Lagos da Beira e a Família Carvalho Monteiro – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Nov 17 2016 

cabecalho

“Lagos da Beira é uma verdadeira pérola para o conhecimento e compreensão da figura singular que foi António Augusto Carvalho Monteiro. Esta aldeia singela mas com tanto para contar, é o ponto de partida de toda a minha investigação sobre esta família. Aqui é a origem. Foi aqui que tudo começou com o seu pai, Francisco Augusto Mendes Monteiro (cuja árvore genealógica recuando até ao século XVI, dá todos os seus antecedentes como naturais da região de Lagos da Beira – Oliveira do Hospital), marcando decisivamente o carácter e pessoa do filho. O Brasil, a fortuna colossal, a Quinta da Regaleira de Sintra e tudo o mais, vieram depois”. Isto mesmo disse ao ilustre lagoense senhor Vitor Fernandes, responsável da Biblioteca-Museu Tarquínio Hall, quando visitei Lagos da Beira em 8 de Maio de 2012.

Nesta freguesia do concelho de Oliveira do Hospital, na Beira Alta, nasceu Francisco Augusto Mendes Monteiro em 9 de Março de 1816, vindo a falecer com 74 anos de idade em 1 de Novembro de 1890 no seu Palácio da Rua do Alecrim, Lisboa, depois de uma vida cheia e próspera. O filho herdaria do pai a natureza suave e devotada do beirão, com a têmpera rija daquele criado junto a fragas ásperas levantadas ao céu e a águas ora intrépidas, ora mansas correndo para o Mondego distante, enriquecendo a imensidade tortuosa e telúrica dos campos beirões, como atestam os seus inúmeros lençóis de água subterrânea donde por certo lhe advirá o topónimo Lagos.

O seu nome aparece no Livro IV das Inquirições de D. Afonso III em 1258, onde um dito Pedro Garcia responde à inquirição real afirmando-se natural desta terra então chamada S. João de Lagos, cuja vila e igreja eram reguengo da Coroa, estando aforado à Ordem de S. João do Hospital[1]. Em 15 de Março de 1514, D. Manuel I concedeu foral a S. João de Lagos elevando-a à categoria de vila e sede de concelho, devido à sua prosperidade económica por via da agricultura e vinicultura, ficando como padroeira da Casa do Infantado. Nessa ocasião, também por foral régio, a poderosa comenda hospitalária de Ulveira do Espital (Oliveira do Hospital) torna-se sede de concelho vizinho de Lagos. Como consequência da extinção da Casa do Infantado por decreto-lei de 18 de Março de 1834, o mapa geopolítico do país foi consideravelmente modificado. Já no ano anterior, o decreto-lei de 28 de Março de 1833 alterara o nome S. João de Lagos para o topónimo que ficou até hoje, Lagos da Beira, tendo o decreto-lei de 18 de Julho de 1835 inserido o concelho no distrito de Coimbra e, finalmente, o decreto-lei de 6 de Novembro de 1836 extinguiu o concelho de Lagos da Beira, anexando-o ao concelho de Oliveira do Hospital (vila erigida em cabeça de comarca por decreto-lei de 23 de Dezembro de 1875), perdendo com isso a povoação a categoria de vila e ficando só a de aldeia[2].

Independente do mapa geopolítico, o mapa canonical dispõe Lagos da Beira como fazendo parte da vasta e rica comenda da Ordem de S. João do Hospital, que tinha a Casa-Mãe em Leça do Bailio. Com efeito, Tarquínio Hall descobriu na Quinta do Boco desta aldeia um bloco de granito rectangular, com 148 cm de comprimento e 40 de largura, completamente preenchido com a seguinte inscrição: “Este cazal e seos terragedos S. [ão] do Espital de Jerusalém da Sagrada R. [eligião] de Malta conforme foral deste concelho… he militar… Joam Pinto de Aragam – 1787”[3].

Conclui-se pelo texto da lápide que Lagos da Beira ainda no século XVIII era um casal, granja ou fazenda da Ordem Hospitalária (depois Maltesa), fazendo parte da grande Província do Hospital, iniciada no reinado de D. Teresa (século XII), repartida em espaços maiores ou menores dentro da sua jurisprudência e geografia. As possessões maiores chamavam-se Priorados ou Preceptorias (como veio a ser Leça do Bailio, que com a elevação do seu mosteiro e importância que teve para a região passaria a este estatuto); as menores, Bailios ou Comendas (comendadorias ou comandadorias regionais, como foi a de Oliveira do Hospital); e as ínfimas, Granjas ou Fazendas (casais, como terá sido Lagos da Beira). À cabeça da Província estava o Mestre ou Provincial da Ordem, representado na Preceptoria pelo respectivo Preceptor, coadjuvado por um Prior nomeado pelo Mestre Geral, pelo que nesse espaço teria de haver obrigatoriamente uma igreja que fosse matre ou matriz do Priorado. Nos Bailios a mesma coisa, mas sendo o Preceptor representado por um Comandante ou Comendador de Província e, finalmente, nas Fazendas esse Comendador nomeando seu auxiliar ou “lugar-tenente” o Comendador de Cavaleiros, geralmente defendendo o espaço com uma esquadra de dez cavaleiros[3].

A dependência canonical de Lagos da Beira relativamente a Oliveira do Hospital é provada nas Inquirições de D. Dinis (1288), quando a sua igreja paroquial, consagrada a S. João Baptista (Orago da Ordem do Hospital), aparece com novo patrono: “Santa Cruz de Ulveira do Sprital” – hoje Exaltação da Santa Cruz, que significa o mesmo. Observa-se assim o nome da povoação ligada a Oliveira do Hospital. Por isso, o brasão da freguesia de Lagos da Beira aparece com a Cruz Hospitalária (que se repete no interior e exterior da sua igreja) que, por ser semelhante, é confundida muitas vezes com a Cruz Templária. Seja como for, o santo padroeiro de Lagos da Beira mantém-se desde os alvores da Nacionalidade como sendo S. João Baptista.

Cruz Hospitalária no exterior da igreja paroquial de Lagos da Beira

Cruz Hospitalária no exterior da igreja paroquial de Lagos da Beira

A Festa da Exaltação ou Triunfo da Santa Cruz foi a principal das celebrações litúrgicas dos hospitalários, também chamada de Festa da Cruz Gloriosa. Segundo a tradição, a Vera Cruz foi descoberta no ano 326 por Helena de Constantinopla, mãe do imperador Constantino I, durante uma peregrinação a Jerusalém. No local da descoberta mandou construir a igreja do Santo Sepulcro, que no século XII, depois da Segunda Cruzada (1147-1149) e conquista da cidade santa aos muçulmanos, passaria a ficar à guarda da Ordem de S. João do Hospital. Enquanto a Sexta-Feira Santa é dedicada à Paixão e Crucificação, a Festa da Exaltação da Santa Cruz, em 14 de Setembro, celebra o Cruzeiro como instrumento de Salvação, fonte de Santidade e símbolo revelador da vitória de Cristo sobre o pecado, a morte e o demónio. De acordo com as regras litúrgicas da Igreja Católica Romana, neste dia o presbítero deve utilizar vestimentas vermelhas. Se a celebração ocorrer num domingo, a Festa tem precedência sobre a liturgia do tempo comum. Até 1969, a quarta-feira, a sexta-feira e o sábado após 14 de Setembro eram considerados como um dos quatro conjuntos de dias de têmporas[4]. A Exaltação da Santa Cruz constitui a festa principal dos Cónegos Regulares da Ordem da Santa Cruz, como o foi em Coimbra com esses regrantes agostinhos e que por certo António Augusto Carvalho Monteiro terá conhecido de perto em sua juventude, quando estudou nesta cidade do Mondego. Em Lagos da Beira mantém-se o cruzeiro como sinal eterno do triunfo da vida sobre a morte.

Tendo os hospitalários instalado-se em Chipre (entre 1290 e 1309) após a perda da Terra Santa para o Islão, ficou o registo das suas relações próximas com a Casa Real dos Lusignan de Nicósia que cedo abraçaram e divulgaram na Ilha a particular celebração cristã que a Ordem para aí levara: a Festa da Exaltação da Santa Cruz, que ainda hoje é das mais celebradas pelos cipriotas cristãos ortodoxos sustentados na autoridade episcopal de Santo André de Creta ou de Jerusalém, que nos séculos VII-VIII ficara célebre pelos seus sermões e hinografia encomiando as virtudes salvíficas da Vera Cruz[5].

A partir de 1309-1310, a Ordem de São João do Hospital instalou-se na Ilha de Rodes, onde adquiriu uma feição “insular”, no dizer de Fr. Lucas de Santa Catarina[6], mantendo-se aí até 1522, quando a ilha foi tomada pelos turcos. Finalmente, a partir de 1530 por doação de Carlos V instalou-se na Ilha de Malta, fixando o seu Mestrado residência em La Valeta, e desde então até hoje ficou conhecida por Ordem Soberana de Malta, nunca deixando de exercer a vocação hospitalar de socorro aos carecidos e doentes como virtude cardeal de caridade ou amor que foi o motivo da sua fundação em 1099, quando alguns cristãos mercadores de Amalfi fundaram em Jerusalém, sob a Regra de S. Bento e com a indicação de Santa Maria Latina, uma casa religiosa para recolha de peregrinos. Anos depois construíram junto dela um hospital que recebeu de Godofredo de Bouillon doações que lhe asseguraram a existência, desligando-se da igreja de Santa Maria e passando a formar congregação especial sob o Orago de São João Baptista. Em 1113, o Papa Pascoal II reconheceu-a Ordem de São João do Hospital e deu-lhe Regra própria. Em 1120, o cavaleiro francês Raimundo de Puy, nomeado Mestre Geral, acrescentou ao cuidado com os doentes o serviço militar[7].

Em Portugal, a Ordem do Hospital manteve-se independente. Não recebeu os bens da Ordem dos Templários como pretendia o papa Clemente V, que habilmente o rei D. Dinis fez transferir para a Ordem de Cristo então criada (1319). Também não foi incorporada na Coroa em 1551 com as Ordens de Avis, de Cristo e de Santiago, apesar da dignidade de Prior do Crato ser atribuída aos Infantes D. Luís, filho de D. Manuel I, e mais tarde a seu filho D. António, mantendo assim o carácter singular e o epíteto de “Soberana” que lhe foi atribuído quando passou a designar-se de Malta[8].

Isso significa que a Comenda de Oliveira do Hospital e a Fazenda de Lagos da Beira mantiveram-se sempre na posse dos cavaleiros hospitalários até praticamente 1834. Por este motivo, ainda em 1910 a Cruz de Malta figurava no Brasão de Armas na fachada do Paço do Concelho de Oliveira do Hospital, como descreve o dr. António de Vasconcelos num precioso e raro estudo[9].

Antigo Brasão d´Armas de Oliveira do Hospital

Antigo Brasão d´Armas de Oliveira do Hospital

Um dos santos caríssimos aos hospitalários foi São Paio (Pelaio, Pelágio), e sob a sua evocação formaram o Pelágio, aparentemente destinado a socorrer os peregrinos cristãos que iam e vinham de Santiago de Compostela venerar o túmulo do Apóstolo, motivo porque São Paio é celebrado no dia imediato ao de São Tiago Maior, ou seja, 26 de Junho. A par disso, dedicavam-se à guerra ao Islão – cuja resistência e ofensiva foi iniciada por Pelaio (718-733), fundador do Reino das Astúrias – abrindo caminho à Reconquista e à cristianização das vias celto-romanas tendo início ou fim na mesma cidade capital da Galiza[10]. Por outro lado, o Pelágio apresentava igualmente um aspecto cultural e inclusive hermético onde os saberes gnóstico, cabalístico e alquímico das três grandes religiões do Livro (judaica, cristã e islâmica) comungavam juntas da mesma demanda de realização espiritual, independente das contingências temporais da geopolítica da época, motivo do Pelágio ser igualmente sinónimo de pressuposta existência de uma Ordem Iniciática fechada ou secreta porventura na primazia da assistência à génese histórica e ao percurso evolutivo da Nacionalidade, desde a primeira hora posta sob a advocação da Virgem Santíssima. Deste Pelágio terá participado o cultíssimo António Augusto Carvalho Monteiro, ao observar-se a sua inclinação para a simbologia hermética em que não foi avaro na decoração dos imóveis que foram seus. Possivelmente os seus antecedentes beirões, particularmente o seu pai, igualmente não seriam alheios ao Pelágio espiritual que, a par do temporal, deu nome a família portuguesa ligada aos Lusignan nacionais (Sampaio de Luzignano) e assim também ficou como topónimo de várias localidades vizinhas de Lagos da Beira: São Paio de Gramaços, São Paio do Mondego, São Paio de Gouveia[11].

O facto é que na herdade de Quintais, que foi do dr. Carvalho Monteiro em Lagos da Beira, aparece no seu portão de ferro forjado uma estranha sigla permeio ao signo salomónico (pentagrama) que acaba por remeter para o tema do Pelágio e da eventual presença Lusignan. A sigla tem sido interpretada como as iniciais do dono da propriedade depois de Carvalho Monteiro, e poderia muito bem ser se o portão não fosse coevo do proprietário original. Apesar da sigla apresentar claramente as letras ACL, mesmo assim há quem veja nelas invés do C um G para conferir com o nome António Gomes Lobo, que por volta de 1929/30 comprou Quintais por trinta contos de réis ao dr. Pedro Augusto de Melo de Carvalho Monteiro, filho de António Augusto Carvalho Monteiro. Natural de S. Paio, concelho de Oliveira do Hospital, António Gomes Lobo era de origem humilde, emigrou para a África onde trabalhou na construção civil e fez fortuna. Autodidacta de cultura feita às suas custas por gosto à mesma, regressou à terra natal e estabeleceu-se em Lagos da Beira, vindo a casar com Carminda Chaves Maia, licenciada em farmácia, natural de Aradas, Chaves. Por essa altura comprou a quinta para dedicar-se à agricultura e a sua progénie crescer calma e feliz. Actualmente vive aí uma filha de António Gomes Lobo, Isabel Chaves Maia Lobo, com o marido, partilhando a propriedade com o seu irmão João Chaves Maia Lobo, residente em Lisboa.

O portão em causa tem severas semelhanças com um outro existente na Quinta da Regaleira de Sintra, ao qual também não falta o signo salomónico, e que é aquele vedando o caminho subterrâneo de saída ou acesso à cripta da capela da quinta. Ao lado deste aqui também não faltam as torres ameadas ao gosto (neo)medieval, uma servindo de depósito de água e outra como chaminé com torreão central, motivo sugerindo severamente a presença da Alquimia, em cujo programa iconográfico aparece igualmente a torre simbólica do athanor ou “forno alquímico”. Duas torres, tal qual como na Regaleira, em guisa de evocação hermética do solve et coagula, sendo ainda a Torre da Fé aquela mesma que dessedenta o crente com a Água da Vida que é a Palavra Viva da Igreja de Cristo.

Na heráldica falante, é marcante a presença da torre no imobiliário da família Carvalho Monteiro posta em relação severa com a famosa torre do mito de Melusina, mãe da progénie Lusignan. Neste sentido, o ACL gravado no portão poderá muito bem ser António Carvalho Lagoense, por afeição, posto em relação com a sereia dos lagos de Lusignan.

Portão de Quintais, Lagos da Beira

Portão de Quintais, Lagos da Beira

A estrela de cinco pontas ou pentagrama (o símbolo salomónico aqui representado em duplicado para condizer esteticamente com a duplicidade do portão) terá aqui um significado muito especial atendendo ao especial “gnosticismo católico” de Carvalho Monteiro: a iconologia cristã utiliza-a como referência às cinco chagas do Cristo Crucificado, mas também como um signo que pela sua forma fechada corresponde ao círculo, indo representar a união do princípio e fim em Cristo. Curioso que entre os monges construtores medievais o pentagrama significava ainda a realização, a expressão do perfeito, tendo chegado a ser usado como sinal de reconhecimento entre os membros das confrarias de construtores, que traçavam este símbolo nas suas cartas como forma de saudação, equivalendo à palavra latina vale: passe bem. Era então conhecido como higia, nome grego de Higia ou Higeia, a deusa da saúde. É igualmente signo mágico de exorcismo e protecção contra as influências malignas, tanto visíveis quanto invisíveis, considerado na Idade Média o talismã com mais poder por representar o próprio Cristo Todo-Poderoso, senão o próprio Deus Vivo ante o qual as trevas malignas revelam a sua impotência. Com isso, dispondo os pentagramas à entrada da sua propriedade, por certo Carvalho Monteiro quis exorcizá-la das forças das trevas, protegendo-a de gente e almas malignas.

Como se viu, o pentagrama é a estrela composta por cinco linhas rectas e que possui cinco pontas. Na língua portuguesa, pentagrama significa uma palavra com cinco letras. Na música, indica as cinco linhas paralelas que compõem a partitura. Originalmente era o símbolo da deusa romana Vénus (figurada na mesma Melusina), e assim é associado a este planeta cuja órbita, vista da Terra, descreve aparentemente uma estrela de cinco pontas, como já informava a astronomia ptolemaica. Na Natureza, o pentagrama é o signo do quinto elemento, o Éter, assinalado na sua ponta superior, enquanto nas demais pontas inferiores se assinalam os restantes quatro elementos naturais: Ar, Fogo, Água, Terra. O pentagrama (ou pentalfa) também é símbolo do Infinito: dentro do pentágono no centro do pentagrama é possível fazer outro pentagrama menor, e assim sucessivamente. Possui simbologia múltipla sempre fundamentada no número 5, que representa o casamento unindo o masculino (o 3) e o feminino (o 2), desta forma simbolizando a união dos contrários necessária para a realização espiritual e também a fundação da progénie familiar. Por todos esses motivos, na matemática com origem na Escola Pitagórica, o pentagrama (emblema dessa instituição grega) anda ligado ao número de ouro (1.618): composto por um pentágono regular e cinco triângulos isósceles, a razão entre o lado do triângulo e a sua base (lado do pentágono) é o número de ouro. A Cabala judaica, através dos seus rabinos mais eruditos, considera o pentagrama símbolo da Vontade de Deus e da Sua Protecção. No Cristianismo é a Estrela do Natal, a do Nascimento de Cristo preanunciando a Ressurreição, tanto do Espírito no Corpo (Nascimento) como do Corpo no Espírito (Ressurreição).

