Cruzeiro Mágico de Portugal: adentrando St.º Emilião de Mariz (Barcelos) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Abr 24 2019 

Peri amou Ceci
E Ceci a Peri amou..
E ambos partiram para Lisboa,
De início, numa palmeira,
E depois, numa canoa.
Ao chegarem no litoral
Já no Céu estava escrito
Como se fora um manuscrito:
Eis ali PORTUGAL.

Hino ao Amor (JHS)

A bruma espessa e sebástica envolvia a cidade de Barcelos quando aí chegámos, bem à noitinha, eu e a minha companheira, no dia 15 de Setembro de 1990. O nosso primeiro passo foi dirigido ao omphalos do antigo burgo: a catedral de Santa Maria Maior, primitivo ponto de encontro dos peregrinos a Sant’Iago de Compostela, capital da Galiza próxima, e dos antigos cavaleiros da Ordem do Templo.

A nossa meta não era propriamente Barcelos – em pleno Minho, no Norte de Portugal – mas, antes, a pequena freguesia de Mariz, distada dela cerca de cinco quilómetros, e de tão humilde poderá muito bem ser a “barca pequena”, discreta como a maior Barca ou a inviolável Agharta, presente na origem latina do nome Barcellus,  apesar de igualmente ser o teónimo aramaico Bargalus, latinizado Barcalus donde o português Barcelos, “Filho do Monte Sagrado”, ou, por outras palavras, “Filho do Céu”, aquele mesmo Filho que era, simultaneamente, Homem e Deus do qual o galo, ave solar, ficaria para sempre como arauto totémico na história desta cidade.

Dirigimo-nos para essa aldeia ao amanhecer ensolarado do dia seguinte. Não deixei de sentir alguma ironia, quase risível, face às circunstâncias superiores que me norteavam o pensamento, quando solicitei ao taxista: “Faça o favor de nos levar a Mariz”. E ele lá nos levou…

Eu sabia de antemão, sobretudo pelas informações disponibilizadas pelo Professor Henrique José de Souza, que a Antiga e Soberana Ordem de Mariz no Passado havia migrado, descido do Norte ao Sul de Portugal, cuja passagem discreta mas marcante deixou traços indeléveis, inclusive tendo originando famílias brasonadas, as quais encheram de brilhantismo páginas palpitantes da História Lusa.

Sendo a Ordem de Mariz de natureza francamente lunissolar, e tendo Barcelos por totem exactamente o galo, ave sinalética do Sol que, aliás, faz jus ao Porto-Graal ou País dos Galos, Porto Gálio ou Portus Galiae, hoje Portugal, sabe-se que além da freguesia de Mariz no concelho barcelense, a supradita Ordem Soberana possuía disseminadas estrategicamente pelo país outras comendas e bailios. Tanto assim foi que além desta em questão possuía domínios no concelho de Carrazeda de Ansiães (povoação formada em volta e dentro das muralhas do castelo de São Salvador do Mundo, com a sua igreja templária de São João Batista cujos guardiões, esculpidos na sua entrada, sugerem aqueles outros hindustânicos Mahima-Kuvera), abarcando a aldeia de Pombal de Ansiães com os enigmas da sua igreja paroquial de São Lourenço e da fonte santa mais abaixo, junto ao Rio Tua. Esse topónimo São Lourenço de Ansiães além de igual possui tem ligações íntimas, Marizes, direi mesmo, àquele da aldeia de São Lourenço de Ansiães, junto às Azenhas do Mar, no concelho de Sintra. Não esqueço, também, os domínios de Redinha e Pombal, no distrito de Leiria, tendo apostolado na última, na centúria de Duzentos, o presbítero Pedro, o Mariz.

Igualmente não esqueço, como aditamento mais esotérico, que a Sede exterior ou exotérica da Ordem de Mariz foi durante muitos séculos a cidade de Coimbra (As Finis Galiciae), na qual os Gémeos Espirituais da Obra do Eterno na Face da Terra foram apresentados ao Mundo por Jesus e Maria em bendito Avatara Momentâneo, ocorrido no ano 1800, no “Morro dos Amores”, junto à “Fonte da Saudade” de quantos Gémeos Espirituais hajam enternecido com doçura e candura os séculos de Portugalidade. E idos para a cidade da “Serpente ou Colubra” (um misto de mulher e serpente, uma Melusina) que é Coimbra, custodiados pelos Maiores da Ordem de Mariz, desde o Pico do Graal assinalado na Cruz Alta da Serra Sagrada de Sintra.

Pelas suas características, Mariz era uma agremiação mistérica sem qualquer cunho confessional, interna ou externamente, tanto que a sua acção, embora superiormente concertada, era levada a efeito por cada um dos seus membros a título individual e sem qualquer identificação detectável por profanos à Ordem. Sendo, a partir de dentro, verdadeiramente secreta, hermética, selada a quaisquer infiltrações de homens na fase de infância espiritual, por estarem os seus componentes ligados – entre si e ao Governo Oculto do Mundo – pelo mais profundo e sagrado sentido de sigilo, a Ordem poderia agremiar, sem perigo de perseguição, elementos de quaisquer origem confessional ou cultural, desde judeus a cristãos e muçulmanos, reis e príncipes até nobres e cavaleiros de quaisquer outras Ordens. Teria também ramificações em qualquer lugar dentro da sua jurisdição, a coberto das identidades ou das filiações mais externas dos respectivos membros que se reconheciam, porém, num plano absoluta e claramente supra-religioso, mesmo supra-humano, relativamente às limitações de cada época.

O nome da Ordem, segundo o Professor Henrique José de Souza, “tem por origem Mouros, Mauros, Mórias”, etc. A Mauritânia, o País dos Mauros ou Mouros, era região que abarcava, tanto na toponímia como na geografia antigas, áreas muito mais vastas do que hoje, era a “Mauritânia política”, direi assim, situada ao sul de Marrocos. Por seu lado, a acção da Ordem de Mariz, embora sem dúvida centrada no território português que chancelava, relacionava-se directamente com outras Ordens irmãs por territórios e influências amplos e diversos, que se estendiam nos e para aquém do Himalaia, do Médio Oriente ao Magreb e, também, daqui ao Norte da Europa e, mais tarde, sobre o Atlântico para Ocidente, formando um verdadeiro cruzeiro geográfico (o Cruzeiro Mágico de Mariz, no dizer de JHS) que surge, aliás, na heráldica de Portugal desde o seu início (os cinco escudetes e quinas em forma de cruz).

O onomástico Mariz aparece no Alcorão e é conectado àquele outro de Djin ou Jina, nisto ficando o Mória mauritano como indicativo esotérico do Morya himalaio, que é nome de Adepto Vivo. Pois bem, atendendo ao sentido filológico árabe de Djin, “aquele que não se pode ver”, isto é, está ocultado, tanto pela roupagem da discrição e anonimato, como inclusive encoberto no seio da Terra (donde as lendas das “covas dos mouros”), desde logo remetendo para o conceito de Adepto Perfeito, Génio ou Jina (em sânscrito) que desde os alvores do Tempo guia secretamente a Humanidade, postando-se entre ela e o Mundo Espiritual. É o Jina Superior para aqueloutro estado de Jina Inferior ou “força viva da Natureza” (elemental), e o qual opera como Marid ou Maridj, em português Mariz, classificado no Islão como sendo da classe mais poderosa de Djins a que os Vedas classificam de Mahatmas, “Grandes Almas”, o “Génio Solar sobre-humano”, Tachu ou Traichu, familiar do sânscrito Tirtânkara (de que se serviu a Igreja para criar o seu Colégio dos Cardeais), cujos poderes psicomentais fazem com que os Maruts ou Marutas, as “forças vivas da Natureza”, obedeçam inteiramente à sua poderosa vontade.

Segundo Algis Uzdavinys (in Ascent to Heaven in Islamic and Jewish Mysticism. The Matheson Trunst, London, 2011), a Escada de Jacob que a sonhou adormecido com a cabeça recostada na pedra Lusa, simbolismo mediador ou psicopompo de intercâmbio entre dois Mundos, visível e invisível, terreno e espiritual, profano e iniciático, etc., associa-se aos termos árabes ma´arij, “escada”, e mi´raj, “degrau”, sendo Allah o Dhu´l-ma´arij, “Senhor da Escada”, na sura 70 do Alcorão (surata Al Ma´arij, سورة المعارج‎‎, “As Vias de Ascensão”).

Maridj, Marid, Maru, Mauro, Morya ou Mouro, diz a Tradição Iniciática das Idades, veio a constituir a poderosa Linha de 111 Adeptos Independentes que desde o seio da Serra de Sintra (Al-Shantara) vibrou intensamente sobre a Humanidade em prol da sua evolução e, particularmente no que aos portugueses concerne, influindo na formação da Nacionalidade e até mesmo na diáspora nacional, sobretudo no período dos Descobertas Marítimas, episódios marcantes figurando na chamada História Secreta de Portugal.

Ora, das várias famílias nobiliárquicas irrompidas dessa Ordini Majorem há aquela que leva precisamente o nome Mariz (que também existia na Região Centro de Portugal, precisamente em Sintra, no lugar do Lourel, e em Odivelas, cuja Quinta do Mariz pertenceu ao concelho de Loures), a qual teve solar na povoação que hoje lhe herda o nome e durante séculos foi vigararia de Vilar de Frades cujo convento, datado do século XI, era casa-mãe da Ordem de São Bento, a qual teve primazia na construção dos principais imóveis religiosos plantados ao longo da rota portuguesa para Sant’Iago de Compostela, esta que primitivamente pertenceu ao Condado Portucalense por doação de Afonso VI de Leão ao Conde D. Henrique de Borgonha, pai de Afonso Henriques. Ora, na Galiza, praticamente na fronteira com as Astúrias e no caminho para Covadonga (onde teve início o Pelágio ou Reconquista cristã da Península Ibérica, desde o Verão ano 722 com o rei Pelágio à dianteira) , está a povoação que leva o mesmo nome desta barcelense, Mariz, a qual, segundo textos reservados do foro da Tradição Iniciática, ocultamente relaciona-se às Dhyanis-Budhais afins às Plêiades ou Krittikas, tal qual esta portuguesa relaciona-se aos Dhyanis-Budhas afins à Ursa Maior e aos Rishis, ambas as toponímias idênticas de maneira a prefigurarem, divinamente, a Unidade Andrógina da Península Ibérica, direi assim, a antiga Hispânia ou Jardim dos Pomos de Ouro das Hespérides, as mesmas Plêiades.

A procura de traços, de sinais esotéricos indicativos da espiritualidade Mariz em plena raia minhota levou-me, de imediato, a associar entre si três localidades: Barcelos – Vilar de Frades – Mariz, por razões que irão aparecendo ao longo deste estudo.

A paróquia de Mariz, cuja igreja está muitíssimo restaurada de cuja traça setecentista pouco resta e da românica nada, fora anteriormente unida ao Mosteiro de Vilar de Frades pelo Papa Júlio II, a instâncias do Cardeal de Alpedrinha no ano de 1507, passando a vigararia anexa do referido mosteiro mas que depois se tornou vigararia independente, estando referenciada em 1840 como anexa à de Creixomil. Hoje é paróquia da Diocese de Braga. Mas ela já constava das Inquirições de D. Afonso II, de 1220, com a designação “De Sancto Miliano de Maariz” de Terra de Nevia, apesar da Coroa não ter nenhuma jurisdição ou propriedade sobre os Marizes, e a que havia resumia-se à função de os proteger e apoiar, dessa maneira sendo uma espécie de “escudo defensivo” ou “círculo de resistência” político deles. Isso mesmo consta nas Inquirições de D. Afonso III, onde se diz: “In Judicato de Nevia in parrochia Sancti Miliani que el Rey non est patronus da ecclesia”.

Igreja paroquial de Santo Emilião de Mariz, Barcelos

De entre as principais os Marizes trazem por Armas: de azul, com cinco vieiras de ouro, postas em cruz, acompanhadas de quatro rosas de prata. Timbre: um leão sainte de azul, sustentando uma vieira do escudo.

As vieiras, insígnias dos peregrinos a Sant’Iago de Compostela, destacam os Marizes como verdadeiros Tiagos, Iagos ou Bonergus, “Filhos do Fogo”, ou seja, Assuras, elemento esse subjacente ao Sol que é representado pelo Leão. Destarte, leão e vieira, no brasão, indicarão a sua relação luso-galaica ao tema jacobeo, mas igualmente, no particular mais iniciático, desde logo velado, a viseira da luz, correspondente ao sexto sentido: a clarividência, exactamente assinalada pela sexta concha… no topo leonino.

É esse sentido natural, ainda adormecido ou latente na maioria dos homens mas já desperto ou patente nos Iniciados e Mestres, quem demonstra ao seu possuidor a permeabilidade da Matéria, qualidade ligando-se precisamente ao sexto estado da mesma que a Química Oculta designa como subatómico, animado por Anupadaka-Tatva, segundo a Ciência Espiritual do Oriente que os Adeptos Perfeitos, através do eminente “Swami” Henrique José de Souza, trouxeram para o Ocidente Ibero-Ameríndio.

A presença leonina é constante no tema Mariz, nisto não esquecendo a presença do forte culto, em Vilar de Frades, a São Laurentino (de Laurentus e Laurenta), santo claramente solar inspirado no mais antigo ligúrico, Lug.

Descarecendo o mimoso epíteto de mitómano mas carecendo sempre do ponteiro certo das Revelações Iniciáticas do Professor Henrique José de Souza, meu teosófico Norte Mental assente nesta sua Filosofia de Akbel, cimento e fogo do carácter e espírito da Verdadeira Iniciação que marcha sempre do Passado para o Presente neste projectando o Futuro, jamais ao inverso que é ficar sem Futuro em Presente incerto por recuo ao Passado morto, gente que se revela impossível confiar-lhe algo superior sem que o conspurque e ingratamente faça por romper qualquer voto de silêncio e segredo, adianto que as flores de rosa no brasão, unidas às vieiras em cruz, assinalam precisamente a Rosa+Cruz, expressiva do Tetragramaton como signa do “Homem Cósmico” ou Logos Planetário, o Andrógino Primordial Adam-Kadmon, na Terra sendo emblemática alquímica do supremo mistério da Pedra Filosofal, colhida, lavada e lavrada da quintessência dos quatro elementos naturais (Terra, Água, Fogo, Ar), ou seja, o Éter, o mesmo Akasha dos conhecimentos esotéricos do Oriente, portanto, o quinto elemento natural ao qual os R+C chamavam de Vril e os primitivos Iniciados atlantes de Mash-Mask. Trata-se, enfim, do 5.º Regato Vital ou Parda por onde a 5.ª Corrente de Vida discorre promanada do seio do próprio “5.º Kumara em Projecção”, Ardha-Narisha-Kumara – “O que está no Meio (Vau, expressivo do estado Andrógino) da Riqueza”. E Riqueza ou Relíquia é também a Tónica fundamental do 5.º Posto Sintriano Representativo da Obra do Eterno na Face da Terra (Teurgia).

Essas mesmas rosas, já aqui herméticas (significativamente todo o antigo tratado de Alquimia levava o sibilino mas significativo nome de Roseiral Mariano… recambiando para Maria, Maris, Mariz – Ave Mariz Nostra! – tomando forma no Divino Espírito Santo, o mesmo Deus Shiva dos orientais, como seja a Terceira Hipóstase do Logos Único (daí também o designativo Sura-Loka, “Lugar dos [As]Suras”, nome tradicional da Embocadura de Sintra, a hindustânica Kala-Shista ou Sishita, por manifestar o quinto estado de consciência Mental Superior afim a essa Hierarquia Criadora, já de si representativa do Quinto Luzeiro Arabel projectando a Sua Mente Criadora desde o Sol Interno – Chakra Vishuda, Centro Laríngeo – no Duat sob a Serra Sagrada, indo animar a humana por intermédio dos mesmos Suras), dizia, essas mesmas rosas estão patentes na abóbada do convento românico de Vilar de Frades, tendo ao centro os escudetes com a primitiva cruz de Portugal – nisso designando o Cruzeiro Mágico de Mariz a Luzir nos céus da Lusitânia. Ademais, todo o corpo de nervuras abobadal prefigura a enigmática letra vatânica designativa do signo de Aquarius, mas também de Makara e de Maitreya, o “Senhor dos Três Mundos”, o Cristo Universal.

Essa mesma letra está patente no pórtico de entrada dianteira na igreja matriz de Santa Maria de Barcelos (e que igualmente se vê nos túmulos tanto na igreja de Pombal de Ansiães como nos da igreja de São João Batista de Tomar), insculpida junta a rosáceas, vieiras e swástikas. Ora, a Ordem Mística da Rosa+Cruz, saída daquela outra dos Monges-Construtores que, em Portugal, foram primeiramente os beneditinos e cistercienses, feitores originais da monumentalidade arcaica e da espiritualidade arcana na rota jacobeia, constituiu-se um misto de ideário Templário e Grémio de Ofício, tendo coroado o final da Idade Média (século XV) e o início da Renascença (século XVI), períodos afins à construção gótica desta sede devocional entre 1325 e 1350, por iniciativa de D. Pedro Afonso, terceiro conde de Barcelos.

A Rosa+Cruz está igualmente assinalada, ainda que de modo velado, no traçado exterior da igreja paroquial de Mariz: sobre a entrada dianteira abre-se um óculo em rosácea, e a toda a volta do templo, como aro protector numa curta via crucis, dispõe-se uma fileira de 8 cruzes. Número caríssimo aos Templários e seus protegidos, os Monges-Construtores, o 8 assinala a união do Sol com a Lua, do Macrocosmos com o Microcosmos, enfim, do Céu com a Terra como Aliança de Deus com o Homem.

O Orago desta aldeia é Santo Emilião. A sua imagem está à esquerda do altar-mor na paroquial e apresenta-se vestido como beneditino, com o báculo recto na sinistra tendo aos pés, à direita, a mitra episcopal. A mitra deposta assinala o seu estatuto de bispo que terá recusado posteriormente, talvez por não querer trocar a sabedoria pela confissão, a catequese dos simples pela teologia dos sábios, ou por outra, não querer recusar a tradição espiritual da cristandade a favor da política temporal do clero.

Santo Emilião Orago da paróquia de Mariz

O báculo levantado substitui aqui um outro seu atributo: uma trave de madeira, alusão hagiográfica a um milagre que terá feito: alongar uma trave que era curta para a construção de um templo. Esta é uma alusão clara à sua função de Magister Carpentarius, “Mestre de Carpinteiros”, e mesmo que acaso não o tenha sido em vida, não é de descartar que lhe coubesse o padroado de alguma guilda de mestres carpinteiros em algum tempo da Idade Média barcelense. À madeira destinada a telhado do Templo, suporta-a a pedra colunal, função do Magister Macerius, “Mestre de Pedreiros”.  Talvez, ou decerto, por isso mesmo se apresenta à sua direita, no lado oposto do altar-mor, o Menino Cristo coroando com uma grinalda d´ouro (a Laurenta, Laurentino, Lourenço…) a São José, o Iose ou Ancião do Saber com a vara de medição na destra, com tudo ficando assinalado, no figurino piedoso cristão, o Companheirismo ou primitiva Maçonaria Operativa (donde descende a Especulativa) encabeçado pelo mesmo São José, o Arche-Tekton, “Grande Arquitecto”, que à pedra sobre pedra, dispõe trave sobre trave no levantamento do Templo como, afinal, Magister Carpentarius.

Santo Emilião (“Servo do Senhor”, em grego, Aimúlios, e por isso está à esquerda ou passiva do altar-mor, para o Cristo na direita ou activa), tem ainda por atributos iconográficos dois leões deitados (não patentes nesta imagem na paroquial de Mariz), como memória de ter sido lançado às feras em Cyzico, no Hellesponto, por ordem do imperador Leão, e elas terem recusado o atacar (tal qual Daniel na Cova ou Loka dos Leões… de Fogo). Mandado para o desterro, foi novamente preso e morreu às mãos do algoz, que só o pôde decapitar quando a Voz Divina chamou a si Emilião, o fiel Servo da Verdade Viva – Servitas fidelis vivum veritas.

O dia da sua festa litúrgica é o 8 de Fevereiro, logo após o dia da celebração das “Cinco Chagas do Senhor” (o Sangue Real ou Sang Greal, donde Santo Graal), e anterior ao de Santa Apolónia, a Apola como mensageira e aspecto feminino (shakti) de Apolo, o Verbo Solar ou Deva-Vani, “Anjo da Palavra”.

Destarte, tem-se a Encarnação do Verbo Solar precisamente representada no Senhor das Chagas, crucificado sobre o altar-mor tendo atrás de si a sigla JHS, indicadora da Tríade Espiritual manifestada como “Deus feito Homem”.

Altar-mor da igreja paroquial de Mariz (foto de Júlio Loureiro)

Revela-se neste templo um mundo de simbologia helíaca, ao que não falta um Sol dourado resplandecente sobre o arco triunfal separando a capela-mor da assembleia, o que me reporta para a iconologia tradicional do galo, aliás, figurado num silhar de azulejos setecentistas na igreja do Convento de Santa Escolástica – companheira apostólica de São Bento de Núrsia – das Beneditinas de Barcelos, com a ave fitando-se no speculum magicum e por debaixo a legenda: “Só se compõe Bem, quem se vê ao divino Espelho”.

Para cá do altar-mor apresentam-se dois altares laterais, interessando-me principalmente o da direita. Vê-se nele as duas imagens do Sagrado Coração de Cristo, ornado por um Sol dourado resplandecente estando assente em peanha verde, e a do Sagrado Coração de Maria, ornada com uma Coroa prateada estando assente sobre peanha vermelha. Tem-se Cristo-Maria (Jepher-Sus e Moriah), a Parelha Andrógina Cristófora ou Farol de Iluminação, cujo Coração Místico desde sempre é referência ao Santo Graal, não ao Graal-Objecto mas ao Graal-Consciência, do qual Eles, encarnando Sol e Lua, estão à sua frente.

Adiante dessas imagens, levanta-se no altar um crucifixo florlisado, sinalético primitivo do Companheirismo, onde o Senhor, irradiando um hausto dourado, jaze pregado no madeiro azul desfechado em traços vermelhos. Tem-se nisso a referência velada às três “qualidades subtis da matéria” (Gunas – a amarela Satva para o Espírito; a azul Rajas para a Alma; a vermelha Tamas para o Corpo) dominadas pelo Homem das Dores transformadas em Delícias, o que tanto vale por Maitreya, o Vencedor dos Três Mundos ou Mayas.

Não deixa de ser profundamente significativa a homenagem que o Venerável Mestre JHS prestou à Ordem de Mariz por meio da mecânica interna da Ordem dos Tributários por ele fundada em 1952. Com efeito, as cores verde e vermelha das Energias Universais Fohat e Kundalini estão patentes nas faixas dos(as) Tributários(as), que agem como defensivo “Círculo de Resistência” da Obra Divina, e “Círculo” inicialmente constituído por 17 Membros, número que, só por «acaso», é o do Biorritmo de Portugal (Arcano 17, A Imortalidade: “Eu via o Sexto Sistema. Um Sol Central tinha por embrião enorme Borboleta, saindo de um Ser de aspecto feminino. Tive a impressão de que chocavam enorme Ovo, que era aquele mesmo Sol.” – JHS). Sendo a Ordem de Mariz de natureza andrógina em separado ou mista, inicialmente foi-lhe “Círculo de Resistência” a Ordem do Templo (assinalada pela cor vermelha da sua Cruz, representando o Poder Temporal e consequentemente a Força Terrestre, Kundalini) e a Ordem de Avis (indicada pelo verde signatário da sua Cruz, cujo Orago São Bento assinalava a Autoridade Espiritual e, com isso, a Luz Celeste, Fohat), logo, ambas montando guarda à original Ordem Tributária a Melki-Tsedek, o Rei do Mundo: a Maçonaria Universal Construtiva dos Três Mundos, a dos Traichus-Marutas, como 1.ª Rama da Grande Loja Branca dos Bhante-Jauls – cuja 5.ª Rama é a mesma Ordem de Mariz  – cujo Grão-Chefe, Takura-Bey (do qual era avatara o Traichu-Lama, antiga Suprema Autoridade Espiritual do Tibete), veio a servir de Sub-Aspecto, Veículo ou Tulku da Consciência Cósmica de Júpiter manifestada na Terra por Sakiel, o 5.º Dhyani-Cumara (ou Cuma-Mara, Maris…) que, bem sabem os da Obra Divina de Akbel, está intimamente entrosado ao Quinto Posto Representativo de Sintra sob a égide do “Olhar Celeste”, Allamirah, a Mãe Divina (Maris), por cuja Serra Sagrada se acede – quem acede… hoje em número infinitesimal ou nem isso, ao contrário das propaladas fantasias oníricas por alguns desajustados da vida – ao Quinto Templo Universal dos Sedotes da respectiva Cidade do Mundo de Badagas. Confere!

No extremo da paroquial de Mariz, oposto ao altar-mor tem-se a imagem de um São Sebastião, cuja simbologia é notadamente drágona ou alegórica das forças telúricas do interior da Terra, por isso mesmo ligando-se ao tema do Mundo de Agharta, no sentido de representativo do Poder Real e Guerreiro, dos Kshatriyas ou Jinas da Arca. No santoral cristão, esse foi um dos santos da especial predilecção dos Templários ibéricos. Pelo visto, atendendo a quanto já disse e sugeri, por certo razões não lhes faltariam…

É sabido que onde existe um culto solar exterior há um culto lunar interior (e vice-versa, no sentido de masculino e feminino). Encontram-se indicativos desse último, além de nas imagens da Virgem e de São Sebastião, defronte do qual, do lado oposto, há uma pia de água benta em forma de seio de mulher (mama, mamã, mãe…), na intensidade hidrotelúrica cujo veio e corrente discorre sob o templo, dizendo o Padre Carvalho, na sua Corografia Portuguesa, que “tem uma fonte onde vão buscar água que benze o vigário para doentes, e tem muita virtude, particularmente para o fastio”.

A fonte ainda existe e está na sacristia da igreja. Tamanha intensidade hidrotelúrica por certo influi nas devoções do inconsciente colectivo local, motivo que levaria a paróquia de Mariz a ser consagrada ao “Imaculado Coração de Maria” no dia 8 de Dezembro de 1987.

Era com essa “água santa”, dotada de virtudes terapêuticas, que se enchia a pia batismal em formato de taça octogonal alegórica, como recipiendária do sacramento, do Santo Vaso – Saint Vaisel – ou o mesmo Santo Graal presente na Eucaristia dos Monges-Cavaleiros, os Templários medievais, cujos Grãos-Mestres Secretos seriam os próprios Irmãos Maiores da Soberana Ordem de Mariz, esses misteriosos Homens Representativos da nossa iniciática Portugalidade como Encobertos Obreiros do V Império no Mundo (ou o Quinto Reino Espiritual, que na Terra se expressa na supradita Agharta).

Ainda no sopé de uma cruz, junto à entrada exterior da igreja, lê-se uma inscrição semi-hieroglífica, semi-anagramática, traduzida como “M.el dOlivª 1727”, ou seja, “Manuel de Oliveira – 1727”, possivelmente o nome do mestre pedreiro responsável pelos restauros no imóvel e pela construção das cruzes, podendo também ser a data possível da elevação de Santo Emilião a Orago da freguesia, no que a âncora, como um dos hieróglifos, significará precisamente isso: a fixação patronal do santo.

Na verga transversal da porta dianteira, lê-se uma outra data: 1693, a da construção deste templo, pois a igreja paroquial da freguesia era primitivamente no lugar das Fontainhas ou Lajinhas (de que há ainda vestígios), tendo mudado no século XVII para o sítio onde está: Mariz, assento da venusta e Divina Mãe.

Junto à escada para a torre sineira, também na base e por baixo de uma caveira e duas tíbias gravadas no granito, lê-se a data: 1731, altura possível dos primeiros enterramentos no cemitério anexo.

Se Mariz (tanto a paróquia como a Ordem) era conhecida dos nossos egrégios mais insignes, secretamente vinculados à Tradição e Linhagem do Santo Graal, assim parece ser. Por exemplo, o Condestável Santo do Reino, Nuno Álvares Pereira (e que após ingressar na Ordem do Carmelo adoptou o nome de Frei Nuno de Santa Maria, ele a quem as revelações iniciáticas chamam de Malaquias, o Grão-Chefe da Ordem dos Marizes), teve casa em Barcelos junto à Sé Catedral, e quase defronte à sua a dos San Payo (Sampaio) de Luzignano, ambas bem brasonadas para não restarem dúvidas.

