O “REI DA ERICEIRA”

 

No início dos anos 90 do século passado, chamaram-me a atenção para a existência de uns pressupostos “cruzeiros cabalísticos” no Reguengo da Carvoeira, dentro de um raio de cinco quilómetros na região limítrofe da Ericeira, concelho de Mafra.

Mas eu sabia desses cruzeiros desde que estudara a capela da Senhora do Ó, situada junta à povoação da Carvoeira, todavia tendo deixado o seu estudo para momento futuro que agora se apresenta.

Como muito bem diz Victor Mendanha[1], a região do Reguengo da Carvoeira era assim chamada por ainda no século XIX depender directamente da coroa e não da autarquia, como aliás também acontecia no Reguengo de Colares.

Contudo, ao contrário do que se anuncia, não existem quatro mas cinco cruzeiros, o mais antigo (1688) dentro do pátio da ermida da Senhora do Ó.

Igualmente deve-se incluir no programa, para ficar completo, a fonte miraculosa de São Julião e Santa Basilisa (datada de 1788 e restaurada em 1961), junto da praia com o nome do santo, próxima da “pedra de roseta”, a chave da leitura dos cruzeiros, embutida na parede ocidental do alpendre da ermida de São Julião, ostentando no portal a data de 1768.

Antes de entrar em leituras mais profundas, necessariamente esotéricas, desde já uma dupla pergunta se impõe: quem mandou construir esses monumentos e com que finalidade?

Sabe-se quem os mandou construir, mas a finalidade continua incerta. Ainda assim, posso adiantar algumas hipóteses. Uma delas, a mais plausível, a do célebre “rei da Ericeira”, Mateus Álvares, que se tinha como el-rei D. Sebastião reaparecido de Alcácer-Quibir.

Mateus Álvares nasceu no meado do século XVI na vila da Praia da Ilha Terceira. Era filho de um mestre de obras ou pedreiro e de relações estabelecidas com a família Mourato, residente na ilha desde o século XV. Esta família de astrólogos e alquimistas[2] de origem moura tornou-se muito apreciada em toda a Terceira, tendo se convertido a cristã nova por influência de um frade da Ordem de Cristo.

Mateus Álvares foi educado primeiramente na Ilha Terceira, no convento dos franciscanos de Nossa Senhora da Conceição. Edificado à beira-mar, posteriormente, no período da revolução de 1832, o convento passou para as mãos de particulares, tendo o terramoto de 1841 o lançado por terra.

Já homem feito, Mateus Álvares enlevou-se de amores por Zara Mourato, que não lhe correspondeu. Desgostoso, abandonou os Açores, emigrou para o continente e aqui veio iniciar a sua saga.

Entrou como noviço no convento de S. Miguel, junto a Óbidos, passando depois para o convento da Cortiça, na Serra de Sintra. Não querendo submeter-se à rigidez do normativo conventual dos capuchos, abandonou-os e foi tornar-se eremita por “conta-própria”, passando a residir num eremitério junto da Ericeira onde se fixou.

Entretanto, Filipe II de Espanha acabara de ser aclamado rei de Portugal, mas o povo ansiava o regresso de D. Sebastião que não acreditava morto, antes desaparecido. Enquanto isso, crescia a fama de Mateus Álvares como profeta visionário e místico. Começou a ser acreditado como o próprio D. Sebastião finalmente reaparecido, não só pela massa popular mas também por alguma nobreza abastada fiel à dinastia portuguesa, cuja linha legítima fora interrompida com o trágico desaparecimento de D. Sebastião e o afastamento do cardeal-rei D. Henrique, já que D. Teodósio governou fugazmente e o mais que legislou ficou assinado em um ou dois documentos a que ninguém deu importância. É então, a partir daí, que tudo se precipita…

O proprietário abastado de Rio de Mouro, Pedro Afonso, jurou que antes do dia de S. João Batista havia de sentar no trono a Mateus Álvares, e este nomeou-o conde de Monsanto, senhor da Ericeira e governador de Lisboa. A filha deste importante nobre foi escolhida para sua esposa e coroada rainha de Portugal com o diadema pertencente à imagem do Orago da Ericeira, Nossa Senhora da Conceição. O pretendente ousou mesmo enviar uma carta ao cardeal-arquiduque Alberto, ordenando-lhe que saísse do reino. Espalharam-se proclamações convocando o povo às armas. A insurreição tornou-se séria. Reuniu à sua volta mais de mil homens com provisões, armas e munições. Todas as autoridades da corte enviadas à Ericeira, ou foram trucidadas ou foram lançadas ao mar do alto das escarpas. Deram-se furiosas batalhas, até que, por fim, diz-se que próxima à fonte miraculosa da Praia de São Julião, Mateus Álvares e os seus foram emboscados e derrotados pelas tropas filipinas, após demorada e sangrenta luta.

Feito prisioneiro, Mateus Álvares entrou a ferros em Lisboa no dia 12 de Junho de 1585, e, a 14, foi-lhe cortada a mão direita pelo carrasco, mão com que assinara alvarás e proclamações; depois enforcado, logo decapitado, a cabeça separada do tronco ficando durante um mês exposta no pelourinho, e o corpo (isto quase faz lembrar o sacrifício de Osíris…) retalhado em pedaços, foi repartido pelas portas da cidade.

