Multa paucis… Muitas coisas em poucas palavras.

Quem está defronte da capela privada ou familiar da Quinta da Regaleira, vê no nicho lateral direito, em tamanho natural, a imagem de Santa Teresa de Ávila ou de Jesus. Além de conectar-se à antroponímica familiar de Carvalho Monteiro por parte materna, Ana Teresa Carolina de Carvalho, devota leiga da Ordem do Carmelo no Rio de Janeiro, essa santa também o está para Portugal no contexto sebástico, facto por certo do conhecimento ilustre do encomendante que mandou impô-la onde está.

Após o desastre militar de Alcácer-Quibir, ante o desespero geral que invadiu o reino com a sucessão dinástica abruptamente interrompida e não havendo sucessor para governar, aventou-se que D. Sebastião não teria morrido na desastrosa campanha africana, tão-só desaparecido… Partilha disso Teresa de Ávila: escrevendo a um dos seus amigos, lamenta que o rei se houvesse “perdido”, sem contudo admitir a morte física, como era então crença geral. Esse motivo do “monarca perdido” levaria Santa Teresa a constituir, no século XVII, um dos suportes eruditos do Restauracionismo Lusitano, em que a ideia sebástica do Encoberto amadureceu e se propagou[1]. Tanto levou a que varões doutíssimos seguissem “não a vulgar dúvida da morte, mas que passassem a esperar com a sua vida a restituição do seu Império”[2], esperança acalentada e propagada durante o período filipino pela Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, cuja influência política patriótica acabou por conduzir o duque de Bragança à ocupação do trono de Portugal como rei D. João IV, consumando-se assim a restauração da independência nacional, facto que levou alguns, em inflamados discursos patrióticos, a verem no monarca o próprio “Príncipe Encoberto”, com isso ligando-o simbolicamente à pessoa desejada do desaparecido D. Sebastião, como fez o próprio Padre António Vieira, finalmente revelado restaurador da pátria ofendida[3].

António Augusto Carvalho Monteiro revela-se também perfilhar, no seu particular catolicismo “esotérico”, do ideal sebástico como “religião pátria”, expressando-o através das várias formas de arte plástica mas parecendo atribuir um valor menos conspirativo e mais metafísico ao mito do Encoberto, inclusive relacionando-o com a sua própria ascendência familiar inscrevendo-a numa linhagem sebástica ou de seres espiritualmente iluminados, distanciados da noção vaga sebastianista que aguarda a vinda do “rei-salvador”, tal qual os judeus esperam até hoje o advento do seu Messias restaurador, sabendo-se que o rei malogrado D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer-Quibir em 4.8.1578, com ele morrendo a independência do país mas nascendo o mito nacional do Sebastianismo, filho do Messianismo ibérico muito mais antigo[4].

O mesmo deve ter-se passado com Santa Teresa, apesar de parecer confundir em diversos trechos das suas cartas o Sebastião real com o Sebastião simbólico. Mesmo assim, ela dispõe-no sempre no Castelo Interior ou as [Sete] Moradas, que o Anjo lhe apresentou através de uma visão resplandecente[5], não me custando admitir que a torre da Regaleira acaso igualmente figure, à posteriori por iniciativa de Carvalho Monteiro, a torre carmelita.

Em uma outra obra minha[6], aquando falei de Moscavide, tive ocasião de dizer sobre Santa Teresa de Ávila:

“Ainda em Moscavide e pegando com a Quinta do Cabeço, existe a Quinta do Candeeiro, com capela do século XVIII, fundada por Lázaro Monjardim, “mordomo do culto divino” na igreja do Loreto, depois de 1718. Hoje é propriedade das servas de Nossa Senhora de Fátima, tendo sido antes (Outubro de 1899) convento das carmelitas descalças, foragidas em 1834 do Convento da Estrela, anexo à basílica, em Lisboa.

