Recepção e Mérito no Grão Priorado Templário do Brasil – Por Lusophia Sexta-feira, Abr 23 2010 

Preceptório Madras

GRANDE PRIORADO DO BRASIL

ORDENS UNIDAS RELIGIOSAS, MILITARES E MAÇÔNICAS DO TEMPLO E DE SÃO JOÃO DE JERUSALÉM,

PALESTINA, RODES E MALTA

 

Consagrações em 17 dezembro 2004 e 18 Janeiro 2005

Mantido pela Associação Cultural de Aperfeiçoamento Maçônico do GOB.

 

Mario Sergio Nunes da Costa

Eminentíssimo e Supremo Grão-Mestre

 

Wagner Veneziani Costa

M.A.D.E. Grande Senescal

 

Prezado Cavaleiro,

Por ordem do Eminente Preceptor Gerson Magdaleno, estais sendo convocado/convidado para a Sessão nº 1 de 2010 deste Preceptório.

CONVOCAÇÃO

Sessão INSTALAÇÃO e PALESTRA

Cavaleiros Templários

Preceptório MADRAS – 22 

 14/04/2010  às 19:00 h. 

Rua Gabriel Piza, 441 – Santana – SP

Segue anexo AGENDA com o Convite/Convocação para a Sessão Ordinária nº 1 de 2010 do Preceptório Madras nº 22.

PEDIMOS A ATENÇÃO AOS CAVALEIROS E CANDITADOS COM RELAÇÃO AO HORÁRIO DE INÍCIO DA SESSÃO, 19:00 HORAS, POIS HAVERÁ, DEPOIS DA SESSÃO, UMA PALESTRA DAS 21:00 HORAS ÀS 22:00 HORAS, SOBRE CAVALEIROS TEMPLÁRIOS DO ESCRITOR PORTUGUÊS VITOR MANUEL ADRIÃO, QUE SE ENCONTRA EM SÃO PAULO.

Os candidatos a Cavaleiros do Templo, devem comparecer com os paramentos do Sagrado Arco Real.

Obs.: Reforçando – Estão aptos a serem Instalados Cavaleiros Templários somente os Companheiros do Sagrado Arco Real.                           

 

 

No passado dia 14 de Abril, quarta-feira, do ano corrente de 2010, o Preceptório Madras do Grande Priorado Templário do Brasil, na cidade de São Paulo, pelas 22:00 horas, em sessão magna conferiu no seu Templo o diploma Mérito de Honra e a cruz templária Mérito Madras ao conterrâneo português Vitor Manuel Adrião, escritor, professor e dirigente da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

A iniciativa da homenagem ao ilustre autor lusitano partiu de Wagner Veneziani Costa, detentor de alto Grau na Maçonaria Templária Brasileira e proprietário da Madras Editora, a maior empresa editorial e distribuidora de literatura espiritualista na América do Sul.

Acompanhado da sua esposa, Ilda Esperança Carreiras, Vitor M. Adrião recebeu as homenagens dos confrades brasileiros confessando-se, no final, comovido, tendo atribuído um significado profundo ao nobre gesto afirmando que «estreitou mais ainda a relação humana e espiritual entre Portugal e o Brasil, a Teosofia e a Maçonaria, a Teurgia e o Templo, assim fincando o EQUILÍBRIO Passado – Presente – Futuro».

Vindo directamente da Capital Espiritual do Brasil, São Lourenço (Sul de Minas Gerais), para a capital paulista, a caminho de Portugal, quis a Lei de CAUSALIDADE que Vitor Manuel Adrião recebesse os meritosos galardões precisamente em 14 de Abril, data do RENASCIMENTO DE AKBEL, e numa quarta-feira, dia de MERCÚRIO, consequentemente, consagrado ao mesmo AKBEL como Luzeiro desse Globo. Mais uma prova indiscutível da ligação espiritual do autor ao Luzeiro na pessoa do saudoso Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, consignado MESTRE JHS por Teúrgicos, Teósofos, Eubiotas, Maçons, Rosacruzes, etc.

 

O dia 14 de Abril de 1957 veio a ser o DIA 0, DIA DO EQUILÍBRIO, do RENASCIMENTO DE AKBEL (R. A.). Nessa data, na Face da Terra às 12:00 horas, hora solar, o relógio sideral MATRA-AKASHA que está no Altar do Templo de MEKA-TULAN, Capital do Mundo de BADAGAS, marcou ZERO, dando início ao CALENDÁRIO DE MAITREYA, o CRISTO DE AQUARIUS que já iniciou (15:00 horas de 28.09.2005).

Nessa precisa hora solar (12:00 horas) na Face da Terra, o Venerável Mestre JHS realizou um importantíssimo Ritual da mais elevada transcendência no Portal do Templo, em São Lourenço. Ladeado pela sua Venerável Contraparte, D. HELENA JEFFERSON DE SOUZA, os GÉMEOS ESPIRITUAIS, corpos respectivos de AKBEL e ALLAMIRAH, acompanhados pelas suas Colunas Vivas e restantes Membros da GUARDA DO SANTO GRAAL, entraram no Templo Supremo da Ordem. Outros Irmãos Maiores, MUNINDRAS, abriram alas quando o Excelso Mestre ordenou que se abrissem os PORTAIS AKÁSHICOS DE SHAMBALLAH (8.ª Cidade Capital do Mundo de AGHARTA), todas as Embocaduras do Mundo, todas as Montanhas Sagradas e Orifícios da Terra, para dar saída a ARABEL na pessoa do REI SAULO (donde SÃO PAULO…).

Em quarta dimensão (astral) o Quinto Senhor ARABEL juntou-se ao Sexto Senhor AKBEL no Templo da Nova Jerusalém, Nova Meca ou Nova Shamballah do GRANDE OCIDENTE, e juntos, exaltados subiram ao Céu do SEGUNDO TRONO (LOGOS) indo contemplar o OITAVO SISTEMA (SOL CENTRAL DO UNIVERSO – o SUPREMO ARQUITECTO), após inaugurarem os respectivos QUINTO E SEXTO SISTEMAS DE EVOLUÇÃO UNIVERSAL, assinalados no empório sideral por VÉNUS e MERCÚRIO.

Nesse Ritual AKBEL pronunciou as Palavras de Equilíbrio: AKBEL – ASHIM – BELOI (OS TRÊS IRMÃOS QUE NUNCA SE SEPARAM)! ADVENIAT REGNUM TUUM! As quais a partir dessa data passaram a ser proferidas no início e no final de cada Ritual da ORDEM DO SANTO GRAAL.

Foi assim que o Futuro se fincou no Presente através de 3+3 Entidades Cósmicas representativas, no Plano imediato, de 3 Ordens Iniciáticas distintas:

 

AKBEL – ALLAMIRAH = ORDEM DO SANTO GRAAL

(6.º SISTEMA… MERCÚRIO… TEMPLO… METÁSTASE)

 

ASHIM – ARABEL = ORDEM DOS TRIBUTÁRIOS

(5.º SISTEMA… VÉNUS… TEATRO… SUPERAÇÃO)

 

BELOI – ATLASBEL = ORDEM MAÇÓNICA ECLESIAL

(4.º SISTEMA… TERRA… ESCOLA… TRANSFORMAÇÃO)

 

Como SÍNTESE dos LUZEIROS, contendo em Si a potencialidade de todos Eles, apresenta-se MAITREYA, entronizado com o OITAVO SISTEMA dessa data em diante, o qual como SENHOR DOS TRÊS MUNDOS (Humano, Psicomental, Espiritual) representa ao mesmo tempo os futuros 3 Sistemas de Evolução Universal no 4.º presente: 5.º, 6.º e 7.º confundido no 8.º – 1 quarto para o Presente, 1 quarto para Vénus, 1 quarto para Mercúrio, 1 quarto para Júpiter e, finalmente, os 4 quartos para o 8.º Sistema. Por isso é o AVATARA INTEGRAL, onde aos 4 quartos em manifestação junta os 3 quartos imanifestados como BRUMAS CELESTES de que Ele é, afinal, a Gloriosa SÍNTESE.

Daí que MAITREYA se apresente como TRÊS BUDAS REALIZADOS ou DESDOBRAMENTO TRIPLICADO da Sua própria Essência Divina:

 

TERRENO – Correspondente à Evolução da 4.ª Cadeia da Terra

AVATARA MOMENTÂNEO DE SHIVA (3.º TRONO)

(50% da Consciência do Absoluto)

 

HUMANO – Correspondente à Evolução da 5.ª Cadeia de Vénus

AVATARA PARCIAL DE VISHNU (2.º TRONO)

(75% da Consciência do Absoluto)

 

CELESTE – Correspondente à Evolução da 6.ª Cadeia de Mercúrio

AVATARA TOTAL DE BRAHMA (1.º TRONO)

(100% da Consciência do Absoluto)

 

Eis porque o TRABALHO AVATÁRICO DO GRANDE SENHOR AKBEL objectivou para todos os da Sua OBRA um Futuro muito remoto para ser vivenciado no Presente imediato, acelerando incomensuravelmente a evolução verdadeira de um e de todos rumo à pleniconsciência da sua dignidade original: a de Seres Divinos.

Os acontecimentos de 14 de Abril de 1957 foram de tão transcendental IMPORTÂNCIA que foi como se tivesse havido uma modificação geral, um aprestamento na evolução avante da Mónada Humana.

Quis a Lei do Eterno que Vitor Manuel Adrião recebesse o diploma e cruz de Mérito igualmente no período lunar NEUTRO ou de EQUILÍBRIO, isto é, a LUA NOVA, marcando o Matra-Akasha 19.359, cuja soma e redução dá 9, o Arcano do Ermitão, ou seja, do Adepto Perfeito como “Filho da Terra” (Jiva+Atmã, donde, Jivatmã) possuída do valor cabalístico 9.

Antes da imposição e entrega da cruz e diploma, o Senescal do Preceptório Madras, Wagner Veneziani Costa, fez a apresentação do ilustre visitante português aos presentes, descrevendo a sua biografia e obra.

Após, Vitor Manuel Adrião predicou de improviso dirigindo-se à assembleia com saudações iniciais aos dignitários do Preceptório:

– Eminentíssimo e Supremo Grão-Mestre, Sr. Mário Sérgio Nunes da Costa.

– Senescal Sr. Dr. Wagner Veneziani Costa.

– Exmos. Srs. Grão-Mestres Passados

               Santiago Ansaldo

               Manoel de Oliveira

– Eminente Preceptor do Preceptório Madras, Gerson Magdaleno.

– Demais Autoridades, Respeitáveis Cavaleiros

               Tribunos do Edifício Magno do Grande Arquitecto Do Universo!

– NON NOBIS, DOMINE, NON NOBIS, SED NOMINE TUO DA GLORIAM!

Iniciou com a evocação da frase do Salmo 115:1 de David, que a primitiva Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão adoptara por divisa: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Teu Nome dá a Glória”.

Interessante causalidade: no reverso da cruz templária imposta a V.M.A., o designer da mesma gravou-lhe exactamente o número 115!

Prosseguiu desenvolvendo em síntese os nove (eis outra causalidade, a ver com a data do dia marcada no M. A.) artigos seguintes:

Primeiro – Fundação em 1118, a pedido de Hugues de Payens a Balduíno II, nas estrebarias das ruínas do Templo de Salomão em Jerusalém, da Ordem Militar dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, por nove cavaleiros penitentes europeus, dos quais o nono, Arnaldus ou Arnaldo, seria possivelmente português.

Segundo – S. Bernardo de Claraval, a Regra, os Estatutos. Reconhecimento oficial da Ordem em 1128, aquando do Concílio de Troyes, com a presença do mesmo S. Bernardo, primo do Conde D. Henrique de Borgonha, pai de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.

Terceiro – Findar trágico da Ordem em 23 de Abril de 1312, após o papa Clemente V, “capataz” do ambicioso e cruel rei de França, Filipe IV, ter emitido a bula Vox Clamantis que aboliu a Milícia.

A sexta-feira 13 é data para sempre considerada azarenta pela crença popular, desde que na madrugada de sexta-feira de 13 de Outubro de 1307 começou a prisão em massa dos cavaleiros templários em Paris.

Quarto – Evangelhos sinópticos e gnósticos.

Quinto – Gnose cristã e Islão sufi.

Sexto – Baphometh e Carvoarias.

Sétimo – Ideia gnóstica de Jesus Cristo, Maria Madalena e o Santo Graal.

Oitavo – A frota templária, o almirante D. Fuas Roupinho e a busca da Ilha Brasil.

Neste artigo oitavo, Vitor Adrião descreveu:

«O nome Ínsula Brasil já era conhecido de há muito, por certo graças à herança documental e cartográfica dos antigos navegadores fenícios e árabes que a Marinha Templária possuiria e depois a Escola Náutica de Sagres ligada à Ordem de Cristo através do Infante D. Henrique, seu Administrador Geral. Com efeito, os cartógrafos medievais destacam nas suas cartas náuticas o nome da terra Brasil, como é o caso da Carta de Pizigano, de 1367, do Atla de Andrea Bianco, de 1436, ou da Carta de Bartolomeu Pareto, 1455. Por seu turno, aquando da viagem à Índia do almirante Vasco da Gama, em 1498, ele navegou para Ocidente e ancorou defronte a terra firme e larga, que os historiadores consideram hoje ter sido o Brasil, antes de retomar a marcha para Oriente. Já antes, em 1487 e 1488, Pedro Vaz da Cunha, o “Bizagudo”, e João Fernandes de Andrade navegaram do Golfo da Guiné para o Brasil. Duarte Pacheco Pereira, autor do famoso Esmeraldo de Situ Orbis, também para aí se dirigiu várias vezes antes de Pedro Álvares Cabral em 1500, data oficial da sua Descoberta (vd. a minha História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae), Madras Editora, S. Paulo, 2004). Antes de todos esses e segundo Assis Cintra baseado nos escritos do jesuíta Manuel Fialho, o capitão de mar Sancho Brandão, que pertencera à Marinha de Guerra da Ordem do Templo e terá se transferido para a de Cristo, teria chegado numa expedição de reconhecimento à “Ilha perdida do Mar do Ocidente”, mais além das Canárias e apontada como o Brasil, notícia comunicada por D. Afonso IV de Portugal ao Papa Clemente VI em 12 de Fevereiro de 1343 (St. Brendan´s Search for Paradise, in A brief history of the European Mith of de Garden. Press American Studies and the University of Virginia, 2001). Muito possivelmente já nos anteriores séculos XII e XIII haveriam navegações de longo no Mar Ocidental à Ínsula Brasil, pois esse nome era muito comum nas falas lisboetas do século XIII por ser aplicado para designar os carvoeiros da cidade como os “brasis”, certamente alcunha comparativa entre esses que manuseiam o carvão e o estado sujo, lastimoso em que regressavam à terra aqueles marinheiros de mar alto que a História traz esquecidos.»

Nono – Ode ao Brasil.

Aqui o autor exaltou o Brasil, «Terra das Brasas do Fogo Sagrado (AGNI), Santuário de Iniciação do Género Humano a caminho da Sociedade futura», evocando em encómio o Padre António Vieira, arauto do V Império da Humanidade, Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes”, protomártir da Liberdade, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, «que singularmente lavrou e juntou as Quinas de Portugal com as Estrelas do Brasil por uma Sabedoria de Deuses que, a falarem português, bem poderão conclamar, os homens também, que DEUS É BRASILEIRO»!

Levantando a destra, terminou abençoando a assembleia:

– Em Nome do Divino Espírito Santo, em Nome do Cristo Universal de quem sou Sacerdote segundo a Ordem e Rito de Melkitsedek, vos abençoo a todos conclamando-vos a Obreiros da Evolução do Homem que começa por vós mesmos!

Sim, em Nome da Augusta e Santíssima Ordem do Santo Graal, dos Poderes Únicos da Montanha Sagrada de Sintra, vocacionada à Realização de Deus no mesmo Homem, assim como também em Nome da Comunidade Teúrgica Portuguesa, onde também sou Vigilante Silencioso mesmo falando alto a Voz de Deus que aqui me traz, vos abençoo a todos, a guisa de amorável retribuo em receberdes minha humilde pessoa na grandeza de vosso ilustre meio!

A Paz da Pax seja convosco! Ad Majorem Dei Gloriam! Adveniat Regnum Tuum! Bijam.

Muito obrigado pela graça das vossas atenções. Tenho dito.

Anúncios

O Grande Arcano Rosacruz – Vitor Manuel Adrião Domingo, Fev 28 2010 

rosacruz

Sintra, 1982

No Mistério da Rosa se oculta o Espírito da Vida.

O seu simbolismo no mundo esotérico, mormente ocidental, elevou-a ao panteão dos diversos simbolismos mais ou menos crípticos de que usufruem hermetistas e alquimistas, sufis e gnósticos e tantos mais Iluminados na Sabedoria Iniciáticas das Idades cujas traves-mestras – Ciência, Arte e Filosofia – se encontram na única Teosofia, ou Religião-Sabedoria. Desde os tempos mais remotos a Rosa é, pois e por excelência, a Flor Perfeita.

Rosa vermelha púrpura esta cor a recebe de Júpiter, mas a fragrância suave é de Vénus, e com isso associada de imediato à Mãe Divina, a Rosa Mística da ladainha mariana, e aos atributos da Pureza, do Amor…

Os romanos a tinham como símbolo dos enamorados, havendo o costume dos casais jovens, na procura de um futuro nupcial feliz, oferecerem rosas a Afrodite, deusa do amor. Hábito igual tinham os gregos. Igualmente os católicos orientais e ocidentais fazem uso do simbolismo da rosa, atribuindo-lhe as virtudes da Pureza e da Inocência, e, para manter viva a tradição ancestral ligada a ela, todos os anos o Papa, em Roma, diante da multidão benze uma Rosa de Ouro traçando sobre ela o sinal da Cruz. Isto vale por Rosa+Cruz, sibilino contudo magno emblema da Realização Verdadeira no Mundo, o que a Natureza aponta sendo a Pedra Filosofal como solução final da Quadratura do Círculo… Redimir coagulando a Prata da Terra e libertar solvendo o Ouro do Céu, sim, a Quadratura da Terra no Círculo do Céu, na maior Alquimia mediante a qual se obtém o Elixir da Vida Eterna – a Imortalidade Espiritual.

Terá sido essa a razão dos antigos hermetistas chamarem a todo o verdadeiro tratado de Alquimia de Roseiral Mariano ou Roseira de Maria, essa a Ciência das Transformações e Sublimações cujo Orago é Shiva, o Espírito Santo representado tanto por Fátima como por Maria… Rosa Mística ela é.

Lá está ela, envolta nos éteres do Mistério, coroando o Zimbório do Segundo Trono ou Cristo Universal, em todo o Templo consagrado da Muito Nobre Ordem do Santo Graal, Rosa no Cruzeiro ou Pramantha evolucional levando em seus palos o Tetragramaton, assim, como Círculo Celeste, traçando com o Nome do Eterno a Quadratura Terrestre – a Expressão Ideoplástica do Homem Cósmico (Jehovah), de quem o Templo é a forma estática.

Interior do Templo de Maitreya

Com efeito, o Templo é um espaço onde cada elemento se encontra disposto de acordo com os cânones sagrados que fundamentam a Harmonia Universal. Nas suas formas, dimensões, cores e símbolos se encontram plasmados os princípios arquetípicos que permitem a ligação com outras realidades de ordem transcendental. De todos os símbolos presentes no Templo, sem dúvida que se consigna como dos mais importantes aquele da Rosa+Cruz refulgindo encrostado no centro do zimbório. O privilégio dessa posição destacada remete igualmente para o simbolismo da Scalae Coeli. Com efeito, se considerar-se, do ponto de vista simbólico, que o Templo é a Montanha a cujo topo todo o Iniciado deve subir, então só no seu cume se poderá encontrar esse poderoso foco irradiante, muito bem conformado à expressão “assumptio” Pico do Graal.

Cruz Alta. o "Pico do Graal", na Serra Sagrada de Sintra

Cruz Alta. o “Pico do Graal”, na Serra Sagrada de Sintra

A Rosa+Cruz constitui-se, em verdade, como vértice ou coroamento do Templo. Ponto de convergência efectivo das energias templárias no seu duplo movimento, ascendente e descendente, como seja Kundalini e Fohat, “Fogo Quente” e “Luz Fria”. É através desse ponto focal que as energias flamejantes afluindo no Seio da Terra e trabalhadas no Templo são dispensadas para a Humanidade e enviadas para o Alto, no sentido ascensional, na direcção do Cristo Cósmico, o 2.º Trono representado pelos Mestres Perfeitos e Anjos Alados que, com a sua Vontade, irão colocá-las ao serviço do Desígnio de Deus, o Eterno.

Mas é também através da Rosa+Cruz no zimbório representando o Mundo Celeste no espaço sagrado do Templo, que neste confluem as energias luminosas desse mesmo Mundo e que aos Templários compete trabalhar e reelaborar. Portanto, compreender este augusto Símbolo Sagrado é entender de que forma o Templo se liga à tessitura espiritual na qual ele se integra.

Colocada no ápice, no cume do Templo, a Rosa+Cruz é a oposição polar do ponto central virtual colocado ao nível do solo e marcado pelo Trípode ou Braseiro onde ardem as chamas do Fogo Sagrado (Agni). O Pólo Celeste e o Pólo Terrestre estão assim em perfeito equilíbrio.

Um é o “omphalo”, o umbigo do Templo, através do qual flui a Energia Electromagnética do Seio da Terra, dos Mundos Internos – Kundalini. Representa o Aspecto Feminino da Manifestação, a Vontade de Criar e trazer para a Vida. É o Pólo irradiante que transporta das Trevas para a Luz, do Imanifestado para o Manifestado. Dele aflui a Energia Planetária do Laboratório do Espírito Santo, que é Shamballah. Representa, pois, o interior da Montanha, cuja porta, fechada a sete chaves, pode ser aberta pelo Iniciado verdadeiro, puro de coração e límpido de mente, pela entoação das sete sílabas sagradas qual “Abre-te Sésamo”, e assim manifestar o Reino do Divino Espírito Santo à Face da Terra.

Logo acima, no cume da Montanha, está a Rosa+Cruz. Ponto focal superior representando o Masculino da Manifestação, dele flui a Luz do Cristo Universal ou 2.º Logos a qual inunda, qual cachoeira luminosa, o Templo. Cruzando este pilar de manifestação da Obra do Eterno está o espaço do Templo materializando, desta forma, a Cruz Divina onde os Iniciados são simbolicamente “crucificados” no seu trabalho Templário quando dão a sua vida, as suas “energias” sacrificando-se pelo desenvolvimento espiritual da Humanidade.

Postado no centro do Templo, voltado para Norte, elevando os olhos o Iniciado contempla esse Símbolo Sagrado. Verifica que ele é constituído por uma Cruz amarela em cujos palos se inscrevem, em ouro velho, as quatro letras hebraicas constituintes do Tetragramaton Sagrado (YOD-HE-VAU-HE, cujos sons, concatenados, teriam originado Jehovah, o Deus Supremo das escrituras hebraicas). No centro da Cruz, uma Rosa vermelha purpurada com um botão central constituído por 3 pétalas. A envolver esse botão encontram-se 3 coroas concêntricas, constituídas por 5 pétalas cada. Perfazem-se, desse modo, 18 pétalas.

O botão central com três pétalas corresponde à Trindade Divina manifestada através das 7 Hierarquias do Raio Divino e das 7 Hierarquias do Raio Primordial, ou sejam as de Purusha (Espírito) e as de Prakriti (Matéria), aquelas para o 2.º Trono Celeste e estas para o 3.º Trono Terrestre. Considerando ainda o Ponto Central de Irradiação (o Eterno), a Trindade de Manifestação (as Hipóstases) e os 14 Raios de Expressão, ter-se-á os 18 elementos que correspondem às 18 pétalas da Rosa na Cruz, igualmente o valor indicativo do 18.º Grau de Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosacruz na Maçonaria Escocesa, que como Arcano 18 é A Lua receptiva às transubstanciações operadas no Arcano 13, A Grande Mãe, igualmente A Morte, antes, a Transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência e o qual é efectivamente o verdadeiro Arcano Rosacruz.

Cavaleiro Rosacruz ou Príncipe do Pelicano do 18.º Grau da Maçonaria Escocesa

Cavaleiro Rosacruz ou Príncipe do Pelicano do 18.º Grau do Rito Escocês Antigo e Aceite

Falando das Hierarquias dos Raios Divino e Primordial, a Tradição Iniciática das Idades consigna-as como sendo:

RAIO DIVINO (PURUSHA)

CÉU (FOHAT) – CRISTO

1 – LOGOS SOLARES

2 – RAIOS DO PRAMANTHA

3 – ENERGIAS ou SHAKTIS

4 – DHYAN-CHOANS SUPERIORES

5 – CONSTRUTORES MAIORES

6 – ESPÍRITOS DIANTE DO TRONO

7 – ANJOS DA PRESENÇA ou DA FACE

CORES

RAIO PRIMORDIAL (PRAKRITI)

TERRA (KUNDALINI) – MARIA

1 – LEÕES DE FOGO

2 – OLHOS E OUVIDOS ALERTA

3 – VIRGENS DA VIDA

4 – ASSURAS

5 – AGNISVATTAS

6 – BARISHADS

7 – JIVAS

Tem-se aí as Grandes Potestades conclamadas, sob nomes diversos, pelo Judaísmo e o Cristianismo com papel importantíssimo nos Ritos Místicos dos antigos Rosacruzes, usando os nomes das mesmas como são conhecidas teologicamente. Potestade significa “poder, potência, majestade”. Para a tradição judaico-cristã esse termo refere-se sobretudo às Potestades Celestes que criaram o Universo, a Terra e o Homem, estando organizados em 9 Coros chamados de Exército Celestial, composto de Arqueus, Arcanjos, Anjos, Santos e Sábios e todos liderados pelo Arcanjo São Miguel ou Mikael, o mais próximo do Trono de Deus.

Existem várias versões relativas às Ordens ou Coros Celestes. Entre as autoridades eclesiásticas que apresentaram as suas versões relativas a este assunto, destacam-se Santo Ambrósio, S. Jerónimo, o Papa Gregório I, o Magno, e a própria Constituição Apostólica. Entre as autoridades hebraicas igualmente abordando o tema, sobressaem Moisés de Leon e Moisés Maimónides, e as obras teológicas Sepher-Ha-Zohar, Maseket-Atziluth e Berith-Menusha.

Contudo, a versão mais universalmente aceite é a do Pseudo-Dionísio, datada do século VI e adjudicada à Escola fundada por Dionísio o Aeropagita, que viveu no século I d. C. Diz-se que foi o primeiro bispo de Atenas e martirizado pelos romanos durante o reinado do imperador Domiciano. São-lhe adjudicadas as obras A Hierarquia Celestial e a Hierarquia Eclesiástica, mas na realidade foram escritas muito depois por um grupo anónimo de neoplatónicos seus seguidores e por isso adoptaram o seu nome baptizando a sua composição literária de Pseudo-Dionísio.

Segundo a obra dionisiana, aprovada por São Tomás de Aquino na sua Summa Theológica, existem 3 Ordens de Potestades Celestes, cada uma composta de 3 Coros, totalizando 9 Coros, como sejam pela ordem correcta:

Primeira Ordem (PAI) – Com os seus 3 Coros está na génese do Universo, mantém a sua Harmonia e manifesta a Vontade Deus, que executam.

1. Tronos

2. Querubins

3. Serafins

Segunda Ordem (FILHO) – Com os seus 3 Coros representa o Poder de Deus e está na génese dos Planetas os quais governam, particularmente a Terra. Executam as ordens das Potestades da Primeira Ordem e dirigem as da Terceira Ordem.

4. Potestades

5. Dominações

6. Virtudes

Terceira Ordem (ESPÍRITO SANTO) – Com os seus 3 Coros está na génese do Homem, protegendo e guiando a Humanidade, e elevando os pensamentos de sabedoria e as preces de amor do Homem a Deus.

7. Principados (Arqueus)

8. Arcanjos

9. Anjos

Essa Terceira Ordem reúne em si as qualidades das anteriores e por ser a mais próxima da Humanidade, é geralmente a ela que esta se dirige e mesmo reproduz nas suas obras artísticas.

A representar cada uma dessas Hierarquias há os Sete Arcanjos diante do Trono de Deus aos quais a tradição cabalística hebraica chama de Mikael, Gabriel, Rafael, Anael, Samael, Zadkiel e Oriphiel. Os gnósticos cristãos chamaram os quatro últimos de Uriel, Baraquiel, Sealtiel e Jehudiel. A tradição judaico-cristã acabou atribuindo a estas Potestades o governo dos 7 Planetas tradicionais, cuja ordem correcta é a seguinte:

Sol – Mikael

Lua – Gabriel

Marte – Samael (Baraquiel)

Mercúrio – Rafael

Júpiter – Sakiel (Sealtiel)

Vénus – Anael (Uriel)

Saturno – Kassiel (Jehudiel)

Os Anjos e Arcanjos, como as demais Potestades, participam do Mundo Espiritual e são intermediários entre o Divino e o Terreno, como se destaca no significado do termo latino angelorum, “angélico”, que quer dizer “mensageiro” e “enviado do Logos” ou Deus Supremo.

Anjo, do latim angelus e do grego ággelos, “mensageiro”, segundo a tradição judaico-cristã, a mais divulgada no Ocidente, é uma criatura celestial acreditada como sendo superior aos homens e que serve como auxiliar ou mensageiro de Deus junto à Humanidade e toda a Criação. Na iconografia comum, os Anjos geralmente têm asas de pássaro e uma auréola. São donos de uma beleza delicada e de um forte brilho, por serem constituídos de energia divina, e por vezes são representados como uma criança, por terem inocência e virtude. Os relatos bíblicos e a hagiografia cristã contam que os Anjos muitas vezes foram autores de fenómenos miraculosos, e a crença corrente nesta tradição é que uma das suas missões é ajudar a Humanidade em sua evolução.

Os Anjos são ainda figuras importantes em outras tradições religiosas, como a muçulmana, a hindu e a budista, chamando-lhes Djins e Devas, mas, para todos os efeitos, “seres sobrenaturais” superiores ao homem comum, dotados de características e funções diversas algumas delas bastante diferentes das apontadas pela tradição judaico-cristã. Além disso, a cultura popular dos vários países do mundo deu origem a um copioso folclore sobre os Anjos, o qual muitas vezes afasta-se bastante da descrição mantida pelos credos institucionalizados dessas regiões.

Mais afim à mentalidade religiosa ocidental, o Cristianismo e o Judaísmo esotéricos, ou gnóstico e cabalístico, chamam de Anjos aos Espíritos num grau de evolução imediatamente superior ao do Homem e imediatamente inferior ao dos Arcanjos, termo significando “anjo principal”. Na Bíblia encontram-se apenas duas referências à palavra “arcanjo”, uma em 1 Tessalonicenses 4:16, e outra em Judas 9.

Se bem que a Bíblia apenas refira os nomes de três Arcanjos (Miguel, Gabriel e Rafael), todavia os escritos gnósticos e cabalísticos, como o Livro de Enoque, por exemplo, descrevem sete com os seus nomes, consideram-nos chefes de legiões de Anjos, a cada qual cabendo um planeta e respectivo dia da semana. Além disso, é atribuída a cada um deles uma figura geométrica e são evocados por determinados salmos do Antigo Testamento, por esses serem considerados detentores de propriedades teúrgicas ou de “magia divina”.

A autoria dos salmos é atribuída ao rei David, o qual teria escrito cerca de 73 poemas. Asafe é considerado autor de 12 salmos. Os filhos de Corá escreveram 9 e o rei Salomão ao menos 2. Heman, com os filhos de Corá, bem como Etan e Moisés, escreveram no mínimo 1 cada um. Todavia, dos 150 salmos há 51 cuja autoria permanece anónima, mas dando-se David, por razões convencionais, como o seu autor.

Os salmos ou tehilim, “louvores”em hebraico, são os 150 cânticos e poemas utilizados pelo antigo Israel como hinário no Templo de Salomão, e hoje são utilizados como orações ou louvores, recitados ou cantados, no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo (o Corão refere os salmos como “um bálsamo”). Pelos salmos comunica-se com os Sete Arcanjos diante do Trono de Deus, como sejam:

Mikael (“Quem é Deus”, em hebreu, “Quis ut Deus”, em latim)

Mikael ou Miguel é o Príncipe dos Arcanjos e o mais próximo de Deus. É invocado para a coragem, a defesa forte e a protecção divina. Mikael é revestido de couraça e capacete e armado de espada flamejante e escudo luminoso. É o destruidor da idolatria. Disputou com o Satan o corpo de Moisés no Monte Sinai. É o Arcanjo que proclama a Unidade de Deus.

Planeta: Sol (na Terra)

Dia: Domingo (Dominicus, Soledie)

Cor: Laranja

Forma: Quadrado e hexaedro

Salmo: 111 (“Bem-aventurado o homem que teme o Senhor…”)

Gabriel (“Homem forte de Deus”, em aramaico)

Gabriel é o Príncipe dos Anjos. O Profeta Daniel viu este Príncipe caminhando sobre as águas celestes que temperam os ardores da serpente ígnea. É o Arcanjo da Natividade, da Esperança e Anunciação. É Ele quem anuncia a Maria, mãe de Jesus, que “o seu ventre é bendito”. No Corão aparece como Jibrail, o Anjo da Guarda do Profeta Maomé.

Planeta: Lua

Dia: Segunda-feira (Lunes)

Cor: Violeta

Forma: Meia-lua deitada e icosaedro

Salmo: 18 (“Os céus narram a Glória de Deus…”)

Samael (“Força de Deus”, em hebraico)

Samael é o Príncipe dos Principados ou Arqueus. Interfere nas relações interpessoais e disciplinadoras e recebe as influências da Força de Deus para as transmitir tanto aos deuses como aos homens.

Planeta: Marte

Dia: Terça-feira (Martes)

Cor: Vermelha

Forma: Triângulo vertido e tetraedro

Salmo: 65 (“Em exclamações de alegria, invoquemos a Deus…”)

Rafael (“Deus cura”, em hebraico)

Rafael é o Príncipe das Virtudes. Na Bíblia acompanha e protege a Tobias, e é o Arcanjo auxiliador da Medicina, assim auxiliando a remediar os males da Humanidade. Por isso, iconograficamente, traz numa mão uma espada ou flecha afiada e na outra um frasco dourado contendo bálsamo. Quando aparece representado com um bastão, significa que é também o fiel guardião conservador dos segredos do Templo e o intermediário do casamento legítimo.

Planeta: Mercúrio

Dia: Quarta-feira (Miércoles)

Cor: Amarela

Forma: Meia-lua vertical virada para a direita

Salmo: 8 (“Senhor, nosso Senhor, como vosso Nome é admirável!…”)

Sakiel (“Fogo de Deus”, em hebraico)

Sakiel é o Príncipe das Dominações. É invocado para a resolução favorável nos actos de justiça. Como Príncipe da profecia e da inspiração, donde carregar um pergaminho, é ligado ao sacerdócio, às artes e ao ensino. Inspira ideias renovadoras às pessoas fracas e desanimadas, para que realizem os seus objectivos.

Planeta: Júpiter

Dia: Quinta-feira (Jueves)

Cor: Púrpura

Forma: Losango

Salmo: 34 (“Julgai, Senhor, aqueles que me prejudicam e ofendem…”)

Anael (“Graça de Deus”, em hebraico)

Anael é o Príncipe das Potestades e é invocado contra as forças do mal. Era o Mestre de David, segundo o Zohar. É também o Arcanjo do Amor e favorece a resolução dos problemas de amor e matrimoniais.

Planeta: Vénus

Dia: Sexta-feira (Viernes)

Cor: Azul

Forma: Meia-lua vertical virada para a esquerda e dodecaedro

Salmo: 13 (“O insensato nega, em seu coração, a existência de Deus…”)

Kassiel (“Contemplação de Deus”, em hebraico)

É o Príncipe dos Tronos, ladeado dos Querubins e Serafins. Expressa as forças criadoras da Natureza em acção e ajuda o homem a percepcionar o futuro.

Planeta: Saturno

Dia: Sábado (Sabath)

Cor: Verde

Forma: Hexágono e octaedro

Salmo: 15 (“Conservai-me, Senhor, porque eu tenho fé em Vós…”)

????????????????????????????????????

Essas eram as Potências Espirituais dirigentes da Antiga Rosa+Cruz a qual, como emblema autêntico que é, pode ser vista e decifrada a diferentes níveis e de vários modos. É assim que as diversas coroas de pétalas que se dispõem em torno do botão central também representam os três círculos de Iniciados (Sacerdotes – Instrutores – Arautos) dispostos em torno do Rei do Mundo (Melkitsedek), tal qual se dispõem os vários cavaleiros, nos seus graus e dignidades, em torno do Grão-Mestre numa Ordem de Cavalaria – Cavaleiro, Escudeiro, Pajem.

As três primeiras contêm treze pétalas, o que se relaciona ao Arcano Treze, “A Grande Mãe”, exactamente assinalada no Cruzeiro do Sul dando-se à Manifestação através do Filho, o Cristo como ponto central e os seus doze Apóstolos, nisto também remetendo para treze elementos. A última coroa, com cinco pétalas, estará relacionada com todo o simbolismo atribuído ao número cinco e correspondente Arcano, “A Inteligência”. Número esse estando intimamente ligados aos Mistérios de Portugal, como Ponto Focal donde irradiam as Energias do Quinto Chakra da Terra, Sintra.

Quinto Chakra que, por sua vez, é animado pela Quinto Elemento ou Quintessência da Matéria como “estado subtil etérico” ou AKASHA-TATVA, sendo o Reservatório Cósmico dos CINCO TATVAS a Constelação de CRUZIAT, ZIAT ou o CRUZEIRO DO SUL, expressão sideral do SEGUNDO LOGOS cuja Estrela constelar é essa QUINTA chamada “Intrometida”, mas que melhor poderia ser chamada de ENTRONIZADA ou CENTRALIZADA abençoando o Mundo e o BRASIL em particular, assim se unindo em sua função oculta – 5.º Elemento versus 5.º Chakra – a PORTUGAL, Pátria Gémea numa só MISSÃO AVATÁRICA. Quatro Estrelas em redor de uma Quinta, ou 4 MAHARAJAS para um 5.º MAHARAJA EM FORMAÇÃO, também vale pela ROSA+CRUZ SIDERAL e, igualmente, por RAJA-SIDHI, isto é, o “Poder do Segundo Trono”, KRIS-RAM-PA em aghartino, ou seja, o “Fogo Místico de Cristo”, o CRISTO UNIVERSAL representado na Terra pelo Grão-Imperator Rosacruz até aos finais do século XVII. Razão mais que suficiente para o Professor Henrique José de Souza, o Venerável Mestre JHS dos Teúrgicos e Teósofos, ter escrito e musicado o significativo Hino Santuário do Brasil (Prefixo do Cruzeiro do Sul), como “um jacto de Luz projectado do Céu a Terra vem beijar”… como uma cachoeira de luz azul repleta de estrelas douradas.

