O Pentecostes marca e remata o sétimo Mistério da Vida e Obra de Jesus, o Cristo, deixando a derradeira mensagem de esperança no Advento da Divindade à Humanidade, ao mesmo tempo que floresce nos peitos de um e de todos. Nisto se cumpre a mais que poética retórica, realidade subtil, etérea transcendente e imanente, cheia de graça em esperança, de que quando Cristo sorri a Humanidade enxuga as lágrimas.

A celebração do Pentecostes (“quinquagésimo”, em grego) é quando o Judaísmo e o Cristianismo se encontram e se conciliam nas suas idiossincrasias teológicas, sobretudo nas relativas ao porvir do Messias. Historicamente, pela sua origem agrária, recua à festa hebraica das colheitas (shavuot), aquando o povo ia oferecer a dízima das primícias ao Templo de Jerusalém, nisto também celebrando a entrega dos Dez Mandamentos no Monte Sinai a Moisés, cinquenta dias depois do Êxodo.

É, pois, uma festa do antigo calendário bíblico (Êxodo 23:14-17, 34:18-23) referida com vários títulos:

Festa da Colheita ou Sega (Hag Haqasir, em hebraico). Por se tratar de uma colheita de grãos (trigo e cevada), ganhou esse nome.

Festa das Semanas (Hag Xabu´ot, em hebraico). A razão do seu nome está no período mediando entre a Páscoa (Pessach, “trânsito”, “passagem”, em hebreu) e esta festa, que é de sete semanas. Acontece cinquenta dias depois da Páscoa, com a colheita da cevada e encerrando com a colheita do trigo.

Festa das Primícias dos Frutos (Yom Habikurim, em hebraico), nome tendo a sua origem de ser pela entrega de uma oferta voluntária, a Deus, dos primeiros frutos colhidos naquela sega (Números 28:26). Possivelmente, a oferenda das primícias acontecia em cada uma das três festas tradicionais do calendário bíblico. Na primeira (Páscoa), oferecia-se uma ovelha nascida naquele ano; na segunda (Colheita ou as Semanas), entregava-se a dízima (décima parte) dos primeiros grãos colhidos; finalmente, na terceira festa (Tabernáculos ou Cabanas), o povo oferecia a dízima da colheita dos primeiros frutos, como uvas, tâmaras e especialmente figos. Por essas dízimas agrárias verifica-se que o Templo beneficiava de grande riqueza, motivo dos levitas não abdicarem das suas funções nele por lhes trazerem fartura de bens.

Festa de Pentecostes. Os motivos deste novo nome são vários, a começar por nos séculos III-I a.C. os gregos terem assumido o controle do mundo conhecido e imposto a sua língua, que se popularizou entre os hebreus. Assim, os nomes hebraicos Hag Haqasir e Hag Xabu´ot perderam as suas actualidades sendo substituídos pela denominação Pentecostes, cujo significado é “cinquenta dias depois (da Páscoa)”. Como o império grego passou a ter hegemonia em 331 a.C., é possível que o nome Pentecostes tenha ganhado popularidade a partir desse período. Também devido às três línguas dominantes (hebraico, grego e latim) na Judeia e Palestina, é que Pilatos ordenou se escrevesse com as mesmas a célebre frase na tabuleta da Cruz – Iesus Nazarenus Rex Iodeorum (Jesus Nazareno Rei dos Judeus).

No Cristianismo, o dia de Pentecostes chega a ser considerado como o dia do nascimento da Igreja cristã, origem do movimento pentecostal católico (“universalista”, por abranger os países latinos, gregos e orientais da Ásia Menor) que originalmente era “os do Caminho”. Constitui uma das celebrações mais importantes do calendário cristão, comemorando a descida do Espírito Santo em Línguas de Fogo sobre os Apóstolos de Cristo encabeçados no cenáculo por sua Mãe Maria, que logo começaram a falar todas as línguas do mundo dotados de poderes maravilhosos (curar os leprosos, ressuscitar os mortos, etc.). Aconteceu ao meio-dia de cinquenta dias após o domingo de Ressurreição e no décimo dia depois da Ascensão de Jesus, após Ele ter permanecido quarenta dias entre os discípulos, transmitindo-lhes os derradeiros ensinamentos. Entre os cinquenta dias que se completam da Páscoa até ao último dia de Pentecostes, sobram dez dias. Esses foram o tempo que os Apóstolos com Maria Mãe e Maria Madalena permaneceram no cenáculo, até à descida ou manifestação do Espírito Santo. Por este motivo, o domingo de Pentecostes é o último dia da Festa do Divino Espírito Santo, tomando forma em Portugal na Festa do Império do Divino Espírito Santo (pelas mãos da Rainha Santa Isabel, em 1321, na vila de Alenquer), depressa se fixando no Brasil e noutras partes lusas do antigo império português.

