Peri amou Ceci
E Ceci a Peri amou..
E ambos partiram para Lisboa,
De início, numa palmeira,
E depois, numa canoa.
Ao chegarem no litoral
Já no Céu estava escrito
Como se fora um manuscrito:
Eis ali PORTUGAL.

Hino ao Amor (JHS)

A bruma espessa e sebástica envolvia a cidade de Barcelos quando aí chegámos, bem à noitinha, eu e a minha companheira, no dia 15 de Setembro de 1990. O nosso primeiro passo foi dirigido ao omphalos do antigo burgo: a catedral de Santa Maria Maior, primitivo ponto de encontro dos peregrinos a Sant’Iago de Compostela, capital da Galiza próxima, e dos antigos cavaleiros da Ordem do Templo.

A nossa meta não era propriamente Barcelos – em pleno Minho, no Norte de Portugal – mas, antes, a pequena freguesia de Mariz, distada dela cerca de cinco quilómetros, e de tão humilde poderá muito bem ser a “barca pequena”, discreta como a maior Barca ou a inviolável Agharta, presente na origem latina do nome Barcellus,  apesar de igualmente ser o teónimo aramaico Bargalus, latinizado Barcalus donde o português Barcelos, “Filho do Monte Sagrado”, ou, por outras palavras, “Filho do Céu”, aquele mesmo Filho que era, simultaneamente, Homem e Deus do qual o galo, ave solar, ficaria para sempre como arauto totémico na história desta cidade.

Dirigimo-nos para essa aldeia ao amanhecer ensolarado do dia seguinte. Não deixei de sentir alguma ironia, quase risível, face às circunstâncias superiores que me norteavam o pensamento, quando solicitei ao taxista: “Faça o favor de nos levar a Mariz”. E ele lá nos levou…

Eu sabia de antemão, sobretudo pelas informações disponibilizadas pelo Professor Henrique José de Souza, que a Antiga e Soberana Ordem de Mariz no Passado havia migrado, descido do Norte ao Sul de Portugal, cuja passagem discreta mas marcante deixou traços indeléveis, inclusive tendo originando famílias brasonadas, as quais encheram de brilhantismo páginas palpitantes da História Lusa.

Sendo a Ordem de Mariz de natureza francamente lunissolar, e tendo Barcelos por totem exactamente o galo, ave sinalética do Sol que, aliás, faz jus ao Porto-Graal ou País dos Galos, Porto Gálio ou Portus Galiae, hoje Portugal, sabe-se que além da freguesia de Mariz no concelho barcelense, a supradita Ordem Soberana possuía disseminadas estrategicamente pelo país outras comendas e bailios. Tanto assim foi que além desta em questão possuía domínios no concelho de Carrazeda de Ansiães (povoação formada em volta e dentro das muralhas do castelo de São Salvador do Mundo, com a sua igreja templária de São João Batista cujos guardiões, esculpidos na sua entrada, sugerem aqueles outros hindustânicos Mahima-Kuvera), abarcando a aldeia de Pombal de Ansiães com os enigmas da sua igreja paroquial de São Lourenço e da fonte santa mais abaixo, junto ao Rio Tua. Esse topónimo São Lourenço de Ansiães além de igual possui tem ligações íntimas, Marizes, direi mesmo, àquele da aldeia de São Lourenço de Ansiães, junto às Azenhas do Mar, no concelho de Sintra. Não esqueço, também, os domínios de Redinha e Pombal, no distrito de Leiria, tendo apostolado na última, na centúria de Duzentos, o presbítero Pedro, o Mariz.

Igualmente não esqueço, como aditamento mais esotérico, que a Sede exterior ou exotérica da Ordem de Mariz foi durante muitos séculos a cidade de Coimbra (As Finis Galiciae), na qual os Gémeos Espirituais da Obra do Eterno na Face da Terra foram apresentados ao Mundo por Jesus e Maria em bendito Avatara Momentâneo, ocorrido no ano 1800, no “Morro dos Amores”, junto à “Fonte da Saudade” de quantos Gémeos Espirituais hajam enternecido com doçura e candura os séculos de Portugalidade. E idos para a cidade da “Serpente ou Colubra” (um misto de mulher e serpente, uma Melusina) que é Coimbra, custodiados pelos Maiores da Ordem de Mariz, desde o Pico do Graal assinalado na Cruz Alta da Serra Sagrada de Sintra.

