Iniciação (Teúrgica) JHS – Por Hugo Martins Quinta-feira, Maio 7 2020 

INTRODUÇÃO

O sintoma mais evidenciado hoje imperando nos meios neoespiritualistas do chamado “movimento new age”, disseminado sobretudo entre 1970 e 1980, é o de uma espiritualidade alternativa isentada da regra e ordem com livre acesso sem necessidade de mestres ou instituições de carácter tradicional e iniciático para o desenvolvimento humano, onde cada um poderá ser guru, mestre de si mesmo com um vasto leque de oferta e procura (selfie meditation, autoajuda, divinações e afins, etc.). Este “neoliberalismo espiritual”, inclusive de modo a justificar-se, é frequentemente defendido com a ideia alienígena de ‘Auto-Iniciação’ (?!) com diferimento da multissecular consignada Alta Iniciação. A verdade é que essa visão honra uma despreocupação e uma enorme irresponsabilidade para quem se aventura nos caminhos do Ocultismo prático e deles não saberá sair, tampouco dar as directrizes orientadoras de uma Espiritualidade verdadeira aos seus “súbditos” e “seguidores”, no que tudo isso redunda em parafernália de gurus mais ou menos carismáticos, comunidades exclusivistas e toda uma indústria e comércio de fazedores de  “milagres” que os prometem na resolução dos problemas mais mundanos das pessoas. Todo este “materialismo espiritual”, no dizer de Trungpa Rinpoché, ocorre exactamente por haver uma apropriação profanizadora da Tradição Espiritual, ou das tradições de carácter sagrado ou religioso transportadas para um sincretismo de “centro comercial” fabricando uma indigesta “salada de frutas”, enganando o imediato dos sentidos e sempre com consequências negativas e contaminantes para a Alma. A consequência de tal ou tais “produtos espirituais”, é de que apodrecem rapidamente ao cabo de pouco tempo, havendo a necessidade onírica de os substituir por outros. A que se deve esse fenómeno? Ao simples facto de estarem desligados das suas raízes tradicionais, obrigando a uma “nova colheita”, a uma nova criação e consequentemente ao inevitável novo apodrecimento dos mesmos, mantendo a insatisfação interior. Assemelha-se ao fruto que amadurece fora da árvore e acaba por apodrecer. Este ciclo vicioso vivido de forma ininterrupta é tóxico para a Alma Humana, levando o indivíduo a recriar uma espécie de mito de Tândalo que nunca fica saciado na sua sede, neste caso, espiritual, conduzindo-o a uma procura por ilusões momentâneas cada vez deixando-o mais longe da sua verdadeira Realização individual. Por que razão uma tradição como a da Cabala ou a do Sufismo, mesmo tendo um carácter exotérico além do intrínseco esotérico, nunca sucumbiram ao longo da História? Exactamente por estarem fortemente enraizadas na milenar fonte da Tradição Espiritual. A própria História descrevendo a cultura dos povos nas suas diversas manifestações sagradas e religiosas, confirma esta verdade universal. Deste modo, podemos afirmar com elevado grau de segurança que Espiritualidade sem Tradição é como a criança sem educação. Será sempre desgovernada, caótica e destituída de valores sólidos. No entanto, parte da Tradição Espiritual também hoje não se encontra em pleno. Por mais que valorizemos e tenhamos amor à Tradição Iniciática das Idades, a verdade é que a crise de valores espirituais reina ao nível institucional, vítima dos efeitos funestos da Kali-Yuga ou Idade Sombria por que atravessa o Mundo.

A “especulação simbologista”, que adentrou o Ocultismo ocidental no século XVIII, conduziu as antigas tradições a um folklore ou “conheceres populares” destituído de verdadeiro significado iniciático, limitando-se à indologia moral e ética educativa da Alma mas não do Espírito. Além disso, as teses filosóficas (Rousseau e Lock, por exemplo) conducentes às diversas políticas de carácter social visando transformar a “pedra bruta”, função inicialmente ao encargo de Adeptos e de Iniciados, na “pedra polida” do Estado Social,  deram origem ao Poder Social e com este, não raro por ausência humana do valor espiritual, decaindo em anárquicas ditaduras totalitárias, completamente avessas a qualquer Estado Social justo e perfeito para governantes e governados nos puros paradigmas da Sinarquia. Por outro lado, vemos os “mitos de fundação” irrompendo em larga escala nos séculos XIX-XX, que além da auto-justificativa descendência da Tradição Primordial, a maioria das vezes sustentam-se em Egrégoras ou “Sinergias Colectivas” de um Passado remoto desadequadíssimas às necessidades presentes do Ciclo ou Era ora vigente, ou que pelo menos se avizinha o seu despontar consciencial (Aquário). Tal procedimento e resultado vêm a ser análogos aos mesmos que praticou D. Sebastião na violação dos túmulos dos seus antepassados – corpos mortos!

Toda essa “especulação simbologista”, “folklores” e “mitos de fundação” não contribuíram nem contribuem em nada à Tradição Iniciática, tornando-a mesmo contra-iniciática, pelo menos aparentemente numa inversão própria de diabolismo sinistro, assim reflectindo à saciedade ignorância atroz das verdadeiras origens tradicionais do Homem Psicossocial, bem como das suas chaves iniciáticas.

O QUE É A INICIAÇÃO?

Neste sentido, é incontornável que percebamos de maneira clara o que é a Iniciação. Etimologicamente, esta palavra advém do termo latino initio, raiz de termos como iniciar, início e iniciado. De acordo com este pressuposto, a Iniciação visa assim uma relação do sujeito com o “início das coisas e do mundo”, o que equivale tradicional e espiritualmente à relação com o Logos, o Verbo Divino (“No princípio era o Verbo…”), ou seja, implica uma relação/vivência imediata ou gradual com o Espírito, em conformidade ao amadurecimento ou desenvolvimento sensorial da Alma. Independentemente das diversas abordagens e definições que o conceito implica, ele é algo caracteristicamente Uno, Invisível e Indivisível do Espírito, antagónico ao Múltiplo, Visível e Divisível da Matéria. Neste sentido, afere-se que a relação do sujeito com o “início”, portanto, a Iniciação, trata-se inquestionavelmente de uma relação com as causas e princípios contrariamente aos fenómenos e efeitos das coisas e do mundo. Simbolicamente, a imago sintetizadora de toda esta realidade é o Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda. Este animal sagrado que se fecha sobre si mesmo, sintetiza toda a dialéctica dos opostos numa única realidade. Não tem princípio nem fim, é o equivalente ao Alfa e Ómega, logo, ao Eterno, à Fons Vitae, à Imortalidade, à Origem do Tudo e do Todo – coisas, objectos, pensamentos, emoções, etc. Contudo, ao fechar-se sobre si mesmo torna esta mesma realidade hermética, oculta, secreta ou invisível. Daqui se justifica todo o secretismo em torno das Ordens Iniciáticas ou, pelo menos, discretas, a chamada disciplini arcani, sendo uma pedra de fecho crucial para quem vive esta característica essencial à realização na Tradição Espiritual. Criticá-la é sinónimo de ignorância, da preferência à desordem psicomental  preterindo qualquer tipo de ordem reguladora, e mais grave o é quando não se pratica por falta de integração e conhecimento da sua via mas, em actos os mais profanos e profanizadores, se expõem aleatória e indiscriminadamente ao público geral quanto se consiga capturar aqui e acolá de revelações, rituais, objectos, símbolos sagrados, etc. Portanto, a Iniciação para além de se destinar a estabelecer uma relação com as Causas, é uma tradição que se desenvolve no âmago do secreto por afinidade análoga à realidade oculta com que nos pretendemos relacionar. O Culto torna-se, ou é, Oculto. A moderna Teosofia não é excepção, e para o comprovar tanto Madame Blavatsky (Mestra Upasika) como o Professor Henrique José de Souza (Mestre JHS) utilizaram ambos o Ouroboros no pantáculo representativo das Instituições por eles fundadas: a Sociedade Teosófica de Adyar e a Sociedade Teosófica Brasileira.

No entanto, a conquista da vivência da Unidade transcendente da vida, do Uno, fornecida pela imagem do Ouroboros, no Homem tem um significado muito específico – a reintegração do seu ser na sua Consciência divina. Esta reintegração é também representada no símbolo do Hexagrama, a estrela de seis pontas, no referido pantáculo, a qual estabelece não só a relação entre o Microcosmos e o Macrocosmos, como também a união, o jugo ou casamento entre o triângulo invertido, ou seja, a Natureza Inferior (Personalidade) do Homem, e o triângulo vertido, portanto, a Natureza Superior (Individualidade) do mesmo. Mistério magno que se compreende como a imanência Divina no ser humano, origem de um fenómeno extraordinário dentro da Fisiologia Oculta explicado pelo despertar da “Serpente Ígnea”, localizada em estado latente na base da coluna vertebral, à qual os orientais designam de Kundalini. Não nos ocuparemos em detalhe sobre o assunto, mas o Iniciado ao dinamizar os seus centros vitais, chakras, através do domínio da Força Ígnea Serpentina ou Kundalínica pela Yoga e a Meditação num sentido ascendente, passa a ter coexistência em duas consciências ocupando o mesmo corpo, formando assim o chamado Androginismo Consciencial. É quando o Homem se torna uma veste perfeita do Eu Superior, embora seja apenas um reflexo de cima. Passa a ser uma Alma Iluminada, uma Alma Equilibrada, uma Alma em estado Neutro. Esta é a principal razão oculta acerca da “Serpente Divina” (Theo-Ophis, em grego, que também está na origem filológica de Teosofia, Theo-Sophia) constituindo, por sua vez, o símbolo do Iniciado, daquele que reconquistou a “initio”, o início de tudo e de todas as coisas, o que equivale ao conhecimento do seu ser e das coisas, ou seja, ao reservatório espiritual de todas as suas existências anteriores, bem como à compreensão das causas originais da Criação. Ele reconecta-se com a Origem.

Além deste conhecimento, o Iniciado também desenvolve várias faculdades psicomentais, aquelas que os orientais denominam de sidhis. Além das diversas faculdades existentes (clarividência, clariaudiência, etc.), aquela que mais se revela no Iniciado é a Intuição, a sementeira, o florescimento e colheita do sexto sentido, também conhecida no Oriente por Budhi. É difícil de exprimir em termos concretos o que é a Intuição, visto ser a própria VOZ DO SILÊNCIO, a “FILIA VOCIS” ou SENZAR, a “Fala do Coração” cujo silêncio grita nas criptas internas do próprio ouvinte!… Daí o Mestre JHS ter afirmado: “A Intuição é mais atrevida do que a própria Inteligência. Ela é algo assim como um farol que orienta o rumo da Inteligência e, por isso mesmo, foi a Voz Interna que guiou todos os Descobridores”, e acrescenta, “Por isso mesmo, a Intuição é um estado permanente nos Homens Perfeitos ou Adeptos, enquanto esse mesmo estado naqueles a quem chamamos de “sábios”, “génios”, etc., por suas obras de valor para o mundo, só se manifesta em determinados momentos”.

Para chegar à tão sublime cumeeira da Evolução, necessário se torna o despertar da Intuição, esta a “alavanca de Arquimedes” necessária ao entendimento e aprofundamento dos Mistérios Iniciáticos. Sem ela, haverá somente cultura mais ou menos decorada mas nenhuma tomada de consciência efectiva da finalidade última, e única, do Conhecimento Iniciático: transformar a Vida-Energia em Vida-Consciência.

Por esse motivo, existem e encontramos cinco tipos de pessoas que procuram a Iniciação:

1) A curiosa: procura matar a sua curiosidade e, como todo o processo é oculto, desiste;

2) A céptica: duvida de tudo, até do seu cepticismo, ficando, assim, perdida;

3) A indiferente: chega à Iniciação por causa de outros, e como tanto lhe faz, sai como entrou;

4) A fanática: é a pior, porque continua na Iniciação, de onde retira poderosos alimentos para o seu fanatismo que a afasta da realidade iniciática;

5) A que busca a Verdade: é a que realmente pode se tornar Iniciada nos Mistérios Menores, ligados à Evolução da Humanidade, e nos Maiores, ligados às Hierarquias Espirituais, na razão dos 56 Arcanos Menores e dos 22 Arcanos Maiores do Tarot.

A Iniciação Teúrgica, ensinada e ministrada pelo Professor Henrique José de Souza (JHS), é conhecida como Tríplice Iniciação, cujos aspectos são os seguintes:

Na tripeça, cada uma das três colunas agrupam aspectos que têm entre si relacionamento directo para fortalecer cada uma das três bases da Iniciação, Mente – Emoção – Vontade. Este Triângulo, chamemos de inferior, é a “retorta” ou o “laboratório” das experiências humanas onde a Evolução actual se processa de modo a que a personalidade humana no seu labor interno se assemelhe à Individualidade (“Aquilo que é indivisível”) e apresente o terreno fértil para que a Graça do “Espírito Santo” se manifeste, ou seja, para que a Mónada Divina (Espírito) seja una com a Matéria. É o famoso Rebis ou Casamento Alquímico de Christian Rosenkreutz. Este fenómeno hermético corresponde novamente à chave de Hermes, o Trismegisto, ou seja, O que está em Cima [Individum] é como aquilo que está em Baixo [Persona] para que se dê o milagre da Unidade [Rebis]. Assim, a Iniciação é o Labor permitindo o desenvolvimento justo, perfeito e seguro deste processo oculto que pode durar uma vida ou inúmeras vidas do ser humano. Vejamos, agora, em que consistem os três tipos de Iniciação.

INICIAÇÃO INDIRECTA

É a Iniciação pela própria Vida, onde o Homem recebe as cargas de sofrimento e de felicidade, geradas, respectivamente, pelos seus próprios erros e acertos. É a mais sofrida, sendo aquela a que a Humanidade está sujeita. Todos se estão iniciando ao longo dos ciclos de reencarnações para atingir o padrão evolutivo final do 4.º Reino Hominal ou Jiva, conhecido na linguagem esotérica como Jivatma.

INICIAÇÃO DIRECTA

É a que se processa através de um Colégio Iniciático, onde o discípulo interpreta os Ensinamentos segundo a sua própria capacidade. É chamada de Simbólica devido aos símbolos que são usados nos Graus e nos Ensinamentos ocultos. As práticas de Yogas, Rituais, Mantrans e Instrução oculta, gradativamente aumentam o grau de consciência e capacitam o discípulo para entender a Linguagem Simbólica.

INICIAÇÃO REAL

É a que ocorre quando o discípulo penetra e decifra os símbolos à luz da Sabedoria Divina, deparando-se, assim, com a Verdade. A meditação constante nos símbolos iniciáticos é, portanto, a chave que abre o Portal da Verdade… representada por um Mestre Real que lhe dará a Iniciação Real, sempre em conformidade à evolução já alcançada pelo discípulo no Caminho da Iniciação Verdadeira.

Iniciação Verdadeira, em última e primaz análise, é a transformação das nidhanas em skandhas! Quando reencarnamos, trazemos de vidas anteriores tendências negativas (nidhanas) e tendências ou qualidades positivas (skandhas). Nascemos sempre com as duas tendências. Nidhanas são forças vivas que não podem ser enfrentadas directamente, mas, transformadas em skandhas pelo processo iniciático. Preguiça, tentações passionais e vícios físico-mentais são exemplos de nidhanas, as quais, se enfrentadas directamente, acabam voltando diferentes e mais potentes. Para se vencer um vício é necessário haver uma transformação interna (descondicionamento e conscientização), ou melhor, despertar uma skandha que seja literalmente oposta àquela nidhana. Pelo amor e ajuda ao próximo, a começar pelos Irmãos de Grupo, conseguimos debelar muitos vícios, pois o vício acha-se estreitamente ligado ao egoísmo, sendo que o cultivo do espírito de fraternidade o extingue.

No entanto, resta ressalvar o seguinte: a Iniciação não visa despertar poderes superiores e tornar o discípulo clauriaudiente, clarividente ou sensitivo. A acontecer o despertar das faculdades superiores (sidhis), serão consequência da evolução normal do discípulo, e jamais anormalidades forçadas contra-Natura as quais acabam por o arrojar fora do decurso normal da Iniciação. Há até casos, isto como exemplo, de discípulos dotados de elevada intelectualidade e distinta moralidade mas que, todavia, nunca tiveram quaisquer faculdades psicomentais ou sidhis. E isso é o melhor para se chegar são e salvo ao fim do Caminho, sem correr o risco de, algures, cair no mediunismo puro e simples, atrofiar-se e perder o timão de sua Alma… “Deixa os teus sidhis para a próxima vida”, afirmava o Senhor Gautama, o Budha, ou seja, “vai protelando-os”… Tudo tem o seu momento justo de acontecer, pelo que forçar é como “colher fruta verde antes da época da colheita”.

Para não tornar o tema acerca da Iniciação muito denso, resta apenas destacar as três regras importantes no Caminho Iniciático do discípulo e as suas etapas:

1.º O Iniciado faz-se, não é feito por ninguém.

Somente pelos próprios esforços é que o Iniciado consegue transformar-se num Adepto. Existem regras ocultas que forçam um Mestre a aceitar um discípulo que realmente queira se iniciar, independentemente da sua raça, estatuto social, condição cultural e outros requisitos, desde que preencha as condições básicas para encetar o processão de Iniciação. Porém, essas mesmas regras impedem o Mestre de passar conhecimentos ocultos ao discípulo, se ele não estiver preparado e não se esforçar para os conseguir.

2.º O sigilo deve ser absoluto, os Iniciados calam-se.

Na maioria dos casos, quando o Mestre começa a manifestar-se, interiormente o discípulo pode ficar eufórico e acabar por contar aos outros as suas experiências íntimas. Isto rompe a ligação conseguida, que só voltará, se voltar, muito tempo depois, após esforços redobrados. O merecimento de receber algo oculto é apenas daquele que se esforça e tenha seguido as regras da Iniciação. Cabe ao discípulo interpretar as experiências e usá-las para o seu desenvolvimento, visando sempre ajudar a Humanidade. Determinados conhecimentos ocultos, gradativamente, estão sendo passados para a Humanidade, porém, existem conhecimentos que, em hipótese alguma, podem chegar aos homens, no seu actual estado evolutivo, pois podem comprometer o trabalho das Hierarquias Espirituais envolvidas com a Evolução Humana e provocar danos gravíssimos ao Desígnio da Lei “que os Mestres conhecem e servem”, ou ainda, no caso de envolver forças subtis da Natureza, provocar verdadeiros desastres ambientais, iguais ou piores aos ocorridos na Atlântida.

3.º Quando o discípulo está preparado o Mestre aparece.

Resume, em outras palavras, o que já foi exposto anteriormente, ou seja, o Poder de Kundalini manifesta-se. Sintetizando, esta Força Electromagnética ou Energia Divina que vibra no Seio da Terra ligada ao Homem pelo seu chakra raiz, late adormecida no seu Corpo Vital, e quando desperta liberta-se e percorre serpentariamente, de baixo acima, os restantes centros vitais (chakras), um a um, existente nesse corpo, afectando directamente o Físico por via do sistema glandular. De maneira que a consciência fisica é dilatada e transportada para outros pontos de percepção, para outros Planos supra-sensíveis além daqueles alcançados pelos sentidos físicos.

Enfim, quando o discípulo (a Personalidade) está pronto (alinhado), o Mestre (a Individualidade) aparece (manifesta-se).

De facto, só o Mestre é capaz de discernir quando é chegada a altura de estabelecer um contacto mais íntimo com o discípulo, assim o aceitando. Uma aspiração pura, um desejo veemente, uma determinação inabalável, uma apetência insaciável para o estudo das coisas ocultas e, acima de tudo, a vontade de servir desinteressadamente a Humanidade. Tais são os requisitos que basicamente se exigem aos que pretendem trilhar a Via do Discipulado. Esta ligação íntima e oculta entre Mestre – discípulo respeita três períodos: Probatório (VIVEKA ou MANODVARAJJANA), a Aceitação (VAIRAGYA ou PARIKAMMA) e a Filiação (SHATSAM PATTI ou UPACHARO). Para que esta última ocorra, necessário se torna verificar a fixação das seguintes qualidades no discípulo:

1) SAMO: Quietação ou domínio do pensamento;
2) DAMO: Subjugação do eu pessoal, domínio da conduta;
3) UPARATI: Tolerância;
4) TITIKKA: Paciência;
5) SAMADHANA: Aplicação, equilíbrio;
6) SRADDHA: Fé, confiança.

Quando elas tiverem sido conquistadas, o discípulo transforma-se num GOTRABHU, isto é, num que “está apto para a Iniciação”. Só posteriomente a esta preparação é que o discípulo sofrerá a transformação auferida na Verdadeira Iniciação, a qual, por analogia aos ritmos da Evolução Cósmica, se apresenta em 4 Graus, graduações ou tipos de Iniciação, sendo a última a integração ou absorção no Divino, o CHRESTUS ou ARHAT.

Neste percurso maiêutico da Iniciação, o parturejar das potencialidades adormecidas no interior do iniciando, nada mais são do que o desabrochar da Centelha Divina na sua consciência, equivalendo, na linguagem tradicional e iniciática, à condição do despertar do “Cristo Interno”. Assim, é possível estabelecer uma correlação entre as quatro (ou cinco) primeiras Iniciações e uma espécie de “Vita Christi”, como processos análogos ao fenómeno oculto que sucede no interior do iniciando. Então, no seu progresso espiritual, até alcançar a 1.ª Iniciação, o discípulo é confrontado com certas provas que testam o seu verdadeiro carácter, de maneira a provar se está apto a ingressar a Via do Aspirantado. A passagem do Aspirantado ao Discipulado real pode ser comparada à 1.ª Iniciação naquilo que ela tem no simbolismo da sua realidade intrínseca, isto é, o Nascimento. Seguir-se-á a fase (ou a crise) do Batismo (2.ª Iniciação), depois a da Transfiguração (3.ª Iniciação), seguidamente a Crucificação (4.ª Iniciação), e finalmente a Ressurreição (5.ª Iniciação), onde o Discípulo se transforma em Mestre Perfeito, Adepto Independente, Super-Homem, Jivamukti ou Jivatma (tantos são os designativos para uma só e soberba realidade), por ter em sua natureza e de maneira integral TRANSFORMADO A VIDA-ENERGIA EM VIDA-CONSCIÊNCIA.

JHS – O MESTRE E A OBRA

Na vivência da Tradição Iniciática, além da disciplini arcani a relação do iniciando com o Divino não se estabelece propriamente por órgãos ou instituições religiosas de cariz confessional, mas antes pela via mistérica da mesma Iniciação, quer dizer, o iniciando é um discípulo informado e nunca um simples devoto crencista. Por seu turno, para ser realmente discípulo, obriga-se a possuir disciplina iniciática, facultada por algo (um Colégios de Mistérios) ou alguém (um Iniciado nos Mistérios), ou antes, por alguém representando algo e que que já alcançado um elevado estado de Iniciação ou elevação espiritual, em último caso podendo ser um Mestre Vivo. Não há Iniciação sem relação Mestre – discípulo, justificando, e repetindo mais uma vez, o belíssimo aforismo hermético: QUANDO O DISCÍPULO (Personalidade) ESTÁ PRONTO (retificado, alinhado, integrado, superado, etc.) O MESTRE (Individualidade) APARECE (manifesta-se).

No caso dos Teúrgicos, ou seja, dos afiliados à Obra do Eterno na Face da Terra, eles reconhecem-se como sendo discípulos de seu Mestre Espiritual J.H.S., vulgarmente conhecido como Professor Henrique José de Souza (H.J.S.). Nascido em 15 de Setembro de 1883 na cidade de Salvador, Estado da Bahia, Brasil, filho de Honorato José de Souza e de Amélia Elisa Guerra de Souza, a vida deste Mestre foi recheada por inúmeros fenómenos, cada qual com significado da maior transcendência, como, aliás, sempre foi a vida de todos os Mestres de Amor-Sabedoria trabalhando na Face da Terra em contacto directo com o mundo profano, por isto mesmo igualmente não deixando de ser um rosário de tribulações e tormentos. São tantos e tão complexos os factos reais que perpassam as meras simbologias ou alegorias, ocorridos na sua vida (de H.J.S.) que eles mesmos são, com as devidas extrapolações, marcos na vida de todos os Mestres, que só de os enumerar se escreveria um longo tratado. No entanto, os que com Ele privaram e muito especialmente tiveram oportunidade de o verem exercer a sua função de Manu da Missão dos Sete Raios de Luz (do Logos Solar), aprendendo páginas inolvidáveis de Sabedoria Divina reveladas por sua Boca perfumada, são testemunhas fidedignas de acontecimentos bem reais que, juntos à sua profunda sabedoria e estatura ética e moral, assim muito justamente o chamaram de Mestre. No entanto, aos leitores poderá surgir a seguinte questão: Qual a razão da diferença de H.J.S. para J.H.S.? Vejamos o que o próprio afirmou acerca do assunto:

As mesmas iniciais JHS, a que a Igreja deu uma definição completamente estranha à verdadeira… definem esse mesmo Governo Espiritual do Mundo.

