Mestres Arquitectos – Arte, Segredo, Ideal (Civitas Sacer et Templum Sacrum) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Mar 13 2019 

A presença e intervenção das quatro classes tradicionais da sociedade medieval europeia, Clero (Oratore), Nobreza (Bellator), Burguesia (Burgus) e Povo (Laboratore), correspondendo às quatro castas tradicionais que na Índia são designadas de Brahmane, Kshatriya, Vaishya, Shudra, está patente mesmo aquém do mais vasto nacional, por exemplo, no nascimento de uma povoação, devendo estar de posse de todos os elementos naturais necessários à sua sobrevivência e desenvolvimento: águas férteis, umas para pescaria e outras para consumo, terrenos ricos para agricultura e pastorícia, localização geográfica propícia a defesa militar eficiente, etc.

Tal hierarquia social, em conformidade ao padrão tradicional, assim se dispunha originalmente:

Ao Brahmane (Sacerdote) correspondia a “qualidade subtil de matéria” (Guna) denominada Satva (energia centrífuga, correspondendo ao Espírito); ao Kshatriya (Guerreiro) correspondia Rajas (energia rítmica ou equilibrante, afim à Alma); o Vaishya (Mercador) era o elo de ligação entre Rajas e Tamas, no que se caracteriza pela energia psicofísica; o Shudra (Povo) era afim a Tamas (energia centrípeta, próprio da agregação dos elementos do Corpo).

Observa-se assim, na cúspide da antiga hierarquia social, o Clero como detentor original da Autoridade Espiritual que a Sabedoria Tradicional lhe conferia. Tal Sabedoria outorgava primazia ao Clero que, pelos seus mais doutos nos saberes tradicionais, mormente na Geometria e Arquitectura sagradas, destas se serviam como Monges-Construtores para a fundação de todo e qualquer povoado, muito particularmente dos edifícios sagrados que eram os primeiros a ser construídos, fazendo-se uso do principal conhecimento tecnológico dos arquitectos da Idade Média: a Geometria Pitagórica (Junta à Teomância), na qual a raiz ou base sobre a planta original era sempre a “charada” da “Quadratura do Círculo”, mas também da “Circulatura do Quadrado”, fixando como centro do povoado a nascer a igreja matriz, cercada por paliçada ou muralhas que se iriam desenvolver como fortaleza, esta dando protecção ao povoado arredor que logo ao início era ordenado em quatro artérias principais, com toponímias significativas (Rua do Norte, Rua do Poente, etc.), como ainda se verifica em diversas povoações do país que mantêm a feição primitiva do seu “omphalo” ou ponto imagético de nascimento, por norma a partir do “Largo da Matriz”[1].

Sendo a igreja matriz atravessada perpendicularmente pela linha imagética ou via principal norte-sul, chamada cardo, do povoado, ela constitui o centro de uma cruzeta feita por outra linha imaginária lateral ou recta nascente-poente, chamada decumano. Esse centro ou rossio leva de nome mundus[2]. De maneira que aplicando a geometria sagrada do círculo e do quadrado, e vice-versa, na génese de uma povoação, disponho-os da maneira seguinte:

Em Simbologia Tradicional (Neose), o círculo representa o Céu, o Espírito; o quadrado expressa a Terra, a Matéria. Neste particular, o círculo está para a população e o quadrado para o povoado. Em um sentido mais lato, conformado ao princípio de analogia, tem-se o Arquétipo (círculo) que se traduz por Ideia Prima, sendo a Solução, e o Protótipo (quadrado) traduzível como Mística, cuja Tradição ou “Movimento Cíclico” do Pensamento Humano ordenado sob uma Ordem natural e deifica, perfaz a Combinação, até conseguir – ou volver pelo processo evolutivo à Perfeição do Arquétipo – a Solução, o retorno à Origem. Nisto se consubstancia a Formula Mentis Lusitanea, a “Fórmula Mental Lusitana”, base do Pensamento e Filosofia Portuguesa[3].

A “Combinação” tradicional apresenta-se pelos vários Movimentos de Sabedoria Arcana que têm surgido ao longo dos Tempos acompanhando a Marcha Evolucional da Civilização de Oriente para Ocidente, neste encontrando-se em Portugal, exactamente em Sintra como ponto de encontro dos dois hemisférios geográficos do Conhecimento Tradicional e “alavanca de Arquimedes” vital à sua projecção no 5.º Continente, a América do Sul, em que o Brasil se perfila destacado como continuador, no Porvir, da Obra Divina começada em Portugal e que nele terá o desfecho cíclico, por via de um mesmo Pensamento e Língua Lusitana, tanto no plano do Sagrado como no do Profano, dando assim a “Solução” ao Futuro imediato do Mundo, a “Solução”, enfim, à Evolução Global do mesmo. Esta é a Arquitectura Mental Iluminada dos Maiores do pensar e falar Português desde os inícios do século XX, com os notáveis do Movimento do “Orpheu” à dianteira, sobressaindo deles a figura incontestável de Fernando Pessoa. Mas tal Arquitectura Mental era já (re)criada nos séculos anteriores no mesmo espaço edénico sintrense, colando o telúrico ao cósmico que a arqueoastronomia testemunha, por exemplo, na arquitectura do Palácio da Pena tomado como molde da constelação da Ursa Menor cuja estrela-alfa é a Estrela Polar.

Essa Arquitectura Mental também foi utilizada no Passado para se criar o Presente. Ela se fixou e ficou na tradição e memória dos pósteros como Arquitectura Sagrada. Já disse que antigamente construía-se primeiro a igreja e só depois o povoado, ao contrário de hoje: faz-se a cidade e após, se algum espaço sobrar, virá a igreja. Isto está conformado à dessacralização social. Mesmo assim e procurando algum templo, preferencialmente cisterciense por ser abrigo predilecto dos primitivos Monges-Construtores, acaso “sobrado” da Idade Média, com a grande sorte de ter sobrevivido ao camartelo brutal dos modernos – preterindo-o por alguma nova “catedral” futebolística ou centro comercial, espaços de recreio desnaturalizados que isenta o urbano de proximidade ao campo – e a custo o achar, abandonado entre as novas “babéis” que são os arranha-céus repletos com todos os luxos indispensáveis ao “novo-riquismo”, irei tomá-lo como exemplo de Arquitectura Sagrada recuando no espaço e no tempo ao momento em que a Sociedade e o Homem estavam naturalmente integrados em um mesmo lugar e tradição sagrados, por se integrarem, tanto topográfica como demograficamente, no divino biorritmo da própria Natureza, afinal, a Mãe Soberana de todos os seres viventes que, para eles estarem bem e Ela bem estar, necessitam respeitar-se e viver em harmonia recíproca.

De maneira que tomarei por exemplo máximo da Instituição dos Monges-Construtores medievais aquela que mais deles albergou em seu seio: a Ordem de Cister, tendo andado de intimidades com a Ordem dos Templários da qual foi a “Escriba” e ela, por sua vez, a “Arquivista”, ambas constituindo o Templis Sapientia Sacratum não raro também Secretum. Ou seja, Cister foi a mestra do Templo, e no secretum de muitos esquissos, por exemplo no da Sé Patriarcal de Lisboa, aninham-se veladas ideias sinaléticas da mais pura e profunda Tradição Iniciática de que dou exemplo seguinte do sentido esotérico ou hermética da planta da Sé de Lisboa:

Por norma, onde havia um priorado ou um bailio templário havia (ainda que nem sempre, ressalve-se) um mosteiro ou uma abadia cisterciense. Os cistercienses acompanharam desde a origem os templários, instruindo-os e compartilhando a sua geografia sagrada, instalando-se em enclaves geralmente nas encostas ou nos vales, estes como se fossem cabalísticos vaus, encravados teluricamente como “pontes” ou pontos intermediários aos Mundos Espiritual e Terreno.

Isso vai bem com a definição de Pontífice dada por São Bernardo de Claraval, como sendo a etimologia da palavra latina Pontifex, uma espécie de “ponte entre Deus e o Homem” (in Tractatus de Moribus et Officio Episcoporum, III, 9)[4]. Mas, neste caso, a “ponte” entre a Comunidade de Fé visível e a Comunidade de Perfeição invisível.

Os cistercienses ou bernardos, trajando de branco tal como os templários, obedeciam à Regra Trinitária de São Bento, mas reformada desde a Reforma de Cluny (iniciada no ano 910), sobre a qual Robert de Champagne da abadia de Molesme, monge cluniense ou de Clúnia, instituiria depois, em 1075, a Estrita Observância. Tendo os cistercienses saído dos clunienses e estes dos beneditinos, por esta razão  aqueles primeiros hábito idêntico ao dos últimos, mas de cor diferente: inicialmente castanho logo passou a branco, com escapulário castanho (e depois preto)[5].

A Ordem de Cister teve a sua origem em França, na abadia de Citeaux (em português, Cister; em latim, Cistercium), na comuna de Saint-Nicolas-lés-Citeaux, Borgonha, em 1098, por Robert de Champagne, abade de Molesme. Ele e alguns monges terão abandonado Cluny para retomar a Estrita Observância da antiga Regra Beneditina, como reacção ao relaxamento da Ordem Cluniense. Passado pouco tempo, acolheria o que viria a ser o mais proeminente da Ordem: Saint-Bernard, abade de Clairvaux (Claraval) que fundara em 1115, tornando-se filial de Citeaux.

Saint-Bernard ou, em bom português, São Bernardo, é quase unanimemente reconhecido como o verdadeiro guia espiritual da Cristandade durante cerca de 40 anos. Mal haviam passado cinco anos da sua entrada em Citeaux,  logo se apressou – face à deterioração crescente no seio da comunidade desde o cisma havido entre cistercienses e clunienses, aqueles mais conservadores e estes mais liberais – a inspirar as Constituições da Ordem de Cister (1120), reorganizando esta em função de duas razões fundamentais à sobrevivência da unidade monástica da Ordem: por um lado em reacção contra Cluny, restabeleceu a austeridade da Regra tanto no mosteiro como na vida dos monges; por outro lado, mostrando abertura ao progresso imparável, adaptou a vida da Ordem às novas condições sociais e económicas. Foi assim que os monges de coro, saídos da aristocracia, consagrou-os aos exercícios espirituais, enquanto os conversos, de origem camponesa, encarregou-os da manutenção física da comunidade, através da agricultura e do pastoreio.

São Bernardo em iluminura cisterciense do século XIII

Após a morte de São Bernardo de Claraval, em 1153, a Ordem de Cister conheceu a mesma evolução que Cluny: a sua opulência colectiva tornou-se flagrante, tendo a pobreza monástica se tornado incompatível com a riqueza temporal. Além disso, com o desprezo às actividades intelectuais, que outrora caracterizaram Cister (ainda assim se tendo mantido em Portugal, nomeadamente em Alcobaça, segunda Casa Mater da Província, já que a primeira foi São João de Tarouca, e desde a Reforma implantada por São Bernardo que os cistercienses passaram a ser chamados no país de os bernardos, tendo a sua Sede Primacial em Claraval), deixou-se de responder às aspirações de uma sociedade já menos rural e mais urbana, mais ávida de saber do que de crer.

Em Portugal, sem dúvida tomou primazia bernarda a Casa-Mãe de Santa Maria de Alcobaça (topónimo derivado da bifurcação cisterciense do rios Alcoa e Baça, onde se situa o edifício), foro de lendas e tradições, fundada a mando directo de São Bernardo, cuja cerimónia de lançamento da primeira pedra (2.2.1140) foi encabeçada pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, sobrinho do abade santo. Esse foi o Mosteiro Velho, e este Mosteiro Novo que hoje se vê, reconstrução  ou amplianção daquele recuando a 1178. Além do sentido toponímico dos rios da bifurcação próxima que deram o nome a Alcobaça, esta também terá a ver com o aramaico Alaku-Batha, cuja variante Alku-Batza transfere ao sentido de Espírito (Al) Santo (Aku), a quem esta Casa Abacial seria consagrada com o seu vasto couto comportando treze vilas, motivo suficiente para Frei Bernardo de Brito, na Crónica de Cister (1602), a consignar de Nova Jerusalém. Ateste-se ainda que a Real Abadia de Alcobaça é em sua planta a reprodução fiel das abadias de Citeaux e Clairvaux, concentrando no seu corpo muito do saber hermético da época, como se repara logo ao início na sua fachada dianteira, apesar dessa já ser barroca posterior.

Em 1145 floresciam no Ocidente mais de 350 mosteiros cistercienses, tal a influência de São Bernardo junto da Cúria e das Cortes da Europa, arrastando multidões devotas consigo. Observa-se que o traçado do mosteiro andará sob a influência da austeridade de Bernardo: a sua fachada não é ornamentada, é nua, simples, com o espírito de renúncia banhando por inteiro a igreja. Pela sua estrutura única, pelos ritmos da sua construção, pela sua disposição simbólica, a igreja cisterciense é feita a conduzir o espírito às alturas místicas. À luz do dia traça os caminhos da contemplação. Nenhuma tensão vertical, nem orgulho, só um equilíbrio acordado às medidas do Universo.

Como ele todo o mosteiro medieval (seja de que Ordem for), em cuja volta eventualmente nascerá um povoado, tradicionalmente seguia sete regras básicas para a sua feitura, como Ars Secretum da primitiva Maçonaria Operativa dos Construtores-Livres ou Monges-Construtores. São elas: 1.ª) escolha do sítio; 2.ª) determinação do eixo vertical; 3.ª) orientação do espaço ou quadrado do Céu; 4.ª) quadratura do círculo primitivo ou quadrado da Terra; 5.ª) construção; 6.ª) consagração; 7.ª) utilização.

Os Anjos Construtores (Massenia Angélica) gizando o espaço em que levantará o templo  (projecção horizontal ordenada do Universo). – Silhar de azulejos (século XVIII) na Sala dos Reis do Mosteiro de Alcobaça

Tal como o Espírito governa a Matéria, o eixo vertical organiza o espaço horizontal. Esse é uma coluna ou padrão plantado no solo, no sítio escolhido, que vai revitalizar as características telúricas do lugar, à semelhança da acção das agulhas de Acupunctura. O acto litúrgico da incarnação consiste então na edificação da coluna, realizada pelo Mestre de Obra que age como um sacerdote.

Sobre a base do círculo incarnado pela coluna, o Mestre de Obra (Mundus) traça um círculo que manifesta o horizontal. Por definição, o círculo não possui orientação. Ao levantar e pôr-do-sol, a sombra da coluna que se projecta sobre o círculo marcará dois pontos que determinarão o primeiro eixo do templo.

Esse eixo primitivo que orienta o círculo de Este para Oeste, é chamado decumanus. Em função da data escolhida para esse rito, é possível declinar esse eixo para ficar em relação com os cardeais magnéticos. A data retida no ciclo sazonal marcará a que Orago se irá consagrar o templo.

A posição zenital do Sol marcará, pela sombra do padrão, o cardus ou eixo Norte-Sul.

Essa operação simples faz intervir a mão do Céu para orientar o espaço. A cruz cardinal reconstitui as diagonais do quadrado do Céu: o espaço é qualificado.

A orientação do espaço

A operação seguinte visa estabelecer um segundo quadrado inscrito no círculo primitivo e que fixará pelos seus ângulos a posição dos grandes pilares do cruzeiro do transepto. Esse quadrado terrestre, estabelecido em oposição ao quadrado celeste, realiza o espaço de sustentação do templo. O quadrado da Terra é, pois, o complementar daquele do Céu.

Falta então inscrever no círculo primitivo um espaço quadrangular que fará o módulo geométrico do edifício, ou seja, a largura da nave e do transepto. Esse módulo será traduzido nos dois eixos E.-O. e N.-S. dando todas as proporções do templo de acordo com a “proporção dourada”, ou seja, o “número d´ouro” pitagórico em que assenta a Quadratura do Círculo: 1.618.

O primeiro quadrado ou quadrado do Céu dá a orientação fixa, a consagração, isto é, a Vontade do Céu. O quadrado da Terra é aquele da incarnação do princípio Celeste.

O módulo, uma vez fixado, é traçado com a ajuda de dois círculos do mesmo diâmetro centrados sobre os pontos de intersecção do eixo E.-O. com o círculo primitivo.

O quadrado da Terra no esquisso da catedral

O espaço orientado torna-se o centro das seis direcções do Universo cujo ponto central é materializado pela coluna do centro do círculo primitivo. Terminado o traçado de base a coluna é destruída, mas a sua função de Eixo do Mundo será assegurada pela seta, no centro do cruzeiro, como se fosse uma verdadeira “antena cosmo-telúrica” do templo.

O casamento dos dois quadrados do Céu e da Terra produz o octógono (como se vê num silhar de azulejos na Sala dos Reis do Mosteiro de Alcobaça) que se encontra, por exemplo, na forma dos antigos batistérios ou nos campanários das igrejas românicas.

Se o traçado inicia do cruzeiro à coluna, a construção, pelo contrário, começa pela abside, ou seja, pelo Este marcando o Nascimento do Mundo – o Sol Levante.

O mesmo acontecia nas comunidades rurais dirigidas por monges: o mosteiro estava direccionado no sentido E.-O. e o povoado no de N.-S. Pouco importava se o curso das águas acaso seguisse direcções diferentes, o que importava era a manutenção dessas coordenadas canónicas para o colectivo humano de que o mosteiro, envolvendo a igreja, é a expressão estática, ou seja, a representação fiel do universo espiritual em permanente actividade.

Passo de seguida às coordenadas do templo de conformidade com o estabelecido na Arquitectura Sagrada dos Monges-Construtores, dando assim livre feição artística – por via da geometria dos símbolos cujo significado só eles conheciam mas parecendo, não raro, andarem coladas às mais heterodoxas doutrinas consentâneas com o Hermetismo da época – aos lugares de culto da Cristandade medieval.

Mestre Construtor medieval (século XIV) num dos ângulos da Sala do Capítulo do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha

O plano do solo do templo é uma projecção horizontal ordenada do Universo. Na razão da orientação solar, cada ponto cardinal indica uma posição extrema do ciclo sazonal e diário, pondo assim o Tempo em movimento harmónico com o Espaço.

O percurso do templo reproduz o ano solar, ritmado pelas fachadas. Este é o caminho que conduz das Trevas à Luz.

Na concepção teológica judaico-cristã, o Outono ou Crepúsculo está a Oeste; o Inverno ou Meia-Noite, está ao Norte; o Amanhecer ou a Alva da Primavera, ao Este; por fim o Verão ou Meio-Dia, ao Sul. Esta dinâmica do espaço é utilizada no calendário litúrgico: assim, em função do momento do ano ritual, certas portas são abertas e outras são fechadas (por exemplo, na Catedral de Santiago de Compostela os peregrinos entram no mês de Julho pela “santa porta dos perdões” na fachada sul, a qual está fechada durante o resto do ano).

Ainda que essas coordenadas já não sejam as originais da Tradição Iniciática das Idades, mesmo assim são as adoptadas pelos referidos cânones litúrgicos judaico-cristãos desde a Baixa Idade Média, copiadas dos romanos decadentes que as copiaram da Grécia decadente, tendo perdido as verdadeiras chaves da Arquitectura e Geometria Sagradas que receberam por legado do Egipto e este da Índia, com alter-ego no Tibete. Por isso e seguindo a concepção adoptada pela Igreja que a recebeu dos Mestres-Construtores, aos quais albergou mas cujo pensamento iluminado ou ideal de perfeição perseguida ela geralmente desconhecia, irei reter-me na leitura do sentido sagrado das mesmas coordenadas conforme o Judaico-Cristianismo.

O Norte é o lugar menos iluminado do templo. É o frio, as trevas, o mundo invisível representado pelo mundo subterrâneo ou a cripta. Toda a simbólica do portal norte é geralmente consagrada às origens estelares, à Estrela Polar. A sua cor simbólica é o azul escuro que, em princípio, encontra-se como tonalidade de base da rosácea norte. O tema desta rosácea é desde logo consagrado à Mãe do Mundo e o número governador do seu crescimento geométrico é o 8, designando a Eternidade e o Infinito (o número cabalístico do Cristo é o 608).

Nesse estado cosmogónico, a semente da Criação ainda não saiu da sua Matriz Cósmica. Tudo está ainda na Grande Noite. O Norte indica o Nadir ou o “Sol da Meia-Noite” assinalado pela sacristia, pequeno espaço privado onde o “Sacro-Cristo” se recolhe antes da Liturgia da Vida.

O Este indica o princípio do Mundo – é aí que o Sol se levanta pela primeira vez. Está associado à Árvore da Vida. A sua cor simbólica é o verde que, no arco celeste, separa o amarelo do azul, tal como o Este “separa” o Sul do Norte. Esta região do templo é também aquela do altar-mor que recebe o primeiro raio do Sol da Manhã.

A Semente da Criação germinou e o Jardim do Éden está verde de caules e folhas. O Este igualmente aponta a direcção de Jerusalém, sobretudo da Jerusalém Celeste. Único espaço curvo do templo, ele focaliza a potência do Sol Nascente (Cristo Levante) e expande-a em todo o edifício.

O Sul marca o Zénite solar, o apogeu da Criação e a sua frutificação. É o Ser, a Natureza manifestada e harmonizada. O Sul representa o Dia Eterno, tal como o Norte a Noite Eterna. O Cristo em Glória surge ao Sul, enquanto Rei e Sacerdote da Terra e do Céu, pelo que esta coordenada se associa à Realeza e ao Ministério de Melki-Tsedek. A cor simbólica que se lhe identifica é a amarela, e o número que governa aqui é o quatro, imagem da Ordem, da Harmonia e da Estabilidade do Mundo Organizado – tem a ver, também, com o lugar do Evangelho, do Verbo manifestado.

O Oeste é a região do recolhimento, da morte, da “queda” do Sol nas Trevas (Cristo descendo aos Infernos… o Oeste; Cristo indo para o Deserto ou Trevas do Mundo… o Norte), ponto de contacto entre o Dia e a Noite, a Vida e a Morte, o Visível e o Invisível, e também do Profano e do Sagrado (a dúplice e principal saída, mas também entrada do templo). O Oeste é o Outono do Mundo, o Fim dos Tempos (melhor dito, o fim de um Ciclo Cósmico pelo dealbar de outro, esse indicado no templo pelo Este oposto do Oeste, tal como a Vida se opõe à Morte).

A Semente volta a recolher-se ao subsolo para a sua longa noite que lhe preparará um novo nascimento, a Este, pela Primavera. Lugar consagrado ao Juízo Final e ao Apocalipse, a sua cor é o vermelho púrpura igual à do Sol que se recolhe (Occidens). O número canónico do Oeste é o 12, valor igual ao do percurso do Sol pelo Zodíaco, donde a rosácea oeste geralmente apresenta temário zodiacal cerceando o Padre Eterno, por vezes da figura pantocrática do Filho.

Devo também falar da porta do Tempo, que é o percurso do Sol na nave de Este a Oeste, pondo em movimento o Tempo no Espaço sagrado.

O decumano determina o eixo Humano do edifício, que é dizer aquele do futuro, do nascimento à morte, estados associados respectivamente ao Este e ao Oeste. A entrada pelo portal Oeste permite levar o Tempo da morte à vida, isto é, do profano, situado fora do recinto sagrado, ao Este, às Origens Primordiais.

O cardo representa o eixo da Eternidade e o cruzamento do Tempo e da mesma Eternidade no lugar sob o fecho da abóbada, este que é a pedra angular, fundamental, de todo o templo.

Fecho de abóbada da da Charola Templária do Convento de Cristo, Tomar

Sendo o Templo a expressão estática do Homem Cósmico, logo o plano do seu solo representa, antes de tudo o mais, o Corpo do Homem Cósmico, ou seja, Adam-Kadmon como Terceiro Trono ou Espírito Santo plasmado na Matéria assim Sagrada. É importante precisar que o modelo do edifício é absolutamente independente da escolha da cruz, seja latina ou grega, pois que isso fica a cargo da Igreja em que se está, a Ocidental ou a Oriental. Importa, sim, que se fixe a cruz, para que o espaço seja efectivamente sagrado por configurar esse mesmo Corpo de Deus, o do Homem Cósmico na Terra.

Cada parte do templo possui as qualidades assimiláveis às partes do corpo humano. O círculo absidal representa a cabeça, o cruzeiro da nave e do transepto, o coração, que é dizer, a vida que late no edifício. Quanto à fachada oeste, ela representa os pés de Adam-Kadmon. Segundo a Acupunctura, a planta dos pés dá uma imagem reduzida dos órgãos e funções do corpo humano. No templo, a fachada oeste reproduz os princípios e funções de toda a construção. Os pés de Adam-Kadmon recordam também aqueles do peregrino. Toda a doutrina espiritual opõe-se severamente às manipulações leigas e profanas, e será nela que o neófito deverá procurar conhecer o percurso que pretende realizar antes mesmo de, efectivamente, entrar na Via. Pela leitura da fachada oeste o neófito é informado do conteúdo espiritual do percurso iniciático que deverá efectuar no templo.

Toda essa disposição cria um estado de “simpatia vibratória” entre o Homem e o Cosmos. A entrada no templo corresponde à entrada no corpo do homem, ou seja, uma introspecção. Trata-se, de facto, da tradução judaico-cristã do “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”.

Desde a fundação de Cister, sobretudo depois pelo extraordinário impulso incutido na Ordem pelo borgonhês Bernard de Fontaine, filho de Alef, dama da Corte, ou seja, São Bernardo, parente do seu conterrâneo Conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, que as abadias ricas auxiliavam os mosteiros pobres.

O tipo geral de uma abadia cisterciense consistia: igreja, incluindo um vasto coro ao mesmo nível, claustro, capítulo, refeitório, cozinha, dormitórios (celas), sala, celeiro, alas circundantes. O claustro, ao centro, comunicava com a igreja e restantes dependências.

A Casa-Mãe cisterciense de Claraval e as suas abadias na Província de Portugal (composição de Virgínia Paccetti)

A Regra de São Bento, inspiradora de Cluny e de Cister, para a Província de Portugal, estipulava que:

– Os monges repartissem o tempo entre o trabalho manual, o intelectual e a oração;

– Os monges vivessem em clausura perpétua;

– Respeitassem o silêncio;

– As abadias cistercienses devessem ficar isoladas;

– Devessem ser edifícios modestos, pouco ornamentados;

– As monjas e a abadessa não poderiam sair do mosteiro exclusivo a mulheres, onde só entravam priores de Cister para administrar os sacramentos, visitadores da Ordem, o rei, que podia fazer-se acompanhar de três pessoas idóneas, o infante, o bispo e o abade de Santa Maria de Alcobaça, podendo cada um destes levar consigo duas pessoas honestas, e o médico e artífices, mas sempre acompanhados de dois religiosos;

– Dormir no chão;

– Diariamente alimentar-se apenas de meio quilo de pão e dois pratos de legumes;

– Nunca deveriam comer carne, peixe ou lacticínios;

– Obrigatoriedade de se vestirem com um simples hábito branco de tecido áspero;

– Obrigatoriedade de ir ao coro e manter o silêncio e perfeição de vida nas cerimónias.

Em nenhum outro país a Ordem de Cister exerceu tão grande e duradoura influência como em Portugal. Até ao século XVII foram edificados no nosso país mais de trinta mosteiros cistercienses, uns para monges, outros para monjas, todos em uma especial devoção à Virgem Maria (Virgo Mariam). Também todos os mosteiros das Províncias de Cister estavam subordinados ao Abade Geral em Claraval, e dentro de Portugal ao Abade Provincial em Alcobaça – por sua vez prestando contas directamente ao Geral da Ordem – que era eleito dentre os seus pares da Província, depois confirmado pelo Geral e até, excepcionalmente, pelo Papa.

Morte (dormição) de São Bernardo. – Obra de Mestre Castilho dos monges barristas do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça

Os monges cistercienses nunca atingiram, na época moderna, importância semelhante à que haviam obtido na Idade Média. Já no século XVIII se manifestavam grandes sintomas de decadência. As invasões francesas e as lutas liberais, em Portugal, vieram precipitar essa decadência, culminada com a extinção das Ordens religiosas em 1834. Nesse mesmo ano, os mosteiros masculinos foram vendidos em hasta pública, sem o mínimo pudor da política jacobina chamada “mata-frades”. Da maioria deles hoje restam só as igrejas, havendo casos de convertidas em paroquiais, e algumas construções arruinadas, ou então as melhores usurpadas pelo Estado, com a implantação da República, para nelas, sem que os donos legítimos fossem tidos e ouvidos, por custo mínimo ou nenhum instalarem hospitais, asilos, quartéis, tribunais, penitenciárias, etc. Pelo contrário, os mosteiros femininos não foram extintos, contudo ficou interdito o recrutamento. Assim, as comunidades monásticas desapareciam quando vinha a falecer a última monja, ainda que alguns desses mosteiros tenham chegado intactos até aos nossos dias, mas já sem a presença secular.

Enfim, passa-se que tal como o Homem também as Ordens nascem, crescem e fenecem, desaparecendo para sempre da ribalta do mundo, mas não sem que antes o maior dos cistercienses, Bernardo de Claraval, inspirasse a Regra e depois o Elogio da Nova Milícia dos  Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão.

 

NOTAS

 

[1] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[2] Maria João Madeira Rodrigues, Pedro Fialho de Souza, Horácio Manuel Pereira, Vocabulário técnico e crítico de Arquitectura. Quimera Editores, Coimbra, 1996.

[3] A grande matriarca das letras da Alma-Mater ou Lusa Mátria, como lhe chamava o Padre António Vieira mas aqui Dalila Pereira da Costa, constitui tríptico com o mesmo processo, ainda assim usando de designação diversa mas significativa: Mito – Revelação – História. In A Nau e o Graal, Lello & Irmão Editores, Porto, 1978.

[4] Cf. René Guénon, O Rei do Mundo. Espiral Editora, Lisboa, 2019.

[5] Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2003.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

AROLA, Raimón, Simbolismo del Templo. Ediciones Obelisco, S.A., Barcelona, 1986.

BILLY, André, de l’Académie Goncout. Chapelles et Sociétés Secrètes dans l’Histoire. Editions Corrêa et Cie, Paris, 1951.

CHARPENTIER, Louis, Les Mystères Templiers. Éditions J’ai Lu, Robert Laffont, S.A., Paris, 1967.

DAILLIEZ, Laurent, La France des Templiers. Guide Marabout, dirigée par Claire Van Weyenbergh. Éditions Marabout, S.A., Belgique, 1974.

DEMURGER, Alain, Les Templiers – Une chevalerie chrétienne au Moyen Âge. Éditions du Seuil, 1985 et 2005.

FULCANELLI, O Mistério das Catedrais. Edições 70, Lisboa, 1975. As Mansões Filosofais. Edições 70, Lisboa, 1977.

HANI, Jean. O Simbolismo do Templo Cristão. Edições 70, Lisboa, 1981.

HENRIQUES, João Aníbal. Simbologia Social Cascalense, in volume Símbolos, Gerações e História. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

KLUG, Sonja Ulrike. Catedral de Chartres (A Geometria Sagrada do Cosmos). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2002.

KORRODI, Ernesto. Alcobaça, in Monumentos de Portugal n.º 4. Litografia Nacional – Edições, Porto, 1929.

La Symbolique des Cathedrales (Revista), realizada sob a direcção de Fernand Schwarz, por Didier Carrié e Brigitte Ludwig, in Collection Homo Religiosus Etudes pour la Redecouvert du Sacre. Paris, Junho de 1991.

LUDDY, Ailbe J. Bernardo de Claraval. Editorial Aster, Lisboa, 23 de Dezembro de 1959.

PACCETTI, Virgínia. O Mosteiro de S. Dinis de Odivelas, 1988. Edição da Junta de Freguesia de Odivelas, 1997.

PENNICK, Nigel. Geometria Sagrada (Simbolismo e intenção nas estruturas religiosas). Editora “O Pensamento”, São Paulo.

POMBO, Hugo Agostinho Baptista; CORTE, Izelina Andrade da; CUNHA, João Pedro Ferreira Gaspar Alves da; O Convento de São Bento de Avis. Estar-editora Ltda, Lisboa, Setembro de 2001.

PONSOYE, Pierre. El Islam y el Grial. “Ediciones de la Tradicion Unamine”, José J. de Olañeta, Editor, Palma de Maiorca, 1984.

RODRIGUES, Maria João Madeira; SOUZA, Pedro Fialho de; BONIFÁCIO, Horácio Manuel Pereira. Vocabulário técnico e crítico de Arquitectura. Quimera Editores, Coimbra, 1996.

Infante Henrique de Sagres (Algaraviana Hermética) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Fev 6 2019 

Vulto imponente de nossa História, Mestre por excelência, “alumeado pelo Spiritu Sanctu naçido en et movido no divinal mistério», no dizer do seu cronista, Gomes Eanes Zurara[1], o Infante D. Henrique de Borgonha e Lencastre foi incontestavelmente o pensador e grande arquitecto da Epopeia Marítima que depois se conviu chamar, muito apropriadamente, de Gesta Henriquina, incarnando em si mesmo a potencialidade messiânica ou avatárica do mesmo Espírito Santo, ou seja, o Terceiro Logos Shiva ou Siva, anagramaticamente Avis, cujo atributo é a Omnipresença de Si mesmo, Deus revelado em Aspecto Feminino com o atributo genesíaco das Águas (Maris Nostrum).

Se na Santíssima Trindade cristã está-se em presença do Pai, Filho e Espírito Santo, entre os primitivos gnósticos já a Hipóstase remanescente era a Mãe: Pai, Mãe e Filho, assumindo assim o Espírito Santo um aspecto mediador ou psicopompo como Alma entre o Espírito e o Corpo. No Egipto mítico e iniciático, Osíris, o Pai, reflecte-se no Filho, Hórus (o lado tangível ou material, tanto que o faraó era a Ele identificado), através de Ísis, a Mãe, o Elo ou Mediadora entre os Mundos. Na tradição islâmica, que não aceita a Trindade e sim a Unidade fundamental e indivisível de Deus, o Espírito Santo é identificado com o Arcanjo Gabriel (Jibraîl), o mesmo que ditou o Corão a Maometh e que, seiscentos anos antes, havia anunciado a Maria o nascimento do Messias Jeoshua (Nabi Iça, o Profeta), como é relevado no mesmo Corão, capítulo XIX, suratas 16 a 35. Ainda assim, algumas correntes islâmicas concebem perfeitamente a noção materna existencial de Allath, a forma feminina de Allah (Deus), donde o carinho particular, por exemplo, por Fatmah (Fátima), a quinta filha do Profeta por não poucos associada à mesma pessoa da Mãe Divina, possuído de predicados iguais aos de Ester entre os hebreus.

Como uma veste do Verbo Divino (do Sopro, Ain-Soph, etc.), o Arcanjo Gabriel aparece, portanto, inteiramente relacionado com uma função feminina, ou com o Aspecto Feminino da Criação, como seja aquela da expressão da Revelação em si mesma como acção intermediária entre o Divino e o Humano, a ponte criada (concebida, com forma) entre a ideia primordial e o conceito manifestado, ou por outra, entre o Mundo das Causas ou Vénus Nutridora (Shukra, “celeiro” do Akasha ou Éter) e o Mundo dos Efeitos ou Lua Nutriente (Soma, “seara” de Kama ou a Emoção), de maneira que a Lua expressa Vénus que assim é como o seu Sol. Do mesmo modo, o ser humano passa de lunar a solar pela Iniciação Real, tornando-se de “Filho de Mulher” em “Filho do Homem”, o que acontece no plano imediato quando a mulher concebe: deixa de estar sujeita ao ciclo lunar (Terra) para entrar no ciclo anual (solar) de Vénus, pois que o ano venusiano dura nove meses terrestres.

No Novo Testamento, Maria e os Apóstolos, no Pentecostes, são tocados pelo Espírito Santo, passando a ter o poder de falar todas as línguas, de curar enfermos, de falar com a Sabedoria do Filho e explicar a Revelação em todas as linguagens. Seguindo o prodigioso ensinamento do sede iguais a Mim assim como Eu sou igual ao Pai, seria forçoso que qualquer místico cristão, em qualquer época, entendesse que quando se fizesse igual ao Mestre teria o Poder e a Sabedoria do Mestre, isto é, daria nascimento ao Cristo dentro de si, como Maria, sendo, portanto, tocado pelo Espírito Santo. E, verdadeiramente, assim acontece em qualquer época, porque o Filho não é mais que o cíclico Avatara de Vishnu, como se consigna no Oriente, ou seja, a face visível do Pai (Brahma), o Eterno, o Sem Nome, cujas formas são infinitas justamente por não possuir forma objectiva alguma, como Essência Divina que é. Sendo assim, o Iniciado – cristão ou não, pouco importa – que se fez igual ao Mestre é igualmente tocado pelo Espírito Santo, tradicionalmente alegorizado por uma Língua de Fogo, justamente porque se acendeu nele a Luz Única, o Poder Mediador, Transformador e Construtor, não particular ou monopólio de qualquer religião no mundo; ele não é o Verbo mas fala por Ele, como João Baptista, São Paulo, etc., e é esse Poder Transformador, sem intermediários, a plena liberdade da mente humana iluminada por dentro, mas funcionando integrada na responsabilidade imposta pela Lei que a tudo e a todos rege, e que é anunciada pelas profecias relativas à Idade do Espírito Santo. Essa era a verdadeira revolução espiritual que estava em curso nos séculos XIII, XIV e XV, num mundo medieval à beira do seu fim onde alguns bravos de espírito o arremessaram numa nova Idade de Luzes, dentre eles destacando-se o Infante Henrique de Sagres[2].

Mestre Supremo da Soberana Ordem de Mariz (Allath-Maridj), pouco importa que a História a desconheça por inteiro, 8.º Grão-Mestre e Administrador da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, estabelecedor em Tomar da britânica Ordem da Jarreteira, modelo da posterior a Ordem do Cardo, igualmente britânica, ambas tendo por Patrono São Jorge, o Infante D. Henrique elegeu por Orago de sua vida e obra o Divino Espírito Santo na figura da Mãe Soberana mas encoberta sob a “letra que mata”: a Virgem Negra (Nigro Virgo igual a Hermeticum Maris, simbolizada pelo Mare Incognitus, neste contexto designativo do Mercúrio Filosófico do Hermetismo).

Infante Henrique de Borgonha e Lencastre (1394-1460)

Filho do rei D. João I e da rainha D. Filipa de Lencastre, terá nascido na cidade do Porto em 24 de Novembro, ou em Dezembro, de 1394 e vivido largo tempo em Viseu e em Tomar, mas tendo sido no Algarve, no périplo envolvente de Lagos e Sagres, que o Infante D. Henrique deu largas à sua obra de expansão marítima  do reino, cujos efeitos ainda hoje se sentem. Vindo a falecer na sua Vila ou Quinta da Guadalupe, na Raposeira, entre Budens e Vila do Bispo, em 13 de Novembro de 1460, o seu corpo foi levado para a igreja de Santa Maria de Lagos, então a sede da “Confraria do Compromisso”. Passado pouco mais de um mês, por ordem do seu sobrinho o rei D. Afonso V, procedeu-se à trasladação dos restos mortais do príncipe para o mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha, em 1461. Diogo Gomes, fidalgo que assistiu à sua morte, narra os acontecimentos afirmando que o corpo de D. Henrique não havia sofrido corrupção após quase dois meses feitos do seu falecimento.

Túmulo do Infante D. Henrique na Panteão da Ínclita Geração no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha

O cronista do Infante D. Henrique, Gomes Eanes de Zurara[3], homem douto dado às ciências herméticas da Kaballah e da Astrologia de que deixou provas dispersas nas suas várias crónicas impressas, possivelmente sendo de ascendência cristã-nova, dá-se na sua Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné ao levantamento do horóscopo do Ínclito Infante Navegador, onde diz: “Porém vos quero aqui escrever como ainda por pungimento de natural influência, este honrado Príncipe se inclinava a estas coisas [esotéricas]. E isto é porque o seu ascendente foi Áries, que é casa de Mars, e é exaltação do Sol. E porquanto o dito Mars foi em Aquário, que é casa de Saturno, e em casa de Esperança, significou que este Senhor se trabalhasse de conquistas altas e fortes, especialmente de buscar as coisas que eram cobertas aos outros homens, e secretas, segundo a qualidade de Saturno, em cuja casa ele é. E por ser acompanhado do Sol, como disse, e o Sol ser em casa de Júpiter, significou todos os seus tratos e conquistas serem lealmente feitos, e a prazer de seu Rei e Senhor”.

Portanto, segundo o cronista Zurara que certamente dispôs de elementos precisos sobre a hora, dia, mês e ano do nascimento do Infante, os quais hoje são impossíveis de conhecer comprovadamente, ele terá nascido em Aquário – Saturno, esteve sob o auspício de Sol – Júpiter e teve por ascendente Áries – Marte em Aquário no seu mapa natal. Este horóscopo veio a ser motivo lúdico de pintura em toda a parede do lado direito da escadaria nobre do Palácio-Hotel do Buçaco, junto à vila de Luso.

Marte ou Makon (hebreu), correspondente ao respectivo “Céu” da classificação ptolomaica, está em Aquário e é o planeta do signo de Áries, o Carneiro, associado ao Nisan hebraico, sendo o mês da festa móvel da Pesah ou Páscoa, exactamente como “passagem” de um estado a outro, implicando ser maior ou mais lato para a “coisa” envolvida (seja consciencial, geográfica, pessoal, colectiva, etc.). Isto corresponde no Hemisfério Norte à elevação do Sol, ao início da Primavera, à passagem do frio ao calor, da treva à luz, o que não deixa de se relacionar com o mito dos 12 argonautas da nau “Argos” em demanda do Velocino de Ouro no Jardim das Hespérides, tradição esta também evocada pelo carneiro servindo de montaria à divindade hindu Kuvera, guardiã dos tesouros do seio da Terra. Mas a demanda do Velocino de Ouro é, sobretudo por se associar à Copa Sagrada (o Saint Vaisel ou o mesmo Santo Graal), a de um tesouro espiritual, isto é, o da Sabedoria Divina, em que se torna ordálio real. Ora, na antiga China o carneiro participava dos ordálios judiciários, nos quais desempenhava o mesmo papel do unicórnio. Na mesma época e área cultural, o carneiro também é, por vezes, a montaria de um Imortal (Ko Yeou), e na Índia é a metamorfose do próprio Imortal no Fogo do Sacrifício, Agni, o que bem se associa ao Cordeiro Sacrificial hebraico-latino da Pesah – o Agnus Dei.

Na Gália, havia numerosos cães de lareira (peça utilizada para apoiar a lenha a arder na lareira, a fim de evitar que ela rolasse para fora) em pedra com cabeças de carneiro, o que se relaciona com o simbolismo ígneo do animal assim expressando a permanência da luz no lar, este tanto podendo ser um conjunto familiar como uma filiação espiritual.

Depois do Velocino (ou Tosão: velo de carneiro) é o chifre do animal de ouro (afinidade solar) que fica carregado de um valor simbólico, fonte de inumeráveis costumes, tradições e imagens derivadas do mesmo simbolismo original, sendo que, de todos, o mais forte é sem dúvida a cornucópia, a taça da abundância, pelo que evoca a esta tanto no material como no espiritual, aqui designando a Iniciação. Certamente no caso do Infante Henrique de Sagres tratar-se-á de Iniciação Real, Guerreira ou Kshatriya, também chamada de Iniciação Mariana por todo o Cavaleiro eleger por Orago a Santa Maria na hora da sua armação. O ideal e execução da Iniciação Mariana ligam-se por inteiro a Mariae, Maris e ao Mare ou Via Marítima (Húmida ou Feminina) da Alquimia, Caminho e Arte de Espírito Santo que, na época do Infante, foram assumidos por ele próprio reunindo em si todo o substractum da Ordem de Cristo. Decerto, também, a abundância material, tendo-a buscado na “Ilha” ou Ínsula Brasil[4], quando ordenou aos seus Cavaleiros do Mar, novéis argonautas, navegarem para Ocidenteas finis Terris.

Cabalisticamente, Marte associa-se à sephiroth Geburah, “Força”, por seu turno e por sua natureza ígnea associada ao estado de consciência Budhi-Taijasi, isto é, o Intuicional (Christus) iluminado pelo Espiritual (Paeternus). Essa condição consciencial é assumida cosmogonicamente pelas “Serpentes de Fogo” (Sarafs), os Serafins portando em seu imo a Purificação, a Iluminação e o Amor. Desde Salém, Shamballah ou o Centro do Mundo à Face da Terra, por eles se manifesta Deus Espírito Santo conferindo o Amor ao seu Eleito e à Igreja de sua Eleição, a dos Fiéis do Amor, antes, a da lustríssima Mãe Santíssima como Virgo Mariz, por decreto do Infante do Mar trasladada do extremo-ocidental da Europa ao extremo-ocidental do Mundo: o Brasil!

Também nisso entra a influência benfazeja do Sol do Solo ou Seio da Terra, lugar ascendente no horóscopo do Infante D. Henrique que daí era descendente: Saraf, Seraf, Serafim, Serapis… os Senhores da 7.ª Linha Teúrgica do Novis Phalux a Luzir, sim, o Cruzeiro Mágico de Cordo Mariz sob a égide de Surya, Elion ou Helius, o Sol mesmo. Remata a tradição hermética que se está na presença de um vocábulo cujas sonoridades são em vermelho e ouro, em afinidades astrais com Marte e o Sol.

Seguindo a antiga classificação ptolomaica, o alquimista português Anselmo Caetano Munhoz de Abreu coloca Marte como o quinto dos sete planetas tradicionais e assim o classifica no seu Oráculo Profético: “[…] subindo mais alto a procurar a protecção de Marte, que é o Planeta Quinto, e tão ilustrado de luzes, que tem a luz do Sol por centro. Como Marte é o Quinto entre os Planetas, e também o Deus da Guerra entre os Indigentes, posto que também seja Infortuna menor, por estes mesmos três motivos lhe consagro este Oráculo Profético, em que alegoricamente discorro sobre o Quinto Império do Mundo; porque o Império Quinto pertence ao Quinto Planeta, a conquista do Mundo ao Deus Marte, e à Infortuna menor a maior Fortuna. Lisboa Ocidental, 31 de Julho de 1733″.

Sendo o último Administrador do Tesouro do Templo, possivelmente do que restaria dele e que terá aplicado na promoção das navegações, D. Henrique de Borgonha e Lencastre foi também o grande universitário. Artur Moreira de Sá[5] chama-o “protector dos estudos em Portugal”. No Sumário dos Estatutos da Universidade de Lisboa, firmados na Sé da mesma cidade, em 16 de Julho de 1431, os quais receberam a influência do Infante, lê-se no parágrafo 8 do Doutoramento que o futuro doutor antes de ser nomeado tal era levado à Sé onde se celebrava a Missa do Espírito Santo.

As disciplinas ministradas na Universidade de Lisboa antes do Infante, constantes das Cartas de 25 de Outubro de 1400 e de 23 de Agosto de 1418, eram: Leis – Decretais – Gramática – Lógica – Física – Filosofia – Teologia – Música. D. Henrique aumentou as disciplinas, segundo o mencionado na Carta de Doação de 12 de Outubro de 1431: Leis – Decretais – Gramática – Lógica – Medicina – Filosofia Natural e  Moral – Teologia – Aresmética – Geometria – Astrologia.

Consta nas Cartas de 12 de Outubro de 1431, de 25 de Março de 1448 e de 22 de Setembro de 1460 que no dia de Santa Maria da Anunciação, a 25 de Março, “hão-de ir todos os lentes e escolares encomendar minha alma” ao Convento da Graça, ordenança que será “feita para todo o sempre enquanto houver Estudo Geral em Lisboa”.

O Infante decretava assim a perpetuamente os reitores, lentes, conselheiros e escolares irem todos os anos à igreja do convento da Graça, em Lisboa, em saimento solene, ouvir missa em sua intenção e de seus sucessores no Mestrado e Administração da Ordem de Cristo[6].

Deve-se ao Infante a tradução da língua hebraica, e consequente composição, do livro Segredo dos Segredos de Astrologia, tratado assente na filosofia aristotélica mas com explanação de astrologia cabalística, sobre o que diz Jaime Cortesão: “[…] não é sem fundamento que no catálogo da livraria de Fernando Colombo figurava um “Libro en español de mano, llamado Secreto de los Secretos de Astrologia, compuesto por el Infante D. Enrique de Portugal”. Do título se infere tratar-se do Livro de Secretis Secretorum, obra pseudo-aristotélica, em forma de conselhos de Aristóteles a Alexandre Magno. Em nota a uma referência do Leal Conselheiro ao “Livro Secretis Secretorum”, retomando o assunto Joseph Piel comentou: “Foi encontrada recentemente por Armando Sousa Gomes uma antiga versão portuguesa deste livro (cf. O Instituto, vol. 93, pp. 193-201), que o benemérito descobridor por inadvertência quis identificar com a “Grande Moral”, de Aristóteles, opinião rectificada por Joaquim de Carvalho no mesmo volume da citada revista. A atribuição da tradução portuguesa ao Infante D. Henrique parece-nos fundamentada, embora também consideremos pouco provável, senão impossível, que o manuscrito descoberto seja o mesmo que, sob o título “Secretos de los Secretos de Astrologia”, figurava na Biblioteca Colombina e que era, sem dúvida, escrito em espanhol. Não repugna admitir que esta redacção castelhana, hoje desaparecida, fosse uma versão da tradução portuguesa, o que viria confirmar a autoria do Infante D. Henrique quanto à obra recentemente descoberta que – facto de real importância – pertenceu primitivamente à Livraria de Alcobaça”[7].

À difusão da Astrologia (tão necessária aos pilotos das naus que se aventuravam por mares ignotos e só tinham por cartas inalteráveis a disposição das estrelas), natural e cabalística, nos séculos XIV-XV, paralelamente fizeram eco o Livro da Montaria, de D. João I, o Leal Conselheiro, de D. Duarte, o Livro da Virtuosa Benfeitoria, do Infante D. Pedro, e as próprias crónicas e cronicões da época.

Convém fazer aqui uma destrinça importante, para de antemão evitar quaisquer mal-entendidos futuros respeitantes a hodiernos fenómenos de crenças divinatórias e milagreiras que preenchem o espaço psicossocial do chamado «new age», caracterizado por superstições alimentadas indistintamente por certo urbanismo subdesenvolvido em matéria de cultura verdadeiramente tradicional a qual, pelo contrário, caracterizou a espiritualidade e mesmo a religiosidade dos povos antigos na sua relação com o mundo sideral.

A Astrologia foi durante muitos séculos predominantemente mântica ou divinatória. Com o tempo surgiu a sua variante genetlíaca ou judiciária, baseada num horóscopo natal e em outras técnicas posteriores. Essa transição histórica foi muito importante. Para compreender a atitude de aceitação do factor astrológico por parte das teologias da Sinagoga e da Igreja, deve considerar-se a diferença entre Astrologia natural e Astrologia judiciária. A Astrologia natural, aceite e até exercida oficialmente na Universidade coeva da Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres, estuda a alegada influência dos astros sobre a Terra, a Natureza, os organismos vivos e, portanto, sobre o carácter e a alma humanos. A Astrologia judiciária pretende, por meio de certas técnicas (particularmente por meio do horóscopo), levar a “julgamentos”, a “conclusões” sobre o destino dos indivíduos e dos povos segundo a posição e configuração dos planetas a partir de determinados momentos da sua vida ou história.

A Igreja Católica não contestava a legitimidade da Astrologia natural. Dionísio Aeropagita, S. Cesário, S. Jerónimo, Alberto Magno, Tomás de Aquino e muitos outros admitiam a sua legitimidade. Em contraste, a Igreja e a Sinagoga reprovavam e reprovam a Astrologia judiciária que afirma estar o destino do Homem “lavrado nas estrelas que ditam o seu porvir”, porque tal posição vem a negar a liberdade humana do livre-arbítrio e direito de acertar e/ou errar na experiência da vida, onde cada um e cada qual evolui por seus próprios esforços e méritos sem necessitar depender a sua existência de quaisquer factores externos, astrolátricos.

Na sua Suma contra os Gentios, começada a escrever em 1265 e que deixou inacabada por sua morte, Tomás de Aquino apresenta um resumo da história da Astrologia. Dedica dois opúsculos aos horóscopos – De Sortibus e De Judiciis Astrorum. Neste último, pode ler-se: “Se alguém se serve do juízo dos astros para conhecer efeitos corporais, por exemplo, a ocorrência de tempestades ou de bom tempo, a saúde ou a doença dos corpos, a abundância ou a esterilidade das colheitas e outras coisas que dependem de causas naturais cognoscíveis, não há nisso pecado, pois todos os homens são obrigados a nisso submeter-se aos astros. O agricultor só pode semear ou colher prudentemente se se assegurar dos movimentos do Sol (…). Em contraste, é forçoso afirmar que a vontade do Homem não está sujeita à necessidade dos astros; se o estivesse estaria arruinada a liberdade, que, eliminada, não permitiria atribuir aos homens nem acto bom nem acto mau, meritório ou culpável… É um grande pecado recorrer aos horóscopos nestes assuntos”[8].

Na época do Infante D. Henrique ficaram célebres as traduções portuguesas do Lybro de Magyka, de Juan Gil de Castiello, ou de Burgos, e do Lybro Conprydo en los Juyzos de las Estrellas, de Ali Aben Ragel, que pertenceu à Biblioteca de D. Afonso V.

Quanto à tradução portuguesa do Lybro de Magyka, encontra-se em manuscrito do século XV na “Bodleian Library”, de Oxford (Ms. Laud. Or. 282). E do Libro Conprydo, de Ali Ragel, conserva-se na mesma Biblioteca (Ms. Laud. Or. 310) a tradução dos livros IV a VII, feita ou copiada em 1418 por Joseph B. R. Gelalyah.

O Infante D. Henrique cumpriu rigorosamente os três votos perpétuos de Obediência – Pobreza – Castidade da Freiria de Cristo, de cuja Milícia era Grão-Mestre e de cujos bens o Administrador Geral, sendo essa a razão imediata da sua castidade e austeridade mais de monge que de príncipe!… A sua própria divisa francesa, Talant de Bien Faire, “Talento [ou Propósito] de Bem Fazer [ou Criar]”, a par dos feitos notáveis preenchendo a sua biografia, demonstram bem que a pia Alma deste I.H.S. abarcava a Terra inteira, em carácter e cultura, o que é inerente às inéditas e Grandes Almas. As iniciais do seu nome, I ou JHS, significam na Tradição Iniciática: “O Homem na Divindade”, assim como HJS significa “A Divindade no Homem”.

Com efeito, no seu Talant de Bien Faire velam-se, inclusive, as Três Hipóstases Divinas, cada qual manifestando-se por uma das três gunas (“cordas”, em sânscrito) ou “qualidades subtis da matéria”, nas suas volições de centrífuga, equilibrante ou rítmica, e centrípeta, respectivamente, em sânscrito, Satva – Rajas – Tamas.

D. Henrique passou à Arte da Musa Clio, a História, com o cognome de Navegador devido à sua intervenção primaz na Diáspora Marítima, é sabido do comum das gentes. Mas o menos sabido é o seguinte: foi a partir de Lagos que as pretensões expansionistas do rei D. Afonso V (1432-1481), sucessor e filho do rei D. Duarte irmão do Infante de Sagres, e cuja Escola de Navegação apoiou e protegeu, viram a efectivação. Com efeito, ele militou na Confraria do Espírito Santo, vulgarmente conhecida por Companhia do Compromisso de Lagos, fundada nesta cidade em 1444 por Lançarote Pessanha, escudeiro do Infante D. Henrique, a qual terá sido a matriz e motor da Escola Náutica do Navegador.

Vários indícios dessa época ainda existentes em Lagos, dão a Confraria do Espírito Santo não só como gestora espiritual e jurídica da Escola Náutica como também cadinho de secretas filiações herméticas, possivelmente de alquimistas professos da Via Húmida ou Marítima, donde usarem o apelido argonautas, ou simplesmente nautas, sendo o timoneiro ou dirigente apelidado de Navegador.

Se o fundador dessa Ordem fora Lancelote de Lagos, certamente o arturiano Mestre Supremo era o próprio Infante Henrique de Sagres, dentro dela chamado de Navegador, e ao qual a corte de Carlos, o Temerário, primo de Afonso V, e os filósofos de Luís XI de França, davam igual designativo: Nautonnier.

Assim, o Infante Ínclito dos Mares passou à História com o cognome de Navegador, na realidade sendo o grau supremo da Confraria do Espírito Santo mas que a historiografia vulgarizou na pleição de todos conhecida.

Ainda hoje se vêem lavrados no pórtico lateral da igreja de Santa Maria de Lagos, primitiva sede da Confraria do Espírito Santo, dois vasos alquímicos cada qual encimado por uma flor-de-lis. Essa prova surpreendente leva-me a associar esses lavores pétreos ao significado do Santo Graal, por raros apercebido, havendo uma perfeita correlação física e espiritual na própria palavra:

– GRAL é o almofariz, objecto de laboratório onde são feitas certas misturas químicas.

– GRAAL é a Taça Sagrada. Nela, naturalmente, são feitas as mais sublimes, espirituais e místicas fusões alquímicas.

Mas a prova de maior sucesso quanto à filiação hermética desta Confraria de Navegantes, está no pórtico lateral da igreja de S. Sebastião (primitivamente da Conceição) de Lagos, sendo tão óbvio o simbolismo hermético esculpido nele que me atrevo a baptizá-lo de Portal do Adepto. Teria pertencido à primitiva igreja de S. Sebastião fundada pelo bispo D. João de Melo no século XV, depois transformada, como hoje se vê, no século XVI[9]. Como já fiz a leitura pormenorizada desse pórtico numa outra obra[10], escuso-me de repeti-la aqui, no entanto apontando no interior do templo várias pinturas de grande significado esotérico que aqui me traz: numa, vê-se São Bernardo de Claraval com três mitras aos pés, indicativas das três Idades tradicionais do esquema da Fiore; noutra, observa-se a descida do Senhor da Cruz que é um Tau, estando Nicodemus com o sudário ou “pano do suor” com os três cravos, tendo a seu lado José de Arimateia com o barrete frígio, símbolo do Adeptado navegante, volante ou móvel, com o pormenor acrescido de Nicodemus fazer um sinal de reconhecimento a João Evangelista enquanto fita Maria Madalena. Esta assumirá no contexto a figura da Virgem Negra ou Guadalupe, isto é, Guapa-Lupe, a “Beleza da Lua”, neste caso, a “Bela Senhora da Noite”, esta indicativa do que está encoberto, do “espírito que vivifica sob a letra que mata”, remetendo para o sentido primaz do Templo críptico como sinal de Mistério e de Iniciação, e tudo isto remete por inteiro ao simbolismo de Ísis, donde foi decalcada a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Pórtico lateral – liber mutus alquímico – da igreja de São Sebastião de Lagos

No tecto da igreja, em caixotão de madeira, observa-se a pintura de um Pentalfa Flamejante sobre toda a ilustração bordada pela frase latina do Salmo 71: “Bendito o Senhor que fez o Milagre do Sol”.

Para o Professor Henrique José de Souza, o Salmo 71 tem o seguinte significado cabalístico seguinte: “Justiça igual para todos. Paz universal. Fraternidade entre os povos. Extinção da pobreza. Verdadeira liberdade. Abundância e prosperidade”[11]. Ora, esses são precisamente os paradigmas da Sinarquia que tanto os Templários quanto os Freires de Cristo perseguiram e até realizaram em seu espaço de acção, particularmente nesta parte do Algarve (de Lagos a Sagres), o que depois para o rei D. Sebastião terá sido motivo não entendido por ausência de profundidade adulta, mas exagerado pela presença de superficialidade juvenil.

Com efeito, tudo indica que ele instalou nesta igreja de São Sebastião de Lagos a sede da sua Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (copiada inteiramente da regular e secular Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo), também chamada de Ordem Militar da Seta (Frecha) de São Sebastião. Desde a substituição do Orago da igreja, a Senhora da Conceição por São Sebastião, às reformas no edifício e à decoração rica de simbolismo sebástico-hermético, esta terá sido a Casa-Mãe dessa Ordem controversa de duração efémera, ainda assim aproveitada para resguardo pio de muitos hermetistas da época seiscentista algarvia. Sobre o assunto, escreveu Manuel J. Gandra[12]:

Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ordem Militar criada por D. Sebastião, em Março de 1577, achando-se no cabo de S. Vicente (Algarve). Alguns autores chamam-lhe, impropriamente, Ordem da Flecha de S. Sebastião.

“A missiva que, na circunstância, D. Sebastião remeteu ao embaixador em Roma faz luz sobre o evento: “[…] esta ordem que agora determino publicar é aquela mesma que tenho instituído e a que então dei princípio com nela entrar a fazer logo profissão, e que não é a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo que alguns podem cuidar que seja por a cruz dela ter muita semelhança com a que escolhi e ordenei para esta nova ordem, que tenho assentado que se chame a Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e divisa de S. Sebastião, pela Seta que com a mesma cruz ao pé dela trago”. (Cf. BN: cod. 887, fl. 158r-158v). Consulte-se Sampaio Bruno, O Encoberto, Porto, 1904, p. 80-97, e Camões, Oitavas sobre a Seta que o Santo Padre mandou a El-Rei D. Sebastião, no ano do Senhor de 1575. O Desejado tencionava fundar um Templo dedicado ao mártir no Terreiro do Paço (Lisboa) para nele albergar a relíquia do braço do mesmo Santo que Carlos V furtara no Vaticano, quando do saque de Roma. Francisco de Holanda apresenta o respectivo projecto no Da Fabrica que falece à Cidade de Lisboa (fl. 26v-27r).”

Com efeito, em 1571 D. Sebastião requereu do Papa Pio V autorização para alterar os estatutos das Ordens Militares de Cristo, Santiago e Avis, e acrescentar à cruz dos referidos hábitos uma seta ou frecha (flecha), em memória da arma com que fora martirizado o santo seu homónimo, assim colocando o Sebastião rei em paridade com o Sebastião santo, cuja distinção só seria conferida aos cavaleiros que se assinalassem por feitos notáveis na guerra. Ele, monarca, não sendo cavaleiro usava assim das suas prerrogativas reais para ser chefe de todos eles e “estocar”, “flechar” fatal e decisivamente as antigas Ordens seculares de cavalaria e linhagem nobiliárquica com mais de cinco gerações ininterruptas. Essa intenção regista-se em uma pedra epigráfica com as três Ordens e a de São Sebastião por cima em edifício da antiga Alfândega de Setúbal.

De saúde frágil, inquieto e imaginativo, de fantasias lúgubres, rei quimérico querendo fazer-se imperador do mundo indo tomar Jerusalém a partir do Norte de África, onde se perderia e perdeu Portugal, ansiava sempre copiar as grandezas dos seus antepassados, vendo-se a incarnação de todos eles e de todas elas, como constata Alexandre Ferreira[13]: “E passando ao que me importa, digo, que prezo El Rey desta ideia da jornada de Africa, e penhorado da Setta de S. Sebastião, para gloria da empreza, a que se encaminhava, e lembrado de que seu antigo avô, El Rey D. Affonso o I, no glorioso sucesso de Santarem contra hum numero sem numero de Barbaros, capitaneados por El Rey de Sevilha, instituira a Ordem da Ala, ou Aza de S. Miguel, para escrever com aquellas pennas as memorias do seu agradecimento, e voar com aquella Aza em gloriosos triunfos; e que El Rey D. Affonso o V, para continuar os gloriosos empregos, que lhe derão o nome de Africano, creara a Ordem da Espada de Santiago; e com estas honradas memorias creou a Ordem da Setta de S. Sebastião, espada segura para triunfar do contagio daquelles Barbaros, porque nas azas, com que voara, levaria a saude contra a peste da Infidelidade.” No mesmo sentido escreveu Manuel de Faria e Sousa na sua Europa Portuguesa, em 1667.

Além das alterações nos Estatutos, afectando as Regras, das supraditas Ordens (efectuadas em 6 de Fevereiro de 1572), D. Sebastião solicitou uma das setas com que foi martirizado o santo homónimo, para a depositar na igreja que lhe pretendia edificar em Lisboa, mas que não passou da intenção, ficando-se a dita relíquia, depois de chegada, pelo Mosteiro de S. Vicente de Lisboa. A morte de Pio V levou a que só o seu sucessor, o Papa Gregório XIII, pudesse satisfazer a vontade régia, já que, pelo falecimento de D. Joana de Áustria, enviou a seta embebida no sangue do mártir, acompanhada de um Breve Pontifício datado de 8 de Novembro de 1573.

Essa venerada relíquia – sacra invenção – chegou a Portugal 9 de Fevereiro de 1574, trazida pelo enviado papal Pompeo Lanoja, cubiculário de Sua Santidade, sendo recebido pelo rei quando estava nos seus Paços de Almeirim.

Tendo nascido em 20 de Janeiro de 1554, no dia de S. Sebastião, razão pela qual foi batizado com esse nome, D, Sebastião teve uma constante e significativa preocupação em representar as setas ou flechas que martirizaram S. Sebastião em tudo aquilo que simbolicamente representasse o Poder Régio e a sua própria pessoa como rei, assim unindo – inspirado pelos seus mentores – o Poder Real à Autoridade Espiritual concentrados na sua única pessoa, prerrogativas de Melki-Tsedek o qual parece ter querido se assumir como Soberano Supremo do Mundo, o que seria confirmado de alcançasse Jerusalém e ocupasse o seu trono. Com a sua ida a Alcácer-Quibir e a derrota militar que sucedeu, esse Ordem entrou em esquecimento e praticamente desapareceu nos anais da História, apesar de alguns hoje a quererem reavivar por motivos menos sebásticos e mais sebastianistas, com tudo esbarrando na Lei do Banimento que até hoje opõe entre si brigantinos e anti-brigantinos. Enfim, nisto parece valer a frase concisa de Mário Roso de Luna no seu Livro que a Mata a Morte: “Há jovens que deveriam ser proibidos de ler literatura de Cavalaria, porque se empolgam alucinando-se, levam tudo à letra e põem-se a destruir a torto e a direito”. Mais palavras para quê?…

Deixando os empolgamentos inflamados de D. Sebastião de lado e voltando à Alquimia Mareante (apontada num quarto quadro descrevendo S. Vicente deposto na barca vigiada pelos corvos à proa e à ré, havendo o Promontório de Sagres ao fundo com um mouro nele), também chamada, como já disse, dos Navegadores ou Argonautas, sendo Via Húmida onde a paridade sexual ou casal hermético imita a Obra da Criação do Andrógino Primordial, ou seja, o Grande Demiurgo como Espírito Santo (Siva ou Shiva), cujo símbolo é precisamente o Sopro e a Barca navegando sobre as Águas da Génese.

A ciência da navegação foi também mística para o Infante D. Henrique, e motivo para ordenar a demanda do Reino do Preste João, identificado ao Rei do Mundo, sobre quem direi agora algumas palavras.

Em todos os compostos religiosos e sociais houve sempre uma tríade dirigindo a governação dos mesmos que, no aspecto político-governamental da Idade Média, era assumida pelo Rei, o Conselheiro jurídico e o Marechal de tropas. Hoje tem-se o Presidente da República, o Presidente da Assembleia e o Primeiro Ministro. São, ao nível social imediato, uma imagem fugaz mas nem por isso menos real da Trindade Melki-Tsedek ou do Rei do Mundo, exposta, o que já disse, como Melki-Tsedek (Monarca e Pontífice Universal), Kohen-Tsedek (Pontífice Universal) e Adonai-Tsedek (Monarca Universal).

Essa Trindade Sacra da tradição hebraica veio a influenciar todo o sistema sócio-religioso do Ocidente medieval e ela mesma se baseia, diz-se, numa outra e soberana Trindade Aghartina, chamada no Oriente de Brahmatma (“O Apoio dos Espíritos no Espírito de Deus”), equivalente a Melki-Tsedek, Mahinga (“O Representante da Alma Universal”), equivalente a Kohen-Tsedek, e Mahanga (“A Expressão de toda a organização material do Cosmos”), equivalente a Adonai-Tsedek. Ela era na época do Infante representada à Face da Terra pela Igreja Lamaísta ou Tibetana (a quem a de Roma, através dos seus emissários, iria depois buscar a maioria dos símbolos e paramentária litúrgica que utiliza como exclusivo seu, desde a mitra à sineta), nas pessoas do Buda-Vivo Gheghen, expressando a Santidade ou a Divindade no Homem, do Traichu-Lama, detentor da Ciência Sagrada ou Teúrgica, e do Dalai-Lama, realizando a Unidade Social com viabilidade.

Informa ainda a Tradição Iniciática que, de permeio à Trindade Aghartina e aos altos Dignitários do Lamaísmo, há a Assembleia dos Santos e Sábios, a “Igreja Secreta ou Oculta de João”, ou seja, a Grande Fraternidade Branca ou Governo Oculto do Mundo dirigido pelos seus três Grandes Oficiais: o Manu (dirigindo a Política Mundial da Raça Humana), o Bodhisattva (dirigindo as variedades da Fé das Religiões do Mundo) e o Mahachoan (dirigindo a Educação científica e moral de toda a Civilização), os quais estavam representados na antiga Ordem do Templo pelo Mestre Geral, o Grão-Prior e o Senescal (donde derivou o Marechal).

Ora, conforme o vasto cardápio documental que chegou até hoje, foi o impulso à demanda do Reino do Preste João que, do ponto de vista mais espiritual que religioso, levou a encetar as odisseias marítimas. Essa Terra de Promissão ainda assim enigmática, localizava-se em lugar vago numa geografia incerta: ora se dizia estar na Índia, ora na Abissínia, ora em outros lugares mais, ainda que, ao certo, ninguém soubesse onde ficava esse País decantado de João Sem Terra, logo, de João Ninguém!…

Inevitavelmente a realidade acabou confundida com a fantasia, e logo nasceu o sonho ambicioso do Eldorado. Poucos sabiam, e sabem, o que é na realidade da Terra do Preste João, mas esses poucos calavam, e calam, mantendo por prudência a profana dúvida, e com esse motivo da busca dos cristãos do Oriente e do seu Presbítero são enviados os argonautas lusos a outros continentes à demanda, pela Fé e pela Cultura, não raro também pelas Armas quando as circunstâncias exigiam, desse mesmo Pai João da Ásia, ou melhor, da Assiah, isto é, do Mundo.

Sobre este tema palpitante, já conhecido dos Templários no século XII, escreveu Oliveira Martins na sua História de Portugal, III, 1:

“Desde o meado do XII século que se propagara na Europa a notícia da existência de um império cristão no Extremo Oriente. O núncio da Igreja da Arménia falara ao Papa (Eugénio III) em um príncipe, chamado João, cujos domínios estavam situados para além da Arménia e da Pérsia, e que reunia ao Império o Sacerdócio: era um Papa do Extremo Oriente, e fizera numerosas conquistas, o Preste-Joham.”

Ora a Terra do Preste João, segundo informa ainda a Tradição Iniciática em que me baseio para com segurança agir nestas profundezas do pensamento, é afinal de contas o Centro Espiritual Supremo, identificado tanto a Agharta como a Shamballah, e ele próprio Melki-Tsedek ou o Rei do Mundo. Certamente o Infante Henrique de Sagres saberia disso, nos moldes do pensamento e linguagem da sua época, ele a quem Fernando Pessoa na Mensagem chamou de “único Imperador”. Muito sintomaticamente a ver com Sagres anda a velhinha “lenda do Rei do Mundo”, que contarei mais adiante.

D. Henrique saberia bem o que era de facto o Reino do Preste João. Aquando da tomada de Ceuta e aí armado cavaleiro de Avis por seu pai, D. João I, terá entrado em contacto privado com os Maurus islâmicos que lhe forneceram informações importantes sobre “como navegar para a Terra do Grande Preste”. Segundo Zurara, na Crónica da Conquista da Guiné, a um dos navegadores da sua Escola o Infante declarou que “não somente daquela terra desejava ter sabedoria, mas ainda das Índias, e da terra do Preste Joham”.

Os documentos relativos ao misterioso Presbítero João são fonte de muita confusão para os investigadores, pois que aparecem quatro personagens com esse nome em quatro lugares distintos do Globo: no Tibete, na Mongólia, na Índia e na Etiópia, embora prefira apontar para essa última o Egipto. Conforme a Tradição Iniciática, seriam quatro representantes do mesmo e único Poder, havendo um aspecto masculino no Egipto para um feminino na Índia, tendo por formas laterais, colunas ou ministros um aspecto masculino na Mongólia e outro feminino no Tibete, com os nomes seguintes na disposição a seguir:

Chakravarti é outra designação sânscrita para o mesmo Melkitsedek hebraico, e significa “Aquele em torno do qual tudo se move sem que Ele se mova”, ou comparticipe do movimento, antes, é quem provoca o movimento. Neste caso, é a Excelsa Loja Branca actuando em volta do seu Supremo Dirigente e daí influindo sobre os seus satélites, os dirigentes religiosos e políticos da Humanidade.

Prosseguindo na peugada do postulado hermético do Infante D. Henrique, deixa-se Lagos e a sua Escola Náutica fundada pelo próprio, de que ainda sobeja uma janela do primitivo edifício (a famosa “Janela do Infante”, igualmente conhecida por “Janela de D. Sebastião”, donde este falou às tropas no areal antes da empresa fatal de Alcácer-Quibir), e ruma-se pela Estrada do “Fim do Mundo” a Sagres, passando a aldeia da Luz e avistando-se logo após a capela de São Lourenço, junto à aldeia de Budens.

