A presença e intervenção das quatro classes tradicionais da sociedade medieval europeia, Clero (Oratore), Nobreza (Bellator), Burguesia (Burgus) e Povo (Laboratore), correspondendo às quatro castas tradicionais que na Índia são designadas de Brahmane, Kshatriya, Vaishya, Shudra, está patente mesmo aquém do mais vasto nacional, por exemplo, no nascimento de uma povoação, devendo estar de posse de todos os elementos naturais necessários à sua sobrevivência e desenvolvimento: águas férteis, umas para pescaria e outras para consumo, terrenos ricos para agricultura e pastorícia, localização geográfica propícia a defesa militar eficiente, etc.

Tal hierarquia social, em conformidade ao padrão tradicional, assim se dispunha originalmente:

Ao Brahmane (Sacerdote) correspondia a “qualidade subtil de matéria” (Guna) denominada Satva (energia centrífuga, correspondendo ao Espírito); ao Kshatriya (Guerreiro) correspondia Rajas (energia rítmica ou equilibrante, afim à Alma); o Vaishya (Mercador) era o elo de ligação entre Rajas e Tamas, no que se caracteriza pela energia psicofísica; o Shudra (Povo) era afim a Tamas (energia centrípeta, próprio da agregação dos elementos do Corpo).

Observa-se assim, na cúspide da antiga hierarquia social, o Clero como detentor original da Autoridade Espiritual que a Sabedoria Tradicional lhe conferia. Tal Sabedoria outorgava primazia ao Clero que, pelos seus mais doutos nos saberes tradicionais, mormente na Geometria e Arquitectura sagradas, destas se serviam como Monges-Construtores para a fundação de todo e qualquer povoado, muito particularmente dos edifícios sagrados que eram os primeiros a ser construídos, fazendo-se uso do principal conhecimento tecnológico dos arquitectos da Idade Média: a Geometria Pitagórica (Junta à Teomância), na qual a raiz ou base sobre a planta original era sempre a “charada” da “Quadratura do Círculo”, mas também da “Circulatura do Quadrado”, fixando como centro do povoado a nascer a igreja matriz, cercada por paliçada ou muralhas que se iriam desenvolver como fortaleza, esta dando protecção ao povoado arredor que logo ao início era ordenado em quatro artérias principais, com toponímias significativas (Rua do Norte, Rua do Poente, etc.), como ainda se verifica em diversas povoações do país que mantêm a feição primitiva do seu “omphalo” ou ponto imagético de nascimento, por norma a partir do “Largo da Matriz”[1].

Sendo a igreja matriz atravessada perpendicularmente pela linha imagética ou via principal norte-sul, chamada cardo, do povoado, ela constitui o centro de uma cruzeta feita por outra linha imaginária lateral ou recta nascente-poente, chamada decumano. Esse centro ou rossio leva de nome mundus[2]. De maneira que aplicando a geometria sagrada do círculo e do quadrado, e vice-versa, na génese de uma povoação, disponho-os da maneira seguinte:

Em Simbologia Tradicional (Neose), o círculo representa o Céu, o Espírito; o quadrado expressa a Terra, a Matéria. Neste particular, o círculo está para a população e o quadrado para o povoado. Em um sentido mais lato, conformado ao princípio de analogia, tem-se o Arquétipo (círculo) que se traduz por Ideia Prima, sendo a Solução, e o Protótipo (quadrado) traduzível como Mística, cuja Tradição ou “Movimento Cíclico” do Pensamento Humano ordenado sob uma Ordem natural e deifica, perfaz a Combinação, até conseguir – ou volver pelo processo evolutivo à Perfeição do Arquétipo – a Solução, o retorno à Origem. Nisto se consubstancia a Formula Mentis Lusitanea, a “Fórmula Mental Lusitana”, base do Pensamento e Filosofia Portuguesa[3].

