PREÂMBULO

Subentende-se, nas entrelinhas do moderno pensamento falado e escrito, que o suposto da primazia de Portugal e o pressuposto do amplexo universal de Portugalidade, não fazem sentido senão como poesia e quimera ante o constrangedor da realidade objectiva, do estado psicossocial do país permanente desfalido economicamente, derrotado estruturalmente e de alma desmoralizada.

Essa adopção mental modernista não vai além da metade final do século XIX, terá nascido de alguns românticos germanófilos e filosofistas afrancesados achando Portugal provinciano em tudo e o estrangeiro em tudo progredido, conceito e preconceito que então invadiu as artes e letras portuguesas como elemento estranho à sua identidade cultural e à idiossincrasia motora da estrutura psicossocial da nação em que subjaz o universalismo – pois que Império fomos, como o primeiro do Ocidente europeu – da noção Portugalidade, que começa na língua e se prolonga nas várias expressões características únicas do autóctone, dizia, esse pensamento modernista de certos modernos incompreende, por isso rejeita linearmente, o sentido electivo de Pátria Geográfica e, sobretudo, o ser Pátria Mítica. Não percebe nem quer entender o silogismo mínimo do ser e sentir Portugal como algo transcendente em sua natureza peculiar, como algo trescalando inédito ou sui generis nos costumes e tradições, dos mínimos aos mais elaborados, constituintes da identidade própria desta nação mais antiga da Europa cerca de meio milénio.

Aplicando sobretudo a literacia avant-garde feita dum vocabulário dissecado, complexo e complexado próprio de uma esquizofrenia psicomental limitadora da existência e do pensamento, intentando o derrube de toda e qualquer espécie de esperança tanto ao singular como ao plural em querer ser alguma coisa mais como cidadão e nação, começando na crítica feroz a quem pensou e pensa a Portugalidade transcendente e a identidade do pressuposto destino e missão da mesma, tanto ou tão pouco só pode desfechar, dissecadas as esperanças e neutralizadas as pretensões, no intento da morte de Portugal.

Aparecem no rol do racional assente no irracional, apregoando a pressuposta morte moral e caída amoral de Portugal, isto que por consequência levaria à perda da independência anulando as fronteiras geopolíticas, sem mais nem menos, aparentando desatender propositadamente aos demais factores psicossociais fundamentais do Corpo Nacional que são o cimento da Identidade Nacional, o hodierno nome de um Miguel Real (pseudónimo do escritor e ficcionista lisboeta Luís Martins)[1], postulando a mesma ideia ao lado de outros autores redutores da ideia de pátria e patriotismo, cuja crise de identidade com a nação onde nasceram parece recambiá-los à criação de um novo religiosismo niilista político-filodóxico, cuja fé inflamada no não divino vem a revelar numa vaidade pública, em nome de vaga e nebulosa noção “humanista” sempre e só teórica, ser apóstata desgostoso nas fímbrias íntimas o ter nascido em Portugal.

O autor citado, empático à linha positivista de Eduardo Lourenço no que toca às linhas mítico-sociais do povo português[2], afirmou-se-me publicamente “anti” Fernando Pessoa e sobretudo “anti” Agostinho da Silva, decerto por esses não encaixarem em pensamento e no exercício na fórmula laica de militantismo socialista avant-garde, teorizado “humanista”, fatalmente ausente de duração, solução e espiritualidade, e separa a História Nacional em vários ciclos atribuindo à Nação, representada pelos personagens mais marcantes desses mesmos ciclos, uma série de defeitos propagados e assimilados colectivamente, cuja resultante é a (omni)presente e fatal desmoralização de Portugal.

Tais defeitos originados (complexos ou nidanas) pelo artificialismo dialéctico modernista, vêm primar pela ausência de entendimento das virtudes originais (descomplexos ou skandhas) que assistiram à fundação e desenvolvimento desses mesmos ciclos históricos, feitores do País e da sua Identidade, onde só muito recentemente o materialismo dialéctico assume pretensões de sobrepujar a dialéctica do Espírito.

Não será boa profilaxia pedagógica ostracizar os inúmeros personagens do século XX português que pensaram e autoraram com provas sobejas o peculiar da identidade ibérica e, sobretudo, portuguesa, contrariando plenamente os arremessos inglórios de alguns, poucos fiteiros da inglória portuguesa sem identidade própria, sem missão nem transcendência, reduzida ao tamanho do aro dos umbigos desses propagadores, que mesmo falando português escusam o pressuposto provado do singular do Pensamento e Filosofia Portuguesa. Pelo contrário, têm-se os nomes incontornáveis de F. da Cunha Leão[3], cuja análise psicossocial é tese redundando na prova de haver Identidade singular no Ibero e, particularmente, no Português; ainda mais próximo, o incontornável Josué Pinharanda Gomes, incansável organizador do vastíssimo sistema do Pensamento e Filosofia Portuguesa que já reuniu em vários volumes de raro brilhantismo, sendo o primeiro datado de 1967 [4]. Isto sem esquecer Sampaio Bruno, António Sérgio, Teixeira de Pascoais, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Leonardo Coimbra, António Quadros, António Telmo, Dalila Pereira da Costa e inclusive Manuel Gandra, dentre muitos outros que, com sobejas provas dadas ao país e ao mundo, reiteram a intemporalidade na temporalidade da Formula Mentis Lusitanea.

Falar da Fórmula Mental Lusitana não é despropósito, sobretudo na agitação psicossocial deste tempo intercíclico em que “nada é certo e tudo é bruma de incerteza”, por germinação de valores novos em conflito com os velhos germinados, como é próprio na gestação e parto de uma nova Idade, de uma nova condição de civilização na qual o “português é tudo ou o seu nada”, isto é, tudo por ter identidade própria no seu espaço próprio, que é a nação, e nada por ser abstractamente dentro do tudo, seu anverso, a síntese, que é sempre a ausência da multiplicidade. Por isso e dando-lhe por assento o mito (raiz grega do termo mistério), Fernando Pessoa parabolizava que “o mito é o nada que é tudo”, este para a Pátria Mítica e aquele para a Pátria Geográfica. Ambos os axiomas se encontram, completam mas são nada para os intellectus limitados, sendo tudo para os de cognoscio ilimitado. Estes são livres e racionais, amam a Pátria e o Homem porque os sentem e compreendem na mais ampla universalidade; aqueles são escravos da sua própria irracionalidade, auto-amesquinhados na inferioridade do seu ser, da Pátria e do Homem tudo de bom para eles querendo, mas à Pátria e ao Homem nada de bom dando.

I

Para entender a Formula Mentis Lusitanea ou o seu Arquétipo Primordial, primeiro tem que se situar a posição geográfica da Península Ibérica e do seu nativo, o Hommo Ibericus, base antropológica dos demais povos que aqui habitaram até chegar ao Português actual, consequência de caldeações e mais caldeações raciais ao longo dos Ciclos em que se reparte a Vida Universal.

O carácter peninsular limitado pelo Oceano Atlântico a Oeste e pelo maciço natural das montanhas dos Pirinéus a Leste, criou-lhe isolamento geográfico relativo à restante Europa continental, algumas vezes contribuindo para originar uma relativa separação entre a evolução da Península Ibérica e a do restante continente. Porém, a sua localização geográfica constitui a ponte que une a Europa ao Norte da África, formando uma conexão entre os continentes africano e europeu. Outro condicionador foi a dupla influência do mar, com a ligação tanto ao Oceano Atlântico como ao Mar Mediterrâneo. No interior, a acção dos rios, mais caudalosos que actualmente, produziu planícies fluviais propiciadoras de ambiente favorável ao Homem, extinta a actividade vulcânica que antecedeu as quatro Eras Glaciais e Inter-glaciais.

O clima deixou de mudar à medida que essas Eras se desenrolavam alternadamente, e de modo geral pode dizer-se que na Meseta Ibérica havia um clima mais extremo e chuvoso que agora. A costa cantábrica era muito mais fria e húmida, e a Andaluzia gozava de um clima mais frio que o do Sul da França. No último período Inter-glacial, este ficaria como o clima da costa cantábrica, enquanto a Andaluzia ficou muito ensolarada e a região Levantina teve um clima semi-árido.

Tendo em conta que a maior actividade dos habitantes primitivos da Ibéria consistia na caça (Paleolítico), e só muitíssimo depois apareceria a agricultura (Neolítico), convém mencionar as transformações que a fauna ibérica teve com as mudanças climáticas. Nos Períodos Glaciais, os animais característicos foram o mamute, o rinoceronte peludo e a rena, espécies vindas do Centro e Norte da Europa que procuravam o clima relativamente ameno da Península. Durante os períodos Inter-glaciais, o elefante meridional, o elefante antigo e o rinoceronte de Merk foram os animais mais comuns. Indiferentes a todas as mudanças climáticas, também havia outros animais como ursos, lobos, cavalos, bisontes, javalis e cabras, sendo farta a fauna fluvial dos rios e lagos.

Todos esses fenómenos geraram uma variedade cultural de vida e mentalidades, o que explica a diversidade permanente do território peninsular, algo assim como um “micro-continente” dentro da Europa, a Sudoeste da mesma formando quase um “trapézio” cujo elo de ligação com o restante continente é o istmo pirenaico, no resto rodeado a Norte, Oeste e Sul pelo Oceano Atlântico, com a restante costa Sul e Leste pelo Mar Mediterrâneo (o Mare Nostrum de Estrabão, celebrado por Fernando Pessoa associando-o ao Mercúrio Hermético), sendo o ponto mais ocidental o Cabo da Roca, em Sintra, Distrito de Lisboa, e o mais oriental o Cabo de Creus, no Alto Ampurdán, na Catalunha.

Ao longo dos tempos a Península Ibérica foi chamada com vários nomes, enquanto era governada por povos distintos. Dentre eles, destacam-se os de Ibéria e Hispânia. Ibéria foi o nome que os gregos deram à Península, muito possivelmente por só conhecerem a parte em torno do Rio Íber ou Ebro[5]. Já Hispânia – topónimo associado ao filólogo Hespérides – foi lhe imposto durante a ocupação Romana. Os árabes chamaram-lhe Al-Andalus, separando a Península em Ocidental (Gharb) e Oriental (Chark), enquanto os judeus batizaram-na Sefarad, onde se localizariam os sefarditas. A região, depois do período histórico denominado Reconquista cristã, foi se transformando com a expulsão ou conversão dos árabes, até que Portugal surge como Estado em 1139, confirmado pelo Papa Alexandre III pela emissão da bula Manifestis Probatum. Só 353 anos depois, com o casamento em 1492 de D. Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, e com a reconquista de Granada nesse mesmo ano, o último reino ou emirado árabe (nazarí) na Península Ibérica, é que a Espanha surge como nação tendo transformado em províncias, mais ou menos autóctones, os seus vários reinos, alguns com línguas distintas (sendo exemplos o galego, o basco e o catalão), todos com distintas culturas.

O Ibero é efectivamente o Homem ante-diluviano, Atlante, o povoador original donde o Íber ou Ebro herda o nome. Portanto, estará nisso o motivo dos antigos gregos assim apelidarem o autóctone peninsular, posto o radical brah tanto significar “primeiro” como “primogénito”, e daí, consequentemente, os helénicos associaram-no à condição primaz afim aos predicados naturais da Primeira Hipóstase Primordial, depois retomada pelos cristãos figurando-a no antropomórfico Pai da Criação.

O que se sabe de fonte segura, mercê dos estudos arqueológicos e antropológicos que os historiadores vieram registando, é que a presença humana na Península Ibérica recua a cerca de 1 milhão e 500 mil anos, portanto, inserida no Período Quaternário, mesmo assim havendo fortes indícios de humanidade ibérica para lá daquele, nos finais do Período Terciário, pomo de confusão para muitos investigadores quanto à datação exacta do aparecimento do Homem nesta parte do Mundo e em todo ele.

De maneira simplificada, tem-se:

Das principais tribos ibéricas, destacam-se as dos Bastetanos e dos Turdetanos, ambas instaladas no Sul da Península, com a primeira disseminando-se no sentido NE e a segunda na direcção SO, indo resultar em outros tantos e distintos ramos e famílias. A partir dessas duas principais etnias ibéricas, desenvolveu-se o povoamento pelas várias e derivadas culturas humanas, em vagas progressivas e cíclicas, da Península até chegar na etnia Lusitana.

