Cantam as cigarras no campo de douradas espigas de trigo no estio, quente e seco, onde o Sol “parado” no zénite teima tornar o dia mais longo do ano. Mas assim deve ser, pois afinal, neste 21 de Junho, é dia de Solstício de Verão.

O Solstício (Solstitium, em latim) associa-se à ideia do Sol ficar estacionário ao atingir a sua posição mais alta ou mais baixa de altura no céu relativamente ao equador terrestre, ou seja, aos pontos onde a declinação do astro-rei atinge os pontos extremos: o máximo no Solstício de Verão (dia mais longo do ano, 21 de Junho) e o mínimo no Solstício de Inverno (noite mais longa do ano, 21 de Dezembro), marcando o início do Inverno no hemisfério norte e do Verão no hemisfério sul, portanto, sendo fases sazonais, motivos dos povos do passado e do presente darem aso a celebrações religiosas tendo por foco central o Sol como “Espírito de Vida” propiciador de boas sementeiras e colheitas, tanto agrícolas como místicas, motivo da mudança dos ciclos da Natureza passado a ter significado místico, religioso e até esotérico ou mistérico, onde as sociedades tradicionais creditavam aos Deuses as bênçãos do equilíbrio e da equidade nos Equinócios (Aequinoctium, em latim, “noite igual”, referindo-se ao momento do ano em que a duração do dia é igual à da noite em toda a Terra), e a bênção da Luz do Sol Invictus ou Sol Indiges, o Sol da Terra, nos Solstícios, quando então depositavam as maiores esperanças na realização das mais desejadas aspirações dos homens.

Foi assim que no Antigo Egipto o faraó Akenaton, o Grande Iluminado, compôs o seu “solsticial” Hino ao Sol encomiando as suas virtudes:

“Bela é a tua alvorada, oh Aton (Sol) Vivo, Senhor da Eternidade!
Levanta-te para dar Vida,
pois Tu és o Pai e a Mãe de todas as criaturas.
Os seus olhos voltam-se para Ti quando ascendes no firmamento.
Os teus raios iluminam toda a Terra;
o coração de cada um enche-se de entusiasmo quando Te vê,
quando Tu lhe apareces como seu Senhor.”

Depois, igualmente o maior Místico que o Cristianismo já teve, São Francisco de Assis, no seu Cântico das criaturas louvou as virtudes do Sol:

“Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as tuas criaturas,
especialmente o Senhor irmão Sol,
que clareia o dia e que com a sua luz nos alumia.
E ele é bela e radiante com grande esplendor.
De Ti, Altíssimo, é a imagem.”

Isso no seguimento cultual da sociedade agrária medieval europeia, ainda fortemente celticizada cujas tradições e costumes se conservavam parcialmente vivas, uma delas, descrita na crónica do imperador romano Júlio César, A Guerra das Gálias, a do culto celta ao deus solar Belinos, Belenos ou Bel, “luminoso”, que daria no topónimo Belas, localidade próxima de Carenque, em Queluz.

Recuando aos tempos védicos da primitiva Índia, tem-se no Atharva-Veda o Surya-Upanishad que discrimina os predicados do Logos Solar (os antigos não adoravam o Sol, ao contrário do que pensam alguns, e sim o Espírito ou Logos Solar manifestando-se por esse seu “envoltório” visível, assim expressando a Suprema Divindade – Parabrahman – dirigente do Sistema Solar em cujo centro se fixa como Núcleo Flogístico):

“Om, Terra, Região Média e Céu.
Meditamos no adorável esplendor de Savitar
(Savitri, feminino de Surya, o Logos Solar)
Que inspira os nossos pensamentos.
O Sol é o Eu (Atmã, Espírito) do Mundo,
movendo-se tão bem quanto sem movimento.
De Surya nascem as criaturas, o Yajna,
e o alimento, o Prajanya.”

Ainda na Índia védica, havia um mantram dedicado a Agni, o Fogo Sagrado, que depois o Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, traduziu, compôs e musicou como hino que até hoje está presente na Ritualística Teúrgica de que repasso o excerto seguinte:

“Ó Agni,
Fogo Purificador,
Centelha Divina que ardes em todas as coisas,
Alma Gloriosa do Sol.
Aum.”