Santuário Akdorge de Portugal

Santuário Akdorge de Portugal

Na ORDEM DO SANTO GRAAL os 12 Sacerdotes ou Goros do Rei do Mundo portam em suas capas douradas o Emblema Rosa+Cruz. Sendo a Cruz um símbolo da própria Terra no conspecto dos seus Mundos Internos, acrescida pela Rosa central vem a expressar o Espírito Divino que habita em seu Seio, Spiritus ad Pax o qual não configura uma representação exclusivamente alegórica mas, pelo contrário, uma Vida-Energia bem definida e animada pela correspondente Vida-Consciência, de profunda dimensão espiritual. Torna-se assim o Emblema dos Filhos de Agharta. Dele dimana, como sua Hipóstase, a Cruz com a Rosa. Neste sentido, o seu significado torna-se claro: a Rosa+Cruz expressa a manifestação do Espírito de Deus sobre a Terra.

Sendo uma representação do próprio Cristo junto a Maria, a Rosa é assim o símbolo de todos os Seres auto-superados que conquistaram, por seus próprios esforços, o estatuto Divino. Para todos os Iniciados verdadeiros a Rosa+Cruz é uma representação da Harmonia da Criação. Albert Pike, em Dogma e Moral da Maçonaria, referia: «Unir a Rosa à Cruz, eis o problema que se coloca aos mais altos Iniciados». Por outro lado, Joseph Campbell, em Mitologia Criativa, refere a seguinte analogia: «A Visão Beatífica, tida por Dante, da Rosa do Paraíso, e aquela outra de Galahad face ao Santo Graal, são idênticas». Na verdade Dante acaba por ser um dos primeiros a falar explicitamente do emblema da Rosa+Cruz e a explicá-lo de maneira categórica. Na sua Divina Comédia o seu Céu é composto por uma série de círculos cabalísticos, dividido por uma Cruz (tal qual como a Roda de Ezequiel), em cujo centro desabrocha e floresce uma Rosa.

Rosacruz (pintura de Yolanda Campelo)

Rosacruz (pintura de Yolanda Campelo)

Os Rosa+Cruzes Andróginos, tanto valendo por Adeptos Perfeitos, dos sete significados do simbolismo da Rosa e da Cruz desvelaram aos seus discípulos Rosacrucianos os quatro primeiros, que são:

1.º) A Rosa que coroa a Cruz é o símbolo da Divindade, que só poderá ser alcançada por um profundo sofrimento na vida mortal, o que está simbolizado pela Cruz.

2.º) A Espada que cobre a Rosa é o Espírito, que sempre se deve manter disposto na batalha da vida, com o qual se chegará a ganhar o prémio da Rosa.  Lembra os tempos da Cavalaria nos quais, em magníficas lides, com valor e elegância o cavaleiro devia ganhar a rosa da mão da rainha.

3.º) A Cruz encimada pela Coroa significa que, se o fiel discípulo souber superar com total estoicismo os sofrimentos que a vida mortal lhe reserva, conseguirá o ceptro do Magistério, de acordo com os antigos aforismos que dizem: “Toda a Coroa tem antes a sua Cruz”. Ou então: “Para alcançar a Coroa é preciso subir à Cruz”.

4.º) A Cruz Fálica significa o duplo sentido sexual que se manifesta no Universo, isto é: a união do Masculino com o Feminino, fonte de procriação do Mundo Físico e da Ideia, donde se deduz imediatamente não existir nenhuma semelhança com a simbologia grosseira dos cultos fálicos primitivos. A sua base primordial é a acção que leva ao pensamento, já que sem o movimento activo do Homem a ideia estanca e o Espírito não conseguirá dar os frutos que conduzem à Verdade, para Felicidade eterna da Humanidade.

Com efeito, como se vê, por si só o simbolismo da Rosa pode conduzir a imensas conexões ao nível iniciático. No círculo mais interno da verdadeira Ordem Rosa+Cruz dos Andróginos (hoje recolhida ao Mundo dos Sedotes ou Badagas), é conhecido o facto de antanho, quando exteriorizada sobre a Terra, os seus membros, sempre que lhes era possível, providenciarem a existência, junto à entrada das suas casas, de canteiros com rosas brancas e vermelhas, de ambos os lados. E “aqueles que sabem” conhecem o facto de nos túmulos dos verdadeiros Rosa+Cruzes deverem sempre figurar, de cada lado, um conjunto de rosas brancas (direita) e outro de rosas vermelhas (esquerda).

Passando de largo a dilucidação do significado de ambas as cores, refira-se na Inglaterra, nos finais da Idade Média, a conhecida Guerra das Rosas (1455-1485), que haveria de ensanguentar grande parte da nobreza britânica nessa luta dinástica pelo trono real travada entre as Casas de York e Lancaster. Cada uma delas representada por uma rosa: vermelha (York) e branca (Lancaster). E haveria de ser desta última Casa que surgiria essa figura extraordinária da História Portuguesa: Filipa de Lencastre, a quem Fernando Pessoa chamou, com a maior das propriedades, de “Princesa do Santo Graal”… predestinada a mãe privilegiada do maior dos Infantes – o Infante Henrique de Sagres, de quem a lenda conta ter recebido do navegador Gil Eanes uma braçada de rosas brancas como prova de ter dobrado o Cabo Bojador. Mas esta já é outra história, mesmo assim não menos dotada de maravilhosos e sagrados foros… tanto assim como esse outro facto da cor vermelha ser a mor do Rito de York da Maçonaria e, inclusive, preencher os listeis da bandeira dos Estados Unidos da América do Norte, cuja Carta de Direitos se deve a redacção maçónica.

Os cristãos quando traçam sobre si o sinal da Cruz, o seu “santo-e-senha”, raros imaginam sequer que com esse mudra ou “gesto místico” evocam a si os afluxos de poderosas Energias Universais e qual seja, pois, o sentido profundo desse mesmo mudra, tanto místico como mágico e cabalístico. Com o dedo polegar, que é o de Vénus, da mão direita, levam-no ao centro da fronte (sobre o Chakra Frontal – Sede da Sabedoria), dizendo: “Em Nome do Pai”, de quem atraem a Energia Vital: Prana. O dedo desce depois até ao centro do peito (sobre o Chakra Cardíaco – Sede do Amor), afirmando-se: “Do Filho”, evocando-se a sua Luz: Fohat. Logo sobe ao ombro esquerdo prolongando-se a linha horizontal até ao ombro direito, desfechando a evocação: “E do Espírito Santo”, atraindo-se a sua Força: Kundalini (que se manifesta como Verbo pelo Chakra Laríngeo).

Observa-se assim os Chakras superiores serem accionados da esquerda para a direita, em rotação destrocêntrica ou solar e configurando no corpo humano, de maneira soberba, o Pramantha Flogístico, estando a Rosa ideal ao centro, na região laríngea.

Para o Teúrgico isso vale pelos Atributos superiores do Odissonai. Assim, também se poderia dizer: EM NOME DOS TRÊS IRMÃOS INSEPARÁVEIS, AS TRÊS “TROMBETAS DO ETERNO”: A LUZ DE DEUS – O NOME DE DEUS – A SENTENÇA DE DEUS!

Para os Irmãos Místicos ou Frates Rosea+Crucis, Ordem Iniciática que brilhou sobre a Terra entre os séculos XIV e XVII, esse era o emblema perfeito da Imortalidade e da Iluminação, sendo tradicionalmente representado por uma cruz dourada tendo ao centro uma rosa vermelha. Já era utilizado no Antigo Egipto durante a XVIII Dinastia, no reinado do Faraó Amemhotep IV, cerca de 1350 a. C., durante as celebrações luni-solares dos Mistérios Andróginos de Ísis e Osíris, este para o Cruzeiro Mágico, aquela para a Flor Mística, juntos expressando a Sabedoria e o Amor fixados na Vontade do Hierofante dirigindo os celebrantes.

O Iniciado que alcançava a Iluminação Integral (Budhi Taijasi) transformava-se num Ser Crístico, num Adepto Perfeito, de facto e direito, um Rosa+Cruz. O candidato a esse estado supremo, evoluindo por seus próprios esforços e méritos, tanto mais que ninguém evolui por alguém, consignava-se Rosacruciano ou Rosacruzista, ainda assim, na sua fase mais adiantada, já detentor do Mental Iluminado (Manas Taijasi). E foi assim até aos finais do século XVII!… Hoje, os multivariados movimentos usando de tão digníssimo título ou serão rosacrucianos ou… nem isso serão, sabendo-se de tal pelos frutos dados por tão digna ou indigna árvore.

Devo declarar, segundo as informações disponibilizadas pela Excelsa Loja Branca, que a verdadeira Ordem da Rosa+Cruz Andrógina já não está na Europa, tampouco na face da Terra, pois se terá transferido para certa região subterrânea sob o Novo México, em El Moro, próximo a Cimarron, no Norte-América, sob a égide de Marte, sim, mas principalmente de Vénus e dos divinos Kumaras, donde ter por totem o YAK, símbolo característico dos celestiais Caprinos, e por sigla iniciática YOVE AMOLTZ KAPRUM, isto é, “JEHOVAH QUASE CAPRINO”. Decifre quem puder…

Mesmo assim, não devo deixar passar em claro a presença do YAK e a sua correlação filológica imediata ao nome hebreu de JESUS, Jeoshua, Yeoshua ou Yeshua. Não existindo o jota em hebraico, nesta língua o radical yes ou yas significa “um bode”. E o termo yahshua ou yeshua significa literalmente “o bode salvará”, em hebraico antigo. Ora o Bode de Mendes ou Memphis é simbólico da Cabra ou Caprino cuja consciência comparticipa directamente do Mental. Mental Universal (Mahat) é, afinal de contas, a Consciência do Kumara ou Espírito Planetário da Ronda tomando forma naquele Adormecido chamado Jefer-Sus (Jeoshua, Jesus…) destinado a despertar neste Novo Ciclo e dirigir os destinos do Norte-América, mas cujo Propósito Divino os homens goraram obrigando aos Homens Perfeitos a retirar às pressas do escrínio de El Moro o Avatara para o Sul-América… no rumo certo mas oculto da Serra do Roncador, destinada a Presépio ou Apta desta Nova Era de Promissão onde se forja o próximo 5.º Sistema de Evolução Universal, profundamente conectado à presente Missão Oculta de Portugal.

Sim, porque após a Tragédia do Gólgota o CRISTO é trasladado para SINTRA, onde fica por largos séculos até ir para EL MORO, e finalmente ser deslocado para o escrínio do RONCADOR…

El Moro (E.U.A.) visto por fora e por dentro

Por detrás dessa Hierarquia de Homens Perfeitos, há Alguém muitíssimo mais elevado que todos Eles juntos – o Divino P. R., siglas do Pater Rotan, o Maximus Imperator ou mesmíssimo Rei do Mundo como Chakra-Varti, pois que é “Aquele que faz mover a Roda ou Pramantha”. Ele é a própria Rosa no centro da Cruz, dando-lhe Vida e Forma como Consciência Universal nutridora de tudo e de todos!… Ainda no plano do simbolismo, a Rosa e a Cruz possuem os seus equivalentes no Coração Flamejante, designativo do Amor Divino, tão bem expresso na insígnia das Filhas de Allamirah e na Taça do Graal, a Taça da Suprema Eucaristia ou Eu-Crístico.

Nas escrituras orientais existe um outro termo que o define de modo mais sintético: Krivatza, “Aquele que traz o peito chagado” ou com ferida, a sangrar, etc. Não deixa de ser referência ao Sangue Real de todo o Mártir que, ao serviço do Rei dos Reis, logo, do Imperador Universal ou Melki-Tsedek, junto da Humanidade por esta derrama o seu precioso Sangue a favor da Evolução verdadeira da mesma. Do mesmo étimo ou origem, a própria Swástika, como Cruz Jaina, antes, Jina, em movimento destrocêntrico, tal qual se traça no sinal da Cruz, e a qual não se deve confundir, de maneira alguma, com a sinistra e nefanda Sowástika, de que tanto já falei em seguimento do que o Professor Henrique José de Souza proferiu sobre o assunto.

Quem não se lembra, ainda, desse famoso e alquímico “Milagre das Rosas transformadas de Pães” pela excelente Budhai de Sintra e antes Rainha Santa Isabel de Portugal? Momento prodigioso, diz a lenda piedosa, realizado da “Páscoa Rosada” em que o esposo D. Dinis a surpreendeu indo com o regaço cheio de pães a distribuí-los aos pobres deste mundo, dando consumação à virtude capital da Caridade ou Amor Universal… Pães de Vida que se transformaram em Rosas de Luz, de Afecto sublime e Mistério divinal… tais quais as Rosas de Santa Maria que, de além Bojador dobrado ou vencido, o argonauta Gil Eanes trouxe a seu Mestre, presenteando-o, o Infante Henrique de Sagres, hoje mesmo Budha de Sintra e já na sua época representação deifica do Budha Terreno, Mitra-Deva, aportando consigo a Omnipresença do Terceiro Trono, Deus Espírito Santo.

rainha-isabel[1]

A ver com esse acto miraculoso da Rainha Santa está o seu outro, também ocorrido em Alenquer, a “Vila Presépio”, aquando pagou a jorna aos construtores do convento de São Francisco com rosas vermelhas, e quando eles chegaram a suas casas viram, com suma admiração, que as flores haviam se transformado em moedas de ouro. Consequentemente, Rosa de Ouro, símbolo de Iluminação que é a maior paga ou conquista que um Construtor-Livre ou Iniciado Verdadeiro pode ter no final da sua Obra de Espírito Santo, de Maçonaria Original, Operativa e Iniciática, de verdadeiro Príncipe Rosacruz ou Cavaleiro do Pelicano que vai bem no Grau 18 da Maçonaria Escocesa, pois que expressa na Terra a criação do Céu, do Mundo da Mãe Divina manifestada na pessoa sublime de Ísis-Bel, a nossa Santa Rainha de Portugal, garante da Paz de Deus entre os homens.

Santa-Isabel-e-o-mendigo[1]

A flor da Rosa possui a tríplice conotação de Amor, Segredo e Fragrância, ao passo que a Cruz também comporta o tríplice significado de Auto-Sacrifício, Imortalidade e Santidade. Quando se tomam em conjunto estes dois símbolos, como sempre o estão no nome Rosa+Cruz, indicam o Amor do Auto-Sacrifício, o Segredo da Imortalidade e a doce Fragrância de uma vida Santa. Este é o significado da Floração Rosa+Cruz Redentora, tão bem expressa pelas cinco estrelas do Cruzeiro do Sul na Terra sendo as cinco quinas de Portugal, prerrogativa da REALIZAÇÃO DE DEUS.

Fernando Pessoa, vate e arrebate da Língua Portuguesa, “sua Pátria”, não deixa de a cantar na poesia de sua magistral Mensagem, no 5.º Poema “O Encoberto”, Parte III – Pax In Excelsis, decerto apontando sibilina ou encobertamente o Novo Amanhecer dessa Humanidade do Cristo Universal, o mesmo Encoberto Maitreya ou El Manu, Manu-el, tanto vale.

Que símbolo fecundo

Vem na aurora ansiosa?

Na Cruz Morta do Mundo

A Vida, que é a Rosa.

*

Que símbolo divino

Traz o dia já visto?

Na Cruz, que é o Destino,

A Rosa, que é o Cristo.
*

Que símbolo final

Mostra o sol já desperto?

Na Cruz morta e fatal

A Rosa do Encoberto.

Patanjali e a “Luz do Ocidente”… – Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jan 1 2010 

Sintra, 25.12.2009

 

Universalmente conhecido como o codificador do sistema de Raja-Yoga, a da União Real da Alma com o Espírito, a Pantajali ou Patandjáli atribui-se a compilação dos Yoga Sutras, cerca do ano 150 d. C., onde faz a dita codificação e reforma do sistema ancestral de Yoga.

Este Grande Iluminado terá vivido entre 200 a. C. a 400 d. C. no noroeste da Índia, existindo várias lendas sobre ele afirmando-o uma encarnação do “deus serpente” Ananta, ou meio-homem e meio-serpente, que desceu dos Céus para ensinar o Yoga (literalmente, “União”) ao mundo, indo prosseguir a Escola Mística iniciada por um outro Grande Iluminado, Vyasa, a quem se atribui o épico Mahabharata. O facto de se atribuir a Patanjali natureza serpentária, tão-só designa a sua condição de Iluminado Espiritual pelo despertamento da “serpente” Kundalini que sobe da base do cóccix ao alto do crânio através da coluna vertebral, serpenteando por diversos “centros de força” ou chakras. Kundalini vem a ser o Fogo Criador do Espírito Santo no homem, possibilitando-lhe tornar-se um Adepto ou Iluminado Perfeito.

Os Yoga Sutras ou Aforismos do Yoga, como já dissemos, são o texto clássico que codificou o conhecimento tradicional sobre o mesmo, compondo-se de 196 aforismos divididos em 4 capítulos expondo o método do Yoga que liberta o Yogui das limitações materiais impostas pelo seu karma ou débitos contraídos nas vidas passadas e na presente e assim da lei da Morte liberta-o para a Imortalidade, libertando-se de vez da “roda fatídica dos renascimentos e mortes”, do “ciclos das necessidades”. Os 4 capítulos são os seguintes:

1. Samadhi Pada – trata da definição do Samadhi como “Êxtase” espiritual, como o estado meditativo mais elevado da mente humana, e dos processos para alcançar o mesmo;

2. Sadhana Pada – trata da prática que leva ao estado de meditação e dos obstáculos físicos e psicomentais que o praticante pode encontrar;

3. Vibhuti Pada – trata dos resultados obtidos com a prática da meditação profunda (samyama), que são a Sabedoria Divina revelada como Conhecimento Humano e as faculdades psicomentais (sidhis) desenvolvidas pela Alma alinhada com o Espírito, portanto, os mesmos dons do Espírito Santo doravante portados pela criatura espiritualmente iluminada.

4. Kaivalya Pada – trata da meta suprema do Yoga proposto nos Sutras, que é a União final do Yogui à Vida Universal, quando acontece o isolamento (kaivalyam) no Divino que dá nome ao capítulo.

O Yoga ensinado nos Sutras é conhecido como Raja-Yoga, Yoga Clássico ou Yoga de Samkhya, este de cujo sistema os Sutras extraem a teoria que sustenta a sua proposta prática. Sutras são um tipo de composição literária sânscrita com a finalidade de facilitar a memorização de um assunto complexo. Extremamente concisos, apresentam o assunto de forma linear, em que cada aforismo decorre naturalmente do anterior. O seu estilo sintético de compor o assunto com pouquíssimas torna muito difícil a compreensão imediata da sua leitura, apesar de facilitar a memorização. Por esta razão, os Sutras são frequentemente acompanhados por comentários mais extensos feitos por Mestres Orientais em várias épocas, com vistas ao melhor entendimento dos mesmos.

Pois bem, o método preconizado por Patanjali está essencialmente presente nos métodos de realização espiritual de várias religiões e escolas de espiritualidade não só do Oriente mas também do Ocidente, inclusive no Catolicismo e na Maçonaria, como afirma o Mestre Koot Hoomi Lal Sing numa sua Carta datada de 1884:

«Nas Lojas Maçónicas de outrora o neófito era submetido a uma série de provas dolorosas de constância, de coragem e de presença de espírito. Com a ajuda de impressões psicológicas reforçadas por meios mecânicos e químicos, faziam-no acreditar que caía em precipícios, que era esmagado por rochas, que atravessava pontos aracnídeos suspensos nos ares, que passava através do fogo, que se afogava e era atacado por bestas selvagens. Essa era uma reminiscência dos Mistérios Egípcios e a qual tomaram de empréstimo para o seu programa. Tendo o Ocidente perdido os segredos do Oriente, foi obrigado a recorrer ao artifício. Mas, nos nossos dias, a vulgarização da Ciência fez cair essas provas infantis em desuso. Os únicos assaltos que agora atingem o aspirante são os assaltos psicológicos. A série de provas que ele sofre – na Europa e na Índia – é aquela provocada pela Raja-Yoga; ela tem por resultado desenvolver todas as sementes, boas e más, que haja nele, em seu temperamento. A Regra é inflexível e ninguém lhe escapa. Tal como a onda não pode fazer o rochedo frutificar, igualmente o ensinamento oculto não produz efeito num mental não-receptivo; e tal como a água desenvolve o calor na cal, o ensinamento leva ao máximo de actividade cada potencialidade latente insuspeita para o aspirante.»

A universalidade do sistema de Raja-Yoga levou que o mesmo fosse introduzido no Ocidente e adaptado à natureza dos ocidentais nos primeiros anos do século XX pelo Professor Henrique José de Souza, cuja Yoga de Patanjali mantém-se e pratica-se até hoje na Escola de Teosofia que fundou no Extremo Ocidente do Mundo, ou seja, no BRASIL.

O Professor Henrique José de Souza no seu Livro das Vidas, reservado datado de 1933, coloca Patanjali como o 6.º Aspecto da Linha Serapis, e aí diz dele o seguinte: «6.º Aspecto da Linha Serapis – No Círculo de Resistência é chamado de PATANJALI, devido a uma das suas 8 encarnações misteriosas. Ele fez esses avataras de acordo com as 7 notas da gama musical celeste empregadas no mundo com os nomes de: Arte, Ciência, Estética, etc., chegando ao ponto culminante (8) como o nome de PATANJALI, isto é, MAGIA TEÚRGICA. Nesta vida, vê-se PATANJALI fundando uma Sociedade, que ainda não era Dhâranâ…»

Com efeito, o nome desse Insigne Adepto transporta-nos de imediato à data de 28 de Setembro de 1916, época em que o Professor Henrique José de Souza, residindo na Rua Miguel de Frias, n.º 69, Rio de Janeiro, fundou um Centro de Estudos Espiritualistas a que deu o nome de Comunhão Esotérica Samyâma, cujo número de sócios chegou a 150. Pois bem, Samyâma esteve sob a égide de Shankaracharya e a direcção de Patanjali, segundo revelou o mesmo Professor e Mestre (JHS ou Maha-Rishi, El Rike), tendo o primeiro como representante físico Skandha-Bhante-Nazar (Tancredo de Alcântara Gomes), e o segundo representado por Chela-Taijasa (António Castaño Ferreira), dentro da mecânica iniciática da Obra do Eterno na Face da Terra.

A 22 de Dezembro de 1919, após três anos e três meses de actividades transcendentes, Samyâma foi dissolvida por ter cumprido a sua tarefa cíclica. Com o valioso concurso do Adepto Akadir, houve muito trabalho produtivo e as sementes lançadas ao terreno psicossocial por H.J.S. espalharam-se em diversas direcções; as que caíram em terreno fértil, germinaram, floresceram e propagaram os frutos do Bem, no milagre da multiplicação tulkuística ou “sub-aspectos” do Aspecto primordial, no caso, a dita Sociedade Samyâma, prólogo da posterior DhâranâSociedade Mental-Espiritualista, fundada em 1924 pelo mesmo Prof. H.J.S.

A ver com o cultivo dos “bons frutos”, disse o Professor Henrique José de Souza em 27.4.1958:

O Mental Superior ou Manas-Taijasi a caminho de Budhi-Taijasi, ou o Mental iluminado por Budhi, o Plano da Intuição, é o Plano da verdadeira Inteligência onde se firma o Corpo Causal.

Num livro que eu desejava escrever e que tinha como título Como se tornar um Adepto, que a minha saúde combalida não permitiu escrevê-lo, ou antes, que a Humanidade não o mereceu, eu dividia-o em três partes:

1) Hatta-Yoga – como ciência do bem-estar físico (alimentação apropriada a cada um dos 4 temperamentos). Exercícios para a aquisição da Vontade.

2) Bhakti-Yoga – educação do Carácter ou da Alma.

3) Jnana-Yoga – domínio do Mental e, portanto, a superação pelo encontro da Consciência.

Todas as vezes que se inspira, a aura distende-se, e quando se expira, a mesma se contrai. Ora, se a pessoa pratica o Pranayama, a sua aura fica distendida por muito tempo o que constitui uma grande defesa física e astral para o praticante da Yoga.

Com isso rematando o que já dissera anos antes, em 1938:

Dhâranâ tinha por subtítulo Sociedade Mental-Espiritualista, e isto diz tudo. Muito mais sendo Dhâranâ o 6.º Passo da Yoga de Patanjali, ou seja, a “intensa e perfeita concentração da Mente em determinado objecto interno com abstracção completa do mundo dos sentidos”. Logo, criando e dando forma àquilo que se pense e, assim, a ideia pode chegar a ser objectivada. Desse modo se criam os Devas. E também os Seres em que os mesmos possam firmar-se posteriormente.

Os homens ao chegarem à Perfeição Absoluta, pertencendo a outra Hierarquia mais elevada que a dos homens comuns, fazem-se Adeptos e adquirem o Poder de Criação Mental ou de Kriya-Shakti. É o Poder de Kundalini ligado ao de Fohat, o Fogo e a Luz ou Fogo Frio. Um que desce e outro que sobe, unindo-se no umbigo, cujo “centro de força” é formado pelas duas referidas Potências, reveladas nas cores verde e vermelha, que logo darão vida e forma a mais duas “pétalas” no Chakra Cardíaco, formando o precioso número 14, que é o dos Avataras. Pelo que se vê, o Poder de Kriya-Shakti não é estranho ao homem. Vive nele empiricamente… esperando que o mesmo desperte.

O Excelso Patanjali previu o mistério dos “Oito Passos” na sua Yoga, que tanto valem pelos “Oito Poderes ou Sidhis” da Yoga, mantidos secretamente no Chakra Cardíaco inferior (Vibhuti). Não esquecer que somente o Adepto possui as duas últimas “pétalas”, de cores verde e vermelha, que completam aquele número 14.

Por tudo isso, Dhâranâ – Dhyana – Samadhi estão relacionadas com os Passos ou Arcanos da referida Yoga. A nossa própria Obra usou o nome do primeiro Passo acima citado.

O Mantram Búdhico ensina: “Dhyana tuas Portas de Ouro nos livram da Deusa Maya”. Razão, ainda, do nosso precioso Símbolo se chamar Pushkara e se dizer que “é ele quem abre os Portais de Shamballah” onde dormem os Deuses, os Vasos de Eleição. Samadhi não deixa de ser um estado de sono, onde se perde a consciência dos 7 Princípios da Ronda para se penetrar no Infinito. Sair voltando desse estado para o Finito, provoca uma espécie de “Loucura Divina”, de um Esplendor, de uma Sublimidade, etc., onde se percebe nas coisas do Mundo Humano ou Inferior as próprias grandezas do que existe no Superior ou Divino. Por isso que Ramakrishna, quando despertava dos seus constantes Samadhis, abraçava todos os animais, beijando-os ao mesmo tempo, além de outras demonstrações de amor e carinho para com tudo quanto se manifesta na Natureza.

Samadhi, segundo o nosso conceito teosófico, é conhecido como a Libertação da Mente da sua consciência finita para se identificar com o Infinito: é a Alma Humana recebendo a Emanação do seu Deus, realizando em tal estado a União do Pai e do Filho. É a Divina Fonte fluindo como uma torrente pelo seu humano cárcere. Entretanto, em casos excepcionais, o Mistério é completo: o Verbo se faz Carne e a indivíduo chega a ser Divino em toda a extensão da palavra, posto que o seu Deus pessoal torne vitalício o Tabernáculo do seu Corpo, como Templo de Deus, como disse o Apóstolo Paulo. Que o digam as preciosidades incontestáveis dos nossos Rituais Eucarísticos…

Se o Mistério da Carne Eucarística passa por algum dogma psicofísico de cariz alimentar, esse é factor profano de somenos ou nenhuma importância à Realização Iniciática ou Espiritual que aqui nos traz, partindo da premissa fixada na própria Escritura Nova segundo as palavras de Jesus Cristo: “Não é o que entra pela boca que perde o homem, mas o que dela pode sair”… o que está em conformidade com o trecho seguinte de uma Carta-Revelação (datada de 10.08.1947) do Professor Henrique José de Souza:

Em resumo, não fazer uso de carne, seja pela boca ou pelo sexo (Áries e Scorpio x Taurus e Libra), ou melhor, de alimento algum impuro, como todos o são, pouco importa o Reino, é o que torna o Homem Imortal. Isto se adquire aos poucos. E com maior propriedade, ao ingressar no Mundo de Duat. Na Face da Terra, o homem ou a mulher pode passar sem o sexo, mas dificilmente passará sem alimento. Tal não acontece no Mundo acima referido. Ou mesmo, quando as missões exijam a franca entrada e saída no referido Mundo. Vi Akadir comer boas feijoadas e cozidos, tanto na Bahia como no Rio, mas também vi Akadir após ter se demorado muito no Mundo de Duat, e quando o interpelava se ele aí não comia, respondia-me: “O perfume dos prados, das flores e dos próprios animais e homens que ali vivem, serve-me de alimento, como a ti mesmo serviria se missão mista tivesses”.

São causas de males físicos e ruína espiritual as palavras destrutivas, as pragas, a maledicência, a mentira, a intriga, a calúnia, as blasfémias, filhas dos maus pensamentos. A boca é o Santuário do nosso corpo, onde se acham implantados os trintas e dois Portais da Sabedoria, representados pelos trinta e dois dentes. Santuário arquitectado para bendizer e abençoar, para glorificar e louvar a Deus, para difundir a Verdade e propagar a Fraternidade.

A Sociedade Dhâranâ extinguiu-se e renasceu em 1928 como Sociedade Teosófica Brasileira, e nesta mesma a Yoga de Patanjali continuou a ser ministrada aos seus membros até actualidade, já sob o formato institucional Sociedade de Eubiose. Pois bem, foi assim que um dos mais conspícuos discípulos do Professor Henrique José de Souza, o senhor Roberto Lucíola, realizou na sede da Entidade, em São Lourenço (MG), em Outubro de 2001, uma série de aulas teóricas e práticas sobre a mesma Yoga de Patanjali a que chamou Meditação Iniciática e Yoga da Libertação, decerto pretendendo a execução colectiva da Trilogia de Realização Espiritual: Transformação – Superação – Metástase.

Como a relação pessoal entre nós e Roberto Lucíola era muito estreita pautada por um verdadeiro amor espiritual, após o seu desenlace carnal em fins de 2004, passados dois anos, no dia 5 de Julho de 2006, o seu filho, senhor Alexandre Rubens Lucíola, teve a enorme gentileza de enviar-nos de Brasília essas aulas de seu pai gravadas em DVD, pois que haviam sido filmadas, acompanhadas da curta mas sentida mensagem:

Prezado Vitor,

Em atenção à amizade que meu pai nutria por sua pessoa, transmito em anexo três DVDs gravados a partir de fitas VHS, atinentes a palestras por ele proferidas no ano de 2001. Infelizmente, a gravação original é de baixa qualidade, o que torna o filme ruim em alguns pontos. No entanto, o que mais importa é a mensagem e a prática que transforma o pseudo-esoterismo teórico no verdadeiro Esoterismo. Espero que goste e, caso se interesse, pode distribuir cópias a quem julgar merecedor.

Coloco-me à sua disposição em Brasília para qualquer necessidade ao meu alcance. Forte abraço,

Alexandre.

Nessas aulas filmadas, Roberto Lucíola preconiza três estados fundamentais a serem alcançados, um após o outro, durante a prática da Yoga da Libertação, como sejam os sexto, sétimo e oitavo passos da Raja-Yoga de Patanjali:

1.º) DHÂRANÂ. O poder de focar inteiramente a atenção no objecto de meditação, abstraindo-se de toda e qualquer ocorrência exterior, por mínima que seja. É, portanto, o estado perfeito de fixação e concentração num ponto predeterminado.

Quando o Professor Henrique José de Souza legou a prática da Yoga do Globo Azul, também foi com a finalidade de se desenvolver essa capacidade de Dhâranâ, definida por ele como: “A intensa e perfeita concentração da mente em determinado objecto interno, com abstracção completa do mundo dos sentidos. Em síntese: o sumo controle do pensamento”.

2.º) DHYANA. O perfeito estado de meditação e contemplação. Tem como objectivo a abstracção total dos sentidos físicos e a passagem a um estado superior, como seja o Espiritual,  o 7.º Princípio Humano. Este estado de Dhyana o Professor Henrique José de Souza definiu como: “Meditação, contemplação abstracta ou afastamento do mundo dos sentidos, melhor dito, estado de isolamento completo”.

3.º) SAMADHI. Segundo o Budismo Esotérico ou do Norte da Índia (Maha-Yana, “Grande Barca”, para a “Pequena Barca” ou Hina-Yana, o Budismo Exotérico do Sul da Índia), é considerado o Grau Supremo do Yoga. É a capacidade de contemplação estática e êxtase interior correspondendo à Supra-Consciência, onde o estado de meditação obtido pela concentração atinge um nível tão profundo que a Consciência se confunde com o objecto fixado, unindo-se com este já não como objecto mas como “Objectivo Espiritual”. Do Samadhi (ou Samyâma) diz o Professor Henrique: “Estado de meditação obtido pela concentração, no qual o Adepto se torna consciente do seu Mental Superior, o que tanto vale por se tornar Um com o Todo, a Consciência Universal, etc.”.

O estado de Samadhi ou “Êxtase” espiritual é a soma dos estados anteriores que falámos, e como síntese de todos e de todos é o resultado final, indo focar a absorção muito além do 5.º Princípio Mental Superior, Causal ou Manas Arrupa, do 6.º Princípio Búdhico ou Intuicional até do 7.º Princípio Espiritual ou Nirvânico, ou seja, no Paranirvânico (Monádico) e o Mahaparanirvânico (Divino), levando o Yogui a “mergulhar” a sua Consciência no “Oceano Sem Praias” do Absoluto, do “Espaço Sem Limites”, absorvendo-se neste, tornando-se um Nivri-Kalpa-Samadhi ou Jivatmã Universal, pura Vida-Consciência Omnipotente, com a Omnisciência de um Budha e a Omnipresença de um Bodhisattva.

Assim se apercebe de forma clara que esses três estados supremos – Dhâranâ, Dhyana, Samadhi – do sistema de Raja-Yoga adoptado pelo Budismo Esotérico, se confundem uns nos outros indo concorrer para a finalidade única de Libertação das cadeias férreas da matéria. Razão pela qual esses três estados compreendem-se genericamente num nome comum: SAMYÂMA.

O Yogui que atinja o estado de Samyâma penetra a Beatitude do Absoluto, e passa a ter domínio absoluto sobre todas as suas faculdades, mentais, emocionais e físicas.

Esta Yoga de Patanjali compõe-se de oito passos fundamentais passíveis de naturalmente manifestar os 8 Sidhis ou 8 Poderes Místicos do Yoga, possibilidade muito próxima quando se desenvolve as chamadas 12 “pétalas” do Chakra Cardíaco, e mais as duas “pétalas” ocultas ou latentes, em embrião, como 13.ª e 14.ª do mesmo Chakra, uma verde e outra vermelha (Fohat e Kundalini), e finalmente despertar o pequeno Chakra pendular daquele Cardíaco, o qual, semelhante à acção do pêndulo de um relógio (mas aqui, “Pêndulo Místico”), vibra e anima a glândula Timo e é denominado pelos orientais de Vibhuti, o “Lótus de 8 Pétalas”, em que se encerram os 8 respectivos Poderes Místicos do Yogui ou “Unido com o Divino”.

 Chakra Cardíaco e Vibhuti

 

As oito “pétalas”, raios ou linhas do Vibhuti estão ordenadas da forma seguinte (com os seus nomes tradicionais contidos no Gheranda-Samnhita, obra clássica da tradição hindu, além de levarem outros nomes ocultos, aghartinos, revelados pelo Insigne Mestre JHS, Prof. Henrique José de Souza) e correspondem aos seguintes poderes transcendentais do Adepto Perfeito:

1. LAGHIMA (LAYA, segundo JHS) – O poder de levitar, através da anulação da inércia e consequente eliminação da força gravitacional. Este poder desperto através da vibração da 1.ª “pétala”, destrói a inércia, que aqui toma o sentido de: inércia que nos prende ao passado e que ao ser destruída, nos liberta, permitindo-nos progredir de forma efectiva.

2. MANANA (MAHIMÃ, segundo JHS) – O “poder bioplástico” de mudar a estatura e a aparência para qualquer forma que se deseje. Aqui também com o sentido de transformação ao nível do carácter e da natureza interna, ou seja, da Personalidade pela Individualidade.

3. VASHUTA (VASHITA, segundo JHS) – O poder de criar ou de destruir mayas-vadas, ou sejam, ilusões e fascínios afectando as pessoas. É também a capacidade, mesmo em forma reduzida, de manipular a Energia Electromagnética Cósmica a que chamamos Kundalini. Os Adeptos Reais podem utilizar este Sidhi para ressuscitar um indivíduo que tenha falecido há poucas horas, ou seja, com o duplo etérico intacto ainda ligado ao corpo físico inerte.

4. ANIMAN (HANAMAN, segundo JHS) – O poder de focar a Consciência em qualquer ponto ou região desejada, esteja próxima ou longínqua. Quando o Yogui alcança o estado de Dhâranâ, coloca imediatamente em actividade este 4.º Sidhi (“faculdade, dom ou poder psicomental”… activado pelo próprio Espírito agindo sobre a Alma e o Corpo).

5. PRAPTI (PARAMAN, segundo JHS) – O poder de transferir a Consciência para qualquer ponto do Universo. Corresponde também ao estado de Samadhi, este que é o estado de “Êxtase Supremo” ou comunhão absoluta com o Eterno, no qual o Yogui pode afirmar com toda a legitimidade: “Eu e o Pai somos Um”!

6. PRAKAMYA (PARANTAPA, segundo JHS) – O poder absoluto da Vontade, ou melhor, da Supra-Vontade como Vontade Superior ou Divina, a que distingue o livre do ditador, seja este grande ou pequeno, pois este Sidhi caracteriza a natureza interior e exterior de todo e qualquer Iniciado verdadeiro que realizou a Suprema Renúncia.

7. ISHITA (SHAMA, segundo JHS) – O poder de alcançar a supremacia sobre todos os seres manifestados. Diz-nos o nosso Venerável Mestre JHS que o poder deste 7.º Sidhi refere-se, na realidade, à supremacia de poder decidir, de forma totalmente independente, o que se deseja ser, possuindo o nome oculto de Shama.

8. KAMA-VASHAYTA (SHUHAN, segundo JHS) – O poder de dominar o desejo, destruindo-o. É também a capacidade de ficar indiferente a toda e qualquer emoção, seja ela de alegria ou de tristeza. Comportando o nome oculto Shuhan, segundo o Professor H.J.S., este Sidhi transposta o Yogui para o estado de Consciência mais elevado possível, o qual antecede o grande mergulho no Absoluto, só ao alcance dos Grandes Iluminados, dos Seres Perfeitos da natureza dum Krishna, dum Budha, dum Cristo, dum JHS…

Transcrevemos agora parte extensa mas preciosa de uma carta privada de Roberto Lucíola a nós, remetida de São Lourenço (MG) em 15.07.2002:

Estou trabalhando actualmente nesse tema. Ou seja, como entrar em contacto com o nosso Mestre Interno, ou o nosso Eu Superior. Acredito que somente com a prática constante de Dhyana, ou Meditação Iniciática, é que lograremos esse intento.

Duas expressões da Divindade encarnadas na Terra em tempos remotos, nos legaram preciosos ensinamentos de como nos harmonizar com o nosso Mestre Interno. Foram elas: Patanjali e Shankaracharya. Patanjali nos deixou os Oito Passos da sua Yoga, que nenhum estudante sério devia ignorar e deixar de praticar, se, realmente, deseja se libertar do mundo das ilusões.

