D. Sebastião, filho do príncipe herdeiro do trono de Portugal, D. João Manuel (Évora, 3.6.1537 – Lisboa, 2.1.1554, sendo o oitavo filho do rei D. João III), falecido precocemente de consumo, segundo as fontes, possível referência à tuberculose ou, ainda, aos diabetes, doença que teria herdado de seu avô materno D. Filipe I de Leão e Castela, e de D. Joana de Castela (Madrid, 24.6.1536 – Escorial, Madrid, 7.9.1573), arquiduquesa da Casa de Habsburgo da Áustria, nasceu em Lisboa no dia 20 de Janeiro de 1554, dezoito dias após a morte do progenitor, e faleceu em Alcácer-Quibir, Marrocos, em 4 de Agosto de 1578.

Desde o ventre materno que D. Sebastião era desejado – e mais ainda depois de nascido – em vista da crise dinástica que Portugal atravessava. A morte de D. João Manuel, único filho sobrevivente dos nove que D. João III, deixou o reino em sobressalto e a sucessão régia passou a depender do sucesso do parto de D. Joana.  O problema não estava na falta de herdeiros ao trono português, mas sim no contrato de casamento de D. Maria Manuela, irmã do príncipe defunto, com D. Filipe II de Castela, pelo que não havendo sucessores Portugal passaria ao filho dessa união, D. Carlos, e ficaria sob o governo de Castela, intenção abominada pelos portugueses, desde o clero à nobreza e o povo.

O bispo de Lamego e arcebispo de Lisboa, D. Fernando de Meneses Coutinho e Vasconcelos (Lisboa, c. 1480 – Lisboa, 7.1.1564), ordenou que assim que começassem as dores do parto avisassem a Sé, para que fosse feita uma procissão de fé e alvissaras na hora da esperança. Quando a princesa começou a sentir as dores, na noite de 19 para 20 de Janeiro, de madrugada chegou o aviso e o povo afluiu à igreja de S. Domingos sendo tão grande a multidão que os padres pregavam uns dentro e outros do lado de fora do templo. Na manhã de sábado, 20 de janeiro, nasceu o príncipe e a notícia foi recebida com loas de alegria geral e louvores de graças a Deus. Em 27 de Janeiro, ao oitavo dia, o cardeal D. Henrique (Lisboa, 31.1.1512 – Almeirim, 31.1.1580), irmão de D. João III filhos de D. Manuel I, batizou o seu sobrinho neto com o nome Sebastião, por esse ser o dia do santo homónimo, sendo seus padrinhos o rei e a rainha seus avós. – In José Pereira Baião, Portugal cuidadoso, e lastimado com a Vida, e Perda do Senhor Rey Dom Sebastião, o desejado de saudosa memória. Historia chronologica de suas acções, e sucessos desta Monarquia, Livro I (de cinco volumes), Capítulo Primeiro, De sua Infância. Do nascimento, batismo, e aclamação del Rey D. Sebastião, de outros sucessos notáveis deste tempo. Lisboa Ocidental, 1737.

D. Sebastião ascendeu ao trono aos três anos de idade, após a morte do seu avô o rei D. João III, com regência instaurada durante a sua minoridade, liderada primeiro por sua avó, a rainha D. Catarina de Áustria, e depois pelo seu tio-avô, o cardeal D. Henrique de Portugal. Foi coroado em 16 de Junho de 1557 como D. Sebastião I de Portugal, e em 1568, com catorze anos de idade, assumiu a regência.