O Fogo impulsionou o progresso material, porém, foi o fogo terreno, o fogo inferior, Tejas, e não o Fogo Superior ou a sua Essência Sublimada – Agni. Hoje, o Homem domina o Ar, a Água e a Terra por meio do Fogo. Não sabe, no entanto, dominar a si mesmo, ter domínio da Quinta Essência Divina – Akasha, Fogo Etérico – que se interpreta como integração no Espírito Divino que é Luz, Chama e Calor.

Esse fogo inferior é o mesmo descrito no Fausto de Goethe, quando Mefistófeles o fez sair do cantilho de vinho diante de Valentino, irmão de Margarida, quando ele se despedia dos amigos no momento de partir para a guerra. Porém, de imediato se descobriu o malévolo estratagema de Mefistófeles e arrojaram-lhe no rosto a cruz da espada, obrigando-o a esconder-se aterrorizado num canto escuro da casa, vencido e humilhado. Esse seu terror deu-se a ser tal símbolo do mesmo do Pramantha, a Cruz Cíclica, ou antes, da Espada Flogística cujo Fogo Superior é omnipresente nas quatro direcções cardeais, sendo o centro o próprio empunhador, o Guerreiro de Luz, o Mago Superior, o Teurgo expressivo do Sol (Surya Suryaj) Fonte do Poder Supremo.

Sol que na mitologia grega é representado por Apolo, a Fonte de Energia e Vida do Sistema Solar. Do Sol chegam às criaturas da Terra a luz e o calor, como manifestações distintas da vitalidade. São os raios, as “flechas” lançadas pelo Pai-Sol a todos os recantos do Sistema seu Corpo de Manifestação. É o sangue arterial que flui por todos os lados, que tudo alimenta. É a emoção do seu próprio coração ardente. A essas “flechas” sucede o mesmo que ao sangue arterial regressando ao coração através das veias, a fim de se purificar e seguidamente alimentar todo o organismo humano.

Do mesmo modo que as águas do rio volvem, contaminadas, ao mar, para depois se evaporar e purificar no imenso alambique da atmosfera, onde formam nuvens que se desfazem em chuvas que apagam a sede abrasadora dos campos, dos animais e dos homens, igualmente as ondas electromagnéticas de retorno à Usina que as gerou se purificam no Fogo do coração do Sol. São essas, pois, as apolíneas flechas forjadas no divino Fogo de Vulcano, este o Fogo da Seio da Terra – Kundalini – e aquele o Fogo do Seio do Céu – Fohat.

Num sentido ainda mais transcendente, essas flechas atiradas por Júpiter Olímpico ao seu irmão Júpiter Plutónico – segundo o axioma cabalístico Daemon est Deus inversus, “o Demónio é o inverso de Deus” – são as próprias Mónadas saídas do Seio do Maha-Ishvara ou Ser Supremo, o Sol Espiritual dirigente do Sistema, Mónadas que depois de longa série de experiências, tanto valendo por inúmeras reencarnações na Terra, retornam ao mesmo Lugar de onde provieram, já não em estado virginal mas amadurecidas na condição consciencial. Outro não é o sentido da “Parábola do Filho Pródigo que regressa à Casa Paterna”, de tão má interpretação religiosa, embora fosse o próprio Santo Agostinho quem lhe desse o verdadeiro significado, conscientemente ou não, quando disse: “Viemos da Divindade e a ela havemos de volver”.

Como diz Helena Petrovna Blavatsky em As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria, “sobre toda a superfície da Terra – do Pólo Norte ao Pólo Sul, dos golfos gelados dos países nórdicos às planícies tórridas do sul da Índia, na América Central, na Grécia e na Caldeia – era adorado o Fogo Solar como símbolo do Poder Divino, Criador da Vida e do Amor. A união do Sol (o Espírito – elemento masculino) com a Terra e a Água (a Matéria – elemento feminino) era celebrada nos templos do universo inteiro”.