Diremos apenas o que é possível dizer-se não de boca para ouvido, como exigem as Grandes Iniciações, mas… escrito, pelo que assumimos todas as responsabilidades que nos pudessem acarretar.

HJS quando se trata de um Homem ou Algo Divino em função na Terra; JHS, ou o H central para as duas extremidades, Colunas ou Ministros, esse mesmo Algo Divino feito Homem. E em nosso idioma, como um dos mais sagrados se a ele coube o da Missão da Sétima Sub-Raça (ou dos Sete Raios de Luz), não se escreve Homem com H? Por isso, muito natural é que fique antes do J, quando, de outro modo, deveria ficar depois…Com outras palavras: Homem feito Deus (JHS) e Deus feito Homem (HJS).”

Posto isso, será justo o leitor também indagar sobre o que diferenciou o Mestre JHS de outros Mestres ou Adeptos Vivos que vieram ao Mundo servir a Humanidade? A essa questão, apenas podemos responder de uma só forma: a sua Missão e Obra. No entanto, quando há uma Missão, é porque esta foi (ou é) delegada por algo ou por alguém, a qual, sabemos de antemão de acordo com A Doutrina Secreta, é impreterivelmente incumbida a Seres Superiores da Grande Hierarquia Branca ou Hierarquia Planetária (saibam os transviados a que nos referimos e tenham o entendimento sobre tão transcendente assunto, como o revelou Helena Petrovna Blavatsky), nos diversos períodos ou épocas da História Humana, como o foram Krishna, Budha, Cristo, etc. Neste sentido, pode finalmente colocar-se a pergunta seguinte: qual foi, então, a Missão confiada ao Mestre JHS pela Hierarquia Planetária? A verdade é que sabemos muito pouco acerca disso, assim como muito pouco se sabe acerca de quem na realidade Ele era (e é!). No entanto, algumas coisas podem ser ditas, até porque provieram da sua própria Boca.

Tal como todos os Mestres actuando não só mas também na Face da Terra, também Ele cooperou (e coopera) na prossecução dos objectivos seguintes:

a) Na instauração do Novo Pramantha, o Ciclo Evolucional do Terceiro Milénio trazendo em seu bojo a Satya-Yuga, a Idade de Ouro.

b) Na preparação da vinda do Senhor Maitreya, o Supremo Instrutor dos Homens e dos Anjos, o Cristo de Aquarius como o mesmo Budha Branco do Ocidente.

c) Na exteriorização da Hierarquia Branca do Planeta.

O conceito da exteriorização só poderá ser correctamente perspectivado tendo em conta a realidade dos Mundos Interiores do Seio da Terra. Na verdade, o reaparecimento, à Face da Terra, dos Mestres Reais poderá ser entendido segundo duas linhas de forças:

– A primeira diz respeito ao reaparecimento, por parte da Humanidade comum, d´Aqueles que neste momento entre ela já trabalham.

– Em segundo lugar, com a vinda dos Mundos lnteriores, dos Mundos Subterrâneos, para a Face da Terra d´Aqueles outros que lá se encontram, bem como de uma multidão de Seres Aghartinos que cooperarão e ajudarão a Humanidade no restabelecimento do Plano Divino e, principalmente, nos momentos cruciais que se seguirão às dores de parto do nascimento de uma Nova Era.

d) Na instauração de novas e justas relações humanas, da Fraternidade Universal e da Sinarquia Universal.

Do ponto de vista do seu trabalho peculiar, mas também englobado, como é lógico, nos propósitos gerais da Hierarquia, podemos apontar:

e) O enunciado das verdades básicas acerca do verdadeiro significado e constituição dos Mundos Internos. E isto porque é impossível a concretização das tarefas globais anteriores sem haver por parte da Humanidade um reconhecimento e correcto entendimento da realidade dos Mundos Subterrâneos.

f) A preparação do advento da 7.ª Sub-Raça desta Grande 5.ª Raça-Mãe, a Ariana, que se dará na América do Sul, nomeadamente no Brasil, bem como de tudo o que se prende com a Missão Y.

g) A transmissão de certos conhecimentos permitindo a realização dos propósitos do Raio que neste momento começa a sua manifestação no nosso Planeta, o º Raio, o do Ritual ou Magia Cerimonial.

h) Um trabalho extremamente misterioso de ordem Manúsica iniciado aquando da sua viagem ao Norte da Índia, quando Ele era um “jovem adolescente de 16 primaveras”, intimamente ligado à não menos enigmática formação do 6.º Sistema.

Contudo, para os mais cépticos, poderá surgir a dúvida de qual será a veracidade da Missão delegada pela Hierarquia Planetária e que provas efectivas existem de tal intento para que Henrique José de Souza tivesse a autoridade espiritual e temporal de a exercer? Será, talvez, o momento de transcrevermos a Mensagem-Credencial, redigida em inglês, datada de 31 de Dezembro de 1925, que da Confraria dos Traichus-Marutas de Srinagar foi enviada e recebida pelo Venerável Mestre JHS do Excelso Senhor São Germano, o Mestre “Justus et Perfectus”:

Confraria Branca de Kashemir (Srinagar), por Ordem Superior dos BJ, reconhece no Swami H. J. de Souza não só o Venerável Dirigente da 5.ª Rama com sede no BRASIL, como também o seu Único e Legítimo Representante para toda a América do Sul, com plenos poderes de acção, em virtude de se achar em condições de contribuir para o Grande Trabalho de Regeneração Social, Fraternidade Mundial e preparação para o Advento do SUPREMO INSTRUTOR DO MUNDO.

“Aproveito a oportunidade para lançar uma Bênção a todos os que aderirem a esse Grande Trabalho a favor da Paz, da Sabedoria e do Amor entre os Homens.

“Como um dos seus representantes (um dos B J) emito esta dentro da referida Confraria (Mundo Jina). JUSTUS E PERFECTUS.

Através desta breve abordagem podemos assim perceber a transcendente e enorme importância da Missão que lhe estava (e nos está) confiada. Contudo, quando o Divino se manifesta, de acordo com a LEI, ela ocorre sempre numa manifestação tríplice expressiva das Três Hipóstases Divinas, como se constata nas diversas trindades religiosas. Nesse sentido, a manifestação de uma entidade da estatura de H.J.S. não foi excepção, vindo a ser acompanhada de determinados acontecimentos, digamos misteriosos ou ocultos, os quais deixaremos para uma outra ocasião, agora resumimos apenas os mais simples (exotericamente falando) e de fácil entendimento para a maioria dos leitores, como determinantes da sua actuação:

1.º – A manifestação de um Ser Gémeo, no sentido espiritual e até humano do termo, cuja forma feminina, como contraparte complementar da masculina, exerce funções a todos os níveis como Esposa, Mãe e Sacerdotisa. Constituem, assim, a Parelha Divina na Face da Terra, Henrique José de Souza e a inicialmente Helena “Iracy” Gonçalves da Silva Neves, depois Helena Jefferson Ferreira de Souza (manifestação daquela após o mortífero “Acidente de Lisboa”, na Rua Augusta, em 1899, acontecido com ambos), constituindo os Gémeos Espirituais (tal como os antecedeu a parelha “teosófica” Henry Steel Olcott e Helena Petrovna Blavatsky).

Gémeos Espirituais Henrique – Helena

2.º – A manifestação de dois Seres de Eleição que actuam como suportes ou Colunas Vivas da Missão específica que se pretende realizar. No caso de H.J.S., eles foram:

a) – Tancredo de Alcântara Gomes (a chamada Coluna TAG), saído pela Embocadura de Porto Seguro, no Brasil, referenciado, por analogia com a Tradição Maçónica referente ao primitivo Templo de Salomão, como Coluna B, de Bhakti ou Bohaz, esta palavra cujo significado é “na Força” que representa a Unidade, a Devoção, a Mística e o Amor. Teve a seu cargo a administração social da Instituição.

b) – António Castaño Ferreira (a chamada Coluna CAF), saído pela Embocadura de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, referenciado como Coluna J, de Jnana ou Jakin, simbolizando o Conhecimento, a Iluminação, a Sabedoria, e em si mesmo o termo hebraico significa “ele Estabelecerá”. Encarregou-se da manutenção espiritual da Instituição.

Tem-se Henrique – Helena para o Pai-Mãe Cósmico expressando o Primeiro e Segundo Logos, enquanto as Colunas Vivas vieram a expressar o Terceiro Logos na Terra tomando forma na Instituição Teosófica.

Manifesto o Divino na Face da Terra, necessário se tornou criar o aspecto social para que a Missão e Obra pudesse ter expressão entre a Humanidade. Para que a Missão e Obra de um Mestre se efective na Face da Terra, é sempre necessário um Corpo para que o Espírito se materialize e venha a cumprir a sua função. Por conseguinte, o Mestre JHS necessitou não só do seu corpo fisico como também do corpo institucional para poder executar, conforme as exigências da época, a sua Missão. Convirá, no entanto, fazermos um pequeno parêntesis para analisarmos o seguinte: NÃO DEVEMOS CONFUNDIR OBRA COM INSTITUIÇÃO! Esta poderá ser, sob certas condições, um reflexo da primeira e por isso se encontrar estreitamente ligada a ela, chegando as duas a significarem o mesmo, embora, neste caso, as duas não sejam equivalentes. Poderemos dizer que a primeira está para a segunda assim como a nossa Individualidade está para a personalidade. Esta é a razão por que muitas ditas Ordens Iniciáticas ou Secretas terminem confundindo a Instituição com a própria Obra que lhe estava confiada, vindo a dominar as características personalísticas dos seus dirigentes, cujos dirigidos acabam resvalando em cultos de personalidades consequentes e divisões internas, as quais afastam os membros do propósito espiritual ou iniciático e da sua Egrégora.

Assim, pois, foi criada por Ele, numa primeira fase, Dhâranâ – Sociedade Mental- Espiritualista, em 10 de Agosto de 1924, em Niterói, Brasil, tendo posteriormente a Instituição tomado o nome de Sociedade Teosófica Brasileira, em 1 de Maio de 1928, tendo esta como organismo motivador e movimentador interno, a ORDEM DO SANTO GRAAL (O.S.G.), ainda numa fase anterior à sua fundação oficial nos inícios dos anos 50 do século passado.

Para entendermos o tema das Ordens Iniciáticas, neste caso específico, da Ordem do Santo Graal, teremos de entender que ao longo do percurso iniciático o discípulo eleva-se gradualmente no conhecimento e na vivência dentro da Obra e da Instituição, desde o nível mais elementar ao mais complexo (o chamado “aumento de salário” na Maçonaria). A razão é análoga à Natureza, ou seja, assim como esta não dá saltos e se organiza de maneira hierarquizada, igualmente o percurso iniciático do discípulo respeita o mesmo princípio. O Caminho do Discipulado ou da Iniciação respeita à vivência de uma “ordem de outra espécie”. Para que ela seja efectiva, necessita de uma organização hierarquizada como expressão da Ordem Superior no Plano de Vida inferior. Por exemplo, na Antiguidade, os Sacerdotes ou Iniciados relacionavam e estabeleciam a ligação oculta entre a Terra (desordem) e o Céu (ordem), não só no altar como também pela matemática e geometria vazadas como Arquitectura Sagrada, indo estabelecer o alinhamento entre determinadas constelações e templos construídos em locais específicos de intensidade telúrica. Assim, compreendemos a razão de ainda hoje existir a necessidade da fundação de Ordens como meio de viver, promover e gerar a Ordem na Terra, inclusive no plano profano, neste sejam elas Ordens profissionais, militares ou até honoríficas. Mas no âmbito que tratamos, o espiritual, a Ordem é sempre de natureza sagrada, mistérica ou iniciática, dando resposta ao belíssimo aforismo hermético: “O que está em Cima é como aquilo que está em Baixo, para que se dê o Milagre da Unidade”. Sem se entender este princípio fundamental, o que se está a gerar é apenas uma desordem, uma desorganização e com isso um caos colectivo e simultaneamente individual. Neste sentido, conseguimos entender a razão tradicional da fundação, por parte do Mestre JHS, da Ordem do Santo Graal e das suas subsequentes Ordens, como também a sua função específica de acordo com a Mística e a Missão relacionada aos Mundos Subterrâneos…

O principal objectivo da O.S.G. foi e é o de aninhar em torno de si as Mónadas da sua Família Espiritual destinadas a cumeeira dirigente da Onda Humana, ou seja, a da já referida 7.ª Sub-Raça Ariana, semente da 7.ª Raça-Mãe Atabimânica, a urgir em simultâneo com a 6.ª Raça-Mãe Bimânica, tudo em conformidade à Iniciação Mental (Assúrica) de JHS, e esta se processe sem sobressaltos nem percalços na evolução das Mónadas Númeradas da sua Corte, motivo para o Mestre instituir quatro Ordens Iniciáticas juntas perfazendo a Ordem do Santo Graal, conformadas aos Graus Iniciáticos da Instituição, todas pertinentes à mesma Iniciação Assúrica, como sejam: Ordem dos TributáriosGrau Manu; Ordem das Filhas de AllamirahGrau Yama; Ordem do AraratGrau Karuna; Ordem dos TempláriosGrau Astaroth. Finalmente, formalizada por todas, a Ordem do Santo GraalGrau Integração. Apenas para esclarecimento geral, deixamos uma pequena síntese das datas de fundação e respectiva função dessas Ordens:

A ORDEM DAS FILHAS DE ALLAMIRAH, oficializada no dia 24 de Junho de 1952, constituiu a Ala Feminina da O.S.G., portanto constituída exclusivamente de senhoras (as Valquírias, Tesouras depois Baguetas da Obra) integradas na Série Interna, foi criada para o Novo Ciclo de Aquarius para manter a Taça Sagrada, na função de apoiar – como Género Feminino de Eleição – aqueles que mantêm a Tradição do Santo Graal – os Templários de Maitreya, como Género Masculino de Eleição, os Príncipes ou Principais da Obra do Eterno na Face da Terra.

A ORDEM DOS TRIBUTÁRIOS, fundada em 23 de Outubro de 1954, constituindo uma espécie de “Maçonaria” (os Velsungos ou Espadas da Obra) com o cargo espiritual e social de “cobrir” física, psíquica, mental e espiritualmente a Obra e Instituição por Ele fundada e à sua própria Família (APTA), a humana e também a espiritual.

A ORDEM DO ARARAT, foi fundada no dia 24 de Março de 1958, foi criada com a finalidade de propiciar as condições favoráveis para o entendimento e vivência do novo estado de consciência, exigido por Lei, para o Ciclo de Aquarius, possuindo o lema: “Realização através do Carácter e da Cultura”.

A ORDEM DOS TEMPLÁRIOS, ou Templários de Maitreya ou de Agharta, oficializada na mesma data da O.F.A., deu início à sua actividade com a fundação da Guarda do Santo Graal – exclusivamente masculina – em 28 de Dezembro de 1951, constituída de 32 Membros com os cargos de Goros, Cavaleiros, Arqueiros, tendo por função manter a guarda perpétua da Taça Sagrada do Santo Graal.

A Sociedade Teosófica Brasileira manteve o seu nome até pouco depois da data da morte física de J.H.S., ocorrida em 9 de Setembro de 1963, mas em 24 de Fevereiro de 1969, por alterações estatutárias e outras, tomou a nova feição de Sociedade Brasileira de Eubiose, ficando a sua orientação inicialmente a cargo de D. Helena Jefferson de Souza, inseparável companheira do Mestre na segunda metade da sua vida, e depois até hoje na de seu filho Sr. Hélio Jefferson de Souza.

A VIA TEÚRGICA

Etimologicamente, Teurgia advém de Theos (Deus) + Ergon (Obra), ou seja, a Obra de Deus na Face da Terra. Deus como Logos Criador da mesma Terra, portanto, o Eterno. Apesar da origem do termo Teurgia provir dos antigos neoplatónicos e filaletos de Alexandria, como muito bem aponta Madame Blavatsky na sua obra A Chave da Teosofia (pág. 18, nota de rodapé), a verdade é que ela além de ser a aplicação prática da Teosofia, também não corresponde hoje aos velhos e clássicos preceitos e práticas mágicas de sábios como Plotino ou Plutarco, pela simples razão de dessas estarem  adequadas a um tempo e a uma condição mental completamente diferentes das nossas, sendo até  física e espiritualmente contraproducente a sua aplicação hoje. A Teurgia de JHS, visa um fim no sujeito: a vivência do BEM, do BOM e do BELO, o que equivale a viver em harmonia com os Ciclos da Natureza, e por conseguinte, com os do Universo (visível e invisível). É aquilo que o Professor Henrique José de Souza designou pelo neologismo, por si criado, de Eubiose, colando ao outro de Teosofia Eubiótica, como seja “Viver Bem o Belo e o Belo com Sabedoria Divina”, entendido apenas como estado de consciência resultante de um processo espiritual praticado pelo discípulo, não como nominativo de instituição espiritualista ou religiosa ou de mera filosofia “eubiótica” (!), que assim antes devera chamar-se eugénica, a ver com eugenia ou “pureza mental, emocional e física” do Homem ante a Natureza, descartando quaisquer discriminações raciais que muitos dão ao termo. Assim, toda a Teurgia de JHS está intimamente ligada ao Novo Pramantha ou Era de Aquarius, religando iniciaticamente os Mistérios do Oriente (Principado) com os Mistérios do Ocidente (Potentado) sustentados na única Sabedoria Divina, Teosofia, ou por outra, a Tradição Iniciática das Idades.

No entanto, a Teosofia propriamente dita, nunca é manifesta ou revelada no seu todo e sim progressivamente por fases, de acordo com os Ciclos de Evolução que, por sua vez, são assinalados por certas figuras zodiacais e condicionados por certas energias planetárias e cósmicas. Para cada Ciclo de Vida, a Hierarquia, o Governo Oculto do Mundo, estabelece o Plano de Expansão, o qual comporta uma nova dispensação de conhecimentos, um novo código de comportamento colectivo, um conjunto de objectivos a alcançar pela civilização, assim como faculta os meios, as metodologias da sua realização. A Eubiose, é a efectivação ou expressão vital na Face da Terra dessa mesma Teosofia, revelada de acordo com o Ciclo de Evolução actual e implica individualmente num estado de ser resultando num método de vida, numa atitude peculiar de espírito e de acção. Por sua vez, a Teurgia é o foco irradiador que se corporifica como Espírito do Corpo Teosófico e da Alma Eubiótica, no que lhes dá suporte prático e permite efectivar a vivência da HARMONIA UNIVERSAL do Homem com o Universo (Omnia ab Uno et in unum omnia). Desse modo, podemos afirmar que a Teurgia é a aplicação prática da Teosofia, e a Eubiose a ética normativa da sua vivência na Face da Terra.

Assim, Teurgia terá ainda ter duas acepções distintas:

1) TEURGIA no sentido lato – com características inovadoras, dizia o Mestre, é TEOSOFIA EUBIÓTICA. Ou seja, as verdades fundamentais que ela transmite, graças a quanto JHS revelou, no fundo são as mesmas da Teosofia, esta entendida no seu verdadeiro significado etimológico, ou seja, o de Theoin-Sophia, “a Sabedoria daqueles que se movem em Círculo”, os Planetários ou Deuses, no fundo sendo, como já dissemos, a mesma Sabedoria Iniciática das ldades, Gupta-Vidya ou Sanatana-Dharma, como se lhe queira chamar.

2) TEURGIA no sentido restrito – fundamentalmente respeitante às novas Revelações do Ciclo e ao novo enfoque da Sabedoria Iniciática trazidos por Ele, portanto, conformada a uma praxis inteiramente nova toda ela de vocação Parúsica ou de Advento do Avatara-Síntese, MAITREYA, o CRISTO DE AQUARIUS, e para isso usando dos mais ciosos elementos didácticos e técnicos a uma Integração verdadeira do discípulo.

Toda a sua magnânime Obra na trasladação dos valores do Oriente para o Ocidente, o Ex Occidens Lux, respeitou uma metodologia estruturada segundo os mais rigorosos cânones da Tradição Iniciática, respeitando uma hierarquização de saberes delegada pelos Graus anteriormente referidos, nomeadamente o OEDIPO (Peregrino), MANU (Legislador), YAMA (Executivo), KARUNA (Judiciário), ASTAROTH (Coordenador), e ainda o de INTEGRAÇÃO (1+4+1), e um modus operandi extremamente bem conformizado tanto à essência da Raja-Yoga (Leste) como da Cabala (Oeste), tanto ao melhor do Budismo (Oriente) como do Cristianismo (Ocidente). Além da estrutura iniciática gradativa, inserida na Linha do 7º Raio, como seja o da Magia Cerimonial, a estrutura da Instituição requer um método iniciático coadunado à especificidade da sua Tónica e Missão espiritual. Neste sentido, como objectivação do seu Trabalho particular na Face da Terra, JHS propôs duas vias de realização: uma grupal e outra individual.

A primeira, grupal, pode ser expressa segundo um triângulo com a ponta voltada para baixo (∇), cujos vértices são: a Escola, o Teatro e o Templo.

– A Escola é o meio através do qual o discípulo, como TEÓSOFO, aprende e apreende, sempre de acordo com o seu nível psicomental, as verdades essenciais da Sabedoria Iniciática das Idades.

– O Teatro expressa o grande palco da vida onde, todos nós, temos o nosso papel a desempenhar, e liga-se com a problemática da ética e da moral consignada no sufixo EUBIOSE, isto é, o de “viver segundo o Bem, o Bom e o Belo”.

– O Templo é onde os ensinamentos da Escola e as vivências do Teatro são projectados como serviço desinteressado à Humanidade, através da captação, reelaboração e distribuição de energias por todo o planeta, fazendo nobre jus ao preceito TEURGIA como a mais Alta Magia Divina, alimento e firmeza de toda a Instituição e Obra.

A segunda via, a individual, é representada por um triângulo com a ponta voltada para cima (Δ), em cujos vértices se inscrevem os valores imorredouros: Transformação, Superação, Metástase.

Transformação do indivíduo, ou seja, aperfeiçoamento de todos os seus aspectos.

Superação da personalidade.

Metástase com o Ser Superior.

Portanto, a Teurgia funciona como uma “engenharia espiritual” no aceleramento do processo interno do discípulo de modo apurar as suas capacidades latentes, acompanhando o trabalho “sacrificial”, verdadeiro ofício sagrado, que realiza em benefício da Humanidade nos três vectores mencionados (Escola – Teatro – Templo). Por causa do Karma Colectivo que aflige o Mundo, não há Evolução (espiritual e humana) sem Sacrifício. Todavia, a relação Microcosmos-Macrocosmos deve ser apreendida consciencialmente e regularizada relacionalmente entre os ambientes interno e externo do discípulo, na razão da relação indivíduo-colectividade, ou seja, à medida que a sua compreensão das leis ocultas do Universo vão sendo apreendidas e fixadas na sua consciência, a aplicação das mesmas torna-se necessária dentro de um círculo restrito colectivo, constituído pelos seus Irmãos de Grupo partilhando da mesma noção e necessidade, de modo a paulatinamente ele e eles, num todo, lhes dêem sentido prático no Teatro da Vida. Assim, na ESCOLA, o discípulo apreende, aprende e aplica a vivência da ética postulada na doutrina teúrgica, ausentando-se de complexos e inibições de foro psicológico ou psicomental, flagrante que ao contrário se destaca nas religiões exotéricas de catequese confessional, geralmente castradora de quaisquer expressões criativas que pretendam ir além da ortodoxia postulada, contrariando o livre-arbítrio que define em  maior ou menor proporção a liberdade de cada um, conquistada e conformada à evolução ou progresso espiritual do indivíduo, nem eterno crescendo interior. É esse que o compele à TRANSFORMAÇÃO, implicando num gradual maior refinamento, subtilização e ampliação dos cinco sentidos naturais e de dois outros ainda latentes, destinados a um dia se tornarem patentes – tacto, paladar, visão, audição, olfacto…  intuição, clarividência e êxtase.

Para não ser “cego guiando cegos”, o discípulo deve aprimorar primeiro a si mesmo antes de puder inspirar ao aprimoramento interior os seus semelhantes em Humanidade, ele e eles cursando a grande ESCOLA que é o Mundo. No TEATRO do dia-a-dia, à custa dos seus próprios esforços, o discípulo vai assimilando e integrando os valores da chamada  CONSCIÊNCIA EUBIÓTICA, isto é, a de “Bem-Viver” consigo e o próximo, logo, com o meio natural, seja visível, seja invisível, e assim cada vez mais SUPERANDO as suas antigas limitações ou liames psicológicos (nidhanas) da personalidade, assumindo  novo e mais amplo estado de consciência afim à Individualidade, no qual, de maneira alguma, será descaracterizado, pelo contrário, se tornará mais forte e constante nos seus nobres ideais, mais e verdadeiramente Homem. Assim realizará o vértice TEATRO no seu verdadeiro sentido, isto é, Theos+Actum, o sagrado ACTO DOS DEUSES… que todo o homem é… ainda que a maioria disso ande esquecida.

