Vulto imponente de nossa História, Mestre por excelência, “alumeado pelo Spiritu Sanctu naçido en et movido no divinal mistério», no dizer do seu cronista, Gomes Eanes Zurara[1], o Infante D. Henrique de Borgonha e Lencastre foi incontestavelmente o pensador e grande arquitecto da Epopeia Marítima que depois se conviu chamar, muito apropriadamente, de Gesta Henriquina, incarnando em si mesmo a potencialidade messiânica ou avatárica do mesmo Espírito Santo, ou seja, o Terceiro Logos Shiva ou Siva, anagramaticamente Avis, cujo atributo é a Omnipresença de Si mesmo, Deus revelado em Aspecto Feminino com o atributo genesíaco das Águas (Maris Nostrum).

Se na Santíssima Trindade cristã está-se em presença do Pai, Filho e Espírito Santo, entre os primitivos gnósticos já a Hipóstase remanescente era a Mãe: Pai, Mãe e Filho, assumindo assim o Espírito Santo um aspecto mediador ou psicopompo como Alma entre o Espírito e o Corpo. No Egipto mítico e iniciático, Osíris, o Pai, reflecte-se no Filho, Hórus (o lado tangível ou material, tanto que o faraó era a Ele identificado), através de Ísis, a Mãe, o Elo ou Mediadora entre os Mundos. Na tradição islâmica, que não aceita a Trindade e sim a Unidade fundamental e indivisível de Deus, o Espírito Santo é identificado com o Arcanjo Gabriel (Jibraîl), o mesmo que ditou o Corão a Maometh e que, seiscentos anos antes, havia anunciado a Maria o nascimento do Messias Jeoshua (Nabi Iça, o Profeta), como é relevado no mesmo Corão, capítulo XIX, suratas 16 a 35. Ainda assim, algumas correntes islâmicas concebem perfeitamente a noção materna existencial de Allath, a forma feminina de Allah (Deus), donde o carinho particular, por exemplo, por Fatmah (Fátima), a quinta filha do Profeta por não poucos associada à mesma pessoa da Mãe Divina, possuído de predicados iguais aos de Ester entre os hebreus.

Como uma veste do Verbo Divino (do Sopro, Ain-Soph, etc.), o Arcanjo Gabriel aparece, portanto, inteiramente relacionado com uma função feminina, ou com o Aspecto Feminino da Criação, como seja aquela da expressão da Revelação em si mesma como acção intermediária entre o Divino e o Humano, a ponte criada (concebida, com forma) entre a ideia primordial e o conceito manifestado, ou por outra, entre o Mundo das Causas ou Vénus Nutridora (Shukra, “celeiro” do Akasha ou Éter) e o Mundo dos Efeitos ou Lua Nutriente (Soma, “seara” de Kama ou a Emoção), de maneira que a Lua expressa Vénus que assim é como o seu Sol. Do mesmo modo, o ser humano passa de lunar a solar pela Iniciação Real, tornando-se de “Filho de Mulher” em “Filho do Homem”, o que acontece no plano imediato quando a mulher concebe: deixa de estar sujeita ao ciclo lunar (Terra) para entrar no ciclo anual (solar) de Vénus, pois que o ano venusiano dura nove meses terrestres.

No Novo Testamento, Maria e os Apóstolos, no Pentecostes, são tocados pelo Espírito Santo, passando a ter o poder de falar todas as línguas, de curar enfermos, de falar com a Sabedoria do Filho e explicar a Revelação em todas as linguagens. Seguindo o prodigioso ensinamento do sede iguais a Mim assim como Eu sou igual ao Pai, seria forçoso que qualquer místico cristão, em qualquer época, entendesse que quando se fizesse igual ao Mestre teria o Poder e a Sabedoria do Mestre, isto é, daria nascimento ao Cristo dentro de si, como Maria, sendo, portanto, tocado pelo Espírito Santo. E, verdadeiramente, assim acontece em qualquer época, porque o Filho não é mais que o cíclico Avatara de Vishnu, como se consigna no Oriente, ou seja, a face visível do Pai (Brahma), o Eterno, o Sem Nome, cujas formas são infinitas justamente por não possuir forma objectiva alguma, como Essência Divina que é. Sendo assim, o Iniciado – cristão ou não, pouco importa – que se fez igual ao Mestre é igualmente tocado pelo Espírito Santo, tradicionalmente alegorizado por uma Língua de Fogo, justamente porque se acendeu nele a Luz Única, o Poder Mediador, Transformador e Construtor, não particular ou monopólio de qualquer religião no mundo; ele não é o Verbo mas fala por Ele, como João Baptista, São Paulo, etc., e é esse Poder Transformador, sem intermediários, a plena liberdade da mente humana iluminada por dentro, mas funcionando integrada na responsabilidade imposta pela Lei que a tudo e a todos rege, e que é anunciada pelas profecias relativas à Idade do Espírito Santo. Essa era a verdadeira revolução espiritual que estava em curso nos séculos XIII, XIV e XV, num mundo medieval à beira do seu fim onde alguns bravos de espírito o arremessaram numa nova Idade de Luzes, dentre eles destacando-se o Infante Henrique de Sagres[2].

Mestre Supremo da Soberana Ordem de Mariz (Allath-Maridj), pouco importa que a História a desconheça por inteiro, 8.º Grão-Mestre e Administrador da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, estabelecedor em Tomar da britânica Ordem da Jarreteira, modelo da posterior a Ordem do Cardo, igualmente britânica, ambas tendo por Patrono São Jorge, o Infante D. Henrique elegeu por Orago de sua vida e obra o Divino Espírito Santo na figura da Mãe Soberana mas encoberta sob a “letra que mata”: a Virgem Negra (Nigro Virgo igual a Hermeticum Maris, simbolizada pelo Mare Incognitus, neste contexto designativo do Mercúrio Filosófico do Hermetismo).

Infante Henrique de Borgonha e Lencastre (1394-1460)

Filho do rei D. João I e da rainha D. Filipa de Lencastre, terá nascido na cidade do Porto em 24 de Novembro, ou em Dezembro, de 1394 e vivido largo tempo em Viseu e em Tomar, mas tendo sido no Algarve, no périplo envolvente de Lagos e Sagres, que o Infante D. Henrique deu largas à sua obra de expansão marítima  do reino, cujos efeitos ainda hoje se sentem. Vindo a falecer na sua Vila ou Quinta da Guadalupe, na Raposeira, entre Budens e Vila do Bispo, em 13 de Novembro de 1460, o seu corpo foi levado para a igreja de Santa Maria de Lagos, então a sede da “Confraria do Compromisso”. Passado pouco mais de um mês, por ordem do seu sobrinho o rei D. Afonso V, procedeu-se à trasladação dos restos mortais do príncipe para o mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha, em 1461. Diogo Gomes, fidalgo que assistiu à sua morte, narra os acontecimentos afirmando que o corpo de D. Henrique não havia sofrido corrupção após quase dois meses feitos do seu falecimento.

Túmulo do Infante D. Henrique na Panteão da Ínclita Geração no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha

O cronista do Infante D. Henrique, Gomes Eanes de Zurara[3], homem douto dado às ciências herméticas da Kaballah e da Astrologia de que deixou provas dispersas nas suas várias crónicas impressas, possivelmente sendo de ascendência cristã-nova, dá-se na sua Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné ao levantamento do horóscopo do Ínclito Infante Navegador, onde diz: “Porém vos quero aqui escrever como ainda por pungimento de natural influência, este honrado Príncipe se inclinava a estas coisas [esotéricas]. E isto é porque o seu ascendente foi Áries, que é casa de Mars, e é exaltação do Sol. E porquanto o dito Mars foi em Aquário, que é casa de Saturno, e em casa de Esperança, significou que este Senhor se trabalhasse de conquistas altas e fortes, especialmente de buscar as coisas que eram cobertas aos outros homens, e secretas, segundo a qualidade de Saturno, em cuja casa ele é. E por ser acompanhado do Sol, como disse, e o Sol ser em casa de Júpiter, significou todos os seus tratos e conquistas serem lealmente feitos, e a prazer de seu Rei e Senhor”.

Portanto, segundo o cronista Zurara que certamente dispôs de elementos precisos sobre a hora, dia, mês e ano do nascimento do Infante, os quais hoje são impossíveis de conhecer comprovadamente, ele terá nascido em Aquário – Saturno, esteve sob o auspício de Sol – Júpiter e teve por ascendente Áries – Marte em Aquário no seu mapa natal. Este horóscopo veio a ser motivo lúdico de pintura em toda a parede do lado direito da escadaria nobre do Palácio-Hotel do Buçaco, junto à vila de Luso.

Marte ou Makon (hebreu), correspondente ao respectivo “Céu” da classificação ptolomaica, está em Aquário e é o planeta do signo de Áries, o Carneiro, associado ao Nisan hebraico, sendo o mês da festa móvel da Pesah ou Páscoa, exactamente como “passagem” de um estado a outro, implicando ser maior ou mais lato para a “coisa” envolvida (seja consciencial, geográfica, pessoal, colectiva, etc.). Isto corresponde no Hemisfério Norte à elevação do Sol, ao início da Primavera, à passagem do frio ao calor, da treva à luz, o que não deixa de se relacionar com o mito dos 12 argonautas da nau “Argos” em demanda do Velocino de Ouro no Jardim das Hespérides, tradição esta também evocada pelo carneiro servindo de montaria à divindade hindu Kuvera, guardiã dos tesouros do seio da Terra. Mas a demanda do Velocino de Ouro é, sobretudo por se associar à Copa Sagrada (o Saint Vaisel ou o mesmo Santo Graal), a de um tesouro espiritual, isto é, o da Sabedoria Divina, em que se torna ordálio real. Ora, na antiga China o carneiro participava dos ordálios judiciários, nos quais desempenhava o mesmo papel do unicórnio. Na mesma época e área cultural, o carneiro também é, por vezes, a montaria de um Imortal (Ko Yeou), e na Índia é a metamorfose do próprio Imortal no Fogo do Sacrifício, Agni, o que bem se associa ao Cordeiro Sacrificial hebraico-latino da Pesah – o Agnus Dei.

Na Gália, havia numerosos cães de lareira (peça utilizada para apoiar a lenha a arder na lareira, a fim de evitar que ela rolasse para fora) em pedra com cabeças de carneiro, o que se relaciona com o simbolismo ígneo do animal assim expressando a permanência da luz no lar, este tanto podendo ser um conjunto familiar como uma filiação espiritual.

