Mistério do Pentecostes (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Sábado, Fev 13 2021 

O Pentecostes marca e remata o sétimo Mistério da Vida e Obra de Jesus, o Cristo, deixando a derradeira mensagem de esperança no Advento da Divindade à Humanidade, ao mesmo tempo que floresce nos peitos de um e de todos. Nisto se cumpre a mais que poética retórica, realidade subtil, etérea transcendente e imanente, cheia de graça em esperança, de que quando Cristo sorri a Humanidade enxuga as lágrimas.

A celebração do Pentecostes (“quinquagésimo”, em grego) é quando o Judaísmo e o Cristianismo se encontram e se conciliam nas suas idiossincrasias teológicas, sobretudo nas relativas ao porvir do Messias. Historicamente, pela sua origem agrária, recua à festa hebraica das colheitas (shavuot), aquando o povo ia oferecer a dízima das primícias ao Templo de Jerusalém, nisto também celebrando a entrega dos Dez Mandamentos no Monte Sinai a Moisés, cinquenta dias depois do Êxodo.

É, pois, uma festa do antigo calendário bíblico (Êxodo 23:14-17, 34:18-23) referida com vários títulos:

Festa da Colheita ou Sega (Hag Haqasir, em hebraico). Por se tratar de uma colheita de grãos (trigo e cevada), ganhou esse nome.

Festa das Semanas (Hag Xabu´ot, em hebraico). A razão do seu nome está no período mediando entre a Páscoa (Pessach, “trânsito”, “passagem”, em hebreu) e esta festa, que é de sete semanas. Acontece cinquenta dias depois da Páscoa, com a colheita da cevada e encerrando com a colheita do trigo.

Festa das Primícias dos Frutos (Yom Habikurim, em hebraico), nome tendo a sua origem de ser pela entrega de uma oferta voluntária, a Deus, dos primeiros frutos colhidos naquela sega (Números 28:26). Possivelmente, a oferenda das primícias acontecia em cada uma das três festas tradicionais do calendário bíblico. Na primeira (Páscoa), oferecia-se uma ovelha nascida naquele ano; na segunda (Colheita ou as Semanas), entregava-se a dízima (décima parte) dos primeiros grãos colhidos; finalmente, na terceira festa (Tabernáculos ou Cabanas), o povo oferecia a dízima da colheita dos primeiros frutos, como uvas, tâmaras e especialmente figos. Por essas dízimas agrárias verifica-se que o Templo beneficiava de grande riqueza, motivo dos levitas não abdicarem das suas funções nele por lhes trazerem fartura de bens.

Festa de Pentecostes. Os motivos deste novo nome são vários, a começar por nos séculos III-I a.C. os gregos terem assumido o controle do mundo conhecido e imposto a sua língua, que se popularizou entre os hebreus. Assim, os nomes hebraicos Hag Haqasir e Hag Xabu´ot perderam as suas actualidades sendo substituídos pela denominação Pentecostes, cujo significado é “cinquenta dias depois (da Páscoa)”. Como o império grego passou a ter hegemonia em 331 a.C., é possível que o nome Pentecostes tenha ganhado popularidade a partir desse período. Também devido às três línguas dominantes (hebraico, grego e latim) na Judeia e Palestina, é que Pilatos ordenou se escrevesse com as mesmas a célebre frase na tabuleta da Cruz – Iesus Nazarenus Rex Iodeorum (Jesus Nazareno Rei dos Judeus).

No Cristianismo, o dia de Pentecostes chega a ser considerado como o dia do nascimento da Igreja cristã, origem do movimento pentecostal católico (“universalista”, por abranger os países latinos, gregos e orientais da Ásia Menor) que originalmente era “os do Caminho”. Constitui uma das celebrações mais importantes do calendário cristão, comemorando a descida do Espírito Santo em Línguas de Fogo sobre os Apóstolos de Cristo encabeçados no cenáculo por sua Mãe Maria, que logo começaram a falar todas as línguas do mundo dotados de poderes maravilhosos (curar os leprosos, ressuscitar os mortos, etc.). Aconteceu ao meio-dia de cinquenta dias após o domingo de Ressurreição e no décimo dia depois da Ascensão de Jesus, após Ele ter permanecido quarenta dias entre os discípulos, transmitindo-lhes os derradeiros ensinamentos. Entre os cinquenta dias que se completam da Páscoa até ao último dia de Pentecostes, sobram dez dias. Esses foram o tempo que os Apóstolos com Maria Mãe e Maria Madalena permaneceram no cenáculo, até à descida ou manifestação do Espírito Santo. Por este motivo, o domingo de Pentecostes é o último dia da Festa do Divino Espírito Santo, tomando forma em Portugal na Festa do Império do Divino Espírito Santo (pelas mãos da Rainha Santa Isabel, em 1321, na vila de Alenquer), depressa se fixando no Brasil e noutras partes lusas do antigo império português.

O Espírito Santo no Cristianismo é o mesmo Espírito de Santidade no Judaísmo, referido como a Terceira Potência Divina cuja manifestação, para ambas as religiões, é sempre sob a forma de uma pomba, em hebraico yohnah, palavra derivada de ´anah, “prantear”, referente ao arrulho lamuriento da ave, universalmente considerada a mensageira da Boa Nova e portadora da Paz, como igualmente da sublimação da vida, da existência corpórea à vivência espiritual, como se representa no trânsito de São Policarpo com uma pomba branca, imaculada, saindo do seu corpo.

Como Pomba de Luz vem a ser representativa da manifestação do Fogo Criador do Divino Espírito Santo, ao qual os sábios do Oriente identificam como Kundalini, a Força Electromagnética da Mãe-Terra que a sustenta desde o seu Centro Ígneo, agindo como bioenergia motora das capacidades criativas humanas, de forma inconsciente na maioria dos seres pensantes, e de maneira consciente, despertada, activada e dirigida desde o cóccix à corona, ao alto da cabeça onde se revela como aura flamejante, nos raros Iniciados na ciência de marejar as suas forças ocultas e assim as de toda a Natureza. Eis aqui o símbolo do Fogo Criador expressado na figura feminina, seja Maria no cenáculo, seja a sarça de Horeb no Monte Sinai, seja a Maha-Shakti criadora do Universo, com as suas sete Forças que, afinal, vêm a ser os sete Dons do Espírito Santo irradiando sete Raios da Luz do Logos Único, cada um com uma qualidade da Mãe Universal. Esta dá à Luz o Filho, saído da Alma do Segundo para o Corpo do Terceiro Logos manifestado em tudo e em todos.

O termo Espírito SantoRuach ou Ruah-Elohim – aparece apenas três vezes na Bíblia hebraica, em Salmos 51:11, e duas vezes em Isaías 63:10-11. Já o termo Ruah ha-Kodesh (“Espírito de Santidade”) aparece com frequência no Talmude e na Midrash, utilizado como uma hipóstase ou metonímia de Deus, IHVH (Iod-He-Vau-He), por meio da qual é concedida a inspiração profética ao Kadosh (“consagrado”). Ruah significa literalmente “sopro, vento, ar, alento”, aparecendo em várias outras combinações na Bíblia hebraica com o significado de Espírito de Deus, associado a Ruah ha-Kodesh, o mesmo Ru al-Qudus islâmico, o Pneuma to Hagion grego ou o latim Spiritu Sanctu, Espírito Santo.

No Cristianismo, o Espírito Santo é a Terceira Prosopon ou Pessoa da Santíssima Trindade, revelando Deus Omnipresente. Como Hypostasis ou Hipóstase, contém a Primeira como Omnipotência (Spiritu) e a Segunda (Sanctu) como Omnisciência promanadas de uma Divina Substância Única (Ousia, em grego) a quem chamam Deus.

Acompanhados das respectivas contrapartes expressivas do Eterno Feminino, assim clareando por que a Deusa-Mãe era o único pomo de culto e adoração à Divindade entre os povos antigos, que durou até muito tarde chegando mesmo a adentrar o período patriarcal sucessor do matriarcal.

O despertar e ascender de Kundalini ao topo cranial vale por Poder da Mãe Divina manifestado – Shekinah, “Presença Real de Deus” – em cujo acto Madalena assinala a conversão do sexo (initio, cóccix) e a Nazarena a assunção da mente (finis, corona).

As sete Forças de Kundalini afins aos sete Dons do Espírito Santo, pelo desenvolvimento do Chakra Vibhutî ou Cardíaco Inferior, são:

Por aí se vê quão distantes estão da realidade certas seitas hodiernas ditas carismáticas/pentecostais, servindo-se da ingenuidade alheia em sua tenra idade mental para, pretensamente, irem colmatar as suas deficiências/carências psico-orgânicas. Colmatando o vazio espiritual das mesmas com bizarras corografias folcloristas, estão nos antípodas de exploração psicossocial que nadíssima tem a ver com os poderes desenvolvidos, por esforço próprio, do Adepto verdadeiro, do verdadeiro Iniciado na Ciência da Vida.

O mesmo vale para a dízima ou oferta da décima parte dos seus ganhos, tradição iniciada com Abraão rendendo tributo a Melki-Tsedek, o Rei do Mundo, para as bandas das terras de Gar-Édon ou a Agharta, sendo a dízima nada mais que o resgate kármico da décima parte do seu povo, nunca pondo os valores materiais à dianteira da mais-valia espiritual.

Paulo de Tarso, por sua vez, identifica não sete mas nove dons ou poderes do Espírito Santo, o Terceiro Logos tomando forma no Filho, que irão manifestar-se pelo Apóstolo ou Adepto. Diz: “A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom dos milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas.” – I Coríntios 12:8-10.

Nisto, os nove dons espirituais podem ser repartidos em três grupos, como Dons de Poder, Dons de Revelação, Dons de Fala, não deixando de estar relacionados às naturezas Dharmakaya (Espírito Omnipotente), Shambogakaya (Alma Omnisciente) e Nirmanakaya (Corpo Omnipresente) afins ao Tríplice Logos manifestado na Unidade imperecível do Adepto Perfeito.

Dons de Poder


Curar
Operar maravilhas

Dons de Revelação

Palavra de sabedoria
Palavra de conhecimento
Discernimento dos espíritos

Dons de Fala

Profecia
Variedade de línguas
Interpretação de línguas

O Mistério do Pentecostes, como disse, assinala a última etapa da Vida e Obra do Cristo, que sendo sete vêm as mesmas iniciáticas do Homem em seu gradual volvimento ao estado Divino.

Restam a Consolação da doutrina e do rito até ao Advento que marcará o início da Nova Jerusalém, ou seja, a da Idade da Promissão assinalando um Novo Ciclo de Humanidade, com a sua transição de Piscis a Aquarius, por certo portador de melhores dias para o Mundo.

Com o Pentecostes consolidou-se a derradeira Promessa de Cristo, antes da Ascensão, quanto à sua segunda vinda no final dos Tempos, ou seja, do Ciclo vigente, tal qual Krishna prometera ao seu discípulo Arjuna, como consta no Bhagavad-Gïta: “Todas as vezes, ó filho de Bhârata (a Índia), que Dharma (a Lei justa) declina e Adharma (a lei injusta) se levanta, Eu me manifesto para salvação dos bons e destruição dos maus. Para restabelecimento da Lei Eu nasço em cada Yuga (Idade)”. Ou aquela outra profecia contida no Vishnu-Purana: “Quando o fim da Idade das Trevas estiver próximo, o Kalki-Avatara (Manifestação Divina) descerá sobre a Terra. Dotado das oito qualidades sobre-humanas, Ele estabelecerá a Justiça no Mundo”.

Para a Segunda Vinda do Messias, Segundo Advento ou Parúsia (“Presença”, em grego), concorrem as três religiões monoteístas do Livro, mas também todas as demais tradicionais do Oriente, cada qual interpretando ao seu modo milenarista a futura manifestação do Avatara, todas concordando na certeza do Advir.

Acerca disso, Pinharanda Gomes escreveu no seu Dicionário de Filosofia Portuguesa (Edição Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1990):

“MESSIANISMO. Teoria da esperança ou da expectação em um Messias salvador e redentor de uma Humanidade considerada em estado degradado, quedado ou de perdição (por, ou ter perdido a natureza sagrada, ou ter caído da sua condição original, ou ter cometido pecado), após cuja vinda a mesma Humanidade recupera, regenera, restaura e redescobre o primitivo estado de felicidade, e nela se consagra para sempre. Esta simples definição contém variantes conceptuais, por exemplo, o messianismo formulado na Sagrada Escritura e relativo ao Messias Salvador, e as tendências messiânicas inerentes, tanto às culturas como aos povos e às políticas, em que variamente se mostra um messianismo entendido como a procura de um arquétipo, ou paradigma, de bondade, de beleza e de verdade, possuidor do remédio para os males, ou como a promessa de um chefe ou condutor que detenha o ceptro da sabedoria, e seja digno de instaurar a harmonia na cidade terrestre. Em todas as acepções o messianismo manifesta o conhecimento de antinomias existenciais – o que está mal, o que é bem, o que se julga ser o bem, pelo que, em todas as suas variantes, é remédio, cura e solução. A ideia messiânica envolve a reconquista da felicidade original (Paraíso Perdido), a restauração dos bens destruídos (Idade de Ouro), a instauração da harmonia (Paz Perpétua) e, noutra instância, a assunção do homem à sua essencial dignidade (Reino de Deus). A teoria messiânica tem diferentes linhas discursivas, tanto consistindo num messianismo sem Messias, capaz de realizar a justiça na República, pela simples vontade operativa dos homens, num projecto de imanência, como num messianismo que passa pelo coração humano, mas se realiza por aliança do divino e do humano, aí chamado por Deus à salvação. Esta forma messiânica manifesta os atributos da transcendência, é escatológica, teleológica e soteriológica, sendo estes os predicados do messianismo paradigmático, o judaico-cristão, mesmo considerando que a ele afluíram as teses do providencialismo das outras religiões monoteístas, designadamente o Islamismo, teses essas que são devedoras ao finalismo da filosofia grega que, em tempo, se adjuvou à teoria da esperança salvífica hebraico-cristã.

“A figuração messianológica aparece em plurais situações, por exemplo, nos mitos germânicos dos “heilbringer” ou “portadores da salvação”, no mito do “Salvador” inteligido por Virgílio (Écloga IV), na imagem persa de “Saohyant”, na concepção hindu de “Buda Maitreya”, na esperança islâmica de “Mahadi” e na tábua de salvação da autonomia portuguesa, figurada no nome “Sebastião”. Todavia, a original e originante figura do Messias é hebraica, derivando do aramaico Meshihà, pelo hebraico Hammashiah (= o Ungido), pelos gregos ou helenos traduzido no nome Christós. A raiz do substantivo é meshah (= ungir), verbo com que se designa a unção sacerdotal, profética e real das chefias temporais e espirituais do povo de Israel. O javismo, que se concretiza na aliança do Sinai, assume Javé como “Rei de Israel” (Gén., 49, 10), o “Ceptro de Judá”, razão para um povo que se constituirá assembleia de religião única, verdadeira, perfeita e definitiva, com mensagem salvífica destinada a todos os povos, conforme se vê na passagem em que Javé chama Abraão e o manda olhar para o firmamento para que, contando as estrelas, fique a saber quantos filhos há-de ter (Gén., 15, 5). Israel seria o veículo condutor deste messianismo à divinis que se dinamiza em torno de fórmulas quais o Restaurador do Povo de Deus, Messias de Israel e Salvador da Humanidade, no fim dos tempos, cujos dias ninguém conhece. No messianismo israelita, e consoante a evolução do povo de David, o messianismo é real, profético e sacerdotal, mas a ideia nuclear, ainda que o nome Messias pouco apareça no Antigo Testamento, revela a tipologia de um Rei-Sacerdote, que virá no fim dos tempos, para instaurar o Amor, a Justiça e a Paz. A sua figura é absorvente nos livros históricos, poéticos e sapienciais, sendo revelado como “Rei Messias” (Jer., 30, 9), “Servo Sofredor” (Js., 53, 1) e “Filho do Homem” (Dan., 7, 13), cognomes antigos que a modernidade evangélica atribui a Jesus de Nazaré, olhado como o verdadeiro Messias já vindo. Este hossana, atribuído ao filho do carpinteiro, constitui (sobretudo a partir dos dias de Pôncio Pilatos, que ficaria no símbolo da pística cristã, o Credo, como o referencial histórico do tempo) a causa da cisão na unidade do messianismo hebraico, na medida em que, ao Messias vindo dos seguidores de Jesus, se opõe – por vezes com a rigidez de Saulo, antes da estrada de Damasco – o fariseísmo e o tradicionalismo judaicos, cujos tempos messiânicos continuam por vir, sine die adiados.

“As formas históricas e temporais, quando desligadas do primordial núcleo teológico, são mais um sentimento de carência do que um pensamento agente, decidido a transformar o pessimismo da perdição no optimismo da redenção. Ora, conforme se prova pelo contexto do Livro da Corte Enperial, que é uma súmula isagógica do século XV sobre os dogmas e artigos de fé das três religiões bíblicas, e cujo tema é a tipologia e a vinda do Messias, a tradição messianológica predomina em filosofia e teologia e bebe de três tradições sapienciais, documentadas, tanto na tradição oral, como no documento escrito.”

Antigamente usava-se o termo parúsia para descrever a visita de um rei ou imperador. Esse sentido foi colado ao Ritual Eucarístico para assinalar o Advento da Divindade no momento alto da bênção eucarística com o Ostensório, ou tão-só com o Cálice Eucarístico, figurativo da Taça Sagrada do Santo Graal, aquando o Futuro se torna Presente com a Visita ou Parúsia do Rei dos Reis durante o momento de comunhão do crente com o seu Cristo Interno e, sequentemente, com o Espírito do Cristo Universal.

Assim se cumpre o Advento, a Parúsia Divina, o Futuro se faz eterno Presente na hora da Elevação, postura maior em que se encerra a mensagem primicial do Mistério do Pentecostes.

Encerro com um trecho breve de obra reservada no chamado Mundo de Duat, com o título Livro do Grande Império Universal – capítulo “Os Sete Dedos de Deus” (Secção 5 – Códice 17):

A Anarquia e as Trevas seguirão – com a alma de Judá e o corpo do Judeu errante – até as memórias da Tragédia se tornarem cinzas, para que uma Nova Idade e um Novo Salvador venham reinar.

Mistério da Ascensão (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Fev 10 2021 

Conforme a tradição canónica inscrita nos evangelhos sinópticos, quarenta dias após a Ressurreição, Jesus, o Cristo, reuniu todos os seus discípulos no “monte chamado olival” (Actos 1:9-12), o Monte das Oliveiras, vizinho da vila de Betânia, e à vista de todos, purificados pelo orvalho matinal, invocou os Poderes do Eterno indo ficar encoberto pelas brumas que se levantaram do seio da Terra. Com a Promessa “voltarei!”, desapareceu no seio do Mistério como que ascendido de volta à Morada do Pai, o Segundo Trono Celeste na Terra – a Mansão do Amanhecer, Shamballah.

A Ascensão de Cristo marca o Mistério do segundo elemento subatómico (anupadaka) constituinte do Corpo Intuicional ou Búdhico de que se reveste o Corpo Espiritual ou Átmico, constituído do primeiro elemento atómico (adi), sendo, pois, o cerúleo “Véu da Noiva Celeste” (Budhi Taijasi, Intuicional Iluminado), indo tomar forma no terceiro elemento etérico (akasha) afim à constituição do Veículo Causal (Mental Superior, Manas Arrupa) como encausador dos anteriores, formando o Corpo Flogístico de Espírito Santo tomando forma na Mãe Divina assinalada na Assunção de Maria. É assim que as Vestes Dharmakaya, Shambogakaya, Nirmanakaya se fundem em uma só Substância Única (Svabhâvat, Ain-Soph, Tudo-Nada) que leva ao desaparecimento ou ascensionamento do Adepto Perfeito nas cumeeiras do Plano Divino.

Pelo referido segundo elemento é que se tece a União Real (tanto valendo por Raja-Yoga) da Alma do Adepto com a Alma Universal, o mesmo “Véu da Noiva Celeste” ou a Veste de Glória, aquando o Filho (3.º Logos) se liga ao Pai (1.º Logos) por intermédio do 2.º Logos, a Mãe Divina, e é Um com Ele, ou quando o Espírito readquire a Glória que possuía “antes que o Mundo existisse” (João 17:5), isto é, antes da sua manifestação na Matéria, tornando-se de Espírito Inconsciente (Vida-Energia, Jiva) em Espírito Consciente (Vida-Consciência, Jivatmã).

É quando o Espírito Tríplice se torna Um, sentindo-se e vivendo-se eterno, transcendente e imanente. É quando o Deus Oculto se revela plenipotente no seio espiritual do Iluminado como Absoluto, como Atmã Universal, como a Tríade Superior manifestada no Quarternário Inferior, e vice-versa. Esta Metástase Avatárica apresenta-se, no véu da alegoria, sob o aspecto do sexto Mistério da Ascensão de Cristo e Assunção de Maria, pelo menos no tocante ao Homem encarnado de forma individual.

Com efeito, para a Humanidade a Ascensão não tem lugar senão quando a Raça inteira alcançar a “condição de Cristo”, a condição filial onde o Filho se une ao Pai e é Deus manifestado em tudo e em todos.

Eis aqui a meta figurada pelo triunfo do Iniciado, a qual para ser alcançada faz-se necessário que o Homem consiga a Perfeição de si mesmo e assim a Humanidade, a “grande Órfã”, deixe de o ser ao reconhecer-se, pleniconsciente, Filha de Deus, o Logos Eterno.

Encarando desta maneira as doutrinas da Ressurreição e da Ascensão, revelam-se as verdades que, veladas pelo simbolismo, contêm-se nos Mistérios Iniciáticos sob a veste cristã. E começa-se a entender, na sua plenitude, a verdade do Ensinamento Apostólico, de que Cristo não foi somente a manifestação de uma Individualidade mas igualmente “as primícias dos que estão dormentes” ou adormecidos (I Coríntios 15:20), pois todo o homem pode tornar-se um Cristo.

O Cristo não era, pois, tão-só considerado um Salvador de natureza diferente da nossa, cujos méritos salvaram, por substituição, o Homem da Ira de Deus (Dei Irae). Conforme a gloriosa e consoladora doutrina ministrada na Igreja Primitiva, o Cristo era as Primícias da Humanidade, o Modelo de Perfeição que todo o homem pode reproduzir em si, e se deve ou não fazê-lo tal é relativo face ao seu crescimento interior e ao total respeito pela Lei do Livre-Arbítrio que assiste à Natureza e a todos os seres viventes. Os Iniciados foram sempre considerados como Primícias, como penhor da segurança da Humanidade em sua perfeição construindo-se do Presente ao Futuro.

Para os cristãos dos primeiros séculos, o Cristo Universal tinha a sua expressão viva na Divindade faiscando neles, o Fruto glorioso da Semente que traziam em seus corações, era o Símbolo Vivo da Mónada Humana individualizada no Aspecto Amor-Sabedoria. Daí a frase enigmática de Jesus a João: “Eu ascendo ao meu e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus” (João 20:17). Por que não disse nosso no comum em vez de meu e vosso no singular? Porque na manifestação da Mónada na Matéria ela é individual, não colectiva, diferindo na evolução de pessoa para pessoa (persona, máscara) em que se manifesta como Actor real, com mais o menos consciência de Si mesma nesse mergulho na Matéria e no emergir no Espírito (Evolução). Portanto, “o meu Pai” (proximidade consciente) e “o vosso Pai” (afastamento inconsciente).

A doutrina primitiva do Esoterismo Cristão presente nos Mistérios dos Sacramentos era alheia ao conceito salvífico exterior dos simples ou de confissão, pelo contrário, implicava que o postulante se elevasse na criação, perfeição e glorificação do seu Cristo Interior, pois outra maneira não havia, nem há, de reconhecer ao Cristo Universal. Assim, todo o noviço era convocado a se tornar o Filho. A vida do Filho decorria entre os homens até ao dia da Ressurreição marcar o seu termo entre os mesmos. Então, o Cristo Glorificado revelava-se e tornava-se, para o mundo, um Perfeito Salvador.

Esse estado equivale à 6.ª Iniciação Real que é a do estágio de Choan, termo tibetano equivalente ao Chuan chinês, ao Chubilgan mongol e até ao Chu egípcio, todos significativos de “Chefe”, de Dirigente de Linha ou Raio, como Oitavo do mesmo para Sete Adeptos Independentes (Ashekas), pelo que um Choan para o ser equivale ao esforço conjunto de sete Adeptos, e o sendo voga acima deles como “Cisne” celeste, simbólico da Origem Andrógina, Mercuriana ou Uraniana, que em páli é a sua interpretação literal.

Havendo Sete Linhas com Sete Adeptos para cada uma delas, multiplicando 7×7 tem-se os 49 Adeptos Independentes constituintes do G.O.M. (Governo Oculto do Mundo) mais os 7 Choans, representantes dos 7 Planetários – os 7 Arcanjos da Igreja – assinalados na Menorah ou Candelabro de 7 Chamas.

Nos evangelhos sinópticos são incluídas duas breves descrições da Ascensão de Jesus na presença de onze dos seus discípulos, ocorrendo no quadragésimo dia após a Ressurreição, em Lucas 24:30-53 e Marcos 16:19, com uma descrição mais detalhada em Actos 1:9-11.

A tradição canónica dá o Monte das Oliveiras,  junto a  Betânia vizinha de Jerusalém, como o Monte da Ascensão, onde mais tarde seria construída a pequena capela/mesquita da Ascensão, votiva ou circular, sagrada para cristãos e islâmicos, tendo no interior uma pedra circular com uma marca que o populi acredita tratar-se da pegada de Jesus. A sua construção original data do ano 390, quando foi chamada de Eleona Basílica [1], mas que foi destruída pelos persas sassânidas durante o cerco de Jerusalém em 614. Depois foi reconstruída pelos cruzados, e em 1198 adquirida por dois emissários de Saladino.

Antes da conversão ao Cristianismo do imperador romano Constantino no ano 312 d.C., os primeiros cristãos acreditavam que a Ascensão teria ocorrido numa caverna no Monte das Oliveiras, e no ano 384 já esse lugar era venerado como o da realização do sexto Mistério, no cimo do monte por cima da caverna.

A ascensão ou subida de Jesus ou Jeffersus numa caverna equivale a interiorização física e elevação consciencial, tanto valendo por descida aos Mundos Jinas ou Subterrâneos, donde oculto às vistas profanas passou a vibrar sobre o Mundo. O mesmo aconteceria depois com a sua Excelsa Mãe e Divina Contraparte, Maria ou Moriah.

Tendo a presença de Agharta, Sanctum Sanctorum da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria, neste Mistério, de imediato acodem à memória os títulos originais das Cartas Paulinas ou de São Paulo dirigidas às Sete Igrejas assinaladas no Apocalipse, representativas das sete “Embocaduras” da Ásia Menor e por igual dos sete “selos” do Livro da Revelação, conforme foram traduzidas do aramaico para o grego e depois para o latim da Vulgata: Agharta al-Galatim (“Agharta aos Gálatas”), Agharta al-Ephesim (“Agharta aos Efésios”), Agharta al-Romin (“Agharta aos Romanos”)[2].

A palavra latina ascensionis, de ascensio, “subir”, como ascensão refere-se exclusivamente a Jesus. Já o termo assunção, em latim assumpta, significa que Maria foi “assunta”, ou seja, “elevada, levada, tomada” pelo Poder Divino. E embora no ano 377 Epifânio de Salamina tenha afirmado que ninguém sabia se Maria tinha morrido – dormição – ou não, os relatos apócrifos sobre a sua assunção circulam pelo menos desde o quarto século[3], cuja narrativa mais antiga é o chamado Liber Requiei Mariae (“Livro do Repouso de Maria”), sobrevivendo intacto numa tradução etíope[4], cuja composição será do início do século IV e a narrativa apócrifa do começo do século III.

Também são muito primitivas as Narrativas da Dormição dos ‘Seis Livros’, cujas versões mais antigas desse apócrifo foram preservadas em diversos manuscritos em siríaco dos séculos V e VI, embora o texto em si seja provavelmente do século IV. Textos apócrifos posteriores baseados nesses mais antigos incluem o De Obitu S. Dominae, atribuído ao Apóstolo São João mas realmente de autor anónimo de cerca do ano 500, sendo um sumário da narrativa dos ‘Seis Livros’. A Dormição e seguida Assunção aparece igualmente em De Transitu Virginis, obra do final do século V atribuída a São Melito, preservando a versão teologicamente editada das tradições presentes no Liber Requiei Mariae [5]. Uma carta escrita em língua arménia atribuída a Dionísio, o Areopagita, em algum momento do século VI, também menciona o evento. Finalmente, João Damasceno (645-749) e os seus contemporâneos Gregório de Tours e Modesto de Jerusalém promoveram o conceito da Assunção que se implantou em toda Igreja, no Oriente e no Ocidente.

Em algumas versões da história a Dormição e Assunção teria ocorrido na cidade grega de Éfeso (onde se situava uma das Igrejas apontadas no Apocalipse ou “Revelação Secreta”), na costa da Jónia, na casa da Virgem Maria, ainda que todas as tradições anteriores apontem o final da sua vida nas proximidades de Jerusalém, no vale de Cedron aos pés do Monte das Oliveiras.

Cerca do século VII apareceu uma variante na narrativa, contando que um dos Apóstolos, geralmente identificado como sendo São Tomé, não esteve presente na Dormição e Assunção de Maria aos Céus amparada pelos Anjos entoando Hozanah entronizando-a no Trono de Glória. A chegada atrasada do Apóstolo – que para o simples é o eterno céptico – provocou a reabertura do túmulo da Virgem, descobrindo-se então que estava vazio, sem nada senão as suas mortalhas. Numa outra variante posterior, do século VIII, Maria lançou do Céu o seu cinto – símbolo da castidade matrimonial – para o Apóstolo, como prova do acontecimento. Este episódio aparece muitas vezes nas esculturas e pinturas sobre a Assunção.

O facto da ausência de Tomé, aliás, Jairo, na passagem de Maria, serve para o canónico corroborar o apócrifo assim justificando a sua entretanto subida para o Norte da Índia, para Srinagar, axis do Sistema Geográfico Hindu-Tibetano constituído por sete localidades mais uma central: Srinagar – Simlah, Leh, Gartock, Ladak, Naringol, Lhasa, Tjigad-Jé. E tê-lo-á feito logo após a Ressurreição, enquanto Jesus, pouco depois daquele, ascendia em consciência e descendia geograficamente na direcção do Ocidente.

São, afinal, o Cristo Budista e o Cristo Essénio das tradições sob a direcção da sua Quintessência Viva, o Bodhisattva. As famosas e lendárias viagens de Jesus pelo mundo, para uns indo ao Japão onde morreu[6], para outros chegando à América do Norte onde “se manifestou junto das tribos perdidas de Israel” aí instaladas[7], assim entrecruzando Leste e Oeste, apenas justificam o acontecimento da sua deslocação para plagas longínquas que, para a Tradição Iniciática, serviu para reactivar nesse novo ciclo de Piscis a acção espiritual e psicossocial dos Sistemas Geográficos de Srinagar, Índia, e Sintra, Portugal.

As sete Igrejas da Ásia Menor assinaladas no Apocalipse eram destinadas a unir a Raça Semita (judeus e árabes) trazendo o Oriente ao Ocidente, nomeadamente a Roma, dando início ao ciclo messiânico de Cristo inaugurando uma nova Idade no Mundo, a do Reino de Melki-Tsedek destinado a transformar a sociedade humana política (regnum) e espiritualmente (sacerdotium)[8]. Mas, como revelou de viva voz o Professor Henrique José de Souza em 28.04.1954 e que consta no seu Livro do Colóquio Amoroso, “os judeus não quiseram participar juntamente com os árabes e não admitiram partilhar com eles o Messias. Este veio, e eles não O reconheceram. O Messias se foi e eles foram espalhados pelo mundo como tribos kármicas. Hoje voltaram para a Palestina e se defrontam com os árabes, porém, em lutas kármicas”. Adiantando em 12.5.1954: “Da luta entre árabes e judeus, os primeiros ficaram com a maior parte dos conhecimentos secretos, e a prova é que milénios mais tarde invadiram a Península Ibérica, no Itinerário de Io (a Mónada peregrina), levando tais conhecimentos a Portugal e Espanha”.

Quando a Missão Roma fracassa com as mortes de Pedro (fundador) e Paulo (organizador) e os afastamentos de Nicodemos e José de Arimateia, Jeffersus recolhe-se ao seio espiritual do continente europeu que é Sintra, onde se localiza o quinto Centro Vital do Globo, Qtub ou Chakra, donde depois passou a irradiar sobre a mesma Roma e restante Europa indo alcançar o quinto continente americano, através de sete catedrais canonicamente edificadas para o efeito do Ecce Occidens Lux – Santa Maria Maggiore (Roma), Westminster (Londres), Bruges (Bélgica), Lisboa (Portugal), Washington (América do Norte), Cidade do México (México) e São Salvador da Bahia (Brasil).

Entende-se agora as palavras do Professor Henrique José de Souza no seu Livro do Ciclo de Aquarius, em carta-revelação de 28.4.1958:

“Quando se diz que “Roma seria o 5.º Sistema”, não implica em que fosse só ela semelhante Sistema, mas que ela seria a central para as outras cidades ou Estados que a cercam, inclusive Veneza, que por saber tal coisa muitos Adeptos ali se alojaram, mesmo que depois da Tragédia do Gólgota, como fossem o Veneziano e outros mais.

“Quantas e quantas vezes eu aponto ROMA como a velha Romakapura atlante? E usando da chave filológica, falo em ROMA, AMOR, MORS ou MORTE, não apenas no sentido sexual, mas também no da Tragédia que levou o Bodhisattwa à Crucificação na e da Terra. Por ser o AMOROSO, ou uma das suas facetas, por ser aquele o Bijã dos Avataras, a sua Semente, teve AMOR em demasia por sua Obra, por sua Missão na Terra. Roma seria uma São Lourenço (MG) de hoje, Centro do Novo Sistema.”

Nesse mesmo Livro de Revelações, em carta de 2.5.1958, encontra-se claríssimo: “O Quinto Sistema seria, talvez, naquele Lugar, isto é, Portugal, na SERRA DE SINTRA, onde a sibila estampou o mistério do Futuro… o mistério do QUINTO IMPÉRIO, também cantado pelo poeta lusitano, que fala de um só Altar, de um só Cálice de Ouro que havia de luzir.

“Portugal, Arquivo das Raças de Elite, principalmente greco-romanas, não podia deixar de ser o Quinto Sistema, já que este perdera o seu lugar no Mundo. Não esquecer que o Manu Ur-Gardan que trouxe o seu povo da “Terra (celta) do Fogo”, veio ter a Portugal ou Porto-Galo, dando como capital de toda essa região Ulissipa, como feminino de Ulisses, o grande herói de Tróia, donde procede o mistério do ODISSONAI, que é a origem de todas as ODES, de todos os psalmos, cânticos, etc.”

Em Roma nasce a Religião Católica e oculta-se a sua semente, a Ordem do Santo Graal, passando a agir no mistério, encoberta, mas marcando com a sua influência todo o Ciclo das Necessidades (Ano 0 – 24 de Junho de 1956) até que inaugurou o Ciclo do Espírito Santo (24 de Junho de 1956 em diante).

Tem-se o Graal como a Taça Sagrada expressiva do Espírito Santo em cujo interior se dão as mais sublimes e finas transmutações alquímicas, no sentido de transformar a Vida-Energia em Vida-Consciência, portanto, representativa do verdadeiro Caminho da Iniciação.

Jesus – Jairo – João constituíram a Tríade expressiva do Avatara do Segundo Logos como Amor – Rigor – Lei, e no seu Projecto Sinárquico cada um deles, com as suas respectivas Colunas Vivas, assumiu a função que lhe competia na realização espiritual e política do Reino de Melki-Tsedek na Face da Terra. De viva voz, em 11.2.1954, o Professor Henrique José de Souza deu a Jeffersus como Colunas Vivas Barrabás e Jonafas, representando a Autoridade Espiritual (Autoritas), as quais pessoalmente disporia, atendendo aos dados constantes nos textos canónicos e apócrifos, como Jetro e Jaino; a Jairo deu Nicodemos (signo Marte) e José de Arimateia (signo Terra), exprimindo o Poder Temporal (Potens); a João Baptista indicou como Ministros Jetro e Jaino, expressando a Vontade Popular (Voluntatis), que pessoalmente daria como Barrabás e Jonafas. Mas fica como está a descrição do Professor Henrique, não me custando aceitar que o fez assim talvez como método de Iniciação para obrigar o discípulo a raciocinar por si mesmo.

Muitos foram os que estiveram ligados consanguineamente à pessoa de Jesus, é facto tanto canónico quanto histórico, mesmo tendo se perdido o rasto de muitos deles nos evos do tempo. No canónico, tem-se o grego desposyni para designar os “parentes” do Mestre, termo que foi aplicado pela primeira vez por Sexto Júlio Africano, no século III, indo de encontro ao texto grego do Novo Testamento quando indica os adelphos (adelphoi), “irmãos”, palavra essa familiar de delphys, “útero”, pelo que adelphos significa literalmente “os do mesmo útero”.

Havia, pois, uma Família Espiritual e uma Família Humana interrelacionada, onde o sangue era o mesmo e o espírito da doutrina idem, cuja genealogia recuava até David e Salomão conforme inscreve a Árvore de Jessé, justificativa da ascendência de Jesus como verdadeiro Messias preanunciado pelo profetas e sibilas da Escritura Velha.

Se Barrabás beneficiou do indulto pascal e se acaso era primo de Jesus, esta ligação familiar não se encontra nos evangelhos canónicos e só nos apócrifos, ricos na descrição dos próprios antecedentes de Maria de Nazaré, como relata, por exemplo, o Evangelho Secreto da Virgem Maria, apócrifo do século IV atribuído a certa religiosa jerusalemita de nome Etéria. Além desse, tem-se ainda o Protoevangelho de Tiago: Nascimento de Maria; Evangelho do Pesudo-Mateus; História de José, o Carpinteiro; Evangelho Arménio da Infância; Evangelho dos Hebreus; Livro da Infância do Salvador; Aparição a Maria: Fragmentos de textos coptas; Lamentação de Maria: Evangelho de Gamaliel; Maria fala aos Apóstolos: Evangelho de Bartolomeu; Trânsito de Maria do Pseudo-Militão de Sardes; Livro do Descanso.

Conforme as narrativas apócrifas, a dormição e assunção de Maria teria acontecido quando ela contava 84 anos de idade. Pelo lado paterno, descendia do ramo de Aarão, sendo os seus ascendentes quase todos do número dos consagrados à vida divina, sacerdotal (kadoshs).

Pelo lado materno, os seus antepassado derivavam do casamento do rabino Stolamus (também chamado Garecha e Sazirius) com Esmarum, de quem nasceria três filhas: Esméria ou Isméria, Emerência e Enué.

O seu avô paterno, Eliud, era zadoquita da tribo de Levi, enquanto o seu bisavô pertenceu à Ordem dos Profetas.

A sua avó materna, Isméria, pertencia à tribo de Benjamim.

A sua bisavó materna era natural de Mará e chamava-se Marunum ou Esmarum, palavra hebraica significando “mãe augusta”.

Do casamento de Eliud com Isméria nasceram três filhas: Sobá, Maraha e Ana.

Sobá casou com o levita Afra, ou Ofras, do que lhes nasceu Isabel, futura mãe de João Afra, o Baptista.

Maraha casou com Zebedias e foi mãe de José Barrabás (Joseph Ben Abbas), futuro chefe do partido zadoquita e primo de Jesus.

Ana casou com Heli (Heliachim ou Heliakim, em hebreu) ou Joaquim, filho de Mathat que era o irmão mais novo de Jacob, filho de Mathan Naüm.

Esse Mathan descendia de David por Salomão e teve dois filhos: Jacob e Joses. Como Mathan morresse, a viúva contraiu segundas núpcias com Levi Panthera, descendente de David, mas por Mathan. Deste Levi Panthera é que nasceu Mathat, pai de Heli ou Joaquim.

O filho mais velho de Mathan, Jacob Naüm, foi o pai de José Naüm que veio a casar-se com Myrian Ben Panthera ou Pandira.

O primeiro fruto do consórcio entre Joaquim e Ana foi o nascimento de uma menina, Maria Sobé. Com o seu parto a mãe deixou de gerar, tornando-se estéril.

Esse foi o motivo que levou Joaquim a fazer um sacrifício no Grande Templo de Jerusalém, rogando ao Eterno a graça de restituir a fecundidade a sua esposa, deixando a oferenda das vestes alvas de uma criança, motivo para o levita Ruben o injuriar e troçar dele em público. Magoado, retirou-se para junto dos essénios no deserto de Gadi, junto ao Monte Herman, no limite das terras de pastoreio dos seus rebanhos, isso sem dar conhecimento a sua esposa que durante cinco anos ignorou o seu paradeiro.

Também Ana foi igualmente injuriada por uma das servas, judia de nome Ester, que exprobou a desonra da sua esterilidade. Essa Ester seria depois violada e assassinada por um legionário romano de nome Álio, alcunhado pelos amigos de “bruto” e pelos inimigos de “porco”.

Por ocasião da Festa dos Tabernáculos, tanto Joaquim como Ana decidiram cada qual ir a Jerusalém, ao Grande Templo, e foi quando se reencontraram à saída da cidade, junto à porta dourada onde lhes apareceu o Anjo Gabriel que concedeu a Ana a graça de ficar fecunda da sua segunda filha, Maria.

Fiel à sua palavra, quando atingiu a idade legal – 12-14 anos – a menina foi oferecida ao serviço do Templo, sob a direcção da anciã Saboé, e como virgem consagrada iniciou essa nova fase da sua vida que só seria interrompida pelo seu desposório com o viúvo José, futuros pais de Jesus.

Foi só em Roma que a religião cristã se organizou como tal, onde Pedro e Paulo foram os seus principais promotores, e se aquele fundou e este organizou, na realidade tudo se deve mais a Paulo do que a Pedro, este que na Paixão de Jesus mentiu dizendo aos algozes que não O conhecia, tendo depois fugido da cidade dos césares perante a perseguição feroz das autoridades romanas aos cristãos, e já na Via Ápia deparou-se com a visão do Senhor que se encaminhava para Roma donde ele fugia, e caindo de joelhos perguntou-lhe: Quo vadis, Domine? (“Onde ides, Senhor?”) Ao que Ele lhe respondeu: Vou a Roma morrer por Pedro, já que Pedro não quer morrer por Mim. Arrependido, penitenciando-se voltou para trás, acabando crucificado no coliseu de cabeça para baixo, na cruz invertida a seu pedido, por não se considerar digno de morte igual à do Mestre.

Para terminar e conforme revelou o Professor Henrique José de Souza, têm-se as palavras de Cristo ao Apóstolo Paulo, o Grande Iniciado que se pode considerar o verdadeiro Fundador do Cristianismo como religião organizada, na Estrada de Damasco ou na Senda da Iniciação:

– Tu tens Olhos e não vês. Tu tens Ouvidos e não ouves. Mas de tua Boca é que sairá a Minha Palavra!

 

NOTAS

 

[1] Em grego elaion, “olival”, de elaia, “oliveira”, termo com similaridade a eleos, “misericórdia”.

[2] Saint-Yves D´Alveydre, La Misión de la India en Europa. Luis Cárcamo, Editor, Madrid, 1988.

[3] Juan G. Atienza, Nuestra Señora de Lucifer – Los misterios del culto a la Madre del Dios. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1991.

[4] Stephen J. Shoemaker, Ancient Traditions of the Virgin Mary´s Dormi-tion and Assumption. Oxford University Press, Oxford, 2002.

[5] O Decretum Gelasianum – Decreto Gelasiano – atribuído ao Papa Gelásio I (492-496) como oposição à difusão da literatura gnóstica referente ao transitus Mariae proibiu-a, declarando-a apócrifa no sentido de inventiva com muitas heresias. Os manuscritos sobreviventes desse Decreto possuem uma lista dos livros da Bíblia que, ao contrário do decretado, antes foram considerados canónicos pelo Papa Dâmaso I (366-383).

[6] “Cristo morreu no Japão”. Lenda religiosa inventada pelos missionários jesuítas no Japão, nos finais do século XVI, para darem força de lei à implantação do Cristianismo no país do Xintoísmo ancestral, colonização religiosa que não resultou senão a do martírio da quase totalidade deles, depois de repetidas admoestações das autoridades locais, às mãos dos xoguns, “senhores feudais”, que os tinham como “bárbaros do Sul”. Mas como a lenda tem sempre muita força, o comum crente cristão nipónico (que constitui minoria face ao Xintoísmo, a religião oficial muitíssimo anterior ao Cristianismo) tem por verdade que em Shingô, distrito de Aomori, encontra-se o Kirisuto no Haka (Sepultura de Cristo), pois que Kirisuto (Cristo) não morrera na cruz e sim o seu irmão menor Isukiri (Issah, Jairus), tendo ido para o Japão onde casou, teve três filhas e morreu com 106 anos de idade. Foi cremado e as suas cinzas enterradas na Vila de Herai (Herodes?) onde se encontra a sua suposta sepultura, em Shingô, antigo bastião do Xintoísmo. Num monte próximo, para dar ainda mais força e relevância ao testemunho, é dito que está enterrada a orelha do irmão de Cristo e uma mecha dos cabelos de Maria, mãe de ambos, que foram as únicas relíquias que Kirisuto pôde trazer da sua família ao escapar da Judeia. As alegações prós e contras do facto começaram em 1933, quando foram descobertas crónicas jesuítas narrando a lenda na antiga Missão da Companhia em Shingô, as quais o Governo em Tóquio mandou recolher. Resta a comprovação da Igreja saber que houveram “dois Cristos”, mas que a fantasia lengedária obscureceu o factual da existência dos mesmos. Tudo o mais é lenda, mentira pia, invenção sagrada, mas ainda assim, na tenra idade mental da Humanidade, por ter muita força a lenda vence sempre.

[7] Essa é a base da invenção sagrada do norte-americano Joseph Smith Jr. (Sharon, 23.12.1815 – Carthage, 27.6.1844), a quem um dito anjo Moroni se revelara entregando-lhe umas placas de ouro contando a saga das tribos perdidas de Israel que foram fixar-se na América do Norte. Ele copiou os escritos nas placas que desapareceram a seguir (como sempre acontece nas lendas de fundação), e assim nasceu o Livro de Mórmon, filho de Moroni, o qual está muito bem imaginado e concebido no óbvio decalque dos Livros dos Reis I e II da Bíblia. Tomo por certo que Joseph Smith ouvira falar das viagens transatlânticas dos fenícios na Proto-História, motivo da sua transposição imaginosa para as tribos hebraicas perdidas. E ouvira falar certamente dentro da Maçonaria onde se filiara em Março de 1842, quando foi iniciado Aprendiz na Loja de Navoo, Illinois. Quando às placas de ouro reveladas pelo anjo Moroni numa abóbada de pedra no alto de uma colina, será extrapolação ecoando ao mito de Enoque no Rito do Arco Real. Nesse mito, o profeta Enoque, instruído por uma visão, preservou os Mistérios Maçónicos esculpindo-os numa placa de ouro, que colocou numa abóbada de pedra arqueada sustentada por pilares, onde seria redescoberta por Salomão, agora o imaginoso Smith, que começara a sua faina oculta com o seu pai, Joseph Smith Sr., na “escavação de dinheiro”, prática fantástica norte-americana de recuperar tesouros enterrados escondidos por “espíritos malignos”. A estrutura organizacional da sua Igreja dos Santos dos Últimos Dias, milenarista, apocalíptica e nacionalista, é inteiramente decalcada e readaptada da maçónica, como se repara facilmente até nos rituais de investidura dos seus santos élderes, o que não será de estranhar atendendo a que vários fundadores desse movimento (Herber C. Kimball, Hyrum Smith e outros) em 1820 estavam filiados em Lojas maçónicas. Cf. Mervin B. Hogan, Mormonism and Freemasonry: The Illinois Period. Springfield, Illinois, 1980. John L. Brooke, The Refiner´s Fire: The Making of Mormon Cosmoloy, 1644-1844. Cambridge University Press, New York, 1994.

