Deuses galantes no Paço de Sintra – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Dez 18 2018 

O antigo Paço Real de Sintra, hoje Palácio Nacional levantado no centro da vila com as suas singulares chaminés cónicas que se tornaram ex-libris, reserva alguns enigmas que desafiam impertinentes a capacidade interpretativa dos historiadores de arte. Um desses enigmas é o da chamada Gruta dos Banhos, setecentista, cuja aparência inocente do seu figurino galante meio-pagão, meio-mitológico, deixa aperceber aqui e ali significados muito mais herméticos e transcendentes que a simples decoração recreativa de espaço resguardado próprio para casais enamorados que trocavam juras de amor e carícias de paixão.

A Gruta dos Banhos é adjacência do pátio central do palácio em volta do qual o rei D. João I organizou os seus aposentos, com funções diversas, em parte referidas no manuscrito Medições das Casas de Cintra que o depois rei D. Duarte, seu filho, deixou. A sua situação intimista, o revestimento de azelujos e o som da água a correr parecem ainda evocar a antiga tradição arquitectónica árabe, sobre a qual foi levantado este palácio, tendo recebido as obras mais marcantes – que lhe mudariam definitivamente a feição árabe – no reinado de D. Dinis. Destaca-se a impressionante perspectiva sobre as gigantescas chaminés duplas da cozinha, além da coluna torsa (no centro do pátio) com seis crianças em redor do escudo nacional, e a rara pintura a fresco, em padrão geométrico de efeito ilusório (trompe-l´oiel), do período de D. Manuel I, que o estuque das paredes escondia.

A lenda galante diz que era aqui que as lindas mouras do palácio vinham banhar-se, quando ele ainda era residência do vizir de Al-Shantara (Sintra). Talvez fosse, e daí o nome da adjacente Gruta dos Banhos para perdurar a memória dos evos de inocência e galanteio dos dias e noites árabes. Apresenta uma decoração em azulejos e estuques da segunda metade do século XVIII. O programa decorativo rococó dos estuques policrómicos inclui a Criação do Mundo (painel central), as Quatro Estações (cantos) e temas mitológicos. Os painéis azulejares das paredes, a azul e branco, representam fontes, jardins e cenas galantes, escondendo um engenhoso sistema de repuxos cruzados. Nesta casa de refresco, a água, brotando de duas linhas de minúsculos orifícios circundando todo o espaço, refrescava o ambiente em dias de maior calor e surpreendia as damas, num “jogo galante” tão ao gosto da época.

A singular obra em estuque policrómico que aqui se aprecia, deve-se ao mestre estucador Giovanni Maria Teodoro Grossi, natural de Bioggio, junto a Lugano, no cantão suíço do Ticino. Nasceu em 1715 e foi batizado a 7 de Outubro deste ano na freguesia de S. Maurício, registado como filho de Pietro Grossi e Marta Taddei, ambos pertencentes a famílias com maestri d´arte (arquitectos, engenheiros e mestres especializados nas várias áreas da construção) nas suas fileiras. É possível que Grossi tenha aprendido os rudimentos da sua arte no âmbito familiar, como era vulgar no Ticino, eventualmente junto do tio materno e padrinho Martino Taddei, capomastro (mestre de obras) activo em Lugano na década de 1740.

Na Quaresma de 1743, João Grossi, como ficou conhecido em Portugal, já morava em Lisboa, na freguesia de S. Sebastião da Pedreira, participando então nas obras de decoração do palácio da quinta de Fernando de Larre, provedor dos armazéns da Guiné, Índia e Mina. Em 1764 casou com Rosa Bernarda da Costa Velho, de quem teve cinco filhos apadrinhados por membros da Casa Pombal, cujo marquês, Sebastião José de Carvalho e Melo, desde o primeiro instante da sua chegada ao país tomou-o à sua protecção e cuidados. Nesse mesmo ano, foi convidado para dirigir a Aula de Desenho e Estuque, inserida na Real Fábrica das Sedas, com a intenção de formar “hum competente numero de Artifices Nacionaes, hábeis para as ditas Obras, com utilidade pública da reedificação da Cidade de Lisboa”. Após a queda do marquês de Pombal e o encerramento da Aula de Desenho e Estuque, foi permitido a Grossi, por especial favor, continuar a residir, a troco de uma renda, nas casas que ocupava na Praça das Águas Livres, pertencentes à Real Fábrica das Sedas. Morreu sem testamento e foi sepultado no Loreto, em 26 de Janeiro de 1780, amortalhado no hábito de S. Francisco.

