São Vicente (celebrado a 22 de Janeiro), diácono de Saragoça e mártir de Valência, é o mais célebre santo do martirológio hispânico e o único que se encontra incorporado, desde os tempos paleocristãos ou visigóticos e sobretudo moçarábicos, na liturgia de louvor da Igreja Universal. Santo caríssimo ao Algarve (Gharb, como parte ocidental da Hispânia sob domínio árabe no século VIII, sendo Chark a oriental), e sobretudo (desde os tempos afonsinos) a Lisboa, de que viria a ser o padroeiro com a devoção popular aclamando-o como São Vicente de Fora, o mesmo nome do mosteiro lisboeta fundado em 1147 por D. Afonso Henriques – que o entregou aos cónegos regrantes de Santo Agostinho, os quais se encarregaram de difundir o nome e culto vicentino nesta capital do país –, veio a representar a vitória e conquista miraculosas do culto cristão sobre os demais cultos de outras religiões dominantes que quiseram subjugá-lo ao longo dos tempos, fossem eles pagãos (de Roma), fossem corânicos (do Magreb), fossem quais fossem, e isto desde o seu martírio no século IV, martírio que, aliás, o disporia no escalão hagiográfico de “a santidade como símbolo vivente”, como indica Juan G. Atienza na sua obra Santoral Diabólico (Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1988).

Isso é também reforçado pelo próprio antroponímico Vicente, “vencedor, conquistador”, como já fiz ver várias vezes e que é corroborado por Paulo Farmhouse Alberto (vd. bibliografia final). Com efeito, este nome origina-se a partir do latim Vicentius, derivado de Vincente, particípio passado do verbo vincere, “vencer”. Como vencer é um verbo de acção, Vincente significa literalmente “vencendo” ou “o que está vencendo”, e por extensão também lhe é atribuído o significado de “vencedor”. Desde cedo este nome tornou-se muito popular entre os cristãos hispânicos, sendo encontrado em Portugal em documentos datados de 1172, na variante Vicentius, aparecendo depois, no século XVIII, na forma arcaica Vincente, muito utilizada nessa época.

Segundo a tradição hagiográfica, evocada também por Paulo Farmhouse Alberto, o martírio de S. Vicente terá ocorrido na sequência de uma série de decretos dos imperadores romanos Diocleciano e Maximiano, emitidos nos anos 303 e 304, que intentavam reprimir o culto cristão por todo o império. Vicente seria diácono em Saragoça quando foi preso por um obscuro governador de que só se sabe o nome Daciano. Tendo recusado revelar o lugar onde escondera os livros de culto e abjurar à religião cristã, como ordenava o decreto imperial, foi levado para Valência (episódio singular, pois Saragoça e Valência tinham os seus próprios governadores por pertenceram a províncias distintas, uma à tarraconense e outra à cartaginense). Aí foi submetido a interrogatório sob tortura, mas resistiu aos avanços dos algozes que tudo fizeram para o demover e não o conseguindo decidiram, por fim, assá-lo vivo numa grelha incandescente e depois, envolvido numa pelo de boi, o seu cadáver foi atirado ao mar com uma mó atada ao pescoço. Faleceu a 22 de Janeiro do ano 304.

Ao invés de se afundar sob o peso da mó, esta serviu de boia ao cadáver que vogou no oceano até ser devolvido pela maré a terra ficando encalhado entre os rochedos, aparecendo dois corvos que vigiavam de perto o despojo santo. Os seus grasnares chamaram a atenção de um grupo de cristãos que passavam ali perto, acercaram-se tendo logo reconhecido o mártir, e de imediato recolheram piedosamente o seu corpo. Poucos anos depois, a partir do ano 313, no tempo do imperador Constantino, foi construído um sepulcro martirial em Valência, que mais tarde daria lugar a uma basílica extramuros (tal qual aconteceria depois com o Mosteiro de S. Vicente de Fora, isto é, “fora das portas da cidade de Lisboa”, portanto, também extramuros), onde o corpus sancti incorruptum, que não parava de fazer milagres, passou a ser motivo de veneração popular e de devotas romarias, algumas vindas das partes mais longínquas do império.