Pelas suas características, Mariz era uma agremiação mistérica sem qualquer cunho confessional, interna ou externamente, tanto que a sua acção, embora superiormente concertada, era levada a efeito por cada um dos seus membros a título individual e sem qualquer identificação detectável por profanos à Ordem. Sendo, a partir de dentro, verdadeiramente secreta, hermética, selada a quaisquer infiltrações de homens na fase de infância espiritual, por estarem os seus componentes ligados – entre si e ao Governo Oculto do Mundo – pelo mais profundo e sagrado sentido de sigilo, a Ordem poderia agremiar, sem perigo de perseguição, elementos de quaisquer origem confessional ou cultural, desde judeus a cristãos e muçulmanos, reis e príncipes até nobres e cavaleiros de quaisquer outras Ordens. Teria também ramificações em qualquer lugar dentro da sua jurisdição, a coberto das identidades ou das filiações mais externas dos respectivos membros que se reconheciam, porém, num plano absoluta e claramente supra-religioso, mesmo supra-humano, relativamente às limitações de cada época.

O nome da Ordem, segundo o Professor Henrique José de Souza, “tem por origem Mouros, Mauros, Mórias”, etc. A Mauritânia, o País dos Mauros ou Mouros, era região que abarcava, tanto na toponímia como na geografia antigas, áreas muito mais vastas do que hoje, era a “Mauritânia política”, direi assim, situada ao sul de Marrocos. Por seu lado, a acção da Ordem de Mariz, embora sem dúvida centrada no território português que chancelava, relacionava-se directamente com outras Ordens irmãs por territórios e influências amplos e diversos, que se estendiam nos e para aquém do Himalaia, do Médio Oriente ao Magreb e, também, daqui ao Norte da Europa e, mais tarde, sobre o Atlântico para Ocidente, formando um verdadeiro cruzeiro geográfico (o Cruzeiro Mágico de Mariz, no dizer de JHS) que surge, aliás, na heráldica de Portugal desde o seu início (os cinco escudetes e quinas em forma de cruz).

O onomástico Mariz aparece no Alcorão e é conectado àquele outro de Djin ou Jina, nisto ficando o Mória mauritano como indicativo esotérico do Morya himalaio, que é nome de Adepto Vivo. Pois bem, atendendo ao sentido filológico árabe de Djin, “aquele que não se pode ver”, isto é, está ocultado, tanto pela roupagem da discrição e anonimato, como inclusive encoberto no seio da Terra (donde as lendas das “covas dos mouros”), desde logo remetendo para o conceito de Adepto Perfeito, Génio ou Jina (em sânscrito) que desde os alvores do Tempo guia secretamente a Humanidade, postando-se entre ela e o Mundo Espiritual. É o Jina Superior para aqueloutro estado de Jina Inferior ou “força viva da Natureza” (elemental), e o qual opera como Marid ou Maridj, em português Mariz, classificado no Islão como sendo da classe mais poderosa de Djins a que os Vedas classificam de Mahatmas, “Grandes Almas”, o “Génio Solar sobre-humano”, Tachu ou Traichu, familiar do sânscrito Tirtânkara (de que se serviu a Igreja para criar o seu Colégio dos Cardeais), cujos poderes psicomentais fazem com que os Maruts ou Marutas, as “forças vivas da Natureza”, obedeçam inteiramente à sua poderosa vontade.

Segundo Algis Uzdavinys (in Ascent to Heaven in Islamic and Jewish Mysticism. The Matheson Trunst, London, 2011), a Escada de Jacob que a sonhou adormecido com a cabeça recostada na pedra Lusa, simbolismo mediador ou psicopompo de intercâmbio entre dois Mundos, visível e invisível, terreno e espiritual, profano e iniciático, etc., associa-se aos termos árabes ma´arij, “escada”, e mi´raj, “degrau”, sendo Allah o Dhu´l-ma´arij, “Senhor da Escada”, na sura 70 do Alcorão (surata Al Ma´arij, سورة المعارج‎‎, “As Vias de Ascensão”).

Maridj, Marid, Maru, Mauro, Morya ou Mouro, diz a Tradição Iniciática das Idades, veio a constituir a poderosa Linha de 111 Adeptos Independentes que desde o seio da Serra de Sintra (Al-Shantara) vibrou intensamente sobre a Humanidade em prol da sua evolução e, particularmente no que aos portugueses concerne, influindo na formação da Nacionalidade e até mesmo na diáspora nacional, sobretudo no período dos Descobertas Marítimas, episódios marcantes figurando na chamada História Secreta de Portugal.