Há uma norma que todos os Yoguis de real valor nunca deixam de seguir, que diz: O refúgio do Yogui reside em Dhyana. Realmente, a Meditação Iniciática é uma poderosa arma que nos possibilita enfrentar todos os obstáculos que se antepõem em nosso caminho. Acredito que saiba tão bem ou mais do que eu quais são os Oito Passos da Meditação Iniciática. Mesmo assim, peço permissão para sintetizar os mesmos:

Yama: Inofensividade – Veracidade – Honestidade – Continência – Desapego.

Niyama: Pureza interna e externa – Serenidade e contentamento – Aspiração ardente ou Amor à Divindade – Boa leitura para se proteger o nosso Santuário Interno do bombardeio das informações externas – Amor e confiança em nosso Mestre Interno.

Asana: Postura do Corpo para o mesmo obedecer ao comando da nossa vontade e não prejudicar a Meditação. O Corpo deve ser educado no sentido de ficar em estado firme, contudo, sem qualquer tensão nervosa ou muscular. Este Passo é para assumirmos o controle do Corpo físico, como primeiro passo da nossa soberania sobre os nossos veículos.

Pranayama: É a Respiração Iniciática que difere da respiração comum, pois exige do praticante plena atenção no entrar de Prana pelas narinas. Patanjali ensina como fazer circular essa Energia Vital pelos oito canais principais do nosso Corpo para desobstruirmos todos os nadhis, a fim de que tenhamos saúde plena como primeiro passo para a Imortalidade.

Pratyhara: Consiste em dominar os cinco sentidos, não permitindo que qualquer coisa que venha de fora através deles perturbe o nosso mundo interno durante a Meditação.

Dhâranâ: Concentração num objecto interno, com abstracção de tudo o mais. Para tanto devemos nos concentrar no centro da cabeça onde se encontra a glândula pineal, que deve ser vista como um Sol luminoso no interior da nossa cabeça.

Dhyana: É a Meditação que pode ser realizada visualizando-se um Lago azul sobre o qual se estende uma Ponte dourada. Nesta Ponte, o nosso Mestre costuma apresentar-se para dialogar connosco. Cada pessoa tem a sua experiência, que é coisa muito pessoal.

Samadhi: É o aprofundamento de Dhyana. Estes passos devem ser dados simultaneamente, como se um fosse o prolongamento do próximo, para não haver corte na linha de pensamento. Tudo deve ser sincronizado.

Esta Yoga da Libertação deve ser praticada todos os dias. Ela nos livrará de todas as contrariedades. Não mais procuraremos fora o que está dentro de nós. Esta santa comunhão com o nosso Mestre nos livrará de qualquer dependência do mundo exterior. Trata-se de um processo de Libertação que somente a nossa Mónada pode proporcionar.

Um dos principais atributos adquiridos pela sua prática é a Serenidade. Trata-se de um estado que todos os Iniciados não podem abrir mão. Pois sem o mesmo o nosso universo interior se transforma num caos o que impede que os mais altos graus da Consciência se manifestem em nossa Mente. A Mente é um poderoso instrumento de que se serve o nosso Eu Superior para se manifestar nos níveis da personalidade, mas, se não for dominada ela assumirá o controle do nosso mundo interno. É por isso que muitas pessoas altamente cultas e inteligentes carecem de Sabedoria. Para que não sejamos mais uma vítima da Mente é indispensável o seu controle, coisa que somente é possível graças à Meditação Iniciática.

Dizem os Iniciados que a melhor maneira de se dominar a Mente é observá-la com os olhos do Espírito. Para tanto, deve-se procurar aquilo que os Taoistas chamam de encontrar o Vazio que não é Vazio. Para se lograr esse fenómeno é coisa simples, depende de que todas as vezes que formos meditar procurar o Vazio, ou seja: não pensar em nada, dar uma “branca” mental. Porém, como a mente é deseducada e dinâmica, ela procura perturbar a nossa meditação com ondas de pensamentos. Não se deve repelir os pensamentos que afloram, mas observá-los, e notaremos que os mesmos se desvanecerão como uma nuvem. Nesse caso, já é o Observador Silencioso que está presente, demonstrando o seu poder sobre a outrora toda-poderosa Mente. Esse domínio sobre a Mente fortalecerá sobremodo o poder da vontade que é a espada empunhada por todos os verdadeiros Guerreiros do Espírito.

À medida que se avança na Senda nós vamos entendendo o que se esconde atrás das palavras, ou seja, aprendemos a ver com os olhos do Espírito.

Meditação, Alquimia, Libertação, Imortalidade são sinónimos que se completam. Os Oito Passos, quando praticados, se sintetizam no Nono Passo, que é o próprio praticante. Daí se dizer que o Arcano Nove é o Adepto ou o Homem Perfeito.

O homem que não medita não tem o controle de si mesmo, não vive no presente, mas vive no passado ou no futuro. Está distante em seus pensamentos, com os seus problemas e preocupações imaginárias. Frequentemente se perde nas lembranças do passado. Se não meditarmos seremos criaturas do passado, produto do acúmulo de emoções e experiências do que não mais existe. Somente com a prática constante da Meditação é que conseguiremos a paralisação dos pensamentos residuais que enchem as nossas mentes. Devemos suster as ondas mentais dispersivas e nos concentrar no presente. Porque é no presente que se forja o futuro, segundo ensina a Sabedoria Iniciática.

A vida verdadeira é o momento presente, muito embora ela vá se tornar uma maya quando, também, passar. Daí porque o Adepto não se apega a nada neste mundo. Quando, através da Meditação Iniciática, nos conscientizarmos que a realidade é o nosso Eu Superior, que sempre existiu e nos acompanha eternamente desde quando éramos um simples mineral, estaremos dando um passo decisivo em termos de Libertação. O Excelso Senhor Budha falando sobre o assunto, assim se expressou em preciosos versos:

«Não corras atrás do passado,

Não busques o futuro.

O passado, passou,

O futuro, ainda não chegou.

Vê, claramente, diante de ti o Agora.

Quando o tiveres encontrado,

Viverás o tranquilo e imperturbável estado mental.»

Certa vez perguntaram a Gautama, o Budha, por que os seus discípulos, que levavam uma existência simples e calma, eram tão radiantes? O Mestre então respondeu:

«Eles não se arrependem do passado, não se preocupam com o futuro, vivem no presente. Por isso são felizes. Preocupando-se com o futuro e arrependendo-se com o passado, os tolos ficam ressequidos, iguais aos juncos verdes cortados ao Sol.»

Os homens comuns vivem na ignorância das Leis Divinas, por isso, vivem dominados pelos seus apegos, ressentimentos, má vontade, preconceitos, ódio, orgulho, queixas e lamentações. Em suma, são uns infelizes que vivem envolvidos nas artimanhas da personalidade que é o falso “eu”, que tem de morrer para dar nascimento a algo permanente que é o Eu Superior. O encontro com o Eu, ou o Mestre Interno, é um passo importante no estreito Caminho da Iniciação. Portanto, todo o esforço é pouco em se lograr tão alto galardão.

Como dissemos atrás, o sistema de Raja-Yoga codificado por Patanjali vem a estar subjacente aos exercícios espirituais das diversas correntes religiosas e tradicionais tanto do Oriente como do Ocidente, adaptado aos métodos das respectivas, sem dúvida, mas cuja fonte é essa mesma codificação inspiradora de místicos e pensadores que o mundo conheceu e conhece.

Assim, não deixa de estar em conformidade à nossa MISSÃO DOS SETE RAIOS DE LUZ ou MISSÃO Y essa Yoga de Patanjali presente nos principais Institutos representativos de cada um dos sete Raios de Luz Espiritual promanados do Logos Único, como seja:

1.º RAIO DA VONTADE OU PODER

Expressão superior: JÚPITER

Expressão inferior: SOL

Escola: Alquimia

Religião: Brahmanismo

Expressão superior: Iluminação Espiritual ou Poderio Divino

Expressão inferior: Química e Física materiais

2.º RAIO DE AMOR-SABEDORIA

Expressão superior: MERCÚRIO

Expressão inferior: LUA

Escola: Hermetismo

Religião: Budismo

Expressão superior: Regras de Iniciação da Hierarquia Espiritual

Expressão inferior: Regras de Conduta da Hierarquia Humana

3.º RAIO DE ACTIVIDADE INTELIGENTE

Expressão superior: VÉNUS

Expressão inferior: MARTE

Escola: Kaballah

Religião: Judaísmo

Expressão superior: Política e Ética Sinárquica

Expressão inferior: Meios de comunicação e interacção fiduciária

4.º RAIO DA ARTE E HARMONIA

Expressão superior: SATURNO

Expressão inferior: MERCÚRIO

Escola: Pitagórica

Religião: Gnosticismo

Expressão superior: Mecânica e Harmonia Universal

Expressão inferior: Arquitectura e Arte

5.º RAIO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Expressão superior: MARTE

Expressão inferior: JÚPITER

Escola: Rosacruz

Religião: Cristianismo

Expressão superior: Ciência Metafísica e Física

Expressão inferior: Linguística e Letras

6.º RAIO DO DEVOCIONALISMO ABSTRACTO

Expressão superior: LUA

Expressão inferior: VÉNUS

Escola: Sufi

Religião: Islamismo

Expressão superior: Adoração ao Todo no Tudo

Expressão inferior: Religiões e credos devocionais

7.º RAIO DA ORDEM CERIMONIAL

Expressão superior: SOL

Expressão inferior: SATURNO

Escola: Maçonaria

Religião: Iluminismo

Expressão superior: Teurgia e Taumaturgia

Expressão inferior: Práticas e crenças animistas

Pois bem, cada religião constitui-se dum GRUPO EXOTÉRICO HUMANO que acaba influenciado, directa ou indirectamente, pela escola afim constituída dum GRUPO ESOTÉRICO HUMANO que, por seu turno, é a expressão manifestada do respectivo GRUPO EGÓICO HUMANO.

Dizem os Grandes Adeptos que um Grupo Esotérico é sempre a extensão, no mundo físico, do Grupo Interno localizado na Residência Privada dum Mestre Vivo. E do mesmo modo que o Discípulo dum Mestre Vivo exteriorizado, individualmente – percorrendo o Caminho da Transformação, da Superação e da Metástase – demanda a identificação com o seu Ser Real ou Mestre Vivo interiorizado, também o Grupo Esotérico – através da Escola, do Teatro e do Templo – demanda a identificação consciente com a Grande Família Espiritual que o sustém e vivifica e qual parte neste Plano Físico onde se constitui de almas encarnadas para aquela de alma desencarnadas, ou, então, ocultadas, para todos os efeitos, umas e outras unidas entre si pela Obra comum que lhes cabe levar a efeito nos Mundos do Espírito e da Matéria. De modo que o Grupo Esotérico é sempre a “encarnação” do Grupo Egóico

Da mesma maneira que cada homem, entendido como personalidade, possui a sua contraparte espiritual, o seu Ego ou Individualidade, igualmente o Grupo Esotérico possui o seu Grupo Egóico, também chamado Família Espiritual, ambos tendo por centro um Mestre Vivo, mesmo que esteja morto fisicamente, mas cuja Obra deixada é sempre tomada como se Ele estivesse permanentemente vivo entre os mortais, e assim se mantendo sempre acima de eventuais querelas podendo surgir entre personalidades antagónicas.

Os Iniciados de todas as Linhas ou Raios têm sempre insistido no facto do Discípulo se encontrar ligado a dois Mestres, aos quais chamam de Mestre Interno e Mestre Externo, sendo, no fundo, o primeiro o nosso Eu Superior, o nosso Ego, a nossa Individualidade, e o segundo aquele Ser Vivente a quem propriamente se chama “o nosso Mestre”, que só comunica com o Discípulo por meio do seu Mestre Interno, o Ser Divino que é, afinal de contas, Partícula ou Chispa Monádica sua. E de tal modo estas duas realidades se encontram ligadas que, quando o Discípulo toma contacto consciente com Um, forçosamente o tem simultaneamente com o Outro.

Conciliemos então, numa estrutura coerente, esses dois factos dizendo que o nosso Mestre, o Mestre Externo, é aquela Consciência que abarca, que é a síntese dos Egos ou Mestres Internos, como Logos do Raio a que pertence o Grupo Egóico, quais centelhas provindas de uma única e mesma Chama; daí a razão de essencialmente se ser uma perfeita e harmónica Família Espiritual. De facto, no nosso Mestre é Aquele no qual, em primeiríssima análise, “vivemos, nos movemos e temos o nosso Ser”, parafraseando Santo Agostinho.

O esquema seguinte destina-se a ilustrar a inter-relação entre os Grupos Egóico, Esotérico e Exotérico, este sempre dirigido por um Mestre Representativo (seja um Bispo de Igreja ou um Venerável Mestre de Loja, etc.) dos outros dois (que essencialmente são UM!), a fim de clarificar ainda mais assunto que está profundamente ligado ao tema das Egrégoras ou “Almas Colectivas” criadas pelos Grupos Humanos:

Se a Yoga de Patanjali veio do Oriente para o Ocidente enriquecer ainda mais a Luz deste, ao ficar subjacente aos exercícios espirituais das diversas correntes tradicionais, tal a sua amplidão da sua universalidade, pela mesma igualmente se revela o espírito de fraternidade, concórdia e respeito que deve existir entre elas e todos os espiritualistas de escol, independentemente das suas crenças, possam finalmente unir-se sob a Bandeira Única da PAX UNIVERSAL. Razão sobeja para o Professor Henrique José de Souza ter apelado às várias partes do Brasil e do Mundo para uma FRENTE ÚNICA ESPIRITUALISTA, dizendo:

Mas, apesar de todo esse lastro de horrores e desenganos, não quer dizer que não possam haver modificações gerais na face das coisas… Bastava que os Homens de boa vontade quisessem trabalhar, em conjunto, a favor de uma Paz duradoura para o mundo. Assim como “da União nasce a força”, também do “Poder do Amor e da Vontade” poderia surgir um milagre, algo assim como a Fénix ressuscitada das suas próprias cinzas… Por exemplo: para evitar maiores danos que aqueles já apontados, “a construção de um dique tutelar contra as águas invasoras do materialismo bravio”, frase esta bem nossa, quando pela primeira vez apelámos para uma FRENTE ÚNICA ESPIRITUALISTA, mas agora completada pelos intelectuais e cientistas de toda a parte do mundo, ou melhor, “todos os Homens de boa vontade”, ou seja, aqueles cujo coração e inteligência não foram atingidos pelo veneno subtil das ideologias bastardas. O que equivale a dizer que a matéria não pode suplantar o Espírito, como está acontecendo agora no mundo. Ao contrário, os graves problemas que ora se apresentam não podem ser resolvidos com o canhão e a demagogia…

Todos poderão concorrer para tanto, pelo menos aqueles que fizeram construir um Templo dedicado ao futuro Avatara, e consequentemente à Paz Universal, onde se inclui as próprias religiões, que se fundissem numa só essa mesma Paz se faria para o mundo.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Monografias do Grau Manu, da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

Livro das Vidas (O Mistério da Árvore Genealógica dos Kabires), por Henrique José de Souza. Obra reservada datada de 1933.

Dhâranâ, por Henrique José de Souza. Revista “Dhâranâ”, ano XII, n.º 102, Outubro a Dezembro de 1939.

Ocultismo e Teosofia, por Henrique José de Souza. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1983.

Gravações em DVD das Palestras de Roberto Lucíola, realizadas em Outubro de 2001 na Sede da S.B.E. São Lourenço, Minas Gerais do Sul, Brasil.

As Portas de Ouro da Meditação, por Roberto Lucíola. Caderno “Fiat Lux”, n.º 37 – Novembro de 2003, São Lourenço, Minas Gerais.

Saúde e Prana, por Roberto Lucíola. Caderno “Fiat Lux”, n.º 38 – Fevereiro de 2004, São Lourenço, Minas Gerais.

O Milagre Filosofal da Velha Conceição – Hugo Martins Quinta-feira, Dez 31 2009 

…Muitas vezes passamos ao lado do fenómeno, até mesmo do milagre, sem dar por ele, cegos e surdos…

 Fulcanelli, Mistério das Catedrais

 

Percorrendo as ruas da magnífica Lisboa, os mistérios e encantos desta vão-se sublimando aos olhos do observador atento e interessado despertando, no seu mais íntimo campo subtil, o apego e respeito valoroso pela história e importância desta bela cidade iluminada (e iluminadora) às portas do Tejo.

Capital de Portugal, mas também capital de devoção e fé, Lisboa está no seu corpo repleta de igrejas ao longo de toda a Baixa Pombalina, sendo a “mãe” de todas elas a Catedral de Santa Maria Maior, mais conhecida por a Sé Patriarcal, por alguns apelidada também de Notre Dame Portuguesa.

A reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755, fez muitas das igrejas reconstruídas passarem desapercebidas em toda a arquitectura (também ela sagrada) da Baixa Pombalina. Aspecto premeditado pelo ministro Sebastião José Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, com o intuito de controlar o poder da Igreja Católica.

Inclusivamente, nos dias de hoje muitas das igrejas que pertencem ao Estado ou a Bancos são utilizadas para os mais diversos fins sem serem o da devoção e da fé, a que estas estavam destinadas originalmente. Um dos casos mais insólitos, prende-se com a utilização de uma das igrejas como depósito ou garagem para automóveis, profanando por completo todo o sentido sagrado desse local o qual as mentes ignorantes pobres de espírito que o utilizam fazem questão de “fé” continuar a “manchar”.

Mas casos insólitos aparte e voltando ao nosso assunto, foquemos a atenção no que ainda de bem, de bom, e de belo é mantido e preservado (salvo seja, visto que a manutenção dos monumentos fica bastante a desejar!) nesta cidade. Seguindo pela Rua das Alfândega, no sentido da famosa “Casa dos Bicos”, para o Arco Triunfal da Rua Augusta, passa-nos desapercebida uma igreja um pouco diferente das restantes no que toca às suas características. Estando absorvida por toda a massa constituinte do edifício dos Ministérios do Governo, esta igreja, que hoje apenas representa uma simples fotografia rápida ao mero turista ou um desprezo enorme pelo comum lisboeta, é um tesouro maravilhoso no que toca à sua história, estilo e mensagem.

A origem desta construção data do século XVI, mais especificamente 1520, reinando D. Manuel I e posta sob a invocação de Nossa Senhora da Misericórdia, constituindo assim a primeira Misericórdia de Lisboa e que no País foi instituída em 1498 por iniciativa de D. Leonor, irmã deste monarca, e do seu confessor Frei Miguel Contreiras (1). Neste período seria um dos monumentos mais importantes da cidade – a seguir ao Mosteiro dos Jerónimos de Santa Maria de Belém – com toda a sua fachada virada para o Tejo em conjunção com a imagem da Varina no seu pórtico, enaltecendo a importância das águas desta terra que caracterizou o próprio nome de Lisboa (Lis+Bona = “águas boas” ou “boas águas”).

O caro leitor neste momento deverá estar a questionar: como é que esta igreja tem o nome de Conceição-a-Velha quando o seu original era igreja da Misericórdia?

Esse facto, também ele gerou alguma confusão na história deste edifício, visto que no tempo de D. Manuel I existia já uma Conceição Velha doada pelo monarca em 1502 aos freires da Ordem de Cristo, construída no lugar da sinagoga da Judiaria Grande e que justificaria a transposição da devotíssima Virgem Negra da capela da Memória no Restelo, doada pelo Infante Henrique de Sagres em 1460 aos mesmos freires de Cristo, para este local, trasladação realizada em procissão triunfal pela freiria da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquando do terramoto de 1755, essa igreja ficou destruída e não se reconstruiu, sendo dado um espaço novo aos freires da Ordem de Cristo por D. José I, visto esse imóvel não estar incluído na reconstrução da Baixa Pombalina, sendo atribuída à Ordem a que hoje se localiza na Rua da Alfândega.

Assim, a primitiva igreja da Misericórdia, do tempo de D. Manuel I, viria a chamar-se igreja da Conceição-a-Velha (em substituição da antiga) até aos dias de hoje, contudo, muito diferente da original, visto ter sido destruída quase na totalidade pelo terramoto e reerguida pela intervenção do arquitecto Francisco António Ferreira em conjunto com Honorato José Correia, em 1770, reaproveitando parte da antiga igreja da Misericórdia, nomeadamente o portal e as duas janelas claramente Manuelinas, assim como um baixo-relevo de Nossa Senhora da Misericórdia e a capela do Santíssimo Sacramento, esta já do século XVII, que se adaptou a capela-mor. Desta forma alterou-se a orientação do templo, cujo portal transversal Sul passou a principal, a eixo com a capela-mor que era anteriormente uma capela lateral. O interior apresenta-se de nave única, com capelas colaterais, coro alto e capela-mor rectangular. As esculturas de valor, talhas e revestimentos de azulejos e estuques que aqui ainda se conservam, datam do período Setecentista (2). Além disso, a supracitada Virgem Negra, seria então transposta para aqui por simples mudança e não por procissão triunfal, como muitos autores de renome consideraram ter sucedido, tendo esta provavelmente sido realizada apenas para a antiga Conceição-a-Velha, a que ficou destruída e não foi reconstruída, na Judaria Grande.

O monarca D. Manuel I deixou um legado importante de igrejas e mosteiros por todo o País, denotando o Hermetismo vigente que se viveu na sua época. Um dos legados inquestionáveis deixados na Cultura Portuguesa foi, sem sombras para dúvidas, o imponente estilo arquitectónico muito apropriadamente chamado Manuelino. A igreja da Conceição-a-Velha, pertencente a esse legado, foi na realidade um verdadeiro milagre que sobreviveu heroicamente ao tempo e ao derradeiro terramoto, como também à pouco habilidosa reconstrução da fachada e do seu interior, valorizando-se nos seus elementos maravilhosos e mágicos no estilo Manuelino, que os cinzéis dos incógnitos Mestres-Canteiros deixaram para a eternidade no Corpo Hermético Olisiponense.

Perdendo-nos nas maravilhosas esculturas, baixos-relevos e rendilhados trabalhados magicamente na pedra que enchem os nossos olhos e prendem-nos hipnoticamente no infinito, deparamo-nos com uma riqueza de elementos herméticos, muito semelhantes a alguns presentes no Mosteiro dos Jerónimos, ligando-nos a uma linguagem alquímica, completando esta heróica igreja como um verdadeiro Milagre Filosofal.

Numa primeira abordagem mais superficial, temos inúmeros símbolos que inundam os elementos sobreviventes da igreja (pórtico e janelas) e nos permitem afirmar que a linguagem alquímica está aqui patente. Focando a nossa atenção nas janelas, temos aí dragões com os seus pescoços entrelaçados unindo-os um ao outro e cuspindo uma flor das suas mandíbulas, denotando a união dos opostos a que a Alquimia se dedicava esmeradamente caracterizando, como veremos mais à frente, as Núpcias Químicas. Para além de dragões temos grifos, localizados abaixo das figuras cristãs, que simbolizam os dois princípios opostos da matéria, o volátil (devido às asas) e o denso (patas de leão). O ouroborus, a serpente que devora a si mesma e se gera de novo, é um dos símbolos mais importantes (senão o mais importante) da Alquimia, também está aqui presente, representando a própria Grande Obra, a Unidade dos Opostos (como a do Espírito com a Matéria, do Fixo com o Volátil, do Masculino com o Feminino, do Enxofre com o Mercúrio), transpondo também o Infinito na Eternidade cíclica figurada no seu “movimento” circular sobre si mesmo, para o eterno devir completando a Unidade permanente, a Pedra Filosofal. Junto do ouroborus também observamos vários pássaros comendo dos frutos da Árvore da Vida, expressando a própria “Fala dos Pássaros” que os Alquimistas teriam de dominar para mergulhar nos Mistérios Alquímicos. Inclusivamente, o grande dogma de Hermes Trimegisto está aqui representado: (…) o que está em cima é como o que está em baixo, para se cumprir o milagre da unidade (…), através de um baixo-relevo onde os pássaros olham para baixo e os grifos para cima. Assim, a nossa primeira impressão prende-se na apercepção de que a linguagem alquímica é aqui uma constante, valendo a intenção de olharmos para ela com mais atenção, sublimando, aos nossos olhos, o resto que aqui vai transposto. Analisemos.

 O Ouruborus na fachada da Conceição-a Velha

 

No portal desta igreja encontra-se a figura da Varina com uma espada e uma balança nas mãos. Segundo Vitor Manuel Adrião, na sua obra Lisboa Secreta (3), ela está presente sob um significado esotérico, lendo-se: «Varina decompõe-se em Vénus+Ina, esta última significando, entre os povos da Oceânia, “Mãe do Mar”, o que se enquadra na bíblica STELLA MARIS – da adopção Carmelitana – Estrela-do-Mar». E Stella Maris é o célebre termo utilizado na linguagem alquímica, sendo a alusão ao “Mar dos Filósofos Herméticos”, ou seja, ao lugar onde ocorre o milagre universal da aparição da Estrela, sinal da formação do Rebis, indicativo da unificação dos opostos a que toda a Alquimia se propõe. Portanto, fica aqui evidenciado o carácter hermético do portal desta igreja.

Amálgama, no que diz respeito à definição química, é toda a liga metálica em que um dos metais envolvidos está em estado líquido, sendo geralmente o mercúrio.

O Mercúrio, na Alquimia, é o metal dissolvente dos outros metais, estando associado à figura da mulher e da água, também designada como a água mercurial divina, muito bem transposta na obra de Baro Urbigerus, Chymische Schriften, de 1705, justificando a própria imagem da Stella Maris, a Estrela-do-Mar que garante a cooperação ou união dos opostos entre si, a Núpcia Química ou Rebis. É o que se trata no portal da Conceição-a-Velha, pois a Varina situa-se no centro do portal sendo o ponto de união através dos arcos das duas colunas opostas tanto arquitectonicamente como pictoricamente, configurando no seu conjunto a letra sagrada M, justificando o que anteriormente foi descrito.

A Varina como representação da Stella Maris,

a água mercurial divina que unifica os princípios opostos

 

Além disso, a espada e a balança são referências aos princípios necessários para realizar a Grande Obra na Alquimia, sendo a balança a exigência no domínio dos pesos e proporções para que as reacções tenham sucesso. Por outro lado, a espada, que foi um termo utilizado na Alquimia e enganou muitos investigadores, é a Espada dos Sábios, o seu Fogo Salino, caracterizando o seu poder, a sua faca e a sua espada. Subentende-se, portanto, que “cortar” significa por vezes na Alquimia “cozer” (4). Normalmente os símbolos da Alquimia são apresentados com a balança e o compasso, podendo-se afirmar que estes (espada e balança) pertencem à figura da Justiça; no entanto, existem várias referências à espada e balança entre vários autores. A própria sétima Chave de Basilius Valentinus, é uma alegoria ao regime do Fogo exactamente com a espada e a balança. Em termos da representação artística, a obra Viridarium Chymicum, de D. Stolcius von Stolcenberg, 1624, faz jus à mesma imagem da Varina.

Viridarium Chymicum, de D. Stolcius von Stolcenberg (1624), Frankfurt

 

Para além da Varina, outros elementos escultóricos alusivos ao mesmo simbolismo alquímico estão aqui presentes, tal como os santos existentes nas janelas ao lado do pórtico, tendo do lado direito São Paulo e São Pedro, e do lado esquerdo Santo André e São Tiago. Analisemos:

São Paulo, o grande difusor do Cristianismo e considerado o verdadeiro criador da religião, banindo-a de vez como uma seita, expressa na linguagem esotérica o SEGREDO REVELADO mas apenas aos merecedores, aos dignos de receberem tal revelação (5). Este facto prende-se aos objectos iconográficos que o Santo possui, onde na mão direita carrega um alfange mourisco (referência à Viagem Paulista à Hispânia, segundo os Actos dos Apóstolos), que também parece um espelho às avessas, e na mão contrária um livro fechado (referência ao Conhecimento Esotérico ou Velado). São Paulo torna-se aqui a referência, visto ter sido a testemunha da declaração de Jesus aos seus Apóstolos sobre o «segredo escondido em todos os Tempos e em todas as Idades» (6), que na linguagem alquímica corresponde à revelação da Matéria-Prima verdadeira para a iniciação da Grande Obra. Ora este “segredo de todas as Idades”, a Matéria-Prima, é expresso pelo espelho, visto conter todos os princípios divinos retratando o Todo no Uno, como o reflexo de um espelho. No entanto aqui e o sendo, aparenta estar virado ao contrário, visto só os merecedores e Iniciados na Arte terem a sua revelação…

São Pedro também não deixa de ser uma referência para o simbolismo alquímico, tal como Fulcanelli explica no Mistério das Catedrais (7), pois representa uma referência muito importante para a Grande Obra simbolizado com as duas chaves entrecruzadas. Passo a citá-lo:

«(…) Então o galo, atributo de S. Pedro, a Pedra verdadeira e fluente sobre a qual repousa o Edifício cristão, o galo terá cantado três vezes. Porque é ele o primeiro Apóstolo, que detém as duas chaves entrecruzadas da solução e da coagulação; ele é o símbolo da pedra volátil que o fogo torna estável e densa ao precipitá-la. S. Pedro, ninguém o ignora, foi crucificado de cabeça para baixo(…)»

Santo André, o mártir que foi crucificado numa cruz aspada ou em forma de X, e segundo o Novo Testamento o irmão de São Pedro, por sua vez é mais uma referência ao Labor Alquímico, transpondo-se como a Ciência que trata não apenas da Matéria mas também do Espírito. No fundo, trata-se de vencer a Matéria para se atingir o Espírito, correspondendo a figura a uma das primeiras fases do trabalho sobre a Matéria-Prima, a chamada Crucificação da Matéria.

São Tiago, o Peregrino e o Padroeiro dos Alquimistas, representa com a sua concha ou vieira o chamado Mercúrio Filosofal (8), sendo um dos Princípios Divinos mais importantes para os Alquimistas: «Na nossa Obra, afirmam os Filósofos, o Mercúrio é suficiente». Além disso, vindo de França, foi o grande Nicolas Flamel quem realizou o mítico trilho de Peregrinação a Santiago, na sua viagem a Espanha, melhor dito, à galaica terra luso-céltica.

São Paulo, São Pedro, Santo André e São Tiago

 

Assim, este conjunto acaba por sintetizar toda a Grande Obra, não deixando de haver o pressuposto Espelho da Arte (Matéria-Prima da Obra) transposto na imagem de São Paulo, aplicando as duas “chaves” principais da Operação Alquímica – Solve et Coagula – transportada por São Pedro, e manifestadas na Crucificação da Matéria com Santo André, e no Mercúrio Filosofal com a Concha de Santiago, respectivamente.

 

O Laboratorium Alquímico da Conceição

 

Toda a Obra é uma recapitulação ou imitação da Criação do Mundo e do Cosmos por Deus. Desta maneira, todo o simbolismo alquímico existente no pórtico e janelas é apenas uma substituição com o mesmo carácter cosmogónico da Criação Divina, que não deixa de ser recriado num verdadeiro Laboratório Alquímico.

Os Quatro Elementos da Natureza, estão representados pelas quatro figuras femininas que se dispõem nos pólos opostos do pórtico formando a figura de uma Cruz, caracterizando o próprio símbolo espagírico, o Crucibulum, ou também o Tigillum, expressando o almofariz ou o gral onde se coloca e prepara a Matéria-Prima ou Prima Matéria (definida por Aristóteles como a síntese dos Quatro Elementos), e que o Alquimista sublima levando essa ao Lapis (Pedra Filosofal).

Esses Quatro Elementos não estão representados simplesmente ao acaso só por estarem dispostos em pólos opostos verticais e horizontais, mas sim devido a toda a sua relação simbólica que perfaz o símbolo acima descrito. E como foi descrito anteriormente, a Varina com a espada e a balança é o ponto inicial desta análise simbólica na relação com as outras figuras. Um aspecto muito importante, é filtrarmos a nossa atenção para o facto das figuras que caracterizam este Crucibulum serem todas elas femininas, logo sendo possível estabelecer uma relação superficial entre elas, no entanto, sendo a Stella Maris a representação do “Mar dos Filósofos” (e, por sua vez, da Via Húmida) o seu elemento oposto é o Fogo, sendo a imagem da própria Nossa Senhora da Misericórdia a expressão tipomorfizada do Espírito Santo, o Fogo Celeste ou Cósmico (na Alquimia existem três tipos de Fogo: Fogo Elementar, Fogo Secreto e Fogo Cósmico).

Nas duas figuras laterais, temos a Virgem e o Anjo Gabriel, que para além do sentido bíblico representam verdadeiramente a divisa da Regra Beneditina do século VI d. C., Ora et Labora (Reza e Trabalha), que os Alquimistas viriam a aplicá-la tão fielmente caracterizando posteriormente a palavra, que hoje é tão comummente utilizada, Laboratório (Labor+Oratório). Este que seria o lugar onde se orava (mais se estudava os velhos textos) e se laborava (com os fornos e retortas), caracterizado então como o espaço de unificação desses dois exercícios, o Laboratorium. É precisamente isso que interliga as duas figuras: a Virgem (lado esquerdo) está a realizar, com a mão direita sobre o peito e o livro aberto, a sua oração. Do lado oposto, o Anjo Gabriel (mas expresso como figura feminina, por expressar a Lua como Princípio Feminino) com um objecto de trabalho alquímico, o matrás, selado hermeticamente expressando o próprio labor hermético da Grande Obra só acessível aos Adeptos. Não esquecendo que São Gabriel é o Mensageiro de Deus, este aspecto congratula-se com aquilo que é o símbolo da Alquimia, o Mercúrio, sendo este, no Pensamento Clássico, exactamente o Mensageiro dos Deuses. Além disso, o livro aberto da figura ora representa o Conhecimento Exotérico, Desvelado, contrário ao matrás selado que simboliza o Conhecimento Esotérico, Velado. Ambos estão presentes na Arte Real.

Assim se estabelece a Cruz entre as figuras femininas (a própria imagem alegórica da Alquimia é uma Mulher, como expressa a supracitada obra de Fulcanelli, O Mistério das Catedrais), caracterizando a Água na Varina, o Fogo em Nossa Senhora da Misericórdia, o Ar na oração da Virgem e a Terra na laboração dos metais (provenientes da Terra) no matrás do Anjo da Anunciação, Gabriel, o Mensageiro de Deus. Podendo-se também analisar esses dois últimos de forma inversa, o Anjo Gabriel como Ar, expresso pelas suas asas angélicas, e a Virgem Maria como a Terra receptora da Mensagem do Divino.

As duas esculturas (Virgem Maria e Anjo Gabriel) representativas da divisa beneditina – Ora et Labora

 

Além disso, as figuras femininas são a expressão dos regimes de Fogo, constituindo 4 Graus de Fogo que correspondem a Negro, Branco, Alaranjado e Vermelho associados com as fases da Obra, onde a sua regulação opera-se consoante as Estações do ano, sendo que na Primavera com o signo de Carneiro, executa-se a calcinação; no Verão com o signo de Caranguejo e um Fogo suave, a dissolução; no Outono com o signo da Balança e um Fogo moderado, a sublimação; e no Inverno com a fase saturnina do Capricórnio, a putrefacção e fermentação. A primeira aparece em Solve, e as outras três em Coagula (9). Este aspecto surge muito bem expresso figurado no Viridarium Chymicum, de D. Stolcius von Stolcenberg, 1624.

Viridarium Chymicum, de D. Stolcius von Stolcenberg (1624), Frankfurt

 

O Fogo Secreto está alinhado com o ponto que unifica a Cruz formada pelos quatro elementos femininos, através da cara masculina aí representada. Neste caso, estamos mesmo no ventre da operação, onde o fogo espermático do elemento macho faz despertar o fogo matricial da fêmea, dando-se o inicio da sublimação dos três corpos (Sal, Enxofre e Mercúrio), elevando-se e encontrando-se numa atracção natural no alto do Pórtico. É sobre este aspecto que Kamala Jnana define no seu Dicionário de Filosofia Alquímica (10) aquilo que o ventre simboliza na linguagem alquímica:

«Ventre. Sob a acção do fogo espermático do elemento macho, o fogo matricial da fêmea desperta. Uma reacção em cadeia desencadeia-se; é o início da sublimação dos três corpos… sublimação que se traduz pela elevação de vapores no alto do vaso. Em seguida estes três corpos vaporosos, encontrando entre eles uma atracção natural, unem-se. Ora como um deles tende a formar-se em terra quando é separado da sua massa, resulta que pequenas esferas se formam no centro dos vapores.»

No entanto, a imagem pictórica relativamente ao Fogo Secreto está contida nos dois dragões que estão em pólos opostos em forma de S, olhando na direcção um do outro mas coincidindo ao centro com a face masculina. Porque é que os dragões constituem o Fogo Secreto? Exactamente porque este Fogo Secreto, nas operações alquímicas, é um Sal Duplo (o Sal Duplo é uma expressão especifica da Via Seca, no entanto, o Fogo Secreto da Via Húmida tem um tratamento com um segundo Sal, acabando por constituir um Sal Duplo), alcalino e muito cáustico, que permite fazer a separação do Enxofre e do Mercúrio. Além disso, os próprios dragões respeitam ao enigma figurado do Salitre, tal como o Leão Verde ao Mercúrio, ou ainda o Lobo ao Antimónio (11), e estando estes situados nos pólos opostos representam o tal Sal Duplo, o chamado Fogo Secreto, constituindo assim o 5.º Fogo (em conjunto com os quatro anteriores) que activa toda a Matéria e a mantém sempre à mesma temperatura.

Ademais, a forma geométrica que envolve a face masculina é figurativa do símbolo do Vitrum ou alambique ( ) na Arte Real. O alambique é um dos utensílios mais importantes na Alquimia, no qual se realizam as destilações para obter os espíritos que são tão importantes nesta.

Representação do Alambique e do Fogo Secreto

 

As colunas opostas e o Magistério

 

O Grande Arcano da Alquimia, como já foi expresso, prende-se à unificação dos opostos, o Homem e a Mulher, o Mercúrio e o Enxofre, o Sol e a Lua, o Princípio Passivo com o Princípio Activo, o Fixo com o Volátil, etc.

Quando analisamos as colunas mais pormenorizadamente, verificamos que ambas estão dispostas ou organizadas em espelho (acaba por ser o “Espelho” de São Paulo revelado ao Iniciado), no fundo sendo uma oposição constante que se realiza até ao topo do arco magno do portal, à imagem do simbolismo paradisíaco da Árvore da Vida pelos seus inúmeros elementos naturais de rosas, ramos e pássaros, acabando no topo por se “cumprir o milagre da Unidade”.

Os símbolos do Espelho e da Árvore da Vida, são ambos elementos de referência na Cultura Hermética representando na Grande Obra Alquímica, respectivamente, o seu início e o seu fim. Facto que Fulcanelli, na sua obra Mistério das Catedrais (12), reforça muito bem, deixando frisado que o início da Grande Obra é a Matéria-Prima, que o Artista deve eleger após denominada pelo Espelho da Arte. E porque é que este Espelho retrata a Matéria-Prima? Porque estamos sob uma visão micro-macrocósmica onde “o que está em cima é como o que está em baixo”, como um verdadeiro Espelho onde os princípios da Matéria-Prima são o reflexo microcósmico de todo o Universo, ou seja, do Macrocosmos. A Árvore da Vida é o final da Obra, pois o seu crescimento e desenvolvimento é uma verdadeira Obra da Natureza. O Alquimista, na utilização dos diferentes metais através de uma verdadeira “Agricultura Celeste” ou Hermética, visa o objectivo de atingir uma verdadeira Obra Perfeita da Natureza, a Pedra Filosofal.