Mateus Álvares foi mais que um simples visionário alucinado, mais que um pseudo-D. Sebastião no rol dos muitos que entretanto apareceram (e vez por outra até hoje aparecem…). Foi sobretudo um sebástico patriota que soube bem incarnar a alma da nação em momento de sufoco e aflição onde carecia de um salvador, de um encoberto libertador, de um espírito messiânico em corpo manifestado, um messias que restaurasse os valores nacionais anulados pela abolição dos mesmos; por isso foi tão bem aceite pela maioria do país ocupado e temido pelo regime filipino, a ponto de o ter retalhado mesmo depois de morto, por certo receando o nascimento do mito da ressurreição após assassinado. Mesmo dando aso a um Sebastianismo Vermelho, nacionalista e político[3],  não raro politiqueiro baseado em profecias duvidosas e acontecimentos improváveis, com tudo parece credível ter sido Mateus Álvares um patriota iluminado que ofereceu a sua vida pela honra ofendida da pátria-mãe, e só por isto bem merece um monumento comemorativo junto da Praia de São Julião, que espaço vazio não falta para tanto que é tão pouco a quem muito deu.

Repara-se também que Mateus Álvares não era alheio às ciências esotéricas e à influência dos espirituais franciscanos. Nisto, estou em crer que o seu ideal messiânico, aparte a sua apologia de messias-rei, foi depois prosseguido, secretamente, pela mesma espiritualidade franciscana na região mafrense, ficando a via crucis onde se desenrolou a epopeia e tragédia do “rei da Ericeira” assinalada em enigmáticos cruzeiros, assim mesmo igualmente assinalando uma rota telúrica, mágica e até parúsica. Como Oragos de tal rota, ficaram São Julião e Santa Basilisa, e como a meta da mesma a Virgo Pariturae – a Senhora do Ó.

 

A PARELHA MARTIRIAL

 

Tal como Mateus Álvares recebeu uma iniciação martirial, igualmente no santoral cristão São Julião e sua esposa, Santa Basilisa, estão nessa categoria da santidade pelo martírio[4], e inclusive a vida daquele possui muitas semelhanças com as destes.

Sintetizando a história dessa parelha santa, ela dispõe-se em Antióquia nos últimos anos do século III e primeiríssimos do IV, por ser entre os anos 304 e 309 que se situa cronologicamente o suposto martírio de São Julião[5], e nessa ocasião já haviam passado vários anos desde que Santa Basilisa transpusera vitoriosa as fronteiras do Céu. Conta-se de ambos que, ainda enamorados mas desejando fervorosamente dedicar a sua vida e virgindade ao Altíssimo, tiveram uma visão celeste que os pôs em contacto com Ele, permitindo-lhes cumprir o seu desejo sem contudo renunciarem à cerimónia puramente formal do matrimónio. Logo que casaram, fundaram cada qual um mosteiro – ele de monges e ela de monjas, entenda-se – nos quais começaram um labor de captação e proselitismo tão eficaz que, ao fim de pouco tempo, já as monjas falecidas baixavam do Céu para anunciar à abadessa Basilisa o dia e a hora exacta da sua passagem. Foi depois desta que começou uma terrível perseguição, tendo sido detido o abade Julião e levado diante do cruel governador pagão. Perante este e as repetidas negações em “fazer sacrifícios aos deuses”, juntamente com a surpresa do próprio filho do verdugo ter se convertido ante o valor do abade Julião, começou a série de torturas martiriais da qual o santo saiu incólume, até que o degolaram. Feito o crime sacrílego, sobreveio um terrível terramoto que matou os espectadores pagãos e os verdugos. A história do infeliz São Julião – e subsidiariamente da pobre Santa Basilisa – foi teologicamente interpretada como uma ameaça da Igreja a quem ousar atentar contra as suas cabeças reitoras.

São Julião e Santa Basilisa são interpretados, esotericamente, como o casal alquímico sublimado pelo sacrifício da incarnação do Espírito na Matéria, esta representada pela Mãe Grávida – a mesma Senhora do Ó da Ribeira (da Carvoeira), astrologicamente assinalada por Vénus, alter-ego da Terra.

Ora Vénus era representada entre os egípcios por Ísis e, curiosamente, a tradução do nome grego de Basilisa dá “rainha” (ou “trono” = Ísis), e o de Julião, na mesma língua, significa “lindo”. Juntando os onomásticos “rainha” e “lindo”, tem-se astronomicamente a Bela Rainha, a mais brilhante Estrela d’Alva que é Vénus, tanto valendo por Ísis, aliás, representada erecta e adorada sobre um cipo com o sistro na mão, num silhar de azulejos a meio da coxia no lado direito desta ermida da sua antiga vocação, assim testemunhada mesmo após tomar feição cristã.

 

A PEDRA CABALÍSTICA

 

É precisamente na popularmente denominada “pedra mágica” (ou de “roseta”) da ermida de São Julião que os dois últimos parágrafos encontram a sua confirmação esotérica. A peça, encravada no interior do alpendre do templo de lado para a entrada, é de conteúdo legendado notoriamente anagramático, o que denota uma óbvia influência da presença do pensamento pitagórico que assistiu, aliás, à construção dos chamados “quadrados mágicos” caríssimos na Idade Média à matemática astronómica da Cabala, ciência que algumas facções esotéricas viriam a prosseguir depois, mas com notórias alterações tanto na numeração como no significado alfabético. Essa vertente cabalística não deixou de ser muito apreciada por certas correntes do Cristianismo, a que não terão sido alheios os franciscanos de Mafra no século XVIII, vizinhos e apoiantes do neo-pitagorismo patenteado, por exemplo, nas ideias do já de si neo-pitagórico Santo Agostinho de Antióquia, cujo ideal sinárquico subentende-se na sua obra Civitas Dei, “Cidade de Deus”. A aproximação do franciscano ao pitagorismo alia-o, por essa via, à Cabala Profética judaico-cristã. Consequentemente, o esoterismo que se encontra nesse espaço do Reguengo da Carvoeira é notoriamente judaico-cristão, e esta será a vertente onde terei de me mover para um melhor e maior enquadramento e possível interpretação do conjunto monumental.