“Aquando da sua fuga, as carmelitas levaram consigo para Moscavide uma relíquia bastante singular do século XVII: o braço direito, metido num relicário de prata, da falecida Santa Teresa de Ávila. O culto popular a essa relíquia foi tão grande que ainda hoje perdura a sua memória no nome da estação ferroviária de Braço-de-Prata (não confundir com o célebre militar do século XVII, António de Sousa Meneses, de alcunha também o “braço-de-prata”), antes apeadeiro dos peregrinos ribatejanos que iam aos Olivais venerá-la[7].

“Por volta de 1930, o relicário e o membro sacro foram oferecidos pelas carmelitas do Candeeiro ou da Estrela (apodos dados ao luminoso astro matutino, Vénus) à família do Generalíssimo Franco, que os levou para Ávila, em Espanha. De então para cá, não havendo relíquias para venerar o culto feneceu…

“Mas já era grande o culto a Santa Teresa com ela ainda viva. Apesar de em vida não ter visto impresso nenhum título do seu vasto cardápio literário, contudo, após a sua morte, as suas obras seriam largamente difundidas internacionalmente. Seis anos antes da canonização de Madre Teresa, o leitorado português recebeu uma edição integral dos livros da sua autoria: Los libros de la B. Madre Teresa de Iesus (Lisboa, 1616), na edição da imprensa de António Alvarez.

“O seu livro Castelo Interior ou as Moradas, teria profunda influência tanto no Restauracionismo Lusitano quanto no Romantismo religioso, direi assim, do homem mais singular que Sintra conheceu nos fins do século XIX e inícios do imediato: António Augusto Carvalho Monteiro, que foi quem mais exaltou a pessoa de Santa Teresa, por via da arte escultórica e vitral, na sua capela da Quinta da Regaleira.

“Reza também a tradição popular sobre a Quinta do Candeeiro que o poço desta tem fundura incalculável e é uma espécie de torre subterrânea do “Castelo Interior” falado por Santa Teresa nas suas Cartas. Enfim, tradições sibilinas e coisas de sibilas!…”

A visão carmelitana do “Castelo Interior”, inferior ou subterrâneo, seria materializada na Quinta da Regaleira nas duas torres subterrâneas e mais a terceira que deu o nome à propriedade, nessa última ficando exposta, de maneira velada, ainda assim patente, a figura romantizada da fada Melusina. Todas as três torres possuídas do sentido substancial de pólo, com isto apontam a presença ocultada da Terra Primordial, do Paraíso Terrestre de Dante, igual à Agharta ou “Terra sem Mal” das tradições hindus e tibetanas, donde haverá de vir o Prometido, o mesmíssimo Encoberto vislumbrado nas visões da carmelita iluminada de Ávila, identificado no Messianismo Lusitano ao Desejado Imperador Universal que inaugurará a Quinta Idade do Mundo, o V Império ou a Quinta Monarquia já falada no século XVII por frei Sebastião de Paiva[8]. O sebástico Imperador do Quinto Império a advir, como Messias é identificado com o Cristo cumprindo a sua Promessa de Advento, assim sendo o mesmo Avatara ou “Manifestação Divina” aguardada por todos os povos da Terra sob os mais diversos nomes, desde Emmanuel a Maitreya…