Ora, das várias famílias nobiliárquicas irrompidas dessa Ordini Majorem há aquela que leva precisamente o nome Mariz (que também existia na Região Centro de Portugal, precisamente em Sintra, no lugar do Lourel, e em Odivelas, cuja Quinta do Mariz pertenceu ao concelho de Loures), a qual teve solar na povoação que hoje lhe herda o nome e durante séculos foi vigararia de Vilar de Frades cujo convento, datado do século XI, era casa-mãe da Ordem de São Bento, a qual teve primazia na construção dos principais imóveis religiosos plantados ao longo da rota portuguesa para Sant’Iago de Compostela, esta que primitivamente pertenceu ao Condado Portucalense por doação de Afonso VI de Leão ao Conde D. Henrique de Borgonha, pai de Afonso Henriques. Ora, na Galiza, praticamente na fronteira com as Astúrias e no caminho para Covadonga (onde teve início o Pelágio ou Reconquista cristã da Península Ibérica, desde o Verão ano 722 com o rei Pelágio à dianteira) , está a povoação que leva o mesmo nome desta barcelense, Mariz, a qual, segundo textos reservados do foro da Tradição Iniciática, ocultamente relaciona-se às Dhyanis-Budhais afins às Plêiades ou Krittikas, tal qual esta portuguesa relaciona-se aos Dhyanis-Budhas afins à Ursa Maior e aos Rishis, ambas as toponímias idênticas de maneira a prefigurarem, divinamente, a Unidade Andrógina da Península Ibérica, direi assim, a antiga Hispânia ou Jardim dos Pomos de Ouro das Hespérides, as mesmas Plêiades.

A procura de traços, de sinais esotéricos indicativos da espiritualidade Mariz em plena raia minhota levou-me, de imediato, a associar entre si três localidades: Barcelos – Vilar de Frades – Mariz, por razões que irão aparecendo ao longo deste estudo.

A paróquia de Mariz, cuja igreja está muitíssimo restaurada de cuja traça setecentista pouco resta e da românica nada, fora anteriormente unida ao Mosteiro de Vilar de Frades pelo Papa Júlio II, a instâncias do Cardeal de Alpedrinha no ano de 1507, passando a vigararia anexa do referido mosteiro mas que depois se tornou vigararia independente, estando referenciada em 1840 como anexa à de Creixomil. Hoje é paróquia da Diocese de Braga. Mas ela já constava das Inquirições de D. Afonso II, de 1220, com a designação “De Sancto Miliano de Maariz” de Terra de Nevia, apesar da Coroa não ter nenhuma jurisdição ou propriedade sobre os Marizes, e a que havia resumia-se à função de os proteger e apoiar, dessa maneira sendo uma espécie de “escudo defensivo” ou “círculo de resistência” político deles. Isso mesmo consta nas Inquirições de D. Afonso III, onde se diz: “In Judicato de Nevia in parrochia Sancti Miliani que el Rey non est patronus da ecclesia”.

Igreja paroquial de Santo Emilião de Mariz, Barcelos

De entre as principais os Marizes trazem por Armas: de azul, com cinco vieiras de ouro, postas em cruz, acompanhadas de quatro rosas de prata. Timbre: um leão sainte de azul, sustentando uma vieira do escudo.

As vieiras, insígnias dos peregrinos a Sant’Iago de Compostela, destacam os Marizes como verdadeiros Tiagos, Iagos ou Bonergus, “Filhos do Fogo”, ou seja, Assuras, elemento esse subjacente ao Sol que é representado pelo Leão. Destarte, leão e vieira, no brasão, indicarão a sua relação luso-galaica ao tema jacobeo, mas igualmente, no particular mais iniciático, desde logo velado, a viseira da luz, correspondente ao sexto sentido: a clarividência, exactamente assinalada pela sexta concha… no topo leonino.

É esse sentido natural, ainda adormecido ou latente na maioria dos homens mas já desperto ou patente nos Iniciados e Mestres, quem demonstra ao seu possuidor a permeabilidade da Matéria, qualidade ligando-se precisamente ao sexto estado da mesma que a Química Oculta designa como subatómico, animado por Anupadaka-Tatva, segundo a Ciência Espiritual do Oriente que os Adeptos Perfeitos, através do eminente “Swami” Henrique José de Souza, trouxeram para o Ocidente Ibero-Ameríndio.

A presença leonina é constante no tema Mariz, nisto não esquecendo a presença do forte culto, em Vilar de Frades, a São Laurentino (de Laurentus e Laurenta), santo claramente solar inspirado no mais antigo ligúrico, Lug.