Finalmente, no TEMPLO que sobretudo é o seu Corpo, o Altar a sua Alma, e o Deus da Exaltação o seu Espírito, o discípulo da Obra Divina pratica nele em colectivo, e também em individual em seu “Sanctum Privado” os estudos e exercícios espirituais do preconizo e chancela da ORDEM DO SANTO GRAAL. Assim, cada vez mais, se acerca da derradeira METÁSTASE com o seu Eu Superior ou Anjo Solar, e este dele estreitando o elo de ligação (antahkarana), portanto, Metástase Avatárica do de baixo pelo de cima e do de cima pelo de baixo!… Está simultaneamente em sintonia ou comunhão mental (Dhâranâ) com todos os seus Irmãos de Grupo, sobretudo com aqueles que na hora e lugar sagrados realizam práticas idênticas, fortalecendo a Egrégora Grupal. Assim, um e todos e todos e um, fundem-se num único Corpo Avatárico cujo Centro mesmo é o Mestre Interno, expressão monádica particularizada do Mestre Externo, para nós JHS, e num sentido mais amplo, o CRISTO UNIVERSAL, a própria Divindade assistente ao Globo em que estamos, vivemos e temos o nosso ser.

Daí, por tudo e estar no todo e vice-versa, a Escola possui a sua parte Teatral e Templária; o Teatro implicar o Templo e a Escola; o Templo exercitar a Escola e o Teatro. De igual maneira, a Transformação também comporta Superação e Metástase; a Superação implicar na Metástase e na Transformação, esta definitiva e definindo o elevado nível do ser; a Metástase a mesma Transformação e Superação, para sempre dos liames da matéria onde a “Vida-Energia” fica sob o domínio da “Vida-Consciência”.

Todo este método iniciático teúrgico tem influência positiva no triângulo inferior do discípulo, ou seja, no seu CORPO, EMOÇÃO e MENTE, inicialmente a “Pedra Bruta” que progressivamente trabalhada se torna “Pedra Polida”, na intenção de reflectir e ser envolvido pelo triângulo superior por ora em formação, ou seja, constituído pelo CAUSAL, INTUICIONAL e ESPIRITUAL, buscando conquistar o estado do Perfeito Equilíbrio ou Perfeita Neutralidade característica do Homem Divino, o Verdadeiro e Único, o JIVATMA ou pura “Vida-Consciência”. Todo esta metodologia de trabalho foi resumida pelo Venerável Mestre JHS nas palavras preciosas que deu a público em São Paulo em 13 de Abril de 1963:

“A nossa Obra é um Plano Universal de Evolução que segue três caminhos, desenvolvendo: a Emoção pela Educação; a Inteligência pela Instrução; a Vontade pelo Trabalho.”

OS MUNDOS SUBTERRÂNEOS

No Ocidente, este mistério foi abordado publicamente e com grande propriedade por diversas personalidades célebres no Ocultismo nos últimos quartéis do século XIX e nos primeiros do século XX, das quais podemos destacar Saint-Yves d´Alveydre (Missão da Índia na Europa), Ferdinand Ossendowsky (Homens, Animais e Deuses), René Guénon (Rei do Mundo), Papus (Gerard Encausse, Traité Elementaire d´Ocultisme), Nicholas Roerich (Shambhala, a Resplandecente), Alfred Percy Sinnett (The Mahatma Letters, carta IV), Mário Roso de Luna (Libro que mata a la Muerte o El Libro de los Jinas), dentre outros, os quais serviram de voz no meio público para divulgar algo que até ao momento era desconhecido desse, por ser restrito a determinadas correntes espirituais e/ou organizações iniciáticas secretas. No entanto, apesar da inteira relevância tradicional dada ao tema por todos eles, a abordagem, retificação e revelação do mesmo pelo Venerável Mestre JHS, não se ficou no terreno estéril das especulações intelectuais, antes adentrou a sua vivência efectiva, real e prática, não deixando de delegar aos seus discípulos mais próximos infindáveis páginas e páginas de revelações desconhecidas até então sobre a “fisiologia” ou “estrutura” dos Mundos Subterrâneos e seus habitantes, sendo depois uma pequena parte adaptada e transmitida, sob a maya ou véu da ciência e da religião, à mentalidade pública moderna, sem nunca deixar de realçar a espiritualidade do assunto num carácter absolutamente teosófico.

O segredo em torno deste tema foi muito bem guardado ao longo das eras, pelo facto de o mesmo constituir um dos maiores, senão o maior, dos Arcanos da Tradição Mistérica. Enquanto Madame Blavatsky abriu caminho com a “sua” Teosofia, escrutinada na sua obra monumental A Doutrina Secreta, para revelar e comprovar um grande segredo ou arcano, proibido até então, ou seja, a existência da Grande Loja Branca ou Governo Oculto do Mundo, o Professor Henrique José de Souza  foi mais adiante dispondo-se como expressão directa do mesmo na Face da Terra, completando com a revelação do grande mistério da Terra Oca, ou seja, o Mistério do Mundo de Agharta.

Num aparente contraste, se as várias religiões apregoam o Reino dos Céus ou a espiritual Paradhesa (Paraíso), qual será a relevância da Terra Oca ou do Mistério dos Mundos Subterrâneos para a Humanidade? Em uma primeira abordagem, justifica-se por ser Tradição Hermética ou Oculta, no sentido do indivíduo analogamente aceder ao interior da Terra como acede ao interior de si mesmo. No entanto, algo de extraordinariamente rico está implícito nesse processo, ou seja, o do planeta Terra sendo um Ser Vivo, como muito bem afirmam os cientistas modernos, possui em si mesmo um repositório memorial e espiritual de toda a Evolução Cósmica (no seu interior) desde o início dos tempos, aquando da manifestação do Logos tomando forma como Globo. Significa isto que a Terra possui em si mesma todo o conhecimento e sabedoria do mundo desde os evos imemoriais da Raça Humana. Assim, aceder a esse fantástico repositório é como encontrar o Santo Graal, o Conhecimento Universal, justificando todo o secretismo, ante o despreparo humano, que se estabeleceu ao longo dos tempos em torno deste assunto.

As diversas tradições religiosas e textos sagrados da Antiguidade sempre se referiram aos Mundos Subterrâneos, dando-lhes diversos nomes e termos de acordo com a tónica e especificidade cultural da época. Verifica-se, por exemplo, o famoso Mundo de Duat ou Amenti no Antigo Egipto, o Hades da mitologia grega, a Shamballah das tradições transhimalaias, o Edon e o seu misterioso povo Thuat de Danand da cultura celta, a Ilha Encoberta de que nos falam as profecias do Bandarra, ou o famoso V.I.T.R.I.O.L. da tradição alquímica medieval, sempre remetendo para um lugar idílico ou paradisíaco ausente de morte, doença ou corrupção humana, onde apenas os mais selectos ou merecedores, homens e mulheres destacados pelas suas virtudes e acções em vida, poderiam entrar, comungando conjuntamente com os deuses e os seus divinos tesouros de vida eterna.

Apesar das afirmações que já fizemos relativamente aos Mundos Subterrâneos e às evidências da sua existência, não comentaremos factos mais ou menos noticiados que não se abordem à luz da Tradição Iniciática, como, por exemplo, esses do aparecimento através dos séculos dos chamados “discos-voadores”, vistos a penetrar no mar ou a desaparecer no solo em alta velocidade, ou o dos conspiracionismos “exo-políticos” hoje abundando nas televisões e redes sociais. A investigação deve ser desenvolvida de forma tradicional, iniciática (jamais especulativa ou sensacionalista, alimentadora da impuberdade sensorial!), basear-se, como não poderá deixar de ser, na Lei da Analogia, como expressa a Tábua de Esmeralda:

“É verdadeiro, completo, claro e certo: o que está em baixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está em baixo, para a realização do milagre de uma Coisa Única…”

Com esse método estabelecemos a similitude das relações entre o Microcosmos e o Macrocosmos. O Homem representa um Microcosmos perfeito, isto é, contém em si a imagem completa do Macrocosmos, por sua vez em relação sincrónica com a Mater-Rhea, Mãe-Terra, a própria Matéria.

Nesse sentido, quando alguém pretende realizar uma prática espiritual recolhe-se no sanctum sanctorum de si mesmo, no seu próprio imo que é a parte mais pura de cada um (“Feche-te em teu quarto e ora a teu Pai em segredo”, Mateus 6:6). Se fazemos isso, é perfeitamente óbvio que o fazemos por saber que o nosso melhor está no interior! Portanto, não é igualmente concebível que analogamente o melhor do planeta (que é o corpo de manifestação do Logos, Verbo ou Vach, Ser extraordinariamente mais evoluído identificado ao próprio Deus de um e todos os da Terra) esteja no seu interior?

Assim, em primeira instância, podemos relacionar os diversos estados de consciência alcançados (ou alcançáveis) na prática da meditação com os estados de consciência existentes nos Mundos Subterrâneos, mediante a nossa maior interiorização da consciência. Por outro lado, o Homem possui no seu Corpo Físico-Etérico, de acordo com os ensinamentos tradicionais, Sete Chakras ou “Sóis Vitais”, através dos quais, privilegiadamente, recebe e distribui toda a energia vinda do Cosmos por via dos Sete Luzeiros consignados pela Tradição das Idades, e mais um Oitavo Chakra, Vibhuti, sob o Cardíaco, do qual normalmente não se fala mas que sintetiza a acção dos restantes. Esse, mais do que qualquer outro, reflecte e relaciona as energias de todos os corpos. Também a Terra possui 7+1 Centros Vitais aflorados ao longo da sua crosta vindo reflectir as energias do Céu e as forças do Interior da Terra, dinamizando países, continentes e povos, demarcando uma influência espiritual oculta, tema que mais adiante trataremos ao abordar o Sistema Geográfico Internacional e os seus respectivos Postos Representativos. Enfim, tem-se que a relação entre o Homem e a Terra e o seu Interior é, por sua vez, análoga, está na mais perfeita matemática da Lei da Analogia!

Acerca do analogismo inter-relacional, ele justifica-se pela constituição hierarquizada da Vida desde o mais ínfimo atomo até ao Sistema Solar em que vivemos. Para o insigne teósofo António Castaño Ferreira, o átomo da Ciência moderna é um verdadeiro Sistema Solar em miniatura, constituído de um “sol” (protão), de “planetas” (electrão) e de “satélites” (neutrão) girando em torno desse mesmo “sol”. Isso quer dizer que o átomo, ao invés de compacto, possui entre essas partículas espaços completamente vazios de matéria (do Plano Físico). Dentro do átomo a distância relativa entre as partículas que o constituem corresponde, com muita aproximação, à distância dos planetas do nosso Sistema Solar em relação ao volume dos mesmos; noutros termos, um átomo, apesar de ser tão minúsculo ao ponto de nenhum aparelho permitir ainda ao olho humano vê-lo, compreende muito mais espaço vazio do que as partículas propriamente de matéria física. Desse modo, entre esses espaços outras “densidades” de matérias têm o seu lugar, as quais, de acordo com os ensinamento do Ocultismo, interpenetram a matéria física densa com graus de subtilidade cada vez maiores, constituíndo os Planos Vital, Astral, Mental e Espiritual. Tendo em conta que o átomo é a unidade fundamental da Vida, constituído por diversos graus de matéria, todo o Universo material e visível está impregnado com matéria cada vez mais subtil e invisível, diferenciando-se apenas no grau vibratório em que se encontram. Por sua vez, a hierarquização da Vida ao assumir formas ou estruturas mais complexas, desde células, moléculas, tecidos, órgãos, sistemas, reinos, planetas, galáxias, etc., vai permitir que nos outros Planos mais subtis o mesmo grau de hierarquização ocorra. Dessa forma, na mesma medida que a Terra possui na sua fauna e flora uma hierarquização de vida elemental, sub-humana (mineral, vegetal e animal) e humana, no seu interior outros reinos ou mundos mais evoluídos e espiritualizados terão o seu lugar… Estes locais ou dimensões do Universo, neste caso específico na Terra, é que constituiem os misteriosos Mundos Subterrâneos ou o “Reino dos Deuses” que as diversas tradições apontam. O Globo, que é a TERRA, na verdade é um Ser Vivo, repetimos, o qual reflete o Corpo Físico de uma Grande Entidade Cósmica chamada Logos Planetário, tradicionalmente denominada DHYAN-CHOAN SUPERIOR, todo Ele constituído por vários tipos de energias pelo que, assim,  possui a sua anatomia oculta, indo desde a superfície do Globo até à sua região mais profunda, com constituição exactamente proporcional à dos diversos Planos Cósmicos.

Nesse sentido, a constituição da anatomia oculta da Terra apresenta cinco camadas das quais podemos fazer uma descrição sumária, tal como foi revelada detalhadamente pelo Mestre JHS. De acordo com os próprios Anais Ocultos, quando no Período Atlante deu-se o Julgamento Planetário dessa Raça, a Humanidade mais avançada da mesma, a Sedote como lhe chama o Popul-Vuh dos autóctones mexicanos herdeiros da Atlântida, antecipadamente recolheu-se ao interior do Globo, onde prosseguiu a sua evolução, tendo a restante, Jiva, permanecido na superficie, dando origem aos homens actuais. Numa primeira fase, ao interiorizar-se estabeleceu-se no que os budistas do Ceilão chamariam de Mundo de Badagas, o qual se encontra um pouco sob a crosta de todo planeta, cerca de 60 a 90 km de profundidade. Este Mundo de espiritualidade, civilização e cultura superiores às da superfície, caracteriza-se, contudo, pela tónica do seu desenvolvimento tecnológico, desde o hidráulico ao nuclear, sendo o que mais surpreende o visitante vindo da superfície.

Desse Mundo tem-se acesso ao Mundo de Duat, onde encontram seres ainda mais espiritualizados, os quais têm uma fisiologia semelhante à do homem da superfície, este que, se lhe for permitido o acesso, pode penetrar directamente em Badagas. Se tiver o privilégio de se deslocar a Duat, terá de passar por um período de treino e preparação de cerca de três meses em Badagas, para o seu corpo físico não sofrer perturbações. Em Duat, o que mais impressiona são as Bibliotecas onde se encontra toda a produção literária e artística significativa criada pelo Homem. É aqui que encontra a categoria dos Devas Lipikas (“Anjos Escribas”), ManuYamaKarunaAstaroth, que registam todos os actos, pensamentos e palavras da Humanidade no Livro do Kamapa, como Senhores do Karma Planetário.

Mais interiorizado ainda, encontra-se o Reino de Agharta com as suas sete Cidades ou Cantões governadas pelos benditos Reis de Edon ou do Éden. Aí reina a Sinarquia Universal e a Paz estabelecida e actuante. A Ordem Divina e a Harmonia são as notas mais salientes. Como se fora um Oitavo Chakra, a Oitava Cidade é Shamballah, governada pelo Rei do Mundo, o Soberano Supremo, o Eterno Jovem das Dezasseis Primaveras. Esse é o Mundo do Silêncio Móvel, onde só aquele que por direito próprio tem assento no Conselho do Rei dos Reis, pode morar. Daí o dizer-se que é a Morada dos Deuses, a Cidade dos Imortais.

Portanto, conclui-se que a ligação com os Mundos Subterrâneos é selectiva consoante o grau de evolução espiritual do discípulo, reafirmando, mais uma vez, o carácter, a importância e a necessidade de uma disciplina iniciática, “pois muitos são os chamados e poucos os escolhidos”. No entanto, o Mestre JHS, com a autoridade que possuía, delegou estes conhecimentos publicamente – antecipadamente selecionados no que devia e não devia dizer-se – por ter chegado o momento de levantar ponto do véu do que até então era absolutamente segredo irrevelável, proibido até com sanção de morte, de que a História dá notícia. Assim, coloca-se a questão: se sempre existiu secretismo cerrado acerca de tais conhecimentos, qual é então a importância dos Mundos Subterrâneos relativamente à Humanidade?

O conhecimento e divulgação da existência dos Mundos Subterrâneos é indispensável, pois no contexto dos acontecimentos presentes e vindouros que já se pressentem por toda a parte do Globo, os seres interiorizados terão um papel fundamental a desempenhar na Face da Terra, como seja a do Bem, o Bom e o Belo, em última instância, a verdadeira Sinarquia ou Concórdia Universal dos Povos possa se implantar no Mundo, para isso sendo necessário criar condições profícuas e harmoniosas no Género Humano para que finalmente o Divino se manifeste ou concretize, ou sejam, se manifeste a Nação Aghartina sobre a Terra. O Espírito não se manifesta e tampouco se une à matéria impura. Para a purificação desta, o Professor Henrique José de Souza legou toda a sua Instituição e Obra a favor da regeneração mental e moral da Humanidade, no sentido de lançar a terreno fértil as boas sementes afim de criar novas ideias, nova condição de vida, capacitando os seus discípulos e demais seres humanos para novos métodos de acção e de encarar os problemas de forma diversa da usual tão falha em si mesma. Como tal, para que a intenção da sua Obra dedicada à Humanidade ficasse vincada e não restassem dúvidas, ao fundar a Sociedade Teosófica Brasileira deixou registada em “letras de ouro” a frase que da mesma é o lema:

Spes messis in semine

(A esperança da colheita reside na semente)

O BRASIL E A SUA MISSÃO ESPIRITUAL

No sentido de conseguirmos avançar sobre a importância e missão do Brasil no Mundo, será necessário contextualizar previamente o leitor acerca da “ascensão e declínio das civilizações”, segundo a expressão utilizada por Jinarajadasa na sua obra Fundamentos da Teosofia. De acordo com os Anais Ocultos onde se vaza a História Oculta, aspecto da Antropogénese como ramo fundamental da Teosofia, antes da nossa civilização actual existir, denominada como Raça/Civilização Ariana, existiram quatro Raças anteriores as quais a Tradição designou como Polar, Hiperbórea, Lemuriana e Atlante. Não querendo ser exautivo no fascinante escrutínio de cada uma dessas Raças/Civilizações, e de modo a centralizar o discurso no tema, é a partir da Raça Atlante que tudo tem o seu ponto de partída, independentemente daqueles que considerem o assunto apenas um mito, um devaneio ou mera quimera. No entanto, apesar de aparentemente não existirem quaisquer antecedentes históricos quanto à Atlântida, o que as investigações antropológicas e arqueológicas têm contradito, as referências abundam nos escritos da Antiguidade e os testemunhos estão patentes nas tradições arcaicas, apesar da maioria dos cientistas “oficiais” teimarem em ignorar com desdém preconceituoso os fundamentos dessas lendas e narrativas ao par dos vestígios indeléveis que sobrevivem um pouco por toda a parte da orla europeia, mediterrânea e africana. Um dos documentos mais famosos e expressivos é-nos dado pelo filósofo Platão, na sua obra Timeu, e podemos ainda recolher elementos em inúmeras outras fontes. Já na Odisseia, Homero faz referência ao continente desaparecido. Encontram-se também alusões em Hesíodo, Solon, Estrabão, Deodoro da Sicília e em muitos outros. Aelian, por exemplo (in Varia Historia), diz que Theopoupus (400 anos a.C.) recorda um encontro entre o rei da Frigia e Silenus, no qual este comenta e existência de um grande continente chamado Atlântida, maior do que a Ásia, Europa e Líbia juntas. Com a riqueza e a diversidade das fontes folclóricas e etnográficas que possuímos hoje, sabemos que a tradição da Atlântida foi uma constante mantida entre os celtas da Europa, os toltecas do México, os índios da América do Norte e do Sul e muitos outros povos da Antiguidade.

Misteriosa pirâmide na Ilha do Pico, Açores

Como indicámos, a Atlântida teve as suas origens na civilização precedente, ou seja, a da Lemúria, o verdadeiro berço da Raça Humana, a qual foi quase totalmente submersa por cataclismos vulcânicos. Das profundas convulsões que abalaram esse continente ou dwipa, como afere a tradição hindu, resultou que parte do continente se afundou, outra parte emergiu e certas porções mantiveram-se incólumes, dando assim forma ao antigo continente de MU, onde se veio a instalar e desenvolver a civilização da quarta Raça-Mãe, a Raça Atlante. De acordo com os Arquivos Ocultos, a Atlântida era conhecida como Kusha e abrangia um vasto território geográfico. Compreendia o Norte da Ásia e quase toda a costa ocidental das Américas. A Sul, estendia-se pela Índia, Ceilão, Birmânia e Malásia. A Oeste, abrangia a Pérsia, a Arábia, a Síria, a Abissínia e as regiões banhadas pela bacia do Mediterrâneo. Da Escócia e da Irlanda projectava-se sobre a região onde hoje se situa o Oceano Atlântico e grande parte da costa ocidental da América. Assim, os primeiros atlantes originaram-se das últimas sub-raças da Lemúria e surgiram há cerca de oito milhões de anos, na segunda metade da Era Secundária. Após o acentuado grau de declínio civilizacional, as Forças Ocultas manifestaram-se em auxílio da Humanidade sobrevivente. A grande Entidade orientadora da quarta Raça-Mãe, cuja função é designada na nomenclatura védica por Manu, seleccionou então os remanescentes lemurianos mais desenvolvidos, física, moral e mentalmente, e conduziu-os para o Norte, para uma região a que a Tradição Iniciática dá o nome de Terra Sagrada, onde foram preparados para se tornarem a semente das sete sub-raças da Atlântida – Rmoahls, Tlavatlis, Toltecas, Turânios, Semitas, Akádios e Mongóis. O Homem Atlante, nas suas caracteristicas particulares, desenvolveu a mente, no entanto, o animismo nele ainda era muito intenso, o que levou a sua mente em evolução a sofrer um impacto do corpo de desejos, psíquico ou astral. Daí resultou o kama-manas, a mente ligada às emoções, gerador do egoísmo, da malícia e a astúcia, características dos meados do último terço da Época Atlante e causadora de toda a degradação e decadência dessa civilização que, infelizmente, perduram até hoje. Assim, com os diversos cataclismos e submersão da Atlântida (hoje sepultada no Oceano Atlântico, de que sobejam geologicamente os pontos ou picos das suas montanhas mais altas, como sejam os Açores, a Madeira, as Canárias e Cabo Verde), uma das sete sub-raças seria a principal sobrevivente e criadora da nova Raça/Civilização. De todas as sub-raças atlantes, foi a sub-raça Semita a mais importante na evolução da espécie, por ter desenvolvido e utilizado, por um lado, o primeiro gérmen da qualidade que distingue o Homem, ou seja, o Pensamento, e por outro, porque seria a raça eleita para constituir a “semente da Raça futura”, que veio a ser a Raça/Civilização Ariana da qual todos somos partes integrantes.

De acordo com A Doutrina Secreta, algo de soberbo ocorreu com essa “raça eleita”. Com efeito, há cerca de um milhão de anos, Vaisvasvata (o Noé biblico), o Manu da Raça Ariana ou Ária, seleccionou da sub-raça semita os grupos humanos que deveriam originar a Raça Ária e conduziu-os para a grande extensão das estepes da Ásia Central, onde hoje se situa o deserto de Gobi. Segundo os Anais Esotéricos, uma primeira migração atravessou a cordilheira dos Himalaias há cerca de 850.000 anos, difundindo-se pelo Norte da Índia que ficou conhecida como Aryavartha, vindo a constituir-se na primeira sub-raça ariana.

A designação “ariana” deriva da tribo hindu-himalaia dos árias, que significativamente estavam sob a influência do signo de Áries, o Carneiro, sob o qual nasceu a referida Raça. Razão para o carneiro ou cordeiro ser ainda hoje cultuado em várias tradições religiosas do mundo, assim mantendo, mesmo que apenas simbolicamente, a memória das origens ocultas da civilização actual. Como na anterior Atlante, na Raça/Civilização Ariana sucederam-se diversas sub-raças, que podemos sintetizar no quadro seguinte:

Deste modo, pelo que se expõe no quadro, no actual momento da História da Humanidade predomina a 5.ª sub-raça Teutónica ou Germânica desta 5.ª Raça-Mãe Ária, nome este que não provém só dos ários da Índia primitiva como também, como já disse, de Áries, o Carneiro, cujo pendão RAMA ou RAM fincou junto às margens do Eufrates, e sob cujo signo se iniciou o desenrolar da marcha civilizadora desta Grande Raça sob a égide do Dhyani-Agnisvatta ou Arcanjo Tutelar ARIEL ou AURIEL, do qual o Manu VAIVASVATA era uma “Projecção Deífica” como “Leão de Deus” (Leão de Fogo), como se infere do cabalístico Shem-Ha-Mephorash, a “Divisão dos Nomes de Deus”. Portanto, como o nascimento e formação de cada raça está naturalmente associado a um ponto geográfico específico, saindo ela do melhor da raça anterior e sempre desenvolvendo a civilização de leste para oeste, como é consabido do mais elementar da antropologia social, apercebe-se perfeitamente que só poderá o quinto continente americano o berço de uma nova civilização dentro da Grande Civilização Ária. De acordo com a nomenclatura teosófica utilizada pelo Professor Henrique José de Souza, as raças futuras estarão igualmente relacionadas, como não podia deixar de ser, ao desenvolvimento das faculdades cognitivas superiores, como sejam o Manas Superior (Causal – 5.º Princípio) e o Búdhico (6.º Princípio) para a 6.ª sub-raça, portanto, Budhi-Manas com isso associando-se à 6.ª Raça-Mãe Bimânica, e o Manas Superior, Búdhico e Átmico (7.º Princípio) para a 7.ª sub-raça, que por ser dotada de Atma-Budhi-Manas se associa como semente ou gérmen à 7.ª Raça-Mãe Atabimânica, com que finalizará a actual 4.ª Ronda da Terra.