Alegoria de “As Moradas” de St.ª Teresa de Ávila

As tradições espirituais e religiosas representam o Messias ou Avatara do V Império do Espírito Santo como um Menino (como se vê na coroação do imperador incarnado num delfim nos festejos populares do Império do Divino), por significar algo novo, virgem, puro, imaculado. Pois bem, no exterior do Palácio da Regaleira, esquinando (ou fazendo quina… à guisa daquelas da bandeira pátria) sobre o início da subida da Rua Barbosa do Bocage, quem nesta passa, olhando para cima, pode ver um menino carregando uma goteira no topo de uma coluna pétrea lavrada com troncos de vides e abundantes cachos de uvas, aguentando-a em baixo quatro corpulentos leões nas posições cardeais. Essa é bem a representação da Árvore de Jessé, de cujo tronco (genealógico de David) os profetas da Escritura Velha (esculpidos juntamente com as sibilas nos candelabros de carvalho na capela da quinta) anunciaram, particularmente Isaías[9], o advento do Messias vinhateiro ou o que traz a vide da Sabedoria (Gnose), com ela imperando com justiça e perfeição sobre todas as partes do Mundo a guisa de régulo ou leão real do mesmo. Esta versão bíblica foi adaptada e inscrita nos tempos do Futuro por Carvalho Monteiro, fazendo recurso à iconologia gnóstica-teosófica que nisto não deixa dúvidas, atendendo que por cima da coluna tem-se o flagrante da figura clássica do Makara. A meio da parede exterior do palácio sobre a mesma rua, vê-se a escultura de uma senhora sentada de lado escudada (ou de sentido ocultado) atrás de um escudo triangular aos pés, no qual se lê a palavra Salvé, com o S em destaque. Mesmo não sendo uma figura de convite, ainda assim também não deixa de saudar quem passa em baixo. Mas juntando a palavra com a figura feminina que tem sobre a cabeça um meio-arco em guisa de auréola, ressalta a frase laudatória presente no hinário mariano: Salvé, Senhora. Sendo assim, ter-se-á encriptada a pessoa da Senhora das Senhoras, a Virgem Divina, a Sabedoria Salvadora que os gnósticos chamam Sophia e os hindus Sarasvati, representação antropomórfica da mesmíssima Teosofia como “Sabedoria de Deus”, também nisto e pela linguagem muda dos signos da Tradição Primordial, revelando o Palácio da Regaleira destinado a “Casa de Advento”.

Tanto assim poderá ser que o S no escudo da referida escultura feminina repetirá a letra igual – inicial da palavra Salvé – no brasão ex-libris de António Augusto Carvalho Monteiro, a qual se torna motivo sebástico ao enroscar-se como uma serpente na trave vertical que a perpassa, tornando-se uma espécie de bastão de Asclépio, deus da Medicina, designativo da Taumaturgia, mas também sendo símbolo bíblico da Serpente da Sabedoria enroscada no tronco da Árvore da Vida – inclinado 17º para a esquerda no brasão – que estava no centro do Jardim do Éden, motivo depois repetido por Moisés quando domou a serpente do Egipto que se fixou em volta do seu bastão. Por isto, tradicionalmente a letra S é expressiva do movimento de unificação dos opostos, sejam quais forem. Não deixa também de ser flagrante que muitos Mestres Reais, os chamados Makaras humanizados, como o Conde de Cagliostro, por exemplo, usaram signa idêntica como ex-libris pessoal, ou seja, o do pomo de ouro engolido pela serpente de sabedoria enroscada na cruz (como se vê em Vila Viçosa), no bastão, no tronco ou na flecha, por certo a do Sagitário (signo regente da Península Ibérica) indicativa do Eixo do Mundo, tornando o emblema simbólico do Axis Mundi e assim mesmo do Pólo Primordial, Primus Polus, motivo esotérico que a Teosofia põe em relação com as iniciações crípticas afins às do Antigo Egipto dos Mistérios de Serapis (aliás, trazidos para a Lusitânia pelos antigos romanos de que é prova flagrante o santuário de Panóias, em Vila Real) ou “Seres Divinos” (Ser+Apis), os chamados “construtores do seio da Terra”. Tanto assim poderá ser que a escultura da senhora escudada ou velada está sobre a varanda da sala oposta àquela por onde se acedia aos aposentos privados de Carvalho Monteiro – scriptorium e laboratoriumnos quais só ele entrava, diz-se, e posicionada sobre a sala onde pode ver-se Adão e Eva (o Padrão da Humanidade) separados pelo tronco da Árvore da Vida onde se enrosca a serpente.

