O enigmático Monóptero de São Gonçalo – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Nov 2 2017 

Na Quinta Nova ou Quinta do Nogueira, junto a Penas Róias, no concelho de Mogadouro, distrito de Bragança em Trás-os-Montes, em pleno campo surpreende a aparição súbita de um estranho monumento barroco semiarruinado que até hoje traz intrigados os estudiosos de História e Arte sobre a sua função. Trata-se de um monóptero que, diz-se, terá sido dedicado a São Gonçalo.

Monóptero é um templete em rotunda, circular, sem paredes e sustentado por uma só ordem colunata. Diz-se que as suas características baseiam-se no modelo grego do tholos (século IV a. C.), que no sentido amplo designa um “templo circular”. Mas ao contrário desse o monóptero (do grego ὁ μονόπτερος, menopteros) não possui cela, donde o seu significado de “singular” e “único” conforme o politónico μόνος. Na Antiguidade clássica greco-romana, especialmente a romana, o monóptero servia inter alia como uma forma de baldaquino para uma imagem de culto. Na arquitectura barroca e clássica, o monóptero foi classificado como “templo de musas” e tornou-se motivo popular no embelezamento dos jardins durante o Romantismo francês, inglês e alemão, sem esquecer o português, onde no Parque da Pena de Sintra o pai do rei D. Fernando II mandaria erguer o “templo das colunas” ou templete-mirante (o “quiosque” para o vulgo, obra de 1840), no alto da colina de St.º António, que na realidade é um monóptero cilíndrico com doze colunas compósitas e a particularidade de se apresentar emparedado, havendo uma porta à frente e uma janela atrás, com a pequena rotunda interior com quatro nichos laterais e a Cruz da Ordem de Cristo, vermelha em medalhão, na cúpula[1].

Mas o monóptero de São Gonçalo destaca-se pela singularidade dos seus contornos, no que é exemplar barroco único na Península Ibérica e de grande raridade em toda a Europa. É uma construção em granito, tipo pavilhão, de planta circular (excepto a cúpula abobadada) assente sobre um soco de quatro degraus circulares em forma de toro. Sobre o soco erguem-se seis plintos paralelepipédicos onde assentam seis colunas torsas salomónicas de 1,90 m de altura, cada uma encimada por capitéis jónicos. Sobre estes correr um travejamento circular de 3 m rematado pela cornija do tipo balaustrada, constituindo o seu remate superior, donde nasce uma cúpula (quase totalmente destruída) feita em material cerâmico aparelhado com saibro, que teria a função de protecção dos seus ocupantes. No interior, encostado a cada plinto, tem-se um banco em cantaria de granito. O pavimento lajeado igualmente em granito, apresenta no centro uma cavidade rectangular de 87×58 cm, onde estaria implantada a base da imagem de São Gonçalo. A construção deste monóptero na antiga propriedade da família Távora, foi comparticipada pela população local com o fim de albergar a imagem do santo. Portanto, destinava-se a “assinalar um lugar santo, tal como a cruz assinalava as cabeceiras das igrejas paroquiais abandonadas”[2].

Com efeito, o monóptero de São Gonçalo veio substituir a função cultual do orago que se fazia na desaparecida ermida da sua invocação, vizinha deste. Fora fundada em 1571 na Quinta Nova, propriedade do marquês Luís Álvares de Távora, linhagem que durante muito tempo senhoreou a vila de Mogadouro em acumulação com a alcaidaria da cidade de Miranda do Douro, pelo piedoso ermitão Fernão de Álvares, para nela manifestar a devoção a São Gonçalo e “poder dizer missa e celebrar ho ofisio debino”[3]. Mas em 1720 esse templo encontrava-se já bastante arruinado. A descrição que em Abril desse ano Agostinho Dias da Silva, pároco de Azinhoso, faz da ermida, revela que nessa data apenas subsistia a capela-mor, transformada em estábulo onde se recolhia o gado[4]. Mas esse padre também informa que nesse local fora erguida, a expensas da população, uma outra construção para albergar a imagem do santo, em alabastro, ou seja, essa nova arquitectura do monóptero, cuja edificação deverá situar-se nesse ano de 1720: “em memoria da devoção que os lugares vezinhos tinhão ao santo eregião sobre a mesma caza um chepitel sobre colunas à salamonica em que esta a imagem de S. Gonçalo obrada de alabastro labastro [sic] mas com a impossibilidade de celebrar nella o santo sacraficio [sic] da missa”[5].

Causa estranheza substituir uma ermida por um monóptero salomónico plantado no meio de nenhures onde é impossível celebrar eficazmente os passos da missa, ainda por cima dando destaque a um santo que não o é mas tão-só beato. Tudo tresanda a heterodoxias religiosas recambiando para o hierático, para outros herege, dos consignados enclaves sagrados. Afinal está-se nos domínios da antiga Ordem dos Templários tão acostumada a esses afazeres mistéricos, parecendo continuados pela Ordem de Cristo nestas portuguesíssimas paragens das comendas velhas de Penas Róias (penhas rubras, vermelhas), Mogadouro (lugar de monges), Algoso (Algol), etc., de que dá notícia Nuno Villamariz Oliveira[6]. Ainda mais escolhendo como orago Gonçalo de Amarante, santo português exclusivo da hagiografia nacional.

Jorge Campos Tavares, na sua obra descritiva da hagiografia e iconografia do santoral cristão[7], assim descreve São Gonçalo de Amarante: “GONÇALO DE AMARANTE (Em 10 de Janeiro e 1.º sábado e domingo de Junho). Terá nascido no princípio do século XII em Arriconha, freguesia de Tagilde, concelho de Guimarães. Estudou na arquidiocese de Braga e foi ordenado sacerdote, sendo-lhe dada uma paróquia. Peregrinou à Terra Santa e regressou catorze anos depois. Foi mal recebido pelo sacerdote e afastou-se dela, dedicando-se à pregação. Ao fazê-lo, confirmava a doutrina com milagres para espanto e edificação dos fiéis. Entrou na Ordem de S. Domingos e recebeu o hábito das mãos de S. Pedro Gonçalves Telmo. Fixou-se depois como eremita em Amarante, onde morreu por volta de 1260. Atribui-se-lhe a construção (ou o restauro) da ponte de Amarante e é considerado como santo promotor de casamento de mulheres já longe da juventude. Foi beatificado por Pio IV em 1561. Nunca foi canonizado. Representa-se com báculo de abade, hábito dominicano, um livro na mão e a maquete de uma ponte”.

O principal biógrafo de S. Gonçalo de Amarante foi Francisco Fernandes Galvão em 1591, no seu livro Sermões das Festas dos Santos escrito no Mosteiro d´Anunciada em Lisboa, obra publicada alguns anos depois[8]. Ele e os demais biógrafos do santo taumaturgo foram unânimes em destacar de todos os milagres que fez aquele da construção ou reconstrução da ponte, o que o converte num mestre construtor igual a outros tantos anónimos ou não de agremiações e confrarias de monges-construtores medievais espalhadas ao longo dos caminhos santiaguistas ou jacobeos, como este de Penas Róias – Mogadouro – Algoso, patrocinados e protegidos pela Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Jerusalém[9].

Mas a ponte de Amarante fica longe desta Quinta Nova, resta saber se porventura nesta também haja algum elemento afim capaz de inscrevê-la no simbolismo miraculoso da ponte. Há, com efeito, nas proximidades da desaparecida ermida a ribeira de S. Gonçalo a qual tinha obrigado à construção de duas pontes, conforme informação prestada em 1768 pelos homens da governança de Penas Róias[10], adiantando Luís Alexandre Rodrigues, no seu valioso estudo citado, não se conhecerem as razões que levaram à sua degradação.

Se o nome Gonçalo deriva do latim “Deus salvo”, em tal salvação entrará a ponte que leva do mundo dos perigos corporais àquele dos espiritualmente salvos, o que transfere para a heterodoxia do simbolismo religioso da ponte indicativa do pontifex latino, no entendimento de S. Bernardo de Claraval (in Tratactus de Moribus et Officio Episcoporum, III, 9, 1126): “O pontífice, como indica a etimologia da palavra, é uma espécie de ponte entre Deus e o Homem[11]. Com este sentido familiar do pontífice máximo da Arte Sacerdotal, ao ser construída a ponte por mãos de mestre, juntando o místico ao operático, ela é também indicativa da Arte Real, expressão mantida até hoje pela Maçonaria[12].

Com efeito, o título de pontifex, que foi o do imperador romano e permanece sendo o do papa, significa precisamente construtor de ponte. O pontífice é ao mesmo tempo o construtor e a própria ponte, como mediador entre a Terra e o Céu, o intermediário perfeito entre Deus e o Homem, o Criador e a Criação. Também nisto há duplicidade no entendimento do saber apreendido e do saber aplicado. Pode ser apreendido como gnose ou esotérica, e pode ser aplicado ou transmitido como teologia exotérica, de foro exclusivamente confessional. Motivo de muitos teólogos também serem iniciados. É nisto que entra o simbolismo das pontes do diabo, pomo de inumeráveis superstições e lendas populares onde se alternam Deus, o Diabo e seus adoradores. Nessa denominação observa-se uma espécie de reconhecimento da extrema dificuldade em construir tamanhas obras de arte e arquitectura causando espanto por sua beleza, polidez e firmeza. O conhecimento proibido ou inacessível ao vulgo é sempre considerado danado, criação da mente conspurcada do próprio príncipe das trevas, como pretende a demonologia, um dos ramos da teologia, que tem na Gnose ou Sabedoria Divina a maior adversária à ordem teologal instituída. Assim, na “ponte enfeitiçada por artes malignas”, a alma do primeiro passante deverá pertencer ao diabo: é a quota dele; de outro modo, teria trabalhado à vista de todos sem ser em segredo e no nocturno secreto, mas ele fora enganado pelas artes mistéricas do diabo, fixara a ponte para um enclave mágico onde a fé e a religião sofriam a mácula do erro e da heresia condenadas pela Igreja do populi. Diz-se também que a primeira pessoa que atravessa a “ponte maldita” morre naquele ano. As lendas populares indicam, em todos os casos, a angústia que suscita uma passagem difícil sobre um local perigoso e reforçam a simbólica geral da ponte e a sua significação onírica: um perigo a superar e, do mesmo modo, a necessidade de se dar um passo. A ponte coloca o homem sobre uma via estreita, onde ele encontra inexoravelmente a obrigação de escolher. E sua escolha o dana ou o salva[13].

No caso deste enigmático monóptero, se o beato Gonçalo vem a ser representação do próprio pontífice servindo de medianeiro postado no seu centro fechado pelas colunas salomónicas, então, como bem diz Luís Alexandre Rodrigues, o próprio monóptero será figuração simbólica do Sanctum Sanctorum do antigo Templo de Salomão, a porta de acesso das almas salvas, eleitas por seus próprios méritos, à Jerusalém Celeste, sob a mediação psicopompa do taumaturgo português.

O protótipo salomónico do Santo dos Santos influenciou a forma de muitos sacrários e tabernáculos, razão pela qual foram construídos segundo um modelo centralizado, em rotunda figurativa da hóstia – para Francisco de Holanda – expressiva da Mónada ou Nous que por sua circulatura expressa a infinidade divina, “sem princípio nem fim”, com isto encomiando e exaltando o Santíssimo Sacramento que a devoção conheceu nos tempos pós-tridentinos, em reacção ao cisma protestante que não aceitava a presença de Cristo – Agnus Dei – na Eucaristia. Por isso, Carlos Barromeo evidencia a conveniência do tabernáculo da Eucaristia ser colocado no altar maior definindo para a sua configuração planimetrias centralizadas, circulares ou poliédricas, como as mais apropriadas ao estado de perfeição: “Octogonal o redonda, en la medida que parezca más elegante y religiosamente apropriado para la forma de la iglesia”[14].

Em consequência dessas orientações, conclui Luís Rodrigues, afirmar-se-ia a tendência para os sacrários passarem a ser construções independentes ao mesmo tempo que na sua organização não raro se contemplavam algumas das possibilidades estéticas oferecidas pelas diversas correntes arquitectónicas, mas que se enquadrassem no sentido primacial de Santo dos Santos como este salomónico do enclave sagrado da Quinta Nova.

Redondo foi o formato proposto por Francisco de Holanda para a fábrica de “uma sumptuosíssima igreja ou capela em glória e exaltação e memória do Santíssimo Sacramento”, a construir em Lisboa, empresa completada com os desenhos de uma “charola pola parte de dentro onde há de estar o sacrário”, um sacrário e ainda uma custódia[15]. Essa igreja está assinalada como sendo a do Alto de Santo Amaro, na capital. Exemplos de sacrários com planta centralizada são conhecidos de Norte a Sul de Portugal. No entanto, por justificarem a aceitação regional do mesmo formulário, convém dar conta desses modelos na Sé de Miranda do Douro ou na igreja do antigo mosteiro franciscano de Mogadouro. Já a Jerusalém Celeste está retratada nos frescos na capela-mor do Convento de S. Francisco de Bragança.

O supracitado Luís Alexandre Rodrigues, justificando Francisco de Monzon que no século XVI equiparava Lisboa a Jerusalém e enaltecia as contribuições de D. João III para obras públicas, religiosas e militares, sentenciando que “bien puede Salomon y todos los príncipes de la tierra dar ventaja al Rey Don Juan Nuestro Señor”[16], apresenta vários rostos de baldaquinos condizentes com o do Templo de Jerusalém e com a própria Jerusalém Celeste, testemunho desse figurino simbológico ser conhecido dos autores clássicos greco-latinos, nomeadamente a gravura na portada do tomo III de Apparatus urbis, AC Templi hierosolymitani, obra de cariz tipográfico intitulada In Ezechielem Explanationes, da autoria dos padres jesuítas Jerónimo do Prado e João Baptista Villalpando, cujos três volumes foram impressos em Roma entre 1595 e 1606. Também aparece o rosto da edição de 1678 do tratado de Arquitectura civil recta y obliqua, considerada y debuxada en el Templo de Jerusalem, de Caramuel de Lobkowitz (1606-1682), engenheiro militar madrileno que em 1635 estava em Portugal.

Interessa particularmente a gravura da portada que representa um baldaquino de quatro colunas salomónicas, onde a inscrição Templum Salomonis não deixa lugar a dúvidas sobre o modo como o novo Santo Sepulcro – Templum Domini – devia ser representado[17], sendo flagrante a sua semelhança com o monóptero de S. Gonçalo.

Se o monóptero está para o Santo dos Santos lugar central do Templo por que se interage com a Jerusalém Celeste expressiva do estado de Graça usufruto eterno dos 144.000 eleitos do Paradisi que haverão que consumar na Terra a Parúsia ou Advento prometido do Agnus Dei, do Filho de Deus, tem-se que tal número simbólico 144 somado dá 9 de ADM (Adam), expressivo do próprio Homem, sobretudo do Homem que habitará o Paraíso Terrestre correspondendo à Idade Futura do Espírito Santo, demarcada pelos enclaves sagrados e de que é símbolo o próprio monóptero. Se, por um lado, Jerusalém expressa a visão de paz, de justiça e da união para todas as tribos de Israel (Salmo 122), por outro lado, o principal unanimemente aceite pelas três religiões monoteístas do Livro, manifesta o reino messiânico aberto a todos os povos, ideia alvissareira que no século XVII tomou forma em Portugal como a do Quinto Império, a de uma Nova Idade de Humanidade afim àquela da Jerusalém Celeste conforme descreve o Apocalipse 21:1-6, dando-a como a nova ordem psicossocial justa e perfeita que substituirá o estado caótico do mundo actual no fim dos tempos, isto é, de final de um ciclo de evolução pelo dealbar de um outro mais promissivo para o Género Humano.

Cabe insistir sobre a forma quadrada da Jerusalém Celeste, que a distingue do Paraíso Terrestre, geralmente representado sob uma forma redonda: é que este é o Céu na Terra, enquanto a Nova Jerusalém é a Terra no Céu. As formas circulares dizem respeito ao Céu; as quadradas, à Terra. A transmutação do Universo representado pela Nova Jerusalém, não é o regresso ao passado idílico, mas sim decisivamente a projecção do futuro sem precedentes[18].

Parece não ter existido conflito entre o pensamento mistérico e o pensamento confessional, entre a hermenêutica esotérica e a hermenêutica sociológica que terá assistido à fundação e finalidade do monóptero de S. Gonçalo. Se por um lado terá servido de estímulo ao reforço da identidade nacional na zona de fronteira, não sendo fácil esquecer o esforço de consolidação da Restauração, com os sucessos relativos a 1710 quando o exército castelhano depois de tomar Miranda e saquear Moncorvo corria impunemente toda a zona do Douro internacional, por outro lado o figurino sagrado em presença perpassa o imediatismo do sentido patriótico, recambiando tanto para a leitura teológica como para a interpretação gnóstica ou teosófica, não colidindo entre elas porque sendo uma Palavra o seu entendimento é diverso, conformado do menor ao maior aprofundamento das Escrituras Sagradas segundo a capacidade de quem as lê e aplica, indo do confessional ao mistérico, do exoterismo ao esoterismo[19].

Com efeito, há três modos de ler a Bíblia, do mais superficial ao profundo:

Não é raro observar-se o teólogo procurando aprofundar o seu conhecimento adentrando o campo gnóstico, sobretudo a gnose judaico-cristã de inspiração grega, e é quando se inicia nos Mistérios Cristãos – como o fizeram Paulo de Tarso, Jâmblico, Plotino, etc. – realizando os seus passos ou graus até à sua completa realização espiritual, à sua absorção em Cristo Deus (Logoi) e poder finalmente afirmar na plenitude: “Eu e o Pai somos Um!” – João 10:30.

Essa é a Teurgia, a Obra Divina como a mais Excelsa Magia assistindo tanto ao acto das Iniciações nos Mistérios como aos mistérios dos Sacramentos. Sobre isto, diz Annie Besant[20]:

“De Jâmblico, o grande teurgo do terceiro e quarto séculos depois de Cristo, muito há a aprender com relação à finalidade dos Mistérios. A Teurgia era a Magia, “a parte mais adiantada da Ciência Sacerdotal”[21]; ela era praticada nos Mistérios Maiores, para evocar a aparição de Seres Superiores. Resumida em poucas palavras, a teoria que serve de base aos Mistérios é a seguinte: primeiramente o Único[22], anterior a todos os seres, imóvel, concentrado na solidão da sua própria Unidade. Dele emana o Deus Supremo[23], Gerador de Si mesmo, o Bem, a Fonte de todas as coisas, a Raiz, o Deus dos Deuses, a Causa Primária, cuja manifestação é a Luz. Desta surge o Mundo Inteligível ou Universo Ideal, a Mente Universal, o Nous, do qual dependem os deuses incorpóreos e intelectuais. Do Nous procede a Alma do Mundo, à qual pertencem as “formas divinas intelectuais que acompanham os corpos visíveis dos deuses”. Em seguida, vêm as diferentes Hierarquias de Seres super-humanos, os Arcanjos, os Arcontes (Governadores), os Cosmocratores, os Anjos, os Daimones, etc. O Homem constitui uma Ordem menos elevada mas de natureza análoga à deles, pode chegar a conhecê-los, a experiência mostrou isso nos Mistérios e conduz à união com Deus.

“Conforme as doutrinas professadas nos Mistérios, “todas as coisas procedem do Único e para Ele voltam”, “o Único é superior a tudo”. Ademais, esses diferentes Seres eram invocados e apareciam ora para instruir, ora para elevar e purificar apenas com a sua presença.

“Os deuses benevolentes e misericordiosos – diz Jâmblico – difundem liberalmente a luz aos teurgos; atraem para eles as almas destes, unindo-as a eles e habitando-as, embora ligadas aos corpos, a se separarem destes e a evoluíram para a Causa Eterna e Inteligível”. Porque como a alma tem uma dupla vida, uma com o corpo e outra distinta do corpo, é indispensável aprender a separar a alma do corpo, a fim de que ela possa unir-se aos deuses por sua parte intelectual e divina, e aprender, com os verdadeiros princípios do Conhecimento[24], as verdades do mundo inteligível. A presença dos deuses dá-nos a saúde do corpo, a virtude da alma, a pureza da inteligência, numa palavra, a volta de tudo que está em nós às causas próprias… O que não é corpo, ela o representa como corpo aos olhos da alma, por intermédio dos olhos do corpo. Nas epifanias dos deuses, as almas recebem a perfeição extraordinária e extrema, e participam do Amor divino e da Alegria indivisível. “É assim que nós obtemos uma vida divina e nos tornamos, na realidade, divinos”.

“O ponto culminante dos Mistérios era a transformação do Iniciado em Deus, seja pela união com um Ser divino exterior, seja abrindo os olhos à existência divina dentro dele.”

Finalmente, para terminar, a mensagem parúsica que o monóptero de S. Gonçalo parece reter, igualmente bem parece ajustar-se bem àquelas outras palavras no Sermão V de São Bernardo de Claraval, da Vinda intermediária de Cristo e a fundação do seu Reino sobre a Terra com o Homem e Jerusalém renovados[25]:

Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta, não. Na primeira vinda o Senhor apareceu na Terra e conviveu com os homens. Foi então, como Ele próprio declara, que viram-no e não o quiseram receber. Na última, todo homem verá a salvação de Deus (Lc. 3:6) e olharão para aquele que transpassaram (Zc. 12:10). A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos O vêem em si mesmos e recebem a salvação. Na primeira, o Senhor veio na fraqueza da carne; na intermediária, vem espiritualmente, manifestando o poder da Sua graça; na última, virá com todo o esplendor da Sua glória.

Esta vinda intermediária é, portanto, como um caminho que conduz da primeira à última: na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; na intermediária, é nosso repouso e consolação.

Mas, para que ninguém pense que é pura invenção o que dissemos sobre esta vinda intermediária, ouvi o próprio Senhor: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele (cf. Jo. 14:23). Lê-se também noutro lugar: Quem teme a Deus, faz o bem (Ecl. 15:1). Mas vejo que se diz algo mais sobre o que ama a Deus, porque guardará suas palavras. Onde devem ser guardadas? Sem dúvida alguma no coração, como diz o profeta: Conservei no coração vossas palavras, a fim de que eu não peque contra vós (Sl. 118:11).

Guarda, pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo da tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem e tua alma se deleitará na fartura. Não esqueças de comer o teu pão para que teu coração não desfaleça, mas que tua alma se sacie com este alimento saboroso.

Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará. Virá a ti o Filho em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém e fará novas todas as coisas. Graças a essa vinda, como já refletimos a imagem do Homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do Homem celeste (1Cor. 15:49). Assim como o primeiro Adão contagiou toda a Humanidade e atingiu o Homem todo, assim agora é preciso que Cristo seja o Senhor do Homem todo, porque Ele o criou, redimiu e o glorificará.

 

NOTAS

 

[1] Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, Abril de 2007.

[2] Luís Alexandre Rodrigues, O monóptero de S. Gonçalo: uma proposta de leitura. Departamento de Ciências e Técnicas do Património, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Actas do II Congresso Internacional do Barroco, pp. 411-421, Porto, 2001.

[3] A.D.B., Mitra, Cx. 37, doc. n.º 17. A par com a indicação para o documento se arquivar no cartório do Cabido também se pode ler: “doação de hu ermitão da Bemposta que lhe fes Luis Alvares de Tavora”.

[4] Jozé Botelho de Mattos, Documentos vários para a Historia Eclesiastica do Bispado de Miranda, 1896. B.N.L., Res., COD. 154, fl. 99v.

[5] Jozé Botelho de Mattos, ob. cit. B.N.L., Res., COD. 154, fls. 99v-100.

[6] Nuno Villamariz Oliveira, Castelos Templários em Portugal. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda, Lisboa, Outubro de 2010.

[7] Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão Editores, Porto, 1990.

[8] Francisco Fernandes Galvão, Sermões das Festas dos Santos. Ed. Pedro Crasbeeck, Lisboa, 1613.

[9] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Livros Dinapress, Lisboa, Maio de 2011.

[10] A informação, assinada pelo juiz da Ordenação, Procurador e dois vereadores, tinha o Provedor da comarca como destinatário e fazia parte de um processo destinado a ouvir os governantes das várias localidades sobre a disponibilidade para aceitarem uma finta destinada à reconstrução da ponte de Castrelos nas proximidades de Bragança. A.N.T.T., Desembargo do Paço, Repartição do Minho e Trás-os-Montes, Mç. 49, Cx. 60. Cf. Luís Alexandre Rodrigues, ob. cit.

[11] Patrologia Latina, CLXXXII 807-834A. Esta obra compõe-se de uma enorme colecção de escritos dos Padres da Igreja, editada em Paris por Jacques-Paul Migne entre 1844 e 1855, sendo os índices publicados entre 1862 e 1865.

[12] René Guénon, O Rei do Mundo. Editorial Minerva, Lisboa, 1978.

[13] Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1990.

[14] Carlos Barromeo, Instrucciones de la fábrica y del ajuar eclesiásticos. Universidade Nacional Autónoma de México, México, 1985.

[15] Francisco de Holanda, Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, 1571. Livros Horizonte, Lisboa, 1984.

[16] Francisco de Monzon, Libro primero del perfecto christiano. Lisboa, 1544.

[17] René Taylor, Juan Bautista Villalpando y Jerónimo de Prado: de la arquitectura prática a la reconstrucción mística, in Dios Arquitecto. Ediciones Siruela, Madrid, 1991.

[18] Gérard de Champeaux, Sébastien Sterckx, Introduction au monde des symboles. Ed. Zodiaque, Paris, 1966.

[19] António de Macedo, Cristianismo Iniciático. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda, Lisboa, Março de 2011.

[20] Annie Besant, O Cristianismo Esotérico. Editora Pensamento, São Paulo, 1978.

[21] Thomas Taylor, Jâmblico sobre os Mistérios Egípcios. Ed. Chiswick Whittingham, Londres, 1821.

[22] Substância Absoluta Informe, Ain-Suph, Svabhâvat, Tudo-Nada, etc., segundo as diversas escatologias mistéricas e religiosas (nota do autor).

[23] O Logos Original dotado de Três Hipóstases que estão na base das diversas Trindades religiosas e esotéricas (nota do autor).

[24] Gnose, Teosofia, Gupta-Vidya, Sabedoria Divina, Conhecimento Secreto, etc. (nota do autor).

[25] São Bernardo, Sermo V in Adventu Domini: Opera Omnia. Editiones Cisterciensis, Roma, 1966.

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A Teosofia e a Lei da Polaridade – Por Zélia Scorza Pires Quarta-feira, Out 18 2017 

Quando uma obra de caridade é criada, frequentemente encontra ela muitos interessados; mas, se o seu progresso depender de estudos e pesquisas da parte de seus membros, o número dos adeptos da mesma obra diminuirá sensivelmente. Poucos são, na verdade, aqueles que, dentro de uma fraternidade, sentem atracção pelos estudos. O que se nota, para tristeza dos Deuses e atraso da Evolução Humana, é um permanente interesse pelos fenómenos psíquicos, chamados muito erradamente, por alguns, de “milagres”, e que em nada colaboram para o progresso espiritual da criatura humana.

Os verdadeiros milagres são sempre fenómenos naturais, realizados por Seres estudiosos das forças da Natureza. São os TAUMATURGOS – Seres que agem, verdadeiramente, dentro das Leis da Teosofia. Há, também, seres que, mesmo ignorando (aparentemente) as forças da Natureza, nascem com a missão de serem “canais” por onde o Poder Divino pode fazer fluir parte da sua força, a fim de aliviar o sofrimento humano.

Ora, estamos num ciclo em que os fenómenos psíquicos não mais deveriam ser encarados com tanto interesse. O que deve ser objecto de atracção para uma criatura humana interessada em evoluir, é o desenvolvimento da Inteligência, o despertar da Mente Superior, que é aquela que nos liga, definitivamente, ao nosso Deus Interior ou Centelha Divina. É esta Mente que fará de cada um de nós um Ser teosófico.