Depois do Velocino (ou Tosão: velo de carneiro) é o chifre do animal de ouro (afinidade solar) que fica carregado de um valor simbólico, fonte de inumeráveis costumes, tradições e imagens derivadas do mesmo simbolismo original, sendo que, de todos, o mais forte é sem dúvida a cornucópia, a taça da abundância, pelo que evoca a esta tanto no material como no espiritual, aqui designando a Iniciação. Certamente no caso do Infante Henrique de Sagres tratar-se-á de Iniciação Real, Guerreira ou Kshatriya, também chamada de Iniciação Mariana por todo o Cavaleiro eleger por Orago a Santa Maria na hora da sua armação. O ideal e execução da Iniciação Mariana ligam-se por inteiro a Mariae, Maris e ao Mare ou Via Marítima (Húmida ou Feminina) da Alquimia, Caminho e Arte de Espírito Santo que, na época do Infante, foram assumidos por ele próprio reunindo em si todo o substractum da Ordem de Cristo. Decerto, também, a abundância material, tendo-a buscado na “Ilha” ou Ínsula Brasil[4], quando ordenou aos seus Cavaleiros do Mar, novéis argonautas, navegarem para Ocidenteas finis Terris.

Cabalisticamente, Marte associa-se à sephiroth Geburah, “Força”, por seu turno e por sua natureza ígnea associada ao estado de consciência Budhi-Taijasi, isto é, o Intuicional (Christus) iluminado pelo Espiritual (Paeternus). Essa condição consciencial é assumida cosmogonicamente pelas “Serpentes de Fogo” (Sarafs), os Serafins portando em seu imo a Purificação, a Iluminação e o Amor. Desde Salém, Shamballah ou o Centro do Mundo à Face da Terra, por eles se manifesta Deus Espírito Santo conferindo o Amor ao seu Eleito e à Igreja de sua Eleição, a dos Fiéis do Amor, antes, a da lustríssima Mãe Santíssima como Virgo Mariz, por decreto do Infante do Mar trasladada do extremo-ocidental da Europa ao extremo-ocidental do Mundo: o Brasil!

Também nisso entra a influência benfazeja do Sol do Solo ou Seio da Terra, lugar ascendente no horóscopo do Infante D. Henrique que daí era descendente: Saraf, Seraf, Serafim, Serapis… os Senhores da 7.ª Linha Teúrgica do Novis Phalux a Luzir, sim, o Cruzeiro Mágico de Cordo Mariz sob a égide de Surya, Elion ou Helius, o Sol mesmo. Remata a tradição hermética que se está na presença de um vocábulo cujas sonoridades são em vermelho e ouro, em afinidades astrais com Marte e o Sol.

Seguindo a antiga classificação ptolomaica, o alquimista português Anselmo Caetano Munhoz de Abreu coloca Marte como o quinto dos sete planetas tradicionais e assim o classifica no seu Oráculo Profético: “[…] subindo mais alto a procurar a protecção de Marte, que é o Planeta Quinto, e tão ilustrado de luzes, que tem a luz do Sol por centro. Como Marte é o Quinto entre os Planetas, e também o Deus da Guerra entre os Indigentes, posto que também seja Infortuna menor, por estes mesmos três motivos lhe consagro este Oráculo Profético, em que alegoricamente discorro sobre o Quinto Império do Mundo; porque o Império Quinto pertence ao Quinto Planeta, a conquista do Mundo ao Deus Marte, e à Infortuna menor a maior Fortuna. Lisboa Ocidental, 31 de Julho de 1733″.

Sendo o último Administrador do Tesouro do Templo, possivelmente do que restaria dele e que terá aplicado na promoção das navegações, D. Henrique de Borgonha e Lencastre foi também o grande universitário. Artur Moreira de Sá[5] chama-o “protector dos estudos em Portugal”. No Sumário dos Estatutos da Universidade de Lisboa, firmados na Sé da mesma cidade, em 16 de Julho de 1431, os quais receberam a influência do Infante, lê-se no parágrafo 8 do Doutoramento que o futuro doutor antes de ser nomeado tal era levado à Sé onde se celebrava a Missa do Espírito Santo.

As disciplinas ministradas na Universidade de Lisboa antes do Infante, constantes das Cartas de 25 de Outubro de 1400 e de 23 de Agosto de 1418, eram: Leis – Decretais – Gramática – Lógica – Física – Filosofia – Teologia – Música. D. Henrique aumentou as disciplinas, segundo o mencionado na Carta de Doação de 12 de Outubro de 1431: Leis – Decretais – Gramática – Lógica – Medicina – Filosofia Natural e  Moral – Teologia – Aresmética – Geometria – Astrologia.

Consta nas Cartas de 12 de Outubro de 1431, de 25 de Março de 1448 e de 22 de Setembro de 1460 que no dia de Santa Maria da Anunciação, a 25 de Março, “hão-de ir todos os lentes e escolares encomendar minha alma” ao Convento da Graça, ordenança que será “feita para todo o sempre enquanto houver Estudo Geral em Lisboa”.

O Infante decretava assim a perpetuamente os reitores, lentes, conselheiros e escolares irem todos os anos à igreja do convento da Graça, em Lisboa, em saimento solene, ouvir missa em sua intenção e de seus sucessores no Mestrado e Administração da Ordem de Cristo[6].

Deve-se ao Infante a tradução da língua hebraica, e consequente composição, do livro Segredo dos Segredos de Astrologia, tratado assente na filosofia aristotélica mas com explanação de astrologia cabalística, sobre o que diz Jaime Cortesão: “[…] não é sem fundamento que no catálogo da livraria de Fernando Colombo figurava um “Libro en español de mano, llamado Secreto de los Secretos de Astrologia, compuesto por el Infante D. Enrique de Portugal”. Do título se infere tratar-se do Livro de Secretis Secretorum, obra pseudo-aristotélica, em forma de conselhos de Aristóteles a Alexandre Magno. Em nota a uma referência do Leal Conselheiro ao “Livro Secretis Secretorum”, retomando o assunto Joseph Piel comentou: “Foi encontrada recentemente por Armando Sousa Gomes uma antiga versão portuguesa deste livro (cf. O Instituto, vol. 93, pp. 193-201), que o benemérito descobridor por inadvertência quis identificar com a “Grande Moral”, de Aristóteles, opinião rectificada por Joaquim de Carvalho no mesmo volume da citada revista. A atribuição da tradução portuguesa ao Infante D. Henrique parece-nos fundamentada, embora também consideremos pouco provável, senão impossível, que o manuscrito descoberto seja o mesmo que, sob o título “Secretos de los Secretos de Astrologia”, figurava na Biblioteca Colombina e que era, sem dúvida, escrito em espanhol. Não repugna admitir que esta redacção castelhana, hoje desaparecida, fosse uma versão da tradução portuguesa, o que viria confirmar a autoria do Infante D. Henrique quanto à obra recentemente descoberta que – facto de real importância – pertenceu primitivamente à Livraria de Alcobaça”[7].

À difusão da Astrologia (tão necessária aos pilotos das naus que se aventuravam por mares ignotos e só tinham por cartas inalteráveis a disposição das estrelas), natural e cabalística, nos séculos XIV-XV, paralelamente fizeram eco o Livro da Montaria, de D. João I, o Leal Conselheiro, de D. Duarte, o Livro da Virtuosa Benfeitoria, do Infante D. Pedro, e as próprias crónicas e cronicões da época.

Convém fazer aqui uma destrinça importante, para de antemão evitar quaisquer mal-entendidos futuros respeitantes a hodiernos fenómenos de crenças divinatórias e milagreiras que preenchem o espaço psicossocial do chamado «new age», caracterizado por superstições alimentadas indistintamente por certo urbanismo subdesenvolvido em matéria de cultura verdadeiramente tradicional a qual, pelo contrário, caracterizou a espiritualidade e mesmo a religiosidade dos povos antigos na sua relação com o mundo sideral.

A Astrologia foi durante muitos séculos predominantemente mântica ou divinatória. Com o tempo surgiu a sua variante genetlíaca ou judiciária, baseada num horóscopo natal e em outras técnicas posteriores. Essa transição histórica foi muito importante. Para compreender a atitude de aceitação do factor astrológico por parte das teologias da Sinagoga e da Igreja, deve considerar-se a diferença entre Astrologia natural e Astrologia judiciária. A Astrologia natural, aceite e até exercida oficialmente na Universidade coeva da Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres, estuda a alegada influência dos astros sobre a Terra, a Natureza, os organismos vivos e, portanto, sobre o carácter e a alma humanos. A Astrologia judiciária pretende, por meio de certas técnicas (particularmente por meio do horóscopo), levar a “julgamentos”, a “conclusões” sobre o destino dos indivíduos e dos povos segundo a posição e configuração dos planetas a partir de determinados momentos da sua vida ou história.

A Igreja Católica não contestava a legitimidade da Astrologia natural. Dionísio Aeropagita, S. Cesário, S. Jerónimo, Alberto Magno, Tomás de Aquino e muitos outros admitiam a sua legitimidade. Em contraste, a Igreja e a Sinagoga reprovavam e reprovam a Astrologia judiciária que afirma estar o destino do Homem “lavrado nas estrelas que ditam o seu porvir”, porque tal posição vem a negar a liberdade humana do livre-arbítrio e direito de acertar e/ou errar na experiência da vida, onde cada um e cada qual evolui por seus próprios esforços e méritos sem necessitar depender a sua existência de quaisquer factores externos, astrolátricos.

Na sua Suma contra os Gentios, começada a escrever em 1265 e que deixou inacabada por sua morte, Tomás de Aquino apresenta um resumo da história da Astrologia. Dedica dois opúsculos aos horóscopos – De Sortibus e De Judiciis Astrorum. Neste último, pode ler-se: “Se alguém se serve do juízo dos astros para conhecer efeitos corporais, por exemplo, a ocorrência de tempestades ou de bom tempo, a saúde ou a doença dos corpos, a abundância ou a esterilidade das colheitas e outras coisas que dependem de causas naturais cognoscíveis, não há nisso pecado, pois todos os homens são obrigados a nisso submeter-se aos astros. O agricultor só pode semear ou colher prudentemente se se assegurar dos movimentos do Sol (…). Em contraste, é forçoso afirmar que a vontade do Homem não está sujeita à necessidade dos astros; se o estivesse estaria arruinada a liberdade, que, eliminada, não permitiria atribuir aos homens nem acto bom nem acto mau, meritório ou culpável… É um grande pecado recorrer aos horóscopos nestes assuntos”[8].