Desde o berço e na juventude de que não passou, D. Sebastião foi rodeado de halo de mistério sobrenatural justificado por prosas e poemas, quadros e pinturas, aplaudidas pela erudição da época pouco ou nada descasada com o senso do pensamento hermético – casando Alquimia e Cabala, Astrologia e Messianismo – já campeando na corte de D. Manuel I, retraído no reinado de D. João III e novamente expandido nesta fase do Desejado, teve ele uma educação cuidada mas igualmente exagerada no tocante à formação militar e religiosa, tanto que o levariam a assumir o estatuto de divinus rex bellator et piscatoris – senhor do mundo conquistado e conquistador de almas – acabando por perder Portugal numa tragédia bélica em breve tornada apologética, messiânica e esperançosa porque o rei não morrera, só desaparecera, haveria de voltar. Com isso nasceria o sebastianismo, coluna dorsal da mística portuguesa que chega a ser mais popular que erudita, mais política que espiritual, mais sebastianista que sebástica. Nisto, o rei-pessoa acabou superado pelo rei-símbolo, e ele próprio muito contribuiu para isso em sua curta vida.

Como aio, escolheram-lhe o leal fidalgo D. Aleixo de Meneses; como preceptor, após algumas divergências, o padre jesuíta Luís da Câmara, que exerceu grande influência no espírito do rei adolescente, e por quem o monarca chorou lágrimas sinceras quando a morte o privou dos seus ensinamentos. Ao jesuíta Luís da Câmara sucedeu o agostiniano Luís de Montoya, que já fora confessor de D. João III e do infante D. João (cf. António Machado Pires, D. Sebastião e o Encoberto. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1982).

Quiseram dar ao rei uma educação portuguesa; sentia-se a necessidade de intensificar o sentimento nacional numa época com sintomas de decadência (já há muito, em 1537, o humanista flamengo Nicolau Clenardo deixara na sua Carta a Tiago Látomo, também humanista, o registo sobre a decadência portuguesa no tempo de D. João III), por isso mesmo numa época em que se levantavam mais altas as vozes de exaltação do passado, assentando as suas ideias de que o império entrara numa fase de decadência, sentimento negativo que levava a olhar com saudosismo para os “anos dourados” do início do século, quando os portugueses se haviam espalhado, vitoriosos, pelo Índico. A edição dos Comentários de Afonso de Albuquerque, dada á estampa em 1557, certamente é um bom exemplo do ambiente pessimista que se vivia na corte; o recuo em Marrocos acentuara nitidamente essa visão. Era, como se pensava, uma hora que reclamava patriotismo, o arredo radical das intrigas palacianas, da corrupção, das lutas coloniais ou ultramarinas, enfim, dos vários sintomas de decadência.

O programa de educação do rei baseava no sentimento nacional, na exaltação do heroísmo passado, no estímulo dos grandes feitos. As leituras principais de D. Sebastião também são significativas: aos treze anos lia o Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda (de Jorge Ferreira de Vasconcelos, recém-impressa nesse ano de 1567 e dedicada a ele, “muyto Alto e muyto Poderoso Rey Dom Sebastião, primeiro deste nome em Portugal, nosso Senhor”), que tomou como o ABC da Cavalaria; leu o Cid e muitos mais romances também de Cavalaria (Amadis, Palmeirim e outros), tomando o romance como a realidade que veio a moldar e impor, aliás, com aceitação [quase] geral. Teria ainda lido a Filosofia dos Príncipes e também a Educação dos Príncipes, obras próprias para a formação de um monarca. O humanista Diogo de Teive (Braga, 1513/1514 – Brasil, 1565), cuja heterodoxia religiosa próxima das ideias de Erasmo lhe valeu ser perseguido pela Inquisição, escreveu para ele o livrinho Institutio Sebastiani Primi, traduzido por Francisco de Andrade com o título Regras para a Educação de D. Sebastião (cf. Aurelio Pérez Jiménez, José Ribeiro Ferreira, Maria do Céu Fialho, O Retrato Literário e a Biografia como estratégia de Teorização Política. Imprensa da Universidade de Coimbra / Universidad de Málaga, 2004). Com tudo, D. Sebastião viveu numa atmosfera propícia a sonhos guerreiros, heróicos, de demanda e domínio. Sentia-se um cruzado, um paladino, um cavaleiro de Ordem Militar. No seu livro D. Sebastião – Rei de Portugal (Lisboa, 1924), Antero de Figueiredo disse que se as Ordens Militares não estivessem criadas, sê-lo-iam por este príncipe. Mas foram: ele reuniu em uma só as Ordens de Cristo, de Santiago e de Avis naquela que criou de sua exclusiva iniciativa – a Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo ou Ordem Militar da Seta [Frecha] de São Sebastião.