Cabala ou Kaballah significa, em hebraico, “Tradição”, ou, simplesmente, “Conhecimento”. Dentro da Cabala podem-se distinguir duas tendências que confluiriam, com o decorrer dos tempos, em duas correntes de pensamento tradicional: o Cabalismo Profético, atribuído a Abrahão Abulafia, e o Cabalismo Rabínico, atribuído a Isaac Luria[6].

Dessas correntes, é no Cabalismo Profético que se encontra o domínio da Inspiração sobre a Tradição. Esta vertente de adopção sefardita originou-se na Região Oeste da Europa por volta do ano 1200 d.C., sobretudo no Centro-Oeste de Portugal, na Estremadura e Andaluzia espanholas e no Centro-Sul de França. Por esta razão, é também conhecida pelo nome de Cabalismo Ibérico, em contraposição ao asquenaze Cabalismo de Safed, cidade da Palestina onde viveu Luria.

A finalidade da doutrina de Abulafia é, segundo as suas próprias palavras, “desvelar a alma, desatar os nós que a emperram”. Para conseguir esse fim, estabeleceu um objecto absoluto de meditação: a ideia da contemplação mística das letras e das suas formas, como sendo constituintes do Nome de Deus.

Partindo desse conceito, Abulafia desenvolveu uma disciplina particular que denominou Hokmath Ma-Tseruf, isto é, a “ciência da combinação das letras”. É produto dessa ciência o que se pode encontrar na “pedra cabalística” de São Julião e Santa Basilisa.

A “pedra cabalística” da Carvoeira é de formato octogonal e apresenta três quadrados com anagramas unidos por um dos ângulos, formando assim entre eles um espaço interior triangular onde se patenteia, como símbolo central, um Sol radiante, esotericamente designando o Ouro dos Filósofos Iluminados, como sendo a cristalização da Suprema Divindade.

Nesse formato encontra-se o Teorema de Pitágoras, no qual em todo o triângulo rectângulo o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual à soma dos quadrados construídos sobre os catetos.

Mas também se encontra a ideia de Quadratura do Círculo (representação geométrica simbólica da Pedra Filosofal), indo formar o octógono como forma mediadora entre o quadrado e o círculo, que é dizer entre a Terra e o Céu. Tem-se exemplo claro disso na Charola do Convento de Cristo, em Tomar, cidade-mãe da Província portuguesa da antiga Ordem dos Templários.

Afinal, trata-se de redimir coagulando a prata da Terra e solvendo o ouro do Céu. Sim, a Quadratura da Terra no Círculo do Céu, na maior Alquimia mediante a qual se obtém o Elixir da Vida Eterna – a Iluminação Espiritual garante da Imortalidade.

Na legenda superior da lápide, lê-se: ECCE CRU+CEM DOMINE – “Eis o Cruzeiro (e não “cruz”, que em latim se escreve crucis) do Senhor”. Crucem está dividida por uma cruz que possui abaixo o salvífico IHS, Iesus Homnibus Salvatorem – “Jesus Salvador dos Homens”, sendo também sigla iniciática que indica sempre o Messias ou Avatara; o H está coroado pela mesma cruz, com que designa a venusta energia rítmica ou equilibrante da Natureza, Rajas, expressiva da Anima-Mundi como Alento Universal, e assim mesmo a Hermes ou Mercúrio coroado, o divino Varão ou Andrógino Celeste.

Como cercadura de todo o corpo inscrito, unindo-o, encontra-se gravada quatro vezes a frase ORAPRONOBIS – “Ora por nós”.

O conjunto forma ainda dois triângulos médios contendo a flor do lírio, o que remete à frase bíblica: “Eu sou a Rosa de Sharon, o Lírio dos vales” (Cântico dos Cânticos, 2:1).

Tem-se assim a Rosa e a Cruz filosóficas, veladas mas subentendidas, na peça lítica. Não se deve ignorar que a Ordem Rosea+Crucis esteve activa até ao início do século XVIII, e muitos dos seus adeptos procuraram refúgio no reduto franciscano do qual Mafra não terá escusado abrigo contra a Mesa Censória, quando a Ordem Franciscana teve o convento à sua tutela.

Os dois triângulos inferiores da peça apresentam ao centro a estrela de oito pontas a qual, além de designar a Cavalaria Espiritual, igualmente designa a Stella Maris, a “Estrela do Mar”, Vénus, a Matutina mas também Vespertina. Vem a ser exactamente o quadrado principal, mas em posição inferior, que esses triângulos ladeiam. Esse “quadrado mágico” possui 81 casas ordenadas em 9 linhas verticais e 9 horizontais, estando o seu centro na 5.ª linha marcado pela estrela Vénus. A partir daí, em qualquer direcção, inicia-se a leitura pela letra M que, com as restantes, formam a palavra Matutina. Estrela e palavra dão Stella Matutina, que, repito, é a Stella Maris. A Mãe Divina está assinalada sob o quadrado na frase AVE MARIA… ou “Ave Marinha”.

O 3×9 (81), ou 999, é o número cabalístico da Lua, da Mulher em complementação do Sol, do Homem, formando os dois o casal alquímico ou hermético, expressão do Andrógino Perfeito assinalado em São Julião e Santa Basilisa.

