Desde os finais do século XIII e durante o primeiro quartel do século XIV, à medida que chegavam a esta parte da Península Ibérica as notícias das atrocidades cometidas pelo rei de França, manipulando o papa contra a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Jerusalém, os templários, o rei de Portugal, D. Dinis, recorrendo à diplomacia de Estado, evocando o estatuto de país independente decisório exclusivo dos seus destinos e do que nele havia, apressava-se a defendê-la e aos seus bens móveis e imóveis contra as arbitrariedades realengas do ambicioso monarca francês, Filipe IV.

A vigilância cerrada que os reis de Portugal exerciam sobre os direitos da Coroa, todavia sem embaraçar os cavaleiros da Milícia Templária de Cristo no livre desenvolvimento do seu mister, explica em boa parte o facto memorável que se conheceu pela inquirição final do seu viver e da sua conduta: nos dois séculos da sua existência no reino nada lhes havia a increpantemente atribuir, se não a admissão de um cavaleiro estrangeiro, sobrinho do sétimo Grão-Mestre. Nunca os templários portugueses se afastaram da lealdade devida ao seu rei, mostrando-se sempre possuídos de afeição pelo imperante e pela pátria[1].

Assim viviam os templários em Portugal quando o bispo de Lisboa, D. João Martins de Soalhães, com alguns prelados, recebeu o encargo do papa Clemente V de submeter a conduta e o viver dos tempreiros portugueses a um exame minucioso, ordem expedida pela bula papal de 12 de Agosto de 1308, Regnum in coelis. Mas nada se encontrou do que o papa tanta desejava para justificar os actos de Filipe IV. Ainda assim, meses depois nesse mesmo ano chegou ao reino nova bula papal, Callidis serpentis vigil, ordenando a prisão de todos os templários daqui e a apreensão dos seus bens. Evitando um confronto aberto com o poder papal, superior ao de qualquer rei do Ocidente, D. Dinis não ignora a ordem pontifícia mas, como grande estratega político que demonstrou ser, contornou-a através dos seus jurisprudentes que decantaram no texto da bula várias interpretações possíveis capazes de contrariar o próprio texto, isso de maneira a favorecer o Templo à luz da jurisprudência da época, a do direito romano que só seria reformado no reinado de D. João I de Portugal. D. Dinis convocou todos os membros destacados da Ordem e, singularmente, um a um, foi os questionando, até que finalmente chegou à conclusão que em Portugal os templários eram inocentes das terríveis acusações de heresias e abusos de poder, usura inclusive, que lhes imputava o rei de França.

Tendo agido assim dentro da lei, “escusado será dizer que, dos templários portugueses, nenhum foi preso. Todos se puderam refugiar no país e em país estranho, escapando assim, não tanto às iras do papa, como às de Filipe. Sem tirar as mãos da questão, o rei de Portugal recebia os bens que o processo ia dizendo que de novo deveria pertencer à Coroa. […] Não só o rei se reconheceu com direito aos bens dos templários. Outros indivíduos e corporações religiosas os reclamaram pelos seus, mas D. Diniz, fino e hábil, soube, pelo seu tacto, não desviar esses bens por outras mãos. […] Não se podia D. Diniz conformar com a ideia da negra injustiça praticada para com os templários e procurava por todos os modos conciliar as várias opiniões»[2].

Já no ano anterior, em 12 de Agosto de 1308, o papa comunicara numa bula a D. Dinis que tencionava convocar Sínodo Geral em Viena para decidir sobre a Ordem do Templo, e convidava o rei de Portugal a estar presente [3]. Nessa bula, Deus ultionum Dominus, descreveu os crimes praticados pelos templários franceses e ordenou aos bispos lusitanos que comparecessem em Viena, a fim de esclarecerem também os delitos dos cavaleiros da sua nação. D. Dinis viu de longe aproximar-se a procela e preparou-se para a receber, antes dela entrar em Portugal. O plano de circunspecção empregado sabiamente pelo rei, nesse grande processo contra a Ordem do Templo, faz supor que ele previa o caminho que seguiria. D. Dinis era conhecedor do poder do papa e do clero, e da influência que ambos exerciam sobre a nobreza e o povo. De maneira que sabia não lhe ser favorável opor franca resistência à medida do sumo pontífice, pelo que recorreu ao lícito das leis pela prudência e precaução calculadas a respeito dos templários em Portugal. Ele não só os julgava inocentes como até benéficos e úteis ao reino e ao trono lusitanos, pelo que a perseguição a eles devia parecer-lhe tão imprudente como injusta. Por isso mesmo, mostrou-se pouco inclinado a abandonar o país para quase confirmar, pela sua presença em Viena, a sentença condenatória, já de antemão pronunciada, que repugnava ao seu poder independente de soberano, assim como à sua prudência política e sentimento de justiça. Contudo, enviou alguns bispos, provavelmente com instruções cuja perda documental se tem a deplorar, comitiva essa liderada pelo seu confessor D. Fr. Estêvão, franciscano, bispo que foi do Porto e de Lisboa, nem sempre bem-quisto pelo monarca[4].

Contudo, o rei não ficou inactivo em casa. Mandou instaurar processo judicial contra os templários, mas não consoante as intenções do papa: nisso Clemente V foi ludibriado o tempo suficiente para que a sua desilusão não pudesse tornar-se nociva a D. Dinis e à Ordem em Portugal. De maneira que os templários portugueses escaparam, apesar de não a conselho do rei mas decerto com o seu assentimento discteto, à prisão e ao confisco dos seus bens que reverteriam a favor do papado. As manobras políticas entraram em acção: imediatamente os procuradores régios de D. Dinis tomaram a maior parte dos bens da Ordem do Templo porque, segundo a razão apresentada, haviam sido ilegalmente separados da Coroa, e assim procederam judicialmente contra os cavaleiros. De maneira que novamente passaram para o poder da Coroa, em 27 de Novembro de 1309, as povoações de Pombal, Soure, Ega e Redinha, funcionando nessa causa, como juízes, o bispo de Lisboa, o prior geral dos franciscanos da mesma cidade e o mestre João das Leis. Em 1310, procedeu-se da mesma maneira, invocando o direito de Estado, com respeito às povoações e castelos de Idanha-a-Velha, Salvaterra do Extremo, Rosmaninhal e outras[5].

Tais processos foram julgados com uma velocidade estranha ao habitual andamento judicial deste reinado. Além do rei, também poderosos eclesiásticos e conventos levantaram, sob diversos pretextos, pretensões aos bens móveis e imóveis da Ordem do Templo. Todavia, o monarca ordenou, em virtude da ausência do Mestre Geral da Ordem e dos seus representantes nomeados, a suspensão dessas reclamações e da penhora dos domínios em questão, até que os templários houvessem defendido a sua causa perante o papa e recebido a sentença final.