A ideia desse projecto ter-lhe-á começado a germinar na mente por volta de 1570, altura em que transpõe o seu tópico místico-militar de império para a sua empresa particular, notoriamente hermética que talvez lhe a sugerissem aqueles mais familiares do Hermetismo da época. Essa sua empresa oficial é composta por um peixe atrás de uma vieira (bivalve) sob o céu com as estrelas e a Lua. Esta aparece em quarto crescente, sendo as estrelas a Ursa Menor onde se encontra a Estrela Polar, a Estrela Guia, no caso, o Guia do País como Messias Nacional. A sua divisa é a seguinte: Serena Celsa Favent, “o esclarecimento (ou a serenidade) favorece a excelência”, sugerindo que D. Sebastião, o Desejado, perfilhava de Filosofia que o dispunha como executante escolhido pela Virgem e as Estrelas para missão divina tal qual a de Cristo, duas vezes nascido, de mulher ou da carne e pelo batismo (vieira), convertendo os infiéis na Terra Santa. Agora seria ele a retomar a missão de Cristo buscando retomar Jerusalém para a Cristandade, ele o favorecido pelos céus, para tanto urgia a fundação de uma nova Ordem Militar e Religiosa capaz de reunir o mundo cristão (assinalado no peixe) na perfilha da ideia de cruzada nova, Ordem essa preferencialmente fundada na terra de Santa Maria de Lagos, onde o seu antepassado Infante Henrique de Sagres iniciara a Cruzada do Mar, a mesma Gesta Dei per Portucalensis manuelina correspondendo à conquista espiritual do Mundo.

A Gesta Dei per Portucalensis, divisa manuelina do Ciclo das Descobertas Marítimas, estava ao encargo da Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, vulgo Ordem de Cristo, a dos freires cavaleiros ou milites Christi, cuja organização interna e função claustral ou expansora estava consagrada desde o reinado de D. Dinis, mas que depois, em 1528, D. João III reformaria através do seu confessor frei António Moniz da Silva, dito de Lisboa, religioso dos Jerónimos de Guadalupe, próximo de Madrid, convertendo a Ordem à estrita clausura vigiada de perto pelo Tribunal da Inquisição, sujeita às exigências mais rigoristas, o que acelerou a sua decadência e com ela o início da crise no império ultramarino.

Igualmente o Mestrado da Ordem Militar de Santiago ficou sujeito às intenções e disposições exclusivas da Coroa e assim mesmo a Ordem Militar de São Bento de Avis, que abrigava a maioria da nobreza, já de si perseguida e manietada desde o reinado absolutista de D. João II. A decadência das três Ordens era notória, D. Sebastião sabia disso – como todos sabiam – e quis reuni-las numa única por si fundada.

Crente na sua missão messiânica de rex bellator, evocava constantemente a hagiologia do seu homólogo que além de santo também fora guerreiro, juntando assim a santidade e a realeza na sua exclusiva pessoa. Como tal e tanto, acreditava só ele poder fundar uma Ordem salvífica não só das antecessoras mas do mundo inteiro da perfídia herege (nesta incluindo além de árabes também judeus e cristãos, segundo o seu particular entendimento das Escrituras), a qual calcaria quando tivesse o domínio da Terra desde o seu centro geopolítico e religioso que era e é Jerusalém. Tomava-se assim como o próprio Senhor do Poder Temporal e da Autoridade Espiritual do Mundo, predicados de Melki-Tsedek e igualmente de Mikael ou Miguel, o Arcanjo Quis ut Deus (cf. René Guénon, O Rei do Mundo, 1.ª edição, Paris, 1927).