Estão os Lusitanos como a etnia proto-histórica mais destacada dentre todas que povoaram a Península Ibérica, principalmente por terem sido os principais intervenientes na desromanização peninsular, o embrião do “vir-a-ser”, ou seja, da formação geopolítica do futuro condado e depois país. A sua raiz idiomática ficou no falar luso-galaico, perdurando até ao final da Idade Média, donde ser a origem (aparte os latinismos, gregos e fenícios, depois também árabes) da actual língua portuguesa, enquanto a língua ibero-românica (aparte os latinismos e sobretudo germanismos trazidos para aqui do Norte da Europa pelos povos invasores) viria a ser a base filológica da actual língua castelhana. Por sua pureza e amplidão, o luso-galaico teve méritos de passar à escrita e ao falar erudito palaciano e eclesial, muito por via dos trovadores e jograis, enquanto o ibero-românico germanizado ficaria como expressão idiomática subalterna, cuja condição de língua oficial espanhola só aconteceria no meado no século XV, graças aos esforços dos reis católicos, Fernando e Isabel, dando o mote para que o seu novo país falasse uma linguagem uniforme.

Para se ficar com uma ideia clara do geral da evolução etnográfica peninsular até ao surgimento do Condado Portucalense e sua expansão, tem-se:

O Lusitano, autóctone original nómada por vocação e sedentário por necessidade, criou uma estrutura social sólida, com leis, regras, hierarquia e religião próprias, graças aos seus Reis Pastores, núcleo central da orgânica lusitana, que tomaram o nome genérico de Viriatos, e não só o Viriato que o historiador grego Diodoro da Sicília (século I a. C.) dá notícia em primeira mão num dos 40 volumes da sua História Universal, pois que já Sílio Itálico (século I d. C.) no seu poema épico, Púnica, menciona um Viriato ainda mais antigo contemporâneo de Aníbal, chamado primo Viriathus in aeuo, líder dos Gallaeci e dos Lusitanos[6]. O Viriato histórico seria o que recebeu o título de regnator Hiberae magnanimus terrae, “o mais magnânimo dos reis da terra Ibérica”, tendo o Senado de Roma chegado a pactuar com ele e quase o reconhecendo soberano de nação independente, se não fosse a traição de três dos companheiros do caudilho que o assassinaram, num pacto secreto com o governador romano da Lusitânia.

Mesmo que a superior disciplina das legiões do Lácio tenha prevalecido com a morte do último Viriato, nunca os romanos contaram com a submissão dos lusitanos, e 40.000 homens em guarda permanente nunca chegaram para suster a ânsia de liberdade dos autóctones, que vencidos nas armas acabaram aglutinando pela cultura os opressores, vencendo-os pela razão.

A condição de Viriato como rei soberano, a despeito das traições sucessivas que lhe foram cometidas, era reconhecida pelos próprios generais e cônsules romanos, ora o reconhecendo Dux do exército lusitano, ora lhe chamando Adsertor, protector da Hispânia, ou mesmo Imperator, provavelmente da confederação das tribos lusitanas e celtiberas, segundo Tito Lívio no seu Flori Epitome.

A teoria de Viriato, ou a linhagem dos Viriatos, não passar de simples pastor ou pastores dos Montes Hermínios (Serra da Estrela), é imprecisa nos dados vácuos propalados desde a segunda década do século XX [7]. Se bem que pastor remeta ao sinónimo de nomadismo, condição natural do lusitano, posso aceitar isso mas em conformidade ao definido por Maurice Pastor Muñoz, de que “Viriato seria um aristocrata proprietário de cabeças de gado”[8]. Para os romanos, os seus antepassados mais ilustres haviam sido pastores, tendo Viriato chegado a ser comparado àquele que fora o pastor mais ilustre que se tornaria no primeiro rei fundador de Roma, Rómulo. A ideologia do Rei Pastor, o Pastor feito Rei, está presente em toda a cultura mediterrânea e oriental, além da romana e grega. A metáfora do Rei Pastor do Homero era aplicada frequentemente para dar ênfase às funções e deveres de um rei, chegando Diodoro da Sicília a afirmar que “Viriato demonstrou ser um príncipe”.

Conforme informa o Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology[9], atestando a origem indo-europeia dos lusitanos por via dos ligures, eles encomiavam os seus soberanos Viriatos com os títulos honoríficos de Benfeitor (gr., Evergete) e de Salvador (gr., Soter), exactamente os mesmos dados no Egipto aos reis da dinastia ptolemaica. Viriato seria Benfeitor por seu senso de boa e universal justiça (moral), e Salvador da opressão tenaz do ocupante romano (acção); para os lusitanos seria, pois, um Rei de Justiça Universal, o próprio modelo primitivo do Guerreiro Perfeito (Kshatriya, Bellator).

A etimologia do nome Viriato derivará da raiz indo-europeia uirus, “homem”, relacionada com a força e a virilidade, que em celta se pronunciava uiro, da raiz viro e que deu no latim viri, “homem de nobreza, herói”. A elite celtibérica denominava de uiros ueramos “o homem mais alto” (nobre), cujo equivalente em latim seria summus vir. Assim, Viriato será sinónimo de “pessoa de nobreza, de cargo elevado”, portanto, um chefe distinto.

Chegado a este ponto, tem-se assente que Viriato designará não só o caudilho dos Montes Hermínios, tornado famoso pelos clássicos, mas também o colectivo da linhagem patriarcal dos Reis-Pastores da Lusitânia, iniciada com o primeiro Viriato e findada com o luso-romano Sertório. Estas palavras encontram reforço naquelas outras inseridas na obra de Adriano Vasco Rodrigues[10]:

“Houveram vários Viriathos. O nome parece ter sido vulgar na Lusitânia, como se infere de inscrições e textos clássicos. Viriatus pode aparecer em latim como adjectivo, referindo-se aos feitos valorosos praticados por um chefe; ou como transcrição fonética, mal apercebida pelos romanos, referindo um nome próprio indígena transcrito para latim. Em algumas edições críticas aparece grafado Viriathus, para o distinguir do adjectivo latino.

“Este nome seria de origem indo-europeia, derivado de uma palavra de raiz céltica, viriae, com o significado de bracelete.”

Anselmo Arenas Lopez, na sua biografia de Viriatho[11], regista de vários autores clássicos diferentes transcrições do nome do chefe lusitano: Borianzos (em J. Antiocheno), Barianzos (em Diodoro), Biriatzos e Buriatzos (em Suidas), Ouriatho (em Estrabão), Uriatho (em Appiano), Viriathus (nos Latinos).

O nome viria, “bracelete”, junto ao uirus, “homem”, deu o moderno viriato ou “homem do bracelete”, isto é, a arma defensiva que os guerreiros lusitanos usavam à semelhança dos celtas. É muito natural que essa viria fosse um símbolo de chefia no braço de um chefe aclamado pela unanimidade das tribos lusitanos e celtiberas. O que interessa é a referência intencional que o nome contém, ligada à pessoa principal que dirigiu a guerra ao opressor comum no referido período. De um outro caudilho, também chamado Viriato, fala Tito Lívio, dizendo-o chefe dos lusitanos que passaram os Pirinéus. Morreu gloriosamente na batalha de Cannas, em 216 a. C., tendo sido cantado pelo poeta Caio Silio Itálico, em Punicorum.

São três as principais fontes clássicas que servem a biografia de Viriato: Appiano, Diodoro de Sicília e Dion Cassio. Estes autores baseiam-se em Políbio, cujo relato das guerras lusitanas se perdeu. Appiano parece ter lido directamente Políbio. Diodoro buscou informações em Possidónio, assemelhando-se, por vezes, a Appiano. Dion Cassio serviu-se de outra obra literária mas procurou dados na mesma fonte[12].

Iconograficamente, a tradicional estátua do guerreiro lusitano erecto com uma redondela defensiva do seu peito (geralmente sem a falcata ou espada tradicional, o que simbolicamente é muito significativo), que se aprende nos manuais e carteiras de História Clássica como sendo a figura convencional do soldado da Lusitânia, ou até mesmo Viriato, pode muito bem ser a figuração simbólica do deus Bellus ou Endobellus, donde Endovélico, no qual a redondela aludirá ao círculo do Sol, ideia reforçada pelo símbolo solar da swástika que aparece gravada nas costas dessas mesmas estátuas, como se vê naquelas expostas no Museu Arqueológico Martins Sarmento, em Guimarães. Mesmo aparentando expressão marcial, pouco importa por se justificar pela natureza intrépida, guerreira, do lusitano montanhês, como afinal era todo o povo pastor.

Mercê do caudal bibliográfico e amplexo luso-ibérico sistematizado, ainda assim não tendo resposta para tanto e inédito na clareza dos factos, certamente a teimosia `socialiste´ de alguns pensadores do pensamento alheio, assim não sendo filósofos de saber mas filodoxos de opinião, insistirá no batido “mito salazarista” de Viriato (como se Salazar tivesse inventado a pessoa de Viriato… ele tão-só a aproveitou para a sua “ditadura romana”, para o seu nacionalismo centrípeto, nisto o caso mudando completamente de feição), indo insistir no complexo modernista de algo sem sentido mas que se dá amplexo entre pares partilhando igual complexo de inibição redutora do sentido de Portugal e Portugalidade, sobretudo partilhando a especulação naïfe da avant-garde intelectual, num caldeio intragável de História, Política e Humanismo restritos ao parcialismo pessoal, acerca da realmente desapreendida em consciência, logo, totalmente ignota, Tradição, Iniciação e Espírito, cuja horizontalidade mental os inibe de entender minimamente a mesma mente em vertical, onde assenta essa tripeça da Formula Mentis Lusitanea.

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): LIBERDADE e FIRMEZA.

DEFEITO originado (COMPLEXO): LIBERTÁRIO e VACILAÇÃO.

II

Lusitânia (em latim, Luxcitania, “Lugar de Luz”) foi o nome atribuído pelos autores clássicos da Antiguidade ao território centro-oeste da Península Ibérica onde viviam os povos lusitanos, que começaram a formar-se na fase final do Neolítico e tiveram o apogeu na Idade do Ferro. Após a conquista romana da Península Ibérica, passou a designar a Lusitânia romana cuja capital era Emerita Augusta, actual Mérida. A Lusitânia incluía aproximadamente todo o território português actual a sul do Rio Douro, a Estremadura espanhola e parte da província de Salamanca. Como disse, inicialmente fazia parte da província romana da Hispania Ulterior, tornando-se depois uma província autónoma, desde 29 a. C. até ao do vínculo com Roma e entrega aos alanos em 411 d. C. Considerada a origem ancestral de Portugal, na Lusitânia pré-romana pontuou Viriato que veio a estar na base do movimento lusitanista ou o lusitanismo, aproveitado no meado do século XX para exclusivos fins político-nacionalistas, sobretudo pelo Estado Novo, logo, despontuado no entendimento cultural do pré-princípio de Unidade Nacional como “pedra angular” da História Portuguesa, seja Sagrada ou não.

Foram os romanos quem mais propagou o sentido de “Lugar da Luz” (Luxcitania) dado a esta parte da Península, e por duas razões distintas apesar de interligadas: por aqui terem havido os maiores filões auríferos da Europa (Serra de Arga, Vale do Tejo, Cacilhas, Marateca, Rio Sado, etc.) que exploraram, por uma parte; por outra, porque desde o Paleolítico Inferior se reconhece (primeiro instintivamente, depois intuitivamente e por fim racionalmente, acompanhando o desenvolvimento da mente humana) que na Península Ibérica se encrava o (único) Pólo ou Centro Vital da Europa, dentre os sete que animam o Globo Terrestre. Foi localizado em Sintra, destarte consignada Serra Sagrada ou Monte Santo desde o alvor da Humanidade.

Com os romanos firmou-se o culto do Genius Loci, o “Espírito do Lugar”, que vem a ser o aglomerador das forças vitais da Alma Sinergética ibérica – espécie de Egrégora ou “Forma-Pensamento” colectiva – que desde Cyntia ou Sintra vem dando especiais foros sagrados, mesmo divinos, à Península, fazendo-a um todo especial aparte. A potência da Alma Sinergética centrada nessa Serra peculiar faz dela um dos Pólos, Quths, Chakras, Plexos ou Centros Vitais do Mundo, precisamente o Quinto ligado à Fala, ao Verbo, à expressão criadora do Espírito Santo, prenúncio de uma Nova Idade que, auguriam vates e sibilas, predizem profetas e iluminados desde sempre, haverá um dia de nascer nesta Península ocidental da Europa. Socorrendo-me da Tradição Iniciática das Idades, assumida Teurgia ou Obra do Eterno na Face da Terra, o planeta possui sete centros de força psicomental exteriorizados como plexos nevro-sanguíneos, dando a vitalidade e o movimento, animando a tudo e a todos, a começar pelo Homem. Ora, o Centro Laríngeo do Globo situa-se em Portugal, a alguns quilómetros de profundidade na perpendicular da zona logo a Norte do Rio Tejo, abrangendo a Serra de Sintra e Lisboa. Tem sido este Centro irradiante que ao longo dos milénios feitos de séculos tipificou toda a vida do nosso país e, por que não dizê-lo, de todo o continente europeu. Foi a sua vibração radiante que atraiu os povos da Antiguidade para este lugar e permitiu o aparecimento de várias gerações de grandes homens que, com os seus feitos, foram os responsáveis pela afirmação de Portugal no Mundo. Nesse verdadeiro movimento civilizacional, em direcção ao quinto continente americano, propriamente a América do Sul, os portugueses sob o pendão sintriano têm sido os motores psicossociais com que se caldeia o futuro do planeta e se firmam as raízes do futuro Pólo Espiritual da Terra, o Brasil, este que Pedro de Mariz, no século XVII, nos seus Diálogos de Vária História, afirmava ser a “Nova Lusitânia”.