De maneira que desde muito cedo S. Vicente foi objecto de um culto amplamente difundido. O poeta latino Paulino de Nola, que viveu na segunda metade do século IV e na primeira do século V, atribuiu-lhe o mesmo estatuto que o de St.º Ambrósio em Itália, ou de S. Martinho de Tours na Gália. O seu conterrâneo Prudêncio dedica-lhe um longo poema, além de largo excerto noutro hino a propósito da cidade natal do mártir, Saragoça. Nos primeiros anos do século V, por volta de 410-412, St.º Agostinho assim dizia em Cartago num dos sermões compostos para a missa da festa do mártir (Sermones 276, 4): “Qual é hoje a região, qual é a província, até onde quer que se estenda tanto o império romano como o nome de Cristo, que não rejubile por celebrar o dia consagrado a Vicente?”

Outro local importante era Saragoça, onde Vicente nascera, fora diácono e onde começara o seu martírio. Já nos finais do século IV e inícios do V, o poeta Prudêncio referia o culto que aí se desenvolvia, aludindo a umas relíquias (fala de um vaso ou de uma ampola com o sangue do mártir). Em 541, durante o cerco de Childeberto, rei da Nêustria, Saragoça teria sido salva pela intervenção miraculosa da túnica do mártir. Na primeira metade do século VII, o poeta Eugénio de Toledo dedica um epigrama a uma igreja do santo, aludindo ao sangue e á túnica, túnica que reaparece numa oração da missa composta na mesma altura. Eugénio foi, de resto, arcediago desta igreja.

Além de Saragoça e Valência, o culto vicentino cedo estendeu-se a outras cidades da Hispânia. Em Sevilha, já antes de 428, quando os vândalos invadiram a cidade, a catedral onde Santo Isidoro se recolheu na véspera da sua morte estaria consagrada a São Vicente. A catedral de Córdova também estava sob a invocação do mártir em período anterior às invasões muçulmanas.

O valioso contributo de Paulo Farmhouse Alberto relativo à epigrafia vicentina, documenta por esta o desenvolvimento do culto quase desde o início do século V. Neste, há conhecimento de uma igreja vicentina em Toledo. Do século VI, há notícia de três igrejas dedicadas ao santo mártir: uma em Natívola, Granada (consagrada em 594), outra em Cehegín, na província de Múrcia, e uma terceira em Loja, perto de Córdova. No século VII, no ano 644, é-lhe consagrado um templo em Vejer de la Miel, perto de Cádis. Também o calendário epigráfico de Carmona, porventura do século VI ou VII, assinala o dia do santo. Ainda no século VII, o impulso dado ao culto vicentino é atestado por significativa produção litúrgica (um hino, orações, uma missa, sermões). E desde o século VIII até ao X, a proliferação de igrejas consagradas a S. Vicente é notável em toda a Hispânia; como exemplo, cite-se apenas a catedral de Oviedo, nas Astúrias, onde em 761 foram depositadas umas relíquias trazidas de Valência.

Com a invasão muçulmana da Península Ibérica no ano 711, os cristãos de Valência temeram que o corpo de S. Vicente fosse devassado e levaram-no para o mosteiro mais longínquo da Hispânia, junto ao mar, no Cabo de S. Vicente, no extremo do Algarve. Mas a lenda dá uma outra descrição muito mais miraculosa: diz que o corpo de S. Vicente foi colocado numa barca que à deriva no mar, tendo à popa e à proa dois corvos, acabou dando à costa do Sacrum Promontorium, o Promontório Sagrado ou de Sagres, onde os cristãos daí o recolheram e veneraram. Pouco tempo depois, o lugar já era afamado como milagroso.