Pressupondo que o Palácio da Regaleira é uma “Casa de Advento”, este pressuposto justifica-se pelo vasto expositório de símbolos da “religião pátria” que o decoram interiormente, sendo o primeiro o padrão com a Cruz de Cristo plantado à sua entrada, e defronte a ele um globo-mundi em pedra com os meridianos e os continentes em relevo, mostrando o curioso de se ver Portugal defronte para a Cruz de Cristo e o Brasil, onde Carvalho Monteiro nasceu, na direcção da capela (o que parece sugerir a frutificação do V Império do Espírito Santo no 5.º Continente, mais propriamente no Brasil ou a “Nova Lusitânia”, na expressão feliz de Pedro de Mariz no século XVII). Ao lado do globo-mundi está uma esfera armilar também em pedra, e juntos vêm a representar a esfera terrestre e a esfera celeste. Por cima da esfera armilar, cravado na parede, vê-se um ouroboros (serpente que morde a própria cauda, formando um círculo no espaço) muito sui-generis, feito no estilo particular de Carvalho Monteiro, o qual, dando significado aos globos, poderá vazar-se na expressão hermética de “o que está em cima é como o que está em baixo”. Antes do globo-mundi estão esculpidas numa coluna uma cigarra (símbolo da poesia ou atributo das musas, igualmente considerada metáfora da “fidelidade aos princípios”), uma rã (símbolo de ressurreição e, ainda, no âmbito religioso, expressiva do “homem que caminha e aprende”) e uma tartaruga (símbolo da ordem imutável do Universo).

Que António Augusto Carvalho Monteiro acaso tenha bebido nas fontes blavatskyanas não me admirará, levando em conta ter sido contemporâneo de Francisco Stuart de Morão, o visconde de Figanière (1827-1908), que escreveu uma “Doutrina Secreta” portuguesa, antecessora da de Helena Petrovna Blavatsky[10], completada em 30 de Maio de 1888: Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo[11].

Essa obra, apesar de não ter tido grande impacto no meio académico português da época, contudo não deixou de influenciar vultos de renome como Antero de Quental, Oliveira Martins e Teófilo Braga[12], dentre outros, entre os quais certamente se contava Carvalho Monteiro, que, aliás, havia sido colega de carteira de alguns deles na Universidade de Coimbra.

Com efeito, na época deste ilustre senhor que fez de Sintra a sua pátria reservada, a Teosofia estava em pleno auge e muita da doutrina dela parece não ter-lhe passado despercebida, especialmente as partes tocantes à gnose judaico-cristã, ou por outra, o chamado “cristianismo esotérico”. Os sinais deste, com o duplo sentido confessional e erudito, repetem-se na porta lateral direita no exterior da capela, que dá para a sacristia ou lugar do “Sacro Cristo”, onde o sacerdote O assume no acto de se paramentar nesse espaço reservado do templo.

Porta lateral da capela da Regaleira por que se acede à sacristia

Obra possivelmente saída do cinzel de João Machado, a toda a volta da ombreira de mármore dessa porta estão lapidados símbolos bíblicos susceptíveis de interpretação, além da ortodoxa, heterodoxa, regularmente interrompidos por friso vegetal (tronco de vide) rematado na cimalha por uma cabeça de anjo ou querubim sobre duas asas cruzadas em fecho. O conjunto dispõe-se na ordem seguinte:

O trono lateral ao Agnus Dei será o do Espírito Santo, no qual se senta o sacerdote no período de reflexão na celebração, em tudo idêntico àquele dentro da capela agora desocupado, quiçá aguardando o seu legítimo donatário: o Encoberto, o Xvarnah, o Messiah desejado, neste particular, por todo o Portugal Sebástico. Isso mesmo aponta a estrela davídica abaixo em guisa de estar iluminando a rosa lateral a ela, tal qual Cristo se revela por Maria e Maria desvela a Cristo, a “Rosa de Sharon”: o “Messias aguardado”, segundo a descrição de Números, 27:14, que é o livro do Antigo Testamento escolhido para eleição do Messianismo.