O conhecimento profundo dessa realidade foi propagado pelos clássicos da Antiguidade, mas de forma simbólica e parabólica, ou seja, por via da mitologia greco-romana, cujos deuses e heróis ficaram encarregues dos maiores encómios necessários à perpetuação do sentido sagrado e divino da Lusitânia. Diz, por exemplo, Varrão, citando a Naturalis História de Plínio, o Velho: Usum enim liberi patris aut lyssam cum eo bachantium nomen dedisse lusitaniae et pana praefectum eius universae. “A Lusitânia toma o nome de Luso associado a Baco e a Lyssa das bacantes, e Pã é o seu governador”.

Ou seja, Luso é filho de Baco ou Dionísios, este associado astralmente a Mercúrio e aquele ao “Filho da Luz” deste, sendo as bacantes as sacerdotisas de Baco cuja chefe, Lyssa, era a sua mulher. Dos dois nasceu Luso. Lyssa ou Lys, “água”, neste caso, lustral, vem a ser a expressão astral de Vénus, enquanto Pã expressa Saturno e à própria Natureza em manifestação. De maneira que Luso nasce “androginamente” da Água de Vénus e do Vinho de Mercúrio, indicativos da natureza dúplice da Religião dos Mistérios, ficando a “água” (catequese) para os simples (Filhos de Mulher) e o “vinho” (gnose) para os eruditos (Filhos de Homem). Esses deuses greco-romanos inventados, ou melhor, simbólicos (pois que o símbolo é tudo para quem sabe lê-lo, e nada para quem desconhece o seu sentido último), seriam posteriormente retomados na glosa de vários autores portugueses do Maneirismo e da Renascença (Camões nos Lusíadas ou Fernão Álvares do Oriente na Lusitânia Transformada, por exemplo), na mesma senda e objectivo dos escritores pré e clássicos.

O mesmo encontra-se no Auto da Lusitânia, uma das últimas peças de Gil Vicente (1465-1536), escrito em 1531 e representado pela primeira vez em 1532, perante a corte de D. João III quando nasceu o seu filho, D. Manuel. A peça trata das bodas de Lusitânia e Portugal (personagens mitológicos), tendo Gil Vicente misturado no enredo e nos diálogos muitos temas, personagens e cenas constituindo como que “diversões” à margem do tema central.

Lusitânia é filha de Lisibea (Lisboa) e do Sol, e por ela se apaixonou um caçador grego de nome Portugal. Quando os amores parecem desencaminhar-se, acorrem às deusas (diesas) gregas, as Plêiades, sob cuja protecção se decide então o casamento. É a alegoria antropológica da cultura grega ou helénica que Portugal assimilou durante a fase inicial histórica da Lusitânia. Este tema desenrola-se da maneira seguinte: o auto começa com vários diálogos e recitativos de pessoas comuns acerca dos assuntos de amor e outros vulgares, alguns picarescos como convém a uma farsa, até que entra em cena o Licenciado, que faz o papel de narrador e representa Gil Vicente; ele introduz o tema das bodas dizendo que “o Sol viu Lisibea nua sem nenhuma cobertura (…) e houve dela uma filha tão ornada de sua luz que lhe puseram nome Lusitânia, que foi diesa e senhora desta Província”. Passados tempos, “um famoso cavaleiro grego de nome Portugal ouviu falar da boa caça na Serra de Sintra (Serra da Solércia), e como este Portugal, todo fundado em amores, visse a formosura sobrenatural de Lusitânia, filha do Sol, de improviso se achou perdido por ela”. Dois demónios, Belzebu e Dinato, enquanto assistem ao casamento do cavaleiro com a princesa, tecem comentários espirituosos, fazem trocadilhos, sempre procurando evidenciar temas ligados à verdade, à cobiça, à vaidade, à virtude e à honra dos homens.

Lisibea nua primogénita do Sol, é tema que já entrara no romanceiro nobiliárquico de Jacques de Voragine (século XIII), criador da lenda áurea da deusa Melusina, sempre alusiva da virgindade original incorruptível pelo ordinário humano, por ser propriedade divina, neste caso, do Sol expressivo do Logos Primordial (Helion ou Surya). Desse conluio amoroso nasceu a Lusitânia, onde depois Portugal buscará a sua identidade e a encontrará, precisamente na Serra de Sintra. Enfim, maneirismos passados para dizer coisas profundas divertindo, afastando atenções do propósito ocultado…

É na Lusitânia que se acha Portugal, ou melhor, Portucale. Com efeito, houve no actual território nacional, ao longo do processo de Reconquista, o chamado Pelágio, dois Condados Portucalenses distintos: o Condado de Portucale e o Condado Portucalense. O primeiro foi fundado pelo conde vimaranense Vímara Peres, após a presúria de Portucale (Porto) no ano 868, e incorporado no Reino da Galiza em 1071, depois da morte do conde Nuno Mendes, sendo sensivelmente equivalente ao actual Entre-Douro-e-Minho. O segundo, constituído cerca de 1095 em feudo do rei Afonso VI de Leão, foi oferecido ao conde Henrique de Borgonha que o veio auxiliar na Reconquista da Península aos árabes, recebendo ainda a mão da filha do monarca, Teresa de Leão. Este Condado Henriquino era muito maior em extensão que o anterior, pois abarcava também os territórios do antigo Condado de Coimbra, suprimido em 1091, partes de Trás-os-Montes e ainda o Sul e Centro da Galiza (mormente a Diocese de Tui, dependente do Primaz de Braga). De notar que Condado é o termo genérico para designar o Território Portucalense, já que os seus chefes eram alternativamente intitulados Comite (Conde), Dux (Duque), Princeps (Príncipe), e só depois, com a independência nacional, Rex (Rei).

O nome do Condado vem do topónimo Portucale, com o qual no século IX se designava a cidade junto à foz do Rio Douro, chamada Portus Cale ou “Porto dos Callaicos” ou Galaicos (Callaeci ou Gallaeci), povo proto-histórico que será a provável origem do Galego actual e cuja principal cidade de intercâmbio marítimo seria o actual Porto, portanto, fazendo parte do primitivo território galaico-portucalense, geocultural e idiomaticamente distinto, limitado ao Norte pela terra bracarense e ao Sul pelo Rio Vouga, tendo por centro e cabeça a cidade castreja de Portucale.

Há indicações históricas atestando a positividade da existência de Portucale. As Histórias de Salustio, do século I, referem a Cales Civitas localizada na Callaecia; o Itinerário de Antonino, do século IV, fala da povoação de Cale ou Calem, enquanto Idácio de Chaves, no século V, escreveu sobre um Portucale Castrum[13]. Desse tempo sobrevive até hoje o topónimo Antas. Embora a existência da povoação na foz do Douro durante o período romano se encontre confirmada, só nos últimos anos, graças a investigações acuradas, se soube a sua localização exacta. Com efeito, o Paroquial Suévico de São Martinho de Dume refere um povoado designado como Portucale Castrum Antiquum, na margem esquerda do Douro, que já sabe ser Gaia, e outro, o Portucale Castrum Novum, na direita, que é o actual Porto[14].

Os callaici celtas teriam dado o nome de Portucale ao território inspirado naquele outro de Cailleach, “Deusa Primordial”, que os milésios importariam daqui para a Irlanda cerca do ano 1000 a. C.

Quando se deu a invasão árabe da Península Ibérica por Tarique, no século VIII, Portucale já era, desde a segunda metade do século VI, sede da Diocese Portucalense, sendo metropolita o bispo de Braga, onde se situava o Primaz da Gallaecia e de toda a Hispania desde os finais do século IV. Portanto, Igreja proto-cristã, visigótica, na qual militaram os maiores vultos do Pensamento proto-português, lançando ao terreno mental a semente do que viria a ser a Filosofia Portuguesa, como notavelmente fez, por exemplo, Paulo Orósio (c. 385 – c. 420), historiador, filósofo, teólogo, sacerdote e apologista cristão na Hispânia Romana, possivelmente natural de Bracara Augusta (Braga), então cabeça da Província da Gallaecia. Essa diocese não sobreviveu à invasão árabe, só sendo restaurada após a conquista do Porto por Vímara Peres, no ano 868.

Foi esse o território que em 1095 o conde D. Henrique recebeu de D. Afonso VI de Leão, mas dilatando-o do Porto até Coimbra – as finis Galliciae; de Borgonha (no actual Luxemburgo, nome que também significa “Lugar de Luz”, Luxburgus, homónimo de Luxcitania) trouxe consigo povo, nobres cavaleiros e religiosos da Ordem de Cluny de cujo fundador, São Hugo de Cluny, D. Henrique era sobrinho-neto. Juntos aos galegos e moçárabes viriam a ser a população original do Condado Portucalense, que só se assumiu Portucale depois da batalha de Ourique, em 1139, onde D. Afonso Henriques, após o famoso milagre cristológico que teve no campo de lide ao árabe, se assumiu rei publicamente e ao território herdado e conquistado país independente, ele que já antes, em seguida à batalha de S. Mamede, em 1128, declarara o Condado Portucalense independente dos condes galegos autonomicamente sujeitos ao rei de Leão.

Se D. Afonso Henriques teve legitimidade para, num acto inédito, se auto-coroar rei, deve reconhecer-se que sim, atendendo a que seu pai D. Henrique era sobrinho de D. Constança de Borgonha, rainha de Leão e Castela, e pertencia à Casa Ducal, sendo o herdeiro da coroa mais próximo na linha de sucessão. Como a rainha não teve filhos varões com Afonso VI de Leão e Castela, debalde D. Henrique evocou esse direito para si, e o seu filho não esqueceu e terá invocado o mesmo para se auto-coroar e assim ser o primeiro rei não só de Portucale mas também de Léon e Castilla. Donde as hostilidades abertas com D. Afonso VII cujo direito real Afonso Henriques nunca reconheceu, mais ainda quando aquele quebrou todas as promessas que seu pai Afonso VI fizera ao conde D. Henrique, mormente no respeitante à Galiza, desanexando-a do território portucalense[15].

D. Afonso Henriques terá evocado ante a Santa Sé esse direito real que consideraria ter-lhe sido usurpado, razão de Estado suficiente, a favor do queixoso, para o Papa Alexandre III emitir, em 23 de Maio de 1179, a Bula Manifestis Probatum, declarando o Condado Portucalense como Portucale país independente do Reino de Leão, e Afonso Henriques o seu rei legítimo.

A Bula reza (em português actual):

“Alexandre, Bispo, Servo dos Servos de Deus, ao Caríssimo filho em Cristo, Afonso, ilustre Rei dos Portugueses, e aos seus herdeiros, in perpetuum. Está claramente demonstrado que, como bom filho e príncipe católico, prestaste inumeráveis serviços a tua mãe, a Santa Igreja, exterminando intrepidamente em porfiados trabalhos e proezas militares os inimigos do nome cristão e propagando diligentemente a fé cristã, assim deixaste aos vindouros nome digno de memória e exemplo merecedor de imitação. Deve a Sé Apostólica amar com sincero afecto e procurar atender eficazmente, em suas justas súplicas, os que a Providência divina escolheu para governo e salvação do povo. Por isso, Nós, atendemos às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua pessoa, tomamo-la sob a protecção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste das mãos dos Sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos os vizinhos príncipes cristãos. E para que mais te fervores em devoção e serviço ao príncipe dos apóstolos São Pedro e à santa Igreja de Roma, decidimos fazer a mesma concessão a teus herdeiros e, com a ajuda de Deus, prometemos defender-lha, quanto caiba em nosso apostólico magistério.”