A escassos metros, na catedral barcelense, lá está a capela lateral de São João Baptista, cuja cabeça miraculosa é motivo de apelação das gentes aflitas da terra crentes na sua eficácia sobrenatural, mas também da devoção dos peregrinos a Santiago de Compostela invocando a protecção do santo contra os imprevistos no caminho, imagem essa ladeada pelas de Nossa Senhora da Conceição e São Miguel, Orago Gémeo de Portugal. Sendo, pois, motivo de grande devoção, essa cabeça decapitada (tal qual a de Santo Emilião), essa miracula devotioni talvez tenha origem nos tempos medievos dos Templários, estes já de si associados ao mistério terafínico da “cabeça falante”, ou seja, o misterioso baphometh, associado pelos jacobeos a “Santiago Mata-Mouros” e que consta mesmo em dois outros brasões Marizes: um braço armado segurando uma cabeça de moiro, com barba ruiva, foteada de prata. Ou: um leão nascente, de azul, tendo na garra uma espada enfiada numa cabeça de moiro. Mas, verdade seja dita, carvoaria ou bafometaria era igualmente o apodo dado pelos cristãos dado ao colégio de estudos corânicos (madrasa e madrasal, مدرسة), nisto havendo uma aproximação entre os saberes da Cristandade e do Islão, tal qual São João Batista foi o intermediário entre o Deserto (vida cenobítica, contemplativa, clausural) e a Cidade (vida comunitária, pastoral, claustral), ou seja, duas modalidades de vivência espiritual que Flávio Josefo não deixou de registar (in Antiquitates iudaicae, “Antiguidades judaicas”) no século I d. C., e nisto até esta catedral de Santa Maria Maior recebeu melhoramentos de um mestre construtor judeu local, D. Gil da Costa (1504), tornando o espaço vincadamente mendicante.

Com tudo, aprofundando ainda mais o sugerido no figurino do Anunciador, tem-se que o simbolismo iniciático relacionado a São João Batista é afim ao efectivo Ritual de Iniciação do Chrestus ou Arhat de Fogo, geralmente celebrado pela Páscoa, e que vem a ser o Ritual Jina do Yokanan (Djina-Masdhar), em muito identificado ao Ritual Maçónico de Elevação do Adonhiramita, que é essencialmente de carácter misto ou andrógino (conforme testemunha a sua lenda de passagem, passada no ambiente da rainha de Sabá e o rei Salomão), sendo o motivo sacrificial do pré-Apóstolo, J.oão B.aptista, quem estabelece a ponte entre as Escrituras Velha e Nova. No Ritual Djina-Masdhar o Yokanan sofre a “Degola” iniciática (figurada na História Lusa por D. Egas Moniz indo de baraço ao pescoço entregar-se de motu próprio ao rei de Castela), isto é, faz florescer a Rosa no centro da Cruz quando o verbo por sua laringe entoa o Odissonai (“Espaço Sem Limites” – Purusha, Espírito, Pai) e o Odissonal (“Espaço Com Limites” – Prakriti, Matéria, Mãe) a favor da defesa da Obra do Eterno na Face da Terra, logo também dele mesmo, Filho Eleito.

Consequentemente, em conformidade aos ciclos de Iniciação, esse Ritual é realizado não karmicamente mas dhármica ou voluntariamente, em conformidade à consecução da Boa Lis ou Boa Lei, inclusive tendo-o sido por preclaros Adeptos Independentes nos meados do século XX, exclusivamente por amor e devoção ao Trabalho Avatárico do Senhor Akbel e da Senhora Allamirah, servindo o Sangue Real de tais Seres para purgar o peso kármico imposto pela Humanidade ignara a tamanha e divina Obra. Assim foi, por exemplo, com os Barões da Silva Neves… mesmo que hoje e desde 1949 em outros corpos, ainda assim conservando os primitivos no Mundo das “Estátuas Vivas” que é o Duat. Enfim, mistérios da Obra, enigmas dos Deuses.

Isso mesmo, ainda em relação com os “Barões Assinalados” e o seu “sacrifício kármico na Cidade Badagas de Itapira (Ita+Pira = Pira de Fogo), sob o solo itaparicano brasileiro”, é desmentido e reiterado em primeira mão pelo próprio Venerável Mestre JHS, na sua Carta-Revelação de 11.09.1941:

“Como Refugium Peccatorum, não quer dizer que seja Lugar de Castigo. Puro engano! Mas antes de Purgação, de Elevação, de Destruição dos erros ou Karma, como o próprio Henrique Antunes da Silva Neves (o Santo Condestável) e Helena da Silva Neves (a Rainha Santa Isabel – Ísis Babel, Abel, etc.) se ocultarem até hoje, cercados de sua Corte, alguns Adeptos que auxiliaram, como Eles… os primeiros dias dos Gémeos, quando ambos de 15 para 16 anos de idade material ou humana… assumiram conscientemente a responsabilidade, indo PURGAR-se na referida Ilha (de Itaparica), desde que não podiam fazê-lo em Shamballah, nem mesmo na Agharta… S. Salvador fica fronteiriça, e passa por ser a “terra natal” de ambos, os Gémeos Espirituais ou Henrique e Helena, e como Eles, os dois prodigiosos Seres.”

Pois bem, nessa capela joanina da Catedral de Barcelos, Refugium Salvatorum, acendemos, eu e a minha companheira, cinco círios alvos, e de mão espalmada sobre o peito saudámos a Divindade e seus digníssimos Representantes, agradecendo todas as dádivas concedidas, dando assim por encerrada a nossa peregrinação a Terras de Nevia.

Saímos para o exterior, acompanhados de dois Jinas e o seu cão. A bruma voltava a cerrar, e nela empreendemos o regresso a Terras de Sintra, também estas pertença de Cordo Mariz.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

– Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão – Editores, Porto.

– Juan Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1988.

– Batalha Gouveia, O Etimólogo Emília. “Jornal do Incrível”, 28 de Janeiro de 1986.

Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, volume XVI. Editorial Enciclopédia, Limitada, Lisboa – Rio de Janeiro.

Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, volume 12. Editorial Verbo, Lisboa.

– Raúl Proença, Guia de Portugal (II-Minho), 4.º volume. Edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

– Teotónio da Fonseca, O Concelho de Barcelos Aquém e Além-Cávado, volume I. Reprodução facsimilada da edição de 1948. Barcelos – 1987.

Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Lisboa, 1961.

– Manuel de Sousa, As Origens dos Apelidos das Famílias Portuguesas. Sporpress – Sociedade Editorial e Distribuidora, Lda., Mem-Martins.

– Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal, 1.ª edição. Editora Madras, S. Paulo, 2000. Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo (História Oculta de Portugal), 2.ª edição, Editora Madras, S. Paulo, 2002.

– Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.

Textos Internos e Cartas-Revelações do Professor Henrique José de Souza e do Eng.º António Castaño Ferreira.

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Vias secretas da Ordem de Mariz: de L.isboa Y S.intra a São Lourenço de Ansiães – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Abr 23 2019 


Sobe da Terra ao Céu um frémito d´esperança.
Baixa do Céu à Terra um hálito de amor!

Guerra Junqueiro

Alguém perguntou ao Professor Henrique José de Souza, por volta de 1959 ou 1960, sobre a Missão de Portugal e o derradeiro destino dos Portugueses, pergunta já várias vezes feita em diferentes ocasiões, e invariavelmente o rosto do Mestre abriu-se num sorriso rasgado repleto de luz, sim, luz bem visível a todos numa benfazeja auréola de glória:

“Tudo o que acontece em Portugal reflecte-se aqui no Brasil, na Obra, e vice-versa. Toda a nossa Obra tem a ver com Portugal, e assim a Minha pessoa. Foi até no “Salão Portugal”, em Salvador, na Bahia, que cortei os meus longos cabelos quando criança… para desgosto de minha mãe.”

E disse mais nos finais de 1962, numa carta que endereçou a antigos condiscípulos portugueses:

“A Teosofia, no Brasil e em Portugal, corresponde a duas Ramas da mesma Árvore, que devem desenvolver-se em harmónico equilíbrio, como os braços de uma Balança, na qual o Fiel é a Grande Fraternidade Branca vibrando no peito do Monarca Universal, de cujo centro mesmo irradiam para os quatro direcções os Quatro Animais da Esfinge, expressão ideoplástica da Suprema Hierarquia Assúrica. Eu estou em Verdade e Espírito nessas plagas (Portugal), origem da Obra, porque aí sou exaltado com fé e amor. Eu sempre estou onde Me amam e com aqueles que crêem em Mim…”

Adiantando em carta emitida de São Paulo em 14.3.1963 dirigida ao senhor J. Neves Gonçalves, que na época representava os condiscípulos portugueses:

“Estabelecidos, assim, os laços espirituais que de há muito (tenho a certeza) nos unem, qual acontece com o Brasil e Portugal, tereis sempre notícias nossas, da Obra e da Instituição. Desse modo, nenhum livro melhor do que essa maneira de vivermos unidos para a Vida e para a Morte, de acordo com a Lei que a tudo e a todos rege.

Um grande abraço, extensivo aos outros queridos Irmãos, com os votos de PAZ, LUZ E PROGRESSO, em HARMONIA DE PENSAMENTO.

Em língua aghartina: AT NIAT NIATAT, ou seja: UM POR TODOS. TODOS POR UM.

Do servo e irmão muito grato:

Henrique José de Souza.”

Por seu lado, D. Helena Jefferson de Souza, companheira inseparável de Missão do Professor Henrique José de Souza, assim se expressou numa carta dirigida aos condiscípulos portugueses emitida da cidade de São Paulo, em 4.12.1967:

“Aí está a Serra de Sintra – ondulada pelos ventos refrescantes do Oceano Atlântico. Este mar que ladeia pelo lado do Ocidente une-nos com laços fraternais e espirituais, pois naquele Sacrossanto Monte, em 28 de Setembro de 1800, dealbava-se a aurora de um Novo Mundo.

“Naquele instante histórico, portador de melhores dias para o Mundo, Portugal despontou de Luz, chamando para si as Bênçãos do Eterno, já que no glorioso momento o Profeta da Galileia e a sua compassiva Mãe apresentaram, a este mesmo Mundo, as preciosas Gemas enxertadas na Coroa do Buda Celestial.

“Perante a História da Evolução Terrestre, perenemente o destino de Portugal fez brilhar a lâmpada da chama clara, inspirando novos desígnios na elaboração e construção do QUINTO IMPÉRIO. Tenha-se em conta o evento de 27 de Julho de 1899, na capital lisboeta, nessa Bela ou Boa Flor-de-Lis, que na excelsa motivação ornamentava subjectivamente a Praça dos Arcos. Aquela data marcou, de forma indelével, no Ouro e na Prata dos 23 Arcos, como prova indubitável, a Grande Missão de Portugal diante do Mundo.

“Na razão do sucesso, pela essência do êxito, no meio de lágrimas, surgiu a gloriosa sentença do Eterno: “No entanto desta Mulher nascerá o Meu Filho”. E realmente cumpriu-se a sagrada profecia. Não só ressurgiu o “Monarca dos Três Logos”, o Senhor Maitreya, mas com Ele os Sete Dhyanis ou Príncipes da Sua Excelsa Corte.

“Trago em Minha destra o fanal do Amor Universal. Por isso já disse o Menino Deus, no Templo subterrâneo do Caijah: “Com a Sabedoria do Pai e o Amor da Mãe se firmará no Filho a Omnipotência do Eterno”.”

Com esses testemunhos escritos tim-tim por tim-tim pelos primeiríssimos e principais actores da peça mais que iniciática, Henrique e Helena no papel de Ulisses e Ulissipa, em boa verdade desde a sua primeira hora o Novo Ciclo Avatárico da Obra do Eterno na Face da Terra, com centro irradiador na figura magistral do próprio Henrique José de Souza (1883-1963), tem como Apta, Presépio, Berço ou “Casa de Deus” da sua aparição e acção este mesmo Portugal, antes, Porto-Graal.

Em Julho-Agosto de 1899, na primavera dos seus 16 anos de idade os dois jovens enamorados, Henrique José de Souza e Helena “Iracy” Gonçalves da Silva Neves, provindos de São Salvador da Bahia para Lisboa integrados numa Companhia Teatral Infantil, dirigida por um casal lusitano dos mais insignes, os Barões Henrique e Helena da Silva Neves, realizaram um périplo iniciático no país, desde Lisboa-Sintra a Pombal de Ansiães, em Trás-os-Montes, conduzidos pelas mãos vigorosas e protectoras dos “Maiores da Tradição” (Avarat) que na velhinha Lusitânia mantêm viva a “chama clara” da sua espiritualidade, agindo de forma secreta, sim, contudo sensível a tudo e a todos, matematicamente harmónica numa justa e perfeita Ordem (Mariz).

Durante os 17 dias da sua estadia em Portugal, Henrique e Helena foram primeiro a São Lourenço dos Ansiães, junto ao Rio Tua, nas montanhas transmontanas, como se estas fossem aqui a reprodução das montanhas da Mongólia Interior do Traixu-Lama, Chefe Supremo da Grande Confraria Branca. Foram de comboio até ao Porto, de onde prosseguiram até Ansiães pela linha ferroviária do Tua, inaugurada no final de 1887. Foi breve a sua estadia aí, um dia e uma noite. De regresso a Lisboa, vão a Sintra e visitam o Castelo dos Mouros, a Cruz Alta… indo até São Lourenço das Azenhas do Mar, para que o Mistério ficasse completo.


Por fim, na Lua Nova de 27 de Julho de 1899, 5.ª feira, cerca das 15 horas da tarde no cruzamento da Rua Augusta com a da Conceição, em Lisboa, a caleche que transportava os jovens Henrique e Helena, vinda do Alto de Santa Catarina para a residência do Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves, junto à Sé Patriarcal, repentinamente foi interceptada por uma quadrilha de cinco malfeitores, antes, magos negros (número assim configurando o pentagrama invertido), que assustou os cavalos e fez a carruagem voltar-se. Helena sucumbiu sob os rodados do carro e os cascos das bestas mas Henrique sobreviveu, sofrendo apenas algumas escoriações ligeiras.

Ela, Helena, de imediato foi levada pelos Adeptos presentes para um recanto da Sé Catedral próxima, onde lhe ministraram os socorros urgentes, mas como não dava sinal de vida abriram o alçapão que aí está, próximo do altar-mor, e desceram com o corpo inerte ao seio da Terra, ao seio de Sintra, onde iriam recompor os seus ossos fracturados e ressuscitá-la no Panteão do Templo Interno do Mundo de Badagas que aí está.

Ele, Henrique, só muito mais tarde soube do destino da sua bem-amada, e enquanto não embarcou, a fim de a viagem prosseguir para o Oriente, foi levado, em guisa de conforto, à “Estrela da Sé”, que era a taberna do Barão, e aí pôde saborear várias especialidades: tâmaras (mandadas vir do Oriente pelo mesmo Barão, que era armador e fretador marítimo), iguarias portuguesas e provar os famosos vinhos do Porto e da Madeira. Finalmente, na tarde de 7 de Agosto de 1899 deu-se o embarque do jovem, acompanhado de distinta comitiva de Adeptos, a caminho do Cairo, Egipto, com destino certo a Srinagar, Norte da Índia.

Ainda acerca desse estabelecimento vizinho da Sé patriarcal, em plena Baixa de Lisboa (tão baixa como o Muladhara ou Chakra Raiz no corpo humano), direi algumas palavras.

A casa de pasto “Estrela da Sé” (Patriarcal de Lisboa), onde em Julho-Agosto de 1899 o Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves (1849 – 20.11.1944) costumava levar o jovem Henrique José de Souza (15.9.1883 – 9.9.1963), é restaurante intimista, familiar; possui seis divisões em madeira, possuía um balcão neogótico e foi fundado em 1857 pelo maçom (REAA) galego Agapito Serra Fernandes, fundador do Bairro Maçónico “Estrela de Ouro”, junto à Graça em Lisboa. O empresário Agapito foi tio-avô da coproprietária Dolores Fernandes, familiar de Joana Dolores da Silva Neves, parente próxima do Barão. Estrela de 5 Pontas – 5.ª Catedral (Sé) – 5.º Posto Representativo – 5.º Príncipe Leonel – 5.º Luzeiro… tudo confere com o 4.º Sistema em que estamos e afinal acaba sendo o número da porta. Mistérios de Mariz. Quanto ao mais a dizer para o público, resta a advertência que nunca é demais: cuidado com as imitações! Só falo quando entendo e se nem tudo digo, verdade se diga que alguma coisa vou dizendo.

Bastaram apenas doze segundos para se consumar a Tragédia da Rua Augusta. Entretanto, os celerados sinistros haviam desapare-cido sem deixar rasto. Como disse, eram magos negros chefiados por um famigerado “fuinha” de nome Arfik, querendo impedir que Helena, grávida, desse à luz o futuro Redentor da Humanidade (Akdorge) que cerraria para todo o sempre as “portas da morada do mal”!… Se, apesar disso, os Gémeos Espirituais escapassem do Acidente de Lisboa, os esperaria em Goa um monstro lemuriano criado pela Loja Negra em 1573 (descrito na obra demonológica de Paramatus), hermafrodita monstruoso com glândulas nas palmas das mãos exalando cheiro horrível (que é citado nas Páginas Ocultistas e Contos Macabros de H. P. Blavatsky, com comentários de Mário Roso de Luna), mas também ele foi aprisionado pelos Adeptos da Boa Lei, depois de luta terrível e cruel, e arrastado para o interior do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, ficando aprisionado numa caverna guarda-da por elementais ferozes, até se desfazer completamente por falta de animação maléfica.

À meia-noite desse mesmo dia 27 de Julho, com Henrique mergulhado em sono paranishpânico, paranirvânico ou monádico, também ele foi levado para o escrínio subterrâneo de Sintra, onde se realizou um Ritual do mais transcendente Tulkuísmo. O Eterno, projectado na forma deífica de Akbel, sentindo o efeito desastroso do Acidente de Lisboa, proferiu as sentenciosas palavras: – Mesmo assim, o Meu Filho nascerá desta Mulher!

Com essa sentença – a Sentença de Deus – e constatada a gravidade dos ferimentos de Helena e a impossibilidade do seu retorno à superfície, o Eterno, em forma de Lei, houve por bem tomar providências acertadas a fim de salvar a Sua Obra e não causar prejuí-zo à Evolução Humana. De maneira que foram modificadas as directrizes da Obra, consequentemente, de todo o Pramantha. Essas palavras do Eterno passaram a constituir o majestoso título que encerra um primoroso capítulo da mesma Obra Divina. Eis o sentido real das palavras do Eterno que os Adeptos Independentes desde Portugal realizariam na forma de 12 Medidas:

AS 12 MEDIDAS DO ETERNO

1.ª – Que os Goros (Sacerdotes) da Sé Catedral de Lisboa propiciassem os meios pelos quais os corpos dos jovens – os Gémeos Espirituais – fossem, de maneira mayávica, conduzidos para o Templo Subterrâneo situado, desde aquele local, no escrínio da Serra de Sintra (“QUEDA”).

2.ª – Que os dois primeiros Kumaras Primordiais – Dhyananda e Sanat-Sujat – se deslocassem de Shamballah para o Templo Interno de Sintra, ocupando os corpos dos dois primeiros Kumaras Secundários – Mikael e Gabriel ou Abraxis – a fim de prestarem assistência aos Gémeos Espirituais e vitalizarem-nos durante determinado tempo (“PURIFICAÇÃO DOS CORPOS”).

3.ª – Que os referidos Kumaras auxiliassem na recuperação do corpo físico de Allamirah, ou seja, Helena (“RECUPERAÇÃO”).

4.ª – Que as Essências ou Espíritos dos Gémeos Espirituais fossem transferidas, pelo fenómeno avatárico, para os corpos de Lorenzo e Lorenza – expressões físicas do Quinto Kumara Ardha-Narisha em forma dual, ou Kumara de Projecção (“COMPENSAÇÃO”).

5.ª – Que a Essência que animava o Tulku de JHS – Honorato José de Souza ou At-Niat-Dwija – que ficara em seu lugar em São Salvador da Bahia, na casa dos progenitores, com parte da Consciência do Quinto Senhor Arabel e a Essência da Estrela Algol (contraparte do 5.º Senhor), estas fossem transferidas para os corpos de Henrique e Helena, no seio da Serra de Sintra (“MATERIALIZAÇÃO”).

6.ª – Que os Gémeos Espirituais, nos corpos de São Germano (Lorenzo) e Lorenza, seguissem viagem para o Norte da Índia com a comitiva constituída pelo Barão e a Baronesa da Silva Neves, pelo Dhyani Abraxis, por Mr. Ralph Moore e vários outros Adeptos Perfeitos (“VONTADE ESPIRITUAL, AFIRMAÇÃO”).

7.ª – Que o Itinerário seria pela face da Terra: Portugal – Egipto (Cairo) – Goa (Sul da Índia) – Ceilão (Sri Lanka) – Calcutá, Nova Deli, Leh, Srinagar no Norte da Índia, província de Cachemira (“CASTIGO”).

8.ª – Que os dois últimos Kumaras Primordiais – Sanat e Kali, hoje Satya – manifestados através dos dois últimos Kumaras Secundários (Anael e Kassiel), deveriam encontrar-se com a comitiva no Ceilão, a fim de acompanharem os Gémeos Espirituais ao Norte da Índia, ela em Leh e ele em Srinagar (“SUBLIMAÇÃO”).

9.ª – Que a Companhia Teatral Infantil se desfizesse em Lisboa, indo os seus sete principais componentes masculinos e sete femininos, ao todo catorze, reunir-se em Srinagar, no Norte da Índia (“RESPONSABILIDADE”).

10.ª – Que o Kumara de Projecção – Lorenzo e Lorenza – deveria participar de um Ritual Manúsico, a fim de dar origem à 8.ª Dhyani-Budhai – Adamita, que assim era a contraparte gerada do Quinto Senhor da “Ara de Luz” (“PERSISTÊNCIA”).

11.ª – Que JHS, no corpo de São Germano, fosse à Confraria Jina de Srinagar presidir a sete Rituais Manúsicos, a fim de serem gerados os sete Dhyanis-Jivas, depois (1949) Dhyanis-Budhas do Novo Pramantha, os “Príncipes de Srinagar”, e que nesses Rituais de Geração deveriam estar presentes as sete Filhas de Kunaton e Nefer-Tit (Dhyanis-Barishads) e os sete Filhos de Tutmés III e Nereb-Tit (Dhyanis-Agnisvattas), ou sejam, aqueles e aquelas principais meninos e meninas que tomaram parte na peça teatral Tim-Tim por Tim-Tim, levada a cena no Teatro São João em Salvador da Bahia, em 1899 (“AS SETE LUZES”).

12.ª – Que JHS, depois de realizar essas determinações, regressasse à cidade de São Salvador da Bahia, com máscara humana, ou seja, com a sua consciência imediata e não a transcendental ou avatárica, para começar a percorrer a Estreita Vereda da Vida, o Caminho de Espinhos (“SACRIFÍCIO, COMPROMETIMENTO DA DIVINDADE, INÍCIO DA REDENÇÃO”).

Ainda sobre a Tragédia da Rua Augusta ocorrida consigo, o Venerável Mestre JHS deixou escrito na sua Carta-Revelação de 25.7.1961, O estado de Consciência da Era de Maitreya, in Livro da Reconstrução do Pramantha do Ciclo de Aquarius:

“(…) com Ela aconteceu em Lisboa, na Rua Augusta, ou Sushumna, com as suas duas Ruas Ida e Pingala, que são as do Ouro e da Prata ou no sentido do que foi dito, a da Prata e a do Ouro, em lateralidade. E Eu tive que dar o meu sangue pelos dois braços ou lados, Ouro e Prata, Pingala e Ida, por Ela, na Sé Patriarcal, que inscreve no seu frontispício os dois HH dos nossos nomes. E depois acabei realizando uma espécie de “Ritual Eucarístico” numa taverna bem em frente ao lugar da Rua Augusta, onde se deu o acidente. (…) Como se vê, o pivô da nossa Obra começa na Serra de Sintra (…).”

Quanto às razões iniciáticas para a mesma Tragédia, o Mestre discrimina-as na Carta-Revelação de 28.1.1953, Sintra e seus Mistérios (para ser lido com os Olhos do Espírito), inserta no Livro Chuva de Estrelas – A.

Para todo o efeito, o Jove ou Jovem Henrique ladeado pelo Dhyani-Kumara Gabriel ou Abraxis, tutor de Helena em Goa, e o Barão Henrique da Silva Neves, acabam expressando a Trindade Divina na Terra: Henrique para Akbel e a própria Divindade – 1.º Logos; Gabriel para o Plano Intermédio dos Deuses – 2.º Logos; e o Barão para o Mundo Humano ou Jiva representado na mais sublime Milícia Iniciática Secreta – 3.º Logos.

Tem-se, pois, a Viagem Avatárica do Adolescente das 16 Primaveras (número cabalístico do Kumara, o “Eterno Adolescente” ou “Eterno Virgem”) com três etapas iniciáticas bem demarcadas, duas em solo Luso ou Assúrico, sim, o da “Terra dos Filhos da Luz” (Luxcitânia), para que resultasse a terceira derradeira:

Esses “Inferno, Purgatório e Céu” estão consentâneos com a formação gnosiológica da Quinta Rama da Excelsa Fraternidade Branca, como seja a Soberana Ordem de Mariz, cujo desenvolvimento escatológico se fez mais sensível nos seguintes lugares do País:

Norte – Ansiães – Formação (Tamas) = Conde D. Henrique e a Ordem Franca de Avarat (século XI); D. Afonso Henriques e a Ordem Lusa de Mariz (século XII).

Centro – Sintra – Organização (Rajas) = Ordens de Avis e do Templo, com as cores verde e vermelha de Fohat e Kundalini, servindo de “Escudo Defensivos” à Ordem de Mariz.

Sul – Sagres – Expansão (Satva) = Infante Henrique de Sagres e a diáspora marítima sob o pendão espiritual de Mariz representado pelas Ordens de Avis e de Cristo.

Motivo mais que suficiente para o saudoso amigo Paulo Machado Albernaz, preclaro discípulo de JHS, escrever-me (São Paulo, 2.8.2000) o seguinte:

“Por esta razão a Península Ibérica tornou-se a verdadeira Iniciadora do Ocidente, portadora dos Mistérios. Naquela mesma ocasião foi fundada a Ordem de Avarat (que quer dizer: “A Tradição dos Nossos Maiores”). Bem mais tarde surgiria aquele príncipe de origem francesa, D. Afonso Henriques, que libertaria uma pequena parte da Península, fundando o pequeno mas glorioso Reino de Porto-Calens, hoje, Portugal. Em São Lourenço dos Ansiães, funda-se a prodigiosa Ordem de Mariz, que como sabemos usava as famosas cores verde e vermelha, que mais tarde seriam usadas no pendão português até aos dias de hoje.”

Essas palavras preciosas reproduzem quase textualmente aquelas outras sábias da Coluna J do Venerável Mestre JHS, Eng.º António Castaño Ferreira, proferidas na cidade de São Paulo em 7.6.1952:

“Tornou-se a Península Ibérica a verdadeira Iniciadora do Ocidente, portadora dos Mistérios. Foi fundada então a Ordem de Avarat (que quer dizer: “A Tradição dos Nossos Maiores”). Mais tarde (…) em São Lourenço dos Ansiães, funda-se a prodigiosa Ordem de Mariz, que como sabemos usava as famosas cores vermelha e verde (…). Este pequeno Centro deu origem às grandes navegações e, consequentemente, às grandes descobertas. Foi então que D. Henrique fundou em Sagres a sua famosa Escola de Navegação, donde sairiam os bravos marujos que descobririam para o mundo terras até então desconhecidas. D. Henrique era o Chefe da Ordem de Mariz, que tinha por sinal secreto Avi-Mar (Ave Maris) que pronunciava pondo a mão sobre o coração, gesto tão nosso conhecido. Preparou-se em seguida, em 1500, a descoberta da América.”

Disse-me ainda Paulo Albernaz, desta feita em carta datada de 28.12.1999:

“Não resta a menor dúvida que o Arcano 17 está estreitamente ligado à Nação Portuguesa, cuja extensão não deixa de ser o Brasil! “As Estrelas” guiaram os intrépidos navegantes que chegaram à “Nova Terra” e colonizaram o Brasil, dando início à Glória da Sub-Raça Latina, representada por Portugal, Espanha e antigas colónias, pois serão o Berço do Avatara.”

Com um preito de saudade apertando o coração, lembro aqui as preciosíssimas palavras que Roberto Lucíola, fidelíssimo discípulo de JHS, enviou-me de São Lourenço em 27.5.2002:

“Residir numa Região “Jina” como Sintra não deixa de ser um privilégio e, acima de tudo, indica desfrutar de um bom Karma. Como sabemos, Sintra é o Centro de Poder Espiritual da Europa, pois aí está localizado um “Posto Representativo” presidido por um Excelso Dhyani-Kumara, responsável pela Tónica da Literatura. Por aí se pode aquilatar o potencial de Conhecimento Humano que Portugal encerra em seu seio.