Também S. Sebastião se alistara como soldado do exército romano (cerca do ano 283 d. C.) com a única intenção animar o coração dos cristãos, enfraquecido diante das torturas. Era querido dos imperadores Diocleciano e Maximiliano, querendo-o sempre próximo deles ignorando tratar-se de um cristão, tendo-o até designado capitão da sua guarda, a guarda pretoriana. Mas, cerca do ano 286, a sua conduta branda para com os cativos cristãos levantou suspeitas, acabando por levar o imperador a julgá-lo sumariamente como traidor, ordenando a sua execução por meio de flechas (símbolo constante na sua iconografia). Dado como morto foi atirado ao rio, porém, S. Sebastião não havia morrido…

Reaparece no dia 20 de Janeiro de 1554, dia de S. Sebastião, desta feita como D. Sebastião. Nisto acreditavam muitos portugueses, para eles sendo um sinal da missão divina do rei. Religioso extremado, tomando para si a probidade do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira, que salvou a Independência Nacional, e a castidade por voto do seu antepassado o Infante D. Henrique, Mestre e Governador Geral da Ordem de Cristo, recusou o casamento por várias vezes preferindo a rigidez celibatária, imprópria para um rei que devia deixar geração sob pena de comprometer a sua sucessão legítima no trono com o risco de perigar a independência nacional, tendo sido depois esse facto aproveitado por diversos autores para darem o monarca como “avesso a mulheres”. Talvez o fosse, talvez não o fosse, mas sendo quase comum – por ausência de pensamento sagrado e sobejo de preconceitos intelectuais, castradores do nócio científico, seja ou não empírico – a ausência de enquadramento do seu perfil de adolescente inflamado nas suas declaradas pretensões místico-militares, ou de misticismo militarista, a sua principal e talvez única motivação na vida, a começar por querer se identificar a S. Sebastião, cujas setas/flechas martiriais adoptaria como divisa alternativa. Aliás, essa divisa alternativa adquiriu maior importância numismática que a sua divisa primária, vendo-se alguns exemplos na numerária indo-portuguesa do século XVI, onde as flechas são o identitário principal.

Tudo indica que D. Sebastião formalizou o plano de fundação da sua Ordem Militar em 20 de Janeiro de 1576, talvez no Convento Franciscano de Santa Catarina ou o do Corvo (hoje desaparecido), no Cabo de S. Vicente, tendo-a fundado em Março do ano seguinte na igreja de S. Sebastião (antiga ermida de Nossa Senhora da Conceição, datada de 1325) da cidade de Lagos, através do bispo de Silves (1540), D. João de Melo. Vizinho do ideal franciscano, aí instalou a sede da sua Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (decalcada inteiramente da regular e secular Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo), também chamada de Ordem da Flecha de S. Sebastião. Desde a substituição do Orago da igreja, a Senhora da Conceição por S. Sebastião, às reformas no edifício e à decoração rica de simbolismo sebástico-hermético, com destaque para as telas do pintor Álvaro Dias, terminadas em 1580, esta terá sido a Casa-Mãe dessa Ordem controversa de duração efémera, ainda assim aproveitada para resguardo pio de muitos hermetistas da época quinhentista/seiscentista algarvia, sobrando ainda a porta principal da ermida primitiva que depois das reformas das reformas de 1463 pelo bispo D. João de Melo, ficou disposta como portal lateral, com a ombreira recheada de figuras herméticas do imobiliário alquímico, tornando-a assim um liber mutus (“livro mudo”).