Na Maçonaria é a Estrela Flamejante da Iniciação, plantada ao Oriente da Loja, assim também simbolizando a Ressurreição, após a Morte, do profano como novo Iniciado. Quando o pentagrama se apresenta invertido, geralmente assumido símbolo do Mal contrário ao do Bem que é o pentagrama ao alto, quer dizer que o Espírito mergulhou na cegueira da Matéria e nos padecimentos carnais da alma humana[12].

Parentes do Pelágio em tempo de paz e cortesia são as artes venatórias, particularmente as da falcoaria e montaria, exclusivas na nobreza e por isso chamadas de Arte Real. Pois bem, no seu significado transcendente a montaria é uma modalidade da iniciação obtida após demanda ou peregrinação, donde ser uma iniciação activa ou “guerreira” (kshatriya, em sânscrito) própria para reis e cavaleiros, apodando-a indistintamente de Iniciação Real, Iniciação Senhorial e ainda Iniciação Mariana, posto ser Santa Maria quem assiste ao cavaleiro de demanda cuja profissão de armas dá-lhe como vizinha constante a morte, motivo pare ele A invocar constantemente: “Santa Maria, Mãe de Cristo, rogai (intercedei) por mim na hora da minha morte”! É este o motivo que assiste à criação medieval da tradição iconográfica dos “santos caçadores”, como São Thelo, São Conrado, Santo Eustáquio, Santa Genoveva, São Frutuoso de Braga, São Mamede e Santo Huberto, o mais famoso de todos, não esquecendo a lenda templária (aliás retratada dentro da capela da Quinta da Regaleira de Sintra) do sítio da Nazaré, quando o almirante-mor da frota marítima da Ordem do Templo, D. Fuas Roupinho, ao perseguir um veado foi salvo de cair no precipício pela própria Virgem Maria, que lhe apareceu, fazendo o cavalo estacar. Lá está até hoje o sítio da “Memória” e as marcas dos “cascos” da besta freada pela Mãe de Deus.

Uma das práticas mais interessantes da Alquimia também era chamada, na Idade Média, de Arte Real. Partindo da ideia de imperfeição e decadência dos seres da Natureza, a Grande Obra Alquímica (Obra Mística, Obra da Fénix, Via do Absoluto, etc.) era procurar reintegrar o Homem na sua dignidade primordial, divina. Encontrar a Pedra Filosofal era descobrir o Absoluto, era possuir o Conhecimento Perfeito (Gnose). Esta via principal devia conduzir por uma vida mística na qual, pela extirpação das raízes do pecado, o homem se tornaria generoso, doce, piedoso, crente e temente a Deus[13].

Por essa razão, a Arte Real era “Arte de Guerra” (expressada em tempo de paz, na Idade Média e chegando à Renascença, pelas supraditas artes venatórias da montaria e falcoaria) afim a reis e príncipes, devendo em princípio guerrear a sua própria natureza inferior, com isso cultivando as maiores virtudes de justiça e perfeição que lhes cabia exercer junto dos povos sob o seu domínio. Mas também se associava constantemente à Arte Sacerdotal exercida por religiosos praticantes das artes herméticas, alguns deles tendo subido aos altares de santidade, como, por exemplo, Santo Alberto Magno, reconhecido alquimista.

De algum monteiro caçador, porventura próximo da Ordem de São João do Hospital, sairia a família Monteiro, sobre quem diz o Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica):

“MONTEIRO. Dizem os genealogistas que esta família provém de Rui Monteiro, fidalgo do tempo de D. Afonso Henriques, morador em Penaguião, em cujo concelho possuiu bens. Teve o padroado de Santa Ovaia de Andufe, foi muito rico e poderoso e recebeu-se com Elvira Gonçalves, filha de D. Gonçalo Moniz e de sua mulher, Maria Anes. Parece, porém, pelo exame da sua descendência e dos reinados em que esta viveu, não ser Rui Monteiro tão antigo como dizem. O apelido parece provir de alcunha, certamente tirada de ofício. Do mencionado casamento houve vários filhos que continuaram o apelido. O bispo de Malaca, D. João Ribeiro Gaio, dedicou a esta família os seguintes versos:

O que se chamou Monteiro

foi D. Payo de Peleja,

deste apelido primeiro

casou com D. Thereja

foi um grande cavaleiro.

“As armas dos Monteiros são: De prata, com três trompas de caça de negro, embocadas e viroladas de ouro, os cordões de vermelho. Timbre: duas trompas do escudo, passadas em aspa, atadas de prata.”

D. Manuel I saindo do Paço de Sintra em montaria com o falcoeiro em destaque (aparelho de azulejaria na Quinta da Regaleira)

D. Manuel I saindo do Paço de Sintra em montaria com o falcoeiro em destaque (aparelho de azulejaria na Quinta da Regaleira)

Monteiro foi Francisco Augusto Mendes, o ilustre lagoense que nunca esqueceu a sua origem e muito fez e deu à terra que o viu nascer cerca de 1825. Procurando a fortuna no Brasil promissor, ainda jovem fez-se emigrante instalando-se no Rio de Janeiro, e a pulso foi conquistando fortuna ganha no comércio onde começou como escriturário, a qual aumentou incomensuravelmente quando conheceu e se casou com Ana Teresa Carolina de Carvalho, nascida no mesmo ano que ele, herdando o negócio de família dela: a exclusividade do transporte marítimo Rio de Janeiro – Lisboa de cafés e pedras preciosas[14]. Desde então, graças à sua volumosa fortuna que o tornou um dos homens mais ricos do país, ficou alcunhado de “Monteiro, o Milhões”, apodo que o seu filho António Augusto também herdaria, “Monteiro, dos Milhões”, e alguns mais desabridos na verborreia enciumada até o alcunhando de “caga-milhões”.

Católico e monárquico assumido, de convicções profundas, Francisco Monteiro abraça a “religião pátria” (que o filho prosseguiria), reconhecendo em Santa Maria Coroada a suprema Rainha de Portugal, oferecendo ricos presentes à Régia Confraria de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, cujo Santuário Nacional nasceu de uma primitiva ermida gótica que nos finais do século XIV o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira fez consagrar à Senhora da Conceição, sendo o primeiro templo desta devoção pátria (devotionis patriae) em toda a Península Ibérica, antecedendo assim em quase 500 anos a definição dogmática de 1854 sobre a Imaculada. Esta imagem de Nossa Senhora de Vila Viçosa, apresentando punções e a data de 1406, terá sido oferta da Casa Real inglesa na pessoa não do rei D. João I mas do próprio Santo Condestável. Grata pelos serviços prestados por Francisco Augusto Mendes Monteiro, a Régia Confraria deu-lhe o título de comendador em 19 de Janeiro de 1856, como consta no seu Livro 8: “Francisco Augusto Mendes Monteiro = Carta de Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa = De 19 de Janeiro de 1856. Livro 8.”[15]

Nesse mesmo ano, em guisa de agradecimento pelo sacro e régio título recebido, Francisco Augusto Mendes Monteiro iria deixar o seu nome ligado à primeira grande ampliação e renovação da igreja paroquial de Lagos da Beira. Para o efeito, ofereceu à Junta da Paróquia a quantia de um conto e duzentos mil réis em metal sonante, para o fim de ser aplicada na construção da fachada e de uma torre no edifício. Tão valiosa oferta teve lugar na sessão extraordinária de 7 de Dezembro de 1856, em cuja acta consta: “Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e cinquenta e seis. Aos sete dias do mês de Dezembro reunida a Junta de Paróquia na Sacristia da Igreja Matriz [de] S. João Baptista de Lagos da Beira […], compareceu neste acto o Exm.º Senhor Comendador Francisco Augusto Mendes Monteiro oferecendo generosamente a esta Junta a quantia de um conto e duzentos mil réis, metal sonante, para o fim de se aplicarem a fazer a frente e uma Torre no edifício da Igreja Matriz desta Paróquia que se acha em grande precisão”.

Na acta constam ainda cláusulas requeridas pelo mecenas que especifica a maneira como deseja que a torre e a fachada da igreja sejam construídas (iniciativa singular em jeito de mestre arquitecto que também Carvalho Monteiro tomaria, tanto nesta aldeia como em Sintra), escolhendo para a execução da obra o mestre pedreiro Bernardo de Sousa Gouveia, do lugar de S. Sebastião da Feira, do concelho de Oliveira do Hospital, exigindo ainda que o risco da fachada fosse o da ordem Toscana. Esta ordem, que foi desenvolvida na época romana, é a simplificação da ordem Dórica, de origem grega, geralmente empregada no exterior de templos consagrados a divindades masculinas, e aqui é masculino o Orago da paroquial: S. João Baptista, aparelhando com S. Miguel Arcanjo também cultuado nesta igreja desde que a pequenina ermida da sua evocação foi desactivada.

Francisco Augusto Mendes Monteiro (Lagos da Beira, 9.3.1816 - Lisboa, 1.11.1890)

Francisco Augusto Mendes Monteiro (Lagos da Beira, 9.3.1816 – Lisboa, 1.11.1890)

Com efeito, houve a Irmandade de São Miguel das Almas importante nesta aldeia, que hoje está desactivada mas a que terá pertencido Francisco Augusto Mendes Monteiro, eventualmente retratado entre os oito principais irmãos, com o Arcanjo Quis ut Deus flutuando sobre eles, num painel processional dos fins do século XIX que está na sacristia da paroquial. Possivelmente o seu filho António Augusto Carvalho Monteiro também terá pertencido a esta irmandade de sufrágio, cuja função psicopompa ou intermediária só poderia ter como Orago o primeiro dos Arcanjos, São Miguel, intercessor das almas junto do Trono de Deus. O ofício de sufrágio pelos falecidos tem o nome grego de panikhida ou parastás, significando precisamente “intercessão”, traduzidos em português como “sufrágio”, na linguagem eclesiástica significando o acto litúrgico ou a oração comunitária de intercessão pelos falecidos. Este ofício de sufrágio pelos mortos segue o roteiro do Ofício de Matinas do Rito Bizantino, celebrado principalmente ao sábado quando não é festivo, sendo dedicado à comemoração dos mortos. O Rito Romano segue o roteiro das “estações” ou momentos, parando o cortejo para reflectir e orar pelos falecidos, desde a igreja até ao cemitério, junto das chamadas “alminhas”. Também a celebração do Ofício Exequial possui vários momentos, sendo o dia consagrado aos santos e aos falecidos precisamente o de Todos-os-Santos e dos Finados no início de Novembro. Assim, a Parastás ou Sufrágio pode celebrar-se de duas formas: a completa, mais solene, e a abreviada. A forma plena é reservada às ocasiões especiais nos dias de finados designados como universais, e a forma abreviada é a que se usa nas ocasiões comuns, nas igrejas, nos cemitérios ou nos lares. Esta última forma é a mais comum por motivos práticos, podendo sempre variar conforme o costume particular de cada igreja, mantendo porém o esquema original do Ofício de Matinas[16]. A Irmandade de São Miguel das Almas servia de extensão e apoio do clero junto da comunidade, dando assistência corporal às famílias enlutadas e assistência espiritual às almas partidas.

Os irmãos de São Miguel das Almas, conforme está apresentado no painel referido, além de se mostrarem acompanhados da vara da Irmandade, espécie de báculo pastoral, tinham sobre os ombros a capa branca, muito semelhante àquelas primitivas dos cavaleiros templários e mesmo dos cistercienses, o que remete para o sentido primacial da Cristandade assumida pela Ordem do Templo e prosseguida depois pela Ordem de Cristo. Sendo o Arcanjo São Miguel o Assistente da Igreja e da Sinagoga, Henri Corbin lembra que “uma aparição de Miguel equivale a uma aparição da Shekinah”[17], valendo-se para isso de uma citação do Sepher-Ha-Zohar: Ubicumque inveneris Michaelem qui est primus illorum [angelorum], ibi subintellige Schechinam (“Sempre que encontrares mencionado Miguel, que é o primeiro dos Anjos, subentende a Shekinah”).

Painel da Irmandade de São Miguel das Almas, conservado na sacristia da igreja paroquial de Lagos da Beira

Painel da Irmandade de São Miguel das Almas, conservado na sacristia da igreja paroquial de Lagos da Beira

A Shekinah equivale à manifestação real de Deus em forma feminina na Terra, revelada por intermédio de Mikael à comunidade dos crentes. Revela-se nisso a Actividade Universal do Logos Eterno no acto de Criação, que por sua função similar à da Mulher em gestação foi pelos antigos cabalistas judaico-cristãos ligado à fácies materna de Deus, à Mãe de Deus assumida Espírito Santo movendo-se sobre as “águas etéricas” ou do Além-Akasha antes da Criação, para logo “soprar” ou “alentar” a mesma como o Espírito de Deus portador do Hálito Divino, acto primordial da génese universal que leva o nome hebreu Meracha Phath.

A doutrina oculta da Shekinah para os hebreus, ou Sakinah para os árabes, tem o seu principal ponto de referência no Antigo Testamento, nas passagens em que se trata da instituição de um centro religioso e espiritual: a construção do Tabernáculo, a edificação dos Templos de Salomão e de Zorobabel. Tal centro, constituído em condições regularmente definidas, devia ser efectivamente o lugar da Manifestação Divina, da “Presença Real de Deus”, Shekinah, sempre representada como “Luz” (Domus Lucis, Portae Lucis, Janua Lux…). É curioso observar que a expressão “mais iluminada e mais regular” que a Maçonaria tem conservado, parece ser a memória da antiga ciência sacerdotal que presidia à construção dos Templos, o que de resto não era exclusividade particular da Raça de Judah. Neste sentido, S. Miguel ou Mikael corresponde ao sacerdote do Templo Celeste e ao instaurador do Templo Terrestre, prerrogativas pressupostamente conhecidas de Francisco Monteiro e de seu filho Carvalho Monteiro ao assumirem o encargo de arquitectos súbitos, querendo que os edifícios mandados fazer por eles ficassem exclusivamente de acordo com o querer do seu entendimento particular, nisto parecendo reproduzir os moldes directores da primitiva ciência sacerdotal assistida pelo Arcanjo S. Miguel, que é o veículo de corporificação do Verbo, tal qual o Templo é a corporificação canónica do Corpo de Deus. Na Shekinah está a causa da Influência Espiritual, presidindo a todas as modalidades de Iniciação e Iluminação. Ainda que a Igreja cristã lhe chame Bênção, o sentido exacto é Influência Espiritual, como se traduz do termo hebraico original, berakoth, e do árabe barakah.

Mas é o Sepher-Ha-Zohar, obra do rabino ibérico Moisés de Leon (século XIII), quem aprofunda e explana mais a doutrina oculta da Shekinah. Toda ela se inscreve numa Fede de Amor em referência ao amor do Homem por Deus e ao sentimento recíproco da Divindade. Aí postula-se a identidade entre o temor de Deus e o amor mais puro, traduzido como fé. O Zohar, na descrição da longa viagem que a alma executa ao deixar o corpo, fala na assunção da mesma na sua peregrinação até ao “Palácio do Amor”, onde ela deixa cair o último véu ao apresentar-se diante do seu Mestre, ou seja, ao alcançar o derradeiro e supremo estado de Consciência Espiritual. Para Moisés de Leon só houve um que, enquanto vivo na Terra, se mostrou ligado à Presença Real de Deus, à Shekinah: o Patriarca Moisés. Deste, e unicamente deste, é dita a sentença: “Esteve unido intimamente com Shekinah[18]. Pela primeira vez, a união mística entre o mortal e o imortal foi representada em termos de casamento terreno, tendo este por resultado natural a geração familiar, cuja tradição é sempre o encargo mais importante do patriarca da família que normalmente transmite o seu saber por via oral ao varão primogénito, de maneira a ficar assegurada tanto a continuação da progénie como a ininterrupção da transmissão da herança familiar que, neste particular, será a de um núcleo eleito, como parece ter sido o caso da família Carvalho Monteiro, cujas origens remotas estão envoltas na bruma da lenda teimando no mito maravilhado de Melusina, também esta prefiguração simbólica da Virgem Mãe.

O autor na igreja paroquial de Lagos da Beira

O autor na igreja paroquial de Lagos da Beira

A Shekinah apresenta-se sob múltiplos aspectos, dos quais dois são os principais: o interno e o externo, assinalados tão claramente quanto possível na tradição cristã pelas frases Gloria in excelsis Deo e in terra Pax hominis bonae voluntatis. A palavra Gloria refere-se ao aspecto interno relacionado com o Princípio Espiritual, com o Espírito Santo, promanando, através dos 7 Anjos Diante do Trono (Malakim), os 7 Influxos ou Raios Espirituais no aspecto externo ou Mundo manifestado pela mesma Shekinah, indo caber-lhe a palavra Pax. Pax et Gloria são os atributos da Shekinah como Terceiro Trono, manifestado e manifestando ao Eterno representado em cima por Metraton, o Arcanjo intermediário ou psicopompo no Plano do Segundo Trono, logo, só por Aquela o Pai e o Filho se tornam possíveis de idealizar e alcançar pelas criaturas humanas.