É, sem dúvida, um atraso imperdoável essa atracção pelos fenómenos psíquicos, pois isso significa permanecer num estado de consciência anímico, que foi o atributo desenvolvido na Raça Lemuriana, anterior à Raça Atlante, portanto. Ora, nós já estamos no final da Raça Ariana, quando deveria sobressair o Mental Abstracto, a Mente Superior, que é a Mente do raciocínio superdesenvolvido, do discernimento apurado, das ideias, da percepção das coisas subjectivas, das coisas dos Céus… No entanto, o que se vê é algo inteiramente diferente. Vê-se a quase totalidade das pessoas sentirem-se atraídas pelo animismo, cooperando, dessa forma, para um enorme e irrecuperável atraso na Evolução Humana. A Nova Era, que se aproxima a passos gigantescos, exige desta mesma Humanidade que dê, também, passos agigantados, no que se refere ao seu adiantamento espiritual, sob pena de não ser aproveitada para o Novo Ciclo uma grande parte desta mesma Humanidade. A Terra, segundo nos ensina o Mestre J.H.S., está com a sua rotação mais rápida. O tempo urge, portanto. É necessário que acompanhemos esta nova velocidade ou dimensão… Não há em tal exigência qualquer excesso, como poderia parecer aos não estudiosos do assunto. Trata-se da realização de um trabalho cósmico, que não pode ser prejudicado ou atrasado, pois abrange a tudo e a todos. Estamos no ciclo do rigor, do “ajuste das contas”… A época das súplicas e dos alertas dos Deuses já passou, pois que, lamentavelmente, tais súplicas e alertas não foram atendidas pelos homens, que, insensíveis, persistem nos erros. Referimo-nos aqui aos erros prejudiciais à colectividade, uma vez que os erros restritos, relativos a cada ser humano em particular, são, de certa forma, naturais, já que a Vida é “um perene cair e levantar”… à semelhança da Via Crucis de Jeoshua Ben Pandira, o Jesus bíblico, que mostrou, no seu trajecto até ao Gólgota, o que a própria Humanidade tem que passar para evoluir. Todos os nossos erros (desde que neles não reincidamos deliberadamente), após conscientizados, servem, admiravelmente, de experiências valiosas para a Evolução Humana. Há, porém, actos que são tão desastrosamente nocivos que chegam a atingir a toda uma colectividade, ao povo, à nação, à Humanidade e, finalmente, ao próprio planeta.

É o que se vê actualmente, com as sucessivas e catastróficas experiências nucleares, afectando a segurança da própria Terra e fazendo-a sofrer. Como diz o nosso Mestre, “sofrem até os animais no fundo dos mares”…

Será terrível o que vem por aí como consequência das nossas “brincadeiras” perigosas e irresponsáveis… Sobre tudo isso o nosso Mestre fartou-se de alertar, de suplicar mesmo… Nesse sentido, foram enviadas mensagens até mesmo à ONU, chamando a atenção para o perigo do degelo dos pólos, da energia nuclear “roubada” do Núcleo da Terra… Mas, a face da Terra continua a ser castigada impiedosamente. O tributo a ser pago por nós, por todos esses males impostos à Mãe Natureza, será pesado e doloroso, sem dúvida. Dele ninguém poderá escapar, pois o tempo da tolerância já se esgotou. De facto, atravessamos o ciclo dos efeitos, relativos às causas por todos nós geradas. Estamos num ciclo totalmente lunar, e a Lei do Rigor (KARMA) impõe ao Mundo a sua Justiça perfeita! É o Quinto Planetário agindo com o Rigor que lhe compete, em todo o orbe terrestre, a fim de realizar a selecção da SEMENTE ou dos “Eleitos do Novo Ciclo”!

Os Seres que já têm despertada a Mente Superior, Abstracta, não são compreendidos pelos medíocres e, como consequência, são sempre combatidos, perseguidos até, pois raciocinam muito além do nível da massa comum. Os grandes Génios (ou Jinas) são Seres Solares que raciocinam dentro das leis da TEOSOFIA e, por isso mesmo, sofrem ataques dos lunares, sendo por eles ridicularizados, escarnecidos e caluniados.

O mundo ainda está longe de ser um mundo teosófico, mas em todas as épocas, por mais difícil que tenha sido, sempre houve Seres que vivenciaram a TEOSOFIA, que tentaram, à custa de muitos sacrifícios, propagá-la. Graças a esses primorosos Seres, a TEOSOFIA, como uma rosa desfolhada, deixou, em várias partes do mundo, um pouco do seu precioso perfume…

Um dos aspectos mais importantes da MISSÃO do nosso Mestre, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, foi o de “despertar” a Humanidade para a TEOSOFIA, através do Movimento que , em sua primeira fase, tomou o nome de DHÂRANÂ, e que, em sua segunda fase, ficou conhecido como SOCIEDADE TEOSÓFICA BRASILEIRA, em homenagem à incomparável mártir do século passado, que foi Helena Petrovna Blavatsky, de cujo trabalho foi o nosso Mestre, neste século, o continuador, mas no sentido de ir adiante, ir além, vindo por isso a dar-lhe a designação própria de Teosofia Eubiótica, ao criar o neologismo EUBIOSE. Aliás, toda a vida do nosso Mestre constitui-se num exemplo incomparável de “vivência eubiótica”, razão por que ela só foi compreendida por aqueles que alcançaram, realmente, a condição de discípulos verdadeiros. Discípulos verdadeiros de J.H.S. são aqueles que aceitam e vivem a TEOSOFIA EUBIÓTICA. Ora, viver a EUBIOSE é transformar o Eu inferior, animal, em Eu Superior ou Divino. O homem educado, desde pequenino, eubioticamente, viverá sempre em harmonia com as Leis da Natureza e será, no futuro, um homem superior (ou “super-homem”, no sentido filosófico). Eis porque a Humanidade do Futuro será uma Humanidade feliz, harmónica, perfeita…

Todos nós somos uma miniatura do Universo e, também, um espelho que o reflecte. Enquanto não vivermos em sintonia perfeita com ele, seremos como um espelho partido, a reflectir imagens deformadas. Eis uma das razões para a crença popular que afirma “dar azar” o espelho partido. Sim, porque enquanto a Personalidade reflectir imagens defeituosas, não estará adequada a ser veículo de expressão do nosso próprio Ego Divino ou Deus Interior. A palavra EUBIOSE é composta pelo prefixo grego EU, que quer dizer “bem, belo, excelente”, e BIOSE, “vida, vivência”, de fácil adaptação, próspero (na mais alta acepção espiritual), de fácil adaptação às Leis do Universo!

Como todos devem saber, nas escolas e nas faculdades os estudos não são de natureza teosófica, pois estão muito distanciados da Lei Universal e da Ciência Iniciática, além de contrariarem, na maioria das vezes, as verdadeiras tendências e anseios dos alunos pela forma como são apresentados. Os estudos num verdadeiro Colégio Iniciático, como é o nosso, obedecem a uma outra sistemática, sendo dados, em grande parte, de modo teatralizado, pois que são encenados ritualisticamente, para que haja a vivenciação, pelo discípulo, dos ensinamentos do nosso Mestre. Tem-se, neste caso, a educação e a instrução, simultaneamente. Conforme afirma um Grande Ser (Dr. Maurus), a Instrução refere-se à Inteligência e a Educação refere-se à Emotividade. Diz Ele ainda que “uma instrução que cansa, uma educação que oprime, não é eubiótica… Deve-se pôr o educando em condições de continuar aperfeiçoando-se por si mesmo, quando já não esteja sob a direcção dos seus mestres”… Foi justamente isso que o nosso Mestre, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, fez com os seus discípulos.

Dando-nos as necessárias “ferramentas”, resta agora manejá-las com equilíbrio, sem fanatismos, pois o exagero, em tudo, é sempre nocivo, prejudicial, doentio. Por isso mesmo, é preferível não se crer em coisa alguma a se tornar um fanático. Continuando, diz o mesmo Grande Ser que “é desbiótica (e, portanto, nociva) a preguiça, a avareza, o orgulho, a vaidade, e muito pior que todas elas, o egoísmo”.

Com a teatralização do ensino em nosso Colégio Iniciático, o aluno sincero aprimora o físico, o emocional e o mental. Aprimora o físico porque as músicas (mantrans) e as yogas da nossa Obra têm o poder de transformar, aos poucos, os órgãos físicos, de modo a torná-los mais sensíveis à espiritualidade. Esta transformação não se opera só visivelmente, mas sobretudo internamente. Vai ocorrendo uma lenta e progressiva sublimação desses órgãos, cujos resultados se fazem notar na parte emocional ou psíquica. Por seu lado, as emoções grosseiras, banais, fúteis, inferiores (e sempre prejudiciais), vão sendo transmutadas em emoções nobres, subtis, delicadas, superiores, dando como resultado um aumento considerável do potencial do intelecto, transformando-o em Inteligência Superior, em Sabedoria Divina.

A Mente passa, então, a raciocinar abstractamente, ou seja, passa a usar a Razão superior, que é o elo que nos permite o desenvolvimento de atributos ainda mais subtis dos estados de consciência mais elevados, ligando-nos de vez ao TODO, a DEUS, do qual, um dia, todos viemos, o que nos comprova que a TEOSOFIA sempre existiu em nosso próprio interior, tendo sido por nós esquecida, ficando adormecida, entorpecida pelos múltiplos aromas emanados dos vários Planos em que se manifesta a Vida Universal. Com o despertar da Mente Superior ou Abstracta, realiza-se uma espécie de “Eucaristia Mental e Coracional”, fazendo com que se transborde, aos poucos, o Conhecimento Divino, que é a mesma TEOSOFIA, e que todo o ser humano traz, latente, dentro de si… Esta Sabedoria Divina já existe, portanto, como uma “enciclopédia orgânica”, impressa dentro de cada ser humano, faltando apenas, a cada um, abri-la, folheá-la, o que se consegue fazer através dos vários renascimentos e mortes, ou seja, das sucessivas reencarnações. É a chamada Roda da Vida.

Dentro do simbolismo da nossa Obra, a POLARIDADE (ou Dualidade) manifesta-se como “Face do Rigor” e “Face da Misericórdia” ou “Face do Amor”… Para seguir as Leis da Teosofia Eubiótica, a criatura humana tem que expressar, em si mesma, essas duas “Faces”, equilibrando-as. A do “Rigor”, para consigo mesma, para com os seus pensamentos, as suas atitudes, solicitações íntimas, etc., mantendo-se, em consequência, sempre respeitosa para com as coisas divinas, ou seja, trabalhando com dedicação para a rápida realização dos planos da Lei. Sim, porque nem todo o trabalho é eubiótico. A esse propósito, diz o mesmo Grande Ser que há pouco mencionámos que “não é eubiótico o trabalho que desperdiça as faculdades em vez de desenvolvê-las; não é eubiótico o que esgota as forças além do reparável; não é eubiótico o trabalho que não deixa uma sensação de prazer ou de felicidade”… Quanto à “Face da Misericórdia” (ou do Amor), devemos manifestá-la para com todas as pessoas e coisas, mesmo quando recebemos ofensas e calúnias. Assim foi HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA; assim é a TEOSOFIA, que pode ser resumida nas três palavras: Trabalhar, Amor e Perdoar… Esse é o lema do nosso Mestre e é o que Ele espera dos seus discípulos. A “Face do Rigor” expressa a Justiça, o Poder Temporal, o Poder realizador, o Poder de comando, o Poder guerreiro (mas o verdadeiro, que é o da luta contra a ignorância), e a “Face da Misericórdia” (ou do Amor) expressa a Redenção, a Bênção, a Salvação, a Compaixão, a verdadeira Mística, a Revelação, etc.

A Consciência Cósmica (ou Deus), em sua função criadora, é sempre dual ou polarizada.

Assim sendo, a POLARIDADE é o aspecto básico da Manifestação, do Demiurgo! As Centelhas, saídas da Consciência Universal dual ou polarizada, constituem as Mónadas Humanas. Seguindo o caminho evolucional, as Centelhas atravessam os vários Planos da Forma, atraindo para si os elementos materiais de cada Plano. Desse modo, elas atraem para si a matéria chamada RAJAS, que representa a Emoção, formando a Alma ou Corpo Psíquico. Uma vez formada a Alma, as Centelhas continuam a sua trajectória evolucional e atraem a matéria denominada TAMAS, que é a mais densa, constituindo com ela o Corpo Físico. Essas matérias (ou energias), chamadas RAJAS e TAMAS, representam-se de forma mais subtil ou menos subtil, conforme os Planos e subplanos em que é repartida a Vida Universal. Na marcha da Evolução, a polaridade “latente” nas Centelhas ou Mónadas Humanas se desprende e cada parte adquire corpos adequados à sua vibração, sendo cada qual contraparte perfeita do outro, isto é, conformando pares ou casais, que devem se identificar nos vários Planos da Matéria. É a essa união espiritual (ou “casamento cósmico”) que se refere a conhecida frase: “O que Deus uniu, o Homem não pode separar”… Esse é o significado da tradição de Adão e Eva.

É a “maçã inteira”, que pode simbolizar a Centelha Divina ou Mónada Humana, e a “maçã partida” ou “provada”, que pode simbolizar a polaridade, ou os casais.

Apesar da frequência vibratória dessas Centelhas ou Mónadas ir-se modificando à medida que atravessam Planos mais densos, no entanto, elas mantêm intactos os dons divinos que lhes são próprios. No Plano da face da Terra, podemos considerar esse dom divino como sendo a Voz da Consciência ou o Deus Interior. Cada Mónada Humana (completa, isto é, polarizada) tem uma finalidade de ser e de existir que lhe é dada pela Consciência Universal: é a missão de cada um… seja ela grande ou pequena, pouco importa, pois todas fazem parte dos planos divinos. No interior de cada um pulsa o verdadeiro Ser, que no seu aspecto universal é chamado de Homem Cósmico, e que é o mesmo JEHOVAH das Escrituras Sagradas. Em seu aspecto polarizado esse Homem Cósmico é o mesmo ADAM-KADMON das tradições cabalistas, o qual, na face da Terra, é conhecido como ADAM-HEVE ou Adão e Eva!

O DEVER de cada ser humano é procurar conhecer esta Lei que vive dentro de si mesmo, e cumprir a missão para a qual foi destinado. Por isso, a Iniciação realizada num verdadeiro Colégio Iniciático, como é o nosso, concede aos discípulos as preciosas “ferramentas” para uma rápida conscientização. Sem a Iniciação Real, a ampliação da consciência processa-se lentamente, podendo até ocorrer que o total dos renascimentos concedidos pela LEI não seja suficiente para certas criaturas. De certa forma, a Humanidade passa, actualmente, por uma Iniciação Real, que é a do sofrimento, a do chamado “resgate kármico colectivo”, como prestação das dívidas acumuladas em vidas passadas.

Eis, pois, a razão do existir: sabermos quem somos, de onde viemos e para onde vamos. São as três enigmáticas questões da Esfinge propostas a todos os Peregrinos da Vida, que somos todos nós. Essas perguntas, no entanto, deixam de ser enigmáticas para todos os que se iniciam nos Grandes Mistérios! A própria LEI estabelece, na Suprema Perfeição, que o ser humano que não lograr se conscientizar plenamente da razão do existir, ao longo das 777 encarnações previstas, ficará fora da Roda da Evolução. Uma famosa sentença, de grande sabedoria, afirma que “a caravana passa, embora ladrem os cães”… Ela demonstra a dinâmica da Evolução, pois a “caravana” é a própria Lei Evolucional em sua marcha para o Infinito, e os “cães” representam os seres que falam muito mas que não resolvem nada, que não querem esforçar-se para evoluir. Os valores espirituais são, pois, os únicos que seguem connosco após a morte do corpo físico. Para que haja um acúmulo de tais valores (como verdadeiras pérolas no colar da Divina Mãe), a LEI concede a cada ser humano a oportunidade de 777 vidas (ou renascimentos), para que no final desse prazo (que abrange milhões e milhões de anos) cada um tenha se encontrado, isto é, tenha despertado o seu Deus Interior.

O Eu Superior (ou Divino) à medida que vai descendo nos Planos Inferiores ou Humanos, vai perdendo a noção da sua realeza em virtude da crescente densidade dos Planos, por isso mesmo chamados de “Planos tenebrosos da Matéria”… e que facilmente iludem a todos e mais ainda aos que não mantêm a Vigilância dos Sentidos, como bem diz a nossa Grã-Mestrina D. Helena Jefferson de Souza.

Para escapar dessas mayas (ou ilusões) há que se praticar o “Vigiai e Orai” recomendado por Jeoshua Ben Pandira, o Cristo, e que é a mesma Vigilância dos Sentidos.

O processo de Evolução, que é representado pela Roda da Evolução ou a divina Cruz Suástica (a positiva, portanto), consiste em fazer voltar ao seu ponto de origem as Mónadas Humanas (ou Centelhas Divinas), porém trazendo as experiências acumuladas durante os milénios e milénios de existência nos vários Planos em que é repartida a Vida Universal.

Vimos, anteriormente, que a POLARIDADE é a Lei da Manifestação. Assim, temos os mais variados pares de opostos, como por exemplo: o dia e a noite, a sabedoria e a ignorância, o espírito e a matéria, o bem e o mal, o quente e o frio, o positivo e o negativo, a luz e a treva, o homem e a mulher, a força centrífuga e a força centrípeta, a alegria e a tristeza, o oriente e o ocidente, a sinarquia e a anarquia, o amor e o ódio, o movimento e o repouso, o nascer e o morrer, o inspirar e o expirar, o fogo e a água, o plantar e o colher, a suástica e a sovástica, a vigilância e o sono, o círculo e o quadrado, o anjo e o assurim, o Amor de Deus e a Ira de Deus, a paz e a guerra, , a Luz de Deus e a Sombra de Deus, Deus e Diabo, etc., etc.

Todos esses pares de opostos filosóficos que citámos são apenas alguns exemplos da Lei da Polaridade manifestada em todo o Universo. A frequência vibratória e o estado de consciência de todos os elementos existentes, variam conforme os Planos a que pertencem. Os elementos fogo e água nos Planos mais subtis, por exemplo, não podem ser comparados com os elementos fogo e água que conhecemos no nosso Plano, pois são reflexos daqueles. Assim também o é em relação ao Sol que nós vemos, que é reflexo ou espelho de um outro Sol, o SOL CENTRAL existente no interior da Terra, conforme ensina o nosso Mestre J.H.S.

O homem teosófico é um Homem Verdadeiro, no seu alto sentido, e é assim definido pelo Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA: “O Homem Verdadeiro, estando colocado no centro, não participa mais do movimento das coisas, mas na realidade dirige esse movimento, por sua simples presença, porque nele se reflecte a Actividade do Céu”… Tal Ser usa, com assiduidade, a Linguagem do Segundo Trono (Céu), que é doce e branda. Foi esta Linguagem que deu origem à poesia, à música, ao ritmo, à harmonia, ao bailado sagrado, à divina estética e à delicadeza de costumes. Tal Linguagem fica gravada no espaço sonoro do AKASHA Médio, que é uma espécie de biblioteca do Universo. Se os cientistas, dentro da avançada tecnologia moderna, descobrissem um aparelho capaz de captar o que vibra no AKASHA Médio, poderiam ouvir a Voz dos Grandes Mestres do Passado, dos Avataras, que são “Manifestações de Deus” ou a “Descida da Lei” em corpo físico, humano.

A nossa Obra é um Trabalho Universal.

Revista Aquarius, Ano 3, N.º 12, 1977

Padre António Vieira, o Paiaçú da Cultura Luso-Brasileira – Por Hugo Martins Terça-feira, Out 3 2017 

No passado dia 23.6.2017, no Largo Trindade Coelho junto à igreja de São Roque, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi inaugurada a estátua do padre António Vieira, única no País, da autoria do escultor Marco Fidalgo. Local marcado por forte carga simbólica e pela intensidade dos sermões proferidos pelo religioso nesta igreja, Vieira foi o jesuíta aclamado pelos tupinambás, tupis, aimarés, etc., autóctones do Brasil, o Manu ou Paiaçú, “Grande Pai”, carinhoso protector dos índios, dos escravos, dos negros, dos judeus, das crianças desamparadas, enfim, dos desprotegidos da sorte, ao par de escritor profícuo de verbo inflamado propagador do ideal português de Quinto Império, eivado de conceitos herméticos tendo-lhe valido a prisão várias vezes, sob suspeita de heresia, nos cárceres da Inquisição em Coimbra e Lisboa; também por isso, foi consignado vate e “Imperador da Língua Portuguesa” pelo grande poeta Fernando Pessoa. É no encontro com esta personagem singular marcante da religiosidade e cultura luso-brasileira, iluminado por excelência no conceito salvífico de iluminação espiritual do Mundo no seu derradeiro V Império ou Tempo de Espírito Santo, que hoje celebramos e honramos a sua vida profícua, o seu ideal de vida e a sua vida intelectual cujo legado deixado nos seus inúmeros escritos é património da Humanidade, dedicando-lhe este pequeno artigo, em guisa de bosquejo biográfico,  ficando para memória pública do leitorado geral.

A Companhia de Jesus e o Sacerdócio

O Padre António Vieira (Lisboa, Bairro da Sé, 6.2.1608 – São Salvador da Bahia, Mosteiro de Jesus Salvador, 18.7.1697), numa abordagem simplificada, pode se definir como orador e escritor, nisto sendo também patriótico, simpático incontestável do partido do duque de Bragança, futuro rei D. João IV, filantropo e caritativo na execução constante da maior das virtudes teologais, a caridade, e sebastianista possuído de ideais heterodoxos afins à “transladação imperial” (translatio imperii) de cunho lusíada que chocaram frontalmente, inúmeras vezes, com a ortodoxia romana vigente. Filho de pais de condição modesta, as suas origens surgem dos percalços de um amor proibido que se sobrepôs à visão moralista e segregacionista da sociedade de então. O seu avô, criado dos condes de Unhão, enamorara-se de uma mulata que também os servia. Expulsos da casa senhorial, foram depois readmitidos nela, porque o “pecado” do amor acabara tendo no casamento a sua sagração aceite pela Igreja. Este episódio dá a Vieira origem africana e inclusive herdando ele próprio o aspecto mulato, se bem que na sua biografia sejam incertas e mínimas as referências ao facto, mesmo com isso dando-lhe a força vigorante de um crisol de raças que defenderia calorosamente da prepotência dos poderes políticos e religiosos instituídos, como foram os judeus segregacionados na Europa, os negros escravizados de África e os índios perseguidos no Brasil.

Em 1614, com 6 anos de idade, partiu com a sua família para o Brasil, instalando-se na então capital São Salvador da Bahia, por o seu pai servir na Relação então criada, o que o obrigou a vir buscar a família. Foi nessa cidade, no colégio dos jesuítas, que António Vieira passou de aluno aplicado a noviço dedicado, com 15 anos de idade. Relata-se que isso relaciona-se com o episódio de certa noite, fortemente impressionado com o que ouvira no sermão de padre Fernando Cardim acerca do Inferno, o rapaz fugira da casa paterna para ir pedir aos religiosos que o admitissem como noviço na Companhia.

Às prodigiosas capacidades do estudante não faltavam as virtudes que melhor as poderiam fecundar. Era faminto de saber e ainda mais do prazer de agir, a ponto de – conforme declara na sua defesa perante a Inquisição – numa fase do seu noviciado ter feito voto de dedicar-se exclusivamente à actividade de catequizador dos índios, renunciando à exclusividade da ortodoxia do sacerdócio indo aprofundar-se no conhecimento das línguas indígenas, necessárias para essa missão. Os seus superiores quiseram desviá-lo desse propósito e demovê-lo de tal voto. Os talentos do jovem estudante eram demasiado elevados e raros para serem despendidos em misteres que outros, de bem mais modestas capacidades, bem o podiam substituir. Mas sem o desviar inteiramente dessa devotado vocação pela actividade pastoral junto dos menos favorecidos, a quem tantos e generosos esforços haveria de consagrar, desde cedo foram-lhe confiadas missões onde as suas elevadas aptidões tiveram oportunidade de brilhar. Mesmo antes de receber a ordenação sacerdotal, em 1635, estreou-se como diácono no púlpito e na catequese dos índios. Em 1640, na igreja de Nossa Senhora da Ajuda de Salvador da Bahia, pregou o célebre Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, abominando a perseguição aos índios pelos holandeses, protestando a ilegitimidade da sua presença no solo português da colónia, defendendo a legitimidade soberana de D. João IV de Portugal, revelando assim o seu alto senso patriótico.

A Corte de Lisboa e a Defesa dos Fracos – Índios e Judeus

De 1641 a 1652 ocorreu a sua primeira estadia na Europa, e no ano de 1644, retido pelo rei, António Vieira vem a Portugal acompanhando D. Fernando de Mascarenhas, filho do vice-rei, para prestar homenagem ao novo monarca, D. João IV. Este a quem ele próprio, no seu Sermão dos Bons Anos, transferiu a fé e a incarnação que os sebastianistas depositavam no rei perdido, D. Sebastião, em Alcácer Quibir. Ganhou o prestígio e a protecção do monarca que o elegeu pregador da corte, e a sua influência foi intensa a ponto de mover o clero, a nobreza e o povo na contribuição, em móveis, imóveis e pessoas para a Guerra da Independência do jugo filipino de Espanha, teimosa em manter-nos numa forçada união que durante 60 anos procurou transformar em sujeição: Vos estis sal terrae (“Vós sois o sal da terra”), foi o termo impulsionador que utilizou em 13 de Junho de 1654 no seu Sermão de Santo António aos Peixes, como exórdio aos homens, pregado na igreja de S. Luís do Maranhão, no qual revela grande sagacidade no manejo e aplicação da simbólica aos conhecimentos teológicos e cosmográficos da época, aplicando-a, por exemplo, numa analogia dos três elementos naturais com os três estratos sociais: fogo/clero, ar/nobreza, e água/povo. Além de pregador real, também foi confessor e conselheiro do rei, que o nomeou embaixador do reino, encarregado de espinhosas missões, em França, Holanda e Itália.

De 1652 a 1661, António Vieira está no Brasil, por licença régia, não para repousante trégua da sua pugnacidade mas para retomar a vida missionária, aplicando-a a nova luta. Levou consigo um decreto real para a libertação dos índios. Esta luta seria agora contra os colonos ricos, donos de fazendas e roças, cuja economia não podia evitar as entradas no sertão, a caça aos índios para os fazer escravos necessários aos trabalhos forçados dos engenhos de açúcar, dos cafezais e de quanto mais se cultivava na terra. Provocou as reacções violentíssimas violentas dos colonos – momento alto foi quando pregou os então famosos Sermões do Rosário e de Santo António aos Peixes. Sobre a escravatura do índio, colocou na sua defesa as seguintes palavras:

“O que não são [os índios], sem embargo de tudo isto, senão escravos […], nem ainda vassalos. Escravos não, porque não são tomados em guerra justa; e vassalos também não, porque, assim como o espanhol ou o genovês cativo em Argel, contudo é vassalo do seu rei e da sua república, [também] assim o não deixa de ser o índio, posto que forçado e cativo, como membro que é do corpo e da cabeça política da sua nação, importando igualmente para a soberania da liberdade, tanto a coroa de penas como a de oiro, e tanto o arco como o ceptro.”

Adiantando dirigindo-se directamente à aristocracia agrária do Maranhão: “Só resta a última razão, ou sem razão, por que os senhores desprezam os escravos, que é a vileza e miséria da sua fortuna. Oh fortuna! […] Virá tempo, e não tardará muito, em que esta roda dê volta, e então se verá qual é a melhor fortuna, se a vil e desprezada dos escravos ou a nobre e honrada dos senhores”. Rematando: “[…] solteis as ataduras da injustiça, e que deixais ir livres os que tendes captivos”.