Dentro do templo, na abóbada em caixotão de madeira, observa-se a pintura de um pentalfa flamejante sobre a coroa régia encerrado as três setas de S. Sebastião, como ilustração central bordada pela frase latina do Salmo 71: “Bendito o Senhor que fez o Milagre do Sol”. Para o Professor Henrique José de Souza (1883-1963), fundador da Sociedade Teosófica Brasileira (aliás, a Virgem da Conceição deste templo, diz a lenda local, veio pelo mar trazida pelos Anjos do Brasil até aqui, o que é deveras significativo), o Salmo 71 tem o significado cabalístico seguinte: “Justiça igual para todos. Paz universal. Fraternidade entre os povos. Extinção da pobreza. Verdadeira liberdade. Abundância e prosperidade”. Ora, esses são precisamente os predicados da Sinarquia ou Concórdia Universal que tanto os Templários como os Freires de Cristo perseguiram e realizaram em seu espaço de actuação, particularmente nesta parte do Algarve (de Silves a Sagres) desde a surtida de 1189 por D. Sancho I, apoiado pela Ordem do Templo, que conquistaria desde Silves até à Raposeira e Vila do Bispo chegando a Sagres, logo, perpassando Lagos onde sobrevivem memórias históricas e arqueológicas desse período. Tudo isso terá sido motivo e pretexto para D. Sebastião fundar aqui a sua Ordem, atraindo para a sua real pessoa as grandezas dos feitos passados como justificativa nunca esclarecida por certo pela ausência de profundidade adulta, exagerada pela presença da superficialidade juvenil.

Sobre este tema, Manuel Joaquim Gandra escreveu (O Neotemplarismo, p. 167, em Cadernos de Tradição – O Templo e a Ordem Templária de Portugal, Ano I, N.º 1, Solstício de Verão de 2000, Lisboa – Mafra):

Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ordem Militar criada por D. Sebastião, em Março de 1577, achando-se no cabo de S. Vicente (Algarve). Alguns autores chamam-lhe, impropriamente, Ordem da Flecha de S. Sebastião.

“A missiva que, na circunstância, D. Sebastião remeteu ao embaixador em Roma faz luz sobre o evento: “[…] esta ordem que agora determino publicar é aquela mesma que tenho instituído e a que então dei princípio com nela entrar a fazer logo profissão, e que não é a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo que alguns podem cuidar que seja por a cruz dela ter muita semelhança com a que escolhi e ordenei para esta nova ordem, que tenho assentado que se chame a Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e divisa de S. Sebastião, pela Seta que com a mesma cruz ao pé dela trago” (cf. BN: cod. 887, fl. 158r-158v). Consulte-se Sampaio Bruno, O Encoberto, Porto, 1904, p. 80-97, e Camões, Oitavas sobre a Seta que o Santo Padre mandou a El-Rei D. Sebastião, no ano do Senhor de 1575. O Desejado tencionava fundar um Templo dedicado ao mártir no Terreiro do Paço (Lisboa) para nele albergar a relíquia do braço do mesmo Santo que Carlos V furtara no Vaticano, quando do saque de Roma. Francisco de Holanda apresenta o respectivo projecto no Da Fabrica que falece à Cidade de Lisboa (fl. 26v-27r).”

Com efeito, em 1571 D. Sebastião requereu do Papa Pio V autorização para alterar os estatutos das Ordens Militares de Cristo, Santiago e Avis, e acrescentar à cruz dos referidos hábitos uma seta ou frecha, em memória da arma com que fora martirizado o santo seu homónimo, assim colocando o Sebastião rei ao Sebastião santo, cuja distinção só seria conferida aos cavaleiros que se assinalassem por feitos notáveis na guerra. Ele, monarca, não sendo cavaleiro usava assim das suas prerrogativas reais para ser chefe de todos eles e “estocar”, “flechar” fatal e decisivamente as antigas Ordens seculares de Cavalaria e Linhagem nobiliárquica com mais de cinco gerações ininterruptas. Essa intenção regista-se numa pedra armoriada com as três Ordens e a de S. Sebastião por cima, num edifício da antiga Alfândega e actual Porto de Setúbal.