Além desse, registam-se notícias da existência de outros templos dedicados ao mártir noutros lugares do que depois seria território português. Paulo Farmhouse Alberto indica um documento do ano 830 (seguido de dois outros dos anos 905 e 911) que refere uma igreja dedicada a S. Vicente em Infias, Braga, talvez remontando ao século VII. Em 972, na documentação referente ao mosteiro de Lorvão, é mencionada uma igreja vicentina nas imediações de Coimbra; os documentos dos anos 970 e 973 aludem à Porta de S. Vicente, nos limites das terras de um mosteiro designado “de Bacalusti”, nas margens do rio Douro; em 978 e 1002, refere-se a igreja de S. Vicente “de Pararia”. Antes de 1094, quando passou para a posse do bispo de Coimbra, o mosteiro da Vacariça, na região da Mealhada, associava a invocação a S. Vicente à de S. Salvador; já antes dos meados do século XI, o mosteiro de Guimarães tinha o mártir de Valência como um dos seus titulares secundários. O Censual de Braga, escrito entre 1085 e 1091, de que se conserva apenas a parte respeitante à região entre o Lima e o Ave, refere oito igrejas dedicadas a S. Vicente, e mais duas em que o mártir se associa a outro patrono. Torna-se assim evidente a espantosa difusão que o culto vicentino teve no nosso território antes mesmo da nacionalidade e onde a Igreja hispânica e o afim rito moçárabe tiveram papel determinante a partir do século VIII.

Em Lisboa, a mais antiga atestação remonta ao tempo do nosso primeiro rei. Ao sitiar Lisboa em 1147, D. Afonso Henriques fez o voto de que, caso conquistasse a cidade, mandaria construir duas igrejas que ficariam junto de dois cemitérios, os quais se revelaram necessários para sepultar os cruzados mortos durante a conquista. Uma das igrejas foi erigida junto ao cemitério dos teutónicos, em 1148, sob a invocação de São Vicente, cujo culto já era celebrado pelos moçárabes da paróquia de São Cristóvão, que aliás tinham o seu bispo. Tendo o rei dado a escolher ao bispo inglês Gilberto de Hastings e aos cónegos uma das duas igrejas, estes optaram por Santa Maria dos Mártires, junto ao cemitério dos ingleses, ficando a igreja de São Vicente na posse de D. Afonso Henriques, que nomeou como seu primeiro prior o flamengo Gualter, seguindo-se os cónegos regrantes de Santo Agostinho, da confiança do rei, conforme relata a Notícia da fundação do Mosteiro de S. Vicente, redigida em 1188.

Mas o que liga intrinsecamente Lisboa a São Vicente é a chegada das suas relíquias em 1173, vindas do mosteiro algarvio no Cabo de São Vicente a bordo – diz o mito ulisiponense – de uma nau templária de velas gironadas com dois corvos, um à popa e outro à proa. Assim, mais uma vez, tem-se S. Vicente nauta de além-morte, como o que navega sobre as águas do Espírito, guardado por dois corvis arúspices da memória e do espírito ou porvir (Hugin e Munnin, na mitologia nórdica referente ao deus Odin, os quais pousados em seus ombros lhes grasnavam segredos), sendo que a arte de bem marear é arte de Espírito Santo, característica notável do lisboeta marinheiro em particular e do português da diáspora em geral.

Com efeito, a Crónica de Al-Razi, composta no século X, que se conhece por intermédio de uma tradução feita no século XIV a mando de D. Dinis, conta que durante a perseguição de Abderramão I, de 756 a 788, o corpo de São Vicente foi levado da sua igreja valenciana para as cercanias do Promontório Sacro, especificamente para o Capum Vicentii, “Cabo ⌈de⌉ Vicente”, sendo o carácter sagrado do local conhecidos dos autores do mundo clássico da Antiguidade, desde Estrabão a Plínio, dispondo-o como caput ou “cabeça” de tradições e cultos psicopompos ainda mais antigos recuando aos tempos pre-célticos e aos cónios, inclusive aos povos antediluvianos, como tive oportunidade de confirmar no Promontório onde detectei algumas sepulturas antiquíssimas, donde retirei diverso material cerâmico datável dos primórdios do Período Quaternário. A História Pseudo-Isidoriana e o geógrafo Al-Idrisi, dos meados do século XII, afirmam que ali existia uma “Igreja dos Corvos”, possivelmente moçarábica, com fama de milagreira, que albergava as relíquias do santo mártir. Neste século, e recuando ao VIII, em que se iniciou a difusão das peregrinações a Santiago de Compostela, a Igreja desta e o Primaz de Braga dedicaram-se à disputa dos corpos santos, maneira prática de, através dos miracula, manter no povo a fé cristã num período grave para a Cristandade peninsular (o da ocupação árabe), sendo também necessário o mesmo culto e iguais ou maiores miracula (milagres) nos caminhos religiosos do moçarabismo al-andaluz do Sul.