Na época do Infante D. Henrique ficaram célebres as traduções portuguesas do Lybro de Magyka, de Juan Gil de Castiello, ou de Burgos, e do Lybro Conprydo en los Juyzos de las Estrellas, de Ali Aben Ragel, que pertenceu à Biblioteca de D. Afonso V.

Quanto à tradução portuguesa do Lybro de Magyka, encontra-se em manuscrito do século XV na “Bodleian Library”, de Oxford (Ms. Laud. Or. 282). E do Libro Conprydo, de Ali Ragel, conserva-se na mesma Biblioteca (Ms. Laud. Or. 310) a tradução dos livros IV a VII, feita ou copiada em 1418 por Joseph B. R. Gelalyah.

O Infante D. Henrique cumpriu rigorosamente os três votos perpétuos de Obediência – Pobreza – Castidade da Freiria de Cristo, de cuja Milícia era Grão-Mestre e de cujos bens o Administrador Geral, sendo essa a razão imediata da sua castidade e austeridade mais de monge que de príncipe!… A sua própria divisa francesa, Talant de Bien Faire, “Talento [ou Propósito] de Bem Fazer [ou Criar]”, a par dos feitos notáveis preenchendo a sua biografia, demonstram bem que a pia Alma deste I.H.S. abarcava a Terra inteira, em carácter e cultura, o que é inerente às inéditas e Grandes Almas. As iniciais do seu nome, I ou JHS, significam na Tradição Iniciática: “O Homem na Divindade”, assim como HJS significa “A Divindade no Homem”.

Com efeito, no seu Talant de Bien Faire velam-se, inclusive, as Três Hipóstases Divinas, cada qual manifestando-se por uma das três gunas (“cordas”, em sânscrito) ou “qualidades subtis da matéria”, nas suas volições de centrífuga, equilibrante ou rítmica, e centrípeta, respectivamente, em sânscrito, Satva – Rajas – Tamas.

D. Henrique passou à Arte da Musa Clio, a História, com o cognome de Navegador devido à sua intervenção primaz na Diáspora Marítima, é sabido do comum das gentes. Mas o menos sabido é o seguinte: foi a partir de Lagos que as pretensões expansionistas do rei D. Afonso V (1432-1481), sucessor e filho do rei D. Duarte irmão do Infante de Sagres, e cuja Escola de Navegação apoiou e protegeu, viram a efectivação. Com efeito, ele militou na Confraria do Espírito Santo, vulgarmente conhecida por Companhia do Compromisso de Lagos, fundada nesta cidade em 1444 por Lançarote Pessanha, escudeiro do Infante D. Henrique, a qual terá sido a matriz e motor da Escola Náutica do Navegador.

Vários indícios dessa época ainda existentes em Lagos, dão a Confraria do Espírito Santo não só como gestora espiritual e jurídica da Escola Náutica como também cadinho de secretas filiações herméticas, possivelmente de alquimistas professos da Via Húmida ou Marítima, donde usarem o apelido argonautas, ou simplesmente nautas, sendo o timoneiro ou dirigente apelidado de Navegador.

Se o fundador dessa Ordem fora Lancelote de Lagos, certamente o arturiano Mestre Supremo era o próprio Infante Henrique de Sagres, dentro dela chamado de Navegador, e ao qual a corte de Carlos, o Temerário, primo de Afonso V, e os filósofos de Luís XI de França, davam igual designativo: Nautonnier.

Assim, o Infante Ínclito dos Mares passou à História com o cognome de Navegador, na realidade sendo o grau supremo da Confraria do Espírito Santo mas que a historiografia vulgarizou na pleição de todos conhecida.

Ainda hoje se vêem lavrados no pórtico lateral da igreja de Santa Maria de Lagos, primitiva sede da Confraria do Espírito Santo, dois vasos alquímicos cada qual encimado por uma flor-de-lis. Essa prova surpreendente leva-me a associar esses lavores pétreos ao significado do Santo Graal, por raros apercebido, havendo uma perfeita correlação física e espiritual na própria palavra:

– GRAL é o almofariz, objecto de laboratório onde são feitas certas misturas químicas.

– GRAAL é a Taça Sagrada. Nela, naturalmente, são feitas as mais sublimes, espirituais e místicas fusões alquímicas.

Mas a prova de maior sucesso quanto à filiação hermética desta Confraria de Navegantes, está no pórtico lateral da igreja de S. Sebastião (primitivamente da Conceição) de Lagos, sendo tão óbvio o simbolismo hermético esculpido nele que me atrevo a baptizá-lo de Portal do Adepto. Teria pertencido à primitiva igreja de S. Sebastião fundada pelo bispo D. João de Melo no século XV, depois transformada, como hoje se vê, no século XVI[9]. Como já fiz a leitura pormenorizada desse pórtico numa outra obra[10], escuso-me de repeti-la aqui, no entanto apontando no interior do templo várias pinturas de grande significado esotérico que aqui me traz: numa, vê-se São Bernardo de Claraval com três mitras aos pés, indicativas das três Idades tradicionais do esquema da Fiore; noutra, observa-se a descida do Senhor da Cruz que é um Tau, estando Nicodemus com o sudário ou “pano do suor” com os três cravos, tendo a seu lado José de Arimateia com o barrete frígio, símbolo do Adeptado navegante, volante ou móvel, com o pormenor acrescido de Nicodemus fazer um sinal de reconhecimento a João Evangelista enquanto fita Maria Madalena. Esta assumirá no contexto a figura da Virgem Negra ou Guadalupe, isto é, Guapa-Lupe, a “Beleza da Lua”, neste caso, a “Bela Senhora da Noite”, esta indicativa do que está encoberto, do “espírito que vivifica sob a letra que mata”, remetendo para o sentido primaz do Templo críptico como sinal de Mistério e de Iniciação, e tudo isto remete por inteiro ao simbolismo de Ísis, donde foi decalcada a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Pórtico lateral – liber mutus alquímico – da igreja de São Sebastião de Lagos

No tecto da igreja, em caixotão de madeira, observa-se a pintura de um Pentalfa Flamejante sobre toda a ilustração bordada pela frase latina do Salmo 71: “Bendito o Senhor que fez o Milagre do Sol”.

Para o Professor Henrique José de Souza, o Salmo 71 tem o seguinte significado cabalístico seguinte: “Justiça igual para todos. Paz universal. Fraternidade entre os povos. Extinção da pobreza. Verdadeira liberdade. Abundância e prosperidade”[11]. Ora, esses são precisamente os paradigmas da Sinarquia que tanto os Templários quanto os Freires de Cristo perseguiram e até realizaram em seu espaço de acção, particularmente nesta parte do Algarve (de Lagos a Sagres), o que depois para o rei D. Sebastião terá sido motivo não entendido por ausência de profundidade adulta, mas exagerado pela presença de superficialidade juvenil.

Com efeito, tudo indica que ele instalou nesta igreja de São Sebastião de Lagos a sede da sua Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (copiada inteiramente da regular e secular Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo), também chamada de Ordem Militar da Seta (Frecha) de São Sebastião. Desde a substituição do Orago da igreja, a Senhora da Conceição por São Sebastião, às reformas no edifício e à decoração rica de simbolismo sebástico-hermético, esta terá sido a Casa-Mãe dessa Ordem controversa de duração efémera, ainda assim aproveitada para resguardo pio de muitos hermetistas da época seiscentista algarvia. Sobre o assunto, escreveu Manuel J. Gandra[12]:

Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ordem Militar criada por D. Sebastião, em Março de 1577, achando-se no cabo de S. Vicente (Algarve). Alguns autores chamam-lhe, impropriamente, Ordem da Flecha de S. Sebastião.

“A missiva que, na circunstância, D. Sebastião remeteu ao embaixador em Roma faz luz sobre o evento: “[…] esta ordem que agora determino publicar é aquela mesma que tenho instituído e a que então dei princípio com nela entrar a fazer logo profissão, e que não é a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo que alguns podem cuidar que seja por a cruz dela ter muita semelhança com a que escolhi e ordenei para esta nova ordem, que tenho assentado que se chame a Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e divisa de S. Sebastião, pela Seta que com a mesma cruz ao pé dela trago”. (Cf. BN: cod. 887, fl. 158r-158v). Consulte-se Sampaio Bruno, O Encoberto, Porto, 1904, p. 80-97, e Camões, Oitavas sobre a Seta que o Santo Padre mandou a El-Rei D. Sebastião, no ano do Senhor de 1575. O Desejado tencionava fundar um Templo dedicado ao mártir no Terreiro do Paço (Lisboa) para nele albergar a relíquia do braço do mesmo Santo que Carlos V furtara no Vaticano, quando do saque de Roma. Francisco de Holanda apresenta o respectivo projecto no Da Fabrica que falece à Cidade de Lisboa (fl. 26v-27r).”

Com efeito, em 1571 D. Sebastião requereu do Papa Pio V autorização para alterar os estatutos das Ordens Militares de Cristo, Santiago e Avis, e acrescentar à cruz dos referidos hábitos uma seta ou frecha (flecha), em memória da arma com que fora martirizado o santo seu homónimo, assim colocando o Sebastião rei em paridade com o Sebastião santo, cuja distinção só seria conferida aos cavaleiros que se assinalassem por feitos notáveis na guerra. Ele, monarca, não sendo cavaleiro usava assim das suas prerrogativas reais para ser chefe de todos eles e “estocar”, “flechar” fatal e decisivamente as antigas Ordens seculares de cavalaria e linhagem nobiliárquica com mais de cinco gerações ininterruptas. Essa intenção regista-se em uma pedra epigráfica com as três Ordens e a de São Sebastião por cima em edifício da antiga Alfândega de Setúbal.

De saúde frágil, inquieto e imaginativo, de fantasias lúgubres, rei quimérico querendo fazer-se imperador do mundo indo tomar Jerusalém a partir do Norte de África, onde se perderia e perdeu Portugal, ansiava sempre copiar as grandezas dos seus antepassados, vendo-se a incarnação de todos eles e de todas elas, como constata Alexandre Ferreira[13]: “E passando ao que me importa, digo, que prezo El Rey desta ideia da jornada de Africa, e penhorado da Setta de S. Sebastião, para gloria da empreza, a que se encaminhava, e lembrado de que seu antigo avô, El Rey D. Affonso o I, no glorioso sucesso de Santarem contra hum numero sem numero de Barbaros, capitaneados por El Rey de Sevilha, instituira a Ordem da Ala, ou Aza de S. Miguel, para escrever com aquellas pennas as memorias do seu agradecimento, e voar com aquella Aza em gloriosos triunfos; e que El Rey D. Affonso o V, para continuar os gloriosos empregos, que lhe derão o nome de Africano, creara a Ordem da Espada de Santiago; e com estas honradas memorias creou a Ordem da Setta de S. Sebastião, espada segura para triunfar do contagio daquelles Barbaros, porque nas azas, com que voara, levaria a saude contra a peste da Infidelidade.” No mesmo sentido escreveu Manuel de Faria e Sousa na sua Europa Portuguesa, em 1667.