Dessa forma chegaram, sucessivamente, todos os bens móveis e imóveis da Ordem do Templo em Portugal ao poder de D. Dinis. Com isso, alguma coisa estava feita. No entanto, ele não ignorava que sozinho não era suficientemente poderoso para resistir à vontade papal. De maneira que procurou uma aliança com os reis vizinhos de Castela, Leão e Aragão, tendo encetado negociações com o rei D. Fernando de Castela, seu genro, em 1309, resultando das mesmas uma convenção entre ambos os monarcas em 21 de Janeiro de 1310, pela qual se obrigavam reciprocamente a conservar para os seus reinos, caso fosse suspensa ou abolida a Ordem do Templo, os bens e rendimentos dela e a defendê-los contra quem quer que fosse[6].

Essa aliança de resistência dos reis ibéricos produziu efeito. Quando Clemente V veio a ordenar a abolição da Ordem do Templo, concedendo todos os bens móveis e imóveis da mesma à Ordem do Hospital, fez uma excepção a favor daqueles soberanos. Fixou-lhes, contudo, um prazo dentro do qual haviam de entender-se e combinar com a Santa Sé sobre a aplicação desses bens. O papa nomeou para administrador dos bens e territórios da Ordem portuguesa o bispo do Porto, D. Frei Estêvão, mas que D. Dinis rejeitou como homem suspeito. No tempo em que ele um simples religioso franciscano da Ordem dos Frades Menores, como contava D. Dinis, “mendigava de sacola às costas”, e o monarca apiedado dele tomou-o sob a sua protecção, elevando-o a seu confessor e depois a bispo do Porto (1310). Pleno de confiança num homem que lhe devia o bem-estar, confiou-lhe o assunto tão importante do Templo e enviou-o ao Concílio de Viena. Quarenta mil libras, que o rei lhe mandara entregar aí, deviam servir para pagar as despesas e para influxo de maior energia à sua oratória.

Mas com a boa sorte do prelado subira também o seu orgulho: o interesse próprio apagara nele todo o sentimento de gratidão para com o seu benfeitor. Afastado da sua vista e longe do juízo dos seus concidadãos, trabalhou unicamente para os seus próprios fins e proveitos, gastando nisso a soma recebida. Concebera o plano de subir à cadeira episcopal de Lisboa e de alcançar a do Porto para o seu sobrinho, pois que a morte do bispo de Braga, durante o Concílio de Viena, proporcionou-lhe o ensejo de alcançar tal dignidade. O rei queria transferi-lo para Braga, mas a cidade de Lisboa, sendo mais influente, prometia à ambição do prelado um terreno mais amplo e mais favorável. De maneira que Estêvão, que sabia servir-se da sua posição, alcançou do papa que o bispo de Lisboa fosse transferido para Braga, e ele próprio para Lisboa (8 de Outubro de 1312), recebendo o seu sobrinho, mais tarde, a diocese do Porto[7]. Em Lisboa é encontrado, ulteriormente, ateando o fogo da discórdia na desgraçada contenda entre D. Dinis e o seu filho D. Afonso, como inimigo declarado do rei; depois, fugitivo e activo na corte do papa, caluniando o seu soberano e benfeitor.

Era esse o homem nomeado pelo sumo pontífice para administrador dos bens dos templários mas que o rei, porém, rejeitou. Foi ele também que, em vez de apressar as negociações com a Santa Sé e de alcançar o que o monarca desejava, sacrificou este desejo ao seu próprio proveito, demorando as negociações pelas suas intrigas. Apesar dessa resistência e de todos os esforços em contrário das intrigas sobre intrigas do bispo de Lisboa, D. Dinis acabou vencendo alcançando quanto aspirava, com firmeza, prudência e perseverança.

O monarca previra o que se iria passar no Concílio de Viena. Quando foi publicada a bula de anulação da Ordem, esse golpe não pôde ferir coisa alguma em Portugal, porque nada existia: os cavaleiros haviam desaparecido; os seus bens estavam em poder de D. Dinis; o administrador do papa achava-se repudiado. O rei soube até frustrar uma tentativa papal para dispor dos bens dos templários portugueses. João XXII, sucessor de Clemente V no trono romano, tomou a liberdade de presentear o seu favorito, o cardeal Bertrand, com a povoação e castelo de Tomar e seus aditos e reditos, um dos domínios mais consideráveis da Ordem (1317). O assunto suscitou reparo. O rei, aparentemente tranquilo, instigou o príncipe herdeiro e alguns nobres do reino a apresentarem um protesto, decisivo e formal. O cardeal desistiu da posse para que estava autorizado por uma bula, e não se falou mais nisso[8]. O papa, porém, adquirira a experiência de que não podia contar com coadjuvação alguma, nem do príncipe herdeiro nem dos grandes do reino de Portugal, que tantas vezes a tinham prestado aos seus antecessores. Também não lhe podia passar despercebido que o rei português trabalhava, com agrado do povo e da nobreza, concedendo protecção à Ordem do Templo. E, de facto, os seus cavaleiros encaminharam-se, passada a borrasca, um após outro para Portugal. Foram-lhes concedidas pensões sobre os bens penhorados; foram tratados com consideração, reconhecidos inocentes maltratados, e, apesar da Milícia estar abolida, não deixaram de ser reconhecidos nos documentos e actos públicos como “antigos Cavaleiros Templários” (quondam Milites Templi)[9].

Era esse o estado geral no Reino quando D. Dinis, em 1318, encetou negociações com a Santa Sé pretendendo que se fundasse sobre a Ordem extinta uma outra em Portugal. De maneira que enviou a João XXII os seus procuradores Pedro Peres, cónego de Coimbra, e João Lourenço, cavaleiro de Avis em Monsaraz, portadores da carta seguinte cuja ortografia galaico-portuguesa medieval (e não o latim eclesiástico como era uso, sinal claro da afirmação política de Estado independente, com línguas e leis próprias) já foi transposta para o português moderno e publicada por Amorim Rosa[10]:

“Saibam quantos as letras desta Procuração virem, que Nós, D. Dinis, por Graça de Deus Rei de Portugal e do Algarve, fazemos e ordenamos nossos procuradores verdadeiros, lídimos e avendosos e especiais mensageiros, o nobre barão João Lourenço, Cavaleiro, e o sagres Barão Pedro Peres, Cónego de Coimbra, nossos familiares, portador ou portadores das presentes letras e cada um pelo todo não seja maior do que os outros mais, o que um começar o outro possa mear e acabar por ganhar por nós e pelos ditos Reinos grandes favores do mui Santo Nosso Padre D. João pela provisão que dê [como] Papa desta Igreja de Roma e para tratar, ordenar e compor com o dito Senhor Papa e com outros quaisquer que creiam que lhes pertence, de haver Reino sobre todos os bens e cada um deles que os freires do Templo em outros tempos tinham em nossos Reinos e sobre todos os outros bens que outra Ordem de Cavalaria qualquer tem ou que costumava ter em esses Reinos e para pôr e ordenar Mestre de Mestres em todos os ditos bens, assim como aos nossos procuradores e a cada um deles parecer que mister é, outorgando a ambos e a cada um geral livre e comprido poder sobre os ditos negócios, e sobre cada um deles. E geralmente para fazerem e usarem nas ditas cousas e em cada uma delas todas as coisas que cada uma delas requeira cumprir, e que é mister desse fazerem, e que Nós faríamos se em nossa pessoa presentes fossemos, ainda que demandem especial mandado; prometendo Nós a haver firme todos os nossos bens que qualquer pelos nossos ditos procuradores ou por cada um deles for feito e procurado nas ditas coisas e em cada uma delas. E em testemunho disto, mandamos selar estas letras de nossa procuração de nosso selo pendente. Dada em Lisboa, aos 12 dias do mês de Agosto El-Rei o mandou fazer. Domingo Anes o fez. Era de 1356 [1318] anos.”