Descarecendo o mimoso epíteto de mitómano mas carecendo sempre do ponteiro certo das Revelações Iniciáticas do Professor Henrique José de Souza, meu teosófico Norte Mental assente nesta sua Filosofia de Akbel, cimento e fogo do carácter e espírito da Verdadeira Iniciação que marcha sempre do Passado para o Presente neste projectando o Futuro, jamais ao inverso que é ficar sem Futuro em Presente incerto por recuo ao Passado morto, gente que se revela impossível confiar-lhe algo superior sem que o conspurque e ingratamente faça por romper qualquer voto de silêncio e segredo, adianto que as flores de rosa no brasão, unidas às vieiras em cruz, assinalam precisamente a Rosa+Cruz, expressiva do Tetragramaton como signa do “Homem Cósmico” ou Logos Planetário, o Andrógino Primordial Adam-Kadmon, na Terra sendo emblemática alquímica do supremo mistério da Pedra Filosofal, colhida, lavada e lavrada da quintessência dos quatro elementos naturais (Terra, Água, Fogo, Ar), ou seja, o Éter, o mesmo Akasha dos conhecimentos esotéricos do Oriente, portanto, o quinto elemento natural ao qual os R+C chamavam de Vril e os primitivos Iniciados atlantes de Mash-Mask. Trata-se, enfim, do 5.º Regato Vital ou Parda por onde a 5.ª Corrente de Vida discorre promanada do seio do próprio “5.º Kumara em Projecção”, Ardha-Narisha-Kumara – “O que está no Meio (Vau, expressivo do estado Andrógino) da Riqueza”. E Riqueza ou Relíquia é também a Tónica fundamental do 5.º Posto Sintriano Representativo da Obra do Eterno na Face da Terra (Teurgia).

Essas mesmas rosas, já aqui herméticas (significativamente todo o antigo tratado de Alquimia levava o sibilino mas significativo nome de Roseiral Mariano… recambiando para Maria, Maris, Mariz – Ave Mariz Nostra! – tomando forma no Divino Espírito Santo, o mesmo Deus Shiva dos orientais, como seja a Terceira Hipóstase do Logos Único (daí também o designativo Sura-Loka, “Lugar dos [As]Suras”, nome tradicional da Embocadura de Sintra, a hindustânica Kala-Shista ou Sishita, por manifestar o quinto estado de consciência Mental Superior afim a essa Hierarquia Criadora, já de si representativa do Quinto Luzeiro Arabel projectando a Sua Mente Criadora desde o Sol Interno – Chakra Vishuda, Centro Laríngeo – no Duat sob a Serra Sagrada, indo animar a humana por intermédio dos mesmos Suras), dizia, essas mesmas rosas estão patentes na abóbada do convento românico de Vilar de Frades, tendo ao centro os escudetes com a primitiva cruz de Portugal – nisso designando o Cruzeiro Mágico de Mariz a Luzir nos céus da Lusitânia. Ademais, todo o corpo de nervuras abobadal prefigura a enigmática letra vatânica designativa do signo de Aquarius, mas também de Makara e de Maitreya, o “Senhor dos Três Mundos”, o Cristo Universal.

Essa mesma letra está patente no pórtico de entrada dianteira na igreja matriz de Santa Maria de Barcelos (e que igualmente se vê nos túmulos tanto na igreja de Pombal de Ansiães como nos da igreja de São João Batista de Tomar), insculpida junta a rosáceas, vieiras e swástikas. Ora, a Ordem Mística da Rosa+Cruz, saída daquela outra dos Monges-Construtores que, em Portugal, foram primeiramente os beneditinos e cistercienses, feitores originais da monumentalidade arcaica e da espiritualidade arcana na rota jacobeia, constituiu-se um misto de ideário Templário e Grémio de Ofício, tendo coroado o final da Idade Média (século XV) e o início da Renascença (século XVI), períodos afins à construção gótica desta sede devocional entre 1325 e 1350, por iniciativa de D. Pedro Afonso, terceiro conde de Barcelos.

A Rosa+Cruz está igualmente assinalada, ainda que de modo velado, no traçado exterior da igreja paroquial de Mariz: sobre a entrada dianteira abre-se um óculo em rosácea, e a toda a volta do templo, como aro protector numa curta via crucis, dispõe-se uma fileira de 8 cruzes. Número caríssimo aos Templários e seus protegidos, os Monges-Construtores, o 8 assinala a união do Sol com a Lua, do Macrocosmos com o Microcosmos, enfim, do Céu com a Terra como Aliança de Deus com o Homem.