Nessa sua acção missionária, marcadamente revolucionária, despendeu enorme esforço pastoral na tentativa de mudar as mentalidades, tendo até conseguido do rei dispositivos legais contra os excessos inumanos do colonato, num autêntico apostolado em nome da Companhia de Jesus. Isto gerou-lhe a antipatia feroz não só dos senhores escravocratas, mas igualmente de outras ordens religiosas, como a Dominicana e a do Carmo, rivais do Apostolado Inaciano, às quais não se estenderam os privilégios e vantagens feitos à Companhia. A oposição sobretudo político-económica chegou ao ponto de depois, no século XVIII, os jesuítas serem expulsos do Brasil, ao grito de: Abaixo os urubus! Fora os urubus!

Na sua segunda estadia na Europa (1661-1681), marcada pelo Sermão da Epifania perante a rainha regente de Portugal D. Luísa de Gusmão e da sua corte na Capela Real de Lisboa, em 1662, Vieira defenda a Missão no Maranhão como lugar onde ocorreu a Segunda Criação e onde ocorrerá a Segunda Epifânia. Prova a responsabilidade da Coroa Lusitana com a propagação da Fé mediante três alegorias factuais: a alegoria da Criação do Mundo, a alegoria da conversão dos Reis Magos e a alegoria do Bom Pastor. Nessa sua transposição do texto bíblico ao messianismo nacional, Vieira revela abertamente a sua afeição ao milenarismo hierático que haveria de atirá-lo nos cárceres da Inquisição em Coimbra (1665-1667).

António Vieira, na metrópole, já não possuía a mesma protecção que tivera antes de D. João IV, antes encontrava uma corte hostil inteiramente diferente daquela que o favorecera e que se formara em torno do novo rei D. Afonso VI, sob a administração do Conde de Castelo Melhor, primeiro ministro plenipotenciário. Mas o bom padre jesuíta não tinha contra si apenas o ódio dos escravocratas de aquém e além-Atlântico: contava ainda com a oposição dos inimigos do judaísmo, enfurecidos por tudo quanto ele obtivera de D. João IV a favor da gente-de-nação – os judeus batizados – cujos recursos económicos e fiduciários haviam contribuído, e esperava-se obter maior contribuição ainda, para a defesa da Monarquia e da Independência Nacional em perigo. Sobretudo, eram contra ele os dominicanos do Santo Oficio, alarmados, na rigidez da sua teologia segregacionista, com a proclamada ideia do Quinto Império Português, a qual naturalmente acolheria os hebreus, os africanos, os árabes e os índios do Brasil, todos convertidos no batismo em Cristo. O grande missionário, nos longos e místicos solilóquios durante as suas andanças pelo sertão brasílico, lendo o Livro de Horas e lembrando as profecias bíblicas ajustadas ao conceito de Quinto Império Universal que partiria de Portugal, reconhecia que essas promessas divinas haveriam de cumprir-se, por serem o único meio legítimo na Palavra de, num prazo compatível com a Vontade de Deus, poder realizar-se a cristianização da Humanidade inteira. Mas por meios exclusivamente humanos ou ordinários, dizia-lhe a experiência ser impossível tal sonho, tamanha utopia tornar-se realidade. Mas quem seria o Soberano desse Quinto Império? Cristo assegurado por São Bento alumiado pelo Divino Espírito Santo? Poderia ser, a escritura sagrada o assegurava. D. Sebastião assegurado por seu homónimo S. Sebastião? Também poderia ser, já que no Quinto Império do Mundo o trono (rei) estará colado ao altar (santo). O Soberano do Quinto Império é o Rei do Povo (Humanidade) que, mais do que nenhum outro, em lonjura de tempo e largueza de espaço, empenha-se em colaborar com Deus Pai (Patris) na efectivação do seu Reino (Pátria). Sobretudo o Povo que os profetas nacionais – Gonçalo Anes o Bandarra, principalmente – indicavam como o Eleito de Deus para tal Missão, ou seja, o Português de Porto-Graal, conforme está no sinal redondo afonsino.

Processo de Inquisição e Processo de Defesa

É neste ponto que gostávamos de deixar ao leitor, antes de descrever o processo, a homenagem ao grande historiador e ensaísta Hernâni António Cidade, responsável pelo estudo e divulgação do processo inquisitorial de António Vieira publicado em edições sob o título Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, na Universidade Federal de Salvador, Bahia, 1957, e depois em dois grossos volumes pela Editora Arcádia, Lisboa, insertos na colecção “A Obra e o Homem”, 1979. Posto isso, avancemos para o Processo de Inquisição ou Inquirição ao padre António Vieira.

Padre António Vieira (quadro em óleo sobre tela, 90 x 66 cm, autor desconhecido). Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Após a morte de D. João IV, seu protector, a vida do padre António Vieira complicou-se pelo número de inimizades geradas, não só pelo humanismo e senso de justiça social da sua acção missionária, incansável e sincera, mas também pelo idealismo hierático com que encarava e expunha, à luz das visões proféticas da Bíblia e dos biblicistas, a História do Mundo. O leitmotiv da acusação contra ele foram as cartas que enviara ao seu amigo e irmão de Companhia, o bispo do Japão, André Fernandes, nas quais expusera a sua tese acerca do já referido Quinto Império Universal, considerada próxima ou mesmo herética por sua proximidade às ideias messiânicas do judaísmo. Denunciada essa correspondência incriminatória e sem alternativa para proteger o seu amigo, o bispo André Fernandes foi obrigado a entregá-la ao censo do Tribunal do Santo Oficio, vindo a constituir a base de acusação de heresia ao padre Vieira que na ocasião estava em Coimbra onde foi detido.

A Inquisição, convocando-o à mesa do Santo Tribunal, sabendo-o já sem a protecção do rei e da corte, deu largas ao seu ódio contra o santo padre. Durante dois anos têm-no detido com residência fixa numa casa de repouso ou retiro da Companhia, nos arredores da cidade coimbrã. Depois encarceram-no e retêm-no mais dois anos, sob a acusação de heresia e conspurcação da fé tomando ad litteram o texto de Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda Vida de el rei D. João o Quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo Padre António Vieira. Acusaram-no de anunciar a ressurreição de D. João IV, entretanto morto, com base no judaísmo de Bandarra, e augurar para esse rei um império ao mesmo tempo espiritual e temporal, de grandeza jamais sonhada, cuja cabeça seria Portugal. Tomando a sua própria defesa perante o Tribunal do Eclesiástico, António Vieira fê-la vigorosamente demonstrando profundo conhecimento teológico, político-social, argúcia e técnica retórica; o inquisidor Alexandre Silva, encarregado dos interrogatórios, teve de aceitar a sua derrota perante aquela inteligência lúcida servida por poderosa dialética, que a doença não chegava para destruir. Só em 1667, velho achacado já cansado de lutar, aceitou as censuras e confiou na piedade do Sacro Tribunal, na estreita cela da sua prisão, doente, cada vez mais enfraquecido por hemoptises frequentes, agravadas por sangrias, normais na medicina do tempo; desdenhando isso, constantemente, várias vezes por dia, os “santos” inquisidores arrancavam-no do cárcere, arrastavam-no para a mesa da inquirição e, à vista da ameaça dos instrumentos de tortura, sujeitavam-no a cerrados e longos interrogatórios, procurando obrigá-lo a reconhecer de viva voz e por escrito que as suas proposições eram de heresia, ao que ele contrapunha sempre que as mesmas não eram heréticas por não transgredirem a ortodoxia da escritura sagrada, tanto na parte velha como na nova. Por fim, ao ouvir que o próprio Sumo Pontífice Clemente X declarara a sua doutrina como confusa da fé, sucumbiu, deu-se por derrotado, mas não sem antes entregar ao Conselho Geral do Sacro Tribunal a sua Representação ou Defesa que foi escrevendo no cárcere, sem outro auxilio senão não o da memória. A leitura da própria Bíblia fora-lhe proibida, só lhe sendo consentido o manuseio do Breviário. Apesar de tudo, foram numerosíssimos os sábios convocados ao conclave teológico que, ao apelo da sua memória, em espírito se reuniram no seu cárcere, dando-lhe apoio e fornecendo-lhe argumentos. A defesa de António Vieira é densíssima em erudição e poderosíssima em dialética. Nela há surtos admiráveis de eloquência, às vezes veemente, às vezes lírica, sempre certeira. Também não faltam as amargas reacções contra a injustiça dos homens e, segundo o providencialismo de Vieira, o abandono de Deus…

“Mas é Deus tão bom e liberal, que os prémios com que paga uma pequena faísca de zelo, ao mais indigno operário desta vinha, são, como diz o mesmo S. Paulo, vincula et carceres!”

Apesar de tudo, o grande jesuíta, o genuíno apóstolo de Jesus, foi condenado na tarde de sexta-feira de 25 de Dezembro de 1667 (in Torre do Tombo, Lisboa, Manuscritos da Livraria, n.º 2453). Ele sucumbira dando-se por vencido, quando foi informado de que a sua alegada teimosia já não era apenas contra os juízes da mesa do Tribunal mas também contra o próprio Sumo Pontífice. Resignou-se, cessou de opor-se, aceitou o destino a que os homens, no seu abandono de Deus, o condenavam. Quando foi mandado levantar para ouvir a leitura da sentença, deu-se um episódio curioso. Todos os seus irmãos em religião, presentes, levantaram-se com ele. Todos sentiram que o golpe atingia a Companhia inteira, assim desferido pela rivalidade dos dominicanos. A condenação privava-o de voz activa e passiva, fixava-lhe residência em Colégio da Companhia, que a Inquisição escolhesse, que seria a Casa do Noviciado em Lisboa, e sobretudo proibia-o de escrever e pregar!

Processo Inquisitorial do padre António Vieira. 1659-04-29 / 1668-06-30. Portugal, Torre do Tombo, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 1664.

Mas a pena condenatória não duraria muito tempo. Durante esse período ocorreu o golpe de Estado que repusera no poder os seus amigos – Infante D. Pedro e seus partidários – e fizera de D. Afonso VI o prisioneiro do Palácio de Sintra, e de Castelo Melhor o exilado de Inglaterra e de Milão. Esse acontecimento veio abreviar-lhe a condenação. Logo que foi posto em liberdade, não tardou a procurar, em Roma, refúgio contra o recrudescimento das oposições provocadas, e num Breve Pontifício a isenção pessoal da jurisdição inquisitorial portuguesa. Por súplica do Provincial da Companhia de Jesus, dirigida ao Santo Ofício, foi solicitada a anulação e perdão das penas que foram impostas ao padre Vieira. O pedido foi aceite por despacho do Conselho Geral do Santo Ofício, em 12.6.1668. Em 30.6.1668, o réu foi chamado à Casa do Despacho da Inquisição de Lisboa, onde lhe comunicaram o respectivo perdão e assinou o seu termo. Meses depois, com licença régia, em Agosto de 1669, o padre António Vieira partiu para Roma.

Ei-lo de novo na posse de si mesmo e da liberdade para os seus voos de águia. Viveu em Roma, Itália, de 1669 a 1675, pregando então algumas das suas melhores peças oratórias. Fulgurou nos púlpitos, pregando já em italiano, já em português, e não deixou de manobrar junto da Cúria a favor das pretensões que os cristãos-novos apresentavam contra o Santo Ofício português. A rainha Cristina, da Suécia, que para a cidade eterna havia transferido a sua corte, teve-o como pregador régio, e nos seus salões o sábio e santo jesuíta encontrou o melhor acolhimento da sua pessoa e os maiores aplausos ao seu génio.

Regressou a Portugal em 1675, logo encetando a publicação dos seus Sermões. Mas não se reteve muito tempo na corte lisboeta, que, sob regência de D. Pedro II, e apesar de escandalosamente lhe ter lisonjeado o casamento com a cunhada e a rapidez do aparecimento do primeiro filho, já não lhe dava já o acolhimento a que D. João IV o habituara.

Em 1681, iniciou a sua última estadia no Brasil: no retiro da Quinta do Tanque, na Bahia, preparou as suas obras para a impressão. Entre 1688 a 1691, apesar dos anos, ainda exerceu alto cargo de Visitador do Brasil. Dessa maneira, em Salvador prosseguiu a actividade pastoral e literária que a velhice, em crescimento acelerado, não conseguia pôr cobro. Preparou a publicação dos seus Sermões e continuou escrevendo as suas Cartas, sempre interessado pelas coisas deste mundo, no seu espírito missionário de homem feito para a acção, ele que um dia, já distante, escrevera:

“Sabei, amigo, que a melhor vida é esta (a que lhe decorria na actividade missionária no Brasil). Ando vestido de um pano grosseiro cá da terra, mais pesado que forte; como farinha de pau, durmo pouco, trabalho de pela manhã à noite […]. Finalmente, ainda que com grandes imperfeições, nenhuma coisa faço que não seja com Deus, por Deus e para Deus, e para estar na bem-aventurança só me resta vê-Lo, que seria mais grata, mas [se]não maior felicidade”.

Faleceu quase nonagenário, com 89 anos em 18 de Junho de 1697, no Colégio da Companhia em S. Salvador da Bahia.

V Império e Sebastianismo “Branco” ou Intelectual

Foi o padre António Vieira, orbitando entre o Sebastianismo Intelectual (“branco”) e o Sebastianismo Político (“vermelho”, como definiu António Sardinha), acaso ou decerto sabedor do sentido último ou primaz da doutrina messiânica, quem teve maior e mais destacado papel no contexto político-social português após a Restauração de 1640. Depois da morte de D. João IV, em 6 de Novembro de 1656, o padre António Vieira afirmou, no já citado sermão pregado no Maranhão, que D. João IV haveria de ressuscitar para operar prodígios, e para isso apoiou-se na autoridade profética do sapateiro Bandarra. Essa ideia já a expusera, aliás, num sermão ainda em vida do rei, que posteriormente ficaria documentada no escrito intitulado Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda Vida de el rei D. João o Quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo Padre António Vieira. Falou, portanto, na “segunda vida” de D. João IV, e citou como principal autoridade o Bandarra.

O propalado Quinto Império no escrito citado de António Vieira (integrando pequeno escol de jesuítas iluminados no saber esotérico rabínico, simultaneamente imbuído de forte pendor nacional ou patriótico, assim se distando largamente das regras ordinárias constituintes da Companhia), é simultaneamente espiritual e temporal, sacerdotal e real, com cabeça em Portugal, e a partir deste ir alcançar-se a unidade universal da Humanidade. Passa, portanto, de um sebastianismo bragantino e político para uma mais lata e pura sebástica universal e intelectual, cuja retórica é sempre profética feliz das premissas do Futuro. No Quinto Império inscrevem-se indiscriminadamente gentios, pagãos, judeus, mouros, africanos, cristãos, etc., todos em adoração ao mesmo Senhor Soberano. Esse também o desejo comum de uma Cristandade ou Espiritualidade Universal encabeçada pelo Messias cumpridor da Parúsia ou Segunda Volta, o Avatara único que haverá de reinar sobre todos os povos da Terra. A escatologia mítica do Quinto Império enlevou António Vieira, sobre ele dissertou largamente e quis fazer da Utopia uma plenirealidade feliz. Os seus textos sebástico-messiânicos ocuparam quase toda a sua vida e hoje são considerados o principal da sua obra. Nos escritos (incompletos) que constituem a sua História do Futuro, o iluminado padre sebástico anuncia o advento de um V Império Português ao Mundo indo suceder, lógica e necessariamente, aos quatro anteriores: Império Assírio-Babilónico, Império Persa, Império Grego e Império Romano, cujos prolongamentos romanos ou latinos ainda se viviam intensamente em seu tempo. Baseou-se sempre na autoridade dos textos sagrados:

“Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida, tiradas de diferentes lugares de textos sagrados que vão citados à margem, e o não pusemos no corpo da História para não embaraçar o desenho dela, […] o que resta e importa mostrar he que haja de aver sem duvida este novo e prometido Império a que chamamos Quinto.”

António Vieira, aliás, sublinhou sempre a autoridade dos Profetas, ao par do poder dos Patriarcas, dos quais detinha largo conhecimento claramente demonstrado nos seus inúmeros sermões. A profecia encerra, para ele, a verdade histórica mais pura. Assim, na literatura messiânico-politica do século XVII, o padre António Vieira não foi o exclusivo intérprete do sebastianismo bragantino. Nisto mesmo tendo sido, em rigor, um joanista, cuja importância política para a época realçaria assumindo a sua real natureza de sebastianista. Mas o padre António Vieira não foi só joanista, foi sobretudo sebastianista e como tal assim começou. Prova-o o seu Sermão de S. Sebastião, pregado na igreja do mesmo santo em Acupe (Bahia), em 1634, repleto de alusões ao vencido de Alcácer-Quibir comparando o seu desaparecimento fatal ao sacrifício do homónimo no santoral. Para terminar, através do mito e da mítica do Quinto Império Universal dos Lusos, para cuja criação setecentista apoiou-se no seu profundo saber teológico e no vasto conhecimento bíblico ao par do grande conhecimento da História do Mundo, o padre António Vieira é por excelência aquele que inaugura o ciclo do Sebastianismo Intelectual, para isso estabelecendo a aliança da Profecia com a História.

Pensamento de António Vieira e o seu Património Cultural

No espólio de António Vieira, destacamos como obras publicadas: Sermões, 1679-1748, em 15 volumes, Livro Anteprimeiro da História do Futuro, 1718, História do Futuro, 1718, e Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, 1957, em dois volumes, mas continua inédita a sua obra, deixada incompleta na qual trabalhou largos anos, intitulada Clavis Prophetarum (“Chave dos Profetas”). Como orador, contemporâneo de alguns (nomeadamente Bossuet e Bourdaloue) dos maiores vultos da oratória sacra de todos os tempos, se não iguala a majestade da construção harmoniosa dos sermões de Bossuet nem a força apostólica da lógica implacável na eloquência de Bourdaloue, supera-os na opulência da imaginação e na agudeza de uma inteligência posta ao serviço de uma ideia que ele como ninguém soube expor, desenvolver e fundamentar num encadeamento envolvente de imagens, conceitos e argumentos, que, cativando a atenção deslumbrada pelo jogo dos raciocínios, arrebatava tanto o universo humano de Portugal e do Brasil como o requintado mundo dos cardeais da cúria romana. Índice da perene actualidade dos sermões do padre António Vieira, é o facto de em 1960 terem sido editados em Milão quatro, apresentados como lição político-social aos homens de Estado. Pouco antes disso, o arcebispo local (depois Paulo VI) fizera publicar o Sermão da Sexagésima, como modelo para os pregadores que iam participar numa missão pastoral na sede da arquidiocese. Expoente da oratória sacra portuguesa e um dos maiores da oratória universal, foi político, missionário, defensor dos fracos, crítico audaz dos poderosos e patriota de visão transcendente. A sua inteligência excepcional proporcionou-lhe numa nitidez implacável como moralizador, ao encarar a vida nos seus mais ínfimos pormenores. O seu visionário talvez não excessivo casava-se com o dinamismo desmedido no campo da acção imediata. Apesar de ter sido, ao que parece, tuberculoso crónico, atravessou sete vezes o Atlântico e percorreu milhares e milhares de quilómetros, muitas vezes a pé ou em fracos meios de locomoção. Dessa raríssima conjunção, por vezes quase atingindo as raias da divina loucura, resultou uma clarividência singular, a qual lhe permitiu retratar ao vivo os actores do grande “teatro” do mundo com uma ironia finíssima, frequentemente tocada pela embriaguez da subtileza, mas certeira em escalpelizar os vícios dos homens seus contemporâneos e de todos os tempos.

São todas essas definições extraordinárias do vulto magnânimo de António Vieira, que sobreviveram ao ordinário do tempo como uma onda gigantesca levantada após maremoto, chegando como espuma do mar ao Modernismo Português na belíssima poética de Fernando Pessoa, batizando-o como “Imperador da Língua Portuguesa”, igualmente nas famosas Conversas Vadias, transmitidas em canal público, RTP1, nos idos anos 90 pelo filósofo e ensaísta Agostinho da Silva, e nas longas-metragens cinematográficas do realizador, internacionalmente reconhecido, Manoel de Oliveira, com os filmes da Palavra e Utopia, o V Império e Non ou a Vã Glória de Mandar. Que a robustez do bronze da estátua do padre António Vieira erigida em Lisboa, faça com que ele permaneça fixo na memória e no imaginário colectivo português, e que a mensagem do grande homem oriente por bons caminhos os destinos da Humanidade na sua nova Diáspora para a construção do tão almejado Quinto Império Espiritual do Mundo.

Adveniat Regnum Tuum

 Obras consultadas

Hernâni Cidade e Carlos Selvagem, Cultura Portuguesa, volume nº9. Empresa Nacional de Publicidade, 1972.

Hernâni Cidade, Padre António Vieira: a Obra e o Homem. Editora Arcádia, Lisboa, 1979.

J. Lúcio de Azevedo, História de António Vieira, vol. 1. Clássica Editora, Lisboa, 1992.

Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

A propósito de Mavalankar nas Escrituras Teosóficas – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Set 12 2017 

O nome ou sobrenome Mavalankar tem dado origem a discussões infrutíferas acerca da verdadeira identidade de Damodar Karhâda Mavalankar confundido com Djwal Khul Mavalankar, ou de Mavalankar, dito Mestre Tibetano. Será que um é o outro ou será que por má interpretação das informações disponíveis confundiu-se um com o outro? Ou será que nas Cartas dos Mahatmas endereçadas a Helena Petrovna Blavatsky e seus pares da época (Henry Stell Olcott, Alfred Percy Sinnett, William Judge e uns poucos mais), é exactamente por esse pormenor que se poderá provar a falsidade dessas cartas e que afinal os ditos Mahatmas ou são tão falíveis como qualquer mortal, ou simplesmente não passam de uma gigantesca invenção, monstruosa impostura da mesma Blavatsky? É nisto que crêem os cépticos da Teosofia de todos as crenças positivistas e religiosas, todos unidos como inimigos declarados da mesma Mestra, sempre à cata de pormenores somenos onde a possam flagrar em contradição e mentira.

Déjà vu… sim, porque algo semelhante encontrei na Sociedade Teosófica de Adyar em Portugal quando cheguei a ela no início dos anos 80 do século findado, onde o colectivo do Ramo Alvorada andava acalorado de “candeias às avessas” sem se entender acerca do Karma, se ele provoca ou não dor física e moral, e se alguém pode ter uma vida inteiramente isenta de dor? Discussões inúteis, infrutíferas que respondi conforme sabia. Após, a discussão amainou e aos poucos regressou-se ao miolo invés de catar as possíveis fissuras da casca. Nisso, agora também aqui entra o sobrenome Mavalankar sobre que direi algumas palavras.

Primeiro que tudo: não discuto a Palavra dos Mestres de Sabedoria e não me atrevo a pô-la em causa, acredito neles como a principal razão da minha vida, provas pessoais não me faltam mas ficam só para mim que são minhas, e com isso sei que uma aparente incongruência ou um talvez equívoco da parte dos Mestres seja afinal o meu equívoco, a minha incongruência. O que parece, pode não ser, e que pode não ser, pode parecer. Razão para H. P. Blavatsky afirmar aos do Círculo Interno da S. T. fundado por ela e H. Olcott em moldes budistas (dogma) e maçónicos (ritual): “Por mais absurda que vos pareça uma ordem dos Mestres, não hesiteis em cumpri-la!” No mesmo sentido, isso reafirmou o Professor Henrique José de Souza, sobretudo durante o período de 1924-1928, quando dirigiu Dhâranâ – Sociedade Mental-Espiritualista em Niterói, Brasil. Nunca o discípulo, ou tão-só o candidato a tal, de sentidos limitados, poderá perceber as intenções animando o pensamento superior de um Adepto Independente cujas alturíssimas mentais e tirocínio certeiro está sempre muito além do imediatismo dos factos aparentes, indo prever os lances do futuro conformando a eles o presente.

Pois bem, Damodar Karhâda (Karada) Mavalankar nasceu em Setembro de 1857 em Ahmedabad, no Gujarat indiano, numa família rica de casta hindu superior, brahmane. Sobre a sua morte, a última notícia que se sabe dele é ter partido para os Himalaias em 1885 em busca dos Mestres de Sabedoria, desaparecendo para sempre nas entranhas do mistério. Em 1879 conheceu Helena P. Blavatsky e Henry S. Olcott em Bombaim, e ficou de tal modo fascinado pelos ensinamentos teosóficos que se afiliou à Sociedade Teosófica desistindo da sua casta em 1880, abraçando o budismo quando estava no Sri Lanka junto com o casal fundador da S. T. Essas suas atitudes e cortes radicais com a ortodoxia hindu familiar geraram conflito insanável com esta, sobretudo com o seu avô, o seu pai e o seu sogro que adiantara uma renda de 50.000 rupias como dote de casamento (combinado entre os progenitores masculinos) da sua filha ainda de tenra idade com ele. Damodar desistiu da herança, da segurança familiar e acabou deserdado, indo definitivamente viver e trabalhar com os fundadores da S. T. até ao momento de partir para o Tibete onde desapareceu misteriosamente (in Henry S. Olcott, Folhas de um Velho Diário – História Autêntica da Sociedade Teosófica, vol. II, 1900).

O episódio da deserdação familiar aparece igualmente num outro personagem que alguns confundem com Damodar, a ponto dos Adeptos também o apodarem nas suas Cartas, escritas em inglês, The Disinherited, “O Deserdado”. Refiro-me a Djwal Khul, dito o Tibetano. O Mahatma Koot Hoomi Lal Sing, brahmane de Cachemira, escreveu na Carta nº VIII datada de cerca de 20 de Fevereiro de 1881, recebida por Madame Blavatsky mas endereçada a Douglas Hume, que viria a preterir a Teosofia pelo mediunismo espiritista: “E agora, passemos a assuntos mais importantes. O tempo é precioso e os materiais (de que me sirvo para escrever) ainda mais. Sendo agora a “precipitação” proibida no que lhe respeita, a falta de tinta e papel não tem mais hipóteses de ser superada por tamasha, e estando muito longe de minha residência, em lugar onde uma papelaria é menos necessária que o ar respirável, a nossa correspondência ameaça cessar bruscamente, a menos que utilize judiciosamente a reserva que disponho. Um amigo prometeu fornecer-me, em caso de grande necessidade, algumas folhas separadas, relíquias do testamento de seu avô, no qual este o deserdou, fazendo assim a sua “fortuna”. Mas como nunca escreveu uma linha, salvo uma vez, declarou ele, nestes últimos onze anos…” o que não confere com Damodar e sim com Djwal Khul, que nessa mesma carta escreve uma curta nota assinando o Deserdado. Por seu turno, Damodar mantinha uma relação epistolar intensa com William Q. Judge, de que transcrevo trecho da sua carta endereçada àquele datada de 24 de Janeiro de 1880, descrevendo a sua apreciação de H. P. Blavatsky e a sua deslocação em corpo astral ao interior do Templo de seu Mestre:

“Sei que Madame Blavatsky, que eu venero como minha Guru, estimo como minha benfeitora e amo mais que uma mãe, e outros cuja simples recordação dá ao meu coração uma emoção que me faz tremer de veneração, faz-me favores de que não tenho o menor merecimento… Cerca de um mês depois de eu aderir à Sociedade, ouvi uma voz interior que me sussurrava que Madame Blavatsky não é o que descrevem ser… Eu penso que seja algum grande Adepto indiano que tomou essa forma ilusória.