De saúde frágil, inquieto e imaginativo, de fantasias lúgubres, nisto rei quimérico querendo fazer-se imperador do mundo indo tomar Jerusalém a partir do Norte de África, onde se perderia e perdeu Portugal, decapitando financeira e militarmente o país, ansiava sempre copiar as grandezas dos seus antepassados, vendo-se a incarnação de todos eles e de todas elas, como constata Alexandre Ferreira na História das Ordens Militares que houve no Reyno de Portugal, Academia Real da História, Lisboa, 1735: “E passando ao que me importa, digo, que prezo El Rey desta ideia da jornada de Africa, e penhorado da Setta de S. Sebastião, para gloria da empreza, a que se encaminhava, e lembrado de que seu antigo avô, El Rey D. Affonso o I, no glorioso sucesso de Santarem contra hum numero sem numero de Barbaros, capitaneados por El Rey de Sevilha, instituira a Ordem da Ala, ou Aza de S. Miguel, para escrever com aquellas pennas as memorias do seu agradecimento, e voar com aquella Aza em gloriosos triunfos; e que El Rey D. Affonso o V, para continuar os gloriosos empregos, que lhe derão o nome de Africano, creara a Ordem da Espada de Santiago; e com estas honradas memorias creou a Ordem da Setta de S. Sebastião, espada segura para triunfar do contagio daquelles Barbaros, porque nas azas, com que voara, levaria a saude contra a peste da Infidelidade.” Informando ainda que a Cruz signitária dessa nova Ordem era idêntica à da secular Ordem de Cristo cujos cordões vermelhos da sua orladura “eram de ouro e a seta atravessando a cruz”. Igualmente António de Mariz, no seu Manuale Missalis Romanum (Coimbra, 1577), reproduz em vinheta a insígnia dessa Ordem, a das três setas atravessando a coroa, tal qual se vê ainda num dos capitéis da igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa. No mesmo sentido escreveu Manuel de Faria e Sousa na sua Europa Portuguesa, em 1667. Mais recentemente, Manuel Joaquim Gandra, em seu estudo Ordens Luso-Brasileiras e suas Insígnias (2017), aviva o testemunha desses autores não deixando, todavia, de classificar esta Ordem da Cruz de Nosso-Senhor Jesus Cristo como “Ordem Efémera”, apodo que desconheço se pela sua curta duração, se pela sua menos ou nenhuma valia tradicional no nobiliárquico, religioso e militar/cavaleiresco.

Além das alterações nos Estatutos (efectuadas em 6 de Fevereiro de 1572) indo afectar a ponto de decapitar o sentido canónico das Regras das supraditas Ordens, D. Sebastião solicitou uma das setas com que foi martirizado o santo homónimo, para a depositar na igreja que lhe pretendia edificar em 1570 em Lisboa, junto à então praia do Terreiro do Paço, mas que não passou da intenção, ficando-se a dita relíquia, depois de chegada, pelo Mosteiro de S. Vicente de Fora, ainda na capital. A morte de Pio V levou a que só o seu sucessor, o Papa Gregório XIII, pudesse satisfazer a vontade régia, já que, pelo falecimento de D. Joana de Áustria, enviou a seta embebida no sangue do mártir, acompanhada de um Breve Pontifício datado de 8 de Novembro de 1573.

Essa venerada relíquia – sacra invenção – chegou a Portugal 9 de Fevereiro de 1574, trazida pelo enviado papal Pompeo Lanoja, Cubiculário de Sua Santidade, sendo recebido pelo rei quando estava nos seus Paços de Almeirim. Motivo para Luís de Camões escrever a sua Oitava sobre a Seta que o Santo Padre mandou a El-Rei D. Sebastião, no ano de 1575.

Nesse sentido, igualmente o pressuposto rival do “príncipe dos poetas portugueses”, Pêro ou Pedro Andrade [de] Caminha (Porto, 1520 – Vila Viçosa, 9.9.1589), dedicou alguns poemas encomiantes ao Desejado dentre os quais o Epigrama CLXXXVII com o significativo título A El-Rei Nosso Senhor da Setta que traz no peito: “Com a Santa Seta, de que o peito ornaste, Grão Rei de todos os peitos nos abriste;”, etc. (cf. Poesias de Pedro Andrade Caminha, mandadas publicar pela Academia Real das Sciencias de Lisboa. Lisboa, na oficina da mesma Academia, MDCCXCI; Poesias inéditas de Pedro Andrade Caminha. Publicação de J. Priebsch como reprodução em fac-símile do exemplar datado de 1898 na Biblioteca Nacional. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1989). É ainda a este autor que se deve a pressuposta única iconografia da insígnia desta Ordem contida na sua iluminura do Elogio dos Reis de Portugal, cerca de 1578, reproduzida pelo mesmo Manuel Gandra no seu estudo por último citado.