Completando a simbologia do Espelho em conjunto com uma das figuras principais (senão a principal) do pórtico desta igreja descrita anteriormente, a Varina, voltamos a referenciar novamente Fulcanelli na sua obra Mansões Filosofais, onde atribui também ao Espelho o Antimónio, o chamado “Filho de Saturno”, a Matéria-Prima da Via Seca da Grande Obra. Nesta Via, o Alquimista prepara o Régulo Marcial Estrelado, bem simbolizado na 1.ª Lâmina do Speculum Veritatis (Espelho da Verdade), de Ireneu Filaleto, onde um personagem detém na mão um Globo Crucífero com uma Estrela no seu interior oferecendo-o a dois Anciães ou Alquimistas. Quando olhamos para o pórtico de um plano mais afastado, conseguimos observar esses dois aspectos na circunferência que o arco do pórtico estabelece imageticamente e no cimo uma cruz com um elemento particular no seu interior, a própria Varina, que é nada mais nada menos que a Stella Maris, a Estrela-do-Mar tratada anteriormente. Desta forma, temos assim uma constatação das Vias que participam na Grande Obra expressas neste pórtico, tanto a Via Seca como a Via Húmida, acabando por constituir a Via Mista ou das Amálgamas praticada por Alquimistas como Ireneu Filaleto e Nicolas Flamel.

1.ª Lâmina do Speculum Veritatis e o

símbolo do Antimónio no pórtico da Conceição-a-Velha

 

Na Opus Magnum existem três grandes fases, segundo a Via Húmida, caracterizadas por três cores diferentes, constituindo, respectivamente, o Nigredo (negro), Albedo (branco) e Rubedo (vermelho). A fase do Nigredo é definida por um conflito entre os dois Princípios opostos (Mercúrio e Enxofre) onde ocorre a putrefacção da Matéria, “morrendo”, dando-se a separação dos dois Princípios Divinos, para que esta renasça novamente, se purifique e aperfeiçoe. É exactamente na segunda fase, o Albedo, que a cor branca assume a purificação da Matéria renascida, onde esta é “lavada” através das chamadas “Águias”. Por fim a terceira fase, o Rubedo, inicia-se com a re-união (Rebis ou “Núpcia Química”) dos Princípios Divinos agora sublimados e perfeitos, atingindo por fim o culminar da Obra: a Pedra Filosofal.

No entanto, existem determinados elementos simbólicos que caracterizam o fim ou o início de cada dessas fases, sendo que vários desses elementos estão maravilhosamente esculpidos em alguns baixos-relevos ao longo do majestoso pórtico culminado no seu topo com “o milagre da Unidade”, a Pedra Filosofal. Analisemos, então, cada um deles.

Iniciando a análise junto ao solo, constatamos a imagem de uma criatura do subsolo, além de um Sol e uma Lua, e que é uma besta assemelhando-se a uma esfinge ou um grifo (devido às asas de águia e ao corpo de leão). Desta forma, esses três símbolos caracterizam aquilo que o Alquimista no início do Magistério terá que conseguir obter, os dois Princípios Divinos e opostos existentes na Matéria imperfeita e corrompida, tendo que laborar várias operações para penetrar bem fundo nesta e obter então o Enxofre e o Mercúrio Filosóficos. São estes dois Princípios presos ou ocultos no Submundo da Matéria (daí a criatura do Submundo) que a besta representa no seu corpo de Leão (Enxofre), asas de Águia (Mercúrio) e cabeça de Homem (Princípio Activo) e Mulher (Princípio Passivo), fazendo a sua correspondência respectiva com os símbolos do Sol (Espírito) e da Lua (Alma). Recorrendo novamente ao autor Kamala Jnana (13), o próprio confirma esta correspondência:

«Besta. Em Solve, a besta macho ou Enxofre dos Filósofos é chamado Leão Vermelho por contraste com o Sal Filosófico, que é nomeado Leão Verde (não por causa da sua cor, mas pela virtude ácida que ele possui e que significa qualquer coisa não madura). Quanto à besta fêmea ou Mercúrio dos Filósofos, é denominada Águia por causa da sua volatilidade. Por vezes, também, o Enxofre e o Mercúrio são chamados Dragões, e o Sal, Cão da Arménia. Do seu combate até à morte, nasce a Quintessência ou Sangue dos Inocentes. Por fim, no fim de Solve a granulação toma por vezes o nome de Fénix, porque ela parece renascer das cinzas do composto, donde é originada.»

No entanto, também tem aqui lugar o significado da Esfinge, pois este conflito é analisado como que uma passagem ou uma prova necessária à Iniciação de todo o Magistério a fim de se obter os Princípios opostos e atingir o objectivo final, o Lapis, sendo que, neste caso, podemos analisar toda esta complexidade segundo o mito edipiano e o seu encontro com a Esfinge, a Guardiã dos Templos (neste caso, Guardiã da Matéria), onde o peregrino (Alquimista) apenas prosseguiu o seu percurso (Grande Obra) quando respondeu acertadamente às perguntas (Sabedoria) inquiridas por ela.

Representação dos dois Princípios Divinos encerrados na Matéria que oAlquimista terá de obter

com a Sabedoria e a Arte necessárias para iniciar a Obra. Repare-se no Ouroborus do lado esquerdo, como símbolo importante para a Alquimia

 

Estas figuras caracterizam o inicio das operações da Obra até ao estado de putrefacção da Matéria, sendo esta a «primeira fase do Solve. Dura cerca de quatro meses filosóficos. É o reino de Saturno; o seu odor é nauseabundo. Tudo é negro, muito negro. É nesta fase que aparecem a coroa de ouro e o sangue do dragão». (14)

Quando a fase do Nigredo termina e o Alquimista pretende avançar para a fase seguinte, ele, segundo a linguagem alquímica, terá que “cortar a cabeça do corvo”. O corvo é simplesmente a cor negra que caracteriza esta fase, como também o sucesso da preparação exacta do composto, “o sinal canónico da Obra” (15), e a sua cabeça cortada é o fim desta e início da seguinte, mas que na prática alquímica é a abertura do matrás para retirar determinada quantidade de matéria acocorada pelo fogo. Pois bem, quando olhamos para o pórtico temos exactamente a imagem de uma ave sem cabeça, se bem que o seu corpo se assemelhe bastante à forma de um matrás aberto. Desta fase entramos para o Albedo.

O Albedo, como foi dito, caracteriza-se pela purificação da Matéria putrefacta através das “Águias” e é terminada com a corporização do Espírito, estando este facto representado noutro baixo-relevo que apresenta um Ser com asas de anjo, seios de mulher e entre as pernas uma folha de Adão tapando o seu sexo. As asas, são por se tratar de uma Matéria sublimada ao ponto de ter atingido um nível de pureza tal que se acerca ao Plano do Divino. Os dois seios visíveis, são simplesmente por retratarem o Alkaest, ou seja, o Dissolvente Universal, aquele que permite a unificação dos dois Princípios Divinos, sendo cada seio como que o alimento que a mãe dá aos seus filhos, o “Leite da Virgem”, unindo-os num mesmo corpo. É, no fundo, o Mercúrio Comum dos Filósofos, ou também o Mercúrio dos Sapientes, Sal Celeste ou Florido, que desta forma justifica o elemento feminino (tal como o Mercúrio). Além disso, esta imagem encaixa-se perfeitamente naquilo que o Mestre Ireneu Filaleto afirmou na sua Entrada Aberta ao Palácio Fechado do Rei, no capítulo XI, Da Invenção do Perfeito Magistério, onde diz:

«…o céu permaneceu nublado por um pouco mas depois das abundantes chuvas, reencontrou a sua serenidade.»

«Daqui surgiu um Mercúrio Hermafrodita. Puseram-no sobre o fogo e o coagularam em pouco tempo e na sua coagulação encontraram o Sol e a Lua.»

Esta preparação, do ponto de vista operativo, é baseada nas duas Vias, onde a Via Húmida só é utilizada depois da Via Seca ser utilizada primeiro com o Regulo Marcial, obtendo-se no fim o Mercúrio Filosófico. Assim e neste sentido, a razão deste baixo-relevo se apresentar sem um sexo definido, é que para além de representar o Mercúrio Comum, e estando associado ao Antimónio da Via Seca (descrito anteriormente sobre o pórtico), constitui também o Rebis ou Mercúrio Filosófico, visto se apresentar como um Ser Andrógino, o Ser completo e unido dos dois Princípios opostos, a verdadeira Unidade da Matéria, a Unificação do Rei e da Rainha.

“No Mercúrio está tudo o que procuram os Sábios”.

Cabeça do Corvo cortada, Alkaest Rebis, Pedra Filosofal

 

Deste ponto, na fase do Rubedo, mediante determinada operação a Pedra é levada ao rubro, onde o Alquimista realiza as “multiplicações” desta Matéria Andrógina, una, para a atingir a Perfeição, a Pedra Filosofal, representada pelo Sol bem no topo do pórtico, sendo compreendida como a Pedra do Fogo ou a Pedra do Sol, oriunda e laborada pela Arte do Fogo. Durante a rubificação, tinge-se com o Mercúrio “tingidor” ou “Sangue do Dragão”, com vista à obtenção do Elixir (16).

Os dois grandes princípios que correspondem ao axioma fundamental de todo o Magistério, são o Solve e o Coagula. Respectivamente, significam “dissolver” e “coagular”, neste caso, a Matéria-Prima da Obra, pretendendo dissolver-se os corpos e coagular os espíritos, no fundo, volatilizar o fixo e coagular o volátil. Quando analisamos estes dois princípios (Solve e Coagula) que estão em consonância com as figuras explicadas anteriormente, o Grifo, o Corvo, o Alkaest e o Rebis regem todo o estado da Matéria e a direcção da Obra até ao seu fim. Assim, na continuação dos baixos-relevos da Esfinge, o Sol e a Lua localizados junto ao solo, temos uma ascensão (complementada pelas figuras explicadas nos parágrafos anteriores, caracterizando as fases da Obra) do estado de evolução da Matéria do volátil ao denso, exprimindo a separação dos Princípios Divinos e nova união sob o processo da coagulação.

Segundo essa disposição, obtemos o número de operações existentes na Obra, que se caracterizam por sete operações alquímicas podendo ser entendidas da seguinte forma:

1.ª Calcinação: transformação pela acção do fogo.

2.ª Sublimação: o puro é separado do impuro.

3.ª Solução: a quente dissolve gorduras; a frio dissolve sais, substâncias corrosivas e corpos calcinados.

4.ª Putrefacção: o que está vivo morre e o que está morto ganha nova vida.

5.ª Destilação: as águas, os líquidos e os óleos são subtilizados.

6.ª Coagulação: pelo fogo é fixa, pelo frio não o é.

7.ª Tintura: o imperfeito torna-se perfeito (Pedra Filosofal).

(adaptado de Princípios Elementares de Alquimia, de Rodolfo Domenico Pizzinga)

Esta hipótese é colocada devido à expressão que o próprio bestiário alquímico assume na Grande Obra, onde consoante o tipo de animal que se apresenta, este esconde um determinado significado sobre o estado da Matéria. De uma forma genérica, esse bestiário organiza-se segundo a configuração do Solve et Coagula, ou seja, do estado volátil para o fixo, sendo que as figuras com asas ou associadas ao ar correspondem exactamente ao volátil, enquanto os animais que apresentam patas ou um corpo sem asas exprimem o contrário, o fixo ou denso. Assim, nesta sequência apresentada é expresso isso mesmo, tendo no início os xarrocos, seguido de anjos, pássaros e finalmente as duas últimas figuras, como a união ou fixação dos princípios opostos, nos dragões sem asas unidos num laço ao pescoço (semelhante à Flor-de-Lis), a Pedra Filosofal. Uma das obras pictóricas que transpõe muito bem este enigma figurado do bestiário alquímico, é o Viatorium, de Michael Maier:

 Viatorium, de Michael Maier (1618), Oppenheim

 

Finalizando todo este conjunto de baixo-relevos, temos de cada lado das colunas um conjunto magnífico de seis anjos olhando para o alto sobre joelhos com as mãos dispostas numa reza aos céus. Esta ascensão angélica é exactamente a ascensão que a Matéria leva através da aplicação do Fogo dos Filósofos no alcance da Perfeição. No entanto, não podemos descriminar o seu número total que perfaz doze. Este número poderá ser o da regência dos 12 signos do Zodíaco assistentes às 12 Fases da Grande Obra, ainda que neste caso pareça mais relacionado com os trabalhos acessórios, chamados trabalhos de Hércules (pois são penosos e morosos) (17), necessários para preparar antes de enveredar por qualquer uma das Vias, tendo o Alquimista de os fazer heroicamente e com a arte necessária, de forma a levar a Obra a bom porto, ou seja, à ascensão da Matéria culminada na Pedra Filosofal.

Anjos representando a Matéria em ascensão

através dos 12 Trabalhos de Hércules

 

Os 12 Signos do Zodíaco regentes da Grande Obra

 

No cimo deste pórtico, o destaque que se abre aos olhos do observador é o alto-relevo que ostenta a figura feminina da Nossa Senhora da Misericórdia acompanhada de dois Anjos Custódios que seguram as abas do Seu largo manto aberto e sustido, envolvendo protectoramente 12 figuras, organizadas em 6 de cada lado, ajoelhadas com as mãos postas em prece. Do lado direito, apresenta-se um pontífice (alguns autores defendem ser Leão X, e outros Alexandre VI), Frei Miguel Contreiras e outros clérigos; do lado esquerdo, o rei D. Manuel I, a rainha D. Leonor, viúva de D. João II, D. Maria, mulher do soberano, o príncipe herdeiro, alguns religiosos e personagens da nobreza. (18)

O facto curioso deste alto-relevo sobrelevado no pórtico, é exactamente o número de figuras que se estabelecem em volta da Nossa Senhora da Misericórdia, estando aqui um significado subliminar às ditas figuras descritas anteriormente. É do conhecimento geral que na construção de catedrais, igrejas ou mosteiros góticos, a constituição dos pórticos tinha uma influência astrológica transposta ao número ou às figuras de pessoas e animais que aí eram esculpidas, indo justificar a máxima hermética de o que está em cima é como o que está em baixo. Desta forma, as doze figuras deste alto-relevo induzem a manifestação das doze constelações astrológicas.

Além disso, as constelações ou signos do Zodíaco têm uma forte componente na gestão de toda a Opus Magnum orientando-a ao longo de toda a sua evolução. A Alquimia distancia-se da Química comum através dos processos alquímicos em determinados períodos do ano, estando interligada totalmente com a Natureza e o Cosmos, contrariamente à sua descendente afastada. O conjunto de operações alquímicas está assim associado aos diferentes signos ou símbolos do Zodíaco, completando a discriminação seguinte: 

Carneiro – calcinar ou calcinação

Touro – congelar ou congelação

Gémeos – fixar ou fixação

Caranguejo – dissolver ou dissolução

Leão – digerir ou digestão

Virgem – destilar ou destilação

Balança – sublimar ou sublimação

Escorpião – separar ou separação

Sagitário – incinerar ou incineração

Capricórnio – fermentar ou fermentação

Aquário – multiplicar ou multiplicação

Peixes – projectar ou projecção

Para além disso e segundo esta perspectiva, ao analisarmos as datas de nascimentos das figuras que constituem este alto-relevo, parece existir uma relação não só histórica mas também astrológica e por sua vez alquímica com D. Manuel I, D. Maria de Aragão e Castela, o seu sucessor D. João III e a viúva de D. João II, D. Leonor (irmã de D. Manuel I). Analisemos:

a) D. Manuel I – Gémeos31 de Maio de 1469

b) D. Maria de Aragão e Castela – Leão 29 de Junho de 1482

a) D. Leonor – Touro2 de Maio de 1458

b) D. João III – Caranguejo – 6 de Junho de 1502

No entanto, segundo a ordem cronológica normal dos signos do Zodíaco demonstrada anteriormente, as datas de nascimentos e signos correspondentes das personagens históricas não estão alinhadas correctamente. Poderá ser pura especulação, visto não sabermos ao certo quem são as restantes personagens de todo o alto-relevo, mas os signos destas personagens históricas, para além de não se repetirem, parecem ter algum significado do ponto de vista alquímico. Segundo Fulcanelli, esta disposição trocada dos signos tem um significado específico relacionado com determinada operação alquímica. Passemos a citá-lo, sendo do meu acrescento o que está nos parênteses:

«(…) Objectar-se-á, sem dúvida, que o Zodíaco pode não ter um significado oculto e representar apenas a zona das constelações. É possível. Mas nesse caso deveríamos encontrar a ordem astronómica, a sucessão cósmica das figuras zodiacais que de modo nenhum os nossos antepassados ignoraram. Ora, a Gemini (Gémeos) sucede Leo (Leão) que usurpa o lugar de Câncer (Caranguejo), relegado para o pilar oposto. O imagista quis portanto indicar, por esta hábil transposição, a conjugação do fermento filosófico – ou Leão – com o composto mercurial (pressupõe-se o Mercúrio Comum), união que se deve produzir por volta do fim do quarto mês da primeira Obra (…)» (19) 

Os 12 signos do Zodíaco que regem a Grande Obra

representados nas figuras junto a Nossa Senhora da Misericórdia

 

Finalizando, todo o conjunto perfaz a soma 12+1, constituindo o ARCANO XIII do Tarot Sacerdotal Aghartino, conhecido vulgarmente como A MORTE mas aí chamado de A GRANDE MÃE… que faz “renascer o seu Filho”, a qual é, neste contexto, a própria Alquimia (Allah-Chêmia, Química de Deus, sendo Maria a Mãe dos Filósofos), morrendo o Filho para o mundo profano mas ressuscitando iluminado para o Mundo Espiritual. No fundo, é a transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência, que leva o discípulo a superar-se e transformar-se num Adepto JUSTO E PERFEITO. Esta GRANDE MÃE desce das Alturas do Segundo Trono ou Logos Celeste para o Terceiro Trono, assim se projectando na Terra como ESPÍRITO SANTO, cuja Acção permanente é impulsionar os seres viventes acedam a estados mais latos e subtis de Consciência. Mais uma vez, tem-se a comprovação do carácter ígneo que este conjunto apresenta, coincidindo com o elemento fogo do Laboratorium alquímico descrito anteriormente.

No entanto, este número, 12+1, também é representativo do Governo Oculto do Mundo na Face da Terra, tomando proporções cósmicas expressas em inúmeros aspectos que abam indo dar ao escrínio da misteriosa e sagrada Serra de Sintra, sob o pendão do mesmo Arcano XIII, tão sibilino quanto a antiga Ordem Rosa+Cruz que esteve sob a sua influência, atendendo-se a que originalmente 12 Rosacruzes cercando o seu Divino PATER ROTAN… e também, depois, com muitos Rosacruzes recolhidos ao seio materno da mesma Sintra.

Neste aspecto, incluímos não só a referida Ordem Rosa+Cruz mas também a grande mística e guerreira Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, vulgo Ordem de Cristo, pois que também tinha esta mesma estrutura organizacional, onde 12 Cavaleiros destacados representavam ao Grão-Mestre da Ordem. É isto mesmo que trata o documento A Regra e Definições da Ordem e Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo. 1503 – Dezembro, 8, Tomar (20):

Capítulo XXX, da eleição do mestre e do modo em que se fará.

Item. Por quanto à eleição do novo mestre deve ser feita e ordenada em tal perfeição e modo que se faça segundo Deus e como a ordem possa ser regida e governada a bem e proveito dos cavaleiros e pessoas dela, conformando-nos nisso com as antigas definições e estatutos. Definimos e ordenamos que daqui em diante para em todos os tempos se guarde esta maneira na eleição do mestre.

Primeiramente tanto que o mestre ou governador for falecido, o comendador mor até ser elegido mestre tenha e governança do dito mestrado, e o sacristão do convento tenha o estoque e a bandeira e o selo do mestre, e [o] dom prior do convento fará logo chamar por suas cartas a capítulo geral ao dito convento e não outro lugar o comendador mor e craveiro e sacristão e todos os comendadores cavaleiros vigários e freires da dita ordem fazendo-lhes saber como assim o mestre ou governador é falecido, e assinando-lhe o dia certo a que todos sejam por si em pessoa no dito convento o qual não passe até dez dias do dia em que o mestre falecer. (…) E sendo assim todos juntos com o dito dom prior, comendador mor, craveiro, sacristão do dito convento o dito dom prior dirá missa do Espírito Santo. (…) E todos assentados no dito cabido e o intróito e verso de Emitte Spiritum Tuum acabado, o dito dom prior encomendará que todo muito devotamente se encomendem ao Espírito Santo que alumie seus corações para ali ser elegido mestre qual for mais serviço a Deus e bem da ordem. E, dito assim por ele dará o dito dom prior juramento dos Santos Evangelhos ao dito comendador mor craveiro comendadores cavaleiros vigários e freires que no dito convento estiverem que verdadeiramente e sem afeição elejam nove cavaleiros da dita ordem tementes a Deus e de sãs consciências e que bem e verdadeiramente façam a eleição do dito mestre com ele dito dom prior comendador mor craveiro sacristão com que são treze que há dita eleição hão-de fazer. (…) E então feito assim se apartam todos treze para darem as vozes da eleição do dito mestre sem um mais se ver nem falar com o outro, no que o dito dom prior terá grande avisamento para assim se fazer, e cada um dos sobreditos assim apartado dará sua voz ao dito dom prior em escrito cerrado e selado nesta maneira (…).

Além disso, se analisarmos pormenorizadamente a Cruz da Ordem de Cristo chegamos também ao mesmo valor 13. Não esquecendo que esta Ordem, criada por D. Dinis em 15 de Março de 1319, foi a herdeira universal da extinta Ordem do Templo, tendo exaltado o seu símbolo nas Caravelas Marítimas dos Descobrimentos, respeitava como a sua anterior a Regra Beneditina com 73 capítulos, apresentando a sua Cruz em cor vermelha as hastes em triângulo (com ângulo de 45 graus), e uma cruz branca no centro. Os 73 capítulos da Regra de São Bento apresentam-se sob a razão numerológica 1+72, visto cada haste apresentar 3 lados que na Cruz faz a soma de 12 lados, e com os 6 lados parciais dos triângulos vertical e horizontal (6×12), dá o valor 72, e que com o “excedente” ou total da própria Cruz perfaz o 73 (72+1). No entanto, se assumirmos cada ponto do vértice como o Cavaleiro e a Cruz do centro como o Grão-Mestre, teremos exactamente o número 13 (12+1).

Cruz da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo

 

Se analisarmos todo o processo alquímico da Grande Obra é isso que se passa com as diferentes fases que ela atravessa, iniciando-se com a morte da Matéria (Nigredo) separada dos seus princípios opostos (Mercúrio e Enxofre); o seu rejuvenescimento e purificação (Albedo), e por fim a unificação (dos princípios opostos) e ascensão (Rubedo), culminando com a Pedra Filosofal (espiritualmente, transpõe-se para o Ser Andrógino, Integral, Iluminado, etc). Assim, tal como a matéria vinda de um estado imperfeito e corruptível teve de morrer para atingir um estado sublime e perfeito, também o Iniciado, e assim todo o homem, simbólica e realmente, morre para aquilo que é profano e corruptível no seu corpo (Personalidade) para rejuvenescer e atingir um estado mais sublime e perfeito (Individualidade). Toda esta transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência é o processo a que os Alquimistas no seu Magistério designam de Transmutação dos Metais, onde o Chumbo (metal imperfeito) é a própria Personalidade que se transforma em Ouro (metal perfeito), neste caso, não tanto físico mas sobretudo espiritual, por se tratar da Individualidade alçada ao estado mais elevado de Consciência Iluminada pelo seu Deus que de Imanente fez-se Transcendente.

 

Conclusão

 

Toda a Obra Alquímica tem como objectivo final levar a Matéria à Perfeição, ao Telesma, como também denominaram os Alquimistas. Todo este magistério lapidado pelos cinzéis dos Mestres-Canteiros teve como objectivo maior a Transformação Integral do Indivíduo em algo ou alguém mais Perfeito, ou melhor, mais JUSTO E PERFEITO. O indivíduo é a própria matéria-prima levada a operar na sua “retorta”, transmutando-se espiritualmente à medida que a Obra e as suas diferentes fases se operam perante os seus olhos no silêncio infinito da pedra, reservando-lhe os mais profundos e sagrados fascínios do seu ser, conduzindo-o no final à Iluminação Interior, à sua Pedra Filosofal.

Pode-se, com toda a legitimidade, questionar os conceitos tratados em termos da interpretação dada aos diferentes símbolos presentes nos relevos analisados anteriormente. No entanto, a Alquimia presente na Filosofia Hermética prosperava e cultivava-se “despudoradamente” na sociedade seiscentista e inclusive anterior ao próprio D. Manuel I, tendo tido o seu avô, D. Afonso V, como Rei Alquimista, deixando este dois tratados alquímicos sobre a Pedra Filosofal. 

O próprio estilo arquitectónico Manuelino é herdado do Gótico ou Ars Argot, que deixou um legado surpreendente de catedrais e igrejas ao longo da Europa expressando, através dos Monges-Construtores, os segredos da Alquimia e do Hermetismo transpostos cuidadosamente na pedra lapidada para a eternidade. Este estilo também parece não ser excepção neste caso, e muitos dos símbolos que aqui verificamos na Conceição-a-Velha também existem no Mosteiro dos Jerónimos transparecendo claramente o espírito alquímico partilhado e transposto na pedra.

Apesar deste “Milagre Filosofal” ser hoje uma dádiva, não podemos saber em concreto quem foram os incógnitos Mestres-Canteiros que a construíram e lapidaram tal como o mestre-de-obras que orientou toda a construção, devido ao facto dos seus documentos terem sido perdidos em consequência do terramoto de 1755 (21). No entanto, ainda hoje reside um certo mistério em volta do mestre-de-mbras Diogo Boytaca que esteve integrado nas obras do Mosteiro dos Jerónimos, e abruptamente foi afastado delas. O curioso, é analisar as semelhanças que se encontram nos portais principais entre os Jerónimos e a Conceição Velha, levando à especulação do monarca ter requerido o mestre-de-obras para entregar-se a este projecto que pulsava no íntimo de D. Manuel, querendo-o com a mesma magnificência do templo hieronimita, de forma a demonstrar a grandiosidade da instituidora das Misericórdias, a sua irmã D. Leonor. Os Mestres-Canteiros, foram corporação de mesteres afiliada à própria Casa dos 24 que existia, segundo a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, desde 1383 em Lisboa, altura em que o Mestre de Avis decidiu prestigiar os homens do povo, pertencentes a corporações, que apoiaram a sua subida ao trono, e esta mesma Casa só teria o seu declínio após a tentativa de assassinato de D. José I, em 1758, tendo sido acusada de cúmplice, terminando definitivamente em 7 de Maio de 1834 (22). No entanto, fica o testemunho das antigas Crónicas sobre a beleza maravilhosa desta outra Casa consagrada a Nossa Senhora da Misericórdia, levando-nos ao desejo de outros tempos:

«A porta principal, voltada a ocidente, elevaria a azul do infinito a brancura dos seus mármores “ostentando todas as galas da arquitectura gótica”; no interior viam-se “vinte colunas, monolíticas, de mármore, de elevadíssima altura, primorosamente lavradas”, seis dividindo a igreja em três amplas naves e catorze meio embebidas nas paredes, sustentando a abóbada, toda de elegante laçaria de pedra, com artesões e florões, onde se alternavam os emblemas da fé cristã com divisas do rei fundador. A capela-mor era um monte de oiro em obra de talha, revelando excelente escultura. No cruzeiro viam-se duas ricas e elegantes capelas ocupando os topos, e dois bem adornados altares nas paredes laterais.» (23)

Apesar da reconstrução interior não ter sido das mais felizes, há a apontar o facto curioso que reside na pintura do Triunfo da Imaculada Conceição pintado em 1770 no tecto da igreja, onde temos junto da Imaculada o Menino matando o Dragão, acabando por simbolizar o “matar” o “transpor” ou “dominar” da matéria, pois o Dragão representa os 4 Elementos, analisando-se: asas (Ar), patas (Terra), cauda (Água) e cabeça (Fogo). Desta forma, com o significado da Imaculada Conceição, sendo esta a personificação da Substância Primordial, como nos conta Fulcanelli (24), completa-se todo o conjunto, como o domínio da Matéria ascendendo-se ao Telesma, à Substância Primordial, sintetizando assim toda a Opus Magnum. O nome da pintora, não deixa de ser um acaso (ou uma causalidade) curioso: Joana Salitre.

Finalizando, só há a lamentar o estado de quase abandono na conservação desta relíquia histórica e espiritual, sendo os pombos e os seus dejectos uma tela feia e mal pintada em algo tão perfeito e belo deixado na memória do tempo. Mas no efémero das acções dos homens resiste e persiste aquilo que é eterno e imutável, cabendo a cada espírito predisposto a envolver-se no seu “diálogo silencioso” transmutar-se do vulgar ao mais puro e verdadeiro Ouro Alquímico atingindo a eternidade da Panaceia Universal, sendo a confirmação que a Pedra Filosofal foi atingida!

 

Notas

 

(1) Sílvia Leite, Igreja da Conceição Velha. / DIDA / IGESPAR, I. P. / 16-04-2008. Instituto Português do Património Arquitectónico.

(2) Sílvia Leite, ob. cit.

(3) Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império. Via Occidentalis, Lisboa, 2007.

(4) Kamala Jnana, Dictionaire de Philosophie Alchimique. Editions Massane, Laroque, France, 1961.

(5) Fulcanelli, Le Mystère des Cathédrales. Ed. Jean-Jacques Pauvert, 1964, pág. 80.

6) S. Paulo, Epístola aos Colossenses, cap. I, vers. 25 e 26.

(7) Fulcanelli, ob. cit., pág. 177.

(8)  Fulcanelli, ob. cit., pág. 218.

(9) Kamala Jnana, ob. cit.

(10) Kamala Jnana, ob. cit.

(11) Alexander Roob, O Museu Hermético, Alquimia & Misticismo, pág.288. Taschen, 2006.

(12) Fulcanelli, ob. cit., pág. 131.

(13) Kamala Jnana, ob. cit. 

(14) Kamala Jnana, ob. cit.

(15) Fulcanelli, ob. cit., pág. 106.

(16) Michael Saint-Ailme, Os Dossiers Secretos da Alquimia (dicionário). Litexa Editora, Lisboa, 1986.

(17) Rubellus Petrinus, A Grande Obra alquímica: De Ireneu Filaleto, Nicolau Flamel e Basílio Valentim / Rubelus Petrinus.  Lisboa, Hugin – Editores Lda., 1997.

(18) Robélia de Sousa Lobo Ramalho, Guia de Portugal Artístico. Lisboa, M. Costa Ramalho, 1933.

(19) Fulcanelli, ob. cit., pág. 145.

(20) Arquivo Nacional Torre do Tombo, Série Preta, nº 1393. Versão actualizada por Vitor Manuel Adrião em Portugal Templário. Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2007.

(21) Robélia de Sousa Lobo Ramalho, ob. cit.

(22) Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império. Via Occidentalis, Lisboa, 2007.

(23) Robélia de Sousa Lobo Ramalho, ob. cit.

(24) Fulcanelli, ob. cit., pág 94.

 

Créditos fotográficos: Hugo Martins e Paulo Andrade.

Veneza, o Amor de Hermes – Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Nov 26 2009 

Sintra, 26. 11.2009

Dedicado ao Ilustre e Digníssimo Dr. Giulianno Leone di Lozenzo,

Filho de Sintra em Veneza, Sub-Posto do Quinto Posto da Europa.

 

 Significado do nome Veneza

 

A República Sereníssima de Veneza liga o seu nome a origens bíblicas recuando ao povo Véneto, que o historiador judeu-romano Josefo Flavio (37-100 d. C.) identifica aos Paflagónios primitivos do Sul da Rússia dizendo-os descendentes de Rifath, filho de Gomer, neto de Jafet e bisneto do patriarca Noé. O poeta épico grego Homero também escreve que os Vénetos moravam na Paflagónia.

Os Vénetos, apesar de povo guerreiro e empreendedor, eram profundamente religiosos sendo a sua divindade suprema feminina, a deusa Reithia, correspondendo à Hera dos gregos e à Juno dos romanos. Quando foram convertidos ao Cristianismo, mantiveram a sua grande devoção à Mãe Divina em detrimento do culto a Deus Pai. Teve que vir um Papa véneto, João Paulo I, para ensinar que Deus não é só Pai, mas também é Mãe. É do Princípio Feminino que surge a Vida.

Esse Princípio Feminino Eterno era identificado no céu ao planeta Vénus pelos Paflagónios chamando-o Reithia, “Recta, Justa, Nobre”, e foi assim que eles vieram a ser chamados pelos hunos e romanos de Vénetos, com o mesmo significado etimológico da deusa Reithia, com os sobrenomes de Esplendorosa e Sereníssima. Este último título corresponde ao sistema de governo autónomo de Véneto anterior de milénios ao romano, o que remete para a influência da mesma Deusa-Mãe primitiva. É assim que ainda hoje mantém-se um culto matriarcal no Véneto, o da Mamma, quase ou mesmo em oposição ao patriarcal romano da Sicília.

Véneto ou Héneto é o latino Uénus, Vénus, donde provém o etimólogo Venezsia (véneto) e Venezia (italiano). A designação Uénus engloba os temas sumérios W e Anu, respectivamente, “filha” e “céu”. Como “filha do céu” Vénus personifica o belo astro que assiste ao nascimento e ocaso solares. O teónimo romano Vénus, ao ser aditado do tema ara, significativo de “santa”, deu venera, donde procedeu o termo venerar, adorar. Daí que Veneza é “onde se venera Vénus”.

Para a mitologia greco-romana, sendo deusa da tarde, Vénus favorecia o amor e a volúpia, e sendo deusa da manhã presidia aos actos de guerra e conquista, que aliás foram predicados dos primitivos Vénetos, guerreiros intrépidos que é característica do Ares ou Marte romano, e foi sob este signo que fundaram a cidade de Veneza no dia 25 de Março de 811 d. C., data em que o povo do Véneto celebra a sua festa, portanto, nas proximidades do Equinócio da Primavera com a entrada do Sol no signo do Carneiro e do planeta Marte.

Vénus era filha da Lua e irmã do Sol. Mostrando-se na madrugada e no crepúsculo, aparecia como ligação entre as divindades do dia e da noite. É por essa razão que embora o seu fosse seu irmão, a sua mãe era a deusa dos Infernos (das águas terrestres ou “lunares” representadas na laguna e no mítico “crocodilo” que vive nela, representando as divindades subterrâneas assinaladas pelo simbolismo da noite designativa de mistério ou oculto). Do seu parentesco com o Sol, Vénus recebia as qualidades guerreiras e era chamada de a valente ou a dama das batalhas. Isso enquanto estrela da manhã. Mas enquanto estrela da tarde, era a influência da Lua que predominava, fazendo dela a deusa do amor e do prazer (cuja representação viva são os enamorados passeando nas gôndolas em lua crescente vogando pelos canais de Veneza).

O ciclo diurno de Vénus, aparecendo alternadamente no Oriente e no Ocidente, faz dele um símbolo essencial de morte e renascimento que os antigos reproduziam colocando uma máscara fúnebre sobre os mortos, tradição que se mantém em Veneza nas famosas máscaras carnavalescas, com sabor requintado a tragédia num momento que deve ser festivo.

A Sereníssima, Marcos e o Leão (Igreja de San Francesco della Vigna)

A associação de Vénus com o Sol, pela semelhança das suas trajectórias diurnas, faz desse astro divinizado um mensageiro do Astro-Rei, um intercessor entre a Divindade e a Humanidade. Tal veio a ser representado no Cristianismo como Cristo (Solis Invictus) e Maria (Veneris Mater), cujo Apóstolo escolhido para representar a Lei do Leão de Judah (título dado a Cristo como Messias portador dum novo estado de consciência para Humanidade), foi exactamente São Marcos (nome latino que, tal como Macário, tem origem no etimólogo indo-europeu Makara, literalmente, “crocodilo”), e que veio a ser o patrono de Veneza, cuja festa é em 25 de Abril, após a Pascoela, quando o Sol (representado pelo Leão) entra no signo do Touro onde está Vénus. O Apóstolo protector da cidade tem como símbolo iconográfico o leão, elemento inculcado por St.º Irineu e aceite universalmente pela Igreja desde os finais do século II, e por tudo isso a festa de São Marcos em 25 de Abril vem a assinalar a entrada do Sol/Leão em Vénus/Touro como signo natal desta cidade adriática, sendo o do Véneto Marte/Carneiro.

Isso desde que os venezianos trasladaram de Alexandria para Veneza o corpo do Apóstolo São Marcos no ano 828, cuja basílica começou a ser construída no ano seguinte para albergar os seus restos mortais. Desde então São Marcos é o padroeiro da cidade e o nome da sua praça mais famosa.

 

Simbolismo da Cruz “veneziana”

 

A singular Cruz “veneziana” que decora os principais edifícios religiosos desta cidade e que só existe aqui, apresenta feição insólita e origem quase desconhecida. Quem a observa no topo das cúpulas da basílica de S. Marcos, por exemplo, desde logo repara haver nela influência bizantina por ser uma cruz grega, cujas pontas ou desfecham em bolas ou em ramos. Trata-se de uma simplificação liberal das figuras originais, que são 3 flores-de-lis decorando a extremidade de cada braço da cruz (alusão à Santíssima Trindade) e mais 4 irradiando da parte central (expressando o Mundo), ao todo, 16 flores-de-lis. É assim que se vê na Cruz suspensa adiante do altar-mor da basílica de São Marcos.

Trata-se, pois, da Cruz de São Marcos, o Apóstolo padroeiro de Veneza que no século XI substituiu o primeiro orago da cidade, São Teodoro (Todaro, em veneziano), que se viu despossuído do seu título de “protector”, apesar de nunca ter sido esquecido, como pode ver-se na coluna da Piazzetta situada junto ao leão de São Marcos.

A Cruz de São Marcos foi instituída quando a Diocese ou Arquidiocese de Veneza, fundada no ano 775, foi elevada a Patriarcado em 1451, com sede na Basílica de São Marcos. O Patriarca de Veneza detém o privilégio perpétuo de ser nomeado Cardeal no Consistório seguinte ao da sua investidura no cargo. Após a sua ascensão à dignidade cardinalícia, o Prelado goza do título de Cardeal-Patriarca de Veneza. Apesar de seguir o Rito Latino da Igreja Católica, conserva a autonomia que o diferencia de Roma e mantém os princípios bizantinos que estiveram na instituição do Cristianismo no Véneto, particularmente em Veneza desde aproximadamente o ano 568.

Terá sido por ocasião da fundação do Patriarcado de Veneza que foi fundada a Ordem de São Marcos, de curta duração mas decerto a principal difusora da Cruz “veneziana”. Esta Ordem foi instituída pelo Governo da antiga República Veneziana, que a colocou sob a invocação do Apóstolo São Marcos, patrono da República. Era distribuída a todos aqueles, nobres ou não, nacionais ou estrangeiros, que tinham prestado serviços ao Estado. Desapareceu muito cedo.