A Shekinah contém-se, pois, na tríplice fórmula de Lux – Gloria – Pax, Divina, Celeste e Humana, e para a sua preanunciação a iconologia judaico-cristã destinou-lhe o símbolo alvo da Pomba, que expressando ao Espírito Divino de Santidade traz consigo a Boa-Nova do Pai na forma avatárica do Messiah, do Filho Incarnado ou dado à Luz do Mundo pela Divina Mãe, para Glória das Almas e Paz dos Povos. Ainda no simbolismo tradicional, a Luz da Shekinah, que é Kundalini ou o Fogo Criador do Espírito Santo irrompendo do seio da Terra, representa-se pela amendoeira florida, cuja cor branca expressa a Pureza e a Virtude[19], enquanto a sua antítese é a figueira seca, expressiva da Heresia e o Pecado extirpados por Cristo (Marcos, 11:12-14), o Vinhateiro de Deus, figurando a longanimidade do Espírito Santo expressivo da Clemência e da Eleição.

Certamente S. Miguel assistirá igualmente à noção de “religião pátria” desenvolvida em volta da promessa de Advento de Cristo que terá Portugal como a sua peanha, ideia sebástica perfilhada por Carvalho Monteiro da qual deixou sinais óbvios na sua Quinta da Regaleira. Diz Manuel J. Gandra[20]:

“Compreende-se isto em vista da tradição bíblica que faz de Melki-Tsedek, rei e sacerdote, e modelo do Preste João, Rei de Justiça (LEX) e de Salém (PAX), cujos atributos são a balança e a espada, também distintivos de Mikael (Quis ut Deus?).

“A manifestação de Mikael assinala sempre a glória da Shekinah, a Grande PAZ e LUZ do Messias, sendo representado na décima Sephira: Malkuth, com o significado de o REINO e o JUSTO (Tsedek).

“Portugal assume-se, assim, desde os primórdios da sua existência, e com a cobertura de Cister e do Templo, como ungido de Deus, pois que o sacerdócio de Melki-Tsedek, compatível com o conceito de realeza divina, corresponde ao de El-Elion e este ao de Emmanuel, razão fundante para que, no século XVI, o rei D. Manuel, Emmanuel de seu nome e, não menos curiosamente, o décimo quarto Rei de Portugal (aliás como a própria profecias de Isaías exigia), se apresentasse como «Rei de Portugal e do resto», isto é, como Rei do Mundo.

“Corroborando a justeza da nossa reflexão o facto de, através do mesmo monarca, ter sido concedida a Portugal a prerrogativa de invocar S. Miguel como seu Anjo Custódio[21].”

Por tudo isso, quiçá ou decerto, ademais correspondendo ao período áureo da Gesta Dei per Portucalensis, não terá sido por acaso que Carvalho Monteiro escolheu o neomanuelino como estilo de eleição dominante na sua propriedade da Regaleira de Sintra, abundando os símbolos manuelinos sem faltar no palácio o retrato pintado de D. Manuel I, o Venturoso.

António Augusto Carvalho Monteiro prossegue a obra benemérita iniciada por seu pai em Lagos da Beira. Como os quinhentos mil réis cedidos pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital em 22 de Abril de 1908 para a construção da estrada Lageosa – Lagos da Beira não chegasse para pagar as obras e já estando os terrenos expropriados, na sessão de 1 de Maio de 1911 da Câmara Municipal foi apreciado um ofício da Comissão Paroquial de Lagos da Beira datado de 27 de Abril último, participando estar habilitada a custear as despesas necessárias para a conclusão da dita estrada graças à generosidade do dr. António Carvalho Monteiro a quem aquela Comissão se dirigira, expondo-lhe os graves prejuízos que resultavam da paralisação daquela obra. A Câmara Municipal agradeceu em nome de todo o concelho ao ilustre benfeitor, e na acta da sessão da Junta da Paróquia lagoense, de 15 de Outubro de 1911, consta que a conclusão da estrada de Lageosa a Lagos da Beira foi adjudicada ao empreiteiro Luciano Albino Gonçalves pela quantia de seiscentos e quarenta mil réis[22].

Carvalho Monteiro amava Lagos da Beira e o seu povo como poucos. A sua natureza boa e generosa levava-o a tomar atitudes próprias de um rei ou de um senhor feudal com terra sua, como essa de no dia da festa do santo local, S. João Baptista (24 de Junho), da varanda da casa de seus pais (na actual Rua Dr. Carvalho Monteiro) arrojar “à rebatina”, com uma medida de peso de cereal, enormes quantidades de moedas sobre o povo em baixo, logo apanhadas pelos pobres infortunados da vida. A gratidão geral para com o seu benfeitor não foi esquecida até hoje e creio que nunca será.

Casa de Francisco Augusto Mendes Monteiro na actual Rua Dr. Carvalho Monteiro, em Lagos da Beira

Casa de Francisco Augusto Mendes Monteiro na actual Rua Dr. Carvalho Monteiro, em Lagos da Beira

Quando Carvalho Monteiro quis ampliar a sua propriedade de Quintais deparou-se com o obstáculo da capela de S. Roque, antiquíssima (talvez do século XV ou anterior) mas em estado lastimoso de ruína, situada no largo ou imediações da antiga Praça de S. Roque de que sobra a Travessa do mesmo nome. Então, ele requereu da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, sendo presidente António Freire de Carvalho Albuquerque, autorização para demolir a capela e construir uma nova onde hoje está, fora dos muros de Quintais defronte a esta. A requisição consta na acta da sessão de 9 de Julho de 1897. A autorização foi concedida.

A população lagoense não se opôs, antes agradeceu a demolição da capela arruinada e abandonada pela construção de uma outra da mesma evocação. No Inventário dos prédios e outros bens pertencentes à Junta da Paróquia da Freguesia de Lagos da Beira, consta o seguinte com a data de 6 de Maio de 1870: “Capela de S. Roque – Uma capela em sofrível estado material, em Lagos da Beira, e composta de um altar e sacristia; tem um adro e um campanário com um sino pequeno. Não tem bens”. Não era bem assim, pois no Inventário dos paramentos, vasos sagrados e mais utensílios destinados ao culto, datado de 29 de Setembro de 1872, consta o seguinte: “Um cálice de estanho com copa e patena de prata usada, que pesa 687 gramas; um véu do cálice branco, usado; um dito, encarnado, usado; uma bolsa dos Corporais, branca e encarnada, usada; duas alvas com seus pertences, muito usadas; seis castiçais e Cruz de pau dourado, muito deterioradas; três toalhas do altar muito usadas, e dois manustérgios[23]; uma lâmpada velha e um Missal muito usado; uma galheta com seu prato de estanho; uma campainha de tocar a Santos”. A capela tinha o necessário à celebração da missa, mas tudo muito desgastado, envelhecido e retirando dignidade à celebração. Talvez por isso, na época já não se realizava aí.

Dando cumprimento ao prometido, em substituição da que havia mandado demolir o dr. Carvalho Monteiro mandou edificar um novo templo, também consagrado a S. Roque, encarregando do projecto o seu amigo projectista do Hotel-Palácio do Buçaco, o famoso cenógrafo-arquitecto italiano Luigi Manini, que executou uma verdadeira obra de arte a que não falta o tipo simbológico cristão-hermético peculiar ao pensamento de Carvalho Monteiro. Os trabalhos foram iniciados e concluídos entre 1900 e 1910. Todavia, inexplicavelmente o novo templo demorou a ser entregue, a tal ponto que na sessão de 23 de Março de 1919 o presidente da Junta de Freguesia de Lagos da Beira propôs que a mesma se dirigisse ao dr. Carvalho Monteiro, pedindo-lhe, com todo o respeito, que se dignasse entregar a nova capela à Igreja e ao povo. Apesar de não constar no Livro de Actas da Junta de Freguesia, Tarquínio Hall (in ob. cit.) presume que a capela foi inaugurada em 1921, portanto, já tendo falecido no ano anterior o ilustre mecenas (20.10.1920), ou talvez mesmo nesse ano da sua morte.

Capela de S. Roque de Lagos da Beira, mandada construir por António Augusto Carvalho Monteiro

Capela de S. Roque de Lagos da Beira, mandada construir por Carvalho Monteiro

A demora na entrega da capela às autoridades eclesiásticas e ao poder local, poder-se-á explicar pelo facto do período conturbado que varria o país, a ponto de a Carbonária, através de um tal Buíça, consumar o regicídio em 1.2.1908 na pessoa de D. Carlos, amigo pessoal de Carvalho Monteiro, e do príncipe real D. Luís Filipe, tendo sido o primeiro passo para a queda da Monarquia e a instauração da República em 5.10.1910, com as consequentes convulsões político-sociais, cuja violência carbonária e republicana se abateu sobre os católicos e monárquicos em todo o país, não escapando Carvalho Monteiro, entretanto preso e julgado à revelia no Tribunal da Boa-Hora, Lisboa, em 1913. De certa maneira, o povo trabalhador e ordeiro de Lagos da Beira, mais católico e conservador que liberal e jacobino, passou incólume à tempestade que varreu Portugal nas duas primeiras décadas do século XX e com o quinto Presidente da República, almirante João do Canto e Castro da Silva Antunes (Lisboa, 19.5.1862 – Lisboa, 14.3.1934), que aliás era Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa desde 1891, houve um período de acalmia e pazes com a Igreja Católica, que certamente foi aproveitado para entregar a capela de S. Roque de Lagos da Beira em 1920 ou 1921 aos seus legítimos destinatários.

Este pequeno templo é uma jóia do imobiliário artístico português merecendo visita obrigatória, o qual Virgílio Correia já catalogou mas com imprecisão no verbete respectivo (talvez por não ter visitado a localidade, talvez por ter se informado mal, talvez, o que não é raro, por ter encomendado o texto a um seu aluno que para agradar ao professor apressou-se a escrevê-lo, mesmo quase de certeza desconhecendo a história local)[24]: “LAGOS DA BEIRA. CAPELA DE S. JORGE – Substitui uma outra que ficava em ponto mais baixo. É dos começos do século XIX, mandada fazer pelo colecionador Carvalho Monteiro, sob projecto de Luigi Manini. Miniatura de um templo de categoria, a capela é um interessante documento, no qual o autor procurou um marcado efeito cenográfico. Os tectos são de madeira, pintados”.

Ora a capela não é dos começos do século XIX mas do XX e tampouco é consagrada a S. Jorge, equívoco óbvio com S. Miguel, cuja capela, próxima desta, era onde se celebravam os ofícios fúnebres antes da ampliação do cemitério cuja entrada ficava defronte a ela.

Interior da Capela de S. Roque, Lagos da Beira

Interior da Capela de S. Roque, Lagos da Beira

A pintura do tecto de madeira pentagonal, irradiando por cima do altar, dá ao espaço um sentido de amplidão maior do que possui, em guisa de basílica renascentista, efeito feliz procurado por Carvalho Monteiro e realizado por Luigi Manini. As figuras pintadas são no estilo da Renascença e do Barroco italianos, vendo-se aos pares, em cada caixilho, duas cabeças de Anjos, uma lateral e outra frontal, desta saindo a Taça Eucarística por certo prefigurativa do Santo Graal, simbólico do repositório das mais elevadas influências espirituais. Também aos pares, noutros dois caixilhos, revela-se uma cabeça de Anjo frontal sobre a qual domina uma cornucópia com frutos e flores, símbolo da abundância e da riqueza tanto material como sobretudo espiritual. O conjunto de taça e cornucópia, mantido pelas cabeças angélicas simbólicas da consciência sobrehumana, consequentemente da noção superior que dirigiu o pensamento tanto do artista como do encomendador, significa a influência absoluta do Espírito Santo tanto no Céu (taça) como na Terra (cornucópia), posto que a Taça Sagrada é sempre indicativa da presença da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Finalmente, no caixilho central vê-se o pelicano alimentando os seus três filhotes e que é o emblema franciscano da Eucaristia preanunciado o derradeiro Sacrifício do Senhor, com isso expressando à máxima virtude cardeal da Caridade ou Amor, tema acaso transportando para o sentido da Igreja do Amor com que foi conhecida a corrente gnóstica portuguesa nos séculos XIV a XVI.

O simbolismo do Sacro Pelicano ou Pelicano Eucarístico alimentando os seus sete filhotes (os números destes variam nas várias peças expostas do mesmo teor, mas o número exacto é sete) com a sua própria carne, foi adoptado pelos franciscanos a partir do século XIII como representação da Abnegação, da Caridade e do Amor Paternal. Por esta razão, a iconografia cristã medieval fez dele um símbolo do Cristo Pascal, ainda que exista uma outra razão mais profunda. Símbolo da natureza húmida que, segundo a Física antiga, desaparecia sob o efeito do calor solar e renascia no Inverno, o pelicano foi assumido como figurativo do sacrifício e morte de Cristo e da sua ressurreição, assim como da de Lázaro. Por isto, é que a sua imagem às vezes equivale à da fénix, a ave mítica que morre no fogo e renasce das próprias cinzas. Todo este simbolismo ligado ao Cristo também se funde na chaga do coração donde manam sangue e água, seivas da vida, o que levou o poeta místico Angelus Silesius, no século XVII, a escrever: “Desperta, cristão morto, vê: o nosso Pelicano rega-te com o seu sangue e com a água do seu coração. Se a recebes bem, de imediato ficarás vivo e salvo”[25].

Sagrado Coração de Jesus aureolado com a Cruz Pátea da Ressurreição (pintura na sacristia da paroquial de Lagos da Beira)

Sagrado Coração de Jesus aureolado com a Cruz Pátea da Ressurreição (pintura na sacristia da paroquial de Lagos da Beira)

Esse simbolismo de morte e ressurreição do crente em sábio, do confessional em racional, porque todo o que sabe é superior ao que quer entender, transfere para o significado hermético da Páscoa disposta no plano da Alquimia. Inúmeros textos e gravuras medievais e renascentistas fazem eco desse tema, como por exemplo Arnaldo de Vilanova, médico da Rainha Santa Isabel de Aragão e Portugal[26], que na sua obra Os Segredos da Natureza ou O Segredo dos Segredos dá uma descrição dos processos de fabrico da Pedra Filosofal usando a terminologia cristã referente à Paixão de Cristo. Também Basílio Valentino fala da Pedra criada pela Santíssima Trindade. Já no século XV o dogma da Trindade e a Paixão de Cristo foram igualmente empregues no texto alquímico Livro da Trindade[27]. A Argiopeia ou fabrico da Prata, correspondente à Iluminação da Alma, representa-se no Sagrado Coração de Maria, enquanto a Crisopeia ou fabrico do Ouro, correspondente à Imortalidade do Espírito, assinala-se no Sagrado Coração de Jesus, ambas imagens pascais presentes em duas pinturas conservadas na sacristia da paroquial de Lagos da Beira, com toda a certeza coevas de Francisco Monteiro e de seu filho, Carvalho Monteiro.

Carvalho Monteiro mandou fazer as imagens seguintes para a capela de S. Roque: nos nichos laterais, Santa Teresa de Jesus, a carmelita de Ávila, com o livro aberto talvez sendo o seu Caminho da Perfeição, talvez sendo o seu Livro da Vida ou talvez as suas Moradas – Castelo Interior. Num contexto mais particular, acaso poderá ser uma homenagem de Carvalho Monteiro a sua mãe Teresa, homónima daquela, assim sacralizando a sua progenitora. Defronte apresenta-se S. Sebastião, flechado com duas setas e tendo o elmo militar aos pés, indicativo da sua condição de militar mártir que a Cristandade adoptou como sinónimo do ideal de Cavalaria e da própria casta militar cujo chefe supremo era o rei. Por isso Sebastião santo e Sebastião rei emulam-se e confundem-se, como sucede no tema sebástico, vulgo sebastianismo, dispondo Sebastião na linha hermética da Iniciação Senhorial ou Real (curiosamente a toalha do altar é decorada por flores-de-lises), representada pelos Kshatriyas ou ”Cavaleiros” guardiões da Terra Santa, imagem figurativa da Agharta ou Paraíso Terreal, este que Carvalho Monteiro por certo quis dispor idealmente na própria Lagos da Beira. Nos nichos frontais tem-se à direita St.º António com o hábito e o cordão franciscano, contemplando Cristo no Crucifixo entre as suas mãos. No contexto particular poderá muito bem ser a homenagem de António Augusto a seu pai Francisco, homónimo daquele, assim sacralizando o  progenitor[28]. Isto reporta novamente ao significado da sigla ACL no portão de Quintais. Finalmente, tem-se à esquerda o Orago desta capela, S. Roque. Trajado de peregrino com bordão e sacola, ostenta a rótula chagada da lepra que o cão aos pés lambe e cura o mal. A “lepra maligna” deixa a dúvida se se trata de uma doença corporal ou de uma doença moral, acaso ambas, registando-se a segunda pela primeira, pois na Idade Média era sinónima de heresia, de crença heterodoxa em conflito com a ortodoxa vigente. Aqui, a cabaça, também aos pés de S. Roque, acaso poderá significar o repositório de algum saber ocultado, impondo uma dupla interpretação que nem por isso suscitará contradição por o racional ser explicativo do confessional, a crença elevada à fé. Se assim é, estar-se-á perante o Iniciado na Tradição Primordial, cujo Caminho é velado pelo cão, eterno companheiro e guia de todo o Adepto da Filosofia Hermética. Sobre isto a ver com S. Roque, diz Juan Garcia Atienza[29]:

“Encontramo-nos perante um dos santos mais equívocos e misteriosos do santoral cristão, perante um autêntico mito a quem parece haver-se escamoteado a realidade palpável da sua existência para configurar uma imagem que, por pouco que se analise, aparece cheia de contradições e, sobretudo, de suspeitas. Contemplando as abundantes imagens de S. Roque que há em inúmeras igrejas, colegiadas, ermidas e catedrais, observa-se em primeiro lugar que é um santo facilmente reconhecível sem que seja necessário perguntar. Aparece sempre vestido de peregrino, aparece sempre acompanhado por um cão, tem sempre uma rótula desnuda, preferencialmente a esquerda, que aponta ostensivamente com o dedo. Nessa rótula luze uma chaga sanguinolenta nas imagens pintadas ou esculpidas depois do Renascimento. Esses três detalhes – peregrino com cão e que assinala a rótula – merecem uma análise sumária.