A “Combinação” tradicional apresenta-se pelos vários Movimentos de Sabedoria Arcana que têm surgido ao longo dos Tempos acompanhando a Marcha Evolucional da Civilização de Oriente para Ocidente, neste encontrando-se em Portugal, exactamente em Sintra como ponto de encontro dos dois hemisférios geográficos do Conhecimento Tradicional e “alavanca de Arquimedes” vital à sua projecção no 5.º Continente, a América do Sul, em que o Brasil se perfila destacado como continuador, no Porvir, da Obra Divina começada em Portugal e que nele terá o desfecho cíclico, por via de um mesmo Pensamento e Língua Lusitana, tanto no plano do Sagrado como no do Profano, dando assim a “Solução” ao Futuro imediato do Mundo, a “Solução”, enfim, à Evolução Global do mesmo. Esta é a Arquitectura Mental Iluminada dos Maiores do pensar e falar Português desde os inícios do século XX, com os notáveis do Movimento do “Orpheu” à dianteira, sobressaindo deles a figura incontestável de Fernando Pessoa. Mas tal Arquitectura Mental era já (re)criada nos séculos anteriores no mesmo espaço edénico sintrense, colando o telúrico ao cósmico que a arqueoastronomia testemunha, por exemplo, na arquitectura do Palácio da Pena tomado como molde da constelação da Ursa Menor cuja estrela-alfa é a Estrela Polar.

Essa Arquitectura Mental também foi utilizada no Passado para se criar o Presente. Ela se fixou e ficou na tradição e memória dos pósteros como Arquitectura Sagrada. Já disse que antigamente construía-se primeiro a igreja e só depois o povoado, ao contrário de hoje: faz-se a cidade e após, se algum espaço sobrar, virá a igreja. Isto está conformado à dessacralização social. Mesmo assim e procurando algum templo, preferencialmente cisterciense por ser abrigo predilecto dos primitivos Monges-Construtores, acaso “sobrado” da Idade Média, com a grande sorte de ter sobrevivido ao camartelo brutal dos modernos – preterindo-o por alguma nova “catedral” futebolística ou centro comercial, espaços de recreio desnaturalizados que isenta o urbano de proximidade ao campo – e a custo o achar, abandonado entre as novas “babéis” que são os arranha-céus repletos com todos os luxos indispensáveis ao “novo-riquismo”, irei tomá-lo como exemplo de Arquitectura Sagrada recuando no espaço e no tempo ao momento em que a Sociedade e o Homem estavam naturalmente integrados em um mesmo lugar e tradição sagrados, por se integrarem, tanto topográfica como demograficamente, no divino biorritmo da própria Natureza, afinal, a Mãe Soberana de todos os seres viventes que, para eles estarem bem e Ela bem estar, necessitam respeitar-se e viver em harmonia recíproca.

De maneira que tomarei por exemplo máximo da Instituição dos Monges-Construtores medievais aquela que mais deles albergou em seu seio: a Ordem de Cister, tendo andado de intimidades com a Ordem dos Templários da qual foi a “Escriba” e ela, por sua vez, a “Arquivista”, ambas constituindo o Templis Sapientia Sacratum não raro também Secretum. Ou seja, Cister foi a mestra do Templo, e no secretum de muitos esquissos, por exemplo no da Sé Patriarcal de Lisboa, aninham-se veladas ideias sinaléticas da mais pura e profunda Tradição Iniciática de que dou exemplo seguinte do sentido esotérico ou hermética da planta da Sé de Lisboa:

Por norma, onde havia um priorado ou um bailio templário havia (ainda que nem sempre, ressalve-se) um mosteiro ou uma abadia cisterciense. Os cistercienses acompanharam desde a origem os templários, instruindo-os e compartilhando a sua geografia sagrada, instalando-se em enclaves geralmente nas encostas ou nos vales, estes como se fossem cabalísticos vaus, encravados teluricamente como “pontes” ou pontos intermediários aos Mundos Espiritual e Terreno.

Isso vai bem com a definição de Pontífice dada por São Bernardo de Claraval, como sendo a etimologia da palavra latina Pontifex, uma espécie de “ponte entre Deus e o Homem” (in Tractatus de Moribus et Officio Episcoporum, III, 9)[4]. Mas, neste caso, a “ponte” entre a Comunidade de Fé visível e a Comunidade de Perfeição invisível.

Os cistercienses ou bernardos, trajando de branco tal como os templários, obedeciam à Regra Trinitária de São Bento, mas reformada desde a Reforma de Cluny (iniciada no ano 910), sobre a qual Robert de Champagne da abadia de Molesme, monge cluniense ou de Clúnia, instituiria depois, em 1075, a Estrita Observância. Tendo os cistercienses saído dos clunienses e estes dos beneditinos, por esta razão  aqueles primeiros hábito idêntico ao dos últimos, mas de cor diferente: inicialmente castanho logo passou a branco, com escapulário castanho (e depois preto)[5].

