A Demanda do Reino do Preste João – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Sep 16 2016 

A demanda de um desejado Reino de felicidade, prosperidade e justiça ininterruptas, vedado a qualquer espécie de corrupção, civilização supraperfeita subjacente ao inconsciente colectivo dos povos como Amor e Saudade, originou na Idade Média, adentrando a Renascença, o mito do Preste João, prolongamento da tradição do Santo Graal, da Quête, da Demanda cuja “pedra-angular” mental era a consolidação à face da Terra dum Império Utópico ou “por realizar”, filosófico de pura Cristandade capaz de unir aos dois hemisférios de civilização do Globo, cuja penúltima tentativa foi a Odisseia Templária, e a última o Ecumenismo das Descobertas Marítimas promovidas pela Ordem de Cristo, em que se tomou por “alavanca de Arquimedes” a busca da Terra Prometida do Patris Iohannes.

Assim o quis o Infante Henrique de Sagres, e assim o quiseram todos os seus capitães de mar posteriores, ou pelo menos a maioria deles, e nesse sentido encetaram medidas, pelo que há notícias, umas verdadeiras e outras fictícias, de embaixadas das cortes de Portugal a serem recebidas pelo Preste João. Foram os casos de Bartolomeu Dias, D. Cristóvão da Gama e Francisco Álvares, dentre outros, havendo igualmente documentação ou cartas enviadas pelo Preste João a D. João II e a D. Manuel I[1]. Já antes, conforme consta na Chancelaria de D. Afonso V, este havia recebido em 1453 um certo Jorge, “embaixador do Preste João”[2].

Ainda que comumente se acredite que a lenda do Presbítero João teve início na corte de Luís XI de França, a verdade é que ela foi importada do Oriente para o Ocidente pelos Templários[3], e mais tarde exportada para França pela Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de Pêro da Covilhã quando acompanhou a visita de D. Afonso V à corte do seu primo Carlos, o Temerário, coevos do Infante D. Henrique e da Escola Náutica de Sagres com a sua ala reservada: a Confraria do Espírito Santo, composta de Iniciados da Ordem de Cristo que, por sua vez, nos séculos XV-XVI andava de relações com uma outra do Oriente, a Ordem de Santa Catarina do Monte Sinai.

Reza a tradição popular dos coptas, certamente para enaltecerem a sua génese superior, pelo que é lenda áurea ou mito de fundação, que o Mosteiro de Santa Maria e Santa Catarina do Monte Sinai fora fundado pelo rei-pastor Jethro, o pressuposto iniciador do próprio Moisés que veio a casar com a filha daquele, Séfora. Posteriormente, essa Confraternidade teve à dianteira o “Ancião da Montanha Primordial” ou Alborj, Bey Al Bordi, manifestação deifica do Arcanjo Mikael, que era o Grão-Mestre dos Assacis xiitas e o próprio Mestre Secreto dos Templários joanitas, ou pelo menos de parte deles afins à gnose oriental. Mais tarde, essa misteriosa mas venerada personagem seria identificada, pelos Lusos de Quatrocentos e Quinhentos, com o Preste João, ou, pelo menos, com uma das suas quatro faces.

Nos finais do século XIII, a Regra da Ordem dos Reclusos de Monte Sinai terá servido de inspiração à fundação da Ordem dos Drusos, esta que, informa a Tradição, tornar-se-ia o “Escudo Defensivo” de uma outra Ordem Iniciática muitíssimo mais fechada ao exterior: a Fraternidade Tuaregues Azuis de Kaleb, instalada algures no Deserto da Líbia com jurisdição espiritual e humana para todo o Médio Oriente.

 Tal como no Mosteiro do Monte Sinai e na Confraria do Espírito Santo de Lagos, também os filósofos herméticos das cortes de Luís XI e de Carlos o Temerário apelidavam o “Velho da Montanha” (Cheik al-Djebel) de Navegador (Nautonnier)… na Ciência de Maria, isto é, na Via Húmida ou Mareante da Alquimia. O último a deter esse título foi precisamente o Infante Henrique de Sagres.

Mosteiro de Santa Maria e Santa Catarina do Monte Sinai

Mosteiro de Santa Maria e Santa Catarina do Monte Sinai

Para os Templários a Mãe Divina, de quem brotou o Divino Filho, possuía maior importância na sua catequese e gnose que as outras Hipóstases da Santíssima Trindade, talvez por se identificar ao seu espírito de Cavalaria ou Demanda como Iniciação activa ou votiva, particularizada na Arte Real da Alquimia, como conquista de si mesmo, da feitura do Ouro Crístico partindo da Mater-Rhea ou Matéria-Prima; por isso mesmo, a Mãe era mais velha e sábia que o Filho a Ela devendo a geração. Razão porque os pressupostos Estatutos Internos do Templo afirmam: “Nossa Senhora está no começo e no fim da nossa religião, porque Ela existia antes que houvesse montanhas ou terra”[4]. Motivo para René Guénon considerar a existência de duas correntes iniciáticas distintas[5]:

As duas cadeias iniciáticas. – Uma é histórica, a outra espontânea. A primeira comunica-se nos santuários estabelecidos e conhecidos, sob a direcção de um Sheikh (Guru) vivo, possuindo as chaves do mistério. Tal é El-Talîmurrijâl, ou a instrução dos homens ou dominical. A outra é El-Talîmur-rabbâni, a instrução senhorial, que me permito chamar “Iniciação Mariana”, porque foi essa que recebeu a Santa Virgem, a Mãe de Jesus, filho de Maria. Nesta há sempre um Mestre, mas ele pode estar ausente e mesmo já ter falecido há muitos séculos. Nesta Iniciação retira-se no Presente a mesma substância espiritual que os outros retiraram na Antiguidade. Actualmente ela é muito frequente na Europa, pelo menos em seus graus inferiores, mas quase desconhecida no Oriente.”

Tudo isso de maneira alguma significa que a Ordem do Templo tivesse sido uma sociedade secreta (muitíssimo menos a Ordem de Cristo), ou seja, erigida e funcionando à margem do conhecimento universal e da autoridade oficial, a do Papa e mesmo do Rei, pois de modo algum em tempo nenhum tal aconteceu. Isto a nível colectivo. Quanto ao pessoal, neste sim, há provas indiscutíveis de alguns raros Iluminados da Milícia terem agido com “segundas intenções” ante o geral, ou seja, com pretensões secretas só conhecidas deles e dos que das mesmas partilhavam.

Isso também é válido para o mito do Preste João, cujo Reino tinha tantas e tão fartas riquezas, segundo a ampla propaganda dos Templários e Freires de Cristo, que assim levavam as gentes comuns a embarcar ambiciosas de novas terras e fortunas certas, indo encetar diáspora civilizacional que era o motivo prático da difusão desse mito. De outro modo, certamente ninguém embarcaria em aventuras tão perigosas só tendo por certo o desfecho incerto…

Nessa relação dos Portugueses com o Preste João, sabe-se ainda que Pêro da Covilhã (professo da Ordem de Cristo) havia recebido as suas informações acerca do Monarca misterioso por intermédio de dois judeus cabalistas ou bandarras: o rabi Abraão de Beja, e o sapateiro Joseph de Lamego. Ora, para Fernando Pessoa[6] “Bandarra era o nome do Grau Profético da Ordem de Cristo, e da qual o Padre António Vieira veio a ser o Grão-Mestre”. Não haja dúvida que o sentido da assertiva não é histórico mas iniciático, sendo isso assaz interessante porque a Iniciação Mariana ou Cavaleiresca (Kshatriya) está profundamente relacionada ao Profetismo e ao Messianismo, como já tive ocasião de dizer[7]:

“A Iniciação Mariana ou Cavaleiresca, presentemente, encontra o seu pedestal sagrado na Ordem do Santo Graal, Templária, e na Maçonaria Copta ou Egípcia, esta que tem por fundação o mistério isíaco dos seus três MMM, que também são o seu “santo-e-senha”: Menfis – Misraim – Maisim, em alusão aos três grandes Templos da época de Akenaton ou Amenófis IV, um solar, um lunar e outro lunissolar ou andrógino, mas também e fundamentalmente à Luz Tríplice do Governo Interno do Mundo.

“Essas três Luzes aludem igualmente as três Aspectos de Shiva, Siva ou Avis anagramaticamente, como seja o Espírito Santo, a Terceira Hipóstase Logoidal influindo na criatura humana que, quando receptiva à Sua influência iluminadora, pode tornar-se um profeta ou “porta-voz” da Sabedoria Divina, e isto através da mesma Sabedoria (Budhi) – Inspiração (Bodhi) – Revelação (Badhi), tanto valendo por Jnana (Conhecimento), Jneia (Conhecedor) e Jnata (Conhecido).

esquema-1

“O Espírito Santo é o Patrono dos Profetas, e a Sua face oriental, Shiva, designa-O como Senhor dos Kshatriyas ou Cavaleiros defensores de toda a Ordem social, cujo elaboramento sinárquico é feito como Arte Real, visando humanamente o bem-estar e a elevação moral dos povos sob a égide de um Governo Único: o do Rei do Mundo, Melkitsedek, a mais viva e próxima Expressão do Terceiro Logos.”

Quanto ao primeiro documento conhecido do reportado aqui, trata-se da famosa Carta do Preste João endereçada em 1165 a Manuel Comneno, imperador bizantino de Constantinopla, assim como a Barba-Ruiva, imperador da Alemanha, e ao papa Alexandre III, parecendo o documento ter a sua origem em Portugal. Isto porque a sua versão original encontra-se no cartório do Mosteiro de Alcobaça, datada dos finais do século XIV, mas que, por voltas do destino, em 1478 aparece pela primeira vez impressa em língua italiana, em Veneza, na qual se inspiraram outras obras, também na mesma língua, como a versão rimada do Trattato del maximo Prete Janni (Veneza?, 1494), de Giuliano Dati. No mesmo teor de inspiração na Carta, irá aparecer em 1515 uma edição espanhola de um certo Libro del Infante Don Pedro de Portugal, da autoria de Gomez Santisteban (editado em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian, 1962). Por fim, esta Carta veio a ser publicada por Domingos Maurício em 1961, em Lisboa, na separata da revista Brotéria, n.º 72, a qual já a transcrevi e publiquei na íntegra no meu livro Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo).

Nessa carta, o Prestes João apresenta-se como Soberano máximo das “Três Índias”, o que vai bem com o conceito geográfico medieval, pois essas subdividiam-se em Próxima Índia, Extrema Índia e Média Índia, correspondendo respectivamente às partes Norte e Sul do subcontinente indiano e à região africana hoje denominada Etiópia. Após a chegada ao continente americano de Cristóvão Colombo e de Pedro Álvares Cabral – ambos pilotos portugueses formados na Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres, e até se dizendo terem sido as suas Colunas Vivas – nos séculos XV-XVI, as Américas do Norte e do Sul passaram a ser denominadas de Índias Ocidentais, contrapondo-as às Orientais, mas sempre realçando o designativo de Ásia, tanto com o sentido imediato de território longínquo e exótico, para o viajante europeu, como, principalmente, com o de Assiah ou “Mundo”, cuja conquista espiritual teve a primazia da Gesta Dei Per Portucalensis.

Com tudo, a Tradição acabou sendo envolta pelo «véu diáfano da fantasia», parafraseando o romancista, e o mito transformou-se em quimera nostálgica e poética mais ou menos confusa, acrescida de informações desconexas e contraditórias que invadiram a Europa de Quinhentos sobre tão sibilino quão fugidio Reino, para uns sito na Índia, para outros na Etiópia ou no Egipto, e para outros ainda na Mongólia ou no Tibete…

Segundo a Tradição Iniciática das Idades e de acordo com o proferido sobre o tema pelo Professor Henrique José de Souza,  esses quatro lugares consignados como Reino do Preste João vêm a expressar outros tantos aspectos ou faces do mesmo assim associando-o ao Jano Tetrafonte que, em si mesmo, é o Quinto como Rei do Mundo (Melkitsedek em hebreu e Chakravarti em védico), cuja Morada Central vem a ser o Centro do Globo (Salém, Walhallah, Shamballah…). Ele tem como Colunas Vivas laterais ou Ministros um Aspecto Masculino no Egipto para um Aspecto Feminino na Índia, e um Aspecto Masculino na Mongólia para um Aspecto Feminino no Tibete, como sejam Polidorus InsurenusMama Sahib, Takura BeyBelmira, para o Central como Pentamorfo.

Os raros Iluminados conhecedores do mistério haviam deixado transbordar do escrínio dos seus Colégios rumores saídos da Tradição Iniciática para que o povo e demais gente, repito, inflamados pela imaginação e cobiça de um “Paraíso Perdido repleto de grandes riquezas”, encetassem a sua demanda por terra e mar indo dar início a um novo fluxo migratório de pessoas e culturas, de maneira a ser alavanca psicossocial de um novo ciclo de progresso.

Essa Tradição Iniciática estabelecia a união da Dinastia do Santo Graal com o Preste João, que também pertencia a ela, como já antes Wolfram Von Eschenbach descrevera de maneira absolutamente simbólica no seu Parzival[8]. A trama desse romance resume-se ao seguinte:

Gahmuret, filho do rei de Anjou, vai para o Oriente onde casa com Belacane, rainha de Zazamac. Da união nasce Feirefiz, o cavaleiro cujo corpo era branco e negro. Gahmuret volta para a Inglaterra e casa-se de novo, dessa vez com Herzeloyde, de quem nasce Parzival. Gahmuret é morto numa batalha e, temendo pela sorte do filho, Herzeloyde retira-se para a floresta onde o herói cresce ignorando tudo quanto diga respeito à Cavalaria. Neste livro de Eschenbach acontece o mesmo que havia acontecido com Perceval no outro de Chrétien de Troyes, ou seja, Parzival descobre a existência da Cavalaria e sai em busca da corte do rei Artur, acção que tem como resultado a morte de sua mãe. Repetem-se várias aventuras até que Parzival chegue ao Castelo do Santo Graal. Contrariamente ao que se passa na obra de Chrétien, o Graal é aqui uma Pedra que havia sido confiada pelas Potências Celestes à guarda de Titurel e seus descendentes. Era sobre essa Pedra que a Fénix renascia periodicamente, e ainda sobre ela, toda a Sexta-Feira Santa, descia do Céu uma Hóstia consagrada. De tempos a tempos os nomes dos Cavaleiros, destinados a experimentar as maravilhas do Santo Graal, apareciam milagrosamente gravados na Pedra. O ferimento do rei inválido (Amfortas), é atribuído ao facto dele se ter disposto a lutar por uma causa mundana (amor adúltero, paixão cega). Parzival apaixona-se por Condwiramur, que irá se reunir a ele no Castelo do Santo Graal após ter vencido todas as provas, inclusive a da espada quebrada. No final Parzival e Feirefiz vão juntos para o Castelo do Santo Graal, mas Feirefiz não pôde ver o Graal em virtude de não ser baptizado. Parzival fica Rei do Santo Graal e Feirefiz, depois de receber o baptismo, casa-se com a Donzela do Santo Graal e retira-se para o Oriente onde estabelece o Cristianismo que será mantido por seu filho, Preste João. Parzival e Condwiramur têm um filho, Lohengrin, o qual, guiado por um cisne branco, vai em auxílio da Duquesa de Brabante. Ele casa-se com ela sob a condição dela não lhe perguntar coisa alguma a respeito da sua origem, e quando inadvertidamente o fez, o cisne levou-o embora.

Como se vê, aparte o mito necessário para que o símbolo se expresse, a Dinastia do Santo Graal – aliás, mantida em sigilo pelos Templários portugueses e franceses – tem ligação à mais pura essência do Cristianismo, e nesta observa-se a manutenção ininterrupta da Tradição Iniciática de Melki-Tsedek, ou por outra, do Rei-Sacerdote João, o Presbítero, este último termo designando o Ancião, o possuidor da Sabedoria das Idades, consequentemente, reconhecendo-o o mais Sábio e Supremo Dirigente, Pai Espiritual da Igreja Invisível ou Secreta de João, apóstolo pré e apocalíptico que “permanecerá até ao Fim dos Tempos”, nas palavras da própria Escritura.

Curiosamente, fala-se em Preste João da Ásia, mas creio que esse último termo peca por imprecisão ortográfica, pois originalmente escrevia-se Assiah, o “Mundo” em hebraico, cuja doutrina esotérica, a Kaballah, estrutura o Universo e o Homem em quatro grandes Planos, a saber:

Por sua vez e com a magistralidade que lhe era própria, o Professor Henrique José de Souza compôs o esquema seguinte a que chamou O Tetragramaton Sagrado e o seu desenvolvimento[9], o qual exponho sem comentários oferecendo-o ao cuidado do leitor:

esquema-3

Também sobre este tema palpitante do Preste João versus Melki-Tsedek, o Professor Henrique José de Souza teve oportunidade de escrever sobre ele, e é com um trecho precioso de um seu antigo estudo consagrado ao assunto[10] que dou por encerrado o tema que aqui me traz:

[…] Tudo quanto dissemos anteriormente a respeito dessa mais que sublime Organização, que tanto se pode chamar, como já foi dito, de Culto de Melquisedec, como de Excelsa Fraternidade, Sudha-Dharma-Mandalam (para o Oriente), mas hoje com outro nome ocidental.

Falemos de preferência dessa “fraternal Ceia ou Comunhão”, em que vivem os preclaros Membros da Excelsa Fraternidade, quer do ponto de vista mental (e a prova é que até hoje se exige, em nosso Colégio Iniciático, o termo sânscrito PAX, que quer dizer “comunhão mental ou de pensamento”, atingindo os confins da Terra, através dos mesmos Seres, e não, apenas, o sentido restrito do “pax” latino, que é, como se sabe, PAZ, essa mesma que deve existir entre todos os seres da Terra), dizíamos, quer do espiritual, ou sejam esses felizes instantes que convivem juntos, em qualquer parte do Globo para onde os conduza a sua própria missão…

Daí nasceu a chamada Ceia do Senhor, levada a efeito entre Jeoshua Ben Pandira (o “Filho do Homem”…) e seus apóstolos ou discípulos.

Era a “comunhão reservada aos maiores pontífices em todos os Mistérios Antigos”. Logo que um Adepto, um Ser qualquer de categoria mais ou menos elevada, ia visitar o Dalai-Lama, este dividia ao meio o pão, lançando-lhe a sua Benção, e ambos comiam a parte que lhes era reservada. Tal ritual, além dos seus sentidos cabalísticos, abrange, ainda, o do Androginismo Perfeito (um pão dividido em dois, como aconteceu no começo das coisas…), o do Pai-Mãe das Escrituras, na razão de Adam-Kadmon para o Divino, Adam-Heve para o Humano e Adam-Chevaoth para o Inferior… que nada tem a ver, como pensa a maioria, com o famoso “inferno” das Escrituras ocidentais.

Em seguida, dois copos contendo o mais precioso vinho ou licor, que, depois de abençoados, cada qual se servia do seu[11]. Não é isso uma espécie de Eucaristia, na razão do “este é o meu corpo, comei-o; este é o meu sangue, bebei-o”? Uma reminiscência, ainda, da “Taça do Santo Graal”[12].

Melquisedec, Rei de Salém, fez trazer pão e vinho, por ser Ele Sacerdote do Altíssimo (El Elion). E abençoou a Abrahão, dizendo: “Abençoado sejas, Abrahão, em nome do Deus Altíssimo, possuidor dos Céus e da Terra. Abençoado o Deus Altíssimo, que entregou os inimigos em tuas mãos. E Abrahão lhe entregou o dízimo de tudo quanto havia tomado” (Génese, XIX, 18-20)[13].

Como dissemos em outros lugares, Jeoshua (Jesus) distribui entre os seus discípulos pão e vinho, o que deu razão ao termo “Ceia do Senhor”, pois, como um Iluminado, Adepto ou Homem Perfeito, conhecia todos esses ensinamentos da Igreja de Melquisedec. Essa mesma “Igreja” que até hoje ensina aos homens que para Ela se acham atraídos, a se religarem ou tornarem a ligar-se, como o estiveram em tempos afastados da História, e consequentemente à sua Origem, na razão da sábia sentença de St.º Agostinho, ao dizer que “vimos da Divindade e a Ela havemos de ir”, que tanto vale pela incompreendida “Parábola do Filho Pródigo que volta à Casa Paterna”… Fenómeno esse comparável ao da Teofania entre os neo-platónicos, e o verdadeiro sentido do termo TEOSOFIA, como “Sabedoria Divina”, dos Deuses, dos Super-Homens, Mahatmas, Génios ou Jinas.

NOTAS

[1] Francisco Álvares, Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias. Publicações Europa-América, Algueirão, 1989.

[2] Elaine Sanceau, Em Demanda do Preste João. Livraria Civilização Editora, Porto, 1956.

[3] Com efeito, as primeiras notícias chegaram à Europa em 1145, quando Hugo de Gebel, bispo da colónia cristã do Líbano, informou o Papa da existência de um reino cristão situado “para lá da Pérsia e da Arménia”, governado por um Rei-Sacerdote chamado Iohannes Presbyter (João, o Presbítero, isto é, Sacerdote, Ancião) e que seria descendente de um dos Reis Magos que visitaram o Menino Deus em Belém. – Cf. Padre Baltazar Teles, História Geral de Etiópia a Alta, 1660. Publicações Alfa, Lisboa, 1989.

[4] Cf. Gérard de Sède, Os Templários estão entre nós, pág. 134. Editorial Estúdio Cor, Lisboa, 1974.

[5] René Guénon, Initiation et Réalisation Spirituelle. Éditions Traditionnelles, Paris.

[6] Fernando Pessoa, Portugal, Sebastianismo e Quinto Império, in “Obras em prosa de Fernando Pessoa” coligidas por António Quadros. Edições Europa-América, Lda., Algueirão.

[7] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz, Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006.

[8] Cf. Almir de Campos Bruneti, A lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português. Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1974.

[9] Sebastião Vieira Vidal, Série O.S.G. Edição privada da Sociedade Teosófica Brasileira, 1968. Edição privada da Comunidade Teúrgica Portuguesa, 2009.

[10] Henrique José de Souza, Cagliostro e São Germano. Revista “Dhâranâ”, 1942, Brasil.

[11] Os árabes mais ilustres só compartilham da refeição de “tâmaras, sal e uvas” com pessoas que lhes mereçam a maior consideração. É, ao mesmo tempo, uma tradição religiosa e “pacto de amizade”.

[12] Não era, antigamente, o Dalai-Lama a representação, na face da Terra, juntamente com o Trachi-Lama, dos dois tradicionais Ministros do “Rei do Mundo”, por sua vez, representado pelo Buda-Vivo da Mongólia, na cidade de Urga, cujo nome correcto é Takura?… Melquisedec e o Rei do Mundo são uma só e mesma Pessoa. Vive Ele, justamente, na “Terra das Libações”, que tanto vale por Agharta, como por Shamballah, a tradicional “Ilha imperecível, pois que nenhum cataclismo a pode destruir”. Shamballah tanto vale por Taça do Licor de Shoma ou lunar, como do de Shukra ou venusiano. Existe, na Índia, a lenda do “Cálice (ou Taça) de Buda”, que será encontrado, novamente, quando se aproximar o tempo de “Shamballah”. Vejamos tal lenda:

Purushapura ou Peshawar foi, durante muito tempo, a “Cidade do Cálice de Buda”. Depois da morte do Mestre, o Cálice foi levado para aí, onde, por muitos anos, tornou-se objecto de veneração. Nos tempos do viajante chinês Fah-sien, aí pelos 40 anos a.C., encontrava-se ele, ainda, no templo que lhe foi dedicado, isto é, Peshawar. Possuía ele diversas cores, predominando, entretanto, o preto. Quanto ao perfil de “quatro cálices” que o compunham, eram vistos claramente.

Porém nos dias de Hsuan-tsang, outro viajante chinês, pelos 650 anos de nossa Era, afirma já não mais se encontrar tal Cálice em Peshawar. Uns dizem achar-se na Pérsia, enquanto outros, em Karashahr.

No Oriente não se pode desdenhar a ideia de um Cálice. Mas, no entanto, as lendas de todos os países a conhecem a seu modo: ora é a “Taça de Lohengrin”, Taça Crística, que interfere nas “rosacrucianas”, ora a da “amargura sorvida no Horto”, e dezenas de outras de que já nos temos ocupado por várias vezes.

O “Cálice de Buda”, segundo as lendas transhimalaias, era milagroso e inesgotável: um verdadeiro “Cálice de Vida”.

Recordemos o “Cálice de Aritha” e a luta por sua posse, tal como o relata, de modo tão poético, o Mahabârata:

“Indra apoderou-se do Cálice do Rei dos Nagas (Nagas ou Serpentes: SRINAGAR ou “Homens-Serpentes, Semideuses, Adeptos, Seres Aghartinos”, etc.) e o levou para o Céu.”

Segundo as tradições persas, «quando Jenishid começou a lançar as bases da cidade de Istaker (ou da “deusa Ísis”…), encontrou-se um cálice milagroso, Jina-Jenshid. O cálice era de turquesa e estava cheio do precioso néctar da vida».

As lendas do mosteiro de Solovetz, ao tratarem dos personagens do Antigo Testamento, mencionam o “Cálice do Rei Salomão” (Salém-Omar, Salo-Omar, etc.):

“Grande é o Cálice de Salomão, feito de uma só pedra preciosa. No cálice existem três versos gravados em caracteres sumérios, que ninguém pode explicar”. Com certeza, são os mesmos a que se refere o famoso Livro de Kiu-Té, no capítulo XXXV, que aqui aparecem pela primeira vez ao mundo profano:

“Tantas vezes beberei neste Cálice

Quantas o mundo exigir a minha presença,

Como “Espírito de Luz e de Justiça”…”

Por mais veladas que sejam tais palavras, são claríssimas para os que já possuem a mente iluminada. Queira o leitor dedicar-se a meditar sobre elas… e grandes coisas acabará descobrindo.

No referido Livro, só conhecido dos Adeptos, também existe uma outra passagem, onde se compara “o Cálice com a Balança”, embora mais longa que o primeiro versículo:

“Dois pesos desiguais para duas medidas iguais…

Assim está separado o meu corpo

Nas conchas da Balança,

Até que as mesmas se fundam

Naquele Cálice onde tenho bebido

Do Sangue que é mais Dele do que Meu!

Até lá, outros O sorverão por Mim!”

Muito mais difícil que o primeiro para ser desvendado, no entanto, daremos aqui uma pequena insinuação:

Balança não é o signo de Vénus? E não se fala num “Cálice ou Taça de Shukra”, na razão do mesmo planeta, pois que o de Shoma é representado pela Lua? Fica o restante para ser descoberto pelo leitor…

Os muçulmanos de Khandakhar, possuem também o seu “Cálice Sagrado”:

Em Kharran, também há um Cálice, denominado Faq-faga. Desse “Cálice” bebem aqueles que tomam parte nos Grandes Mistérios. No sétimo dia, anunciam:

“Ó Mestre! O Maravilhoso tem que se manifestar!”

Nas cerimónias da Vedanta, do Budismo e do Mazdeísmo, utiliza-se sempre o sagrado símbolo do “Cálice de Vida”.

Jataka conta a origem do “Cálice de Buda”:

“[…] Então, das quatro Terras vieram os quatro Custódios do Mundo e ofereceram 4 cálices de safira. Porém, Buda os repeliu. Voltaram a oferecer 4 cálices de pedra negra (muggavana) e Ele, movido de compaixão pelos 4 Génios, os aceitou.

“Colocou um dentro do outro, e ordenou:

“Que se tornem Um só!

“E as bordas dos 4 cálices se tornaram visíveis como desenhos. E todos os 4 cálices se fizeram Um.

“O Buda aceitou alimento no Cálice recém-formado e havendo provado do que nele se continha, rendeu graças.”

O Lalita Vistara, descrevendo os Sacramentos do “Cálice de Buda”, atribui ao Bem-Aventurado este significativo discurso, dirigido aos “4 Reis” que trouxeram os cálices:

“Tributa respeito a Buda em nome do Cálice, e este será para ti como um Vaso de Sabedoria (“Vaso, também, de Eleição”. O mesmo “Vas insignis devotionis”, de que a Igreja se apropriou).

“Se ofereceres o Cálice aos teus iguais, não permanecerás nem em memória, nem em juízo.

“Mas, quem oferecer o Cálice ao Buda, não será esquecido, nem em memória, nem em Sabedoria.

“Esse Cálice, Arca de Vida (“Arca de Aliança”…), Cálice de Salvação, de novo há-de ser descoberto…”

Assim dizem as lendas tibetanas. Resta aos Iniciados nos Grandes Mistérios a decifração de tão misteriosas palavras. Lembramos, apenas, “as 4 Jerarquias em actividade na Terra”… que um dia se farão Uma só, como o Cálice de Buda… o resto é fácil descobrir, na razão da “letra que mata para o espírito que vivifica”… principalmente no que diz respeito à “pedra negra da segunda oferta dos 4 cálices” que o Buda, movido de compaixão, aceitou.

Quem versado for nas tradições esotéricas do Tibete, lembrar-se-á da “pedra negra” enviada pelo “Rei do Mundo” ao Dalai-Lama, a qual foi depois transportada a Urga (ou Takura), capital da Mongólia, ao Buda-Vivo. E assim, também com as tradições das várias “pedras negras”, desde aquela que era símbolo de Cibele até há que foi engastada na Kaaba de Meca. Outrossim, que “o Buda-Vivo possuía o anel de Gengis-Khan, sobre o qual se achava gravada uma Svástika (não confundir com a Sovástika nazista, considerada “símbolo nefasto” por Jainos e Budistas) e uma placa de cobre” (metal de Vénus…).

Paremos, entretanto, aqui tão longa anotação, para… não fatigar o querido leitor.

[13] O nome Melquisedec, ou antes, Melki-Tsedek, como já dissemos, refere-se ao mesmo “Rei do Mundo”, embora designado dessa maneira na tradição judaico-cristã.

 O sacrifício de Melquisedec (o pão e o vinho, etc.) deve ser olhado como “uma prefiguração da Eucaristia”. E o próprio sacerdócio cristão se aplica, em princípio, ao de Melquisedec, segundo a aplicação das seguintes palavras do Psalmo feitas ao Cristo: “TU ES SACERDOS IN AETERNUM SECUNDUM ORDINEM MELCHISEDECH” (Ps. CIX, 4).

A tradição judaico-cristã distingue 2 sacerdócios: um, “segundo a Ordem de Aarão”; outro, “segundo a de Melquisedec”. E este, superior àquele, como o próprio Melquisedec o é a Abrahão, do qual nasceu a tribo de Levi e, por conseguinte, a família de Aarão. Não diz o Grande Iluminado, que foi S. Paulo, “o mesmo Levi que recebe o dízimo (sobre o povo de Israel) pagou, por assim dizer, por Abrahão”?

Saint Bernard, por sua vez, diz que «o Pontífice, como indica a etimologia, é uma espécie de ponte entre Deus e o Homem» (Tractatus de Moribus et Officio Episcoparum, III). Há na Índia um termo que é próprio aos Jainos, equivalente ao Pontífice latino: é a palavra Tirtânkara, literalmente, “aquele que fez um VAU ou passagem”. A referida “passagem”, é a de Moksha ou “Libertação”, Redenção, Salvação, etc. Os Tirtânkaras são em número de 24, como os “Velhos” do Apocalipse, que de certo modo constituem um outro Colégio. Estão na mesma razão os Maha-Choans, na Índia, para os Ptahmers (sacerdotes do Deus Ptah, o “3.º Aspecto da Trindade”), no Egipto.

As duas chaves, de oiro e prata, usadas pelo Brahmatma indiano, e pela Igreja depois copiadas para as do “Santo Papa”, além de outros sentidos, possuem os das duas referidas Iniciações, empregando a terminologia hindu: a dos Brahmanes (ou Sacerdotes, Jinas) e a dos Kshatriyas (ou Guerreiros). Porém, no vértice ou cume (donde o termo Cumara), se acha a Fonte de toda a autoridade legítima, em qualquer domínio que ela se exerça. Por isso que os “Iniciados de Agharta” têm o nome de Ativarnas, isto é, “além das castas” (Jerarquia, portanto, superior às que se conhecem na Terra).

Semelhante Trindade hierárquica já foi apontada anteriormente, na razão do Buda-Vivo da Mongólia, representando até ao ano de 1924 o próprio “Rei do Mundo”, Melquisedec, etc., tendo por Colunas ou Ministros, o Dalai-Lama e o Trachi-Lama. Os dois Poderes em separado (o Temporal e o Espiritual), e os dois juntos, no centro. “Três Trombetas para uma Boca só”, como rezam as tradições mais secretas.

Outro sentido não possuem, além de mais seis segundo as sete chaves interpretativas da Mercabah, os “Três Reis Magos” da Bíblia, pois que, Mahinga (nome de um dos referidos Ministros do “Rei do Mundo”) oferece ao Cristo o oiro e a Salvação, como Rei; o Mahima (o outro Ministro do mesmo Ser) oferece-lhe o incenso e a Salvação, como Sacerdote; o Brahmatma, enfim, oferece-lhe a mirra (perfume de Vénus), o bálsamo da incorruptibilidade, imagem da Amrita dos hindus e da “Ambrósia” dos gregos, o Soma védico, o Haoma mazdeísta, notando, ao mesmo tempo, que em hebreu os termos “iain”, vinho, e “sod”, mistério, se encontram nas várias tradições do vinho, do licor sagrado, etc. A Salvação oferecida pelo Brahmatma ou Mestre Espiritual (o Grão-Mestre entre as duas Colunas do Templo de Salomão, ou Jakin e Bohaz), ele o faz como Profeta, Oráculo do deus-Pithio (ou Pythocrestos). Essa Trindade, ao mesmo tempo Real e Sacerdotal, como se conhece, recebeu os nomes (na Bíblia): Gaspar, Melchior e Baltazar, embora que somente o de Melki-or possua, de facto, um sentido iniciático, pois que, em hebreu, que dizer “Rei de Luz”. Os outros dois, correm por conta da Igreja…

Do mesmo modo que as duas referidas “chaves” que se procurou arrancar das mãos do Brahmatma para as de S. Pedro, tinham o mesmo significado das duas referidas Iniciações, além de representarem os Grandes e os Pequenos Mistérios. Os mesmos termos Maha-Yana e Hina-Yana, que são dados às duas Escolas do Budismo (do Norte e do Sul) – como Grande e Pequena Barcas – não representam, também, os Grandes e Pequenos Mistérios? Mas logo aparece a “Barca de S. Pedro”, arranjada com as tábuas das duas… e também com as de “Osíris”, no velho Egipto, para se meter no caminho…

Havia na Idade Média uma expressão muito interessante para definir o “Reino de Agharta”, o Governo Espiritual do Mundo, etc., a qual não teve, até hoje, a devida interpretação. Referimo-nos à do “Reino do Pai João”, que era o termo que se poderia consignar como a “cobertura exterior” (chamemos de “escudo defensivo de algo que fica oculto por trás ou que não deve aparecer”, etc.) do culto em questão, formado, em boa parte, pelos Nestorianos e os Sabeus. E principalmente este últimos, que davam a si mesmos o nome de Mendayeh de Yahia, ou “discípulos de João”. No Oriente, vemos do mesmo modo os Ismaelitas ou “discípulos do Velho da Montanha”, os Drusos do Líbano, “defensores da Terra Santa”, mas que a criminosa corrupção de certos escritores que vendem a sua pena a quem melhor lhes paga, ousa descarregar sobre um Ser de tão elevada Hierarquia toda a baba peçonhenta da sua maldade e ignorância…

Inútil dizer que o tradicional “Velho da Montanha” (no Líbano), estreitamente ligado ao Governo Espiritual do Mundo, famoso no tempo das Cruzadas, foi iniciador de Hugues de Payens e de Godofredo de Saint-Omer, fundadores, como é sabido, da Ordem dos Templários, que chegou quase a ser senhora do mundo medieval cristão, até ao momento da sua ruidosa queda; queda essa tão dramática como a foi a dos pitagóricos de outrora e, por sua vez, a dos jesuítas ao finalizar do século XVIII.

No Ocidente, todas essas Ordens de Cavalaria, quer militares, quer religiosas, não se fizeram “Guardiãs da Terra Santa”?

Para que ninguém se admire da expressão “cobertura exterior”, empregada nas velhas escrituras, em relação com a parte exotérica ou profana dos “Centros Iniciáticos”, apontamos um termo, muito bem aplicado, de que fez uso Saint-Yves d’Alveydre, em uma das suas obras, ao falar nos “Templários de Agharta”. Sim, porque todas as Iniciações, cavaleirescas ou não, têm por origem a referida Região Aghartina, de que tanto nos ocupámos em vários dos nossos estudos. Donde, por exemplo, falarmos nos “22 Templos (donde Templários) dos Trachi-Marus (ou Tachu-Marus)”. Por isso mesmo, forças “exteriores”, se bem que “inferiores” por viverem no seio da Terra, em defesa de uma Obra da mais elevada Espiritualidade. O mesmo termo Maruth ou Marutha, em sânscrito, quer dizer “força”. E o Maru japonês, equivalente a “vapor”, dá a ideia, ainda, desse termo tão antigo quão precioso, isto é, Tachu-Maru… Equivale, ainda, a certa Ordem Secreta – dentre as 3 denominadas de Dragões: o de Oiro ou Amarelo, o de Prata ou Azul e o de Ferro ou Vermelho. Existem aí outros Dragões que, a bem dizer, por sua vez já são outras “coberturas exteriores” para os que acabamos de apontar.

“Pai João, Joam, Jim ou Jina”, outro não é, senão, o “Mundo Jina” ou aquela Região antes referida com o nome de “Agharta”, se inúmeros são os nomes que A definem nas diversas tradições ainda existentes na face da Terra.

Em certas representações de Janus (Johanus, Jinas, etc.) não são, também, os dois referidos Poderes simbolizados por “uma chave e um ceptro”? O Poder Temporal e o Poder Espiritual. Do mesmo modo, no Tarot, o Imperador e o Papa, com os aspectos femininos: a Imperatriz e a Papisa.

Volvendo ao termo “Pai João”, procede ele, mais ou menos… da época de S. Luís, nas viagens de Carpino e de Rubruquis. O que mais complica o assunto, é que, segundo alguns, teriam havido “4 personagens portadoras do título”, na razão, dizemos nós, dos 4 referidos Arcanos do Tarot, de que falámos anteriormente, das 4 Jerarquias em função na Terra e de outras coisas mais, que não vêm ao caso apontar. Encontravam-se elas: no Tibete (ou melhor, no PAMIR…) na Mongólia, na Índia e na Etiópia; preferimos, entretanto, apontar para essa última o Egipto… Questão apenas de «opinião». Também poderiam ser 4 representantes do mesmo Poder, mas, em verdade, “um aspecto masculino no Egipto para um feminino na Índia”, tendo por Formas Laterais, Colunas Vivas ou Ministros, o aspecto masculino na Mongólia e o feminino… em Palmira, se o quiserem… uma Rainha que, por se ter afastado um pouco das suas funções, faltou-lhe o “Verbo Divino”… Outro assunto que não pode ser discutido, embora o conheçam os membros mais avançados do nosso Colégio Iniciático.

Dizem, também, que Gengis-Khan “quis atacar o Reino do Pai João”, porém – o que é muito natural por ser o interior da Terra “Lugar das Forças Cósmicas ou Laboratório do Espírito Santo”, como o indicam as escrituras teosóficas – aquele o repeliu despedindo raios contra os seus exércitos. E como Gengis-Khan ao lado de Tamerlão e Átila, mesmo que em épocas diferentes, representassem uma Trindade caótica ou maldita para a Divina, Excelsa, que agora os leitores já A conhecem – também soará a Hora em que o “Reino do Pai João” se manifestará, justamente, quando “tiver terminado tão trágica maneira de se “separar o bom trigo do joio”, isto é, a semente seleccionada para o Novo Ciclo portador de melhores dias para o Mundo, da semente apodrecida, que não poderia germinar e produzir bons frutos em terreno por demais cansado…

A referida Região do “Pai João” não é a mesma do “Preste João”, o grande viajante por terras misteriosas. Mesmo assim, também se acha ligada à Terra Sagrada, a Agharta, ou seja a AVALON da lenda do Rei Artus e os Doze Cavaleiros da Távola Redonda, podendo-se desdobrar tal nome em AVA (avô, antepassado, etc.) e LON, Lohan, Choan, etc., na mesma razão de Elohim, que, como se sabe, são os mesmos Dhyan-Choans das escrituras sagradas do Oriente, e no Cristianismo, os Arcanjos, etc. Assim, Avalon, por exemplo, é “a Terra Sagrada dos Deuses, dos nossos Antepassados, dos Jinas ou Génios, Choans”, etc., pois que o mesmo termo Lohengrin (Lohan-grin ou Jin) não possui outro significado.

E para terminar, o mesmo termo “Preste” pode ser uma corruptela de Pitri, Pai, Padre, Pêtre (francês) ou Presbítero, nome este com que a lenda nos diz ter sido designado pelo próprio Papa o fabuloso personagem que se dizia imperador duma vaga região no Oriente.

Posto isto, encerramos fazendo votos que a Paz volte a reinar na face da Terra, em nome do Amor, da Verdade e da Justiça!

À DESCOBERTA DA LISBOA MISTERIOSA – VISITA GUIADA AOS SÍMBOLOS DA TRADIÇÃO SAGRADA NA BAIXA POMBALINA Segunda-feira, Sep 5 2016 

Data: 18 de Setembro 2016
Dia: Domingo
Início: 11:00 horas
Final: 13:00 horas
Local de encontro: Terreiro do Paço
Orientador: Vitor Manuel Adrião
Valor: 15 euros
Observações: Encontro às 10:45 horas junto à Estátua de D. José I no Terreiro da Paço. Inscrições na Livraria da “Espiral” ou c/António Paiva antompaiva@gmail.com

 

D. Sancho I e os Cátaros occitanos – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Sep 1 2016 

15.8.2016

O reinado de D. Sancho I, sucessor de D. Afonso Henriques seu pai, ficou marcado por polémicas acesas com a Santa Sé, incluindo a acusação de vizinhança a crenças hereges, ele com comportamento herege que levaria à sua excomunhão. Diz-se mesmo que terá dado guarida em Portugal à heresia cátara através da nobreza de Aragão a que estava ligado familiarmente. Se assim foi como defendem hoje alguns com erudito e engenhoso argumentário[1], abrindo janela de oportunidades a especulações dos variados géneros da ambiência própria do “realismo fantástico”, então obrigatoriamente ter-se-á de rever a tanto a história político-social como a religiosa dos primeiros tempos da Monarquia e da Igreja no País de tenra idade ainda.

Para poder enquadrar essa possibilidade extraordinária de relação D. Sancho I – Cátaros, indo aos prós e aos contras segundo a documentação disponível coeva dessa época, antes de tudo o mais devo fazer uma breve resenha do que foi o catarismo e por que motivo a ortodoxia eclesiástica romana se lhe opôs de forma tão violenta e sangrenta. Recuo, pois, a esse período pouco estudado da História Medieval europeia.

Desde cedo a Igreja entrou em colisão doutrinária consigo mesma, criando-se dois partidos que, verdade seja dita, nunca se reconciliaram efectivamente: o pró-judaico e o pró-grego, este assumido por Paulo e aquele por Pedro. Isso deu aso ao surgimento de heresiarcas contestadores de que Jesus tivesse realmente existido como homem ou figura histórica e até mesmo pondo em dúvida que Jehovah fosse o Deus de Israel, e se o fosse então os judeus estariam prestando culto ao “Príncipe do Mal” que subsistia do espírito de vingança e guerra dos seus filhos. Isso era justificado pelo que o próprio Isaías deixara escrito na Escritura Velha. Foi assim que apareceu o controverso Marcião de Sinope, um dos muitos heresiarcas do Cristianismo dos primeiros tempos, saído do chamado “gnosticismo pagão ou naturalista”, simpatizante parcial da corrente paulista pró-grega oposta da judaica a que se opunha, o qual, como muitos outros, acabou por ser expulso da Igreja e ir fundar a sua filosofia apocalíptica e política própria, o Marcionismo. Este, o Priscilianismo, o Arianismo de Ário, etc., contribuíram para a cisão eclesiástica no século IX com a criação da Igreja pró-grega (bizantina) e a Igreja pró-romana (de herança judaica)[2]. A citação de Isaías 45:7 (“Eu o que formo a luz, e crio as trevas, o que faço a paz, e crio o mal; eu sou o Senhor que faço todas estas coisas”), é a afirmação da Divindade Única como Todo presente em todas as acções humanas, boas ou más, sendo que o livre-arbítrio cabe ao Homem, mas a Justiça a Deus como Consciência Absoluta assistindo a um e todos. A ad littera sem a exegética interpretativa só poderá resvalar para o equívoco ignorando a parábola – para-bola – e metáfora do texto sagrado, que vem a reunir em um só os vários deuses cultuados na então religião animista das tribos semitas. O mesmo processo seguiu Mahometh no Alcorão.

É no ambiente heresiarca contestatório que nem o Concílio de Nicéia (século IV), onde foram estabelecidos os princípios da teologia oficial da Igreja, sossegou, que Paulo de Samósata, bispo de Antioquia no século III, fundou o movimento Pauliciano desde logo acusado de gnóstico e próximo do Maniqueísmo de Maniqueu, filósofo cristão coevo desse bispo. Seita adopcionista ou monarquianista, enfatizava a Unidade Absoluta de Deus entrando em conflito aberta com a doutrina da Trindade, sendo os modelos propostos pelo monarquianismo rejeitados como heréticos pela Igreja[3]. Todavia, os paulicianos sobreviveram e floresceram entre os anos 650 e 872 na Arménia e nas partes orientais do Império Bizantino, sobretudo na Anatólia e nos Balcãs, dizendo-se descenderem em linha directa dos Apóstolos e terem o seu início no primeiro século depois de Cristo, contudo faltando os registos comprovatórios de tal afirmação que mais parece “lenda de fundação”. Em 668 começaram a ser perseguidos sendo o seu líder Constantino apedrejado até à morte, e o sucessor desse queimado vivo. Durante o século VIII receberam protecção esporádica de Leão III, o Isáurio, nos Balcãs ocidentais, e também do seu filho Leão III. Mas logo a imperatriz Teodósia de Bizâncio, no século IX, moveu-lhes perseguição tenaz provocando a morte de 100.000 paulicianos[4]. Com isso, eles dispersaram-se pelos Balcãs indo originar novo movimento, o dos bogomilos.