Nesse contexto, em 1173, conforme um texto dos finais do século XII ou do início do seguinte, da autoria de Estêvão, chantre da Sé Catedral de Lisboa, a de Santa Maria Maior, correspondendo ao momento da vinculação do culto vicentino à diocese de Lisboa, alguém alertou para a existência do corpo de São Vicente no Algarve, em mãos dos muçulmanos. Assim, numa possível surtida marítima, a mando de D. Afonso Henriques, a frota templária foi resgatar os preciosos despojos. No dia 15 de Setembro, as santas relíquias chegaram a Lisboa, ficando na igreja de Santa Justa, antes de se recolherem no dia seguinte na Sé, com a oposição da igreja real de São Vicente. Foi assim que o mártir de Valência se tornou o padroeiro de Lisboa, sendo o dia da sua chegada celebrado na liturgia e em animadas festas populares (15 de Setembro), dia que no século XIX mudou para 16 de Setembro e foi comemorado até recentemente.

Mas como em 1147 D. Afonso Henriques tomou a cidade de Lisboa no dia de São Crispim (25 de Outubro), isso levou a que o declarasse padroeiro da cidade. Esse santo gálio-romano do século IV, por sua profissão de sapateiro, pode ser lido como aquele que calça os pés da humanidade cristã interpretada como sinónima de difusão pastoral da Palavra, que para os cruzados ficava concretizada no acto bélico de conquista da actual capital do país. Contudo, como a devoção a São Vicente estava muito generalizada e fortemente enraizada, sobretudo entre os cristãos moçárabes com sede prelatícia em Santa Maria de Alcamim ou de “Entre-Hortas” (hoje paróquia de São Cristóvão), estes demoveram o rei desse intento e convenceram-no a trazer para Lisboa as relíquias do diácono mártir, que estas existiam enquanto das de São Crispim só restava a memória, ainda assim fazendo-se a procissão a este santo até ao reinado de D. Afonso V. As referências a ele foram aos poucos sendo esquecidas e São Vicente ficou, naturalmente, padroeiro da cidade e da diocese de Lisboa.

Os símbolos hagiográficos e iconográficos de São Vicente transportam-no igualmente, talvez sobretudo, para um Cristianismo heterodoxo, plantado no campo vedado do puro e transcendente Hermetismo, sobretudo os seus predicados de nauta apocalíptico em ignoto Mar dos Mortos ou de Fim do Mundo, onde a barca voga em rumo misterioso que só o sopro do Espírito Santo traça e sabe (cf. Actos, 2:1-11). Existe uma diferença notável entre governar a barca e deixar-se levar por ela: Vicente aparecer como marinheiro converte o santo em condutor e conhecedor dos segredos desse caminho marítimo; Vicente deixar-se passivamente levar equivale a pôr-se nas mãos da Providência em quem depositou a sua confiança. A Providência é a própria Sabedoria do Espírito Santo e o mar incógnito vem assinalar o mare nostrum ou mare internum (representado pelo Mar Mediterrâneo), que os alquimistas medievais e da Renascença associavam ao mercúrio filosófico.

Vir para Lisboa numa barca templária adejada pelos corvos simbólicos atribui à Ordem do Templo a posse e domínio da tradição hermética incarnada no próprio mártir São Vicente, primeiro em lugar arábico, depois em espaço cristão. Aliás, tem-se nos elementos simbólicos do brasão olisiponense a memória sinalética da trasladação das que se consideram ser as relíquias vicentinas do Sacrum Promontorium para Lisbona. Essa trasladação teria sido motivada pelo interesse do próprio D. Afonso Henriques, que quis os santos despojos não numa qualquer e erma caneça (ou al-kanissat, “assembleia de cristãos”), nem sequer no recém-fundado Mosteiro de São Vicente de Fora, dos cónegos regrantes de Santo Agostinho, mas sim e só na digna e cristianíssima sede devocional, a Catedral de Santa Maria Maior, posteriormente destinada a Sé Patriarcal. Quanto aos corvos, esses teriam, segundo a lenda tradicional, acompanhado os despojos sagrados no percurso marítimo do Algarve a Lisboa. O corpo de S. Vicente já antes, logo a seguir ao seu martírio no século iv, teria sido miraculosamente guardado por dois corvos, que transmitiriam essa piedosa função aos seus descendentes.