Datarão de 1755 os estuques da Gruta dos Banhos do Palácio Real de Sintra, onde Grossi já tem presente a linguagem decorativa do rococó, estando a obra assinada com o seu monograma. Mas aqui revela-se, ao par do programa galante, o cenário mistérico próprio das encenações iniciáticas dos liberi muratori do século XVIII, dando o artista como um deles, nessa época em que a Maçonaria Especulativa, baseada no Hermetismo transposto para ritos de Mistérios, tinha acabado de aparecer fundada em Londres (24 de Junho de 1717, dia de S. João Batista) e englobava a maioria dos artistas e artífices europeus à qual muitos da Casa Pombal não eram alheios, tampouco Grossi, pelo visto, já de si vindo de uma família de mestres de arte e ofício.

Estuque e azulejo acasalam com grande harmonia na Gruta dos Banhos e completam entre si a mensagem que pretendem transmitir no todo cenográfico. O primeiro sinal de se estar perante um programa hermético é dado pelo pavão, com o leque da cauda dourada aberta no painel de azulejo central, donde orifícios discretos deixavam espichar a água.

Ao pavão atribuiu-se a representação da Alquimia, e a sua cauda aberta em leque é associada às cores de arco-íris que se formam na retorta, chamada de “pelicano” pelos Filósofos do Fogo, sendo essa fase precisamente designada Cauda Pavonis (“cauda do pavão” ou arco-íris), a qual se realiza entre a Operação Negra (Nigredo), onde a matéria é dissolvida e putrefacta, e a Operação Branca (Albedo), onde a substância é purificada. O processo de operar com a retorta fechada cozinhando os elementos em lume brando por longo tempo, possui o nome de Via Húmida – sendo mais segura que o processo mais rápido da Via Seca realizado com o athanor (forno) aberto, com fogo forte numa espécie de panela chamada cadinho – com isso ligada ao elemento Água afim à Lua e ao sexo Feminino. Talvez por isso se diga que no fim do arco-íris está um pote de ouro, metal do Sol e meta da Grande Obra (Paraergon).

Por suas conotações solares, na tradição cristã o pavão simboliza a roda ou disco solar, por este facto é símbolo de imortalidade e cuja cauda evoca o céu estrelado, tudo isto conferindo com o apresentado no painel de azulejos na Gruta dos Banhos. Notar-se-á ainda que a iconografia ocidental por vezes representa o pavão bebendo no cálice eucarístico, que neste caso contém as águas da vida tornando-se de cálice em fons vitae, “fonte de vida”, presente na alegoria azulejar sobre a qual o pavão está pousado. Já noutro painel, vêem-se dois delfins de caudas entrecuzadas saindo da “fonte de vida” onde dois querubins sopram conchas (shankas), alegoria remetendo para o Som Primordial (Pranava) da Criação saída das Águas Celestes, sendo os delfins alegóricos da Perfeição Hermética ou Filosófica em que consiste o sentido de Pedra Filosofal.

Ainda sobre o pavão, para o Islão ele é símbolo cósmico por figurar a roda, seja a do Universo, seja a da Lua Cheia ou ainda a do Sol no zénite. Afim a este sentido, tem-se em cima a cena estucada de um menino alado ou querubim sentado num carro puxado por cavalo marinho (remetendo para a Cabala da Mareação Hermética), sobrevoados por solitária cegonha (simbólica do parto feliz, da maternidade, e também da piedade filial), cuja roda é girada por um outro querubim. Trata-se do Carro da Tradição – Merkabah – em movimento, dando nascimento a período novo, seja da geração de um ser ou de uma ideia, particularmente o parto de um homem novo (iniciado) saído do velho (profano) que a transmissão da Luz confere por Iniciação, doravante passando de filho de mulher (maternidade) a Filho de Homem (consciencialidade), donde ser chamado de “duas vezes nascido” (Dwija), que é o número de querubins na cena. Por regra, a Iniciação é sempre auferida numa gupta loka, crypta ferrata ou cripta cerrada, secreta, também nisso podendo estar presente o sentido oculto de “gruta” dado a este espaço.

