Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1995

Falar de Pinharanda Gomes não me afigura tarefa fácil. Menos ainda falar do seu vastíssimo cardápio literário disperso em artigos de jornais, revistas, ensaios, monografias e livros, em número vultuoso de centenas, mais de trezentos, contando-se diversas traduções dos clássicos germânicos, nomeadamente Goethe.

“Monge” das Letras, Jesué Pinharanda Gomes é um notável talento polimorfo que respira num à-vontade surpreendente quer nas alturas da Filosofia ou da História, quer em simples trabalhos de etnografia e obras regionalistas, as quais são um arcadiano ramo de flores campestres que depõe no altar da sua terra em louvor às raízes de que se alimenta e vive.

Pinharanda Gomes (Jesué) nasceu em Quadrazais, freguesia do concelho do Sabugal, na vigília da festa de Nossa Senhora do Carmo (16 de Julho) em 1939, embora só fosse registado em 7 de Outubro do mesmo ano, pela festa da Senhora do Rosário. Costuma, por isso, dizer que nasceu natural e civilmente sob o signo de Maria. É, de resto, membro de uma confraria carmelita, que ajudou a fundar no dia 13 de Julho de 1984, na paróquia de Santo António dos Cavaleiros (fundada em 17 de Maio de 1983), no concelho de Loures, tendo também intervido directamente nesta freguesia na fundação da sua igreja paroquial, inaugurada e sagrada em 10 de Outubro de 1982.

Foi este notável pensador o primeiro a historiografar a freguesia de Santo António dos Cavaleiros, com um seu primeiro livro regionalista lourenho levando de título:

O Carmo em Loures (Camarate, Frielas, Stº António dos Cavaleiros). Loures, 1979.

Seguiram-se:

Povo e Religião no Termo de Loures. Paróquia de Stº António dos Cavaleiros, Loures, 1982.

Os Tojais e a Casa do Gaiato (Monografia Histórica). Patriarcado de Lisboa, 1990.

Santo António dos Cavaleiros (Monografia Histórica). Loures, 1992.

Além desses títulos o caríssimo Pinharanda Gomes, aliás, tendo a gentileza de ser meu amigo e a bondade de prefaciar dois livros meus de temática lourenha – Ode a Loures (Monografia História), Loures, 1993; Rotas de Loures, 1994 –, possui a versão integral, por si anotada e aumentada, da rara e notável obra de Mendes Leal: Admiravel Egreja Matriz de Loures, Lisboa, 1909. Faz-se votos que as autoridades responsáveis pela cultura no concelho de Loures tomem em mãos essa obra preciosa e a editem quanto antes.

Por seus préstimos morais e sociais à freguesia de Stº António dos Cavaleiros (fundada em 25 de Agosto de 1989), Pinharanda Gomes foi recentemente homenageado com a Medalha de Mérito pelo Presidente desta Junta, Sr. Dr. João Pedro de Campos Domingues, que também me fez a honra de homenagear com idêntica Medalha de Mérito.

Das conversas que temos mantido na sua residência em Stº António dos Cavaleiros, onde aliás vive há mais de uma vintena de anos, destaco o gosto e desvelo de Pinharanda Gomes pela aldeia de Frielas, inclusive tendo-me solicitado parceria para a feitura de um futuro livro exclusivamente dedicado á tradição histórica e etnográfica frieleira. Se Deus nos der sabedoria e saúde, haveremos de o escrever – e acabou sendo escrito por mim em 1996, editado pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros” – Frielas (Memorial Histórico). Frielas merece.

Pinharanda Gomes é filho de lavradores de Riba-Côa e a sua ascendência é identificável até aos trisavós, que viveram nos meados do século XIX. Por parte do pai descende dos Gomes Freire e de um Peñaranda de Bracamonte que se exilou para cá da fronteira, durante os conflitos monárquicos em Espanha. Ainda por parte do seu pai e pela linha da avó paterna, radica no mais fundo do povo. O seu bisavô Manuel Torro era almocreve e fez grande casa agrícola vendendo azeite, que ia buscar em odres a Penamacor. A filha deste, Maria, casou com Alberto Pinharanda, uma plebeia com um aristocrata. Os seus avós maternos foram gente do povo, e a sua mãe também.

Filho único de um lavrador em crise endémica, queria-o o pai na terra, atrás das vacas. Mas, por volta de 1950, a sua tia Dª Isaura levou-o para a cidade da Guarda, onde trabalhou na farmácia da familiar, e depois como marçano. À noite frequentava a Escola dos Gaiatos, onde conheceu e aprendeu a rdtimar figuras da sua vida, destacando-se o Dr. Alberto Dinis da Fonseca, notário, homem de caridade pública e militante social-católico, o Professor Artur Martins Madaleno, pedagogo e didacta, e sobretudo Dª Maria das Dores Sampaio, mãe dos jovens pobres da cidade e seu “anjo da guarda”. Já não sorria quando o Dr. Alberto dizia que todos os anjos eram da guarda, porque intuía que o Dr. Alberto se referia ao carisma dos anjos e não à cidade.

Resolvidos certos problemas familiares, Pinharanda Gomes entrou no Colégio de São José da Guarda por intervenção do Cónego Álvaro Quintal da Cunha, pedagogo, director do mesmo. Introvertido e contemplativo, Pinharanda revelou-se um aluno medíocre, preferindo às aulas a solidão da leitura na biblioteca.