Além das alterações nos Estatutos, afectando as Regras, das supraditas Ordens (efectuadas em 6 de Fevereiro de 1572), D. Sebastião solicitou uma das setas com que foi martirizado o santo homónimo, para a depositar na igreja que lhe pretendia edificar em Lisboa, mas que não passou da intenção, ficando-se a dita relíquia, depois de chegada, pelo Mosteiro de S. Vicente de Lisboa. A morte de Pio V levou a que só o seu sucessor, o Papa Gregório XIII, pudesse satisfazer a vontade régia, já que, pelo falecimento de D. Joana de Áustria, enviou a seta embebida no sangue do mártir, acompanhada de um Breve Pontifício datado de 8 de Novembro de 1573.

Essa venerada relíquia – sacra invenção – chegou a Portugal 9 de Fevereiro de 1574, trazida pelo enviado papal Pompeo Lanoja, cubiculário de Sua Santidade, sendo recebido pelo rei quando estava nos seus Paços de Almeirim.

Tendo nascido em 20 de Janeiro de 1554, no dia de S. Sebastião, razão pela qual foi batizado com esse nome, D, Sebastião teve uma constante e significativa preocupação em representar as setas ou flechas que martirizaram S. Sebastião em tudo aquilo que simbolicamente representasse o Poder Régio e a sua própria pessoa como rei, assim unindo – inspirado pelos seus mentores – o Poder Real à Autoridade Espiritual concentrados na sua única pessoa, prerrogativas de Melki-Tsedek o qual parece ter querido se assumir como Soberano Supremo do Mundo, o que seria confirmado de alcançasse Jerusalém e ocupasse o seu trono. Com a sua ida a Alcácer-Quibir e a derrota militar que sucedeu, esse Ordem entrou em esquecimento e praticamente desapareceu nos anais da História, apesar de alguns hoje a quererem reavivar por motivos menos sebásticos e mais sebastianistas, com tudo esbarrando na Lei do Banimento que até hoje opõe entre si brigantinos e anti-brigantinos. Enfim, nisto parece valer a frase concisa de Mário Roso de Luna no seu Livro que a Mata a Morte: “Há jovens que deveriam ser proibidos de ler literatura de Cavalaria, porque se empolgam alucinando-se, levam tudo à letra e põem-se a destruir a torto e a direito”. Mais palavras para quê?…

Deixando os empolgamentos inflamados de D. Sebastião de lado e voltando à Alquimia Mareante (apontada num quarto quadro descrevendo S. Vicente deposto na barca vigiada pelos corvos à proa e à ré, havendo o Promontório de Sagres ao fundo com um mouro nele), também chamada, como já disse, dos Navegadores ou Argonautas, sendo Via Húmida onde a paridade sexual ou casal hermético imita a Obra da Criação do Andrógino Primordial, ou seja, o Grande Demiurgo como Espírito Santo (Siva ou Shiva), cujo símbolo é precisamente o Sopro e a Barca navegando sobre as Águas da Génese.

A ciência da navegação foi também mística para o Infante D. Henrique, e motivo para ordenar a demanda do Reino do Preste João, identificado ao Rei do Mundo, sobre quem direi agora algumas palavras.

Em todos os compostos religiosos e sociais houve sempre uma tríade dirigindo a governação dos mesmos que, no aspecto político-governamental da Idade Média, era assumida pelo Rei, o Conselheiro jurídico e o Marechal de tropas. Hoje tem-se o Presidente da República, o Presidente da Assembleia e o Primeiro Ministro. São, ao nível social imediato, uma imagem fugaz mas nem por isso menos real da Trindade Melki-Tsedek ou do Rei do Mundo, exposta, o que já disse, como Melki-Tsedek (Monarca e Pontífice Universal), Kohen-Tsedek (Pontífice Universal) e Adonai-Tsedek (Monarca Universal).

Essa Trindade Sacra da tradição hebraica veio a influenciar todo o sistema sócio-religioso do Ocidente medieval e ela mesma se baseia, diz-se, numa outra e soberana Trindade Aghartina, chamada no Oriente de Brahmatma (“O Apoio dos Espíritos no Espírito de Deus”), equivalente a Melki-Tsedek, Mahinga (“O Representante da Alma Universal”), equivalente a Kohen-Tsedek, e Mahanga (“A Expressão de toda a organização material do Cosmos”), equivalente a Adonai-Tsedek. Ela era na época do Infante representada à Face da Terra pela Igreja Lamaísta ou Tibetana (a quem a de Roma, através dos seus emissários, iria depois buscar a maioria dos símbolos e paramentária litúrgica que utiliza como exclusivo seu, desde a mitra à sineta), nas pessoas do Buda-Vivo Gheghen, expressando a Santidade ou a Divindade no Homem, do Traichu-Lama, detentor da Ciência Sagrada ou Teúrgica, e do Dalai-Lama, realizando a Unidade Social com viabilidade.

Informa ainda a Tradição Iniciática que, de permeio à Trindade Aghartina e aos altos Dignitários do Lamaísmo, há a Assembleia dos Santos e Sábios, a “Igreja Secreta ou Oculta de João”, ou seja, a Grande Fraternidade Branca ou Governo Oculto do Mundo dirigido pelos seus três Grandes Oficiais: o Manu (dirigindo a Política Mundial da Raça Humana), o Bodhisattva (dirigindo as variedades da Fé das Religiões do Mundo) e o Mahachoan (dirigindo a Educação científica e moral de toda a Civilização), os quais estavam representados na antiga Ordem do Templo pelo Mestre Geral, o Grão-Prior e o Senescal (donde derivou o Marechal).

Ora, conforme o vasto cardápio documental que chegou até hoje, foi o impulso à demanda do Reino do Preste João que, do ponto de vista mais espiritual que religioso, levou a encetar as odisseias marítimas. Essa Terra de Promissão ainda assim enigmática, localizava-se em lugar vago numa geografia incerta: ora se dizia estar na Índia, ora na Abissínia, ora em outros lugares mais, ainda que, ao certo, ninguém soubesse onde ficava esse País decantado de João Sem Terra, logo, de João Ninguém!…

Inevitavelmente a realidade acabou confundida com a fantasia, e logo nasceu o sonho ambicioso do Eldorado. Poucos sabiam, e sabem, o que é na realidade da Terra do Preste João, mas esses poucos calavam, e calam, mantendo por prudência a profana dúvida, e com esse motivo da busca dos cristãos do Oriente e do seu Presbítero são enviados os argonautas lusos a outros continentes à demanda, pela Fé e pela Cultura, não raro também pelas Armas quando as circunstâncias exigiam, desse mesmo Pai João da Ásia, ou melhor, da Assiah, isto é, do Mundo.

Sobre este tema palpitante, já conhecido dos Templários no século XII, escreveu Oliveira Martins na sua História de Portugal, III, 1:

“Desde o meado do XII século que se propagara na Europa a notícia da existência de um império cristão no Extremo Oriente. O núncio da Igreja da Arménia falara ao Papa (Eugénio III) em um príncipe, chamado João, cujos domínios estavam situados para além da Arménia e da Pérsia, e que reunia ao Império o Sacerdócio: era um Papa do Extremo Oriente, e fizera numerosas conquistas, o Preste-Joham.”

Ora a Terra do Preste João, segundo informa ainda a Tradição Iniciática em que me baseio para com segurança agir nestas profundezas do pensamento, é afinal de contas o Centro Espiritual Supremo, identificado tanto a Agharta como a Shamballah, e ele próprio Melki-Tsedek ou o Rei do Mundo. Certamente o Infante Henrique de Sagres saberia disso, nos moldes do pensamento e linguagem da sua época, ele a quem Fernando Pessoa na Mensagem chamou de “único Imperador”. Muito sintomaticamente a ver com Sagres anda a velhinha “lenda do Rei do Mundo”, que contarei mais adiante.

D. Henrique saberia bem o que era de facto o Reino do Preste João. Aquando da tomada de Ceuta e aí armado cavaleiro de Avis por seu pai, D. João I, terá entrado em contacto privado com os Maurus islâmicos que lhe forneceram informações importantes sobre “como navegar para a Terra do Grande Preste”. Segundo Zurara, na Crónica da Conquista da Guiné, a um dos navegadores da sua Escola o Infante declarou que “não somente daquela terra desejava ter sabedoria, mas ainda das Índias, e da terra do Preste Joham”.

Os documentos relativos ao misterioso Presbítero João são fonte de muita confusão para os investigadores, pois que aparecem quatro personagens com esse nome em quatro lugares distintos do Globo: no Tibete, na Mongólia, na Índia e na Etiópia, embora prefira apontar para essa última o Egipto. Conforme a Tradição Iniciática, seriam quatro representantes do mesmo e único Poder, havendo um aspecto masculino no Egipto para um feminino na Índia, tendo por formas laterais, colunas ou ministros um aspecto masculino na Mongólia e outro feminino no Tibete, com os nomes seguintes na disposição a seguir:

Chakravarti é outra designação sânscrita para o mesmo Melkitsedek hebraico, e significa “Aquele em torno do qual tudo se move sem que Ele se mova”, ou comparticipe do movimento, antes, é quem provoca o movimento. Neste caso, é a Excelsa Loja Branca actuando em volta do seu Supremo Dirigente e daí influindo sobre os seus satélites, os dirigentes religiosos e políticos da Humanidade.

Prosseguindo na peugada do postulado hermético do Infante D. Henrique, deixa-se Lagos e a sua Escola Náutica fundada pelo próprio, de que ainda sobeja uma janela do primitivo edifício (a famosa “Janela do Infante”, igualmente conhecida por “Janela de D. Sebastião”, donde este falou às tropas no areal antes da empresa fatal de Alcácer-Quibir), e ruma-se pela Estrada do “Fim do Mundo” a Sagres, passando a aldeia da Luz e avistando-se logo após a capela de São Lourenço, junto à aldeia de Budens.