O quadrado superior da esquerda constitui-se do nome JULIAM (Julião), e o superior da direita contém o nome BAZILIZA (Basilisa), lendo-se ambos no sentido destrocêntrico. Cada quadrado possui um total de 49 letras ordenadas em 7 linhas verticais e 7 horizontais, o que dá 3×7 (49), ou 777.

Segundo a fonte teosófica, 49 é o número de Adeptos Independentes – B∴ J∴ ou Bhante-Jauls, “Irmãos da Pureza” – e o do valor da Pedra Filosofal na Quadratura do Círculo. 777, além de também ser o valor esotérico da Hierarquia Assura ou Arqueu, a dos “Senhores da Mente”, é igualmente o número cabalístico de Júpiter que, afinal, é quem rege a Península Ibérica através de “Vénus Passiva”, ou seja, da Lua, representada na serra que leva o nome dessa, Sintra.

Ademais, se em grego Julião significa “lindo”, já no latim ele é Iulius, cuja filologia associa-se astronomicamente a Júpiter por significar, literalmente, “Filho de Elion”, por outras palavras, “Filho do Altíssimo”, o Sol aqui associado a Júpiter-Vénus, tanto valendo por Pai-Mãe, Osíris-Ísis e Julião-Basilisa.

Volvendo ao quadrado inferior e o maior dos três, Vénus na 5.ª casa da 5.ª linha, indicia o Quinto Luzeiro Arabel, o “Senhor da Ara (de Luz)”, Al-Djabal, o “Todo-Poderoso”, que a fonte iniciática aponta como o verdadeiro Encoberto do Quinto Reino Espiritual a manifestar-se no Quinto Império Terreal, o dos Lusos ou “Filhos da Luz”, esse mesmo sebástico sob a flama do Espírito Santo assinalado precisamente por Vénus, cujo cujo patronato está o futuro 5.º Globo de Evolução, na Ronda imediatamente posterior ao do 4.º Globo  da Terra.

Agora, resta iniciar o itinerário da Via Crucem, posto estarem lançados os dados, os mesmos que se vêem num pormenor do aparelho de azulejaria na sacristia (lugar do “Santo Cristo”, onde este se assume ou paramenta na pessoa do sacerdote) da ermida de São Julião, defronte para a porta de saída…

 

O PRIMEIRO CRUZEIRO

 

Na traseira da ermida de São Julião, próxima da Foz do Falcão, está o primeiro cruzeiro do itinerário, datado de 1783 (MDCCLXXXIII). Como os restantes, alia-se à ideia de salvação das almas do purgatório e à absolvição dos pecados, temas onde Julião e Basilisa, como santos martiriais, intercedem pela salvação das almas, ele assumindo o papel do Padre Eterno e ela a da Madre de Deus.

Este cruzeiro e o da Carvoeira assinalam uma ligação às “confrarias da Misericórdia”, de inspiração franciscana, destinadas a recolher esmolas para as missas de salvação das almas do purgatório, este que tanto vale pelo astral dos ocultistas ou o limbo dos alquimistas.

Ora, no rectângulo central de azulejos, muitíssimo danificados, do cruzeiro, vê-se precisamente, num lance ainda intacto, um homem caindo num precipício e por baixo uns dizeres invocando São Julião. É alegoria da alma precipitada no purgatório. Não deixa de ser curioso o cruzeiro estar à beira de um precipício tendo ao fundo uma abertura para o interior da Terra… o Inferno toma aqui o sentido de dor, mas também, e fundamentalmente, de iniciação. Assim, a concepção de “inferno” varia segundo a dimensão em que se dispõe, se direcionada a lugares paradísiacos (lokas), se precipitada a espaços tenebrosos (talas).

Por baixo dessa alegoria a frase PELAS ALMAS coroa um quadrado com as palavras PADRE NOSSO, lendo-se PADRE do centro para a periferia e NOSSO para baixo ou para cima. O Pai no interior e a Humanidade no exterior, tal poderá ser a intenção gemátrica.

Abaixo do PADRE NOSSO o evoco AVE MARIA. Inclino-me a ver nessas palavras a composição cabalística (de duplo sentido, confessional e sapiencial) da ladainha: “Padre Nosso. Ave Maria. Pelas Almas”.

Abaixo do AVE MARIA, a sigla epigráfica

que José Cardim Ribeiro interpreta como TEIXEIRA e Manuel Joaquim Gandra confirma, ao dizer num seu estudo que a autoria destes cruzeiros cabalísticos do Reguengo da Carvoeira é da “mestria gemátrica de Manuel Teixeira, ilustre cabalista, quiçá frequentador da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra”[7]. Adianta ainda que esse Manuel Teixeira “surge citado no testamento de João Fernandes da Conceição, ermitão de S. Julião (2 de Dezembro de 1764), falecido no ano de 1766, tendo-lhe deixado o seu capote de ourelo”.

Muitos dos enviados da corte filipina a Mateus Álvares foram, sem dó nem contemplação, atirados ao mar dessas escarpas… afinal, sem dúvida, um purgatório para esses desgraçados.

 

O SEGUNDO CRUZEIRO

 

Situado no alto da Serra de São Julião, evocativo do Gólgota, este cruzeiro é uma invocação aos Céus para atenuar as dores do calvário humano.

Ostenta os símbolos dos principais objectos do martírio no Gólgota, bem visíveis por alguém devoto do povo local ter pintado os insculpidos em cor azul.