Colado pelo batismo a S. Sebastião, D. Sebastião teve sempre, como se viu, uma constante e significativa preocupação em representar as setas ou frechas que martirizaram o santo em tudo aquilo que simbolicamente expressasse o poder régio e a sua própria pessoa como rei, assim unindo – inspirado pelos seus mentores – o Poder Real à Autoridade Espiritual concentrados na sua única pessoa, prerrogativas de Melki-Tsedek o qual parece ter querido se assumir como Soberano Supremo do Mundo, o que seria confirmado de alcançasse Jerusalém, a ocupasse e nela instalasse o seu trono, o que também já disse. Com a sua ida a Alcácer-Quibir e a derrota militar que sucedeu, a Ordem da Seta de S. Sebastião entrou em acelerado esquecimento e praticamente desapareceu nos anais da História.

As cinzas da fogueira do efémero na quimera do tempo, acabariam reavivadas séculos depois por motivos avizinhando-se realengos espelhados menos sebásticos e mais sebastianistas, como esses até hoje opondo brigantinos e anti-brigantinos, para todo o efeito, sempre esbarrando na Lei do Banimento, de 19.12.1834, e na Lei da Proscrição, de 15.11.1910, ambas revogadas pela Presidência da República no Decreto-Lei n.º 2040 publicado no Diário da República n.º 99/1950, Série I de 1950-05-27. Com tudo e talvez aparte tudo, sejam prós, sejam contras, em Janeiro de 1994 a antiga Ordem fundada por D. Sebastião foi restabelecida por D. Filipe Folque de Mendoça (16.4.1967 – ), 3.º conde de Rio Grande, filho de D. Alberto Nuno Carlos Rita Folque de Mendoça Rolim de Moura Barreto (1923-2003), 5.º duque de Loulé, que a autorizou, retomando então a primitiva denominação de Ordem Militar de São Sebastião, dita da Frecha, instalando a sua sede no antigo mosteiro beneditino de S. Salvador de Palme, Barcelos. No dia 20 desse mesmo ano e mês, dia de São Sebastião, foi celebrada uma missa em honra do santo patrono e do rei fundador da Ordem. O duque de Loulé, em carta passada de 19 de Julho de 1999, confirmaria essa autorização na pessoa de seu filho. A Ordem permaneceu adormecida até ao ano de 2003, até finalmente, em carta de 20 de Janeiro de 2004, D. Filipe a ter reactivado, diz-se que para premiar os merecimentos e com ela distinguir aqueles que mais se assinalarem por distintos serviços ao bem comum e à sua Casa, subentendendo-se que agora a batalha a ser ganha é a do reconhecimento oficial de D. Pedro José Foque de Mendoça Rolim de Moura Barreto (1958 – ), actual donatário dos títulos de duque de Loulé e conde de Vale de Reis, como legítimo e único herdeiro do trono de Portugal. Para isso, dotou-a de novas disposições estatutárias, dirigidas exclusivamente aos beneficiários dos seus graus: Colar, Grã-Cruz, Grande-Oficial, Comendador, Cavaleiro e Dama. A insígnia desta Ordem é composta de três setas [frechas] de ouro com as pontas viradas para baixo, estando a central na vertical atravessada em aspa pelas laterais ficando ao centro, no ponto de intercepção, a letra S em esmalte verde sobre círculo de ouro, rodeado pela divisa Celsa Serena Favent, em esmalte branco, donde irrompem para os lados pontas de fita em esmalte verde.

O mais a saber sobre esta Ordem larária mas armoriada só ao futuro pertence, que é nele que está e fica bem D. Sebastião, sempre Desejado, perpétuo Encoberto nas brumas da utopia, do mito e da lenda.

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