Santo Antão é dos porcos,
São José dos carpinteiros,
Santa Luzia dos trolhas,
O Diabo dos pedreiros.

Tradicional

Como muitas igrejas e mosteiros de veneranda antiguidade, também a igreja matriz de Loures, com foro de catedral,  está decorada nas suas paredes exteriores por enigmáticas siglas companheiris geralmente atribuídas a agremiações de Construtores-Livres, estes constituindo a primitiva Maçonaria Operativa que, reunida em guirlandas de ofícios tradicionais, vinha a ser a Arte Real de levantar, pedra sobre pedra e trave sobre trave, Casas consagradas a fins espirituais sobretudo, nisso aplicando a geometria e a arquitectura sagradas, cujos segredos d’Arte, com o finar desses verdadeiros Maçons, com eles desapareceu. Hoje nada existe senão o lúdico saudosista, quase tornado uma paródia das grandezas do passado.

Escasseia em Portugal a bibliografia sobre as siglas ou signos lapidários (marcas de canteiro). Há, todavia, no meio da aridez e desconhecimento do assunto, um livro que é feliz excepção à regra: editado pela Imprensa Nacional, Lisboa, em língua francesa, trata-se daquele «catálogo» sobre siglas da autoria do arquitecto do Rei, Joaquim Possidónio Narciso da Silva, datado de 1868, obra rara depositada na Biblioteca Nacional de Lisboa, com a referência II. G. 6879 A[1]. Nele o autor escreve a dado passo, reconhecendo a complexidade do assunto e cujas palavras iniciais faço minhas:

“Desejando conhecer a fundo a origem da invenção destes sinais (…), não temos a presunção de ter decifrado o enigma, mas simplesmente tentar facilitar o trabalho a alguém mais inteligente e sabedor que consiga resolver esta questão tão problemática até agora.

“O senhor conde de Raczynsky foi o primeiro que em Portugal fez gravar na sua notável obra As Artes em Portugal, três gravuras com algumas siglas copiadas do Castelo de Freixo de Espada à Cinta, de Moncorvo, de Numão, de Lamego e de Beja; ele crê que estas marcas eram escolhidas pelos Construtores-Livres para se reconhecerem; isto porque os trabalhadores que pertenciam a esta Sociedade e que durante a Idade Média percorriam a Europa Central para exercer a sua profissão, construíram os monumentos do estilo ogival.”

E Possidónio da Silva prossegue em toda a extensão de sua obra o querer provar que as siglas lapidárias tinham unicamente a finalidade utilitária da identificação do trabalhador para efeito de pagamento do seu trabalho. Decerto que essa opinião está correcta mas só parcialmente, pois que a maioria desses sinais insculpidos é positivamente identificada como pertencente ao espólio da simbologia mística e hermética que se comprovam nas ilustrações de inúmeros fólios e grimórios medievais, logo, sendo símbolos sagrados, os quais nesses tempos medievos de intensa espiritualidade sobreposta ao imediatismo temporal, característico da mentalidade social “mágica” medieval, por certo nenhum iniciado na Arte Real ninguém pensaria gravá-los só como simples marca utilitária de identificação pessoal para fins salariais, portanto, exclusivamente profanos, muitíssimo menos em edifícios religiosos, já de si assumidos Moradas de Deus que, se fosse só isso, justificaria a premissa da usura contrariando a sua proibição nas Escrituras Sagradas (Levítico 25:17; Mateus 25:13-30; Lucas 19:12-26), e com ela aflorando a ganância e a desconfiança do próximo.

A preciosa obra de Possidónio da Silva viria a ser comentada numa outra que abordou as siglas e marcas lapidárias do Paço de Sintra, da autoria do Conde de Sabugosa[2].

Pessoalmente, tendo a crer que as siglas serviriam como assinatura petroglífica não pessoal mas colectiva da irmandade (de “irmão”), companhia (de “companheiro”). confraria (de “confrade” ou “com frater”, isto é, “entre irmãos”)  ou corporação (de “cooperativa”, “co-operativa”, cooperação operática) assim deixando a sua marca, o seu ex-libris em determinada obra do seu empenho, ao mesmo tempo expressando, em termos velados ou herméticos, na linguagem universal da simbologia, o teor reservado da doutrina perfilhada pela mesma corporação.