Aí depara-se com os indícios das relações proto-históricas de Budens com Sagres. Ainda que Ptolomeu tenha situado o primitivo Templo de Hércules no Hierón Akrotérion (“Promontório Sagrado”), estou mais em crer que o de Cronos ou Saturno fosse aí, mas não o de Hércules certamente situado junto a Budens, como narra o Domingo Illustrado de 1908:

“O terramoto de 1755 actuou fortemente nesta freguesia. O ribeirinho de água doce que aqui desagua no mar, foi fio condutor da invasão oceânica, irrompendo até três quilómetros terra adentro, elevando-se em muralhas de doze metros de altura.

“Quando as águas recolheram deu-se outro caso que deixou pasmada toda a gente. Na praia, onde de memória de novos e velhos só existira areia e água, apareceram edifícios mui notavelmente grandes e magnificentes, e muralhas de espessura rara. A Este via-se a descoberto uma calçada larga, ladeada de paredes de cantaria, muito rijas, com portas gradeadas de ferro. Outra porta também lá estava, maior que as demais, e parecendo entrada do templo. Rente ao chão uma cisterna, e farta quantidade de alicerces pelo lado do mar, e paredes, restos de edifícios desabados, pintados de cores vivas, em bom estado. Voltada ao oceano havia uma entrada para o recinto, formando em arco, de cantaria, ornada de colunas elegantemente talhadas em mármore.

“O edifício ali é dividido em pequenas peças, e o solo apresenta lindo mosaico matizado a capricho, com letras de alfabeto desconhecido.

“Há todas as probabilidades de ser este edifício o famigerado templo de Hércules, que Ptolomeu diz ser construído sobre a praia, no Cabo. A praia desapareceu por efeito do perpétuo labor geológico. Em 1715 deu-se ali uma erupção marítima, e surgiu das águas um cais de excelente cantaria, no qual havia duas argolas. Ficava junto do mencionado edifício. Pouco a pouco o mar tornou a ocultar aquele vetusto monumento de épocas famosas.”

A descrição sugere-me a aparição de uma cidade atlante, descoberta e recoberta pelas fúrias oceânicas. Se a notícia merece ou não credibilidade, é assunto contestável por se saber “cada cabeça, sua sentença”. Mas o incontestável é existir em Budens as ruínas de um castelo romano, cujos caboucos parecem recuar à Idade do Bronze, data da necrópole situada junto a ele[14].

Ruínas de villa romana junto à Boca do Rio, Budens

É a partir dessa localidade e até dentro do Promontório Sagrado que se distende um filão telúrico marcado por menires, boa parte deles com caracteres e símbolos ogâmicos dos primitivos Cúneos ou Cónios do Sul. Sacraliza-se assim a Estrada do “Fim do Mundo”, como era conhecida na Idade Média e ainda hoje, levando ao Finis Terrae, lugar de comunicação com o Além, com o outro Mundo, o Mundo Jina. Relacionado com isso tem-se entre Lagos e Budens a povoação Barão de S. Miguel, topónimo lembrando-me os “Barões Assinalados” de Camões que nada mais eram senão os misteriosos Confrades de Mariz.

Após Budens chega-se ao lugar da Raposeira, onde se situava a Vila ou Quinta de Guadalupe, propriedade do Infante de Sagres, a qual se distendia até Vila do Bispo. Ainda se encontra aí a “Casa do Infante”, edifício soerguido sobre o primitivo e que dá a impressão de constituir a letra-mãe hebraica Mem, sobrando os muros adjacentes e o poço originais, além de um lindo lintel quinhentista, com sóis esculpidos, que encimava a porta do primeiro andar da residência original. Esse lintel desapareceu e não sei do seu paradeiro até hoje, lamento que trago por na ocasião eu próprio não ter recolhido a peça e a trazido para Lisboa, destinando-a a fim museológico. Nessa ocasião, serviu-me de guia o falecido sr. Romão da Raposeira, freguês local, que me conduziu aí e igualmente à ermida do Infante, a capela da Virgem de Guadalupe, alter-ego da Quinta.

Casa do Infante Henrique de Sagres e lintel original, na primitiva Quinta da Guadalupe, Raposeira

Vim a confirmar ser Virgem Negra o Orago da Vila do Infante de Sagres, recuando o seu culto possivelmente a 1189, altura em que D. Sancho I apoiado pela Ordem do Templo, realizou uma expedição ao Algarve apoderando-se de Silves, Alvor, Lagos e Tarsanabal, esta o cartaginês “Porto de Aníbal” de que fala o cronista Fernão Lopes (século XVI), identificando-o ao lugar de Sagres, “porto” esse que considero estivesse antes em Budens. Com D. Sancho I teriam ido para aí os Templários (cuja presença é testemunhada em pedras tumulares suas depositadas nos Museus de Lagos e de Vila do Bispo), aos quais se deve edificação, no primeiro quartel do século XIII, da capela romano-gótica de Nossa Senhora de Guadalupe, ainda que o Orago primitiva tivesse sido, como atestam vários indícios no interior do próprio templo e algumas citações de crónicas de época, Santa Catarina. Isto na Raposeira, distada sete quilómetros do Promontório e à beira Estrada do “Fim do Mundo”, constituindo hoje o exemplar mais completo da arquitectura Templária/Ordem de Cristo no Algarve[15].

Capela de Nossa Senhora de Guadalupe, Raposeira, e estelas funerárias templárias, Vila do Bispo

Nesse templo, vulgarmente conhecido por “Ermida do Infante Henrique de Sagres”, fez-se culto à Virgem Negra, Orago local decerto levado para aí pela Ordem do Templo. O seu culto prosseguiu no reinado de D. Dinis sob a direcção da Ordem de Cristo (sucessora directa daquela), e terá sido durante o reinado de D. Afonso IV, a partir da vitória na batalha do Salado, onde portugueses e castelhanos batalharam juntos como cruzados, que o culto da Virgem Negra foi associado a Guadalupe, já então pomo de grande devoção no reino vizinho e que adentraria a nossa fronteira pelo Sul[16]. Na época do Infante D. Henrique o templo terá sofrido restauros e alterações e o culto da Virgem de Guadalupe, talvez por intercessão de D. Afonso V, o “Africano”, assumido devoção e fama maior do que nunca, decerto por ingerência da Ordem de Cristo cuja cruz orna o edifício, devoção essa que ainda se mantém mesmo sem o vigor de outrora, onde era costume levar-se os animais até à porta do templo para serem benzidos, o que também remete para um tipo de culto bodivo do qual, acaso, o boi gravado num dos seus capitéis a isso se refira, com todo o simbolismo tradicional que carrega.

Essa Virgem Negra, pequena imagem pétrea colorida romano-gótica sentada num trono em majestade, com um báculo (desaparecido) na destra e o Menino à esquerda no regaço, é, como disse, a Guapa-Lupe, a “Bela da Lua”, neste caso, a “Bela Senhora da Noite” como sinal de “Guardiã dos Mistérios”, cuja iconografia expressa a Shekinah ou “Presença Real da Divindade” na Terra, em seu seio mesmo. É ainda a ressurgência da primitiva Lusina, tal qual acontece em Budens com S. Lourenço, versão cristã do deus solar dos ligures e celtas, Lug, cujo sentido Luz enquadra-se no topónimo com esse nome de aldeia próxima.

Imagem original de Nossa Senhora de Guadalupe, depositada no Museu Paroquial de Vila do Bispo

Ainda assim, vários autores dão uma origem hídrica ao etimólogo Guadalupe, o qual viria de Água de Lupe[17] ou Augua de Lupe[18], tendo sofrido a evolução seguinte: Água de LuceÁgua de LupeAgualupeGuadalupe[19]. Esta interpretação não estará incorrecta se, uma vez mais, identificar-se Luce a Luzia ou Lusina, e as “águas doces” às nutrientes da Mãe Divina, representada na Lua faceira ou a mesma Lupe, mantendo a vida do Género Humano e a dos demais seres.

O interior do templo apresenta nos capitéis e nos medalhões ornando as nervuras da abóbada algumas figuras e símbolos de forte sabor hermético. Por exemplo, num capitel vê-se um rosto humano ao lado de uma cabeça de touro, o que torna o conjunto, como já disse, uma alusão óbvia ao taurobólio ou “conquista da Divindade pelo Homem”. Noutro, observam-se duas sereias machos com rostos humanos, que na Via Húmida da Alquimia é referência simbólica à “Pedra Filosofal” que se extrai da natureza liquefactia da Mãe Terra por acto atlante ou de gigante em pensamento e acção, portanto, disposição de Génio ou Jina. Noutro ainda, duas folhas de carvalho cruzadas, losangulares com a Cruz Templária ao centro. Carvalho e Cruz indicam exactamente o “Templo de Eleição”. Este último significado é reforçado pelas ilustrações dispersas pelos restantes capitéis e medalhões com motivos vegetais profusos, os quais para S. João da Cruz possuíam o significado de “imagem da perfeição espiritual” e de “retorno ao estado edénico”, indicado precisamente por Guadalupe, a Guardiã dos Mistérios da Terra Santa, aqui, Sagres, o Lugar Sagrado. A peça mais antiga dentro desta ermida, possivelmente recuando aos Templários, é a pia de água benta. Vê-se nela o ondulado ornado pela cruz e uma esfera lateral: o conjunto designa as “Águas da Salvação” (Acqua de Luce) preanunciadas pela Stella Maris, onomástico cristão dessa outra Stella: a Soberana Ordem de Mariz, a qual, direi em enigma para cerrar ainda mais o mistério, é a Tebaida dos 111 Makaras e 777 Assuras Lusos sobre a égide do Quinto Luzeiro que o Céu tem na Terra plantado.

Da Raposeira e após passar Vila do Bispo (sendo este D. Fernando Coutinho, que a fundaria em 1515), adentra-se de imediato o Promontório Sagrado ou Sacro, pois estar em Sagres é contemplar uma das páginas mais enigmáticas da Portugalidade, é defrontar o mistério, a esfinge oceânica que o Infante D. Henrique venceu.

Promontório de Sagres

É constantemente localizado na rota do Paraíso Terreal ou “Terra sem Mal”, a ponto de, no romance místico Viagem de São Brandão, de Sagres, outrora consagrado a Cronos, terem partido as naus em busca da Ilha dos Santos ou de São Brandão, a Ilha Encoberta (Illia Occultam). É também por este primitivo istmo que se chega a Abraxa ou a Ilha da Utopia, aonde o português Rafael Hitlodeu conduziu Thomas Morus[20]. Por seu lado, Avieno, poeta do século IV d. C., na Ora Marítima refere-se a um santuário de Saturno localizado na ponta de Sagres, e Frei Bernardo de Brito, na Monarquia Lusitana, dá Tubal, rei da Ibéria, neto de Noé e filho de Seth, como sepultado neste extremo da Península (o facto é que no Promontório existem sepulturas que dato desde o Paleolítico Superior à Idade do Ferro, e de uma cheguei a retirar fragmentos de ossadas humanas e de cerâmica). Os primeiros gregos também estabeleceram nas proximidades daqui um culto ao Hércules primitivo, Thasios, deus ctónico e agrário, ligado ao outro culto de Deméter, sendo que junto ao Cabo de São Vicente foi achada uma estatueta em bronze representando um touro, este o animal da Deusa-Mãe assinalada em Deméter[21].