Aí depara-se com os indícios das relações proto-históricas de Budens com Sagres. Ainda que Ptolomeu tenha situado o primitivo Templo de Hércules no Hierón Akrotérion (“Promontório Sagrado”), estou mais em crer que o de Cronos ou Saturno fosse aí, mas não o de Hércules (independentemente do sentido astronómico/astrológico de Via Heraclea dos geógrafos da Antiguidade correspondendo a uma linha recta, obedecendo a um alinhamento solsticial de Verão, ligando este extremo-ocidental da Europa, Sagres, lugar dos cultos de Hércules/Melkart, ao Norte da mesma, sobretudo à Gália, e assim servindo de coluna espinhal da cultura megalítica dos cinetes ou cónios e dos celtas), certamente situado junto a Budens, como narra o Domingo Illustrado de 1908:

“O terramoto de 1755 actuou fortemente nesta freguesia. O ribeirinho de água doce que aqui desagua no mar, foi fio condutor da invasão oceânica, irrompendo até três quilómetros terra adentro, elevando-se em muralhas de doze metros de altura.

“Quando as águas recolheram deu-se outro caso que deixou pasmada toda a gente. Na praia, onde de memória de novos e velhos só existira areia e água, apareceram edifícios mui notavelmente grandes e magnificentes, e muralhas de espessura rara. A Este via-se a descoberto uma calçada larga, ladeada de paredes de cantaria, muito rijas, com portas gradeadas de ferro. Outra porta também lá estava, maior que as demais, e parecendo entrada do templo. Rente ao chão uma cisterna, e farta quantidade de alicerces pelo lado do mar, e paredes, restos de edifícios desabados, pintados de cores vivas, em bom estado. Voltada ao oceano havia uma entrada para o recinto, formando em arco, de cantaria, ornada de colunas elegantemente talhadas em mármore.

“O edifício ali é dividido em pequenas peças, e o solo apresenta lindo mosaico matizado a capricho, com letras de alfabeto desconhecido.

“Há todas as probabilidades de ser este edifício o famigerado templo de Hércules, que Ptolomeu diz ser construído sobre a praia, no Cabo. A praia desapareceu por efeito do perpétuo labor geológico. Em 1715 deu-se ali uma erupção marítima, e surgiu das águas um cais de excelente cantaria, no qual havia duas argolas. Ficava junto do mencionado edifício. Pouco a pouco o mar tornou a ocultar aquele vetusto monumento de épocas famosas.”

A descrição sugere-me a aparição de uma cidade atlante, descoberta e recoberta pelas fúrias oceânicas. Se a notícia merece ou não credibilidade, é assunto contestável por se saber “cada cabeça, sua sentença”. Mas o incontestável é existir em Budens as ruínas de um castelo romano, cujos caboucos parecem recuar à Idade do Bronze, data da necrópole situada junto a ele[14].

Ruínas de villa romana junto à Boca do Rio, Budens

É a partir dessa localidade e até dentro do Promontório Sagrado que se distende um filão telúrico marcado por menires, boa parte deles com caracteres e símbolos ogâmicos dos primitivos cúneos ou cónios do Sul. Sacraliza-se assim a Estrada do “Fim do Mundo” ( expressiva da Via Heraclea), como era conhecida na Idade Média e ainda hoje, levando ao Finis Terrae, lugar de comunicação com o Além, com o outro Mundo, o Mundo Jina. Relacionado com isso tem-se entre Lagos e Budens a povoação Barão de S. Miguel, topónimo lembrando-me os “Barões Assinalados” de Camões que nada mais eram senão os misteriosos Confrades de Mariz.

Após Budens chega-se ao lugar da Raposeira, onde se situava a Vila ou Quinta de Guadalupe, propriedade do Infante de Sagres, a qual se distendia até Vila do Bispo. Ainda se encontra aí a “Casa do Infante”, edifício soerguido sobre o primitivo e que dá a impressão de constituir a letra-mãe hebraica Mem, sobrando os muros adjacentes e o poço originais, além de um lindo lintel quinhentista, com sóis esculpidos, que encimava a porta do primeiro andar da residência original. Esse lintel desapareceu e não sei do seu paradeiro até hoje, lamento que trago por na ocasião eu próprio não ter recolhido a peça e a trazido para Lisboa, destinando-a a fim museológico. Nessa ocasião, serviu-me de guia o falecido sr. Romão da Raposeira, freguês local, que me conduziu aí e igualmente à ermida do Infante, a capela da Virgem de Guadalupe, alter-ego da Quinta.

Casa do Infante Henrique de Sagres e lintel original, na primitiva Quinta da Guadalupe, Raposeira

Vim a confirmar ser Virgem Negra o Orago da Vila do Infante de Sagres, recuando o seu culto possivelmente a 1189, altura em que D. Sancho I apoiado pela Ordem do Templo, realizou uma expedição ao Algarve apoderando-se de Silves, Alvor, Lagos e Tarsanabal, esta o cartaginês “Porto de Aníbal” de que fala o cronista Fernão Lopes (século XVI), identificando-o ao lugar de Sagres, “porto” esse que considero estivesse antes em Budens. Com D. Sancho I teriam ido para aí os Templários (cuja presença é testemunhada em pedras tumulares suas depositadas nos Museus de Lagos e de Vila do Bispo), aos quais se deve edificação, no primeiro quartel do século XIII, da capela romano-gótica de Nossa Senhora de Guadalupe, ainda que o Orago primitiva tivesse sido, como atestam vários indícios no interior do próprio templo e algumas citações de crónicas de época, Santa Catarina. Isto na Raposeira, distada sete quilómetros do Promontório e à beira Estrada do “Fim do Mundo”, constituindo hoje o exemplar mais completo da arquitectura Templária/Ordem de Cristo no Algarve[15].

Capela de Nossa Senhora de Guadalupe, Raposeira, e estelas funerárias templárias, Vila do Bispo

Nesse templo, vulgarmente conhecido por “Ermida do Infante Henrique de Sagres”, fez-se culto à Virgem Negra, Orago local decerto levado para aí pela Ordem do Templo. O seu culto prosseguiu no reinado de D. Dinis sob a direcção da Ordem de Cristo (sucessora directa daquela), e terá sido durante o reinado de D. Afonso IV, a partir da vitória na batalha do Salado, onde portugueses e castelhanos batalharam juntos como cruzados, que o culto da Virgem Negra foi associado a Guadalupe, já então pomo de grande devoção no reino vizinho e que adentraria a nossa fronteira pelo Sul[16]. Na época do Infante D. Henrique, o templo terá sofrido restauros e alterações e o culto da Virgem de Guadalupe, talvez por intercessão do seu tio D. Afonso V, o “Africano”, assumido devoção e fama maior do que nunca, decerto por ingerência da Ordem de Cristo cuja cruz orna o edifício, devoção essa que ainda se mantém mesmo sem o vigor de outrora, onde era costume levar-se os animais até à porta do templo para serem benzidos, o que também remete para um tipo de culto bodivo do qual, acaso, o boi gravado num dos seus capitéis a isso se refira, com todo o simbolismo tradicional que carrega.

Essa Virgem Negra, pequena imagem pétrea colorida romano-gótica sentada num trono em majestade, com um báculo (desaparecido) na destra e o Menino à esquerda no regaço, é, como disse, a Guapa-Lupe, a “Bela da Lua”, neste caso, a “Bela Senhora da Noite” como sinal de “Guardiã dos Mistérios”, cuja iconografia expressa a Shekinah ou “Presença Real da Divindade” na Terra, em seu seio mesmo. É ainda a ressurgência da primitiva Lusina, tal qual acontece em Budens com S. Lourenço, versão cristã do deus solar dos ligures e celtas, Lug, cujo sentido Luz enquadra-se no topónimo com esse nome de aldeia próxima.

Imagem original de Nossa Senhora de Guadalupe, depositada no Museu Paroquial de Vila do Bispo

Ainda assim, vários autores dão uma origem hídrica ao etimólogo Guadalupe, o qual viria de Água de Lupe[17] ou Augua de Lupe[18], tendo sofrido a evolução seguinte: Água de LuceÁgua de LupeAgualupeGuadalupe[19]. Esta interpretação não estará incorrecta se, uma vez mais, identificar-se Luce a Luzia ou Lusina, e as “águas doces” às nutrientes da Mãe Divina, representada na Lua faceira ou a mesma Lupe, mantendo a vida do Género Humano e a dos demais seres.

O interior do templo apresenta nos capitéis e nos medalhões ornando as nervuras da abóbada algumas figuras e símbolos de forte sabor hermético. Por exemplo, num capitel vê-se um rosto humano ao lado de uma cabeça de touro, o que torna o conjunto, como já disse, uma alusão óbvia ao taurobólio ou “conquista da Divindade pelo Homem”. Noutro, observam-se duas sereias machos com rostos humanos, que na Via Húmida da Alquimia é referência simbólica à “Pedra Filosofal” que se extrai da natureza liquefactia da Mãe Terra por acto atlante ou de gigante em pensamento e acção, portanto, disposição de Génio ou Jina. Noutro ainda, duas folhas de carvalho cruzadas, losangulares com a Cruz Templária ao centro. Carvalho e Cruz indicam exactamente o “Templo de Eleição”. Este último significado é reforçado pelas ilustrações dispersas pelos restantes capitéis e medalhões com motivos vegetais profusos, os quais para S. João da Cruz possuíam o significado de “imagem da perfeição espiritual” e de “retorno ao estado edénico”, indicado precisamente por Guadalupe, a Guardiã dos Mistérios da Terra Santa, aqui, Sagres, o Lugar Sagrado. A peça mais antiga dentro desta ermida, possivelmente recuando aos Templários, é a pia de água benta. Vê-se nela o ondulado ornado pela cruz e uma esfera lateral: o conjunto designa as “Águas da Salvação” (Acqua de Luce) preanunciadas pela Stella Maris, onomástico cristão dessa outra Stella: a Soberana Ordem de Mariz, a qual, direi em enigma para cerrar ainda mais o mistério, é a Tebaida dos 111 Makaras e 777 Assuras Lusos sobre a égide do Quinto Luzeiro que o Céu tem na Terra plantado.

Da Raposeira e após passar Vila do Bispo (sendo este D. Fernando Coutinho, que a fundaria em 1515), adentra-se de imediato o Promontório Sagrado ou Sacro, pois estar em Sagres é contemplar uma das páginas mais enigmáticas da Portugalidade, é defrontar o mistério, a esfinge oceânica que o Infante D. Henrique venceu.

Promontório de Sagres

É constantemente localizado na rota do Paraíso Terreal ou “Terra sem Mal”, a ponto de, no romance místico Viagem de São Brandão, de Sagres, outrora consagrado a Cronos, terem partido as naus em busca da Ilha dos Santos ou de São Brandão, a Ilha Encoberta (Illia Occultam). É também por este primitivo istmo que se chega a Abraxa ou a Ilha da Utopia, aonde o português Rafael Hitlodeu conduziu Thomas Morus[20]. Por seu lado, Avieno, poeta do século IV d. C., na Ora Marítima refere-se a um santuário de Saturno localizado na ponta de Sagres, e Frei Bernardo de Brito, na Monarquia Lusitana, dá Tubal, rei da Ibéria, neto de Noé e filho de Seth, como sepultado neste extremo da Península (o facto é que no Promontório existem sepulturas que dato desde o Paleolítico Superior à Idade do Ferro, e de uma cheguei a retirar fragmentos de ossadas humanas e de cerâmica). Os primeiros gregos também estabeleceram nas proximidades daqui um culto ao Hércules primitivo, Thasios, deus ctónico e agrário, ligado ao outro culto de Deméter, sendo que junto ao Cabo de São Vicente foi achada uma estatueta em bronze representando um touro, este o animal da Deusa-Mãe assinalada em Deméter[21].

Aqui se celebraram os divinos mistérios da noite iluminada pelo atear do Fogo Sagrado, portanto, Fogo Nocturno, o que se liga ao culto do “Sol da Meia-Noite”, logo, às Saturnais: os fenícios a Cronos, os gregos a Thasios, os celtas a Lug, os celtiberos a Tubal-Endobelus, os árabes a Kadir e os cristãos a Vicente, este como derradeira versão dos deuses do panteão antigo da Ibéria, todos assinalando veladamente Lúcifer, o “Anjo da Luz” como Luzbel que, rezam as tradições sagradas, ao ser desterrado do Céu ficou agrilhoado no seio da Terra.

Para Estrabão, na sua Geografia, este é “o ponto mais ocidental, não só da Europa mas também de toda a Ecúmena”. Era o lugar onde os deuses se reuniam à noite, onde a presença do vulgo humano era interdita, segundo o mesmo autor. Aí havia um templo, inacessível por terra e por mar e onde os sacerdotes eram semideuses… e no mesmo sentido sacral, milénios depois, seria neste Promontório que se fundaria espiritualmente a Comunidade Teúrgica Portuguesa, na noite de São João Baptista de 1978.

Frei Bernardo de Brito retomou no século XVII essa tradição e escreveu na Monarquia Lusitana: “E tal foi o amor que lhe tiveram (os antigos), que nunca se perdeu a memória de sua sepultura (a de Tubal), antes a visitavam e veneravam, como coisa santa; e introduzindo-se depois a idolatria e superstição gentílica… que tanto era noite ninguém se atrevia mais a passar por junto dela, dizendo que andavam os deuses naquele lugar”. A este testemunho se juntou o de J. Leite de Vasconcelos[22], que propositadamente visitou o lugar em 1894; e todos eles vieram ainda a confirmar que sendo o Promontório, desde o Passado mais remoto, eleito a ser uma abertura, passagem sobre o Inferno, assim também consagrado aos deuses e heróis que na sua vida desceram a essa Infera, Inferior ou Interior lugar, como Hércules e Dióniso, e ao culto necrolático dos antepassados, com a sacralização ritual das pedras e a firmação da afirmativa de espíritos encantados.

As referências a ter havido aí um “templo inacessível frequentado por semideuses”, levam-me a interpretação teosófica, pois parecem-me, sobretudo, alusões a um templo subterrâneo de origem atlante ou terciária, tanto mais que Mário Roso de Luna considerava este Promontório como a primitiva estrada que ligava a Poseidónis, capital da Atlântida[23]. A verdade é que a tese de Estrabão escrita em 29 a. C. era perfilhada por Éforo, geógrafo grego do século IV a. C., tendo posteriormente, durante a Época Romana, Plínio o Velho, Pompónio Mela e Ptolomeu designado este lugar por Promontorium Sacrum ou Sacrum Promontorium.

Não poderá ser fantasia vã, delírio febril de mente afectada, tipo «new age» folclorista desprovida de fundamentos iniciáticos e académicos, afirmar que os Templários e os Freires de Cristo sabiam da existência de um Reino Subterrâneo. Sabiam e professavam a tese! Por exemplo, no texto em itálico Nova Instrucçam Filosofica, da autoria de Frei Francisco de Vasconcelos, professo na Ordem Militar de São Bento de Avis, Mestre em Artes e Doutor na Sagrada Teologia no ano de 1761, diz na Instrucçam VI[24]:

“Em que se dá notícia dos hydrofilacios ou receptaculos de agoa, que residem nas entranhas da terra, a que o mar se cômunica por diferentes portas e aberturas, que para esse fim lhe franqueou a natureza.

“[…] Ainda dizem mais alguns filósofos: e é que não só se precipita o mar a estes caudalosos abysmos, senão que também se cômunica circularmente pelo corpo da terra, imitando a circulação contínua que o sangue faz pelas veias de qualquer corpo, que se anima com alma sensitiva; em tal forma, que baixam às entranhas da terra por muitas partes as agoas marítimas por ter o solo do mar para esse fim diferentes portas: singularmente se despenham por uma porta mui dilatada que os Geógrafos tem descuberto debaixo do polo Ártico: dividindo-se logo em vários ramos, que são as veias, e ocultos condutos, por onde se vão comunicando, sucessivamente repartindo por todo o globo terráqueo; e tornando-se depois a unir saem também continuando o seu curso por outra dilatada porta, que há debaixo do polo Antártico: novamente se espalham pelo líquido elemento e depois de formarem varias correntes tornam outra vez a baixar pelo polo Ártico […] estabeleceram os Authores todo este discurso na maravilhosa relação que fizera o que por arte diabólica fora levado a registrar ambos os polos da terra, porque dizem, que confessara tinha visto a franqueza das portas, por onde estão entrando e saindo continuamente as agoas marítimas, sendo assim que bastava para comprovar à circulação destas agoas não poderem chegar os navios, nem ainda aproximarem-se aos polos sem evidente perigo de padecerem o naufrágio: argumento e manifesto indício de precipitar-se o mar por um, e sair por outro polo […].”

Esse conceito de Frei Francisco de Vasconcelos de maneira alguma é singular, visto ser a continuação daquele expedido já em 1665 pelo padre jesuíta Atanasius Kircher, no seu tratado Mundus Subterraneus (editado em 1682 em Amesterdão), ambos dando vazão à tradição mediterrânea das Cryptas Ferratas, criptas cerradas ou secretas, iguais às hindustânicas Gupta-Lokas, de significado igual, espaços privilegiados, destinados a cerimónias de cariz iniciático secreto, disseminados por vários lugares subterrâneos da mesma bacia mediterrânea. O próprio Francisco de Holanda, pintor português do século XVI, pintou a Terra no 1.º Dia da Criação com uma abertura no Pólo Norte. Será tudo isso acaso, ou será a continuação e testemunho de antiga tradição, geralmente passada de “boca a ouvido”, ou seja, por comunicação oral, e grafada, esculpida ou pintada nessa forma que o símbolo esconde? A verdade é que o Promontório é oco por dentro e as profundezas da vizinha Gruta/Lapa do Monte Francês (que vivi directamente) comunicam com ele.

Gruta/Lapa do Monte Francês, Sagres

Com tudo isso, ainda, identifica-se plenamente a bem pouco conhecida Lenda de Sagres, recolhida oralmente junto dos locais pelo meu caríssimo amigo Adolfo Cavaco, a qual me limitei a apurar linguística e ortograficamente:

“LENDA DE SAGRES – Promontório cuja terra sagrada é fustigada pelo vento, por ordem dos deuses, atemorizando os homens. Diz o povo simples e o esclarecido que, outrora, aí se reuniam os deuses para decidir do destino do Mundo. Quando a invernia sossegava, aí todo o ser vivente se aquietava e curava. O tempo passou e tudo mudou… mas várias coisas notáveis ficaram assinaladas. Como essa de um homem que por ali passando encontrou um Ser divino, que lhe disse que os deuses novamente voltariam quando, como ele, a Humanidade tivesse todos os Génios de novo reunidos em si, o que iria ser a origem de um Novo Povo.

“Que esse homem e esse Povo receberiam o Ceptro, nesta Nação pequena mas grande dos confins do Ocidente, mas que não mandariam no Mundo nem por ele seriam mandados.”

A origem dessa lenda estará no Apocalipse do Pseudo-Metódio (bispo greco-bizantino), obra escrita em língua siríaca no final do século VII d. C. que era afamada entre bizantinos, árabes e moçárabes (a caneça do Cabo de São Vicente era das mais ilustradas e famosas do Gharb islâmico), cujas profecias dão-nas como do “Imperador dos Últimos Dias”[25], chegando até a ser associado – por via das Profecias de Santo Isidoro – a D. Afonso V que andou por estas bandas e chegou a ser apodado em Castela de “Rei Encoberto”.

Do período Celta ainda se avista em pleno Promontório restos de um templo circular, adaptado a aparelho de artilharia no século XVI, e antes das muralhas da fortaleza mas já sobre o Promontório acima da praia da Mareta, ergue-se um conjunto de pequenos marcos pétreos dispostos em círculo. Em resumo, os indícios ainda existentes apontam ter existido culto ctónico/necrolático em todo este espaço promontórico, cujo “composto” sinergético seria a fonte de toda a magia sagrada aqui levada a efeito pelos sacerdotes das diversas religiões que, ciclicamente, transitaram por este verdadeiro cóccix ou sacro de Portugal.

Com a ocupação árabe do sítio, no século VIII, deu-se ao Promontório o nome de Chak Rak (sonância fazendo lembrar aquela outra palavra sânscrita, Chakra), “Ilha dos Rochedos”, posteriormente mudado para Çacron, “Pedra de Fogo”, topónimo originado no latino Sacrum, “Sagrado”, donde se deu a corruptela Sagres, mesmo assim associado a Segrel, ou seja, o Trovador que na corte henriquina da Guadalupe decerto terá encontrado pouso seguro para as suas composições remuneradas.

No período árabe já aí viviam cristãos, junto ao Cabo de São Vicente, na “Caneça da Península” – Kaniçat al-Ghurab – cujo culto era celebrado na “Igreja do Corvo” (Elkenicietal Corabh), como referem os historiadores árabes do século XII, Muhammad al-Idrisi e Abu Hamid al-Andalusi. O cronista Ahmad al-Razi, que viveu no século X, é fonte para a História Geral de Espanha de 1344 no tocante ao culto moçárabe feito às relíquias de São Vicente na igreja do Corvo, desde o ano 779, reinando Abdrramã I, culto esse que seria o pólo de transição, no sudoeste da Península, do Islamismo para o Cristianismo.

O culto Vicentino atrairia para o lugar deste Promontório Sacro tantos os místicos e eruditos do Islão como os da Cristandade, inclusive judeus, chamados no conjunto de ah al-dimmah, o “povo da dimmah, o contrato ou unidade”, desde toda a Estremadura, Algarve e Andaluzia, constituindo assim um importante pólo de aglutinação da espiritualidade no sudoeste da Península Ibérica, precisamente na mesma época (século IX) em que na Galiza o Cristianismo Latino criava ex nihilo e crescia o culto a Santiago de Compostela, atraindo grande quantidade de peregrinos. A peregrinação jacobeia terá mesmo descido a Sagres, em visita ao lugar do santo mártir diácono de Saragoça e Valência (mesmo depois dos seus restos mortais já terem sido trasladados para a Sé Catedral de Lisboa…), e de Sagres, por sua vez, a peregrinação terá subido a Compostela e à Corunha, até junto da “Senhora da Barca”, ao pé do “Mar dos Mortos”, o Finis Terrae do Norte. Memória disso ficaria aqui, no Sul, o Caminho Santo junto à aldeia de Touro, e o onomástico Monte Francês no qual, como já disse, se abre profunda caverna cuja entrada fiz pela sua chaminé indo adentrar o mundo subterrâneo sagrense. Outra gruta natural a que desci, situa-se em pleno promontório e explana-se pela ocacidade deste.

Entrada da Gruta/Lapa do Monte Francês

Em 4 de Outubro de 1434, D. Duarte, após solicitação ao Papa Eugénio IV, concedeu aos Franciscanos a licença de fundação dum hospital, destinado a albergar peregrinos enfermos, junto ao Cabo de São Vicente, assim prosseguindo eles neste Concelho algarvio a obra espiritual iniciada pelos Templários, já que os continuadores destes, os Freires de Cristo, estavam então completamente absortos no missionário da expansão marítima, pelo que se recorreu aos Franciscanos, talvez Beguinos mas decerto não deixando de ser patrísticos e patrológicos. No início do século XVI, o Bispo de Silves, D. Fernando Coutinho, mandou fazer um convento no Cabo de São Vicente destinado aos frades Jerónimos, mas estes só estiveram lá até 1516, sendo substituídos em 1519 por religiosos Franciscanos de Santa Maria da Piedade, vindos de Lagos.

Já antes, o Infante D. Henrique mandara levantar no Promontório Sagrado uma igreja consagrada a Santa Maria, sob a evocação da Stella Maris. De facto, em 14 de Outubro de 1459 o Papa Pio II, através da bula Ex iniuncto nobis, elevou, a pedido do Infante, a paroquial esse templo pertença da Ordem de Cristo. Em 1516 seria elevada a matriz, sob a evocação de Nossa Senhora da Graça, afinal, a Padroeira de São Bernardo de Claraval (Notre Dame de Toutes Graces) e a quem se associa a Candelária, festividade litúrgica que fora caríssima aos Templários.

Do tempo do Infante há ainda no interior desse templo o frontal de azulejos do altar (restaurado ou substituído por outro igual no século XVII), onde se vê ao centro a vide e a espiga entrelaçadas (alusão à Sagrada Eucaristia conforme o Rito de Melki-Tsedek), e nos lados pavões em cima de roseiras floridas de branco (referência ao compost stella da Grande Obra Hermética que está sob o Orago da Mãe Divina, pois que a Alquimia e os seus tratados escritos ou só ilustrados também são chamados de Roseiral Mariano e Roseiras dos Filósofos). Da mesma época tem-se a imagem de Santa Catarina, o baptistério (em formato de taça), a pia de água benta (em formato de mama, de seio feminino) e uma curiosa “fonte santa” na sacristia: apresenta no frontal um quadrado sob um triângulo e dentro deste um M com um coração ao centro. Designa o quaternário da Matéria sobreposto pelo ternário do Espírito, representado pelo Coração de Maria (Cordo Maris), símbolo matrístico do Santo Graal tanto para os Templários como para os Franciscanos, estes os “Ligures” da Cristandade. Tenho ainda a acrescentar que o altar original constituía-se de sete patamares os quais, decerto, representavam os Sete Céus ou Planos de Evolução Universal por que se reparte a Vida e a Consciência.

A “fonte santa” na sacristia da igreja paroquial de Sagres

No exterior tem-se um dos monumentos mais enigmáticos de Sagres, constituído por uma forma geométrica com raios desenhados por fiadas de pedras toscas e desiguais, sendo vulgarmente designado por “rosa dos ventos”. Do centro dessa configuração, com um diâmetro de 43 metros, divergem 48 raios em linhas rectas partindo do centro (valendo por 49) que, assim, fazem ruir a hipótese de “rosa dos ventos”, pois não se conhecem disposições desta natureza com mais de 32 rumos. O argumento mais verosímil é dado pelo professor Luís de Albuquerque[26], quando diz tratar-se de “um quadrante de gnómon vertical, de que essa enigmática figura foi, afinal, o quadrado horizontal”. Ora, o gnómon do relógio solar, como se vê na torre de vigia da muralha por cima desse “quadrado horizontal”, estava direccionado a Cabo Verde e a Porto Seguro, no Brasil, portanto, ao Extremo Ocidente do Globo, para onde o Infante D. Henrique dirigiu a sua atenção na demanda da “Terra da Ventura”, que ele bem sabia existir por conhecimentos herdados pelos Templários dos navegadores antigos, árabes e fenícios, e o qual gnómon marcava originalmente a direcção sudoeste.

Disposição matemática do “quadrado horizontal” de Sagres

Havendo em tudo isso matemática astral marcada pela posição dos astros, lembro uma vez mais o nome árabe do Promontório: Chak Rak, como disse foneticamente semelhante ao sânscrito Chakra, aqui o Sacro na base espinhal do Homem e do País como Cruz Flogística ou “quadrante solar” (⊕), decerto bem manobrado por aquela que fez (e quiçá ainda o faça, mesmo cerrada para o século ou ciclo) de Sagres o Santuário do Infante e dos Deuses: a Soberana Ordem de Mariz (cujo nome está impresso numa tela seiscentista exposta na igreja de Santa Maria de Lagos), dizendo a Tradição Iniciática ser constituído de 111 Adeptos Independentes como viáculos representativos do Sol Espiritual, Oculto ou Saturnino (o que está declinado ou ocultado, Dayr, em árabe), portanto. Sendo Sagres o Centro Sacro ou Chakra Raiz de Portugal, como organismo vivo e dinâmico, corresponde-lhe a terceira letra-mãe hebraica, Shin, e aí se concentram as energias flogísticas de Kundalini ou do “Laboratório do Espírito Santo”, bem assinalado no simbolismo da Virgem Negra da devoção do Infante de Sagres, na Guadalupe/Raposeira.

“Laboratório de Kundalini ou do Espírito Santo”, o cóccix da coluna dorsal da Lusitânia (curiosamente, a imagem aérea geral do Promontório assemelha-o a um falo ou a uma flor-de-lis), acaso será essa a verdadeira e espiritual Vila do Infante, Tarsanabal ou Sagres, que a crónica de Zurara diz ter sido fundada no século XV, acrescentando a História não saber onde a situar… por não haver a mínima pista que positivamente a localize em Sagres ou no Cabo de São Vicente. Quanto muito, em Quatrocentos, a verdadeira e temporal Vila do Infante estaria entre a Raposeira e a Vila do Bispo, mas em Sagres, então reduzida a escassos e esparsos casebres de pescadores, nunca! Mesmo que fosse para melhor e mais eficaz exercício da lei do sigilo, referente aos segredos de navegação cujo monopólio universal era exclusivo da Escola Náutica do Infante, ainda assim faltam aqui as provas que abundam em Lagos, talvez sendo a maior a necessidade de sustentar uma Escola com tanta e diversa gente, boa parte habituada aos luxos próprios da vida palaciana, que Sagres de maneira alguma poderia dar: só peixe para comer, água salobra para beber, casebres desabrigando dos ventos rijos, enseada desabrigada à mercê das correntes fortes dos oceanos mediterrâneo e atlântico que aí se cruzam, tempestades varrendo para terra naus atracadas e em terra destruindo um e qualquer hipotético estaleiro. Nada, mesmo nada Sagres tinha, enfim, para manter a sobrevivência e a dinâmica de Escola… excepto a observação astronómica. Mas a Escola não se fez só de observações dos astros…

Com tudo o dito, devo agora recapitular em desfecho final: o Infante D. Henrique tinha a sua Confraria Espiritual em Sagres e a Escola de Navegação em Lagos[27], tendo residido a meio caminho entre ambas. Essa Academia de Navegantes congregou os maiores especialistas que iriam inaugurar uma era de Renascença, em termos de avanços tecnológicos e culturais para o mundo de então. Por Sagres[28], através da figura imponente do Infante, o país projectou-se  no mundo em diáspora, a Gesta Dei Per Portucalensis, sobretudo de civilização, cultura e concórdia, a qual faz-se sentir ainda hoje onde quer que a presença de Portugal seja reclamada.

 

NOTAS

 

[1] Gomes Eanes Zurara, Crónica dos Feitos da Guiné (1452-1453), segundo o manuscrito da Biblioteca Nacional de Paris. Reimpresso em dois volumes pela Editora Civilização, Porto, 1973.

[2] Peter Russel, Henrique o Navegador. Livros Horizonte, Lisboa, 2004.

[3] Gomes Eanes de Zurara. Filho de um cónego, nasceu entre 1410 e 1420 e faleceu em 1473 ou 1474. Educado na Casa do rei D. João I, ascendeu depois aos cargos de guarda-mor das escrituras da Torre do Tombo e cronista real, no que sucedeu a Fernão Lopes. Escreveu a Crónica da Cidade de Ceuta, ou 3.ª parte da Crónica de D. João I (edição posterior de F. M. Esteves Pereira, Coimbra, 1915), a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, a Crónica de D. Duarte de Meneses (ambos os tomos na edição única dos Ineditos de Historia Portugueza, 1792-93) e a Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné (edição posterior de A. Dias Dinis, Lisboa, 1949). Muito apoucado pela generosidade dos autores modernos no confronto com Fernão Lopes, Zurara tem, no entanto, um enorme mérito como cronista se o situar no seu tempo e o equiparar aos congéneres estrangeiros. As suas crónicas mantêm uma metodologia sólida e a capacidade de captar situações e sentimentos colectivos. As duas crónicas dos Meneses, interessantíssimas como fontes, aguardam o historiador que delas se ocupe e lhes dê edição moderna e crítica.

[4] O nome Ínsula Brasil já era conhecido de há muito, por certo graças à herança documental e cartográfica dos antigos navegadores fenícios e árabes que a Marinha Templária possuiria e depois a Escola Náutica de Sagres ligada à Ordem de Cristo através do Infante D. Henrique, seu Administrador Geral. Com efeito, os cartógrafos medievais destacam nas suas cartas náuticas o nome da terra Brasil, como é o caso da Carta de Pizigano, de 1367, do Atla de Andrea Bianco, de 1436, ou da Carta de Bartolomeu Pareto, 1455. Por seu turno, aquando da viagem à Índia do almirante Vasco da Gama, em 1498, ele navegou para Ocidente e ancorou defronte a terra firme e larga, que os historiadores consideram hoje ter sido o Brasil, antes de retomar a marcha para Oriente. Já antes, em 1487 e 1488, Pedro Vaz da Cunha, o “Bizagudo”, e João Fernandes de Andrade navegaram do Golfo da Guiné para o Brasil. Duarte Pacheco Pereira, autor do famoso Esmeraldo de Situ Orbis, também para aí se dirigiu várias vezes antes de Pedro Álvares Cabral em 1500, data oficial da sua Descoberta (vd. a minha História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae), Madras Editora, S. Paulo, 2004). Antes de todos esses e segundo Assis Cintra baseado nos escritos do jesuíta Manuel Fialho, o capitão de mar Sancho Brandão, que pertencera à Marinha de Guerra da Ordem do Templo e terá se transferido para a de Cristo, teria chegado numa expedição de reconhecimento à “Ilha perdida do Mar do Ocidente”, mais além das Canárias e apontada como o Brasil, notícia comunicada por D. Afonso IV de Portugal ao Papa Clemente VI em 12 de Fevereiro de 1343 (St. Brendan´s Search for Paradise, in A brief history of the European Mith of de Garden. Press American Studies and the University of Virginia, 2001). Muito possivelmente já nos anteriores séculos XII e XIII haveriam navegações de longo no Mar Ocidental à Ínsula Brasil, pois esse nome era muito comum nas falas lisboetas do século XIII por aplicado para designar os carvoeiros da cidade como os “brasis”, certamente alcunha comparativa entre esses que manuseiam o carvão e o estado sujo, lastimoso em que regressavam à terra aqueles marinheiros de mar alto que a História traz esquecidos.

[5] A. Moreira de Sá, O Infante D. Henrique e a Universidade. Comissão Executiva das Comemorações do Quinto Centenário da Morte do Infante D. Henrique, Lisboa, 1960.

[6] Foi grande a devoção do Infante ao Espírito Santo e chegou mesmo a atribuir-lhe os Descobrimentos marítimos, ligando implicitamente o Culto do Divino Espírito Santo à Expansão que presidira ou realizara. Terá mesmo encomendado aos capelães, pagos pela Ordem de Cristo, das igrejas do Cabo de São Vicente, de St.ª Catarina da Raposeira, do Restelo e de além-mar, “que lhes praza cada semana ao sábado para sempre em minha vida e depois da minha morte, dizer uma missa de Santa Maria e a comemoração seja do Espírito Santo…” – in João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, tomo I, pp. 576-594. Instituto para a Alta Cultura, Lisboa, 1944.

[7] Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses – II, p. 317. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa. Vd. também o Leal Conselheiro, de D. Duarte. Edição de Joseph Piel, Paris, 1882.

[8] Cf. Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

[9] José E. Horta Correia, A Arquitectura Religiosa do Algarve de 1520 a 1600. Publicações Ciência e Vida, Lda., Lisboa, 1987.

[10] Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora, Ltda., São Paulo, 2003.

[11] Henrique José de Souza, Salmos de Davi – Interpretados por JHS. Ed. Sociedade Brasileira de Eubiose, São Lourenço, 1999.

[12] Manuel J. Gandra, O Neotemplarismo, p. 197. In Cadernos da Tradição – O Templo e a Ordem Templária de Portugal, Ano I, N.º 1, Solstício de Verão de 2000, Lisboa – Mafra.

[13] Alexandre Ferreira, História das Ordens Militares que houve no Reyno de Portugal, Academia Real da História, Lisboa, 1735.

[14] José Manuel Garcia, Sagres. Câmara Municipal de Vila do Bispo, 1.ª edição – Julho de 1990.

[15] Silva Lopes, na Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Lisboa, Academia das Ciências, 1841, pp. 218-219, diz sobre este sítio vizinho de Sagres: “Raposeira, aldeia pequena e pobre, da qual só 13 casas ficaram em pé, e essas arruinadas pelo terramoto, tendo então 90 fogos. […] Entre esta aldeia e a Figueira, pouco distante na estrada a N., está a igreja de N.ª Sr.ª de Guadalupe, mui antiga e que se diz foi dos Templários, a qual nada sofreu no terramoto”. E Augusto Soares d´Azevedo Barbosa de Pinho Leal, em Portugal Antigo e Moderno, vol. I, Lisboa, Livraria Editora de Mattos Moreira e C.ª, 1873, p. 51, diz: “Esta igreja [N.ª Sr.ª de Guadalupe] e umas casas que lhe ficam próximas, nada sofreram com o referido terramoto [1755], o que o povo atribui a milagre da Senhora”. E na nota 12 do mesmo livro, diz ainda Pinho Leal: “Entre a Raposeira e a aldeia da Figueira está a igreja de N.ª Sr.ª de Guadalupe, muito antiga, e que consta ter sido dos Templários”. Por seu turno, Raul Proença no Guia de Portugal, vol. II, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1927, p. 310, reitera os autores anteriores: “A sua construção [da igreja de N.ª Sr.ª de Guadalupe] deve datar do século XII [antes, do século XIII], e já no reinado de D. Dinis se lhe encontram referências; é possivelmente fundação dos Templários”.

[16] Ana Maria de Passos Parente, Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe na Raposeira. Texto inserto na dissertação da autora no Mestrado de História da Arte – Escultura Figurativa na Arquitectura Religiosa do Algarve, na Baixa Idade Média. Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa, 1987.

[17] Monumenta Henricina, vol. VII (1439-1443), p. 104. Coimbra, 1965.

[18] Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné, vol. II, Lisboa, 1949, p. 242: “Dos outros Mouros que filharam em Tider [Tenerife] envyarom Lançarote e os outros capitães, […] e a Santa Marya de augua de Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos”. Repetido por Mário Martins em Peregrinações e Livros de Milagres na Idade Média, Coimbra, 1961, pp. 66-68: “V – Peregrinações a N.ª Sr.ª, no séc. XV […] Pescadores e marinheiros faziam promessas a algum santuário da Mãe de Deus. E assim, escreve Zurara que Gil Eanes, Lançarote e outros capitães, de volta da Ilha de Tider, mandaram um escravo para se vender a Santa Maria de augua de Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos”.

[19] Serafim Cruz, Senhora de Guadalupe: Bosquejo Histórico da Ermida de Águas Santas – Maia, Porto, 1973, p. 25: “Que quer dizer “Guadalupe”? Não tenho qualquer contribuição filológica sobre este interessantíssimo assunto. O nosso povo, por vezes simplificador em assuntos de etimologia, diz “Água de Lupe”. Será “Lupe” a contrafacção de “lúcida”? […] “Lupe” seja a contrafacção de lúcida, límpida, saborosa, pura, água santa, […] Não estou, reafirmo, documentado para essa afirmação positiva. Mas é de admitir esta ginástica vocabular: Água de Luce – Água de Lupe – Agualupe – Guadalupe”.

[20] Thomas Morus, A Utopia. Tradução de Pinharanda Gomes. Guimarães Editores, Lisboa, 1992.

[21] Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada. Lello & Irmão Editores, Porto, 1984.

[22] José Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, vol. II. Lisboa, 1897.

[23] Mário Roso de Luna, De Sevilla al Yucatán (Viaje ocultista através de la Atlântida). Madrid, 1926.

[24] Documento publicado em primeira mão por dito “Anónimo de Sintra” (Olímpio Neves Gonçalves), como Apêndice ao livro A Terra Oca, de Raymond Bernard. Editorial Minerva, Lisboa, 1976.

[25] Paul J. Alexander, The Medieval Legend of the Last Roman Emperor and its Messianic OriginIn Journal of the Warburg and Coustauld Institutes, vol. 41, University of California Press, 1978; Paul J. Alexander, The Byzantine Apocalyptic Tradition. University of California Press, 1985; José van dean Belessar, A profecia apocalíptica do Pseudo-MetódioIn Luso-Brazilian Review, 28, 1991.

[26] Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, direcção de Luís de Albuquerque, coordenação de Francisco Contente Domingues, 2 vols. Lisboa, Círculo de Leitores e Editorial Caminho, 1984.

[27] Pouco importa que a Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres estivesse sedeada na baía de Lagos e que o nome sagrense surja graças à concessão de 1443 do regente D. Pedro a esse seu irmão que lhe pediu essa região para fundar uma vila (Raposeira). Se a Escola Náutica de Sagres veio a ser coberta de halo de mito e mistério, deve-se aos escritos apologéticos de João de Barros (1496-1570), justamente apodado o “Grande” ou o “Tito Lívio Português”, desenvolvidos e, 1625 pelo cronista inglês Samuel Purchas (1575-1626). Um facto é certo: o Infante D. Henrique reuniu na sua Escola ou Academia – não se deverá ignorar a sua faceta de universitário e reformador da Universidade portuguesa – sábios, capitães e gentes de mar de diversas nacionalidades, que ficaram ao abrigo do espiritual e temporal da Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, em troca exigindo-lhes  os compromissos de silêncio e segredo, indispensáveis para que Portugal viesse a ser o exclusivo empório marítimo dos séculos XV-XVI, facto que atraiu invejas e cobiças de outros países que não se coibiram em inventar estorietas onde reclamavam para si, através de acontecimentos fantasiados, a primazia das descobertas marítimas que, acusavam, afinal os portugueses só haviam secundado. Também nisto a Madeira e o Porto Santo, tal como as demais colónias portuguesas nos cinco continentes, não escaparam aos reclamos de alheios tardios, tresandando a política corsa, por via do invento de personagens e nomes fictícios destinados a semear a confusão a favor da instalação de interesses político-económicos, financeiros e militares estrangeiros.

[28] Ante as alterações profundas que se registam hoje no espaço monumental do Promontório de Sagres, que lhe retiram quase toda a sua traça primitiva, obras que foram levadas avante por certos políticos da actualidade que não sabem o que fazem e o que fazem é sem saber, lembro a polémica sobre as obras de remodelação que se pretenderam para Sagres em 1933, as quais não se realizaram, altura em que Fernando Pessoa escreveu no Diário de Notícias de 8 de Julho de 1934 palavras preciosas e bem actuais encabeçadas pelo título:

“DEIXEM SAGRES EM PAZ. Mas se Sagres é, assim, um monumento por si só, para quê a vaidade dos homens, seja a de um ministro ou a de um arquitecto iluminado, pretender erguer outros monumentos que serão sempre extemporâneos, desintegrados, inúteis, por mais intelectuais que sejam os propósitos e os autores?

“Sejamos humildes, na nossa geração, com foram as gerações anteriores, perante a Natureza e a História, para que a imaginação continue a ter em Sagres a sua referência, o seu abstracto. Graal português, não construindo aí mais nada que para nada mais servirá senão para perturbar e diminuir o pouco ou nada que lá existe!”

Arte Real dos Mestres-Canteiros na Matriz de Loures (Templo, Siglas e Marcas) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Jan 21 2019 

Santo Antão é dos porcos,
São José dos carpinteiros,
Santa Luzia dos trolhas,
O Diabo dos pedreiros.

Tradicional

Como muitas igrejas e mosteiros de veneranda antiguidade, também a igreja matriz de Loures, com foro de catedral,  está decorada nas suas paredes exteriores por enigmáticas siglas companheiris geralmente atribuídas a agremiações de Construtores-Livres, estes constituindo a primitiva Maçonaria Operativa que, reunida em guirlandas de ofícios tradicionais, vinha a ser a Arte Real de levantar, pedra sobre pedra e trave sobre trave, Casas consagradas a fins espirituais sobretudo, nisso aplicando a geometria e a arquitectura sagradas, cujos segredos d’Arte, com o finar desses verdadeiros Maçons, com eles desapareceu. Hoje nada existe senão o lúdico saudosista, quase tornado uma paródia das grandezas do passado.

Escasseia em Portugal a bibliografia sobre as siglas ou signos lapidários (marcas de canteiro). Há, todavia, no meio da aridez e desconhecimento do assunto, um livro que é feliz excepção à regra: editado pela Imprensa Nacional, Lisboa, em língua francesa, trata-se daquele «catálogo» sobre siglas da autoria do arquitecto do Rei, Joaquim Possidónio Narciso da Silva, datado de 1868, obra rara depositada na Biblioteca Nacional de Lisboa, com a referência II. G. 6879 A[1]. Nele o autor escreve a dado passo, reconhecendo a complexidade do assunto e cujas palavras iniciais faço minhas:

“Desejando conhecer a fundo a origem da invenção destes sinais (…), não temos a presunção de ter decifrado o enigma, mas simplesmente tentar facilitar o trabalho a alguém mais inteligente e sabedor que consiga resolver esta questão tão problemática até agora.

“O senhor conde de Raczynsky foi o primeiro que em Portugal fez gravar na sua notável obra As Artes em Portugal, três gravuras com algumas siglas copiadas do Castelo de Freixo de Espada à Cinta, de Moncorvo, de Numão, de Lamego e de Beja; ele crê que estas marcas eram escolhidas pelos Construtores-Livres para se reconhecerem; isto porque os trabalhadores que pertenciam a esta Sociedade e que durante a Idade Média percorriam a Europa Central para exercer a sua profissão, construíram os monumentos do estilo ogival.”

E Possidónio da Silva prossegue em toda a extensão de sua obra o querer provar que as siglas lapidárias tinham unicamente a finalidade utilitária da identificação do trabalhador para efeito de pagamento do seu trabalho. Decerto que essa opinião está correcta mas só parcialmente, pois que a maioria desses sinais insculpidos é positivamente identificada como pertencente ao espólio da simbologia mística e hermética que se comprovam nas ilustrações de inúmeros fólios e grimórios medievais, logo, sendo símbolos sagrados, os quais nesses tempos medievos de intensa espiritualidade sobreposta ao imediatismo temporal, característico da mentalidade social “mágica” medieval, por certo nenhum iniciado na Arte Real ninguém pensaria gravá-los só como simples marca utilitária de identificação pessoal para fins salariais, portanto, exclusivamente profanos, muitíssimo menos em edifícios religiosos, já de si assumidos Moradas de Deus que, se fosse só isso, justificaria a premissa da usura contrariando a sua proibição nas Escrituras Sagradas (Levítico 25:17; Mateus 25:13-30; Lucas 19:12-26), e com ela aflorando a ganância e a desconfiança do próximo.

A preciosa obra de Possidónio da Silva viria a ser comentada numa outra que abordou as siglas e marcas lapidárias do Paço de Sintra, da autoria do Conde de Sabugosa[2].

Pessoalmente, tendo a crer que as siglas serviriam como assinatura petroglífica não pessoal mas colectiva da irmandade (de “irmão”), companhia (de “companheiro”). confraria (de “confrade” ou “com frater”, isto é, “entre irmãos”)  ou corporação (de “cooperativa”, “co-operativa”, cooperação operática) assim deixando a sua marca, o seu ex-libris em determinada obra do seu empenho, ao mesmo tempo expressando, em termos velados ou herméticos, na linguagem universal da simbologia, o teor reservado da doutrina perfilhada pela mesma corporação.

Exemplar de marca de canteiro (século XVI) no Mosteiro de Santa Maria de Belém ou dos Jerónimos, Lisboa

Tanto assim será que os signos canteiros não se perfilam num só tipo e sim dispõem-se em quatro classes gerais, conforme estão gravados tanto nos monumentos como nos incunábulos, como sejam:

1) Signos páleo-cristãos;
2) Signos mágico-cabalísticos;
3) Signos astrológicos;
4) Signos numéricos.

A ciência das siglas e marcas lapidárias, quase de certeza inspirada na iconografia judaica constante da Kaballah (que depois influenciaria a Mística do Islão, mormente a Guemetria e Temurah originando a Numerologia que os místicos corânicos têm até hoje como ciência tradicional), também se regista numa sua congénere medieval a que anda associada a Heráldica: a Sigilografia, ou “ciência das matrizes e selos”. Em determinados aspectos essa ciência sigilográfica, englobando a simbologia numismática ou das moedas, estabelece a relação da Magia Branca com a Armaria Medieval, especialmente no que toca aos símbolos, como diz muito bem o Marquês de Abrantes[3].

Esse ideografismo impresso tanto na pedra como no pergaminho, inclusive na madeira, seja em tábua ou em retábulo, atraiu a atenção do finado André Jean Paraschi (1946-1997) que, num livrinho de proporção modesta[4], publicou alguns símbolos e siglas retirados de “uns quarenta pergaminhos referentes à Ordem do Templo e umas quatro centenas redigidos durante a existência da Ordem de Cristo, fazendo parte da colecção especial do Arquivo Nacional da Torre do Tombo”.

Exemplares de moedas cunhadas pela Ordem do Templo (século XIII)

Como disse, na Idade Média viu-se o surgimento dos Monges-Construtores, apadrinhados e protegidos pelos Templários (e posteriormente pelos Freires de Cristo, mas então sob a forma de Mestres-Canteiros), muitos deles usando os hábitos ora beneditino ou cisterciense, a maioria, ora franciscano ou carmelitano, a minoria. Com efeito, dos Monges-Construtores, desaparecidos nos finais do século XIV, saíram os Mestres-Canteiros, aparecidos nos inícios do século XV, em pleno vigor e sempre ligados a confrarias locais, como aconteceu em Loures, que tiveram existência activa, com mais ou menos intensidade, praticamente até 28-30 de Maio de 1834, data que o Ministro da Justiça Joaquim António de Aguiar, maçom antieclesiástico com o justo apodo de “mata-frades”, liberalmente extinguiu as ordens religiosas em Portugal, tendo então a rainha D. Maria II transformado as ordens militares de Cristo, de Avis e de Santiago em simples titulares honoríficas, de mérito e laicas, no seguimento das reformas impostas às mesmas pela rainha D. Maria I, em carta de lei de 19 de Junho de 1789. Tudo isso consumou o desaparecimento definitivo dos reais segredos d´Arte.

Ora, a catedral de Santa Maria de Loures, pretendida cabeça do 28.º Mestrado do Templo, depois transferida a Bailio da Ordem de Cristo[5], recebeu importantes obras de restauro e ampliação desde 1695 a 1781, cujas receitas foram obtidas dos dízimos da Comenda de Cristo e das dádivas do povo da freguesia.

Ábaco de Mestre da Ordem do Templo na laje sepulcral defronte à entrada da catedral de Santa Maria de Loures

Por esse período de tempo foi criada na paróquia a Irmandade do Santíssimo Sacramento, dizendo dela o Padre Álvaro Proença[6]:

“Em redor do culto ao Santíssimo Sacramento e sobre toda a Confraria recaíam as maiores responsabilidades, tendo em contrapartida, também, as maiores honras.

“Começou a existir no ano de 1675 quando a Irmandade de N.ª Sr.ª da Assunção se juntou à Corporação dos Louvados formando a Irmandade do Santíssimo com 70 membros.

“A Irmandade (…), admitindo apenas oito mordomos por ano, tinha uma receita de 768.000 réis o que representava uma entrada de capital quase fabulosa.

“Por isso mesmo pôde auxiliar as obras de mosaico e a talha da capela-mor e apressar a conclusão, em 1716, da parte do trono e abertura do camarim.”

Os factos, carregados pela documentação histórica existente, apontam essa Irmandade como abrigo de confraria de Mestres-Canteiros, e talvez fosse por essa razão ter sido muito estimada tanto pelos Franciscanos da Mealhada como pelos Freires de Cristo de Odivelas, ambas as Ordens ainda conservando na época vestígios de antiga e iniciática Tradição Operativa.

Terá, pois, nascido essa do Santíssimo das primitivas Irmandades da Senhora da Assunção e dos Louvados, esta desde 1594 encarregada da manutenção da Matriz na qual, em 1620, encetou as primeiras obras de restauro, abatendo a velha torre dos Templários (de que restam umas pedras abandonadas ao lado da igreja) e levantando uma nova que ora se vê.

Referindo-se à ordenação do cemitério anexo e das lajes, Joaquim Mendes Leal, no seu livro hoje raridade bibliográfica[7], atribui tal encargo à Confraria dos Louvados usando abertamente o termo canteiro: “(…) que fosse oficial de pedreiro ou canteiro, com o vencimento de 40 réis por cada laje que levantasse e nivelasse a campa quando a baixasse, vendendo assim 120 réis por cada adulto que fosse à sepultura”.

Da intervenção dos Mestres-Canteiros da irmandade do Santíssimo nas obras desta Matriz, sabe-se dos nomes de alguns deles por meio de um documento raríssimo publicado pelo mesmo Mendes Leal nesse seu livro, sob o título Contrato entre a Irmandade do Santíssimo e obreiros, 1721. Nele se diz a dado trecho:

“(…) em virtude da procuração que apresentou que ao diante será incorporada, isto de uma parte e da outra Bento da Fonseca de Azevedo mestre entalhador, morador ao relógio de S. Roque, e outrossim Manuel Francisco Botelho mestre pedreiro morador na rua da Rigueira, por eles Manuel Domingues e Bernardo Gomes e Bento da Fonseca Azevedo foi dito em minha presença e das testemunhas ao diante nomeadas que eles estão contratados em seus nomes e nos que representam com ele mestre entalhador Bento da Fonseca fazer uma obra do seu ofício na mesma Igreja, a saber que ele mestre fará do arco da capela-mor para dentro a obra que contém um risco que ele mestre deu a eles oficiais e a seus constituintes no qual todos se acham assinados por detrás do mesmo risco (…)”

Avança o Padre Álvaro Proença, no seu livro também já citado: “As obras continuaram até 1781 e neste ano a igreja foi reaberta completamente restaurada e transformada num amplo e maravilhoso templo.

“Na porta principal, feita em 1778 e que custou 282.000 réis, foi gravada a data de 1781 por ser a da reabertura da igreja.

“A obra do mosaico foi executada pelo mestre canteiro Manuel Francisco Botelho e desconhece-se o preço por que ficou.

“A obra de talha do camarim da capela-mor importou em 10.500 cruzados, quantia que foi paga ao artista e empreiteiro Bento da Fonseca, pela Irmandade do Santíssimo. A talha dourada do resto da capela só se concluiu em 1740”.

Sigla dos Mestres-Canteiros da Irmandade do Santíssimo na igreja matriz de Loures

Sabe-se, pois, os nomes de alguns dos Mestres-Canteiros da Irmandade do Santíssimo, cooperação operática protegida da Ordem de Cristo por intermédio dos seus vigários de Loures, os quais custearam e protegeram enormemente os obreiros e as obras em questão. Recorrendo a Mendes Leal (ob. cit.), veja-se agora quem foram os vigários da paróquia entre 1694 e 1794:

De 1694 a 1733, foi vigário o cavaleiro da Ordem de Cristo p.e André de Carvalho, por 41 anos.

De 1734 a 1745, foi vigário o cavaleiro da Ordem de Cristo p.e Estevão de Brito Barros, por 10 anos.

De 1752 até 1794, foi vigário o cavaleiro da Ordem de Cristo p.e Teotónio José de Brito Barros, por 42 anos, “tendo deixado à igreja tudo quanto possuía” (in P.e Álvaro Proença, ob. cit.).

Assim se chega ao ponto de entendimento das iniciáticas marcas lapidares, quem foram os mestres da pedra lourenhos e sob que confraria operaram.

Em toda a volta da Matriz contei 60 siglas (mas creio haver mais nas partes altas das paredes onde a vista não alcança) com as figurações seguintes:

As da primeira fiada são as mais fartas, e as restantes as mais raras, conforme publiquei em primeira mão em 1990 num artigo de revista local (Loures Magazine), depois novamente publicado pelo Município[8], tema que Manuel J. Gandra tomaria depois, incluindo esse meu lourenho ad litteram, assinalando siglas e marcas lapidárias em diversos imóveis portugueses[9].

Siglas lapidares nas paredes exteriores da igreja matriz de Loures

Para haver uma confraria de companheirismo no auge da Renascença saloia, terá que haver um chefe da mesma. Ora, o Mestre-Canteiro ou Oficial de Pedreiro encarregado de revestir a superfície inferior das paredes internas da Matriz com mármores embutidos de várias cores, de belo efeito decorativo, desde o altar-mor até à porta principal, foi Manuel Francisco Botelho, que executou a obra em 1760[10].

Vários sinais fazem-me acreditar que foi efectivamente Manuel Francisco Botelho o Mestre dos Irmãos canteiros da Irmandade do Santíssimo Sacramento, ademais no exterior desta igreja, junto à porta lateral do lado do Evangelho (o lugar do Verbo, da Fala Divina ou Filia Vocis ordenando do Céu à Terra ordenada), há uma sepultura sem inscrição mas cuja laje está ornada com símbolos canteiros. O interessante é nela apresentarem-se as mesmas siglas fartas já apontadas, acrescentando-se alfaias da profissão de canteiro (esquadro e pêndulo, martelo e escopo, maço sobreposto pela cruz, esta assinalando a profissão de fé cristã do defunto quando vivo, e nessa vida o Santíssimo a quem devia obediência o pedreiro livre na Arte).  Por que não, então, estar aí sepultado o próprio Manuel Francisco Botelho, pressuposto Mestre de Cantaria da Irmandade do Santíssimo Sacramento?

Pressuposta sepultura chã do Mestre-Canteiro Manuel Francisco Botelho, no exterior junto à porta lateral da igreja matriz de Loures

Sendo a letra S a inicial dessa Irmandade, encontra-se no seu significado hermético o símbolo do duplo processo de Evolução – abertura para o alto – e de Involução – curvatura para baixo. Também é possível ver nela a subida sinuosa da fumaça sacrificial. O que domina nessas percepções diversas é o símbolo de uma unidade de movimento que põe em relação seres, elementos, níveis diferentes e até mesmo núcleos opostos. Já entre os Companheiros o S é inicial de Sabedoria, aqui, a Sabedoria do Santíssimo Sacramento como versão católica e popular do mais profundo Santo Graal devocionado como Vaso ou Taça Eucarística.

As pistas aqui ficam e com elas o meu contributo, na simples pretensão de que seja alavanca para leituras mais profundas aqui não cabendo senão a sugestão ou convite, como se queira, à demanda do maravilhoso e do belo daqueles egrégios que sabiam “fazer cantar a pedra”, nas palavras devotas de São Bernardo de Claraval, também ele construtor mas da Portugalidade.

 

NOTAS

 

[1] Joaquim Possidónio Narciso da Silva, Mémoire de l´archéologie sur la veritable signification des signes qu´on voit gravés sur les anciens monuments du Portugal (“Memória da arqueologia sobre a verdadeira significação dos sinais que se vêem gravados sobre os antigos monumentos de Portugal”), Lisboa, 1868.

[2] Conde de Sabugosa, O Paço de Sintra. Imprensa Nacional, Lisboa, 1903. Reimpressão anastática da edição original pelo Gabinete de Estudos Históricos e Documentais da Câmara Municipal de Sintra, 1989-1990.

[3] Marquês de Abrantes, O Estudo da Sigilografia Medieval Portuguesa. Edição do Instituto da Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, Dezembro de 1983.

[4] André Paraschi, Símbolos Mágicos (?) da Ordem do Templo e da Ordem de Cristo. Ericeira, Março de 1992.

[5] Eduardo Brazão, A Igreja Matriz de Loures e os Templários. Academia Portuguesa de História, Anais, II Série, Vol. 22. Lisboa, 1975.

[6] P.e Álvaro Proença, Subsídios para a História do Concelho de Loures, Volume I, pág. 90. Lisboa, 1940.

[7] Mendes Leal, Admiravel Egreja Matriz de Loures (oriunda do século V, edificada pelos Templários, analiticamente historiada em livro ornado de estampas pelo Octogenario) José Joaquim da Silva Mendes Leal. Typographia do Commercio, Lisboa, 1909.

[8] Vitor Manuel Adrião, Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993.

[9] Manuel J. Gandra, Siglas e Marcas Lapidares – Subsídios para o Corpus Lusitânico, In “Cadernos da Tradição”, Ano I, N.º 2, Solstício de Inverno de 2001. Hugin Editores, Lda., Lisboa.

[10] Maria Máxima Vaz, Património Histórico-Artísticoin Loures – Tradição e Mudança, Vol. II. Edição da Câmara Municipal de Loures, 1986.

De Santa Maria de Loures a Santiago da Galiza – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Dez 9 2018 

O Concelho de Loures, em plena Estremadura portuguesa, é atravessado por três rotas jacobeias em direcção à Galiza, à catedral compostelana do Apóstolo Santiago Maior: a que vem de São Tiago de Lisboa (a principal), a que provém de Santiago dos Velhos e a terceira saída de Santiago de Camarate[1].

Até aos finais do século XVIII essas rotas eram amiúde animadas por peregrinos de diversas proveniências, principalmente nas proximidades de 25 de Julho, dia de Santiago Maior, colado ao 26 de Julho, aquando se celebra Santa Maria de Loures, cujo culto foi instituído em 8.12.1178 pelos Templários que aqui tiveram o seu 28.º Mestrado, importância exagerada por diversos autores, todos baseados nas informações fornecidas por Mendes Leal[2], mesmo não tendo sido mais que Priorado, com direito a dízimas agrícolas, cuja origem recuará ao 6.º Mestre Provincial da Ordem, D. Gualdim Pais[3].

Para proteger as rotas sagradas das penitências devotas dos seus peregrinos e a estes, em Portugal, tornava-se necessária uma Milícia destacada para o efeito, e com esse fim D. Afonso Henriques fez introduzir no País a Ordem Militar dos Cavaleiros de Santiago: para proteger a peregrinação no caminho santo, velho de milhares de anos, palmilhado desde que os povos paleolíticos passaram a guiar-se instintivamente pelas estrelas certas de Sul para Norte e vice-versa, acompanhando de baixo o trajecto estelar da Via Láctea, a mesma que os povos pastores com fé certa chamariam Estrada de Santiago, e ainda hoje os mais velhos, junto à lareira na invernia fria, ou no alpendre na noite quente de Verão, contam aos novos histórias e lendas maravilhadas dos feitos de Santiago e seus peregrinos, fazendo-os sonhar e desejar também eles partir à demanda na aventura sagrada.

Desde a primeira hora que a Ordem de Santiago privou com a Ordem do Templo, ambas com a mesma missão de protecção aos devotos enchendo os caminhos portugueses da fé jacobeia, apesar da segunda, como Milícia Papal e mais antiga no Reino, ter primazia sobre a primeira. Por esta razão – a da primazia dos Templários sobre os Espatários – não raro se encontra encimando igrejas, capelas e ermidas da Ordem de Santiago não a sua Cruz espatária mas a pátea do Templo, como acontece, por exemplo, seja na igreja de Santiago na cidade de Coimbra, seja ainda em Santiago dos Velhos, povoação que é «península» do Concelho de Loures mas que pertence a Arruda dos Vinhos.

Também o saloio moçárabe procurou a santidade jacobeia, e procurou-a pondo os pés ao caminho com os olhos pregados nas estrelas da Estrada de Santiago, procurando chegar sem se perder ao final da mesma, onde as estrelas caíram, ou seja, ao Campus Stellae, o “Campo das Estrelas”, que deu nome à capital galega, Compostela.

Era no adro da Matriz lourenha que outrora se reuniam os peregrinos jacobeos que partiam à demanda de Santiago de Compostela, e pela mesma Loures não deixou de passar o famoso peregrino italiano Juan Bautista Confalonieri, como descreve no seu diário de viagem. A esta rota principal juntavam-se-lhe mais duas subsidiárias, uma delas a que partia de Santiago dos Velhos, em Arruda dos Vinhos, distado uns parcos 3,5 km de Bucelas. Vale a pena falar um pouco dessa povoação esquecida pela História mas com farta história, reforçada por valiosos estudos arqueológicos e epigráficos locais.

De origens afonsinas, os casais de Santiago dos Velhos tiveram aqui paróquia no século XII, a pedido da rainha D. Teresa à Ordem do Templo, e ainda que se desconheça a data exacta da construção da igreja paroquial de São Tiago Maior (com festa anual no domingo mais próximo de 25 de Julho), tem-se na sacristia desta uma cruz templária com a data 1131, logo a sua origem será, pelo menos, desde essa altura ou poucos anos antes.

A paróquia original fundada pelos Templários, seria cedida aos Espatários entrados em Portugal e fixados em Arruda (1172), pertencendo às freiras santiaguistas o lugar próximo de Freiria. Essa concessão dever-se-ia à vocação natural da Ordem de Santiago em atender aos peregrinos devotos do Santo Apóstolo. Terá sido ela que inspirou a fundação local da Confraria de Santiago Maior, destinada a prestar o auxílio da hospitalidade aos peregrinos, a qual ainda estava em plena actividade há pouco mais de meio século atrás nesta povoação, ponto obrigatório de passagem no itinerário vindo do Sul do País, no mínimo desde 1249, quando D. Afonso III conquistou o Algarve aos Mouros e tornou mais fácil a peregrinação cristã. Nessa época, o contacto dos caminhantes provindos do Sul, mais moçárabes, ou “como que árabes”, que cristãos, com a população autóctone terá originado novas gerações de peregrinos, os quais ficaram conhecidos por santiagueiros e a igreja dedicada ao Apóstolo São Tiago.

Por não ser regular o ofício religioso na igreja, por nem sempre haver prior que vinha de fora, os habitantes de Santiago iam à Sé Catedral de Lisboa ouvir a missa por ocasião da Festa de Santiago (25 de Julho). Nessa festividade, a procissão com a imagem do Apóstolo não saía da Sé sem que estivesse presente a irmandade dos velhos que vinha com o pendão da aldeia de Santiago – “os irmãos de São Tiago mais velhos que vinham de longe”. Desse hábito, resultou o actual topónimo Santiago dos Velhos.

Segundo João Bautista de Castro (in Mappa de Portugal Antigo e Moderno, t. III, p. V, pp. 488-489, Lisboa, 1763), António Carvalho da Costa (in Corografia Portuguesa, 2.ª ed., p. 425, Braga, 1869) e Américo Costa (in Dicionário de Portugal Continental e Insular, vol. X, pp. 758-759, Porto, 1948), Santiago dos Velhos fazia parte do Concelho dos Olivais. Com a dissolução deste pela formação dos de Loures e Vila Franca de Xira, este último anexou-o de 26.2.1895 a 13.1.1898, enquanto durou a supressão do Concelho de Arruda das Vinhos (cf. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XXVII).

No paroquial, a população de Santiago dos Velhos era assistida pelo prior de Bucelas, no Concelho de Loures, ainda que nos séculos XVI-XVII fosse curato da apresentação do prior da freguesia de Santa Marinha, em Lisboa, que tinha 70$000 réis e o pé d´altar (cf. Portugal Antigo e Moderno, vol. IX, de Pinho Leal. Lisboa, 1880).

Da traça românica da primitiva igreja templária de Santiago Maior aqui nada resta, excepto as paredes internas do corpo inferior da torre, vendo-se no exterior do edifício uma cruz da Ordem do Templo, e nas suas traseiras, rente ao solo, uma pedra de cabeceira com signo idêntico.

Em 1773 foi feita a sacristia (onde há um altar da época com um Cristo de marfim em Cruz de pau-preto do Brasil) no templo. Posteriormente, em 1898, sucederam-se novos restauros, dando feição nova à fachada e aos corpos laterais, aumentando-se a torre que fecha em pirâmide. Por fim, em 25.7.1975 aconteceram novos restauros que mais serviram para só o empobrecer, desta feita no interior, desaparecendo os caixotões pintados do tecto e o tesouro da igreja: a custódia e a salva, de ouro.

Imagem equídea de Santiago dos Velhos, Arruda dos Vinhos 

A igreja, de uma só nave, apresenta no centro do altar-mor Santiago Peregrino e à sua esquerda Santiago Cavaleiro ou “Mata Mouros” (prerrogativas eclesial e militar do Apóstolo da Hispânia, assim mesmo indicadoras da Autoridade Espiritual e do Poder Temporal assistindo a Portugal Jacobeo), que pelas suas características serão setecentistas e réplicas ao gosto do artista das que se encontram no frontal principal da catedral de Santiago de Compostela, defronte para a praça do Obradoiro. À direita de Santiago Peregrino, está a imagem policromada de Santa Ana, mãe da Virgem Maria, referenciada com profusão não nos evangelhos sinópticos mas nos apócrifos, o que é deveras significativo e faz resvalar para as doutrinas heterodoxas dos gnósticos dos primeiros séculos do Cristianismo referentes à “Mãe da Mãe”, ou seja, à Grande Deusa-Mãe Primordial como a primeira a ser cultuada em toda a Lusitânia, ainda Portugal não era sonhado, tanto no aspecto cósmico informe (Sant’ana) como no planetário e individual com forma (Maria).

Relacionadas com a heterodoxia esotérica de carácter matricial estariam algumas das comendadeiras da Ordem de Santiago, que passaram de Freiria para Arruda dos Vinhos, as quais transmitiram os seus conhecimentos à famosa bruxa de Arruda, que não era uma mas sim uma sucessão de várias mulheres da mesma família que, ao longo de várias gerações, foram repassando o seu saber secreto (e possivelmente também vários bens) de mães para filhas. Não se sabe a que época remonta a primeira bruxa de Arruda, mas estou em crer que se fixará no século XV com que finda a Idade Média e começa a Renascença, marcando o final de uma Idade de conhecimentos tradicionais que, neste caso, constariam de flora medicinal a ver com espargiria ou criação de “elixires e unguentos”, origem da moderna farmacologia, e também com o evangelário jacobeo, constando de orações e invocações à pessoa de Santiago Maior. Essas tais bruxas de Arruda muito possivelmente seriam irmãs leigas da Ordem de Santiago. Mas em breve, com a passagem geracional, perderam os conhecimentos tradicionais e voltaram-se para as ciências divinatórias e terapias psíquicas, o que desvirtuou completamente a cadeia de transmissão do saber tradicional, pervertendo-se, até hoje, em simples bruxas sem mais-valia autenticamente espiritual, pois há distinção clara entre espiritualidade e psíquico, tal como há entre espiritualidade e religiosidade. A fama da bruxa de Arruda era tão grande que o Diário de Notícias, de 29 de Novembro de 1906, dedicou-lhe uma extensa reportagem, descrevendo uma consulta onde aborda alguns dos seus tratamentos com o Livro de S. Cipriano à mistura. Enfim, essas mulheres virtuosas valeram enquanto valeram, e hoje tais «mulheres de virtudes» valem o que valem…

A “bruxa” de Arruda

Desta espécie de «península» lourenha, Santiago dos Velhos, falaram, com assombrosa rapidez, Carlos Gil e João Rodrigues no seu livro Os Caminhos de Santiago (Itinerários Portugueses para Compostela), Lisboa, Junho de 1990. Esta rota segue o seguinte trajecto para Norte: Santiago dos Velhos, Arruda dos Vinhos e vai desaguar no Carregado, rumo a Vila Nova da Rainha, a caminho da Azambuja. Ainda assim, apesar de não ser constante, havia quem descesse um pouco ao Sul, a Bucelas próxima, assistisse à missa na sua igreja de São Miguel, procurando a bênção divina para si e a sua empresa, e depois encetasse jornada na direcção de Alverca do Ribatejo, rumo a Vila Franca de Xira.

Uma outra rota paralela à central tem início em Santiago de Camarate, antigo domínio judaico de Dom Jachia Ibn Jachia (século XII) e de David Ibn Jachia Negro (possivelmente judeu árabe) ou David Ben Guedelha Ibn Jachia (século XIV), passando depois para a posse do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira (por doação das terras de Sacavém a Frielas que lhe fez o rei D. João I)[4], o qual além de trazer a figura de Santiago Maior no seu estandarte, incentivou a peregrinação dos saloios e sadinos (a ermida da Memória no Cabo Espichel, próximo de Sesimbra, antigo domínio da Ordem de Santiago, foi ele quem a mandou fazer) a Compostela, em cuja catedral esteve como peregrino em 1400.

Na igreja paroquial de Camarate pode admirar-se, num altar lateral, a belíssima imagem setecentista do seu padroeiro São Tiago, carregando a sacola de peregrino, segurando com a destra o bordão crucífero, onde está atada a cabaça, e com a sinistra mostra o evangelário aberto, sinal de que a peregrinação sagrada se abre e é para todos.

Santiago Peregrino, igreja matriz de Camarate

Do largo da matriz de Camarate saíam os peregrinos, tomando a direcção seguinte: Sacavém, Póvoa de Santa Iria, Alverca do Ribatejo em direcção a Vila Franca de Xira, rumo ao Norte.

O peregrino que vinha de Lisboa rumo a Loures, seguia o seguinte trajecto: São Tiago de Lisboa (paróquia), Lumiar (onde no século XVII ainda havia o Albergue do Espírito Santo, fundado por franciscanos), Odivelas (com o seu convento das bernardas consagrado a S. Dinis, e donde a Rainha Santa Isabel, pelo menos uma vez (1325), empreendeu a jornada do caminho jacobeo), Póvoa de Santo Adrião ou Santo Adrião da Póvoa de Loures (após passar a Quinta do Mariz (desaparecida, que ficava onde hoje está o parque de estacionamento automóvel defronte à estação do metropolitano) e em cujo alto da Póvoa ainda sobrevive um silhar azulejado mostrando S. Roque com trajes de peregrino santiaguista), Mealhada (com o seu conventinho de frades arrábidos, o 13.º da Província Franciscana de Portugal) e finalmente Loures, daqui prosseguindo por Via Longa.