O Bogolimismo, movimento gnóstico e maniqueísta descendente do Pauliciano, foi fundado pelo padre Bogomilo no século X, durante o reinado de Pedro I da Bulgária. Os bogomilos são referidos como babuni em diversos documentos, nome originado de topónimos macedónios (Rio Babuna, Montanha Baguna, Aldeia Bogomila, etc.), em cuja região o movimento foi muito activo[5]. Também conhecido como de “amigos de Deus”, ele surgiu como uma resposta à estratificação social ocorrida como resultado da introdução do Feudalismo e como forma acção política opositora ao Estado búlgaro e a Igreja. Os bogomilos eram sobretudo dualistas adeptos do conceito maniqueísta: o Deus Criador do Espírito diferenciava-se claramente do Deus Criador da Matéria. Tal como os paulicianos, pregavam a igualdade social e acusavam abertamente o afastamento da Igreja e da Nobreza das classes mais desfavorecidas. Na Itália, sobretudo em Milão, no século XI os religiosos pobres aderiram a esse movimento reformista vindo a ser conhecidos pelo nome da rua milanesa mais frequentada por eles, Pataria, donde o seu apodo patarini ou patarinos, “andrajosos”[6]. Enfim, o Bogolimismo difundiu-se em toda a região dos Balcãs chegando até à fronteira com Bizâncio, vindo a ser fortemente perseguido pelos soberanos búlgaros e pelos imperadores bizantinos, e a despeito da repressão tenaz das autoridades católicas espalhou-se por toda a Europa Central e Ocidental, antes de desaparecer e reaparecer sob a forma de Catarismo.

O Catarismo (do grego katharós, καϑαρός, “puro”) entre os anos 1100 e 1200 estabeleceu-se e dominou o pensamento espiritual da Europa Ocidental e do Sul, sendo que no sul de França foi onde teve maior impacto e domínio sobretudo na Occitânia, a qual compreende as regiões históricas da Provença, o Limusino, o Auvérnia, a Gasconha, o Languedoque e o Delfinado na França. Ao diassistema linguístico-cultural do occitano também estão incluídos alguns vales alpinos na Itália e o Vale de Aran, na Catalunha, vizinha de Aragão. A Occitânia é até hoje uma nação sem Estado da Europa, sobretudo desde a Cruzada contra os Cátaros que os exterminou como movimento religioso contestatário do absolutismo papal. Papel menor mas não menos significativo teve o movimento fundador por Pedro Valdo, em 1173, o dos Valdenses, também conhecidos como “Pobres de Lyon” que se espalharam pelo Sul da França e ela Lombardia, acusando a corrupção da Igreja vendida a César, na pessoa do imperador Constantino, desde que o Papa Silvestre adquirira a primeira possessão temporal para o eclesiástico. Apesar de fortemente perseguidos na Itália nos séculos XIII e XIV, ainda hoje subsistem algumas comunidades isoladas valdenses nos Alpes.

No espaço occitano, foi na região do Languedoque que o Catarismo ficou e dominou completamente a partir de cidade de Albi, donde também se chamarem albigenses aos cátaros, cuja catedral de Santa Cecília em breve transformou-se num centro dominado pelo pensamento reformista cátaro. Assim também Toulouse e Montpellier, respectivamente capitais alta e baixa do Languedoque ou Languedoc, referindo-se à língua vernácula da região, a langue d´oc, em oposição à vernácula do Norte, a langue d´oil.

Os cátaros adoptaram por símbolo a cruz occitana desde logo assinalando um estado de independência político-geográfica e moral-religiosa apartados da ortodoxia político-religiosa romana, o que agradou à nobreza occitana desejosa de um Estado independente, possivelmente sendo o principal motivo da protecção política e militar que dispensou aos cátaros desde a primeira hora, convertendo-se mesmo à sua religião caracterizada por uma visão peculiar de docetismo cristológico, segundo a qual Jesus Cristo só viveu na Terra como imagem aparente, ilusória, assim não aceitando a sua compreensão trinitária católica, assumindo que o seu corpo real era invisível aos olhos carnais por ser imagem de um Anjo. A maior parte dos católicos actuais que não acreditam que Cristo se manifeste com vestes tecidas no Céu e com sandálias fabricadas pelos Anjos, são docetistas sem o saberem[7].

No Catarismo revelava-se a primitiva polémica pró-judaica e pró-grega que tomaria forma maniqueísta irreversível, opondo o Deus “bom” do Novo Testamento, criador do Reino Espiritual, ao Deus “mau” do Antigo Testamento, criador do Mundo Físico, que identificavam como Satanás. Para os cátaros, toda a matéria visível foi criada por Satanás, sendo contaminada pelo pecado que incluía o corpo físico. Este conceito oponha-se ao monoteísmo da Igreja Católica que considera haver um só Deus criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Os cátaros também consideravam as almas humanas serem almas sem sexo de anjos aprisionados dentro da criação física de Satanás obrigadas à reencarnação, mas que podiam alcançar a libertação ou salvação através do ritual chamado Consolamento (Consolamentum), ministrado de forma muito simples consistindo na imposição das mãos, na leitura do Evangelho de São João (onde é revelado que “o Consolador manifestou-se em forma de Pomba soprando o Espírito Santo ao Homem Bom Jesus Cristo”, motivo da Pomba ter sido símbolo do Consolamento cátaro) e consequente imposição do Livro sobre a cabeça do crente, terminando com a oração dominical do Senhor, o Pater Nostrum. A ministração deste sacramento convertia o simpatizante ou crente, o “bom homem” ou “boa dona”, em “bom cristão”, mas isso só depois de ter realizado o “melhoramento” que consistia na prática moral do exigido na rigorosa catequese cátara, assim extirpando o pecado carnal e alcançando a perfeição. Perfeitos eram os ministros da Igreja cátara, com hierarquia própria dividida em filhos maiores e filhos menores: os bispos eram assistidos pelos “filhos maiores”, candidatos ao bispado, e os diáconos eram os “filhos menores”, assumindo tarefas semelhantes às do clero paroquial. Viajavam em missão pastoral sempre aos pares como clerici vagantes. A hierarquia cátara incluía o sexo feminino no ministério, sendo escolhida a mulher mais velha e de bom juízo, a anciã, para o cargo em cada “igreja paroquial” cátara, dando como exemplo Maria Madalena que foi a primeira a ser reabilitada de Satanás por Jesus Cristo. Daí o ênfase cátaro dispensado à pessoa magdálica, expressiva da libertação psicossocial da Mulher em plena Idade Média, o que já se fazia sentir um pouco por toda a parte mas sobretudo no Catarismo, aliás, considerando aberrante o casamento como obrigação perpétua, sem direito a divórcio, assim como a repressão sexual e o obrigar a estados celibatários os que não possuíam tais inclinações, e mesmo possuindo uma hierarquia ela era “livre”, quase se poderia dizer em termos actuais “democrática e socialista”, mas o mais certo seria chamá-la de “proto-protestante” revindicando a comunicação directa com o Divino ao alcance de qualquer um(a) sem dogmas nem mistérios, no que destoava completamente da tradicional eclesiástica católica, a começar por negar todos os sacramentos católicos desde logo o da Eucaristia (recusando a mais-valia sacerdotal da Taça Eucarística, endossada miraculosa familiar ou mesmo a mesma sob o aspecto cavaleiresco do Santo Graal, o Kratter provençal) assim como o Batismo, tal como a descrença tanto no Purgatório como na ressurreição dos mortos no Dia do Juízo Final, além de condenarem a usura e defenderem o direito de propriedade. A endura, “privação”, como espécie de suicídio místico também não era condenável para os cátaros: geralmente consistia em deixar-se morrer de inanição ou, mais raramente, de frio. Se bem que nunca fosse estimulada nem imposta pelos Perfeitos, também não era recusada, sobretudo quando a Inquisição tornou a vida impossível aos cátaros no condado de Foix. Mas isso era o contrário da posição da doutrina católica sobre o suicídio. Tudo motivos mais que suficientes para o agrado geral da Occitânia, sobretudo da sua aristocracia local, e desagrado total da Igreja Católica, vendo estar perdendo a sua cristianíssima filha, a “França fidelíssima”, apesar de cátaros e católicos conviverem em paz e até aqueles frequentarem os templos destes, mesmo não comungando sem parte activa na missa, assim respeitando a assembleia (ecclesia) mas demonstrando participarem de diferente daquela.

Sobre os supostos textos sagrados cátaros, a sua catequese apresentava-se além de no Novo Testamento nos textos maniqueístas O Evangelho da Ceia Secreta ou o Interrogatório de João, e O Livro dos dois Princípios[8].

Inicia-se cruzada pastoral, ou seja, o envio à Occitânia de vários delegados papais a fim de demover e remover a heresia cátara pelo esgrimir de argumentos teológicos, o que redundou em fracasso total[9]. Já desde 1119, no Concílio de Toulouse, que o Catarismo fora notado pelo seu desenvolvimento crescente e condenado oficialmente. Isto por na realidade ser uma religião dotada de doutrina, organização e princípios próprios, em muitos aspectos radicalmente diferentes da Igreja Católica Romana. Se, de facto, a palavra grega hairesis significa “escolher”, herege será o que “escolhe” para si alternativas distintas daquelas estabelecidas e declaradas pela religião oficial romana[10], que na época era igualmente dominadora absoluta dos estados, reinos e feudos europeus.

Inocêncio II, que pontificou de 1130 a 1143, designou seu legado no Midi o bispo de Óstia, o cluniense Henri Albéric, para combater a heresia com as armas da doutrina, mas era tarefa superior às capacidades físicas e mentais do bispo. Então, pediu a ajuda de Geoffroy, bispo de Chartres, e do próprio abade Bernardo de Claraval. Entretanto, Inocêncio II morre e em 1145 Eugénio III sobe ao sólio papal (pontificando de 1145 a 1153), ano em que Bernardo de Claraval aparece no Languedoque e confronta o bispo cátaro Henrique de Lausanne, assim como exorta Alfonso Jourdain, conde de Toulouse, a colaborar com a Igreja Católica na extirpação dos erros. Contudo, não deixou de reconhecer virtuosismo cristão nas ideias e práticas cátaras, admoestando no seu Sermão 64: “Sejam os hereges conquistados não pelas armas, mas pelos argumentos”. Adiantando no Sermão 65 sobre o Cânticos dos Cânticos: “Se questionar a heresia sobre a sua fé, nada é mais cristã; se sobre a sua conversão diária, nada é mais inocente, e o que ela diz ela provará por suas acções… No que diz respeito à sua vida e conduta, ela não engana a ninguém, não se sobrepõe a ninguém, não pratica violência com ninguém. As suas faces são pálidas de jejum, ela não come o pão da preguiça, ela trabalha com as suas mãos, e assim faz a sua vida. As mulheres deixam os seus maridos, os homens deixam as suas mulheres, e todos eles emigram para a heresia. Clérigos e padres, jovens e adultos entre eles, estão deixando as suas congregações e são encontrados na companhia de tecelões (cátaros) de ambos os sexos.”[11]

A opinião de Bernardo de Claraval, futuro santo da Igreja, terá tido repercussão na Ordem do Templo de que era inspirador e mentor perpétuo desde que entre 1128 e 1129 redigira o Louvor e a Regra da mesma (De Laude Novae Militiae ad Milites Templi), primeiro em latim e depois transcritos para o francês do Norte, a langue d´oil. Certamente por esse motivo, os monges-cavaleiros templários não participaram em nenhum acção bélica contra os cátaros e mantiveram postura de neutralidade ao longo de todo o processo, facto que ultimamente tem dado aso a inúmeras elucubrações fantásticas, de engenhosidade mais ou menos esotericista, mas que poderá explicar-se pelo simples dos seus estatutos no tocante à vocação militar interditar guerra a cristãos e somente ao árabe infiel, fosse na Europa ou no Ultramar. Eram Milites do Pelágio, Bellatores do Chark e do Gharb na Península Ibérica, protegiam cristãos, fosse qual fosse a sua índole, não os perseguiam nem matavam. Razão de possivelmente terem dado guarida, em nome da caridade cristã, a alguns pobres cátaros perseguidos no Languedoque, sem por isso deixarem de ser católicos romanos e Milícia de Roma. A pressuposta inter-relação teológica e cultural cátaros – templários não parece ter implicado em espécie alguma de conversão desses últimos, tampouco dos primeiros. Poderá vir daí a posterior acusação dos templários serem maus cristãos e sonegarem palavras sacramentais na santa missa e até mesmo não celebrarem a eucaristia, acusação tão infundada que não sobreviveu às primeiras alegações no Processo contra o Templo, tendo caído por terra e esquecida de imediato[12].

As palavras prudentes, de diplomática tolerância, de Bernardo de Clavaral, parecem não ter tido repercussão prática, as posições extremaram-se ainda mais: em 1178 Henri de Marcy, legado papal, qualificou as povoações de implantação cátara de sedes Satanae, “sedes de Satanás”, e por sua vez os cátaros, definindo-se a si próprios como a Gleisa de Bons Homes et Bons Cristians, ou simplesmente Gleisa de Dio, Igreja de Deus, respondiam pela voz do Perfeito Peire Authié: “Realmente há duas Igrejas: uma Igreja que persegue, condena e mata, e outra Igreja que foge, perdoa e morre. Digam em qual acreditam que seja a Igreja de Deus”[13].

O objectivo da cruzada pastoral (onde chegou a intervir Fernando de Bulhões, o nosso St.º António de Lisboa e Pádua, investido na missão pelo próprio S. Francisco de Assis em 1221, indo pregar debalde no Sul de França pela conversão dos albigenses e patarinos[14], donde nasceria a célebre lenda da “pregação aos peixes”) era levar os cátaros a abjurarem dos seus erros e reconciliarem-se com a Igreja. Foi com essa intenção que em 1203 uma missão de monges letrados cistercienses, chefiados pelo próprio abade de Cister, Arnaldo Amauri, acompanhou o legado papal Pedro de Castelnau a fim de pressionar o conde de Toulouse, Raimundo VI, a extirpar a “pestilência herética” disseminada nas suas terras, e ao mesmo tempo converter as populações simpáticas a ela. No ano seguinte (1204), dois importantes religiosos espanhóis, Diego, bispo de Osma, e Domingos de Gusmão, vice-prior do capítulo de Osma, juntaram-se aos demais na missão de converter as “almas desgarradas” do condado de Toulouse. Domingos, posteriormente canonizado com S. Domingos, foi o fundador do Convento de Prouille em Toulouse, e da Ordem dos Predicadores, mais conhecida com Ordem dos Dominicanos. Foi ele o primeiro a propor que na luta contra os hereges a conversão se fizesse não apenas pelas palavras mas também pelo exemplo[15]. Com efeito, foram os dominicanos a iniciar as inquisições episcopais os quais tiveram actuação importantíssima durante todo o período no conflito armado no Languedoque, tendo criado a Inquisição com tribunais destinados a inquirir e julgar os cátaros detidos. Empós os interrogatórios onde a tortura desumana era praticamente “obrigatória”, levantaram-se os autos-de-fé e as fogueiras com os condenados ao lume eterno enrubesceram o chão occitano no holocausto que se seguiu[16].

Com efeito, a cruzada pastoral fracassada em breve transforma-se em cruzada bélica. Os acontecimentos precipitam-se. Dá-se o casus belli. No dia 15 de Janeiro de 1208, o legado papal Pierre de Castelnau, cisterciense famoso pela suas incontidas vociferações ofensivas dos cátaros e dos condes da Occitânia, ao regressar de uma reunião em Saint-Gilles, quando se dispunha a atravessar o Rio Ródano, foi assassinado. As culpas caíram sobre o conde Raimundo VI de Toulouse, e debalde este protestou a sua inocência[17]. Mas esse foi pretexto bem-vindo para o Papa Inocêncio III – pontificando desde 8.1.1198 a 16.7.1216 – convocar a Cruzada Albigense, que aliás vinha preparando desde anos antes. Convoca os barões de França para a “cruzada baronial”, mas o êxito da chamada foi muito relativo; então, convoca o rei Filipe Augusto de França, mas este andava em guerra com a Inglaterra e não se mostrava disposto a iniciar nova guerra no seu próprio país.

Para obter êxito nos seus intentos de conseguir uma “cruzada real” com o envolvimento de Filipe Augusto, reunindo poderoso exército recrutado não só em França mas um pouco por toda a Europa católica, o Papa declarou livre e ofereceu à turba armada, com isenção pontifícia de pecado assim transformando mercenários em cruzados, o saque e a matança dos cátaros e dos seus protectores, os condes occitanos[18]. Com efeito, em 9 de Março de 1208 o Sumo Pontífice dirigiu uma carta a todos os bispos do Languedoque e a todos os condes, barões e senhores feudais do reino de França, onde a dado trecho diz: “Despojai os hereges das suas terras. A fé desapareceu, a paz morreu, a peste herética e a cólera guerreira tomaram novo alento. Prometo-vos a remissão dos vossos pecados se puserdes fim a tão grandes perigos. Ponde todo o vosso empenho em destruir a heresia por todos os meios que Deus vos inspirará. Com mais firmeza ainda que com os sarracenos, pois são mais perigosos, combatei os hereges com mão dura”[19]. Já antes o Papa Gregório VII (pontificando de 1073 a 1085) havia declarado que “a matança de hereges não é crime”, porque “a heresia é um golpe no rosto de Deus, e é dever de cada católico exterminar os hereges”. Maneira singular de assegurar a continuidade do domínio temporal absoluto da Igreja.

A campanha começa no dia 22 de Julho de 1209, dia da festa de Santa Maria Madalena, com o cerco da cidade de Béziers por um contingente de cavaleiros armados vindos do Norte de França, da Bélgica, da Alemanha e da Inglaterra. Fala-se no número prodigioso de vinte mil homens a cavalo e duzentos mil peões. Talvez o número seja exagerado, posto as guerras naquele tempo não envolverem mais de cinco mil combatentes, mas também poderá não ser exagerado à vista do apetecível saque que o, sendo dever de cada cristão próprio Papa oferecia com todas as indulgências pontifícias. O objectivo militar não deixava dúvidas: derrotar os hereges que campeavam nas cidades e fortalezas situadas no viscondado de Béziers e Carcassonne e no condado de Toulouse. Simão de Montfort, à frente do exército cruzado, devastou a cidade de Béziers e exterminou a maioria da população (fala-se em 40.000 vítimas mortais), sem levar em conta a sua filiação religiosa, tendo pronunciado, segundo a Crónica de Cesáreo de Heisterbach, a sinistra frase: “Matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus”! Assim fizeram, nada poupando, tudo arrasando, saqueando e assassinando, fosse católico ou cátaro, como diz um dos testemunhos contemporâneos[20]: “Nada pôde salvá-los, nem cruz, nem altar, nem crucifixo. Os mercenários mataram clérigos, mulheres e crianças; ninguém escapou. Se Deus quiser, receberá as suas almas no Paraíso. Não creio ter havido tal massacre desde o tempo dos sarracenos”.

Mas os condes e barões occitanos não se renderam, pelo contrário, opuseram resistência tenaz, inclusive tendo apelado para os reis e senhores feudais dos países amigos geopoliticamente relacionados ao Languedoque, que nos primórdios do século XIII estava sob o domínio dos seguintes:

O condado de Toulouse, governado por Raimundo VI, dominava a região compreendida entre os vales de Garona, Rouergue e Quercy, a que se acrescentavam as suas posses na Alta Provença.

O condado de Cominges, sob o governo de Bernardo IV, conde de Cominges e de Bigorra, por parte paterna primo do conde de Toulouse e vassalo do mesmo enquanto senhor de Samatan e Muret.

O condado de Foix, cujo titular era Raimundo Roger I, vassalo do conde de Toulouse.

O viscondado de Béarn.

O viscondado de Carcassone, Béziers, Albi e Limoux, cujo senhor feudal era Raimundo Roger Trencavel, sobrinho de Raimundo VI. Possuía o principado que abrangia de Carcassone a Béziers. A família Trencavel era vassala da Corte de Aragão desde 1179, e também vassala do Condado de Toulouse. Esta dinastia feudal Trencavel igualmente mantinha aliança com o viscondado de Minerve.

À Coroa de Aragão, domínio do rei D. Pedro II (1178-1213), prestavam vassalagem os condes de Toulouse. D. Pedro II, rei de Aragão, conde de Barcelona e senhor de Montpellier, morreu na batalha de Muret, em 12 de Setembro de 1213, defendendo os seus vassalos occitanos da agressão dos cruzados. Seria vingado por seu filho Jaime I, o Conquistador (Montpellier, 2.2.1208 – Valência, 27.7.1276), que conseguiu derrotar Simão de Montfort, líder da cruzada albigense e general inimigo das forças aragonesas. Montfort prosseguiu a campanha albigense e acabou morto quando cercava Toulouse, em 25 de Junho de 1218, pelas forças de Raimundo VII (1197-1249). Como nota curiosa, a educação de Jaime I na sua menoridade esteve a cargo da Ordem dos Templários, no castelo de Monzón, sendo então o regente de Aragão o conde Sancho Raimundes, filho de Raimundo Berengário IV de Barcelona e tio-avô de Jaime. Essa Ordem religiosa e militar, por todos os seus reconhecidos predicados morais e castrenses, era a preferida das cortes peninsulares e sul europeias para educar os príncipes futuros reis.

O ocaso cátaro dá-se em 16 de Março de 1244, com a tomada do castelo de Montségur e o conseguinte holocausto de duzentos cátaros, cinquenta deles Perfeitos encabeçados por Bertrand Marty, queimados vivos na fogueira, junto à fortaleza no depois chamado camp dels cremats, “campo dos queimados”, e os restantes quatrocentos foram levados para Carcassone onde seriam queimados vivos uns e enforcados outros, para servirem de exemplo à população geral. Em 1255, caiu o derradeiro baluarte cátaro de Quéribus, tendo os situados conseguido escapar. No mesmo ano de 1244, apesar de todos os abusos da Inquisição provocando numerosas revoltas e sublevações urbanas e campesinas, e mesmo contando com o apoio da Coroa inglesa e dos condes de Lusignan, Raimundo VII de Toulouse foi forçado a abdicar da pretensão da Occitânia como Estado independente a favor do Tratado de Meaux-Paris de 1229, apoiado pelo Papa Honório III, onde foi pactuada a integração do território occitano na Coroa francesa. Finalmente, em Fevereiro de 1231, o Papa Gregório IX pela bula Excommunicamus instituiu formalmente a Inquisição, que continuaria a actuar na região occitana durante os três quartéis de século seguintes até “extirpar completamente a heresia”, ditando assim o fim do movimento cátaro.

O Catarismo foi se apagando aos poucos na Occitânia, a ausência de Perfeitos e Perfeitas – alvos da perseguição inquisitorial – terminaria com o movimento mas não com a sua memória perdurando até hoje nas tradições e costumes occitanos, o que deu aso a uma espécie de ressurgimento neo-cátaro durante o século XX, exportado para várias partes da Europa e até das Américas, mas reconhecidamente estranho ao original medievo tanto na estrutura como na doutrina, apesar de alguns germanófilos terem-no assumido como reacção e contrapeso, mais uma vez, à ordem estabelecida católica[21]. Parece até uma vingança póstuma dos cátaros…

Por outra parte, muitos cátaros procuram refúgio na Catalunha e sobretudo em Aragão, de cujos senhores eram vassalos que prontamente receberam protecção. Entre esses contavam-se vários Perfeitos e Perfeitas. Sem dúvida o seu pensamento terá participado na corte aragonesa e até exercido alguma influência nos ideários religiosos da nobreza local, ainda assim limitadamente por a religião postulada ser a católica romana encabeçada pela Ordem de Cister próxima da Ordem do Templo. Será mais crível o intercâmbio de ideias num meio culto como reconhecidamente foi a corte aragonesa ao longo de várias regências dando origem a “cortes de amor” e ao culto do “amor cortês”, prosado e cantado pelos trovadores occitanos (e depois pelos galaicos e portucalenses que também criaram escola). Uma vez mais, não se encontra conversões de parte a parte, tão-só tolerâncias e conversões com pontos de encontro comuns: a necessidade premente de reforma moral e social da Igreja Católica. A Ordem Franciscana seria a derradeira esperança nesse sentido moral avivando e vivendo a noção evangélica da Pobreza, tal qual o fazia socialmente a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ou seja, a dos Templários.

Dessas duas últimas Ordens, sobretudo da primeira (de quem eram dissidentes os fraticelli, “irmãozinhos”, pregadores da pobreza extrema tanto sua como da Igreja, exigentes do despojamento das riquezas mundanas e da justiça social em que o eclesiástico minguava), andou próxima a princesa Isabel de Aragão que se tornaria rainha de Portugal por desposório com D. Dinis I. Além de princesa e rainha, cobriu-a a fama de santa ainda em vida. A Rainha Santa Isabel nasceu em Saragoça em 4.1.1271 e faleceu em Estremoz em 4.7.1336. Era filha de Pedro III de Aragão e senhor de Barcelona e de Constança de Hohenstaufen II da Sicília. O paço real em Saragoça situava-se próximo da Casa do Templo, e não será de descartar o pressuposto da princesa ter recebido alguma influência teológica templária a par de outras, inclusive corteses, durante a sua infância, sobretudo num ambiente tão esclarecido como era o da corte de seu pai, ele próprio patrono das artes e letras, sendo particularmente favorável à poesia trovadoresca tendo mesmo escrito dois sirventeses, modalidade de poesia satírica provençal[22].

A influência cátara na rainha D. Isabel, católica confessa e franciscana laica (uma rainha, ou um rei, não pode abraçar a religião tornando-se professa ou professo, a não ser que abjure à Coroa e respectivas funções de Estado, o que ela não fez), não terá ido além da cultural que ainda assim marcou o seu pensamento já de si heterodoxo no respeitante à religião onde centrava a sua devoção no Divino, culto que oficializaria em Portugal, na vila de Alenquer próxima de santa Quitéria de Meca (em guisa de proximidade e até união dos dois hemisférios religiosos), através da Ordem Franciscana dos Frades Menores em 1323, como Festejo Popular do Divino Espírito Santo. A sua entrada no país, em 11 de fevereiro de 1282, para casar com D. Dinis, também se faria num lugar já de si hierático como centro judaico sefardita, ou seja, Trancoso, na beira Interior Norte.

Cautelosamente, Maria Máxima Vaz profere sobre o assunto[23]:

“Não houve na Europa um único rei que se tivesse atrevido a defender os cátaros a não ser o rei de Aragão e havia cátaros em vários países, sendo o maior número na França, predominantemente no Sul, na região e cidade de Albi. O maior massacre aconteceu mesmo dentro da catedral, onde se refugiaram. Um monarca que corre o risco de enfrentar o papado, certamente acredita que é uma causa justa e sente-se solidário com os valores cátaros. Isabel foi criada na corte de seu avô Jaime I, conhecedor da doutrina e viver dos cátaros.

“De Isabel de Aragão dizia o seu avô Jaime que era a mais bela flor de Aragão. Viveu com ele até à morte do rei Jaime e acredito que os valores dos cátaros não tivessem deixado de a influenciar. Reconhecemos a prática destes valores na vida da Rainha Santa quando tratava dos doentes, protegia os pobres, os idosos e as crianças. É conhecido o desejo de ser virgem. Não lhe sendo dado escolher, aceitou, obedientemente, casar com D. Dinis, mas seria vontade sua seguir a vida monástica.

“Eu admito que tenha abordado esta questão com seu marido. Teria admitido dar um herdeiro ao rei e aceitaria ele que depois disso levasse uma vida de castidade como ela desejava? É uma leitura possível, a meu ver. Admitindo que poderia ter sido assim, e o desenrolar dos factos assim permite que pense, poderemos continuar a dizer que D. Dinis foi infiel? E que foi um mau marido? Não estaremos a emitir um juízo errado?

“Parece-me provável e até evidente, a influência da moral cátara na educação de Isabel de Aragão. A biografia da Rainha Santa será a fonte onde se foram buscar os juízos que culpam o rei de infidelidade e o acusam de ser mau, mas a biografia é um escrito apócrifo, de um autor anónimo, possivelmente um frade e não pode ser considerado um documento com rigor histórico. Não devemos aceitá-lo acriticamente.”

Se houve fuga de cátaros para Aragão, teria também havido para Portugal no reinado de D. Sancho I? A hipótese é fascinante, mas a crítica histórica observa nela prós e contras, logo ao começo ressaltando o facto elementar de Toulouse e o Languedoque serem súbditos da Coroa de Aragão, e Portugal estar alheado dessa geopolítica no extremo oposto da Península Ibérica. Ainda assim, poderiam haver migrações cátaras para cá sob protecção templária, devido aos laços familiares reais portugueses à Coroa aragonesa, indo estabelecer comunidades nas Beiras e nos Alentejos ao longo da raia ou linha de separação dos dois países. Realmente, a hipótese é fascinante mas tem muitos contras, desde logo a ausência completa de iconografia e simbologia cátaras em toda a raia beirã e alentejana, só restando a toponímia que se observará mais adiante. Além disso, os usos e costumes na raia luso-espanhola são manifestamente herança tanto judaica como cristã, nesta alguma templária, outra franciscana e sobretudo beneditina, e proto-cristã, visigótica, rareando a árabe, abundando a ibera, celta e lusitana, a par da romana e pré-romana, como se observa na adaptação do culto oriental mitríaco com o rito da morte do touro à rijeza das touradas das gentes daí.

D. Sancho I, o Povoador, reinou de 1185 a 1211. Nasceu em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, filho de D. Afonso Henriques e de D. Mafalda. Foi armado cavaleiro em 15 de Agosto de 1170 e associado à governação. Em 1174 casou com D. Dulce de Aragão e Barcelona (Aragón, c. 1160 – Coimbra, 1.8.1198), filha do conde Raimundo Berenguerário IV com a rainha Petrolina de Aragão. Em testamento feito por D. Sancho I em 1188, doou à esposa o senhorio de Alenquer, de terras do Vouga, de Santa Maria e do Porto[24]. De 1184 a 1190, quando começou a usar o título de Rei de Portugal e do Algarve, distinguiu-se nas campanhas de Reconquista cristã do Sul de Portugal e na Andaluzia[25]. Foi Rex Bellator do Gharb. Em 1192, criou bolsas de estudo subsidiando cónegos agostinhos para irem de Santa Cruz de Coimbra estudar nos Estudos Gerais de Paris. Promoveu o intercâmbio intelectual entre Portugal e França, sobretudo nos estudos teológicos e de direito romano. Em 1199, com o apoio jurídico e militar da Ordem do Templo, sobretudo, fundou Guarda, que passou a cidade em 1202 com a transferência da Diocese da Egitânia (Idanha-a-Velha). Em 1210, fez as pazes com o bispado português e com o papado, com quem mantivera sérios conflitos a ponto de ser excomungado. Morreu em Coimbra a 26 de Março de 1211, jazendo ao lado do pai no Mosteiro da Santa Cruz dessa cidade[26].

D. Sancho I procurou seguir a política de independência e expansão iniciada por seu pai, D. Afonso Henriques. Independência relativamente aos Estados vizinhos, sobretudo Leão e Castela, e mais ainda face ao domínio temporal da Igreja pretendendo de transformar o país recém-nascido num satélite geopolítico e religioso seu subordinado. Vem daí a controvérsia dos protelados tributos ao sumo vigário romano e dos sonegados imóveis ao bispado português. Expansão dilatando o território para Oriente da Península e para Sul da mesma, participando activa e intensamente da Reconquista aos árabes da Ibéria ocidental, o Gharb, povoando e repovoando o interior do País recente com emigrações vindas de Borgonha – terra natal de seu avô, o conde D. Henrique – e da Flandres, facilitando a instalação das Ordens religiosas, sobretudo a Beneditina e a de Cister, em terrenos férteis propício à agricultura e pastoreio, além de reforçar as fronteiras através das Ordens militares do Templo e do Hospital, mais que todas mas sem excluir as de Avis e de Santiago, a quem fez generosas doações móveis e imóveis. Promulgou forais de cidades, vilas e concelhos, e confirmou outros passados por seu pai[27]. Ao mesmo tempo, procurou letrar o país estabelecendo através dos agostinhos relações com várias universidades europeias, com destaque para Bolonha e Paris, a partir do centro geopolítico que então era Coimbra (as finis Galliciae).

O prosseguimento da mesma linha política, militar, religiosa e geográfica de D. Afonso Henriques por seu filho, ao mesmo tempo assegurando a sua dependência filial à iniciada dinastia borgonhesa, já a assegurara quando, em 1170, cingiu com as armas D. Sancho na igreja de Santa Cruz de Coimbra, manifestando suficientemente os intentos que tinha a seu respeito: não quis que Sancho as levantasse por si do altar, e em dia de Pentecostes, e que com elas se ornasse, como ele próprio fizera na catedral de Zamora em 1125, pois isso significaria independência completa; interveio ele na cerimónia, celebrada no dia da Assunção da Virgem, para fazer constar que o novo cavaleiro lhe ficava associado no governo, com a subordinação conveniente ao bom andamento das coisas públicas[28].

A Igreja tentou ingerir na fazenda pública reclamando-a propriedade sua através do bispo D. Pedro da Sé de Coimbra, mas D. Sancho I recusou e pelo contrário exigiu que o prelado pagasse à Coroa os direitos senhoriais, chamados procurações, desprezando as imunidades eclesiásticas e até mandando deter clérigos em prisões públicas, sendo julgados em tribunais seculares invés de eclesiásticos e condenando-os ao serviço militar[29]. O próprio censo ou tributo pecuniário à Igreja para que o país não caísse em banimento tornando-se pária proscrito à mercê de quaisquer invasões sem apoio de nenhum país cristão por desautorização da Santa Sé, foi inúmeras vezes protelado por D. Sancho I, só pagando o mínimo tributário sempre contrafeito e no último instante. Com efeito, nas cartas de Inocêncio III há a demonstração peremptória de que o censo dos cem áureos, devido desde 1179, estava por pagar em 1198, porque os mil áureos oferecidos por Afonso I haviam sido dádiva extraordinária. É certo que Inocêncio III exigiu o censo a D. Sancho, e provou-lhe que estava em dívida. Mas, como se ele esquivasse, como já tinha feito com Celestino III, deixou de insistir; e ainda que depois teve ocasião de escrever-lhe bastantes cartas, não voltou a tocar no assunto, que aos dois se tinha tornado ingrato[30]. D. Sancho I manifestava assim política dura no tocante a Roma provando que quem mandava no País era ele, não o Papa e seus prelados, separando o Estado da Igreja ambiciosa de além do poder espiritual também deter o temporal, o que em Portugal não conseguiu.

As relações entre o eclesiástico e a coroa deterioravam-se em crescendo parecendo irreversível. D. Sancho pagava os censos tardiamente, quando os pagava, sempre contrafeito, para que Portugal não fosse banido do privilégio dos países da Cristandade sujeita a Roma. O país não sofreu banimento, mas o rei sofreu excomunhão. Por queixas dos bispos de Coimbra e do Porto a Inocêncio III – observando-se pela correspondência trocada entre o monarca português e o sumo pontífice que aquele desapreciava largamente este, por variadas razões e talvez a maior a do processo da Occitânia onde os seus familiares aragoneses estavam envolvidos – em litígio com D. Sancho I por este tomar a defesa do Cabido contra o Bispado, devido à indefinição dos poderes temporais da Igreja, inclusive tendo mando prender esses dois bispos, cerca de 1205 o Papa incumbiu o bispo de Samora de excomungar o rei[31]. Só próximo da sua morte é que D. Sancho I se reconciliou com a Igreja, sendo abolida a excomunhão. Como se vê, o litígio com a Igreja vem desde os primórdios da Nacionalidade e só terminaria com a Concordata de 1940.

Sobre esse assunto da heresia régia castigada com excomunhão, diz D. Diogo de Souza[32]: “O bispo de Coimbra aventurou-se a interpelar o rei não só a respeito do seu modo de proceder para com alguns prelados, como também sobre várias circunstâncias da sua vida privada. Como Sancho continuasse nas repreensões sem respeito à hierarquia deles, não deixasse impune nenhuma ofensa, nem consentisse que se lhe faltasse ao respeito, a mútua irritação subiu até ao último ponto. O bispo lançou na sua diocese o anátema contra o rei, e apelou para o poder papal, a fim de o arcebispo de Braga não ter força de a suspender. Não pôde contudo ir pessoalmente queixar-se porque o rei o havia mandado prender. Por isso foram mais instantes as acusações que o bispo conseguiu levar à presença do papa. Expôs-lhe que o rei tinha concedido prebendas a quem lhe parecesse, tirando-as a quem o bispo as concedera na sua diocese; que fazia alojar nos conventos que nenhum rendimento tinham, ou então era muito escasso, caçadores, cavalos, cães e pássaros, sob obrigação de os sustentarem; que mandava prender os eclesiásticos, e que os obrigava a pleitearem ante ele ou juízes leigos; que protegia pessoas excomungadas; que proibia aos eclesiásticos entrarem ou saírem livremente do reino, dando-se-lhe unicamente essa permissão depois de prestarem juramento de não irem à corte do papa; e que sem este juramento tinham tudo sequestrado, e eram arremessados a cárceres públicos.”

Instalar “caçadores, cavalos, cães e pássaros” em edifícios religiosos que “nenhum rendimento tinham”, isto é, estavam praticamente abandonados pelo eclesiástico, fazia parte de uma estratégia legal do rei que assim, instalando homens e alimárias nesses imóveis, alegava direito predial por os mesmos serem habitados com conhecimento e consentimento da Coroa, ficando sua dona. A justificação legal seria do género: se esse imóvel desabitado é agora habitado por cavalos que o rei mandou aí ocupar, e posto as bestas serem súbditas reais, então ao rei pertence o imóvel. Isso exasperava a Igreja vendo limitadas as suas posses e poderes em Portugal. É especialmente claro o trecho de “uma perfídia cheia de heresia” que Inocêncio III recebeu de D. Sancho I: “Que naqueles onde a religião estava cheia de hipocrisia, e especialmente nos prelados e pessoas da Igreja, não se podia aniquilar ou destruir o orgulho e a moleza senão tirando-lhes o supérfluo dos bens temporais, que deviam à liberalidade dele e do rei seu pai, com grande detrimento do reino e dos seus sucessores, dando-os aos seus filhos e aos defensores da pátria, que estavam pobres”[33].

Adianta Luiz Gonzaga de Azevedo[34]: “A tendência manifestada por D. Sancho, desde os princípios do seu governo, para se intrometer em questões eclesiásticas, não podia deixar de produzir, cedo ou tarde, desavenças, que antes teriam surgido, se o mais autorizado dos prelados portugueses de então, o arcebispo de Braga, Martinho Pires, não fosse, por índole, homem conciliador, condescendente e inimigo de lutas[35].

“Na epístola 8.ª do livro XIV (Epistolarum Innocentii III, edição de Balúzio, Paris, 1682), fornece-nos Inocêncio III bastantes notícias sobre o modo como D. Sancho se havia com as igrejas, particularmente com as da diocese da sua capital, que era Coimbra, e também sobre a sua fisionomia moral. Nessa epístola, Inocêncio III repreende, severa mas paternalmente, o rei de Portugal, por alguns dos seus desvarios, que lhe vai enumerando, e fá-lo com uma elevação moral, soberana independência, espírito de justiça e, ao mesmo tempo, fervor de caridade, bem dignos de um dos maiores homens que se sentaram no sólio pontifício. Em suma, D. Sancho era autoritário no modo como governava; quando lhe parecia, ignorava o que fossem imunidades da Igreja, e dispunha das suas pessoas e coisas a inteiro arbítrio seu; deste modo, destituía os clérigos canonicamente colados, e fazia reverter, em proveito de apaniguados seus, as rendas dos benefícios; aboletava pelos presbitérios pobres os seus besteiros, com os animais, de que se servia na caça, como cães, aves e cavalos, para aí receberem sustento; fazia prender os clérigos na cadeia pública, como quaisquer malfeitores; obrigava-os a responder nos tribunais seculares, sem respeito a privilégios que lhes costumavam guardar, segundo o direito; compelia-os, sem as devidas restrições, ao serviço militar; finalmente, com certo espírito sarcástico e algo jacobino, que se não julgaria daqueles tempos, tinha por encontro de mau agouro o dos religiosos ou sacerdotes, quando acaso lhe ocorriam.

“Como quem vivia apartado das práticas religiosas verdadeiras, fizera-se supersticioso, e trazia consigo uma bruxa, ou mulher de virtude, a quem consultava; tomava a seu cargo defender os excomungados, usurários e quantos eram adversos à Igreja; compelia ao casamento viúvas, que queriam professar continência; proibia aos sacerdotes entrarem ou saírem do reino, a não ser que antes jurassem que não vinham, nem intentavam dirigir-se à Sé Apostólica, sob pena, no caso de transgressão, de serem espoliados e presos na cadeia pública.

“Isto diz Inocêncio, no lugar citado, reportando-se ao testemunho de D. Pedro, bispo de Coimbra, o qual não exagerava no que escrevia ao Papa. Como D. Sancho tinha a capital em Coimbra, é de crer que D. Pedro fosse o prelado mais agravado e queixoso.”

O historiador citado é reconhecido católico romano, mas não invalida o relato que faz Inocêncio III usando das palavras do bispo de Coimbra, mesmo admitindo que o discurso foi fortemente empolgado pelo queixoso. Que D. Sancho I foi rex haeresis, não restam dúvidas. Que D. Sancho I tinha sido mau cristão e pior católico, há muitas dúvidas. A sua luta foi contra a prepotência eclesiástica, não foi contra a Ecclesia. Apoiou quem achou dever apoiar nessa sua luta de independência moral e racional, incluindo hereges e excomungados, ou seja, gente sobretudo judaica e moçárabe cujo eclesial hispânico era reprimido pelo romano, como testemunha a perseguição ao clero moçárabe instalado na igreja de S. Cristóvão de Lisboa. Possivelmente a tal «bruxa» falada no texto seria uma judia sefardita ou, o mais certo, a sua confidente e concubina D. Maria Pais de Ribeira, de alcunha a “Ribeirinha” (c. 1170 – Grijó, 1258), primeira filha do nobre D. Paio Moniz de Ribeira e de D. Urraca Nunes de Bragança[36]. “Afirma-se que era branca de pele, de fulvos cabelos, bonita, sedutora”, qualidades que encantaram o rei e cativaram os nobres da sua corte. Em 1198, inspirou o nobre e trovador Paio Soares de Taveirós a compor a Cantiga da Ribeirinha, primeiro texto literário em língua galaico-portuguesa aparecido nesta época.

Se D. Sancho I aprendera as lides das armas junto dos cavaleiros da Ordem do Templo e dos seus priores recebera a catequese cristã ao par dos Cónegos Regrantes de St.º Agostinho que lhe deram a educação intelectual e o gosto pela literatura e a arte a ponto de ele mesmo ter composto trovas, como a famosa cantiga de amigo Ay eu coitada, integrada no Cancioneiro da Biblioteca Nacional que é uma colectânea lírica do Trovadoresco galaico-português composta de cantigas de Santa Maria, de amigo, de amor e de escárnio e maldizer, dizia, tudo isso nada prova que ele fosse mau cristão, muito pelo contrário: prova sobretudo que possuía uma erudição superior à de muitos clérigos onde não rareavam analfabetos, e mesmo acaso havendo hermetismo no seu modo de questionar e interpretar o Cristianismo, só reforça a sua superioridade mental e espiritual no captar e afirmar-se católico. Isso regista-se na sua famosa Cruz Processional que idealizou e mandou fazer destinando-a ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a qual sobreviveu às vicissitudes do tempo e está hoje exposta no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, constituindo o mais belo e raro exemplar da ourivesaria medieval portuguesa.

Com efeito, no testamento de D. Sancho I, datado de 1210, consta o seguinte: “Ao Mosteiro de Santa Cruz, em que mando sepultar o meu corpo, […] dou a minha copa de ouro para que façam dela uma cruz”.

Peça em ouro maciço, de excelente execução, com pedras preciosas e pérolas encastoadas, esta cruz foi mandada lavrar pelo monarca, sendo cruz real assinalada pelos tramos florlisados, apresentando vestígios de haver contido, na face anterior do cruzamento dos braços, a relíquia do Santo Lenho (hoje desaparecida, mas que se diz ter pertencido ao Conde D. Henrique, avô de D. Sancho) deixada aos crúzios de Coimbra pelo seu fundador, D. Afonso Henriques. O reverso é delicadamente aberto a buril, tendo ao centro, inserido numa rosácea lobulada (no que reverte à Rosa+Cruz simbólica da Luz e Imortalidade), o Agnus Dei – o Cordeiro de Deus símbolo do Martírio e Morte do Redentor, figurado de pé porque Ressuscitado. Nas extremidades dos braços, apresentam-se os símbolos dos quatro Evangelistas: a águia de S. João, o leão de S. Marcos, o touro de S. Lucas e o anjo de S. Mateus. Ostenta a data de 1214 incisa no ouro. A cruz fazia parte de um elaborado programa de relíquias que se guardavam na cripta do mosteiro. Nela fora reconstituído o Calvário tendo ao centro o Santo Lenho, ladeado por relíquias de S. João Evangelista e da Virgem Maria, tendo na base pedras do Monte Gólgota.

