Quem, vindo do Patacão para entrar em Faro (actual capital do Algarve, a primeira havia sido Lagos no Período Árabe e a segunda Silves, durante a Reconquista), avista pouco antes de entrar na cidade, à sua direita, uma estranha casa das figuras que exibe em relevo no seu frontão de alvenaria, de margem ondulada, dois dragões cornudos com rostos humanos, tendo os corpos e as pernas cobertos de escamas e os pés em forma garras. De cada lado um delfim ou golfinho, em que se apoiam os braços de um guerreiro negro africano em meio corpo, sobrepondo-se ao centro no ornato concheado. Na base, três cartelas com os dizeres: “Qolein / Bois Marinos / Acaçalansada as feras / Mostros da Merica / Qolein”, isto é, “Delfim – Bois Marinhos – A caça lançada às feras – Monstros da América – Delfim”.

Situado na Estrada Nacional 125, à entrada da cidade, é um edifício do tipo barroco vernacular, de planta longitudinal simples e piso único. Terá sido mandado construir pelo desembargador Veríssimo de Mendonça Manuel nos meados do século XVIII, para servir de armazém agrícola ao solar da Quinta da Horta dos Ourives[1].

Casa das Figuras à entrada de Faro

É aqui que inicio o périplo mitosófico farense que desfecharei no celeiro da Horta de São Francisco, extra-muralhas com Olhão ao fundo.

Faro, feitoria que foi dos fenícios, vasto porto de mar de gregos e romanos, depois de árabes, judeus e cristãos, indubitavelmente tem o seu nome ligado à Rainha do Céu, título perpetuado pelos árabes e moçárabes farenses, ligando a imagem matricial a formosa lenda relacionada com a ria e o mar que vêm beijar suas margens.

Em Ossónoba (Faro) ter-se-á instalado um núcleo de cristãos logo no século I, e a presença da diocese nesta cidade é já assinalada no concílio de Elvira, nos primeiros anos do século IV. Contudo, a primeira catedral digna deste nome, só é elevada depois da chegada dos visigodos (ano 418) e consagrada a Santa Maria, Rainha do Céu. Isto é histórico. A lenda é a seguinte: com a presença árabe ocupante da cidade no ano 713, capital de principado independente no século IX, e andando esses de poucas amizades com os moçárabes, pegaram na imagem da sua padroeira e arrojaram-na ao mar. Consequência: toda a pesca desapareceu daquelas águas. Recuperada a imagem, os peixes voltaram em grande abundância e os árabes, agradecidos e temerosos, fizeram-lhe um nicho nas muralhas para que Ela, Santa Maria Ibne Harun (depois Harune, Faaron e Faaram, “povoação de cavaleiros”, donde Faro), protegesse sempre a ria e a sua fauna[2]. Talvez por isso, os cristãos não foram incomodados em Ossónoba.

Iluminura das cantigas de Santa Maria – Afonso X, o Sábio, 1280

Essa palavra Ossónoba, topónimo túrdulo, pré-romana referida por Pompónio Mela, Estrabão e Ptolomeu, para o professor Batalha Gouveia possui o mesmo sentido mariano de “Terra da Virgem”[3], decompondo o termo em osson, “terra”, e noba, “virgem”, donde provirá Harun até finalmente Faro.

Árabes e cristãos unem-se em torno da Rainha do Céu na terra por Ela escolhida. Mas também os judeus, instalados em Faro desde tempos antiquíssimos, no século I d. C. já aqui habitavam empós a sua diáspora da Palestina para o Ocidente da Europa nessa data[4], votaram culto à Mãe Divina, identificada na Escritura Velha a Ester, depois a Santa Ester dos criptojudeus, Mãe da Raça Abraâmica[5].