As negociações prosseguiram até que, em 1319, foi instituída canonicamente a Ordo Militiae Jesu Christi, Ordem da Milícia de Nosso-Senhor Jesus Cristo, em Santarém, a 18 de Novembro, fundada sob a aprovação pontifícia da bula Ad ea ex quibus, do papa João XXII, datada de 14 de Março e ratificada pelo rei D. Dinis a 5 de Maio desse ano. Por ela, os direitos de visita e de correição foram entregues ao abade de Alcobaça, na medida em que seguiam a Regra de São Bento, na versão transmitida por Cister à Ordem de Calatrava. A referida bula autorizava ainda a incorporação, na nova Milícia, de Castelo Branco, Longroiva, Tomar, Almourol e de todos os castelos, bens móveis e de raiz, direitos, jurisdições, honras, homens e vassalos que tinham pertencido à Ordem do Templo suprimida por abolição papal. Ainda em 1319, a 26 de Novembro, D. Dinis mandou entregar à Ordem de Cristo todos os domínios que tinham pertencido à Ordem do Templo, que guardara como seu procurador real. Desta forma, foi transformada numa Ordem Nacional cujo signo mor perdura até hoje nas Armas de Portugal, seja nas Forças Armadas, seja em igrejas e mosteiros, seja como comenda de distinção, seja, enfim, como o ex-libris desta Terra Portuguesa.

Ainda em 14 de Março desse mesmo ano de 1319, encontrando-se D. Dinis nos seus Paços de Santarém, antigo solo templário com a sua igreja de Santa Maria de Alcáçova, foi lido com toda a pompa e solenidade, perante o rei, a corte e os prelados, o documento aprovatório da nova Milícia de Cristo, sendo-lhe concedida por Casa-Mãe o castelo e a igreja de Santiago de Castro Marim, Algarve, apesar de em 1357 a transferirem para Tomar, primitiva Casa-Mãe do Templo em Portugal. O texto é o seguinte[11]:

“[…] Nós, tendo entendido diligentemente as ditas causas e razões, e discorrendo nelas com atenta consideração, por amor da segurança e amparo dos fiéis e por muitos bens que, com o favor do Senhor, daí se haviam de seguir; havida primeiro diligentemente deliberação sobre estas matérias com os nossos irmãos, dispusemos de seguir favoravelmente o louvável intento que nesta parte tinha El-Rei. Pelo que, de conselho dos mesmos irmãos e com inteiro poder apostólico, determinamos de proceder na forma abaixo escrita, invocando para isso o Divino socorro. Porque como aquela torpe nação dos ditos sarracenos e inimiga ímpia do nome cristão, que esta fronteira, como se diz, do dito Reino do Algarve com os terrenos vizinhos, tinha aflito o mesmo Reino e seus fiéis, com tribulações e sujeito a vários perigos, e tinha muitas vezes armado sua ferocidade, como ainda agora pretende armar para desterro dos mesmos fiéis em grande ofensa do Supremo Rei, por sucessos, grandor de diversos tempos passados. Desejando Nós, pois, com ajuda de Deus, atentar pelo bem do mesmo Rei e Reinos e fiéis, em razão de quebrantar os nefários intentos dos infiéis, tivemos por bem de ordenar casa de nova Ordem da milícia de Jesus Cristo no dito castelo de Castro Marim. A qual casa decretamos que seja a cabeça da mesma Ordem e damos-lhe a igreja paroquial de Santa Maria do mesmo castelo, da diocese de Silves. E outorgamos e anexamos e juntamos à dita Ordem, com todos seus direitos e pertenças, e para honra de Deus, exaltação da Fé católica, amparo dos fiéis e abatimento dos infiéis. Com autoridade apostólica estabelecemos e ordenamos a dita Ordem na qual deve ter assento a sobredita milícia dos lidadores da Fé, os quais sendo idóneos e constantes nela, professem ordem própria, debaixo da regra de Calatrava, guardando as observâncias regulares da mesma regra, de modo que o mesmo Reino e fiéis dele tanto com maior fervor possam resistir aos ditos inimigos, quando juntas as forças em um se fundam em maior poder. Outrossim estabelecemos com autoridade apostólica e de consentimento dos mesmos nossos irmãos, que a Ordem dos ditos cavaleiros desta nova milícia se intitule para todo o sempre Ordem da milícia de Jesus Cristo. E com a mesma autoridade e de conselho de nossos irmãos, creiamos em Mestre da dita milícia ao amado filho Gil Martins, que até agora foi Mestre de Calatrava e professo na mesma Ordem, de cuja pureza de vida, zelo da religião, madureza de costumes, valor de pessoa, inteireza na Fé, e de outros merecimentos de sua natural bondade, tivemos louváveis testemunhos. […] E se alguém presumir intentar isto, saiba que há-de incorrer na indignação de Deus todo-poderoso e dos seus bem-aventurados Apóstolos S. Pedro e S. Paulo.”

Castelo e igreja de Castro Marim, Algarve, primitiva Sede da Ordem de Cristo

Com a emissão da Ad ea exquibus desencadeia-se uma série de factos probatórios de que a antiga Ordem do Templo reaparecia numa forma nova, precisamente a Ordem de Cristo. O papa intitulou a Milícia de Ordem Militar de Jesus Cristo (Ordo Militiae Jesu Christi) e os cavaleiros de Milites Christi, como se viu e conforme o desejo expresso de D. Dinis. Ora, esse era o nome dado aos templários já anteriormente nos diplomas públicos referentes à sua Ordem, e eles próprios usaram dele alternando-o com o título de templários nos actos civis. Esses primitivos cavaleiros de Cristo seguiam a Regra Cisterciense e estes novos a mesma Regra, apesar de sujeitos à de Calatrava onde professava o Mestre D. Gil Martins. Contudo, a Regra de Calatrava era a mesma de Avis, ou seja, a cisterciense, donde os Milites Christi, segundo a bula papal, teriam como superior espiritual o abade de Alcobaça que procedia, tantas vezes quantas julgasse conveniente, à inspecção “do chefe e membros”, que era mister igual ao que exercia o mesmo abade na Ordem do Templo.

