obra de 1751 do talhador Julião Francisco Ferreira e do dourador José António da Costa. Nele se evoca a Exaltação da Santa Cruz. As pinturas parietais, retratando a vida de São Jorge, por via das suas ilustrações muito heterodoxas como não podiam deixar de ser num santo nascido da lenda sagrada, inclinam-se para leituras tanto teológicas como hermetistas, segundo o entendimento de cada um. Tem-se nisso o Anjo do Apocalipse sobre o púlpito, tocando a tombeta anunciando o “Final dos Tempos” ou o término de um ciclo de evolução humana pelo dealbar de outro, quiçá, mais promissivo e próspero para o Mundo. Também é o caso do empíreo pintado no tecto do altar-mor, com os seus três céus – do tema cosmológico de Virgílio e de Dante, prosseguido por Camões em Os Lusíadas – povoados por 78 Anjos, número que, dentre outras interpretações, remete para os 78 Génios da Cabala judaico-cristã plasmados no figurino dos 78 Arcanos do chamado Livro de Thot ou Tarot, termo oriundo do fenício-caldaico Astaroth ou Asta-Roth, o “Caminho Real da Iniciação”. Esta Iniciação é acessível a alguns ou a todos? A todos, registo verificado na separação do Tarot em Arcanos Maiores (primeiras 22 lâminas) sinaléticos dos Mistérios Maiores, nisto ficando para a Ordem Maçónica, e em Arcanos Menores (restantes 56 lâminas) indicativos dos Mistérios Menores, nisto ficando para a Igreja Católica. Uns e outros são inseparáveis, como inseparável deve ser o trono do altar, a arte sacerdotal da arte real, a autoridade espiritual do poder temporal, nisto os espíritos esclarecidos incompreendendo as vicissitudes ordinárias levantadas entre avental e batina. Se esta é confessional e salvífica, aquela é mental e libertadora. Ambas completam-se nas suas funções próprias. E completam-se aqui sob o evoco do Rei do Mundo – Melkitsedek na Bíblia, Chakravarti nos Vedas, Rotan na Maçonaria – em que se reconhece a figura lendária do santo Jorge, George ou Gheoergon, o Obreiro Universal.

Se existe um mito autenticamente ancestral no santoral dos cristãos, um mito acumulador de chaves e significados procedentes do passado mais remoto do paganismo, seguramente é o que está reflectido em S. Jorge, o santo cavaleiro andante que liberta donzelas, luta com dragões e propicia o esplendor das colheitas. Se existe um santo osmótico por definição, capaz de assimilar em sua personalidade a dezenas de outros santos, sem contar deuses proibidos e heróis simbólicos, esse ser é S. Jorge[31].

S. Jorge do Norte, da Terra de João Ninguém ou a Terra do Nunca, S. Jorge da Capadócia ou da Arménia no Extremo Norte da Europa remetendo para a ideia de um Extremo Norte do Mundo, telúrico, localizando-o o Paraíso Terreal, a Agharta das tradições transhimalaias, e ele líder pacífico de hostes de anjos espatários como ideal da perfeição de Cavalaria, da Massenia como a do Santo Graal, assim mesmo corporificação de todas as virtudes sobre-humanas de que o cavaleiro deveria estar armado e couraçado.

S. Jorge vem de longe, tanto no nome como no mito, por regra nada menos que da Geórgia arménia cantada devotamente pelos mais excelsos poetas da latinidade. É o Homem da Geórgia, o Homem Primordial procedente de uma terra que já era tão mítica em si mesma que mitificava quanto continha. A lenda fez-se militar, porém não pertence a legião nem corte alguma, mas parece ir por anexo para justificar uma armadura – couraça do espírito – e umas armas que haveriam de convertê-lo em paladino, não da fé mas da mais pura tradição iniciática. Mas se algo faltava, a lenda martirial converteu os seus sagrados suplícios numa serena iniciação que se prolongou, como no âmbito dos Mistérios, durante sete anos, na presença de setenta reis, com provas vitoriosas onde os suplícios com rodas, lanças, fornos e pedras de moinho foram sucessivamente superados, antes de alcançar a gloriosa apoteose depois de três ressurreições.

Não será demais acrescentar que determinadas passagens das primeiras paixões relatam como Jorge, em meio dos terríveis suplícios, se declarou disposto a “sacrificar aos ídolos”, o que provocou que o papa Gelásio I, no século V, as condenasse, proclamando-as escritas por hereges, e que o hagiógrafo Nicétas de Paphlogonie ou Nicétas David, no século X, confessasse havê-las lido “indignado”. Por desgraça, dessas primitivas paixões não ficaram mais que refundamentos expurgados muito posteriores nas obras de inspiração mais ou menos directa que escreveram, na Baixa Idade Média, recompiladores como Tiago de Voragine, no século XIII.