Exemplar de marca de canteiro (século XVI) no Mosteiro de Santa Maria de Belém ou dos Jerónimos, Lisboa

Tanto assim será que os signos canteiros não se perfilam num só tipo e sim dispõem-se em quatro classes gerais, conforme estão gravados tanto nos monumentos como nos incunábulos, como sejam:

1) Signos páleo-cristãos;
2) Signos mágico-cabalísticos;
3) Signos astrológicos;
4) Signos numéricos.

A ciência das siglas e marcas lapidárias, quase de certeza inspirada na iconografia judaica constante da Kaballah (que depois influenciaria a Mística do Islão, mormente a Guemetria e Temurah originando a Numerologia que os místicos corânicos têm até hoje como ciência tradicional), também se regista numa sua congénere medieval a que anda associada a Heráldica: a Sigilografia, ou “ciência das matrizes e selos”. Em determinados aspectos essa ciência sigilográfica, englobando a simbologia numismática ou das moedas, estabelece a relação da Magia Branca com a Armaria Medieval, especialmente no que toca aos símbolos, como diz muito bem o Marquês de Abrantes[3].

Esse ideografismo impresso tanto na pedra como no pergaminho, inclusive na madeira, seja em tábua ou em retábulo, atraiu a atenção do finado André Jean Paraschi (1946-1997) que, num livrinho de proporção modesta[4], publicou alguns símbolos e siglas retirados de “uns quarenta pergaminhos referentes à Ordem do Templo e umas quatro centenas redigidos durante a existência da Ordem de Cristo, fazendo parte da colecção especial do Arquivo Nacional da Torre do Tombo”.

Exemplares de moedas cunhadas pela Ordem do Templo (século XIII)

Como disse, na Idade Média viu-se o surgimento dos Monges-Construtores, apadrinhados e protegidos pelos Templários (e posteriormente pelos Freires de Cristo, mas então sob a forma de Mestres-Canteiros), muitos deles usando os hábitos ora beneditino ou cisterciense, a maioria, ora franciscano ou carmelitano, a minoria. Com efeito, dos Monges-Construtores, desaparecidos nos finais do século XIV, saíram os Mestres-Canteiros, aparecidos nos inícios do século XV, em pleno vigor e sempre ligados a confrarias locais, como aconteceu em Loures, que tiveram existência activa, com mais ou menos intensidade, praticamente até 28-30 de Maio de 1834, data que o Ministro da Justiça Joaquim António de Aguiar, maçom antieclesiástico com o justo apodo de “mata-frades”, liberalmente extinguiu as ordens religiosas em Portugal, tendo então a rainha D. Maria II transformado as ordens militares de Cristo, de Avis e de Santiago em simples titulares honoríficas, de mérito e laicas, no seguimento das reformas impostas às mesmas pela rainha D. Maria I, em carta de lei de 19 de Junho de 1789. Tudo isso consumou o desaparecimento definitivo dos reais segredos d´Arte.

Ora, a catedral de Santa Maria de Loures, pretendida cabeça do 28.º Mestrado do Templo, depois transferida a Bailio da Ordem de Cristo[5], recebeu importantes obras de restauro e ampliação desde 1695 a 1781, cujas receitas foram obtidas dos dízimos da Comenda de Cristo e das dádivas do povo da freguesia.

Ábaco de Mestre da Ordem do Templo na laje sepulcral defronte à entrada da catedral de Santa Maria de Loures

Por esse período de tempo foi criada na paróquia a Irmandade do Santíssimo Sacramento, dizendo dela o Padre Álvaro Proença[6]:

“Em redor do culto ao Santíssimo Sacramento e sobre toda a Confraria recaíam as maiores responsabilidades, tendo em contrapartida, também, as maiores honras.

“Começou a existir no ano de 1675 quando a Irmandade de N.ª Sr.ª da Assunção se juntou à Corporação dos Louvados formando a Irmandade do Santíssimo com 70 membros.

“A Irmandade (…), admitindo apenas oito mordomos por ano, tinha uma receita de 768.000 réis o que representava uma entrada de capital quase fabulosa.

“Por isso mesmo pôde auxiliar as obras de mosaico e a talha da capela-mor e apressar a conclusão, em 1716, da parte do trono e abertura do camarim.”

Os factos, carregados pela documentação histórica existente, apontam essa Irmandade como abrigo de confraria de Mestres-Canteiros, e talvez fosse por essa razão ter sido muito estimada tanto pelos Franciscanos da Mealhada como pelos Freires de Cristo de Odivelas, ambas as Ordens ainda conservando na época vestígios de antiga e iniciática Tradição Operativa.