É muito variada a representação iconográfica do Apóstolo Jacobo Zebedeu. As duas invocações principais, peregrino e cavaleiro, são as mais tratadas, mas também é comum a representação de Santiago como evangelizador e muitos outros tipos mistos. Socorrendo-me da sistematização de J. Filgueira Valverde (in Histórias de Compostela. Edicións Xerais de Galicia, Vigo, 1982) a propósito da gravura jacobeia compostelana (cf. Carlos Gil e João Rodrigues, ob. cit.), poderei classificar as representações mais usuais do seguinte modo:

SANTIAGO EVANGELIZADOR – é a imagem de Santiago sem as insígnias do peregrino nem as armas de cavaleiro, do qual encontra-se um belo exemplar no pórtico das Pratarias da catedral de Compostela; em certas imagens aparece com a espada, indicativa do seu martírio decepado.

SANTIAGO PEREGRINO DE MANTO – ideia do Apóstolo majestático, solene, com os símbolos da peregrinação – chapéu, bordão, esclavina e escarcela, quase sempre decorados com vieiras – sem que a figura adopte a atitude de marcha; esta parece ser a mais antiga forma de representação de Santiago peregrino.

SANTIAGO PEREGRINO EM TRAJE DE CAMINHO – caracteriza-se pela utilização do traje curto e pela postura de caminhante, traduzindo uma aproximação da representação do Apóstolo aos verdadeiros peregrinos e ao seu gosto.

SANTIAGO SENTADO – esta figura liga-se à do Apóstolo majestático: é a famosa imagem do pórtico da Glória da catedral compostelana.

SANTIAGO PEREGRINO ANTE A VIRGEM – é o que Filgueira Valverde chama Santiago del Pilar, representando o milagre do aparecimento da Virgem a Santiago durante a pregação deste na Península Ibérica: o Apóstolo, com manto, bordão e chapéu caído nas costas, ajoelha diante da Virgem que aparece sobre uma coluna.

SANTIAGO GUERREIRO A CAVALO – é o Santiago Matamouros, combatente da batalha de Clavijo, e aparece em múltiplas variantes caracterizadas pelo uso de armadura e espada; são vulgares os tipos mistos em que aparecem as insígnias da peregrinação – vieiras, chapéu, esclavina.

SANTIAGO CAVALEIRO A PÉ – espécie de transição entre a figura do peregrino e a do cavaleiro; traje curto, calçando grevas e sapatos de armadura, bordão na mão esquerda e espada na direita.

SANTIAGO PEREGRINO A CAVALO – outra variante de transição: veste túnica, usa chapéu com vieiras e cavalga com a bandeira e a espada.

Como concelhio lourenho, é um velho sonho meu que sejam reactivadas estas antigas rotas jacobeias de Santa Maria de Loures a Santiago da Galiza, as quais possuem duas vertentes inseparáveis uma da outra: a espiritual, não direi apenas religiosa para não limitar a acepção do termo, e a cultural, assim mesmo é reconhecido o Caminho de Santiago pela Unesco.

Às portas do III Milénio, Santiago de Compostela mantém-se abraçado ao ideal de geografia sagrada que o originou e se chama Portugal; ontem como hoje, milhares de peregrinos de todas as latitudes geográficas e mentais recolhem-se em seu altar ouvindo ou intuindo, no odor suave da oração, a voz diáfana do Apóstolo que lhes ordena, mansamente, ao coração:

Arriba! Santiago y cerra!

É agora tempo de terminar, tempo de partir. Que não se esqueça e se avive os passos da tradição peregrina, dando o primeiro cantando:

Herru Sanctiagu
Got Sanctiagu
E ultreia, e sus eia
Deus, adjuva nos.

 

NOTAS

 

[1] Alocução do autor, De Loures a Santiago de Compostela, nas II Jornadas sobre Cultura Saloia realizadas no Cine-Teatro da Póvoa de Santo Adrião, actual Concelho de Odivelas, em 6 e 7 de Dezembro de 1996.

[2] Admiravel Egreja Matriz de Loures (oriunda do V. século, edificada pelos Templários, analiticamente historiada em livro ornado de estampas pelo Octogenario) José Joaquim da Silva Mendes Leal. Typographia do Commercio, Lisboa, 1909.

[3] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Setembro de 2007.

[4] J. Pinharanda Gomes, O Carmo em Loures (Camarate – Frielas – Santo António dos Cavaleiros). Comunidade Paroquial de Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1979. Do mesmo autor, Povo e Religião no Termo de Loures. Paróquia de Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1982.

A Rainha Santa Isabel e Santiago do Alentejo – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Nov 5 2018 

A mais bela jóia jacobeia do Baixo Alentejo é sem dúvida a linda cidade de Santiago do Cacém, desde há séculos ponto obrigatório de paragem na peregrinação desde o Sul de Portugal até de Santiago de Compostela,  na qual residiram duas das mais insignes personagens da História Portuguesa: a Rainha Santa Isabel (Palácio de Aljafería, Saragoça, 4.1.1271 – Castelo de Estremoz, Portugal, 4.7.1336) e Dona Vataça Lascaris, princesa bizantina (Ventimiglia, Ligúria, c. 1270 – Coimbra, 1336).

Cidade moura desde o ano 712, em 1158 a Ordem dos Templários, ajudando o exército de D. Afonso Henriques, conquistou a povoação e o castelo mouro, mas veio a perdê-los em 1185, logo os recuperando no ano seguinte, desta feita com cavaleiros templários e espatários unidos na mesma empresa militar, posto que D. Sancho I oferecera a povoação à Ordem de Santiago em 1186. Assim, ela foi reconquistar o que antecipadamente lhe fora oferecido. Não obstante, entre 1190 e 1191 as forças militares do califa almóada Abu Yusuf Ya´qub Al-Mansur, vindas do Sul, retomaram a cidade. Ela só passaria definitivamente para a posse dos cristãos em 1217, quando a presença muçulmana foi definitivamente derrotada e estes domínios doados por D. Afonso II à Ordem de Santiago, passando os monges-guerreiros a ocupar-se da reconstrução das suas defesas. A partir deste período a povoação passou a ser conhecida pelo nome de todos conhecido: Santiago do Cacém, datando deste período o seu primeiro foral[1].

Em 1217, com a tomada definitiva da cidade aos mouros ou mauritanos, foi o seu primeiro alcaide-mor o célebre almirante Micer Carlos Pessanha. A mesquita local foi convertida em igreja matriz e posta sob o Orago de Santiago Maior, o Matamouros, tendo-a consagrado D. Sueiro, bispo de Lisboa. Tomada de feição cristã graças à intervenção militar, política, social e religiosa da Ordem de Santiago, esta ficaria como sua donatária perpétua[2], contudo não esquecendo aquela a quem devia os louros da vitória: a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão. Por esta razão, vêem-se nos lados da entrada principal da Matriz dois medalhões com cruzes templárias e no seu topo as Armas da Ordem de Santiago.

Além dos medalhões jacobeos medievais (século XIII) que ornam os lados da escadaria de acesso à Matriz, e do seu pórtico lateral românico-gótico, também dessa época, pouco mais será da Idade Média mas antes do século XVIII (1797), altura em que esta igreja foi reconstruída.

Medalhões jacobeos junto à Matriz de Santiago do Cacém

No seu interior pode admirar-se o painel em alto-relevo de Santiago combatendo os Mouros, e que é o maior relevo retabular gótico do país[3]. Na visitação aqui realizada em 18 de Novembro de 1517 pelo Mestre da Ordem de Santiago, D. Jorge, duque de Coimbra, a peça é descrita como estando na capela-mor desta Matriz em “hum halltar allto que sobem a elle per onze degraaos”. Com o terramoto de 1755, a igreja sofreu uma inversão total da sua planta, passando a entrada a fazer-se pela antiga capela-mor, doravante transformada em coro alto, sendo este excepcional retábulo recolocado na parede sul do subcoro. Esta peça, cujas características formais a colocam no amplo movimento renovador do primeiro terço do século XIV, integrando-se, com particular felicidade, no processo de revitalização e independência do Mestrado de Leão e Castela do Ramo português da Ordem de Santiago, é obra do escultor Telo Garcia, designado “Mestre do Relevo de Santiago”[4], possivelmente originário do sul do país. Como forma de expressar o sentimento de independência nacional e de que nenhuma Ordem Religiosa e Militar em Portugal deveria depender e prestar vassalagem a alguma matriz estrangeira, terá sido a Rainha Santa Isabel quem encomendou a obra ao artista e a ofereceu à sua aia Dona Vataça Lascaris, também chamada Vatatsa de Ventimiglia, Vetácia Lascaris, Dona Bataça ou Betaça da Grécia, sobre quem devo dizer algumas palavras.

Retábulo gótico em pedra de ançã na igreja matriz de Santiago do Cacém

Quando os latinos, durante a Quarta Cruzada, se apoderaram de Constantinopla e elegeram como imperador Balduíno, conde de Flandres, no ano 1204, a sede do império dividiu-se em alguns reinos independentes, como Trebizonda, Niceia e Adrianopoli. Nesses dois últimos reinaram: Teodoro Lascaris I, filho de Aleixo Ângelo; João Ducas Vatacius, genro do antecedente; Teodoro Lascaris II, pai de Eudóxia Lascaris (1254-1311), mãe da princesa Dona Vataça, e filho de João Ducas e neto do primeiro Teodoro; João Lascaris IV, irmão menor do antecedente, a quem, em 1261, tinha ele 11 anos de idade, Miguel VIII Paleólogo mandou tirar os olhos e usurpou-lhe o trono do império de Niceia, obrigando as princesas a casar com estrangeiros para as afastar do império.

Foi assim que Eudóxia Lascaris, ainda criança, foi desposada em Constantinopla, entre 1261 e 1263, por Guillermo Pedro (1230-1282), 1.º conde de Vintimiglia e Tende, de quem teve três filhas: Beatriz, Yolanda (Violante) e Vataça. Por morte do marido e fugindo da tomada da Sicília – onde então reinava – por Carlos de Anjou, em 1266, Eudóxia refugiou-se com as filhas na corte de Jaime I de Aragão, ele próprio neto da princesa bizantina Eudóxia Komenos. Nesta corte viveram protegidas, possivelmente atendendo ao poder que representavam numa Europa onde esgrimiam os poderes político-sociais Aragão, Sicília e Bizâncio[5].

Jaime I foi sucedido por Pedro III de Aragão, tendo este casado com Constança da Sicília e o primeiro fruto do seu consórcio foi a princesa Isabel, futura rainha e santa de Portugal. Em companhia da princesa Dona Vataça terá chegado a Portugal em 1288, integrada no séquito de Dona Isabel de Aragão por ocasião do seu casamento com o rei D. Dinis. Vataça Lascaris veio como aia, amiga e parente afastada da Rainha Santa Isabel, ambas descendentes por via materna do rei André II da Hungria, pai de Santa Isabel da Hungria[6]. Em Portugal, Dona Vataça casou com D. Martim Anes, dos de Soverosa, como consta das cartas de armas feitas em Lisboa por Paio Peres e Joanne Mendes, tabeliães, em 10 de Julho de 1323, não constando terem deixado descendência[7].

Por seus dotes virtuosos e cultura esmerada, D. Vataça recebeu o novo encargo de tutora da infanta D. Constança, filha de D. Dinis e D. Isabel, e na qualidade de camareira-mor acompanhou em 1302 a infanta a Castela para celebrar o seu casamento com o rei D. Fernando IV, com que se selou o Tratado de Alcanizes. Ali permaneceu até à morte de D. Constança, e de tal modo a sua virtuosa e sábia pessoa impressionou D. Fernando IV que logo lhe confiaria a educação e protecção do seu filho primogénito, o futuro rei Afonso XI de Castela. Já antes e por ter casado com uma princesa de Portugal com tão nobre e distinto carácter, o rei castelhano premiou a sua educadora D. Vataça com a comenda de Vila-lar (Vilar): “Por la buena crianza que ella fizo en la dicha reina D. Constança”, diz Frei Francisco Brandão copiando as palavras da doação.

Quando D. Constança viajou para Ávila, onde as cortes iriam tomar a decisão sobre a tutoria do novo rei, então menor de idade, veio a falecer durante a viagem, em 18 de Novembro de 1313. Logo depois foi retirado a D. Vataça o encargo de educadora do jovem infante D. Afonso, sendo entregue aos cuidados do seu avô D. Sancho IV e dos infantes D. Pedro e D. João.

Sem mais nenhum compromisso que a ligasse a Castela, D. Vataça Lascaris trocou a sua comenda de Vila-lar pela vila e castelo de Santiago do Cacém e Panóias, em Portugal. A troca fez-se mediante proposta da princesa bizantina ao Mestre castelhano da Ordem de Santiago, D. Diogo Moniz, e ao Mestre espatário português, D. Lourenço Anes, cuja assinatura da escritura de troca leva a data 1314.

Quando D. Dinis conseguiu separar os Mestrados e isentar a Ordem de Santiago em Portugal da sujeição à de Castela, o que teve lugar no ano 1315, sendo Mestre D. Lourenço Anes Alcoforado, todas as vilas e comendas do senhorio da Ordem no nosso país ficaram exclusivamente sujeitas ao Mestre português – que pagava a dízima de posse à Coroa – excepto Santiago do Cacém, que só voltou à posse do Mestrado e da Coroa após a morte de D. Vataça Lascaris, como ficara acordado na escritura de troca.

De maneira que, a partir dos finais de 1315, D. Vataça estabeleceu uma pequena corte senhorial no castelo de Santiago do Cacém, que lhe fora doado pelo rei D. Dinis através do Mestre português da Ordem de Santiago, e passou a administrar e valorizar os seus avultados bens e propriedades. Terá vivido aí até cerca de 1335, altura em que seguiu a rainha D. Isabel quando esta se estabeleceu em Coimbra. Veio a falecer nesta cidade a 21 de Abril de 1336 e foi sepultada na Sé Velha, num túmulo decorado com as Armas dos Lascaris, as águias bicéfalas indicadoras de ter pertencido a uma família imperial[8], a do império de Niceia.

Túmulo de D. Vataça Lascaris na Sé Velha de Coimbra

A esta extraordinária princesa bizantina anda associada uma série de lendas e objectos sagrados que terá trazido do Oriente para o Alentejo. A própria lenda de fundação desta cidade alentejana tem-na como sua fundadora original: conta que uma princesa chamada Bataça Lascaris fugiu do Mediterrâneo Oriental, comandando uma aguerrida esquadra por ela mesma armada. A nobre senhora desembarcou em Sines e, à frente das suas tropas, marchou para o Sul indo atacar uma povoação islâmica cujo governador se chamava Kassen. Dando-lhe combate, a princesa derrotou-o e matou-o, tomando-lhe o castelo no dia de Santiago (25 de Julho). Por esta razão, deu à vila o nome de Santiago de Kassen[9]. Esta lenda indicará sobretudo que o senhorio santiaguense de D. Vataça Lascaris terá tido parte activa na consolidação do cristianismo no Sul de Portugal ainda sob forte influência da cultura islâmica, pois que desde 1249 que o Alentejo e o Algarve estavam conquistados aos mouros, reinando D. Afonso III.

Além disso, aludirá igualmente ao Loci Jacobeus que é o próprio castelo de Santiago do Cacém, do qual uma outra lenda diz ter surgido por artes mágicas de uma família moura[10]:

No tempo da ocupação muçulmana era senhor desta região um mouro muito rico que tinha três filhos: dois rapazes e uma rapariga. Muito idoso, sentindo a morte próxima, chamou os filhos e comunicou-lhes o desejo de repartir os seus bens, pedindo-lhes que o fizessem harmoniosamente entre si. Segundo o costume, o rapaz mais velho tomou para si as terras que desejava; o segundo, procedeu do mesmo modo, com a parte restante. Restando ainda vasta extensão de propriedades e riquezas para a jovem, o velho pai pergunta-lhe se ficara satisfeita com a parte que lhe tocara, ao que ela respondeu: – “Sim, meu pai, mas não desejo propriedades. Penso que é mais necessário termos um castelo para a nossa defesa. Para mim desejo apenas o terreno que se possa cobrir com a pele de um boi”. Diante da admiração do pai e dos irmãos, apresentaram-lhe a pelo que pedira, para que pudesse demarcar a parte que reclamara da herança. A jovem fez então cortar a pele em tiras finas, e com elas delimitou o perímetro da área que pretendia. Ao terminar, sucederam-se três dias de forte nevoeiro, ao fim dos quais se dissipou: todos viram então, erguidos por artes mágicas, o castelo de Santiago do Cacém.

Armas da Ordem de Santiago sobre a entrada no castelo de Santiago do Cacém e marco territorial da Ordem de Santiago exposto no Museu Municipal desta cidade

Há na lenda a referência explícita a conhecimentos geomânticos chamados leys na sabedoria tradicional dos antigos, aqui, particularmente entre os sábios templários e espatários. Na Idade Média e durante a Renascença, as leys consistiam em padrões ou alinhamentos de faixas ou linhas invisíveis cuja potência teoriza, demarca e liga entre si determinados espaços sagrados e naturais como lugares mágicos. Hoje essa teoria antiga já perdeu o seu foro de ciência tradicional e é apresentada pelas hodiernas crenças neo-espiritualistas que a popularizam como radiestesia, energia psíquica ou mística, etc.

Na lenda tem-se igualmente a presença do boi, que vem a ser o touro domesticado, o qual é símbolo luni-solar aceite como representação da energia vital e fonte de fertilidade pelos povos antigos, razão pela qual participa, tal como os outros animais cornúpetos, porém representando-os a todos, de todo o tipo de cultos. O taurobólio – vulgarizado nas comuns touradas – vem a ser o sacrifício da Era de Touro, a imolação do deus às mãos do homem que deseja alcançar o seu poder e significado celeste[11], motivo porque se vê na coluna da porta lateral da igreja matriz um touro (a força vital) junto a um relógio de sol (o tempo ou Era).

Tal como a Rainha Santa Isabel, também D. Vataça Lascaris professou nas clarissas coimbrãs da Ordem Terceira de S. Francisco, ambas na fase final das suas vidas, assumindo o hábito religioso como sinal de viuvez indisponível para novos matrimónios, e o fizeram como irmãs leigas e não como perpétuas, por causa dos foros nobiliárquicos possuídos por ambas, inconciliando as suas condições de reais donatárias de tronos com as da contracção perpétua dos votos religiosos do geral monástico, e foi nessa condição de irmã leiga donata ou benfeitora (hoje chamar-se-ia mecenas) que a Rainha D. Isabel teria sido, talvez, a principal promotora da fundação do Hospital do Espírito Santo dos franciscanos de Santiago do Cacém[12].

Dona Vataça trouxe consigo para esta cidade alentejana várias relíquias sagradas, dentre elas a cabeça de São Fabião. Peça única de ourivesaria, trata-se uma cabeça-relicário em tamanho natural, em prata, contendo no seu interior um crânio humano que se diz ser o do papa e mártir São Fabião, vigésimo sumo pontífice romano, de 10 de Janeiro do ano 236 a 20 de Janeiro de 250. Actualmente, esta peça pode ser apreciada na exposição do Tesouro da Basílica Real de Castro Verde.

Há vários elementos empáticos entre as vidas da princesa bizantina e daquele papa. Tal como Dona Vataça também São Fabião ou Fabiano era um irmão leigo que, mesmo assim, foi eleito sucessor do papa Santo Antero após descer do céu uma pomba branca que lhe pousou na cabeça[13], sinal de que era o escolhido do Divino Espírito Santo, do qual tanto ele como esta nobre senhora eram devotos, ambos estrangeiros em terra alheia, ela em Portugal e ele em Roma. A “cabeça santa”, o saudador como também é chamada a relíquia de São Fabião, vem a significar o “Mental Iluminado”, chamado na tradição oriental Manas Taijasi, ou seja, a posse efectiva da Sabedoria Divina pela fé e o entendimento. Este entendimento equivalerá à gnose do Caminho Jacobeo prefigurada numa figura soprando uma cabaça (transposição livre do nome Bataça) no exterior da igreja matriz desta cidade, que além de representar um primitivo instrumento musical, assinalará muito mais o Sopro do Espírito Santo que vai iluminar o Mental Humano.

 

Cabeça de prata de São Fabião (Escola Aragonesa, século XIV)

Além dessa, Dona Vataça trouxe também para o Alentejo outra relíquia: um fragmento do Santo Lenho em que o próprio Salvador fora crucificado. A esse anda ligada a lenda de Nossa Senhora das Salvas de Sines, que assim conta: à vinda para Portugal, o navio que trazia Dona Vataça, sua mãe e irmãs, enfrentou uma violenta tempestade. Prestes a naufragarem, em desespero a princesa rogou o auxílio divino, prometendo construir uma capela no primeiro porto que encontrassem e que o castelo mais próximo ficaria com a relíquia do Santo Lenho que trazia consigo. Todos se salvaram e Dona Vataça cumpriu a promessa: em Sines foi erguida a ermida de Nossa Senhora das Salvas, e o castelo de Santiago do Cacém, cujo domínio viria a ter, ficou com o fragmento da Cruz de Cristo, ofertado por ela à sua igreja-matriz[14].

Historicamente, a princesa bizantina não veio de Aragão para Portugal acompanhada dos seus familiares e nem por via marítima, mas sim terrestre. Poderá muito bem ser alusão ao caminho marítimo para a Galiza, subindo a costa portuguesa desde o Algarve, sendo que nos séculos XIII-XIV o porto de Sines servia de apoio logístico aos peregrinos que iam dessa maneira à catedral de Santiago de Compostela, desembarcando em Vigo ou na Corunha, próxima de Muxia onde está o Santuário da Virgem da Barca.

A respeito da tradição do Santo Lenho trazido por Dona Vataça Lascaris, disse o franciscano erudito e bispo de Beja, Manuel do Cenáculo (Lisboa, 1.3.1724 – Évora, 26.1.1814)[15]: “Era coisa fácil trazer esta infanta da Grécia relíquia preciosa do Santo Lenho, do qual naquele tempo se fazia uso para grandes empenhos, como aconteceu ao rei de Jerusalém, D. João de Brena, dando uma parte da Santa Cruz, com seu filho, em penhor aos venezianos por ter certo o seu socorro e a conservação de Constantinopla. Tendo os soberanos daquele império a Santa Cruz em seu poder, dele se ausentaria Bataça, religiosa e temporalmente favorecida pela boa porção de relíquias que a acompanhava, de que fez mimosa esta matriz[16]. A reclusão das lasquinhas do Santo Lenho em relicário de prata depositado em coluna de pedra que sustentava a mesa ou altar, segundo as maneiras da igreja grega, comprova o que dissemos”.

Essa relíquia (composta de cinco lasquinhas do Santo Lenho) está encerrada num sacrário fechado por três chaves, das quais eram depositários (não sei se ainda são) o prior da Matriz, o juiz da Confraria do Santo Lenho (constituída em 27 de Abril de 1765) e o vereador mais velho da Câmara. Ainda nos inícios do século XX o Santo Lenho saía em procissão a requerimento dos lavradores, por ocasião de preces por falta de água.

O relicário do Santo Lenho de Santiago do Cacém

O culto da Vera Cruz pelas cinco lasquinhas (marcadas nas fachadas da matriz e da igreja do Espírito Santo desta cidade) alusivas às cinco chagas de Cristo, desta feita pela mão dos franciscanos, também eles dispostos estrategicamente ao longo da Grande Rota Jacobeia, não é motivo de admiração, atendendo a que o próprio São Francisco de Assis peregrinou a Santiago de Compostela entre 1213 e o final do ano de 1215, tendo fundado a sua Ordem nessa cidade[17], e também porque toda a espiritualidade ibérica medieval teve por cenário a dinâmica santiaguista de realização da Grande Obra individual e colectiva.

Na mística franciscana, a que andam ligadas as lascas sacras trazidas por Lascaris, tem suma importância o ocorrido em 17 de Setembro de 1224 com São Francisco de Assis no Monte Alverno, quando aí teve a visão de Cristo Crucificado. Dessa visão ficaram-lhe os estigmas, as cinco chagas que o acompanhariam até à morte em 3 de Outubro de 1226.

O espiritual franciscanismo revela-se a fórmula cristã mais patente do primitivo ligurismo cuja essência simbólica seria incorporada pelos antigos peregrinos de Compostela, sendo que os próprios símbolos de São Francisco, no seu significado transcendente, são provas disso: o Agnus Dei (Cordeiro de Deus) e o lobo.

Na transposição linguística do Agnus latino para o Agni sânscrito, discorrem importantíssimas conotações solares ou luminosas através do seu significado: Fogo, este que foi elemento natural tanto do deus solar Lug, como de São Francisco e como ainda de São Tiago Zebedeu. Já o lobo é, no ideário religioso pré-cristão ocidental, o acompanhante do deus Lug e, eventualmente, o seu mensageiro, como o foi de São Francisco. Aparece substituindo o retrato dos construtores livres em alguma iconografia catedralícia do gótico e amansa-se diante dos santos que sabem compreender o seu significado real, como aconteceu com São Francisco. Eventualmente, é substituído pelo cão (companheiro de Santiago Maior) e torna-se o acompanhante e conselheiro dos iniciados no saber e na ciência tradicionais[18].

São Francisco converte-se assim na versão cristianizada do primitivo deus Lug. Aliás, o seu nome, Francisco, possui todos os atributos daquele como incorre da sua origem etimológica[19]. O antropónimo português Francisco procede da forma alatinada Franciscus, a qual se constitui do termo germânico frank e pela partícula ligúrica determinativa da filiação étnica – usku, também fonetizado isku. Este termo ligúrico isku – sobrevivendo em palavras portuguesas como corisco e pedrisco, respectivamente, da raiz pré-indo-europeia kar e da latina petra, “pedra” – está representado no grego isko, com o sentido de “semelhante”. Quanto ao frank provém do grego phruge, em português frígio ou franco, “homem livre”. Portanto, Francisco é etimologicamente igual a “homem liberto da matéria” ou mundanidade, representada na pedra que é o sólido do mundo. Isto sem esquecer que frank e phruge são etnónimos derivados da expressão indo-europeia bharagu, encurtada bhrigus, significando “portador” (bharu) do “fogo” (ugu), logo, o “portador do fogo”, neste caso, Fogo Sagrado (Agni).

Fogo Sagrado assumido tanto na Vera Cruz, pela qual discorreu o ardente Sangue Real do Salvador, quanto na Espada flamejante feita Cruz do Apóstolo Santiago Matamouros, ambas na Matriz santiaguense encostada ao castelo, coroando o topo do monte sobranceiro à cidade que, quiçá, significasse para os franciscanos alentejanos o mesmo que o itálico Alverno para toda a sua Ordem.

Castelo de Santiago do Cacém

Situada praticamente no coração do Baixo Alentejo, a cidade de Santiago deve o acréscimo Cacém aos árabes que durante séculos aí viveram. Chamar-se-ia então Kassen ou Cassem, num arabismo tardio próprio das falas árabes rurais da Estremadura e Andaluzia ibéricas, ficando o árabe erudito cingido às madrasas ou escolas corânicas e aos mullah ou professores do Corão, sendo o termo mais correcto cacéme, “o que divide”, ou qácime, “o que junta”[20], mas que depois, por vulgarização e perda do sentido original, tornou-se sinónimo de “cão” para os guerreiros cristãos da Reconquista, que é dizer, de “perro infiel”.

O topónimo Cacém será aqui sobretudo sinónimo de divisão territorial, separando o centro do extremo sul do país e ao mesmo tempo ponto de confluência geral da peregrinação jacobeia afluindo do sul, mormente da costa vicentina de Sagres subindo por Lagos ficando conhecido como caminho sudoeste. Aos peregrinos do Algarve juntavam-se aí os da Andaluzia, de regiões como Sevilha ou Huelva, que procuravam realizar a rota portuguesa a partir de Faro, donde prosseguia por Loulé, ou então de Lagos, aqui não se descurando a romaria “obrigatória” ao Promontório Sacro (Sagres). Eram caminhos de miracula et potestis do moçarabismo santão.

Penetrando o território alentejano por Odeceixe, a rota da peregrinação prosseguia por São Miguel, na freguesia de São Teutónio, até Odemira, donde partia para Cercal do Alentejo conduzindo directamente a Santiago do Cacém, onde então se podia continuar por dois percursos, um por Melides e outro, o mais frequentado, por Grândola e Alcácer do Sal. Santiago do Cacém constituía-se assim como das mais importantes passagens obrigatórias dos caminhos meridionais de Santiago de Compostela, não lhe faltando o Hospital do Espírito Santo para assistir e dar albergue aos peregrinos necessitados que aí chegavam; só no século XIX, com as Invasões Francesas, decresceu e até se esqueceu a importância da peregrinação jacobeia desde o Algarve.

Segundo José António Falcão, reconhecido estudioso dos caminhos jacobeos desde o Sul de Portugal, autor já com vasta colheita bibliográfica publicada, de que destaco o seu estudo sobre o alto-relevo de Santiago Matamouros na Matriz desta cidade[21], também não é possível ignorar a emigração para aqui de colonos galegos nos séculos XII-XIII, de que sobrevivem provas toponímicas em várias freguesias do concelho de Santiago do Cacém, como, por exemplo, Melides, Abela e Santa Cruz.

Qácime, ponto de encontro comum das rotas arábicas do Sul, igualmente pomo de unidade dos saberes judaico, cristão e árabe, liga-se assim à raiz árabe Qâf com que se designa a “Mansão da Imortalidade”, neste caso, a própria cidade de Santiago do Cacém, tendo por axis municipalis a Matriz, onde as religiões do Livro conviveram harmoniosamente sob o pendão de Santiago Matamouros, que aqui não será exclusivamente o mauritano mas antes e sobretudo a mundanidade, que é o avesso da sacralidade, pois que tanto a Cruzada como a Crescentada tinham sobretudo o sentido místico do cavaleiro dar combate a si mesmo, à sua própria natureza inferior, belicosa, desarmónica. Nisto consiste essencialmente a guerra santa ou “guerra justa”, parafraseando São Bernardo de Claraval, correspondendo à jihad na mística do Islão.

Ao falar de Santiago do Cacém (onde chegou a residir o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira, cerca de 1384) não pode deixar-se de referir a pessoa peregrina da Rainha Santa Isabel, por sua grande proximidade com Dona Vataça Lascaris. Quando o rei D. Dinis faleceu, no paço de Santarém, em 7 de Janeiro de 1325, e foi trasladado para o mosteiro das bernardas de Odivelas, onde está sepultado, a real viúva encetou a peregrinação devocional a Santiago de Compostela, acompanhada do médico e alquimista Arnaldo de Vilanova (Valência, 1240 – Génova, 1311), seu mestre ou tutor espiritual, decerto elucidando-a acerca dos significados ocultados das etapas do caminho jacobeo, tendo passado a fronteira por Valença vindos de Barcelos. As cartas trocadas entre a Rainha Santa Isabel e Mestre Arnaldo de Vilanova foram publicadas por Sebastião Antunes Rodrigues[22], e delas transcrevo literalmente o documento n.º 10 (carta n.º 1649 – extra-série) onde a monarca pede ao rei de Aragão que lhe envie Mestre Arnaldo, “nosso físico ⌈médico⌉ e muito bom mestre”.

10

… X … de Dezembro de …

D. Jaime mandara-lhe dizer por D. Raimundo de Monterros que o médico dos Reis de Portugal, Mestre Barnalte, manifestara desejo de ver D. Isabel e, como brevemente iria em peregrinação a Santiago de Compostela, lho mandaria o que a Rainha Santa aceita e agradece.

“Ao muy nobre e muyt´alto Dom Jame pola graça de Deus Rey d´Aragom de Valença de Murça, conde de Barçelona da santa Egleia de [Roma] Sinaleyro Almirante e Capitam geeral.

“Donna Isabel per essa meesma graça Reyna de Portugal e do Algarve Saude [como] a Irmãao que amo muy de coraçom e de quem muyto fio e para quem tanta vida e tanta saude queriamos com onrra e com placer como para mjm. [Rey] Irmãao sabede que Don Remom de Montrros vosso clerigo me disse que me envyavedes vos dizer que Meestre Arnaldo nosso fisico e muy boom maestre e que compria a mjm muyto de me veer e que el avya de vijr em romaria a Santiago e se me prouguesse que mho envyariades. Irmãao gradescovolo muyto e rogovos que mho envyedes e el fa[ra] prol se Deus quisser. E farey lhi por ende bem e. … Dant. … X … dias de Dezembro. A [Reynha o mandou … a fez.]”

No verso: “Al Rey daragon por …”

Sobre a presença da Rainha Santa Isabel em Santiago de Compostela – cuja memória persiste até hoje na Rua da Raiña – tem-se a seguinte descrição histórica[23]:

“Em 1244 havia estado em Compostela o rei de Portugal D. Sancho II[24]. No ano 1325, depois de morrer o rei D. Dinis, a sua viúva, a Rainha Santa Isabel, fez a peregrinação à igreja de Santiago. Segundo o P. Atanasio López, o documento mais autêntico sobre ela é a lenda escrita imediatamente depois da morte da Rainha por uma monja do convento de Santa Clara de Coimbra. Segundo o seu relato, a Santa chegou a Compostela em Julho, e fez o caminho a pé desde uma légua antes de chegar à cidade. A 25, dia da festa de Santiago, ofereceu ao Apóstolo, na missa que dizia o arcebispo, magníficos e numerosos presentes: uma coroa com muitas pedras preciosas, as suas galas de rainha, uma mula com o seu freio, de oro, prata e pedras preciosas, ricos panos lavrados com as Armas de Portugal e de Aragão, taças e ornamentos sagrados, fazendo também grandes donativos e esmolas. O arcebispo ofereceu-lhe um bordão e esportilha [sacola], com os quais foi enterrada ao morrer, e que se encontraram no seu sepulcro ao abri-lo em 1612. Diz-se ainda, baseando-se na Crónica Del-Rei D. Afonso o Quarto, escrita por Rui de Pina nos finais do século XV, que Santa Isabel esteve outra vez em Compostela em 1335, para ganhar o Jubileo[25].”

A Rainha Santa Isabel peregrina chegando à catedral de Santiago de Compostela

Tão incógnita entrou a Rainha Santa Isabel na cidade, da primeira vez, que passou despercebida. Só depois o arcebispo de Compostela saberia da sua chegada, apressando-se a oferecer-lhe hospedagem nos seus aposentos. O lugar onde a rainha se terá instalado inicialmente é descrito nas páginas 388-389 do segundo tomo da obra citada de Las Peregrinaciones a Santiago de Compostela:

“Sobre a fonte do Franco existiu outro hospital chamado da Rainha, segundo o parecer de certa tradição que afirma ter estado hospedada nele Santa Isabel de Portugal, por motivo da sua peregrinação[26]. Desconhecemos a data da sua instituição, que talvez poderá corresponder ao período medieval.”

A fonte do Franco está intrinsecamente ligada à Lenda Áurea, pois foi junto a ela que pararam finalmente os touros amansados puxando o carro com o corpo do Apóstolo São Tiago, e ficou assim determinado que a arca marmórea seria feita neste lugar de Libere Donum, hoje Santiago de Compostela. De maneira que a estadia da Rainha Santa aqui também se reveste de simbolismos e significados deveras transcendentes, sobretudo relacionados à trasladação do corpo santo defunto e que se repete na trasladação da rainha viva e regenerada nas águas na fonte santa do Franco.

Túmulo gótico da Rainha Santa Isabel no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, Coimbra

Durante a abertura do túmulo da Rainha Santa, peça funerária gótica ricamente trabalhada que está no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, ocorrida em 1612 com o objectivo de proceder à recolha de provas para a sua canonização, repousava junto do seu corpo, diz-se que incorrupto, o bordão de peregrina a Santiago de Compostela, oferecido em 1325 pelo décimo quinto arcebispo compostelano (1317-1330) e que também era trovador, o francês Bérengar de Landor, mais conhecido como Berengário de Landoria ou Landoira (1262-1330). Essa peça foi colocada, no século XVII, num receptáculo de prata, em forma de balaústre, encontrando-se à guarda da Irmandade da Rainha Santa Isabel.

O bordão de peregrina jacobeia da Rainha Santa Isabel está descrito na página 127 do primeiro tomo de Las Peregrinaciones a Santiago de Compostela:

“Havia bordões de diferentes classes e alguns luxuosos, como o que ofereceu o arcebispo de Santiago à Rainha Santa Isabel de Portugal, quando esteve em Compostela em peregrinação, e com ele foi enterrada mais tarde. Foi encontrado ao abrir o seu túmulo em 1612, e segundo a acta que então se lavrou, media seis palmos e meio de altura, estava recoberto de lâminas de latão dourado e lavrado com conchas de Santiago, rematando numa muleta de jaspe vermelho, que se sujeitava ao bordão com uns fiadores de latão prateado[27].”

Bordão jacobeo da Rainha Santa Isabel

Regresso assim ao tema central deste estudo: Santiago de Compostela – Santiago do Cacém, opostos complementares da rota jacobeia portuguesa aqui aflorados e pelo peregrino a serem aprofundados, vivendo as palavras invocatórias do Hino da Liturgia das Horas pronunciadas aquando do festejo da Rainha Santa Isabel de Portugal: “Caminhai à nossa frente, e, como Guia, indicai-nos o Caminho da Salvação”.

Invocação da Santa Rainha que também se dirige ao Santo Apóstolo Tiago Maior, acompanhada em sussurro da Oração do Peregrino que hoje se reza nas partes da cristandade jacobeia:

Apóstolo Santiago, eleito entre os primeiros, tu foste o primeiro a beber do cálice do Senhor, e és o grande protector dos peregrinos; faz-nos fortes na fé e alegres na esperança, em nosso caminhar de peregrinos, seguindo o caminho da vida cristã, e alenta-nos para que, finalmente, alcancemos a glória de Deus Pai. Amém.

 

NOTAS

 

[1] Júlio Gil e Augusto Cabrita, Os mais belos castelos e fortalezas de Portugal. Lisboa, 1986.

[2] No Livro dos Copos (fol. 53), no artigo 10.º, diz-se dos espatários portugueses que “eles haviam fundado Sant´Iago do Cacém”. Esta obra, escrita no século XIV, juntamente com as Tábuas Ferradas faz parte do núcleo especial medieval da documentação comprovativa do espólio móvel e imóvel da Ordem Religiosa e Militar de Santiago.

[3] A Ordem de Santiago – História e Arte. Catálogo da Exposição “O Castelo e a Ordem de Santiago na História de Palmela”, organização e promoção da Câmara Municipal de Palmela, Divisão Sociocultural, Julho 1990.

[4] Fernando António Baptista Pereira e José António Falcão, O Alto-Relevo Gótico de Santiago aos Mouros da Igreja Matriz de Santiago do Cacém. In Anais da Real Sociedade Arqueológica Lusitana, II Série, n.º 3, 1989.

[5] Joaquin Miret y Sans, Tres princesas griegas en la corte de Jaime II de Aragon. In Revue hispanique, n.º 15, 1906.

[6] Padre António de Macedo e Silva, Annaes do Municipio de Sanct-Yago de Cassem desde Remotas Eras até ao Anno de 1853, Beja, 1866. Do mesmo autor, Annaes do Municipio de Sant´Iago de Cacem, Lisboa, 1869.

[7] Frei Francisco Brandão, Monarquia Lusitana, Parte V, Lisboa, 1650.

[8] Francisco de Simas Alves de Azevedo, A Águia Bicéfala Bizantina em Portugal. Separata da Revista da Universidade de Coimbra, volume XXXVII, ano 1992.

[9] Júlio Gil e Augusto Cabrita, ob. cit.

[10] Litoral Alentejano, Suplemento de Dezembro de 1998.

[11] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S. A., Barcelona, 1988.

[12] Manuel João da Silva, Toponímia das Ruas de Santiago do Cacém – Breve História, 1.ª edição. Câmara Municipal de Santiago do Cacém, 1992.

[13] Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão Editores, Porto, 1990.

[14] José António Ferreira de Almeida, Santiago do Cacém – Tesouros Artísticos de Portugal. Lisboa, 1976.

[15] Manuel do Cenáculo, Visita a Santiago de Cacem. Livro próprio no Arquivo da Matriz desta cidade.

[16] A relíquia de São Romão, junto a Panóias, diz-se ter sido igualmente trazida por D. Vataça, donatária daquela vila. E a igreja das Salvas, em Sines, já citada, também terá a sua origem nesta princesa bizantina, apesar de se atribuir a sua construção ao grande almirante D. Vasco da Gama, possuído de uma grande devoção por Vataça Lascaris que morreu em cheiro de santidade e passou a figurar no hagiológio lusitano.

[17] “São Francisco, “al principio e cominciamento dell´Ordine, per sua divozione andó a San Giacomo di Galizia”, estando em oração durante a noite na igreja de Santiago, foi-lhe revelado por Deus o incremento maravilhoso que a sua Ordem devia tomar.” – E. M. de Beaulieu, Le voyage de St. François en Espagne, em Etudes franciscaines, Abril de 1906.

[18] Juan G. Atienza, ob. cit.

[19] Batalha Gouveia, A Origem dos Nomes – Francisco. Jornal do Incrível, n.º 203, 4 de Outubro de 1983.

[20] Mário Guedes Real, Toponímia Árabe da Estremadura. In Revista Estremadura, Lisboa, 1945.

[21] José António Falcão, O Alto-Relevo de Santiago combatendo os Mouros da Igreja Matriz de Santiago do Cacém. Beja – Santiago do Cacém, Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja – Câmara Municipal de Santiago do Cacém, 2001.

[22] Sebastião Antunes Rodrigues, Rainha Santa – cartas inéditas e outros documentos. Coimbra Editora, Limitada, 1958.

[23] Luis Vázquez de Parga, Jose M.ª Lacarra, Juan Uría Riu, Las Peregrinaciones a Santiago de Compostela, tomo I, pág. 80. Madrid, 1948.

[24] López Ferreiro, Historia, tomo V, pág. 378.

[25] Atanasio López, Santa Isabel de Portugal en Compostela. In El Correo Gallego, 25-10-1943.

[26] Zapedano diz que se fundou numa casa da rua do mesmo nome que havia junto à fonte e que tinha nove camas, este último dado constando na visita do cardeal Hoyo (Arch. Arzobispal, leg. 496, folio 52 v.). A sua renda era de uma carga de centeio, sendo admitidos os enfermos por designação do cardeal da paróquia, segundo constava da visita arcebispal. B. Barreiro (Guía, pág. 14, núm. 28) limita-se a advertir que se falava sobre a fonte do Franco e que o nome devia-se, segundo se dizia, a ter estado hospedada nele Santa Isabel de Portugal quando veio em peregrinação a Santiago.

[27] Ribeiro de Vasconcelos, Dona Isabel de Aragão (A Rainha Santa), tomo II, página 113 e seguintes. Coimbra, 1804.

O Panteão Aghartino – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Out 22 2018 

Lisboa, 10.10.2018

A tradição de panteão recua aos tempos da primitiva Aryavartha, a Índia, e à sociedade politeísta de então onde teve origem a religião proto-indo-europeia, da qual derivam as várias religiões indo-europeias, tradição que veio ainda a originar os diversos panteões egípcio, grego, romano, celta, escandinavo, assírio, fenício, etc., até chegar à exaltação das figuras heróicas nacionais, equiparando-as aos deuses mitológicos, que igualmente passaram a ter honras de panteão por seus feitos e glória patriótica (hoje até incluindo celebridades do mundo das artes e letras, do espectáculo e do desporto), o que na Europa – inclusive em Portugal – começou a ter lugar ainda no século XII mas com maior realce desde o início do século XIV.

Um panteão (do grego pantheon, πάνθεον, literalmente “(templo) de todos os deuses”, ou “comum a todos os deuses”, de pan, πᾶν, “todo”, e theos, θεός, “deus”, interpretado no plural como “todos os deuses”) é o conjunto particular de todos os deuses de qualquer religião politeísta, mitologia e tradição.

A tradição de panteão deífico (ajuntando os deuses da Pré-História Lemuriana e Atlante que daria aso à criação das diversas mitologias, com destaque para a greco-romana) provém da sétima cidade ou cantão atlante e fixou-se logo ao início desta quinta Raça-Mãe Ariana, no Norte da Índia (Ariavartha) donde se expandiu em direcção ao Eufrates e ao Egipto, atingindo depois outros pontos do Globo, incluindo a Península Ibérica.

No referente exclusivo da Tradição Iniciática das Idades, sobretudo pelas comunicações inéditas na forma de revelações teosóficas do Professor Henrique José de Souza (1883-1963), fundador da Sociedade Teosófica Brasileira (1928-1969), o sentido de panteão supera largamente o significado comum mesmo mantendo a finalidade última, onde os Deuses são apresentados ora como Adormecidos, ora como Despertos de acordo com as suas manifestações cíclicas na Face da Terra. Quando estão Despertos ou em Manvantara (“manifestação”), é o momento da sua acção na Face da Terra; quando estão Adormecidos ou em Pralaya (“repouso”) é porque estão em inércia ou ausente de qualquer actividade na superfície do Globo, estão no Panteão Aghartino.

Para se entenderem os termos inusuais Panteão Aghartino, Panteão Moreb, Círculo de Resistência, Hall de Shamballah, etc., é necessário focar o assunto sob duas focagens básicas: a essencial e a estrutural.

 A focagem essencial requer o entendimento da mecanogénese dos Pramanthas ou Ciclos de Manifestação ao longo da Evolução Planetária, fulcro do Trabalho da Divindade da Terra, o Logos Planetário, através da seriação Tulkuística ou Representativa pelos Avataras (Aspectos), Adeptos (Sub-Aspectos) e restante Humanidade (Vidas Esparsas).

 A focagem estrutural implica a compreensão da estrutura física, sobretudo física-etérica, dos lugares representativos do núcleo de governo e actuação dos Pramanthas.

Pramantha sendo sinalético de Ciclo de Manifestação Universal é igualmente indicativo de Geração, no referente à criação de veículos físicos destinados à manifestação da Mónada na Face da Terra, o campo obrigatório da sua evolução que consiste na transformação da Vida-Energia (Jiva) em Vida-Consciência (Jivatmã), passando do estado virginal à condição amadurecida, para que se dê a reintegração final dos seres criados pelo Logos (as células individualizadas do Seu Corpo de Manifestação que é o Globo em quem tudo e todos têm o seu ser e evoluem, como diria St.º Agostinho), nas palavras de Martinets de Pasquallys. Isto implica trazer o Espírito à Matéria – Purusha atraído a Prakriti – como seja a espiritualização desta – o Divino atraído ao Terreno – e não o contrário. Tal como uma casa se constrói pela base e não pelo telhado, assim também a evolução individual e colectiva se processa de baixo para cima, da Terra para o Céu, isto é, do Terceiro para o Segundo Logos atraindo o influxo deste àquele, pelo que a negação corporal por muitos devocionalistas impondo-se uma série de austeridades (tapas) com negação do físico (restrições) acaba sendo um caminho erróneo repleto de equívocos, a maioria destes de natureza sentimental (kamas) em detrimento da lógica e lucidez do esclarecimento e compreensão afim ao mental (manas).

Igualmente não basta participar em algum tipo de ambiente psicofísico pretextando ser de natureza salvífica para automaticamente considerar-se salvo. Não, esse é equívoco ainda maior que o das austeridades físicas: ninguém evolui por alguém – tal é a Lei que rege a um e todos. O desleixo na disciplina iniciática, o considerar-se salvo ou liberto só por participar em alguma coisa de que a maioria parece nem sequer entender, tampouco se preocupar com isso, revela unicamente a condição de anencéfalos ou adoradores de ídolos, por mais controversos que esses sejam, encontrando sempre desculpas absurdas para justificar actos censuráveis tanto no plano humano como sobretudo no espiritual, desculpas ou pretextos esses parecendo literalmente plagiados do pior que a catequese católica possui. Assim, torna-se facto efectivo a existência de muitos discípulos virtuais e de escassíssimos discípulos reais dos Mestres de Amor-Sabedoria, pelo que a ligação (antahkarana) entre os veículos da Personalidade formada (Mental Concreto, Emocional, Vital e Físico) e os da Individualidade em formação (Espiritual, Intuicional, Mental Abstracto) mantém-se neles no estado originalmente virtual, ou seja, é como se não existisse, reparando-se que nesses entes reencarnados a ligação é mais ténue e fina que um fio de cabelo.

“Faze por ti (personalidade) que Eu (Individualidade) te ajudarei”, já dizia Jeoshua Ben Pandira, o Cristo bíblico. Mas não era a essa classe de anencéfalos que se destinava os profundos e inéditos conhecimentos teosóficos do Professor Henrique José de Souza e tampouco este estudo, mesmo sabendo que a sua condição virtual também ela um dia se tornará real, realizada até ao final da Ronda e sobretudo da Cadeia Planetária, a não ser que esgotem todas as possibilidades de remissão kármica – com isso sendo monadicamente arrojados ao gélido Avitchi Interciclos, maiores ou menores, como Vidas Perdidas – através dos ciclos de reencarnações que a Divindade concede ao Homem, conforme revelou o mesmo Professor a quem os Teúrgicos e Teósofos reconhecem como o Venerável Mestre JHS, e que o seu condiscípulo mais próximo, Eng.º António Castaño Ferreira, ministrou repetidamente em aulas teosóficas na sede da S.T.B. no Rio de Janeiro.

Segundo António Castaño Ferreira, a Lei Suprema ditou para cada criatura humana um número específico de reencarnações em cada um dos Ciclos de Evolução em que se reparte a Cadeia Planetária, com umas quantas mais destinadas aos Egos retardatários, melhor dito, atrasados, as quais constituem pequenos ciclos kármicos, possuídos de uma duração de 1000 a 1300 (?) anos. O ponto de interrogação dá como variável essa duração. Mas, repito, são ciclos apenas kármicos, não possuem mais algum valor evolutivo. De facto, os Jivas ou homens, em ciclos de 777 reencarnações em cada Ronda, ou seja, no decorrer das 7 Raças-Mães, podem atingir o máximo de desenvolvimento relativo às faculdades interiores.

Sabe-se, porém, haver um limite máximo e um limite mínimo para cada um desses Ciclos. Assim, as experiências possíveis em determinada Ronda não poderão ir além de 868 ou aquém de 686 reencarnações.

Como se depreende, a Mónada que se adiantar faz a sua evolução reencarnando, no mínimo, 686 vezes numa Ronda; a que segue o curso normal reencarna 777 vezes; a retardatária fá-lo em 777 mais 91 vezes, que é igual a 868 reencarnações, ficando esse limite de 91 para ser distribuído nas 7 Raças-Mães.

Para se encontrar esse número 91, deve-se tomar 7 termos de 4 partindo da unidade: 1+4+9+13+17+21+25 = 91. Uma Mónada muito atrasada reencarna:

Será assim que a Mónada esgota, destrói ou queima o seu karma pendente da Ronda anterior. Por sua parte, de há muito que não sendo obrigados a reencarnar na Terra por nada terem a aprender e tampouco a pagar dividendos kármicos nela, os Mahatmas, os Grandes Jinas ou Adeptos Perfeitos de cada Pramantha trabalham e preparam o seu substituto do Pramantha subsequente. Feito isso, descem para os Reinos Internos de Duat e Agharta, pois nada mais têm a ver com a evolução do homem comum.

Como este tema implica a lembrança das vidas passadas relativas às Vidas Numeradas por JHS no seu Livro das Vidas (O Mistério da Árvore Genealógica dos Kabires), datado de 1933, para evitar posteriores invenções oníricas e até de pareidolias, informo que a lembrança total das mesmas vidas passadas encontra-se no Plano Búdhico ou Intuicional e em nenhum outro mais, pelo que só os Adeptos Perfeitos o poderão adentrar e ler o átomo-semente búdhico – a partir do qual se forma o respectivo corpo – da pessoa na sua frente como quem lê um livro aberto. Isto mesmo reiterou o Excelso Dhyani-Budha Eduardo (J∴), Supremo Dirigente do Quinto Posto Representativo de Sintra, quando chamou aos “Chakras de Olhos do Espírito”. Afloro o assunto para advertir quanto ao perigosíssimo método de “lembranças das vidas passadas por métodos hipnóticos”, confundindo de modo grosseiro estados psicológicos manifestados, formados de patologias recalcadas (nidanas), com a realidade, esta que só a verdadeira Iniciação pode conferir.

Porém, quando pela disciplina espiritual, pelas práticas iniciáticas um homem desenvolve a sua consciência física indo ligá-la à consciência do Espírito, com isso ele supera o seu karma e vai adquirindo a memória imediata do mistério das suas vidas passadas. Os raros que conseguem isso, e muito raros os são (ao contrário do que se presume comummente), acabam tornando-se Vidas Integrais, Illuminatis, Iluminados ou Adeptos Perfeitos, podendo afirmar com todo o direito: Aham Ashmim (“Sou quem sou”). Estando identificados à Consciência Divina do Logos Planetário, possuem efectivamente a consciência imediata da soma total dos conhecimentos adquiridos nas vidas anteriores. Estes são os verdadeiros “Magos do Oriente”, Adeptos Independentes, Mestres Reais ou, como os definia São Jerónimo no século IV, “os Mestres que filosofam acerca do Universo”, participando da natureza espiritual mas também material do mesmo.

Um Mestre é alguém que já conquistou o elevadíssimo grau de da 5.ª Iniciação Real de Asekha ou Ariya-Puggala – Adepto Perfeito, o “acima (as) de discípulo (sekha)” – podendo mesmo deter a 6.ª Iniciação Real como Choan ou “Senhor” de Linha dirigindo seis Asekhas identificados a ele. Donde se falar nos 7 Moryas, nos 7 São Germanos, nos 7 Serapis, etc., ligados de tal modo entre si que até se assemelham nos aspectos físicos. Havendo 7 Linhas ou Raios com sete Mestres para cada uma delas, logo perfazem o número de 49 Adeptos Independentes ou “libertos da lei da morte”, parafraseando Camões, isto é, isentos de Karma Humano por o terem esgotado completamente e assim são, literalmente, Libertos.

Um Mestre é um Pai espiritual, une os seus filhos, não os separa. Compreende a todos e a todos atende de acordo com as necessidades de cada um, variando o discurso conforme se lhe apresentam os interesses: se aquele filho espiritual tem inquietações sociais e políticas, ele poderá dizer que todos os governos são bons desde que se mudem os maus hábitos dos governantes, que deverão estar exclusivamente ao serviço do Bem Público; se aquele outro filho demonstra interesses mais metafísicos, então o Progenitor irá saciando sua fome de sabedoria sempre atento às capacidades de apreensão e compreensão do ouvinte, e assim por diante. O Pai espiritual é compassivo, a todos compreende e a todos ama e abraça numa unidade comum. Perdoa, é compreensivo e misericordioso, o seu sentimento de amor e sabedoria é irresistível força magnética que impele a imitá-lo projectando a consciência imediata para oitavas superiores à comum, algo assim como A Imitação de Cristo descrita por Tomás de Kempis (século XV). Cumeeira da Perfeição do Género Humano, o Pai espiritual é a expressão viva da Divindade na Terra, é a derradeira esperança para que se volvem os pensamentos e sentimentos dos que sofrendo na estreita vereda da vida buscam a solução final da realização verdadeira e da felicidade perene.

Tais Adeptos Independentes sendo os Aspectos dos seus Sub-Aspectos que são os discípulos, eles próprios são Sub-Aspectos dos Aspectos Planetários que são os Kumaras, cada um dirigindo uma Linha conferindo-lhe um tónus planetário por serem quem filtram a Energia Única do Logos Planetário que a recebe do Logos Solar através dos respectivos Sete Logos Planetários, Ishvaras ou Dhyan-Choans, “Senhores Primordiais” ou “Cisnes (em páli) Celestes”, conforme consta nas Cartas-Revelações de JHS de 7.7.1940, 9.8.1940 e 25.12.1942.

Sendo os 49 principais Adeptos de um vasto número de 777 (111 para cada Linha mais o Kumara dirigente) que entretanto foram se formando desde que se fundou a Sudha-Dharma-Mandalam (Grande Fraternidade Branca) há cerca de 18 milhões e meio de anos na terceira Raça-Mãe Lemuriana, tendo se organizado na quarta Raça-Mãe Atlante e firmado definitivamente no início da actual quinta Raça-Mãe Ariana, o Professor Henrique José de Souza revelou a organização dessas Linhas no seu Livro das Vidas Passadas (1933) e igualmente no seu Livro Síntese da Missão dos Sete Raios de Luz (28.9.1935), tendo a sua Coluna J (de Jnana ou Sabedoria), Eng.º António Castaño Ferreira (CAF), as classificado do modo seguinte:

1.º Raio – Júpiter – Chakra Coronal – Adi (Atómico) – Sakiel: Ab-Allah (Linha dos Kapacs ou Mafomas)

Assim como as restantes Linhas de Adeptos, esta compõe-se de sete Seres Divinos, Tulkus ou “desdobramentos de si mesmos”, apesar dos Seres desta primeira categoria, devido à sua extraordinária evolução, viveram em Êxtase ou Samadhi Celeste (Nivri-Kalpa-Samadhi), despendendo as suas vibrações benéficas desde o Oeste do Tibete e Norte da Índia, Srinagar, até ao seu assento ou pedestal no Peru, Machu-Pichu.

2.º Raio – Mercúrio – Chakra Frontal – Anupadaka (Subatómico) – Rafael: Nagib (Linha dos Bigam, Bijans ou Crística)

É constituída por uma categoria de Seres Andróginos cuja Mente Abstracta aliada à Intuição cria Devas ou Anjos (artificiais como belíssimas e benéficas formas bimânicasBudhi-Manas), com os quais tem como função a protecção da Humanidade. Tais Devas artificiais são as Partículas de que se revestem os 777 Matra-Devas ou “Anjos da Medida” do Segundo Logos com os quais se reveste o Cristo Universal.

3.º Raio – Vénus – Chakra Laríngeo – Akasha (Éter) – Anael: São Germano (Linha dos Germanos ou Rakowsky)

Sintetiza as duas anteriores e projecta as quatro restantes. São os Seres Guardiões das 7+1 Montanhas Sagradas do Mundo agindo pelos Seres conhecidos como Munis e Todes. Eles velam pela protecção ou segurança dos Embocaduras que acedem aos Mundos Subterrâneos através da criação de ilusões físicas, sensoriais e mentais – os espelhismos, mayas budistas ou maya-vadas – que impedem os profanos ávidos simplesmente de curiosidade, completamente despreparados tanto espiritual como psicológica e fisicamente, de aceder a tais Mundos. Esta Linha está profundamente ligada à Serra Sagrada de Sintra (Kala-Sishita ou Dharma-Sistha).

Essas três Linhas primordiais no centro do Pramantha não têm relação directa com o Mundo Humano, Jiva, e a relação que acaso possa acontecer faz-se só quando é incontornavelmente necessário, exclusivamente através de discípulos desses Mestres que estejam muito adiantados na Iniciação (no mínimo o terceiro Grau do Discipulado). Ab-Allah – Nagib – São Germano, expressando a Tríade Superior, representam as Três Brumas Celestes Akbel – Ashim – Beloi, representativas dos Três Logos Pai – Mãe – Filho, o que é muito bem expresso pelas três pétalas superiores da Flor-de-Lis, simbólica do próprio Governo Oculto do Mundo (G.O.M.).

As restantes quatro Linhas subsidiárias do Pramantha formam uma cruzeta expressando o Quaternário Inferior, sendo:

4.º Raio – Saturno – Chakra Cardíaco – Vayu (Ar) – Kassiel: Hilarião (Linha dos Hilaricos)

São os Tulkus verticais da Mãe Divina ou Aspecto Feminino do Segundo Logos projectado no Terceiro, sendo os responsáveis por impulsionar a tónica das Artes, do Belo, bem patentes através da estatuária, pintura, poesia, oratória, etc.

5.º Raio – Marte – Chakra Gástrico – Tejas (Fogo) – Samael: Morya (Linha dos Maurus ou Cabayus)

São os Tulkus horizontais da Mãe Divina, projectados desde El Moro (Novo México, EUA) até ao Roncador (Mato Grosso, Brasil). Estão profundamente ligados ao 3.º Raio do Mental Abstracto, são responsáveis pelo desenvolvimento da Ciência e difundem todos os ramos do Conhecimento para que fique ao alcance de todos, com isto igualmente desvendam os segredos da Natureza.

6.º Raio – Lua – Chakra Esplénico – Apas (Água) – Gabriel: Kut-Humi (Linha dos Kut-Humpas ou Garás)

São os Tulkus horizontais do Pai Eterno ou Aspecto Masculino do Primeiro Logos manifestado no Segundo. Advogam o Ideal Divino, o Amor Universal, a quem se devotam absolutamente e sendo por isso chamados de Amorosos, pois que a partir da Essência do Pai realizam a Ideia da Mãe.

7.º Raio – Sol – Chakra Raiz – Pritivi (Terra) – Mikael: Serapis Bey (Linha dos Serapis, Serapicos ou Construtores Divinos)

São os Tulkus verticais do Pai Eterno. São os Ferreiros do Seio da Terra que laboram directamente com o Fogo do Espírito Santo, o Fogo de Vulcano expressado por Kundalini-Shakti, também chamado Fogo de Marte. Estando ligados à tónica da Magia Cerimonial como caminho espiritual e método de acção, possuindo todos os segredos da Alta Magia Aghartina, com esta mesma manipulam as forças naturais e sociais, criando e destruindo civilizações em conformidade com os ciclos da evolução e do karma.

As 4.ª e 7.ª Linhas são aquelas por que se expressa o trabalho de verticalidade do Governo Espiritual do Mundo de Agharta para a Face da Terra, conectada à Autoridade Espiritual e à Sabedoria afim a ela.

As 5.ª e 6.ª Linhas são as do trabalho de horizontalidade do Governo Oculto do Mundo na Face da Terra, conectado ao Poder Temporal e à Ordem afim ao mesmo.

Da união dos dois Poderes resulta a “terceira coisa”: o Império de Melkitsedek, por outra, o Reinado de Maitreya – Sinarquia ou Concórdia Universal – com a duração de 10.000 anos do 8.º Ramo Racial, este que estabelece a ligação entre a 7.ª Sub-Raça Ariana e a 6.ª Raça-Mãe Bimânica (Budhi-Manas).

Aqueles Choans que haviam se distinguido no ciclo da Atlântida evoluíram e reapareceram na actual Raça Ária como Dhyanis-Kumaras, tendo nascido de Lorenzo Paolo Dominiani e Lorenza Feliciani Domiciani – São Germano e Lorenza – a partir de 1789. Como Kumaras Secundários ou “Júniores”, passaram a estar sob a direcção do Kumara-Rei ou Primordial como o Quarto Planetário desta 4.ª Ronda. A partir de 1900, começaram a actuar pelas seus “aspectos menores”, os Dhyanis-Jivas – antigos Asekhas na Atlântida – que se tornariam Dhyanis-Budhas em 1949. Estes, por sua vez, são as representações vivas dos Sete Adormecidos de Shamballah, os Excelsos Avataras – Manifestações da Divindade do Segundo Mundo Celeste – que como Budhas de Compaixão – Bodhisattvas – brindaram, brindam e brindarão as sete Raças Humanas com a Sua gloriosa e benfazeja presença, por momentos transformando a Idade Sombria, a Kali-Yuga da Face da Terra, numa deífica Satya-Yuga, Idade Luminosa. Os dos Passado estão adormecidos em Sono ParanishpânicoParanirvânico, Monádico – e os do Futuro também, restando o Sétimo síntese de todos. Mas lá irei. Os Dhyanis-Kumaras agem pelos Bodhisattvas “Júniores”, os Dhyanis-Budhas, e estes influem sobre os Adeptos Perfeitos, cumeeira dos respectivos discípulos, aos quais cabe reunir numa unidade Pax, Amor e Sabedoria as Vidas Dispersas que constituem o geral da Humanidade.

Manifestando-se pelo Tubo Cósmico (Tubu-Shin) por onde discorre a Energia Celeste de Fohat – Electricidade Cósmica – vinda do Empíreo através do Olho de Druva, a Estrela Polar, para se “cristalizar” como Sol Ígneo da Terra que é o Núcleo da Força Terrestre de Kundalini – Electromagnetismo Planetário – as Hierarquias Criadoras deram forma às sete Lokas ou regiões luminosas – cidades aghartinas – no seio do Globo onde se fixaram há milhões de anos atrás, em plena Raça Lemuriana, ficando abaixo delas as Talas ou lugares sombrios correlacionados a quanto seja de índole involucional e a Vidas Perdidas, os chamados curros assurinos e asatânicos afins a uma Oitava Esfera ou Zero-Dimensão (“Cone Sombrio da Lua”) extra ao Aro da Evolução (“Cone Luminoso do Sol”).

Na sua Carta-Revelação Um ramalhete florido e iniciático, datada de 2 de Março de 1956 (Livro dos Arcanos da Era de Aquarius), o Professor Henrique José de Souza apresenta um magnífico e eloquente esquema do Tubo Cósmico, das 7 Cidades Aghartinas e de Shamballah em correlação com o Empíreo ou Céu das Estrelas Fixas, o qual é de grande utilidade para aperceber e enquadrar quanto se seguirá daqui em diante:

O Professor Henrique José de Souza voltaria depois a comentar esse seu esquema na sua Carta-Revelação de 12 de Abril de 1958 (Livro do Ciclo de Aquarius): “Em torno do círculo abaixo estão as estrelas fixas, embora que o círculo se movendo me tivesse dado direito a chamá-lo de carrocel. Quando termina um Ciclo ou Idade, a Estrela que se chama Polar, por se reflectir no Pólo Norte, toma posição diante de uma abertura que só por si merece ser chamada de olho de Druva. E eu, de modo alegórico, fiz ver: é o Olho por onde Brahma contempla a sua própria Evolução na Terra. Outrora, copiando esse mesmo fenómeno, a estrela ou planeta, melhor dito, à qual era dedicado este ou aquele templo (a Júpiter, a Vénus, a Saturno, etc.), ficava incidindo sobre ele por um orifício no seu zimbório, e o autar se iluminava automaticamente. No caso da Estrela Polar ou Olho de Druva, o fenómeno é permanente: expressa a Idade de número 432 (000, a actual Kali-Yuga) que é quem governa o Mistério.

“O Pólo Norte é donde parte o Tubo Cósmico. Assim, a Agharta é toda iluminada pela Estrela Polar, sendo que no Ciclo presente, por ser a estrela Sirius – a mais brilhante do céu – a mesma Agharta, por sua vez, toma maior brilho que antes. Do mesmo modo, os seres da Terra não deveriam ficar mais iluminados na sua consciência? Respondam os Assuras e Makaras, pois representam as duas Hierarquias que os governam acompanhando as anteriores: Kumaras, Agnisvattas, Barishads, etc., na preparação do 5.º Sistema (Ronda) e já estando em foco o 6.º Sistema.”

Esse Tubo Cósmico tem o formato do falus indicando o órgão gerador que se associa à 7.ª Cidade Aghartina chamada Pushkara, expressiva do Princípio Átmico (Espiritual) gerador dos demais Princípios. O seu conjunto (base, corpo e capitel) expressa em baixo o Panteão de Shamballah, ao meio escurecido o Panteão de Pushkara, mais acima o Panteão do Caijah e, finalmente, no ápice o 8.º Sistema então chamado Muakram, “o Sol Médio na Terra”. Como revela o Livro Síntese de JHS, essa foi a conformação do Panteão Aghartino até ao ano de 1935, com isso não significando que ele tenha mudado de forma mas sim que tenha recebido novas vidas, novas directrizes, novas ampliações, tudo conformado à sementeira monádica dos destinados a constituir a cumeeira humana da 7.ª Sub-Raça Ariana, como JHS descreve no seu Livro das Vidas:

“Como se sabe, as Mónadas da “Família Espiritual da 7.ª Sub-Raça”, tronco donde surgirá um dia a Raça-Mãe finalizadora da presente Ronda, além de trabalharem para tal Advento – como sementes escolhidas pelos Manus Dharma-Prabasha e Dharma-Lakshmi – serão dentro de algum tempo os próprios Aspectos das 7 Linhas que vão figurar no Novo Ciclo, que terá início no ano 2000, no respectivo Pramantha.”

Por essa altura, o Venerável Mestre JHS desencadeou uma série de acções afins ao tema, juntamente com algumas das mais altas dignidades do G.O.M., e procedeu a uma série de revelações acerca do Panteão Aghartino que dividiu em quatro pavimentos ou patamares, dizendo que quanto mais de Shamballah para cima mais frio se torna o ambiente, e mais quente quanto mais para baixo, pelo que quanto mais para cima mais claras são as cores, terminando no branco, e quanto mais para baixo mais escuras são as mesmas, finalizando no negro. Em Shamballah, a “Ilha Imperecível” como Sol Planetário onde a potência de toda a luz se torna negra como obscurecimento da cor púrpura, vibra o Tatva Pritivi que fornece o alicerce do Panteão. Abaixo e fora dela surge o Avitchi, o Inferno dantesco, as regiões tenebrosas do Mar da Tristeza (Apas), do Mar de Fogo (Tejas), do Mar Tempestuoso (Vayu) e do Mar da Destruição (Portal Akáshico do Inferno, das Talas). Essa Região do Fogo “que não é alimentado pelo Logos” constitui-se do resíduo ou borra das formações cósmicas, é a lama ígnea ou “lago de excrementos” de que fala Dante na Divina Comédia, sendo a morada dos asatânicos e assurins para lá da qual se abre o Portal da Oitava Esfera do Nihil, Abyssus ou Abismo sem fundo, onde morre toda a esperança de redenção na Cadeia em manifestação. O Arcanjo ou Dhyani Samael é o Guardião do Portal do Inferno – Cone da Lua – donde não deixa nada nem ninguém escapar.

Para cá das regiões tenebrosas formadas pelas escórias cósmicas, tem-se o Sol Planetário no seu duplo aspecto de Fohat e Kundalini, sobretudo esta que como Energia Electromagnética agrega e solidifica os átomos gerando Pritivi, a partir da qual a Matéria toma forma e é vivificada pelo Hálito Vital chamado Prana, sendo como que um resultante andrógino dos princípios masculino-feminino que do Oitavo Sistema de Evolução Universal (8.º Universo) se projectam como Pai-Mãe Cósmico (Zain-Zione) vindo plasmar-se no seio da Terra como Sol Andrógino da mesma, o Filho (Zion), o Espírito Santo do qual este é o Laboratório onde mareja todas as energias e substâncias de que a Matéria (Mater-Rhea, Mãe-Terra) é constituída e assinalada, apesar de palidamente, na Tabela Periódica dos Elementos.

Se a Mulher está para Fohat e o Homem para Kundalini, vistos do Plano de Purusha para o de Prakriti (ou do Espírito para a Matéria), neste acontece precisamente ao inverso, facto que o Mestre JHS assinala no seu Livro das Vidas:

“Tal fenómeno é bem um exemplo do que já se tem falado várias vezes, isto é, do Homem com funções infernais ou inferiores (Kundalini desperta nas funções genésicas do Homem criador, positivo, portanto) e da Mulher com funções genésicas divinas, receptivas, conservadoras, negativa, portanto, pouco importando que no sentido involutivo o negativo seja o Homem e o positivo a Mulher!… Tal função na Mulher é algo mais do que Kundalini, é Fohat: Luz e não Força. É Espírito e não Matéria, pouco importa se da união das duas, por ambos os sexos representada, nasça uma terceira Força – o Filho, como elemento apaziguador ou equilibrante.

“Daí o termo “Virgem Mãe do Fogo Sagrado” para as Sacerdotisas vulgares, e “Virgem Mãe de Agni manifestado como Ser na Terra”, ou um desses muitos Iluminados que ao Mundo têm vindo, para as de dupla função: Mãe e Sacerdotisa ao mesmo tempo.”

No seu livro Os Chakras, Charles Leadbeater assim descreve o Núcleo do Fogo Serpentino, Shamballah, no seio da Terra:

“Desde há muitos anos sabemos que nas entranhas da Terra há o que poderíamos chamar o Laboratório do Terceiro Aspecto do Logos. Ao investigar as condições do centro da Terra, encontramos ali um volumoso Globo de energia tão formidável que não podemos aproximar-nos. Foi-nos possível tão-somente tocar as camadas externas, e inferimos que evidentemente estão em relação simpática com as camadas de Kundalini no corpo humano.

“Há muitíssimos milénios penetrou no centro da Terra a Energia do Terceiro Aspecto do Logos e ali continua elaborando gradualmente novos elementos químicos, com crescente complexidade de formas e vida intensa ou actividade interna cada vez maior.

“A Energia de Kundalini ou Fogo Serpentino do nosso corpo procede do Laboratório do Espírito Santo, oculto nas entranhas da Terra, e é parte do formidável Globo Ígneo geocêntrico.

“Esta tremenda Energia tem o aspecto ainda mais terrível de produzir a impressão de descer sempre mais profundamente na matéria, com lenta mas irresistível progressão e implacável segurança.

“Assim, absorvemos a potente Energia de Deus tanto de baixo, da Terra, como de cima, do Céu. Somos filhos da Terra mas também do Sol. A Energia que sobe da Terra e a que desce do Sol, confluem em nós e cooperam mancomunadamente para a nossa evolução. Não podemos possuir uma Energia sem a outra, e há muito risco no excessivo predomínio de uma delas. Daí o perigo de avivar as camadas inferiores do Fogo Serpentino antes de purificar e refinar a conduta.