[8] Nachman Falbel, Melquisedec no Judaísmo e no Cristianismo e seu significado na disputa entre Regnum e Sacerdotium na Idade Média. Revista de História, n.º 165, Jul./Dez. 2011, Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

Mistério da Ressurreição (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Fev 5 2021 

O Mistério da Ressurreição é o momento alto da confirmação da fé para o cristão, é a derradeira e suprema fase pascal do dobrar a lei da morte e afirmar a lei da vida em Cristo, por Cristo e para Cristo, ou seja, na presença e integração do Sétimo Princípio Espiritual agindo pelo Sexto Intuicional e o Quinto Mental, isto é, a Mónada ou Nous Imperecível ida Além-Morte e regressada Aquém-Vida. É o Poder da Vontade, o Amor-Sabedoria e a Actividade Inteligente imanifestada e manifestada do Divino Ser, o Adepto Triunfante empunhando o Lábaro da Suprema Vitória, o da Revelação da Glória da Ressurreição – Resurrectio gloria ostenditur.

Com efeito, a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo é o aspecto central do calendário litúrgico cristão. Ressurreição ou Anastase (resurrectio, em latim, anastasis, em grego) é entendida como voltar à vida após a morte. Resta saber de que forma, posto que corporalmente é biologicamente impossível ao mesmo corpo falecido há dois mil e tantos anos voltar à vida, a não ser que se explique pela lei das vidas múltiplas ou reencarnação, onde a alma toma importância determinante sobre a acção do corpo em conformidade à lei de causa-efeito que rege a ela e a todas.

A ressurreição dos mortos é crença escatológica padrão nas religiões abrahâmicas (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo). Como conceito religioso, é usado em dois aspectos distintos: a crença na ressurreição das almas individuais que é actual e contínua (idealismo cristão, escatologia realizada), ou a crença numa ressurreição dos mortos no Fim dos Tempos, isto é, no final de um Ciclo de Evolução, com o correspondente Julgamento Planetário, donde se dizer que “Cristo é o Juiz dos Vivos e Mortos”. Ainda assim, alguns teólogos acreditam ser a alma o veículo real pelo qual as pessoas são ressuscitadas, não os seus corpos. Mas tudo se passa sempre em conformidade à Lei de Evolução do Género Humano pontuada pelas de causa-efeito (Karma) e vidas sucessivas (Reencarnação) até ao término do respectivo ciclo evolutivo.

Que a crença na reencarnação estava (e está) presente na vida dos povos do Médio Oriente e Ásia Menor, provam-na a pergunta dirigida a Jesus em querer saber “se João Baptista foi Moisés e Elias?” (João 1:19-23), ao que Ele respondeu não importar o que fora mas o que era. O passado passara, só contava a personalidade presente e a sua obra de arauto, com isso descartando o interesse mórbido pelo que se fora anteriormente com descuro do que se é, assim arredando os interesses pela fenomenologia do psiquismo tal qual Budha fizera anteriormente ao aconselhar Ananda, seu discípulo: “Deixa os teus sidhis (faculdades psíquicas) para a próxima vida”, vai protelando-os, que são mais empecilhos que outra coisa útil. Ademais, informam os Grandes Mestres, alguém só pode conhecer com exactidão as suas vidas passadas quando mergulha no registo do Corpo Búdhico ou Intuicional, o que só é acessível aos Grandes Iniciados na Ciência da Vida, ficando todo o resto por conta das ilusórias crenças neurológicas/oníricas.

“XI – 9. Todas as coisas que são feitas sem Deus não passam de erros grosseiros, seduções e encantamentos que apenas mostram como a alma de quem as pratica está cheia de desvergonha, mentira e impureza.”Apócrifo de Issah, Himis, Tibete.

A crença popular na ressurreição dos mortos no final dos Tempos recua ao mal apreendido e incompreendido conceito praticado na religião dos Mistérios, na qual um deus (iniciado, epoptae) de vida, morte e ressurreição é uma divindade (ser realizado) que morre e ressuscita ao terceiro dia defronte para o Sol Espiritual, para o Logos em que se integrou em Essência e pessoa.

Assim, este quinto Mistério da crise iniciática da Ressurreição relata-se igualmente a respeito de Hércules, de Baldur, de Mitra, de Orfeu e de outros Grandes Iluminados. Um dos primitivos Padres da Igreja, Julius Firmicus Maternus, astrólogo e apologista do Cristianismo que viveu no reinado do imperador Constantino, relatou que os Mistérios de Osíris (simbólico do Sol Espiritual) guardavam conexão estreita com os Mistérios Cristãos e que nestes, tal como na Ressurreição de Osíris, os iniciados exultavam no final da cerimónia: “Nós O reencontrámos!”[1] Annie Besant, no seu livro Cristianismo Esotérico, destaca esse facto numa passagem iluminadora:

“Nos Mistérios Cristãos, como nos do Antigo Egipto e outros, existia um simbolismo exterior marcando os estágios que o homem devia atravessar. O candidato era levado ao templo da iniciação e lá era deitado com os braços estendidos – ora numa cruz de madeira, ora no chão do pavimento – na atitude de um crucificado. O tirso – lança da crucificação – tocava-lhe o coração, e deixando o seu corpo passava aos mundos do Além; o seu invólucro físico ficava em profunda letargia – a morte do crucificado; transportado para um sarcófago de pedra, aí ficava encerrado sob cuidadosa vigilância. Durante isso, o Homem Real percorria as sombrias regiões chamadas de “Coração da Terra”, para depois galgar a Montanha Celeste revestido do seu Corpo de Beatitude – já então plenamente constituído como um Corpo de Consciência.

“Revestido desse novo Corpo, ele voltava ao seu corpo de carne, tornando à vida. A cruz que sustentava o corpo, ou quando não havia cruz, era o corpo adormecido e rígido retirado do sarcófago e colocado numa superfície inclinada, na direcção do Oriente, antes do levantar do Sol, na manhã do terceiro dia.

“No momento em que os raios do Sol lhe tocavam o rosto, o Cristo – o Iniciado Perfeito ou Mestre – entrava no seu corpo, glorificando-o com um novo Corpo de Consciência de que agora estava revestido, transformando o corpo carnal no contacto com o Corpo de Bem-Aventurança, conferindo-lhe novas propriedades, faculdades e aptidões, transformando-o na Sua própria imagem. Tal é a Ressurreição de Cristo, depois da qual o corpo carnal transformado adquirira uma nova natureza.”

Eis por que o Sol era, e é, tomado como símbolo do Cristo Ressuscitado, e porque nos hinos de Páscoa é feita alusão constante ao Sol de Justiça (Solis Justitiae). Por isso, as palavras relativas ao Cristo Triunfante: “Eu estou vivo, e estive morto, mas eis que estou vivo para todo o sempre. E tenho as Chaves da Morte e do Inferno” (Apocalipse 1:18). O Filho pode dispor, de ora em diante, de todos os Poderes dos Mundos Interiores, em virtude do seu glorioso Triunfo. A morte já não tem mais poder sobre Ele porque “tem a vida e a morte em Sua mão poderosa” (H.P. Blavatsky, A Voz do Silêncio). Ele é o Cristo Ressuscitado, o Cristo Triunfante.

Vê-se assim que a história do Mistério da Ressurreição é muitíssimo mais antiga que o Cristianismo e que o Eterno sempre sustentou, através dos Mistérios e dos seus Filhos Iluminados, a presença da Imortalidade, como aconteceu para o Ciclo dos Peixes com a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o Cristo.

Tem-se neste quinto Mistério o ponto culminante da Manifestação Avatárica do Divino Bodhisattva, sendo os dois Mistérios restantes (Assunção e Pentecostes) a consolidação dos anteriores. Este Mistério foi e é a ideia central da Ordem Maçónica tendo o seu eixo no simbolismo do 3.º Grau de Mestre. Essa elevação maçónica tem uma particular relação com o Sermão de Benares pronunciado por Budha aos discípulos, na parte acerca dos Cinco Pontos da Verdade, podendo-se relacionar tais Pontos com as cinco Crises do Cristo, as quais não deixam de se reflectir nos cinco Landmarks ou Pontos da Tradição Maçónica, em conformidade ao sentido ético e moral da Estrela Flamejante do Oriente, a do Natal ou Nascimento pela Iniciação. Estas referências servem para demonstrar a continuidade da Revelação onde a Ressurreição é a apoteose para o mundo cristão, e, uma vez mais, reflectida no 18.º Grau de Príncipe Rosacruz ou Cavaleiro do Pelicano, símbolo do Sacrifício e Ressurreição de Cristo, sendo que o Pelicano Eucarístico vem a ser indicativo da própria Eucaristia ou comunhão com o Eu-Crístico.

Como falei em Astrologia por motivo de Firmicus Maternus, face às três Cruzes do Gólgota abordarei agora o simbolismo das mesmas afins ao Cristo Crucificado, ao Cristo Adormecido ou Oculto e ao Cristo Ressuscitado, no tocante às cruzes fixa, cardinal e mutável da Astrologia Esotérica ou Astrosofia[2].

O Cristo Crucificado relaciona-se à cruz fixa formada pelos quatro signos fixos (Aquário, Touro, Leão, Escorpião), expressando a força vermelha centrípeta (Tamas), a energia radiando para o centro. Esses signos associam-se ao princípio de inércia e igualmente ao poder de concentração e perseverança. Os signos fixos são os mais concentrados no “aqui e agora”, por a energia estar muito concentrada sob o poder da pessoa. Transmitem estabilidade, perseverança, segurança. A cruz fixa é a cruz da transmutação, do desejo em aspiração e do egoísmo em altruísmo.

Tal como o Senhor foi crucificado entre dois outros condenados, assim também existem duas outras cruzes, a cruz mutável e a cruz cardinal. A primeira tem a ver com os signos mutáveis (Rajas), equilibrantes e harmónicos expressando o Cristo Adormecido ou Oculto, enquanto a segunda, afim aos signos centrífugos e irradiantes (Satva), designa o Cristo Ressuscitado.

Tal como o Cristo Crucificado assinala a aspiração da Humanidade à Hierarquia dos Mestres, o Cristo Oculto a comunhão do Hierarquia dos Mestres com o Centro Supremo do Mundo, Shamballah, o Cristo Ressuscitado vem a ser a manifestação de Shamballah na figura do Planetário da Ronda, o Rei do Mundo (Melki-Tsedek ou Chakra-Varti)[3]. Donde se ter:

Tem-se assim a Cruz no seu mais elevado sentido cíclico carregando em cada palo uma letra das quatro do Nome de Deus, Yod-He-Vau-He, no que se torna símbolo da expressão ideoplástica do Homem Cósmico como Jehovah, que é quem faz mover o Pramantha ou dar animação ao Ciclo de Evolução como Logos do mesmo, portanto, da Terra, a quem Cristo manifestou manifestando ao Oitavo Logos do Sistema Solar, no que se tem este quinto Mistério como repasse do bastão de comando da Evolução do Quarto Logos Terrestre (Atlasbel, o mesmo com o Mundo ou Cruzeiro às costas) ao Quinto Logos da próxima Cadeia de Vénus (Arabel, o Esplendoroso Triunfante), marcando a acção do Futuro no Presente.

A ver com isso está a ressurreição cíclica dos Manasaputras, os Filhos da Mente Cósmica (Mahat), criações dos Kumaras Assuras na 3.ª Raça-Mãe Lemuriana por meio do Poder Místico de Kriya-Shakti, uma das oito qualidades de Kundalini, o Fogo Criador do Espírito Santo, os quais são os mesmos Vasos Insignes de Devoção da Ladainha de Todos-os-Santosvas insigne sirituale, vas honorabile, vas insigne devotionis – que a Igreja invoca apesar de desconhecer o seu significado real, como o de serem o Corpo de Glória ou Causal como Augoeides do Adepto Perfeito. São os mesmos “Mortos-Vivos” quebrando as cristalinas lajes sepulcrais para desembocar, sair dos jazigos subterrâneos por ocasião da expiração do Cristo de volta ao seio da Terra. Eis aí o V.I.T.R.I.O.L. consumado: Visita Interiora Terris Rectificando Invenies Occultum Lapidem – “Visita o Interior da Terra e Rectificando (Integrando) descobrirás a Pedra Oculta” (Pedra Filosofal do Adepto, Pedra Pontiaguda do Mestre, sinónima de Suprema Iluminação).

Este é o nível em que o homem se torna Super-Homem, Mestre Real, Adepto Perfeito, Superior Incógnito, Illuminati Dei, Iluminado Divino, Asheka, Nirmanakaya, Jivanmukta, Jivatmã, etc. Libertou-se para sempre de todos os grilhões terrenos, e se doravante, diante dos sete Caminhos abrindo-se diante dele, escolher continuar na Terra auxiliando nela os seres em evolução, então terá optado pelo Caminho dos Homens, o da Compaixão de Bodhisattva como o mais duro e difícil sempre com incontáveis sacrifícios, como até no dia-a-dia se verifica e testemunha no embate físico e sobretudo psicológico entre a consciência do Iniciado (qualidade) e a noção do profano, vulgar ou ordinário (quantidade).

Os Sete Caminhos abrindo-se perante o Adepto, podendo escolher um deles para prosseguir a sua evolução avante:

Manasaputras eram os dois Devas de Aquém-Akasha que arredaram a laje do sepulcro de Cristo para Este sair à luz do terceiro dia, sendo os opostos aos legionários Jivas que não permitiam abrir o mesmo, vencidos pelas Forças do Espírito mergulhando-os em torpor e esquecimento. Eis aí, também, o embate entre Purusha e Prakriti, Espírito e Matéria.

Os quatro evangelhos são unânimes na afirmação de que no final da tarde do dia da crucificação José de Arimateia pediu permissão a Pôncio Pilatos para resgatar o corpo inerte de Jesus, no que foi atendido e logo retirou-o da cruz, envolveu-o numa mortalha de linho e colocou-o num sepulcro. Esse acto estava de acordo com a lei mosaica (Deuteronómio 21:22-23) que determinava que uma pessoa enforcada numa árvore não devia ficar lá à noite e ser enterrada antes do pôr-do-sol.

O Evangelho de Marcos afirma que quando José pediu o corpo de Jesus, Pilatos ficou admirado por ele já estar morto e enviou um centurião para confirmar a morte antes de o entregar. O Evangelho de João relata que José teve o auxílio de Nicodemos, que trouxe uma mistura de mirra e aloés, misturando os perfumes na mortalha, conforme o costume judaico.

Em resumo, no Novo Testamento depois de ser crucificado pelos romanos instigados pelos judeus, Jesus é lavado e ungido com bálsamo, envolto numa mortalha de linho e sepultado num sepulcro novo por José de Arimateia. Ao terceiro dia ressuscita dos mortos e aparece a muitas pessoas durante um período de quarenta dias, quando então ascende ao Céu e se entroniza à direita do Pai. Os cristãos celebram a Ressurreição no Domingo de Páscoa, o terceiro dia depois da Sexta-Feira Santa (Dia do Santo Sangue, Sangue Real ou Santo Graal), que foi a da Crucificação. A data da Páscoa cristã correspondeu, de grosso modo, com a Páscoa judaica, o dia de observância dos judeus associado ao Êxodo (saída do povo hebreu da escravidão do Egipto), calculado como sendo a noite da primeira Lua Cheia depois do Equinócio da Primavera[4].

Quando Maria Madalena se dirigiu ao sepulcro e viu-o aberto e vazio, ficou aflita receando que os fariseus ou os romanos tivessem roubado o corpo para assim não ser venerado. Mas ela estava destinada a ser proto-testemunha da Ressurreição: vislumbrou a figura erecta de um homem luminoso, transfigurado, um pouco afastado do túmulo, e logo reconheceu o seu amado Rabôni (Mestre). Correu a abraçá-lo tendo Ele lhe estacado os passos com as palavras: Noli me tangere, “não me toques”. Mas ela chorando feliz ajoelhou aos seus pés e beijou a alva mortalha que o envolvia, no que a frase latina extraída do original greco-hebraico será antes: Tangere noli timere, “não tenhas medo de me tocar”, porque “ainda não subi para o Pai” (João 20:16-18).

Tal significará que Jesus se revelou a Madalena em seu Corpo de Glória, o Augoeides, e se por um lado o “não me toques” significará “porque estou visível mas não tangível”, por outro, como Jairo ou Krivatza, “O que traz o peito chagado”, deixará a sua contraparte tocá-lo por estar visível e tangível, pelo que não era um Ser incorpóreo, espiritual, explicação do obscuro remate “ainda não subi para o Pai”.

Isso em contraposição ao facto de Tomé ter duvidado que Jesus houvesse ressuscitado e Ele deixado que o gémeo lhe tocasse as chagas. Por que? Porque fora ele o crucificado e não o outro, que no entanto recebera iguais estigmas por repercussão psicofísica à distância na Fraternidade Iniciática onde estivera recolhido. Felizes dos que não vêem e crêem (João 20:29), isto é, dos que não estão ao par do desenrolar secreto dos acontecimentos mas acreditam ou aceitam as palavras daqueles que neles participaram.

Se os evangelhos sinópticos dizem que Jesus viveu 40 dias entre os seus discípulos após a Ressurreição, esse número poderá muito bem ser simbólico dos anteriores iguais passados com Ele no Deserto ou com Moisés no Monte Sinai, mais parecendo que o valor 4(0) seja indicativo simbólico do compasso quaternário da Terra pelo qual a mesma evolui e nela Ele se manifestou. A Pistis Sophia, a “bíblia” dos gnósticos, dá um período mais longo quanto à permanência de Jesus no mundo após ressuscitar, doze anos, durante os quais instruiu e iniciou os seus discípulos nos Mistérios Maiores da Sabedoria Divina, dando continuidade mas sob feição superior, no dogma e rito, ao antigo Colégio dos Profetas, então substituídos, por lei cíclica de Evolução, pelo Colégio dos Apóstolos (base orgânica da constituição da futura Igreja confessional, iniciada com os Padres Apostólicos garantes da Sucessão Apostólica vinda de Pedro até ao Papa actual).

O Colégio dos Profetas foi fundado por Samuel em Naiote (I Samuel 19:20) nos moldes de estrutura iniciática cujos ensinamentos foram transmitidos aos sucessores no mesmo. Colégios análogos existiam em Betel e Jericó (II Reis 2:2-5), encontrando-se na Concordância de Cruden (artigo School) a seguinte nota interessante: “As Escolas, ou Colégios, dos Profetas são as primeiras de que encontramos referências nas Escrituras. Os filhos dos Profetas – isto é, os seus discípulos – aí consagravam o seu tempo aos exercícios de uma vida retirada e austera, ao estudo, à meditação e à leitura das leis de Deus… Estas Escolas ou Sociedades dos Profetas foram mais tarde substituídas pelas Sinagogas.”[5]

O ensinamento reservado (esotérico) ministrado no seio do Colégio dos Apóstolos poderá encontrar-se de modo esparso e sem exegética interpretativa nos textos apócrifos gnósticos mais antigos (do século I-II ao século IV-VI), de que se destaca a citada Pistis Sophia ou a Sophia de Jesus Cristo, como pertencente ao Códice III da Biblioteca de Nag Hammadi, descoberta no Egipto em 1945, mas já então circulando um outro original greco-cóptico, depositado na Biblioteca Nacional de Berlim, que foi o consultado por Helena P. Blavatsky na segunda metade do século XIX.

Esse manuscrito copta foi datado como sendo do século IV d.C., completado por uns poucos fragmentos em grego datados do século anterior, pelo que a sua data será mais antiga que a datada. O texto tem forte similaridade com a Epístola de Eugnostos, manuscrito anterior no mesmo Códice III, um pouco mais expandido e com “moldura” mais cristã[6]. Talvez seja mesmo parte “solta” da Pistis Sophia [7].

O título Pistis Sophia é inconsensual, traduzido ora como Sabedoria da Fé, ora como Sabedoria na Fé ou ainda Fé na Sabedoria. A tradução mais rigorosa, levando em conta o seu contexto gnóstico, é Fé de Sophia, uma vez que essa era para os gnósticos a divina sizígia (par) de Cristo, que se em grego significa Sabedoria, em aramaico será Miriam, “Soberana”, remetendo para a Mãe Soberana como contraparte espiritual de Cristo – Maria. Por isso é a Sophia de Jesus Cristo, conforme declara a própria Pistis:

– O Perfeito Salvador disse: “O Filho do Homem entendeu-se com Sophia, sua consorte, e revelou uma grande Luz Andrógina. O seu nome masculino é designado Salvador, Progenitor de todas coisas. O seu nome feminino é designado Toda-Progenitora Sophia. Alguns a chamam de Pistis”.

Pistis Sophia, Fé e Sabedoria, Cristo e Maria, fundadores dos Mistérios do Santo Sangue aos quais depois os neoplatónicos alexandrinos chamariam de Teosofia, Sabedoria Divina. A partir da mesma Paulo, que era Saulo antes do Encontro na estrada de Damasco, organizou a fundação da Igreja confessional ao mesmo tempo que se recolhia a mistérica Ordem do Santo Graal.

Deixando, contudo e para terminar, o precioso conselho inscrito no Apócrifo de Issah:

“VII – 18. Aspirareis à suprema beatitude, não apenas purificando-vos a vós mesmos mas ainda guiando os outros pela via que lhes permita conquistar a primitiva perfeição.”

 

NOTAS

 

[1] Julius Firmicus Maternus, Ancient Astrology Theore And Practice – Ma-theseos Libri VIII. Noyes Press, Hardcover, 1975.

[2] Alice Ann Bailey, Astrología Esotérica. Editorial Kier, S.A., Buenos Aires, 1950.

[3] Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda, São Paulo, 2006.

[4] Tamara Prosic, The Development and Symbolism of Passover, vol. 57. New York and London: T & T Clark UK, 2005.

[5] Alexander Cruden (1699-1770), Concordância de Cruden ou A Concordância completa com as Sagradas Escrituras. Londres, 1737.

[6] A Epístola de Eugnostos, ou Eugnostus, o abençoado, não deve ser entendida como uma carta real escrita por alguém chamado Eugnostos, pois que significa em grego “pensamento correcto”, sendo o designativo epístola uma convenção literária familiar na Antiguidade. O mais aproximado que se poderá dizer é ela ser produto do pensamento colectivo de determinado Colégio Gnóstico, dos muitos que haviam na Antiguidade médio-oriental e mediterrânica.

[7] Raul Branco, Pisthis Sophia – Os Mistérios de Jesus. Comentários de Helena P. Blavatsky. Tradução e interpretação de Raul Branco. Editora Teosófica, Brasília, 2009.

Mistério da Crucificação (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Fev 1 2021 

O quarto Mistério poderá ser o mais doloroso mas também o mais auspicioso, desde que na Cruz mundanal floresça a Rosa de esperança no porvir do imortal. É aqui que a religião toma o seu verdadeiro sentido latino, religione, de religio, religar, como seja o Homem mortal, a personalidade, ao Homem imortal, a Individualidade, pelo que possui o mesmo significado que Yoga, União.

A trave vertical do cruzeiro vem a representar o fluxo descendente da Energia Celeste (Fohat) encontrando-se com a trave horizontal indicativa da vibração da Força Terrestre (Kundalini), assim se fazendo simbólica do Pramantha, a Cruz Luminosa sinalética do Chrestus ou Arhat de Fogo, do Homem Espiritual que padece a Crucificação na Matéria ciente na sua próxima Ressurreição no Espírito, assim ressurgindo da derradeira crise da Quarta Iniciação Humana para a Quinta do Adepto Perfeito como Asheka ou Jivanmukta, este sendo então verdadeiro Deus humanizado com pleniconsciência da quinta Ronda e afim quinta Cadeia do Futuro. Será o Homem Representativo do Futuro no Presente.

Sendo a verdadeira Iniciação a transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência, o que se consegue paulatinamente pelos três vectores Escola – Teatro – Templo afins aos princípios Transformação – Superação – Metástase, tem-se nos primeiros quatro Mistérios do Cristo a tomada gradual de consciência acompanhando as Rondas da Terra e os respectivos elementos naturais, tudo em conformidade aos 4 Graus Iniciáticos da Tradição das Idades afins aos mesmos do Budhismo Esotérico, como seja:

NASCIMENTO – ASPIRANTE (SOTAPATI) – TERRA
BAPTISMO – PROBACIONÁRIO (SAKADAGAMI) – ÁGUA
TRANSFIGURAÇÃO – ACEITE (ANAGAMI) – FOGO
CRUCIFICAÇÃO – UNIDO (ARHAT) – AR

Por outra:

Tanto o tirso como o caduceu e até mesmo o ábaco, expressam na sua configuração o esquema evolutivo das Iniciações Humanas desde o Nascimento até à Ressurreição do Homem “Angélico” ou o do quinto Reino Espiritual, acompanhando os passos da Iniciação ao par da Evolução da Terra.

A Tradição Iniciática chama Dwija ou “duas vezes nascido” (pela maternidade e pela iniciação) ao Adepto Perfeito (5.ª Iniciação), classificado nos evangelhos sinópticos e apócrifos de “Filho do Homem”, “Varão Celeste”, etc., razão da réplica de Jesus que a própria Igreja confessional desconhece: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” (Mateus 12:46-50, e também Marcos 3: 31-35), logo adiantando: “Quem faz a Vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. O cumprir a Vontade do Pai equivale ao Jivanmukta que está além do Druwa ou Chrestus possuidor da 4.ª Iniciação como “Filho de Mulher”, nascido da maternidade ainda na fase derradeira da verdadeira Iniciação, portanto, ainda encadeado à Lei de Causa-Efeito (Karma) que rege o Mundo. “Filho de Mulher”, “de Eva ou a Terra” foi João Baptista e também Jairo. Mais além hierarquicamente acima do Dwija encontra-se o Dharani, “Poder, Coluna Viva”, possuidor da 6.ª Iniciação de Choan ou “Senhor de Linha, Raio, etc.”, e logo após o Dhyani, o “Ser Perfeito”, o Christus, o Bodhisattva, cuja 7.ª Iniciação é classificada no Grau de Mahachoan (“Grande Choan” ou “Cisne Celeste”), todos consentâneos ao estado de consciência e vibração das três mais uma Hierarquias Criadoras em função na Terra.

Na vida de Jesus, o Cristo, a crise da 4.ª Iniciação tem começo na pessoa de João Baptista que a paixão insatisfeita mandou degolar, início da debacle que seria a posterior retirada do Avatara no solilóquio nocturno no Monte das Oliveiras.

Se a sigla iniciática JHS é indicativa do Homem manifestando Deus, o Homem-Deus, quando o H central, letra intermediária por sua natureza mercuriana, se repete na mesma acaba auto-anulando-se, deixa de surtir efeito, perde o sentido, o que vale por anulação do Homem-Deus, o Avatarizado. Isto verifica-se no JHHS, como seja, João – Herodes – Herodíade – Salomé, os personagens principais do episódio funesto sucedido por razões espirituais e políticas interrelacionadas.

Herodíade era mulher luxuriosa e ambiciosa. Nascida cerca de 15 a.C. e falecida depois do ano 39, foi neta de Herodes, o Grande, e irmã de Herodes Agripa I, rei da Judeia, sendo filha de Aristóbulo IV, filho de Herodes, e de Berenice. Teve como primeiro esposo Herodes Filipe, filho de Herodes, o Grande, com Mariana II, filha do sumo-sacerdote Simão, de quem teve uma filha, Salomé. Como o seu marido não exercia qualquer cargo público não passando de simples cidadão, Herodíade separou-se dele para casar com outro meio-tio, Herodes Antipas, e este para desposar Herodíade teve de divorciar-se da sua primeira esposa, Fasélia, filha do rei nabateu Aretas IV. Passaram a viver juntos antes de estar consumado o divórcio, e tal união foi condenada publicamente por João Baptista com palavras severas, acusando o casal de incesto, provocando grande animosidade no povo, e desencadeando o ódio mortal da mulher voluptuosa contra ele. Esse consórcio libidinoso justificava o pretexto do Arauto de Cristo de com isso a linhagem legítima dos reis de Israel estar findada e o rei legítimo da nação “escolhida” ser então bem outro, apontando-o em Jeoshua Ben Pandira, descendente em linha directa de David e Salomão.

Acerca disso, quanto à evidência do Messias no seu duplo aspecto espiritual e temporal, encontra-se registado nos próprios Evangelhos de São Mateus e de São Lucas. Por eles repara-se ser Jesus descendente directo de David, este como o oitavo dentre sete irmãos. David teve por filhos Salomão, Rei de Israel, e Nathan, como Sacerdote, ou seja, esses últimos representando o duplo aspecto de Melki-Tsedek: a Linha Temporal, ou o Poder Político, era exercida por Salomão, enquanto a Linha Espiritual, ou a Autoridade Sacerdotal, cabia a Nathan. Ao esquematizar a árvore genealógica, tem-se o seguinte: São Mateus diz que José é filho de Jacob e recua até Salomão, deixando o subentendido do Messias Davídico ou Temporal; por sua vez, São Lucas coloca Heli como pai de José recuando até Nathan, subentendendo-se estar a referir-se ao Messias Sacerdotal.

João Baptista, fundador do movimento, de raiz essénia, dos Mendayeh de Yahia, “discípulos de João”, intensamente zadoquita contestador da autoridade instituída, movimento a que pertenciam Barrabás e Jonafas, enfrentavam a forte oposição de Caifaz, presidente do Sinédrio, e de Anaz, seu antecessor no cargo e que continuava a ser a alma do partido fariseu em que se inscreviam os levitas (“servidores do Templo” descendentes de Levi), sendo esses dois os que iriam acusar Jesus diante de Pilatos, o governador romano da Judeia.

De maneira que ao triângulo construtivo de anúncio do Império Temporal tendo na chefia Jairo, logo se opôs um outro triângulo destrutivo que decepou aquele, dando início ao comprometimento do êxito universal da Missão do Avatara.

Segundo os evangelhos sinópticos (Mateus 14:1-12, Marcos 6:14-29, Lucas 9:7:9), Herodes Antipas mandara prender João por este o ter admoestado em divorciar-se da sua esposa legítima Fasélia (Phasaelis) e ilegitimamente tomar como amante Herodíade, a esposa do seu irmão Herodes Filipe I. Mas isso não bastava à mulher cruel despeitada. Convenceu a sua filha Salomé a seduzi-lo no dia de aniversário dele. Foi quando a formosa Salomé meio-desnuda dançou a “dança dos sete véus” (dança kamásica ou passional nos antípodas do desnudo dos sete véus de Ìsis, a Deusa Sabedoria) para Antipas ébrio de paixão, o qual lhe prometeu tudo se partilhasse o leito com ele. A jovem acedeu e conforme o antecipadamente combinado com a mãe, exigiu a cabeça decapitada de João Baptista. Ele acedeu e pouco depois era trazida numa salva a cabeça ensanguentada do mártir, decapitado no cárcere, ponto alto do banquete infernal – antítese da Última Ceia – que ditou o destino fatal da tríade kamásica, isso também sendo o preanúncio da queda temporal e espiritual de Israel com a próxima destruição do Sinédrio e do Grande Templo às mãos de Tito (70 d.C.).

O historiador judeu Flávio Josefo refere-se à morte de João Baptista[1], mas nada diz sobre o episódio do banquete nem sobre a acção conjunta de Herodíade e Salomé, fazendo de Antipas o único responsável pela decapitação do Anunciador, dizendo tê-lo feito por motivos políticos, “pois a grande influência que João tinha sobre o povo poderia colocar nas suas mãos [de João] o poder e a vontade de levantar uma rebelião, pois o povo parecia pronto para fazer o que ele pedisse. [Assim Herodes] pensou que o melhor seria eliminá-lo”.

Flávio Josefo afirma ainda que os judeus acreditavam que a derrota militar que sobreveio a Herodes pelas mãos de Aretas, seu sogro, pai de Fasélia, que ofendido lhe declarou guerra e destruiu todo o seu exército, fora uma punição divina pela indignidade e desumanidade que tivera com João.

Mas a ambição de Herodíade, a Hasmoneia, não tinha limites: convenceu o marido a ir a Roma junto do imperador procurar dignidade semelhante ou maior que a de Herodes Agripa I, que havia servido o império latino por menos tempo. Mas esse antecipou-se e enviou uma carta ao imperador Gaio Calígula na qual, mentindo, acusava Antipas de participar num plano para assassinar o imperador Tibério. Então, Calígula ordenou o exílio de Herodes Antipas para o sul da Gália, enquanto a Herodíade foi oferecida a possibilidade de não ser exilada e manter os seus bens, o que não parece viável por se saber que o rei judeu era fantoche à mercê dos caprichos dela que era quem maquinava tudo[2], pretendendo impor a vontade da sua casa dos hasmoneos à dos herodianos. Seja como for, terá recusado a proposta e acompanhado o esposo no desterro kármico para Lugduno Convenarum ou dos Convenas (actual Saint-Bertrand-de-Comminges[3]).

Se Josefo nas Antiquitates indica essa cidade gaulesa como a do exílio do casal desterrado, já no Bellum lê-se a Hispânia como o lugar do desterro, tradição adoptada na Idade Média baseada num texto antigo (que reza Profugus a facie Dei uixt in Tarracone et Emerita, et foede occiditur in Rhodio Lusitaniae oppido), assinalando que Herodes teria morrido em território português, nisto várias terras beirãs “reclamarem” o lugar da morte do rei judeu: Roda, Ródão, Redinha. As populações acreditam, porém, tratar-se de Herodes, o Grande, talvez pela “fama” do nome em termos de religiosidade popular[4]. Todavia, a lenda estará mais ligada a Herodes Antipas e à tradição medieval, tendo relacionado o Ródano gaulês a esses topónimos lusitanos[5].

A lenda herodiana em território nacional transfere secretamente para o sentido soberano da presença da Ordem Secreta de Mariz agindo externamente pela Ordem de São João do Hospital, chancelando o destino “carrasco” ou kármico de Portugal desde a sua origem[6].

A cabeça decepada, associada ao simbolismo do crânio, possui duplo significado, ainda que o Cristianismo lhe tenha dado unicamente o de lembrança da morte. O crânio contém o cérebro e está situado no cume do ser humano. É por isso o lugar sagrado do nosso corpo e o sinal da descoberta daquilo que se mantém secreto: o Saber Supremo.

Com tudo, aprofundando ainda mais o sugerido no figurino do Anunciador, tem-se que o simbolismo iniciático relacionado a São João Baptista é afim ao efectivo Ritual de Iniciação do Chrestus ou Arhat de Fogo, geralmente celebrado pela Páscoa, e que vem a ser o Ritual Jina do Yokanan (Djina-Masdhar), em muito identificado ao Ritual Maçónico de Elevação do Adonhiramita, que é essencialmente de carácter misto ou andrógino (conforme testemunha a sua lenda de grau, passada no ambiente da rainha de Sabá e o rei Salomão), sendo o motivo sacrificial do pré-Apóstolo, J.oão B.aptista, quem estabelece a ponte entre as Escrituras Velha e Nova. No Ritual Djina-Masdhar o Yokanan sofre a “Degola” iniciática (figurada na História Lusa por D. Egas Moniz indo de baraço ao pescoço entregar-se de motu próprio ao rei de Castela), isto é, faz florescer a Rosa no centro da Cruz quando o verbo por sua laringe entoa o Odissonai (“Espaço Sem Limites” – Purusha, Espírito, Pai) e o Odissonal (“Espaço Com Limites” – Prakriti, Matéria, Mãe) a favor da defesa da Obra do Eterno na Face da Terra, logo também dele mesmo, Filho Eleito.

Paralelamente a esses acontecimentos, Jesus Cristo levava a efeito a instituição do Mistério Eucarístico – na realidade a (re)fundação cíclica da Ordem do Santo Graal – no Cenáculo do Monte Sião, fora das muralhas da cidade velha de Jerusalém[7], conforme a narrativa de Marcos 14:13-15. Era o tempo da Pessach ou Páscoa judaica.

Tratou-se da celebração da Última Ceia quando Cristo instituiu o Ritual da Eucaristia. Abençoou o Pão e o Vinho e repartiu-os entre os Apóstolos presentes, como figurando o Seu Corpo e o Seu Espírito, a Fortaleza e a Sabedoria unidas no Seu Amor de Avatara manifestado[8], com isso inaugurando a “Nova Aliança” ou Idade já mencionada pelo profeta Jeremias.

O próprio Alcorão na quinta surata, Al-Ma´ida (“A Mesa”), sura 5:113, refere a refeição numa mesa posta por Deus (Allah) para Issa (Jesus) e os Hawariyyin (Apóstolos), sabendo-se que na tradição árabe as tâmaras e as uvas repartidas entre os convivas mais íntimos equivalem ao pão e o vinho na repartição eucarística.

Yehudhah ish Qeryoth (Judas Iscariotes) tomaria papel importantíssimo na consumação deste quarto Mistério. O seu nome em português provém do grego bíblico Iouda Iskariôth, sendo Iouda a helenização do nome hebraico Yehûdâh, Judá, interpretado como “abençoado, louvado”, “objecto de louvor”. Seria o quarto filho de Jacob Iscariotes, ou seja, “homem de Querioth”, sua terra natal, na Judeia. Letrado, possível doutor em leis, Judas partilhava o messianismo político dos zelotas, os “zelosos” da lei instigadores da rebelião armada contra o império romano ocupante. A sua noção de Messias restringia-se ao contexto político-militar, era um homem “prático”, de soluções imediatas para quem as noções metafísicas não iriam além de simbólicas de aplicações práticas, concretas. A sua retórica era absolutamente intelectual com laivos de agnóstica. Pretendia uma nação eleita temporalmente independente do jugo do sinédrio e do senado, dos fariseus e dos césares. Debalde Jesus tentou trazê-lo à razão explicando-lhe a sua Missão Espiritual, que a Autoridade Espiritual é uma e o Poder Temporal bem outro, que para isso haviam duas funções e respectivos representantes, sendo Ele o Espírito animador, que nação sem Espírito era igual a corpo sem alma. Debalde. Mas já antevendo o papel que Judas iria desempenhar em relação a ele, ainda assim tentou trazê-lo à razão, conforme se depreende das palavras seguintes no apócrifo (século II) Evangelho de Judas [9]:

“E disse-lhe Jesus (a Judas): Vem para que te ensine sobre os segredos que nenhum homem viu. Pois que há um Grande Logos Ilimitado que nenhuma geração de Anjos viu, onde existe um Grande Espírito Invisível.”

Sem dúvida Jesus estava referindo-se ao Avatara partícipe directo do Logos que o acalentava.

Segundo informa a Tradição Iniciática, é por essa altura, pouco depois da decapitação de João Baptista, que Yehudhah se torna Ashaverus, isto é, avatarizado ou veiculado por Luzbel, o terceiro Luzeiro tomando forma como Planetário na sua luta revoltosa contra o Desígnio do Eterno e assim mesmo contra o seu Irmão Akbel acatando a Ordem do mesmo Eterno Oitavo Logos, tomando expressão em Jeoshua. Daí em diante, Judas, com o auxílio de dois outros zelotas funcionando como suas colunas vivas, como sejam os seus irmãos Elasbão e Gereão, passou a agir como opositor aberto à Missão do Avatara, duvidando da sua Divindade por as ideias Dele não coincidirem com as suas…

Apareceu um novo triângulo destrutivo fazendo oposição ao triângulo construtivo, numa nova e dramática luta entre Akbel e Luzbel, conforme abaixo:

Aconteceu que uma “gralha” feminina, uma mulher de nome Messalina, em diminutivo Salina, possivelmente uma dessas “donas de casa” desocupadas ocupando o seu tempo em seguir o Cristo mais por curiosidade e alguma crença cega, puro beatismo (sem dúvida terão sido milhares os que na época seguiram com paixão e intriguismo, pão dos pobres de espírito – os aloucados, não os pobres pelo espírito, os humildes – as “novidades” diárias sobre Jesus Cristo…), tomada de bisbilhotice ouviu uma conversa privada entre Jesus, Tiago, João e Pedro acerca dos planos de transformação política e social que seriam levados a efeito, tendo Jairo como chefe ou dirigente, estendendo-se de Jerusalém até Roma, a fim do cesarismo ser derrubado. Messalina correu a contar a Judas essa trama, numa hora em que ele estava reunido com muitos membros e simpatizantes zelotas do partido zadoquita. Todos ouviram a denúncia da “gralha” Messalina[10] e depressa a notícia espalhou-se por toda a Jerusalém, como consta no texto apócrifo dos Manuscritos de Salinas. Logicamente que aquele plano de transformação político-social seria uma espécie de “revolução branca” levada a efeito sem derramamento de sangue, e foi assim que chegou ao conhecimento das autoridades romanas e farisaicas, alheias a esse projecto sinárquico, que o era, com o nome de “Missão Roma”[11].

Tomaram-se de imediato providências para sufocar o movimento. Judas, que não acreditava que Jesus fosse capaz de levar avante semelhante Missão por o ter como um “visionário” e não um “homem prático”, acabou vendendo por trinta dinheiros de prata à autoridade farisaica a informação de onde se localizava o Retiro Privado de Cristo, para os lados do Monte das Oliveiras, em Jerusalém. Ele acreditava que Jesus seria detido sem violência e por processos pacíficos o demoveriam dessa “utopia”, nunca que o torturassem ferozmente e o condenassem à pena capital da morte na cruz conforme a lei romana destinava aos criminosos e inimigos do Estado.

Cai a noite dramática, húmida e agourenta, Jeffersus o Christus retira-se de cena, o Christus retira-se de Jeffersus, e Jairus fica só… mas o Avatara antecipara os acontecimentos e horas antes, durante a Última Ceia, chamara à parte José de Arimateia (futuro Mestre Kadir) e Nicodemos (Nicodemus Ben Gurion, mencionado no Talmude, futuro Mestre Akadir)[12], o “discípulo secreto” de Jesus, e transmitira-lhes instruções precisas respeitantes ao futuro próximo da Ressurreição.

Sentindo a tragédia eminente Jesus, o Homem, ou antes, Jairo levanta a sua voz ao Eterno numa prece de angústia e entrega: – “Senhor, se não sou digno[13] de tamanho martírio, afastai de Mim o Cálice da Amargura!” Ao que o Eterno lhe respondeu: – “Cumpre agora o martírio, para que a tua Missão reviva no próprio Espírito!”.

Judas levou os soldados de Caifaz até onde o Mestre se encontrava, no Getsémani, horto no sopé do Monte das Oliveiras, e logo o prenderam. Na famosa cena do beijo da traição, Judas não apontou o verdadeiro Cristo e sim o aspecto humano do mesmo, pois Jesus havia se retirado com o aspecto celestial do Avatara, de maneira que Jairo foi confundido com o seu gémeo e levado ao julgamento mais que forjado, de antemão condenado à morte.

Tomando consciência do seu crime lesa-Divindade, apercebendo finalmente ter sido enganado pelos fariseus, Judas ainda protestou junto deles a inocência de Jesus e devolveu os trinta dinheiros atirando-os horrorizado no soalho do Sinédrio. Tudo em vão, só teve como resposta risos e olhares ferozes. Tomado de arrependimento profundo, chorando lágrimas de sangue, ardendo no fogo implacável da consciência acusadora, tomou noção de ter sido veículo de Força Maligna que o levara ao acto de assassínio do Homem-Deus, e já tresloucado de dor e pranto foi enforcar-se numa figueira. A sua alma penitente tomada por Ashaverus seria convertida no famoso “Judeu Errante”.

Já Elasbão e Gereão acabaram os seus dias no vale dos leprosos, onde morreriam depois de grandes e prolongados sofrimentos, tendo de presenciar a sua própria carne podre caindo aos pedaços em meio a lágrimas e gemidos.

Quanto a Messalina, o Professor Henrique José de Souza revelou numa carta de 26.03.1953 que ela assistiu ao Calvário do Senhor, e desde então passou a ter a visão contínua do Cristo caindo e levantando, com suores frios e ensanguentados, com isso ela acabando por enlouquecer até que, num acto desesperado para afastar a visão terrível, atirou-se numa fogueira que a devorou.

Luzbel visava atingir ao próprio Cristo Universal na pessoa de Jesus, mas o Eterno (8.º Logos, Centro do Universo ou Sistema Solar, o mesmo Elli, Eloi, Elion, Elohim ou Logos Solar clamado como Pai por Jesus no madeiro da morte) “trocou-lhe as voltas” através de Akbel e só ficou Jairo, sobre quem pendia o Aspecto Superior (Arabel) do mesmo Revoltado celeste na face da Terra, de maneira que Luzbel acabou atentando contra si mesmo, retardando a sua Redenção dos grilhões kármicos que o prendiam ao Cáucaso, isto é, ao “cárcere carnal”.

Após detido, Jeoshua ou Jairo foi levado ao Sinédrio onde as autoridades farisaicas o condenaram, só faltando a aprovação do governador Pôncio Pilatos a cuja presença o arrastaram. Tal como Nicodemos, membro do Sinédrio, fizera todos os possíveis na defesa do Inocente perante Caifaz, igualmente Pilatos fez quanto podia para o inocentarem e libertarem, porque “não achava nele culpa alguma”. Mas o partido fariseu, encabeçado por Caifaz e Anaz, estava determinado a matar Jeoshua (Jairo) sem dó nem piedade. Pôncio Pilatos, a sua esposa Cláudia Prócula, assim identificada no Pseudo-Dexter (Flavius Lucius Dexter, historiador romano do século IV d.C. e amigo de São Jerónimo), redigido em 1619, e os seus dois irmãos Lucas e Dimas que faziam “pendant” com ele, pertenciam ao Movimento Secreto de Jairo Ben Pandira, tendo se deslocado propositadamente para a Judeia e a Palestina a fim de facilitar a Missão do Avatara aí, no terreno político-social. Mas a ameaça de Caifaz em intervir junto do próprio imperador em Roma caso não fosse cumprida a sua exigência de condenar à morte o Senhor, deixou o governador de “braços atados” que assim acabou cedendo, “lavando as suas mãos da morte de um homem que sabia inocente”. Contudo, não deixou de dar instruções aos seus legionários, sobretudo a Longuino, o centurião, que deixassem o infeliz inanimado na cruz (dando-lhe uma beberagem que o adormecesse) sem que morresse e não lhe quebrassem os ossos, não deixando também de facilitar as acções futuras de Nicodemos e Arimateia quanto aos seus propósitos ocultos de resgatarem o corpo do Senhor.

Pôncio Pilatos é hoje o insigne Adepto Maximus Tertius. Juntamente com os seus irmãos – Pilatos (P), Lucas (L), Dimas (D) – constituíam a sigla tributária LPD. Relativamente a esta, ressalta que todas as missões políticas executadas pela Grande Fraternidade Branca nas pessoas dos seus mais conspícuos Membros, são sempre caracterizadas pelas iniciais LPD. Razão porque se observa Pilatos muito próximo da Missão do Christus no aspecto temporal, granjeando prestígio através da execução da parte política. Governador (praefectus) da província romana da Judeia entre os anos 26 e 36 d.C., inimigo ferrenho de Herodes Antipas, como descrevem os evangelhos sinópticos, Pilatos era filho de um cônsul romano com uma mulher de origem árabe, sendo os seus irmãos as suas Colunas Vivas.

Mais uma vez, apresenta-se o triângulo construtivo tendo a oposição aberta do triângulo destrutivo, como seja:

A própria esposa de Pilatos, Cláudia, terá pedido ao marido que não condenasse Jesus à morte, dizendo: “Não te envolvas no caso desse Justo, porque muito sofri, hoje, em sonhos, por causa dele” (Mateus 27:19).

Na sua Homilia sobre Mateus, do século II, Orígenes sugere que Cláudia se tornara cristã, ou que fora convertida por um Anjo, ideia compartilhada por diversos teólogos da Antiguidade e da Idade Média, a despeito dos que afirmaram o sonho ter sido provocado por Satan na tentativa de impedir a absolvição de Cristo.

Todas as tentativas de salvar Jesus resultaram debalde, depois de o enviarem de Herodes para Pilatos e deste para aquele por ninguém querer assumir a culpa do assassínio do Justo. Preferiu-se a libertação de Bar Abbas ou Barrabás, o guerrilheiro zelota que matara um legionário romano, e preteriu-se Jesus, o rabino essénio que salvava um e muitos. A multidão instigada pelos levitas e fariseus gritava que soltassem Barrabás e condenassem Jesus. Assim foi feito, soltaram o zelota, para daí a pouco tempo também ele ser assassinado pelos companheiros do soldado morto.