O Orago desta aldeia é Santo Emilião. A sua imagem está à esquerda do altar-mor na paroquial e apresenta-se vestido como beneditino, com o báculo recto na sinistra tendo aos pés, à direita, a mitra episcopal. A mitra deposta assinala o seu estatuto de bispo que terá recusado posteriormente, talvez por não querer trocar a sabedoria pela confissão, a catequese dos simples pela teologia dos sábios, ou por outra, não querer recusar a tradição espiritual da cristandade a favor da política temporal do clero.

Santo Emilião Orago da paróquia de Mariz

O báculo levantado substitui aqui um outro seu atributo: uma trave de madeira, alusão hagiográfica a um milagre que terá feito: alongar uma trave que era curta para a construção de um templo. Esta é uma alusão clara à sua função de Magister Carpentarius, “Mestre de Carpinteiros”, e mesmo que acaso não o tenha sido em vida, não é de descartar que lhe coubesse o padroado de alguma guilda de mestres carpinteiros em algum tempo da Idade Média barcelense. À madeira destinada a telhado do Templo, suporta-a a pedra colunal, função do Magister Macerius, “Mestre de Pedreiros”.  Talvez, ou decerto, por isso mesmo se apresenta à sua direita, no lado oposto do altar-mor, o Menino Cristo coroando com uma grinalda d´ouro (a Laurenta, Laurentino, Lourenço…) a São José, o Iose ou Ancião do Saber com a vara de medição na destra, com tudo ficando assinalado, no figurino piedoso cristão, o Companheirismo ou primitiva Maçonaria Operativa (donde descende a Especulativa) encabeçado pelo mesmo São José, o Arche-Tekton, “Grande Arquitecto”, que à pedra sobre pedra, dispõe trave sobre trave no levantamento do Templo como, afinal, Magister Carpentarius.

Santo Emilião (“Servo do Senhor”, em grego, Aimúlios, e por isso está à esquerda ou passiva do altar-mor, para o Cristo na direita ou activa), tem ainda por atributos iconográficos dois leões deitados (não patentes nesta imagem na paroquial de Mariz), como memória de ter sido lançado às feras em Cyzico, no Hellesponto, por ordem do imperador Leão, e elas terem recusado o atacar (tal qual Daniel na Cova ou Loka dos Leões… de Fogo). Mandado para o desterro, foi novamente preso e morreu às mãos do algoz, que só o pôde decapitar quando a Voz Divina chamou a si Emilião, o fiel Servo da Verdade Viva – Servitas fidelis vivum veritas.

O dia da sua festa litúrgica é o 8 de Fevereiro, logo após o dia da celebração das “Cinco Chagas do Senhor” (o Sangue Real ou Sang Greal, donde Santo Graal), e anterior ao de Santa Apolónia, a Apola como mensageira e aspecto feminino (shakti) de Apolo, o Verbo Solar ou Deva-Vani, “Anjo da Palavra”.

Destarte, tem-se a Encarnação do Verbo Solar precisamente representada no Senhor das Chagas, crucificado sobre o altar-mor tendo atrás de si a sigla JHS, indicadora da Tríade Espiritual manifestada como “Deus feito Homem”.

Altar-mor da igreja paroquial de Mariz (foto de Júlio Loureiro)

Revela-se neste templo um mundo de simbologia helíaca, ao que não falta um Sol dourado resplandecente sobre o arco triunfal separando a capela-mor da assembleia, o que me reporta para a iconologia tradicional do galo, aliás, figurado num silhar de azulejos setecentistas na igreja do Convento de Santa Escolástica – companheira apostólica de São Bento de Núrsia – das Beneditinas de Barcelos, com a ave fitando-se no speculum magicum e por debaixo a legenda: “Só se compõe Bem, quem se vê ao divino Espelho”.

Para cá do altar-mor apresentam-se dois altares laterais, interessando-me principalmente o da direita. Vê-se nele as duas imagens do Sagrado Coração de Cristo, ornado por um Sol dourado resplandecente estando assente em peanha verde, e a do Sagrado Coração de Maria, ornada com uma Coroa prateada estando assente sobre peanha vermelha. Tem-se Cristo-Maria (Jepher-Sus e Moriah), a Parelha Andrógina Cristófora ou Farol de Iluminação, cujo Coração Místico desde sempre é referência ao Santo Graal, não ao Graal-Objecto mas ao Graal-Consciência, do qual Eles, encarnando Sol e Lua, estão à sua frente.