Capela de Nossa Senhora do Repouso dentro das muralhas de Faro

O actual cemitério judaico de Faro (na Estrada da Pena, junto ao Estádio de São Luís [de França]) data somente de 1820 (com funções até 1932), tendo sido comprado o seu terreno em 1851 por Joseph Sicsu, o Cantor, Moses Sequerra e Samuel Amram, subsidiados pela próspera comunidade judaica farense, composta de sessenta famílias, conhecida como “Pequena Jerusalém”. À entrada, por cima do portal, está a data de 5638, correspondente à data cristã de 1887, que terá sido aí colocada aquando da construção do muro envolvente[6]. Mas já no foral de D. Afonso III, de 12 de Julho de 1269, são referidos os judeus da cidade[7], sabendo-se que a aljama, alfama ou judiaria de Faaram, na Vila-Adentro muralhas, era das mais importantes na época de D. Manuel I, que em 1495 foi forçado pelas cláusulas do contrato do seu casamento com D. Maria de Aragão e Castela, filhas dos reis católicos, à expulsão deles do país, e a solicitar em 1515 a instalação da Inquisição em Portugal, o que só aconteceria no reinado seguinte de D. João III. Que D. Manuel I não desejava a expulsão dos judeus de Portugal, é facto facilmente detectável logo nas primeiras premissas do seu decreto, favorecendo-os, não lhes apressando a conversão, dando-lhes tempo para escaparem ou então engendrarem um qualquer procedimento capaz de contornar as leis que eram menos da coroa e mais do pontifício. Este assunto melindroso até hoje carece de abordagem isenta, descomprometida e despreconceituosa, dos historiadores e estudiosos da política diplomática, social e religiosa dessa época.

Seria imperdoável não referir Samuel Gacon, o tipógrafo quinhentista que na sua oficina farense, em 30 de Junho de 1487, imprimiu o primeiro incunábulo judaico no país, um Pentateuco. Desta obra religiosa o único exemplar conhecido está guardado na British Library, em Londres[8]. Foi roubado em Portugal aquando do saque à cidade de Faro pelos ingleses em 1596, quando sofríamos a ocupação filipina e a Inglaterra estava em guerra com a Espanha. Fez parte de um conjunto de 3.000 livros roubados em Faro nesse ano por Robert Devereux, 2.º conde de Essex e favorito da rainha Elisabeth I, que ofereceu esse saque ao seu amigo Thomas Bodley, a quem se deve a Bodleian Library of Oxford.

Pentateuco editado por Samuel Gacon

A maior prova da presença medieval dos judeus farenses será a lápide funerária do rabino Josef de Tomar, datada de 16 de Shebat do ano 5075 (23 de Janeiro de 1315), achada no Espaldão, Faro, e que foi incorporada no muro deste cemitério, onde hoje só existe uma cópia porque a lápide original foi removida para a sinagoga-museu de Tomar nos anos 30 do século XX. A tradução da legenda, feita por Samuel Schwartz, é a seguinte: “Na quinta-feira de dezasseis de Shebat do ano cinco mil e setenta e cinco, faleceu o respeitável Rabino Josef de Tomar. Que a sua alma descanse em paz. Foi sepultado neste sepulcro”[9].

Lápide funerária evocativa do rabino Josef de Tomar, no cemitério judaico de Faro

Com a fixação dos franciscanos em Faro no segundo quartel do século XVI, indo os frades capuchos da Província da Piedade, depois substituídos pelos observantes da Província de Portugal, fundar o Convento de S. Francisco em 1529, o culto à Rainha do Céu recresceu e por via do imobiliário simbólico vivificado pelo culto terá mesmo assumido a condição mítico-imperial do tema translatio imperii indicador do reinado futuro do Divino Espírito Santo, teoplasmado na figura hipertúlica da Santa Virgem, e na evocação franciscana do mártir S. Sebastião. No culto feminino estiveram presentes as clarissas de S. Francisco, com duas franciscanas de Beja, Maria das Chagas e Leonor da Trindade, na liderança da construção, em 1519, do Convento de Nossa Senhora da Assunção no lugar da antiga judiaria farense, contando com o apoio da rainha D. Leonor (1458-1525), mulher de D. João II, já que desde 1491 Faro estava integrado nos bens da Casa da Rainha. Esta foi profundamente marcada pela devotio moderna, movimento espiritual nascido no século XIV estreitamente ligado aos valores humanistas. No culto masculino na pessoa de S. Sebastião, encontra-se a presença franciscana na origem da ermida do santo nesta cidade, possivelmente fundada nos fins do século XV ou inícios do XVI, sabendo-se que em 1516 estavam instalados nela dois frades franciscanos, possivelmente capuchos do rol dos que viriam a fundar o Convento de S. Francisco[10].