Eis Jesus açoitado a caminho do Calvário (Calvaria, em latim), o “Monte da Caveira”, sítio da supliciação, Homem das Dores caindo e levantando sob o peso do madeiro da cruz, só tendo a acompanhá-lo à distância João Zebedeu e as três Marias (a Pandira, a Cleofas e a Magdala), mas também as copiosas mulheres de Jerusalém, gritando a inocência do Senhor. Ele que as sossegou augurando fatal:

– Ó Filhas de Jerusalém,
não choreis a minha sorte.
Se vossos peitos comovo,
Chorai a sorte de um povo
Que morre com a minha morte.

“De ti, Jerusalém, não ficará pedra sobre pedra” (Lc. 19:44).

O Cristo Deus – o Avatara – sofria à distância, por repercussão hiperfísica, as dores por que passava o Jesus Homem, no drama solene da Paixão e Morte do Cordeiro Inocente assim resgatando o Karma da Humanidade, por Sua imensa compaixão e amor às gentes de um ciclo que fenecia – Agnus Dei qui tollis pecatta mundi.

Eis o Salvador crucificado entre dois ladrões, possivelmente zelotas, que os textos apócrifos identificam como Himas, o bom ladrão, e Jestas, o mau ladrão[14]. O derradeiro H – S – J ou HJS, o Homem feito Deus, anverso do JHS, o Deus feito Homem.

Com isso, a Cruz Suplicial tomava a feição de Cruz Primacial, como regista o manuscrito apócrifo Livro da Penitência de Adão, recambiando a origem do Cruzeiro até às origens adâmicas do Género Humano:

“Quando Adão morreu, Set recebeu do Anjo Guardião da entrada do Paraíso três grãos contendo toda a força vital da Árvore da Ciência e da Árvore da Vida, que se achavam reunidas formando uma só. Seguindo as instruções do Anjo, Set colocou os três grãos na boca do seu falecido pai. Os ramos que saíram desses três grãos formaram a sarça ardente na qual Deus se revelou a Moisés. Este colheu um tríplice ramo da sarça sagrada e fez a vara dos milagres. Esta vara, apesar de separada da raiz, não deixou de viver e de florir e assim foi conservada na Arca.

“O rei David replantou esse ramo vivo na Montanha de Sião, e Salomão mais tarde tornou a madeira dessa árvore no tríplice tronco com que fez as duas colunas Jakin e Bohaz da entrada do Templo; ele revestiu-as de bronze e pôs o terceiro pedaço da madeira mística no frontal da porta principal.

“Mais tarde, os levitas corrompidos arrancaram durante a noite essa barreira contra as impurezas arremessando-a no fundo da piscina probática, enchendo-o de pedras.

“Desde esse momento, o Anjo de Deus agitou todos os anos as águas da piscina e comunicou-lhes uma virtude milagrosa, para evitar que os homens procurassem lá a árvore de Salomão.

“No tempo de Jesus Cristo limparam a piscina, e os judeus achando o madeiro, inútil no pensar deles, levaram-no da cidade e fizeram uma ponte sobre o ribeiro de Cedron. Por esta ponte passou Jesus depois da sua prisão nocturna e os algozes, na sua pressa em preparar o instrumento do suplício, levaram-na consigo. A ponte era uma tábua de três peças, composta de três madeiras diferentes, e com ela fizeram a cruz.”[15]

Essa narrativa absolutamente lendária, invenção sagrada de algum piedoso da Antiguidade cristã, ainda assim reveste-se de significados absolutamente iniciáticos, herméticos, que dispõem o Cruzeiro como simbólico do Pramantha, do Ciclo de Evolução figurado por aquele.

Obviamente o do Ciclo de Piscis ou Ychtu, os Peixes (sinal e senha que os cristãos desenhavam nas catacumbas de Roma pelo qual se reconheciam entre eles), simbólicos do “Pecado Original” ou “Queda no Sexo” (Geração Humana) de Luzbel por fim redimido por Akbel. Tem-se o episódio do peixe que Jeoshua traçou no chão quando lhe apresentaram a mulher “adúltera”, enquanto replicava: “Quem estiver isento deste pecado (do sexo) que atire a primeira pedra”… tendo os falsos juízes e juízos recuado vencidos… pela força passional que os consumia.

Os instrumentos do martírio do Senhor no Gólgota  foram todos recolhidos por José de Arimateia e Nicodemos (cruz, tabuleta do escárnio, coroa de espinhos, cana verde, azorrague, lança de Longuino, cravos ou pregos, capa rubra purpurada, mortalha, etc.) e levados para as Fraternidades Iniciáticas a que eles pertenciam. O Professor Henrique José de Souza revelou como verdadeiras as medidas da cruz do Gólgota, 4,32 m x 2,16 m, e da tabuleta do escárnio, 1,08 m x 0,32 m, assim configuradas:

Essas medidas, na mesma ocasião em que as revelou, foram assim descritas pelo mesmo Professor Henrique José de Souza numa sua carta de 5.04.1952:

“E pelas medidas da Cruz – 4,32 x 2,16, sendo que 2,16 representa a metade de 4,32 – pode a mesma ser avaliada, sem contar com o pedaço que se enterra no chão, para que o símbolo da Terra se expresse Naquele que por ela morre.

“A Cruz possui 12 concavidades (3 em cada terminal da Cruz) e simbolizam as fases de um Ciclo. A extremidade superior vertical é o activo IOD, enquanto a inferior é o menos activo VAU. Ambas são andróginas, porém, possuem elementos de actividade (masculina e feminina).

“As extremidades do braço horizontal estão marcadas pelos signos passivos HE, porém, a ponta direita é mais activa que a esquerda, porque a ponta direita se transforma em IOD no próximo Ciclo. Portanto, leva em si a semente da futura actividade, já que o primeiro HE, como Mãe, pode dar nascimento somente a uma criatura andrógina – VAU.

“Jesus foi sacrificado como JHS, a Tríade Superior para JNRJ, o quaternário inferior desta mesma Terra (expressando o 4.º Senhor). A Tabuleta da Tragédia do Gólgota (medida de 1,08) acompanhou os Gémeos Espirituais de vida em vida, sempre oculta aos seus olhos e presença. As quatro letras da Tabuleta, J ou INRI, como o “quaternário da Terra”, traz inscrito o ano do Julgamento Humano.”

Sacrificado como Cordeiro Inocente de Deus que tira os pecados do Mundo, isto é, resgata a quarta parte do Karma Planetário, com isso acelerando a extinção das três partes restantes, logo sendo o Agnus Castus por cuja Luz alumia as consciências terrenas, assim se torna o Agni Dei, o Fogo Sagrado que irá dar um segundo sentido à frase da Tabuleta da Cruz, mandada inscrever e colocar por Pilatos que sabia estar aí Jairo: Iesus Nazarenus Rex Iudeorum (“Jesus Nazareno Rei dos Judeus”), ou seja, Ignis Natura Renovatur Integra (“Pelo Fogo se renova a Natureza inteira”).

Ou em hebraico:

I.AM (Água) – Reino Vegetal
N.OUR (Fogo) – Reino Animal
R.UACH (Ar) – Reino Hominal
I.ABESHAH (Terra) – Reino Mineral

Fogo Vivo de Shamballah, o Laboratório do Espírito Santo, portanto, vivificador e renovador do próprio Logos Planetário. Enfim, tal é o mistério da Cruz e da Tabuleta do Gólgota.

Momento de trânsito entre dois estados, agonia, angústia e abandono, a humanidade de Cristo repete as palavras clementes do Salmo 22:

– Eli, Eli lama lama sabactani?

(Pai, Pai por que me abandonaste?)

É a crise da Passagem (Pessach) do Chrestus, do dobrar o Avichi ou Gehenna (Inferno), morada das turbações e perturbações físico-psicomentais, para ascender em Espírito ao Nirvana ou Shameh (Céu), assim matando a morte de vez para sempre, nisto, e como o aramaico não tem consoantes, terá exclamado triunfante:

– Lh lh lhm sbbhh thn!

(Pai, Pai quanto me glorificais!)

Da angústia da incerteza (1.ª frase) passou à serenidade da certeza (2.ª frase), para em suspiro final fazer a Sua entrega:

– Elohim ani noten rú-ahh.

(Pai, nas Tuas entrego o meu Espírito – Pater in manus tuas commendo spiritum meumPatéra sta chéria sô paradído to pneuma mou)

Era sexta-feira. Crucificado à hora terceira (9 horas da manhã) expirou à hora nona (15 horas da tarde). Cobriram-se os céus com nuvens revoltas num vendaval medonho eclipsando Sol e Lua, como refere Pedro nos Actos dos Apóstolos 2:20 assinalando a “Lua de sangue” (avermelhada por refração da luz lunar através da atmosfera terrestre) e o “Sol convertendo-se em trevas”. Tremeu a terra e a turba insana gritou apavorada: “Ai de nós, que matámos um Justo”!

E a terra não deixa de tremer, caiem homens e bestas, caiem casas e arraiais, rasga-se o véu do Templo entre ventos e relâmpagos, estremecem as tumbas e os mortos voltam à vida… desce o Chrestus corporização do Planetário de Vénus, o Quinto, enquanto sobem, num despertar momentâneo, os “Filhos da Mente Universal”, os Manasaputras, desde o Panteão de Shamballah, esta que a “cidade santa” de Salém ou Jerusalém deveria corporificar. Cerra-se um ciclo, abre-se outro. Doravante nada seria como antes.

Na sua descida aos Infernos ou Inferius, o Homem-Deus perpassa as regiões do Mundo Psíquico mais baixo donde resgata, só com a Sua presença, diz a Tradição, 432.000 almas em sofrimento. E logo se interna no Sol Místico da Terra que é Shamballah, onde adormece temporariamente em Sono Paranisphânico ou Paranirvânico (Monádico, Divino). Os Manasaputras subiram temporariamente enquanto o Avatara descia também temporariamente. Contrabalanço das conchas da Balança da Lei, indo o Sangue Real – gotejando para a Taça Sagrada, a mesma utilizada na Última Ceia, aí levantada por José de Arimateia, que depois a levaria para regiões ignotas encabeçadas por Fraternidades Jinas – escorrido no Deicídio vibrar – como ojas ou energia vital – no sangue da quatro quartos da Humanidade, anulando o seu Karma por instantes, e se não definitivamente é por se saber que que a vibração do Avatara é bem uma coisa, e a reacção do Homem ao mesmo impacto poder ser outra bem diferente. Questão de livre-arbítrio.

Um dos episódios mais marcantes da Crucificação é o de Longuino, o centurião. Segundo se conta, ele sofria de miopia em estado adiantado – outros dizem que entretanto cegara – e que meses antes houvera pedido a Jesus que lhe restaurasse a visão (tanto física como espiritual), mas esse achando-o imaturo, um impúbere psíquico, recusou atendê-lo. Revoltado, Longuino prometeu em seu íntimo desprestigiá-lo em público na primeira oportunidade que tivesse. Ora, quando a expressão carnal do Bodhisattva deu último suspiro na cruz ele tomou da sua lança e perfurou-lhe o peito, junto ao coração, para ter a certeza de estar morto. Então, o sangue jorrou sobre o rosto do centurião atingindo-lhe os olhos, logo ficando curado da miopia. À vista daquela cena dolorosa que era o drama do mundo, tomou-se de remorso profundo e por pouco não enlouqueceu. De maneira que com a recuperação da visão para a estranheza daquele quadro trágico, o impacto da essência líquida vital do Eterno humanizado revolveu-lhe a alma assúrica ou de anjo revoltado, a tal ponto que, até ao final dos seus dias, passou a dedicar-se exclusivamente à Obra do Cristo, tendo chegado a ser um dos fundadores da Igreja no Ocidente.

Sendo Jesus a expressão do Quinto Luzeiro e da Quinta Hierarquia Espiritual, Arqueu ou Assúrica, ele só podia ser alanceado por um ser de ordem inferior relacionado ao Quarto Luzeiro e à Quarta Hierarquia Humana, Jiva, mesmo que possuísse alma assúrica. Longuino ou Longinos, ao trespassar o peito do Senhor com a lança (lanké, em grego) cumpria assim a dolorosa missão que a Lei lhe determinara. De maneira que tudo já estava programado desde os Céus de Shamballah, inclusive a acção contrária dos eternos inimigos da Lei… crucificada nessa hora. O Bodhisattva sabia, como Grande Iluminado que era, que o seu Sangue seria dado em holocausto a favor do Karma Humano. Longuino teve o papel de abrir-lhe o peito, como já estava antevisto por Lei. Com esse episódio ele recebeu a dupla luz: a física e a espiritual. E tornou-se num dos maiores paladinos cristãos.

No instante em que o Divino Sangue jorrou do Sagrado Coração de Cristo, José de Arimateia, apoiado por Nicodemos, aproximou-se e recolheu-o num enorme Cálice de Ouro – o Santo Graal ou Santo Vaso (Saint Vaisel), modelo do Cálice Eucarístico – tendo em seguida desaparecido levando-o consigo e ao Mistério da Renovação do Sangue Real dos Avataras.

De maneira que o Sangue Divino jorrou para três partes:

1.ª – Olhos de Longuino = Iluminação da Humanidade;

2.ª – Santo Cálice = Renovação dos Mistérios Sagrados;

3.ª – Solo da Terra = Impacto planetário da Quinta Essência (Quintessência) Divina.

A terceira alínea também equivale ao início de um novo ciclo de consciência, ou seja, à abertura de um novo Pramantha. Assim “Deus escreveu direito por linhas tortas”… mais uma vez contrariando Luzbel, como seja, as forças contrárias à Lei de Evolução.

Existem provas documentais da crucificação de Jesus como acontecimento histórico, inclusive da parte de autores não cristãos, nisto tendo-se talvez como primeira referência a carta de Mara Bar Serapion para o seu filho, escrita em algum momento após o ano 73 d.C., onde o autor sírio, não judeu e não cristão, para encorajar esse na aquisição do conhecimento usa os exemplos de Pitágoras, de Sócrates e do “Rei Sábio” que foi crucificado pelos judeus em virtude da sua introdução de novas leis e novos saberes[16].

Tácito, um dos maiores historiadores romanos não cristão, no início do século II descreveu em Os Anais (cerca de 116) a perseguição aos cristãos sob Nero e afirmou que Pilatos ordenara a execução de Jesus.

Josefo Flávio, o historiador judeu, já afirmara nas suas Antiguidades Judaicas (obra escrita cerca do ano 93) que Jesus fora crucificado por ordem de Pilatos. Ao encontro disso vai o Talmude babilónio (Sinédrio 43a) dizendo que Jesus praticou a apostasia da magia e por isso foi pendurado na véspera da Páscoa. Pendurado ou crucificado tem o mesmo sentido em Lucas 23:39 e em Gálatas 3:13.

Alguns dos primeiros movimentos gnósticos, acreditando que Jesus não possuía substância física (tese conhecida como docetismo), negavam que ele tivesse sido crucificado. Por certo estariam a referir-se ao Avatara e não ao Avatarizado. Mas a ad litteram de Inácio de Antioquia recusou isso e insistiu que Jesus nasceu verdadeiramente e foi verdadeiramente crucificado, tendo escrito que os que defendiam que Jesus apenas pareceu sofrer apenas pareciam ser cristãos.

Ao contrário desse exegeta e da exegética oficial, o Islão defende que Jesus não foi crucificado nem morto de outra forma, chegando a afirmar que a morte de Jesus foi simulada e que o Enviado de Deus (Avatara) estava ausente. Assim, para terminar, lê-se no Alcorão 4:157-158:

“E por dizerem: Matámos o Messias, Jesus, filho de Maria, o Mensageiro de Deus, embora não sendo, na realidade, certo que o mataram, nem o crucificaram, senão que isso lhes foi simulado. E aqueles que discordam, quanto a isso, estão na dúvida, porque não possuem conhecimento algum, abstraindo-se tão-somente em conjecturas; porém, o facto é que não o mataram. Outrossim, Deus fê-lo ascender até Ele, porque é Poderoso, Prudentíssimo.”

 

NOTAS

 

[1] Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, 5.4.

[2] Nuno Simões Rodrigues, Herodes Ântipas e Herodíade a caminho do exílio: fragmentos da errância judaica no século I. Revista Phoínix, Rio de Janeiro, 19-2: 107-119, 2013.

[3] Saint-Bertrand-de-Comminges é uma comuna nos Pirenéus franceses, localizada no departamento da Alta Garona, região da Occitânia, no sudoeste da Gália romana.

[4] J. N. Carreira, Camões e o Antigo Testamento. Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 1982.

[5] O próprio carrasco, arbusto de folhas com margens serradas a dentadas e espinhosas, espécie que se encontra em toda a região mediterrânica e em Portugal com maior facilidade no Centro e Sul, os locais daqui por vezes também lhe dão a alcunha de “Herodes” e “Herodes-carrasco”, talvez por lhes  lembrar a lâmina ferina que decepou a cabeça de João Baptista por ordem daquele.

[6] Vitor Manuel Adrião, Ordem de Mariz – Iniciação e Segredo. Euedito, 2.ª edição, Lisboa, 2019.

[7] A Igreja Ortodoxa Síria localiza a sala do Cenáculo na igreja de S. Marcos em Jerusalém (anterior ao actual do século XII), que se situa no subsolo da mesma, numa altitude correcta relativamente às ruas de Jerusalém no século I, que estavam num nível pelo menos 3,6 metros abaixo do actual, motivo porque muitos dos edifícios dessa época terem hoje o seu andar superior abaixo do nível da rua. Também ali é hoje reverenciado um ícone da Virgem Maria supostamente pintado por S. Lucas.

[8] Durante o Cristianismo Primitivo observava-se uma refeição ritual conhecida como Festa do Ágape (“Festa do Amor”), onde cada participante trazia comida e todos comiam juntos no salão comunal. Era realizada a cada domingo, assim passando a ser conhecido como “Dia do Senhor”. Ágape é uma das quatro principais palavras gregas para o “Amor”, no sentido de Amor Espiritual, incondicional, em contraposição ao desejo e afeição condicional (amor parental, por exemplo). Embora os cristãos interpretem o Ágape como uma forma expressa de Amor Divino acima do humano, todavia na língua grega moderna esse termo é utilizado no sentido de “eu te amo” (amor romântico), como óbvio afastamento dessacralizado do sentido original.

[9] Evangelho de Judas. Organizado por Sofia-Torallas Tovar e António Piñero. Editora Ésquilo, Lisboa, Julho de 2006.

[10] Messalina aparece como Pompónia Grecina, judia-romana convertida ao Judaísmo e depois ao Cristianismo que foi julgada e condenada em Roma. Cf. Nuno Simões Rodrigues, O processo de Pompónia Grecina, um caso de opressão religiosa no século I d.C. Revista “Humanitas”, LXI, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Clássicos, 2009.

[11] Juan Arias, Jesus, esse Grande Desconhecido. Editora Objectiva, Rio de Janeiro, 2002.

[12] Nicodemos é dado como autor dos Acta Pilati, “Actos de Pilatos”, ou Evangelho de Pilatos, aparecendo no texto medieval em latim como Evangelho de Nicodemos, um dos livros apócrifos do Novo Testamento.

[13] Digno é também o título de Arhat ou Chrestus.

[14] Eduardo Proença, Apócrifos e Pseudo-Epígrafos da Bíblia. Ed. Novo Século, São Paulo, 2004.

[15] Cf. Jacir de Freitas Faria, As origens apócrifas do Cristianismo. Edições Paulinas, São Paulo, 2003.

[16] William Cureton, Spicilegium Syriacum: contendo testemunhos de Bardesan, Meliton, Ambrose e de Mara Bar Serapion. Rivingtons, Waterloo  Place, Londres, 1855.

Mistério da Transfiguração (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jan 21 2021 

Bodhisattva (sânscrito). Literalmente: “Aquele cuja Essência (Sattva) tornou-se Inteligência (Bodhi)”. Aquele a quem falta apenas uma encarnação para chegar a ser um Budha Perfeito, isto é, para ter direito ao Nirvana (Atmã Universal, Espaço Sem Limites, Além de todas as Formas). Aquele que possui o dom ou qualidade de Bodhi (Inteligência Suprema ou Iluminação). Na ordem hierárquica, o Bodhisattva é inferior ao “Budha Perfeito”. Na linguagem exotérica, esses dois termos são muito confundidos. Contudo, o inato e justo sentimento popular, em razão do grande sacrifício que o Bodhisattva fez de Si mesmo, em sua respeitosa estima, coloca-o em lugar mais eminente que o de Budha. Nos países budistas do Norte da Ásia, cada novo Bodhisattva, o Grande Adepto Iniciado, recebe o nome de “Libertador da Humanidade” (Voz do Silêncio, III). – Helena Petrovna Blavatsky, Glossário Teosófico.

Conforme a ordem hierárquica, o Bodhisattva (बोधिसत्त, em sânscrito, “Espírito Misericordioso”) é um Ser possuidor da 7.ª Iniciação Real que se situa entre o Mundo das Formas (Segundo Logos) e o Mundo Sem Formas (Primeiro Logos), que por sua imensa Compaixão e Amor à Humanidade pode manifestar-se ciclicamente acompanhando a Evolução das Raças Humanas. E fá-lo agindo por um veículo físico de antemão preparado para tanto, como foi o caso de Jesus veiculado consciencialmente pelo divino Christus vibrando no seu Corpo Áurico Vital, afectando positivamente além do Físico denso as Emoções e Pensamentos, tudo graças ao estabelecimento do antahkarana ou elo de Vida-Consciência entre o Eu Superior e a Personalidade, agindo o Supremo Instrutor do Mundo por aquele nesta.

Já o Budha reserva-se de manifestar-se no Mundo das Formas por ter transposto o limiar além dele e se integrado ao Absoluto Informe, ao Mahaparanirvana ou Plano Divino. Daí Budha significar, em devanagari e sânscrito (बुद्ध), “Iluminado”, “Desperto” no Além-Nirvana. Na ordem hierárquica possui a 8.ª Iniciação e igualmente pode se projectar ciclicamente no Mundo Humano, mas através do Bodhisattva, o “Ungido” (Khristôs, em grego), o também “Iluminado” na Luz do Paranirvana ou Mundo Monádico.

Isso significa, na sequência das Raças já manifestadas e por manifestar, que o Cristo, aclamado Maitreya pelos povos da Ásia, age através do Raio Espiritual de Vénus nesta 5.ª Raça-Mãe Ariana da qual é o Bodhisattva, para assumir a condição de Budha na vindoura 6.ª Raça-Mãe Bimânica ou Dourada sob o influxo espiritual de Mercúrio. Daí se falar no vindouro Budha-Mercúrio ou Budha Branco por advir no Ocidente.

Conforme as informações disponibilizadas pelo Professor Henrique José de Souza e as constantes da obra clássica do Budhismo Tibetano referentes a Shamballah, o Sol Interno da Terra no centro das sete cidades de Agharta, como seja o Kalachakra-Tantra, são os seguintes os Budhas e Bodhisattvas regentes das sete Raças-Mães da actual 4.ª Ronda Terrestre, neste 8.º Ramo da 5.ª Sub-Raça Teutónica da 5.ª Raça-Mãe Ariana em que todos estamos:

Acerca dos termos gregos Christos e Chrestus, repasso a palavra ao Professor Henrique José de Souza que escreve sob o pseudónimo Laurentus[1]:

“Quanto ao termo Cristo, procede do grego Chrestus (ou Krestus), que tem o significado de Ungido, Sábio, Iluminado, etc. Na mesma razão está o termo Bodhisattwa, que significa “essência áurea de Sattwa transformada em Sabedoria”. Quem atinge este estado, não necessita mais do que uma encarnação para se tornar um Budha (ou Buda). Determinado número de Bodhisattwas, e mais o de um Manu, acrescido do de um Budha ou Oitavo Ramo Racial (fenómeno que está acontecendo agora), equivale a um Avatara.

“O Chrestus de todas essas lutas terrenas, prévias e indispensáveis para ser alcançada a Perfeição absoluta, ao chegar ao fim do Caminho (o da Evolução) recebe o nome de Christos, termo que, como diz a incomparável Helena Petrovna Blavatsky no seu Glossário Teosófico, foi empregado no século V (a.C.) por Ésquilo, Heródoto e outros. Os manteumata pythocresta, “oráculos transmitidos por um deus Pítio” através de uma pitonisa, são mencionados pelo primeiro (Ésquilo, cap. 901); e pythocrestus é derivado de crao. Chresterion não é apenas o “testemunho de um oráculo”, mas também um “oferecimento ao oráculo”. Chrestes é aquele que explica os oráculos, um “profeta e adivinho”. O primeiro escritor cristão, Justino Mártir, em sua Primeira Apologia, chama a seus correligionários de chrestians. “O facto de os homens se chamarem a si mesmos cristãos, é a maior das ignorâncias”, diz Lactâncio (Livro IV, cap. VII). Os termos Cristo, Cristãos, escritos originalmente Chrest, Chrestians, foram extraídos do vocabulário dos templos dos pagãos. Nele Chrestos significa “discípulo posto à prova” (donde as “provas” iniciáticas da antiga Maçonaria e de outras Ordens Secretas), candidato que aspirava à dignidade de hierofante, e que, depois de haver alcançado esse grau por meio da Iniciação, através de duras provas e sofrimentos, depois de ser ungido (ou “untado com azeite”, como o eram os iniciados e ídolos dos deuses, segundo a prática da última cerimónia do rito, que ainda hoje é usado pela Igreja nos baptismos, etc.), transformava-se em Christos, “o Purificado, o Ungido, o Iluminado”, em linguagem esotérica. Realmente, em simbologia mística, Christes ou Christos significava que “o Caminho, a Vereda, havia sido percorrido e a meta alcançada”; que os frutos do trabalho penoso para unir a Personalidade de barro (ou o “pote de argila” bíblico), passageira, com a indestrutível Individualidade, a transformava no Ego Imortal. No fim do Caminho, de facto, se encontra o Christos, o Purificador. Uma vez levada a cabo essa União (com vistas ao termo Yoga, já por nós explicado), o Chrestes, o “Homem da Dor”, converte-se no mesmo Christus. Paulo, o Iniciado (que também poderia ser chamado de Budha ou Cristo…), conhecia todas essas coisas, como prova quando diz, em linguagem velada e de tão má interpretação pelos que nada entendem do assunto: “Padeço de dores de parto até que seja formado o Cristo em vós” (Gálatas IV, 19), cujo verdadeiro significado é: “até que tenhais formado o Cristo dentro de vós”. Os profanos, porém, que sabiam unicamente, naquela época, que Chrestus estava, de certo modo, relacionado com os profetas e sacerdotes, ignorando, portanto, o significado oculto de Christos, insistiam – como o fize-ram Lactâncio e Justino Mártir – em ser chamados Chrestians em vez de Christians (crestãos em vez de cristãos).

“Como se vê, “todo o ser bom pode falar ao Cristo em seu Homem Interno”, seja judeu, cristão, budista, muçulmano, etc.”

Com isto, descarta-se o zelo segregador e ignorante da frase comum num certo neo-espiritualismo confessional sobremaneira evangelista, interrogando em modo de obrigar os seus prosélitos a escolher entre  “Budha OU Christus?”, apostasia que antes devera ser “Budha E Christus!”, por se tratar do Sétimo Princípio Espiritual, o Jivatmã ou verdadeiro Homem Interno, que todo o Jiva ou simples crente deverá formar em seu âmago.

É assim que o Budhismo Esotérico ao par do Cristianismo Esotérico identificam o “Homem das Dores” ao Chrestus ou Arhat, o elevado Iniciado portador da 4.ª Iniciação Real, às portas do Adeptado ou prestes a tomar a condição de Mestre Perfeito detentor da 5.ª Iniciação Real, a de Jivanmukta. Enquanto ao Misericordioso “Senhor de Amor-Sabedoria”, o Christus, reconhecem na função de Bodhisattva.

Para haver avatarização é necessária a sincronicidade total entre as Três Vestes (Trikaya) do Chrestus identificado ao seu Augoeides ou Espírito Divino (Atmã), o Cristo Interno, e as universais do Cristo Externo, o Christus assim vibrando por elas indo escoar a Sua Vida, Consciência e Substância no “Regato Vital” ou Corpo Etérico daquele. Tais Santas Vestes, são:

Assim, o Eterno Logos em Seu Segundo Aspecto através do Trikaya do Cristo Universal fecundou, ou antes, avatarizou as Três Vestes de Jesus,  o Cresto  Humano.  Vem daí,  também,  o nome Maitreya como “Senhor dos Três Mundos”[2].

Os poderes taumaturgicos demonstrados pelo Cristo junto dos seus mais próximos e da plebe provavam à saciedade ter plenamente desenvolvidas as faculdades superiores do seu Sagrado Coração, o Vibhutî (Chakra Cardíaco Inferior ou abaixo do Superior, Chakra Anahata), “Pêndulo Místico” da Vida-Consciência pleniluminado característico de todo o Adepto Perfeito senhor dos “Oito Poderes do Yoga”, como sejam os sidhis do Eu Divino pelos quais realizou os «milagres» e feitos sobre-humanos descritos pelas escrituras sagradas.

As oito “pétalas”, raios ou linhas do Vibhutî estão ordenadas da forma seguinte (com os seus nomes tradicionais contidos no Gheranda-Samnhita, obra clássica da tradição hindu, além de levarem outros nomes ocultos, aghartinos, revelados pelo Insigne Mestre JHS, Professor Henrique José de Souza) e correspondem aos seguintes poderes transcendentais do Adepto Perfeito:

1. LAGHIMA (LAYA, segundo JHS) – O poder de levitar, realizado através da anulação da inércia e consequente eliminação da força gravitacional. Este poder desperto através da vibração da 1.ª “pétala” destrói a inércia, esta tomada no sentido de inércia que prende ao passado e ao ser destruída liberta o Iniciado, permitindo-lhe progredir de forma efectiva.

2. MANANA (MAHIMÃ, segundo JHS) – O “poder bioplástico” de mudar a estatura e a aparência para qualquer forma que se deseje. Aqui também com o sentido de transformação ao nível do carácter e da natureza interna, ou seja, da Personalidade pela Individualidade.

3. VASHUTA (VASHITA, segundo JHS) – O poder de criar ou de destruir mayas-vadas, ou seja, ilusões e fascínios afectando as pessoas. É também a capacidade, mesmo em forma reduzida, de manipular a Energia Electromagnética Cósmica chamada Kundalini. Os Adeptos Reais podem utilizar este sidhi para ressuscitar um indivíduo que tenha falecido há poucas horas, ou seja, com o duplo etérico intacto ainda ligado ao corpo físico inerte.

4. ANIMAN (HANAMAN, segundo JHS) – O poder de focar a consciência em qualquer ponto ou região desejada, esteja próxima ou longínqua. Quando o Yogui alcança o estado de Dhâranâ, “concentração absoluta”, coloca imediatamente em actividade este 4.º sidhi (“faculdade, dom ou poder psicomental”… activado pelo próprio Espírito agindo sobre a Alma e o Corpo).

5. PRAPTI (PARAMAN, segundo JHS) – O poder de transferir a consciência para qualquer ponto do Universo. Corresponde também ao Samadhi que é o estado de “Êxtase Supremo” ou comunhão absoluta com o Eterno, no qual o Yogui pode afirmar com toda a legitimidade: “Eu e o Pai somos Um”!

6. PRAKAMYA (PARANTAPA, segundo JHS) – O poder absoluto da Vontade, ou melhor, da Supra-Vontade como Vontade Superior ou Divina, a que distingue o liberal do ditador, seja ele grande ou pequeno, pois este sidhi caracteriza a natureza interior e exterior de todo e qualquer Iniciado verdadeiro que realizou a Suprema Renúncia.

7. ISHITA (SHAMA, segundo JHS) – O poder de alcançar a supremacia sobre todos os seres manifestados. O Venerável Mestre JHS disse que o poder deste 7.º sidhi refere-se, na realidade, à supremacia de poder decidir, de forma totalmente independente, o que se deseja ser, possuindo o nome oculto de Shama.

8. KAMA-VASHAYTA (SHUHAN, segundo JHS) – O poder de dominar o desejo passional, destruindo-o. É também a capacidade de ficar indiferente a toda e qualquer emoção, seja ela de alegria ou de tristeza. Comportando o nome oculto Shuhan, segundo JHS, este sidhi transposta o Yogui para o estado de consciência mais elevado possível, o qual antecede o grande mergulho no Absoluto, só ao alcance dos Grandes Iluminados, dos Seres Perfeitos da natureza de um Krishna, de um Budha, de um Cristo, de um JHS…

A relação dos sidhis superiores ou poderes prânicos (vitais) com o sistema glandular do Homem, dispõe-se da seguinte maneira:

Em guisa de remate, o Professor Henrique José de Souza sintetiza[3]:

“O 7.º Princípio (Espírito ou Atmã) é a Primeira Emanação do Absoluto. É o Unigénito Filho de seu Pai e da mesma Idade que o Pai, porque o Absoluto manifestado só poderia fazer-se “PAI” com o nascimento do FILHO. É o Verbo Vivo. É o Homem em quem o Filho de Deus se manifesta. É um Cristo. É o Eu Divino de cada homem; a sua própria semelhança etérea original, sem fragilidade alguma, porque esta pertence à FORMA. Não é uma personalidade, porém, pode individualizar-se no Homem e permanecer também como a sua Essência impessoal. É um Princípio Vivo, omnipresente, incorruptível e imortal…”

Torna-se, pois, indissociável o Cristo histórico do Cristo místico, como bem apercebeu Annie Besant[4] e bem soube desenvolver depois António de Macedo[5].

Após a realização do Baptismo o Senhor internou-se sozinho no Deserto da Judeia indo jejuar 40 dias e 40 noites, período durante o qual Satan ou Shaitan, “Adversário”, lhe apareceu, no episódio canónico que ficou conhecido como Tentação de Jesus, prólogo do desfecho apoteótico da Transfiguração de Cristo.

Os evangelhos sinópticos relatam o acontecimento: Mateus 4:1-11, Marcos 1:12-13 e Lucas 4:1-13, sendo Marcos muito breve no relato, enquanto os outros dois descrevem com mais pormenores o confronto entre o Homem-Deus e o Homem-Diabo. É tradicionalmente considerado como o local exacto desse encontro, mesmo não havendo provas precisas, o Monte Quarantania, situado entre Jerusalém e Jericó.

Cabe anotar que “deserto” é também sinónimo de “lugar aparte”, afastado do mundo profano reservando-se aos que levam vida espiritual, vocacionada ao estudo e culto dos Mistérios Divinos, portanto, uma comunidade fechada ou Ordem Espiritual, talvez Essénia, aonde Jesus se recolheria pelas mãos benfazejas de insignes Adeptos Vivos, a fim da sua consciência humana (psicomental e física) se ajustar, adaptar ao tremendo impacto das energias do Bodhisattva vibrando nele. Ao mesmo tempo, acontecia o derradeiro confronto entre a sua Individualidade espiritual e a sua Personalidade material, aquela expressada por Akbel, o Sexto Luzeiro manifestando a Mercúrio ou o Sol Oculto, o Futuro no Presente, e esta por Luzbel, o Terceiro Luzeiro opositor do Eterno na já morta Cadeia da Lua, o Passado no Presente. É, pois, o embate entre as skandhas – virtudes, tendências – e as nidhanas – vícios, desejos.

Tal como Moisés permaneceu no Monte Sinai 40 dias e 40 noites (Êxodo 24:18), por igual período Jesus se recolheu no Monte Quarantania. Vale o 44 com a exclusão dos zeros. A Tradição Iniciática informa que aos 44º (graus) a Força Criadora de Kundalini despoleta no Homem, de baixo para cima, do cóccix para a corona, indo queimar todas as escórias físicas e psicomentais à sua passagem, mas também todas as demais, sendo então necessária a Energia Encausadora de Fohat descendo de cima para baixo, encontrando-se ambas no ventre (omphalos do corpo) cujo atrito fá-las recuar ao Centro Cardíaco onde a Luz Vital de Prana as tempera, dando Energia à Força e Força à Energia justamente equilibradas, arredando qualquer perigo mental e psicossomático, assim transformando o Ser em Cristóforo.

O pão dos Anjos alimento do Cristo que eles lhe traziam, é sinónimo de Caridade para com os infortunados da vida, portanto, da Compaixão característica do Avatara. Mas o Adversário escusa a humanidade espiritual e tenta com a oferta da mundanidade material, no alto, no meio e embaixo em três provas decisivas para o mental, o emocional e o físico.

1.ª prova (física) – O Opositor desafia Jesus a transformar pedras (petra) em pães (panem) para mitigar a sua fome. Moralmente significa a tornar-se de altruísta em egoísta. Com isso, o Senhor iria perder-se no deserto, neste caso interpretado pelo vulgo como fora dos limites da sociedade, marginal à mesma, região estéril e vazia de moral e virtude, lar árido de almas penantes e de demónios como Azazel (Levítico 16:10). Jesus recusou e venceu.

2.ª prova (emocional) – O Tentador, por processo de maya-vada ou “ilusão dos sentidos”, dispõe Jesus no topo da torre principal do Templo (de Jerusalém, segundo Lucas) e incita-o a saltar para que os Anjos o salvem da queda fatal. Põe à prova a sua fé no Poder Invisível citando Salmos 91:11-12, onde se afirma que Deus nunca falta a quem Nele crê. Trata-se do conflito emocional entre crença e fé, entre o sacrifício sacerdotal (rito) e a letra da confissão (dogma). Cristo, em princípio, paira sobre o Templo, é o Espírito do mesmo, não precisa provar nada, o próprio Peshiqta Rabbati o diz: “Os nossos rabis relataram que quando o Messias for revelado, Ele virá e permanecerá no cume do Templo”. Acudiram os Anjos e a ilusão presunçosa de Luzbel foi desfeita, talvez pelo próprio Arcanjo Mikael chefe das Milícias Celestes na sua guerra contra o Mal, como narra o Rolo de Guerra, texto essénio achado no sítio arqueológico de Khirbet Qumran. Jesus recusou e venceu.

3.ª prova (mental) – O Adversário leva Jesus ao topo de um monte muito alto donde se avistavam todos os reinos da Terra, segundo Mateus, e oferece-lhe o senhorio do mundo que fora seu em troca da sua vassalagem a ele, como descreve Lucas. Luzbel fora Senhor, Planetário da Terra Lunar na respectiva Cadeia findada abruptamente aquando da sua Revolta contra o Trono de Deus, mas já não o era, portanto, na presente Cadeia Terrestre. Essa sua tentação espicaçando a vaidade e a cobiça não passava de ilusão enganadora que nada tinha para oferecer. A recusa em o vassalar também é sinal de que Cristo (Akbel) como Sol Humano está à dianteira de Ashaverus (Luzbel) indo atrás, na sua traseira lunar (vadre retro satana, praemisit ad meMc. 8:33). Jesus recusou e venceu.

Vencidas as tentações, o Bodhisattva inicia a sua Missão pública com as maiores demonstrações do seu poder taumaturgico, ressuscitando mortos, expulsando demónios, devolvendo a visão e a audição a cegos e surdos, etc. Mas sempre desaconselhando os cultos animistas como é das Regras da Grande Fraternidade Branca – Sudha Dharma Mandalam – desde o estabelecimento das mesmas logo ao início da presente Raça Ária, donde ir ao encontro de igual desaconselhamento dos Grandes Iluminados que o antecederam (Krishna, Budha, etc.), por se tratarem formas de culto lemuriano-atlantes afins ao Mundo Psíquico ou Astral (Kama-Loka), onde se agitam multivariadas formas de vida não poucas de evolução precária, contrastando com a serenidade do Mundo Mental (Manas-Loka), o Devakan dos hindus, o Céu dos cristãos. Cristo actuou como sábio mediador, dominando as forças visíveis e invisíveis mercê do seu poder espiritual supra-desenvolvido pela disciplina iniciática e o conhecimento exacto dos poderes ocultos da Natureza, jamais como um impotente e indisciplinado médium sensitivo sujeito aos caprichos das forças cegas da Natureza, tanto elementais como elementares, tanto “espíritos da Natureza” (devas inferiores) como almas humanas de parca evolução (kama-rupas)[6].

Nas célebres Cartas dos Mahatmas datadas do quartel final do século XIX, em uma delas pode ler-se:

“Felizes, três vezes felizes, em comparação, são as entidades desencarnadas que dormem um longo sono e vivem em sonho no seio do Espaço! E infelizes daquelas que trishna (“desejo de viver”) atrai aos médiuns, e infelizes destes últimos que as tentam por um upadana (“meio material”) tão fácil. Porque apoderando-se delas e satisfazendo-lhes a sua sede de viver, o médium contribui para lhes desenvolver um novo grupo de skandhas – um novo corpo de tendências e de paixões bem piores que aquelas que tiveram no corpo que perderam. De facto, ele é a causa dessas skandhas (“tendências”) e desse novo corpo. E todo o futuro daquelas será determinado não somente pelo karma (“causa e efeito” ou “lei de retribuição”) de demérito do conjunto ou grupo precedente, mas ainda pelo novo grupo da futura criatura encarnada. Se os médiuns e os espiritistas somente soubessem, como já disse, que por cada “anjo-guia” que acolhem entusiasticamente lançam sobre ele um upadana que será gerador de uma quantidade de males indizíveis para o novo Ego que nascerá sob a sua sombra funesta, e que em cada sessão (sobretudo de materialização) eles multiplicam as causas de miséria (causas que mancharão o nascimento espiritual do infortunado Ego e o farão renascer numa existência pior que nunca), poderia ser que fossem menos pródigos na sua hospitalidade.

“No Devakan […] o Espírito está inteiramente absorvido na sua beatitude pessoal, sem dar atenção alguma aos elementos que lhe sejam intrusos. Já afirmei que ele não pode regressar.

“Lamento contradizer-vos. Eu não tenho conhecimento dos “melhores espíritos” que aparecem nos círculos espiritistas e “ensinam a moral mais elevada”, e desde logo seguramente não conheço nenhum círculo “perfeitamente puro”. A verdade obriga-me a declarar que Allan Kardec não é um ser vivente totalmente imaculado, pelo que, desde logo, não é um Espírito muito puro. No que respeita ao ensinamento da “moral mais elevada”, vive não muito longe da minha residência um shamar dugpa (“feiticeiro”) que é um homem verdadeiramente notável, pouco poderoso como feiticeiro, mas sendo-o excessivamente como bêbado, ladrão, mentiroso e orador. Neste último papel, ele pode bater aos pontos Mrs. Glastone e Bradlaugh, e mesmo o reverendo H. W. Beacher, como o mais eloquente predicador moralista e o maior transgressor dos mandamentos do presidente dos Estados Unidos da América. Quando tem sede, esse lama Shapa-toung pode extrair de um largo auditório de “barretes amarelos” laicos toda a sua reserva anual de lágrimas, ao contar-lhes pela manhã o seu arrependimento e os seus sofrimentos, depois de se ter embebedado durante a noite e roubado todos os habitantes da povoação após tê-los, por mesmerismo, imerso num sono profundo. Portanto, pregar e ensinar a moral com um objectivo interesseiro, não prova grande coisa.”

A diferença abissal entre mediador e médium está notavelmente assinalada nos textos canónicos no episódio de Jesus exorcizando o possesso geraseno (cf. Marcos 5:1-20, Mateus 8:28-34 e Lucas 8:26-39).

Em Gérasa, actual Jerash, na Galileia, havia um necromante possesso de cascões e larvas astrais que invocara sem que as conseguisse esconjurar, as quais em legião infectavam o seu ovo áurico etérico-astral fazendo dele um farrapo humano arrastando-se mirrado e demente, rindo, chorando, uivando, gritando entre as quadras do cemitério e a lixeira pública. Não havia sossego nem de dia e nem de noite, todos o temiam. Sentindo a presença próxima do divino Taumaturgo, saiu do seu covil imundo e gemendo acercou-se dele que se apiedou e ordenou à legião dos harbim de garbal (“fantasmas dos ossos”, restos putrefactos de duplos etéricos deixados por almas humanas subidas ao Mundo Celeste) que abandonasse essa criatura, por certo já arrependida de ter pretendido violar as leis da Natureza.

A legião dos harbim de garbal que o devorava em vida dirigiu-se então para uma vara de porcos (dizem os textos canónicos que cerca de 2.000, número parecendo-me exagerado, antes parecendo menos número e mais palavra: “duplo”) que pastava próxima, passando a vibrar subitamente nos duplos astrais dos animais de imediato enlouquecendo, correndo a precipitar-se de um penhasco abaixo, como que querendo libertar-se daqueles intrusos súbitos.

O significado disso é bem mais profundo do que o simples acto «miraculoso» tão do agrado dos simples. Toda esta história provavelmente inspira-se em Isaías 65:4, onde aparece o paralelo entre os túmulos e os porcos. Em sânscrito, porco é pisâcha, “espectro”, tanto como vara ser legião, estando isso mais consentâneo com a realidade oculta: Cristo desintegrou-os ao expulsá-los da aura humana. Mas porco é também sinónimo de profano, do que está à margem dos Mistérios Sagrados, logo, é alheio aos princípios e leis da Sabedoria Divina, motivo para a sentença do Senhor: nolite mittere margaritas ante porcos.

A separação distintiva entre a celebração espiritual e o culto animista fica definitivamente marcada no episódio bíblico daquele homem que, na sua impuberdade psicofísica, enlevado com as palavras de Cristo, queria segui-Lo mas primeiro teria de ir enterrar o seu falecido pai, ao que o Senhor lhe replicou: “Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos” (Lucas 9:57-60, Mateus 8:19-22).

Parece haver alguma confusão lexical em termos da Vulgata, como seja entre o hebreu qavar, “enterrar”, e o latim cultu, cultuar”, pois só assim destitui-se a frase do Mestre de intransigência, de desafecto e desrespeito pelo finado e o órfão ao aparentemente opor-se ao funeral, Ele que sempre se mostrou cumpridor das leis e costumes hebraicos. O significado será antes este: – Deixa os mortos fisicamente serem cultuados pelos mortos espiritualmente e segue-Me, no sentido de Eu Superior, Divino.

O conjunto de nidhanas ou “desejos” inferiores a que Cristo chama de “vimes soltos”, é quem realmente atrai almas poucos evoluídas e sensitivos humanos afins a elas à manutenção do desaconselhável, em termos evolutivos, medianimismo. Com a fomentação e crescimento do grupo de skandhas ou “tendências” superiores, a que Cristo chama de “feixe de vimes”, aumenta o “Tesouro do Céu” da Consciência Superior, apreendendo-se de vez por todas que um e todos, corpóreos e incorpóreos, têm por Lei Suprema o de não regredirem, descerem, mas subirem aos páramos da Imortalidade, onde usufruem de infinitamente mais do que poderá dar o limitado estado terreno.

Segue-se a maldição da figueira, relatada por Mateus 21:18-22, e por Marcos 11:12-14 e 11:20-25, logo após a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém e antes da limpeza do Templo, ou seja, da expulsão dos cambistas que fizeram do altar sagrado balcão de negócios. Segundo a narrativa, o Senhor amaldiçoou uma figueira por estar sem frutos maduros, e logo a árvore definhou. Isso estimulou-o a falar do poder da oração, sinónimo de possibilidades espirituais.

Sendo a figueira (teenah, em hebreu, e atten, em árabe) considerada sagrada na tradição mesopotâmica partilhada por judeus e árabes, ela é símbolo de fortificação (sukon, em grego), no caso, a “fortificação da fé” assinalada no Grande Templo muralhado de Jerusalém. Dentre os significados dados a esta planta, pode-se apontar o de paz e abundância entre os judeus, e o de Árvore do Paraíso entre os árabes, com os predicados de sabedoria e integridade[7], motivo dos antigos astrólogos terem atribuído a esta planta a influência de Júpiter, o Zyaus-Dyaus, donde Zeus como Deus ou Pai, o Princípio, o Primeiro.

A maldição da figueira configura a denúncia da pouca fé dos que serviam no Templo, vivendo em comodidade e abundância material com detrimento da sabedoria e integridade, donde o seu apelo às práticas espirituais e o viver conforme as mesmas, rematada pela acção de expulsão dos cambistas ou falsos sacerdotes que haviam tornado a Casa do Pai (Dyaus) descarado mercado de negócios. Essa acção coube a Jairo, Poder Temporal, enquanto o Sermão da Montanha caberia a Jesus, Autoridade Espiritual, inspirado por Cristo.