Adiante dessas imagens, levanta-se no altar um crucifixo florlisado, sinalético primitivo do Companheirismo, onde o Senhor, irradiando um hausto dourado, jaze pregado no madeiro azul desfechado em traços vermelhos. Tem-se nisso a referência velada às três “qualidades subtis da matéria” (Gunas – a amarela Satva para o Espírito; a azul Rajas para a Alma; a vermelha Tamas para o Corpo) dominadas pelo Homem das Dores transformadas em Delícias, o que tanto vale por Maitreya, o Vencedor dos Três Mundos ou Mayas.

Não deixa de ser profundamente significativa a homenagem que o Venerável Mestre JHS prestou à Ordem de Mariz por meio da mecânica interna da Ordem dos Tributários por ele fundada em 1952. Com efeito, as cores verde e vermelha das Energias Universais Fohat e Kundalini estão patentes nas faixas dos(as) Tributários(as), que agem como defensivo “Círculo de Resistência” da Obra Divina, e “Círculo” inicialmente constituído por 17 Membros, número que, só por «acaso», é o do Biorritmo de Portugal (Arcano 17, A Imortalidade: “Eu via o Sexto Sistema. Um Sol Central tinha por embrião enorme Borboleta, saindo de um Ser de aspecto feminino. Tive a impressão de que chocavam enorme Ovo, que era aquele mesmo Sol.” – JHS). Sendo a Ordem de Mariz de natureza andrógina em separado ou mista, inicialmente foi-lhe “Círculo de Resistência” a Ordem do Templo (assinalada pela cor vermelha da sua Cruz, representando o Poder Temporal e consequentemente a Força Terrestre, Kundalini) e a Ordem de Avis (indicada pelo verde signatário da sua Cruz, cujo Orago São Bento assinalava a Autoridade Espiritual e, com isso, a Luz Celeste, Fohat), logo, ambas montando guarda à original Ordem Tributária a Melki-Tsedek, o Rei do Mundo: a Maçonaria Universal Construtiva dos Três Mundos, a dos Traichus-Marutas, como 1.ª Rama da Grande Loja Branca dos Bhante-Jauls – cuja 5.ª Rama é a mesma Ordem de Mariz  – cujo Grão-Chefe, Takura-Bey (do qual era avatara o Traichu-Lama, antiga Suprema Autoridade Espiritual do Tibete), veio a servir de Sub-Aspecto, Veículo ou Tulku da Consciência Cósmica de Júpiter manifestada na Terra por Sakiel, o 5.º Dhyani-Cumara (ou Cuma-Mara, Maris…) que, bem sabem os da Obra Divina de Akbel, está intimamente entrosado ao Quinto Posto Representativo de Sintra sob a égide do “Olhar Celeste”, Allamirah, a Mãe Divina (Maris), por cuja Serra Sagrada se acede – quem acede… hoje em número infinitesimal ou nem isso, ao contrário das propaladas fantasias oníricas por alguns desajustados da vida – ao Quinto Templo Universal dos Sedotes da respectiva Cidade do Mundo de Badagas. Confere!

No extremo da paroquial de Mariz, oposto ao altar-mor tem-se a imagem de um São Sebastião, cuja simbologia é notadamente drágona ou alegórica das forças telúricas do interior da Terra, por isso mesmo ligando-se ao tema do Mundo de Agharta, no sentido de representativo do Poder Real e Guerreiro, dos Kshatriyas ou Jinas da Arca. No santoral cristão, esse foi um dos santos da especial predilecção dos Templários ibéricos. Pelo visto, atendendo a quanto já disse e sugeri, por certo razões não lhes faltariam…

É sabido que onde existe um culto solar exterior há um culto lunar interior (e vice-versa, no sentido de masculino e feminino). Encontram-se indicativos desse último, além de nas imagens da Virgem e de São Sebastião, defronte do qual, do lado oposto, há uma pia de água benta em forma de seio de mulher (mama, mamã, mãe…), na intensidade hidrotelúrica cujo veio e corrente discorre sob o templo, dizendo o Padre Carvalho, na sua Corografia Portuguesa, que “tem uma fonte onde vão buscar água que benze o vigário para doentes, e tem muita virtude, particularmente para o fastio”.

A fonte ainda existe e está na sacristia da igreja. Tamanha intensidade hidrotelúrica por certo influi nas devoções do inconsciente colectivo local, motivo que levaria a paróquia de Mariz a ser consagrada ao “Imaculado Coração de Maria” no dia 8 de Dezembro de 1987.