No painel central, no tecto, em três pares os querubins expressivos das Hierarquias Criadoras criam o Mundo, dois deles erguendo em destaque o esquadro e o compasso. Tem-se nisso a Construtiva Massenia ou “Maçonaria Celeste”, “Angélica ou Hermética”, essa mesma dos Deuses de Agharta – nisto fazendo-se novamente presente o sentido oculto de “gruta” – aos quais a Tradição Iniciática chama de Traichus-Marutas, “Senhores das Brumas ou Vapores” (da Natureza), dirigidos pelo Rei do Mundo em pessoa, o Chakravarti, e também nisto, na cena, entre brumas ou nuvens vogam os querubins.

Nos cantos angulares do painel quatro querubins marcam as Estações anuais e, como os restantes, diferenciam-se da interpretação comum pelo seu significado esotérico, nisto tendo-se num extremo Eros e Psique como Gémeos confrontando-se com Neptuno no outro extremo da cena. O seu significado astrológico remetendo para Neptuno em Gémeos, indica o desenvolvimento das faculdades ocultistas, proféticas e inspiradas, tornando a pessoa sensível às vibrações mais elevadas do Plano Intuicional, que é um dos sinais do Génio ou Jina.

Neste tema central, laterais, identificados pelos seus atributos iconográficos, tem-se Mercúrio defronte a Marte e Leão enfrentando Júpiter. A primeira oposição assinala as Hierarquias Criadoras Assura – Agnisvatta; a segunda oposição indica as Hierarquias Criadoras Agnisvatta – Barishad. Ou sejam aquelas que dotaram o Homem das sementes do mental, do astral, do etérico e finalmente, como resultante das três, manifestando a semente do corpo físico infante, assinalado na figura querubínica, sinal adâmico de inocência e pureza definidoras do Homem inicial, que veio a ser o tesaurus majorem da Criação Divina, motivo filológico da presença do querubim ou cherub, aliás, traduzido do hebreu com o sentido literal de “tesouro”.

Perante a eloquência da mensagem velada no programa decorativo desta Gruta dos Banhos, no galanteio de maior transcendência só possível a um Iniciado de Arte Real traquejado nos mistérios da Filosofia perene que esta Serra Sagrada transpira, particularmente este palácio sob o Orago do Divino Espírito Santo, acode-me à mente, em desfecho, aquelas embora misteriosas significativas palavras de Helena Petrovna Blavatsky:

“Podemos terminar com uma saudação maçónica, e dizer: Ilustre Dignitário de Hiram Abiff, Iniciado e “Filho da Viúva”: o Reino das Trevas e da Ignorância desaparece rapidamente, mas há Regiões ainda inexploradas pelos sábios e que são tão negras como a noite do Egipto. Frates sobrii estote et Vigilate.”

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Cirilo Volkmar Machado, Collecção de Memorias Relativas às vidas de pintores, e escultores, e architectos, e gravadores portuguezes, e dos estrangeiros, que estiverão em Portugal. Imprensa da Universidade de Coimbra, 1922, reedição da primeira edição de 1823.

Isabel Mayer Godinho Mendonça, Estuques decorativos. A evolução das formas (sécs. XVI a XIX). Colecção Arte nas Igrejas de Lisboa, Patriarcado de Lisboa, 2009.

Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. Ed. José Olympio, Rio de Janeiro, 1990.

H. P. Blavatsky, As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo, 1972.

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De Santa Maria de Loures a Santiago da Galiza – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Dez 9 2018 

O Concelho de Loures, em plena Estremadura portuguesa, é atravessado por três rotas jacobeias em direcção à Galiza, à catedral compostelana do Apóstolo Santiago Maior: a que vem de São Tiago de Lisboa (a principal), a que provém de Santiago dos Velhos e a terceira saída de Santiago de Camarate[1].

Até aos finais do século XVIII essas rotas eram amiúde animadas por peregrinos de diversas proveniências, principalmente nas proximidades de 25 de Julho, dia de Santiago Maior, colado ao 26 de Julho, aquando se celebra Santa Maria de Loures, cujo culto foi instituído em 8.12.1178 pelos Templários que aqui tiveram o seu 28.º Mestrado, importância exagerada por diversos autores, todos baseados nas informações fornecidas por Mendes Leal[2], mesmo não tendo sido mais que Priorado, com direito a dízimas agrícolas, cuja origem recuará ao 6.º Mestre Provincial da Ordem, D. Gualdim Pais[3].