“Ouvimos dizer muitas coisas acerca desse misterioso Fogo e do perigo de avivá-lo prematuramente, e indubitavelmente é verdadeiro muito do que ouvimos dizer. Certamente há gravíssimo perigo em despertar os aspectos superiores desta formidável Energia antes que um homem seja capaz de a dominar e haver adquirido a pureza de conduta e pensamento que lhe permita libertar impunemente tão tremenda potência.

“O Fogo Serpentino desempenha na vida quotidiana uma parte muito importante do que até aqui havíamos suposto, pois há dessa Energia uma suave manifestação, já desperta em todo o homem, que é não só inofensiva como também benéfica, e que actua dia e noite levando a cabo a sua obra, ainda que estejamos inconscientes da sua presença e actividade.”

É essa Energia Criadora afluindo do centro da Terra pelas palmas dos pés do Homem até ao seu centro gástrico-cardíaco que a Yoga de Akbel mareja, indo uni-la com a Energia Conscientizadora de Fohat sob o têmpero do Hálito Vital, Prana. O Munindra, o Discípulo da Obra do Eterno, que realiza esta Yoga de Integração sabe do que estou falando.

A base mais larga onde penetra o Tubo Cósmico – análogo à função do falus e do cteis, embora invertida – corresponde ao Hall de Shamballah, às altíssimas Muralhas de JericóYer-ko ou Orikalki, mistura de ouro e prata – que separam a sétima cidade de Agharta – Pushkara – de Shamballah. Protegido por essas muralhas estão o 1.º Pavimento ou Patamar dos Deuses Adormecidos do Panteão Aghartino. Apenas um Ser Andrógino, Jeffersus e Moriah, Cristo e Maria, aí dorme, possuindo o valor de 777 Seres Manasaputras ou “Filhos do Mental Cósmico” (Mahat), criações dos 7 Kumaras Primordiais na Raça Lemuriana e que lhe servem de vestes. Dorme em túmulo de ouro maciço com lavores em forma de Anjos ou Devas, tendo incrustada na borda riquíssimas pedrarias afins aos sete planetas tradicionais, encimando-o os números feitos com Orikalki, em alto-relevo sobre o mármore róseo do espaço tumular, 888 acima de 777. A disposição dos sete túmulos toma a forma de um H – o quinto à esquerda do central está vazio, correspondendo ao de Akdorge como o divino Guardião ou Porteiro da cidade de Pushkara e o que ora urge como Rei do Mundo – com três túmulos de cada lado do principal, construídos com os metais da ordem planetária, sendo relativos aos seis Senhores ou Bodhisattvas do Passado e do Futuro em torno do 7.º Adormecido – Jeffersus, o Cristo Universal. Envolvem o 1.º Patamar as ondas fluídicas de intensa cor púrpura do Sol de Bhumi, a Terra, as quais se movem sobre si mesmas em uma irresistível atracção electromagnética, em cujo seio também 777 Manasaputras dormem, aguardando a Hora da Ressurreição Final marcada pelo fim da Ronda.

O 2.º Pavimento do Panteão de Agharta situa-se na sétima cidade desta. Ocupa-o o Círculo de Resistência Espiritual constituído pelos preclaros Membros da Ordem do Dragão de Ouro, os próprios Adeptos do Governo Oculto (Espiritual) do Mundo. É aqui, neste omphalus de Bhumi, que a Energia do Céu e da Terra se encontram e fundem na perfeita autogenia ou força geradora de si mesma originando os Andróginos Perfeitos que são os mesmos Adeptos Independentes. É deles que irradiam as possibilidades skândicas (de skandas, tendências superiores) para os que estão no 3.º Pavimento, propiciando-lhes capacidades de marcha avante na sua evolução pessoal indo se integrar aos seus Mestres (Mahatmas) e respectivos Vasos Eucarísticos (Manasaputras).

A revelação do 2.º Pavimento coincidiu com a entrega da Chave de Pushkara a JHS em 28 de Setembro de 1933, dentro do Livro-Sarcófago que ele abriria num Ritual realizado em 12 de Novembro desse mesmo ano. Fez entrega da Chave de Pushkara o Adepto Albert Jefferson Moore, sobrinho do “Velho Escocês”, o Mestre Ralph Moore. A mesma esteve na S.T.B. durante sete anos e depois foi devolvida à procedência através do Outeiro da Glória – Pedra da Gávea (Rio de Janeiro) às 17:00 horas de 1 de Outubro de 1940 (correspondendo ao dia 30 de Setembro no Mundo de Duat). A Chave de Pushkara representa a geração do 7.º Princípio de Atmã no Homem, sendo a expressão do próprio órgão gerador do Kumara Rei, ou seja, do Manu Primordial que veio selecionar as 52 (49+3 expressiva da Tríade Superior) sementes monádicas destinadas a constituírem a vanguarda espiritual e humana da 7.ª Sub-Raça Ariana, portando já consigo a semente da 7.ª Raça-Mãe Atabimânica (Atmã-Budhi-Manas).

A Chave de Pushkara era feita de cobre (metal de Vénus) e pesava 1,4 kg. Tinha 23 cm de comprimento e o cilindro oco possuía 4 cm de diâmetro, com a extensão total de 20 cm; na parte inferior, a chavinha era um peça rectangular com 1 cm de espessura e 3 cm de altura; na parte superior, cada círculo possuía 5 cm de diâmetro, totalizando 10 cm no seu cimo.

O próprio Panteão Aghartino, no total dos seus quatro pavimentos, configura a Chave de Pushkara. Essa configuração provém da letra Shu, com que se escreve em sânscrito Shukra (शुक्र), Vénus, este planeta que igualmente possui o sentido de amor e atracção, fecundidade e geração.

Shu

Com efeito, na sua Carta-Revelação de 28 de Abril de 1958 (Livro do Ciclo de Aquarius), com o título A Chave de Pushkara e a sua Grande Revelação, o Professor Henrique José de Souza desenhou e legendou o formato da mesma em conformidade com as 7+1 Cidades Aghartinas, conforme se segue:

Nessa mesma Carta-Revelação de 28.4.1958, o Mestre JHS dispõe a Chave de Pushkara em relação com o 7.º Princípio que estando sob a influência planetária de Júpiter, é o mesmo planeta dirigente do biorritmo da Serra Sagrada de Sintra, já de si Panteão Jina – e para ele são encaminhadas as almas gloriosas dos(as) Obreiros(as) do Grande Ocidente Lusitano que findam corporalmente os seus dias na Face da Terra – das glórias da Atlântida e da Vida de Cristo cujas Relíquias durante larguíssimos séculos estiveram sob a custódia sigilosa da soberana – sobre todas as demais – Ordem de Mariz, cujo Cruzeiro Mágico de Mariz vem a ser a mesma Chave de Pushkara que desdobrada em quadriplicidade nas quatro direcções cardeais configura a Rosa+Cruz Filosófica, simbólica da Iluminação Átmica ou Espiritual.

Na Carta-Revelação referida, diz JHS:

“Como se sabe, a Chave de Pushkara representa todos os cânones da Evolução Humana. E foi por isso que, antes de dar a presente revelação, eu falei de Agharta, da luz da Estrela Polar, das cores, das substâncias ou espécies de matéria. Muito antes já eu tinha revelado que “a Serra de Sintra também é formada de sete substâncias”. Lá nasceu a Obra no Avatara de 1800. Lá esta mesma Obra se ocultou em seu seio, velada por dois Kumaras, enquanto outros dois acompanhavam as duas cascas das duas cigarras que ficaram naquele túmulo frio e pétreo, como o maior e mais digno de todos os Túmulos. Portugal, tu és a Origem da Raça Brasileira. E esta formada por sete elos raciais que tu também guardavas no teu régio Arquivo, com o provam as tuas ruínas, a profecia de Sintra.”

É entre os anos 1933 e 1935 que se completa o trabalho do Antigo Pramantha fundado na Lemúria, e com isso JHS vai revelando os patamares do Panteão Aghartino ao mesmo tempo que fixa as novas determinações do Governo Oculto do Mundo. Com isso, é revelada a estrutura do 3.º Pavimento ou Círculo de Resistência Humana, constituído pelos Munindras ou Discípulos da Obra do Eterno. Quando estes descem ao Mundo dos Imortais que é o Duat, propriamente o Caijah como a sua oitava cidade representando o Atmã Universal nesse Mundo, se as vibrações dos Seres do 2.º Pavimento não os conseguirem penetrar apesar de possuírem excelentes skandas, então eles atraem-nos fazendo descer adormecidos em sono paranishpânico até junto de si, insuflando-lhes então as tendências benévolas necessárias para que de Arhats se tornem Asekhas ou Adeptos Perfeitos já na próxima encarnação, depois fazendo-os subir para os seus respectivos lugares no Caijah. Mas se o atraso dos Munindras for grande não tendo se aperfeiçoado o suficiente, então os Senhores do Karma obrigam-nos a uma permanência maior nas primeira, segunda e terceira cidades duats – correspondendo às respectivas de Agharta – podendo mesmo recuar às afins do Mundo de Badagas, nas proximidades do Pólo Norte, onde terão de recapitular toda a história da sua evolução enquanto Mónadas peregrinas, isso num estado de sono astro-mental e não paranishpânico, que só advirá depois quando os mesmos adquirirem as condições de ocuparem os seus respectivos lugares no Caijah, conforme JHS descreveu na sua Carta-Revelação de 20.1.1956.

A revelação do 4.º Pavimento ou Panteão Moreb, significando “Montanha que Vê e Ouve” como o oitavo dos Montes Santos do Mundo na classificação do Excelso Ser Polidorus Insurenus, foi acompanhada de uma série de acontecimentos no ano 1935. Nesta data, foram incinerados os originais dos primeiros Livros-Revelações escritos pelo Professor Henrique José de Souza, conforme determinação do próprio: Livro dos Dhyanis (queimado em 21 de Fevereiro), Livro dos Arhats (queimado em 28 de Abril), Livro dos Adeptos (queimado em 28 de Maio), Livro do Manu (queimado em 7 de Julho). Mas o seu conteúdo ficou sintetizado num outro volume que veio a ser o Livro Síntese da Missão dos Sete Raios de Luz, com 52 capítulos, terminado em 28 de Setembro de 1935. Quanto a esses quatro Livros incinerados eram destinados a Seres das categorias que os respectivos títulos carregavam. Ainda assim, antes de serem destruídos o Venerável Mestre JHS solicitou que fizessem cópias à mão deles, e que por quarenta dias ficassem disponíveis “só para alguns” Discípulos, os mais avançados (mental ou espiritualmente) daquele tempo. Após aquele período, também as cópias deviam ser recolhidas e incineradas. De maneira que os originais desses Livros Sagrados foram interiorizados, ou seja, levados para a Biblioteca Planetária do Mundo de Duat (Astral), tendo antes transitado pelo Mundo de Badagas (Físico) e deste, sim, recolhidos ou trasladados àquele Mundo de tudo quanto é Imortal.

Em 28 de Fevereiro de 1935, em Ritual que ficou conhecido como “Chamada do Santuário” o Mestre JHS fez a leitura dos nomes dos discípulos da Obra Divina, encarnados ou não, pertencentes ao Círculo de Resistência Humano, classificando-os e numerando-os (donde Mónadas Numeradas) como sendo do Panteão Moreb, a fim de receberem o Sinete dos Gémeos Espirituais El Rike – El Lena (Henrique – Helena), doravante ficando assinalados como instrutores ou guias de parentes e pessoas colocados no Círculo de Resistência Humana, livrando-as da Oitava Esfera ao envolvê-las no Atmã Universal por cuja “Chamada do Santuário” uniu as suas Mónadas à 7.ª Cidade de Pushkara (que em sânscrito significa “mar de manteiga clarificada”, algo assim como manteigueira afim ao topónimo Mantiqueira, serra vizinha do Monte Moreb que é a sua extensão granítica, em pleno coração das lavras ou lavas de Minas Gerais) propiciando-lhes as condições póstumas que ficarem em sono paranishpânico entre uma encarnação e outra.

JHS escolheu os sete Sub-Aspectos (Discípulos) de cada Linha de Aspectos (Mestres) num total de 49 mais 3 Sub-Aspectos representativos da Tríade Superior assinalada na Oitava Linha Sedote ou Badagas (que é a do actual 8.º Ramo Racial, fazendo a ponte entre uma Sub-Raça e outra), num total de 52 Mónadas destinadas a serem a semente da Família Espiritual da 7.ª Sub-Raça Ariana. Nessa ocasião JHS leu no Plano Búdhico as últimas sete vidas de cada uma delas, o que veio a figurar no Livro das Vidas Passadas. Os nomes desses 52 Discípulos foram inscritos no Livro do Panteão Moreb que foi enterrado juntamente com a Chave de Pushkara, durante sete anos, debaixo da escadaria da Vila Helena, morada de JHS e da sua família em São Lourenço do Sul de Minas Gerais.

O valor dos 52 Seres do Panteão Moreb (4.º Pavimento) liga-se com o valor dos 56+56 Seres do Círculo de Resistência Humana (3.º Pavimento), num total de 164 Munindras mais o seu Supremo Dirigente, El Rike, logo, 165, como seja o Uno (1) como Sexto (6) dirigindo o Quinto (5) Planetário. Por outra, 1+6+5 = 12 (Zodíaco); 1+2 = 3 da Tríade Superior expressada pelas Três Hipóstases do Logos Único (Sol Espiritual).

Os 52 Seres do Panteão Moreb têm um acréscimo de mais quatro Seres do Círculo de Resistência Humana, expressivos das três Rondas passadas e da actual da Cadeia Terrestre, portanto, 56 acompanhados das suas respectivas 56 contrapartes.

Isso é de grande interesse iniciático porque, segundo as Revelações de JHS, neste 4.º Sistema de Evolução Universal o actual 4.º Globo desta 4.ª Cadeia de Terra possui o valor 56, ou seja, expressivo das 56 etapas ou realizações que o Homem – Jiva – deve realizar para se tornar Adepto – Jivatmã. Tal está representado no chakra cardíaco humano, onde normalmente o homem comum possui doze pétalas ou raios desenvolvidos, mas quando se realiza como Adepto Perfeito desenvolve mais duas pétalas, ficando com 14. Ora, na 1.ª Ronda afim à 1.ª Cadeia de Saturno o Homem manifestou em estado incipiente – consciência semelhante à mineral – essas 14 pétalas; na 2.ª Ronda empática à Cadeia Solar manifestou em estado igualmente incipiente – consciência afim à vegetal – as mesmas 14 pétalas; na 3.ª Ronda afim à Cadeia Lunar e também na condição incipiente – consciência parecida à animal – novamente as 14 linhas, raios ou pétalas do “lótus” cardíaco (anahata chakra); na presente 4.ª Ronda, onde de dá projecção as 3 Rondas futuras e com isso à construção da Tríade Superior ou Mónada Imperecível, o Jiva toma consciência de si mesmo – consciência humana, tomada de noção de si mesmo ou ahamkara – e cipiente desenvolve as 14 pétalas cardíacas. Portanto, 14+14+14+14 = 56, número dos Arcanos Menores do Tarot e igualmente o valor cabalístico da Hierarquia Humana e da própria Terra, o valor do Tetragramaton, da Pedra Cúbica, agindo no Mundo material.

Já o cabalístico número 22 está subentendido como assistindo superiormente àquele 56, pois além de expressar os Arcanos Maiores do Tarot expressa o valor da Pedra Filosofal, das Hierarquias Arrúpicas ou Informais (sem forma (rupa) por serem pura energia) daquilo que será objectivado na próxima 5.ª Ronda expressiva da 5.ª Cadeia de Vénus, alter-ego da Terra.

De maneira que os Sub-Aspectos (Vidas Parciais) actuais haverão de ser os Aspectos (Vidas Totais) no Quinto Sistema ou Ronda de acordo com a marcha da Evolução, sendo o ano 3005 aquele marcado pelo Matra-Akasha ou Calendário de Maitreya para indicar o momento alto do Novo Pramantha aquando o Quinto Senhor Arabel ocupará o seu Retro-Trono dando início ao começo do Quinto Sistema ou Quinto Império Universal constituído pelas Almas Salvas.

Pois bem, o dia 10 de Fevereiro de 1935 marcou o fim do Quarto e Antigo Pramantha Sudha-Dharma-Mandalam e o início do Quinto Novo Pramantha Lorenzo-Prabasha-Dharma, data excelsa correspondendo à do Nascimento dos Gémeos Akdorge (Guerreiro de Deus) e Akgorge (Profeta de Deus) que passaram a dirigir os destinos do Mundo e das Hierarquias que o assistem. Desde aí que a universalidade salvífica da Missão de JHS junto dos homens, dos discípulos, dos Mestres e dos Deuses se tornou clara aos seus mais próximos, aumentando em sabedoria e com isso crescendo a noção pessoal e colectiva de responsabilidade para com e na Obra Divina.

Akdorge, Filho de Adamita – Helena Iracy – e de Akbel, assumiu o cargo de Rei do Mundo passando a chefiar as Hostes de Assuras (Arqueus), Agnisvattas (Arcanjos) e Barishads (Anjos) junto dos Jivas (Homens), sob a direcção mais do Quinto Planetário Arabel que do Quarto Atlasbel, que aos poucos vai adormecendo, fenecendo como crepúsculo do Ciclo que finda dando lugar à aurora de um outro mais promissivo para o Mundo.

JHS aninhou em torno de si, como Pai compreensivo e compassivo, as Mónadas da sua Família Espiritual destinadas a cumeeira dirigente da Onda Humana na 7.ª Sub-Ariana, semente das 7.ª Raça-Mãe Atabimânica, que já urge em simultâneo com a 6.ª Raça Bimânica tal como o Atmã não se manifesta sem Budhi. Para que a Iniciação Mental (Assúrica) de JHS se processasse sem sobressaltos nem percalços na evolução nas Mónadas Numeradas da sua Corte, instituiu quatro Ordens Iniciáticas que juntas perfazem a Ordem do Santo Graal, conformadas aos Graus Iniciáticos pertinentes à mesma Iniciação Assúrica, como sejam: Ordem dos Tributários – Grau Manu; Ordem das Filhas de Allamirah – Grau Yama; Ordem do Ararat – Grau Karuna; Ordem dos Templários – Grau Astaroth. Finalmente, Ordem do Santo Graal – Grau Integração.

Atendendo às necessidades de cada discípulo, umas mais racionais e práticas, outras mais místicas e metafísicas, desde o Grau Vestibular ou Introdutório (Oedipo, Peregrino) até ao interno do Munindra ou Integração, JHS a todas satisfez fazendo recurso dos quatro temperamentos humanos (nervoso, sanguíneo, linfático e bilioso) que aplicou aos seus Graus Iniciáticos com singular mestria e eficácia. Sim, JHS, projecção humana directa do Planetário, “realizou em uma só vida o trabalho inteiro de uma Ronda”, como afirmou às portas da morte. A sua Obra está consumada, a sua Corte está realizada, resta só aos pósteros seguirem o exemplo, para tanto esforçarem-se na sua realização espiritual e humana, posto que ninguém evolui por alguém.

Finda aqui esta página inédita da História da Obra do Eterno na Face da Terra, a do Panteão ou Pantheon de Agharta, no qual as mais atrevidas revelações são feitas com a certeza, porém, de que nada valerão efectivamente a quem não for desta mesma Obra, senão a de abrirem maiores horizontes mentais àqueles que buscam verdadeira e sinceramente a realização de si mesmos que o nosso Mágico Triângulo da Iniciação oferece.

Posto tudo, com a evocação da Yoga Universal revelada e ensinada por JHS, o afirmo em desfecho:

Que a Luz, o nome, a Sentença, a Vontade, a Realização, a Expansão e o Trono de Deus, sob o prodigioso impacto das Sete Forças Criadoras do Universo, estejam comigo, tornando-me digno da minha própria Hierarquia, dando-me a Felicidade e a Saúde na Terra para poder ampliar a Lei na sua marcha para o Grande Dia de Maitreya. 

Bijam

A Regaleira de Sintra e o 515 de Dante – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Set 3 2018 

 

O profuso imobiliário artístico e monumental da Quinta da Regaleira, em Sintra. deixa supor significados escondidos sob as formas cuidadosamente modeladas que regalam a vista e enchem o espírito, porque muito do aí exposto encontra-se igualmente em antigos alfarrábios ilustrados ou não tratando de Ciência Hermética, particularmente de Alquimia e Cabala, cujos símbolos tradicionais são neste espaço privilegiado remodelados e adaptados mais que à veia artística do arquitecto Luigi Manini e seus pares, ao pensamento particular do proprietário António Carvalho Monteiro. Domina o sentimento de espiritualidade e pátria como uma aura suave envolvendo tudo. Nada parece ter sido feito ao acaso e posto aqui ou acolá por casualidade ou capricho, porque realmente assim não foi, e logo uma peça parece completar-se com a vizinha e assim por diante, uma mais bela e perfeita que a outra, que leva a alma do visitante a exultar e perder-se num êxtase de perfeições artísticas com significados transcendentes que parecem ter sido criadas pelo próprio Deus Nosso Senhor.

Essa impressão certamente já a tiveram muitos, como aquele jornalista de O Século que em 1904, na correspondência de Sintra, ainda esta obra de António Augusto Carvalho Monteiro estava sendo feita, escrevia:

“Terminado este prólogo, cumpre-nos dar o lugar de honra da nossa correspondência à obra portuguesa mais grandiosa e mais artística que um português tem feito em terra portuguesa! Esse benemérito é o dr. Carvalho Monteiro, que há uns anos comprou a quinta dos barões da Regaleira, que já era um encanto de vegetação e que é hoje um templo de arte. O que há dentro daquela propriedade nem se concebe nem se descreve. Suponha-se o grande cenógrafo Manini a realizar em pedra os seus sonhos da mais fecunda fantasia, tendo os panoramas de Cintra por pano de fundo. (…) Dizia Ruskin que uma das melhores características do homem é a faculdade de admirar. Temos essa faculdade no mais subido grau; e por isso, como português e como devoto do Belo, agradecemos ao sr. dr. Carvalho Monteiro a realização do seu grande empreendimento e o ter-nos proporcionado uma visita ao seu parque, visita inolvidável que traz o nosso espírito inebriado como depois de um sonho encantado. Que ele leve a sua obra ao cabo e que a Providência lhe conceda uma excepcional longevidade para gozar no meio de toda a sua família, é o voto com que retribuímos o grande prazer que nos deu.”[1]

Quando há alguns anos atrás (1990) protagonizei um filme documental sobre esta Quinta e a sua “mansão filosofal”, o realizador da filmagem, dr. Pedro Basto de Almeida, chamou-me a atenção para três bancos (com esculturas mandados executar aos irmãos Fonseca por Carvalho Monteiro, talvez por volta de 1904-05) dispostos estrategicamente, formando uma quase triangulação entre eles, no jardim envolvente do palácio e da capela. Após observá-los com mais acuidade, cuidei de informar patentear-se neles um figurino muito semelhante ao visto nos tratados herméticos da Idade Média e da Renascença, ou seja, a representação simbólica dos três “ares” ou “espíritos” da Alquimia, como sejam o Enxofre, o Mercúrio e o Sal, que a Química Oculta ou Esotérica utiliza para designar o Pai e o Espírito, o Filho e a Alma e o Espírito Santo e o Corpo.

Um desses assentos (da mensagem contida, parecendo incarnar simbolicamente em quem nele se assenta…) veio pelo mesmo realizador cinematográfico, com muita propriedade, a ser associado ao misterioso número 515 de Dante Alighiere, o “Fidelli d´Amore”[2].

Esse banco é encimado ao centro por uma jovem dobrada em meia-lua para frente, erguendo sobre a cabeça com ambas as mãos um facho ou archote. Representa o elemento argênteo e a própria Lua iluminando as águas, estas no lago imediatamente adiante. Há nisto a evocação da epifania lunar que os cultos antigos associavam aos mistérios ctónicos e por isso celebravam-nos no ventre da Terra[3], os mesmos que os sábios hindus chamam Luz de Chaitânia, facto assinalado na entrada próxima para o lago subterrâneo cuja embocadura é descida em espiral. A Luz da Lua é a Luz do Mistério ou Sod, Soma, Choma, Chendra ou Cynthia, igualmente representada na jovem guardada nos lados por um par de galgos lebreiros (masculino e feminino), indicativo do animal caçador da lebre que também é caça chã de há muito associada à Lua[4]. Ora, contam-se cinco ameias frontais de cada lado da figura feminina central, vindo a dar precisamente 5+1+5, ou seja, o número cabalístico 515 presente na Divina Comédia[5].

Pelo pressuposto motivo danteano presente nesse banco, incluindo Beatriz a amada do poeta florentino, cujo retrato aparece gravado no terraço do palácio, antes de tudo o mais e para melhor enquadramento do simbolismo exposto pela regra da analogia, deverá saber-se quem foram eles e o que fizeram de grande ou sumptuoso para ficarem eternizados nas tradições cortesãs desde a Idade Média até hoje.

Dante Alighieri (Florença, 1.6.1265 – Ravenna, 13 ou 14.9.1321), escritor e político, foi considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como il sommo poeta (“o sumo poeta”). O seu nome, Dante, segundo o testemunho do seu filho Jacopo Alighieri, é um hipocorístico de “Durante”, seguido nos documentos do patronímico Alagherii ou do gentílico de Alagheriis, enquanto a variante Alighieri se afirmou com o advento de Boccaccio[6]. Tendo vivido numa época fortemente marcada pela decadência militar da Ordem dos Templários no Ultramar, e sobretudo pela perseguição, prisão, condenação e abolição dos mesmos cavaleiros monges pelo rei de França, Filipe IV, manipulando o papa Clemente V, esses acontecimentos marcaram-no fortemente e, possuído do bom senso de justiça, sabendo como todo o mundo civilizado do carácter ambíguo do monarca francês, revoltou-se contra tais injustiças, denunciou-as junto do poder político e terá mesmo marcado presença num episódio turbulento acontecido em Florença com o papa Bonifácio VIII: em 1302 Filipe IV convocou Estados Gerais para acusar o sumo pontífice de heresia, tendo no ano seguinte enviado um grupo armado a Florença, ao Palácio de Anagni, onde reteve o papa prisioneiro por três dias, até que a guarda papal, os próprios templários apoiados pela burguesia da cidade, em cujo número possivelmente se contava Dante, libertou Bonifácio VIII, que veio a falecer um mês depois por causas pouco explicadas, chegando-se a levantar a suspeita de não terem sido naturais e sim por envenenamento, portanto, assassinado. O facto é que Filipe IV apoiou a nomeação imediata de Clemente V e rapidamente começou a perseguir os cavaleiros templários, até que conseguiu acabar com a Ordem através do seu “papa capataz”. Tudo isso revoltou Dante, amigo do Templo florentino, inclusive tendo feito parte de uma embaixada que em 1307 foi a Roma junto do sumo pontífice reclamar, debalde, a inocência dos templários.

Dante teria certamente conhecimento privilegiado do ideal religioso e social da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, com quem privou na sua sede florentina em San Jacopo, no Campo Corbolini, sendo atribuída a ela a primitiva construção da igreja de San Jacopo Sopr´Arno. O ideal de perfeição espiritual e justiça temporal que os templários pretenderiam transmitir à cristandade em particular e à sociedade em geral, violentamente interrompido pelo vício da ganância humana, era divulgado pela poesia e canto, prosa e trova da Confraria dos Trovadores, homens de livre pensamento, dotados de capacidades artísticas, adeptos da Filosofia do Amor espiritual que opunham ao domínio da Roma temporal. Por isso eram chamados Fidelli d´Amore, “Fiéis do Amor”. Dante contava-se entre eles.

A Confraria dos Trovadores e Jograis estava espalhada por toda a Europa e os primeiros ecos da sua existência aparecem na poesia dos séculos X-XI, feita de louvores a Santa Maria e bendizendo a Humanidade. No seu papel de vates e bardos, os trovadores, por meio dos seus cantos amorosos e satíricos, espalharam muitas verdades espirituais de acordo com as ordens secretamente recebidas dos Centros Iniciáticos que dirigiam a sua acção. Eles eram, por assim dizer, os “correios” ou portadores de informações reservadas entre as Ordens Iniciáticas dispersas pelo continente europeu, havendo nisso uma relação profunda e indivisível entre eles e o espiritual do Templo.

Quando, nos séculos XIII e XIV, Dante testemunhou impotente a extinção sangrenta da Ordem dos Templários, revoltado quis deixar aos vindouros as crónicas das verdadeiras e imaculadas intenções do Templo. E fê-lo de forma magistral em obra que marcou para sempre a literatura universal: La Divina Commedia. Primeiro que tudo, como revolta contra Roma, em oposição aberta ao latim como língua dominante, Dante Alighieri escreveu A Divina Comédia no seu dialecto local: o toscano (muito aproximado do que hoje é conhecido com língua italiana vulgar), considerando-o como o mais elevado tipo de expressão e o dialecto padrão do italiano. É o primeiro sinal do seu apartamento de Roma e aproximação ao Amor concebido como a mais alta e divina Sabedoria.

A Divina Comédia (não por ser cómica mas porque termina bem para os seus personagens, no Céu) está estruturada em 100 cantos, totalizando 14.233 versos. Cada uma das suas três partes (Céu, Purgatório e Inferno) apresenta 33 cantos com cerca de 40 a 50 tercetos. O Inferno conta, ainda, com um canto introdutório, formando o número 100, múltiplo de 10, número simbólico da Perfeição Absoluta (100 = a Perfeição do Perfeito), marcada no Islão pelos 100 Nomes de Deus, por exemplo. Cada canto é composto de 130 a 140 versos em terça rima (versos repartidos em grupos de três). Na harmonia com os números 3, 7, 10 e seus múltiplos, aparecem os sinais do simbolismo medieval expressos como os da devoção do autor à Santíssima Trindade, tal qual os templários também o eram, cuja Milícia era igualmente conhecida por Pauperes Comilitones Christi Santaeque Trinitatis, “Cavaleiros Pobres de Cristo e da Santíssima Trindade”. Essa harmonia determina a métrica adoptada, com versos hendecassílabos (11 sílabas) e rimas no esquema ABA, BCB, CDC, VZV (o verso central rima com os 1.º e 3.º do grupo seguinte). Esta estrutura deu origem ao chamado terceto dantesco, assim denominado por ter sido Dante o primeiro a empregá-la. Os três livros rimam no último verso e terminam com a mesma palavra: Stella, “Estrela”, significando que estão postos sob o padroado da Mãe Divina, aclamada Stella Maris na ladainha mariana[7].

Obra começada a escrever na primeira década do século XIV, o primeiro livro de A Divina Comédia é o Inferno, que Dante descreve como nove círculos de sofrimento, três vales, dez fossos e quatro esferas, localizando-os no interior da Terra, não física mas psíquica, onde as ideias e imagens dantescas que a Humanidade criou em vida vive-as após a morte. Significativamente, no oitavo círculo a que chama Maleboge, “Fraude”, Dante instala aí dois papas: Bonifácio VIII, prevendo a sua condenação por simonia ou venda de “favores divinos”, e Clemente V, um papa ainda mais corrupto. Só um papa teve direito ao Paraíso: João XXI, ou seja, o português Pedro Julião mais conhecido por Pedro Hispano (nascido em Lisboa entre 1205 e 1220, e falecido em Viterbo em 20.5.1277), que além de teólogo também era alquimista.

Segue-se o Purgatório, que Dante dispõe como espaço intermediário entre o Inferno e o Paraíso e localiza na porção austral do planeta, onde existe uma única ilha com uma montanha composta por sete círculos ascendentes, reservados àqueles que se arrependeram em vida dos seus pecados e estão em processo de expiação dos mesmos. Quem guia Dante através do Inferno e do Purgatório é a alma imortal do poeta Virgílio.

No fim do Purgatório, Dante despede-se de Virgílio por este não ter acesso ao Paraíso. Começa a seguir o terceiro livro: Paraíso. Este é retratado como um conjunto de esferas concêntricas que cercam a Terra, sendo a Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno, as estrelas fixas, o primum mobile e o empíreo, ao todo, dez céus. A partir do terceiro céu, São Bernardo de Claraval – o Pai ou Mentor espiritual da Ordem dos Templários – aparece a guiar Dante através dos vários mundos celestes. É esse santo quem mostra a visão de Deus a Dante, revelado como três círculos concêntricos, e quem intercede junto à Virgem Maria para que Ela inscreva Alighieri no número dos eleitos celestes. No céu mais elevado, o poeta encontra Beatriz, a sua Alma amada, expressão da divina Graça, e tem a visão de uma rosa branca no centro de um triângulo, representação do Amor da Santíssima Trindade, e muito significativamente os Fidelli d´Amore também adoptaram a rosa como o seu símbolo. Através do absoluto Amor de Deus, o poeta tem a experiência de unir-se com Ele e assim com todas as coisas, confessando no final da sua obra: “Mas já o meu desejo e vontade era ser transformado pelo Amor que move o Sol e as estrelas”.

Na igreja de Santa Margarida de Florença, localizada à esquerda da via do Corso, está o túmulo de Beatriz Portinari, a musa adorável dos amores de Dante Alighieri. Por isso é que essa sede paroquial é mais conhecida como “igreja de Dante”, vizinha da casa do mesmo. Segundo o próprio, conheceu Beatriz quando era ainda um jovem de 18 anos, apesar de tê-la fixado na memória quando a viu pela primeira vez com nove anos, tendo ela oito. Mas também há quem diga que Dante só a viu uma vez e nunca falou com ela. Em todo o caso, não há elementos biográficos que comprovem tudo isso.

Beatriz Portinari, em italiano Beatrice (Bice) Portinari, segundo as informações biográficas fornecidas exclusivamente por Dante na Vita Nuova, teria nascido entre 1265-66 e falecido em 8 de Junho de 1290. A tradição identifica-a como filha do banqueiro Folco Portinari, de Portico di Romagna, em cujo testamento, datado de 1287, deixou à filha uma avultada soma de dinheiro. Ela casou com o fidalgo florentino Simone de Bardi, teve seis filhas e viveu em Florença numa casa vizinha da de Dante. Fundou aquele que é hoje o Hospital Central de Florença, o Ospedale di Santa Maria Nuova. Por sua caridade cristã, pelos encómios apologéticos que Dante Alighieri lhe transmite, esta sua musa ou alma gémea ficaria imortalizada em Florença como Beata Beatriz, e assim a pintou Gabriel Rossetti em 1864, num quadro em que lhe aparece a Pomba do Espírito Santo trazendo no bico uma rosa. Como já disse, a rosa era a insígnia dos Fidelli´Amore, e como flor mística assinala Maria a quem o Divino Espírito Santo se revelou. Passou a simbolizar a Iluminação espiritual, a Revelação ou Epifania, sendo por isto que a ladainha mariana evoca a Rosa Mística.

No amor cortês ou galante dos séculos XII-XV e pela primeira vez desde os gnósticos dos séculos II e III, foram exaltadas a dignidade espiritual e a mais-valia religiosa da Mulher, sendo que muitos textos gnósticos exaltam a Mãe Divina dando-lhe o “Silêncio Místico”, o Espírito Santo, a Sabedoria de Deus no silêncio da ocultação. A devoção à Virgem que dominou a época medieval indirectamente santificava a Mulher. Mas Dante foi ainda mais longe: divinizou Beatriz, proclamou-a superior aos anjos e aos santos, imune ao pecado, quase ou mesmo comparável à Santa Virgem. Quando Beatriz estava prestes a aparecer no Paraíso Terrestre, alguém exclamou: “Veni, sponsa, del Líbano” (Purgatório, XXX, 11), que é o famoso trecho do Cântico dos Cânticos (IV, 8) adoptado pela Igreja para louvar a Mãe Divina. Noutro passo (Purgatório, XXXIII, 10 s.), Beatriz aplica a si própria as palavras de Cristo: “Um pouco, e não mais me vereis; outra vez um pouco, e ver-me-eis” (João, 16, 16). À parte a Virgem Maria, não se conhece outro exemplo tão esplêndido da divinização de uma mulher. Evidentemente, Beatriz representava a Sabedoria de Deus e portanto o Mistério da Salvação. É assim que Dante, através das três viagens iniciáticas pelo Inferno, Purgatório e Céu, propõe Beatriz, idealização do Eterno Feminino, como um meio privilegiado de comunicação de uma metafísica destinada a despertar e salvar o Homem.

A função soteriológica ou da salvação da alma humana pelo Amor e a Mulher portadora do mesmo, proclamada pelo movimento “literário” dos Fidelli d´Amore, comportava sobretudo uma gnose ocultada e uma estrutura iniciática, como se apercebe na Vita Nuova, “Vida Nova”, que Dante dedicou à mesma Beatriz.

Nessa obra, escrita entre 1292 e 1293, é apresentada a Iniciação pelo Amor espiritual, apresentando a Mulher como símbolo do Intellectus illuminatio, da Mente transcendente, da Sabedoria de Deus destinada a despertar o mundo cristão da letargia pecaminosa em que mergulhara por causa das indignidades eclesiásticas. É assim que nos escritos medievais dos Fidelli d´Amore acham-se alusões a uma “viúva que não é viúva”: é a Madonna Intelligenza, que foi convertida em viúva porque o seu esposo, o papa, morreu para a vida espiritual ao interessar-se pelos assuntos e corrupções temporais.

O culto da “Mulher única” e a Iniciação no Mistério do Amor, fizeram dos Fiéis do Amor uma Milícia espiritual secreta que utilizava uma “linguagem oculta” (parlar cruz, “falar cruzado ou encriptado”), para que a sua doutrina não fosse acessível a “gente grossa” (grosseira, profana), como afirma Francesco da Barberino (1264-1348), um dos seus membros mais ilustres, adiantando um outro Fiel do Amor, Jacques de Baisieux, que “não se devem revelar os conselhos do Amor, e sim guardá-los com muito cuidado”. Mas eles não eram propriamente um movimento herético, antes uma agremiação de livres-pensadores, escritores e artistas que contestava a corrupção na Igreja e por isso não reconhecia aos papas o prestígio de chefes espirituais da Cristandade, contestação cerrada que aumentou consideravelmente depois da abolição sangrenta da Ordem dos Templários, perpetrada pelo rei de França, Filipe IV, e o seu “capataz”, o papa Clemente V. De resto, desde o século XII que os segredos e a arte de os encobrir se impõem em meios muito diversos, sabendo-se que tanto os enamorados como as seitas religiosas têm a sua linguagem secreta, e até hoje os membros de certos círculos esotéricos dão-se a conhecer através de sinais e símbolos, cores e senhas.

À parte as contingências biográficas imediatas, Beatriz é sobretudo para a lírica de Dante o símbolo da Mulher Perfeita, da divina Graça como a Alma amorosa garante da sua imortalidade espiritual. Pragmática de um caminho de purificação mística a seguir, Beatriz representa o despertar interior de Dante depois do seu desterro, da sua purificação em que teve de peregrinar por muitas e tortuosas sendas como viajante perdido até encontrar-se consigo mesmo, com a sua Alma imortal, ou seja, Beatriz.

O Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira (1928), não deixou de elogiar Dante quando descreveu o seu percurso iniciático, tendo deixado escrito cerca de 1940 numa das suas cartas privadas:

“Assim, vejamos todo o caminho místico como caminho da purificação como foi traçado por Dante, um dos maiores místicos do mundo: Beatriz foi o seu despertar. E o desterro a sua purificação, depois de peregrinar por muitas sendas como viandante perdido. Antes, procurara o seu Deus na exterioridade das coisas, inclinando-se para elas. Teve brilhante posição no mundo e poderosa inteligência. Conhecida, porém, a insuficiência de tudo isso, concentrou-se na sua Divindade interna. E realizando o propósito do seu misticismo, alcançou o apogeu da Arte. Conformou o seu carácter segundo o modelo sugerido por Beatriz. Porém, antes, o desterro, e depois as águas da vida divina, que a iniciação verteu na sua alma, lavou e encheu a urna já preparada, para que a sua deificação pudesse brilhar na flor perfeita da sua poesia.”

Já se sabe que Beatriz é sinónima da Madonna Intelligenza de Dante, a Pistis Sophia dos gnósticos, ou seja, a Teosofia como Sabedoria Divina. E dá-se-lhe forma por sua natureza cometária, atendendo ao sentido do etimólogo Beatriz. Com efeito, aos astros de farta «cabeleira» (koumétes, em grego, cometas, em português) os latinos deram o nome de astrucus, palavra derivada do grego astron, “astro”, e ukus, posteriormente olkos, “fogo” ou “lareira”. A expressão latina astrucus foi precedida do tema bena, resultando no vocábulo Benastruc que encerrava o sentido de “belo cometa”. A língua provençal, apresentada numa lista de antropónimos arrolada na colectânea editada no século passado[8], inclui o nome Benastruc, dizendo encerrar o sentido de “bem-aventurada”. Beatriz, forma reduzida de Benastruc, depois Benastruche, era como se denominavam aqueles belos cometas provindos do espaço sideral para trazer à Humanidade entristecida um halo de alegria, beleza e amor. Beatriz é, em suma, uma promessa de encanto consubstanciada nas luminosas «cabeleiras» dos cometas.

O número 515 possui o sentido cabalístico de Revelação Messiânica ou Aparição da Divindade, conforme atesta a sua transposição e tradução em letras romanas: DXV = Christi Veltro di Dio, dando cumprimento à predição de Beatriz a Dante (in Purgatório, XXXIII, 40-45): Un cinquecento diece e cinque, Messo di Dio… “Um quinhentos e quinze, Enviado de Deus”.

O Mensageiro de Deus é assinalado no galgo (il veltro) assumido domini cane ou “cão do Senhor”, isto é, o guardião ao mesmo tempo que arauto do Paraíso Terreal cuja demanda se representava no simbolismo da arte venatória em tempo de paz e na regra da cavalaria em tempo de guerra, sobretudo a “guerra justa” descrita por São Bernardo de Claraval e que veio a ser figurada no mito do cavaleiro andante salvador de donzelas e matador de dragões, tema caríssimo na Idade Média onde o dragão expressava a heresia e a donzela a própria Santa Virgem Maria, representada por Dante em Beatriz, a qual, como Padroeira dos Filósofos do Fogo, também a era dos monteiros que cometariamente partiam à caçada da Iluminação, do Saint Vaisel, que na floresta escura da vida ou na beira do abismo das contrariedades diárias, vencendo as provações estoicamente acabavam por encontrá-la.

Associado à Lua, astro feminino dando luz lânguida à noite, o galgo é aqui tomado como a galga, assinalando o princípio passivo da Natureza, chamado fixante na Alquimia[9]. No Jardim da Regaleira, a jovem no centro do recosto do banco, dobrada em meia-lua com o facho de luz sobre a cabeça, parece contemplar o speculum magicum do lago defronte onde vogavam belos cisnes brancos. Pela sua postura destacada e mensagem implícita, ela acrescenta unidade singular ao 515 danteano, indo resultar naquela outra numeração igualmente caríssima à gnose dos antigos templários: 1515, que transposta para letras dá ÍSIS, ou seja, a Deusa-Mãe egípcia (estando próxima deste banco a fonte onde se representa a ave íbis da teogonia tebana, cuja significado é “ser radiante”, aparecendo como metáfora da transfiguração) correlacionada com o elemento argênteo, com as marés e com o Sal da Terra, afinal, a receptora das influências superiores ou solares de Osíris ou, em bom gnosticismo católico, do Pater Aeternus.

Portanto, na trilogia alquímica a Prata corresponde à Mãe, à Matéria, ao Corpo, à Argiopeia, tendo a sua correspondência imediata na acção lebreira sob a direcção intuída do monteiro. Isso está apontado na própria postura da jovem que configura a letra hebraica yod, tradicionalmente descrita como letra simples feminina, branca, simbolicamente representando a mão, principalmente o dedo indicador, e hieroglificamente assinalando a manifestação potencial, a adoração eterna.

O segundo banco, semelhante ao anterior, tem ao centro sobre o recosto um jovem levantando sobre a cabeça um facho com a sinistra e a destra apoiada na anca, estando a perna direita adiante da esquerda, configurando a letra hebraica aleph. Tradicionalmente, esta letra-mãe é relacionada com o elemento ar e o princípio masculino, dando-se-lhe a cor de ouro, simbolicamente representando o Homem Universal (Logos) e o Género Humano, e hieroglificamente assinalando a unidade, o ponto central, o princípio abstracto de uma coisa. No assento, corre de cada lado um conjunto de cinco ameias desfechando nos cães pastores laterais. Repete-se o 515 danteano, mas aqui com exclusivo significado solar confirmado pelo facto de estar direccionado para a torre da quinta, enquanto no anterior se revelava lunar na jovem lateralmente à entrada para o lago subterrâneo.  No conjunto escultórico deste banco, o jovem simboliza Hermes ou Mercúrio, e os cães pastores (ou pastophoros, em grego, “portadores da luz”, um macho e uma cadela) os “guardiões do Saber”, da Luz verdadeira assinalada de maneira velada nas ameias do banco: se às 5 descobertas acrescentar-se a 6.ª encoberta, ter-se-á 6 e 5 = 65 ou LXV, que como LVX dá a palavra LUZ… a verdadeira Luz de Cristo (Christus), relacionada com Mercúrio como Sol Oculto.

A escultura do menino em questão incorpora-se assim à concepção mercuriana e crística do intermediário ou psicopompo entre o Homem e a Divindade, e certamente por isto está colocado junto à ponte que atravessa o lago onde, como disse, vogavam belos cisnes brancos (motivo revelador do Chevalier au Cygne), ao qual se acedia por uma cancela anexa que tinha gravada, em ferro forjado, uma espada dentro da caderna de crescentes das Armas da família Carvalho. Assim, juntando esses diversos símbolos para poder compor-se mensagem coerente, apesar de hermética, o menino vem a designar a união do húmido (lago) com o radical (espada), ou seja, o húmido radical, que na Alquimia é o princípio fluídico ou etérico da Natureza que Mercúrio, como coagulante, fixa através da Lua (donde também chamar-se à “Água Mercurial” de Mare Nostrum), dando assim provimento ao axioma hermético de “o que está em cima é como o que está em baixo”, facto aliás traduzido pela própria postura da escultura.

Na trilogia alquímica, o Mercúrio corresponde ao Filho, à Alma, à Mente, esta como intermediária entre o Corpo e o Espírito, o que lhe confere o título de pontífice ou “construtor da ponte” no sentido místico, ou seja, o de ligar a Terra ao Céu como o mesmo vau cabalístico[10], tema reforçado pela função do cão pastor no papel de guia sobrenatural, psicopompo ou “condutor das almas” de um Mundo para o outro, transpondo a ponte da Vida ao Além-Vida. É assim que o Mercúrio se sobrepõe ao Sal como princípio superior ou aleph deste, o que os contornos do jovem configuram, como já disse, enquanto a jovem só poderia prefigurar o yod ou elemento fixante. Se o cão pastor, como princípio activo, é o “adversário” do galgo lebreiro, como princípio passivo, em boa verdade não deixam de ser opostos complementares como expressões simbólicas dos estados centrífugo e centrípeto da mesma Matéria. Mas o cão também tem a ver com o Poder Real detido pela família coroada que o herdou por eleição ou transmissão regular dinástica como a primeira linhagem sobre todas as outras, dando-lhe a legitimidade da governação.

Com efeito, em latim cane associa-se ao Khan da Tartária, e assim um nome como o de Can Grande della Scala[11], o protector de Dante, poderá muito bem ter um duplo sentido. Cane tem por raiz a palavra semita can, “poder”, associada à tibetana sha, “real” (tanto com o sentido de “realeza” como de “verdadeiro”). Em tibetano, shamanismo designa a Magia Real, Magia Branca ou Verdadeira (contrária ao camanismo, Magia Negra, como degeneração daquela). Do termo sha derivam: Shá ou (persa), Tcha, Tzar ou Czar (russo), Kaiser (alemão), Caesar (latino) e César (português). E até o Khan mongol, usado por Gengis Khan e os seus descendentes, designa também uma dinastia real.

No conjunto escultórico do terceiro banco, vêem-se nos lados dois leões deitados adormecidos e sobre eles, um pouco atrás, dois meninos elevando o seu facho ajoelhados sobre as pernas esquerdas, formando uma esquadria. Entre as esculturas corre uma fiada de cinco flores-de-lis sobre o recosto.

Em Alquimia, o leão é o símbolo do Ouro correspondendo ao primeiro “espírito” hermético: o Enxofre. Este é tradicionalmente representado por uma figura alada que não existe neste conjunto, mas em contrapartida os meninos nas colunas parecem vogar aereamente sobre as formas leoninas em repouso, passivas ou em estado de espera daquele que há-de vir como o Leão de Deus a quem representam: o próprio Delfim, a Pedra Filosofal viva que a Cristandade identificava com a pessoa real do Cristo. Consequentemente, o banco encerra uma mensagem de Advento.

Na trilogia alquímica, o Enxofre é associado ao Espírito, ao Pai, sendo o Fogo Invisível como Solvente Universal. Repousando sobre si mesmo (tal qual na composição escultórica os leões estão em repouso) ele é o princípio encoberto, a meta derradeira a alcançar pelo Filósofo do Fogo que irá corresponder ao estado de Perfeição e Equilíbrio simbolizado pelo Andrógino chamado Rebis na Alquimia, correspondendo à união do húmido com o calórico necessários para a realização da Crisopeia. Será este o sentido velado dos dois meninos ou “gémeos” vistos neste banco. A sua postura prefigura a quinta letra hebraica He designativa do Verbo Criador, aliás, assinalado logo ao início do Evangelho de São João (1:1-18). Com efeito, essa letra  simples de cor vermelha simbolicamente representa uma janela (aqui apontada na entrada para o lago subterrâneo, ao lado do banco), e hieroglificamente designa a Vida Universal, o Hálito do Homem, o Sopro que a tudo anima e vivifica. Sendo o Verbo Eterno do Pai incarnado na pessoa do Filho fazendo as vezes de Rei do Mundo, Ele carece de reino temporal que hoje ainda não há, o que remete para a realização da utopia do V Império cuja peanha lusitana será a Sua mesma, facto assinalado nas cinco flores-de-lis (expressivas da Realeza Divina) e no quinto signo do Zodíaco, o Leão (expressivo do Poder de Deus).

Decerto o cultíssimo Dr. António Augusto Carvalho Monteiro conheceria todo este simbolismo para o ter mandado esculpir da maneira singular que se vê, tanto quanto D. Afonso V, o nosso Rei-Alquimista (igualmente patente num painel na antiga sala do bilhar no Palácio da Regaleira), autor de três obras notáveis: Tratado de milícia, conforme o costume de batalhar dos antigos portugueses, Discurso em que se mostra que a constellação chamada Leão celeste constava de vinte e nove estrellas, e a maior de duas, e Tratado escrito por Alphonso, Rei de Portugal, a respeito da Pedra Filosofal, este último já traduzido e publicado por mim em primeira mão[12] depois de ter andado desaparecido vários séculos. Os outros dois títulos, foram divulgados pelo Conde de Sabugosa no seu livro O Paço de Sintra (onde nasceu e morreu D. Afonso V)[13].

Profundo e transcendente seria, pois, o sentido reservado desse terceiro banco encomendado por Carvalho Monteiro, a ponto de ter servido de modelo para o jazigo do filho do escultor conforme a noticia dada por Denise Pereira da Silva[14]: “Em redor do lago, salientam-se os três bancos de mármore, mandados executar por Carvalho Monteiro, e, entre estes, o banco dos leões adormecidos, integralmente desenhado e lavrado por José da Fonseca”. Adiantando em nota no final do texto: “O estudo deste banco, aguarelado, pode ver-se na secção de cantaria, da revista quinzenal A Construção Moderna, ano XVII, n.º 15, de 10 de Agosto de 1917. Porém, é ainda digna de nota a semelhança entre este banco e o jazigo que o mesmo autor desenhou e lavrou para o seu filho Carlos da Fonseca e que se encontra no Cemitério de Sintra, igualmente ladeado por leões adormecidos com uma expressão em tudo semelhante. A Arquitectura Portuguesa, Novembro 1923, página 48”.

Para fechar o tema dos três “espíritos” ou “ares” alquímicos, não será conveniente confundir esses princípios subtis da Alquimia com os seus correspondentes imediatos, físicos. Esse é o grande erro em que caem os “assopradores” ou falsos alquimistas, como igualmente todos os inimigos preconceituosos, assim mesmo supersticiosos, da Tradição Iniciática das Idades, consequentemente, da Grande Obra Filosofal.

O sentido hermético presente no imobiliário monumental da Quinta da Regaleira certamente não colidia com o conceito religioso e político que Carvalho Monteiro fazia da “religião pátria”, apenas acrescentando à condição confessional do Catolicismo a sua noção erudita dos símbolos do mesmo, dando-lhes feição e interpretação gnóstica mas sem sair do credo professado. Contudo, ostracizando as circunstancias históricas e ficando só o atractivo cardápio intelígivel de tão vasto simbolismo pressupostamente esotérico, sujeito a qualquer tipo de leituras livres, desobrigadas de bases sólidas, houve quem após saber não ter sido solicitada a licença de culto na capela, concluída em 1910, avançasse com a invenção fantástica da mesma ter sido destinada a um “culto secreto maçónico-templário”. Mas a licença de culto não fora solicitada porque entre 1910 e 1912 houve a expulsão dos bispos das dioceses portuguesas, e não havendo Nunciatura não havia a quem solicitar autorização para a sagração do templo, ainda que o padre capelão de Santa Maria de Sintra, amigo da família Carvalho Monteiro, particularmente de Perpétua Augusta, esposa do proprietário, tenha esporadicamente celebrado missa aí após ele mesmo ter abençoado essa capela privada da família, segundo me informou D. Maria de Nazaré Carvalho Monteiro, neta do dr. António Augusto Carvalho Monteiro. Este, com a morte da sua esposa nas vésperas do Natal de 1913, deixando-o num estado de desgosto permanente que lhe foi arruinando cada vez mais a saúde, desgosto aumentado ao ver o destino jacobino para onde se arrastava o país que vira o seu rei ser assassinado, a família real obrigada a fugir e ele próprio tendo conhecido a ingratidão do cárcere, ainda assim solicitou com a sua família licenças esporádicas para a celebração pontual do culto. Só em 1949, no tempo de Waldemar´Orey que entretanto adquirira a propriedade, houve a autorização eclesiástica do Patriarcado de Lisboa, e então a capela conheceu actividade animada por múltiplos baptismo e casamentos, como informa ainda Denise Pereira da Silva[15].

Em 1910 era arcebispo do Patriarcado de Lisboa D. António Mendes Belo, cargo que ocupava desde 1907. Foi elevado a cardeal-patriarca in pectore no Consistório de 27 de Novembro de 1911, pelo papa Pio X. Mas nesse mesmo ano foi expulso de Lisboa pelo governo de Afonso Costa, por ter proibido o clero de participar em acções republicanas, indo ficar exilado em Gouveia durante dois anos antes de partir para Roma por onde ficou. O pretexto anti-clerical da 1.ª República provinha de 8 de Outubro de 1910, quando foi reposta em vigor a Legislação Pombalista de 3 de Setembro de 1759 e de 28 de Agosto de 1767 sobre a expulsão dos jesuítas, e a Legislação de 28 de Maio de 1834 que extinguia as Casas religiosas e todas as Ordens regulares. Se essa última não expulsava as Ordens religiosas femininas, o novo Decreto abrangia-as, tornando nulo o Decreto de 18 de Abril de 1901. O Diploma de 8 de Outubro foi mantido pelo n.º 12 do artigo 3.º da Constituição de 20 de Abril de 1911, como Decreto-Lei da Separação e medida laicizadora do Governo Provisório[16].

Dessa forma, a lei laicizava o Estado, funcionalizava o clero, confiscava a Igreja, retirava-lhe a personalidade jurídica, mantinha o regalismo (beneplácito) e confiava a administração dos cultos aos cidadãos laicos[17]. A Constituição de 1911 veio legitimar a Separação, rompendo com as leis constitucionais anteriores, pondo assim termo às “ligações perigosas” entre o Estado e a Igreja. Limitado à vida privada, o Catolicismo perdeu a sua influência política, cultural e simbólica. Desta forma, a Lei da Separação originou uma verdadeira guerra religiosa praticamente até 1918, quando Sidónio Pais tomou posse da Presidência da República mas sendo assassinado nesse mesmo ano, durando o seu mandato nove meses mal feitos (28 de Abril de 1918 – 14 de Dezembro de 1918).

Após a publicação da Lei da Separação, os hierarcas lançaram um “protesto colectivo dos bispos portugueses contra o Decreto de 20 de Abril de 1911, que separa o Estado da Igreja”. Redigido pelo arcebispo da Guarda, D. Manuel Vieira de Matos, criticava o facto de o Governo não ter esperado pela formação de uma assembleia constituinte no interior da qual o diploma poderia ter sido debatido. Com a ruptura das relações diplomáticas com a Santa Sé, esta estabeleceu uma ligação com os bispos portugueses através de Monsenhor Masela, encarregado dos negócios com a ditadura em Lisboa. Pio X aprovou, nesse ensejo, a doutrina do protesto numa carta dirigida ao cardeal-patriarca D. António Mendes Belo. Em 24 de Maio de 1911 seria publicada em Roma a encíclica Jandudum in Lusitânia, na qual se apoiava o Episcopado português e se condenava a Separação. A crítica à laicização, a oposição às associações culturais, mormente as maçonistas, a contestação à invasão do espiritual pelo temporal e a refutação do poder civil na disciplina interna dos seminários, surgiam nesse documento papal. Roma rejeitava na globalidade a lei imposta e acusava a República de não respeitar o regime concordatário e de violar “o direito natural dos povos”. Por seu lado, no seio do Episcopado, o cardeal-patriarca de Lisboa, o arcebispo da Guarda e o governador do Bispado do Porto, Manuel Luís Coelho da Silva, destacaram-se no combate à República. A posição contra-revolucionária do arcebispo da Guarda esteve na origem do seu desterro durante dois anos, enquanto D. António Mendes Belo proibiu os sacerdotes e todos os católicos de integrarem as associações culturais jacobinas que floresciam por toda a parte com a República (descarecendo afirmar a total obediência e fidelidade da família Carvalho Monteiro a essa ordem diocesana), motivo que esteve na origem na ordem dada pelo Governo no sentido do seu exílio da Diocese por igual período de tempo[18].

Que a capela da Quinta da Regaleira destinava-se ao exclusivo culto católico romano e foi posta sob a advocação dos santos mais caros à Igreja, mesmo estando em empatia filológica com os principais da família Carvalho Monteiro, provam-no as estátuas que figuram em volta da torre-sineira da capela: São Pedro carregando as chaves tradicionais como primeiro bispo de Roma[19], sendo também o padroeiro de Sintra; Santa Francisca Romana, coroada e tendo nas mãos aberto o Livro das Horas[20], que além das canónicas seria ainda referência prática às horas que o relógio deveria dar e o carrilhão de sinos bater na torre[21]; São Francisco de Assis, com o crânio na mão e trajado com o hábito franciscano, cobrindo-lhe a cabeça o capuz, talvez como alusão à Estrita Observância da Regra da Província Portuguesa dos Espirituais; São José carregando o Menino sobre o Livro dos Evangelhos, indicativo da primazia varonil eclesial; finalmente, Santa Teresa de Ávila em êxtase, de braços erguidos ao Céu, numa exaltação em tudo semelhante à de Santa Maria Madalena subida aos Céus, carregada pelos Anjos, e também à de Santa Noémia, a pastora do Poitou que tinha um pé com forma de pata de ganso, motivo que reporta para o tema melusínico simbolicamente percorrido nesta quinta assim tomada como mais que o significativo, iniciático “Jogo do Ganso” ou “da Glória”, e em Glória a senhora eleva-se aqui ao alto da Torre da Fé, que às Ave-Marias chamava as almas dos crentes à devoção eterna.

Falando de Noémia ou Noêmia, “Lua Nova”, e de Madalena transposta para a figura cortesã de Melusina, esta está prestes a lançar o derradeiro voo sob uma das janelas do palácio, como se vê no conjunto da “rapariga das pombas”, servindo de modelo Teresa, a neta mais velha de Carvalho Monteiro, e que é um belíssimo trabalho escultórico neo-manuelino saído do cinzel do escultor Costa Mota Tio (1862-1932), da Escola de Coimbra. O tema de inspiração foi o milagre das rosas da Rainha Santa Isabel, mas aqui saindo do seu regaço as pombas alegóricas da Idade do Espírito Santo, sendo que as alcachofras laterais são as mesmas queimadas nos fogos de Baco que o Cristianismo assumiu como fogueiras de São João Baptista, o Arauto do Advento. Cena primaveril própria do romantismo campesino, espécie de “trompe-l´oeil” destinado a ocultar significados transcendentes,  vê-se, ladeando a “rapariga das pombas”, à direita o busto de uma menina com um cordeiro, que é a neta Maria de Nazaré, e à esquerda o busto de um menino, o neto Francisco Monteiro, com um livrinho. O cordeiro sobre o livro é igualmente figurativo do Apocalipse ou “Revelação Secreta”. Por cima da “rapariga das pombas” e parecendo suportar a varanda que sobrepuja o conjunto por baixo, está o busto de um terceiro menino, o neto António Monteiro, com um cão que parece guardar a cena inteira que, desta maneira romântica e cortesã, vem a encerrar o sentido maior dos tempos futuros do Mundo e a continuação da geração Carvalho Monteiro revelando-se, por meio dos símbolos universais transpostos ao plano restrito da família, a mais fiel e digna da Igreja e da Coroa em Portugal, tudo em conformidade à formula mentis lusitanea que é a base da Tradição Espiritual Portuguesa.

Tradição Espiritual que neste espaço privilegiado toma os contornos da ideia iluminada da Parúsia em conformidade com o tema translatio imperii, em que um Messias ou Avatara aparece sempre como Legislador temporal e espiritual da Humanidade do respectivo Império ou Ciclo de Evolução Universal. Agora, aguarda-se o segundo Advento de Cristo, conforme a Sua promessa nas escrituras sagradas. O tema dos quatro mais um Impérios apresenta-se nas pequenas esculturas “despropositadas” de quatro animais na balaustrada da alameda onde está a estátua do leão defronte para elas, apresentadas aos pares. Representam: uma tartaruga e uma salamandra, um caracol e uma rã, respectivamente expressivas dos elementos naturais Ar (Satya-Yuga, Idade de Ouro), Fogo (Tetra-Yuga, Idade de Prata), Água (Dwapara-Yuga, Idade de Bronze), Terra (Kali-Yuga, Idade de Ferro), e finalmente o leão defronte para eles na postura de soberania como quintessência da Natureza, ou seja, o elemento Éter afim à condição do retorno final à nova Idade de Ouro, também chamada Krita-Yuga.

No simbolismo tradicional, a tartaruga é a representação do Universo manifestado por acção de Purusha, isto é, a força do Espírito, tornando-se assim o suporte simbólico do Trono de Deus, motivo não deixando de ter um elevado significado na tradição hindu: representa a concentração, o retorno ao estado primordial de Jivatmã ou “Vida-Consciência”, portanto, tendo a ver com uma atitude fundamental do Espírito. “Quando – diz o Bhagavad-Gïta, 2, 58 – como uma tartaruga que recolhe completamente os seus membros, ele, o Yogui, isola inteiramente os seus sentidos dos objectos sensíveis, a Sabedoria torna-se nele verdadeiramente sólida”. Por isto, é que na Alquimia a tartaruga é encarada como um resumo da Grande Obra e posta em relação com o Mercúrio Filosófico, pelo qual se poderá obter riquezas infinitas como as que dá a Pedra Filosofal.

A salamandra foi associada pelos antigos hermetistas ao elemento fogo, ao poderio e domínio sobre este: poderio por ser uma manifestação viva, domínio por ser viva, sendo-lhe assim atribuído o poder de apagar ou dominar o fogo. Isto levaria Francisco I da Alemanha a dispor no seu brasão uma salamandra no meio do fogo e a divisa: “Nele vivo e a apago”. Em Alquimia simboliza a “Pedra fixada no vermelho”, ainda não sendo púrpura, dando o seu nome de ser anfíbio ao Enxofre Filosófico, por a mesma e simbólica salamandra alimentar-se do Fogo Sagrado. No contexto moral da iconologia medieval representava o justo, que no meio das tribulações do mundo não perdia a paz de alma e a confiança em Deus.

O caracol, considerado universalmente símbolo lunar, assinala a regeneração periódica do Universo e do Homem. Ele mostra e esconde os seus chifres como a Lua que aparece e desaparece ao findar a noite, indo associar-se à morte e renascimento como tema do Eterno Retorno. É assim que vem a significar a fertilidade cíclica da Natureza Mãe e cuja casca espiralada simbolicamente indica as fases da Lua, enquanto o desenvolvimento dos chifres indica o culto matriártico, a teofania lunar, aliás, muito bem representada em Nossa Senhora da Conceição sobre o crescente, como memória iconográfica do primitivo culto à deusa Ísis no território peninsular, sobretudo em Portugal. Mudo como a própria natureza selenita, o caracol aponta o labirinto a decifrar e a superar, que aqui – além das grutas labirínticas – acaba sendo toda a Quinta da Regaleira, com a sua proposta de iniciação singular.

Finalmente, aparece a rã. Associada ao simbolismo do hermadrodita ou par macho-fêmea como natureza lunissolar em perfeito equilíbrio, ela é igualmente sinal do secreto, do inviolável, do “Outro Mundo” ou Mundo Jina, como diria Mário Roso de Luna, e com isso a aponta a rota do caminho da iniciação. Ela foi no Ocidente, anteriormente à flor-de-lis, o símbolo da ressurreição, da teofania solar e é nesta qualidade que figurava no estandarte do rei dos francos, Clóvis I. Mas também é lunar, já não como rã mas como sapo, e este, sem pretender entrar em demonologias insanas, assinala a via para o Inferius ou Inferno, o Mundo Subterrâneo que a Tradição Iniciática das Idades aponta como o Grande Centro Primordial[22].

A rã e a tartaruga aparecem esculpidas, mais uma vez, à entrada do palácio, juntas a uma cigarra, indo no nível simbológico em análise contextualizar o edifício como “a luz do universo hermético”, posto na Antiga Grécia a cigarra ser consagrada a Apolo, deus do Sol, e aqui, na alameda das estátuas mitológicas, a tétrade de animais mais o leão objectivamente marcam o final da visita à quinta com a realização da ideia subjectiva ou ideal de terem sido percorridas nela as vias da iluminação pelo conhecimento[23], o que está perfeitamente de acordo com a doutrina da Cabala ou Kaballah referente aos 32 Caminhos da Sabedoria, artérias essas que são os tramos da Árvore da Vida constituindo a base gnóstica ou esotérica da doutrina da Merkabah (marcada aqui e ainda pela presença simbólica do leão), tal como está exposta no Sepher-Ha-Mercavah (“Livro do Carro Celeste”) e no Sepher-Yetzirah (“Livro da Criação”), obras reservadas da tradição sinagogal, sobre o que comenta o cabalista cristão Christian Knorr von Rosenroth[24]: “Os 32 Caminhos da Sabedoria são as vias luminosas pelas quais os santos homens de Deus, por uma extensa prática, uma longa experiência das coisas divinas e uma prolongada meditação sobre elas, podem chegar ao Centro Oculto”.

Ainda sobre o nome caldeu Merkabah, Mercabah ou Merkavah, significa literalmente “carro”, ou seja, o que é expressivo da mobilidade. Trata-se do nome de uma das escolas rabínicas mais antigas de Israel, desenvolvida sobretudo a partir das narrativas no 1.º capítulo do Livro de Ezequiel. A literatura da Merkabah não é das mais vastas, pois além desse livro do Antigo Testamento também é só representada pelas Hekhalot, “Grande e Pequena”, apesar de também se encontrarem referências a ela, com grande valor esotérico, na literatura apócrifa, principalmente no Livro de Esdras e no Livro de Enoch.

Efectivamente, a Merkabah é a primeira mística judaica, a primeira série religiosa secular, mas não trata da contemplação concentrada sobre a verdadeira natureza de Deus, antes, da visão da sua aparição sobre o Trono, tal como é descrita pelo Profeta Ezequiel, sendo o tema predilecto das suas divagações sobre o conhecimento dos Mistérios Celestes. O Trono representa para o místico judeu o mesmo que a Esfera ou Sephiroth fulgurante da Divindade (IHVH, Iod-He-Vau-He ou Jehovah, expresso pelo Totreossyah ou Tetragramaton), cercada pelas Cortes Celestiais (Éons, Arcontes, Dominações, etc., de certa forma representadas na fileira de estátuas mitológicas na dita alameda ou belvedere desta quinta), significava para os antigos gnósticos e hermetistas. O Trono preexistente de Deus, que contém e ilustra todas as formas da Criação, é o tema e o fim da visão mística.

Por isso é que os rabinos iniciados na Tradição velada ou Kaballah (que também significa “Livro cerrado”) afirmam que o Ser Supremo, o Logos Criador do Mundo, Adam-Kadmon, após ter estabelecido os 10 Sephiroths, Esferas ou Planos de Evolução da Vida e da Consciência, utilizou-os como “Carro” ou “Trono de Glória”, para descer com ele sobre as almas dos homens. Para que esta série religiosa secular alcançasse o fim místico proposto, foi-lhe dado o nome de Merkabah, isto é, o corpo exterior, o “veículo” ou a coberta que encerra a alma oculta, ou seja, a sua ciência secreta por ser a mais elevada interdita ao comum dos mortais.

A tradição mística da Merkabah motivou a aparição do Messianismo, tão caro à religião judaica, mesmo havendo um ponto de diferenciação entre a mística da Merkabah e a ciência da Kaballah, que está precisamente na concepção da Criação. A Merkabah não se preocupa com a explicação metafísica, apenas se fixa na descrição do facto. A Kaballah tem finalidades teóricas, para ela a metafísica é fundamental. Todavia, a encontrar alguma tentativa de explicação metafísica é sempre na Merkabah, pois que esta é o “Veículo da Inteligência Superior”, ou seja, da Ciência Iniciática mais elevadae profunda, por estar no próprio Logos no Centro do Mundo, motivo para adentrar o mundo subterrâneo da Regaleira e a razão de existir.

 

NOTAS

 

[1] Regina Anacleto, Arquitectura Neomedieval Portuguesa, 1780-1924, volume I. Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Coimbra, 1997.

[2] Lima de Freitas, Le 515 de Dante. Retrouvé au Portugal. II Colloque de Tomar, 1985. In Les Templiers, le Saint-Esprit et l´Âge d´Or, publicado pelo Gabinete de Estudos de Simbologia – Universidade Nova de Lisboa / Câmara Municipal de Tomar, 1985.

[3] Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões. Edições Asa, Porto, Outubro de 1992.

[4] Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, Abril de 2007.

[5] René Guénon, O Esoterismo de Dante. Editorial Vega, Lisboa,1978.

[6] Vitor Manuel Adrião, Firenze Insolita e Segreta. Editions Jonglez, Versailles, 2011.

[7] Dante Alighieri, A Divina Comédia. Editora Bertrand, Lisboa, 2000.

[8] Clovis Brunel, Les plus anciennes Chartes en langue provençale. Paris, 1926 (suplemento 1952).

[9] Frater Albertus, Guia prático de Alquimia. Editora Pensamento, São Paulo, 1989.

[10] São Bernardo diz que o Pontífice, como indica a etimologia da palavra, é uma espécie de “ponte entre Deus e o Homem” (Tractatus de Moribus et Officio episcoporum, III, 9). Há na Índia um termo que é próprio dos Jainas, que é o rigoroso equivalente do Pontifex latino: Tirthamkara, literalmente “aquele que faz um vau ou uma passagem”. Esta passagem é o Caminho da Libertação (Moksha). Os Tirthamkaras são em número de vinte e quatro, como os Anciãos do Apocalipse, que, por outro lado, constituem também um Colégio Pontifical. – In René Guénon, O Rei do Mundo. Editorial Minerva, Lisboa, 1978. Há também uma tradução da língua francesa do mesmo livro pelas Edições 70, Lisboa, 1982.

[11] Can Francesco della Scala, mais conhecido como Can Grande I, nasceu em Verona em 9 de Março de 1291 e morreu em Treviso, em 22 de Julho de 1329. Filho de Alberto I della Scala e de Verde di Salizzole, foi o expoente mais conhecido, amado e celebrado da dinastia Scaligera e o grande chefe dos gibelinos no norte de Itália.

[12] D. Afonso rei de Portugal, Tratado escrito por Alfonso V a respeito da Pedra Filosofal. Traduzido da versão espanhola por Vitor Manuel Adrião. Edição do autor, Lisboa, 1989. Documento que depois se publicaria traduzido directamente da língua inglesa no livro de Vitor Manuel Adrião, Quinta da Regaleira (Sintra, História e Tradição). Livros Dinapress, Lisboa, Abril de 2013.

[13] Conde de Sabugosa, O Paço de Sintra. Reimpressão anastática da edição original de 1903 em Lisboa. Câmara Municipal de Sintra, Gabinete de Estudos Históricos e Documentais, 1989-1990.