Bula Manifestis Probatum emitida por Alexandre III em 23.5.1179

Se a Lusitânia foi o embrião ou semente da “identidade nacional”, o Condado Portucalense a sementeira da “formação nacional”, e Portucale foi a madureza da colheita do “país formado”. Assim, para facilitar o entendimento da base estrutural do Condado e País Portucalense, com o consequente desenvolvimento psicossocial até à actualidade, tem-se a sequência seguinte:

As classes religiosa (oratore) e militar (bellator) foram quem maior desempenho tomou na formação da identidade espiritual e política do país. A primeira, assumindo a autoritas expressa pelo sacerdócio e a instrução, teve à dianteira os clunienses e depois os bernardos. A segunda, garantindo a potens incarnada na realeza e na nobreza cuidando do exercício da justiça e das armas, na defesa e ofensiva quando necessário, contou inicialmente com a Ordem Militar dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, vulgo templários, e depois com a Ordem Militar de São Bento de Avis, vulgo bentos ou avises, fundada pelo próprio D. Afonso Henriques.

Apesar de Afonso Henriques não ter sido militante da Ordem do Templo, contudo recebeu educação templária e foi grande benfeitor da mesma, ou seja, um “irmão donato”[16]. Se tivesse sido um “irmão de Regra”, com votos totais assumidos, obviamente nunca poderia ser rei, posto este cargo político desaparelhar completamente do reservado exercício monástico. Já a Ordem de Avis cuidava da defesa e manutenção tanto da Coroa quanto das fronteiras do País, contando na retaguarda com o apoio Templário.

D. Afonso I aceitou politicamente a presença da Igreja de Roma, mas rejeitou-a linearmente nas investidas políticas pretendendo o país subjugado ao poder papal, ambicioso da autoridade e do poder retidos numa só pessoa e organização. Nisto reside o sentido velado do famoso episódio talvez lendário daquele enviado papal, Guido de Vico, que amaldiçoou o Condado Portucalense por o rei deste não querer pagar tributo a Roma, e quase ter morto o bispo quando soube do seu acto goécio ou de magia negra, obrigando-o a levantar a maldição, e a seguir nomeando um bispo negro, isto é, moçárabe do rito hispânico (visigótico), para a Diocese de Coimbra[17]. Desta maneira, D. Afonso Henriques inverteu o papel universal da Igreja Ministrante de Roma sobre a Igreja Ministrada de Portugal: fez esta última Igreja Ministrante desde Coimbra, impondo-a a Roma diminuída Igreja Ministrada, evocando os Santos Apóstolos Tiago e Pedro para a sua defesa política e teológica, dando como pretexto maior o de São Pedro fundar o Ministério Romano só depois de Santiago já ter fundado o Ministério Galaico.

É do conhecimento universal a espiritualidade esclarecida de D. Afonso Henriques a par do seu equitativo senso de justiça, pautando a sua existência como real “cavaleiro-monge”, cumpridor estrito de todas as normas de Cavalaria e Religião coevas do seu tempo. Estabeleceu-se em Coimbra, onde andou de relações próximas com a Ordem Terceira dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, da Regra de Santo Agostinho, onde foi recebido a 14 de Setembro de 1136. A cerimónia teve lugar na Casa do Capítulo, perante 72 cónegos, tendo pregado D. João Peculiar, comparando o novo irmão ao imperador bizantino Heráclio, no século VI, o qual, revestido com hábitos sacerdotais, transportou o Santo Lenho até Jerusalém em procissão. Com isso, associou a real pessoa de D. Afonso I ao próprio Melkitsedek, o Rei do Mundo e Sumo Pontífice do Altíssimo, neste caso, legítimo imperador de toda a Hispânia a quem Cristo aparecido em Ourique sagrou e à sua terra portuguesa. Também se sabe do seu entendimento aprofundado das leis de Cavalaria e Teologia, nisto tendo fundado, com o posterior reconhecimento papal, tanto a Ordem de São Bento de Avis quanto a de São Miguel da Ala, e, diz-se em sussurro, igualmente fundado uma misteriosa Ordem de Mariz, com os mais esclarecidos e iluminados das três religiões do Livro, assumindo o sacerdócio do Eterno.

Falecido em 1185, o primeiro túmulo de D. Afonso Henriques terá sido colocado no nartex da igreja de Santa Cruz de Coimbra, e logo todas as classes sociais do país começaram as romarias aos seus despojos mortais aclamando-o unanimemente rei santo, a quem foram atribuídos inúmeros milagres que ficaram registados nas crónicas dos cistercienses de Alcobaça. Posteriormente, o rei D. Duarte mandou ornar o túmulo do seu antepassado com um riquíssimo dossel de seda e ouro[18], e o rei D. Manuel I encetou junto da Santa Sé a rogativa de elevação de D. Afonso Henriques aos altares da santidade (só se o vê com auréola de santo sobre o altar-mor da igreja dos agostinhos da Senhora da Graça, em Lisboa), processo que decorre até hoje[19].

Ao ciclo afonsino poderão imputar-se as seguintes virtudes originais, que são amplexos, e os modernos defeitos originados, que são complexos:

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): INDEPENDÊNCIA e FORTALEZA.

DEFEITO originado (COMPLEXO): DEPENDÊNCIA e FRAQUEZA.

III

Saltando no tempo e espaço historiográficos, chega-se ao momento mais importante da afirmação (não da formação, que essa já estava feita) da Identidade Nacional no Mundo: o período das Descobertas Marítimas, ou seja, o da Gesta Dei per Portucalenses.

O projecto de expansão de Portugal no Mundo não se deveu só a exclusivos propósitos de comercialização ou de evangelização das terras e povos aonde chegou e acabou impondo-se a soberania portuguesa. Creio que isto é óbvio, mesmo com os factores geopolíticos, militares e socioeconómicos, como igualmente os religiosos, serem imprescindivelmente partes vitais da Diáspora da Língua e consequente formação do Império Português nas várias partes do Globo. Esse projecto civilizacional inter-continentes iniciado com a Ordem do Templo e formalizado pela Ordem de Cristo herdeira prosseguidora dessa, implicava o exercício simultâneo, interligado mas todavia distinto, dos dois Poderes Espiritual e Temporal da forma seguinte:

Império Português no Mundo

Autoridade Espiritual
(Autoritas)

– Presença missionária dos oratores ao início exclusivamente franciscanos, ao serviço da bellator Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo.

– Fundação de dioceses criando redes paroquias, viabilizando a acção pastoral.

– Manutenção das boas relações religiosas com a espiritualidade própria dos povos dos países onde chegassem, exercendo a actividade pastoral tendo sempre presente, para evitar conflitos de crença e catequese com os autóctones, os dois princípios seguintes:

– Concórdia e respeito mútuos.

– Difusão do espírito fraternal.

– Reconhecimento, independente da forma e nome dados, ou seja, da substância teológica, da essência de um Deus Único: fundamento da Diáspora Espiritual.

Poder Temporal
(Potens)

– Presença contratada de mestres de ofício e serventes, mão-de-obra especializada, ao serviço da Ordem de Cristo.

– Presença emigratória, destinada a povoamento e (ou) miscigenação, de jornaleiros (trabalhadores à jorna), assoldadados rurais que, não tendo antes património próprio, tinham a oportunidade de lavrar terra sua e apascentar gado seu.

– Contingência militar que deveria ser simultaneamente política e diplomática:

– Defesa do seu património.

– Respeito ao património alheio.

– Intercâmbio comercial e sobrevalorização da economia: fundamento da Diáspora Temporal.

Essas são as linhas gerais do processo simultâneo da diáspora civilizacional e da conquista espiritual do Mundo, ou seja, mais uma vez, a Gesta Dei per Portucalenses[20].

A partir dessas linhas gerais podem desenvolver-se outras múltiplas, inclusive as que levaram a usos e abusos colonialistas, mesmo xenófobos por alguns, esses que foram excepções mínimas ante o máximo da regra geral de concórdia e respeito de Portugal para com os outros povos. Decerto por isso ainda hoje o procuram como conselheiro e apoio político e sócio-cultural, o que não acontece com as demais antigas potências colonialistas europeias pelos colonizados por elas. Deve atender-se ao seguinte: os colonos portugueses não levaram colonização às partes do mundo aonde foram: levaram civilização, acrescendo-a às civilizações autóctones, e assim aumentaram e fizeram progredir a civilização humana. Entre colonização e civilização há diferença abissal, que é tudo.

A tentativa espúria de alguns historiografistas e filodoxistas contemporâneos, repletos de óbvias e assumidas tendências político-partidárias, assim querendo dar partido e personalizar para si factos históricos, desconhecendo o que pensavam quem os projectou e efectivou, peca e falha redondamente nisso mesmo: o tendenciosismo pessoal pretendendo limitar factos históricos às políticas particulares de quem os observa, as mesmas desenquadradas das épocas em que aqueles aconteceram e dos momentos que alguns, por seu impacto, foram verdadeiramente universais, por a sua política e religião estarem envolvidas num processo inter-continentes, e para que houvesse vitória nesse processo, obrigatoriamente teria de haver ecumenismo, sentido prático verdadeiramente universal. Se assim não tivesse sido, como seria possível que um pequeno país como era Portugal em Quatrocentos, com cerca de meio milhão de habitantes activos, poderia ter se conseguido se impor no Mundo?

Donde se subtrai o original e o originado das virtudes e defeitos:

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): EXPANSÃO e TOLERÂNCIA.

DEFEITO originado (COMPLEXO): CONTRACÇÃO e INTOLERÂNCIA.

IV

Quando o País entorpece nas suas forças vitais e a força centrípeta começa a prevalecer sobre a centrífuga, o que foi perceptível no reinado de D. João III e palpável no de D. Sebastião, cuja conse-quência seria a perda da independência nacional, com isto o Providencialismo messiânico ampliou-se de tal forma que o Sebastianismo vermelho, modo encapotado de fazer política contra a Espanha ocupante, foi ocupação permanente dos autores e intelectuais portugueses, com destaque para o padre António Vieira. Recuperada a independência nacional tendo finalmente aparecido o “rei desejado” após “os 60 anos fatais”, ou seja, o duque de Bragança eleito rei D. João IV, fez-se o Sebastianismo branco, esclarecido, teosófico, simbólico não de um rex temporalis mas de um rex spirituallis, o Rex Animas Piscatoris, como o entendiam os sefarditas ibéricos ao lado dos bernardos e bentos, como igualmente os eruditos mais reputados, cuja prosa brilhante valeu para muitos a subida ao prelo e edição.

Com efeito, a D. João IV o povo recém-liberto aclamou “D. Sebastião reaparecido”, isto por o Sebastianismo ter se constituído a religião nacional durante o jugo Filipino. “D. Sebastião reaparecido” devolvendo ao reino a sua independência junta com a promessa de restauração do império. Ele era o messias nacional que durante os longos e tenebrosos 60 anos de ocupação o povo reclamara. Assim se iniciou o Sebastianismo nacionalista, não raro com repúdio do Sebastianismo espiritualista. O que importava e só era o rei desejado, e esse rei era D. João IV, encoberto então descoberto às esperanças de Portugal todo… Isso viria a acontecer também com outros, em momentos de crise nacional, como D. Pedro II, D. João V, D. José I, D. Carlos I, D. Manuel II e até o presidente republicano Sidónio Pais, todos eles retratados como “D. Sebastião” salvador da pátria nos períodos de maior perigo para a sua identidade e independência.

Mas o Messianismo, com origem judaica, já existia em Portugal desde muitos séculos antes do nascimento de D. Sebastião, alimentando a crença esperançosa no regresso do Rei Desejado de Israel, que cedo se tornaria a de o Messias nacional, patriótico. Essa crença veio a ser fixada na pessoa de algum predestinado da Casa de Bragança. Com efeito, no século XVII, Manuel Bocarro Francês, português de ascendência judaica, também chamado Jacob Rosales (Lisboa, 1588 ou 1593 – Florença, 1668), matemático, médico, alquimista e astrónomo, anunciou o “regresso do rei salvador” baseado em sinais celestes, isto é, fazendo recurso à astrologia, como consta nas suas Anacefaloses da Monarquia Lusitana (Lisboa, 1624). Bocarro não era um sebastianista “ortodoxo”, posto não acreditar na vinda do próprio D. Sebastião, mas num seu continuador em alguém com o sangue da sua raça, da sua linhagem[21].

Como disse, Bocarro publicou em 1624, em Lisboa, um longo poema em 131 oitavas, intitulado Anacefaleoses da Monarquia Lusitana, que dedicou a Filipe III de Portugal[22]. Mas o carácter sebastianista da obra tornou o autor suspeito aos olhos de Espanha, que então dominava em Portugal; dividida em quatro partes ou estados, cantava no Estado Astrológico esperanças de glória e de império universal. A obra publicada acabou por ser apreendida, juntamente com o manuscrito da Anacefaleose IV, dedicada a D. Teodósio, duque de Bragança, pai do futuro D. João IV. Bocarro via em D. Teodósio o Encoberto:

“…………………………………………..