Para proteger as rotas sagradas das penitências devotas dos seus peregrinos e a estes, em Portugal, tornava-se necessária uma Milícia destacada para o efeito, e com esse fim D. Afonso Henriques fez introduzir no País a Ordem Militar dos Cavaleiros de Santiago: para proteger a peregrinação no caminho santo, velho de milhares de anos, palmilhado desde que os povos paleolíticos passaram a guiar-se instintivamente pelas estrelas certas de Sul para Norte e vice-versa, acompanhando de baixo o trajecto estelar da Via Láctea, a mesma que os povos pastores com fé certa chamariam Estrada de Santiago, e ainda hoje os mais velhos, junto à lareira na invernia fria, ou no alpendre na noite quente de Verão, contam aos novos histórias e lendas maravilhadas dos feitos de Santiago e seus peregrinos, fazendo-os sonhar e desejar também eles partir à demanda na aventura sagrada.

Desde a primeira hora que a Ordem de Santiago privou com a Ordem do Templo, ambas com a mesma missão de protecção aos devotos enchendo os caminhos portugueses da fé jacobeia, apesar da segunda, como Milícia Papal e mais antiga no Reino, ter primazia sobre a primeira. Por esta razão – a da primazia dos Templários sobre os Espatários – não raro se encontra encimando igrejas, capelas e ermidas da Ordem de Santiago não a sua Cruz espatária mas a pátea do Templo, como acontece, por exemplo, seja na igreja de Santiago na cidade de Coimbra, seja ainda em Santiago dos Velhos, povoação que é «península» do Concelho de Loures mas que pertence a Arruda dos Vinhos.

Também o saloio moçárabe procurou a santidade jacobeia, e procurou-a pondo os pés ao caminho com os olhos pregados nas estrelas da Estrada de Santiago, procurando chegar sem se perder ao final da mesma, onde as estrelas caíram, ou seja, ao Campus Stellae, o “Campo das Estrelas”, que deu nome à capital galega, Compostela.

Era no adro da Matriz lourenha que outrora se reuniam os peregrinos jacobeos que partiam à demanda de Santiago de Compostela, e pela mesma Loures não deixou de passar o famoso peregrino italiano Juan Bautista Confalonieri, como descreve no seu diário de viagem. A esta rota principal juntavam-se-lhe mais duas subsidiárias, uma delas a que partia de Santiago dos Velhos, em Arruda dos Vinhos, distado uns parcos 3,5 km de Bucelas. Vale a pena falar um pouco dessa povoação esquecida pela História mas com farta história, reforçada por valiosos estudos arqueológicos e epigráficos locais.

De origens afonsinas, os casais de Santiago dos Velhos tiveram aqui paróquia no século XII, a pedido da rainha D. Teresa à Ordem do Templo, e ainda que se desconheça a data exacta da construção da igreja paroquial de São Tiago Maior (com festa anual no domingo mais próximo de 25 de Julho), tem-se na sacristia desta uma cruz templária com a data 1131, logo a sua origem será, pelo menos, desde essa altura ou poucos anos antes.

A paróquia original fundada pelos Templários, seria cedida aos Espatários entrados em Portugal e fixados em Arruda (1172), pertencendo às freiras santiaguistas o lugar próximo de Freiria. Essa concessão dever-se-ia à vocação natural da Ordem de Santiago em atender aos peregrinos devotos do Santo Apóstolo. Terá sido ela que inspirou a fundação local da Confraria de Santiago Maior, destinada a prestar o auxílio da hospitalidade aos peregrinos, a qual ainda estava em plena actividade há pouco mais de meio século atrás nesta povoação, ponto obrigatório de passagem no itinerário vindo do Sul do País, no mínimo desde 1249, quando D. Afonso III conquistou o Algarve aos Mouros e tornou mais fácil a peregrinação cristã. Nessa época, o contacto dos caminhantes provindos do Sul, mais moçárabes, ou “como que árabes”, que cristãos, com a população autóctone terá originado novas gerações de peregrinos, os quais ficaram conhecidos por santiagueiros e a igreja dedicada ao Apóstolo São Tiago.