Falando em Jairo, logo acode à mente o episódio ocorrido imediatamente após o exorcismo de Gérasa, ou seja, quando Cristo ressuscitou a filha de Jair (em aramaico) ou Jairo (na variante grega) em Cafarnaum. O seu nome é referido em Mateus 9:18-26, Marcos 5:21-43 e Lucas 8:40-56.

O episódio foi o seguinte: a filha única de Jairo caiu doente e ele apelou para Jesus. Mas este quando chegou já ela, com doze anos de idade, falecera. Jesus diz a Jairo para crer sem temer e “acorda” a jovem (Mc. 5:36). O elo vital, fio de vida, “cordão prateado” ou antahkarana psicomental que ligava a alma ao corpo da “adormecida” ainda não se havia rompido, motivo oculto por que Jesus pelo poder do seu magnetismo, pegando as mãos da menina (contrariando a lei judaica de não tocar em pessoas mortas), pôde fazer com que a alma voltasse a animá-la corporalmente, após ordenar: – Talitá cumi! Ou seja, “Menina, acorda!” Assim foi, para espanto de todos, despertando ela com grande apetite pedindo que lhe dessem de comer. Para o crente comum o acontecimento extraordinário era efectivamente um «milagre de ressuscitar a morta».

Nos evangelhos sinópticos Jairo é identificado como chefe de sinagoga, portanto, um rabino maior. Fora isso, não se sabe mais nada sobre ele. Mateus apenas diz que ele era “um chefe”, sem explicar que tipo de chefia exercia e nem mesmo dar o seu nome (Mt. 9:18). Marcos e Lucas aprofundam as informações e qualificam o tipo de chefia de Jairo, dizendo que era “um dos principais da sinagoga” (Mc. 5:22, Lc. 8:41). Essa é a tradução do grego archisynagogos, que não o identifica como “principal” mas como “príncipe da sinagoga”. Isto é, como Príncipe de Israel e Principal da mesma na Religião e na Lei, donde ser identificado na etimologia hebraica à “Luz de Jehovah”, Jess, Iss, Issa, Jair, Jairo, Jeseu, Iesus, Ioshua, Jeoshua, Jesus. Isto dispõe ambos em grau familiar no que a jovem poderia ser sobrinha do próprio Jesus Nazareno.

Tantas foram as voltas e reviravoltas que os evangelhos sofreram em quase dois mil anos de traduções e retraduções que tudo acabou redundando num conto pio em catequese de simples.

Tanto quanto as Bodas de Caná, perícola (episódio) bíblica narrada exclusivamente no Evangelho de João (2:1-11), aquando Jesus transformou a água em vinho, o que transfere para a exegética de elevar a catequese a gnose. Considerado como o primeiro milagre de Jesus pelos sinópticos, teria ocorrido em Caná, actual cidade de Kafr Kanna, a cerca de sete quilómetros a nordeste de Nazaré, na Galileia.

Na perícola, há uma surpreendente contradição: apesar de Jesus e sua mãe serem convidados na boda, o facto é que ela comporta-se como senhora da casa e ele como dono da mesma, ao informar Jesus que o vinho havia acabado e ele tomado providências de imediato. Sobre o que diz João 2:9-10: “O mestre-sala provou a água transformada em vinho, sem que soubesse a sua origem, apesar dos serventes saberem por terem sido eles quem trouxeram a água, e chamou o esposo, dizendo-lhe: Todo o homem serve primeiro o vinho bom, e só depois de muito bebidos é que serve o mau; porém, tu, reservaste o vinho bom para agora”. Conclui-se dessas palavras que Jesus e o esposo aparentam ser a mesma pessoa.

Resta saber se a boda seria a sua própria ou a do seu gémeo, como teima em afirmar a Tradição Iniciática, e se o seu gémeo seria “príncipe da sinagoga”, então era obrigatório por lei ser homem casado, já para não dizer que todo o Adepto em missão entre os homens necessita da sua contraparte feminina como completar, a mesma a quem os Vedas chamam de Shakti (“contraparte criadora”), enquanto ele é o Kartri (“princípio originador”), elementos caríssimos à doutrina do shaktismo que, é sabido, choca frontalmente com os princípios pietistas da catequese puritana ocidental. Mesmo hoje, a tradição da Igreja Copta mantém que o evangelista Marcos foi um dos servos nas Bodas de Caná, o que despejou a água que Jesus transformou em vinho. Ora, “servo” era efectivamente um dos graus da hierarquia da Ordem Essénia, conforme já foi dito, o que pressupõe os convivas desse festim como personagens importantes muito chegados à Missão do Cristo e à pessoa de Jesus. Assim, é muito natural que a boda fosse na sua própria casa, ademais, conformando-se ao ideal zadoquita essénio, a perícola estabelece a ligação entre esse acontecimento e o de Moisés transformando, como praga, as águas do Nilo em sangue aquando do êxodo hebraico da escravidão do Egipto, enquanto a água agora transformada em vinho indicava o Sangue Real de Cristo como Salvador da Humanidade, já não para um só povo escolhido mas para todo o Género Humano eleito.

A presença da Mulher é constante na Obra do Divino Bodhisattva, tanto em Maria de Nazaré como em Maria de Magdala ou Madalena, como as mais destacadas de muitas outras. Constantemente ambas aparecem juntas nos textos canónicos, para não falar dos apócrifos, onde Maria Madalena corrobora, em palavras e actos, a Maria Nazarena, bem lhe cabendo o título de Odighitria, “Aquela que indica o caminho” às “mulheres de Jerusalém”, início do Marialis Cultus.

Pode-se objectar: como poderia Maria Madalena ser personagem tão distinta se não passava de prostituta arrependida diante do Salvador, ungindo os seus pés com bálsamo e secando-os com os cabelos, portanto, uma mulher ordinária, vulgar? Ainda hoje diz-se, na vox populi, “chorar como uma Madalena arrependida”…

Poderei opor: em parte alguma dos evangelhos Maria Madalena é descrita como prostituta. Gregório I, o Magno (c. 540 – 12. 3.604), na sua compilação dos Sete Pecados Capitais, feita a partir das oito tentações descritas pelo monge Euagrios Pontikos dois séculos antes, e a Igreja Latina, que a celebra a 22 de Julho, é que a identificaram à pecadora anónima de Lucas (7:36-50) e a Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro. Um capítulo antes de falar de Madalena ou Magdala (cidade da Galileia), Lucas alude a uma mulher que ungiu Jesus. No evangelho de Marcos há uma unção parecida, feita por uma mulher cujo nome não indica. Nem Lucas nem Marcos identificam explicitamente essa mulher como sendo Maria Madalena. No entanto, Lucas diz tratar-se de uma “mulher caída”, de uma “pecadora”. Comentadores e exegetas posteriores supuseram que fosse Madalena, dado que, segundo parece, tendo saído dela “sete demónios” (no texto grego: “sete génios (gigno, “dado à luz”), sete forças (dynamis)”, algo assim como os sete atributos da Energia Criadora latente no Homem a que os hindus chamam Kundalini) só poderia ser uma pecadora. Com base nisso, a mulher que unge Jesus e Madalena foram consideradas a mesma pessoa. Na realidade, é possível que fossem. Se Maria Madalena tinha a ver com um culto pagão, marginal ao dos fariseus, saduceus e levitas da capital Jerusalém, onde estava o Grande Templo, culto esse possivelmente essénio, com fundamentos mitraicos e já na época ostracizado, certamente por isso haveriam de a converter em “pecadora” aos olhos não só de Lucas como também dos autores posteriores.

A verdade é que as crenças essénias andavam próximas das fenícias no tocante à astrolatria, sendo que no tempo de Jesus os cananeus davam o nome da deusa fenícia Astarte às prostitutas e às hereges, estas as mulheres contestadoras do ministério oficial exercido pelos levitas junto do povo. Recebiam o dito epíteto ou um outro pelo qual também se conhece AstarteAstoreth, feminino de Astaroth, o “deus da perdição”, na realidade, o Deus da Inteligência, das “diáblicas interjeições mentais” que obrigam à Pureza e à Inteligência, ou seja, à posse efectiva da Gnose.

Se Madalena era uma pecadora, está muito claro que também era algo mais que a prostituta vulgar da tradição popular. Salta à vista que era uma mulher de bens. Diz Lucas, por exemplo, que entre as suas amizades se contava a esposa de um alto dignitário da corte de Herodes e que ambas as mulheres, juntas com várias outras, utilizavam os seus recursos económicos para apoiar Jesus e os seus discípulos. Também a mulher que ungiu a Jesus era pessoa de posses. No evangelho de Marcos insiste-se que o unguento aromático que ela utilizou na unção de Jesus era muito caro.

Madalena, por vezes a “mulher anónima”, é quem acompanha Jesus na Morte e quem testemunha a sua Ressurreição. Na função de ungir com ricos e raros óleos ao Salvador, de todos a única com autoridade para isso, e sendo esse um rito de passagem e autenticação, ela faz então o papel de pontífice, testemunhando a sua presença na Morte e Ressurreição. É, pois, a Odighitria, função que prossegue após a Ascensão de Cristo aos Céus, instruindo os Apóstolos nos mistérios da doutrina que o Senhor confiara a ela e a João. Ademais, a unção era a prerrogativa tradicional dos reis sagrados, neste caso, a do Messias legítimo, ou seja, do Ungido, palavra que traduzida do grego dá exactamente Cristo (Kristós e Christus, em grego e latim). Disto se depreende que Jesus foi reconhecido Messias autêntico em virtude da sua unção. E a mulher que o consagrou em tão excelso papel impossivelmente poderia ser insignificante. Por isso mesmo seria associada à Torre da Fé, o resguardo e suporte da acção pastoral posterior, sobretudo no Ocidente europeu, onde o sobrenome da sua origem galileia, Magdala, foi associado ao diminutivo hebraico Migdal, precisamente significando Torre.

A Tradição Iniciática dá Maria e Madalena como contrapartes do Jesus Espiritual e do Jesus Humano, como sejam:

Jairo   – Madalena
Jesus  – Maria

Esses últimos como Jeffersus e Moriah, na Tradição Aghartina, reconhecidos nos Vedas como Bodhisattva e Lakshami, identificados no Cristianismo como Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria. Isto sem esquecer os anteriores Krishna e Krishnaya e o Budha e a Budhai.

O Coração expressando o Graal-Consciência que é sempre representado pelo Graal-Objecto, a Taça Sagrada – Saint Vaisel, o Santo Vaso Eucarístico ou Eu-Crístico – repositório das mais elevadas essências espirituais.

Para a efectivação da sua Missão, Cristo seleccionou doze personagens distintos, todos piscatores ad anima, “pescadores de almas”, portanto, versados nos saberes superiores de Israel, destinando-os a seus Apóstolos, termo grego para “emissários, arautos, obreiros”. Seriam, pois, Nahas, em hebraico, equivalente do hindustânico Nagas, nomes formados da raiz camito-asiânica na, “água”, e aha, “santa”, à letra, “água santa”, equivalente ao fluido vital discorrendo serpentariamente ao longo da coluna vertebral, donde naha e naga também se associarem a naja, a “serpente” real, vista no uréus ou adorno na fronte dos faraós egípcios e a mes-ma que protegeu Gotama Budha das investidas do Mal. É sinónima de Iniciado Perfeito.

Esses doze discípulos iniciais do Mashiach, “Messias”, informa a Tradição, estavam hierarquizados da seguinte maneira:

3 Perfeitos

(João Zebedeu, o Evangelista, e seu irmão Tiago, o Maior, filhos de Zebedeu e de Maria Salomé, e Simão Pedro)

8 Irmãos

(André, irmão de Simão Pedro, Filipe, Bartolomeu, Tomé, dito o “gémeo”, Mateus Levi, o Publicano, Tiago Alfeu, o Menor, Judas Tadeu e Simão, o Zelota)

1 Zelador

(Judas Iscariotes, natural de Querioth, na Judeia)

Os 12 Apóstolos ou Adeptos em volta do Bodhisattva como Sol Espiritual constituíam um Zodíaco Vivo, tal qual acontecera com as 12 Tribos de Jacob a quem Jehovah chamou Israel (Gen. 49). Tudo isso em conformidade às palavras canónicas do Talmude: Malchuta deará ke´en malchuta derakiá – “O Reino na Terra é reflexo do Reino do Céu”.

Associando os 4 Animais da Esfinge (Tetramorfos, em grego, “quatro formas) aos 4 Evangelistas, tem-se:

Anjo ou Homem Alado (Gemini) – Mateus;
Leão (Leo) – Marcos;
Touro (Taurus) – Lucas;
Águia (Scorpio) – João.

Afins às respectivas seguintes Hierarquias Criadoras: Assuras (Arqueus – Águia), Agnisvattas (Arcanjos – Leão), Barishads (Anjos – Touro), Jivas (Homens – Homem).

Informam os escritos mais reservados da Tradição Iniciática que além dos 12 Apóstolos houveram mais 111 Essénios, dirigidos por Jesus, e 777 Nazireus, chefiados por Jairo, os Bem-Aventurados ou Makarioi (termo grego traduzido do hebraico Asrë, remetendo para os fonemas védicos Makara e Assura) directamente implicados na Missão do Cristo Universal.

Chegou finalmente a hora do Baptismo de Fogo ou da Luz. Acompanhado de João, Tiago e Pedro, Jesus encaminhou-se ao Monte Tabor, no Vale de Jizreel, 17 km a oeste do Mar da Galileia. É também conhecido como Har Tavor, Itabyrium, Jebel et-Tur ou Monte da Transfiguração.

Aí, diante dos três discípulos, conforme a narrativa de Mateus 17:1-9, Marcos 9:2-8, Lucas 9:28-36 e Epístola II de Pedro 1:16-18, a forma humana de Jesus transfigurou-se revelando o Glorioso Corpo Espiritual do Bodhisattva, do Salvador de Vidas, como seja o Augoeides, dizendo que “o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a Luz”, tendo os Apóstolos “visto a sua Glória”. Tal como no Mistério do Baptismo, ressoou a Voz do Espírito de Verdade proclamando: “Este é o meu Filho, o meu Eleito, ouvi-o e seguiu-o!” Os discípulos ajoelhados, hirtos de divino temor, viram projectar-se ao lado do Cristo as imagens etéreas de Moisés e Elias entabulando conversa com Ele, não que fossem os próprios Patriarcas em presença mas as suas projecções luminosas Aquém-Akasha, isto é, no Akasha ou Éter inferior, que pouco depois se desvaneceriam como que absorvidas pelo Corpo de Glória do Senhor.

Isso estaria em conformidade com a Tradição, pois Moisés representava a Lei (Torah) e Elias a Profecia (Neviim) tomando forma viva no próprio Mashiach.

Exaltado, Pedro propôs “armar três barracas para Cristo, Moisés e Elias”. Mas a frase é desconforme e contraria a possibilidade de Pedro possuir conhecimentos superiores, aliás, apresenta-o ingénuo, simples, rendido. Contudo, o texto aramaico transposto para o greco-latino não fala em “barraca” mas em tenda, ou num derivado filológico desta. Como termo afectivo, “armar a tenda” representa a própria pessoa, sendo que na tradição talmudística hit ohel mo´ed é a “tenda do encontro”, com fim sagrado, tal qual o latim tabernaculum, “tabernáculo”, donde proveio a simples tendere, “tenda”. A tenda abrigo comum nos povos do deserto, chamada obel em hebraico, skene em grego e tendere em latim, são sentidos ordinários ou vulgares incabíveis em tamanho Mistério e nos escolhidos para testemunhar a sua Revelação, assim só sobrando hit ohel mo´ed e tabernaculum. A pretensão seria exclusivamente a seguinte: Pedro quis levantar um tabernáculo em honra do Mistério revelado.

Primitivo lugar de culto dos povos cananeus, considerado Mons Sacer pelas tribos de Zabulão, Issacar e Neftali, com a altura de 300 metros, cuja forma cónica faz lembrar um vulcão apesar da sua origem calcária, revela-se de uma grande beleza natural onde, entre lírios e açucenas primaveris, parece ainda descortinar-se dentre as brumas da memória sagrada a presença sublime do Avatara do Ciclo de Peixes transfigurado, revelando o seu Corpo de Luz à Humanidade inteira, ressoando as divinas palavras:

– Eu sou o Caminho do Mestre, a Verdade do Discípulo e a Vida da Obra!

 

NOTAS

 

[1] Laurentus, Ocultismo e Teosofia. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1983.

[2] Sebastião Vieira Vidal, Série Juventude. Edição Sociedade Teosófica Brasileira, São Lourenço, Brasil.

[3] Henrique José de Souza, Livro Síntese da Missão dos Sete Raios de Luz. Obra reservada constando de 52 capítulos terminada em 28 de Setembro de 1935.

[4] Annie Besant, O Cristianismo Esotérico. Editora Pensamento, São Paulo, 1978.

[5] António de Macedo, Cristianismo Iniciático. Ésquilo Edições e Multimédia Lda., Lisboa, Março de 2011.

[6] H. P. Blavatsky, Isis Sin Velo, tomo II. Editorial Sirio, S.A., Málaga, 1988.

[7] Sarita Leonel e Aloísio Costa Sampaio (Orgs.), A Figueira. Editora Unesp, São Paulo, 2011.

Mistério do Baptismo (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jan 13 2021 

O edomita Herodes I governou a Judeia deste o ano 37 a 4 a.C., região anexada à província romana da Síria depois da tomada de Jerusalém em 63 a.C. Quando o edomita soube pelos Reis Magos do Nascimento do Menino que, segundo as profecias contidas na Escritura Velha, seria o Rei legítimo de Israel, debalde procurou o seu paradeiro por todos os meios, primeiro porque ainda não tinha nascido, pois nessa ocasião, em sua longa viagem, os Magos apenas estavam seguindo os sinais dos astros preanunciando o Nascimento próximo, e depois de nascido ter ficado ocultado no seio das Ordens Espirituais que lhe serviram de cobertura protectora.

Flávio Josefo deixou o testemunho de Herodes, o Grande, ser propenso a cometer actos assassinos, fossem sobre religiosos, fossem sobre a sua própria família, fossem sobre quem fosse onde concebesse um rival. Tendo os Reis Magos iludido as suas pretensões de saber quem era a criança escolhida para o destronar, e evitando-o no seu regresso de Belém da Galileia, “seguindo por outro caminho” (Mt. 2:12), portanto, contornando Jerusalém, acabaria por ordenar o famoso infanticídio na mesma Belém. De maneira que Herodes também reproduzia aqueloutro massacre dos inocentes ocorrido três mil anos antes (hoje cinco mil anos) com Ieseus Krishna, como descreve Helena Petrovna Blavatsky[1]:

“O rei Herodes é a representação de Kansa, tirano de Mathurâ e tio materno de Krishna. Os astrólogos haviam prognosticado a Kansa que um filho de sua sobrinha Devakî arrebatar-lhe-ia a coroa e tiraria a sua vida; em vista disso, o tirano mandou matar o menino (Krishna); porém, graças à protecção de Mahadêva, seus pais conseguiram colocá-lo a salvo. Então, Kansa quis assegurar-se da morte do verdadeiro menino e, com este fim, ordenou uma matança geral dos meninos do seu reino.”

Atendendo ao carácter brutal de Herodes, como o descreve Flávio Josefo dizendo que “ele nunca parou de vingar e punir diariamente os que tinha escolhido estar ao lado dos seus inimigos”[2], não tenho dificuldade de aceitar a veracidade do massacre dos inocentes, aparte os exageros posteriores dos exegetas dos textos canónicos, certamente tendo-o feito por motivo de apologética catequética.

Mas o qualificativo ou sobrenome Inocentes ou Puros também era dado aos Iniciados na Sabedoria Arcaica no Médio Oriente antes da era cristã, como aponta H. P. Blavatsky (ob. cit.). Herodes e os seus partidários fariseus desgostavam abertamente esses Magos Iniciados, indiscriminadamente perseguindo a todos a despeito das distinções feitas pelo Profeta Daniel (2:2) entre Magos ou Sábios (Hakhammin) e adivinhos e feiticeiros (Hartummim), estes como cultores do Mundo Psíquico ou Lunar e aqueles do Mundo Mental ou Solar, conforme o indicado pelo Profeta Ezequiel (8:14-17). Ademais, juntando a tudo isso e mais que motivo para evitar os arremedos tresloucados de Herodes, os Reis Magos teriam igualmente presente a perseguição aos cultores da Arte Magna no tempo de Dário (século VI a.C.), quando os Magos ou Inocentes foram perseguidos e apunhalados em suas casas e nas ruas, tendo esse dia de matança se tornado festivo para o poder político, mediante a festa chamada Magofania [3].

No texto canónico, o massacre dos inocentes só aparece no Evangelho de Mateus (2:16-18) onde dá confirmação ao cumprimento da profecia de Jeremias (31:15). Em mais nenhuma parte dos livros canónicos aparece esse episódio do infanticídio perpretado por Herodes, ainda que apareça no Pseudo-Mateus (XVII, 1-2) e no Proto-Evangelho de Tiago (escrito cerca de 150 d.C.), neste, ao contrário daquele, com exclusão da fuga para o Egipto da Sagrada Família e trocar o foco central da história de Jesus pelo Menino João Baptista:

“E quando Herodes soube que havia sido enganado pelos Magos, furioso enviou assassinos, dizendo-lhes: “Matem as crianças de até dois anos de idade”. E Maria tendo ouvido que as crianças estavam sendo mortas, ficou com medo, tomou o menino e enfaixou-o, escondendo-o num curral. E Isabel (sua prima), tendo ouvido que eles estavam procurando por João (seu filho), tomou-o e levou-o para as montanhas, procurando um lugar para escondê-lo. Mas não encontrava nenhum. Então, Isabel, suplicando em voz alta, disse: “Ó Montanha de Deus, recebe esta mãe e seu filho”. E imediatamente a montanha abriu-se e recebeu-os. E uma luz brilhou sobre eles, pois um Anjo do Senhor estava com eles, vigiando-os.”

Em boa Teosofia e Ocultismo, isso equivale ao recolhimento de mãe e filho em alguma Fraternidade Iniciática no interior de uma Montanha Sagrada, talvez o próprio Monte de Ein Karem, no declívio ocidental de Jerusalém, referido pelo profeta Jeremias dirigindo-se aos benjamitas: “No cume de Bet-Acarem erguei uma bandeira” (Jr. 6:1). Isabel encontrava-se aí, enquanto Maria estava em Belém.

A primeira referência não cristã ao massacre só apareceu quatro séculos depois, em Macróbio (c. 395 – 423 d.C.), que escreveu na sua Saturnalia:

“Quando ele [imperador Augusto] ouviu que entre os meninos da Síria com menos de dois anos de idade que Herodes, o rei dos judeus, tinha mandado matar, também se contava o seu filho, disse: ‘Melhor seria que tivesse sido o porco de Herodes que o seu filho’.”

Esta história assumiu um papel importante na tradição cristã posterior. A liturgia bizantina estimou em 14.000 os santos inocentes degolados, enquanto uma lista síria de santos afirmou que o número seria 64.000. As fontes coptas subiram esse número para 144.000 e dataram-no em 28 de Dezembro[4] (Santos Inocentes). Tomando a narrativa ao pé da letra e estimando a população de Belém na época, a Enciclopédia Católica (1913) sugeriu que esses números estavam inflacionados e que provavelmente teriam sido entre seis a vinte crianças assassinadas na povoação e cerca de uma dúzia nas redondezas.

Dando como certo o infanticídio, aparte o número incerto de vítimas, Mateus retoma o relato dizendo que o acontecimento foi antecipado por um Anjo – possivelmente Gabriel – ou um Jina, Ser Superior de alguma dessas Fraternidades Iniciáticas Secretas da época que avisou José, num sonho profético, a fugir depressa com a sua esposa Maria e o filho para o Egipto (Mt. 2:13-23). Assim fez, indo a Sagrada Família escapulir-se na escuridão da noite tendo por montada um burrico[5].

Existiam dois itinerários principais para chegar ao Egipto. Um, mais cómodo mas também o mais frequentado, descia pela margem do Mediterrâneo e atravessava a cidade de Gaza. Deverão ter evitado esse. O outro, menos utilizado, passava por Hebrom e Bersabé, antes de atravessar o deserto de Idumeia e entrar no Sinai. Terão escolhido esse, como aconselhou o Anjo, segundo o Pseudo-Mateus. Tratava-se de uma longa viagem, de várias centenas de quilómetros, que deve ter durado de dez a catorze dias.

Em Hebrom ou em Bersabé (esta última cidade situada a 60 quilómetros de Belém), deverão ter comprado provisões antes de enfrentar a travessia do deserto. É provável que nessa parte da viagem se tivessem incorporado a alguma caravana, senão mesmo já se incorporando a uma caravana de Adeptos prevenidos ainda em Belém, que seria quem os guiaria ao destino certo.

Esse destino certo, para a Tradição Iniciática, era a arábica Miṣr (مصر) ou al-Qâhirah, donde Cairo, oitava cidade principal dentre outras sete representadas por igual número de Ordens Iniciáticas Secretas lideradas por Adeptos Vivos vindo a corporizar o Sistema Geográfico Egípcio, que se distende a vários países do Médio-Oriente e África intrinsecamente ligados à Vida e Obra de Jeoshua Ben Pandira e sua Família, tanto a Espiritual (apostólica) como a Humana (consanguínea).

À sombra benfazeja da Pirâmides do Egipto se recolheu a Sagrada Família beneficiando dos suaves eflúvios da Sabedoria Primordial, resguardada por Santas Criaturas da chamada Linha Serapis encabeçada pelo seu Bey ou Senhor.

Ainda assim, os historiadores contemporâneos não são unânimes em fixar o lugar de residência da Sagrada Família: Menfis, Heliopólis, Leontópolis… havendo no amplo delta do Nilo a florescência de muitas comunidades de essénios hebreus[6]. São muitos os lugares assinalados que reivindicam para si o pressuposto da Família ter estado neles. Destaca-se, sem dúvida, Abu Serghis, no Cairo, onde se encontra a igreja copta de São Sérgio e São Baco, datada do século IV, isso depois do Apóstolo Marcos ter feito a sua pastoral evangelizadora na Terra Negra de Al-Khemî, o Egipto.

Passado cerca de um ano, o Anjo ou Jina – senão mesmo a decerto informada Ordem Iniciática que acolhera a Sagrada Família – informou José que podiam regressar em segurança a Nazaré da Galileia, que Herodes I morrera. Assim fizeram.

Os evangelhos sinópticos levantam uma cortina de silêncio acerca da infância de Jesus, nada dizem sobre onde esteve e o que fez dos 13 aos 30 anos. O único episódio ocorrido nesse período da sua vida é o narrado por Lucas (2:42-51), quando durante os festejos pascais em Jerusalém o jovem se afastou dos seus pais que aflitos o procuraram por toda a parte, acabando por encontrá-lo entre os doutores (rabinos) discutindo as Escrituras entre pares no Grande Templo. A história difere ligeiramente no texto apócrifo Evangelho da Infância de Tomé (19:1-12). Seja como for, a idade dos treze anos é a fixada para a realização da cerimónia do Bar Mitzvá, “filho do Mandamento”, aquando o jovem é considerado maduro para aprender e seguir os mandamentos da Lei escrita. Mas tanto no texto canónico como no apócrifo Jeoshua não é apresentado como simples ouvinte passivo da palavra dos anciãos, antes discute activamente com eles e até se lhes sobrepõe. Então, onde terá aprendido tais e superiores conhecimentos da Lei que emudeceram os doutores no Grande Sinédrio do Templo?

Para responder a isso, tem-se o recurso aos textos tradicionais da Tradição Iniciática ao par dos apócrifos de que boa parte são escoados dela, via tradição gnóstica, além de outros tantos testemunhos que a Arqueologia tem trazido à luz.

O Evangelho de Lucas termina dizendo que depois desse episódio no Sinédrio, os pais de Jesus levaram-no de volta a casa em Nazaré. Seguiu-se o manto de silêncio, com o evangelista só dizendo que Jesus cresceu em sabedoria e em estatura (Lc. 2:52).

Os evangelhos sinópticos nada dizem da vida de Jesus entre os 13 e os 30 anos de idade. Por eles mantém-se o enigma total. Contudo, no Apocalipse de Elias [7], texto apócrifo como continuação do Apocalipse de Sofonias, dá-se Jesus vindo da “Cidade do Sol”, em Menfis, Egipto[8], na qual eram celebrados os apolíneos Mistérios de Osíris, para a comunidade essénia do Monte Karmel (Carmelo), no norte de Israel, que era cultora do messianismo bicéfalo, ou seja, do Messias e do/como Rei. Depois, em 1923, munido de autorização especial para pesquisar na Biblioteca Secreta Vaticana, o húngaro Edmond Bordeaux Szekely encontrou entre outras raridades o chamado Evangelho Essénio da Paz [9], pressupostamente escrito pelo próprio São João Evangelista, descrevendo passagens da vida desconhecida de Jesus que o davam como líder essénio. Também o Professor Henrique José de Souza indica um documento com quase dois mil anos descoberto no Monte Carmelo, levando de cabeçalho: Jesus esteve … entre os Essénios, faltando uma palavra que ele repôs: Jesus esteve AQUI entre os Essénios [10]. Igualmente Raymond E. Brown expõe a proximidade do Cristo aos essénios e nazarenos tomando por base os escritos canónicos e apócrifos, num discurso que convence mais do que desmente[11].

Atendendo aos dois Irmãos Gémeos, Jesus e Jairo, a Tradição Iniciática desloca Jesus para o seio da Ordem Nazireia e Jairo para o redil privilegiado da Ordem Essénia, enfocando nesse último o privilégio de Rex aguardado, como já haviam feito os Magos.

Sobre esse último aspecto, Pinharanda Gomes, na sua monografia Memória acerca dos Reis Magos (Braga, 2012), escreveu:

“Herodes chamou os Magos e apoiou a sua ida a Belém, pedindo que, tendo encontrado o Rei, o informassem, para também ele lá se deslocar e adorar. Os Magos foram, fizeram o que tinham a fazer, e regressaram às suas terras, mas avisados por um Anjo, evitaram passar por Jerusalém (Mt. 2, 12). O Evangelho Arménio da Infância, apócrifo do séc. VI, dedica o capítulo X à minuciosa descrição dos Magos a Jerusalém, concitando a curiosidade de Herodes, que os questionou: – Quem vos informou dessas coisas e como as soubestes?

“Os Magos responderam que tinham recebido um testemunho escrito, guardado e selado, durante anos e anos, e que um Anjo lhes revelou esse testemunho, não por ser humano, mas por desígnio divino. Logo Herodes os interpelou sobre o paradeiro de tal livro, e os Magos replicaram que nenhuma nação, excepto a deles, tinha conhecimento directo ou indirecto desse documento, e narraram a história de Seth, constante do Livro da Caverna dos Tesouros [12].

“Numa das mais antigas histórias orientais, sobre a viagem dos Magos, aparece este Livro que estivera guardado na caverna do Monte das Vitórias[13], estando relacionado com o Pecado Original. De acordo com a narrativa nele contida, e num acto sacrificial messiânico, Adão, após a queda, escondeu os dons (ouro, incenso e mirra) na “Caverna dos Tesouros”, aí ficando enquanto gerações e gerações passavam, até que, cumprindo as instruções de Adão ao filho Seth, os Magos os levaram a Belém onde reconheceram o Deus Menino como o esperado Messias, tudo isto sendo também narrado por um dos apócrifos árabes, o Evangelho Árabe da Infância (cap. VII), embora os escrituristas modernos considerem que tal narrativa é de origem siríaca[14]. Era o termo de uma longa viagem que durara apenas treze dias (segundo uns) e nove meses segundo outros.

“Segundo um monge carmelita do século XIV, João de Hildesheim[15], que terá herdado algumas catequeses do tempo em que os seus confrades do Monte Carmelo ainda haviam registado tradições orais, e que também se serviu dos apócrifos, os três Magos foram depois evangelizados pelo apóstolo Tomé, que evangelizou a Índia até ao Malabar. Tomé baptizou os Magos, que se tornaram apóstolos, sendo consagrados bispos. Faleceram já muito idosos, segundo a lenda áurea.”

Desse trecho do insigne e saudoso amigo (Jesué Pinharanda Gomes, Quadrazais, Riba-Côa, 16.7.1939 – Santo António dos Cavaleiros, Loures, 27.7.2019) destaco três apontamentos: 1.º) O Livro da Caverna do Tesouro, que aponta a condição primacial do Género Humano, portanto, recambia para as suas origens antropogénicas, sendo tal fólio uma espécie de Livro ou Memória da Natureza, os chamados Registos Akáshicos ou Livro do Kâmapa; 2.º) A Caverna do Tesouro é epíteto igualmente dada a Agharta, o Mundo Subterrâneo dos Deuses “celeiro monádico das raças humanas do passado, presente e porvir”, segundo Henrique José de Souza; 3.º) A lenda áurea dos três Reis Magos baptizados por Tomé, o “Gémeo”[16], possui o sentido diverso do reconhecimento de Jairo Ben Panthera como Rex, ainda na cena presepial, pelos três principais representantes do Governo Oculto do Mundo, cujo destino deveria ser a restauração do Império Sinárquico da antiga Israel distendendo-o ao Ocidente, com o seu aspecto espiritual em Jeoshua Ben Panthera como Messias redentor do Karma Semita desde os evos finais da Raça Atlante.

A pregação e obra de Jeoshua Ben Panthera teve como centro principal a opulenta cidade de Cafarnaum, a noroeste do Lago Genesaré, cujo norte e oeste desse era ocupado por tribos descendentes de Zabulon e Neftali, portanto, mais além do Rio Jordão[17]. “Galileia dos gentios” (Mt. 4:15) era chamada essa parte do território por nele coabitarem gentes de várias origens com os seus cultos próprios mas entremescladas aos hebreus. A Síria abrangia as regiões ao norte da Galileia. A Decápole, “dez cidades”, situava-se a nordeste da Galileia e era habitada por povos de origens diversas, sobretudo asiáticas hindustânicas, explicação do facto de Jairo ter entrado em contacto com os mesmos e depois, após o Mistério do Calvário, ter encetado viagem para o Norte da Índia, para a região de Srinagar, na província de Cachemira, onde ficaria conhecido como Santo Issa, segundo o documento depositado na biblioteca do mosteiro lamaísta de Himis, em Leh, capital do Ladack, o “Pequeno Tibete”, conforme a informação disponibilizada pelo jornalista viajante Nicolas Notovitch[18]. O facto é que a maior comunidade judaica na Índia está em Srinagar, como também o santuário de Rozabal onde se encontra o túmulo do Santo Issa, venerado unanimemente sem distinguir hindus, judeus, cristãos[19] ou islâmicos, estes que lhe chamam Yuz Asaf (Youza Asouph), como seja, “Mestre dos Terapeutas”[20].

Retomando o relato dos textos sinópticos, neles aparece Jesus já com trinta anos predicando Aquém e Além Jordão, em cujas margens deste um outro Iluminado com inúmeros seguidores predicava e baptizava em nome do que haveria de vir: João Baptista, o Anunciador ou Arauto (Yokanan), cujo verbo inflamado convulsionava as consciências ouvintes provocando autênticos “golpes de estado” mentais e morais, tanto políticos como religiosos.

João era filho de Isabel, prima de Maria, e do sacerdote Zacarias. Nasceu na vizinhança da data do nascimento de Jesus e faleceu em 28 d.C., aproximadamente. O seu nome Iohanan Ab Kerem, em aramaico, remete para o local onde terá nascido: Ein Kerem, aldeia a cerca de seis quilómetros de distância ao oeste de Jerusalém. Segundo o Evangelho de Lucas era nazireu de nascimento, enquanto outros textos dão-no como integrado na Ordem Nazirita ou Nazarena na puberdade, sendo considerado unanimemente um homem consagrado ou eleito (kadosh).

O único relato sobre o nascimento de João Batista está no Evangelho de Lucas (1:5-25) que não é pródigo em pormenores, ao contrário do Proto-Evangelho de Tiago. Não tendo Zacarias e Isabel filhos, já sendo de idade avançada, durante um serviço no Templo de Jerusalém ele foi escolhido para incensar o altar dourado do Santo dos Santos. Foi então que aí lhe apareceu o Anjo Gabriel e lhe predisse que a sua esposa – pertencente à Ordem das Filhas de Aarão, Sacerdócio Menor – iria dar à luz um menino (Lc. 1:8-23). Zacarias não acreditou no Anjo e foi-lhe retirada a voz (simbolismo remetendo para a perda da Palavra Primordial assim se tornando Palavra Perdida). Com o nascimento de seu filho os parentes quiseram dar-lhe o nome do pai, mas Zacarias, sem poder falar, contestou escrevendo: “O seu nome é João”, significando “Deus é propício”. Tendo obedecido à ordem divina, recuperou a voz, recebeu o dom da profecia e previu o futuro do seu filho, no que os exegetas o tomaram como protótipo do sacerdócio cristão. O cântico que Zacarias cantou em seguida, chamado Benedictus, é utilizado até hoje na liturgia católica.

Ao oitavo dia de nascido João, o seu pai Zacarias procedeu à cerimónia da circuncisão, o brit milá, na qual o prepúcio do recém-nascido é cortado como símbolo da aliança entre Deus e o seu povo, cerimónia post-atlante dos povos do deserto alcançando a África profunda onde a letra substituiu o espírito ou real significado da cerimónia, como seja a simbólica da pureza emocional pelo domínio passional, elevando as energias criadoras do sexo à subtilidade puramente mental. Ser casto não é o mesmo que castrado, pois um castrado apesar disso poderá nunca ser casto por as paixões continuarem a dominá-lo. A disciplina interior nada tem em comum com a mutilação exterior. Foi assim, tal como em muitos outros povos orientais e africanos, que o espírito da tradição foi substituído pela letra do costume.

A partir dos seis anos de idade, João iniciou a sua escolaridade pelas mãos de seus pais, tendo-o ensinado a ler e escrever. Aos treze anos deu-se uma mudança no ensino, e os progenitores entregaram a sua educação à comunidade nazarita de Ein Gedi, actual Qumram junto ao Mar Morto, que nada mais era que um ramo da Ordem Essénia. A sua educação ficou ao cuidado do sábio líder da comunidade chamado Ebner.

Tendo efectuado os votos nazaritas de essénio, a disciplina implicava a abstenção de bebidas alcoólicas, o regime naturalista ou vegetariano e, sobretudo, o não tocar nos mortos, isto é, não se entregar às funestas práticas necromantes características dos hartummim, cujas práticas psiquistas roçavam e até adentravam a involucional goécia ou magia negra, razão por que Moisés e os Profetas os condenaram, perseguiram ou ostracizaram remetendo-os para a condição de leprosos, isto é, de ímpios psicofísicos contrários à Lei de Evolução. Entre o Teurgo medianeiro e o médium animista a distância entre eles, em palavras e actos, é maior que a da Terra à Eternidade. Os primeiros são partícipes dos Mistérios, os segundos cevam à margem dos Mistérios.

Segundo o relato bíblico (Mateus 3:4) que despertou as imaginações plasmadas na iconografia piedosa, João trajava de maneira simples (uma veste de pele de camelo com um cinto de couro cingindo-a) e alimentava-se de maneira igualmente simples: “mel silvestre e gafanhotos”, palavra esta que antes poderá ser alfarrobas, possível confusão na tradução do texto aramaico para o grego e depois o latim devido à similitude dos termos hebraicos hagavim, “gafanhoto”, e haruvim, “alfarrobeira”. Esta é árvore (Ceratonia siliqua) nativa da região mediterrânica e médio-oriental de fruto adocicado comestível, chamado em hebraico charuv, “semente”, completado pelo árabe al-karrub, “vagem”, sendo ainda conhecida como Pão de João, Pão de São João, Figueira de Pitágoras e Figueira do Egipto [21].

Mas não deixa de ser verdade que os povos do deserto arábico e africano, devido à escassez de alimentos na aridez imensa, comem gafanhotos levemente torrados no fogo ou secos ao sol e salgados, depois de lhes tirarem a cabeça, asas e intestinos. Nisto, a palavra gafanhoto remete igualmente para o significado de broto, a ponta ou extremidade da videira, mais uma vez recambiando para o sentido de regime naturalista ou vegetariano.

Igualmente no Talmude é feita menção à alfarrobeira, na parábola de altruísmo conhecida como “Honi e a árvore de alfarroba”, mencionando que uma alfarrobeira leva setenta anos para dar frutos, o que é interpretado como o plantador não ir beneficiar do seu trabalho mas agindo no interesse das gerações futuras, apesar de na realidade a frutificação das alfarrobeiras variar.

João exercia o rito do baptismo considerado como de passagem para uma vida nova (Mc. 10:38 e Lc. 24:49), em consciência e vivência, e consequente aceitação entre-pares no seio da comunidade e da Ordem. Rito egípcio adoptado pelos mitríacos e depois pelos hebreus, tanto por levitas herdeiros do Tabernáculo do Deserto como, sobretudo, por essénios, interpretado como ritual de purificação, a ablusão do baptismo realiza-se com água sobre o iniciado por imersão, efusão ou aspersão. O termo português baptismo é a transliteração do grego baptismö para o latim baptismus, conforme se lê na Vulgata Latina em Colossenses 2:12. Este substantivo também se apresenta como baptisma e baptismós, derivado do verbo baptizö, podendo ser traduzido por “baptizar, imergir, banhar, lavar, derramar, cobrir, tingir ou purificar”, conforme se utiliza na Escritura Nova e na Septuaginta, a versão da Bíblia hebraica traduzida para o grego koiné. Através da discussão entre os discípulos de João e os discípulos de Jesus (João 3:25:26) observa-se que as purificações ou katharismós são utilizadas como sinónimas de baptismo.

No baptismo cristão é utilizado um de dois modos: por aspersão ou efusão, como nos ritos de purificação na Escritura Velha, onde se aspergia o óleo e o sangue crismando no reconhecimento de novo filho de Israel, agora crismando com óleo e água purificando o sangue no espírito do Sangue de Cristo. Ou por imersão, não deixando de haver derramamento de óleo sobre o baptizado, expressando o derramar e lavar do Espírito Santo, afundando para a velha vida pecaminosa ou profana e emergindo como nova criatura revestida da presença de Cristo.

Foi no modo de imersão que Jesus foi baptizado no Jordão, aonde se deslocou e requereu ser baptizado, apesar dos protestos iniciais de João considerando-se seu Arauto e não o Anunciado, conforme repetia aos seus seguidores naziritas e outros, assinalando a sua reforma moral consolidar-se pelo baptismo na água (Iniciação Lustral ou Astral), enquanto a daquele pelo baptismo de fogo (Iniciação Ígnea ou Mental) na Sabedoria contida no Espírito de Santidade.

“Então Paulo lhes explicou: O baptismo realizado por João foi um baptismo de arrependimento. Ele ordenava ao povo que cresse naquele que viria depois dele, ou seja, em Jesus!”Actos 19:4.

“Então João esclareceu a todos: Eu, de facto, vos baptizo com água. Entretanto, chegará alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno sequer de desamarrar as correias das suas sandálias. Ele sim, vos baptizará com o Espírito Santo e com fogo.”Lucas 3:16.

Jesus adverte João que a Lei tem de cumprir-se escrupulosamente, para ficar o seu registo às gerações futuras.

E João cede… Jesus acede à ribeira, junto com aquele, que agarrando-lhe suavemente a cabeça fá-lo mergulhar no Jordão.

Momento electrizante, os camelos param, serpentes e chacais do deserto também, os pássaros quedam seu canto, seu voo, os homens contraem-se tensos, a Natureza retrai-se sustendo o hálito vital… Angústia e aguardo de um momento único… só o rio corre, mansamente, rompendo o silêncio geral ante o Mistério anunciado pelos profetas e sibilas nos evos da memória.

Então, num frémito de luz qual pomba branca irrompe do Céu o Espírito de Cristo indo fundir-se vitalmente no Cresto, solene e poderoso erguendo-se da água e caminhando vagaroso e só, imponente para o Deserto do Mundo, com a Natureza erguendo-se em tons de glória e os homens ajoelhando rendidos ao Mistério Vivo.

Manifestara-se o Avatara, o Messias, o Bodhisattva Compassivo, a Luz do Segundo Trono, o Senhor dos Três Mundos, chame-se-Lhe Christus ou Maitreya, tanto vale, pois é O Sem Nome por os ter a todos.

Esse é o significado derradeiro de “o Espírito do Senhor repousa sobre mim” (Lc. 4:18), tendo Apolinário de Laodiceia (c. 310 – c. 390) classificado o acontecimento como a União Hipostática, descrevendo-a como a união da natureza divina do Cristo e da natureza humana de Jesus em uma só Essência ou Substância, esta que é a do Logos no seu Segundo Aspecto humanizada, manifestada como Terceiro Aspecto.

Teodoro de Mopsuéstia ou de Antióquia (350 – 428) também argumentou que em Jesus, o Cristo, coabitavam em simultâneo duas naturezas e duas substâncias divina e humana, o que posteriormente a Igreja Ortodoxa Oriental aceitou no Concílio de Calcedónia, no ano 451, mas insistindo que essa definição não seria tanto de natureza mas mais de pessoa, no que concordava com o conceito trinitário de Deus como Três Hipóstases ou Prosapas, teosoficamente Imanifesto – Gerado – Manifestado. Assim, o Concílio declarou que no Messias há duas naturezas, cada qual com as suas próprias propriedades, juntas, unidas numa substância e numa pessoa.

Ainda assim, houve rejeições motivando até a separação das Igrejas Síria e Alexandrina (Copta). Os que rejeitam o Credo de Calcedónia são monofisistas, só aceitam Cristo como tendo uma única natureza, enquanto os restantes são diofisistas, aceitando a União Hipostática de Cristo.

Como a simples teologia carecendo de conhecimento teosófico não consegue explicar o significado da Encarnação ou Manifestação Divina (Avatarização), e de que forma se realiza a união das duas substâncias de Purusha e Prakriti (Espírito e Matéria), remete a União Hipostática para o conceito de União Mística, mesmo nisso tendo o Transcendente o o Imanente se unido e manifestado, condição dispondo o Cristo Universal como Senhor dos Anjos e Homens e de todas formas manifestadas nos Três Mundos (Céu, Coeli, Terra, Terris, e Inferno, Inferius, ou Mundo Subterrâneo)[22], consequentemente, o legítimo possuidor do trirregnum na soberania de Supremo Instrutor do Mundo.

 

NOTAS

 

[1] Helena P. Blavatsky, Glossário Teosófico, pág. 250. Editora Ground Ltda., São Paulo, 2012. Edição da versão original, publicada por G.R.S. Mead em Londres, 1892.

[2] Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro XV.

[3] Heródoto, Os Nove Livros da História, III, 79.

[4] E. Porcher, Patrologia Orientalis, Paris, 1915, tradução e edição de Histoire d´Isaac, patriarche Jacobite d´Alexandrie de 686 à 689, écrite par Mina, évêque de Pchati (em árabe, grego e siríaco), t. 11, p. 526.

[5] O burrico ou asno, montada dos Seres Divinos, irá aparecer inúmeras vezes ao longo da vida do Meigo Nazareno. É animal simbólico da paz, inocência, desapego, pobreza, humildade e também da coragem. A Tradição Iniciática não hesita em atribuir-lhe o símbolo do Conhecimento, da Sabedoria das Idades. Ele está presente sobretudo na segunda fase da vida de todo o Avatara, a Consumação, enquanto na primeira, a Manifestação, por norma aparece montado num fogoso alazão branco.

[6] A proximidade entre israelitas e egípcios está confirmada na famosa Estela de Israel depositada no Museu Arqueológico do Cairo, descoberta em 1896 por Flinders Petrie no primeiro piso do templo mandado construir em Tebas por Merenptha, décimo terceiro filho e sucessor de Ramsés II. Cf. Jean-Pierre Corteggiani, L´Egypte des Pharaons au Musée du Caire. Éditions Aimery Somogy para a 1.ª edição, Paris, 1979, reeditado, revisto e corrigido pelas Éditions Hachett, Paris, 1986.

[7] Mila Antares, Apocalipse de Elias – Textos apócrifos. São Paulo, 2020.

[8] Nesse caso, será Heliopólis, “Cidade do Sol” ou Aton, referência destinada a reforçar o carácter solar ou superior do Cristo como Avatara, a apolínea “Manifestação da Divindade”.

[9] Edmond Bordeaux Szekely, O Evangelho Essénio da Paz. Editora Pensamento, São Paulo, 1997.

[10] Henrique José de Souza, O Verdadeiro Caminho da Iniciação. São Paulo, 1966.