Obrigação te nasce de amparares
Sereníssimo Duque, o Império Triste

…………………………………………….

Eu o uy, Luzitanos, não me engano
Já temos ao Monarcha descoberto
Alviçaras me dai do soberano.”

Apreendida a obra, Manuel Bocarro foi preso mas libertado pouco tempo depois. Retirou-se para Itália, onde fez publicar a Anacefaleose IV, com o título de Luz Pequena Lunar e estelifera da Monarquia Lusitana. Aí explica os prognósticos feitos anteriormente, e garante a vinda do Príncipe Encoberto em menos de um século após o nascimento de D. Sebastião (Paço da Ribeira de Lisboa, 20 de Janeiro de 1554), portanto, até 1654.

Com a Restauração, em 1 de Dezembro de 1640, procurou-se confirmar toda a série de prognósticos feitos anteriormente. As Trovas do Bandarra, outrora proibidas, passaram a ser o texto anunciador da libertação nacional. A figura do Bandarra passou a estar exposta, como se de um santo se tratasse. Já em 1641, D. Álvaro de Abranches, governador da Beira, mandara levantar na igreja de S. Pedro da vila de Trancoso novo sepulcro para Gonçalo Anes de Bandarra, dando-lhe honra póstuma.

A edição de Nantes das Trovas (1644), feita por D. João de Castro, da família dos Castros de Sintra e neto do vice-rei da Índia do mesmo nome, constitui uma interpretação bragantina do messianismo sebastianista. Nela se pretende identificar o Encoberto com D. João IV, como se conclui do seu comentário introdutório: “Conclui-se logo com toda a certeza, e moral evidencia, que El Rei D. João O IV., nosso Senhor he o esperado, e tão desejado Rei Encuberto, de quem Santo Isidoro fallou na era de 636, escrevendo muitas couzas futuras de Hespanha, e Bandarra tantas vezes repitiu”.

Mas será o padre António Vieira (Lisboa, 6 de Fevereiro de 1608 – São Salvador da Bahia, 18 de Julho de 1697), orbitando entre o Sebastianismo espiritual e o Sebastianismo político, acaso ou decerto sabedor do sentido último ou primaz da doutrina do Messianismo recambiando-a para a Parúsia, quem teve maior e mais destacado papel nesse contexto após a Restauração. Depois da morte de D. João IV em 1656, o p.e António Vieira afirmou, num sermão pregado em São Luís do Maranhão, Brasil, que D. João IV teria de ressuscitar para operar prodígios, e nisso se apoiou na autoridade profética do sapateiro Bandarra. Era uma ideia que já demonstrara num sermão em vida do rei, a qual posteriormente ficou documentada no escrito intitulado Esperanças de Portugal, Quinto imperio do mundo, primeira e segunda vida de el rei D. João o quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo padre António Vieira[23]. Falou, portanto, na “segunda vida” de D. João IV e citou como autoridade principal o Bandarra.

O citado escrito do p.e António Vieira (integrando um pequeno escol de jesuítas iluminados pelo saber esotérico rabínico, ao mesmo tempo imbuído de forte pendor nacional ou patriótico, deixando em plano secundário o secular da regula ordinária da Companhia), valeu-lhe um processo movido pelo Tribunal do Santo Ofício, que em 1 de Outubro de 1665 prendeu-o nos cárceres de Coimbra, desapiedado da sua saúde frágil. Levando à letra o imediato desse texto, foi acusado de anunciar a ressurreição de D. João IV, apoiado no Bandarra, e de augurar para aquele rei um império ao mesmo tempo espiritual e temporal, de grandeza jamais sonhada, cuja cabeça seria Portugal. As tentativas de Vieira para se defender foram vigorosas e demonstraram profundo conhecimento teológico, argúcia e técnica retórica; o inquisidor Alexandre da Silva, encarregado dos interrogatórios, teve de defrontar a sua derrota perante uma inteligência lúcida servida por poderosa dialéctica, que a doença não chegava para destruir[24].

No seu processo constam as seguintes informações:

Idade: 55 anos

Crime/Acusação: proposições heréticas, temerárias, mal-soantes e escandalosas.

Cargos, funções, actividades: religioso professo da Companhia de Jesus.

Naturalidade: Rua dos Cónegos, freguesia da Sé, Lisboa.

Morada: Coimbra.

Pai: Cristóvão Vieira Ravasco, fidalgo da Casa Real.

Mãe: D. Maria de Azevedo.

Estado civil: solteiro.

Data da apresentação: 21/07/1663.

Data da prisão: 01/10/1665 (cárcere da custódia).

Sentença: auto-da-fé privado de 23/12/1667. Privado para sempre de voz activa e passiva e do poder de pregar, recluso no Colégio ou Casa de sua religião, de onde não sairia sem termo assinado pelo Santo Ofício, assinar um termo onde se obrigava a não tratar mais das proposições de que foi arguido, nem por palavra nem por escrito, pagamento das custas.

A leitura da sentença, sexta-feira de 23/12/1667, na Sala da Inquisição, demorou duas horas e um quarto, e no dia seguinte a mesma foi lida no Colégio. O réu, por motivos de saúde, foi autorizado a abandonar a sua reclusão no Colégio de Coimbra e a ir para a Casa do Noviciado de Lisboa. Por súplica do provincial da Companhia de Jesus, dirigida ao Santo Ofício, foi solicitada a anulação e perdão das penas que lhe foram impostas. Este pedido foi aceite por despacho do Conselho Geral do Santo Ofício, de 12/06/1668. A 30/06/1668, o réu foi chamado à Casa do Despacho da Inquisição de Lisboa, onde lhe foi comunicado o respectivo perdão e assinou o seu termo[25].

Em Agosto de 1669, o padre António Vieira partiria para Roma com licença do rei, e daí regressou de vez ao Brasil, a São Salvador da Bahia onde o Geral da Companhia tinha a sua Casa.

Como disse, o seu propalado Quinto Império era considerado simultaneamente espiritual e temporal, com cabeça em Portugal, para assim puder abarcar inteiramente a unidade universal da Humanidade. Passa, portanto, de um Sebastianismo bragantino e político para um mais lato e puro Sebastianismo universal e espiritual, cuja retórica é profética do Futuro.

Gentios, pagãos, judeus, etc., todos indistintamente adorariam ao mesmo Senhor Deus do Universo, esse que é também o ensejo da Cristandade como parte inclusa da Espiritualidade universal partícipe da Promessa de Advento do Messias ou Avatara Único, o qual é esperança colectiva dos crentes que haverá de reinar sobre todos os povos da Terra na Sua Idade de Espírito Santo. Com efeito, a utopia ou “algo por realizar” – aposto da distopia que varre hoje o mundo – do Quinto Império deslumbrou o pensamento geo-parúsico do padre António Vieira, inserta no tema translatio imperii, e sobre ele dissertou largamente. As suas cartas e sermões de fundo profético ocuparam quase toda a sua vida e as considerou a sua obra principal. Nos escritos (incompletos) que constituem a sua História do Futuro, este iluminado religioso sebástico anuncia o advento de um V Império Lusitano na História do Mundo havendo de suceder, lógica e necessariamente, aos quatro anteriores: Império Assírio-Babilónico, Império Persa, Império Grego e Império Romano, neste em cujos prolongamentos românicos em formalismo ainda se vivia no seu tempo. Baseia-se constantemente na autoridade dos textos sagrados:

“Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem duvida, tiradas de differentes lugares de textos sagrados que vão citados à margem, e o não pusemos no corpo da História por não embaraçar o desenho dela (…) o que resta e importa mostrar he que haja de aver sem duvida este novo e prometido Império a que chamamos quinto.”[26]

António Vieira, aliás, sempre sublinhou a autoridade dos Profetas, dos quais tinha largo conhecimento, claramente demonstrado nos seus numerosos sermões. A profecia encerra, para ele, a verdade histórica mais pura[27], isto é, a superius cognoscio aparelhada com a intuitio, a pura inteligência espiritual.

Numa época onde a poesia era apenas “arte florida que pede sujeitos floridos em anos florescentes”, no dizer de Francisco Manuel de Mello[28], o profeta ganhou autoridade indiscutível; a palavra do futuro pertence unicamente ao poeta-profeta, ao vate, nunca só ao poeta que é apenas construtor de hipérboles.

Na literatura messiânico-política do século XVII, o padre António Vieira não foi exclusivamente um intérprete do Sebastianismo bragantino. Neste contexto ele foi, em rigor, um joanista, cuja importância política para a época realçou depois assumindo a sua real natureza de sebastianista. Portanto, o padre Vieira nem sempre foi joanista – começou por ser sebastianista, como prova o seu Sermão de S. Sebastião pregado na igreja do mesmo santo em Acupe (Bahia), em 1634, repleto de alusões ao rei vencido de Alcácer-Quibir. Para terminar, através do mito do Quinto Império dos Lusitanos, cuja criação setecentista apoia-se em profundo saber teológico e vasto conhecimento bíblico e da História Universal, o padre António Vieira, por excelência “príncipe da Língua Portuguesa” como o consigna Fernando Pessoa, o Paiaçu dos índios brasileiros oprimidos ou o “Grande Pai”, é quem inaugura o ciclo do Sebastianismo espiritual ao estabelecer a aliança da Profecia à História.

Para entender-se o sentido mais profundo de império, conforme a consignação do padre Vieira que tomara o tema de Manasseh Ben Israel, ou seja, o madeirense Manuel Dias Soeiro, rabi-mor da Sinagoga de Amesterdão, torna-se obrigatório recorrer à versão que a Tradição Primordial ou Iniciática das Idades dá dele. Ora, segundo o autor, a História Universal reparte-se por 5 Tempos ou Impérios, correspondentes aos grandes Períodos ou Idades Planetárias por que passou, passa e passará o Mundo. Assim:

I IMPÉRIO (PERSA) – SATYA-YUGA (IDADE DO OURO)

II IMPÉRIO (ASSÍRIO) – TETRA-YUGA (IDADE DA PRATA)

III IMPÉRIO (GREGO) – DWAPARA-YUGA (IDADE DO BRONZE)

IV IMPÉRIO (ROMANO) – KALI-YUGA (IDADE DO FERRO)

V IMPÉRIO (PORTUGUÊS) – KRITA-YUGA (IDADE DO OURO)

Essa última Idade do Ouro, zodiacalmente correspondendo a Aquarius, consciencialmente nascendo e desenvolvendo-se cada vez mais, tradicionalmente considera-se ter início em Lisboa-Sintra (Portugal) e desfecho em São Lourenço-Minas Gerais (Brasil), a “Nova Lusitânia” como é consignada por Pedro de Mariz, no século XVII, nos seus Diálogos de Vária História.

Portanto, os assinalados Impérios têm mais a ver com Idades Planetárias e respectivos estados de consciência, adquiridos e desenvolvidos ao longo das mesmas, do que propriamente com impérios geográficos político-económicos nascidos da força das armas, e que pelas armas foram derribados, reduzidos a escombros… valendo o que valeram.

Correspondendo a estados de consciência e respectivos níveis de coexistência, então esses Impérios falados, cantados, prosados e escritos pelos Maiores da Raça dos Lusos, poderão expor-se nessa outra tabela de correlações afins a uma geosofia sebástica:

I IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA FÍSICA – PLANO FÍSICO (PRITIVI, TERRA)

II IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA VITAL – PLANO ETÉRICO (APAS, ÁGUA)

III IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA EMOCIONAL – PLANO ASTRAL (TEJAS, FOGO)

IV IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA MENTAL – PLANO MENTAL (VAYU, AR)

V IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA ESPIRITUAL – PLANO CAUSAL (AKASHA, ÉTER)

O Messianismo gerou o Sebastianismo e o Sebastianismo gerou o Messianismo Nacional, na pessoa ideal de um rei iluminado, no caso, D. Sebastião que não morrera, antes desaparecera!…

O Messianismo hispânico é fruto do Profetismo judaico, fenómeno importante no século XVI português. Ilustram-no figuras bem conhecidas, como Gonçalo Anes, por alcunha o Bandarra, Luís Dias, alfaiate de Setúbal, e Simão Gomes, o sapateiro santo, este que inclusive foi visitado em sua oficina por personagens do mais alto coturno, nomeadamente D. Sebastião que o fez seu conselheiro. Por ordem régia do monarca tomou parte no Conselho de Estado que se reuniu em Almeirim, onde desenvolveu tão atilados alvitres, com visos proféticos, que logo foram postos em prática com grandes vantagens, como conta o seu cronista, o p.e Manuel da Veiga, da Companhia de Jesus, em Tratado da vida, virtudes e doutrina admiravel de Simão Gomes, portuguez, vulgarmente chamado o sapateiro santo. O livro teve tanta extracção que se fizeram quatro edições em Lisboa, correspondentes aos anos de 1625, 1673, 1723 e 1759. Esta obra estaria em conformidade às pretensões jesuítas de encetar cruzada a África, a que se opunha vivamente a Ordem Terceira de São Francisco. O frade guardião do rei D. Sebastião, que o acompanhava por toda a parte e o protegia das más influências com alvitres ajuizados, frei Salvador da Torre, atreveu-se mesmo a aconselhá-lo publicamente, em pleno sermão na capela real do Hospital de Todos os Santos, a desistir de ir a África. Isso valeu-lhe o desterro para a casa religiosa que ficasse mais longe de Lisboa: o Convento da Piedade dos franciscanos do Cabo de São Vicente, no Algarve.

