No contexto dos santos e profetas coevos da Ordem do Templo ou mesmo afiliado nela, vem a aparecer o nome de Jean de Mareuil, dito Jean de Vézelay ou João de Jerusalém, pressuposto profeta dos Templários que teria escrito em francês medieval 40 premonições, entre 1117 e 1119, data da sua morte, quando se encontrava como peregrino junto aos cruzados em Jerusalém.

Este profeta João terá nascido na França em 1042 e acompanhado os cruzados à Terra Santa, onde chegou em 1099. Já no final da sua vida, escreveria aí os seus vaticínios, num estilo escorreito e simples, anunciando de forma apocalíptica eventos que se perspectivam num horizonte temporal vindo do milénio em que viveu até ao milénio que se iniciou no ano 2000.

Abraçou a Regra da religião de São Bento dos beneditinos de Mosteiro de Vézelay, França, ficando notícia dele como um dos seus priores. Muito viajado, há também notícia de ter feito várias peregrinações a Santiago de Compostela e se deslocado a Bizâncio, onde integrou a Cruzada a Jerusalém, segundo M. Galvieski[1].

Procuração de Jean de Mareuil. Avignon, Arch. dép. Vauclese, 3 E 5 994 (fol. 34v, haut)

Esse professor Galvieski diz ter descoberto por acaso o manuscrito original das Profecias de João de Jerusalém nos inícios de 1942, na biblioteca pública da comunidade judaica de Varsóvia, pouco antes de ser saqueada pelos nazis, mas não informa se chegou a copiar o documento. A única verdade provada é que o gueto de Varsóvia foi completamente saqueado e arrasado pelos nazis, tendo  o saque ido parar à Alemanha de Hitler. Após a conquista desta última pelas forças aliadas, também estas se entregaram ao saque, e assim procedeu com especial dedicação o exército soviético ocupante de Berlim. De maneira que, ainda segundo o professor Galvieski, entre os finais de 1992 e os inícios de 1993, ele tornaria a descobrir o documento das Profecias, dessa feita na Rússia, nos arquivos do Mosteiro da Saint Trinité de Saint Serge em Zargorsk, perto de Moscovo.

Em 1994, o professor Galvieski publicaria esse insólito documento que traduziu para o francês moderno[1]. De então para cá, o texto foi sucessivamente editado por outros nas suas respectivas línguas (francês, inglês, alemão e espanhol). Pessoalmente tenho dúvidas – iguais no respeitante à veracidade das pressupostas cartas trecentistas de Larmenius, parecendo-me simples invenção para «provar» que a Franco-Maçonaria e todas as correntezas templistas ou neo-templárias, aparecidas nos séculos XVIII-XIX, são herdeiras directas da original Ordem do Templo – quanto à veracidade do mesmo, tanto mais que há severas semelhanças entre o que está escrito nele e as profecias do Vishnu-Purana e mesmo o que Ferdinand Ossendowsky descreveu no seu clássico Animais, Homens e Deuses, o que se agrava com a ausência em muitos pontos do estilo literário medieval. Por outro lado, para contrapor à minha dúvida, a dado passo das suas Profecias João de Jerusalém refere Heródoto e continentes imensos para além das Colunas de Hércules, apontando claramente a África e a América. Pois bem, na basílica do Mosteiro de Vézelay, terminada em 1140, encontram-se pinturas murais com representações fantásticas dos diferentes povos do mundo (gigantes, pigmeus, etíopes, etc.), as quais estão inteiramente conformadas às descrições fornecidas pelo mesmo Heródoto. Isto não deixa de ser significativo.

Por outra parte, temo a invenção de um novo “Protocolo Secreto” tal qual foram inventados, também na Rússia, os “Protocolos dos Sábios de Sião”, e agora este que é aproveitado de todas as maneiras para justificar as mais extravagantes “teorias da conspiração”, como aqueles o foram para justificar as mais bizarras e sanguinárias “teorias xenófobas”.

Apesar de tudo, como o texto integral nunca foi dado em língua portuguesa, considero chegado o momento de traduzi-lo da versão francesa apresentando-o sem nenhum mais comentário pessoal, deixando o critério da sua mais ou menos valia à consideração exclusiva do leitor.

PROFECIAS DE JOÃO DE JERUSALÉM

Eu vejo e sei.