A proximidade franciscana ao sefardismo farense, sem esquecer que esta antiga vila foi a teve maior número de escravos negros alforriados, que chegaram a ser mais que a população branca nos séculos XVI-XVII, marcando fortemente a presença de África aqui, sem esquecer de anexar a evocação da América, mormente do Brasil, em figuras decorativas de antigos imóveis históricos (na Casa das Figuras à entrada e também quase à saída da urbe, no Celeiro de S. Francisco junto ao resto da muralha seiscentista), dá foro eclético intercontinental a Santa Maria de Harun juntando os vários povos do Mundo aqui e reunindo em uma só assembleia os crentes das três religiões do Livro, assim A aclamando, além de Rainha do Céu, igualmente Mãe Soberana desta sua Terra – Ossónoba.

Revela-se em Faro a evocação do Império Ultramarino Portu-guês, na sua dupla fácies de Espiritual e Temporal, indo bem com a intenção inicial de demanda da “Terra do Preste João”, termo procedente da época do rei São Luís de França (cuja igreja está aqui próxima do cemitério judaico), das viagens de Carpino, missionário franciscano italiano do século XIII na Mongólia, e Rubruquis, religioso franciscano francês explorador da Ásia no século XIII. Constando na Europa que na “Terra do Preste João” a Autoridade Espiritual era exercida em simultâneo com o Poder Temporal, tais funções sendo as mesmas atribuídas a Melki-Tsedek, consignado Rei do Mundo, associariam o Presbítero Máximo do Oriente com esse misterioso personagem bíblico, como ilustra o episódio do dr. Luís Miguel Teixeira, Vigário Geral do Bispado de Faro, que em 1750, perante o Infante D. Pedro, refere-se a Melki-Tsedek como Aquele que une “o Sacerdócio com o Império”[11].

No seu De statu et planctu ecclesie, frei Álvaro Pais, espiritual franciscano que foi bispo de Silves entre 1333 e 1348, atribui a Autoridade Espiritual ao Sacerdotium, “instituído por Deus e transmitido a determinados homens com o fim de conduzirem os fiéis à bem-aventurança eterna”, e o Poder Temporal ao Imperium “assumido pelos príncipes seculares, pelo qual os cidadãos são orientados para o bem comum”[12]. Sendo a Autoridade superior ao Poder, a Instrução maior que o Regime para Álvaro Pais, baseava-se assim nas ideias desenvolvidas pelo agostiniano Tiago de Viterbo (c. 1260-1308), antigo aluno de Egídio Romano, na sua famosa obra De Regime Christiano (1302), escrita no auge do áspero conflito entre o sumo-pontífice Bonifácio VIII e Filipe IV, o Belo, rei de França, na qual o Papa é apresentado como superior ao Imperador[13].

A Ordem Franciscana fundada por São Francisco de Assis em 1209, também é chamada Ordem dos Frades Menores (Ordo Fratum Minorum) e cedo destacou-se por suas proximidades aos ideais de pureza e pobreza do Cristianismo Primitivo, para cujo convencimento e recondução dos fiéis, visando a reforma moral e social da Igreja, fez uso e propaganda da literatura apocalíptica e messiânica, com severas proximidades às ideias joaquimitas do novo evangelho eterno conformado à translatio imperii afim às Idades do Mundo calculado em gerações, como sugere o Evangelho de S. Mateus (1:1) para o famoso abade de Flora.