O Espírito Santo no Cristianismo é o mesmo Espírito de Santidade no Judaísmo, referido como a Terceira Potência Divina cuja manifestação, para ambas as religiões, é sempre sob a forma de uma pomba, em hebraico yohnah, palavra derivada de ´anah, “prantear”, referente ao arrulho lamuriento da ave, universalmente considerada a mensageira da Boa Nova e portadora da Paz, como igualmente da sublimação da vida, da existência corpórea à vivência espiritual, como se representa no trânsito de São Policarpo com uma pomba branca, imaculada, saindo do seu corpo.

Como Pomba de Luz vem a ser representativa da manifestação do Fogo Criador do Divino Espírito Santo, ao qual os sábios do Oriente identificam como Kundalini, a Força Electromagnética da Mãe-Terra que a sustenta desde o seu Centro Ígneo, agindo como bioenergia motora das capacidades criativas humanas, de forma inconsciente na maioria dos seres pensantes, e de maneira consciente, despertada, activada e dirigida desde o cóccix à corona, ao alto da cabeça onde se revela como aura flamejante, nos raros Iniciados na ciência de marejar as suas forças ocultas e assim as de toda a Natureza. Eis aqui o símbolo do Fogo Criador expressado na figura feminina, seja Maria no cenáculo, seja a sarça de Horeb no Monte Sinai, seja a Maha-Shakti criadora do Universo, com as suas sete Forças que, afinal, vêm a ser os sete Dons do Espírito Santo irradiando sete Raios da Luz do Logos Único, cada um com uma qualidade da Mãe Universal. Esta dá à Luz o Filho, saído da Alma do Segundo para o Corpo do Terceiro Logos manifestado em tudo e em todos.

O termo Espírito SantoRuach ou Ruah-Elohim – aparece apenas três vezes na Bíblia hebraica, em Salmos 51:11, e duas vezes em Isaías 63:10-11. Já o termo Ruah ha-Kodesh (“Espírito de Santidade”) aparece com frequência no Talmude e na Midrash, utilizado como uma hipóstase ou metonímia de Deus, IHVH (Iod-He-Vau-He), por meio da qual é concedida a inspiração profética ao Kadosh (“consagrado”). Ruah significa literalmente “sopro, vento, ar, alento”, aparecendo em várias outras combinações na Bíblia hebraica com o significado de Espírito de Deus, associado a Ruah ha-Kodesh, o mesmo Ru al-Qudus islâmico, o Pneuma to Hagion grego ou o latim Spiritu Sanctu, Espírito Santo.

No Cristianismo, o Espírito Santo é a Terceira Prosopon ou Pessoa da Santíssima Trindade, revelando Deus Omnipresente. Como Hypostasis ou Hipóstase, contém a Primeira como Omnipotência (Spiritu) e a Segunda (Sanctu) como Omnisciência promanadas de uma Divina Substância Única (Ousia, em grego) a quem chamam Deus.

Acompanhados das respectivas contrapartes expressivas do Eterno Feminino, assim clareando por que a Deusa-Mãe era o único pomo de culto e adoração à Divindade entre os povos antigos, que durou até muito tarde chegando mesmo a adentrar o período patriarcal sucessor do matriarcal.

O despertar e ascender de Kundalini ao topo cranial vale por Poder da Mãe Divina manifestado – Shekinah, “Presença Real de Deus” – em cujo acto Madalena assinala a conversão do sexo (initio, cóccix) e a Nazarena a assunção da mente (finis, corona).

As sete Forças de Kundalini afins aos sete Dons do Espírito Santo, pelo desenvolvimento do Chakra Vibhutî ou Cardíaco Inferior, são:

Por aí se vê quão distantes estão da realidade certas seitas hodiernas ditas carismáticas/pentecostais, servindo-se da ingenuidade alheia em sua tenra idade mental para, pretensamente, irem colmatar as suas deficiências/carências psico-orgânicas. Colmatando o vazio espiritual das mesmas com bizarras corografias folcloristas, estão nos antípodas de exploração psicossocial que nadíssima tem a ver com os poderes desenvolvidos, por esforço próprio, do Adepto verdadeiro, do verdadeiro Iniciado na Ciência da Vida.

O mesmo vale para a dízima ou oferta da décima parte dos seus ganhos, tradição iniciada com Abraão rendendo tributo a Melki-Tsedek, o Rei do Mundo, para as bandas das terras de Gar-Édon ou a Agharta, sendo a dízima nada mais que o resgate kármico da décima parte do seu povo, nunca pondo os valores materiais à dianteira da mais-valia espiritual.