Aqui se celebraram os divinos mistérios da noite iluminada pelo atear do Fogo Sagrado, portanto, Fogo Nocturno, o que se liga ao culto do “Sol da Meia-Noite”, logo, às Saturnais: os fenícios a Cronos, os gregos a Thasios, os celtas a Lug, os celtiberos a Tubal-Endobelus, os árabes a Kadir e os cristãos a Vicente, este como derradeira versão dos deuses do panteão antigo da Ibéria, todos assinalando veladamente Lúcifer, o “Anjo da Luz” como Luzbel que, rezam as tradições sagradas, ao ser desterrado do Céu ficou agrilhoado no seio da Terra.

Para Estrabão, na sua Geografia, este é “o ponto mais ocidental, não só da Europa mas também de toda a Ecúmena”. Era o lugar onde os deuses se reuniam à noite, onde a presença do vulgo humano era interdita, segundo o mesmo autor. Aí havia um templo, inacessível por terra e por mar e onde os sacerdotes eram semideuses… e no mesmo sentido sacral, milénios depois, seria neste Promontório que se fundaria espiritualmente a Comunidade Teúrgica Portuguesa, na noite de São João Baptista de 1978.

Frei Bernardo de Brito retomou no século XVII essa tradição e escreveu na Monarquia Lusitana: “E tal foi o amor que lhe tiveram (os antigos), que nunca se perdeu a memória de sua sepultura (a de Tubal), antes a visitavam e veneravam, como coisa santa; e introduzindo-se depois a idolatria e superstição gentílica… que tanto era noite ninguém se atrevia mais a passar por junto dela, dizendo que andavam os deuses naquele lugar”. A este testemunho se juntou o de J. Leite de Vasconcelos[22], que propositadamente visitou o lugar em 1894; e todos eles vieram ainda a confirmar que sendo o Promontório, desde o Passado mais remoto, eleito a ser uma abertura, passagem sobre o Inferno, assim também consagrado aos deuses e heróis que na sua vida desceram a essa Infera, Inferior ou Interior lugar, como Hércules e Dióniso, e ao culto necrolático dos antepassados, com a sacralização ritual das pedras e a firmação da afirmativa de espíritos encantados.

As referências a ter havido aí um “templo inacessível frequentado por semideuses”, levam-me a interpretação teosófica, pois parecem-me, sobretudo, alusões a um templo subterrâneo de origem atlante ou terciária, tanto mais que Mário Roso de Luna considerava este Promontório como a primitiva estrada que ligava a Poseidónis, capital da Atlântida[23]. A verdade é que a tese de Estrabão escrita em 29 a. C. era perfilhada por Éforo, geógrafo grego do século IV a. C., tendo posteriormente, durante a Época Romana, Plínio o Velho, Pompónio Mela e Ptolomeu designado este lugar por Promontorium Sacrum ou Sacrum Promontorium.

Não poderá ser fantasia vã, delírio febril de mente afectada, tipo «new age» folclorista desprovida de fundamentos iniciáticos e académicos, afirmar que os Templários e os Freires de Cristo sabiam da existência de um Reino Subterrâneo. Sabiam e professavam a tese! Por exemplo, no texto em itálico Nova Instrucçam Filosofica, da autoria de Frei Francisco de Vasconcelos, professo na Ordem Militar de São Bento de Avis, Mestre em Artes e Doutor na Sagrada Teologia no ano de 1761, diz na Instrucçam VI[24]:

“Em que se dá notícia dos hydrofilacios ou receptaculos de agoa, que residem nas entranhas da terra, a que o mar se cômunica por diferentes portas e aberturas, que para esse fim lhe franqueou a natureza.

“[…] Ainda dizem mais alguns filósofos: e é que não só se precipita o mar a estes caudalosos abysmos, senão que também se cômunica circularmente pelo corpo da terra, imitando a circulação contínua que o sangue faz pelas veias de qualquer corpo, que se anima com alma sensitiva; em tal forma, que baixam às entranhas da terra por muitas partes as agoas marítimas por ter o solo do mar para esse fim diferentes portas: singularmente se despenham por uma porta mui dilatada que os Geógrafos tem descuberto debaixo do polo Ártico: dividindo-se logo em vários ramos, que são as veias, e ocultos condutos, por onde se vão comunicando, sucessivamente repartindo por todo o globo terráqueo; e tornando-se depois a unir saem também continuando o seu curso por outra dilatada porta, que há debaixo do polo Antártico: novamente se espalham pelo líquido elemento e depois de formarem varias correntes tornam outra vez a baixar pelo polo Ártico […] estabeleceram os Authores todo este discurso na maravilhosa relação que fizera o que por arte diabólica fora levado a registrar ambos os polos da terra, porque dizem, que confessara tinha visto a franqueza das portas, por onde estão entrando e saindo continuamente as agoas marítimas, sendo assim que bastava para comprovar à circulação destas agoas não poderem chegar os navios, nem ainda aproximarem-se aos polos sem evidente perigo de padecerem o naufrágio: argumento e manifesto indício de precipitar-se o mar por um, e sair por outro polo […].”

Esse conceito de Frei Francisco de Vasconcelos de maneira alguma é singular, visto ser a continuação daquele expedido já em 1665 pelo padre jesuíta Atanasius Kircher, no seu tratado Mundus Subterraneus (editado em 1682 em Amesterdão), ambos dando vazão à tradição mediterrânea das Cryptas Ferratas, criptas cerradas ou secretas, iguais às hindustânicas Gupta-Lokas, de significado igual, espaços privilegiados, destinados a cerimónias de cariz iniciático secreto, disseminados por vários lugares subterrâneos da mesma bacia mediterrânea. O próprio Francisco de Holanda, pintor português do século XVI, pintou a Terra no 1.º Dia da Criação com uma abertura no Pólo Norte. Será tudo isso acaso, ou será a continuação e testemunho de antiga tradição, geralmente passada de “boca a ouvido”, ou seja, por comunicação oral, e grafada, esculpida ou pintada nessa forma que o símbolo esconde? A verdade é que o Promontório é oco por dentro e as profundezas da vizinha Gruta/Lapa do Monte Francês (que vivi directamente) comunicam com ele.

Gruta/Lapa do Monte Francês, Sagres

Com tudo isso, ainda, identifica-se plenamente a bem pouco conhecida Lenda de Sagres, recolhida oralmente junto dos locais pelo meu caríssimo amigo Adolfo Cavaco, a qual me limitei a apurar linguística e ortograficamente:

“LENDA DE SAGRES – Promontório cuja terra sagrada é fustigada pelo vento, por ordem dos deuses, atemorizando os homens. Diz o povo simples e o esclarecido que, outrora, aí se reuniam os deuses para decidir do destino do Mundo. Quando a invernia sossegava, aí todo o ser vivente se aquietava e curava. O tempo passou e tudo mudou… mas várias coisas notáveis ficaram assinaladas. Como essa de um homem que por ali passando encontrou um Ser divino, que lhe disse que os deuses novamente voltariam quando, como ele, a Humanidade tivesse todos os Génios de novo reunidos em si, o que iria ser a origem de um Novo Povo.

“Que esse homem e esse Povo receberiam o Ceptro, nesta Nação pequena mas grande dos confins do Ocidente, mas que não mandariam no Mundo nem por ele seriam mandados.”

A origem dessa lenda estará no Apocalipse do Pseudo-Metódio (bispo greco-bizantino), obra escrita em língua siríaca no final do século VII d. C. que era afamada entre bizantinos, árabes e moçárabes (a caneça do Cabo de São Vicente era das mais ilustradas e famosas do Gharb islâmico), cujas profecias dão-nas como do “Imperador dos Últimos Dias”[25].

Do período Celta ainda se avista em pleno Promontório restos de um templo circular, adaptado a aparelho de artilharia no século XVI, e antes das muralhas da fortaleza mas já sobre o Promontório acima da praia da Mareta, ergue-se um conjunto de pequenos marcos pétreos dispostos em círculo. Em resumo, os indícios ainda existentes apontam ter existido culto ctónico/necrolático em todo este espaço promontórico, cujo “composto” sinergético seria a fonte de toda a magia sagrada aqui levada a efeito pelos sacerdotes das diversas religiões que, ciclicamente, transitaram por este verdadeiro cóccix ou sacro de Portugal.

Com a ocupação árabe do sítio, no século VIII, deu-se ao Promontório o nome de Chak Rak (sonância fazendo lembrar aquela outra palavra sânscrita, Chakra), “Ilha dos Rochedos”, posteriormente mudado para Çacron, “Pedra de Fogo”, topónimo originado no latino Sacrum, “Sagrado”, donde se deu a corruptela Sagres, mesmo assim associado a Segrel, ou seja, o Trovador que na corte henriquina da Guadalupe decerto terá encontrado pouso seguro para as suas composições remuneradas.

No período árabe já aí viviam cristãos, junto ao Cabo de São Vicente, na “Caneça da Península” – Kaniçat al-Ghurab – cujo culto era celebrado na “Igreja do Corvo” (Elkenicietal Corabh), como referem os historiadores árabes do século XII, Muhammad al-Idrisi e Abu Hamid al-Andalusi. O cronista Ahmad al-Razi, que viveu no século X, é fonte para a História Geral de Espanha de 1344 no tocante ao culto moçárabe feito às relíquias de São Vicente na igreja do Corvo, desde o ano 779, reinando Abdrramã I, culto esse que seria o pólo de transição, no sudoeste da Península, do Islamismo para o Cristianismo.