[14] Denise Pereira da Silva, Quinta da Torre da Regaleira, in Quinta da Regaleira – História, Símbolo e Mito. Edição da Fundação Cultursintra, Sintra, 1998.

[15] Denise Pereira da Silva, ob. cit.

[16] Cónego Joaquim Maria Lourenço, Situação Jurídica da Igreja em Portugal [1943]. Coimbra Editora, Coimbra, 1945.

[17] Augusto de Oliveira, Lei da Separação. Subsídios para o Estudo das Relações do Estado com as Igrejas sob o Regime Republicano. Imprensa Nacional, Lisboa, 1914. Para o conhecimento da Lei da Separação veja-se também Carlos de Oliveira, Lei de Separação do Estado das Igrejas. Companhia Portuguesa Editora, Porto, 1914.

[18] A. H. de Oliveira Marques e Joel Serrão, Nova História de Portugal, volume XI, Portugal da Monarquia para a República. Editorial Presença, Lisboa, 1991.

[19] Imagem identificada em O Conimbricense, n.º 6198, 07.05.1907, Coimbra.

[20] Imagem identificada em a Resistência, n.º 1219, 27.06.1907, Coimbra. Neste artigo, onde além de Santa Francisca figura a ilustração de São José, é atribuída a feitura destas estátuas à oficina do escultor coimbrão António Augusto Gonçalves, dizendo que a estátua da santa coroada é a de Santa Francisca Romana. Apresenta-se despossuida dos seus atributos tradicionais de abadessa beneditina e apenas pode ser identificada pelo livro, que neste caso será o Livro da Regra das Oblatas Olivetanas de Tor de Specchi, congregação religiosa fundada por ela em 1425.

[21] O carrilhão de sinos foi encomendado por Carvalho Monteiro à fábrica de relógios de precisão de Besançon, L. Leroy & Cie, e deveriam tocar as Ave-Marias, mas nunca chegou ao destino, e em 1917 ainda se esperava a sua chegada.

[22] René Guénon, A Grande Tríade. Editora Pensamento, São Paulo.

[23] Francesco Colonna, Hypnerotomachia Poliphili. Fac-símile, traduzido e editado com comentários de Marco Ariani e Mino Gabriele, dois volumes. Adelphi Edizioni, Milão, 1998.

[24] Christian Knorr von Rosenroth, Kabbala Denudata, sive Doctrina Hebraeorum Transcendentalis et Metaphysica Atque Theologia, dois volumes, Sulzbach, 1677-1678. Obra reeditada por Research Publications, Yale University Library, 1969.

Cristóvão Colombo, o enigma português – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Ago 12 2018 

Lisboa – 600 anos de Porto Santo, 10.7.2018

 

Com três caravelas conquistarei um reino que não é o meu.

(Palavras de Cristóvão Colombo, reveladas por Henrique José de Souza)

 

Assim foi, com a esquadra formada pela nau capitania Santa Maria (com 100 tonéis e 40 tripulantes), a nau Pinta (com 55 tonéis e 26 tripulantes) e a nau Niña (com 60 tonéis – tonel é a medida náutica de capacidade – e 24 tripulantes), às duas horas da manhã de 12 de Outubro de 1492 apresentando o Novo Mundo ao Mundo.

Acerca da Epopeia Marítima dos Portugueses em Quinhentos, Gesta Dei per Portucalensis, divisa manuelina dada à empresa da Ordem de Cristo e a sua Escola Náutica única na Europa, pela documentação histórica e testemunho iconológico dado à luz da estampa por eminentes investigadores, muito já se sabe. Ainda assim, de todos destaca-se na obscuridade do tempo uma personagem de que se insiste manter no contraditório, motivo do seu envolvimento na bruma espessa do enigma, documentação essa referente ao mesmo não raro inconsistente e contraditória, quando não inventada, como foi o caso dos tristemente famosos “documentos” de Pontevedra, Galiza, forjados em 1914 por Enrique de Arribas y Turull. Refiro-me a Cristóvão Colombo (1451-1506).

Do muitíssimo que sobre ele já se disse e escreveu, permeio a apaixonadas polémicas acesas, em que entram genoveses, espanhóis, galegos e portugueses desde os finais do século XIX, com a introdução recente dos estudiosos ingleses e norte-americanos na discussão colombina, a verdade é que, apesar de todos esses esforços, mantém-se aparentemente indecifrável a origem ou naturalidade, assim como os lances principais de sua vida, não raro perspectivados controversos e contraditórios, sobre quem era e que missão teria Cristóvão Colombo, ou Colón no espanholado, apesar do seu significado diverso de Colombo, posto serem escassos os dados biográficos acerca dele, e quanto se respiga aqui e ali nos mesmos é sempre susceptível de leituras diversas, igualmente, não raro, controversas e contraditórias. Com tudo isso, mesmo assim teima em permanecer acima de tudo o mais o halo de sobrenatural e mistério envolvente da pessoa e vida do almirante, indo inflamar ainda mais a polémica.

Primeiro acreditou-se ter ele nascido em Génova, Itália, de origens humildes, filho de um obscuro alfaiate e ele próprio um simples grumete que inexplicavelmente se tornaria almirante e se casaria com uma nobre portuguesa, mesmo se sabendo que a marinha genovesa durante séculos fora somente de navegação com terra à vista, isto é, costeira, famosa pelas suas acções de corso e pirataria que deu (má) fama ao Veneto que posteriormente, só no século XVI após as empresas das descobertas marítimas portuguesas, se tornaria empório comercial; a seguir, acreditou-se que Colón teria nascido em Castela, de raízes judaicas e com foros tardios de nobreza, hipótese que logo passou à Galiza e veio a ser desmentida, quando se provou que os documentos sobre a mesma haviam sido inventados no começo do século XX. Logo que foi denunciado o logro, a autoria galega ficou desacreditada, como igualmente as hipóteses castelhana e genovesa, graças ao douto e creditado português da época, o dr. Patrocínio Ribeiro, que foi quem iniciou a escola portuguesa de estudos colombinos. Com tudo isso, em plena confusão documental, a forjada e a não forjada, onde o dédalo dos políticos de vários países interessados pretendia para si a exclusividade da origem da pessoa de Cristóvão Colombo, por exclusivos motivos de prestígio nacional conformados às políticas vigentes, os estudiosos do tema acabaram chegando a nenhuma conclusão definitiva.

Manteve-se o enigma, espécie de esfinge irritante ante a impaciência contínua do inquirido não sabendo que resposta lhe dar. Qual era a origem de Cristóvão Colombo? Qual era a sua verdadeira missão? E, sobretudo, quem ele era realmente?

Irei esboçar neste estudo algumas ideias contributivas, sem pretensões a definitivas e tão-só contributivas, à decifração do “enigma Cristóvão Colombo”. Ao par da cronologia historiográfica disporei a sua fácies oculta, sagrada e iniciática, pois nela poderá estar, como tentarei esboçar, a chave deste enigma secular.

Começo pelo elogio e referência obrigatória ao primeiro autor português que iniciou escola colombina: o já citado dr. José do Patrocínio Ribeiro (Ericeira, 9.7.1882 – Lisboa, 2.12.1923), que postumamente, em 1927, seria publicado o seu precioso livro referente ao tema colombino e, por quanto sei, ter sido o primeiro devidamente ordenado em letras impressas pelo sistema bilingue português-inglês, iniciativa do autor decerto para universalizar a sua tese. É obra rara mas que foi posteriormente a 1927 seria reeditada[1].

No ano imediato, 1928, um seu condiscípulo no tema colombino, Manuel Gregório Pestana Júnior (Porto Santo, 16.8.1886 – Porto Santo, 19.8.1969), deputado e Ministro das Finanças de um dos governos da 1.ª República Portuguesa e que teve papel relevante na Revolta da Madeira (também referida como Revolta das Ilhas e Revolta dos Deportados, levantamento militar contra a Ditadura Nacional (1926-1933) ocorrido entre de 4 de Abril a 20 do mesmo mês de 1931), iniciado na Maçonaria em 1913 ingressando na Loja Revolta, de Coimbra, com o nome simbólico de Bakunine, também ele publicou um livro dedicado ao assunto, muito pouco conhecido mas do qual me satisfaço em possuir um exemplar rubricado pelo autor[2].

Essas duas obras pioneiras viriam a ser rematadas magistralmente pelo professor Mascarenhas Barreto em 1988, num livro de grossura razoável onde procurou provar, por exaustivo cardápio documental e assentando a sua tese na Kaballah judaico-cristã, nomeadamente a Gematria[3], ter sido português o almirante Cristóvão Colombo[4]. Mais recentemente, no seguimento do anterior, tem-se a magnífica investigação e divulgação colombina realizada pelo dr. Manuel da Silva Rosa, açoriano de Madalena do Pico nascido em 1961, em várias partes do país e do mundo[5].

Contudo, para o reconhecimento merecido ir para o seu legítimo donatário, quem mais aprofundou e clareou o esoterismo colombino, em três textos magistrais, foi o fundador da Sociedade Teosófica Brasileira (1928-1969), Professor Henrique José de Souza (São Salvador da Bahia, 15.9.1883 – São Paulo, 9.9.1963)[6], polígrafo de raro talento com uma vida toda ela ao serviço incondicional da Cultura e do Espírito.

Ainda segundo Mascarenhas Barreto (Augusto Cassiano Neves Mascarenhas de Andrade Barreto, Lisboa, 27.1.1923 – Lisboa, 3.1.2017), prosseguindo a tese iniciada por Patrocínio Ribeiro, Cristóvão Colombo era filho (bastardo? – pergunto eu) do Infante D. Fernando, Duque de Viseu e de Beja, Mestre da Ordem de Cristo, e terá nascido no Baixo Alentejo, na herdade do Monte dos Columbais, perto das vilas de Colos, freguesia de Vale de Santiago, em Cuba, no concelho de Odemira, suspeição já levantada muito antes, em 1926, pelo eminente galego D. Ricardo Beltrán y Rózpide, presidente da Comissão da Casa das Índias e da Academia Real de História[7]: “que o descobridor da América não nasceu em Génova e que foi oriundo de algum lugar da terra hispânica, situada na banda ocidental da Península, entre os Cabos Ortegal e São Vicente”, isto é, entre o extremo Norte da Galiza e o extremo Sul do Algarve. É precisamente na citada herdade alentejana que os autores portugueses instalam Colombo, servindo-se dos indícios e provas que têm recolhido. O próprio Paolo Toscanelli, célebre cosmógrafo italiano que se correspondeu com ele, em carta dirigida de Génova a Lisboa, datada de 1474, fala entusiasticamente de Portugal e trata o almirante por português. Diz: “Não me surpreende, pois, por estas e muitas outras coisas que sobre o assunto poderiam ainda dizer-se, que tu, que és dotado de uma tão grande alma, e a mui nobre nação portuguesa, que em todos os tempos tem sido sempre enobrecida pelos mais heróicos feitos de tantos homens ilustres, tenhais tão grande interesse em que essa viagem se realize”[8].

Em Abril de 1507 é publicado o Mapa de Waldseemüller ou Universalis Cosmographia, da autoria do cartógrafo alemão Martin Waldseemüller, onde aparece pela primeira vez a palavra América e adicionando no seu segundo mapa, além de uma caravela portuguesa, a indicação de que “Colombo era um capitão português”[9].

Dos seus dois filhos, Diogo e Fernando Colombo (em castelhano, Diego e Hernando Colón), este último, radicado em Espanha, primeiro manifesta estranheza sobre o total desconhecimento da naturalidade de seu pai, e a seguir contrapõe com as seguintes palavras flagrantes, na sua obra biográfica Historia del Almirante: “Ele quis que fosse desconhecida e incerta a sua origem e pátria”[10]. Isto, dentre outras razões, pressuponho, talvez por causa da lei do segredo de Estado que então dominava, em razão das políticas socioeconómicas geradoras de controvérsias e hostilidades entre portugueses, espanhóis e genoveses, os principais interessados na descoberta e conquista marítima de novas terras, consequentemente, tomando para si ainda maiores riquezas. Como Portugal estava à dianteira do processo, logo tudo quanto fosse português era abertamente hostilizado pelos adversários, e assim terá convido ao almirante esconder, por motivos políticos, essa sua pressuposta naturalidade portuguesa, para isso tendo inclusive criado “blagues” em volta da sua origem verdadeira, indo adoptar a língua castelhana como oficial – em cujas cartas denota-se indisfarçavelmente entrecruzar as línguas espanhola e portuguesa – pela mesma razão estatal da lei do sigilo, e igualmente por ter sido bem acolhido na corte dos reis católicos, Fernando e Isabel, a cujo serviço esteve após ter fixado domicílio no país vizinho, em 1486. Em casa alheia adoptam-se os costumes dos hospedantes, assim mandam as regras da boa educação e ética dos países civilizados, como prevalece até hoje. Tendo o retratado contraído matrimónio, em 1479, com Filipa Perestrelo Moniz, filha do navegador Bartolomeu Perestrelo, como informam os autores portugueses, descobre-se que:

a) Pedro Álvares Cabral, descobridor oficial do Brasil, casou-se com Isabel de Castro, neta de Isabel Perestrelo (mãe de Filipa Perestrelo), pelo que, por afinidade, era primo de Cristóvão Colombo;

b) Luís Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas, era bisneto de João Vaz de Camões, irmão de Gonçalo Vaz de Camões, avô do marido de Inês Dias da Câmara, e como esta era meia-irmã de Cristóvão Colombo, este era, por afinidade em terceiro grau ascendente, parente do poeta épico;

c) Vasco da Gama era bisneto de Estêvão da Gama, tio de Guiomar Vaz da Gama, portanto, seria tio-avô de Luís Vaz de Camões, que o tornou personagem principal da sua obra épica. Como a mesma Guiomar Vaz da Gama era tia-avó de Lopo Vaz de Camões, casado com Inês Dias da Câmara (meia-irmã de Cristóvão Colombo), o descobridor do caminho marítimo para as Índias Orientais era parente do almirante das Índias Ocidentais[11].

Se porventura – como se verá mais adiante – Cristóvão Colombo seria da família Zarco, tal poderá explicar o seu interesse familiar em fixar-se na Ilha de Porto Santo, a primeira a ser descoberta ainda na Gesta Henriquina, em 1418, e descoberta por um Zarco: João Gonçalves Zarco, juntamente com Tristão Vaz Teixeira. Passados escassos oito anos, o Infante D. Henrique nomeou Bartolomeu Perestrelo (c. 1400 – Porto Santo, c. 1457), de antecedente italiano (Placência) mas nascido na freguesia de Santa Marinha de Lisboa, Mestre da Ordem de Cristo ao serviço da Casa do Infante, o primeiro Capitão Donatário de Porto Santo, em 1426, tendo iniciado o povoamento da ilha com o apoio da Ordem Franciscana em 1428.

Aquando do povoamento, segundo uma memória antiga reproduzida no Elucidário Madeirense do padre Fernando Augusto da Silva em parceria com Carlos Azevedo de Meneses, obra editada no Funchal em 1921 e depois reeditada em vários volumes em 1940, Bartolomeu Perestrelo levou consigo uma coelha prenha que acabou escapando, cujos descendentes “povoaram” a ilha depredando a sua vegetação. Isto é lenda, mas é lenda ocultando algo mais simbolizado na coelha ou coelho, já de si símbolo lunar de fecundidade. Poderá referir-se à possibilidade de Bartolomeu Perestrelo ser um “cristão novo” (judeu convertido). Com efeito, o onomástico hebreu Sepharad era dado à Península Ibérica como “Terra de Coelho”, e dele deriva o de Sefardita, o judeu ibérico, cultor de heterodoxias judaicas englobando o messianismo e as ciências herméticas a que este Capitão Donatário não terá sido alheio, nem que fosse por herança do seu avô-paterno Gabriel Palastrelli, italiano de Placência fixado em Lisboa onde era afamado astrólogo, além das suas relações próximas com o tio do Infante D. Henrique, o rei D. Afonso V, que igualmente era um cultor das ciências herméticas de que deixou um Tratado Alquímico sobre a Pedra Filosofal, que já publiquei várias vezes. Não terá sido ele alheio nem os que o acompanharam no povoamento da ilha, observando-se muitos costumes semitas na sua população, onde “todos são primos e primas”, e até nos hábitos gastronómicos, onde o bolo de caco, por exemplo, apresenta severas semelhanças com o pão de pita dos semitas.

Afigura-se-me impossível negar que os antecedentes italianos de Bartolomeu Perestrelo não tenham servido para depois inventar, no século XIX, o mito da origem genovesa de Cristóvão Colombo.

Do quarto casamento de Bartolomeu Perestrelo, cerca de 1450, com Isabel Moniz, que após enviuvar chegou a ser donatária de Porto Santo por curto período, nasceu a filha Filipa Perestrelo Moniz (c. 1455 – c. 1484), que casaria com Cristóvão Colombo por volta de 1479. Viveram na casa da família Perestrelo em Porto Santo, onde nasceria o seu primogénito, Diogo Colombo, nos fins de 1479 ou inícios de 1480. Enquanto donzela, Filipa Perestrelo Moniz viveu com uma das doze “donas” do Mosteiro de Santos-o-Velho, comenda feminina da Ordem de Santiago, em Lisboa[12]. Se bem seja afirmado como plausível que Filipa Moniz faleceu e foi sepultada na Capela da Piedade no Convento do Carmo[13], em Lisboa, também há quem conteste e afirme que ela faleceu e foi sepultada ao lado do seu pai na Matriz da Piedade, em Porto Santo, ou então na Sé do Funchal[14]. A Matriz de Porto Santo está muito alterada e falta-lhe muitíssimo do original, quase tudo, túmulos incluídos; a Sé do Funchal, muito melhor conservada, mesmo assim não revela qualquer túmulo relacionado à pessoa da nobre esposa do almirante português que deu o Novo Mundo ao Mundo.

É estranho, estranhíssimo que a esposa não esteja sepultada ao lado do esposo, seja em Sevilha, seja em Génova, e fique só na última morada em solo português. Ora, isso não confere com quaisquer pretensos antecedentes sevilhanos ou genoveses, seja qual for o pretexto, desde o mais elaborado ao mais simples, muito menos ainda era possível um plebeu de origens humildes – fosse sevilhano, genovês ou português – que misteriosamente chegou a almirante, casar com uma nobre portuguesa próxima da coroa: “As regras do tempo mostram-nos que um plebeu nunca se casava com uma nobre, pelo que a origem de Colombo é assaz duvidosa”[15].

Mas pretexto maior será o do posicionamento geográfico privilegiado de Porto Santo a 33º de latitude norte, de cujo ponto mais elevado, o Pico do Facho, irradiam-se as linhas de orientação para três blocos continentais – Europa, África, América – a que este “ponteiro” não foi insensível na partilha do mundo em Tordesilhas (7.6.1494), o que já antecedia em previsão o acontecido entre Portugal e Espanha, com a “parte de leão” para os portugueses, exclusivos conhecedores das navegações de mar de longo, não raro repassando aos nuestros vecinos informações truncadas na cartografia.

O Pico do Facho do Quinto Luzeiro que alumiaria a rota marítima de Colombo, arauto do mesmo Luzeiro (Vénus), indo lançar os alicerces de uma nova civilização num novo mundo.

A famosa sigla com que Colombo se assinava na carta ao seu filho Diogo, fechada em Sevilha a 29 de Abril de 1498, parece ser a que contém, dentre outros elementos mais, tanto o seu verdadeiro nome como a sua verdadeira origem, tanto no conspecto histórico como no esotérico, nisto utilizando a criptografia cabalística, a qual por si só, inquestionavelmente, assinala o almirante como um hermetista.

O ilustre investigador Afonso Dornelas (possível descendente de um irmão do navegador João Gonçalves Zarco), ao examinar a sigla do almirante, verificou que o traço oblíquo terminal precedido de um ponto se chama colon, tanto em português como em castelhano. É o sinal gráfico de pontuação separador de frases num mesmo período, a que os antigos chamavam separador “imperfeyto” e os modernos chamam correntemente de “ponto e vírgula”, sendo o “perfeyto” os “dois pontos”.

Como Xpõ, no diminutivo grego, significa “Cristo”, e como ferens, em latim, indica “aquele que leva, que transporta”, Afonso Dornelas concluiu que a sigla criptográfica deveria indigitar um nome. Traduzindo “Cristo-ferens” por Cristóvão e juntando-lhe o sinal colon (./), obteve: Cristóvão Colon[16].

Na continuação dessa análise mais criptográfica que paleográfica, o investigador Saul Santos Ferreira, ilustre poliglota e hebraísta português, verificou que o caracter gráfico ./ (colon ou “ponto e vírgula”) correspondia ao sinal < (aspa) da escrita hebraica, denominado zarga, zargo ou zarco.

Ora, Zarco é o apelido português celebrizado pelo já referido navegador João Gonçalves Zarco, que ao serviço do Infante D. Henrique, juntamente com Tristão Teixeira, descobriu o Arquipélago da Madeira (Porto Santo, 1418; Ilha da Madeira, 1419)[17], vindo a ser nobilitado com o sobrenome de Câmara.

Um dos mais íntegros genealogistas do século XVII, Alão de Morais, alude a um rumor de que o nome zarco poderia provir da mutação da palavra zargo, significando “vesgo”, pelo que o apelido se deveria a uma alcunha resultante de um defeito ocular[18].

Essa dedução, com base num rumor não fundamentado, está vazia de base filológica, pois ainda que a palavra significativa de “vesgo” ou “zarolho” seja zargo, já zarco adjectiva expressamente uma pessoa que “tem os olhos azuis claros ou garços”, provindo do étimo árabe zarcá[19].

O investigador Saul Santos Ferreira considerou, coerentemente, que Cristoferens nada tinha a ver com São Cristóvão, o qual, segundo a lenda hagiográfica, transportara aos ombros o Menino Jesus de uma margem para outra de um rio caudaloso. Concluiu que, na linguagem da primitiva Igreja Moçárabe da Hespanha, a palavra Cristóbal significava “Cristo Senhor”, correspondente à própria pessoa do Salvador. Para ele, a sigla deveria exprimir:

“Cristo salve, Maria salve, José salve”, é expressão equivalente a “Cristo, Maria et Joseph consalvis”. Desta maneira, deparava-se-lhe a palavra consalves, ou seja, gonçalves.

Santos Ferreira considerou Xpo ferens como sendo Salvador, os três SSS como Gonçalves, e ./ como Colon, Zarco, obtendo assim o nome civil do almirante das Índias Ocidentais: Salvador Gonçalves Zarco[20].

Interpretado dessa maneira, X M Y expressa a Cristo-Maria-Yoseph, Joseph ou José, trilogia que serviu de “santo-e-senha” entre os trinitários fundados por São João da Matha e São Félix de Valois em 17 de Dezembro de 1198, que inicialmente antes de terem Regra própria adoptaram a de São Bento, dos quais talvez fosse donato ou irmão benfeitor o mesmo Cristóvão Colombo (nisso podendo encontrar-se a justificativa do seu nome no grego Kolon, “membro, parte, partícipe”), ademais tendo sido a Cruz Trinitária quem enfunou as velas das naus capitaneadas por ele na rota certa do continente americano. Além disso, terá, tal como a Ordem da Santíssima Trindade, em diminutivo Trinitária, perfilhado da ideia messiânica das três Idades do Mundo já propalada no século XII por um outro beneditino mas da Regra de Cister: o abade Guioacchino do mosteiro da Fiore, na Calábria, ou seja, Joaquim de Flora. Colombo chega mesmo a assumir-se joaquimita confesso, como atestam os seus escritos, ou antes, os documentos que fez reunir para servirem de prova aos seus pontos de vista. Constituem parte dos mesmos trechos de João Rupescissa da Roca Talhada, condenado por heresia nos meados do século XIV[21].

O ideal paraclético e parúsico, portanto, futurista, dos trinitários, avizinhava-os ideologicamente dos bernardos e dos franciscanos “beguinos”, e inclusive dos carmelitas no que possuem de hipertúlico, e por seu pendor de expansão, centrífugo próprio para criar diáspora extracontinental, mesmo reservando-se na desculpa da sua principal missão ser a de resgatar cristãos escravos na África, desde muito cedo travaram-se de boas relações com a Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, vulgo Ordem de Cristo (sucessora directa e herdeira universal da Ordem dos Templários), sendo a própria signa cruzia da sua instituição muitíssima idêntica à pátea Templária, milícia esta que também portou o nome de Cavaleiros Pobres de Cristo e da Santíssima Trindade (Pauperes Comilitones Christi Santaeque Trinitatis). Ademais, aquando do processo de legalização da Ordem de Cristo, quem o coordenou foi um trinitário, frei Estevão de Santarém, pregador e confessor da rainha D. Isabel e do rei seu marido, D. Dinis. Aos seus conselhos, intercessão e indústria, escreveu frei Manuel da Esperança, se atribui justamente parte notável da glória que rendeu a Portugal a fundação desta Ordem[22].

Não terá sido mero acaso, perante as evidências já expostas, o facto das primeiras ilhas ameríndias avistadas pelo almirante serem batizadas com os significativos nomes de San Salvador, Cuba e a cidade de Trinidad, além de batizar uma enseada e um rio recém-descobertos com dois nomes inconfundíveis: Puerto de Santa Maria de Belen e Rio de Belen, que é dizer, o Rio Tejo defronte a Santa Maria de Belém, por esse tempo povoado arrabalde ao ocidente de Lisboa.

Em outras e vastas toponímias dadas às terras recém-descobertas, há ainda mais indícios sobre a pressuposta origem portuguesa do almirante. Por exemplo: Vale del Paraizo – foi em Vale do Paraíso, povoação próxima de Vila Franca de Xira, que Cristóvão Colombo foi recebido por D. João II de Portugal, e onde esteve hospedado três dias, em Março de 1493, quando, vindo do regresso da descoberta do Novo Mundo, intencionalmente arribou a Lisboa. Isla de San Juan BautistaSão João Batista, paróquia de Beja desde 1320. Castillo Verde foi a primeira fortaleza fundada por Colombo na América – indo identificar-se à toponímia de Castro Verde, ao sul de Beja. Cabo de San VicenteCabo de São Vicente, no extremo ocidental da província do Algarve. Por aqui fico, para não me alongar demasiado na similitude das toponímias lusa e castelhana e correr o risco de maçar o leitor…

Cristóvão Colombo – “Aquele que transporta a Pomba do Cristo” – tão-só é o nome sacramental e não cartorial, portanto, simbólico, do Iniciado que foi, ficando assim conhecido para a posteridade, enquanto o nome batismal ficaria oculto em cifra gemátrica que, solucionada, desvelaria o seu de joaquimita confesso, possivelmente ligado ainda a um Instituto muitíssimo mais secreto: a Ordem de Mariz, a quem em Espanha a de Santa Maria de Montesa (de função idêntica à de Cristo portuguesa) deu cobertura exterior.

Referindo-se a Saul Santos Ferreira e ao ilustre genealogista António Ferreira Serpa, comentadores da obra de Dom Tivisco intitulada Salvador Gonsalves Zarco, o Professor Henrique José de Souza adiantou[23]:

“Não se deve esquecer que ambos os comentadores do livro por nós citado procuram provar que Salvador Gonçalves Zarco era de origem portuguesa, por isso mesmo, embora tão valioso trabalho que a outros supera, além do mais por se servir da mais preciosa de todas as chaves, que é a filológica, bem longe está de expressar toda a verdade, ou seja, aquela por nós apontada: a de que Colombo era de “origem aghartina”, no que diz respeito à sua maternidade, pouco importando que o pai tivesse sido um nobre de sangue ao mesmo tempo português e castelhano, para fazer jus à “descida das Mónadas ibéricas”, através do chamado “Itinerário de Ió”, que deveriam formar a nova civilização ameríndia, cujo fenómeno é completado por uma outra misteriosa personagem, também de “estirpe aghartina” (pouco importando o que diga a História a seu respeito), ou seja, Pedro Álvares Cabral. Donde intitularmos a sua missão de `Codicilo do Testamento Espiritual de Colombo ao Mundo´.”

Quanto à afeição devocional do almirante ao Divino Espírito Santo, o Professor H. J. Souza também a refere com o seu raro talento e preciosa pena[24]:

“O Espírito Santo, manifestado em todas as religiões, lendas e tradições, é a Ave Sagrada da Sabedoria Divina. E, como tal, representa o Terceiro Logos. É a Voz que vem dos Céus e se manifesta na Terra como Palavra. A sua Morada é o Sanctum-Sanctorum da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria. Algo assim como se disséssemos que o Espírito aí se une com a Matéria.

“Em nosso artigo dedicado a Colombo, ao estudarmos a sua sigla e brasão, citámos a saudação que o mesmo nela fazia, seja ao Espírito Santo (em forma de Pomba), como a Maria, em forma de Água, Mar, etc. Mesmo porque Maria provém de Mar, as Águas, etc. E a prova é que nas pias de água benta dois MM entrelaçados se encontram por cima delas, não apenas para simbolizar o nome de Maria mas também para expressar o signo de Aquário.

“E como Colombo pertencesse à Ordem de Avis (anteriormente houve uma outra mais secreta ainda, com o nome de Maris), o que nos obrigou a fazer os “iniciáticos trocadilhos” que se seguem: Ave, Maria! Ave, Espírito Santo! – dizia Colombo na referida sigla. Enquanto nós outros: Ave Maris, Aves Marinhas, Avis raris in Terris! De facto, o “Grande Navegador Aghartino ou Jina” não passava de Ave rara na Terra. O seu nome provém de Columba, a Pomba de todas as Iniciações, o Espírito Santo das homenagens divinas. Do mesmo modo que em grego chamando-se ele Christoferens Columbus, é “aquele que carrega consigo o Cristo”. Donde a lenda de São Cristóvão “que carregava, de um lado ao outro do rio, as pessoas que dele necessitassem, até que um dia carregou o próprio Menino Jesus”. O sentido verdadeiro, entretanto, dessa passagem “de um lado ao outro”, é aquele de salvar as almas, conduzindo-as ao Céu, do outro lado da Vida. Donde o termo pontífice, ou “construtor de pontes”, que é muito mais antigo que o Cristianismo.”

Esses dois excertos de estudos do Professor Henrique José de Souza poderão explicar alguns dos enigmas ensombrando a figura de Cristóvão Colombo, a começar por aquele de querer manter incógnita a sua verdadeira origem, apesar de em dado momento ter se declarado natural de Génova, todavia ocultando os nomes do seu pai e da sua mãe, não se sabendo quem foram. Não creio que tenha mentido nem criado uma qualquer “blague” nova, antes lançando a jogo uma “charada iniciática”, feita não em Génova, onde não existe qualquer sinal plausível da sua presença aí, mas possivelmente em Lisboa e com o encobrimento de um italiano seu amigo radicado na capital do país: Lorenzo Giraldi, comerciante e intermediário entre ele e Paolo Toscanelli, comerciante e cartógrafo que cedeu várias cartas marítimas a Colombo, que assim soube quanto os italianos conheciam do mar de longo (mar alto) e das ilhas que nele haviam. Quanto ao pressuposto da sua “origem genovesa”, isso é expressamente alegórico e de claro sentido iniciático, senão repare-se: Génova fica, obviamente, na Itália, e sendo a Itália os “pés” da Europa, essa parte do corpo continental, tal como do humano, é astrologicamente regida pelo signo dos Peixes, estes que são o signo natal de Portugal. Génova é vizinha de Veneza ou, em transliteração livre, Vénus, que sendo “planeta do amor”, de natureza feminina, no seu mais alto sentido expressa a Mãe Divina, Universal[25]. Vénus também rege, diz a Tradição Iniciática das Idades, Lisboa e Sintra, esta consignada como Montanha de Eleição da Soberana Ordem de Mariz, deificamente afim à Hierarquia Celeste dos Arqueus ou os venustos Kumaras, com os quais Colombo seria um junto com Cabral, cuja essência espiritual de ambos, desde Quinhentos, coroa o cume da árvore genealógica dos deuses, santos e heróis da Raça dos Lusos.

Ainda sobre Veneza, tive ocasião de proferir numa carta reservada escrita para São Lourenço de Minas Gerais do Sul, Brasil, em 7.06.2005: “Veneza tem relações íntimas com Lisboa, inclusive no aspecto astrológico. Estando ambas as cidades sob a égide de Vénus, ainda assim Veneza tendo por ascendente o Leão (de São Marcos, do latim Marcus, que é o mesmo Macara sânscrito, cuja catedral é o omphalo ou ponto central da cidade), enquanto Lisboa ascende ao planeta Júpiter (dos Peixes, expressados nos mesmos do Tejo).

“Durante muito tempo a gôndola foi o principal meio de locomoção pelos canais de Veneza (em Portugal, e da mesma maneira, temos Aveiro…), todos eles desaguando na grande laguna a que se liga a lenda do misterioso dragão ou crocodilo habitando nas suas profundezas. Mas esse último é simbólico de Macara ou Makara, por habitar tanto na terra como na água, o que vai bem com a natureza psicomental desse mesmo Ser de desempenho primordial na Criação.

Quanto ao onomástico gôndola, divide-se em gundu (alemão), “intrépido”, e dôia ou gôla, do alemão wurm, “serpente”. Portanto, representa a “serpente intrépida” vogando sobre as profundezas drágonas da laguna, na realidade e pelo formato da barquinha, expressando a própria Lua com a sua órbita serpenteante em volta da Terra, a cujas águas e comoções ela assiste, transformando-as nas etéreas das volúpias amorosas de Vénus, de cujas energias é “espelho” para a Terra. Mas gundu ou guntu também significa “guerreiro”, no mesmo dialecto alemão. Tal “guerreiro” é representado pelo gondoleiro com a sua espada, ou melhor, remo arrastando a barquinha por águas seguras… para que não encalhe… no lodo doutros remos ou Ramos de Raças lunares, mais passionais que mentais. Assim, o conjunto expressa o Divino Kartikeya ou “Guerreiro Celeste” na sua Barca levando ao casal Enamorado (Arcano VI, o Andrógino em separado) ao Porto Seguro da Felicidade de um novo 5.º Sistema ou Ronda de Evolução Universal, exactamente o de Vénus, alter-ego do Globo em que vivemos e temos o ser.”

A sua devoção e culto ao Divino Espírito Santo e à Santa Virgem, ou melhor (por que não dizer?), a obediência que devia à Ordem de Mariz, levou o almirante a conduzir a sua esquadra chefiada pela nau Santa Maria, no regresso da sua primeira viagem e talvez causando estranheza à maioria dos expedicionários, invés de directamente às ilhas Canárias sob domínio de Castela[26], ao arquipélago dos Açores, domínio português. Aqui, na ilha de Santa Maria, entrevistou-se com o seu governador, o capitão D. João Castanheira, antigo cavaleiro da Ordem de Avis passado à de Cristo, comprovado protector dos trinitários e franciscanos, pois que foram estes a povoar em primeira mão os Açores, levando o Evangelho Eterno guarnecido pelas Armas Temporais de Cristo. Há, inclusive, uma ilha açoriana dedicada à memória dos trinitários: a Terceira, não só por ser a terceira ilha do arquipélago a ser descoberta mas também, sobretudo, por evocar a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade: o Divino Espírito Santo.

Em Santa Maria, onde ordinariamente se diz o almirante ter sido mal recebido, mas o mais certo terá sido o mal percebido pelos seus pares de Castela companheiros na aventura, feitas as saudações, feitos os relatórios à Ordem de Cristo, abonada de provisões e água de novo a esquadra se fez ao largo e invés de ir directamente para terras de Espanha, como seria normal, rumou a Lisboa. Também na terceira das quatro viagens que encetou ao Novo Mundo, aportou primeiro no Porto Santo e só depois nas Canárias, quando o normal seria o inverso por estas estarem mais próximas que aquele. O almirante seguiu rotas marítimas só suas conhecidas, que as soubera na Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres, onde aprendera as “primeiras letras” da navegação de longo, chegando a engolfar-se propositadamente, após passar as ilhas de Cabo Verde, nas correntes e ventos de noroeste, hoje conhecidas de todos quantos andam no mar, que inevitavelmente levariam às costas das Índias Ocidentais, indo assim chegar à actual América do Norte. Processo semelhante aplicou Pedro Álvares Cabral para alcançar a América do Sul, navegando um pouco mais de largo transversalmente indo aportar, ontem como hoje e inevitavelmente, ao areal de Porto Seguro na costa da Bahia brasileira.

Alguns, senão a maioria dos estudiosos, poderão objectar ao conhecimento prévio das rotas marítimas por Cristóvão Colombo de que durante largo tempo acreditou ter chegado à Índia Oriental, e depois passado a acreditar, com igual firmeza, que chegara ao Japão, e aí procurado avidamente o contacto com os indianos ou os japoneses. Pois seja, mas não se deveria esquecer ou tão-só ignorar que tais informações não são coevas do tempo da vida do almirante: foram escritas após a sua morte – para desacreditar a sua grande figura intentando mostrar o quão pouco ele sabia de cartografia e navegação – por aqueles mesmos ingratos que o meteram a ferros e o deixaram morrer na doença e na miséria: os inquisidores da Igreja em Espanha, apoiados por uma nobreza enciumada, despótica e oportunista ávida das riquezas imensas do Novo Mundo.

Ademais, a prerrogativa “Três Índias” vai bem com o conceito geográfico medieval que adentrou a Renascença, pois que essas subdividiam-se em Próxima Índia, Extrema Índia e Média Índia, correspondendo, respectivamente, às partes Norte e Sul do subcontinente indiano e à região africana hoje denominada Etiópia. Após a chegada ao continente americano de Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral, nos séculos XV-XVI, essas terras passaram a ser denominadas de Índias Ocidentais, contrapondo-as às Orientais, mas sempre realçando o designativo Ásia, tanto com o sentido imediato de território longínquo e exótico, para o viajante europeu, como, principalmente, com o de Assiah ou “Mundo”, cuja conquista espiritual teve a primazia da Gesta Dei per Portucalensis.

O professor Mascarenhas Barreto – assim como os seus prosseguidores portugueses, o último, mas não menos valoroso, o doutor Manuel da Silva Rosa, que graciosamente fez-me chegar às mãos um seu precioso tomo colombino[27] – acredita no seu livro, que é a sua tese, ter sido Salvador Gonçalves Zarco um espião português de D. João II posto ao serviço dos reis católicos de Espanha. Não penso assim, pois nem os acontecimentos da época, com provada cronologia documentada, tampouco o normativo canónico regulador das Ordens, permitem-me admitir essa ideia. Se Colombo pertencia à Ordem de Cristo, então só o Geral da mesma poderia decidir sobre o aprazar ou “emprestar a prazo” o navegador à Coroa, decisão que nunca teria a primazia do rei, qualquer que fosse, pelo menos legitimamente; ademais, a riqueza de conhecimentos náuticos possuída pelo almirante à Ordem a devia e à Ordem, na pessoa do seu Geral, devia primeiro prestar contas detalhadas, ou seja, os relatórios com todos os pormenores, e só depois à pessoa do monarca. Este ficaria ao par do indispensável, a fim de saber se o seu “investimento” corria ou não bem, e pouco mais nunca sem exceder o trivial. Foi sempre assim ao longo do processo das Descobertas Marítimas, pelo que a posição de independência de Cristóvão Colombo ante a Coroa não era excepcional. Por isso, tive ocasião de dizer algures: todos sabiam que a Escola de Sagres sabia, mas nem todos sabiam o que a Escola de Sagres sabia.

O normativo institucional militar, canónico e secular que assegurava a regularidade do legítimo da Ordem Militar de Cavalaria e Religião, era mantida e sujeita, por um lado, ao governador e mestre geral, que se correspondia directamente com o rei, e por outro lado, à mesa bispal e consequentemente ao papa. Mas ela veio a ser ostensivamente anulada e apropriada por D. João II, usurpo ilegítimo culminando no assassínio a punhaladas pelo próprio monarca, nos paços de Setúbal, do seu cunhado D. Diogo, Mestre da Ordem de Cristo e 4.º duque de Viseu, por pertencer ao partido da Casa de Bragança sua opositora, odiada por ele que a extinguiu (só veio a ser restaurada no reinado de D. João IV), e igualmente por ambicionar o domínio pessoal da Ordem, então senhora dos mares e terras conhecidas, o que significava um incomensurável poder e uma indescritível riqueza exclusivos à sua real pessoa[28]. Decepando a linhagem bragantina que reconduzia até ao primeiro rei de Portugal, ordenando a execução em 1483 do duque de Bragança e levando à fuga do marquês de Montemor, do conde de Faro e de outros acusados; amordaçando o clero que se opunha a tal política de “quero, posso e mando”, ficando como exemplo geral a sua ordem de decapitação pública do bispo de Évora, D. Garcia de Meneses, em 1484, e executados, presos ou mandados para o degredo muitos outros; dominada a Ordem de Cristo, também em 1484, com o assassinato do seu Mestre e Governador, que era irmão de D. Leonor, mulher do rei, declaradamente favorável ao partido da Casa de Bragança, como disse, D. João II ficou com o terreno político-religioso livre de opositores, inteiramente aberto para fazer o que quisesse e como entendesse. Com tudo isso, não se livrou a morrer de forma estranha, diz-se, por envenenamento, ele que repetia constantemente do alto da sua prepotência e domínio: “Eu sou o senhor dos senhores, não o servo dos servos”.

Foi nesse ambiente que se encetaram as negociações entre Cristóvão Colombo e D. João II, as quais continuaram depois dele já estar aprazado aos reis católicos, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela. Tendo a acreditar ter havido concordata sobre o empréstimo do almirante português aos reis do país vizinho, negociações essas levadas a cabo com a ingerência directa, ainda assim discreta, das Ordens de Cristo e de Montesa, cujos embaixadores negociavam em nome dos seus administradores, perseguindo a ambição maior, secreta mas que se apercebe em várias partes dos escritos do almirante, da realização do velho sonho sinárquico dos antigos templários, de quem eram descendentes directos: o de unir o Oriente ao Ocidente e neste edificar o Templo ou Casa da Jerusalém Celeste, visão joaquimita propícia à III Idade, cujo espaço da sua inauguração só podia ser em uma terra virgem, livre e ignorante do que fosse mal e pecado, portanto, num Novo Mundo, que a tanto ficou destinado o quinto continente – a América. Isso mesmo se conclui da leitura do Libro de las Profecías de Cristóvão Colombo, actualmente na Biblioteca Capitular e Colombina da Catedral de Sevilha, onde o almirante afirma a intenção de transportar para a América o novo biótipo humano capacitado a levantar e habitar o Novo Templo da Nova Jerusalém: “Habitat in tabernaculo tuo, aut [qui] requiescet in mons sancto tuo”, conformado à lição do Salmo 144 da Vulgata Latina. Considerando-se predestinado a essa missão, afirma: “Fiz-me mensageiro junto destes Príncipes (Reis Católicos) do novo Céu e da nova Terra de que fala Nosso Senhor no Apocalipse, pela boca de S. João, após tê-lo feito pela boca de Isaías”[29].

Com efeito, ainda em Baza o almirante teria assegurado a Fernando e a Isabel que a sua façanha seria consagrada “à reconstrução do Templo”[30]. No seu Libro de las Profecías, em que se jacta de ter sido o escolhido do Céu para descobrir o Novo Mundo, como disse, existem períodos interessantíssimos que fazem luz sobre a sua pessoa, como, por exemplo, os dois seguintes que traduzo do castelhano para português: “Quem duvida que este lume não foi do Espírito Santo, assim como de mim, o qual com raios de claridade maravilhosa consolou com a sua santa e sacra Escritura a voz muito alta e clara com 44 livros do Velho Testamento, e 4 Evangelhos com 23 Epístolas daqueles bem-aventurados Apóstolos, avivando-me a que eu prosseguisse, e de contínuo sem cessar um momento me avivam com grande pressa?”. “… e digo que não somente o Espírito Santo revela as coisas por vir às criaturas racionais, mas que no-las mostra por sinais do céu, do ar e das bestas quando lhe apraz”.

Mesmo com quanto disse até aqui, não deixará de opor-se o que afinal é o busílis da questão: se Cristóvão Colombo era português, por que optou por Espanha em vez, como seria natural, do seu próprio país?

Certamente por causa das ideias egocêntricas e atitudes repressivas de D. João II e à maior aceitação do seu projecto por parte dos reis católicos, principalmente de D. Isabel, os quais por certo queriam tomar parte na diáspora marítima e respectivo empório que até então Portugal detinha como exclusivo donatário universal. De maneira que a concordata de ceder Cristóvão Colombo a Espanha só podia ser feita em primeira mão pela Ordem de Cristo à de Montesa[31], só depois vindo ao processo as Coroas interessadas. Assim também se refrearia a desmesurada ambição de D. João II e se abriria caminho para firmar, como esse acto legítimo, a posterior partilha do Mundo entre Portugal e Espanha pelo Tratado de Tordesilhas (1494). Tanto assim é que após a chegada de Colombo às Antilhas em 1492, no ano seguinte iniciaram-se de imediato conversações na corte castelhana sobre o domínio dos mares e suas terras, requeridas pela coroa portuguesa.

De acordo com Manuel J. Gandra[32], o conflito entre Colombo e D. João II deveu-se ao facto deste soberano entender controlar e orientar todo o processo para seu próprio proveito. Contudo, durante o reinado cesarista deste “Príncipe Perfeito”, como o alcunhou a História, ainda assim não deixando de ser assassino mesmo alegando razões de Estado, é incontestável que brilharam firmes as luzes da Cultura e Conquista, não tanto por mérito real mas mais por iniciativa da corte, resultado exclusivo das ideias “humanistas e iluministas” provindas de Itália, abrindo a Renascença, entradas em Portugal reinando ainda D. Afonso V.

As represálias contra a nobreza que se lhe opunha, paralelamente à supressão dos concelhos e à espoliação da Ordem de Cristo, que se transforma no centro de reacção antiprincipesca, de cujas caravelas as suas insígnias são substituídas pelas armas reais – das quais já eliminara também a Cruz de Avis – enfraquecendo substancialmente as sinergias nacionais[33]. Centralizando todo o poder na sua política, D. João II não entendeu o simbolismo expresso nas Armas portuguesas, determinando a modificação da disposição dos escudetes dentro do Escudo de Armas de Portugal, na denominada “Operação de endireitar o Escudo” efectuada em 1485.

O monarca parece desejar que Cristóvão Colombo o sirva incondicionalmente; sabe da sua sabedoria de mar e que, ademais, é conterrâneo alentejano pertencente à melhor cepa da árvore genealógica nacional. Mitografias aparte, isto mesmo é explicitado por ele em carta ao almirante[34]:

“Cristóbal Colon.

“Nós D. João […] vos enviamos muito saudar. […] E quanto à vossa vinda cá, certo, assim pelo que apontais como por outros respeitos para que vossa indústria e bom engenho nos será necessário e prazer nos há muito de virdes porque o que a vós toca se dará [de] tal forma de que vós deveis ser contente. […] E por tanto vos rogamos e encomendamos que vossa vinda seja logo e para isso não tenhais pejo algum e vos agradeceremos e teremos muito em serviço. Avis, 20 de Março de 1488. A Cristóvam Colom nosso especial amigo em Sevilha.”

O certo é que Cristóvão Colombo (grafado na carta de dois modos diferentes, o último notoriamente em português arcaico) não atendeu ao pedido do monarca, pois ao dirigir-se a D. João II, escreveu-lhe: “Vós recebestes a Cristóvão Colombo como amigo, desejastes vê-lo, e o agasalhastes no princípio com muita humanidade. Depois disto não cometeu delito algum, e deliberais sobre tirar-lhe a vida: proceder assim é faltar ao direito das gentes, e querer atropelar sem pejo as leis mais santas da sociedade” (carta transcrita por D. Diogo de Souza em sua História de Portugal, p. 697, Lisboa, 1852). Referindo-se a este rei, Colombo já afirmara antes: “[…] digo milagrosamente, porque fui ter a Portugal, cujo rei entendia de descobrimentos mais do que nenhum outro: Ele (Deus) lhe atalhou a vista, ouvidos e todos os sentidos, que quase em 14 anos não lhe pude fazer compreender o que digo”[35].

Contudo, também não foi fácil ao navegador tornar aceites os seus projectos na corte de Castela, como desabafa numa carta endereçada aos monarcas castelhanos: “Já sabem vossas Altezas que andei sete anos em vossa corte importunando-vos por isto; nunca em todo esse tempo se achou piloto nem marinheiro, nem filósofo, nem de outra ciência que todos não dissessem que a empresa era falsa; que nunca eu encontrei ajuda de ninguém salvo de Frei António de Marchena, depois daquela de Deus eterno”.

Esse frei António de Marchena, em 1484, professaria com o cargo de custódio no mosteiro de La Rábida da Ordem dos Frades Menores de São Francisco na Província Andaluza de Huelva, sendo português de nação como João Peres de Marchena (falecido antes de 1513)[36], cujo nome nos documentos mais recentes não condiz com o inscrito nos mais antigos, ademais confirmando aquele na carta de Colombo, como demonstra com todo o rigor a resposta que lhe deu Isabel, a Católica: “Parece-nos que seria bom que levásseis convosco um bom astrólogo e parece-nos que seria bom para isso Frei António de Marchena, porque é bom astrólogo, e sempre nos pareceu que se conformava com o vosso parecer”[37].

Por seu turno, Las Casas também diz[38]:

“Segundo parece por algumas cartas de Cristóbal Colon escritas por sua mão (que eu tive nas minhas) aos Reis desta Isla Espaniola, um religioso que tinha por nome Frei António de Marchena foi quem muito o ajudou, para que a Rainha se persuadisse e aceitasse a petição. Nunca soube a que Ordem pertenceu, mas creio que fosse a de São Francisco, por conhecer que Cristóbal Colon, depois de Almirante, sempre foi devoto daquela Ordem. Tampouco consegui saber quando, nem em que ponto, nem como o favoreceu ou que entrada teve com os Reis o já dito Padre Frei António de Marchena.”

Face à política de sigilo, será natural que o consignado autor desconheça qual o tipo de intervenção exercida pelo religioso português junto da corte espanhola, também não sendo de admirar que tivesse sido ele o intermediário nas negociações do aprazamento de Cristóvão Colombo entre a Ordem de Cristo, o rei português e os reis de Aragão e Castela. A verdade é que frei António de Marchena acompanhou sempre o almirante nas suas viagens ao Novo Mundo[39]. Na primeira, e pela lista incompleta da equipagem que chegou até aos nossos dias, igualmente figuravam os nomes de dois grumetes portugueses: “João Arias, filho de Lopo Arias, de Tavira, e Bernaldim, criado de Afonso, marinheiro do piloto João Rodrigues, de Mafra”. Também a transacção comercial com os nativos do Novo Mundo fez-se em moeda portuguesa, como relata Colombo aos soberanos espanhóis: “Vi dar 16 novelos de algodão por três ceotis de Portugal, que é uma branca de Castela…” O ceotil (nome derivado de Ceuta) foi mandado cunhar por D. João I, em comemoração da primeira empresa marítima dos portugueses em África no ano 1415, de que resultou a conquista dessa praça africana para o domínio português e o início do período das Descobertas Marítimas. Além disso, nos escritos que deixou à posteridade, em latim e castelhano, verifica-se à primeira vista que a ortografia do almirante nessa última língua é arrevesada e a maioria dos termos são portugueses, ou então aportuguesados, pois muitos vocábulos que utilizou pertencem, a rigor, à língua portuguesa, e a construção sintáxica, como era na época, é positivamente lusitana.

Ainda que tenha oferecido a Espanha a glória inigualável da descoberta do caminho marítimo para a América, dando início a um novo ciclo da civilização, contudo, os louros da vitória foram depostos na cabeça dum mercador florentino, que vivia ora em Lisboa, ora em Sevilha: Américo Vespúcio, que afinal nem sequer deu o nome, Américo, ao continente descoberto, América, porque nos registos cartoriais o seu nome é Alberico[40], enquanto os naturais da costa americana onde Colombo chegou, os Amariques. Mas o poder do vil metal agitado pela política viciosa de sempre, fez cair o justo e levantar o injusto… De maneira que Vespúcio nada teve a ver com o processo marítimo, apenas o secundou ou menos que isso, se levar-se em conta que mesmo antes de Colombo os portugueses da Escola Naval de Sagres já haviam chegado à Terra Nova e ao Labrador[41]. Vespúcio não era português nem de Sagres, mas Colombo decerto era, e aí recolheu as informações necessárias ao sucesso da sua empresa. O italiano de Florença (a quem alguns historiadores posteriores deram gratuitamente parentesco com Cristóvão Colombo, ponto de partida da ideia insubstanciada do almirante ter sido genovês) não passou de comerciante fretador de navios, ajuntando ao seu espírito corso o ir sacar o que não lhe pertencia, perseguindo de longe a esquadra expedicionária, como também fez com a de Pedro Álvares Cabral, conforme acusa Jaime Cortesão. Homem de negócios num país governado pelo papado, convinha aos reinos vassalos de Roma manter com esta as melhores relações político-económicas, sob pena de excomunhão e o mesmo país tornar-se pária. O mais que Vespúcio fez foi aproveitar-se (deixando-se aproveitar…) de tudo quanto os outros fizeram, inclusive de boa parte do conhecimento de navegação e instrumentos náuticos[42]. A sua fama assenta nisso, e nada mais!… Cristóvão Colombo, por sua vez, foi votado ao ostracismo e à miséria, que geralmente é a recompensa dada aos Grandes Homens pelos pobres de espírito cujo agradecimento nunca vai além do interesse imediato, e assim, referindo-se a si próprio, escreveu no seu Diário esta frase dolorida: “O que te está sucedendo agora é a recompensa dos serviços que prestaste a outros amos”. Outros amos eram os reis de Aragão e Castela, o que desmente formalmente a origem espanhola de Colombo, porque o seu verdadeiro amo era o rei de Portugal.

Rei de Portugal repressor e narcisista, tirano e egocêntrico, cuja última fase da repressão foi preparada pelo Concílio de Trento e executada pelos “cães de fila” da ortodoxia cesarista, os dominicanos (domini canes), através da Inquisição.

A carta do monarca português ao almirante, citada anteriormente, era um “salvo-conduto” para ele entrar no reino “sem que sejais preso, retido, acusado, citado, nem demandado por nenhuma causa, ora cível, ora crime de qualquer qualidade”. Isto demonstra que Colombo não andaria nas melhores relações tanto com D. João II como nas boas graças do Santo Ofício, talvez por suspeita de partidário da Casa de Bragança, talvez também por suspeita de heresia por simpatia às ideias cabalísticas dos sefarditas judeus. Fosse como fosse, o certo é que não atendeu ao convite do rei e ficou-se por Sevilha. Disso deduzo que acaso terá sido a contragosto que D. João II viu ceder “Colón-Zarco” ao reino vizinho, e só terá aceite o facto obrigado pelos motivos impostos pela política internacional, ficando impedido de dispor a seu bel-prazer do almirante para espantalho dos seus “espalhafatos de navegação”, ele que não era da Ordem de Cristo e tampouco vez alguma fora ao mar. “Só o estar em Sintra e sentir o cheiro do mar, causa-me náuseas”, confessou uma vez quando, por razões de Estado, contrariado teve que ir ao Paço de Sintra, pois que a detestava apesar de no mesmo ter sido coroado rei em 31 de Agosto de 1481.

Pela leitura esotérica, antes, teosófica da sua sigla, Cristóvão Colombo desvela-se o Adepto Real que foi. Os três SSS da sua assinatura criptográfica são os mesmos da celebração pentecostal do Paracleto, que tanto os monges-cavaleiros templários como os seus descendentes, os freires cavaleiros de Cristo, invocavam como Sanctus Spiritus Salvatorem, que inscreviam em listeis e representavam por três SSS. Essa celebração também esteve presente na Ordem Livery Collar, no País de Gales, colar esse formado por 18 letras S, numa sequência senária das iniciais do lema templário Sanctus Spiritus Salvatorem. Ela foi introduzida em Portugal pelo príncipe plantageneta John of Gaunt, ou João de Gante[43]. O primeiro português a granjear a distinção do Livery Collar foi D. Afonso Furtado de Mendonça, em pleno reinado de D. João I, de quem João Gonçalves Zarco também fora fiel servidor estando presente na conquista de Ceuta.

Essa Milícia gália era para os ingleses o que a de Cristo era para nós portugueses, e a de Montesa para os espanhóis. E tanto uma como as outras nutriam simpatias joaquimitas, sobretudo no tocante à ideia messiânica da Parúsia e Advento.

Outra Ordem da mesma natureza, também gália, era a de Rose Collar, colar esse constituído por 24 letras S, numa sequência senária do mesmo lema templário, tendo suspensa a “Rosa de cinco pétalas” (dobradas) a quem os ingleses chamam Tudor. Foi Grão-Mestre desta Ordem sir Thomas Moore[44], que ainda viveu no mesmo século de Cristóvão Colombo, este que ao colaborar com a Coroa espanhola salvou a Aliança luso-britânica de se dissolver, num esquivo jogo diplomático, ao interferir junto da Coroa inglesa por intermédio dos reis espanhóis, evitando assim que D. João II causasse mal maior à paccis política-militar ibérica e europeia, ao mesmo tempo levando Portugal a ter parte activa e ter a “parte de leão” na “partilha do Mundo”, como foi o resultado do Tratado de Tordesilhas entre os monarcas ibéricos.

A empresa marítima de Colombo terá sido, pois, planejada em Portugal e encetada em Espanha. Ele uniu a Península Ibérica e foi seu pontífice – “construtor da ponte” entre dois blocos continentaisante a América, o quinto continente, sob o signo de Aquarius, anunciando já então o Ecce Occidens Lux pelo prenúncio do Ex Oriens Umbra!

É igualmente comum acreditar-se, entre os estudiosos colombinos, que Cristóvão Colombo foi um judeu converso aventureiro[45], um marrano, castiço ou “cristão-novo”, por causa da sua documentação conhecida estar recheada de elementos mais judaicos que cristãos, de notórias características messiânicas, pelo que é remetido para os afiliados da Kaballah Sefardita, hispânica.

A sequência dos factos apresentados leva a concluir que no sangue de Salvador Gonçalves Zarco corria a fina essência da Nobreza de Portugal, seria um varão português, aparte o facto dos judeus terem tido importância inquestionável nos sectores cultural, religioso, político e económico da Idade Média e Renascença. A tradição rabínica esotérica serviu muitas vezes de elo de proximidade e até ligação entre a Sinagoga e a Igreja, entre as Escrituras Velha e Nova, e esse assento do Cognoscio Secretum, a Tradição Iniciática do Ocidente, acasalava indissociavelmente a Kaballah com a Gnose, sendo assim o “espírito encoberto” do dogma e magistério tanto eclesial como sinagogal.

Decerto Cristóvão Colombo, pelas provas apresentadas nos seus documentos que sobreviveram aos cinco séculos, terá sido um marejador ou dominador dos arcanos mais profundos e sigilosos da Kaballah, certamente pela sua intimidade ao meio sinagogal de Beja e de Sevilha, lugares em cujas proximidades viveu. O seu mundo ideal, espiritual tão mal-entendido, o seu valor profético e teúrgico, davam-lhe um aspecto sobre-humano. Colombo não foi tão-somente o homem e o navegador, foi igualmente o génio inspirador advindo, certamente, dessa mesma tão lendária quanto impenetrável Agharta, Terra Proibida (a profanos) e Terra Modelo do Paraíso Terreal (em que se inspira a famosa lenda do “Ovo de Colombo”), a Pátria de Eleição do tetramorfo Preste João, já que tradicionalmente possui um aspecto masculino no Egipto completando com um feminino na Índia, tendo por colunas laterais um aspecto masculino na Mongólia para o respectivo feminino no Tibete.

Dela, Agharta, sob a aparência de estar se referindo à América, escreveu o almirante: “Não é possível a ninguém alcançar esse Paraíso Terrestre, salvo por Vontade Divina”[46].

Uma outra ideia sugestiva do carácter cabalístico, esotérico, de Cristóvão Colombo contém-se nos seus livros predilectos e nas cartas que escreveu ao seu filho Hernando Colón, ou Fernando Colombo. É visível o seu grande interesse pelos profetas bíblicos, que foram por ele copiados em grande parte, sobretudo as Profecias de Isaías, que citava frequentemente nas suas cartas e no seu diário, conforme o seu biógrafo ulterior, frei Bartolomé de las Casas[47]. Depois (todos expostos na Biblioteca Capitular e Colombina da Catedral de Sevilha) o livro do cardeal Pietro d´Aille, Imago Mundi; um livro de Plutarco publicado em Sevilha, em 1491; a Naturalis Historia, de Plínio, anotada por ele em português, em espanhol e um pouco de italiano (bem ao gosto de mostrar erudição conforme era costume na época, como no século XVII frei Jerónimo Munster demonstrou na sua Virgo Aurea); um Marco Polo latino, De Consuetudinibus et Conditionibus Orientalium Regionum; a Tragédia, de Séneca; um Tratado de Santo António de Florença e a Filosofia Natural de Santo Alberto Magno. Ainda um livro com muitas anotações sobre a vida do Papa Pio II, um Almanaque de Navegação e um livro de Abraão Zacuto, judeu português praticante de Astrologia cabalística ao qual D. Manuel I deverá a inspiração de adoptar a Esfera Armilar, símbolo e selo do deus egípcio Thot-Hermes, padroeiro do Hermetismo.

De maneira que a sigla criptografada de Cristóvão Colombo não deixa de possuir diversos segredos bem ocultados, todos eles de conteúdo iniciático profundo completando-se entre si como peças de um puzzle. Eles elevam o almirante muito acima das hipóteses, dos infundamentos e dos perjúrios, tão-só o assinalando Ser de grandeza rara.

Nesse sentido, a sigla mostra-se mais que simples assinatura criptográfica: possui características de mandala, ou seja, “forma geométrica de função mágica”. Agora, darei o meu contributo, à luz da Sabedoria Divina e segundo entendo, à descodificação do significado hermético da mesma.

Pela Kaballah, termo hebraico significando “Tradição” e “Livro cerrado”, logo, sinónimo de “Tradição Secreta”, neste particular judaico-cristã, Maurice Privat[48] afirma que o S repetido três vezes é igual a 15 vezes 3 = 45, ou 4 mais 5 igual a 9, número cabalístico da Terra representada pelo… “Ovo de Colombo”, que se mantém erecto após cortar-se uma das extremidades, que no Globo equivale ao Pólo Sul em que o mesmo assenta.

Em Aritmosofia 45 exprime a herança, o legado. Com esse sentido, a Missão do Templo foi, consequentemente, legada a Cristóvão Colombo pela sua herdeira Ordem de Cristo. Por outro lado, 15 dividido por 3 dá 5, correspondendo no Tarot caldaico de São Germano ao Mestre dos Arcanos, o Grande Hierofante que está entre as duas tradicionais Colunas salomónicas (a da SabedoriaJnana ou Jakin – e a do AmorBhakti ou Bohaz), portanto, sendo o Iniciador.

Por conseguinte, Colombo expõe o seu título ou grau sem rodeios com a letra A (alephe) no centro da sigla, o que vale dizer: “Eu sou o primeiro de minha Ordem”.

Ele terá sido o continuador da Missão Templária na Península Ibérica destinado a levá-la ao Novo Mundo do Ocidente, ao Norte e Centro da América, tal como o seu primo (para Mascarenhas Barreto), Pedro Álvares Cabral, igualmente ligou a Península Ibérica ao Centro e Sul da mesma América, tomando por ponto de irradiação ibero-ameríndia o Brasil.

De maneira que Colombo devia as cartas e os mapas, que lhe permitiram navegar de longo até ao Novo Mundo, não a Toscanelli (que alguns, por interesses inconfessados, desde o início do século XX afirmam ter sido roubado por ele) mas à Ordem de Cristo e à Escola de Sagres, sempre sujeito à política inviolável da lei do sigilo.

Postas as coisas assim, é muito natural que se pergunte por que terá o almirante «roubado» as cartas náuticas de Toscanelli, que presumidamente indicavam a rota para as ilhas do extremo-ocidente, se após isso deu tantos passos para encontrar documentos seguros? É lógico que se responda, assim mesmo, que tudo isso terá sido uma invenção caluniosa urdida muitos séculos depois da sua morte, para poder atribuir-se a origem do almirante à glória e prestígio deste ou aquele país sem glória nem prestígio provados nas Descobertas Marítimas Portuguesas que a estas secundou, claramente, Génova.

Quanto à sigla, como se viu, está assim predisposta:

Pelo que uma das suas interpretações iniciáticas, exclusiva de minha lavra, poderá ser:

1.º S = Salvador.

2.º S = Salvo, Consalo, Gonçalo, Gonçalves.

3.º S = Sarco, Çarco, Zarco.

A = Asgardi, Agharta, Terra Modelo, Omphalo do Mundo.

X = Xesed, Chesed, a quarta sephiroth, “esfera” ou “emanação divina” correspondendo ao “Governo ou Domínio Espiritual do Mundo”.

M = Metraton, o Primeiro Criador, o Senhor do Mundo.

Y= Yahvé, a Divindade.

Xpõ Ferens = “Portador da Pomba de Cristo”, Cristóvão Colombo.

No que resultará a mensagem seguinte:

Salvador Gonçalves Zarco, de Agharta!
Deus conceda o Senhorio Espiritual do
Mundo ao seu
Cristóvão Colombo.

Visto assim, tratar-se-á, pois, da saudação laudativa de um dignitário eleito do Rei do Mundo, Melki-Tsedek, pois que deste Cristóvão Colombo terá sido uma projecção tulkuística ou “representação viva” no Mundo Humano, destinada à Obra Maior da sementeira de futura e nova civilização em novo continente.

Essa não é uma interpretação nem afirmação “dadas de barato”, atendendo a que por volta de 1480 Colombo escreveu aos monarcas espanhóis uma carta expressiva onde se apresentava como o Príncipe do Mundo, o próprio Metraton: “Deus, que fez Ele de mais a Moisés ou a David?” E falando de si mesmo, adiantou: “Desde que nasceste sempre Ele (Deus) se preocupou contigo… Deu ao teu nome um maravilhoso eco sobre a Terra”[49].

Uma outra interpretação iniciática da sigla, completando-se com a primeira, será:

Que se traduzirá por:

Salve, Salve Deus Lustríssimo, Salve!
Deus Supremo Criador do Mundo,
A Ti o teu
Portador da Pomba do Cristo.

Adonai-Shadai é a fórmula invocatória da “Protecção Divina”, muito corrente entre cabalistas e templários afeiçoados à Gnose, e inclusive entre os hermetistas da Rosacruz.

“Ainda hoje – escreve Jean Marquès-Rivière – alguns judeus utilizam o chamado Shadai, que todas as crianças israelitas usam no momento da cerimónia dita Bar-Mitzwah. É uma medalha redonda na qual está inscrito o Nome Divino Shadai, cujo uso é de tradição imemorial. Este Nome Divino encontra-se, de resto, em muitos textos mágicos e simbólicos.”[50]

Finalmente, uma terceira interpretação da sigla, complementar das anteriores, será:

Assim se desvela, mais uma vez, o “santo-e-senha” de Joaquim de Flora, em cujo “Evangelho do Futuro” beberam várias correntes da Cristandade, nomeadamente os cistercienses, os templários, os trinitários e os franciscanos “beguinos” ou espirituais, sendo crível para judeus e cristãos que o III Templo de Salomão, correspondente à Jerusalém Celeste, deveria corresponder à III Idade do Espírito Santo, aliás, festejado a rigor em Porto Santo[51], com começo na Península Ibérica, nomeadamente em Portugal, mas estendendo as suas ramas frondosas a algum continente virgem, desconhecido mas não ignorado, de todos os males humanos criados durante as I e II Idades[52].

Com estas hipóteses, cimentadas na documentação colombina disponível, constituindo a minha tese de Cristóvão Colombo ter sido o grande navegador corporalmente nascido português e espiritualmente aghartino, acredito deixar, em guisa de proposta e nunca de conclusão, abrindo “janelas de possibilidades”, ao leitor um conjunto de pistas historiográficas e de ideias iniciáticas, destarte coadjuvando no tornar a “História velada” História desvelada à Raça de quantos por este mundo afora mantêm viva a chama gloriosa da Portugalidade.

 

NOTAS

 

[1] Patrocínio Ribeiro, A Nacionalidade Portuguesa de Cristóvão Colombo – The Portuguese Nationality of Christopher Columbus (Solução do debatidíssimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica). Livraria Renascença, Joaquim Cardoso, 1927. Reedição pela Fundação Lusíada, cerca de 1992, na “Colecção Lusíada Documentos”, I.

[2] Pestana Júnior, D. Cristóbal Colom ou Symam Palha, na História e na Cabala. Composto e impresso na Imprensa Lucas & Cia., Lisboa. A edição terá sido feita cerca de 26 de Maio de 1928.

[3] A Kaballah, a ciência esotérica ou hermética judaica que o Cristianismo depois também adoptaria, compreende literalmente três espécies de operações, a saber: o Notarikon, ou a arte dos signos; a Gematria, consistindo nas comutações e combinações das letras e palavras; a Temurah, ou as transposições das letras, das palavras e dos números.

[4] Mascarenhas Barreto, O Português Cristóvão Colombo (Agente secreto do rei Dom João II). Edições Referendo, Lisboa, 1988.

[5] Manuel Rosa, O Mistério Colombo Revelado. Ésquilo Editora e Multimédia, Lisboa, 2006; Colombo Português – Novas Revelações. Ésquilo Editora e Multimédia, Lisboa, 2009; Colón – La historia nunca contada. Esquilo Ediciones, Madrid, 2010.

[6] Henrique José de Souza, Colombo e Cabral, revista Dhâranâ, n.º 110, 1941, Rio de Janeiro; Símbolos e Brasões, revista Dhâranâ, n.º 111, 1942, Rio de Janeiro; A Pomba do Espírito Santo, revista Dhâranâ, n.os 142/144, 1951, São Paulo.

[7] Ricardo Beltrán y Rózpide, Cristóbal Colón, genovês? Madrid, 1926.

[8] G. Uzielli, La Vita e i tempi di Paolo di Pozo Toscanelli. Roma, 1864. Armando Cortesão, Cartografia Portuguesa Antiga, Lisboa, 1960.

[9] 1507 Waldseemüller Map from the US Library of Congress, Washington DC.

[10] Hernando Colón, Historia del almirante Don Cristóbal Colón. Imprenta Tomas Minuesa, Madrid, 1892.

[11] Mascarenhas Barreto, ob. cit.

[12] Pergaminho de santos o Velho que atesta a presença de uma Filipa Moniz nesse convento. Torre do Tombo, Convento de Santos-o-Novo, Doc. 477. Edição Pseudo-História Colombina, Lisboa, 26 de Setembro de 2007.

[13] “Doña Felipa Moniz su [Cristóvão Colombo] legitima mujer questá en el monasterio del Carmen en Lisboa, en una capilla que se llama de la Piedad que es de su linage de los Muñizes”, Diogo Colombo, Segundo Testamento, 1523, in Henry Harrisse, Christophe Colomb, son origine, sa vie, ses voyages, sa famille et ses descendentes. Ernest Leroux Éd., Paris,1884.

[14] Nicolau Florentino [pseudónimo de António Maria de Freitas], A Mulher de Colombo. Papelaria e Tipografia Guedes, Lisboa, 1892.

[15] Professores João Paulo Oliveira e Costa, José Damião Rodrigues e Pedro Aires Oliveira, História da Expansão e do Império Português. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2014.

[16] Afonso Dornelas, Elementos para o estudo etimológico do apelido Colon. In “Boletim da Academia das Ciências de Lisboa”, Classe Letras, vol. XX, pp. 407-422, 1924-1926.

[17] Alberto Vieira, O (Re)descobrimento / (Re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira. Secretaria Regional do Turismo e Cultura – Direcção Regional da Cultural – Centro de Estudos de História do Atlântico, Funchal, 2018.

[18] Cristóvão Alão de Morais, Pedatura. Lisboa, 1670.

[19] António de Morais Silva, Dicionário da Língua Portuguesa, vol. II. Rio de Janeiro/Lisboa, 1891.

[20] Saul Santos Ferreira, Salvador Gonçalves Zarco (Cristóbal Colon). Os Livros de Dom Tivisco. Lisboa, 1930.

[21] John Leddy Phelan, The Millenial Kingdom of the Franciscans in the New World – A Study of the writings of Gerónimo Mendietta (1525-1604). Berkeley and Los Angeles, Univ. of California Press, 1956.

[22] Abade Correia da Serra, Os verdadeiros sucessores dos Templários e o seu estado em 1805. In Archives de l´Europe, tomo VIII, 1805. Texto reeditado em Sintra, na revista “Graal”, Verão/Outono de 1982, com notas de Manuel J. Gandra.

[23] Henrique José de Souza, Símbolos e Brasões. Revista Dhâranâ, n.º 111, 1942, Rio de Janeiro.

[24] Henrique José de Souza, A Pomba do Espírito Santo. Revista Dhâranâ, n.os 142/144, 1951, São Paulo.

[25] Vitor Manuel Adrião, Venise Insolite et Secrète. Éditions Jonglez, Versailles, 2010.