A Ordem dos Frades Menores tem como ramos os Frades Franciscanos Conventuais (também de 1209), os Frades Franciscanos Observantes (com Regra simplificada pelo Papa Leão XIII na Reforma de 1368), os Frades Franciscanos Capuchinhos (de 1528, ramo reformado dos Franciscanos Observantes) e os Frades Franciscanos da Imaculada (ramo reformado, em 2.8.1970, dos Franciscanos Conventuais). A Regra da Ordem Franciscana – Regula non bullata em 1221, volumosa, e sucinta como Regula bullata, em 1223 – esteve na base da Terceira Ordem Regular de São Francisco (Tertius Ordo Regularis Sancti Francisci), fundada pelo próprio em 1221, saída da Terceira Ordem da Penitência cujos membros desejavam levar um estilo de vida mais próximo do rigor da Primeira Ordem, igualmente da Ordem das Clarissas, fundada por Santa Clara de Assis em 1212 para freiras, e também na base da Ordem Franciscana Secular (Ordo Franciscanus Saecularis) para leigos, sendo a actual denominação da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, ou Irmãos e Irmãs da Penitência.

Ainda que seja dada a presença de S. Francisco de Assis em Portugal em 1214, por via de tradição oral e menos documental, que os documentos que existem sobre o caso estão todos baseados na oralidade[14], o facto comprovado é que a presença franciscana no país só aconteceu três anos mais tarde, depois do Capítulo Geral de 1217. Após essa assembleia magna foram enviados frades por toda a Europa. A Crónica dos XXIV Gerais, compilada em 1370, tendo por base documentação mais antiga, refere os nomes dos dois franciscanos italianos que vieram para Portugal, frei Gualter, que fundou o convento de Guimarães, e frei Zacarias, que fundou o convento de Alenquer[15]. A mesma Crónica refere a passagem por Portugal de frei Berardo e companheiros, em 1220, a caminho de Marrocos onde foram mártires, com a entrada de santa António de Lisboa na Ordem Franciscana. Ele foi, talvez, o primeiro franciscano português.

Praticamente desde o seu início a Ordem Franciscana pretendeu, como disse, a restauração e social da Igreja, mormente do Eclesiástico, e ela mesma tendo se afastado da pobreza original que a caracterizou, houve em seu seio vozes que se levantaram e protestaram pelo restauro e volvimento à sua condição original como Cristo e o Irmão Francisco ditaram, invés da mancebia e partilha dos bens corporais com o clero secular em detrimento dos valores espirituais em que, afinal, a Ordem tinha as suas fundações. Isso gerou forte polémica no seu seio, houveram dissensões e formaram-se partidos, uns a favor das reformas seculares e outros a favor da manutenção da secularidade da Regra. Assim, no início do século XVI (1517-1525), com a aparição do Renascimento, houve grande atrito dentro da Ordem Franciscana, que se dividiu em duas facções: 1.ª) Frades Menores da Regular Observância, ou simplesmente Frades Menores, e Frades Menores Conventuais. Em Portugal essa separação deu origem à criação de duas Províncias: 1.ª) Província de Portugal da Regular Observância, com 27 conventos e sede no Convento de S. Francisco em Lisboa, perfilhando o ideal primitivo franciscano cimentado nos votos de pobreza, castidade e obediência; 2.ª) Província de Portugal dos Claustrais, com 22 conventos e sede no Convento de S. Francisco no Porto, adepta da Reforma e da abertura ao mundo exterior, ao pensamento humanista que então surgia por toda a Europa. As casas da Ordem nas Ilhas da Madeira e Porto Santo ficaram a pertencer aos observantes, e as dos Açores aos claustrais. A presença destes em Portugal e Espanha terminou em 1567, durante o pontificado do Papa dominicano Pio V. Um breve de 1567 obrigou os conventos da claustra a integrarem-se na observância. O breve foi executado no ano seguinte. Antes, em 1525, quando da nova reforma da observância deu-se origem aos Frades Menores Capuchinhos, aprovados pelo Papa Clemente VII em 1528.

Nos séculos XVI e XVII os franciscanos observantes tiveram grande desenvolvimento em Portugal estando organizados em dois grupos de Províncias e Custódias. Havia o grupo da Regular Observância, que era formada pela Província de Portugal, fundada em 1517, pela Província dos Algarves, fundada em 1532, pela Província de S. João Evangelista dos Açores, fundada em 1639, e pelas Custódias de S. Tiago Menor na Madeira, de 1683, e da Conceição dos Açores, de 1715.