Assim, de acordo com o Mestre JHS, não só na perspectiva da História profana mas principalmente na da História Iniciática, o Brasil será, portanto, o bojo cíclico da 7.ª sub-raça ariana, mas também da 6.ª já que a América do Norte fracassou na sua Missão Manúsica nos inícios dos anos 50 do século passado, ao atentar contra “la Hacienda de los Adeptos de El Moro”, Novo México, onde nas suas proximidades detonou artefactos atómicos que abalaram severamente esse Posto Representativo por fora e por dentro, obrigando à retirada dos Adeptos, isso apesar de todos os avisos em contrário antecipadamente dirigidos pelo Governo Oculto do Mundo ao Governo dos Estados Unidos, assim passando os direitos espirituais e humanos da 6.ª sub-raça para o Brasil, para a região de Mato Grosso, doravante ficando o Norte-América “Viúvo dos Deuses”, passando a dominar completamente a natureza Jiva com a ausência total de Jivatma.

A brasílica Raça Dourada (empalidecimento da epiderme) do Futuro já hoje está sendo gerada sobretudo pela fusão psico-consanguínea do Ibero-Europeu com o Inca-Tupi-Guarani, sobretudo devido ao Sangue Português ser uma mescla do sangue das raças de quase todo o mundo, excepto a americana, e o Sangue Inca-Tupi-Guarani ser uma síntese harmónica do Sangue Norte-Centro-Sul da América, pelo que de facto poderá se considerar que da fusão dessas duas essências vitais resultará a vindoura RAÇA UNIVERSAL, ou seja, a IBERO-AMERÍNDIA, ou, mais particularmente, a LUSO-BRASILEIRA, trazendo consigo as 6.ª e 7.ª sub-raças manifestadas em simultâneo o que lhe confere a condição de GÉMEA, tal e qual os 6.º e 7.º estados de Consciência agirem junto e nunca em separado, o que igualmente acontecerá, no plano antropogenético, com a aparição conjunta das referidas sub-raças, uma já semeada em Portugal e outra por fecundar no Brasil, e eis aqui a Pátria-Gémea qual Sol e Lua à dianteira dos destinos da Humanidade. A esta extraordinária relação e fusão de raças na construção do Futuro, o Venerável Mestre JHS apelidou, no seu sentido iniciático, de MISSÃO Y, ou a do Itinerário da Mónada Peregrina desde o Extremo-Oriente ao Extremo-Ocidente, o Ex Occidens Lux!

A MISSÃO Y de maneira alguma pode se interpretar como devaneio místico, pois é facto sustentado cientificamente tanto pela História como pela Sociologia e a Antropologia, podendo unicamente divergir as nomenclaturas mas não os factos, além de se sustentar em tradições milenares atravessando toda a Ásia e Extremo-Oriente, como se tem no exemplo flagrante do Budha Maitreya (que por sua tez branca e por apontar o Oeste como lugar da sua futura manifestação, é igualmente denominado de Budha Branco do Ocidente), na transferência da Autoridade Espiritual do Oriente para o Ocidente em 1924, no momento em que J.H.S. fundava em Niterói Dhâranâ – Sociedade Cultural-Espiritualista, “Quinta Rama das Confrarias Budistas do Norte da Índia e Oeste do Tibete” (Missão da 7.ª Sub-Raça), antecipado pelo Movimento Teosófico na pessoa de H.P.B., fundado em Nova York em 1875 (Missão da 6.ª Sub-Raça), e a sua missão delegada pelos Excelsos Mahatmas, bem como ainda a derradeira presença do Governo Oculto do Mundo até 1921 instalado em Urga, antiga capital da Mongólia, representado por Bogdo-Gheghen, 31.º Budha-Vivo da Mongólia que tinha como Colunas Vivas um Chefe Espiritual, o Teshu-Lama, em Shingatse, e um Chefe Temporal, o Dalai-Lama, em Lhasa, facto corroborado pelo relato do viajante Ferdinand Ossendowski na sua obra anteriormente citada, adiantando que se mudariam para as terras do Ocidente. Todos esses acontecimentos no fundo justificam que os antigos valores presentes no Oriente pós-atlante, seriam doravante retornados à sua origem no Ocidente pré-atlante. É nas palavras do Engº. Cícero de Faria, uma das Colunas – por morte da Coluna TAG – do Professor Henrique José de Souza, deixadas na sua obra O Sexto Sentido, que entendemos melhor o assunto em pauta:

“Descrevendo minuciosamente as suas aventuras através da Sibéria e da Mongólia, sem falar no Tibete onde não conseguiu internar-se, para alcançar a Manchúria, diz também muito claramente o que sejam essas Entidades que lá se asilavam durante o período do Ex Oriens Lux, mas que com o transcurso dos primórdios da Raça Sintética que deve florescer nesta parte continental do nosso Globo, transferem para a mesma as suas potencialidades, fazendo o introito da sua acção, no desenvolvimento do Grande Plano que passa a denominar-se Ex Occidens Lux.

“Nessa empolgante produção literária que consagrou o cientista e sociólogo Ferdinand Ossendowski como uma celebridade mundial, ele narra as suas aventuras através da Sibéria asiática, da Mongólia, do Tibete e da Manchúria, descrevendo factos e não ficções imaginárias ocorridos naquelas regiões, que actualmente só vivem das tradições de um Passado seguramente com milhares de anos, mas dentro das quais se encontram ensinamentos extraordinários que se relacionam com o Governo Oculto do Mundo, como podem ser facilmente deduzidos pelos que lerem com atenção o que se contém nas páginas preciosas desse livro.

“Entre esses ensinamentos permitam que destaque como tema de estudo, para os que se dedicam lealmente ao trabalho de consulta a arquivos preciosos de tal natureza, aquele que se refere ao Budha Vivo do Oriente que, por ser o trigésimo primeiro da sua dinastia, passava então a ser também o último com direito a agir no mesmo Oriente, demonstrando claramente que o seu papel estava encerrando naquela parte geográfica do Globo, que lentamente tende para o seu aniquilamento, enquanto outras civilizações surgem no hemisfério oposto, para onde naturalmente deverão ter sido transferidas as funções do Budha Vivo, porque, como bem disse o Sr. Ossendowski, o ‘Budha Vivo não morre’.”

GEOGRAFIA SAGRADA DO BRASIL E O SISTEMA GEOGRÁFICO INTERNACIONAL

Predestinado ao Advento do Budha Maitreya ou Cristo de Aquarius, o Brasil ficou com a missão espiritual de preparar as novas raças, nomeadamente a 6.ª e 7.ª sub-raças arianas, destinadas ao florescimento de uma nova civilização. Além disso, como ficou demonstrado anteriormente, o Governo Oculto do Mundo (G.O.M.) ao transferir-se para esse Extremo-Ocidental geográfico, haveria de ter como consequência imediata o surgimento da Instituição e Obra (I.O.) do Venerável Mestre JHS, delegado pelo mesmo Governo. Neste sentido, todo o empreendimento não foi aleatório e respeitou todo um conjunto de preceitos e labores iniciáticos, consignados pela Tradição, com fins humanistas e universalistas no sentido da Evolução, sempre se precavendo e desviando de cultos animistas e de seitas psicoafectivas, tão próprias dos conturbados tempos modernos saudosas do passado morto em detrimento do mental vivo, este que é o verdadeiro e único instrumento capaz de impulsionar avante a Evolução da Humanidade.

Ao dar tal impulso evolucional, o Professor Henrique José de Souza – o Mestre JHS ou Senhor El Rike, o “Sol do Segundo Trono” – revelou um conjunto de segredos iniciáticos envolvendo a anatomia e fisiologia ocultas do planeta (Mundos Subterrâneos), indicando a localização dos Centros Vitais da Terra com o intuito de os dinamizar espiritualmente, entrando na frequência dos mesmos, e assim contribuir positivamente no aumento vibracional de todo o orbe, indo isso refletir-se ocultamente nos destinos da Humanidade, no sentido de prosseguir dentro da Lei de Evolução conformada ao Novo Ciclo de Aquarius. Para colocar todo esse propósito em marcha, igualmente estabeleceu uma Geografia Sagrada destacando determinados pontos do Brasil, sempre baseado nos mais rigorosos cânones da Tradição Primordial, afinal sendo a Tradição de Agharta morada do Rei do Mundo, como muito bem diz René Guénon. Ora, de acordo com a Tradição Iniciática das Idades que afirma a existência de Shamballah à Face da Terra outrora onde hoje existe o Deserto de Gobi, na Mongólia Interior (mantendo-se a sua projecção actualmente aí, mas somente no Plano Físico Etérico), o Mestre JHS estabeleceria o seu reflexo ou representação no Plano Físico Denso, exactamente em São Lourenço de Minas Gerais do Sul do Brasil. Isso significava, esotericamente, que o G.O.M. se trasladara “subterraneamente” do TIBETE para o BRASIL e aí tendo a sua expressão viva.

Acrescente-se que o G.O.M. encabeçado pelo Rei do Mundo, Chakravarti ou Melkitsedek, na sua constituição orgânica possui dúplice expressão: Governo Temporal do Mundo (para Melki, que traduzido do hebreu significa “Rei”), e Governo Espiritual do Mundo (para Tsedek, “Sacerdote”). Tem-se, pois, o Planetário da Ronda na função de Rei Divino (Maha-Rishi) na cúspide da Hierarquia Planetária. Conforme as Revelações do Venerável Mestre JHS, até 1921 o Governo Espiritual do Mundo situava-se “além do Himalaia”, no Templo Jina de JARA-LAGPA ou JARA-KHAN-LHAGPA, a sua Sede Central, sendo representado por BrahmatmaMahimaMohima, títulos das respectivas funções de RIGDEN-DJYEPO (“Rei dos Jivas”, Andrógino – Mercúrio), POLIDORUS INSURENUS (Masculino – Sol) e MAMA-SHAIB (Feminino – Lua), tendo se transferido para o Ocidente, para a brasílica Taba Jina de São Lourenço de Minas Gerais, instalando-se  no MEKA-TULAN, a região interna ou badagas do seu Sistema Geográfico, daí passando a governar os destinos imediatos do Mundo.

Por seu lado, o Governo Temporal do Mundo ou a parte física da mesma Trindade Aghartina sob os nomes AKTALAYA, AKGORGE e AKDORGE, ou antes, AKDORGE, AKADIR e KADIR, Colunas daquele, acaba se dirigindo do Ocidente (ARA-KUNDA, Mato Grosso) para o Oriente (JARA-LAGPA, Cachemira), indo se instalar nos lugares desocupados pelos Monarcas anteriores, passando a ter funções temporais face às espirituais daqueles, até ao dia do regresso desses “Três Reis do Oriente” às plagas do Ocidente.

Assim, com o início da ERA DO ESPÍRITO SANTO, em 24 de Fevereiro de 1954, o Governo Temporal do Mundo transferiu-se para o interior do RONCADOR (Norte do Brasil), e o Governo Espiritual do Mundo iria de vez para o Sul do Brasil, instalando-se no escrínio de SÃO LOURENÇO.

Foi assim que a partir de São Lourenço (Minas Gerais), para que o Governo Oculto do Mundo repercutisse sensivelmente na Face na Terra desde esse país-continente, seriam delimitadas duas outras balizas geográficas indo configurar um imenso triângulo no mapa sagrado do Brasil, como sejam Nova Xavantina (Mato Grosso) e a Ilha de Itaparica (São Salvador da Bahia), assim se constituindo um Delta de Realização Divina (Theotrim, “Deus Trino em acção”), em cada qual um Templo consagrado à Obra do Eterno na Face da Terra, em contínua actividade templária criando o ambiente necessário ao ambicionado dealbar do Grande Dia de Maitreya e a consequente definitiva Vitória da Obra de Deus… o que depende inteiramente de todos os discípulos de Aquarius, muito particular e especialmente de quantos estão ingressos às fileiras de JHS.

As razões ocultas para a escolha desses locais pelo Mestre JHS, mais uma vez, não foram aleatórias e nem de conveniência prática-utilitária, mas sim pela importância histórica e geográfica dos mesmos já de si propícios a repercutir sobre o Globo as Forças Celestes e Terrestres canalizadas e orientadas no Trabalho Espiritual ou Teúrgico em realização. Assim, duas linhas de forças intimamente relacionadas a essa triangulação demarcam e sacralizam todo esse espaço em guisa de constituir verdadeira “Terra Santa”, nomeadamente entre o Paralelo 15 ao Norte, e a Latitude Sul, nos 22 para 23 graus do Trópico de Capricórnio (Capris, Cumara). Conforme a Fala de JHS, toda a região Norte do Brasil, cujo Paralelo 15 atravessa a zona do Planalto Central de Goiás, onde se fundaria a actual capital do país, Brasília, está sob a influência vitalizadora de KUNDALINI, o “Fogo Quente Terrestre”, aí todo o Norte é VERMELHO FOGO até ao ponto meridiano ou separador que é a BAHIA, e desta para o Sul, é todo VERDE como FOHAT, o “Fogo Frio Celeste”, descendido do Céu à Terra, até ao Rio Grande do Sul. Cada Templo fundado – a instâncias do próprio JHS – nestes três pontos geoestratégicos, tinham (e têm) determinadas funções específicas para a concretização do Grande Projecto Teosófico-Sinárquico da então Sociedade Teosófica Brasileira, e para a sua consecução respeitaram e seguiram as necessárias regras tradicionais à luz do Conhecimento Hermético, como não podia deixar de ser, de maneira que está em cima se reflita no que está em baixo, e vice-versa, num perfeito retrato da representação não apenas dos Céus mas também dos Mundos Subterrâneos, representados por determinadas Fraternidades Jinas aí instaladas aí instaladas pelo melhor dos Jivas. Ademais, em cada Templo consagrado a uma Divindade ou Entidade Espiritual, vibra uma das três qualidades subtis da matéria, conhecidas como Gunas, com que se revestem as Três Hipóstases Divinas (Pai-Mãe-Filho) na sua manifestação, cada qual representada por um Tronco da Ordem do Santo Graal. Muito mais poderíamos dizer acerca dos mistérios e relações ocultas destes Templos mas não desejamos saturar o caríssimo leitor que, aliás, poderá obter mais informações noutros estudos entretanto editados com a chancela da Comunidade Teúrgica Portuguesa. De modo que podemos sintetizar toda esta extraordinária Teurgia do Mestre JHS no quadro seguinte:

Estabelecido o geográfico Triângulo Mágico, verdadeira Coroa Mística ou cabalística da Obra, o plano desta Geografia Sagrada só ficaria completo na plasmação e dinamização das restantes Esferas, Sefiras ou Chakras desta nossa Terra, para sua maior elevação vibracional e, consequentemente, espiritual, como se de uma verdadeira Árvore Sefirótica se tratasse (e no fundo o é nos contornos da Anatomia do Logos).  Estamos obviamente a referir-nos ao misterioso SISTEMA GEOGRÁFICO INTERNACIONAL, inédito concebido e revelado por JHS após o visitar ponto a ponto na sua misteriosa Viagem do Brasil ao Norte da Índia quando tinha dezasseis primaveras, em 1899-1900, exclusivo levando ao seu entendimento mais profundo unicamente pelos que integram esta Obra Divina.

De acordo com o já exposto, relativamente à íntima relação analógica do Homem e a Terra, convirá agora especificar determinados conceitos teosóficos acerca o assunto, sem os quais a sua compreensão torna-se indigesta. Tal como a Alma Humana é símile da Alma Planetária, esta constitui-se de dois aspectos, a saber: uma estrutura etéreo-psíquica (KAMA-LINGA), que acompanha toda a evolução somática do Globo durante a Cadeia, como igualmente do Homem fisico, do berço à tumba; e uma estrutura psicomental (KAMA-MANAS), base do pensamento objectivo e da emotividade do Logos de Bhumi (nome tradicional do planeta Terra) e do Jiva (nome tradicional do homem comum) como Microcosmo daquele, o Macrocosmo. Por sua vez, Kama-Linga é a estrutura que serve de molde, refinamento e aperfeiçoamento das formas visíveis e tangíveis, levando-as à subtilização gradual pelo processo de transformação da vida-energia em vida-consciência, quer no Logos, quer no Homem. Da mesma forma, Kama-Manas é a estrutura servindo de veículo à manifestação física, visível e tangível, das Consciências Superiores na Terra, como Vestes Avatáricas acrescidas do Eterno, ou seja, o seu prolongamento e testemunho sobre o Globo face à Humanidade. Significa isto que as duas estruturas vão relacionar-se com o nómeno e consequente fenómeno do aspecto físico da Vida, reflectindo-se nos biótipos humanos, as Raças, e no aspecto espiritual da mesma Vida reflectindo-se nas respectivas manifestações das Mónadas no seu processo evolutivo. Na linguagem iniciática, diz-se que Kama-Linga perfaz o desenvolvimento Prakritico ou Material expandindo-se de Oriente para Ocidente (impulsionando o desenvolvimento e movimento das Raças na mesma direcção), enquanto Kama-Manas elabora o desenvolvimento Purúshico ou Espiritual de Norte para Sul (impulsionando a manifestação das Mónadas Peregrinas). Para que esse processo aconteça eficazmente em harmonia dinâmica com a Lei dos Ciclos de Manifestação demarcados pela Matemática da Natureza, existem no Globo Bhumi pontos de intercepção dessas duas Forças, Prakrítica (Este-Oeste) e Purúshica (Norte-Sul), que caracterizam e definem os chamados Sistemas Geográficos Nacionais nos quais a Mónada evoluinte se manifesta em conformidade ao estágio evolucional da Raça inscrita no itinerário da sua peregrinação, o chamado Itinerário de Io com os seus Postos Representativos, esses os Sistemas Nacionais Psico-Geoestratégicos bem demarcados como sete mais um, no todo perfazendo o SISTEMA GEOGRÁFICO INTERNACIONAL.

Ainda assim, o caríssimo leitor poderá perguntar por que razão é tão importante esse Sistema Geográfico Internacional? Pela exposição anterior do que descrevem os Anais Ocultos da História da Humanidade, verificámos que a actual Civilização Ariana já teve de cinco sub-raças formadas ao longo dos milénios, e que estamos a caminho da sexta e sétima sub-raças. Todavia, para que se formassem anteriormente essas raças, tiveram de existir Núcleos Raciais, pontos centrais de origem e expansão das mesmas, constituídos pelo escol humano melhor preparado biológica e psico-espiritualmente em conformidade à Lei de Evolução, de modo a que partir deles se chegasse ao que hoje conhecemos delas nos padrões de civilização, cultura e espiritualidade. Para esse efeito, foram assim constituídos, logo a partir do início da Raça Ariana, os Sistemas Geográficos. Está nisso a razão oculta de ainda hoje determinados lugares de presença humana antiquíssima do Globo serem grandes pólos de irresistível atracção para o comum das gentes, mais que se devendo ao aspecto cultural ao seu halo místico envolvente desde o Passado mais remoto. Também por este motivo oculto das Terrae Sancta entraram em cena determinadas Fraternidades ou Colégios Iniciáticos locais constituídos ao longo da História da Civilização, os quais não deixaram de ser a representação na Face da Terra dos Centros Vitais (CHAKRAS) fixos no Mundo de AGHARTA, Núcleos catalisadores universais que se condicionam como PLEXOS, em conformidade com a Lei Orgânica do Globo, no Mundo de DUAT, onde formam PRAMANTHAS (Eixos móveis girocêntricos da manifestação cíclica da Substância, da Consciência e da Vida), autênticos PLEXOS do Corpo do Logos Planetário exteriorizando-se pelas suas respectivas GLÂNDULAS dispostas estrategicamente no organismo do Mundo de BADAGAS, sendo dinamizadas, animadas psicomentalmente, pelo sistema nevro-sanguíneo discorrendo como energia hidrotelúrica captada, canalizada e projectada pelos Adeptos dos Postos Representativos ou Fraternidades Ocultas que têm sempre “cara-metade” sobre o Mundo e no Submundo, em Badagas, cujo alter-ego é DUAT, o Mundo dos Seres Viventes.

Assim, é possível entender que se estando em pleno processo de formação das novas raças do Futuro, isso implica naturalmente a necessidade da dinamização espiritual, mental, emocional e física do Sistema Geográfico conformado ao momento presente da Evolução Planetária criando as oportunidades de futuras evoluções. Nessa situação encontra-se hoje o Sistema Geográfico Português gerando as condições para a formação e manifestação futura do Sistema Geográfico Brasileiro. Assim, também, compreendemos que para a formação e povoamento de um novo Sistema Geográfico, de um novo Eixo de Evolução, sejam mobilizadas as Mónadas mais aptas no sentido de constituírem novas raças. É aqui que o PRAMANTHA, como se referiu antes, ganha relevância destacada, termo invocando a nossa atenção para se entender a delicadeza do tema. De acordo com o Glossário Teosófico de Helena Petrovna Blavatsky, Pramantha significa “acessório para produzir o Fogo Sagrado através da fricção. Os paus utilizados pelos brahmanes para acender o Fogo através da fricção [com um de dois aranís]”. No entanto, esse acto de acender o Fogo Sagrado é alegórico, refere-se ao sentido oculto da evolução dos ciclos da Consciência e da Vida com os seus dois pólos energéticos mantenedores da Existência, FOHAT e KUNDALINI (que se acham unidos no Mundo da Balança, o DUAT). A haste vertical simboliza a natureza masculina – o Trabalho de Agharta para a Face da Terra; a haste horizontal, a feminina – o Trabalho de Agharta na Face da Terra. Masculino-Feminino entrosados em Cruz, assim configurando o símbolo da CRUZ JAINA, JINA ou a SWÁSTIKA.

O conceito de Pramantha possui três importantes expressões interligadas, a saber:

l.ª – O PRAMANTHA-DHARMA (CAUSA). Constitui-se das Sete Hierarquias Criadoras Universais actuando pelas Sete Linhas de Adeptos Independentes constituintes da Grande Fraternidade Branca, arquitecturando e inspirando à elaboração dos moldes evolutivos da Humanidade vigente.

2.ª – O PRAMANTHA-KARMA (LEI). É a extensão do primeiro, designando uma Fraternidade de Adeptos, de Homens Representativos ao serviço da Evolução e da Lei nos Três Mundos da Manifestação (Mental, Psíquico e Físico).

3.ª – O PRAMANTHA-SAMSARA (EFEITO). É o instrumento produtor do Fogo Sagrado (AGNI ou XADU), o qual nasce da fricção De um palo vertical (PRAMANTHA ou PITHIS) atravessando o furo central de um disco de madeira (ARANI ou ALEF), ou seja, o PAI fecundando a MÃE dando origem ao FILHO (AGNI, TWASHITRI ou XADU), no que se encerra o Mistério da Geração tanto de Deuses como de Homens conforme a Criação do Terceiro Logos como Espírito Santo, cujas iniciais formam a sacrossanta palavra P.A.X.

Esse é, pois, o Eixo Central que tudo faz mover e em volta do qual tudo se move, corporificação da dinâmica do Rei do Mundo e da Fraternidade Branca em torno do mesmo, actuando desde o Mundo Causal até ao Físico, sem o que não haveria Evolução. Em cada nova sub-raça em formação as Mónadas selectas, amadurecidas, são mobilizadas para que se manifestem, tornando-se incontornável a firmação da haste horizontal na Face da Terra. Com isso, cria-se um Novo Pramantha tomando contornos na formação de um Sistema Geográfico, a partir do qual a Evolução Humana é impulsionada avante. Em Portugal funcionou o CRUZEIRO MÁGICO DE MARIZ e por se constitui o NOVIS PALUX, segundo as Revelações do Venerável Mestre JHS.  Assim se trabalha para as novas sub-raças tomarem forma, virem à luz no continente americano, muito especificamente no sul-americano, nisto também sendo o Sistema Geográfico Internacional o Mapa da Manifestação e Evolução das sete Raças-Mães ao longo da Ronda Planetária, conforme o Revelador Original – JHS como Akbel ou Anupadaka-Deva. Ao se dirigir o foco de atenção e acção para a formação do Novo Ciclo de Evolução, exigindo a intervenção de todos como individualidades agregadas em colectividade, fica viabilizada a oportunidade de cada um puder contribuir positivamente, ao seu modo e capacidades, de forma concreta e orientada, para tão grandioso desiderato, mas sempre de acordo às Leis Universais.