Terá, pois, nascido essa do Santíssimo das primitivas Irmandades da Senhora da Assunção e dos Louvados, esta desde 1594 encarregada da manutenção da Matriz na qual, em 1620, encetou as primeiras obras de restauro, abatendo a velha torre dos Templários (de que restam umas pedras abandonadas ao lado da igreja) e levantando uma nova que ora se vê.

Referindo-se à ordenação do cemitério anexo e das lajes, Joaquim Mendes Leal, no seu livro hoje raridade bibliográfica[7], atribui tal encargo à Confraria dos Louvados usando abertamente o termo canteiro: “(…) que fosse oficial de pedreiro ou canteiro, com o vencimento de 40 réis por cada laje que levantasse e nivelasse a campa quando a baixasse, vendendo assim 120 réis por cada adulto que fosse à sepultura”.

Da intervenção dos Mestres-Canteiros da irmandade do Santíssimo nas obras desta Matriz, sabe-se dos nomes de alguns deles por meio de um documento raríssimo publicado pelo mesmo Mendes Leal nesse seu livro, sob o título Contrato entre a Irmandade do Santíssimo e obreiros, 1721. Nele se diz a dado trecho:

“(…) em virtude da procuração que apresentou que ao diante será incorporada, isto de uma parte e da outra Bento da Fonseca de Azevedo mestre entalhador, morador ao relógio de S. Roque, e outrossim Manuel Francisco Botelho mestre pedreiro morador na rua da Rigueira, por eles Manuel Domingues e Bernardo Gomes e Bento da Fonseca Azevedo foi dito em minha presença e das testemunhas ao diante nomeadas que eles estão contratados em seus nomes e nos que representam com ele mestre entalhador Bento da Fonseca fazer uma obra do seu ofício na mesma Igreja, a saber que ele mestre fará do arco da capela-mor para dentro a obra que contém um risco que ele mestre deu a eles oficiais e a seus constituintes no qual todos se acham assinados por detrás do mesmo risco (…)”

Avança o Padre Álvaro Proença, no seu livro também já citado: “As obras continuaram até 1781 e neste ano a igreja foi reaberta completamente restaurada e transformada num amplo e maravilhoso templo.

“Na porta principal, feita em 1778 e que custou 282.000 réis, foi gravada a data de 1781 por ser a da reabertura da igreja.

“A obra do mosaico foi executada pelo mestre canteiro Manuel Francisco Botelho e desconhece-se o preço por que ficou.

“A obra de talha do camarim da capela-mor importou em 10.500 cruzados, quantia que foi paga ao artista e empreiteiro Bento da Fonseca, pela Irmandade do Santíssimo. A talha dourada do resto da capela só se concluiu em 1740”.

Sigla dos Mestres-Canteiros da Irmandade do Santíssimo na igreja matriz de Loures

Sabe-se, pois, os nomes de alguns dos Mestres-Canteiros da Irmandade do Santíssimo, cooperação operática protegida da Ordem de Cristo por intermédio dos seus vigários de Loures, os quais custearam e protegeram enormemente os obreiros e as obras em questão. Recorrendo a Mendes Leal (ob. cit.), veja-se agora quem foram os vigários da paróquia entre 1694 e 1794:

De 1694 a 1733, foi vigário o cavaleiro da Ordem de Cristo p.e André de Carvalho, por 41 anos.

De 1734 a 1745, foi vigário o cavaleiro da Ordem de Cristo p.e Estevão de Brito Barros, por 10 anos.

De 1752 até 1794, foi vigário o cavaleiro da Ordem de Cristo p.e Teotónio José de Brito Barros, por 42 anos, “tendo deixado à igreja tudo quanto possuía” (in P.e Álvaro Proença, ob. cit.).

Assim se chega ao ponto de entendimento das iniciáticas marcas lapidares, quem foram os mestres da pedra lourenhos e sob que confraria operaram.

Em toda a volta da Matriz contei 60 siglas (mas creio haver mais nas partes altas das paredes onde a vista não alcança) com as figurações seguintes:

As da primeira fiada são as mais fartas, e as restantes as mais raras, conforme publiquei em primeira mão em 1990 num artigo de revista local (Loures Magazine), depois novamente publicado pelo Município[8], tema que Manuel J. Gandra tomaria depois, incluindo esse meu lourenho ad litteram, assinalando siglas e marcas lapidárias em diversos imóveis portugueses[9].