[11] Raymond E. Brown, The Birth of the Messiah: A Commentary on the Infancy Narratives in Matthew and Luke. G. Chapman, London, 1977.

[12] Pat. Graeca, 56, cols. 611-946.

[13] Título dado ao Monte Carmelo, do siríaco Kerem, “jardim, horto, vinhedo”, desde que aí o profeta Elias vencera os sacerdotes de Baal e depois foi triunfalmente arrebatado aos céus, segundo o I Livro de Reis. Também aí viveu o profeta Eliseu e foi fundada a Escola de Profetas, El Hader, em árabe. Na parte oeste do monte existem numerosas cavernas, mais de mil, com aberturas estreitas mas muito amplas.

[14] Aurélio dos Santos Otero, Los Evangelios Apocrifos. Ed. bilingue crítica, Madrid, BAC, 1988, pp. 303-306. Antes: P. Peeters, Évangiles Apocriphes II: L´Évangile de l´Enfance. Redactions syriaque, arabe et arménienne, traduites et annotées, Paris, 1914.

[15] João de Hildesheim, O Livro dos Magos, trad. port., da versão italiana, Lx.ª, Principia, 2004. Cf. outrossim, Reis Magos, História, Arte, Tradições. Fontes e referências, de A.M. Furtado da Silva, Ed. Léo Christiano, 2006.

[16] Segundo vários exegetas interpretando os textos canónicos à luz dos apócrifos, sobretudo do Evangelho da Natividade da Virgem Maria, da História de José, o Carpinteiro, e da Vida da Virgem e a Morte de José, do seu casamento com ela tiveram sete filhos: Jesus, Tomé, Efraim, Simão, Elisabeth, André e Ana.

[17] No tempo de Jesus Cristo a Palestina estava dividida em quatro partes: Judeia, Samaria, Galileia e Pereia, sendo esta última vulgarmente chamada “Além Jordão”.

[18] Nicolas Notovitch, A vida desconhecida de Jesus Cristo na Índia e no Tibete. Edição original em 1894, reedição por Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Fevereiro de 2006.

[19] Holger Kersten, Jesus viveu na Índia. Madras Editora, São Paulo, 2004.

[20] Cf. Nicholas Roerich, Heart of Asia. Roerich Museum Press, New York, 1930.

[21] António Houaiss, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, vol. IX. Temas & Debates, Lisboa, 2005.

[22] Pinharanda Gomes, Dicionário de Filosofia Portuguesa, Messianismo, pp. 147-155. Ed. Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1990.

Mistério do Natal (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jan 6 2021 

Sintra, Reis Magos de 2021

“Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo nos nossos tempos um homem, o qual vive actualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado o Profeta da Verdade, e os seus discípulos dizem que é Filho de Deus, Criador do Céu e da Terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, ó César, a cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus: ressuscita os mortos, cura os enfermos, em uma palavra, é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto, e há tanta majestade no rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou temê-lo. Tem os cabelos da cor de amêndoa bem madura, são distendidos até às orelhas, e das orelhas até às espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes.

“Tem no meio de sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos nazarenos, o seu rosto é cheio, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face, de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis. A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio, o seu olhar é muito afectuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza, faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade.

“Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar. Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra, contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele se aproxima, verifica-se que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo, jamais, visto por estas partes uma mulher tão bela, porém, se a Majestade Tua, ó César, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível. De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram. Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, não se ouviram, jamais, tais conselhos, de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei de Tua Majestade; e eu sou grandemente molestado por estes malignos hebreus.

“Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, porém à tua obediência estou prontíssimo, aquilo que Tua Majestade ordenar será cumprido. Vale, da Majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo…

“Publius Lentulus, Legado de Tibério na Judeia.
Indizione settima, luna seconda.”

Esse documento, absolutamente apócrifo, foi encontrado no Fasti Arvalium (actas de registo da Ordem Sacerdotal romana cultora da deusa Dea Dia) que integrava o arquivo do duque de Cesadini, em Roma, acompanhado do retrato físico e moral de Jesus, pressupostamente enviados pelo legado Públio ou Publius Lentulus ao imperador Tibério César, em Roma.

Inclinando para a invenção da carta por algum piedoso sentimental dos séculos XVIII-XIX, a sua autenticidade é questionada sobretudo por três pontos incontornáveis: 1.º) historicamente não é conhecido nenhum governador de Jerusalém ou procurador da Judeia chamado Lentulus no tempo de Jesus, ademais um procurador romano nunca poderia encaminhar uma correspondência desse tipo ao senado; 2.º) um escritor romano não empregaria a expressão “que pelo povo é inculcado o Profeta da Verdade”, típica do idioma hebraico falado no tempo de Jesus, o aramaico; 3.º) apesar de tudo, a Res Gestae Divi Augusti menciona um “Publius Corneluis Lentulus” como cônsul romano durante o reinado de Augustus, de 27 a.C. a 14 d.C., mas não como legado e menos ainda governador[1].

Seja como for, não andará longe da verdade a descrição feita de Jesus e das suas obras, da beleza singular de sua aparência, sinal da sua espiritualidade moldando o corporal e neste, para sempre, ficaria assinalado derradeiro Avatara do Ciclo de Peixes.

ΔΔΔ

O Médio Oriente distendendo-se ao Mediterrâneo – Media Terris, “Meio da Terra” – durante milénios, e até hoje, foi a ponte de ligação sócio-política, económica, cultural e religiosa, sem descuro da ingerência militar com intenções de conquista e domínio, entre o Oriente e o Ocidente, entre o monoteísmo moisaico e o panteísmo greco-romano, facto assinalado ocultamente pela grande Pirâmide de Gizeh marcando a linha divisória dos dois hemisférios do Globo, fincada em solo africano ligando a Ásia à Europa.

Há dois mil e alguns anos a Judeia era província vassala de Roma, desde que em 63 a.C. o general Pompeu a conquistara anexando-a ao domínio do Lácio. Deslocando-se a influência do Egipto para Jerusalém, nesta se fixava a fina-flor semita descendente, no cômputo teosófico, da 6.ª Sub-Raça Semita dentre as sete que constituíram a desaparecida Civilização Atlante. Aliada do protectorado romano, a monarquia hebraica tinha na poderosa facção farisaica o seu “braço-de-ferro” que implacável juntava a política à religião não deixando espaço vago para quaisquer outras modalidades político-religiosas que, quando surgiam aqui e acolá, eram de imediato reprimidas violentamente.

A repressão político-social e religiosa conheceu foros de rara crueldade com Herodes, o Grande (c. 74-73 a.C. – Jericó, 4. a.C.), edomita judeu romano, rei cliente de Israel entre 37 a.C. e 4 a.C., descrito por Flávio Josefo como “um louco que assassinou a sua própria família e inúmeros rabis (rabinos)”[2], ficando também conhecido pelos seus projectos colossais, dentre eles o ter ordenado a reconstrução megalómana, “farisaica”, do segundo Templo de Jerusalém sobre o original mandado construir por Salomão. Ficaria conhecido por “Templo de Herodes”. Colocou o clero fariseu na sua direcção e governou o país numa teocracia absolutista.

O seu filho Herodes Arquelau tornou-se etnarca da Samaria, Judeia e Edom de 4 a 6 d.C., mas foi considerado incompetente pelo imperador romano Augusto, que preferiu o filho mais novo de Herodes I, Herodes Antipas I (c. 20 a.C. – 39 d.C.), nascido da samaritana Maltace (Malthake), uma das dez esposas daquele. Nomeado soberano da Galileia e da Pereia, alimentava a cobiça secreta, mal-escondida, de se tornar rei da Judeia, mas não passou do cargo de tetrarca, governando a quarta parte do reino. Em 39 d.C. envolveu-se em intrigas com o seu sobrinho, Herodes Agripa I, foi denunciado como conspirador e banido da sua tetrarquia pelo imperador Calígula, sendo exilado para a Gália onde morreria algum tempo depois[3]. Desde a morte Herodes I a sucessão legítima dos reis de Israel perdera-se nos atropelos entre os vários descendentes, onde filhos indirectos e filhos mais novos assassinavam ou desterravam os mais velhos para ocupar o trono. Motivo suficiente para os temores fundados do mesmo Herodes, seguido por seu filho Antipas, quando lhe apontaram Jesus como “Rei dos Judeus”, e o início da sua perseguição ao mesmo desde o berço. Mas lá irei.

Quanto ao poderoso partido fariseu, este tem origem no movimento religioso dos hassidim, os “piedosos”, que apoiou a revolta dos macabeus (168 a 142 a.C.) contra Antíoco IV Epifânio, rei do império seleucida, que incentivou a eliminação de toda a cultura não-grega pela assimilação forçada e a proibição de qualquer fé particular. Mas o povo revoltou-se contra isso tendo o líder dos hassidim, Yehudah Makkabi (Judas Macabeu), a encabeçá-lo. A revolta venceu e esse movimento veio a transformar-se no século II a.C. no dos fariseus, os pherusin ou prushim, palavra derivada de parash, “separados”. Essa separação não remete a qualquer modalidade anacorética mas tão-só a se isolarem da população geral para se dedicar ao estudo do Pentateuco constitutivo da Torah[4], como sejam os cinco primeiros livros da Bíblia. Organizadores da instituição sinagogal, fundada pelo Profeta Samuel, foram os iniciadores do judaísmo rabínico, limitando-se exclusivamente à letra da Escritura, tomando a crença na lei oral junta à lei escrita.

Convém ainda dizer que os fariseus eram cerca de 6.000 no tempo de Jesus, e distintos pelos modos religiosos no culto de “raça eleita” pelo sangue escolhido pelo Deus de Israel, como acreditavam, tratavam-se entre si como haberim, “companheiros”, e por evitarem contacto com os gentios de outras raças e crenças, distanciando-se do próprio povo, receberam o apodo de pherusin e foi esquecido o original de hassidim. Diz-se mesmo que os fariseus se teriam originado, durante a escravidão no Egipto, dos conúbios de escravas hebreias com nobres próximos dos faraôni ou faraós, e que o próprio nome Is-Ra-El teria a sua origem em “os da Realeza de Ísis”. Fica o curioso, igualmente significativo, da informação.

Rivalizavam com os saduceus, sadoquitas ou zadoquitas, os Sëdûquîm bnê Sadôq, descendentes de Zadoque, hierarca e grão-sacerdote do Primeiro Templo, igualmente surgidos no século II a.C. com a construção do Segundo Templo, cuja manutenção espiritual estava a seu cargo, donde o seu nome ser sinónimo de “estirpe sacerdotal dominante”. Diferiam dos fariseus por não aceitarem a tradição oral, sendo que a controvérsia entre eles proviria já do tempo dos macabeus com as hostilidades entre helenizantes e judaízantes. Os conflito entre ambos os partidos foi o desastre dos últimos anos da Jerusalém judaica, tendo os saduceus desaparecido com a destruição do Templo no ano 70 d.C., sendo seus descendentes os caraítas que defendem unicamente a autoridade das Escrituras como fonte da Revelação Divina, postulando a crença única em Jehovah e que a sua Revelação única foi dada através de Moisés na Torah (não admitindo adições nem subtrações) e dos Profetas da Tanach (com excepção dos livros de Daniel e de Esdras), o texto massorético da Mikra ou Bíblia hebraica como conjunto canónico dos textos judaicos, fonte do cânone cristão do Antigo Testamento.

Além dos fariseus e saduceus, existiam outros movimentos que se destacaram nessa época com papel saliente na vida de Jesus, o Cristo: a Ordem dos Nazarenos e a Ordem dos Essénios, gozando de grande estima pelo povo pela fama do halo de santidade e justiça que as envolvia.

Tendo o seu centro em Nazaré da Galileia, nazareno ou nazireu, da raiz nazar, significa “consagrado” a Deus (Núm. 6:1-21). Helena Petrovna Blavatsky, em A Doutrina Secreta, Livro III, página 124, define os nazireus como “uma categoria de Teurgos caldeus, ou Iniciados”, familiares da Ordem dos Essénios de quem seriam um ramo autóctone.

Os essénios ou issi´im, “unidos”, têm a origem do seu nome na raiz asah, “terapeuta”, ainda que outros afirmem derivar de hassidim, alterado tsenu´in, donde proviria o grego essaioi derivado do sírio essenoi ou essaya, e este do aramaico chasajja, “piedoso”. Constituíram-se como organização cerca do ano 168 a.C., no tempo dos macabeus, e estabeleceram-se desde o Monte Sinai até às orlas do Mar Morto. Acreditavam-se descendentes directos de David e Salomão, auguravam o Advento do Messias e caracterizam-se pela vida comunitária fechada. Conhecidos pelos seus dotes intelectuais e morais, praticavam a agricultura, pastoreio e pesca de que subsistiam, exerciam gratuitamente a medicina, donde essénio ser também sinónimo de terapeuta, e davam-se às práticas heretodoxas das ciências tradicionais, como a Teurgia, a Astrologia, a Profecia, etc. O exército romano dizimou-os no ano 68 d.C. com a destruição do seu povoamento em Qunram, junto ao Mar Morto, não muito longe dos túmulos lendários de Abraão, Isaac e Jacob, a que a crença popular juntou as tumbas de Adão e Eva. O significado disso será tão-só que os essénios testemunhavam a sua posse da tradição original de Israel. Também estiveram instalados em Engadi, no lado ocidental do Mar Morto, e nas margens do Lago Maoris, no Egipto, onde eram conhecidos como os “terapeutas”, os que praticam a Taumaturgia como Medicina Universal.

As informações que há acerca dos essénios devem-se a Fílon de Alexandria, o Judeu, também ao historiador judeu Josefo e a Plínio, o Velho, todos seus contemporâneos, e por fim ao Documento de Damasco descoberto numa genizah (gruta) no Cairo, no começo do século XX, publicado por Salomon Schechter em 1910 após o apresentado à Universidade de Cambridge com o título Fragments of a Zadokite Work, assim como também uns rolos descobertos por uns beduínos pastores, em 1947, numa gruta junto ao Mar Morto – o Finis Terrae essénio – e dos quais o principal é o Manual da Disciplina. Ambos esses documentos remontam, no mínimo, ao segundo século antes de Cristo.

Sabe-se por essas fontes que a religião dos essénios adoptava o Rito Mitraico, aceitava as Ordens Angélicas – Hierarquias Criadoras – e praticava a cerimónia do lava-pés e o ritual do pão, vinho e azeite (óleo). Repartiam-se em três Graus Iniciáticos: Isarins, Naziritas e Kenitas, isto é, Perfeitos, Irmãos e Servos. Segundo o Documento de Damasco, a Ordem Essénia questionava a legitimidade da autoridade espiritual dos sadoquitas ou saduceus, ao considerar-se a verdadeira descendente de Zadoque a quem, diz a Tradição, Koro-Tsedek se revelara, indo suceder a Abiatar mandado para o exílio pelo rei Salomão, que assim o nomeou sumo-sacerdote de Israel e o primeiro a servir no seu Templo (I Reis 2:35)[5].

Tendo desaparecido no ano 68 d.C., como disse, os essénios sobreviventes reapareceram em Roma como “os do Caminho” (nome dado originalmente aos cristãos, segundo a confirmação do protomártir Santo Estêvão), com vários deles constituindo os primitivos Padres Apostólicos, que eram os discípulos directos dos Apóstolos e os garantes da Sucessão Apostólica que vem até hoje.

Familiar dos essénios e nazireus, porventura um deles, seria o patriarca José, Ioseph ou Iodzet (iod e zayin), que o pietismo teológico interpreta como “Deus acrescenta”. Segundo o Evangelho de Mateus, era filho de Jacó Pandira ou Panthera, nome de família (in Epifânio, Panarion, Adversus Haereses, escrito em grego entre 374 e 375 d.C.) e de Estha, possivelmente oriundos da Galileia, de Cafarnaum, a antiga “cidade de Naum” (Kephar Nahum), e nisto estará o motivo do Esoterismo cristão identificar o patriarca como Ioseph Ben Naum. Os Protoevangelhos são ricos em pormenores acerca da vida do progenitor de Jesus, informando o Protoevangelho de Tiago (do século II) que José era viúvo de Melcha, para outros Débora, que lhe dera cinco filhos: Tiago, o Menor (“o irmão – indirecto – de Jesus”), Matias, Cleofas, Judas e Eleazer. A sua viuvez ocorrera quando teria entre os 36 e os 40 anos de idade. Depois, ainda segundo o mesmo evangelho apócrifo, Zacarias, o Sumo Sacerdote do Templo de Jerusalém, fez reunir os varões viúvos, todos da linhagem de David, a fim de escolher dentre eles qual haveria de desposar a jovem Myriam (Maria), órfã de Elli (Joaquim) e Ana, que vivia à guarda do Templo desde os três anos de idade. Todos os pretendentes empunhavam os seus cajados ou bastões de patriarcas, e sujeitos a interrogatório cerrado sobre a sua moral e conduta esperou-se que um qualquer prodígio assinalasse o escolhido. A escolha recaiu sobre José quando do seu cajado floriu um lírio e uma pomba branca voou sobre a sua cabeça, lírio e pomba sinais de pureza e eleição. Por essa altura Maria teria entre os 14 e os 16 anos de idade. O episódio miraculoso é reelaborado com mais detalhes num outro texto apócrifo do século VI, o Pseudo-Mateus, onde se dá a entender que Maria foi desposada por José, por o Sumo Sacerdote dizer a ela: “Deves saber que não podes contrair matrimónio com nenhum outro” (VIII, 4). Por outro lado, o Livro da Natividade de Maria – uma espécie de resumo do Pseudo-Mateus – e a História de José, o Carpinteiro (IV, 4-5), dizem claramente que José desposou Maria.

Quanto ao episódio nos evangelhos sinópticos de “José ter repudiado em segredo (em consciência) Maria que entretanto engravidara sem ele a ter esposado”, é fácil de explicar sem negar o texto grego na parte onde referente à virgem aparece a palavra µνηστευθείσης, genitivo absoluto para “prometida, comprometida”, que no uso hebraico não era uma simples promessa de matrimónio mas o seu perfeito contrato legal, ou seja, o verdadeiro matrimonium ratum [6]. Por conseguinte, a mulher prometida já era o oficialmente esposa, apesar do desposório se celebrar em duas etapas, o quiddushim, ou “compromisso”, e o nissuin, ou “matrimónio” propriamente dito. Em princípio, na primeira etapa não havia relações conjugais íntimas (em alguns lugares, o clero proibia-as), e passado um ano (segunda etapa) celebrava-se a festa do casamento. A noiva, ao cair da tarde (a meio da semana, de preferência a uma terça-feira[7]), rodeada pelas amigas, com as lâmpadas acesas, aguardava o prometido que chegava, trazendo pela arreata um burrito ricamente aparelhado. Com vestido de púrpura, cingido com cinturão nupcial, ataviada com brilhantes adereços e perfumada, a prometida recebia o prometido, de olhos baixos. Ele sentava-a sobre o burrito e conduzia-a, no meio de festejos, com música, canto e flores, para a sua casa. Aí, um sacerdote ou um ancião lia os textos sagrados que falavam dos amores de Sara e Tobias. Os manjares e o vinho completavam a alegria de todos[8].

Acontece o seguinte: durante o quiddushim, apesar da proibição em alguns lugares, a esposa podia manter relações matrimoniais com o esposo, e isso terá acontecido com José procurando Maria, engravidando dele antes do nissuin, prova de verdadeiro afecto entre ambos e explicação da sua gravidez súbita. Entre o repudiar na escritura latina, repudiare, e o arrepender na grega, metanoia, a diferença é total[9]. Inclino-me a José ter se arrependido da sua fogosidade e pensado no divórcio por seu excesso de zelo na ortodoxia do costume.

O conselho espiritual do Anjo da Anunciação e Natividade, ou antes, do Dhyani-Kumara Gabriel ou Jîbrail (em árabe), projectando-se num sonho profético insistente, impediu que José consumasse o divórcio. Ademais, nenhum texto aponta que José e Maria não estivessem consolidados no amor que une as almas até mais que os corpos. Portanto, o seu acto correspondeu sobretudo ao que os brahmanes ou sacerdotes hindus classificam de União Mística Nárada.

Quanto ao seu ofício de carpinteiro, também merece observação. Nas produções apócrifas José é identificado pelo latinismo faber ignarius, “artesão da madeira”, seguindo a tradução grega de tektön, “artífice”, vertida para o nominativo latino fäbër, fabri, “artesão”, que junto com ignarius se interpretou como “carpinteiro”. Todavia, tektön é sobretudo indicativo menos de artesão e mais de artífice, daquele experiente na arte de talhar a madeira e arquitecturar a sua forma, um magister carpentarius como aqueles que estiveram presentes na construção da Grande Templo de Salomão e depois, na Idade Média, nos que juntaram as traves às pedras com que se construíram as grandes catedrais europeias. Joseph seria, portanto, um magister carpentarius ou arke-tektön, consequentemente, um Iniciado distinto na Arte Operática. Isto é o que fica subentendido no Evangelho da Natividade da Virgem Maria, na História de José, o Carpinteiro, e na Vida da Virgem e a Morte de José.

Nove meses depois do matrimónio, José e Maria viajaram de Nazaré de regresso a Jerusalém a fim de se recensear como o censo romano obrigava, e ao passarem por Belém ou Beth-Lhem – a “Casa do Pão” para São Bernardo de Claraval, que após a Natividade seria a “Boca da Palavra”, Beth-Lehem – a jovem esposa começou a sentir as dores do parto próximo. Ele inquietou-se e debalde procuraram alojamento. As hospedarias estavam cheias, não tinham mais espaço tantos eram os viajantes como eles a caminho da capital; por piedade do pobre casal, talvez, alguém lhe indicou uma gruta à saída da povoação, onde os pastores guardavam o seu gado.

Ali foi nascer Jeoshua Ben Pandira (sobrenome da família de José)[10], o Menino Jesus, Jess, Iess, o “Sol” do Seio da Terra tomando forma humana, ou seja, a Alma de elevado gabarito espiritual subida dos Mundo dos Deuses, a Agharta, à gruta presepial de Belém nascendo da Vestal, Vesta[11] ou Virgem Maria com um seu gémeo (Dydhimos, em grego, em latim, Thomas, em português, Tomé) trocado à nascença, Jasius, Jairus ou Jairo, duas crianças confundidas como uma só. Uma como Jeffersus, animada pela Essência Divina, outra, após o final da sua Missão, marcada como Krivatza, “o que traz a chaga no peito”[12].

Nascera o Rei de Israel da descendência em linha directa de David – Jairo – ao par do Messias a quem Salomão destinara o seu Templo – Jesus. As sortes estavam lançadas – alea jacta est.

Por essa altura as legiões romanas festejavam o nascimento de Mitra, o deus solar, Sol Invictus, coincidindo com o dia mais curto do ano e a noite mais longa, indo dar começo ao Inverno no respectivo Solstício, em 21 ou 22 de Dezembro, culto esse fortemente enraizado no Médio Oriente e em toda a Ásia Menor, abraçado pelos expedicionários do Lácio empáticos ao carácter militar de Mitra (trazido para a Europa no século IV a.C. quando Alexandre, o Grande, conquistou o Médio Oriente, logo tendo se fundado mitreos subterrâneos ou em criptas um pouco por toda a parte[13]), celebrando-o durante doze dias, como acontecia em toda a Mesopotâmia.

A fim de substituir o Mitraísmo pelo Cristianismo, o historiador romano cristão Sextus Julius Africanus, em 221 d.C., inculcou o nascimento de Jesus no dia 25 de Dezembro, e com o Édito de Milão, promulgado pelo Papa Julius I no ano 313, em 25 de Dezembro de 336 celebrou-se o Natal pela primeira vez em Roma, quando a Igreja já se tornara a religião oficial do império[14].

Os Centros Iniciáticos da época estavam alerta, sabiam estar próximo o nascimento do Messias – Mâsîah – ou o Avatara do Ciclo dos Peixes, a “Manifestação da Divindade” na Terra. Perscrutavam os sinais dos céus com cujas estrelas Deus escreve os seus desígnios, e viam chegada a hora.

Com efeito, sobre o céu da Judeia cintilava intensa a Estrela do Natal, constituída pelo alinhamento e aproximação – criando um halo esplendoroso – dos três planetas J.úpiter, H.ermes ou Mercúrio e S.aturno, elevando-se a constelação da Virgem (Virgo) a Oriente, sinalética estelar lida como a do Nascimento do Senhor dos Três Mundos (Céu, Terra e Inferno ou Mundo Subterrâneo) dado à manifestação por sua Mãe Celeste.

Numa monografia de escassa tiragem (150 exemplares) mas das mais preciosas para mim que Pinharanda Gomes escreveu[15], ele assim descreve a Estrela:

“No ano 752 da fundação de Roma, e ano 42 da era de César, os Magos foram guiados por uma Estrela, a que na tradição se dá o nome de Estrela do Oriente e, com mais ênfase, Estrela de Belém. Respondendo a Herodes, a quem explicaram o motivo da viagem, disseram terem visto uma “astera èn tê anatolê”, o que a Vulgata traduziu na frase “vidimus stellam eius in Oriens” (Mateus 2, 2). Em ambos os casos, o ponto cardeal de referência é o Oriente, sendo os complementos circunstanciais, em latim, declinados no ablativo e, em grego, no dativo. Por isso, tanto se pode dizer Estrela no, como Estrela do. Quando se considera que os Magos proviriam do Oriente profundo, Belém não lhes ficaria a Oriente, mas a Ocidente. Èn tê fica traduzido por sobre, em, o (no). Se, além disso, considerarmos que anatolê serve de fundamento ao topónimo Anatólia, esta é a terra situada a Oriente, mas a oeste da Ásia Menor, numa península entre os Mares Negro, Mármara e Mediterrâneo, a oriente de Constantinopla. Restam-nos, portanto, a Sul a Arábia e, a Norte, o Irão ou Pérsia. A partir de ambos os lados se poderia dizer Oriente, ou “vimos uma estrela no Oriente”, ou “sobre o Oriente”. A expressão de Mateus é exactamente a mesma constante do mais antigo apócrifo grego, escrito, segundo parece, nos finais do séc. II, o Proto Evangelho de S. Tiago, em que, entrevistados por Herodes, os Magos dizem ter visto um sinal (astro) muito grande, cuja luz eclipsava os demais, e que por isso souberam ter nascido o Messias; e também no mais tardio (séc. IV) Pseudo Mateus, nos capítulos XVI e XXI. Do ponto de vista profético, a Estrela de Belém é a Estrela de Jacob, ou de David, profetizada no oráculo de Balaão (Números 24, 17).

“Aliás, o ponto cardeal pode ser o próprio cognome de Jesus, considerado ‘Sol Nascente’, ou seja, “Oriens ex alto” (Lucas 1, 78), expressão constante do cântico Benedictus, também conhecido por “Cântico de Zacarias”. Também se admite que, tal como hoje, em toda a parte do mundo, o nome de Oriente é sempre atribuído, ou ao Próximo Oriente, ou ao Distante (China, etc.).

“Qual a forma da estrela, eis o que geralmente se acha omisso. Segundo os intérpretes literalistas, consistiria numa espécie de cometa, ou estrela cadente, já que as estrelas são fixas. Se foi realmente uma estrela, em aberto fica a questão de saber: a) se era a Estrela de David, com seis pontas, símbolo do abraço do Espírito e da Matéria; b) se era a estrela de cinco pontas, ou pentagrama do selo de Salomão, que significa regeneração e deveio símbolo do internacionalismo; c) ou de sete pontas, símbolo do ser humano, entrosamento do quadrado e do triângulo e, finalmente, d) se era a estrela mística, de oito pontas, quatro relativas à natureza divina de Deus e quatro relativas à sua encarnação humana, todas as oito presentes em Deus humanado, apresentado aos Magos, na gruta, ou no estábulo, se é que o estábulo estava instalado na gruta, como era costume dos camponeses. A ideia da gruta crê-se ter surgido no 2.º século, apenas.

“Tal como na explicação de certos fenómenos meteorológicos, é sempre possível alinhar pelo menos duas diferentes teses, a mística e a física. Místico é o ponto de vista de S. João Crisóstomo, para quem a estrela era um Anjo de forma estelar. A imagem remete-nos para o trecho em que, na morte de Ozias, rei de Judá, à sua volta estavam uns Serafins, cada um de seis asas, que clamavam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor do Universo. A sua glória enche toda a Terra” (Isaías 6,2-3). A estrela simboliza o Anjo? Nesse caso, ela teria seis pontas, tal como a Estrela David ou de Israel. Físico foi o ponto de vista de Kepler, que explicou tratar-se de um meteoro ocorrido na camada inferior da atmosfera.

“Os escrituristas de vocação anagógica preferem a Estrela de Belém como um símbolo, um sinal espiritual, que o redactor do Evangelho de Mateus utilizou, talvez como uma espécie de catequese, ou midrash agádico, ampliando o significado da Epifania, em concessão destinada a cativar a teogonia oriental.

“Todas as notícias acerca da Estrela são concordes, incluindo a do Liber de Infantia Salvatoris, onde os Magos dizem a José: “Vidimus in coelo stellam Regis Iudaeorum et venimus adorare eum”. A liturgia das horas celebra este mistério num belo Hino do Lucernário:

“Ibant Magi, qua vénerant
Stellam sequentes praeviam,
Lumen requirunt lumine
Deum paténtur múnere.”

“Foram os Magos seguindo
A estrela do Oriente,
E com presentes confessam
A glória de Deus nascente.”

A conjunção de Júpiter – Saturno, como Pai e Avô do Universo (Sistema Solar), ficando o Filho para Mercúrio como ponto de encontro e intercâmbio entre os dois, além de gerar um halo estelar extraordinário assinala o Nascimento do Avatara, o que se configura geometricamente na junção desses dois signos com o nome sagrado de Asga-Latza, “Esplendor Celeste” sobre a Terra, cabendo Saturno ao Rei de Israel, assinalado em Jairo, e Júpiter ao Messias, apontado em Jesus. Sobre e em ambos a Essência Divina, Crística, Mercuriana do próprio Logos da Terra expressando directamente ao Solar.

São os “Anjos da Natividade” quem anunciam o Nascimento do Mâsîah, o Emmanuel, “Deus Connosco”, como “Medidas de Deus” – Matra-Devas – abrindo o sulco estelar à manifestação na Terra do Resplendor do Divino assim se Humanizando – Gloria in excelsis Deo et in terra pax in Electus Unus!

Os “Anjos da Natividade” serão depois complementados pelos “Anjos Pascais ou da Ressurreição” – Manasaputras, “Filhos da Mente Divina” – quando saem das suas tumbas subterrâneas enquanto Cristo desce em Espírito do Gólgota ao seio da Terra, rasgando-se o Véu do Sanctum Sanctorum do Grande Templo, sinal de um Novo Tempo de Revelação à Humanidade.

Querubins e Serafins, Senhores da Sabedoria e do Amor, Matra-Devas e Manasaputras afins às constelações de Áries e Taurus, não deixam de estar assinalados no cordeiro e na vaca do presépio, ao lado do jumento, animal de mensageiro da Paz, tal como o cordeiro igualmente assinala a mansidão do que se entrega ao Sacrifício, enquanto a Vaca indica a Nutrição pela Palavra (Dogma) e a Liturgia (Rito), conforme o texto canónico de I Isaías 1, 3: “O boi conhece o dono e o jumento o estábulo do seu senhor”.

Os pastores e camponeses de joelhos em adoração ao Nascimento de Deus Menino, cena rural, representam exactamente os povos pastores, nómadas, como era toda a civilização antes de se sedentarizar, sobretudo no Médio Oriente. São Francisco de Assis, no século XIII, recriaria com personagens vivos a cena piedosa do presépio, indo dar início à tradição anual de recriá-lo nos lares e nas igrejas com pequenas figuras coloridas de barro, não esquecendo o musgo evocativo daquele que nasce na humidade das cavernas.

E os Reis Magos? Quem eram e como surgiram nas escrituras? Diz Pinharanda Gomes (ob. cit.):

“O trecho canónico do Evangelho segundo Mateus, trecho esse o único constante do Novo Testamento, relatando a peregrinação dos Magos a Belém, no tempo de Herodes o Grande (ano 42 da era de César), é omisso quanto aos nomes e ao número dessas personagens [idou Magoi / ecce Magi]. Nas versões usuais utiliza-se o proenome numeral indefinido “uns” e, em diferentes tradições seriam dois, no mínimo, e quinze, no máximo, embora o número mais frequente e confirmado na recepção eclesiológica, seja o de três.

“O Evangelho Árabe da Infância, um dos apócrifos, também usa a expressão “uns magos”, avisados por um anjo, segundo a antiga profecia de Zaradust (Zoroastro) e idêntica expressão consta do Proto Evangelho de S. Tiago. Outro apócrifo, o Pseudo Mateus, menciona apenas três, mas omite os respectivos nomes.

“Identificativo é o Evangelho Arménio da Infância (capítulo V, 10), que se afasta das remotas tradições latinas dos quatro e dos doze da versão siríaca, fixando o número três, e nominando cada um dos Magos, já chamados Reis: Melkon (= Melchior ou Belchior), rei dos Persas, Baltazar, rei das Índias, e Gaspar, que dominara os povos da Arábia. Em hebraico estes nomes equivalem a Magalath, Galgalath e Serakin, havendo outras designações próprias em outras línguas, incluindo as versões gregas dos apócrifos orientais.

“Melchior era um ancião, Gaspar um jovem, e Baltazar um negro, segundo o registo do Venerável Beda, do já tardio século VI/VII, que exerceu grande influência no registo das tradições, nas suas obras de exegese bíblica.

“Quanto à origem, são várias as sentenças, incluindo a mais complexa ideia das três Índias, mas consta que Melchior provinha da Núbia, Baltazar de Sabá e Gaspar de Társis, pelo que na piedade popular se imaginou Belchior como representante da raça branca, Gaspar da raça asiática e Baltazar da raça negra. A menção de Núbia não deixa de animar a conjectura de que as notícias de Cristo tivessem chegado à Etiópia através de registos rudimentares, porventura herdados pelo Preste João, originados na época apostólica.

“O nominativo do atributo Reis ligado ao nome dos Magos deriva de fontes alheias ao cânone. Em alguns apócrifos, v. g. o Evangelho Arménio da Infância manciona os Magos como Reis (cap. V, 10), enquanto o Evangelho Árabe se limita a chamar-lhes Magos, sem o título de Reis, o que acontece também no Proto Evangelho de Tiago (cap. XXI). A cognominação régia não derivou do Evangelho de Mateus, nem sequer da Vulgata que, uma vez confeccionada por S. Jerónimo, veio a ser a fonte doutrinal primacial, abrogando a influência dos apócrifos, nem sempre de modo fácil, tendo-se vivido uma polémica entre os seguidores da Vulgata e os que continuaram a valorizar os Apócrifos, como aliás sabemos da literatura priscilianista.

“No prólogo ao Livro dos Reis, S. Jerónimo verteu Malachim para latim na forma genitiva do plural (Regum), cuja forma nominativa singular é Malachot. Ora, o autor do Evangelho de Mateus tê-lo-á escrito em aramaico, cujo original se perdeu, portanto ignoramos se o redactor escreveu Magos ou Reis Magos. Versões posteriores, apócrifas, em várias línguas orientais, registam apenas o nome Magos, que, por exemplo, na versão etíope são chamados adoradores (Proskunêtés). A versão mais antiga desse Evangelho presume-se que date de entre os anos 75-80 d.C., já depois da destruição do Templo, no ano 70, por Tito, numa época em que só se conheciam algumas Epístolas de Paulo e o Evangelho de S. Marcos, mas de Mateus só recebemos a versão em língua grega, conforme a fórmula dos Setenta.

“Nesta versão do Evangelho de Mateus lê-se idou Magoi (eis que Magos) forma plural do singular magós, e foi com esta palavra que as igrejas de língua grega se governaram. No Ocidente, na versão jeronimita, o cognome reis não aparece, o autor escreve apenas ecce magi ab Oriens (Mateus 2, 1). Também o substantivo mago sugere uma breve divagação. Considerando o original grego, quem introduziu no léxico cristão a palavra foram os gregos, que também davam tal nome aos sacerdotes de Religião de Zaratustra, sacerdotes esses que, no Mazdeísmo, eram chamados athravan ou mogh (origem de mago e, no latim, também possível origem de magnus), sacerdotes ou servidores do Fogo (Agni).

“Os hermeneutas consideram, enfim, que o cognome Reis é uma interpolação apócrifa que deveio popular, decerto por influência de lições canónicas, como os versículos salomónicos: “Os reis de Társis e das Ilhas oferecerão tributos; / Os Reis de Sabá trarão suas oferendas; / Todos os Reis se prostrarão diante dele; / Todas as nações o servirão” (Salmos. 72 (71), 10-11), versículos estes confirmados ou redivivos na profecia do III Isaías: “De Sabá virão todos trazendo ouro e incenso” (III Isaías, 60, 6). No rito romano pontifical, e também no particular bracarense, na festa chamada Epiphania Domini, celebrava-se Missa com vigília (Statio et Sanctum Patrum), lia-se a Epístola contendo as perícopas de Isaías e, ao Ofertório, o trecho do já indicado Salmo 72 (71). No essencial, estas leituras continuam vigentes na nossa idade.”

Se foram mais de três os Reis Magos ou Rishis, em védico, detentores da Sabedoria Real ou Divina, a seguir a conjunção estelar até à gruta de Belém, indo visitar e prestar tributo ao fruto bendito de José e Maria, pouco importa, ficarei só por esses registados na tradição apócrifa e canónica.

Prostraram-se reverentes ante a trindade presepial representativa da Trindade Logoidal, como seja:

José para o Pai, o 1.º Logos (Divino);
Maria para a Mãe, o 2.º Logos (Celeste);
Jesus para o Filho, o 3.º Logos (Terreno ou Humano).

Sendo eles, Reis Magos, os Seres Representativos da Trindade Aghartina[16] que dirige os destinos do Mundo, ou o Supremo Soberano e suas duas Colunas Vivas, como seja:

Melchior para o Brahmatma (Melki-Tsedek), Rei de Salém e Sacerdote do Altíssimo – cf. Génesis 14:18-20 ;
Gaspar para Mahinga (Kohen ou Koro-Tsedek), Sacerdote de Deus – cf. Salmo 110:4;
Baltazar para Mahanga (Adonai-Tsedek), Rei em Deus – cf. Josué 10:1-3.

Algo assim como o Planetário da Ronda (Kumara) para o Logos da Cadeia (Ishvara), aquele a “personalidade” da “individualidade” deste.

Melchior representando a própria Raça Ariana assim como a Fraternidade de Kaleb, Líbia, oferece ao divino Infante mirra, planta de Vénus, bálsamo da incorruptibilidade e da Profecia[17], como tal o aclamando Profeta de Deus, Pytiochrestus.

Gaspar depõe aos seus pés incenso, saudando-o como Sacerdote, representando a Raça Atlante assinalada na Fraternidade de El-Kairo, no Egipto.

Finalmente, Baltazar oferece-lhe ouro dando-o como Rei, em representação da Raça Lemuriana ou Primordial representada pela Fraternidade dos Jinas de Srinagar, Índia.

Nesse piedoso o mais grácil quadro humano ficava firmado o reconhecimento pelo próprio Governo Oculto do Mundo, a Igreja de Melki-Tsedek ou Excelsa Fraternidade Branca, do Nascimento do futuro Senhor do Ciclo de Piscis.

Cumpria-se o desígnio cíclico da Lei. Ia abrir-se uma nova e brilhante página na História da Evolução Humana.

Nem depois faltaria o pinheiro de Natal a assinalar a data, árvore resinosa enfeitada com bolas coloridas simbólicas das pérolas da Sabedoria como símbolos da Verdade manifesta. Foi D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha quem implantou em Portugal, no século XIX, a tradição nórdica do pinheiro natalício, acerca do qual o Professor Henrique José de Souza escreveu[18]:

“Quanto à dadivosa árvore do Natal, ela simboliza a Árvore Sefirotal, a Árvore dos Avataras, o Bijã ou a Semente dos Avataras plantada no quaternário da Terra, e que ciclicamente floresce. É a Árvore de Bodhi ou da Sabedoria, cujos ramos representam aspectos da Verdade Única, ou esses mesmos Avataras cíclicos manifestados.”

Na noite fria e estrelada de há dois mil e alguns anos, por sobre a Sagrada Família, Presépio ou Apta na Manjedoura onde o Fogo Sagrado refulgia, ecoavam nos éteres os acordes triunfais das trombetas dos Dharanis juntando-se aos cânticos de júbilo dos Dhyanis:

– Hossanah! Nasceu Iesus Homnibus Salvatorem. Glória a Deus nas Alturas e Pax na Terra aos Eleitos!

 

NOTAS

 

[1] Manuel Martiniano Marrecas, Antiguidades romanas. Imprensa Nacional, Lisboa, 1872. Dictionnaire de la Bible, tomo IV,  F. Vigouroux et al., Letouzay & Ané Éditeurs, Paris, 1908.

[2] Flávio Josefo, La Guerra de los Judíos, Livro II, capítulo 11. Biblioteca Clásica Gredos, Madrid, 1999.

[3] John Allegro, The Chosen People. Hodder and Stoughton Ltd., London, 1971.

[4] “Tábuas da Lei”. A Torah compreendia a lei e a tradição de fundamento de Israel, cujo corpo externo (exotérico) constituía-se da Mashora, destinada a retirar das Escrituras as fórmulas confessionais de interpretação fácil e imediata da letra da Torah; o seu corpo interno (esotérico) era a Mischna, interpretativa da tradição de Moisés e dos Profetas. Os comentários à lei e a tradição compunham a Gemurah. Esses três vectores da Torah constituem o Talmude, o código geral da lei e tradição judaica.

[5] A. Cody, Heavenly Sanctuary and Liturgy in the Epistle to the Hebrews. St. Meinrad, Grail, 1960.

[6] Sponsalia tantum valente quantum matrimonium, é um precioso testemunho de Fílon, contemporâneo de Jesus (De Special. legibus, III, 12.72). Cf. Strack-Billerbeck, Kommentar zum N.T. aus Talmud und Midrach, II, 372-400. München, 1922-28.

[7] A relatar a história da Criação, o terceiro dia, terça-feira, é o único em que a Torah diz duas vezes: “E Deus viu que era bom”. Os rabinos interpretam isso como significando que esse é duplamente bom, “bom para o Céu e bom para as criações”.

[8] P. C. Landucci, Maria Santíssima no Evangelho. Editora Pinus, Brasília, 2018.

[9] Não se afigura bem traduzido o texto da Vulgata Latina de São Jerónimo da Versão Grega. Aparenta corrupção do texto a tradução bíblica para inglês de Jaime I, no século XVII, e para português pelo calvinista João Ferreira de Almeida, tradutor do Novo Testamento publicado em 1681, seguido do padre oratoriano António Pereira de Figueiredo, que a partir da Vulgata Latina traduziu a Bíblia publicada em 1819 e 1821.

[10] Houve muitos Jesus (Jeoshua, Ioshuah) antes e depois de José e Maria, tanto que o nome não era nem é invulgar na Palestina e Judeia. Muitas obras literárias de historiografia e de ocultismo, umas propositadamente e outras desprevenidamente, confundem o Mestre em questão com um indivíduo que viveu no ano 106 antes dele com o mesmo nome de Jeoshua Ben Panthera, filho de uma bordadeira ou modista, também chamada Myriam, que engravidara de um tal Pantos ou Panthera, legionário romano. Esse Jeoshua teria sido um Iniciado nos Mistérios Egípcios, acusado pelos judeus de feitiçaria e de conspurcar o “Santo dos Santos” do Grande Templo, sendo condenado á morte em Lyda, ou Lüd, apedrejado e crucificado numa árvore, nas véspera da Páscoa judaica. Helena P. Blavatsky apontou o caso na sua Doutrina Oculta (Hemus – Livraria Editora, 1977), como igualmente Henrique José de Souza no seu artigo de 1941, H.P. Blavatsky e seus detractores. A fonte dessa informação é Celsus, filósofo grego do século II d.C., fortemente contestado por Orígenes (in John Patrick, The Apology of Origen in Reply to Celsus, 2009), o qual terá bebido na fonte talmudística anticristã onde Jesus é referido como filho de uma prostituta judia engravidada por um legionário romano, fonte de inspiração daquela obra judaica que na Idade Média iria fazer vingar essa teoria anticristã, o Sepher Toledot Yeshu ou Toledoth Jeschu, invenção asquenaze destinada a parodiar os evangelhos e a retirar-lhes autoridade.

[11] Vestal é designativo latino dada às Virgens do Templo que provém do grego Vesta, a Deusa-Sol esposa de Elion, o Deus-Sol, portanto, referente às sacerdotisas encarregadas da manutenção dos perfumes e do Fogo Sagrado nos Templos, assegurando o Oráculo e a Virtude.

[12] Vitor Manuel Adrião, Portugal, Sagrado e Mistério (Memória Histórica), cap. IX, Escalhão: saberes ocultados. Euedito, Lisboa, 2018.

[13] Franz Cumont, Textes et monuments relatifs aux Mystères de Mithra. Bruxelas, 1896-1899.

[14] Manfred Clauss, The Roman Cult of Mithras: The God and His Mysteries. Edinburgh, 2000.

[15] J. Pinharanda Gomes, Memória acerca dos Reis Magos, Braga, 2012.

[16] Saint-Yves d´Alveydre, La Misión de la India en Europa. Luis Cárcamo, Editor, Madrid, 1988.

[17] René Guénon, O Rei do Mundo, com comentários de Henrique José de Souza. Espiral Editora, Sintra, 2019.

[18] Henrique José de Souza, O Simbolismo do Natal. Revista O Luzeiro, Ano I, N.º 7, Dezembro – 1952, São Paulo.

Fernando, que Pessoa? Um caso clínico ou um acaso génio? – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Dez 2 2020 

Fernando a Pessoa de andar saltitante e nervoso dobra em três passos incertos e velozes a esquina do Chiado de Lisboa e, sibilino, desaparece algures na cidade, talvez a caminho do Martinho da Arcada, talvez para as bandas da Gare Central, aquela onde está o D. Sebastião à entrada, para tomar o comboio que o leve ao xadrez serrano e paradisíaco de Sintra!… Maneira de deslocar-se, entre o calmo e o inquieto, o devagar e o veloz, numa mudança súbita de humor, revela o psíquico potencial, o que lida mais com as coisas do Espírito para maior desprazer das coisas da matéria, para ele simples objectos de prazer e de ilusão efêmeros. Os seus olhos, brilhando inquietos, falam do que lhe vai dentro, do ardor de génio que o consome sem parar. O seu corpo alto e delgado, quase seco mas tendendo a engordar nos últimos anos de vida, as suas mãos de intuitivo potencial, de dedos finos e longos, o trejeito tímido e desajeitado que nunca olhava as pessoas de frente, tudo isso, psicologicamente, revela os traços do Homem Psicomental em potência e integralidade, ou seja, o Jina, o escritor iluminado pela barda e profética Voz da Intuição, tendo feita da pena espada sagrada e do papel campo de lide, onde a Verdade impressa se oculta sob o véu diáfano da aparente “fantasia” do poeta.

Todo ele [re]velava a discreta compostura de quem vive plenamente a intensidade da disciplina interior, esotérica, auto-imposta por necessidade de Perfeição e não por alguma e moralista imposição religiosa.

Foi esse esoterismo que reflectiu na sua vasta obra feita além, muito além dos póstumos rótulos ou etiquetas impostos pelos intelectos preconceituosos, subversivos e surrealistas, espécie naïf dita avant-gard, de alguns, felizmente não todos, auto-assumidos “especialistas pessoanos”, indo complicar o que não era complicado, indo interpretar e firmar tese aquilo que, afinal, foi inteiramente estranho ao poeta e à sua intenção tanto manifesta como íntima. Esses líteros e intelectuais, repletos de manias e preconceitos (pré-conceito), envergonhados de assumir a vida simples do poeta e que nela o mistério é constante e fala a Lisboa dos pregões, das tabernas de má fama, de quem passou fome e só não morreu dela porque os amigos não deixaram, acabam dando a perceber que a fama pública de que gozam como “inteligências pessoanas”, de barriguinha cheia e bem vestidos, saltitando de festa para festa de jet-set e achando piroso os menos favorecidos pela vida andarem de saco de plástico na mão por ser sinal de mediocridade – esquecendo que talvez ou decerto esses não tenham posses para adquirir sacos ou maletas mais condignas às marcas da moda do momento – revela-os, ao contrário das aparências, “os maiores inimigos de Fernando Pessoa”, como desabafava na minha presença, há alguns anos atrás em sua casa de Estremoz, o professor António Telmo (falecido em 21 de Agosto de 2010).