Mas é na tradição védica, base do Hinduísmo, que deve ser procurada a origem da tradição astronómica relativa aos solstícios e equinócios – que vazaria na multiplicidade de formas e fórmulas cultuais do mundo inteiro – conforme a comunicaram os Rishis primitivos da Áriavartha, a Índia, berço da actual Raça Humana. Como descreve René Guénon em Os Símbolos da Ciência Sagrada, há dois portais celestes correspondendo à saída e entrada no que ele chama “Caverna Cósmica” e aqui se designa como Região do Segundo Logos donde as Mónadas provêm à Manifestação e após volvem ao Pombal Celeste. Tais portais levam os nomes de “Porta dos Homens” e “Porta dos Deuses” e correspondem aos dois solstícios, aquela para o Solstício de Inverno e esta para o Solstício de Verão.

Afins às fases Descendente e Ascendente da Manifestação, Manvantara, tem-se Brahma Saguna – “Deus com Atributos” – como “descida do Espírito à Matéria” – Nivriti-Marga – saindo pela “Porta dos Homens” (Solstício de Inverno) que corresponde à primeira Cadeia de Saturno, motivo de estar sob a influência de Capricórnio, signo dos Kumaras dirigentes da Evolução Humana cujo início é marcado pela celebração do Natal entre os cristãos, e que na Antiguidade greco-romana festejava-se nas Saturnais. Após a Mecanogénese do desenvolvimento da Vida e da Consciência da Onda Humana, Jiva, segue-se Brahma Nirguna – “Deus sem atributos” – como “subida da Matéria ao Espírito” (Solstício de Verão) indo corresponder à integração no Reino Espiritual ou Angélico, Barishad, sob a influência da Lua e de Caranguejo, signo da Hierarquia Angélica expressiva da Mãe Divina que a todos acolhe em seu seio que é o Segundo Trono ou Céu. Tal vem a ter a sua correspondência, no calendário litúrgico, à Ressurreição Pascal e o consequente Pentecostes, sendo entre os antigos povos agrários afim às Maias e as sazonais Festas das Colheitas, quando então se celebravam as primícias da Natureza.

A razão de tudo isso está em que os povos antigos estabeleciam a divisão do ciclo anual em duas metades, uma “ascendente” e outra “descendente”. A primeira é a do decurso do Sol do Sul para o Norte – Uttarâyana, em sânscrito – indo do Solstício de Inverno para o Solstício de Verão; a segunda é a do decurso do Sol do Norte para o Sul – Dakshinâyana, em sânscrito – indo do Solstício de Verão para o Solstício de Inverno. Na tradição védica, a fase ascendente relaciona-se ao Deva-Yana (“Caminho dos Deuses”) e a fase descendente ao Pitri-Yana (“Caminho dos Pais”), coincidindo com as designações das duas portas: a “Porta dos Homens” dá acesso ao Pitri-Yana, enquanto a “Porta dos Deuses” flanqueia ao Deva-Yana.

Nas fases do dia, em escala reduzida, a metade ascendente vai da meia-noite ao meio-dia, e a metade descendente do meio-dia à meia noite. A meia-noite corresponde ao Inverno e ao Norte, e o meio-dia ao Verão e ao Sul. A manhã corresponde à Primavera e ao Oriente (nascer do Sol), e a noite ao Outono e ao Ocidente (pôr do Sol). Pode assim dizer-se que tradicionalmente a “Porta dos Deuses” situa-se ao Norte e está voltada para o Oriente, enquanto a “Porta dos Homens” localiza-se a Sul virada para o Ocidente.

Esse simbolismo solar (celeste) e polar (terrestre) relaciona-se directamente com as circunambulações rituais nas diversas formas tradicionais. De acordo com a modalidade solar, a circunambulação realiza-se mantendo-se sempre á direita o centro em torno do qual se gira. Segundo a modalidade polar, realiza-se no sentido inverso daquela, portanto, tendo o centro à esquerda. No primeiro caso está a pradakshinâ, tal como se realiza nas tradições hindu e tibetana. O segundo caso encontra-se particularmente na tradição islâmica. Na Maçonaria, na sua forma actual, o sentido das circunambulações é solar, mas segundo as Old Charges parece ter sido ao contrário, ou seja, polar na Maçonaria Operativa, onde a instalação do Trono de Salomão ou Trono de Glória fixava-se a Ocidente e não a Oriente.