Os meus olhos descobrem no Céu o que será e atravesso o tempo num só passo.
Uma mão me guia para o que não vedes nem sabeis.

Mil anos terão passado e Jerusalém não será mais a cidade dos Cruzados de Cristo.
A areia terá enterrado sob os seus grãos as muralhas dos nossos castelos, as nossas
armaduras e os nossos ossos. Ela terá sufocado as nossas vozes e as nossas preces.

Os Cristãos vindos de longe como peregrinos ali, onde estavam o seu Direito e a
sua Fé,  não ousarão aproximar-se do Sepulcro e  das Relíquias senão escoltados
por Cavaleiros Judeus, que terão aqui, como se o Cristo nunca tivesse sofrido na
Cruz, o seu Reino e o seu Templo.

Os Infiéis serão uma multidão inumerável que se espalhará por toda a parte
e a sua fé ressoará como um tambor de um extremo ao outro da Terra.

Eu vejo a Terra imensa.

Continentes que Heródoto não nomeou, nem nos seus sonhos, e mais além das grandes
florestas de que fala Tácito, serão acrescentados, lá longe no fim  dos mares ilimitados
que começam após as Colunas de Hércules.

Mil anos terão passado desde o tempo em que vivemos e por toda a parte os feudos se
reunirão em grandes reinos e vastos impérios.
Guerras, tão numerosas como as malhas da cota que portam os Cavaleiros da Ordem,
se entrecruzarão, arruinarão os reinos e os impérios, e tecerão outros.

E os servos, os vilões, os pobres sem lar se revoltarão mil vezes, queimando as colheitas,
os castelos e  as cidades,  até que sejam queimados vivos e  os sobreviventes obrigados a
voltar aos seus covis.
Eles terão se acreditado Reis.

Mil anos terão passado e o Homem terá conquistado o fundo dos mares e dos céus
e será como uma estrela no firmamento.
Ele terá adquirido o poder do Sol e  se tomará por Deus,  levantando sobre a Terra
imensa mil Torres de Babel.
Ele terá construído muros  sobre as ruínas daqueles  levantados pelos Imperadores
de Roma, e eles separarão, numa nova vez, as Legiões das Tribos Bárbaras.
Mais além das grandes florestas, haverá um Império.
Quando os muros se afundarem, o Império não será mais que uma água lamacenta.
Os povos serão mais uma vez misturados.

Então começará o Ano Mil que vem após o Ano Mil.
Eu vejo e sei o que ele será.
Eu sou o escriba.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil, o Homem estará diante da
entrada sombria de um labirinto obscuro.
E eu vejo no fundo dessa noite na qual ele vai entrar, os olhos vermelhos do Minotauro.
Guarda-te do seu furor cruel, tu que viverás o Ano Mil que vem após o Ano Mil.

QUANDO COMEÇAR O ANO MIL QUE VEM APÓS O ANO MIL…

1.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O ouro estará no sangue
De quem olha as estrelas e conta os lucros.
Quem entrar no Templo avistará os mercadores.
Os Soberanos serão cambistas e usuários.
O Gládio defenderá a Serpente.

Mas o fogo alastrará.
Cada cidade será Sodoma e Gomorra.
E os filhos dos filhos tornando-se a nuvem ardente,
Levantarão os velhos estandartes.

2.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem terá povoado os Céus e a Terra e os Mares
Com as suas Criaturas.
Ele ordenará.
Ele quererá os poderes de Deus.
Ele não conhecerá qualquer limite.

Mas cada coisa retornará.
Ele titubeará como um rei ébrio.
Galopará como um cavaleiro cego
E a golpes de espora adentrará a sua montada na floresta.
No final do caminho estará o abismo.

3.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Se levantarão em todos os lugares da Terra as Torres de Babel.
Assim será em Roma e assim será em Bizâncio.
Os campos ficarão vazios
E não haverá justiça em parte alguma.

Mas os Bárbaros ocuparão a cidade
E não haverá mais pão para todos.
E as manipulações deixarão de resultar
Quando as pessoas sem futuro alimentarem os grandes incêndios.

4.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
A fome encherá o ventre de tantos homens
E o frio gelará tantas mãos
Que eles desejarão ver um outro mundo
E verão os mercadores de ilusões propondo a poção.

Mas ela destruirá os corpos e apodrecerá as almas.
E aqueles que misturaram a poção ao seu sangue
Serão como a besta selvagem caída na armadilha.
E matarão e violentarão e espoliarão e roubarão
E a sua vida será um apocalipse a cada dia.