“A prodigalidade que o monarca revelou no fim da sua vida, fazendo opulentas dádivas ao clero, em sinal de apaziguamento após os acesos conflitos que mantivera com a Santa Sé, prende-se igualmente com a preocupação de garantir a salvação da sua alma. A entrada desta alfaia no Mosteiro de Santa Cruz veio enriquecer o vultuoso tesouro de relíquias e preciosidades do opulento mosteiro e preencher uma lacuna do culto que aí devia ser prestado ao Santo Lenho. D. Afonso Henriques, ao fundar a instituição com D. Telo, dedica o culto dos Cónegos Regrantes à invocação da Cruz de Cristo e deixa ao mosteiro uma relíquia da Santa Cruz. De acordo com a tradição, tinha-a tomado em 1128 ao seu primo Afonso VII de Castela, na batalha da Veiga de Valdevez, depositando-a posteriormente na igreja de Grade, guardando para si um fragmento que dividiu em duas partes. Um dos fragmentos foi incrustado numa pequena cruz peitoral em ouro, pertença do monarca, e que depois veio a integrar a Cruz em ouro que D. Sancho irá doar testamentalmente a Santa Cruz de Coimbra, e o outro fragmento foi oferecido a São Teotónio, cofundador do mosteiro e primeiro santo português. Santa Cruz passa assim a funcionar como repositório dos despojos mortais dos primeiros reis de Portugal, e ainda como tesouro dos objectos-símbolos do Reino: como a espada do rei fundador, aí se passa a guardar também a relíquia do Santo Lenho. Neste contexto, a Cruz de D. Sancho proporciona o enquadramento condigno à relíquia que o monarca herdara de seu pai e dignifica o Orago de uma instituição tão intimamente ligada à Monarquia Portuguesa.”[37]

Posto isso, coloca-se a questão principal: houveram hereges (cátaros) em Portugal reinando D. Sancho I? D. Pedro, bispo de Coimbra, apoiando as leis censórias de Fr. Sueiro Gomes, prior da Ordem dos Dominicanos no país reinando já D. Afonso II, filho de D. Sancho, afirmam que sim. A despeito do desagrado declarado e público de ambos pelo monarca, ainda assim haverá algum fundo de verdade na notícia transmitida por Luiz Gonzaga de Azevedo[38]:

“O que naqueles anos preocupava a S. Domingos e a seu discípulo (Fr. Sueiro), que em tudo o procuraria imitar, era a integridade da fé e a repressão da heresia. Do mesmo Santo Patriarca se sabe que, quando no sul da França, reconciliava, com autoridade recebida dos legados pontifícios, os hereges no foro externo, lhes impunha penitências exteriores, como prolongados jejuns e rigorosas abstinências. E parece que, quando eles eram obdurados no erro, os entregava também ao braço secular, que os punia, até com a pena última[39].

“Tinha ordenado o cânone terceiro do IV Concílio de Latrão (1215), como antes o dispusera o segundo do de Avinhão (1209), que os príncipes, condes e magistrados fossem diligentes na repressão da heresia[40], podendo os bispos obrigá-los a isso por meio das censuras. A natureza do castigo era determinada pela lei civil, ainda que o Concílio de Latrão fale expressamente do confisco. Ora, sendo tal doutrina geral na Cristandade, e estando ela em prática, sobretudo desde que começaram as pregações e cruzada contra os albigenses, não admira que Fr. Sueiro, que muito bem sabia o que se passava no sul da França, em chegando a Portugal vulgarizasse, nalguns preceitos de redacção sua, o que cumpria fazer aos magistrados quantos aos hereges, segundo a doutrina admitida e então vigente. É, pois, por isso que Afonso II […] declara que os preceitos propostos por Fr. Sueiro eram desconhecidos entre nós, no tempo de Afonso Henriques, de D. Sancho e também no seu, o que é muito exacto, quanto às determinações conciliares repressivas da heresia; deixa, contudo, entrever que os preceitos mencionados eram relativos à pureza da religião e da fé, quando afirma que, apesar de nós desconhecidos, os Papas Alexandre III, Clemente III, Inocêncio e Honório III, que tinham por obrigação defendê-la, não deixaram de confirmar o reino e a coroa de Portugal aos seus monarcas; e, finalmente, quando manda que nada se compre ou venda no reino, contra o que é ordenado em tais decretos, como seriam escritos heréticos, bíblias em vulgar, estátuas, etc., etc.[41]

“Versando os estatutos de Fr. Sueiro sobre a repressão das heresias, urgindo neste sentido as disposições, embora Afonso II os abrogasse, não deixava de reconhecer que tal matéria, como abrangida já pelos costumes ou leis do reino, devia ser respeitada. Portanto, coisas relativas à heresia que serviriam, porventura, para a propagar, só podiam ser vendidas furtivamente (ad furtum), e o rei declara nulas essas vendas. Esta interpretação está, pois, confirmada pelo decreto de Afonso II contra os estatutos ou decretos de Fr. Sueiro Gomes.

“Contra o que fica dito, uma dúvida ocorre: existiam então, em Portugal, heresias, contra as quais D. Pedro incitasse o zelo do dominicano Fr. Sueiro?

“Quem diz que elas existiam é o bispo de Coimbra, nas palavras transcritas: facilius ad fidem catholicam vos valeant perducere. E ainda que não o dissesse, há razões que mostram que deviam existir, porque não faltavam no Aragão, em Castela e em Leão, países confinantes com o nosso. Além disso, as causas que concorriam para as despertar ou introduzir nesses estados, como era o contacto imediato com sarracenos, e as frequentes relações comerciais, políticas e literárias com os países europeus, e particularmente com a Aquitânia e com a Provença, em que elas se divulgaram, também nos não faltavam.

“A razão, que o arcebispo de Toledo e os bispos de Palência e Zamora invocam perante Inocêncio III, contra o interdito posto em Leão pelo legado Rainério, para obrigar o rei a separar-se de Berengária, era que dele se valiam os hereges, para divulgar mais seguramente, com o silêncio imposto aos pastores das almas, as suas heresias (Epistolae Inocentii III, Liv. II-75).

“As relações de Portugal com Inglaterra e com a França inglesa eram frequentes; basta dizer que uma das fontes mais seguras, melhor e mais informadas para escrever a nossa História dos fins do século XII, é o cronista inglês Rogério de Hoveden. Por isso, não deviam por aqui faltar precursores do célebre heresiarca Thomas Escoto, a que se refere Álvaro Pais no seu Collyrium contra haereses[42].

“Da existência de hereges por fins do século XII e nos princípios do imediato, em Aragão e Castela, existem provas claras e directas[43].

“O documento, conservado por Fr. Luís de Sousa, tem grande importância, pois não só nos aponta qual o intuito que Fr. Sueiro teve em vista com a publicação das suas leis, e qual a natureza delas, mas também nos dá a razão da cruel perseguição movida por Afonso II contra o bispo de Coimbra, porque foi com ele muito mais severo do que com o prior dos dominicanos.

“D. Pedro, em 1218, ainda tinha coragem para excomungar mestre Julião, deão da sua Sé e protegido do rei; mas depois apoucou-se, até mentalmente, e nem ousava sair do paço com medo a D. Afonso, que o ameaçava dizendo-lhe que lhe havia de fazer como o falcão à garça[44].

“Pondere-se que o referido documento, nas suas palavras finais, contém a retratação das concessões anteriormente dadas pelo bispo aos dominicanos. Ora, tal retratação não podia deixar de ser imposta pelo rei ao bispo, para que Fr. Sueiro se não julgasse autorizado a publicar outros decretos.”

Conclui-se que a “heresia” cátara era desconhecida em Portugal – aparte grupos heterodoxos sobretudo judaicos procurados por cristãos desafins com a doutrina oficial da Igreja, criando movimentos opositivos alguns de carácter hermético de que alguma arte e a literatura marginais deixariam testemunho – mas sendo pretexto para o bispo de Coimbra poder introduzir os dominicanos (domini canis, ordini canis, fideli canis…) em Portugal, com doações a eles que só o rei as poderia fazer mas com isso pretendendo diminuir o poder régio. Sem dúvida que D. Afonso II procurou justiça póstuma para o seu pai ante as afrontas continuadas do bispo de Coimbra, e ao que dizem as crónicas só não o matou por falta de oportunidade. Por outra parte, conclui-se também a possibilidade de D. Sancho I ter facilitado a entrada no país de refugiados albigenses, sobretudo de Aragão por sua familiaridade com esse reino, mas sem que tal implicasse transgredir a lei do direito romano e o canónico romano oficiais em Portugal, por não existir notícia em contrário e tão-só modernas conjecturas analógicas com mais ou menos engenho teórico. Possivelmente esses “hereges” fugidos viriam entre as grandes migrações de francos da Borgonha e de flamengos da Flandres para cá promovidas por D. Sancho I, acabando por se diluir na massa populacional e adoptando um Catolicismo “português”, já de si também não longe da heresia em muitos aspectos. Este será o motivo de não haverem signos cátaros em Portugal, tão-só signos sobretudo astrolátricos passíveis de adopção pela ideia preconcebida de crença cátara, a despeito da descontextualização no panorama geral da simbólica religiosa e da religião professada. A feição mais próxima do Catarismo em Portugal foi o Protestantismo, nele entrando tímida e secretamente no século XVI, através de famílias inglesas, mas só vindo a ter realce público no século XIX.

Contudo, a isso opõe-se um outro elemento favorável à hipótese de os cátaros occitanos terem se instalado em Portugal indo alterar a feição de vários espaços urbanos: a toponímia de lugares beirões e alentejanos aparentemente serem idênticos a outros tantos occitanos. Por exemplo, Albi Castrum (Castelo Branco) será derivado de Albi, Nisa de Nice, Tolosa de Toulouse, Arez de Arles, Montalvão de Montauban, Proença de Provence, Segura de Montsegur, etc. Esta extrapolação onomástica poderá encontrar justificativa em dois autores portugueses consignados, um deles, Veríssimo Serrão que diz: “Nos fins do século XII chegaram mais francos a Portugal, auxiliando D. Sancho I na política de fomento. […] É indiscutível que no início do século XIII se deu a chegada de uma nova vaga de colonos que contribuíram para o povoamento do Alto Alentejo. […] O nome de várias povoações, como Montalvão, Nisa, Tolosa e Arez, supõe a existência de topónimos do sul da França que se prendem ao seu inicial povoamento”[45].

O outro autor, Celso Cunha, em parceria com Lindley Cintra, avançam na mesma direcção: “Temos uma extensa área da Beira Baixa e do Alto Alentejo […] em que se regista uma profunda alteração do timbre das vogais. Os traços mais salientes são: a) a articulação do u tónico como [ü] (próximo do u francês), por exemplo, , müla, por tu, mula; b) a representação do antigo ditongo ou por [ö] (também semelhante ao som correspondente do francês), por exemplo, pöca por pouca; c) queda da vogal átona final grafada o – ou a sua redução ao som [ә], por exemplo, cop(ә), cop(ә)s, por copo, copos; tüd(ә) por tudo[46].

O primeiro autor citado, não parece ir além das aparências toponímicas, deixando vaga a probabilidade da presença albigense. Os segundos, parecem encontrar nos francos a ligação linguística francesa ao linguarejar luso beirão e alentejano, o que terá origem nos colonos vindos de Borgonha pelo Sul de França a convite de D. Sancho I, igualmente sem nenhuma afirmativa de influência linguística occitana. Diz Jorge Rosa com bastante pertinência[47]:

«Os Francezes, e os Hespanhoes, passaram o rio… no primeiro deste mez, e no mesmo dia se rendeu a Cidade de Nizza, levando o seu Magistrado as chaves ao Infante D. Filipe. No dia seguinte começaram a bater o Forte de Montalvam, que dista 16 mil passos de Villa-Franca e defende o porto da dita Cidade.»

“Quem, em Portugal, lesse apenas esse extracto de uma notícia publicada pela Gazeta de Lisboa, n.º 20, de 19 de Maio de 1744, pensaria, certamente, estar a ler um relato de um qualquer combate na região entre Nisa e Montalvão. Na verdade, trata-se da região do Piemonte em Itália.

“Vem isto a propósito da teoria, várias vezes difundida, que Nisa, Montalvão e Tolosa, devem os seus nomes a colonos franceses que, em dada época e no âmbito das políticas de repovoamento de Portugal, aqui se teriam fixado. Assim, Nisa derivaria de Nice, Montalvão de Montauban e Tolosa de Toulouse. A teoria até parece fazer sentido porque, na verdade, houve colonos franceses que se fixaram em Portugal, nomeadamente na região de Montalvo, mas tem um senão. Nisa, Montalvão e Tolosa existem em França, mas também na Itália.

“Perante esta realidade, teríamos que admitir que a origem dos nomes destas terras portuguesas poderia ser tanto francesa como italiana ou espanhola, e então que os nomes das localidades italianas e espanholas também tiveram origem francesa.

“Não sabemos o verdadeiro significado de Nisa ou Tolosa, mas Montalvão é um aumentativo de Monte Alvo (branco), tal como existe o diminutivo Montalvinho. Logo, em qualquer lugar habitado por gente com língua de origem latina, era possível ter surgido, e de forma independente, qualquer um dos nomes referentes a um monte branco, possivelmente um monte sujeito a nevões.

“Um bom exemplo do surgimento do mesmo nome em vários lugares e países sem ligação entre si é o de Vila Franca, também referido na notícia da Gazeta de Lisboa. Este nome existe em França, Itália e Espanha. Em Portugal podemos apontar, entre outros, Vila Franca de Xira, do Campo, do Centro, do Rosário, etc. Apesar do termo franca poder remeter para França (francos), a verdade é que a sua origem deriva do facto de, nessas terras, se realizarem feiras francas (livres).

“Estamos, pois, em crer que a teoria da origem francófona dos nomes das terras do Nordeste Alentejano é, no mínimo, questionável. Se, quanto a Nisa e Tolosa, não há dados que permitam estabelecer, com segurança, uma fundação anterior ao nascimento de Portugal, já quanto a Montalvão não restam dúvidas de que o seu castelo existia já durante a dominação árabe.

“Em função do exposto, parece-nos muito mais útil buscar uma origem mais remota para estas localidades, com raízes no seu próprio povo, em vez de duvidosas hipóteses migratórias.”[48]

Mas o prof. Carlos Cebola contrapõe com a seguinte conclusão[49]:

“Em 1199, D. Sancho I doa a Herdade da Açafa à Ordem do Templo. Este território era delimitado, de modo muito sumário, a norte pelo Rio Tejo e a sul detinha parte do território dos actuais concelhos de Nisa, Castelo de Vide e parte do território espanhol junto à actual fronteira. Estas doações tinham como objectivo fixar moradores em zonas ermas e despovoadas e consequentemente defender o território.

“Os Templários edificaram uma fortaleza que os defendesse dos infiéis e sinalizava a posse desses territórios. Ao mesmo tempo, o monarca anuncia a vinda de colonos franceses, que chegaram de forma faseada, sendo o último grupo destinado ao povoamento do território da Açafa.

“Instalaram-se junto das fortalezas construídas pelos monges guerreiros e aí ergueram habitações, fundaram aglomerados populacionais a que deram o nome das suas terras de origem. É neste sentido que surge possivelmente o de Nisa, ou seja, sendo os primeiros habitantes oriundos de Nice, ergueram aqui a sua “Nova Nice”, ou melhor dizendo, a Nisa a Nova, que encontramos nos documentos, e quando surge o termo Nisa a Velha, este refere-se à sua antiga terra de origem, a Nice francesa.

“Assim terão nascido Arez (de Arles), Montalvão (de Montauban), Tolosa (de Toulouse), cidades do Sul de França…”

Mas o topónimo Montalvão também existe noutras localidades portuguesas, como o de Montalvão em Setúbal ou a Cruz de Montalvão em Castelo Branco, por exemplo. Além disso, tem-se Montalban em Teruel (Aragão), Puebla de Montalbán em Toledo, Montalvan em Córdova, tudo em Espanha, enquanto na França tem-se Mont´Auban, Montauban ou Monte Albano, e ainda Montalbano na Itália. Significa isto a extrema dificuldade em associar e provar a exclusividade toponímica da localidade alentejana com alguma migração albigense.

Ainda a propósito da designação italiana de Montalvão, repara-se que ela é utilizada na carta geográfica La Spagna com o nome M. Alban, associada à figuração de uma fortificação. Montalvão poderá ser associado a “Monte Forte” ou fortificado, cujo castelo constituiu uma das guardas avançadas da fronteira luso-espanhola a cargo da Ordem do Templo e depois da Ordem de Cristo. Neste sentido também pode estar a origem do topónimo latino Albi Castrum, Castelo Branco, com origem em Vila Franca da Cardosa, que em 1212 foi doada metade dela à Ordem do Templo por D. Fernando Sanches, possível filho de D. Sancho I, e em 1214 a sua totalidade por doação real D. Afonso II. Um ano antes, em 1213, com a elevação do castelo templário e o subimento da importância geopolítica de herdade (aldeia) a vila, o Mestre do Templo D. Pedro Alvito deu foral à povoação no qual aparece a denominação Castel-Branco, posse confirmada pelo Papa Inocêncio III em 1215, dando-lhe o nome de Castelobranco.

Ainda que a origem filológica Castelo Branco pareça recuar ao grego Cattaleucos, significando ad albos, a verdade é que Ptolomeu identificava essa entre o Tejo e o Guadiana, portanto, no Alentejo, e não nas ruínas da Cardosa albicastrense, como aliás aponta Joaquim de Santa Rosa de Viterbo[50]. Antes de Castelo Branco o povoado era chamado Moncarche e Castraleuca, possível forma popular corrompida da Cattaleuca celto-grega, acaso também tendo sido nome de povo local deslocado do Sul para o Centro, como era normal nas migrações de povos pastores nos alvores da História.

A fim aos primeiros ecos de civilização na Península Ibérica, também andará o topónimo Nisa. Leite de Vasconcelos aponta para a sua origem grega por serem vários os nomes helénicos em que entra a palavra Nisa. Está neste caso a adopção do teónimo Nusa, corrupção helénica da deusa egípcia Nuta, ou simplesmente Nut. Como deusa da noite, Nuta, a Lua, foi considerada como a guia e protectora das almas. Daí a dupla cor com que é representada: branca, da vida, e negra, da morte. Nuta revestia-se assim com a dupla natureza de promotora da vida e protectora dos mortos. Os povos pré-cristãos escolhiam as eminências dos montes para erguerem templos a Nuta, montes esses que assentavam a base em terrenos negros, como é o caso do barro de Nisa, cuja olaria era depositada nos monumentos sepulcrais. O teónimo egípcio Nuta entrou nas falas egeias sob a prosódia Nussa, que entre os dóricos soava Nusa e que no Lácio tomou a grafia Nysa e a pronúncia Nisa. Como corolário do referido, a antiga Nisa foi consagrada àquele astro que tanto encanta as noites luarentas do Alentejo. Foram, indubitavelmente, colonos da área egeia que se estabeleceram no outeiro de Nisa (a Velha), erigindo no cume um templo hoje transformado em graciosa capela consagrada a Nossa Senhora da Graça, santa que embeleza a vida e protege da morte.

Por algum motivo que a razão desconhece, crê-se haver sinais albigenses no interior da Misericórdia de Arez (topónimo derivado de Ares ou Aires, já assim conhecido no tempo de D. Afonso I[51]), uma das mais antigas freguesias do concelho de Nisa e também consagrada a Nossa Senhora da Graça. Trata-se de capela franciscana da evocação do Espírito Santo datada do século XVI, tendo em 28 de Novembro de 1592 recebido o alvará régio autorizando-a a usar o Compromisso da Misericórdia de Lisboa[52]. A capela está hoje em fase de restauro e brilha pelo seu valor tanto religioso como artístico, nisto sobressaindo as pinturais parietais (frescos) que apesar de danificadas revelam cenas da devoção franciscana. Possui três altares: o altar-mor com a imagem do Divino Espírito Santo, o da parte do Evangelho (lado esquerdo, visto da entrada) com a imagem de Santo Amaro, e o da parte da Epístola (lado direito) com a imagem do Senhor Crucificado. Recuando na História, convirá não ignorar que os terços de S. Francisco fizeram cruzada pastoral contra os albigenses[53], pelo que não se percebe onde haja catarismo neste templo, nem mesmo na ilusão óptica (de perto vê-se que não são) das pressupostas cruzes cátaras que aparecem nos lados dos frescos murais, ou de alguma Arles occitana figurada no ambiente mediterrâneo onde Jerusalém surge retratada.

Deixo, enfim, de parte outras leituras toponímicas pertinentes ao tema que as já feitas chegam para questionar a conversão linguística albigense em filólogos aportuguesados, coisa que nem mesmo o douto Luís Chaves se lembrou de fazer[54].

Sem dúvida a geopolítica de povoamento e expansão territorial executada por D. Sancho I, o Povoador, desse modo agindo como se fosse, em termos orientais, um Manu, Legislador ou condutor de povo em guisa de um novo Moisés encetando êxodo para a Terra Prometida, facilitando a vinda e instalação de emigrações de várias proveniências europeias nas terras portuguesas reconquistadas ao Islão, além da sua relação familiar a Aragão relacionado à Occitânia, deu aso à avenção erudita do Catarismo português em terras beirãs e alentejanas, o que acriticamente tem sido adoptado por alguma cultura marginal urbana desafeita aos intrincados da História.

Num bosquejo rápido da acção geopolítica de D. Sancho I, para terminar, repasso a palavra a D. Diogo de Souza[55], que assim descreve:

“Tornava-se, pois, necessário repovoar os burgos que estavam desabitados, e fazer cultivar os campos que jaziam abandonados. Para este fim, distribuiu D. Sancho pelos cultivadores pobres os terrenos incultos. Os campos abandonados foram igualmente cultivados, graças às providências que o mesmo monarca adoptou. Não se contentou o rei só com estas providências, porque concedeu aos agricultores quantos favores e liberalidades lhe foi possível, recompensando o trabalho e animando aqueles que se mostravam laboriosos. A animação que prestou aos agricultores mais inteligentes e activos, recompensando-lhes o trabalho e animando-os a prosseguir, serviu de muita utilidade ao país e de estímulo aos homens que se entregavam a esta laboriosa ocupação, porque viam no rei um amigo e um protector, a quem com orgulho davam o epíteto de Lavrador.

“Não se entregou com menos ardor à reparação das cidades e vilas destruídas pela guerra com os infiéis. Da reparação e reconstrução destas, viram surgir-se mais belas e formosas que d´antes, Covilhã, Torres Novas, Viseu, Pinhel, e fundarem-se Monte Mor Novo (1201) e Valença. Estes cuidados, porém, d´el-rei D. Sancho seriam ineficazes se a par destas providências ele não concedesse direitos e franquias aos homens que, andando isolados e dispersos, viessem habitar aquelas povoações reconstruídas, encerrando-se dentro dos seus muros. Foi a estas franquias e direitos locais a que se deu o nome de forais, e esses privilégios são de um carácter particular daquela época, no qual o sistema de comunas se desenvolveu e tornou florescente. Estes forais não eram só concedidos pelos reis: os grandes do reino, os grão-mestres das Ordens e os prelados também os dispensavam àqueles territórios que lhes eram sujeitos. Muitas vezes o rei dava um foral conjuntamente com o senhor da vila ou da cidade, e em certas ocasiões confirmava os privilégios concedidos por aqueles senhores territoriais.

“É digna de notar-se uma das concessões feitas no foral de Covilhã. “Um servo que ali habitasse pelo tempo de um ano, ficava livre e ingénuo, como se nascesse de pais livres”. Diz Brandão que com estes e outros privilégios a vila dentro em pouco cresceu notavelmente. De feito cortando assim pelas peias que então paralisavam os braços, D. Sancho criou novos meios de actividade e indústria, como escreveu Schoeffer, e fez desenvolver forças que até então estavam inactivas. “Quanto mais penosas eram as obrigações dos habitantes de um lugar, quanto mais a sua situação os expunha aos perigos, mais o rei lhes franqueava privilégios para os prender ao lar doméstico e ao trono. Foi por isso que ele concedeu a Pinhel, situada na fronteira do reino e que se podia considerar como um dos seus baluartes, o foral de Évora, já antes dado por Afonso Henriques, para lhes compensar serviços passados, libertando os seus habitantes da obrigação de construírem as muralhas do castelo, de pagarem ao rei a Pedida, a Colheita e a Portagem em todo o Portugal, franquias extraordinárias, das quais os habitantes depois se tornaram perfeitamente dignos”.

“Assentemos aqui uma relação das terras ás quais Sancho I concedeu forais. Figueiró e Covilhã, em 1186; Viseu e Folgosinho, em 1187; Penacova, em 1192; Marmelar, em 1194; Penadono e Leiria, em 1195; Souto Maior, Soverosa e Souto, em 1196; Sortelha, Bragança, Seia, Gouveia, Penela, S. João da pesqueira, Paredes, Linhares e Anciães, em 1198; Guarda, em 1199; Sesimbra, em 1201; Taboadelo, Fontes, Crastelo, em 1202; Monte Mor Novo, em 1203; Reguengos de S. Julião e S. Cipriano, em 1205; Reguengo de Vila Nova, em 1205; Ranaldo e Andranes, em 1208, e Vila Franca, que o rei deu em 1200 ao cavaleiro flamengo Rollin e seus companheiros.

“Vejamos como o sr. Alexandre Herculano resumidamente descreve os motivos que forçaram D. Sancho a não cessar de actividade no meio desta forçada paz: “Temia, e com razão, que os almuhades renovassem as tentativas contra Portugal, tentativas que a julgá-las pelos sucessos passados, podiam levar a assolação ao interior do país: era necessário, portanto, multiplicar os lugares fortes, povoar de gente aguerrida as fronteiras, e coligir todos os recursos possíveis para repelir os inimigos. Assim, novas preceptorias ou mosteiros das Ordens militares se estabeleceram nas povoações mais importantes da margem direita do Tejo, e fizeram-se doações a estas Ordens de vários castelos, ou de vastas porções de terra, com obrigação de aí os fundarem. A povoação da Beira Baixa mereceu também sérios cuidados, e a antiga Egitânia (Idanha) começou a surgir das suas ruínas. Às colónias estrangeiras que no tempo de Afonso I tinham vindo povoar a Estremadura e que haviam prosperado, aumentou-se o território, dando-se-lhe Pontével e o seu termo, o que por este lado as aproximava da margem direita do Tejo”.

“Estas doações às Ordens de Cavalaria estão hoje comprovadas por documentos de toda a excepção. À Ordem de Évora, ou Avis, doou Mafra (1193); à de Santiago, além das vilas que já mencionámos, a torre e paços da alcáçova de Santarém (1193), o edifício de Santos o Velho junto a Lisboa (1194); à do Hospital, a herdade de Guidimtesta para fundar o castelo de Belver (1194); à do Templo, Idanha Velha (1197). Por esta praça, que então era muito importante, cederam os templários ao rei os burgos de Mogadouro e Penas Róias, e nove anos depois também Idanha Nova.

“Vejamos agora como o sr. Alexandre Herculano descreve os acontecimentos que nesta época tinham lugar em Portugal.

“No meio destas negociações que lhe asseguravam o protecção de Roma, Sancho I dedicava-se activamente a organizar a defesa do reino. Tinha ele doado já em 1197 aos templários a Idanha e seus termos, fronteiros aos últimos domínios leoneses para o sudoeste. Neste ano, porém, ajuntou a mais avultada dádiva da Açafa, território vastíssimo que se dilatava ao longo da margem direita do Tejo desde esse distrito da Idanha, anteriormente doado, para o ocidente até aos limites do castelo de Belver que pertencia aos hospitalários, e cujas extremas opostas se avizinhavam das dependências da preceptoria ou comenda de Tomar. Nesta doação da Açafa compreendia-se também uma extensa porção do Alto Alentejo, que parece ter sido aquela que os cristãos iam gradualmente povoando. Que Sancho fizesse uma dádiva tão importante, só porque os templários lhe cediam o padroado das igrejas de Mogadouro e Penas Róias, castelos a troco dos quais dera Idanha àquela Ordem, é o que apenas se pode aceitar como um pretexto, posto que assim se diga no respectivo diploma. Estas doações importantes feitas às Ordens militares, tinham evidentemente motivos políticos. Quantos e porquantos modos os templários (ou ainda os outros institutos monástico-militares, que formavam associações independentes das divisões geográficas da Hespanha cristã, ou por outra, que eram ao mesmo tempo portugueses, leoneses, castelhanos e aragoneses) podiam pela influência fazer pender a balança para esta ou para aquela parte nas dissensões dos diversos Estados, é coisa de que se pode fazer conceito, posto que seja dificultoso apreciar toda a força dessa influência e todas as hipóteses que se verificariam na aplicação. Removendo estas Ordens, principalmente os tão belicosos templários, dos castelos do norte para as fronteiras do sul, Sancho colocava-os na sua situação natural, isto é, na vanguarda da reacção cristã contra os sarracenos. Acrescia que com estas amplíssimas mercês de terras não só os chefes do Templo em Portugal, mas ainda os de Leão e Castela, lhe ficariam uns gratos, outros afeiçoados. Finalmente, o estabelecimento das preceptorias no sul do reino era, em relação à economia interna, o mesmo que a fundação dos mosteiros, um dos grandes meios de povoar os lugares desertos; porque em volta das residências monásticas ou monástico-militares, a população e a cultura cresciam rapidamente. Semelhantes instituições eram a fórmula adequada à época, com que actuava nas sociedades o fecundo princípio da associação.

“Apenas ordenara estas coisas na Beira Baixa, Sancho partiu para Trás-os-Montes, cuja fonteira é provável se ocupasse em fortificar…”

Com tudo, em desfecho, mantém-se a interrogação de como misteriosos hereges occitanos teriam se convertido em singulares beirões e alentejanos? Fica ao futuro a resposta definitiva, se a houver, posto o presente aparentar só divagar no engenho.

NOTAS

[1] Manuel J. Gandra, Cátaros para um Languedoque português. Instituto Mukharajj Brasilian, 2013.

[2] Joan O´grady, Heresia – O Jogo de Poder das Seitas Cristãs no Primeiros Séculos depois de Cristo. Editora Mercuryo, São Paulo, 1994.

[3] José Orlandis, História breve do Cristianismo. Tradução de Osvaldo Aguiar. Ed. Reis dos Livros, Lisboa, 1993.

[4] Pierre Pierrard, Histoire de l´Eglise Catholique. Desclée & Cie. Paris, 1978.

[5] A. Lombard, Pauliciens, Bulgares et Bons-hommes. Geneva, 1879.

[6] Eugen Roll, Ketzer zwischen Orient und Okzident: Patarener, Paulikianer, Bogomilen. Mellinger Verlag, Stuttgart, 1978.

[7] René Nelli, Les cathares. Ed. Culture, Art, Loisirs, Paris, 1972.

[8] Alex Amorim de Sousa, O segundo Deus. Redes Editora, Porto Alegre, 2009.

[9] Ilarino da Milano, Eresie Mediovali; Scritti Minori. Maggioli Editore, Rimini, 1983.

[10] Marie-Humble Vicaire, Le catharisme: une religion. In Historiographie du catharisme – Cahiers de Fanjeaux, n.º 14. Édouard Privat, Toulouse, 1979.

[11] The Letters of St. Bernard of Clairvaux. Sutton Publishing Ltd, London, 1998.

[12] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2011.

[13] Charles Molinier, L´Inquisition dans le Midi de la France au XIIIe et au XIVe siècle. Etude sur les sources de son histoire. Toulouse, 1880.

[14] Isabel Maria Dâmaso de Azevedo Vaz dos Santos, Do altar ao palco – Santo António na tradição literária, artística e teatral em Portugal e em Espanha. Doutoramento em Estudos de Literatura e de Cultura, Universidade de Lisboa / Faculdade de Letras / Departamento de Literaturas Românicas, 2014.

[15] José Rivair Macedo, Um Grupo em busca de Perfeição espiritual: os Cátaros na França medieval. Conferência apresentada na VI Jornada de Estudos do Oriente Antigo, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 19.5.2000.

[16] Emmanuel de Roy Ladurie, Monttaillou. Cátaros e Católicos num Aldeia Francesa (1294-1324). Edições 70, Lisboa, 1984.

[17] Pierre des Vaux de Cernay, Histoire Albigeoise. Libreirie J. Vrin, Paris, 1951.

[18] Monique Zerner-Chardavoine, La Croisade des Albigeois. Ed. Gallimard, Paris. 1979.

[19] Maria Henriqueta Fonseca, O Catarismo e a Cruzada contra os Albigenses. Revista de História (USP), Volume VIII n.º 17-18, pp. 79-117, 1954.

[20] La Chanson de la Croisade Albigeoise, in Les Classiques de l´Histoire de France au Moyen Age, tomo I, estrofe 21, versos 15-18. Editado e traduzido do provençal por Eugene Martin-Chabot. Ancienne Honoré Champion, Paris, 1931.

[21] Otto Rahn, Cruzada Contra o Graal. Editora Via Occidentalis, Lisboa, 2007. Jean-Michel Angebert, Hitler e as Religiões da Suástica. Livraria Bertrand, Lisboa, 1974.

[22] E. Sarasa Sánchez, Las Cortes de Aragón en la Edad Media. Zaragoza, 1979.

[23] Maria Máxima Vaz, D. Dinis – bom poeta e mau marido? Capeia Arraiana, 20 de Outubro de 2013.

[24] Ana Rodrigues Oliveira, Rainhas medievais de Portugal. Dezassete mulheres, duas dinastias, quatro séculos de História. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010.

[25] Henrique Barrilaro Ruas, Augusto Ferreira do Amaral, João Aguiar, Cronologia e breve história dos reis de Portugal, in A Monarquia Portuguesa – Reis e Rainhas na História de um Povo. Edição Selecções do Reader´s Digest, Lisboa, Abril de 1999.

[26] Rui de Pina, Chronica do muito alto e muito esclarecido principe D. Sancho I, segundo rey de Portugal. Lisboa Ocidental, 1727.

[27] Pedro de Mariz, Dialogos de Varia Historia. Impressão de António Craesbeeck de Mello, Lisboa, 1674.

[28] Luiz Gonzaga de Azevedo, História de Portugal, volume quarto. Edições «Bíblion», Lisboa, 1942.

[29] Sidinei Galli, A Cruz, a Espada e a Sociedade Medieval Portuguesa. Editora Arte & Ciência/UNIP, São Paulo, 1997.

[30] Luiz Gonzaga de Azevedo, História de Portugal, volume quinto, p. 174. Edições «Bíblion», Lisboa, 1942.

[31] Fortunato de Almeida, História de Portugal, volume 1, p. 182. Imprensa da Universidade, Coimbra, 1922.

[32] D. Diogo de Souza, História de Portugal – Desde os Tempos primitivos até a fundação da Monarchia e d´esta epocha até hoje, p. 211. Typographia de José Carlos d´Aguiar Vianna, Lisboa, 1852.

[33] D. Diogo de Souza, ob. cit., p. 211.

[34] Luiz Gonzaga de Azevedo, ob. cit., pp. 34-36.

[35] Doação de Mafra, em Fr. Francisco Brandão, Monarchia Lusitana, V Parte, escritura 16, no Apêndice; João Pedro Ribeiro, Dissertações Chronologicas e Criticas, Tomo V, págs. 88 e segs.

[36] Albertino Alves Pardinhas, Monografia de Cortegaça: Apontamentos para História da Honra, do Couto e do Concelho (extinto) desta milenária povoação e outras memórias mais recentes. Junta de Freguesia de Cortegaça, Oliveira de Azeméis, 1997.

[37] Anísio Franco, A Cruz de D. Sancho I, história, função e forma. In Inventário do Museu Nacional de Arte Antiga – Colecção de Ourivesaria, 1.º volume: Do Românico ao Manuelino, pp. 50-55, 1995.

[38] Luiz Gonzaga de Azevedo, ob. cit., pp. 180-186.

[39] Acta Sanctorum, Tomo I, págs. 410, Augusti, Venetiis.

[40] «Chaque évêque devra exigir de ses contes, châtelains, bourgeois, etc., au besoin par les censures ecclésiastiques, le serment, dejá prêté par ceux de Montpellier, d´expulser les hérétiques, de punir les opiniâtres, d´eloigner les juifs de tous les emplois et de leur défendre d´avoir des domestiques chrétiens». «Damnati vero, saecularibus potestatibus praesentibus, aut eorum ballivis, relinquantur animadversione debita puniendi, clericis prius a suis ordinibus degradatis; ita quod bona hujusmodi damanatorum, si laici fuerint, confiscentur…». Hefele-Leclercq, Histoire des Conciles, Tome V, págs. 1283, 1330.

[41] «Item statuimus ne aliquis libros Veteris vel Novi Testamenti in Romancio habeat; et si aliquis habeat… tradat eos loci Episcopo comburendos». Das Constituições de Jaime, o Conquistador, contra os albigenses e valdenses.

[42] Marcelino Menéndez y Pelayo, História de los Heterodoxos Españoles, Tom. III, 1918, págs. CXXX e segs. (Apêndice).

[43] Doc. na España Sagrada, Tom. XXII, págs. 113 e segs.; págs. 285 e segs.; España Sagrada, Tom. XXXV, págs. 294; História de los Heterodoxos Españoles, Tom. III, págs. XXXVIII, Apêndice; Constituição de D. Pedro II de Aragão contra os valdenses, págs. XLII; Constituição de D. Jaime, o Conquistador, contra os albigenses e valdenses. «El celo de San Fernando no atajo en Castilla todo resabio albigense… En los fueros que aquel santo monarca dió á Córdoba, á Sevilla y á Carmona, impónense á los herejes penas de muerte y confiscación de bienes». História de los Heterodoxos Españoles, loc. cit., págs. 177-178; Anales Toledanos, ad aeram 1262, na España Sagrada, Tom. XXIII, págs. 407.

[44] “Ainda que a garça voe alto, o falcão a mata”, provérbio português.

[45] Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal, volume I: Estado, Pátria e Nação (1080-1415). Editorial Verbo, Lisboa, 1978.

[46] Celso Cunha & Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo. Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1984.

[47] Jorge Rosa, História – Nizza: A origem dos nomes de algumas terras do Nordeste Alentejano. In Portal de Nisa, 24.10.2013.

[48] Jorge Rosa, Montalvão, Ecos de uma História Milenar. Edições Colibri / Câmara Municipal de Nisa, 2001.

[49] Carlos Dinis Tomás Cebola, Nisa, A Outra História. Edições Colibri / Câmara Municipal de Nisa, 2005.

[50] Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Elucidário das Palavras, Termos e Frases que em Portugal antigamente se usaram, volume II. Lisboa, 1799.

[51] Obras referenciais sobre a Comenda (Velha) de Arez da Ordem de Cristo, onde o topónimo original aparece: Título da Comenda de Ares de 1505; Tombo da Comenda de St.ª Maria de Ares da Ordem de Cristo de 1638; Carta de Comenda de 1699 da Chancelaria de D. Pedro; Alvará Régio passado à Comanda de St.ª Maria de Ares de 1717 da Chancelaria de D. João V.

[52] Portugaliae Monumenta Misericordiarum, Vol. V, p. 259. Publicação da União das Misericórdias Portuguesas e do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica, 2006.

[53] Possidónio M. Laranjo Coelho, O Santo Ofício no Alto Alentejo. Separata “Memórias”, Academia de Ciências de Lisboa / Secretariado Diocesano da Catequese, 1956.

[54] Luís Chaves, Influências religiosas na formação da Antroponímia e da Toponímia em Portugal. In O Arqueólogo Português, 2.ª Série, Volume 3, 1956.

[55] D. Diogo de Souza, ob. cit., pp. 205-215.

“Guia de LISBOA SAGRADA E PROFANA” por Vitor Manuel Adrião – Edição Lusophia. Quarta-feira, Aug 3 2016 

Guia de LISBOA SAGRADA PROFANA

Por

Vitor Manuel Adrião

EDIÇÃO LUSOPHIA / EUEDITO

JULHO DE 2016

PREÂMBULO

Por que o escudo de Portugal está inclinado 17º sobre a fachada da Gare do Rossio? Onde foi tocada pela primeira vez em Portugal a “Flauta Mágica” de Mozart e porque Mozart dedicou-a ao seu Mestre Cagliostro? Por que sobre a ideia do Quinto Império Português encontram-se tantos sinais na geografia e monumentos da cidade? Onde se encontram os mais belos azulejos de Lisboa? Por que e como a Lusitânia se tornou Portugal (Porto do Graal), lugar de recolhimento do mítico Graal de Cristo? Onde se acha a cabeça do serial killer lisboeta conservada em formol? Onde está o “jardim mágico” de Bordalo Pinheiro? Por que a fachada sul do Mosteiro dos Jerónimos foi concebida segundo os princípios kabalísticos hebraicos? Quais são os símbolos ocultos do políptico nacional de Nuno Gonçalves no Museu Nacional de Arte Antiga? Quem são verdadeiramente esses sabastianistas que, à maneira dos muçulmanos xiitas, aguardam o retorno do rei encoberto assinalado em D. Sebastião?

Lisboa tem sido desde a Idade Média um terreno de predilecção excepcional para desenvolver e aplicar as ideias de reis que foram alquimistas, de ministros que também eram maçons, de poetas ocultistas, de adeptos do Hermetismo e dos conhecimentos secretos dos Templários que se refugiaram em Portugal, após a sua interdição no século XIV no resto da Europa.

Vitor Manuel Adrião, historiador e filósofo reputado, é o herdeiro em Portugal do conjunto desses saberes esotéricos. Ele revela aqui, neste verdadeiro guia iniciático sem descuro do profano, a sua sabedoria inédita e descreve de modo estupendo os arcanos de Lisboa que alguns pensaram estar destinada a capital espiritual da Europa.

Lisboa Sagrada e Profana destina-se a todo o género de público que quer saber e conhecer as maravilhas e os insólitos esquecidos ou ignorados da capital portuguesa. Um livro que é um guia excepcional.

LUSOPHIA

ÍNDICE

ALFAMA – GRAÇA – MOURARIA

Preâmbulo

Alfama, povo e tradição

Alfama das “águas boas”

A cisterna de S. Miguel de Alfama

Lisboa – Lix Bona – Água Boa

Varina da Conceição Velha

Por que para os antigos o Tejo era rio sagrado?

Arte e Mistério em Conceição Velha

Casa histórica da Fundação José Saramago

Um jardim de falos mortos…

A santidade impossível de Vicente

Panteão Real de S. Vicente

Adoração feminina na Graça

A cadeira dos partos de São Gens

O bairro maçónico “Estrela de Ouro”

A Aula da Esfera

Colégio dos Meninos Órfãos

Segredos e tesouros de S. Cristóvão

Memória artística no Palácio dos Távora

As “pedras negras” do Templo de Cibele

Deuses do Teatro romano

Tesouro artístico do Palácio Belmonte

Curiosidades da igreja do Menino-Deus

Sinais secretos no Castelo de S. Jorge

O motivo de S. Jorge ser apeado do cavalo

A relíquia esquecida de Santiago Maior

A milagrosa Cruz de Santiago

Ordem Militar de Santiago

Os símbolos “pagãos” de Santa Luzia

Lenda da vida de Santa Luzia

S. Brás cura os males de garganta

Por que S. Brás é um dos patronos da Ordem de Malta?

O milagre de Santo António na Sé

Dedicar uma quadra a Santo António como promessa de amor

Os capitéis insólitos da Sé de Lisboa

Mistérios e segredos de Santa Maria Maior

Os signos mágicos do claustro da Sé

Princípios da Arquitectura Sagrada

O capitel das aves no claustro da Sé

A coluna das almas na Sé

A “Porta Santa” da Sé Patriarcal

Simbolismo sagrado da flor-de-lis

O mistério do Santo Graal

Como a Lusitânia se fez Portugal

BAIXA – ROSSIO

Termas subterrâneas da Rua da Prata

O “Sagrado Esculápio”

Quem é o deus Esculápio?

O misterioso Cais das Colunas

As tágides do Tejo

Os símbolos da estátua equestre de D. José I

Transferência Imperial – Translatio Imperii

Vida e obra do padre António Vieira

A mensagem oculta do Terreiro do Paço

Hermes Trismegisto, fundador do Hermetismo

Símbolos do Arco do Triunfo

Portugal “cabeça” do “corpo” da Europa

O estranho relógio do Arco da Rua Augusta

A mesa de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa: “Se és maçom, sou mais do que maçom – eu sou templário.”

A águia flamejante de São Nicolau

Arquitectura sagrada da Baixa Pombalina

As sete colinas sagradas de Lisboa

Segredos nos Paços do Concelho

Os símbolos da estátua de D. Pedro IV

O áxis mundi

Bocage no Café Nicola

Tabacaria Mónaco, Arte escondida

Arte Nova no Animatógrafo do Rossio

Alto-relevo das mãos unidas

O cumprimento maçónico

Hospital das Bonecas

Auto-de-fé a S. Domingos

Os painéis do Palácio da Independência

A “arábica” Casa do Alentejo

Segredos da sede da Casa dos 24

Os segredos de D. Sebastião na Estação Central

D. Sebastião, o “rei-sonhador”

Arcano 17 e o Horóscopo de Portugal

Por que se “endireitou” o Escudo de Portugal?

Os painéis esotéricos de Lima de Freitas

As passagens secretas do Hotel Avenida Palace

O segredo do Obelisco dos Restauradores

A “abadia” subterrânea do Palácio Foz

Os símbolos de Arte Real na “abadia”

O que é o ágape maçónico?

BAIRRO ALTO – CARMO – SANTA CATARINA

Sagrado e profano nos Armazéns Grandella

Simbolismo do pentagrama, a estrela de cinco pontas

O alquimista do Convento do Carmo

O que significa Beguino?