“Todos os sete “Postos Representativos” espalhados pelo Mundo encerram em si um grande potencial da mais alta vibração de Energia Espiritual, no sentido iniciático. São, pois, Centros Irradiadores das mais sublimes Forças. Sob a égide espiritual de Sintra, estão sete importantes capitais europeias, tais como: Roma, Londres, Bruxelas, Paris, Madrid, Copenhaga, Berlim… Estas capitais estão na órbita portuguesa segundo nos ensinam os mais sagrados e misteriosos Ensinamentos Ocultos. Não esquecer que cada “Posto Representativo” abriga em seu seio uma determinada Ordem Secreta composta por um Dirigente, que é o próprio Kumara, e mais 111 Adeptos, totalizando o número cabalístico 777, ou seja: 111 x 7 = 777.

“O Infante D. Henrique de Sagres foi uma expressão da Divindade encarnada entre os homens para implantar uma nova etapa na Civilização. Só este facto é suficiente para glorificar a sua Pátria e ser motivo de orgulho pertencer a uma Região escolhida por Deus para firmar a Sua Obra. Outrossim, coisa que muita gente ignora, o Império Lusitano” não foi fruto de impulsos expansionistas ou obra do acaso, como querem os materialistas que ignoram os Desígnios de Deus. O “Império Lusitano” foi uma imposição da Lei Divina que a tudo preside. Assim sendo, ele jamais foi destruído, devido às suas origens.

“Na realidade, o “Império Lusitano” é o “Império da Luz”, ou seja, da Luz Espiritual, e como tal é eterno. Esse “Império da Luz” foi recolhido aos Mundos Interditos do Interior da Terra para emergir em tempo oportuno, ele jamais foi destruído, porque o que é sagrado não pode ser destruído pela maldade humana. Os Preclaros Adeptos todos pertencentes à Linhagem do Planetário da Ronda, ou sejam, os componentes da Hierarquia dos Assuras, ao longo da História fizeram diversas tentativas para implantar na Face da Terra a Sinarquia Universal, esse “Quinto Império Encoberto” de que nos fala Fernando Pessoa.

“Não sofrendo de qualquer crise de etnia xenófoba, somente o Povo Português tinha condições para dar origem a uma Nova Raça que fosse o fruto das experiências e dos sofrimentos por que já passou toda a Humanidade na sua longa caminhada em busca do seu destino, que é o retorno ao Espírito Santo, segundo as várias “Promessas” feitas por todos os Avataras que a este Mundo vieram.

“Se lançarmos um olhar nas páginas da História Oculta da Humanidade, verificaremos que as Forças Obscuras, que sempre dão combate à Luz, tudo fizeram para impedir que os desideratos da Lei se cumprissem, mas sempre foram vencidas, porque a derrota dos Lusitanos seria a derrota da própria Divindade, coisa que é inconcebível e inteiramente impossível de acontecer. As Forças Obscuras foram sempre vencidas pelas Forças do Espírito Santo.

“Muito embora não termos tido por estas bandas (Brasil) nenhum “Condestável”… os Céus nunca nos abandonaram. Temos a certeza que o Império Eubiótico ou Sinárquico, mais dias menos dias, será reimplantado, pois as “Sementes” nunca morreram e estão bem vivas, e na Hora aprazada florescerão como Lei bem certa. Porque contra os Desígnios da Lei não há força que resista.”

Posso citar ainda António Carlos Boin, que nos idos anos 70 e 80 do século passado exerceu o cargo de secretário de instrução em diversos departamentos da ex-S.T.B. (Maria da Fé, São Paulo e Santo André). Além da correspondência que trocámos, certa vez e em conversa telefónica com o finado amigo, a dado passo ele adiantou-me que “as cores verde e vermelha da Ordem dos Tributários são herança e reprodução directas das iguais da Ordem de Mariz, expressivas de Deus Pai-Mãe, as quais, ao nível imediato, unem Portugal e Brasil”.

 

Em uma Carta-Revelação de JHS escrita em São Lourenço datada 16.2.1963 (Arcano XVI – A Revolta no Trono, Antiga Casa de Deus, in Livro Vitória dos Bhante-Yaul), o Mestre refere que “São Lourenço dos Ansiães ligava-se outrora, subterraneamente, com o Mundo de Duat”, e aplica a seguinte dicotomia aparentemente inconciliável: por uma parte, diz que “a Ordem de Mariz não se dissolveu, e sim bifurcou-se exotericamente nas de Avis e de Cristo”; por outra parte, “a Ordem de Mariz não existe mais”!

Primitiva ligação subterrânea ao Mundo de Duat, desactivada só restando a linfa quente das lavas vulcânicas, nas Caldas de São Lourenço dos Ansiães

Pois sim, é a mais pura verdade: “a Ordem de Mariz não existe mais”… em actividade franca ou aberta à Face da Terra. Isso acabou no reinado de D. João I, e depois disso o seu primeiro eco exotérico ou público foi a Escola Náutica de Sagres. Como todas as seis restantes Fraternidades de Adeptos (sendo as Ramas da frondosa Árvore dos Kumaras no todo, ou Grande Fraternidade Branca), está cerrada para o século ou ciclo profano, repito, praticamente desde os finais do reinado de D. João I, o “Mestre Perfeito”, e o desaparecimento do Santo Condestável, Nuno Álvares Pereira, depois Frei Nuno de Santa Maria, o “Galaaz do Carmelo”, que foi a antiga reencarnação do próprio Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves, de nome esotérico Malaquias, Dharani de 1.ª Classe, Grão-Chefe Temporal da Ordem de Mariz.

Desde o século XV para cá, essa Soberana Confraternidade só age franca ou abertamente em baixo, nos Mundos de Badagas e de Duat, ou então, de maneira discretíssima, junto de raríssimos homens rigorosamente selecionados – por norma discípulos adiantados de Mestres de Sabedoria, tenham ou não consciência imediata disso – com Missão superior sobre a Terra, tal qual agiu como encoberta ou encapuçada através das Ordens de Avis (Fohat) e de Cristo (Kundalini), respectivamente, possuidoras das cores mores verde e vermelho, cuja fusão cromática dá a púrpura de Kala-Shista ou Sishita, em védico, em caldaico Kurat-Avarat, a mesma Sintra como 5.º Posto Representativo dos Marizes, Mouros, Moryas, Marus

Falando das Sete Ramas da Árvore Genealógica dos Cabires ou Cumaras (Kumaras, Kuma-Maras, Cume-Maras, Cume-Maris), constituindo a Excelsa Fraternidade Branca dos Sete Raios de Luz, elas são:

Ordem dos Cavaleiros do Sol – Peru – Sol – Luz de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Mikael (Saber)

Ordem dos Astecas Cabalistas – México – Lua – Nome de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Gabriel (Beleza)

Ordem Andrógina da Rosacruz – E.U.A. – Marte – Sentença de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Samael (Bondade)

Ordem Secreta de Malta – Austrália – Mercúrio – Vontade de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Rafael (Pureza)

Ordem Soberana de Mariz – Portugal – Júpiter – Realização de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Sakiel (Riqueza)

Ordem dos Cavaleiros de Albordi – Egipto – Vénus – Expansão de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Anael (Ventura)

Ordem Maçónica dos Traichus-Marutas – Índia – Saturno – Trono de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Kassiel (Sublimação)

O Venerável Mestre JHS (Henrique José de Souza) repetia amiúde que “não dava nada de bandeja”, logo, sendo o Supremo Iniciador falava e escrevia por anagramas e subentendidos para que o discípulo decifrasse e se tornasse, por fim, também ele um Iluminado, um Integrado na Sabedoria do Deus Akbel. Como essa sua frase incisiva, igualmente milhares de outras frases, parágrafos inteiros espalhados por todos os seus Livros de Revelações, são verdadeiras mayas e métodos de verdadeira Iniciação Mental, logo, Espiritual. Bem parece que raros as dobram, perpassam, vencem de vez por todas, sobretudo os que estão na Obra, pois os que estão fora dela dão-se às maiores loucuras que só um psiquiatra calejado poderá explicar, a ponto de um desses, notoriamente afectado, ter ido ao extremo de registar em notário a Ordem de Mariz!!!

Servindo-me da mecânica sideral, planetária e natural da Yoga da Aranha (d´Ouro), dada pelo Rei de Agharta, Baal-Bey, à nossa Obra em 28 de Janeiro de 1941, transpô-la-ei para a estrutura escatológica da Hierarquia Oculta de Sintra:

Absoluto – Sideral (Constelação): Sirius (Kaliba, em aghartino).

Sirius, segundo Roberto Lucíola (in Caderno “Fiat Lux” n.º 18, Fevereiro de 1999 – Sistemas Geográficos), integra “as sete Constelações Primordiais, relacionadas às sete Montanhas Sagradas, que, por sua vez, demarcam na Face da Terra um Sistema Geográfico, onde as Mónadas atingem o seu máximo de desenvolvimento, pois é nesses locais sagrados onde também se faz presente a manifestação humanizada da Divindade através do Avatara do Ciclo e da sua Corte ou Hierarquia.

“Cada uma das Montanhas Sagradas preside a um Ciclo Evolucional, onde determinados Seres de Hierarquia elevada se concentram, a fim de realizar um trabalho de natureza oculta obedecendo aos ditames da Lei. Em geral, funcionam sete Centros Iniciáticos de altíssimo potencial orbitando em volta de uma Oitava Montanha que expressa a própria Lei. Actualmente, o fenómeno repete-se. As pessoas ligadas a esse Mistério estão se encaminhando para a Oitava Montanha Moreb que é a síntese e expressa os esforços e experiências das sete Montanhas que já cumpriram o seu papel na História Oculta da Humanidade.

“A Montanha Moreb, na região de São Lourenço no Sul do Estado de Minas Gerais, Brasil, tem o significado de A Montanha que Ouve, e é a última Montanha do Ciclo Ariano. Ela acumula em seu seio os valores e as glórias das sete que a antecederam. Todos os valores do Passado ecoarão por Moreb. Será o Sinal dos Tempos. Sobre o assunto, assim se expressou JHS:

“Todas as glórias das Montanhas falarão por Moreb. É o Sinal da Consolidação. Depois, quando o Ciclo Ariano estiver completo, um Portal abrir-se-á através de um vulcão no Monte Moreb. Formar-se-á em São Lourenço um dos mais famosos vulcões do Mundo, cujas lavas acumuladas formarão a mais alta montanha do Globo Terráqueo.”

Pai – Planetária (Planeta): Júpiter (Jevadak, em aghartino).

Sobre o que diz D. Helena Jefferson de Souza na sua carta Aos queridos Filhos de Sintra (São Lourenço, 28.1.1977): “O nome dessa Augusta Ordem (de Mariz) tem, por origem, Morias, Mouros, Marus, e as suas insígnias (cruz e fita) eram nas cores verde e vermelha (…). Ambas essas cores, se fundidas, dão a púrpura do 5.º Posto Representativo”. Isto na sequência do Professor Henrique José de Souza ter dado, no Livro da Pedra (Carta-Revelação de 3.7.1950 – Dedicado aos Excelsos Dhyanis), Júpiter como Planeta regente do 5.º Posto de Sintra.

O Arcanjo, ou melhor, o Dhyani-Kumara relacionado a Júpiter é Sakiel (Saquiel ou Satya-Bel), observado como um imenso Sol Púrpura por detrás de uma Montanha, segundo a sua visualização tradicional dada por Akbel.

Mãe – Natural (Elemento): Éter (Akasha, em sânscrito, Mash-Mask, em aghartino).

Animando o 5.º Chakra Laríngeo, trata-se da Quintessência ou Quinto Elemento afim à natureza do Luzeiro Feminino Allamirah (“Olhar Celeste”), que tem por Centro de Irradiação o 5.º Globo Flogístico Vénus (planeta feminino por excelência). Sobre isto mesmo, D. Helena Jefferson de Souza em carta de 4.7.1967 dirigida aos condiscípulos portugueses, proferiu quando então lhes deu o Ritual da Quinta Essência Divina: “Mentalizar uma cortina ou cascata de águas azuis de permeio a doiradas estrelas descendo ou projectando-se sobre todos os presentes. Este Ritual propiciará, no decorrer da persistência ritualística, a, digamos assim, objectivação da Quinta Essência Divina, agindo como uma Bênção dos Céus e equilíbrio para todos. Devido às actuais condições em que vive o Mundo, necessitamos de acção, coordenando-se, dessa forma, a actividade mística com a vontade sábia”.

A Mãe Divina vem a expressar a Vontade posta em Actividade. Ela está na cúspide da Manifestação desde o Segundo Mundo Celeste, conforme diz a própria Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891) nos Manuscritos Perdidos da Loja Blavatsky redigidos por ela: “É o Aspecto Feminino de Brahma, o Masculino, e já que é impossível definir Parabrahma, ou Aquele que está muito além da compreensão humana, então, uma vez que falamos desse “primeiro algo” que pode ser concebido, é melhor que digamos Ela. Em todas as cosmogonias é a Deusa e as deusas que vêm primeiro, a primeira convertendo-se na Mãe Imaculada a partir da qual procedem todos os deuses. Então, o subjectivo passa a emanar ou cai no objectivo, e converte-se no que se chama a Deusa Mãe, a que procede ao Logos ou Deus Pai, o Imanifestado. Porque o Logos manifestado é outra coisa muito diferente e é chamado o Filho em toda a cosmogonia” (5.ª feira, 10 de Janeiro de 1889).

Filho – Sideral, Planetário, Natural: Arabel (Akbeloy, em aghartino).

Segundo o Venerável Mestre JHS (in Livro do Colóquio Amoroso, 1956), trata-se do “Quinto Senhor do Lampadário Celeste, Arabel, o Deus da Ara, do Altar, ou do Fogo, como Senhor do Quinto Sistema”. Este Augusto Luzeiro em cuja fronte tremeluz o Tetragramaton, tem como veículo físico o 5.º Globo em formação, Vénus, e na Terra, no Sistema Geográfico Internacional a partir de Arakunda no escrínio do Roncador, em Mato Grosso, Brasil, manifesta-se pelos 7 Dhyanis-Kumaras dos quais o Quinto de Sintra, repito, é Sakiel, Raio Espiritual de Júpiter, feito assim aspecto inferior de Arabel ou veículo da Sua manifestação universal, dando como resultante da união de Manas (Vénus) com Atmã (Júpiter) a:

Geração – Em Cima, no Meio e em Baixo, ou Face da Terra, Duat e Agharta.

Esta Geração, Progénie ou Corte Iluminada aqui, em Sintra, é dirigida por Sakiel e constitui-se de 111 Adeptos Independentes, dos quais dois são o Filho (Dhyani-Budha) e a Mãe (Dhyani-Budhai), Dirigentes temporais do Posto Representativo para o espiritual, o Pai, o Dhyani-Kumara.

Como Ambos, Budha-Budhai, têm as suas Colunas Vivas, uma encarrega-se dos Ritos da Ordem Interna desse Posto, dessa Embocadura (Loka, donde o seu nome Sura-Loka), pelo que é o seu Chefe Espiritual ou Grão-Sacerdote, enquanto a outra Coluna exerce as funções Administrativas da mesma Ordem, logo, sendo o seu Chefe Temporal. Quem é este? Precisamente o Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves (Portugal, 1849 – Brasil, 20.11.1944), de nome esotérico Malaquias.

Quem foi ou é o Barão Henrique da Silva Neves?

Muito poderia dizer a respeito, mas prefiro reter-me ao que escreveu o Professor Henrique José de Souza sobre o aspecto exotérico ou público do Venerável Adepto (in Teatro São João, revista O Luzeiro, n.os 13/14, Junho-Julho 1953):

“Por Lei de Causalidade, tanto o pai de JHS como o Venerável Ser que fazia parte da comitiva que o acompanhou ao Norte da Índia (também chamado Henrique Antunes da Silva Neves, e sua esposa, Helena A. da Silva Neves, os mesmos nomes dos Dois Dirigentes da Missão Y), eram armadores. O primeiro possuía doze navios (algo assim como os 12 Signos do Zodíaco, os 12 Cavaleiros da Távola Redonda, os 12 Pares de França, os 12 Apóstolos, etc., etc.), inclusive um de nome “Rio Real”, que “tendo sido salvo de uma grande tempestade, o seu comandante prometeu ao Senhor do Bonfim uma miniatura do barco”, etc., como se pode comprovar na “Sala dos Milagres” dessa mesma igreja, na capital baiana. Quanto ao Venerável Ancião – que, diga-se de passagem, “foi um dos grandes amigos do pai do autor deste estudo” – possuía, por sua vez, dez navios, dentre eles, o de nome “Dragão”… e com os quais fazia o transporte de mercadorias de Lisboa para Goa, e vice-versa. Em tal lugar, a família possuía uma valiosa mansão, onde estivemos hospedados. E na hora da partida, a sua esposa, “a santa mulher com porte de rainha”, com as faces banhadas em lágrimas, dizia adeus com o seu lenço de linho… postada à beira do cais…”

No seu Livro das Vidas – O Mistério da Árvore Genealógica dos Kabires, datado de 1933, o Venerável Mestre JHS dá o Barão Henrique S. Neves como o 6.º Sub-Aspecto do 1.º Aspecto da Linha dos Cabayus ou dos Moryas. Diz:

“6.º: HENRIQUE ANTUNES DA SILVA NEVES, português ilustre, que viveu muito tempo em Goa. Era amicíssimo do Mestre Abraxis (Jean Feliciani Domiciani), proveniente de Lorenzo e Lorenza, de quem o mesmo era filho, com mais outros 6, que figuram como 2.os Aspectos de todas as Linhas. De seu nome nos servimos quando nos hospedámos no Hotel Globo, em 1914, quando para aqui viemos do Norte: Henrique Antunes da Silva. Fizemo-lo por motivos ocultos, pois não tínhamos necessidade de viajar a descoberto, mas incógnito. Além disso, tal Ser foi um Pai que encontrámos outrora, quando fomos à Índia às ocultas, ou fugido de nosso lar. Em sua casa estivemos hospedado juntamente com Abraxis, que nos honrava com a sua presença e nos conduziu ao Norte da Índia, donde viemos recambiado, depois de nossa missão. H. A. da Silva Neves era versado em várias línguas, inclusive indianas, e muito mais em Filosofia. O seu filho, António Neves, foi representante de “Dhâranâ” em Calcutá.”

Com efeito, António da Silva Neves, o “Antonino”, representou o Professor Henrique José de Souza, a Sociedade “Dhâranâ” e a revista “Dhâranâ” na Índia, como facilmente pode verificar-se na lista de colaboradores e correspondentes nos seus primeiros números, tendo o próprio Paulo Machado Albernaz, quando foi redactor-chefe de “Dhâranâ” nas décadas de 50 a 70 do século passado, expedido regularmente por correio números da revista para o endereço do filho do Barão, cujos remetente e destinatário eram inicialmente os seguintes: “De: Sociedade Dhâranâ – Budismo-Maçonaria – Niterói – Rio de Janeiro. Para: Senhor Antonino Neves – Caixa Postal 600 – Calcutá – Índia”.

 

Segundo as informações disponibilizadas pelo Venerável Mestre JHS nos seus Livros de Revelações, os Barões da Silva Neves haviam sido em vidas anteriores: ele o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira (posteriormente, Tomé de Souza, 1.º Governador Geral do Brasil), e ela a Rainha Santa Isabel. Isto mesmo está escrito na Carta-Revelação de 4.1.1952 pertencente ao Livro dos Makaras. Diz:

“Todos já conhecem quem foi o Condestável na sua vida anterior… do mesmo modo que na seguinte, Tomé de Souza. E a seguir, o Barão Henrique Antunes da Silva Neves.”

Noutra parte da mesma Carta-Revelação:

“D. Nuno Álvares Pereira, tal como a Rainha Isabel, nunca deixaram de existir. As suas mortes são misteriosas… mesmo que ficassem os cadáveres, em ossos ou cinzas… para tradição das suas vidas, na História de Portugal. No entanto, mudaram de corpos. Essa esteira luminosa que mais parece a da Via Láctea… veio ter ao Brasil.”

O Mestre reitera na Carta-Revelação de 20.1.1952, pertencente ao mesmo Livro:

“Os Barões da Silva Neves não saíram apenas da Essência Espiritual do Condestável e da Rainha Isabel, a Santa, mas também dos seus corpos imortais, pouco importando o que deles fala a História Portuguesa, a época, etc. (…) O meu pai e o meu avô eram amigos e parentes dos Barões da Silva Neves; por sinal que o meu pai foi armador, e ele também. Além de pertencerem a diversas Ordens de Cavalaria, etc.”

Quanto à vida anterior do Barão como o “Santo e Guerreiro”, D. Nuno Patricial (Condestável) e D. Nuno Eclesial (Monge), sim, Avatara do próprio Akdorge ou “Homem da Couraça ou Manto Vermelho” (Marte) que lhe terá aparecido pouco antes da Batalha de Aljubarrota (14.8.1385), o Mestre JHS diz ainda na Carta-Revelação de 4.1.1952:

“Todos os países do Mundo possuem a sua História. A verdade, porém, é que depois do Ramo Racial Greco-Latino, que inclui celtas, galos (inclusive a França), etc., nenhum se compara a Portugal ou Porto Galo, Gaulês, etc., para cujo lugar, por ser litoral e outras razões, o Manu Ur-Gardan, “o Homem do Éden ou Jardim de Fogo”, conduziu o seu povo, imitado por Nun´Álvares, porque… aqueles que se antepuseram aos seus passos foram derrotados, foram aniquilados, sofreram a morte, porque, de direito e de facto, “o Manu é Senhor de Vida e de Morte, não só sobre o seu povo como do mundo inteiro”, cujos seres, por sua vez, são frutos, sazonados ou não, dos Manus anteriores, todos Eles, por sua vez, nascendo do Manu Primordial.”

Pois sim, avançando no tempo tem-se que após o Acidente de Lisboa, na Rua Augusta, ocorrido com os Gémeos Espirituais Henrique-Helena, alguns anos depois o insigne casal de Barões desfez-se dos seus negócios e bens em Lisboa e Goa (nesta última residindo na Rua Espelho de Flores, depois só Rua das Flores, n.º 19, junto ao Largo da Igreja de São Lourenço de Agaçaim, sobranceira ao Rio Zuari a caminho do Forte dos Reis Magos) e foi fixar residência no Brasil, em São Salvador da Bahia, ou melhor, na Ilha de Itaparica fronteira à cidade, no sítio de Caixa-Pregos, próximo a Mar Grande junto à estrada (na ocasião de terra batida) levando à igreja matriz de São Lourenço de Itaparica.

Sentindo grande afecto por Henrique José de Souza, e talvez ainda coagidos pela tragédia ocorrida em Lisboa, querendo descartar a eventualidade de repetir-se em alguma outra, estes seus Paraninfos ou “Barões Assinalados”, parafraseando Camões, fizeram de Itaparica a sua nova morada, onde passaram a viver de maneira mais humilde ou recatada, discreta. Acerca da instalação dos Barões em Itaparica, o Mestre JHS escreveu na sua Carta-Revelação de 11.9.1941:

“Como Refugium Peccatorum, não quer dizer que seja “lugar de casti-go”. Puro engano! Mas antes de purgação, de elevação, de destruição de erros ou karma, como o próprio Henrique da Silva Neves (o Santo Condes-tável) e Helena da Silva Neves (a Rainha Santa Isabel – Ísis Babel ou Abel, etc.) se ocultarem até hoje cercados da sua Corte, alguns Adeptos que auxiliaram, como Eles, os primeiros dias dos Gémeos, quando ambos tinham 15 para 16 anos de idade material ou humana. Assumiram conscientemente a responsabilidade indo purgar-se na referida Ilha, desde que não podiam fazê-lo em Shamballah, nem mesmo na Agharta… São Salvador fica fronteiriça, e passa por ser a terra natal de ambos os Gémeos Espirituais, Henrique e Helena como Eles, os dois prodigiosos Seres.”

Na Bahia, o Casal de Barões esteve ligado ao negócio das águas abastecedoras de São Salvador, e nesta mesma cidade, na Casa do Paço do Saldanha, os Preclaros Membros da Ordem de Mariz – vários de padrão superior e até de brasão exterior que haviam acompanhado o seu Chefe – costumavam reunir-se. Refira-se, ainda, que já em 1567 a Ordem de Mariz, através de D. António de Mariz, ajudara Mem de Sá a fundar a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro (in Anais do Rio de Janeiro, tomo 1.º, pp. 328-329).

De Itaparica o casal de Barões mudou-se para Teresópolis, em 24.12.1941, e finalmente, no início de 1944, para a região de Minas Gerais do Sul, onde passou a residir nas proximidades da cidade de São Lourenço, e aí costumava encontrar-se assiduamente com o Professor Henrique José de Souza. Diz-se até que a arquitectura e acústica do Templo da S.T.B. nessa cidade, inaugurado em 24 de Fevereiro de 1949, haviam sido sugeridos pelo Barão ao Professor…

O autor, VMA, na Montanha Sagrada de São Lourenço, Sul de Minas Gerais, Brasil

Bastante idosos, no final das suas vidas terrenas e numa época em que o Professor H.J.S. e a sua Obra eram severamente atacados pelas Forças Sinistras da Involução, ameaçando gravemente a sua continuidade na Face da Terra, os Barões da Silva Neves juntamente com o seu sempre fiel Mordomo José Ramayana, luso-goês então também já muito idoso, em 20 de Novembro de 1944 decidiram oferecer em holocausto as dádivas das suas vidas em troca da sobrevivência na Face da Terra de Henrique José de Souza, da sua Instituição e Obra. Então, estes insignes Yokanans ou Arautos foram então recolhidos ao Interior da Terra, à capital do Mundo de Badagas, Mekatulan, localizada sob a cidade de São Lourenço (MG), e voluntariamente sujeitaram-se ao chamado Ritual Djina-Masdhar, o mesmo joanino da “Degola da Cabeça” ou do “Holocausto do Inocente”, igualmente chamado “Derrame do Sangue Real”, e que até hoje a Maçonaria Adonhiramita reproduz no seu simbolismo ritualístico alusivo ao Martírio de São João Baptista. Isto equivale ao sacrifício voluntário na Cruz (4.ª Iniciação Real do Arhat) a favor da Ressurreição (5.ª Iniciação Real do Asheka), o que implica o sentimento doloroso do holocausto auto-imposto a favor da sobrevivência de algo ou alguma coisa, neste caso, repito, tendo como fito a salvação terrena ou humana da própria Obra do Eterno na Face da Terra, cuja expressão máxima era o próprio JHS.

Muito frequentemente o sentido da “cabeça decapitada” não representa tanto um martírio individual e mais uma “decapitação” simbólica do Chefe visível de determinada Ordem que, apesar de ter perdido quem a conduzia exterior ou publicamente, prossegue firme no Ideal plantado por aquele. Realmente, desde 20.12.1944 que os Barões da Silva Neves deixaram para sempre a Face da Terra, mas a Ordem de Mariz interiorizada prossegue a sua semeadura exclusiva-mente através da exteriorizada Ordem do Santo Graal, e de certo modo por quantos participam da Diáspora Espiritual a favor da Parúsia, ou o Advento do Cristo Universal.

A relação do Professor Henrique José de Souza com a Ordem de Mariz foi profícua e estreita ao longo de toda a sua vida. Até chegou a receber da mesma um estojo com o pano de cores verde e vermelha envolvendo a Cruz da Ordem, pela época do sacrifício dos Barões, altura em que o Barão Henrique S. Neves ofereceu ao Venerável Mestre a sua Comenda.

No dia 14.3.1955, às 17 horas, o discípulo Carlos Lucas de Souza foi chamado à Vila Helena, residência do Professor Henrique e da sua família em São Lourenço, e aí foi nomeado “representante do Excelso Akdorge”, tendo o Mestre JHS o agraciado com a mesma Grã-Comenda que pertencera ao Barão Henrique da Silva Neves, cujo símbolo liga-se ao Dragão de Ouro (Satva, Espiritual, Solar, a própria Grande Loja Branca), isto pelo valoroso trabalho do discípulo em prol da construção da Obra, solenidade a que estiveram presentes vários Irmãos Cavaleiros de Akdorge, dentre eles Itagiba e Sebastião Vieira Vidal.

A relíquia sagrada acabou guardada por familiar de Carlos Lucas de Souza em uma caixa de papelão, conforme me informou o seu filho Henrique Arthur de Souza, a qual desgraçadamente veio a perder-se arrastada pelas enxurradas que no ano 2000 assolaram a cidade de São Lourenço.

De 20.12.1944 em diante, os Espíritos, as Essências Imortais dos Barões Henrique e Helena da Silva Neves passaram a vibrar em dois outros Seres, com 10 anos de idade, chamados Mário Lúcio e Maria Lúcia. Nascidos em 13 de Maio de 1934, tiveram como Pais espirituais Helena Iracy (1.º corpo) e Krivatza (Jesus, avatara de Akdorge), mas cujos Pais efectivos, carnais, foram os Adeptos Heinrich Gordon Schmidt e Helen Gordon Schmidt, pertencentes ao Sistema Geográfico de El Moro, E.U.A.