5.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Cada um procurará desfrutar de tudo o que puder.
O homem repudiará a sua esposa tantas vezes quantas se casar
E a mulher irá pelos caminhos perdidos (fúteis) tomando daí
Quanto lhe der prazer.
Parirá sem dar o nome do Pai.

Mas nenhum Mestre guiará o Menino.
E cada um entre os demais estará só.
A Tradição estará perdida.
A Lei será esquecida
Como se o Anúncio não tivesse sido feito,
E o Homem tornar-se-á selvagem.

6.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O pai buscará o prazer com a sua filha,
O homem com o homem, a mulher com a mulher,
O velho com a criança impúbere,
E isso perante os olhos de todos.

Mas o sangue se tornará impuro.
O mal se espalhará de leito em leito.
O corpo acolherá todas as putrefacções da terra,
Os rostos serão corroídos, os membros descarnados.
O amor será uma grande ameaça para aquele que não se conhecem
Senão pela carne.

7.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Aquele que falar de Juramento e de Lei não será ouvido,
Aquele que pregar a Fé do Cristo perderá a sua voz no deserto.
Mas por toda a parte se estenderão as águas poderosas das religiões infiéis.

Os falsos messias reunirão os homens cegos
E o infiel armado será como nunca antes tinha sido.
Ele falará de injustiça e de direito e a sua fé ardente e cortante
Se vingará da Cruzada.

8.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
A fama do assassínio correrá como a tempestade sobre a Terra.
Os bárbaros serão misturados com os soldados das últimas legiões.
Os infiéis viverão no coração das Cidades Santas.
Cada um será mais bárbaro que o outro, infiel e selvagem
E não terá nenhuma ordem nem regra.

O ódio se espalhará como a chama na floresta seca.
Os bárbaros massacrarão os soldados.
Os infiéis degolarão os crentes.
A selvajaria será de cada um e de todos e as cidades perecerão.

9.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens se julgarão entre si segundo o seu sangue e a sua fé.
Ninguém escutará o coração sofredor das crianças,
Serão abandonadas como passarinhos
E não haverá ninguém para as proteger da mão dura enluvada.

O ódio inundará as terras que se acreditavam pacíficas
E ninguém será poupado, nem os velhos, nem os feridos.
As casas serão destruídas ou assaltadas,
Uns usurpando o lugar dos outros,
Cada um fechando os olhos para não ver as mulheres violadas.

10.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Cada um saberá o que existe em todos os lugares da Terra.
Se verá a criança com os ossos percebendo-se através da pele,
Àquele cujos olhos estão cobertos de moscas
E aquele que se persegue como a um rato.

Mas o homem que veja afastará o olhar
Porque não se importa senão consigo.
Ele só dará um punhado de grãos como esmola
Quando estiver seguro de ter os sacos cheios,
E o que der com uma mão recuperará com a outra.

11.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem fará mercado com tudo.
Cada coisa terá o seu preço,
A árvore, a água e o animal.
Verdadeiramente nada será dado e tudo será vendido.
Então o Homem não será mais que o peso da carne.

Trocará o seu corpo como um quarto de carne.
Venderá os seus olhos e o seu coração.
Nada lhe será sagrado, nem a sua vida, nem a sua alma.
Os seus despojos serão disputados como uma carcaça a esquartejar.

12.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem terá modificado a face da Terra.
Julgar-se-á o Mestre e o Soberano das florestas e dos rebanhos.
Terá cruzado a terra e o céu
E traçado o seu sulco nos rios e nos mares.

Mas a Terra estará nua e estéril.
O ar será ardente e a água fétida.
A vida fenecerá porque o Homem esgotará a riqueza do mundo.
E o Homem estará só como um lobo
No ódio a si mesmo.

13.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Também a própria criança será vendida.
Alguns se servirão dela como de uma quintana *
Para gozar da sua pele jovem.
Outros a tratarão como um animal servil
Esquecendo a fraqueza sagrada da criança
E seu mistério.

Ela será como um sapato que se usa,
Como um cordeiro degolado que se abate.
E o Homem não será mais que barbárie.

(*) Nota V.M.A. – A quintana era aquela espécie de manequim estofado de que os cavaleiros se serviam para treinar à espada ou à lança (cf. Larousse).