Relacionado com isso, tem-se o movimento cíclico ou marcha precessional do Sol através do constelado celeste (mobilismo cósmico chamado Pramantha-Dharma pelos sábios hindus) desde o Oriente ao Ocidente, motivo porventura assinalado nas duas torres e no mosteiro representativo da própria Igreja, desta maneira designando a “Torre de Jerusalém” (destelhada), a “Torre de Roma” (telhada) e a “Tebaida da Regaleira” (representativa de Lisboa, ou melhor, de Portugal e a religião do Futuro), nesta se ocultando o Thesaurus Majorem (a Arca, Barca ou Agharta), tudo de acordo com as 3 Idades do Mundo segundo Joaquim de Flora:

O tema joanino do Agnus Dei, repetido na sacristia, está descrito no Apocalipse, que o dispõe sobre o Monte Sião e no centro da Jerusalém Celeste. Tomando a descrição quase idêntica do Brahmaputra (ou Brahmapitri, o “Mundo do Pai”) dada pelo Bhagavad-Gïta (15, 6), e da Jerusalém Celeste fornecida pelo mesmo Apocalipse, gera-se uma aproximação entre o Agnus latino e o Agni védico, o Fogo Sagrado, que aliás é carregado por um cordeiro na iconografia hindu. A similitude não pode ser fortuita porque, além do aspecto sacrificial do Agnus e de Agni, tanto um como o outro urgem como a Luz no centro espiritual da criatura humana, Luz que se alcança pela conquista da Sabedoria Divina, tornando-se a criatura Agnatus ou Iluminado, algo semelhante ao termo sânscrito Akta e ao grego Chrestus, ambos significando Ungido[13].

Essa aproximação com o deus védico do Fogo manifesta o aspecto solar, viril e luminoso do cordeiro: é a face leonina do anho que se encontra igualmente assinalada no Apocalipse, onde a palavra cordeiro é empregada 28 vezes para designar Cristo como o Agnus imolado, portanto, pascal. Mas, neste caso, o símbolo refere-se ao Cristo ressuscitado em glória, como aliás era aceite entre os cavaleiros da antiga Ordem dos Templários, assim O descrevendo na sua catequese, motivo porque nas suas casas comunitárias os crucifixos estavam despossuídos da figura humana, não havendo Homem e tão-só a Cruz, mesmo assim sem transgredirem a ortodoxia da doutrina mas por certo evocando os vários apodos triunfais de Cristo como constam na “Revelação Secreta”, ou seja, no Apocalipse, estabelecendo novos harmónicos: “Cordeiro vencedor da Morte” (5:1-14), “Vencedor das Forças do Mal” (12:7-8), “Todo-Poderoso, Divino” (11:15-17) e “Juiz das Nações” (14:1-5).

A Cruz Pascal carregada pelo “Cordeiro de Deus”, para se tornar sinónima do “vencedor da Morte” pela Ressurreição na Vida eterna, deve ser adornada ao centro pela Rosa mística que neste portal se vê abaixo do Agnus, assim se fazendo Rosa+Cruz como sinalética do Amor Divino que ilumina a Alma ressurgida da Paixão, tal qual a Pedra Filosofal nasce dos esforços do Adepto como o seu ganho final.

Angelus Silesius, o filósofo místico do século XVII[14], fez da rosa a imagem da Alma, da Mãe, e ainda a imagem de Cristo de quem a Alma recebe a marca do potentado espiritual. Diz ele em O Peregrino Querubínico (livro reunindo dísticos alexandrinos rimados): “A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nem pergunta se alguém a vê…”, ou seja, identifica-se com o sentido do crente que se entrega à Divina Providência na qual confia. A rosa de ouro, outrora abençoada pelo Papa no quarto domingo de Quaresma, era símbolo de poder e de instrução dominical, mas também, é claro, de ressurreição e imortalidade.

Branca ou vermelha, a rosa é a flor predilecta dos alquimistas, tendo frequentemente intitulado os seus tratados herméticos de Roseiras dos Filósofos. A rosa branca foi relacionada com a “Pedra em branco”, meta da Pequena Obra tratando da obtenção da Prata Filosófica (Argiopeia), sinónima da purificação da Alma representada por Maria, enquanto a rosa vermelha foi associada à “Pedra em vermelho”, meta da Grande Obra pretendendo a conquista do Eldorado ou Ouro Filosófico (Crisopeia), correspondendo à iluminação do Espírito representado por Cristo.