A espada mágica do Santo Condestável

A porta real do Carmo

Ordem do Carmo e a influência do Hermetismo

Símbolos maçónicos na Rua da Trindade

Azulejos maçónicos da Cervejaria Trindade

O Olho dentro do Triângulo

Os túmulos dos sebastianistas

Messianismo e Sebastianismo

Pensão Amor, erotismo e burlesco

Tabernas e confrarias

As “linhas de força” da Praça de São Paulo

Banhos de São Paulo

Palácio do Manteigueiro avarento

Encanto e piedade no Convento dos Cardaes

Palácio do Marquês de Pombal

Grémio Lusitano e Museu Maçónico

Cagliostro no Palácio Sobral

Traços biográficos de Cagliostro, um Mestre do Oculto

Santa Catarina: miradouro dos aluados

Escultura do Adamastor

Padres do Deserto em Santa Catarina

O subterrâneo da Praça do Príncipe Real

O Lagartagis do Jardim Botânico

ALCÂNTARA – CAMPO DE OURIQUE – ESTRELA

O baixo-relevo dos Santos Mártires

Pureza ou cheiro de santidade

O esquecido Palácio Almada-Carvalhais

Fonte bicéfala manuelina

A maravilhosa Custódia de Belém

Os segredos do Políptico de Nuno Gonçalves

Quem são Melki-Tsedek e o Preste João?

Simbolismo do Obelisco das Necessidades

A ignorada Tapada das Necessidades

Memória da Quinta do Mineiro

Jardim interior do Palácio de São Bento

A Fonte Santa dos Prazeres

Jazigo maçónico do Duque de Palmela

Jazigo templário do Dr. Carvalho Monteiro

Os Templários: factos e fantasias

Condessa d´Edla, memória tumular

A primeira bomba da República

Odisseia das relíquias do Santo Condestável

Nuno Álvares Pereira, o Santo e Guerreiro

Jardim das Francesinhas, memória e olvido

Cemitério dos Ingleses, a Inglaterra em Lisboa

O Leão da Estrela

AJUDA – BELÉM – SANTO AMARO

A “Charola” de Santo Amaro

Quem era Santo Amaro?

O mistério da Charola dos Templários

Os cinco sólidos básicos e a Geometria Sagrada

A esquecida Quinta das Águias

O Salão Pompeia do Palácio da Ega

Palácio Burnay, delírio e fausto

A misteriosa fonte das 40 bicas

Saga do defunto Marquês de Pombal

O “Chão Salgado”

As berlindas de Santa Maria de Mua

A ermida “esquecida” de Boitaca

O Manuelino, arte de passagem

Os segredos da Torre de Belém

Significado da Cruz da Ordem de Cristo

Mosteiro dos Jerónimos e Tradição Primordial

Jerónimos e Kaballah

A Kaballah Ibérica

Infante Henrique de Sagres, iniciador da Gesta

As celas “hieráticas” dos Jerónimos

Joaquim de Flora e as três Idades do Mundo

O claustro “hierático” dos Jerónimos

Alquimia e Alquimistas portugueses

FORA DO CENTRO

Jardim imaginário de Bordalo Pinheiro

A “mão diafanizada” do Teatro Anatómico

A cabeça do serial killer Diogo Alves

O lugar onde está a “Cruz da Pedra”

História rara de Carriche

Inscrições templárias no Lumiar

Quem é verdadeiramente o Baphometh?

A gruta miraculosa da Senhora da Luz

Os fantasmas do Palácio Beau Sèjour

Enigmas do Palácio Marqueses de Fronteira

O paraíso do Jardim Zoológico

O resgatado Teatro Thalia

A relíquia de S. Sebastião da Pedreira

Os painéis do Pavilhão dos Desportos

Os símbolos da estátua do Marquês de Pombal

Maçonismo na estátua do Marquês de Pombal

Quem era o Marquês de Pombal?

Lápide do chafariz de Andaluz

O desconhecido Hospital de Arroios

Balneário D. Maria II e a saúde mental

As máscaras de pele do Museu de Dermatologia

O relógio de sol mais antigo de Portugal

Culto ao Dr. Sousa Martins

A antiga Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego

O “lagarto” da Penha de França

As obras de Santa Engrácia

Amores proibidos de Santa Engrácia

Quem era Santa Engrácia?

Santa Auta da Madre de Deus

Quem foi Santa Auta?

Simbologia hermética na Madre de Deus

A maravilha da igreja de S. Félix de Chelas

A odisseia do “Braço de Prata”

Lenda de Santiago barqueiro e Caio náufrago – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Jul 25 2016 

A lenda que vou contar anda ligada a uma antiga família de Portugal, os Pimentéis de Trás-os-Montes[1]. Consta que este apelido procedeu de uma alcunha imposta pelo rei Afonso III, por volta do ano 1260, a um moço fidalgo chamado Vasco Martins de Novais, que se evidenciou pela esperteza e celeridade que em tudo mostrava. No brasão da família Pimentel estão incluídas as conchas (vieiras) da nossa lenda, que também estão representadas na torre do castelo de Bragança. Por outro lado, e como conta a história, as vieiras são o distintivo dos servos de Santiago, e os peregrinos que se dirigiam antigamente em peregrinação a Compostela levavam-nas como indicativo da finalidade da sua jornada.

Passou-se a história que vou contar no ano 44 da Era de Jesus Cristo.

Certa manhã, saiu a passear um ilustre cavaleiro da Maia chamado Caio Carpo Palenciano. Com ele ia a mulher, que desposara há pouco tempo, a nobre Claudina Lopo Zalenco, e vários outros parentes e amigos. Estava-se no Verão e, por esta razão, saíram cedo da vila, tentando aproveitar o fresco da manhã. Era uma cavalgada vistosa a que se dirigia à praia de Matosinhos: um pouco à frente iam Caio e Claudina, conversando calmamente, e seguindo-os ia um grupo animado do qual por vezes sobressaía um jovem fazendo caracolar o cavalo à volta de alguma dama. Era realmente um belo espectáculo, reluzente de armas, colorido de tecidos finos.

Cavalgavam pelo areal quando alguém avistou no mar uma barca, navegando com proa ao norte. Pararam todos para observar a majestosa beleza da embarcação, que vogava calmamente com todo o pano desfraldado. Estavam assim, um pouco esquecidos do tempo, entretidos a olhar o mar quando, repentinamente, o cavalo de Caio correu para a água. O cavaleiro tentou refrear o animal, mas este, obedecendo a uma força desconhecida, mergulhou no mar e desapareceram. Ambos voltaram à tona, entretanto, à beira da embarcação, e o cavalo, dando um impulso, subiu para bordo. Estavam os dois cobertos de vieiras.

Caio, espantado com tantas maravilhas, perguntou aos marinheiros quem eram e porque lhes aconteciam tais coisas.

Responderam os navegantes:

– Somos cristãos, discípulos de um homem santo chamado Tiago. Vimos de muito longe, fugidos ao ódio de homens que perseguem os seguidores de Cristo e trazemos aqui, nesta barca, o corpo do nosso Mestre Tiago.

– E porque vos dirigis para estas bandas? Foi o vento que vos trouxe ou fostes vós que traçastes a rota?

– Vamos para terras da Galiza, senhor, onde o nosso Mestre pregou o Evangelho de Jesus Cristo. Aí esperamos encontrar irmãos nossos e conseguir dar descanso ao corpo deste Apóstolo.

– E como explicais o prodígio operado pelo meu cavalo?

– Isso, senhor, significa que sois um escolhido de Nosso Senhor! As conchas de que vos vedes coberto são o sinal de Santiago, que quer ver-vos na lei de Jesus Cristo. A partir de hoje, distinguirão os servos deste santo homem!

Caio estava profundamente comovido pelo que ouvia, pelos milagres que via. Dentro de si sentia crescer um sentimento desconhecido, uma espécie de paz total que o levou a pedir aos marinheiros que o considerassem um dos seus. Foi assim que Caio Carpo Palenciano recebeu o baptismo da água, sobre as ondas, segurando as rédeas de um cavalo coberto de conchas.

E uma vez desembarcado e novamente reunido à esposa e aos amigos, converteu-os a todos com a narração de tão pasmoso caso.

"Fuente del Carmen", Padrón, mostrando o baptismo do peregrino e a barca fúnebre de Santiago

“Fuente del Carmen”, Padrón, mostrando o baptismo do peregrino e a barca fúnebre de Santiago

Esta lenda jacobeia portuguesa, inspirada na Lenda Áurea coluna dorsal de toda a tradição santiaguista, coloca os seus personagens no período gallo-romano (cerca 40-45 d. C.) e assinala o início da evangelização peninsular a partir do actual território português. Três elementos circunstanciais compõem a mesma, remetendo para o sentido profundo do simbolismo tradicional: a barca com os discípulos do Apóstolo finado; o cavaleiro Caio e a sua montada mergulhando nas águas; o cavaleiro e o cavalo saindo das águas para bordo da embarcação.

Segundo René Guénon[2], dentre os emblemas que foram outrora os do deus romano Janus [bicéfalo], o Papado herdou e conservou, além das duas chaves, a barca, atribuída paralelamente a S. Pedro e tornada a figura da Igreja[3] com o  Sumo Pontífice à proa da mesma: o carácter «romano» de Janus e do Papado exigiu essa transmissão dos símbolos, sem a qual ele não teria representado senão um simples facto geográfico sem conteúdo real e efectivo, marcando o Papado, desde a sua origem, como predestinado a ser «romano» na razão da situação de Roma como capital do Ocidente, desde a primeira hora amancebada ao Império, o que lhe deu esse estatuto dominante. No entanto tem-se aqui, na lenda, a deslocação da barca para o extremo ocidente da Europa, como designando o Apostolado de Tiago superior ao de Pedro ao ir mais avante na sua marcha cíclica e assim os seus tripulantes possuírem conhecimentos mais profundos que os da barca «romana», o que transfere para o seu sentido da Igreja ministrante e a Igreja ministrada, o Primaz e a Cúria, o que sabe e o que crê. Na primeira situação está a Igreja braco-galaica; na segunda, está a Igreja romano ou latina. É nisto que entra o sentido da “Grande Barca” (Maha-Yana) de Tiago Maior, indicativa da Tradição Primordial exercida como Arte Sacerdotal por via do Ministério e Instrução, superiores aos exercícios ministeriais e catequeses romanas indicadas pela “Pequena Barca” (Hina-Yana) de Pedro, esta destinada a pescar almas para a Igreja dos crentes, aquela vocacionada a salvar almas para a Igreja dos perfeitos. Tem-se nessas duas modalidades o Sacerdócio de Aarão (exotérico) e o Sacerdócio de Melkitsedek (esotérico), este cuja santidade e sabedoria exigidas fá-lo incorruptível e logo inviolável, facto figurado pelo sentido supremo da Terra Santa a quem os hindustânicos chamam Agharta, cujo símbolo é a próprio barca d´ouro do deus Osíris, oposto daquela barca d´prata da deusa Ísis.

A imagem da navegação foi frequentemente utilizada na Antiguidade greco-latina, tendo-se como exemplos mais notáveis a expedição marítima dos Argonautas à conquista do Tosão de Ouro no Jardim das Hespérides ou Hispânias e a viagem de Ulisses, vindo do mar da Grécia fundar Ulisipa (Lisboa), não esquecendo as referências feitas por Virgílio e Ovídio. Igualmente na Índia se encontra por vezes esta imagem, e no texto sagrado Atmã-Budha tem-se uma expressão singularmente semelhante à utilizada por Dante na Divina Comédia (Paradiso, II, 1-18): “O Yogui, diz Shankaracharya, tendo atravessado o mar das paixões, está unido com a tranquilidade e possui o “Ser” na plenitude”. O “mar das paixões” é evidentemente a mesma coisa que as “ondas da cupidez” e nos dois textos aparece o tema da “tranquilidade”, a qual representa o final da navegação simbólica e a conquista da Grande Paz[4]. Desde logo esta pode entender-se de dois modos, segundo se reporte ao Paraíso Terrestre ou ao Paraíso Celeste: neste último caso identifica-se à Luz de Glória e à Visão Beatífica; no outro, é a Paz propriamente dita, no sentido restrito, mas ainda assim diferente do significado profano[5]. Na lenda jacobeia aqui narrada, a barca do Apóstolo deve conduzir a humanidade dos crentes ao Paraíso Celeste, assim fazendo o papel do Papado (ou Sacerdócio, função dos Brahmanes, “sacerdotes”), enquanto o Cavaleiro sagrado, dessa maneira fazendo o papel do Imperador (ou Realeza, função dos Kshatriyas, “cavaleiros”), deve guiá-la ao Paraíso Terrestre, o que também não deixa de ser uma navegação[6]. Eis porque a Terra Santa das diversas tradições não é outra coisa senão o Paraíso Terrestre, frequentemente representado por uma ilha elevada, indicadora do núcleo de santidade e sabedoria privado das agitações públicas, imutável no meio das ondas da cupidez passional, e por isso é o “Santuário da Paz”, a “Montanha da Paz” ou, em termos bem jacobeos da peregrinação com Compostela à vista, o Monte do Gozo[7].

Falei em dois tipos de baptismo, como sejam o da água e o do fogo, o da catequese e o da gnose, manifestação de duas modalidades distintas, apesar de interligadas, de entender e viver o tema jacobeo como forma dinâmica de Iniciação, expressada pela peregrinação, facto retratado numa pintura medieval representando três pessoas montadas num cavalo branco, simbólico da própria Tradição Espiritual: Santiago Maior de permeio a Teodoro (aspecto esotérico) e Atanásio (aspecto exotérico), os seus discípulos tradicionais, todos com trajes de peregrinos, portanto, em pleno acto de Iniciação votiva ou móvel.

Pintura medieval de Santiago e seus Apóstolos montados num só cavalo

Pintura medieval de Santiago e seus Apóstolos montados num só cavalo

O sacramento do Baptismo, revelador da Espírito Santo ao crente, torna-o parte efectiva do corpo místico da Igreja ministrante (Clero) à Igreja ministrada (Assembleia). Os antigos gnósticos cristãos de Alexandria por vezes utilizavam o termo bafé métous (que os romancistas dos séculos XVIII-XIX transformaram no filólogo baphometh) para traduzir a ideia de “baptismo da sabedoria”, o do Fogo Sagrado do Espírito Santo, aferidor da condição de “Filho do Homem” ou Imortal e não mais de “Mulher” ou mortal, este relacionado com o Baptismo pela Água após o nascimento físico de todo o ser humano, aquele ultrapassando a condição material pela consciencial do Baptismo de Fogo cuja Iniciação Gnóstica, para não dizer Teosófica, confere não aos muitos chamados mas aos raros Eleitos o lume da Imortalidade, equivalente da posse efectiva da consciência integral do Tudo no Todo e do Todo (Divino) no Tudo (Humano).

Acerca-se do sentido de bafé métous a função do botafumeiro, o maior incensário do mundo que é o elemento histórico mais popular da catedral de Santiago de Compostela e que, balançando sobre as cabeças, cruza o espaço da nave enorme purificando espiritualmente as almas dos crentes com o fumo de incenso sagrado que, assim, também não deixa de ser uma espécie de Baptismo de Fogo em rolos de fumo perfumado.

O gigantesco incensário balançando na nave durante as missas dos peregrinos e outros actos importantes, além do referido significado transcendente tem um outro mais humilde e prático[8]. O início do rito do botafumeiro datará dos meados do século XIII, quando a peregrinação a Santiago já se convertera numa verdadeira rota e chegavam milhares de pessoas, saturando a catedral, indo provocar no seu interior um odor desagradável motivado pelo cheiro das roupas sujas dos peregrinos impregnadas da sua transpiração durante a caminhada. Foi quando se inventou e passou a utilizar-se o botafumeiro, para aspergir com perfumes (do latim perfumum, “pelo fumo, através do fumo”) a multidão, purificando-a espiritualmente mas também fisicamente, diminuindo os maus odores[9].

Para ser movido, o botafumeiro necessita de um grupo de oito homens conhecidos como tiraboleiros (do latim thuribulum, “lançador de fumo”), que se vestem de vermelho e são treinados para efectuar o referido manuseio através de cordas. No século XVI, o rei Luís XI de França presenteou a catedral com um incensário construído em prata no estilo renascentista e foi nesse século que, para facilitar a sua utilização, construiu-se sob a cúpula da igreja um mecanismo de polias, desenhado por Juan Bautista Celma, que permite o perfeito funcionamento do botafumeiro. Uma vez o mesmo desgastado pelo seu uso, é recolhido ao museu catedralício. O mais antigo deles que se conserva data de 1851, e outro de 1971, presente da Irmandade de Alféreces Provisionales.

Ritual do botafumeiro na catedral de Santiago de Compostela

Ritual do botafumeiro na catedral de Santiago de Compostela

O botafumeiro actual é de latão banhado em prata, pesa 62 kg vazio (originalmente pesava 60 kg, mas em 2006 acrescentou-se um banho de prata que fez aumentar a sua massa para o peso actual) e chega a pesar 80 kg quando está cheio de combustível, medindo 1,60 m de altura. Esta peça sacra foi criada em Santiago de Compostela pelo ourives Xosé Losada, em 1851. A corda que a suspende, atada do cruzeiro da catedral, é actualmente de um material sintético, mede 65 m, tem 5 cm de diâmetro e pesa 90 kg. Anteriormente as cordas eram feitas de cânhamo ou de esparto[10].

Voltando ao Baptismo no Noûs, a Mónada Divina, seja um Baptismo na Água da Geração ou no Vinho da Transmissão, ou ainda um Baptismo de Fogo no crisma do mesmo Espírito, comporta sempre uma metamorfose ou transformação, a metanoia, do iniciado por uma completa realização gnóstica ou teosófica. Por isso está escrito no Tratado IV do Corpus Hermeticum – De Hermes a Tat: o Vaso ou a Mónada: “Os que escutaram a proclamação e foram baptizados pelo Noûs, participam da Gnose e se tornam Homens Perfeitos, por terem recebido o Noûs[11].

Foi assim que na lenda jacobeia, após receber o Baptismo da Água, o cavaleiro Caio se tornou puro ou “branco”, que é o que significa o seu nome, e o pulo com a sua montada para bordo da barca e a bênção que lhe foi concedida pela apostólica tripulação, equivaleu ao Baptismo do Fogo, assinalado nas vieiras indicativas da luz esplendorosa de Vénus, a Stella Maris.

Tem-se, pois, a Cavalaria como Arte Real (Império), reconhecida e sagrada pela Apostólica como Arte Sacerdotal (Pontificado)[12]. Contém-se nesta lenda portuguesa, enfim, no prefigurado cavaleiro Caio tão-só o sinal de reconhecimento sagrado da própria Ordem Militar e Religiosa de Santiago, custódia dos caminhos jacobeos para o centro comum de Compostela, em plena terra galaica, solar e sagrada que uma vez pertenceu a Portugal.

NOTAS

[1] Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, 6 volumes. Edições Amigos do Livro, Lisboa, 1988.

[2] René Guénon, Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. Éditions Véga, Paris, 1984.

[3] A barca simbólica de Janus podia deslocar-se nos dois sentidos, quer para a frente, quer para trás, o que corresponde aos dois rostos do próprio deus, assinalados pela chave de prata (passado) e pela chave de ouro (futuro), que para a tradição hindustânica são referências às duas Leis Universais do Karma (chave de prata) e do Dharma (chave de ouro) incarnadas na pessoa do Brahmatmã, com função análoga à do Chakravarti ou Melkitsedek, isto é, Imperador e Pontífice Universal.

[4] Esta mesma conquista por vezes é representada sob a figura de uma guerra santa, como se encontra no Bhagavad-Gîta e na literatura árabe apologética da Jihad, havendo um simbolismo do mesmo género nos romances de cavalaria da Idade Média que embeberam de religiosidade as armas cristãs. Vem a ser sobretudo a luta espiritual do homem inferior, mortal, consigo mesmo, o Homem Superior, imortal.

[5] É isto que indicam muito claramente os diferentes sentidos da palavra hebraica Shekinah, “Presença Real de Deus”, como indicativa do próprio Espírito Santo manifestado sobre as Águas geradoras da Criação, configuradas nas funções psico-orgânicas femininas, o que vem a configurá-la na imagem da Mãe Divina. Os dois modos ou aspectos referenciados são aqueles que as palavras latinas Gloria et Pax designam na fórmula: Gloria in excelsis Deo, et in terra Pax hominibus bonae voluntatis. Na catedral de Santiago de Compostela, a Luz de Glória está exposta no pórtico da Glória, do Mestre Mateo, e a Grande Paz no pórtico das Pratarias, com o crisma central.

[6] Isso reporta ao simbolismo dos dois oceanos, o das “águas superiores” e o das “águas inferiores”, o do conhecer e o do crer, e igualmente aos dois tipos de baptismo comuns a todas as doutrinas tradicionais. Já o chuvisco é associado ao sentido de “influência espiritual” (baraqa, em árabe), e por isso se diz que o peregrino é abençoado pela chuva que caia em Santiago de Compostela, Cidade Santa marcada pela presença da Shekinah na forma da Arcam Majorem.

[7] Juan G. Atienza, Los Peregrinos del Camino de Santiago. Editorial Edaf, S.A., Madrid, 2004.

[8] Juan R. Sanmartín, O Botafumeiro: Parametric pumping in the Middle Ages. In American Journal of Physics, volume 52, Issue 10, Outubro 1984.

[9] Após a Missa do Peregrino, durante séculos foi tradição os peregrinos subirem ao terraço da catedral e lançarem nos queimadores que aí estão as vestes gastas e sujas que utilizaram durante a jornada. De maneira que viam-se rolos espessos de fumo subirem permanentemente do alto da catedral. Até neste costume, muito pouco conhecido actualmente, vê-se a presença do elemento ígneo que é o afim e constante do Apóstolo São Tiago Maior, o “Filho do Trovão”.

[10] O botafumeiro em toda a sua história, caiu apenas quatro vezes sem nunca ter ocorrido acidente de ordem pessoal. Uma das quedas foi no ano de 1499, na presença de D. Catarina, que ia a caminho de Inglaterra para casar-se com o Príncipe de Gales, e uma outra queda em 23 de Maio de 1622, tendo o botafumeiro se desprendido das cordas projectando-se pela porta das Pratarias indo despenhar-se na praça defronte, sem tocar em alguém da imensa multidão de pessoas presentes, o que desde logo foi considerado milagre.

[11] Frithjof Schuon, Gnosis Divine Wisdom. Ed. World Wisdom. Inc., Bloomington, 2006.

[12] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição Dinapress, Lisboa, Maio de 2011.

Barcelos, Terra do Galo – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 22 2016 

Ao cruzeiro ou padrão quatrocentista integrado no espólio do Museu Arqueológico de Barcelos[1], anda associada a curiosa lenda do galo e do enforcado[2], e apesar  dessa ave não ser o ex libris oficial de Portugal mesmo assim destaca a sua natureza predominantemente jacobeia e o próprio símbolo do Caminho Jacobeo Português[3].

De forma resumida, a lenda conta que os habitantes do burgo andavam alarmados com um crime de morte e, mais ainda, por não se ter descoberto o criminoso que o cometera. Certo dia, apareceu um galego que se tornou suspeito. As autoridades prenderam-no e, apesar dos seus protestos, ninguém acreditou nele. Não houve quem julgasse crível que o galego se dirigisse a São Tiago de Compostela em cumprimento de uma promessa, que ele fosse devoto fervoroso do santo que ali se venera, como também o fosse de São Paulo e de Nossa Senhora. Por isso foi condenado à forca. Mas antes de ser enforcado rogou que o levassem à presença do juiz que o condenara. Concedida a autorização levaram-no à residência do magistrado, nesse momento num banquete com alguns amigos. O galego voltou a reafirmar a sua inocência e, face à incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a mesa, sentenciando: “É tão certo eu estar inocente como certo é esse galo cantar quando me enforcarem”. Risos e sarcasmos não se fizeram esperar, mas, pelo sim e pelo não, não fosse o diabo tecê-las, ninguém tocou no galo. O que parecia impossível tornou-se, porém, realidade! Quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo assado ressuscitou, ergueu-se na mesa e cantou. Caíram por terra as suspeitas sobre o condenado. Correu o juiz à forca e viu o desgraçado de corda ao pescoço, mas o nó lasso, impedindo o estrangulamento. Imediatamente solto, foi mandado em paz. Passados anos, voltou a Barcelos e fez erguer o monumento em louvor à Virgem e a São Tiago.

Cruzeiro de "o galo e o enforcado", Barcelos

Cruzeiro de “o galo e o enforcado”, Barcelos

Esta lenda velhinha (contada em diferentes versões mas sendo igual no desfecho com a salvação miraculosa de São Tiago que suportou o inocente não deixando que fosse estrangulado) é das muitíssimas do espólio oral medieval que corriam entre os peregrinos jacobeos ao longo caminho português, que passa por Barcelos, quase todas elas, senão todas, abrigando valiosas referências míticas ou herméticas à Tradição Primordial, assim impondo o sagrado ao profano, a peregrinação complexa ao simples passeio, ao andar por andar sem outro sentido ou nexo.

Em primeiro lugar e antes de tudo o mais, o sentido moral desta lenda é o da advertência para o respeito e consolo que se deve dar a todo o peregrino de Santiago, ou seja, o de nunca lhe recusar a hospitalidade como cumprimento do voto maior do amor caridoso, repetindo as palavras do Codex Calixtino que o Papa Calixto II (que fora abade de Cluny e irmão do conde regente da Galiza, Raimundo de Borgonha) escreveu no século XII: “Todo o mundo deve receber com caridade e respeito os peregrinos, pobres ou ricos, que venham ou vão ao solar de Santiago, pois todo o que os recebe e hospeda com esmero terá como hóspede não só a Santiago mas ao próprio Senhor, segundo as suas palavras no Evangelho: O que a vós receber, a Mim recebe“.

Por sua aura de mistério e segredo, durante séculos o peregrino jacobeo foi visto como um ser sagrado, espécie de anacoreta santo num constante vaivém por rotas maravilhadas, traçadas numa cartografia sobrenatural pontilhada pelas estrelas da estrada celeste e pelos rios, vales e montanhas dos caminhos da terra assim abençoada com sua presença peregrina, espargindo do mais profundo do seu ser ao espírito do próprio Apóstolo São Tiago Maior.

Atentar contra o peregrino era o mesmo que atentar contra o próprio Apóstolo de Cristo, era atentar contra Cristo cujos membros são os seus apóstolos e sub-apóstolos. Daí o respeito que os caminhantes da Fé infundiram e desfrutaram em toda a religiosidade europeia da Idade Média e Renascença. Eles eram os padrões volantes ou caminhantes, o homo viator, homens representativos do espírito original do Evangelho nestas plagas lusitanas, tomando Barcelos ou Bar+Cellis como o “Monte do Céu”, o que está mais pertinho da Santa Cruz que um dia, nos alvores da Cristandade, o Apóstolo Tiago aqui fincou. Culto cristão substituto do primitivo fenício-romano, de importação egípcia, de Serapis, o deus ctónico mesopotâmico cultuado em Barcelos antes da implantação do Cristianismo, cujo busto ainda se pode ver no Museu Arqueológico desta cidade.

Contudo, bem se sabe, sempre houveram “ovelhas ranhosas” em todos os tempos e imensas vezes os peregrinos foram molestados e desdenhados na caridade por gentes sem fé nem humanidade, vindo após as lendas e narrativas afirmar que esses acabavam pagando caro e dolorosamente os seus actos indignos, por sinais manifestos da ira de Deus, intervindo por fogos e outros poderes ígneos castigadores afins à própria natureza do “Filho do Trovão” (Boanerges), Sant´Iago Zebedeu[4]. A Protecção Celeste nunca descarecia – jamais descarece! – o caminheiro da Grande Via, bem assinalada na “viande” ou vieira (que com a cabaça estão esculpidas nas colunas interiores na igreja-matriz de Barcelos, ponto de encontro dos peregrinos desde o século XIV 81325-1328), que antes era na capela da Senhora da Ponte, na  margem oposta do Cávado, pertencente à freguesia de Galegos de Santa Maria[5]).

Ponte sobre o Rio Cávado, em Barcelos, passagem obrigatório dos peregrinos de Santiago de Compostela

Ponte sobre o Rio Cávado, em Barcelos, passagem obrigatório dos peregrinos de Santiago de Compostela

Palmilhar a Grande Via em solo português ou Porto-Graal expressa exactamente isso: a Realização do Graal, a Taça Sagrada expressiva do estado de Consciência Espiritual, meta última do viandante, conquistando-a paulatinamente nas etapas do Caminho Iniciático que é sempre Solar, no sentido de expansivo e evolucional, nisto se enquadrando no próprio perfil do Gallo ou Homo Gallaeci inserido no que em sânscrito se apelida Surya-Vansa, “Linhagem Solar”, tendo à sua dianteira os Mestres de Espiritualidade, guias dos homens, palmilhando esse mesmo Caminho da Iniciação Verdadeira, aqui prefigurado pela rota jacobeia. É nisto que entra o sentido mais restrito do nome Tiago, a quem Louis Charpentier atribui o significado de Sábio, ao associá-lo ao Maxa-Jaun da mitologia basca[6] possuído do sentido de “Mestre da Natureza”, igual ao Jaunak galego, o primitivo Tuatha de Danand destas partes ibéricas chamado Tuatha de Gaedhil, indo dar em Jaun, Jacques, Jaime, Jacobo, Iacobo, Iago e finalmente Tiago. Ora, Jaun é Jina ou “Génio”, em sânscrito, sobre quem a Tradição Iniciática das Idades adianta que Jinas vêm a ser os Mestres da Humanidade, Santos e Sábios, Homens Perfeitos ocultados no próprio seio da Mãe-Terra, uma vez por outra, ciclicamente, aflorando à face do Globo para transmitir a sua Sabedoria Divina aos homens e assim impulsionar avante o progresso universal[7]. Bem parece que a nós, ibéricos, particularmente aos luso-galaicos, transmitiram-nos a Tradição do Santo Graal sob a forma da Lenda Áurea de Santiago Maior. Ao encontro disto parece vir o próprio Charpentier, quando escreve na sua obra citada: “Desde a partida no caminho de Compostela, que a cor é “anunciada”. Trata-se de um caminho iniciático de pessoas que vão procurar, no seu ofício e mediante o seu ofício, um conhecimento superior ao mesmo tempo que uma transformação profunda de si próprios… e iniciando-se nessa procura através de não se sabe que cerimónias, primitivamente no próprio seio da Mãe-Terra de onde vem todo o saber e toda a transformação”.

As estrelas envolventes da Taça Eucarística símile do Santo Graal, em Santiago de Compostela

As estrelas envolventes da Taça Eucarística símile do Santo Graal, em Santiago de Compostela

Sendo a Rota do Graal velada pelo Caminho Jacobeo e tendo este sido fundada na própria Galiza, então esta só poderá significar a Terra do Caminho Santo. Com efeito, aquando do domínio romano o Noroeste ibérico era conhecido por Gallicia, no natural galo-céltico, e Calaecia em latim, sendo os seus habitantes – os gallaici ou calaicos, posteriormente o aportuguesado galegos – a principal tribo céltica da Lusitânia. Calaecia é a prosódia latina do original celta Calacia, nome aglutinante dos termos cala e aku, respectivamente, “caminho” e “santo”. O nome Calaecia ou Gallicia significa, portanto, Terra do Caminho Santo.

A rota vem a ser assinalada no étimo Rãs, em cuja igreja está o Senhor dos Caminhos, que é o Orago dos caminhos jacobeos portugueses. Rota ou, anagramaticamente, Taro. Desta palavra Taro, em língua semita e usando-se o método da temurah ou permuta de letras, resulta Tora(h), a quem os rabinos denominam de “Lei”. Taro (ou Tarot) acha-se composto dos vocábulos tar, “via, caminho”, e ro (ros, rog…), “rei, real”, traduzindo-se o conjunto como o Caminho Real da Vida (As-taroth), que é onde se processa a dinâmica da Iniciação Verdadeira de tudo e todos, tão bem assumida e assinalada no nome de aldeia próxima de Barcelos: Mariz, berço genealógico da família deste nome da qual alguns membros entrecruzariam os seus destinos com aquela Ordem Iniciática Secreta de étimo igual, fundada no mesmo século XII da aparição borgonhesa dessa família mas desta feita em São Lourenço de Ansiães,  consignada Ordem Espiritual Portuguesa que, informa a Tradição Iniciática das Idades, a mesma Tradição Primordial, em guisa de encoberta todavia permanentemente activa, esteve por detrás por principais lances da Portugalidade no Mundo.

Assim, voltando à lenda ex libris do romanceiro barcelense, a quem se deve o famoso “galo de Barcelos” (ex libris do artesanato local), parece ter sido ela quem fez derivar o nome da cidade dum latim tardio: Barcalus, que decomposto em bar e calus significa “Filho do Monte Celeste ou Sagrado”[8], título este que se perpetuou na famosa Festa das Cruzes local (talvez as mesmas estrelas de Santiago mas aqui transformadas em cruzeiros sinaléticos da rosta costeira), de medieva idade também andando associada à belíssima lenda que liga Barcelos a Matosinhos e à Praia de Fão, por causa de três cruzes saídas do mar por divinais intentos, uma delas, a de Barcelos, reza a lenda, coberta de vieiras.

Sendo os Mestres Espirituais Homens Solares no sentido já descrito, obviamente que o seu símbolo só poderia ser o galo, a ave simbólica do Sol Levante incarnado no Cristo, ou seja, da madrugada esplendorosa que esconjura as trevas da noite. O facto de no conto ele ter ressuscitado, não deixa de induzir a ideia da Fénix mítica que “renasce das próprias cinzas”, e é assim mesmo que aparece, num aparelho de azulejaria no antigo convento das beneditinas de Santa Escolástica de Barcelos, como galo-fénix contemplando-se no speculum magicum, como atesta a legenda sob ele: “Só se compõe bem quem se vê ao Divino Espelho”. Ao ser associado ao Enforcado na lenda, com esta designa um rito de passagem marcado por uma iniciação martirial, ou seja, a entrega dócil e incondicional à Divina Providência, aqui, a fé na certeza absoluta no socorro final de Santiago.

Isso mesmo é relevado numa das faces do padrão de “o galo e o enforcado”: Santiago, trajando de peregrino, suporta o enforcado, e logo acima apresenta-se o galo a que se sobrepõe o Senhor Crucificado. O significado da alegoria será: a crucificação iniciática do iniciado jacobeo cuja aurora da ressurreição espiritual o galo anuncia. Equivale ao estado de consciencial de Chrestus ou Arhat, em grego e sânscrito.

A providência de Santiago presente na lenda de "o galo e o enforcado"

A providência de Santiago presente na lenda de “o galo e o enforcado”

Com efeito, sendo o galo considerado universalmente um símbolo solar, por o seu canto anunciar o nascimento do Sol, a tradição hindu atribui-lhe a personificação de Skandha e Prana, ou seja, a Virtude e a Energia Vital provinda do mesmo Astro-Rei. Por ser também um emblema do Cristo, nele recai a ênfase do seu simbolismo solar: Luz e Ressurreição. Já no Livro de Job o galo é símbolo da inteligência recebida de Deus, cuja sabedoria é atributo exclusivo do Homem[9]. Como o Messias (Messiah ou Avatara), o galo anuncia o nascer do dia do esclarecimento espiritual que sucede às trevas da noite da ignorância das coisas divinas[10]. Por sua função de arauto – como o foi S. João Baptista, cuja cabeça degolada é venerada na igreja matriz de Barcelos – cabe ao galo ser colocado no lugar mais alto, nas flechas das igrejas e nas torres das catedrais. Essa posição, no cimo dos templos, evoca a supremacia da influência espiritual na vida humana, a origem celeste da iluminação salvífica, a vigilância da alma atenta para perceber, nas trevas da noite que morre, os primeiros clarões do Espírito que se levanta. Por isto, o Talmud faz do galo um mestre de polidez, porque ele apresenta o seu Senhor, o Sol, anunciando-o com o seu canto.

Igualmente no Islão o galo de goza de uma veneração sem igual em relação aos outros animais, e o Profeta Mahometh em pessoa dizia (Alcorão, sura 8:60): “O galo branco é meu amigo. Ele é o inimigo do inimigo de Deus… O seu canto assinala a presença do Anjo”. Atribui-se, da mesma maneira, ao Profeta a proibição de maldizer o galo que convida à oração. Mahometh ter-lhe-á conferido uma dimensão cósmica: “Dentre as criaturas de Deus – teria dito ele – há um galo cuja crista está debaixo do trono, os pés assentados na terra inferior e as asas no ar. Quando passarem dois terços da noite e só restar um terço a passar, ele bate as asas e diz: ‘Louvor ao Rei Santíssimo, digno de exaltação e santidade, e que não tem associado’. Nesse momento, todos os animais batem as asas e todos os galos cantam”[11].

Na outra face do padrão vê-se o Senhor Crucificado sobre um dragão, significando tanto a esconjuração das heresias quanto a saída da treva para a Luz, da noite para o dia. Aparecem também Santa Maria e São Paulo, além de uma Lua e um Sol. Maria é a Mater Mundi, e Paulo, com a espada e o livro, expressa a Pacis Cognoscio, a “Paz do Conhecedor”, este que expressa a Igreja Claustral, a da pastoral apostólica afim à própria natureza heterodoxa ou livre de Maria, corporificação do Espírito Santo ou Espírito Livre, cuja condição andrógina ou lunissolar (Sol e Lua), no fim de contas, é desde o primeiro momento prerrogativa do próprio caminho jacobeo, palmilhado por todas as condições humanas sem distinção de sexos, raças e credos.

Ressurreição e elevação é, afinal, a mensagem implícita no padrão velhinho de que nasceu a lenda agora tratada, passada às margens do Cávado ou Gab-Atu mesopotâmico, o parda ou rio das “Águas Celestes”, sobre o qual anuncia a aurora triunfante o galo cristóforo, ave sacralizada que faz de Barcelos jóia singular de Portugal que não é “cauda” mas cabeça de uma Europa orgânica constituída meio milénio após ele[12].

Enfim, paragem obrigatória no caminho jacobeo, visitar e peregrinar por esta linda cidade é, sobretudo, percorrer a via-sacra que leva da Cruz ao Monte e deste ao Céu, sendo tão-só o que significa Barcelos.

NOTAS

[1] Teotónio da Fonseca, O Concelho de Barcelos Aquém e Além-Cávado, volume I de II. Reprodução fac-similada da edição de 1948. Barcelos, 1987.

[2] Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, 6 volumes. Edições Amigos do Livro, Lisboa, 1988.

[3] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição Dinapress, Lisboa, 2011.

[4] Juan G. Atienza, Leyendas del Camino de Santiago. Editorial Edaf, S.A., Madrid, 1998.

[5] Ernesto Amorim Magalhães, Barcelos no Passado e no Presente. Barcelos, 1958.

[6] Louis Charpentier, Santiago de Compostela, enigma e tradição. Editorial Minerva, Lisboa, 1973.

[7] Na Bíblia, no Livro de Job (28: 3-4, 20-23 e 27-28), lê-se: “O homem põe um limite às trevas, e esquadrinha, com exactidão, as rochas que estão em densa obscuridade. Abre galerias longe dos lugares habitados, que são ignoradas pelos pés dos transeuntes, porque estão em lugares inacessíveis. […] Donde vem, pois, a sabedoria? Onde está o lugar da inteligência? Está oculta aos olhos de todos os viventes, e até às aves do céu está escondida. O inferno e a morte dizem: Apenas ouvimos falar dela. Deus é quem conhece os seus caminhos e sabe da sua morada. […] Ele viu-a e descreveu-a, penetrou-a e conheceu-a ao fundo. Depois, disse ao homem: O temor do Senhor é a sabedoria, e fugir do mal é a inteligência”.

[8] Batalha Gouveia, A origem etimológica de Barcelos. “Jornal do Incrível”, Lisboa, 1983.

[9] Job, 38:36 – Quem pôs a sabedoria no coração do homem? Ou quem deu inteligência ao galo?

[10] Também a Maçonaria veio a adoptar o simbolismo do galo, dispondo-o na sua “câmara de reflexões” que antecede a entrada do neófito no templo, pondo-o como signo da vigilância e do advento da luz espiritual por via da transmissão iniciática. Na Alquimia, corresponde ao mercúrio hermético.

[11] Toufic Fahn, La naissance du monde selon l´Islam. In Sources Orientales, Paris, 1959.

[12] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

Cultura céltica na Ordem dos Templários – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jul 10 2016 

A cultura céltica, nomeadamente a hispânica celtibera (celta e ibera), pelos dados históricos disponíveis, dá a entender que marcou decisivamente a organização Templária desde o Sul de França até para cá dos Pirinéus, como igualmente a sua actuação numa sociedade essencialmente rural, o que irá ser motivo de análise neste estudo.

Assim, além das culturas romana e árabe, quase nos primórdios do Período Histórico encontra-se a civilização celta incorporada à autóctone ibérica de que sairiam os lusitanos ou lugsignan, identificados aos ligures da Península Itálica que terão sido povo com sangue atlante descendente directo dos mais míticos que mitológicos Tuatha de Danand, os quais estão na origem da tradição e civilização ibérica e hibérnica (irlandesa)[1].

De raízes neolíticas, os lugsignan (mistura de celtas e iberos) certamente foram os arquitectos da monumentalidade lítica que hoje é testemunha dos primórdios da presença humana nesta nossa Península, eles os intuídos que cedo souberam estabelecer uma simbiose telúrica entre o espaço sideral e a Terra, a sua estrutura vital aflorada à superfície por campo de nódulos e correntes energéticas envolvendo todo o Globo. O celtibero e o lusitano conectaram a sua vivência com a disposição desse espaço energético, sacralizaram-no plantando monumentos (cromeleques, tholos, dólmens, antas, antelas, menires, etc.) onde eram mais intensa a afluência telúrica, e assim deram nascimento ao culto da Grande Deusa, a Deusa-Mãe, afinal, a própria Terra, fecundada pelo Sol e fecundante pelo poder das suas energias vitais, o que se revelava nas boas águas para beber e pescar, nos bons terrenos para semeadura e colheita, nos ares saudáveis e nos espaços verdejantes para pastorícia e saúde do gado. Essa foi a primitiva religião agrária, nómada por um lado, por se mover sob o pretexto de busca constante de terras e águas boas, e sedentária por outro, indo plantar castros e citânias para habitação em lugares oferecendo essas condições indispensáveis à manutenção da vida, as quais só poderiam atribuir à Grande Deusa, Mãe Primordial de todos os demais deuses zoomórficos e antropomórficos em que se constituía o seu monopanteísmo original, de que deixaram testemunho à posteridade nesses lugares, repito, previamente demarcados por basta e variada monumentalidade lítica.

Nascem assim os bosques sagrados, os lagos sagrados, as montanhas sagradas, as grutas sagradas, etc., sempre assentes em confluências de telurismo intenso, como acontece no aro megalítico do Alentejo, que junto com Sagres e Sintra formam o espaço telúrico de maior intensidade do país[2]. Esses conhecimentos geomânticos primitivos viriam a ser recuperados pelos Templários para se instalarem em espaços já anteriormente demarcados e consignados sagrados pela religiosidade celta, os quais vieram a dar no que hoje se convencionou chamar de “enclaves mágicos” do Templo, tão celebrizados por uma cultura marginal “pop new age” mais urbana que rural, campesina, paisan ou “pagã” como era na origem.

Herança desse dominador mágico celta herdado pelo Saber Templário em meio de uma sociedade predominantemente rural, tem-se:

1 – As bases geométricas da Arquitectura, como se repara, por exemplo, na composição dos cromeleques “quadrados” com o menir fálico, da pujança viril, cravado ao centro, que viriam a estar na inspiração geométrica do “quadrado da terra” e do “padrão” ou mundus da arquitectura românica nascida dos colegia fabrorum ou de artífices da Roma antiga. Há mesmo casos repetidos de antas primitivas terem sido posteriormente adaptadas a ermidas e capelas cristãs, como também o do aproveitamento do espaço de antigos cromeleques para sobre eles se assentarem as bases de igrejas e castelos, e assim igualmente o aproveitamento de muitas mamoas para “mães d’água”.

2 – O conhecimento geomântico exacto do movimento das linhas telúricas da Terra e os pontos de encontro de várias delas como nódulos telúricos, assim sabendo onde estavam as terras e águas boas para semeadura e consumo, como igualmente o lugar preciso para plantar um edifício, sacro ou não, que ficasse isolado das correntes negativas afectando o espaço ambiental e meteorológico, e assim aos temperamentos humanos e dos restantes seres vivos (animais, vegetais e minerais).

3 – O conhecimento exacto das propriedades medicinais das plantas e minerais, ou seja, a farmacognosia, aplicada como farmacologia natural sendo claramente um saber taumatúrgico herdado dos celtas. Foram os médicos do Templo quem descobriram a causa da lepra negra (assim chamada por deixar os corpos enegrecidos, em putrefacção ainda vivos, contaminando de imediato outros): estaria no centeio (com que se fazia o pão) plantado em zonas pantanosas próximas do mar, contaminado pelo salitre e pelos insectos.

Esses são exemplos da recolha feita do saber celta pelos mais doutos do Templo, e que tanto a religião como a medicina populares, do conhecimento dos mais antigos, ainda preserva[3].

Cromeleque "quadrado" do Xarez em Reguengos de Monsaraz, Alentejo

Cromeleque “quadrado” do Xarez em Reguengos de Monsaraz, Alentejo

Bem antes da presença celta regista-se na Península Ibérica a existência dos ligures, a quem Saint-Yves d’Alveydre (nos seus Arqueómetro e Missão dos Judeus) chama de “mestres do mar”, ao decompor a palavra em li+guru, o que lhes atribui origem além-Atlântica, isto é, atlante, cujos conhecimentos de navegação igualmente se reflectiram naqueles outros fenícios proto-históricos. Os ligures ter-se-ão mesclado aos iberos e dado essa etnia nova dos lugsignan ou lusitanos, cuja existência longa iria atravessar vários milénios a ponto de virem a fundir-se depois tanto nos celtas, dando os celtiberos, como nos romanos, dando os luso-romanos.