Datado de 1794, ostenta de baixo para cima, na trave vertical, as insculturas seguintes evocativas do Calvário: uma caveira (a morte), uma turquês (a passagem além-morte), uma escada adiante da qual se cruzam uma lança e uma vara com a esponja do vinagre na ponta (a subida probatória do Calvário e consequente amargura), um cravo (a fixação da ideia subjacente), um martelo (o meio de fixar), uma chaga (donde escorre o Sangue Real – Sang Greal – do Divino Rei dos Reis, Imperador Universal, o qual na Idade Média também foi sinal de reconhecimento e iniciação entre os construtores livres) e um jarro (a água que mata a sede do supliciado, do “cordeiro inocente” na subida ao encontro do destino fatal, mas igualmente a versão exotérica do Santo Vaso, a Taça Eucarística onde foi foi recolhido o precioso Sangue do Messiah ou Avatara desse Ciclo de Piscis, também chamado o das Necessidades).

Dois exemplares dos “cruzeiros cabalísticos” do Reguengo da Carvoeira

No topo da cruz a sigla INRI, de dupla tradução: Ieseus Nazarenus Rex Iudeorum – “Jesus Nazareno Rei dos Judeus” – e igualmente: Ignis Natura Renovatur Integra – “Pelo Fogo se Renova a Natureza inteira”. Esta frase foi o santo-e-senha dos Rosa+Cruzes nos séculos XIV-XVIII, alusiva da superação da personalidade mortal pela metástase ao Ser Imortal, ao Cristo Interno assim ressuscitado, tal qual a Fénix ressuscita das cinzas do fogo das paixões entretanto transformadas no Amor à Humanidade por quem tudo se dá, até a própria vida, como o fez o castus Agnus Dei, o Christus qui tollis peccata mundi.

 

O TERCEIRO CRUZEIRO

 

Encontra-se na Carvoeira e data de MDCCLXXIX (1779). Apresenta um conjunto alegórico muito rico. Na dianteira, mostra um painel de azulejos com a cena de Jesus nos braços de sua Mãe Dolorosa após retirado da Cruz. Como cercadura da ilustração, lê-se no sentido destrocêntrico: VIRGEM DA PIEDADE, e em rodapé: ORAPRONOBIS (“Ora por nós”).

Por debaixo, aparece um quadrado cabalístico onde está inscrita SALVE RAINHA, lendo-se SALVE do centro para a periferia nas quatro direcções, e RAINHA como cercadura, leitura que também se faz da esquerda para a direita. Revela-A como Soberana Absoluta de todas as direcções do Mundo.

Dentro desse quadrado há quatro quadrados menores. Em cima, à esquerda, um coração envolto numa coroa de espinhos encimado por uma cruz. Assinala o Sagrado Coração de Jesus – a Terra ou Coagula. Ao lado, um outro quadrado também ostenta um coração atravessado por duas espadas coroado por uma flor-de-lis. Representa o Sagrado Coração de Maria – Vénus ou Solve.

O Professor Henrique José de Souza afirmou que a flor-de-lis é o “Loto Sagrado de Agharta” simbólico da Realeza Divina (do 2.º Mundo Celeste), consequentemente, da Consciência Universal, e o alquimista Fulcanelli vai ao encontro disso vindo reforçar a tese da influência do Adeptado Rosa+Cruz presente na feitura desta Via Crucem, portadora de mensagem claramente hermética-cabalística, quando diz[8]:

“A flor-de-lis corresponde efectivamente à rosa hermética. Junta à cruz, ela serve, como a rosa, de insígnia e brasão ao cavaleiro praticante que, pela graça divina, realizou a pedra filosofal.”

O radical lis ou liz também está presente no nome do Rio Lizandro, que separa o belo vale da Carvoeira (nome das primitivas bafometarias árabes ou comunidades corânicas instaladas em cabos-mares ou nas suas proximidades) de São Julião.

Sob esses quadrados, outros dois com alegorias do Calvário: três cravos cruzados, a escada com a lança e a vara do fel, todos sinais de iniciação martirial.

Nas costas do cruzeiro, duas outras alegorias azulejadas. Acima, Jesus na Cruz tendo aos pés a sua Santa Mãe, Maria Madalena e João Evangelista. Abaixo, um Anjo e um Franciscano (presumivelmente o próprio São Francisco de Assis) salvando as almas do purgatório.

Adensa-se, solidifica-se cada vez mais a tese da influência secreta ou tão-só discreta de Rosea+Crucis, “amancebados” ao Franciscanismo, na idealização deste projecto cabalístico volante, os quais, aliás, são referidos no livro de Alquimia dedicado a D. João V e à vila de Mafra em 1732, Ennoea, de Anselmo Caetano Munhoz de Abreu[9]. Ademais, essa “amancebia” é testemunhada numa frase gravada no lado direito do cruzeiro, a qual é muito comum nas Misericórdias locais que são, como se sabe, de origem franciscana:

IRMAM
SALVA
ACRVS
ACAMPA
NHETE
IEZVS

“Irmão salva a Cruz. Acompanhe-te Jesus.” Ou “Irmão, a Cruz salva. Acompanhe-te Jesus.”

Além do apelo à conservação da Fé, há nisso uma outra mensagem, deixada não só aos da época mas também aos vindouros, de interpretação ad litteram: conservar incólumes os cruzeiros, com isso deixando intacta a Via Crucem iniciática por eles assinalada.

Saibamos todos respeitar a mensagem, nem que seja por esmola, porque “a esmola que dais a vós mesmos a dais”, no dizer da inscrição na base do cruzeiro.