Já antes, no início do século XVI, o profetismo parúsico afim ao milenarismo revelava-se bastante activo: Isaac Abarnavel, rabi-mor do Reino e conselheiro de D. Afonso V, anunciara para 1503 a vinda do Salvador, cedo associado a D. Manuel I, o Venturoso. Em contrapartida, em 1502, em Ístria, um aventureiro de sangue judeu com rasgos de profeta afirmou ser o Messias Salvador e dos homens e Regenerador das nações, o que perturbou a população judaica de Itália, devendo a notícia ter chegado ao nosso país. Em Portugal, um contemporâneo de Bandarra, o alfaiate Luís Dias, de Setúbal, fez crer que era o Messias e acabou no fogo, condenado pelo Tribunal da Inquisição de Évora, em 1542. Em 1526, chegou a Portugal um outro judeu messianista, David Rubeni, que veio anunciar a próxima chegada do Redentor. Diz-se que até fora chamado por D. João III e que seria o chefe condutor dos hebreus à Terra Prometida. A sua influência foi tão grande que muitos cristãos-novos voltaram a adoptar as velhas crenças, embora a maioria deles nunca as tivesse abandonado, sendo apenas cristãos-novos de nome e por conveniência. Um célebre discípulo de David Rubeni foi Diogo Peres, que se converteu ao judaísmo com o nome de Salomão Malco. Viajou, cultivou-se, criou fama em toda a Europa e, segundo consta, chegou a ser recebido pelo próprio Papa.

De há muito que os sefarditas hispânicos perseguiam a ideia de edificação da Nova Israel e do III Templo de Salomão, conformada à visão do Profeta Ezequiel, onde se entroncaria o “Rei-Messias” na parte mais ocidental da Europa, ou seja, Portugal. A Ordem dos Templários também perseguiu essa ideia da Nova Jerusalém, e o cisterciense da Calábria, Joaquim de Flora, deu-lhe forma no seu Evangelho do Futuro. Tratava-se, afinal e tão-só, pondo de lado os floreados simbólicos da prosa, da trasladação da “Arca Santa” da Sabedoria Tradicional das Idades do Oriente ao Ocidente, conformada à Lei dos Ciclos de Evolução e à Marcha Processional do Género Humano.

Fica assim demonstrado que a tradição do Rei Encoberto é muitíssimo anterior às coplas do Bandarra, e que teria passado de Espanha a Portugal por via do profetismo judaico colando-se ao cristão. Textos divulgados em 1520 (lendariamente baseados em Santo Isidoro, bispo de Sevilha no século VII) já falam do “rey encubierto”. Também na monarquia de Carlos V, que não agradava à maioria do povo, previa-se a sua ruína e falava-se de um chefe novo, que seria um príncipe português! São os seguintes os textos dessa esperança messiânica:

1. Coplas de Frei Pêro de Frias, Valência, 1520, anunciando “un rey que non se descubre…”.

2. Coplas de Frei João de Rocacelsa (religioso beneditino aragonês), que também se referem ao rei encoberto.

3. Profecias de Santo Isidoro, que corriam em toda a Península.

As profecias desse bispo relativas ao Encoberto, são citadas por D. João de Castro na Paraphrase às Trovas do Bandarra, nas quais o Messianismo adquire a forma definitiva de Sebastianismo.

As fontes gerais das Trovas do Bandarra, são:

1. As Sagradas Escrituras.

As Trovas acusam um fundo de messianismo judaico indiscutível. Bandarra confessa ter como fonte principal da sua autoridade profética as Profecias de Daniel e Jeremias:

CLVIII

Tudo quanto aqui se diz,
Olhem bem as Profecias
De Daniel e Jeremias
Ponderem nas de raiz.

2. O mito do Encoberto, oriundo de Espanha.

A crença no Encoberto veio de Espanha (vários “Encobertos” haviam surgido em Valência); as fontes particulares que a difundiram foram as Coplas de Pêro de Frias e as de João de Rocacelsa (1520), como se viu.

3. Lendas e profecias peninsulares.

A lenda alegórica “do leão e do porco”, ou seja, do rei cristão e do mouro infiel, onde se detectam vestígios da lenda de Merlim na qual, segundo Lúcio de Azevedo, originou-se essa alegoria:

LXXV

Já o Leão he experto
Mui alerto.
Já acordou, anda caminho.
Tirará cedo do ninho
O Porco, e he mui certo.
Fugirá para o deserto
Do Leão, e seu bramido,
Demonstra que vai ferido
Desse bom Rei Encuberto.

Profecias atribuídas a Santo Isidoro de Sevilha (século VII), que por sua vez estão na base das Coplas de Pêro de Frias e de João de Rocacelsa, e são uma das fontes que alimentam o mito do Encoberto. A estas profecias refere-se D. João de Castro na Paraphrase.

4. Reminiscências de lendas arturianas.

O rei Artur, que haveria de voltar da Ilha das Maçãs ou dos Pomos d’Oiro, Avalon, de há muito era conhecido na tradição erudita e popular portuguesa. Houve em Portugal um período de acentuada preferência pelos romances de cavalaria do ciclo arturiano. Recorde-se a epopeia graalística da época do Condestável Santo e dos 12 Palmeirins de Inglaterra (dos quais Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço, seria natural do Trancoso, terra do Bandarra ou Bandurra[29]), celebrizados por Camões que certamente se inspirou na portuguesa Ala dos Namorados, como esta se terá inspirado naquela bretã Távola Redonda.

CIV

Este Rei de grão primor,
Com furor,
Passará o mar salgado
Em um cavalo enfreado
E não sellado,
Com gente de grão valor.

Será o padre António Vieira quem, de maneira decisiva e para sempre, associará o Rei Encoberto, figurativo do Preste João, neto de Titurel e primo de Parsifal, a D. Sebastião, tornando-o Rei Desejado e até santificado, ao associá-lo ao santo do mesmo nome, o que aliás se conformava à empresa e divisa do monarca: a seta hagiológica e a frase latina Pro Fide. No já referido Sermão de S. Sebastião, pregado por ele na igreja de Acupe, Bahia, em 1634, funde num só o Sebastião rei e o santo homónimo:

“Divino Sebastião encoberto, bem-aventurado na Terra, e descoberto defensor que sempre fostes deste reino no Céu: ponde lá de cima os olhos nele, e vede o que não poderá ver sem piedade, quem está vendo a Deus; vereis pobrezas e misérias, que se não remedeiam; vereis lágrimas e aflições, que se não consolam; vereis fomes e cobiças, que se não fartam; vereis ódios e desuniões, que se não pacificam. Oh como serão ditosos e remediados os pobres, se vós lhes acudirdes: Beati pauperes! Oh como serão ditosos e aliviados os aflitos, se vós os consolardes: Beati qui lugent! Oh como serão ditosos e satisfeitos os famintos, se vós os enriquecerdes: Beati qui nunc esuritis! Oh como serão contentes os odiados e desunidos, se vós os concordardes: Beati estis cum vos oderint homines! Desta maneira, Santo glorioso, por meio de vosso amparo conseguiremos a bem-aventurança encoberta desta vida, até que por meio da vossa intercessão alcancemos a bem-aventurança descoberta da outra: Ad quam nos perducat.”[30]

Parece-me que António Vieira, sob os predicados teológicos e bandárricos (nisto inclusive servindo-se de textos sebásticos da Biblioteca do Carmelo de Santo António de Cascais[31]), adivinhava já ou tinha conhecimento directo do plano secreto urdido pelos quarenta patriotas conjurados para a Restauração de 1640. É assunto que deixo à análise de quem o queira aprofundar, porém, com uma pista: muitas das conjuras nacionalistas contra a ocupação filipina de Portugal foram secretamente preparadas no Brasil, por influência da política patriótica jesuíta favorável à restauração da independência nacional.

Não admira que as Trovas do sapateiro de Trancoso trouxessem as populações da Beira (onde se aglomeravam comunidades de judeus convertidos) em grande alvoroço. A intervenção do Santo Ofício prova o perigo que elas representavam, tendo então sido proibidas. Com tudo, o valor das Trovas não está em ser documento do messianismo judaico em Portugal: está, sim, na sua transmutação em documento da crença sebastianista. Ao serem “sebastianizadas”, as Trovas tornaram-se o texto fundamental do Sebastianismo, inicialmente alimentando o patriotismo dos portugueses de Quinhentos e Seiscentos e dos homens da Restauração, e depois ficando como base de toda a literatura sebastianista.

Com o êxito da Restauração uma imagem do Bandarra foi exposta na Sé de Lisboa, como se fosse um santo, e as Trovas foram adaptadas de maneira a convirem a D. João IV. O Sebastianismo tornou-se arma política que serviu para apoiar os restauradores da Independência. Durante todo esse período, houve significativa actividade editorial de literatura profética. Depois, nas horas de crise das invasões francesas, a renovação do Sebastianismo tornou a ser a resposta do inconsciente colectivo, provocando as mais complicadas interpretações das profecias sebastianistas.

A literatura culta (de Luís Augusto Palmeirim, Almeida Garrett, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, para citar só alguns) interessou-se pela figura do Bandarra, imortalizando-o como imagem central do Profetismo sebastianista, e na literatura popular é possível, provavelmente ainda hoje, detectar a mesma presença do Bandarrismo.

As Trovas do Bandarra, historicamente anteriores ao próprio nascimento de D. Sebastião por englobarem uma colectividade de profetas, a maioria populares, designada por Bandarrismo, tornaram-se o primeiro documento político da crença sebástica após a perda da independência nacional. Posteriormente, passaram a servir o messianismo político português em sucessivos períodos que adentraram o século XX e deram realce sebástico ao “rei-presidente” Sidónio Pais[32].

De facto, pode dividir-se a história das Trovas em períodos ou ciclos segundo a descrição de Álvaro Rodrigues de Azevedo, Dic. Univ. Português (vol. II, 1887), que aqui resumo:

Período Messíaco (1500-1578): vida do Bandarra, composição das Trovas (fase genuína); circulação das Trovas clandestinamente; perda do texto autêntico; aparecimento de vários textos, com mais ou menos inovações e alterações (fase apócrifa). Este período Messíaco é uma fase do Messianismo judaico baseado em textos bíblicos, e ainda não é Sebastianismo.

Período Sebástico (1578-1640): as Trovas ganham popularidade e apoderam-se da esperança messiânica em volta do regresso de D. Sebastião desaparecido em Alcácer-Quibir (interpretação sebastianista das Trovas). O grande intérprete: D. João de Castro (Paraphrase, 1603).

Período Bragantino (1640-1652): transposição do mito do Encoberto de D. Sebastião para D. João IV (edição das Trovas em Nantes, 1644, base das posteriores edições de 1809 e 1866).

Período do Quinto Império (1652-1750): doutrinação do p.e António Vieira referente ao Quinto Império (Esperanças de Portugal, V Império do Mundo, História do Futuro).

Período de Repressão Pombalina (1750-1799): várias correntes de sebastianistas, com ideias diferentes, provocando inquietação, levam à acção repressiva do marquês de Pombal.

Período do Século XIX (1799-1866): interpretação do Sebastianismo sob pressão das invasões francesas. Reacção anti-sebastianista expressa no opúsculo de J. Agostinho de Macedo, Os Sebastianistas (1810). Edições das Trovas de 1809 e 1866.