Os lusitanos, já então celtiberos, receberam o legado cultural e mágico dos primitivos lugares (isto é, lug+ara, “altar de Lug”) consagrados ao culto desse deus supremo do panteão ligure, a par de sua esposa Lusina, destinada à eleição de padroeira dos construtores-livres no período cristão, tanto sob a feição de Santa Madalena como de Santa Luzia. São marcas indeléveis da presença de Lug os referidos lugares “Lug” ou “Lux”, no contexto geral a Lusitânia inteira, como “Terra de Luz”, e no mais particular Lisboa, Logroño e Lugo, por exemplo, no caminho da peregrinação a Santiago de Compostela e nos caminhos encobertos da Intra-História peninsular. Lug (depois assumido como deus Endovélico pelos celtiberos e que o judaico-cristianismo identificaria a Mikael ou São Miguel, tudo em conformidade à sucessão dos ciclos religiosos nas respectivas antropologias civilizacionais), obreiro universal, demiurgo, mestre de artes e alquimista, músico, guerreiro e mago, o poderoso deus tutelar da Lusitânia que os ligures e os celtas transportaram consigo na sua marcha para onde o Sol se põe, as Occidens, com os olhares fixos no caminho estelar de Santiago ou a Via Láctea e tendo por guia o Canis Majorem, a estrela do Cão (símbolo jacobeo do guia, guardião e protector do peregrino viandante ou itinerante), chegando finalmente as finis Terrae, onde toda uma civilização megalítica e castreja foi plantada junto à orla atlântica ornando o espaço do que é hoje Portugal[4].

O caminho tortuoso da Iniciação Ligure ficou assinalado nos labirintos decorando o espaço interior de várias catedrais cristãs, como a de Chartres[5] e a de Santiago de Compostela, nesta última palmilhado pelo peregrino que a adentra indo prestar homenagens ao Apóstolo, desde o Pórtico da Glória com a Coluna de Jessé até à descida na cripta onde repousam os pressupostos restos mortais de São Tiago Maior, encerrados num sarcófago de prata. Este labrys ou redondo para o ponto central de si mesmo, é representado em uma escala simples e lúdica pelo simbolismo do Jogo da Glória ou do Ganso, “oca” em espanhol, e que foi o emblema de Lusina adoptado como insígnia dos construtores-livres medievais, pois, como se vê nas estelas funerárias do antigo cemitério de Iria Flávia,  a maioria deles assinava as suas obras com um pé de ganso, forma estilizada simples da flor-de-lis, esta considerada na Tradição Iniciática símbolo da Consciência Universal como lótus sagrado de Agharta.

Rafael Alarcón[6], acerca do Jogo do Ganso ou da Pata (a pata do ganso, a meu ver, já que o pato é a expressão mais doméstica do ganso, aquele mais passivo e aquático e este mais irreverente e ígneo), diz o seguinte:

“Há um complicado puzzle de símbolos ancestrais que querem significar algo muito mais distinto do que representam: um cisne e uma pata têm três filhos, dois pequenos cisnes e uma pequena pata; a pequena pata é raptada por um herói grego, já cinquentão, que havia conseguido entrar e sair do labirinto de Minos vencendo os seus perigos graças aos ensinos dum centauro; os irmãos cisnes vão resgatá-la para evitar que Helena-pata sofra a sorte de Ariadne, abandonada pelo seu herói pouco depois de ter sido raptada. Anos mais tarde a pequena pata, já crescida, será raptada por um troiano; serão então todos os gregos a quererem-na resgatar, provocando a conseguinte guerra no transcurso da qual se inventará o Jogo da Pata.

“É desde logo uma mitologia “labiríntica”, plena de símbolos com duplo e triplo sentido, que só pode ser desmascarada seguindo um fio subtil. Talvez o fio de Ariadne, levando à porta do labirinto? Labirinto espiralado que os Companheiros puderam percorrer, indistintamente, no lombo da Jaca-Cábala, a pé com as suas patas palmeadas, ou cavalgando sobre um caracol…

“Retornando aos nossos Companheiros medievais, há certos signos ou elementos simbólicos que lhes são próprios correspondendo-se paralelamente com elementos do Caminho Jacobeo e do Caminho da Pata, ainda que seja, quiçá, mais acertado dizer que determinadas casas do Jogo da Pata estão marcadas, definidas, pelos simbólicos elementos ocultos do Caminho de Santiago…

“A entrada, podemos comprovar em todos os tabuleiros, antigos e modernos, fica assinalada pela pessoa “mágica” do personagem que, sobre o desenho, vai realizar a peregrinação. O dito personagem, que pode aparecer tanto numa casa especial sem número como na número um, adopta as mais variadas características: um jogral, um gnomo, um mago ou astrólogo, um peregrino, etc., o qual costuma aparecer numa destas duas posturas: ou está em atitude de lançar os dados para começar o jogo, ou então conduz uma pequena bandada de patas incitando-as com a sua vareta a caminhar pelo caminho espiralado. Em qualquer dos casos fica claro que o nosso personagem simboliza o Mestre Iniciador, disposto a guiar-nos pelo caminho com a ajuda da sua vareta mágica ou com as instruções contidas nas medidas harmónicas dos dados, verdadeiras pedras angulares do jogo, como de toda a construção teórica.”

Realmente, a disposição desse jogo é muito significativa. O tabuleiro compõe-se de 63 casas, valor que reduzido teosoficamente dá 9, número dos ciclos da Terra (e a cada 9 casas dá-se novo período de jogo), e à divisão do círculo em “9” os monges-construtores chamavam de “pata de ganso”, sendo daí que o jogo recebeu esse nome. Na casa 58 (valor que somado e reduzido dá o Arcano 13) tem-se a “Morte”, e quem a vencer ou transpor fica a 5 casas de chegar à Glória, à Vitória, à Perfeição Humana que é o que o 5 alegoriza.

Sobre a Iniciação Ligure praticada pelos Lusitanos, tive oportunidade de descrevê-la na minha História Oculta de Portugal (cap. 15, pp. 300-302):

“Voltando aos dólmens, eram formados por uma câmara octogonal, interiormente da altura de um homem e com um pequeno corredor de acesso, com cerca de 1,2 m de altura. Assim constituído teria o formato de um útero, o útero da Mãe-Terra onde só podiam entrar, logicamente, pessoas do sexo masculino, devido aos opostos macho-fêmea.

“A câmara octogonal devia situar-se sobre o cruzamento de dois lençóis de água subterrâneos, ponto nevrálgico para onde o telurismo converge fazendo se sentir mais. O formato em octógono, para os Lugsignan, permitia a recepção máxima dessa força e a sua reflexão para o centro da câmara onde o iniciado, nos momentos propícios ao acto solene, mantinha-se de pé 24 horas[7].

“O dólmen possuía tradicionalmente uma tríplice porta, duas entradas laterais e uma central, todas com cerca de 1,6 m de altura, o que forçava, a quem a transpunha, baixar a cabeça – sinal de veneração e humildade perante a cerimónia de iniciação que se iria desenrolar. O momento escolhido era decidido em função do posicionamento dos astros, no instante em que as forças telúricas atingissem, no entendimento esotérico dos druidas, o máximo de fixação e irradiação local[8].

“Depois disso o iniciado era obrigado a inclinar o tronco para atravessar o pequeno corredor, de 1,2 m de altura, até à câmara. Acreditavam os druidas (termo oriundo do celto-bretão dru-vid, “o que possui a sabedoria e o poder”) que essa posição forçada lhes permitia a valorização do nível emocional do corpo humano. Eles acreditavam existir 3 níveis – o mental para o cérebro, o emocional para o coração e o impulsivo para o baixo-ventre –, quase se anulando o primeiro e o último níveis naquela posição. Havia mesmo dólmens (como o de Torres Novas, por exemplo) em que o corredor só podia ser transposto rastejando… como a serpente, simbólica das sinuosas correntes telúricas, facilitando assim uma comunhão mais íntima com as forças interiores da Mãe-Terra.

“Em conformidade sintónica com o momento ideal de recepção do máximo de telurismo vibrante, entravam na câmara octogonal e durante 24 horas mantinham-se de pé no seu centro, o tempo necessário para a rotação completa da Terra. Estavam prontos, depois, já devidamente instruídos, para desempenhar a missão que lhes iria ser confiada como novos druidas.”[9]

O "tellus draconis" celta no Castelo Templário de Tomar

O “tellus draconis” celta no Castelo Templário de Tomar

Pois bem, quando os celtas, vindos da Gália e da Bretanha, atravessaram os Pirinéus e se instalaram na Península Ibérica, incorporaram o elemento autóctone ibero-lusitano o qual, por sua parte, também os incorporou, e assim nasceram os celtiberos.

O nome celta ou kelta tem a sua raiz no etimólogo ligúrico eld, ald ou oold, que encontramos na kaldeia ou aldêia, a comunidade hindu, e igualmente na aldeia, a comunidade rural portuguesa. O termo celta ou ka-eld indica, pois, a “assembleia dos anciãos”, ou sejam os druidas, cujo colégio constituía o poder central da pequena sociedade rural que era a aldeia e cujo modelo serviu, depois, para os Templários organizarem e dirigirem o espaço social inserto no território sob a sua jurisdição com o governo centralizado em alguma Casa sua.

Esses eram os primitivos galos oriundos da Gália, aos quais a Galiza deve o nome, dizendo Jorge Ramos[10] que os seus condutores espirituais, os druidas, não só tinham como centro referencial do seu culto o Sol, Oiw, como igualmente cultuavam a Ísis céltica, Ceres ou Ceridwen, afinal, a Natura Naturante et Naturata.

Júlio César dedica aos druidas três capítulos dos seus Comentários, e Estrabão e Artemido comparam os seus ritos aos de Samotrácia, apesar de Dionísio de Halicarnasso (8. a. C.) os equiparar aos de Baco, ainda que, em boa verdade, possuíssem todas as características do Rito Mitraico. Por Diógenes Laércio e Júlio César sabe-se que o método druida de instrução era por símbolos, enigmas e alegorias, sendo a explicação só oral, enquanto por escrita era proibida (coisa que os Templários também terão feito, e daí a dificuldade em encontrar hoje documentação de sua própria lavra). Também se diz que as suas cerimónias de iniciação admitiam tanto homens como mulheres (tal qual como entre os Templários), e exigiam muita purificação física, moral e mental. A iniciação dividia-se em períodos trimestrais, celebrando-se durante os Equinócios (para as mulheres) e os Solstícios (para os homens), compreendendo três graus em que se dividia a hierarquia druida, cujo conselho dos 12 anciães estava organizado em torno de um 13.º, o arquidruida.

Portanto, tem-se:

Joaquim Gervásio de Figueiredo[11] diz que os principais mandamentos impostos aos druidas, eram: “Obediência à Lei Divina. Interesse pelo bem-estar da comunidade. Suportar com fortaleza todos os males da vida”. Adianta o mesmo autor que terminando o seu período probatório, vestiam o candidato com uma túnica de estrias brancas, azuis e verdes, cores da Verdade, Devoção e Simpatia, alegorizando os Mundos Espiritual, Psíquico e Material; encerravam-no numa tumba com o formato interior de um corpo humano e aí ficava deitado durante três dias em transe profundo (que nada tem a ver com os famosos “estados catalépticos” da confusa psicanálise e nem, tampouco, com os “transes animistas” do deplorável espiritismo, ou melhor, animismo psíquico, mas mais com a consciência desdobrada da forma física em projecção ao nível espiritual). Após despertar, o iniciado mantinha-se sob as ordens do Iniciador e este fazia-o dar nove voltas no santuário, com um passo comedido no começo mas aumentando até terminar numa carreira rápida. Enquanto fazia essas circunvalações, ouviam-se instrumentos musicais e recitações em louvor daqueles que foram heróicos na guerra, corteses na paz e amigos na religião. Terminada essa cerimónia, o neófito jurava guardar segredo e passava por diversos actos nos quais representava vários personagens, exclamando entre outras coisas: “Eu morri” e “Eu ressuscitei”, em alusão à morte e ressurreição místicas. A este respeito comenta o dr. Olivier na sua History of Initiation, pág. 146: “Nisto consistiam a morte e o sepultamento celebrados nos Mistérios Druídicos. Ao terminar os nove meses, dizia-se que o aspirante havia nascido de novo do ventre da deusa Ceridwen e declarava-se que, por isso, era agora uma pessoa regenerada, purificada de suas antigas impurezas”.

Desconheço a existência de algum documento coevo dos Templários explicitando que também eles realizavam o rito da morte e ressurreição, mas conheço vários monumentos funerários seus nos quais os interiores dos túmulos estão cavados em forma humana, como se verifica, por exemplo, em Monsanto e em Vila Franca de Xira, domínios que foram seus.

Tanto nas Gálias como na Bretanha, os druidas foram tratados com o máximo rigor pelos invasores romanos depois de uma heróica e tenaz resistência, devido ao poder da sua influência política e religiosa sobre o povo, como relata Tácito e outros. Mas no norte de Inglaterra eles subsistiram ainda até 714 d. C., aquando os monges de Iona foram expulsos da Escócia pelo rei picto Nechtan, e o seu lugar foi em grande parte ocupado pelos culdeus da Irlanda, que parece terem seguido a mesma tradição até ao século XIV, quando desapareceram dos anais históricos da Europa, mas não sem antes terem infundido na religiosidade cristã e rural esses cultos e crenças pré-cristãs, cuja fase mais notória da sua infusão foi precisamente a páleo-cristã (visigótica).

Todo o itinerário lusitano e celtibero desde Sagres a Finisterra está sulcado de testemunhos megalíticos assinalando a sua presença, e nesses mesmos espaços telúricos onde estão não raro os Templários construíram próximos a eles castelos, conventos, igrejas, capelas e ermidas, como que assimilando a potência antiga Druida à novel Templária[12].

O autor junto ao Menir do Outeiro ou Penedo Comprido, em Monsaraz, o maior da Península Ibérica

O autor junto ao Menir do Outeiro ou Penedo Comprido, em Monsaraz, o maior da Península Ibérica

Chega-se mesmo a ver dólmens convertidos em capelas, o que dá continuidade à tradição do megalitismo agora no terreno da Cristandade que a recebeu em boa parte graças, decerto, à influência do saber geomântico dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão. Um caso notável tem-se no limiar da povoação de Alcobertas, junto da Serra de São Bento, a caminho de Rio Maior. Vê-se aí a singular igreja de Santa Maria Madalena com um dólmen do Paleolítico transformado em ermida adossada a ela. E diz a lenda que foi a própria santa quem transportou à cabeça todas aquelas pedras para ali, impondo assim a construção da igreja arrimada ao dólmen e destruindo todas as noites as tentativas de edificação noutro lugar[13].

A «pecadora» galileia, Myriam Ben Magdala, é bem a versão cristã e cortês de Melusina ou Lusina (a mesma Atégina celto-lusitana)[14], a Deusa-Mãe dos povos proto-históricos destinada a ser Orago dos construtores-livres. Esposa do deus Lug, observa-se este na nova versão tanto do Apóstolo Lucas como do mártir Lourenço, o santo que, por «acaso», está sempre presente nos enclaves mágicos dos Templários, lugares igualmente propícios à observação dos fenómenos celestes como esse das “chuvas de estrelas”, às quais o povo chama de “lágrimas de São Lourenço”. Santo solar ou ígneo, indicia sempre um itinerário da mesma natureza pelo que, com as devidas e raras excepções, marca  presença no começo ou final deste, razão de ser dessas capelas de São Lourenço em Tomar, de Carnide em Lisboa, junto à Pontinha desta, de Azeitão, às portas da Serra da Arrábida, ou ainda de Budens, a caminho do Promontório de Sagres pouco antes da “Vila” do Infante D. Henrique, ou seja, a Quinta da Guadalupe.

O saudoso amigo Juan Garcia Atienza, não hesita em atribuir a São Lourenço a “advocação graálica”[15], cuja lenda hagiográfica é claramente decalcada das tradições gahélicas dos Tuatha-de-Danand transmitidas pelos monges culdeus irlandeses dos primeiros séculos da Idade Média, por cujas narrativas acabaram transformando o céltico Caldeirão de Daghda no cristão Santo Cálice assumido o da Última Ceia e do Calvário.

Já Maria Madalena é identificada simbolicamente ao Útero Materno da Terra, à Cripta, ao Hipogeo, rezando as tradições provençais que após a sua chegada à Europa recolheu-se numa caverna no Sul de França, conhecida como Saint Baume (“Gruta Santa”), onde diariamente orava as sete Horas canónicas[16]. Este episódio encontro-o repetido tanto em São Bento da Porta Aberta, no Minho, como na Gruta do Monge, no Parque da Pena de Sintra, transformada de dólmen em oratório de um anacoreta jerónimo da Serra da Lua[17].

Assim como Santa Madalena e São Lourenço foram personagens caríssimos no Santoral Templário, igualmente não se deve esquecer Santa Brígida.

Brígida nada mais é que Brigite, a divindade céltica reverenciada em todo o Ocidente europeu. Era filha de Daghda, o mítico deus-rei dos Tuatha-de-Danand, e esposa de Bress, rei do povo Fomoré. Dele teve três filhos: Brian, Iuchar e Uar, que foram tidos por génios da inspiração. E o embróglio mítico-simbólico desfeche com o feito dos três engendrarem um só filho de todos eles a quem chamaram Ecné (cujo fonema soa Hermé ou Hermes), significando “saber, ciência ou poesia”. A Brigite também chamaram Dana, donde os Tuatha-de-Danand terem sido o “povo de Dana” ou Brigite. Houve mesmo cidades que foram levantadas em honra desta divindade feminina, como Braccara (Braga) e Brigantium (Bragança)[18].

Além da Santa Brigida da Suécia canonizada pelo Papa Bonifácio IX em 1401, que viveu entre 1303 e 1373 e foi fundadora da Ordem do Santíssimo Salvador e mãe da também Santa Catarina de Siena, não devendo ser confundida com aquela de Alexandria no século IV, a homóloga Santa Catarina (do grego Katharós, “Puríssima”, cuja derivante é Katter, raiz de Cátara como “Pura”, caríssima à devoção Templária, e que estará na génese do ramo familiar Costo ou Costa), aparece uma outra mais obscura Santa Brígida decalcada directamente da Brigite celta, sobre quem pouco se sabe excepto que viveu entre os séculos X-XI, era natural da Escócia ou da Irlanda e filha dum tal Duptaco (Daghda?). Para se consagrar inteiramente a Deus sem que fosse incomodada pelos apetites carnais dos homens, já que era muito bela, Ele desfigurou-lhe um olho e assim tornou-a feia; dessa maneira pôde começar um rol de milagres em nome do Altíssimo, um deles o de fazer brotar fontes de água cristalina para dessedentar os caminhantes sedentos[19].

É esta última Santa Brígida que se vai encontrar no Santoral Templário, achando-se notícia exacta da mesma em Lisboa, na parede exterior lateral à entrada da igreja de São João Baptista do Lumiar (termo de raiz Lug ou LuzAlumiar, reforçado por outros tantos nomes de localidades vizinhas com igual sentido luminoso: Odivelas e Loures), estando encrostadas nela três sepulturas, lendo-se na terceira a epigrafia lapidar seguinte:

Os ditos três Cavaleiros (parecendo apontar à sugestão do mito hibérnico ou irlandês dos três filhos de Brigite) seriam Templários, pois que a igreja de São João do Lumiar estava antanho dentro dos terrenos do lugar da Ameixoeira que era pertença da Ordem do Templo e que a Ordem de Cristo herdou como “comenda velha”, conforme informam as Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, na parte IV, Título II, “Das Comendas e Fazendas da Ordem”, página 147, Lisboa, 1746: “Os bens que a Ordem tem na Ameixoeira, também estão dados por emprazamento”.

Em 1283 era Grão-Mestre Provincial do Templo em Portugal D. Frei João Fernandes, que andou de ligações estreitas com D. Dinis e D. Afonso, o Sábio, tendo detido três Mestrados: os de Portugal, de Leão e de Castela, quase tendo obtido também o da Catalunha, como informa Frei José de Brito nas suas Memórias da Ordem do Templo (inédito existente na Biblioteca Nacional de Lisboa).

Não deixa de ter interesse para o caso o facto dos saloios da Ameixoeira serem precisamente apodados de “catalões”. Terá isso a ver com alguma emigração hispânica para aí promovida pelos Templários? Seriam catalões os cavaleiros que trouxeram para aqui a cabeça de St.ª Brígida da Hibérnia ou Ibérnia, a Irlanda, a mando do Grão-Mestre D. João Fernandes?

Mas, mais importante, por que só a cabeça? Há em tudo isto uma forte sugestão bafomética, atendendo a quanto já se disse anteriormente, o mesmo acontecendo com a cabeça de St.ª Iria. Ainda hoje se cultua nesta igreja de São João Baptista do Lumiar a relíquia de Santa Brígida da Irlanda: uma parte do crânio, depositada numa urna de prata dourada, elegantíssima, estilo D. João V, que se diz ter vindo do Mosteiro de São Dinis de Odivelas.

Mais além do Lumiar e passando a ermida de S. Sebastião, tem-se a escassos quilómetros a igreja e convento de Nossa Senhora da Luz que foram da Ordem de Cristo, tendo a primeira sido fundada no reinado de D. Afonso V em 8 de Setembro de 1464, então uma simples ermida votiva em memória da Virgem ter aparecido em “Luz” aí, junto à chamada Fonte da Machada, ao cavaleiro Pêro Martins. Mas já antes, em 13 de Setembro de 1442, o rei doara ao seu sobrinho, o Infante D. Henrique, essa mesma paróquia de Carnide[20].

Paulo Pereira diz com muito acerto[21]: “Deve registar-se, neste caso, a proximidade de um topónimo com conotações “luminosas” idênticas: Lumiar. E é quase certo que entre a Luz e o Lumiar, através da ermida de São Sebastião e até à igreja de São João Baptista, se perpetue um antigo “caminho dos mortos” ou “estrada do Sol”, segundo a tradição das leys”[22]. Sem dúvida, porque a igreja de S. João Baptista está anexa ao cemitério da Ameixoeira, e a de N.ª Sr.ª da Luz está próxima do cemitério de S. Lourenço de Carnide, cuja igreja e adro anexo ainda conservam alguma memória da presença Templária.

Além disso e indo à sua filologia, Carnide é nome comportando o tema egeu-anatólico car ou kar, “pedra”, aproveitado pela língua celta, enquanto o feminino ker encerra o sentido de “morte”, pelo que se poderá interpretar o etimólogo Carnide com o significado de “caminho da morte”, ademais sendo Ker a divindade feminina psicopompa que conduz as almas dum lado ao outro do caminho da vida, a qual, com a advento do Cristianismo, foi substituída por N.ª Sr.ª da Boa Morte, Hipóstase da Mãe de Deus que todos esperamos venha a rogar, a interceder por nós na hora de nossa morte e nos leve em Luz ao seu Divino Filho, para Este nos julgar em conformidade às nossas acções neste vale de lágrimas. Por esta razão necrolática, Carnide tem por Orago Nossa Senhora da Luz, reforçado pelo igualmente luminoso ou solar São Lourenço, ambos anunciados logo à entrada do “caminho das almas” por São João Baptista, o que transporta o etimólogo Carnide à aproximação daquele outro asiânico, Aragata, “Cordeiro Santo”, tanto valendo por Agnus Dei, afinal, atributo iconográfico do Anunciador.

Vestígios templários no adro da igreja de São Lourenço de Carnide

Vestígios templários no adro da igreja de São Lourenço de Carnide

A igreja de N.ª Sr.ª da Luz, mandada fazer pelo cavaleiro de Cristo Pêro Martins e inaugurada na supradita data de 8 de Setembro de 1464, pela Festa da Natividade de Nossa Senhora, recebeu então na sua capela a miraculosa do Orago, a cujo acto estiveram presentes o bispo de Lisboa, D. Afonso Nogueira, o rei D. Afonso V, a corte e muito povo, como descreveu Frei Roque do Soveral[23].

A imagem da Virgem miraculosa foi descoberta em 1463 por Pêro Martins, na pequena gruta sobre que assenta a igreja e cujo altar-mor ergue-se precisamente sobre a fonte de águas santas ou miraculosas, o que denuncia uma arquitectura de características geomânticas e levando, pelos atributos de luz ou fogo e água, a associar o Orago à própria deusa primitiva dos construtores-livres, Lusina, enquanto Lug está mais adiante, assinalado em São Lourenço na sua capela.

Com efeito, a imagem morenada da Senhora, junta ao seu atributo, Luz, não deixam de sugerir tratar-se da encapotada Virgem Negra Lusina, assim como a fonte milagrosa a capacidade miraculosa de Santa Brígida em fazer irromper nascentes, ambas ligadas a um tipo de culto notoriamente linfo-matriártico e cripto-lunar.

Pêro Martins deu com a imagem depois da Virgem lhe ter aparecido em sonhos repetidamente durante um mês, na altura em que estava prisioneiro dos mouros em Tânger, numa data incerta, talvez 1437, talvez 1459. As palavras consoladoras de Nossa Senhora ao desgraçado cavaleiro cativo, são reproduzidas pelo mesmo Frei Roque do Soveral:

“Filho, consola-te. Eu te livrarei do cativeiro em que ora estás. E como te livrar, ainda que sejas pobre e de parentes necessitados, não deixarás de fazer o que agora te digo. Irás ao lugar de Carnide no Termo de Lisboa, donde és natural, e fazer-me-ás sobre a Fonte da Machada uma ermida como tu puderes. E será a invocação de Santa Maria da Luz, por ser este o nome que me convém e de que meu Filho é servido me chame. Nesse lugar há-de ser meu nome glorificado, honrado e aumentado com muitas maravilhas e milagres que nele serão feitos por minha intercessão em muitas pessoas devotas. E quando chegares, já lá acharás de minha luz e claridade os sinais, que teus naturais hoje vêem sobre a mesma Fonte da Machada. Aí acharás (buscando-a) uma imagem minha, a que farás o que te digo, e nela mostrarei o que sou.”

Liberto o cavaleiro de seu cativeiro, graças à intercessão da Ordem dos Trinos ou da Trindade, logo se apressou a achar a imagem e dar início à construção do templo sobre a cripta donde, narram todos os autores, irradiava uma luz semelhante ao arco-íris, o que veio a ser grafado no topónimo actual do sítio e da titular: Luz. A própria fala lendária da Senhora ao cativo mais parece um incitamento à conquista do V.I.T.R.I.O.L.: Visita Interiora Terris Rectificando Invenies Occultum Lapidem – “Visita o Interior da Terra e rectificando encontrarás a Pedra Oculta”.

Como disse, Pêro Martins deu com a imagem na gruta donde irrompe a água milagrosa que vai alimentar a anexa Fonte do Machado ou da Machada, como já aparece grafada num documento de 27 de Maio de 1311. A sobredita era Urraca Martins Machado ou Machada, donatária de Chelas e freira cisterciense no mosteiro de São Bernardo em Carnide, cujos votos abandonou optando pela vida civil[24].

Regista-se a notícia de já em 1325 haver “casa religiosa” de freiras da Ordem de São Bernardo nesta freguesia de Carnide[25]. Igualmente os freires bernardos (cistercienses após a reforma da Ordem) aqui tiveram “casa religiosa” anexa à igreja de São Lourenço, os quais vieram do mosteiro de Seiça (Montemor-o-Velho, Coimbra), conforme noticiaram Frei Bernardo de Brito (in Crónica de Cister, pp. 854-855, Lisboa, 1720) e o Dr. Baltazar de Faria (in Corpo Diplomático Português, V, p. 242, Lisboa, 1874).

Como já foi dito, a hierarquia tradicional de valores dos Druidas celtiberos terá influenciado a posterior hierarquia Templária numa sociedade, repito, mais rural que urbana, desde a herança de conhecimentos tradicionais à respectiva ordenação escatológica. Inclusive pode fixar-se uma tabela de similitudes nas principais funções de ambas as estruturas, como sejam:

Igualmente encontra-se na arquitectura uma proximidade que liga por sua disposição de forte sentido simbólico a megalítica à medieval do Templo, como se regista principalmente na feitura dos kraks ou castelos deste, os quais originalmente englobavam a cidadela, tal qual os fortificados celtas incluíam a citânia, simbolismo denotado nas cidades lídias caracterizando-se por uma tríplice cintura muralhada que, aquém do sentido iniciático, as protegiam das investidas inimigas, como se verificou nas antigas cidades gregas de Lerna, Tirinto, Micenas, etc., e nas portuguesas de Leiria, Tomar, etc.[26]

Essa cintura muralhada tríplice, entre os citas que deram nos celtas, possuía um grande sentido simbólico, apresentando-se a disposição geral formada por três quadrados concêntricos ligados entre si por quatro linhas em ângulo recto, expressando as artérias principais.

Para Paul Le Cour e René Guénon[27], trata-se do simbolismo da “tríplice muralha” dos castros fortificados celtas cujo significado metafísico, além do utilitário imediato, os sacerdotes dessa raça, os druidas, vieram a propagar de tal maneira que acabou vulgarizando-se em várias formas de jogo, como o “jogo do moinho” e até, com menos traços mas não deixando de ser, na marcação dos campos de futebol.

Com efeito, para os druidas a “tríplice muralha” representaria os três graus da sua hierarquia sacerdotal: druida, vate e bardo, isto é, sacerdote, profeta e instrutor. O candidato ia subindo na hierarquia até chegar ao grau supremo, equivalente ao “Grande Centro” ou Pantheon dos Heróis dessa primitiva religião europeia, como já tive ocasião de dizer quando analisei figura idêntica à que está acima, gravada na parede lateral à entrada na Escola de San Rocco, em Veneza[28].

É assim que René Guénon classifica o significado esotérico das três muralhas como expressivo dos três graus básicos do sistema de iniciação, de tal maneira que o seu conjunto pode muito bem ser, de certo modo, a representação da hierarquia druídica como expressão tradicional do ensinamento iniciático. Com essa mesma explicação, o sentido das quatro linhas dispostas em cruz, que ligam as três muralhas, torna-se de imediato muito claro: serão os canais por meio dos quais o ensinamento da doutrina tradicional se comunica de cima a baixo, a partir do grau supremo, que é o depositário legal desse mesmo ensinamento, repartindo-se hierarquicamente pelos demais graus. A parte central da figura corresponderá, portanto, à “Fonte da Tradição”, de que falam Dante e os Fidelli della Amore, e a disposição crucial dos quatro canais que dela partem identifica-se aos quatro rios do Pardes ou Paraíso. Nesse caso, o centro da figura, como “Fonte da Tradição”, corresponde à Autoridade Espiritual ou Sacerdotal, e os canais subalternos expressam o Poder Temporal ou Real, onde a interacção entre os dois poderes é permanente mas com o primeiro revelando-se pelo segundo, tal qual o Paraíso Celeste se manifesta no Paraíso Terrestre, assim como o Centro Supremo do Mundo (Salém, Shamballah, etc.) se revela nos Centros Sagrados esparsos pelo mesmo Mundo.

Na Idade Média e um pouco por toda a Europa, também foram construídos castelos com tríplice muralha em lugares previamente assinalados pela Tradição Primordial como sendo propícios a uma maior proximidade ao Mundo Espiritual por via das poderosas energias telúricas aí concentradas, e igualmente das boas conjunções dos astros auspiciando esses assim consignados “lugares mágicos”, o que se conformava às primitivas regras das leys.

A “tríplice muralha” medieval acabou assimilando o significado que tinha entre os celtas e veio a assinalar a hierarquia da Cavalaria: cavaleiro, escudeiro e pajem, cuja evolução do candidato à nobreza das armas começava do mais exterior para o “Grande Centro”, este representado pelo rei do país ou pelo governador do lugar.

Também na Idade Média mas para a espiritualidade judaico-cristã, essa figura geométrica sintetizava o sentido do bétilo, ou seja, da “pedra sagrada, considerada como morada de um deus”. É assim que aparece a figurar o próprio Templo de Salomão, em Jerusalém, como o descreve a Bíblia (I Reis, 7:12), com a sua tríplice cintura que separava o povo dos levitas e estes do sumo-sacerdote, o único com acesso ao centro onde estava o “Santo dos Santos” (Sanctum Sanctorum), lugar reservado à Arca da Aliança. Como o Templo de Salomão representava o próprio Paraíso Terrestre, então o simbolismo geométrico da “tríplice muralha” será, em última análise, figurativo desse mesmo Éden Primordial.

A haver Paraíso Terreal haverá Paraíso Celestial como seu modelo, o qual é indicado no Apocalipse (21, 11:22) como a Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados. Para que a figura geométrica a represente, deve colocar-se diagonalmente as quatro linhas em cruz em relação aos dois quadros extremos, a fim do espaço compreendido entre eles ficar dividido em doze triângulos rectângulos iguais, simbolizando as doze portas do Paraíso Celeste.

Do ponto de vista do simbolismo numérico, o conjunto dos três quadrados forma o duodenário, e dispostos da forma assinalada por último em relação à Jerusalém Celeste, vêm a constituir a figura pela qual os antigos inscreviam o Zodíaco (como se vê numa inscultura junto às “escadinhas dos clérigos (trinos)”, em Sintra), o que vai muito bem por a mesma Jerusalém Celeste expressar o Universo inteiro, tal qual o Zodíaco.

Essa figura também era considerada como a da Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados, o que possui uma relação evidente com o significado que se indicou para a figura quadrangular da tríplice muralha, a qual  significa o Paraíso Terrestre. É exactamente esta formação geométrica de sentido astronómico que se repara numa inscultura Templária à entrada da igreja de S. Pedro em Óbidos, terra natal do almirante-mor do Templo, D. Fuas Roupinho.

Para denominaram as supracitadas muralhas, os latinos dispunham de um termo de origem iraniana: pari, o qual aparece no composto pari-daiza, ou seja, “cintura” (pari) e “modelo” (daiza). Paridaiza ou Paradhesa é a arquetípica das palavras hindu-europeias indicativas de Paraíso.

Tudo leva a crer que no interior dos seus kraks os Templários terão criados núcleos sinárquicos no esforço imediato de reproduzirem o Paraíso de Deus, de qual fala o inspirado St.º Agostinho na sua magistral Civitas Dei, e decerto por isso regiam-se no seu meio por regras muito suas, sem darem satisfações detalhadas do que faziam a ninguém de fora, inclusive ao papa e ao rei.

De maneira que a simbiose entre a Jerusalém Celeste e o Paraíso Terrestre, representado no plano imediato da Tradição pela Jerusalém Terrestre, tem a sua expressão efectiva no relacionamento entre a Autoridade Espiritual e o Poder Temporal, entre o Sacerdócio e a Realeza, esta encontrando a legitimação por aquela. Isto mesmo pode ser lido no Midrash Tankhuma, obra teológica judaica que trata da relação entre os dois Poderes Espiritual e Temporal, simbolizados pela Jerusalém “axis coeli” e a Jerusalém “axis terris”, na qual São Bernardo acaso terá se inspirado para o seu Louvor à Nova Milícia e inclusive ingerir na escritura da Regra. Diz esse texto judaico:

“Vós vereis que existe uma Jerusalém do alto que corresponde à Jerusalém de baixo. Por amor da Jerusalém terrestre, Deus fez uma no alto. Eu não entrarei na Jerusalém Celeste antes de ter entrado na Jerusalém Terrestre.”

Por essa razão primaz da divindade e universalidade da simbólica Jerusalemita, é que os Templários cunharam moeda com a efígie do Templo de Salomão de que se assumiam, afinal, guardiães, certamente não tanto das suas ruínas mas mais da Tradição Primordial representada pelo mesmo, indo reflectir-se no binómio sinárquico Autoridade-Poder, o qual certamente conheciam e exerciam, como se observa no testemunho deixado nas figuras decorativas de vários edifícios que construíram, por exemplo, a igreja de São Pedro de Rates, no Minho, onde junto à pia baptismal lavraram na pedra duas figuras: um bispo com o báculo na mão esquerda faz o sinal hierático com a destra a um rei coroado, com uma mão no peito e a outra empunhando a espada. Cena de sagração e investidura: bispo e báculo dominando = Autoridade Espiritual; rei e espada dominado = Poder Temporal. Algo idêntico a Purusha originando Prakriti, ou seja, o Espírito dar de si a Matéria, o que reverte novamente ao conceito da Jerusalém Celeste e Terrestre, paradigmas máximos da Autoritas e da Potens.

Para terminar e volvendo ao celticismo, a corrente celta pôde sobreviver culturalmente através do Templo e continuar, em boa parte através da cultura rural, após esse dar desenvolvimento aos Monges-Construtores, por um lado, e aos Rosa+Cruzes, por outro. Destes últimos brotaram as posteriores Correntes Iniciáticas do Ocidente, com o propósito único de restaurar os laços psicossociais e espirituais rompidos, após a destruição do Templo, entre o Oriente e o Ocidente, e assim contribuírem universalmente para a restauração da Tradição Primordial e consequente edificação de uma Sociedade Humana mais justa e perfeita.

NOTAS

[1] Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal (Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2000 e 2002.

[2] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[3] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

[4] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta (Capital do V Império). Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Abril de 2007.

[5] Sonja Ulrike Klug, Catedral de Chartres (A Geometria Sagrada do Cosmos). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2002.

[6] Rafael Alarcón, A la Sombra de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1986.

[7] Rudolf Steiner, Centres Iniciatiques (Origines-Influences). Editions Anthroposophiques Romandes, 13, Rue Verdaine, 1204 Genève/Suisse, 1977. T.G.E. Powell, Os Celtas. Editora Verbo, Lisboa, 1965.

[8] Acerca do culto lunissolar Lusitano, transcrevo uma passagem importante do livro do professor Adriano Vasco Rodrigues, Os Lusitanos, Mito e Realidade. Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998:

“O culto solar, saído das épocas mais remotas do Neolítico e do Bronze, aparece testemunhado em documentos arqueológicos do período romano. Prende-se às festividades solsticiais, expressas nas orvalhadas da manhã de S. João, e aos festejos desse dia, inclusive as danças de purificação, que originariamente só incluíam a passagem do gado pelo meio de filas de fogueiras. O sacrifício do cordeiro sobrevive na imolação do anho, que serve as ceias da noite de S. João, entre os povos do Norte, com particular relevo para o Porto. Liga-se ao Solstício. Sabemos que os Lusitanos efectuavam danças religiosas nas noites de plenilúnio. Os planetas Marte, Vénus e Lua seriam motivadores de danças rituais. O culto da Lua, nas populações lusitanas, prende-se à estrutura económica ganadeira, e no Norte da Península, ao matriarcado, por influência daquela nos ciclos menstruais.”

[9] Raymundo de Burlet, Pitágoras e os Druidas. Revista “Dhâranâ”, Ano XII, n.º 103, Janeiro-Março 1940, Rio de Janeiro. Ten. L. Verdera Franco, Galicia, celta. Revista “Ejército”, Março, 1969.

[10] Jorge Ramos, O que é a Maçonaria. Editorial Minerva, Lisboa, 1983.

[11] Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo, 1974.

[12] Cf. Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Paisagens Arcaicas, vol. I. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Março de 2004.

[13] Cf. Francisco Hipólito Raposo, Estremadura e Ribatejo em passeio de braço dado. Edição da Mobil Oil Portuguesa, Março de 1987.

[14] Vitor Manuel Adrião, Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Março de 2007.

[15] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1988.

[16] As sete Horas canónicas distribuíam-se ao longo do dia do seguinte modo: 1.ª Matinas (24 horas) e Laudes (3 horas); 2.ª Prima (6 horas); 3.ª Terça (9 horas); 4.ª Sexta (12 horas); 5.ª Nona (15 horas); 6.ª Vésperas (18 horas) e 7.ª Completas (21 horas).

[17] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006. E Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, 2007.

[18] D´Arbois de Jubainville, El Ciclo Mitológico Irlandés. Vision Libros, Barcelona, 1981.

[19] Alonso de Villegas, Flos Sanctorum. Barcelona, 1775.

[20] In Místicos, Livro 3.º, fl. 138 vº, A.N.T.T., citado por José Baptista Pereira, Memórias de Carnide, 1914, pág. 169.

[21] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Idades do Ouro, vol. III. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Agosto de 2004.

[22] Na Idade Média e durante a Renascença, as leys consistiam em padrões ou alinhamentos de faixas ou linhas invisíveis cuja potência teoriza, demarca e liga entre si determinados espaços sagrados e naturais como lugares mágicos. Hoje essa teoria antiga já perdeu o seu foro de ciência tradicional e é apresentada pelas hodiernas crenças neo-espiritualistas que a popularizam como radiestesia, energia psíquica ou mística, etc.

[23] Frei Roque do Soveral, História do insigne aparecimento de N. Senhora da Luz e suas obras. Lisboa, 1610.

[24] Pedro A. de Azevedo, Urraca Machado, Dona de Chelas, in Archivo Histórico Portuguez, III (1905), p. 10, documento VII.

[25] Pedro A. de Azevedo, ob. cit.

[26] Juan G. Atienza, la mística solar de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1983.

[27] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, S. Paulo, Brasil.

[28] Vitor Manuel Adrião, Guia de Veneza Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010.

Santos e profetas da Ordem do Templo (Santoral Templário) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jun 1 2016 

O Cristianismo dos primeiros tempos na Europa caracterizava-se por grupos de cristãos vivendo em regime de reclusão anacorética onde campeavam santões e profetas de poucas letras mas de muito fundamentalismo religioso, o que os convertia, não raro, em milenaristas instigadores das multidões crentes à realização dos mais diversos e incríveis propósitos. A autoridade eclesial ainda não dominava plena, os movimentos cristãos floresciam sem regra alguma, numa desorganização selvagem, de maneira que era usual o bizarro confundir-se inextrincavelmente com o bom senso, vendo-se assim o fanatismo de líderes religiosos carismáticos levar os sequazes a campanhas de saque e morte contra aqueles que consideravam hereges, muito particularmente os judeus e depois os árabes, mas não se excluindo de também atacarem cristãos considerados “transviados” do seu entendimento particular da doutrina. Em suma, a maioria dessa seitas era pouco mais que bandos de arruaceiros e salteadores, em nome de propósitos religiosos pouco ou nada claros apregoados pelos seus líderes.

Se bem que não fosse o panorama geral, pois deve-se excluir os conventos e eremitérios sujeitos a alguma regra de vida, como foi o caso dos beneditinos de São Bento de Núrsia que uniu a Cristandade Oriental à Ocidental, a verdade é que aparte essas felizes excepções o Cristianismo que campeou entre os séculos V e XII na Europa pouco mais era do que um módulo religioso completamente anárquico sem ordem nem ortodoxia algumas, algo assim parecido com o moderno fenómeno urbano do «new age».

Seria São Bernardo de Claraval (século XII), e no século seguinte São Francisco de Assis, quem poriam ordem e disciplina na estrutura claustral e clausural da Igreja. Da mesma maneira, seriam os templários (século XII) quem transformariam de vez a Cavalaria em exército regular disciplinado, invés de bandos de mercenários e saqueadores como os havia por toda a parte até então.

De maneira que os profetas populares desde muito cedo campearam pela Europa rural, com o seu carisma e verbo inflamado arrastando multidões atrás de si e, não raro, desfechando nos maiores desmandos. Exemplo típico disso, foi o que aconteceu no ano 590 d. C., no Sul do Reino dos Francos (França actual), onde apareceu um camponês da região do Berry, com pressupostos dons de adivinhação e cura, que afirmava ser o próprio Cristo. Ganhou fama, foi adorado como um rei, turba enorme de miseráveis e camponeses seguia-o por toda a parte. Acirrou os seguidores a atacar os viajantes e as propriedades, saqueando-as e dividindo os bens entre os indigentes. Pregava contra os bispos, ameaçava e matava quem o perseguisse. Provocou o maior alvoroço e terror. Por fim, o exército do bispo Aurélio, da cidade de Puy-en-Velay, conseguiu cercar o bando e dizimá-lo após luta sem quartel, durante a qual foi morto o falso Cristo.

O terror do fim do mundo no ano 1000 trouxe novos milenaristas, anunciando a da boa-nova de estar próximo o tempo da Jerusalém Celeste reaparecer sobre a Terra e o reinado dos heréticos estar prestes a findar. Para tanto, devia-se acelerar o processo e encetar santa cruzada à terra que Nosso Senhor pisara e expulsar dela, a golpes de espada, todos os infiéis, fossem judeus, fossem muçulmanos.

Às gentes dos séculos X-XI não faltavam messias e profetas que por sinais, prodígios e milagres lhes anunciavam o mundo estar chegando ao fim, infundindo-lhes o maior terror. De maneira que era comum ver estrelas cadentes ou nuvens vermelhas como sangue rumando em direcção a Jerusalém. Fala-se que até mesmo animais, como galos, gansos, outros pássaros e até peixes, dirigiam-se para o Oriente, e logo eram seguidos por bandos de cristãos fanáticos iletrados crentes da Jerusalém Celeste estar prestes a aparecer na Terra.

Foi nesse controverso ambiente milenarista que teve início o fenómeno de Pedro de Amiens, o Eremita. Afirmava ter recebido uma mensagem do Céu em que Deus lhe ordenava que libertasse a Terra Santa. O religioso francês iniciou a sua pregação inflamada e comovente juntando em Colónia um enorme séquito de mendigos, camponeses, mulheres, crianças, velhos e alguns cavaleiros sem honra nem fortuna. Havia terminado há pouco o Concílio de Clermont (1095). Os discursos de Pedro, o Eremita, iam na direcção de se organizar cruzada à Terra Santa. Conseguiu organizá-la com a desorganização que havia. Assim, em Abril de 1096, formou-se a Cruzada Popular ou dos Mendigos com cerca de 17.000 pessoas, movimento que caracterizou o misticismo milenarista da época formado à margem da autoridade pontifícia, portanto, antecedendo a primeira cruzada oficial (1096-1099), chamada de Cruzada dos Nobres, dos Cavaleiros ou dos Barões, por nenhum rei ter participado nela.