[26] Acerca das Ilhas Canárias, tive oportunidade de dizer em público em Novembro de 2017 no Funchal, Ilha da Madeira: “A espionagem e a contrainformação, notícias falsas que repetidas à exaustão acabaram tornando-se verdades oficiais de Estado moldando a opinião pública, poderão explicar o controverso explorador e mercador genovês Lancelotto Malocello (Varazze, 1270 – Génova, 1336), que em navio luso descobriu as Canárias em 1312 sob o comando de Manuel Pessanha, o qual em 1317 assumiu o almirantado português”.

Ora, o genovês era agente de Afonso XI de Leão, e o português era capitão de mar-e-guerra do rei de Portugal, D. Afonso IV. Vem daí os diferendos entre os dois monarcas e das várias batalhas que se deram pela tomada e retomada das Ilhas Canárias: logo em 1313 da parte leonesa e depois em 1330 da mesma parte, enviando o rei de Portugal para as Canárias reforços militares em 1341, dando-se embate promovido pelo monarca português. A Santa Sé ingeriu em 1344 a favor do partido leonês, estabelecendo o reino das Canárias pondo à sua frente D. Luís de la Cerda. A coroa portuguesa não se conformou e ingeriu nas Canárias a partir da Madeira, sobretudo através da ingerência político-diplomática dos franciscanos portugueses, cuja maioria fixou-se nessas ilhas de pretensa posse leonesa-castelhana. Entre 1402 e 1418, o corsário francês Jean de Bettencourt, ao serviço de Henrique III de Castela, conseguiu apoderar-se das Ilhas Canárias. Portugal não se conformou e organizou várias expedições militares com o objectivo de as reconquistar a Castela: em 1415, em 1416, em 1424 e em 1427. A a batalha que ficou mais famosa foi a de 1424, com D. Fernando de Castro comandando uma força de 2500 homens. Mas foi debalde… até hoje. As Canárias foram terra portuguesa mas que espiões e corsos conseguiram furtar a Portugal. Ainda assim, Espanha não pôde furtar-se ao facto incontornável da acção civilizadora portuguesa através do vimaranense Sebastião Machado, fundador do primitivo núcleo populacional de Tacoronte, conforme atesta a placa comemorativa na praça principal dessa cidade canarina.

[27] Manuel da Silva Rosa, Eric J. Steele, O Mistério Colombo Revelado. Ésquilo Edições e Multimédia, Lisboa, 1.ª edição Outubro de 2006.

[28] Não é demais repetir que a principal base de sustentação da Coroa, capaz de competir com ela, era a Ordem de Cristo, que se encontrava, quando D. João II subiu ao trono, solidamente ligada às mais nobres Casas do reino. A sua administração andava, então, no ramo real que D. João II detestava. Como exemplo, repito, D. Diogo de Almeida, 4.º duque de Viseu e administrador da Ordem, foi apunhalado até à morte dentro dos paços de Setúbal pelo próprio rei, seu cunhado, com o apoio de três fidalgos desejosos dos favores reais, que seriam atendidos conforme descreve o teólogo Diogo Paiva de Andrade (1528-1575) nas suas Memórias inéditas: D. Pedro de Eça, alcaide-mor de Moura (em cujo Museu Municipal está hoje a adaga assassina de D. João II), homem forte que foi quem manietou o Mestre da Ordem de Cristo para o rei poder matá-lo à-vontade a punhaladas, Diogo da Azambuja e Lopo Mendes do Rio, todos agraciados com os favores reais depois do crime. Houveram outros mais implicados na armadilha fatal estendida a D. Diogo de Almeida, que pensava ir a uma entrevista amistosa com o monarca quando, na realidade, o esperava uma fatídica câmara escura com o real assassino escondido num canto dela e os três comparsas prontos a agarrá-lo e dominá-lo. Cf. D. Diogo de Souza, História de Portugal desde os tempos primitivos até à fundação da Monarquia e desta época até hoje. Lisboa, 1852.

[29] O Libro de las Profecías de Cristóvão Colombo foi escrito entre os anos 1502 e 1504, começado antes de iniciar a sua quarta viagem à América e terminado após o seu regresso. Para a sua realização contou com a colaboração de frei Gaspar de Gorricio, monge cartuxo do Mosteiro de Santa Maria das Covas de Sevilha. A obra consta de 84 folhas de que só se conservam 70, e está escrita em castelhano e latim, aqui e ali aparecendo termos portugueses. Inclui 385 citações bíblicas e de Padres da Igreja, das quais 326 são do Antigo Testamento e unicamente 59 pertencem ao Novo Testamento. A obra é uma auto-apologia da predestinação de Colombo desde o nascimento à recuperação de Jerusalém no Novo Mundo, interpretando as descobertas marítimas à luz das profecias bíblicas com acentuado pendor joaquimita, como se verifica na citação do Oraculum Turcicum (Oráculo Turquesco) de Flora, na carta que enviou aos reis católicos a respeito da sua quarta viagem. Cf. F. Álvarez Seisdedos, Cristóbal Colón. Libro de las Profecías. Testimonio Compañía Editorial, Madrid, 1984.

[30] Salvador de Madariaga, Christophe Colombe. Ed. Calmann-Lévy, Paris, 1968.

[31] A Ordem Militar de Montesa, no país vizinho do nosso, teve desempenho público semelhante ao da Ordem Militar de Cristo, em Portugal. Extintos os templários, Jaime II de Aragão, temeroso de que os imensos bens dessa Ordem caíssem em mãos estranhas ao seu reino, solicitou de Clemente V autorização para constituir um Instituto que substituísse aquela e tomasse a seu cargo as propriedades da mesma. Nada conseguiu desse papa, porém sim do seu sucessor, João XXII, que para tal fim expediu uma bula em 1317, adjudicando à Ordem de Santa Maria de Montesa todos os bens que os templários possuíram nos domínios do monarca aragonês. O castelo de Montesa, no reino de Valência, foi a sede da Ordem nascente, motivo do nome adoptado. Os seus componentes deram muitos exemplos de heroísmo e esplendor, lutando em campanhas, tanto dentro como fora da Península Ibérica. A insígnia usada, após várias vicissitudes, é a de Alcântara, em sabre, carregada com uma cruz plana de goles.

[32] Manuel J. Gandra, Martinets de Pasquallys e a tradição Quinto Imperial. Texto inserido na sua tradução do livro Tratado da Reintegração dos Seres Criados, de Martinets de Pasquallys. Edições 70, Lisboa, 1979.

[33] Rui de Pina, Crónica de D. João II, cap. XIX. Publicações Alfa, Lisboa, Abril de 1990.

[34] Esta carta, cuja autenticidade foi comprovada por diversos autores nacionais e estrangeiros, é transcrição parcial do texto completo inserido nos livros citados de Patrocínio Ribeiro e de Pestana Júnior. Cf. ainda o mesmo texto em Navarrete, Collecion de los viajes y descubrimientos, e em Teixeira de Aragão, Memória acerca do descobrimento da América, 1852; a mesma carta no opúsculo de Luciano Cordeiro, De la decouverte de l´Amerique, 1876, e em Henri Vignand nos Nouvelles etudes critiques sur la vie de Christophe Colombe, Paris, 1911.

[35] Carta do almirante citada por seu filho Fernando Colon inserida no Diário del primer viage. In Fernando Colon, Vida del Almirante Don Cristóbal Colon. Versão castelhana da Histoire, México, 1947.

[36] Alonso Ramón, Historia General de la Orden de Nuestra Señora de la Mercês, vol. II., cap. VI. Madrid, 1530.

[37] Em Carta-mensageira que os reis católicos dirigiram ao almirante em 25 de Setembro de 1492, fazendo-o ciente dos seus interesses acerca da sua viagem ao Novo Mundo, publicada por Fernández Navarrete na sua colecção de Documentos Diplomáticos, Tomo II, Madrid, 1825.

[38] Rev. Fr. Bartolomé de las Casas, La Historia General de las Indias, Parte 1.ª, Capítulo XXXII. Boletín de la Real Academia de la Historia, Tomo 78, Madrid, 1921.

[39] “Este Fraile fué la persona sola de aquesta vida, à quien Colón más comunicó de sus secretos”, diz Gonzalo de Oviedo em 1535 na sua Historia General y natural de las Indias, islas y tierra firme del mar océano. Tomo I, Cap. V.

[40] Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2004. Nova edição, revista e ampliada, com o mesmo título, em Lisboa pela Euedito, 2017.

[41] Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, vol. II, cap. Viagens para Ocidente. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, Dezembro de 1990.

[42] Antonio Ballesteros y Beretta, Cristóbal Colón y el Descubrimiento de América. Barcelona, 1945.

[43] Duque de Lencastre, quarto filho do rei Henrique III de Inglaterra e pai de D. Filipa de Lencastre, que veio a casar com D. João I, rei de Portugal, matriz da “Ínclita Geração” e origem da Aliança Luso-Britânica, hoje a mais antiga do mundo.

[44] Sendo Lord Chanceler do rei Henrique VIII de Inglaterra, sir Thomas Moore recusou-se a reconhecer a autoridade do seu soberano como chefe supremo da Igreja inglesa, assim separada da Igreja romana, também não dando o seu consentimento a que aquele monarca se divorciasse da rainha D. Catarina de Aragão. Por isso foi preso, tendo estado um ano na Torre de Londres, sendo depois decapitado, em 1535, e posteriormente canonizado como São Tomás Maurus, um dos mais ilustres pensadores do seu tempo a quem se deve a obra literária, de inspiração rosacruz, Utopia, na qual coloca à cabeça do enredo um navegador português, Rafael Itlodeo.

[45] Simon Wiesenthal, A Missão Secreta de Cristóvão Colombo. Editorial Futura, Lisboa, 1974.

[46] Salvador de Madariaga, ob. cit., p. 268.

[47] Colombo era judeu, artigo não assinado. In revista Planeta, n.º 22, Junho 1974. Editora Três, Brasil.

[48] In Le Grand Nostradamus, n.º 1, Maio de 1934. Esta revista deixou de publicar-se em 1936.

[49] Salvador de Madariaga, ob. cit., p. 554.

[50] Jean Marquès-Rivière, Amullettes, Talismans et Pentacles. Editions Payot, Paris, 1938.

[51] Fátima Menezes e Élvio Sousa, Inventário do património da Ilha de Porto Santo. Câmara Municipal de Porto Santo, 2009.

[52] Noeli Dutra Rossatto, Joaquim de Fiore: trindade e nova era. Edipucrs, Porto Alegre, 2004.

A Quinta da Regaleira de Sintra e os signos da Tradição – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Jul 2 2018 

Multa paucis… Muitas coisas em poucas palavras.

Quem está defronte da capela privada ou familiar da Quinta da Regaleira, vê no nicho lateral direito, em tamanho natural, a imagem de Santa Teresa de Ávila ou de Jesus. Além de conectar-se à antroponímica familiar de Carvalho Monteiro por parte materna, Ana Teresa Carolina de Carvalho, devota leiga da Ordem do Carmelo no Rio de Janeiro, essa santa também o está para Portugal no contexto sebástico, facto por certo do conhecimento ilustre do encomendante que mandou impô-la onde está.

Após o desastre militar de Alcácer-Quibir, ante o desespero geral que invadiu o reino com a sucessão dinástica abruptamente interrompida e não havendo sucessor para governar, aventou-se que D. Sebastião não teria morrido na desastrosa campanha africana, tão-só desaparecido… Partilha disso Teresa de Ávila: escrevendo a um dos seus amigos, lamenta que o rei se houvesse “perdido”, sem contudo admitir a morte física, como era então crença geral. Esse motivo do “monarca perdido” levaria Santa Teresa a constituir, no século XVII, um dos suportes eruditos do Restauracionismo Lusitano, em que a ideia sebástica do Encoberto amadureceu e se propagou[1]. Tanto levou a que varões doutíssimos seguissem “não a vulgar dúvida da morte, mas que passassem a esperar com a sua vida a restituição do seu Império”[2], esperança acalentada e propagada durante o período filipino pela Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, cuja influência política patriótica acabou por conduzir o duque de Bragança à ocupação do trono de Portugal como rei D. João IV, consumando-se assim a restauração da independência nacional, facto que levou alguns, em inflamados discursos patrióticos, a verem no monarca o próprio “Príncipe Encoberto”, com isso ligando-o simbolicamente à pessoa desejada do desaparecido D. Sebastião, como fez o próprio Padre António Vieira, finalmente revelado restaurador da pátria ofendida[3].

António Augusto Carvalho Monteiro revela-se também perfilhar, no seu particular catolicismo “esotérico”, do ideal sebástico como “religião pátria”, expressando-o através das várias formas de arte plástica mas parecendo atribuir um valor menos conspirativo e mais metafísico ao mito do Encoberto, inclusive relacionando-o com a sua própria ascendência familiar inscrevendo-a numa linhagem sebástica ou de seres espiritualmente iluminados, distanciados da noção vaga sebastianista que aguarda a vinda do “rei-salvador”, tal qual os judeus esperam até hoje o advento do seu Messias restaurador, sabendo-se que o rei malogrado D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer-Quibir em 4.8.1578, com ele morrendo a independência do país mas nascendo o mito nacional do Sebastianismo, filho do Messianismo ibérico muito mais antigo[4].

O mesmo deve ter-se passado com Santa Teresa, apesar de parecer confundir em diversos trechos das suas cartas o Sebastião real com o Sebastião simbólico. Mesmo assim, ela dispõe-no sempre no Castelo Interior ou as [Sete] Moradas, que o Anjo lhe apresentou através de uma visão resplandecente[5], não me custando admitir que a torre da Regaleira acaso igualmente figure, à posteriori por iniciativa de Carvalho Monteiro, a torre carmelita.

Em uma outra obra minha[6], aquando falei de Moscavide, tive ocasião de dizer sobre Santa Teresa de Ávila:

“Ainda em Moscavide e pegando com a Quinta do Cabeço, existe a Quinta do Candeeiro, com capela do século XVIII, fundada por Lázaro Monjardim, “mordomo do culto divino” na igreja do Loreto, depois de 1718. Hoje é propriedade das servas de Nossa Senhora de Fátima, tendo sido antes (Outubro de 1899) convento das carmelitas descalças, foragidas em 1834 do Convento da Estrela, anexo à basílica, em Lisboa.

“Aquando da sua fuga, as carmelitas levaram consigo para Moscavide uma relíquia bastante singular do século XVII: o braço direito, metido num relicário de prata, da falecida Santa Teresa de Ávila. O culto popular a essa relíquia foi tão grande que ainda hoje perdura a sua memória no nome da estação ferroviária de Braço-de-Prata (não confundir com o célebre militar do século XVII, António de Sousa Meneses, de alcunha também o “braço-de-prata”), antes apeadeiro dos peregrinos ribatejanos que iam aos Olivais venerá-la[7].

“Por volta de 1930, o relicário e o membro sacro foram oferecidos pelas carmelitas do Candeeiro ou da Estrela (apodos dados ao luminoso astro matutino, Vénus) à família do Generalíssimo Franco, que os levou para Ávila, em Espanha. De então para cá, não havendo relíquias para venerar o culto feneceu…

“Mas já era grande o culto a Santa Teresa com ela ainda viva. Apesar de em vida não ter visto impresso nenhum título do seu vasto cardápio literário, contudo, após a sua morte, as suas obras seriam largamente difundidas internacionalmente. Seis anos antes da canonização de Madre Teresa, o leitorado português recebeu uma edição integral dos livros da sua autoria: Los libros de la B. Madre Teresa de Iesus (Lisboa, 1616), na edição da imprensa de António Alvarez.

“O seu livro Castelo Interior ou as Moradas, teria profunda influência tanto no Restauracionismo Lusitano quanto no Romantismo religioso, direi assim, do homem mais singular que Sintra conheceu nos fins do século XIX e inícios do imediato: António Augusto Carvalho Monteiro, que foi quem mais exaltou a pessoa de Santa Teresa, por via da arte escultórica e vitral, na sua capela da Quinta da Regaleira.

“Reza também a tradição popular sobre a Quinta do Candeeiro que o poço desta tem fundura incalculável e é uma espécie de torre subterrânea do “Castelo Interior” falado por Santa Teresa nas suas Cartas. Enfim, tradições sibilinas e coisas de sibilas!…”

A visão carmelitana do “Castelo Interior”, inferior ou subterrâneo, seria materializada na Quinta da Regaleira nas duas torres subterrâneas e mais a terceira que deu o nome à propriedade, nessa última ficando exposta, de maneira velada, ainda assim patente, a figura romantizada da fada Melusina. Todas as três torres possuídas do sentido substancial de pólo, com isto apontam a presença ocultada da Terra Primordial, do Paraíso Terrestre de Dante, igual à Agharta ou “Terra sem Mal” das tradições hindus e tibetanas, donde haverá de vir o Prometido, o mesmíssimo Encoberto vislumbrado nas visões da carmelita iluminada de Ávila, identificado no Messianismo Lusitano ao Desejado Imperador Universal que inaugurará a Quinta Idade do Mundo, o V Império ou a Quinta Monarquia já falada no século XVII por frei Sebastião de Paiva[8]. O sebástico Imperador do Quinto Império a advir, como Messias é identificado com o Cristo cumprindo a sua Promessa de Advento, assim sendo o mesmo Avatara ou “Manifestação Divina” aguardada por todos os povos da Terra sob os mais diversos nomes, desde Emmanuel a Maitreya…

Alegoria de “As Moradas” de St.ª Teresa de Ávila

As tradições espirituais e religiosas representam o Messias ou Avatara do V Império do Espírito Santo como um Menino (como se vê na coroação do imperador incarnado num delfim nos festejos populares do Império do Divino), por significar algo novo, virgem, puro, imaculado. Pois bem, no exterior do Palácio da Regaleira, esquinando (ou fazendo quina… à guisa daquelas da bandeira pátria) sobre o início da subida da Rua Barbosa do Bocage, quem nesta passa, olhando para cima, pode ver um menino carregando uma goteira no topo de uma coluna pétrea lavrada com troncos de vides e abundantes cachos de uvas, aguentando-a em baixo quatro corpulentos leões nas posições cardeais. Essa é bem a representação da Árvore de Jessé, de cujo tronco (genealógico de David) os profetas da Escritura Velha (esculpidos juntamente com as sibilas nos candelabros de carvalho na capela da quinta) anunciaram, particularmente Isaías[9], o advento do Messias vinhateiro ou o que traz a vide da Sabedoria (Gnose), com ela imperando com justiça e perfeição sobre todas as partes do Mundo a guisa de régulo ou leão real do mesmo. Esta versão bíblica foi adaptada e inscrita nos tempos do Futuro por Carvalho Monteiro, fazendo recurso à iconologia gnóstica-teosófica que nisto não deixa dúvidas, atendendo que por cima da coluna tem-se o flagrante da figura clássica do Makara. A meio da parede exterior do palácio sobre a mesma rua, vê-se a escultura de uma senhora sentada de lado escudada (ou de sentido ocultado) atrás de um escudo triangular aos pés, no qual se lê a palavra Salvé, com o S em destaque. Mesmo não sendo uma figura de convite, ainda assim também não deixa de saudar quem passa em baixo. Mas juntando a palavra com a figura feminina que tem sobre a cabeça um meio-arco em guisa de auréola, ressalta a frase laudatória presente no hinário mariano: Salvé, Senhora. Sendo assim, ter-se-á encriptada a pessoa da Senhora das Senhoras, a Virgem Divina, a Sabedoria Salvadora que os gnósticos chamam Sophia e os hindus Sarasvati, representação antropomórfica da mesmíssima Teosofia como “Sabedoria de Deus”, também nisto e pela linguagem muda dos signos da Tradição Primordial, revelando o Palácio da Regaleira destinado a “Casa de Advento”.

Tanto assim poderá ser que o S no escudo da referida escultura feminina repetirá a letra igual – inicial da palavra Salvé – no brasão ex-libris de António Augusto Carvalho Monteiro, a qual se torna motivo sebástico ao enroscar-se como uma serpente na trave vertical que a perpassa, tornando-se uma espécie de bastão de Asclépio, deus da Medicina, designativo da Taumaturgia, mas também sendo símbolo bíblico da Serpente da Sabedoria enroscada no tronco da Árvore da Vida – inclinado 17º para a esquerda no brasão – que estava no centro do Jardim do Éden, motivo depois repetido por Moisés quando domou a serpente do Egipto que se fixou em volta do seu bastão. Por isto, tradicionalmente a letra S é expressiva do movimento de unificação dos opostos, sejam quais forem. Não deixa também de ser flagrante que muitos Mestres Reais, os chamados Makaras humanizados, como o Conde de Cagliostro, por exemplo, usaram signa idêntica como ex-libris pessoal, ou seja, o do pomo de ouro engolido pela serpente de sabedoria enroscada na cruz (como se vê em Vila Viçosa), no bastão, no tronco ou na flecha, por certo a do Sagitário (signo regente da Península Ibérica) indicativa do Eixo do Mundo, tornando o emblema simbólico do Axis Mundi e assim mesmo do Pólo Primordial, Primus Polus, motivo esotérico que a Teosofia põe em relação com as iniciações crípticas afins às do Antigo Egipto dos Mistérios de Serapis (aliás, trazidos para a Lusitânia pelos antigos romanos de que é prova flagrante o santuário de Panóias, em Vila Real) ou “Seres Divinos” (Ser+Apis), os chamados “construtores do seio da Terra”. Tanto assim poderá ser que a escultura da senhora escudada ou velada está sobre a varanda da sala oposta àquela por onde se acedia aos aposentos privados de Carvalho Monteiro – scriptorium e laboratoriumnos quais só ele entrava, diz-se, e posicionada sobre a sala onde pode ver-se Adão e Eva (o Padrão da Humanidade) separados pelo tronco da Árvore da Vida onde se enrosca a serpente.

Pressupondo que o Palácio da Regaleira é uma “Casa de Advento”, este pressuposto justifica-se pelo vasto expositório de símbolos da “religião pátria” que o decoram interiormente, sendo o primeiro o padrão com a Cruz de Cristo plantado à sua entrada, e defronte a ele um globo-mundi em pedra com os meridianos e os continentes em relevo, mostrando o curioso de se ver Portugal defronte para a Cruz de Cristo e o Brasil, onde Carvalho Monteiro nasceu, na direcção da capela (o que parece sugerir a frutificação do V Império do Espírito Santo no 5.º Continente, mais propriamente no Brasil ou a “Nova Lusitânia”, na expressão feliz de Pedro de Mariz no século XVII). Ao lado do globo-mundi está uma esfera armilar também em pedra, e juntos vêm a representar a esfera terrestre e a esfera celeste. Por cima da esfera armilar, cravado na parede, vê-se um ouroboros (serpente que morde a própria cauda, formando um círculo no espaço) muito sui-generis, feito no estilo particular de Carvalho Monteiro, o qual, dando significado aos globos, poderá vazar-se na expressão hermética de “o que está em cima é como o que está em baixo”. Antes do globo-mundi estão esculpidas numa coluna uma cigarra (símbolo da poesia ou atributo das musas, igualmente considerada metáfora da “fidelidade aos princípios”), uma rã (símbolo de ressurreição e, ainda, no âmbito religioso, expressiva do “homem que caminha e aprende”) e uma tartaruga (símbolo da ordem imutável do Universo).

Que António Augusto Carvalho Monteiro acaso tenha bebido nas fontes blavatskyanas não me admirará, levando em conta ter sido contemporâneo de Francisco Stuart de Morão, o visconde de Figanière (1827-1908), que escreveu uma “Doutrina Secreta” portuguesa, antecessora da de Helena Petrovna Blavatsky[10], completada em 30 de Maio de 1888: Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo[11].

Essa obra, apesar de não ter tido grande impacto no meio académico português da época, contudo não deixou de influenciar vultos de renome como Antero de Quental, Oliveira Martins e Teófilo Braga[12], dentre outros, entre os quais certamente se contava Carvalho Monteiro, que, aliás, havia sido colega de carteira de alguns deles na Universidade de Coimbra.

Com efeito, na época deste ilustre senhor que fez de Sintra a sua pátria reservada, a Teosofia estava em pleno auge e muita da doutrina dela parece não ter-lhe passado despercebida, especialmente as partes tocantes à gnose judaico-cristã, ou por outra, o chamado “cristianismo esotérico”. Os sinais deste, com o duplo sentido confessional e erudito, repetem-se na porta lateral direita no exterior da capela, que dá para a sacristia ou lugar do “Sacro Cristo”, onde o sacerdote O assume no acto de se paramentar nesse espaço reservado do templo.

Porta lateral da capela da Regaleira por que se acede à sacristia

Obra possivelmente saída do cinzel de João Machado, a toda a volta da ombreira de mármore dessa porta estão lapidados símbolos bíblicos susceptíveis de interpretação, além da ortodoxa, heterodoxa, regularmente interrompidos por friso vegetal (tronco de vide) rematado na cimalha por uma cabeça de anjo ou querubim sobre duas asas cruzadas em fecho. O conjunto dispõe-se na ordem seguinte:

O trono lateral ao Agnus Dei será o do Espírito Santo, no qual se senta o sacerdote no período de reflexão na celebração, em tudo idêntico àquele dentro da capela agora desocupado, quiçá aguardando o seu legítimo donatário: o Encoberto, o Xvarnah, o Messiah desejado, neste particular, por todo o Portugal Sebástico. Isso mesmo aponta a estrela davídica abaixo em guisa de estar iluminando a rosa lateral a ela, tal qual Cristo se revela por Maria e Maria desvela a Cristo, a “Rosa de Sharon”: o “Messias aguardado”, segundo a descrição de Números, 27:14, que é o livro do Antigo Testamento escolhido para eleição do Messianismo.

Relacionado com isso, tem-se o movimento cíclico ou marcha precessional do Sol através do constelado celeste (mobilismo cósmico chamado Pramantha-Dharma pelos sábios hindus) desde o Oriente ao Ocidente, motivo porventura assinalado nas duas torres e no mosteiro representativo da própria Igreja, desta maneira designando a “Torre de Jerusalém” (destelhada), a “Torre de Roma” (telhada) e a “Tebaida da Regaleira” (representativa de Lisboa, ou melhor, de Portugal e a religião do Futuro), nesta se ocultando o Thesaurus Majorem (a Arca, Barca ou Agharta), tudo de acordo com as 3 Idades do Mundo segundo Joaquim de Flora:

O tema joanino do Agnus Dei, repetido na sacristia, está descrito no Apocalipse, que o dispõe sobre o Monte Sião e no centro da Jerusalém Celeste. Tomando a descrição quase idêntica do Brahmaputra (ou Brahmapitri, o “Mundo do Pai”) dada pelo Bhagavad-Gïta (15, 6), e da Jerusalém Celeste fornecida pelo mesmo Apocalipse, gera-se uma aproximação entre o Agnus latino e o Agni védico, o Fogo Sagrado, que aliás é carregado por um cordeiro na iconografia hindu. A similitude não pode ser fortuita porque, além do aspecto sacrificial do Agnus e de Agni, tanto um como o outro urgem como a Luz no centro espiritual da criatura humana, Luz que se alcança pela conquista da Sabedoria Divina, tornando-se a criatura Agnatus ou Iluminado, algo semelhante ao termo sânscrito Akta e ao grego Chrestus, ambos significando Ungido[13].

Essa aproximação com o deus védico do Fogo manifesta o aspecto solar, viril e luminoso do cordeiro: é a face leonina do anho que se encontra igualmente assinalada no Apocalipse, onde a palavra cordeiro é empregada 28 vezes para designar Cristo como o Agnus imolado, portanto, pascal. Mas, neste caso, o símbolo refere-se ao Cristo ressuscitado em glória, como aliás era aceite entre os cavaleiros da antiga Ordem dos Templários, assim O descrevendo na sua catequese, motivo porque nas suas casas comunitárias os crucifixos estavam despossuídos da figura humana, não havendo Homem e tão-só a Cruz, mesmo assim sem transgredirem a ortodoxia da doutrina mas por certo evocando os vários apodos triunfais de Cristo como constam na “Revelação Secreta”, ou seja, no Apocalipse, estabelecendo novos harmónicos: “Cordeiro vencedor da Morte” (5:1-14), “Vencedor das Forças do Mal” (12:7-8), “Todo-Poderoso, Divino” (11:15-17) e “Juiz das Nações” (14:1-5).

A Cruz Pascal carregada pelo “Cordeiro de Deus”, para se tornar sinónima do “vencedor da Morte” pela Ressurreição na Vida eterna, deve ser adornada ao centro pela Rosa mística que neste portal se vê abaixo do Agnus, assim se fazendo Rosa+Cruz como sinalética do Amor Divino que ilumina a Alma ressurgida da Paixão, tal qual a Pedra Filosofal nasce dos esforços do Adepto como o seu ganho final.

Angelus Silesius, o filósofo místico do século XVII[14], fez da rosa a imagem da Alma, da Mãe, e ainda a imagem de Cristo de quem a Alma recebe a marca do potentado espiritual. Diz ele em O Peregrino Querubínico (livro reunindo dísticos alexandrinos rimados): “A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nem pergunta se alguém a vê…”, ou seja, identifica-se com o sentido do crente que se entrega à Divina Providência na qual confia. A rosa de ouro, outrora abençoada pelo Papa no quarto domingo de Quaresma, era símbolo de poder e de instrução dominical, mas também, é claro, de ressurreição e imortalidade.

Branca ou vermelha, a rosa é a flor predilecta dos alquimistas, tendo frequentemente intitulado os seus tratados herméticos de Roseiras dos Filósofos. A rosa branca foi relacionada com a “Pedra em branco”, meta da Pequena Obra tratando da obtenção da Prata Filosófica (Argiopeia), sinónima da purificação da Alma representada por Maria, enquanto a rosa vermelha foi associada à “Pedra em vermelho”, meta da Grande Obra pretendendo a conquista do Eldorado ou Ouro Filosófico (Crisopeia), correspondendo à iluminação do Espírito representado por Cristo.

A caçada ou montaria de tal Alquimia (Allah-Chêmia, “Química Divina, de Deus ou Allah”), realiza-se no laboratório que os antigos hermetistas também chamavam de “castelo ou torre de Hermes” (patente, aliás, nas traseiras da capela, com a finalidade aparente de goteira), vedado a todas as presenças e influências visíveis e invisíveis alheias às do próprio alquimista, seja só como teórico da Arte Magna, seja juntando a teoria à prática laboratorial. A “torre de Hermes”, na continuação da leitura hermética dos símbolos aqui patentes, representa-se igualmente na torre cerrada e telhada, abaixo da rosa filosófica, nisto se enquadrando no sentido dado ao “castelo interior” por Santa Teresa de Ávila, na feição mística que caracteriza a “cozinha do Filósofo” onde mistura, depura e extrai dos elementos a quintessência da Natureza, facto representado na alquimia da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. Por este motivo é que aparece esculpida a flor do maracujá que significativamente é mais conhecida por “flor da paixão” (evocativa da naturalidade brasileira de Carvalho Monteiro e também evocativa da ingratidão humana para com ele, fazendo-o sofrer padecimentos como injustamente o Senhor os sofreu pela Humanidade). O poema épico Caramurú, da autoria de frei José de Santa Rita Durão[15], da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural de Cata-Preta, em Minas Gerais, dá o significado seguinte a esta “ex-libris” da flora do Brasil:

“XXXVII

Nem tu me esquecerás, flor admirada,
Em quem não sei, se a graça, se a natura
Fez da Paixão do Redentor Sagrada
Uma formosa, e natural pintura:
Pende com pomos mil sobre a latada,
Áureos na cor, redondos na figura,
O âmago fresco, doce, e rubicundo,
Que o sangue indica, que salvara o Mundo.

XXXVIII

Com densa cópia a folha se derrama,
Que muito à vulgar Era é parecida,
Entrefechando pela verde rama
Mil quadros da Paixão do Autor da vida:
Milagre natural, que a mente chama
Com impulsos da graça, que a convida,
A pintar sobre a flor aos nossos olhos
A Cruz de Cristo, as Chagas, e os abrolhos.

XXXIX

É na forma redonda, qual diadema
De pontas, como espinhos, rodeada,
A coluna no meio, e um claro emblema
Das Chagas santas, e da Cruz sagrada:
Vêem-se os três cravos, e na parte extrema
Com arte a cruel lança figurada,
A cor é branca, mas de um roxo exangue,
Salpicada recorda o pio sangue.

XL

Prodígio raro, estranha maravilha,
Com que tanto mistério se retrata!
Onde em meio das trevas a fé brilha,
Que tanto desconhece a Gente ingrata:
Assim do lado seu nascendo filha
A humana espécie, Deus piedoso trata,
E faz que quando a Graça em si despreza,
Lhe pregue co´esta flor a natureza.”

Dando o sentido duplo à leitura dos símbolos, o que aliás Jesus Cristo fazia e o crente Carvalho Monteiro por certo repetiu[16], o facto poderá estar assinalado nas duas torres sinaléticas da Fé, uma expressando a confissão (pública, destelhada ou exotérica) e outra a erudição (privada, telhada ou esotérica), para todo o efeito, ambas dentro da regularidade canónica da doutrina.

Na mesma sequência, aparece a barca de Noé com a pomba sobre ela, tendo no bico o ramo de oliveira, e uma igreja. O conjunto sugere a recipiendária judaico-cristã (arca e igreja) do saber tradicional, tanto como clausural ou ortodoxo como claustral ou heterodoxo, procedendo à sua trasladação de um ciclo racial para outro, facto atestado pelo nome Noé que, anagramaticamente, dá Éon, que em grego significa “ciclo de manifestação universal”. Finalmente, vê-se a balança ao lado do cálice donde sobressai a hóstia com a gravação IHS. Sendo a Balança da Justiça de Deus, como signo é a Libra que por Vénus (assinalada na Estrela da Anunciação) causalmente rege Sintra, sendo o Cálice Eucarístico representativo do Santo Graal – Saint Vaisel, Kratalle – que nesta mesma Serra Sagrada seria transposto do mundo dos mitos à realidade dos factos, desde a Alta Idade Média até ao momento da sua apoteose monumental neste espaço privilegiado da Quinta da Regaleira.

Na cimalha da porta, o grupo de símbolos nas ombreiras é fechado pelo anjo de asas cruzadas ou cerradas. Trata-se da figura tradicional do Querubim, Cherub ou Kerub em hebraico, o “Guardião do Tesouro”, este que é, pelo nome português dado ao ente da Corte Celeste, Senhor da Sabedoria, a sabedoria da mensagem encerrada nos símbolos da capela. Ao mesmo tempo, designa a evolação ou voo audaz ao Quinto Mundo Espiritual (sendo os anteriores o Mineral, Vegetal, Animal e Hominal), chamado de “Ilha dos Imortais” no Taoismo, de “Jerusalém Celeste” nas Escrituras judaico-cristãs, de “Paraíso Terreal” por Dante e “Ilha dos Amores” por Camões, vindo a ser a mesmíssima Shamballah ou então a Agharta da Tradição Iniciática das Idades.

Essa pequena porta, no lado sul da capela, por seu sentido de “voo audaz” encerra o significado de elevação da alma à imortalidade, e, bem vistas as coisas, adiante eleva-se a torre de sino único cujo pináculo sugere precisamente o voo audaz da oração… motivo fazendo aflorar ao pensamento a bela oração do beneditino Guilherme de Saint-Thierry (1085-1148), que assim termina:

Ó Tu que disseste: “Eu sou a Porta”!
Mostra-nos a Mansão de que és a Porta,
em que instante e a quem Tu a abres.
A Casa de que és a Porta
é o Céu que Teu Pai habita.

A oração inspira-me igualmente a disposição trina da Quinta da Regaleira, ou seja, dos três elementos distintos que a completam (palácio, capela, jardim), também isto me remetendo para o sentido das 3 Idades do Mundo conformadas às Três Pessoas da Santíssima Trindade, segundo o esquema escatológico do abade Joaquim de Flora, e a dispor este espaço da maneira seguinte:

Descarece repetir quanto já disse sobre a hodierna teoria maçonista que alguns tornaram icónica da Quinta da Regaleira por motivos alheios à mesma. Por outra parte, há também quem só veja nela exuberância realenga de gosto duvidoso de quem não sabia como gastar os seus milhões, ainda assim deixando aqui os sinais singulares do lúdico que marcou decisivamente o final do romantismo em Sintra. Essas duas visões são as predominantes na maioria dos que visitam este espaço, consequentemente ficando o visitante entregue ao seu juízo próprio conforme o seu entendimento permita, seja por via do sagrado, seja por via do profano, e isto é válido, sem dúvida, mas não se pode dizer o mesmo das pretensões impostas que a obrigação de alguns interesses tornaram «oficiais». Há, pois, duas maneiras distintas de interpretar a Regaleira, como sejam:

Inscrita ou postada num dos 7+1 lugares considerados sagrados ou jinas da serra, perfazendo um Sistema Solar em miniatura como Sistema Geográfico[17], a Quinta da Regaleira aparece sob a égide de Mercúrio (aliás, patente no jardim bem defronte para o palácio) como planeta expressivo do atributo da Pureza e da Mecânica da Ordem do Universo regulada por princípios preestabelecidos, que os pensadores metafísicos atribuem à Lei de Deus. Que a Regaleira se parece a uma “barca d´alva”, lá isso parece, e nisto o seu “mastro” será a torre de pensamento superiormente dirigido, quadro geral evocativo do poema A Barca, de Johannes Tauler, místico alemão do século XIII, depois transformado em canção de Advento:

Uma barca vem chegando…
Carregada vem, olhai!
Transporta o Filho de Deus,
O Verbo eterno do Pai.

A barca veleja calma,
Pois traz valioso lastro;
Sua vela é o amor,
O Espírito Santo o mastro…

 

NOTAS

 

[1] Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

[2] Frei Manuel de Melo, Alterações de Évora, 28, 1637. Obra reeditada com introdução e notas de Joel Serrão, Portugália Editora, Lisboa, 1967.

[3] Luís Marinho de Azevedo, El Principe Encubierto – Manifestado en Quatro Discursos Políticos. Lisboa, 1642.

[4] António Machado Pires, Dom Sebastião e o Encoberto: Estudo e Antologia. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1969. José Matoso, História de Portugal. Edição Círculo de Leitores, Lisboa, 1993.

[5] Santa Teresa de Jesus (Teresa de Cepeda y Ahumada, Ávila, 28.3.1515 – Alba de Tormes, 4.10.1582), Castillo Interior o las Moradas. Ediciones Aguillar, Madrid, 1957.

[6] Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.

[7] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Insólita e Secreta (edição em português, espanhol, italiano, francês e inglês). Editorial Jonglez, Versailles, Abril de 2010.

[8] Frei Sebastião de Paiva, Tratado da Quinta Monarquia. Prefácio e revisão científica de Arnaldo do Espírito Santo, introdução de José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2006. Esta obra sebástica datada de 1641, da autoria do padre frei Sebastião de Paiva, da Ordem dos Trinitários professando no Convento da Trindade em Lisboa, fez parte da biblioteca de António Augusto Carvalho Monteiro, conforme divulgou Manuel J. Gandra após tê-la encontrado na Biblioteca do Congresso, em Washington: “P-26-393 Frei Sebastião de Paiva (+1659), Tractado da Quinta Monarchia, e Felicidades de Portugal profetizadas. Composto pello Rdo. Padre Fr. Sebastião de Paiva, Lector da Sagrada Theologia da Sanctissima Trindade, natural de Lisboa, Escripto anno de 1641. 224 folhas. Na lombada: Tratado da Quinta Monarchia. MS. Encadernação em pele com as armas do conde de Olivais Penha Longa”. In Manuel J. Gandra, Sebástica manuscrita na Biblioteca do Congresso. Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[9] “Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará”, Isaías, 11:1-3.

[10] Vitor Manuel Adrião, O Visconde de Figanière. Revista “Pax”, órgão oficial da Comunidade Teúrgica Portuguesa, n.º 49, Setembro-Outubro, 1993.

[11] Visconde de Figanière, Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo. Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora Lugan & Genelioux, Porto, 1889.

[12] Pinharanda Gomes, Pensamento Português, IV. Gnose e Liberdade (Notas à Obra do Visconde de Figanière). Lisboa, 1979. Vitor Manuel Adrião, Portugal, os Mestres e a Iniciação. Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Agosto de 2008.

[13] Clovis Bradaschia, A manifestação cíclica do “Espírito de Verdade”. Revista “Dhâranâ”, n.º 3-4 de 1957, São Paulo.

[14] Pseudónimo de Johannes Schelfer, nascido em 1624 em Breslau, Polónia, e falecido na mesma cidade em 1676.

[15] Fr. José de Santa Rita Durão, Caramurú. Poema épico do descobrimento da Bahia. Régia Oficina Tipográfica, Lisboa, 1781.

[16] “A vós é dado conhecer os Mistérios do Reino dos Céus, mas a eles (as gentes comuns) não lhes é dado… Por isso lhes falo por parábolas, porque eles vendo, não vêem, e ouvindo, não ouvem nem entendem”, Mateus, 13:11-13; “Nada lhes falava sem usar parábolas, mas quando estava a sós com os seus discípulos, explicava-lhes tudo”, Marcos, 4:34; “Então lhes abriu o entendimento (aos discípulos) para compreenderem as Escrituras”, Lucas, 24:45.

[17] Sistema Geográfico de Sintra: Santíssima Trindade – Quinta da Trindade; Sol – Castelo dos Mouros; Lua – Santa Eufémia; Marte – São Martinho; Mercúrio – Seteais; Júpiter – Parque da Pena; Vénus – Lagoa Azul; Saturno – São Saturnino.

A Quinta da Regaleira e António Augusto Carvalho Monteiro – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jun 3 2018 

Uma mansão numa quinta digna dos contos das Mil e Uma Noites, instalada num dos recantos luxuriantes de Sintra, junto a Seteais, no lugar dos Pisões, é a comummente conhecida Regaleira, Torre ou, ainda mais vulgarmente, “dos Milhões”.

Inacessível até 1998, quando foi aberta ao público por determinação da Câmara Municipal de Sintra, que a comprara ao grupo japonês Aoki Corporation em Março de 1997, desde a primeira hora vim dizendo que o conjunto ímpar da Regaleira deveria destinar-se, sobretudo, a Quinta-Museu dos dias idos do Romantismo “neomanuelino”, aberto a Portugal e ao Mundo, deixando a cada um e cada qual cada um a sua apreciação e leitura, conforme a sua visão e entendimento alcance, a despeito de porventura ser alheio a conotações e colagens que se fazem hoje, atribuindo-lhe filiações no mínimo bizarras, tanto quanto o desinteresse pelas mesmas da parte do proprietário original, António Augusto Carvalho Monteiro.

A Quinta da Regaleira está hoje classificada como “Imóvel de Interesse Público” de acordo com o Decreto n.º 5/2002, Diário da República, 1.ª Série-B n.º 24, de 19-02-2002, abrangida pela “Paisagem Cultural e Natural de Sintra” incluída na Lista de Património Mundial – MN (n.º 7, do art.º 15, da Lei 107/2001 de 8 de Setembro).

A mansão da Regaleira afigura-se um “bolo de noiva” ou um “palácio de fadas”, tendo para isso contribuído o seu molde arquitectónico, num ecletismo de estilos apesar de sobressair o neomanuelino, e a decoração coreográfica, dando-lhe halo de sortilégio e encantamento, essa é inspirada numa “heráldica falante” de exaltação das armas e feitos familiares com o singular de beber a inspiração directa no simbolismo da Divina Comédia, de Dante Alighieri, e de Os Lusíadas, de Luís de Camões, também autor de uma Comédia (1587), aquele o escritor ao serviço da Ordem do Templo e este o Fiel de Amor que cantou Portugal e a Tradição dos seus Maiores que Carvalho Monteiro aqui mandaria pintar, cinzelar e esculpir, deixando à posteridade os símbolos principais da “religião pátria” segundo o seu entendimento peculiar.

Esse entendimento peculiar, revelado por uma amálgama simbológica extraída da mitologia greco-romana, do catolicismo e do hermetismo, acabou resultando numa fusão feliz, ao mesmo revelando a sua grande cultura e conhecimento profundo dos símbolos da Tradição, como também a sua possível filiação a um tipo particular de cristianismo gnóstico ou teosófico, em que parecia não encontrar conflitualidade ou desafecto entre o sapiencial e o confessional. Por esse motivo, escrevi numa outra obra[1]:

“Esse vínculo supra-esotérico (de Carvalho Monteiro), direi assim, levou-o ao culto permanente do Oculto, do Subterrâneo, do Mistério escondido (tomando por base as lendas árabes das 1001 Noites, nisto tanto valendo por Véus de Io ou Ísis). Donde a constância de criptas, grutas, etc., em toda a sua obra, culminada com a deposição do seu féretro na cripta fúnebre do Jazigo da Família Carvalho Monteiro (gizado por Luigi Manini, e lá está a assinatura dele), no Cemitério dos Prazeres, Lisboa, tendo entrado nele a 2 de Abril de 1922, trasladado do anterior da família no mesmo cemitério, onde entrara às 17 horas do dia 27 de Outubro de 1920.

“Obra tendo sempre por centro axial a torre (havendo na quinta, como já disse, duas torres subterrâneas, erroneamente chamadas «poços», ainda que de poços nada tenham…), cerne do mito Lusignan, romance medieval cujos elementos simbólicos principais terão servido de programa a Carvalho Monteiro que bem parece o ter recriado neste espaço (havendo numa terceira torre – que ao espaço infinito está vertida, as outras invertidas – a imagem pétrea de Melusina, “la Dame du Lac” na versão pastoril própria do Romantismo, a qual tem no regaço uma pomba com um cisne aos pés (ou talvez um ganso, simbolicamente aparentados, pois aquele designa a irmandade, e este a operática) de que um, o possivelmente serpentário, está oculto, a qual daria o seu nome ao jardim: da Fada). Isso pelo motivo possível da aproximação directa do ortónimo Carvalho Monteiro ao outro de Sampaio e Lusignan o qual, segundo a história da qual não se sabe onde acaba a lenda e começa a realidade, possuiria o Sangue Real (donde Sang Greal, Saint Grial e finalmente Santo Graal) herdado do próprio Jesus Cristo acaso unido maritalmente a Maria Madalena de que Sara “Kali” seria filha e iria insuflar o sangue dos progenitores numa linhagem iniciada por São Maurício[2], fundador da Casa de Lorena cuja Cruz fora feita, ainda segundo a lenda áurea, com a madeira da própria Árvore de Jessé – patente na parede exterior do Palácio da Regaleira, onde um menino suporta um tronco florido cujo topo é uma goteira figurativa da “Água da Salvação” que é o próprio Messiah ou Avatara – de cujo tronco genealógico, rezam as profecias bíblicas[3], haverá de vir o futuro Messias Redentor da Humanidade, motivo que seria transposto para o tema nacional do Rei Encoberto, pedra angular da doutrina da “religião pátria”. Com a quase certeza pessoal que o cenário envolvente impõe, Carvalho Monteiro possuiria todos esses dados históricos, bíblicos e míticos e com eles assumiria, tomado da sua razão e direito, o estatuto da sua ascendência a tão grande e divina linhagem – a linhagem apostólica provinda do Médio Oriente para o Ocidente, após a Tragédia do Gólgota – vindo criar obra soberba condigna à mesma, o figurino simbológico decorativo da própria Quinta da Regaleira, linhagem essa com cujo sangue se uniu pelo seu matrimónio com Perpétua Augusta Pereira de Melo (nascida em 1852 e falecida na tarde de 25 de Dezembro de 1913 – por causa disto C.M. passou a azarar o n.º 13, doravante nunca mais tirando o luto – com 61 anos de idade), com ligações familiares a Sebastião José de Sampaio Melo e Castro Lusignano (1764-1826). A mãe deste, a condessa Teresa Violante Eva Judite de Daun, descendente dos Sabóia de Lorena, significativamente está deposta no Jazigo da Família Carvalho Monteiro, no Cemitério dos Prazeres em Lisboa.

“Resta não esquecer que os descendentes de Carvalho Monteiro possuem ainda hoje o apelido “fulano X de Poitier”, como é o caso do seu falecido neto, faz alguns anos, José António de Carvalho Monteiro Poitier ou Poitiers, esta a cidade francesa vizinha de Lusignan e ambas no condado do Poitou, onde se deu a lenda nobiliárquica originada pelo cavaleiro Remondin e a fada Melusina. Inclusive o brasão de Coimbra, onde Carvalho Monteiro em sua juventude viveu e estudou e o mandou pintar neste seu Palácio da Regaleira, também é associado à lenda de Melusina[4]. Será tudo isto mero acaso? Duvido.”

É a seguinte a origem e descendência do proprietário original da Quinta da Regaleira:

António Augusto Carvalho Monteiro – Nasceu no Rio de Janeiro em 27 de Novembro de 1848 e faleceu no seu palácio de Sintra em 25 de Outubro de 1920.

Pai – Francisco Augusto Mendes Monteiro * 9.3.1816 – 1.11.1890.

Mãe – Teresa Carolina de Carvalho * 1.10.1810 – 2.4.1871.

Casamento (1.º e único) – 1873 com Perpétua Augusta Pereira de Melo * 1852 – 25.12.1913.

Filhos do casamento – Pedro Augusto de Melo Carvalho Monteiro * Petrópolis, Rio de Janeiro, 10.11.1873. Casou com Maria Raquel George Poitier.

Maria de Melo Carvalho Monteiro * 1877. Casou com D. Francisco de Assis Nazaré de Almeida, nascido em Santos-o-Velho, Lisboa, em 16.12.1868.

Foi precisamente no Brasil, no Rio de Janeiro, que Carvalho Monteiro nasceu, vindo para Portugal com 10 anos de idade. O que humana e intelectualmente era e para traçar o perfil da sua pessoa, restam os testemunhos dos seus netos[5], além das entrevistas pessoais que fiz à sua neta, a marquesa de Pombal, Sr.ª D. Maria de Nazaré Monteiro de Almeida Carvalho Daun e Lorena, e à Sr.ª D. Jesélia Fonseca, filha do escultor José Fonseca que interveio nas obras da Regaleira.

António Augusto Carvalho Monteiro tirou dois cursos, Filosofia, que não terminou, e Direito, licenciando-se em Leis (1871). Matriculou-se pela primeira vez no ano lectivo de 1866-1867 e terminou a licenciatura em 1870-1871. Para a sua entrada na Universidade de Coimbra houve necessidade de fazer publicar uma portaria especial, pois era ainda muito novo[6]. Pertenceu ao grupo de Guerra Junqueiro (a quem o Professor Henrique José de Souza (1883-1963), fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, deu-o com ligações à misteriosa Ordem de Mariz), João Penha, Gonçalves Crespo, Júlio Vilhena, Simões de Castro, Hintze Ribeiro, Bernardino Machado, Vicente Monteiro e Victório Paretto, com os quais conviveu intimamente. Também iniciou o curso de Medicina, mas desistiu. Curiosamente, nunca recorreu a nenhum médico: automedicava-se, tal qual os antigos terapeutas que no tempo de Jesus Cristo eram os essénios. Pouco depois de se haver licenciado, Carvalho Monteiro regressou ao Brasil, onde permaneceu alguns anos, vindo posteriormente a fixar a sua residência em Lisboa, primeiro na Quinta do Vadre ou da Torre de São Domingos de Benfica, e depois no antigo Palácio Farrobo, na Rua do Alecrim, tendo destinado inicialmente a Quinta da Regaleira de Sintra a residência de Verão, mas acabando por tornar-se morada permanente.

Como diz muito bem Regina Anacleto, valendo-se do estudo de José Lobo d´Ávila Lima[7], António Augusto Carvalho Monteiro era dono e senhor de uma maneira de ser muito peculiar, e já desde os tempos de Coimbra frequentava um dos vários “templos” da cultura que então ali se desenvolviam. Na sua opção, além de outros factores (interesses nacionais, místicos, etc.), certamente pesava a nacionalidade brasileira que o levava amiudadamente ao n.º 97 da Couraça de Lisboa (em cujo prédio funcionava o “Parnasso em dois andares”: Gonçalves Crespo no rés-do-chão e João Penha no primeiro andar), residência do mesmo Gonçalves Crespo, não muito longe da sua casa, que ficava no n.º 28 da mesma rua. Nesse “Parnasso” coimbrão, a mística camoniana deve ter começado a desenvolver-se nele de forma tão singular quanto aquele cenáculo mondeguino onde se reuniam Marçal Pacheco, Coelho de Carvalho, Vicente Monteiro (amigo íntimo de Carvalho Monteiro), Luís de Andrade, Sérgio de Castro, Alberto Braga, Vicente Pindella, Teixeira de Queiroz (que assinava os seus escritos com o pseudónimo de Bento Moreno), Bernardino Machado, Cândido de Figueiredo, António de Melo e Carvalho Monteiro, que discutiam calmamente, quase sempre em pé por falta de cadeiras, assuntos dos seus interesses ligados aos aspectos sociais e culturais do país[8].

– Ele falava latim como nós falamos o português. Dizia Os Lusíadas de cor, canto por canto. E soubemos há pouco que tinha uma enciclopédia luso-brasileira. – Lembrou o seu neto, António Poitier Carvalho Monteiro.

Aliás, Carvalho Monteiro custeou várias edições de Os Lusíadas e muita fama adquiriu a Camoniana que reuniu (onde contava com um exemplar da primeira edição da Comédia, de Luís de Camões). Encontra-se hoje, infelizmente, longe de Portugal, na Biblioteca do Congresso, nos EUA, depois de ter seguido um curso tortuoso. Com efeito, em 1926, Pedro Carvalho Monteiro vendeu um primeiro lote da biblioteca particular de seu pai a Maurice Ettinghausen que o enviou para Londres, com o intuito de enriquecer a colecção de livros portugueses antigos do rei D. Manuel II, então exilado na capital de Inglaterra[9]. Em 1927 a Maggs Brothers adquiriria o segundo lote, e o terceiro derradeiro em 1929, ano em que, contrariando os acordos firmados com Pedro Carvalho Monteiro e seu filho António Carvalho Monteiro, seriam vendidos à Biblioteca do Congresso em Washington, onde estão depositados. Há um catálogo em inglês discriminando as obras literárias que pertenciam a Carvalho Monteiro[10], no qual constam 3602 itens referentes à adquirição em 1927 e 1929 de livros, panfletos e 600 manuscritos das bibliotecas particulares do conde de Olivais e Penha Longa e do dr. António Augusto Carvalho Monteiro, que em 1909 comprara a biblioteca daquele. Entre os manuscritos, que recuam até 1438, incluem-se documentos originais e cópias[11]. Nos itens da livraria de Carvalho Monteiro há um número significativo respeitante ao Messianismo e ao Sebastianismo (de que destaco dois títulos: Tratado da Quinta Monarquia, de frei Sebastião de Paiva (século XVII), e Oráculo dos Oráculos Sebásticos, miscelânea dos meados do século XVIII incluindo versos, escritos e profecias do padre Cristóvão dos Mártires, de D. Pedro Pires (um dos emissários do rei D. Dinis junto da Santa Sé para tratar da criação da Ordem de Cristo a partir da do Templo), de frei Jerónimo Basílio, do padre Bartolomeu Salutivo, etc.), adquirido entre 1850 e 1920. Denota-se ainda, pelos mesmos itens, o interesse particular de Carvalho Monteiro pela acção histórica do marquês de Pombal (estando em sua posse o original do seu último discurso, informação reiterada pela Enciclopédia Luso-Brasileira), de D. Pedro IV, de D. Miguel e de D. Maria II. A Colecção dos Manuscritos Portugueses está ainda microfilmada em 75 rolos contendo 3.602 títulos num total aproximado de 154.000 páginas. Diz Manuel J. Gandra[12]:

“Em 1929, o núcleo central da Biblioteca de Carvalho Monteiro, transacionado por 1000 libras (doc. 4)[13], era expedido de Lisboa, por via marítima, com destino à DCL (Biblioteca do Congresso), onde lhe havia de ser atribuído o código de aquisição 387270´29.

“A encomenda pesava quinze toneladas e ascendia ao astronómico número de 28.480 livros, 14.000 dos quais em língua portuguesa, 6.000 em francês, 900 em inglês, 450 em italiano, 400 em espanhol, 500 em alemão, 150 em latim, 40 jornais, 650 revistas, 920 almanaques, 70 livros de música, 4.400 panfletos (doc. 6)[14], não incluindo nem os 767 volumes manuscritos, nem um número indeterminado de peças iconográficas, ofertadas pelo vendedor[15].”

Livro raro (1749) de Leonarda Gil da Gama[16]pertencente à biblioteca particular de Carvalho Monteiro

Eram igualmente comentadas e elogiadas as inúmeras colecções de Carvalho Monteiro, desde borboletas, conchas, relógios, instrumentos musicais, mobílias, pratas artísticas e outras antiguidades, nas quais gastou somas consideráveis, que hoje andam perdidas ou dispersas nas mãos familiares ou de conhecidos, ou de simples coleccionadores anónimos.

Mas segundo Denise Pereira, no seu estudo Quinta da Torre da Regaleira[17], “todavia nem tudo se perdeu. Uma preciosa colecção camoniana adquirida pelo município em 1980 é o título de um artigo publicado na revista municipal de Lisboa[18], em que se refere que a edilidade conseguiu comprar algumas centenas de espécies, muito diversificadas, pertencentes ao acervo de António Augusto Carvalho Monteiro. Das restantes colecções, saliente-se o conjunto de instrumentos musicais adquirido para o Conservatório Nacional de Lisboa pelo Dr. Júlio Dantas, entre 1930 e 1935, e a colecção de conchas que se encontra integrada no Museu da Universidade de Ciências de Coimbra”.

No tempo em que não havia “uma folha no chão da quinta”, a criadagem do dr. Carvalho Monteiro era composta por seis pessoas (cocheiros e motoristas), dois carpinteiros permanentes, dois homens encarregados do gerador que podia fornecer luz a Sintra inteira, uns 14 criados e mais de uma dúzia de jardineiros. “Vendêmo-la porque a vida teve uma evolução enorme. Aquilo só dá despesa. É uma quinta para ser tratada como um menino”, comentou o seu neto António Poitier em 1985, adiantando: “Nem sei quanto valerá aquilo hoje. Diz-se que há uns 12 anos pediam 100 mil contos a uns árabes. Na minha opinião, aquilo não se devia vender a estrangeiros”. A neta D. Maria de Nazaré é da mesma opinião: “Sem ser nas mãos do meu avô, só para o Estado”[19].

Católico assumido, monárquico convicto, António Augusto Carvalho Monteiro era amigo particular do rei D. Carlos e da rainha D. Amélia, e essa simpatia política valeu-lhe a prisão em Outubro de 1913, sendo levado para o Quartel dos Loios, em Lisboa, como descreve o jornal A Capital (Lisboa – Terça-feira, 21 de Outubro de 1913): “Prisão do dr. Carvalho Monteiro – Pelas 19 horas deu entrada no governo civil o sr. dr. Carvalho Monteiro, abastado capitalista, conhecido em Lisboa por Monteiro Milhões o residente na Rua do Alecrim. Do governo civil, seguiu em trem para o Quartel dos Loios”. Dois dias depois, o mesmo jornal dava a notícia seguinte (Lisboa – Quinta-feira, 23 de Outubro de 1913): “Últimos acontecimentos: o sr. Carvalho Monteiro protesta a sua inocência e diz que se deu dinheiro para a caravela o fez no uso d´um direito – O sr. Carvalho Monteiro, preso anteontem como sendo um dos cabecilhas da trapalhada conspiratória que tão ridiculamente acabou, continua preso no Quartel dos Loios, de onde tem vindo ao governo civil para ser interrogado. Tanto na polícia como no referido quartel, o riquíssimo capitalista e proprietário não deixa de afirmar a sua inocência, clamando que nada tinha com o movimento monárquico e jurando que nunca foi conspirador. A sua atitude de protesto tem atingido por vezes uma veemência extraordinária, que o leva a um estado de irritação verdadeiramente excepcional. O sr. Carvalho Monteiro apenas confessou que contribuiu largamente para a caravela que os monárquicos portugueses ofereceram ao ex-rei, por ocasião do seu casamento. Acrescenta, porém, que o fez no uso d´um direito, visto dispor como entender do seu dinheiro que é muito. Resta ver até que ponto são verdadeiras as afirmações do opulento proprietário e esperar que se saiba se os cabecilhas monárquicos se reuniam nas suas propriedades com o seu consentimento ou sem que para tal contribuísse com a sua cooperação. A polícia o dirá”.

António Augusto Carvalho Monteiro fora preso como implicado na intentona monárquica de 1913 contra Afonso Costa, presidente da República, cujos revolucionários costumavam reuniam-se no antigo Hotel Levy, na Praia das Maçãs[20]; após o fracasso da intentona o seu chefe, Azevedo Coutinho, procurou refúgio no Palácio da Regaleira onde seria detido juntamente com o proprietário, conforme narra a revista Illustração Portugueza, n.º 401, de 27 de Outubro de 1913.

Carvalho Monteiro foi julgado como criminoso de “lesa-pátria” quase um mês depois no Tribunal da Boa-Hora, acusado de promover reuniões monárquicas conspiratórias contra a República no seu Palácio da Regaleira de Sintra e no n.º 70 do seu palácio da Rua do Alecrim, em Lisboa, e de auxiliar com largas verbas o rei no exílio, D. Victor Manuel II. Essa prisão deveu-se a dois factos absolutamente contrários ao estado de anarquia revolucionária que lavrava no país onde os carbonários haviam apontado como inimigos maiores da causa republicana a Igreja e a Coroa: 1.º) quando em 4 de Setembro de 1913 se celebrou o matrimónio de D. Manuel II, no seu exílio de Londres, com a princesa Augusta Vitória de Hohenzollern, Carvalho Monteiro organizou em Lisboa uma subscrição pública para um presente de casamento aos reais consortes, uma caravela em prata, o que foi considerado um “pecado capital” pelos republicanos e jacobinos; 2.º) em 20 de Outubro de 1913 deu-se a intentona revolucionária monárquica liderada por João de Azevedo Coutinho, que embora prevista também para o Porto acabou por restringir-se à capital, não indo além da destruição das redacções dos jornais republicanos O Dia e A Nação, bem como alguns estragos no Museu da Revolução, vindo Carvalho Monteiro a ser detido acusado de fazer parte da intentona falhada[21].

Mas a sua boa-conduta, a sua dupla nacionalidade, o não se provar o seu crime e, sobretudo, a sua incomensurável fortuna que por certo encheu as bolsas dos carcereiros, salvaram-no às penas das masmorras da República que, de tão infante e ociosa, não se sabia bem se era um novel regime republicano jacobino ou carbonário… ou uma mistura inextrincável de tudo isso, para todo o efeito, anti-regalista e anti-papista.

Quando o rei D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço em 1 de Fevereiro de 1908, a dor, a revolta, as lágrimas e o luto campearam na Quinta da Regaleira e Carvalho Monteiro cobriu o palácio de crepes roxos e negros durante vários dias, contou-me a marquesa de Pombal sua neta.

Atitudes como essa desencadearam o ódio e a inveja insuperáveis contra o abastado e culto Carvalho Monteiro por parte dos republicanos e jacobinos. Odiavam-no de morte e não tinham como o atingir… restava-lhes a maledicência, filha da inveja, e a intriga, filha da raiva. Foi quando Francisco Valença (1882-1962), o cartoonista republicano dos “sete costados”, servindo-se da sua arte que outra possuía para mal dizer e pior fazer, inventou uma alcunha boçal para o riquíssimo luso-brasileiro: “caga-milhões”, nome de um seu cartoon onde representa Carvalho Monteiro montado num burro expelindo como fezes moedas de ouro. A alcunha pegou e ficou até hoje na vox populi. O tal cartoon aparece em O Moscardo, semanário humorístico dirigido por Francisco Valença mas de muito curta duração: de 27 de Maio a 17 de Junho de 1913. Tendo como lema “zumbe, zomba e ferra… o ridículo”, na carta de apresentação de O Moscardo o autor define claramente o seu posicionamento político e a finalidade do semanário: “Zumbindo e zombando, irei ferindo os ridículos da política e dos maus costumes. Metendo o ferrão em toda a parte, menos na privada de cada qual, entrarei no Congresso e boca de certos oradores que quando a abrem é para entrarem moscas ou saírem asneiras. Nas pastas dos ministros acharei pasto para a minha “verve”. Irei pelas redacções, cafés e teatros ouvindo, comentando e documentando. Enxergando uma calva à mostra pousarei, não para repousar, mas para ir pousar n´outra. Republicano de antes de 5 e d´antes quebrar que torcer, reservarei para os monárquicos a graça grossa. Perante eles ou seja quem for, jamais baterei as asas, ainda que esteja em perspectiva apanhar umas de pau”.

Nem após a sua morte Carvalho Monteiro foi poupado aos vilipêndios e estórias anedóticas saídas da verve republicana que enchiam as revistas e jornais em 1920 sobre ele, dando-o como avaro nababo, como a seguinte ainda o corpo recém-falecido estava quente:

“Acaba de falecer em Lisboa o dr. António Augusto Carvalho Monteiro, conhecido em todo o Portugal por “Monteiro dos Milhões”. Como o cognome indica, era riquíssimo, e tinha uma qualidade raríssima no mercado dos milionários: era esmoler. Conta-se dele a seguinte anedota:

“Como quase sempre o fazia, mandou um seu criado particular comprar dois bilhetes para a loteria espanhola do Natal. Um bilhete era para ele, e o outro para a criadagem. De uma vez bateu-lhe a sorte grande à porta, mas no bilhete com que ele tinha ficado, saindo o dos criados, branco. O servo foi ter com o dr. Monteiro e disse-lhe muito comovido:

“– Eu trouxe os dois bilhetes a Vossa Excelência…

“– Sim, e depois?

“– Vossa Excelência guardou um e deu o outro aos seus criados…

“– Sim, e depois?

“– Ora o de Vossa Excelência saiu com a sorte grande…

“– Continua, homem!

“– E o nosso saiu em branco…

“– Mas o que queres tu dizer com tudo isso?

“– Eu vinha ver… se Vossa Excelência dava alguma coisinha à criadagem. Era de justiça…

“O doutor tirou uma pitada da sua caixa de ouro, e respondeu repoltreando-se na cadeira:

“– Ora diz-me com franqueza, se te tivesse saído a sorte grande davas-me alguma coisa?

“– Saiba Vossa Excelência que lhe dava os meus agradecimentos.

“– Pois é isso mesmo o que eu vou fazer…

“E levantando-se, estendeu a mão ao criado e disse-lhe muito cortês:

“– Agradecido João pelo bilhete que te mandei comprar.

“Posso garantir que este facto autêntico correu todo o Portugal.”

O panfletário republicano Conceição e Silva Júnior (João Paulo), tomado de inveja mortal do dr. Carvalho Monteiro, ainda em 1909 dedicou-lhe o seguinte mimo gratuito: “Doutor António Augusto Carvalho Monteiro (Monteiro Milhões) – Um filósofo de pacotilha a deitar milhões para as suas arcas”[22].

Ficando até hoje nas vozes dos simples como o “caga-milhões”, a pessoa deturpada de António Augusto Carvalho Monteiro é tida como a de um avaro excêntrico incapaz de ajudar quem quer que fosse – por na realidade, como homem de negócios que era, naturalmente não gostar de esbanjar a sua riqueza e normalmente regatear, no momento do ajuste, o preço dos serviços que lhe prestavam, embora não conste que entrasse nos seus hábitos ficar a dever a alguém – e a de um narcisista que cultuava a sua própria imagem. Antes se devera dizer que realçava o sentido humano da casta familiar, dando-lhe foros sagrados, em guisa de divinização do nome da mesma; por outro lado, foi mecenas anónimo de muitos a quem a pobreza afligia, no que lembro aqui, de uma penada, ter ajudado com largas somas a Misericórdia de Sintra, contribuído com somas e bens para o depauperado elenco artístico do Real Teatro de S. Carlos e prestado auxílio regular ao célebre Padre Cruz (1859-1948), que só soube quem era o seu benfeitor secreto depois da morte dele.

António Augusto de Carvalho Monteiro revelava-se “um homem humilde, tímido, discreto e avesso a festas e coisas mundanas”, afirmou-me a sua neta D. Maria de Nazaré. Ele agia anonimamente, sem ostentação, pelo que, em palavras do próprio, “quando a mão direita faz a caridade, a mão esquerda fica no bolso”, ou “a mão esquerda não precisa saber o que faz a direita”.

Dele, disse-me ainda D. Maria de Nazaré Carvalho Daun e Lorena:

– Era um homem bom, extraordinariamente simples; estatura mediana, barba que parecia seda, voz suave e doce. Detestava discussões, era muito difícil zangar-se e amava a verdade acima de tudo. Não gostava de mostrar o que sentia. Era muito reservado e só se abria com íntimos.

E prosseguiu:

– Gostava da beleza e do grandioso. Tinha o culto do belo mas não era para se exibir. Era “família” o mais possível e nunca dava festas. Era muito bom, dava muita coisa mas com a condição de o seu nome não aparecer. Educou muita gente no estrangeiro, dava imensas mesadas a pessoas que necessitavam, ajudou a montar negócios sem exigir fosse o que fosse em troca. Foi um dos fundadores da Assistência Nacional aos Tuberculosos. Muito religioso e fechado tinha horror à Maçonaria e a tudo que fosse escuro.

Essa sua feição filantrópica lembra-me o episódio protagonizado por Carvalho Monteiro que a própria marquesa sua neta me contou. Sendo cliente habitual da “casa da música”, vendedora de instrumentos musicais situada no Largo do Chiado em Lisboa e de cujo proprietário era amigo, passando longas horas juntos em amena cavaqueira, conheceu aí um jovem escriturário empregado da casa, o qual, apesar de dotado de escassos recursos, também queria abrir um negócio seu, sem no entanto ter possibilidades económicas para o fazer. Sem que soubesse, o mecenas piedoso arranjou-lhe casa para instalar esse negócio. Casa já tinha, faltava tudo o resto e ele não sabia como conseguir… Ora, passado algum tempo, pouco, esse rapaz casou com uma jovem, também de parcos recursos, e, como prenda de casamento Carvalho Monteiro ofereceu-lhes uma linda secretária de escritório, adiantando para tomarem atenção ao “segredo”. O casal, mal chegou a casa, foi cuidar de descobrir o “segredo” que a escrivaninha escondia. Mexendo daqui, dali e dacolá acabaram descobrindo um botão que, premido, abriu uma gaveta secreta… cheia de moedas de ouro. Carvalho Monteiro era assim.

Acrescento ainda que Carvalho Monteiro também foi, durante muitos anos, mecenas benfeitor do Jardim Zoológico de Lisboa, ele próprio sócio-fundador do mesmo assim como o seu pai, Francisco Augusto Mendes Monteiro, e igualmente o rei D. Fernando II.

António Augusto Carvalho Monteiro comprou a Quinta da Regaleira em 11 de Dezembro de 1893 por 25 contos de réis, e o tabelião que “o comprador pagou em moeda corrente do reino”. Para as obras do palácio, capela e jardim (tendo-as começado nos inícios de 1900 e terminado em 1910, com mais uns arranjos que demoraram até 1912, e um pouco mais até 1918 para os arranjos florais do jardim) mandou vir de diversas partes do país artistas nacionais, especialmente de Coimbra[23]. Mas quem concessionou a obra foi o arquitecto-cenógrafo italiano, acabado de executar o Palácio-Hotel do Buçaco, Luigi Pietro Manini.

– Era um senhor de compleição forte de quem nós, os netos, então crianças, não gostávamos, pois só tinha conversas sérias com o nosso avô das quais não percebíamos nada, além de que as suas visitas significavam ficarmos apartados do convívio com o avô que gostava tanto de nós quanto nós o adorávamos. Ciúmes… era, enfim, conversa animada de arquitecto e matemático… mas o avô gostava muito dele, e perdiam horas juntos a falar e a passear pela quinta: o avô apontava um sítio, dizia-lhe uma coisa e o Manini escrevia num livro de apontamentos, o “caderno dos recados”, que trazia sempre consigo. O avô pensava e dizia e o Manini fazia escrupulosamente o que lhe era mandado fazer. – Afirmou-me a marquesa de Pombal.

António Carvalho Monteiro encomendara em 1898 a esse mestre d’arte o projecto para as obras da Regaleira (palácio, capela e cocheiras), começando-se a lançar os caboucos ainda em 1899 e levantando-se as paredes da capela e cocheiras já em 1900. Em 1905 iniciou-se a construção do palácio, tendo Manini dado largas à sua mestria inigualável que tornaria o conjunto da Regaleira um dos mais belos e expressivos monumentos neomanuelinos de Portugal e, quiçá ou decerto, da Europa e do Mundo, com toda a sua composição arquitectónica, paisagística e cenográfica assente nos símbolos principais da Tradição Primordial de acordo com a vontade expressa do solicitador[24].