Também a vila e castelo de Calatrava, situada no arcebispado de Toledo (primitiva capital da Hispânia), fora antigamente dos templários, que não a tendo podido defender dos agarenos a largaram a el-rei D. Sancho de Portugal para que a defendesse, o que foi feito por D. Raymundo, abade de Santa Maria de Fiteiro, da Ordem de Cister, e seu companheiro, o cavaleiro Diogo Vallasques. De maneira que o rei português lhes fez doação dessa vila em 1157 e D. Raymundo estabeleceu aí a nova Ordem de Calatrava, confirmada pelo papa Alexandre III em 1164. Por estes monges-guerreiros terem estado muito tempo sem Regra alguma e havendo Capítulo Geral da Ordem de Cister, foram nele recebidos como irmãos, ficando sujeitos ao abade de Santa Maria de Alcobaça. Por tudo isso, mesmo seguindo a Regra de Calatrava os Mestres da Ordem de Cristo prestavam o juramento em nome do papa nas mãos do abade de Alcobaça, velha tebaida de Saber Bernardino/Templário, e perante os reis de Portugal.

Como na Ordem do Templo, o Grão-Mestre e os outros superiores da Ordem de Cristo eram obrigados, antes de começar os seus cargos, a prestar juramento de lealdade ao rei. Como aos templários, assim aos cavaleiros de Cristo era proibido alienar bens da sua Ordem, dentre outras analogias entre ambas as Milícias.

Não se deve estranhar que o papa nomeasse o Mestre da Ordem de Calatrava, D. Gil Martins, transferido de Avis a esta, para Grão-Mestre da Ordem de Cristo. Como disse, os cavaleiros de Avis e de Calatrava seguiam a Regra de Cister, tal como os templários, e esse procedimento do papa estava em harmonia com o que então andava em uso: por exemplo, nomeava-se um religioso de uma abadia para aos irmãos de outra da mesma Regra os instruir nos seus deveres e funções, a fim de levantar a abadia decaída, neste caso, a Ordem abolida na nova em bula sob nova feição. Só dessa vez o papa nomeou um Grão-Mestre, interferindo directamente na sua escolha. Depois do seu falecimento deviam ser, segundo a bula de fundação, os próprios irmãos da nova Ordem a eleger um Grão-Mestre, que tinha de ser um membro da mesma.

Todos os bens móveis e imóveis que a Ordem do Templo possuíra em Portugal e no Algarve, todos os domínios, com todos os direitos e privilégios, foram adjudicados, como propriedade, à Ordem de Cristo, por decisão directa do rei D. Dinis. Não só ordenou em 26 de Novembro de 1319 a entrega de todos os domínios da Ordem do Templo à de Cristo[12], declarando sem efeito todas as sentenças judiciais que, por cuja força de lei, lhe adjudicaram os bens dos templários aquando da sua abolição, como também mandou restituir aos cavaleiros de Cristo os rendimentos cobrados pelos almoxarifes régios nos bens do Templo, desde a sua extinção[13]. Finalmente, para coroar a sua empresa concedeu à Ordem de Cristo, para estabelecimento da sua Casa-Mãe, o castelo e povoação de Castro Marim, no Algarve, sob o pretexto das necessidades de defesa do Reino perante a ameaça constante de invasão pelo Sul pelos muçulmanos de Granada e Marrocos, mesmo não constando que os cavaleiros de Cristo alguma vez aí se tenham batido com eles[14].

De maneira que originalmente a Ordem de Cristo teve aí o seu convento e castelo, sendo onde viveram os primeiros noviços que nela ingressaram. Segundo os registos que existiam no Arquivo de Tomar, os primeiros membros admitidos em Castro Marim pelo Grão-Mestre eram antigos templários, e, o que aparecia ainda mais notável, é que gozando da liberdade se não se apresentassem à admissão na nova Ordem dentro do prazo de três meses seriam forçados a isso, sob pena de castigos espirituais[15]. O próprio D. Vasco Fernandes, último Mestre dos Templários portugueses, faleceu sendo comendador de Montalvão professo na Ordem de Cristo.

Depois de investidos alguns cavaleiros, pensou o novo Grão-Mestre em dar posição e firmeza à Ordem com novas ordenações e leis, em rejuvenescer a Instituição e regular a sua administração. Para esse fim, convocou em Lisboa, em 11 de Junho de 1321, no antigo convento dos senhores do Templo, um Capítulo, que consistia, na maior parte, de membros dessa Ordem. Tomou-se como base as constituições dos cavaleiros de Calatrava, que lhes permitia assumir uma atitude missionária ante o século fora dos paredes dos conventos e que viria a ser “pedra angular” do processo ecuménico da Ordem de Cristo no Mundo, mormente no Período Henriquino e das Descobertas Marítimas. Pelo cálculo dos rendimentos da Ordem de Cristo, fixou-se que ela devia contar, pelo menos, com oitenta e quatro membros, dos quais sessenta e nove seriam cavaleiros (freires cavaleiros) e os restantes irmãos religiosos (freires clérigos). Além destes, fixou-se o número de dez cavaleiros para acompanharem permanentemente o Grão-Mestre. Não podiam possuir nenhuma comenda e tinham de sustentar-se dos bens destinados para a Mesa do Mestre (Mesa Mestral), que se compunham dos rendimentos que a Ordem usufruía das suas propriedades nos territórios de Lisboa, Alenquer e Santarém (exceptuando as comendas de Pinheiro e Casavel). Não muito depois da reunião deste Capítulo, morreu D. Gil Martins (13 de Novembro de 1321). Deixou a Ordem de Cristo num estado florescente, acompanhando-o para a sepultura a fama de que havia sido um Mestre e pai zelosamente activo e sinceramente cuidadoso para com os seus filhos.

 

Ritual de Investidura na Ordem de Cristo
(Pintura moderna de autor anónimo)

Finalmente, em 1357 os antigos monges-guerreiros do Templo regressam a Tomar, agora envoltos no manto de Cristo, este mesmo idealização do velho mito Templário, o Sudário do Salvador, e aí fixam doravante a sua Casa-Mãe[16]. Desta incarnação militante do Templo em Cristo fala Fr. Bernardo da Costa, professo e cronista dessa nova Ordem Religiosa e Militar, em seu Compêndio Histórico escrito entre 1771 e 1775:

“Estas são as notícias que me parece eu dever dar ao público como devidas à História da Ordem Militar de Cristo para que me destinou a obediência. Sem elas ficava a sua História muito falta e diminuta, pois, sendo a Ordem de Cristo fundada nas ruínas da do Templo e sua herdeira universal, sendo património seu quanto adquiriram os cavaleiros do Templo em Portugal pelo preço do sangue e das vidas, pois, nas Campanhas, servindo a Fé e ao Rei, as entregaram tantas e, entre estes, dos seus Mestres eles foram ao menos cinco.”