A caçada ou montaria de tal Alquimia (Allah-Chêmia, “Química Divina, de Deus ou Allah”), realiza-se no laboratório que os antigos hermetistas também chamavam de “castelo ou torre de Hermes” (patente, aliás, nas traseiras da capela, com a finalidade aparente de goteira), vedado a todas as presenças e influências visíveis e invisíveis alheias às do próprio alquimista, seja só como teórico da Arte Magna, seja juntando a teoria à prática laboratorial. A “torre de Hermes”, na continuação da leitura hermética dos símbolos aqui patentes, representa-se igualmente na torre cerrada e telhada, abaixo da rosa filosófica, nisto se enquadrando no sentido dado ao “castelo interior” por Santa Teresa de Ávila, na feição mística que caracteriza a “cozinha do Filósofo” onde mistura, depura e extrai dos elementos a quintessência da Natureza, facto representado na alquimia da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. Por este motivo é que aparece esculpida a flor do maracujá que significativamente é mais conhecida por “flor da paixão” (evocativa da naturalidade brasileira de Carvalho Monteiro e também evocativa da ingratidão humana para com ele, fazendo-o sofrer padecimentos como injustamente o Senhor os sofreu pela Humanidade). O poema épico Caramurú, da autoria de frei José de Santa Rita Durão[15], da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural de Cata-Preta, em Minas Gerais, dá o significado seguinte a esta “ex-libris” da flora do Brasil:

“XXXVII

Nem tu me esquecerás, flor admirada,
Em quem não sei, se a graça, se a natura
Fez da Paixão do Redentor Sagrada
Uma formosa, e natural pintura:
Pende com pomos mil sobre a latada,
Áureos na cor, redondos na figura,
O âmago fresco, doce, e rubicundo,
Que o sangue indica, que salvara o Mundo.

XXXVIII

Com densa cópia a folha se derrama,
Que muito à vulgar Era é parecida,
Entrefechando pela verde rama
Mil quadros da Paixão do Autor da vida:
Milagre natural, que a mente chama
Com impulsos da graça, que a convida,
A pintar sobre a flor aos nossos olhos
A Cruz de Cristo, as Chagas, e os abrolhos.

XXXIX

É na forma redonda, qual diadema
De pontas, como espinhos, rodeada,
A coluna no meio, e um claro emblema
Das Chagas santas, e da Cruz sagrada:
Vêem-se os três cravos, e na parte extrema
Com arte a cruel lança figurada,
A cor é branca, mas de um roxo exangue,
Salpicada recorda o pio sangue.

XL

Prodígio raro, estranha maravilha,
Com que tanto mistério se retrata!
Onde em meio das trevas a fé brilha,
Que tanto desconhece a Gente ingrata:
Assim do lado seu nascendo filha
A humana espécie, Deus piedoso trata,
E faz que quando a Graça em si despreza,
Lhe pregue co´esta flor a natureza.”

Dando o sentido duplo à leitura dos símbolos, o que aliás Jesus Cristo fazia e o crente Carvalho Monteiro por certo repetiu[16], o facto poderá estar assinalado nas duas torres sinaléticas da Fé, uma expressando a confissão (pública, destelhada ou exotérica) e outra a erudição (privada, telhada ou esotérica), para todo o efeito, ambas dentro da regularidade canónica da doutrina.

Na mesma sequência, aparece a barca de Noé com a pomba sobre ela, tendo no bico o ramo de oliveira, e uma igreja. O conjunto sugere a recipiendária judaico-cristã (arca e igreja) do saber tradicional, tanto como clausural ou ortodoxo como claustral ou heterodoxo, procedendo à sua trasladação de um ciclo racial para outro, facto atestado pelo nome Noé que, anagramaticamente, dá Éon, que em grego significa “ciclo de manifestação universal”. Finalmente, vê-se a balança ao lado do cálice donde sobressai a hóstia com a gravação IHS. Sendo a Balança da Justiça de Deus, como signo é a Libra que por Vénus (assinalada na Estrela da Anunciação) causalmente rege Sintra, sendo o Cálice Eucarístico representativo do Santo Graal – Saint Vaisel, Kratalle – que nesta mesma Serra Sagrada seria transposto do mundo dos mitos à realidade dos factos, desde a Alta Idade Média até ao momento da sua apoteose monumental neste espaço privilegiado da Quinta da Regaleira.