Enquanto esse tipo de críticos se autossatisfaz com a sua “intelectualidade superior”, os demais observam-nos sem perceber patavina do que pretendem dizer e onde afinal querem chegar, tal o uso e abuso de um vocabulário forçado e inventado no momento, clientela do bas-fond dando ares surrealistas e abstractos ao que é bem real e concreto, simples em si mesmo; essas atitudes anacrónicas bem, ou mal, mais me parecem campanha de marketing, de autopromoção pessoal à custa do nome e obra de Fernando Pessoa.

De maneira que “o Pessoa como moda é uma característica deste tipo de sociedade e deste tipo de informação”, disse Pedro Teixeira da Mota ao semanário Expresso (sábado, 4 de Junho de 1988), adiantando Yvette Kace Centeno na mesma reportagem: “Fala-se hoje de usar óculos `à Pessoa´, mas também há `cintos à Elvis´. Quando alguém de repente cai na moda e os `media´ tomam conta desse alguém, a dita figura automaticamente se banaliza e comercializa. É óbvio que agora, por altura do centenário, se alguém resolver produzir t-shirts ou camisas com a figura do Pessoa elas se venderão às centenas, mas se as fizerem com o carimbo do Eusébio vendem-se na mesma. São fenómenos que têm a ver com o típico da vida moderna, que é o de facilmente banalizar e comercializar as suas estrelas. Mas isso nada tem a ver com a profundidade ou a genialidade da obra”.

Deve-se ao moderno fenómeno psicossocial do consumismo e uso fácil para após utilizado ser facilmente esquecido, a visão anacrónica, senão mesmo falaz, dada ao poeta, à sua vida e à sua obra, de quem a maioria desses “especialistas” revela-se completamente ausente de veracidade ou realidade da mesma, isto tanto para Fernando Pessoa como também para outros personagens da nossa História (Afonso Henriques, Luís de Camões, D. Manuel I, etc.). Falta-lhes o Espírito, que é tudo. Foi por isso que num concurso televisivo, no início de 2007, todos os personagens da História de Portugal – de quem hoje em dia cada vez mais se sabe menos, mas se sabe cada vez mais de ficções novelísticas e de concursos medíocres impostos pelos meios audiovisuais brutalizando, petrificando ou estupidificando a mente colectiva, mantendo-a arredada da reflexão sobre o sentido verdadeiro do por que existe – perderam a favor da vitória do dr. António de Oliveira Salazar, que lhe foi dada pelos votos públicos de alguns milhares de cidadãos. Seriam todos salazaristas? Não creio. Mas creio que todos exerceram o voto de protesto ao estado caótico em que está a sociedade portuguesa, onde os líderes partidários e todos os respectivos partidos políticos, em nome da democracia constantemente exercida como “bur[r]ocracia” e “abusocracia”, desprezam o povo, arrogantes atiram-no no desemprego condenando-o à fome e à miséria, e ameaçam com o despedimento os ainda empregados sem deixar de os crivar com impostos sobre impostos à boa maneira feudal, parecendo mesmo querer reduzi-los à condição de escravos sem quaisquer direitos, achando um abuso terem férias e até receberem salário, como transparece nos seus subentendidos, ou seja, roubam-lhes da boca o pão nosso de cada dia para encherem as suas e as dos seus, sempre insaciáveis como Moloch, sempre querendo mais e mais; fecham hospitais e maternidades, obrigam os pobres a pagar o que não têm quando têm a infelicidade de adoecer; cobram impostos absurdos e desumanos à velhice nos seus últimos dias; aos pais que oferecem prendas aos filhos, acirram os filhos a denunciar os pais ao fisco; os alunos contra os professores, os aprendizes contra os mestres; roubam a autoridade aos adultos e dão-na aos meninos, não raro soltando criminosos e condenando quem os prendeu; condenam o fumo do tabaco e promovem as drogas «leves» dando subsídios a quem prove ser toxicodependente, indo assim alimentar a perpetuidade do vício; e neste caos satânico, anarquia campeando, sonham sempre com empreendimentos megalómanos, para que por eles os seus nomes fiquem imortalizados no meio da miséria geral que semearam. Até quando este estado caótico das coisas?… Realmente, é bem verdade que “quem nasce em Portugal é por missão ou castigo”, mas, Senhor, não bastará já de tanto castigo? Até quando permitirás, Senhor, que os lobos assassinos continuem a devorar os cordeiros inocentes? Onde está o Pastor, guia e protector do seu rebanho? Que liberdade podre é esta?! Quanto libertinismo desvairado corre a jorros no mais que estropiado tecido psicossocial…

Moderno “problema socrático” insolúvel? Não, antes questão de Vida e Morte: carece-se da mudança de mentalidade, de uma verdadeira revolução mental a favor de novos e mais amplos valores e hábitos que façam o Homem mais Homem e Deus mais Deus, acabando-se de vez com tudo quanto tenha a ver com um ciclo velho, podre e gasto. Em suma, para afastar de vez qualquer tipo de rótulo político, useiro e vezeiro, que alguns, lendo estas palavras, sintam necessidade para também rotular em modo de desculpar a indignidade desumana dos seus actos, seja à “esquerda” ou à “direita”, logo parcelares e não totais: tudo pela Sinarquia, nada pela Anarquia!

Liberdade também para taxar Fernando Pessoa com as maiores displicências, mas que só podem caber a quem as emite. Repete-se, mais uma vez, a história de São Germano e Cagliostro. Depois de desaparecidos, urge raivosa a torrente difamatória vomitando impropérios muitíssimo abaixo da crítica, o que leva a exclamar: aprés moi le déluge!

A obra escrita de Fernando Pessoa assenta toda ela em bases ocultistas, pelo menos mais de 90% da mesma, as quais não foram um interesse lúdico e passageiro na sua vida, antes um processo de entendimento e aplicação permanentemente assumido em toda a sua existência. Esse equívoco deve-se à carência atroz de informação e formação dos “media” e “especialistas pessoanos” sobre o que seja o Ocultismo – que não é, nem aproximadamente, ciências divinatórias de feirantes que “volta sim e volta sim” aparecem nos jornais e nas televisões contribuindo para o aumento da ignorância, da superstição e do autismo espiritual, como se observa no flagrante do fenómeno psicossocial urbano de “new age”, revelando-se, como “espiritualismo a la carte”, na definição do professor Eduardo Lourenço, antes de tudo e em termos clínicos, “paranóia mística” mista de ingenuidade, superstição e irracionalidade, sempre teimando em “construir a casa pelo telhado”, com cujos simpatizantes e aparte a simpatia pessoal nutrida por alguns deles, variadíssimas vezes confirmou-se-me ser quase ou mesmo impossível dialogar racionalmente, inclusive em termos metafísicos, tal o estado de alucinação psicomental de quem prefere o facilitismo de que já “não há segredo nem secreto em uma nova era”, manifestação ingénua de cultura “pop” com isso contribuindo para a anarquia alternativa à ordem psicossocial, por regra preferindo o que já se publicou e é público ao esforço nobre da conquista pela criação pessoal; assim mesmo, sendo igualmente quase regra apostolada, nada sabendo da orgânica das Religiões Tradicionais, do sacramental base das suas teologias, das Ordens Iniciáticas, das suas Egrégoras e dos Mistérios da Iniciação que encerram e resguardam dos desatentos e despreparados física e psicomentalmente, para que não profanem o Sagrado com a sua ingenuidade não raro deprimente ante a verdadeira Espiritualidade, ao pretenderem saltar degraus na Evolução avante e, não raro com vaidade e presunção, encapotadas ou desveladas, ainda por cima julgarem sábias e perfeitas as suas noções delirantes apostas de qualquer Ordem e Regra. Os que andaram na escola primária ou no liceu, acaso também terão e sem mais passado subitamente da 1.ª para a 4.ª classe, assimilando tudo de uma assentada sem qualquer disciplina mental e física? É, de facto, muito constrangedor… mas a Lei Suprema se encarregará de ir refreando tais precipitações indisciplinadas que, de momento, nem sequer é possível apontar fraternalmente a quem delas é acometido. Também nisto o caos e a anarquia campeiam, e nisto volto igualmente a repetir o lema de Henrique José de Souza (JHS), aqui adoptado como se fosse meu: tudo pela Sinarquia, nada pela Anarquia!

Neste enquadramento bestial próprio de um ciclo mais que podre e gasto onde tudo de mau e pior é possível aparecer, há uns anos atrás não deixou de ter o seu momento na ribalta pública certo senhor Mário Saraiva, médico psiquiatra arvorado “especialista pessoano”, pretensão avulsa com a qual se deu ao diagnóstico psiquiátrico desse mais alto baluarte contemporâneo da Literatura Portuguesa e, inclusive, do Ocultismo Nacional, que foi Fernando Pessoa. O pasquim – que outro nome não merece – por ele escrito e editado, O caso clínico de Fernando Pessoa (Edições Referendo, Lisboa, 1990), anda hoje quase esquecido do leitorado geral mas não o seu conteúdo, aliás, aceite e defendido por muitos “especialistas” que sempre temeram um confronto televisivo comigo, vá-se lá saber por que… Para um materialista convicto, mistura de psiquiatra com várias outras coisas que a oportunidade traz e se revela oportunismo, antes de tudo o mais tenho a declarar o seguinte: é completamente impossível a um profano fazer o diagnóstico clínico de um Iniciado!

É o próprio Fernando Pessoa quem o diz: “Os psiquiatras sabem (às vezes) como trabalha o espírito doente, mas não como trabalha o espírito são” (in Fernando Pessoa Aforismo e Afins, edição e prefácio de Richard Zenith. Editora Assírio & Alvim, Lisboa).

O carácter do Iniciado é algo muito distinto e profundo que só a Psicologia Esotérica – ou seja, aquela manipulada por alguém conhecedor dos mistérios ocultos da natureza humana – pode dar resposta satisfatória, isto porque ele move-se nas camadas superiores do Pensamento e obedece às regras de uma conduta que poderei chamar de Dever Universal, ou o Dharma no seu sentido mais lato, para com a evolução da Vida e da Consciência. Disciplina que constrói o Espírito, eleva a Alma e faz sábio o Corpo (os sentidos) através das experiências colhidas nas agruras quotidianas que são as provas kármicas, os “escolhos” no Caminho da Verdadeira Iniciação, onde a criatura que o cursa busca cada vez mais a Perfeição de Ser, e cada vez mais o é.

“O esforço é grande e o homem é pequeno.
A alma é divina e a obra é imperfeita.”

Mensagem in “Padrão”

O facto de taxar Fernando Pessoa de “mórbido, paranoico, homossexual”, etc., o senhor psiquiatra – entretanto já falecido – parece transmitir por fenómeno mórbido e inconsciente os seus próprios males, isto por o seu quod reflectir a quantidade no quid essencial mas desconhecido do analisado ausente, assim supondo e pressupondo mas nunca certeiro e com certeza.

De maneira que há uma consciência física (quod) e outra psíquica (quid), uma de vigília e outra de sonho. Como geralmente as duas consciências estão desarmonizadas ou desencontradas entre si, é raro ter-se a lembrança nítida do sonho vivido. Apenas se sabe que sonhou. Mas que se sonhou? Há uma ideia nebulosa dos acontecimentos que se passaram em sonho ou que foram vivenciados na consciência psíquica. O subconsciente fica como um ecrã de televisão descontrolado. O desajuste desses dois tipos de consciência traz à criatura humana muita angústia. Ela vive psiquicamente torturada, cheia de problemas. Faz de todo o acto “bicho de sete cabeças”, coisas monstruosas, vive imaginando dificuldades que realmente não existem. Antes de tomar uma atitude positiva, vê na sua frente muitas muralhas que imagina estarem ali para a dificultar. De uma coisa simples promove uma tempestade num copo d´água. Está sempre desanimada, é depressiva e neurótica, o intelecto não lhe dá a satisfação completa e vem a neurastenia e a paranoia. Eis o retrato, evidentemente com as devidas e honrosas excepções, da maioria dos “especialistas pessoanos”.

O corpo físico humano não é perfeito: possui lesões, deficiências, carências, intolerâncias, cicatrizes, atrofias e hipertrofias de órgãos, má circulação, enfim, uma série de anomalias causadoras de distúrbios psicossomáticos, de pequenos e grandes desequilíbrios orgânicos. Os médicos indicam os medicamentos que vão ajustar as disfunções orgânicas, e de modo análogo acontece o mesmo às almas imperfeitas, com as suas consciências física e psíquica desajustadas, cabendo aos psicólogos e aos psiquiatras, com conhecimento verdadeiro do mecanismo oculto da Alma, Anima ou Vida, fazerem as funções dos medicamentos nesse ajuste consciencial. Esse é, com efeito, um estudo importante para compreender, isentado dos erros oriundos dos preconceitos da personalidade, a vida biológica e psicomental dos Iniciados.

A consciência psíquica do ser humano começa a ser deformada, ferida, triturada logo na infância, “em conformidade ao seu karma”, diriam os sábios orientais, mantendo-se assim a infecção psicomental pela vida afora. Muitas vezes torna-se doença crónica e acontecem as neuroses. Recorre-se ao psicólogo, ao psiquiatra ou ao psicanalista, mas como por norma esse não é Iniciado, age só sobre o cérebro e não sobre a mente, cura o efeito com o efeito e como a causa se mantém, a doença mental também. De maneira que o paciente melhora mas não fica sanado, pelo que vez por outra sobrevém nova crise e assim até à morte, doente toda a vida, do berço ao túmulo, sem que a cura seja descoberta por se desprezar o Espírito e confundir o mecanismo físico cerebral com o mental subtil que por ele age.

Essa foi razão mais que suficiente para René Guénon (in Formas Tradicionais e Ciclos Cósmicos) afirmar com muitíssima propriedade: “[…] a psicanálise inverte as relações normais do “consciente” e do “subconsciente”, como também se apresenta, em muitos aspectos, como uma espécie de “religião invertida”, o que demonstra em que fonte pode estar inspirada, e a função pedagógica que pretende desempenhar e a sua infiltração nos diversos métodos chamados de “nova educação”, também são algo bastante significativo…”.

Nesse sentido, uma Escola Iniciática verdadeira, com verdadeiros dirigentes espirituais à dianteira, colocando os interesses da Humanidade acima dos seus, assim não correndo o risco de se tornar uma Escola Negra ambicionando o poder do Mundo e a soberania sobre as mentes humanas, dizia, nesse sentido uma Escola Iniciática poderá ser comparada a um “Hospital Psiquiátrico”, por ser onde se cura a enfermidade (kármica) da alma humana.

Todas as Escolas Iniciáticas verdadeiras, credenciadas pela Tradição Iniciática das Idades de quem são fiéis depositárias, têm por finalidade precípua curar a enfermidade psicomental dos que a elas chegam e se tornam discípulos indo postular e evoluir através dos seus Graus, dos seus diversos tipos de Iniciação e pelos vários modos que os conduzam diante do Altar de Deus, ou seja, da Realização Integral do Corpo, da Alma e do Espírito.

De maneira que não há Colégio de Iniciação que não advogue junto dos seus afiliados o exercício físico de práticas de cariz psicomental e espiritual, de maneira a realinharem as diversas expressões da consciência indo conhecer-se a si mesmos ao, gradualmente, despertarem sentidos e sensações que jamais pensaram haver neles. Este é o objectivo da meditação e de toda a práxis estipulada ao sanctum privado (lugar do lar reservado aos estudos e práticas espirituais) de um e de todos esses afiliados. A inibição do exercício regular do mesmo inevitavelmente afastará da Egrégora (“secará a Fonte oculta”, diria alguém) indo arrastar à dúvida e suspeição face ao imediatismo das coisas; nem poderia resultar de outra maneira, posto tratar-se do método pessoal da descoberta última de si mesmo, consequentemente, do levantar dos véus dos Mistérios da Natureza. Isto é a verdadeira Iniciação.

A constituição física comum possui os micróbios orgânicos, enquanto a alma tem os seus miasmas psíquicos, de natureza análoga à daqueles, os quais devoram e destroem essa mesma alma psicomental, ou seja, a personalidade tanto dos discípulos desatentos das Escolas Iniciáticas como de qualquer outra criatura humana.

O desajuste da personalidade, a neurose, a hidrofobia e a hipocondria – pode-se dizer sem receio de errar – são contagiosas e não raro carecem de isolamento. Donde o provérbio popular sentenciar: “Uma má ovelha perde todo o rebanho”. Assim, também, quando numa colectividade há uma ou mais pessoas desajustadas, toda ela não vive em paz. Por isso, disse Aurobindo: “A infelicidade humana é uma questão de desequilíbrio”.

O Professor Henrique José de Souza (JHS), afirmou: “Cada um nasce na família com a qual tem afinidades ou qualquer ligação kármica”. Se o discípulo desequilibrar a sua vida cometendo actos contrários à Lei da Evolução, ao Perfeito Equilíbrio, tem necessariamente de nascer em uma família desajustada, para que pela Iniciação possa ajustar-se e igualmente ajustar o agregado familiar. Nesses casos a Lei do Karma, ou da Causa e Efeito, é severa. O Homem tem livre-arbítrio, pode fazer o que quiser, para o bem ou para o mal, mas se a sua inclinação for para esse último contrariando o ritmo harmónico da Natureza, esta irá depois procurar o reequilíbrio, o que equivale ao resgate doloroso por efeitos de causas geradas.

Qual a terapêutica usada por JHS a fim de ajustar os seus discípulos? Utilizou o método natural ou eubiótico da harmonia simbiótica do Homem consigo mesmo e o seu semelhante, da Humanidade com a Terra e da Terra com o Universo. Para auxiliar nesse trabalho de verdadeira Iniciação outorgou aos mesmos discípulos Mantrans, Visualizações, Formas-Pensamento, Yogas especiais, Rituais, Revelações (Conhecimentos do Futuro) e, não raro, aconselhando-os a trabalhar sempre pelo Mundo, e sempre recomendando a autocrítica. Por Lei ou por efeito da Lei, é que comumente se diz: “Os semelhantes atraem os semelhantes”, logo, os desajustados atraem os desajustados e os ajustados atraem os ajustados. Por via de regra, os desajustados unem-se para dar combate aos ajustados. Desse desajuste universal é que surgiu a eterna luta entre magos brancos e magos negros, a qual vem atravessando os milénios feitos de séculos infindos.

Sem dúvida que os desajustados temem a Verdade, por terem pavor de A contemplar face a face. O que é o mago negro? É o mago branco desajustado. Quando a sua estrutura psíquica é invadida por grande quantidade de miasmas, acontece a doença da neurose e até mesmo a loucura. Esta pode ser encapotada por sanidade aparente, inclusive por algum cabedal de lógica e retórica, mas serão essas mesmas palavras e actos quem a irão revelar. É assim que surge o fenómeno “pop” dos “canalizadores cósmicos”, “reikis siderais”, “conspiradores extraterrestres” e outras coisas mais e más do género à solta por não haver, afinal de contas, quem tenha mão nesses pobres de espírito e piedosamente os conduza ao internato clínico a fim de receberem o tratamento necessário, visto que a alucinação mística por excesso de cultivo onírico em tempo algum ser sinónima de Iluminação Espiritual. Ademais, a maioria dessa literatura revelando-se esquizofrénica e paranoica, delirante como é todo o estado onírico ou psíquico, insere-se em um dos tratamentos psiquiátricos advogados aos doentes neuro-depressivos: que escrevam, desenhem ou pintem para assim desenvolverem, exteriorizarem as suas capacidades psicomentais e psicomotoras e superarem os estados de neurose depressiva capaz de, em condição extrema, deixar o cérebro empedernido em total estado vegetativo, quando não indutor mórbido de ideias suicidárias. Isso faz parte do tratamento, não têm outra valia nem utilidade senão essa. Jamais um médico irá pensar que o seu doente é um escritor, desenhador ou pintor… e de facto jamais um escritor, desenhador ou pintor pensará estar a lidar com os seus pares sempre que se depara com redacções grotescas, desenhos infantis e pinturas alucinadas vazadas, por exemplo, no moderno meio de comunicação virtual de multiusos chamado internet.

Essa minha opinião, que reconheço ser um tanto agreste e rumar contra a maré da opinião geral aceite, ainda assim não será exclusiva, inclusive para o próprio Fernando Pessoa que pelo heterónimo Alberto Caeiro, em O Guardador de Rebanhos – Poema XXVIII (1.ª publicação in revista Athena, n.º 4, Lisboa, Janeiro de 1925), diz:

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.

Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

É necessário compreender o por que das fantasias delirantes assumidas realidades extraordinárias por certas pessoas que, umas mais que as outras, fazem fé piamente nelas, no produto do seu subconsciente. Por isso é que se torna necessário entender o mecanismo da consciência física a qual, nesses casos, está em choque ou atrito com a consciência psíquica, sendo que no homem comum a inteligência imediata é o produto resultante das suas emoções e pensamentos, o que se chama consciência psicomental ou, em bom sânscrito, kama-manásica. Por esta razão é que o cérebro, com a sua semiconsciência orgânica, só age após estimulado por imagens provindas do veículo emocional, nascidas de ideias suscitadas pelo corpo mental. Os três interagem quase em simultâneo. A consciência física dota-se de algumas propriedades específicas, as quais passo descrever:

1.ª – Dispõe de grande autonomia.

2.ª – Parece incapaz de apanhar uma ideia excepto sob a forma em que ela mesma seja a autora, donde resulta que todos os estímulos provindos do exterior ou do interior sejam imediatamente traduzidos em imagens. É incapaz de apreender as ideias abstractas, as quais ela transforma logo em percepções imaginárias.

3.ª – Todo o pensamento dirigido para qualquer lugar afastado torna-se para ela um deslocamento para esse lugar. Por exemplo, um pensamento sobre a Grécia imediatamente transporta a consciência em imaginação para a Grécia.

4.ª – Não tem nenhum poder de julgar a sequência, o valor ou a realidade objectiva das imagens que lhe aparecem. Ela aceita-as como se apresentam e jamais se surpreende com o que lhe acontece, por mais absurdo que seja.

5.ª – Acha-se submetida à associação de ideias, e por isso uma série de imagens sem outro laço que a sua associação no tempo pode baralhá-las, dando como resultado a mais espantosa confusão.

6.ª – É singularmente sensível às mais fracas influências exteriores, tais como os sons e os contactos.

7.ª – Tem a propensão para aumentar e deformar as ideias, em proporções enormes.

É assim, pois, que o cérebro físico é capaz de levar à confusão, ao exagero tanto no estado de vigília como no de sono com sonhos. Quando em estado de vigília, o cérebro é afectado por todo o tipo de pensamentos provindos do exterior, mas quando se dorme essa influência é ainda maior, pois a parte etérica do cérebro é muito mais sensível que o órgão físico em si mesmo, assim dominando o cérebro “paralisado” ou “desligado” do estado imediato. Todo o pensamento errático que se acha no cérebro do adormecido, qualquer coisa que esteja em harmonia ou simpatia com ele, com as suas apetências pessoais, aloja-se nesse órgão e põe em movimento toda uma série de ideias e de imagens quase por norma desencontradas, logo desconexas, sendo por isso que um homem de cérebro não controlado está sujeito, quando dorme, a todo o tipo de influências, as quais não o atingiriam se o Espírito controlasse a mente.

A enfermidade psíquica – onde o foro psiquiátrico deve agir com conhecimento exacto das causas provocadoras dos efeitos – traduz-se por conflito interior, dor de consciência, sofrimentos morais, sentimento de culpa, o martelar constante da consciência inquieta. A sua cura está evidentemente no ajuste, no equilíbrio das duas consciências física e psíquica, o qual irá promover a paz interior e a consequente cura psicomental reagindo positivamente sobre a cerebral. Nesse ponto do equilíbrio consciencial, começa então a funcionar a razão pura, a ponderação, a madureza e a maturidade psicofísica.

Voltando ao facto de quão tenebrosos são certos movimentos psicanalistas de cunho e alcunha “trilogia, dianética, cientologia, etc.”, muito aparentados a hodiernas seitas carismáticas ditas “igrejas universais”, lembro que os seus métodos são muito semelhantes aos que foram utilizados contra Helena Petrovna Blavatsky na América do Norte e na Índia pelos missionários evangélicos, os metodistas e os jesuítas, visto os modelos dos seus métodos servirem agora ao modus operandi dos modernos movimentos psicanalíticos transformados em “novas religiões”, mexendo directamente com aquilo que é mais sensível à criatura humana: o sistema endócrino-cerebral, a ponto de destruírem-lhe completamente as defesas psicossomáticas, e isto é pura magia negra aberta e descarada. Sim, porque dominando a mente humana dominam o mundo.

A psicanálise sem qualquer base verdadeiramente espiritual acaba sendo, sob o encapotado da cura clínica ou médica, vampirizadora da psique individual e colectiva, tema que remeto novamente à consideração avalizada de René Guénon, desta feita no capítulo 34 do seu livro O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos:

“… Fazendo apelo ao “subconsciente”, a psicologia, tal como a “filosofia nova”, tende cada vez mais a juntar-se à “metapsíquica”; e, na mesma medida, aproxima-se inevitavelmente (…) do espiritismo e de outras coisas mais ou menos semelhantes, todas apoiadas nos mesmos elementos obscuros do psiquismo inferior.

“… Os psicanalistas podem naturalmente, na maior parte dos casos, estar tão inconscientes como os espíritas sobre aquilo que se encontra por detrás disso tudo; (…) uns e outros são “levados” por uma vontade subversiva (…) que corresponde às intenções, sem dúvida diferentes, de tudo quanto possam imaginar aqueles que são os seus instrumentos inconscientes, pelos quais se exerce a sua acção.

“Nessas condições, (…) o (…) uso da psicanálise (…) é extremamente perigoso para aqueles que a ela se submetem, e até para os que a exercem, porque essas coisas são daquelas que nunca se manipulam impunemente; não seria exagerado ver nela um dos meios especialmente utilizados para aumentar o mais possível o desequilíbrio do mundo moderno.

“Falamos em “falsificação”, esta impressão é grandemente reforçada por outras constatações, como a desnaturação do simbolismo (…), desnaturação que tende, aliás, a estender-se a tudo que comporta essencialmente elementos “supra-humanos”, tal como mostra a atitude a respeito da religião e até de doutrinas de ordem metafísica e iniciática (…), que também não escapam a esse género de interpretação, a tal ponto que alguns chegam mesmo a assimilar os seus métodos de “realização” espiritual aos processos (…) da psicanálise.”

A desnaturação do simbolismo sagrado trata de levar para estados psicológicos imediatos, misto de oníricos e lúdicos, assim como para a adulteração ou perversão da condição vivencial puramente espiritual de santos, sábios e até de preceitos de ordem estritamente iniciática, logo, espiritual, reduzindo-a a “fantasia poética” que procura justificação nos mesmos estados oníricos e lúdicos, a despeito do simbolismo sagrado e da vivência espiritual serem absolutamente estranhos a quaisquer e controversas análises psiconeurológicas com presunção de diagnosticar o comportamento da colectividade, do indivíduo e das coisas animadas, a começar pelas sagradas (a psicanálise resume-se a isto); indivíduo que ela, psicanálise manceba da psiquiatria, considera um doente contínuo cingido a traumas sexuais ocorridos na infância arrastando-se pela vida afora (onde os seus sonhos e ambições servem como chave de interpretação e diagnóstico do seu “estado imediato”), por isso que, ainda para ela, a psicanálise, ele, o “doente contínuo”, não raro procura a “solução ao seu estado mórbido” na “cura pela religião”, logo, assumindo nova e retumbante “paranoia erótico-religiosa”, ficando ainda “mais doente” do que já estava. É assim, dizia, que a Tradição Primordial, Universal, e até mesmo qualquer tradição religiosa local, popular, são disformadas em uma crença francamente subversiva, satânica. Portanto, caríssimo leitor, sugiro acautelar-se ante o que lhe oferecem, porque “quando a esmola é grande o pobre desconfia”: em meio de uma sociedade materialista dessacralizada como é a actual, é bem verdade que as trevas são mais insinuantes que a Luz.

Voltando a Fernando Pessoa, pois tudo quanto disse atrás anda em volta dele, a sua natureza tímida e reservada abstinha-o no plano imediato das multidões e dos convívios de salão entre distintos e famosos (hoje chamar-se-ia jet-set), mas para todos quantos em Lisboa o conheceram na “Brasileira do Chiado”, no “Nicola”, no “Martinho da Arcada”, em Cascais ou em Sintra, era um Mestre de Pensamento, um homem lúcido, ponderado, calmo, entendedor da natureza humana e, sobretudo, o Iniciado por excelência. A comprovar isso, têm-se os testemunhos directos dos que com ele conviveram, dentre muitos outros João Gaspar Simões, Costa Brochado, Almada Negreiros e Agostinho da Silva, mas também os testemunhos fidedignos de Carlos Blanc Portugal, Josué Pinharanda Gomes, Leonardo Coimbra, António Telmo e António Quadros, entre tantos mais, boa parte deles do meu convívio pessoal o que muito me honrou e honra.

Acerca da homossexualidade do poeta – que hoje é coisa que assenta bem em qualquer artista ou intelectual e se deve aplaudir, seja-se ou não homofóbico – a sua relação com Ofélia Queiróz (a sua “menina Ofelinha”) desmente categoricamente tal, além de nunca ter se mostrado avesso ao belo sexo, muito pelo contrário, e se rompeu com Ofélia, a sedentária e casadoira jovem secretária de escritório, cujos interesses não passavam do comum e vulgar indo chocar e destoar inteiramente daqueles muitíssimo mais elevados de Pessoa, que ela não compreendia e até a aterrorizava, razões mais altas se levantaram. Estão claramente expostas na carta do poeta a Ofélia, datada de 29 de Novembro de 1929:

“Que isto de “outras afeições” e de “outros caminhos” é consigo, Ofelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.”

Esse vínculo secreto e muito pessoal aos Adeptos da Boa Lei, os Superiores Incógnitos da Humanidade com Posto Representativo em Sintra (Serra Sagrada a quem dedicou alguns dos seus poemas), como um certo Henry Moore referido em fugaz “nota psicográfica” (modalidade linguística usual que não passava disso, pois a acção oculta dispunha-se fora de qualquer mecânica mediúnica, passiva e inconsciente, no sentido comum do termo), já antes Fernando Pessoa o expressara em carta dirigida a Corte Real, escrita em 19 de Novembro de 1915:

“[…] De modo que, à minha sensibilidade cada vez mais profunda, e à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade literária, mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. […] Ter uma acção sobre a Humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a Civilização vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida.”

Quanto ao pretexto de carência ou mesmo ausência afectiva materna e empós, já adulto feito, conjugal, terem sido o motivo principal do seu desajuste psicofísico, revelado como ânsia permanente e abstrata ou de alguma coisa indefinida por adquirir, que o deixava num estado constante de insatisfação e reclusão hipocondríaca quase maníaca, a verdade factual mostra-se muito diferente dessa análise supérflua e equivocada quanto baste. A “carência afectiva”, bem vistas as coisas, terá apenas sido a alavanca psíquica e sofrível – por a sua transformação psicomental apartá-lo consciencialmente do comum das gentes dispondo-o num permanente estado de solidão interior, onde o seu entendimento do mundo não obtinha a reciprocidade desse mesmo mundo o entender –  necessária para projectar Fernando Pessoa a esse outro Amor encoberto, Amor espiritual retratado idealmente na Dama desejada (a sua “Bebé”), afinal não sendo Ofélia nem a sua mãe mas unicamente, como veio a compreender na carne pelo desejo inexplicável de uma sexualidade superlibídica, rarefeita e mental, a sua Alma encoberta, o seu Outro, o Eu Superior que assinalou no “Guardador de Rebanhos” (os vários “eus” insublimados, o mesmo que nidhanas ou “vícios” para os místicos orientais) do heterónimo Alberto Caeiro, o Mestre, e desta maneira Ofélia, como feminino derivado de Orfeu, tão-só representaria a Divina Mãe Sabedoria.

Essa sublimação da libido é factor caríssimo à psicanálise, todavia cingindo-se ao limite estreito das imagens afectivo-sexuais retidas no subconsciente afim ao passado, e que por as considerar indicadoras de factores imediatos não resolvidos vêm a oprimir, a condicionar o consciente presente porque se molda o perfil, a personalidade, e esta é interpretação completamente profana, por conseguinte, naturalmente equivocada por, mais uma vez, pretender sanar os efeitos com os efeitos. A mesma “libido sublimada” será sobretudo não a pretendida sublimação afectiva mas a superação da consciência pelo despertar interior, pela subtilização dos sentidos grosseiros imediatos, por essa Energia Ígnea que os orientais chamam Kundalini e os ocidentais Fogo Criador do Espírito Santo, discorrendo da base da coluna vertebral ao alto da cabeça e daí volvendo abaixo, num eterno sobe-desce (de que o episódio bíblico do “sonho de Jacob”, com os Anjos subindo e descendo a Escada do Céu à Terra e desta àquele, é uma alegoria das mais significativas), com o qual o líquido encéfalo-radiquiano tem ligação profunda por nele se encontrar a explicação médica e científica, sobretudo iniciática, tanto do factor sexual como da actividade mental e da ligação entre ambos.

Esse processo alquímico de transcendência interior, levou o poeta a desabafar, como revela José Amaro Dionísio em Os passos da morte (in semanário Expresso, sábado, 4 de Junho de 1988): “A solidão desola-me, a companhia oprime-me”.

Confrontando o Amor Ideal com o amor passional, que ele sabia distinguir, confessa-se em tom de desabafo à casta e casadoira Ofélia Queiróz – que ora se deixava seduzir, ora lhe fazia as cruzes – em carta de 29 de Setembro de 1929:

“Resta saber se o casamento, o lar (ou o que quer que lhe queiram chamar) são cousas que se coadunem com a minha vida de pensamento. Duvido.”

Se por isso ele procurou a “prata da casa”, o conforto nos braços de um homem preferido à mulher, como sugere o psiquiatra autor do intragável pasquim, então também se poderá dizer que “o intestino delgado da formiga está onde o senhor doutor devia ter a massa encefálica”. Considero que o próprio Fernando Pessoa responde neste outro excerto da carta por último citada:

“É preciso que todos, que lidam comigo, se convençam de que sou assim, e que exigir-me os sentimentos […] de um homem vulgar e banal, é como exigir-me que tenha os olhos azuis e cabelo louro. E estar a tratar-me como se eu fosse outra pessoa não é a melhor maneira de manter a minha afeição.”

Isso mesmo é testemunhado pelo seu companheiro de tertúlias no Café Montanha, Francisco Peixoto de Bourbon, quando afirma com a certeza de quem sabe porque o conheceu em vida (in semanário Expresso, sábado, 4 de Junho de 1988): “Há muitas ideias feitas à sua volta que não correspondem à verdade, e insinuam-se coisas, como um pretenso homossexualismo, que não passam de calúnias. No que respeita à sua maneira de ser e de estar na vida, o Fernando Pessoa era a antítese de tudo o que se tem dito dele”.

Quanto às alegações prescritas no dito pasquim candidato a raridade literária (e de facto a é no mau sentido): “1.ª) morbidez psíquica, 2.ª) alucinações, 3.ª) fobias, 4.ª) obsessões”, vistas à luz das causas geradoras dos efeitos, na realidade elas serão:

1.ª – O homem triste por estar no mundo não sentindo apetência a participar na vida comum do mesmo, das suas alegrias e gozos mundanos, sentindo-se morrer diariamente para viver mais eternamente, isto é, cada vez mais se sentindo morrer mundanamente e renascer espiritualmente. Esse é o estado psicomental de quem transcendeu os interesses useiros e vezeiros do vulgo e comum, estando com a sua consciência em plena travessia da ponte ou condição interior que separa um mundo do outro. Consequentemente, o epíteto “morbidez psíquica” não corresponde à realidade por Fernando Pessoa não se manifestar neurótico nem hidrofóbico em momento algum (tirando os seus “escapes” literários em curtas notas soltas, que direi por que mais adiante), razão porque não necessitou, em toda a sua vida, de espécie nenhuma de tratamento (seja receituário, seja internato) em alguma Casa de Saúde Mental. Angústia existencial certamente a teve, como todos quantos estão no Caminho da Verdadeira Iniciação a têm vez por outra, mas isso é muito diferente da morbidez d´alma.

2.ª – As “alucinações” de Fernando Pessoa são as mesmas de todos os psíquicos potenciais, mas isso nada tem a ver com estados alterados de consciência física misturados caoticamente aos da consciência psíquica, como acontece com a maioria dos doentes mentais incapazes de distinguir o real do irreal. Nestes últimos casos, é costume recorrer-se à intervenção medicamentosa com base opiácea, os psicotrópicos, o que deixa o doente num estado alterado de sonolência induzida ausente de vontade própria. Também se recorre à hipnose clínica e, em casos extremos, aos choques eléctricos e aos banhos de água fria. É desnecessário dizer que esses métodos são desumanos e completamente impróprios no tratamento eficaz de qualquer doente, por o deixarem num estado semivegetativo não raro para sempre. Felizmente a Medicina tem evoluído, além de haverem outros métodos muito mais eficazes e… eubióticos, para restaurar a saúde psicomental desvalida.

Como Buda, Cristo, Maomé e outros mais Grandes Iluminados que têm feito avançar o Progresso da Humanidade, seguidos pelos melhores desta sustentando uma moral impeditiva da queda do Homem no selvagismo puro e simples, não passam de “paranóicos religiosos” e “místicos alucinados” para a classe dos psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, com as devidas e honrosas excepções, contrariando o Princípio da Incerteza de Heisenberg onde todos os factos são indesmentíveis até prova em contrário, então é “natural” que esses mesmos se alucinem nas suas próprias taras psicossomáticas e desdenhem o básico das “alucinações” metafísicas serem, tão-só, a visão supra-sensorial das várias camadas dimensionais de Espaço e Tempo, de que a Ciência Físico-Química só conhece três – comprimento, largura e altura / passado, presente e futuro, mas faltando a profundidade e a intemporalidade. Contudo, hoje mesmo a Ciência Experimental já conclui, com êxito, a probabilidade de haver outros espaços e energias dotadas de automatismo e consciência próprias, além do clássico espaço tridimensional a que o Homem está limitado. Desde logo se fala em quarta e mais dimensões, na curvatura do Tempo e do Espaço e na avenção experimental comprovativa de outros sentidos latentes além dos cinco comuns ao mesmo Homem, possíveis de o transportar a esse Espaço/Tempo ultradimensional e nele vivenciar estados de consciência impossíveis de outro modo. As experiências parapsicológicas realizadas nas universidades russas e norte-americanas, por exemplo, provaram cabalmente que o pensamento influi sobre a matéria e esta pode ser profundamente alterada por ele. Vários cientistas reputados desses países concluíram que os fenómenos paranormais, ou parapsicológicos, por eles observados após levarem à sua provocação experimental (o que está muitíssimo documentado), assemelhavam-se (não que fossem idênticos, que é coisa diversa de semelhantes) em tudo aos dos santos da Igreja Cristã, aos dos yoguis da Índia, aos dos hierofantes do Antigo Egipto ou aos dos teurgos e taumaturgos celebrizados nos anais da História e nos textos sagrados de todas as religiões tradicionais.

Chegado a este ponto, é notório e risível que o médico em questão apesar de “escuro-vidente” assumiu-se “psiquiatra do Além”, ao fazer o diagnóstico clínico de quem faleceu há mais de 50 anos e nunca conheceu de parte alguma, a não ser por folhas soltas do seu espólio literário. Mas que Fernando Pessoa era clarividente prova-o bem na sua carta à Tia Anica [D. Ana Luísa Nogueira de Freitas], redigida em Lisboa a 24 de Junho de 1916, da qual extraio alguns excertos deveras elucidativos para uma clara compreensão do seu verdadeiro perfil psicológico:

“Há momentos, por exemplo, em que tenho perfeitamente alvoradas de “visão etérica” – em que vejo a “aura magnética” de algumas pessoas, e, sobretudo, a minha ao espelho, e, no escuro, irradiando-me das mãos. Não é alucinação porque o que eu vejo outros vêem-no, pelo menos, um outro, com qualidades destas mais desenvolvidas. Cheguei, num momento feliz de visão etérica, a ver, na Brasileira do Rossio, de manhã, as costelas de um indivíduo através do fato e da pele. Isto é que é a visão etérica no seu pleno grau.

“[…] Às vezes, de noite, fecho os olhos e há uma sucessão de pequenos quadros, muito rápidos, muito nítidos (tão nítidos como qualquer cousa no mundo exterior). Há figuras estranhas, desenhos, sinais simbólicos, números (também tenho visto números), etc.

“[…] Há mais curiosidade do que susto, ainda que haja às vezes cousas que metem um certo respeito, como quando, várias vezes olhando para o espelho, a minha cara desaparece e me surge um fácies de homem de barbas, ou um outro qualquer (são quatro, ao todo, os que assim me aparecem).”

Esses rasgos de visão extrafísica seriam reafirmados pelo professor António Telmo o qual, em tertúlia privada em sua casa, contou o seguinte episódio ocorrido com Pessoa, que pela primeira vez reproduzo conforme ouvi dele:

Em Lisboa, vindo Fernando Pessoa, acompanhado do seu amigo Francisco de Bourbon, da Rua 1.º Dezembro para a Praça do Rossio, depararam-se com o sururu de uma multidão em volta de um eléctrico acidentado. Saltara dos carris após colher mortalmente um transeunte. Ainda lá estava o corpo trucidado debaixo dos rodados. “O homem morreu!”, diziam uns para os outros. Pessoa, que de repente ficara pálido com os olhos fixos na cena trágica, replicou a Bourbon o espantoso que lhe arrancou calafrios: “Mas o duplo ainda aí está, e ao seu lado há três outros…”. E calou-se.

Segue-se, naquela mesma carta à Tia Anica, o fundamental quanto ao despertar interior de Fernando Pessoa, quase ou de certeza desfechado com a sua aceitação no seio da Fraternidade dos Mestres Ocultos do Mundo, de que o indicativo Marid, Maridj, Maris ou Mariz não é alheio em vários textos esparsos do poeta:

“O que me incomoda um pouco é que eu sei um pouco mais ou menos o que isto significa. Não julgue que é a loucura. Não é: dá-se até o facto curioso de, em matéria de equilíbrio mental, eu estar bem como nunca estive. É que tudo isto não é o vulgar desenvolvimento de qualidades de médium. Já sei o bastante das ciências ocultas para reconhecer que estão sendo acordados em mim os sentidos chamados superiores para um fim qualquer que o Mestre desconhecido, que assim me vai iniciando, ao impor-me essa existência superior, me vai dar um sofrimento muito maior do que até aqui tenho tido, e aquele desgosto profundo de tudo que vem com a aquisição destas altas faculdades. Além disso, já o próprio alvorecer dessas faculdades é acompanhado de uma misteriosa sensação de isolamento e de abandono que enche de amargura até ao fundo da alma.

“Enfim, será o que tiver de ser.

Eu não digo tudo, porque nem tudo se pode dizer. […] Estas cousas são anormais sim, mas não antinaturais.”

Ainda sobre a Tia Anica, tia materna do poeta e médium afamada de Lisboa. Em sua casa realizava sessões de espiritismo e Fernando Pessoa assistiu a algumas delas, mas que eram muito mal vistas pela vizinhança em breve descambando numa avalanche de boatos: ali faziam-se orgias de todo o tipo e consumia-se cocaína e ópio a rodos. O “diz que disse” pegou até hoje: vem daí a ideia abstrusa de Fernando Pessoa além de “homossexual” ser também “drogado” em cocaína e ópio, o que lhe afectou sobremaneira o sistema neurológico, ou seja, o ser mais alucinado do que lúcido. O próprio poeta pegou nessa invenção da má-língua e, como bom “blagueur”, gozou com ela glosando-a no papel, mas em boa verdade não passando disso mesmo: pura e simples “blague”. Agora, pergunto eu: como é possível a alguém que se tenha por pessoa de bons princípios, fazer um levantamento biográfico e psicológico minimamente credível só baseado em boatos populares, nascidos da ignorância e da superstição temerosa?

3.ª – As “fobias” de Fernando Pessoa já as expliquei, ele próprio foi suficientemente claro na sua carta citada por último, pelo que desnecessito repetir-me. Ainda assim, algo mais tenho a acrescentar em continuação da alínea 2.ª: antes de tudo, convém não ignorar que a Humanidade reparte-se por vários escalões de consciência em conformidade ao temperamento e apetência individual afectando o colectivo – bem conformado ao estado evolucional já alcançado, o que é comprovável, visível e tangivelmente, em cada pessoa pela sua inteligência e pelo seu sentimento, maiores ou menores, mais ou menos grosseiros, com estes ou aqueles interesses, sim, porque o interesse imediato não deixa de ser a causa de um efeito produzido anteriormente e subjacente à sua “psique” ou “ego” (Freud chamar-lhe-ia “super-ego”).

É nesse mesmo “ego” que a hodierna análise e diagnóstico clínico (da psicologia, psiquiatria, psicanálise, etc.) procura as respostas para o comportamento humano, individual e colectivo. Como a acção mental leva à reacção corporal, logo a sintomatologia clínica conclui que o cérebro é a “alma” das religiões e a “libido” o leitmotiv desencadeador do fenómeno da exteriorização dos interesses humanos, e esta é, sucintamente, a bula clínica explicadora dos fenómenos do comportamento humano (sejam quais forem, onde sobretudo a psicanálise realça sempre, quase maníaca-compulsiva, a fenomenologia religiosa como “inimiga adversária” a abater), e como o cérebro se secciona em multivariadas “especialidades” mentais, logo, quando uma dessas secções está mais activa o interesse correspondente impõe-se aos restantes. Se a coisa for levada ao extremo em detrimento da restante actividade cerebral, então apelida-se de paranoia sem mais delongas, não separando o factor interesse místico, resultante da actividade cerebral normal afim a esse interesse, nem subtraindo o indicativo de boa saúde mental da alteração cerebral provocada por enfermidade de um ou de todos os sentidos, geradora de alucinação psicomental que induz, esta sim, a paranoia, ou seja, literalmente “fora de “Si”, do normal”, ficando assim praticamente explicado todo o fenómeno religioso e místico. De maneira que, para tais analistas clínicos, todos os religiosos e místicos são “visionários e paranoicos”. Por que? Clinicamente, por uma ou mais secções cerebrais falharem ou embotarem provocando as anomalias dos sentidos e consequentemente do comportamento. A psicanálise pretende explicar isso muito bem (???) no pretenso (inglório) de esventrar os comportamentos psicológicos de Cristo, de Buda ou de Krishna, por exemplo, através da sua interpretação profana, anti-tradicional e contra-iniciática, dos textos sagrados das religiões afins aos mesmos. Mas estarão a psicanálise e a sua associada, a psiquiatria, correctas? Estará assim tão certo e tão redutivo, tão niilista e tão deprimente esse levantamento clínico do comportamento humano, em que a “alma” não passa de um pedaço de carne animada por sangue e nervos, agindo por hábito mecânico que é a inteligência repetitiva como sendo a própria razão do Homem? Duvido, e muito.

Dessa maneira explicam-se clinicamente os fenómenos místicos e religiosos, admitindo-se as religiões não passarem de criações humanas produtos de simples devaneios lúdicos dos sentidos, assim se inventando uma razão maior para a causa da existência e das suas contradições flagrantes sem explicações aparentes mas fazendo parte da mecânica cega do Universo e dos seus organismos vivos formados do acaso, que é a única ordem havendo no caos. Por tão grande positivismo o mais pedante possível e que realmente é negativismo, porque relativamente ao ser humano considera-o em contínuo estado de negação e culpabilização, ante as evidências imediatas acabo induzido a diagnosticar, mesmo não sendo médico, o grave factor paranoia em muitos clínicos de ciência neurológica. Por que “pedantismo clínico”?