Resta ainda desfazer uma aparente contradição: o Norte é designado como o ponto mais elevado (uttara), sendo para ele que se dirige o curso ascendente do Sol (Surya), enquanto o seu curso descendente é dirigido para o Sul, aparecendo como o ponto mais baixo (dakshina). Mas, por outro lado, o Solstício de Inverno, correspondendo ao Norte do ano, marca o início do movimento ascendente, em certo sentido sendo o ponto mais baixo, enquanto o Solstício de Verão, correspondendo ao Sul onde termina o movimento ascendente, é sob esse mesmo ângulo o ponto mais alto a partir do qual começará o movimento descendente, que terminará no Solstício de Inverno. A solução desta dificuldade reside na distinção a ser feita entre a ordem celeste, a que pertence o curso do Sol, e a ordem terrestre, a que pertence a sucessão das estações. Segundo a lei da analogia, essas duas ordens devem, em sua própria correlação, ser inversas uma da outra, de modo que o seja mais alto para uma se torne o mais baixo para outra. Ademais, no referente às influências espirituais inerentes a esses pontos, o Norte permanece o mais elevado por ser para onde se dirige o curso ascendente do Sol que, face ao Mundo Terrestre, equivale à entrada no Deva-Loka ou “Região dos Deuses”. Pelo contrário, o Sul será o menos elevado por marcar no céu o curso descendente do Sol que, relativamente ao Mundo Terrestre (Bhumi), é dado como a entrada no Pitri-Loka ou “Região dos Homens”.

Acerca da entrada no Deva-Loka pela “Porta dos Deuses” e no Pitri-Loka pela “Porta dos Homens”, diz Yeseus Krishna no Bhagavad-Gïta, o “Canto do Senhor”:

“Os que desencarnam com neles ardendo o Fogo do Amor Divino, iluminados pela Luz do verdadeiro Conhecimento recebido do Sol da Sabedoria, esses conhecem o Espírito Supremo e com Ele se unem; esses passam pela Porta dos Deuses e não são mais obrigados a renascer. Os que, porém, desencarnam nas brumas do erro na noite da ignorância, esses hão-de voltar à esfera da mortalidade e renascerem tantas vezes quantas as necessárias até adquirirem o necessário grau de Amor e Sabedoria. Eles passaram pela Porta dos Homens.”

Chegando à Antiguidade Clássica greco-latina herdeira dos saberes védicos, observa-se o Yanus, “caminhos”, tomar personificação como Janus bifronte, indicativo do Passado (Inverno) e do Futuro (Verão) no Presente ou trânsito entre Trópicos de Câncer e Capris. Recebeu os cognomes de “Sol Invencível” (Saturno – Sol da Meia-Noite, condição Polar ou de Agharta) e de “Sol Invicto” (Lua por que se manifesta – Sol do Meio-Dia, condição Solar ou Celeste). Por este simbolismo cosmológico, Janus seria elevado a Patrono dos Colegia Fabrorum, Colégios de Artífices, e das Guildas Romanas, Corporações de Ofícios, que constituem a Maçonaria Histórica, antecessora da Operativa como esta a é da Especulativa. Munido de chave e bastão como seus atributos, Janus seria identificado pela palavra latina Janua, “porta”, e ele mesmo considerado Janitur, “porteiro”.

Com o firmar do Cristianismo em Roma tornando-a sua sede universal, aos poucos os atributos do deus Janus começaram a ser repassados a São Pedro, primeiro bispo de Roma, e sendo os deuses romanos gradualmente remetidos ao ostracismo, então os artífices greco-latinos recorreram ao artifício de adaptar o filólogo Iohanan ou Yokanan, João, designativo de “anunciador”, àqueles que assinalavam o início e o fim dos Evangelhos, neste caso, o início e o fim da marcha do Sol marcando os Solstícios nos respectivos Trópicos, isto é, São João Baptista (24 de Junho – Verão) e São João Evangelista (27 de Dezembro – Inverno), tornados assim os São Joões Solsticiais.