Na cimalha da porta, o grupo de símbolos nas ombreiras é fechado pelo anjo de asas cruzadas ou cerradas. Trata-se da figura tradicional do Querubim, Cherub ou Kerub em hebraico, o “Guardião do Tesouro”, este que é, pelo nome português dado ao ente da Corte Celeste, Senhor da Sabedoria, a sabedoria da mensagem encerrada nos símbolos da capela. Ao mesmo tempo, designa a evolação ou voo audaz ao Quinto Mundo Espiritual (sendo os anteriores o Mineral, Vegetal, Animal e Hominal), chamado de “Ilha dos Imortais” no Taoismo, de “Jerusalém Celeste” nas Escrituras judaico-cristãs, de “Paraíso Terreal” por Dante e “Ilha dos Amores” por Camões, vindo a ser a mesmíssima Shamballah ou então a Agharta da Tradição Iniciática das Idades.

Essa pequena porta, no lado sul da capela, por seu sentido de “voo audaz” encerra o significado de elevação da alma à imortalidade, e, bem vistas as coisas, adiante eleva-se a torre de sino único cujo pináculo sugere precisamente o voo audaz da oração… motivo fazendo aflorar ao pensamento a bela oração do beneditino Guilherme de Saint-Thierry (1085-1148), que assim termina:

Ó Tu que disseste: “Eu sou a Porta”!
Mostra-nos a Mansão de que és a Porta,
em que instante e a quem Tu a abres.
A Casa de que és a Porta
é o Céu que Teu Pai habita.

A oração inspira-me igualmente a disposição trina da Quinta da Regaleira, ou seja, dos três elementos distintos que a completam (palácio, capela, jardim), também isto me remetendo para o sentido das 3 Idades do Mundo conformadas às Três Pessoas da Santíssima Trindade, segundo o esquema escatológico do abade Joaquim de Flora, e a dispor este espaço da maneira seguinte:

Descarece repetir quanto já disse sobre a hodierna teoria maçonista que alguns tornaram icónica da Quinta da Regaleira por motivos alheios à mesma. Por outra parte, há também quem só veja nela exuberância realenga de gosto duvidoso de quem não sabia como gastar os seus milhões, ainda assim deixando aqui os sinais singulares do lúdico que marcou decisivamente o final do romantismo em Sintra. Essas duas visões são as predominantes na maioria dos que visitam este espaço, consequentemente ficando o visitante entregue ao seu juízo próprio conforme o seu entendimento permita, seja por via do sagrado, seja por via do profano, e isto é válido, sem dúvida, mas não se pode dizer o mesmo das pretensões impostas que a obrigação de alguns interesses tornaram «oficiais». Há, pois, duas maneiras distintas de interpretar a Regaleira, como sejam:

Inscrita ou postada num dos 7+1 lugares considerados sagrados ou jinas da serra, perfazendo um Sistema Solar em miniatura como Sistema Geográfico[17], a Quinta da Regaleira aparece sob a égide de Mercúrio (aliás, patente no jardim bem defronte para o palácio) como planeta expressivo do atributo da Pureza e da Mecânica da Ordem do Universo regulada por princípios preestabelecidos, que os pensadores metafísicos atribuem à Lei de Deus. Que a Regaleira se parece a uma “barca d´alva”, lá isso parece, e nisto o seu “mastro” será a torre de pensamento superiormente dirigido, quadro geral evocativo do poema A Barca, de Johannes Tauler, místico alemão do século XIII, depois transformado em canção de Advento:

Uma barca vem chegando…
Carregada vem, olhai!
Transporta o Filho de Deus,
O Verbo eterno do Pai.