Sobre isso mas sobrepondo o saber de Manini ao querer de Monteiro, Paulo Pereira, investigador da História de Arte, escreveu o seguinte[25]:

“Mas é provável, ainda, que para o resultado inaudito da quinta tenha contribuído o conhecimento eventualmente tradicionalista do arquitecto Luigi Manini, contratado por Monteiro. Luigi Manini veio para Portugal em 1879 como cenógrafo do Teatro de São Carlos, no qual sucedeu à dupla Rambois e Cinatti, numa altura em que a arte cenográfica em Portugal necessitava de renovação. Sem deixar discípulos, Manini produziu cenários de teor naturalista de grande qualidade cénica, ilustrando óperas de todos os géneros. Dotado de uma ampla cultura visual, que o levava a dominar com rigor os diversos estilos “históricos” exigidos pelas muitas óperas que cenografou, Manini logo se interessou pelo poderoso efeito decorativo do manuelino, que interpretou à sua maneira, algo eclética. A sua familiaridade com o imaginário operático pode ter determinado algumas das opções ornamentais e estruturais do palácio. Por outro lado, dada a densidade simbólica deste e o agenciamento de espaços insólitos e de cariz iniciático a que nele se assiste, não custa admitir que Manini conhecesse romances “de formação” ou “de iniciação” e que neles se tivesse inspirado. No Palácio Milhões, Luigi Manini trabalhou com João Machado (que ficou em Coimbra), José da Fonseca e Luís da Fonseca enquanto escultores e entalhadores de pedra (além de outros oficiais do chamado “ateliê do Arnado” que com eles se deslocaram à boa maneira das empreitadas medievais, em que o nomadismo dos artistas era uma constante), e Júlio da Fonseca (irmão de José e Luís), que foi o entalhador de madeira. Manini enviava os desenhos das peças principais para Coimbra, que ali eram executadas em pedra-de-ançã e depois transportadas e assentadas em Sintra. Outras peças foram talhadas no local ou próximo dele, sendo pensadas na altura em articulação com o arquitecto-cenógrafo e com o proprietário. Sabe-se que Monteiro acompanhou os trabalhos com rigor extremo e chegou a recusar peças “prontas a assentar”. Este facto explica, quanto a nós, porque é que o capitalista recusou o projecto inicial encomendado ao francês Henry Lusseau, que o executou em estilo neogótico. Mas a escolha do manuelino e de Manini parecem encerrar, igualmente, outra dimensão: a de que nenhum outro estilo poderia corresponder ao empenho historicista e simbólico – sobretudo simbólico – que Monteiro queria ver constelado em pedra.”

Quanto à pedra utilizada para construir o palácio e a capela da Quinta da Regaleira, trata-se de um calcário muito fino. vindo da zona do Outil, próxima de Coimbra, transportado, diz-se, em carros de bois, num processo idêntico ao utilizado para o Convento de Mafra. Fernando d´Orey, que foi um dos 18 herdeiros dessa família donatária tardia desta propriedade, disse que Carvalho Monteiro fez as obras “com o rendimento dos rendimentos”.

Para a cenografia quase ou mesmo mágica do jardim, sobremaneira singular, inclusive inédita (como é inédito e singular tudo nesta quinta), informa Denise Pereira[26]: “A vegetação exótica, no caso particular da Quinta da Regaleira, importada do Brasil, é plantada sem ordem aparente, parecendo reforçar o efeito de nostalgia. Dos trópicos chegou pela mão do dr. João Victório Paretto, primo e amigo pessoal de Carvalho Monteiro, um número considerável de palmeiras, grande parte delas plantadas na alameda das cavalariças. A encomenda, feita no Grande Estabelecimento de Horticultura em Villa Isabel, no Rio de Janeiro, a 27 de Junho de 1905, chegou a Lisboa por via marítima, no vapor Victória. Contudo, esta não foi a única porque em cartas familiares se menciona por várias vezes, desde 1903, a compra de fetos e palmeiras para enviar para Portugal. A identificação de grande parte destas espécies na Regaleira, ainda existentes, permite confirmar o destino da encomenda. O documento permite-nos ainda definir em termos cronológicos que as preocupações com o jardim tiveram início por volta de 1903, prolongando-se pelo menos até 1918. Na listagem sobressaem particularmente as palmeiras e as tamareiras, destinadas a zonas como o patamar dos deuses e a avenida das cocheiras. A palmeira e a tamareira são símbolos de renascimento. Árvores da mesma família eram conhecidas dos gregos sob o nome de phoenix, ou seja, a fénix hermética que se imola no ninho construído com aromáticas folhas de mirra e incenso e renasce das próprias cinzas”.

Diga-se ainda que a capela de Nossa Senhora da Peninha também pertenceu a Carvalho Monteiro, que mandou construir um palácio encostado à mesma no alto das fragas, mas a morte veio surpreendê-lo quando se preparava para a restaurar.

Antes de penetrar a neose ou ciência dos símbolos esculpidos e pintados na Regaleira, constantes do aparato da sua cenografia singular, impondo neste espaço uma “microdimensão” de geografia sagrada ou geosofia, onde o recurso ao figurino dos clássicos de Dante e Camões revela-se constante, não me parece, ao contrário de alguns, que o figurino constante na Tábua de Cebes tenha sido transposto para ilustrar este mesmo espaço particular[27], posto que entre um e outro figurinos há severas dissemelhanças a despeito dessa obra clássica da mitologia grega ter integrado a biblioteca de Carvalho Monteiro, e inclusive participado nos estudos medievais e renascentistas como elo de ligação entre os saberes clássicos greco-romanos e as virtudes cristãs por via da hipérbole do duplo sentido encerrado nas figuras e discursos da mesma, o que tornava obrigatória a sua leitura nas cadeiras de teologia e moral.

Infinitamente menos ainda a Quinta da Regaleira será ou ostentará algum imobiliário iconológico maçonista derivado de eventuais ligações directas ou indirectas de Carvalho Monteiro ou Luigi Manini à instituição maçónica[28], como sustentam outros por motivos particulares que levantam suspeições severas ao comparar-se afirmativas como essa com a biografia de Carvalho Monteiro, mormente os seus interesses políticos e religiosos. Isto mesmo venho desdizendo desde 1990, quando se inventou a farsa do «palácio maçónico» da Quinta da Regaleira, e durante largos anos, a despeito dos ataques pessoais à minha pessoa, parecia “andar a pregar no deserto”… Ao fim de tanto tempo, recentemente vem juntar-se à minha voz e prosa, fazendo eco das mesmas, com inteira propriedade e justeza, conhecedor como eu dos motivos privados que o público geral desconhece, o dr. Manuel Joaquim Gandra, achando por bem contribuir para o acaso maçonista relativo à Regaleira, nestas suas palavras simples mas directas, justas e perfeitas[29]:

“Para alcançar um tal desiderato, e não obstante a Franco-Maçonaria constituir hoje uma fonte de curiosidade desmedida por parte dos profanos (mercê, designadamente, dos escândalos e atitudes censuráveis não apenas do ponto de vista maçónico, por parte de alguns dos seus membros destacados ou não), só lhe granjeará vantagens a circunstância de as suas actividades continuarem a ser conduzidas de forma discreta.

“O texto supra foi transcrito de A Maçonaria exposta, introdução ao catálogo Colecção Maçónica Pisani Burnay[30], cuja elaboração me foi cometida por Eduardo Geada, na sua qualidade de Administrador Delegado da Quinta da Regaleira (Fundação Cultursintra).

“A realização concomitante de uma Exposição de grande número de artefactos e bibliografia maçónicos e antimaçónicos, reunidos por Pisani Burnay, distinto maçom e colecionador, deu azo a que o argumento de que a Regaleira era uma Mansão Maçónica, mais se divulgasse, adquirindo foros de dogma.

“Convém salientar, no entanto, que tal dogma não se impôs tacitamente, na sequência da (para alguns) providencial aquisição da propriedade pelo município sintrense. Na realidade, esse dogma emergiu de uma campanha de marketing, gizada magistralmente e orquestrada, dentro e fora das fronteiras nacionais, por um lobby maçónico em ascensão[31], não dispondo de uma sede condigna, mas perseguindo activamente esse desiderato.

“É evidente que a impreparação da autarquia no que concerne ao enquadramento histórico e iconológico da Regaleira, bem como a atitude de desdém, seria mais adequado chamar-lhe menosprezo, por parte da historiografia de arte, ambas não garantindo, atempadamente, um discurso consentâneo com a índole não convencional do conjunto, fez o resto.

“E, não obstante, a Quinta da Regaleira, hoje tão celebrada enquanto alegada Mansão Maçónica, não contempla no seu programa iconográfico um só que seja dos símbolos consabidamente creditáveis à Maçonaria.

“São distintas as suas fontes de inspiração, de facto, porém, o grau de intoxicação atingiu tais proporções que não é frequente encontrar-se alguém com capacidade para discernir entre o que é catequese e o que releva do bom senso.

“No caso vertente, o bom senso mandaria que se escrutinassem minuciosamente as opções ideológicas do proprietário e do arquitecto que aquele elegeu para seu cúmplice.

“Que se revolvessem até à exaustão todas as fontes de informação credíveis, incluindo as bibliotecas e objectos pessoais dos protagonistas deste intrigante, mas igualmente fascinante, caso de estudo.

“E o que se tem feito, salvo em circunstâncias excepcionais?

“Uma vez preparado o argumento à exacta medida das paralaxes propagandísticas, tem-se conservado em lume brando, adicionando, de quando em vez, algum condimento susceptível de prolongar o mais possível a cozedura, sem a preocupação de averiguar previamente se a receita final é digerível ou intragável.

“E tudo isso à custa da curiosidade e da boa-fé de uma multidão de famintos, carentes de alimento espiritual, os quais, sentindo-se órfãos de um Evangelho caduco, crêem ter descoberto outro, contraponto daquele incapaz de responder aos seus anseios mais profundos e desígnios mais nobres.

“Convém recordar que António Augusto Carvalho Monteiro, católico confesso, professou um cristianismo gnóstico, nos antípodas dos ideais maçónicos, sendo de descartar, liminarmente, qualquer hipótese de uma filiação na Franco-Maçonaria[32].

“A sua biblioteca pessoal é um testemunho insofismável do desinteresse que votava ao tema.

“O catálogo que apresento, relativo ao insignificante núcleo bibliográfico (13 obras), saído de um acervo que ultrapassava os 33.000 títulos, exige duas clarificações:

“Não poderá dar-se o caso de existirem mais obras de índole maçónica, ainda não referenciadas, no acervo de Carvalho Monteiro adquirido pela Biblioteca do Congresso, uma vez que se desconhece o teor de uma parte significativa da segunda aquisição (1929)? A resposta é negativa, porquanto os livros sobre Maçonaria e afins (bem como outros temas não relevantes neste momento) têm, consoante as normas biblioteconómicas vigentes na Biblioteca do Congresso, tratamento privilegiado e prioritário, não aguardando catalogação durante muito tempo. Ora, desde a aquisição, em 1929, decorreram 83 anos…

“A colecção em apreço inclui uma obra impressa em 1924, a qual só poderia ter sido ali inserida por Pedro Carvalho Monteiro, uma vez que seu pai morrera em 1920. Poderá inferir-se daí que todos os demais títulos (à excepção dos dois antimaçónicos, transitados da biblioteca de Olivais Penha Longa) procedem da mesma origem?”

A seguir, Manuel Gandra enumera o catálogo magríssimo, insignificante desaparecendo entre milhares de títulos, da “biblioteca maçónica” de Carvalho Monteiro, com o quesito insuportável desses livros serem realmente seus ou anexados posteriormente pelo filho, tirando os dois supraditos títulos antimaçónicos pertencentes à livraria do conde da Penha Longa.

1. Boletim Official do Grande Oriente Lusitano Unido, n.º 4, 3.ªsérie, 12.º ano, Julho 1880.

2. Fernão Botto-Machado, A Maçonaria e a Sociedade das Nações (Tese apresentada ao Congresso Maçónico de 1924). Tipografia do Grémio Lusitano, Lisboa, 1924.

3. Constituição e Regulamentos Gerais da Ordem Maçónica no Brasil promulgados pelo Grande Oriente do Brasil. Tipografia Austral, Rio de Janeiro, 1842.

4. António Maria do Couto, Palmatoria contra Pedreiros-Livres, refutação à Herética Pravidade de seus Modernos Escriptos e à Introducção do Manifesto do Grande Oriente Lusitano por o Censor Profano. Impressão de Alcobia, Lisboa, 1821.

5. Miguel António Dias, Historia da Franc-Maçonaria ou dos Pedreiros Livres pelo author da Bibliotheca Maçónica. Tipografia de F. A. da Rocha, Lisboa, 1843.

6. G. O. de France – Solstice d´hiver 5839 – Procès Verbal de la Fête de l´Ordre, célébrée par le G. O. de France le 22 Jº du 10e mois lunaire (Thebet), l´an de la V. L. 5839 (27 Decembre 1839, ère vulg[ai]re). O. de Paris, Veuve Dondey-Duprè, 1840.

7. Ignacio Xavier Gayozo, Divertimento em forma de Analysi, sobre a Analysi dos Cathecismos dos Pedreiros Livres, a qual foi dada pelos senhores Tiburcio, & Firmino. Impressão de Joze Baptista Morando, Lisboa, 1823.

8. Guide des maçons ecossais, ou Cahiers des trois grades symboliques du rit ancien et accepté. Edimburgo, s.d.

9. Mitglieder-Verzeichniss, Der unter Constitution Hochwürdigsten Grossen Landes-Loge der Freimaurer von Deutchland in Berlin arbeitenden ger. verb. und volk St. Johannes-Loge. Waldenburg, 31 Mai 1847.

10. Regulador Maçónico do Rito Moderno, contendo os Rituaes segundo o Regímen do G. O. de França, bem como formalidades e disposições diversas, concernentes à Ordem, Offerecido, para uso das Oficinas deste Rito, ao G. O. do Brasil – Primeiro Grão Aprendiz. Tipografia Austral, Ano da V. L. 5837 [1837].

11. Regulador Maçónico do Rito Moderno, contendo os Rituaes segundo o Regímen do G. O. de França, bem como formalidades e disposições diversas, concernentes à Ordem, Offerecido, para uso das Oficinas deste Rito, ao G. O. do Brasil – Segundo Grão Companheiro. Tipografia Austral, Ano da V. L. 5837 [1837].

12. Regulador Maçónico do Rito Moderno, contendo os Rituaes segundo o Regímen do G. O. de França, bem como formalidades e disposições diversas, concernentes à Ordem, Offerecido, para uso das Oficinas deste Rito, ao G. O. do Brasil – Terceiro Grão Mestre. Tipografia Austral, Ano da V. L. 5837 [1837].

13. J. M. do Rosário, Instrucções para os Sublimes Capítulos dos Sublimes Principes de Heredom e de Kilwinning, Cavalleiros da Águia e Perfeitos Maçons Livres com o titulo de Rosa-Cruz do Rito Escocez Antigo e Acceito para o Império do Brazil, recopiladas dos melhores Authores e oferecidas ao I. Cav. R+, F. de Paula Brito, pelo seu amigo, Grau 30. Tipografia Imparcial do Ir. F. de P. Brito, Rio de Janeiro, 1838.

Tudo isso esfuma decisivamente a hodierna invenção propositadamente teimando em dar a Quinta da Regaleira como projecto jacobino, apesar de despossuído do que seja do simbolismo maçónico clássico[33], tendo chegado alguns ao inverosímil de dar Pedro Monteiro, filho de Carvalho Monteiro, como afiliado maçom, tendo recebido nesta propriedade em Setembro de 1930 o mago inglês Aleister Crowley e o poeta português Fernando Pessoa, onde todos juntos procederam a um “ritual mágico-maçónico-templário” (!!!), e que foi o motivo para uma exposição apresentada no Palácio da Regaleira em Julho de 1996, como prelúdio da abertura do seu espaço ao público geral[34]. O que então vi chocou-me sobremaneira, a ponto de ter aconselhado os familiares de Carvalho Monteiro a não irem à quinta enquanto durasse essa exposição com intenso e macabro cheiro a satanismo, e inclusive ter deixado o protesto pessoal junto do falecido Pisani Burnay, com quem me correspondi durante largos anos. Igualmente continua a chocar-me a toponímia incoerente inventada para os vários espaços da propriedade, toda ela com o gosto da fantasia juvenil de algum leitor das aventuras fantásticas de Harry Potter, e onde hoje “esotericistas” de todos os gostos e feitios têm aí verdadeira “disneylândia” à escala internacional.

Essa elaboração fantasiosa, absolutamente vazia da mínima prova provada, foi tecida para justificar pretensões pessoais, sobretudo de natureza maçonista, chegando-se a indicar um «caminho iniciático», associado à ideia avulsa de «maçonaria hermética ou alquímica», dentro da propriedade conhecida de muito perto por Fernando Pessoa, dizem (mas, afinal, quem vá ou esteja em Sintra não conhece a Regaleira, nem que seja só de vê-la da rua, devido à singularidade exuberante do seu aspecto?), o que  me leva a considerá-la em três alíneas cujos princípios estão interligados[35]:

1.º – Afirma-se que o simbolismo patente na Quinta da Regaleira é «maçónico-templário e católico-monárquico». Será antes católico e gnóstico, confessional e sapiencial, patenteando os símbolos primaciais das Ordens do Templo e de Cristo, como organizações expressivas da “religião pátria”, para não dizer, da Patrística Lusitana incarnada no seu pensamento nacionalista donde frutificaria a diáspora e cresceria o império, sempre mantendo a fidelidade rigorosa à sua Regra e Estatutos; a par disso, aparece aqui e acolá, na propriedade, aparte o figurino simplesmente decorativo, um cardápio razoável de símbolos facilmente identificáveis como resgatados da tradição hermética da Alquimia transpostos, assim mesmo, para o sentido de heráldica falante afim aos predicados quase ou mesmo supra-humanos, vazados no tema nacional da Sebástica, que Carvalho Monteiro conferia à sua família e ascendência.

2.º – Refere-se haver nesta quinta um percurso iniciático «alquímico-rosacruciano». Será antes alquímico e cristão gnóstico, imediatamente conectado às alíneas anterior e posterior.

3.º – Diz-se que a cenografia de todo este espaço aberto e fechado contém cifrada, na linguagem muda dos seus símbolos, a Tradição Espiritual Portuguesa, e isto está certo, sendo exactamente o que venho dizendo desde cerca de 1980, altura em que comecei a estudar o recheio da Quinta da Regaleira.

A ideia de “religião pátria” assumida por António Augusto Carvalho Monteiro, mais que um pressuposto é uma evidência, aliás, reforçada pelas palavras da sua própria neta, D. Maria de Nazaré: “O meu avô gostava de tudo que era de Portugal, e apesar de não ter nascido aqui era mais português que muitos portugueses”.

A via mais apropriada para a leitura simbológica da Regaleira será a teosófica ou gnóstica na sua vertente cristã[36], com um e outros apontamentos resgatados ao figurino da tradição hindu por Carvalho Monteiro e Manini, certamente para reforçarem o significado iniciático da mensagem encriptada como a entenderam expor.

Dominando o espaço envolvente da propriedade, tem-se a sua torre evocativa da Montanha Sagrada da Iniciação, conhecida pelos orientais como Monte Meru, que tradicionalmente é ascendido num trajecto espiralado a partir da sua “metade” encoberta representada por uma câmara subterrânea, ou por uma outra torre subterrânea, cuja chegada ao cume marca a conquista do Céu, servindo assim a torre para expressar os três Mundos: Céu, Terra e Inferno, o que está muito bem assinalado nas duas torres subterrâneas (erroneamente chamada “poços”) da Regaleira: uma inacabada assinalando o Inferno (Saturno), outra completa designando a Terra (Hermes ou Mercúrio), e a terceira como a principal elevada ao Céu (Júpiter). Isto representa-se nesta torre principal com a sua câmara inferior para o Mundo Subterrâneo, a câmara circular para o Mundo Intermédio, a cuja entrada está um escudo de pedra em campo vazio, por encher com as virtudes do futuro Adepto vitorioso, e finalmente o mirante para o Mundo Superior.

Expressiva da Torre da Fé presente nas três religiões do Livro (judaica, cristã, islâmica), o simbolismo da torre encontra-se nas litanias da Virgem (Turris Davidica, Turris Eburnea), sem esquecer que os termos Virgem e Igreja estão associados, ele encerra um significado muito preciso. As torres, na Idade Média, podiam servir para espreitar eventuais inimigos, mas tinham também o sentido místico da escada: as relações entre o Céu e a Terra eram recordadas pelos degraus. Cada degrau da escada, cada andar da torre marcava uma etapa na ascensão. Fixada num centro (Centro do Mundo, Axis Mundi), a torre revela o mito ascensional e, como o campanário, traduz uma energia solar ou superior transmitida à Terra[37]. Foi numa torre de bronze, onde se encontrava aprisionada, que Danae recebeu a chuva de ouro fecundante de Zeus. De acordo com Alredo de Rievaulx (1110-1167), a Ordem de Cister é comparável a uma cidade fortificada, cercada de muros e torres que protegem das surpresas do inimigo. A pobreza forma muros e o silêncio uma torre que eleva a alma até Deus[38].

Na câmara inferior da torre que deu o nome à quinta vê-se ao fundo uma gruta artificial donde escorre água para um pequeno lago, adiante do qual figura uma donzela sentada com uma pomba no regaço e um ganso aos pés, um dos quais  está escondido debaixo da veste, como se fosse alegórico do pé serpentário que ninguém devia ver e que é o motivo da “proibição melusínica”. Trata-se da “Senhora do Lago”, Leda, Melusina ou Lusina (representada precisamente pelo ganso, símbolo primitivo dos agremiações de mestres-construtores cristãos cuja padroeira era Santa Madalena ou Magdala, cujo diminutivo hebraico, Migdal, expressivamente significa “Torre”[39]). Na lenda arturiana, a “Senhora do Lago” é a progenitora sobrenatural do “Cavaleiro do Cisne”, Lancelote do Lago, “o melhor (mais perfeito) Cavaleiro do Mundo”, aqui só podendo ser figurado em Carvalho Monteiro.

Fitando a imagem, não deixa de acudir-me à memória o último soneto da Vita Nuova de Dante Alighieri, onde a figura de Batraz ou Beatriz faz o papel de Melusina:

Além da roda (torre) que mais ao largo gira (espiralada)
Passa um suspiro que meu coração exala:
Um espírito novinho, que o Amor em pranto
Colocou nele, sempre mais alto o eleva.
Quando alcança onde ele deseja,
Dama aparece, que recebe toda honra,
E ela reluz de tão claro esplendor,
Que o espírito peregrino demorado a admira.

Com efeito, o figurino geral visto nesta câmara parece ter sido copiado a “papel químico” do cenário descrito por Jean d’Arras no seu romance nobiliárquico O Livro de Melusina ou a Nobre História dos Lusignan, no qual a fada era guardada por um dragão postado à entrada da sua gruta ou torre subterrânea (a que se pode chegar subindo até à metade desta indo desembocando num pátio amplo onde ao fundo, guardando o acesso subterrâneo à torre levantada no ventre na serra, vêem-se os escultóricos de dois lagartos ou dragões encadeados, figurando, entre outras coisas, o princípio hermético do solve et coagula).

A torre subterrânea ou jina, como diria Mário Roso de Luna, compõe-se de nove patamares cada um com quinze degraus, cuja soma e redução cabalística (9×15 = 135, 1+3+5 = 9) dá o nove indicativo do Hommo Inferius ou Incarnado, que os cabalistas judaico-cristãos identificavam como Adam-Chevaoth, ou seja, o Terceiro Aspecto do Logos Único, correspondendo ao Espírito Santo (ou Shiva, para os orientais) interiorizado no seio da Terra como Saturno sombrio, enquanto à sua face superior ou Primeiro Aspecto como Júpiter luminoso chamavam Adam-Kadmon, sendo que a sua humanização correspondia a Adam-Heve, o Hermes-Mercúrio ou Andrógino em separado como Homem e Mulher, o que dá o Segundo Aspecto do Logos Único. Por isso as escrituras sagradas dizem que “o Homem foi feito à imagem e semelhança de Deus” (Génesis, 1:26-27).

Os nove patamares desta torre subterrânea levando ao ventre da Mãe-Terra, remetem igualmente para a ideia dos nove estados do Plano Físico de acordo com a noção teosófica dos tatvas ou “estados subtis da matéria”, como sejam: sólido, líquido, gasoso, químico, vital, luminoso, reflector, subatómico, atómico. Este conceito é afim à cosmologia gnóstica onde cabe a ideia teológica dos “sete e nove Céus” e respectivas Cortes Espirituais (Arqueus, Arcanjos, Anjos, etc.), que Dante Alighieri exprimiria nos cantos da sua Divina Comédia e inclusive Luís de Camões em Os Lusíadas, de cujos cantos Carvalho Monteiro selecionaria para si determinados versículos que escreveu e assinou com o próprio punho em tarjetas, a maioria deles expressando o conceito divino do Cosmos, como o seguinte do canto X, versículo 80:

Vês aqui a grande Máquina do Mundo,
etérea e elemental, que fabricada
assim foi do Saber, alto e profundo,
que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
é Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,
que a tanto o engenho humano não se estende.

Revela-se aí a aceitação da existência de Deus (an sit Deus) e a preocupação em entender a essência de Deus (quid sit Deus), que sendo aceite como profissão de fé contudo não é entendido na condição de saber, motivo para a adopção do “Saber alto e profundo” para chegar ao Conhecimento do Divino, ou seja, tornar-se Gnosis ou Iluminado, motivo onde a condição material é absolutamente indispensável para poder, com o consequente engenho da segurança, subir os degraus ou graus da Sabedoria de Deus, e isto acaso explicará uma sentença constante de Carvalho Monteiro: “A matéria supera o engenho”.

É assim que esta turris inferius de assunção ao superius, ou vice-versa[40], retrata bem aquela outra da viagem interior ou espiritual descrita por Dante no canto XXXI do Paraíso (43-48):

E como um peregrino que se consola
Quando olha para o templo de seu voto,
Esperando já contar como ele é feito,
Assim como, errante pela viva luz
Eu passeava pelos degraus de minha visão,
Ora p´ra cima, ora p´ra baixo, ora circulando (ou em espiral).

Estando a parede da torre decorada por nichos representativos das almas que se manifestam, com os mesmos também poderá ajustar-se o canto XXVIII do Paraíso (127-129):

Todos admirando para o alto se tendem
E para o baixo são vencedores por próprio esforço;
Para Deus são levados e todos a Ele levam.

Pode-se relacionar a conquista espiritual da torre (como sinónimo de absorção salvífica em Maria, Turris Fidelis) com o sentido derradeiro do poema medieval do trovador D. Gonçalo Eanes do Vinhal (CV 309, BNL 671)[41]:

Quand´eu subi nas torres sobe-lo mar
e vi onde soía a bafordar
o meu amig´, amigas, tan gran pesar
ouv´eu enton por ele no coraçon,
quand´eu vi estes outros per i andar,
que a morrer ouvera por el enton.

Quand’ eu catei das torres derredor
e non vi meu amigo e meu senhor,
que oj´el por mi vive tan sem sabor,
ouv´eu enton tal coita no coraçon,
quando me nembrei d´el e do seu amor,
que a morrer ouvera por el enton.

Descrente e vazio da mínima prova de algum tipo de ritual esotérico praticado nesta Quinta da Regaleira por Carvalho Monteiro ou algum dos seus descendentes, contudo admito, ante o figurino exposto, que ele terá mandado dispor aqui o cenário próprio das iniciações gnósticas sírio-egípcias, impondo como pano de fundo a ideia de Ordem do Templo, como a primacial portuguesa, porque antes dela não havia outra no país como milícia castrense com regra e estatutos conferindo-lhe o foro legítimo de Ordem religiosa e militar, e como cenário o romântico da própria Serra de Sintra, assumindo o Romantismo como a pretensão de “regresso ao campo”, ao estado natural, sinal da reintegração do Homem na Natureza, predicado igual ao do retorno à condição e Origem Divina, percurso iniciático cujo figurino é o próprio dispositivo monumental da quinta. Com isso, avento a hipótese da Regaleira (com a sua planta pentagonal) acaso repartir-se em cinco etapas iniciáticas exclusivamente cénicas e figurativas de um teatro sem elenco humano, as quais perfazendo um pentalfa (o Tetragramaton) disponho da seguinte maneira:

Recepção do Neófito (Elemental) = Interior da torre de Melusina ou “la Dame du Lac”;

1.ª Prova (Terra) = Entrada e saída nas duas torres subterrâneas, «velha» e «nova», designando a “morte do homem velho” e o “nascimento do homem novo”;

2.ª Prova (Água) = Saída das trevas cavernosas e travessia do lago dos cisnes por cima de quinze pedras serpenteantes;

3.ª Prova (Fogo) = Reflexão na casa ou “câmara egípcia”, a que tem a ave íbis retratada, simbólica da iniciação e renascimento, nas cercanias da estátua do leão e «encravada» entre três bancos triangulando-se, cujas figuras que os decoram são as mesmas usadas na Alquimia para designar os tradicionalmente chamados três “espíritos alquímicos”: Sal – Mercúrio – Enxofre;

4.ª Prova (Ar) = Subida ao cume da torre da Regaleira, subida essa que se deve achar pois a dada altura a ascensão interrompe-se;

5.ª Prova (Éter) = Recepção do Iniciado na capela da quinta e a sua investidura na cripta da mesma;

Recepção do Iniciado (Subatómico e Atómico) = Acesso pleno do novo Iniciado ao palácio e ao templo, usufruindo do Poder Real e da Autoridade Espiritual assim representados na Regaleira, esta bem parecendo o lugar privilegiado de encómio ao culto graalístico em Sintra logo ao começo do século XX, cujas iniciais C. M. da sua figura central, Carvalho Monteiro, por tudo isso, sou induzido a transpô-las para aquelas outras de Cristo-Maria, cuja mística do Sagrado Coração ainda hoje prevalece na paroquial de Lagos da Beira, terra natal do pai deste génio que em Sintra terá realizado os mais íntimos e sublimes anseios.

As iniciais C. M. repetem-se na fonte monumental postada no caminho que vai da torre da quinta às entradas para as torres subterrâneas. Mandada fazer por Carvalho Monteiro a José da Fonseca[42], vê-se na sua fácies um círculo formado por 16 esferas (valor remetendo para a correspondência tarôtica do Arcano XVI, “A Torre”) dentro do qual inscreve-se o C sobre o M, iniciais de Carvalho Monteiro, mas também de Cristo sobre Maria, e ainda mais veladamente, de Cordo Maris, “Coração do Mar”, alusivo à “Ilha Encoberta” (Insula Hermetica) como a mesma Agharta das tradições míticas do Oriente. Transpondo o CM para algarismos romanos obtém-se o número 900, sendo que este valor designa cabalisticamente a Lua com os seus 9 ciclos de gestação necessários à formação do ser humano; daí que igualmente seja o número cabalístico do “Homem” ou Adam, gerado nas águas do barro da Terra (movimento assinalado nas cruzes swástikas decorativas dos obeliscos laterais da fonte), dele saindo depois Heve, indo formar a parelha primordial geradora da espécie humana. Por este motivo genesíaco, defronte da torre está um trono destinado a ser ocupado por um par, e diante dele uma mesa larga, espécie de távola evocativa da Obra Divina da Criação, onde todos os elementos em jogo “são postos sobre a mesa”. Abaixo do círculo uma flor-de-lis fálica direcciona-se a dois golfinhos entrelaçados, simbólicos do Androginismo dos Tempos do início e do fim da Humanidade, estado de perfeição esse representado tanto na Pedra dos Filósofos como no Encoberto e Desejado com que a mitologia portuguesa designa o Avatara do Futuro, o Messias a advir na pessoa do próprio Cristo. Com isto, o tema da Génese e da Parúsia, alfa e ómega da Grande Obra do Criador, será a mensagem velada nos símbolos desta fonte monumental, motivo de inquietação para uns e de sossego para outros.

Considero ainda que a reprodução cenográfica das etapas da iniciação gnóstica, postada tão ao gosto do épico teatral de Carvalho Monteiro, toda ela é vazada do figurino constante na lenda dourada da fada Melusina, com o acréscimo ou enriquecimento dos símbolos nacionais que a transpõem para a conceição lusa de um Sebastianismo esclarecido, teosófico, milenarista talvez, certamente apologético da Parúsia sem tempo certo para acontecer, porque a acontecer será só quando o Paracleto entender.

Com tudo, mesmo assim e por isso mesmo, parece que o tipo de Mistérios Iniciáticos expressados cenograficamente nesta Quinta da Regaleira seriam os que Rudolf Steiner chamou de “Iniciação da Hibérnia”, esta a primitiva Irlanda filha da Ibéria, desta indo para aí  várias vagas humanas na Proto-História, a última a dos Milésios cerca do ano 1000 a. C. Consequentemente, essa “Iniciação Hibérnica” melhor se poderia chamar “Iniciação Ibérica”, a qual se dotava de dois atributos que afinal vêm a ser os mesmos que distinguem e tornam ímpar este espaço monumental: a Ciência e a Arte. Diz o referido autor[43]: “Já vimos que esta Iniciação da Hibérnia comportava duas estátuas simbólicas. Sobre a cabeça da estátua do Conhecimento lia-se a palavra Ciência, e sobre a cabeça da outra estátua lia-se o termo Arte. Após a iniciação, o iniciado era levado para fora do templo e os dois iniciadores ficavam à porta, e então um tomava-lhe a cabeça entre as mãos e voltava-a para o que o outro lhe mostrava: a figura do Cristo, e as palavras de advertimento ressoavam. O sacerdote que lhe havia mostrado a imagem de Cristo, dizia-lhe: “Toma em teu coração a Palavra e a Força deste Ser”. Depois o outro sacerdote acrescentava: “E recebe Dele o que as duas estátuas querem-te dar: a Ciência e a Arte”.

De certa forma trescala do texto a aproximação entre o gnosticismo cristão e o gnosticismo pagão, que no caso da Regaleira é observável em dois espaços distintos: a estufa e o patamar que desfecha o jardim. Sobre a fachada da estufa quente (idealizada em 1908 por Manini para recolher a colecção de orquídeas e espécies exóticas de Carvalho Monteiro), lateral à torre, abre-se um largo painel de azulejos pintado por Angelo Samarani, cenógrafo italiano colaborador de Manini que foi quem desenhou a composição do mesmo, diz-se que inspirado em gravuras oitocentistas das revistas Ilustracion Artistica e L´Illustrazione Italiana, paradigmas do gosto romântico da época, mas que esse arquitecto-cenógrafo transporia para o cenário mitológico de Sintra. O painel representa um grupo de seis vestais greco-romanos rodeadas de pombas, cães galgos lebreiros e uma corça, fazendo a oferenda de uma braçada de flores a uma possível deusa de que só se vê os pés sobre o pedestal, junto ao qual fumegam as fragrâncias sagradas elevando-se de uma pira acesa.

Servindo de decoração a um espaço destinado à flora, à primeira vista o painel parece evocar a Arcádia ou Paraíso original, motivo central do Romantismo tomado como estado naturalista de retorno do homem moderno dessacralizado à aurea mediocritas ruralis, a poética primitiva da Primavera dos Deuses ou Idade de Ouro (Satya-Yuga, em sânscrito). Possivelmente a deusa homenageada será a própria Cynthia, nome grego da deusa Artemis ou Artemísia a quem os romanos chamaram de Diana, a mais pura e casta das deusas, irmã gémea de Apolo, o Sol, filhas de Zeus e Latona, mas cuja origem mitológica está na Kinthya celta, vulgarizada Cynthia e que deu nome à serra da sua eleição, Cintra ou Sintra. É a divindade lunar protectora da Natureza, musa inesgotável dos artistas e a primeira das ninfas sua rainha[44].

No patamar onde o jardim finda, quase a tombar sobre a Rua dos Pisões, corre uma fileira de nove estátuas de deuses da mitologia greco-romana, de certa forma relacionados com os signos do Zodíaco e as Hierarquias Criadoras do Universo Divino, segundo as concepções teosóficas ou gnósticas. À direita e sobre o portão de entrada pela supradita rua, aparece em primeiro plano o deus Hermes (Mercúrio, relacionado com Gémeos e a Virgem); segue-se Vulcano (deus dos fogos subterrâneos, assim expressando a própria Terra com o seu Núcleo Central ou Sol Oculto), logo seguido de Dionísio ou Baco (deus de eleição das primitivas bacantes e pai de Luso, o progenitor mitológico da raça com o seu nome, a lusa ou lusitana. Está em simpatia com Marte e os signos do Carneiro e do Escorpião). Depois surge Pã (o fauno saturnino que os primitivos povos migratórios aclamaram deus da pastorícia, sinónima de mobilidade ou nomadismo. Relaciona-se com Capricórnio e Aquário), seguido de Ceres (a deusa das colheitas relacionada aos primitivos povos agrários que se sedentarizaram em terrenos férteis regados por águas boas, e por isso expressa a Lua e o Caranguejo), logo vindo a deusa Flora (expressiva da Primavera e do início do ciclo agrário desejado de boas colheitas, com isso sendo associada a Vénus e ao Touro, este também representativo das boas gestações maternas), completada pela deusa Vénus (a do amor e da paixão, com isto representada pelo signo da Balança, sendo igualmente a padroeira dos mistérios sagrados). Por fim, aparece Orfeu (deus da poesia e da música, ligado à sabedoria e à iniciação, completando-se como Mercúrio com a anterior Vénus, donde Hermes-Afrodite ou Hermafrodita, que melhor seria chamá-lo Andrógino Perfeito representativo do próprio Adepto Real) antes de terminar na estátua da deusa Fortuna (a da abundância terrena e divina, pelo que carrega a cornucópia ou cornu-copus dos deuses, repleta de dádivas por graça de Júpiter ou Zeus, com isto associada aos signos de Sagitário e Peixes). Entre essas duas últimas estátuas e as restantes, está postado num pedestal a estátua de bronze de um enorme leão, fitando na direcção do palácio, obra de P. Rouillard (assinada por ele), remontando à época da baronesa da Regaleira, facto atestado por um grafite sobre papel de 1885 feito pelo rei D. Carlos, desenhando o animal junto à balaustrada primitiva da quinta. Posteriormente seria colocado por Carvalho Monteiro no pedestal onde hoje se vê, precisamente aí para assinalar cenograficamente a sua saída do bosque, motivo que levou Manuel Gandra a associá-lo ao “leão saído do bosque” bíblico mas com a ponderação acautelada que o tema suscita. Diz[45]:

O Leão saído do Bosque. Este tema radica numa fonte contemporânea dos derradeiros escritos do Novo Testamento, considerada um dos pontos altos da literatura messiânica hebraica pós-exílio, originada pela destruição de Jerusalém por Tito, no ano 70. Consagrada pelos títulos de Esdras IV e Apocalipse de Esdras, a Igreja Católica chama-lhe deuterocanónica, por outras palavras, não lhe reconhece o carácter de livro autenticamente revelado. A redacção original realizada numa língua semita, o hebraico ou o aramaico, data do século I da era cristã. A partir do século V passaria a ser considerado apócrifo. No entanto, ao contrário de inúmeros outros apócrifos de pendor geralmente apocalíptico que haviam representado idêntico papel no misticismo hebraico (e que foram alvo de sistemática censura por parte da Igreja Romana), a versão latina, não obstante ter sido parcialmente expurgada, teve uma extraordinária difusão durante a Idade Média.

Esdras IV pertence, com efeito, a uma outra classe de textos. Com efeito, centra-se na problemática da Restauração Messiânica e do papel escatológico e ético do Messias no Juízo Final. Os protagonistas são personagens bíblicas que acedem a uma revelação ou epifania mediada por um Anjo e completada pela contemplação da Mercabah (Carro ou Trono) de Deus, ou pelo arrebatamento e ascensão ao Empíreo.

“Quererei com isto sustentar que o programa da Quinta da Regaleira se inspira em Esdras IV?

“De modo nenhum! Viso apenas mostrar que um elemento, regra geral inócuo e desvalorizado, porque pré-existente nas abordagens hermenêuticas vigentes, foi reintegrado de forma subtil por Carvalho Monteiro na cenografia do lugar, encerrando o percurso da peregrinação alegórica exposto na Regaleira. Refiro-me, é óbvio, ao leão em bronze que, literalmente, sai do bosque, o qual serve de guia aos visitantes-viandantes, apontando-lhes o sentido da marcha em direcção ao Olimpo, por outras palavras, ao Quinto Reino ou Império.”

Símbolo-mor da Realeza e particularmente parte distinta das Armas de Lusignan, como quinto signo do Zodíaco no sentido cosmogónico, o Leão expressa o próprio Sol em torno do qual se postam os doze signos assinalados aqui pelos deuses greco-romanos do Empíreo. Este simbolismo zodiacal é corroborado por René Guénon, quando escreve acerca dos doze Adityas ou “Sóis” menores promanados do Sol Único e Indivisível (Surya), expressivo da Divindade Absoluta[46]: “São igualmente manifestações de uma Essência Única e Indivisível. E diz-se também que esses doze Sóis aparecerão simultaneamente no fim do Ciclo, reentrando então na Unidade essencial e primordial da sua natureza comum. Entre os gregos, os doze grandes deuses do Olimpo estão também em correspondência com os doze signos do Zodíaco”.

Postado em destaque o leão, animal solar associado ao ouro como “o mais nobre dos metais”, é também considerado um dos símbolos do Rei do Mundo, pelo que René Guénon na obra citada avança: “É exactamente o que a liturgia católica atribui ao Cristo, quando lhe aplica o título de Sol Justitiae: o Verbo é efectivamente o “Sol Espiritual”, isto é, o verdadeiro “Centro do Mundo”; além disso, essa expressão Sol Justitiae refere-se directamente aos atributos de Melki-Tsedek. É também de notar que o leão, animal solar, era na Antiguidade e na Idade Média um emblema da justiça e, ao mesmo tempo, do poder; o signo do Leão é, no Zodíaco, o domicílio próprio do Sol. O Sol de doze raios pode ser considerado como representando os doze Adityas; sob outro ponto de vista, se o Sol representa o Cristo os doze raios são os doze Apóstolos (a palavra apóstolo significa “enviado”, e os raios também são “enviados” pelo Sol). Por outro lado, pode ver-se no número dos doze Apóstolos uma marca, dentre muitas outras, da perfeita conformidade do Cristianismo à Tradição Primordial”.

Poderoso, soberano, símbolo solar e luminoso ao extremo, o leão, rei dos animais, por sua categoria incarna os predicados do Poder, da Sabedoria e da Justiça, com isso tornando-se a representação do Pai, do Mestre, do Guia. Pela qualificação de Justiça, faz-se garantia tanto da Autoridade Espiritual como do Poder Temporal e por isso serve de montaria ou trono a numerosas divindades, ornamentando tanto o trono de Salomão como o dos antigos reis de França e até o dos bispos medievais, associando-se a figura do animal resplandecente à do Trono de Deus, igualmente chamado Leão de Fogo e de certa maneira ligado à doutrina cabalística da Merkabah. Com isto, torna-se igualmente símbolo do Cristo-Juiz e do Cristo-Doutor, de quem ele carrega o livro ou o rolo, e nesta mesma perspectiva é o emblema do evangelista S. Marcos, fundador da Igreja de Alexandria, uma das principais sedes do Cristianismo primitivo. O leão de Judá falado ao longo de toda escritura sagrada, desde o Génesis (49:9) até ao Apocalipse (5:5), manifesta-se em plenitude na pessoa de Cristo ,cujo advento como “Coração do Universo” (expresso como quinto signo do Zodíaco de quem o Leão é o “coração” do mesmo) é aguardado pela comunidade dos fiéis lusitanos sob o figurino alegórico afim ao tema sebástico do Encoberto, também este “Coração”, Vaso Sagrado ou Santo Graal revelado na hora final da consumação do V Império ou Reino Espiritual a urgir na “Terra de Luz”, isto é, Lux-Citânia ou Lusitânia, tudo em conformidade com a ideologia messiânica da “religião pátria” cultuada por Carvalho Monteiro.

Isso explicará também a sua predilecção por esse animal (cuja figura espalha-se por toda a Regaleira), a ponto de trazer ao pescoço uma medalha de ouro com um leão entronizado e a divisa Quis audet (“Quem ousará atacá-lo?”), “decerto alusiva ao carácter universal e insuplantável do Encoberto”, diz Manuel Gandra. Este autor informa ainda que aquela (a única que usava) fazia parte de um total de sete medalhas “todas emblemáticas do seu desígnio de vida”, com figuras e as respectivas legendas latinas significando em português: “Não desces nunca”, “Conquanto me agrade”, “Dá o teu fruto sem o prometer”, “Serpenteio, mas não me desvio”, “Privado de ti, morro”, Não espero, senão de mim mesmo” e “Quem ousará atacá-lo?”. Como Carvalho Monteiro reservava exclusivamente para si esses conceitos metafísicos de lonjura mental, revelando-se insuperáveis e incompreensíveis até para os seus mais próximos, a sua neta D. Maria de Nazaré teve o desabafo próprio de quem não entende: “Era o mais supersticioso que havia”.

De maneira que, à parte o significado iniciático, o leão ficaria tão-só como emblemático da Realeza que Carvalho Monteiro aproveitaria para si da baronesa da Regaleira, atendendo à atribuição da mercê de Moço Fidalgo da Casa Real que lhe fez D. Luís I em 1882. E talvez também e por igual, no contexto mágico das crenças populares concessoras de poderes sobrenaturais a seres e objectos, o leão da Regaleira ficasse com a reputação de afugentar os demónios e de trazer saúde e prosperidade para os locatários e até a toda a vila de Sintra, esta que o poderoso magnata pretendeu adquirir como revela ainda a sua neta: “Ele queria comprar todas as quintas à volta e fazer ali um domínio só seu”.

Tão grande cultura a par de ainda maior espiritualidade, dispõe António Augusto Carvalho Monteiro no patamar de quase Mahatma, ou seja, de “Grande Alma” para a teologia hindu, afim à condição de Homem Perfeito ou Adepto Real. Não quero dizer com isso que o tenha sido mas que houve pretensão a tanto, nem que fosse só como Homem Representativo da Tradição Espiritual Portuguesa fincada em Sintra, facto reforçado na Regaleira por uma figura estranha à iconologia ocidental. Com efeito, aparece na chaminé do palácio (em guisa de escudo armoriado na fachada sul e por cima de uma esfera armilar com um letreiro onde se lê Domvs aedificata ano domini MCMX, “Casa edificada no ano do Senhor [de] 1910”) a escultura de um estranho animal mitológico o qual, com inteira exactidão, corresponde à alegoria hindu do Makara (que estando junto à esfera armilar significa Makara Lusitano, ou por extenso, Casa do Makara Lusitano), termo com que os sábios orientais designam os deuses humanizados como “Grandes Almas” ou Adeptos Perfeitos. Na iconologia védica, o Makara é provido de uma espécie de tromba parecida à do elefante e o qual Varuna, deus do Oceano, monta. É representado com a forma de um animal, possuindo a cabeça e as patas dianteiras de um antílope e a cauda de peixe[47]. É exactamente isso que está esculpido na chaminé do Palácio da Regaleira, tanto como sinal do que Carvalho Monteiro acaso assumia ser, como igualmente indício de ter bebido nas fontes teosóficas dos seus contemporâneos Helena Petrovna Blavatsky e Francisco Stuart Mourão, o visconde de Figanière, numa época em que a Sociedade Teosófica estava em plena expansão na Europa, apesar do orientalismo teosófico ser transposto aqui para os signos da Tradição Espiritual Ocidental, particularmente para o contexto nacional do tema sebástico.

Ainda sobre o Makara, na cosmologia teosófica ele é disposto como a quinta Hierarquia Criadora (segundo a contagem dos Reinos Mineral, Vegetal, Animal, Humano e Espiritual) do Mundo e do Homem, o padrão da perfeição integral deste. Por esse motivo, a estrela de cinco pontas, o pentalfa, marcando o quinto princípio espiritual, é a signa representativa do Makara, chamada na cultura védica Makaram. Em português, Makara significa literalmente “crocodilo”, o animal cuja natureza anfíbia simboliza a condição psicopompa ou intermediária entre o Cosmos criado e o Caos primordial (o Leviathan bíblico). A sua postagem no alto do palácio da Regaleira expressa isso mesmo: a Ordem saída do Caos (Ordo ab Chao), ou por outra, o estado diferenciado nascido do estado indiferenciado. A natureza dúplice do Makara presente às funções mentais e reprodutoras do Homem, por esta mesma razão a mitologia greco-romana correlacionou-o com o deus Cúpido (Kama-Deva nos Vedas), cuja seta inquietante (expressiva da cauda do crocodilo representado no Empório pela constelação do Escorpião, e nisto a seta cúpida será o aguilhão do mesmo) podendo acertar em qualquer um(a), tanto pode despertar o sentimento do mais elevado e puro amor, como a emoção da mais fogosa e intensa paixão. Se a seta será de ouro ou de ferro, tudo depende da motivação e interesse para que pende cada um e cada qual.

Direccionado a norte, o Palácio da Regaleira ostenta antes do padrão com a Cruz de Cristo à entrada onde o visitante é recebido pelo listel “Salvé”, a estranha figura de um animal mordendo a própria cauda: trata-se do ouroboros hermético, motivo do apodo “mansão filosofal” resgatado a Fulcanelli[48]. Com efeito e alguma estranheza geral, por vezes encontra-se na iconologia e literatura teológica cristã a imagem, desenho ou pintura de uma serpente enrolada mordendo a própria cauda. Apresentada assim, é a representação simbólica do conhecimento universal que dispõe o Ser em unidade com o Universo, sendo o sinal remoto que introduz no significado da genealogia ou linhagem a divinis do Cristo, princípio e fim da Igreja Universal, tendo os Profetas por começo e os Apóstolos por final, sendo a Palavra de Deus o elo de ligação presente do Passado (cauda da serpente) com o Futuro (cabeça da serpente). Por tratar-se de um símbolo pré-cristão, para todo o efeito, o conceito de Sabedoria é predominante nele, não só no Cristianismo como em todas as culturas religiosas desde a mais alta Antiguidade.

É chamado tradicionalmente ouroboros, palavra de adopção grega mas oriunda do copta e do hebraico, sendo que ouro significa “rei” em copta, e ob quer dizer “serpente” em hebreu, portanto, “serpente real”, a mesma naha hebraica ou naga hindu, simbólica do hommo serpens indicativo do Iluminado espiritual de quem o réptil, elevado da base do corpo ao alto da cabeça, figurativamente falando, é simbólica da respectiva Iluminação, por o mesmo representar o Fogo Divino chamado pelos orientais Kundalini, o qual a Medicina ocidental da Idade Média e Renascença viria a associar esse calor corporal subindo do cóccix ao crânio à venena bibas (“veneno tragado”, de que fala São Bento de Núrsia) da serpente, cuja mordida venenosa só se cura com peçonha igual, facto que se transporia para o sentido místico de que só uma vivência espiritualizada poderia resultar numa realização espiritual.

Os gregos vulgarizaram a palavra ouroboros, dando-lhe o significado literal de “serpente engolindo a cauda”. Eles receberam essa figura dos fenícios relacionados aos hebreus que, por sua vez, a herdaram do Egipto, onde o ouroboros já aparece numa estela datada de 1600 anos a. C. que retrata o deus Rá, ou da Luz, ressuscitando das trevas da noite, sinónima de morte. Isto reporta ao tema do eterno retorno, da vida, morte e recomeço da existência, facto que também dispõe o símbolo como indicador da reencarnação das almas em sucessivos corpos humanos até alcançarem o máximo da evolução que as torne perfeitas corporal e espiritualmente, tema caríssimo aos povos do Médio e Extremo Oriente. É assim que o acto da serpente engolir-se a si mesma também pode interpretar-se como uma interrupção do ciclo de desenvolvimento humano (representado pelo réptil) para iniciar o ciclo de evolução espiritual (representado no círculo). Pitágoras deu-lhe o sentido matemático de infinito, por a serpente disposta assim configurar o zero, número abstracto utilizado para designar a eternidade que toma forma ou se concretiza quando o ouroboros é figurado a girar sobre si mesmo, representando a actividade universal de um ciclo de evolução assinalado no círculo, desta maneira contendo as ideias de movimento, continuidade, autofecundação e, por consequência, eterno retorno. Fechando-se sobre o próprio círculo, ou seja, mordendo a própria cauda, a serpente evoca a Roda da Vida, da Existência, donde ser a evocação plástica da Criação do Universo por Deus Omnipresente, identificado pelos cristãos gnósticos com o Espírito Santo, cuja Sabedoria revela-O Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, dando-Lhe por expressão máxima na Terra o próprio Cristo. Por este motivo, o ouroboros é associado na literatura gnóstica grega à frase Hen to pan, isto é, “O Todo”, “O Único”, e desde os séculos IV-V foi adoptado popularmente como amuleto protector contra os maus espíritos e as mordidas das serpentes venenosas. Ficou conhecido como Abraxas, nome de deus do primitivo panteão gnóstico que os egípcios reconheciam como Serapis, tendo-se tornado um dos mais famosos talismãs mágicos da Idade Média.

A Alquimia grega cedo adoptou a figura do ouroboros (ou uroboro) que chegou aos filósofos herméticos de Alexandria, com os quais os pensadores árabes aprenderam e difundiram a sua imagem através das suas escolas de Hermetismo e Alquimia que se tornaram conhecidas na Idade Média graças aos cristãos que as procuravam, inclusive havendo registos históricos de alguns membros da Ordem dos Templários, além de outros místicos cristãos, terem-nas procurado no Cairo, na Síria e até em Jerusalém para iniciarem-se nas ciências herméticas, apesar de proibidas pelas autoridades eclesiásticas mais por motivação política a ver com a sobrevivência da secularidade da própria Igreja, do que propriamente com alguma questão teológica.

O ouroboros representa a síntese de todos os elementos da Grande Obra de construção do Universo e do Homem, primeiro “vomitando” de si os elementos metálicos “em estado puro”, e depois, após depurá-los e apurá-los no processo de evolução universal do Ciclo da Vida, “engolindo” esses mesmos elementos já aperfeiçoados, “em estado maduro”, resultado da sabedoria que os tornou de incipientes em sapientes. Por conter a ideia de síntese de todos os elementos manifestados desde o Abismo (Abyssus) da Substância Universal, os hermetistas gregos apodaram o ouroboros de Agathos Daimon, o “Espírito Bom”, expressando a ideia do “Tudo no Todo”, ou seja, os seres vivos como partes do Absoluto. Foi assim que Heráclito comparou o Demiurgo, Deus, a uma “criança a jogar”, dando a ela o nome de Éon, Ciclo de Evolução Universal, e ao jogo de solve et coagula apodou de ouroboros, dessa maneira o período cósmico que vai da criação à destruição do Universo, durante o qual a sabedoria (gnôsis) que se obtém dará o conhecimento necessário para se criar novo e mais amplo Universo, ideia que mantém a solução eterna da Evolução do Criador e das criaturas encontrada no conceito hindu de Manvantaras e Pralayas, ou seja, os períodos de “Actividade” e de “Repouso” universais, em que num se acumula sabedoria pelas experiências múltiplas e noutro se assimila ou digere essa mesma sabedoria, para depois executá-la com maior experiência e exactidão.

No palácio abunda a letra M, por vezes vista envolta em grinaldas de rosas, a qual, além de ser a inicial óbvia de Monteiro, é também a da Mãe de Deus, Maria, em quem o Espírito Santo incarnou como Matéria-Prima, aqui figurada nos melhores materiais com que se edificou a residência. O M e as rosas sugerem igualmente o Roseiral Mariano, nome dado na Idade Média aos tratados de Alquimia genericamente chamados Roseiras dos Filósofos. Tomada como indicativa da décima terceira letra-mãe do alfabeto hebraico, Mem, esta assinala tanto o Eterno Feminino (indicado na vulva humana e geográfica que é a gruta ou cripta, de onde sai a vida e se recolhe a mesma pela morte) como as próprias Águas da Criação marcadas sideralmente por Vénus, a carmelitana Stella Maris, aliás, o planeta afim ao biorritmo da própria Sintra cuja natureza sobretudo feminina Carvalho Monteiro parece ter querido assinalar aqui, ele que, como anteriormente desejou D. João de Castro, queria para si toda a serra.

O facto de dominarem temas evocativos de Santo António, de predominarem alegorias do carvalho e cenas abundantes de montaria nesta propriedade, de maneira alguma são sinónimos do narcisismo desmedido do “ricaço nababo” António Carvalho Monteiro: são antes elementos de heráldica falante que ele assim quis plantar como encómio e perpétuo da memória familiar, motivo justificado no antigo direito romano da sucessão e transmissão hereditária[49], aqui acrescida, por via simbológica, do princípio da transmissão iniciática, crucial para a dispor no patamar privilegiado de linhagem eleita, tema remetendo novamente ao sentido sebástico da Parúsia.

Fernando Martins de Bulhões, o Santo António português doutor da Igreja, é um beato helíaco, solar por seu próprio nome associado ao cóptico Aton, “Sol”; o carvalho, com a equivalência simbólica de templo entre os celtas, é a árvore do fogo e do poder; finalmente, a montaria relaciona-se à supradita tradição dos “santos caçadores”, acontecendo a iluminação espiritual “durante uma caçada”, sinal claro da busca da Transcendência, do Saint Vaisel ou Santo Graal marcado pela presença do “veado carregando a cruz entre as suas hastes”, ou então no “javali indómito”, simbólico da “posse do poder e da sabedoria espiritual”, facto originador de numerosos mosteiros em “enclaves mágicos” tradicionalmente consagrados e reconhecidos[50], como foi o caso notável da Nazaré com a sua “carvoaria” ou “bafometaria” (colégio de estudos corânicos) associada à anterior igreja visigótica de S. Julião, a qual motivou a célebre lenda local do caçador-templário D. Fuas Roupinho, episódio aliás patente num painel de azulejos policrómicos dentro da capela desta quinta.

As referências à caçaria, abundando na Regaleira, vêm a ser transpostas, pelos motivos já descritos, para o sentido de “caçada mística”, um dos principais paradigmas da gnose dos Fiéis de Amor medievais que o maneirista Camões, a seu modo também um Fiel de Amor, não deixou de expressar no seu Auto do Filodemo (1587)[51], obra teatral conhecida de Carvalho Monteiro, o maior bibliógrafo camoniano de sempre, até hoje não superado, sendo tão grande a sua mais que admiração devoção pelo poeta pátrio que até os charutos que fumava eram da marca “Camões”.

Sobre isso, diz Paulo Pereira[52]: “Na obra de Camões, que Carvalho Monteiro conhecia muitíssimo bem, encontra-se igualmente o paradigma da caça, precisamente num dos seus escritos mais curiosos, o Auto do Filodemo. O seu conhecimento por parte do proprietário pode ter feito bascular positivamente o efeito da representação deste acto, como referência subliminar ao universo camoniano e reforço semântico e celebrativo do conjunto.

“Este auto, que foi já objecto de interpretações esotéricas – começando pelo título, com “Filodemo”, que esconde a palavra philo-daimon, “amante do espírito ou da alma” –, trata da caça ao veado ou cervo como forma de demanda prática de uma Filosofia do Amor, simétrica à procura da senhora ou pastora amante.

“Na caça aí empreendida, como parte integrante de uma peça muito complexa, encontramos a personagem do “monteiro”, companheiro do seu senhor, Venadoro. Acerca da nobreza de tal função diz o monteiro, enaltecendo-a: “Aprovada antiguamente / Foi, e muito de louvar, / A ocupação de caçar, / E da mais antigua gente / havida por singular. / É o mais contrário ofício (ao) / Que tem a ociosidade, / Mãe de todo o bruto vício: / Por este limpio exercício / Se reserva a castidade”.

“É ainda o mesmo monteiro que depois se queixa de ter perdido o seu amo na caça: “Perdeu-se por esta brenha / Venadoro, meu senhor, / Sem que novas dele tenha: / Queira Deus que inda não venha / desta perda outra maior. / Contra esta parte daqui / Despós um cervo correu; / logo desapareceu. / Como de vista o perdi, / O gosto se me perdeu”.

“Sem pretender simplificar em demasia este jogo de identificações e cumplicidades, podemos dizer que brenhas existem em profusão no parque do palácio e, neste, frequentes referências à caça, sobretudo em pequenas fontes ou recantos. E não faltará até uma fonte dentro de uma gruta, com uma dama, como que recordando o episódio de Florimena (que canta “O monte e a sua aspereza / De flores se veste ledo;”) quando encontra Venadoro, “com um pote que vai à fonte”.”

Quanto à morte do javali (varâha, em sânscrito, simbólico da Autoridade Sacerdotal) sob a lançada do monteiro, equivale à conquista do Pólo Espiritual que está assinalado na torre mística, consequentemente, vale pela integração no Centro Primordial oculto, até então pressentido e doravante possuído[53]. Posto assim, o monteiro prefigura-se em pleno acto iniciático inscrito na chamada Iniciação Mariana ou Senhorial, herança das antigas tradições guerreiras celtas que igualmente demandavam o domínio do corpo e da alma como fórmula activa de Iniciação Transcendente e que era representada na caçada ao javali ou ao porco selvagem, prosseguida como arte venatória como exclusiva da nobreza medieval, cedo tornada sinónima de conquista da Sabedoria pela morte ou domínio da mundanidade, da condição profana assinalada no dito animal.

Relacionada com a montaria anda a falcoaria (o falcão era a ave caçadora predilecta da nobreza medieval, com isso vindo a representar a casta Militar, Cavaleiresca ou Kshatriya e até a ser associada à fénix, a ave mitológica expressiva da ressurreição em que se crê o guerreiro tombado na guerra justa, usando a expressão de São Bernardo de Claraval no seu Louvor da Milícia do Templo[54]), ambas artes lúdicas de preparação pela caça para o exercício efectivo da guerra, motivo da sua ligação estreita à Iniciação Kshatriya, cuja expressão superior se vai encontrar na Arte Real de “guerrear” os elementos naturais que é a Alquimia.

O motivo do dragão, lagarto, serpente, etc., presente na iconologia hermética da Quinta Regaleira remete para a “caçada hermética” do “monstro fabuloso”, isto é, para o domínio do Fogo Sagrado no próprio Homem e na Natureza, latente no imo de ambos, o qual, como já disse, os orientais chamam Kundalini e os ocidentais de Fogo do Espírito Santo, representado na Virgem Maria que é a Padroeira dos Philosophos per Ignium, os Filósofos do Fogo, nome tradicionalmente dado aos Alquimistas, detentores da Arte Real de marear os elementos subtis e físicos da Natureza, demandando a maior Perfeição, e também possuidores da Arte Sacerdotal que acompanha a devoção e entrega a Deus pelo serviço à Humanidade. A ambas chamavam Ergon e Paraergon, Teurgia e Alquimia, Opera Magna ou Grande Obra de aprimoramento do espiritual e do humano onde um não prescindia do outro, acasalando na mais sublime das núpcias químicas a mente e o coração, a cultura e o carácter, vivendo na Terra as venturas do Céu. Serge Hutin chama-as de Taumaturgia Alquímica, adiantando[55]: “O que constitui a originalidade da Gnose Alquímica é o facto de ela se aliar estreitamente a uma Taumaturgia, a operações práticas realizadas sobre a “Matéria-Prima” da Obra. Existe um rigoroso paralelismo entre o processo interno de Iluminação e as operações materiais que são, simultaneamente, a sua “simbolização” e “confirmação” prática. Ao mesmo tempo que é iluminado pelo conhecimento que salva e se opera nele a “transmutação” mística, o Adepto contempla, no Ovo Filosófico, a operação pela qual o Princípio Luminoso pode ser extraído da Matéria em que está “cativo” e tornar-se, desse modo, susceptível de transfigurar esta última. Fazendo isso, o Alquimista contempla uma manifestação do Fogo Divino da Vida Universal”.

A Alquimia (matriz da Química moderna) fez parte das ciências tradicionais ou esotéricas que a Igreja Católica tolerou relativamente num dos seus três aspectos, a saber: a Externa ou Alquimia Metálica, portanto, laboratorial e física; a Interna ou Alquimia Mística, a ver com a mudança espiritual dos estados de consciência do homem, e era esta que a Igreja tolerava (como se viu pelas práticas filosóficas de Santo Agostinho e Santo Alberto Magno, por exemplo); finalmente, a Arte Magna, a mais perfeita, onde simultaneamente à transmutação da Matéria dava-se a transformação da Alma, sendo esta a preferida de todos os verdadeiros Alquimistas.

A Alquimia processa-se por duas vias, chamadas Via Húmida e Via Seca. A primeira é um caminho de experimentações metálicas graduais, lentas mas seguras, sempre com a presença de um casal, cujo elemento principal nessas operações é a água que se ferve num fogo intensificado gradualmente, à medida que o crisol da Matéria-Prima aparece no fundo da retorta. A esta fase chama-se Anunciação. A Matéria-Prima é a Primordial, ausente de metais impuros, e é com ela que se obtém a Pedra Filosofal, chamando-se este caminho para a fábrica da Pedra de Crisopeia, “obtenção do Ouro”, tanto místico como metálico. Enquanto na Via Húmida se passa primeiro pela “obtenção da Prata”, chamada Argiopeia, na Via Seca não: o caminho é directo para a Crisopeia e o elemento dominante é o fogo, com o Alquimista operando sozinho abreviando o tempo para alcançar o seu fim, o que não deixa de ser muito arriscado. A Via Seca é representada pela árvore seca com nós, estes os «nós» (nidhanas) da Alma que o Adepto do Fogo vai «desatando» de maneira radical ou ascética, ou seja, procurando alcançar a Iluminação espiritual no mais breve prazo de tempo possível, resultado assinalado na obtenção externa do Ouro alquímico.

A colagem dos processos das operações alquímicas, representadas desde símbolos e emblemas astrológicos e mitológicos a episódios específicos dos Antigo e Novo Testamentos, principalmente aqueles onde domina a presença feminina, seja como heroína ou como santa, ou ambas, recua ao ano 1100 na Europa, quando as universidades árabes passaram a divulgar a ciência alquímica, tendo-as frequentado místicos e sábios judeus e cristãos, adaptando os símbolos e alegorias herméticas a passagens demarcadas das escrituras sagradas, levando a leitura e interpretação dessas para o campo da heterodoxia característica da Tradição Primordial. Na Europa, foram precisamente os beneditinos, e depois os cistercienses seus descendentes, os primeiros a aceitar a ideia de ligar a Bíblia à Alquimia, facto que no mundo bizantino já era aceite desde Zózimo de Panápoles, que cerca do ano 300 d. C. deu início à Escola Alquímica em Alexandria e foi o primeiro a ser chamado Filósofo do Fogo. Ele havia recolhido esses conhecimentos herméticos junto dos sábios da Ásia, na China e sobretudo na Índia.

Ora, encontra-se no piso superior do Palácio da Regaleira um pequeno aposento possuído das especificidades de um laboratorium alquímico. Neste compartimento só entrava o proprietário, como contam os seus descendentes, o qual pega com outra contingência octogonal identificada como o scriptorium, também exclusivamente reservada a Carvalho Monteiro. Socorrendo-me da Cabala Fonética – que o Islão apoda poeticamente de “Fala dos Pássaros”, identificados com os Anjos – poderei muito bem transpor scriptorium e laboratorium para o sentido do ora et labora dos hermetistas beneditinos e cuja frase originou o filólogo laboratório, isto é, labor+oratório, expressão estática do universo alquímico. Ademais, em guisa de reforço da ideia desse mesmo universo, saindo desses aposentos para subir ao belveder por cima, vêem-se os seus colunelos decorados com conchas de caracol, que é a expressão simbólica da evolução gradual da Grande Obra do Supremo Demiurgo. Nos colunelos aparecem as efígies dos mais que certos inspiradores de Carvalho Monteiro: Ulisses (sem certeza mas com a certeza de ter sido o inspirador lendário da Ulisseia homérica), Platão ou Séneca (também sem certeza, porque um era filósofo e o outro legislador, saberes em que C. M. era formado, isto se não for a sua própria efígie), Gualdim Pais (como possibilidade, que foi o Grão-Mestre Templário donatário da Vila de Sintra no século XII), Luís de Camões (com toda a certeza, o épico da Portugalidade laureado), e Beatriz (com menos certeza mas certo de ter sido a musa amorosa de Dante Alighieri). Não faltam ainda, nos beirais sobre os terraços do edifício, motivos escultóricos decisivamente herméticos: a águia com seios de mulher, o coelho com escudo vazio, o morcego críptico, o canguru austral, etc. Neste expositório representa-se indiscutivelmente a Tradição Hermética da qual a Alquimia é o corpo, o Corpus Hermeticum.

A passadeira que cobria o soalho de acesso ao pressuposto laboratório era vermelha e tinha em banda, alternadas, a esfera armilar manuelina (insígnia de Hermes Trismegisto, consignado “selo hermético” da retorta adoptado pelos cabalistas judaico-cristãos portugueses dos séculos XIV-XV) e a cruz de Santo André, aspada, dentro de um oval. Este motivo seria aproveitado para o desenvolvimento posterior da tese destinada a vincular Santo André tanto com a “Terra Branca”, como com a presença “regular” de alguma maçonaria neste espaço, com descuro de todo o cenário simbológico envolvente, o que obriga a dizer umas quantas palavras sobre o assunto. Com efeito, a antiga Albion, “Terra Branca”, epíteto da Virgem Branca ou da Assunção (Alba, em gaélico), foi o nome dado à primitiva Escócia, cujo termo latino Scotia aparece pela primeira vez na Crónica Anglosaxónica do século X, generalizando-se o nome na Baixa Idade Média. Ora, Alba tinha por símbolo mítico o unicórnio mas que, com a cristianização, foi substituído por Santo André, até hoje Orago desse país. Este Apóstolo, padroeiro dos construtores e arquitectos, junto ao nome primitivo “Terra Branca”, foi assumido como o mestre-construtor do país dos scotis ou “homens livres”, nome gaélico dado tanto aos escoceses como aos habitantes da Hibérnia, actual Irlanda. Talvez por isso, no século XVIII a Maçonaria Especulativa tenha originalmente se cognominado de Escocesa e posto a Arte Real (simbolizada pelo leão) sob o padroado de Santo André (substituto do unicórnio)[56].

André provém etimologicamente do grego Andrós, significando “homem”. Andrós é uma contracção de Alexandrós, correspondendo a “defensor dos homens”. Ora Santo André relaciona-se com a ideia da ressurreição alquímica da ave Fénix, queimada sobre uma fogueira feita de dois lenhos em aspa, tal como a cruz em que ele foi crucificado em Patras, ele que fora discípulo de João Baptista e depois se tornara apóstolo de Jesus Cristo, razão porque na interpretação sinóptica da Escritura é considerado intermediário entre o Anunciador e o Anunciado, entre a Palavra da Anunciação (Prenúncio) e a Palavra da Revelação (Verdade)[57].

A forma oval com a cruz de Santo André representa o “Ovo d’Ouro” (Hiranyagharba, em sânscrito), a Substância Universal da qual nasceram todos os elementos da Matéria de que é formado o Universo, cujo movimento contínuo é dado pelo impulso do Pramantha ou “Cruz Cíclica” no centro da qual está a “fénix”, antes, Andrós ou o Demiurgo repartindo em ciclos a Vida Universal.

Por o conceito de ressurreição estar presente no simbolismo de Santo André, é que este tornou-se expressivo da própria Magnus Opus para os praticantes da Alquimia laboratorial, sobretudo para os que estão na sua fase derradeira, prestes a conquistar o “Ouro Filosófico” extraído da igualmente “Pedra Filosófica”: a realização da Crisopeia. Este período final da Grande Obra fica sempre assinalado pelo próprio templo como lugar de realização divina; talvez ou certamente por isso, observa-se na traseira exterior da capela da Regaleira, na direcção do acesso ao interior da torre, a sua goteira artisticamente esculpida dando a ideia de “forno alquímico” ou athanor, no formato singular de castelo cerrado assente sobre ondados (não só representativos da sua função de goteira mas igualmente expressivos da mareação dos elementos), sob o qual se oculta esta goteira bizarra, que é uma boca escancarada com a língua de fora, simbólica da Revelação de Deus. O facto do athanor alquímico assumir a forma de um castelo ou, mais commumente, de uma torre, significa que as transmutações procuradas nas operações metálicas humanas e naturais encaminham-se todas no sentido da elevação, tanto da água ao ar, como do chumbo ao ouro ou do peso carnal à leveza espiritual.

O pressuposto de ter havido aqui prática hermética por Carvalho Monteiro, sob que pretexto fosse, certamente não colidiria com a sua confissão religiosa e, ainda mais certo, estaria dentro do cenário simbólico de uma Alquimia Nacional, se assim pode dizer-se, posto os símbolos nacionais dominarem os restantes, inclusive aos mais herméticos ou esotéricos. A exaltação pátria está patente na antiga “sala do bilhar”, fortemente remodelada por Waldemar d´Orey cerca de 1950, que a alterou sensivelmente. As suas paredes estavam pintadas de folhas de arminho em losângulos onde alternadamente estavam inscritas as expressões latinas épicas Festina lente (“Apressa-te devagar”), atribuída pelo cronista Suetónio ao imperador Augusto (27 a. C.), e Macte animo (“Toma coragem”), verso do poeta Estácio ligeiramente modificado por Virgílio (Eneida IX, 641). Na fácies da chaminé do fogão de sala, “lareira medieval” projectada por Luigi Manini e lavrada por João Machado, mestre conimbricense, em pareceria com José da Fonseca, cerca de 1907, o mesmo Manini desenhou o brasão monogramado de António Augusto Carvalho Monteiro, que Waldemar d´Orey substituiria pelo brasão de Sintra. As armas do proprietário encabeçavam os brasões parietais de quatro cidades relacionadas com a sua pessoa, todas pinturas do arquitecto-cenógrafo italiano que felizmente sobreviveram ao germanismo d´Orey: Lisboa (onde residiu, o político), Coimbra (onde estudou, o intelectual), Porto (onde foi accionista da Bolsa, o empresário) e Braga (onde a sua mulher viveu, o religioso). Lisboa também pode ser interpretada como a cidade de Ulisses, herói solar, destinada a capital do V Império sonhado pelos Maiores da Portugalidade, Carvalho Monteiro incluído. Coimbra como a cidade da Rainha Santa Isabel e onde também Pedro Vicente da Torre se fixaria. Porto como o primitivo burgo de Vímara Peres, que no ano 868 lançaria os caboucos geopolíticos do que viria a ser o Portugal monárquico. Braga como o Primaz hispânico da Igreja Católica, religião professada pelo senhor da Regaleira.