Sabendo que o Divino Logos Criador procura o desenvolvimento e evolução de todos os Seus aspectos de Vida manifestada, inclusive o Humano, sobretudo este como o mais apurado, a Sua Ideação Cósmica formalizada no Pramantha, repercute desde o PLANO DA MENTE UNIVERSAL ao PLANO DOS EFEITOS FÍSICOS, agindo pela Tónica do  Luzeiro ou Logos Planetário do momento dirigente de um Sistema de Evolução  Planetária constituído por 7 Cadeias, sendo que cada Cadeia se constitui, por sua vez, por 7 Globos onde em cada um há uma Ronda evolucional das Ondas de Vida manifestadas. Considerando que um Sistema de Evolução Planetária compõe-se de 7 Cadeias e cada Cadeia evolui em 7 Rondas, cada uma destas é dirigida por um Kumara, onde também se inserem nesta Mecanogénese os Dhyanis Kumaras, Budhas e Jivas relacionados aos Kumaras Primordiais. Assim se completa a Obra do Eterno. Esses Seres perfilam nos mais altos escalões do Governo Oculto do Mundo, perfeito intérprete responsável pela plasmação da Ideação Cósmica.

São os Excelsos DHYANIS-KUMARAS agindo pelos Augustos DHYANIS-BUDHAS que têm a seu cargo despertar, na Humanidade, o Quinto Princípio, a QUINTESSÊNCIA, consubstanciada na Mente Criadora, Superior, Filosófica e Teosófica. Por isso, Eles usam a Linguagem do Futuro no Presente, induzindo ao raciocínio abstracto com os resultados dos mais transcendentes tirocínios. Eles representam os 7 Ramos do Saber Humano, por isso sendo os titulares os Paradigmas expressivos das 7 Ciências Sagradas. Conjuntamente, formam o Diadema da Sabedoria de Deus plasmada no escrínio espiritual da Humanidade. Enfim, os DHYANIS, num esforço antecipado de 1000 anos, consignam-se ao despertar do valor integral da Mónada Humana, ou seja, ao despertar dos estados superiores da Consciência focados em ATMA-BUDHI-MANAS que perfaz a mesma MÓNADA ou Essência Divina. Como uma “oitava abaixo” dos DHYANIS-BUDHAS CELESTES, estão os DHYANIS-JIVAS HUMANOS, ou MANUCHIS-BUDHAS, que são os 7 Dirigentes ou CHOANS dos 7 Raios de Luz do Logos da Terra, recebidos e adaptados do Logos Solar, por que se norteia a Grande Fraternidade Branca.

Ordenando, temos o DHYAN-CHOAN, depois o DHYAN-KUMARA, seguido do DHYANI-KUMARA, seguindo-se o DHYANI-BUDHA e finalmente o DHYANI-JIVA, cada um deles sendo Sete afim aos Sete Raios da Luz de Deus, indo formalizar-se como GRANDE FRATERNIDADE BRANCA. Esta age geralmente incógnita ou secretamente junto da Humanidade geral através das suas sete Linhas ou Raios, também nisto encontrando justificativa a tão incompreendida expressão de “Deus não abandona a Sua Humanidade”.

Ainda acerca dos Dhyanis-Budhas, é natural e certo que a mais-valia no Passado é menos-valia no presente Ciclo, conforme a Lei de Evolução, facto abarcando não apenas os homens mas igualmente o Universo, o Cosmos e os Deuses. Um Dhyani-Budha, que compassivo e abnegado procura reconduzir as criaturas humanas à sua Origem Divina, infundindo-lhes o incentivo à transformação da sua vida-energia em vida-consciência, é Ele uma síntese, um conglomerado das energias sátvica, rajásica e tamásica que se objectiva tomando forma humana, o ponto focal de um esforço a realizar e que após consumado, acaba sendo o resultado de todas as experiências de um ciclo de Humanidade. Deve ressalvar-se serem de natureza apuradíssima, subtilíssima essas energias que formalizam os seus Veículos Espiritual, Psíquico e Físico, por isso mesmo chamados tradicionalmente de Vestes Dharmakaya, Shambogakaya, Nirmanakaya, absolutamente diferentes daquelas dos homens comuns (Manásica, Kamásica, Sharira), por isso mesmo expressando Princípios Arquetipais Cósmicos humanizados neles, apesar de também estarem, como tudo o que existe, sujeitos às Leis gerais da Evolução que a tudo e a todos rege. Assim, de acordo com o Budismo Tibetano tradicional, os antigos Dhyanis-Budhas, normalmente conhecidos como os Cinco Budhas da Meditação (na realidade sendo oito), também evoluem para o estado de Dhyanis-Kumaras, enquanto, por sua vez, os Dhyanis-Jivas evoluem para o de Dhyanis-Budhas, e assim sucessivamente. Segundo as Revelações do Venerável Mestre JHS, a partir de 1898-99, com o término dos primeiros 5000 anos da Kali-Yuga, vieram à manifestação física (desde 1 a 8 de Julho de 1900) os antigos Dhyanis-Jivas na condição nova de Dhyanis-Budhas, com isso levando ao afastamento de funções, por Lei de Ciclicidade, dos antecessores, que assim passaram a condições mais elevadas (Dharmakayas), passando as suas Vestes Psíquicas e Físicas a ser retificadas, adaptadas pelas novéis Consciências directoras da Hierarquia Jiva. Em suma, processou-se o início do NOVO PRAMANTHA A LUZIR (NOVIS PHALUX), com isso ocorrendo profundas mudanças no seio da Hierarquia dos Mestres, a começar pela substituição gradual dos próprios Dhyanis-Kumaras (os Sete Arcanjos conhecidos do judaico-cristianismo) que assistiram ao Antigo Pramantha. Tudo em conformidade às directrizes promanadas de Shamballah-Agharta, Sede do Governo Oculto do Mundo, podemos observar essa evolução hierárquica dos Dhyanis-Budhas do seguinte modo:

Chegados a este ponto, onde se tornou necessário estabelecer os alicerces para a melhor compreensão possível do tema pelo respeitável leitor, podemos agora pautar com conformidade a tudo o dito a discriminação dos respectivos Postos Representativos do Sistema Geográfico Internacional, inteiramente conformado à MISSÃO Y de acordo com as idiossincrasias da Nova Era de Aquarius, trabalhando para a Maior Glória do DIA DE MAITREYA, para a Sua manifestação divina como CRISTO DE AQUARIUS – tentativa outrora falhado nos antigos Sistemas Geográficos de Jerusalém e do Tibete pelos Bhante-Jauls, os Irmãos de Pureza – assim contribuindo decisivamente para a evolução geral da Humanidade, com o surgimento no surgimento das 6ª e 7ª sub-raças como sementes, bijãs, das futuras 6.ª e 7.ª Raças-Mães. A Tradição Iniciática das Idades, revelada pelo mestre JHS, aponta esses Sistemas centralizadas em determinados países, dispondo-os e localizando-os em Montes Santos, nas palavras do Adepto Fra Diávolo, como espécies de pedúnculos dos mesmos sob determinada influência planetária, dominando determinados Dhyanis encabeçando as suas respectivas Fraternidades Iniciáticas Secretas, Jinas, ocultadas sob a Terra, que se distinguem num dos sete ramos da Ciência em países específicos dentro do aro da sua poderosa radiação. Tem-se:

PeruMachu-Pichu
Influência planetária – Sol
Chakra – Raiz
Atributo – A Luz de Deus
Qualidade – Saber
Dhyani-Kumara – Mikael
Dhyani-Budha – Midal (António José Brasil de Souza)
Dhyani-Jiva – Serapis
Fraternidade Oculta – Ordem dos Cavaleiros do Sol
Ramo da Ciência – Alquimia, Química, Física Nuclear
Países afins – Japão e China
Sistema Geográfico Sul-Mineiro – Pouso Alto

MéxicoItchen-Itza
Influência planetária – Lua
Chakra – Esplénico
Atributo – O Nome de Deus
Qualidade – Beleza
Dhyani-Kumara – Gabriel
Dhyani-Budha – Samus (Bento José Brasil de Souza)
Dhyani-Jiva – Kut-Humi
Fraternidade Oculta – Ordem dos Astecas Cabalistas
Ramo da Ciência – Arte e Música
Países afins – Índia e Tibete
Sistema Geográfico Sul-Mineiro – Itanhandu

América do NorteEl Moro
Influência planetária – Marte
Chakra – Gástrico
Atributo – A Sentença de Deus
Qualidade – Bondade
Dhyani-Kumara – Samael
Dhyani-Budha – Rud (Carlos José Brasil de Souza)
Dhyani-Jiva – Morya
Fraternidade Oculta – Ordem Rosacruz
Ramo da Ciência – Política, Ética e Estética (incluindo a Arte Militar)
Países afins – Egipto, Arábia, Síria
Sistema Geográfico Sul-Mineiro – Carmo de Minas

AustráliaSidney
Influência planetária – Mercúrio
Chakra – Cardíaco (Saturno)
Atributo – A Vontade de Deus
Qualidade – Pureza
Dhyani-Kumara – Rafael
Dhyani-Budha – Asshak (Daniel José Brasil de Souza)
Dhyani-Jiva – Hilarião
Fraternidade Oculta – Ordem de Malta
Ramo da Ciência – Mecânica, Físico-Química
Países afins – América do Norte e Rússia
Sistema Geográfico Sul-Mineiro – Maria da Fé

PortugalSintra
Influência planetária – Júpiter
Chakra – Laríngeo (Vénus)
Atributo – A Realização de Deus
Qualidade – Riqueza (Relíquia)
Dhyani-Kumara – Sakiel
Dhyani-Budha – Jovai (Eduardo José Brasil de Souza, Leonel da Silva Neves)
Dhyani-Jiva – São Germano
Fraternidade Oculta – Ordem de Mariz
Ramo da Ciência – História, Literatura, Linguística
Países afins – Espanha (Península Ibérica), Veneza (Europa) e Ceuta (África), incluindo ainda Goa (Índia) e Bahia (Brasil)
Sistema Geográfico Sul-Mineiro – São Tomé das Letras

EgiptoCairo
Influência planetária – Vénus
Chakra – Frontal (Mercúrio)
Atributo – A Expansão de Deus
Qualidade – Ventura
Dhyani-Kumara – Anael
Dhyani-Budha – Enoi (Francisco José Brasil de Souza)
Dhyani-Jiva – Nagib
Fraternidade Oculta – Ordem dos Tuaregues Azuis
Ramo da Ciência – Filosofia e Religião
Países afins – Israel e Grécia
Sistema Geográfico Sul-Mineiro – Conceição do Rio Verde

ÍndiaSrinagar
Influência planetária – Saturno
Chakra – Coronário (Júpiter)
Atributo – O Trono de Deus
Qualidade – Sublimação
Dhyani-Kumara – Kassiel
Dhyani-Budha – Karib (Godofredo José Brasil de Souza)
Dhyani-Jiva – Ab-Allah
Fraternidade Oculta – Maçonaria dos Traichus-Marutas (Agharta)
Ramo da Ciência – Medicina, Taumaturgia e Teurgia
Países afins – Austrália e Nova Zelândia
Sistema Geográfico Sul-Mineiro – Aiuruoca

BrasilSão Lourenço
Influência planetária – Sol Central (do Universo)
Chakra – Cardíaco Inferior (Vibhuti, Mercúrio)
Atributo – Vitória da Obra de Deus
Qualidade – Conhecimento Universal
Dhyani-Kumara – Akbel (em Henrique José de Souza)
Dhyani-Budhai – Adamita (em Helena Iracy)
Dhyani-Jiva – Jonas-Tulan (representando a 8.ª Linha Sedote)
Fraternidade Iniciática – Ordem do Santo Graal
Ramo da Ciência – Sete Ciências juntas
Países afins – Todos (Celeiro da Humanidade)
Sistema Geográfico Sul-Mineiro – São Lourenço (Coaracy)

Como vimos, além dos Sete Postos Representativos há a síntese dos mesmos como Oitavo, assinalado no Sistema Geográfico Sul-Mineiro, formado e fundado pelo próprio Mestre JHS, que funciona como verdadeiro Vibhuti ou “pêndulo místico” do Chacra Cardíaco, portanto, Cardíaco Inferior, o qual tem por centro o Templo Maior da Obra do Eterno na cidade e estância hidromineral de São Lourenço, e posto um Sistema Geográfico ser a plasmação de um Sistema Planetário, ele vem a representar todo o Macrocosmos no Microcosmos, nisto sendo plasmação e síntese do Sistema Geográfico Maior (Internacional, Macro), com os seus sete Postos Representativos,  no Sistema Menor (Nacional, Micro), com os respectivos Subpostos Representativos daqueles, constituindo a Semente do Amanhã. É assim que se estabelece uma verdadeira Cadeia Teúrgica de Fluxo e Refluxo espiritual entre os referidos Chakras Planetários, com a participação activa dos Discípulos ou Munindras, onde um e todos coadjuvando na Evolução do Logos coadjuvam a sua própria evolução, influenciando positivamente todas as suas hegemonias e idiossincrasias que se reflectem no Sistema Geográfico Sul-Mineiro e também deste reflectindo-se no Internacional.  É, afinal, o Tudo no Todo e o Todo no Tudo.

Portanto, toda a HARMONIA, toda a ORDEM, toda a PAX UNIVERSAL é assegurada e expandida pelos Sistemas Geográficos e respectivos Postos Representativos, os mesmos que assinalam o Itinerário evolucional da Mónada Peregrina, IO ou YO, cada qual mantido espiritualmente por uma única Individualidade (DHYANI-KUMARA), mantido psicomentalmente por um único Individuo (DHYANI-BUDHA), e mantido fisicamente por um Grupo de Individualidades ou Adeptos Perfeitos, como um só Corpo (DHYANI-JIVA), todos sintonizados entre si na mesma Linha de Poderio e Potência Espiritual que os leva a interligar-se incoercivelmente como um todo de maneira dinâmica, levando a efeito, no aro desta deografia ou geografia sagrada, a Divina Obra que lhes cabe realizar  no Plano Universal do Logos.

Cada qual destes Sete mais Um Centros de Radiação e Irradiação Planetária é um dínamo da LEI  como VIDA UNA, locomovendo como ROSA plantada no centro da CRUZ a Evolução do Globo no aporte do ESPAÇO SEM LIMITES ao ESPAÇO COM LIMITES, para maior Glória do Reino de Deus na Terra.

Adveniat Regnum Tuum

BIBLIOGRAFIA

Caderno Fiat Lux n.º 7 – Roberto Lucíola. pp. 33 e 37.

O Sexto Sentido e outros Estudos Teosóficos – Eduardo Cícero de Faria. Espiral Editora (2020), pp. 291-292.

A Chave da Teosofia – Helena Petrovna Blavatsky. Editora Pensamento, pp. 18, nota de rodapé.

Glossário Teosófico – Helena Petrovna Blavatsky. Editora Ground, pp. 508.

Monografias da Comunidade Teúrgica Portuguesa:

Oedipo (10, 11).

Manu (3, 4, 5, 17, 20, 29).

Yama (21, 22).

Karuna (12).

Astaroth (51, 52, 54).

Patrologia Afonsina e Cavalaria de Demanda – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Abr 9 2020 

I

Raro halo de sagrado e segredo envolve as fundações de origem da Casa de Borgonha, a antiga Burgúndia no centro-leste de França, envolta em mito e mistério ao se lhe atribuir a descendência dos primitivos reis visigodos, pretensos descendentes de não menos pretensa linhagem bíblica, melhor ficaria missão pastoral, no Ocidente (urgida do matrimónio apócrifo entre Jesus Cristo e Maria Madalena), ainda que, oficialmente, a mesma Casa tenha iniciado em Otão Guilherme (958 – 21.9.1026), casado com a nobre Ermentruda de Roucy (958 – 5.3. 1002)[1].

Essas núpcias deram a seguinte descendência:

– Filho de Otão e Ermentruda: Renato, casado com Alice, filha de Ricardo II, duque da Normandia.

– Filho de Renato e Alice: Guilherme, o Grande; Gui, conde de Brienne e Vernon; Fulque; Sibila, mulher de Henrique duque de Borgonha (que não chegou a governar o ducado), mãe de Henrique, depois conde de Portugal.

– Filhos de Guilherme, o Grande: Renato; Estevão, conde de Varais e Mâcon; Hugo, arcebispo de Besançon (1088-1101); Raimundo, conde da Galiza, genro de Afonso VI, rei de Leão e Castela; Gui, arcebispo de Viena, depois papa Calixto II (autor do famoso Códice Calixtino compostelano)[2]; Matilde, mulher de Edes I, duque de Borgonha e irmão do conde D. Henrique de Portugal; Gisela, mulher de Humberto II, conde da Sabóia, e (em segundas núpcias) de Rainério, marquês de Monferrato; Clemência, mulher de Roberto II, conde de Flandres, e (em segundas núpcias) de Godofredo, duque de Brabante.

Cerca de 1090, D. Raimundo de Borgonha (1070 – 24.5.1107) casou com D. Urraca de Leão (1080 – 8.3.1126), única filha legítima e de Afonso VI (1043 – 1.7.1109), imperador de Leão e Castela, e Constança de Borgonha (8.5.1046 – 1093), com isso se solidificando a ligação familiar Borgonha-Leão, franco-hispânica ou intra-Pirinéus. Como dote de casamento D. Raimundo recebeu, cerca de 1092-1093, o Condado da Galiza que ia até ao Rio Minho, de imediato dando começo à pretensão de distendê-lo mais para sul, havendo notícias de surtidas militares suas a Coimbra, Santarém e Sintra[3].

Em 1094, o conde D. Henrique (1066 – 12.5.1112), irmão de Edes I e quarto filho de Henrique de Borgonha, bisneto de Roberto I de França e sobrinho-neto do abade S. Hugo de Cluny, veio para a Península Ibérica dar auxílio militar à Reconquista cristã do norte e centro da mesma, e tamanhos e valorosos deverão ter sido os serviços prestados que, antes de Fevereiro de 1095, D. Afonso VI ofereceu-lhe a mão da sua filha bastarda, D. Teresa de Leão (1080 – 11.11.1130)[4], recebendo como dote, em 1096, o Condado Portucalense, que se estendia do Rio Minho até Coimbra, as finis Galliciae.

É muito possível que tenha sido D. Raimundo a chamá-lo para lhe suceder no trono da Galiza, posto revelar a ambição maior de assumir o trono de Leão e Castela e toda a parte cristã até aos territórios estremenhos e andaluzes em posse do Islão, indo suceder a Afonso VI. Desta maneira, poder-se-á interpretar mítica e politicamente a pretensão última e suprema da Casa de Borgonha em unir o coração da Europa (França, englobando o território borgonhês) à cabeça da mesma, a Hispânia[5], e sob a égide de Raimundo que dela seria o I.

Nessa antevisão mitosófica, poderá assumir-se temporalmente Raimundo como o paradigmático Raimondin, Roi du Munde, “Rei do Mundo” ou Melki-Tsedek, “Rei de Salém e Sacerdote do Altíssimo”, tanto vale, a quem os mais insignes da Casa de Borgonha prestariam o tributo ou dízima, que neste contexto vale pela “décima parte” das suas conquistas, da sua Cruzada continental. Isto mesmo atesta Juan García Atienza[6]:

“As interrogações sem resposta imediata referentes à Ordem (do Templo) começam no mesmo instante do seu reconhecimento no Concílio Trecense, porém, podemos descobrir já as suas silenciosas ramificações desde anos antes. Aquela Milícia composta – aparentemente – por nove cavaleiros flamengos e borguinhões que se refugiaram entre as ruínas das cavalariças do Templo de Jerusalém em 1118 e que parece haver-se mantido em discreto silêncio até ao instante do seu reconhecimento (Janeiro de 1128), estava já, ao que parece, actuando no Ocidente antes da sua elevação à categoria de Ordem Militar. Com a data de 1 de Julho de 1124, o conde Guilherme de Poitiers faz-lhes a doação da igreja de S. Bartolomeu de Fréjus. E, o que resulta mais significativo, encontram-se em Portugal em 1125, segundo Pedro Álvares, ajudando aos condes D. Teresa (filha de Afonso VI) e D. Henrique de Borgonha a consolidar um Estado que estava gestando aceleradamente a sua independência do reino castelhano-leonês. Incluso parece que em 1127 há já em Portugal um Procurador da Ordem, Frei Guilherme Ricardo, que permanecerá ali na qualidade de primeiro Mestre Provincial até à sua morte em 1139. Curiosamente, D. Henrique, assim como o seu irmão (antes, primo) Raimundo – casado com a outra filha de Afonso VI, Urraca, e instalados na Galiza, a terra da Prisciliano[7]– são oriundos da mesma comarca donde procedem o fundador do Templo, Hugues de Payns, alguns dos seus primeiros cavaleiros – Guilherme de Champagne, por exemplo – e nada menos que o grande líder religioso de Cister, Bernard de Clairvaux. A Casa de Borgonha tem, pois, um poder estabelecido sobre o núcleo sagrado da espiritualidade arcana peninsular, onde já, desde há séculos, chegavam os buscadores do saber remoto: o monge arménio Simeão, Estêvão, o Grego…

“É precisamente aqui, em Portugal, neste Portugal embrionário que começa a dar fé de vida independente, onde se produz um desses acontecimentos – o da sua própria Independência – que os historiadores não conseguem de modo algum demarcar nas coordenadas em uso. E, afortunadamente, por vezes o confessam: “É preciso que tenha havido uma série de circunstâncias ou de sucessos, que a História não consigna, que infundissem na população existente entre o Tejo e o Minho um espírito de independência. Não temos de procurar o gérmen desses factos em época muito distante. Durante a dominação Romana, a Província da Lusitânia era muito mais extensa que o actual Portugal e nenhum indício persiste de que houvesse nessa comarca, uma vez submetido o Reino Suevo, o menor traço de resistência contra os reis godos de Toledo”[8].

“Naturalmente, esquece-se aquilo que se deseja esquecer, o que não tem visos de revestir importância, o que a História tem desapreciado como desapreciava as uvas a raposa da fábula. Ou acaso não registam as crónicas as rebeliões galegas «sem transcendência» que os reis das Astúrias tiveram de reprimir, precisamente próximas à época em que se estava inventando a descoberta do sepulcro do Apóstolo (Santiago)? Fixemo-nos na circunstância temporal desse instante histórico. Por um lado, há uma identidade total, no étnico e no espiritual, entre a Galiza e Portugal. Eu me atreveria a chamá-la o espírito atlante ou lígure, que é o mesmo que animou Prisciliano a descobrir a sua própria identidade religiosa e a do seu povo (se não, recorde-se os vestígios inclusive toponímicos desse espírito: Las Noyas, Noelas e Navias, por uma parte; os Lugos e Lisboas, por outra). Por outro, a tomada pacífica dessa terra por membros da Casa borgonhesa, que se constituem em seus condes com o consentimento tácito – que não documentado – do imperador Afonso VI. Por outro ainda, a morte prematura do conde Raimundo (1107) separa acidentalmente as duas zonas irmãs da Galiza e Portugal, deixando a segunda nas mãos da Casa de Borgonha, que criará o Reino independente, e a primeira envolta em litígios pela legitimidade sucessória do filho do morto, Afonso Raimundes, que angaria com o seu apego a Castela o arcebispo Gelmírez. Enxotai, se vos atreverdes, as moscas pela cauda da História: o arcebispo D. Diego Gelmírez é cluniense de pró, rival, portanto, da reforma estóica, ascética (e solar, com perdão), que proclama o Cister de Bernardo de Clairvaux, de quem nasce o Templo como filho lógico e natural; Gelmírez e os seus escribas não se molestam sequer a citar os templários uma só vez na Compostelana [9], apesar dos vestígio dos freires detectar-se já na Galiza bastantes anos antes da morte do arcebispo, em 1140.

Armas da Casa-Mãe da Ordem de Cister em Claivaux. Mosteiro de Santa Maria da Alcobaça, Casa-Mãe da Ordem na Província Cisterciense de Portugal

“Se o labor dos templários na Galiza teve de ser necessariamente de sapa, o que desenvolveram em Portugal foi aberto e diáfano. Em Março de 1128, dois meses depois da celebração do Concílio de Troyes, o templário Raymond Bernard recebe da condessa Teresa o castelo e a “dignidade” de Soure, sobre o Rio Mondego, na fronteira muçulmana; e muito pouco depois, “a terra selvagem e despovoada entre os termos de Leiria e Colimbria”, com os castelos de Pombal, Redinha e Ega. O filho da condessa, Afonso Henriques, que será o primeiro rei português desde 1139, formula na serra de Albordas a promessa de oferecer terrenos ao abade Bernardo de Clairvaux, que havia augurado a vitória sobre os mouros em Santarém, vitória em que muito tiveram a ver o Templo e o templário Gualdim Pais, que será Mestre de Portugal desde 1157. A promessa se converterá no mosteiro de Alcobaça, desenhado sob a supervisão directíssima de S. Bernardo. O rei atribui ao Templo a protecção do mosteiro e da sua zona. Este facto conduz directamente à conquista e à posse da comarca mágica de Fátima e Tomar, onde se levantará, em 1160, a Sede principal do Templo português e as subsidiárias de Almourol (sobre uma ilha do Tejo) e Bode, completadas com Pombal, Penela, Castelo Branco, Idanha, Nisa, Monsanto e Ceras,  até ao porto de Óbidos  (hoje a dez quilómetros do mar terra adentro)[10].