Era com essa “água santa”, dotada de virtudes terapêuticas, que se enchia a pia batismal em formato de taça octogonal alegórica, como recipiendária do sacramento, do Santo Vaso – Saint Vaisel – ou o mesmo Santo Graal presente na Eucaristia dos Monges-Cavaleiros, os Templários medievais, cujos Grãos-Mestres Secretos seriam os próprios Irmãos Maiores da Soberana Ordem de Mariz, esses misteriosos Homens Representativos da nossa iniciática Portugalidade como Encobertos Obreiros do V Império no Mundo (ou o Quinto Reino Espiritual, que na Terra se expressa na supradita Agharta).

Ainda no sopé de uma cruz, junto à entrada exterior da igreja, lê-se uma inscrição semi-hieroglífica, semi-anagramática, traduzida como “M.el dOlivª 1727”, ou seja, “Manuel de Oliveira – 1727”, possivelmente o nome do mestre pedreiro responsável pelos restauros no imóvel e pela construção das cruzes, podendo também ser a data possível da elevação de Santo Emilião a Orago da freguesia, no que a âncora, como um dos hieróglifos, significará precisamente isso: a fixação patronal do santo.

Na verga transversal da porta dianteira, lê-se uma outra data: 1693, a da construção deste templo, pois a igreja paroquial da freguesia era primitivamente no lugar das Fontainhas ou Lajinhas (de que há ainda vestígios), tendo mudado no século XVII para o sítio onde está: Mariz, assento da venusta e Divina Mãe.

Junto à escada para a torre sineira, também na base e por baixo de uma caveira e duas tíbias gravadas no granito, lê-se a data: 1731, altura possível dos primeiros enterramentos no cemitério anexo.

Se Mariz (tanto a paróquia como a Ordem) era conhecida dos nossos egrégios mais insignes, secretamente vinculados à Tradição e Linhagem do Santo Graal, assim parece ser. Por exemplo, o Condestável Santo do Reino, Nuno Álvares Pereira (e que após ingressar na Ordem do Carmelo adoptou o nome de Frei Nuno de Santa Maria, ele a quem as revelações iniciáticas chamam de Malaquias, o Grão-Chefe da Ordem dos Marizes), teve casa em Barcelos junto à Sé Catedral, e quase defronte à sua a dos San Payo (Sampaio) de Luzignano, ambas bem brasonadas para não restarem dúvidas.

A escassos metros, na catedral barcelense, lá está a capela lateral de São João Baptista, cuja cabeça miraculosa é motivo de apelação das gentes aflitas da terra crentes na sua eficácia sobrenatural, mas também da devoção dos peregrinos a Santiago de Compostela invocando a protecção do santo contra os imprevistos no caminho, imagem essa ladeada pelas de Nossa Senhora da Conceição e São Miguel, Orago Gémeo de Portugal. Sendo, pois, motivo de grande devoção, essa cabeça decapitada (tal qual a de Santo Emilião), essa miracula devotioni talvez tenha origem nos tempos medievos dos Templários, estes já de si associados ao mistério terafínico da “cabeça falante”, ou seja, o misterioso baphometh, associado pelos jacobeos a “Santiago Mata-Mouros” e que consta mesmo em dois outros brasões Marizes: um braço armado segurando uma cabeça de moiro, com barba ruiva, foteada de prata. Ou: um leão nascente, de azul, tendo na garra uma espada enfiada numa cabeça de moiro. Mas, verdade seja dita, carvoaria ou bafometaria era igualmente o apodo dado pelos cristãos dado ao colégio de estudos corânicos (madrasa e madrasal, مدرسة), nisto havendo uma aproximação entre os saberes da Cristandade e do Islão, tal qual São João Batista foi o intermediário entre o Deserto (vida cenobítica, contemplativa, clausural) e a Cidade (vida comunitária, pastoral, claustral), ou seja, duas modalidades de vivência espiritual que Flávio Josefo não deixou de registar (in Antiquitates iudaicae, “Antiguidades judaicas”) no século I d. C., e nisto até esta catedral de Santa Maria Maior recebeu melhoramentos de um mestre construtor judeu local, D. Gil da Costa (1504), tornando o espaço vincadamente mendicante.