Como cada Yokanan ou Arauto possui três nomes diversos, de acordo com a sua localização, como revelou JHS na sua Carta-Revelação de 17.1.1951, tem-se que os mesmos Seres são:

Mário Lúcio e Maria Lúcia = El Moro (Cimarron)

Hélio e Selene (Buda-Budai) = Bairro Carioca (São Lourenço)

Hermes e Jefferson = Mekatulan (Badagas)

Com isso, ligam-se às “misteriosas crianças” que habitaram a não menos misteriosa Casa de M. T. (Meka-Tulan) no Bairro Carioca de São Lourenço, possuídas dos mesmos nomes dos filhos físicos do casal Henrique José de Souza e Helena Jefferson de Souza, facto sobre o qual diz o Venerável Mestre JHS na sua Carta-Revelação de 25.1.1952 que pertence ao Livro dos Makaras:

“Não devemos esquecer que há muitos anos foi anunciado: que dois Seres seriam Professores de Hélio e Selene. Tal Hélio era bem outro, do mesmo modo que Selene, como prova em tais corpos estarem hoje avatarizados os Barões da Silva Neves, tendo por Coluna Central, como já antes a tivera, um Yokanan de elevada estirpe”… que é Kafarnaum, o 8.º como Chefe da Linha dos 7 Yokanans principais.

Tendo sido as Colunas Vivas “emprestadas” a Akdorge no Ocidente, de 1850 a 1944, desta data em diante perfiladas Colunas Vivas de Akgorge, Irmão Gémeo daquele, teve-se no “Barão Yokanan” o exercício do Trabalho a ver com o 5.º Senhor Arabel e a 5.ª Raça-Mãe Ariana, e na “Baronesa Sibila” a consecução do Labor relacionado ao 4.º Senhor Atlasbel e a 4.ª Raça-Mãe Atlante, anunciados pelo grande Adepto seu Filho Leonel; ambos juntos operando para o 6.º Senhor Akbel e a 6.ª Raça-Mãe Crística, Cristina, Dourada ou Bimânica, acção anunciada pela Linha do Chefe dos Yokanans, Kafarnaum, das maneiras mais diversas até hoje.

Os esquemas seguintes certamente darão uma noção mais clara desse metabolismo, dessa transformação e acção que faz parte da dinâmica permanente do Mundo dos Jinas ou Adeptos Perfeitos, exercendo a sua influência constante na humana, mortal e insípida pequenez de quem vive e só na Face da Terra.

Antes 1944:

Pós 1944:

Assim se cumpriu a Profecia de Sintra, ou seja, aquela que fala da trasladação dos valores espirituais do Oriente para o Ocidente, aqui reproduzida na versão latina e respectiva tradução portuguesa:

Sobre o que adianta o Mestre JHS no seu Livro do Graal (Carta-Revelação de 19.5.1950):

“Não é de estranhar, pois, que na Serra de Sintra, ao lado daquela profecia que fala da nossa Obra, de modo indirecto, mas para ser revelada por quem foi, embora que os lusitanos mais cultos a conheçam (inclusive através de Cintra Pinturesca), dizia, ao lado daquela famosa profecia também ali esteja mais esta: “Aqui, neste lugar, as Águas pariram dos Ventos”.”

Ar e Água, Vayu e Apas, Mental e Emocional, Homem e Mulher, Ulisses e Ulissipa, Henrique e Helena, juntos no Androginismo mais perfeito, aqui mesmo, na Montanha Sagrada dos Mouros, Moryas ou Marizes, para não dizer, Marus e Marutas ou “Forças Vivas do Rei do Mundo”. Sim, aqui mesmo onde o Quinto Senhor Arabel cada vez mais se integra no seu Retro-Trono, Shamballah, pois que a Terra já passou a metade do Quarto Sistema Planetário, motivo para o Futuro se manifestar cada vez mais na Hora Presente.

As razões apresentadas não são, de maneira alguma, voluntariosas nem imaginosas concebidas ao sabor de qualquer e pessoal apetência inflamada “patrioteira”, não: é o próprio Mestre JHS quem positivamente reitera o facto na sua Carta-Revelação de 2.5.1958, Duas e Três Tragédias, senão mais, in Livro do Ciclo de Aquarius:

“O Quinto Sistema será naquele Lugar, isto é, em Portugal, na Serra de Sintra, onde a sibila estampou o mistério do Futuro, o mistério do Quinto Império, também cantado pelo poeta lusitano, que fala de um só Altar, de um só Cálice de Ouro que há-de luzir. Portugal, Arquivo das Raças de Elite, principalmente a Greco-Romana, não podia deixar de ser o Quinto Sistema.”

Como o Sistema Geográfico do Roncador, Estado do Mato Grosso, Norte do Brasil, está igualmente para o Futuro Quinto Sistema ou Império Universal, como revelou o próprio Mestre, então ter-se-á a Sintra do Presente como o Núcleo Interno da Xavantina do Futuro. E assim as dicotomias aparentes se consolidam, se desvanecem…

Para isso concorrem as sete substâncias ou princípios naturais (tatvas) de que se compõe o Sistema Geográfico Sintriano, em guisa de “Serpente Irisiforme” desde o Seio da Terra vomitando à Face da mesma as chamas púrpuras de Kundalini, o “Fogo Criador do Espírito Santo” que aqui é Omnipresente, por este santo vau ou “escoadouro” como Chakra Laríngeo do Mundo, sobre o que diz o Professor Henrique José de Souza na sua Carta-Revelação de 28.4.1958 (in Livro do Ciclo de Aquarius):

“Quando o Bodhisattva (Jeffersus), em 1800, realizou o Avatara dos Gémeos no alto da Serra de Sintra, razão por que até hoje semelhante lugar se chama o “Pico do Graal”. E isto diz tudo, em relação ao Graal em nosso Templo. Muito antes já tinha revelado que a Serra de Sintra também é formada de sete substâncias. Lá nasceu a Obra, no Avatara de 1800. Lá esta mesma Obra se ocultou em seu seio velada por dois Kumaras, enquanto outros dois acompanhavam as duas cigarras que ficaram naquele túmulo frio e pétreo, como o maior e mais digno de todos os Túmulos. Portugal, tu és a origem da Raça Brasileira. E esta formada por sete elos raciais, que tu guardavas também no teu régio Arquivo, como provam as tuas ruínas, a profecia da Serra de Sintra.”

Com essas sete substâncias naturais se compõem as 7 Vestes do Luzeiro em Projecção (Ishvara) através do respectivo Planetário de Projecção (Kumara), que no mapa gnosiológico da Montanha Sagrada de Sintra localizam-se nos pontos seguintes, reproduzindo na Face da Terra, como Sistema Geográfico nacional, um Sistema Planetário sideral:

MULADAK – CASTELO DOS MOUROS – PRITIVI (TERRA) – FÍSICO – SOL
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Pouso Alto (Ceçary)

ISADAK – SANTA EUFÉMIA – APAS (ÁGUA) – ETÉRICO – LUA
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Itanhandú (Inhacundá)

SAMADAK – SÃO MARTINHO – TEJAS (FOGO) – EMOCIONAL – MARTE
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Carmo de Minas (Araçaranã)

SATADAK – SÃO SATURNINO – VAYU (AR) – MENTAL INFERIOR – SATURNO
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Aiuruoca (Ajur-Loka)

ANADAK – LAGOA AZUL – AKASHA (ÉTER) – MENTAL SUPERIOR – VÉNUS
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Conceição do Rio Verde (Itiquirá)

REIFADAK – SETEAIS – ANUPADAKA (SUBATÓMICO) – INTUICIONAL – MERCÚRIO
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Maria da Fé (Ia-Passé)

JEVADAK – PARQUE DA PENA – ADI (ATÓMICO) – ESPIRITUAL – JÚPITER
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: São Tomé das Letras (Tassu)

Como Oitava Coisa ou Substância Síntese (MAHA-TATVA ou MAHA-BHUTA) participando da Substância Universal (SVABHÂVAT ou SINDAK, em sânscrito e aghartino), ela é representada pela própria ADITI, a “Mãe dos Deuses”, figurada na SENHORA DO Ó na QUINTA DA TRINDADE (THEOTRIM), expressiva dos Três Logos em Acção. Em sua correlação astrogeosófica ou simpatia vibratória psicomental, este Poiso dos Trinos vem a representar em solo lusitano a própria São Lourenço brasileira. Assim Portugal se une ao Brasil, a Serra de Kurat à Montanha de Moreb, pelos mais profundos laços espirituais, para não dizer, jinas.

A capela e a imagem de mármore em tamanho natural da Senhora do Ó, na Quinta da Trindade, desapareceram faz alguns anos, contudo, conservo o seu testemunho em fotos raras fazendo parte do meu arquivo pessoal e que aqui reproduzo.

Na senda da presença dos Gémeos Espirituais em Portugal, no dia 3 de Agosto de 2009 desloquei-me mais uma vez a São Lourenço de Ansiães, em Trás-os-Montes, em guisa de homenagem à ida aí dos mesmos em 1899, a esse Lugar de Purgação ou Purificação.

Sobre essa aldeia transmontana, o Professor Henrique José de Souza escreveu no seu artigo Cagliostro e São Germano (in revista Dhâranâ, n.º 110, Ano XVI, Outubro a Dezembro de 1941):

“Tal Ordem (de Avis), entretanto, servia de escudo (ou “cobertura exterior”, Círculo de Resistência, etc.) a uma outra intitulada Ordem de Mariz, pouco importa que a História a desconheça por completo. Os seus raros filiados espalhavam-se por toda a parte do Mundo, como “Membros do Culto de Melquisedec”, sendo que o nome “Mariz”, que aliás inúmeras famílias nobres de Portugal o possuíram, tem por origem: Morias, Mouros, Marus, etc., etc. Os mais antigos se reuniam nas proximidades de certo lugar, que ainda hoje traz o nome de S. Lourenço de Ansiães.

“No distrito de Bragança, e concelho de Ansiães, fica a 6 quilómetros desta vila a aldeia de Pombal, distando 104 quilómetros para NE de Braga e 360 para N de Lisboa. No fundo de extenso “monte”, descendo para o rio Tua, brotam aí duas nascentes num local denominado S. Lourenço, por se achar o tanque que as recebe construído em uma casa que, em outros tempos, foi a capela dedicada ao referido santo… Tão modesto balneário foi mandado construir, em 1730, pelo padre António de Seixas, talvez membro da referida Ordem… Uma das nascentes é muito abundante, e ambas são conhecidas pelos nomes: Pombal de Ansiães, S. Lourenço e Caldas de Ansiães. Outrora, porém, ninguém sabe a razão, chamavam-se, às duas Fontes, Henrique e Helena… A água jorrava por duas bocas, representadas por dois golfinhos. E por cima, Castor e Pollux.

“Volvendo a S. Lourenço de Ansiães, era aí, como se disse, onde se reuniam, em tempos mui distantes de hoje, os Preclaros Membros da Ordem de Mariz. Santos e Sábios Homens muito influíram na grandeza do velho PORTUGAL, e também na do BRASIL.

“A Ordem de Mariz tinha as suas insígnias (cruz e fita) em verde e vermelho, isto é, o verde que veio a usar depois a de Aviz, e o vermelho da de Cristo. Interessante que são as mesmas cores da respeitável Bandeira de Portugal… Mistério! Embora arrisquemos a dizer que “felizes daqueles que se acham sob a referida Protecção do Governo Oculto do Mundo”! Nessas condições, até hoje: PORTUGAL E BRASIL.”

Todos os que estão nas fileiras da Obra do Venerável Mestre JHS deveriam, ao menos uma vez na vida, visitar Pombal de Ansiães e a próxima Fonte Santa (Termas) de São Lourenço. Todos os que não são da Obra também a deveriam visitar, pois a aldeia é hospitaleira e tem muito e variado para oferecer aos visitantes, desde os passeios culturais aos concertos musicais e à gastronomia regional. Só dessa maneira Pombal de Ansiães será arrancada ao seu “eterno mal” que é o de todo o país interior: o isolamento, ainda mais dificultado pelos meios de acesso, já de si parcos e pobres. Os últimos acidentes, resultando mortais, na linha ferroviário do Rio Tua, a mais bela da Península Ibérica, senão da Europa, não se deve ao ferrocarril mas aos bizarros e desequilibrados “metros de superfície”. Sugiro voltar-se aos comboios a vapor, mais afins à paisagística local e mais atractivos para o turismo em geral, principalmente o termal e ecológico.

No muitíssimo abandonado lugar da Fonte Santa, junto à arruinada “Casa da Acácia” (flor simbólica da Iniciação na Maçonaria Tradicional) que funcionou como hotel rural e pertenceu à família do dr. João Carlos Noronha, está a humilde capelinha de São Lourenço, mandada faz por algum pároco de pressuposta descendência brasileira (muitas famílias brasileiras, ou luso-brasileiras, procuraram refúgio em Pombal de Ansiães nos fins do século XIX e aí construíram as suas moradias, algumas delas sumptuosas mas bem enquadradas na paisagem local) a pedido, talvez, dos fiéis que então procurariam ser aí baptizados com “água santa” da Fonte de São Lourenço.

Por cima da ombreira de entrada na capelinha está uma inscrição muitíssimo mal realçada a negro por alguém recente, rezando o seguinte que até hoje ninguém conseguiu traduzir, conforme me informaram:

“Mandou fazer o vigário da freguesia José de Almeida Neves no ano de 1839.”

O vigário José Neves talvez fosse parente do Barão Henrique da Silva Neves.

Mais uma vez deixei-me absorver pelo odor e fumo intenso das águas sulfurosas, vulcânicas, correndo constantes e abundantes dentro da Fonte Santa, edifício piramidal encimado exteriormente por uma cruz a qual, se for perspectivada na base do mesmo, apontando ao Seio Assúrico da Terra, dá precisamente o símbolo alquímico do Enxofre Filosófico, expressivo do Espírito manifestado. Assim, a dupla perspectiva desse símbolo hermético vem a significar os opostos complementares como Fogo Purificador (Interior da Terra) e Água Sublimada (Exterior da Terra), ou, noutro sentido, as Iniciações Dórica e Jónica juntas para darem matematicamente certo o Andrógino em separado na Face da Terra. O ardor sulfuroso é o Arqueu do indivíduo, o seu Princípio Mental Superior ou o Génio interno (Jina para os hindu-tibetanos, e Daimon para os socráticos), exaltado na sua soberania (Iniciação Dórica ou Devek, “União” – donde o Um por Todos e Todos por Um). A Água Sublimada vem a ser o puro sentimento reflectindo as virtudes do Alto impressas na Alma Humana que nelas se banha (Iniciação Jónica ou Josephi, “Beleza, Perfeição” – donde o Justus et Perfectus). Para a Realização da Grande Obra, a entrada do Iniciado em si faz-se pela Via Seca do Jónico (Kundalini como Fogo ou Força ou de Coesão de cor vermelha), ao passo que a saída de si se processa pela Via Húmida do Dórico (Fohat como Luz ou Energia de Expansão de cor verde). Eis aí as duas cores universais plasmadas no pano da gloriosa Bandeira Pátria.

Este é lugar de purgação, de purificação psicofísica a que foram sujeitos os Gémeos Espirituais em 1899, pouco antes da Tragédia na Rua Augusta. Aliás, tudo neste lugar de Pombal de Ansiães (os Anciães da Ave do Espírito Santo fundadores da Portugalidade Iniciática, ao início com residência nas proximidades, no castelo templário de São Salvador do Mundo, tanto podendo ser o Cristo como o Quinto Luzeiro agindo por Ele, quanto ainda a corporificação operática de Ambos na Soberana Ordem de Mariz, na época – século XII – tendo como “Círculo de Resistência” externo a Ordem do Templo) tem a ver com a provação e a purgação corporal e anímica.

Ruínas do castelo templário de São Salvador do Mundo, Carrazeda de Ansiães

Vem de encontro às minhas palavras aquelas outras do célebre coevo de D. José Alves Mariz, bispo de Bragança (1885-1912), ou seja, Francisco Manuel Alves, o abade de Baçal (Baçal, Bragança, 9.4.1865 – ib., 13.11.1947), descrevendo estas Caldas de São Lourenço em termos deveras incomuns num sacerdote secular católico (in Memórias Arqueológicas do Distrito de Bragança, tomo IX, 1946, Bragança):

“POMBAL, concelho de Carrazeda de Ansiães. Fonte chamada Caldas de São Lourenço, por brotar perto da capela deste santo. São conhecidas há perto de trezentos anos, pelo menos (in António Carvalho da Costa, Corografia Portuguesa, tomo I, p. 437), como eficazes em curas reumáticas (in Alfredo Luís Lopes, Águas Minero-Medicinais…, p. 348).

“É curiosa a explicação que os padres do Tibete (lamas) dão das águas térmicas. Dizem eles que “o fogo, vendo-se cheio de pecados, pelos muitos males que fazia no mundo, se fora pedir remédio ao Pagode Badrid, o qual lhe disse que ficasse naquele lugar com ele, que assim ficaria purgado de todos aqueles pecados; teve o fogo por grande mercê esta que lhe fazia o Pagode (Lamaseria), e assim ficou a seus pés; e por isso saía aquela fonte de água tão “quente” de baixo do Pagode. Este fogo teve primitivamente o poder de converter em ouro tudo quanto tocava, diz a mesma lenda, mas perdeu tal virtude devido à cobiça de um ferreiro que lançou lá grande quantidade de ferro a fim de enriquecer” (in António de Andrade, O descobrimento do Tibete em 1624, p. 53, edição de Francisco Maria Esteves Pereira, 1921).”

Pois sim, esse motivo purgatorial regista-se não só nas águas sulfúricas, vulcânicas, da fonte como no interior da igreja de São Lourenço (barroca, datada de 1750, obra dos mestres pedreiros Bento José de Melo e José Ferreira Simões, naturais, respectivamente, de Viseu e de Miranda), na aldeia próxima de Pombal, onde está o interessante retábulo legendado das “almas do Purgatório e o Juízo Final”, revelando o significativo pormenor da alma humana castigada implacavelmente pelo “bicho da consciência”.

No tecto, caixotões de madeira, e no seu centro a pintura extraordinária do busto de São Lourenço sobre a menorah, o candelabro de sete bocas acesas. Sendo Lourenço um santo graalístico, solar ou luminário, tem-se então retratado o próprio “Senhor da Luz” incarnado no Cavaleiro da Couraça ou Manto Vermelho que é o mesmo Akdorge, expressão fidedigna de Arabel no topo do candelabro celeste (cujas borlas pendentes da figura formam um triângulo representativo da Tríade Superior, Flogística, em formação), ou seja, o dos Sete Fachos Vivos ou Luzeiros de que Arabel, sendo o Quinto dentre eles, é o Primeiro aqui, na Lux-Citânia ou “Terra de Luz”, sim, a Luz Lúcida promanada do Seio da Terra desde o Quinto Posto Mundial em Sintra. Arabel, Samael, Sintra… tudo se enquadra, desde que se saiba fazê-lo à luz da Sabedoria Iniciática afim à Obra do Eterno.

Por baixo da pintura dentro de um caixilho oval, inscreve-se uma legenda latina alusiva ao martírio de São Lourenço numa grelha incandescente:

Adhaes it animà mea post te, quia caro mea igne cremàta est prote, Deus meus.

Tradução:

“Acolhe a minha alma em Ti, porque a minha carne queimada é destruída, meu Deus.”

No chão da igreja estão alguns túmulos junto ao arco triunfal que abre para o altar-mor, cujas tampas sepulcrais inscrevem unicamente uma misteriosa letra aghartina, usada tanto para designar o signo de Aquarius como, sobretudo, o de Makara. É caso para perguntar: quem seriam esses Makaras que escolheram este templo para sua morada eterna?

No exterior da igreja, tem-se no topo da parede traseira, entre a cruz e a rosa, a seguinte inscrição: “Esta obra mandou fazer o reverendo António de Seixas 1750”. O padre António Morais de Seixas, vigário de Pombal (in As Freguesias do Distrito de Brangança nas Memórias Paroquiais de 1758), está retratado sobre o andro antes da assembleia, por debaixo do coro alto, mas o seu rosto foi raspado, apagado de maneira parecendo-me muito propositada. Bem parece que, realmente, os “encobertos” não gostam de desvelar-se…

O autor, VMA, na igreja de Pombal de Ansiães

Chegado aqui, impõe-se o seguinte para evitar confusões estéreis: a Ordem Secreta de Mariz é uma e o Ramo Genealógico de Mariz é outro bem diferente, só tendo em comum o nome. Ainda assim pode acontecer que, por méritos pessoais de destaque espiritual e social, membros da família Mariz tomem conhecimento efectivo da Ordem de Mariz e sejam engajados nela, em casos raríssimos. Mas acontecendo, vão estabelecer a ligação entre a linhagem de sangue e a linhagem eleita (também chamada família espiritual). Neste sentido, observa-se que muitos Marizes genealógicos – alguns apoiados por Marizes secretos, os da Ordem – fundaram comendas e bailios um pouco por todo o país, de Norte a Sul. Tem-se nisso os domínios de Redinha e Pombal, no distrito de Leiria, nesse último tendo apostolado, no século XIII, o presbítero Pedro, o Mariz (“Pedro Omariz, presbítero – falecido aos XVIIº Kalendas Iannuarii Era Mº CCº XLª VIIIº” – in Liber anniversariorum Ecclesiae Cathedralis Colimbriensis (Livro das Kalendas), vol. II, p. 149. Edição de Pierre David e Torquato de Sousa Soares, 2 vols., Coimbra, 1947-48), de ligações íntimas à Ordem do Templo, na época em que haviam desavenças ríspidas com o Cabido da Sé de Coimbra que pretendia assenhorear-se daqueles domínios, indo encontrar pela frente a forte oposição dos templários (vd. Maria Alegria Fernandes Marques, O Litígio entre a Sé de Coimbra e a Ordem do Templo pela posse das igrejas de Ega, Redinha e Pombal, in Jornadas sobre Portugal Medieval, Leiria, 1983).

Pedra com inscrição datada na igreja de Pombal de Ansiães

A origem do ramo familiar Mariz situa-se perto de Barcelos, precisamente na aldeia de Mariz cuja igreja de Santo Emilião, muitíssimo restaurada de cuja traça setecentista pouco resta e da românica nada, fora anteriormente unida ao convento de Vilar de Frades pelo Papa Júlio II, a instâncias do cardeal de Alpedrinha, em 1507, mas já constando das Inquirições de D. Afonso II, de 1220, com a designação “De Sancto Miliano de Maariz” de Terra de Nevia, ainda que a Coroa não tivesse nenhuma jurisdição ou direito sobre os Marizes, e a que tinha seria tão-só para os proteger e apoiar, servindo de “Escudo Defensivo” ou “Círculo de Resistência”, como foi o caso da Ordem dos Cavaleiros Templários (de pendão vermelho – Kundalini) e da Ordem dos Frades de São Bento de Avis (de pendão verde – Fohat). Isso mesmo consta nas Inquirições de D. Afonso III, onde está escrito: “In Judicato de Nevia in parrochia Sancti Miliani que el Rey non est patronus da ecclesia.” – In Teotónio da Fonseca, O Concelho de Barcelos Aquém e Além-Cávado, volume I. Reprodução facsimilada da edição de 1948, Barcelos, 1987.

Como disse, a “Mui Nobre e Antiga Família Mariz” teve o seu solar nesta freguesia, cuja Paço era a Casa de Argemil, depois passada a Morgado dos Ferreiras da Casa de Cavaleiros.

Segundo o Armorial Lusitano – Genealogia e Heráldica (Lisboa, 1961), os Marizes dizem-se descendentes de Mengo de Mery e o mais antigo que se conhece do apelido, em Portugal, se chamou Afonso Nunes de Mariz, casado com D. Maria Carrilho Esteves, filha de Estêvão Gonçalves e de sua mulher, Urraca Afonso. Alguns autores dão a seguinte ascendência a Afonso Nunes de Mariz: Roberto Mengo de Mariz passou de França a Espanha, reinando Afonso VII, e esteve na batalha que Nuno Afonso, governador de Toledo, deu aos mouros de Córdova e de Sevilha, e cortou a cabeça ao rei mouro Bencarra, de Sevilha; o seu filho, Pedro Mengo de Mariz, casou com uma filha de Nuno Afonso e o seu neto, Nuno Peres Mengo de Mariz, viria a casar com Iria Gonçalves Palomeque, de cujas núpcias sairia o referido Afonso Nunes de Mariz.

De entre as suas Armas principais, os Marizes trazem por brasonada a impressa acima: de azul, com cinco vieiras de ouro, postas em cruz, acompanhadas de quatro rosas de prata. Timbre: um leão sainte de azul, sustentando uma vieira do escudo.

Ainda aqui, nesta parte de Trás-os-Montes, sem dúvida a Família Mariz estava instalada nas cercanias de Pombal de Ansiães, mais precisamente a 3,5 kms a que se ligava pela Ponte do Torno a Amedo, aldeia onde subsiste o arruinado solar do século XVIII chamado indistintamente Casa da Carranca ou da Farronca e Casa do Mariz.

Ponte do Torno ligando Pombal de Ansiães a Amedo

Segundo as Memórias Paroquiais de Amedo/Anciães, vol. 3, n.º 64, pp. 491-496, 1758, e os Assentos Paroquiais do Amedo / baptizados, casamentos e óbitos, a origem desse último nome recua ao tronco familiar do Dr. Pedro António Pinto de Carvalho, médico, natural do Amieiro (Alijó), filho de Caetano Gonçalves e de Maria Pinto de Carvalho, casado em 16.8.1811 com D. Senhorinha Teresa Jácome, natural do Amedo, filha de Miguel Jácome e de Maria Jácome. Residiram na Casa na Farronca e tiveram três filhos: José que faleceu solteiro no Amedo, em 20.10.1834; Miguel António, militar, assassinado em Vilarinho das Azenhas quando tentava atravessar o Rio Tua, em 25.4.1847; D. Carolina, batizada no Amedo em 13.12.1817.

D. Carolina Amália de Jesus casou no Amedo, em 26.6.1844, com José Martins da Veiga, natural de Samorinha, filho de José Marins dali natural, e de D. Anastácia da Silva Sampaio, natural de Pereiros. Residiram na Casa da Farronca e ali nasceram: César Augusto, em 12.5.1845; D. Maria, falecida em 4.10.1846; D. Maria da Conceição, em 14.3.1848; João, em 1.7.1849; Joaquim, em 2.2.1851; D. Luísa da Luz, em 19.7.1857; Manuel da Assunção, em 13.5.1860; António, em 9.9.1861.

Joaquim da Veiga Martins casou na Amedo em 5.11.1888 com D. Maria Ermelinda de Sampaio Mariz dali natural, batizada em Águas Revés (Valpaços), filha de Frederico de Sampaio Mariz e Castro e de D. Maria Madalena de Gouveia. Deixaram descendência. Desde então a Casa da Carranca passou a ser conhecida como Casa do Mariz.

A capela privada dessa residência estava consagrada a São Silvestre, o primeiro Papa que se conciliou com o imperador romano Constantino convertido ao Cristianismo, desde então passando a Igreja a ser Católica Romana. Por outra parte, Silvestre é igualmente sinalético do “Homem Verde” (Green Man) indicado na Carranca sobre que assenta a Cruz, no ponto mais alto do edifício (a chaminé), marcando-o como Homem Primordial (Adam) incarnado num colectivo eleito de sigilo mistérico corporizado Ordem de Mariz, afinal a primaz no país, e no continente, como cabeça-guia do Género Humano (Jiva) por se constituir dos seus Maiores. O seu devenir ficaria ligado à Obra Divina de Henrique José de Souza por via dos seus paraninfos espirituais, corria ainda o século XIX mas não deixando de o acompanhar na centúria seguinte. Aliás, o significado derradeiro dessa Milícia hoje assenta exclusivamente no sentido da fundação e realização de toda a Missão e Obra de JHS (Henrique José de Souza). Fora dessas mesmas que são uma só, sobra e sobeja o campeio do delírio e fantasia afins ao comum que ignorando, ainda assim resta-lhe a prodigalidade da invenção que é a ferramenta de eleição de todo e qualquer profano, nisto indistinguindo classes de cultura e de condições sociais. Por maior carisma e fama pública acaso podendo ter alguns desse estatuto, contudo não passam de profanos de venda que veda a luz da “Tradição dos nossos Maiores” (Kurat-Avarat). Ipso facto.

Se nessa casa residia a Família Se nessa casa residia a Família – já de si relacionada há mais de 200 anos àqueles outros familiares Marizes da Quinta da Alegria de Cima, em Linhares, Carrazeda de Ansiães, ligados às fainas do Douro vinhateiro – por sua vez a Ordem desse nome, Mariz, tinha assento em Pombal de Ansiães. Com tudo e pelas inter-relações de famílias e sobretudo as iniciáticas que neste caso a unia e envolvia, tem-se em tudo isto mais um ponto de aproximação do Barão Henrique da Silva Neves a estes lugares transmontanos quase ignotos em seu halo de mistério e segredo no mapa do país.