O culto Vicentino atrairia para o lugar deste Promontório Sacro tantos os místicos e eruditos do Islão como os da Cristandade, desde toda a Estremadura, Algarve e Andaluzia, constituindo assim um importante pólo de aglutinação da espiritualidade no sudoeste da Península Ibérica, precisamente na mesma época em que na Galiza crescia o culto a Santiago de Compostela, atraindo grande quantidade de peregrinos. A peregrinação jacobeia terá mesmo descido a Sagres, em visita ao lugar do santo de Valência (mesmo depois dos seus restos mortais já terem sido trasladados para a Sé Catedral de Lisboa…), e de Sagres, por sua vez, a peregrinação terá subido a Compostela e à Corunha, até junto da “Senhora da Barca” ao pé do “Mar dos Mortos”, o Finis Terrae do Norte. Memória disso ficaria aqui, no Sul, o Caminho Santo junto à aldeia de Touro, e o onomástico Monte Francês no qual, como já disse, se abre profunda caverna cuja entrada fiz pela sua chaminé indo adentrar o mundo subterrâneo sagrense. Outra gruta natural a que desci, situa-se em pleno promontório e explana-se pela ocacidade deste.

Entrada da Gruta/Lapa do Monte Francês

Em 4 de Outubro de 1434, D. Duarte, após solicitação ao Papa Eugénio IV, concedeu aos Franciscanos a licença de fundação dum hospital, destinado a albergar peregrinos enfermos, junto ao Cabo de São Vicente, assim prosseguindo eles neste Concelho algarvio a obra espiritual iniciada pelos Templários, já que os continuadores destes, os Freires de Cristo, estavam então completamente absortos no missionário da expansão marítima, pelo que se recorreu aos Franciscanos, talvez Beguinos mas decerto não deixando de ser patrísticos e patrológicos. No início do século XVI, o Bispo de Silves, D. Fernando Coutinho, mandou fazer um convento no Cabo de São Vicente destinado aos frades Jerónimos, mas estes só estiveram lá até 1516, sendo substituídos em 1519 por religiosos Franciscanos de Santa Maria da Piedade, vindos de Lagos.

Já antes, o Infante D. Henrique mandara levantar no Promontório Sagrado uma igreja consagrada a Santa Maria, sob a evocação da Stella Maris. De facto, em 14 de Outubro de 1459 o Papa Pio II, através da bula Ex iniuncto nobis, elevou, a pedido do Infante, a paroquial esse templo pertença da Ordem de Cristo. Em 1516 seria elevada a matriz, sob a evocação de Nossa Senhora da Graça, afinal, a Padroeira de São Bernardo de Claraval (Notre Dame de Toutes Graces) e a quem se associa a Candelária, festividade litúrgica que fora caríssima aos Templários.

Do tempo do Infante há ainda no interior desse templo o frontal de azulejos do altar (restaurado ou substituído por outro igual no século XVII), onde se vê ao centro a vide e a espiga entrelaçadas (alusão à Sagrada Eucaristia conforme o Rito de Melki-Tsedek), e nos lados pavões em cima de roseiras floridas de branco (referência ao compost stella da Grande Obra Hermética que está sob o Orago da Mãe Divina, pois que a Alquimia e os seus tratados escritos ou só ilustrados também são chamados de Roseiral Mariano e Roseiras dos Filósofos). Da mesma época tem-se a imagem de Santa Catarina, o baptistério (em formato de taça), a pia de água benta (em formato de mama, de seio feminino) e uma curiosa “fonte santa” na sacristia: apresenta no frontal um quadrado sob um triângulo e dentro deste um M com um coração ao centro. Designa o quaternário da Matéria sobreposto pelo ternário do Espírito, representado pelo Coração de Maria (Cordo Maris), símbolo matrístico do Santo Graal tanto para os Templários como para os Franciscanos, estes os “Ligures” da Cristandade. Tenho ainda a acrescentar que o altar original constituía-se de sete patamares os quais, decerto, representavam os Sete Céus ou Planos de Evolução Universal por que se reparte a Vida e a Consciência.

A “fonte santa” na sacristia da igreja paroquial de Sagres

No exterior tem-se um dos monumentos mais enigmáticos de Sagres, constituído por uma forma geométrica com raios desenhados por fiadas de pedras toscas e desiguais, sendo vulgarmente designado por “rosa dos ventos”. Do centro dessa configuração, com um diâmetro de 43 metros, divergem 49 raios em linhas rectas que, assim, fazem ruir a hipótese de “rosa dos ventos”, pois não se conhecem disposições desta natureza com mais de 32 rumos. O argumento mais verosímil é dado pelo professor Luís de Albuquerque[26], quando diz tratar-se de “um quadrante de gnómon vertical, de que essa enigmática figura foi, afinal, o quadrado horizontal”. Ora, o gnómon do relógio solar, como se vê na torre de vigia da muralha por cima desse “quadrado horizontal”, estava direccionado a Cabo Verde e a Porto Seguro, no Brasil, portanto, ao Extremo Ocidente do Globo, para onde o Infante D. Henrique dirigiu a sua atenção na demanda da “Terra da Ventura”, que ele bem sabia existir por conhecimentos herdados pelos Templários dos navegadores antigos, árabes e fenícios, e o qual gnómon marcava originalmente a direcção sudoeste.

Disposição matemática do “quadrado horizontal” de Sagres

Havendo em tudo isso matemática astral marcada pela posição dos astros, lembro uma vez mais o nome árabe do Promontório: Chak Rak, como disse foneticamente semelhante ao sânscrito Chakra, aqui o Sacro na base espinhal do Homem e do País como Cruz Flogística ou “quadrante solar” (⊕), decerto bem manobrado por aquela que fez (e quiçá ainda o faça, mesmo cerrada para o século ou ciclo) de Sagres o Santuário do Infante e dos Deuses: a Soberana Ordem de Mariz (cujo nome está impresso numa tela seiscentista exposta na igreja de Santa Maria de Lagos), dizendo a Tradição Iniciática ser constituído de 111 Adeptos Independentes como viáculos representativos do Sol Espiritual, Oculto ou Saturnino, portanto. Sendo Sagres o Centro Sacro ou Chakra Raiz de Portugal, como organismo vivo e dinâmico, corresponde-lhe a terceira letra-mãe hebraica, Shin, e aí se concentram as energias flogísticas de Kundalini ou do “Laboratório do Espírito Santo”, bem assinalado no simbolismo da Virgem Negra.

“Laboratório de Kundalini ou do Espírito Santo”, o cóccix da coluna dorsal da Lusitânia (curiosamente, a imagem aérea geral do Promontório assemelha-o a um falo ou a uma flor-de-lis), acaso será essa a verdadeira e espiritual Vila do Infante, Tarsanabal ou Sagres, que a crónica de Zurara diz ter sido fundada no século XV, acrescentando a História não saber onde a situar… por não haver a mínima pista que positivamente a localize em Sagres ou no Cabo de São Vicente. Quanto muito, em Quatrocentos, a verdadeira e temporal Vila do Infante estaria entre a Raposeira e a Vila do Bispo, mas em Sagres, então reduzida a escassos e esparsos casebres de pescadores, nunca! Mesmo que fosse para melhor e mais eficaz exercício da lei do sigilo, referente aos segredos de navegação cujo monopólio universal era exclusivo da Escola Náutica do Infante, ainda assim faltam aqui as provas que abundam em Lagos, talvez sendo a maior a necessidade de sustentar uma Escola com tanta e diversa gente, boa parte habituada aos luxos próprios da vida palaciana, que Sagres de maneira alguma poderia dar: só peixe para comer, água salobra para beber, casebres desabrigando dos ventos rijos, enseada desabrigada à mercê das correntes fortes dos oceanos mediterrâneo e atlântico que aí se cruzam, tempestades varrendo para terra naus atracadas e em terra destruindo um e qualquer hipotético estaleiro. Nada, mesmo nada Sagres tinha, enfim, para manter a sobrevivência e a dinâmica de Escola… excepto a observação astronómica. Mas a Escola não se fez só de observações dos astros…

Com tudo o dito, devo agora recapitular em desfecho final: o Infante D. Henrique tinha a sua Confraria Espiritual em Sagres e a Escola de Navegação em Lagos[27], tendo residido a meio caminho entre ambas. Essa Academia de Navegantes congregou os maiores especialistas que iriam inaugurar uma era de Renascença, em termos de avanços tecnológicos e culturais para o mundo de então. Por Sagres[28], através da figura imponente do Infante, o país projectou-se  no mundo em diáspora, a Gesta Dei Per Portucalensis, sobretudo de civilização, cultura e concórdia, a qual faz-se sentir ainda hoje onde quer que a presença de Portugal seja reclamada.

 

NOTAS

 

[1] Gomes Eanes Zurara, Crónica dos Feitos da Guiné (1452-1453), segundo o manuscrito da Biblioteca Nacional de Paris. Reimpresso em dois volumes pela Editora Civilização, Porto, 1973.

[2] Peter Russel, Henrique o Navegador. Livros Horizonte, Lisboa, 2004.

[3] Gomes Eanes de Zurara. Filho de um cónego, nasceu entre 1410 e 1420 e faleceu em 1473 ou 1474. Educado na Casa do rei D. João I, ascendeu depois aos cargos de guarda-mor das escrituras da Torre do Tombo e cronista real, no que sucedeu a Fernão Lopes. Escreveu a Crónica da Cidade de Ceuta, ou 3.ª parte da Crónica de D. João I (edição posterior de F. M. Esteves Pereira, Coimbra, 1915), a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, a Crónica de D. Duarte de Meneses (ambos os tomos na edição única dos Ineditos de Historia Portugueza, 1792-93) e a Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné (edição posterior de A. Dias Dinis, Lisboa, 1949). Muito apoucado pela generosidade dos autores modernos no confronto com Fernão Lopes, Zurara tem, no entanto, um enorme mérito como cronista se o situar no seu tempo e o equiparar aos congéneres estrangeiros. As suas crónicas mantêm uma metodologia sólida e a capacidade de captar situações e sentimentos colectivos. As duas crónicas dos Meneses, interessantíssimas como fontes, aguardam o historiador que delas se ocupe e lhes dê edição moderna e crítica.