Essa cruzada extraoficial partiu de Colónia em direcção à Terra Santa, tendo como líder Pedro, o Eremita, e como seu capitão d´armas um cavaleiro franco aventureiro sem fortuna nem honra, Gautier Sans-Avoir (Galtério Sem Vintém). Não fazendo distinção entre judeus e muçulmanos, esses cruzados por conta-própria ao chegarem à Renânia massacraram os judeus que aí haviam, e o que sobrou foi repasto para saque geral. Prosseguiram a marcha caótica para Jerusalém, mas na Anatólia defrontaram-se com o exército turco que dizimou a quase todos. Os que sobreviveram, dentre eles Pedro, o Eremita, procuraram refúgio em Constantinopla, corria o 1.º de Agosto de 1096, sendo acolhidos pelo imperador bizantino Alexius Commeno I. Mas logo o bando de maltrapilhos, esquecendo a sua crença obscura pela ganância a que a miséria levava, começou a saquear a cidade, pelo que o imperador obrigou-os a alojar fora dela, perto da fronteira muçulmana, instigando-os a atacarem antes os infiéis. Assim fizeram. Os que não desmobilizaram antes, ou morreram pelas armas em mãos destras ou acharam a escravatura certa. Por aí terminaram os dias da saga aventureira de Pedro, o Eremita, possivelmente encontrando a morte no anonimato de algum convento bizantino que dele se apiedou e o acolheu.

Pedro, o Eremita, aponta o caminho de Jerusalém aos cruzados (iluminura francesa, cerca de 1270)

Pedro, o Eremita, aponta o caminho de Jerusalém aos cruzados (iluminura francesa, cerca de 1270)

Obviamente não terminou aí a série caótica de messias e profetas populares. Como mais um exemplo, nos meados do século XII apareceu na Bretanha, Norte de França, um tal Eudo de Stella, misto de pregador de verbo fácil inflamado e salteador. Pregava uma doutrina libertária e libertinista. Vivia como rei entre os seus e incitava-os a atacar as aldeias e os mosteiros, não poupando as mulheres ao estupro, cultuando-se também a sodomia entre homens agradados do sexo igual. Eudo de Stella acabou preso em 1148 pela tropa comandada pelo arcebispo de Reims, numa altura em que se realizava concílio nessa cidade com a presença do Papa Eugénio III. Levado diante deste e lhe perguntado quem era, o messias respondeu arrogante: “Eu sou Eudo, que veio julgar os vivos e os mortos e o mundo pelo fogo!” O falso profeta e os seus adeptos foram julgados e condenados à fogueira.

Esse tipo de messias e profetas visionários, é bom que se diga, constituiu-se como elemento marginal à autoridade eclesiástica, à ortodoxia tanto religiosa como política estabelecidas, pelo que qualquer hodierna tentativa espúria de associar as suas palavras e actos às dos cavaleiros templários estabelecidos com Ordem e Regra, não passam de mera coincidência e puro descontexto, talvez por ignorância da lei de direito canónico a que se conformava a política social medieval, e com isto partindo da mais elementar premissa dos cavaleiros do Templo serem parte reconhecida da legalidade política sujeita à ortodoxia eclesial da época. Por conseguinte, não eram marginais aventureiros, arruaceiros e salteadores desafiando qualquer autoridade, tampouco santões, profetas e adivinhos por conta-própria: eram reconhecida Milícia Regular da Igreja composta por cavaleiros de nobreza universalmente reconhecida, logo, de acesso livre a qualquer trono, a qualquer corte, assim como a quaisquer paços episcopais, para não dizer, ao próprio Papa.

Da mesma maneira os santos do seu culto, todos eles beatificados e santificados pela autoridade apostólica, desde logo reconhecidos e aceites pela Igreja Universal. Não importa a interpretação esotérica ou gnóstica que possa ser dada dada a alguns desses santos, o que importa é que estão dentro da mais rigorosa legalidade apostólica, com isso e tanta devoção a eles só poderia reflectir “os templários como bons e os melhores dos cristãos”, como reconhecia o rei de Aragão, Jaime II, o Justo.

Nesse sentido, os cavaleiros templários tiveram uma especial devoção por oito santos reconhecido no Canónico, obviamente além de a Cristo Glorificado: São Miguel Arcanjo, São João Baptista, São João Evangelista, São Tiago, São Lourenço, São Gregório, São Bartolomeu e São Julião Hospitalário. No seu Santoral também distinguiram outros: São Gil e São Ginário, São Brás, São Sebastião e São Pantaleão. Quanto a santas, além de Nossa Senhora, sobretudo a do atributo soberano Santa Maria Maior, e de Santa Maria Madalena, veneraram especialmente a: Santa Iria, Santa Luzia, Santa Catarina e Santa Águeda.

Padre templário (gravura do século XIX)

Padre templário (gravura do século XIX)

Entre os santos protectores dos templários encontra-se San Durán (ou São Durando), não sendo senão o cavaleiro frei Guillem Duran, o único santo que foi templário, cuja vida piedosa levou-o a ser venerado como beato nos altares até meados do século XVII, como reflectiu o padre Domenech no seu escrito sobre os santos catalães. A sua ascensão à santidade foi a justa recompensa à sua vida abnegada, dedicada por inteiro a velar pelos cátaros, pelos peregrinos e por outros grupos humanos que fugindo às fogueiras, às cruzadas contra as heresias e aos horrores da Inquisição no Languedoc, cruzavam em condições penosas a barreira dos Pirenéus na direcção Sul, procurando sobreviver àquele barbárie buscando refúgio seguro em solo ibérico, fixando-se em Aragão e na Catalunha sem mais expansão para o extremo ocidental da Península, como tive oportunidade de confirmar tanto no lado francês como no espanhol da citada cordilheira.

Em desacordo tanto com os amadores da História afirmando a presença cátara em Portugal nos séculos XIII-XIV, sem nenhum indício documental e/ou monumental concretos e só analógicos facilmente desmentíveis, a qual como Igreja regular findou definitivamente em Trezentos vítima da Cruzada contra os Cátaros e Albigenses promovida pelo Papado em Avinhão e em Roma, de que restam só algumas memórias e costumes etnográficos na região de Albi, Sul de França, como igualmente com Antonio Galera Gracia que afirma nunca ter existido qualquer San Durán por o santoral católico não o registar (mas isso possivelmente por ser um santo “marginal”, que o dédalo censório do Eclesiástico hostil ao evoco da Ordem do Templo encarregou-se de apagar a memória)[1]. Contudo, San Durán (século XIII) é descrito como nascido e vivido na comarca catalã da Cerdanya (actuais províncias de Girona e Lleida). Frei Guillem Durán desafiou a Inquisição, cujos frades dominicanos levantavam fogueiras para queimar vivas, ou em efígie, a centenas de pessoas condenadas como hereges. O templário ajudava esses desgraçados a transpor os precipícios da cordilheira pirenaica através dos estreitos e perigosos carreiros do Caminho dos Bons Homens, que liga o castelo de Montségur (Aiège), ao Norte, com o santuário catalão de Queralt (Berga), ao Sul, onde se presta culto a uma Virgem Negra. San Durán também escreveu uma obra que não tardou a ser condenada pela Igreja: Rationale Enchyridion Divinorum[2]. Após a queda em desgraça do Templo, a memória dos restos mortais do piedoso frei cavaleiro não tardou a ser apagada de Puigcerdà e do resto da comarca de Cerdanya, juntamente com todos os outros testemunhos templários, de que ainda resta o campanário de Santa Maria em Puigcerdá. Aqui, San Durán recebeu sepultura na igreja de São Bartolomeu, e depois de morto continuou a fazer milagres em favor das gentes daquelas terras. Assim, converteu-se no protector dos perseguidos. Lamentavelmente, não se conseguiu conservar os seus restos, porque a igreja de São Bartolomeu foi destruída no ano de 1936 até às suas bases, durante a Guerra Civil de Espanha[3].

Campanário de Santa Maria em Puigcerdá, Catalunha

Campanário de Santa Maria em Puigcerdá, Catalunha

No contexto dos santos e profetas coevos dos Templo ou mesmo pertencentes a este, vem a aparecer o nome de Jean de Vézelay, dito Jean de Mareuil ou João de Jerusalém, pressuposto profeta templários que teria escrito em francês medieval, a langue d´oil, 40 premonições, entre 1117 e 1119, quando se encontrava como peregrino junto aos cruzados em Jerusalém.

Esse profeta João teria nascido em 1042 e acompanhado os cruzados à Terra Santa, onde chegou em 1099. Já no final da sua vida teria escrito aí, em Jerusalém, os seus vaticínios, num estilo escorreito e simples, preanunciando de forma apocalíptica eventos que se perspectivavam num horizonte temporal vindo do milénio em que viveu até ao milénio que se iniciou no ano 2000. Beneditino, abraçara a Regra no mosteiro de Vézelay, França, ficando notícia dele como um dos seus priores. Muito viajado, há também notícia de ter feito várias peregrinações a Santiago de Compostela e se deslocado a Bizâncio, onde integrou a Cruzada a Jerusalém, segundo M. Galvieski[4].

Esse professor Galvieski diz ter descoberto por acaso o manuscrito original das Profecias de João de Jerusalém nos inícios de 1942, na biblioteca pública da comunidade judaica de Varsóvia, pouco antes de ser saqueada pelos nazis. O autor não informa se chegou a copiar o documento. A verdade é que o gueto de Varsóvia foi completamente saqueado e arrasados pelos nazis, indo o saque parar à Alemanha de Hitler. Após a conquista deste país pelas forças aliadas também estas se entregaram ao saque, tendo assim procedido com especial dedicação o exército soviético em Berlim. De maneira que, ainda segundo Galvieski, entre os finais de 1992 e os inícios de 1993 ele tornaria a descobrir o documento das Profecias, dessa feita na Rússia, nos arquivos do mosteiro da Saint Trinité de Saint-Serge em Zargorsk, perto de Moscovo.

Em 1994, o professor Galvieski publicaria esse insólito documento, tendo-o traduzido para o francês moderno[5]. De então para cá, o texto foi sucessivamente editado por outros nas suas respectivas línguas (francês, inglês, alemão e espanhol). Pessoalmente tenho dúvidas – iguais no respeitante à veracidade das pressupostas cartas trecentistas de Larmenius, parecendo-me simples invenção para «provar» que a Franco-Maçonaria e todas as correntezas templistas aparecidas nos séculos XVIII-XIX são herdeiras directas da original Ordem do Templo – quanto à veracidade do mesmo, tanto mais que há severas semelhanças entre o que está escrito nele e as profecias do Vishnu-Purana e mesmo o que Ferdinand Ossendowsky descreveu no clássico Animais, Homens e Deuses, o que se agrava com a ausência em muitos pontos do estilo literário medieval. Por outro lado, para contrapor à minha dúvida, a dado passo das suas Profecias João de Jerusalém refere Heródoto e continentes imensos para além das Colunas de Hércules, apontando claramente a África e a América. Pois bem, na catedral do mosteiro de Vézelay, terminada em 1140, encontram-se pinturas murais com representações fantásticas dos diferentes povos do mundo (gigantes, pigmeus, etíopes, etc.), as quais estão inteiramente conformadas às descrições fornecidas pelo mesmo Heródoto. Isto não deixa de ser significativo.

Pórtico de entrada na catedral do mosteiro beneditino de Vézelay, França

Pórtico de entrada na catedral do mosteiro beneditino de Vézelay, França

Por outra parte, temo a invenção de um novo “protocolo secreto” tal qual foram inventados, também na Rússia, os “Protocolos dos Sábios de Sião”, e agora este sendo aproveitado de todas as maneiras para justificar as mais extravagantes “teorias da conspiração”, como aqueles o foram para justificar as mais bizarras e sanguinárias “teorias xenófobas”.

Apesar de tudo, como o texto integral nunca foi dado em língua portuguesa, considerei ter chegado o momento de traduzi-lo da versão francesa apresentando-o, sem  mais nenhum comentário, ao critério de sua mais ou menos valia à consideração exclusiva do leitor de obra antiga minha[6], editada e reeditada desde os anos 90, com o que aqui termino.

NOTAS

[1] Antonio Galera Gracia, La verdadeira historia de la Orden del Temple de Jerusalén a la luz da documentación histórica. Editorial Edaf, S. L., Madrid, 2008.

[2] Cf. Anacleta Sacra Tarraconensia, Vol. XXXIX, MCMLXVI, Fasc. 2.º: Julio-Diciembre.

[3] Jesús Ávila Granados, El santoral templario. In Codex Templi, Santillana Ediciones Generales, S.L., Madrid, Abril 2006.

[4] Juan de Jerusalén, Las profecias de los templarios. Introdução, notas, textos e epílogo de M. Galvieski. Ed. Tikal, Girona, 1996.

[5] Le Livre des Prophéties – Le troisiéme millénaire révélé – de Jean de Jerusalem, traduit par M. Galvieski, qui a découvert le manuscrit du Livre des Prophéties. Ed. J. C. Lattés, 1994.

[6] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora, São Paulo, 2011.

Projecto “Fátima Subterrânea” – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, May 19 2016 

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No início do ano 1998 fui convidado pela Firma Risco, do senhor arquitecto Vittorio Gregotti, a concorrer, em nome dela, ao concurso de decoração sacra de um futuro espaço subterrâneo, onde caberiam cerca de sessenta mil pessoas, a nascer sob a praça defronte ao Santuário de Fátima, o de maior afluência Mariana do Mundo. Isso por já não caber mais gente, sempre a aumentar em número, no recinto exterior e as condições deste serem pouco abonáveis ao conforto dos que piamente aí vão.

Ponderei o convite. Acedi e concorri. A minha Proposta (datada de 7.3.1998) de decoração sacra de dois “grandes espaços cobertos para assembleias” (GECAS) gorou-se, não por motivos culturais-religiosos (em cujo projecto iria dispor de vasta equipe dos mais renomeados desenhistas, pintores, ceramistas e escultores preferencialmente só portugueses) mas simplesmente por razões económico-fiduciárias, conforme alegou como desculpa a Reitoria do Santuário. Foram apresentadas ao concurso três propostas, cada uma de um país diferente. Perderam a meu favor os espanhóis e perdi a favor dos gregos, apesar do minha Proposta ter merecido Menção Honrosa. Seja como for, o facto é que perdi e como essa Proposta agora só serve para enriquecer o curriculum pessoal – vendo as obras concluídas pelos gregos nessa nova igreja defronte ao Santuário na qual não caberão mais de seis a nove mil pessoas, cujo custo final duplicou ou triplicou (fala-se em setenta milhões de euros mais dez milhões para acabamentos) sobre o orçamento inicial, ultrapassando em largos milhões de euros a Proposta portuguesa que iria ficar bem num lugar de culto todo ele português, mas que a cúria romana não quis – achei por bem, invés de a abandonar e esquecer numa gaveta, trazê-la aqui para mais-valia do enriquecimento cultural e espiritual do leitor, acrescendo à Proposta o significado esotérico, aqui revelado mas que não fiz junto da cúria romana, subjacente ao imobiliário decorativo dos dois espaços – duas assembleias, o que engloba duas igrejas.

No íntimo persegui aquilo que o Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, nos inícios do século XX, idealizou e realizou na arquitectura e decoração da sua Quinta da Regaleira em Sintra: deixar um testamento esotérico e exotérico (velado e desvelado, racional e confessional afins à teologia e à catequese) à posteridade, ao entendimento iluminado e à devoção popular.

Enfim, Carvalho Monteiro conseguiu realizar. Eu, somente idealizar… contrariado pelos fortes “lobbies” dos poderes económicos.

Antes de adentrar a exposição da minha Proposta, acho por bem discorrer um pouco sobre a génese histórica e espiritual da vila de Fátima (hoje elevada a cidade, no sopé da serra de Aire que fica no concelho de Leiria), e igualmente aflorar o fenómeno das aparições da Virgem aos três pastorinhos aí, na Cova da Íria.

Assim, ter-se-á de recuar ao ano 1158 quando a metade Sul de Portugal, do Tejo ao Algarve (Al-Garb transposto a Allah-Garden, “Jardim de Deus” postado no “Ocidente” ou Garb), era ainda território do Islão. Numa manhã de São João desse ano longínquo, conta a lenda assumida história, saiu do castelo de Alcácer do Sal (antiga Salácia romana, depois a árabe Al-Cassir, “O Castelo”, ainda assim prevalecendo aquela nos salacianos) um garrido cortejo moiresco de moços e moças indo em alegre inocência divertir-se nas margens do rio Sado.

Mas eis que os jovens moiros caem numa emboscada preparada pelos cavaleiros portucalenses chefiados pelo temível “tragamoiros” D. Gonçalo Hermingues. Os que se salvaram da surtida foram feitos cativos e levados para Santarém, à presença de D. Afonso Henriques. Como recompensa do feito pelo capitão cristão, o rei concedeu-lhe a mão da mais bela das cativas: Fátima, filha do walî da wilaya alcacerense, tendo esse nome por se a considerar da descendência directa de Ismael, portanto, de linhagem fatimida originada naquela outra Fátima, quinta filha do profeta Mahometh.

Desposada à-força com o cavaleiro infiel e batizada cristã, por certo também à-força, a bela Fátima recebeu o novo nome de Oureana (que faz lembrar o de Orejona, a deusa Vénus que veio povoar a Terra como contam as tradições maias e polinésias). Com esse laço nupcial mesclou-se o sangue real de Borgonha com o sacerdotal Fatímida, para não dizer, o patrístico e o matrístico em que afinal assenta a Patrologia Lusitana, e assim, em conformidade aos documentos disponíveis anteriores ao século XIX, desde já podendo afirmar não ter havido nenhuma surtida, nem emboscada e tampouco matança, a não ser na fantasia romântica de certos autores oitocentistas. A haver núpcias terá sido com consentimento mútuo por afeição mútua, podendo-se muito bem concluir que o cavaleiro cristão e a donzela moira estariam deveras enamorados entre si. Se nas bodas esposais esteve presente a Ordem do Templo, a Tradição informa que essa servia de “escudo defensivo” a uma outra muito mais secreta e soberana de quantas haviam na Península Ibérica, a Ordem de Mariz, a real emissora da aprovação do consórcio através da Ordem do Templo que estava para a Ordem de Mariz como estava a Ordem de Santa Maria de Montesa do lado espanhol. Essa Milícia, publicamente, exercia funções idênticas às que exerceu a portuguesa Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas internamente, cerrada ao século, seria dinamizada pelos próprios raros mas insignes confrades da Ordem de Mariz, os “Caballeros del Grial”, como os consignou o ilustríssimo Dr. Mário Roso de Luna nos volumes da sua Biblioteca das Maravilhas.

A História conta-nos que a Ordem Militar de Santa Maria de Montesa, ramo aragonês saído do Templo, remonta à sua aprovação pontífica por João XXII e reconhecimento do rei Jaime II de Aragão em 10 de Junho de 1317, recebendo a Regra da Ordem de Cister. Extintos os templários no território aragonês a despeito dos protestos de Jaime II, o Justo, em 1312, o monarca temeroso que numerosos bens do Templo caíssem na posse de estranhos ao reino e à Ordem, solicitou do papa Clemente V autorização para constituir Milícia que substituísse aquela e tomasse a seu cargo as suas propriedades móveis e imóveis. Não foi atendido por esse papa e sim pelo seu sucessor João XXII, tendo-lhe enviado a bula de aprovação da nova Ordem, assim adjudicando à Ordem de Montesa todos os bens que os templários possuíam em território aragonês. O castelo de Montesa, no reino de Valência, foi a sede da nova institução militar, motivo aparente do nome adoptado para ela. Os seus membros deram muitos exemplos de heroísmo e esplendor, batendo-se em campanhas tanto dentro como fora da Península. A insígnia adoptada por ela, após várias vicissitudes, é a de Alcântara, em sable, com uma cruz plana de goles.

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Pois bem, recorrendo aos anais ocultos da Tradição Espiritual da Península Ibérica, verifica-se que Afonso Henriques, (Anrique, o Terrível, ou melhor, El Rike ou Allah-Rishi, o Rei Divino) era na época o próprio Chefe Supremo da Soberana Ordem de Mariz, consequentemente, esta terá na sua real pessoa apadrinhado os esposais Hermingues e Oureana nos paços de Santarém. Dessa maneira o sangue lusitano se fundiu na fina essência arábica, nomeadamente a de Fátima, para todo o efeito, tronco delfim feminino do próprio Profeta assim expressando a Allatah, a Mãe Divina na Fé corânica, tal qual Ester e Maria as são para judeus e cristãos. Fátima (português), Fatmah (árabe) ou Fathan (aghartino), como “libertadora das mentes humanas pela insuflação de novas ideias”, aquivale ainda à Sakali hindu, a Goberum atlante em quem a “Estrela” Algol incarnou, a fim de tornar-se Rainha de Agharta.

Essas são realidades sibilinas que se velam no críptico da mais Alta Iniciação, para todo o efeito, sendo facto provado a união consanguínea de duas castas raciais opostas, com isso unindo a Haste Lunar da Tradição à Haste Solar da mesma, passando o touro de Ismael e o cordeiro de Cristo a pastar juntos no mesmo prado pastoral.

Afonso Henriques fez oferta da vila de Abdegas aos recém-casados, e então o lugar mudou de nome tomando o da sua nova dona Oureana, hoje Ourém.

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Quando Oureana entregou ainda moça a alma a Deus, Gonçalo Hermingues, desgostoso, abjurou ao mundo e fez-se monge na abadia cisterciense de Alcobaça, a trinta quilómetros de Ourém, recentemente fundada a pedido do próprio S. Bernardo de Claraval e que funcionava além de mosteiro como escolástico, deixando mesmo supor, como vários indícios documentais transpiram, a presença da praxis heterodoxa própria de um colégio iniciático, nessa que foi a Casa-Mãe da Ordem de Cister em Portugal.

Com o passar dos anos, os cistercienses alcobacenses quiseram fundar um outro mosteiro da serra mesmo ao pé. Como rezam as crónicas, foi ao próprio frei Gonçalo Hermingues atribuída essa incumbência, por certo por sua virtude e dedicação. Apenas terminada a capela, apressou-se a mandar trasladar para lá o corpo da saudosa esposa amada, aí ficando para sempre sem nenhuma inscrição a assinalar a sepultura. Em volta desse mosteiro um pequeno povoado edificava-se a breve trecho: Fátima tinha nascido.

O edifício desapareceu em meados do século XVI, mas a capela com os restos mortais da bela princesa foi poupada. Todavia, com as restaurações e transformações posteriores, tornada igreja paroquial da então vila, em pouco tempo desapareceu a capela sob o chão da actual que assenta em lajes sepulcrais.

O valoroso amigo senhor Hermínio de Freitas Nunes, notável investigador da história da região já com vasta e preciosa colheita literária editada, chamou-me a atenção para a possibilidade da míngua bibliográfica no tocante a Gonçalo Hermingues – Fátima /Oureana. Concordei com ele e passo a transcrever parte da carta (datada de 28.1.1999) que lhe enderecei referente ao assunto, adiantando os devidos respeitos:

“Começo por D. Gonçalo Hermingues, o “Tragamoiros”. O que se depreende na leitura da Monarquia Lusitana, Livro X, pág. 181, sobre a Comenda cisterciense de Tomaréis, a “escassos dez quilómetros” da Comenda Velha (Templária) da Sabacheira, ter sido uma fundação senhorial pelo capitão do primeiro rei português, possivelmente para “servir de panteão familiar e assegurar a narração futura da gesta e dos actos heroicos do iniciador da dinastia”, não está errado. Tampouco há contradição com o que escrevi, talvez ou decerto só insuficiência descritiva, que agora comatarei.

“Vamos, pois, aos factos. Ainda cavaleiro da Ordem de S. Bento de Avis, D. Gonçalo Hermingues, estremenho com morada em Tomaréis, toma parte activa na fundação da Casa e Comenda de Cister, aquela “encostada” a esta tal a pouca distância que as separa, possivelmente em troca de favores dos conhecimentos (agrários, alfabetização e assistência religiosa) da freiria cisterciense, a fim de desenvolver e promover o espaço do seu senhorio. O laborare et orare dos cistencienses de Alcobaça, traduzido como trabalho intelectual e manual, aos quais o Portugal de hoje deve muitíssimo no sentido do progresso socioeconómico alavancando o país rural para o industrial, é facto atestado pelo próprio fr. Fortunato de São Boaventura, alcabacense professante na Ordem de Cister desde 25 de Agosto de 1795. Diz ele nas suas Considerações Gerais sobre a Santidade dos Institutos Religiosos, Cap. I, Tit. I da sua História Cronológica e Crítica da Real Abadia de Alcobaça, edição de 1827: “Limito-me agora a ponderar que as virtudes cristãs, em que sobressaíam estes monges, foram o primeiro móvel de quantos benefícios se originaram dos seus institutos; que sucedendo outros males e a ignorância, eles, como professos de uma religião que não teme os sábios e que preza as ciências, salvarem estas de um naufrágio iminente, e nos guardaram os mais preciosos monumentos da literatura clássica dos gregos e latinos. Era a virtude da penitência que os fazia lançar mão da enxada e da charrua, para desbravar as terrras incultas; pois lembrados da pena que se cominara ao primeiro homem, queriam levá-la em todo o rigor, adquirindo o sustenho à custa de suores e fadigas”.

“Após a morte precoce porque ainda jovem da sua esposa, talvez por doença o que não era raro na época, o viúvo choroso ter-se-á recolhido primeiro aí em Tomaréis, o que leva a pensar ter abandonado o seu palácio em Ourém, possivelmente por estar impregnado das memórias da falecida chorada que o traria em desgosto permanente. Depois, talvez influenciado pela comunidade cisterciense de Tomaréis, indo contrair e professar votos perpétuos na Casa-Mãe portuguesa de Cister, ou seja, o Real Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Daí, passados anos, fr. Gonçalo Hermingues iria partilhar na fundação de uma nova Casa de Cister, em torno da qual se desenvolveu povoado modesto que seria a génese da vila de Fátima, em cuja paroquial ainda lá está apagado e esquecido, sob o soalho, o túmulo da malograda princesa moura de linhagem fatimida, portanto, descendente do tronco familiar do próprio Mahometh.

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“De maneira que o percurso cisterciense de fr. Gonçalo inicia-se em Tomaréis, passa a Alcobaça e finalmente a Fátima. Em Abdegas, hoje Ourém, teve domínio senhorial, acastelado, oferecido por D. Afonso Henriques a ele e sua esposa Fátima/Oureana. A sua linhagem nobiliárquica apesar de importante é pouco destacada pela historiografia. Pessoalmente, estou em crer que ela é a família Ourém de que fala o Armorial Lusitano, pág. 408: “Ourém. Família de origem desconhecida, cujo apelido deve ser tomado da Vila de seu nome. Atribuem-se-lhe as seguintes Armas: de prata, com uma águia estendida de negro, armada de vermelho. Timbre: a águia do escudo”. E é tudo, tal a pobreza ou intenção deliberada de diminuir ou até apagar a memória de tão grande vulto que teve a suprema audácia de miscenizar à Alma e ao Sangue de Portugal a descendência directa do próprio autor do Alcorão. Ficou só a lenda e o apodo de “Tragamoiros”, mesmo assim porque, por tudo o dito, em verdade “tragou, assimilou o Sangue Moiro, Moria, Maru, Mariz”…

“O seu domínio primitivo, presumo que herdado de seu pai que o teria recebido do conde D. Henrique de Borgonha em uma das surtidas ao Sul, seria de facto Tomaréis, o qual doaria à Ordem de Cister introduzida no país por S. Bernardo de Claraval e seu sobrinho, D. Afonso Henriques, aquele consignado fundador espiritual de Portugal e este fundador temporal do mesmo que, desde a primeira hora da fundação, é posto sob o padroado geral de São Miguel Arcanjo e de Santa Maria Maior, esta também evocada como Sagrado Coração de Maria expressivo do Graal-Consciência de que o Graal-Objecto é representação simbólica.

“Tudo isso é o que deduzo de todos os autores consultados, não raros, se não todos, com insuficiências descritivas.”

Foi em torno da meseta da serra de Aire que se desenrolaram os mais renhidos combates entre cristãos e mouros jogando o destino da formação do novo país… bem à vista de Fátima, tendo o justo equivalente em Nossa Senhora da Conceição, posto participarem do atributo comum de Deusas de humana justiça e espiritual nutrição.

Senhora da Conceição que, ao lado do Dragão Verde dos Lusos, igualmente figurou no estandarte da Ala dos Namorados (ou os figurados Andróginos em separado), indo abençoar no campo de Aljubarrota a vitória retumbante dos portugueses sobre as armas de Castela, ficando garantida a Independência Nacional pelo feito glorioso do Condestável Nuno Álvares Pereira, depois, ingresso na Ordem do Carmo, Fr. Nun´Álvares de Santa Maria, que Pinharanda Gomes muito justamente apodou de “Galaaz do Carmelo”. Sim, vitória retumbante das armas de Portugal nesse 14 de Agosto de 1385, coroando a dinastia de Avis (ou Siva, anagramaticamente, assinalado pela Avis raris do Espírito Santo) já de si incorporando a glória das gestas passadas da dinastia de Borgonha.

Como se repara, Portugal sempre esteve sob o manto protector da Mãe Divina, donde a Sua evocação constante, quer lhe chamem Fátima ou Senhora da Conceição, ou algum outro dos Seus atributos locais, como antanho a chamavam Ísis e antes desta, aqui na Península Ibérica, de Atégina e Lusina, a Grande Deusa-Mãe, cedo esculpida, pintada e iconografada Virgem Negra por ser a Primordial ante-Criação que assiste à génese desta, por isto sendo a Única e Soberana Mãe do Verbo em Sua Concepção ou Conceição feliz, o Aspecto Feminino do Criador como a própria Criação Universal – a Natura Naturante et Naturada.

No lugar da Ortiga terá aparecido o “Anjo da Paz”, também chamado “Anjo de Portugal”, aos três pastorinhos Francisco, Jacinta e Lúcia (a única a restar viva até há poucos anos e que cedo entrou em reclusão religiosa em Casa da Ordem do Carmelo), sendo que da terceira vez apareceu na Loca do Cabeço, corria o Outono de 1916 (estranhamente essa data coincidia com a sexta-feira de 13 de Outubro de 1307, quando Filipe IV de França ordenou a prisão massiva dos cavaleiros da Ordem do Templo dando início ao processo da sua extinção, acontecimento que doravante marcaria a “sexta-feira 13” como data azarenta, superstição possivelmente tendo a sua origem na próprio Portugal Templário reinando D. Dinis), portando o cálice e a hóstia (evocativos da Eucaristia) e evocando a presença da Santíssima Trindade, esta que assim se reflecte na carne, no sangue e na alma lusitana. Por fim, em 13 de Outubro de 1917 a Virgem Celeste, sob o patronímico “Senhora do Rosário”, apareceu pela última vez aos pastorinhos, episódio desfechado com o “milagre do Sol” ante mais de setenta mil pessoas, mesmo nem todas vendo o que outras ao seu lado viam: o astro-rei girando em velocidade vertiginosa de encontro à Terra, efeito espectacular de fenómeno astro-telúrico de maya-vada ou espelhismo, certamente provocado pela excitação psíquica colectiva. Isso culminando as três aparições da Senhora cuja primeira aconteceu em 13 de Maio de 1917, como conta a voz corrente. Não deixa de ser interessante a igreja paroquial da Ortiga ser consagrada a Nossa Senhora cuja imagem no altar mor, só por “acaso”, é a de uma Virgem Negra medieval, possivelmente coeva dos templários.

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O próprio apelativo “Nossa Senhora” deve-se a São Bernardo, pois, conforme a sua hagiografia miraculosa, dirigiu-se à Senhora do Leite (de quem há igualmente uma imagem nas cercanias de Fátima, possivelmente coeva de Cister e do Templo) nos seguintes termos: Monstrate Matrem, “Mostra-te Materna”, resultando logo a seguir, por corrupção fonética, em Noster Mater, “Nossa Mãe”, “Nossa Senhora”, ficando assim como o primeiro a tratá-La tão familiarmente, indo depois compor o belíssimo hino Ave Maris Stella dedicado a Maria como “Estrela do Mar” – Vénus, a Misericórdia que ilumina – servindo de estrela polar aos navegadores a bordo da Barca da Fé cruzando o mar incerto do corporal mundano.

Ante a vasta presença medieval de Cister e do Templo na região tendo o epílogo na Senhora da Azinheira, centro da devoção simples mas sincera do povo mariano reunido em Fátima, acode-me à memória essa outra lenda templária galega da Virgen de la Encina, ou seja, a Virgem da Azinheira. A sua história tem lugar na comarca do Bierzo, ou “Berço”, e conta que nos meados do século V São Toribio de Liebana trouxe da Palestina para a Galiza várias relíquias, dentre elas a imagem da Virgem. Alguns séculos depois, durante as guerras sarracenas, para evitar o saqueio todas essas relíquias foram escondidas por diversos sítios. Passaram-se os anos, os decénios e mesmo alguns séculos, até que cerca de 1178 quando os cavaleiros da Ordem do Templo construíram um castelo naquele lugar, um deles, encarregado do corte das árvores, viu um resplendor que saía da floresta. Ao chegar perto do sítio de onde a luz emanava, viu uma azinheira que tinha uma abertura no tronco, e olhando para dentro descobriu a imagem da Virgem que ali estava escondida há tanto tempo. Em breve a imagem miraculosa tornou-se motivo de veneração geral sob o patrocínio da Ordem dos Templários.

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Realmente, volvendo ao espaço estremenho português, tudo quanto tem a ver com a mística de Fátima prende-se de raiz aos templários e os seus mentores, os cistercienses, uns cavaleiros-monges, outros monges-sacerdotes, todos trajando o branco alvo da Pureza. Tudo tresanda a mistério, a arcanum templarium. Tomar é logo ali ao lado, estendendo-se por toda essa meseta bailios e granjas do Templo e de Cister!… Também não deixo de anotar a hostilidade mais ou menos declarada da “Fátima eclesial” à “Fátima mesquital”, como a tentativa constante de apagar a segunda da memória colectiva.

O ano 1917 (cujo valor 17 marca numerologicamente o biorritmo de Portugal) foi importante em Aparições Marianas: em 13 de Fevereiro de 1917 aconteceu a aparição da Virgem Negra a Endoxia Andrianova, na Rússia, tendo os cristãos ortodoxos passado a chamá-la Kervajnaie, “tornada branca”, a “Nossa Senhora Branca” por estar vestida dessa cor. Logo a seguir, em 13 de Maio desse mesmo ano, deram-se as aparições de Fátima, mas sem esquecer as anteriores em La Sallete em 1848, em Obernaebach, Baviera, nesse mesmo ano, e ainda em Lourdes em 1858. Aparições sucedendo sempre em lugares telúricos, hídricos e junto ou dentro de grutas, onde no passado distante já haviam cultos matriciais à Mãe-Terra, ou seja, à Grande Deusa-Mãe Primordial, Ghea ou Rhea, que mais tarde, com a cristianização territorial, tomaria forma iconológica em alguma santa, fosse qual fosse desde que fosse mulher, posto o género feminino santificado ser a expressão mundanal do Divino Espírito Santo que toma forma na Matéria como a própria Mater-Rhea.

Segundo a Teosofia, os Três Logos ou Hipóstases do Logos Único, como sejam os Três Tronos constituindo a Santíssima Trindade, assim se dispõem no Esquema de Evolução Planetária:

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Raio ou Fluxo de Vida, Energia e Consciência provindo do Eterno Logos Solar, tanto vale. O Quarto Raio, aquele que predomina na actual etapa da Evolução Humana influindo no desenvolvimento Mental (Superior e Inferior) em consonância com as características do Quarto Globo em que tudo e todos vivemos e evoluímos, é o que une o Espírito à Matéria conferindo Unidade às Hipóstase dos Logos que assim se torna Uno-Trino, que é dizer, Um mais Três como valor do Quarto Raio gerador da Harmonia Universal entre os pólos contrários.

Reconhece-se sem dificuldade que hoje campeia a fantasia, não raro grotesca e bizarra como essa dos improváveis “discos-voadores extraterrestres”, vindo a terreno pretender explicar o acontecimento dito milagroso da Aparição da Virgem de Fátima aos três pastorinhos. Já para não falar em teorias da conspiração e outras coisas mais e más do género, por haver para todos os gostos e feitios: basta escolher de acordo com o paladar. São «explicações» descontextualizadas tanto do fenómeno espiritual como dos cânones tradicionais. A mecânica oculta da Natureza age provocando os ditos “milagres” aos olhos do povo ingénuo e crédulo, mas também sincero na sua devoção, “milagres” esses que para os entendidos ou formados na Sabedoria Divina, que é dizer Teosofia, são apenas os efeitos visíveis de causas ocultas naturais, pois não acreditam em milagres e sim em forças ou energias postas em acção pela Alma Universal que é a mesma Mãe Natureza (Íria, Ísis, Sophia, Maria, etc., tanto vale). De maneira que, cingindo-me exclusivamente à Tradição Iniciática das Idades como a única salvaguarda segura para o entendimento correcto do Transcendente ou Espiritual manifestado como Patente ou Psicomaterial, os fenómenos psico-telúricos ocorridos na Cova da Íria em 1917 apontam como sendo o que a Teosofia chama manifestação de forças elementais da Natureza a ver com os silfos ou “elementais do Ar”, aos três meninos pastores (assim sendo videntes congénitos, de visão e sensibilidade psíquicas activadas pela intensidade hidro-telúrica do espaço natural de seu habitat. Ademais, quantas não são as crianças que vêem “Nossa Senhora”, o “Menino Jesus”, os “Anjos”, os “amiguinhos anões e gnomos”, etc., nos primeiros anos da sua vida inocente, para depois, no decurso dos anos de vida corporal com os sentidos voltados exclusivamente para a atenção exterior, essa visão etérica embotar-se e desaparecer?), com os subsequentes fenómenos de mayas-vadas ou espelhismo, como já foi dito, pelos que os presenciaram (o Sol movendo-se de encontro à Terra, os flocos ectoplasmáticos caídos do céu visíveis mas não tangíveis, etc.).

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Com tudo isso, de maneira alguma pretendo afirmar que a Divindade Feminina acaso não tenha se manifestado por meio dessas forças elementais ou primárias da Natureza. Os Mahatmas ou “Grandes Almas” costumam agir dessa maneira, tanto quanto sei, mas quanto ao resto o crédito parece impossível… ficando só o credo sincero das bocas e nas almas do povo simples que aí vai adorar a Mãe de Deus, criando e alimentando poderosa Egrégora viva ou “Forma Psicomental Colectiva”.

Todo o território em redor de Fátima é intensamente telúrico, mas a construção da gigantesca rede ferroviária do Entroncamento acabou afectando os veios e nódulos telúricos locais provocando como que uma alteração, perturbação ou rompimento da tela etérica ou vital do espaço local e com isso alterando o estado fisioanímico dos habitantes locais mais sensíveis, tornando-se mais propensos a cultos mediúnicos nesse espaço ambiental alterado propício a aparições… “marianas”, ou seja, de cariz lunar como é todo o medianimismo. E assim se tem Fátima, Ladeira do Pinheiro, Alcaria…

Falo das possibilidades e fundamento oculto dos pretensos “milagres”, deixando inteiramente de lado a incoerência das especulações fantásticas e o charlatanismo, porque senão ir-se-á encontrar “terra sim, porta sim” uma “vidente milagreira” e um “messias santeiro”… a justificar os famosos fenómenos do Entroncamento.

Maio é o mês das Maias, da fecundação aquando a Natureza regurgita vibrante lançando para fora as suas sementes dando flor e fruto. É o mês da alegria, da comunhão, do Touro sideral e totem sinergético da Terra. Antanho, os romanos costumavam imolar um boi branco a Apolo, tal como os cretenses um touro a Mitra. Hoje, tem-se a sua memória no sacrifício do touro como parte do programa da Festejo Popular do Império do Divino Espírito Santo, em Sintra, em Alenquer, nos Açores e demais lugares do mundo onde o Português o levou.

Também na Lua Cheia de Maio, correspondendo ao signo de Touro e a Vénus, os antigos druidas e druidisas cortavam com uma foicinha de ouro o visco que nasce nos ramos de certas árvores, como a azinheira, o carvalho, a pereira, etc. Tido como possuindo propriedades miraculosas, o visco tornou-se sagrado entre os celtas, gauleses e bretões; Ram consagrou-lhe a Memória, instituindo a Festa do Natal, a do Solis Invictus como depois lhe chamaram os latinos. Os discípulos de Ram andavam por toda a Cítia com os seus ramos de visco, sendo considerados mensageiros divinos e o seu mestre um deus.

O número 13, do dia da primeira Aparição da Virgem aos pastorinhos, assinala a Rota da Iniciação no acto de transformar a vida-energia em vida-consciência, pois sendo o valor do Arcano da Morte (Yama) esta dá-se em toda a natureza inferior no sentido de gerar, ressurgir como natureza superior, pelo que no Tarot sacerdotal Aghartino tem o significativo nome de A Grande Mãe. Na Teurgia e Teosofia, o 13 de Maio não deixa de ser considerado como Dia das Mães, e dele diz o Professor Henrique José de Souza num texto datado de 1952:

“O dia 13 de Maio, a própria Igreja consagra a Nossa Senhora de Fátima – ao par da das Graças – considerada “como a mais milagrosa”. A maior prova que se tem do caso é feita ao lugar onde Ela se acha, na gloriosa Terra Lusitana, da qual, na sua grande maioria, os Brasileiros descendem. Sim, o sangue nobre dos Portugueses infundido na Raça autóctone (a Tupi), da qual surgiu a nossa.

“Sim, “Bendito seja o fruto do ventre de Maria”, mas também o de todas as Mães ou Mulheres que sabem honrar tão dignificantes nomes.”

Passo, agora, à descrição da minha Proposta de Decoração Sacra do Grande Espaço Coberto para Assembleias (GECAS), destinado a nascer subterraneamente defronte ao actual Santuário de Fátima.

Pessoal - Vitor Manuel Adrião

PROJECTO DO “GRANDE ESPAÇO COBERTO PARA ASSEMBLEIAS” (GECAS)

No perímetro interior do G1 figurarão as 14 estações da Via Sacra, representadas em cruzes latinas de madeira de carvalho, simples mas torneadas nas extremidades em flores-de-lis, incrustadas nas paredes distadas uma das outras 33 metros, idade com que Jesus morreu, como é de tradição nos santos evangelhos. 14 x 33 = 462, e 4+6+2 = 12, Arcano O Sacrifício, expressivo da Paixão e Morte do Senhor e consequente descida aos Mundos Interiores ou Inferiores (donde Inferius e o seu derivado latino Infernus, como seja o Mundo Subterrâneo dos “Mortos-Vivos”, dos Iluminados, ao qual a Tradição chama Duat), para ao terceiro dia de Aleluia ressuscitar, sempre amparado pelo Arcanjo de Deus Todo-Poderoso, Al-Djabal ou o mesmo São Miguel. A Via Crucis é o caminho da Morte garante da Ressurreição para os crentes verdadeiros na verdadeira Fé, esta nada tendo a ver com crença simples e petitiva, pois ao primeiro desaire pode descobrir-se que quem crê muito poderá descrer ainda mais…

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – O formato estipulado para o altar corresponde ao da tampa navegante do Santo Sepulcro, tendo sido o adoptado nos templos dos antigos cavaleiros templários e de São João do Hospital de Jerusalém (depois de Rodes e por fim de Malta). Os seus suportes jónicos relacionam-se simbolicamente à finalidade feminina ou mística (coracional) da ara, mara ou aram, onde se praticam os sacrifícios devocionais ao Senhor das Eternidades, que no particular representa-se na Mulher (ara) como base do Homem (sacrifício), nisto incarnado pelo presbítero tendo altar e ofício adiante de si, ou como se canta no Hino Exaltação ao Graal: “Sol e Lua à sua frente”. Tampa “navegante” porque levantada sobrenaturalmente pelos Anjos de cujo sepulcro saiu Cristo Ressuscitado triunfante da Morte. Geosoficamente, também o rectângulo de Portugal defronte ao Mar Oceano dos Vivos e dos Mortos, como Reino dos Lusos ou “Filhos da Luz” em guisa de Duat aflorado sobre a Terra, vem a simbolizar a tampa ou portal de Cordo Maris (“Coração do Mar”), já não tanto como Sepulcro mas Lugar Iluminado da Aliança de Deus com o Homem, a Humanidade, nisto participando a assinalada Montanha Sagrada de Sintra, Salém, Shamballah, etc., variando os nomes mas não o sentido que deve corresponder com justeza e perfeição ao interiorizado Lugar da Pax, o Locus Amoenus ou o mesmo Paraíso Terreal teoplasmação do Paraíso Celeste.

A cruz latina, cujos palos devem desfechar em flores-de-lis mas despossuída da figura de Jesus Crucificado, além de corresponder à Igreja do Ocidente, a Romana, igualmente corresponde ao entrosamento real (donde a supracitada flor, além de designar a Realeza Divina do Segundo Trono expresso pelo Cristo Universal e por isto mesmo considerada Lótus Sagrado de Agharta indicativo da Consciência Universal, tendo sido adoptada como insígnia dos Companheiros do Dever saídos da correnteza operática dos Construtores Livres ou Monges-Construtores medievais) do Poder Espiritual com a Força Material (Purusha – Prakriti, em sânscrito, Espírito – Matéria), exercício realizado pelo ancião ou presbítero, o preste, pai ou chefe espiritual da comunidade dos crentes. Esse, juntando o seu título presbitérico (do grego, πρεσβυτερος, presbyteros) ao do tutelar São João da Igreja de Jerusalém (Iod ou Jod-He-Shadai), onde se encontra o Santo Sepulcro, resulta o latino Pater Iohanis, Pai, Preste ou Presbítero João, a misteriosa representação medieval do mesmíssimo Melki-Tsedek, o Rei do Mundo por em si reunir a Arma e o Sacerdócio, e cuja emanação universal (este o sentido literal da palavra grega católico, “universal, universalista”) o presbítero deve incarnar no acto do sacramento, na liturgia da ressurreição dos vivos e dos mortos onde Deus, o Espírito e o Homem fazem-se um.