Foi dessa maneira que os São Joões entraram na tradição maçónica, sobretudo o Baptista reconhecido Padroeiro Universal da Maçonaria actual fundada em Londres no dia da sua celebração, 24 de Junho de 1717.

Mas há nisso um equívoco: o São João aclamado padroeiro pela Maçonaria Operativa, findada em 1523 iniciando-se um interregno de quase 200 anos marcado pelo Canteirismo e as Old Charges, “cartas antigas”, era João Esmoler ou João Misericordioso, também chamado João de Alexandria e João de Jerusalém (Amathus, Ilha de Chipre, 550 d. C. – Amathus, 616 d. C.), sendo representado como um bispo esmolando um aleijado ou um pobre. Canonizado no período pré-congregação, São João Esmoler é comemorado no dia 12 de Novembro pela Igreja Grega, mas o seu dia oficial é 23 de Janeiro segundo o Martirológio Romano: “23 Januarii […] Alexandriae sancti Joannis Eleemosynarii, ejusdem urbis Episcopi, misericordia in pauperes celeberrimi” (“23 de Janeiro […] São João Esmoler de Alexandria, bispo daquela cidade, por sua compaixão para com os pobres”).

Quando os persas saquearam Jerusalém no ano 614, João Esmoler enviou grandes quantidades de comida, vinho e dinheiro para auxiliar os cristãos que lá residiam e queriam fugir, além de ter contribuído para a construção/reconstrução de templos em Jerusalém, em Alexandria e em Chipre. Após a sua morte, em reconhecimento ao seu desprendimento material e amor incondicional, foi canonizado com o nome de São João Esmoleiro. Desde 1632 os seus restos mortais repousam na antiga Catedral de Pressburg, actualmente Catedral de São Martinho, em Bratislava, capital da Eslováquia.

Pelos seus predicados de charitas, São João Esmoler de Alexandria e Jerusalém veio a ser aclamado Patrono da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários ou de São João do Hospital de Jerusalém, praticamente desde 1099 quando se instalou nesta cidade, e assim continuou quando a Ordem passou a chamar-se de Rhodes e de Malta. Será dessa altura que os monges-construtores ao serviço da Ordem do Hospital, e também da sua coirmã a Ordem do Templo de Jerusalém, igualmente adoptaram por Padroeiro São João Esmoler, e assim ficou, mesmo que confundido com algum dos São Joões Solsticiais, sobretudo o Baptista.

Porém, as Old Charges indicam que os maçons operativos escolhiam como data da sua reunião anual – encontro de Guildas de Ofícios, algo assim parecido na estrutura com a portuguesa Casa dos 24 – o dia de São João Baptista em 24 de Junho, ou opcionalmente o dia de São João Evangelista em 27 de Dezembro. Isso seria do conhecimento do escocês James Anderson (1679-1739), posto estar registado no Item XXII dos Regulamentos Gerais das Constituições de Anderson, de 1723: “XXII. Os Irmãos de todas as Lojas de Londres e Westminster e das imediações se reunirão em uma Comunicação Anual e Festa, em algum Lugar apropriado, no Dia de São João Baptista ou então no Dia de São João Evangelista, como a Grande Loja pensa fixar por um novo Regulamento, pois essa reunião ocorreu nos anos passados no Dia de São João Baptista: Provido […].”

O facto é que em algumas Old Charges inglesas aparece o primitivo emblema solsticial, composto por um círculo com um ponto no centro, símbolo do Sol, entre duas linhas paralelas e tangenciais, representando os Trópicos de Caranguejo e de Capricórnio e que o Sol não se manifesta fora deles, tal qual é inviolável a Consciência Monádica ou Divina no âmago profundo do Homem, estando assim em ligação directa com a observância dos Solstícios assinalados por São João Baptista e São João Evangelista, bem podendo ser figurativos do Manu-Semente (Vida) e do Manu-Colheita (Morte), Alfa e Ômega do Manvantara, o Ciclo de Manifestação.