Casa da Carranca ou Casa do Mariz, Amedo

Para encerrar este estudo dedicado à Excelsa Mãe Divina incarnada na Ordem que A representa como Espírito Santo na Terra, respigo alguns trechos da carta de Dona Helena Jefferson de Souza, esposa viúva do Professor Henrique José de Souza, escrita em São Lourenço (MG) em 28.1.1977, dirigida Aos queridos Filhos de Sintra:

Felicito a todos por tão feliz empreendimento, que vem provar o entusiasmo e amor de vocês pela nossa Obra, a qual teve o seu ponto de apoio, para chegar ao Brasil, aí em Portugal, ou, mais precisamente, em Sintra, que lhe deu grande cobertura espiritual, com o vigoroso impacto dos Gémeos Espirituais pelos braços poderosos do 5.º Bodhisattwa. Notem bem: o 5.º Bodhisattwa no 5.º Posto Representativo. Não é admirável? É tema de meditação.

No Presente trabalhamos para o Futuro. E já que tenho falado tanto em 5.º Princípio, 5.º Sistema, não será demais lembrar que o número 5, ou melhor, o Arcano 5 é a chave numérica do Pentagrama Sagrado, o qual deu origem à forma do corpo humano. A criatura humana, de braços e pernas abertos, é uma Estrela de Cinco Pontas. É o ser da 4.ª Hierarquia com a possibilidade de alcançar o 5.º Princípio Cósmico. Será o sistema endócrino que formará a estrutura humana do 5.º Sistema, como hoje o cérebro-espinal o é do 4.º Sistema. Adianto-lhes que já existem Seres que são frascos humanos que abrigam a Quinta Essência Divina, que desceu dos Céus como Hálito de Deus. Estes são os Orientadores da Humanidade. Ai dela se não existissem esses suportes físicos, garantindo-lhe a possibilidade de evoluir.

Para terminar, um conselho que há tempos dei no Templo: “Sem o Amor Universal nós não podemos trabalhar pela Obra. Tem que haver “esta unidade”. Nós somos “um” aqui dentro; o nosso pensamento tem que ser uníssono, o corpo tem que ser “um”. Então, se Eu sofro, todos sofrem comigo, se o meu Filho sofre, todos sofrem com Ele; se o meu Irmão sofre, todos sofrem com Ele. Tem que existir essa “Unidade Absoluta” aqui dentro”.

AT NIAT NIATAT

(Um por Todos e Todos por Um)

BIJAM

Três documentos originais da Ordem de Cristo (Reformação, Regra e Definições, Ritual de Armação) – Textos organizados por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Abr 8 2019 

 

CONSULTA DA REFORMAÇÃO DA ORDEM DE CRISTO

 

Consulta da Reformação da Ordem de Cristo.

1589 – Dezembro, 13, Tomar.

Biblioteca Nacional, códice 13216.

Publicado: António Maria Falcão Pestana de Vasconcelos, A Ordem Militar de Cristo na baixa Idade Média. Espiritualidade, Normativa e Prática, in Militarium Ordinum Anacleta, n.º 2, pp. 63-93.

(Versão actualizada por VMA)

 

Consulta da Reformação da Ordem de Cristo
(fl. 1)
Título I
Da fundação & criação da Ordem de Nosso Senhor, Jesus Cristo

 

Na cidade sancta de Jerusalém, no ano do Senhor de mil e noventa e seis (Francisco de Rades, na Crónica de Calatrava, f. 3, col. 4) foi instituída a Ordem militar dos cavaleiros templários, confirmou-a o papa Honório Segundo no ano de mil cento e vinte e quatro, e deu-lhes por hábito mantos brancos: Eugénio Terceiro, no ano de mil cento e quarenta e cinco, lhes concedeu que sobre eles trouxessem Cruz vermelha, na feição quase semelhante à dos cavaleiros de São João. Foi o intento desta cavalaria guardar o Santo Sepulcro, e os mais lugares da Terra Santa; por cuja defensão, e das pessoas, que os visitavam faziam guerra de contínuo, contra os Infiéis, havendo deles grandes vitórias. Foi situada a Casa desta Ordem no lugar do Templo de Jerusalém, que estes cavaleiros escolheram para sua principal habitação, e por isso teve esta Ordem nome dos cavaleiros do Templo de Salomão. Cresceu o número, e foram tantos os que entraram nela, de todas as partes da Cristandade, e tão grandes as doações, que todos os Reis cristãos, em seus reinos lhe fizeram, que em pouco tempo, tiveram, e adquiriram por todos eles, muitas rendas, e muitos privilégios, assim dos Santos Padres no espiritual, como dos Reis no temporal. (fl. 1v) Com esta ocasião, se derramaram por todas as partes da Cristandade, assim do Oriente, como do Ocidente, e por estes reinos de Portugal, onde já residiam, quando El-Rei D. Afonso Henriques, primeiro Rei deles, conquistou os Mouros, que o ocupavam, e com sua ajuda e esforço, os lançou fora deles: pelo que, fez a esta Ordem dos templários grandes doações, e concedeu grandes privilégios, sendo Mestre D. Gualdim Pais, depois de vir da Casa de Jerusalém, natural de Braga, criado do dito senhor.

A principal Casa que tinham neste reino, era Santa Maria do Olival, na vila de Tomar, e o castelo dela edificado pelo mestre sobredito, além d’outras casas, castelos, e bailiados que tinham por outras partes deles. Mas todos davam a obediência, e recorriam ao mestre, que residia em Jerusalém, o qual, porque os que governavam cá por estas e outras partes, se chamavam também mestres tinha título de Grã[o] Mestre. Sendo depois destruída a cidade santa [d]e Jerusalém, e as mais cidades da província de Síria, no ano do Senhor de mil duzentos e noventa, se perderam também nela o mestre, e cavaleiros desta Milícia do Templo, e alguns, que ficaram se recolheram por as províncias da Cristandade, nas casas e fazendas da Ordem: e assim o fizeram neste reino, nas partes onde nele tinham suas fazendas e principalmente na vila de Tomar onde em Santa Maria do Olival estão enterrados a maior parte dos mestres (fl. 2) que nesta Ordem houve nestes reinos. Perseverou assim a Ordem dos templários até o ano de mil trezentos e onze, quase duzentos e catorze anos depois de seu princípio, tempo em que era Papa Clemente o Quinto: no qual, no concílio Vienense, que se celebrou no dito ano de mil trezentos e onze e mil trezentos e doze, foi extinta, e de todo acabada a Ordem dos templários authoritate apostolica reinando nestes reinos El-Rei D. Dinis sexto Rei deles.

E porque todos os bens, e rendas, que esta Ordem do Templo tinha ficaram pelo mesmo concílio Vienense reservados à disposição da Santa Sé apostólica, parecendo (no livro da 1 parte, fl. 18, p. 2) a El-Rei D. Fernando o Quarto de Castela, e a El-Rei D. Dinis de Portugal; que o Papa os desse para fora dos seus reinos, mandaram por seus procuradores requerer no dito concílio, que os bens, que dos templários ficavam nestes reinos, e nos de Castela, se não desse, nem alienassem para fora deles, alegando para isto justas causas. Pelas quais, quando o Papa fez doação d’alguns bens dos templários à Ordem de São João de Jerusalém, e seu Hospital, logo exceptuou, e reservou os bens, que nestes reinos de Portugal havia, e nos de Castela, limitando certo termo peremptório aos Reis sobreditos, dentro do qual por seus procuradores mandassem diante dele justificar as causas que alegavam.

Mandou El-Rei D. Dinis seus procuradores ao Papa (fl. 2v) que já neste tempo era (Prima parte, fls. 56 e 57, pte. 2) João Vigésimo Segundo imediato sucessor de Clemente Quinto: e foi eleito Papa no ano de mil trezentos e dezasseis. E entre outras muitas coisas que justificaram, foram as graves injúrias, grandes, e multiplicados males, que os infiéis inimigos da Cruz de Jesus Cristo faziam de contínuo nas partes deste reino, vizinhas às do Algarve, que tinham ocupadas; que com as rendas e bens que ficaram dos templários, sendo para isso aplicadas podiam ter remédio com grandes esperanças do grande acrescentamento da santa Fé católica. E por que a vila de Castro Marim está na fronteira donde os inimigos residiam, e o sítio dela era acomodado para se fortificar, foi da parte d’el Rei D. Dinis, por os procuradores sobreditos informado o Papa, que nela se podiam assentar, e fundar uma nova e santa religião militar; cujos cavaleiros e professores, deixadas as vaidades do mundo, e incitados com zelo da verdadeira Fé, não somente resistiriam às injúrias dos inimigos infiéis, mas ainda os lançariam fora, e recuperariam as outras partes, que por eles estavam tiranicamente ocupadas: e para isto ofereceram ao Papa da parte d’el Rei D. Dinis a dita vila de Castro Marim, com todas suas rendas e jurisdição, mero, e misto Império. E como a petição era tão justa, e o remédio tão necessário, o Papa João Vigésimo Segundo, em Avinhão, em catorze dias do mês de Março, no terceiro ano de seu pontificado, que foi o ano do Senhor de mil trezentos e dezanove (fl. 3) a pedimento del Rei D. Dinis, instituiu (pela bula no livro da 1 pte, fl. 56) e fundou authoritatem apostolica, esta nova Ordem militar para honra de Deus, exaltação da Fé católica, amparo dos Cristãos, abatimento, e opressão dos infiéis: e quis que se nomeasse para sempre Ordem da Milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo: e que a Casa principal dela fosse em Castro Marim, e lhe uniu a igreja paroquial daquela vila com todos seus direitos. E mandou que como em própria Ordem professassem os cavaleiros dela as observâncias regulares da Regra e Ordem de Calatrava, e gozassem de todos os privilégios, liberdades, e indulgências concedidas a seus mestres e cavaleiros. E por este respeito lhe deu por primeiro mestre D. Gil Martins porque era cavaleiro professo, e mestre na Ordem de São Bento de Avis, e por superior e visitador o abade de Alcobaça da Ordem de Cister, por serem as mesmas de Calatrava.

E logo lhe concedeu, doou, uniu, incorporou, e para sempre aplicou as vilas de Castelo Branco, Langroiva, Tomar, Almourol, e todos os outros castelos, fortalezas, bens móveis, e de raiz todos em geral, e em particular, assim eclesiásticas, como seculares, direitos, e também jurisdições, mero, e misto Império, honras, homens, vassalos, com as igrejas, capelas, e oratórios, e seus direitos, termos, e todas suas pertenças, que ficaram (fl. 3v) da Ordem do Templo nestes reinos de Portugal, e dos Algarves, assim e da maneira que os templários as tinham e lhes pertenciam, com as declarações seguintes:

Item. Que o abade de Alcobaça, ou seu logotente receba do Mestre desta Ordem em nome do Papa e Igreja Romana o juramento de fidelidade, na forma, que se declaram na bula desta fundação ibi forma vero, e que o envie à Sé apostólica (não tem hoje pela mudança que houve depois de haver o convento de Tomar).

Item. Que o mestre faça outro juramento aos reis destes reinos de Portugal, perante eles, antes que comecem de administrar o mestrado na mesma bula onde diz videlicet quod ipse magister: e que o Rei seja obrigado a receber o dito juramento dentro de dez dias, depois que por o mestre lho for oferecido, o não lho recebendo, se possa o mestre ir sem mais licença d’el rei e administrar seu ofício de mestre.

Item. Que o mesmo juramento pela mesma maneira façam os comendadores inferiores do mestre dentro do mesmo termo (fl. 4) quando novamente vierem a suas preceptorias na mesma bula onde diz: inferiores quoque.

Item. Que o mestre e comendador-mor desta Ordem, e os outros comendadores nestes reinos venham à corte d’el Rei, e sejam obrigados a fazer a todos os reis destes reinos tudo o que a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, que nestes reinos de Portugal, e do Algarve há, lhes costuma fazer; e que fiquem aos Reis todos os direitos, e servias na Ordem desta cavalaria de Jesus Cristo, que os Reis passados costumavam haver da dita Ordem do Hospital até àquele tempo na dita bula onde diz volumus autem.

Item. Que por morte do mestre, ou vagando o mestrado por qualquer outra maneira, os freires dela, segundo o costume da Ordem de Calatrava elegiam uma pessoa expressamente professa nela, em seu mestre, o qual sem outra confirmação, seja logo ouvido por confirmado authoritate apostolica. E que quando o mestrado estiver vago, seja a Ordem administrada pelos que forem deputados para isso, segundo os costumes e observâncias da Ordem de Calatrava, que manda se guardem na mesma bula onde diz statuimus praeteria.(fl. 4v).

 

Título II

Das cousas que hoje estão mudadas das declaradas

Na bula de fundação desta Ordem

 

[…]

Neste modo e debaixo da Regra da Ordem de Calatrava procedeu esta Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo até o ano de 1449 em que o Bispo de Viseu João, que primeiro o fora de Lamego, por comissão do Papa Eugénio 4 à instância do Infante D. Henrique, filho Del Rei D. João o Primeiro, que então era administrador dela a reformou e fez nova regra, e novas definições das (fol. 7) quais e doutras que depois fez em capítulo geral El Rei D. Manuel no ano de 1503 se usou até agora. E porque logo depois do dito capítulo feito no dito ano de 1503 se duvidou por o dito senhor Rei, cavaleiros e freires desta Ordem se guardando as ditas definições, ficavam desobrigados de cumprir e guardar as observâncias regulares da Ordem de Calatrava, por haver nisto escrúpulos de consciência, o Papa Júlio 2 [1 pte, fol. 155, pág. 2, maxime; fol. 162 vs cum aut sicut] a pedimento do dito senhor no ano de 1502 confirmou as definições e estatutos feitos pelo Bispo de Viseu.

 

Título XXX

Dos Visitadores

 

Pela definição no cap. 37 está ordenado, que em capítulo geral às mais vozes (sic) de três em três anos sejam eleitas duas pessoas da Ordem para visitadores – sendo – um cavaleiro e um vigário, ou freire, e quando se não fizesse capítulo ao terceiro ano, então faria o mestre ou governador por si só estes visitadores, e tomará acerca disto o parecer dalguns cavaleiros que em sua casa estiverem (pareceu que este parecer deve ser dos definidores) e que [os] visitadores sejam tementes a Deus, e instruídos na regra, definições, e costumes da Ordem e hajam juramento de bem e fielmente fazerem seu ofício. E que visitem todos os castelos, vilas, muros, torres, pontes, casas e todos outros lugares das comendas e igrejas segundo o regimento que lhes foi dado pelos definidores do capítulo ou pelo mestre quando ele somente os fizer. E assim visitarão todas as propriedades e possessões da Ordem (para o que pareceu que os comendadores sejam obrigados a lhes mostrar os tombos de suas comendas; e os inventários das cousas delas, conforme ao que se contém no título 27 e 28 na 2 parte) e mandaram reedificar, lavrar, e reparar tudo o que for necessário, assim como nesta definição se contém, e que dêem conta no capítulo de sua visitação, trazendo a ele as visitações. A qual lhe poderá também tomar o mestre, ou governador (fl. 44v) (e pareceu que lhe deve tomar com os oficiais e definidores da Ordem) onde, e quando lhe parecer. E que os ordenados de seu trabalho se lhes declarem, ao tempo que forem mandados a visitar, segundo a qualidade de suas pessoas, à custa da mesa mestral, quando visitarem as cousas dela. E à custa das comendas,  ou doutras cousas dadas a cavaleiros da Ordem, posto que comendas não sejam, porque sempre serão pagos [a]os visitadores as custas dos que as possuírem e tiverem. Pareceu que esta definição se deve assim cumprir como nela se contém, com as declarações sobreditas. E os visitadores não pousem com os comendadores quando os houverem de visitar.

Esta Ordem deve sempre ser visitada por pessoas da mesma Ordem, e assim o manda a definição sobredita que posto que Sua Majestade tem faculdade pessoal para mandar visitar as três Ordens militares por as pessoas que lhe parecer, ainda que não sejam regulares das mesmas Ordens, e sejam seculares por uma bula de Gregório XIII do ano de (15)83 pareceu que achando-se pessoas idóneas das mesmas Ordens [s]e devem visitar por elas e não por outras. Na mesma bula de Gregório XIII se contém que possa Sua Majestade particularmente fazer estes visitadores fora de capítulo o que também diz a definição sobredita.

 

Título XXXII

Das dignidades desta Ordem

 

Depois do Mestre, a primeira e principal dignidade que há nesta Ordem é o D. Prior do Convento de Tomar, há qual é anexa de sua natureza a cura geral de todas as pessoas da ordem como fica dito no título XI e neste lugar depois do Mestre a põem a definição antiga no capítulo 52.

A segunda dignidade é o Comendador mor pela definição da ordem no capítulo 53. No princípio desta Ordem tinha o Comendador mor a administração dos bens do Convento, e punha em arrecadação suas rendas, e mandava entregar ao celeireiro o que era ordenado para o Convento, e o celeireiro provia ao Comendador mor de comer, e beber, e a quinze homens seus, e de cevada para seus bestas. E além deste mantimento tinha 1900 libras. No tempo que os cavaleiros não tinham privilégio para poder testar, pertenciam ao Comendador mor as armas e cavalo[s] dos cavaleiros que morriam pela definição da regra no capítulo 18 o que agora já não é, porque cada um pode dispor em vida  (fol. 46) e por sua morte do que tem livremente, como fica dito no título 5 e assim foi determinado na Ordem de Avis. E ao Comendador mor pertence levar (assim era na Ordem de Avis nas definições fol. 27 1 col.) o estoque diante do Mestre na procissão do capítulo geral.

A terceira dignidade é a do Claveiro pela definição do capítulo 54 [ou só 5]. A cujo ofício pertencem ter as três chaves: e pertencerá ao Claveiro a roupa de vestir, e cama dos cavaleiros quando morriam pelo definição da regra no dito capítulo 18 o que já hoje não [tem] lugar, porque pode cada um dispor do que [tem] livremente como dito é.

A esta dignidade foi antigamente anexa a comenda d’Arredinha e a comenda de 100$000 da Mina, como se vê da definição no capítulo 54.

Depois El Rei D. Sebastião impetrou do Papa Pio 4 (no livro das comendas fl. 192) pelo ofício da penitenciária, que apartasse as ditas comendas d’Arredinha e Mina da dita dignidade de Claveiro, e que os cem mil reais da Mina se tornassem a casa da Mina para a mesa mestral e na Arredinha pudesse erigir tantas preceptorias, quantas lhe parecesse, como consta da bula, que se passou no ano de 1560. Agora pareceu que as ditas comendas de Arredinha e Mina devem ser restituídas à Clavaria por ser dignidade principal e assim que se deve cumprir a dita definição do capítulo 54. E lembrou-se que se devia saber o que importam as rendas que agora tem a Clavaria, e as (fol. 46v) que tinha antigamente, para conforme a isso fazer Sua Majestade o que for mais seu serviço.

O ofício de Sacristão é havido em algumas Ordens militares por dignidade, é ofício honrado que anda em religiosos, e a que pertencem ter cargo das cousas oferecidas ao culto divino, assim como o tem nas igrejas seculares o Tesoureiro mor. Os sobreditos precedem no[s] assentos e lugares a todos os outros comendadores e cavaleiros como se contém no título seguinte.

 

Título XXXIII

Da precedência entre os cavaleiros desta Ordem

 

Nesta Ordem as dignidades sobreditas no título 5 (anterior?) próximo, precedem sempre nos autos da Ordem nos lugares, e assentos a todos os outros cavaleiros, e comendadores, ainda que nela mais antigos sejam, por esta maneira que o D. Prior do Convento irá e estará à parte direita do Mestre, e logo após ele o Sacristão, e freires clérigos, e o Comendador mor à parte esquerda, com o Claveiro, comendadores, cavaleiros, e não estando no dito ajuntamento o D. Prior estará à parte direita o Comendador mor e o Claveiro à esquerda, e daí em diante cada um por sua antiguidade e anciania, o que entre si devem sempre guardar: e o escrivão da matrícula terá cuidado de dar a cada um o lugar que lhe couber. Na procissão que se há-de fazer no princípio do capítulo geral irá (fol. 47) o D. Prior à parte direita do Mestre, e após ele o Sacristão, freires, e priores, por suas antiguidades como é dito: e à parte esquerda o Claveiro e os comendadores, e cavaleiros. E o Mestre no couce da procissão, e diante dele o Comendador mor com o estoque, e após ele o alferes com a bandeira, e por esta maneira se fará nas mais procissões que se fizerem por bem da Ordem, em que houverem de ir as ditas insígnias magistrais.

Os definidores desta Ordem em um dos apontamentos pedem a Sua Majestade haja por bem mandar que em qualquer auto para que forem chamados os comendadores e cavaleiros precedam os comendadores sempre aos cavaleiros que não têm comendas, ainda que sejam mais antigos, guardando os comendadores entre si, e assim os cavaleiros suas ancianias. E pareceu que se devia reservar este particular para o capítulo geral onde podem ser ouvidos os cavaleiros, para o que se lembra, que na Ordem de Calatrava assim está recebido por definição expressa que os comendadores precedam sempre aos cavaleiros.

E porque está ordenado que o hábito desta Ordem se deve sempre receber no Convento de Tomar, como fica dito no título 19 e para que haja efeito, deve o que nele o recebe ter mais alguma preeminência, que aqueles que o tomam fora do dito Convento, ainda que [s]eja por mandado de Sua Majestade como sempre deve ser. Pareceu que quando dois ou mais tomarem o hábito em um dia, um no Convento e outro fora dele, seja sempre preferido na Ordem aquele que recebeu o hábito no Convento a[o] que recebeu fora dele. Os cavaleiros desta Ordem, que foi lançado o hábito dela sem tença, não têm privilégio algum da Ordem, como se declara no título 2 da quarta parte pelo que pareceu que ainda que sejam nela mais anciãos, e antigos que os outros, a que foi lançado com tença não devem entrar em capítulo.

E porque os actos, e ajuntamentos desta Ordem, para que podem ser chamados cavaleiros, e comendadores se podem muitas vezes fazer fora do Convento, nesta cidade ou em outros lugares onde Sua Majestade mandar como governador e administrador dela, e será necessário saber-se da matrícula a ancianidade de cada um, segundo a qual deve preceder no lugar e assento, da qual por estar no Convento de Tomar, se não pode ter cá fácil notícia, parece que na Igreja da Conceição desta cidade haja sempre o treslado dela para se poder por ele saber o sobredito quando cumprir.

 

A REGRA E DEFINIÇÕES DA ORDEM E MESTRADO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

 

A Regra e Definições da Ordem e Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo.

1503 – Dezembro, 8, Tomar.

Arquivo Nacional Torre do Tombo, Série Preta, n.º 1393.

Publicado: António Maria Falcão Pestana de Vasconcelos, A Ordem Militar de Cristo na baixa Idade Média. Espiritualidade, Normativa e Prática, in Militarium Ordinum Anacleta, n.º 2, pp. 63-93.

(Versão actualizada por VMA)

 

A Regra e Definições da Ordem e Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo

 

(…)

Capítulo IX, da eleição do mestre novo

Item. Ordenamos e mandamos que há eleição do mestre se faça como o comendador mor e dom prior e sacristão e claveiro e com nove cavaleiros os mais anciãos que na ordem houver que àquele tempo da eleição poderem ser presentes. E há forma da eleição seja segundo [a] forma de direito canónico e segundo as constituições da ordem assim acerca da pessoa: como modo e forma da dita eleição.

(…)

Capítulo XII, da cura das almas que a Dom prior e ao vigário pertencem

Item. Aprovamos que o vigário que tem cura das almas assim em Tomar e seus termos e em Santiago de Santarém e em outros lugares onde se sua jurisdição estende e isso mesmo da cura prior do convento e das outras pessoas da ordem que por costume absolviam de todos os casos pontificais e ainda dos outros papais não achamos que ao papa a nenhum remetesse: nem achamos expressa autoridade porque se assim fizesse: porém por tolher dúvida e escrúpulo de consciência que em tais casos e muitas partes poderia vir. Por autoridade apostólica declaramos e mandamos que o prior em seu convento e pessoas religiosas: e seus familiares sobre que antigamente teve e tem jurisdição espiritual. E isso mesmo o dito vigário a seus súbditos e pessoas assim eclesiásticas como seculares a que se sua jurisdição estende tenham e tenha prior e vigário aquela autoridade nos casos pontificais que cada um bispo tem em sua diocese, os quais por si ou pelos seus comissários possam fazer e exercitar. E o prior possa para si eleger confessor. E por autoridade apostólica nós lhe havemos por cometidos os casos assim agora como então para o que houver de absolver. E o dito prior por essa mesma ordenamos e estabelecemos que possa dar autoridade ao vigário que para si possa eleger confessor e o possa absolver dos casos sobreditos. E por semelhante guisa possa fazer ao mestre quando o confirmar ou lho requerer.

Capítulo XIII, da jurisdição e liberdades do vigário

Item. Outorgamos e mandamos por autoridade apostólica que o vigário de Tomar use da sua jurisdição direitos e liberdades como sempre usou e teve de costume e como sempre os outros usaram.

Capítulo XIII, como hão-de [re]partir os bens das pessoas da ordem

(…) Estabelecemos por autoridade apostólica que todas as pessoas da ordem assim mestre ou governador ou prior ou comendador mor ou claveiro ou quaisquer outros cavaleiros ou freires ou conventuais ou serventes da dita ordem. Que derem ou pagarem para as obras e ornamentos do convento a metade das rendas que agora igualmente rendem um ano as suas comendas e rendas que têm ou lhes depois forem acrescentadas pela ordem que eles possam fazer de todo o móvel que tiverem até à hora da morte o que lhes prouver livremente. (…)

Seguem-se as definições do capítulo que el Rei nosso senhor governador do mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo fez no convento da vila de Tomar no mês de Dezembro de ano de mil quinhentos e três

(…)

Capítulo II, dos sacerdotes que não forem donários que uma vez na semana digam missa, e os que não são de missa comunguem seis vezes no ano

Além disto os sacerdotes que não forem donários das missas conventuais, uma vez na semana celebrem e digam missa, sob pena de serem privados da ração do vinho. E os que não são de missa as festas abaixo declaradas devotamente confessados receberam a santa comunhão a missa conventual, a saber, por Natal, e primeiro Domingo da Quaresma, dia de Páscoa, Pentecoste, Santa Maria d’Agosto, e dia de Todos os Santos. E os jejuns e silêncio e todas as outras cerimónias de todo sejam guardadas segundo os antigos costumes da dita ordem e nossa regra o manda. E aqueles que disto forem trespassadores asperamente sejam castigados por Dom prior.

Capítulo IV, das obrigações das missas e ofícios que tem dom prior

Item. Porque não achamos em definição nem em estatuto alguma obrigação que dom prior tem das missas que há-de dizer, e ofícios que há[-de] fazer. Conformando-nos com os usos antigos, porque em nosso tempo se saiba, declaramos por essa nossa decisão que o dito dom prior é obrigado de dizer as missas e fazer os ofícios abaixo declarados, a saber,

Terá sua semana como cada um dos outros freires do convento.

Item. Véspera de Natal dirá a missa.

Item. Ao dia de Natal dirá a missa.

Item. Na festa dos Reis dirá a missa.

Item. Dia da Purificação o ofício das candeias, e dirá a missa e alevantará a custódia na procissão. No die Beata Virgo.

Item. Dia de Ramos fará o ofício da bênção deles, e na procissão alevantará a custódia. Ingrediente domino, e dirá a missa.

Item. Quinta feira e sexta e Sábado da semana maior fará todos os ofícios e dirá as missas.

Item. Ao Sábado véspera de Páscoa benzerá o fogo.

Item. Dia de Páscoa dirá a missa.

Item. Dia da Ascensão dirá a missa, e na procissão alevantará a custódia. O Rex Glorie.

Item. Véspera de Pentecoste dirá a missa.

Item. [N]O Dia de Pentecoste dirá a missa.

Item. Dia da Trindade dirá a missa.

Item. Dia de Corpus Christi dirá a missa.

Item. Dia de São João Baptista dirá a missa.

Item. São Pedro e São Paulo dirá as missas d’ambas estas festas.

Item. Dia de São Bento dirá a missa.

Item. Todas as festas de Nossa Senhora dirá as missas.

Item. Vésperas d’Ascensão de Nossa Senhora, e da Nascença dirá as missas.

Item. Há-de benzer os noviços.

Item. Há-de dizer a missa pelo finado presente e fazer todos os outros ofícios.

Item. Há-de levantar todas as custódias da Ma[g]nificat, e Benedictus das festas principais do ano e das festas de Nossa Senhora, e assim as vésperas como nos dias, e todas as demais do Natal, Páscoa, e Pentecoste e dias das doze lições.

E mais além de tudo isto satisfará todas as outras obrigações declaradas nos usos. E estas coisas aqui declaradas não lhas ordenamos ora novamente somente por acharmos que pelos usos e antigos costumes todos os dom priores são a elas obrigados. E mandamos do dito dom prior que tudo assim cumpra e satisfaça por si ressalvando quando tal impedimento ou necessidade extrema tiver para o não puder fazer, porque então o satisfará por quem seu carrego tiver. E porém não sendo de infirmidade pagar-lhes as missas que[m] assim por ele disser.