Imagem de S. Roque na capela lagoense da sua evocação (encomenda de António Augusto Carvalho Monteiro)

Imagem de S. Roque na capela lagoense da sua evocação (encomenda de António Augusto Carvalho Monteiro)

“O peregrino – pensemos em que nenhum outro santo, com a excepção insólita de Santiago, é representado assim, ainda que muitos tenham sido peregrinos – é a imagem do buscador do Conhecimento, do que percorre um caminho iniciático em busca de um saber que irá descobrindo ao longo das distintas etapas.

“O cão é, na linguagem iniciática, o animal-guia do sábio, o companheiro que concede a Divindade ao adepto para encontrar o caminho a que se propôs. Recordemos que o cão, o lobo, acompanham S. Francisco de Assis, S. Bernardo de Claraval, Tobias, Santa Quitéria e os santos caçadores (que também são considerados buscadores ou rastreadores da Verdade).

“A rótula esquerda desnuda é sinal inequívoco de iniciação na linguagem esotérica. Uma iniciação que eventualmente – sobretudo entre as irmandades de construtores – está relacionada com a rótula do compasso que serve para traçar os planos da Casa de Deus e que, em todo o caso, desde as primitivas sociedades iniciáticas até ao ritual maçónico serve para que os adeptos reconheçam quem recebeu a iniciação. Assinalá-la é chamar a atenção do que sabe sobre a condição de quem a exibe. Neste sentido, a chaga é um aditamento totalmente espúrio, posta ali precisamente pelos que desconheciam o significado real da rótula desnuda… ou por aqueles queria dissimulá-lo a todo o custo.”

Tão grata memória deixou António Augusto Carvalho Monteiro em Lagos da Beira que tanto o povo quanto a edilidade e o eclesiástico nunca esqueceram o seu grande amigo benfeitor. Por motivo da sua morte, em 28 de Outubro de 1920 foi convocada uma sessão extraordinária da Comissão Paroquial com o fim exclusivo de prestar culto de homenagem à sua memória, falecido três dias antes. Referindo-se à sua morte, o presidente da Comissão Paroquial, professor José João da Fonseca, afirmou ter-se perdido uma das maiores glórias desta sua terra adoptiva que lhe deve tantos benefícios. Traçando o perfil do ilustre benemérito e amigo incondicional de Lagos da Beira, José João da Fonseca acrescentou: “Sua Excelência era não só um carácter filantrópico e altruísta, que albergava uma alma generosa e franca, mas também um sincero amigo da humanidade enferma e desprotegida”[30].

Sob o Sol que se despede ao cair da tarde, Lagos da Beira enche-se de beleza despendida do céu onde o poente de fogo e o verde do campo se acasalam em nuances azuis antes de se despedirem do dia. Além, no horizonte, recorta-se na paisagem a Serra do Caramulo que esconde atrás o Buçaco e seus mistérios, de onde um dia Carvalho Monteiro para aqui trouxe o arquitecto Manini que também sabia gizar na Terra as belezas do Céu.

Lagos da Beira é terra que deslumbra e entontece, desafia os sentidos engalanando a imaginação esperando da noite um novo dia com o mesmo Sol e as mesmas tintas do entardecer que finda. Com Tarquínio Hall o digo: “Um por todos e todos por um”! É a grei que faz lei em terras lagoenses, pois o espírito de entreajuda é regra de ouro, bem como o amor ao próximo, o civismo sempre presente nas relações sociais. Por isso, como o poeta e ensaísta desta terra também acredito que se Cristo descesse novamente à Terra, como nos tempos bíblicos, na sublime missão de espiritualizar e apaziguar as almas humanas, por certo visitaria esta humilde paróquia que Deus sabe ser povoada de gente profundamente crente, pacífica, trabalhadora e hospitaleira.

NOTAS

[1] Alexandre Herculano, História de Portugal, desde o começo até ao fim do reinado de D. Afonso III, revista e anotada por José Mattoso, 4 volumes. Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1981.

[2] Tarquínio Hall, Lagos da Beira – Subsídios para a sua História. Edição da autarquia, Oliveira do Hospital, 1997.

[3] Tarquínio Hall, Concelho de Oliveira do Hospital – Subsídios para a sua História. Edição da autarquia, Oliveira do Hospital, 1998. O autor noticiou a descoberta da lápide pela primeira vez no Jornal A Comarca de Arganil, 9.6.1992.

[3] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2011. Com o mesmo título esta obra foi editada anteriormente pela Via Occidentalis Editora Lda. em Setembro de 2007, Lisboa.

[4] As têmporas eram dias de jejum religioso nos quais os católicos portugueses não comiam carne, substituindo-a por panados fritos de legumes e peixes.

[5] Saint Andrew of Crete, texto inserto na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia. The Encyclopedia Press, Washington.

[6] Fr. Lucas de Santa Catarina, Malta Portugueza: Memorias da nobilíssima e sagrada Ordem dos Hospitalarios de S. João de Jerusalem, especialmente do que pertence à Monarchia Portugueza. Lisboa, Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1734.

[7] Rui Pinto de Azevedo, Algumas achegas para o estudo das origens da Ordem de S. João do Hospital em Jerusalém, depois chamada de Malta, em Portugal. Revista Portuguesa de História, tomo IV, pp. 317-327.

[8] Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal. Edição dirigida por Damião Peres, volume I, Portucalense Editora, Porto, 1967.

[9] António de Vasconcelos, Oliveira do Hospital e o seu Escudo de Armas. Coimbra Editora, 1931.

[10] Vários, Breviário Bracarense de 1494. Edição fac-similada do exemplar da Biblioteca Nacional de Lisboa com introdução de Pedro Romano Rocha. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1989.

[11] Armando de Sacadura Falcão, Subsídios genealógicos para o estudo de algumas famílias da Beira Baixa. Carvalho Daun e Lorena, volume I. Separata de Estudos, Castelo Branco, 1964.

[12] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita e Secreta. Editorial Jonglez, Versailles, Abril 2010.

[13] Pelo testemunho dado pelos familiares e amigos de António Augusto Carvalho Monteiro, essas eram precisamente as suas principais qualidades que causavam admiração a todos.

[14] Leonor Figueiredo, Palácio de Fadas espera em Sintra um multimilionário. Jornal “Correio da Manhã”, 29.1.1985.

[15] Registo Geral de Mercês, D. Pedro V, Liv. 8, fl. 83. Carta de Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa passada a Francisco Augusto Mendes Monteiro, 19.1.1856. Documento simples, código de referência PT/TT/RGM/1/244443.

[16] Catecismo da Igreja Católica. Gráfica de Coimbra, Lda. – Libreria Editrice Vaticanna, para a edição portuguesa. Coimbra, 1993.

[17] Henri Corbin, Necessité de l´angeologie in L´Anje et l´Homme. “Cahiers de l´Hermetisme”, Albin Michel, Paris, 1978.

[18] António Castaño Ferreira, Egipto – Grécia – Bíblia. Aulas reservadas do autor cerca de 1950. Edição privada da Sociedade Teosófica Brasileira.

[19] René Guénon, O Rei do Mundo. Editorial Minerva, Lisboa, 1978.

[20] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal in Cavalaria Espiritual e Conquista do Mundo. Gabinete de Estudos de Simbologia, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986.

[21] Só S. Miguel Arcanjo poderia ter sido investido na função de Anjo Custódio de Portugal, pois a ele compete por missão velar pela Terra dos Vivos e pelo Oceano dos Mortos, visto ser o Guardião do Umbral entre a Vida e a Eternidade. Ao solicitar ao Papa o Breve vinculando esse Arcanjo a Portugal, D. Manuel deu consistência legal e oficial a um costume certamente bastante antigo, de que a misteriosa Ordem da Ala de S. Miguel (presumivelmente criada por Afonso Henriques para comemorar a intervenção daquela entidade na expugnação de Santarém) constituía uma reminiscência. Embora de âmbito nacional, o Breve papal não se aplicou em todo o país. Boa parte dos missais e breviários impressos em Portugal nos séculos XVI, XVII e XVIII não traz nem a missa nem o ofício do Anjo Custódio. Apenas em Coimbra, Évora e Braga são postas em prática as determinações daquele documento pontifício (breviários de 1531, 1548 e 1549, respectivamente; o primeiro missal que traz a missa do Anjo Custódio do Reino é o de Braga, impresso em Lião de França em 1558 por ordem de D. Fr. Baltasar Limpo). O culto expandiu-se como resultado do envio de ordens do monarca a todos os municípios. Conhecem-se dois alvarás dirigidos às Câmaras de Évora e Coimbra. No de Évora (7 de Junho de 1504), autógrafo, é manifesto o cabal conhecimento da «Doutrina dos Génios»: «(…) Fazemos-vos saber que havendo respeito a como Nosso Senhor Deus, por salvação de nossas almas, conservação e alongamento de nossas vidas, quis ordenar em cada reino, cidade e lugar, e assim a cada um de nós outro(s), anjos que nos guardassem de todo o mal, e nos provocassem a bem fazer; e sentindo-o assim por serviço de Deus, Nós, com os Prelados de nossos reinos, ordenamos ora novamente, que em todos nossos reinos e senhorios (…) em cada um ano, em o terceiro domingo do mês de Julho, se faça solene memória deste Anjo, nosso guardador (…)» (Arq. Mun. de Évora, Livro III dos Originais, doc. n.º 17 a fl. 22, «ap.» Biblioteca Pública de Évora/Casa Forte: Est. I, n.º 73).

[22] Tarquínio Hall, Lagos da Beira – Subsídios para a sua História. Edição da autarquia, Oliveira do Hospital, 1997.

[23] Manustérgio (do latim, manutergiu) ou tersol: pequena toalha de linho, geralmente bordada, com que o celebrante enxuga os dedos após o momento do lavabo.

[24] Virgílio Correia, Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Coimbra, pp. 168-169. Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1953.

[25] Vitor Manuel Adrião, Paris Méconnu. Éditions Jonglez, Versailles, 2012.

[26] Significativamente a imagem da Rainha Santa Isabel está presente na igreja matriz de Lagos da Beira, para onde se dirige a procissão anual saindo da capela de S. Roque no dia festivo do santo da terra, S. João Baptista.

[27] J. Van Lennep, Arte e Alquimia. Editora Nacional, Madrid, 1978.

[28] É muito sintomático que o Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro para o ano de 1853, organizado e redigido por Eduardo Laemmert, ordenado com o retrato da Sereníssima Princesa D. Maria Amélia, refira na página 269 Francisco Augusto Mendes Monteiro como irmão leigo da Irmandade e Hospital da Santa Casa da Misericórdia da Ordem Terceira de S. Francisco na capital carioca, onde é apresentado como tesoureiro e com domicílio na Rua Direita, n.º 23. Essa Irmandade fora fundada em 14 de Janeiro de 1738 por Fr. Romão de Matos Duarte e tinha a sua sede na Rua de Santa Teresa, n.º 7, estando sob a protecção perpétua do imperador.

[29] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S. A. Barcelona, 1988.

[30] Tarquínio Hall, ob. cit., página 117.

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Navegações ao Brasil Pré-Cabralino – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Nov 1 2016 

O período preparatório do Ciclo das Descobertas Marítimas recua a muito antes do Infante D. Henrique de Borgonha, fundador da Escola Náutica de Sagres. Já no tempo de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, se arquitectava tamanho projecto, coisa que qualquer estudioso medianamente informado sabe. Atribui-se esse projecto à Ordem do Templo, cuja frota marítima compunha-se já de navios de porte próprios para longos cursos, sabendo-se pela documentação coeva da primeira Dinastia que a armada Templária não se destinou só à defesa da costa e das zonas ribeirinhas mas também a viagens prolongadas mar adentro, distinguindo-se neste projecto o senhor de Óbidos e almirante D. Fuas Roupinho, professo da Ordem do Templo e meio-irmão do rei D. Afonso Henriques (1). Já D. Sancho I ou o II, em “regimento” não datado, promulga  a assistência e protecção à Marinha do Reino: “… e proíbo que ninguém se atreva a maltratar os meus marinheiros.” – In Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, I, 6.

Ora, se a futura Epopeia Marítima começou a ser delineada já no reinado de D. Afonso I e se os templários tinham por tutores espirituais os cistercienses, então poderá suspeitar-se da intenção última do exaustivo e frutuoso apoio desses clérigos-agricultores à classe campesina, encarregando-se de arborizar vastas zonas antes largos pântanos insípidos e cuja madeira seria aplicada na construção naval. Com a abolição da Ordem do Templo, em 1312 por bula papal no Concílio de Viena, mas que logo reaparece em 15 de Março de 1319 no chão português de Santarém (que se destinaria a última morada de Pedro Álvares Cabral) como Ordem de Cristo, o projecto de Expansão Marítima foi prosseguido quase sem nenhuma interrupção, graças à inigualável acção política do rei D. Dinis junto do Papado e das cortes europeias, quase de imediato mandando plantar os pinhais da Azambuja e de Leiria, cuja madeira veio a destinar-se à construção naval (2), ao mesmo tempo que contratava para a Ordem de Cristo um sucessor do almirante templário D. Nuno Fernandes Cogominho, recentemente falecido; o contrato caiu no experiente navegador genovês Manuel Pessanha ou Pezagno, em princípios de 1317, o qual veio a ser o primeiro detentor do título de “almirante-mor”.

Portanto, posteriormente o Infante D. Henrique “apenas” deu consecução a um projecto que já vinha dos seus reais antepassados, aproveitando todas as condições político-sociais favoráveis da época ao mesmo tempo que, como Governador Apostólico e 8.º Mestre Geral da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, legítima herdeira directa dos valores espirituais e temporais da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo do Templo de Salomão, aplicou o tesouro desta, mais que o da Coroa, na criação da Escola de Navegação que haveria de levar Portugal a todos os cantos da Terra, na mais espantosa Gesta Dei per Portucalensis correspondendo à Conquista Espiritual do Mundo pela Gesta Lusa.

O Infante Navegador (Nautonnier) reuniu em seu torno os mais entendidos em marinhagem, fossem de que nacionalidade e religião fossem; congregou os diversos saberes em um só saber; deu forma a uma nova cartografia e à invenção de instrumentos náuticos quase mágicos para a época, inclusive indo inventar um novo tipo de embarcação, mais ligeira, rápida e fácil de manobrar: a caravela, substituta da nau de porte. Simultaneamente, aplicou os conhecimentos náuticos herdados da Ordem do Templo sobre as viagens marítimas “de longo” pelos antigos navegadores, e sobre os mesmos, aconselhado ajuizadamente, traçou rotas que haveriam de levar, mar adentro, a outras terras, a outras civilizações… para espanto das cortes europeias e do vulgo que, ainda hoje, considera tudo isso dever-se quer à “boa fortuna”, quer ao “acaso”. A verdade é que nunca os navegadores da Escola do Infante velejaram ao acaso, o que não invalida a sua coragem quase sobre-humana para enfrentarem nas longas distâncias os caprichos constantes dos oceanos não raro temíveis e fatais.

Posto isso, impõem-se duas questões pertinentes, irritantes na contradição de um qualquer plano marítimo prévio nascido de uma qualquer e hipotética conjectura de diáspora templária: 1.ª) Se os navegadores eventualmente possuíam tais conhecimentos, onde os foram buscar e porque a historiografia não fala deles? 2.ª) Se havia um pretenso projecto templário sobre o mar oceano, por que não foi ele propalado abertamente? Pois bem, analisarei a primeira questão, já de si implicando a segunda, começando por reportar-me à mentalidade e conhecimentos do tempo, pois só assim se poderão entender as coisas e nunca, jamais, à luz dos avanços tecnológicos adquiridos na modernidade.

Para obter bom êxito nas suas empresas marítimas gizando rotas certas, o Infante de Sagres socorreu-se das fontes literárias dos antigos clássicos: valeu-se dos escritos árabes, romanos, gregos, fenício-cartagineses e até da própria Bíblia, no que o Velho Testamento possui de descrições geográficas do mundo mediterrâneo. Nisso, auxiliou-o imensamente o seu irmão D. Pedro, trazendo das suas viagens muitas informações geográficas e um mapa-mundi, com a certeza do império oriental da Índia e a sua localização terrestre. Por meio da Ordem de Cristo, por tradição Templária, o Infante D. Henrique teria conhecimento das explorações do franciscano João de Montecorvino (3); também se inteirara das viagens de Marco Polo, cujo livro lhe fora trazido e traduzido pelo seu irmão D. Pedro. Estava, portanto, ciente da situação geográfica aproximada da Índia onde reinaria um suposto rei cristão pertencente à Igreja do Apóstolo Tomé – o Preste João.

Certamente também estaria de posse das cartas e informações da existência de terras no Oceano Atlântico, cartas e informações essas todas de certeza de origem Templária Portuguesa mas que, posteriormente, seriam copiadas ou surripiadas por navegadores genoveses, talvez por altura da extinção turbulenta da Província Templária de Itália, contudo cheias de imprecisões propositadas para desviar as atenções, coisa que os cartógrafos templários fabricaram por temor justificado do seu eventual desvio, boa parte delas legendadas com referências a monstros diabólicos que viviam no meio do mar e engoliam de um só trago as embarcações e os embarcados, com o propósito claro de incutir terror e levar a que não se navegasse em mar alto. Era assim que a Marinha Templária protegia os seus interesses, reservando exclusivamente para a sua Ordem a posse de tais “terras incógnitas” que, para os outros, afinal não existiam e só havia mar repleto de monstros horrendos.