Simbólica ou figurativamente, os dias de solstícios ocorrem ao meio-dia ou à meia-noite. A metade ascendente do ciclo diurno decorre da meia-noite ao meio-dia, enquanto a metade descendente transcorre do meio-dia à meia-noite. Ora, no simbolismo maçónico que se torna vivo através do ritual, o trabalho iniciático ou mistérico inicia-se ao meio-dia e finda à meia-noite, ou seja, vai da “Porta dos Deuses” à “Porta dos Homens”, sendo que o zénite do Sol Físico ocorre ao meio-dia e o do Sol Espiritual acontece à meia-noite, quando termina o trabalho do aperfeiçoamento espiritual do Maçom ou Obreiro, o Filho da Luz… saindo por Pitri-Yana indo transmitir essa mesma Luz à Humanidade, mas na justa e perfeita proporção consoante o desenvolvimento individual e colectivo dela, posto revelar a sabedoria a um desinteressado apávido é esforço inglório. Como sugere a palavra-passe do Companheiro Maçom, Schib∴, “espiga de trigo”, este só se deve colher quando está maduro, lá pelo estio. A bom entendedor…

Isso também explica a presença saturnina do Bode ou Caprino na simbólica maçónica, expressivo do Kumara ou Senhor do Mental, jamais devendo resvalar para pentagramas invertidos – ashivas – e teorias duvidosas onde moral e ética se esvaiem mais depressa do que se esvaiem os grãos de areia na ampulheta de Cronos ou Saturno, abrindo a porta proibida das Forças do Mal (Qliphoth) e da Perdição de um e de todos os afins, induzindo-lhes as piores vicissitudes. “Faz o que quiseres”, afirmou alguém que já não está no mundo dos vivos, mas deveria ter acrescentado: desde que não transgridas a Lei que a tudo e a todos rege.

As “borras” humanas dos Assuras humanos do Passado estão hoje manifestadas. Resta resgatá-las – as que há a resgatar – como “Folhas Soltas” da Árvore da Vida reintegrando-as à Consciência do Luzeiro de Amor-Sabedoria nesta fase crítica de Interciclos. Poderia adiantar algo mais mas não o quero fazer ficando-me pela frase lapidar, tantas vezes repetida por Henrique José de Souza e Helena Petrovna Blavatsky, de “a diferença entre Magia Branca e Magia Negra é mais ténue que um fio de cabelo”.

Quando os Superiores Incógnitos fundaram o moderno sistema maçónico do século XVIII, sobretudo os Condes de São Germano e de Cagliostro, respectivamente representativos da Autoridade Espiritual e do Poder Temporal, fizeram-no para que fosse mais que tudo uma Corrente de Iniciação e Realização individual e colectiva, restaurando os Mistérios Antigos mas projectando-os no Futuro à Luz das Revelações do Luzeiro de Amor-Sabedoria, para que a Evolução não cessasse e a marcha avante do Género Humano prosseguisse firme e certa. É assim que os posteriores 33 Graus do Rito Maçónico vêm a expressar as mais transcendentes realidades por via do Esquadro e do Compasso, seu Símbolo-Mor, conforme o esquema a seguir em que se conforma a Hierarquia Iniciática que assiste ao Esquema de Evolução Universal (Manvantara).

Ainda do ponto de vista cosmológico, uma Loja ou Loka retrata o Universo inteiro, sobretudo o Templo com a abóbada estrelada direccionada ao Delta com o Olho Central do Grande Arquitecto do Universo, expressivo da Divindade Criadora – Vishvakarman.

Expressando as Hierarquias Criadoras (Tronos, Dominações, Arcontes, Arcanjos, Anjos, etc.) têm-se figurados no Templo os doze signos do Zodíaco “vestes” daquelas, São as doze colunas zodiacais que ornam o Templo, cada uma identificada pelo respectivo signo, assim dispostas:

Coluna do Norte (Aprendizes) – Do Ocidente para o Oriente: Carneiro, Touro, Gémeos, Caranguejo, Leão, Virgem.

Coluna do Sul (Companheiros) – Do Oriente para o Ocidente: Balança, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário, Peixes.