(…)

Capítulo XIX, dos freires clérigos

Item. O que houver de entrar na ordem para ser freire clérigo, deve de entrar por autoridade de dom prior e outorgamento e mandado do mestre e seja sisudo e tal que em seu ofício faça serviço a Deus e à ordem, e não seja aleijado nem torvado da vista nem da fala nem adorado de tal dor por que seja impedido para não puder servir a ordem em sacerdote.

(…)

Capítulo XXIII, que os freires não saiam fora da cerca do convento sem licença de dom prior

Item. Outrossim porque nenhuma coisa em tanto grau é inimiga ao religioso como andar fora da crausta [claustro] vagando. Estreitamente defendemos por esta definição que nenhum freire não seja ousado de sair fora da cerca do dito convento sem licença de dom prior ou daquele que em seu lugar estiver, quando por ventura ele no convento não for ou que por outra alguma causa está impedido, isso mesmo não seja dada a nenhum licença sem justa causa e se algum sem licença do dito dom prior ou quem seu lugar tiver o fizer seja punido e castigado segundo alvitre do dito dom prior. E assim mesmo quanto ao tempo limitado por ele os tais não vierem indo com sua licença.

Capítulo XXVI, de como dom prior proverá dos benefícios da ordem de que ele pode prover

Item. Porque é coisa justa que os benefícios deste convento de que dom prior pode prover aos freires da ordem sejam dados em capítulo por eleição do dito prior e freires, porque fazendo-se em outra maneira seria coisa muito desordenada. Definimos ordenamos e mandamos que daqui em diante o provimento dos ditos benefícios se faça por eleição do dito dom prior e freires professos em capítulo na maneira que se segue, a saber, o dito dom prior chamará a cabido, e juntos nele todos os freires professos do dito convento, dirá como são ali juntos para ser provido do benefício tal que é vago. E primeiro que outra alguma coisa acerca disto se faça se elegerem as mais vozes dois freires do dito convento para com o dito dom prior ajam de tomar as vozes de todo o cabido. E eleitos estes dois assim às mais vozes ser-lhes a dado juramento por dom prior que bem e verdadeiramente tomem as ditas vozes. E feito assim serão por dom prior e por eles tomadas as vozes de todo o capítulo, as quais logo ali serão vistas e examinadas e aqueles que as mais vozes saírem serão providos do tal benefício e lhes mandará dom prior dar suas cartas e provisões do seu provimento na forma acostumada e que por direito se deve fazer. E nesta maneira se cumprirá e não em outra, e se dom prior d´outra maneira prover algum d´algum benefício. Definimos e mandamos que o tal provimento fique nenhum e de nenhuma força e ficará pelo mesmo caso devoluto ao mestre ou governador para dele prouver de novo qual lhes mais prouver sem mais em tempo algum o dito dom prior poder dele prover.

Capítulo XXX, da eleição do mestre e do modo em que se fará

Item. Por quanto à eleição do novo mestre deve ser feita e ordenada em tal perfeição e modo que se faça segundo Deus e como a ordem possa ser melhor regida e governada a bem e proveito dos cavaleiros e pessoas dela, conformando-nos nisso com as antigas definições e estatutos. Definimos e ordenamos que daqui em diante para em todos os tempos se guarde esta maneira na eleição do mestre.

Primeiramente tanto que o mestre ou governador for falecido, o comendador mor até ser elegido mestre tenha a governança do dito mestrado, e o sacristão do convento tenha o estoque e a bandeira e o selo do mestre, e [o] dom prior do convento fará logo chamar por suas cartas a capítulo geral ao dito convento e não a outro lugar o comendador mor e craveiro e sacristão e todos os comendadores cavaleiros vigários e freires da dita ordem fazendo-lhes saber como assim o mestre ou governador é falecido, e assinando-lhe dia certo a que todos sejam por si em pessoa no dito convento o qual não passe de até dez dias do dia em que o mestre falecer. (…) E sendo assim todos juntos com o dito dom prior, comendador mor, craveiro, sacristão, no dito convento o dito dom prior dirá missa do Espírito Santo (…) E todos assentados no dito cabido e o intróito e verso de Emitte Spiritum Tuum acabado o dito dom prior encomendará que todos muito devotamente se encomendem ao Espírito Santo que alumie seus corações para ali ser elegido mestre qual for mais serviço a Deus e bem da ordem. E dito assim por ele dará o dito dom prior juramento dos Santos Evangelhos ao dito comendador mor craveiro comendadores cavaleiros vigários e freires que no dito convento estiverem que verdadeiramente e sem afeição elejam nove cavaleiros da dita ordem tementes a Deus e de sãs consciências e que bem e verdadeiramente façam a eleição do dito mestre com ele dito dom prior comendador mor craveiro sacristão com que são treze que há dita eleição hão-de fazer. (…) E então feito assim se apartam todos treze para darem as vozes da eleição do dito mestre sem um mais se ver nem falar com o outro, no que o dito dom prior terá grande avisamento para assim se fazer, e cada um dos sobreditos assim apartado dará sua voz ao dito dom prior em escrito cerrado e selado nesta maneira (…).

Capítulo XXXII, da maneira que se terá com o mestre falecido

Item. Quando acontecer de morrer o mestre ter-se a esta maneira, a saber, Dom prior do convento depois que o mestre for falecido o fará enterrar com aquela honra que for acordada com os comendadores e freires que então aí estiverem a custa da despesa do mestrado se o mestre não fizer testamento e se o fizer segundo forma da bula do papa Alexandre oitavo que fala acerca da maneira de testar o mestre e pessoas da ordem seu testamenteiro tenha cargo de fazer seu enterramento (…).

Capítulo XXXIII, da maneira em que se fará dom prior do convento

Item. O prior da casa há de ser freire da dita ordem qual ao mestre bem visto for e que saiba os costumes e regra da ordem e homem discreto e sisudo e conhecido por bom e é lhe cometida a cura das almas e poder de legar e absolver e o regimento do espiritual em todo o lugar sobre as pessoas da ordem.

Item. A Dom prior pertence a cura de todas as almas dos cavaleiros e comendadores e freires no espiritual em todo lugar e assim mesmo dos freires, e somente a obediência reverencial pertence ao mestre.

Capítulo XXXV – De como se há-de fazer vigário

Item. Quando vagar a vigairia de Tomar há-de ser elegido o que houver de ser vigário pelo mestre e convento e apresentá-lo-ão a dom prior. E ele dito dom prior tem poder de o confirmar segundo compridamente é contido na bula do Bonifácio nono e o que houver de ser elegido para vigário há-de ser primeiro professo da ordem e o dito dom prior lhe cometa a cura do povo.

Capítulo LII, do acrescentamento de dom prior

Item. Porque [o] principal ofício e dignidade de nossa ordem depois do mestre é dom prior do convento dela e com razão por sua dignidade deve ser acrescentado em honra e bem. E porque Nosso Senhor para isso tem tanto e cada dia mais ajuda[do] a nossa ordem e ao acrescentamento das rendas dela. Definimos e ordenamos por louvor de Deus e bem da dita nossa ordem e mais acrescentamento do dito dom prior que dom prior que ora é e assim todos os outros dom priores que pelos tempos do dito convento forem tenham e ajam e lhe fique para sempre anexado com o dito priorado tudo o que agora tem, dom prior reservando a igreja de Santiago de Santarém que por ser priorado não [pode] com direito a ser suprimido para sempre. E outorgamos e definimos mais que os cinquenta mil reais que dom prior agora tem de tença em cada um ano na mesa mestral apartadamente de fora da renda de seu priorado contando os dez mil reais que já eram dados ao dito priorado lhe fiquem assim para sempre anexados e dados em préstimo com toda a outra mais renda que tem o dito priorado na maneira que dito é de maneira que com ela tenha e aja em sua vida tudo o que tem e depois de seu falecimento o aja assim mesmo quem aceder ao priorado e assim todos os outros que depois dele vierem.

Capítulo LV, do acrescentamento do vigário

Item. Do vigário de nossa ordem e ofício dela muito honrado e principal e segundo sua jurisdição poderes e autoridade que tem. Deve sempre andar em pessoas honradas e de literatura e tais que nas coisas de nossa ordem proveja e entenda assim como por serviço de Deus e bem dela deve fazer e é ofício de muito contínuo trabalho assim no temporal como no espiritual no que sua jurisdição se estende. Este achamos que não tem da ordem tanto como com razão parece que deve ser pelos respeitos que ditos são. E porque seja acrescentado e receba benefício do que Nosso Senhor nela acrescenta e cada dia mais esperamos com sua ajuda. Definimos e ordenamos que sejam anexados à dita vigairia além da renda que agora tem quarenta mil reais de tença em cada um ano para todo sempre os quais lhe sejam assentados na vintena das coisas da Índia. E começará a vencê-los o vigário que ora é de Janeiro que vem do ano de [mil] quinhentos e quatro em diante e por seu falecimento todos os outros vigários que pelos tempos forem com outra mais renda que até ora teve e é ordenada a vigairia.

 

RITUAL DE ARMAÇÃO NA ORDEM DE CRISTO

 

Formulario de Oraçoens, e Cerimonias para se armarem Cavalleiros, e se lançarem os habitos das Ordens, e Milicias de Nosso Senhor Jesus Christo, S. Tiago da Espada, S. Bento de Aviz, e S. Joaõ de Malta. Dado à luz por Antonio Joze Xavier Monteiro, Cavaleiro Professo na Ordem de S. Tiago, e Tenente Secretário do Segundo Regimento do Porto. Porto: Na Oficina de João Agathon. Ano 1798. Com licença da Mesa do Desembargo do Paço.

(Versão actualizada por VMA)

 

ORDEM DE CRISTO

I

Como se deve armar o Cavaleiro

Quando se houver de armar algum Cavaleiro, o que se faz em uma Igreja, se porá ao lado esquerdo do Altar Mor um bufete coberto de seda, e em cima dele as Armas, que são: espada, murrião, e umas esporas de prata. A este acto assistem três Cavaleiros, um dos quais serve de Padrinho, que deve ser da mesma Ordem, e todos vestidos com o Manto branco; assistindo igualmente um Freire Clérigo, e na sua falta outro qualquer Sacerdote constituído em dignidade Eclesiástica, para fazer as bênçãos do estilo. E estando assim tudo preparado, se apresentará o novo Cavaleiro de joelhos defronte do Altar Mor, e um dos Cavaleiros assistentes trará a espada desembainhada em cima de um prato grande, e posto ao lado do Sacerdote, este paramentado principiará na forma seguinte.

Bênção da Espada

V. Adjutorium nostrum in nomine Domini.

R. Qui fecit Coelum, & terram.

V. Domine exaudi orationem meam.

R. Et clamor meus ad te veniat.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Exaudi quaesumus, Domine, preces nostras, & hunc ensem, quo hic samulus tuus circumcingi desiderat, majestatis tuae dextra dignare bene X dicere, quatenus esse possit defensor  Ecclesiarum, viduarum, orfanorum, omniumque Deo servientium, contra saevitiam Paganorum, aliisque fibi insidiantibus fit terror, & formido, praestans ei, quae in persecutionis, & defensionis fint effectum Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Benedic Domine Sancte Pater Omnipotens aeterne Deus, per invocationem sancti tui nominis, & per adventum Christi Filii tui Domine nostri, per donum Spiritus Sancti Paracliti hunc enfem, ut hic famulus tuus, qui hodierna die, eo, tua concedente pietate, praecingitur, invisibiles inimicos sub pedibus conculcet, victoriaque per omnia potitus maneat semper illaesus.

E logo lançará água benta sobre a espada.

Acabada a bênção da mesma, o Padrinho tomará a espada, e a embainhará, e a cingirá ao afilhado, e depois de a ter cingida, dirá o Sacerdote o seguinte.

Bênção das Armas

V. Adjutorium nostrum in nomine Domini.

R. Qui fecit Coelum, & terram.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Signaculum, & benedictio Dei Omnipotentis Patris X†, & Filii †, & Spiritus † Sancti descendat super haec arma, & super induentem, cum quibus ad tuendam justitiam induatur. Rogamus te Domine Deus, ut illum protegas, & defendas. Qui vivis, & regnas Deus per omnia saecula saeculorum. Amen.

Oremos

Deus Omnipotens, in cujus manu victoria plena consistit, quique etiam David ad expugnandum rebellem Goliam vires mirabiles tribuisti, clementiam tuam humili prece deposcimus, ut haec arma almifica pietate bene †dicere digneris, & concede famulo tuo eadem gestare cupienti, ut ad munimen, ac defensionem Sanctae Matris Ecclesiae, pupillorum, & viduarum, contra invisibilium hostium impugnationem, ipsis libere, & victoriose utatur. Per Dominum nostrum Jesum Christum. Amen.

E lançará água benta sobre as armas, dizendo depois o seguinte.

Benedictus Dominus Deus meus, qui docet manus meas ad praelium, & digitos meos ad bellum.

Misericordia mea, & refugium meum susceptor meus, & liberator meus.

Protector meus, & in ipso speravi, qui subdit populum meum sub me.

Gloria Patri, &c.

V. Salvuni fac servum tuum Domine.

R. Deus meus sperantem in te.

V. Esto ei Domine turris fortitudinis.

R. À facie inimici.

V. Domine exaudi orationem meam.

R. El clamor meus ad te veniat.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Domine Sancte Pater Omnipotens Deus, cuncta solus ordinans, & recte disponens, qui ad coercendam malitiam reproborum, & tuendam justitiam usum gladii in terris hominibus tua salubri dispositione permisisti, quique per Beatum Joannem Baptistam militibus ad se in deserto venientibus, ut neminem concuterent, sed propriis stipendiis contenti essent, dici fecisti, clementiam tuam, Domine, suppliciter exoramus, ut sicut David puero tuo Goliam superandi largitus es facultatem, & Judam Machabaecum de feritate gentium nomen tuum non invocantium triumphare fecisti; ita ec huic famulo tuo, qui noviter jugo militiae colla supponit, pietat Coelesti, vires, fortitudinem, ac fidei, & justitiae defensionem tribuas, & praestes fidei, spei, & charitatis augmentum, & tui timorem pariter, & amorem, humilitatem, perseverantiam, obedientiam, & patientiam bonam, & cuncta in eo recte disponas, ut neminem cum gladio isto, vel alio injuste laeda, & omnia cum eo justa recte defendat; & sicut ipse de minori statu ad novum miles promoventur honorem, ita veterem hominem deponens cum actibus suis, novum induat hominem, ut recte retineat, & recte colat, perfidorum confortitia vitet, & suam proximis charitatem expendat. Praeposito suo in omnibus obediat, & suum in civitate justum officium exequatur. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Dito isto, o Padrinho tomará o murrião, e o porá na cabeça do afilhado, e os dois Cavaleiros assistentes lhe calçarão as esporas, cada um a sua; e o mesmo Padrinho tirando logo a espada da bainha ao novo Cavaleiro, lhe pergunta: Quereis ser Cavaleiro? Responde: Sim. Pergunta-lhe mais: Se promete de guardar tudo o que os Cavaleiros são obrigados a guardar, segundo a Ordem da Cavalaria? Responde: Sim. E logo o Padrinho lhe dará um golpe no murrião com a espada, dizendo: Deus vos faça bom Cavaleiro.

E o Sacerdote dirá então: Esto miles pacificus, strenuus, fidelis, & Deo devotus.

O Padrinho lhe tornará a meter a espada na bainha, e o Sacerdote tomando-o pela mão, lhe diz: Exciteris à somno malitiae, & vigila in Fide Christi, & fama laudabili.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Omnipotens sempiterne Deus, super hunc famulum tuum N. qui hoc eminenti mucrone circumcingi desiderat, gratiam tuae bene † dictionis infunde, & eum dextarae tuae virtute fretum, fac contra cuncta adversantia coelestibus armare pnefidiis, ut nullis in hoc saeculo tempestatibus bellorum turbetur. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Acabada a Oração, o Padrinho tirará o murrião da cabeça ao afilhado, e os dois Cavaleiros assistentes lhe tirarão as esporas, e ele mesmo descingirá a espada da cinta; depois abraça a estes, e aos mais assistentes.

II

Como se deve lançar o Hábito

Concluído o dito acto, o Sacerdote revestido de capa de Asperges, se assentará em uma cadeira de braços ao lado do Altar Mor, e vindo o novo Cavaleiro acompanhado dos Padrinhos, se ajoelhará aos pés daquele, que lhe diz: Que é o que demandais? Responde: A misericórdia de Deus e ajuda desta Santa Ordem. Então o Sacerdote o mandará levantar, e lhe diz depois o seguinte.

“Antigamente como os Cavaleiros desta Ordem viviam em Comunidade, como nas outras Religiões, faziam-lhe, como nelas se costuma, muitas perguntas, e exames, antes de lhe lançarem o Hábito, para verem se tinham algum impedimento, ou enfermidade, com que pudessem ser pesados, ou prejudicar aos outros; e assim lhe perguntavam algumas cousas acerca da Fé, e liberdade de suas pessoas, que para aqueles tempos eram necessárias, e para o de agora usadas; pois o estado, e modo de viver se mudou em a Ordem, nem se recebe pessoa alguma a ela, senão conhecida, e aprovada pelo Mestre que é S. Majestade, e o hão-de ser seus Sucessores, e por isso somente vos farei três perguntas, a que é necessário me respondais.

“Primeiramente se vindes confessado, e comungado, como devem fazer os que novamente houverem de entrar na Ordem, para que recebam o Hábito dela em estado de graça? Responda: Que sim.

“Secundariamente vos pergunto, se tendes feito voto de entrar em outra Religião mais apertada, que esta; porque posto que tendo feito tal voto, entrando, e fazendo Profissão nesta, possais licitamente ficar nela, e conforme a Direito fiqueis absoluto do voto simples, que de antes fizestes, e que fique derrogado com fazer voto solene desta Ordem, seria pecado mortal se quebrantasses o tal voto, ao que esta Religião não há-de dar consentimento, nem favor; e por isso vos pergunto se tendes feito o tal voto? Responderá a verdade.

“Outrossim vos pergunto, se tendes feito algum voto de serviço temporal, como é ir a Jerusalém, ou a Roma, ou a S. Tiago, ou a outros semelhantes lugares; porque ainda que fiqueis desobrigado de todos eles, fazendo Profissão nesta Ordem, que é voto solene, e perpétuo, se todavia os quiseres cumprir, há-de ser com licença do Mestre, sem a qual não podeis daqui por diante sair do Reino; e para efeito somente de saberdes isto, vos faço esta pergunta?” Responderá a verdade.

E respondendo o novo Cavaleiro, que não tem impedimento algum, dirá o que lhe lançar o Hábito o seguinte.

“Ora pois, que pela bondade de Nosso Senhor não tendes impedimento algum, pelo qual não possais entrar nesta Ordem, antes que recebais o Hábito, vos quero declarar as asperezas, e obrigações dela, para que saibais a mudança, que haveis de fazer em vosso estado, e vida, e vejais se vos atreveis a isto.

“Primeiramente haveis de saber, que entrando nesta Religião, e fazendo nela Profissão, ficais obrigado aos três votos substanciais, que são: Obediência, Pobreza, e Castidade, em esta maneira:

“Pelo voto da Obediência renunciais vossa própria vontade, e entregais ao Mestre da Ordem, que é S. Majestade, ao qual, em lugar de Cristo nosso Senhor, pondes sobre vossa cabeça, para lhe obedecer em tudo em que vos mandar, sendo cousa lícita, e honesta, o que é mui dificultoso de cumprir; porque a cousa que o homem mais estima, é a liberdade, a qual perde, fazendo este voto de Obediência, porque muitas vezes quereis descansar, e repousar, e mandar-vos-ão trabalhar, encomendando-vos negócios do serviço de Deus, e da Ordem, e ocupando-vos naquele santo exercício das armas, e guerra, em defensão da nossa santa Fé Católica, para que ela principalmente foi estabelecida; mas quanto este voto é mais dificultoso de cumprir, tanto é de maior merecimento diante de Deus, quando por seu amor os homens se esforçam a guardá-lo inteiramente.

“O segundo voto, que é da Pobreza, não se guarda já como antigamente, quando os Cavaleiros desta Ordem viviam em Comunidade; porque então tudo era da Ordem em comum, e nenhuma cousa própria. Agora sendo já mudado o modo de viver nela, dispensou o Santo Padre Alexandre VI com os Cavaleiros, e Freires da Ordem, que pagando para a fábrica, e obras do Convento os três quartos do que rendem em um ano as Comendas, Tenças, ou Benefícios, que da Ordem tiverem, em dois anos, possam ter próprios, e testar de todos os bens, assim dos que dantes tinham, como dos que depois adquiriram com as rendas da Ordem, e morrendo ab intestato, lhes sucedem seus herdeiros, assim como se Religiosos não fossem; e não querendo pagar os ditos três quartos, não gozam da dita graça, mas ficam sujeitos aos antigos Estatutos da Ordem: porém S. Majestade tem provido como todos paguem, sem haver nisso falta.

“No terceiro voto, que é Castidade, também se dispensou, para que os Cavaleiros desta Ordem pudessem casar, e usar de legítimo Matrimónio, o que antigamente não havia, mas eram obrigados a guardar Castidade, como os outros Religiosos; porém pela dita dispensação não haveis de entender, que vos fica levantado de todo o voto de continência, porque não foi dispensado em mais, que para usar de legítimo Matrimónio. Donde se segue, que se o Cavaleiro desta Ordem, fora de legítimo Matrimónio, deixar de guardar continência, além de pecar como Cristão, pelo preceito Divino, que quebranta, quebranta também o voto, como verdadeiro Religioso, que é; e assim comete em um acto dois pecados, que necessariamente se devem declarar na Confissão. Isto é quanto aos votos.

“As mais obrigações, que vos ficam daqui por diante, segundo a Regra, e Estatutos da Ordem, são as seguintes.

“Primeiramente haveis de trazer de contínuo o Bentinho da Ordem; porque esse é o principal Hábito dela: e assim haveis de trazer sempre em todos os vossos vestidos de fora a Cruz, de maneira que nunca sejais visto sem ela.

“Haveis de rezar cada dia as Horas de N. Senhora, e no fim das Matinas a Antífona, Verso, e Oração da Cruz, e um Pater Noster, e Ave Maria.

“Haveis-vos de confessar quatro vezes no ano, e comungar por Natal, Páscoa, Espírito Santo, e dia da Exaltação da Cruz em Setembro, o que fareis no Convento, se nele vos achardes, e estando fora, podereis eleger Confessor secular, ou Regular.

“Haveis de jejuar todas as sextas feiras de cada semana. Tendo Comenda, sois obrigado a mandar dizer cada ano pelos Freires, e Cavaleiros, que falecerem da Ordem, quatro Missas; e tendo somente Tença, duas Missas.

“Haveis de ter vestido o Manto da Ordem nos dias de N. Senhor, e de N. Senhora aos Ofícios Divinos.

“Sois obrigado a fazer Profissão, logo que receberdes o Hábito, sob pena que o não fazendo, e tendo Comenda, ou Tença, ficareis privado dela ipso jure.

“Quando passardes pela Vila de Tomar, ireis fazer Oração à Igreja do Convento desta Ordem, e tomar a bênção ao D. Prior.

“Haveis de ter sempre o livro da Regra, e Definições desta Ordem, para que saibais as obrigações, que dela haveis de guardar, que guardareis todos os dias da vossa vida.

“Vindes com vontade, e propósito de guardar, e cumprir estas cousas por serviço de Deus, e salvação de vossa alma?”

Responderá o Cavaleiro: Sim. E logo o que lhe lançar o Hábito, dirá: Eu em nome de Sua Majestade, como Governadora, e perpétua Administradora desta Ordem, cujas vezes, e poderes para isso tenho, vos recebo a ela.

E pondo-se o Cavaleiro de joelhos, dirá o Sacerdote o seguinte: Qui incaepit in te Deus, ipse perficiat.

Tomará depois o Bentinho, e lance-lho, e sobre ele o Manto branco com a Cruz de Noviço, dizendo: Induat te Deus novum hominem, qui secundum Deum creatus est in justitia, & sanctitate veritatis. Amen.

E levantando-se em pé o Sacerdote dirá voltado para o Altar o seguinte.

V. Salvum fac servum tuum.

R. Deus meus sperantem in te.

V. Esto ei Domini turris fortitudinis.

R. À facie inimici.

V. Nihil proficiat inimicus in eo.

R. Et filius iniquitatis non apponat nocere ei.

V. Mitte ei Domine auxilium de Sancto.

R. Et de Sion tuere eum.

V. Domine exaudi orationem meam.

R. Et clamor meus ad te veniat.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Praesta, Domine, famulo tuo renuntianti saecularibus pompis, gratiae tuae aperiri, qui despecto diabulo confugit sub titulum Christi: jube eum venientem ad te, fereno vulto suscipi, ne de eo valeat inimicus triumphare: tribue ei brachium infatigabile auxilii tui; & mentem ejus fidei loricâ circumda, ut pericula cuncta, & diaboli tentamenta se gaudeat evasisse. Per eundem Christum Dominum nostrum. Amen.

Acabada a Oração, lança-lhe água benta, e o abraça, e depois se assenta; e o Cavaleiro lhe beija a mão; feito isto, o Sacerdote o manda levantar, e lançando-lhe a bênção, diz o seguinte.

“Até aqui éreis Cavaleiro secular, mas agora sois Cavaleiro da Ordem, e Milícia de N. Senhor Jesus Cristo. Quanto subistes a maior grau, e dignidade, tanto ficais obrigado a mais perfeição de virtude; porque crescendo as mercês da parte de N. Senhor, crescem da vossa as obrigações para o servir, e indigno se faz de receber outras maiores aquele, que das recebidas se mostra ingrato, e por isso a deveis fazer daqui por diante na vida, e costumes. Se até aqui éreis muito zeloso das cousas da nossa Santa Fé Católica, daqui por diante o deveis de ser muito mais; e sendo necessário por defensão dela pôr a vida, vós haveis de ser dos primeiros, que o façais, porque para este efeito foi esta Ordem principalmente instituída. E se até aqui éreis inclinado ao amparo dos órfãos, e das viúvas, a fazer esmolas, e a cumprir as obras de misericórdia, daqui por diante o deveis de ser muito mais, para que a todos sejais exemplo de virtude, e santidade, e conheçam das obras serdes dos verdadeiros Cavaleiros de Cristo, e mereçais por elas receber a sua graça, a qual lhas faça aceitas, e dignas da vida eterna, que ele vos conceda, e a todos os fiéis Cristãos por sua infinita misericórdia. Amen.”

E lhe lança a bênção.

III

Como se deve fazer a Profissão

Em o Sacerdote acabando de dizer o que fica dito, o Noviço se porá de joelhos, e o mesmo lhe pergunta: Que é o que demandais? Responde: Estabelecimento, e firmeza de nossa santa Ordem.

Diz o que recebe a Profissão: “Vós, Irmão, fostes recebido a esta Ordem de N. Senhor Jesus Cristo, e tendes notícia dela, e a que vos obriga, assim como também a mesma Ordem a tem havido de nós, de vossa vida, e costumes; mas ainda estais livre, e sem nenhuma obrigação da Ordem, e a podeis deixar livremente, se vos aprouver, e tornar-vos ao estado secular, e também a Ordem vos pode deixar. E se quereis ser Freire Cavaleiro, e fazer Profissão, para ficardes para sempre nela, sem poderdes tornar ao estado secular, eu em nome da Rainha Nossa Senhora, Governadora, e perpétua Administradora desta Ordem, cujas vezes, e poderes para isso tenho, e os Irmãos Freires dela, por vos conhecermos por bom, e tal, que podeis bem servir a Deus, e à Ordem vos recebemos a ela por Irmão Freire Cavaleiro, e aceitaremos vossa Profissão”.

Responde o Noviço: Praz-me ser Freire cavaleiro desta Ordem de N. Senhor Jesus Cristo, que tenho provada, e com sua ajuda, e favor quero nela fazer Profissão.

É posto o Bentinho, e Manto em cima de um prato grande de prata, o benzerá o Sacerdote na forma seguinte.

Bênção do Bentinho, e Manto

V. Adjutorium nostrum in nomine Domini.

R. Qui fecit Coelum, & terram.

V. Sit nomen Domini benedictum.

R. Ex hoc nunc, & usque in saeculum.

V. Domine exaudi orationem meam.

R. Et clamor meus ad te veniat.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Domine Jesu Christi, qui tegmen nostrae mortalitatis induere dignatus es, obsecramus tuae immensae largitatis abundantiam, ut hoc genus vestimenti, quod Sancti Patres ad innocentiae, & humilitatis indicium abrenunciantibus saeculo serre sanxerunt, tu ita bene † dicere digneris, ut hic famulus tuus, qui hoc usus suerit, induere mereatur. Qui vivis, & regnas in saecula saeculorum. † Amen.