A Ordem de Cister teve a sua origem em França, na abadia de Citeaux (em português, Cister; em latim, Cistercium), na comuna de Saint-Nicolas-lés-Citeaux, Borgonha, em 1098, por Robert de Champagne, abade de Molesme. Ele e alguns monges terão abandonado Cluny para retomar a Estrita Observância da antiga Regra Beneditina, como reacção ao relaxamento da Ordem Cluniense. Passado pouco tempo, acolheria o que viria a ser o mais proeminente da Ordem: Saint-Bernard, abade de Clairvaux (Claraval) que fundara em 1115, tornando-se filial de Citeaux.

Saint-Bernard ou, em bom português, São Bernardo, é quase unanimemente reconhecido como o verdadeiro guia espiritual da Cristandade durante cerca de 40 anos. Mal haviam passado cinco anos da sua entrada em Citeaux,  logo se apressou – face à deterioração crescente no seio da comunidade desde o cisma havido entre cistercienses e clunienses, aqueles mais conservadores e estes mais liberais – a inspirar as Constituições da Ordem de Cister (1120), reorganizando esta em função de duas razões fundamentais à sobrevivência da unidade monástica da Ordem: por um lado em reacção contra Cluny, restabeleceu a austeridade da Regra tanto no mosteiro como na vida dos monges; por outro lado, mostrando abertura ao progresso imparável, adaptou a vida da Ordem às novas condições sociais e económicas. Foi assim que os monges de coro, saídos da aristocracia, consagrou-os aos exercícios espirituais, enquanto os conversos, de origem camponesa, encarregou-os da manutenção física da comunidade, através da agricultura e do pastoreio.

São Bernardo em iluminura cisterciense do século XIII

Após a morte de São Bernardo de Claraval, em 1153, a Ordem de Cister conheceu a mesma evolução que Cluny: a sua opulência colectiva tornou-se flagrante, tendo a pobreza monástica se tornado incompatível com a riqueza temporal. Além disso, com o desprezo às actividades intelectuais, que outrora caracterizaram Cister (ainda assim se tendo mantido em Portugal, nomeadamente em Alcobaça, segunda Casa Mater da Província, já que a primeira foi São João de Tarouca, e desde a Reforma implantada por São Bernardo que os cistercienses passaram a ser chamados no país de os bernardos, tendo a sua Sede Primacial em Claraval), deixou-se de responder às aspirações de uma sociedade já menos rural e mais urbana, mais ávida de saber do que de crer.

Em Portugal, sem dúvida tomou primazia bernarda a Casa-Mãe de Santa Maria de Alcobaça (topónimo derivado da bifurcação cisterciense do rios Alcoa e Baça, onde se situa o edifício), foro de lendas e tradições, fundada a mando directo de São Bernardo, cuja cerimónia de lançamento da primeira pedra (2.2.1140) foi encabeçada pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, sobrinho do abade santo. Esse foi o Mosteiro Velho, e este Mosteiro Novo que hoje se vê, reconstrução  ou amplianção daquele recuando a 1178. Além do sentido toponímico dos rios da bifurcação próxima que deram o nome a Alcobaça, esta também terá a ver com o aramaico Alaku-Batha, cuja variante Alku-Batza transfere ao sentido de Espírito (Al) Santo (Aku), a quem esta Casa Abacial seria consagrada com o seu vasto couto comportando treze vilas, motivo suficiente para Frei Bernardo de Brito, na Crónica de Cister (1602), a consignar de Nova Jerusalém. Ateste-se ainda que a Real Abadia de Alcobaça é em sua planta a reprodução fiel das abadias de Citeaux e Clairvaux, concentrando no seu corpo muito do saber hermético da época, como se repara logo ao início na sua fachada dianteira, apesar dessa já ser barroca posterior.

Em 1145 floresciam no Ocidente mais de 350 mosteiros cistercienses, tal a influência de São Bernardo junto da Cúria e das Cortes da Europa, arrastando multidões devotas consigo. Observa-se que o traçado do mosteiro andará sob a influência da austeridade de Bernardo: a sua fachada não é ornamentada, é nua, simples, com o espírito de renúncia banhando por inteiro a igreja. Pela sua estrutura única, pelos ritmos da sua construção, pela sua disposição simbólica, a igreja cisterciense é feita a conduzir o espírito às alturas místicas. À luz do dia traça os caminhos da contemplação. Nenhuma tensão vertical, nem orgulho, só um equilíbrio acordado às medidas do Universo.