“O Irmão ∴ ordenou-me para segui-lo. Após uma curta distância de meia milha, nós entrámos por uma passagem subterrânea natural que fica sob o Himalaia. O caminho é muito perigoso. Há um caminho natural que discorre por baixo do Rio Indo com toda a sua fúria. Somente uma pessoa de cada vez pode passar por ele, e um passo em falso marca o destino do viajante. Acima do caminho há vários vales a serem cruzados. Depois de andar uma distância considerável por esta passagem subterrânea, surge uma planície aberta em L—K. Há aí uma grande construção maciça com milhares de anos. Em frente dela um enorme Tau egípcio. O edifício apoia-se em sete grandes pilares em forma de pirâmides. A porta de entrada tem um grande arco triangular. No interior há vários compartimentos. O edifício é tão grande que eu penso que possa conter 20.000 pessoas. Foram-me mostrados alguns dos compartimentos. Este é a principal localização central onde todos os da nossa secção que foram preparados para a Iniciação nos Mistérios têm de ir para a cerimónia final, e ali permanecer durante o período requerido para isso. Eu entrei com o meu Guru no enorme salão. A grandiosidade e a serenidade do lugar é o suficiente para impressionar alguém, impondo-lhe respeito. A beleza do Altar que está na parte central e no qual cada candidato toma os seus votos no momento da sua Iniciação, certamente deslumbra o mais brilhante dos olhares. O esplendor do Trono do Senhor é incomparável. Todas as coisas estão estabelecidas num princípio geométrico e contendo vários símbolos que são explicados somente aos Iniciados. Mas não posso falar mais, agora que eu fiquei com a obrigação de Segredo que ∴ me fez tomar.”

Damodar voltava frequentemente ao assunto dos Adeptos, “porque é o único assunto em que estou interessado”, discorrendo longamente sobre eles mas sem admitir entusiasmos que o colocassem fora da sua discrição e devoção natural. Ainda em carta a W. Judge, conta a visita que lhe fez o seu Mestre em Maio de 1880, quando estava no Ceilão em companhia de Blavatsky e Olcott, tendo se instalado numa pousada onde havia lugar apenas para duas pessoas, tendo ele ficado na poltrona da sala de jantar. Mal se acomodara, ouviu uma batida leve na porta:

“Eu abri-a, e que grande alegria senti quando vi ∴ novamente! Num sussurro muito baixo, ele ordenou-me que me vestisse e o seguisse. Defronte à porta dos fundos da pousada está o mar. Eu seguiu-o, como me ordenou. Ele levou-me pela porta dos fundos da residência e andámos cerca de três quartos de hora pela beira do mar. Então nos dirigimos em direcção ao mar. Tudo à volta era água, mas por onde caminhávamos estava bem seco. Ele caminhava na frente e eu seguia-o. Assim andámos cerca de sete minutos, quando chegámos a um local que parecia uma pequena ilha. (…) Lá, num pequeno jardim em frente, encontrámos um dos Irmãos sentado. Eu o havia visto antes na Sala do Conselho, e é a ele que esse lugar pertence. ∴ sentou-se próximo dele e eu fiquei em pé defronte deles. Estivemos lá cerca de meia hora. (…) O Mestre desse lugar, cujo nome não sei, colocou a sua abençoada mão sobre a minha cabeça, e ∴ e eu viemos embora. Regressámos até perto da pousada onde eu iria dormir, e de imediato ele desapareceu subitamente.”

Esse Mestre de Damodar era o próprio Koot Hoomi Lal Sing, o mesmo de Djwal Khul, como aparece descrito nas Cartas de H. P. Blavatsky a A. P. Sinnett e ainda no volume III das Folhas de um Velho Dário, de H. Olcott, que inclusive dá a descrição física de Djwal Khul acrescentando que não era tibetano e sim hindu (tibetano será mais por adopção do lugar onde viveu e não do país onde nasceu) como o seu Mestre:

“Depois de esperar um pouco, ouvimos e vimos um Hindu de estatura alta aproximando-se pelo lado da planície aberta. Chegou a uns quantos metros de nós e fez sinais a Damodar para ir até junto dele, o que ele fez. Disse-lhe que o Mestre se apresentaria dentro de poucos minutos e que tinha alguns assuntos a tratar com Damodar. Era um aluno do Mestre K. H. Finalmente vimos chegar o Mestre proveniente da mesma direcção, passando junto ao seu aluno que se havia retirado para pouca distância. (…) Mais tarde, antes de deitar-me, encontrava-me na minha tenda de campanha quando o aluno, antes mencionado, de K. H. levantando a cortina da porta fez-me sinais para que eu saísse da tenda, apontando com o dedo para o Mestre que encontrava do lado de fora, esperando por mim debaixo da luz das estrelas.”

Adiantando: “Já encontrei o artigo que a Sociedade Teosófica publicou na sua revista narrando esse encontro, e por duas vezes estipula que o discípulo que acompanhou o Mahatma Kuthumi era efectivamente Djwal Khul: “O Mestre estava sendo acompanhado em pessoa pelo Irmão Djwal Khul” (p. 22); “O mensageiro de que falam era Djwal Khul” (p. 30)”. – In revista The Theosophist, Vol. V, n.º 351, 1883, artigo transcrito em The Blavatsky Collected Writings, Vol. VI, p. 21, 1883-1885.

Tem-se, pois, Damodar Mavalankar e Djwal Khul como duas personalidades distintas discípulas de um único Mestre. E duas personalidades distintas com dois factos iguais nas suas vidas, o de serem deserdados das respectivas famílias. Ambos da Corte de Arhats do Budismo do Norte – Mahayana – que cerceou Upasika (H.P.B.), onde Djwal Khul apoiou o despertar na infância espiritual de Damodar Mavalankar, servindo-lhe assim como prolongamento do Mestre e como Mestre ou Tutor, no que se sabe que a vida do discípulo reproduz sempre, ao seu nível, os principais lances daquela corporal do Mestre. Esta poderá muito bem ser a explicação iniciática para o deserdo familiar sofrido por ambos. Sabe-se que o discípulo quando se idêntica ao Mestre adopta tanto os seus hábitos como até os seus traços psicológicos e fisionómicos, sofrendo uma autêntica transformação interior e exterior. É natural, pois, que ele venha a reproduzir nos lances de sua vida os principais daquela do Mestre.

Por fim, o sobrenome Mavalankar, tanto para Damodar que assina com o nome inteiro a Carta 142 b do Mestre K. H. que o incumbira de o representar, como para Djwal Khul, cujo nome aparece por inteiro na Carta n.º XXXVII recebida em Allahabad, Janeiro de 1882, após assinar “O Deserdado”: “Se deseja escrever-lhe, se bem que não possa escrever por si mesmo, o Mestre receberá com prazer as suas cartas (as de A. P. Sinnett). Pode fazê-lo por intermédio de D. K. Mavalankar”. Algumas outras cartas também são assim assinadas, como a Carta n.º CXXV, “Djwal Khul M. XXX”.

Além dos laços espirituais entre Damodar e Djwal, que poderá explicar a adopção do sobrenome familiar Mavalankar do primeiro pelo último, não fica nisso o significado mais importante do termo, e para entendê-lo no sentido iniciático devo recorrer aos comparativos filológicos sânscritos: tem-se Mava e Lankar presentes em Mavalankar, sendo que Mava deriva de Maula provindo do radical Mûla, designativo de “Raça Pura”, Superior, Jina ou Jinashastra, moradora em Lankar ou Lanka, ilha do Ceilão que a Bhagavata Purana diz ser o primitivo cume do Monte Meru, a Montanha Primordial onde se formou a Raça dos Puros ou Bhante-Jauls, Irmãos de Pureza. Nisto, aparece Mauna, derivada de Muni, significando a “condição do Muni”, o Sábio, sendo que Mauna-Vrata é literalmente o “voto de silêncio do Muni”, enquanto Maunim é “o silencioso, o asceta ou retirado que pratica o silêncio”.

E retirado do palco do mundo profano foi Damodar Karhâda Mavalankar, místico abnegado da Causa dos Mestres de Sabedoria que desapareceu nas entranhas do Tibete, tal como o explorador inglês Percy Fawcett desapareceu misteriosamente no sertão brasileiro em busca da Cidade dos Deuses, desaparecimentos que interrogam severos os conhecimentos humanos do mundo que se crê de todo conhecido e, mais que isso, garantindo que a Fraternidade dos Santos e Sábios existe, só faltando ao comum das gentes saber o caminho para ela após conquistar os méritos por seus próprios esforços para chegar ao diapasão igual do Eldorado, a Shangri-La dos mais doces e esperançosos sonhos da Humanidade.

O Giro do Círio dos Saloios (Senhora da Pedra de Mua) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Ago 23 2017 

Hoje[1], Dia de Portugal, que é dizer do início da Portugalidade no Mundo como País soberano cerca de 500 anos á dianteira dos demais europeus, que estruturados em feudos com os seus duques e condes isentavam-se de um poder central, é, pois, neste velhinho rectângulo pátrio que irrompe a diáspora da fé, do saber e das armas assinaladas, inicialmente a todas as partes da Europa, e depois às do Mundo. Ser português é uma maneira de estar, de sentir, pensar e ser… sempre duvidoso das suas capacidades reais de realizar e, anacronicamente, sempre ansioso de as realizar.

Em um aspecto particular isso mesmo regista-se no saloio, etnia arábica provinda de Saleh, cidade marítima da Mauritânia, nos finais do século VIII para estas bandas ocidentais da Europa, depressa miscenizando-se aos cristãos submetidos ao jugo árabe ocupante, pelo que em breve eles mesmos se tornariam moçárabes, “como que árabes”, desde logo mal vistos pelos de puro sangue árabe, não corrompido pela mistura ao de outras etnias consideradas inferiores, assim remetidos ao desprezo das fainas mais humildes, contudo essenciais à vida, do cultivo dos campos arredores das grandes urbes estremenhas, particularmente de Lisboa.  De maneira que ao natural de Saleh deverá depois a sua origem o “homem do campo”, o saloio.

A origem da designação saloio tem sido motivo de estudo desde há largo tempo. Apesar de eu considerar a sua marginalização fora dos muros das urbes ainda durante o período árabe, o Padre Rafael Bluteau remonta a sua origem aos tempos de D. Afonso Henriques: “(…) deixando el-Rei Dom Afonso Henriques ficar no termo de Lisboa os Mouros, em suas fazendas, e lugares (…), a estes chamaram Saloios ou Çaloyos, que quer dizer gente de Çalaa, e daquela seita de Mouros”[2].

Já Frei João de Sousa[3] associa a denominação saloio a três significados distintos, todos eles com origem árabe: (1) Çala – Salah, que significa “oração, deprecação”, por derivação do verbo sálla, “orar, rezar, deprecar”; (2) Çalá Ben Çala – Saléh Ben Saléh, nome próprio que significa “o justo” ou “filho do justo”, por derivação do verbo Saleha, de “ser justo, perfeito ou completo”; (3) Çaloyo – Çalauio, referente ao “Çalatino, homem natural de Çalé, cidade marítima da Mauritânia, donde creio que se deriva o dito nome em razão de alguns dos seus habitantes terem vindo talvez povoar os subúrbios de Lisboa”.

Nisso, David Lopes[4] considera que o termo saloio deriva de Çala, no sentido atribuído por frei João de Sousa (“oração, seita de mouros”) ou de Salé, e introduz a referência ao pão cozido, considerando que o vocábulo çalaio era o “tributo que se pagava do pão cozido na cidade e Patriarcado de Lisboa. (…) Ainda hoje, como é sabido, se vende pão saloio pela cidade, trazida a ela em burros e dentro de alforges. Çalaio é, cremos, a mesma palavra que saloio, mas romanizada”[5].

Devo informar que o nome moçárabe, aliás escrito na forma plural, aparece pela primeira vez no foral que Afonso VI (1101) concedeu à cidade de Toledo, onde o monarca refere os súbditos quos vulgo mozarabes vocitant, de onde se infere que o nome carecia de uso nas instituições culturais e jurídicas[6]. Essencialmente, como já disse, o moçárabe é o “como que árabe”, ou seja, o árabe miscenizado ao cristão e o cristão inserido e subordinado à estrutura social muçulmana, excepto na religião, ainda que a Cruz e o Crescente em muito se identifiquem através dele[7].

Durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, o Estado islâmico limitou a propagação judaica e cristã a guetos ou lugares de delimitação fixa. Assim, a paróquia é o gueto dos cristãos, como a alfama ou aljama é o asilo ou gueto dos judeus (e após a Reconquista cristã criar-se-ia, imitando o modelo islâmico, o gueto da moirama, isto é, a mouraria), com a diferença de que a paróquia – nome gótico – se designa, no direito muçulmano, por al-kenîssah, ou kulicia. Al-kenîssah não é apenas um templo, nem uma capela, nem uma ermida no monte. É, mesmo na forma evolutiva da palavra (kenîssah, caniça, caneça), uma cabeça de assembleia cristã: a sede paroquial[8], que na cidade de Al-Usbuna (Lisboa) situava-se em São Cristóvão de Alfama que na época era Santa Maria de Alcamim, de “Entre-Hortas”[9].

O desenvolvimento da rede paroquial durante a Reconquista cristã alerta para a função da freguesia nas acções da conquista e da consolidação do domínio das caneças contra as assembleias mesquitais. Algumas dessas caneças feneceram, ocupadas pela moirama e logo transformadas em mesquitas e mesquitelas, enquanto outras vingaram durante os séculos de ocupação. Caneça, ou caneças, é uma igreja paroquial onde ocorrem semanalmente as populações circunvizinhas, as populações desse gueto cristão tornado mais importante em regime de hábito disperso, como sucedia em toda a região da Estremadura, mormente nas terras saloias de Loures, Mafra, Sintra e Cascais, as quais se estendiam etnologicamente, por um lado, até Torres Vedras[10], inclusive registando-se vestígios da cultura saloia em Óbidos; por outro lado, ia até à região sadina de Setúbal, Arrábida, Sesimbra e Espichel[11].

Dentro da caneça o moçárabe é cidadão de pleno direito, freguês, felgrês, feligrês ou filius Ecclesia, “filho da Igreja” (donde a freguesia ser extensão da paróquia, tal qual, numa sociedade tradicional, o Poder Temporal é justificado e confirmado pela Autoridade Espiritual), mesmo que a mulher sirva de lavadeira ao califa.

O modelo jurídico islâmico, por sua perfeição aristotélica, serviria de inspiração ao senado latino dos cristãos, reformulado por D. João I mas cuja origem recuará a D. Afonso II. O senado islâmico era a shari’a, o tribunal no qual o cadi ou juiz actuava como representante do califa. Por via de regra, era um muçulmano do sexo masculino, de bom carácter e comprovado saber. Embora a sua jurisdição abrangesse ao mesmo tempo a lei civil e a lei penal, na prática o Estado encarregava-se da maior parte da última. Ora, era exactamente isso que o senado latino fazia: mantinha a lei civil e só aplicava a penal após ordens expressas do Estado vigente[12].

Com tudo isso, premissas indispensáveis ao entendimento da génese do Círio dos Saloios à Virgem de Mu ou Espichel, tema que aqui me traz, pretendo agora afirmar que, com a maior das possibilidades, tal Círio Votivo ou Giro seria já cardápio do devocional do saloio moçárabe no tempo da ocupação árabe, cuja lei era permissiva e não repressiva da fé cristã submetida, desde que a mesma não se convertesse em política anti-estatal subversiva. Ficar-se pela fé, respeitava-se; extravasar-se para a política, reprimia-se[13].

Tanto assim é que não raros autores de obras consignadas a leitura obrigatória nesta área historiográfica, como Frei Bernardo de Brito (in Monarquia Lusitana, Parte I, Livro IV) e Manuel de Faria e Sousa (in Europa Portuguesa, cap. I, IX), afirmam que a devoção a Nossa Senhora da Pedra de Mua, de Mu ou do Cabo é remotíssima e muitíssimo anterior a 1410 [14] e até mesma mesmo a 1215 [15] e 1275 [16], cujo primeiro registo documental consta na Chancelaria de D. Pedro I,  em sua carta régia de 14 de Abril de 1366: os lugares do Termo de Sesimbra “jazem em huu dos cabos do mundo e fora de todo o caminho salvo os que vaão em romeria a Sancta Maria do cabo”. 1414 é o ano em que D. João I doou ao Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, terrenos no sítio do Cabo Espichel para ele, devoto confesso de Nossa Senhora do Carmelo, dar ao povo Casa condigna à devoção da Virgem, sendo edificada a Ermida de Santa Maria da Pedra de Mua, vulgo Ermida da Memória, humilde resto de formato kaábico do antigo espaço carmelita do qual ainda sobejam as ruínas ao lado da actual basílica (1701-1707)[17]. A pequena ermida, mais sendo oratório de ermitão ou homem do deserto, como Santo Antão que lá está em azulejo fazendo o sinal de silêncio, foi restaurada em 1758, data dos seus painéis de azulejos que indicam ser esse o “próprio lugar onde a milagrosa imagem de Nossa Senhora do Cabo se manifestou aos venturosos velhos de Caparica e Alcabideche e em que primeiro foi venerada”, segundo Frei Bernardo de Brito.

Ermida da Memória, Cabo Espichel

Ora, o primitivo culto celta estremenho (Estremadura, Oestrymnia) à Grande Deusa-Mãe prolongou-se até ao período visigótico e depois moçárabe, já aqui na forma hagiográfica da Mãe Divina, fixando-se definitivamente, por via do Santo Condestável D. Fr. Nuno Álvares de Santa Maria, na popularização da romaria, giro ou bodo à Virgem Santíssima, esta mesma Santa Maria do Cabo, a Stella Maris inspirada no episódio bíblico protagonizado pelo Profeta Elias (I Reis, 18) onde aparece como “homem de fogo”, abrasado pelo amor de Deus, e que faz parte do imobiliário simbológico da Ordem do Carmelo, inclusive associando Espichel a novel Carmelo Lusitano, nisto corporificando a oração trecentista do Flos Carmeli (“Flor do Carmelo”):

Do Carmo a Flor
vide florida
do Céu esplendor.
Virgem fecunda,
singular,
Mãe sem par
de homem ignorada!
Ao Carmo vem dar
a tua ajuda,
Ó Estrela do Mar!

Foi grande a devoção popular ao Santo Condestável, devotadíssimo de Santa Maria do Cabo, a ponto da devoção feminina saloia ter-lhe dedicado várias danças e cantares mouriscos, chacóinas ou chaconas, de natureza apologética abertamente matricial, inclusive atribuindo-lhe o “poder de ressuscitar os mortos”, o que vai bem com igual atributo da Deusa-Mãe agora corporificada na pessoa do “Cavaleiro Santo”, do “Galaaz do Carmelo”, no dizer de Pinharanda Gomes, tanto mais que a Iniciação Cavaleiresca, Senhorial, é sinónima de Iniciação Mariana. Convém, sim, não confundir Cavalaria Espiritual com Cavalaria Militar. A propósito da Chacona do Condestável, de origem medieval, ela foi recolhida e integrada no reportório do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, que gentilmente cedeu-ma pela mão do seu presidente na ocasião, senhor José Henriqueta. Passo a descrevê-la[18]:

DANÇA: É somente dançada por mulheres. Tem a sua origem na Procissão ao Carmo de Lisboa, organizada em primeira mão pelo próprio D. Nuno Álvares Pereira. Para esta dança, tal como na judenga, era obrigatória a comparência, em caso de falta haveria castigo de multa.

MÚSICA: É baseada em quatro notas que procedem por graus unidos, sobre os quais se fazem muitas consonâncias e coplas sempre com a mesma volta.

LETRA (ortografia semi-medieval):

A CHACONA

Do Restelo a Sacavém
Nem ningola nem ninguém
Tem semelho ao Condestabre
Que le prouge e que le preze
Ho fazermos tanto bem.

E BEM E BEM

O rapaz das coberturas
Que mórre, e cahe pra tráz,
Já não vai à sepultura
Que outra vez, vive o rapaz:
E ho Conde le fizo o bem.

E BEM E BEM

Á filha de Joana estés
Que finou por non mamar
Ao do moinho do Cubo
Que finou por se afogar
Viventa o Conde também.

E BEM E BEM

O mal daquela alfayata
O gram dor de Lopo Afonso
Nos les chega aos corações
Que o Santo Conde los guarde:
Y todo por fazer bem.

E BEM E BEM

E bem Condestabre Santo
Cobrimos com nosso manto
Com nosso manto de Galés
Defendimentos dos males
E fagamos muito bem.

E BEM E BEM

É ainda a Arqueologia a comprovar quanto antigo é o culto à Grande Deusa-Mãe, independentemente dos nomes que adopte de acordo com a ciclicidade dos movimentos religiosos imperantes na mentalidade do tempo de dado espaço histórico, no Cabo Espichel, outrora conhecido dos cronistas gregos e árabes como Promontório Barbárico, e dos latinos como Capresicum Lugum, isto é, Cabo de Capris ou da Cabra[19].

Cabo Espichel, Sesimbra

Com efeito, as Lapas do Bugio e do Fumo, ambas de muito difícil acesso pela alcantilada escarpa costeira sesimbrense, forneceram descobertas surpreendentes dentre vário espólio eneolítico (c. 300 a.C.): junto à entrada da Lapa do Bugio encontrou-se um esqueleto cujo crânio fitava o mar, tendo sido intencionalmente desmembrado e os ossos serrados[20], o que sugere um tipo de ritual funerário isíaco, o que aliás indaga Manuel Joaquim Gandra[21]. Na outra Lapa do Fumo, encontraram-se mais ossadas humanas intencionalmente serradas, e cerâmica de fabrico demasiado esmerado para poder considerar-se de carácter meramente utilitário, campaniforme, argárica, com ornatos a cores, datável da Idade do Ferro e Medieval, designadamente do Período Muçulmano, este também representado por oitenta quirates (moedas) cunhados em Silves, que se verificou haverem sido lançados sobre as sepulturas de presumíveis homens santos (çalás ou “justos” nos cargos de mulâs (ملا) ou “mestres” na teologia e na lei maométicas) venerados pelo Islão[22]. Que terá o mulâ a ver com a mula com que no cabo Nossa Senhora subiu escarpa acima, segundo a lenda sagrada? Ou mesmo com essa outra mula (buraq, termo árabe familiar de baraqa, “bênção”) com que Mahometh subiu ao Céu? Haveria algum ponto de encontro entre o Islão xiita e o Cristianismo heterodoxo, onde a Virginis Aeternis, a mesma Marah corânica, seria o pólo comum?

A acrescer tudo isso, a existência de diversas pistas de dinossáurios, com maior realce nas escarpas da enseada da praia dos Lagosteiros, pretexto para as pegadas deixadas na Pedra de Mua pela burrinha (mula ou muar) que transportou a Senhora encosta acima[23], transpondo-se assim o óbvio geológico para a maior valia da aparição sobrenatural da Virgem, o que recata à finalidade consagratória desse mais um finis-terrae ou lugar sagrado. Assim quis o povo e assim está muito bem, na sua maneira simples e ingénua mas sincera de pensar e sentir o sobrenatural, insensível à discussão científica esclarecida mas sensível à simplicidade da fé iluminada pela graça da Virgem Mãe, a Stella Maris, o que reporta à devoção ao Divino Espírito Santo, soprando onde quer sobre o Oceano da Vida, por aqueles homens e mulheres que dados às fainas do mar caprichoso a Ele e a Ela tantas vezes recorrem nas horas de aflição, ou esses camponeses dependentes, também eles, das boas colheitas que os caprichos da Mãe-Natureza lhes concede. São motivos mais que suficientes para cultuar a Senhora do Cabo, Orago dos saloios que vivem da terra, mas também daqueles que vivem do rio e do mar.

É assim que nasce a fruição hagiográfica da aparição da Senhora da Mua, que os velhos contavam oralmente e que depois Frei Agostinho de Santa Maria transpôs literalmente ao seu Santuário Mariano (liv. II, tit. 72), tendo por personagem central o nauta irlandês S. Brandão, o que coloca o Cabo de Mu na rota marítima das “ilhas perdidas ou encantadas” de algum finado e mítico continente da Atlântida, aqui reachado[24] e até confirmado pelo achado da Tábua Árabe na Lapa 4 de Maio (dia do Senhor das Chagas), na Serra da Azóia, no ano 2000 pelos espeleólogos Rui Francisco e Miguel Amigo, na qual está escrita dois dois lados a Sura 39.ª do Alcorão, prometendo aos justos que “Ele (Allah) o introduzirá em jardins, abaixo dos quais correm os rios”[25].

A lenda sagrada contada por Frei Agostinho de Santa Maria, é a seguinte:

“[Cerca] de 1215 pouco mais ou menos […] uma nau em direitura a Lisboa, no fim de alguns dias estando já na altura de Lisboa, não longe da costa lhe anoiteceu, e sobreveio juntamente uma tão terrível tormenta, e com uma cerração tão obscura que todos se davam por perdidos. A cada instante julgavam tocar em um baixo ou despedaçar-se a nau naquela brava costa; porque além de serem (como estrangeiros) pouco versados nela com a obscuridade da noite, não sabiam onde estavam, nem ainda que o soubessem, lhes podia aproveitar pelo desmalado furor dos ventos, e braveza dos mares, que não deixavam que a nau obedecesse ao leme. Todos os que vinham nesta nau eram cristãos e católicos, como o eram então todos os Ingleses e entre eles vinha um Religioso Eremita de meu Patriarca S. Agostinho chamado Haildebrant (isto é, Brandão), que devia ser Capelão da nau, ou de um fidalgo, que também ali vinha, chamado D. Bartolomeu. Trazia este bom Religioso consigo uma Imagem de Nossa Senhora, com que tinha especial devoção […] a foi buscar no seu camarote para se recomendar a ela, e a pedir-lhe que lhe valesse, e a todos os mais que vinham na nau. Mas não a achou no lugar em que a trazia […]: começou a dar vozes ao céu para que lhe valesse naquele grande aperto, em que ele, e todos se achavam pedindo-lhe valesse: o mesmo fizeram os mais desamparando o governo da nau, pondo-se de joelhos em oração e pedindo com lágrimas a Nosso Senhor que lhes acudisse interpondo o socorro de sua Santíssima Mãe. Eis que de improviso viram em um alto uma grande luz, que no meio daquela escura noite lhe alumia a nau e a viram como o podiam fazer com a luz do Sol em um dia claro. Após isto sossegaram os mares, abrandaram as ondas e se amansaram os ventos, quando a nau à Lua em tranquila bonança. Entenderam por estes sinais ser do Céu aquela luz, e aquela maravilha e assim animados e seguros navegaram para ela, até que vendo-se junto da costa lançaram ferro e se deixaram estar surtos até amanhecer o dia dando muitas graças a Deus, que de tão evidente perigo os havia livrado. Notaram que a luz os guiara e o lugar onde aparecera, para que tanto que fosse claro o dia, irem saber o que aquilo era. Chegou a manhã e saindo a terra Haildebrant (Brandão) com alguns dos principais da nau e subindo ao lugar notado, em que tendo visto a luz, descobriram a mesma Imagem da Rainha dos Anjos que o Religioso Padre Haildebrant trazia no seu camarote e que lhe havia falado dela na ocasião da tormenta em que [a] buscava. Admirados todos de tão grande maravilha e agradecidos juntamente à Senhora pelo singular benefício que lhes fizera, não cessavam de dar graças a Deus e também a sua Mãe Santíssima. Consideravam que o achar-se a Santa Imagem em aquele lugar milagrosamente era mostrar-lhes que tinha feito eleição dele, e que ali queria ser venerada, e assim se resolveram a não a tirar daquele sítio, sendo o principal voto desta deliberação o do nosso Eremita Haildebrant (Brandão), de quem era a Santa Imagem. E para que ficasse decentemente naquele lugar, com esmolas que juntou dos companheiros, e com licença do Bispo de Lisboa, lhe edificou boa Ermida em o mesmo lugar, e junto a ela uma cela, ou aposento para si, e para D. Bartolomeu, que os quis acompanhar naquela solidão tão áspera […].”