Paulo de Tarso, por sua vez, identifica não sete mas nove dons ou poderes do Espírito Santo, o Terceiro Logos tomando forma no Filho, que irão manifestar-se pelo Apóstolo ou Adepto. Diz: “A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom dos milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas.” – I Coríntios 12:8-10.

Nisto, os nove dons espirituais podem ser repartidos em três grupos, como Dons de Poder, Dons de Revelação, Dons de Fala, não deixando de estar relacionados às naturezas Dharmakaya (Espírito Omnipotente), Shambogakaya (Alma Omnisciente) e Nirmanakaya (Corpo Omnipresente) afins ao Tríplice Logos manifestado na Unidade imperecível do Adepto Perfeito.

Dons de Poder


Curar
Operar maravilhas

Dons de Revelação

Palavra de sabedoria
Palavra de conhecimento
Discernimento dos espíritos

Dons de Fala

Profecia
Variedade de línguas
Interpretação de línguas

O Mistério do Pentecostes, como disse, assinala a última etapa da Vida e Obra do Cristo, que sendo sete vêm as mesmas iniciáticas do Homem em seu gradual volvimento ao estado Divino.

Restam a Consolação da doutrina e do rito até ao Advento que marcará o início da Nova Jerusalém, ou seja, a da Idade da Promissão assinalando um Novo Ciclo de Humanidade, com a sua transição de Piscis a Aquarius, por certo portador de melhores dias para o Mundo.

Com o Pentecostes consolidou-se a derradeira Promessa de Cristo, antes da Ascensão, quanto à sua segunda vinda no final dos Tempos, ou seja, do Ciclo vigente, tal qual Krishna prometera ao seu discípulo Arjuna, como consta no Bhagavad-Gïta: “Todas as vezes, ó filho de Bhârata (a Índia), que Dharma (a Lei justa) declina e Adharma (a lei injusta) se levanta, Eu me manifesto para salvação dos bons e destruição dos maus. Para restabelecimento da Lei Eu nasço em cada Yuga (Idade)”. Ou aquela outra profecia contida no Vishnu-Purana: “Quando o fim da Idade das Trevas estiver próximo, o Kalki-Avatara (Manifestação Divina) descerá sobre a Terra. Dotado das oito qualidades sobre-humanas, Ele estabelecerá a Justiça no Mundo”.

Para a Segunda Vinda do Messias, Segundo Advento ou Parúsia (“Presença”, em grego), concorrem as três religiões monoteístas do Livro, mas também todas as demais tradicionais do Oriente, cada qual interpretando ao seu modo milenarista a futura manifestação do Avatara, todas concordando na certeza do Advir.

Acerca disso, Pinharanda Gomes escreveu no seu Dicionário de Filosofia Portuguesa (Edição Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1990):

“MESSIANISMO. Teoria da esperança ou da expectação em um Messias salvador e redentor de uma Humanidade considerada em estado degradado, quedado ou de perdição (por, ou ter perdido a natureza sagrada, ou ter caído da sua condição original, ou ter cometido pecado), após cuja vinda a mesma Humanidade recupera, regenera, restaura e redescobre o primitivo estado de felicidade, e nela se consagra para sempre. Esta simples definição contém variantes conceptuais, por exemplo, o messianismo formulado na Sagrada Escritura e relativo ao Messias Salvador, e as tendências messiânicas inerentes, tanto às culturas como aos povos e às políticas, em que variamente se mostra um messianismo entendido como a procura de um arquétipo, ou paradigma, de bondade, de beleza e de verdade, possuidor do remédio para os males, ou como a promessa de um chefe ou condutor que detenha o ceptro da sabedoria, e seja digno de instaurar a harmonia na cidade terrestre. Em todas as acepções o messianismo manifesta o conhecimento de antinomias existenciais – o que está mal, o que é bem, o que se julga ser o bem, pelo que, em todas as suas variantes, é remédio, cura e solução. A ideia messiânica envolve a reconquista da felicidade original (Paraíso Perdido), a restauração dos bens destruídos (Idade de Ouro), a instauração da harmonia (Paz Perpétua) e, noutra instância, a assunção do homem à sua essencial dignidade (Reino de Deus). A teoria messiânica tem diferentes linhas discursivas, tanto consistindo num messianismo sem Messias, capaz de realizar a justiça na República, pela simples vontade operativa dos homens, num projecto de imanência, como num messianismo que passa pelo coração humano, mas se realiza por aliança do divino e do humano, aí chamado por Deus à salvação. Esta forma messiânica manifesta os atributos da transcendência, é escatológica, teleológica e soteriológica, sendo estes os predicados do messianismo paradigmático, o judaico-cristão, mesmo considerando que a ele afluíram as teses do providencialismo das outras religiões monoteístas, designadamente o Islamismo, teses essas que são devedoras ao finalismo da filosofia grega que, em tempo, se adjuvou à teoria da esperança salvífica hebraico-cristã.