Afirma Roberto Costa Pinho que “o primeiro registro da Ilha Brasil encontra-se na Carta Náutica do cartógrafo genovês Angel Dalorto, elaborada em 1325, onde ela figura a oeste da costa sul da Irlanda, 175 anos antes do Brasil ser oficialmente descoberto” (4). Essa Ilha O’Brazil viria a ser reconhecida e transposta para a lenda sagrada, figurativa da navegação mística, pelos culdeus irlandeses, como “A Venturosa Ilha de São Brandão”, este santo e marinheiro que afinal nunca existiu a não ser nas lendas hagiográficas, e não ser que seja, afinal, o navegador português da Ordem de Cristo, Sancho Brandão, que em 1343, estando ao serviço de D. Afonso IV, chegou à Insula Brasil, conforme regista Felipe Cocuzza: “Sancho Brandão foi o navegador português que, a mando de D. Afonso IV, chegou ao Brasil na Idade Média, conforme atesta Assis Cintra, em seu livro Revelações Históricas para o Centenário, em 1923. Essa informação foi transmitida por D. Afonso IV ao Papa Clemente VI em carta de 12 de Fevereiro de 1343, acompanhada de um mapa com a inscrição de “Insula do Brasil ou de Brandam”. O nome Sancho, de Sanctis, o mais santo, ajudou à convergência para São Brandão” (5).

Segundo esse mesmo autor, mapas e textos europeus da Idade Média, entre eles o célebre The Canterbury Tales, de Geolfroy Chaucer (1380), ligam sempre o nome do Brasil ao de Portugal, às vezes dando a ideia inequívoca de posse: Brasil de Portugal.

Exemplo disso é a carta parcial do Atlântico, copiada por um tal Buache de Neuville de um original de 1367 atribuído a Pizigano, navegador genovês ao serviço do Templo. Nesse original aparecem duas naus templárias e um templário erguendo um gládio sobre uma legenda, numa má redacção latina, referindo a existência de seres malignos postados no oceano para impedirem toda a navegação para Oeste. O Arquipélago dos Açores está representado por uma única ilha: Braçir. Será interessante registar-se que na Ilha Terceira (Açores), onde aportaram tanto Colombo como Cabral na sua marcha marítima para Oeste, junto à cidade de Angra há um elevado monte precisamente chamado Brasil, antes do Brasil continente ser descoberto. Não é isto significativo?

Cópia simplificada da Carta de Pizigano, de 1367

Cópia simplificada da Carta de Pizigano, de 1367

É de referir igualmente a Carta n.º 5 do Atlas de Andrea Bianco, de 1436, onde referencia ainda a Ilha Brazil e coloca no lugar da América a Lanosatanasio (ou Manosatanasio, “Mão de Satanás”), lenda esta que os navegadores árabes propalaram entre os templários, cujos primeiros navegadores de alto mar eram portugueses, além da única frota naval templária devidamente organizada existente ser portuguesa, que a cedia às outras Províncias. Terá sido dessa maneira que os genoveses terão aprendido, em primeira mão, marinhagem e técnicas de navegação dos portugueses.

Carta n.º 5 do Atlas de Andrea Bianco, de 1436

Carta n.º 5 do Atlas de Andrea Bianco, de 1436

Na Carta do Oceano Atlântico (parcial), de Bartolomeo Pareto, de 1455, novamente aparece a Ilha Brazil, situada sobre a Insula Afortunada de São Brandão, na direcção da Antília, Atlante-ilha ou, simplesmente, América (6).

Carta de Bartolomeo Pareto, de 1455

Carta de Bartolomeo Pareto, de 1455

Foi durante o reinado de D. Afonso IV que a frota marítima da Ordem de Cristo fez o “Achamento” das ilhas Canárias, cerca de 1341, decerto graças às pistas deixadas pelos clássicos da Antiguidade aos templários que já aí tinham Casa e Comenda, antes de serem desalojados por motivo de extinção da Ordem, mas deixando ao culto posterior a imagem da Virgem Negra da Candelária (Tenerife), desaparecida em 1826 (7).

As Canárias, ilhas atlânticas situadas ao largo do Cabo Juby, na costa africana, podem ser consideradas prolongamento insular da cordilheira do Atlas, mais precisamente sequência marítima do limite ocidental do maciço Anti-Atlas, numa linha vulcânica em forma de crescente aberto. Os mais antigos navegadores greco-fenícios, cujo legado passaram aos romanos e aos árabes, conheciam muito bem as Canárias ao ponto de Sertório, um dos heróis das campanhas dos lusitanos contra o domínio romano na Península Ibérica, sucessor do grande chefe Viriato (8), depois de vencido pelo general Metello ter procurado retirar para as Ilhas Afortunadas (9). Essas Afortunadas ou Atlântidas como os cartagineses lhes chamavam, e que os gregos denominavam Hespérides ocidentais ou Gorgónias (por estarem defronte do território africano habitado por gorgones, depois chamados guanches que viriam a aparecer, por alguma migração que a História carece conhecer, no tipo morfológico e cultural dos guaranis do litoral brasileiro), ou ainda Purpurinas (por lá se achar, em abundância, o molusco murex do qual os fenícios extraíam a tinta púrpura), sendo conhecidas dos árabes por volta de 1067 (10). O étimo Canárias deverá provir de Canarii, povo das montanhas do Atlas estabelecido no arquipélago, já que este, como disse, é prolongamento daquela cordilheira.

Para lá das Canárias e em conformidade às informações legadas pelos antigos nautas, principalmente os fenícios e depois os árabes, o Infante D. Henrique possuía a certeza de aí estar a lendária Ilha da Bem-Aventurança ou A Ventura, como os portugueses da Idade Média a denominavam e que veio depois a ser identificada a Vera Cruz, a O’Brasis dos ogams irlandeses, topónimo que serviria para batizar a árvore Brasil que deu nome à actual Pátria Gémea de Portugal. Da casca e lenho da árvore desse nome, os portugueses obtinham tinta para a conservação das linhas e redes de pesca.

As cartas de navegação portuguesas dos séculos XIII a XV foram tão bem escondidas que hoje ninguém as acha, mas sabe-se que Pedro Vaz da Cunha, o “Bizagudo”, partindo da Mina no Golfo de Benim, dirigiu-se às terras do Brasil, em 1487; o mesmo fez, no ano seguinte, João Fernandes de Andrade, largando da Guiné. Dessas duas viagens pré-cabralinas só há conhecimento do rumo tomado, mas devem ter sido coroadas de êxito, visto que ambos os navegadores voltaram a Portugal e receberam mercês (11). Já em 1498, quando os navios de Vasco da Gama passaram os ilhéus atlânticos de S. Pedro e S. Paulo (29º22’ long. O; 0º56’ lat. N) a cerca de 1300 km da costa brasileira e 1500 km da costa da Guiné – o que representa uma larguíssima volta pelo interior do oceano para quem vai descobrir a Índia! – realizaram uma festa a bordo, por se acharem em frente de terra portuguesa (12). Só depois inflectiram o rumo para Oriente.

Dois anos depois, sendo Pedro Álvares Cabral “enviado também à Índia” (já descoberta por Gama), com 13 navios e 1200 homens, levou tudo preparado para assinalar um novo descobrimento (13), inclusive uma das naus (a naveta dos mantimentos) era tão velha que logo se percebeu não se destinar à Índia, pois não poderia arrostar o mar do Cabo das Tormentas, defronte à actual África do Sul. Durante a viagem para Oeste, não sofrera a menor tempestade e ancorou em frente de Vera Cruz, no dia 23 de Abril de 1500. Logo depois da «descoberta» oficial do Brasil, Cabral de lá mandou regressar ao Reino aquela velha naveta com as boas novas em missiva escrita por “Mestre” João endereçada a D. Manuel I, cujas palavras são flagrantes:

“… Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-mundi que tem Pero Vaz Bizagudo, e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-mundi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa-mundi antigo, e ali achará Vossa Alteza escrita também a palavra Mina.” (14)

Seria, portanto, uma carta geográfica anterior a 1471, pois já indicava a Mina africana descoberta nessa data; mesmo assim tão-só seria um traçado da costa, visto ainda não indicar se o Brasil era habitado. Obviamente, tratar-se-ia de um mapa executado em 1487 sobre aquele, quando da viagem para Oeste de Pedro, o “Bizagudo”, e da carta de “Mestre” João deduz-se claramente terem sido feitas outras viagens, nas quais se verificara ser o Brasil habitado.

Finalmente, tem-se o manuscrito do “Aquiles Lusitano”, Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, datado entre 1505 e 1508, que no capítulo segundo da primeira parte assim se dirige ao rei D. Manuel I falando do descobrimento do Brasil:

“Como no terceiro ano de Vosso Reinado do ano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e oitenta e oito, donde nos Vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do mar Oceano, onde é achada e navegada uma tam grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela e é grandemente povoada. Tanto se dilata sua grandeza e corre com muita longura, que de uma arte nem da outra não foi visto nem sabido o fim e cabo dela. É achado nela muito e fino brasil com outras muitas cousas de que os navios nestes Reinos vem grandemente povoados.” (15)

Duarte Pacheco Pereira (1460 - 1533)

Duarte Pacheco Pereira (1460 – 1533)

Com tanta e profícua informação é impossível conceber que o Infante D. Henrique de Sagres e os seus pares ignorassem as fontes que os antecederam nas rotas do mar, de que citei uma parte mínima, e se quase por norma a historiografia actual não fala delas não significa que acaso as desconheça.

Sendo Portugal pioneiro nas viagens transatlânticas e por outros mares também, possuído de conhecimentos exactos por tradição e herança Templária, e querendo manter o segredo dos mesmos ante a ambição doutros países e assim conservando o pioneirismo, cedo impôs a lei do sigilo, não só sobre as rotas marítimas como igualmente sobre o fabrico do sal, em que Portugal também foi pioneiro (16).

O sal foi durante muito tempo a principal moeda forte de troca: ele era o verdadeiro motor macro-económico do país, virado que estava, quase exclusivamente, para a exploração do mar, de cuja linfa extraía esse ouro marinho. A ciência salineira teve primazia em Portugal e era daquelas guardada a “sete chaves”, completamente interdita a estrangeiros, ciência esta aproveitada e desenvolvida já pela Ordem dos Templários, que também foi a maior empresa bancária da Idade Média entre os séculos XII-XIV. A capacidade técnica dos salineiros portugueses era considerável, pelo menos até finais de Seiscentos. D. Pedro II, por alvará régio de 15 de Fevereiro de 1695, determinou que nenhum oficial das marinhas passasse “a reino estranho a ensinar a fabricar marinhas nem a trabalhar na cultura do sal sob pena de morte e confiscação de bens”. Por outro alvará, do mesmo soberano, estabelecia-se que nenhum estrangeiro pudesse trabalhar nas marinhas, nem fosse ver nem aprender a fábrica delas, sob pena de ser publicamente açoitado e degredado por cinco anos para as galés.

O mesmo regime aplicou-se à mareação: proibição total de divulgar cartas, mapas, rotas e, inclusive, o fabrico e venda de caravelas portuguesas ao estrangeiro, proibição promanada do próprio Infante Henrique de Sagres – e legalizada por D. João II – coincidindo com a formação do monopólio do comércio da Guiné, pelo que se organizou um sistema de defesa da navegação e tráfico respectivos (17). De todos os testemunhos escritos da altura sobre a lei do sigilo ou do segredo, talvez o mais eloquente, e tão autorizado, seja o de Garcia de Resende, no capítulo XXV da sua Crónica de D. João II, aquando relata a fundação do castelo da Mina:

“E porque em todo o mar Oceano não há navios latinos, senão as caravelas de Portugal e do Algarve, el-Rei por ninguém ousar de ir àquelas partes fez crer a todos que da Mina não podiam tornar navios redondos por causa das correntes. E para isso toda a pedra, cal, telha, madeira, pregadura, ferramenta e mantimentos mandou tudo em urcas velhas para lá se desfazerem e dizerem que por caso das grandes correntes não puderam tornar; e assim se fez com muito segredo e grandes juramentos e houveram todos por tão certo que em vida del-Rei sempre pareceu que navios redondos não podiam vir de lá e com isto sempre teve a Mina mui guardada.”

Recorrendo ao velho estratagema dos templários, D. João II espalhou, através dos seus espiões, lendas e boatos falsos de maneira a afastar os países interessados do monopólio das riquezas que das terras além vinham. Nasceram assim as fábulas terríficas dos monstros marinhos e outras coisas mais, e que um navio que se afastasse demasiado da costa seria de imediato sorvido nas goelas insaciáveis do terrível Neptuno, sempre à espreita… O espantoso de tudo isso é que a maioria dos historiadores contemporâneos levou à letra essas fábulas de maneira a justificar a ignorância geral que antanho se tinha do mar. O rei mandou espalhar essas lendas proibitivas de modo a tornar inacessíveis aos navegadores estrangeiros as novas terras descobertas e, particularmente, o tráfico rico, monopolizado pela Coroa.

Também D. Manuel I, por alvará de 13 de Novembro de 1504, proibiu a elaboração de cartas de marear e de globos que abrangessem a parte do planeta para além do que já era do conhecimento geral, ou seja, o rio Manicongo, no Zaire. E também em ano incerto do seu reinado proibiu, por carta de ordenação, que pilotos, mestres e marinheiros portugueses servissem nações estrangeiras, sob pena de confiscação de bens e degredo para a ilha de Santa Helena (18), quando não o açoite e a morte, como D. João II aplicou não raras vezes, como naquele episódio de mandar perseguir e capturar um piloto e dois marinheiros portugueses que haviam fugido para Castela com o objectivo de revelarem o que sabiam. Capturados em terras de Castela, aos dois marinheiros foram logo cortadas as cabeças e ao piloto, levado vivo para Évora, na frente do rei foi esquartejado (19).

Realmente, a Escola de Sagres deteve o conhecimento universal dos oceanos até época tardia. A sua política de segredo praticamente atravessou toda a Dinastia de Avis. Durante largo tempo só os Mestres Gerais e os oficiais da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo mais chegados ao processo, conheciam com todo o rigor as cartas das rotas marítimas. Durante largo tempo nem os reis e nem os bispos sabiam mais do que lhes era comunicado, e só em instâncias excepcionais face à iminência de nova empresa. Todos sabiam que a Escola Náutica de Sagres (mas sita em Lagos, Algarve) sabia, mas nem todos sabiam o que a Escola de Sagres sabia.

Mais e para concluir: os capitães de armada iam comunicando gradualmente aos pilotos as rotas a seguir. Nunca as davam por inteiro, de uma só vez. A tripulação restante era mantida na maior das ignorâncias, à mercê do destino incógnito, restando-lhe rezar aos bons fados e assim tendo de confiar inteiramente no saber escondido do capitão. Depois, vinha o “milagre da descoberta”… e tudo fruto do “acaso e da sorte”, como considera sem mais delonga racional – exceptuando raros e honrosos investigadores – a historiografia contemporânea, assim se tornando, por carência do mesmo cognoscio racional, extemporânea.

Composição da nau portuguesa

O projecto de expansão de Portugal no Mundo não se deveu unicamente ao propósito de evangelização das terras aonde chegou e se impôs a soberania portuguesa. Creio que isto é óbvio. Há a contar, ainda, com os factores geopolítico, acarretando o militar, e sócio-económico, imprescindíveis à difusão da Diáspora e consequente formação do Império Lusitano nas várias partes da Terra. O projecto Templário de que a Ordem de Cristo era difusora, implicava o exercício dos dois Poderes: o Espiritual e o Temporal.

Tais Poderes eram assim aplicados em todas as terras virgens, despovoadas, ou não, onde Portugal chegou ao longo do Período das Descobertas, de maneira a firmar a sua presença e direito legal sobre as mesmas, só depois disso rompendo a lei do sigilo face às outras potências europeias:

AUTORIDADE ESPIRITUAL

– Presença missionária, ao início exclusivamente franciscana, ao serviço da Ordem de Cristo.

– Fundação de dioceses matrizes de redes paroquiais.

– Manutenção de excelentes relações sociais e religiosas com os povos das terras aonde chegassem:

– Concórdia e respeito mútuos.

– Difusão do espírito fraternal.

– Reconhecimento de um Deus Único: – Diáspora Espiritual.

PODER TEMPORAL

– Presença contratada de mesteres e serventes, mão d’obra especializada, ao serviço da Ordem de Cristo.

– Presença emigratória, destinada a povoamento, de jornaleiros (trabalhadores à jorna), assoldadados rurais que antes não tendo património próprio, tinham a oportunidade de lavrar terra sua e apascentar gado seu.

– Contingência militar que deveria ser simultaneamente política e diplomática:

– Defesa do seu património,

– Respeitando o património alheio.

– Intercâmbio político-diplomático e comercial para sobrevalorização da economia: Diáspora Temporal.

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IMPÉRIO PORTUGUÊS NO MUNDO

Essas são as linhas gerais do processo da Diáspora. A partir delas podem desenvolver-se outras múltiplas, inclusive as que levaram a usos e abusos colonialistas, até xenófobos de alguns, mas sendo excepções mínimas se atender-se à regra geral de concórdia e respeito de Portugal para com os outros povos (convém não confundir partes com o todo), e certamente por isso esses mesmos povos ainda hoje o procuram, o que não aconteceu nem acontece com outras potências colonialistas da Europa. A tentativa de desfigurar a História dos Descobrimentos por parte de alguns historiadores contemporâneos eivados de tendências políticas, assim tendendo a politizar os factos concretos da História, peca e falha nisto mesmo: o tendencioso pessoal pretendendo converter factos históricos aos limites de políticas particulares, desenquadradas das épocas em que aqueles se deram e dos momentos que eram verdadeiramente universais por implicarem a toda a Terra, logo implicando, na religião e na política, ecumenismo ou universalismo. Se assim não tivesse sido, como é que um pequeno país, em Quatrocentos com cerca de um milhão de habitantes, poderia ter se imposto no Mundo?!