Quanto à localização da primeira Sede da Ordem de Cristo, Fr. Bernardo da Costa (in História da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, dedicada a El-Rei D. José I, cap. II, pp. 39-40) rebate alguns equívocos levantados em seu tempo referentes ao assunto:

“Um dos enganos em que se embaraçam alguns Autores que escreveram como dissemos das cousas da Ordem, foi em quererem persuadir-nos que o Convento transferido de Castro Marim não fora mudado e edificado imediatamente para Tomar. Dizem uns que fora edificado em Montalvão, outros que em Castelo Branco. É intolerável este engano… A Ordem jamais teve outro que o primeiro em Castro Marim e depois o segundo imediatamente em Tomar.”

Além de terem readquirido o seu primitivo domínio tomarense, estes freires de Cristo também se assemelhavam pela indumentária aos seus antecessores templários: trajavam o hábito cisterciense, adoptado pela Ordem de Calatrava, com escapulário branco, e a sua insígnia crucífera, oficializada em 1330 mas decerto sendo anterior, era em tudo semelhante à do Templo: interiormente a grega, de cor branca, e exteriormente a vermelha pátea ou triangulada nas pontas de maneira a formar rodela, ou seja, a fechar-se sobre si mesma.

Igualmente a estrutura hierárquica da Ordem de Cristo era muitíssimo semelhante à do Templo, como se repara no composto seguinte:

ORDEM DE CRISTO

MESTRE (Geral da Ordem)

PRIOR-MOR (Superintendente espiritual)

COMENDADOR-MOR (Superintendente temporal)

CLAVEIRO (Responsável pelas chaves das Casas da Ordem)

SACRISTÃO-MOR (Responsável pelas festividades religiosas)

ALFERES-MOR (Cabeça de cavalaria e porta-bandeira)

FREIRE CAVALEIRO (Sempre de nobreza reconhecida)

FREIRE CLÉRIGO (Prior ou sacristão)

NOVIÇO (Na Regra, nos Estatutos, na Religião e nas Armas)

Quanto aos Mestres Gerais da Ordem de Cristo, segundo autor anónimo oitocentista[17], foram os seguintes:

1 – D. Gil Martins, governou 3 anos e morreu em 1321.

2 – D. João Lourenço, 5 ditos e morreu em 1326.

3 – D. Martins Gonçalves Leitão, 8 ditos e morreu em 1335.

4 – D. Estevão Gonçalves Leitão, 9 ditos e morreu em 1344.

5 – D. Rodrigues Annes, 14 ditos, e renunciou ao Mestrado.

6 – D. Nunes Freire d’Andrade, 18 ditos e morreu em 1372.

7 – D. Lopo Dias de Souza, 46 ditos e morreu em 1417.

8 – Infante Henrique de Sagres, 40 ditos e morreu em 1460.

9 – Infante D. Fernando, 10 ditos e morreu em 1470.

10 – D. Diogo, Duque de Viseu, 14 ditos e morreu em 1484.

11 – D. Manuel, Duque de Beja e Rei, 37 ditos e morreu em 1521.

12 – D. João III, Rei, 35 ditos e morreu em 1557.

Foi durante o reinado desse último monarca que a Ordem de Cristo sofreu alterações profundas que a remeteriam à esterilidade da clausura, abolindo completamente o seu sentido de missão e diáspora a ponto de, já no período da regência do cardeal-rei D. Henrique (1578-1580), pensar-se seriamente em extingui-la. Com efeito, em 28 de Julho de 1529, tendo em 1531 recebido aprovação do acto pela bula papal, Exposcit debitum, de Clemente VII,  D. João III acometeu a reforma da Ordem ao dominicano Frei António Moniz, natural de Lisboa, tendo expulso os antigos freires de Cristo que se opuseram a ela e imposto a clausura aos restantes[18], elaborando-se novos estatutos afins a essa nova condição de cárcere, conformados à Regra de São Bernardo destinada aos clausurais. No ano seguinte, prosseguiu a reforma espiritual acompanhada da reforma temporal da Ordem de Cristo, e na sua Sede em Tomar, o Convento de Cristo, teve início a campanha de obras pardas que alterariam por completo a feição primitiva dessa Râbita Templária. Tal reforma de Frei António de Lisboa só seria abolida em 1789. Em 1551 e por bula do papa Júlio III o Mestrado, Governação e Administração da Ordem de Cristo foram incorporados na Coroa portuguesa, passando a ser chefes dela os reis e rainhas de Portugal. Com D. Sebastião passa a ser um cargo vitalício que ele, em 20.1.1576, intentou substituir pela sua Ordem da Cruz de Nossa-Senhor Jesus Cristo ou Ordem Militar da Seta de S. Sebastião, larária de duração efémera, e com a reforma D. Maria I, em 1789, mesmo existindo como Ordem monástico-militar realmente já não é mais do que simples título honorífico[19].

Mesmo antes de D. João III a Ordem de Cristo já começara o seu declínio, devido às interferências nocivas de D. João II, ambicioso das riquezas da Milícia, que chegou ao ponto de, dentro dos Paços de Setúbal, apunhalar mortalmente pelas costas, num acto traiçoeiro indigno de humanidade e de um rei de Portugal, o 10.º Grão-Mestre e Administrador da Ordem, D. Diogo, duque de Viseu. A Milícia de Cristo estava de tal modo decaída na época do cardeal-rei D. Henrique que ele conseguiu, do papa Gregório XIII, uma bula que a extinguia. A extinção só não se efectuou porque Frei Duarte de Araújo, procurador da Ordem, se dirigiu a Roma e de lá trouxe instruções em contrário[20].

Como ficou dito, o 1.º Mestre Geral da Ordem de Cristo foi D. Gil Martins, Mestre de Calatrava e de São Bento de Avis. Tendo a Ordem se instalado inicialmente em Castro Marim, por sugestão do rei ao papa que a aprovou na sua bula, mais tarde o Mestre, por conselho da Ordem e já não do papa, transferiu o seu principal assento para a vila de Tomar, com assentimento do rei D. Pedro I, tendo D. João Vicente, bispo de Lamego e sendo-o já de Viseu, na reforma posterior que fez na Milícia pela bula papal Auctoritate Apostolica,de 1449, aprovado e confirmado a referida trasladação para o convento de Tomar, ficando aí a cabeça da Ordem[21], como a tinha sido em Castro Marim (ficando nesta as propriedades agrícolas e uma comenda da Milícia). Depois, a reunião capitular de 1503 marcou o momento de viragem na Ordem de Cristo: foi quando D. Manuel I participou dela na sua dupla qualidade de rei do País e de administrador da Ordem. Determinou-se que os freires receberiam vários donativos régios, desde que se confinassem ao seu “mester”, passando essas regalias pela melhoria das condições de vida dos religiosos, inclusive na assistência sanitária[22]. Se o poder e riqueza da Ordem já era grande, passou a ser muito maior, rivalizando ou mesmo superando o da Coroa, e certamente terá sido esse o motivo para a reforma fatal que D. João III lhe impôs.