Borla Denteada (Mestres) – Com os seus 81 nós ou borlas é o cordão que cerca todo o Templo e assim une as colunas zodiacais unindo as doze Hierarquias Criadoras ou da Geração assinalada no 8+1 = 9, número da gestação. Equivalendo ao sânscrito antahkarana, “elo que une”, cadeia de união, serviu para os antigos maçons operativos metrificarem a construção a realizar, seguindo o modelo três por quatro (ou 3×4 = 12 signos), significando agora que o Templo é justo e perfeito nos seus matras ou medidas. Também por isto os Mestres podem ocupar indistintamente tanto a Coluna do Norte como a do Sul.

Conceptualmente, o Templo Maçónico é atravessado pelo Trópico de Câncer (Solstício de Verão) que é a linha imaginária indo da Coluna Bohaz (Rigor de Bhakti, a Devoção) à Lua (Chandra); também é atravessado pela linha do Equador Celeste (Equinócios da Primavera e do Outono) indo do Ocidente ao Oriente, sendo também atravessada pelo Trópico de Capris (Solstício de Inverno), a linha imaginária distendendo-se da Coluna Jakin (Sabedoria de Jnana, o Conhecimento) ao Sol (Surya). Quando o Obreiro Maçom se desloca de uma Coluna para outra, configura os movimentos da Terra (rotação e translação), e assim se desloca de um solstício para outro, de um equinócio para  outro, percorrendo em passos triangulados as diferentes etapas e provas da evolução do Espírito em sua passagem pela Loja, Loka, Lugar ou Mundo vivente em sua multiplicidade de experiência que o enriquecerão cada vez mais, assim transformando a Vida-Energia em Vida-Consciência que é a meta final da verdadeira Iniciação.

Por tudo isso, a Maçonaria celebra com solenidade os Solstícios de Verão – dedicado ao Reconhecimento – e de Inverno – dedicado à Esperança – mais os Equinócios da Primavera e do Outono, sob os títulos seguintes:

Festa Equinocial do Despertar da Natureza – Equinócio da Primavera

Festa Solsticial do Triunfo da Luz – Solstício de Verão

Festa Equinocial do Repouso da Natureza – Equinócio do Outono

Festa Solsticial da Regeneração da Luz – Solstício de Inverno

Acerca da Festa Equinocial, tem-se que no seu juramento o Maçom do Grau 18, Cavaleiro Rosa+Cruz, contrai a obrigação de manter uma das mais belas tradições maçónicas: a de se reunir no local da sua Iniciação na primeira quinta-feira de Lua Cheia, após o equinócio sob o signo de Áries, na denominada Quinta-Feira de Endoenças (Quinta-Feira Santa). A palavra endoença provém do latim indulgentia, “perdão, absolvição”, aplicada ao conceito religioso cristão como a graça concedida pela Igreja para remissão total ou parcial das penas dos pecados na Quinta-Feira Santa.

A intenção desse encontro é a de rever os Irmãos Maçons, trazer notícias daqueles outros adoentados ou que tenham falecido. Com um ritual único, realizam uma Ceia Mística, a Ceia de Endoenças, rememorando a Última Ceia de Jesus Cristo com os seus Apóstolos. Todos os participantes rememoram as caridosas palavras: “Dai de comer a quem tem fome e dai de beber a quem tem sede” (Mateus 25:35), e compartilham o Ágape ou ceia fraternal.