[4] O nome Ínsula Brasil já era conhecido de há muito, por certo graças à herança documental e cartográfica dos antigos navegadores fenícios e árabes que a Marinha Templária possuiria e depois a Escola Náutica de Sagres ligada à Ordem de Cristo através do Infante D. Henrique, seu Administrador Geral. Com efeito, os cartógrafos medievais destacam nas suas cartas náuticas o nome da terra Brasil, como é o caso da Carta de Pizigano, de 1367, do Atla de Andrea Bianco, de 1436, ou da Carta de Bartolomeu Pareto, 1455. Por seu turno, aquando da viagem à Índia do almirante Vasco da Gama, em 1498, ele navegou para Ocidente e ancorou defronte a terra firme e larga, que os historiadores consideram hoje ter sido o Brasil, antes de retomar a marcha para Oriente. Já antes, em 1487 e 1488, Pedro Vaz da Cunha, o “Bizagudo”, e João Fernandes de Andrade navegaram do Golfo da Guiné para o Brasil. Duarte Pacheco Pereira, autor do famoso Esmeraldo de Situ Orbis, também para aí se dirigiu várias vezes antes de Pedro Álvares Cabral em 1500, data oficial da sua Descoberta (vd. a minha História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae), Madras Editora, S. Paulo, 2004). Antes de todos esses e segundo Assis Cintra baseado nos escritos do jesuíta Manuel Fialho, o capitão de mar Sancho Brandão, que pertencera à Marinha de Guerra da Ordem do Templo e terá se transferido para a de Cristo, teria chegado numa expedição de reconhecimento à “Ilha perdida do Mar do Ocidente”, mais além das Canárias e apontada como o Brasil, notícia comunicada por D. Afonso IV de Portugal ao Papa Clemente VI em 12 de Fevereiro de 1343 (St. Brendan´s Search for Paradise, in A brief history of the European Mith of de Garden. Press American Studies and the University of Virginia, 2001). Muito possivelmente já nos anteriores séculos XII e XIII haveriam navegações de longo no Mar Ocidental à Ínsula Brasil, pois esse nome era muito comum nas falas lisboetas do século XIII por aplicado para designar os carvoeiros da cidade como os “brasis”, certamente alcunha comparativa entre esses que manuseiam o carvão e o estado sujo, lastimoso em que regressavam à terra aqueles marinheiros de mar alto que a História traz esquecidos.

[5] A. Moreira de Sá, O Infante D. Henrique e a Universidade. Comissão Executiva das Comemorações do Quinto Centenário da Morte do Infante D. Henrique, Lisboa, 1960.

[6] Foi grande a devoção do Infante ao Espírito Santo e chegou mesmo a atribuir-lhe os Descobrimentos marítimos, ligando implicitamente o Culto do Divino Espírito Santo à Expansão que presidira ou realizara. Terá mesmo encomendado aos capelães, pagos pela Ordem de Cristo, das igrejas do Cabo de São Vicente, de St.ª Catarina da Raposeira, do Restelo e de além-mar, “que lhes praza cada semana ao sábado para sempre em minha vida e depois da minha morte, dizer uma missa de Santa Maria e a comemoração seja do Espírito Santo…” – in João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, tomo I, pp. 576-594. Instituto para a Alta Cultura, Lisboa, 1944.

[7] Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses – II, p. 317. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa. Vd. também o Leal Conselheiro, de D. Duarte. Edição de Joseph Piel, Paris, 1882.

[8] Cf. Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

[9] José E. Horta Correia, A Arquitectura Religiosa do Algarve de 1520 a 1600. Publicações Ciência e Vida, Lda., Lisboa, 1987.

[10] Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora, Ltda., São Paulo, 2003.

[11] Henrique José de Souza, Salmos de Davi – Interpretados por JHS. Ed. Sociedade Brasileira de Eubiose, São Lourenço, 1999.

[12] Manuel J. Gandra, O Neotemplarismo, p. 197. In Cadernos da Tradição – O Templo e a Ordem Templária de Portugal, Ano I, N.º 1, Solstício de Verão de 2000, Lisboa – Mafra.

[13] Alexandre Ferreira, História das Ordens Militares que houve no Reyno de Portugal, Academia Real da História, Lisboa, 1735.

[14] José Manuel Garcia, Sagres. Câmara Municipal de Vila do Bispo, 1.ª edição – Julho de 1990.

[15] Silva Lopes, na Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Lisboa, Academia das Ciências, 1841, pp. 218-219, diz sobre este sítio vizinho de Sagres: “Raposeira, aldeia pequena e pobre, da qual só 13 casas ficaram em pé, e essas arruinadas pelo terramoto, tendo então 90 fogos. […] Entre esta aldeia e a Figueira, pouco distante na estrada a N., está a igreja de N.ª Sr.ª de Guadalupe, mui antiga e que se diz foi dos Templários, a qual nada sofreu no terramoto”. E Augusto Soares d´Azevedo Barbosa de Pinho Leal, em Portugal Antigo e Moderno, vol. I, Lisboa, Livraria Editora de Mattos Moreira e C.ª, 1873, p. 51, diz: “Esta igreja [N.ª Sr.ª de Guadalupe] e umas casas que lhe ficam próximas, nada sofreram com o referido terramoto [1755], o que o povo atribui a milagre da Senhora”. E na nota 12 do mesmo livro, diz ainda Pinho Leal: “Entre a Raposeira e a aldeia da Figueira está a igreja de N.ª Sr.ª de Guadalupe, muito antiga, e que consta ter sido dos Templários”. Por seu turno, Raul Proença no Guia de Portugal, vol. II, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1927, p. 310, reitera os autores anteriores: “A sua construção [da igreja de N.ª Sr.ª de Guadalupe] deve datar do século XII [antes, do século XIII], e já no reinado de D. Dinis se lhe encontram referências; é possivelmente fundação dos Templários”.

[16] Ana Maria de Passos Parente, Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe na Raposeira. Texto inserto na dissertação da autora no Mestrado de História da Arte – Escultura Figurativa na Arquitectura Religiosa do Algarve, na Baixa Idade Média. Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa, 1987.

[17] Monumenta Henricina, vol. VII (1439-1443), p. 104. Coimbra, 1965.

[18] Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné, vol. II, Lisboa, 1949, p. 242: “Dos outros Mouros que filharam em Tider [Tenerife] envyarom Lançarote e os outros capitães, […] e a Santa Marya de augua de Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos”. Repetido por Mário Martins em Peregrinações e Livros de Milagres na Idade Média, Coimbra, 1961, pp. 66-68: “V – Peregrinações a N.ª Sr.ª, no séc. XV […] Pescadores e marinheiros faziam promessas a algum santuário da Mãe de Deus. E assim, escreve Zurara que Gil Eanes, Lançarote e outros capitães, de volta da Ilha de Tider, mandaram um escravo para se vender a Santa Maria de augua de Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos”.

[19] Serafim Cruz, Senhora de Guadalupe: Bosquejo Histórico da Ermida de Águas Santas – Maia, Porto, 1973, p. 25: “Que quer dizer “Guadalupe”? Não tenho qualquer contribuição filológica sobre este interessantíssimo assunto. O nosso povo, por vezes simplificador em assuntos de etimologia, diz “Água de Lupe”. Será “Lupe” a contrafacção de “lúcida”? […] “Lupe” seja a contrafacção de lúcida, límpida, saborosa, pura, água santa, […] Não estou, reafirmo, documentado para essa afirmação positiva. Mas é de admitir esta ginástica vocabular: Água de Luce – Água de Lupe – Agualupe – Guadalupe”.

[20] Thomas Morus, A Utopia. Tradução de Pinharanda Gomes. Guimarães Editores, Lisboa, 1992.

[21] Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada. Lello & Irmão Editores, Porto, 1984.

[22] José Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, vol. II. Lisboa, 1897.

[23] Mário Roso de Luna, De Sevilla al Yucatán (Viaje ocultista através de la Atlântida). Madrid, 1926.

[24] Documento publicado em primeira mão por dito “Anónimo de Sintra” (Olímpio Neves Gonçalves), como Apêndice ao livro A Terra Oca, de Raymond Bernard. Editorial Minerva, Lisboa, 1976.

[25] Paul J. Alexander, The Medieval Legend of the Last Roman Emperor and its Messianic OriginIn Journal of the Warburg and Coustauld Institutes, vol. 41, University of California Press, 1978; Paul J. Alexander, The Byzantine Apocalyptic Tradition. University of California Press, 1985; José van dean Belessar, A profecia apocalíptica do Pseudo-MetódioIn Luso-Brazilian Review, 28, 1991.

[26] Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, direcção de Luís de Albuquerque, coordenação de Francisco Contente Domingues, 2 vols. Lisboa, Círculo de Leitores e Editorial Caminho, 1984.

[27] Pouco importa que a Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres estivesse sedeada na baía de Lagos e que o nome sagrense surja graças à concessão de 1443 do regente D. Pedro a esse seu irmão que lhe pediu essa região para fundar uma vila (Raposeira). Se a Escola Náutica de Sagres veio a ser coberta de halo de mito e mistério, deve-se aos escritos apologéticos de João de Barros (1496-1570), justamente apodado o “Grande” ou o “Tito Lívio Português”, desenvolvidos e, 1625 pelo cronista inglês Samuel Purchas (1575-1626). Um facto é certo: o Infante D. Henrique reuniu na sua Escola ou Academia – não se deverá ignorar a sua faceta de universitário e reformador da Universidade portuguesa – sábios, capitães e gentes de mar de diversas nacionalidades, que ficaram ao abrigo do espiritual e temporal da Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, em troca exigindo-lhes  os compromissos de silêncio e segredo, indispensáveis para que Portugal viesse a ser o exclusivo empório marítimo dos séculos XV-XVI, facto que atraiu invejas e cobiças de outros países que não se coibiram em inventar estorietas onde reclamavam para si, através de acontecimentos fantasiados, a primazia das descobertas marítimas que, acusavam, afinal os portugueses só haviam secundado. Também nisto a Madeira e o Porto Santo, tal como as demais colónias portuguesas nos cinco continentes, não escaparam aos reclamos de alheios tardios, tresandando a política corsa, por via do invento de personagens e nomes fictícios destinados a semear a confusão a favor da instalação de interesses político-económicos, financeiros e militares estrangeiros.

[28] Ante as alterações profundas que se registam hoje no espaço monumental do Promontório de Sagres, que lhe retiram quase toda a sua traça primitiva, obras que foram levadas avante por certos políticos da actualidade que não sabem o que fazem e o que fazem é sem saber, lembro a polémica sobre as obras de remodelação que se pretenderam para Sagres em 1933, as quais não se realizaram, altura em que Fernando Pessoa escreveu no Diário de Notícias de 8 de Julho de 1934 palavras preciosas e bem actuais encabeçadas pelo título:

“DEIXEM SAGRES EM PAZ. Mas se Sagres é, assim, um monumento por si só, para quê a vaidade dos homens, seja a de um ministro ou a de um arquitecto iluminado, pretender erguer outros monumentos que serão sempre extemporâneos, desintegrados, inúteis, por mais intelectuais que sejam os propósitos e os autores?

“Sejamos humildes, na nossa geração, com foram as gerações anteriores, perante a Natureza e a História, para que a imaginação continue a ter em Sagres a sua referência, o seu abstracto. Graal português, não construindo aí mais nada que para nada mais servirá senão para perturbar e diminuir o pouco ou nada que lá existe!”

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