Hábito e escapulário dos freires reformados da Ordem de Cristo. Reprodução fiel do hábito e escapulário a que ficavam obrigados os freires de clausura criados pela reforma de Fr. António de Lisboa (1529). Aos professos só de nove em nove anos lhes era permitido renovar o velho hábito e, mesmo assim, a arbítrio do rei e dos juízes do Tribunal de Consciência e Ordens. Em 1759, um hábito novo importava em 2000 cruzados (cf. Fernanda Olival, As Ordens Militares e o Estado Moderno: Honra, mercê e Venalidade em Portugal (1641-1789), revista Estar, pp. 237-282, Lisboa, 2001; da mesma autora, Mercado de hábitos e serviços em Portugal (séculos XVII-XVIII), revista Análise Social, vol. XXXVIII, 2003, Departamento de História da Universidade de Évora). 

Sob a Regra de Calatrava procedeu sempre Ordem de Cristo até 1449, altura em que o bispo D. João, por comissão do papa Eugénio IV e a instâncias do Infante D. Henrique (então o seu 8.º Grão-Mestre e Administrador Geral), a reformou e deu-lhe nova Regra de inspiração Bernardina, confirmada por D. Manuel I no Capítulo Geral de 1503, pela qual os cavaleiros de Cristo ficaram desobrigados de seguir daí em diante a de Calatrava, prerrogativa confirmada pelo papa Júlio II em 1505, e por Paulo III em 1542, que também revogou a superioridade que nela tinham os abades de Alcobaça.

A última mudança que houve depois da fundação da Ordem de Cristo foi que, vagando o Mestrado, não se elegesse para ele pessoa professa nela, nem se fizesse juramento de fidelidade aos reis do reino, como anteriormente. Isso porque os Mestrados das Ordens de Cristo, de Santiago e de Avis haviam sido unidos e incorporados na Coroa nacional pelo papa Júlio III, em 1551, reinando D. João III, e a sua administração concedida a partir de então aos reis e rainhas de Portugal.

A Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, tripartida genericamente em Mestre – Professo – Noviço, comportou inicialmente três votos de profissão: Pobreza (revogado depois por dispensa apostólica), Castidade (o que também foi revogado), Obediência. Além desses tinha ainda, como os antigos templários, os de Fraternidade, Hospitalidade e Prelecção. Também as suas insígnias, como já disse, eram semelhantes às da sua antecessora templária: cruz branca centrada e marginada de vermelho sobre hábito branco.

Como divisa a Ordem adoptou o lema do imperador Constantino, In Hoc Signo Vinces (“Com este Sinal vencerás”), o qual é a sua própria Cruz Emérita, decalcada da templária como signo máximo da Cristandade, e desde cedo ela foi considerada bentinha, salvífica, portanto, quer pelo povo geral como pelo Infante D. Henrique, D. Manuel I e todos os demais que a levaram consigo tanto na cavalaria da terra como na do mar, e isso tem algo a ver com a Regra Beneditina professada pela Freiria de Calatrava e de Cristo. Veja-se como, indo à hagiografia do próprio São Bento.

Os feitos da vida de São Bento de Nursia (480-547) são sempre narrados a partir do que narrou o seu primeiro biógrafo, São Gregório Magno, e prescindindo dos inúmeros acontecimentos pressupostamente sobrenaturais que se lhe atribuem para potencializar a sua santidade, denotam-se as características de um verdadeiro Iniciado que soube impregnar de transcendência cada instante da sua vida, aproveitando as circunstâncias que se lhe punham ao alcance.

A Regra dos Mosteiros que lhe é atribuída, foi a única capaz de unificar as mil tendências cristãs em que vagava a vida cenobítica e eremítica no primeiro milénio do Cristianismo. A Regra Beneditina, acercando-se grandemente da Regra Latina do Templo (ambas constam de 72 capítulos mais um inicial ou intróito), demonstra o valor humano de uma transcendência à flor da pele, na qual todos os caminhos da Iniciação ficam abertos sem que, todavia, nenhum chegue a insinuar-se. Nela também se reserva o mistério da Tradição Primordial manifestando-se hermética ou subterraneamente, desde citações evangélicas precisas até ao número preciso e estrito dos capítulos que a compõem[23].

Realmente, os 72+1 capítulos da Regra de São Bento respondem a razões numerológicas em que intervêm as cifras 1+72, números chaves da Unidade integrada num conjunto múltiplo de 12 (12×6), por sua vez esquema cabalístico em que o 70 corresponde à letra hebraica Ayin, significando “Providência Divina”, como estado de alerta da consciência, e o 2 à letra Beth, relacionada com a sephiroth Chokmah, a do Filho, do Messiah, do Cristo como “Projecção Divina da Sabedoria” retida por aquela Milícia levando o nome do Salvador: Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo.

A própria Cruz da Ordem de Cristo contém em si o conjunto múltiplo de 12, nos lados dos seus triângulos ornando os extremos da Cruz Latina: 12 lados totais por 6 parciais dos triângulos laterais ou verticais, o que a faz corresponder ao valor 73 da Regra. Ela constituiu-se a partir do octógono (cujo valor 8, para a Cristandade, era indicativo da Perfeição), sendo possível observar que as serifas das hastes da cruz grega formam um ângulo de 45 graus com a sua base, e as linhas que compõem o formato do desenho do logótipo podem ser obtidas a partir da ligação com as rectas dos vértices do interior do polígono octógono, associado a linhas paralelas aos lados[24].

A Cruz de Cristo, tornada célebre com a Diáspora Marítima dos Portugueses no Mundo e que hoje é o ex-libris das Armas Nacionais, possui, com efeito, uma relação privilegiada com a simbologia tradicional que vem a revelá-la dotada das mesmas propriedades miraculosas já antes atribuídas à Cruz Templária (por se lhe atribuir a maioria dos milagres que ocorriam sob a sua invocação), e se até as cores de ambas é a mesma, o vermelho indicativo do Sangue Real de Cristo, também, como se viu, é igual o seu esquema geométrico. A única diferença notável é que apesar de ambas serem cruzes gregas as suas hastes são aparentemente diferentes, as do Templo evoluírem da forma de acha para triângulo naquelas da de Cristo, para designar as Divinas Pessoas da Santíssima Trindade. Esta última é, então, a verdadeira e salvífica Cruz de Cristo, heraldicamente solta ou navegante gravada nas naus da Diáspora Portuguesa, inspirada nos Preceitos de São Bento e nos Latinos de São Bernardo, como simbólica da: 1 – Intuitio, 2 – Sapientia, 3 – Magisterium, afinal, In Hoc Signo Vinces!