Como ele todo o mosteiro medieval (seja de que Ordem for), em cuja volta eventualmente nascerá um povoado, tradicionalmente seguia sete regras básicas para a sua feitura, como Ars Secretum da primitiva Maçonaria Operativa dos Construtores-Livres ou Monges-Construtores. São elas: 1.ª) escolha do sítio; 2.ª) determinação do eixo vertical; 3.ª) orientação do espaço ou quadrado do Céu; 4.ª) quadratura do círculo primitivo ou quadrado da Terra; 5.ª) construção; 6.ª) consagração; 7.ª) utilização.

Os Anjos Construtores (Massenia Angélica) gizando o espaço em que levantará o templo  (projecção horizontal ordenada do Universo). – Silhar de azulejos (século XVIII) na Sala dos Reis do Mosteiro de Alcobaça

Tal como o Espírito governa a Matéria, o eixo vertical organiza o espaço horizontal. Esse é uma coluna ou padrão plantado no solo, no sítio escolhido, que vai revitalizar as características telúricas do lugar, à semelhança da acção das agulhas de Acupunctura. O acto litúrgico da incarnação consiste então na edificação da coluna, realizada pelo Mestre de Obra que age como um sacerdote.

Sobre a base do círculo incarnado pela coluna, o Mestre de Obra (Mundus) traça um círculo que manifesta o horizontal. Por definição, o círculo não possui orientação. Ao levantar e pôr-do-sol, a sombra da coluna que se projecta sobre o círculo marcará dois pontos que determinarão o primeiro eixo do templo.

Esse eixo primitivo que orienta o círculo de Este para Oeste, é chamado decumanus. Em função da data escolhida para esse rito, é possível declinar esse eixo para ficar em relação com os cardeais magnéticos. A data retida no ciclo sazonal marcará a que Orago se irá consagrar o templo.

A posição zenital do Sol marcará, pela sombra do padrão, o cardus ou eixo Norte-Sul.

Essa operação simples faz intervir a mão do Céu para orientar o espaço. A cruz cardinal reconstitui as diagonais do quadrado do Céu: o espaço é qualificado.

A orientação do espaço

A operação seguinte visa estabelecer um segundo quadrado inscrito no círculo primitivo e que fixará pelos seus ângulos a posição dos grandes pilares do cruzeiro do transepto. Esse quadrado terrestre, estabelecido em oposição ao quadrado celeste, realiza o espaço de sustentação do templo. O quadrado da Terra é, pois, o complementar daquele do Céu.

Falta então inscrever no círculo primitivo um espaço quadrangular que fará o módulo geométrico do edifício, ou seja, a largura da nave e do transepto. Esse módulo será traduzido nos dois eixos E.-O. e N.-S. dando todas as proporções do templo de acordo com a “proporção dourada”, ou seja, o “número d´ouro” pitagórico em que assenta a Quadratura do Círculo: 1.618.

O primeiro quadrado ou quadrado do Céu dá a orientação fixa, a consagração, isto é, a Vontade do Céu. O quadrado da Terra é aquele da incarnação do princípio Celeste.

O módulo, uma vez fixado, é traçado com a ajuda de dois círculos do mesmo diâmetro centrados sobre os pontos de intersecção do eixo E.-O. com o círculo primitivo.

O quadrado da Terra no esquisso da catedral

O espaço orientado torna-se o centro das seis direcções do Universo cujo ponto central é materializado pela coluna do centro do círculo primitivo. Terminado o traçado de base a coluna é destruída, mas a sua função de Eixo do Mundo será assegurada pela seta, no centro do cruzeiro, como se fosse uma verdadeira “antena cosmo-telúrica” do templo.

O casamento dos dois quadrados do Céu e da Terra produz o octógono (como se vê num silhar de azulejos na Sala dos Reis do Mosteiro de Alcobaça) que se encontra, por exemplo, na forma dos antigos batistérios ou nos campanários das igrejas românicas.

Se o traçado inicia do cruzeiro à coluna, a construção, pelo contrário, começa pela abside, ou seja, pelo Este marcando o Nascimento do Mundo – o Sol Levante.

O mesmo acontecia nas comunidades rurais dirigidas por monges: o mosteiro estava direccionado no sentido E.-O. e o povoado no de N.-S. Pouco importava se o curso das águas acaso seguisse direcções diferentes, o que importava era a manutenção dessas coordenadas canónicas para o colectivo humano de que o mosteiro, envolvendo a igreja, é a expressão estática, ou seja, a representação fiel do universo espiritual em permanente actividade.