O significado do simbolismo da flor-de-lis é aqui o da Realeza Divina, igualmente do Poder e da Sabedoria de Deus, o que reporta ao sentido do leão alado iconográfico de São Marcos como símbolo primordial e fundamental do ideário solar, sendo a expressão divinizada do Astro-Rei Todo-Poderoso capaz de dominar, com a sua potência e força, todo um ideário voltado para a exaltação das energias vitais, neste caso, do Patriarcado de Veneza e da própria religiosidade veneziana. Aos antigos Templários, por exemplo, só lhes era permitido caçar o leão, como está na sua Regra, o que comporta o reconhecimento dos valores representados no simbolismo da sua figura.

O leão alado, símbolo de Veneza, que Santo Irineu (cerca de 130 – 202), no seu Traité contre les Hérésies, pôs ao lado de São Marcos a representar este, é alusão à voz que ruge no deserto (a de São João Baptista), onde desde o primeiro capítulo do Evangelho deste Apóstolo descreve o Anunciador de Cristo clamando vigorosamente a penitência e o baptismo, voz austera que foi assim assimilada ao rugido do leão. Mas o leão alado expressa igualmente o Leão de Fogo que é Deus como Trono, portanto, o Trono de Deus, o Mundo Celeste, o que reporta para o significado esotérico das 16 flores-de-lis da Cruz “veneziana”: a Casa de Deus, segundo o Arcano 16 do Tarot. Esta Casa de Deus, no Mundo Humano, vem a estar representada aqui pela Archidioecesis Venetiarum, a Arquidiocese Veneziana, em cujo duomo, na Praça de São Marcos, se vê na fachada principal o leão alado sobre quatro cavalos ou jinetes, também alados ou no ar, em tamanho natural sobre pedestais, expressivas das 4 Palavras Divinas encerradas nos 4 Evangelhos canónicos.

Cruz de Veneza

A Cruz “veneziana” vem a ter uma função de síntese e de medida. Nela se unem o Céu e a Terra, nela se confundem o Tempo e o Espaço. Símbolo da ascensão do Homem a Deus, é igualmente o da Descensão de Deus ao Homem, desta maneira interligando os dois Mundos Celeste e Humano estabelecendo a ligação ininterrupta entre o Universo e a Terra.

Nas Armas Patriarcais de Veneza, com a legenda Sufficit Gratia Tua (“Bastando a Tua Graça”), além da barca e sobre ela a estrela Vénus com 8 raios cujo número é o da Perfeição Crística, tem-se a sua Cruz com dois braços transversais, representando o superior a inscrição derrisória de Pilatos – Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum, “Jesus Nazareno Rei dos Judeus” – e o inferior aquele onde foram estendidos os braços do Cristo. É a dita Cruz de Lorena, apesar de provir da Grécia onde é comum.

A cruz com três braços transversais tornou-se um símbolo da hierarquia eclesiástica, correspondendo à tiara papal, ao chapéu cardinalício e à mitra episcopal. A partir do século XV, só o papa tem direito à cruz com três braços transversais; a cruz dupla fez-se privativa do cardeal e do arcebispo; a cruz simples, do bispo.

 

Papas e Profecias em Veneza

 

Corre a tradição de que certo monge franciscano do convento de San Francesco della Vigna recebeu de São Malaquias uma profecia terrível sobre os Papas. Mas essa tradição não passa de lenda e o que aconteceu é bem diverso.

São Malaquias foi um monge beneditino irlandês do século XI, nascido em Armagh em 1094, de cujo convento se tornou abade ainda adolescente. As suas visões começaram em 1139 na sua primeira viagem a Roma, onde foi recebido pelo Papa Inocêncio II, que pontificou de 14.2.1130 a 24.9.1143. Depois dessa visita Malaquias O´Morgain escreveu as suas profecias, compostas por 111 divisas em latim correspondentes a 111 pontificados, a contar do Papa Celestino II (1143-1144) até ao último Papa, Petrus Romanus (Pedro Romano), sendo o penúltimo o actual Papa Bento XVI.

Segundo profetiza S. Malaquias, com o último Papa Pedro Romano, aventando alguns que será português, a Igreja Católica Romana terminará o seu ciclo, de acordo com o seu texto apocalíptico redigido em latim, e que até hoje é pomo de controvérsias: “Petrus Romanus – Na última perseguição da Santa Igreja Romana, surgirá Pedro o Romano, que há-de pastorear as suas ovelhas no meio de numerosas tribulações. Terminadas estas tribulações, a cidade das sete colinas será destruída, o Juiz incorruptível julgará o seu povo”.

Este profeta santo irlandês faleceu em Clairvaux nos braços do seu grande amigo, também santo, Bernardo de Claraval, em 2 de Novembro de 1148, a quem predizera antes a data da sua morte. Canonizado santo pelo Papa Clemente III em 6 de Julho de 1199, as Profecias de São Malaquias foram depositadas no Arquivo do Vaticano e aí permaneceram esquecidas até à sua descoberta em 1590 por Arnold de Wyon, também chamado Monge de Pádua, historiador beneditino e igualmente profeta.

Em 1595 Arnold de Wyon publicou em Veneza, pela primeira vez, as Profecias de São Malaquias, possivelmente tendo acrescentado anotações às mesmas e fazendo parte do seu livro Lignum Vitae. Anteriormente, também em Veneza, as Profecias do Monge de Pádua foram publicadas pela primeira vez em 1527. Assim como a lista de São Malaquias, a lista do Monge de Pádua associa poucas palavras a cada um dos Papas, mas é menor, possuindo apenas 20 nomes descritos de forma enigmática, obscura.

O facto de se escolher Veneza para dar à estampa pela primeira vez no mundo tanto as Profecias do Monge de Pádua como sobretudo as de São Malaquias, talvez se devesse a esta cidade já ter sido berço de vários Papas até essa altura, e possivelmente doutros que viriam. Com efeito, em Veneza nasceram os Papas Gregório XII, Eugénio IV, Paulo II, Alexandre VIII, Clemente XIII e Pio X. São descritos nas Profecias de São Malaquias do modo seguinte:

 

Nauta de ponte nigro (Nauta do mar negro).

Gregório XII (Angelo Correr). Pontificado: 30.11.1406 – 4.7.1415.

O “nauta” significa “natural de Veneza” e bispo da ilha Negroponto ou Eubeia, hoje grega mas veneziana no século XV, no Mar Egeu fronteira para o Mar Negro.

 

Lupa coelestina (Loba celestina).

Eugénio IV (Gabriele Condulmer). Pontificado: 3.3.1431 – 23.2.1447.

A “loba” figura na Armas de Siena onde fora bispo, e “celestina” referente à Ordem dos Celestinos integrada na dos Agostinhos onde professara este Papa.

 

De cervo et leone (Do veado e do leão).

Paulo II (Pietro Barbo). Pontificado: 30.8.1464 – 26.7.1471.

O “leão” será o de São Marcos de Veneza, donde era natural este pontífice que fora antes bispo de Cervia (“cervo”), pequena cidade perto de Ravena, na costa adriática.

 

Poenitentia gloriosa (Penitência gloriosa).

Alexandre VIII (Pietro Vito Ottoboni). Pontificado: 6.10.1689 – 1.2.1691.

A “penitência gloriosa” é alusão à vida penitente de São Bruno, em cujo dia da sua celebração este Papa foi eleito.

 

Rosa Umbriae (Rosa da Úmbria).

Clemente XIII (Carlo della Torre Rezzonico). Pontificado: 6.7.1758 – 2.2.1769.

A “Rosa da Úmbria” é referência directa a este Papa ter sido governador de Rieti, na Úmbria onde se encontra a cidade de Assis, pátria de São Francisco, a “Rosa” da Cristandade.

 

Ignis ardens (Fogo ardente).

Pio X (Giuseppe Melchiorre Sarto). Pontificado: 9.8.1903 – 20.8.1914.

Apesar de nascido em Riese, Véneto, foi Patriarca de Veneza eleito em 1896. “Fogo ardente” aludirá à I Grande Guerra Mundial, que quando eclodiu só a muito custo demoveu-se este Papa de ir para a frente de batalha tentar travar os combates.

 

Há ainda dois outros Patriarcas de Veneza eleitos Papas: João XIII, Cardeal-Patriarca de Veneza entre 1953-1958, a quem se igualmente se atribui dotes proféticos que deixou num seu escrito pouco conhecido, Profecias de João XXIII, dentro do mesmo vaticínio apocalíptico de Malaquias mas aclamando como Salvadora a Mãe de Deus chamando-a de “Rosa Branca” e “Mar Celeste”; e João Paulo I, nascido em 1912 em Forno di Canale, Véneto, sendo Cardeal-Patriarca de Veneza em 1978 quando foi chamado para o Papado. As Profecias de São Malaquias referem-nos:

 

Pastor et nauta (Pastor e nauta).

João XXIII (Angelo Giuseppe Roncalli). Pontificado: 4.11.1958 – 3.7.1963.

“Pastor e nauta” será referência ao novo pastoreio pontifical da Igreja iniciado com o Concílio Vaticano II, aberto por Pio XII e encerrado por este Papa, nauta de um novo rumo da mesma.

 

De medietate lunae (Da meia lua).

João Paulo I (Albino Luciani). Pontificado: 26.8.1978 – 25.9.1978.

“Da meia lua” aludirá ao seu nascimento em Canale d´Agordo, na diocese de (Bel)luno, a 17 de Outubro de 1912.

           

Das colecções de Pastores da Igreja, deve assinalar-se a conservada no Palácio Altieri, na cidade de Viterbo, Itália, constituída por retratos a óleo, em que a partir do retrato de Celestino II cada um tem aposta uma frase latina relativa às Profecias de São Malaquias.

 

Hermetismo Veneziano

 

Considerada uma das mais belas cidades do mundo, igualmente tem sido refúgio de ocultistas e hermetistas ao longo dos séculos, pelo que também se considera Veneza uma cidade hermética repleta de lendas e mistérios.

Tendo por centro geográfico a Ponte de Rialto, qualquer um que observe o mapa aéreo de Veneza repara que ela é dividida em duas pelo Grande Canal parecendo uma serpente deslizando por entre a urbe. Tal simbolismo serpentário vem a ter concretização nos inúmeros hermetistas e místicos que escolheram esta cidade para sua morada, onde em segredo se dedicaram ao aprofundamento dos saberes ocultos que, afinal, a serpente vem a representar como símbolo de Sabedoria e Iluminação. Neste sentido, a separação da cidade em duas pelo Grande Canal também poderá figurar a Veneza do turista, exotérica ou “desvelada”, e a Veneza do ocultista, esotérica ou “velada”.

Esse carácter dúplice já se havia reflectido nos conflitos entre Roma e Veneza, cujas sedes eclesiais, além dos interesses políticos imediatos no século XVI, discutiam calorosamente sobre a doutrina religiosa e a independência ideológica. O então Papa Clemente VIII (24.2.1536 – 3.3.1605), que de clemente nada tinha, nutria suspeitas de Veneza ser um enorme reduto de “hereges”, calvinistas, luteranos e ocultistas promotores da Reforma religiosa nesse século, pelo que Veneza se assumia como centro da intelectualidade, da filosofia e do hermetismo de então, o que desagrava profundamente aos adeptos da Contra-Reforma encabeçada por esse Papa.

Os “livros proibidos” que continham ideias e conceitos diferentes daquelas da Igreja de Roma e que constavam do Índex católico romano (Index Librorum Prohibitorum), que Clemente VIII reeditou em 1596, circulavam livremente pelas ruas de Veneza, especialmente no bairro judeu. O Patriarcado veneziano manteve sempre uma atitude de desafio ao totalitarismo repressor da Cúria Papal, e foi assim que em 1521 criou as suas próprias regras de Inquisição, banindo a tortura como método inquisitório.

Clemente VIII distinguiu-se pela sanção e repressão de tudo que lhe parecesse progresso, até mesmo o simples café, considerada bebida maometana proibida a cristãos, introduzido em Veneza por volta de 1570, altura em o Papa que visitou a cidade e provou essa bebida. Gostou e levantou a proibição…

A liberalidade de Veneza destoava da restante Europa subjugada ao dédalo tenaz da Inquisição Romana, e foi esta a razão de Veneza atrair para si inúmeros estudiosos e pensadores inconformados com a ortodoxia papal. Um dos mais famosos foi Giordano Bruno (1548-1600), neo-platónico adepto da Renascença, que em 1590 fixou-se nesta cidade a convite do nobre veneziano Giovanni Mocenigo, sob pretexto de ensinar a mnemotécnica, a arte de desenvolver a memória. Foi Mocenigo quem traiu Giordano Bruno entregando-o às tropas papais que o levaram para Roma onde foi queimado vivo no Campo dei Fiori, em 17 de Fevereiro de 1600.

Tamanha era a independência geradora de animosidade de Veneza em relação a Roma, que quando o rei de França, Henrique III (19.9.1521 – 2.8.1589), conhecido pelo seu interesse em Magia e Hermetismo, tendo sido o patrono do famoso profeta Nostradamus, foi assassinado por um católico fanático, Jacques Clément, de imediato Veneza deu asilo ao seu primo e sucessor, Henrique IV (13.12.1553 – 14.5.1610), que era protestante e estivera envolvido nas Guerras de religião antes de subir ao trono, em 27.2.1594.

Foi em 1587 que o filósofo e hermetista Fabio Paolini fundou em Veneza a Accademia degli Uranici, com sede no Convento de San Francesco della Vigna, que reuniu os mais famosos ocultistas e hermetistas da Renascença europeia. Em 1589 Fabio Paolini publicou nesta cidade um tratado de filosofia neoplatónica e hermetista chamado Hebdomades, por extenso, Hebdomades siue Septem de septenário Libri, em breve assumido a obra principal do Ocultismo veneziano.

As reuniões da Academia dos Uranianos realizavam-se a maior parte das vezes nas casas dos membros, reservadas dos olhares indiscretos. Além de comportar ocultistas e pensadores liberais, a Academia também incluía livreiros adeptos do Ocultismo de Veneza. Um deles era Giovanni Battista, conhecido como Ciotto, seguidor das ideias de Giordano Bruno sobre mundos paralelos, e dono de uma livraria chamada Minerva, situada na Rua Merceria, a mais importante da cidade.

Passados alguns anos, a Academia extinguiu-se sob pressão do Clero cuja Inquisição detivera alguns dos seus membros, que nada falaram sobre as suas reuniões e até negaram terem simpatias com o Ocultismo, o que cabalmente é desmentido pelos seus interesses óbvios por Magia e Hermetismo.

No século XVIII, em 1788, encontra-se em Veneza o famoso Superior Incógnito da Rosacruz e Maçonaria, Alexandre Cagliostro, Conde de San Leo e Fénix, que permaneceu na cidade seis semanas, onde institui o seu Rito Copta ou Egípcio. Foi quando um grupo de socinianos (seita protestante anti-trinitarista, ou contra a ideia de Santíssima Trindade) solicitou a patente de uma constituição maçónica a Cagliostro, por não quererem participar dos seus rituais mágico-cabalísticos. Então o Conde instituiu o Rito de Memphis em Veneza, confiando aos socinianos os graus menores da Grande Loja de Inglaterra e os altos graus da Maçonaria Templária alemã.

Com tudo, Veneza continua a reservar tesouros inigualáveis de sabedoria e espiritualidade que até hoje muitas das suas obras artísticas e monumentais preservam resistindo ao tempo, tal como a cidade resiste às tentativas espúrias de travar a evolução do Pensamento Humano.

 

Conde de Saint Germain em Veneza

 

Apesar de não serem muitas contudo são bastante sólidas as provas da presença do famoso Conde de Saint Germain em Veneza. Elas são fornecidas sobretudo pelas Memórias do seu arqui-inimigo, Giacomo Casanova (Veneza, 2 de Abril de 1725 – Dux, Boémia, 4 de Junho de 1798), o famoso aventureiro trapaceiro e libertino destruidor de lares.

Giacomo Casanova incarna o aspecto sensual da Lua ante Saint Germain, incarnando o aspecto amoroso de Vénus. Aquele é o vício em todos os seus aspectos, rendido à magia negra a quem dedicou um tratado romanceado, Isocameron ou Icosaméron, possivelmente começado a escrever em Veneza e terminado na Boémia; este é a virtude dignificadora do Género Humano como Mestre Perfeito de Teurgia ou Magia Branca da qual deixou um tratado ilustrado, Trés Sainte Trinosophie, “Santíssima Trinosofia”, provavelmente começado a escrever em Veneza e terminado em Troyes, França, em cuja biblioteca está o original.

As datas de nascimento e morte do Conde de Saint Germain são absolutamente incertas. Tão-só se sabe que aparece ligado ao Príncipe da Transilvânia, Francis II Rakowsky, cerca de 28 de Maio de 1696, mas não podendo se afirmar que tenha nascido nessa data e que esse Príncipe seja efectivamente o seu pai. Quanto à sua pressuposta morte em Eckernförd, Alemanha, em 27 de Fevereiro de 1784, ao contrário dos registos na igreja daí nada está provado, não se sabendo se é a mesma pessoa e, tampouco, se sabendo onde estão os seus restos mortais.

O Conde de Saint Germain distinguiu-se pelos seus dotes raros de verdadeiro alquimista, mago, profeta, político junto das várias cortes europeias, estabelecendo acordos de paz entre elas, caso da Alemanha e a Áustria em 1761, e, sobretudo, grande benfeitor dos desfavorecidos da vida, fabricando remédios que oferecia aos pobres. É considerado um Mestre Perfeito nos meios esotéricos como o Superior Incógnito dos Rosacruzes e Maçons.

Segundo as Memórias de Casanova, o músico Rameau e a condessa de Gergy, viúva do embaixador de França em Veneza, juraram que nessa cidade conheceram o Conde de Saint Germain em 1710, usando do título de Marquês de Montferrat e o nome Lorenzo Paolo Domiciani, acompanhado da sua esposa Lorenza Anunziata Feliciani. Ambos de uma beleza e sobriedade inexcedíveis. Contrariando a data oficial da sua morte, o conde de Châlons ao voltar da sua embaixada em Veneza em 1788, assegurou à condessa de Adhemar (facto que ela deixou escrito nas suas Memórias) haver falado com o Conde de Saint Germain na Praça de São Marcos um dia antes de deixar aquela cidade, indo para uma embaixada em Portugal.

Em Veneza, Saint Germain fora amigo do embaixador de Inglaterra nesta cidade, lorde Holdernesse, com o havia sido do embaixador de França, o conde Gergy. Escolhendo Veneza – onde desde a Idade Média, diz-se, viviam muitos químicos e alquimistas – para desenvolver a sua técnica de tingiduras de sedas, obtendo as colorações de que necessitava, principalmente a cor púrpura, e não havendo notícia de que tirasse proveitos pessoais dos seus processos, Saint Germain instalou-se nesta cidade em 1764, altura em que aí residia o conde Maximiliano de Lamberg, brilhante diplomata e espirituoso homem de letras, que escreveu nas suas Memórias: “Uma personagem digna de se ver é o Marquês de Aymar, ou Belmar, mais conhecido pelo nome de Saint Germain. Reside há algum tempo em Veneza onde se ocupa, no meio de um cento de mulheres que uma abadessa lhe arranjou, a fazer experiências com linho, que branqueia e torna igual à seda crua de Itália”.

Essas mulheres possivelmente seriam do Ospedalle della Pietá, convento e orfanato veneziano para mulheres jovens, que se tornou famoso no século XVIII quando também se tornou escola musical para meninas órfãs dotadas, tendo sido o principal local de trabalho do compositor António Vivalvi.

Possivelmente Saint Germain terá vivido aí enquanto permaneceu em Veneza, e o seu próprio título de Aymar ou Belmar se ligará às qualidades venustas e marítimas da cidade: Belmar significa, tão-só, “Senhora do Mar” (bel+mar), a mesma Stella Maris ou “Estrela-do-Mar” que é Vénus mas que o Cristianismo assumiu como a Mamma de Deus.

 

Simbolismo esotérico da gôndola

 

A origem da gôndola perde-se nos séculos, sofrendo as alterações que o tempo lhe impôs. Actualmente, as gôndolas medem cerca de 11 metros de comprimento por 1 metro e 42 centímetros de largura e são compostas por 280 peças de madeira diferentes.

A gôndola é mencionada pela primeira vez em 1094 num decreto do doge ou dux Vitale Falier como gondulam, nome que para os etimologistas é de origem incerta, tanto podendo ter resultado do termo latino para “barco pequeno”, cymbula, como do diminutivo de “concha”, cuncula, como ainda das designações gregas para embarcações, como kundy ou kuntòhelas.

Ter-se-á que reportar à História Mítica de Veneza, mormente à lenda de São Jorge lanceando de morte o Dragão, para enquadrar o significado esotérico desta típica embarcação veneziana.

Se Veneza é a cidade de Vénus que se expressa através da Lua que rege os ciclos de fertilidade e as marés tanto das “águas terrestres” como das “águas celestes” que são o Éter Universal, então as mesmas vêm a ser assinaladas na grande laguna para onde correm todos os canais. Reza a lenda que nas profundezas da laguna vive um misterioso dragão ou grande crocodilo (que hoje se encontra coroando, em tamanho natural, o cimo de uma das duas colunas da Piazzetta, na extremidade do Palácio dos Doges) que nada teme menos o gondoleiro, e por isso não vem à superfície porque há sempre gôndolas cruzando os canais… Vez por outra, irado, lança o seu bafo e a grande laguna fica envolta em espesso nevoeiro.

Isso vem a correlacionar-se ao onomástico gôndola que se divide em gundu, vocábulo alemão significando “intrépido”, e dôla ou gola, do alemão wurm, “serpente”. Portanto, a gôndola vem a ser a “serpente intrépida” vogando sobre as profundezas dracónicas da laguna. Ora a serpente é o símbolo das forças telúricas da Terra e associa-se à Lua (nisto e significativamente, esta barquinha tem o formato de lua crescente, símbolo móvel da primitiva Deusa-Mãe Ísis, a da religião egípcia representada pela múmia tebana exposta no mosteiro de San-Lazzaro desta cidade), com o seu serpentear orbital em torno da Terra a cujas águas e emoções (representadas nos enamorados que o gondoleiro transporta) ela assiste, indo transformar-se nas etéreas do amor puro que, afinal, é a característica da mesma Vénus. Por isto se diz que Vénus age sobre a Terra através da Lua…

O vocábulo gundu tem por parente guntu, no mesmo dialecto alemão, que significa “guerreiro”. Este “guerreiro” é representado pelo gondoleiro com a sua “espada”, antes, remo arrastando a barquinha por águas seguras, e que neste simbolismo vem a configurar idealmente a pessoa de São Jorge que o dragão da laguna teme, muito mais porque no meio da mesma está a ilha de San Giorgio Maggiore em cujo convento beneditino as orações e cantos sacros dos monges parecem acalmar a ira do monstro lendário.

A característica cor negra da gôndola resulta do alcatrão utilizado para a sua melhor impermeabilização, e não por ser sinal de luto, pois que em Veneza a cor do luto é a vermelha, e era exactamente esta que predominava nas gôndolas antes do século XVII, mas com o sentido mítico já aqui dado: o de ser a cor iconográfica do próprio São Jorge cuja lenda desenvolveu-se aqui no século V, na Venetia bizantina, depois vindo a ser simbolicamente incarnado no gondoleiro mestre desta embarcação única no mundo.

São Jorge, incarnação da Fé armada do Ideal do Espírito, acabou lanceando o dragão cujo sangue tingiu de vermelho a sua capa branca, tingiu de luto a Veneza inteira, indo desaparecer o corpo ferido do monstro na grande laguna. Assim, pois, a cor vermelha é primordialmente a do luto vitorioso do veneziano sobre o dragão da heresia e apostasia.

Numa leitura mais aprofundada ou esotérica, é interpretação é diversa daquela: São Jorge ou Akdorge, em hindustânico, é considerado Chefe dos Makaras ou “Crocodilos”, também em hindustânico, simbólicos dos Homens Perfeitos ou Mestres Reais, pelo que então Cavaleiro e Dragão tornam-se um só na protecção benfeitora à lacustre e sagrada Veneza.

 

Princípios de Kaballah Musical em San Francesco della Vigna

 

A igreja de San Francesco della Vigna data de 1534, erguida no lugar das vinhas dos franciscanos que aqui tinham um convento desde 1253, altura em que Marco Ziani, filho do doge Pietro Ziani, lhes ofereceu o terreno para aí se instalarem.

O templo actual foi desenhado por Jacopo d´Antonio Sansovino (Florença, 2.7.1486 – Veneza, 27.11.1570) no estilo Renascença, mas tendo sido aconselhado pelo monge franciscano Francesco Zorzi (Francesco Giorgi, 1466-1540), sacerdote local e praticante de Kaballah ou “Tradição” Esotérica judaico-cristã, a compor o esquisso da igreja seguindo as regras da Kaballah Musical para ela ficasse de acordo com as proporções do Templo de Salomão, como estão indicadas no Livro dos Reis da Bíblia.

Francesco Zorzi, autor dum tratado de Música de Pitágoras transposta para a Arquitectura, De Harmonia Mundi Totius (1525), quis que a igreja de San Francesco della Vigna incluísse as consonâncias musicais pitagóricas para que “ela reflectisse inteiramente a harmonia universal”. Para isso baseou-se no valor 3, o número perfeito designativo da Trindade Divina – Pai, Filho, Espírito Santo. A nave devia ter de largura 9 passos (isto é, 3+3+3 =9) e de comprimento 27 (3×9), enquanto as capelas colaterais 3 passos de largura.

 

Sansovino seguiu essas proporções musicais adiantadas por Zorzi, traçando o seu esquisso da igreja em cruz latina consistindo numa nave única, obtida transformando os dois colaterais em capelas e um coro profundo.

Esquisso musical da igreja de San Francesco della Vigna

O valor 3 Trindade vem a vibrar nas 3 notas fundamentais da tradição musical pitagórica: Dó, Sol, Mi, harmonizando-se com as exigências musicais de Ritmo, Melodia e Harmonia, na Kaballah Musical expressando o Espírito Santo (Dó), o Corpo e o comprimento que está para a nave desta igreja franciscana; o Filho (Mi), a Alma e a largura representada aqui pelas capelas colaterais, e finalmente o Pai (Sol), o Espírito e a altura assinalada no coro profundo do templo.

Nenhum músico teve tanta importância no Período Clássico quanto Pitágoras (Samos, cerca de 571 a. C. – Metaponto, cerca de 497 a. C.). Conta a lenda que Pitágoras foi guiado pelos deuses na descoberta das razões matemáticas por detrás dos sons, depois de observar o comprimento dos martelos dos ferreiros. Transpôs essa medida para a de uma corda e pressionando um ponto situado a ¾ do seu comprimento em relação à extremidade, tocando-a seguir, ouvia-se uma quarta acima do tom emitido pela corda inteira. Exercida a pressão a 2/3 do tamanho original da corda, ouvia-se uma quinta acima, e a ½ obtinha-se a oitava do som original. A partir desta experiência, os intervalos passaram a chamar-se consonâncias pitagóricas. Assim, se o comprimento original da corda for 12 e se a reduzir-se para 9, ouvir-se-á a quarta, para 8, a quinta, para 6, a oitava.

Os seguidores de Pitágoras aplicaram essas razões ao comprimento de fios de corda num instrumento chamado cânone, ou monocorda, e assim foram capazes de determinar matematicamente a entonação de todo um sistema musical.

Os pitagóricos viam essas razões como governando todo o Cosmos através do Som estabelecendo a “Harmonia Universal” através da “Música das Esferas”, os Mundos que povoam o espaço estelar. Foi assim que a Música tornou-se uma extensão natural da Matemática, bem como uma arte de filosofar graças à intervenção posterior de Platão retomando o tema musical de Pitágoras.

A Matemática e as descobertas musicais de Pitágoras vieram a ter, dessa forma, uma influência crucial no desenvolvimento da Música e da transposição dos princípios numéricos desta à Arquitectura, ao longo da Idade Média e na Renascença. Deve-se a St.º Agostinho e a Boécio (cerca do século IV d. C.) a retenção do simbolismo pitagórico da música que veio a estar presente na tradição cristã dos construtores medievais das grandes catedrais europeias, como, por exemplo, a basílica de S. Marcos e a igreja de San Francesco della Vigna, ambas em Veneza. Para os monges construtores da Idade Média, o ritmo ternário era chamado de perfeito, enquanto o binário era sempre considerado imperfeito. A simbologia do número 7, expressivo da Criação Universal, é retomada no plano musical como número de Atena, a deusa da Sabedoria.

A Kaballah Musical encontra-se igualmente presente nas partituras dos grandes mestres musicais, com destaque para Bach, sem esquecer Beethoven, Mozart, Wagner e outros prodígios, facto que merece o consenso comum dos especialistas na matéria.

 

Potestades Celestes protectoras de Veneza

 

Potestade significa “poder, potência, majestade”. Para a tradição judaico-cristã esse termo refere-se sobretudo às Potestades Celestes que criaram o Universo, a Terra e o Homem, estando organizados em 9 Coros chamados de Exército Celestial, composto de Arqueus, Arcanjos, Anjos, Santos e Sábios e todos liderados pelo Arcanjo São Miguel ou Mikael, o mais próximo do Trono de Deus.

Existem várias versões relativas às Ordens ou Coros Celestes. Entre as autoridades eclesiásticas que apresentaram as suas versões relativas a este assunto, destacam-se Santo Ambrósio, S. Jerónimo, o Papa Gregório I, o Magno, e a própria Constituição Apostólica. Entre as autoridades hebraicas igualmente abordando o tema, sobressaem Moisés de Leon e Moisés Maimónides, e as obras teológicas Sepher-Ha-Zohar, Maseket-Atziluth e Berith-Menusha.

Contudo, a versão mais universalmente aceite é a do Pseudo-Dionísio, datada do século VI e adjudicada à Escola fundada por Dionísio o Aeropagita, que viveu no século I d. C. Diz-se que foi o primeiro bispo de Atenas e martirizado pelos romanos durante o reinado do imperador Domiciano. São-lhe adjudicadas as obras A Hierarquia Celestial e a Hierarquia Eclesiástica, mas na realidade foram escritas muito depois por um grupo anónimo de neoplatónicos seus seguidores e por isso adoptaram o seu nome baptizando a sua composição literária de Pseudo-Dionísio.

Segundo a obra dionisiana, aprovada por São Tomás de Aquino na sua Summa Theológica, existem 3 Ordens de Potestades Celestes, cada uma composta de 3 Coros, totalizando 9 Coros, como sejam pela ordem correcta:

 

Primeira Ordem (PAI) – Com os seus 3 Coros está na génese do Universo, mantém a sua Harmonia e manifesta a Vontade Deus, que executam.

 

1. Tronos

2. Querubins

3. Serafins

 

Segunda Ordem (FILHO) – Com os seus 3 Coros representa o Poder de Deus e está na génese dos Planetas os quais governam, particularmente a Terra. Executam as ordens das Potestades da Primeira Ordem e dirigem as da Terceira Ordem.

 

4. Potestades

5. Dominações

6. Virtudes

 

Terceira Ordem (ESPÍRITO SANTO) – Com os seus 3 Coros está na génese do Homem, protegendo e guiando a Humanidade, e elevando os pensamentos de sabedoria e as preces de amor do Homem a Deus.

 

7. Principados (Arqueus)

8. Arcanjos

9. Anjos

 

Essa Terceira Ordem reúne em si as qualidades das anteriores e por ser a mais próxima da Humanidade, é geralmente a ela que esta se dirige e mesmo reproduz nas suas obras artísticas. É o que se verifica em Veneza, com a maioria das suas igrejas consagradas aos Arcanjos e Anjos da Milícia Celestial dispondo a cidade sob sua protecção inequívoca, como antes haviam feito os primitivos Vénetos adorando aos deuses celestiais.

Aparecem assim os patronímicos celestes nas igreja de São Miguel na Insola, igreja do Anjo Rafael, igreja de Santa Maria dos Anjos, igreja do Espírito Santo, sucursal da igreja dos Jesuítas (Santa Maria do Rosário), etc. Nessa última, vulgarmente chamada de chesia dei Gesuiti, aparece o flagrante do misterioso Arcanjo Sealtiel, identificado por legenda na base, juntamente com os três outros Arcanjos protectores do Templo junto ao altar-mor deste. Não deve causar estranheza os Jesuítas venezianos mostrarem conhecimento das Hierarquias Celestes, pois que a Companhia Jesus em Veneza privou de perto com a comunidade judaica da cidade onde haviam rabinos cabalistas que decerto terão influenciado alguns desses doutos cristãos.

Arcanjo Sealtiel

Sealtiel, ou Sakiel, é considerado o “Arcanjo da Contemplação” e é um dos sete Arcanjos diante do Trono de Deus aos quais a tradição cabalística hebraica chama de Mikael, Gabriel, Rafael, Anael, Samael, Zadkiel e Oriphiel. Os gnósticos cristãos chamam os quatro últimos de Uriel, Baraquiel, Sealtiel e Jehudiel. A tradição judaico-cristã acabou atribuindo a estas Potestades o governo dos 7 Planetas tradicionais, cuja ordem correcta é a seguinte:

Sol – Mikael

Lua – Gabriel

Marte – Samael (Baraquiel)

Mercúrio – Rafael

Júpiter – Sakiel (Sealtiel)

Vénus – Anael (Uriel)

Saturno – Kassiel (Jehudiel)

Os Anjos e Arcanjos, como as demais Potestades, participam do Mundo Espiritual e são intermediários entre o Divino e o Terreno, significando o termo latino angelorum, “anjo”, precisamente “mensageiro” e “enviado do Logos” ou Deus Supremo, neste caso, a Veneza, como se vê no frontispício da igreja do Anjo Rafael com este olhando protector um pescador, representando o povo marítimo veneziano, e ao lado um cão, símbolo do guia desta cidade pelo caminho certo e seguro da Iniciação Verdadeira na OBRA DO ETERNO, que é dizer, a TEURGIA.

 

 

 

 

 

 

 

Nuno Álvares Pereira, o Santo Guerreiro – Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Out 27 2009 

DSCF2019
Lisboa, 25.10.2009   

  

Nuno Álvares Pereira, também conhecido como o Santo Condestável, Beato São Nuno de Santa Maria ou simplesmente Nun´Álvares (nascido em Cernache de Bonjardim, Sertã, em 24.6.1360, e falecido em 1.4.1431 no Convento do Carmo, Lisboa), foi um nobre e guerreiro português do século XIV que desempenhou um papel fundamental na crise de 1383-1385, onde Portugal jogou a sua independência contra Castela. Nuno Álvares Pereira foi também 2.º Conde de Arraiolos, 7.º Conde de Barcelos e 3.º Conde de Ourém, tendo chegado a Condestável do Exército Português, cargo que hoje equivale ao de Ministro da Defesa, e faleceu com fama de Santo da Ordem do Carmelo. Nuno Álvares Pereira foi um dos dez filhos de D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior da Ordem do Hospital com sede no Convento da Flor da Rosa, Crato, e de D. Íria Gonçalves do Carvalhal, filha de fidalgo. O jovem cresceu na casa do seu pai, na Flor da Rosa, onde viveu até aos 13 anos, tendo aprendido as artes militares e onde ganhou gosto pela leitura, sobretudo pelos livros de Cavalaria “onde a pureza era a virtude que tornara invencíveis os heróis da Távola Redonda”, e assim desejou para si “que a sua alma e corpo se conservassem imaculados”. Sonhou e confessou a sua mãe que também iria ser um Cavaleiro do Santo Graal, que O iria demandar, conquistar e depor no Altar da Pátria Lusitana. Isto confessou a sua mãe, que passou a chamá-lo de “o meu Galaaz”, este o herói da Távola Redonda que, segundo a narrativa, conseguiu apossar-se da Taça Sagrada, sabendo-se que Galaaz é apodo do próprio Cristo

Com essa idade de 13 anos entrou para a corte do rei do D. Fernando I, onde foi feito cavaleiro com uma armadura emprestada por D. João, Mestre da Ordem de Avis. Aos 16 anos, em 15.8.1376, casou-se em Vila Nova da Rainha, Azambuja, com D. Leonor Alvim, fidalga do Minho que enviuvara muito cedo e não tinha filhos. O casamento fora arranjado pelo rei e por D. Álvaro Pereira, a contragosto do filho que não queria casar. Do matrimónio nasceram dois filhos que morreram durante o parto, e uma filha, Beatriz. A mãe não resistiu aos problemas do parto e morreu pouco tempo depois do nascimento da filha, em Janeiro de 1388. D. Nuno Álvares Pereira entregou esta aos cuidados da avó, D. Íria Gonçalves. D. Beatriz casou em 1.11.1401 no Paço de Frielas, Loures, com D. Afonso, filho bastardo de D. João I e 1.º Duque de Bragança, Casa esta que iria ter papel determinante em vários períodos da História de Portugal e mesmo do Brasil Império. 

Quando o rei D. Fernando I morreu em 1383, sem herdeiros a não ser a princesa D. Beatriz, casada com o rei D. João I de Castela, D. Nuno Álvares foi um dos primeiros nobres a apoiar as pretensões portuguesas de D. João, Mestre de Avis, à Coroa. Apesar de ser filho ilegítimo de D. Pedro I de Portugal, D. João afigurava-se como uma hipótese preferível à perda da independência nacional para Castela. Depois da primeira vitória militar de D. Nuno Álvares sobre os castelhanos na batalha dos Atoleiros, em Abril de 1384, D. João de Avis nomeou-o Condestável de Portugal e Conde de Ourém. 

A 6.4.1385 o Mestre de Avis é reconhecido pelas Cortes reunidas em Coimbra como D. João I, rei de Portugal. A resposta de Castela não se fez esperar e invadiu o País com um poderoso exército. A 14 de Agosto desse ano, as forças portuguesas enfrentaram as castelhanas em Aljubarrota. Apesar da desvantagem numérica de 1 português para 10 castelhanos, em menos de uma hora decidiu-se a vitória retumbante dos portugueses graças ao génio militar do Condestável, que desde então e para sempre é o General do Exército Português. 

A batalha de Aljubarrota marcou o fim definitivo da instabilidade política e a consolidação da independência nacional. Em 25.7.1415 D. Nuno Álvares Pereira integrou a armada de 200 navios da Expedição a Ceuta, Norte de África, tendo sido a primeira conquista da época dos Descobrimentos Marítimos, entendida como acto da reconquista cristã e acto de gesta missionária. Foi a última batalha do Condestável. Com 55 anos de idade e riquíssimo, distribuiu os seus bens pelos familiares e pela Ordem do Carmelo, e despojado das riquezas deste mundo, só com um humilde burel, entrou a professar como frade mendicante no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em Lisboa. 