Se a Ordem do Templo possuiu na Península Ibérica uma missão desbravadora e semeadora de novos e mais amplos conceitos culturais, religiosos e sociais, contudo, seria a Ordem de Cristo a cuidar dessa mesma sementeira e colheita no crisol da evolução universal por via da expansão marítima, o que resultou na Lusofonia e na Lusofia em todas as partes do Mundo aonde o Génio Lusitano chegou.

Apesar de haver quem considere que D. Dinis tão-só pretendia fomentar a guerra com a moirama da Granada vizinha e para isso ordenou a instalação dos cavaleiros de Cristo em Castro Marim, “que era na fronteira dos mouros de Espanha e de África”[25], o facto é que eles, sediados desde 1319 na dita praça algarvia, não empreenderam qualquer acção militar contra o Islão granadense e muito menos atravessaram o mar para os ir atacar no Magreb. O mais que houve, em sucessos militares, foram as lutas de defesa da fronteira contra as pretensões ocupantes do rei de Castela[26].

Inteiramente ao avesso da crença ordinária nas intenções militares da Ordem de Cristo contra o Islão no Sul do País, creio antes que D. Dinis ao sugerir a sua instalação no Algarve pretendia estabelecer ou aprofundar os laços culturais e espirituais com a tradição arábica, rica em conhecimentos cartográficos, de navegação, matemáticos, astrológicos, etc., necessários a uma futura empresa de alargamento das fronteiras marítimas do reino. Para esse processo se tornar viável, o “Rei Lavrador” ordenou o plantio de pinhais (Leiria, Azambuja, Santarém, etc.) a fim conseguir a madeira suficiente para a empresa das naus que levariam em suas velas enfunadas a Cruz de Cristo aos confins do Mundo. Isto mesmo diz o Abade Correia da Serra[27]: “Encontram-se às vezes coincidências extraordinárias nos acontecimentos. Este mesmo soberano [D. Dinis], que com tanta solicitude tratou de reconstruir a Ordem [do Templo], plantou vastas florestas de árvores, próprias para a construção de navios, em terrenos incultos próximos do mar. Estes cavaleiros, e estas florestas, se tornaram, um século depois da sua morte, os imediatos instrumentos da grandeza da nação, e de uma das mais extraordinárias revoluções de que a História faz menção”.

O projecto marítimo idealizado por D. Dinis terá começado a amadurecer por volta de 1315-16. Foi por essa altura que o rei mandou procurar um sucessor para o então falecido D. Nuno Fernandes Cogominho, primeiro detentor do título de “almirante-mor”, e em princípios de 1317 (1 de Fevereiro) foi contratado o experiente navegador genovês Manuel Pessanha ou Pezagno. Logo no ano seguinte, Agosto de 1318, D. Dinis enviou os seus embaixadores ao papa para lhe apresentarem a proposta e petição de criação da Ordem de Cristo.

Na conjunção dessas duas diligências estarão os primeiros passos para o início da execução do projecto marítimo de D. Dinis.

Que ele não pretendia qualquer acção militar contra o Islão, bem o diz o longo e exaustivo contrato firmado pelo almirante-mor Pezagno, colocando em pé de igualdade tanto cristãos como mouros: “E prometo, por este juramento que faço, vos servir contra todos os homens do mundo, de qualquer estado ou de qualquer condição que sejam, tanto cristãos como mouros”[28].

Assim foi feito. Assim foram lançadas a terreno as sementes de um Império Temporal que atravessou os séculos e uniu os mais diversos povos, até hoje falando a língua única portuguesa. Sim, sem dúvida que D. Dinis era um Rei Iluminado, tanto pelo Ideal Templário que atravessou o seu tempo e de cuja Ordem terá sido donato, já que trovador e fiel de Amor certamente o foi[29], tanto quanto a sua real esposa, D. Isabel, passada à História como Rainha Santa, ambos cultíssimos do Divino Espírito Santo[30], ela que veio para Portugal impregnada dos ideais paracléticos do joaquimismo dominantes na corte ilustrada de seu pai, o rei Pedro III de Aragão, ideais esses igualmente presentes na Igreja Portuguesa, mormente no primaz Rito Bracarense, moçarábico de raiz e parúsico de fim, motivo da sua oposição, ou melhor, de boa parte do vicariato da Sé Portuguesa apoiada pela Coroa, ao Rito Romano, motivo religioso e político dos inúmeros anátemas papais aos reis portugueses, cujo conflito aberto e quase permanente arrastou-se até ao reinado de D. João I[31]. Com isso tudo, não é de excluir a proximidade da Rainha Santa às ciências herméticas, tendo mesmo chegado a ser discípula do alquimista Arnaldo de Vilanova, num ante-momento de peregrinação a Santiago de Compostela[32].

Não podia, pois, haver melhor casal real para lançar as bases da expansão portuguesa através da projectada Ordem de Cristo [33] que fundaria o Império Temporal de Portugal no Mundo, e, sobre ele, o ainda maior Império Espiritual que, este sim, nunca se desfez: perdura e perdurará enquanto houver o Pensamento e a Língua Portuguesa.

 

NOTAS

 

[1] Henrique Schaefer, Os Templarios e a Ordem de Christo, in História de Portugal, volume I. Porto, 1893.

[2] Vieira Guimarães, A Cruz da Ordem de Cristo nos Navios dos Descobrimentos Portugueses. Lisboa, Oficinas Fernandes, 1935.

[3] Fr. Pedro Álvares Seco, Livro da Regra e Definições da Ordem de Cristo, com Privilégios, Indulgências e Graças atribuídos pelos Pontífices e Reis. Reedição do original do século XVI coordenada por Joana Lencart, Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade (CEPESE), Porto, 2018.

[4] Esboços biográficos de D. Fr. Estêvão, por ordem cronológica da sua publicação: D. Rodrigo da Cunha, Catalogo e historia dos bispos do Porto, pp. 121-128, Porto, 1623, e Historia Ecclesiastica da Igreja de Lisboa, ff. 232v-236, Lisboa, 1642; Fr. Manuel da Esperança, Historia Serafica da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco na Provincia de Portugal, vol. II, pp. 234-238, Lisboa, 1666; Fr. Francisco Brandão, Monarchia Lusitana, vol. VI, pp. 151, 191-195, 433-435, Lisboa, 1672; José Augusto Ferreira, Memorias Archeologico-Historicas da cidade do Porto, vol. I, pp. 292-303, Braga, 1923; Fortunato de Almeida, Historia da Igreja em Portugal, vol. I, pp. 630-631, 633, Coimbra, 1910.

[5] In Monarquia Lusitana, Livro 18, cap. 25.

[6] “… que nós e vós nos paremos a o emparar [ao Templo] e a o defender contra todos aqueles que o quiserem demandar”, etc. Leia-se o tratado entre esses monarcas na Monarquia Lusitana, Livro 18, cap. 26.

[7] In España Sagrada, Tomo XXI, pág. 114 e segs.