O Sacerdote lançará água benta sobre o Bentinho, Manto, Cruz, e Hábito do Professo, e o que lhe receber a Profissão, lhe tomará as mãos entre as suas, tendo a Carta da sua Profissão diante, e a lerá clara, e distintamente, a qual é do teor seguinte.

“Eu Fr. N. Cavaleiro Professo da Ordem de N. Senhor Jesus Cristo, faço profissão a Deus, e a vós Fulano em nome da Rainha N. Senhora, como Governadora, e perpétua Administradora da dita Ordem, cuja pessoa por sua comissão representais de obediência, castidade conjugal, e pobreza, conforme aos Estatutos desta Ordem até a minha morte, a Sua Majestade, e a todos os Mestres, e Governadores, que ao diante em minha vida canonicamente à dita Ordem vierem; e prometo de viver, e morrer nela, guardando inteiramente seus Estatutos, e Definições, por cuja fé, e testemunho, fiz, e assinei esta Carta de minha mão nesta Igreja de tal, aos tantos dias de tal mês, e ano, &c.”

O que recebe a Profissão despirá logo o Bentinho, e Manto de Noviço ao Cavaleiro, dizendo: Exuat te Dominus hominem veterem cum actibus suis. Amen. E lhe veste o Bentinho, e Manto de Professo, dizendo: Induat te Dominus novum hominem, qui secundum Deum creatus est in justitia, & sanctitate veritatis. Amen. E dirá mais: “Eu em nome da Rainha Nossa Senhora, Governadora, e perpétua Administradora desta Ordem, cujas vezes, e poder para isso tenho, vos recebo, e aceito a Profissão”.

O Professo se levantará depois, e irá pôr a Carta da sua Profissão no Altar, e fazendo inclinação, volte ao seu lugar, e posto de joelhos, o Sacerdote se levanta em pé, e virado para o Altar diz o seguinte.

V. Confirma hoc Deus, quod operatur es in nobis.

R. À Templo sancto tuo, quod est in Hierusalem.

V. Salvum fac servum tuum Domine.

R. Deus meus sperantem in te.

V. Mitte ei Domine auxilium de sancto.

R. Et de Sion tuere eum.

V. Esto ei Domine turris fortitudinis.

R. À facie inimici.

V. Ecce quam bonum, & quam jucundum.

R. Habitare frates in unum.

V. Sit nomen Domini benedictum.

R. Ex hoc nunc, & usque in saeculum.

V. Domine exaudi orationem meam.

R. Et clamor meus ad te veniat.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Domine Jesu Christi, qui es via, sine qua nomo veniat ad Patrem, benignissimam clementiam tuam postulamus, ut hunc famulum tuum carnalibus desideriis abstractum per iter disciplinae regularis deducas, qui peccatores vocare dignatus es, dicens: Venite ad me omnes, Qui laboris, & onerati estis, & ego vos resiciam: praesta, ut haec vox invitationis tuae ita in eo convalescat, quatenus peccatorum onera deponens, & quam dulcis est, gustans tuam refectionem, sustentari mereatur; & sicut attestari de tuis ovibus dignatus es, agnosce eum in oves tuas, & ipse te agnoscat, ut alienum non sequatur, nec audiat vocem alienorum, sed tuam, qua dicis: Qui mihi ministrat, me sequatur. Qui vivis, & regnas Deus in saecula saeculorum. Amen.

Oremos

Adesto, quaesumus, Domine, suplicationibus nostris, & hunc samulum tuum benedicere dignare, cui in tuo sancto nomine habitum sacrae Religionis imponimus; ut, te largiente, devotius in Ordine persistere valeat, & vitam percipere mereatur aeternam. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Oremos

Deus, qui es fons veri luminis, a quo est omne bonum descendens a Patre luminum, essunde super hunc samulum tuum septem gratiae charismata, & sanctae benedictionis tuae fertilissimam copiam tribue ei justitiam. Amen.

Tribue ei fortitudinem. R. Amen. E per hujus vitae laborem cum triumpho gloriae, praemia sempirterna. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Logo o Professo beijará a mão ao que lhe recebeu a Profissão, e este lhe lança a bênção, depois se levanta, e abraça os Padrinhos, e mais assistentes, com que se finaliza este acto.

Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo (da Tradição Histórica à Tradição Hermética) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Abr 1 2019 

Desde os finais do século XIII e durante o primeiro quartel do século XIV, à medida que chegavam a esta parte da Península Ibérica as notícias das atrocidades cometidas pelo rei de França, manipulando o papa contra a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Jerusalém, os templários, o rei de Portugal, D. Dinis, recorrendo à diplomacia de Estado, evocando o estatuto de país independente decisório exclusivo dos seus destinos e do que nele havia, apressava-se a defendê-la e aos seus bens móveis e imóveis contra as arbitrariedades realengas do ambicioso monarca francês, Filipe IV.

A vigilância cerrada que os reis de Portugal exerciam sobre os direitos da Coroa, todavia sem embaraçar os cavaleiros da Milícia Templária de Cristo no livre desenvolvimento do seu mister, explica em boa parte o facto memorável que se conheceu pela inquirição final do seu viver e da sua conduta: nos dois séculos da sua existência no reino nada lhes havia a increpantemente atribuir, se não a admissão de um cavaleiro estrangeiro, sobrinho do sétimo Grão-Mestre. Nunca os templários portugueses se afastaram da lealdade devida ao seu rei, mostrando-se sempre possuídos de afeição pelo imperante e pela pátria[1].

Assim viviam os templários em Portugal quando o bispo de Lisboa, D. João Martins de Soalhães, com alguns prelados, recebeu o encargo do papa Clemente V de submeter a conduta e o viver dos tempreiros portugueses a um exame minucioso, ordem expedida pela bula papal de 12 de Agosto de 1308, Regnum in coelis. Mas nada se encontrou do que o papa tanta desejava para justificar os actos de Filipe IV. Ainda assim, meses depois nesse mesmo ano chegou ao reino nova bula papal, Callidis serpentis vigil, ordenando a prisão de todos os templários daqui e a apreensão dos seus bens. Evitando um confronto aberto com o poder papal, superior ao de qualquer rei do Ocidente, D. Dinis não ignora a ordem pontifícia mas, como grande estratega político que demonstrou ser, contornou-a através dos seus jurisprudentes que decantaram no texto da bula várias interpretações possíveis capazes de contrariar o próprio texto, isso de maneira a favorecer o Templo à luz da jurisprudência da época, a do direito romano que só seria reformado no reinado de D. João I de Portugal. D. Dinis convocou todos os membros destacados da Ordem e, singularmente, um a um, foi os questionando, até que finalmente chegou à conclusão que em Portugal os templários eram inocentes das terríveis acusações de heresias e abusos de poder, usura inclusive, que lhes imputava o rei de França.

Tendo agido assim dentro da lei, “escusado será dizer que, dos templários portugueses, nenhum foi preso. Todos se puderam refugiar no país e em país estranho, escapando assim, não tanto às iras do papa, como às de Filipe. Sem tirar as mãos da questão, o rei de Portugal recebia os bens que o processo ia dizendo que de novo deveria pertencer à Coroa. […] Não só o rei se reconheceu com direito aos bens dos templários. Outros indivíduos e corporações religiosas os reclamaram pelos seus, mas D. Diniz, fino e hábil, soube, pelo seu tacto, não desviar esses bens por outras mãos. […] Não se podia D. Diniz conformar com a ideia da negra injustiça praticada para com os templários e procurava por todos os modos conciliar as várias opiniões»[2].

Já no ano anterior, em 12 de Agosto de 1308, o papa comunicara numa bula a D. Dinis que tencionava convocar Sínodo Geral em Viena para decidir sobre a Ordem do Templo, e convidava o rei de Portugal a estar presente [3]. Nessa bula, Deus ultionum Dominus, descreveu os crimes praticados pelos templários franceses e ordenou aos bispos lusitanos que comparecessem em Viena, a fim de esclarecerem também os delitos dos cavaleiros da sua nação. D. Dinis viu de longe aproximar-se a procela e preparou-se para a receber, antes dela entrar em Portugal. O plano de circunspecção empregado sabiamente pelo rei, nesse grande processo contra a Ordem do Templo, faz supor que ele previa o caminho que seguiria. D. Dinis era conhecedor do poder do papa e do clero, e da influência que ambos exerciam sobre a nobreza e o povo. De maneira que sabia não lhe ser favorável opor franca resistência à medida do sumo pontífice, pelo que recorreu ao lícito das leis pela prudência e precaução calculadas a respeito dos templários em Portugal. Ele não só os julgava inocentes como até benéficos e úteis ao reino e ao trono lusitanos, pelo que a perseguição a eles devia parecer-lhe tão imprudente como injusta. Por isso mesmo, mostrou-se pouco inclinado a abandonar o país para quase confirmar, pela sua presença em Viena, a sentença condenatória, já de antemão pronunciada, que repugnava ao seu poder independente de soberano, assim como à sua prudência política e sentimento de justiça. Contudo, enviou alguns bispos, provavelmente com instruções cuja perda documental se tem a deplorar, comitiva essa liderada pelo seu confessor D. Fr. Estêvão, franciscano, bispo que foi do Porto e de Lisboa, nem sempre bem-quisto pelo monarca[4].

Contudo, o rei não ficou inactivo em casa. Mandou instaurar processo judicial contra os templários, mas não consoante as intenções do papa: nisso Clemente V foi ludibriado o tempo suficiente para que a sua desilusão não pudesse tornar-se nociva a D. Dinis e à Ordem em Portugal. De maneira que os templários portugueses escaparam, apesar de não a conselho do rei mas decerto com o seu assentimento discteto, à prisão e ao confisco dos seus bens que reverteriam a favor do papado. As manobras políticas entraram em acção: imediatamente os procuradores régios de D. Dinis tomaram a maior parte dos bens da Ordem do Templo porque, segundo a razão apresentada, haviam sido ilegalmente separados da Coroa, e assim procederam judicialmente contra os cavaleiros. De maneira que novamente passaram para o poder da Coroa, em 27 de Novembro de 1309, as povoações de Pombal, Soure, Ega e Redinha, funcionando nessa causa, como juízes, o bispo de Lisboa, o prior geral dos franciscanos da mesma cidade e o mestre João das Leis. Em 1310, procedeu-se da mesma maneira, invocando o direito de Estado, com respeito às povoações e castelos de Idanha-a-Velha, Salvaterra do Extremo, Rosmaninhal e outras[5].

Tais processos foram julgados com uma velocidade estranha ao habitual andamento judicial deste reinado. Além do rei, também poderosos eclesiásticos e conventos levantaram, sob diversos pretextos, pretensões aos bens móveis e imóveis da Ordem do Templo. Todavia, o monarca ordenou, em virtude da ausência do Mestre Geral da Ordem e dos seus representantes nomeados, a suspensão dessas reclamações e da penhora dos domínios em questão, até que os templários houvessem defendido a sua causa perante o papa e recebido a sentença final.

Dessa forma chegaram, sucessivamente, todos os bens móveis e imóveis da Ordem do Templo em Portugal ao poder de D. Dinis. Com isso, alguma coisa estava feita. No entanto, ele não ignorava que sozinho não era suficientemente poderoso para resistir à vontade papal. De maneira que procurou uma aliança com os reis vizinhos de Castela, Leão e Aragão, tendo encetado negociações com o rei D. Fernando de Castela, seu genro, em 1309, resultando das mesmas uma convenção entre ambos os monarcas em 21 de Janeiro de 1310, pela qual se obrigavam reciprocamente a conservar para os seus reinos, caso fosse suspensa ou abolida a Ordem do Templo, os bens e rendimentos dela e a defendê-los contra quem quer que fosse[6].

Essa aliança de resistência dos reis ibéricos produziu efeito. Quando Clemente V veio a ordenar a abolição da Ordem do Templo, concedendo todos os bens móveis e imóveis da mesma à Ordem do Hospital, fez uma excepção a favor daqueles soberanos. Fixou-lhes, contudo, um prazo dentro do qual haviam de entender-se e combinar com a Santa Sé sobre a aplicação desses bens. O papa nomeou para administrador dos bens e territórios da Ordem portuguesa o bispo do Porto, D. Frei Estêvão, mas que D. Dinis rejeitou como homem suspeito. No tempo em que ele um simples religioso franciscano da Ordem dos Frades Menores, como contava D. Dinis, “mendigava de sacola às costas”, e o monarca apiedado dele tomou-o sob a sua protecção, elevando-o a seu confessor e depois a bispo do Porto (1310). Pleno de confiança num homem que lhe devia o bem-estar, confiou-lhe o assunto tão importante do Templo e enviou-o ao Concílio de Viena. Quarenta mil libras, que o rei lhe mandara entregar aí, deviam servir para pagar as despesas e para influxo de maior energia à sua oratória.

Mas com a boa sorte do prelado subira também o seu orgulho: o interesse próprio apagara nele todo o sentimento de gratidão para com o seu benfeitor. Afastado da sua vista e longe do juízo dos seus concidadãos, trabalhou unicamente para os seus próprios fins e proveitos, gastando nisso a soma recebida. Concebera o plano de subir à cadeira episcopal de Lisboa e de alcançar a do Porto para o seu sobrinho, pois que a morte do bispo de Braga, durante o Concílio de Viena, proporcionou-lhe o ensejo de alcançar tal dignidade. O rei queria transferi-lo para Braga, mas a cidade de Lisboa, sendo mais influente, prometia à ambição do prelado um terreno mais amplo e mais favorável. De maneira que Estêvão, que sabia servir-se da sua posição, alcançou do papa que o bispo de Lisboa fosse transferido para Braga, e ele próprio para Lisboa (8 de Outubro de 1312), recebendo o seu sobrinho, mais tarde, a diocese do Porto[7]. Em Lisboa é encontrado, ulteriormente, ateando o fogo da discórdia na desgraçada contenda entre D. Dinis e o seu filho D. Afonso, como inimigo declarado do rei; depois, fugitivo e activo na corte do papa, caluniando o seu soberano e benfeitor.

Era esse o homem nomeado pelo sumo pontífice para administrador dos bens dos templários mas que o rei, porém, rejeitou. Foi ele também que, em vez de apressar as negociações com a Santa Sé e de alcançar o que o monarca desejava, sacrificou este desejo ao seu próprio proveito, demorando as negociações pelas suas intrigas. Apesar dessa resistência e de todos os esforços em contrário das intrigas sobre intrigas do bispo de Lisboa, D. Dinis acabou vencendo alcançando quanto aspirava, com firmeza, prudência e perseverança.

O monarca previra o que se iria passar no Concílio de Viena. Quando foi publicada a bula de anulação da Ordem, esse golpe não pôde ferir coisa alguma em Portugal, porque nada existia: os cavaleiros haviam desaparecido; os seus bens estavam em poder de D. Dinis; o administrador do papa achava-se repudiado. O rei soube até frustrar uma tentativa papal para dispor dos bens dos templários portugueses. João XXII, sucessor de Clemente V no trono romano, tomou a liberdade de presentear o seu favorito, o cardeal Bertrand, com a povoação e castelo de Tomar e seus aditos e reditos, um dos domínios mais consideráveis da Ordem (1317). O assunto suscitou reparo. O rei, aparentemente tranquilo, instigou o príncipe herdeiro e alguns nobres do reino a apresentarem um protesto, decisivo e formal. O cardeal desistiu da posse para que estava autorizado por uma bula, e não se falou mais nisso[8]. O papa, porém, adquirira a experiência de que não podia contar com coadjuvação alguma, nem do príncipe herdeiro nem dos grandes do reino de Portugal, que tantas vezes a tinham prestado aos seus antecessores. Também não lhe podia passar despercebido que o rei português trabalhava, com agrado do povo e da nobreza, concedendo protecção à Ordem do Templo. E, de facto, os seus cavaleiros encaminharam-se, passada a borrasca, um após outro para Portugal. Foram-lhes concedidas pensões sobre os bens penhorados; foram tratados com consideração, reconhecidos inocentes maltratados, e, apesar da Milícia estar abolida, não deixaram de ser reconhecidos nos documentos e actos públicos como “antigos Cavaleiros Templários” (quondam Milites Templi)[9].

Era esse o estado geral no Reino quando D. Dinis, em 1318, encetou negociações com a Santa Sé pretendendo que se fundasse sobre a Ordem extinta uma outra em Portugal. De maneira que enviou a João XXII os seus procuradores Pedro Peres, cónego de Coimbra, e João Lourenço, cavaleiro de Avis em Monsaraz, portadores da carta seguinte cuja ortografia galaico-portuguesa medieval (e não o latim eclesiástico como era uso, sinal claro da afirmação política de Estado independente, com línguas e leis próprias) já foi transposta para o português moderno e publicada por Amorim Rosa[10]:

“Saibam quantos as letras desta Procuração virem, que Nós, D. Dinis, por Graça de Deus Rei de Portugal e do Algarve, fazemos e ordenamos nossos procuradores verdadeiros, lídimos e avendosos e especiais mensageiros, o nobre barão João Lourenço, Cavaleiro, e o sagres Barão Pedro Peres, Cónego de Coimbra, nossos familiares, portador ou portadores das presentes letras e cada um pelo todo não seja maior do que os outros mais, o que um começar o outro possa mear e acabar por ganhar por nós e pelos ditos Reinos grandes favores do mui Santo Nosso Padre D. João pela provisão que dê [como] Papa desta Igreja de Roma e para tratar, ordenar e compor com o dito Senhor Papa e com outros quaisquer que creiam que lhes pertence, de haver Reino sobre todos os bens e cada um deles que os freires do Templo em outros tempos tinham em nossos Reinos e sobre todos os outros bens que outra Ordem de Cavalaria qualquer tem ou que costumava ter em esses Reinos e para pôr e ordenar Mestre de Mestres em todos os ditos bens, assim como aos nossos procuradores e a cada um deles parecer que mister é, outorgando a ambos e a cada um geral livre e comprido poder sobre os ditos negócios, e sobre cada um deles. E geralmente para fazerem e usarem nas ditas cousas e em cada uma delas todas as coisas que cada uma delas requeira cumprir, e que é mister desse fazerem, e que Nós faríamos se em nossa pessoa presentes fossemos, ainda que demandem especial mandado; prometendo Nós a haver firme todos os nossos bens que qualquer pelos nossos ditos procuradores ou por cada um deles for feito e procurado nas ditas coisas e em cada uma delas. E em testemunho disto, mandamos selar estas letras de nossa procuração de nosso selo pendente. Dada em Lisboa, aos 12 dias do mês de Agosto El-Rei o mandou fazer. Domingo Anes o fez. Era de 1356 [1318] anos.”

As negociações prosseguiram até que, em 1319, foi instituída canonicamente a Ordo Militiae Jesu Christi, Ordem da Milícia de Nosso-Senhor Jesus Cristo, em Santarém, a 18 de Novembro, fundada sob a aprovação pontifícia da bula Ad ea ex quibus, do papa João XXII, datada de 14 de Março e ratificada pelo rei D. Dinis a 5 de Maio desse ano. Por ela, os direitos de visita e de correição foram entregues ao abade de Alcobaça, na medida em que seguiam a Regra de São Bento, na versão transmitida por Cister à Ordem de Calatrava. A referida bula autorizava ainda a incorporação, na nova Milícia, de Castelo Branco, Longroiva, Tomar, Almourol e de todos os castelos, bens móveis e de raiz, direitos, jurisdições, honras, homens e vassalos que tinham pertencido à Ordem do Templo suprimida por abolição papal. Ainda em 1319, a 26 de Novembro, D. Dinis mandou entregar à Ordem de Cristo todos os domínios que tinham pertencido à Ordem do Templo, que guardara como seu procurador real. Desta forma, foi transformada numa Ordem Nacional cujo signo mor perdura até hoje nas Armas de Portugal, seja nas Forças Armadas, seja em igrejas e mosteiros, seja como comenda de distinção, seja, enfim, como o ex-libris desta Terra Portuguesa.

Ainda em 14 de Março desse mesmo ano de 1319, encontrando-se D. Dinis nos seus Paços de Santarém, antigo solo templário com a sua igreja de Santa Maria de Alcáçova, foi lido com toda a pompa e solenidade, perante o rei, a corte e os prelados, o documento aprovatório da nova Milícia de Cristo, sendo-lhe concedida por Casa-Mãe o castelo e a igreja de Santiago de Castro Marim, Algarve, apesar de em 1357 a transferirem para Tomar, primitiva Casa-Mãe do Templo em Portugal. O texto é o seguinte[11]:

“[…] Nós, tendo entendido diligentemente as ditas causas e razões, e discorrendo nelas com atenta consideração, por amor da segurança e amparo dos fiéis e por muitos bens que, com o favor do Senhor, daí se haviam de seguir; havida primeiro diligentemente deliberação sobre estas matérias com os nossos irmãos, dispusemos de seguir favoravelmente o louvável intento que nesta parte tinha El-Rei. Pelo que, de conselho dos mesmos irmãos e com inteiro poder apostólico, determinamos de proceder na forma abaixo escrita, invocando para isso o Divino socorro. Porque como aquela torpe nação dos ditos sarracenos e inimiga ímpia do nome cristão, que esta fronteira, como se diz, do dito Reino do Algarve com os terrenos vizinhos, tinha aflito o mesmo Reino e seus fiéis, com tribulações e sujeito a vários perigos, e tinha muitas vezes armado sua ferocidade, como ainda agora pretende armar para desterro dos mesmos fiéis em grande ofensa do Supremo Rei, por sucessos, grandor de diversos tempos passados. Desejando Nós, pois, com ajuda de Deus, atentar pelo bem do mesmo Rei e Reinos e fiéis, em razão de quebrantar os nefários intentos dos infiéis, tivemos por bem de ordenar casa de nova Ordem da milícia de Jesus Cristo no dito castelo de Castro Marim. A qual casa decretamos que seja a cabeça da mesma Ordem e damos-lhe a igreja paroquial de Santa Maria do mesmo castelo, da diocese de Silves. E outorgamos e anexamos e juntamos à dita Ordem, com todos seus direitos e pertenças, e para honra de Deus, exaltação da Fé católica, amparo dos fiéis e abatimento dos infiéis. Com autoridade apostólica estabelecemos e ordenamos a dita Ordem na qual deve ter assento a sobredita milícia dos lidadores da Fé, os quais sendo idóneos e constantes nela, professem ordem própria, debaixo da regra de Calatrava, guardando as observâncias regulares da mesma regra, de modo que o mesmo Reino e fiéis dele tanto com maior fervor possam resistir aos ditos inimigos, quando juntas as forças em um se fundam em maior poder. Outrossim estabelecemos com autoridade apostólica e de consentimento dos mesmos nossos irmãos, que a Ordem dos ditos cavaleiros desta nova milícia se intitule para todo o sempre Ordem da milícia de Jesus Cristo. E com a mesma autoridade e de conselho de nossos irmãos, creiamos em Mestre da dita milícia ao amado filho Gil Martins, que até agora foi Mestre de Calatrava e professo na mesma Ordem, de cuja pureza de vida, zelo da religião, madureza de costumes, valor de pessoa, inteireza na Fé, e de outros merecimentos de sua natural bondade, tivemos louváveis testemunhos. […] E se alguém presumir intentar isto, saiba que há-de incorrer na indignação de Deus todo-poderoso e dos seus bem-aventurados Apóstolos S. Pedro e S. Paulo.”

Castelo e igreja de Castro Marim, Algarve, primitiva Sede da Ordem de Cristo

Com a emissão da Ad ea exquibus desencadeia-se uma série de factos probatórios de que a antiga Ordem do Templo reaparecia numa forma nova, precisamente a Ordem de Cristo. O papa intitulou a Milícia de Ordem Militar de Jesus Cristo (Ordo Militiae Jesu Christi) e os cavaleiros de Milites Christi, como se viu e conforme o desejo expresso de D. Dinis. Ora, esse era o nome dado aos templários já anteriormente nos diplomas públicos referentes à sua Ordem, e eles próprios usaram dele alternando-o com o título de templários nos actos civis. Esses primitivos cavaleiros de Cristo seguiam a Regra Cisterciense e estes novos a mesma Regra, apesar de sujeitos à de Calatrava onde professava o Mestre D. Gil Martins. Contudo, a Regra de Calatrava era a mesma de Avis, ou seja, a cisterciense, donde os Milites Christi, segundo a bula papal, teriam como superior espiritual o abade de Alcobaça que procedia, tantas vezes quantas julgasse conveniente, à inspecção “do chefe e membros”, que era mister igual ao que exercia o mesmo abade na Ordem do Templo.

Também a vila e castelo de Calatrava, situada no arcebispado de Toledo (primitiva capital da Hispânia), fora antigamente dos templários, que não a tendo podido defender dos agarenos a largaram a el-rei D. Sancho de Portugal para que a defendesse, o que foi feito por D. Raymundo, abade de Santa Maria de Fiteiro, da Ordem de Cister, e seu companheiro, o cavaleiro Diogo Vallasques. De maneira que o rei português lhes fez doação dessa vila em 1157 e D. Raymundo estabeleceu aí a nova Ordem de Calatrava, confirmada pelo papa Alexandre III em 1164. Por estes monges-guerreiros terem estado muito tempo sem Regra alguma e havendo Capítulo Geral da Ordem de Cister, foram nele recebidos como irmãos, ficando sujeitos ao abade de Santa Maria de Alcobaça. Por tudo isso, mesmo seguindo a Regra de Calatrava os Mestres da Ordem de Cristo prestavam o juramento em nome do papa nas mãos do abade de Alcobaça, velha tebaida de Saber Bernardino/Templário, e perante os reis de Portugal.

Como na Ordem do Templo, o Grão-Mestre e os outros superiores da Ordem de Cristo eram obrigados, antes de começar os seus cargos, a prestar juramento de lealdade ao rei. Como aos templários, assim aos cavaleiros de Cristo era proibido alienar bens da sua Ordem, dentre outras analogias entre ambas as Milícias.

Não se deve estranhar que o papa nomeasse o Mestre da Ordem de Calatrava, D. Gil Martins, transferido de Avis a esta, para Grão-Mestre da Ordem de Cristo. Como disse, os cavaleiros de Avis e de Calatrava seguiam a Regra de Cister, tal como os templários, e esse procedimento do papa estava em harmonia com o que então andava em uso: por exemplo, nomeava-se um religioso de uma abadia para aos irmãos de outra da mesma Regra os instruir nos seus deveres e funções, a fim de levantar a abadia decaída, neste caso, a Ordem abolida na nova em bula sob nova feição. Só dessa vez o papa nomeou um Grão-Mestre, interferindo directamente na sua escolha. Depois do seu falecimento deviam ser, segundo a bula de fundação, os próprios irmãos da nova Ordem a eleger um Grão-Mestre, que tinha de ser um membro da mesma.

Todos os bens móveis e imóveis que a Ordem do Templo possuíra em Portugal e no Algarve, todos os domínios, com todos os direitos e privilégios, foram adjudicados, como propriedade, à Ordem de Cristo, por decisão directa do rei D. Dinis. Não só ordenou em 26 de Novembro de 1319 a entrega de todos os domínios da Ordem do Templo à de Cristo[12], declarando sem efeito todas as sentenças judiciais que, por cuja força de lei, lhe adjudicaram os bens dos templários aquando da sua abolição, como também mandou restituir aos cavaleiros de Cristo os rendimentos cobrados pelos almoxarifes régios nos bens do Templo, desde a sua extinção[13]. Finalmente, para coroar a sua empresa concedeu à Ordem de Cristo, para estabelecimento da sua Casa-Mãe, o castelo e povoação de Castro Marim, no Algarve, sob o pretexto das necessidades de defesa do Reino perante a ameaça constante de invasão pelo Sul pelos muçulmanos de Granada e Marrocos, mesmo não constando que os cavaleiros de Cristo alguma vez aí se tenham batido com eles[14].

De maneira que originalmente a Ordem de Cristo teve aí o seu convento e castelo, sendo onde viveram os primeiros noviços que nela ingressaram. Segundo os registos que existiam no Arquivo de Tomar, os primeiros membros admitidos em Castro Marim pelo Grão-Mestre eram antigos templários, e, o que aparecia ainda mais notável, é que gozando da liberdade se não se apresentassem à admissão na nova Ordem dentro do prazo de três meses seriam forçados a isso, sob pena de castigos espirituais[15]. O próprio D. Vasco Fernandes, último Mestre dos Templários portugueses, faleceu sendo comendador de Montalvão professo na Ordem de Cristo.