No exercício espiritual Frei Nuno de Santa Maria, nome que adoptara quando abraçou a vida religiosa, mostrou-se tão dedicado e bondoso para com todos que todos vinham comer do seu “caldeirão”, isto é, receber as suas esmolas, fossem por conselhos sábios e amoráveis, fossem por moedas, roupas ou comida que esmolara aos ricos para oferecer aos pobres. A sua fama de santo cresceu rapidamente, e ainda em vida atribuíram-lhe milagres. Havia quem dissesse que até ressuscitara mortos… 

Mas Frei D. Nuno não se despojou de tudo: conservou na sua pequena cela a sua espada e armadura. Abraçara a Religião mas não morrera a alma de leão devoto à Pátria. Há uma história fabulosa, invenção apologética do senso patriótico, sobre o embaixador de Castela que o terá visitado no Convento do Carmo e lhe perguntado o que faria se Castela invadisse novamente Portugal? Então o velho guerreiro levantou o hábito e deixou ver que por baixo trazia vestida a sua cota de malha, dizendo com firmeza: “Se el-rei de Castela mover guerra a Portugal, servirei ao mesmo tempo a religião que professo e a terra que me deu o ser”. 

Outra história fabulosa, situada no início da vida monástica de D. Nuno, foi a do boato de Ceuta estar prestes a apresada pelos mouros, e o velho guerreiro alquebrado querer embarcar na Expedição de socorro a Ceuta. Quando o tentaram dissuadir, pegou numa lança e atirou-a da varanda do Convento. A lança atravessou o vale em baixo e foi cravar-se numa porta do outro lado do Rossio, dizendo D. Nuno: “Em África a poderei meter, se tanto for mister”! Daqui nasceu a expressão “meter uma lança em África”, no sentido de se vencer uma grande dificuldade. 

Em 30 de Março de 1431, Sexta Feira da Paixão, o “Frade Santo”, como lhe chamavam, com 70 anos de idade tombou gravemente doente. Acudiram ao Carmo os mais importantes do Reino, incluindo D. João I e o príncipe herdeiro, D. Duarte. Ao meio-dia de 1 de Abril, Domingo de Páscoa, Frei D. Nuno morreu. O rei D. João I estava à sua cabeceira. 

O Povo de Portugal chorou o seu Santo Guerreiro, até em Castela o choraram, por seus dotes de pureza e justiça. Começaram as romarias piedosas ao Carmo, e todos queriam levar uma mão cheia de terra do túmulo do Santo Condestável, que assim ficou conhecido até hoje. Segundo a Crónica dos Carmelitas, essa terra milagrosa misturada com água e tomada naturalmente ou aplicada, operou 12 ressurreições, 24 curas de paralíticos, 21 curas de cegos, 21 curas de surdos ou mudos, 18 curas de doenças internas, 16 curas de doenças fatais, 10 recuperações de febres altas e derrame de sangue e 6 aparições do Grande Cavaleiro com graças espirituais. 

Os milagres atribuídos ao Santo Condestável prosseguiram pelos séculos seguintes, até que Nuno Álvares Pereira foi beatificado em 23 de Janeiro de 1918 pelo Papa Bento XV, tendo consagrado o dia 6 de Novembro ao então Beato. O seu processo de canonização, iniciado em 1940, após várias interrupções, desfechou com D. Nuno Álvares Pereira sendo canonizado como São Nuno de Santa Maria pelo Papa Bento XVI em Roma, às 9 horas e 33 minutos (hora de Portugal) de 26 de Abril de 2009. 

  

A “Espada Mágica” do Santo Condestável  

  

Desde a sua juventude que o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira era tremendamente influenciado pela Mística dos Cavaleiros da Távola Redonda e a sua Demanda do Santo Graal, símbolo perene de Iluminação na Graça do Espírito Santo incarnado na imagem ideal de Santa Maria Maior. 

Homem feito, ingressado na carreira das armas e já destacado como esforçado cavaleiro defensor do reino, procurou ter uma “espada mágica” como aquela que o rei Artur possuiu, uma nova caliburna ou excalibur que desta vez seria deste novo “Galaaz do Carmelo”. Pegou na sua velha espada e procurou Fernão Vaz, alfageme de Santarém, para que a corrigisse, e ele assim fez, dando-lhe têmpera e feição nova, nada cobrando ao Condestável pelo trabalho, dizendo, em guiso profético, que quando ele fosse Conde de Ourém lhe haveria de pagar, o que veio a acontecer, tendo D. Nuno feito grandes intercessões a favor desse alfageme, misto de ferreiro, alquimista e profeta.   

2446671599_bec7c1d5d6[1]

Espada do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira no Museu Militar de Lisboa

 A espada é de lâmina direita e aguçada, e o punho em cobre, tendo também à roda em espiral fio de cobre, medindo na sua maior largura três polegadas, diminuindo sucessivamente até à ponta. Num dos lados da lâmina, onde também se reconhece o signo do corregedor – uma cruz e uma estrela – D. Nuno mandou gravou a seguinte inscrição: Excelsus super omnes gentes Dominicus. Na outra face está gravado o santo nome de Maria, e dentro de um círculo as palavras Dom Nuno Álvaro, vendo-se ainda uma contra-marca, com a cruz entrelaçada por flores. As aberturas/saliências na lâmina serviam, além aspecto decorativo, para tornar a espada mais leve, logo, mais fácil de manusear. Sugerem o formato de runas, com o sentido prático de levar as lâminas adversárias a encravarem-se nas mesmas, e com um golpe hábil prontamente o adversário era desarmado. 

Com essa excalibur ungida, erguida ao Céu evocando os seus Poderes, D. Nuno Álvares Pereira salvou a independência ameaçada de Portugal por Castela, e depois vira-a para baixo e fá-la Cruz, a qual abraça incondicionalmente na Fé do Carmelo, no todo sendo cavaleiro-monge, o paradigma perfeito da Linhagem Cavaleiresca ou Kshatriya sob o pendão da Mãe Divina de quem era Grão-Tributário. 

Pode-se ver a réplica exacta desta espada no claustro arruinado do Convento do Carmo (assim como à entrada da igreja do Santo Condestável, também em Lisboa, havendo outra igual na Sertã, por cima da porta lateral da capela de N.ª Sr.ª dos Remédios), mesmo que se diga que a peça original é a que está patente ao público no Museu Militar de Lisboa, junto a Santa Apolónia. 

  

A Porta Real do Carmo 

  

O Convento de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo afronta o Monte do Castelo de S. Jorge em cuja encosta estavam o Paço Real e a Sé Catedral, estando permeio a ambos os Montes o campo do Rossio, chamado nos séculos XIV e XV de Valverde. Esta conjunção geográfica ficou assim por vontade de D. Nuno Álvares Pereira, que após abandonar a vida militar e entrado na religiosa mandou construir este convento em 1389, confirmando-se a teimosia com que quis fosse aqui a Casa principal do Carmelo em Lisboa, apesar das dificuldades técnicas em construí-la devido à consolidação da escarpa onde assentaram as fundações da cabeceira do templo. 

Aliás, no tempo do Santo Condestável chamava-se ao Monte do Carmo de lugar da Pedreira, habitado sobretudo por judeus, tendo ele insistido ter de ser aí o lugar do convento e igreja, e quando os seus alicerces cederam por duas vezes, D. Nuno jurou fazê-los de bronze caso voltassem a ruir. Para a terceira tentativa foram contratados os mestres canteiros, o mesmo que arquitectos, mais famosos de Lisboa: Afonso, Gonçalo e Rodrigo Eanes, que não consta que fossem parentes. Com eles foram contratados os mestres pedreiros Lourenço Gonçalves, Estevão Vasques, Lourenço Afonso e João Lourenço. Os servidores e amassadores de cal, tarefa especializada, foram os judeus Judas Acarron e Benjamim Zagas. Esta Maçonaria Operática, tendo deixado com fartura siglas e inscrições lapidares nas paredes do templo que ainda se podem ver, finalmente viu a sua empresa coroada de êxito. 

Convento_do_Carmo[1]

O Convento do Carmo em Lisboa antes de 1755

Quando se venciam os percalços, novos surgiam, e assim, percalço sobre percalço, o templo foi se construindo até se tornar o mais notável edifício gótico da época. Porque D. Nuno escolheu este lugar quase impossível para se construir coisa alguma, alcantilado na Pedreira que se fez Carmo? Há a razão gnoseológica, atendendo que o Carmo, o Paço no Castelo e a Sé prefiguravam um triângulo, ficando o espaço do mesmo ocupado pelo campo de Valverde, nome que lhe foi aposto pelo próprio Condestável, decerto em memória da sua vitória retumbante (Outubro de 1385) na batalha do mesmo nome. 

Tanto que o Paço e este Convento ficavam defronte um ao outro, e quem vinha daquele entrava neste pela sua hoje quase esquecida ou ignorada porta real, gótica, lateral à entrada principal, razão de estar decorada com flores-de-lis, símbolo de realeza adoptado oficialmente por D. João I, o iniciador da Dinastia de Avis cujo paraninfo foi o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, e como religioso, simplesmente Fr. Nuno de Santa Maria. 

A Porta Real do Carmo - 59

Porta Real do Convento do Carmo, Lisboa

Junto a esta entrada, pode igualmente observar-se pedras inscritas com legendas e desenhos de peixes, animais e aves, assim como parte da antiga escadaria que descia para o campo de Valverde a caminho do Paço, sobreviventes desconjuntados do terramoto de 1755 cujos sinais mais dramáticos dos seus efeitos na cidade vêem-se aqui. 

  

As relíquias do Santo Condestável 

  

Depois do terramoto de 1755, as poucas ossadas de D. Nuno Álvares Pereira que sobreviveram à catástrofe foram colocadas numa réplica em madeira do seu túmulo, em 21 de Março de 1768, onde ficaram até 14 de Março de 1856, quando foram removidas e postas numa urna forrada a veludo, em 9 de Março de 1895. Em 1912, foram depostas num relicário de prata e devotamente percorreram o país até que, cerca de 1967, roubaram as relíquias e nunca mais se recuperaram. 

Outros ossos do Santo e Guerreiro, que por cautela antecipada estavam guardados noutro lugar, substituíram os roubados e foram divididos em duas partes, uma destinada à veneração na capela da Ordem Terceira, no Largo do Carmo, ao lado das ruínas do convento, e outra para a igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, onde as ossadas ficaram numa urna debaixo do altar-mor. 

De facto, o terrível terramoto destruiu completamente os bairros do Carmo e da Trindade, hoje ligados pelo conhecido prolóquio cair o Carmo e a Trindade. O convento carmelita que D. Nuno Álvares Pereira aqui fundou foi arrasado pelo cataclismo, assim desaparecendo o seu túmulo, do qual só restam as ditas ossadas consideradas relíquias santas. 

A sepultura original, conforme Frei D. Nuno rogara como esmola pouco antes de falecer, era “uma mortalha e uma cova para o corpo”. Portanto, campa rasa simples e humilde. Mas algum tempo depois foi construído um túmulo condigno com a sua grande pessoa, inscrevendo-lhe o seguinte epitáfio: “Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a vida na Terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta igreja onde descansa o seu corpo”. 

T%C3%BAmulo+na+Ordem+do+Carmo[1]

Réplica do túmulo de Nuno Álvares Pereira no Convento do Carmo, Lisboa

O túmulo estava junto ao altar-mor e continha um único corpo amortalhado, com uma espécie de gaveta isolada que protegia a cabeça, evitando o contacto desta com a terra e a cal. Este artefacto, caído em desuso cerca de um século antes da morte de D. Nuno Álvares Pereira, era igual àquele dos lendários cavaleiros da Távola Redonda cujos feitos o haviam inspirado tanto desde a infância. Aliás, a sua mãe, D. Irene, apelidava-o em pequeno de Galaaz, nome do mais puro dos cavaleiros da Távola do rei Artur Pendragon. O próprio povo, que rompia o chão da igreja para conseguir uma mão cheia de terra santa da sua sepultura miraculosa, considerava-o o último cavaleiro medieval, modelo de justiça e perfeição. 

  

A fachada apologética da igreja do Santo Condestável 

  

A fachada exterior da igreja do Santo Condestável apresenta no topo, sob a Cruz da Ordem de Avis, as Armas de Portugal coroadas com o Dragão dos Lusos, na forma clássica do mítico baphomet, o ídolo estranho atribuído aos antigos Templários. Mais abaixo, dos lados, Santa Maria com o Menino ao colo, num nicho cuja mísula é suportada por três cabeças de Anjos, aludindo à Trindade Divina. Nossa Senhora, Cordo Mariz ou “Coração de Mãe” de todo o Portugal, era da devoção maior do Santo Frei Nuno de Santa Maria do Carmelo, e por isso postou-se aqui a sua imagem com o salvífico escapulário carmelitano no peito, tendo o Menino ao lado. 

Noutro nicho, está S. Jorge erecto lanceando o dragão da iniquidade e da traição à Pátria que é tanto mística como geográfica, tendo sido o Condestável D. Nuno o primeiro a render o preito da sua devoção ao Santo Guerreiro, como Filho para Pai expressando na Terra ao Metraton do Céu, o mesmo Mikael ou S. Miguel Arcanjo incarnado como S. Jorge ou Akdorge, Padroeiro do Exército Português desde a sua vitória retumbante na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de 1385. Repetem-se três cabeças de Anjos na mísula, expressando a Santíssima Trindade na Terra, enquanto na outra a expressam no Céu. 

DSCF1986

Fachada dianteira da igreja do Santo Condestável, Lisboa

Ao centro, sobre a entrada, está D. Nuno Álvares Pereira trajado de carmelita e adorado lateralmente por dois Anjos, um custodiando a Taça Eucarística do Graal e outro à Espada Mágica de Excalibur em cuja lâmina se enrosca uma serpente em ascensão. Aos pés do Santo Condestável, as Armas de Avis já gravadas na sua bandeira lábaro sagrado de Portugal, aliás, Porto-Graal

A igreja abriga as relíquias deste Santo Condestável, e o seu tesouro artístico são os dois vitrais de Almada Negreiros que iluminam os altares laterais, alusivos à devoção do Santo e Guerreiro por Cristo e sua Mãe, com figuras longas e em tons fortes. Estão moldados em janelas ogivais, repartidas por cruzes altas. 

Esta igreja do Santo Condestável, inaugurada em 14 de Agosto de 1951, situa-se em Lisboa entre o Mercado de Campo de Ourique e a Rua Saraiva de Carvalho, e pertence à série das “Novas Igrejas”, resultado do desenvolvimento peculiar do modernismo conciliado com os moldes góticos e manuelinos. Este templo “neogótico”, como é uso classificar-se, foi projectado em 1946 pelo arquitecto Vasco Regaleira (Vasco de Morais Palmeiro) que colaborou na Exposição do Mundo Português em 1940. 

  

Ordem de Santa Maria do Carmelo 

  

A Ordem do Carmo que originalmente se chamou Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, constituiu-se entre os anos 1206-1214 dum grupo de leigos latinos (eremitas penitentes, possivelmente ex-cruzados) liderados por um tal de B, posteriormente identificado como Brocardo, os quais viviam na região do Monte Carmelo, uma cadeia de colinas próxima à cidade de Haifa, antiga Porfíria, no actual Estado de Israel. 

A palavra Carmelo significa “jardim”. Nesse Monte se recolheram os eremitas cristãos seguindo a tradição bíblica do Profeta Elias que no passado remoto aí se estabelecera numa gruta, seguindo uma vida eremítica de oração e silêncio. Mais tarde, esses cristãos penitentes rogaram uma regra de vida a St.º Alberto, Patriarca de Jerusalém, que os atendeu e reuniu numa Ordem tipicamente eremítica e cristocêntrica, mas idealizada na Vida da Mãe de Deus. A Regra Carmelita foi aprovada pelo Papa Honório III em 1226, tendo a seguir os monges emigrado para o Ocidente europeu, onde iniciaram a propagação da Hipertúlia, ou seja, o culto e veneração a Nossa Senhora, desde logo se assumindo como a primeira Ordem religiosa Mariana ou Matrística da Europa. 

Nos inícios do século XIV os Carmelitas entraram em Portugal e estabeleceram-se em Moura, no Alentejo. O Santo Condestável Nuno Álvares Pereira simpatizou de imediato com eles por sua grande devoção à Virgem Maria, e mandou construir em Lisboa o Convento do Carmo para albergar os freires, tendo ele mesmo, nos anos finais da sua vida, ingressado aí, como freire penitente da Ordem Carmelita da Antiga Observância, que é o seu ramo mais antigo. 

Posteriormente, em 1593, formou-se a Ordem dos Carmelitas Descalços, resultado da reforma feita ao carisma carmelita elaborado por St.ª Teresa de Ávila e S. João da Cruz. Este ramo reparte-se em três diferentes tipos da família carmelitana: os padres e frades, as freiras de clausura, e os irmãos leigos. 

Também os carmelitas não escaparam a uma certa filiação à Tradição Hermética, como indiciam vários acontecimentos históricos: desapoiaram o Papa Clemente V (assassino moral da Ordem do Templo) e apoiaram a eleição de João XII, autor da Bula Sabatina, gozando da protecção da Ordem de S. João de Acre, vulgo Hospitalários; igualmente foram acusados de confundirem a Virgem Maria com Maria, a Egípcia, famosa por um processo alquímico ligado ao seu nome: o de destilar pelo fogo a água, ou seja, o conhecido “banho-maria”. 

Imagem 23Imagem 22 

“Procissão Triunfal”, Jardim Castro Guimarães, Cascais 

Ainda mais significativo: no extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade de Cascais havia dois enormes painéis de azulejos (desde 1925 patentes no Jardim Castro Guimarães dessa vila), um deles provando cabalmente a filiação hermética do Carmelo, quando retrata a Procissão Triunfal com a Virgem Maria em Glória (Shekinah) sentada no Carro ou Merkabah tendo adiante os Arcanjos S. Miguel e S. Gabriel, associados ao Sol e à Lua, e atrás o cortejo dos “Filhos de Maria”, ou seja, os Adeptos da Alquimia que é uma Ciência de Espírito Santo configurado na mesma Mãe de Deus. Todos esses Adeptos ligados à Tradição Espiritual Portuguesa dos quais se destacam: St.º António, St.ª Isabel de Portugal, St.ª Isabel da Hungria, St.º Alberto Magno, Raimundo Lúlio, Arnaldo de Vilanova, Escoto, etc. Por cima do conjunto vogam Anjos, cada qual com uma alfaia do Hermetismo Carmelitano cujas Armas, abaixo, selam a obra. 

  

Fernando Pessoa no encómio ao Santo Condestável 

  

Mensagem, Lisboa, Ática, 1934. 

   

Que auréola te cerca? 

É a espada que, volteando, 

Faz que o ar alto perca 

Seu azul negro e brando. 

  

Mas que espada é que, erguida, 

Faz esse halo no céu? 

É Excalibur, a ungida, 

Que o Rei Artur te deu. 

  

´Sperança consumada, 

S. Portugal em ser, 

 Ergue a luz da tua espada 

Para a estrada se ver. 

  

Créditos fotográficos: Autor e Paulo Andrade. 

  

  

  

  

  

  

  

    

Consagração da Lisboa Hermética – Hugo M. D. Martins Domingo, Out 4 2009 

1

A magia de Lisboa é um espírito infinito de experiência, revelação, mistério e iniciação. Toda a arquitectura expressa em Lisboa, mais especificamente na chamada Baixa Pombalina, é fruto de uma combinação perfeita das lendas, mitos, filosofias e tudo com muita beleza. Desde o Terreiro do Paço, com a estátua central de D. José I a cavalo “derrotando as ofiússas ou serpentes figurativas de dragões” (configuração do arquétipo São Jorge), à passagem pelo magnífico Arco “Iniciático” da Rua Augusta ilustrado com os seus Heróis nacionais, à transposição de toda a intersecção das ruas da Baixa como verdadeiras serpentes de Ouro e de Prata vigiadas por uma Águia altiva mas discreta, todos esses elementos completam este percurso único e transformador do ser humano… uma verdadeira Opus Magnum sob a regência tutelar das sete colinas sagradas da cidade, garante de uma Alquimia Mística no Laboratorium da capital do País.

Cidade Mui Nobre e Leal, palavras de D. João I sobre a nossa Lisboa que hoje estão expressas no brasão que caracteriza o símbolo da identidade comum da urbe, imposto na bandeira da mesma, dividida opostamente nos tons branco e negro, esvoaçando ao sabor do vento na haste disposta sobre o edifício do seu Município. É neste lugar que a nossa viagem inicia, desenvolverá e acabará, visto ser aqui que está o órgão político-social regente da cidade, assim mesmo reflectindo o seu espírito e vida própria. Adiante do Município abre-se o seu largo quadrado de proporções largas, a Praça do Município, completado ao centro por um belo, magnífico e até transcendente pelourinho. Aqui os imóveis absorvem a luz radiante penetrando a praça e, sob o seu granítico silêncio, ocultam inúmeros significados muito além do ruído e stress envolventes, mas que a calma e serenidade do observador curioso de toda a sua verdade desvela.

 

1. O pelourinho esotérico

 

Em Portugal os pelourinhos datam desde o século XII, e tinham como principal função a consagração política de um povoado, aldeia, vila ou cidade distinta através da sua implantação defronte à Câmara dos Vereadores, e a partir daí, com esse testemunho do poder político soberano, passava a funcionar legal ou legitimamente, na forma prevista nas Ordenações Portuguesas (Ordenações Afonsinas, Ordenações Manuelinas e Ordenações Filipinas), estabelecendo e regulando o Poder Público, Administrativo, Legal e Jurisdicional.

Contudo, os pelourinhos, símbolos do Poder Legal estabelecido (Legislativo e Executivo), em nome do mesmo era assim que serviam para anunciar publicamente as sentenças finais dos julgamentos ditando castigos públicos, desde flagelamentos até enforcamentos, a criminosos assim expostos à vergonha pública, sendo amarrados a argolas e torturados ou mortos, conforme a gravidade do delito cometido.

Na generalidade, os pelourinhos localizavam-se defronte ao edifício da Câmara, contudo também tinham direito a ser seus donatários as Dioceses e os Cabidos dos principais Mosteiros, como prova e instrumento da Jurisdição Feudal 1, mesmo assim subordinada ao Poder Central da Coroa, que detinha a “palavra final” No antigo território ultramarino português, o símbolo do pelourinho também estava presente, representando, portanto, a administração pública lusitana regida pelas Ordenações2.

A constituição básica dos pelourinhos apresenta sempre uma base com determinada forma geométrica (circular, quadrada ou até octogonal), na qual se ergue uma coluna ou fuste, terminando num capitel. Consoante a sua estrutura geométrica e estilo artístico, pode ter várias classificações: gaiola, roca pinha, extravagante, etc.3

Com a ascensão do Liberalismo no século XVIII até meados do século XIX, fustigado pelos escritos de personalidades como John Locke e Adam Smith, cultivou-se a renovação da sociedade desse período para a democratização. A palavra liberal, etimologicamente oriunda do latim liber (“livre”, ou “não escravo”), era associada a essa outra de liberdade. Assim, os pelourinhos, simbólicos de pressuposta jurisdição feudal e de pressuposto absolutismo monárquico, rapidamente tornaram-se sinónimos abjectos de tirania, pelo que em 1834 foram destruídos pelos liberais 4. Contudo, facto interessante, é não se ter destruído no século XIX este pelourinho de Lisboa, enquanto outros pelourinhos de localidades importantes, como foi o caso do de Sintra (e neste caso só reconstituído em 1940 pelo escultor José da Fonseca), não sobreviveram, mas este da Capital do País (cujo primitivo manuelino não sobreviveu ao terramoto de 1755 mas serviu de modelo ao actual setecentista) tem-se mantido intacto, poupado à eliminação tanto pelos liberais quanto pela liberalidade republicana.

Com efeito, o pelourinho que está na Praça do Município, em Lisboa, é de construção mais recente (século XVIII), e em consequência do terramoto de 1755 foi reconstruído sob projecto do arquitecto Eugénio dos Santos, sendo o seu escultor Joaquim Machado. O primitivo, existente na antiga Praça do Pelourinho (localizada antes no que hoje constitui a Rua do Comércio, entre as Ruas dos Fanqueiros e da Madalena), onde funcionaram os serviços camarários até ao final do século XIX, foi destruído pelo supradito terramoto, sendo substituído e reposto na nova Praça do Pelourinho que em 1886, no Edital de 24 de Maio desse ano, viria a ser chamada de Praça do Município 5. Apresenta-se com 10 metros de altura, assenta numa base granítica em forma octogonal com cinco degraus com cantos de curva côncava. O seu fuste em espiral, definido por três hastes, também elas em forma octogonal de lados curvos e torcidas no sentido ascendente, rematam no capitel. Este é coroado pela esfera armilar de metal dourado, da autoria de Pêro Pinheiro, com 56 cm de diâmetro.

No entanto, ao analisarmos a constituição da praça quadrada à volta deste pelourinho, verificamos que a calçada aí existente apresenta sob determinada disposição geométrica um círculo que induz uma rotação em determinado sentido (esquerda para a direita). Este facto da “Quadratura do Círculo” certamente não terá sido disposto ao acaso, como igualmente as ligações veladas que o pelourinho apresenta com o próprio Município à sua frente, deixando-nos com a impressão clara de que ambos os imóveis estão «unidos» do ponto de vista arquitectónico e simbólico.

No que diz respeito ao círculo em si, parece um resíduo latente da Cosmologia Geocêntrica dominante ainda no século XVIII (nomeadamente assumida pela Maçonaria da época), a qual é expressa pelos cincos anéis da calçada que circundam a escultura vertical, tal como a disposição dos triângulos num só sentido dão a dinâmica do movimento da esquerda para a direita, dextroversum, como se fosse o Universo girando em torno da Terra, da Sfera Mundi, tal como o alemão Gregorius Anglus Sallwigt (ou George Von Weling) representou na sua obra Opus Magnum Cabalisticum nesse século.

No entanto esta praça não teve sempre a aparência que actualmente tem, inclusive a calçada hoje existente aí só foi colocada muito posteriormente à data 1755, cingindo-se a sua estrutura inicial (registada em fotos) apenas à delimitação de um círculo (noutros tempos decorado com plantas e flores) tendo no centro o pelourinho sobre base quadrada.

2.

A relação do pelourinho com o próprio Município parece ser bastante evidente, devido à relação de determinados elementos da fachada daquele com elementos deste. Refiro-me, especificamente, aos três rostos coroados no Município em sintonia como as três hastes ascendentes do fuste, tal como também as estrelas de oito pontas (acima de cada rosto) têm igual valor numérico nos oito lados da base do pelourinho e nos oito lados curvos de cada haste. Estabelecida a relação, resta agora saber e interpretar o significado específico de cada elemento, e, consequentemente, o significado geral do conjunto destes imóveis.

A escadaria octogonal expressa o octagrama ou estrela de oito pontas que é um símbolo de plenitude e regeneração, assim se a ligando a sistemas de oito extremidades sendo representativa, segundo a Filosofia Taoista da China, das oito possibilidades (Trigrama) de união entre os pares de opostos (Yin-Yang, Feminino-Masculino”), o que também me recorda o Ogdoad ou Panteão da Mitologia Egípcia no que respeita às oito divindades da sua Cosmogonia, as quais fundaram a cidade de Khumun (“A cidade dos oito deuses”) que tinha como Orago Thot (expressivo da Sabedoria Divina e do Conhecimento Humano), que na Cultura Grega seria posteriormente denominado Hermes (o “Mensageiro dos Deuses”), caracterizando então o nome de Hermópolis (“Cidade de Hermes”) 6. Também esta Capital olisiponense está consagrada a esse deus Mercúrio de função psicopompa ou medianeira, através do escultórico patente na sua Sede autárquica apresentando três rostos expressivos de Hermes Trimesgisto, o “Três vezes Grande” (no Passado, Presente e Futuro como Patrono do Hermetismo), acompanhados de estrelas de oito pontas e cada rosto encarando a Praça do Município, como declaração clara de também esta ser uma Hermópolis, uma “Cidade de Hermes”, uma verdadeira Lisboa Hermética.

Contudo, a estrela de oito pontas também se associa geometricamente à Cruz Templária, e a associação esotérica desta com a Alquimia faz-se evidente. A relação Alquimia entre os Templários foi um facto elucidado e dado ao conhecimento público em 1970 por Roger Caro, na sua obra Legende des Frères Aînes de la Rose-Croix (“Lenda dos Irmãos Primogénitos da Rosa-Cruz”), referindo a formação de uma nova Sociedade Iniciática oriunda dos Templários após o Concilio de Viena em 1312, designada FARC (Frère Aînes de la Rose-Croix), que utilizava os conhecimentos alquímicos que os Templários haviam adquirido na sua relação com outras culturas, nomeadamente a Muçulmana. Além disso, nos pressupostos Estatutos Secretos da Ordem do Templo, também pressupostamente escritos pelo Irmão Roncelinus no século XIII e encontrados pelo bispo alemão Friedrich Münster em 1780, a Alquimia tinha a referência seguinte: Tende em vossas casas lugares de reunião vastos e escondidos a que se terá acesso por corredores subterrâneos para que os Irmãos possam ir às reuniões sem o risco de serem perturbados… É interdito, nas Casas onde os Irmãos não são Eleitos, trabalhar certas matérias pela Ciência Filosófica e, portanto, transmutar os metais vis em ouro e prata. Isto nunca será feito senão em lugares escondidos e em segredo. 7

3.

Neste sentido, o significado da Rosa na Cruz Templária a Cruz alude à Morte, associada ao Masculino, e a Rosa com as suas pétalas expressando o Feminino, naturalmente liga-se ao Nascimento, perfazendo no conjunto a Morte/Nascimento, e vice-versa, indo dar o significado de Re-nascimento ou Reencarnação 8. Assim, a Cruz Templária (ou Cruz de Cristo) está totalmente em sintonia com a linguagem alquímica da Grande Obra, pois é durante esta que ocorre a “morte do Rei”, dá-se o seu “renascimento” e por fim o “casamento” com a Rainha, a Núpcia Química. Além disso, não deixa de ser interessante que neste pelourinho de Lisboa o próprio fuste apresente um polígono de oito lados no nível de baixo (tendo outro igual no nível de cima, desde logo lembrando a célebre sentença de Hermes Trimegisto: O que está em cima é como o que está em baixo, para se cumprir o milagre da Unidade), no mesmo modelo da escada, e ao contarmos o número de passos que vão deste até ao início do vértice da escada, dão exactamente 8! Ora este facto parece comprovar a ligação do centro do fuste à periferia, desenhando perfeitamente a Cruz Templária que descrevemos anteriormente.

A partir desse ponto, temos a sua continuação no fuste (modelado em espiral, definido por três hastes com secção octogonal de lados curvos, distintas e torcidas) que é a representação da Via Alquímica com os seus três Princípios naturais – Enxofre, Mercúrio e Sal – a unificar as duas Forças Polares opostas (Ying-Yang) formando o Rebis, o Andrógino Alquímico como consumação da Núpcia Química (o já referido “casamento filosófico do Rei e da Rainha”) o que está representado no seu topo pela Esfera Armilar, símbolo de Hermes-Toth adoptado para Armas Manuelinas por ingerência do cabalista e conselheiro real Abraão Zacuto junto de D. Manuel I (século XV).

4.

O círculo, cuja hipótese já foi referida anteriormente, vinha a ser representação notável da Cosmologia Geocêntrica dominante na Maçonaria do século XVIII acabando por ser, talvez, uma resposta de repulsa contra o modelo Heliocêntrico adoptado pela Ciência encabeçada por Nicolau Copérnico, no século XVI. Além disso, o esquema que hoje está representado na calçada em redor do pelourinho, também faz lembrar um outro instrumento da ciência náutica marítima: a bússola! Reparemos que o número de divisões que existem no círculo é exactamente 32. Incluindo a escada octogonal cuja configuração geométrica vem a dar na Cruz Templária encimando o abacus ou báculo pastoral, e inclusive na Cruz da Ordem de Cristo, temos representadas as diferentes direcções da Rosa-dos-Ventos – os 4 pontos cardeais: Norte (0º do azimute cartográfico), Sul (180º), Este ou Leste (90º) e Oeste (270º); e também os chamados pontos colaterais: Nordeste (45º), Sudeste (135º), Noroeste (315º) e Sudoeste (225º); mais ainda os oito pontos chamados pontos subcolaterais: Nor-nordeste (22,5º), Lés-nordeste (67,5º), Lés-sudeste (112,5º), Su-sudeste (157,5º), Su-sudoeste (202,5º), Oés-sudoeste (247,5º), Oés-noroeste (292,5º) e Nor-noroeste (337,5º)). Por fim, a sombra do pelourinho funciona como a própria agulha da bússola que determinada hora do dia indica o Norte magnético, ou seja, a direcção para o Interior da Terra, para a AGHARTA.

A Esfera Armilar, na generalidade do conhecimento comum é tida como a representação do Mundo e alusão à Epopeia Marítima dos Descobrimentos, contudo, na Kaballah expressa a “Árvore Áurica da Vida” chamada Atziluth, e da perspectiva hermética é a representação exacta da unificação dos princípios opostos (Yin-Yang, Lua-Sol, Sal-Mercúrio, Kundalini-Fohat, etc.) que a Alquimia denomina de Rebis. Este assunto já foi analisado no meu estudo anterior, Opus Magnum Olisiponense, inclusive com a ilustração da imagem escultural da “Fonte bicéfala” manuelina existente no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, que mais uma vez reproduzo aqui.

Fonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, LisboaFonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Essa obra escultórica é talvez das mais reveladoras da Ciência Hermética perfilhada pelo rei D. Manuel I, tanto quanto a sua adopção da Esfera Armilar para signa pessoal e que se universalizou com o processo da Epopeia Marítima Portuguesa. No entanto, como é sabido e graças ao esforço anterior de D. Dinis (séculos XIII-XIV), os Descobrimentos Marítimos vieram a ser a continuação do grande Projecto Templário de a unificação do Ocidente com o Oriente, do qual a Ordem de Cristo deu seguimento com homens de rara craveira tanto em carácter como em cultura, perfilados no Panteão da Espiritualidade Lusa como distintos Iniciados nessa Ordem. Neste aspecto, a Esfera Armilar mostra-se representativa de um significado duplo: por um lado, o Mundo navegado pelos descobridores portugueses, a Epopeia Marítima, os Descobrimentos; por outro, a Unificação dos Opostos, Oriente-Ocidente, Rei-Rainha ou Enxofre-Mercúrio (na Alquimia ocidental), Yin-Yang (nos Trigramas chineses). Sendo assim, na reedificação do pelourinho da Praça do Município pelo arquitecto Eugénio dos Santos, houve o cuidado de conservar o aspecto hermético desse monumento manuelino, jóia preciosa do património arquitectónico português com a sua dupla interpretação exotérica (historiográfica) e esotérica (iniciática).

 

2. Fachada superior do Município

 

O edifício do Município de Lisboa foi inaugurado após o terramoto de 1755, com arquitectura idealizada pelo ilustre engenheiro Eugénio dos Santos de Carvalho mas que viria a ser dramaticamente destruída pelo incêndio de 1863. Eugénio dos Santos, verdadeiro génio da Arquitectura, foi convidado pelo Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, para integrar a equipa dirigida pelo engenheiro-mor do Reino, Manuel da Maia, para a reedificação da Lisboa destruída numa Nova Lisboa. Duramente criticado no seu tempo e admirado na actualidade, Eugénio dos Santos não resistiu à inveja e ataques constantes à sua obra pelos seus pares, e acabou por mergulhar numa depressão profunda que o acompanhou até à morte, ocorrida em 5 de Agosto de 1760 9.

O ano de 1865 seria o do começo da construção do novo edifício no mesmo local, estando sobre a direcção do arquitecto camarário Domingues Parente da Silva, responsável pela adição do remate da fachada do imóvel. Contudo, essa fachada havia já sido desenhada pelo magnífico escultor francês Anatole Célestin Calmels, responsável pelo trabalho realizado no Arco Triunfal da Rua Augusta, nos escultóricos da Glória coroando o Génio e o Valor. Seria através da decisão sábia do engenheiro Ressano Garcia, responsável pelos Serviços Técnicos da Câmara e arquitecto de inúmeras obras importantes na cidade, destacando-se a criação da linha férrea ligando Lisboa-Sintra, obra que planeou e seguiu de perto, que o remate da fachada do Município seria preservado no modelo desenhado por Calmels. A obra culminaria em 1880, mas não seria a última a ser realizada10.

Posteriormente, em 1996, o Município seria outra vez vítima de um incêndio destruindo toda a obra arquitectónica que fora reposta no século XIX. Desta vez, a responsabilidade da sua recuperação seria entregue ao arquitecto Silva Dias, indo recuperar-se os andares superiores com a preocupação permanente de conservar o diálogo entre o património histórico e o arquitectónico, havendo também intervenção artística nos moldes da arquitectura moderna. Para esse projecto foram convidados os arquitectos João de Almeida, Manuel Tainha, Nuno Teotónio Pereira, professor Daciano Costa e vários artistas plásticos com o intuito de intervirem ao nível do exterior; Eduardo Nery ficou encarregue do arranjo de superfície da praça e Jorge Vieira com o das esculturas. Todo o seu trabalho foi no sentido de manter as obras escultóricas anteriores do francês Calmels e do projecto arquitectónico de Domingos Parente da Silva11.

No que diz respeito a todo o significado da fachada do Município, um primeiro factor imediato prende-se obviamente com o sentido histórico da própria cidade de Lisboa, tal como com o próprio património histórico nacional. Contudo, não podemos esquecer que toda a arquitectura foi feita e recuperada com a finalidade de preservar o sentido da Lisboa reconstruída pós-1755, expressando assim o espírito do século XVIII. No entanto, esse século na História de Portugal também se caracterizou pelo espírito do Hermetismo, que se prolongou pela centúria seguinte e chegou às primeiras décadas do século XX. Com efeito, quando analisamos a Baixa Pombalina denotam-se em inúmeros elementos desta a presença do Hermetismo, sobretudo nos vectores da Cabala, Astrologia e Alquimia. A fachada do Município de Lisboa, segundo a minha interpretação, também não escapou a essa influência. Analisemos os factos.

De uma perspectiva mais imediata (até para os mais descrentes nestas matérias), a visão da fachada do Município pode ser vista como simples composição mitológica pretendendo outorgar determinados valores à Autarquia de Lisboa. Ao centro, as Armas da cidade acompanhadas, dos lados esquerdo e direito, das figuras alegóricas da Liberdade e do Amor à Pátria, respectivamente. As restantes figuras, expressam a Ciência, a Navegação, o Comércio, a Indústria e as Belas-Artes 12. No entanto, nesta análise horizontal e superficial vêm a ser discriminados elementos peculiares que alteram e bastante a análise superficial que se faça desta fachada. Há nela um abacus ou “bastão pastoral”, antigamente encimado pela Cruz dos Templários, do lado esquerdo, e do lado direito a figura de Hermes (o Mensageiro dos Deuses), acompanhado de três livros fechados e um pote, este também fechado e guardado por duas figuras míticas com uma inscrição particular: “ESCRUTÍNIO”. Façamos, então, a análise.

Iniciando no lado esquerdo da fachada superior, sobe a insígnia “DEUS e PÁTRIA” podemos verificar, através do símbolo da Cruz Templária como foi referida, a representação da Formação de Portugal; a construção da Identidade de Portugal através da alegoria do cavalo com a figura clássica em cima, e, por fim, a Expansão de Portugal como Império com a Esfera Armilar e o símbolo da Ordem de Cristo acompanhados de instrumentos de Náutica e parte do corpo de uma figura marinha (possivelmente um xarroco). A Formação do País e de Lisboa, pois, em grande parte foi graças à intervenção Templária como parte crucial na criação da sua Identidade, devido à derrota e expulsão dos mouros, e os que ficaram foram reduzidos às fronteiras das moiramas ou mourarias, espécies de guetos dentro das cidades, inclusive em Lisboa, e a Expansão deveu-se sobretudo à Navegação. Digamos que, deste lado da fachada, temos a História que caracterizou Portugal como País e Potência no Mundo, no fundo, a História conhecida dos Portugueses, a História Exotérica.