Nas sancas parietais correm duas galerias iconográficas, sobre fundo de ouro, de vinte reis e quatro rainhas das várias linhagens dinásticas da monarquia portuguesa – Borgonha, Avis e Bragança – como programa pátrio delineado por Carvalho Monteiro e Luigi Manini em 1907, e concretizado pelo pintor ferreirense António Francisco Baeta. Os retratos reais, possivelmente inspirados na obra de Pedro de Mariz que foi a primeira obra historiográfica ilustrada com os retratos dos reis de Portugal[58], seriam pretexto para um artigo regionalista de Jorge Matos[59] que lhes deu a identificação seguinte:

Galeria leste. Dinastia de Borgonha: D. Afonso Henriques (1139-1185), D. Sancho I (1185-1211), D. Afonso II (1211-1223), D. Sancho II (1223-1248), D. Afonso III (1248-1279), Santa Isabel de Aragão, D. Inês de Castro, D. Dinis (1279-1325), D. Afonso IV (1325-1356), D. Pedro I (1356-1367), D. Fernando I (1367-1383. Dinastia de Avis: D. João I (1385-1433). Galeria oeste. Dinastia de Avis: D. Duarte (1433-1438), D. Afonso V (1438-1481), D. João II (1481-1495), D. Manuel I (1495-1521), D. João III (1521-1557), D. Filipa de Lencastre, D. Luísa de Gusmão, D. Sebastião (1557-1578). Dinastia de Bragança: D. João IV (1640-1656), D. Afonso VI (1656-1683), D. Pedro II (1683-1706), D. João V (1706-1750).

Mais concorde com Manuel Joaquim Gandra e a tese sebástica quase de certeza afim ao pensamento gnóstico-nacional de Carvalho Monteiro exposta nesta hoje chamada “sala dos reis”, reproduzo uns quantos excertos de uma sua interessante monografia editada[60]:

“Em suma: o duque de Bragança, que não se revia detentor dos sinais apontados pelas profecias, jamais parece ter-se creditado, nem como a 16.ª geração atenuada de Afonso Henriques, nem como o Capitão e Supremo Imperador alegado por elas[61], apenas aceitou ser aclamado (consoante ditava a tradição nacional), na condição de Libertador dos portugueses do seu cativeiro, suposto exórdio ou acto precursor do regresso de D. Sebastião e prelúdio da ventura que o seu advento representaria para Portugal.

“Para promover tal advento maravilhoso, e face ao exposto, tornam-se compreensíveis os motivos pelos quais D. João IV abdicaria em favor de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa!

“Assumindo-se, doravante, como um mero regente de Portugal, inaugurou o Interregno identitário nacional (que interrompeu Portugal), prognosticado em Ourique, lançando um anátema ou maldição sobre herdeiros e sucessores (bem como sobre os respectivos primogénitos masculinos) daqueles, incluso monarcas, que violassem o compromisso de vassalagem[62].

“Atento à mensagem implícita no acto joanino, António Augusto Carvalho Monteiro[63] dar-lhe-ia corpo na denominada Galeria dos Reis que se observa na Sala de Bilhar da Mansão.

“Aí, além de 4 rainhas (Santa Isabel, D. Inês de Castro, D. Filipa de Lencastre e D. Luísa de Gusmão), são figurados 16 monarcas (acham-se ausentes o Cardeal D. Henrique, bem como os Filipes, reis, ilegítimo, o primeiro, e intrusos, os espanhóis), o derradeiro dos quais, D. Sebastião (ostentando Coroa Imperial), encerra o ciclo monárquico português. Os quatro Braganças que lhe sucedem (D. João IV, D. Afonso VI, D. Pedro II e D. João V), destituídos de Coroa, não passaram, por conseguinte, de regentes do Reino.

“Enfim, aqui chegados, o leitor poderá legitimamente suspeitar ser minha convicção firme a adesão de António Augusto Carvalho Monteiro ao ideário Sebástico. Sim, de facto, além de coleccionador das fontes do Sebastianismo (Luís de Camões e Camoniana, incluídos), Carvalho Monteiro foi convicto adepto sebástico.

“A profissão de fé na Tradição Profética Lusíada foi-nos legada pelo próprio em dois impressivos monumentos, um destinado a ser exibido, outro absolutamente do foro íntimo: um brasão de armas e uma medalha emblemática, respectivamente.

“O campo do brasão de armas, concebido para acompanhar a Galeria dos Reis, é integralmente ocupado pela letra S, de Sebastião…

“A medalha em ouro que trazia ao pescoço juntamente com outras seis, todas emblemáticas do seu desígnio de vida, apresenta um leão entronizado, acompanhado pela divisa Quem ousará atacá-lo, decerto alusiva ao carácter universal e insuplantável do Encoberto…”

Retrato de D. Sebastião no Palácio da Quinta da Regaleira

O motivo por que a partir de D. João IV, com excepção de D. João V (também identificado ao Encoberto Imperador do Mundo, e talvez por isso), os reis e rainhas de Portugal nunca mais usaram coroa, merece explicação mais detalhada obrigando a recuar ao período da fundação histórica de Portugal em Guimarães, como já explicitei numa outra obra[64], certamente clareando ainda mais qual seria o sentido real de “religião pátria” para Carvalho Monteiro, posto o autor estar morto e só restar os sinais dos seus interesses quando vivo.

O culto vimaranense primitivo do tellos draconis (dragão telúrico) teve o seu espaço ocupado pelo do Sancte Spiritus ou Creator Spiritus ao qual o país foi consagrado, na pessoa de Maria, propagada pela escolástica eclesial assegurando o Marialis Cultus, que na sua expressão erudita vem a ser a Iniciação Senhorial característica da Honra da Ordem de Cavalaria, na qual eram iniciados os futuros cavaleiros que deviam ser tão puros e honrados quanto pudessem, à semelhança do que é a Mãe do Céu dando de si a Matéria-Prima com que se fez o Mundo e, no particular, Portugal. Razão de dizer-se que o Espírito Santo toma forma feminina em Maria ainda que, essencialmente, Ele participe das duas naturezas do Filho e da Mãe, esta que iconograficamente O traz sempre em Seus braços, no regaço ou no colo, como demonstrativo velado da natureza dúplice ou estado andrógino do Santo Espírito.

Cristo fica participando da natureza do Pai como Espírito, e Maria como Mãe ou Matéria em estado Santo ou de Santidade participa da natureza de Seu Filho, a quem oferece ao Mundo. Donde se conclui:

Se o Conde D. Henrique de Borgonha sonhou ou visionou a Divindade precipitar-se em forma cometária flamejante no rio separando a Galiza do Minho, que o levou e à progénie que para aqui trazia, no mesmo sonho ou visão, a exclamar: “Porto Graal! Porto Graal! Porto Graal!”, este o símbolo maior do Divino Espírito Santo, tanto como objecto sagrado como estado de consciência santificada, já o seu filho Afonso Henriques ofereceu o reino sonhado ao Divino ignorando a humanidade de Roma, inclusive Cristo tendo-lhe aparecido no Cruzeiro nas vésperas da Batalha de Ourique, decisiva para a independência definitiva da terra sua e de Deus que lhe garantiu os favores do Céu e a bênção eterna à gente portucalense.

Mais tarde, a Rainha Santa Isabel de Portugal e Princesa de Aragão, oficializa o Culto do Divino acompanhado das prerrogativas sobre-humanas da Páscoa Rosada em que se traduz o célebre “Milagre das Rosas”. Independência ameaçada, “Terra de Luz” perigando apagar-se, eis aí no século XIV o “Galaaz de Portugal”, o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, depois Frei Nuno de Santa Maria, levando D. João I, em vésperas da Batalha de Aljubarrota, a ter a visão exaltada de Nossa Senhora da Oliveira acompanhada de São Bernardo de Claraval. Mais uma vez, o Céu abençoou a terra pátria por Deus escolhida, e o perigo foi vencido. Finalmente, após os “60 anos fatais” da profecia, correspondendo ao tempo de ocupação Filipina de Portugal, D. João IV libertou o país da mesma e ofereceu a Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, a Coroa dos Reis nacionais, investindo-a, além de Mãe dos Céus que já era, Rainha de Portugal. Desde então, nunca mais as rainhas portuguesas (e até os reis) tornaram a usar coroa, que não concebiam dignidade para tanto comparando a sua míngua humana à grandeza divina da Mãe Soberana, a mesma que sob este título é aclamado na antiga terra árabe de Alolieh ou Loulé, no Algarve, terra que tão-bem conheço das horas passadas da infância e adolescência.

Conclui-se que, desde a primeira hora, Portugal está consagrado ao Divino Espírito Santo em Cristo e Maria sob o evoco Conceição, e, seja por qual e misteriosa maneira for, a Sua protecção nunca escusou aos seus filhos e ao desta “Terra de Luz”, por certo a caminho de um Império de Espírito que também é o Seu, abraçando a toda a Terra numa unidade de Amor e Graça.

O dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria foi proclamado pelo Papa Pio IX, em 1854, com a bula Ineffabilis Deus. Esta solene definição pontifícia foi resultado do desenvolvimento da devoção popular aliada a intervenções papais e infindáveis debates teológicos. O calendário romano já incluíra a festa em 1476, mesmo existindo desde o século VII a sua celebração na Igreja Oriental e que cedo entrou na Hispânia através do rito visigótico, paleocristão. Em 1570, Pio V publicou o novo Ofício e, em 1708, Clemente XI estendeu a festa, tornando-a obrigatória em toda a Cristandade.

Em Portugal, o culto foi oficializado sob feição patrística por D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança, assim aclamado no 1.º de Dezembro de 1640, quando se iniciava a Festa da Imaculada Conceição. Seis anos depois, com a aprovação das Cortes de Lisboa, o monarca dedicou à Virgem Imaculada todo o Portugal e o seu vasto Império de então, fazendo-a sua Rainha e Padroeira, e fê-lo através da Ordem honorífica por ele fundada no Alentejo: a Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, de que fez parte o comendador Francisco Monteiro, pai de Carvalho Monteiro, e em cuja igreja matriz está a imagem do Orago e Soberana celeste da pátria comum à lusitana gente[65].

O acto piedoso oficial de D. João IV foi confirmado pelo Papa Clemente X, que aprovou a solene declaração régia de 25 de Março de 1646. Esta fora rezada de joelhos e em voz alta pelo monarca na capela real dos Paços da Ribeira, em Lisboa, nos termos seguintes:

Dom João, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, de aquém e de além-mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia, etc., faço saber aos que esta provisão virem, que sendo ora restituído por mercê muito particular de Deus nosso Senhor à Coroa destes meus Reinos e senhorios de Portugal.

Considerando que o Senhor Rei Dom Afonso Henriques meu progenitor e primeiro Rei deste Reino, sendo aclamado e levantado por Rei, em reconhecimento de tão grande mercê, de consentimento de seus vassalos, tomou por especial advogada sua a Virgem Mãe de Deus Senhora nossa, e debaixo de sua sagrada protecção e amparo Lhe ofereceu todos seus sucessores, Reino e vassalos com particular tributo em sinal de feudo e vassalagem.

Desejando eu imitar seu santo zelo, e a singular piedade dos Senhores Reis meus predecessores, reconhecendo ainda em mim avantajadas e contínuas mercês e benefícios da liberal e poderosa Mãe de Deus nosso Senhor, e por intercessão da Virgem Nossa Senhora da Conceição.

Estando ora juntos em Cortes com os três Estados do Reino, lhes fiz propor a obrigação que tínhamos de renovar e continuar esta promessa, e venerar com muito particular afecto e solenidade a festa de sua Imaculada Conceição. E nelas, com parecer de todos, assentamos de tomar por Padroeira de nossos Reinos e senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição, na forma dos Breves do Santo Padre Urbano VIII, obrigando-me a haver confirmação da Santa Sé Apostólica, e Lhe ofereço… à sua Santa Casa da Conceição sita em Vila Viçosa, por ser a primeira que houve em Espanha desta invocação, cinquenta cruzados de ouro em cada ano, em sinal de tributo e vassalagem.

E da mesma maneira prometemos e juramos com o Príncipe e Estados, de confessar e defender sempre (até dar a vida sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original… esperando com grande confiança… que por meio desta Senhora (Deus) nos ampare e defenda de nossos inimigos para glória de Cristo nosso Deus, exaltação da nossa Santa Fé Católica Romana, conversão das gentes e redução dos hereges.

E se alguma pessoa intentar coisa alguma contra esta nossa promessa… queremos que seja logo lançado fora do Reino; e se for Rei (o que Deus não permita) haja a sua e nossa maldição, e não se conte entre nossos descendentes… e esta minha provisão se guarde no Cartório da Casa de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, e na nossa Torre do Tombo.

Dada nesta nossa cidade de Lisboa, a 25 de Março de 1646 – El-Rei.

Na antiga sala de jantar do Palácio da Regaleira, hoje chamada “sala de caça”[66], encontra-se uma lareira monumental, obra do escultor Rodrigo de Castro, onde se vê um monteiro com dois cães, um galgo e um pastor, defronte para um javali, no extremo da sala, obra do mesmo autor. Representa a demanda, a quête, a aventura do Iniciado protegido pelo cão, simbólico do guardião mas também do fogo (do lar, donde “lareira”). Sendo demanda simbólica com sentido hermético, neste sentido o galgo vem a designar o “solve” e o pastor o “coagula”, estando de lado a figura dum encapuçado: será o Filósofo do Fogo, o Superior Incógnito. A escultura monumental da montaria ao veado como se vê transversalmente nesta lareira, igualmente obra de Rodrigo de Castro, denuncia o dito Filósofo do Fogo como o próprio Augusto Carvalho Monteiro, posto que na relação axional entre o monteiro e o carvalho do baixo-relevo incrustado na lareira alude-se à pessoa do proprietário, cujas iniciais AACM aparecem envoltas no cordame que cinge o baixo-relevo, unificando a emblemática obra em torno da personalidade do seu encomendante[67].

No piso superior do palácio, o aposento que se julga ter sido o da biblioteca de Carvalho Monteiro, tem o seu tecto decorado por um grande painel com a linda pintura de três deusas. São as representações tradicionais, inspiradas na mitologia greco-latina, das três Parcas, Normas ou Graças do Mundo que o Cristianismo colaria às três Virtudes capitais: , Esperança e Caridade ou Amor cujo facho jamais se apaga. Tais Ragas (“Normas”), as mesmas da Divina Comédia de Dante, assistem às três tradicionais e iniciáticas Margas (“Caminhos”): Dever (Karma-Marga – Físico, Fé), Devoção (Bhakti-Marga – Emocional, Esperança), Inteligência Iluminada (Jnana-Marga – Mental, Caridade). Contudo, a despeito de alguns verem na pintura as “Três Luzes da Maçonaria” (Força, Sabedoria e Beleza) dando-a como prova flagrante da simpatia ou até mesmo afiliação maçónica de Carvalho Monteiro, recentemente Manuel Gandra veio afirmar que a mesma foi adquirida pela família d´Orey em 1950, logo, não fazia parte do imobiliário artístico do proprietário original.

O motivo da Trindade repete-se em igual número de portais monumentais neomanuelinos (dois abrindo para varandas sobre a rua e um para a escadaria levando ao cimo da torre de prazer ou miradouro) numa sala vizinha à do referido painel, e que talvez fosse o motivo para os d´Orey terem-no colocado aí, mesmo quase de certeza desconhecendo o significado desses portais nesta sala tendo a um canto uma lareira feita de ferro forjado, decorada por uma cabeça de leão flamejante dentro de um trevo (donde três). O portal encimado por uma cabeça de leão e decorado nos colunelos por bustos de meninos, sinónimos de pureza e virgindade, representará a Idade do Filho, o “pequeno Leão” ou Regulus, em latim, expressão menor do Grande Rei ou Divindade Suprema prefigurada por Cor Leonis (“Coração de Leão”), devido à posição central que ocupa no Empório como superior a todos os astros e signos. A estrela Regulus ou Régulo era considerada a coroa da constelação dos reis, e por isso o “novo Leão jubado” associava-se à tribo de Judah e ao próprio Cristo como o Messias aclamado Senhor do Mundo, o Leão Ardente da Nova Jerusalém[68]. O portal oposto é encimado por uma cabeça menino cercada de motivos florais, que pode muito bem ser alusão simbólica da Idade do Espírito Santo. No portal central, por cima de uma esfera armilar cercada de cordões de marear, vê-se Adão e Eva como a parelha primordial nascida na primeira Idade do Pai, o Senhor das Alturas (marcadas pela ascensão ao miradouro). Como andrógino separado pela macieira do Paraíso, em cujo tronco se enrola a serpente, figuração do Pecado Original como perversão do Mental caído no Sexo, tem-se aí o casal progenitor do Género Humano assumido e identificado pelas letras no tecto da sala, ou seja, um P e dois AA entrecruzados, casados, iniciais de Perpétua (nome da mulher de Monteiro) e do nome próprio do proprietário (António Augusto). Revela-se nisto a heráldica falante cujo sentido místico aqui associa-se abertamente ao tema translatio imperii, que no século XII foi concebido como as Idades do Mundo (os portais que abrem para uma nova visão da existência) pelo abade cisterciense da Calábria, Joaquim de Flora[69].

Por fim, a capela. Privada, exclusiva da família, o proprietário freguês ou filius Ecclesiae, “filho da Igreja”, não se poupou a mimoseá-la com os mais finos requintes e particularidades eruditas do simbolismo cristão entre 1904 e 1910, com tão grande e singular riqueza artística que a deixaria como um dos mais expressivos edifícios religiosos neomanuelinos de Sintra e do país.

Encimada pela cruz pátea dada como a primacial da Cristandade no Oriente e que a partir do século XII a Ordem do Templo adoptaria como insígnia com o mesmíssimo sentido, a capela parece reservar assim o sentido de primaz salvífico para a cristianíssima família Carvalho Monteiro. Esta intenção devocional é reforçada pelo motivo escultórico da Anunciação, por cima da entrada no templo, no qual o Padre Eterno aparece abençoando por cima de dois Anjos abrindo um listel com a frase latina retirada do Evangelho de S. Lucas (considerado o evangelista mariano): Ecce Ancilla Domini, “Eis [aqui] a Serva do Senhor” (Lucas, 1:38). A “Serva do Senhor” é a própria Igreja, sendo o motivo do nascimento pelo baptismo em Maria, expressiva da assembleia cristã, o mesmo que receber a Salvação, que é Cristo Filho daquela. A Mãe é a Igreja e o Filho é o Sacramento. Para o ministério dos sacramentos teria que haver sacerdote, posto que a capela só a é quando há capelão, e havendo-o – possivelmente da igreja de Santa Maria de Sintra de que Carvalho Monteiro era freguês assíduo – foram encomendados a Luigi Manini os vários desenhos para a execução das alfaias litúrgicas, o que ele fez, tendo viajado em seguida, em 1908, para Itália, indo confiar a sua realização à oficina de Giuseppe Guelfi, em Milão.

As alfaias realizadas segundo o estilo da ourivesaria portuguesa, concebidas para aparelharem harmoniosamente com o estilo da capela, foram as seguintes: crucifixo, cálice, patena, galheta, moldura, sineta, lampadário, píxide para as hóstias, o hostiário, naveta em forma de caravela para o incenso, cibório e turíbulo. De entre todas sobressaía a custódia neomanuelina, imitação da Custódia de Belém (século XVI), com pé hexagonal, encimada pela esfera armilar onde assenta a cruz (que no desenho de Manini era uma cruz pátea), abrindo-se no repositório destinado a receber o Santíssimo Sacramento, obra muito rica que Guelfi, orientado por Manini, terminou em 1911. Quando a Quinta da Regaleira foi vendida a Waldemar d´Orey, a família Carvalho Monteiro recolheu e levou consigo todas as alfaias da capela e, em 1956, doou ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima essa rica custódia, e fê-lo certamente porque o seu patriarca, António Augusto, revelara-se crente nas chamadas aparições marianas na Cova da Iria, não tendo recusado encomiá-las em privado e em público, como soube junto das fontes familiares. Adianto ainda que foi a esposa de Carvalho Monteiro, Perpétua Augusta, senhora muito devota, a ter o papel relevante da decoração do templo, sobretudo na rica paramentária (toda ela executada com requinte, nas cores litúrgicas – branco, vermelho, roxo e negro – em tecido adamascado e lavrado a ouro), contando para isso com a orientação de um clérigo próximo da família.

Laterais à entrada no templo, estão postadas em dois nichos as estátuas em tamanha natural de Santo António de Lisboa e de Santa Teresa de Ávila, bem podendo ajustar-se os seus nomes aos de António e Teresa, esta como a mãe do proprietário, mas sobretudo revelando ao mesmo tempo que guardando (como guardas da entrada na Casa do Senhor), os ideais patrístico e matrístico da Igreja levados a efeito, respectivamente, pela Ordem Franciscana e pela Ordem Carmelitana, nas quais esses santos ibéricos foram as sumidades máximas, ele como doutor eclesial, expressando o pensamento superior, e ela como visionária profeta, manifestando o sentimento exaltado, ambos ao mesmo nível ou em perfeito equilíbrio, tal qual devem estar a cultura e o carácter, de maneira a possibilitar alcançar na Terra das venturas do Céu.

O desenho e modelação das estátuas da capela são do ilustre antigo professor da Escola de Desenho Industrial de Coimbra, António Augusto Gonçalves, tendo sido a execução das esculturas decorativas da autoria do seu discípulo e professor na mesma Escola, habilíssimo artista mondeguino, João Machado, a quem se deve o baixo-relevo do púlpito, “Lava-Pés de Cristo aos Apóstolos”, por sua vez distribuindo pelos seus assistentes outros trabalhos: António Gomes realizou o sacrário e João das Neves fez o baptistério, postado à esquerda de quem entra, com a Pomba do Espírito Santo, símbolo da Revelação de Deus como Orago do Sacramento do Baptismo, por cima.

Na fácies da pia baptismal está esculpido o busto de António Augusto com um leão por detrás, revelando-se novo motivo messiânico conformado ao significado do baptismo, singularmente particularizado na figura do patriarca da família Carvalho Monteiro, parecendo querer reproduzir (ou evocar o padroeiro S. João Baptista da terra natal de seu pai, Lagos da Beira) a acção pastoral do Baptista no deserto: “Então vieram até ele Jerusalém, toda a Judeia, e toda a região circunvizinha ao Jordão. E eram por ele baptizados no rio Jordão, confessando os seus pecados” (Mateus, 3:5-6). É o que se denominou baptismo por imersão, como foi praticado durante largos séculos, sendo simbólico da purificação e da renovação. Era conhecido no meio Zadokita e Essénio (assim como o ritual do “lava-pés”, ou da humilhação sacerdotal), como no Judaísmo em geral, tomando-o como rito de passagem, especialmente do nascimento e da morte. No entanto, os editores da Bíblia de Jerusalém observam, a esse propósito, aquilo que diferencia o baptismo de João dos outros ritos de imersão: tinha um objectivo já não só ritual mas sobretudo moral; não se repetia, o que lhe dava o carácter de uma iniciação; por fim, tinha carácter escatológico, introduzindo o baptizado no grupo dos que professavam uma espera diligente do Messias que estava para vir e que constituíam, por antecipação, a sua comunidade.

Quaisquer que fossem as modificações trazidas pela liturgia das diversas confissões cristãs, o rito do baptismo continua a incluir dois gestos ou duas fases de notável alcance simbólico: a imersão e a emersão. A imersão, hoje reduzida à aspersão, é por si só rica de muitos significados: indica o desaparecimento do ser pecador nas águas da morte, a purificação através da água lustral, o retorno do ser à fonte de origem da vida. A emersão revela a aparição do ser em estado de graça, purificado, reconciliado com a fonte divina de vida nova.

A análise mais detalhada do rito católico do baptismo faz ressaltar o riquíssimo simbolismo dos múltiplos gestos e objectos que intervêm na administração desse sacramento: imposição das mãos, insuflação, sinais da cruz, tradição do sal da sabedoria, abertura da boca e das orelhas, renúncia ao demónio, recitação do Credo, unção de diversos óleos de exorcismo e de Eucaristia, colocação da vestimenta branca e do círio aceso. Todos os passos desta cerimónia iniciática traduzem a dupla intenção de purificar e de vivificar. Revelam também a estrutura folheada do simbolismo traduzido numa acção efectiva: em primeiro plano, o baptismo lava o homem da sua sujidade moral e outorga-lhe a vida eterna (passagem da morte à vida); em segundo plano, evoca a morte e a ressurreição de Cristo: o baptizado assimila-se ao Salvador, a sua imersão na água simboliza a colocação no túmulo, e a sua saída a ressurreição; em terceiro plano, o baptismo liberta a alma do baptizado da sua sujeição ao demónio, introduzindo-o na Milícia de Cristo ao impor-lhe a marca do Espírito Santo, pois esta cerimónia consagra um compromisso de servir à Igreja. Não opera uma transformação mágica, antes confere a força de desenvolver-se, pela fé e pelos actos, no sentido do Evangelho. Toda esta liturgia simboliza e realiza, na alma do baptizado, o nascimento da Graça, princípio interior de aperfeiçoamento espiritual[70].

O trabalho da talha de todo o imobiliário da capela ficou a cargo de mestre Júlio da Fonseca, que com os seus irmãos José da Fonseca e Luís da Fonseca ficaram a ultimar os trabalhos da Regaleira depois da partida de Luigi Manini em 1912, desgostoso com o que via em Portugal (regicídio, deposição da monarquia, revoluções permanentes, etc.). Para o pavimento, Manini realizou esboços iniciais em grafite e um belo desenho final aguarelado, os quais foram levados para Itália para serem realizados pelo atelier Castaman de Veneza, assim como o painel do altar-mor. À firma italiana Corvaya Bazzi & C.ª devem-se igualmente os painéis de vidro feitos em 1910, simulando técnica de vitral, desenhados por Manini de acordo com a vontade de Carvalho Monteiro e colocadas por Júlio da Fonseca.

O interior da capela condiz com o seu exterior: sobre o fundo alvo das suas paredes, o encanto das suas formas e ornamentos revelam a mensagem devota de sabedoria e piedade, mas sobretudo a esperança solene num supremo e derradeiro momento a advir, o Advento.

Dentro, logo à entrada sobre o nártex[71], está o Triângulo com o Olho da Divina Providência ao centro, designando Deus como Três Pessoas distintas mas sendo Uma só em essência, assentando sobre a Cruz pátea em resplendor, simbólica da Cristandade triunfante. Desta maneira, ao transpor o nártex o crente é, simbolicamente, além de abençoado, reconhecido como fazendo parte da Milícia do Senhor, com direito a privar da sua Casa. Este Delta luminoso pode muito bem sujeitar-se a interpretações pitagóricas e platónicas afins às primitivas doutrinas gnósticas, e como está assente sobre a Cruz tanto basta para desmentir as pretensões avulsas a identificá-lo como triângulo maçónico, obviamente podendo estar em esplendor mas de certeza sem a Cruz. Além disso, querer que haja um delta maçónico numa capela católica vale tanto como dizer que “Maomé morreu de indigestão de toucinho”…

Aqui, sim, para afastar de vez pretensões inválidas simbólica e historiograficamente, por não passarem de lúdicas avenções, poderei arrematar com um pouco de cada um dos três poemas escritos por Fernando Pessoa em 9 de Junho de 1935, St.º António – S. João – S. Pedro, publicados por Yvette Kace Centeno[72]:

Santo António:

Santo António és portanto
O meu santo,
Por isso quero que passes
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Catholico, apostholico e romano.
(…) deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
(…) Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei Antonio –
Isso sim.

São Pedro:

Parece que com essas barbas brancas
Por um phenomeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.
(…) O Santo são as chaves, e não tu.

São João:

Eu a julgar-te até catholico,
E tu sahes-me maçom.
Bem, ahi é que há espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vario.
Que o teu sorriso doure quanto estudo
E o teu cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Prompto a fazer falar o coração
Alto e bom som
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo o que torna o homem precario.
Se és maçom,
Sou mais do que maçom – eu sou templário.
(…) Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal.

Sobre o altar ao fundo, os escultóricos de dois anjos, turibulário (“o que agita o turíbulo para incensar”) e turiferário (“o que leva o turíbulo”), ladeiam o painel central representativo da Coroação da Virgem, donde a capela herda o nome (escusando o atributo de Santíssima Trindade que hoje lhe é dada gratuitamente, ainda assim repleto de intenções alheias aos cânones deste espaço sagrado), reforçado pelo M de Maria cinzelado na pedra branca sobre a ara com a pomba por cima. Feito em mosaico italiano, o painel representa a Pomba do Espírito Santo baixando e de cada lado três querubins (do hebraico kerub, “tesouro”, e cherub, “guardião”, logo, “guardiões do tesouro” que é “real segredo”, aqui por certo a ver com o mistério da eleição da Igreja de Cristo), os quais testemunham Jesus Cristo sentado no trono de glória coroando a mulher sem halo de santidade, nisto tanto podendo ser Santa Maria antes da sua eleição como Mãe dos fiéis que é a Igreja, como também Maria Madalena, a «pecadora arrependida» que na iconologia cristã é a única mulher a não apresentar halo de santidade. Seja como for, como “tesouro esposal” ou “tesouro filial”, Maria tem o reconhecimento da coroação pelo Verbo Vivo, e este é representado pelo querubim soprando sobre a coroa o ânimo provindo do Céu.

A Coroação da Virgem equivale à sua proclamação como Rainha dos Céus e da Igreja, a incarnação do Espírito Santo, cujo poder se manifesta pelos sacramentos, sobretudo o da conversão que é o do baptismo, seja pela água da confissão, seja pelo fogo da sabedoria ou entendimento. Neste último sentido, a Coroação da Virgem Maria equivale ao seu reconhecimento como Shekinah, a “Presença Real de Deus na Terra”, tema caríssimo à Cabala judaica incorporado no Cristianismo como a mesma “Coroação da Virgem”. A palavra “coroa” é originalmente muito próxima dessa outra “corno”, e exprimem a mesma ideia: a de elevação, poder, iluminação. Uma e outro elevam-se acima da cabeça e são simbólicas do poder e da luz. Este será o significado da coroa crística imposta a Santa Maria pelo seu Divino Filho, pois só se chega a Ele por Ela, tal como só por Ele se chega a Deus Pai. Por esta razão, Maria tinha que ser reconhecida como Rainha do Mundo e do Céu.

A origem do tema “Coroação da Virgem” tem por base o último episódio da vida de Santa Maria, sendo a sequência da Assunção ou Dormição. A sua base bíblica é encontrada no Cântico dos Cânticos (4:8), nos Salmos (44:11-12) e no Apocalipse (12:1-7). O título de “Rainha do Céu” (Regina Coeli) dado a Nossa Senhora remonta, no mínimo, ao século XII e a São Bernardo de Claraval. O tema foi atraído a partir da ideia da Virgem Maria como o “Trono de Salomão”, que é o trono onde a Mãe se senta com o Menino no regaço (e que é o significado do trono feito de carvalho dentro desta capela). Desde então o trono foi assumido cada vez mais como assento de realeza, retratando a corte celestial espelhada na corte terrena. Por fim, a “Coroação de Maria” é o quinto mistério glorioso do Santo Rosário, cujo fruto é a perseverança, a confiança na intercessão da Mãe de Deus. A Igreja Católica celebra o evento em 22 de Agosto.

A Coroação da Virgem influiu na tradição medieval do sacramento do casamento com Deus das religiosas que contraíam votos perpétuos, durante o qual o bispo colocava uma coroa na cabeça da virgem e proferia as palavras sacramentais: “Recebe um sinal de Cristo sobre a cabeça, a fim de que te tornes sua esposa. E se permaneceres nesse estado, serás coroada pela eternidade”.

A expressão mais notável da casada com Cristo por certo será Maria Madalena, a que O ungiu com perfumes e bálsamos, reconhecendo a sua realeza divina de Ungido ou Christus. Pelo enigma com que as próprias escrituras sagradas envolvem a sua pessoa muito próxima, de João Evangelista, póstero de João Baptista, Madalena, por todos predicados que a envolvem, inclusive o de “torre” presente no seu nome hebraico, veio a tornar-se a expressão venusta da iniciação críptica ou subterrânea (também pela vida eremítica que levou numa gruta no Sul de França após ter emigrado da Palestina para aí, segundo a Lenda Áurea como retrato figurativo da disseminação pastoral dos primeiros tempos dos Apóstolos e Padres Apostólicos, começo da Sucessão Apostólica), alegoria gnóstica aplicada à transmissão regular de um saber esotérico, secreto e heterodoxo, com isso ligando-se à Igreja “Secreta” de S. João Baptista, que ainda é a dos Padres do Deserto, aqui não como terreno árido mas como área sagrada vedada ao ordinário do mundo profano, destinada ao exercício da arte sacerdotal. Aliás, a cabeça «bafomética» de São João Baptista revela-se adiante e acima da cruz boleada que orna o altar.

Adiante do painel central sobressai o M encimado pela Pomba do Espírito Santo num lindo rendilhado de mármore alvo, numa espécie de dossel, pálio ou baldaquino, reforçando e destacando a importância e primazia do espaço sagrado. O dossel imóvel é igual ao dossel móvel, um pálio, que é um toldo com postes sob o qual se abriga a principal dignidade religiosa durante as procissões de maior pompa. É herança da primitiva jupa com que os antigos hebreus, no seu êxodo pelo deserto do Sinai, abrigavam a Arca da Aliança, e foi assim que este elemento que figurou depois no antigo Templo de Salomão, ficando como símbolo da antiga Aliança de Deus com o seu Povo, a Humanidade por Ele escolhida para O representar na Terra. Aqui, nesta capela da Regaleira, o dossel representa a Aliança de Cristo com Maria, a Igreja ou Assembleia, por meio da celebração da Santa Eucaristia onde se revela o Espírito Santo.

O baldaquino, dossel ou pálio, seja imóvel ou móvel, é sempre símbolo de protecção, seja oferecida ou seja recebida por aquele que se encontra debaixo dele. Se se tratar de um rei, ele oferece-a aos seus súbditos recebendo-a do Céu. O rei é o centro de irradiação de um núcleo humano e como tal é a representação do Centro do Mundo, do mesmo Rei do Mundo – representado aqui por Cristo – irradiando como Sol Vivo para os seres viventes em seu redor, a comunidade dos crentes. Daí o uso do dossel para tornar manifesta essa dignidade e esse poder. O dossel rectangular (que aqui é o formato do altar) tem relação simbólica com a Terra e os bens terrenos, portanto, com a Realeza ( encómio de exaltação divina da monarquia pelo “supra-monárquico” Carvalho Monteiro) e o Poder Temporal, donde o apodo de Pedro (a Petra ou Pedra Angular com que se construiu o edifício social da Igreja) como “príncipe dos Apóstolos”, sendo Cristo o Rei. O dossel circular (aqui expressado pelos círculos fechando as cruzes no chão, cerceadas de estrelas de cinco pontas) expressa os bens celestes vertidos do próprio Céu, com isso representando o Sacerdócio e a Autoridade Espiritual.

Por esse motivo, o Alcorão dispõe o simbolismo do baldaquino (al-rafraf) em relação com o Paraíso, pelo que os baldaquinos supremos designam a morada da Glória de Deus, ou seja, por onde Ele se manifesta desocultando-se através da graça da Fé e da Sabedoria, facto que a religião judaica chama Shekinah, “manifestação real de Deus”, e o Cristianismo de Revelação do Espírito Santo. Por tudo isto, ainda, os budistas e os hindus consideram o baldaquino como o objecto principal do Chakravarti, o “Rei do Mundo”, função que a sua catequese naturalmente atribui a Buda e a Vishnu. Isto por essa peça representar o Trono de Deus, por onde Ele se revela ao Mundo através do monarca ou do pontífice canonicamente investidos para o efeito.

As quatro colunas do baldaquino (aqui assinaladas nas ombreiras laterais do painel extensivas às duas bases do altar, onde figuram Santa Isabel, prima da Virgem Maria, e o Apóstolo S. Marcos) representam os quatro princípios naturais (Ar, Fogo, Água, Terra) que animam e sustêm o Mundo, facto que a iconologia religiosa por vezes assinala em quatro figuras angélicas com os nomes tradicionais de São Miguel, São Gabriel, São Rafael e o Santo Custódio (Ariel). Ao centro fica o altar como “quinta coisa” ou quintessência, para onde se dirige o foco da Fé e onde a Fé toma forma através da celebração sagrada.

Com efeito, para o altar, microcosmo catalizador do Universo sagrado, convergem todos os gestos litúrgicos, todas as linhas arquitectónicas. Reproduz em miniatura o conjunto do templo e do Universo no seu significado transcendente ou divino. No recinto consagrado, devidamente preparado e aparelhado, é onde o sagrado transcendente se condensa com a intensidade máxima através do sacerdote ou o que exerce o “sacro ofício”, isto é, o que realiza o sacrifício sagrado sobre o altar ou ara, ou junto a esta. Por isto o altar (de altum e altus, donde altare, em latim, “elevado, alto”) é o ponto mais elevado em relação a tudo que o rodeia no espaço do templo. Igualmente reúne em si o simbolismo de “Centro do Mundo”, ou seja, o ponto central donde irradia a Luz da Fé e para onde conflui a devoção da assembleia. Como centro activo da espiral ou passos graduais da celebração eucarística, procurando a santificação dos corpos e a assunção das almas dos fiéis, desta maneira sugere e influi sobre a espiritualização progressiva do Mundo e do Universo. O altar representa todo o templo e o momento em que o ser se torna sagrado por meio de uma operação sagrada que o divinizará, nem que seja só durante os instantes da celebração.

Por isso, o altar constitui o “ponto geométrico” onde confluem e se concentram as energias do Céu e da Terra. Estas representam-se no que o Judaísmo chama Debir Hekal, as três colunas ou pilares do Poder da Vontade, do Amor-Sabedoria e da Actividade Criadora de Deus (também representados nos três degraus tradicionais que levam ao estrado do altar), que no altar-mor da igreja católica ficam assinaladas nas duas colunas laterais ao sacrário. Essas colunas representam a Sabedoria de Deus indicada na linha vertical do altar ao Céu, e do Amor de Deus apontado na linha horizontal do altar à Terra ou assembleia dos fiéis. O altar é, com efeito, verdadeiramente a cabeça e o coração do templo, o seu espaço mais sagrado a partir do qual se organiza toda a sua estrutura, e onde simbolicamente finaliza o percurso horizontal (assimilado à passagem pelo labirinto), começando a ascensão vertical que conduz aos Mistérios mais profundos da Iniciação Mística, onde a Igreja de Pedro finda para iniciar a Igreja de Cristo nessa viagem axial para o Paraíso, a Jerusalém Celeste ou o Mundo Espiritual. O altar pertence assim ao simbolismo da “passagem” ou “trânsito” de uma realidade a outra, neste caso, da realidade condicionada e horizontal (limitada pelo tempo e o espaço) à realidade incondicionada e vertical, que é divinamente eterna e infinita.

Quem entra na capela, vê no seu pavimento ladrilhado primeira a Cruz da Ordem do Templo e após a Cruz da Ordem de Cristo sucessora daquela em Portugal, como se significasse estar em chão sagrado onde o Cristianismo presente é todo ele com sentido exclusivamente nacional, e que todo o recheio artístico trazido de Itália para aqui seria uma espécie de vazar Roma e encher Lisboa, que é dizer, Portugal, o que vai de encontro ao sentido camoniano da translatio imperii como se lê no Canto 6, 7, de Os Lusíadas:

Via estar todo o céu determinado
De fazer de Lisboa nova Roma;
Não no pode estorvar, que destinado
Está doutro Poder que tudo doma.

Isso vai de encontro ao tema do Quinto Império sob o Orago da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, tema caríssimo ao padre António Vieira no século XVII e que tão poucos têm compreendido por não saberem separar o sebastianismo vermelho (político e reaccionário) do sebastianismo branco (erudito e simbólico)[73]. Já nos meados dos anos 80 do século findado eu apontava haver sinais disso mesmo dentro desta capela, inclusive sendo também eu quem os apontou em primeira mão à dr.ª Denise Pereira da Silva, entidade responsável na Fundação Cultursintra, na altura em que a Câmara Municipal de Sintra acabara de comprar a propriedade. Pois bem, eles estão na balaustrada do coro onde vêem-se enrolados em cordame de marear o III e o V em letras romanas. III para o Espírito Santo e V para o Império…

Segundo o esquema escatológico do Padre Vieira (1608-1697), os cinco Impérios do Mundo (correspondendo às Yugas, Idades ou Ciclos tradicionais)[74] são os seguintes:

SATYA-YUGA – IDADE DE OURO – I IMPÉRIO ASSÍRIO
TETRA-YUGA – IDADE DE PRATA – II IMPÉRIO PERSA
DWAPARA-YUGA – IDADE DE BRONZE – III IMPÉRIO GREGO
KALI-YUGA – IDADE DE FERRO – IV IMPÉRIO ROMANO
KRITA-YUGA – IDADE DE OURO – V IMPÉRIO PORTUGUÊS

Esses 4+1 Impérios descritos por Vieira, aliás, de relações próximas com a Cabala judaica através do seu amigo Menasseh Ben Israel, o madeirense Manuel Dias Soeiro[75], inspiraram-se no episódio descrito no Antigo Testamento que relata o sonho de Nabucodonosor, interpretado pelo profeta Daniel, no qual o rei sonhou com uma estátua gigantesca com cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, as ancas de bronze e as pernas metade de ferro e metade de barro, destruída por uma pedra que logo se transformou numa alta montanha enchendo toda a Terra. Diz Daniel (2:44-45): “O Deus dos Céus fará aparecer um Reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará a outro povo. Foi o que pudeste ver na pedra que se desprendia da montanha sem intervenção de mão alguma, e que reduzia a migalhas o ferro, o bronze, a argila, a prata e o ouro”. Logo concluindo Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco[76] que “a misteriosa Pedra, que derrubou a Estátua, representa o V Império de Cristo”, a irromper no Ocidente Médio e Extremo, isto é, em Portugal e no Brasil.

António Vieira reconhecia com verídicas as profecias do sapateiro do Trancoso, Gonçalo Anes Bandarra, referentes ao destino privilegiado de Portugal, e deu realce à 1.ª quadra do III Corpo de Trovas do dito profeta popular, reconhecendo nela o esboço das três Idades do Mundo segundo Joaquim de Flora (Idade do Pai – Israel; Idade do Filho – Roma; Idade do Espírito Santo – Lisboa):

Em vós que haveis de ser o Quinto
Depois de morto o Segundo
Minhas profecias fundo
Nestas letras que vos aqui pinto.

Nas variantes VOS e AQUI da quarta linha, condensa-se o mistério[77]. Desdobrando-as em palavras latinas, tem-se:

VOS – Vis (Força) / Otium (Ócio) / Scientia (Ciência).
AQUI – Arma (Armas) / Quies (Sossego) / Intellectus (Inteligência).

Com isso, fica-se perante o esquema de Flora e o seu modelo explicativo da História da Humanidade, onde a trasladação dos impérios acompanha a sucessão das Pessoas da Santíssima Trindade, explicação para a qual ele distingue dois tipos de inteligência: a “segundo a Letra” (exotérica) e a “segundo o Espírito” (esotérica).

1. Segundo a Letra ou típica: histórica – moral – alegórica.

2. Segundo o Espírito ou atípica: tropológica – contemplativa – analógica.

Aquele que “será o Quinto”, para o padre António Vieira é o Quinto Império do Mundo, Império simultaneamente espiritual e temporal, tendo como “Cabeça de Tibes” a Lusitânia[78]. Como disse, os Impérios anteriores haviam sido o Assírio, o Persa, o Grego e o Romano, sendo o Português o derradeiro, incluindo no espaço lusófono o Brasil, este que já antes, em 1598, Pedro de Mariz chamara de “Nova Lusitânia”. Certamente Carvalho Monteiro, brasileiro nado, deteria todos estes conhecimentos da translatio imperii, ou não tivesse mandado colocar o III e o V na balaustrada do coro da sua capela, onde um vitral retrata sete cabeças de meninos (os seus sete netinhos) em torno de um triângulo dourado, expressivos dos “Virgens Celestes”, chamados Kabires na cultura assíria e Kumaras na hindu, cerceando o Deus Único e Verdadeiro manifestado como Três Hipóstases que são as mesmas “Pessoas” da Trindade.

Duas portas de carvalho laterais ao altar, dão acesso à torre e à sacristia, respectivamente, configurando os seus postigos a Grã-Cruz da Ordem do Santo Graal vertida na de São Bento de Avis. Na pequena sacristia, vê-se a escultura do Agnus Dei postado sobre o Livro da Revelação, estando esculpidos a um canto os vários instrumentos da Paixão do Senhor, com destaque para o Santo Cálice envolto num “laço de amor”, além da imagem de uma senhora em atitude de exaltação ao céus (a qual me intriga se será Santa Teresa, Santa Madalena ou Santa Noémia) com o olhar dirigido ao alto da torre sineira, e um novo vitral com a Cruz da Ordem de Cristo e o IHS desfeche o compósito onde claramente predomina a formula mentis lusitanea como base da “religião pátria”, aqui com o óbvio sentido gnóstico onde se dá primazia tanto ao Apocalipse como à Paixão segundo São João.

Na capela, do lado direito de quem entra, uma escadaria estreita em caracol conduz à cripta, de ambiente mais ascético com o seu despojamento austero. Feita em abóbada de berço com paredes pintadas de branco, além do seu chão ladrilhado em xadrez só apresenta uma pia de água benta e um altar ao fundo com uma cruz franciscana. Por esta cripta tem-se acesso ao jardim cuja entrada está vedada por um portão gradeado ostentando um pentagrama ou estrela de cinco pontas, cujo significado já dei quando se abordou Lagos da Beira e a propriedade de Quintais por motivo do seu portão com igual símbolo geométrico. No corredor subterrâneo que leva da cripta ao jardim há uma mina aberta no ventre da serra que se destinava a canalizar a água para a capela e a fonte exterior ao dito portão. Não foi terminada pela simples razão de entretanto ter-se aberto uma nova conduta, a que fornece água à fonte que alimenta o jardim dianteiro ao palácio.

Esta cripta serviu de câmara ardente a António Augusto Carvalho Monteiro, na sequência da sua morte ocorrida no Palácio da Regaleira em 25 de Outubro de 1920, facto que a própria neta D. Maria de Nazaré Monteiro confirmou-me pessoalmente, e depois de ter estado em vigília toda a noite, no dia seguinte o seu corpo foi levado daqui para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, fechando-se assim o ciclo de vida do homem mais enigmático que Sintra e o país conheceram nos finais do século XIX e nas primeiras décadas do imediato. Mas ficou a sua memória eterna, como eterna parece ser a mensagem deixada neste “jardim de fadas” que é a Quinta da Regaleira.

 

NOTAS

 

[1] Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Editora Dinapress, Lisboa, 2000.

[2] Segundo a narrativa hagiográfica (cf. Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão – Editores, Porto), Maurício de Agaune (22 de Setembro, mártir, terá sido o chefe da legião tebeia encarregada de combater os bagaudas (gauleses que, entre os séculos III e V, se revoltaram contra a ocupação romana) no tempo do imperador Maximiano Hércules. Como recusasse, com outros soldados cristãos, a participar num sacrifício, foi massacrado com os seus companheiros. Este massacre terá tido lugar em Agaune-en-Vallais, nos fins do século III. Dele escaparam alguns cristãos, entre eles Santo Urso, São Gereão e São Vitor. Iconograficamente é representado muitas vezes como negro (por confusão com São Mauro, o Africano, monge mártir do século III, que era negro). Veste armadura de cavaleiro, tem lança, espada ou um estandarte, e apoia-se no escudo. Raramente se apresenta a cavalo. Por confusão de dus (chefe) com duque, às vezes figura com uma coroa ducal na cabeça.

[3] A Árvore de Jessé é a representação da árvore genealógica de Jesus a partir de Jessé, pai do rei David, aparecendo o seu nome citado no Antigo Testamento, particularmente em Isaías, 11:1-3: “Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará”. Motivo frequente na arte cristã entre os séculos XII e XV, a Árvore de Jessé aparece em inúmeros manuscritos, pinturas, vitrais, talha decorada e esculturas de madeira e de pedra, sendo a sua representação mais antiga conhecida datada de 1086, no Codex Vyssegradensis. Nessas reproduções, Jessé surge reclinado ou adormecido, com uma árvore a crescer do seu corpo, sendo os antepassados de Jesus, de acordo com a Bíblia, são descritos nos galhos da árvore, juntamente com os profetas e o próprio Cristo no topo. Na igreja de Santa Maria de Olivença, fundada pela Ordem dos Templários nos inícios do século XIII, está a maior e mais monumental representação da Árvore de Jessé  não só da Península Ibérica como de toda a Europa.

[4] D. Luís Gonzaga de Lacerda, O selo medieval de Coimbra e o seu simbolismo esotérico. Separata da Revista Armas e Troféus, Lisboa, 1979.

[5] Leonor Figueiredo, Monteiro Milhões, o nosso “Luís da Baviera”. Jornal “Correio da Manhã”, 29 e 30.1.1985.

[6] O Annuario da Universidade de Coimbra no Anno Lectivo de 1866 para 1867 (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1866), no capítulo “Faculdade de Direito” para o 1.º ano da 3.ª cadeira de “História e princípios gerais de Direito Civil Português”, na página 34 dá o número, nome e morada do cursante: “30 António Augusto Carvalho Monteiro, filho de Francisco Augusto Mendes Monteiro, natural do Rio de Janeiro, império do Brasil – Couraça de Lisboa, n.º 28”.

[7] José Lobo d´Ávila Lima, Meio século de vida coimbrã. Revista Illustração Portugueza, 22, 1.º semestre, 2.ª série, p. 687, Lisboa, 1906.

[8] Maria Regina Dias Baptista Teixeira Anacleto, Arquitectura Neomedieval Portuguesa, 1780-1924, volume I. Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Coimbra, 1997.

[9] Maurice J. Ettinghausen, Rare Books and Royal Collectors: memoirs of and Antiquarian Bookseller. Simon and Schuster, New York, 1966.

[10] The Portuguese Manuscripts Collection of the Library of Congress: A Guide. Compiled by Christopher C. Lund and Mary Ellis Kahler. Washington, Library of Congress, 1980.

[11] J. Mimoso Barreto, Carvalho Monteiro – Mecenas da Cultura. Cadernos de Museologia, Associação Portuguesa de Museologia, Colóquio APOM/85 (Extracto das Actas), Sintra – 1986.

[12] Manuel J. Gandra, Colecção Portuguesa I e II da Biblioteca do Congresso (subsídios para a sua história). Centro Ernesto Soares de Iconologia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[13] Consoante informação constante de um Memorandum do Bibliotecário da DCL, datado de 21 de Março de 1929.

[14] Carta de Maurice Ettinghausen remetida, em 19 de Março de 1929, a Herbert Putnam, 8.º bibliotecário da DCL (1899-1939).

[15] Librarian of the Congress, Report of the Librarian of Congress for the fiscal yaer ending June 30, 1930, Washington, 1930, p. 54-55 [DCL: Z733. U57A]. Desta aquisição a estatística anual apenas consigna 12000 volumes entrados na DCL. Uma nota manuscrita apensa à correspondência trocada entre a DCL e a Maggs Brothers, bem assim como o Annual Report – Division of Accessions 1928-29, registam a oferta.

[16] Leonarda Gil da Gama, anagrama de Maria Madalena Eufémia da Glória, nasceu em Sintra a 17 de Maio de 1672 e terá morrido por volta de 1750. Ainda com 16 anos incompletos entrou a professar no Convento de Nossa Senhora da Piedade da Esperança de Lisboa, feminino franciscano da Ordem dos Frades Menores da Província de Portugal da Observância. Entre 1733 e 1749 fez imprimir, pelo menos, cinco obras de literatura monástica onde o virtuosismo barroco atinge o seu esplendor, em loas a santos e santas, em louvor da religião e de visões sagradas tidas pela própria. Os seus livros são muito raros por nunca terem sido reeditados, excepção feita a uma antologia organizada por Mendes dos Remédios, em 1914, publicada em Coimbra com prosa e versos de Leonarda Gil da Gama.

[17] Denise Pereira, Paulo Pereira, José Anes, Quinta da Regaleira – História, Símbolo e Mito. Fotografias de Nuno Antunes. Edição da Fundação Cultursintra, Sintra, 1998.

[18] Revista Municipal de Lisboa, 2.ª série, n.º 2, 1982.

[19] Leonor Figueiredo, Monteiro Milhões, o nosso “Luís da Baviera” – Quem era o homem que queria fazer de Sintra terra das mil e uma noites. Jornal Correio da Manhã, 30.1.1985.

[20] É tradição mais oral que documental o facto do Casal “Três Marias”, na Praia das Maçãs, vizinho da Vivenda “Rafaela” de Alberto Totta, ter sido a casa de praia de António Augusto Carvalho Monteiro, que a mandou construir para as netas (?) que tal como ele aí veraneavam, segundo informação disponibilizada por Waldemar d´Orey.

[21] Existem duas fotografias muito interessantes e significativas que retratam um grupo de presos políticos monárquicos na Penitenciária de Coimbra três anos após a implantação da República. Ambas de 1913, a mais importante delas no contexto histórico é a que, além de identificar os detidos, trabalho (17×23 cm) da “Photographia União – Avenida Navarro – Coimbra”, de 27.10.1913, tem uma dedicatória à “Exma. Sra. Dona Luísa da Costa Correia de Sampaio e Mello como homenagem pela protecção dispensada aos presos políticos”. Tratava-se, portanto, de uma lusignan do ramo português próxima da família Carvalho Monteiro.

[22] Conceição e Silva Júnior (João Paulo), in Varões Assinalados, 1909-1911. Publicação humorística bimensal de Francisco Valença, director e proprietário da mesma.

[23] Revista Arquitectura Portuguesa, números 8/9. Lisboa, Agosto e Setembro de 1917.

[24] Ainda em Sintra, em 1890 Luigi Manini terminou as pinturas decorativas da capela privada e salões do Chalé Biester e começou o projecto da Vila Sassetti. Também em Sintra, em 1897 realizou o projecto arquitectónico da casa de Lima Mayer, e em 1902 projectou a casa de Vicente Monteiro, amigo e antigo colega de carteira de Carvalho Monteiro na Universidade de Coimbra.

[25] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal (Templários e Templarismos), volume VIII. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Agosto de 2005.

[26] Denise Pereira, ob. cit.

[27] Cebes Tebano, Tábua ou Quadro da Vida Humana. Tradução de António Teixeira de Magalhães, introdução e notas de Manuel J. Gandra. Centro Ernesto Soares de Iconologia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[28] José Anes, Digressão Hermética por uma Mansão Filosofal Portuguesa, o «Palácio Milhões» em Sintra. Revista “Vária Escrita”, n.º 1, Janeiro / Junho de 1994, Sintra.

[29] Manuel J. Gandra, Colecção Portuguesa I e II da Biblioteca do Congresso – Livros maçónicos. Centro Ernesto Soares de Iconologia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[30] Sintra, 2000.

[31] Dando de barato os reiterados anacronismos produzidos pelos proponentes da tese maçónica, nenhuma das fontes alegadamente apontadas como determinantes na concepção e desenho da propriedade constou da tão bem apetrechada biblioteca de António Augusto Carvalho Monteiro, o que não deixa de ser, concomitantemente, paradoxal e sintomático.

[32] O nome de António Augusto Carvalho Monteiro não consta (nem tão pouco o de Giuseppe Manini) de nenhum dos ficheiros de qualquer das obediências maçónicas portuguesas ou brasileiras activas durante o período correspondente ao da sua vida (1848-1920). Cf. M. Borges Grainha, História da Franco-Maçonaria em Portugal (1733-1912), Lisboa, 1913; Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, Lisboa, 1986, 2 volumes; Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria, São Paulo, 1978.

[33] Vitor Manuel Adrião, O sagrado e o profano na Quinta da Regaleira. Jornal de Sintra, sexta-feira, 28 de Fevereiro de 1997.

[34] Victor Belém, Fernando Pessoa versus Aleister Crowley. Exposição de foto-ficções, foto-colagens e objectos. Quinta da Regaleira – 12 a 21 de Julho de 1996, Festival do Monte da Lua, Sintra.

[35] Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Editora Dinapress, Lisboa, Abril de 2007.

[36] Se Teosofia significa em grego “Sabedoria Divina”, Gnose tem significado idêntico como “Sabedoria” do Supremo Demiurgo de que o gnóstico procura tomar conhecimento, equivalendo a luz da Revelação (Gnosis). Sendo o Gnosticismo uma corrente filosófica sincrética, ele veio a mimetizar-se com o Cristianismo a partir do ano 100 d. C. através de Cerinto, que fundara uma corrente gnóstica com elementos cristãos e essénios e que durou praticamente até meados do século IV, constituindo a vertente heterodoxa do Cristianismo Primitivo. Depois feneceu sob as diversas acusações papais de heresia face à ortodoxia da doutrina imposta, mesmo assim conseguindo sobreviver a título particular e até colectivo mas sempre privado, donde o onomástico esotérico, isto é, “reservado, privado, oculto”. A corrente gnóstica mais cristianizada foi a siríaca-egípcia derivada das influências platónicas, cedo se infiltrando no Catolicismo e moldando o pensamento de muitos católicos que não viam haver realmente conflito entre o confessional e o sapiencial, a catequese e a gnose, entre o pensamento confessional e o pensamento mistérico. Este parece ter sido o caso de António Augusto Carvalho Monteiro, igualmente resgatando, por via do panteão mitológico greco-romano, ideias do chamado Gnosticismo Pagão ou não-cristão, anterior a este, tendo origem na Pérsia e Babilónia, as quais transporia para o jardim da Quinta da Regaleira por via da estatuária que o decora.

[37] Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1990.

[38] Aelredo di Rievaulx, L´Amicizia Spirituale. Fonti Cristiani per il terzò millenio, Roma, 1927.

[39] Jacobo de Vorágine, La Leyenda Dorada, 2 volumes. Tradução directa do latim por José Manuel Macías. Alianza Editorial, Madrid, 2005.

[40] O sentido de assunção ao alto da torre é o mesmo da subida de Dante ao Paraíso, ou de Vasco da Gama ao cume da Ilha dos Amores; pelo contrário, a descensão configura a ida ao seio da Terra, seja no sentido cemiterial, seja no sacrificial mas sagrado da morte do profano e ressurreição do iniciado no Centro do Mundo, motivo apenas acessível a quem conheça o segredo da abertura da porta da torre, isto é, quem possua o conhecimento superior que lhe possibilite realizar hermeticamente o V.I.T.R.I.O.L. (Visita Interiora Terris Rectificando Occultum Lapidem), ou seja, “Visita o interior da Terra e rectificando encontrarás a Pedra Oculta”.

[41] Poesia e Prosa medievais. Selecção, introdução e notas por Maria Ema Tarracha Ferreira. Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, edição patrocinada pelo Instituto Português do Livro.

[42] A Construção Moderna, n.º 12, Lisboa, 25.6.1918.

[43] Rudolf Steiner, Centres Iniciatiques (Origines, Influences). 14 conferências realizadas em Dornach de 23 de Novembro a 23 de Dezembro de 1923. Editions Anthroposophiques Romandes, Genève/Suisse, 1977.

[44] Vitor Manuel Adrião, Sintra Encantada (Deuses e Tradição – Homens e Lenda). Espiral Editora, Sintra, Abril de 2017.

[45] Manuel J. Gandra, A Quinta da Regaleira. Legado Sebástico-Templarista de António Augusto Carvalho Monteiro. Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[46] René Guénon, O Rei do Mundo. Editorial Minerva, Lisboa, 1978.

[47] Helena P. Blavatsky, Glossário Teosófico. Publicações Sociedade Teosófica, Londres, 1892.

[48] Há quem diga que Fulcanelli era o Conde Saint-Germain, Adepto famoso na corte de Luís XVI e Maria Antonieta pelas suas práticas de Teurgia e Alquimia. Outros, mais recatados, aventam que Fulcanelli não passaria do pseudónimo do alquimista francês Eugène Léon Canseliet (Sarcelles, 18.12.1899 – Savignies, 17.4.1982). Tamanho secretismo e discrição da pressuposta pessoa de Fulcanelli explica-se pelo facto de a Alquimia ser uma via solitária e dos Adeptos Filosofais se resguardarem do que chamam “poluição psicomental”, provinda do mundo profano ou ordinário. Para não serem afectados por ela e continuarem com perfeição a sua Obra Filosofal, os verdadeiros Alquimistas resguardaram-se sempre do convívio mundano, ocultando-se no maior sigilo e anonimato. Isto lembra as palavras de D. Maria da Nazaré acerca do seu avô, Carvalho Monteiro: “Não gostava de festas nem de as dar. Reserva-se muito e era muito fechado, só se abrindo com os amigos íntimos”.

Deve-se a Eugène Canseliet a revelação de quem terá sido Fulcanelli, de quem se considerava um dos poucos discípulos aceite por aquele desde 1915: tratava-se do pseudónimo de Jean-Julien Champagne (1839-1953). Através do mesmo Canseliet sabe-se que Fulcanelli é um pseudónimo resultante do jogo de duas palavras: Vulcan ou Vulcano, que os hermetistas greco-latinos associaram ao “Fogo Subterrâneo da Terra”, ao “Metalúrgico operando os metais no Mundo Subterrâneo”, e El, “Deus”, para os cananeus. Portanto, Fulcanelli significa o “Portador do Fogo Divino”, algo assim semelhante a Prometeu ou Lúcifer (o Arabel do conto de Melusina), o mesmo que os antigos cabalistas judeus e gnósticos cristãos identificaram como associado ao Fogo Criador do Divino Espírito Santo, que os alquimistas chamaram Fogo Radical ou Seco e os sábios hindus de Kundalini, a Energia Electromagnética animadora da Terra desde o seu Centro.

Fulcanelli ficaria famoso como autor de dois livros sobre Alquimia que foram publicados com a ajuda de Canseliet: Le Mystère des Cathédrales (“O Mistério das Catedrais”), escrito em 1922 e publicado em 1926 em Paris, e Demeures Philosophales (“Mansões Filosofais”), publicado em 1929 em Paris. Escreveria ainda um terceiro livro que não chegou a ser editado: Finis Mundi Gloriae (“Fim da Glória do Mundo”), cujo manuscrito original esteve durante algum tempo na posse de Canseliet.

Os dois livros publicados de Fulcanelli estão escritos de uma forma enigmática, parabólica e erudita, repletos de trocadilhos latinos e gregos destinados a dar ao simbolismo alquímico duplos sentidos. É em Le Mystère des Cathédrales que “apresenta a Catedral fundada na Ciência Alquímica”, e descreve a de Nossa Senhora (Notre-Dame) de Paris possuída dessa mesma simbologia esculpida na Idade Média pelos argots ou mestres do Gótico, associando esta palavra a Got e God, “Deus”, logo sendo uma arte divina por as suas proporções e formas se elevarem da Terra ao Céu como que querendo trazer este a ela e unirem-se numa verdadeira “núpcia química”, o que vai bem com a palavra Alquimia ou Allah-Chêmia, isto é, “Química de Allah ou Deus”, portanto, “Química Divina ou Oculta”.

[49] Elbert Chamoun, Instituições de Direito Romano. Editora Forense, Rio de Janeiro, 1968. Arnaldo Rizzardo, Direito de Família. Editora Forense, Rio de Janeiro, 2004.

[50] Juan Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[51] Luís de Camões, Auto do Filodemo. In “Obras completas – Teatro e cartas”, volume II. Edição Círculo de Leitores, Lisboa, 1984.

[52] Paulo Pereira, A Quinta da Regaleira. Simbolismo e História da Arquitectura. In Quinta da Regaleira (História, Símbolo e Mito), edição da Fundação Cultursintra, 1998.

[53] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada, capítulo 24, “O Javali e a Ursa”. Editora O Pensamento, São Paulo.

[54] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra do Ordem do Templo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2011.

[55] Serge Hutin, La Tradition Alchimique. Pierre philosophale et elixir de longue vie. Éditions Dangles, St. Jean de Braye, France, 1979.

[56] As lendas e milagres referentes a Santo André, foram motivo de análise acurada por F. Dvornik, em The Idea of Apostolicity in Byzantium and the Legend of the Apostle Andrew. Dumbarton Oaks Studies, Cambridge, 1958.

[57] Gregório de Tours foi o biógrafo eclesiasticamente autorizado do Apóstolo, como consta na Monumenta Germaniae Historica II, e que foi traduzido por M. R. James em The Apocryphal New Testament. Oxford, 1963.

[58] Pedro de Mariz, Diálogos de Vária História dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderam achar. Editados por António Craesbeek de Mello, impressor da Casa Real, Lisboa, 1672.

[59] Jorge Matos, A Sala de Bilhar do Palácio da Quinta da Regaleira – um panteão heráldico-iconográfico. Revista “Vária Escrita”, n.º 5, Câmara Municipal de Sintra, 1998.

[60] Manuel J. Gandra, A Quinta da Regaleira. Legado sebástico-templarista de António Augusto Carvalho Monteiro. Centro Ernesto Soares de Iconologia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[61] Um Encoberto justamente à medida dos desígnios dos conjurados. Sintomaticamente, Ardizone Spínola chamou a D. João IV Encoberto de Portugal, reservando para outro “que Deus sabe” o título de Encoberto do Mundo…

[62] D. Pedro II terá sido muito afeiçoado a esta ideia, jamais tendo aceitado ser coroado. Já D. João V fez-se coroar. No entanto, talvez em desagravo, havia de receber do Papa Clemente XII, em 1732, o título de [João] Baptista. Na convicção de que tal pudesse ter ocorrido radicam os insistentes, quase obsessivos, votos formulados por sucessivos monarcas brigantinos no sentido de obterem descendência.

[63] A Biblioteca do Congresso (DCL) tornou-se proprietária da bibliografia manuscrita e impressa concernente à questão, que lhe pertenceu.

[64] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, Setembro de 2009. Do mesmo autor, Portugal, Sagrado e Mistério (Memória Histórica). Euedito, Lisboa, 2018.

[65] Pe. Miguel de Oliveira, Pe. Moreira das Neves, A Padroeira de Portugal. Edições Letras e Artes, Lisboa, 1940.

[66] Nesta sala, também remodelada por Waldemar d´Orey, havia igualmente legendas latinas cujo sentido explicava-se pela finalidade do espaço, mesmo sem deixarem de ter o sentido duplo de evocação pantagruélica e interpretação filosófica, talvez mesmo gnóstica: “O vinho bom alegra o coração dos homens”, “O Tempo é devorador, mas o Homem ainda mais”, “Com conta, peso e medida”.

[67] Quinta da Regaleira – Luigi Manini (Imaginário & Método – Arquitectura & Cenografia). Edição da Fundação Cultursintra, 2006.

[68] Também a Arte Real dos construtores livres é representada pelo leão, como símbolo de nobreza e poderio na arte escultórica de “cantar” Deus na própria pedra, revelando a estética divina nos contornos harmoniosos das formas esculpidas, como se vê nestes três portais do Palácio da Regaleira e em toda ela.

[69] Francesco Russo, Gioacchino da Fiore e le fondazioni florensi in Calabria. Nápoles, 1958.

[70] Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. Livraria José Olympio Editora S. A., Rio de Janeiro, 1990.

[71] O termo arquitectónico nártex (em latim narthex, com origem no grego narthikas) refere-se à zona de entrada num templo, havendo outras designações associadas com ele: pronaos, átrio, vestíbulo, galilé ou paraíso. Quando se situa no exterior do edifício, é denominado exo-nártex, e quando está no interior do mesmo é chamado endo ou eso-nártex, como está aqui na capela da Regaleira, cujo átrio abre para o jardim legitimando o sentido canónico de paraíso.

[72] Yvette K. Centeno, Fernando Pessoa: Magia e Fantasia. Edições Asa, Porto, 2003.

[73] Padre António Vieira, Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo. In Obras Inéditas, volume I, Lisboa, 1856. Obra reeditada pela Editora Ática, Lisboa, 2007. O fundamento desta tese do Quinto Império é exposto pelo padre Vieira, seguindo os critérios rigorosos da exegese bíblica, na sua História do Futuro, Oficina de Domingos Rodrigues, Lisboa, 1755. Obra reeditada por Maria Leonor Carvalhão Buescu pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1982.

[74] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta (Capital do Quinto Império). Editora Nova Vega, 2.ª edição, Lisboa, 2017.

[75] António José Saraiva, António Vieira, Menasseh Ben Israel et le Cinquième Empire. Studia Rosenthaliana, Amesterdão, 1972.

[76] Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal. Lisboa Ocidental, 1732. Esta obra foi reeditada em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Fevereiro de 1987, com nota de apresentação de Yvette Kace Centeno, quase em simultâneo com uma outra reedição no mesmo ano, desta feita em Mafra, com nota preambular de Manuel Joaquim Gandra. Esta última conta com uma dedicatória final de Anselmo Caetano a D. João V e ao elogio do V Império, que a primeira não possui.

[77] Augusto Ferreira Gomes, Quinto Império. Prefácio de Fernando Pessoa. Edição António Maria Pereira, Lisboa, 1934.

[78] Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2000.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.

Raúl Proença, Guia de Portugal, volume I. Lisboa, 1924.

Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, volume 13. Editorial Verbo, Lisboa, 1972.

Anne de Stoop, Quintas e Palácios nos arredores de Lisboa. Barcelos, Dezembro de 1990.

Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada. Porto, 1984.

Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Edição de Representações Zairol, L.da, Lisboa, 1961.

Manuel de Sousa, As Origens dos Apelidos das Famílias Portuguesas. Sporpress – Soc. Editorial e Distribuidora, Lda. Mem-Martins – Portugal, 2001.

Domingos de Araújo Affonso e Ruy Dique Travassos Valdez, Pombal (Marqueses de). In Livro de Oiro da Nobreza. Prefácio do Dr. José de Sousa Machado. Tomo II, na Tipografia da «Pax», Braga, MCMXXXIII.

Armando de Mattos, Brasonário de Portugal. Livraria Fernando Machado, Porto, MCMXLIII.

Cristóvão Alão de Morais, Pedatura Lusitana (Nobiliário de Famílias de Portugal). Marizes. Tomo quarto, volume segundo, Livraria Fernando Machado, Rua das Carmelitas – 15, Porto, 1943.

C. Jung, Psychologie et Alchimie. Éditions Buchet/Chastel, Paris, 1979.

Pierre Gordon, Melusine. Arma Atis, Neuilly-sur-Seine, 1983.

Claude Lecouteux, Mélusine et le Chevalier au Cygne. Préface de Jaques Le Goff. Ouvrage couronné par l´Académie française. Editions Imago, Paris, 1997.

García Mercadal, Viajes de extranjeros por España y Portugal. Ediciones Aguillar, Madrid, 1952.

Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal (Montes Sagrados, Altos Lugares e Santuários), volume VI. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Abril de 2005.

Francesco Colonna, Hypnerotomachia Poliphili. Fac-símile, traduzido e editado com comentários de Marco Ariani e Mino Gabriele, 2 volumes. Adelphi Edizioni, Milão, 1998.

Ian Caldwell, Dustin Thomason, A Regra de Quatro. Editorial Presença, Lisboa, 2004.

José Manuel Pedreirinho, Dicionário dos Arquitectos (activos em Portugal do Século I à Actualidade). Edições Afrontamento, Porto, 1994.

Vitor Serrão, Sintra. Editorial Presença, Lisboa, 1989.

Mimoso Barreto, Carvalho Monteiro mecenas da cultura, em Colóquio APOM/85. Extracto das actas. Museus da região de Sintra. Edição da Câmara Municipal de Sintra, 1986.

Maria Regina Dias Baptista Teixeira Anacleto, Bolseira do Instituto Nacional de Investigação Científica e da Fundação Calouste Gulbenkian, Arquitectura Neomedieval Portuguesa, 1780-1924, volumes I e II. Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Coimbra, 1997.

Denise Pereira, Paulo Pereira, José Anes, Quinta da Regaleira – História, Símbolo e Mito. Fotografias de Nuno Antunes. Edição da Fundação Cultursintra, Sintra, 1998.

José Manuel Anes, Os Jardins Iniciáticos da Quinta da Regaleira. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda., Lisboa, Novembro 2005.

Robert Bonnell, Dante o Grande Iniciado. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2006.

Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2006.

« Página anteriorPágina seguinte »