14.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O olhar e o espírito dos homens serão prisioneiros.
Eles serão ébrios e o ignorarão.
Tomarão as imagens e os reflexos pela verdade do mundo.
Será feito com eles o que se faz com a carneirada.

Então os carniceiros virão.
Os repaces os enganarão para melhor os guiar para o abismo
E os lançar uns contra os outros.
Serão esfolados para ficar com a sua lã e a sua pele.
E se o Homem sobreviver estará despojado da sua Alma.

15.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Reinarão os Soberanos sem crença.
Mandarão nas multidões humanas inocentes e passivas,
Esconderão os seus rostos e guardarão os seus nomes secretos.
E as suas fortalezas estarão perdidas nas florestas
Mas decidirão da sorte de tudo e de todos.

Ninguém participará das assembleias da sua Ordem.
Cada um será um verdadeiro escravo mas que se acredita homem livre e cavaleiro.
Serão os únicos a ser enviados às cidades selvagens e às fés heréticas,
Mas logo serão vencidos e queimados vivos.

16.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens serão tão numerosos sobre as terras
Que se parecerão a um formigueiro onde se crava um bastão.
Agitar-se-ão e a morte os esmagará com o seu tacão como a insectos enlouquecidos
Por grandes movimentos empurrando uns contra os outros.

As peles escuras se mesclarão às peles brancas,
A Fé do Cristo àquela da Infidelidade.
Alguns pregarão a paz jurada
Mas por toda a parte será a guerra das tribos inimigas.

17.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens quererão transpor todos os limites.
A mulher terá os cabelos grisalhos de uma velha.
O caminho da Natureza será abandonado
E as famílias serão como grãos separados que nada pode unir.

Esse será então um outro mundo
Onde cada um errará sem freio como um cavalo embalado
Indo em todos os sentidos sem direcção.
Infeliz do cavaleiro que cavalgar tal montada,
Ela não terá estribos e o atirará no fosso.

18.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens não se submeterão mais à Lei de Deus
Mas quererão guiar a sua vida como uma cavalgadura.
Eles irão escolher as suas crianças no ventre das suas mulheres
E matarão aquelas que não desejam.
Mas o que será o homem que se toma assim por Deus?

Os Poderosos se apoderarão das melhores terras e das mais belas mulheres.
Os pobres e os fracos serão como gado.
Cada casebre tornar-se-á mirante,
O medo será em cada coração como um veneno.

19.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Uma Ordem Negra e Secreta terá surgido.
O ódio será a sua lei e a sua arma o veneno.
Desejará sempre mais ouro e estenderá o seu reino por toda a Terra.
E os seus servidores estarão unidos entre si por um beijo de sangue.
Os homens justos e os fracos sofrerão a sua regra.

Os Poderosos se porão ao seu serviço.
A única lei será aquela ditada na Sombra.
O veneno será vendido até nas igrejas
E o mundo marchará com o escorpião sob os seus calcanhares.

20.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
A maioria dos homens ficará parada de braços cruzados.
Muitos caminharão sem meios de olhos vazios
Por não terem mais forja onde bater o metal
Nem mais campo para cultivar.

Eles serão como um grão sem raiz,
Errantes e desnudos, humilhados e desesperados.
Frequentemente sem ligações, os mais jovens e os mais velhos
Não terão senão a guerra por salvação
E logo combaterão entre eles e odiarão a sua vida.

21.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
As águas enfermas do céu e da Terra
Atingirão o Homem e o ameaçarão.
Ele desejará fazer renascer o que destruiu e proteger quanto subsiste.
Terá saudades dos dias do Passado
Mas será demasiado tarde.

O deserto consumirá a Terra e a água estará cada vez mais no fundo.
Em certos dias ela cairá em toda a parte como um dilúvio
E no dia seguinte faltará na Terra.
E o vento estremecerá os corpos dos mais fracos.

22.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
A terra tremerá em muitos lugares e as cidades se afundarão.
Tudo quanto tenha sido construído sem ouvir os Sábios será ameaçado e destruído.
A lama submergirá as cidades e o solo se abrirá sob os palácios.
O Homem se obstinará porque o orgulho é a sua loucura.
Ele não entenderá o aviso repetido da Terra.

Mas o incêndio destruirá as novas Romas
E nos escombros acumulados
Os pobres e os bárbaros pilharão, malgrado as Legiões,
As riquezas abandonadas.