Por de antemão saber-se que o pensamento não é um objecto físico, nem as correntes eléctricas que percorrem, se chocam e animam o cérebro e o cerebelo poderem ser provocadas pelo sistema neuro-espinal, por ser este quem é animado por aquelas, facto facilmente comprovável num bebé que já manifesta guturalmente os seus interesses mas não tem qualquer domínio sobre o corpo tenro. Isto leva a deduzir que a mente ou o pensamento é distinta do cérebro, seu veículo, e que as correntes e descargas eléctricas deste só poderão ter uma causa originadora: aquele, o pensamento. Tanto assim é que hoje até um clínico medíocre sabe que o pensamento antecede o impulso electrocerebral. Mesmo na morte clínica ou paragem cardíaca, sabe-se que ainda não aconteceu a morte cerebral ou, como se diz em psicanálise, o desligar da mente (grande verdade, apesar dos que a proferem desconhecerem o seu verdadeiro sentido). É assim que quando há a morte cerebral ou apartamento mental e mantém-se a restante vida orgânica, o corpo não responde, fica num estado vegetativo, mesmo com o sistema nevro-sanguíneo mantendo-se vivo mas não activo por lhe faltar o impulsor neuro-cerebral, tal como a este falta o pensamento ou inteligência por estar incapaz de manifestar-se no órgão danificado.

O mesmo pode-se dizer das emoções em relação ao coração. Será o órgão nobre quem as provoca após a reacção química suscitada por um qualquer reconhecimento simpático ou antipático dos sentidos, principalmente da visão que é o sentido da luz reflectora, sabendo-se que nem todos vêem da mesma maneira e que há espécimes animais que vêem o que o Homem não consegue ver, mas nem por isso deixando de ser real? Ou serão corpos distintos para os quais os sentidos não passam de agentes ao invés de princípios?

Tanto mais que hoje em Medicina Legal aplica-se ao cadáver o designativo “casco”, no sentido de “casca vazia”. Logo, significa que o seu “morador” original já não está lá. De maneira que, em princípio, pressupõe-se a existência de duas entidades distintas: o “casco” e o “morador”… que partiu. Para onde? Só a Teosofia, “Mãe de todos os saberes” por ter saber e experiência armazenados desde há milhares de anos, poderá responder com maior amplidão e lógica.

Também não será pedagógico nem razoável exigir da vasta e diversificada Humanidade que acompanhe de maneira igual os passos avante dos mais adiantados do seu Género. Isso nunca poderá resultar positivo, pois o que acaso sejam imperfeições para o mais adiantado no desenvolvimento da consciência, poderão ser perfeições para o restante comum. Mesmo assim, deve-se saber separar o estado normal dos menos adiantados mental ou espiritualmente do estado anormal dos que estão humanamente doentes. Isto é fundamental. É dever soberano do homem superior respeitar e até aceitar como normais as crenças e actos dos seus irmãos em Humanidade menos adiantados, não se imiscuindo no livre-arbítrio alheio, pois todos têm as suas experiências e vivências a fazer, o que leva a concluir que todas as verdades humanas são relativas!… Se, acaso, um homem superior presume-se com um pouco mais de consciência (eis uma outra palavra complicada, mas que resulta da essência do pensamento e do sentimento), então será seu dever ante a mesma Humanidade, na medida das suas possibilidades e oportunidades, colaborar de maneira não ostensiva e não impositiva na sua evolução ou desenvolvimento consciencial. Foi sempre assim a acção de todas as Escolas de Psicologia Esotérica em todos os tempos e, igualmente, de todos os verdadeiros Iniciados.

Uns mais depressa e outros mais devagar todos evoluem no seu espécime, o Hominal, e todos chegarão ao objectivo último, este aparentemente uma melhor condição humana e desde logo social, ainda que não seja somente isso. A experiência que cria maior consciência, essa sim é tão diversificada quanto é o Homem no individual e no colectivo. É muito natural que seja assim, visto ele ser a soma de toda a Natureza manifestada.

Dos últimos 500 anos para hoje, assistiu-se a um grande avanço intelectual e tecnológico por parte da Humanidade. Falta-lhe só equilibrar o intelecto com a moral. Por isso apareceu no século XIX o grande surto espiritualista para dar resposta ao maior mistério, ao gigantesco dilema do Homem: conhecer-se a si mesmo, encontrando a solução final para o magno problema da Vida, o da Felicidade Humana.

4.ª – A “obsessão” de Fernando Pessoa terá a ver com a “fobia” e a “paranoia” constantes que demonstrava através de um supranacionalismo e de um sebastianismo com que entendia Portugal, mas não passando de quimera obsessiva por não ser mais do que dar realidade à expressão literária imaginária dos antigos. Isto, é claro, no considerando do tal psiquiatra supracitado, assim parecendo pedante ao pretender ter domínio da História e do que realmente pensavam os sábios passados. Postas as coisas desse modo, concluo pelo cabal demonstrativo de senilidade por esse senhor e deste modo autorizo-me ao diagnóstico, mesmo não sendo médico, repito, de fortes e graves indícios de paranoia obsessiva apercebida na sua escrita esquizofrénica, demasiado apressada, acelerada em concluir, pelo que à sua paranoia mito-psiquiátrica creio ser muitíssimo mais saudável a mítica-espiritual de Pessoa, que bem preferia o seu patrono Padre António Vieira a um Sigmund Freud esquizofrénico de, diz-se, paixão solapada pelas sobrinhas, parecendo dotado de taras pedófilas como se denota em diversas passagens da sua biografia.

O V Império Lusitano de Fernando Pessoa e de todos os adeptos do Sebastianismo Branco, teosófico, esclarecido, bem o definiu o seu amigo e companheiro do Orfeu, Raul Leal, como o cita António Quadros em Fernando Pessoa e o “Império da Cultura” (no semanário Tempo, 28.4.1983): “A aliança de D. Sebastião, Imperador do Mundo, e do Papa Angélico, figura esta íntima aliança essa fusão do material e do espiritual. É o próprio Segundo Advento ou nova encarnação do mesmo Adepto em quem outrora Deus projectou o seu Símbolo, ou Filho, não faz senão figurar d´outro modo essa mesma aliança suprema. Não é pois para uma absorção mística que avançamos, sendo para a conjunção clara dos dois poderes da Força, dos dois lados do Conhecimento. Far-se-á a aparente conquista da inteligência material pela espiritual e da espiritual pela material. De aí ser o Império Português ao mesmo tempo um Império da Cultura e o mesmo Império Universal, que é outra coisa”.

O psiquiatra que me serve de mote à defesa humana, cultural e espiritual de Fernando Pessoa, consequentemente da Tradição Iniciática Portuguesa, para não dizer Universal, agiu sinistramente como um mago negro ao desrespeitar inteiramente as três coisas com que um espírito nobre nunca brinca, muito mais sendo ele médico, logo atraiçoando o Juramento de Hipócrates que fez para ter direito ao diploma de Medicina, como muito adequadamente ao presente, em palavras lembradas por José Amaro Dionísio (ob. cit.), o poeta diz: “Há três coisas com que um espírito nobre nunca brinca: os deuses, a morte e a loucura”.

Utilizando como dialéctica e retórica instrumentos mentais desconexos, esse psiquiatra vale-se de uma carta escrita por Fernando Pessoa mas assinada com o nome feminino Maria José, endereçada a um António que nunca existiu a não ser ele próprio. É neste documento que baseia toda a sua teoria anacrónica sobre o “homossexual paranoico” que considera ter sido o vate e poeta. Desde logo, duas impressões saltam-me à vista:

1.ª) Maria – José – António, este provindo do radical filológico Aton, o Sol Espiritual, o Filius. De maneira que Fernando Pessoa evoca prosaicamente a Santíssima Trindade (estando José para o Pai e Maria para a Mãe) na sua maneira peculiar de escrever, e 2.ª) faz a sua confissão ou autocrítica lançando no papel as suas nidhanas, as suas vicissitudes ou defeitos, livrando-se, desse modo muito seu, delas. Daí a dureza dos termos “hipocondríaco, esquizofrénico, paranoico, etc.” que emprega na carta em relação a si mesmo.

“Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim mesmo…”

Álvaro de Campos in Obras Completas

É uma forma de desabafar, de lançar para fora o peso enorme das inquietações e agruras quotidianas sem que, necessariamente, tenha de ser tudo de quanto se acusa. No fundo, trata-se do queixume íntimo de Pessoa à sua Individualidade Fernando, procurando o lenitivo interior, o estímulo superior, e fê-lo através da escrita que era a sua maneira de combater o “stress” psicossomático.

Ademais muitos, a maioria dos escritos contidos na pessoana “arca” são rascunhos, anotações e ideias do momento que o poeta anotou decerto para não se esquecer depois, umas suas e outras que ouviu de outros. É assim que se chafurda nas coisas mais íntimas e impublicáveis de um homem falecido, com o único fito interesseiro de se conseguir prestígio social e regalias económicas à custa de quem tão nobre, anónima e pobremente em seu tempo serviu a Língua Portuguesa sua Pátria, acabando por morrer só, abandonado na cama fria do Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, às 20:00 horas da tarde triste de 30 de Novembro de 1935, na única presença de Jaime de Andrade Neves, seu primo e médico, depois de anos, dias e noites seguidas, intermináveis de solidão e angústia pela feitura de uma Obra que se quer Divina.

As suas últimas palavras premonitórias ou de pressentimento da passagem próxima, escritas em inglês já no hospital no dia 29 vésperas de morrer, resultaram fatalmente certeiras: I know not what tomorrow will bring – “Eu não sei o que o amanhã trará”.

Sepultado no jazigo de família (Seabra Pessoa), no Cemitério dos Prazeres em 2 de Dezembro desse ano, em cujas exéquias Luís de Montalvor, em nome dos sobreviventes do Orpheu, proferiu um breve discurso, o féretro de Fernando Pessoa foi depois, em 16 de Outubro de 1985, trasladado com toda a justiça, e é onde deve ficar para todo o sempre, para o claustro do Mosteiro dos Jerónimos, onde ficou deitado junto à coluna tumular legendada, verificando-se na altura que o corpo mantinha-se incorrupto, estava tal qual quando falecera (talvez por ser inumado em caixão de chumbo, conforme a saúde pública obrigava, demorando o corpo longuíssimo tempo a “voltar ao pó”), ele que proclamara próximo das vésperas da sua morte: “Neófito, não há morte!”, e “nunca te deixes vencer pelos incompetentes”.

Será por tudo isso que o Pensamento de Pessoa “está deteriorado pelo seu perturbado estado mental”, o que “lhe impossibilitou possuir uma personalidade íntegra”?… Realmente, é preciso ser-se muito mau, nada saudável e imensamente ignorante para se afirmar e publicar calúnias dessa monta que só podem provir de um espírito doente, obsedado. A integridade de Fernando Pessoa como homem, escritor ensaísta e poeta, e sobretudo Iniciado, nada tem que se lhe aponte. Pode-se discordar da sua maneira de estar e agir, é natural e legítimo, mas querer destruir insanamente só por não se gostar dessa maneira de estar e agir, isso já não é natural.

Recordo as palavras de um Mestre Vivo (Morya Rajput), escritas na segunda metade do século XIX, acerca de uma outra incompreendida e injustiçada, Helena Petrovna Fadeef Hahan Blavatsky, as quais adaptam-se bem ao caso presente de Fernando António Nogueira Pessoa:

“Nós, pelo contrário, descobrimos diariamente na sua natureza interior traços muito delicados e refinados, que um psicólogo não-Iniciado nunca conseguirá descobrir nas profundezas desse mistério tão subtil – o mental humano – e um dos mecanismos mais complexos – o mental de H.P.B. – senão após muitos anos de observação constante e penetrante, acompanhada pelos esforços de análises cerradas; tal trabalho permitiria a esse psicólogo aprender a conhecer o verdadeiro Ser Interior de H.P.B.”

É claro que no caso do poeta o supradito psiquiatra não o fez, nem jamais poderia fazê-lo, porque Fernando Pessoa não existe entre nós há oito decénios e um ano. De maneira que enxovalhou a memória universal do Homem e demonstrou-se incapaz até em respeitar os mortos, pelo que, se eu fosse médico de carteira passada, diagnosticava-lhe traumas de um passado infeliz e a necessidade premente do seu inconsciente confessar publicamente a sua natureza doentia, como que pedindo desculpa por a ter.

Quanto à “ciclotimia” de que acusa Fernando Pessoa, ela se desdiz e desfaz perante o facto comprovado, pelos testemunhos dos que conviveram com ele, da sua tranquilidade e lucidez, como pessoa pouco excitável ou deprimível conforme as impressões e reacções emocionais do momento, visto a característica da sua natureza ser sobretudo mental. Seja como for e levando a coisa para o nível da psique humana, isso terá a ver com os estados de busca, de angústia e anseio mentais pelo encontro de soluções para problemas de índole metafísica, esta que foi o timão e norte de toda a vida do poeta. De maneira que ainda que todos os Iniciados não sejam “ciclotímicos”, serão ciclotímidos, se assim posso dizer, porque sabem e calam.

É assim que a “paranoia mítica” do poeta é largamente superada pela paranoia psiquiátrica de quem, certamente, pouco ou nada sabia sobre a verdadeira personalidade de Fernando Pessoa.

Não termino sem assinalar um outro ponto controverso que até ao momento tem servido para denegrir o poeta por parte de alguns dotados de um moralismo primário, puritano e castrante, como se fossem “a perfeição em pessoa”: o uso excessivo que fazia das bebidas alcoólicas.

Seja como for e mesmo nisso, não deixa de haver sabor a “blague” no alcoolismo excessivo de Fernando Pessoa. Lá que ele bebia, bebia… “Bebo como uma esponja, não. Como uma loja de esponjas, e com armazém anexo!”, gracejava confessando a Luís Moitinho de Almeida, filho do dono da firma comercial onde trabalhava. Que pretendia ele com afirmações degradantes desse género? Será que já não distinguia a realidade lúcida da alucinação alcoólica, por estar em fase adiantada de delirium tremens? Não creio. A resposta flagrante dá-a um seu parente afastado que com ele conviveu, o professor Calvet de Magalhães, um dos fundadores da Cooperativa de Ensino Árvore, no Porto: “Unanimidade há apenas em torno do facto de que “nunca ninguém o viu bêbado”, […] não bebia tanto assim, cultivava era essa fama, para chocar as pessoas, “blagueur” como sempre foi”. E remata o seu velho companheiro de tertúlias nos cafés da Baixa de Lisboa, Francisco Peixoto de Bourbon, definindo numa só frase concisa o perfil de Fernando Pessoa: “Um aristocrata no verdadeiro sentido da palavra, um puritano, um estóico e um espartano”. Por sua vez, a sua sobrinha “Mimi”, Maria Manuela Nogueira, questionada sobre a morte do seu tio “ter sido repentina ou por já estar doente?”, respondeu: “Não. As coisas que inventam agora — que foi do vinho, que foi daquilo — é tudo mentira. Não foi nada disso. Ele teve uma coisa que se chama “volvo”, que é um nó no intestino. Se fosse hoje em dia, era operado e ficava óptimo. Naquela altura não havia meios de diagnóstico, não se percebeu de onde vinham as dores que ele tinha. Deram-lhe remédios para as dores no hospital.”

Contudo, como causa da morte do poeta foi diagnosticada uma cólica hepática em adiantado estado crítico, originada pelo álcool consumido. Se bem que do ponto de vista clínico o diagnóstico acaso possa estar correcto, todavia deve-se também observar o diagnóstico oculto, e este só poderá ser feito à luz da ciência dos chakras, os “centros vitais” subtis do corpo humano, manifestando-se pelos plexos e as glândulas.

Sendo a cólica hepática doença de fígado, logo ligada ao aparelho intestinal e ao correspondente plexo solar, gástrico, além do álcool consumido, talvez e principalmente, ela tenha sido originada em Pessoa pela tensão nervosa da sua procura, intensa e permanente, em transmutar as energias do centro gástrico de maneira a elevá-las ao centro cardíaco. O seu adiantado estado psíquico motivado por uma vivência psicomental constante, conduzia o seu chakra gástrico, relacionado ao sistema emocional, a estados de congestionamento que ele procuraria desbloquear através de uma descarga ou catarse pela escrita, funcionando assim como método de “higienização psíquica”, o que lhe possibilitava um alívio temporário. Daí a razão e causa ocultas das suas confissões, referidas mais atrás.

Portanto, transmutava as suas emoções de fatalismo e angústia em ideais estéticos e místicos aportados dos níveis superiores do corpo emocional, este exprimindo-se por imagens, enquanto o corpo mental se exprime por ideias, o que também já foi dito. Quanto à sublimação da emoção em sentimento puro de Amor, tanto valendo por elevação do psíquico ao intuicional sito no centro cardíaco, tal processo pode ser extremamente doloroso para a alma que se vê despojada, desnudada, de todas as suas nidhanas ou “desejos” inferiores, passionais, provocando uma verdadeira “dor de parto” místico que o poeta procuraria atenuar através da bebida e recuperar parte da consciência orgânica, de facto já totalmente perdida e, anacronicamente, substituída por uma maior lucidez mental.

“Dêem-me de beber, que não tenho sede!” – dizia em vésperas da sua morte.

Terá Fernando Pessoa conseguido essa transmutação alquímica interior e consequente elevação redentora da energia inferior da Anima ao Animus espiritual? Os seus sinais psicológicos dizem que sim: a sua serenidade face ao inevitável, os momentos lúcidos antecedendo o seu passamento assumindo a tranquilidade de um sábio, do seu “Outro” Alberto Caeiro com o qual, finalmente, partia.

Tanto a sua vida como a sua obra assinalam que conseguiu a tríplice elevação dos “centros vitais” inferiores aos superiores, a despeito do sofrimento e solidão constantes na sua vida de Adepto que junto aos homens se pode gabar apenas de ser também ele homem, logo sujeito como qualquer um às angústias e incertezas podendo surgir inesperadas numa esquina qualquer da vida.

Essa tríplice elevação, é:

1.ª – A elevação das energias do centro gástrico ao centro cardíaco, ou seja, a sublimação da emoção passional em Amor Espiritual.

2.ª – A elevação das energias do centro esplénico ao centro laríngeo, ou seja, a sublimação da sexualidade em Criatividade Espiritual.

3.ª – A elevação das energias do centro sacral ao centro cranial, ou seja, a sublimação da autoafirmação em Vontade Espiritual.

Nessa transformação de Pessoa pela superação de Fernando e consequente metástase com o “Outro”, nessa derradeira, suprema e sublime vitória, muitíssimo mais importante que todas as vitórias de povos em guerra ou triunfos sociais por atropelos ao próximo, remata ele, o “Supra-Camões”, o Vencedor do Adamastor como matador da própria morte:

“Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.”

Alberto Caeiro in Obras Completas

Para fechar, com texto recolhido por Pedro Teixeira da Mota, endereço a todos os detratores presentes e futuros de Fernando Pessoa estas suas próprias palavras magistrais:

Deseja ardentemente a Luz, conhecendo-te a ti próprio nela.
Priva-te do Egoísmo, Vaidade e Orgulho.
Pensa fraternalmente, não alojes pensamentos maus
E tem o menos possível de pensamentos materiais.

CONHECE-TE A TI PRÓPRIO

Tríade Jina e Sistema Geográfico – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Out 8 2020 

A primeira frase do Mestre JHS – Prof. Henrique José de Souza – dirige-se à concepção dos sete Lugares Jinas que compõem um Sistema Planetário em volta do Sol Central, cada um desses Lugares com outros tantos subsidiários que em si perfazem, em volta do principal, igualmente um “micro”-Sistema Geográfico, consequentemente, sendo sete distintos no todo vêm a ser a universalização de sete Sistemas Planetários, ou por outra, de um Sistema Solar completo.

Revela-se “o que está em cima ser como o que está em baixo”, conforme o axioma de Hermes o “Três Vezes Grande” (Trismegisto), pelo Espírito, pela Alma, pelo Corpo. Assim, tal como os Chakras são as Embocaduras Anatómicas pelas quais o Jivatmã se manifesta no Corpo Humano, igualmente as Embocaduras Geográficas são as “Bocas” pelas quais se manifestam a Divindade Planetária (Logos) no Palco Terreno, e até mesmo sideralmente os sete planetas tradicionais (Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus, Saturno) vêm a ser as expressões da Consciência Una do Logos Solar agindo pelas mesmas. De facto, o Tudo está no Todo, e vice-versa.

Tem-se isso no Sistema Geográfico Sintrense e igualmente no Sanlourenciano, com Sete Postos em volta de um Oitavo Central, que não será demais relembrar.

A segunda frase, respigada da Carta-Revelação de 28.04.1958 inserida no Livro-Revelação com o título Livro do Ciclo de Aquarius, vem na sequência, como seja a dos Sistemas definitivos do Sistema Geográfico Internacional (Sintra, Cairo, Srinagar, etc.) terem por complementares os Sub-Sistemas em formação (São Thomé das Letras, Conceição do Rio Verde, Aiuruoca, etc.) para que também eles se tornem definitivos, como se observa em dois outros Sistemas Geográficos brasílicos que juntamente com São Lourenço compõem o Triângulo Mágico do Mapa do Brasil, como sejam o da Ilha de Itaparica (Bahia) e de Nova Xavantina (Mato Grosso). O primeiro para o Pai (Akbel, Futuro, Satva, 6.º Sistema), o segundo para a Mãe (Allamirah, Passado, Rajas, 4.º Sistema), e o Terceiro para o Filho (Arabel, Presente, Tamas, 5.º Sistema).

As Tríades Jinas dirigentes dos três Sistemas Geográficos brasileiros, segundo o Professor Henrique José de Souza, dispõem-se na ordem seguinte: São Lourenço (MG) = Lourenço Prabasha Dharma – Jonas Tulan – Cafarnaum; Itaparica (BH) = Lorenza – Krivatza – São Germano; Xavantina (MT) = Akdorge – Akadir – Kadir. No centro da Primeira Tríade está Akbel tendo por veículo Maitreya; no centro da Segunda Tríade está Allamirah tendo por veículo Apavana-Deva; no centro da Terceira Tríade está Arabel tendo por veículo Mitra-Deva.

Esses Seres do mais alto gabarito tinham como representações e veículos 9 Yokanans ou Arautos vindos do Mundo de Badagas para a Face da Terra, como sejam: para São Lourenço, Daniel – Jefferson – Hermes; para Itaparica, Hélio – José – Henrique; para Xavantina, Saulo – Tarso – Basílio. Saulo serviu de veículo a Rabi-Muni. Sobre o que diz JHS em Carta-Revelação de 14.5.1961: “Foi fundado o 5.º Sistema, parte externa, 7 dias depois da inauguração da Embocadura Luz de Chaitânia (São Lourenço), quando os dois Yokanans do Roncador, Saulo e Basílio, a fim de reforçarem os do Bairro Carioca (na mesma São Lourenço), para aí foram com 49 Adeptos de Duat, tendo ambos ficado 49 dias nessa posição. Os dois Yokanans do Roncador mais os três do Mekatulan (sob São Lourenço), formam um pentágono vivo, expressando o 5.º Sistema Geográfico”. Portanto, os Yokanans são um Saque contra o Futuro, enquanto os Adeptos são um Saque ao Passado, todos se reunindo no Presente a favor da Evolução geral.

Pois bem, desde 14 de Abril de 1957 – “Dia do Equilíbrio, Renascimento de Akbel” –, com maior intensidade desde 25 de Fevereiro de 1963 – “Novo Pramantha começa a Luzir” – e desde 23 de Março de 1963 – “Triunfo do Trono de Deus” – que os Sete Poderes ou Arcontes Humanos chamados Dhyanis-Budhas estão no escrínio subterrâneo do Roncador, dirigidos por Akdorge, donde irradiam sobre todos os Postos do Mundo alavancando avante a Evolução geral, acção essa corporificada pela Ordem dos Tributários (de Melkitsedek, o Rei do Mundo, o mesmo Akdorge) fundada por JHS na 6.ª feira de 23 de Outubro de 1954, destinada a guarnecer a Família Humana e Espiritual JHS e consequentemente a Família Espiritual Maitreya através dos representantes humanos dos Dhyanis-Budhas, dos Chefes das Embocaduras e das próprias Embocaduras, assim tomando forma e sentido imediato os Sistemas Geográficos, os seus Postos e os Deuses regentes dos mesmos. Por esta razão se diz que a Obra de JHS, desde o mais transcendente ao mais imediato, está corporificada sobre a Terra. Donde o designativo Obra do Eterno na Face da Terra, que é o que significa Teurgia, Obra Divina.

Assim se constrói a Nova Civilização, a Raça Dourada, Cristina, Crística ou de Maitreya, e com este o seu Reinado de 10.000 anos correspondendo ao desfechar do actual Ciclo Ariano.

Até lá, desde o escrínio profundo do Roncador que “Ronca a Dor” do parto do Homem Futuro, Bimânico, assim dando início ao Quinto Sistema de Evolução, o do Império das Almas Salvas que parturejam o Presente com o Futuro no crisol da Evolução, cabe primeiro esgotar o Karma da Raça e integrá-la ao seu Dharma ou Dever supremo, como seja o de tomar consciência de si mesma, ampliando os sentidos a novas e mais amplas modalidades de ser e acção. Nisso se tem a apresentação objectiva da Lei da Polaridade, no caso primeiro como erro para do mesmo sair o certo. Vê-se agora a pandemia sanitária que aflige o mundo contribuir para isso, levando o Género Humano, em pleno pandemónio de paranóia geral, a afastar-se do Passado e a acercar-se de um ainda incógnito mas pressentido estado psicossocial absolutamente diferente do que houve até hoje. Neste ruir de um ciclo apodrecido e gasto, de que não ficará pedra sobre pedra em coisa alguma do passado, cada vez mais se “cerrando as portas da morada do Mal”, aí se tem a Recta-Acção do “Ceifador de Vidas”, Akdorge, a favor da manifestação futura do seu Augusto Irmão o “Salvador das Almas”, Akgorge, dando voz e consumação às palavras proferidas pelo Rei do Mundo em Narabanchi-Kure (“tombarão os tiranos, cairão as nações, errarão os povos, antes do advento da Nova Raça Encoberta”, etc.) no século XIX, a caminho não de uma nova República ou de uma nova Monarquia mas de um Estado Geral de Concórdia Colectiva, como seja a Sinarquia. Nisto valem as palavras proféticas do Professor Henrique José de Souza, mais preciosas e válido do que nunca na Hora actual do Mundo:

“Reconstruir! É o brado que nos compete.

“Sim, reconstruir o Homem, o pensamento, a moral, os costumes; reconstruir o lar, a escola, o carácter, para que o cérebro se transmude ao lado do coração. Só assim a Humanidade se tornará digna do estado de consciência que é exigido pela Nova Civilização.”

Para essa derradeira consecução tem-se a actuação encoberta mas vive e sensível dos Excelsos Dhyanis-Budhas na sua função coordenadora agindo nos Postos Representativos Internacionais irradiando sobre os correspondentes Postos Nacionais dispostos em estado receptivo, em cujo crisol amalgamam as forças sinergéticas imprimindo-as psicomentalmente na Humanidade, deste modo paulatinamente se adaptando e organizando ao novo biorritmo que já vibra no Mundo, e por ser novo gera as naturais tensões e ânsias próprias da adaptação mental e psicofísica à intensidade de estado vibrátil na consciência e vida nunca antes sonhado pelo Homem. Trata-se da aproximação colectiva à condição do Quinto Sistema. Portanto, tudo está conforme a Lei que a tudo e a todos rege.

A Augusta Ordem do Santo Graal é quem representa e corporiza na Face da Terra os valores dos Postos do Interior da Terra, numa orgânica tríplice afim à dos mesmos intercambiando as suas energias, adaptando-as ao estado humano positivamente alcançado pelas mesmas.

Conforme o Venerável Mestre JHS quis e dispôs, como Supremo Dirigente da Missão dos Sete Raios de Luz e o Único Revelador do Ciclo, cada Cidade de Agharta possui três Templos, um de natureza Assura (Andrógina), outro de natureza Agnisvatta (Masculina) e outro de natureza Barishad (Feminina), no todo 7 Cidades x 3 Templos em cada uma = 21 Templos, mais o 22.º que é a Capital Shamballah, perfazendo os valores tanto do conjunto dos 22 Arcanos Maiores do Tarot como o da própria Maçonaria dos Traichus-Marutas, a Construtiva dos Três Mundos – Celeste (Agharta) – Humano (Duat) – Terrestre (Badagas – Face da Terra).

Tem-se assim:

1.ª Cidade Aghartina: Jambu, “País de Inverno”.
Veste do Eterno: Ag-Zin-Muni (“Essência Mineral”).
Imperador: Bhur-Tan.
Reis: Astério e Azamore.
Arcanos 1, 2, 3 (“O Unilateral”, “A Expansão”, “A Realização”).
 País afim: Peru.
 Planeta: Sol (Leão).

2.ª Cidade Aghartina: Plaska, “País das Águas”.
Veste do Eterno: Mag-Zin-Muni (“Essência Vegetal”).
Imperador: Avar-Tan.
Reis: Azaloth e Azoleth.
Arcanos: 4, 5, 6 (“O Reflexo”, “A Inteligência”, “A Beleza”).
País afim: México.
Planeta: Lua (Caranguejo).

3.ª Cidade Aghartina: Shalmali, “País dos Tempos Incertos”.
Veste do Eterno: Tur-Zin-Muni (“Essência Animal”)
 Imperador: Swar-Tan.
Reis: Ariaster e Azilum.
Arcanos: 7, 8, 9 (“O Vencedor”, “A Lei”, “A Superação”).
País afim: Estados Unidos da América.
Planeta: Marte (Carneiro e Escorpião).

4.ª Cidade Aghartina: Kusha, “País do Outono”.
Veste do Eterno: Aki-Muni (“Essência Alada”).
Imperador: Kho-Tan.
Reis: Arténius e Arténis.
Arcanos: 10, 11, 12 (“A Necessidade”, “A Coragem”, “O Sacrifício”).
País afim: Austrália.
Planeta: Mercúrio (Gémeos e Virgem).

5.ª Cidade Aghartina: Kraunka, “País de Verão”.
Veste do Eterno: Astar-Muni (“Essência Flogística”).
Imperador: Jina-Khotan.
Reis: Aziluth e Azimar.
Arcanos: 13, 14, 15 (“A Grande Mãe”, “O Equilíbrio”, “A Grande Luz”).
País afim: Portugal.
Planeta: Júpiter (Peixes e Sagitário).

6.ª Cidade Aghartina: Shaka, “País dos Destemidos”.
Veste do Eterno: Ara-Muni (“Essência Andrógina”).
Imperador: Rigden-Khotan.
Reis: Ariomester e Ariania.
Arcanos: 16, 17, 18 (“A Rebeldia Celeste”, “A Imortalidade”, “O Caos”).
País afim: Egipto.
Planeta: Vénus (Touro e Balança).

7.ª Cidade Aghartina: Pushkara, “País da Eterna Primavera”.
Veste do Eterno: Rabi-Muni (“Essência Humana”).
Imperador: Rigden-Djyepo.
Reis: Artésius e Artémis.
Arcanos: 19, 20, 21 (“A Realeza”, “O Julgamento”, “A Libertação”).
País afim: Índia.
Planeta: Saturno (Capricórnio e Aquário).

8.ª Cidade Aghartina: Shamballah, “Mansão do Amanhecer”.
Veste do Eterno: Ishvara-Muni (“Essência Eterna”).
Imperador: Baal-Bey.
Reis: Asgartock e Baal-Mirah.
Arcano: 22 (“A Vitória”).
País afim: Brasil.
Planeta: Sol Central (Surya-Suryaj).

No Mundo de Badagas em consonância com o de Duat, cada Cidade possui um Coordenador (Coluna Central), um Sacerdote (Coluna J) e um Governador (Coluna B), além dos demais integrantes da Hierarquia dirigente.

Pois bem, essa expressão triológica está perfeitamente expressada na Ordem do Santo Graal, dispondo o Sistema Geográfico regido pelo Regimento Interno da Coordenação Geral do Sistema Geográfico Sul-Mineiro, estabelecido pelo próprio Professor Henrique José de Souza. Assim, em São Lourenço há o representante do Grão-Mestre da Ordem, incubido na função de coordenar e nortear os membros da Institituição e Obra que desenvolvem trabalhos nas sete cidades em volta dessa oitava central. É chamado de Coordenador Geral, ladeado por um Grão-Sacerdote e um Grão-Governador, tendo como assessor em cada cidade um Coordenador Regional, este, por sua vez, sendo auxiliado por um Sacerdote e um Governador, os quais encabeçam a respectiva equipa directiva.

Ao Coordenador Regional, como Director, compete: presidir às solenidades ritualísticas (abri-las e fechá-las), desincumbir da actividade administrativa do Departamento, da Loja ou do Capítulo, ficando de fora a Representação por sua infimidade humana; cumprir e fazer cumprir as directrizes emanadas da Coordenação Geral; prestar assistência, coordenar e orientar as equipas de trabalho. No sector esotérico é auxiliado pelas Colunas J e B; quando solicitado, apresenta o relatório das suas actividades.

Ao Sacerdote compete: dirigir os rituais; realizar conferências em guisa de conscientização do trabalho ritualístico, ou então dando algum tema relacionado com a Obra; seguir o programa de ensino da Instituição como Instrutor e adjunto de Instrutores; cumprir as orientações do Grão-Sacerdote, do Governador e do Coordenador Gerais.

Ao Governador compete: no sector interno, zelar pela manutenção da disciplina e da ordem. Aplica a Política Sinárquica como organização baseada na Ética Iniciática, da qual saíram os Estatutos da Instituição e os Regulamentos para as Ordens constituintes da Ordem do Santo Graal, inclusive o próprio Regulamento do Sistema Geográfico. Esotericamente falando, o trabalho desta Coluna B é “maçónico”, secreto, assumindo posição correspondente à de um Vigilante Silencioso. Por exemplo, ele dá cobertura ao trabalho da Obra, tanto dentro da Instituição como fora dela, e justamente por isso o Governador deve estar alerta e esclarecido a respeito da Filosofia de JHS e da sua aplicação, para não haver distorções, mal-entendidos, abusos ou falhas de comunicação que venham a desviar das directrizes traçadas pelo Venerável Mestre. Desta maneira entende-se por que se chamava “Desmancha Confusão” à Coluna TAG (B) de JHS, o Comandante Tancredo de Alcântara Gomes, sempre “advertindo sem melindrar”. No sector externo, incumbe-se das actividades sociais estabelecendo contacto com as autoridades locais e ouvindo povo em geral. Por isso, JHS advertia sempre: “Quando chegardes a uma cidade do Sistema Geográfico, fazei por entender-vos de imediato com o prefeito (temporal) e o pároco (espiritual)”. Mas nem sempre o conselho foi seguido.

No tocante à Ritualística do Quinto Posto Representativo de Sintra (Sishita), a Trindade externa acessorando o Altar vem a estar em consonância com a Trindade interna acessorando a Embocadura (Laisin), na mais harmónica e recíproca reverberação trespassando as paredes quer do Templo, quer do granito da Serra Sagrada, justificando assim o sentido primaz de “Três Luzes” tão bem expressas no Shime (candelabro de três tramos ardentes) e na letra-mãe hebraica Shin, expressiva do Filho, do Senhor dos Três Mundos, Kyrios Pantokrator.

É assim que no Ritual dos Bandeiras anual com a duração oito dias (um para cada Embocadura) o Bandeireiro masculino carrega à dianteira a Bandeira Nacional do Posto Representativo do dia, ladeado pela Bandeireira com a Bandeira Regional do Sub-Posto afim ao mesmo, reunindo-se no oitavo dia todas as Bandeiras Nacionais e Regionais centralizadas pela do Brasil – Coração do Mundo, Vibhutî – e da Obra – Cabeça do Mundo, Manava –, nisto também se vendo assinalada a presença matematicamente perfeita dos Sistemas e Sub-Sistemas conforme o estabelecido pelo Venerável Mestre JHS, não deixando nada de fora do seu compósito o mais belo e perfeito dando corpo ao Mundo dos Deuses em pleno mundo dos homens imperfeitos. É a Solução do Futuro em Recta-Acção. Não foi por acaso que Ele pronunciou às portas da morte no Hospital São Lucas na cidade de São Paulo, em 1963: “Fiz numa vida o trabalho de uma Ronda inteira”.

Aqui chegado, é o momento de dar uma pequena súmula da criação dos Mundos Subterrâneos pouco antes da queda da Raça Atlante do desaparecimento do seu vasto continente que abrangia praticamente todo o Globo. Antes da catástrofe o Deus Baal-Bey – hoje Rei da Agharta – ordenou aos “Ferreiros da Terra”, ou seja, aos Preclaros Membros da Linha Serapis a construção dos Mundos Interiores para ocultar e resguardar a Divindade e seus Tesouros das ímpias mãos do Homem comum. A partir daí, foram sendo colocados vários véus – sete, de acordo com as sete Ciências Humanas – que encobriram a Verdade pura, fundaram-se os Mistérios. Tiveram então origem as Revelações e os véus ilusórios da Iniciação outorgada aos homens mental, psíquica (moral) e fisicamente preparados pelos Seres da Excelsa Fraternidade Branca, entretanto recolhida ao seio da Mãe-Terra.

Assim, da Atlântida interiorizada, constituindo o que se denomina de Mundos Interiores, provém o poderoso influxo para a Evolução na Face da Terra, onde tudo e todos aos poucos transformam a Vida-Energia (Jiva) em Vida-Consciência (Jivatmã). Esta é a meta suprema da Iniciação verdadeira.

Tem-se:

Badagas, Físico-Etérico, o Mundo da Recapitulação das vidas na Face da Terra para novamente reencarnarem nela os que ali vão. Nesse Mundo estão sediadas as sete grandes Fraternidades Iniciáticas dirigidas por verdadeiros Super-Homens, portanto, constituídas do escol do melhor que a Humanidade possui.

Duat, Etérico-Astral, o Mundo dos Deuses activos e de todo o Conhecimento Humano existente, arquivado em imponentes bibliotecas, constituído por sete enormes galerias subterrâneas partindo de uma oitava central possuída do nome Caijah. Este Mundo é móvel, acompanha a Evolução da Mónada Humana sobre a Terra, e cada uma das suas galerias ou secções ou cidades possui um Templo onde está instalado um dos sete Dhyanis-Budhas, tendo por Colunas Vivas um Governador e um Sacerdote. O Caijah firma-se sob onde a Mónada Humana deve alcançar o máximo da sua evolução peregrina pelo Itinerário dela mesma, IO. Hoje, está em alinhamento directo com São Lourenço nas Lavras de Minas Gerais.

Agharta, Astro-Mental, é o Mundo onde estão as Sementes Monádicas das Civilizações passadas, presentes e futuras. Constituído por sete Cidades com um Templo central e dois laterais, nos mesmos encontra-se a forma espectral – Estátua Viva que Fala – de Baal-Bey neles projectados desde Shamballah, ladeada por um Agnisvatta e um Barishad. Este Mundo é fixo e não móvel como o de Duat – Sistema Planetário em movimento no seio da Terra – e nele há a Luz eterna.

Shamballah, Mental-Espiritual, é o Mundo dos Deuses passivos ou adormecidos, é o Sol Interno da Terra que por sua imensa luz parece Treva eterna. Liga-se a Agharta pela sua sétima extensão, em guisa de portal, que é sétima Cidade de Pushkara. Aqui está o Rei do Mundo, hoje Akdorge (Asgartock), Filho de Baal-Bey e Baal-Mirah, os Reis de Agharta. Aqui está o Anjo Maliak dirigindo 608.000 Devas ou Anjos que animarão as crianças do futuro 5.º Sistema. Aqui se encontram os Manasaputras, Vasos de Eleição, os mesmos criados com o concurso das duas primeiras Raças Humanas e a Essência Espiritual dos Kumaras, na terceira Raça, através da Esfinge que era o Animal “mitológico” de que Akbel se serviu para se manifestar na Terra, cedendo-o depois ao seu Irmão Arabel mas logo se petrificando, quando tomou as formas humanas de Baal-Bey – Baal-Mirah, nos evos esquecidos da Evolução Humana.

Finalmente, como desfecho, evoco agora as palavras apoteóticas de JHS proferidas na Fazenda Arabutan, Nova Xavantina, Mato Grosso, em 24 de Junho de 1959, como Saudação a todos os Deuses que desse Lugar privilegiado dirigem a Evolução do Mundo:

– Chamas de Fogo que se erguem desta Fogueira, chamas sagradas que aos Céus se elevam, reverberando pictoricamente a cerúlea abóbada do firmamento, confundindo-se com o Manto Azul da Mãe Divina, tonalizando no etéreo Manto Azul em esplendoroso Arco-Íris as silhuetas dos Sete Luzeiros.

Chamas de Fogo que aos Céus atriradas foram, uma, três, hoje sete vezes ao Deus Único e Verdadeiro, respondendo pela glorificação e privilégios dados aos gloriosos Filhos da Obra.

Chamas de Fogo em forma de ígneas e sonoras Palavras, ao Espaço infindo foram atiradas pelo Budha Terreno, atingindo as raias do infinito, a celestial Fronte do Eterno, rogando-Lhe para que a Terra em Deus Vivo se torne.

Glorificadas sejam as chamas sagradas que se elevam deste majestoso madeiro, em guisa das Sete Trombetas dos Reis de Édon, atingindo todo o Orbe Terráqueo.

BIJAM

Carvalho Monteiro e o Jardim do Éden – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Out 5 2020 

A GÉNESE DO ZOO OLISIPONENSE

O Jardim Zoológico de Lisboa está entre os três melhores do mundo e é o único onde animais em cativeiro, inclusive as espécies mais difíceis e raras, reproduzem-se regularmente; é igualmente o mais belo e melhor composto de toda a Europa por sua graciosidade herdada da mentalidade naturalista e neopagã decorrente do Romantismo do século XIX, nisto é único no mundo[1].

Bonito, bem cuidado e administrado, com vasta equipa de manutenção que mostra gostar do que faz, ninguém dará por perdido o tempo na visita demorada a este jardim edénico, parque zoológico que veio a ser o principal até tornar-se o único pelo desaparecimento gradual dos outros parques que haviam dispersos por Lisboa e arredores e que para ele contribuíram com o que possuíam. O rei D. Fernando II, por exemplo, contribuiu com os espécimes animais e vegetais precariamente instalados no jardim do seu Palácio das Necessidades, em Lisboa[2]; a família Carvalho Monteiro legou dispositivos económicos e vasta colecção de espécimes vegetais do mundo inteiro, sobretudo do Brasil; outros personagens distintos também contribuíram, como os condes de Palhavã, o conde de Farrobo, etc.

Com efeito, foi por patrocínio de D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha que a ideia da constituição do Jardim Zoológico avançou, primeiro por iniciativa do médico holandês Peter van der Laan, que vindo em 1869 para Portugal em busca de um clima melhor para os seus pulmões doentes, dedicou-se a formar uma colecção de aves, reunindo espécies preciosas, no que recebeu o apoio do barão de Kessler; logo foi seguido de José Tomas de Sousa Martins, o famoso médico português, e do dr. Bento de Sousa.

O jardim foi instalado primeiro no Parque de São Sebastião da Pedreira (cedido gratuitamente por cinco anos), próximo de onde está hoje a Fundação Calouste Gulbenkian, e aí, em 1883, o secretário particular de D. Fernando II, o barão Frederico Kessler, formado em engenharia, dirigiu as obras necessárias à ampliação do parque zoológico. No ano seguinte, em 28 de Maio de 1884, ele foi inaugurado como um acontecimento de grande relevo nacional. O próprio Francisco de Almeida Grandella, coevo dos primeiros tempos do Zoo de Lisboa, diz ter sido aí que ele nasceu[3]:

“Quando começaram os Makavenkos, há já os seus trinta e tantos anos, iniciaram-se as reuniões em Santa Isabel, no palacete do conde das Antas, no quintal em que se achavam instalados vários animais, denominado Parque Zoológico. Ali tinha tido origem o actual Jardim Zoológico por nele ter instalado o sábio Dr. Vanderland muitos animais que foram mais tarde o começo do jardim de S. Sebastião da Pedreira.”

Segundo Jorge M. Rodrigues Ferreira[4], a família real, cujo dedicado concurso para a fundação do Zoo fora assim precioso, compareceu em peso à cerimónia de inauguração. Entre os sócios-fundadores contavam-se os reis D. Luís e D. Fernando, este que foi o seu primeiro presidente de honra. Estiveram presentes também o príncipe D. Carlos e o infante D. Augusto. Quase todo o Governo, presidido então por Fontes Pereira de Melo, acompanhou os régios visitantes. O ministro da Marinha e do Ultramar, no momento da fundação, era o sábio naturalista José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907), que fazia parte da comissão iniciadora. No Ministério das Obras Públicas estava então António Augusto de Aguiar, também sócio-fundador do Jardim Zoológico.

A imponente cerimónia foi largamente publicitada na imprensa, informando o Diário de Notícias de 29 de Maio de 1884, ou seja, no dia a seguir ao da abertura solene do Jardim:

“Foi, com efeito, ontem, a inauguração deste Jardim, com uma concorrência tão extraordinária, que excedeu o que razoavelmente se poderia esperar num dia de semana (…) vai-se animando Lisboa; vai entrando com a sua actividade e com o seu entusiasmo na participação das cousas úteis e proveitosas, e mostrando que não lhe são indiferentes os esforços empregados, as dificuldades vencidas, para realizar certos melhoramentos, que são preenchimento de lacunas numa cidade de primeira ordem de uma nação culta.”

Escritura de 15 de Maio de 1884 do Jardim Zoológico e de Aclimação em Portugal

Em 1892, por morte dos proprietários do Parque de São Sebastião da Pedreira (onde se dava início à Estrada Real para Sintra), os seus herdeiros informaram a Direcção de que “findo o prazo da escritura da concessão não renovaria esta e tomaria posse imediata do Parque”. Sucedia o que não tinha deixado de se prever.

Assim, em 1894 fez-se a mudança, um pouco atribulada, do Jardim para uns terrenos escalvados em Palhavã (onde hoje passa a Avenida de Berna), delineados e arborizados à pressa. A nova instalação numa charneca era o oposto do aprazível parque que acolhera o Jardim nos primeiros dez anos de vida.

O ano de 1904 marcou a viragem decisiva na história do Jardim. Ficou resolvida a sua mudança para as Laranjeiras, ou seja, desta vez um lugar privilegiado para o seu poiso definitivo. Tratava-se, pois, de um desfecho feliz no problema da localização do parque.

Como disse, D. Fernando II de Saxe-Coburgo Gotha foi presidente de honra do Zoo de 1884 a 1885, ano da sua morte nesta cidade de Lisboa, o mesmo período em que o comendador Francisco Augusto Mendes Monteiro foi presidente da Assembleia Geral de 1886 a 1890, ano do seu falecimento, tendo o seu filho, dr. António Augusto Carvalho Monteiro, ocupado esse cargo de 1891 a 1916. Os retratos de ambos figuram no Salão Nobre do Jardim Zoológico de Lisboa.

A família Carvalho Monteiro possuía herdade junto à Cruz da Pedra (que melhor ficaria de Pedra), em São Domingos de Benfica: a Quinta do Vadre, de pórtico acastelado rodeada por um muro com ameias, motivo porque também era conhecida por Quinta da Torre. O padre Álvaro Proença escreveu sobre ela[5]:

“QUNTA DO VADRE. Já em pleno lugar da Cruz da Pedra, onde depois se ergueria uma sumptuosa casa apalaçada com capela privativa, existia em princípios do século XVIII uma quinta em cuja residência habitava Vicente Rebelo do Vadre que nela vivia com sua mãe D. Maria do Vadre, uma sua irmã, D. Mariana do Vadre, mais uma criada e dois pretos escravos.

“Em meados do mesmo século, habitava-a António Rebelo do Vadre que nela vivia com Francisco Xavier do Vadre e mais oito criados. A casa cada vez mais deve ir crescendo em riqueza e bem-estar, pois, em 1763, ali vivia José António Vieira do Vadre com nove criados. Três anos depois aparece-nos casado com D. Ana Joaquina de Almeida Castelo Branco e então já familiares e criados atingem o numero de quinze pessoas, mais um escudeiro, um boleeiro, uma ama de casa e um escravo menor. Este pessoal denota não só avantajados meios de fortuna mas também uma vida faustosa. Talvez por isso mesmo hajam trocado os ares de Benfica pelos da cidade, pois a partir de 1770 só encontramos na quinta um caseiro estrangeiro, de apelido Grondona.