Desconheço se São Brandão acaso seja o capitão de mar-e-guerra Sancho Brandão, da mesma época, pertencente à Marinha de Guerra da Ordem do Templo e que, segundo Assis Cintra baseado nos escritos do padre jesuíta Manuel Fialho, terá chegado numa expedição de reconhecimento à “Ilha Perdida do Mar do Ocidente”, apontada como o Brasil, notícia comunicada pelo Rei de Portugal ao Papa Clemente VI, em 12 de Fevereiro de 1343 [26]. Igualmente desconheço se Sancho Brandão acaso será São Brandão… Para todo o efeito, tem-se a navegação sobrenatural afim à via húmida da Alquimia – Macho/Fêmea, Fohat/Kundalini, Sol/Lua, aliás, estes últimos pintados em painéis laterais à entrada interior da Basílica do Cabo, conferindo-lhe carácter astrolátrico correlacionado ao tema da lenda sagrada: Cristo para o Sol e Maria para a Lua, mas também Maria como Lua vestida de Sol; a heterodoxia da leitura iconográfica inclusive é aconselhada pela legenda do azulejo junto ao altar-mar: “Ver o outro sentido além do aparente” – e que é a Arte Magna de Espírito Santo. Assim, há igualmente a crença na presença discreta da Ordem do Templo na divulgação inicial deste santo lugar marítimo do Cabo Espichel[27], desconheço se tal aconteceu, até ao momento não obtive provas disso apesar de saber que os Templários ocuparam vários lugares da margem sul, inclusive povoados dentro do Giro do Círio, mas se isso aconteceu significa que só depois interviu a Ordem do Carmo, encarregada da propagação e popularização da Hipertúlia, do culto miraculoso à Virgem, as Virgini Maris.

A publicação em Lisboa em 1707 do acontecimento milagroso de salvação dos marinheiros ingleses e posterior aparição inexplicável da imagem da Virgem no cimo do cabo, veio a dispô-lo no ciclo e no circuito hipertúlico justificado pelas aparições miraculosas da Virgem. Mais que isso, veio corroborar o que antes, em 1409-10, acontecera com uma velha saveira do Monte da Caparica (a Capa-Rica, tanto quanto a que depois se depôs sobre a imagem) e com um velho saloio de Alcabideche, vizinho de Sintra e freguês de Cascais, que sem se conhecerem tiveram uma visão idêntica: viram uma brilhante estrela levantada sobre o Mar (Stella Maris), ao longe, alumiando sobre o Cabo Espichel, lugar que Nossa Senhora lhes revelara em sonhos, advertindo-os que ali achariam a sua imagem, escondida desde há séculos numa fraga pelo próprio S. Brandão pelo ano de 1215, reinando D. Afonso II de Portugal, tendo a Virgem acrescentado que os devotos lhe deveriam prestar culto[28]. O romeiro saloio e a velha caparicana viriam a encontrar-se em romaria ao Cabo, e depois de aí orarem, ambos fizeram uma ermidinha de alecrim, arbusto saturnino que vegeta abundantemente no lugar, e dentro colocaram a pequena imagem da Virgem Mãe achada entre fragas.

Quererá isso dizer, além do sentido imediato do acontecimento maravilhoso e maravilhado, que terá sido por essa data de 1410 que o Condestável Santo – novel “São Malaquias” da Gesta de Avis, Siva ou do Espírito Santo, empático ao Carmelo, que em egípcio se diz Espichel, tornando este um Carmelo Lusitano em Cabo de “Fim do Mundo” (Finis Terrae), tema aglutinador e revelador do Genius Loci (Espírito do Lugar), para onde confluíram as três grandes religiões monoteístas afro-mediterrâneas (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo) – começou a interessar-se pela fé popular dos saloios e saveiros na Virgem do Cabo, e, com o amplo apoio do mesmo povo, acrescido do real e do religioso carmelita, seria iniciada em 1414 a construção da Ermida da Memória do Milagre aí ocorrido em 1215, possivelmente o ano em que o culto à Virgem Celeste assumiu definitivamente o modelo cristão, e possivelmente largado o primitivo de feições arábicas, antes, moçarábicas.

Ambos esses acontecimentos da salvação da nau de Brandão e da construção da Ermida da Memória, constam nas crónicas posteriores às visões sobrenaturais dessas duas pessoas anciãs, que é dizer, de juízo formado, e serviram para publicitar o privilégio da «descoberta» do Santuário eleito pela Senhora, isto é, o seu enquadramento no Cristianismo, ou melhor, a aceitação e oficialização pelas autoridades eclesiásticas do culto mariano realizado  aí pelo povo desde, quiçá, muito antes da Nacionalidade, como narra a primeira das três lendas (duas já estão narradas, a do nauta S. Brandão e a dos velhos romeiros de visão comum) do Cabo Espichel, cuja origem poderá remontar ao período moçárabe, mesmo tendo forte sabor carmelitano. Diz ela[29]:

“Conta a lenda que na venturosa noite em que a Virgem Mãe deu à luz o Menino Deus, a Serra da Arrábida foi coberta por um clarão extraordinário, que iluminou por completo o Promontório Barbárico (Cabo Espichel). Viu-se então uma enorme nuvem, cheia de resplendores, a qual, como se fora o Sol no seu declínio, foi cair nas águas revoltas do oceano (Stella Maris), onde se sumiu […].”

De volta a Frei Agostinho de Santa Maria, ele é o único autor a dispor a Virgem montada numa jumentinha ou burrinha subindo a escarpa do Espichel, o que remete para tradição claramente moçarábica. Diz[30]: “[…] afirmam que a Senhora aparecera na praia (dos Lagosteiros) que lhe fica embaixo da mesma penha, onde se edificou a Ermidinha, e que aparecera sobre sua jumentinha, e que esta subira pela rocha acima, e que ao subir ia firmando as mãos, e os pés na mesma rocha, deixando impressos nela os vestígios das mãos, e pés. […] De ser isto assim o afirmava a tradição dos que viram estes mesmos sinais, que hoje tem gastado, e consumido o tempo”, acrescentando que a ermida “se fundou no lugar aonde a Senhora parou, naquela liteirinha vivente que a levava”, e que a capela “desfez muitas vezes o tempo; mas a devoção dos que a servem, a reformou outras tantas vezes, apesar dos seus rigores”.

Segundo documentação reservada na Biblioteca Nacional de Lisboa, a oficialização do Círio Saloio do Termo ou do Bodo, constituído pelo Giro entre freguesias (inicialmente 30) da margem norte do Tejo, com deslocação anual e rotativa ao Santuário da Senhora do Cabo,  terá tido início cerca de 1430, “21 anos depois do aparecimento da milagrosa imagem”[31], presume-se por acordo tácito popular, tendo sido canonicamente organizado com o passar do tempo: a Bula Apostólica confirmada em 15 de Maio de 1585, aprovada por Provisão do Cardeal Arcebispo de Lisboa, em 19 de Setembro de 1697, estabelecia que não se criaria aos romeiros “algum impedimento em os caminhos ou passagens de mar aos carreiros, almocreves, barqueiros e mais pessoas que os servirem pelo meirinho dos clérigos ou outras justiças”. O ano de 1606 será o da instituição da Confraria de Nossa Senhora do Cabo, estando o seu compromisso datado de 1671, aquando os “Giros” já se efectuavam há largo tempo[32]. Foi pouco depois dessa última data que D. Pedro II, em 1701, mandou construir a Basílica de Santa Maria de Mua, com traço do Arquitecto real João Antunes, obra terminada em 1707 e de imediato se transladou para a Real Basílica a imagem primitiva da Senhora. Entre 1715 e 1794 edificaram-se as casas destinadas a alojar os romeiros, as hospedarias sobre arcaria com terreiro (arraial) anexo. Também D. João V, D. José I e D. João VI mandaram fazer importantes obras aí, sendo que o primeiro encomendou ao cenógrafo Lourenço da Cunha a pintura monumental do tecto, em arquitectura perspectivada retratando a Assunção; o segundo mandou refazer os altares laterais e repintar o tecto.

O Círio do Termo à Senhora de Mu inclusive chegou, cerca de 1849, pela pompa e aparato que a realeza lhe devotou, a ser chamado de Real Círio dos Saloios, e a a fama de que usufrui até hoje provém sobretudo da protecção que a Coroa lhe deu. Com efeito, a rainha D. Carlota Joaquina confeccionou o manto riquíssimo (Capa-rica – posta em analogia com o Véu ou Manto de Ísis) que revestiu a imagem da Virgem, tendo antes disso o rei D. José I e a rainha D. Maria I oferecido à Confraria do Cabo a bandeira com a imagem de Nossa Senhora bordada a ouro, bem como a monarca D. Maria Pia oferecido, em 1887, a bandeira que os “anjos” usaram no Círio desse ano.

O Círio Real dos Saloios ainda resplandecia de importância no último quartel do século XIX, em todas as freguesias do Termo por onde ele girava. Tal era acompanhado da maior assistência aos romeiros. É como diz Luís Chaves[33]: “Hia antigamente ao Sítio do Cabo no Círio do Termo ou dos Saloios, hum cirurgião da Caza-Real, por conta do Infantado, e levava uma Botica (Farmácia) volante para acudir aos Romeiros em cazo de necessidade”.

Círio é a grande vela de cera acesa benzida e sagrada pela devoção a Orago comum, no caso, Santa Maria do Cabo, expressiva do Espírito Santo vogando sobre o Oceano da Vida justificativo dos predicados de votivo e itinerante em itinerário praviamente demarcado pelo qual vai gradualmente identificando-se com o Divino até á absorção Nele no final da jornada, ou tão-só a Sua aclamação como Pater Majorem dos fregueses, os filius Ecclesiae, dispondo a freguesia como fiel de Maria, Mater Prima, Sua protectora e consoladora, no que o Espírito Santo é Nela.  No fundo, o Círio não deixa de ser peregrinação, e peregrinação é sempre, não importa se consciente ou inconscientemente, uma iniciação móvel, neste caso particularizada como iniciação mariana popularizada na etnia saloia, esta que, acaso, pode não se gostar à primeira, vai-se aprendendo a gostar… Hoje mesmo ela é a nata do povo, simples e rude mas sincero e bom, sempre acreditando nas boas intenções de “seus senhores”, esses “mandantes lá de Lixbôa” que, desgraçadamente, acabam esquecendo a palavra dada com muitíssima mais facilidade que a capacidade de hoje separar o rural do urbano. De maneira que ambos sofrem na mesma medida.

O Giro do Círio à Senhora da Pedra de Mua tinha como cabeça dele a Freguesia de Belas, onde os procuradores se reuniam impreterivelmente a 25 de Março de cada ano para prestar contas e realizar eleições para os novos cargos. O prior de Belas era o juiz executor e o de Barcarena o seu tesoureiro perpétuo. Como disse, inicialmente o Giro compunha-se de 30 Freguesias do Termo dos Saloios, mas após o 10.º Giro 4 delas resolveram abandoná-lo: Bucelas (1709), Unhos (1711), Arranhó (1716) e Mafra (1722), ficando as restantes 26, número que se mantém até hoje. A sua ordenação e a data em que iniciaram o Giro é a seguinte:

1 – S. Vicente de Alcabideche (1431)
2 – S. Romão de Carnaxide, hoje Linda-a-Velha (1432)
3 – S. Julião do Tojalinho, hoje Tojal (1433)
4 – S. Pedro de Penaferrim de Sintra (1434)
5 – Nossa Senhora da Misericórdia de Belas (1435)
6 – Santa Maria de Loures (1436)
7 – S. Lourenço de Carnide (1437)
8 – Nossa Senhora da Purificação de Bucelas (1438)
9 – S. Pedro de Barcarena (1439)
10 – S. Pedro de Lousa (1440)
11 – S. Silvestre de Unhos (1441)
12 – Santo Antão do Tojal (1442)
13 – Nossa Senhora da Purificação de Oeiras (1443)
14 – Nossa Senhora do Amparo de Benfica (1444)
15 – S. Domingos de Rana (1445)
16 – S. João das Lampas (1446)
17 – S. Lourenço do Arranhol, hoje Arranhó (1447)
18 – Nossa Senhora da Purificação de Montelavar (1448)
19 – Nossa Senhora de Belém de Rio de Mouro (1449)
20 – Nossa Senhora da Ajuda de Belém (1450)
21 – Ascensão e Ressurreição de Cascais (1451)
22 – Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas (1452)
23 – S. Martinho de Sintra (1453)
24 – Santo André de Mafra (1454)
25 – S. Pedro de Almargem do Bispo (1455)
26 – Santo Estêvão das Galés (1456)
27 – Nossa Senhora da Conceição da Igreja Nova (1457)
28 – S. João Degolado da Terrugem (1458)
29 – S. Saturnino de Fanhões (1459)
30 – Santa Maria e S. Miguel de Sintra (1460)

Nos primeiros tempos do Círio, a passagem de testemunho de uma freguesia do Giro a outra, era feita no próprio Santuário do Cabo e concretizada através da entrega da bandeira da Confraria pelo juiz da freguesia que saía ao juiz da freguesia que entrava. Saliente-se que tendo em conta o número de freguesias participantes no Giro (26), cada uma delas só festeja a Senhora do Cabo de 26 em 26 anos. No ano de 1751, essa bandeira foi substituída por uma imagem da Virgem feita à semelhança da original – que nunca saiu do Santuário – e a partir dessa data começou a acompanhar os Círios.

Círio de S. Vicente de Alcabideche em 1909

Inicialmente, a procissão do Círio organizava-se segundo uma coreografia de cortejo, que abria com um friso de anjos, seguindo-se a música e os carros enfeitados transportando os romeiros – o que se ajustava a um ludismo que, situado na transição do popular folclórico para o ritmo sagrado, orientava a função colectiva para os Mistérios Iniciáticos.

Em 1893 e devido à pouca afluência de romeiros ao Cabo, foi necessário tomar novo compromisso, onde se consignou que os festeiros se limitariam a levar a imagem peregrina de freguesia em freguesia sem deslocação ao Cabo Espichel, e só quando chegasse a vez da última freguesia do Giro – St.ª Maria e S. Miguel de Sintra – todas elas iriam em procissão ao Santuário de Mua e aí seria entregue a imagem aos festeiros da primeira freguesia – Alcabideche –, recomeçando assim um novo Ciclo ou Giro (o que se enquadra naquele princípio teosófico do Terceiro Logos Criador das Rondas e Cadeias dos Planos de Matéria e peregrinando por elas, evoluindo e fazendo evoluir os seus seres viventes). O facto é que, desde essa data, a imagem peregrina nunca mais voltou ao Cabo, verificando-se assim uma adulteração do ritual primitivo, por ela passar directamente de freguesia para freguesia após 26 anos de ausência. Foi também nessa altura que se perdeu o hábito dos procuradores dos vários Círios se reunirem em Belas, no já referido dia 25 de Março de cada ano, para aí serem prestadas as contas.

Em 1910 e logo a seguir à promulgação da lei separativa do Estado e da Igreja, foi assaltada a igreja-matriz de Alcabideche onde se encontrava a imagem peregrina, provocando-lhe vários danos. A este facto sucedeu um interregno de 15 anos nos festejos a Nossa Senhora do Cabo, que recomeçaram em 1926 com Odivelas a ser a primeira freguesia a reclamar a imagem tomando a iniciativa de a ir buscar à Ressurreição de Cascais, onde fora recolhida do vendaval jacobino anti-eclesiástico, de maneira que foi o Círio do Santíssimo de Odivelas quem suscitou a retoma do Giro.

Comissão de Festeiros de Odivelas e carro dos “anjos” defronte ao Mosteiro de S. Dinis e S. Bernardo (1926)

Depois disso as romarias continuaram, mas já destituídas da grande pompa que possuíam outrora, até que, mais uma vez, foram interrompidas desde 1976 a 1979.

Até finais do século XIX o Círio durava cinco dias[34]. Saía da freguesia que tinha a imagem da Senhora na terça-feira que antecedia a Ascensão (40 dias após a Páscoa: quinta-feira da Ascensão ou da Espiga), e ia depositá-la na Capela de Nossa Senhora das Dores, em Belém. No dia seguinte atravessava o Tejo, enquanto as fortalezas davam salvas de 21 tiros, desembarcando de galeotas e bergantins da Casa Real em Porto Brandão (que herda o nome do santo da lenda descrita pelo supradito Frei Agostinho de Santa Maria).

Uma vez em terra, o cortejo reorganizava-se, fazendo paragem na Capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Daí seguia para a Ermida de Nossa Senhora do Cabo na Banática e para a homónima da Caparica (Quinta da Piedade de Domingos da Costa e Almeida, antiga propriedade de meus familiares), seguindo para o Cabo Espichel pela beira-mar, ao longo do areal. Os romeiros costumavam chegar ao Cabo na véspera da Ascensão, entrando o cortejo no terreiro e dando três voltas a este antes de se dirigir para o interior da basílica.

Os festejos iniciavam-se nessa quinta-feira, dia consagrado, com missa de Requiem, aos festeiros falecidos. No sábado havia solenidade consagrada a S. Joaquim (aludido pai da Virgem Maria), e no domingo acontecia a festa que faziam os que entregavam a imagem de Nossa Senhora. Nesse dia, à tarde, realizava-se a procissão, na qual se incorporavam os festeiros dessa freguesia e da que ali a iam receber. Seguia-se-lhe a entrega da bandeira, no interior do santuário, com Te Deum, Ladainha e Sermão. Os festeiros que entregavam, mais o respectivo prior, o juiz com a bandeira e três anjos, todos se colocavam do lado direito do altar-mor, e os que recebiam, do lado esquerdo. O mestre de cerimónias, que era o prior do santuário, tirava a capa de asperges dos ombros do prior da freguesia que entregava, pondo–a nos do que acompanhava a que recebia. Ao entregarem o Círio, os festeiros passavam todos para o lado esquerdo do altar. Concretizada a entrega era-lhes oferecido um copo de água (tradição que teve início, segundo Ribeiro Guimarães[35], apenas em 1752), ao qual sucedia a entrega das alfaias, lavrando-se acta do sucedido, assinada por todos os presentes. Conservavam-se os festeiros no local até a segunda-feira seguinte, dia em que ocorria o regresso.

Depois da travessia do Tejo para Belém, iniciava-se a caminhada para o respectivo destino, para a freguesia de eleição do Giro. Abria uma força de cavalaria, de imediato o carro do Fogo, seguido pelos juízes com a bandeira e acompanhantes, mais os ternos de chamarelas e três anjos a cavalo, vestidos de soldados romanos. A imagem peregrina era conduzida na sua berlinda puxada por duas parelhas, ladeadas por doze devotos com as tochas acesas. Após ela, os carros triunfais dos anjos das loas (louvores), do padre, dos procuradores, uma galera que levava a música e o habitualmente longo cortejo com a multidão dos festeiros[36].

Berlinda processional da Senhora de Mua chegando a Odivelas vinda de Cascais (2003)

Houve oito freguesias que não foram abrangidas pelo compromisso seiscentista, as quais organizaram os seus próprios Círios a Nossa Senhora do Cabo Espichel[37]: Lisboa (terceiro domingo após o Espírito Santo), Seixal e Arrentela (2.ª oitava do Espírito Santo), Almada (domingo da Trindade), Palmela (15 de Agosto), Azeitão e Sesimbra (primeiro domingo de Setembro). Os Círios organizados na Costa da Caparica possuíam uma organização semelhante à do Giro das freguesias do Termo de Lisboa. A Freguesia era dividida em 4 Varas: 1.ª – Monte da Caparica (onde vivi nove meses e fiz a 1.ª classe da primária escolar, cuja igreja da Capa Rica guarda, como quer a lenda, um tesouro, encobrindo igualmente o segredo que lhe dá acesso – são observáveis dois retábulos azulejares os quais, significativamente, têm por tema o Dilúvio Universal) e Porto da Caparica (Porto Brandão, onde, também infante, ia morrendo afogado e sem ninguém próximo para dar a mão de socorro, contudo “força misteriosa” ou “mão de anjo caridoso” empurrou-me para terra seca. São coisas que não se esquecem…); 2.ª – Trafaria; 3.ª – Costa da Caparica; 4.ª – Sobreda, as quais se revezavam anualmente na organização do Círio e na manutenção da bandeira numa ermida própria até à festa seguinte[38].

Hoje, tudo mudou e muito. Os usos e costumes, sem dúvida. A fé, acaso não. Como também não as freguesias do Giro, e assim também o Santuário do Círio do Termo dos Saloios[39]. Ele lá está, sentinela solene, debruado sobre o Mar Atlântico lavrando as escarpas de Mu. Nada falta, em remate final, para devolver à solenidade litúrgica a pompa mais que justificada merecida de outrora, não faz muito tempo, e que era prova tamanha da unidade social portuguesa reunida em torno de uma única Fé, de uma única Mãe: Santa Maria dos Saloios, do Espichel, de todo o Portugal que é dele este dia[40].

Honra e Glória, pois, à Pátria amada que nos é berço, Portugal, e a todos quantos, no rolar dos séculos idos, por certo votando naqueles do porvir, fizeram as suas grandezas que tão bem e imortalmente a Musa de Camões soube cantar, cujo eco abrasa o coração e empolga a mente. Portugal das Armas, Portugal da Fé, Portugal das Letras, Portugal do Povo que não tem casta e que é todo o Português no Mundo da nossa Diáspora. Morrer a Ideia e a Pátria, jamais! Transformar e Evoluir a Ideia e a Pátria, sempre!

Com esta oração, tenho dito.

 

NOTAS

 

[1] Conferência pública, aqui revista e aumentada, que proferi em 10 de Junho de 2003, no anfiteatro da antiga cisterna da cidadela militar de Cascais, perante as autoridades religiosas, militares e civis, além de vasto povo, por ocasião da chegada aí do Círio Real dos Saloios devotos da Virgem do Cabo Espichel, com a posterior ida para a paróquia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, sede de concelho.

[2] Raphael Bluteau, Vocabulario Portuguez e Latino. Coimbra, 1712.

[3] Frei João de Sousa, Vestigios da Lingoa Arabica em Portugal, ou Lexicon etymologico das palavras, e nomes portuguezes, que tem origem arábica. Lisboa, 1830.

[4] David Lopes, Cousas arábico-portuguesas: algumas etimologias. In Boletim da Segunda Classe da Academia das Ciências de Lisboa, 1917.

[5] Cf. Ana Lúcia Rodrigues Fernandes Vaz, A identidade e o património imaterial saloio: contributos para a criação de uma oferta turística sustentável. O caso do concelho de Mafra. Instituto Politécnico de Leiria – Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, Setembro 2015.

[6] Alexandre Herculano, Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, 84. Obra publicada em quatro secções pela Academia das Ciências de Lisboa entre 1856 e 1917.

[7] Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.

[8] Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

[9] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Sagrada e Profana. Euedito, Lisboa, 2016.

[10] Carlos Guardado da Silva, A estruturação e o povoamento da defesa na Estremadura Islâmica: elementos para o seu estudo. In Turres Veteras V: História Militar e da Guerra. Edição Câmara Municipal de Torres Vedras, 2003.

[11] Francisco Keil do Amaral, O Santuário de Nossa Senhora do Cabo no Espichel. Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1964.

[12] Augusto Vieira da Silva, Dispersos, volume I. Lisboa, 1968.

[13] A repressão aos cristãos moçárabes de Lisboa e a sua consequente chacina, a ponto de poucos vestígios da sua presença na cidade sobreviverem até hoje, deve-se anacronicamente aos cruzados cristãos que conquistaram a urbe e cujos legados papais depressa impuseram à força o direito da lei romana ao direito da lei hispânica. Com efeito, depois da conquista da cidade em 1147 pelas forças chefiadas por D. Afonso Henriques, houveram quezílias entre os católicos romanos e os cristãos moçárabes, talvez o mais grave a posse do senhorio da paróquia de S. Cristóvão, sinal da sua grande importância já na época, vindo o rito romano impor-se ao rito hispânico que aos poucos feneceu até desaparecer completamente. Mesmo assim, permanece a memória, pouco ou nada apercebida, da incorporação moçarábica do santoral arábico que passou ao romano, como seja exemplo a figura do próprio Cristóvão identificado àquela do Kadir por via Miracula (literatura hagiográfica relacionada ao culto histórico), sendo o principal pomo da discórdia histórica e teológica, inclusive litúrgica, entre moçárabes e católicos. Kadir é identificado pelos árabes como um dos companheiros de Moisés, dando a este o nome de Beliah Ibne Fáligue ou Ibne Nuh (Noé), indo encarnar um esoterismo islâmico onde se compreendem ou sintetizam tradições hebraicas relativas ao Patriarca Elias e ao Arcanjo S. Miguel, este o assistente da Sinagoga (Mikael) mas também da Mesquita (Mirrail), que como assistente da Igreja é Miguel. Segundo a lenda sagrada, Kadir terá descoberto a Fonte da Vida Eterna e bebido dela, pelo que não morreu e ainda é vivo, estando em parte incógnita aguardando o momento de ressurgir entre os fiéis. Se Kadir conduz o povo eleito a terra salva do Dilúvio Universal, por sua vez o gigante Cristóvão ou Christoferens é o que “carrega o Cristo” Menino, conduzindo-o a salvo através das águas caudalosas de um vau furioso à outra margem, lenda piedosa indicadora da fé que resiste a todos os caudais de descrença e mantém incólume a Igreja no caminho dos séculos. Por isto, tal como Kadir foi o condutor do seu povo, também Cristóvão é o padroeiro dos peregrinos e viajantes.

[14] Francisco Ildefonso dos Santos, Memórias sobre a Antiguidade das Romarias, e Romaria ao sítio de Nossa Senhora do Cabo. BNL, Ms. 98 da Colecção Pombalina, 1854-1857.

[15] Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, volume II, Lisboa, 1874. Raposo Botelho, Nossa Senhora do Cabo – Resumo Histórico, Lisboa, 1928.

[16] BNL, manuscrito 74, 1585, Apparições de Nossa Senhora da Luz, do Cabo Espichel, etc.

[17] INTT, Chancelaria de D. Afonso V, Livro 24, fl. 40-40v.

[18] Vitor Manuel Adrião, Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993. Vitor Manuel Adrião, Frielas (Memorial Histórico). Edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas, 1996.

[19] Vitor Manuel Adrião, Os trilhos da História Sadina. Revista Cidades, S. Pedro do Estoril, 1988.

[20] Agostinho F. Isidoro, A Lapa do Bugio (Necrópole pré-histórica da Azoia). Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. XIX, fasc. 1, Porto, 1963. José Luís Cardoso, A Lapa do Bugio. In Setúbal Arqueológico, vol. 9-10, pp. 82-225, 1992.

[21] Manuel Joaquim Gandra, Os Círios ou aspectos da Grande Deusa na Estremadura. In Comunicações, publicadas pela Câmara Municipal de Loures, das Jornadas sobre Cultura Saloia – 2 e 3 de Dezembro de 1994.

[22] Eduardo da Cunha Serrão, Cerâmica pré-histórica da Lapa do Fumo – Sesimbra – com ornatos coloridos e brunidos. In Zephyrus, 9, n.º 2, pp. 177-186, 1958.

[23] Miguel Telles Antunes, Dinossáurios Eocretácios de Lagosteiros. Lisboa, 1976.

[24] W. Scott-Elliot, Lendas da Atlântida e Lemúria. Madras Editora, São Paulo, 2002.

[25] Vd. Nova Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra. Edição Câmara Municipal de Cascais, 2011.

[26] St. Brendan´s Search for Paradise. In A brief history of the European Myth of the Garden. Press American Studies and the University of Virginia, 2001.

[27] Maria Clara de Almeida Lucas, A literatura visionária na Idade Média portuguesa. Biblioteca Breve, vol. 105, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1.ª edição – 1986.

[28] J. Raposo Botelho, Nossa Senhora do Cabo (Resumo Histórico), pp. 8-9. Sintra, 1928.

[29] J. Raposo Botelho, ob. cit., pp. 6-7.