O Arcanjo S. Miguel, Custódio do Céu e da Terra (particularmente de Portugal, prerrogativa instituída por D. Afonso Henriques e oficializado o seu culto por D. Manuel I), como Mikael é o “Assistente da Sinagoga” e como Mirraïl é o “Assistente da Mesquita”. Aclamado Chefe das Milícias Celestes, a tradição judaico-cristã situa-o no topo da Árvore da Vida como “Pólo Celeste” (Metraton) para o “Pólo Terrestre” (Sandalphon) expresso como Shekinah, a “Presença Real de Deus”, de quem o presbítero é a expressão corporal diante da assembleia dos fiéis. Assim, a Pax e a Lex dos Pólos Celeste – Terrestre (Kether – Malkuth, a primeira e a última sephiroths ou “emanações da Árvore da Vida – Otz Chaim) tomam forma racional como Magistério e Dogma da Igreja desde o mais alto Céu à Terra na inter-relação psicopompa Arcanjo – Presbítero.

De altura entre o natural e o atlante, mais atlante ou agigantado em virtude da vastidão do espaço G1, S. Miguel figurará com a balança na sinistra e a espada flamejante (mizna) na destra, apresentando-se como guerreiro alado com as asas abertas em modo de dar a impressão de abarcar com a sua presença toda a assembleia, o que se enquadra no seu anagrama cabalístico Malaki, “Meu enviado”, isto é, “Enviado de Deus”, ou por extenso, Maleak-Ha-Elohim, “Anjo no qual é Deus”, a ponto de ambos se confundirem em um só (tal qual o sacerdote na liturgia deve confundir-se com o Divino) indo suscitar entre os latinos a interrogação pasmada: Quis ut Deus, “Quem é Deus”? Respondendo os fatimidas: Mirraïl Al-Djabal, “Miguel, o Todo-Poderoso”.

As 14 estações da Via Sacra ou Via Crucis correspondem ao Caminho das Angústias, afinal, a Via do Discipulado irrevogavelmente Cristocêntrica, por nela a criatura humana, caindo e levantando sempre, realizar interiormente a sua transformação rumo à superação e consequente metástase com o seu Deus Interno, Único e Verdadeiro, para que, de facto e direito, seja verdadeiramente cristã.

Acompanhando o compasso quaternário da Terra (Bhumi) e as fases de solstícios e equinócios, tem-se também as 14 estações da Via Sacra corresponderem ao “desatar dos nós” ou nadhis e cada uma das quedas de Cristo corresponder a uma Pessoa da Trindade, com Ele de rosto contra o pó, ou não estivesse Deus no Centro da Terra… O desenrolar do caminho último da Paixão encontra as seguintes similitudes astro-teosóficas:

EQUINÓCIO DA PRIMAVERA

1.ª Estação = Jesus é condenado à morte

2.ª Estação = Jesus carrega a cruz às costas

3.ª Estação = Jesus cai pela primeira vez > Chakra Raiz > Manifestação do Espírito Santo

4.ª Estação = Jesus encontra a sua Mãe

SOLSTÍCIO DE VERÃO

5.ª Estação = Simão Cirineu ajuda a Jesus

6.ª Estação = Verónica limpa o rosto de Jesus

7.ª Estação = Jesus cai pela segunda vez > Chakra Cardíaco > Manifestação do Filho

EQUINÓCIO DO OUTONO

8.ª Estação = Jesus encontra as mulheres de Jerusalém

9.ª Estação = Jesus cai pela terceira vez > Chakra Coronário > Manifestação do Pai

10.ª Estação = Jesus é despojado das suas vestes

11.ª Estação = Jesus é pregado na cruz

SOLSTÍCIO DO INVERNO

12.ª Estação = Jesus morre na cruz

13.ª Estação = Jesus morto nos braços de sua Mãe

14.ª Estação = Jesus é descido ao sepulcro

Como os solstícios são os períodos em que o Sol se “acende (Verão) e apaga (Inverno)” em relação à Terra, isso vem a representar a Tríade Superior imanifesta. Como os equinócios são os períodos em que o Sol se “apaga (Outono) e acende (Primavera)” relativamente ao nosso Globo, com isto representa-se o Quaternário Inferior manifesto.

Como já disse, as cruzes latinas indicam a ocidentalidade da Igreja e, aparte as flores-de-lis torneadas, o restante das peças é simples e nu em madeira de carvalho (árvore que para os antigos celto-lusitanos tinha o significado de templo), de maneira a melhor e mais intensamente inspirar à nudez ou despojamento dos habituais e viciosos hábitos físicos, morais e mentais e à adopção de outros mais simples e saudáveis, naturais e mais eficientes na vida do corpo e da alma para o Espírito de Deus poder finalmente manifestar-se em um e todos.

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GECA 1

2.9 – CAPELA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO = Altar-mor de três patamares; no topo, imagem de Jesus Cristo em Glória. Abaixo, imagem de Nossa Senhora de Fátima tendo aos pés os três pastorinhos ajoelhados. Por fim o sacrário, no terceiro patamar, onde se guardará o Santíssimo Sacramento.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – Os três patamares ou andares equivalem aos três Planos Universais do Espírito, da Alma e do Corpo, correspondendo aos Três Tronos (Santíssima Trindade, Orago do GECA), ficando no topo Cristo para o Pai (“Não ireis ao Pai senão por Mim”, João 14:6), desde logo em Glória, Ressuscitado, não Morto para sempre Imortal. No Plano Intermédio a Mãe Divina, onde os pastorinhos a seus pés simbolizarão, mais que o acto místico da Aparição, as três gunas (em sânscrito, “cordas” ou cordame de enlace, encadear, unir) ou “qualidades subtis da Matéria” (Mater-Rhea, Mãe-Terra): Satva – Rajas – Tamas, ou seja, energia centrífuga, energia rítmica ou equilibrante, energia centrípeta. Finalmente, no patamar o Plano Inferior iria dispor-se o Santíssimo Sacramento, o Santo Vaso (Saint Vaisel) repositório eucarístico do Sangue Real (Sang Greal, San Grial, Santo Graal) como ideoplasmação do Terceiro Trono, Deus Espírito Santo.

2.5 – PRESBITÉRIO = Altar rectangular com tampa navegante suportada por quatro colunelos jónicos. Crucifixo tradicional de proporções ajustadas às dimensões do espaço. À direita do altar, lado da Epístola, a imagem, conformada à iconologia tradicional, do Arcanjo Custódio de Portugal e das Almas como Primeiro em deus, S. Miguel (Quis ut Deus).

GECA 2

Entre as 1.ª e 2.ª colunas (todas jónicas, atendendo à Iniciação Matrística, Coracional ou Feminina por que se distingue Fátima), do lado direito, imagem pia de S. Francisco de Assis. Entre as 1.ª e 2.ª colunas, do lado esquerdo, imagem pia de S. Bento de Núrsia (evocativa da sua Regra Trinitária conformada ao dogma da Santíssima Trindade, Orago do GECA). Entre as 2.ª e 3.ª colunas, do lado direito, imagem pia de St.ª Clara de Assis. Entre as 2.ª e 3.ª colunas, do lado esquerdo, imagem pia de St.ª Teresa do Carmelo. No espaço a partir da 3.ª coluna, no parietal lateral direito, representação pictórica de: a) Anjo da Paz falando aos três pastorinhos; b) Nossa Senhora sobre a azinheira falando aos três pastorinhos. No espaço a partir da 3.ª coluna, no parietal lateral esquerdo, representação pictórica de: a) Papa Pio XII; b) Papa Paulo VI, ambos devotos de Fátima, aquele promulgador da peregrinação e este peregrino à Cova da Íria (tanto valendo por Loka de Ísis, a que não falta a procissão das velas como antanho se fazia nas nocturnas a essa deusa).

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SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – S. Francisco e St.ª Clara expressam o aspecto Patrístico ou Masculino (Pingala) da Igreja, representado no Franciscanismo expressivo do ideal de pobreza e pureza. St.ª Teresa de Ávila do Menino Jesus refere-se ao aspecto matrístico ou Feminino (Ida) da mesma Igreja, assinalado no Carmelo como ideal de contemplação e adoração. Ambas as vertentes encontram-se em S. Bento, cuja Regra Trinitária uniu a Cristandade Oriental à Ocidental, dando assim à Igreja carácter universal (católico) e andrógino (Sushumna) no sentido perfeição absoluta, de maneira que esta assembleia vem a transmitir a ideia benta de Scalae Coeli, “Escada do Céu”, como lugar de recolhimento, adoração e assunção.

ÁTRIOS / NÁRTEX

1.0 – ANDRO = Fonte com escultura de Santa Luzia, de rosto moreno, tendo na destra o cálice eucarístico donde sobressaem dois olhos de que irrompem dois pequenos repuxos (alusivos aos “olhos d´água” e ás “águas matriciais”, as que devolvem a luz aos cegos de quem esta santa é padroeira, cegueira essa tanto corporal como espiritual).

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – Foi esta peça a que maior confusão provocou nas cabeças do Reitoria do Santuário de Fátima. Expliquei o significado dela mas sem o aprofundar, de maneira a não chocar as mentalidades conservadoras, e os responsáveis acabaram aprovando. Além de ir decorar e dar ar de frescura a entrada larguíssima, há um outro sentido em tudo isso: Luzia, Deusa-Luz (que ilumina os cegos corporais e sobretudo espirituais), nada mais é que a cristianizada deusa celta Lusina (feita Melusina nas trovas e prosas medievais), Virgem Negra raiz matricial de toda e qualquer espécie de culto hidro-telúrico, seja ou não ctónico. O cálice eucarístico alude ao Santo Graal e os olhos irrompendo dele tão-só o convite a ver e compreender com “outros olhos” quanto o crente e o não crente venham a avistar dentro das assembleias.

1.1 – ÁTRIO PRINCIPAL = Escultura do Papa João Paulo II, declarado devoto e peregrino de Fátima, a quem atribuiu a salvação da sua vida após sofrer um atentado na Praça de S. Pedro, no Vaticano.

1.9 – ÁTRIO SECUNDÁRIO = Defronte à igreja da Reconciliação, escultura da Rainha Santa Isabel no acto de deixar cair do regaço, com a sinistra, as rosas do seu milagre tradicional, e com a destra segurando recto o bastão em tau de peregrina jacobeia, o qual foi sepultado com ela na igreja das franciscanas de Santa Clara a Velha, em Coimbra.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – Sendo rainha e santa, Isabel deve apresentar a cabeça coroada de cujo aro da coroa sobressaem cinco flores-de-lis estando o interior fechado de modo a sobressair do centro a cruz de Cristo sobre o globo do mundo, ela, rainha santa, verdadeira Budai (como feminino de Buda) cujas rosas de amor e caridade, evocando a Misericórdia do Céu, reconciliou Portugal com o seu rei e o seu Deus, donde o merecido epíteto de Anjo da Paz. O ano: 1336; o lugar: Estremoz, indo ela interpor-se entre exércitos prestes a bater-se; o rei: D. Afonso IV, seu filho; o opositor: D. Afonso XI de Castela. O Deus: reencontrado na Páscoa Rosada (donde a lenda do “milagre dos rosas”) correspondendo ao período da Quaresma, antecedendo quarenta dias a Páscoa. Também por intermédio da Ordem Terceira (da Regra) de S. Francisco, a rainha santa instituiu em Alenquer a celebração do culto do Império Popular do Divino Espírito Santo, no que a Ordem de Cristo auxiliou sobremaneira na sua propagação dentro e fora de fronteiras, dando início ao tempo da translatio imperii (tema depois assumido como os cinco Impérios do padre António Vieira, o derradeiro sendo o Português divinamente chancelado pelo Espírito Santo) e da gesta Dei per Portucalensis (que teria o seu auge no período ecuménico das Descobertas Marítimas).

2.1 – NÁRTEX = Permeio às colunas, ao centro a escultura do Anjo da Paz ladeada pelos escultóricos tradicionais da Fé, Esperança, Caridade e Obediência.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – As estátuas das quatro Normas, em mármore fino da região de Coimbra, tomariam aspecto antropomórfico para assim a humanidade simples dos crentes melhor as entender e apreender. Ao centro ficaria o Anjo da Paz, que é o mesmo da Obra de Deus (Theos-Ergon, em grego, Teurgia). Ele seria configurado com longos cabelos louros em cascata, vestido de túnica branca em tau e com asas brancas de cisne (simbólico da comunhão espiritual); carregaria na mão esquerda um globo azul anilado onde se inscreveria triangularmente em letras douradas a palavra Pax, e a mão direita configuraria, com três dedos erectos e dois recolhidos, a bênção sacerdotal (trishulahastra, em sânscrito, designando a Trimurti ou Trindade). Em representação do Senhor do Mundo (Ardha-Narisha, Chakravartin ou Melkitsedek, tanto vale), teria como emissários outros quatro Anjos (todos com asas de cisnes) representativos dos Senhores da Evolução: Manu (Legislador) para a Obediência; Yama (Executivo) para a ; Karuna (Judiciário) para a Esperança; Astaroth (Coordenador) para a Caridade. Sendo os cinco Anjos afins aos respectivos cinco Reinos da Natureza: Espiritual, Humano, Animal, Vegetal, Mineral, ficando tudo sintetizado num Pentalfa dourado (Tetragramaton) aos pés do Anjo da Pax, marcando assim o tradicional “centro do mundo”.

LAUSPERENE

5.3 – PRESBITÉRIO = Escultura evocativa do Sagrado Coração de Maria, tendo na base um listel onde se inscreve, em caracteres góticos, a legenda latina: Ave Mariz Nostra.

Aparte do campo de visão do Ostensório, nas paredes laterais figurarão três peças pictóricas retratando os Mistérios da Encarnação, da Cruz e da Eucaristia.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – O Sagrado Coração de Maria tem conotação mística ao Graal-Consciência como cerne de demanda de si mesmo pela tomada definitiva da Consciência Divina, onde a Mente Espiritual é o afloramento mais próximo da condição passageira do ser mortal. A legenda em caracteres góticos, estilo marcando a ascese ou assunção, designa tanto o Salve Nossa Mãe como Salve Nossa Mariz, legenda essa que é o lema da Ordem Soberana que tomou esse nome Mariz, de acordo com as fontes da Tradição, e apesar da História a desconhecer quase por completo ela marcou indelevelmente os destinos de Portugal e da Europa, até mesmo do Brasil, a partir do século XII quando foi fundada por D. Afonso Henriques nas proximidades de São Lourenço do Pombal de Ansiães, Carrazeda de Ansiães, dizem as mesmas fontes tradicionais. Estas adiantam que essa Ordem Iniciática Secreta seria como que quinta Rama de entre as sete que constituem a Árvore frondosa da Comunhão dos Santos e Sábios, os Mestres ocultados da Humanidade agregados em Grande Fraternidade Oculta distendida estrategicamente por todo o Orbe.

Essa Ordem de Mariz constituída em Carrazeda mas familiarmente formada e tomando o solar próximo de Barcelos, constituía-se dos melhores intelectual e moralmente da Raça Humana desde o Centro ao Sul da Europa com extensão a África, donde as suas características alquímicas, cabalísticas e gnósticas afins ao pensamento heterodoxo da Tradição Iniciática das Idades, sempre tomando por Orago a Mãe Divina expressiva do Divino Espírito Santo, tomasse o nome que tomasse mas sendo sempre Ela, como se denota na sua ladainha já de si participando da herança evocativa de outras expressões anteriores suas, conforme demonstra o quadro sinóptico da Ladainha à Virgem extraído do tomo III de Ísis sem Véu da magistral Helena Petrovna Blavatsky:

Tabela da ladainha mariana

Estando a igreja do Lausperene desta assembleia subterrânea vocacionada sobretudo para a meditação e a oração, sob a direcção das Servas de Maria, congregação feminina fundada por Lúcia, a mais velha dos três pastorinhos (falecida com 97 anos de idade em 13.2.2005), todo este espaço votivo, circular ou redondo, centraliza-se na Hóstia Sagrada (expressiva da Mónada Divina) no Ostensório, ficando à guarda das religiosas do Santuário. Acrescentarei ainda que a freiria feminina católica com contracção perpétua de voto de castidade, simbolicamente casadas com o Eterno corporificado em Cristo-Deus como se fosse as suas contrapartes femininas (shaktis) em ponto menor, têm o seu precedente nas virgens consagradas a Ísis, no Egipto, nas vestais a Vesta, em Roma, nas pitonisas a Pítia, na Grécia, nas goris do Islão, nas devasis de Nari, na Índia, etc., todas elas vivendo em celibato rigoroso.

O espaço da igreja do Lausperene deve estar inteiramente pintado de azul claro suave, cor rajásica da Mãe Divina, expressiva da Fé e do Amor, igualmente propícia à meditação, adoração e elevação da alma do crente em solilóquio consigo mesmo, essa sendo a cor do Céu ou do protector Manto Azul (do Akasha ou Éter) da Excelsa Mãe como Alma Universal, presente não só nos templos cristãos mas igualmente egípcios e hindus.

Os Mistérios da Encarnação, da Cruz e da Eucaristia possuem significado cosmogónico e antropogónico: referem-se às respectivas Involução do Espírito à Matéria, Manifestação do Espirito na Matéria e Evolução da Matéria ao Espírito no Esquema do Universo, da Terra e do Homem, pelo que no contexto do ser humano aqui se lhe apresenta o convite mudo à reflexão sobre a sua encarnação, carnação e desencarnação de volta à Eternidade.

IGREJA DA RECONCILIAÇÃO

5.13 – SACRAMENTO = Imagem de Nossa Senhora do Rosário, em destaque. Haverá, em ambas as paredes laterais, quatro peças pictóricas ou quadros: a) evocação do Purgatório; b) evocação do Céu; c) evocação da Ascensão de Jesus; b) evocação da Ascensão de Maria.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – A imagem beatíssima evocativa do Rosário, além de padronizar o conselho dado pela Virgem aparecida aos pastorinhos à prática do mesmo, conselho já antecedido pelo Anjo da Paz, conforme é tradição corrente, significa mais ocultamente a evolução da Mãe-Terra ao longo do extenso rosário de Cadeias, Globos, Rondas e Raças por que o Logos e o Homem têm de passar. O Purgatório é o Mundo Inferior ou Astral como Tala, e o Céu é o Mundo Superior ou Mental como Loka. A Ascensão de Jesus representa a Libertação do Espírito, e a de Maria a Sublimação da Matéria, isto no Esquema de Evolução Universal por meio das duas Energias Cósmicas básicas: Fohat (Electricidade, Fogo Frio Celeste) e Kundalini (Electromagnetismo, Fogo Quente Terrestre). Do atrito de ambas, tudo se locomove no esteiro da transformação da vida-energia em vida-consciência até à Reconciliação final, a Reintegração do Tudo no Todo.

Volvendo ao rosário, o uso deste foi introduzido em Portugal durante o século XIII pelos religiosos de S. Domingos de Gusmão, os dominicanos também chamados frades pregadores (Ordo Praedicatorum). S. Domingos teria adoptado do Islão o uso do rosário, durante as suas viagens pelo Médio Oriente. Esse uso islâmico terá sido importado das práticas religiosas asiáticas, nomeadamente hindu-tibetanas, objecto que por norma é utilizado como suporte de mais fácil concentração mental em determinada ideia ou coisa, indo servir como instrumento de encantação e base mnemo-técnica.

O rosário cristão consta de um conjunto de contas enfiadas num fio que se fazem desfiar uma a uma por entre os dedos, enquanto se vai recitando Padres Nossos e Ave Marias. Compõe-se de 15 Mistérios ou dezenas, ou seja, de 150 contas que se vão desfiando contando-as no rosário da interiorização: Utiliza-se da maneira seguinte: reza-se um Padre Nosso e a Gloria Patri para cada conta mais grossa; para cada conta menor, reza-se a Ave Maria. A divisão da terça parte do rosário composta de 50 contas (evocativas dos cinco Mistérios principais da vida de Cristo: Nascimento, Batismo, Transfiguração, Crucificação, Ressurreição), chama-se terço.

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Por norma, as contas do rosário são de madeira torneada e escavada (também podendo ser feitas de alguma outra matéria mais rica) e enfiadas num fio ou corrente (nisto possuindo o sentido oculto de Cordão de Sutratmã, o elo espiritual que liga as criaturas e os mundos entre si).

Por sua vez, o “colar de reza” ou salah muçulmano consta de 99 contas esverdeadas, número cíclico referente aos Nomes de Deus. A centésima conta, não manifestada, exprime o retorno do Múltiplo à Unidade, do Manifestação ao Princípio.

A redução teosófica de 99 conduz sempre ao algarismo 9, que é o número cabalístico do Santo e Sábio da Comunhão Apostólica, o Adepto Perfeito como Iluminado Espiritual. Esse número leva-me ao outro 432, que somado e reduzido também dá 9. Ora, 432 acrescido de sete zeros equivale a um Dia de Brahma segundo a concepção cosmogónica hindu, ou seja, um período de Manifestação Universal ao qual chamam Manvantara (4.320.000.000 anos).

É precisamente no Hinduísmo que o rosário como fileira de pérolas enfiadas num fio ou cordão toma o seu significado de Cordão de Sutratmã, descrito no Bhagavad-Gïta (“Cântico do Senhor”) como sendo o fio Atmã ou Purusha no qual todas as coisas são enfiadas, encadeadas, todos os Mundos, todas os estados da Manifestação. Purusha, o Espírito Universal, liga esse Mundos entre si através do seu Sopro ou Prana que lhes dá o Jiva, a Vida. Por isto, em princípio a fórmula pronunciada para cada conta do rosário deve estar ligada ao ritmo da respiração (pranayama, “disciplina do sopro ou do respirar”).

Na tradição hindu, o rosário possui 108 contas (12×9), cifra cíclica do Homem Universal (Brahma) percorrendo as 12 casas do Zodíaco em um só Dia que é o seu, motivo de normalmente ser aplicado à expressão de desenvolvimento da Manifestação Universal (Prakriti, a Matéria) representada nas próprias contas. Na mesma teologia hindu, atribui-se o rosário ao Pensamento de Brahma e da sua Shakti ou consorte, Sarasvati (equivalendo no Cristianismo ao Padre Eterno e á Madre Celeste), fixado como o alfabeto, ou alfa e beta em grego, como seja o “princípio” e a “boca” ou beth, em hebreu, consequentemente, o Poder Criador da Palavra produzido pelos Dois – Vishnu, Vâch ou o Verbo como Filho. O seu rosário (akshamala) comporta 50 contas (aksha) correspondentes às 50 letras do alfabeto sânscrito, de a a ksha. Como sempre acontece no caso de guirlanda de letras, o rosário hindu está ligado ao seu Criador (Shabda) e ao sentido da Audição (Akasha-Tatva).

No Lamaísmo tibetano o rosário também tem 108 contas, por vezes as dezenas sendo separadas por aros de prata. A matéria e a cor do “colar de reza” (donde rosário) variam segundo as personagens do seu santoral: rosário amarelo para os Budas; contas azuis para os Bodhisattvas; contas de coral ou então contas brancas feitas de conchas para aquele que converteu o Tibete arrancando-o da necromancia nefasta, Tsong-Kapa; para o terrível Yamantaka, o “domador da Morte” como o mesmíssimo Yama hindu, rodelas cranianas, pintadas de vermelho, de nadjorpas ou eremitas santões falecidos; para as Divindades do Yoga (Tchakram-Bija-Avataras), sementes de um arbusto chamado tulosi; finalmente, para os simples mortais, ele é feito em madeira comum e pintado de negro.

CAPELAS LATERAIS

6.2 – CAPELA 1 = Altar com imagem evocatória de S. João Evangelista e a águia.

6.3 – CAPELA 2 = Altar com imagem evocatória de S. Marcos e o leão.

6.4 – CAPELA 3 = Altar com imagem evocatória de S. Lucas e o touro.

6.5 – CAPELA 4 = Altar com imagem evocatória de S. Mateus e o anjo.

6.6 – CAPELA 5 = Altar com imagem evocatória S. Tiago Maior, Padroeiro da Península Ibérica e primeiro Peregrino Mariano.

6.7 – CAPELA 6 = Altar com imagem evocatória de S. Cristóvão, protector dos peregrinos, romeiros e viajantes, ele mesmo Kristus-Baal como Cristo Andante ou Volante, ou seja, o Princípio Crístico activo ou a activar na criatura humana.

6.8 – CAPELA 7 = Altar consagrado ao Divino Espírito Santo com a iconografia tradicional da Pomba dentro do Triângulo em resplendor.

NOTA: – Em todas essas capelas laterais deve figurar uma imagem subsidiária de Nossa Senhora de Fátima: nas quatro primeiras em azulejaria de painel de caixilho, colorida onde sobressaia o azul; nas três restantes em peças escultóricas, coloridas nos tons tradicionais a ver com os respectivos ícones, de proporções modestas mas não ínfimas.

As secções restantes dos GECAS deverão receber decoração apropriada ao espaço sagrado, conforme a utilidade de cada uma delas, exceptuando as secções destinadas ao uso profano, as quais nada deverão receber por serem desapropriadas à evocação Divina.

Terminei. E logo alguém sussurrou-me ao ouvido: “Está tudo muito bem, mas esqueceu-se do principal: falta S. Pedro, o primeiro Bispo de Roma…”, ao que respondi, também em sussurro:

– Não esqueci: ignorei. Ainda assim ele aí está nessa nova imagem de Pio XII, o Pietrus Christi, hoje com as Chaves da Salém Celeste abrindo o seu Portal ao Advento do Divino, e com isto não creio que me esteja percebendo. Mas certamente perceberá que em Terra Portuguesa manda Portugal e nenhum outro e qualquer império psicofísico, pois que assim é desde D. Afonso Henriques e também porque a Igreja de Roma é afinal vassala da que foi fundada antes dela por Apóstolo de Cristo e Devoto de Maria, S. Tiago Maior, aqui mesmo, na Península Ibérica, começando em Braga e desfechando em Compostela. Sempre foi aqui, a esta Terra de Santa Maria Maior, Terra de Luz do Divino Espírito Santo, que desde sempre peregrinam papas, imperadores e reis prestando-lhe a vassalagem da sua devoção. Com isto, fica tudo dito.

A Ordem dos Templários e a Mística Judaica – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, May 3 2016 

Geograficamente, o centro axial da espiritualidade ocidental e médio oriental foi, incontestavelmente, Jerusalém. Para ela concorreram, e ainda concorrem, as três principais religiões do Livro: a judaica, a cristã e a islâmica, consignando-a Cidade Santa como modelo do Centro Primordial do Mundo, Salém, a “Cidade da Paz”, equivalendo à hindu-tibetana Shamballah e até mesmo à escandinava Walhallah, “Vale de Allah” ou “Morada de Deus”.

Jerusalém como Centro do Mundo. Gravura de Heinrich Buting´s em "Travels according to the Scriptures" (1581).

Jerusalém como Centro do Mundo. Gravura de Heinrich Buting´s em “Travels according to the Scriptures” (1581)

Com efeito, desde a origem que o carácter teóforo de Jerusalém é evidenciado pelo nome divino Salém ou Shalem, mencionado em Génesis, 14:18, a propósito da história de Abraão e Melkitsedek. A equivalência de Salém com Jerusalém-Sião é visivelmente admitida na literatura bíblica, da mesma forma que faz fé na utilização indistinta de Salém e de Sião como sinónimos no Salmo 72:2: “Salém é a tenda e a morada está em Sião”. Aliás, na etimologia popular esse elemento teóforo que se descobre tanto em Salém como em Jerusalém, a saber, o nome da divindade Shalem, está identificado praticamente com o nome hebreu Shalom, a Paz, de onde vem o nome de Schlomoh, Salomão, dado ao donatário do Templo.

Assim, dentro da perspectiva primeiro só judaica e depois judaico-cristã, concebe-se a elevação de Jerusalém ao título de “Cidade da Paz” por expressar directamente a esse Centro Primordial onde reina a Pax perene, a Pax Mundi segundo a concepção teológica medieval perfilhada pelos místicos e cruzios europeus demandante dessa Terra Santa plantada próxima de onde fora o Jardim do Génesis onde apareceu a primeira parelha humana – Adam e Heve.

Tal concepção encontra, sem dúvida, a sua expressão mais marcante no Salmo 122, composto após o exílio, onde “a Paz sobre Jerusalém” é a palavra-chave. Mais expressamente ainda, Shalem e Shalom estão identificadas em Hebreus 7:1-2, com a paráfrase do episódio já citado do encontro de Abraão (Ab-Ram) com Melkitsedek: “Com efeito, esse Melkitsedek, Rei de Salém, Sacerdote do Deus Altíssimo, que foi ao encontro de Abraão que voltava do massacre dos reis, e o abençoou, a quem Abraão ainda atribuiu o dízimo de tudo”, desde já de quem interpretamos o nome como Rei de Justiça (Adonai-Tsedek) e que também é Rei de Salém (Koro-Tsedek), que quer dizer “Rei de Paz”. Passando a peregrinação do deserto, o profeta percebe o Monte de Sião onde o Eterno encontrará “o lugar de seu repouso”. O objectivo final da saído do Egipto não é estabelecer em Eretz um foco nacional mas uma Morada de Deus, “a residência da tua santidade” (Nevé quedoskha), é o que ele diz no versículo 13 de Êxodo.

Por que ele chama-a de “monte da herança”? A noção de herança, no sentido amplo, implica uma tripla relação entre YHWH, Israel e a Terra, pois todos os três são objectos de herança. Israel é a herança do Senhor (Êxodo, 34: 9), como o Senhor é, Ele próprio, herança de Israel (Salmos, 16: 5), e a Terra é prometida a Abraão a título de património hereditário (Génesis 15:18). Eis, pois, que se é levado à marcha de Abraão para a Terra Santa.

“A essa Terra Abraão deu o nome de YHWH yirê: “o Eterno verá”; de alguma maneira como dizemos hoje em dia: “Sobre a montanha o Eterno será visto” (Génesis, 22:14).”

O caminhar de Abraão, “pai” da Raça Hebraica, é uma dupla marcha: “marchai na minha presença e sede perfeito” (Génesis, 17:1), indica bem o título desse seu caminhar: Lekhlekha (Ide!); ele marcha em direcção a uma terra a princípio desconhecida, depois marcha sobre o país de Moriah, onde deverá sacrificar o seu filho Isaac. O nome de Moriah acerca-se do de Yaréah, significando “temor”. Assim, os cabalistas judaico-cristãos vêem no Monte Moriah (Har-Habayit) “a montanha do temor de Deus”. Após ter marchado três dias na obscuridade da Fé, “Abraão levantou os olhos e viu o lugar (makom) de longe” (Génesis, 22: 4). Ele o viu na bruma: “O lugar é uma predestinação” (Sanh., 14b).

De facto, a Cidade-Templo (Shalem ou Shalmon-Shulmanu) pré-israelita, governada pelo Rei Melkitsedek que oficiava no Santuário de “El Elion” (o Deus Altíssimo), foi hebraizada porque aí ficava o Hieros Logos do sacrifício de Isaac por seu pai Abraão (Génesis, 22) sobre o Monte Moriah, que desde esse tempo imemorial está associado à fundação de Jerusalém.

Esse monte será tardiamente considerado por II Crónicas, 3:1, como sendo o próprio Monte Sião. Aí, na área de Arauna, o Anjo do Senhor parou de atormentar o povo (II Samuel, 24: 16). Aí David ergueu o Altar e Salomão edificou o Templo. É, portanto, o lugar “que o Eterno vosso Deus” escolheu, diz a Bíblia, e a visão de Abraão vai a partir de então concretizar-se com a fixação ou sedentarização das doze tribos, a partir da conquista da Terra Santa por Moisés e Josué. A visão concretizada revela-se na edificação do Templo consagrado ao Deus de Israel (Ish-Ra-Elli), segundo a tradição conservada por Crónicas, 15:16-22.

De Abraão chega-se agora a David, que vai fazer de Jerusalém (Milich-Ha-Shadai) a pedra angular de Israel.

É verdade que a Paz não nasce da divisão, ainda que a pronúncia futura entre os hebreus de Yeroushalaïm seja dual, embora a ortografia seja a do singular. Se Élie Benamozeg vê nessa dualidade a união de Israel e da Humanidade, resta que a união supõe a dualidade e não a unidade. Mas a Yeroushalaïm do “Volume da Santa Lei” é de facto um singular e representa a Unidade, onde reina o Único.

“Escuta, Israel, o Eterno teu Deus, o Eterno é o Único”, frase do Shema que será definida por Cristo (Mateus, 22, 36-40) como o primeiro mandamento pelo Amor que dele decorre: “E tu amarás o Senhor teu Deus, etc.”[1]

É dentro desse contexto de Unidade, e de Unicidade do Universo manifestado, que a Shalem dos primórdios anuncia a Shalem dos tempos futuros que serão “Plenitude e Paz”: “A Justiça produzirá a Paz” (Isaías, 31:17)[2].

A abraamização do lugar de Moriah ou Sião fará dele posteriormente o centrum in trígono centri do monoteísmo mediterrâneo e, portanto, o sinal de uma Tradição Única. Tudo isso começa na visão do pai dos crentes, visão cujas consequências inscrevem-se no património espiritual confiado a Jerusalém mencionado pelo profeta Isaías, 2: 8: “De Sião sairá a Torah”. Visão que igualmente prefigura o objectivo do êxodo de Moisés e do povo de Israel na saída do Egipto; visão, em Moisés também, do “Monte da Herança”, segundo a fórmula de Êxodo, 15:16-17:

“Que passe, esse povo que Tu escolheste.

Tu o farás vir e Tu o fixarás sobre a montanha da Tua herança;

Morada para Tua residência que tu fizeste, Senhor,

Santuário, ó Senhor, edificado por Tuas mãos.”

Com efeito, Moisés acabara de atravessar o mar de caniços, pantanoso e barrento (donde o apodo vermelho), com o povo escolhido de Israel. Ele se manifesta em acções de graças pela intervenção de Deus e canta o seu cântico da Libertação. Jerusalém aparece então numa luz pascal. Moisés celebra apenas as maravilhas passadas, mas o Espírito lhe revela ainda as maravilhas futuras. Vê o povo em marcha para o Sinai onde ele receberá a Torah, depois para a Terra Prometida onde entrará para Sião, onde o Templo será construído, enfim, não por Israel mas pelas mãos do próprio Deus. Pelas “suas duas mãos”, sublinha Rashi, embora o Mundo tenha sido criado com uma só mão, conforme Isaías, 48: 13. Isso para significar, é claro, que a construção do Templo é uma obra maior que a criação do Mundo.

De maneira que o duplo binómio Melkitsedek – Abraão e Salém – Jerusalém, assim se dispõe:

MELKITSEDEK, SENHOR DE SALÉM

(Cidade Santa Primordial encoberta)

recebeu o tributo da dízima de

ABRAÃO, “PAI DE ISRAEL”

(Doze Tribos)

e concedeu-lhe MORIAH, centro de JERUSALÉM

(Cidade Santa Primordial descoberta)

Melkitsedek legou a Abraão a tríplice herança em graças da dízima recebida:

A Israel como herança do Eterno;

O Eterno como herança de Israel;

A Terra Prometida como herança da prole de Abraão.

Por isso é que as escrituras sagradas consideraram Jerusalém o centro espiritual de Israel, logo, toda ela assumida Terra Santa pelo Povo do Livro descendente dos filhos de Abraão, Isaac (judeus) e Ismael (árabes).

Nos inconciliáveis históricos desde há 5000 anos opondo judeus e árabes, ainda assim houve um período de conciliações, apesar de frequentemente interrompidas por motivações mais geopolíticas que religiosas, que correspondeu à fase de implantação da Ordem do Templo na Terra Santa, talvez graças ao espírito ecuménico exercido por ela que, é notório, recebeu forte influência do Judaísmo, mormente na parte gnóstica ou velada do seu doutrinal, e com essa mesma religião, afinal de contas, sempre andou de relações estreitas, mormente em Portugal, onde exerceu um papel de «policiamento» junto do saber sinagogal.

Melkitsedek com o Santo Graal abençoa o Mestre Gualdim Pais, fazendo as vezes de Abraão, “pai” da raça Judaica, mas aqui incarnando a Perfeição da Alma Templária Lusitana. – Pintura de Gregório Lopes, da Escola Portuguesa da primeira metade do século XVI, exposta na igreja de São João Baptista, em Tomar.

Melkitsedek com o Santo Graal abençoa o Mestre Gualdim Pais, fazendo as vezes de Abraão, “pai” da raça Judaica, mas aqui incarnando a Perfeição da Alma Templária Lusitana. – Pintura de Gregório Lopes, da Escola Portuguesa da primeira metade do século XVI, exposta na igreja de São João Baptista em Tomar

A posse efectiva da Terra Santa implicava possuir a sua Tradição Primordial e ser parte integrante dela. Estará nisso a causa suprema de quantas Cruzadas e Crescentadas houveram de parte a parte.

Reduzidas a gueto (aljama ou alfama) dentro do seu próprio centro espiritual de Jerusalém pelos muçulmanos desde o ano 634-644 d. C., muitas famílias judaicas optaram pelo êxodo e encetaram diáspora na direcção do Ocidente rumo à Europa, principalmente as descendentes da linhagem de Benjamim em cujas veias corria o sangue de vários dos primeiros reis de Israel, nomeadamente de Saúl, inconformadas com tão humilhante quão castrante opressão do árabe intolerável.

Surge assim em vagas sucessivas, com intensidade crescente, ao longo da orla costeira mediterrânea indo até ao extremo ocidental da Europa, o estabelecimento de comunidades judaicas. que a partir do século XI ganharam notoriedade devido a boa adaptação social, política, cultural e religiosa com os povos europeus. Contudo, não se ignora haver registo da presença judaica na Europa já antes da era cristã, e que essa população judaica europeia cresceu substancialmente após a conquista romana da Judeia e da Palestina pouco antes do século I d. C.[3]

Face à impossibilidade de recuperarem militarmente a Terra Santa, no século XII os judeus da diáspora decerto viram os propósitos de conquista ultramarina pela Ordem do Templo servirem perfeitamente aos seus propósitos. Isso tanto no aspecto militar, como no político e no religioso. Daí financiarem largamente as Cruzadas; daí iniciarem propositadamente vários e distintos cavaleiros templários nos segredos mais selectos do Judaísmo, ou seja, na Kaballah, a “Tradição Velada do Livro”.

Nesse sentido, pode-se aventar não ter sido escolhida ao acaso a cidade de Troyes para a realização em 1128 do concílio solicitado por São Bernardo a pedido de Hugues de Payens e seus oito companheiros, a fim de ser aprovada oficialmente a nova Milícia do Templo. A maioria deles tinha laços familiares à Casa de Borgonha a qual, significativamente, esteve na fundação de Portugal. Ora, nessa cidade francesa, domínio do conde Hugues de Champagne, residia o próprio cavaleiro Hugues de Payens, parente do conde seu feudatário, ambos íntimos do pensamento heterodoxo do rabino Rashi da Escola de Estudos Rabínicos de Troyes, onde o estudo da Kaballah ocupava lugar destacado, a qual prosperava desde 1070, época de Godofredo de Bouillon[4]. Além disso, o próprio São Bernardo possuía proximidade familiar aos cavaleiros requerentes da nova Ordem, sendo sobrinho do cavaleiro André de Montbard por sua mãe, Alette, ter casado com Técelin de Montbard, senhor do feudo de Fontaine, todos com grande proximidade ao esoterismo sinagogal[5]. Será ainda na cidade de Troyes que nascerá um trovador célebre, Chrétien de Troyes, que cerca de 1160 iniciará o ciclo literário do maior dos mitos medievais: o do Santo Graal, que um trovador templário posterior, Wolfram Von Eschenbach, irá atribuir a sua posse efectiva à Cavalaria da Ordem do Templo.

Rashi de Troyes (1040-1105)

Salomon Rashi de Troyes (1040-1105)

Já antes de 1128, em 1125, o cavaleiro português Arnaldo da Rocha e o francês Hugues de Payens firmaram juntos um documento onde assinaram respectivamente “o Grão-Prior e o Grão-Mestre”, o qual confirma a existência de um plano secreto de consolidação do Templo que o posterior concílio apenas viria oficializar[6]. Inclusive há quem chegue a afirmar que já em 1114 a Ordem era conhecida do Papado, talvez por ter recorrido a arquivos e a documentos hoje irremediavelmente perdidos, como foi o caso de Pedro de Mariz que escreveu em 1672: “Porque no tempo do Pontífice Pascoal II, no ano do Senhor de 1114, teve princípio a Ordem dos Cavaleiros Templários em Jerusalém, fonte, e origem, de todas as mais Ordens de Milícia, que houve na Europa”[7].

Conscientes da impossibilidade de restaurar o Templo de Salomão assim como a linhagem divina dos reis de Israel, interrompida definitivamente, os judeus benjamitas da diáspora desviam os olhares do Médio Oriente e fixam as atenções no mais Ocidente da Europa, na Terra de Sefarad ou dos sefarditas que aqui eram, neste mesmo País então em formação destinado a abrir um novo ciclo de Humanidade. Servindo-se do pretexto da política militar de reconquista da Península Ibérica ao Islão, impelem os Barões de França, liderados por D. Henrique de Borgonha, à consagração do novo Condado Portucalense como Terra Santa, sentido místico que cedo incutiram neste finis Terris in Occidis, por certo prevendo que cedo o Condado se tornaria País independente, o primeiro da Europa feudal, e teria todas as condições para nele se fundar a nova Israel. Posteriormente, os cavaleiros templários trariam para esta outra Terra Santa, o “Porto do Graal” (como está no sinal rodado nas cartas de doação de Tomar e Sintra por D. Afonso Henriques a Gualdim Pais, Mestre Provincial do Templo), essa mesma Arca da Aliança, as Tábuas de Moisés, o Cálice de Salomão, enfim, expressões diversas para uma única Sabedoria Iniciática alegorizada no Saint Vaisel, que como objecto cerrado vem a simbolizar o saber velado, trazido para aqui possivelmente pela mão de Arnaldo da Rocha, em segredo, encarregando-se o Mestre Gualdim Pais de soerguer um novo e terceiro Templo de Salomão digno de albergar a Santa Relíquia vinda do Oriente. Ideia escondida mas que deu concepção e nascimento à Charola ou Rotunda octogonal em torno da qual se formaria o Convento de Cristo em Tomar, a região mais ao centro de Portugal, construída como réplica exacta da Cúpula do Rochedo em Jerusalém que assenta sobre as antigas ruínas do Templo de Salomão.

Exterior da Charola Templária de Tomar

Exterior da Charola Templária de Tomar

Estavam lançadas as base do novis Templis Salomonici, em Tomar e ao centro do Reino, como se fosse o centro do Mundo para que concorreriam as mais diversas correntes de pensamento numa nova demanda espiritual da novis Civitas Hierosilimita ad Occidis Mundi. Padrão sinalético da transferência dos valores espirituais do Oriente ao Ocidente, eis aqui a Charola tomarense soerguida cerca de 1170, cujo formato octogonal revela o valor solar 8 do número cabalístico do Cristo, 608, assim  reunindo a potência da Idade do Pai (Ciclo de Jerusalém) e a essência da Idade do Espírito Santo (Ciclo da Lusitânia), ficando a do Filho (Ciclo de Roma) assegurada pela própria Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo. Esta construção em octógono, consagrada à Ressurreição de Cristo, só pode revelar ter sido construída com intenção mística, posto que em arquitectura militar o octógono tem interesse nulo, pelo que o seu valor para a Ordem pertenceria ao exclusivo plano do transcendente, ademais sendo a figura geométrica determinada pela sua Cruz pátea, insígnia da Cristandade.

Com efeito, a Charola, Rotunda ou Oratório dos Templários foi mandada edificar por D. Gualdim Pais possivelmente aos Monges-Construtores da Ordem de Cister, resultando uma réplica exacta da mesquita de Omar e da igreja do Santo Sepulcro, ambos edifícios de planta circular, em Jerusalém, ocupando o espaço do antigo Templo de Salomão. Como disse, considera-se que a construção da Charola de Tomar teria o objectivo de representar um novo Templo Jerusalemita no extremo ocidental da Península Ibérica, indo adaptar-se ao Ocidente o espírito tradicional do Oriente capaz de reunir num só Templo de Deus Único e Verdadeiro as três religiões do Livro (judaica, cristã e islâmica). Trata-se, pois, do translatio imperii, a “trasladação do império”, tema de ciclicidade subjacente ao intento velado da construção da Charola.

Também como disse, ela era o Oratório dos Templários, baseada no tipo clássico das mesquitas sírias, e originalmente deveria ser muito simples. Mas quando, em 1356, Tomar passou a ser a Sede da Ordem de Cristo, abolida a dos Templários, a Charola recebeu muitos enriquecimentos e foi adaptada às funções do novo Convento da nova Ordem de Cristo pelo Infante D. Henrique, que a tornaria capela-mor da igreja. São do século XVI a maioria das pinturas e frescos (quase só cenas bíblicas) e a estatuária dourada sob a sua cúpula bizantina. A planta da Charola é octogonal pelo interior (o tambor central possui oito faces), pelo que as suas paredes exteriores possuem – ou possuíram – dezasseis panos reforçados por sólidos e altos contrafortes (dois destes panos de parede foram eliminados nas obras de engrandecimento manuelinas, no século XVI).

Interior da Charola Templária em Tomar

Interior da Charola Templária de Tomar

Por esse esquisso da Charola – palavra que revela a forma circular do edifício, associada ao termo francês carole, uma dança encadeada, “em roda” – tem-se presente o octógono e o respectivo número oito das suas faces. O simbolismo medieval de ambos ajusta-se inteiramente às primitivas funções de oratório e altar-mor da Charola como lugar de passagem da mortalidade à imortalidade, logo, com a função psicopompa ou medianeira entre os mundos visível e invisível, assim representando a Arca da Aliança de Deus com a Humanidade.

O octógono representou na Idade Média a figura de passagem entre o quadrado – a Terra – e o círculo – o Céu – pelo que assumia o simbolismo espiritual do trânsito, ou seja, da Ressurreição de Cristo e o começo da Perfeição Humana. É assim que o octógono expressa o Poder Divino na Mundo Humano, o que veio a ser representado como a descida da Jerusalém Celeste na Terra, ideia programática assinalada pela Charola.