Conclui-se que os franciscanos farenses eram observantes da Regra, esta que como espírito da letra dos Estatutos, assim é definida: “A Regra e a vida dos franciscanos seculares é esta: observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo o exemplo de São Francisco de Assis, que fez do Cristo o inspirador e o centro de sua vida com Deus e com os homens” – Rg. 4; 1 Cel. 18, 115).

A Ordem Primeira dos Frades Menores incumbia o apostolado de seguir os passos de Jesus Cristo e de exemplo de obediência para a Igreja. Contrai votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

A Ordem Segunda das Pobres Senhoras consagrava-se ao sacrifício, à oração e ao amor a Deus no Claustro. Contrai votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

A Ordem Terceira da Penitência tem a missão de reavivar nas consciências a honestidade dos costumes e os sentimentos cristãos de paz e caridade, destinada a homens e a mulheres que sem deserção da própria família e sem renunciar às suas propriedades, tentam alcançar a perfeição cristã. São adoptados os Estatutos como regra de vida, mas sem se contraírem os votos perpétuos da Regra da Ordem.

Com as atenções focadas no quinto continente cuja propaganda encomiantes os franciscanos farenses não deixaram em mãos alheias, unindo o Herático com a Tradição, para eles a “Terra Nova” do Preste João já não seria a Etiópia ou a Ásia e sim a América, particularmente o Brasil, a “Nova Lusitânia” de Pedro de Mariz nos seus Diálogos de Vária História, Brasil que até hoje se o reconhece com alma franciscana, desde que em 1500 o franciscano frei Henrique Soares celebrou a primeira Missa do Espírito Santo no areal de Vera Cruz. Terra Virgem destinada a um novo Tempo de uma nova Idade já em si trazendo o culto do Júbilo num novo Templo, o da Igreja do Amor, nisto não deixo de registar, num painel de azulejos na igreja de S. Francisco de Faro, o seu Orago amparando e levantando o edifício da Igreja, a Casa da Nova Igreja, por certo essa do futuro Reinado do Espírito Santo que corresponde ao V Império do Mundo.

S. Francisco impedindo de tombar o edifício da Igreja (painel de azulejos, séc. XVIII, igreja de S. Francisco de Faro)

Também por isso, como alegoria contendo a mensagem ocultada, se vê na cimalha da supracita Casa das Figuras, à entrada de Faro, os dois bois dragónicos americanos, designando a Força Temperadora de Kundalini, como seja o Fogo do Espírito Santo. “Força” como dragão, e “Temperança” como boi manso. Acima o Delfim Negro, a oculta Pedra Filosofal humanizada que é todo o Adepto Perfeito, esse o Makara das tradições iniciáticas portador da Quintessência Mental, logo, Espiritual, irrompido da linfa lustral do Lethes subterrâneo, aqui representado na área florestal da Ria Formosa próxima, o Ludo.

Em paralelismo com o programa decorativo da Casa das Figuras tem-se na Rua Manuel Penteado aquele do Celeiro de São Francisco, próximo da igreja deste santo e da cerca seiscentista do respectivo convento[16]. Como aquela também foi mandado construir pelo desembargador Veríssimo de Mendonça Manuel – cujo brasão feito em massa está sobre a entrada deste torreão octogonal – que encomendou a feitura desta e aquela obras a famoso mestre-canteiro algarvio, o arquitecto Diogo Tavares de Ataíde (Faro, 1711 – Lagoa, 1765)[17]. Este espaço estava integrado na Quinta da Horta dos Cães e o edifício teria a função de celeiro, apesar de ultimamente alguns autores classificarem-no como espécie de casa de fresco de suposta quinta de recreio[18]. Sendo o conjunto de gosto rocaille, as obras do edifício foram completadas entre 1761 e 1789 pelo neto do desembargador, o capitão-mor Manuel Mascarenhas Figueiredo Manuel, que em 1780 vendeu a propriedade aos frades marianos que aí tencionavam construir um convento, cujo propósito não chegou a concretizar-se.