Respeitante à Festa Solsticial, a Maçonaria actual mantém a tradição herdada da Maçonaria de Ofício ou Operativa da chamada Mesa de Loja ou de Banquete, cerimónia datada de 1721 mas recuando aos tempos medievos, aquando os Grémios de Ofícios se reuniam em repastos fraternais, confraternizando e trocando ideias, por altura dos Solstícios do Verão ou do Inverno. Portanto, no seguimento desta antiga tradição, a Loja de Mesa deve ser instalada pelo menos uma vez por ano, de preferência no Solstício de Inverno (no Hemisfério Sul) ou de Verão (no Hemisfério Norte). Os solstícios ocorrem quando o Sol atinge a sua posição mais afastada do Equador Terrestre: para o Hemisfério Sul o Solstício de Verão ocorre quando o Sol atinge a sua posição mais austral (meridional, sul), enquanto o Solstício de Inverno ocorre quando o Sol atinge a sua posição mais boreal (setentrional, norte). Este último acontece em 21 de Junho, sendo então a época mais propícia para a Loja de Mesa, embora muitas Lojas a realizem no dia 24 de Junho, aproveitando o solstício para homenagear o Padroeiro São João Baptista (Janus CoeliDeva-Yana). Ela também pode ser realizada no Solstício de Inverno no Hemisfério Norte, em 21 de Dezembro ou em 27 de Dezembro, em homenagem a São João Evangelista (Janus Inferni – Pitri-Yana).

Sobre o reunir para comer e beber em datas fixas do calendário cosmológico, herança das primitivas tradições agrárias de celebração no final das semeaduras e colheitas, há nisso um saber e um significado ocultados muito a ver com o que Pinharanda Gomes descreve na sua obra Entre Filosofia e Teologia com que dou o arremate final a este estudo:

– Do sabor se tira uma íntima relação para o saber. Sábio é o que sabe, mas, uma forma adjectiva como sápido, ou sípido, se aplicará por igual modo ao que sabe em si mesmo, ou que tem sabor. O que sabe, ou nos sabe bem, ou mal, está muito próximo da axiomática daquele que sabe muito, ou sabe pouco, que, ou é sábio, ou ignorante, por não dispor de saber e, logo, da possibilidade de tomar o sabor ao saber. Pelo primeiro nos decidimos à educação; pelo segundo nos dispomos à nutrição. Saber e sabor ambos ocupam, e não ocupam, lugar. Plenos, após muito estudar ou muito comer, a fase de digestão e de assimilação passada, é como se não houvéramos comido, como se não houvéramos aprendido. O comer e o saber não ocupam lugar. Transforma-se, o primeiro, na corrente aquosa do sangue vital; adere, o segundo, à torrente cristalina do espírito.

Saborear o fruto é o mesmo que sabê-lo – apreendê-lo na qualidade de valor nutriente e na virtualidade de objecto, redutível à imagem particular (um fruto), bem como à ideia universal (a fruta). Do geral se tira o sabor para o saber do universal.

Aluno é o que é alimentado (alumnus), aquele a quem, noutra instância, o mestre educa e alimenta a alma pelo saber – scire quo uno animus alitur, segundo Cícero – que é próprio da alma. Alere, qual outro alar, alimentar, flutua na metáfora do educar, de maneira que, onde dizemos da necessidade de dar pão, se prevê a liberdade de exercitar a razão, de transitar da imagem nutritiva para o conceito educativo. Der mensch ist isst – o homem é o que come e, pois, o homem é o que aprende.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Livros Dinapress, Lisboa, Setembro de 2002.

Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa. Livros Dinapress, Lisboa, Maio de 2011.

Vitor Manuel Adrião, Portugal – Dimensão Oculta. Chiado Editora, Lisboa, Dezembro de 2015.

Pinharanda Gomes, Entre Filosofia e Teologia. Fundação Lusíada, Lisboa, 1992.

Jean Hani, O Simbolismo do Templo Cristão. Edições 70, Lisboa, Dezembro de 1981.

J. M. Ragon, La Misa y sus Misterios. Muñoz Moya y Montraveta, editores, Sevilla, 1984.

H. P. Blavatsky, As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo, 1972.

René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo, 1993.

Jules Boucher, A Simbólica Maçónica. Editora Pensamento, São Paulo, 1993.

Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo, 1974.

Orlando Soares da Costa, Iniciação Real ou do Profano ao Sagrado, Livro III. Editora Europa, Rio de Janeiro, 1999.

Rizzardo da Camino, Príncipe Rosa+Cruz e seus Mistérios. Gráfica Editora Aurora Limitada, Rio de Janeiro, 1975.

Rizzardo da Camino, A Cadeia de União. Gráfica Editora Aurora Limitada, Rio de Janeiro, 1983.