Com tudo, aprofundando ainda mais o sugerido no figurino do Anunciador, tem-se que o simbolismo iniciático relacionado a São João Batista é afim ao efectivo Ritual de Iniciação do Chrestus ou Arhat de Fogo, geralmente celebrado pela Páscoa, e que vem a ser o Ritual Jina do Yokanan (Djina-Masdhar), em muito identificado ao Ritual Maçónico de Elevação do Adonhiramita, que é essencialmente de carácter misto ou andrógino (conforme testemunha a sua lenda de passagem, passada no ambiente da rainha de Sabá e o rei Salomão), sendo o motivo sacrificial do pré-Apóstolo, J.oão B.aptista, quem estabelece a ponte entre as Escrituras Velha e Nova. No Ritual Djina-Masdhar o Yokanan sofre a “Degola” iniciática (figurada na História Lusa por D. Egas Moniz indo de baraço ao pescoço entregar-se de motu próprio ao rei de Castela), isto é, faz florescer a Rosa no centro da Cruz quando o verbo por sua laringe entoa o Odissonai (“Espaço Sem Limites” – Purusha, Espírito, Pai) e o Odissonal (“Espaço Com Limites” – Prakriti, Matéria, Mãe) a favor da defesa da Obra do Eterno na Face da Terra, logo também dele mesmo, Filho Eleito.

Consequentemente, em conformidade aos ciclos de Iniciação, esse Ritual é realizado não karmicamente mas dhármica ou voluntariamente, em conformidade à consecução da Boa Lis ou Boa Lei, inclusive tendo-o sido por preclaros Adeptos Independentes nos meados do século XX, exclusivamente por amor e devoção ao Trabalho Avatárico do Senhor Akbel e da Senhora Allamirah, servindo o Sangue Real de tais Seres para purgar o peso kármico imposto pela Humanidade ignara a tamanha e divina Obra. Assim foi, por exemplo, com os Barões da Silva Neves… mesmo que hoje e desde 1949 em outros corpos, ainda assim conservando os primitivos no Mundo das “Estátuas Vivas” que é o Duat. Enfim, mistérios da Obra, enigmas dos Deuses.

Isso mesmo, ainda em relação com os “Barões Assinalados” e o seu “sacrifício kármico na Cidade Badagas de Itapira (Ita+Pira = Pira de Fogo), sob o solo itaparicano brasileiro”, é desmentido e reiterado em primeira mão pelo próprio Venerável Mestre JHS, na sua Carta-Revelação de 11.09.1941:

“Como Refugium Peccatorum, não quer dizer que seja Lugar de Castigo. Puro engano! Mas antes de Purgação, de Elevação, de Destruição dos erros ou Karma, como o próprio Henrique Antunes da Silva Neves (o Santo Condestável) e Helena da Silva Neves (a Rainha Santa Isabel – Ísis Babel, Abel, etc.) se ocultarem até hoje, cercados de sua Corte, alguns Adeptos que auxiliaram, como Eles… os primeiros dias dos Gémeos, quando ambos de 15 para 16 anos de idade material ou humana… assumiram conscientemente a responsabilidade, indo PURGAR-se na referida Ilha (de Itaparica), desde que não podiam fazê-lo em Shamballah, nem mesmo na Agharta… S. Salvador fica fronteiriça, e passa por ser a “terra natal” de ambos, os Gémeos Espirituais ou Henrique e Helena, e como Eles, os dois prodigiosos Seres.”

Pois bem, nessa capela joanina da Catedral de Barcelos, Refugium Salvatorum, acendemos, eu e a minha companheira, cinco círios alvos, e de mão espalmada sobre o peito saudámos a Divindade e seus digníssimos Representantes, agradecendo todas as dádivas concedidas, dando assim por encerrada a nossa peregrinação a Terras de Nevia.

Saímos para o exterior, acompanhados de dois Jinas e o seu cão. A bruma voltava a cerrar, e nela empreendemos o regresso a Terras de Sintra, também estas pertença de Cordo Mariz.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

– Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão – Editores, Porto.

– Juan Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1988.

– Batalha Gouveia, O Etimólogo Emília. “Jornal do Incrível”, 28 de Janeiro de 1986.

Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, volume XVI. Editorial Enciclopédia, Limitada, Lisboa – Rio de Janeiro.

Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, volume 12. Editorial Verbo, Lisboa.

– Raúl Proença, Guia de Portugal (II-Minho), 4.º volume. Edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

– Teotónio da Fonseca, O Concelho de Barcelos Aquém e Além-Cávado, volume I. Reprodução facsimilada da edição de 1948. Barcelos – 1987.

Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Lisboa, 1961.

– Manuel de Sousa, As Origens dos Apelidos das Famílias Portuguesas. Sporpress – Sociedade Editorial e Distribuidora, Lda., Mem-Martins.

– Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal, 1.ª edição. Editora Madras, S. Paulo, 2000. Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo (História Oculta de Portugal), 2.ª edição, Editora Madras, S. Paulo, 2002.

– Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.

Textos Internos e Cartas-Revelações do Professor Henrique José de Souza e do Eng.º António Castaño Ferreira.