Depois de investidos alguns cavaleiros, pensou o novo Grão-Mestre em dar posição e firmeza à Ordem com novas ordenações e leis, em rejuvenescer a Instituição e regular a sua administração. Para esse fim, convocou em Lisboa, em 11 de Junho de 1321, no antigo convento dos senhores do Templo, um Capítulo, que consistia, na maior parte, de membros dessa Ordem. Tomou-se como base as constituições dos cavaleiros de Calatrava, que lhes permitia assumir uma atitude missionária ante o século fora dos paredes dos conventos e que viria a ser “pedra angular” do processo ecuménico da Ordem de Cristo no Mundo, mormente no Período Henriquino e das Descobertas Marítimas. Pelo cálculo dos rendimentos da Ordem de Cristo, fixou-se que ela devia contar, pelo menos, com oitenta e quatro membros, dos quais sessenta e nove seriam cavaleiros (freires cavaleiros) e os restantes irmãos religiosos (freires clérigos). Além destes, fixou-se o número de dez cavaleiros para acompanharem permanentemente o Grão-Mestre. Não podiam possuir nenhuma comenda e tinham de sustentar-se dos bens destinados para a Mesa do Mestre (Mesa Mestral), que se compunham dos rendimentos que a Ordem usufruía das suas propriedades nos territórios de Lisboa, Alenquer e Santarém (exceptuando as comendas de Pinheiro e Casavel). Não muito depois da reunião deste Capítulo, morreu D. Gil Martins (13 de Novembro de 1321). Deixou a Ordem de Cristo num estado florescente, acompanhando-o para a sepultura a fama de que havia sido um Mestre e pai zelosamente activo e sinceramente cuidadoso para com os seus filhos.

 

Ritual de Investidura na Ordem de Cristo
(Pintura moderna de autor anónimo)

Finalmente, em 1357 os antigos monges-guerreiros do Templo regressam a Tomar, agora envoltos no manto de Cristo, este mesmo idealização do velho mito Templário, o Sudário do Salvador, e aí fixam doravante a sua Casa-Mãe[16]. Desta incarnação militante do Templo em Cristo fala Fr. Bernardo da Costa, professo e cronista dessa nova Ordem Religiosa e Militar, em seu Compêndio Histórico escrito entre 1771 e 1775:

“Estas são as notícias que me parece eu dever dar ao público como devidas à História da Ordem Militar de Cristo para que me destinou a obediência. Sem elas ficava a sua História muito falta e diminuta, pois, sendo a Ordem de Cristo fundada nas ruínas da do Templo e sua herdeira universal, sendo património seu quanto adquiriram os cavaleiros do Templo em Portugal pelo preço do sangue e das vidas, pois, nas Campanhas, servindo a Fé e ao Rei, as entregaram tantas e, entre estes, dos seus Mestres eles foram ao menos cinco.”

Quanto à localização da primeira Sede da Ordem de Cristo, Fr. Bernardo da Costa (in História da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, dedicada a El-Rei D. José I, cap. II, pp. 39-40) rebate alguns equívocos levantados em seu tempo referentes ao assunto:

“Um dos enganos em que se embaraçam alguns Autores que escreveram como dissemos das cousas da Ordem, foi em quererem persuadir-nos que o Convento transferido de Castro Marim não fora mudado e edificado imediatamente para Tomar. Dizem uns que fora edificado em Montalvão, outros que em Castelo Branco. É intolerável este engano… A Ordem jamais teve outro que o primeiro em Castro Marim e depois o segundo imediatamente em Tomar.”

Além de terem readquirido o seu primitivo domínio tomarense, estes freires de Cristo também se assemelhavam pela indumentária aos seus antecessores templários: trajavam o hábito cisterciense, adoptado pela Ordem de Calatrava, com escapulário branco, e a sua insígnia crucífera, oficializada em 1330 mas decerto sendo anterior, era em tudo semelhante à do Templo: interiormente a grega, de cor branca, e exteriormente a vermelha pátea ou triangulada nas pontas de maneira a formar rodela, ou seja, a fechar-se sobre si mesma.

Igualmente a estrutura hierárquica da Ordem de Cristo era muitíssimo semelhante à do Templo, como se repara no composto seguinte:

ORDEM DE CRISTO

MESTRE (Geral da Ordem)

PRIOR-MOR (Superintendente espiritual)

COMENDADOR-MOR (Superintendente temporal)

CLAVEIRO (Responsável pelas chaves das Casas da Ordem)

SACRISTÃO-MOR (Responsável pelas festividades religiosas)

ALFERES-MOR (Cabeça de cavalaria e porta-bandeira)

FREIRE CAVALEIRO (Sempre de nobreza reconhecida)

FREIRE CLÉRIGO (Prior ou sacristão)

NOVIÇO (Na Regra, nos Estatutos, na Religião e nas Armas)

Quanto aos Mestres Gerais da Ordem de Cristo, segundo autor anónimo oitocentista[17], foram os seguintes:

1 – D. Gil Martins, governou 3 anos e morreu em 1321.

2 – D. João Lourenço, 5 ditos e morreu em 1326.

3 – D. Martins Gonçalves Leitão, 8 ditos e morreu em 1335.

4 – D. Estevão Gonçalves Leitão, 9 ditos e morreu em 1344.

5 – D. Rodrigues Annes, 14 ditos, e renunciou ao Mestrado.

6 – D. Nunes Freire d’Andrade, 18 ditos e morreu em 1372.

7 – D. Lopo Dias de Souza, 46 ditos e morreu em 1417.

8 – Infante Henrique de Sagres, 40 ditos e morreu em 1460.

9 – Infante D. Fernando, 10 ditos e morreu em 1470.

10 – D. Diogo, Duque de Viseu, 14 ditos e morreu em 1484.

11 – D. Manuel, Duque de Beja e Rei, 37 ditos e morreu em 1521.

12 – D. João III, Rei, 35 ditos e morreu em 1557.

Foi durante o reinado desse último monarca que a Ordem de Cristo sofreu alterações profundas que a remeteriam à esterilidade da clausura, abolindo completamente o seu sentido de missão e diáspora a ponto de, já no período da regência do cardeal-rei D. Henrique (1578-1580), pensar-se seriamente em extingui-la. Com efeito, em 28 de Julho de 1529, tendo em 1531 recebido aprovação do acto pela bula papal, Exposcit debitum, de Clemente VII,  D. João III acometeu a reforma da Ordem ao dominicano Frei António Moniz, natural de Lisboa, tendo expulso os antigos freires de Cristo que se opuseram a ela e imposto a clausura aos restantes[18], elaborando-se novos estatutos afins a essa nova condição de cárcere, conformados à Regra de São Bernardo destinada aos clausurais. No ano seguinte, prosseguiu a reforma espiritual acompanhada da reforma temporal da Ordem de Cristo, e na sua Sede em Tomar, o Convento de Cristo, teve início a campanha de obras pardas que alterariam por completo a feição primitiva dessa Râbita Templária. Tal reforma de Frei António de Lisboa só seria abolida em 1789. Em 1551 e por bula do papa Júlio III o Mestrado, Governação e Administração da Ordem de Cristo foram incorporados na Coroa portuguesa, passando a ser chefes dela os reis e rainhas de Portugal. Com D. Sebastião passa a ser um cargo vitalício que ele, em 20.1.1576, intentou substituir pela sua Ordem da Cruz de Nossa-Senhor Jesus Cristo ou Ordem Militar da Seta de S. Sebastião, larária de duração efémera, e com a reforma D. Maria I, em 1789, mesmo existindo como Ordem monástico-militar realmente já não é mais do que simples título honorífico[19].

Mesmo antes de D. João III a Ordem de Cristo já começara o seu declínio, devido às interferências nocivas de D. João II, ambicioso das riquezas da Milícia, que chegou ao ponto de, dentro dos Paços de Setúbal, apunhalar mortalmente pelas costas, num acto traiçoeiro indigno de humanidade e de um rei de Portugal, o 10.º Grão-Mestre e Administrador da Ordem, D. Diogo, duque de Viseu. A Milícia de Cristo estava de tal modo decaída na época do cardeal-rei D. Henrique que ele conseguiu, do papa Gregório XIII, uma bula que a extinguia. A extinção só não se efectuou porque Frei Duarte de Araújo, procurador da Ordem, se dirigiu a Roma e de lá trouxe instruções em contrário[20].

Como ficou dito, o 1.º Mestre Geral da Ordem de Cristo foi D. Gil Martins, Mestre de Calatrava e de São Bento de Avis. Tendo a Ordem se instalado inicialmente em Castro Marim, por sugestão do rei ao papa que a aprovou na sua bula, mais tarde o Mestre, por conselho da Ordem e já não do papa, transferiu o seu principal assento para a vila de Tomar, com assentimento do rei D. Pedro I, tendo D. João Vicente, bispo de Lamego e sendo-o já de Viseu, na reforma posterior que fez na Milícia pela bula papal Auctoritate Apostolica,de 1449, aprovado e confirmado a referida trasladação para o convento de Tomar, ficando aí a cabeça da Ordem[21], como a tinha sido em Castro Marim (ficando nesta as propriedades agrícolas e uma comenda da Milícia). Depois, a reunião capitular de 1503 marcou o momento de viragem na Ordem de Cristo: foi quando D. Manuel I participou dela na sua dupla qualidade de rei do País e de administrador da Ordem. Determinou-se que os freires receberiam vários donativos régios, desde que se confinassem ao seu “mester”, passando essas regalias pela melhoria das condições de vida dos religiosos, inclusive na assistência sanitária[22]. Se o poder e riqueza da Ordem já era grande, passou a ser muito maior, rivalizando ou mesmo superando o da Coroa, e certamente terá sido esse o motivo para a reforma fatal que D. João III lhe impôs.

Hábito e escapulário dos freires reformados da Ordem de Cristo. Reprodução fiel do hábito e escapulário a que ficavam obrigados os freires de clausura criados pela reforma de Fr. António de Lisboa (1529). Aos professos só de nove em nove anos lhes era permitido renovar o velho hábito e, mesmo assim, a arbítrio do rei e dos juízes do Tribunal de Consciência e Ordens. Em 1759, um hábito novo importava em 2000 cruzados (cf. Fernanda Olival, As Ordens Militares e o Estado Moderno: Honra, mercê e Venalidade em Portugal (1641-1789), revista Estar, pp. 237-282, Lisboa, 2001; da mesma autora, Mercado de hábitos e serviços em Portugal (séculos XVII-XVIII), revista Análise Social, vol. XXXVIII, 2003, Departamento de História da Universidade de Évora). 

Sob a Regra de Calatrava procedeu sempre Ordem de Cristo até 1449, altura em que o bispo D. João, por comissão do papa Eugénio IV e a instâncias do Infante D. Henrique (então o seu 8.º Grão-Mestre e Administrador Geral), a reformou e deu-lhe nova Regra de inspiração Bernardina, confirmada por D. Manuel I no Capítulo Geral de 1503, pela qual os cavaleiros de Cristo ficaram desobrigados de seguir daí em diante a de Calatrava, prerrogativa confirmada pelo papa Júlio II em 1505, e por Paulo III em 1542, que também revogou a superioridade que nela tinham os abades de Alcobaça.

A última mudança que houve depois da fundação da Ordem de Cristo foi que, vagando o Mestrado, não se elegesse para ele pessoa professa nela, nem se fizesse juramento de fidelidade aos reis do reino, como anteriormente. Isso porque os Mestrados das Ordens de Cristo, de Santiago e de Avis haviam sido unidos e incorporados na Coroa nacional pelo papa Júlio III, em 1551, reinando D. João III, e a sua administração concedida a partir de então aos reis e rainhas de Portugal.

A Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, tripartida genericamente em Mestre – Professo – Noviço, comportou inicialmente três votos de profissão: Pobreza (revogado depois por dispensa apostólica), Castidade (o que também foi revogado), Obediência. Além desses tinha ainda, como os antigos templários, os de Fraternidade, Hospitalidade e Prelecção. Também as suas insígnias, como já disse, eram semelhantes às da sua antecessora templária: cruz branca centrada e marginada de vermelho sobre hábito branco.

Como divisa a Ordem adoptou o lema do imperador Constantino, In Hoc Signo Vinces (“Com este Sinal vencerás”), o qual é a sua própria Cruz Emérita, decalcada da templária como signo máximo da Cristandade, e desde cedo ela foi considerada bentinha, salvífica, portanto, quer pelo povo geral como pelo Infante D. Henrique, D. Manuel I e todos os demais que a levaram consigo tanto na cavalaria da terra como na do mar, e isso tem algo a ver com a Regra Beneditina professada pela Freiria de Calatrava e de Cristo. Veja-se como, indo à hagiografia do próprio São Bento.

Os feitos da vida de São Bento de Nursia (480-547) são sempre narrados a partir do que narrou o seu primeiro biógrafo, São Gregório Magno, e prescindindo dos inúmeros acontecimentos pressupostamente sobrenaturais que se lhe atribuem para potencializar a sua santidade, denotam-se as características de um verdadeiro Iniciado que soube impregnar de transcendência cada instante da sua vida, aproveitando as circunstâncias que se lhe punham ao alcance.

A Regra dos Mosteiros que lhe é atribuída, foi a única capaz de unificar as mil tendências cristãs em que vagava a vida cenobítica e eremítica no primeiro milénio do Cristianismo. A Regra Beneditina, acercando-se grandemente da Regra Latina do Templo (ambas constam de 72 capítulos mais um inicial ou intróito), demonstra o valor humano de uma transcendência à flor da pele, na qual todos os caminhos da Iniciação ficam abertos sem que, todavia, nenhum chegue a insinuar-se. Nela também se reserva o mistério da Tradição Primordial manifestando-se hermética ou subterraneamente, desde citações evangélicas precisas até ao número preciso e estrito dos capítulos que a compõem[23].

Realmente, os 72+1 capítulos da Regra de São Bento respondem a razões numerológicas em que intervêm as cifras 1+72, números chaves da Unidade integrada num conjunto múltiplo de 12 (12×6), por sua vez esquema cabalístico em que o 70 corresponde à letra hebraica Ayin, significando “Providência Divina”, como estado de alerta da consciência, e o 2 à letra Beth, relacionada com a sephiroth Chokmah, a do Filho, do Messiah, do Cristo como “Projecção Divina da Sabedoria” retida por aquela Milícia levando o nome do Salvador: Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo.

A própria Cruz da Ordem de Cristo contém em si o conjunto múltiplo de 12, nos lados dos seus triângulos ornando os extremos da Cruz Latina: 12 lados totais por 6 parciais dos triângulos laterais ou verticais, o que a faz corresponder ao valor 73 da Regra. Ela constituiu-se a partir do octógono (cujo valor 8, para a Cristandade, era indicativo da Perfeição), sendo possível observar que as serifas das hastes da cruz grega formam um ângulo de 45 graus com a sua base, e as linhas que compõem o formato do desenho do logótipo podem ser obtidas a partir da ligação com as rectas dos vértices do interior do polígono octógono, associado a linhas paralelas aos lados[24].

A Cruz de Cristo, tornada célebre com a Diáspora Marítima dos Portugueses no Mundo e que hoje é o ex-libris das Armas Nacionais, possui, com efeito, uma relação privilegiada com a simbologia tradicional que vem a revelá-la dotada das mesmas propriedades miraculosas já antes atribuídas à Cruz Templária (por se lhe atribuir a maioria dos milagres que ocorriam sob a sua invocação), e se até as cores de ambas é a mesma, o vermelho indicativo do Sangue Real de Cristo, também, como se viu, é igual o seu esquema geométrico. A única diferença notável é que apesar de ambas serem cruzes gregas as suas hastes são aparentemente diferentes, as do Templo evoluírem da forma de acha para triângulo naquelas da de Cristo, para designar as Divinas Pessoas da Santíssima Trindade. Esta última é, então, a verdadeira e salvífica Cruz de Cristo, heraldicamente solta ou navegante gravada nas naus da Diáspora Portuguesa, inspirada nos Preceitos de São Bento e nos Latinos de São Bernardo, como simbólica da: 1 – Intuitio, 2 – Sapientia, 3 – Magisterium, afinal, In Hoc Signo Vinces!

Se a Ordem do Templo possuiu na Península Ibérica uma missão desbravadora e semeadora de novos e mais amplos conceitos culturais, religiosos e sociais, contudo, seria a Ordem de Cristo a cuidar dessa mesma sementeira e colheita no crisol da evolução universal por via da expansão marítima, o que resultou na Lusofonia e na Lusofia em todas as partes do Mundo aonde o Génio Lusitano chegou.

Apesar de haver quem considere que D. Dinis tão-só pretendia fomentar a guerra com a moirama da Granada vizinha e para isso ordenou a instalação dos cavaleiros de Cristo em Castro Marim, “que era na fronteira dos mouros de Espanha e de África”[25], o facto é que eles, sediados desde 1319 na dita praça algarvia, não empreenderam qualquer acção militar contra o Islão granadense e muito menos atravessaram o mar para os ir atacar no Magreb. O mais que houve, em sucessos militares, foram as lutas de defesa da fronteira contra as pretensões ocupantes do rei de Castela[26].

Inteiramente ao avesso da crença ordinária nas intenções militares da Ordem de Cristo contra o Islão no Sul do País, creio antes que D. Dinis ao sugerir a sua instalação no Algarve pretendia estabelecer ou aprofundar os laços culturais e espirituais com a tradição arábica, rica em conhecimentos cartográficos, de navegação, matemáticos, astrológicos, etc., necessários a uma futura empresa de alargamento das fronteiras marítimas do reino. Para esse processo se tornar viável, o “Rei Lavrador” ordenou o plantio de pinhais (Leiria, Azambuja, Santarém, etc.) a fim conseguir a madeira suficiente para a empresa das naus que levariam em suas velas enfunadas a Cruz de Cristo aos confins do Mundo. Isto mesmo diz o Abade Correia da Serra[27]: “Encontram-se às vezes coincidências extraordinárias nos acontecimentos. Este mesmo soberano [D. Dinis], que com tanta solicitude tratou de reconstruir a Ordem [do Templo], plantou vastas florestas de árvores, próprias para a construção de navios, em terrenos incultos próximos do mar. Estes cavaleiros, e estas florestas, se tornaram, um século depois da sua morte, os imediatos instrumentos da grandeza da nação, e de uma das mais extraordinárias revoluções de que a História faz menção”.

O projecto marítimo idealizado por D. Dinis terá começado a amadurecer por volta de 1315-16. Foi por essa altura que o rei mandou procurar um sucessor para o então falecido D. Nuno Fernandes Cogominho, primeiro detentor do título de “almirante-mor”, e em princípios de 1317 (1 de Fevereiro) foi contratado o experiente navegador genovês Manuel Pessanha ou Pezagno. Logo no ano seguinte, Agosto de 1318, D. Dinis enviou os seus embaixadores ao papa para lhe apresentarem a proposta e petição de criação da Ordem de Cristo.

Na conjunção dessas duas diligências estarão os primeiros passos para o início da execução do projecto marítimo de D. Dinis.

Que ele não pretendia qualquer acção militar contra o Islão, bem o diz o longo e exaustivo contrato firmado pelo almirante-mor Pezagno, colocando em pé de igualdade tanto cristãos como mouros: “E prometo, por este juramento que faço, vos servir contra todos os homens do mundo, de qualquer estado ou de qualquer condição que sejam, tanto cristãos como mouros”[28].

Assim foi feito. Assim foram lançadas a terreno as sementes de um Império Temporal que atravessou os séculos e uniu os mais diversos povos, até hoje falando a língua única portuguesa. Sim, sem dúvida que D. Dinis era um Rei Iluminado, tanto pelo Ideal Templário que atravessou o seu tempo e de cuja Ordem terá sido donato, já que trovador e fiel de Amor certamente o foi[29], tanto quanto a sua real esposa, D. Isabel, passada à História como Rainha Santa, ambos cultíssimos do Divino Espírito Santo[30], ela que veio para Portugal impregnada dos ideais paracléticos do joaquimismo dominantes na corte ilustrada de seu pai, o rei Pedro III de Aragão, ideais esses igualmente presentes na Igreja Portuguesa, mormente no primaz Rito Bracarense, moçarábico de raiz e parúsico de fim, motivo da sua oposição, ou melhor, de boa parte do vicariato da Sé Portuguesa apoiada pela Coroa, ao Rito Romano, motivo religioso e político dos inúmeros anátemas papais aos reis portugueses, cujo conflito aberto e quase permanente arrastou-se até ao reinado de D. João I[31]. Com isso tudo, não é de excluir a proximidade da Rainha Santa às ciências herméticas, tendo mesmo chegado a ser discípula do alquimista Arnaldo de Vilanova, num ante-momento de peregrinação a Santiago de Compostela[32].

Não podia, pois, haver melhor casal real para lançar as bases da expansão portuguesa através da projectada Ordem de Cristo [33] que fundaria o Império Temporal de Portugal no Mundo, e, sobre ele, o ainda maior Império Espiritual que, este sim, nunca se desfez: perdura e perdurará enquanto houver o Pensamento e a Língua Portuguesa.

 

NOTAS

 

[1] Henrique Schaefer, Os Templarios e a Ordem de Christo, in História de Portugal, volume I. Porto, 1893.

[2] Vieira Guimarães, A Cruz da Ordem de Cristo nos Navios dos Descobrimentos Portugueses. Lisboa, Oficinas Fernandes, 1935.

[3] Fr. Pedro Álvares Seco, Livro da Regra e Definições da Ordem de Cristo, com Privilégios, Indulgências e Graças atribuídos pelos Pontífices e Reis. Reedição do original do século XVI coordenada por Joana Lencart, Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade (CEPESE), Porto, 2018.

[4] Esboços biográficos de D. Fr. Estêvão, por ordem cronológica da sua publicação: D. Rodrigo da Cunha, Catalogo e historia dos bispos do Porto, pp. 121-128, Porto, 1623, e Historia Ecclesiastica da Igreja de Lisboa, ff. 232v-236, Lisboa, 1642; Fr. Manuel da Esperança, Historia Serafica da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco na Provincia de Portugal, vol. II, pp. 234-238, Lisboa, 1666; Fr. Francisco Brandão, Monarchia Lusitana, vol. VI, pp. 151, 191-195, 433-435, Lisboa, 1672; José Augusto Ferreira, Memorias Archeologico-Historicas da cidade do Porto, vol. I, pp. 292-303, Braga, 1923; Fortunato de Almeida, Historia da Igreja em Portugal, vol. I, pp. 630-631, 633, Coimbra, 1910.

[5] In Monarquia Lusitana, Livro 18, cap. 25.

[6] “… que nós e vós nos paremos a o emparar [ao Templo] e a o defender contra todos aqueles que o quiserem demandar”, etc. Leia-se o tratado entre esses monarcas na Monarquia Lusitana, Livro 18, cap. 26.

[7] In España Sagrada, Tomo XXI, pág. 114 e segs.

[8] In Monarquia Lusitana, Parte VII, Tomo XXI, Liv. 4, cap. 3, num. 3.

[9] Veja-se o documento em Fr. António Brandão, Monarquia Lusitana, Livro 18, cap. 26.

[10] Amorim Rosa, De Tomar, p. 61, primeiro de dois volumes. Fábricas Mendes Godinho, 2.ª edição, Tomar, 1988.

[11] A presente transcrição é feita dos Anais da União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo, Volume 4, Junho de 1963, pp. 87-95, surgindo traduzida do latim. O original está na Torre do Tombo, Lisboa, incluído nos Livros dos Mestrados da Ordem de Cristo.

[12] Na carta pela qual ele ordena a entrega à Ordem de Cristo das povoações, dos castelos e lugares de Soure, Pombal, Ega, Redinha, situados na Estremadura e no Bispado de Coimbra, e de Idanha Nova e Velha, Salvaterra, Segura, Proença e Rosmaninhal, estes no Bispado da Guarda, diz o rei: “que a Ordem de Cristo se tinha feito em Reformação da Ordem do Templo, que se desfez”. – Viterbo, Elucidário, Tomo II, pág. 374.

[13] In Monarquia Lusitana, Livro 19, capítulo 4.

[14] O rei já tinha informado, pelos seus enviados, antes de publicar a bula de fundação, o papa do seu intento de fazer a dádiva de Castro Marim à Ordem de Cristo, motivo por que na bula se menciona essa povoação.

[15] In Monarquia Lusitana, Livro 19, capítulo 10.

[16] Ernesto José Nazaré Alves Jana, A actuação dos D. Priores da Ordem de Cristo durante o século XVI. In As Ordens Militares e as Ordens de Cavalaria na Construção do Mundo Ocidental. Actas do IV Encontro sobre Ordens Militares, 30 de Janeiro a 2 de Fevereiro de 2002. Edições Colibri – Câmara Municipal de Palmela, Lisboa, Fevereiro de 2005.

[17] Trata-se de Miguel António Dias, (1805-1878), criador do Rito Eclético Lusitano e autor dos Annaes e Codigo dos Pedreiros Livres em Portugal. Lisboa, 1853. Reimpressão em 1990 por “Sol Invictus Atelier”, Ericeira.

[18] Segundo Manuel J. Gandra, o Santo Ofício exigia, da consciência de cada cristão cumpridor, a denúncia de certas das suas próprias culpas, bem como, inclusivamente, as dos seus familiares e amigos. Foi esse o pregão lançado dos púlpitos e contido quer na Carta do Édito e Tempo de Graça de 20 de Outubro de 1536, quer no Monitório de 18 de Novembro do mesmo ano.

[19] W. Maigne, Dicionário Enciclopédico das Ordens de Cavalaria Civis e Militares. Editora Hugin, Lisboa, 2005.

[20] Maria Madalena Oudinot Larcher, A Ordem de Cristo e o Padroado na visão de um Cardeal Rei. Publicação subsidiada pela Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores. Fundação para a Ciência e Tecnologia, Novembro de 2016.

[21] Maria Isabel Rodrigues Ferreira, Fontes para o estudo da Ordem de Cristo: sumário de dois códices existentes na Torre do Tombo. In revista Lusitania Sacra, nº 22, pp. 223-244, Universidade Católica de Lisboa, 2010.

[22] Fr. Damião das Neves, Regra e Definições da Ordem e Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Lisboa, 1607.

[23] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[24] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010.

[25] Rui de Pina (Guarda, 1440 – Guarda, 1522), Crónica do Muy Alto e Esclarecido Príncipe D. Diniz sexto Rey de Portugal, segundo o códice inédito n.º 891 da Biblioteca Pública Municipal do Porto. Seguida da versão actualizada da edição pela Oficina Ferreiriana, 1729.

[26] Vieira Guimarães, Ordem de Cristo. Imprensa Nacional de Lisboa, 1936.

[27] Abade Correia da Serra (1750-1823), Os verdadeiros sucessores dos Templários e o seu estado em 1805. Texto inserto no volume II do periódico A Illustração – Jornal Universal, de 3, 10 e 17 de Julho de 1846. Foi impresso originalmente com o título Sur les vrais sucesseurs des Templiers et leur état actuel, nos Archives Littéraires de l´Europe, tomo VIII (1805), pp. 273-288, e sofreu uma reedição facsimilada de 36 exemplares em Lisboa, “no ano de 1890 da era de Roma por um fiel do Amor”.

[28] L. T. Belgrano, Documenti e genealogia dei Pessagno ammiragli del Portogallo. In Atti della Societá ligure di storia patria, tomo XV, pp. 241-316, Génova, 1881.

[29] Américo Cortez Pinto, Diónisos, poeta e rey. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa – Secretaria de Estado do Ensino Superior – Ministério da Educação, Lisboa, 1982.

[30] Fr. Manuel da Esperança, História Seráfica da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco na Província de Portugal, Lisboa, 1656.

[31] Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, tomo I, pág. 104. Coimbra, 1910.

[32] Sebastião Antunes Rodrigues, Rainha Santa, Cartas Inéditas e Outros Documentos. Coimbra Editora, 1958.

[33] Tudo o dito invalida a priori a legalidade canónica e histórica de hodiernas “ordens” templistas pseudo-cavaleirescas e afins, quase todas, se não todas, de inspiração maçonista do século XVIII, assim mesmo buscando na invenção de “mitos fundacionais” a regularidade de transmissão e continuidade do Templo à modernidade que nunca houve, apesar do retorço e distorço de factos soltos da historiografia, inclusive da religião e do hermetismo, para justificar o injustificável. Como dizia alguém, quando não se é militar, quando não se é religioso, quando não se é nobre, quando não se é coisa alguma mas se quer ser tudo e ser mais grande do que os Grandes o foram, resta a invenção de “ordens” templistas pseudo-cavaleirescas às quais René Guénon, com razão, chamou “ordens de paródia”. Destas algumas hoje parecem andar a parodiar, a gozar com a tropa e as autoridades religiosas e civis. Afinal não falta, nesta Kali-Yuga ou Idade Sombria por que o passa o Mundo, gente tão retorcida que até consegue vender óculos de sol a um cego… só não vê quem não consegue, ou tão-só não quer ver. Hoje, a Verdade é mentira e a Mentira é verdade. Para demasiados parece que uma roupa vistosa decorada com medalhas basta para fazer vistão e dar aspecto legal à coisa, e assim acontece com todo aquele despossuído do mínimo de conhecimentos verdadeiramente iniciáticos, sem despertar interior algum, apenas dotado de curiosidade mistérica ou talvez nem isso, pelo que só lhe resta parodiar o passado da História, cuja ingenuidade e vaidade fazem-no vítima de oportunistas caçadores de fortuna fácil marcados por vidas frustradas mas sabidos no encantar e alimentar a fraqueza de ego daqueles de quem se acercam. Infelizmente, confere.