[30] Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, t. 2, liv. II, tit. 34, pp. 348-353. Lisboa, 1707.

[31] BNL, Memórias, cod. Pombalina 98.

[32] Francisco Sousa, O Círio dos Saloios a Nossa Senhora do Cabo. In Aspectos Religiosos e Profanos das Festas Populares em Loures, edição do Museu Municipal de Loures, 1993.

[33] Luís Chaves, O Archeologo Portuguez, 21, 70 – 1916.

[34] Manuel Joaquim Gandra, ob. cit.

[35] Ribeiro Guimarães, Summario de Varia Historia. Lisboa, 1872.

[36] Olegário Paz, Loas a Nossa Senhora. In Jornal de Sintra, 12 de Setembro de 1986. Pinharanda Gomes, O Carmo em Loures. Edição da Comunidade Paroquial de Santo António dos Cavaleiros, Loures – 1979. O Trabalho e as Tradições Religiosas no Distrito de Lisboa. Exposição de Etnografia, Governo Civil de Lisboa – 1991.

[37] Frei Cláudio da Conceição, Memórias Prodigiosas de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa, 1817.

[38] Conde dos Arcos, Caparica através dos séculos. Cacilhas, 1974.

[39] Diogo Francisco da Piedade e Costa, História de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa, 1899.

[40] Tanto o Círio à Senhora de Mu – secundado por aquele à Virgem Negra da Nazaré – como a Festa Popular do Império do Divino Espírito Santo, não deixam de ter a influência secreta da pouca ou nada conhecida, pouco importa, Ordem de Mariz, para todo o efeito, bojo da Portugalidade no Mundo dando a este as sementes do seu Futuro que se deseja promissor.

O Sagrado Português: Género e Ser (Cabala da Língua, do Género e da Geografia) – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jul 16 2017 

Fala-se amiúde do português mais como europeu e género antropológico caldeado e saído de várias etnias do Passado, caracterizando-o como raça distinta que, longe de ser ultramontana “orgulhosamente só”, é naturalmente expansiva afim a diáspora onde os cinco continentes revelam-se o limite. Durante o Estado Novo fez-se a propaganda da Raça Lusa ou Género Português, hoje interpretado como patrioteiro e modalidade de afirmação nacionalista do antigo regime caracterizado pelo sistema de ditadura romana. Até poderá ser, mas não está errada a premissa do português como género singular na Europa e de Portugal como o país mais antigo da mesma em quase meio milénio.

Característica do Sagrado Português, justificação apologética do mesmo, é a tripeça da Língua, do Género e da Geografia por que a Formula Mens Lusitanea tem se manifestado ao longo dos séculos pela Arte e a Filosofia Portuguesa, inclusive pelo singular da religiosidade nacional, onde a pia devotioni não raro aparece aparelhando com os encómios patrióticos aos feitos d´armas dos seus maiores.

Comece-se pela Língua. A fala de um povo é a manifestação em sons vocais, conjugados pelo sopro e a pausa, da Ideia Original, arquetípica que o assiste e distingue de outros povos dando a perceber a sua condição psicomental e consequente evolução. Trata-se da Ideia Raiz da potência do Logos dirigindo o Corpo Nacional pela qual a Língua, distinta das outras, faz com que aqueles que a falam agreguem-se em núcleo antropológico cultural e social distinto manifestando pelo sopro e o som, no estado imediato visível, o Arquétipo invisível que os assiste, tal qual a ideia manifestando-se pelo cérebro tomando forma através dos órgãos sensoriais como verbum facundus.

Raciocine-se sobre o fenómeno da linguagem; pense-se um pouco sobre o fenómeno da palavra. Alguém tem uma ideia, uma imagem lhe vem ao cérebro, os órgãos vocais são movimentados e pronuncia-se um som convencional. A vibração transmite-se pelo ar, atinge o ouvido de outro homem, dá-se uma série de fenómenos ainda não bem explicados e aquela vibração, aquele som é interpretado pelo outro homem com a mesma ideia que havia surgido no cérebro do primeiro. Pois bem, nas chamadas sagradas, purushicas, línguas primevas, havia uma correlação directa do som com o objecto, ou seja, o som era a expressão sonora directa e consciente do objecto ou pensamento. Com a decorrer dos tempos e o avanço da Kali-Yuga, a presente Idade do Ferro marcada pelo materialismo sombrio, as línguas foram se deteriorando indo perder o seu sentido original, tomando a condição prakritica de línguas dessacralizadas pelo rompimento do arquétipo com o protótipo, do pensamento com o som, pelo que hoje em dia são raros os idiomas que ainda mantêm essa ligação. As que a mantém são utilizadas na ciência sacerdotal das diversas religiões do mundo como forma de expressão e intercomunicação directa entre o Divino e o Humano. O latim antigo, o grego arcaico, o sânscrito, o hebraico original e até o tupi e o português galaico, são algumas das línguas que ainda mantêm algo desse poder. Daí a razão da Cabala, no seu vector gemátrico de estudo do poder do alfabeto hebreu, onde se combinam as suas letras como se combinam os símbolos da Química indo obter-se ideias e significados.

Como disse, a Língua Portuguesa ainda contém muito desse Poder de Espírito Santo – Verbum Creator – pelo que se a pode considerar Língua Sagrada ou de Purusha em sua essência, muito mais sendo uma fusão fonética e gramatical de várias línguas de veneranda ancestralidade (grego, latim, semita, eslavo, bretão e galaico), onde igualmente se apresentam vocábulos fenícios que durante a Idade do Bronze na Península Ibérica foram parentes do alfabeto mais antigo da Europa e, quiçá, do Mundo, como seja o cónio, cúneo ou cinete, povo que subiu do Sul ao Norte do que é hoje Portugal, inclusive tendo fundado Conimbriga, berço proto-histórico da actual Coimbra.

Posto assim, a Língua Portuguesa revela-se como idioma sintético com a potência do flogístico ou espiritual na sua derradeira essência, em sua relação não rompida de arquétipo – protótipo, de objecto – expressão. Apesar da Língua Portuguesa conter 40.000 verbos, ela possui apenas dez potências que estão na raiz ou no fundo de todos os fonemas, repartindo-se em quatro grandes géneros afins às quatro forças naturais Fogo, Ar, Água Terra[1]. Assim, tem-se:

a) O das explosivas: G – K; D – T; B – P.

b) O das sopradas: Z – S; V – F; J – X.

c) O das líquidas: N – Nh; M ~ (m – n); L – Lh – l.

d) O das vibrantes: R – Rr – r.

No conjunto das “explosivas” está-se, de facto, perante explosões de sons; além disso, são explosões descontínuas, o que se verifica proferindo-as repetidamente.

O que caracteriza o conjunto seguinte (fricativas) é a continuidade própria de qualquer som. Por outro lado, são proferíveis sem som vocálico auxiliar, o que não acontece com as primeiras.

O terceiro grupo é muito mais complexo. Não, como aqueles, isomórfico. Há aspectos que aproximam as potências, outros que as distanciam. Essa é, porém, a natureza própria deste lugar, líquida com as ondas da maré num perpétuo ir-vir.

O R é com as sopradas, proferível sem auxílio de vogal, mas distingue-se delas por ser intermitente. Tríplice na forma, é a vibrante por excelência.

Sendo as letras potências que se idealizam conjugadas como palavras e se exprimem como frases, a referida tétrade fonética se dispõe por três colunas, de acordo com a Árvore das Sephiroths da Cabala. À direita as labiais, à esquerda as dentais e ao centro as pálato-guturais.

Diz Vulliud[2]: “A definição dos sephiroths varia consoante a ordem na qual venham a ser considerados. Na ordem do conhecimento, são dez luzes que iluminam a inteligência. Na ordem dos nomes, são dez atributos do Santo, bendito seja. Na ordem da revelação, são dez aspectos pelos quais a Essência Divina se dá a conhecer, as dez vestes em que aparece, os dez degraus proféticos para as comunicações do Alto. Na ordem cosmogónica, são as dez “palavras” por meio das quais Deus criou o Mundo, os dez sofrimentos que movem o Mundo e o vivificam, os dez números com que o nomeia, mede e pesa. Na ordem beatífica, sãs as dez espécies de glória que fruem as almas e os espíritos puros. Enfim, como o Universo é uma harmonia, é fácil estabelecer a série de correspondências alquímicas, astrológicas, etc.”

Demonstra-se assim, por este meio de Tradição ancestral, que o alfabeto da Língua Portuguesa é também ele uma Cabala Gemátrica cuja estrutura sagrada afim às potências naturais possibilita atingir o mais verídico Conhecimento. Motivo para o Professor Henrique José de Souza (1883-1963), fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, reiterar constantemente que a Língua Portuguesa haverá de ser o Idioma geral do Futuro, da Nova Sociedade Humana encabeçada pela Raça Ibero-Ameríndia[3].

A Língua plasmou-se na Literatura Portuguesa que cedo se dimanou e universalizou, ela também explanando-se por três épocas distintas comportando sete períodos distintos, que devido à grandeza e vultos dos seus verbos contribuiu notavelmente para o desenvolvimento vocabular de outras línguas europeias, inclusive as hoje consideradas mais apuradas como as de origem anglo-saxónica. Tem-se:

I – ÉPOCA TARDO-MEDIEVAL (séculos X – XV)

1.º Período (séculos X – XV):

Crónicas, cronicões e lais mosteirais (séculos X – XII); poesia dos trovadores e prosa dos jograis, anónimos ou não (séculos XII – XIV);

2.º Período (séculos XIII – XV):

Poesia palaciana, prosa didáctica e crónicas.

II – ÉPOCA CLÁSSICA (séculos XVI – XVIII)

3.º Período (século XVI):

Influência italiana; Maneirismo (exemplo, Os Lusíadas); Renascimento.

4.º Período (século XVII):

Cultismo e Conceptismo.

5.º Período (século XVIII):

Iluminismo, Arcadismo e Arcaicismo.

III – ÉPOCA CONTEMPORÂNEA (séculos XIX – XX)

6.º Período (1825 – 1870):

Romantismo e Neoclássico.

7.º Período (desde 1870):

Realismo e Abstraccionismo.

Foi sobretudo pela palavra oral e escrita, geralmente por ambas[4], que Portugal se alavancou na Civilização e se impôs, partindo de diáspora – gesta dei per portucalensis, divisa manuelina – para a criação de império, nisto afim ao sentido cabalístico de Malkuth, “O Reino ou o Mundo” (Assiah)[5], pois que no Mundo se projectou e dominou nos cinco continentes, como seja: Portugal = Brasil, Guiné, Moçambique, Angola, Cabo Verde, S. Tomé, Príncipe, Índia, Macau e Timor. A diáspora da lusofonia serviria de fermento à constituição da futura Raça Humana agregando todos os povos do Mundo onde também convivem, sob uma forma sintética todos os representantes do Passado, colectiva e paulatinamente empenhados na edificação da Concórdia Universal[6], independentemente das crises psicossociais próprias de qualquer período interciclos que é o actual.

Passo assim ao Género. A natureza sui generis e a idiossincrasia do Homem Ibérico fazem dele um Manu, um Guia civilizacional de dupla fácies, introvertido (português intuitivo, pisciano) e extrovertido (espanhol mental, sagitário), dando um tipo psicológico único que só para cá dos Pirenéus se encontra. Isto tem levado antropólogos e sociólogos a afirmar que se a Península Ibérica cessasse, cessaria toda a Europa. Segundo Francisco da Cunha Leão e de maneira genérica, são os seguintes os modos comportamentais do espanhol – português[7]:

1 E.) Religiosidade imediata. Relação directa do Homem com Deus, na Mística, excluindo o termo médio. Firmeza na crença, inseparável da expressão prática. Carmelitanismo.

1 P.) Religiosidade imediata, através da Natureza e da Saudade, e pelo amor às criaturas. Franciscanismo.

2 E.) Homem como agente de ideal. Primazia da acção. Militantismo. Flamenco.

2 P.) Homem como estado de alma. Tendência para o sonho. Desigualdade temperamental: ledícia e dor de viver. Fado.

3 E.) Indiferença à Natureza cósmica. Natureza lugar-onde, palco da História. Realismo antropológico.

3 P.) Sensibilidade à Natureza vista animadamente, e ao mistério. Naturalismo transcendente e saudosista.

4 E.) Vida, afirmação e luta. Valorização do pessoal. Dramatismo. Código de honra. Morte – acesso à glória.

4 P.) Vida – afirmação pelo sentimento e assimilação humana. Gosto da aventura. Espírito de missão.

5 E.) Extremação entre o amor e a sexualidade. Amor natural, sem intrincamento.

5 P.) Amor-adoração. Supervivência amorosa. Carácter absorvente, complexo. Insegurança, queixa, transcendência.

6 E.) Ironia cortante, ácida. Apreensão realista do tipo humano. O picaresco. Ludismo verbal.

6 P.) Ironia sentimental. Agudeza ao ridículo. Realismo emotivo e crítico.

7 E.) Solidariedade contra as intervenções alheias. Orgulho e hermetismo nacional.

7 P.) Solidariedade pela comunhão dos afectos e transmissão do sangue. Coesão pela saudade.

8 E.) Reacção perante a adversidade pelo refúgio no foro individual – isento de derrota. Soledade. Senequismo. Alternância com o desespero colectivo expresso em luta e aniquilamento iconoclasta.

8 P.) Resistência à adversidade pela esperança e crença nos imponderáveis. Sebastianismo. Desespero confinadamente individual.

9 E.) Tendência para o categórico. Nitidez dos contrastes, menosprezo dos valores intermediários. Firmeza das opiniões, pouco permeáveis à dúvida.

9 P.) Sentido das cambiantes e das sombras. Hesitação alternada com o ímpeto e o heroísmo das execuções supremas, geralmente ponderadas, amadurecidas.

10 E.) Desinteresse pelo mundo.

10 P.) Interesse pelo exótico.

11 E.) Teimosia aberta: obstinação. Desapego das comodidades.

11 P.) Teimosia surda, aquosa. Plasticidade. Antinomias profundas.

Finalmente, tem-se a Geografia. A cartografia antiga sempre privilegiou Portugal dispondo-o na cabeça da Europa apresentada como figura humana, assim mesmo contextualizada como Geosofia ou Geografia Sagrada onde no mapa continental ele ocupa o lugar cimeiro.

Se Europa como filólogo provém do celta Ur-Rope, “Região do Fogo”, segundo outros vem a ter a sua formação no vocábulo euro, o “vento de leste”, conhecido já por helénicos e latinos, varrendo águas, poeiras e sementes para o lado “onde o Sol se põe”, o Occidis ou “Lugar da Morte”, esta entendida como o molinete da transformação da alma inerte dos elementos e do Homem na vida activa, espiritualizada, logo harmonizada com a Suprema Lei Universal que a tudo a todos rege.

A Europa teve, entre os rios Reno e Volga, como dirigentes os acadianos e os celtas na sua origem, encontrando-se colocada entre dois grandes blocos continentais: o asiático e o “quinto continente”, realçando-se neste a América do Sul. Por isso é a “ponte” antropológica que a Vaga Humana, “empurrada” pelo Vento de Leste, atravessa num crucial Itinerário, hoje entre o Oriente, espiritualmente falido como também socioeconomicamente, e o urgente Grande Ocidente ibero-americano do Sul que começa a brilhar como “Luz das Nações”, parafraseando os Actos dos Apóstolos, 13:47, promessa tomada de Isaías, 49:6.

A Europa, o quarto continente, do ponto de vista mítico, ou melhor, esotérico, é realmente a expressão física ou incarnada de poderosa divindade criadora, um Arqueu ou Assura, segundo as cosmogonias tradicionais do Ocidente e do Oriente. E sendo a Europa um Corpo, então Fernando Pessoa não usou de “blague” ao dizer que Portugal era o rosto da mesma. Este conceito geosófico antiquíssimo da corporalidade continental, veio a ser ressuscitado pelo cognoscio vivaz de autor contemporâneo, Manuel Joaquim Gandra[8], seguindo o primaz igualmente contemporâneo desta tese, o mesmo Fernando Pessoa, como se verifica na primeira parte, “Brasão”, e primeiro poema, “O dos castelos”, da sua Mensagem.

Certamente Fernando Pessoa inspirou-se em autores mais antigos e de nomeada hermética para esse seu belíssimo poema, assim constando:

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é um ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Acordando com o conceito pessoano, escreveu Manuel J. Gandra[9]:

“Com efeito, encontramo-nos perante a ideia tradicional: a Europa é detentora de um corpo com cabeça, tronco e membros. Ela é o palco para a actuação da Lei matriz que concerne à Era Adâmica e tem por desígnio a rubificação, ou seja, a incorporação consciente da Luz de Glória (Xvarnah para os persas, o Espírito Santo para os cristãos) por todos e cada um dos seres humanos.”

No século XIV (1335-37) a tal ideia foi dada forma gráfica, ou melhor, cartográfica, visto tratar-se de uma carta, da qual são pelo menos conhecidas três versões, da autoria de Opicinus de Canestris. Posteriormente, o franciscano de Basileia, Sebastian Münster, inspirado nessa carta medieval editará uma semelhante em 1544, na sua Cosmographia. A carta de Münster receberia, poucos anos depois, acréscimos de um seu colega conterrâneo, Heinrich Bünting, que a publicaria em 1581 na sua obra principal, Itinerarium Sacrae Scripturae, contendo as correcções feitas em 1544 à obra de Münster pelo humanista português Damião de Góis, no seu trabalho intitulado Pro Hispaniae Defensio[10]. No século XVII (1624), Julião de Castilho, em sua Historia de los Godos, faz da Europa uma mulher de que a Espanha é a cabeça e Portugal a coroa, indo suscitar em 1631 o comentário de António de Souza Macedo nas Flores de España, Excelencias de Portugal, página 6: “(…) en lo que dá a Portugal la mayor honra, porque si bien ay cabeças que honran coronas, vulgarmente las coronas honran las cabeças”. E o próprio Luís de Camões perfilha da mesma ideia que expõe no Canto III, estâncias 17 e 20, do seu poema imortal, Os Lusíadas:

Eis aqui se descobre a nobre Espanha
Como cabeça ali da Europa toda
Em cujo senhorio e glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda (…)

Eis aqui, quase cume da cabeça
Da Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa (…)

Posto assim, tem-se a Península Ibérica como a cabeça da Europa; a Península Itálica (em forma de bota) são os pés da Europa (de tal maneira que até a Igreja do ciclo precessional de Peixes lá está situada). A cabeça e os pés da Europa quase se tocam, enquanto os braços estão lançados para trás, como se aprestasse a lançar nas águas do Atlântico com o “rosto” Português fitando gravemente a América do porvir. Posto desta maneira, verifica-se que a Europa possui cabeça, tronco e membros e, portanto, cada nação é como se de um órgão se tratasse. De qualquer modo, todos os órgãos são indispensáveis. Contudo, o coordenador de todos eles é a cabeça que estabelece todas as directrizes, que coordena todos os movimentos. A cabeça, neste caso, é a Península Ibérica. Portugal e Espanha são um todo, embora hajam certas especificidades nas respectivas culturas demarcando as respectivas independências nacionais.

Por isso, não é por acaso que se diz que a cultura helénica é o pai e a mãe da Europa e dela se estudam duas facetas: a jónica (feminina) em Atenas, e a dórica (masculina) em Espanha. Por isto, pode-se afirmar que a Europa é um corpo hermafrodita (macho-fêmea).

Contudo, não estou falando da propagação do povo jónico (jónio) por toda a Grécia e Europa, nem da disseminação igualmente antropológica do povo dórico (dório) nas ilhas gregas e daí à Península Hispânica, coisa que não aconteceu (e se aconteceu foi em escala demasiado reduzida para poder ser contabilizada), e sim da propagação da cultura etnológica, com as suas modalidades científicas, plásticas, filosóficas e religiosas, dos primeiros em toda a Grécia, e dos segundos da Grécia à nossa Península e desta expandida a toda a Europa. Falo, pois, de surto cultural e não de surto civilizacional, apesar de ambos não estarem separados de todo graças à dominante influência helénica.

Voltando ao corpo da Europa e começando por baixo, seguindo a descrição feita por Manuel Gandra, tem-se os pés e as pernas na Península Itálica, a região genital nos Balcãs. A base da coluna vertebral está situada aí, relacionada com o Leste europeu, exactamente aquela zona da Europa donde procede a Energia vermelha chamada pelos orientais de Kundalini, o serpentino Fogo do seio da Terra. A Austro-Hungria, o plexo solar, a zona do umbigo, dos intestinos, ainda relacionada com o Leste. Os pulmões relacionados com a Suíça, com a Europa do Centro e que é a zona de circulação fiduciária (o dinheiro, o capital) que faz funcionar todo o organismo social; o coração, a França e o Luxemburgo (tanto a palavra Lusitânia como a palavra Luxemburgo, significam o mesmo: “Lugar da Luz”, e o curioso é que do Luxemburgo vieram os fundadores do Condado Portucalense), onde todas as doutrinas se fundem de uma forma harmónica. Os braços estão na zona industrial da Europa, o Norte da Europa, Alemanha, Países Baixos, Inglaterra, Escandinávia e que é a Europa braçal. A cabeça é a zona que vem desde os Pirenéus até ao Extremo Ocidental da Península Ibérica, sendo Portugal (incluindo a Galiza) o rosto e a fronte coroada de todo o organismo europeu. Disto conclui-se ser um completo absurdo pretender forçar Portugal a reger-se pela bitola político-social das potências económicas europeias (como estas têm sido sujeitas pelo império económico norte-americano) quando, na realidade e para maior harmonia de tudo e de todos, antes deveriam ser elas a sustentar a Cultura que é o Espírito de Portugal e a seguir o Cruzeiro Lusitano. Ademais, desde quando os órgãos inferiores dominam o cérebro? Quanto muito podem afectá-lo, mas sabe-se de sobejo que com a sua morte todo o organismo se extingue.

Quando se diz à “boca-cheia” que Portugal socioeconomicamente sempre foi um país quase subdesenvolvido e assim está na “cauda” da Europa, não é de todo verdade, ainda que haja nisso uma verdade oculta: sendo o Mental Arquetipal ou Causagístico, não deixa de reflectir em si os fortúnios e infortúnios do restante corpo de que é cabeça, ou seja, as virtudes e os vícios, as pazes e as crises, etc., tudo por sua natureza bioplástica, adaptável, assimiladora. Mas também é ele quem dimana as ideias e os ideais superiores, como aquele de criar o V Império do Mundo (e não “no Mundo”, que tal coisa o P.e António Vieira jamais grafou), logo, Universal, não colonialista mas civilizacionalmente Espiritual. Por tudo isto, garante a Profecia de Sintra revelada por um dos Maiores da Lusophia: – Quem nasce em Portugal é por Missão ou Castigo!

OBRAS CONSULTADAS

[1] António Telmo, Gramática Secreta da Língua Portuguesa. Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1981.

[2] Paul Vulliud, La Kaballe Juive, Histoire et Doctrine. Émile Nourry, Éditeur, Paris, 1923. Cf. Sepher Yetzirah (O Livro da Criação), na versão do Rev. Dr. Isidor Kalisch. Editora Renes, Rio de Janeiro, 1978.

[3] Henrique José de Souza, O Verdadeiro Caminho da Iniciação. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1 de Março de 1978.

[4] Alberto Pinto Gouveia, O Português, Língua Sagrada e Cabalística. Revista Dhâranâ, ano 68, n.º 10, 1994.

[5] João Roque, Cabala. Revista Dhâranâ, ano 59, n.º 1, 1985.

[6] Carlos Lucas de Souza, Civilização Eubiótica. Brasília, Junho 1968.

[7] F. da Cunha Leão, O Enigma Português. Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1973.

[8] Manuel J. Gandra, Da Face Oculta do Rosto da Europa (Prolegómenos a uma História Mítica de Portugal), em A Europa tem rosto? Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1997.

[9] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal, em Cavalaria Espiritual e Conquista do Mundo. Gabinete de Estudos de Simbologia, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986.

[10] Rainer Daehnhardt, Páginas Secretas da História de Portugal, volume I. Edições Nova Acrópole, Lisboa, Maio 1993.

Mozart, Maçonaria e Viena – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Jun 6 2017 

PARAMENTOS MAÇÓNICOS DE MOZART

Na Rua Domgasse, n.º 5, encontra-se a casa em Viena de Mozart, a única que se conserva da dezena que possuiu nesta cidade austríaca. Esta casa (Mozarthaus) onde o compositor residiu com a sua família de 1784 a 1787, consta de seis salas, sendo na terceira que se podem ver objectos maçónicos comprovando a ligação profunda de Mozart à Maçonaria.

Vê-se exposta uma bonita faixa de fundo azul decorada com fios de ouro onde se bordou um triângulo com o Nome de Deus em hebraico, como seja, Yod – He – Vau – Heth = Jehovah, o Grande Arquitecto do Universo. Da faixa pende uma jóia constituída de um pelicano alimentando os seus sete filhotes. São as insígnias do Grau 18 de Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosacruz na Maçonaria Escocesa, sendo que o pelicano é a representação simbólica do sacrifício piedoso a favor do próximo em Humanidade, o que confere com a natureza mística deste Grau maçónico de característica essencialmente cristã, onde a mesma ave também aparece na simbologia eclesiástica como indicativa da Paixão de Cristo e da Eucaristia. É, em suma, o símbolo heráldico da piedade. Sob a faixa paramental aparece o avental maçónico do Grau Rosacruz de Mozart, obra bordada à mão com grande mestria onde se vê a Rosa no centro da Cruz, esta expressiva da personalidade e da matéria abrilhantada, iluminada pela flor da individualidade e do Espírito, conferindo a Paz corporal e espiritual que é o que representam os ramos de oliva em volta.

Aparece ainda um outro avental, também bordado à mão ricamente trabalhado. Nele vê-se um Templo ladeado por duas colunas tendo por cima o esquadro e o compasso com o M ao centro, que será indicativa tanto de Maçonaria como de Mozart. Trata-se do avental do Grau 16 de Príncipe de Jerusalém na Maçonaria Escocesa. É um Grau Capitular concedido por comunicação – ao contrário do anterior que é conferido por iniciação – pelo Capítulo Rosacruz ou a Maçonaria Vermelha, cor associada ao sangue do martírio em prol do Bem da Humanidade, da sua evolução moral e intelectual, a favor de uma maior ética e um mais amplo conhecimento que possa transformar o homem de simples profano e neófito em Iniciado e Mestre, assim podendo finalmente penetrar o Templo da Sabedoria Divina que é o que significa o Templo de Salomão retratado no avental.

Johannes Chrysostomus Wolfgang Theophilus Mozart nasceu em Salzburg, Áustria, em 27 de Janeiro de 1756, tendo falecido em Viena em 5 de Dezembro de 1791. Ele preferia ser chamado de Amadeus, pois o nome Theophilus, dado pelo seu padrinho Johannes Theophilus Pergmayr, que significa em grego “amigo de Deus”, tinha na sua forma latina um som mais agradável: Amadeus. Algumas vezes assinava com a forma francesa Amadè. Este incomparável génio da arte musical desde muito cedo andou de proximidades com a Ordem Maçónica, a qual jogou papel importante na sua vida e obra.

Wolfgang Amadeus Mozart foi admitido como Aprendiz na Loja Maçónica vienense Zur Wohltätigkeit (“A Beneficência”), em 14 de Dezembro de 1784. Foi elevado ao Grau de Companheiro em 7 de Janeiro de 1785, como “aumento de salário”, isto é, promoção ao nível imediato ao Aprendiz. E a sua exaltação a Mestre deverá ter acontecido pouco tempo depois, porque em 22 de Abril de 1785 ele figura já como Mestre Maçom nos arquivos da Loja. Mozart também assistiu a reuniões em uma outra Loja, chamada Zur Wahren Eintratcht (“A Concórdia Verdadeira”). Ambas as Lojas praticavam o Rito Zinnendorf, nome do seu fundador Johann Wilhelm von Zinnendorf (1731-1782), e que até hoje é o Rito mais popular no seio da Grande Loja Nacional dos Franco-Maçons da Alemanha (Große Landesloge der Freimaurer von Deutschland), próximo do Rito Sueco e do Rito Escocês Rectificado e da Estrita Observância. Este Rito Zinnendorf é explicitamente cristão e trinitário, pois não admite não cristãos nos seus altos Graus, no que explicita a crença nos Evangelhos como fonte revelada, assim como na Santíssima Trindade.