Do lado direito da fachada, temos o Portugal Esotérico, Oculto, Hermético retratado principalmente pela figura mitológica grega de Hermes com o seu caduceu (não deixa de ser interessante este símbolo repetir-se inúmeras vezes ao longo de toda a Lisboa…), acompanhado de três livros fechados (conhecimento esotérico), induzindo-nos ser a figura mítica de Hermes Trimesgisto, o “Três Vezes Grande”. Além disso, ele apresenta-se unido à deusa Atenas com o malho ou martelo (figurando o Trabalho ou Indústria), cruzando-se assim o Trabalho com o Hermetismo, ou seja, o Trabalho Hermético na prossecução daquele que os primitivos Monges Construtores realizavam na construção canónica dos templos medievais como verdadeiras operações alquímicas 13 e que mais tarde, perdendo-se o conhecimento operático, verteu-se no objectivo psicossocial da Maçonaria Especulativa: a lapidação da pedra bruta (Personalidade) em pedra cúbica pontiaguda (Individualidade). O mesmo para os Alquimistas, no seu trabalho exterior (matéria, metais) em conjunto e sincronismo com o trabalho interior (espiritual), com o supremo objectivo de obterem a Pedra Filosofal, derivada da verdadeira transmutação da matéria bruta ou imperfeita (corpo físico, consciência profana) em ouro espiritual (corpo iluminado, consciência iniciática), no fundo, sendo a transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência, o que se congrega harmoniosamente com a regra beneditina: Ora et Labora.

Temos ainda as figuras mitológicas que dizem respeito à Agricultura e às Belas-Artes, que acabam por completar todo o trabalho hermético a que se propôs o verdadeiro Adepto, reflectindo-se numa verdadeira Agricultura Hermética 14 da qual o indivíduo realiza a colheita dos frutos que plantou, expressando-a pela cultura artística das Belas-Artes. Neste aspecto, nunca é demais referir o Pensamento Hermético que caracterizou um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, Fernando Pessoa.

O pote fechado guardado por duas figuras mitológicas com a palavra “ESCRUTÍNIO” inscrita nele, também se enquadra na feição esotérica desta fachada, pois retrata exactamente o labor necessário para aceder ao lado oculto do Conhecimento, ou seja, através de um escrutínio de eleição da Consciência Espiritual (exame feito criteriosamente e sem falsidades perante si mesma pela Consciência Humana).

Todo esse dualismo (exotérico e esotérico, desvelado e velado) é comprovado simbolicamente pelas duas figuras clássicas (já referidas como o Amor à Pátria e a Liberdade) junto ao Brasão da cidade, acabando por constituir, através da figura masculina desnuda, a História exotérica ou desvelada de Portugal e de Lisboa, enquanto a feminina, vestida ou coberta, expressa a História esotérica ou velada do País e desta sua Capital.

Dessa forma esses dois princípios opostos caracterizam perfeitamente o espírito e a tradição da Alquimia, ou seja, uma parte desvelada, histórica, e outra parte velada, operativa, juntas caracterizando o Corpus Hermeticum de Lisboa. Essas duas figuras clássicas, masculina e feminina, igualmente representam, à luz da prática alquímica, os princípios antagónicos, opostos ou contrários onde o Homem representa o Enxofre, o Princípio Activo, Fixo, Masculino, Solar, e a Mulher o Mercúrio, o Princípio Passivo, Volátil, Feminino e Lunar.

6.

Com tudo isso, perspectivo esta fachada da Autarquia de Lisboa como resumo de tudo aquilo que caracteriza a Lisboa esotérica, construída pós-terramoto 1755 pelo conjunto de mentes iluminadas na Geometria e Arquitectura cabalísticas que o Marquês de Pombal reuniu para este seu projecto já chamado Lisboa Pombalina. A cidade foi reconstruída sob o modelo do mundus, assim se estabelecendo a Lisboa quadrada tendo por centro ou omphalo o Rossio, onde está a estátua de D. Pedro IV, imperador da Nova Lusitânia, o Brasil, e que é o ponto de partida de expansão da cidade nas 4 direcções (assinaladas pelas estátuas da Prudência, Temperança, Força e Justiça na base do mesmo padrão monumental de D. Pedro IV que está no topo).

No entanto, Lisboa também foi reconstruída com a intenção velada, já vinda de D. João V, o Rei-Sol que recebeu o titulo de Fidelíssimo pelo seu contributo na fundação do Patriarcado de Lisboa mas que mais tarde lhe foi retirado, de tornar esta cidade o centro axial da Nova Jerusalém Terrestre erguida sobre dois Pólos ou duas Dioceses, uma Ocidental e outra Oriental (esta segunda subordinada à primeira, assim a projectando num Novo Ciclo, o do EX OCCIDENS LUX!), triangulando com a cúspide assinalada no Convento de Mafra, o Templo Lusitano vocacionado ao Tempo do V Império, assim mesmo expressando a Jerusalém Celeste.

Após o terramoto de 1755, a equipa de arquitectos liderada pelo húngaro Carlos Mardel estabeleceu a arquitectura de Lisboa nas linhas arquitectónicas da antiga Roma (que no período cristão tentou igualar-se à antiga Jerusalém), estabelecendo não 12 portas como esta tem e sim 12 bairros, e sacralizada por 7 colinas semelhantes às que Jerusalém apresenta. O Rossio é, pois, o ponto de partida da expansão pombalina e missão parúsica a que a cidade se propõe, com o seu centro ilustrado com a supradita estátua-padrão preenchida pelas 5 estátuas que também são, simbolicamente falando, figurações dos 4+1 Elementos subtis da Natureza [(Terra, Água, Fogo, Ar)+ÉTER]15.

Quando olhamos para as 3 estrelas que se encontram acima das três cabeças (figurativas de Hermes Trimesgisto, o “três vezes Grande”), o resultado é imediato à presença do Hermetismo na cartografia de Lisboa, partindo do cálculo matemático da multiplicação de oito por três resultar vinte e quatro. Na perspectiva imediata, essa soma normal obviamente nada de transcendente indicará ao leitor comum, contudo, indica tudo que constituiu a coluna dorsal da Lisboa Sagrada, justificando o seu Corpus Hermeticum da seguinte forma:

7 Colinas + 12 Bairros + 5 Elementos = 24.

A lenda e o mito desta cidade ganham vida ao expressarem Lisboa como a “Terra da Deusa-Serpente”, Ofiússa, que Ulisses aqui encontrara e se apaixonara quando desembarcou aqui, ficando o povoado com o seu nome para sempre: Olisipo, Ulyssipona, Ulissebona, Lixbona, Lisabona, Lisboa. Também a decomposição de Lisboa em Lis+Boa ou Boa Lis, leva à interpretação esotérica da Flor-de-Lis como símbolo da Boa Lei, da Lei Suprema ou Pensamento Divino como Consciência Universal, plenamente desperta no Iniciado humano como parte integrante da Realeza Divina, pelo que essa flor símbolo da cidade está correlacionada ao significado da própria serpente: Iniciação e Conhecimento, os únicos elementos capazes de concorrer para a verdadeira Iluminação Interior do individuo ou indivíduos, que assim e aqui passam a constituir a expressão fidedigna da Consciência Universal em Lisboa, Capital do Quinto Império16.

A visão micro-macrocósmica de Lisboa-Individuo está estabelecida nisso, e tal como o indivíduo apresenta na sua anatomia 24 vértebras expressas numa forma serpenteada (duas cifoses e duas lordoses), também a própria serpente ou “Deusa-Serpente” Ofiússa (simbólica de Kundalini, a Energia Serpentina provinda do Seio da Terra, do “Laboratório do Espírito Santo” ou Shamballah) é corpo, ou melhor, coluna de Lisboa caracterizada pelo número 24, estabelecendo-se a seguinte correspondência:

8.

Finalmente, tal como o centro ou omphalo onde a cidade se inicia e expande é definido por 5 estátuas, também a coluna vertical humana tem por base as 5 vértebras da zona lombar (L1 a L5), onde se inicia a ascensão da “Serpente” Kundalini ao longo de toda a coluna passando pelas 12 vértebras dorsais (12 bairros) e 7 vértebras cervicais (7 colinas) chegando finalmente ao cérebro, Iluminando-o, conferindo-lhe a Consciência Universal (Flor-de-Lis) que caracteriza a própria Lis Boa (Lisboa). É todo este trabalho que está esotericamente expresso nas Ruas da Baixa Pombalina, nomeadamente as Ruas do Ouro e da Prata tendo entre elas a Rua Augusta, compondo assim o símbolo do caduceu, estabelecendo-se a árvore gnoseológica da Baixa Pombalina da seguinte maneira 17:

Rua Augusta = Andrógina (conduto central, SUSHUMNA, da Energia Vital ou PRANA. Sistema nervoso cérebro-espinhal, neutro ou andrógino). Hierarquia: ASSURAS (Arqueus). Planeta: Mercúrio em Saturno (Terra).

Rua do Ouro = Masculina (conduto lateral direito, PINGALA, da Energia Eléctrica ou FOHAT). Hierarquia: AGNISVATTAS (Arcanjos). Planeta: Sol.

Rua da Prata = Feminina (conduto lateral esquerdo, IDA, da Energia Electromagnética ou KUNDALINI). Hierarquia: BARISHADS (Anjos). Planeta: Lua.

Rua do Crucifixo = Expressa o cordão do sistema nervoso simpático, activo, a ver com a Rua do Ouro, ou seja, o conduto que reveste PINGALA, VAJRINI. Princípio Masculino. Hierarquia: JIVAS (Homens comuns). Planeta: Marte.

Rua da Madalena = Expressa o cordão do sistema nervoso vegetativo, passivo, a ver com a Rua da Prata, ou seja, o conduto que reveste IDA, CHITRINI. Princípio Feminino. Hierarquia: JIVATMÃS (Homens Perfeitos). Planeta: Vénus.

 

Conclusão

 

Posto assim, depreende-se que realmente o espírito que assiste a toda a fachada do Município, tal como ao pelourinho na praça defronte, reflecte a Tradição Hermética que sempre existiu desde a mais tenra idade de Portugal e desta sua capital, e a qual se manifestou com grande intensidade nos séculos XVI, XVII e finalmente XVIII, aquando a edificação da Nova Lisboa teve lugar após o terramoto de 1755. Poderemos afirmar que todo este espaço acaba por caracterizar em síntese tudo aquilo que Lisboa representa, uma Lisboa conhecida e exotérica, e também uma Lisboa desconhecida e esotérica, iniciática reservada apenas a alguns.

Será a partir deste ponto que toda a Lisboa, desde o Terreiro do Paço até à Rotunda do Marquês de Pombal, se expressa como uma verdadeira Cidade Hermética com os seus segredos e mistérios dispostos estrategicamente nos mais diversos locais, geralmente passando desapercebidos ao lisboeta comum que percorre todo o seu corpo de uma forma dessacralizada e stressada. Cabe a cada um de nós percorrer com outra consciência, emoção e atitude, a capital que é não só centro do desenvolvimento económico e social do País, mas também e sobretudo centro singular e plural do desenvolvimento espiritual interior do indivíduo, do verdadeiro Filho de Lis Boa, sim, do Adepto da Boa Lis como Partícula Viva da Consciência Universal.

 

NOTAS

 

1) Teixeira Félix da Costa, Os pelourinhos: estudo histórico. Elvas, 1926.

2) Luís Chaves, Pelourinhos do ultramar português. Lisboa, Ag. Geral das Colónias, 1948.

3) Luís Chaves, Os pelourinhos portugueses. Gaia, Apolino, 1930.

4) Nuno Catarino Cardoso, Pelourinhos demolidos. Lisboa, N.C.C., 1935.

5) Robert Batty, Lisboa – a Praça do Pelourinho. Visual gráfico, S.1., s.n., 1963.

6) Ian Shaw e Robert Jameson, A Dictionary of Archaeology. Blackwell Publishers, 2002.

7) Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário. Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2007.

oito) J. E. Cirlot, A Dictionary of Symbols. Routledge, London, 2001.

9) Maria Oliveira, Morgado Ferrão de Leonor, Eugénio dos Santos e Carvalho: arquitecto e engenheiro militar, 1711-1760: cultura e prática de arquitectura. Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, inst. acad. Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.

10) Dados obtidos no site do Município: http://www.cm-lisboa.pt

11) Dados obtidos no site do Município: http://www.cm-lisboa.pt

12) Laborde Ferreira e V. M. Lopes Vieira. Estatuária de Lisboa, pág. 224. Ed. Língua Portuguesa, 1985.

13) Fulcanelli, Le Mystère des Cathedrales. Ed. Jean-Jacques Pauvert, Paris, 1964.

14) Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário. Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2007.

15) Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta. Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2007.

16) Vitor Manuel Adrião, ob. cit.

17) Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita (no prelo). Edições Jonglez, Paris.

 

Créditos fotográficos: Autor e Arquivo da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

 

 

 

Opus Magnum Olisiponense – Hugo M. D. Martins Domingo, Jul 12 2009 

0. Capa_OpusMagnumOlisiponense

“Primeiro combinamos, em seguida decompomos, dissolvemos o decomposto, depuramos o dividido, juntamos o purificado e solidificamo-lo. Deste modo, o homem e a mulher transformam-se num só.”

Büchlein vom Stein des Weisen, 1778

 

Lisboa! Quando falamos desta cidade é difícil encontrar argumentos que definam a sua beleza e grandiosidade, pois são simplesmente as suas imagens que nos invadem o mais profundo e intimo do ser e compadecem harmoniosamente com a sensação de que a ela pertencemos.

No que toca às suas raízes fundadoras, ela apresenta uma tradição que passou ao longo dos séculos e contribuiu para o que é hoje. Desde o Paleolítico Inferior até ao Superior, aos Ligures, Celtas, Lusitanos, Romanos, Suevos, Alanos, Visigóticos, Judeus, Árabes, Moçárabes e Cristãos até aos dias de hoje, Lisboa sempre foi local desejado e de culto. Já Fernando Pessoa dizia: “O mito é o nada que é tudo”, e por detrás de cada mito existe sempre uma certa verdade velada ou oculta que mobiliza o motor psicossocial. Lisboa é exemplo disso mesmo, no que toca à mitologia da sua fundação. De acordo com ela, teria sido fundada pelo Chefe dos Argonautas gregos, Ulisses, que aqui se apaixonara pela belíssima Rainha Ofiússa, a Deusa-Serpente. Toda a história mitológica de Ulisses (Sol) e Ulissipa ou Ofiússa (Lua) caracterizam a fundação mítica da cidade nesse período dos semi-deuses Gregos, originando o nome Olisipo (aproveitando o termo celta já existente, Olisipon, “lugar de cavalos”, justificativa filológica até hoje prevalecendo graças ao valor célebre do cavalo lusitano). Posteriormente os Romanos, sabendo da história da fundação mítica da cidade e aproveitando o termo ligure lyx (vocábulo referente às águas do Tejo) para o converter em lux (“água santa”, que na altura deveria ser as das diversas nascentes, possuídas de propriedades minerais óptimas para a saúde, dispersas pela Lisboa ribeirinha), e igualmente pegando no derivado da palavra Olisipo que seria Olisipona, transformariam esta em Ulyssipona, e daí em Ulyssibona. Depois seriam os Árabes a ainda aproveitar o termo lyx sob a forma lix, transformando o nome em Lixbona (“águas boas”) que mais tarde, após a Reconquista cristã, se tornaria na que hoje conhecemos: Lisboa.

Quando estudamos a origem dos etimólogos que foram se articulando até ao formato actual, como o de Lisboa, somos levados de um “nada que é tudo” a uma verdade que acolhe os princípios ocultos desta cidade. O termo celta Olisipon designá-la-ia como “lugar de cavalos”, mas sendo que “cavalo” igualmente encontra a derivação filológica seguinte: Cavalo, Caballo, Cabala, esta como Tradição Iniciática, tal qual se encontra na história simbólica de Ulisses e a Deusa-Serpente ou Telúrica Ofiússa, a qual vai de encontro, mais uma vez, à mesma verdade, pois a serpente simbolicamente significa Tradição, Iniciação e Imortalidade. Em relação ao formato actual do étimo Lisboa, decompondo a palavra em Lis+Boa revelamos o mesmo, pois Lis é a Flor-de-Lis, símbolo da Boa Lei e do Governo Espiritual do Mundo chefiado pelo seu Rei ou Imperador Universal, Melki-Tsedek, igualmente simbólica da cidade reservando nas suas hastes os sentidos de Soberania, Mistério e Iniciação.

Após o terramoto de 1755, Lisboa foi reerguida pela genialidade e “iluminação” do ministro real Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal. Nesse enorme e importantíssimo feito o Marquês de Pombal, rodeado por uma corte de maçons operáticos e cabalistas sábios, teve como arquitecto principal o húngaro Carlos Mardel. Dispostos a fazer desta Lisboa despedaçada pela “Ira Divina” uma nova Elisipólis (segundo o outro mito bíblico, não grego, da fundação de Lisboa), o seu esquisso baseado na Arquitectura Sagrada veio a ser a confirmação disso mesmo. Com as suas inovações de ruas amplas e praças largas, constitui-se assim a Baixa Pombalina, entre o Terreiro do Paço e o Rossio. Todo este novo imóvel trabalhado e fixado para a eternidade, centralizou-se no na Praça do Rossio assente no modelo arquitectónico romano designado Mundus, o qual define a Cidade Eleita como o Centro de Ordenação do Mundo, ou seja, quis-se nisto que Lisboa seria o próprio Centro do Mundo, em conformidade com o pensamento sagrado da Cosmologia tradicional.

Toda essa sabedoria e esclarecimento de Carlos Mardel foram adaptados à Tradição Espiritual Portuguesa por via da sua ligação à ilustre Casa dos 24, inaugurada por D. João I como reguladora dos mesteres ou diferentes ofícios na cidade, dentre eles os dos arquitectos e pedreiros, neste caso, Maçonaria Operativa, os quais se reuniam na igreja de S. José dos Carpinteiros. Igualmente desempenhou cargo de relevo na primeira Obediência Maçónica Portuguesa, a Casa Real dos Maçons da Lusitânia.

Tendo a Maçonaria como função psicossocial a operação da regeneração mental e moral do Homem levando-o a lapidar a sua pedra bruta (personalidade) numa pedra cúbica pontiaguda (Individualidade), de forma a tornar o colectivo uma Sociedade Humana mais Justa e Perfeita, a sua denominação genérica estabeleceu-se como Arte Real. No entanto, esse termo não é especifico e particular da Maçonaria, pois há uma outra doutrina muito mais antiga (na qual a Maçonaria Especulativa bebeu muitíssimo no seu início, século XVIII) que é também e por excelência Arte Real, a Alquimia. Ora partindo do Terreiro do Paço, passando pela Rua Augusta até chegar ao Rossio, observa-se a existência de figuras, elementos e símbolos arquitectónicos oriundos da Tradição Hermética de quem a Alquimia é o seu corpo, ou seja, o Corpus Hermeticum.

 

O que é a Alquimia?

 

Quando se fala em Alquimia, miserável e instantaneamente associa-se a fantasia, a superstição, a feitiçaria…Algumas mentes, ainda assim um pouco mais informadas, lá vão dizendo, pobremente, que ela foi a “mãe da Química”, enquanto outros simplesmente dizem, sem nada dizer, tratar-se de uma “ciência hermética e oculta”. Mesmo não deixando de ser verdade, tenho a dizer que essas são definições bastante redutoras e medíocres, pois a Alquimia é muito mais do que uma simples “ciência oculta”, “mãe da Química” e muito menos uma “fantasia” ou uma “ciência de charlatães e vigaristas”. Para ela apresento uma definição que, na minha opinião, expressa muito bem aquilo que é a Alquimia e ao que ela se propõe, do autor Michael Noize:
 

Conjunto de doutrinas e práticas baseado na teoria das correspondências, das acções recíprocas, numa concepção unitária da matéria e na ideia de os metais se encontrarem em gestação na mina e nascerem enfermos. Conjunto enriquecido com ideias neo-platónicas e neo-aristotélicas, cuja aplicação deveria permitir a perfeição do manipulador e do seu material, graças a uma determinada operação místico-química. Tal operação consiste em, recorrendo-se a um processo natural, levar uma matéria, mantida secreta, ao estádio de perfeição, extensiva a todo o reino metálico. Por outro lado, tal operação deverá permitir a obtenção de determinados produtos que se administrarão como panaceia. Uma aura impenetrável de mistério paira sobre este conjunto, que deverá conferir ao Adepto a segurança material, a cura dos males físicos e a iluminação, tanto espiritual como intelectual.

Alquimia, para o público comum, também é sinónima de Pedra Filosofal, o Lapis Philosophorum, que supostamente permitirá ao Alquimista obter de uma “derivação” dela, a Panaceia Universal ou Medicina Universal e o Pó de Projecção, de forma a realizar a transmutação dos metais em ouro. Hoje, a Alquimia continua sendo vítima da ignorância da informação, antes, da desinformação, a qual simplesmente apercebe o seu limiar mais superficial. Na sociedade materialista, consumista e facilitista dos dias de hoje, também não me surpreende que surjam autores e livros a afirmar que “descobriram a Pedra Filosofal” e que o “mistério dos Tempos foi encontrado”, como se fosse possível um Adepto Real fazer propaganda profana da sua grandeza espiritual, e como se isso fosse o mais interessante que há na Alquimia. Como o respeitável leitor acabou de verificar na definição dada acima, a Pedra Filosofal é o resultado final da Grande Obra, ou Opus Magnum, que corresponde à Iluminação Espiritual do Adepto, por seus próprios esforços e méritos após sacrifícios imensos num permanente ora et labora, indo torná-lo um Ser discreto e sigiloso, apartado de toda a poluição psicomental, absolutamente ao contrário aos espaventos, com mais ou menos carisma e mais ou menos espectáculo próprio para alimentar emoções fortes de mentes fracas, correndo na “praça pública”.

 

Breve História da Alquimia e Alquimia em Portugal

 

As origens da Alquimia, segundo os investigadores desta temática, parecem advir do Antigo Egipto. No entanto, os factos até à actualidade apontam o seu início apenas no Oriente, mais especificamente na China. Para além do seu lado Operativo, a Alquimia Especulativa Chinesa (século VI), tendo tido nomes importantes como Lao Tsé e Ko Hung, foi absorvida posteriormente pelo Taoismo (século XIII), a Filosofia Hindu e a Hatha-Yoga. No Mundo Árabe, ela foi influenciada através da Escola de Alexandria que integrou nomes importantíssimos como Geber (que estabeleceu o princípio do Enxofre-Mercúrio), Razes (estabelecedor do princípio trinitário do Enxofre-Mercúrio-Sal) e Avicena (que associou Alquimia e Medicina). Com o contacto do Ocidente cristão com o Oriente islâmico nos séculos XII e XIII, a Alquimia seria profundamente influenciada por ambas as correntes religiosas, e foi assim que exerceu a sua influência espiritual em toda a Europa ao longo de vários séculos. O alemão Alberto Magno (Alquimia Laboratorial ou Operativa e Discursiva ou Especulativa) e o seu discípulo Tomás de Aquino (Alquimia não Operativa), o inglês Roger Bacon (perseguido pela Igreja, pontificando o Papa Urbano IV), os espanhóis Arnaldo de Vilanova (valenciano, que também foi perseguido pelo Clero) e o seu iniciador e amigo Raimundo Lúlio (maiorquino), assim o famoso francês Nicholas Flamel, são alguns nomes célebres de Adeptos Herméticos ou Filósofos do Fogo (Philosophum per Ignium). Já durante a Europa dos fins da Idade Média, Renascença e Modernidade tivemos o grande Adepto suíço Philippus Theophrastus Bombast, ou seja, Paracelso (Alquimia e Medicina, antes, Taumaturgia, tal como Avicena), os alemães Bernard Trevisan e Basílio Valentim, de Bruxelas (Bélgica), Van Helmont (século XVII, seguidor de Paracelso). Nos séculos XVII e XVIII, Ireneu Filaleto (Adepto Thomas Vaughan), Alexandre Sethon (também conhecido por Cosmopolita) e Lascaris. No século XVIII a Alquimia passa por um período negro de má reputação devido às controvérsias geradas pelos racionalistas e enciclopedistas franceses, questionando tudo e todos, contudo, Ordens Iniciáticas como a Rosa+Cruz e a Maçonaria, apesar de toda a controvérsia especulativa como “fermento” das posteriores condições de materialismo e ateísmo, não deixaram de aplicar com magnificência e êxito os segredos da Arte Real, surgindo, ligadas a elas, figuras ilustríssimas como os misteriosos Condes de Cagliostro e Saint Germain (ou São Germano). No século XIX tivemos Cyliani e D`Espagnet, e já no século XX o misterioso e popular Fulcanelli, pseudónimo dum Alquimista francês muito conhecido, como também o francês Armand Barbault (de quem alguns afirmam que praticava mais a Espagíria, “ciência dos elixires”, do que a Alquimia, “ciência dos metais”).
 

Relativamente a Portugal, já é sabido que a Tradição Alquímica também teve os seus dias de glória e os seus Alquimistas para serem celebrados no Panteão da Honra. Existem indícios de ter havido prática alquimista no Convento de Cristo, em Tomar (contudo, ao que tudo indica, mais que à Crisopeia e Argiopeia, “fábricas do Ouro e da Prata filosofais”, dedicar-se-iam à Espagíria, à concepção de medicamentos para ajudar os mais necessitados, tal qual acontecia no Convento dos Capuchos, em Sintra), como igualmente no Mosteiro de Odivelas, de acordo com o testemunho de D. Feliciana de Milão (1642-1705), que aí redigiu o seu Discurso sobre a Pedra Filosofal, e também no Convento do Carmo, Lisboa, onde está um túmulo em cuja ilustração se vê um Alquimista rodeado dos instrumentos da Arte. Também se sabe que este pequeno país discretamente plantado à beira-mar no Extremo Ocidente da Europa, foi ponto obrigatório de visita e partilha de conhecimentos da Arte Real por grandes nomes da Alquimia, como Raimundo Lúlio e Arnaldo Vilanova, facto relatado pelos próprios, e também o grande e excelso Paracelso, segundo o autor Amorim da Costa, teria passado por terras lusas, estado em Lisboa, e partilhado conhecimentos alquímicos com Iniciados nesta Arte.

Túmulo com alegoria alquímica no Convento do Carmo, Lisboa

Túmulo com alegoria alquímica no Convento do Carmo, Lisboa
Relativamente aos Alquimistas portugueses, são conhecidos vários desde o século XIII, como Pedro Hispano (o único Papa português, denominado João XXI) que teve contacto com o Mestre Alberto Magno e o seu discípulo Tomás de Aquino, deixando um único tratado alquímico sobre as águas: Tractatus Mirabilis Aquarum. No século XV, o nosso “Rei Alquimista” D. Afonso V, da Dinastia de Avis e cognominado o Africano, deixou para a História o seu tratado sobre a feitura da Pedra Filosofal dividido em duas partes: Lapis Philosophorum e Divisão dos Quatro Elementos, que posteriormente foi furtado do gabinete do monarca e andou transviado em edições de “cordel” por terras inglesas e espanholas, até que cerca de 1980 Vitor Manuel Adrião recuperou-o para Portugal. Em 1557 o Padre António de Gouveia, o “Padre do Oiro”, natural dos Açores, que viajara a maior parte da sua vida pela Europa afora, foi acusado pela Inquisição de que sabya fazer outras cousas grandes como era a lapis filososuforu, a Pedra Filosofal, e inclusive ofereceu-se no Palácio de D. Isabel de Albuquerque para transmutar a prata em ouro; Frei Vicente Nogueira, que apresentava uma biblioteca com várias obras influentes de Alquimia, que a Inquisição mandou queimar. No século XVII, Pedro Nunes, que foi testamentário do famoso Alquimista inglês John Dee; Duarte Madeira Arrais e o seu livro Novae Philosophiae. No século XVIII, Raphael Bluteau, justamente consignado o “Hermes Lusitano”, nascido em Inglaterra de pais franceses e terminando a vida em Portugal, foi protegido pela rainha Dona Maria Francisca de Sabóia, esposa do rei Afonso VI de Portugal, e depois por D. Pedro II de Portugal e ajudado por D. João V para que as suas obras fossem todas impressas; outra figura de enorme relevo na Alquimia portuguesa, foi o médico e familiar do Santo Oficio, Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, com a sua famosa obra Ennoea ou Applicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal; temos ainda um autor desconhecido de 1724, que publicou um livro só com imagens alquímicas e sem comentários, portanto, um liber mutus intitulado Veritas Hermetica Veritatem Qvaerenti, documento que pertenceu à biblioteca do rei D. Carlos; e o próprio Bartolomeu Gusmão, pressuposto o primeiro aviador do mundo com a sua “passarola” no século XVIII, também foi suspeito de práticas alquímicas, contudo, não há provas concretas. Ainda no século XVIII, pelas razões já indicadas atrás, sabe-se que a Arte Real foi descredibilizada e, com isso, muitos Alquimistas da altura remeteram-se ao sigilo total, facto relatado por Francisco de Castro na sua Ronda de Lisboa. No século XIX, é também sabido pela difusão pública feita em primeira mão por Vitor Manuel Adrião desde 1985, que o ilustre e iluminado luso-brasileiro, António Augusto Carvalho Monteiro, criador do maior dos patrimónios esotéricos de cariz nacional em Portugal, a Quinta da Regaleira, também conhecida como a “Mansão Filosofal de Sintra”, igualmente se dedicou à Alquimia.
 
 

O Arco do Triunfo e a Iniciação Hermética

 
Voltando novamente à cidade de Lisboa, a Rua Augusta, antes de ser percorrida a partir do Terreiro do Paço, é precedida pelo seu Arco Triunfal. A obra foi concebida pelos arquitectos do tempo do Marquês de Pombal, posta a concurso apenas em 1843, no Governo de Costa Cabral, executada em 1862, e só em 1873 se lhe encontrou um remate, com o projecto de Veríssimo José da Costa e a intervenção de Vítor Bastos e do francês A. C. Camels. Este Arco sustenta a coroação dos Deuses Minerva e Apolo (que tem abaixo uma estatueta representando Ulisses, como referência à fundação mitológica da cidade) pela Lusitânia Triunfante, Gloriosa como Laurenta, sendo aqui expressão da Grande Mãe Universal, obra do francês Camels; baixo, nos lados, estão 4 estátuas de figuras emblemáticas da História de Portugal, obra de Vítor Bastos, sendo elas (da esquerda para a direita): Viriato, Vasco da Gama, Marquês de Pombal e Nuno Álvares Pereira, tendo a ladeá-las outras duas representando os Deuses do Génio e Valor (alegorias aos rios Tejo e a Douro, representando assim a união do Norte e Sul do País como um todo indissociável). Segundo o autor Vitor Manuel Adrião, o Arco da Rua Augusta tem um profundo significado esotérico, por ser como o Umbral dos Mistérios, a Passagem das trevas para a Luz, da morte para a Imortalidade que a Sabedoria das Idades concede. O facto é que toda a cidade (como Jerusalém e Roma) assente em sete colinas, sagradas para os locais, possui um Arco do Triunfo ou da Salvação.
 
Visto por esta perspectiva gnoseológica, não poderia estar mais de acordo, pois se toda a Rua Augusta expressa o Magistério da Opus Magnum, logo, o carácter iniciático é implícito nela mesma, e, tal como Mircea Eliade defendeu, a Alquimia não deixa de ser uma Iniciação, inclusive no decifrar da sua mensagem críptica após apreender a sua misteriosa linguagem, prefigurada “Fala dos Pássaros” (Anjos), a qual não permite a qualquer indivíduo despreparado física e psicomentalmente aceder indiscriminadamente aos segredos operáticos da Arte Real, reservados apenas àqueles Iniciados na Matéria, na “Fala”, na Filosofia em si mesma. Além disso, sendo esta uma Ciência tendo uma perspectiva unitária da Matéria, ao trabalhar sobre os metais o Alquimista está a trabalhar sobre si mesmo, permitindo-lhe aceder a um conjunto de experiências espirituais que possibilitem a sua transformação interior e alcançar a Perfeição não só física mas sobretudo espiritual. Visto assim, o Arco da Rua Augusta assume a função de athanor ou “forno” alquímico no qual a personalidade ou Neófito funciona como a “matéria” que é introduzida, perpassada nele para ser trabalhada. Ora esta, exposta de forma muito simples, é o objectivo principal de toda a INICIAÇÃO: A TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL DO SER HUMANO, ou por outra, A TRANSFORMAÇÃO DA VIDA-ENERGIA EM VIDA-CONSCIÊNCIA!
 

De que provas é que me sustento para afirmar tal coisa? Bem ainda de acordo com o autor Vitor Manuel Adrião, o Terreiro do Paço, através do traçado de linhas fixas indo até determinados pontos geográficos, configura dois objectos: o Compasso e o Esquadro, que entrelaçados tornam-se o símbolo da Maçonaria Simbólica, mas que também configuram o Hexalfa, Hexagrama ou Selo de Salomão, localizando-se dentro e ao centro do mesmo a estátua equestre de D. José I (da autoria de Machado de Castro e fundida por Bartolomeu da Costa, no dia do aniversário do rei, 6 de Junho de 1775). Este último, para o mesmo autor, por ser muito devoto de S. Jorge (Akdorge), quis ser retratado de forma a personificar o santo, o “vencedor da Tarasca”, o “matador de dragões” (representados nas serpentes calcadas pelas patas do cavalo no monumento, ademais os dragões também são serpentes aladas), o Vigilante Silencioso da Pátria Lusitana, assim mesmo assegurando a marcha precessional do Sol (Ulisses) do Oriente ao Ocidente (figurados no pedestal da estátua, respectivamente, no Elefante, ou Fama, e no Cavalo, ou Triunfo), no justo exercício de Rei do Mundo ou Imperador Universal (Melkitsedek ou Ckakravarti).

Os pontos a que nos referimos para a formação das linhas do Compasso e o Esquadro, estabelecem-se com as duas Praças, Figueira e Rossio, ligadas ao Terreiro do Paço pelas Ruas do Ouro e da Prata indo unir-se no Cais das Colunas (da autoria de Eugénio dos Santos, sob o nome Cais das Colunas Tágides, desconhecendo-se a data exacta da sua construção), à beira Rio Tejo, surgindo disso um Esquadro ou Triângulo invertido (expressivo do Mundo Terrestre, do Terceiro Logos, dos Manasa-Putras ou “Anjos do Seio da Terra”). O formato do Compasso ou Triângulo Equilátero (expressivo do Mundo Celeste, do Segundo Logos, dos Matra-Devas ou “Anjos do Seio do Céu”), é marcado pela união dos torreões, poente e nascente do Terreiro do Paço ou Praça do Comércio, com o próprio eixo do Arco da Rua Augusta.

A  noção de Rei do Mundo ou Rei-Sol (cognome também dado a D. João V, idealista do Quinto Império e que dividiu Lisboa em Oriental e Ocidental, dando-lhe carácter andrógino) também compadece com o significado que o Selo de Salomão representa na linguagem hermetista. Assim, desvelando o Selo de Salomão na sua simbologia, temos:

Os 4 Elementos

1. Quatro Elementos

A União dos Opostos

3. Planetas e os Metais

Os Planetas e os Metais

3. Planetas e os Metais

Sendo o Hexalfa representativo da relação entre os metais e os planetas, o próprio centro do símbolo expressa o Sol-Ouro manifestando o intuito supremo da Alquimia: a transformação do imperfeito, do que se encontra na periferia, na Perfeição Única, ou seja, a redução do múltiplo a Um. Este aspecto está em conformidade com o significado do que representa São Jorge ou Akdorge, o Rei do Mundo ou Rei-Sol, o unificador dos extremos Oriente-Ocidente num só ponto: a “Lisboa Andrógina”.

O facto dos elementos da Natureza serem representativos do Selo de Salomão, quando analisamos a geografia do local não deixa de nos surpreender que o elemento Água encontre-se exactamente sobre o Tejo, no Cais das Colunas. Logo, se o oposto dessa é o Fogo, o local no Terreiro do Paço onde este se localizará é precisamente o Arco da Rua Augusta. Ora, este facto está totalmente de acordo com a perspectiva de Iniciação do Arco, explicada anteriormente, pois é através do Fogo (neste caso Externo, que irá despoletar o Fogo Interno, o Fogo Purificador ou Transformador do indivíduo) que todo o Magistério se realiza. No fundo, é através do Fogo que toda a Obra se inicia e acaba, é através dele que todo o processo iniciático se desenrola. Além disso, o Selo de Salomão para a Alquimia e a Teosofia é corrente o seu uso sob a forma de “Estrela Sinete” (Sri Yantra), funcionando como uma Estrela ou Força celestial que ilumina os homens sábios e lhes indica o caminho, como aos Reis Magos no Oriente (G. Gichtel, Teósofo seguidor de Jakob Böhme e que editou os trabalhos deste último em 1682-83).

 

O Magistério da Rua Augusta

 

Ao continuarmos ao longo da Rua Augusta, atravessando as suas transversais, deparamo-nos com a figura fixa numa esquina “vivendo” desapercebida ao olhar do imenso número de pessoas que ali passa todos os dias com os mais diferentes propósitos. A figura é uma águia, magistralmente de asas abertas e com as suas garras pousadas nas labaredas de uma chama densa e forte, patente na Rua de São Nicolau.

Quando verificamos o número de ruas existentes desde o início do Arco do Triunfo até ao final da Rua Augusta, confirmamos serem sete. Isto leva a pensar que não foram abertas ali ao acaso e que antes possuem um significado específico, apesar de velado. Para mim, o significado esotérico de toda a Rua Augusta prende-se com um trajecto iniciático de carácter alquímico. Não esqueçamos que as ruas laterais à Rua Augusta são a Rua do Ouro (que também me faz lembrar a famosa rua do mesmo nome onde o imperador romano-germânico Rodolfo II, grande adepto da Arte Real, tinha a sua fortaleza em Praga e nela alojou, certa vez, cerca de duzentos Alquimistas) e a Rua da Prata, e tal como Olímpio Neves revelou, na sua Lisboa à luz dos seus Arcanos, trata-se de um caduceu. Tradicionalmente, o caduceu apresenta-se com duas serpentes branca e negra (Sol e Lua, Ouro e Prata) entrelaçadas ascensionalmente ao longo de um bastão (o bastão de Hermes), terminando viradas uma para outra em sentido oposto e com duas asas de anjos no seu topo. Aqui, as serpentes ou ofiússas representadas nas artérias principais da Baixa Pombalina, são exactamente as artérias pelas quais flui a Energia Vital Serpentina (Kundalini) desdobrada nos seus dois aspectos complementares: o lunar (Apana), que é frio e passivo, e o solar (Prana), que é quente e activo. O bastão central ou de Hermes (Rua Augusta), é o canal de fusão e síntese dessas duas forças polares (Sushumna). Assim, as três artérias representam o seguinte:

Rua Augusta = Andrógina (conduto central – SUSHUMNA – da Energia Vital ou PRANA). Hierarquia: ASSURAS (Arqueus). Planeta: Mercúrio em Saturno (Terra).