[8] In Monarquia Lusitana, Parte VII, Tomo XXI, Liv. 4, cap. 3, num. 3.

[9] Veja-se o documento em Fr. António Brandão, Monarquia Lusitana, Livro 18, cap. 26.

[10] Amorim Rosa, De Tomar, p. 61, primeiro de dois volumes. Fábricas Mendes Godinho, 2.ª edição, Tomar, 1988.

[11] A presente transcrição é feita dos Anais da União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo, Volume 4, Junho de 1963, pp. 87-95, surgindo traduzida do latim. O original está na Torre do Tombo, Lisboa, incluído nos Livros dos Mestrados da Ordem de Cristo.

[12] Na carta pela qual ele ordena a entrega à Ordem de Cristo das povoações, dos castelos e lugares de Soure, Pombal, Ega, Redinha, situados na Estremadura e no Bispado de Coimbra, e de Idanha Nova e Velha, Salvaterra, Segura, Proença e Rosmaninhal, estes no Bispado da Guarda, diz o rei: “que a Ordem de Cristo se tinha feito em Reformação da Ordem do Templo, que se desfez”. – Viterbo, Elucidário, Tomo II, pág. 374.

[13] In Monarquia Lusitana, Livro 19, capítulo 4.

[14] O rei já tinha informado, pelos seus enviados, antes de publicar a bula de fundação, o papa do seu intento de fazer a dádiva de Castro Marim à Ordem de Cristo, motivo por que na bula se menciona essa povoação.

[15] In Monarquia Lusitana, Livro 19, capítulo 10.

[16] Ernesto José Nazaré Alves Jana, A actuação dos D. Priores da Ordem de Cristo durante o século XVI. In As Ordens Militares e as Ordens de Cavalaria na Construção do Mundo Ocidental. Actas do IV Encontro sobre Ordens Militares, 30 de Janeiro a 2 de Fevereiro de 2002. Edições Colibri – Câmara Municipal de Palmela, Lisboa, Fevereiro de 2005.

[17] Trata-se de Miguel António Dias, (1805-1878), criador do Rito Eclético Lusitano e autor dos Annaes e Codigo dos Pedreiros Livres em Portugal. Lisboa, 1853. Reimpressão em 1990 por “Sol Invictus Atelier”, Ericeira.

[18] Segundo Manuel J. Gandra, o Santo Ofício exigia, da consciência de cada cristão cumpridor, a denúncia de certas das suas próprias culpas, bem como, inclusivamente, as dos seus familiares e amigos. Foi esse o pregão lançado dos púlpitos e contido quer na Carta do Édito e Tempo de Graça de 20 de Outubro de 1536, quer no Monitório de 18 de Novembro do mesmo ano.

[19] W. Maigne, Dicionário Enciclopédico das Ordens de Cavalaria Civis e Militares. Editora Hugin, Lisboa, 2005.

[20] Maria Madalena Oudinot Larcher, A Ordem de Cristo e o Padroado na visão de um Cardeal Rei. Publicação subsidiada pela Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores. Fundação para a Ciência e Tecnologia, Novembro de 2016.

[21] Maria Isabel Rodrigues Ferreira, Fontes para o estudo da Ordem de Cristo: sumário de dois códices existentes na Torre do Tombo. In revista Lusitania Sacra, nº 22, pp. 223-244, Universidade Católica de Lisboa, 2010.

[22] Fr. Damião das Neves, Regra e Definições da Ordem e Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Lisboa, 1607.

[23] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[24] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010.

[25] Rui de Pina (Guarda, 1440 – Guarda, 1522), Crónica do Muy Alto e Esclarecido Príncipe D. Diniz sexto Rey de Portugal, segundo o códice inédito n.º 891 da Biblioteca Pública Municipal do Porto. Seguida da versão actualizada da edição pela Oficina Ferreiriana, 1729.

[26] Vieira Guimarães, Ordem de Cristo. Imprensa Nacional de Lisboa, 1936.

[27] Abade Correia da Serra (1750-1823), Os verdadeiros sucessores dos Templários e o seu estado em 1805. Texto inserto no volume II do periódico A Illustração – Jornal Universal, de 3, 10 e 17 de Julho de 1846. Foi impresso originalmente com o título Sur les vrais sucesseurs des Templiers et leur état actuel, nos Archives Littéraires de l´Europe, tomo VIII (1805), pp. 273-288, e sofreu uma reedição facsimilada de 36 exemplares em Lisboa, “no ano de 1890 da era de Roma por um fiel do Amor”.

[28] L. T. Belgrano, Documenti e genealogia dei Pessagno ammiragli del Portogallo. In Atti della Societá ligure di storia patria, tomo XV, pp. 241-316, Génova, 1881.

[29] Américo Cortez Pinto, Diónisos, poeta e rey. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa – Secretaria de Estado do Ensino Superior – Ministério da Educação, Lisboa, 1982.

[30] Fr. Manuel da Esperança, História Seráfica da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco na Província de Portugal, Lisboa, 1656.

[31] Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, tomo I, pág. 104. Coimbra, 1910.

[32] Sebastião Antunes Rodrigues, Rainha Santa, Cartas Inéditas e Outros Documentos. Coimbra Editora, 1958.

[33] Tudo o dito invalida a priori a legalidade canónica e histórica de hodiernas “ordens” templistas pseudo-cavaleirescas e afins, quase todas, se não todas, de inspiração maçonista do século XVIII, assim mesmo buscando na invenção de “mitos fundacionais” a regularidade de transmissão e continuidade do Templo à modernidade que nunca houve, apesar do retorço e distorço de factos soltos da historiografia, inclusive da religião e do hermetismo, para justificar o injustificável. Como dizia alguém, quando não se é militar, quando não se é religioso, quando não se é nobre, quando não se é coisa alguma mas se quer ser tudo e ser mais grande do que os Grandes o foram, resta a invenção de “ordens” templistas pseudo-cavaleirescas às quais René Guénon, com razão, chamou “ordens de paródia”. Destas algumas hoje parecem andar a parodiar, a gozar com a tropa e as autoridades religiosas e civis. Afinal não falta, nesta Kali-Yuga ou Idade Sombria por que o passa o Mundo, gente tão retorcida que até consegue vender óculos de sol a um cego… só não vê quem não consegue, ou tão-só não quer ver. Hoje, a Verdade é mentira e a Mentira é verdade. Para demasiados parece que uma roupa vistosa decorada com medalhas basta para fazer vistão e dar aspecto legal à coisa, e assim acontece com todo aquele despossuído do mínimo de conhecimentos verdadeiramente iniciáticos, sem despertar interior algum, apenas dotado de curiosidade mistérica ou talvez nem isso, pelo que só lhe resta parodiar o passado da História, cuja ingenuidade e vaidade fazem-no vítima de oportunistas caçadores de fortuna fácil marcados por vidas frustradas mas sabidos no encantar e alimentar a fraqueza de ego daqueles de quem se acercam. Infelizmente, confere.

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