Por não ser regular o ofício religioso na igreja, por nem sempre haver prior que vinha de fora, os habitantes de Santiago iam à Sé Catedral de Lisboa ouvir a missa por ocasião da Festa de Santiago (25 de Julho). Nessa festividade, a procissão com a imagem do Apóstolo não saía da Sé sem que estivesse presente a irmandade dos velhos que vinha com o pendão da aldeia de Santiago – “os irmãos de São Tiago mais velhos que vinham de longe”. Desse hábito, resultou o actual topónimo Santiago dos Velhos.

Segundo João Bautista de Castro (in Mappa de Portugal Antigo e Moderno, t. III, p. V, pp. 488-489, Lisboa, 1763), António Carvalho da Costa (in Corografia Portuguesa, 2.ª ed., p. 425, Braga, 1869) e Américo Costa (in Dicionário de Portugal Continental e Insular, vol. X, pp. 758-759, Porto, 1948), Santiago dos Velhos fazia parte do Concelho dos Olivais. Com a dissolução deste pela formação dos de Loures e Vila Franca de Xira, este último anexou-o de 26.2.1895 a 13.1.1898, enquanto durou a supressão do Concelho de Arruda das Vinhos (cf. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XXVII).

No paroquial, a população de Santiago dos Velhos era assistida pelo prior de Bucelas, no Concelho de Loures, ainda que nos séculos XVI-XVII fosse curato da apresentação do prior da freguesia de Santa Marinha, em Lisboa, que tinha 70$000 réis e o pé d´altar (cf. Portugal Antigo e Moderno, vol. IX, de Pinho Leal. Lisboa, 1880).

Da traça românica da primitiva igreja templária de Santiago Maior aqui nada resta, excepto as paredes internas do corpo inferior da torre, vendo-se no exterior do edifício uma cruz da Ordem do Templo, e nas suas traseiras, rente ao solo, uma pedra de cabeceira com signo idêntico.

Em 1773 foi feita a sacristia (onde há um altar da época com um Cristo de marfim em Cruz de pau-preto do Brasil) no templo. Posteriormente, em 1898, sucederam-se novos restauros, dando feição nova à fachada e aos corpos laterais, aumentando-se a torre que fecha em pirâmide. Por fim, em 25.7.1975 aconteceram novos restauros que mais serviram para só o empobrecer, desta feita no interior, desaparecendo os caixotões pintados do tecto e o tesouro da igreja: a custódia e a salva, de ouro.

Imagem equídea de Santiago dos Velhos, Arruda dos Vinhos 

A igreja, de uma só nave, apresenta no centro do altar-mor Santiago Peregrino e à sua esquerda Santiago Cavaleiro ou “Mata Mouros” (prerrogativas eclesial e militar do Apóstolo da Hispânia, assim mesmo indicadoras da Autoridade Espiritual e do Poder Temporal assistindo a Portugal Jacobeo), que pelas suas características serão setecentistas e réplicas ao gosto do artista das que se encontram no frontal principal da catedral de Santiago de Compostela, defronte para a praça do Obradoiro. À direita de Santiago Peregrino, está a imagem policromada de Santa Ana, mãe da Virgem Maria, referenciada com profusão não nos evangelhos sinópticos mas nos apócrifos, o que é deveras significativo e faz resvalar para as doutrinas heterodoxas dos gnósticos dos primeiros séculos do Cristianismo referentes à “Mãe da Mãe”, ou seja, à Grande Deusa-Mãe Primordial como a primeira a ser cultuada em toda a Lusitânia, ainda Portugal não era sonhado, tanto no aspecto cósmico informe (Sant’ana) como no planetário e individual com forma (Maria).