Para perceber melhor como se começou a formar, no esconso da política internacional, o projecto de instauração do Império Português no Mundo, ter-se-á de recuar ao ano de 1497 em que se deram três acontecimentos importantes para Portugal, reinando D. Afonso V. O primeiro foi a ratificação do Tratado de Amizade de Saint-Jean de Luz, realizado entre os Reis Católicos de Castela, Fernando e Isabel, e Luís XI de França, representando o termo das pretensões portuguesas à coroa castelhana. O segundo foi o Tratado das Terçarias de Moura, base preliminar do tratado de paz luso-castelhano, assinado na vila de Alcáçovas. Por fim o terceiro, em 4 de Setembro, foi a assinatura do Tratado de Alcáçovas, que pôs fim à Guerra da Sucessão de Castela. D. Afonso V reconheceu aos Reis Católicos a realeza e a independência de Castela e abandonou definitivamente a pretensão sobre o antigo domínio português das Canárias. Em contrapartida, esse Tratado atribui a Portugal o senhorio da Guiné, Madeira, Açores, Cabo Verde e a conquista do reino africano de Fez, e à Espanha o senhorio das Canárias e a conquista do reino muçulmano de Granada, no Sul da Península Ibérica. O paralelo das Canárias passou então a ser a linha divisória da expansão portuguesa e castelhana (Norte para Espanha, com excepção dos Açores e da Madeira, e Sul para Portugal).

Logo a seguir, desde 1480 a 1485, são elaborados secretamente pela Escola Náutica de Sagres os primeiros guias ou manuais de navegação por latitudes, contendo o regimento do Norte e o regimento da declinação solar com as respectivas tábuas. Ainda em 1480, foi apresado um navio castelhano surpreendido na Mina a traficar ilicitamente, e logo D. Afonso V ordenou que fossem lançadas ao mar as tripulações de navios estrangeiros encontrados ao sul das Canárias. Isto não se explica só pela política de corso praticada em toda a Europa mas, principalmente, por Portugal querer esconder da sua rival próxima, Castela, o grande tesouro que a Sul se achava: a vasta região do Brasil.

Para evitar a deflagração de nova guerra com Portugal, em 6 de Março de 1480 efectuou-se a ratificação espanhola do Tratado de Alcáçovas em Toledo, e só meses depois, em 8 de Setembro, fez-se a ratificação portuguesa, fazendo esperar as cortes de Castela, sinal claro de que o poderio português era já dominante.

Reinando D. João II, o Tratado de Alcáçovas foi seriamente perturbado pela chegada de Cristóvão Colombo, ao serviço dos Reis Católicos, às Antilhas. O monarca português, que antes e depois (1491 e 1493) da descoberta da actual América do Norte se entrevistara com o grande navegador em cujo projecto não acreditara, pelo que foi cedido pela Escola de Sagres a Castela, vê seriamente ameaçada a soberania portuguesa dos oceanos e ameaça com a guerra. Os Reis Católicos apelam à intervenção do Papa Alexandre VI, em Roma. Este promulga duas bulas sucessivas em 1493, marcando uma nova linha divisória para a partilha do mundo não cristão, mas inclinando a balança para o lado de Castela, usando uma linguagem muito pouco definida. A reacção dos Reis Católicos foi nesse mesmo ano promoverem a segunda viagem de Cristóvão Colombo à América.

As coisas iam de mal a pior. Corria-se o risco sério de serem abandonados todos os tratados de paz e soberania mútuas, territorial e marítima, anteriores. Entra em acção a diplomacia portuguesa tentando desvalorizar uma arbitragem papal que a Coroa portuguesa não pedira. De conferência em conferência, chega-se ao ano de 1494: a 7 de Junho, após longas e complexas negociações, Portugal e Espanha (Castela) chegam a acordo no Tratado de Tordesilhas, nome de pequena cidade espanhola onde foi concluído esse novo arranjo.

Rui de Pina, cronista da época também ele interventor no processo, informa que os representantes de D. João II enviados a Espanha foram: como chefe Rui de Sousa, senhor de Sagres e Beringel (Berlenga, incluída no primitivo espaço fenício de Phoenix, isto é, Peniche), capitão e navegador de extremado valor e o mais experimentado dos diplomatas portugueses, João de Sousa, seu filho, Aires de Almada e Estevão Vaz, escrivão – “pessoas do reino de bom saber, grande confiança e muita autoridade” (20). A competência e o prestígio davam, na realidade, um grande realce à embaixada, a qual foi acompanhada, como era costume para missões mais solenes, por uma comitiva de fidalgos, entre os quais D. Garcia de Albuquerque, filho do conde de Penamacor, e Pêro Moniz. Assistiram igualmente aos embaixadores e assinaram o tratado, como testemunhas, João Soares de Sequeira, Rui Leme (relacionado aos Lem da cidade e catedral de Bruges, os quais viriam a ter papel determinante no começo do Brasil Ibero-Ameríndio) e Duarte Pacheco Pereira, o navegador das rotas ocidentais do Atlântico, avisado e prudente conselheiro da embaixada portuguesa (21).

Do lado dos Reis Católicos assinaram o tratado, como seus representantes: D. Anrique Anriquez, mordomo-mor; D. Gueterre de Cárdenas, comendador-mor de Leão e contador-mor; e o doutor Rodrigo Maldonado de Talavera, todos do conselho real, com muita experiência teórica de marinhagem e nenhuma prática de navegação em alto mar, logo desconhecendo o que nele poderia haver no tocante a terras firmes e amplas, coisa dominada na teoria e prática do saber velado dos portugueses, desta maneira em vantagem avassaladora sobre os outros, “trunfo” que de maneira alguma estariam interessados em perder a favor do adversário. Ainda que se ignore os títulos recomendados aos dois primeiros, sabe-se que o último foi um dos membros da célebre Junta de Salamanca, composta de “sábios, letrados y marineros”, que examinou, cerca de 1487, o projecto de Colombo de descobrir a “Índia do Ocidente”. Os Reis Católicos também haviam convocado para o efeito “muchas personas, que sabian de cosmografia y astrologia, puesto que habia harto pocos entonces en aquellos reynos, e las personas del mar que se pudieron haber”, segundo Las Casas em sua Historia de las Indias, acrescentando em tom de confissão no capítulo LXXXVII: “Y alli envió el-Rey de Portugal las suyas, que debian tener, a lo que yo juzgué, más experiência de aquellas artes, ao menos de las cosas del mar que las nuestras” (22).

Com o Tratado de Tordesilhas criou-se uma linha divisória de pólo a pólo que dividia o Mundo em duas partes aparentemente iguais: a parte Norte ficaria para Espanha e a parte Sul caberia a Portugal. Para Espanha, a fronteira seria as Canárias; para Portugal, o arquipélago de Cabo Verde, definitivamente integrado nos bens da Coroa em 1495. Para que esse convénio se firmasse, os Reis Católicos tiveram de ceder à imposição do Rei português: que a linha divisória ficaria 370 léguas além das ilhas de Cabo Verde e a favor de Portugal (o que açambarcava o Brasil), e não as 270 da bula pontifícia de 1493, assim anulada. Dessa maneira Portugal ficou senhor do Brasil e de boa parte do território sul-americano que conhecia de há muito, ao contrário de Espanha, eterna dependente das costas e navegações portuguesas. Por isso disse que o Mundo foi dividido aparentemente em duas partes iguais por uma linha limite… proposta pela embaixada de D. João II.

Que Portugal quis antecipar em Tordesilhas a posse legal sobre o Brasil, é facto facilmente apercebível na redacção do próprio tratado: os navios continuariam dali (Canárias) o seu caminho para as ilhas de Cabo Verde, donde “tomariam sua derrota (descida) direita ao Poente (Ocidente) até as ditas 370 léguas”, e se “for caso se topar em alguma ilha ou terra firme, que ao começo de tal ilha ou terra firme se faça algum sinal ou torre e que em direito do tal sinal ou torre se continuem daí em diante outros sinais pela tal ilha ou terra em direito da dita raia, os quais partam o que a cada uma das partes pertencer dela. E que os súbditos das partes não sejam ousados uns de passar à parte dos outros” (23).

Quanto ao restante território do Brasil que pertencia à Coroa espanhola e que acabou na posse dos portugueses, a saga dessa transação é narrada pela professor Agostinho da Silva filosofando entre o sarcasmo e a sátira mas com a certeza do que diz (24):

“É curiosíssimo ver hoje tantos portugueses assustados com a Espanha e os espanhóis tão seguros de si. Quando efectivamente os portugueses puderem agir à vontade, como foi na América Latina (chamada latina, provavelmente pelos franceses, porque ela, o que é, é hispânica; mas os nossos amigos procuram sempre chamar a qualquer coisa «latina» para Paris ter uma voz) aí quem procedeu em grande, quem triunfou plenamente, foi o português: em primeiro lugar porque todo o Brasil ou quase todo o Brasil que existe hoje, era legalmente espanhol, mas como, coitados dos espanhóis, continuavam na ignorância da matemática e os portugueses além de a saberem muito bem tinham consigo uma capacidade de manha, a que eu chamarei respeitosamente diplomacia, bem como outras grandes habilidades, foram avançando no terreno e construindo, com um gosto enorme, mapas falsos em cima de mapas falsos, sempre com muito cuidado de os ter exactos ao norte do Amazonas e ao sul do Prata, porque podia algum espanhol não ignorante fazer também as suas observações e verificar se o mapa estava errado ou não. Durante 200 anos houve mapas falsos, sabendo-se perfeitamente que para fazer alguma coisa falsa é preciso ter a noção do que é verdadeiro.

“Mas nessa América foram os portugueses que ganharam a partida e com uma tal audácia, uma tal segurança da sua ciência e da sua capacidade de falsear as coisas, que propuseram ao rei de Espanha que era tempo, por causa dos casamentos reais, das suas famílias estarem unidas na empresa de se conseguir dominar, civilizar, como se dizia, toda aquela América, a tal América Latina, a América portuguesa e a América espanhola. Dizia o rei que, efectivamente, até ali tinha havido sempre mapas pouco correctos: eram uns mapas incorretíssimos, todos puxados para Cabo Verde de maneira que as 370 léguas caíssem bem dentro do Brasil, bem junto dos Andes; mas que era tempo de terminar isso e que então mandavam ali, pela primeira vez, ao rei, um mapa verdadeiro, exacto; não diziam que os outros eram falsos: os outros eram apenas mapas que, em virtude da ciência pouco exacta, não eram também exactos; agora não, agora ia um mapa exacto e, em cima desse mapa exacto, o que propunham ao rei era uma troca: davam mais ou menos o que é hoje o Uruguai (ali se fazia um grande contrabando porque grande parte da prata que vinha do Potosi entrava nos cofres de Portugal no Brasil, por meio de contrabando; há no Brasil uma quantidade enorme de exemplares de moeda do Carcop III recarimbadas, com o cunho português, circulando como moeda portuguesa) em troca de territórios para Oeste, que realmente convinham também aos portugueses, em virtude de minas que já exploravam e de prelazias que aí tinham montado. O rei de Espanha olhou o mapa; o mapa era tentador para ele. Ofereciam-lhe o Uruguai em troca daquele território de Oeste que ele mal conhecia, assinou o Tratado. O território que os portugueses cediam, era, como disse, o território do Uruguai, enorme no tal mapa, 3 ou 4 vezes o Uruguai de hoje; e o que é que pediam em troca? Pediam apenas Mato Grosso, uma tirinha de terra no mapa, Mato Grosso que é do tamanho de Angola; pediam também Goiás, uma coisa bem pequenina no mapa, quando Goiás tem de Norte a Sul mais de 2000 km de extensão. O rei de Espanha assinou o Tratado e assim ficou constituído o Brasil. O Brasil é talvez a maior proeza mundial de ligação da ciência mais exacta que era possível conhecer no tempo com a maior capacidade de enganar.”

É uma maneira simples e directa de expor as coisas, certa mas ainda assim não tão simples no palco das acções imediatas como narra o filósofo amigo. Seja como for, Portugal ficara com a “parte de leão” na “partilha” do Mundo em Tordesilhas, em 1494. Como se não bastasse, era a Escola de Sagres quem formava e dirigia a marinha espanhola. Espanha fora “vítima” da diplomacia portuguesa de Mare Clausum abrangida pela política de silêncio. Estavam abertas as vias para se chegar oficialmente à Índia, às Antilhas e ao Brasil. Portugal acabara de passar a potência máxima do mundo ocidental e assim reconhecido em todas as partes do Mundo aonde chegou – iniciara-se a Gesta Dei per Portucalenses.

As demandas marítimas da Índia e do Brasil pelos almirantes portugueses, tornou Portugal soberano dos oceanos unindo aos dois hemisférios do Globo, à Terra inteira, através da Mareação que é Arte de Espírito Santo e assim, sob a égide de Mariz, a todo Mar tomámos – Maris Nostrum.

Como disse e procurei demonstrar até aqui, os navegadores portugueses já sabiam com bastante antecedência das rotas marítimas e onde elas levavam, antes de serem tornadas públicas, por conhecimentos herdados da tradição Templária. Que homens e de que Ordens os herdaram, de maneira a tornar a Diáspora completa? Segundo o ilustre professor António Castaño Ferreira (numa das suas aulas teosóficas em 16.06.1952), três Ordens Iniciáticas concorreram para a difusão da Sabedoria e da Mística do Médio Oriente ao Extremo Ocidente:

1.ª – ORDEM DO SANTO GRAAL

(Do Médio Oriente à Europa)

– Acção de São Bernardo de Claraval –

2.ª – ORDEM DA ROSA+CRUZ

(Da Europa ao Norte América)

– Acção de Cristóvão Colombo –

3.ª – ORDEM DE MARIZ

(Da Europa ao Sul América)

– Acção de Pedro Álvares Cabral –

Devo afirmar agora que o objectivo de toda a Fraternidade Esotérica verdadeira sempre foi e sempre será um só: o de levar o ser humano a se conscientizar e a viver a sua realidade interna, os seus verdadeiros e, em última análise, únicos objectivos na vida. O ser humano deverá se adaptar às suas características originais, essenciais e primordiais. Não apenas a uma vida vegetativa mas a uma vida plena, universal, em que a vida como energia se acresce, transforma em mais vida, energia e consciência (25).

Como a evolução individual completa-se na colectiva e como tudo está em movimento avante, tal correlaciona-se à Marcha das Civilizações através dos tradicionais Postos Representativos da Evolução do Género Humano os quais, por suas posições geográficas, representam as duas linhas evolucionais:

De Oriente para Ocidente: Austrália, Índia, Egipto e Portugal.

De Norte para Sul: América do Norte, México, Peru e Brasil.

O propósito essencial, hoje em dia, está em coligar o Ocidente ao Sul, Sudoeste que é a rota da realização integral da Mónada Ibero-Ameríndia. O próprio Almada Negreiros, quiçá inspirado por Fernando Pessoa, escreveu sobre isso:

“Se existe um pilar-mestre em torno do qual volteja a orientação de Ocidente-Sul, ele tem sido, mais ou menos exteriorizadamente, a teimosia de se afirmar que se Portugal simbolizou ou cumpriu (talvez ainda hoje o faça) a ânsia, tantas vezes em busca de condições mais condignas, o Brasil não menos simboliza e cumpre a Missão de absorver e integrar toda a diversidade existente no Mundo, que aí adquire, por força da sua poderosa gravidade continental, uma dinâmica de integração completamente insuspeitada, a caminho de uma Raça-Síntese que consiga erguer uma Civilização mais perfeita e humana do que aquelas que conhecemos até hoje.” (26)

Por isso o caríssimo professor António Telmo, quando leccionava na Universidade de Brasília, ter chamado ao Brasil o “Novo Oriente”, a Nova Ásia ou Assiah, que é dizer o Novo Mundo, e desde logo o Novo Grande Ocidente como prolongamento lusófono ou do Verbo Criador de Portugal.

Reflectido no formato do astrolábio náutico, o Quadrante Planetário, absorvendo os 7+1 quadrantes geográficos, prefigura um círculo com duas hastes cruzadas no seu interior (27) .O círculo é a expressão planisférica do próprio Globo Terrestre, a haste horizontal da cruz representa o Equador, e a haste vertical um dos inúmeros Meridianos que o cruzam, no caso, o quarto, estando de acordo com o presente 4.º Sistema de Evolução Universal, a caminho do 5.º… representado no Brasil. O Quadrante Terrestre assim se apresenta, representado o Brasil, como “8.ª coisa” a realizar, no próprio círculo planetário, assim identificado à próxima Idade do Mundo, a Quinta, a do V Império Universal cujo Imperador será o divino Emmanuel detentor da Quinta Essência Divina:

Assim se formou a primacial cruz direcional dos chamados quatro pontos cardiais – Norte, Sul, Este, Oeste. Estabelecido esse esquema, foram procurados processos mais fáceis e expeditos para a sua determinação em qualquer circunstância. Nem sempre o Sol ou a Lua, por se acharem ocultos ou invisíveis em razão das neblinas ou das nuvens, podiam servir de guias. Houve assim que encontrar no céu a Estrela Polar como indicadora da direcção Norte, e o Cruzeiro do Sul como indicador desse outro ponto cardial. Vieram depois outras direcções intermediárias mas também úteis, e com tudo isso nasceu a bússola, “filha” do quadrante que, com o sextante e principalmente a balestilha e o astrolábio, estiveram na base das rotas oceânicas da Gesta Henriquina, cuja meta suprema e como ficou provada, era unir, espiritual e consanguineamente, a Humanidade num todo, servir já então de bojo à futura Era de Aquarius, a da Concórdia Universal que se desenhava e pressentia no horizonte do Homem.

Astrolábio náutico, peça do século XVI. Com ele era permitido calcular a altura de um astro sobre o horizonte e assim determinar a latitude do lugar onde era feita a observação.

Astrolábio náutico, peça do século XVI. Com ele era permitido calcular a altura de um astro sobre o horizonte e assim determinar a latitude do lugar onde era feita a observação.