“Em meados do século XIX aparece-nos em mãos do doutor Carvalho Monteiro, com um pórtico acastelado e rodeada com um muro cheio de ameias, tudo de gosto muito duvidoso, tresandando a pretensões. A casa de habitação é que continuava a ser linda, o jardim, o lago, ao gosto da época, não deixavam mal colocados os proprietários que podiam regalar-se com os ricos e apetitosos frutos do pomar e da horta.”

Na foto abaixo do desaparecido apeadeiro ferroviário da Cruz da Pedra, o círculo assinala o espaço onde estava a Quinta da Torre de Francisco Mendes Monteiro, pai de António Augusto Carvalho Monteiro (senhor da Quinta da Regaleira de Sintra), muralhada com ameias, jardim com lago e uma torre também ameada que se subia por uma escada de ferro espiralada interior, como ainda vi e subi em pessoa, com risco de queda devido ao seu adiantado estado de degradação, antes de desaparecer tudo.

Não muito distante da propriedade dos Carvalho Monteiro, encontrava-se no vale das Laranjeiras a quinta dos condes de Farrobo, cujo palácio fora esquissado pelo Padre Bartolomeu Quintela, da Congregação do Oratório. Antiga coutada de caça do 1.º barão de Quintela, Joaquim Pedro Quintela (Lisboa, 28.8.1748 – Lisboa, 1.10.1817), veio o 2.º barão de Quintela e 1.º conde de Farrobo, com o mesmo nome do seu pai, a introduzir-lhe inúmeros melhoramentos. Mandou pintar os tectos do palácio a António Manuel da Fonseca e construir, em 1820, o Teatro Tália, com capacidade para 560 espectadores, tendo-o mandado restaurar em 1842, sob risco de Fortunato Lodi, e na mesma ocasião o iluminado a gás, o que constituiu uma novidade extraordinária na época. A essa situação não foi alheio o facto de o conde de Farrobo estar ligado à indústria dos gasómetros. Interiormente, o teatro possuía luxuosos camarins e um opulento salão de baile com as paredes revestidas com valiosos espelhos de Veneza, nos quais se reflectiam as luzes de numerosos e ricos lustres, produzindo efeitos deslumbrantes.

No Teatro Tália estreou-se Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, e subiram à cena 18 óperas entre 1834 e 1853. O rei D. Fernando II e a rainha D. Maria II eram frequentadores assíduos deste espaço cultural-recreativo. Por morte da monarca, de quem o conde de Farrobo era grande amigo, a vida social e artística no palácio e no teatro foram interrompidas. Em 1856, retomaram-se as actividades teatrais com ópera italiana e comédias em português e francês. Mas em 9 de Setembro de 1862 um incêndio casual, motivado por descuido de uns operários, consumiu totalmente este templo de arte, cuja reconstrução não se fez por a fortuna do conde de Farrobo começar a dissipar-se. E assim ficou até às obras iniciadas em Maio de 2010.

Esse não era um teatro qualquer, transparecia um forte simbolismo esotérico que Joaquim Pedro Quintela (1801-1869) lhe imprimiu graças à influência maçónica em cuja Ordem era iniciado de alto grau. A fachada exterior do edifício, a que se acede por quatro degraus, é sustentada por quatro colunas toscanas que têm adiante outras tantas esfinges egípcias, com rostos e bustos de mulheres e corpos de leões, deitadas sobre as patas. Estas simbolizam o Teatro da Iniciação, em estado passivo ou receptivo de quem entra nele, marcando o compasso quaternário da Terra onde cada um é actor da sua evolução. No topo do frontão triangular está a estátua de Érato, a Musa da Poesia Lírica, segurando a lira na mão esquerda, apoiada na coxa do mesmo lado, e sob o tímpano corria a todo o comprimento a frase latina: Hic mores hominum castigantur (“Aqui serão castigados os costumes dos homens”), isto é, expostos a público os vícios humanos através da arte cénica.

O palácio dos condes de Farrobo, incluindo os jardins, o teatro e o chafariz fronteiro, foi declarado Imóvel de Interesse Público por Decreto n.º 735/74, de 21 de Dezembro. Também conhecida por Quinta das Laranjeiras (de que ainda subjaz o edifício do século XVIII com curto espaço ajardinado, quando originalmente expandia-se por todo este vale das Laranjeiras indo praticamente até São Domingos, antes do terreno ser retalhado e comprado em parcelas, uma delas a do conde de Farrobo), era um espaço cuidado de grande beleza cénica: possuía labirintos, lagos, estufas, jaulas para animais ferozes e aves raras, inúmeras estátuas, etc. Cerca de 1873, a propriedade entrou na posse do conde Henrique de Burnay (1837-1909), também ele um dos fundadores do Zoo de S. Sebastião da Pedreira, tendo exercido cargo directivo de 1884 a 1885, substituído nessa função por Francisco Augusto Mendes Monteiro. A ambos se juntaria António Augusto Carvalho Monteiro, e das conversações e acordos estabelecidos entre as partes, sobretudo graças aos esforços desse último, o Jardim Zoológico pôde finalmente transferir-se, em 1904, de Palhavã para as Laranjeiras.

Jardim Zoológico de Aclimação na Palhavã, 1884

Com efeito, a inauguração do Jardim Zoológico de Aclimação fez-se em 28 de Maio de 1905 na parte mais grandiosa da Quinta das Laranjeiras – velho e lendário domínio do conde de Farrobo, protector das Artes e Letras – ocupando ainda a Quinta das Águas Boas e a Quinta de Barbacena[6].

A lápide comemorativa do acto, postada junto à entrada principal no jardim pela Estrada de Benfica e que desagua na traseira ajardinada do Palácio Farrobo, dá testemunho dos principais interventores na fundação do Jardim Zoológico de Lisboa:

A 1.ª DIRECÇÃO DO JARDIM
(INAUGURADO EM 28 DE MAIO DE 1884)
EL-REI D. FERNANDO
PRESIDENTE DE HONRA
VISCONDE DE S. JANUÁRIO
PRESIDENTE
DR. ANTÓNIO AUGUSTO CARVALHO MONTEIRO,
BARÃO DE ALMEIDA SANTOS, BARÃO DE KESSLER, DR.
CARLOS MAY FIGUEIRA, CONDE DE FICALHO, DR.
EDUARDO BURNAY, EDUARDO COELHO, FRANCISCO
 ISIDORO VIANA, FRANCISCO REBELO DE ANDRADE,
DR. JOSÉ TOMÁS DE SOUSA MARTINS, ENGº MIGUEL
CARLOS CORREIA PAIS, DR. FERNANDO MATOSO SANTOS,
DR. PEDRO ADRIANO VAN-DER-LAAN, DR. VICENTE
RODRIGUES MONTEIRO.

António Augusto Carvalho Monteiro teve o mérito incontestável de concluir o projecto sonhado pelo rei D. Fernando II: a recriação do Paraíso bíblico na forma singular de um Jardim Zoológico.

Mas a sua instalação no luxuriante Parque das Laranjeiras não se fez, porém, sem sobressaltos. Os herdeiros do conde de Burnay, que havia cedido explicitamente o terreno para esse fim, insistiam em cumprir judicialmente um mandato de despejo. O assunto só ficaria resolvido de vez em 2 de Julho de 1920 com a publicação da Lei n.º 988, aprovada pelo Parlamento que autorizava o Jardim “a expropriar por utilidade pública e urgente a Quinta das Águas Boas e a parte da Quinta das Laranjeiras que tomou do arrendamento ao conde de Burnay”. Essa Lei ia ao encontro da estrutura administrativa e da finalidade do Jardim Zoológico, por ela ser uma sociedade anónima de responsabilidade limitada, constituída por escritura de 5 de Setembro de 1883, e considerada instituição de Utilidade Pública por Decreto-Lei de 12 de Março de 1913 à qual foi, posteriormente, em 1952, atribuída a Medalha de Ouro da cidade de Lisboa[7].

A maior parte das actuais instalações do Zoo deve-se ao traço e imaginação do arquitecto Raul Lino, cuja obra, iniciada em 1912 e prosseguida no decurso dos anos seguintes, não lhe feriram o equilíbrio nem lhe desvirtuaram a estrutura.

De então para cá, com mais ou menos sobressaltos, o Jardim Zoológico de Aclimação evoluiu de tal maneira bem, fruto da dedicação extremada que até custa a acreditar, comove mesmo, que ficou como exemplo a seguir por outros e muitos imóveis históricos de interesse público, grande parte deles inscritos no roteiro turístico e cultural tanto de Lisboa como de todo o país, cuja fama alastra-se aos cinco continentes.

SETE RIOS DESEMBOCAM NO PARAÍSO

Com a instalação do Jardim Zoológico em Sete Rios, dentro do Parque das Laranjeiras, António Augusto Carvalho Monteiro e os seus pares conseguiram recriar decisivamente, num ambiente propício, o mito do Paraíso edénico, certamente inspirados nas Escrituras Sagradas, principalmente no Livro Velho ou Antigo Testamento, e nos clássicos greco-latinos.

Juntaram os elementos simbológicos, arquitectónicos e até toponímicos num mesmo lugar idílico de que resultou, seguindo uma intenção transcendente que passa desapercebida à maioria, neste belíssimo parque zoológico, dos mais aptos do mundo, a sua conversão em pousada obrigatória do lazer comum.

A afirmação de querer-se recriar aqui o Paraíso bíblico, a mesma “Floresta Encantada” da fada Melusina, como conta a lenda medieval, não a dou insubstanciada, posto a prova estar à vista de todos, nas inscrições latinas das duas lápides encrustadas nos torreões da entrada principal no jardim.

Numa está escrito:

PRIMA CERES FERRO MORTALES VERTERE TERRAM
INSTITUIT, CUM JAM GLANDES ATQUE ARBUTA SACRAE
DEFICERENT SILVAE, ET VICTUM DODONA NAGARET.

O que em tradução livre dá o seguinte:

“Primeiro Ceres com golpes mortais ordenou e plantou a Terra,
mas se esqueceu do carvalho, a árvore sagrada, faltando
na floresta, e logo Dodona negaria a sua superioridade.”

Noutra se escreve:

ERGO RITE SUUM BACCHO DICEMUS HONOREM
CARMINIBUS PATRIIS, LANCESQUE, ET LIBA FEREMUS,
ET DUCTUS CORNU STABIT SACER HIRCUS AD ARAM.

O que em tradução livre dá o seguinte:

“Ao rito de Baco honramos solenemente nestes versos pátrios,
humildemente, e libações faremos, e guiados pela trombeta
decididos sacrificaremos um bode na ara.”

Baco apresenta-se num recanto discreto do jardim sobre uma piscina, tendo dos lados silhares de azulejos com alegorias alquímicas e por cima as Armas de Portugal. Ora, na mitologia grega, Baco ou Dionísio (a quem nos finais de Novembro, após uma procissão solene, sacrificava-se um bode) é pai de Luso, que por sua vez é o pai da Raça mais a Ocidente da Europa, a dos Lusos, assim se podendo dar ao conjunto o sentido de Jardim do Éden Lusitano.

O nome Dodona, na outra lápide, assinala essa cidade da Caónia onde havia um oráculo de Júpiter, planeta afim ao carvalho, que como deus principal do seu panteão naturalmente recusaram a superioridade de Ceres. Ora essas divindades mitológicas acabam representando a civilização grega, mãe cultural da Europa, cujo substractum na figura de Luso um outro carvalho humano, Carvalho Monteiro, disporia metaforicamente na velha Ulisipa (Lisboa), promovendo a fundação do Jardim do Paraíso Terreal aqui mesmo, fazendo uso dos seus vastos recursos sociais e económicos. Como a cultura grega cedo originou a latina, nisto também se poderá deduzir estar-se em presença, ainda que de forma encoberta, da ideia da translatio imperii, ou seja, importar a quintessência dos Impérios Grego e Romano para o seio do V Império Lusitano em formação, assim antecipando a fundação paradísica da Nova Idade do Mundo. Com isto acertará bem o sentido do Canto XXVIII (109-114, 118-120, 127-132) da “Viagem ao Paraíso” (Terrestre) por Dante[8]:

Mas as plantas batidas têm tão grandes dons
Que elas impregnam o ar com suas virtudes;
E o ar vibrando as sacode em volta;
E a terra habitada, tanto como é digno
Por si e por seu céu, concebe e proporciona
Diversas virtudes, diversas plantas.

E saberás que a santa campina
Ao teu redor de todo o germe é repleta,
E dá frutos que na terra não colhes.

Deste lado seu fluxo tem o poder
De eliminar dos corações memória do pecado;
Do outro, ele proporciona do bem a plena memória.

Eis aí razão de eu ter dito a Fernando Dacosta, quando me entrevistou em 1993, acerca deste Jardim Zoológico: “A sua matriz teria, assim, sido inspirada no Jardim das Delícias, ou seja, nos Paraísos bíblico, assírio-caldaico e até hindu, onde os quatro Reinos da Natureza, Mineral, Vegetal, Animal e Humano, se religam, se harmonizam. O Mineral está representado pelas águas e granitos da zona, o Vegetal pela variedade de flora, o Animal pelas espécies zoológicas conseguidas, e o Humano pelos visitantes, sobretudo crianças, promessa de futuro, que o procuram em número crescente.”

Ter-se escolhido Sete Rios para decisivamente instalar nele o Jardim Zoológico, é igualmente consentâneo com a prerrogativa de Paraíso ou Paradhesa, em persa. Com efeito, os Rios Sagrados ou Pardas que corriam do Éden desaguavam na Mesopotâmia, e este nome significa precisamente “Entre-Rios”, tal qual era conhecido primitivamente este vale das Laranjeiras, primeiro chamado “Entre ou Sem Rios”, origem do apodo “Sete [ou Sem] Rios”.

Foram vários os autores consultados capazes de explicar a origem hídrica do topónimo Sete Rios, mas tais explicações vieram a revelar-se insuficientes. Deles, destaco as monografias de Gabriel Pereira, São Domingos de Benfica e De São Domingos à Quinta do Correio-Mor, ambas de 1905, e também A. Vieira da Silva, Origens e motivos dos topónimos de Lisboa, 1949. Foi frei Luís de Sousa (sepultado na igreja de São Domingos de Benfica) quem me pareceu mais significativo, consentâneo com uma geografia sagrada, quando na sua História de São Domingos (cerca de 1623-1626) descreve esta zona com as seguintes palavras:

“Fazem o vale dous outeiros deziguais em corpo: hum humilde, que servindo só de lhe encubrir a vista da estrada que dissemos, não lh´a a de muitos que ao longe fazem dilatado Orizonte. O outro levanta muito, estendendo-se pola parte d´onde o sol se poem de Inverno, e vai rodeando contra o Sul, de maneira que ameaça querer fechar o vale, e hir serrar com o monte contrario: tolhe a determinação um Rio, que atravessa o vale, faz garganta por entre ambos pera inviar seu tributo ao mar.”

O rio era fraco no Verão e caudaloso no Inverno, desembocando nele sete ribeiros mais fracos ou regos – donde a origem toponímica do Bairro do Rego – descendo as encostas dos ditos outeiros, e nisto estará a origem do nome Sete Rios, que antes era Entre Rios, ou seja, entre os dois braços ou regos do rio. Portanto, a sua origem hídrica deste filólogo assentará nas águas do Monte Santo (Mons Sacer, em latim, donde Monsanto) aproveitadas pela freiria próxima do convento dominicano, cuja igreja de Nossa Senhora do Rosário de Benfica era muito concorrida pelo povo local, dizendo ainda frei Luís de Sousa:

“A huma piquena legoa da cidade, pola estrada que corre pera Cintra, pouco desviado d`ella pera a parte do Poente, fica como escondido, e furtado a communicação da gente hum pequeno vale, que sendo naturalmente aprazível, por frescura de fontes e arvoredo, mereceo, ao que se pode crer, o nome que tem de Benfica. (…) Na ladeira do monte maior, está situado o Convento, e d´ella se estende com sua cerca até hir beber no Rio.”

Foi grande a devoção popular a São Domingos, padroeiro da freguesia, cuja protecção sobrenatural andava ligada à presença das águas, como descreve o Annuario do Archivo Pittoresco (volume III, n.º 21, 1860, Lisboa): “A devoção e romaria dos domingos de Benfica ou de Maio, ao convento onde se venera S. Domingos, advogado e protector dos que andam sobre as águas do mar, foi das mais populares que houve nos arredores de Lisboa”.

Do rio de Monte Santo corriam quatro regos para o vale das Laranjeiras, dois envolventes e outros dois seguindo na direcção de Campolide e Neudel, pelo que aquele ficou Entre Rios, tal qual no Paraíso Terrestre o Jardim do Éden ou “Lugar das Delícias” era regado por um rio dividido em quatro braços ou regos: Pison, Gion, Tigre e Eufrates[9].

A canalização em aqueduto das águas da ribeira da mata de S. Domingos de Benfica

Com os exemplares animais, vegetais e minerais disponíveis, o rei que mais que artista era um iluminado, D. Fernando II, como idealizador original do mito edénico terá procurado a realização deste buscando a inspiração nos Mistérios Egípcios da Maçonaria do seu tempo na qual era afiliado, posto ter sido Maçom do Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite e mantido relações próximas com o Rito Adonhiramita, no qual um dos seus temas mais caros é o da fundação na Terra do Paraíso original. Parece mesmo que D. Fernando II já pressentia que o destino do Zoo haveria de ser a Quinta das Laranjeiras, sua conhecida dos famosos saraus nos domínios de Farrobo[10]. Ainda sobre a afiliação maçónica do rei, escrevi noutro lugar[11]:

“Quanto a D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha (Baviera, 29.10.1816 – Lisboa, 15.12.1885), de nome completo Ferdinand Augustus Franz Anton, de quem Francisco Augusto Mendes Monteiro, pai de António Augusto Carvalho Monteiro, foi amigo pessoal, tendo o filho mantido relação próxima com D. Carlos I, foi maçom do Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite no Grande Oriente Lusitano Unido, tendo recebido votos para primeiro Grão-Mestre do Supremo Conselho do Grau 33.º no mesmo Grémio, em 3c de Outubro de 1869, eleição que perdeu a favor do 2.º conde de Paraty, D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha (31.7.1820 – Lisboa, 22.4.1884), o qual tomou posse a 16 de Dezembro do mesmo ano. Por sua educação (judaico-)cristã, D. Fernando II veio a ligar-se ao Rito Adonhiramita, estabelecendo-se no 12.º Grau de Rosa+Cruz. Daí porque, entre os Iniciados de Sintra, ele ser conhecido como Frater Rosea+Crucis cujo reconhecimento é feito através do sinal e palavra sagrada do 18.º Grau (do R.E.A.E.): mãos cruzadas sobre o peito, pés em esquadria, pronunciando-se Emmanuel.”

Pois bem, só aqui, neste espaço delicioso que também foi um laranjal dos franciscanos vizinhos, poderia conceber-se um jardim zoológico posto sob a evocação do Divino Espírito Santo como criador do Éden original. Este que como o Paraíso latino é a mesma Paradhesa hindu e a Paradaîza caldaica, enfim, o “Jardim das Delícias” como lhe chama a Bíblia, tendo no seu centro o Monte Meru, o Monte Santo do igual onomástico Monsanto, este que aqui tem a sua nascente na Ribeira de São Domingos, isto é, Domingos ou Domini, o Senhor, o Sol que anima a manifestação do Parda ou “Rio Sagrado”.

Por conseguinte e conforme a Cabala judaica[12], o Sol do Espírito Santo é assumido por Binah, prefiguração da Mãe Divina de cujo seio fecundo irrompem as águas da criação dos seres viventes, inicialmente tudo e todos convivendo em amplo entendimento entre si, reinando tão-só o Bem, o Bom e o Belo. A esse estado original de pureza e harmonia quiseram retornar, assim parece, quantos idealizaram e fizeram o Jardim Zoológico de Lisboa.

PARAÍSO FRANCISCANO

Nem Francisco Augusto Mendes Monteiro, nem o seu filho António Augusto Carvalho Monteiro foram alguma vez maçons ou sequer empatizaram com a correnteza jacobina, apesar de terem lidado de perto com a fina-flor da botânica maçónica da época[13], certamente por conveniências sociais relacionadas com a cultura, a economia, a política, etc., em que estiveram envolvidos, e daí a sua proximidade a maçons como, além de D. Fernando II e o conde de Farrobo, o conde de Burnay e o próprio dr. Sousa Martins. Pela obra feita, confirma-se que parte da Maçonaria serviu o propósito da Espiritualidade Portuguesa, mas também se confirma que a Espiritualidade Portuguesa nunca se confinou ao propósito da Maçonaria.

A empatia realenga e católica, particularmente pela catequese franciscana tanto por Mendes Monteiro como por Carvalho Monteiro, também terá pesado nas suas opções pela Quinta das Laranjeiras à qual esteve anexado o Convento de Santo António da Convalescença, hospital de apoio ou recobro dos frades capuchos enfermos das Casas da Ordem em volta da cidade, o qual servia o principal Convento dos Capuchos que ainda hoje é hospital. Neste das Laranjeiras está hoje instalada a Universidade Internacional.

Fundado em 1640, segundo o testemunho de Frei Apolinário da Conceição, só cerca de dez anos mais tarde teriam entrado aí os primeiros religiosos enfermados. Num documento existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, cuja data se situa, segundo Godofredo Ferreira, entre 1720 e 1735, pode ler-se:

“Teve princípio em uma quinta com sua Ermida, situada na freguesia de São Sebastião da Pedreira, junto donde chamam Cruz de Pedra, que o arcediago Duarte Gomes da Mata, movido da muita devoção que tinha aos religiosos desta Província, lhes deu para nela convalescerem os enfermos, depois de curados na enfermaria que têm no seu Convento de Santo António dos Capuchos desta cidade de Lisboa.”

Convento de Santo António da Convalescença, na Estrada de Benfica

Em 1779, poucos anos depois do terrível terramoto de 1755 que alterou profundamente a feição geográfica da zona, o desembargador Luís Rebelo Quintela adquiriu a Quinta de Santo António (então um extenso laranjal cercado de arvoredo e mato rasteiro onde abundavam animais de caça miúda: coelhos, perdizes, etc.) defronte do convento. Diz Godofredo Ferreira[14]:

“O novo proprietário da quinta – depois chamada das Laranjeiras – e do magnífico palácio que ali se construiu sob o risco do irmão do desembargador, o padre oratoriano Bartolomeu Quintela, foi desvelado protector do convento fronteiro, como igualmente o foi seu sobrinho e herdeiro o 1º barão de Quintela, Joaquim Pedro Quintela, e depois o filho deste, do mesmo nome, o faustoso conde de Farrobo.”

O Convento de Santo António da Convalescença foi extinto em 1834.

Já no século XVI existiria aqui um eremitério que possivelmente seria a origem do convento franciscano no século seguinte, facto atestado pela preexistência de um formoso cruzeiro de pedra manuelino que inclusive deu nome ao sítio, Cruz de Pedra, sobre o qual diz ainda Godofredo Ferreira: “Este cruzeiro (…) não poderá considerar-se apêndice do convento, mas, muito pelo contrário, o convento é que foi dele complemento. Ora vejamos. O sítio em que, em 1640, se começou a construir a Casa da Convalescença dos franciscanos tinha já naquele tempo o nome de Cruz de Pedra, que veio até aos nossos dias; e chamava-se assim, por certo, em consequência da existência no local de uma cruz feita de pedra, de devoção popular”.

Após a ruína do Conde de Farrobo, a Quinta das Laranjeiras foi vendida e passou de mão em mão até ser adquirida pelo poderoso argentário conde de Burnay, que a alugou em 1904 para instalação do Jardim Zoológico, o que ficou concluído no ano seguinte. Com a morte da condessa de Burnay, última proprietária da quinta e palácio de que fora expropriada em 1920, o processo da expropriação arrastou-se nos tribunais até 1940, altura em que o Estado adquiriu definitivamente a propriedade liquidando o seu preço com os herdeiros dos condes de Burnay. Quanto ao cruzeiro, que estava guardado há muito tempo numa arrecadação do Palácio Farrobo, um tanto desmantelado pelos efeitos do tempo e dos maus tratos infligidos, entrou na posse da senhora dona Teresa de Melo Breyner Pinto da Cunha, neta materna dos condes de Burnay. Esta ilustre senhora e seu marido tiveram a feliz ideia de trazê-lo novamente para a luz do dia e plantaram-no no jardim do seu Palácio Vimioso no Campo Grande, onde o fui encontrar.

Assim o descreve o Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portugueses, 4.ª Série – Tomo X, 1905:

“CRUZEIRO DA QUINTA DAS LARANJEIRAS. Seguindo a Estrada de Benfica, no extremo da Quinta das Laranjeiras, próximo do chafariz da Convalescença, descortina-se através das grades e a pouca distância delas, um objecto de pedra, que nos parece ter passado até agora indiferente à atenção dos arqueólogos. Data de longas eras, conta mais de quatrocentos anos, pois deve remontar-se indubitavelmente ao século XV. É ele um cruzeiro, devido, como tantos outros, à piedade de um indivíduo, que o mandou construir, ou por algum acto expiatório, ou por simples devoção, obedecendo ao sentimento religioso da época. O letreiro guarda silêncio sobre a causa que motivou semelhante voto. A nossa convicção é que o monumentozinho estaciona no terreno em que foi erecto, sendo ele quem deu a denominação, ainda hoje conservada, ao lugar próximo – “Cruz da Pedra”. A área da Quinta das Laranjeiras, dilatando-se, absorveu e anexou o terreiro público, ficando o cruzeiro encravado no recinto dela. O cruzeiro assenta sobre dois degraus com colarete. A cruz é floreada. na face anterior está a imagem de Cristo e na posterior a imagem de Nossa Senhora com o menino Jesus descansando sobre o braço esquerdo. O capital da coluna, sobre o qual se eleva a cruz, é gótico e faz corpo com esta. A Virgem está de pé sobre uma pequena mísula, que assenta no ábaco do capitel. A inscrição, contornando este, por cima da ornamentação gótica, diz o seguinte em caracteres também góticos: pedreanes morador lisboa madou fazer este cruz a hôra d´ds j da uirjm (“Pedro Eanes, morador em Lisboa, mandou fazer esta cruz em honra desta e da Virgem”).”

A cruz florlisada (Cruz de Avis ou, anagramaticamente, Siva ou Shiva, o mesmo Espírito Santo na teologia hindu) que coroa o capitel gótico é adornada na face anterior pelo Cristo Crucificado, e na posterior pela Virgem com o Menino descansando no seu braço esquerdo, sobre uma mísula que poisa no ábaco contornado pela legenda gótica da fundação. Esta obra foi mandada fazer por Pedro Eanes, morador em Lisboa, em honra de Cristo-Maria. O fuste da coluna é de mármore de Carrara, a base e os degraus de pedra lioz e a parte superior de calcário branco. Cristo-Maria (cujas iniciais são igualmente, por feliz acaso, as de Carvalho Monteiro) assinala o estado andrógino do Divino Espírito Santo na expressão conjunto do Filho dado à Terra pela Mãe do Céu, motivo caríssimo à espiritualidade franciscana que em todas as suas Casas sempre primou por ter uma cerca ajardinada que reproduzisse a condição edénica do jardim do Paraíso Terreal.

Ainda no tempo do barão de Quintela o cruzeiro existia no extremo da Quinta das Laranjeiras, voltado para a Serra de Monsanto, dando testemunho da origem toponímica do sítio (Cruz de Pedra), aqui onde se quis fundar, antecipando os Templos da Nova Jerusalém ou Idade do Espírito Santo, o Paraíso Terreal, ensejo levado a cabo por uns quantos largos de espírito graciosamente atrevidos, vindo fazer a delícia dos deuses e dos mortais neste taliano lugar idílico.

UM JARDIM MUITO ESOTÉRICO

Na entrada principal (até 1910) para o jardim do conde de Farrobo, na Estrada de Benfica, os seus dois torreões ilustrados com as estátuas laterais de um casal de faunos, o macho com a flauta, como também a primitiva entrada lateral, defronte para o vale de Sete Rios, com as águias enormes de asas abertas em guisa de protegerem a propriedade, revela-se a pretensão do destino que quis dar-se à mesma desde o seu início: o de parque zoológico que reproduzisse o ambiente do Paraíso original.

Isso deixa-se adivinhar pelo próprio carácter divinatório que a mitologia atribui aos faunos, havendo mesmo na Antiguidade clássica um tipo de versos oraculares chamados fauni, onde eram expostas as suas profecias. Fauno era filho de Pico, neto de Saturno e pai do próprio rei Latino. O seu equivalente feminino era a sua mulher Bona Dea. Os principais centros do culto a Fauno situavam-se nas regiões campestres latinas, e as suas festas, chamadas faunalias, eram a 5 de Dezembro, ocasião em que se sacrificavam bodes e faziam abundantes libações de leite e vinho. Em Roma, a 5 de Fevereiro, celebrava-se a festa das lupercalias, de tradição antiquíssima, perto do templo de Fauno Lupercus, instalado numa gruta do Monte Palatino. Essa gruta chamava-se precisamente Lupercal e era a mesma que Avandro, chefe da colónia dos arcádios, ao chegar ao Lácio e sendo bem acolhido pelo rei da região, chamado Fauno, consagrou a Pan, a divindade grega das florestas com a sua flauta encantada. O rito da celebração das lupercalias exigia o sacrifício inicial de bodes, com cujas peles se vestiam os sacerdotes de Fauno, e logo a seguir percorriam as ruas de Roma golpeando os transeuntes que encontravam à sua passagem. Esse acto era considerado uma purificação, além de atrair a prosperidade e a fortuna. Dizia-se também que as mulheres estéreis golpeadas pelas tiras dos luperci tornavam-se fecundas, pelo que elas mesmas ofereciam-se para serem golpeadas (o que faz lembrar a tradição pagã dos “caretos” em Portugal). O dia da realização dessa cerimónia de purificação chamava-se Februatos, que quer dizer “purgado”, o qual depois deu nome ao mês que passou a chamar-se Fevereiro. Posteriormente, acreditou-se que numerosos faunos habitavam nas florestas, e foram confundidos com os sátiros que faziam parte do turbulento cortejo de Baco[15]. Dispondo-se acima do figurino mitológico, a Tradição Primordial dá sentido diverso ao simbolismo fáunico, indiciando-o como figuração do pressuposto “Bode de Mendes”, ou melhor, de Memphis, assinalando-o como “o Caprino no topo da Montanha (da Iniciação)”, isto é, o saturnino Kumara, divindade hindu tradicionalmente reproduzida com a forma de um bode ou cabra.

Quanto à águia, ave solar cuja forma Júpiter ou Zeus, pai dos deuses, muitas vezes tomou para se manifestar aos mortais, numa antevisão mítica assinala assim o carácter imperial da supremacia deste parque sobre a cidade e o mundo, nisto submisso à intenção lusitana da recriação do Paraíso na antecipação de um futuro Império Terreal que trará a toda a Terra a condição edénica plenamente frutificada. As asas abertas dessas aves esculpidas, numa atitude agressiva de defesa, dispõem-nas como guardiãs da porta do Éden, defendendo e isolando o espaço interior de qualquer acometimento rapace do exterior.

No jardim, onde não falta um obelisco mandado plantar pela família Quintela, é no Grande Roseiral de Lisboa, por onde se entra atravessando uma ponte pênsil (tudo do tempo de Joaquim Pedro Quintela, reconhecido maçom[16]), que podem encontrar-se os elementos mais significativos afins à Tradição Primordial sob o aspecto egípcio-caldaico.

O tabuleiro semi-arqueado da ponte pênsil, própria dos jardins tebanos, é suportado por quatro colunas coríntias, cada uma tendo no cimo a estátua de um artífice egípcio erecto sobre uma pedra burilada, desta maneira assinalando os Guardiões das 4 direcções do Paraíso, numa postura hierática semelhante à adoptada na Maçonaria pelos “Mestres de Cerimónias” do Rito Adonhiramita, como se observa no Manual do 2.º Grau de Companheiro[17].

Tais artífices correspondem no plano simbólico aos “construtores de pontes”, os pontífices que fazem o vau ou “ponte” a Humanidade e a Divindade, motivo por que nos Mistérios Gregos eram associados aos thesmosphoros, guardiões do portal da imortalidade, que após transposto, descendo quatro degraus, dava acesso à barca de Caronte que levava à ilha dos imortais onde estava a caverna sagrada[18]. Hoje, o sorriso aflora aos lábios ao ver os visitantes despreocupados passearem de barquinha no lago sob essa ponte, assim mesmo, na inocência do recreio, reproduzindo o cenário sagrado dos Mistérios de outrora.

No Grande Roseiral de Lisboa, ex-libris deste jardim talhado ao estilo Le Nòtre, aparece a estátua de um dragão assírio-caldaico cujo significado prolonga o anterior da ponte pênsil com os artífices egípcios, e sobre ele diz Paulo Machado Albernaz[19]:

“O nome dragão, na Caldeia, não era escrito foneticamente e sim representado por dois monogramas, significando provavelmente, segundo os orientalistas, “o escamoso”. Podemos acrescentar que, sob um aspecto, aplica-se à Hierarquia dos Makaras. Em sânscrito, Makara designa um animal anfíbio desconhecido, geralmente chamado de “crocodilo”, mas que na realidade significa algo mais.

“O simbolismo do dragão tem significado séptuplo, e desses sete significados pode expor-se o mais elevado e o mais inferior. O primeiro é idêntico ao “nascido por si mesmo”, o Logos. Entre os gnósticos cristãos derivados dos essénios, ou adoradores da Serpente, era a Segundo Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho. O seu símbolo era a constelação do Dragão. H. Lezaray, em sua obra Trinité Chrétienne Devoillé, escreve que estando o Dragão colocado entre o Pai imutável (Purusha, o Espírito) e a Matéria mutável (Prakriti, a Mãe), ele transmite a esta última as influências que recebe do primeiro, donde provém o seu nome: o Verbo. As suas sete estrelas são as mesmas que estão na mão Daquele que é o Alfa e o Ômega, no Apocalipse. No seu significado mais terreno, o termo dragão foi aplicado aos Homens Sábios.”

Avista-se também um par de esfinges tetramorfas egípcias. Com efeito, o tetramorfo (do grego tetra, “quatro”, e morphé, “forma”) é comumente chamado de “esfinge” (do grego sphigx, “animal fabuloso”). A Bíblia cita-o várias vezes: em Ezequiel, cap. 1, vers. 5-14, e no Apocalipse, cap. 4, vers. 6-8. Mas foi Santo Irineu, na sua obra volumosa Contra as Heresias[20], o primeiro a relacionar os quatro “animais” compositórios da esfinge com os quatro evangelistas sinópticos:

O Homem com São Mateus;
O Leão com São Marcos;
O Touro com São Lucas;
A Águia com São João.

Desde então, a iconologia cristã passou a fazer uso desse simbolismo. Explica-se a escolha dessas atribuições pelas razões seguintes:O Homem ou Anjo representa Gabriel anunciando a incarnação do Salvador entre os homens, episódio natalício descrito mais especialmente por São Mateus. De forma mais profunda, representa o estado de Anjo expresso na Paradhesa, Paradaîza ou Paraíso pelo 2.º “Rio Sagrado”, Parde ou Parda de cor “violácea”, manifestando o elemento natural Água (Apas, em sânscrito).

O Leão de São Marcos é alusão ao deserto, em cujo primeiro capítulo do seu Evangelho é descrito São João Baptista pregando a penitência ao povo, baptizando-o e ao próprio Cristo, com a água santa do Rio Jordão ungindo-o como “Leão do Deserto” e “Rei de Judah”, descendente de David e Salomão. De maneira mais esotérica, expressa o estado de Arcanjo e o 3.º “Rio Sagrado” ou Parda “avermelhado”, cor do Fogo (Tejas, em sânscrito).

O Boi ou o Touro lembra, na sua qualidade de vítima escolhida para os principais sacrifícios da antiga Lei, o sacerdócio, cujas funções são desempenhadas por Zacarias assinaladas no primeiro capítulo do Evangelho de São Lucas, quando ele é advertido pelo Anjo acerca do nascimento de João Baptista. Teosoficamente, indica o estado de Homem e consequentemente o 4.º Parda de águas “alaranjadas”, relacionadas ao elemento Terra (Pritivi, em sânscrito).

A Águia indica a sublime elevação da narrativa de São João. Representa, afinal, a descida do Logos ou Verbo Vivo à Terra pelo caudal celeste do 1.º Parda de tons “verdes”, expressivo do elemento Ar (Vayu, em sânscrito), igualmente assinalando o estado de Arqueu como o mais elevado presente na Manifestação Universal.

Os quatro “animais” dispostos em torno de Cristo (representando o 5.º Parda central de cor “azul”, indicativo do Éter (Akasha, em sânscrito) como Quintessência da Natureza), devem ocupar, cada um, lugar preestabelecido: o Anjo ocupa a direita, ao lado da cabeça de Cristo; a Águia fica à esquerda da mesma cabeça; aos pés, na mesma ordem, o Leão e o Touro, segundo o Padre Auber[21].

Quanto ao significado do corpo animal da esfinge estar em posição de repouso mas mantendo a cabeça humana erguida, expressa a influência activa do Espírito sobre a natureza passiva da Matéria, facto assumido nas sociedades tradicionais da Europa no acto da Autoridade Sacerdotal (Altar – Oratore) reconhecer e investir o Poder Real (Trono – Belatore), tal qual o influxo de Purusha (Espírito) age sobre Prakriti (Matéria), neste caso, a sabedoria sacerdotal dirigindo a força real, presidencial, etc.

Ainda no Grande Roseiral de Lisboa, admiram-se duas belas estufas em casas chãs de arquitectura maneirista de risco amouriscado ao gosto possível de Raul Lino. Cada uma com três arcarias com belos vitrais policromados, a sua visão sugere-me os sinais encobertos da presença daquela misteriosa Milícia chamada Ordem de Mariz, que a Teosofia designa de Linha Morya sobre a qual Roberto Lucíola escreveu[22]:

“Na Tradição são denominados de Adeptos da Linha Morya (Mouros, Marus, etc.) os ligados à Mãe Divina. São os que impulsionam a Evolução por meio do desenvolvimento da Ciência. Estão ligados ao poder do raciocínio. Concretizam com o mental objectivo a Sabedoria Abstracta. Consolidam o Saber Superior na mente humana comum. Difundem o Conhecimento para que ele chegue ao alcance de todos. Desvendam os segredos da Natureza.”

Pois bem, nisso D. Fernando II e Carvalho Monteiro, por certo à cabeça dos demais intervenientes, desvendaram os segredos da Natureza ao realizarem o sonho edénico: a fundação cénica do Paraíso Terreal que se seguiu aos Dias da Criação[23].

Espécimes minerais juntos a raridades vegetais, aves valiosas e raras em convívio com animais de todas as partes do mundo[24], todos são admirados pelo humano visitante que, mesmo sem se aperceber, toma parte activa na recriação paradisíaca do Éden donde saímos e onde volveremos.

Para não se perder a memória viva, aí está o Zoo de Lisboa onde subjaz o apelo profundo, mensagem de esperança simples na fórmula de recreação dos sentidos, à reintegração final das criaturas viventes num Mundo Novo desejado de Concórdia Universal.

 

NOTAS

 

[1] Fernando Dacosta entrevista Vitor Manuel Adrião, Jardim Zoológico de Lisboa – A imitação do Paraíso bíblico. “Público Magazine”, separata do jornal “Público”, n.º 157, 7/3/93.

[2] José Teixeira, D. Fernando II. Rei-Artista. Artista-Rei. Edição da Casa de Bragança, 1986.

[3] Francisco de Almeida Grandella, Memórias e receitas culinárias dos Makavenkos, pp. 40-41, Lisboa, 1919. Reedição pela Marginália Editora, Lisboa, 1994.

[4] Jorge M. Rodrigues Ferreira, com a colaboração de Carlos Biscaya, São Domingos de Benfica (Roteiro). Edição da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, Lisboa, 1991.

[5] P. Álvaro Proença, Benfica através dos tempos. Depositária União Gráfica, Lisboa, 1964.

[6] Raul Proença, Guia de Portugal – I (Lisboa e Arredores), pp. 434-435. Reedição integral pela Fundação Calouste Gulbenkian da 1.ª edição pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1924.

[7] Fernando Emygdeo da Silva, História do Jardim Zoológico de Lisboa. Os movimentados 80 anos da sua meritória existência – 1884-1964. Lisboa, 1965.

[8] Robert Bonnell, Dante o Grande Iniciado. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2006.

[9] Bíblia Sagrada, Génesis, 2:10-14.

[10] D. Fernando II inclusive comprara ao conde de Farrobo o camarote deste no Teatro Real de S. Carlos, em Lisboa, para a sua esposa morganática D. Elise Hensler, a condessa d´Edla. Cf. Teresa Rebelo, Condessa d´Edla. A cantora de ópera quase Rainha de Portugal e de Espanha (1836-1929). Alétheia Editores, Lisboa, 2006. Vd. ainda E. de Noronha, O conde de Farrobo. Memórias da sua vida e do seu tempo. Editora Romano Torres, Lisboa, 1945.

[11] Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Editora Dinapress, Lisboa, 2002. A mesma notícia já a dera publicamente anos antes, aquando das duas entrevistas concedidas ao jornalista sr. Victor Mendanha, do jornal Correio da Manhã, que as publicaria nas páginas centrais: Seguindo o caminho de D. Fernando II na procura do Santo Graal. In Correio da Manhã, domingo e segunda-feira de 5 e 6 de Janeiro de 1986.

[12] Knorr Von Rosenroth, A Kaballah Revelada (Filosofia Oculta e Ciência). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2005.

[13] Tanto assim é que o próprio Palácio da Rua do Alecrim, em Lisboa, fora comprado directamente por Francisco Augusto Mendes Monteiro ao barão de Quintela e conde de Farrobo, talvez por motivo de mudança residencial deste paras as Laranjeiras. Este palácio da Rua do Alecrim, no Largo do Quintela, foi erigido no sítio onde antes se elevava o dos condes de Vimioso, depois marqueses de Valença, que um incêndio destruiu em 1726. Neste mesmo edifício, que viria a pertencer à família Carvalho Monteiro, chegou a hospedar-se o general Junot, quando da invasão francesa de 1805, e nele também se celebraram importantes reuniões políticas além de festas que ficaram memoráveis. Carvalho Monteiro iniciou por fazer deste palácio um verdadeiro museu particular, reunindo uma rica colecção de relógios, outra de borboletas, que foi das primeiras do mundo, e uma preciosa livraria em que avultava um raro núcleo de espécies camonianas. Aquando da comemoração do terceiro centenário da morte de Camões, em 10 de Junho de 1880, ela foi particularmente subsidiada pelo mesmo, tendo sido considerada uma manifestação régio-patriótica antijacobina, o que naturalmente suscitou a contra-reacção violenta ao longo dos vários trechos do trajecto do cortejo, por parte de membros da Academia de Ciências de Lisboa ligados à Maçonaria, e sobretudo por parte da Carbonária, que incitou o povo a igual e nada cívico procedimento mas que, exceptuando alguns arruaceiros dos bairros mal-afamados da cidade misturados na multidão à caça da bolsa do próximo desatento, não lhes deu o aval nem a atenção pretendidas. O povo entendia o seu rei, aclamado unanimemente, entendia o acto pátrio que lhe tocava fundo, expressando o espírito comum de Portugal, mas já não entendia uns agitadores palavrosos misturados com arruaceiros mal-afamados. O interessante de tudo isso é que esse cortejo cívico, ilustrado com carros alegóricos, ter programado o seu itinerário de modo que passasse diante do palácio de Carvalho Monteiro, seguindo um trajecto aparentemente desajustado mas possivelmente com a intenção de homenagear o seu patriótico mecenas anónimo: o desfile organizou-se e começou na Praça do Comércio, passou à Rua Augusta, Rua Áurea, Rua do Arsenal, Largo do Município, Rua Nova do Almada e Chiado até à Praça Camões, depois desceu pela Rua do Alecrim vindo a dispersar no Cais do Sodré. – Cf. Dicionário da História de Lisboa, dirigido por Francisco Santana e Eduardo Sucena. Carlos Quintas & Associados – Consultores, Lda., Lisboa, 1994. E também António Filipe Pimentel, O cortejo cívico das comemorações camonianas de 1880, Lisboa, 1988.

[14] Godofredo Ferreira, O Convento de Santo António da Convalescença – Padroado dos Correios-Mores do Reino. Lisboa, 1962.

[15] J. C. Escobedo, Diccionario Enciclopédico de la Mitología. Editorial de Vecchi, Barcelona, 1985.

[16] “QUINTELA (BARÃO DE) – Joaquim Pedro Quintela, Lisboa, 20.8.1748 – Lisboa, 1.10.1817. Fidalgo da Casa Real, grande proprietário rural, comerciante e opulento capitalista, desempenhou as funções de contratador dos contratos reais de tabaco, diamantes, azeite, peixe e baleia, investindo igualmente na indústria de lanifícios da Beira Baixa. Recebeu o título de 1.º Barão de Quintela em 1805. Liberal, protegeu ao longo da sua vida numerosos correligionários. Foi iniciado em data e Loja desconhecidas.” – In A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, volume II, página 1183. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[17] José Martins Jurado, Maçonaria Adonhiramita (Apontamentos). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004. E também Crata Repoa ou Initiations aux Anciens Mystères des Prêtes d´Egypte. Traduzida do original alemão de 1785 e publicada em Paris por Ant. Bailleul, 1821.

[18] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Edições Gallimard, Paris, 1962. Obra reeditada em português pela Editora “O Pensamento”, São Paulo.

[19] Paulo Machado Albernaz, A Nova Raça – Os Dragões e as Serpentes na Simbologia Arcaica. Revista Dhâranâ, ano XLI, n.º 28/29, Janeiro-Dezembro de 1966, São Paulo.

[20] Irineu de Lyon (c. 130 – 202 d. C.) escreveu no ano 180 (século II) Sobre a detecção e derrota da assim chamada Gnosis, mais conhecida como Adversus haereses, “Contra as Heresias”, obra em cinco volumes na qual o autor transcreve o pensamento gnóstico e contrasta a sua crença com o cristianismo católico, refutando a Gnose de Valentim (c. 100 – 160 d. C.), que chegou a ser candidato a bispo, observando-se ao longo das suas páginas um ataque minucioso a favor da ortodoxia episcopal, o que é visto como uma primeira evidência da primazia papal.

[21] Charles Auguste Auber, Histoire et théorie du symbolisme religieux, 4 volumes. Volume IV, pp.112-113, Féchoz et Letouzy, Paris, 1871.

[22] Roberto Lucíola, Manifestação Avatárica. Revista “Aquarius”, ano 5, n.º 18, 1979, Rio de Janeiro. Vd. também Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz, Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum Novalis, Carcavelos, 2006. E ainda, de Vitor Manuel Adrião, Ordem de Mariz – Iniciação e Segredo, Euedito, Lisboa, 2019.

[23] A pretensão de (re)criar o Paraíso ou Éden em Portugal é, de facto, muito antiga. Por exemplo, quando escrevi sobre a aldeia saloia de Frielas, concelho de Loures, onde o rei D. Dinis teve casa de campo com pretensões a paçal, tive oportunidade de dizer: “Por estas bandas saloias havia e com fartura caça miúda: coelhos, perdizes, raposas, ginetes, etc., cuja caçada era muito apreciada pelos reis e cortesãos nas horas de ócio. Terá sido Frielas, em tempo de D. Dinis, Real Couto de Caça; Frielas que foi cenário do primeiro Jardim Zoológico havido em Portugal, remontando ao século XIV e devendo-se a sua constituição à vontade (real e sonho paradisíaco, depois perseguido por outros monarcas portugueses) de D. Dinis, com instalação na sua quinta e paço de Frielas. Segundo a documentação existente na Torre do Tombo respeitante ao Paçal de Frielas, D. Dinis começou nesta sua propriedade por aclimar um urso, de grande corpulência, que fora apanhado a laço e oferecido ao rei. Seguiu-se um lobo. A família real e a corte encontravam na apreciação dessas duas espécies expostas agradáveis momentos de recreio, demonstrados por manifestações de grande divertimento. Em breve foram acrescidos de falcões.” – Vitor Manuel Adrião, Frielas (Memorial Histórico), edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas, 1996.

[24] Victor Luís Eleutério, Histórias de jardins com animais ao fundo. Separata do jornal “Correio da Manhã”, n.º 5644, 16/10/94.

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