23.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Sol queimará a Terra.
O ar não será mais o véu que protege do fogo.
Ele não será senão uma cortina esburacada
E a luz ardente queimará as peles e os olhos.

O mar se elevará como a água que ferve
E as cidades e os rios serão engolidos
E continentes inteiros desaparecerão.
Os homens se refugiarão nas alturas
E logo esquecendo reconstruirão quanto sobreviveu.

24.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens saberão tornar vivas as miragens.
Os sentidos serão enganados e eles acreditarão que tocam no que não existe.
Eles seguirão por caminhos que só os seus olhos vêem
E assim o sonho poderá tornar-se vivo.

O Homem não saberá mais separar o que é do que não é
E perder-se-á em labirintos falsos.
Aqueles que souberem fazer nascer as miragens
Rirão do homem ingénuo ao enganá-lo,
E muitos homens se tornarão cães de fila.

25.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os animais que Noé tinha embarcado na sua Arca
Não serão mais nas mãos do Homem
Do que bestas transformadas segundo a sua vontade.
E quem se apiedará do seu sofrimento vivo?
O Homem terá feito de cada espécie o que quis
E terá destruído inumeráveis.

Que acontecerá ao homem que tenha alterado as Leis da Vida?
Que tenha feito do animal vivo um torrão de argila?
Será ele o igual de Deus ou o filho do Diabo?

26.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Temer-se-á pelo filho do Homem.
A peste e o desespero o envolverão.
Não desejará senão para si e não para o próximo ou para o mundo.
Será acossado pelo prazer e por vezes venderá o seu corpo.
Mas mesmo aquele que é protegido pelos seus
Sofrerá a ameaça de ver o seu Espírito morto.

Viverá no jogo e na miragem que o guiarão,
Porque não terá mais Mestre nem ninguém
Que o ensinem a esperar e a agir.

27.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O homem se acreditará Deus ainda que seja igual a quando nasceu.
Agirá sempre dominado pela cólera e pela inveja.
O seu braço estará armado do poder em que se ampara
E o Prometeu cego poderá destruir tudo à sua volta.

Será um anão como alma mas terá a força dum gigante.
Avançará em largas passadas ignorando o caminho a seguir.
A sua cabeça estará pesada de sabedoria
Mas não saberá por que vive e por que morre.
Será sempre como o louco que esbraveja ou como a criança que choraminga.

28.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Países inteiros serão os despojos da guerra
Além do limés * romano e mesmo sobre o antigo território do Império.
Os homens dessas mesmas cidades se degolarão.
Aqui será a guerra entre tribos e lá entre crentes.

Os Judeus e os filhos de Allah não deixarão de se confrontar
E a terra do Cristo será o seu campo de batalha.
Mas os infiéis quererão em toda a parte defender a pureza da sua fé
E não haverá em face deles senão dúvida e poder.
Então a morte avançará em toda a parte como o estandarte dos tempos novos.

(*) Nota V.M.A. – O limés é o conjunto de fortificações mais ou menos contínuo que marcava outrora os limites do Império Romano (cf. Larousse).

29.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Multidões de homens serão excluídos da vida humana.
Eles não terão nem direitos, nem tecto, nem pão.
Estarão nus e não terão senão os seus corpos para vender.
Serão expulsos para longe das Torres de Babel da opulência.

Agitando-se como um remorso e uma ameaça,
Eles ocuparão países inteiros e proliferarão.
Escutarão as prédicas da vingança
E se lançarão ao assalto das Torres orgulhosas.
Será chegado o tempo das invasões bárbaras.

30.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem será atirado no labirinto obscuro.
Terá medo e fechará os olhos por não mais saber ver.
Desconfiará de tudo e receará a cada passo.
Mas será impelido adiante por nenhuma paragem lhe ser permitida.
A voz de Cassandra soará em toda a parte alta e forte
E não será ouvida.

Porque ele quererá possuir sempre mais e a sua cabeça estará perdida nas miragens.
Aqueles que forem os seus mestres o enganarão
E não terá senão maus pastores.

QUANDO FOR PLENO O ANO MIL QUE VEM APÓS O ANO MIL…

31.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens terão finalmente aberto os olhos.
Não estarão mais fechados nas suas cabeças e nas suas cidades.
Ver-se-ão e ouvirão de um ponto ao outro da Terra.
Saberão que o que golpeia a um fere ao outro.