Painel sobre o altar-mor da igreja de Santa Maria da Alcáçova de Santarém, vendo-se D. Afonso Henriques doando a cidade ao Mestre do Templo (pintura de Cirillo Wolkmar Machado, executada entre 1817 e 1818)

“A presença Templária fez-se fundamental no nascente Reino. E os freires, em troca, obtêm as lógicas prebendas e o lógico poder consequente. Conseguem não depender do bispo inglês de Lisboa, Gilberto de Hastings, depois da intervenção dos cruzados ingleses na conquista da cidade (1149). Depois desse feito, Gualdim Pais embarca para Gaza, para receber a Iniciação Templária na Terra Santa, e na sua volta será nomeado Mestre Provincial.

“No princípio do século XIII, os templários custodiam mais de vinte mil maravedis do tesouro do Reino.

“Perguntemo-nos agora: em que sentido colaboraram os templários na gestação política do novo Reino português? E por que levaram a cabo essa colaboração? Para responder a estas questões, terá de intervir por necessidade a conjectura. Porém, tenho a impressão de que tive ocasião de aclarar suficientemente os móbiles da Ordem, para que possamos avançar suposições com uma respeitável margem de credibilidade, ainda que – logicamente – haverão sempre historiadores que negarão tudo quanto os arquivos não hajam podido reter.”

Mesmo assim, devo eu dizer agora, o testemunho escrito, documental, do saber antigo e de antigos acontecimentos, sejam dos templários ou de quaisquer outros, tanto religiosos como militares e civis, não é a única fonte de recolha de informações documentais constituintes do Arquivo Histórico, pois também há os testemunhos iconográficos, pictóricos e arquitectónicos, dentre outros.

Parecendo dar dando consecução a um plano oculto ou secreto predeterminado, conforme o descrito nos parágrafos anteriores do saudoso amigo Juan Garcia Atienza, o certo é que em 1096 D. Afonso VI confiou ao conde D. Henrique de Borgonha o governo da província portucalense, assim passada a condado, desde o Minho até ao Tejo, com Coimbra demarcando inicialmente as Finis-Galliciae e Idanha-a-Velha as Finis-Portucaliae.

Pelo valor jurídico e alto significado atribuído à concessão, D. Henrique passou a ser considerado como Conde de Portugal (1096), após o seu casamento com a filha bastarda de Afonso VI, D. Teresa, pois antes era só conde D. Henrique. Tanto ele como a sua mulher, e depois o seu filho D. Afonso Henriques, cuidavam que o título lhes dava jus legítimo ao governo do referido território, o que ninguém contestou; a contestação que houve da parte galega e leonesa-castelhana deveu-se à sua pretensão quase imediata de tornar o condado livre, o que equivalia a sair da condição dependente de feudo para país independente, consequentemente, com fronteiras, regras e governo próprios.

Por morte de D. Afonso VI, em 1109, D. Henrique arrebata e anexa a Galiza de D. Raimundo, alegando os acordos firmados anteriormente com o monarca seu genro (que deu à filha o Condado de Coimbra, como prolongamento do Condado Portucalense ou Vimaranense doado a D. Henrique), dando começo aos seus propósitos de independência e dilatação do condado, pretensão clara a tornar-se país, o qual, em pleno e geral sistema feudal dominante, iria tornar-se o primeiro da Europa, cerca de 450-500 anos antes dos outros saírem do letárgio provocado por infindáveis conflitos entre senhores feudais, onde a autoridade do rei era constantemente medida na sua capacidade militar pelo número de lanças dos exércitos privados, na maioria compostos de mercenários e foragidos, o que o obrigava a acordos e concessões para agrado de uns e desagravo de outros, levando a conflitos permanentes que minavam a solidez de todo e qualquer poder central

Em seguida, D. Henrique faz a peregrinação a Santiago de Compostela (onde nascera o seu sogro D. Afonso VI), acompanhado da mulher e da corte, como que procurando a aprovação Divina ao seu intento de tomar posse do lugar repositório da Tradição Arcana: toda a orla extremo-ocidental destinada a ser o futuro País do Porto-Graal, segundo o seu filho D. Afonso Henriques no selo da carta régia de doação de Tomar à Ordem do Templo, em 1159, na pessoa do seu Mestre Provincial, D. Gualdim (Gualdino) Pais. Tudo isso, decerto, conformado à prerrogativa do versículo dos Actos dos Apóstolos: “Estabeleci-te como Luz (Lux) das Nações (Citânia) para levares a Salvação até aos confins da Terra” (XIII, 47).

À família do conde D. Henrique de Portugal, da Casa dos Duques de Borgonha, pertenceram alguns dos mais insignes da História europeia os quais, não raro, a envolveram em halo mito e mistério pretextando a origem divina da Linhagem[11]:

Hugo Capeto, rei de França e duque do Luxemburgo.

Filho de Hugo: Roberto, rei de França, casado com Constança, filha de Guilherme, conde de Tolosa.

Filhos de Roberto: Henrique, rei de França, e Roberto, duque de Borgonha. Henrique concedeu a seu irmão o ducado. Roberto casa com Elia, irmã de Cluni.

Filhos de Roberto: Roberto, Henrique, Simão, Hugo, Constança (que após enviuvar de Hugo de Châlons, foi mulher de Afonso VI).

Filhos de Henrique (o primogénito, segundo Ordorico Vital): Hugo, Eudes, Roberto, bispo de Langres, Henrique, conde de Portugal, Beatriz e Elia.

Eudes sucedeu a seu irmão Hugo no governo do ducado quando ele abraçou a vida religiosa em Cluni, embora contra a vontade de São Gregório VII, que em carta ao abade São Hugo o repreendia por ter admitido o sobrinho, com isso privando o ducado do seu excelente governo. Antes de entrar em Cluni, Hugo deu a São Roberto, abade do nascente mosteiro de Molesme, a vila do mesmo nome, e Eudes confirmou a doação.

Fica autorizada, por múltiplos exemplos originais, a devoção dos condes e reis de Portugal à família religiosa de Cluni, e logo após a sua reforma por meio de Cister, a esta, o que muito se deve a São Bernardo de Claraval (Clairvaux, abadia cisterciense da diocese de Langres, no leste de França), que deu ao nascente país incremento político-religioso capacitando-o a acompanhar a evolução social da época, saindo dos padrões da Baixa Idade Média (sécs. V – VIII) para a Alta Idade Média (sécs. IX – XV), em que se integrou plenamente em boa parte graças à execução religiosa e político-social das Constituições de Cister (cerca de 1120), redigidas pelo próprio Saint Bernard de Fontaine, assim se tornando a “Fonte da Vida”, Fons Vitae, ou seja, quem trouxe uma nova modalidade de encarar e viver espiritualmente a religião, de maneira menos opressiva e mais consentânea com o desenvolvimento da sociedade, sem dúvida fortemente rural mas tendendo a urbanizar-se. Santa Maria de Alcobaça, Casa-Mãe da Província Portuguesa de Cister, ficaria ligada aos destinos da Casa de Borgonha no país através do mesmo São Bernardo e do seu primo (de segundo grau) D. Afonso Henriques, motivo deste ser considerado o fundador temporal de Portugal e aquele o fundador espiritual do mesmo. Assim se levantaram as colunas da Autoridade Espiritual (Cister – Transmissão Iniciática – Pax) e do Poder Temporal (Borgonha – Transmissão Hereditária – Lex) neste país que os templários iriam desenvolver sob o pretexto da Reconquista (Pelágio), sem se alhearem dessas com que se iniciou, a partir de um poder central, a governação com os seus três poderes legislativo, executivo e judiciário, mais um quarto coordenador em que não raro os mesmos templários tiveram papel moderador entre a Coroa e a Igreja.

D. Henrique foi acompanhado, na fundação do futuro Portucale (já assim chamado no século IX por um borguinhão anterior, o conde Vímara Peres, de Vimaranis ou Guimarães), por uma plêiade de nobres e cavaleiros franco-borguinhões, aos quais Luís de Camões em Os Lusíadas chamaria, poeticamente, de “Armas e Barões assinalados”, fixados primeiro no que era a antiga Espanha cristã, depois trasladados a Portucale seguindo o seu líder, D. Henrique de Borgonha. As suas “Armas assinaladas” estão patentes na Sala dos Brasões do Paço Real da Vila de Sintra, vizinha da sua Capela do Espírito Santo. Postadas assim, é como se transmitissem a ideia da Terceira Pessoa da Trindade tornando Divina a Monarquia Lusitana, a que provém de Lusus ou Luso, filho dilecto de Dionísio ou Baco, este o “deus vinhateiro”, conforme a mitologia greco-romana, substituto do ligúrico Lu, Lug ou Luz, o que confere com… Lux-Citânia, o “Lugar da Luz”.

II

Afonso Henriques de Borgonha e Leão, o I Rex Portucalis de cognome o “Conquistador” ou o “Fundador”, terá nascido cerca de 1111 em Guimarães, baptizado na capela de São Miguel do Castelo, Arcanjo a quem seria consagrado, sendo o primogénito do conde D. Henrique de Borgonha e da condessa D. Teresa de Leão. Por volta dos três anos de idade (1114) terá ficado órfão de pai, e logo a filha bastarda de Afonso VI se «desfez» dele entregando-o aos cuidados e educação do barão Egas Moniz, que o tratou como a um filho de sua própria carne e progénie. Donde a tradição oral, toda lendária, correndo nas bocas do norte do país, celebrizada na literatura de cordel, de Egas Moniz ter sido o verdadeiro pai do infante futuro rei, o que consanguineamente é uma absurda inverdade.

Egas Moniz, o Aio (c. 1080 – 1146), é daqueles personagens escassamente abordados pela historiografia, apesar do papel proeminente que teve em sua época ao concorrer para dar a um trono nascente um legítimo e digno ocupante. Ele descendia do valoroso D. Moninho Viegas, que ao tempo de Ramiro I de Leão, nos fins do século X, recuando à época do conde Vímara Peres, adentrou a barra do Rio Douro com uma armada de guerreiros da Gascunha e se apossou do Porto, o restaurou e lhe deu por bispo D. Sinando, seu irmão[12]. Um filho deste capitão, também chamado Egas Moniz, casou com Dona Toda Hermingues Alboazar, bisneta de outro mais antigo, D. Raimundo, rei de Leão. Deste consórcio nasceu D. Hermígio Viegas, que foi pai de D. Moninho Hermingues, e do casamento deste com D. Moninha Oreana[13] nasceu o nobilíssimo Egas Moniz. Ainda antes de nascido Afonso Henriques, terá ele prestado grandes serviços ao Condado Portucalense, logo, a D. Henrique de Borgonha, a cujo condado/ducado também andava relacionado por laços familiares afastados[14]. No campo militar, ajudou com bravura e destreza o conde D. Henrique a alargar o senhorio dotal da sua esposa D. Teresa, como homem esforçado e leal cavaleiro. Egas Moniz, segundo o Livro Velho, foi casado duas vezes: a primeira com D. Mayor Paes, filha de Paio Goterrez, o que fez Tibães, e da filha de D. Sueiro Mendez, o que fez Várzea; a segunda com D. Tereja, a que fez Sarzeda. De ambos os consórcios teve geração. Está sepultado na capela-mor da igreja do mosteiro beneditino de Paço de Sousa, em cujo túmulo há três pedras ilustradas que assinalam os passos da vida deste nobilíssimo barão[15].

Não só no campo militar se distinguiu Egas Moniz. Deu mostras de sua cultura apoiando e defendendo a Escola Galega de Trovadores, não ele como trovador mas o seu primo com o mesmo nome, Egas Moniz, também ele esforçado cavaleiro e autor de muitas coplas formosas, bem dizendo de amores correspondidos e mal dizendo de amores desventurados, como foi o caso de D. Violante, dama de companhia da rainha D. Mafalda, que terá recusado os seus ímpetos apaixonados[16]. Ao contrário desse seu familiar, o valoroso barão ao carnal preferiu o amor espiritual: deu fé da sua afeição à Virgem Mãe de Deus quando esta lhe apareceu em sonhos e mandou que erigisse a igreja de Carquere, junto a Lamego, e também que fosse ele o designado (pela própria Virgem Maria) a aio do príncipe Afonso Henriques, segundo a lenda (ou não tanto…), criança de saúde débil que só a recuperou completamente quando esteve aos cuidados do barão Egas Moniz, cumprindo as ordens deixadas nesse sentido pelo conde D. Henrique[17].

Antes de morrer, D. Henrique legou todo o Condado Portucalense ao filho, não à mulher. Mas mal deu o último suspiro, D. Teresa apressou-se a casar com o galego Fernão Peres de Trava, passando a usar o título de “rainha” (1117) de uma terra que queria só para si, pelo que despojou o filho de tudo quanto o pai lhe deixara.

Qual seria a derradeira intenção de Trava e Teresa? No campo da hipótese e pela conjectura dos factos, induz-me o seguinte: a pretensão de fundar o reino não de Portugal mas da Galiza, logo, englobando todo o Condado Portucalense, assim passando a Galiza de condado a reino possuidor de toda a orla costeira ocidental. Nisto não é de descurar que Fernão Peres era membro da poderosa família dos Trava, com proeminência destacada na nobreza galega, alimentando o desejo de ser rei de uma terra só sua, liberta da soberania leonesa.

Para lograr a possibilidade desse intento, é que foram afastadas da corte de D. Teresa as mais poderosas e prestigiadas famílias nobres do Condado Portucalense, todas favorecidas anteriormente pelo conde D. Henrique com cargos da maior importância, dentre elas a de Egas Moniz.

Estavam abertas as hostilidades.

Externamente: com a rainha de Leão e Castela, D. Urraca, que com Diego Gelmírez, arcebispo de Compostela, seu aliado, invadem e saqueiam o Condado Portucalense em 1121, obrigando D. Teresa a recuar e refugiar-se no castelo de Lanhoso, onde acabou por se submeter a sua irmã.

Internamente: com o infante Afonso Henriques, que forçou para si dois castelos, o de Neiva e o da Feira, e a partir deles fez guerra a seu padrasto, até finalmente dar-se a batalha de S. Mamede, em 24 de Julho de 1128, derrotando-se de vez o conde de Trava e as suas pretensões opostas às do infante de Portucale e dos barões portucalenses.

Vendo-se cativa do seu filho mercê da derrota nos campos de S. Mamede, D. Teresa apelou para o imperador D. Afonso VII, que respondeu com grande exército. indo ser derrotado por D. Afonso Henriques em Valdevez (1140). D. Afonso VII não se conformou com a derrota e veio, desde Toledo, cercar de surpresa o Dux ou Princeps em Guimarães. Perante as circunstâncias militarmente desfavoráveis, este conformou-se aparentemente com as exigências de vassalagem ao monarca leonês – empenhando a sua palavra de honra o nobre aio D. Egas Moniz –, que mal retira o príncipe apossa-se de vez de toda a terra que o seu pai lhe deixara. Vem daí o feito da pretensão martirial de Egas Moniz, com todas as circunstâncias de que as revestiu a tradição popular iniciada por Alexandre Herculano no século XIX, indo com o baraço ao pescoço oferecer a honra da sua vida e de sua família ao rei «atraiçoado», que o perdoou sob pressão da corte.

Tudo isso estava em conformidade ao espírito de independência que sempre norteou D. Afonso Henriques. Já no Domingo de Pentecostes de 1125, arma-se a si mesmo cavaleiro na catedral de Zamora, acto só praticado pelos reis e que era, portanto, um gesto claramente político. Mais que político: esotericamente é um gesto feito à imagem e semelhança de Melki-Tsedek, “Rei de Salém e Sacerdote do Altíssimo”, que “não tinha pai, nem mãe, nem nenhuma genealogia terrena”, conforme as Escrituras Sagradas. Já Afonso Henriques era: órfão de pai, deserdado pela mãe, não havia genealogia portuguesa antes dele.

O Arcebispado de Compostela reagiu furioso, encetou campanha de difamação e anátema contra o Bispado de Braga, primitiva capital religiosa da Hispânia, por ter apoiado D. Afonso Henriques que decidira fazer do Primaz bracarense sede da Igreja Portuguesa, ao mesmo tempo fundando, na Freiria de Évora, a Ordem de São Bento de Avis – cedo arredando-se da Ordem de Calatrava como afirmação de autonomia militar nacional – e a Ordem de São Miguel da Ala, Asa ou Asinha (Arcanjo Padroeiro ou Patrono seu e do Condado Portucalense já desde o conde D. Henrique, para não recuar mais atrás apontando-o como Orago tanto da Igreja como da Sinagoga hispânicas). Igreja essa acaso politicamente aliada de Roma, mas decerto curialmente alheada dela. São arremessados os maiores e mais odiosos impropérios e anátemas a Afonso Henriques no chamado Processo Anti-Afonsino, da autoria de Diego Gelmírez. Exemplos: “anti-Cristo”, “perro negro de Santiago Apóstolo”, “Faraó perseguidor” e “Simão, o Mago”, que “Moisés (isto é, Gelmírez) e Pedro (ou seja, Roma) haveriam de destruir”, etc. Tudo isso é coevo das maldições ao reino nascente pela cúria papal favorável a Leão e Castela, certamente por interesses político-económicos, o que suscitou as reacções violentíssimas de D. Afonso Henriques contra essa mesma representação do bispado de Roma, chegando mesmo a investir um “bispo negro” (isto é, moçárabe, religioso participe do rito hispânico ou visigótico, paleocristão) e quase degolando o legado papal Guido de Vico, por este ter feito à socapa, em Coimbra, um ritual de exorcismo e maldição ao condado e aos portucalenses[18]. Cai por terra, decisivamente, a teoria anacrónica e jesuítica de “Afonso Henriques não ter passado de um analfabeto inculto, guerrilheiro sem honra com alguma sorte militar”(!!!).

Em sua época pretendido Mestre Fundador de misteriosa Ordem de Mariz, da qual a História pouco ou nada sabe, feitor de uma Terra distinta e conversador com o Céu que a abençoa, encontram-se vestígios esparsos mas sólidos de um culto à sua régia pessoa na Idade Média (sobre o altar-mor da igreja dos agostinhos da Graça, em Lisboa, lá está ele com auréola de santidade, exemplar raríssimo), muito possivelmente propagado pela Ordem de São Miguel da Ala e pelos Bentos de Avis. D. Manuel I tenta a sua canonização por Roma, debalde, e D. João IV prossegue a mesma tentativa, debalde, tendo sido a última feita por D. João V (1728).

D. Afonso Henriques com aura de santidade (testemunho iconográfico raro) sobre o altar-mor da igreja do Convento dos Agostinhos da Senhora da Graça, Lisboa

Finalmente, em 5 de Outubro de 1143 deu-se a Conferência de Zamora, desfechada com o Tratado de Paz entre Afonso Henriques e Afonso VII de Leão, na presença do legado papal, o cardeal Guido de Vico, o mesmo que antes fora feito prisioneiro e quase degolado pelo príncipe por ter amaldiçoado a terra portuguesa, sendo obrigado a levantar o anátema e a concordar que o condado ficaria isento de pagar dízimo a Roma. É nesse evento de Zamora que o Infante passa de Dux ao reconhecimento oficial de Rex Portucalis [19], título que os barões portucalenses já lhe davam desde anos antes, mais precisamente desde a vitória retumbante na Batalha de Ourique, em 25 de Julho de 1139, sobre o Islão, como comprova a Carta de Couto dada por Afonso Henriques ao Mosteiro de Tibães, em 1140, onde ele aparece como Rex Portucalis, título já subentendido no documento mais antigo de 27 de Maio de 1128, este como Carta do mesmo Príncipe a confirmar à Sé de Braga o couto que lhe outorgara D. Teresa. Mas sem dúvida alguma o documento mais importante é a chamada Carta da Fundação de Portugal, ou seja, a bula Manifestatis Probatum, de 23 de Maio de 1179, do Papa Alexandre III, finalmente reconhecendo Portugal como país soberano, independente e com o seu rei próprio.

Bula Manifestis Probatum, do Papa Alexandre III, reconhecendo Portugal país soberano

No mesmo ano de 1143 deu-se a primeira Assembleia de Estado em Lamego (lugar onde a Santa Virgem encomendara a educação do infante a Egas Moniz), a qual foi dirigida pelo já rei Afonso I e cujo documento lavrando o acto assim começa: “Em nome da Santa e Indivisível Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo; Trindade inseparável que nunca pode ser separada. Eu, Afonso, filho do grande conde Henrique e da rainha Teresa, neto do grande Afonso, imperador das Hespanhas, e pela misericórdia de Deus ultimamente elevado ao trono dos reis”, etc. Portanto, rei por desígnio do Grande Rei Altíssimo no Trono ou Terra Eleita, Porto-Graal, já antes aclamado Portucalensium Rex por Cristo descido do Céu, como pelos seus cavaleiros na Terra, incluindo templários, em Ourique, milagre cristológico que antecipou a vitória na batalha decisiva para a derrota do império almorávida de África no sudoeste hispânico[20].

O princípio do dogma teológico da Santíssima Trindade assiste e rege os ciclos da época de Afonso Henriques e dos seus sucessores imediatos (decerto propagado pelos templários e os seus «policiados», os rabinos cabalistas das alfamas sinagogais inseridas nos espaços dos bailios e comendas do Templo), assim como aos principais feitos de armas da sua vida. As retumbantes vitórias militares de S. Mamede e de Ourique foram decisivas ao desfecho aclamatório de Afonso I como Rex vencedor dos Ciclos Matricial (Atlante – Neptuniano, assinalado por D. Teresa) e Patricial (Ariano – Uraniano, assinalado por D. Henrique), unindo-os de maneira a dar início ao Ciclo Patrológico algo Andrógino, ou seja, de união e equilíbrio da Lex matricial com a Pax patricial, viabilizando-se depois no alargamento territorial (natureza ctónica uraniana) e expansão marítima (natureza linfática neptuniana), projecto já iniciado em tempo de Afonso Henriques através da frota templária liderada pelo capitão D. Fuas Roupinho, senhor de Porto de Mós, que deu a primeira vitória naval a Portugal, como consta na Crónica de Portugal de 1419 e Os Lusíadas cantaram (VIII, 16-17).

Com efeito, a esquadra de galés templárias saiu de São Martinho do Porto comandada por Fernão Gonçalves Churrichão, o Farroupim, mais conhecido por D. Fuas Roupinho, tendo a batalha se dado em 15 de Julho de 1180, ao largo do Cabo Espichel, contra a frota de 9 galés de piratas almóadas comandados por Gamim Ibne Mardanish, acompanhado do seu irmão Abu l´Ula, vindos do saque na costa de Lisboa, tendo desfechado com a retumbante vitória dos templários portugueses que afundaram uns e apresaram outros dos navios mouros que rumavam a Sevilha, trazendo os despojos e prisioneiros para Lisboa onde D. Fuas e os templários foram recebidos triunfalmente pelo rei D. Afonso Henriques, que viera às pressas de Coimbra, e pelo bispo da cidade, além de inúmero povo gritando e cantando loas de vitória e glória.

Ainda respeitante ao tema afonsino em presença, respigo as palavras seguintes a Dalila Pereira da Costa[21]:

“Uma concepção superior e primeira de Nação surge pela elevação de D. Afonso à soberania suprema, desde então como o Fundador de uma existência nova dos portugueses: como povo independente e desde então também possuindo uma responsabilidade por eleição e mandato divino, de missão universal. Passou-se do ctónico ao celeste; negando a superioridade da mãe terrena, a paternidade do Fundador é doravante celeste, a de Cristo, a si mostrando-se como seu Senhor: “Não te apareci deste modo para acrescentar a tua fé, mas para fortalecer teu coração nesta empresa, e fundar os princípios de teu Reino em pedra firmíssima”. Há desde então um rei, sua geração e seu povo, uma missão transcendente sobre a terra. Do mesmo passo, o novo rei fundando assim a nova paternidade de uma Nação, a sua. Essa é um dos maiores significados da vitória destas duas batalhas sucessivas: S. Mamede e Ourique. (…) A traição serpentária da rainha D. Teresa, será a expressão de uma última luta de morte, dum princípio feminino nesta terra de Ofiusa, agora Portucale, finalmente vencido; e onde ainda se declara, como outrora, uma herança regida matrilinearmente, em que a mulher era a proprietária da terra, por herança recebida dos pais. Assim, dirá D. Teresa, nessa luta de morte entre mãe e filho: “Minha é a terra e minha será. / Pois meu pai el-rei D. Afonso ma deixou”. E logo depois, ao seu conde, em vontade expressa: “– Conde, quero entrar na hoste convosco e havereis que fazer pelo meu amor. / E de toda a maneira prendei Afonso Henriques, meu filho, pois melhor poder tendes que ele”. A rainha tenta defender esse antigo direito perante seu filho e os barões portucalenses, quando da batalha de S. Mamede; direito que ela representava nesta terra e sua humanidade, mas é vencida. Semelhante luta foi também travada entre sua irmã D. Urraca e o filho, Afonso VII. Há algo de desespero nessa última tentativa de D. Teresa e na sua vingança de Erínia implacável. Nesse poema citado do cantar de Afonso Henriques, se seguirá a tradição duma rainha e mãe metida a ferros pelo filho; e a tradição tecida à volta de sua maldição, tendo como desfecho e realização perfeita o desastre de D. Afonso Henriques em Badajoz: ao fugir da cidade sitiada por seu primo D. Afonso VII, quebra uma perna de encontro ao ferrolho da porta do castelo e é preso por aquele. E desde então não mais pôde montar a cavalo. Mas, continuando a seguir este cantar: ela quando viu que assim a prendiam a ferros, disse: “Afonso Henriques, meu filho, prendeste-me, e quitaste-me de meu marido. / Rogo a Deus que preso sejais assim como eu sou. / E porque me meteste nos meus pés ferros, quebradas sejam as tuas pernas com ferros.”