Segundo Otto Erich Deutsch, escritor e estudioso maçónico, a Loja Zur Wahren Eintratcht “era a maior e mais aristocrática de Viena. Mozart, como o melhor dos irmãos músicos, foi benvindo em todas as Lojas”. Foi apadrinhado pelo minerologista e metalúrgico Ignaz Edler von Born (Kalsburg, Transilvânia, 26 de Dezembro de 1742 – Viena, 24 de Junho de 1791). A própria Loja de Mozart, Zur Wohltätigkeit, uniu-se a outras duas em Dezembro de 1785, sob a reforma imperial da Maçonaria (o Freimaurerpatent, “Decreto Maçónico”) no mesmo mês, e foi assim que Mozart também chegou a pertencer a uma Loja chamada Zur Neugekrönten Hoffnung (“A Nova Esperança Coroada”), todas seguidoras do Rito Zinnendorf.

Após a sua Iniciação Maçónica, Amadeus Mozart compôs um “Cântico Solene para uma Loja de São João” (Lobgesang Auf Die Feierliche Johannisloge) e foi destinado à cerimónia “Cadeia de União”, que segundo o ritual em uso era como se encerravam todas as sessões das Lojas. Os primeiros versos desse cântico são:

Os sagrados laços que unem os verdadeiros irmãos,
Tal como a maior felicidade e delícias do Éden,
Para teus círculos sou sempre atraído,
Pois torna a vida bela e cheia de encantos.

LEOPOLD MOZART, MESTRE MAÇOM

Na casa de Mozart, em Viena, está exposto um singular livro maçónico do século XVIII que pertenceu ao pai do célebre compositor, Johann Georg Leopold Mozart (Augsburg, 14.11.1719 – Salzburg, 28.5.1787), ele próprio ígualmente músico e, afinal, também maçom como o filho.

Esse livro exposto na Mozarthaus é um manual contendo as fórmulas dos ritos maçónicos aprovados pela Grande Loja da Áustria (Grosse Landesloge von Österreich) e praticados pelas restantes Lojas da época, e que é dedicado ao imperador Leopold II que, entre 1790 e 1792, encabeçou um período muito favorável à expansão dos ideais maçónicos e da própria Maçonaria na Áustria.

Terá sido por influência directa do filho, Amadeus Mozart, que Leopold Mozart afiliou-se à Maçonaria, a qual já de si possuía forte influência nos meios culturais dessa época marcada pelo Iluminismo. Sob o malhete do Venerável Mestre Ignaz Edler von Born da Loja Zur Wohltätigkeit (“A Beneficência”), em Viena, Leopold Mozart foi iniciado Aprendiz Maçom em 6 de Abril de 1785, e nesse mesmo mês, no dia 16, passou ao segundo Grau de Companheiro Maçom, tendo o seu filho Amadeus comparecido a ambas as cerimónias. Por fim, em 22 de Abril desse mesmo ano, foi elevado a Mestre Maçom. Dois dias depois, pai e filho estiveram na Loja para uma homenagem ao seu Venerável Mestre, o responsável máximo da mesma, Ignaz Born, tendo Amadeus Mozart composto uma cantata para a ocasião, a K 471. No dia seguinte ao concerto, Leopold partiu para Salzburg. Nunca mais veria o filho.

Muita da obra musical de Leopold Mozart, com forte influência maçónica na sua composição, veio a perder-se ou a ser esquecida com o passar dos anos devido à sobrevalorização das obras de seu filho Amadeus Mozart, mas a Cassação em Sol para orquestra e a Sinfonia Brinquedo, atribuída no passado a Joseph Haydn, permanecem populares entre as suas sinfonias, assim como o seu Concerto para Trompete.

Leopold Mozart

Como nota de passagem, a letra K, seguida de um ou vários números, que aparece sempre nas obras de Amadeus Mozart, foi a forma que Ludwig von Kochel encontrou para organizar os seus trabalhos em 1862. O K (ou KV em alemão) é a inicial de Kochel, e os números indicam a ordem cronológica das composições. Ainda assim e transpondo o sentido da letra K para o seu significado esotérico, ela também aparece entre os cabalistas e maçons como a inicial hebraica de Kadosh e Kodesh, significando “consagrado” e “eleito”, no que é posta sob a influência sideral de Júpiter, por ser o planeta afim à mais elevada espiritualidade que, afinal, Mozart e seu pai expressaram através da música.

A Viena de Áustria do século XVIII fervilhava de ideais humanistas, nisto tendo a Maçonaria papel destacado. A Loja “A Beneficência” de Viena era uma dentre as 57 que haviam na ocasião (17 na Áustria, 7 na Boémia, 4 na Galícia, 12 na Hungria e 17 nos Países Baixos) filiadas à Grande Loja da Áustria, apoiadas pela poderosa Grande Loja da Alemanha. A Loja “A Beneficência” realizava as suas sessões no templo de uma Loja maior e mais influente, chamada “A Verdadeira Concórdia”. A Ordem floresceu principalmente pelo exemplo dado por Franz Stephen, duque de Lorraine e príncipe-consorte da imperatriz austríaca Maria Thereza. Ele tornara-se maçom em 1731, iniciado em Haia numa Loja ocasional, constituída por Theophilus Desaguiliers (que participara com John Anderson na elaboração da Constituição dos Maçons, por isso chamada Constituições de Anderson) que era Grão-Mestre da Grande Loja de Inglaterra, sediada em Londres.

Atribui-se a Franz Stephen a consolidação da primeira Loja maçónica de Viena, “Os Três Canhões” (Die Drei Kanonen), e também por ter convencido o falecido sogro e imperador, Carlos VI, a não aplicar nos seus territórios a bula papal In Eminenti, sancionada em 1738 por Clemente XII, que condenava os maçons. Desde os primórdios até 1739, a Maçonaria Austríaca desenvolveu-se de forma soberba, tornando-se o principal ponto de encontro da elite intelectual.

O Ritual adoptado para os trabalhos nas Lojas era sobretudo o Rito da Estrita Observância, ou Rito Escocês Retificado, criado em 1761 pelo barão Karl Gathen von Hundt, que compreendia três Graus Simbólicos: Aprendiz, Companheiro, Mestre, e quatro Graus Filosóficos: Mestre Escocês, Neófito, Templário e Cavaleiro Professo. A partir do início do ano de 1785, uma série de éditos desencadeou o ocaso da Maçonaria na Áustria. O Ministério da Polícia e o imperador Joseph II acreditaram nos boatos de que os maçons conjuravam a queda da Casa Real dos Habsburg e que haviam se tornado demasiado influentes, com Lojas cada vez mais ricas e poderosas. Foi então que se coibiu o crescimento acelerado das sociedades secretas e das correntes maçónicas ou paramaçónicas que proliferavam em todo o império austro-húngaro. Publicou-se um decreto de expurgo decretando que cada cidade só poderia ter, no máximo, três Lojas maçónicas.

Reorganizaram-se as nove Lojas de Viena e vários dos seus membros, por temor, afastaram-se. As exigências do imperador sobre listas de membros, cargos e outras informações, é que permitem hoje ter acesso a muitos documentos sobre a Maçonaria Austríaca, Amadeus Mozart, Leopold Mozart e a situação da Ordem no século XVIII.

CENÁRIO ORIGINAL DE “A FLAUTA MÁGICA”

Na Mozarthaus, em Viena, pode apreciar-se a maquete do cenário original da célebre ópera A Flauta Mágica (Die Zauberflöte) K 620, de Amadeus Mozart. Nele vê-se o frontispício de um templo em estilo grego, com as suas colunas, e adiante uma Deusa coroada cercada de estrelas vestida de azul erecta sobre a Lua crescente. Rapidamente pode ser associada ao figurino iconográfico de Nossa Senhora da Conceição, mas é um equívoco: trata-se da representação simbólica da “Rainha da Noite”, a Deusa Ísis, na qual se inspirou a iconografia cristã para criar a imagem tradicional da Virgem da Conceição, esta já de si, tal como Ísis, expressando a concepção ou o conceber do acto de transformação do espesso em subtil, do sólido em ígneo, do profano em iniciado pela conceição da ignorância em Sabedoria.

Essa é a Deusa da Sabedoria diante do Templo dos Sábios, cujo maior nesta ópera iniciática é Sarastro, representação esotérica de Cagliostro ou o itálico Cali Austrus, “Vento Sul” (nisto exposto como Sar Astro, palavra relacionada ao número 5 que os cabalistas afirmam ser afim ao planeta Vénus), o Adepto Maior a quem Mozart terá dedicado secretamente esta obra musical, indo assim retratar os antigos Mistérios Egípcios que, afinal, são reproduzidos na corografia ritualística da Maçonaria, pelo que na mesma ópera observa os seus conhecimentos e a via iniciática para o Conhecimento Superior magistralmente expostos.

Com efeito, a ópera em dois actos de A Flauta Mágica musicalmente é da autoria de Wolfgang Amadeus Mozart, mas o seu libreto alemão é de Emanuel Schikaneder, companheiro de Loja maçónica de Mozart. Estreou no Theater auf der Wieden, em Viena, no dia 30 de Setembro de 1791, ano da morte de Mozart.

A ópera baseia-se na filosofia do Iluminismo, e algumas das suas árias ficaram famosas, como o dueto de Papageno e Papagena, e as duas árias da Rainha da Noite. Os conceitos de Liberdade (livre-arbítrio), de Igualdade (de princípios) e de Fraternidade (universal) que assistiram à Revolução Francesa, transparecem em vários momentos da peça. Por exemplo, quando o valor de Tamino, protagonista da história, é questionado por ser um príncipe, e por tal motivo talvez não conseguisse suportar as duras provas exigidas para entrar no templo, mas vindo Sarastro em sua defesa respondendo: “Mais que um príncipe, é uma pessoa”.

Sarastro (1816)

No Acto I, A Flauta Mágica começa com uma terrível serpente perseguindo Tamino. Em termos ocultistas, trata-se da serpente do Astral ou Mundo Psíquico pondo à prova as emoções e paixões do candidato à Iniciação Espiritual. Cansado, Tamino desmaia. As Três Damas ou Virtudes (Sabedoria, Amor e Justiça) aparecem, dominam a serpente e vão avisar a Rainha da Noite (Ísis, a Verdade) da presença do jovem no seu reino. Ao recuperar os sentidos, Tamino vê Papageno cantar e tocar a sua flauta (expressiva do Som Criador pela Harmonia, Melodia e Ritmo). Papageno (o ser semi-fauno expressivo da Natureza elemental) mente a Tamino dizendo-lhe que o salvou da serpente. Mas imediatamente reaparecem as Três Damas para punir Papageno pela mentira. Elas entregam um retrato de Pamina (contraparte feminina de Pamino) a ele que logo se apaixona. A Rainha da Noite surge e pede para Tamino libertar a sua filha que está prisioneira de Sarastro. As Damas libertam Papageno e eles recebem um carrilhão (simbólico da alegria) e uma flauta com poderes mágicos (simbólica da felicidade). Tês Génios (Fortaleza, Ousadia e Coragem) irão guiá-los nos perigos da jornada (provas iniciáticas). No palácio de Sarastro (o Adepto Superior, o Hierofante), Pamina é vigiada por Monostatos (figuração do Minotauro que vivia no labirinto de Creta, criatura com corpo humano e cabeça de touro feroz). Papageno encontra Pamina e avisa-a que será libertada por Tamino, e saem felizes à sua procura. Os Três Génios guiam Tamino para o templo. No caminho toca a sua flauta, e magicamente os animais selvagens tornam-se mansos (estado edénico). Monostatos (representativo da Besta Astral que os ocultistas chamam Guardião do Umbral) e os seus escravos (os que fracassam na Iniciação e tornam-se vítimas escravas do mesmo Guardião) alcançam Pamina e Papageno, mas ao som do carrilhão eles põem-se a dançar e saem. Ao som de trombetas Sarastro chega imponente e divino, cercado de poderes invisíveis. Pamina (a Alma virgem) conta a Sarastro que fugiu por estar sendo importunada por Monostatos (as paixões ferozes, os vícios que dominam os profanos). Este entra trazendo Tamino preso (em provação). Sarastro expulsa Monostatos da Irmandade (dos Sábios ou Adeptos Perfeitos, os Superiores Incógnitos) e ordena que Pamina e Tamino realizem as provas regulares para entrarem na Irmandade Iniciática.

No Acto II, Sarastro comunica aos sacerdotes os seus planos de iniciar Tamino e pede aos deuses que iluminam o caminho dos jovens na sua demanda da Sabedoria. Pamina, sob a sua protecção deve tornar-se esposa de Tamino (união real da Alma com o Espírito, donde o conceito da Núpcia Filosófica dos antigos Rosacruzes). Pamina adormece (entorpecimento dos sentidos) enquanto Monostatos questiona a sua condição social e racial por não poder ter os mesmos direitos dos outros (alusão velada à condição feminina igualmente tida como apta a receber a Iniciação, independentemente da posição social e racial), mas é detido pela Rainha da Noite (a Sabedoria Divina, Ísis ou Sophia) que aparece. Ela entrega um punhal a Pamina e ordena-lhe que mate Sarastro (alegoria do “discípulo matar o Mestre”, como aconteceu no caso do Arquitecto fenício Hiram Abiff, mas que significa o discípulo tornar-se com o Mestre, fazer-se Adepto Perfeito por seus próprios esforços). Os sacerdotes de Sarastro conduzem Pamino e Papageno para iniciarem a prova do silêncio, onde não poderão conversar com nenhuma mulher (isto é, ceder às paixões). Pamina aparece e Tamino resiste à tentação, deixando-a desiludida. Papageno ao ver Papagena (o aspecto emocional do Mundo Psíquico), não resiste, fala com ela e fracassa na prova. Entretanto, desesperada Pamina resolve matar-se mas é salva pelos Três Génios que lhe explicam a situação (trata-se de “matar a morte”, conquistar a consciência de imortalidade tanto em corpo com em alma). Juntos, Pamina e Tamino realizam as últimas provas: a do fogo (princípio masculino, solar, criador) e a da água (princípio feminino, lunar, criação), sendo então admitidos na Irmandade (dos Filósofos, já de si Andróginos Perfeitos ou que fisicamente uniram a Alma com o Espírito). No final surgem a Rainha da Noite com as Três Damas e Monostatos, este numa última tentativa de apossar-se do poder de Sarastro, mas a Luz da Sabedoria transforma todo o Mal e acaba envolvendo a todos ao som da Flauta Mágica, dando por terminada a peça.

CRIPTA-CAPELA DE SÃO VIRGÍLIO

A cripta-capela de São Virgílio (cripta Virgilkapelle), próxima da catedral de Santo Estevão, é um dos interiores góticos melhor conservados em Viena, ainda que seja inusitado uma capela da Idade Média encontrar-se sobre uma estação de metropolitano, a Stephansplatz, por onde passam as linhas U1 e U3. Mas o facto é que esta cripta-capela esteve desaparecida durante séculos e só foi redescoberta em 1973 durante os trabalhos de construção de estação do metro, procedendo-se à remoção do entulho, ao seu restauro e finalmente a sua abertura ao público em Dezembro de 2015.

A história desta cripta-capela é ainda muito pouco conhecida. Sabe-se que datará de 1230-1246 e que foi concebida com subestrutura para a posterior construção de uma capela de estilo gótico primitivo. Estando doze metros abaixo da Praça de Santo Estevão (Stephansplatz), tem formato rectangular (aproximadamente seis metros de largura por dez de comprimento) e apresenta seis nichos, que cerca de 1246 foram decorados com pinturas de santos e cenas religiosas nas juntas e com cruzes greco-bizantinas nas absides, apresentando-se o tecto com nervuras simples. O espaço tem como centro o altar dedicado a São Virgílio, que veio a dar o nome ao espaço.

Apesar das crónicas do século XIII não mencionarem esta capela, dando origem à especulação de ter sido um projecto falhado, ainda assim atribui-se a sua construção à iniciativa de Friedrich der Streitbare (1211-1246), o último duque austríaco da Casa de Babenberg, que desejava que Viena fosse sede episcopal e para isso fez construir a cripta consagrando-a a St.º Coloman de Stockerau, destinado a patrono da nova diocese.

Este espaço subterrâneo aparece mencionado em crónicas do século XIV. É dito que no ano de 1307 a piedosa família vienense Chrannest, constituída por comerciantes cuja burguesia (donde burgomestre) detinha o poder da cidade ou burgo, adquiriu esta cripta transformando-a em capela funerária, dizendo-se ainda que o seu altar principal foi consagrado a St.º Vergilius de Salzburgo.

Capela da Madalena de Viena (1609)

Com a construção posterior da capela de St.ª Maria Madalena (Magdalenskapelle), talvez por volta de 1310-15, imediatamente acima da cripta, em 1473 Hans Viereck de Eisner mandou construir um mezanino semi-subterrâneo que se destinou a ossário, passando os serviços fúnebres e respectivas missas definitivamente para a pequena capela gótica da Madalena. Nessa época, o espaço da Stephansplatz era um vasto cemitério público murado ao lado da catedral. Daí a utilidade geral da capela de Santa Maria Madalena e da particular da cripta de São Virgílio, da família Chrannest, imediatamente abaixo daquela, hoje desaparecida mas cujo esboço em cor vermelha está desenhado no pavimento da Stephansplatz, ao lado da catedral de Santo Estevão, enquanto a cripta está esboçada em cor branca, dentro do esquisso da capela.

Com efeito, o cemitério em torno da Stephansplatz foi fechado em 1732, enquanto a capela de St.ª Maria Madalena foi destruída pela fogo em 1781 e não foi reconstruída, presumivelmente porque sem um cemitério não havia necessidade de uma capela funerária, cuja responsabilidade dos serviços e ofícios fúnebres passou a ser responsabilidade da catedral. Com o entulho da capela ardida encheu-se a cripta de São Virgílio e esta desapareceu na obscuridade e no esquecimento, até que com grande felicidade foi novamente redescoberta e mais recentemente aberta ao público como testemunha marcante e rara da cidade medieval, em pleno coração de Viena.

História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 22 2017 

APRESENTAÇÃO PÚBLICA E CONTEÚDO DO LIVRO

APRESENTAÇÃO PÚBLICA (ENTRADA LIVRE) DO LIVRO “HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL (FLOS SANCTORUM BRASILIAE)”, POR VITOR MANUEL ADRIÃO.

ESPAÇO MULTICULTURAL “ESPIRAL”, PRAÇA ILHA DO FAIAL 14 A, LISBOA. DIA 26 DE MAIO (6ª FEIRA) ÀS 19:30 H.

CONTAMOS CONSIGO. TRAGA UM(A) AMIGO(A). SAUDAÇÃO FRATERNA.

Livro com mais de meio milhar de páginas, profusamente ilustrado e documentado, composto em 22 capítulos (ficando em consonância com o Arcano XXII, “O Mundo”, que é o do Brasil).

PREFÁCIO – Por David Caparelli
INTRODUÇÃO – Por Vitor Manuel Adrião
CAPÍTULO I – BRASIL, O GIGANTE ADORMECIDO
CAPÍTULO II – BRASIL PRÉ-HISTÓRICO
CAPÍTULO III – BRASIL PROTO-HISTÓRICO
CAPÍTULO IV – BRASIL FENÍCIO
CAPÍTULO V – HY-BRAZIL: DELENDA PHOENICIA
CAPÍTULO VI – A “CÁRIA” BRASILEIRA
CAPÍTULO VII – BRASIL AMERÍNDIO
CAPÍTULO VIII – NAVEGAÇÕES PRÉ-CABRALINAS
CAPÍTULO IX – BRASIL IBERO-AMERÍNDIO
CAPÍTULO X – ILHAS PERDIDAS E CARTAS ACHADAS
CAPÍTULO XI – BRASIL NA ROTA DO CRUZEIRO
CAPÍTULO XII – BRASIL BANDEIRANTE
CAPÍTULO XIII – SÃO BENTO DE PIRATININGA
CAPÍTULO XIV – RIO DE JANEIRO, MOSAICOS DE HISTÓRIA INSÓLITA
CAPÍTULO XV – SÃO TOMÉ DAS LETRAS
CAPÍTULO XVI – MISTÉRIOS DA BANDEIRA DE SÃO LOURENÇO (MG)
CAPÍTULO XVII – SÃO LOURENÇO DE MINAS GERAIS (CAPITAL ESPIRITUAL DO BRASIL)
CAPÍTULO XVIII – ITAPARICA, BERÇO DO BRASIL
CAPÍTULO XIX – ODE AO RONCADOR (FUTURO DO GÉNIO BRASILEIRO)
CAPÍTULO XX – BRASÍLIA E O BRASIL FUTURO (ALVORADA DA NOVA ERA)
CAPÍTULO XXI – A MAÇONARIA E O BRASIL INDEPENDENTE
CAPÍTULO XXII – O BRASIL À LUZ DAS SUAS ARMAS

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Crenças sobrenaturais saloias – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 8 2017 

O espaço demográfico do Termo dos Saloios – mormente os Concelhos de Odivelas e Loures, como igualmente os de Sintra e Mafra – é prenhe de lendas e tradições que, quando interpretadas, não raro apresentam base no “pensamento mágico” de natureza quase inevitavelmente invocatória/petitória e sempre com fundo moral, mesmo havendo outras de natureza exclusivamente recreativo cujos enredos por norma envolvem-se num halo sobrenatural e que, igualmente, rematam em lição moral.

Dessas últimas lembro a Lenda do Senhor da Ribeira de Frielas, já descrita num livro meu editado pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Loures (Ode a Loures – Monografia Histórica, 1993), e ainda numa outra obra minha editada pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros” (Frielas – Memorial Histórico, 1996). Além dessa lenda, há ainda outras narrativas, a maioria orais, acerca de grutas mágicas e santões misteriosos, como aquela da pressuposta gruta do Conventinho da Mealhada (Loures) que ligava ao Mosteiro de Odivelas, ou então a da igreja matriz de Frielas comunicando subterraneamente com a ermida desfeita da Senhora do Monte da Ramada. Todos dizem que é verdade, sim senhor, porque “fulano ouviu de sicrano que já lá foi”, remetendo-se sempre para o passado e para outro, pouco importando que a improbabilidade prossiga.

Não sendo eu, por natureza e método de trabalho, só um teórico que se fica por respigos bibliográficos de outréns, senti necessidade de deslocar-me ao terreno onde se deram esses “factos fantásticos” que as lendas contam e afirmam terem realmente acontecido, indo tentar averiguar se acaso haveria “algum fogo no meio de tanto fumo”…

Respeitante à Lenda do Senhor da Ribeira, ainda hoje ela é atestada num pequeno silhar de azulejos coloridos e legendado (“Senhor da Ribeira”), junto ao Casal do Monte, no cimo da Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), entretanto tendo desaparecido a fonte de “água santa” que o mesmo silhar decorava. Ao lado, havia um aparelho de azenha medieval que cheguei a ver, mas agora está plantado sobre ele um prédio.

Outro vestígio é aquele das grutas da Idade do Cobre na Quinta das Gaitadas, cujas casas apresentam resquícios manuelinos. A quinta está no sopé da Serra de Montemor (Loures), dizendo-se que as grutas prolongam-se por toda a serra e sob a Cidade Nova – Santo António dos Cavaleiros. Isso não pude comprovar, apesar de ter adentrado uma dessas cavidades e avançado, cerca de um quilómetro e meio, com água pela cintura até esbarrar numa obstrução natural. De maneira que não posso afirmar a verdade ou a mentira da lenda… Mas posso afirmar que o Casal do Monte é a maior jazida paleolítica do Vale do Tejo (até agora poupada à inclemência da construção civil graças ao bom senso da edilidade, cujo presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Cavaleiros, na ocasião, aconselhou-se pessoalmente comigo nesse sentido, o da preservação desse espaço patrimonial), habitada por povos colectores, e inclusive havia aí até há pouco restos circulares do que pareciam templos dedicados a algum tipo de culto astrolátrico pré-histórico, como seja à Lua (nas grutas das Gaitadas) e ao Sol, deste os seus restos ficaram sob o centro comercial que se construiu no cimo da Cidade Nova, junto às Torres da Bela Vista e vizinho da estrada de Montemor.

Espólio arqueológico recolhido pelo autor em prospeções no Concelho de Loures

Para terminar, repasso um outro exemplo na chamada lenda “atlante” de Bucelas, a qual acabou levando-me à anta neo-calcolítica do Zambujal, onde realmente pude confirmar que “não há fumo sem fogo”… Essa estória bucelense, pouquíssimo conhecida, consta da Lenda dos Ferreiros e assim se passou em tempos esquecidos na memória dos homens (in Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por João Raymundo Alves. Lisboa, Instituto Geral das Artes Graphicas, Rua das Pretas, 17, 1911):

“Nas proximidades de Bucelas há dois montes bastante elevados e de forma mais ou menos cónica. É crença popular que dois ferreiros, dizem que irmãos, foram estabelecer as suas forjas cada um em seu monte, mas que possuindo ambos um só malho, dele se serviam alternadamente.

“Os montes, na sua parte superior, distam uns dois quilómetros um do outro, e quando o Melo (assim se chamava um dos ferreiros) precisava do malho, chegava à porta da forja e gritava pelo Jerumelo (assim se chamava o outro), para este lho atirar. Isso repetia-se todas as vezes que trabalhavam.

“Os dois ferreiros eram gigantes, porque só assim podiam ter força para arremessar o malho a tão grande distância.

“Uma vez zangou-se o Jerumelo com o companheiro, e atirou-lhe o malho com tanta violência que, desencravando-se este no ar, foi cair o ferro na encosta do monte Melo, e logo daí brotou uma fonte de água férrea, e o cabo, que era de madeira de zambujo, foi espetar-se na terra a mais de dois quilómetros de distância, reproduzindo-se um zambujo, que deu o nome a uma povoação que fica a quatro quilómetros dos referidos montes, e a que por isso se chama Zambujal.”

Gruta da Diaclase de Salemas, Loures

Deixando de lado a interpretação da lenda que remete para o deus ctónico Vulcano, passo de imediato às lendas de foro mágico, as quais têm origens diversas quase sempre inextrincavelmente misturadas: celtas, judaicas e árabes. O elemento celta está presente no culto dos elementos da Natureza; o judaico na magia talismânica aplicada à actividade agrícola das semeaduras, crescimento e colheitas, sempre dependentes dos humores climatéricos os quais a magia campesina pretende domá-los segundo a vontade do agricultor; e o árabe vê-se-o na espargiria ervanária, revelando-se base da medicina popular, campesina, através de unguentos, defumações, rezas, benzeduras, etc.

Esses elementos celtas, judaicos e árabes, de qualquer forma por norma entram juntos no imobiliário das lendas saloias, susceptível de explicar a vida e a morte num contexto marginal ao critério científico e ao crédito religioso, neste a religião por todos aceite mas “à maneira de cada um”, assim o plural presente sujeito ao singular assente.

O mouriscado çahroi (saloio) moçarábico

Imobiliário esse até há pouco tempo atrás sustentado pelos velhos da terra e pelas “pessoas com virtudes”, com dotes sobrenaturais capazes de falar com os “espíritos”, fazer quebrantos e enguiços, enfim, as bruxas d’aldeia. Elas eram o pilar-mor da religião popular, mais animista que espiritual, reunindo em um mesmo efeito causas divinas e causas diabólicas, sem mais preocupações senão que resultassem favoráveis aos seus intentos.