Passo de seguida às coordenadas do templo de conformidade com o estabelecido na Arquitectura Sagrada dos Monges-Construtores, dando assim livre feição artística – por via da geometria dos símbolos cujo significado só eles conheciam mas parecendo, não raro, andarem coladas às mais heterodoxas doutrinas consentâneas com o Hermetismo da época – aos lugares de culto da Cristandade medieval.

Mestre Construtor medieval (século XIV) num dos ângulos da Sala do Capítulo do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha

O plano do solo do templo é uma projecção horizontal ordenada do Universo. Na razão da orientação solar, cada ponto cardinal indica uma posição extrema do ciclo sazonal e diário, pondo assim o Tempo em movimento harmónico com o Espaço.

O percurso do templo reproduz o ano solar, ritmado pelas fachadas. Este é o caminho que conduz das Trevas à Luz.

Na concepção teológica judaico-cristã, o Outono ou Crepúsculo está a Oeste; o Inverno ou Meia-Noite, está ao Norte; o Amanhecer ou a Alva da Primavera, ao Este; por fim o Verão ou Meio-Dia, ao Sul. Esta dinâmica do espaço é utilizada no calendário litúrgico: assim, em função do momento do ano ritual, certas portas são abertas e outras são fechadas (por exemplo, na Catedral de Santiago de Compostela os peregrinos entram no mês de Julho pela “santa porta dos perdões” na fachada sul, a qual está fechada durante o resto do ano).

Ainda que essas coordenadas já não sejam as originais da Tradição Iniciática das Idades, mesmo assim são as adoptadas pelos referidos cânones litúrgicos judaico-cristãos desde a Baixa Idade Média, copiadas dos romanos decadentes que as copiaram da Grécia decadente, tendo perdido as verdadeiras chaves da Arquitectura e Geometria Sagradas que receberam por legado do Egipto e este da Índia, com alter-ego no Tibete. Por isso e seguindo a concepção adoptada pela Igreja que a recebeu dos Mestres-Construtores, aos quais albergou mas cujo pensamento iluminado ou ideal de perfeição perseguida ela geralmente desconhecia, irei reter-me na leitura do sentido sagrado das mesmas coordenadas conforme o Judaico-Cristianismo.

O Norte é o lugar menos iluminado do templo. É o frio, as trevas, o mundo invisível representado pelo mundo subterrâneo ou a cripta. Toda a simbólica do portal norte é geralmente consagrada às origens estelares, à Estrela Polar. A sua cor simbólica é o azul escuro que, em princípio, encontra-se como tonalidade de base da rosácea norte. O tema desta rosácea é desde logo consagrado à Mãe do Mundo e o número governador do seu crescimento geométrico é o 8, designando a Eternidade e o Infinito (o número cabalístico do Cristo é o 608).

Nesse estado cosmogónico, a semente da Criação ainda não saiu da sua Matriz Cósmica. Tudo está ainda na Grande Noite. O Norte indica o Nadir ou o “Sol da Meia-Noite” assinalado pela sacristia, pequeno espaço privado onde o “Sacro-Cristo” se recolhe antes da Liturgia da Vida.

O Este indica o princípio do Mundo – é aí que o Sol se levanta pela primeira vez. Está associado à Árvore da Vida. A sua cor simbólica é o verde que, no arco celeste, separa o amarelo do azul, tal como o Este “separa” o Sul do Norte. Esta região do templo é também aquela do altar-mor que recebe o primeiro raio do Sol da Manhã.

A Semente da Criação germinou e o Jardim do Éden está verde de caules e folhas. O Este igualmente aponta a direcção de Jerusalém, sobretudo da Jerusalém Celeste. Único espaço curvo do templo, ele focaliza a potência do Sol Nascente (Cristo Levante) e expande-a em todo o edifício.

O Sul marca o Zénite solar, o apogeu da Criação e a sua frutificação. É o Ser, a Natureza manifestada e harmonizada. O Sul representa o Dia Eterno, tal como o Norte a Noite Eterna. O Cristo em Glória surge ao Sul, enquanto Rei e Sacerdote da Terra e do Céu, pelo que esta coordenada se associa à Realeza e ao Ministério de Melki-Tsedek. A cor simbólica que se lhe identifica é a amarela, e o número que governa aqui é o quatro, imagem da Ordem, da Harmonia e da Estabilidade do Mundo Organizado – tem a ver, também, com o lugar do Evangelho, do Verbo manifestado.