O edifício é de planta centralizada octogonal com dois pisos separados interiormente por abóbada de aresta oitavada. O piso térreo é rasgado por oito óculos, aos quais correspondem no interior os panos da abóbada. No piso superior abrem-se sete janelas rectangulares, também com molduras de massa, e uma porta, do lado oposto à entrada principal do piso anterior, à qual se acede por uma escada de ferro que substitui a original, de cantaria. Numa das faces foi rasgado o portal principal de volta perfeita, sobrepujado pelo brasão da família Manuel. À direita, aparece Hércules coberto com uma pele de leão, empunhando uma maça com que domina a Hidra de Lerna aos seus pés. À esquerda, um índio tupi com toucar, chefe indígena do Brasil, empunha uma vara afiada que enfia na goela de um crocodilo sob ele, acompanhado da inscrição “Cabo da Boa Esperança Adamastor”.

Celeiro de S. Francisco, Faro

Ambas as ilustrações assinalam a vitória da natureza humana sobre a condição animal, a derrota da condição anímica ou psíquica pela mental ou espiritual. Isto como o significado mais óbvio. Do ponto de vista geosófico e em comparação com aquelas ilustrações da Casa das Figuras onde um africano domina feras americanas, aqui um índio brasileiro dobra o crocodilo “Adamastor” do cabo africano, sobrando Hércules (Herakles) vencendo a Hidra (sinónima de Água) de Lerna (filologicamente empática a Lethes ou o Ludo), ficando assim como indicador dos saberes gregos, base da cultura europeia simbolicamente assinalada nesta região sul de Portugal. Com isso fica a sugestão de mensagem alegórica do inter-relacionamento espiritual e cultural triangulado entre África – América – Europa, feita desde aqui, de Santa Maria de Faro, empresa ultramarina de civilização na qual os franciscanos tiveram “parte de leão”.

Hércules matando a Hidra de Lerna é trabalho astrologicamente afim ao signo do Escorpião, o mesmo Makara védico associado no Ocidente ao deus Cúpido, que os orientais chamam Kama-Deva. Sendo o tupi a representação astral do Sol, tal como Hércules (ainda que este esteja mais para o Sol Mercurial), e como ambos como aspecto superior do Makara dominam o inferior do Escorpião, tem-se o Sol em Scorpio que designa, na oitava casa do Zodíaco, vencer anónimo a morte e o reconhecimento póstumo dessa vitória, acarretando a fama do ser imortal. Assinala o devir, o que está por cumprir, nisto e por todas as prerrogativas presentes, o V Império do Espírito Santo, Deus consumidor e renovador, atributos assinalados na função do próprio celeiro, onde se guarda e donde se distribui os cereais que alimentam a vida.

Nesse contexto de reservatório da seara da vida, o formato octogonal do torreão remete ainda para o simbolismo egípcio da cidade mitológica de Chemenu (em árabe, a actual Ashmun; em grego, Hermonópolis, a “Cidade dos Oito”, número da Perfeição), povoada de crocodilos e dragões que haviam nascido do barro original de que nascem todas as criaturas (Mulaprakriti ou a Matéria-Prima do Universo). Com esses seres, o deus Sol (Aton ou Hércules) erigiu a torre original que se tornou o celeiro de tudo quanto vive.

Esse mito egípcio de Chemenu parece enquadrar bem no significado hermético do Celeiro da Horta de São Francisco, onde o Escorpião (Makara), como Hierarquia dos Senhores do Mental Criador, cria os dispositivos necessários à criação do Homem Novo de Nova Idade do Mundo, segundo a tese iniciática, sendo o mais interessante de tudo o tecer-se tamanho plano ou desígnio em terras do Ocidente ou Al-Gharb (الغرب), o Algarve como Jardim de Allah (Allah-Garden), o mesmo Paraíso Terreal, Terra da Virgem, centralizado em Faro capital da extrema província sul de Portugal, na arrancada decisiva para um novo estado de Humanidade.

 

NOTAS

 

[1] José António Pinheiro e Rosa e António Centeno Serrano Santos, Monumentos e Edifícios Notáveis do Concelho de Faro. Edição da Câmara Municipal de Faro, 1984. Francisco Lameira, Faro Edificações Notáveis. Edição da Câmara Municipal de Faro, 1995.