Relacionadas com a heterodoxia esotérica de carácter matricial estariam algumas das comendadeiras da Ordem de Santiago, que passaram de Freiria para Arruda dos Vinhos, as quais transmitiram os seus conhecimentos à famosa bruxa de Arruda, que não era uma mas sim uma sucessão de várias mulheres da mesma família que, ao longo de várias gerações, foram repassando o seu saber secreto (e possivelmente também vários bens) de mães para filhas. Não se sabe a que época remonta a primeira bruxa de Arruda, mas estou em crer que se fixará no século XV com que finda a Idade Média e começa a Renascença, marcando o final de uma Idade de conhecimentos tradicionais que, neste caso, constariam de flora medicinal a ver com espargiria ou criação de “elixires e unguentos”, origem da moderna farmacologia, e também com o evangelário jacobeo, constando de orações e invocações à pessoa de Santiago Maior. Essas tais bruxas de Arruda muito possivelmente seriam irmãs leigas da Ordem de Santiago. Mas em breve, com a passagem geracional, perderam os conhecimentos tradicionais e voltaram-se para as ciências divinatórias e terapias psíquicas, o que desvirtuou completamente a cadeia de transmissão do saber tradicional, pervertendo-se, até hoje, em simples bruxas sem mais-valia autenticamente espiritual, pois há distinção clara entre espiritualidade e psíquico, tal como há entre espiritualidade e religiosidade. A fama da bruxa de Arruda era tão grande que o Diário de Notícias, de 29 de Novembro de 1906, dedicou-lhe uma extensa reportagem, descrevendo uma consulta onde aborda alguns dos seus tratamentos com o Livro de S. Cipriano à mistura. Enfim, essas mulheres virtuosas valeram enquanto valeram, e hoje tais «mulheres de virtudes» valem o que valem…

A “bruxa” de Arruda

Desta espécie de «península» lourenha, Santiago dos Velhos, falaram, com assombrosa rapidez, Carlos Gil e João Rodrigues no seu livro Os Caminhos de Santiago (Itinerários Portugueses para Compostela), Lisboa, Junho de 1990. Esta rota segue o seguinte trajecto para Norte: Santiago dos Velhos, Arruda dos Vinhos e vai desaguar no Carregado, rumo a Vila Nova da Rainha, a caminho da Azambuja. Ainda assim, apesar de não ser constante, havia quem descesse um pouco ao Sul, a Bucelas próxima, assistisse à missa na sua igreja de São Miguel, procurando a bênção divina para si e a sua empresa, e depois encetasse jornada na direcção de Alverca do Ribatejo, rumo a Vila Franca de Xira.

Uma outra rota paralela à central tem início em Santiago de Camarate, antigo domínio judaico de Dom Jachia Ibn Jachia (século XII) e de David Ibn Jachia Negro (possivelmente judeu árabe) ou David Ben Guedelha Ibn Jachia (século XIV), passando depois para a posse do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira (por doação das terras de Sacavém a Frielas que lhe fez o rei D. João I)[4], o qual além de trazer a figura de Santiago Maior no seu estandarte, incentivou a peregrinação dos saloios e sadinos (a ermida da Memória no Cabo Espichel, próximo de Sesimbra, antigo domínio da Ordem de Santiago, foi ele quem a mandou fazer) a Compostela, em cuja catedral esteve como peregrino em 1400.

Na igreja paroquial de Camarate pode admirar-se, num altar lateral, a belíssima imagem setecentista do seu padroeiro São Tiago, carregando a sacola de peregrino, segurando com a destra o bordão crucífero, onde está atada a cabaça, e com a sinistra mostra o evangelário aberto, sinal de que a peregrinação sagrada se abre e é para todos.

Santiago Peregrino, igreja matriz de Camarate

Do largo da matriz de Camarate saíam os peregrinos, tomando a direcção seguinte: Sacavém, Póvoa de Santa Iria, Alverca do Ribatejo em direcção a Vila Franca de Xira, rumo ao Norte.

O peregrino que vinha de Lisboa rumo a Loures, seguia o seguinte trajecto: São Tiago de Lisboa (paróquia), Lumiar (onde no século XVII ainda havia o Albergue do Espírito Santo, fundado por franciscanos), Odivelas (com o seu convento das bernardas consagrado a S. Dinis, e donde a Rainha Santa Isabel, pelo menos uma vez (1325), empreendeu a jornada do caminho jacobeo), Póvoa de Santo Adrião ou Santo Adrião da Póvoa de Loures (após passar a Quinta do Mariz (desaparecida, que ficava onde hoje está o parque de estacionamento automóvel defronte à estação do metropolitano) e em cujo alto da Póvoa ainda sobrevive um silhar azulejado mostrando S. Roque com trajes de peregrino santiaguista), Mealhada (com o seu conventinho de frades arrábidos, o 13.º da Província Franciscana de Portugal) e finalmente Loures, daqui prosseguindo por Via Longa.