Porém, o santo georgiano esconde outra faceta simbólica da sua personalidade: a de uma perdida divindade fecunda, com evidentes conotações agrárias e florestais. James Frazer aponta as festividades centro-europeias que se faziam em honra de S. Jorge[32], as de Jorge o Verde, nas quais um camponês revestia-se com ramos e folhas de bétula e era conduzido processionalmente até ao rio, onde a sua efígie era atirada nas águas. Também descreve ritos amorosos sobre os sulcos onde haviam crescido as primeiras espigas de trigo. Por seu lado, Joan Amades dá notícia de toda uma série de cerimónias agrárias que têm ou tiveram lugar em terras catalãs[33], as quais vêm confirmar o carácter de S. Jorge como herdeiro de um deus perdido da fecundidade, o que condiz com a sua data litúrgica, 23 de Abril, em plena Primavera.

É, pois, a fecundidade, o progresso de um santo guerreiro e agrário que, para terminar, evoco para o Arquipélago da Madeira e Porto Santo desejando a todos e todas as maiores venturas e realizações espirituais e humanas, como ontem hoje e sempre.

 

NOTAS

 

[1] Comunicação do autor realizada no Grémio Literário da Madeira. Funchal, 4.11.2017.

[2] La Consolación de la Filosofia. Introdução, tradução e notas de P. Rodríguez Santridrián. Biblioteca temática – Clássicos da Grécia e Roma. Alianza Editorial, Madrid, 1999.

[3] Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2004. Nova edição revista e ampliada, com o mesmo título, em Lisboa pela Euedito em 2017.

[4] Gaius Plinius Secundus, Historia naturalis. Impresso in Venesia, Bartolomeo Zani, 1489.

[5] Whitney William Dwi, Century Dictionary & Cyclopedia. Hardcover, 1899.

[6] Geraldo Cantarino, Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro. Mauad Editora Ltda, Rio de Janeiro, 2004.

[7] Doutor Gaspar Fructuoso, As Saudades da Terra – Historia das Ilhas do Porto-Sancto, Madeira, Desertas e Selvagens. Manuscripto do seculo XVI annotado por Alvaro Rodrigues de Azevedo. Typ. Funchalense, Funchal, 1873.

[8] Rosemarie Erika Horch, Quais as fontes para os Mapas da Novae Insulae de Sebastian Münster? Revista da Universidade de Coimbra, Separata, vol. XXXIV, 1988.

[9] Jean Chevalier e Alain Gherbrant, Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1990. Adalberto Alves, As Sandálias do Mestre – O Islão Iniciática na Formação de Portugal. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda, Lisboa, Outubro 2009.

[10] Lusitanus (pseudónimo de Abel de Sousa Vasconcelos, 1865-1937), Sinais dos Tempos (Fim das Nações – Império Universal – Triunfo da Cruz – Fim do Mundo). Imprensa Lucas & C.ª, Lisboa, 1924.

[11] Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias. Tradução Mary de Camargo Neves Lafer. Editora Iluminuras, São Paulo, 1989.

[12] Peter Russel, Henrique o Navegador. Livros Horizonte, Lisboa, 2004.

[13] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2011.

[14] Mascarenhas Barreto, O Português Cristóvão Colombo (Agente secreto do rei Dom João II). Edições Referendo, Lisboa, 1988.

[15] Fr. Damião das Neves, Compêndio da Regra e Definições dos Cavaleiros da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, com alguns breves pontifícios e privilégios reais, etc. Lisboa, 1607.

[16] ANTT, CSF, avulsos, mç 11, doc. 1.

[17] F. A. Silva, Elucidário Madeirense. Funchal, 1940.

[18] Aleixo Tavano e José Augusto da Silva, Notícia histórica das ordens militares e civis portuguesas, etc. Lisboa, 1881. J. Vieira da Silva Guimarães, A Ordem de Cristo. Lisboa, 1901.

[19] António Loja, A Luta do Poder contra a Maçonaria. Quatro perseguições no século XVIII. Imprensa Nacional, Lisboa, 1986.

[20] A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa – I. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[21] Octávio Pimenta Sousa, A Maçonaria na Madeira. Alocução do autor editada em 3 de Dezembro de 2014.