O mito do “Rei Salvador” tomou várias feições durante a 4.ª Dinastia. Em volta de D. João IV, como se viu, teceu-se uma complicada rede de doutrinas político-messiânicas com o fim de apoiar a Restauração. D. Afonso VI e os reis sucessivos – D. Pedro II, D. João V e D. José I – foram ainda testemunhas e objecto de interpretações messiânicas. No reinado de D. João V aumentaram os sebastianistas: uns intelectuais de foro simbólico-hermético concentrados na figura régia[33], e outros políticos descontentes com o governo da nação[34]. No tempo de D. José I, várias seitas de sebastianistas provocaram agitação e desordem: uns foram os sebastianistas ortodoxos ou puritanos, apoiados nas antigas profecias[35], e outros os chamados singelistas ou jacobeos, continuadores das ideias do Quinto Império mas sob chancela romana, antes, jesuíta, que ao início foram dirigidos por um certo Gaspar da Incarnação, e depois pelo próprio bispo-conde de Coimbra, D. Miguel da Anunciação. Algumas falsas interpretações do Bandarra iam directas ao próprio Ministro do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, o novo “encoberto” a descobrir… Não esteve o marquês de Pombal de acordo com os messianistas de ambas as cartilhas e reprimiu-os severamente. Aos ortodoxos ou puritanos, por em nome da autoridade dos textos sagrados fomentarem a guerrilha armada, de maneira a destruir a presente cabeça da Coroa, que para eles pertencia exclusivamente a D. Sebastião, que a viria retomar. Aos singelistas ou jacobeos, por fomentarem o terrorismo político objectivando o isolamento internacional do Estado português, para que melhor pudesse assumir a sua função geopolítica de Quinto Império do Mundo, com exclusão da palavra universal ou universalista aplicada ao mesmo pelo próprio padre António Vieira. Foi o marquês de Pombal, vendo em tudo isso o dédalo secreto dos jesuítas, quem acabou por mandar picar o epitáfio tumular do profeta de Trancoso, na tentativa vã de apagar a sua memória (não tivesse o Bandarra também prenunciado o seu declínio…).

Mas foi no tempo de D. João VI que a crença sebastianista intensificou-se por motivos de ordem social e política, factores que ficariam para sempre marcando tudo quanto ao Sebastianismo se refere, completamente distado do original Sebastianismo Messiânico simbólico de realidades intemporais e universais, o que transfere para o conceito de Teosofia “Lusitana”, se assim posso definir. A ameaça das invasões francesas, que então abalaram o País de Norte a Sul, provocou um estado de espírito colectivo favorável ao recrudescimento do Sebastianismo. A inquietação, a desconfiança, o temor do inimigo opressor, geraram nova corrente messiânica; esse messianismo tem explicação idêntica ao dos anos pouco posteriores a 1850, justamente porque a mitogenia tornou-se de novo inevitável. Isso gerou o aparecimento, em 1813, de António de Aguiar, demente exaltado que vestido de mouro passeava-se pelas ruas da Baixa de Lisboa, dizendo-se enviado de D. Sebastião[36]. Acusado de provocar tumultos, acabou preso no Limoeiro. Seria dementado, talvez, pela aflição das próprias invasões francesas, mas a crença iluminada em sua loucura não deixou de ser sintoma de reacção nacionalista imersa na mente popular. Por isso, ele arrastou consigo grande número de gente para o miradouro de Santa Catarina, procurando vislumbrar, com as suas lunetas apontadas à barra do Tejo, a nau que traria D. Sebastião, o Desejado, para libertar Portugal do mafarrico francês[37]. Advém daí o dito popular “ficar a ver navios no alto de Santa Catarina”…

No Sebastianismo – nome genérico dado no território nacional ao Messianismo português relativo a D. Sebastião, e, por transposição, a outros Chefes de Estado – têm-se incluído diversíssimos problemas que devem ser diferenciados:

O valor da personalidade de D. Sebastião como homem e como rei (na ética da História, Alcácer-Quibir tornou-se o lugar de juízo do rei, porque vencido)[38];

A batalha de Alcácer-Quibir (o lugar como símbolo da derrota; a derrota como símbolo da decadência; a derrota sublimada em mito de redenção futura pela volta do rei salvador)[39];

A crença no regresso do rei salvador (quer se chame D. Sebastião, D. João IV, D. João VI, D. Miguel ou até Sidónio Pais, o “rei-presidente”)[40].

O Sebastianismo é, pois, um mito messiânico ou avatárico que consiste na espera de um Rei Salvador, entronizado em Portugal mas destinado ao Mundo, idêntico ao Rei-Pescador da tradição arturiana que está, aliás, retratado num quadro de Gregório Lopes (séc. XVI) na igreja de São João Baptista, em Tomar; ele não é de modo algum D. Sebastião, embora este ainda em vida e por via jesuíta fosse elevado, por excelência, a figura messiânica do povo português. A essência do Sebastianismo não está na figura do rei (que lhe deu o nome), mas nos anelos proféticos do que há-de realizar. O Sebastianismo espiritual, simbólico ou teosófico, não preconiza o regresso logicamente improvável do monarca que foi D. Sebastião, e sim o advento do Rei do Mundo investido dos Poderes Espiritual e Temporal que se pretendia aquele tivesse sido – o Encoberto anunciado por Bandarra, que libertaria o povo das misérias e tiraria do mundo a “erronia”, indo enquadrar-se na figura testamental do próprio Melki-Tsedek, consignado “Imperador e Sacerdote Universal”. Daí a injusta intromissão dos qualificativos psicopatológicos aplicados ao rei – não porque ele não os merecesse em grande parte, mas porque nada têm a ver com o messianismo sebástico. As virtudes e qualidades do D. Sebastião mítico nada têm em comum com o D. Sebastião histórico.

O D. Sebastião-que-há-de-vir ultrapassou e está muito distante e muito acima do D. Sebastião historicamente morto nos fins do século XVI português. Este está morto, desapareceu na batalha impiedosa e desigual em força para os portugueses. Aparte os boatos de “literatura de cordel”, sem nenhuma prova concreta indesmentível, não terá fugido de Marrocos para Roma, para Limoges ou outra parte qualquer da Europa; terá mais coerência pressupor ter sido trucidado na batalha, onde o cerco árabe ao exército português e seus aliados fechou tenaz que impedia qualquer fuga, muitíssimo menos a do monarca cobiçado cabeça-de-armas das forças invasoras. Mas o espectro é mais vivo que o próprio rei; é o que José Régio faz afirmar ao sapateiro profeta, Simão Gomes, no diálogo que este sustenta com D. Sebastião, no poema dramático em três actos intitulado El-Rei D. Sebastião:

“A tua loucura não é senão entreveres o que não entendes. O teu suicídio não será senão a condição da tua vida imorredoira. Vais ficar reduzido a um espectro mais vivo que a tua própria vida! Mais real que tu próprio…”[41]

Essa loucura de que fala Simão Gomes é a que confere ao rei o poder de se projectar nos séculos com um vulto que ele não teve, a mesma que o eterniza, segundo os conhecidos versos de Fernando Pessoa na Mensagem – um D. Sebastião que se realizou somente no plano do sonho e da loucura:

“É O que eu me sonhei que eterno dura.
É Esse que regressarei.”

Observa-se, pois, o mito sebastianista como uma forma encapotada de fazer política em momentos de aflição nacional ou do exercício aberto de políticas repressivas. Pelo contrário, o mito sebástico apresenta-se como expressão viva do ser português e coluna dorsal da própria espiritualidade portuguesa, senão ibérica, transposta à universalidade espiritual conformando o seu entendimento à multivariedade de povos.

É assim que desdigo a hipocondria apátrida dos sustentadores de teses surreais dando três pilares para a História de Portugal: a “origem exemplar”, que é o complexo viriatino manipulado a bel-prazer desde o século XVI até Oliveira Salazar; a “nação superior”, que foi quando Portugal perdeu a independência no século XVII; a “nação inferior”, que foi quando Portugal recuperou a mesma independência e começou a prosperar economicamente; desses três complexos resultou um quarto chamado “canibalismo cultural”, que vem até à actualidade, onde os “canibais” são quantos perfilham da ideia sagrada que assistiu e assiste aos ciclos da História, o que é uma “redunda ignorância e superstição, completamente desfavorável ao esclarecimento e progresso da sociedade”[42]. Esta óbvia inversão dos valores nacionais não é inédita[43], mas é complexo psicossocial obviamente claro até para o leitor menos atento. Fico-me pelas virtudes originais e defeitos originados referentes ao Ciclo Providencialista do Padre António Vieira:

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): ANTEVISÃO e PREVISÃO.

DEFEITO originado (COMPLEXO): NEGAÇÃO e CONTRACÇÃO.

V

Por fim, tem-se o ciclo de modernidade da identidade nacional, podendo situar-se o seu começo no ministério do marquês de Pombal e continuando a desenvolver-se na actualidade, com períodos de retraimento, como o da Guerra Civil portuguesa no século XIX, ou a ditadura da I República que foi a antecâmara do Estado Novo chefiado por António de Oliveira Salazar, que ao assumir-se “absoluto” como os antigos “ditadores romanos”, levou o país ao egocentrismo e centripetalismo do ultramontano “orgulhosamente sós”, factor lunar que não confere com a natureza solar de Portugal, ou seja, centrifugo próprio a uma nação de diáspora desde a primeira hora. Mas esse foi um fenómeno temporário, ainda assim com aspectos positivos, mormente no evitar da Guerra Civil que a I República esteve prestes a despoletar e com isso desagregar o país então atravessando um período de extrema debilidade e inconstância governamental, militar, política-social e económica, nisto sendo repostas as finanças dos seus cofres falidos.

Falando do período pombalino, assim chamado devido ao mais que controverso ministro do rei, mas de carácter e convicções fortes, Sebastião José de Carvalho e Melo (13.5.1699 – 8.5.1782), a sua visão futurista que desejava o progresso do país fosse a que preço fosse, sem dúvida apresenta-o personagem controverso marcante do início da Modernidade portuguesa.

Como parte da nobreza conservadora e do clero tradicional, representado pelos jesuítas, se opunha às reformas sociais do marquês de Pombal, este intentou neutralizá-los, chegando até, diz-se, a engendrar um atentado contra a real pessoa de D. José I, em 3 de Setembro de 1758, mas cuja culpa recaiu sobre a família Távora, próxima da Companhia de Jesus e a principal opositora do “déspota iluminado”. O atentado deu-se nos então arrabaldes de Lisboa, perto de onde está a igreja da Memória, na Ajuda, onde muito a propósito estava o palácio de D. José de Mascarenhas, duque de Aveiro e o mais distinto dos Távoras. Todos os membros dessa família foram presos acusados da tentativa de regicídio, iniciando-se o processo dos Távoras que desfechou com a sua execução selvática, no descampado de Belém defronte ao actual palácio da Presidência da República. Ao mesmo tempo, levou-se a efeito a expulsão dos jesuítas do reino.

Apesar dos Távoras terem negado todas as acusações, foram condenados à morte, os seus bens confiscados pela Coroa, o seu nome apagado da linhagem dos nobres, os brasões familiares picados e proibido pronunciar o nome Távora. A sentença ordenou a execução de todos, incluindo mulheres e crianças. Apenas as intervenções da rainha D. Mariana e de D. Maria Francisca, a herdeira do trono, salvou a maioria deles. A marquesa de Távora, porém, não seria poupada. Ela e os outros acusados que tinham sido sentenciados à morte, foram torturados e executados publicamente em 13 de Janeiro de 1759. A execução teve requintes de selvajaria como nunca se vira: as canas das mãos e dos pés dos condenados foram partidas com paus, as suas cabeças decapitadas e depois os restos dos corpos queimados e as suas cinzas lançadas ao rio Tejo.

O palácio do duque de Aveiro foi demolido e o chão salgado, numa maldição do marquês de Pombal para que ali nunca mais nada crescesse. Mas nesse mesmo ano, D. José I mandou erigir aí um padrão de pedra com cinco anéis esculpidos (correspondentes ao número dos Távoras executados), tendo na base uma lápide referente aos acontecimentos.

Hoje, acaso só alguns saberão onde repousam os restos mortais de Sebastião José de Carvalho e Melo, e menos ainda da saga atribulada dos mesmos. Estão na Ajuda, numa urna dentro da igreja da Senhora do Livramento e S. José, monumento neoclássico de Lisboa construído em 1760, dois anos depois do episódio trágico dos Távoras, que o rei D. José I, cuja hipocondria marcou a sua fraqueza de carácter, faria erguer como voto de gratidão por se ter salvado do atentado cometido contra ele neste lugar, ficando assim conhecida como igreja da Memória.

Quis o destino que os restos mortais do ministro forte de um rei fraco tivessem por última morada esse templo, após uma série de incidentes com os mesmos e com a própria igreja, como se a maldição dos homens revertesse contra eles por Justiça de Deus.