Os corvos, simbolicamente, são as aves detentoras da Sabedoria Divina que auguram o passado e o futuro, como esses já referidos do deus nórdico Odin, as aves Huginn e Munnin, a memória e o espírito, pousados em seus ombros, grasnando-lhe segredos aos ouvidos sobre o ido e o porvir, tal qual como esses outros do deus lígure Lug, ambos os deuses com semelhanças severas às funções deíficas dessas outras divindades hindustânicas Kuvera e Mahima. Corvi é familiar daquele outro termo latino Corbulo, com o significativo sentido de “portador, mensageiro”, mas também “porteiro” ou “guardião”, como esses que estão à proa e à popa da barca vicentina. Assim, ao corvo, emblema da Sabedoria Divina, ave profética e mensageira dos deuses, totem do deus solar Lug, chama-se na língua lígure Lu e Li, raiz do nome Lisboa ou Ulisibona, esta figurada pela barca da Tradição Primordial, como descreveu Olímpio Gonçalves no seu artigo Lisboa à luz dos seus Arcanos (revista “Graal”, Sintra, Verão/Outono – 1982), e conforme descrevi no meu livro Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império, várias editado desde o início dos anos 90 do século passado, cuja última edição data de 2017 (Editora Nova Vega, 2.ª edição, Lisboa, 2017), assinalado ainda no meu Guia de Lisboa Insólita e Secreta (Éditions Jonglez, Versailles, France) datado de 2010, traduzido em várias línguas – a começar pela portuguesa – com sucessivas reedições pela mesma editora.

Com efeito, a barca vicentina, com dois corvos à proa e à popa (como se vê no Chafariz de Andaluz), seria, segundo a lenda, um navio de porte da frota dos templários, com velas gironadas de branco e negro. O conjunto escultórico no referido chafariz apresenta-a com o velame recolhido e o cordame formando dois triângulos entrecruzados, de maneira a formar a estrela de seis pontas ou hexalfa, simbólico do sexto planeta tradicional, na escala teosófica das Rondas e Cadeias: Mercúrio. Mostra-a como barca de navegação costeira (séculos depois alterada heraldicamente em galeão manuelino), mas esta, por via da sua disposição simbólica, converte-se em figura representativa da arca santa contentora da Alma Flamejante Universal (Aktalaya, em védico, donde sairia o termo aportuguesado Atalaia) e, deste modo, também do perfeito equilíbrio do Universo, reflectido por essa pedra de armas na justeza e perfeição da muito antiga e sagrada cidade de Lisboa, cujo entendimento gnoseológico a dá como modelo mítico dessa Terra Santa primordial, o mesmo Paraíso Terrestre de nome indo-europeu Agharta, ou seja, o Éden bíblico representado na mitologia ibérica como Jardim das Hespanhas, Hespérides ou as Plêiades (Mamas ou Krittikas, em sânscrito), em cujo centro está a Macieira dos pomos de ouro sinalética da Sabedoria que ilumina a consciência e separa a noção do Bem da do Mal. É a regra na ordem oposta à desregra da desordem, a utopia imposta à distopia, enfim, a sinarquia à anarquia.

Nos símbolos iconográficos vicentinos também aparece a mó, que, pela sua forma, equivale à roda. Ela é, porém, impossível de mover e fazer girar sem uma iniciação especialíssima que conferirá a força necessária para levar a cabo esse esforço, de maneira a extrair o alimento necessário para nutrir a espiritualidade do adepto das sobrenaturais e herméticas navegações pelo vasto mare nostrum.