[22] ANTT, Doc. Nº 17304, texto em três folhas da denúncia feita por Anastácio Neri da Silva ao cónego João Venâncio de Vasconcelos, comissário do Santo Ofício no Funchal, em 5 de Maio de 1792. Esse personagem fora introduzido no convívio da fina-flor da Maçonaria funchalense com o objectivo de denunciar a “Sociedade dos Pedreiros Livres” na ilha, pôr a descoberto as suas figuras principais, com destaque para “Diogo de Ornelas Frazão Figueiroa, morador na Calçada do Convento de Santa Clara”, no Funchal, juntamente com António José de Ornelas, Francisco António de Souza, Luís Vicente de Carvalhal, etc.

[23] Miguel António Dias (Cavaleiro R+C da Maçonaria Eclética ou Rito Lusitano, idealizado desde 1834), Bibliotheca Maçonnica, ou Instrucção Completa do Franc-Maçon, seis tomos. Casa de J. P. Aillaud, Paris, 1840-1842. Miguel António Dias, Annaes e Codigo dos Pedreiros Livres em Portugal. Lisboa, 1853. Reedição Sol Invictus, Ericeira, Novembro 1990. Manuel Borges Grainha, História da Franco-Maçonaria em Portugal (1733-1912), Lisboa, 1912. Reedição Colecção Janus, Editorial Vega, Lisboa, 1976.

[24] Fortunato Almeida, História da Igreja em Portugal, vol. III. Livraria Civilização Editora, Porto, 1970.

[25] Rui Carita, História da Madeira, vol. V. Secretaria Regional de Educação, Funchal, 1999.

[26] João Pedro Ferro, José Anastácio da Cunha, i. e., João Pedro Ferro – Em torno da Maçonaria. Lisboa, 1995.

[27] Ana Madalena Trigo Sousa, O Exercício do Poder Municipal na Madeira e Porto Santo na Época Pombalina e Pós-Pombalina. Centro de Estudos de História do Atlântico, Funchal, 2004.

[28] Padre Silvério Aníbal de Matos, São Jorge e suas Ermidas. Edição da Câmara Municipal de Santana, 2000.

[29] Em comunicação feita à Associação dos Arqueólogos Portugueses em 1924, Alfredo António de Castro Teles de Meneses de Freitas Branco, visconde do Porto da Cruz (1890-1962), descreve a lenda sebástica insular corrente para os lados do Faial, concelho do Machico, na Madeira: quando o Sol se põe aparece no horizonte uma ilha envolta em brumas, onde D. Sebastião, o “Rei Desejado”, dorme desde a fatal batalha de Alcácer-Quibir um “sono de encantamento”. Refere que “a credulidade popular é tão sincera e espontânea que todos os anos, na noite de S. João, quando o povo desce do arraial, vai ao mar ver a sua sombra, ou ouvir os clamares distantes da cidade encantada. Perdidos entre o marulhar das ondas, é vulgar soarem as trovas regionais invocando o rei D. Sebastião e pedindo-lhe que deixe o seu encantamento de Arguim para vir à terra que lhe serviu de berço e para o povo que tanto o amou”. Narra ainda a outra lenda da espada de D. Sebastião, tendo como cenário a paisagem ao fundo do Porto da Cruz: “Olhando dos lados do Faial, a Penha de Águia apresenta uma encosta acessível, muito verde e mesmo fértil, mas sobre o Porto da Cruz é árida, a prumo, rasgando-se em grandes cavernas onde nunca entrou um ente humano e que, ao romper do dia ou ao anoitecer, lembram grandes olhos negros e sombrios dos monstros das lendas que detiveram durante tantos tempos a audácia dos navegadores e a expansão da Europa. Sobre o mar, onde a rocha corta verticalmente, numa só linha, como se engenhos de homens assim a talhassem, destaca-se uma elevação, que serviu de motivo à fantasia popular para criar a lenda de que a espada de el-rei D. Sebastião ali está enterrada… E o bom povo lastima-se de não poder subir ao cabeço mágico e, tomando pelos copos a espada encantada, arrancá-la da rocha e trazer com o Rei Desejado o bem e engrandecimento desta pátria”.

[30] Rui Carita, Ficha de Monumento. Pt, 2003.

[31] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[32] James George Frazer, La rama dorada: magia y religión. Fondo de Cultura Económica, México, 2011.

[33] Joan Amades, Costumari Català, cinco volumes. Editorial Salvat, Barcelona, 1952.

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