 

O QUARTO CRUZEIRO

 

E possivelmente o primeiro da série por ser o mais antigo: data de 1688. Encontra-se dentro do pátio da ermida da Senhora do Ó da Ribeira, ou Nossa Senhora do Porto do Reguengo da Carvoeira. Na sua base, a frase latina: AVE CRUX SPES ÚNICA – “Ave Cruz Esperança Única”.

Nesta série de cruzeiros encontram-se sempre uma letra e uma palavra que se repetem, como se quisessem significar mais do que aparentam na sequência lógica dos termos e frases: a letra S e a palavra Ave.

A primeira, muito ligada à ideia de “Fogo Serpenteante” como Força Ígnea do Espírito Santo, tanto valendo por Kundalini e Maha-Shakti representada pela Virgem Negra, mas também ligada à ideia de “sebástico”, corresponde ao khi na língua grega, adquirindo o significado esotérico do rasto helicoidal do Sol que no espaço chegou ao zénite da sua curva (e este cruzeiro está junto à curva da estrada), no momento final de um ciclo (assinalado no cemitério mais adiante).

Já a ideia sebástica patente no S remete a uma hierarquia de valores oculta no nome Sebastião o qual, em seu tempo, foi sinónimo de “Mestre Universal” e “embaixador ou representante do Espírito Santo” (Avis, anagramaticamente, Siva ou Shiva)[10].

Quanto à palavra Ave, em sequência directa da letra anterior, como saudação remetida a Maria (a Avis Raris in Terris revelada na forma alva de Pomba do Espírito Santo), lida de trás para a frente dá Eva, a primeira Mãe da Humanidade, ou por outra, Adamita, esposa de Adam ou Adamito; mas colocando o v adiante do a e o e a seguir a este, tem-se: vae, vai, segue… Dessa maneira, poder-se-ia ler a frase do cruzeiro: SEGUE A CRUZ, A ÚNICA ESPERANÇA!

Aparece assim novamente a ideia de rota, de caminho a palmar tanto para o vulgar devoto como para o singular iniciado. Rota feita na Tradição Ocidental e no mais ocidental da Europa, neste martírio da personalidade mortal a favor da Individualidade imortal, em paulatina cruzada onde o Fogo Divino (INRI) joga papel determinante.

Acerca da Senhora do Ó, Deusa-Mãe Primordial, com isso Ela é ligada à ideia de Mater-Prima, Anima Mundi fecundadora da Matéria, o que leva a ser considerada divindade propiciatória das colheitas e partos. Fulcanelli diz dela[11]:

“Vários monumentos muito anteriores ao Cristianismo a designam sob o nome de Virgo Pariturae, ou seja, a Terra antes da sua fecundação e que os raios do Sol hão-de em breve animar. É também a Mãe dos Deuses, como atesta uma pedra de Die: Matri Deum magnae ideae. Não se pode definir melhor o sentido esotérico das nossas Virgens Negras. Elas representam, na simbólica, a Terra Primitiva, a que o Artista deve escolher para objecto da sua Grande Obra. É a Matéria-Prima no estado mineral, tal como sai dos jazigos metalíferos, profundamente enterrada sob a massa rochosa.”

A Senhora do Ó (grávida do Menino que é igualmente expressivo da Idade Futura, se for inserido no tema sebástico-imperial do Espírito Santo) identifica-se assim com a Virgem Negra Ísis (ou I515, cuja soma e redução dá o valor 30, que sem o zero é designativo da Terceira Pessoa da Trindade, e como 15 assinala a “Força Diáblica da Inteligência”, como seja a corporização do deus Astaroth) e com a galo-celta Lusina, esposa do deus Lug, padroeira dos artífices romanos agremiados em collegia fabrorum. L da inicial do nome da deusa que é traçado ou esquadrado pelo itinerário dos cruzeiros desde a praia de São Julião até ao cemitério da Carvoeira, sendo a “dobra” precisamente este 4.º (e originalmente o primeiro e único) cruzeiro. A letra L significa a realização da Grande Obra Hermética e a consumação das Três Luzes da Santíssima Trindade, sendo igualmente a inicial do quinto signo do Zodíaco, Leo, consequentemente, afim ao ouro filosófico que se obtém da Pedra Filosofal, indicativa de Iluminação Integral correspondente ao estado supra-humano do Andrógino ou Adepto Perfeito. Este será o Homem Endócrino do Quinto Sistema de Evolução, como hoje no Quarto Sistema domina o Homem Cérebro-Espinal.

De volta à Senhora do Ó, a primeira de todas as Virgens da Cristandade por ser aquela escolhida pelo Eterno, anunciada pelo Anjo e promanada pelo evangelista Lucas, o título dessa invocação é justificado pelas antífonas recitadas pela Igreja oito dias antes do Natal, começando pela letra O: “O Sapiente, O Adonai, O Radix Jesse, O Calvis David, O Oriens, O Rex Gentium, O Emmanuel”; justificativa também encontrada na forma ovóide do ventre saliente da Senhora e no facto da letra O simbolizar a imortalidade de Deus. O Concílio de Toledo, no ano de 656, ordenou a celebração de uma festa em Sua honra em toda a Hispânia, a 18 de Dezembro. Santo Ildefonso deu-lhe o nome de Senhora da Expectação, a mesma Senhora da Esperança (que Pedro Álvares Cabral levaria ao Brasil). O Papa Gregório XIII (1572-1585) aprovou-a, porém, após o Concílio de Trento (1545 a 1563) muitas Senhoras do Ó foram retiradas dos altares ou sofreram grandes transformações, por não corresponderem às exigências impostas pelas directivas da Contra-Reforma quanto à decência das imagens e ornamento dos objectos de culto. Representada com o ventre entumescido, sobre o qual, geralmente, coloca uma das mãos, a sua iconografia tem origem apocalíptica ou pré-existente: a Mulher que há-de parir à Luz[12].