O Oeste é a região do recolhimento, da morte, da “queda” do Sol nas Trevas (Cristo descendo aos Infernos… o Oeste; Cristo indo para o Deserto ou Trevas do Mundo… o Norte), ponto de contacto entre o Dia e a Noite, a Vida e a Morte, o Visível e o Invisível, e também do Profano e do Sagrado (a dúplice e principal saída, mas também entrada do templo). O Oeste é o Outono do Mundo, o Fim dos Tempos (melhor dito, o fim de um Ciclo Cósmico pelo dealbar de outro, esse indicado no templo pelo Este oposto do Oeste, tal como a Vida se opõe à Morte).

A Semente volta a recolher-se ao subsolo para a sua longa noite que lhe preparará um novo nascimento, a Este, pela Primavera. Lugar consagrado ao Juízo Final e ao Apocalipse, a sua cor é o vermelho púrpura igual à do Sol que se recolhe (Occidens). O número canónico do Oeste é o 12, valor igual ao do percurso do Sol pelo Zodíaco, donde a rosácea oeste geralmente apresenta temário zodiacal cerceando o Padre Eterno, por vezes da figura pantocrática do Filho.

Devo também falar da porta do Tempo, que é o percurso do Sol na nave de Este a Oeste, pondo em movimento o Tempo no Espaço sagrado.

O decumano determina o eixo Humano do edifício, que é dizer aquele do futuro, do nascimento à morte, estados associados respectivamente ao Este e ao Oeste. A entrada pelo portal Oeste permite levar o Tempo da morte à vida, isto é, do profano, situado fora do recinto sagrado, ao Este, às Origens Primordiais.

O cardo representa o eixo da Eternidade e o cruzamento do Tempo e da mesma Eternidade no lugar sob o fecho da abóbada, este que é a pedra angular, fundamental, de todo o templo.

Fecho de abóbada da da Charola Templária do Convento de Cristo, Tomar

Sendo o Templo a expressão estática do Homem Cósmico, logo o plano do seu solo representa, antes de tudo o mais, o Corpo do Homem Cósmico, ou seja, Adam-Kadmon como Terceiro Trono ou Espírito Santo plasmado na Matéria assim Sagrada. É importante precisar que o modelo do edifício é absolutamente independente da escolha da cruz, seja latina ou grega, pois que isso fica a cargo da Igreja em que se está, a Ocidental ou a Oriental. Importa, sim, que se fixe a cruz, para que o espaço seja efectivamente sagrado por configurar esse mesmo Corpo de Deus, o do Homem Cósmico na Terra.

Cada parte do templo possui as qualidades assimiláveis às partes do corpo humano. O círculo absidal representa a cabeça, o cruzeiro da nave e do transepto, o coração, que é dizer, a vida que late no edifício. Quanto à fachada oeste, ela representa os pés de Adam-Kadmon. Segundo a Acupunctura, a planta dos pés dá uma imagem reduzida dos órgãos e funções do corpo humano. No templo, a fachada oeste reproduz os princípios e funções de toda a construção. Os pés de Adam-Kadmon recordam também aqueles do peregrino. Toda a doutrina espiritual opõe-se severamente às manipulações leigas e profanas, e será nela que o neófito deverá procurar conhecer o percurso que pretende realizar antes mesmo de, efectivamente, entrar na Via. Pela leitura da fachada oeste o neófito é informado do conteúdo espiritual do percurso iniciático que deverá efectuar no templo.

Toda essa disposição cria um estado de “simpatia vibratória” entre o Homem e o Cosmos. A entrada no templo corresponde à entrada no corpo do homem, ou seja, uma introspecção. Trata-se, de facto, da tradução judaico-cristã do “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”.

Desde a fundação de Cister, sobretudo depois pelo extraordinário impulso incutido na Ordem pelo borgonhês Bernard de Fontaine, filho de Alef, dama da Corte, ou seja, São Bernardo, parente do seu conterrâneo Conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, que as abadias ricas auxiliavam os mosteiros pobres.