A barca veleja calma,
Pois traz valioso lastro;
Sua vela é o amor,
O Espírito Santo o mastro…

 

NOTAS

 

[1] Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

[2] Frei Manuel de Melo, Alterações de Évora, 28, 1637. Obra reeditada com introdução e notas de Joel Serrão, Portugália Editora, Lisboa, 1967.

[3] Luís Marinho de Azevedo, El Principe Encubierto – Manifestado en Quatro Discursos Políticos. Lisboa, 1642.

[4] António Machado Pires, Dom Sebastião e o Encoberto: Estudo e Antologia. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1969. José Matoso, História de Portugal. Edição Círculo de Leitores, Lisboa, 1993.

[5] Santa Teresa de Jesus (Teresa de Cepeda y Ahumada, Ávila, 28.3.1515 – Alba de Tormes, 4.10.1582), Castillo Interior o las Moradas. Ediciones Aguillar, Madrid, 1957.

[6] Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.

[7] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Insólita e Secreta (edição em português, espanhol, italiano, francês e inglês). Editorial Jonglez, Versailles, Abril de 2010.

[8] Frei Sebastião de Paiva, Tratado da Quinta Monarquia. Prefácio e revisão científica de Arnaldo do Espírito Santo, introdução de José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2006. Esta obra sebástica datada de 1641, da autoria do padre frei Sebastião de Paiva, da Ordem dos Trinitários professando no Convento da Trindade em Lisboa, fez parte da biblioteca de António Augusto Carvalho Monteiro, conforme divulgou Manuel J. Gandra após tê-la encontrado na Biblioteca do Congresso, em Washington: “P-26-393 Frei Sebastião de Paiva (+1659), Tractado da Quinta Monarchia, e Felicidades de Portugal profetizadas. Composto pello Rdo. Padre Fr. Sebastião de Paiva, Lector da Sagrada Theologia da Sanctissima Trindade, natural de Lisboa, Escripto anno de 1641. 224 folhas. Na lombada: Tratado da Quinta Monarchia. MS. Encadernação em pele com as armas do conde de Olivais Penha Longa”. In Manuel J. Gandra, Sebástica manuscrita na Biblioteca do Congresso. Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[9] “Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará”, Isaías, 11:1-3.

[10] Vitor Manuel Adrião, O Visconde de Figanière. Revista “Pax”, órgão oficial da Comunidade Teúrgica Portuguesa, n.º 49, Setembro-Outubro, 1993.

[11] Visconde de Figanière, Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo. Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora Lugan & Genelioux, Porto, 1889.

[12] Pinharanda Gomes, Pensamento Português, IV. Gnose e Liberdade (Notas à Obra do Visconde de Figanière). Lisboa, 1979. Vitor Manuel Adrião, Portugal, os Mestres e a Iniciação. Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Agosto de 2008.

[13] Clovis Bradaschia, A manifestação cíclica do “Espírito de Verdade”. Revista “Dhâranâ”, n.º 3-4 de 1957, São Paulo.

[14] Pseudónimo de Johannes Schelfer, nascido em 1624 em Breslau, Polónia, e falecido na mesma cidade em 1676.

[15] Fr. José de Santa Rita Durão, Caramurú. Poema épico do descobrimento da Bahia. Régia Oficina Tipográfica, Lisboa, 1781.

[16] “A vós é dado conhecer os Mistérios do Reino dos Céus, mas a eles (as gentes comuns) não lhes é dado… Por isso lhes falo por parábolas, porque eles vendo, não vêem, e ouvindo, não ouvem nem entendem”, Mateus, 13:11-13; “Nada lhes falava sem usar parábolas, mas quando estava a sós com os seus discípulos, explicava-lhes tudo”, Marcos, 4:34; “Então lhes abriu o entendimento (aos discípulos) para compreenderem as Escrituras”, Lucas, 24:45.

[17] Sistema Geográfico de Sintra: Santíssima Trindade – Quinta da Trindade; Sol – Castelo dos Mouros; Lua – Santa Eufémia; Marte – São Martinho; Mercúrio – Seteais; Júpiter – Parque da Pena; Vénus – Lagoa Azul; Saturno – São Saturnino.

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