[2] Rui Paula e Frederico Paula, Ossónoba, Santa Maria Ibne Harun. Edição Câmara Municipal de Faro, Novembro de 1993.

[3] Batalha Gouveia, O topónimo Faro. Jornal do Incrível, Lisboa, 12.1.1982.

[4] Manuel Viegas Guerreiro, Judeus, em Dicionário de História de Portugal, pág. 409, vol. III. Livraria Figueirinhas, Porto, 1981.

[5] Alberto Iria, Os Judeus no Algarve Medieval. Anais do Município de Faro, vol. XIV, 1984.

[6] Ralf Pinto, Cemitério Israelita de Faro e Museu, 1838-1932. Edição da Câmara Municipal de Faro, 1997.

[7] Frei Vicente Salgado, Memórias Eclesiásticas do Reino do Algarve, Tomo I (único publicado). Régia Oficina Tipográfica, Lisboa, 1786.

[8] Pentateuco – 1.º Livro Impresso em Portugal, com um estudo introdutório de Manuel Cadafaz de Matos, da Academia Portuguesa de História. Editora “Sul, Sol e Sal”, Faro, 2017.

[9] J. M. Santos Simões, Tomar e a sua Judiaria. Edição do Museu Luso-Hebraico, Tomar, 1943.

[10] Frei Jerónimo de Belém, Chronica Serafica da Santa Provincia dos Algarves da Regular Observancia de nosso Serafico Padre S. Francisco. Lisboa, 1755.

[11] Oração funebre que nas exéquias, à Magestade Fidelíssima do Muito Alto, e Poderoso Rey, e Senhor D. João V celebrou na Catedral de Faro em 29 de Agosto de 1750 o Excelentissimo, e Reverendissimo Senhor D. Ignacio de S. Teresa, Arcebispo Bispo daquela Diocese. Lisboa, 1751.

[12] João Morais Barbosa, O «de statu et planctu ecclesiae», Estudo crítico. Universidade Nova, Lisboa, 1982. Do mesmo autor, Álvaro Pais. Colecção Pensamento Português, Editorial Verbo, Lisboa, 1992.

[13] José António de Souza, As causas eficiente e final do poder espiritual na visão de D. Frei Álvaro Pais. Anales del Seminario de Historia de la Filosofia, Universidad Complutense de Madrid, 2008.

[14] O autor de uma das primeiras crónicas da Ordem, fr. Marcos de Lisboa, que escreveu a sua Crónica em 1557, aventa a hipótese de S. Francisco, na sua peregrinação a Compostela, ter passado por Guimarães e se ter encontrado com D. Urraca, esposa de D. Afonso II (Livro I, cap. xxxv). Sem apresentar documentos comprovativos, fr. Marcos de Lisboa refere simplesmente que é “segundo alguns dizem” e que “se acha escrito”. Esta tradição foi-se arraigando e fr. Manuel da Esperança, no primeiro volume da sua Crónica da Província Franciscana de Portugal, apresenta um trajecto completo dessa suposta viagem. Segundo ele, S. Francisco teria passado pela Guarda, Guimarães, Braga e Ponte do Lima, e no regresso teria passado por Bragança e aí fundado o primeiro convento da Ordem em Portugal. A falta de documentos históricos não permite afirmar a veracidade dessas tradições, que dão S. Francisco de Assis em terras portuguesas em 1214.

[15] Crónica da Ordem dos Frades Menores (1209-1285). Edição José Joaquim Nunes, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1918.

[16] José Victor Adragão, Algarve. Editorial Presença, Lisboa, 1985. Raul Proença, Guia de Portugal II (Estremadura, Alentejo, Algarve). Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Abril de 1991.

[17] Daniel Santana, Diogo Tavares e o acrescentamento da igreja de Nossa Senhora do Carmo de Faro (1742). Revista do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 7-8, 2009.

[18] José Eduardo Horta Correia, A Torre da Horta dos Cães. Em Monumentos 24: Faro, de vila a cidade. Lisboa, 2006.

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