O tipo geral de uma abadia cisterciense consistia: igreja, incluindo um vasto coro ao mesmo nível, claustro, capítulo, refeitório, cozinha, dormitórios (celas), sala, celeiro, alas circundantes. O claustro, ao centro, comunicava com a igreja e restantes dependências.

A Casa-Mãe cisterciense de Claraval e as suas abadias na Província de Portugal (composição de Virgínia Paccetti)

A Regra de São Bento, inspiradora de Cluny e de Cister, para a Província de Portugal, estipulava que:

– Os monges repartissem o tempo entre o trabalho manual, o intelectual e a oração;

– Os monges vivessem em clausura perpétua;

– Respeitassem o silêncio;

– As abadias cistercienses devessem ficar isoladas;

– Devessem ser edifícios modestos, pouco ornamentados;

– As monjas e a abadessa não poderiam sair do mosteiro exclusivo a mulheres, onde só entravam priores de Cister para administrar os sacramentos, visitadores da Ordem, o rei, que podia fazer-se acompanhar de três pessoas idóneas, o infante, o bispo e o abade de Santa Maria de Alcobaça, podendo cada um destes levar consigo duas pessoas honestas, e o médico e artífices, mas sempre acompanhados de dois religiosos;

– Dormir no chão;

– Diariamente alimentar-se apenas de meio quilo de pão e dois pratos de legumes;

– Nunca deveriam comer carne, peixe ou lacticínios;

– Obrigatoriedade de se vestirem com um simples hábito branco de tecido áspero;

– Obrigatoriedade de ir ao coro e manter o silêncio e perfeição de vida nas cerimónias.

Em nenhum outro país a Ordem de Cister exerceu tão grande e duradoura influência como em Portugal. Até ao século XVII foram edificados no nosso país mais de trinta mosteiros cistercienses, uns para monges, outros para monjas, todos em uma especial devoção à Virgem Maria (Virgo Mariam). Também todos os mosteiros das Províncias de Cister estavam subordinados ao Abade Geral em Claraval, e dentro de Portugal ao Abade Provincial em Alcobaça – por sua vez prestando contas directamente ao Geral da Ordem – que era eleito dentre os seus pares da Província, depois confirmado pelo Geral e até, excepcionalmente, pelo Papa.

Morte (dormição) de São Bernardo. – Obra de Mestre Castilho dos monges barristas do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça

Os monges cistercienses nunca atingiram, na época moderna, importância semelhante à que haviam obtido na Idade Média. Já no século XVIII se manifestavam grandes sintomas de decadência. As invasões francesas e as lutas liberais, em Portugal, vieram precipitar essa decadência, culminada com a extinção das Ordens religiosas em 1834. Nesse mesmo ano, os mosteiros masculinos foram vendidos em hasta pública, sem o mínimo pudor da política jacobina chamada “mata-frades”. Da maioria deles hoje restam só as igrejas, havendo casos de convertidas em paroquiais, e algumas construções arruinadas, ou então as melhores usurpadas pelo Estado, com a implantação da República, para nelas, sem que os donos legítimos fossem tidos e ouvidos, por custo mínimo ou nenhum instalarem hospitais, asilos, quartéis, tribunais, penitenciárias, etc. Pelo contrário, os mosteiros femininos não foram extintos, contudo ficou interdito o recrutamento. Assim, as comunidades monásticas desapareciam quando vinha a falecer a última monja, ainda que alguns desses mosteiros tenham chegado intactos até aos nossos dias, mas já sem a presença secular.

Enfim, passa-se que tal como o Homem também as Ordens nascem, crescem e fenecem, desaparecendo para sempre da ribalta do mundo, mas não sem que antes o maior dos cistercienses, Bernardo de Claraval, inspirasse a Regra e depois o Elogio da Nova Milícia dos  Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão.

 

NOTAS

 

[1] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[2] Maria João Madeira Rodrigues, Pedro Fialho de Souza, Horácio Manuel Pereira, Vocabulário técnico e crítico de Arquitectura. Quimera Editores, Coimbra, 1996.

[3] A grande matriarca das letras da Alma-Mater ou Lusa Mátria, como lhe chamava o Padre António Vieira mas aqui Dalila Pereira da Costa, constitui tríptico com o mesmo processo, ainda assim usando de designação diversa mas significativa: Mito – Revelação – História. In A Nau e o Graal, Lello & Irmão Editores, Porto, 1978.

[4] Cf. René Guénon, O Rei do Mundo. Espiral Editora, Lisboa, 2019.

[5] Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2003.

 

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