Essa iniciação será a Feminina das Águas, do Mar (de Mare, Maris ou Mariz), igualmente chamada em Alquimia de Via dos Navegantes, neste caso vicentino iniciada em Sagres e desfechada em Lisboa, ou seja, indo do Corpo (o Filho, assinalado na geosofia ou geografia sagrada nacional por Sagres) à Alma (a Mãe) da Nação. A água sobre a qual se fez a navegação sobrenatural do mártir e depois o trajecto funerário pelos templários ou tempreiros, na linguagem medieval e renascentista registada por Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo no seu Elucidário de palavras termos e frases que em Portugal antigamente se usaram (1758), os do Templi Coeli  ou “Templo Celeste” (viagem fúnebre equivalendo à putrefacção alquímica simbolizada pelo corvo), nada mais indica senão a Energia Flogística da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria (que os orientais chamam Kundalini, para todo o efeito, o Fogo Criador do Espírito Santo, profundamente relacionado com o líquido  raquidiano  no  corpo  humano), irrompendo de baixo para cima, do cóccix para o coração, até finalmente se projectar para o alto da cabeça, a corona ou, geosoficamente, a Corunha galega que, em 1096, D. Afonso VI de Leão e Castela oferecera ao Conde D. Henrique de Borgonha e Portucale.

Como se sabe, o movimento serpenteante de Kundalini associa-a simbolicamente à serpente, aqui, Ofiússa. A serpente não deixa de estar ligada à lenda hagiográfica dum outro São Vicente, ou talvez o mesmo numa outra lenda: São Vicente de Toledo, que também no ano 304 foi martirizado em Ávila com as suas duas irmãs, Sabina e Cristeta. Os seus restos mortais insepultos passaram a ser guardados por uma enorme e temível serpente, até que um judeu edificou um templo para repouso eterno daqueles: a igreja de S. Vicente de Ávila. Esta piedosa lenda espanhola é toda ela simbólica ou figurativa, a começar por um judeu construir por sua iniciativa própria… uma igreja cristã! Toda ela tresanda a Cabala sefardita ou profética, a genuinamente hispânica, tanto quanto a tradição hagiográfica de Vicente cujos símbolos heterodoxos lhe dão foros de “santidade impossível” ante a estreiteza e rigor da confissão e catequese. Contudo, a absorção do sentido último e supremo de todos esses elementos tanto em entendimento como em prática, podem muito levar à verdadeira realização espiritual tanto o simples de confissão quanto o sábio de mistério, onde um não prescinde do outro tal qual “a palavra não escusa a letra em que se guarda”.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Calendarium Romanum. In quo plurimi festi dies sanctorum secundum consuetudinem Olisiponensis Ecclesie adiecti sunt. Lisboa, 1536.

Dom Rodrigo da Cunha, Historia ecclesiastica da Igreja de Lisboa. Officina Manoel da Sylva, Lisboa, 1642.

João Bautista de Castro, Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo III. Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, Lisboa, 1762-1763.

Louis de Lacger, Saint Vincent de Saragosse: Universalité du culte de saint Vincent de Saragosse dès le Ve siècle. In Revue d´histoire de l´Église de France, tome 13, n.º 60, 1927.

Christophe Picard, Sanctuaires et pèlerinages chrétiens en terre musulmane: l´Occident de l´Andalus (Xe-XXe siècle). In Pèlerinages et croisades. Éditions du Comité des travaux historiques et scientifiques, Paris, 1995.

António Linage Conde, San Vicente mártir, lazo peninsular del Mediterráneo al Atlántico. In Actas das II Jornadas Luso-Espanholas de História Medieval, tomo III, pp. 1145-1157. INIC / Centro de História da Universidade do Porto, 1987-1989.

Saul António Gomes, S. Vicente de Lisboa e seus milagres medievais. Edições Didaskalia, Lisboa, 1988.

Isabel Rosa Dias, Culto e memória textual de S. Vicente em Portugal (da Idade Média ao século XVI). Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade do Algarve, Faro, 2003; versão revista, Lisboa, 2011.

Aires Augusto Nascimento, S. Vicente de Lisboa: legendas, milagres e culto litúrgico (testemunhos latinomedievais). Centro de Estudos Clássicos, Lisboa, 2011.

Paulo Farmhouse Alberto, Santos e Milagres na Idade Média em Portugal – São Vicente. Editora Traduvarius, Lisboa, 2012.

 

CRÉDITOS ICONOGRÁFICOS

 

Fig. 1 Diogo de Contreiras, São Vicente, padroeiro de Lisboa (c. 1541). Pintura da antiga colecção particular de D. Ambrósio de Sousa Coutinho que figurou em Exposição na Fundação Calouste Gulbenkian (1971), Lisboa.

Fig. 2 Tomás Giner, São Vicente, diácono e mártir, vencedor da heresia (1462-1466). Museu do Prado, Madrid.

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