O QUINTO CRUZEIRO

 

Este encontra-se dentro do cemitério da Carvoeira e tudo indica que o “campo santo” tenha se desenvolvido à sua volta, posto estar precisamente ao centro.

A peça apresenta um quadrado de sete letras sobre um rectângulo de dezoito letras. De permeio, a data 1833, possivelmente a da sua feitura, ou então a da reconstrução sobre a original, o que me parece mais evidente.

Há nisso uma charada gemátrica, tradição muito comum entre os cabalistas quando pretendiam, ou pretendem, deixar uma mensagem do presente para o futuro. Fazem-no assim para chamar a atenção do curioso, obrigando-o a resolver o enigma pelo exercício e consequente desenvolvimento da sua faculdade intuitiva. É uma forma de iniciação pelo raciocínio, própria do método cabalístico de Abulafia, mas visando ir além do próprio raciocínio.

Antes de avançar nas suposições possíveis na resolução do enigma, convirá que primeiro exponha o alfabeto hebraico e o seu correspondente valor numérico, a fim de haver melhor e maior entendimento do que me parece ser o único método de descodificação, posto ter sido feito no exclusivo molde cabalístico gemátrico judaico-cristão.

Para se interpretar um nome deve-se primeiro fazer a transposição das letras para os números. Isso é feito de acordo com a tabela seguinte (Tabela de Abulafia):

Na Cabala, as somas e as subtracções efectuam-se de modo diferente[13] – chama-se soma cabalística de um nome a soma dos números correspondentes às letras desse nome. Subtracção ou redução cabalística é a soma dos algarismos que deverão compor-se de um de qualquer número inferior a 22.

Postos esses preliminares, passo à leitura dos quadrados do cruzeiro. Começarei pelo primeiro, atribuindo-lhe os números e as correspondentes letras hebraicas:

Beth representa simbolicamente a boca humana, a morada da Sabedoria, o interior do Homem ou Alma. Hieroglificamente designa a dualidade, a Mulher.

Cheth simboliza uma cerca. Hieroglificamente representa a existência elementar, o princípio da vida assinalado na frase: “Do pó vieste e ao pó voltarás”… Est tem a ver com o latino estõ e significa “ser, conforme”.

Yod representa o dedo indicador. Hieroglificamente designa a manifestação potencial, a adoração eterna.

2+8+10 = 20 = Khaph. Esta letra simboliza a mão no acto de pegar alguma coisa. Hieroglificamente representa a vida reflectida e passageira, facto assinalado no próprio cemitério.

As oito letras do quadrado dão o duplo quatro, equivalente a Daleth, representando a porta e o quaternário universal, a fonte de toda a existência física, que começa no berço e acaba no túmulo.

Haverá, pois, uma mensagem oculta referente à vida humana passageira, para a qual a melhor das representações será o próprio cemitério, a maior de todas as verdades do futuro terreno de todo o ente mortal.

Se as letras forem ordenadas no seu valor sequencial, intuo uma outra mensagem relacionada com a transposição acima.

Ou seja:

Santa Basilisa. Sois toda a Esperança do Mundo Cristão.

O segundo quadrado complica muito mais a charada. Contudo, o processo de resolução será o mesmo.

A soma e redução de todos os números dão 3, Ghimel, correspondente à ideia de expansão e crescimento.

Somando e reduzindo as 18 letras do quadrado obtém-se 9, que corresponde à letra Teth. Esta simboliza uma serpente, e hieroglificamente representa a casa do homem, o tecto, o abrigo, a resistência, um escudo e protecção[14].

Há cinco epígrafes, tomando por principal a segunda contando de baixo (a única gramaticalmente coerente), constituindo frases inteira-mente decompostas. Trabalharei agora na sua possível ordenação.

 

Sobra um M, de “Mãe”. Resultado: Clamo à Mãe.

Resultado: A Rota, o Caminho, Conduzir.

Resultado: Lázaro, o Ressuscitado, o Salvo.

Resultado: Campo da dor.

Ordenação e composição dos resultados de ambos os quadrados:

SANTA BASILISA
SOIS TODA A ESPERANÇA
DO MUNDO CRISTÃO.

CLAMO À MÃE DE AMOR
QUE ME LEVE À SALVAÇÃO
ALÉM DO CAMPO DA DOR.

Este foi o meu método e valência na tradução da epigráfica mensagem velada dos cruzeiros, e velada por conhecedores aprofundados da Cabala, os quais utilizaram o método gemátrico dando-lhe, pelo peregrinar na rota dos cruzeiros, feição “volante”. A ciência dos números e letras é de origem universal, porém, na tradição hebraica acha-se com toda a pujança e é, por quanto se expôs, na Cabala judaico-cristã que a resposta ao enigma da via crucem do Reguengo da Carvoeira deve ser procurada.

Acredito mesmo não haver outra alternativa senão a da Tradição.

 

NOTAS

 

[1] Victor Mendanha, O Mistério dos Quatro Cruzeiros. Matutino Correio da Manhã, 8.5.1991.

[2] Manuel António Ferreira Deusdado, Quadros Açóricos. Angra do Heroísmo, 1907.

[3] Oliveira Martins, Sistema dos Mitos Religiosos. Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1951.