“A figuração messianológica aparece em plurais situações, por exemplo, nos mitos germânicos dos “heilbringer” ou “portadores da salvação”, no mito do “Salvador” inteligido por Virgílio (Écloga IV), na imagem persa de “Saohyant”, na concepção hindu de “Buda Maitreya”, na esperança islâmica de “Mahadi” e na tábua de salvação da autonomia portuguesa, figurada no nome “Sebastião”. Todavia, a original e originante figura do Messias é hebraica, derivando do aramaico Meshihà, pelo hebraico Hammashiah (= o Ungido), pelos gregos ou helenos traduzido no nome Christós. A raiz do substantivo é meshah (= ungir), verbo com que se designa a unção sacerdotal, profética e real das chefias temporais e espirituais do povo de Israel. O javismo, que se concretiza na aliança do Sinai, assume Javé como “Rei de Israel” (Gén., 49, 10), o “Ceptro de Judá”, razão para um povo que se constituirá assembleia de religião única, verdadeira, perfeita e definitiva, com mensagem salvífica destinada a todos os povos, conforme se vê na passagem em que Javé chama Abraão e o manda olhar para o firmamento para que, contando as estrelas, fique a saber quantos filhos há-de ter (Gén., 15, 5). Israel seria o veículo condutor deste messianismo à divinis que se dinamiza em torno de fórmulas quais o Restaurador do Povo de Deus, Messias de Israel e Salvador da Humanidade, no fim dos tempos, cujos dias ninguém conhece. No messianismo israelita, e consoante a evolução do povo de David, o messianismo é real, profético e sacerdotal, mas a ideia nuclear, ainda que o nome Messias pouco apareça no Antigo Testamento, revela a tipologia de um Rei-Sacerdote, que virá no fim dos tempos, para instaurar o Amor, a Justiça e a Paz. A sua figura é absorvente nos livros históricos, poéticos e sapienciais, sendo revelado como “Rei Messias” (Jer., 30, 9), “Servo Sofredor” (Js., 53, 1) e “Filho do Homem” (Dan., 7, 13), cognomes antigos que a modernidade evangélica atribui a Jesus de Nazaré, olhado como o verdadeiro Messias já vindo. Este hossana, atribuído ao filho do carpinteiro, constitui (sobretudo a partir dos dias de Pôncio Pilatos, que ficaria no símbolo da pística cristã, o Credo, como o referencial histórico do tempo) a causa da cisão na unidade do messianismo hebraico, na medida em que, ao Messias vindo dos seguidores de Jesus, se opõe – por vezes com a rigidez de Saulo, antes da estrada de Damasco – o fariseísmo e o tradicionalismo judaicos, cujos tempos messiânicos continuam por vir, sine die adiados.

“As formas históricas e temporais, quando desligadas do primordial núcleo teológico, são mais um sentimento de carência do que um pensamento agente, decidido a transformar o pessimismo da perdição no optimismo da redenção. Ora, conforme se prova pelo contexto do Livro da Corte Enperial, que é uma súmula isagógica do século XV sobre os dogmas e artigos de fé das três religiões bíblicas, e cujo tema é a tipologia e a vinda do Messias, a tradição messianológica predomina em filosofia e teologia e bebe de três tradições sapienciais, documentadas, tanto na tradição oral, como no documento escrito.”

Antigamente usava-se o termo parúsia para descrever a visita de um rei ou imperador. Esse sentido foi colado ao Ritual Eucarístico para assinalar o Advento da Divindade no momento alto da bênção eucarística com o Ostensório, ou tão-só com o Cálice Eucarístico, figurativo da Taça Sagrada do Santo Graal, aquando o Futuro se torna Presente com a Visita ou Parúsia do Rei dos Reis durante o momento de comunhão do crente com o seu Cristo Interno e, sequentemente, com o Espírito do Cristo Universal.

Assim se cumpre o Advento, a Parúsia Divina, o Futuro se faz eterno Presente na hora da Elevação, postura maior em que se encerra a mensagem primicial do Mistério do Pentecostes.

Encerro com um trecho breve de obra reservada no chamado Mundo de Duat, com o título Livro do Grande Império Universal – capítulo “Os Sete Dedos de Deus” (Secção 5 – Códice 17):

A Anarquia e as Trevas seguirão – com a alma de Judá e o corpo do Judeu errante – até as memórias da Tragédia se tornarem cinzas, para que uma Nova Idade e um Novo Salvador venham reinar.