Do que concluo:

Para garantir a continuidade da geração, em 1145 D. Afonso Henriques contraiu matrimónio com D. Mafalda de Sabóia, filha do conde Amadeu II de Sabóia e Piemonte, cujo primogénito vivo, o infante D. Sancho, em 1170 é associado ao governo de seu pai e aclamado herdeiro deste. Foram os seguintes os filhos legítimos e os filhos bastardos ou ilegítimos (em conformidade à “política de mancebia” da época e que vingou até muito tarde, se é que realmente desapareceu das actuais cortes europeias) de D. Afonso Henriques de Portugal:

Só em 1179 D. Afonso Henriques recebe do Papa Alexandre III a bula Manifestis Probatum, datada de 23 de Maio desse ano, que lhe dá formalmente o título de Rei e a garantia de Independência para ele e os seus sucessores no novo país: Portugal.

D. Afonso Henriques veio a falecer em 6 de Dezembro de 1185 no Finis-Galliciae, Coimbra (capital de Portucale desde 1131, quando se transferira de Guimarães para aí). Está hoje sepultado nessa cidade na igreja do Mosteiro de Santa Cruz (que ele mesmo havia fundado em 1131 e entregue aos cónegos regrantes de Santo Agostinho, com os quais fora educado na religião e nas letras), onde jaze em primoroso túmulo manuelino na capela-mor do lado do Evangelho.

III

As intenções e os actos que a História regista, fazem concluir que a Casa de Borgonha terá concebido e executado um plano predeterminado à fundação de uma Nova Jerusalém in Finis Terrae, portanto, no extremo-ocidental da Europa onde veio a ser o Reino de Portugal. Para isso terá contado com o apoio directo, ainda assim discreto, da espiritualidade esclarecida de Cister em paridade com a disciplina castrense Ordem do Templo (há registos da presença Templária, quase constante, ao lado dos barões portucalenses, ora nas batalhas de reconquista, ora nas decisões políticas, inclusive em Zamora, onde D. Afonso Henriques se auto-coroou rei do país nascente), nisso observando-se igualmente a presença do dédalo da escolástica islâmica da parte dos seus mais esclarecidos (mullahs ou mawlas, mestres, professores), como também por parte do rabinismo sefardita refugiado in Finis-Galliciae, mormente em Idanha-a-Velha e Monsanto, onde os esclarecidos na Escritura Antiga eram apodados de “anoques”, isto é, “enoques”, como ainda sobrevive na toponímia local.

Portugal deve, pois, os alicerces da sua formação e independência como reino à Ordem do Templo, em primeira mão, com a influência discreta e depois aberta de São Bernardo de Claraval, ajudando D. Afonso Henriques – aquele o fundador espiritual do reino, e este o fundador temporal do mesmo.

Além das Ordens de Cister e do Templo várias outras entraram ou se formaram em Portugal, todas pela mão do mesmo D. Afonso I, dentre as quais se contam: a Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho (que viria a estar na génese da Colegiada de Santa Maria da Oliveira de Guimarães, a mais antiga do país), a Ordem Militar de Santiago, a Ordem Militar de São João do Hospital (cujo Mestre Provincial, na ocasião, era Pedro Afonso, filho bastardo do monarca), a Ordem Militar da Freiria de São Bento de Avis, a Ordem Militar de São Miguel da Ala (fundada pelo próprio rei), e também a Ordem Militar de São Julião do Pereiro (de Pinhel, em Terras de Riba Côa), surgida na época da fundação da Nacionalidade, aprovada pelo Papa Alexandre III em 1176-1177, mas já antes sendo o seu fundador e primeiro prior, em 1156, Suero Fernandez Barrientos. Sujeita ao bispo de Salamanca, D. Ordoño, ao se passar para Portugal talvez que tenha sido inicialmente adoptada pela Ordem do Templo e se tornado uma ramificação portuguesa desta, isto a atestar pela semelhança dos trajes usados nessas instituições: os cavaleiros do Pereiro (cujas armas eram uma pêra do pereiro silvestre, com as raízes descobertas em campo amarelo, de ouro) vestiam túnica de lã branca sob capa negra ou manto branco, com uma cruz simples de braços iguais (grega). Todos usavam cruz e recebiam os sacramentos com o manto branco, o mais solene. Em 1252-1253 passou a ser mais conhecida por Ordem de Alcântara, e com a conquista do reino de Granada em 1492 terminou o principal trabalho externo dos cavaleiros pereiros: fazer Pelágio no combate à moirama[22].

Ordem significa “ordenada, estar conforme” a determinada regra legislativa de uma corporação, de maneira a sustentar essa mesma ordem, para que não se caia na desordem ou anarquia. Se bem que as corporações de Cavalaria tenham se desenvolvido ao tempo das Cruzadas, contudo elas já existiam desde muito antes com regras próprias, apesar de, sabe-se, nem sempre serem devidamente assimiladas e cumpridas, talvez por desleixo, talvez por serem diferentes no conteúdo e na forma de país para país. Todavia, no século XII tudo iria mudar decisivamente pelo estabelecimento de um regulamento universal para a Cavalaria. Assim, a 1.ª Regra de Cavalaria Monástica, teologalmente inspirada em Santo Agostinho, foi criada em 1130 por São Bernardo de Claraval: De Laudae Novae Militiae (“O Louvor da Nova Milícia”), escrita em língua d´oil (o dialecto medieval utilizado no Norte de França), destinada a Regula Vitae da recente Ordem dos Cavaleiros Templários. A partir do texto da Regra a Milícia criou os seus Estatutos, e inclusive influenciou a lavra dos Estatutos de outras Ordens: Santiago, Hospitalária, Teutónica, etc. A Regra (Regula) é sempre o cimento do edifício organizacional que são os Estatutos (Statutum), a cujo interior se confinam os confrades ou postulantes. Sobre a do Templo, o meu caríssimo e saudoso amigo Josué Pinharanda Gomes (16.7.1939 – 27.7.2019) teve ocasião de proferir[23]:

“Reassumindo os cânones da ascética de Santo Agostinho, ampliados com a experiência vivencial da Regra de São Bento (a Regra toda, letra a letra) pela Ordem de Cister, São Bernardo elaborou a nova e primitiva Regra latina. O latim era sinal da unidade católica, num país que tendia a dispor já de uma língua própria, em que a nova Ordem, francesa nas origens, surgia. O texto final logra um perfeito entroncamento da vida contemplativa e da vida activa e, nesta, da vida militar em preparação da paz – para bellum, si vis pacem. A Regra abunda na remissão para os lugares da Sagrada Escritura, fonte doutrinal de primeiro apelo, frequentes vezes repetindo o que se encontra na Regra de São Bento, sendo possível efectuar o cruzamento de vários artigos da Regra templária com a beneditina, tanto nos aspectos da espiritualidade, como nos aspectos administrativos e organizativos. Diversamente do que sucede com as Regras ascéticas, tanto a beneditina como a templária incluem desde logo as questões organizativas e, por isso, ambas são longas, se comparadas com as Regras monásticas, já a de Santo Agostinho, já a do Carmelo, já a inicial de São Francisco.”

Ainda assim, por sua relação íntima a São Bernardo e aos templários, para esclarecer desde já quaisquer pressupostos de D. Afonso Henriques ter sido professo regular do Templo, devo informar que a Ordem aceitava duas categorias de irmãos: os regulares (societatis) e os familiares ou donatos (confraternitatis), estes que eram uma espécie de terceira ordem onde D. Afonso Henriques chegou a se filiar[24], como declara expressamente na Carta de Doação de Soure aos Templários (1129), feita “por amor a Deus, por sua alma, pela dedicação que lhes consagrava e por ser seu confrade[25]. Tudo o mais que se possa dizer da sua afiliação templária, não excederá o eventual facto de D. Afonso Henriques acaso ter recebido, na juventude, educação templária, aliás, prevista no estipulado na cláusula 62 da Regra do Templo, que já antes da sua aprovação pontifícia era aplicada pelos cavaleiros velhos, de bom juízo e conselhos, aos nobres jovens à sua guarda.

Nos finais do século XIII, Raimundo Lúlio (1232-1316), amigo pessoal do Mestre Provincial de Portugal, D. Afonso Pais, e igualmente do Mestre Geral da Ordem, Jacques de Molay, escreveu a 1.ª Regra de Cavalaria Geral, militar sem vínculo directo ou indirecto à secularidade da religião, apesar dos predicados e significados desta estarem presentes no texto, facto normalíssimo atendendo à mentalidade religiosa dominante na época, Regra rapidamente aceite nos institutos militares do mundo ocidental. Apesar do seu aparente laicismo, talvez até agnosticismo, os mesmos são desmentidos pela sempre presença dos significados morais/cabalísticos (talvez por influência do Templo sobre o autor) acerca de cada uma das peças do traje de guerra do cavaleiro, no Livro da Ordem de Cavalaria do citado Raimundo Lúlio[26]. O Prólogo do mesmo revela a natureza do conteúdo:

INCIPIT PROLOGUS.

“À semelhança dos sete planetas, que são corpos celestiais e governam e ordenam os corpos terrenos, dividimos este livro de cavalaria em sete partes, para demonstrar que os cavaleiros têm honra e senhorio sobre o povo para o ordenar e defender. A primeira parte é do princípio de cavalaria. A segunda é do ofício de cavalaria. A terceira é do exame que deve ser feito ao escudeiro quando quer entrar na ordem de cavalaria. A quarta é da maneira como deve ser feito cavaleiro. A quinta é do que significam as armas do cavaleiro. A sexta é dos costumes que pertencem ao cavaleiro. A sétima é da honra que deve ser feita ao cavaleiro.”

A fim de dar uma ideia, mesmo que pálida, do que seria o ritual de armação de cavaleiro, lembro o ocorrido com o então príncipe D. Dinis na corte de seu avô Afonso X, o Sábio, conforme a narrativa do cronista descrita por Américo Cortez Pinto[27] (sendo os comentários entre-parênteses de minha autoria):

“Conta o cronista que o avô recebeu o neto “com grande amor e respeito” e o regalou com grandes festas. Estava então a corte em Sevilha e ali foi com grande pompa armado cavaleiro o infante de Portugal.

“É de imaginar como seria escrupulosamente seguido o cerimonial da investidura se atendermos que o padrinho era o próprio rei que no seu código do Libro de las Siete Partidas dera pela primeira vez carácter legislativo ao ritual da Sagrada Ordem de Cavalaria.

“Ao meio-dia de véspera foi o príncipe donzel submetido ao banho pelos escudeiros para que, à semelhança do baptismo, em seu espírito ficasse gravado simbolicamente o preceito da pureza do coração. Deitaram-no depois sobre um leito real sumptuosamente recoberto de preciosa alfofa de Granada, para simbolizar nesse repouso o descanso reservado por Deus no Paraíso aos que morressem em defesa do Seu Nome ou por Sua Honra e da Nação.

“Então, alguns dos nobres cavaleiros da Ordem em que ia ser recebido e aos quais incumbia o instruí-lo sobre os deveres de honra da Cavalaria, vestiram-lhe a camisa branca para lhe lembrar que devia conservar imaculado o seu corpo consagrado a Deus. A seguir a túnica, de escarlate vermelho, para que tivesse sempre presente o compromisso de derramar o seu sangue por Cristo e pela sua Igreja (logo, Sangue Cristificado ou, o que é o mesmo, Sangue Real – Sang Greal). As meias de lã preta e as botas de pele escura deviam lembrar-lhe a cor sombria e a humildade da terra, onde haviam de terminar todas as grandezas do mundo.

“Seguiu-se a confissão e a velada de armas durante a noite inteira, sozinho, na escuridão da catedral frouxamente iluminada, sempre ajoelhado em oração e meditação frente ao altar, sobre o qual brilhavam tibiamente, à luz dos círios, as armas da investidura.

“Até que aos primeiros alvores da madrugada deram entrada no templo o Bispo e o Imperador (Pontífice e Monarca, tanto valendo pelos Arcanos 4 e 5 do Tarot = Melki-Tsedek, “Rei de Salém e Sacerdote do Altíssimo”), e, rezada a missa de alva (Vénus), lhe foram calçadas as esporas de oiro e vestidas as últimas peças da armadura de cavaleiro.

“Já durante a missa, logo depois de rezadas as aleluias do Gradual, o Bispo depusera religiosamente a espada nua sobre o altar sagrado e, invocando a Graça de Deus (Espírito Santo), lhe lançara a santa Bênção, enquanto o jovem príncipe, humildemente ajoelhado, fazia aos Céus a promessa de bem a usar em Sua honra e louvor, e em defesa da Justiça e da Pátria.

“Lido o último Evangelho (de São João) tomou El-Rei das mãos do Oficiante a lâmina já sagrada e, enfiando-a na bainha, ele próprio a cingiu ao jovem cavaleiro. E logo D. Dinis, desembainhando-a novamente, por três vezes a brandiu na mão direita, para repetir solenemente os juramentos de sacrificar todo o seu sangue (sangue real, sem dúvida) pela Religião (Santa Maria – o Cálice), pelo Rei (São Miguel – o Livro ou Gradual) e pela Honra da Cavalaria (São Tiago Maior, posteriormente São Jorge – o Trono ou Pedra de Assento), defender os fracos e proteger as mulheres desamparadas (isto é, servir impessoalmente a Humanidade).

“Recebeu de seguida a pranchada ritual e o beijo do padrinho: – Deus te guie no Seu santo serviço e permita que cumpras os teus juramentos!

“Depois de dois dias de diversões e regalos, com justas e torneios, sob os olhares das formosas damas da corte, seguiram-se festas palacianas com trovadores e jograis. A Poesia Trovadoresca vivia por toda a parte de mãos dadas com a Cavalaria. E muito mais numa corte em que o próprio Rei era poeta.”

A primitiva Regra de Cavalaria do século XI, espécie de código “arturiano” franco-bretão normativo do cavaleiro andante vivendo do aluguer da sua destreza nas armas, portanto, antes de haver corporação castrense de cavalaria propriamente dita, já havia adoptada em colectivo pelo próprio D. Afonso Henriques sendo adaptada ao corpus militar portucalense, quando fundou com os seus cavaleiros, em 13 de Agosto de 1162, destinando-se a defender as fronteiras geopolíticas do país nascente, a Companhia dos Freires de Santa Maria de Évora, que ao passar para Avis passou a chamar-se Ordem Militar de São Bento de Avis, portanto, primeiro só religiosa e depois acrescentada militar, exclusivamente destinada à defesa da coroa e das fronteiras do reino.

Já antes, em 1147 e após a tomada de Santarém no dia de São Miguel (8 de Maio), D. Afonso I havia fundado um outro Instituto muito mais reservado, cultor do secreto, cujos confrades também estiveram presentes na Ordem do Templo e depois na de Cristo: a Ordem Equestre e Militar de São Miguel da Ala, Asa ou Asinha.

Igualmente a Cavalaria Árabe possuía a sua Regra e Estatutos, sobretudo a da Ordem dos Assacis ou Assesins, fundada no Cairo cerca de 1090, com a qual a dos templários andou de intimidades. Essa Cavalaria de Crescentada influenciaria os almorávidas e os almóadas da Península Ibérica, muitos deles andando de proximidades ideológicas aos sefarditas judeus aqui instalados, uns e outros pretendendo a edificação da Meca ou da Jerusalém do Ocidente, que os templários rematariam na feitura da Charola de Tomar (1160). Daí a razão das lutas interinas e de quantas Cruzadas e Crescentadas houveram, durante a Reconquista cristã da Península, pela posse de determinados enclaves sagrados como postos residuais do Saber Arcano multissecular. Muitos desses postos não foram tomados pelas armas, de maneira a não manchar de sangue a sacralidade e transcendência dos mesmos, mas pela razão iluminada necessária a quantos pactos pacíficos houveram – falando exclusivamente da Península Ibérica – entre a Cruzada e a Crescentada. Dou um exemplo de ecumenismo e proximidade no medievo: em Alenquer, onde se fundou oficialmente, nos inícios do século XIV, o culto do Império Popular do Espírito Santo, está próximo dele a freguesia de Meca, com a primitiva mesquita convertida em igreja de Santa Quitéria. Dois pólos opostos que se completam. Também se sabe das terríveis batalhas pela posse do território abarcando a Meseta de Fátima nas faldas das serras de Aire e Candeeiros ou Candeias. Já Sintra, como exemplo inteiramente oposto, foi tomada em 1147 não pelas armas mas pela razão, portanto, ocupada pacificamente pelos templários, liderados por D. Gualdim Pais, acompanhando as forças de D. Afonso Henriques.

Para a mentalidade medieval a Guerra Santa ou Jihad equivalia, no contexto reservado dos mais esclarecidos, a uma busca dinâmica de Iluminação Interior pela morte do inimigo exterior, que poderia ser não só um elemento humano mas, sobretudo, um estado psicológico de alma a vencer, ou por outra, um defeito de carácter a ser ratificado. Para os hindus essa é a via do Kshatriya ou “Guerreiro”, que os chineses, mongóis e tibetanos apodam poeticamente de “caminho do Dragão”, enquanto os hermetistas afro-europeus da Idade Média e Renascença apodavam de “caminho do Tigre ou do Leão”.

No que São Bernardo de Claraval diz acerca da guerra que o cavaleiro tem de fazer ao inimigo tanto nele como fora dele[28], numa definição completamente inédita para a mentalidade da época:

“Este cavaleiro de Cristo é um cruzado permanente num duplo combate: contra a carne e o sangue, e contra as potências espirituais malignas errantes. Avança sem medo, este cavaleiro vigilante à direita e à esquerda. Revestiu o seu peito com a cota de malha e a sua alma com a armadura da Fé. Munido destas duas defesas, não receia nenhum homem ou demónio. Glorioso é o vosso regresso no combate!”

Acerca deste tema (tão melindroso nos dias que correm), é ainda Pinharanda Gomes a tomar a palavra no seu livro já citado:

“Matar e guerrear são actos que a psicologia medieval relacionava a um sentimento negativo, ou deficiente, o ódio. El-Rei D. Duarte, atento glosador das teses filosóficas da medievalidade, versa o problema da guerra adentro do capítulo acerca do ódio[29], para distinguir entre guerra justa e guerra injusta. O problema da guerra é abrangido pelas disciplinas da ética e da política, sendo grave matéria para todos os Direitos, porque a guerra supõe a eventual necessidade da morte, porque a guerra não se define como um jogo em que o vencedor é o que cumpre as regras e leva o adversário a desistir de lutar, quer dizer, transcende o torneio dos campeões. Supõe a morte como recurso e, na batalha, o recurso à morte pode ocorrer a todo o momento, mesmo que o militar prefira pôr o adversário fora de combate sem lhe tirar a vida.

“O primeiro teorizador da guerra justa foi Santo Agostinho de Hipona e as suas ideias adequaram-se com justeza à ideologia da Cruzada e, portanto, das Ordens Militares. O Islão prescindia de um teorizador da guerra, porque a Guerra Santa se acha contemplada no seu próprio livro sagrado, que manda combater na via de Deus quem faça a guerra[30], que é, também ela, caminho divino, jihad. A Cruzada inspira-se na Crescentada, que é anterior, e que poderá ter sido a causa das Cruzadas. Para Santo Agostinho, a guerra justa era, claro está, a bellum romanum sob o signo do novo Império, o da Igreja de Jesus Cristo.

“As tropas combatem sob o pavilhão, a bandeira, o pendão, o vexillum de Cristo: a bandeira partida em duas cores, branca e preta, sendo na partição que a cruz se desenha. “Bipartitum ex albo, et nigro colore”, em que o branco representa a candura, e o preto a afronta aos leões. Na simbologia mais cerimonial a bandeira pode conter, em cercadura, a legenda – Non nobis Domine sed Nomini tuo da Gloriam – “Não a nós, Senhor, mas ao Vosso nome dai Glória”, que é o versículo primeiro do Salmo 115.

“A ética cristã acerca da guerra justa inspira-se do magistério evangélico. Se bem que o evangelista Mateus considere a guerra oposta a Cristo, ele introduz o conceito de guerra em legítima defesa[31], pelo que há lugar para o exercício de uma guerra que se funda nas ideias de “propter caritatem” ou de “ad correctionem”. Formula-se como um mal que vem por causa do bem esperado. Os cruzados estavam certos da regra. Os conquistadores de Lisboa, Osberno e Arnulfo, testemunharam isso por escrito: “A piedade em favor de Deus não é crueldade. Fazei a guerra por zelo de justiça e não por impulso violento da ira”[32]. Acontecendo a morte de homem, o cruzado cavaleiro tem por certo que o mata, não como homicida, mas como malicida. O discernimento acha-se no ensino de S. Bernardo: “Sane cum occidit malefactorem, non homicida, sed, ita dixerim, malicida” – “Não peca como homicida, mas – direi eu – como malicida”[33], porque mata o pecador para defender os bons. O cavaleiro mata o pecador, não por ele, mas pelo pecado que transporta.

“Que matar o infiel não deveria ser o fim último do cavaleiro, sem identificar o verdadeiro infiel, é a catequese que S. Bernardo de Claraval explicita a Mestre Hugo, na chamada “segunda carta” acerca da guerra espiritual.”

Ainda sobre os almorávidas e almóadas, os primeiros fatímidas convictos, esclarecidos por vocação e pacíficos por natureza (desde que, logicamente, não vissem perigadas as suas posses, no caso, territoriais)[34], distantes nesses predicados dos aguerridos berberes marroquinos, a sua origem espiritual é assim descrita por Oliveira Martins[35]:

“Para as fronteiras da Negrícia, no Sara, vivia uma tribo berbere cujo rei, Yahâ, tinha visões. Um santo, Aballâh, chegado de fora, converteu-o à espécie de islamismo que seguia; e juntos construíram uma râbita, convento e fortaleza, tebaida onde se recolheram a orar. Daí começou a propaganda, e assim nasceu a seita dos morâbitum (vulgo, mouros), ou habitantes da râbita, a que os espanhóis vieram a chamar almorávides.”

Após esses almorávides ou almorávidas (de quem o castelo templário de Almourol herda o nome), vêm os almóadas ou almóades, fundados por Mahammed-ibne-Tumer, da tribo dos Maçmudas marroquinos. Tendo-se convertido à teologia ortodoxa de Al-Achari, fez-se também râbita fundando os almowalhidun, ou unitários. No meado do século XII a Península Ibérica já estava agregada à dinastia almóada. Prossegue Oliveira Martins:

“Uma outra, a dos merinitas, vem, no meado do século XIII, substituir a anterior; mas a história do domínio sarraceno da Península Ibérica pode dizer-se que termina nessa centúria, e desde que a vitória dos almorávides tornara a Espanha vassala do Emir-el-Muminin de Fez. Os emirados da Lusitânia, do Algarve e da Andaluzia tinham sucessivamente caído nas mãos dos reis cristãos; e no século XIII apenas o reino de Granada, ao qual a História dará ainda mais duzentos anos de existência, representa como relíquia a antiga Espanha muçulmana.”

A Península Ibérica sob o domínio árabe, tinha em seu seio núcleos judaico-cristãos (alfamas ou aljamas juntas a caneças ou al-kenissâh) subordinados à hierarquia política e eclesiástica vigente que os tolerava e respeitava. Durante esse domínio as populações judaico-cristãs, mais cristãs, ficaram moçárabes, isto é, “como que árabes”, na cultura, nos usos e costumes e até na caldeação de sangues diversos. A cultura arábiga foi a alavanca para o arranque do progresso e passagem da Baixa à Alta Idade Média. Sem ela, difícil ou mesmo impossivelmente a Europa progrediria. Diz ainda Oliveira Martins na obra citada:

“Os califas de Bagodá tinham agentes em Constantinopla, na Arménia, na Síria, no Egipto, encarregados de comprar livros gregos que eram logo traduzidos em árabe. Al-Mamum (813-833) presidia em pessoa às assembleias dos sábios, e as livrarias dos doutores davam para carregar muitos camelos. A dos fatímidas do Cairo contava, ao que dizem, cem mil volumes; e os omíadas de Espanha, assegura-se terem reunido mais de meio milhão. Excedia setenta o número das bibliotecas de Córdova, de Málaga, de Almeria e de Múrcia. Os árabes eram então os mestres, os médicos e os magos dos príncipes cristãos. Os nomes de Mesua e Geber, de Maiomonides, Rasis, Avicena, Averroes ficaram ligados aos primórdios da anatomia, da botânica e da química da Idade Média. Dizem os eruditos que nessas grandes bibliotecas era onde se achavam as obras de Platão e de Euclides, de Apolónio, de Ptolomeu, de Hipócrates, de Galeno, sobretudo de Aristóteles, o mais lido e gabado entre todos, e ainda a literatura, a retórica e os comentários do Corão ocupavam a máxima parte das estantes.”