[4] Juan Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[5] Não confundir com o outro São Julião chamado o Hospitalário, relacionado com o tema dos santos caçadores.

[6] António Castaño Ferreira, Mistérios e Misticismos da Bíblia. Revista Dhâranâ, n.º 33, 1970/73, Brasil.

[7] Manuel J. Gandra, A ideia do Monumento de Mafra: Arquitectura e Hermetismo. Texto inserto no Boletim Cultural “94”, edição da Câmara Municipal de Mafra.

[8] Fulcanelli, As Mansões Filosofais. Edições 70, Lisboa.

[9] Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal, Lisboa Ocidental, 1732. Esta obra foi reeditada em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Fevereiro de 1987, com nota de apresentação de Yvette Kace Centeno, quase em simultâneo com uma outra reedição no mesmo ano, desta feita em Mafra, com nota preambular de Manuel Joaquim Gandra. Conta esta última com uma dedicatória final de Anselmo Caetano a D. João V e ao elogio do V Império, que a primeira não possui apesar de melhor apresentada e organizada que a segunda.

[10] Numa breve análise filológica do nome Sebastião, lembro que o étimo grego sebàs originalmente significava “pudor” e “temor”, vindo depois a exprimir as qualidades de “santidade” e “majestade”, originando o tardio sebastòs, sinónimo de “venerável” e “augusto”, sendo que sebastocrator designava o “príncipe real primogénito” na corte bizantina. Ora, o nome Sebastião origina-se do Sebastòs grego, de significado idêntico ao árabe Al-Sabah, “Majestade Divina”. Em hebraico, como este não possui vogais e se lê da direita para a esquerda, por ser semântica lunar, o seu radical é SBSH, “serpente, dragão”, lendo-se saraf, palavra na origem de safardim e sefardita, expressiva do postulado da Cabala Profética judaico-hispânica que, inclusive, batizou a Península Ibérica de “Terra de Sefarad”. O radical SBHS encontra-se igualmente na letra simples samekh, “serpente”, do mesmo alfabeto hebraico. Portanto, sbhs, sefarad, samekh igual a “serpente, dragão”, símbolos zoomórficos do Fogo ctónico, subterrâneo, infernal, inferior (inferius) ou interior (interiora) de Kundalini como a principal “matéria-prima” do consignado “Laboratório do Espírito Santo”, assinalado no Oriente como sendo Shamballah e no Ocidente como Salém, termos distintos para uma real e única coisa que é o Sol ou Núcleo Central da Terra.

A “Serpente” (de Sabedoria) ou Saraf como Sumo-Pontífice, equivalia entre os hebreus ao Kohen-Tsedek. Este grau consciencial e hierárquico correspondia, analogamente, na Céltida ao “Mestre dos Druidas”, o Arquidruida. Já na corte bizantina era conhecido como Pantocrator (“o que tudo governa”), e assim chama-ram a Santiago Maior nos caminhos de Compostela, de hierarquia equivalente ao Pthamer egípcio ou ao Jivamukta hindustânico, o Maha-Guru ou Maha-Choan, “Supremo Dirigente da Grande Confraria Branca dos Bhante-Jaul”.

Obviamente a letra radical de Sebastião é o s que, como inicial de “serpente”, aqui serpente real (a naga hindu, a naja etíope como a mesma naha hebraica, figurativas do Adepto Real) por se reportar ao rei, indica a Iniciação pelo Fogo Kundalini ascendendo da Terra ao Céu, provocando o apartamento definitivo da velha consciência profana pela nova luz iniciática, inicialmente podendo ser dolorosa a presença dessa consciência infante, pelo que Fernando Pessoa relaciona a letra S às “lagrimas alchymicas do Christo” (in O Caminho da Serpente, no livro Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética. Texto organizado por Yvette Centeno. Editorial Presença, Lisboa, 1985). Já Dalila Pereira da Costa (in Da Serpente à Imaculada. Lello & Irmão Editores, Porto, 1984) relaciona a serpente à Iniciação Feminina da Mátria Lusitana, e, no mesmo sentido de Iniciação Colectiva da Raça dos Lusos em relação com o simbolismo serpentário, afirma Pinharanda Gomes (in A Patrologia Lusitana. Lello & Irmão Editores, Porto, 1983) que “é o sinal remoto que nos introduz numa das genealogias a divinis do povo lusitano e dos seus valores religiosos. A serpente apresenta-se como símbolo do conhecimento global: a serpente enroscada, a boca tocando o rabo, denomina simbolicamente o universo do saber; a unidade do ser (…)”.

Após o desaparecimento do rei Sebastião, o messianismo peninsular tomou forças novas e assumiu-se sebastianismo nacional, popularmente bandarrismo, sob duas vertentes, uma “branca” e outra “vermelha”, aquela metafísica e esta política, e foi esta que vingou para a posteridade deturpando o sentido original do sebastianismo messiânico (cf. Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002).

[11] Fulcanelli, O Mistério das Catedrais. Edições 70, Lisboa.

[12] Maria do Carmo Vilar, O Dogma da Imaculada Conceição, pág. 111, in O Eterno Feminino no Aro de Mafra (Roteiro Monográfico). Edição da Câmara Municipal de Mafra, Setembro 1994.

[13] Francisco Valdomiro Lorenz, Noções elementares de Cabala – A Tradição Esotérica do Ocidente. Editora Pensamento, São Paulo, 1979.

[14] William What, Mistérios Revelados da Cabala. Fundação Educacional e Editorial Universalista, Porto Alegre, Março 1982.

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