Em Loures, como em todo o território saloio, o que o padre-cura não resolvia consertava a bruxa ou a curandêra. Maria Rosa Lila Dias Costa (in Murteira – Uma Povoação do Concelho de Loures. Junta Distrital de Lisboa, 1961, com reedição em Dezembro de 1993) conta que na Murtêra não era estranho nem misterioso as pessoas, mais mulheres do que homens, consultarem pessoalmente a feitecêra.

Contudo, os saloios faziam distinção entre bruxa, a mulher que faz males ou bruxedos, e curandeira, que por meio de benzeduras vê e cura o mal que as bruxas fizeram.

As bruxas, geralmente médiuns ou sensitivas psíquicas, na magia campestre por norma representam o lado psíquico e lunar da Natureza, enquanto as curandeiras, não raro também “endireitas” dos ossos quebrantados e conhecedoras das plantas medicinais com que exerciam a sua medicina, agindo assim como as antigas druidisas, assinalam o lado espiritual e solar da Natureza. Talvez por isso o exercício de “endireitar ossos” fosse exercido maioritariamente por homens, pólo sexual positivo, activo ou solar, enquanto a actividade psíquica cabia sobretudo a mulheres, pólo sexual negativo, passivo ou lunar.

Essa distinção entre mulheres “de bem” e “de mal”, lembra o episódio homérico da perda do sentido de sacralidade pelas vestais, sibilas e pitonisas, acompanhando o declínio dessa civilização, a ponto de elas se transformarem em simples adivinhas animistas e sendo degredadas para fora das urbes por causa da sua influência nociva, o que ainda hoje se regista nas bruxas que vivem isoladas e marginalizadas da restante sociedade, principalmente nos lugares rurais onde a magia campesina disputa as almas ao par da religião de facto.

Sobre este tema tão interessante como aliciante, não deixo de aconselhar o interessante estudo de Amália Caetano, Medicina Popular na Região de Mafra, inserto no Boletim Cultural´94 publicado pela Câmara Municipal de Mafra.

Quanto aos exemplos que Maria Lila Costa dá da feitiçaria popular na Murteira, a verdade é que os mesmos aconteciam um pouco por todo o interior rural do Concelho de Loures, onde deparei com crenças idênticas em Bucelas, Lousa, Pinheiro, etc., para não falar em Odivelas, Sintra e Mafra.

Acreditava-se na existência de lobisomens, labisongos, meio-homens e meio-lobos que ficaram assim por serem munto pucadores, dando-lhes Deus como castigo transformarem-se em bestas demoníacas todas as meias-noites de Lua Cheia. Os fantasmas, pantasmas ou búltemos, eram outra crença. Com eles só os médiuns ou “intermediários” podiam comunicar directamente. Como não podia deixar de ser, numa sociedade rural fechada, tais médiuns, geralmente mulheres, eram muito concorridos pelo povo local e dos subúrbios, assediando-os com os mais diversos tipos de pedidos que, se fossem satisfeitos, lograriam para tal médium a fama de “pessoa de virtude” e “uma santa”, “não importando que a Igreja não aceite, porque o padre não sabe senão as rezas escritas no Livro que não me curaram dos males que a bruxa da vizinha me fez, mandando-me búltemos”…

De passagem mas com importância maior do que se possa presumir, anoto que o exercício da mediunidade e a prática de todo e qualquer culto animista encontra pela frente a desaprovação total da Tradição Espiritual assumida por toda e qualquer corrente religiosa tradicional (seja católica, islâmica, judaica, hindu, etc.), mas o desenvolvimento do por que não vem ao caso e, por conseguinte, prosseguirei o presente.

Rosa Lila refere ainda, para além das benzeduras e rezas utilizadas pelos endireitas dos ossos afectados e das más colheitas, havendo nisto, mais uma vez, certo sabor de nostalgia druídica, algumas regras de astrologia agrícola e mesmo cabalística. Por exemplo: os sentomas davam-se de 3 a 14 de Dezembro, quando os velhos, reparando no estado de tempo, prediziam que as condições meteorológicas de cada um dos doze dias corresponderia ao estado de tempo de cada mês do ano seguinte. Também se acreditava na influência magnética das fases da Lua, agindo nos diversos aspectos da vida quotidiana; assim, toda a novidade hortícola deveria ser semeada sempre em quarto minguante, e as galinhas recolhidas sempre em quarto crescente. Os números nonos, isto é, nunes ou ímpares, preferiam-se aos números pares: na quinta-feira da Ascensão guardavam-se, para dar sorte e ter pão todo o ano, 3, 5 ou 7 espigas de trigo; para o fabrico de chouriços, esperava-se que a carne estivesse de conserva 5, 7 ou 9 dias, para que ficasse bem curtivada e não se estragasse durante o ano.

Quando alguém tinha a espinhola caída, para se curar deveria estar deitado 3, 5, 7 ou 9 dias, conforme a gravidade da doença.

Em todas as benzeduras e rezas empregavam-se, como ingredientes de defumação, 3 ou 5 pedaços de certas plantas, sendo 3 as vezes que se repetia uma reza, em 3 (ou múltiplo de 3) dias sucessivos.

Outros costumes, fazendo parte das crenças sobrenaturais do saloio, sem dúvida supersticiosas desviadas e alteradas irremediavelmente de alguma tradição mais séria e menos absurda, mais espiritual e menos psíquica, e tomando por partida o lugar da Murteira, eram os seguintes: a partir do meio-dia não se devia deitar lixo nem água-vai para a rua. Também não se devia levantar a mesa logo que terminassem as refeições, porque os “inginhos tem fome e quer comer”.

Para que o leite não secasse nas vacas, nunca se devia queimar nas proximidades dos estábulos ou dos “palheiros”, onde elas viviam, madeira de figueira.

Sobre o simbolismo da figueira, aproveito para retificar aqui o que li algures acerca do mesmo: ao contrário do que li referente ao fruto da figueira simbolizar o Pai Eterno por Este se manifestar súbita e misteriosamente, tal qual a figueira que não dá flor e aparece o fruto sem que se espere, a verdade é que aparecem os bolbos a partir dos meados de Abril para que em Junho-Julho se colham os figos, que nos finais de Agosto já estão secos. Foi assim que os vi nas muitas figueiras que varejei em minha infância, no Algarve junto dos pais da minha mãe adoptiva. Portanto, essa interpretação do símbolo está incorrecta, não se devendo esquecer que a figueira ou kurma, em árabe, ajustando-se ao tema hindustânico karma, “acção”, e na cultura judaico-cristã ocidental estará sempre associada ao episódio bíblico de Jesus a ter amaldiçoado (Mateus, 21:19; Marcos, 2:12 s.). Segundo é tradição geral, o simbolismo da figueira tem dupla interpretação: como árvore viçosa, repleta de frutos, simboliza a Ciência Sagrada cujos frutos são os preferidos dos seus postulantes; como árvore seca, morta, expressa a heresia e o mal representados pelos seus ramos dissecados, num dos quais Judas herege terá se enforcado. De maneira que associar o símbolo do figo ao Pai e esquecer que Jesus amaldiçoou essa árvore, vale o mesmo que o absurdo do Salvador ter abjurado ao Progenitor da Criação…

Voltando aos saloios, no tratamento de certas doenças, como a erisipela, empregava-se para pincelar a parte do corpo afectada uma pena de galinha preta.

Quando o lume estava a fagulhar, era bom deitar-lhe algumas pedras de sal e de seguida voltar-lhe as costas.

Não era bom tocar caxa velha, pois acontecia alguma desgraça.

Era de mau agoiro ouvir piar os mochos, pois era sinal de morte no lugar.

Não era bom partir vidros.

Para que as bruxas não entrassem em casa, era conveniente colocar atrás da porta um banco de pernas para o ar, ou então uma vassoura (resquício alterado na memória popular das baguetas das primitivas druidisas) também de pernas para o ar.

Todo esse ritualismo crencista, supersticioso e pagão ou paissan, “camponês”, ainda assim não deixa de ter a sua razão de ser, o que me leva a deduzir, mais uma vez, tratarem-se de resquícios degenerados muitíssimo e irredutivelmente afastados de uma original, verdadeira e completa Tradição Iniciática, talvez moçarábica, mista de Cristianismo oriental com Arianismo ocidental, tudo com halo arábico, a qual seria ministrada no esconso reservado das caneças não raro anexas às mourarias, detentoras do supervisionamento. Com a posterior expulsão dos mouros para fora dos muros das cidades onde tinham os seus colégios, a cultura moçarábica seguiu-os e aos poucos foram extinguindo-se como etnias distintas, com eles a cultura e religião próprias, só ficando, como testemunho fragmentado ainda assim mantendo-se por herança genética alimentada por via oral de velhos a novos, as crenças sobrenaturais do Termo, resquício psíquico de um período áureo irrevogavelmente morto. Ao Homem cabe nascer, crescer, decrescer, morrer… assim também com as civilizações, logo, igualmente aos seus usos e costumes, sejam sagrados, sejam profanos, sejam ambas as coisas inter-relacionadas.

Para terminar esta ligeira abordagem às crenças sobrenaturais do saloio estremenho, desfecho com um breve glossário de termos saloios, extraído, com a devida vénia, do livro de Maria Rosa Lila Dias Costa (ob. cit.), dividido em duas partes: a primeira, sobre astros e fenómenos atmosféricos; a segunda, sobre superstições e crenças.

ASTROS E FENÓMENOS ATMOSFÉRICOS

Acoitar – Abrigar do tempo.

Alando d´auga – Grande quantidade de chuva.

Amolinhar – Chuviscar ou chover com pouca intensidade.

Andar numa ruvadoura – Diz-se dos dias ventosos e frios.

Arco-Novo – Arco-íris; meteoro luminoso, em forma de arco, que apresenta as sete cores do espectro solar.

Arco-da-Velha – O mesmo que arco-íris.

Armar uma trevoada – Tornar-se o céu escuro para trovejar.

Auga à granela – O mesmo que alando d´auga.

Aventar – Fazer muito vento.

Barbas-de-gato – Diz-se do aspecto do céu quando o Sol aparece por detrás de nuvens leves.

Biquêras – Pingos de água que caem dos telhados.

Biquêra-morta – Pingos de água barrenta caindo das telhas.

Borriçar – O mesmo que amolinhar.

Borriços – Chuva leve e pouca intensa.

Cair um banquete – Chover abundantemente.

Carmêlo branco – Gelo que se forma à superfície da água deixada ao relento durante o Inverno.

Carmêlo negro – Gelo de cor terrosa, que se forma sobre as novedades e as encarquilha e queima.

Casacada d´auga – Grande bátega de chuva grossa.

Chover borriços – O mesmo que amolinhar.

Chover molinha – Chover com pouca abundância.

Choverão – O mesmo que casacada d´auga.

Corisco – Designação vulgar de algumas pedras polidas da Idade Neolítica; o mesmo que pedra-de-raio.

Derremunho – Encontro de ventos opostos em rajada, movendo-se circularmente.

Dia de amores – Dia de sol.

Dia cerrado – Dia enevoado.

Dia de cravos – O mesmo que dia de amores.

Dia desnorteado – Dia de chuva e vento.

Escurecer a noite – Anoitecer.

Estar de boiça – O mesmo que amolinhar.

Estar brabo – Dia de chuva e vento.

Estar d´estoirões – Chover abundantemente e trovejar.

Estar de nèvoêro – Diz-se do dia cerrado, com nevoeiro.

Estar à panga – Estar à chuva sem se recolher.

Estrada-de-Santiaugo – Estrada de Santiago, nebulosa ou mancha esbranquiçada que se vê no céu, em noites claras; Via Láctea.

Estrela-boiante – Estrela de alva, ao nascer da qual os vaqueiros se levantam para ir tratar do gado.

Estrela-da-madrugada – O mesmo que estrela boiante.

Estrela-da-manhã – Vénus, o mesmo que estrela boiante.

Fazer sol – Diz-se quando já despontou o sol.

Forrar o escuro – Amanhecer.

Geada – Orvalho congelado que forma camada branca sobre os telhados, solos, plantas, etc.

Inchente – Cheia dos cursos de água.

Invernêra – O mesmo que dia brabo.

Luzir o buraco – Nascer o dia.

Mingante – Fase da Lua; quarto minguante.

Mudar o tempo – Deixar de chover. Ou deixar de fazer sol.

Néuva – Nevoeiro.

Nuve encarnada – Nuvem avermelhada indicadora de bom tempo.

Orruvalho – Camada de humidade que, sob a forma de pequenas gotas, se deposita, durante a noite, sobre os corpos expostos ao ar livre.

Panção d´auga – O mesmo que alando d´auga.

Porrada d´auga – O mesmo que alando d´auga.

Relampo – Relâmpago.

Restelazinha de sol – Pequeno raio ou rástea de sol.

Revalho – O mesmo que o orruvalho.

Sete-estrelos – Constelação, o mesmo que Plêiades.

Tempo arriba – Tempo mau com tendência para melhorar.

Tempo péssemo – o mesmo que dia desnorteado.

Tempo vil – Mau tempo.

Ventanêra – Vento forte e contínuo, ventania.

Vintinho – Vento fraco e agradável.

Xaroco – Vento frio que sopra da ponta do mar.

SUPERSTIÇÕES E CRENÇAS

Aime – Qualidade que uma pessoa tem de interrogar os espíritos.

Aperseguir – Acção de atormentar, por parte dos maus espíritos.

Bruxa – Mulher que faz pactos com o demónio e realiza sortilégios malfazejos.

Búltemo – Suposta aparição de silhueta imprecisa, fantasmagórica, que se atribui a artes mágicas, aparecendo de noite.

Cubrante – Resultado mórbido produzido pelo mau-olhado.

Curadêra – Curandeira, mulher a que o povo atribui supostos poderes para curar certas doenças.

Espirtos – Entes imaginados e malignos que vêm habitar o coração das pessoas.

Estoiro – Estampido forte provocado pelos lobisomens.

Fadoiro – Encanto que uma pessoa possui dado por um poder sobrenatural.

Feitecêra – Feiticeira, mulher possuidora de artes maléficas.

Figa – Acto de fechar a mão, metendo o dedo polegar entre o indicador e o médio; emprega-se para afugentar os maus espíritos.

Hora mortal – Hora tardia da noite em que aparecem os vultos fantasmagóricos e os lobisomens.

Incruzilhada – Cruzamento de caminhos, onde as bruxas e os lobisomens costumam passar.

Labisome – Homem que se transforma em animal para cumprir um fadoiro.

Labisongo – O mesmo que labisome.

Males – Bruxedos.

Mestero – Mistério, acontecimento estranho e inexplicável.

Mardomo – O mesmo que labisome.

Nonos – Diz-se de dias ímpares, julgados benfazejos e propícios à realização de certos trabalhos, tanto agrícolas, como medicinais e mesmo mágicos.

Pantasma – Fantasma, imagem ilusória de aspecto macabro; abantesma.

Penar – Cumprir um fadoiro.

Remorsos – Pressentimento.

Sumo – Desaparecimento atribuído a causas fantásticas.

Terpel – Tropel, barulho intenso e medonho que se supõe provocado por entes sobrenaturais.

Falar Saloio – As Gentes do Termo (de Lisboa) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 8 2017 

O falar típico do çaloio, o “homem do campo”, que com o tempo tem vindo a degenerar e desaparecer por perda do sentido territorial face ao avanço do estado urbano absorvendo a condição campesina, e com isso o falecimento dos seus usos e costumes sui generis como imobiliário imaterial das tradições etnográficas do Termo, ainda assim sobrevivem aqui e ali, muito dispersas, essas modalidades de expressão sobretudo entre os mais idosos da Murteira, mas também nos de Caneças, de Bucelas e de Loures.

Apesar de parecer estranha ao ouvido contudo é linguagem não-algaraviada, antes alterada pela vocabularização do português arcaico possuído tanto de verbos gregos e latinos como, sobretudo, árabes. Originalmente este linguarejar seria puro arábico, tendo após a Reconquista posto com o latinismo borgonhês, portanto, franco, indo tornar-se arcaico face às novas falas na urbe tomada pelo estrangeiro.

Todavia e enfrentando os posteriores séculos de civilização, o saloio manteve-se fiel às raízes arábicas e a sua linguagem hoje rústica é bem um monumento mudéjar, cujo apogeu teria sido a primeira metade do século XVI, aquando o “homem do campo” entrou na literatura e nas falas da cidade através do teatro vicentino.

A língua saloia terá passado do árabe ao mudéjar, incorporando elementos menos gregos e mais latinos, indo chegar ao arcaicismo. No seu vocabulário ainda se encontram termos arábigos, como azebro, ou mudéjares, como almácega, almácica ou almaça.

A vastíssima literatura de cordel do século XIX deu ao falar saloio um efeito cómico, pela estropiação de palavras e incorrecções sintáticas a par de alterações fonéticas. Vale por ter trazido a terreno termos já há muito caídos em desuso, com intenção de reproduzir o falar meridional ou estremenho do saloio.

Por essa literatura também se vislumbra a sabedoria do camponês saloio, orbitando entre o jocoso e o grave, a par do seu espírito de independente dos costumes do homem urbano, apesar de comparticipar da vida (comercial) da cidade, e isso como se fosse resquício subconsciente da marginalidade original a que foi remetido o árabe após a Reconquista, atirando-o para os campos além das muralhas da urbe. Na comédia O Saloio cidadão, de Carlos Francisco Moura (1790), impresso várias vezes em Lisboa, alinham-se, entre muitos, os seguintes desaparecidos ou hoje transformados ditos: “galinha de monturo não quer covo; por linha lhe vem a tinha; filho de burro não pode ser cavalo; ao médico, ao confessor e ao letrado deve-se falar toda a verdade”.

Ou então a bem gostosa anedota: um taful da cidade, ao encontrar uma saloia alcandorada no seu jumento, com um longo cortejo deles atrás carregados de trouxas de roupas, atirou-lhe o seguinte remoque, ao que ela ripostou com a maior compostura e desembaraço:

– Adeus, mãe de burros!

– Adeus, meu filho!

Com essa parece-se uma outra: caminhava um saloio com o seu jumento. Encontrou-o um janota que lhe perguntou por caçoada: – Onde ides vós ambos? Respondeu o rústico: – Buscar palha para nós três.

Hoje tudo está em mudança acelerada. A saída das raparigas para a cidade, como empregadas domésticas, e dos rapazes primeiro para a tropa, depois para pequenos empregos no comércio e na indústria, fotram imbuindo os saloios de novos costumes e de novas formas de vida, de tal maneira que hoje passam totalmente despercebidos.

Memória do passado ainda se mantém o vastíssimo património artístico-cultural, etnológico e etnográfico, do Termo dos Saloios (Loures, Cascais, Sintra, Mafra indo quase até Óbidos), reclamando a preservação a todo o custo.

Do falar arcaico, rústico, rural do Termo, em defecho, recolhi alguns termos orais e escritos (recorrendo parcialmente ao interessante estudo de Maria Isabel Ribeiro, O Saloio de A a Z, em Boletim Cultural´93 da Câmara Municipal de Mafra. Ele baseia-se nos estudos anteriores de João de Almeida Lucas, O Falar Saloio, em A Língua Portuguesa: revista de Filologia: publicação mensal para o estudo, divulgação e defesa da Língua Portuguesa, vol 2, págs. 65-72, 1930-31; e de João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e carácter: fisiologia, psicologia, etnografia, Porto, 1948), com os quais compus um pequeno glossário como homenagem ao mais singular ramo étnico que já conheci: o Saloio.

Abafar = Tornar mais confortável a casa, e por extensão, resguardar e aquecer o fermento para que levede. Ou ainda, nivelar o terreno com a grade.

Aboticado = Hipotecado.

Abrincadura = Brincadeira.

Acanho = Acanhamento.

Àcenha e cênha = Azenha.

Acólitos = Incógnitos.

Acolhia-se = Tirava-se.

Acostumar = Costumar.

Ajeitivado = Ajeitado, acomodado, posto a jeito.

Alembranças = Lembranças.

Alembrar = Lembrar.

Alemões = Alemães.

Alimais = Animais.

Álinterna = Lanterna.

Almaça = Tanque.

Almácega = Pequeno tanque ou lavadouro particular.

Amanhem = Amanhã.

Amerdois = Ambos os dois.

Almuinha = Horta.

Andar na maltosinha = Andar com a malta, ou na brincadeira, referindo-se a garotos.

Antoino = António.

Apartar = Dividir.

Aplique de proplexe = Ameaça de apoplexia.

Apolinhado = Pálido.

Assistir = Morar.

Atamoiçado = Adoentado.

Azebro = Tabuado que serve de divisória numa casa. Do árabe azzarbe, “a sebe”.

Bailharito = Bailharico.

Balaizo = Balázio, no sentido de pedregulho.

Balizar = Pensar.

Balhar = Bailar.

Baltizado = Batizado.

Baltizar = Batizar. Empregam-se também os derivados baltismo e baltizado.

Bonecrêro = Saltimbancos que corriam de aldeia em aldeia apresentando os bonecros.

Bi caúdo = Expressão intimidando ao silêncio, “boca fechada”.

Breçozinho = Berçozinho.

Brincar = Dançar.

Botou = Deitou.

Buscari = Buscar.

Cabedulho = Trato de terreno entre a estrada ou caminho público e a terra cultivada.

Cabidela = Cabimento.

Cabrêro = Cabreiro.

Cacetim = Moca.

Cadino e cadinar = O termo cadino aparece formando expressão com guloso, dizendo-se guloso cadino, talvez no sentido de inveterado. Daí o sentido que o verbo cadinhar tomou, exprimindo o facto de se andar às frutas nas herdades, roubando por guloseima.

Cachaporrada = Pancada com pau.

Calçães = Calções.

Caganeiroso = Presumido, afectado.

Calibre = Clima.

Cal-te = Cala-te.

Caminhito = Caminho.

Campicho = Indivíduo canejo ou que possui deformação nas pernas.

Campou = ganhou.

Canêra = Caneira.

Capitões = Capitães.

Carronca (levar) = Levar pancada.

Catacismos = Sinapismos.

Catramalhos = Sinapismos.

Cedade = Cidade.

Charficar = Mortificar.

Chafurdas = Etimólogo popular do francês chauffeur.

Chaparrão = Mal-educado, grosseiro. Exemplo: Aquèl home é mêmo chaparrão.

Cinzêro = Barriga, buxo, papo. Exemplo: Onde tà a ânha marenda? Já cá tá no cinzêro.

Claustro = Cáustico.

Confurtativo = Facultativo.

Conspirar = Transpirar.

Córteirão = Quarteirão.

Delgado = Delegado.

Desenxugar = Enxugar.

Déspio = Déspota.

Eclesiástico = Entusiasmo.

Eiva = Doença da fruta.

Emplamação = Inflamação.

Engulhos = Vómitos.

Enha = Minha. Pode também pronunciar-se ánha.

Enodada = Suja.

Ensabocar = Estrangular, estrafogar.

Entulhar = Enjoar.

Esganerelo = Casamento por força.

Estar em pensamentos = Estar moribundo.

Estar vestido = Estar bem arranjado; em gíria, estar lichado (estar linchado).

Estarraçar-se = Cair de chapa, estampar-se.

Estragação = Diz-se de qualquer coisa estragada. Exemplo: Uma estragação de sopas.

Estragador do Concelho = Administrador do Concelho.

Espinhola = Espinhela. Exemplo: Ter a espinhola caída.

Faliseu = Xergão.

Fanado = Doente.

Faniquito = Desmaio.

Fartão = Termo que exprime uma grande porção de qualquer coisa. Exemplo: Um fartão de gente.

Flautenta = Flatulenta.

Foro = Foram.

Franfantão = Indivíduo que mete vista, por ter um perfeito tipo de beleza ou por vestir bem.

Friâmulos = Porcos.

Galera = Carro puxado por muares ou bois, destinado a transportar produtos hortícolas ou as trouxas de roupas.

Gomitoiro = Vomitório.

Graçôna = Galinhas de pescoço pelado. Deve derivar do termo francês garçonne.

Graviel = Gabriel.

Humanidade = Unanimidade.

Hume = Homem.

Intrépio = Adversário.

Joelheira = Espécie de caixote sobre o qual a lavadeira se ajoelhava à beira-rio.

Juiz espanadeiro = Juiz pedâneo.

Juro = Júri.

Lavandêra = Lavadeira.

Lídico = Líquido.

Liquori = Licor.

Lisbom = Lisboa.

Loires = Loures.

Mafrão = Mafrense.

Ma-lo = Mais.

Manchita = Mão-cheia.

Mané = Manuel. Exemplo: Mané Bimbas, Mané Manso.

Marjabantes = Bonecos.

Maroiço d´imparar = Bloco construído de pedra e areia, junto das paredes das casas mais antigas.

Matchecar = Comer, patuscar; escarnecer, amesquinhar.

Matrona = Seio.

= Meu.

Mecê = Você.

Memoira = Memória.

Mentéus = Toalha de mesa.

Merca = Compra.

Milordens = Milordes.

Murta e murtar = Multa e multar.

Murtêra = Murteira.

= Não.

Noa = Nódoa.

Ofa = Cansaço.

Ofender = Magoar, tocar, ferir.

Olivél = Libelo.

Orate = Louco.

Orfo = Órfão.

Órina = Urina.

Passeira = Útero.

Pedra-lavadiça = Pedra negra e grande dos rios, boleada pela acção mecânica das águas.

Pescuradores = Procuradores.

Piano de cavalariça = Harmónica, realejo.

Pilémica = Polémica.

Piloto = Galo.

Piscalhar = Piscar, mas em sentido irónico. Exemplo: Piscalhar o olho.

Planta forma = Plataforma.

Palateia = Plateia.

Plefice = Superfície.

Polucia = Polícia.

Ponto de palaio ou ponto de orela = Ponto que remata as bainhas das saias de baixo.

Pós lombrigatigos = Pós para lombrigas.

Pra = Para.

Prove = Pobre.

Pulga = Purga.

Ràpaterrão = Exprime uma limpeza geral, de cima a baixo, por exemplo, quando se está a lavar uma casa muito suja, diz-se que vai de ràpaterrão.

Ratinho = O bombo da festa.

Reizes = Reis.

Riba = Ripa.

Rio = Pode também ser o lavadouro público.

Rustigo = Forte.

Saibo = Sábio.

Sansodorninho = São Saturnino, significando também beato falso.

Se = Senhor. Exemplo: Se Tònho.

Senhora = Nome dado à freguesa.

Sintrão = Sintrense.

Sismatura = Cisma, cismar.

Solitos = Solicitações.

Suscetivle = Susceptível.

Suspiração = Respiração.

Tenica = Ténue.

Testães = Tostões.

Tiorgo = Órgão.

Tocador = Músico.

Toicinho mastrunçado = Toucinho esmigalhado com pão.

Tolã = Logro, burla.

Toque = Stock, no sentido de loja. Exemplo: na avenida há um grande toque com muita fazenda.

Tosse confúcia = Tosse convulsa.

Treatro = Teatro.

Tresler = delirar com febre.

Trouxa = Embrulho.

Tu = Tua. Exemplo: Tu mãe, tu horta, etc.

Vei = Vê.

Verdigairo = Verde-gaio.

Vesionário = Revolucionário.

Vitro = Vitorioso, Vitor.

NOMES

Também as corruptelas não deixam de ser expressão da verdade. Elas variam de lugar para lugar. Assim: José deu Jzé e Zé; Manuel, Manel e M´nel; Joaquim, Jaquim, Jequim e Quim; Francisco, Fracisco, Farcisco, Frecisco e Fercisco; Inácio, Nácio; Jerónimo, Jerolmo e Jarolimo; Isabel, Zabel; Gertrudes, Estrudes. Assim por diante.

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