Siglas lapidares nas paredes exteriores da igreja matriz de Loures

Para haver uma confraria de companheirismo no auge da Renascença saloia, terá que haver um chefe da mesma. Ora, o Mestre-Canteiro ou Oficial de Pedreiro encarregado de revestir a superfície inferior das paredes internas da Matriz com mármores embutidos de várias cores, de belo efeito decorativo, desde o altar-mor até à porta principal, foi Manuel Francisco Botelho, que executou a obra em 1760[10].

Vários sinais fazem-me acreditar que foi efectivamente Manuel Francisco Botelho o Mestre dos Irmãos canteiros da Irmandade do Santíssimo Sacramento, ademais no exterior desta igreja, junto à porta lateral do lado do Evangelho (o lugar do Verbo, da Fala Divina ou Filia Vocis ordenando do Céu à Terra ordenada), há uma sepultura sem inscrição mas cuja laje está ornada com símbolos canteiros. O interessante é nela apresentarem-se as mesmas siglas fartas já apontadas, acrescentando-se alfaias da profissão de canteiro (esquadro e pêndulo, martelo e escopo, maço sobreposto pela cruz, esta assinalando a profissão de fé cristã do defunto quando vivo, e nessa vida o Santíssimo a quem devia obediência o pedreiro livre na Arte).  Por que não, então, estar aí sepultado o próprio Manuel Francisco Botelho, pressuposto Mestre de Cantaria da Irmandade do Santíssimo Sacramento?

Pressuposta sepultura chã do Mestre-Canteiro Manuel Francisco Botelho, no exterior junto à porta lateral da igreja matriz de Loures

Sendo a letra S a inicial dessa Irmandade, encontra-se no seu significado hermético o símbolo do duplo processo de Evolução – abertura para o alto – e de Involução – curvatura para baixo. Também é possível ver nela a subida sinuosa da fumaça sacrificial. O que domina nessas percepções diversas é o símbolo de uma unidade de movimento que põe em relação seres, elementos, níveis diferentes e até mesmo núcleos opostos. Já entre os Companheiros o S é inicial de Sabedoria, aqui, a Sabedoria do Santíssimo Sacramento como versão católica e popular do mais profundo Santo Graal devocionado como Vaso ou Taça Eucarística.

As pistas aqui ficam e com elas o meu contributo, na simples pretensão de que seja alavanca para leituras mais profundas aqui não cabendo senão a sugestão ou convite, como se queira, à demanda do maravilhoso e do belo daqueles egrégios que sabiam “fazer cantar a pedra”, nas palavras devotas de São Bernardo de Claraval, também ele construtor mas da Portugalidade.

 

NOTAS

 

[1] Joaquim Possidónio Narciso da Silva, Mémoire de l´archéologie sur la veritable signification des signes qu´on voit gravés sur les anciens monuments du Portugal (“Memória da arqueologia sobre a verdadeira significação dos sinais que se vêem gravados sobre os antigos monumentos de Portugal”), Lisboa, 1868.

[2] Conde de Sabugosa, O Paço de Sintra. Imprensa Nacional, Lisboa, 1903. Reimpressão anastática da edição original pelo Gabinete de Estudos Históricos e Documentais da Câmara Municipal de Sintra, 1989-1990.

[3] Marquês de Abrantes, O Estudo da Sigilografia Medieval Portuguesa. Edição do Instituto da Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, Dezembro de 1983.

[4] André Paraschi, Símbolos Mágicos (?) da Ordem do Templo e da Ordem de Cristo. Ericeira, Março de 1992.

[5] Eduardo Brazão, A Igreja Matriz de Loures e os Templários. Academia Portuguesa de História, Anais, II Série, Vol. 22. Lisboa, 1975.

[6] P.e Álvaro Proença, Subsídios para a História do Concelho de Loures, Volume I, pág. 90. Lisboa, 1940.

[7] Mendes Leal, Admiravel Egreja Matriz de Loures (oriunda do século V, edificada pelos Templários, analiticamente historiada em livro ornado de estampas pelo Octogenario) José Joaquim da Silva Mendes Leal. Typographia do Commercio, Lisboa, 1909.

[8] Vitor Manuel Adrião, Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993.

[9] Manuel J. Gandra, Siglas e Marcas Lapidares – Subsídios para o Corpus Lusitânico, In “Cadernos da Tradição”, Ano I, N.º 2, Solstício de Inverno de 2001. Hugin Editores, Lda., Lisboa.

[10] Maria Máxima Vaz, Património Histórico-Artísticoin Loures – Tradição e Mudança, Vol. II. Edição da Câmara Municipal de Loures, 1986.

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