Já o gnómon do relógio solar, como se vê no Promontório de Sagres, em Portugal, direccionado 17º sudoeste a Cabo Verde e a Porto Seguro, no Brasil, portanto ao Extremo Ocidente do Globo para onde o Infante D. Henrique dirigiu a sua atenção da demanda da “Terra da Ventura” que ele bem sabia existir por conhecimentos herdados secretamente dos navegadores anteriores, alguns da Proto-História que pisaram o Brasil, dizia, o gnómon no sentido Sudoeste marca a marcha precessional do Sol no planisfério terrestre, assim se dispondo no Quadrante quadripartido pelos 7+1 Centros de Vida e de Consciência do Globo:

Neste contexto, pode observar-se a marcha precessional do Mónada Humana descer de Norte para Sul, ao par da mesma marcha cíclica de Este para Oeste, cujo pomo da Concórdia Universal, o ponto central de encontro das coordenadas apontadas por Surya, o Sol mesmo, será o Brasil, tradicional berçário da Raça Dourada, não tanto pela epiderme mas muito mais pelo Espírito que a iluminará em conformidade ao seu tempo, o da Satya-Yuga ou Idade de Ouro (Sul), cada vez mais sobressaindo no palco antropológico do Mundo quanto maior for a acção catalisadora dos Lusos para aí dirigindo o seu foco de atenção (Oeste).

A vulgarização dos sentidos dos pontos cardiais tomou tal feição que, não raro, significa não uma direcção geográfica mas sim uma determinação psicomental do comportamento humano. Assim se diz que alguém se desorientou ao praticar determinado acto, ou que a sua vida se orienta num certo sentido. Por outro lado, quem é que nunca se desnorteou procurando depois nortear os seus passos na direcção certa?…

Coordenadas cíclicas, coordenadas geográficas, coordenadas comportamentais levando a Humanidade a unir-se num todo, arredada de vez do erro e da superstição, nas quais o nacionalismo patrioteiro, não raro, pouco ou mesmo nada tem a ver com o verdadeiro Patriotismo, assente na dinâmica permanente da Evolução do Tudo e do Todo. Sim, amor à pátria terrena por Amor à Pátria espiritual, é bem uma coisa; pretender essa pátria terrena soberana político-psíquica sobre as outras nações e paradoxalmente apartada delas, atitude próprio de senhorio ditatorial, é bem outra coisa…

Que tenham, pois, um e todos a coragem de se irmanar e assumir o sacrossanto Trabalho de Reconstrução do Homem, de lutar com as Armas da Razão, do Amor e da Justiça pela Sinarquia Universal, a mesma Concórdia Global, rejeitando de vez a anarquia deste Interregno Cíclico em todas as suas formas caóticas, para que o passado dia 28 de Setembro de 2005 tenha realmente sido o marco do início da Nova Idade de Ouro, ou do tão falado e tão pouco entendido Quinto Império, esse do Espírito Santo cujo Corpo é a Humanidade inteira, cujo desejo último e supremo é que se una fraternalmente num abraço deveras universal.

É o próprio Fernando Pessoa quem o diz no seu Manifesto sobre o Atlantismo, presumivelmente de 1913, em que trata de O Império Espiritual (28):

“Todo o Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de pé, um Cadáver mandando. Só pode realizar utilmente o Império Espiritual a nação que for pequena, e em quem, portanto, nenhuma tentativa de absorção territorial pode nascer, com o crescimento do ideal nacional, vindo por fim a desvirtuar e desviar do seu destino espiritual o original imperialismo psíquico. Criando uma Civilização Espiritual própria, subjugaremos todos os povos; porque contra as artes e forças do Espírito não há resistência possível, sobretudo quando elas sejam bem organizadas, fortificadas por almas de generais do Espírito. Criemos um Imperialismo andrógino, reunidor das qualidades masculinas e femininas: Imperialismo que seja cheio de todas as subtilezas do domínio feminino e de todas as forças e estruturações do domínio masculino. Realizemos Apolo espiritualmente. Esta é a primeira Nau que parte para as Índias Espirituais, buscando-lhes o Caminho Marítimo através dos nevoeiros da alma, que os desvios, erros e atrasos da actual civilização lhe ergueram!”

Tamanha Diáspora de roteiro certo Sudoeste, primeiro conclamada e depois cumprida pelo Infante Henrique de Sagres, como projectista primaz da mesma que os seus paradigmas fiéis concluíram dando forma ao mapa geoestratégico do Ideal Parúsico por Maris Nostrum, devo reiterar não ter sido obra do acaso em momento algum, tanto que este Insigne Luso I. ou J.H.S. era afim às Ciências Herméticas de que já dei notícia na minha História Oculta de Portugal (Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo), dada à estampa pela Editora Madras, cujas estrelas do seu mapa astral apontavam-lhe A Ventura do Futuro com “Marte em Aquário”, portanto, indicando que a sua Obra só seria plenamente entendida pela Civilização na então ainda distante Era de Aquarius, já hoje despontando do horizonte consciencial da Raça Luso-Brasileira, por outra, Ibero-Ameríndia.

O cronista do Infante D. Henrique de Borgonha, Gomes Eanes de Zurara (29), homem douto dado às ciências da Kaballah e da Astrologia de que deixou provas claras dispersas pelas suas várias crónicas impressas, possivelmente sendo de ascendência cristã-nova, possível conhecedor do ano, mês, dia e hora de nascimento do Infante, impossível hoje em dia por só se conhecer o lugar e o ano (Porto, 1394) por informação do mesmo cronista, ele empenha-se na sua Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné ao levantamento do horóscopo de D. Henrique, o Navegador: “Porém vos quero aqui escrever como ainda por pungimento de natural influência, este honrado Príncipe se inclinava a estas coisas (esotéricas). E isto é porque o seu ascendente foi Áries, que é casa de Mars, e é exaltação do Sol. E porquanto o dito Mars foi em Aquário, que é casa de Saturno, e em casa de Esperança, significou que este Senhor se trabalhasse de conquistas altas e fortes, especialmente de buscar as coisas que eram cobertas aos outros homens, e secretas, segundo a qualidade de Saturno, em cuja casa ele é. E por ser acompanhado do Sol, como disse, e o Sol ser em casa de Júpiter, significou todos os seus tratos e conquistas serem lealmente feitos, e a prazer de seu Rei e Senhor.”

Ifante D. Henrique em iluminura na "Crónica dos Feitos do Descobrimento e Conquista da Guiné", de Gomes Eanes de Zurara. Folha 5 verso, códice da Biblioteca Nacional de Paris.

Infante D. Henrique em iluminura na “Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné”, de Gomes Eanes de Zurara. Folha 5 verso, códice da Biblioteca Nacional de Paris.

Portanto, segundo o cronista Zurara o Infante Henrique de Sagres nascera sob o signo de Aquário – Saturno, estivera sob o auspício de Sol – Júpiter e tivera por ascendente Carneiro – Marte em Aquário, no seu mapa natal. Este horóscopo veio a ser motivo de pintural parietal no lado direito da escadaria de acesso ao andar superior do Palácio-Hotel do Buçaco, vizinho da vila de Luso.

Horóscopo do Infante Henrique de Sagres

Horóscopo do Infante Henrique de Sagres

Marte ou Makon (heb.), correspondente ao respectivo “Céu” da classificação Ptolomaica, esse em Aquário, sendo planeta do signo de Áries, o Carneiro associado ao Nisan hebraico, correspondendo à festa móvel da Pesah ou Páscoa, exactamente como “passagem” de um estado a outro, implicando ser maior ou mais lato para a “coisa” envolvida (seja consciencial, geográfica, pessoal, colectiva, etc.), corresponde no Hemisfério Norte à elevação do Sol, a passagem do frio ao calor, da treva à luz, o que não deixa de se relacionar ao simbolismo sideral dos doze argonautas (signos) da nau “Argos” (Zodíaco) navegando na demanda do Velocino de Ouro (Sol), tradição esta também evocada pelo carneiro servindo de montaria à divindade hindu Kuvera, guardiã dos tesouros do seio da Terra. Mas a demanda do Velocino de Ouro é sobretudo, por ele se associar à Copa Sagrada (o Saint Vaisel ou o mesmo Santo Graal), a de um tesouro espiritual, ou seja, o da Sabedoria Divina, onde se torna ordálio real. Ora, na China antiga o carneiro participava dos ordálios judiciários, nos quais desempenhava o mesmo papel do unicórnio. Na mesma época e na mesma área cultural, o carneiro também é, por vezes, a montaria de um Imortal (Ko Yeou), e na Índia é a metamorfose do próprio Imortal no Fogo Sacrificial, Agni, o que bem se associa ao Cordeiro Sacrificial hebraico-latino da PesahAgnus Dei.

Na Gália havia numerosos cães de lareira (peça utilizada para apoiar a lenha no lume, para evitar que role para fora) com cabeças de carneiro, em terracota e em pedra, o que se relaciona com o simbolismo ígneo do animal e a fecundidade familiar.

Depois do Velocino (ou Tosão: velo de carneiro), é o chifre do animal de ouro (afinidade solar) que fica carregado de um valor simbólico, fonte de inumeráveis costumes, tradições e imagens derivadas do mesmo simbolismo original, sendo que, de todos, o mais forte é sem dúvida a cornucópia, a taça da abundância, pelo que evoca a esta tanto no material como no espiritual, aqui designando a Iniciação. Certamente Iniciação Real, Guerreira ou Kshatriya, também chamada de Iniciação Senhorial ou Mariana, por todo o Cavaleiro eleger por Orago a Santa Maria na hora da armação e no momento grave do combate a Ela se encomiar. A Iniciação Mariana como ideal e execução hermética liga-se por inteiro a Maris, ao Mar ou a Via Marítima (Húmida ou Andrógina) da Alquimia, Arte Real de Espírito Santo, na época do Infante de Sagres assumida pela própria Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo de que ele era o Administrador e 8.º Mestre Geral.  Por certo, também, expressando a abundância material, indo-a buscar na “Ilha” Brasil, para isso ordenando aos seus Cavaleiros do Mar, nóveis Argonautas, o navegarem para Ocidenteas finis Terrae.

Cabalisticamente, mas interpretando essa velhinha e esgotada tradição esotérica judaico-cristã à luz da Teurgia Aghartina, se assim me é dado exprimir sem escapar à verdade, posto no tempo em questão e de acordo com a mentalidade vigente a Encoberta Ordem de Mariz serviu-se tanto da Gnose, como da Cabala e da Alquimia para expressar os mais transcendentes preceitos dessa mesma Teurgia, Marte associa-se à sephiroth Geburah, “Força”, por sua vez associada ao estado de Consciência Budhi Taijasi, isto é, o Intuicional (Christusiluminado pelo Espiritual (Paeternus). Essa condição consciencial é assumida cosmogonicamente pelas “Serpentes de Fogo” (Sarafs), os Serafins portando em seu imo a Purificação, a Iluminação e o Amor. De Salém, a Shamballah, à Face da Terra, por eles se manifesta Deus Espírito Santo conferindo o Amor ao seu Eleito e à Igreja de sua Eleição, a dos Fiéis do Amor, antes, a da lustríssima Mãe Santíssima como Virgo Mariz, por decreto do Ínclito Infante do Mar trasladada do extremo-ocidental da Europa ao extremo-ocidental do Mundo – o Brasil – motivo patente na imagem da Virgem no altar maior da igreja de São Sebastião de Lagos, Algarve, que veio milagrosamente de Vera Cruz para aí, próxima à Confraria do Espírito Santo apadrinhada pelo mesmo Infante.

Também nisso entra a influência benfazeja do Sol do Solo ou Seio da Terra, lugar ascendente do Infante D. Henrique daí descendente: Saraf, Seraf, Serafim, Serapis… a 7.ª Linha Teúrgica do Novus Phalux a Luzir, sim, o Cruzeiro Mágico de Cordo Mariz sob a égide de Surya, o Sol mesmo. Remata a tradição hermética que se está na presença de um vocábulo cujas sonoridades são em vermelho e ouro, de afinidades astrais a Marte e o Sol.

Seguindo a antiga classificação Ptolomaica, o alquimista português Anselmo Caetano Munhoz de Abreu coloca Marte como o quinto dos sete planetas tradicionais e assim o classifica no seu Oráculo Profético: “(…) subindo mais alto a procurar a protecção de Marte, que é o Planeta Quinto, e tão ilustrado de luzes, que tem a luz do Sol por centro. Como Marte é o Quinto entre os Planetas, e também o Deus da Guerra entre os Indigentes, posto que também seja Infortuna menor, por estes mesmos três motivos lhe consagro este Oráculo Profético, em que alegoricamente discorro sobre o Quinto Império do Mundo; porque o Império Quinto pertence ao Quinto Planeta, a conquista do Mundo ao Deus Marte, e à Infortuna menor a maior Fortuna. Lisboa Ocidental, 31 de Julho de 1733.”

Também as lâminas divinatórias do tipo português (que no século XIX passaram a ser impressas na Bélgica e na Alemanha, já alteradas), vulgo “cartas do dragão”, apontam a influência oculta de Marte. Com efeito, nas ditas cartas ele aparece sobressaindo de um “graal” na forma de um dragão carregando uma espada, símbolo esotérico tanto de Marte como de São Jorge ou Akdorge – segundo a Tradição Iniciática, o futuro Rei do Mundo portador do Santo Graal. Isso além de designar tanto a Linha Serapis como representar emblematicamente a cidade de Coimbra, antiga Sede Externa da Soberana Ordem de Mariz. A esse baralho genuinamente português, poderei com justeza o batizar de Tarot Lusitano. A sua criação inspirou-se naquele outro Tarot Marselhês que os ciganos – esse “judeus errantes” sem Pátria certa e sem Norte definido… – importaram para a Península Ibérica e que já em 1420 circulava nas rotas de peregrinação a Santiago de Compostela, pois que em 1490, reinando D. João II, a sua difusão era tamanha que o monarca proibiu severamente o seu uso (30).

Inspirado nesse baralho cigano é que Garcia de Resende (1470-1536), sob encomenda de D. Manuel I, criou o tipo português de baralho ou as 48 “cartas do dragão”, notícia inserta no seu Cancioneiro Geral (31), divididas em dois grupos de 24 Damas ou de Louvor, e de 24 Cavaleiros ou de Deslouvor.

Apesar da aparência da sua finalidade imediata lúdica como inocente jogo de salão que D. Manuel I terá dedicado a uma sua pretensa concubina, D. Joana de Mendonça, a verdade vai muito além disso e é muito mais dignificante e séria. O primeiro indicativo está no próprio Dragão dos Lusos atravessado pela espada e saindo da taça, de que já falei. O segundo indicativo está no Louvor ou Vitória assinalada na Dama, o que dá ao baralho característica feminina, matricial, bem conforme o tempo do Rei Venturoso – o de Maris Nostrum sob a égide apologética de Santa Maria. O terceiro indicativo é o valor 24, logo apocalíptico por indicar os 24 Anciãos do Apocalipse acompanhados das suas contrapartes femininas, ou almas augures, as do vaticínio da boa ou má sorte que o Destino reserva. O quarto indicativo será o valor 48, acrescido de mais 1 como o próprio jogador(a), indo dar 49, este o número cabalístico ou canónico dos Adeptos Independentes da Grande Loja Branca ou os Apóstolos da Igreja de Melkitsedek, 7 para cada Raio de Luz, logo, 7X7 = 49.

Finalmente, segundo um texto restrito datado de 1937, cuja escritura vela o ouro pressentido na sua linguagem críptica, o Deus Akbel em Nome do Eterno pôs o Carneiro a falar, e este assim baliu ou falou:

“Com ou sem igual sacrifício, meu Pai limitou-se, separou-se de Si mesmo… a fim de que o Universo existisse. E desde então, eu comecei a ser “sacrificado” com Ele!

Tenho a fonte do conhecimento do Bem e do Mal. Ordeno e meu Verbo se encarna. Ponho em movimento a Acção e logo aparece o KARMA. Eu sou, ao mesmo tempo, o Pai e o Filho, por isso que faço mover a Grande Roda da Vida! Chakravarti!

Meus cornos involutivos ocultam uma serpente de fogo, o aguilhão da Vida e da Morte.

Procedo de Brahmã! Eu sou o Senhor, o Deus do Exército das Forças: AKDORGE! RAJAS e CHIT estão comigo. Irascível, não tenho repouso, mas a Fé se acha comigo.

Não seria conveniente que eu estivesse só… e assim, procurei o Touro. Marte e Vénus serão meus Pais até ao Grande Dia do Sede Connosco, quando meu Pai for MERCÚRIO.

Mas o Dia finalmente raiou e continuará raiando por mais SETE ETERNIDADES.”

Alguns autores credenciados ouvintes directos do mais excelso paradigma da Sabedoria Iniciática das Idades no século XX que foi o Professor Henrique José de Souza (J.H.S. noutra versão, noutro corpo…), afirmam que o Infante D. Henrique foi um Avatara de Shiva ou o Espírito Santo como Terceiro Logos da Terra, desde logo na sequência desse pensamento parúsico, terá sido um Avatara Momentâneo portador de 50% de todo o potencial da Divindade, Shiva ou Siva, anagramaticamente Avis, sim, a Avis Raris In Terris!… Isso se detecta em Áries, o Nisan, AgnusAgni o Fogo Sagrado como Cordeiro Sacrificial ou Mitra-Deva expressando ao próprio Deus Filho, ao Cristo Universal “levitando” sobre as atlânticas águas promissivas do Futuro que o seu Infante ou Delfim rasgou… rumo à Tebaida Ocidental – A Ventura, a Esperança do Arcano XVII da Portugalidade inteira cujo hodierno Porto-Graal é já hoje soerguido no Brasil!

Tenho infinita pena daqueles – demasiados… – que arredados do Pensamento original da Tradição de Akbel, alguns carregando conhecimentos nada assimilados tampouco conscientizados como testemunho mas não aponto ninguém, deixando a tarefa de Integração verdadeira a cada um e cada qual demore quanto demorar no esteio do tempo e do espaço, adianto que para não cessar a Evolução Universal entra o mistério da conjunção planetária de Júpiter e Saturno, de cujo movimento se originou a Cruz Swástika, expressando precisamente a Divindade em Acção.