O significado cabalístico do número oito reforça o sentido do simbolismo octogonal. Número figurativo do duplo quadrado da Terra e do Homem em equilíbrio, a tradição cristã considera o valor oito como o da Redenção e Prosperidade. Oito é sete mais um, o transbordar da Plenitude. A Plenitude judaica (o sete) foi ultrapassada por Cristo em sua Ressurreição na manhã do oitavo dia. O oitavo dia passou assim a ser o primeiro dia (o dia do Senhor, Domenica dies), domingo, em oposição ao sábado (Shabath, descanso, sétimo dia em que o Senhor descansou da Obra da Criação). Por isso as grandes festas cristãs (Natal, Páscoa) têm uma oitava, isto é, celebram-se durante oito dias, sendo o domingo dessa oitava o prolongamento da grande festa celebrada. Sendo o oitavo dia o Dia da Ressurreição em que os cristãos são associados, pelo baptismo, ao Mistério Pascal de Jesus Cristo, é também comum encontrar, na arquitectura, a forma octogonal como planta muito frequente dos baptistérios. Também as estrelas de oito pontas (dois quadrados sobrepostos e rodados que simbolizam a transformação espiritual) da arte românica e as rosáceas com oito pétalas têm o mesmo significado.

A Charola lusitana, novel Tabernáculo de Ouro salomónico, é toda ela uma construção cifrada, um enigma de pedra que lembra o estipulado no artigo 8 dos pressupostos Estatutos Secretos do Templo: “Lá onde construirdes grandes edifícios fazei os sinais de reconhecimento”.

Planta do Convento de Cristo em Tomar

Planta do Convento de Cristo em Tomar

Em volta da Charola está o Castelo desta maneira assumido Reduto ou Râbita como “Templo-Fortaleza”, construção iniciada antes daquela, ou seja, em 1 de Março de 1160 por ordem de Gualdim Pais, no topo do monte que as sortes deitadas por três vezes pelo Mestre por três vezes lhe apontaram esse lugar, como diz a lenda, e após isso o Mestre Gualdim encetou montada a um porco montês indo tomá-lo já morto no topo do mesmo cabeço. Diz o vozerio popular que desse episódio adveio o nome Tomar[8]. Mas como as montadas e especialmente os “jogos de sorte e azar” eram expressamente proibidos aos templários, então ter-se-á de perceber um outro sentido nesse episódio lendário, ou seja, o da demanda do centro axial aliado à prática geomântica, onde os “dados lançados” serão referência à escolha do terreno e ao lançamento da pedra fundamental do edifício da Nova Casa de David cujo filho, Salomão, aí tomaria forma na própria Milícia do Templo, ao mostrar-se reformadora e parúsica, sustentáculo ecuménico de uma Nova Igreja, não de Roma mas do Amor: consoladora da Humanidade afligida; compadecente da Humanidade desejosa de ciência.

Michelet afirmaria a esse propósito[9]: “(…) o ideal do Templo, mais elevado e geral do que o da Igreja, planava, de certo modo, acima da religião. A Igreja tinha idade, o Templo não a possuía. Contemporâneo de todas as eras, constituía como que o símbolo de perpetuidade religiosa. (…) A Igreja é a Casa de Deus, o Templo a do Espírito Santo”.

Segundo Manuel Joaquim Gandra[10], no que parece estar muito bem, a Ordem do Templo visava o aperfeiçoamento intelectual e moral da Humanidade, motivo porque não dissociava (como se vê nos escultóricos exteriores no Convento de Cristo, em Tomar) o Querubim (Anjo da Sabedoria) do Serafim (Anjo do Amor): sabia que só no Amor existe Sabedoria.

O Querubim (Sabedoria) e o Serafim (Amor) no Convento de Cristo, Tomar

O Querubim (Sabedoria) e o Serafim (Amor) no Convento de Cristo, Tomar

De maneira que, inspirado pelo saber judaico e idealizado pelo messianismo templário, é levantado o Novo Templo de Salomão, não no Oriente mas nos confins do Ocidente, na região mais ao centro de Portugal, sobre a sua “coluna espinhal” que sobe de Sagres a Santiago (de Compostela), assim feita simbólica e geosófica Árvore de Jessé de cujo tronco, segundo as profecias, há-de advir o Paracleto, o Imperador do Espírito Santo, Julgador e Consolador das Nações, identificado à Parúsia Universal como o Cristo em seu segundo Advento.

Assim, bem parece que se firmou na velha Sellium, Nabância ou Tomar a mítica Dinastia do Santo Graal, onde os descendentes de Isaac e de Ismael vão se encontrar e até irmanar na Paz (Shalom) em Terra de Luz (Shalem), o que remete para a Concórdia Universal ou Sinarquia que a Cristandade Templária bem tentou perpetuar. O facto parece estar assinalado no resto de um tímpano medieval encrostado na parede frontal exterior da igreja de S. João Baptista desta cidade (possivelmente provindo do templo primitivo antes dos restauros que recebeu no século XVII). Nele observa-se à direita o leão (de Judá) e à esquerda o cão ou, mais certo, atendendo ao nome do Orago S. João Baptista e os seus símbolos iconográficos, cordeiro (de Cristo), tendo permeio um caule longo em formato de taça donde sobressai a flor-de-lis (de Ismael), designativa tanto da Realeza Divina quanto daquele que a assumia em seu tempo: o “Ancião da Montanha Primordial” ou Alborj, o mesmo Al-Bordi, como seja o mesmo Monarca Universal para os Assacis ismaelitas, também aqui plantado graças à visão ecuménica do Templo, quiçá numa antevisão de que com a perda da Terra Santa do Oriente o Rei do Mundo haveria de deslocar o foco da sua actividade, em um outro movimento axial, para esta outra Terra Santa do Ocidente.

Alegoria corânica semelhante à do frontal exterior da igreja de S. João Baptista, em Tomar.

Alegoria corânica semelhante à do frontal exterior da igreja de S. João Baptista, em Tomar

Curiosamente, relacionada com a simbologia dessa pedra esculpida encontra-se no Beatus Facundus, manuscrito com iluminuras moçárabes de cerca de 1047 ilustrando os comentários sobre a Revelação de S. João pelo Beato de Liebana no século VIII, o mesmo tema servindo de comentário a uma passagem do Apocalipse (V, 5:10). Diz:

“(…) Eis aqui o Leão de Judá, a raiz de David, que pela sua vitória alcançou o poder de abrir o Livro e de desatar os seus sete selos.

“E olhei e vi no meio do Trono e dos quatro Animais e no meio dos Anciãos um Cordeiro como morto que estava em pé, o qual tinha sete cornos e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus, mandados por toda a Terra.

“E veio e tomou o Livro da mão direita do que estava sentado no Trono.

“E tendo aberto o Livro, os quatro Animais e os vinte e quatro Anciãos se prostraram diante do Cordeiro tendo cada um a sua cítara e a sua redoma cheia de perfume, que são as orações dos Santos.

“E cantavam um cântico novo, dizendo: Digno és, Senhor, de tomar o Livro e de desatar os seus selos, porque tu foste morto e nos remiste para Deus pelo teu sangue, de toda a Tribo e de toda a Língua e de todo o Povo e de toda a Nação.

“E nos tens feito para o nosso Deus, Reis e Sacerdotes: e reinaremos sobre a Terra.”

Iluminura moçárabe do "Beatus Facundus"

Iluminura moçárabe do “Beatus Facundus”

Esse tímpano teve uma leitura arqueoastronómica por parte de Maurice Guinguand e Beatrice Lanne (in ob. cit.), que assim dizem: “Em frente do miradouro [do Castelo de Tomar] foi construída uma igreja a que foi dada o nome tradicional de São João Baptista – posição do Sol no solstício –, que fica também defronte do campanário octogonal. Na fachada foi esculpido um baixo-relevo.

“Dois animais de tamanhos diferentes, colocados de cada lado do motivo central, estão virados um para o outro. O maior representa um cão, indicando a constelação do Cão Maior, cuja estrela principal é Sírio ou Sothis. O outro, um leão, está relacionado com a constelação do mesmo nome e com a sua estrela Régulo.

“Quanto à figura central, trata-se de uma taça estilizada, relacionada com a constelação da Taça. O ângulo que parte do centro é de trinta e quatro graus, idêntico ao ângulo formado por esta constelação. Perto do baixo-relevo, para a direita, encontra-se uma pedra bastante pesada com uma cabeça de esfinge, formando um relevo bastante pronunciado, que nos recorda que é conveniente consultá-la para podermos compreender o significado da placa.

“Nela encontramos, evidentemente, todas as indicações necessárias e até outras. A constelação do Leão forma com a da Taça e a estrela Sírio, do Cão Maior, um ângulo de trinta e quatro graus à meia-noite real do dia 20 de Janeiro. Esta data coincide com a festa de São Sebastião, um dos santos padroeiros dos Templários.”

A verdade é que os atributos de São Sebastião indiciam-no Hommo Teluricus, e toda a sua hagiografia e posterior iconografia inserem-no, postam-no como axis do ideal aghartino, ctónico, diáblico e assim mesmo soberano, de maneira que se o vai encontrar idealmente identificado tanto a esse outro São Jorge (patente no tímpano desta igreja, recuando o seu culto aqui a D. João I e sua esposa, D. Filipa de Lencastre, e igualmente no claustro do Convento de Cristo próximo) quanto à enigmática e caprina figura do Baphometh, igualmente exposto em fecho de abóbada no claustro de Santa Bárbara no mesmo convento.

Tímpano medieval no exterior da igreja de S. João Baptista, Tomar.

Tímpano medieval no exterior da igreja de S. João Baptista, Tomar

Tudo aponta o Mestre Gualdim Pais (n. Amares, Braga, 1118 – m. Tomar, 13.10.1195) como o principal consolidador da Milícia de Agnus Castus (Sacerdotes), simultaneamente Domine Canes (Guerreiros), “Cães do Senhor”, ou seja, Guardiões da Fé, que foram os templários em Portugal (e igualmente nas outras Províncias). Em volta do Ideal Templário agregou as três correntes tradicionais do Livro e deu-lhes como que feição dinástica reunidas no culto ao mais santo dos objectos medievais: o Santo Graal, expressivo do Saint Grial ou Sangue Real que, afinal de contas, tanto poderá ser o de Cristo como o de todos os Fundadores da Fé.

Até esse Mestre (nado próximo de Braga, Primaz da Hispânia, e nesta vivido possivelmente em casa localizada na actual Rua de D. Gualdim), a Casa-Mãe da Ordem em Portugal era em Ceras (1159-1160), e antes em Santarém (1147-1159), Soure (1128-1147) e Fonte Arcada (1125-1128). Foi ele que a transferiu ad perpetum para Tomar que, assim, para sempre ficaria ligada ao seu nome.

Gualdim Pais foi eleito Mestre da Província de Portugal no início de 1159, quer pelo Capítulo reunido, quer pela vontade real, sucedendo no Mestrado a D. Fr. Pedro Arnaldo. Isto após ter feito a Guerra Santa no Oriente onde esteve presente no cerco de Ascalon, como testemunha uma lápide com caracteres latinos maiúsculos entrelaçados trazida do Castelo de Almourol e mandada colocar à entrada da capela-mor, por sobre a porta da sacristia velha do Convento de Tomar, pelo Infante D. Henrique quando era administrador da Ordem de Cristo:

“Era de 1209[11]. O Mestre Gualdim certamente de nobre geração natural de Braga, existiu no tempo de Afonso, ilustríssimo Rei de Portugal. Abandonando a milícia secular em breve se elevou como um Astro, porquanto, soldado do Templo, dirigiu-se a Jerusalém onde durante cinco anos levou vida trabalhosa. Com seu Mestre e seus Irmãos, entrou em muitas batalhas, movendo-se contra o rei do Egipto e da Síria como fosse tomada Ascalona, partindo, logo para Antioquia pelejou muitas vezes pela rendição de Sidon. Cinco anos passados, voltou, então, para o Rei que o criara e o fizera. Feito Procurador da Casa do Templo em Portugal, fundou, neste, o castelo de Pombal, Tomar, Zêzere e este que é chamado Almourol, e Idanha e Monsanto.”

Gualdim Pais trouxe consigo do Oriente as ideias religiosas de Bizâncio, inculcadas em muita da monumentalidade que mandou construir e decorar em Portugal, assim como também trouxe a relíquia sacra da mão direita de São Gregório Nanziazeno – que juntamente com São João Evangelista provaram a divindade de Cristo – “que em Tomar se guarda incorrupta, assim como o resto do corpo se guarda em Roma, com igual incorrupção”, segundo Viterbo no seu Elucidário, vol. II, pág. 580. A relíquia já não está na capela de São Gregório que em Tomar se construiu no século XVI, apesar da evocação do santo aqui recuar ao período de Gualdim Pais. De planta octogonal, esse pequeno templo sugere todo ele uma imitação ou réplica da Rotunda dos Templários, inclusive não lhe faltando o busto pequeno do “Ancião dos Dias” ou Adam-Kadmon, o Logos Planetário como Deus da Terra marcando os seus Ciclos ou Dias e do qual Melkitsedek é o mais próximo, algo assim como a Alma para o Espírito. Quanto à capela, apresenta um altar de talha popular ao fundo e azulejos de dois painéis de Setecentos vindos das Trinas de Lisboa; três portas – alusivas às 3 Pessoas da Santíssima Trindade aonde se recolhem as almas dos crentes, e durante largo tempo aqui funcionou como capela mortuária – dão-lhe entrada, com a do meio, rectangular, apresentando um curioso desenho formado por troncos e folhagens que se encontram na verga atados por nós em pedra esculpida, tendo ao centro a pequena e inesperada cabeça de homem barbado, o mesmo Adam-Kadmon como se vê na iconologia cabalística do Judaísmo. A sua cobertura é de abóbada. Um alpendre de oito colunas ligadas duas a duas, deixando três entradas livres, tem quatro águas irregulares, tudo numa feição rústica que vai resistindo ao tempo[12].

Entrada central da capela de S. Gregório, Tomar

Entrada central da capela de S. Gregório, Tomar

A função mortuária da capela de São Gregório (o “gargarejo”, gregório e gregorina como garganta emissora da voz orante cantada) assume assim carácter psicopompo ligado à Mãe das Almas, Nossa Senhora da Piedade, que do seu Monte próximo cola a este sítio por ladeira de degraus empedrados que os romeiros sobem e descem por altura da festa religiosa à Virgem, indo reflectir a subida das almas à Salvação e após encaminhando-se para o lugar do Trono do Padre Eterno, representado pela própria Charola. Com efeito, Manuel Gandra ao inscrever no plano da cidade uma circunferência configura nesta alguns triângulos isósceles, um deles formado nos ângulos por São Gregório, a Sinagoga e a Charola[13]. Isso é muito significativo e não deixa de corroborar o que acabei de dizer da condução das almas por intercessão de São Gregório junto da Senhora da Piedade, que as levará ao Céu do Eterno. A presença da Sinagoga impõe o seu padroeiro, São Miguel, também de carácter psicopompo antecedendo o santo bizantino.

Tendo sucedido ao Mestre D. Pedro Arnaldo que governara até então a Ordem através de um Colégio Magisterial ou Mestral, o novo Mestre D. Gualdim Pais, junto com a edificação da do Castelo de Tomar e da Charola mandou (re)construir a igreja de Santa Maria do Olival, na margem do Rio Nabão oposta ao castelo, obra iniciada em 1160 e terminada em 1175. A Casa Capitular da Ordem teve assento aqui, sendo cenóbio dos monges cavaleiros antes de puderem habitar dentro da cerca fortificada. Entretanto, juntara-se população e Santa Maria do Olival (sendo Orago a Senhora do Leite, a mesma do milagre da lactação de São Bernardo), que certamente se completou com a fachada terminada já em estilo evoluído na segunda metade do século XIII, foi bailio da Ordem e nela se instalou o panteão dos Mestres, cujos túmulos hoje não se vêm todos por causa de destruição perpetrada pelas más obras de «restauro» que lhe infligiu D. João III e o seu prior capataz, Fr. António de Lisboa[14].

De facto, até ao reinado de D. João I a igreja de Santa Maria do Olival foi “corporal” ou panteão dos Mestres do Templo em Portugal, desde D. Gualdim Pais até D. Lourenço Martins. Depois serviu igualmente de “corporal” aos Mestres da Ordem de Cristo, desde D. Gil Martins até D. Lopo Dias de Sousa.

Por causa das obras de demolição havidas no reinado de D. João III, hoje só sobra nesta igreja para memória daqueles Mestres Templários dois epitáfios tumulares, o de D. Gualdim e o de D. Lourenço. A daquele, colocada na capela lateral do lado direito da assembleia, escrita em latim assim se poderá traduzir:

“Morreu Frei Gualdim, Mestre dos Cavaleiros do Templo em Portugal, na era de 1233[15], terceiro dos idos[16] de Outubro. Este castelo de Tomar, como muitos outros, povoou. Descanse em paz. Ámen.”

Inscrição tumular de Gualdim Pais na igreja de Santa Maria do Olival, Tomar

Inscrição tumular de Gualdim Pais na igreja de Santa Maria do Olival, Tomar

A cruz inicial da legenda, a sua grafia, o seu pautado e o seu latim bárbaro dos princípios da Nacionalidade, são provas sobejas dela ser coeva da morte do Mestre, acontecida em 13.10.1195 da era cristã. Na do segundo, lê-se: “Aqui jaz D. Lourenço Martins que foi Mestre do Templo em Portugal. Passou em dia um de Maio da era de 1346 [1308]”[17].

Sobre esse último Mestre, escreveu José Manuel Capêlo[18]: “Renuncia ao Mestrado [em 1293], desgostoso, porventura, por notícias que lhe chegavam da situação por que passava a Ordem no Ultramar, depois da morte do Mestre da Palestina, Guillaume de Beaujeu – aquando da rendição de São João de Acre e da retirada para a ilha de Chipre do que restava da Milícia. Disse a lenda [ou a palavra posterior e demasiado fácil] que teria previsto, depois de tudo isto, a queda da Ordem. Assim, para não passar por vexames, devia evitar estar no seu governo quando tal acontecesse. Passou a simples cavaleiro, mas requereu a Comenda de Santarém”.

As prerrogativas, regalias e usos da igreja da Senhora do Olival, conservadas intactas até D. João II, são referidas por José António dos Santos que dá notícia da grande importância do lugar[19]:

“A egreja de Santa Maria do Olival foi bailia e matriz de todas as egrejas que a ordem de Christo possuia no reino, nas ilhas, em Africa, nas Indias e no Brazil. Gozava das honras de cathedral, e tinha ao seu serviço, como se vê em todas as sés, um masseiro com o bastão ou sceptro, e outros com massas de prata. Era isempta da jurisdicção dos bispos, não reconhecendo superioridade senão ao papa. O seu prelado tinha honras de bispo, celebrava pontifical e gosava de poderes quasi episcopaes na extensa prelazia de Thomar. Era n’esta egreja que as duas ordens do Templo e de Christo celebravam as suas solemnidades, apesar de ficar distante cerca de um kilometro do castello, onde tinham a sua residencia principal e templo com capacidade sufficiente para os mesmos actos.

“Havia n’esta egreja um livro similhante ao de Nôa do convento de Santa Cruz de Coimbra, no qual se iam registando todos os acontecimentos notaveis nao só da ordem e do paiz mas tambem da christandade e do mundo, os obitos dos mestres da ordem e dos soberanos do reino, as victorias alcançadas contra os infieis, o martyrio e canonisação de santos, terramotos, calamidades geraes, etc., constituindo assim interessantissimos annaes. Este livro, que denominam Bezerro, perdeu-se, infelizmente. Talvez que alguem o achasse.”

Se a igreja de Santa Maria do Olival destinava-se originalmente ao culto divino pelos tempreiros (como os consigna Viterbo no seu Elucidário), convém não ignorar que dentro do recinto do castelo, ao sul da alcáçova e não muito distante dela, havia um outro templo da invocação de Santa Catarina, anteriormente de Santa Maria do Castelo, que era destinado aos ofícios das tempreiras. Arruinado desde há longo tempo foi demolido no século XIX o que restava de pé, por ameaçar desabar. Respeitou-se apenas o campanário que, apesar de meio tapado, ainda se eleva acima da muralha.

Campanário da desaparecida igreja de Santa Catarina das templárias do castelo de Tomar

Campanário da desaparecida igreja de Santa Catarina das templárias do castelo de Tomar

É tradição, confirmada por um documento pertencente ao cartório do Convento de Cristo, que houve freiras templárias e tinham o seu convento dentro do Castelo de Tomar anexo à citada igreja de Santa Catarina, tendo uma fidalga de nome Justa, em 1271, lhes doado todas as casas que possuía intramuralhas para as usufruírem para todo o sempre, segundo notícia dada por Frei Bernardo da Costa[20]. Quanto ao documento comprovativo é uma escritura feita a 17 de Maio de 1290, na ocasião em que se celebrava o Capítulo Geral da Ordem do Templo presidido pelo Grão-Mestre D. Afonso Gomes, mandada lavrar por D. Maria (ou Mécia) Peres, senhora ilustríssima que foi mulher de D. Estevão Pires Espinal. Estes cônjuges já nesse tempo estavam separados: ele era freire templário e comendador de Santarém, e ela era freira templária tendo professado a Regra até ao fim dos seus dias.

Sobre o assunto e com muita acuidade, diz José Manuel Capêlo[21]:

“Tem-se, como em tudo o que à Milícia do Templo diz respeito, especulado com a existência de freiras templárias.

“Por vezes nos mesmos recintos, mas em casas separadas, onde viviam os monges-guerreiros, existiram conventos de templárias. Estas que nada tinham de guerreiras [que se saiba], apenas se confinavam à sua condição de monjas. Recebiam, para a Ordem, em seu nome, doações [a mais das vezes daquelas que nela queriam ingressar], bem como senhoras oriundas da alta e média nobreza, que, pelas mais variadas razões, procuravam professar. Ou porque tivessem enviuvado ou porque os respectivos maridos teriam professado no Templo como monges, chegando nalguns casos, como vimos a comendadores.

“A grande maioria, como se deixou dito, eram viúvas e, muito poucas, separadas. Raramente as solteiras pretendiam professar nesta Ordem essencialmente masculina. O rigor eclesiástico e a existência presbiteriana eram ainda maiores que as exercidas em outras congregações de religiosas. Também era raríssimo alguma abandonar, depois de ter, em consciência, professado.

“Em Portugal, os casos mais conhecidos destas figuras históricas, depois da rainha D. Teresa se ter tornado a primeira confrade da Ordem, em 1126, são:

“D. Maria Mendes, no Mestrado de D. Fr. Fernão Dias. Foi mulher de Aires Dias, que igualmente foi recebido como familiar;

“D. Maria Vasques, no Mestrado de D. Fr. Martim Sanches. Não se tem absoluta certeza de que se tenha tornado templária. Foi mulher de Pedro Ferreiro. Ambos requererão, através de doações feitas em nome da Ordem, a protecção desta, não só para si mesmos como para os seus descendentes;

“D. Fruíla Ermiges, no Mestrado de D. Fr. Guilherme Fulcon. Foi mulher de D. Afonso Ermiges, que professara e veio a ser comendador de Castelo Branco;

“D. Sancha Martins, no Mestrado de D. Fr. Martim Martins;

“D. Maria Pires, no Mestrado de D. Fr. Gonçalo Martins;

“D. Mécia [ou Maria] Peres, no Mestrado de D. fr. Afonso Gomes. Quando professou encontrava-se separada de seu marido, D. Estevão Pires Espinal, igualmente templário e comendador de Santarém.

“De que se tenha conhecimento, só em Tomar, no interior do castelo, parece ter existido um mosteiro para freiras templárias. Ao contrário de seus irmãos templários, aquando da extinção da Ordem, as religiosas filiadas no Templo, que viviam em Tomar, não ingressaram na nova Ordem e tiveram que mudar de hábito.”

Apesar de não se terem descoberto provas concretas da existência de mosteiros de templárias fora de Tomar, ainda assim mantém-se a suspeita, isto tanto para os seus territórios de Castelo Branco, como para Monsanto e Idanha-a-Velha e mesmo para Sintra, dentre outros lugares.

Essas monjas realizavam quase sempre trabalhos de hospital, mas algumas vezes dedicavam-se a confeccionar os uniformes dos cavaleiros: mantas, mantos, dalmáticas, etc. (o que era considerado trabalho de pano), e também se dedicavam às actividades de semeadura e colheita nos campos e ao cuidado do gado. Cabia-lhes armazenar todas as colheitas e os produtos lácteos que fabricavam (queijos, etc.) para os enviar aos cavaleiros na Terra Santa. Também lhes cabia a recepção das doações à Ordem, principalmente da parte de outras donatárias ilustres e abastadas, muitas das quais vieram a ingressar na Ordem.

Com efeito, houveram muitos mosteiros de monjas templárias espalhados pela Europa, como aquele que existiu em Combe-aux-Nonnains, na Borgonha, que dependia da Comenda de Épailly. Ainda em França, cito igualmente a filiação de madre Inês, abadessa de Camaldules de Saint-Michael de Ermo, e de toda a sua comunidade, à Ordem dos Templários. De igual modo casos similares em Lyon, Arville, Thor, Metz, etc.

O mesmo ocorreu com Azalais, mulher nobre de Roselon em 1133, que se entregou de corpo e alma a Deus e à Santa Cavalaria de Jerusalém, a do Templo, “para servir a Deus e viver sem bens sob a autoridade do Mestre”. Para isso entregou como esmola o seu feudo de Vilamolaque, com o consentimento dos seus dois filhos: “E que Deus me conduza até à verdadeira penitência e ao seu Santo Paraíso”[22].

Outro caso é o de D. Joana de Chaldefelde, esposa de Ricardo de Chaldefelde de Inglaterra, que entre 1189 e 1193 contraiu votos como irmã do Templo ante Azo, bispo de Wilshire. Este enviou-a com um certificado à Casa do Templo, “tendo em conta que havia superado a idade em que podia levantar suspeitas”. O curioso neste episódio de D. Joana é que ele proporciona um exemplo claro de uma postulante que observa as formalidades da Regra Latina e contrai votos ante o bispo da Diocese, que a envia ao Mestre provida de um certificado[23].

Monja templária em documento inglês da Ordem (fins do século XIII)

Monja templária em documento inglês da Ordem (fins do século XIII)

Volvendo ainda à igreja de Santa Maria do Olival, ou dos Olivais, defronte a ela eleva-se uma torre quadrada sua coeva medieval, depois mandada restaurar por D. João III. Entra-se nela por uma estreita porta ogival onde uma escadaria leva ao topo. A sua finalidade tem sido objecto de controvérsia por parte dos investigadores: para uns, destinava-se a proteger os Templários das razias agarenas, que assim resistiam até vir ajuda do castelo; para outros, seria uma espécie de zigurate caldaico ou observatório astronómico igualmente destinado, em épocas pré-fixadas, à celebração de certos ritos marginais à religião oficial (facto indesmentível é que no seu topo erguem-se dois vasos alquímicos). Poderá ser, tanto que não há memória nem registo de qualquer ataque agareno a Santa Maria do Olival, apesar de estar fora da protecção das muralhas.

Tanto mais que a caneça ou gueto dos cristãos moçárabes aí estaria, fora de portas (sinal de marginalização ante a sociedade religiosa e civil dominante, no caso, a árabe), e há memória de terem havia outras igrejas em volta desta: a de S. Pedro Fins, que se julga ter pertencido ao mosteiro de beneditinos ali existente in illo tempore; a capela de S. Miguel, situada defronte desta igreja; a capela de St.ª Maria Madalena, que se erguia junto à fachada setentrional da igreja de St.ª Maria do Olival. Foram todas destruídas num período prolongando-se desde o reinado de D. Maria I até à reforma de 1840, sendo os seus materiais aplicados na construção dos muros da vedação do cemitério próximo.

Terá sido estreita a relação entre a caneça eclesial e a alfama sinagogal tomarenses, aquela fornecendo a esta os óleos necessários para alimentar as lamparinas da sinagoga, por ser donatária do vasto olival arredor, e esta dando àquela os livros necessários ao entendimento da Fé.

Tem-se assim Luz e Fé, onde o Mikael sinagogal aparelha com a Myriam eclesial nas expressões de igreja celebrante e torre estrelada reflectindo, neste contexto, a Merkabah e a Shekinah, o “Carro da Luz” e a “Torre da Fé”, conceitos judaico-cristãos utilizados para expressar a Divindade no Céu e no Seio da Terra e que, como Homem Cósmico ou Adam-Kadmon, vem a ser assinalada na Estrela de Salomão, ou seja o pentagrama, afinal de contas, decorando a cimalha exterior da cabeceira e da entrada desta igreja “corporal” dos Mestres do Templo. Pentagrama ou pentalfa esse – igualmente esconjurativo das trevas vindo a expressar ao próprio Cristo, adoptado como signa dos primitivos monges-construtores – que viria a servir de logotipo às quinas das Armas de Portugal, aqui mesmo, nesta que foi a matriz ou sede prelatícia de todos os santuários marianos de Portugal Continental e Ultramarino.

Igreja de Santa Maria do Olival e Torre anexa, Tomar

Igreja de Santa Maria do Olival e Torre anexa, Tomar

Tão boa e próxima terá sido a relação entre judeus e cristãos que a mulher de Afonso Lopes Sapaio (ou Sampaio), trovador de origem judaica residente em Tomar, está sepultada nesta igreja de Santa Maria.

A Judiaria de Tomar (que ocupava inteiramente o espaço da Rua Nova, actualmente Joaquim Jacinto) é no mínimo anterior aos primeiros anos do século XIV (como prova a inscrição na lápide funerária do rabi Ioseph de Tomar, falecido em Faro no ano de 1315), e a sua sinagoga, alma do complexo alfamita, deu-lhe real importância no século XV, altura em que foi construída, entre 1430 e 1460, segundo Santos Simões[24], sendo indesmentível o contributo judaico fundamental para o crescimento de Tomar entre os séculos XV e XVI.

Na arquitectura desta Sinagoga de Tomar que conseguiu resistir às vicissitudes do tempo, ainda se vêem nas paredes as doze mísulas que simbolizam as doze tribos de Israel. As quatro colunas representam as quatro matriarcas: Sara, Rebeca, Lea e Raquel, estas duas últimas as gémeas filhas de Labão. É por isso que os capitéis decorados com motivos vegetais são em duas colunas e diferentes nas restantes.

Nada desdiz que moçárabes e judeus fossem coevos e que ambas as comunidades não tenham sido «enquadradas» posteriormente pela Ordem do Templo, simultaneamente «policiando-as» servindo de garante à transmissão do conhecimento de que eram depositárias. A própria disposição geográfica e toponímica do Castelo dos Templários, no cabeço do monte da Mata dos Sete Montes, enquadra-se nessa intenção esotérica: segundo a geografia do Centro Espiritual Supremo, tem sete faces o Monte Meru, a Montanha Primordial (Har-Qadim ou Arcádia), morada da Shekinah, Casa de Deus e Tabernáculo dos seus Anjos[25].

A própria disposição geométrica da sinagoga reflecte a disposição canónica da Casa de Deus, morada dos Justos e Perfeitos. A própria casa árabe, assim como a judaica (as quais a casa saloia da Estremadura tomou como modelo), fora este ou aquele excesso destoante, assentou originalmente sobre a raiz quadrada de dois (√2), portanto, sobre uma planta quadrada, tendo a habitação judaica no seu centro a casa de fora, ou de entrada, por onde se acedia às restantes divisões, enquanto a habitação árabe fechava-se em torno de um claustro quadrado encerrando no seu centro um jardim ou fonte, ou ambos: trata-se de um universo fechado em quatro dimensões (centro, altura, comprimento, largura), cujo jardim central é evocação do Éden, do Paraíso Terreal (presente em todos os espaços ajardinados monásticos com cerca em volta), aberto exclusivamente à influência celeste[26].

Para Abu Ya’qûb, o quaternário era o valor perfeito: o da Inteligência e o do Nome Divino, ALLH. Não há, pois, diferenças marcantes entre o significado atribuído às construções de planta quadrada, no Ocidente e no mundo judaico-islâmico[27].

Imitando o modelo judaico, observa-se que na cidade islâmica o elemento base é a casa, não a rua. A casa, como a mesquita e a madrasa, é um lugar sagrado, como diz acertadamente Hélder Manuel Ribeiro Coutinho[28]. Afirma o Al-Corão, cap. XLIX: “O interior da tua casa é um santuário: os que o violam chamando-te, quando estás nela, faltam ao respeito que devem ao intérprete do céu. Devem esperar que saias de lá: a decência o exige”.

Sendo a casa a imagem do homem, do seu morador e dono, vê-se na Idade Média a combinação das proporções, a unidade da medida ser determinada a partir das dimensões da figura humana, geometricamente representada pelo quadrado, aplicando-se frequentemente na arquitectura do Renascimento, ainda que durante o Gótico já fosse comum para o traçado das catedrais, o uso do sistema de proporções inteiramente derivado do quadrado (ad quadratum). Esta concepção foi traduzida no célebre desenho, o vitruvium de Leonardo da Vinci, onde o Homem, como Microcosmos, aparece inscrito no círculo e no quadrado. A largura dos seus braços estendidos é igual à altura do tronco e pernas unidas, portanto, formando uma cruz (o quaternário) correspondendo à medida do lado do quadrado. Sendo o Homem considerado o centro do Universo, segundo Pico della Mirandola, e elo de ligação entre Deus (o círculo celeste) e o Mundo (o quadrado dos quatro elementos da Natureza), a sua individualidade está impressa na robustez, humilde ou rica, da sua casa, por ela concretizando a quadratura do círculo, problema geométrico «insolúvel» que servia para assinalar a ascese mística como era corrente entre os neoplatónicos, ou seja, aquela permissora da elevação do homem racional à esfera divina.

Sinagoga de Tomar e a sua planta quadrada

Sinagoga de Tomar e a sua planta quadrada

A planta quadrada sinagogal vê-se ainda, de maneira estupenda, na tampa de sepultura de um rabi coevo do Infante Henrique de Sagres, tendo sobre ela o báculo ou ábaco do seu ministério. Essa peça funerária está depositada no pequeno museu de arte sacra de Vila do Bispo, Algarve, tendo sido achada nas suas cercanias, o que comprova ter havido aí presença judaica e possível influência cabalística junto do Ínclito Infante dos Mares.

Para diferenciar a sinagoga da igreja, deu-se vazão no século XIII à tradição do cruzeiro adiante da segunda, mas nem por isso deixando de ser herança judaica da disposição do primitivo Tabernáculo do Deserto e do Templo de Salomão, pois onde ele está estariam idealmente o Altar das Oferendas no centro do adro defronte ao Tabernáculo, e o Mar de Bronze dos Sacrifícios no Templo salomónico.

Isso porque as medidas geométricas do Templo cristão são as mesmas canónicas herdadas por via bíblica do antigo Templo judaico. Ademais, em matéria de Tradição Espiritual nada é feito ao acaso: o Conhecimento é transferido dos Anciãos (Profetas) aos Novos (Apóstolos) por herança regular, sem desvios de espécie alguma, e só os transvios poderão ocorrer após a transmissão, mas desta nunca há desvio.

Não devo terminar sem referir a maior herança etnográfica judaico-cristã sobrevivendo até hoje e exclusiva de Tomar: a Festa da Romaria dos Tabuleiros.

Sendo festejo consagrado ao Divino Espírito Santo mas em versão diferente da tradicional de Alenquer e Sintra, terá sido na Idade Média que os templários cristianizaram esta celebração popular genuinamente judaica da Festa dos Tabernáculos, sobrepondo-lhe o ideal messiânico (Joaquimita) da Igreja do Amor, pelo que se vê no topo de cada tabuleiro a coroa do Espírito Santo encimada pelo ícone da pomba, ou então a Cruz Salvífica de Cristo, sendo aí mesmo lugar o lugar cimeiro ou majestático da Shekinah, a “Presença Real de Deus”. Os pães de 400 gramas cada, tipo “tabuleiros”, alongados e roliços com cintura, são enfiados em grupos de seis em cinco canas ou varas, ao todo 30, cujos cestos só podem ser transportados à cabeça por mulheres, apoiadas pelos seus pares masculinos, tal qual os de Proposição que as mulheres de Israel acompanhadas dos maridos levavam ao Templo de Jerusalém, pela Festa do Tabernáculo na Primavera, e as flores que os decoram serão as da germinação de um novo ciclo de prosperidade o qual, para o conceito de Parúsia dos templários, certamente seria sinal mais amplo da futura Idade do Espírito Santo.

Bandeira do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar

Bandeira do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar

O grande cortejo dos Tabuleiros (festa que se realiza a 4 de Julho em cada 4 anos) onde fiadas de casais desfilam pelas ruas de Tomar, é seguido dos carros triunfais com a carne, o pão e o vinho (que no dia seguinte são distribuídos pelos necessitados do concelho, acto semelhante ao bodo mas aqui chamado pêza), os quais são puxados por bois de cornos dourados e fitas pendentes – os bois do Espírito Santo.

De maneira que sendo o pão e o vinho generosamente distribuídos na eucaristia dos pobres, tal acto recorda-me aquelas outras palavras de São Clemente de Alexandria: “Bem-aventurados aqueles que alimentam os que têm fome de justiça pela distribuição do Pão”. Ora os Pães de Proposição dos hebreus também não tinham significado diferente desse. E o pão ázimo – de que hoje se compõe a hóstia – “representa ao mesmo tempo a aflição da privação, a preparação para a purificação e a memória das origens”, diz São Martinho.

É tradição que Beith-El, a “Casa de Deus”, que é Lusa, a “pedra de cabeceira” erguida por Jacob, se tenha transformado em Beth-Lhem, a “Casa do Pão”. A pedra se transforma em pão, ou seja, a presença simbólica de Deus se converte em presença substancial, em alimento espiritual impondo-se ao inteiramente corporal. O pão, ainda, nas vivências eucarísticas relaciona-se tradicionalmente com a vida activa, claustral, e o vinho com a vida contemplativa, clausural; o pão com os Pequenos Mistérios, e o vinho com os Grandes Mistérios, a catequese e a teologia. Isso  aproxima-se do que dizem os Evangelhos acerca do milagre dos pães (a sua multiplicação), sendo esse de ordem quantitativa, e do milagre do vinho (nas bodas de Caná), que é de ordem qualitativa.

O simbolismo do fermento exprime-se, nos textos evangélicos, sob dois aspectos: de um lado, ele é o princípio activo da panificação – símbolo de transformação espiritual; a sua ausência comporta, por outro lado, e aqui volta-se ao significado do pão ázimo, a noção de pureza e sacrifício.

Também se distribui a carne, e nisto entra o simbolismo do boi, ou melhor, do touro de chifes dourados e enfeitado por fitas coloridas. Símbolo da Força Criadora da Mãe-Terra, o touro representou o Deus El da Israel do Deserto, sob a forma de uma estatueta destinada a ser presa à extremidade de um bastão ou de uma haste: uma insígnia portátil, semelhante à do Bezerro de Ouro. O culto de El, praticado pelos patriarcas hebreus, foi proscrito por Moisés, ainda que tenha subsistido até ao reinado de David. Já no Templo de Salomão (I Reis, 7: 25), doze touros carregavam o Mar de Bronze destinado a conter a água lustral: “Este repousava sobre doze bois, dos quais três olhavam para o norte, três para o oeste, três para o sul e três para o leste; o Mar se elevava sobre eles e a parte posterior dos seus corpos estava voltada para o interior”.

De modo que se está perante um festejo de raízes judaicas mas já aqui cristianizadas, e ao mesmo tempo, por via do seu carácter agrário ou campesino, com sabor céltico, o que vai bem com a herança sociológica medieval da cultura rural pelos templários. Nisto, o touro El hebreu seria o cornúpeto Lug céltico, logo aproveitado para montada «bafomética» do Espírito Santo na forma de Shekinah encoberta no Centro da Terra, ou seja, em seu Sanctum Sanctorum.

Touros do Divino Espírito Santo, na Festa dos Tabuleiros de Tomar

Touros do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar

Por isso, ainda hoje a Romaria dos Tabuleiros faz-se na parte baixa da cidade, desde a igreja de São João Baptista e indo atravessar a ponte sobre o Nabão em direcção a Santa Maria do Olival, cujo Leite dá a beber, idealmente, aos filhos da Sua devoção. Filhos esses que são conduzidos a Ela pelos próprios templários, os cavaleiros de manto branco sobreposto pela cruz vermelha, afinal as cores daqueles devotos carregando hoje os tabuleiros quais assacis modernos: nelas a faixa vermelha perpendicularmente sobre longo vestido branco, e neles a gravata vermelha sobre camisa branca e calças pretas.

O Tabernáculo era a parte mais reservada e sagrada do Templo de Salomão (algo semelhante à Custódia no altar-mor da igreja), por nele se conter a Arca da Aliança. Representava o macrocosmo universal sintetizado, contido no microcosmo humano: era a “Morada de Deus” (Êxodo, 26:11), pelo que “o mundo inteiro está descrito no sinal sagrado do Tabernáculo”, segundo São Jerónimo, Epístola 64 para Fabíola. No Altar de Proposição ou de Oferendas do Templo de Salomão haviam doze pães (representativos das doze tribos de Israel, auspiciadas pelos doze signos do Zodíaco) que, como alimento místico, assinalavam a Sabedoria a qual, a par do néctar ou seiva vital da Mãe da Criação, associa-se ao Amor, logo, Panis Vitae alimentando as mentes e os corações dos justos e perfeitos, cada par carregando o seu tabuleiro florido como se fosse uma coluna de luz da Jerusalém Celeste que, nesta Festa tomarense, por momentos é testemunhada na Terra.

Romaria da Festa dos Tabuleiros, Tomar

Romaria da Festa dos Tabuleiros, Tomar

Assim cada romeiro(a) transforma-se tanto em arauto como em pontífice ou medianeiro do Céu com a Terra, carregando o pão espiritual alimento de toda a Humanidade para que, enfim, possa se consumar a suprema Eucaristia Mental e Coracional de Deus com o Homem e a Nova Idade de Promissão floresça finalmente em todo o Orbe, que não é tão-só a Lusitânia mas toda a Terra em Luz.

Essa é a maior mensagem da Festa dos Tabuleiros. Realizá-la, depende de um e de todos.

NOTAS

[1] Os Dez Mandamentos cristãos provêm do Kodesh hebraico. O “primeiro mandamento” é o do Deuteronómio, 6: 4-5 (cf. também Marcos, 12: 29-32), e o “segundo mandamento”, igual ao primeiro, decorre do Levítico, 19:18: “Tu amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Eterno”.

[2] Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2006.

[3] John R. Hinells, Dicionário das Religiões. Editora Cultrix, São Paulo, 1995.

[4] Rafael Alarcón, La otra España del Temple. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[5] Maurice Guinguand e Beatrice Lanne, O Ouro dos Templários (Gisors ou Tomar?). Livraria Bertrand, Lisboa, 1978.

[6] R. Röhricht, Regesta Regni Hierosolymitani. Innsbrück, 1839, p. 19 doc. n.º 83, e p. 25 doc. n.º 105.

[7] Pedro de Mariz, Diálogos de Vária História dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderam achar. Lisboa, por António Craesbeek de Mello, impressor da Casa Real, ano 1672.

[8] Vieira Guimarães, Thomar, Santa Iria. Lisboa, 1927. E ainda, segundo Manuel Gandra, Pedro Álvares, Escrituras da Ordem de Cristo, in Arquivo Nacional da Torre do Tombo, gaveta 15, maço 3, n.º 15; Mestrados, fl. 93v.

[9] J. Michelet, Procès des Templiers (Collection des Documents inédits sur l´Histoire de France). Paris, 1841-1851.

[10] Manuel J. Gandra, Martinets de Pasquallys e a Tradição Quinto-Imperial. Lisboa, 1979.

[11] Ano 1171, da era de Cristo.

[12] José-Augusto França, Tomar. Editorial Presença, Lisboa, 1994.

[13] Manuel J. Gandra, O Projecto Templário e o Evangelho Português. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda., Lisboa, Março 2006.

[14] Monumentos de Portugal, Thomar. Litografia Nacional, Porto, 1929.

[15] 1195 d. C.

[16] Terceiro dos idos, o mesmo que treze.

[17] Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, A Igreja de Santa Maria dos Olivais, n.º 27, Março de 1942.

[18] José Manuel Câpelo, Portugal Templário. Relação e sucessão dos seus Mestres [1124-1314]. Aríon Publicações, Lda., Lisboa, 2003.

[19] José António dos Santos, Monumentos das Ordens Militares do Templo e de Christo em Thomar. Typografia da Bibliotheca Universal, Lisboa, 1879.

[20] Frei Bernardo da Costa, História da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo. Officina de Pedro Ginioux, Coimbra, 1771.

[21] José Manuel Capêlo, ob. cit., pp. 205-206.

[22] Gigues Alexis Marie Joseph André, Marquis d´Albon (1866-1912), Cartulário geral da Ordem do Templo, 1119? – 1193, carta n.º LXVIII – 1150. Deste Cartulário do Marquês foi feita depois a recolha e inventariado das suas cartas por Emmanuel de Grasset, tendo cabido o reportório dos registos e dos papéis a Joseph Billioud, investigadores ao serviço do Arquivo Departamental da Câmara Municipal de Marselha, 1966.

[23] Beatrice A. Lees, Records of the Templars in England in de twelfth century: the inquest of 1185. Munchen, Kraus Reprint, 1981.

[24] J. M. Santos Simões, Tomar e a sua Judiaria. Edição do Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto, Tomar, 1943.

[25] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal. Lisboa, 1986.

[26] Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. Paris, 1906.

[27] Jaime Manuel Sousa, Arquitectura Alentejana: o Quadrado. In “O Estudo da História”, Boletim dos Sócios da Associação de Professores de História, n.º 5-6 (II Série), 1988.

[28] Hélder Manuel Ribeiro Coutinho, Al-Usbuna – a Lisboa Muçulmana. In revista “História”, n.º 96, Outubro de 1986.

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