É muito variada a representação iconográfica do Apóstolo Jacobo Zebedeu. As duas invocações principais, peregrino e cavaleiro, são as mais tratadas, mas também é comum a representação de Santiago como evangelizador e muitos outros tipos mistos. Socorrendo-me da sistematização de J. Filgueira Valverde (in Histórias de Compostela. Edicións Xerais de Galicia, Vigo, 1982) a propósito da gravura jacobeia compostelana (cf. Carlos Gil e João Rodrigues, ob. cit.), poderei classificar as representações mais usuais do seguinte modo:

SANTIAGO EVANGELIZADOR – é a imagem de Santiago sem as insígnias do peregrino nem as armas de cavaleiro, do qual encontra-se um belo exemplar no pórtico das Pratarias da catedral de Compostela; em certas imagens aparece com a espada, indicativa do seu martírio decepado.

SANTIAGO PEREGRINO DE MANTO – ideia do Apóstolo majestático, solene, com os símbolos da peregrinação – chapéu, bordão, esclavina e escarcela, quase sempre decorados com vieiras – sem que a figura adopte a atitude de marcha; esta parece ser a mais antiga forma de representação de Santiago peregrino.

SANTIAGO PEREGRINO EM TRAJE DE CAMINHO – caracteriza-se pela utilização do traje curto e pela postura de caminhante, traduzindo uma aproximação da representação do Apóstolo aos verdadeiros peregrinos e ao seu gosto.

SANTIAGO SENTADO – esta figura liga-se à do Apóstolo majestático: é a famosa imagem do pórtico da Glória da catedral compostelana.

SANTIAGO PEREGRINO ANTE A VIRGEM – é o que Filgueira Valverde chama Santiago del Pilar, representando o milagre do aparecimento da Virgem a Santiago durante a pregação deste na Península Ibérica: o Apóstolo, com manto, bordão e chapéu caído nas costas, ajoelha diante da Virgem que aparece sobre uma coluna.

SANTIAGO GUERREIRO A CAVALO – é o Santiago Matamouros, combatente da batalha de Clavijo, e aparece em múltiplas variantes caracterizadas pelo uso de armadura e espada; são vulgares os tipos mistos em que aparecem as insígnias da peregrinação – vieiras, chapéu, esclavina.

SANTIAGO CAVALEIRO A PÉ – espécie de transição entre a figura do peregrino e a do cavaleiro; traje curto, calçando grevas e sapatos de armadura, bordão na mão esquerda e espada na direita.

SANTIAGO PEREGRINO A CAVALO – outra variante de transição: veste túnica, usa chapéu com vieiras e cavalga com a bandeira e a espada.

Como concelhio lourenho, é um velho sonho meu que sejam reactivadas estas antigas rotas jacobeias de Santa Maria de Loures a Santiago da Galiza, as quais possuem duas vertentes inseparáveis uma da outra: a espiritual, não direi apenas religiosa para não limitar a acepção do termo, e a cultural, assim mesmo é reconhecido o Caminho de Santiago pela Unesco.

Às portas do III Milénio, Santiago de Compostela mantém-se abraçado ao ideal de geografia sagrada que o originou e se chama Portugal; ontem como hoje, milhares de peregrinos de todas as latitudes geográficas e mentais recolhem-se em seu altar ouvindo ou intuindo, no odor suave da oração, a voz diáfana do Apóstolo que lhes ordena, mansamente, ao coração:

Arriba! Santiago y cerra!

É agora tempo de terminar, tempo de partir. Que não se esqueça e se avive os passos da tradição peregrina, dando o primeiro cantando:

Herru Sanctiagu
Got Sanctiagu
E ultreia, e sus eia
Deus, adjuva nos.

 

NOTAS

 

[1] Alocução do autor, De Loures a Santiago de Compostela, nas II Jornadas sobre Cultura Saloia realizadas no Cine-Teatro da Póvoa de Santo Adrião, actual Concelho de Odivelas, em 6 e 7 de Dezembro de 1996.

[2] Admiravel Egreja Matriz de Loures (oriunda do V. século, edificada pelos Templários, analiticamente historiada em livro ornado de estampas pelo Octogenario) José Joaquim da Silva Mendes Leal. Typographia do Commercio, Lisboa, 1909.

[3] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Setembro de 2007.

[4] J. Pinharanda Gomes, O Carmo em Loures (Camarate – Frielas – Santo António dos Cavaleiros). Comunidade Paroquial de Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1979. Do mesmo autor, Povo e Religião no Termo de Loures. Paróquia de Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1982.