Com efeito, o ministro Sebastião José morreu em Pombal, onde estava desterrado, em 8 de Maio de 1782, envolto no hábito franciscano e com as insígnias da Ordem de Cristo, sendo enterrado na igreja do convento de S. Francisco de N.ª Sr.ª do Cardal. Mas quando se deu a Terceira Invasão Francesa de Portugal, esse convento foi transformado em caserna da soldadesca que, vendo ali o túmulo do grande estadista e na esperança que houvessem valores dentro dele, não hesitou em profaná-lo, arrombando-o e espalhando as ossadas no chão da igreja. Acudiu o general Massena, ordenando a reposição das ossadas no túmulo e que não se mexesse mais nele. Depois, em 1856, o marechal Saldanha ordenou a trasladação das ossadas para Lisboa, ficando o caixão inutilizado em Pombal o qual se considerava uma “relíquia”.

Os restos mortais do marquês de Pombal ficaram na ermida das Mercês, à Rua do Século, onde fora baptizado em 6 de Junho de 1699, num túmulo abandonado que assentava sobre quatro elefantes. Quando se resolveu demolir essa ermida, já no século XX, pensou-se atirar fora o caixão e as ossadas juntas com o lixo da sacristia, mas em 7 de Novembro de 1910 a Câmara Municipal de Lisboa interviu e reco-lheu-as no seu Arquivo. Só em 1923 seriam trasladadas para a igreja da Memória, por iniciativa do quinto marquês de Pombal e de uma comissão republicana presidida pelo maçom Borges Grainha.

A igreja esteve fechada até 23 de Dezembro de 1951, quando um grupo de soldados do Regimento de Cavalaria 7 (almas fortes no amor de Deus), por iniciativa pessoal, reabriu-a ao culto divino, mas voltou a fechar em 1985 ferida gravemente por um raio caído sobre o seu zimbório.

Mesmo não se sabendo se o marquês de Pombal foi membro efectivo da Maçonaria, apesar dos vários indícios afirmando-o iniciado em alguma Loja de Londres ou de Viena de Áustria – nesta cidade sendo quase certo que tomou contacto íntimo com os iluminados da Baviera, apóstolos do “regalismo divino” – quando foi embaixador do nosso país nessas cidades, ainda assim ele permanece como verdadeiro patrono da Maçonaria Portuguesa a que se devem as comemorações dos seus dois centenários, a trasladação das suas cinzas para a igreja da Memória e a erecção da sua estátua monumental em plena rotunda de Lisboa, no Parque Eduardo VII, no cimo da Avenida da Liberdade[44].

Dedicado a Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras e marquês de Pombal, o projecto de construção do monumento lisboeta à sua memória teve início em 1882, por subscrição pública, e em 1914 ficou concluído o projecto assinado pelos arquitectos Francisco Sanches, Adães Bermudes e António do Couto, iniciando-se as suas fundações em 1917 e assente a primeira pedra em 13 de Maio de 1926. Finalmente, no dia 13 de Maio de 1934 o monumento foi inaugurado pelo Presidente da República, general António Óscar Carmona.

Com efeito, quem presidiu à Comissão Executiva da construção da estátua do marquês de Pombal, em 1926, foi o dr. Sebastião de Magalhães Lima (Rio de Janeiro, 30.5.1850 – Lisboa, 7.12.1928), reconhecido maçom que desempenhou as funções de presidente do Conselho da Ordem (1906-07) e depois eleito (1907) Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, cargo em que foi sucessivas vezes reeleito e mantinha quando faleceu. Acumulou-o com o de Soberano Grande Comendador do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite, a que ascendeu em 1907.

De maneira que tendo o dédalo da Maçonaria Portuguesa inspirando a feitura da composição estatuária do monumento, ficou a escultura do mesmo a cargo de Francisco dos Santos que, por sua morte, foi prosseguida por José Simões de Almeida e Leopoldo Neves de Almeida. A ideia seria a erecção de uma Coluna Perfeita que simbolizasse a realização social da Utopia Maçónica, isto é, a edificação de uma Sociedade Humana Justa e Perfeita, na qual o ministro iluminado ficaria como seu expoente máximo. É assim que se o tem no seu topo esculpido em bronze, com a mão esquerda ou passiva apoiada num leão, representando o Poder Temporal sob o seu jugo determinado, ao qual a própria Coroa se submeteu. Está defronte para a Baixa de Lisboa, que mandou reconstruir após o terramoto de 1755.

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): PROGRESSO e MODERNIDADE.

DEFEITO originado (COMPLEXO): REGRESSÃO E CONSERVAÇÃO.

 

NOTAS

 

[1] Miguel Real, A Morte de Portugal. Editorial Campo das Letras, Porto, 2007.

[2] Eduardo Lourenço, O labirinto da Saudade. Psícanálise Mítica do Povo Português. Edições D. Quixote, Lisboa, 1978.

[3] F. da Cunha Leão, O Enigma Português. Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1973.

[4] Pinharanda Gomes, Introdução à História da Filosofia Portuguesa. Editora Pax, Braga, 1967.

[5] Antonio Garcia Bellido, La Peninsula Iberica en los comienzos de su Historia. Editorial Istmo, Madrid, 1985.

[6] Enrique Flórez, Rafael Lezcano González, España Sagrada. Edición de Real Academia de la Historia, Madrid, 1859.

[7] A. Schulten, Viriatus. Neue fahubücher für der Klassicher Altertum, Berlim, 1917.

[8] Maurice Pastor Muñoz, Viriato – o herói lusitano que lutou pela liberdade do seu povo. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006.

[9] Publicado originalmente em Londres em 1849, por William Smith, em três volumes enciclopédicos como Dicionário de Grego e Romano Biográfico e Mitológico.

[10] Adriano Vasco Rodrigues, Os Lusitanos, Mito e Realidade. Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998.

[11] Anselmo Arenas Lopez, Viriatho no fué português sino celtibero. Guadalajara, 1900.

[12] António de Vasconcellos, Viriatho. Coimbra, 1894.

[13] José Leite de Vasconcelos, Cale e Portucale. Opúsculos, Vol. V – Etnologia (Parte I). Lisboa, Imprensa Nacional, 1938.

[14] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2009.

[15] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[16] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Setembro de 2007. Obra reeditada pela Madras Editora, São Paulo, 2011.

[17] Alexandre Herculano, Terceira Crónica Breve – Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, I.

[18] D. Fr. Timóteo dos Mártires, Crónica de Santa Cruz, vol. I. Coimbra, 1955.

[19] Manuel Gonçalves Cerejeira, bispo de Lisboa, D. Afonso Henriques poderá ser beatificado? Revista dos Centenários, ano 1, n.º 8, 31 de Agosto de 1939.

[20] Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004. Obra reeditada pelo autor através da Euedito em Lisboa, 2017.

[21] Pretendeu ter lido nos astros a vinda do monarca, que se daria em 1653. Vd. Lúcio de Azevedo, A Evolução do Sebastianismo, 2.ª ed., p. 55. Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1947.

[22] O poema de Bocarro é longo e sem interesse estético; não pode, no entanto, excluir-se a sua referência, pois insere-se na história do Encoberto português. Anacefaleose significa “recapitulação”; os poemas destinavam-se a recapitular as glórias de Portugal.

[23] Escrito que ele mandou ao Bispo do Japão, André Fernandes, que teve de o entregar ao Tribunal do Santo Ofício.

[24] Padre António Vieira, Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, introdução e anotações de Hernâni Cidade, 2 volumes. Livraria Progresso, Baía, 1957.

[25] Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, Processo do padre António Vieira, 1659-04-29 / 1668-06-30, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 1664.

[26] J. Lúcio de Azevedo, História do Futuro, inédito de António Vieira, com notícia explicativa. Coimbra, 1918.

[27] “Isto que nos poetas é hipérbole, no profeta é verdade pura, e certa sem encarecimento.” – In A. Vieira, Sermões – Sermão da Quinta Dominga da Quaresma. Lisboa, 1655.

[28] Francisco Manuel de Mello, Epanáforas de Vária História Portugueza. Lisboa, 1676.

[29] Pedro de Azevedo, Archivo Historico Portuguez, 1914.

[30] P.e António Vieira, Sermão de S. Sebastião, in Obras Completas do P.e António Vieira, Sermões, vol. II, pp. 335-350. Lello & Irmão-Editores, 1959.

[31] Lusitanus, Sinais dos Tempos (Fim das Nações – Império Universal – Triunfo da Cruz – Fim do Mundo). Lisboa, 1924.

[32] António Belard da Fonseca, Dom Sebastião – Antes e depois de Alcácer-Quibir. Tip. Ramos, Afonso & Moita, Lisboa, 1978.

[33] Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal. Lisboa Ocidental, 1732. Esta obra foi reeditada em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian em Fevereiro de 1987, com nota de apresentação de Yvette Kace Centeno, quase em simultâneo no mesmo ano com uma outra reedição da mesma obra, desta feita em Mafra com nota preambular de Manuel Joaquim Gandra. Conta esta última com uma dedicatória final de Anselmo Caetano a D. João V e ao elogio do V Império que a primeira não possui, apesar de melhor apresentada e organizada que a segunda.

[34] Lúcio de Azevedo cita o escrito Exame preciso dos fundamentos dos sebastianistas nas misérias em que se acha Portugal no ano de 1712 (in A Evolução do Sebastianismo, 2.ª ed., p. 100).

[35] Belard da Fonseca publicou parte da célebre resposta dada por um anónimo à pergunta se se devia ou não, ainda em 1714, esperar D. Sebastião, na qual se afirma, por vários argumentos com o auxílio de várias profecias, que ainda se deve esperar aquele rei. Esta resposta foi “dada à luz por hum anonimo no Anno de 1823 e offerecida aos amantes do Encuberto”.

[36] António de Aguiar, um enigmático retrato português. In Antiqualhas – História, Bibliografia, Arte. Edição de autor, sem nome, Lisboa, 1952.

[37] José Agostinho de Macedo, Os Sebastianistas. Lisboa, 1810.

[38] Na Literatura sebastianista: Aquilino Ribeiro (Aventura Maravilhosa de D. Sebastião Rei de Portugal depois da batalha com o Miramolim, Lisboa, 1937); a evocação histórica feita por Antero de Figueiredo (D. Sebastião Rei de Portugal, Lisboa, 1924) e os escritos polémicos de António Sérgio, nos quais se discute largamente o valor da personalidade de D. Sebastião. Na Poesia: Mário Beirão (D. Sebastião, in Lusitânia, 1917), Fernando Pessoa (Mensagem, 1934), Miguel Torga (D. Sebastião, in Alguns Poemas Ibéricos, 1952). No Teatro: José Régio (El-Rei Sebastião, 1949) e ainda Metzner Leone (El-Rey D. Sebastião, s/d).

[39] Na Literatura sebastianista: João de Lemos (Alcácer Kibir, in Cancioneiro de João de Lemos, 1859), Joaquim de Araújo (Preludios da Catastrophe, in Luís de Camões, 1887), Camilo Castelo Branco (Alcácer Kibir, in Nas Trevas, Sonetos sentimentais e humorísticos, Lisboa, 1890), Mário Beirão (Alcácer Quibir, in Lusitânia, 1917, e O Sonho de Alcácer Quibir, in Novas Estrelas, 1940), Afonso Lopes Vieira (Alcácer Quibir, in Ilhas de Bruma, 1917, e Violas de Alcácer, ibidem), Gomes Ferreira (Símbolo, in Longe, 1920), António Alves Martins (As Guitarras de Alcácer, in Anunciação, 1921), Virgínia Victorino (Alcácer Kibir, in Renúncia, 1926), Pedro de Menezes (Alcácer Kibir, in As Cinco Chagas de Cristo, 1927).

[40] Na Literatura sebastianista: Luís Augusto Palmeirim (D. Sebastião, in Poesias, Lisboa, 1859, e O Sebastianista, ibidem), António Nobre (O Desejado, in Despedidas, 1902), Afonso Lopes Vieira (O Encoberto, in Ilhas de Bruma, 1917), Antão de Morais Gomes (Profecia da Lenda, in Antão era Pastor, 1924), Fernando Pessoa (Mensagem, 1934, e ainda o messianismo do poema À Memória do Presidente Rei Sidónio Pais, em 1920).

[41] Ed. Atlântida, Coimbra, 1949, p. 154. Uma afirmação idêntica fizera Luís de Magalhães: “A individualidade histórica de D. Sebastião é secundária comparada com a que a lenda lhe criou. A sombra vale mais do que o corpo que a projecta.” – In D. Sebastião, p. 255. Coimbra, 1898.

[42] Miguel Real (pseudónimo de Luís Martins), ob. cit.

[43] Joel Serrão, Do Sebastianismo ao Socialismo em Portugal. Livros Horizonte, Lisboa, 1973.

[44] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita (em cinco línguas). Edições Jonglez, Paris, 2009. Ainda do autor, Guia de Lisboa Sagrada e Profana. Euedito, Lisboa, 2016.

Anúncios