Essa conjunção do 1.º e 7.º Planetas do nosso Sistema de Evolução (como sejam Saturno e Júpiter), leva de nome, em aghartino, Asga-Laxa, Asga-Lacha, Asga-Vatza ou Asga-Ladack, e tem precisamente o significado de “Esplendor do Céu”, cujo símbolo representa o Movimento sobre e sob a Terra, portanto a acção do Pramantha ou “Cruzeiro Locomovedor da Evolução do Ciclo presente” no Segundo e Terceiro Tronos, no Céu e na Terra, sob o impulso do Imanifestado, o Primeiro Trono. Desde logo denota-se a acção primordial da Hierarquia Celeste (Matra-Devas – Querubins, Senhores da Sabedoria) e da Hierarquia Terrestre (Manasaputras – Serafins, Senhores do Amor) na Humanidade mesma, cuja cúspide são os “Filhos da Luz”, os Lusos, os Assuras humanos que, ao tempo, tiveram por Grão-Mestre o próprio Infante Henrique de Sagres, então Supremo Dirigente da Encoberta mas Soberana e Augusta Ordem de Mariz (Xvarnah-Al-Massiah, “Iluminados por Deus Criador”, em persa, ou, em árabe, Dâr Allath As-Muridj ou Maridj, “Perfeitos da Tebaida da Deusa-Mãe”, já que Murîd, a par de Akbar, significa “Grande Alma”, equivalente ao hindustânico Mahatma, ou seja, o Adepto Perfeito) (32).

Júpiter expressa a Geração relativa ao Segundo Trono, a Geração Matrátmica ou a do ponto de vista mais elevado. Daí a expressão enigmática do Professor Henrique José de Souza: “O Tetragramaton como expressão ideoplástica do Homem Cósmico, que é Jehovah, Jove, Júpiter”

Saturno expressa tudo quanto tem a ver com o Seio da Terra, o Terceiro Trono. Daí as expressões Sabaoth, Sabath, Sábado, Saturninas, Saturno

Juntando Júpiter e Saturno (aliás, os dois símbolos), tem-se a palavra Asgar-Laxa, “Senhor do Governo dos Dois Mundos”, o Celeste e o Terrestre, o que vale por Melki-Tsedek ou Chakra-Varti, mas que sendo Asga-Laxa é Akbel!

Como se vê, Júpiter domina a haste superior e Saturno a inferior da Cruz Mundanal. Consoante a polaridade da Manifestação Universal, poder-se-á dizer que Júpiter é masculino e Saturno é feminino. Pelo Asga-Laxa tem-se também a Força Centrípeta (Tamas) do Universo em que se condensa a Quadratura do Círculo, representada arquitectonicamente pelo Templo e antropomorficamente pelo Manasaputra. E igualmente a Força Centrífuga (Satva) do Universo por que se dá a Circulatura do Quadrado, o que se representa pelo Obelisco e pelo Matra-Deva (33).

Essas duas Energias e Consciências tomaram forma una na figura magistral do Infante Henrique de Sagres, bifurcada ou dual em seus dois Ministros ou Colunas Vivas: Cristóvão Colombo, para a Luz Celeste, e Pedro Álvares Cabral, para o Fogo Terrestre (34).

Para explicar tamanha arquitectura do Desígnio de Deus do Ciclo de Peixes para o de Aquário, de nada valem “nacionalismos transcendentais”, pueris de raiz, tampouco “cabalas nacionalistas”, gastas de raiz, ante a magnitude universal do mesmo Desígnio em que “a nação e a cabala” foram instrumentais de arranque e expressão de um Saber mais vasto e actual: o de Akbel, Luzeiro de Mercúrio cujo Amor-Sabedoria tem a expressão mais lídima no próprio Cristo Universal, dê-se-lhe o nome que se lhe der, desde que corresponda à medida e consciência exactas (35).

Ante tanto e farto talento na virtude e no saber, na prática levada à execução feliz, reconhecendo o Divino no Humano Infante Navegador, Gomes Eanes de Zurara não lhe excusa o encómio apologético, antes lhe dirige a exaltação em molde de prece ou invocação por ter dado tanto à Lusitânia, a começar pela mais bela safira da Assiah Ocidental que é o Brasil (36):

“Oh tu Príncipe pouco menos que divinal!

“Eu rogo às tuas sagradas virtudes, que elas suportem com toda a paciência o falecimento de minha ousada pena, querendo tentar uma tão alta matéria como é a declaração de tuas virtuosas obras, dignas de tanta glória, cuja eternal duração, sob proveitoso fim, alevantará a tua fama com grande honra de tua memória, não sem proveitoso ensino de todos os príncipes que seguirem o teu exemplo; cá por certo, não sem causa, eu demando perdão às tuas virtudes, conhecendo minha pouca suficiência para abarcar tamanha soma quando com mais justa razão espero ser repreendido por minguar do que devo, que pasmado por falar sobejo. Tua glória, teus louvores, tua fama, enchem assim as minhas orelhas e ocupam minha vista, que não sei a qual parte acuda primeiro.

“Vejo aqueles (…) que vivem (…) sob o opósito do auge do Sol (Ocidente), o qual sendo na cabeça de Capricórnio, e a eles em estranha quentura, segundo se mostra pelo movimento do centro de seu excêntrico, ou por outra maneira quando vizinham com a cinta queimada (o Equador próximo ao Brasil); e os Índios, maiores e menores, que requerem que escreva tantas dádivas de (…) quanto de ti receberam aqueles que, por visitação do Apóstolo, ou cobiçosos de ver a formosura do Mundo, chegaram aos (con)fins da nossa Hispânia (Península).

“E que fez isto se não a largueza de tuas despesas, e o trabalho de teus servidores, movidos por teu virtuoso engenho, no qual transmudaste nos fins do Oriente as coisas criadas e feitas no Ocidente.

“(…) Por direito e peso tudo o que pertence a Grande Príncipe, (…) Templo de todas as Virtudes!

“E assim concluo meu começo, que se as tuas grandes virtudes, com a excelência de teus nobres e grandes feitos, suportarem alguma míngua pela ignorância de minha ciência e rudeza de meu engenho, que eu peço à tua magnânima grandeza que, com cara piedosa, passes por minha culpa.”

Por sua vez, o inestimável e saudoso amigo Roberto Lucíola, discípulo do Professor Henrique José de Souza com quem conviveu quase diariamente na última década da vida deste, endereçou-me de São Lourenço do Sul de Minas Gerais, Brasil, uma carta com palavras preciosas (datada de 27.05.2002) de que transcrevo uns poucos excertos em guisa de desfecho:

– Todos os sete Postos Representativos espalhados pelo Mundo encerram em si um grande potencial da mais alta vibração de energia subtil, no sentido espiritual, pois são Centros irradiadores das mais sublimes forças. Sob a égide espiritual de Sintra, estão sete importantes capitais europeias, tais como: Roma, Londres, Paris, Madrid, Copenhaga, etc. Estas capitais estão na órbita portuguesa segundo nos ensinam os mais sagrados e misteriosos ensinamentos ocultos. Não esquecer que cada Posto Representativo abriga em seu seio uma determinada Ordem Secreta composta por um Dirigente, que é o próprio Kumara e mais 111 Adeptos, totalizando o cabalístico número 777, ou seja, 111 X 7 = 777.

Portugal sempre foi grande desde a gloriosa Era das Descobertas encetadas pelos desbravadores dos “mares nunca Dante navegados”, na expressão poética de Camões. Portanto, glória e muita glória aos inesquecíveis Colombo, Cabral, Vasco da Gama, Magalhães e outros. Não foi por acaso que Portugal abrigou em seu seio a direcção suprema da Ordem de Cristo, que substituiu a Ordem Templária. Foi o recurso financeiro dessa Ordem que financiou as explorações e descobertas do Novo Mundo. Não podemos esquecer o papel de suma importância desempenhado por D. Dinis e sua esposa Isabel a Rainha Santa que, diga-se de passagem, eram também Templários.

O Infante D. Henrique de Sagres foi uma expressão da Divindade encarnada entre os homens para implantar uma nova etapa na Civilização. Só este facto é suficiente para glorificar a sua Pátria e ser motivo de orgulho de pertencer a uma Região escolhida por Deus para glorificar a sua Obra. Outrossim, coisa que muita gente ignora, o Império Lusitano não foi fruto de impulsos expansionistas ou obra do acaso, como querem os materialistas que ignoram os desígnios de Deus. O Império Lusitano foi uma imposição da Lei Divina que a tudo preside. Assim sendo, ele jamais foi destruído devido às suas origens.

Na realidade, o Império Lusitano é o Império da Luz, ou seja, da Luz espiritual, e como tal é eterno. Esse Império da Luz foi recolhido (…) para emergir em tempo oportuno, jamais ele foi destruído, porque o que é sagrado não pode ser destruído pela maldade humana. Houve diversas tentativas para se implantar esse Quinto Império Encoberto, de que nos fala Fernando Pessoa. Pois Portugal é um Povo fruto de uma grande mescla racial, por isso, somente os Portugueses podiam descobrir o Brasil, devido serem um Povo genuinamente povoador, portanto, isento de qualquer preconceito racial. Graças a isso é que o Brasil é o País onde se realiza a maior miscenização que já houve na História, onde todas as raças convivem pacificamente.

NOTAS

1) Mariano Calado, Peniche na História e na Lenda. 4.ª edição, Peniche, 1991.

2) Abade Correia da Serra, Os verdadeiros sucessores dos Templários e o seu estado em 1805 (com notas de Manuel J. Gandra). Revista “Graal”, Ano I, N.º 2/3, Verão/Outono, Sintra, 1982.

3) Frei João de Montecorvino nasceu cerca de 1247 e morreu na China em 1328.

4) Roberto Costa Pinho, Museu Aberto dos Descobrimentos – Portugal Mito e História em Busca da Outra Banda da Terra. Editado por Fundação Quadrilátero dos Descobrimentos, FIESP, São Paulo.

5) Felipe Cocuzza, A Mística da Amazónia. Zohar Editora, São Paulo, 1992.

6) Mascarenhas Barreto, O Português Cristovão Colombo (Agente secreto do rei Dom João II). Edições Referendo, Ltda., Lisboa, 1988.

7) Rafael Alarcón Herrera, La última Virgen Negra del Temple (El enigma templario de Candelaria). Ediciones Martínez Roca, S. A., Barcelona, 1991.

8) Referido por Estrabão, Eutrópio e Aurélio Victor. Vd. Fragmentos relativos à História e Geografia da Península Ibérica, de Adolf Shulten.

9) In Historiae, de Caius Sallustius Crispus, referindo o Discurso do Cônsul C. Cotta ao povo, no qual se cita Servius. Foi este Sallustius historiador latino, nascido em 86 a. C. e falecido em 34. Tendo sido governador de África em 46 a. C., escreveu depois, na sua faustosa propriedade do Quirinal, além daquela obra a Conjuração de Catilina e a Vida de Zugarta.

10) Não é feita referência ao périplo de Hanon (cerca de 270-190 a. C.), porque a Ilha de Cerné onde teriam fundado uma colónia, a ser uma das Canárias, ficaria a ocidente da costa africana e não a oriente.

11) Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses – III. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa.

12) Mascarenhas Barreto, ob. cit.

13) Diz-se “achamento” quando as ilhas (“trobadas” ou encontradas) foram vistas e aportadas por acaso; “reachamento” quando delas já havia conhecimento lendário ou histórico, quer através de obras da Antiguidade Clássica quer pela tradição Árabe, quer ainda por terem surgido no itinerário de pescadores portugueses que as não souberam localizar geograficamente; “descobrimento”, propriamente dito, quando se tratava de ilhas ou terras que o homem europeu ignorava totalmente, mas procurava intencionalmente encontrar.

14) Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

15) Este manuscrito, produzido pelo próprio Duarte Pacheco Pereira, montado em cinco partes com duzentas páginas no total, D. Manuel I considerou tão valiosas as informações nele constantes sobre náutica, geografia e economia que jamais permitiu que ele fosse tornado público. Até no título, o documento revela o seu carácter cifrado. “Esmeraldo” é um anagrama que associa as iniciais, em latim, dos nomes de Manuel (Emmanuel), o rei, e Duarte (Eduardus), o navegador. “De Situ Orbis” significa “Dos sítios da Terra”. Portanto, “Esmeraldo de Situ Orbis” era “O Tratado dos novos lugares da Terra, por Manuel e Duarte”. Esta obra andou desaparecida por quase quatro séculos. De facto, o documento era tão precioso que uma cópia foi contrabandeada em 1573 para a Espanha por um espião italiano, Giovanni Gesio, que o rei Felipe II mantinha ao seu serviço na embaixada de Castela em Lisboa. Pelo trabalho ratoneiro, Gesio foi regiamente recompensado. O recibo do pagamento dos seus serviços encontra-se hoje na Biblioteca do Mosteiro do Escurial, próximo a Madrid. Depois que o espião contrabandeou um exemplar para Castela, o manuscrito só reapareceu em 1982, a partir da localização de duas cópias, a primeira numa biblioteca de Lisboa e outra na cidade de Évora.

16) Vitor Manuel Adrião, Frielas (Memorial Histórico). Edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas – Loures, 1996.

17) Jaime Cortesão, ob. cit.

18) Assunto tratado por Jaime Cortesão em Pauliceae Lusitana Monumenta Historica, I vol., pp. 21-25, Lisboa, 1992.

19) Garcia de Resende, Crónica del-Rei D. João II, capítulo CLXXXVIII.

20) Garcia de Resende, Crónica de D. João II, capítulos CLXXII e CLXXIII.

21) Luciano Pereira da Silva, Duarte Pacheco, precursor de Cabral, in História da colonização portuguesa do Brasil, t. I; Duarte Leite, Duarte Pacheco e o Brasil e Os limites primitivos do Brasil, in Descobridores do Brasil, Porto, 1931.

22) Jaime Cortesão, ob. cit.

23) O texto do Tratado de Tordesilhas, em português, foi publicado pela primeira vez, mas em péssima transcrição paleográfica, em Coleccion general de documentos relativos a las islas Filipinas en el Archivo de Indias, editado pela Compañia General de Tabacos de Filipinas, Barcelona, 1918-1923, t. I, pp. 22 a 40; mais tarde por Joaquim Bensaúde, em Estudos sobre D. João II. V. Anais da Academia Portuguesa de História, 2.ª série, vol. I, pp. 244 a 254; em 1949 por Silva Marques, em Descobrimentos Portugueses, t. II, pp. 432-440; e em 1956 por Jaime Cortesão, em Pauliceae Lusitana Monumenta Historica, I vol. (1494-1600), pp. 3-21. O mesmo Tratado, em castelhano, foi pela primeira vez publicado em Alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, pp. 69-80, Lisboa, 1892.

24) Agostinho da Silva, Um modo de entender Portugal. In A Identidade Portuguesa – Cadernos Políticos 2, Instituto Dom João de Castro, Lisboa, 1988.

25) Vitor Manuel Adrião, À guisa de desabafo… Revista PAX, órgão informativo da Comunidade Teúrgica Portuguesa, n.º 24 (3.ª Série), Janeiro-Fevereiro-Março, 2000.

26) Almada Negreiros dirigiu por algum tempo a revista SW – Sudoeste, onde publicou importantes textos sobre a sua definição da vida portuguesa. Cf. Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Séculos XX em Obras Completas, vol. 6 – Textos de Intervenção, de José Almada Negreiros. Editorial Estampa, Lisboa, 1972.

27) Alberto Pinto Gouveia, Quadrantes Geográficos. Revista “Dhâranâ”, ano 67, n.º 9, 1993, São Paulo.

28) Textos de Fernando Pessoa organizados por António Quadros em Portugal, Sebastianismo e Quinto Império. Publicações Europa-América, Ltda, Mem Martins, Portugal.

29) Gomes Eanes de Zurara. Filho de um cónego, nasceu entre 1410 e 1420 e faleceu em 1473 ou 1474. Educado na Casa do rei D. João I, ascendeu depois aos cargos de guarda-mor das escrituras da Torre do Tombo e cronista régio, em que sucedeu a Fernão Lopes. Escreveu a Crónica da Tomada da Cidade de Ceuta, ou 3.ª parte da Crónica de D. João I (edição posterior de F. M. Esteves Pereira, Coimbra, 1915), a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, a Crónica de D. Duarte de Meneses (ambos os tomos na edição única dos “Ineditos de Historia Portugueza”, 1792-93) e a Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné (edição posterior de A. Dias Dinis, Lisboa, 1949). Muito apoucado pela generalidade dos autores modernos no confronto com Fernão Lopes, Zurara tem, no entanto, um enorme mérito como cronista se o situar no seu tempo e o equiparar aos congéneres estrangeiros. As suas crónicas mantêm uma metodologia sólida e a capacidade de captar situações e sentimentos colectivos. As duas crónicas dos Meneses, interessantíssimas como fontes, aguardam o historiador que delas se ocupe e lhes dê edição moderna e crítica.

30) Fernanda Frazão, No tempo em que jogar às cartas era proibido. Apenas Livros Ltda., 2003.

31) Garcia de Resende, Cancioneiro Geral. Lisboa, 1516, e edição póstuma em 1554. Mendes dos Remédios, Obras de Garcia de Resende, 5 volumes. Coimbra, 1917. A. de Pimpão e Aida Fernanda Dias, Obras de Garcia de Resende, 2 volumes. Coimbra, 1973.

32) Vd. Sura 70 do Alcorão: Allah Dhu´l-ma`arij, o “Senhor da Escada” (do Céu e da Terra).

33) Comunidade Teúrgica Portuguesa, Matemática dos Ciclos – A Conjunção Asga-Laxa, Grau Munindra (Modelador ou Integração), Apostila n.º 77.

34) Henrique José de Souza, Colombo e Cabral. Revista “Dhâranâ”, n.º 110, Outubro-Dezembro de 1941, São Paulo.

35) Henrique José de Souza, Livro dos Makaras. Inédito de 78 folhas originais escrito de Dezembro de 1951 a Fevereiro de 1952.

36) Gomes Eanes de Zurara, Crónica dos Feitos da Guiné, cap. II, pp. 8-14. Edição de A. Dias Dinis, Lisboa, 1949.