Rua do Ouro = Masculina (Conduto lateral direito – PINGALA – da Energia Eléctrica ou FOHAT). Hierarquia: AGNISVATTAS (Arcanjos). Planeta: Sol.

Rua da Prata = Feminina (Conduto lateral esquerdo – IDA – da Energia Electromagnética ou KUNDALINI). Hierarquia: BARISHADS (Anjos). Planeta: Lua.

caduceu da baixa pombalina

Quando falamos do significado do caduceu, dando-lhe o significado teúrgico inédito, reservando o principal para outro lugar, mesmo assim sabemos muito bem que muitas vezes este símbolo é confundido por inúmeras entidades ou instituições que, todavia, aproveitam a sua imagem como logótipo ou emblema representativo. Não querendo virar o tema discussão, a verdade é que este signo mercuriano representa o Deus Hermes da Grécia Antiga, o Mensageiro dos Deuses, o Portador do Verbo, o Anjo da Palavra com que liga (e desliga) o Céu e a Terra, sendo a referência mais importante da linguagem hermetista e que inclusive caracterizou a aparição da figura do Patrono da Alquimia: Hermes Trimesgisto, o “três vezes Grande” – pelo Corpo (Sal), pela Alma (Mercúrio) e pelo Espírito (Enxofre). Logo, a confirmação do carácter alquímico das artérias principais da Baixa fica claramente implícita.

Ficando esclarecida essa parte da gnoseologia hermética da Baixa Pombalina, resta agora interpretar interna e paralelamente a Rua Augusta e o significado que encerra. Então, como foi afirmado, temos que a figura alada que se encontra nessa artéria e esta mesma junta às ruas (paralelas), fazem chegar à conclusão de que a Rua Augusta é a representação exacta do Magistério que conduz à obtenção da Pedra Filosofal.

 

As Três Etapas da Grande Obra na Rua Augusta

 

Em termos gerais, existe o acordo que a Grande Obra é caracterizada por três partes: o Nigredo, o Albedo e o Rubedo. No entanto, alguns defendem uma fase intermédia do Albedo para o Rubedo chamada Citrinitas, e outros ainda consideram uma quinta etapa, a Viriditas. Contudo, as três primeiras são aquelas geralmente referenciadas e lhes atribuída uma cor, tendo-se assim o preto, o branco e o vermelho, respectivamente. Igualmente na Cosmologia hindu encontramos designações para essas diferentes fases, nas referências à descensão, ascensão e expansão da Luz, tomando as designações Tamas, Rajas e Satva. Além desta divisão em três etapas e respectivas cores, também temos outra divisão em Obra Menor e Obra Maior, na qual a primeira caracteriza a espiritualização do Corpo e a segunda a corporização do Espírito ou a “fixação do Volátil”, na linguagem técnica da Alquimia.

 

1.ª Etapa – Nigredo

 

Para compreendermos as três Etapas da Grande Obra, iremos analisá-las em separado em conformidade com o pensamento unitário que caracteriza a Alquimia observada por duas vertentes, ainda assim interligadas: por um lado, a operação física dos metais, e por outro, a operação espiritual e o seu significado.

Do ponto de vista laboratorial, operativo, o que de momento podemos aferir, posto que muitas das operações alquímicas estão envoltas num enorme mistério por os Alquimistas guardarem segredo, serão as operações metálicas expostas de forma muito genérica. Além disso, o modus operático que iremos descrever pertence à Via Húmida alquímica (cuja duração é de 28 meses filosóficos), pois há outras Vias (a Seca, por exemplo) para chegar à obtenção da Pedra Filosofal.

Na realização da Grande Obra, o seu início é feito através da Prima-Materia ou Matéria-Prima, a Matéria dos Sábios ou Dragão Vermelho, o qual será submetido a um tratamento alquímico para se retirar os dois princípios antagónicos contidos na Matéria caótica e corrupta – Enxofre e Mercúrio – através do Fogo Secreto ou o Primeiro Agente, o Princípio Ígneo espiritual simbolizado pela Salamandra (Sal+Mandra), que alguns autores afirmam ser um “Sal duplo”.

Na cocção da Matéria, o seu “reincruamento” caracteriza a separação ou dissolução (Solve) dos dois Princípios antagónicos que estão unidos, o Enxofre (Espírito, Activo-Masculino, Fixo) e o Mercúrio (Alma, Passivo-Feminino, Volátil) junto com o Sal (Corpo, Coagula), através de uma disputa brutal indo atingir-se o estado caótico que leva à putrefacção da Matéria. Nesta operação, o Alquimista “parte o ovo com a sua espada” (bem ilustrada na Atlanta Fugiens, de Michael Maier), característica principal da Etapa do Nigredo, também designada de Corvo (devido à cor preta, e que só por “acaso” é a ave augure de Lisboa), para que dela renasça um novo estado, uma nova vida, uma mais ampla consciência.

Do ponto de vista espiritual, a Iniciação do Neófito também se caracteriza por uma Morte e uma Ressurreição simbólicas. O conflito, neste caso, verifica-se na batalha que se estabelece entre os dois princípios opostos do indivíduo, o Inconsciente e o Consciente, onde este para obter a sua “Matéria-Prima” necessita “visitar” o seu interior, o seu Corpo, o seu próprio Caos ou as suas “Águas Primordiais” (segundo Carl Jung), o Akasha ou Éter de onde a Vida começou, para puder encontrar a Pedra Oculta, a Força Vital, a Alma ou Anima (ou Animus, no caso do homem), de forma a ser posteriormente iluminada pelo Espírito e assim transformar o Corpo material em Corpo Glorioso, Corpo Iluminado, Corpo Consciente, Corpo Imortal ou Vas Insignis.

Assim, o Neófito necessita de “morrer” simbolicamente para puder “ressuscitar”, precisa de descer aos “Infernos” para conseguir “elevar-se aos Céus”. Para que esse processo ocorra, a sua Consciência deve ser subtraída aos sentidos imediatos e voltar-se para Si mesma, para o seu interior, e nessa obscuração libertar-se de tudo quanto é “corrupto” e “corruptível”, mortal em seu Corpo e Alma, situando-se num estado onde não têm “apoios” nem “terra debaixo dos pés”, para descobrir a sua verdadeira Essência, para então a trabalhar e transformar, isto é, a manifestar e expandir.

Isso vai exactamente de encontro à sigla V.I.T.R.I.O.L (Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem), palavra misteriosa de 7 letras da Tradição Hermética, que traduzida do latim significa: Visita o Interior da Terra Rectificando encontrarás a Pedra Oculta. No fundo, este objectivo vai de encontro ao Ideal supremo da Maçonaria: o polimento da Pedra Bruta da Personalidade humana para que se transforme na Pedra Polida Pontiaguda (Lapis) da sua Individualidade espiritual que, neste caso, será a Pedra Filosofal (Lapis Philosophorum).

A Ressurreição também está presente na tradição Maçónica, como referência ao lendário Arquitecto do Templo de Salomão, Hiram Abiff, assassinado por não ter revelado os segredos de construção da Arte Real aos seus Aprendizes, sendo o Ritual simbólico realizado como forma de eleger um novo Mestre, para que este para dê continuidade ao drama da Morte e Ressurreição na infindável Cadeia das Necessidades, até que se liberte de vez, se torne efectivamente um Mestre Perfeito como Hiram o foi.

 

A Águia Alquímica

 

Após a renovação da Matéria, é necessário a “limpar” através das destilações, tal como Ireneu Filaleto utiliza na Entrada Aberta ao Palácio Fechado do Rei, de forma que o Corpo fique então totalmente purificado. Por vezes esta fase é confundida com a designada “sublimação”, pois que ainda se está na fase do Nigredo, tal como Nicholas Flamel a descreve no Livro dos Hieróglifos: “a matéria é negra e liquida […] esta água desce, reduz o mais que pode o resto dos ingredientes, até tudo ficar como que uma mistura cozida e negra. Por este motivo se denomina a este processo sublimação e volatilização, já que voa para o alto”. O processo de destilação, no simbolismo alquímico, é designado de “Águia”. Ora, ao percorrer-se a Rua Augusta e após quatro ruas a partir do Arco do Triunfo, mais especificamente na Rua de São Nicolau, encontra-se a Águia de asas abertas, como que estivesse a ascender ou a voar de uma labareda que se encontra por baixo dela. Imagem que faz lembrar de imediato duas coisas: a Fénix e a Águia alquímicas, que estão plenamente em comunhão com a segunda Etapa do Magistério, o Albedo, pois a Matéria renasceu tal como a Fénix renasce do Fogo, sendo o início da segunda fase designado de Águia.

A Águia Filosófica da Rua Augusta A Águia Filosófica da Rua Augusta

Além disso, essa figura também se inscreve na sinalética esotérica descritiva da Lisboa Mítica como a Águia Flamejante de São Nicolau, tal como o autor Vitor Manuel Adrião, no seu Guia de Lisboa Insólita, defende muito bem. Passemos a citá-lo:

O seu simbolismo transfere para o tema da translatio imperii, isto é, da translação dos impérios ou poderes, tradicionalmente, segundo a tese perfilhada pelo Padre António Vieira, sendo cinco: Assírio, Persa, Grego, Romano e Português, o que já antes Luís de Camões vaticinara em Os Lusíadas, VI, 7: “Via estar todo o céu determinado / De fazer de Lisboa nova Roma / Não o podendo estorvar que destinado / Está de outro poder que tudo doma”.

Isso está de acordo com as três Idades do Mundo da tese trinitária do cisterciense Joaquim de Flora, no século XIII, indo manifestar-se em simultâneo com a marcha precessional do Sol do Oriente para o Ocidente, incidindo em três Centros urbanos principais: a Idade do Pai correspondeu ao Ciclo do Carneiro incidindo sobre Jerusalém; a Idade do Filho corresponde ao Ciclo de Peixes e a Roma; a Idade do Espírito Santo corresponderá ao Ciclo de Aquarius auspiciando Lisboa.

Estando Portugal sob a égide do signo Peixes e do planeta Júpiter, este entre os antigos era figurado pela águia, o que vem dar a esta em questão o sinal imperial de Lisboa capital do desejado Quinto Império do Mundo, a nascer (donde Natal e Nicolau) nesta cidade mais ocidental da Europa, segundo a Utopia que vai se fazendo.

O facto de esta ave estar sobre chamas, tem o sentido místico de Iluminação Espiritual da Alma Ibérica, península sob a égide do Sagitário e de Júpiter, desde o seu Centro fundamental que é Lisboa, sendo a águia a única ave a poder fitar o Sol de frente por possuir dupla pálpebra, logo, é ave solar. A legenda latina dos hermetistas ocidentais, Ignis Natura Renovatur Integra, “Pelo Fogo se Renova a Natureza inteira”, ganha novo alento aqui: tal como a fénix renasce das cinzas, segundo o mito, igualmente a águia ulissiponense renasceu das chamas destruidoras provocadas pelo terrível terramoto de 1755, ganhando outra e mais moderna feição graças ao pragmatismo modernista do Marquês de Pombal que parecia antever já uma nova Lisboa, ao desinibi-la do passado e igualá-la às mais modernas capitais europeias.

 

2.ª Etapa – Albedo

 

Nesta Etapa, operacionalmente “corta-se a cabeça do corvo” para se atingir a cor branca. Com um controlo exímio do Fogo obter-se-á o Mercúrio Comum, o Alkaest (termo também utilizado por Paracelso para designar o Fogo Secreto), e posteriormente conseguir-se-á o Enxofre Filosófico através do reaproveitamento da “casca” ou a “cinza” que se formou na Etapa do Nigredo, de forma que o Alkaest reanime o Enxofre “morto”. Deste ter-se-á os constituintes necessários para se alcançar o mais importante desta Etapa, o Mercúrio Filosófico, também chamado Rebis (esta operação mantém-se em grande sigilo). Operação que se baseia na junção dos dois compostos obtidos anteriormente – Enxofre Filosófico e Mercúrio Comum ou Dissolvente Universal – e submetendo-os a uma cocção muito lenta catalisada pelo Fogo Secreto, dar-se-á a chamada “Núpcia Química”, o “Casamento do Irmão com a Irmã” ou “Casamento do Rei com a Rainha”, concretizando-se então o Grande Arcano da Alquimia, a união dos opostos, neste caso a união do Fixo ao Volátil. Então, é assim que o “Rei ressuscita da morte” e “casa com a Rainha”, terminando assim esta segunda Etapa do Albedo. No nosso percurso ao longo da Rua Augusta, tal aspecto (União do Rei com a Rainha) está representado por duas artérias paralelas a ela, as Ruas do Crucifixo e da Madalena.

Fonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, LisboaFonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Tendo sido a Etapa anterior uma “descensão aos Infernos”, uma “visita ao Interior da Terra” e o encontro da “Pedra Oculta”, que também foi uma Morte simbólica, consequentemente essa Etapa foi presidida por Saturno por representar a “Noite Saturnina”, a Morte (neste caso, pelo sacrifício da Matéria) ou separação dos dois Princípios antagónicos sob a sua foice. Esta Etapa posterior, o Albedo, é simbolicamente presidida por Júpiter, pois no campo espiritual representa a “Ressurreição”, a “Ascensão aos Céus” graças ao estado de Consciência que se alcançou, que até aí era inacessível ao indivíduo na sua condição normal. A Alma elevou-se, evolou-se da “prisão” mais recôndita da “Terra”, ressurgindo da “Noite” do Caos desenvolvendo e manifestando a sua força máxima… a Vida vence a Morte.

O processo acima descrito, espiritualmente ocorre essencialmente pela incorporação da Luz Absoluta pela própria Individualidade, cujo rejuvenescimento do Corpo desenvolver-se-á através do contacto com a sua Força Vital, Força profunda do seu Ser Anímico ou Alma, definido assim a espiritualização do Corpo, e posteriormente, após “lavar-se”, “purificar-se” ou “branquear-se” esse, estará então preparado para a unificação, coagulação, condensação, “fixação do Volátil”, ou seja, a corporização do Espírito, tornando-se assim um “Ser Imortal”, um “Homem Regenerado”. O mesmo é afirmado na Turba dos Filósofos: “Os Espíritos não se unem aos Corpos senão depois de estes terem sido perfeitamente purificados das suas impurezas”.

 

3.ª Etapa – Rubedo

A Núpcia Química

 

O Rebis, do ponto de vista operativo, no fundo é a “coisa dupla” da matéria da Pedra Filosofal, é o Andrógino Alquímico, a sua essência primaz que possui o poder absoluto de dissolver, mortificar, e destruir os Corpos, de os dissociar, separar as suas porções impuras das puras, uni-los aos Espíritos e, por consequência, gerar novos seres metálicos diferentes dos seus originais. Entramos, então, na última Etapa do Magistério, o Rubedo.

A Matéria submetida a “regimes” específicos de calor com adição de Fogo Secreto, irá chegar ao Enxofre Vermelho, que sofrerá a multiplicação enriquecendo-se a Matéria até ao estado de Elixir, sendo este um estado primário da Pedra Filosofal. Este é levado ao vermelho, no fundo ao rubro (purpurado), onde apresentará as características de irredutível e absolutamente impermeável à acção dos agentes químicos, como explica Fulcanelli.

A confirmação se a Pedra Filosofal foi atingida ou não, surge com a criação do Pó de Projecção para realizar-se a transmutação de um metal vulgar em Ouro, processo chamado Crisopeia. No entanto, a finalidade de alcançar a Pedra Filosofal também e sobretudo tem uma intenção mais altruísta e espiritual que a ambiciosa e material da simples produção de ouro (que levou muitos alquimistas ou pseudo-alquimistas, assopradores, a serem presos e torturados por governantes cobiçosos dos seus segredos, ainda mais ambiciosos que eles): a Panaceia Universal, a Medicina Universal, o Ouro Potável, a Fonte da Eterna Juventude. Essa seria produzida através de uma destilação da Pedra Filosofal por um “espírito” (termo para designar um álcool), que após tomado iria rejuvenescer o corpo de forma a atingir a juventude eterna (o pensamento profano contemporâneo acredita tratar-se exclusivamente do rejuvenescimento celular do organismo, ignorando que para se alcançar a Imortalidade física tem primeiro de passar-se pelo fenómeno natural da Morte, pois sem esta não há Ressurreição. A própria Igreja Católica fala disto, mesmo não entendendo nada de tamanho Mistério Kumárico, antes, Manasaputra a ver com a “Ressurreição dos Corpos” e os “Vasos Insignes de Eleição”).

5. FIG2.RosariumPhilosophorum,séculoXVI

Do ponto de vista espiritual, como foi referido anteriormente, trata-se de consumar a corporização do Espírito, da associação, união, junção, “casamento” do Espírito com um Corpo “lavado”, purificado, para se atingir aquilo a que a Grande Obra se propõe: a Crisopeia e a Panaceia Universal, pois todo este processo centra o Corpo na Força Vital (também chamada Alma, Anima, Caijah, Pedra Oculta, etc.) que foi resgatada, purificada e reunida ao Espírito, ocorrendo a transmutação espiritual de um “corpo vil” ou “obscuro” (chumbo) num “corpo nobre” ou “iluminado” (ouro). Trata-se a passagem da Lua para o Sol, da Anima para o Animus, de Psique para Eros. Com isso, o Corpo regenerado faz-se Imortal, pelo facto da Força Vital também ser imortal, eterna como uma chama que não se apaga, uma Chama Eterna (a Mónada Divina). Nicholas Flamel na culminação da Grande Obra, afirmou: “(…) É como um leão que devorasse toda a natureza impura e metálica e a transformasse na sua própria substância, quer dizer, em ouro verdadeiro, mais puro do que o das melhores minas (…)”.

6. FIG3.RosariumPhilosophorum,séculoXVI

Assim, podemos resumir todo o Magistério Alquímico nos imóveis descritos anteriormente, da forma seguinte:

ARCO DO TRIUNFO = “Separação” (Initio) – Nigredo. Símbolo: Corvo.

ÁGUIA FLAMEJANTE = “Destilação” (Medius) – Albedo. Símbolo: Águia.

CRUCIFIXO-MADALENA = “União” (Finis) – Rubedo. Símbolo: Caduceu.

A Escada e o Magistério

7 Ruas – 7 Fases

Quando falamos de Magistério, obrigatoriamente é implícito todo um percurso árduo caracterizado por fases, etapas, graus, etc., que assumem um sentido de ascensão, de subida, de alcançar a Transcendência, a Iluminação, de busca da Perfeição, do Bem, do Bom e do Belo, do Divino, enfim. Assim, é natural que simbolicamente se assumam símbolos que retratem esse aspecto. Na Alquimia, como também na Maçonaria, tal como noutras tradições antigas, esse símbolo de Iniciação é caracterizado por uma Escada (por exemplo, a Escada de Jacob). Relativamente à Alquimia, é inevitável referir a obra de Fulcanelli, o grande Alquimista do século XX, intitulada Le Mystère des Cathédrales. Nesta, o autor enfoca no pórtico principal da Catedral de Notre Dame, Paris, a sequência de 12 altos-relevos dos finais do século XIII, que afirma tratar-se de representações alquímicas. Entre eles há um medalhão que é a configuração antropomórfica da própria Alquimia.

7. Simbolo da Alquimia, Catedral de Notre Dame, Paris

Essa figura andrógina expressiva do Rebis ou Melkitsedek, prefigura a Alquimia e ostenta dois livros, um aberto e outro fechado, representando o conhecimento exotérico e o conhecimento esotérico, respectivamente. Ademais, apresenta diante de si a escada simbólica, a qual parece ter duas interpretações. A primeira, refere-se a ela como a paciência que o Alquimista necessita ter para conseguir ao seu topo, ou seja, à obtenção da Pedra Filosofal. A segunda, mais imediata, afirma que os seus nove degraus poderão representar as 9 operações principais necessárias para se alcançar o final da Grande Obra.

As 9 operações estão de acordo com os 9 meses de gestação do feto no ventre da mãe. O ventre, para os Alquimistas, tem mais do que o simples significado de matrás, “vaso de vidro” ou retorta, pois que nesta dispõem a geração do Mercúrio Filosófico, intencionalmente referindo-se sempre ao “Delfim Filosófico que é alimentado no Ventre da Mãe”, pois é nele que se dá o processo de Criação. Significativamente, o Terreiro do Paço apresenta por cima dos seus arcos ou arcanos tarôticos “cabeças de delfim”…

Em plena Baixa Pombalina tem-se a Escada do Céu, Scalae Coeli, prefigurada no Templo Cristológico e Graalístico de Santa Maria Maior, vulgo Sé Patriarcal, levando de nome oculto ou secreto “Templo da Luz” e de nome magisterial ou sacerdotal “As Três Luzes ou Chamas”.

Contudo, quando analisamos as diferentes interpretações relativas à noção de escada, constatamos que esta apresenta diferentes visões consoante os autores que debatem o assunto. Vejamos alguns exemplos:

Raimundo Lúlio (1235-1315), o Doctor iluminatus, hermetista e alquimista espanhol, amigo de Arnaldo de Vilanova (dois grandes pilares da Alquimia medieval) e verdadeiro Adepto da Arte Real (sendo que se afirma que alcançou a Pedra Filosofal), apresenta na sua De nova logica (documento com a data 1512, o que induz à crença dele não ter morrido na data citada acima) uma escada com nove degraus pela qual Sophia (a Sabedoria) avança pelos diferentes Reinos (tendo a Intuição como guia) até Deus, através do instrumento ars generalis, e aí constrói a sua morada. Além dessa, também no seu Breviculum (século XIV) apresenta nove filósofos que encarnam as nove dúvidas que podem advir dos nove Reinos-objectos do Universo, estando enumerados na primeira escada da pintura.

A Escada de Jacob foi a que apareceu em sonhos ao patriarca bíblico e lhe dava acesso ao Paraíso Celestial, sendo percorrida acima e abaixo pelos Anjos de Deus. A Musurgis universalis de Athanasius Kircher (1601-1680), obra de 1662, apresenta na sua divisão das regiões superiores do Cosmos, aproveitando o modelo da Escada de Jacob, nove coros de Anjos.

A escada do número dez de Agrippa (1486-1535), apresenta-se dividida horizontalmente em seis degraus, desde o Mundo Subterrâneo através do Mundo dos Elementos até ao Mundo dos Arquétipos, com os dez Nomes de Deus e as suas “Emanações”, as dez Sefiroths (Agrippa von Nettesheim, De occulta philosophia, 1510).

Segundo a escada apresentada por Robert Fludd (1574-1637), a organização das diversas faculdades do conhecimento do Homem dispõe-se sobre seis degraus e resumem-se à percepção, sensação, imaginação, razão e análise, sendo o último degrau a compreensão directa da Palavra Divina através da meditação (verbum). A escada em si não vai além do próprio Deus (R. Fludd, Utriusque Cosmi, Vol.II, Oppenheim, 1619).

Como vimos anteriormente, o símbolo ou representação da escada prende-se com o conceito de Iniciação, pois com esta o neófito ascenderá dum Plano inferior para outro superior, elevado, considerado Divino, e para o fazer terá que passar por várias provas (degraus) a fim de atingir o topo, o Nível Superior. Quando analisamos figuras que dizem respeito à Iniciação na Maçonaria, verificamos sem qualquer espanto que a escada também está presente e que os degraus que constam nela são nada mais e nada menos do que sete. Na imagem específica que apresentamos, respeitante à tábua ou painel do 2.º Grau da Maçonaria – Companheiro – estão presentes os sete degraus e o arco, exactamente como está estabelecido no conjunto Arco Triunfal+Sete Transversais da Rua Augusta.

8. Tábua do Segundo Grau, J Bowring, 1819

Tendo em conta que Arte Real também é figurativa do objectivo supremo da Maçonaria Hermética (transformar a “Pedra Bruta” em “Pedra Polida Pontiaguda”), tal facto está em consonância com a designação igual de Arte Real dada à Filosofia Alquímica (transmutar o “Chumbo” em “Ouro”). Assim, justifica o número sete respeitante ao objectivo Maçónico: o alcance da Perfeição do Homem operada através da Via Alquímica.

Contudo, quando verificamos o significado do número sete na Alquimia, ele apresenta-se inúmeras vezes ligado não só ao número das operações principais (bastante bem ilustradas no Splender Solis, de Salomon Trismosin, século XVI) que são necessárias realizar para chegar ao fim da Grande Obra, mas também às operações intermédias nas diferentes etapas. Wiliam Blake falava nas “7 fornalhas da alma”, referindo-se às sublimações atribuídas a Saturno, ou seja, durante a Etapa do Nigredo. Temos as 7 destilações necessárias no Albedo, tal como dizia Ostanes ou Ostano, Alquimista da Antiguidade helénico-alexandrina, e tal como Raimundo Lúlio falou, dizendo que para se atingir a Água Divina era necessário rectificá-la 7 vezes, por sua vez afirmando Nicholas Flamel que para purificar a “cabeça do corvo” era necessário mergulhá-la 7 vezes no rio Jordão. Igualmente temos as 7 fases ou “regimes” de calor pelos quais passa o Rebis na Etapa do Rubedo para se atingir a Pedra Filosofal.

No fundo, o número das sete ruas que constituem as transversais da Rua Augusta são simbolicamente as sete operações principais da Grande Obra, representando igualmente as sete operações intermédias de cada fase (7 sublimações – Nigredo; 7 destilações – Albedo; 7 multiplicações – Rubedo) necessárias para alcançar a meta final do Magistério, a Pedra Filosofal. A pintura abaixo sintetiza muito bem as principais fases da Alquimia em forma de escada, justificando tudo quanto ficou exposto.

9. Cabala, S. Michelspacher, Augsburg, 1616

Ainda segundo a perspectiva tradicional, iniciática, tendo presente o pensamento e pretensão manifesta do Universo Alquímico (Macrocosmos-Microcosmos, o Todo-Tudo, o Uno-Unidade), percorrendo essas sete ruas transversais da Rua Augusta, simbolicamente elas poderão representar os 7 Chakras (Centros Vitais) que o Homem possui no “interior” do seu Corpo Vital, que no Físico denso são as Glândulas, e que o percurso deles, de baixo a cima, acaba por ser o percurso que a “Serpente” Kundalini (o Fogo Secreto, o Fogo Criador do Espírito Santo) realiza ao longo da coluna vertebral, até chegar ao topo e atingir o estado mais elevado de Consciência. Assim, a planta gnoseológica da Baixa Pombalina, ficará completa:

Rua Augusta = Andrógina (conduto central – SUSHUMNA – da Energia Vital ou PRANA). Hierarquia: ASSURAS (Arqueus). Planeta: Mercúrio em Saturno (Terra).

Rua do Ouro = Masculina (conduto lateral direito – PINGALA – da Energia Eléctrica ou FOHAT). Hierarquia: AGNISVATTAS (Arcanjos). Planeta: Sol.

Rua da Prata = Feminina (conduto lateral esquerdo – IDA – da Energia Electromagnética ou KUNDALINI). Hierarquia: BARISHADS (Anjos). Planeta: Lua.

Rua do Crucifixo = Expressa o cordão simpático a ver com a Rua do Ouro, ou seja, o conduto etérico que reveste PINGALA – VAJRINI. Princípio Masculino. Hierarquia: JIVAS (Homens). Planeta: Marte.

Rua da Madalena = Expressa o cordão simpático a ver com a Rua da Prata, ou seja, o conduto etérico que reveste IDA – CHITRINI. Princípio Feminino. Hierarquia: JINAS (Adeptos). Planeta: Vénus.

 

Conclusão

 

Se até aqui têm estado representadas todas as operações materiais da Grande Obra, resta saber onde está o resultado dela, ou seja, a Pedra Filosofal. E até neste aspecto Lisboa torna-se uma cidade magnífica por também possuir, segundo a minha interpretação, a Pedra Filosofal representada nela, em conformidade ao pensamento sagrado e até religioso da Cosmologia que tradicionalmente era aplicada no esquisso arquitectónico das cidades, centralizadas no Mundus, cuja cruzeta era o Cardus e o Decumanus, e que é herança fidedigna da Tradição Hermética aos arquitectos e geómetras da Antiguidade até um período bastante recente (meados do século XVIII, sendo Lisboa a última cidade europeia a ser construída segundo a Arquitectura e Geometria Sagradas, inclusive tendo servido de modelo para a edificação da norte-americana cidade de Washington). Tal como Roma foi uma cópia de Jerusalém, como afirmou o padre jesuíta Athanasius Kircher na sua Arithmologia (Roma, 1665), o mesmo autor do Mundus Subterraneus, também para Lisboa houve a pretensão de que fosse a Nova Jerusalém Celeste descida à Terra através do “Rei-Sol” D. João V, quando obteve autorização do Papa Clemente XI para criar o Patriarcado de Lisboa, que sempre esteve em oposição ao Bispado de Roma, o que valeu ao monarca uma excomunhão (mais tarde retirada).

Após o terramoto de 1755, Carlos Mardel e a sua equipa de arquitectos remodelou a cidade entre o Rossio e o Terreiro do Paço, prosseguindo assim a tradição romana do Mundus e indo caracterizar a “Lisboa Quadrada”. Já antes, reinando D. João V, Lisboa havia sido dividida em Oriental e Ocidental, do modo a distinguir a Autoridade Espiritual do Poder Temporal, ficando com dois hemisférios sobre as sete colinas para que assim se revelasse cidade sagrada e caput mundi, “cabeça do mundo”, conformada às profecias bíblicas que foram sabiamente interpretadas e ajustadas pelo Padre António Vieira ao tema do Quinto Império e da sua capital universal, Lisboa.

Sendo o Omphalos o “Umbigo” do Mundus, o Centro do Universo do qual este nasceu e cresceu, assim também a Pedra Filosofal, visto ser a Matéria Primordial de todo o Cosmos. Enquanto isso, a realização da Grande Obra é operada no sentido inverso, no retrocesso ou contracção da expansão do Universo, a fim de obter o estado mais puro, perfeito e original da Matéria. O Omphalos de Lisboa localiza-se no Rossio, sendo este o ponto central (Mundus), o ponto zero de todas as direcções da cidade ao país, mas também para onde convergem todas as direcções, e a partir do qual ela cresceu e expandiu (depois de 1755) através dos seus quatro pontos cardeais. Ora o ponto central da Praça do Rossio é onde está a coluna monumental com a estátua de D. Pedro IV, que traz na mão direita a Carta Constitucional de 1826 (29 de Maio), sustentado rés-do-chão pela guarda de quatro figuras emblemáticas, caracterizando então o Axis Mundi, o “Pilar ou Canal de ligação do Céu e a Terra”, a “rotura dos níveis”, como também Mircea Eliade afirmou. Esta obra foi adjudicada ao escultor Elias Robert e ao arquitecto Gabriel Davioud, ambos franceses.

Do ponto de vista esotérico, segundo o autor Vitor Manuel Adrião, as quatro estátuas em volta da coluna, com trajes solenes greco-romanos, representam os Guardiões do Mundo orientados nas quatro direcções do Globo, onde cada uma apresenta um naipe do baralho, ficando assim: paus, espadas, ouros e copas. A estátua do rei D. Pedro IV de Portugal e I Imperador do Brasil (4+1 = 5 = Pentalfa igual ao Infinito), fica assim representando o Quinto Guardião ou Regente do Mundo, posto que um “Imperador é Rei de reis”. Ainda segundo a tradição cabalística judaico-cristã, iconograficamente eles apresentam-se como os “Quatro (Cinco) Anjos Coroados” com os nomes de Rafael, Mikael, Auriel, Gabriel (e Anjo Custódio). As direcções que assumem as quatro estátuas, ainda de acordo com o mesmo autor, vão coincidir com determinados pontos característicos da Baixa de Lisboa. Assim, a estátua que segura na mão direita uma rodela com uma serpente, configurando o naipe ouros, e que é a Prudência, assume a direcção da Gare Central do Rossio, a 56º NW, onde à entrada figura D. Sebastião com a espada e o escudo das quinas; na direcção da Porta de Santo Antão, o “Anacoreta do Deserto”, a qual inclina 17 graus para a direita, está a Temperança com uma taça, que é copas, a 7º NE; a Força, apoiada com uma maça que é paus, direcciona-se, a 40º SW, para o Convento do Carmo; com a espada e a balança, naipe final, temos a Justiça a 25º SE, direccionada à Sé Patriarcal. Por fim, a figura de D. Pedro com o olhar virado para o Arco da Rua Augusta e o Cais das Colunas, está simbolizado o Domínio do Mundo como figuração do Imperador Universal.

10. FIG3.Estátuas do Rossio

No que respeita ainda a esta Arquitectura Sagrada, Michael Maier, em 1616, no seu tratado Circulus Quadratos comparou os quatro pontos cardeais opostos do Omphalos da Jerusalém Celeste com os Elementos que compõe a Natureza, e sabendo que Carlos Mardel aplicou o modelo arquitectónico sagrado romano, Mundus (sendo que Roma foi edificada à imagem de Jerusalém após o século V), o Axis Mundi do Rossio e as quatro figuras (quatro pontos cardeais) que o compõem, acabam por constituir também o Quinto Elemento, a Quintessência, o Éter (preenchendo o Ar respirado pelos Deuses da Mitologia Grega, e que foi utilizado até ao século XIX na propagação da Luz – luminiferous aether) originador dos quatro Elementos da Natureza nos quatro pontos cardeais do Mundo: Ar, Fogo, Água e Terra, ficando estabelecido como coroa do monumento o Imóvel, o Uno, a Unidade do Cosmos (manifestado como Três Mundos: Supramundo, Mundo, Submundo), a Matéria Primordial, no fundo, a Pedra Filosofal.

Também o Alquimista do século XV, George Ripley, associou Jerusalém com as suas 12 portas às 12 fases da Magnus Opus. Em Lisboa não há as 12 portas e sim 12 bairros principais, representativos dos 12 signos do Zodíaco que igualmente regem a Grande Obra, tal como os 7 outeiros ou colinas representam os 7 planetas tradicionais (Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus, Saturno), e particularmente alinhavaram-se as 17 artérias da mesma “Lisboa Quadrada”, ajustando-a ao número 17 do biorritmo de Portugal. A própria figura apresentada anteriormente, Cabala, de S. Michelspacher, faz jus a esse aspecto astrológico e astrosófico que os arquitectos iniciados ao serviço do Marquês de Pombal quiseram preservar.

Além disso Lisboa, aplicando a linguagem hermetista, pode ser mesmo encarada como o Palácio dos Mistérios e Segredos da Grande Obra, a que só os verdadeiros Iniciados terão acesso. Sendo o Terreiro do Paço, de acordo com o que anteriormente foi tratado (Selo de Salomão), a representação microcósmica do Mundus, não deixa de ser a chave ou veículo interpretativo (em conjunto com os 22 Arcos ou Arcanos Maiores do Tarot nele presentes) para “entrar” na Lisboa não profana e desvelada , e sim na Lisboa sagrada e velada, ocultada ou secreta.

Arco Rua Augusta

No geral, o percurso do espaço característico desde Terreiro do Paço ao Rossio, passando pela Rua Augusta (com as pares do Ouro e da Prata), representa toda a Obra Alquímica que se expressa num itinerário iniciático de compreensão simbólica e operação interior do indivíduo, dando contributo à sua TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL, ou melhor, TRANSMUTAÇÃO ESPIRITUAL (“de metal comum em ouro raro”), numa reflexão alusiva à demanda e conquista da Pedra Filosofal, ou por outra, do Santo Graal. Assim, estas três zonas principais da Baixa lisboeta vêm a caracterizar diferentes funções e acções referentes à Grande Obra, tendo como pano de fundo a concepção unitária da Filosofia Alquímica, onde Lisboa (Macrocosmos) e o Lisboeta (Microcosmos) tornam-se um só. Podemos, então, sintetizar os esses espaços imóveis da seguinte forma:

TERREIRO DO PAÇO – A Chave dos Mistérios Alquímicos – Espírito Santo

RUA AUGUSTA – O Magistério Alquímico – Filho

ROSSIO – A Pedra Filosofal – Pai

O Terreiro do Paço, representa o guia e a síntese daquilo que a Grande Obra Alquímica representa e se propõe. Síntese, porque manifesta os princípios da Natureza e a sua união, como sucede com os metais necessários à Obra, representados no simbolismo multifacetado do Selo de Salomão; e guia porque “aconselha” o neófito, operando com os 22 Arcanos Maiores, sobre o trajecto que deverá tomar para que finalmente seja abençoado na consumação do Magistério.

A Rua Augusta, propõe-se como o terreno (ou “retorta”) de operação alquímica da Matéria-Prima (o neófito), com o objectivo de “operar” sobre esta através das diferentes “fases” (ruas) da Obra, de forma a atingir a Perfeição da Matéria, a Pedra Filosofal (o Ouro Puro, o Leão de Fogo, a Iluminação Espiritual).

O Rossio, a própria Pedra Filosofal, a Matéria Primordial erigida sobre os 4 Elementos da Natureza (4 pontos cardeais) constituindo o “Centro do Mundo”, o Axis Mundi, estabelecendo-se a Comunhão, o Uno, a Unidade ou União do Homem com o Divino, a “ligação da Terra com o Céu”, no fundo, o Grande Arcano da Alquimia, a União dos Opostos (“…o que está em baixo é como o que está em cima…”).

Não terá sido por acaso que o ilustre e majestoso artista (e não só) Lima de Freitas pintou em magnífico painel de azulejos, plantado em plena Lisboa, dentro da Gare Central do Rossio, a ilustração intitulada Pessoa e a Serpente, que praticamente resume tudo quanto foi dito até aqui. Enfim, uma imagem vale mais que mil palavras…

Fernando Pessoa

[…] Não precisamos dos sete montes de Roma: também aqui, em Lisboa, temos sete montes. Edifiquemos sobre estes a nossa Igreja […].

 Fernando Pessoa

 FIM

 

Obras consultadas

 

A. M. Amorim da Costa, Alquimia, um Discurso religioso. Colecção Janus. Editora Vega, Lisboa, 1999.

Alexander Roob, O Museu Hermético, Alquimia & Misticismo. Taschen, 2006.

Athanasius Kircher, Arithmologia, Roma, 1665.

Fulcanelli, Le Mystère des Cathédrales. Ed. Jean-Jaques Pauvert, Paris,1964.

Mariano J. Vázquez Alonso, O Universo da Alquimia. Editorial Estampa, Lisboa, 2007.

Michael Maier, Atlanta Fugiens. Oppenheim, 1616.

Michel Saint, Dossieres Secretos da Alquimia. Litexa Editora, Lisboa, 1986.

Mircea Eliade, Forgerons et Alchemistes. Ed. Flammarion, Paris, 1956.

Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano. A Essência das Religiões. Livros do Brasil, Lisboa, edição 2006.

Olímpio Neves, Lisboa à luz dos seus Arcanos. Revista “Graal”, Ano-I, N.º 2/3, Verão-Outono 1982, Sintra.

Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal. Edição Academia de Letras e Artes, Cascais, 2009.

Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2009.

Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal. Madras Editora, S. Paulo, 2000.

Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

Vitor Manuel de Adrião, Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império, Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2007.

Créditos fotográficos – Autor, Paulo Andrade e “Google”.