Os homens formarão como que um corpo único
De que cada um será uma parte ínfima.
E juntos constituirão o coração
E haverá uma língua que será falada por todos
E nascerá enfim o Grande Humano.

32.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem terá conquistado o céu.
Criará estrelas no grande mar azul sombrio
E navegará nessa nave brilhante
Novo Ulisses companheiro do Sol para a Odisseia celeste.

33.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens poderão mergulhar nas águas.
O seu corpo será novo e eles serão peixes
E alguns voarão mais alto que os pássaros
Como se a pedra não caísse.

Eles comunicarão entre si
Por o seu espírito estar tão aberto que recolherá todas as mensagens.
E os sonhos serão partilhados
E eles também viverão tanto tempo como o mais velho dos homens,
Aquele de que falam os Livros Santos.

34.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem saberá qual é o espírito de toda a coisa.
Na pedra ou na água, no corpo do animal ou no olhar de outro
Ele perceberá os segredos possuídos pelos Deuses antigos.
Atravessará porta após porta no labirinto da vida nova.

Criará com o poder e a alegria de uma fonte.
Ensinará a Sabedoria à multidão de homens
E as crianças conhecerão a Terra e o Céu mais que nenhuma outra antes delas.
E o corpo do Homem será engrandecido e hábil
E o seu Espírito terá envolvido todas as coisas e as possuirá.

35.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem não será mais o único soberano porque a Mulher empunhará o Ceptro.
Ela será a Grande Mestra dos tempos futuros
E o que pensar imporá aos homens.
Ela será a Mãe desse Ano Mil que vem após o Ano Mil.

Derramará a doçura terna de Mãe após os dias do Diabo.
Será a beleza após a fealdade dos tempos bárbaros.
O Ano Mil que vem após o Ano Mil mudará presto
E se amará e se partilhará,
Se sonhará e se dará vida aos sonhos.

36.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem conhecerá um segundo nascimento.
O Espírito dominará as hostes dos homens
Que comungarão na Fraternidade.
Então se anunciará o fim dos tempos bárbaros.

Esse será o tempo de um novo vigor da Fé
Depois dos dias negros do começo do Ano Mil que vem após o Ano Mil.
Começarão os dias felizes,
O homem reencontrará o caminho dos homens
E a Terra será ordenada.

37.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
As vias irão de um lado ao outro da Terra, e do Céu ao outro lado.
As florestas serão novamente densas
E os desertos terão sido irrigados.
As águas serão novamente puras,
A Terra será como um jardim.

O Homem protegerá tudo o que vive,
Purificará o que conspurcou
E será sábio pensando nos vindouros.

38.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Cada um será como um passo regulado.
Saberá tudo do mundo e do seu corpo,
Cuidará da doença antes dela aparecer.
Cada um será médico de si e dos outros,
Pois compreendeu que deve ajudar para sobreviver.

E o Homem após os tempos de isolamento e de avareza
Abrirá o seu coração e a sua bolsa aos mais desmunidos.
Se sentirá Cavaleiro da Ordem Humana
E assim será num Tempo Novo que começará.

39.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem terá aprendido a dar e a partilhar.
Os dias amargos de solidão terão passado.
Acreditará novamente no Espírito
E os bárbaros terão adquirido o direito de cidadania.

Mas isso virá depois das guerras e dos incêndios,
Isso surgirá dos escombros enegrecidos das Torres de Babel.
E terá sido necessário pulso de ferro
Para se ordenar a desordem
E o Homem encontrar o bom caminho.

40.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem saberá que todos os seres vivos são portadores da Luz
E que são criaturas a respeitar.
Terá construído novas cidades
No céu, sobre a Terra e sobre o mar.

Conservará a memória do que foi
E saberá ler o que será.
Não mais terá medo da sua própria morte
Porque terá vivido em sua vida muitas vidas,
E saberá que a Luz jamais se extinguirá.

*

[1] Juan de Jerusalén, Las profecias de los templarios. Introdução, notas, textos e epílogo de M. Galvieski. Ed. Tikal, Girona, 1996.

[2] Le Livre des Prophéties – Le troisiéme millénaire révélé – de Jean de Jerusalem, traduit par M. Galvieski, qui a découvert le manuscrit du Livre des Prophéties. Ed. J. C. Lattés, 1994.

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