Sentiu-se escritor aos doze anos. Nunca mais desejou outra coisa a partir de então. Influenciado pelos românticos alemães, contraiu um autonomismo que teria de caldear-se na aventura.

O autor estreou-se no jornal Correio da Beira (Guarda), em 1956, dando colaboração à maior parte dos jornais de província entre 1958 e 1965, tendo depois colaborado na imprensa de Lisboa. Para aqui emigrou, sendo já órfão de pai e mãe, trazendo oitenta escudos no bolso, após interromper os estudos oficiais e algum descontentamento face ao conformismo eclesiástico.

O dinheiro durou três semanas. Depois veio a fome, e o resto. Dormiu em camaratas públicas e promíscuas, e durante um ano ou dois atravessou um deserto árido. Aos vinte e dois anos – tendo o seu estudo nas bibliotecas continuado, e na Biblioteca Nacional de Lisboa chegou a permanecer dias inteiros alimentando o espírito, já que não podia alimentar o estômago – iniciou contactos com os meios literários e jornalísticos da capital, a maioria deles de efeito frustrado. Não desanimou, insistiu. Guedes de Amorim, jornalista em O Século, aceitou-lhe os primeiros artigos, e logo a seguir Natércia Freire abriu-lhe as portas do Diário de Notícias. Gratuitamente, colaborou semanalmente em O Debate, o que lhe foi muito útil para se treinar na escrita, para largar a experiência e para conhecer pessoas.

Profissionalmente, preparou-se em línguas e obteve colocação numa grande empresa privada de máquinas agrícolas, onde se mantém há mais de trinta anos, na qual contraiu sucessivas e acrescidas responsabilidades.

Trabalhando de dia, frequentou cursos nocturnos de latim e de grego no Liceu Francês, em Lisboa. Por outro lado, nas férias, treinaria a língua inglesa em Inglaterra.

A decisão do seu perfil intelectual ocorreu, porém, a partir de 1962. Por ser então mais literato – esperava ser novelista – entrou no grupo dos discípulos de Leonardo Coimbra, onde foi recebido com muita abertura e acolhimento. Álvaro Ribeiro (+ 1981), o propositor da Filosofia Portuguesa, e José Marinho (+ 1975), o filósofo do Ser e da Verdade, investiram a sua dedicação em Pinharanda. Acreditaram nele e formaram-no. Por isso, ele considera-se discípulo de ambos, cujas obras tem procurado continuar.

Do ponto de vista estrutural, o seu pensamento obedece ao formalismo de Aristóteles (que herdou de Álvaro Ribeiro) e ao ideísmo de Platão (que herdou de José Marinho). É, portanto, numa tradição que vem de longe, um aristotélico platonizante que concilia razão e visão, acção e contemplação, ao modo de Leonardo, considerando-se antes do mais filósofo, termo a que dá acepção aristotélica-platónica: Filosofia é a ignorância com vontade de ciência.

Considera, no entanto, que é intrinsecamente um meditativo e um contemplativo, como que herança genética-espiritual do seu nascimento sob o fulgor da carmelitana Stella Maris.

Do ponto de vista relacional, entende o Homem como criatura evoluinte em trânsito de regeneração, donde o carácter messiânico e profético de muitos dos escritos de Pinharanda. Admite um Português próprio, o que lhe permite singularizar um corpo espiritual lusíada no contexto mais vasto do corpo da Humanidade. Propõe, como modelos de Filosofia, Sócrates e Cristo, e como modelo de Vida, Maria, sem cuja presença o perfil do Homem ficaria decapitado.

Essa sua versão mito-filosófica do Pensamento Português como semente mental da Diáspora Universal dos Lusos, que frutificou em todos os cantos do Mundo, atraiu os estudiosos e pensadores nacionais e estrangeiros inclinados ao tema da Parúsia e do V Império Lusitano, á convivência com a espiritualidade esclarecida de Pinharanda Gomes, o “Filho da Sabedoria”, ou seja, Philo-Sophos, em grego, donde Filósofo.

Pinharanda Gomes foi o único a ordenar e sistematizar, até ao momento, em vários volumes de grossura considerável, o Pensamento Português e a História da Filosofia Portuguesa. Do que publicou, destaca-se como coroa áurea do seu vastíssimo cardápio literário:

Pensamento Português I. Ed. Pax, Braga, 1969.

Pensamento Português II. Ed. Pax, Braga, 1972.

Pensamento Português III. Ed. Pax, Braga, 1975.

Pensamento Português IV. Ed. do Templo, Lxª, 1979.

História da Filosofia Portuguesa. 1. A Filosofia Hebraico-Portuguesa. Lello & Irmão, Porto, 1981.

História da Filosofia Portuguesa. 2. A Patrologia Lusitana. Lello & Irmão, Porto, 1983.

História da Filosofia Portuguesa. 3. A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lxª, 1991.

Por tudo isso e muitíssimo mais aqui não vindo ao caso, incontestavelmente a universalidade mental de Pinharanda Gomes figura já no panteão de ilustres imortais da Cultura Portuguesa, mormente da Lourenha, neste particular abrilhantando a Freguesia que lhe é Arcádia querida, a ponto de pretender iniciar as já por si batizadas Tertúlias do Planalto: Stº António dos Cavaleiros.

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