Os inconciliáveis aparentes da História de Portugal em seus primórdios, subjacentes às contendas imediatas na formação geopolítica do reino que se queria e teve, e também essa com imensos “hiatos inexplicáveis”, acaso só poderão ser explicados plausivelmente por via das políticas “subterrâneas” ou internas das Ordens Religiosas e Militares, cristãs e árabes, à dianteira dos destinos desta parte do mundo em que coabitaram, não raro, juntas no mesmo espírito fraternal que uma e mesma Sabedoria Única, Primordial, lhes infundia e norteava. Nisso estão os almorávidas fatímidas e os templários marianos, ambos hipertúlicos auferindo do sentido das respectivas Escrituras Sagradas. Esse Saber Arcano, velado e até diáblico para mentes comuns despreparadas para tanta luz, assim mesmo ainda se apercebe hoje em muitos dos testemunhos documentais, monumentais e artísticos que legaram à posteridade, como também no imobiliário, oral/escrito, das inumeráveis lendas populares criadas, por supersticioso temor que a ignorância impõe, em volta dos templários. Assinalo um exemplo com que termino:

A lenda do Mouro Al-Pal-Omar (Pombal).

– Há muito tempo nas margens do rio Quabruncas vivia um belo jovem mouro de olhos verdes, cor de esmeralda traiçoeira, que procurava encantar todas as mais belas mulheres para o seu harém. A sua fama estendia-se desde as margens do Mondego até às margens do Tejo em vagas de simpatia e acanhado respeito.

Certo dia, os templários guiados pelo Arcanjo São Miguel deram-lhe um combate de morte que durou até ao luar de Agosto. No momento, viram-no desaparecer na gruta encantada do seu palácio. Taparam-lhe todas as entradas e construíram-lhe em cima um castelo.

As raparigas desta terra ainda guardam na memória a fama desse mouro encantador, contada de mães para filhas em singela advertência. Toda a menina que for ao castelo depois do Sol se pôr ouvirá uma música harmoniosa, quase imperceptível, e se ficar curiosa a ouvi-la, será encantada por um belo rapaz que lhe cantará:

Menina vem ter comigo,
Vem o meu encanto quebrar,
Sou um mouro teu amigo
Que te quer namorar.

 

NOTAS

 

[1] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[2] Ulysse Robert, Histoire du Pape Calixte II. Paris, 1891.

[3] Historia Compostellana, in Fr. Enrique Florez, España Sagrada, tomo II, cap. 53. Madrid, 1765.

[4] Luiz Gonzaga de Azevedo, História de Portugal, volume III. Edições «Bíblion», Lisboa, 1940.

[5] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Prefácio e Posfácio de Professor Doutor António de Sousa Lara e Comendador Joaquim Baraona. Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

[6] Juan G. Atienza, La Mística Solar de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1983.

[7] Prisciliano, Tratados e Cânones de Prisciliano, III-IV, p. 129. Editorial Nacional, Madrid, 1978.

[8] Marqués de Lozoya, Historia de España, t. I, p. 412. Salvat, Barcelona, 1967.

[9] Historia Compostelana, o sea Hechos de d. Diego Gelmírez, primer arzebispo de Santiago, traduzida do latim ao castelhano por R. P. Fr. Manuel Suarez. Porto, Santiago de Compostela, 1950.

[10] Juan G. Atienza, A Meta Secreta dos Templários. Litexa – Portugal, 1981.

[11] Anónimo de Sahagun, em Escolona, Historia de Sahagún o Historia del Real Monasterio de Sahagún, Apêndice I, p. 303. Madrid, 1782.

[12] José Mattoso, A Nobreza Medieval Portuguesa – A Família e o Poder. Editorial Estampa, Lisboa, 1994.

[13] Não confundir estes Hermingues e Oreana com aqueles de nomes semelhantes da posterior odisseia matriártica “Oreana/Fátima” nas faldas da Serra de Aire, génese do actual fenómeno mariano da Virgem de Fátima.

[14] José Mattoso, D. Afonso Henriques. Edição Círculo dos Leitores, Lisboa, 2007.

[15] Luiz Gonzaga de Azevedo, História de Portugal, volume III. Edições «Bíblion», Lisboa, 1940.

[16] D. Diogo de Souza, História de Portugal desde os Tempos Primitivos até à Fundação da Monarchia e d´esta Época até Hoje (Obra inteiramente inédita). Edição adornada de Gravuras. Lisboa, 1852.

[17] Pedro de Mariz, Dialogos de Varia Historia (Dos Reis de Portugal com os verdadeiros retratos que se puderam achar). Impressos na Oficina de António Craesbeeck de Mello, com Privilégio Real. Ano 1674.

[18] Terceira Crónica Breve, publicada por Alexandre Herculano em Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, I.

[19] A carta do horóscopo de Portugal feito por Fernando Pessoa, divulgado por António Telmo (in História Secreta de Portugal. Editorial Vega, Lisboa, 1977), dá-o nascido como país quando o Sol estava a 17 graus de Peixes (os mesmos iuchtus, “peixes”, dos cristãos primitivos frequentadores das catacumbas romanas, de cujo símbolo resultaria o Portugal Cristianíssimo) em 1 de Março de 1143, data em cujo mês começa o ano astrológico a 20/21 de Março, coincidindo com o Equinócio da Primavera, e ano em que se deu a referida Conferência de Zamora, celebrando-se o Tratado de Paz entre D. Afonso Henriques e D. Afonso VII de Leão, na presença do legado papal Guido de Vico, depois do qual é reconhecido ao infante português o título de rei, prerrogativa necessária  à consequente afirmação de haver país para governar, e com reconhecimento legal pelas outras Coroas e o Papa.

[20] Vitor Manuel Adrião, Portugal, Sagrado e Mistério (Memória Histórica). Edição Euedito, Lisboa, 2018.

[21] Dalila Pereira da Costa, Corografia Portuguesa. Lello & Irmão – Editores, Porto, 1993.

[22] Cf. Mário Simões Dias, Os Templários em Terras de Portugal. Edição do autor, Coimbra, 1999.

[23] Pinharanda Gomes, A Regra Primitiva dos Cavaleiros Templários. Hugin – Editores, Lda, Lisboa, Janeiro de 1999.

[24] Frei Agostinho de Santa Rosa de Viterbo, Familiares, in Elucidário das Palavras, Termos e Frases que em Portugal antigamente se usaram, volume I, pág. 308 (Lisboa, 1710): “Desde que esta Ordem entrou no Reino até aos fins do século XIII, temos instrumentos que nos informam que homens, mulheres, solteiros, casados (viúvos) se alistavam por confrades, familiares ou donatos nesta Milícia. Umas vezes são chamados frades, outras confrades e outras quase-frades”.

[25] Ob. cit., Cruz, pág. 227: “Quoniam in vestra fraternitate et beneficio omni sum frater”.

[26] Ramon Llul, Livro da Ordem de Cavalaria. Tradução de Artur Guerra. Assírio & Alvim, Lisboa, Janeiro de 1992.

[27] Américo Cortez Pinto, Diónisos, poeta e rey. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa – Secretaria de Estado do Ensino Superior – Ministério da Educação, Lisboa, 1982.

[28] Rémi Brague, Saint Bernard et la Philosophie. Presses Universitares de France, Paris, 1993.

[29] D. Duarte, Leal Conselheiro, cap. XVII.

[30] Alcorão, Sura Segunda, n.os 186, 187, 212-215, etc. Cf. Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa, Lx.ª, Guimarães e Editores, 1991, pp. 223-239, explicitando os termos da formação da ideologia da Cruzada.

[31] Mateus, 5, 9 e 10, 34.

[32] Osberno, Conquista de Lisboa aos Mouros. Trad. port. in J. António de Oliveira, Conquista de Lisboa aos Mouros. Lx.ª 1936, p. 52.

[33] S. Bernardo, Libera d Milites Templi de Laudae Novae Militae. Cap. III, 4.

[34] Adalberto Alves, O Islão Iniciático na Formação de Portugal – As Sandálias do Mestre. Ésquilo Edições & Multimédia, Lisboa, Outubro de 2009.

[35] Oliveira Martins, História da Civilização Ibérica. Guimarães & Editores, Lisboa, 1954.

Laurenta Sintrã – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Mar 4 2020 

Sim, Laurenta, Lorenza ou a laureada expressão humana da Mãe Divina na Terra, nesta mesma Sagrada Serra cuja grinalda fechada por laço d´amor prefigura-se nos seus sete cantões floridos que constituem o Sistema Geográfico com que se planta na em nosso Globo o Sistema Planetário, dando de seu bojo ao Futuro as sementes benditas do Quinto Sistema na Roda da Evolução.

Sementes, Mónadas benditas são as crianças, mais que todas aquelas consagradas nesta Obra do Eterno, sobre as quais dizia o Quinto Senhor nas vésperas de inaugurar o Quinto Sistema no seio de Sintra, corria o 28 de Maio de 1957: “Minhas são as crianças”!

Essas são os filhos do Quinto Império ou Sistema sob a égide do Espírito Santo corporificado em Cristo, o Filho, tanto valendo por Reinado de Maitreya, o Senhor dos Três Mundos – Céu, Terra, Inferno ou Interno Lugar dos Deuses. Sim, as sementes benditas da Idade do Espírito Santo.

Maio é mês de Maya, de Divina Mãe, seja Maria, seja Lorenza, seja Adamita, seja Janina, seja Aquela coroada pelo Quinto Senhor e abençoada pelo Sexto seu Irmão sobre o Céu de Sintra – Allamirah, que o seu nome diz tudo: Olhar de Deus, Olhos do Céu.

Olhar Celeste, azul do firmamento vai bem com o Segundo Logos, com a Melodia que em doces acordes, harmónicos, suaves, dispõe o Munindra no diapasão do Mundo Jina por onde serenamente resvala pelo côncavo da Terra Oca, trescalando a jasmim e açafrão sob a luz pálida do crepúsculo em eflúvios purpúreos como beijos tímidos enviados ao ousado amante que em passos serenos e seguros, nada desejando, tudo sendo, assim vai mergulhando nas entranhas do mistério, sempre ouvindo a voz encantadora da bem-amada, a mesma Luz. Finalmente, lavram nos espíritos a consumação do seu eterno e puro Amor.

Este é o diapasão de Laisin que marca o compasso do espírito e alma da Egrégora Sintrã da Obra do Eterno da Face da Terra. É único, é doce como o mel, este que São Bernardo de Claraval, em palavras do próprio, arrancava das próprias pedras.

Fora deste Manto Protector, deste Ovo Áurico que envolve todos os Munindras nascidos em Portugal mais por missão do que castigo, parafra-seando as palavras proferidas pelo Augusto Jovai nos idos anos 70 (“Quem nasce em Portugal é por missão ou castigo”), tem-se os que na errância do erro, ébrios psíquicos se arrastam e vão arrastando iguais impúberes entre as penedias da serra por entre escolhos e abrolhos, delirando aos sibilos agudos do vento, aos uivos graves da tempestade.

Agitação, frémito, inquietação, confusão, incerteza, delírio, insossego, dança macabra, rastejo por qualquer fissura ou acidente na rocha viva, o arrastar da alma morrente, exibições grotescas por esqueletos em cadáveres adiados recriando os curros astrais nas imitações parafernálias que antecipam a sua queda nos cenários infernais de Pedro Botelho, em demoníacas evolações nas caldeiras do Inferno, que Sintra também o tem. Questão de Luz e Sombra, de Lokas e Talas, de Devas e Devatas, de Assuras e Assurins.

Upaguru não é Upachaya, Guruvada não é Mayavada, ou seja, a Realidade não é a Ilusão. A imagem reflectida no espelho (espelhismo) não é o ente indo se reflectir, malgrado a crença malsã de que o reflexo é o real e consequentemente tomar a ficção do falso existir pela realidade da efectiva existência. Essa é a urze daninha campeada por autênticos desajustados sociais, vergônteas psíquicas desde aqueles com a marca sinistra de traidores da Obra Divina a fúnebres embruxados feiticeiros de africanismos e similares cultos de egrégoras passadas mortas nos evos dos tempos, já em si todos enfeiçados pela luz fantasmagórica que na Serra da Lua (Cinthya) os acorrenta em fatais correntes magnéticas fazendo-os escravos do que criaram para si mesmos, muitos nem disso se apercebendo, nem que fosse por suas vidas desgraçadas. E, com tudo, a porta do mistério lhes permanece cerrada por todo o sempre.

A Arte e o Saber exigem Iniciação e Isagoge como introdução à mesma. Com isso, Isagoge é a Instrução que antecede a Iniciação como princípio do Saber e da Arte. A imagem da imersão nas águas figura o que por Isage cumpre entender. Assim, a Isagoge e a Iniciação destinam-se ao descobrimento e de modo nenhum ao ocultamento. Tudo é oculto para quem tudo ignora; algo é oculto para quem algo ignora; mas tudo é descoberto para o que tudo sabe, e algo é descoberto para o que algo sabe. O sentido teosófico e ocultista da Isagoge e da Iniciação só tem razão de ser, ou na Escola oclusa, ao manter o Saber do Segredo, ou na ignorância que procura mas não encontra. O valor do ensino esotérico e do ensino exotérico não se prende à sistemática teosófica ou ocultista, prende-se ao método de Introdução ao entendimento tendo por fim o clímax no Princípio, a Iniciação. É isto que apura a alma humana – a mente, a emoção e a vontade – e é isto que falta à totalidade dos impúberes psíquicos – indistinguindo a racionalidade da irracionalidade – campeando na urze daninha destes tempos agitados de mórbida Kali-Yuga. A preguiça, a vaidade, o auto-convencimento vêm a travestir a autossufiência da ignorância, da soberba e a vã glória de mandar com que muitos se perdem e perdendo a tantos outros nas longas noites de suas almas.

A Ritualística laudatória e integradora do Munindra de Sintra (que de Oito é o Quinto Posto Representativo de: 1) Obra do Eterno na Face da Terra; 2) Mónada Humana em sua presente Evolução – 5.º Princípio Mental Superior marejando o 5.º Elemento Etérico ou Akasha), estrito aos cânones da Ordem do Santo Graal revelados e preconizados pelo nosso Venerável Mestre JHS (Professor Henrique José de Souza), está em conformidade com o biorritmo de Bem, Bom e Belo característico desta Serra Sagrada cerne da féerie e do país dos encantamentos, pomo da melodia, harmonia e mistério. Assim se procedeu no Passado, se procede no Presente e procederá no Futuro ora nas mãos dos nóveis Obreiros da Evolução, todos cada vez mais firmando o Ex Occidens Lux!

“Cada vez cavar mais fundo para servir ao Rei do Mundo”, diz o Hino, e assim se faz, sempre e sempre na construção da Idade de Maitreya, o Cristo Universal.

No molinete da Evolução atritam-se os dois Princípios Universais de Purusha e Praktriti – Espírito e Matéria – por que se manifestam as duas Forças Universais de Fohat e Kundalini – Electricidade e Electromagnetismo – dando expressão à Vida como Consciência e Energia, no que é afim ao Logos Solar – Parabrahman – e ao Logos Planetário – Brahman. Transformar a Vida-Energia (Jiva) em Vida-Consciência (Jivatma) é a meta da Evolução e a suprema finalidade da Iniciação.

Pois bem, o Sistema Geográfico é sempre o mais propício à assunção do Munindra da Matéria ao Espírito, por ser aí que mais influi a Força Electromagnética do Sol Oculto da Terra atraindo a Energia Eléctrica do Sol Central do Sistema, tonificando esse espaço a ponto de ser assumido Terra Santa, Sagrada com peculiaridades humanas e naturais que nenhum outro além dos seus limites possui. Ora, sendo Fohat de cor verde e Kundalini de cor vermelha, da fusão de ambas resulta a púrpura como a própria matiz do Sol Interno de Sintra, ou seja, do seu Chakra Planetário por que se manifesta o próprio Atma ou Espírito, meta derradeira da Iniciação do Munindra, o Assura Humano parcela da Corte e Família Espiritual de JHS.

Por falar em Munindra, as suas cores são o amarelo e azul de Atma e Budhi (Bimânico), do Espiritual e Intuicional, e causalmente as cores municipais de Sintra são precisamente a amarela e azul. Confere com o desígnio da Lei em mais uma maravilhosa causalidade, dentre tantas dando imparidade ao Ser e Iniciação auferidos nesta Capital da Europa – Sintra, a antiga Kurat-Avarat, a védica Kala-Shista ou Sishita, hoje Dharma-Shista, cujo Ponto Bindú, essencial, ou Centro Laya, central, é a própria Sura-Loka, o “Lugar dos Deuses da Mente Universal” (Hieronimos ou Hiero-Manas).

Falando em Iniciação na Mecânica de JHS a fim ao Advento de Maitreya e à exteriorização dos Mestres de Amor-Sabedoria da Hierarquia Planetária dos seus Retiros Privados, já tive ocasião de resumir algures:

00 horas de 23 para 24 de Fevereiro de 1949 – Nascimento de Maitreya em Shamballah, 8.ª Cidade capital das 7 constituintes do Reino de Agharta.

Diapasão Shambállico do borritmo do Munindra. “Envolto numa imensa Chama Púrpura, é a Fogueira do Céu ateada na Face da Terra, vibrando no divino diapasão de Shamballah”.

Makara – Filho da Luz de Atma. Função Sacerdotal. Fohat. Matradeva. Valor: 111 (duplo 111).

Assura – Filho do Hálito de Bhumi. Função Instrutiva. Kundalini. Manasaputra. Valor: 777.

Munindra – Pequeno Sábio de Manas. Função Estrutural. Prana. Matradjitz. Valor: 888.

Transformação Mental – Revelações na Linguagem do Futuro, do Novo Pramantha, gerando a consciência Jina transformadora do sistema biológico muscular (bílis), nervoso (fleuma) e sanguíneo (ojas), criando vrittis (disposições) do Homem Dourado (Bimânico). Acção de Manas sobre o Físico. “A Energia segue o Pensamento” de El Rike (Henrique H.J.S.). Escola Jinária – Jneya, Jnata, Jnana, ou Djen-Djan-Djin. Sabedoria Futura na Hora Presente. Colapso da Velocidade = o Futuro no Presente. Solução de Evolução. At Niat Niatat.

Superação Búdhica = O biorritmo da Ética na Moral e da Moral na Ética pelo padrão do Novo Pramantha tecedor do Matradjitz (Corpo Flogístico), como Regato Vital do Munindra. Este é os palos do Cruziat – horizontais (Transformação) e verticais (Superação) – e o seu Jina o centro dando o movimento destrocêntrico, por impulsão de Baal-Bey (J.H.S.). O Teatro Jina no Palco Jiva. A Sabedoria na Mística da Vida, a Mística na Sabedoria da Vida, a Vida na Mística da Sabedoria. “A Intuição (Budhi) é mais atrevida que a Inteligência (Manas)”. Om Tat Sat.

Metástase Átmica = “Onde o Munindra estiver está Akbel”! O Templo como imagem fiel do Universo Shambállico do Munindra, semprevivo oitavando o Deus Interno ao clímax da Integração no Deus Universal. “Sem conhecer o Cristo Interno jamais se reconhecerá o Cristo Externo”, o Espírito de Verdade em novel manifestação. Ritos, Yogas, Mentalizações, Hinos, Mantrans, etc., são as claves do Concerto Universal do Senhor dos Dias – Akbel! Tat Twan Asi.

A Mente na Escola = Responsabilidade.
A Intuição no Teatro = Consciência.
O Espírito no Templo = Integração.

Akbel – Ashim – Beloi = “Brumas do Futuro”, Uno-Trino, Trino-Uno = Unidade! “Aqui somos um só Corpo, uma só Alma, um só Espírito”, proferiu Allamirah, na Unidade da Obra do Eterno na Terra, no Inferius e no Céu em um só Ser. Bijam.

Pois bem, se Parabrahman é a Individualidade Espiritual de Brahman, a sua Personalidade Material, por sua vez Brahman é a Individualidade do Kumara que como Planetário dirige a Ronda do Globo físico. São algo assim como Inter-Ishvara e Jiva Sideral, respectivamente o Logos Planetário como Essência da Vida do Planetário da Ronda, que a distribui através dos “Centros de Forças” (Chakras) do seu Corpo que é o Planeta. Cada um desses Chakras possui a sua tónica natural com a qual vibra, que sendo em número de sete são os chamados Tatvas ou “estados subtis de matéria”, perfazendo os elementos da Natureza, cada qual afim a um estado de consciência manifestando-se cerebralmente mais com a tónica deste ou aquele Chakra. Assim se classifica a Evolução: todos são iguais em Essência e desiguais em desenvolvimento, do mais grosseiro para o mais subtil.

Por sua vez, o Kumara-Rei (Planetário) age no espaço físico dentro do aro de influência de um Chakra, que é o Sistema Geográfico destinado a marcar, assinalar a evolução da Mónada Peregrina na Face da Terra. E fá-lo através de Sete Kumaras Júniores (Dhyanis), cada um instalado em determinado ponto desse aro, ficando Ele como Oitavo central mas manifestado também como um Oitavo Dhyani, que é a sua Chaya ou Forma manifestada, por norma de natureza física superior ou etérica.

Também os Dhyanis-Kumaras assistem como paraninfos celestes aos seus assistidos que são os Sete Príncipes de Srinagar (onde nasceram em 1900), os Dhyanis-Budhas. Estes forjam o Futuro no Sistema Geográfico Sul-Mineiro, Brasil, fundado pelo próprio JHS, e aqueles dirigem o Presente para o Futuro no Sistema Geográfico Internacional, uns e outros revezando-se de sete em sete anos para que haja Perfeito Equilíbrio. É por este motivo que o Quinto Posto do Sistema Geográfico de Sintra se une ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro por aquele que vem a ser o seu Quinto Sub-Posto, São Thomé das Letras, por via das suas interrelações espirituais, mentais e físicas mantidas na Face da Terra pelos Munindras desta Obra Única de JHS que não conhece fronteiras geopolíticas.

São os Dhyanis-Budhas quem dirigem as sete Linhas de Adeptos Perfeitos (Nirmanakayas), cada uma tutelada por um Adepto Vivo e que vem a ser corporizada por 111 Munindras ou Discípulos da Obra do Eterno na Face da Terra.

Sendo Sintra consignada a Quinta Montanha Sagrada do Mundo – o “Monte Santo” assinalado em Carta de Polidorus Insurenus inserida no Livro Sanctum Sanctorum – cabe-lhe ser tutelada pelo Quinto Dhyani-Kumara Sakiel – na Tónica da Literatura e na Quinta Linha do Odissonai, A Realização de Deus – que, como Espírito, Alma e Corpo, tem esses predicados assinalados em três-pontos chaves da mesma Serra Sagrada: o Castelo dos Mouros/Capela de Fátima e Canaferrim para o Espírito que, como estado de consciência, se verte em objecto vindo a ser o Graal-Taça; o Palácio da Pena/Capela da Virgem para o Graal-Livro; a Capela de Santa Eufémia/Senhora do Ó para o Graal-Pedra ou Ara assistida pelo mesmo São Jerónimo sinalético de Hieronimos com que designa a Mente Universal (Mahat).

Dotado dos seus sete princípios em manifestação, tem-se a Individualidade de Sakiel – Kumara-Júnior, quinto Filho de Lorenzo-Lorenza – marcada por três lugares serranos distintos: Pena (Palácio e Jardim) para Adi-Tava (Júpiter); Seteais (Regaleira) para Anudapaka-Tatva; Penha Longa (Lagoa Azul) para Akasha-Tatva. Pelos três discorre Purusha, o Espírito vibrante de Fohat.

A Personalidade do mesmo Sakiel assinala-se em outros tantos três pontos distintos serranos: Vila (São Martinho) para Tejas-Tatva; Santa Eufémia para Apas-Tatva; São Pedro de Canaferrim para Pritivi-Tatva. Pelos três aflui a Força Armipotente de Kundalini preenchendo Prakriti.

O Elo que Liga/Desliga – Antahkarana – o Triângulo de Purusha com o Triângulo de Prakriti vem a ser assinalado em São Saturnino afim a Vayu-Tatva pulsando no Coração da Serra apontado na igreja da Trindade (Theotrim) na quinta desse nome vindo a assinalar o Maha-Tatva ou a reunião dos sete em um só Tatva.

Aqui chegado, passo a descrever em poucas palavras cada um dos sete lugares jinas do Sistema Geográfico de Sintra conforme o firmado pelo Professor Henrique José de Souza – o original, o único Revelador – quando classificou “a Serra de Sintra formada por sete substâncias” em 28.4.1958 (Livro do Ciclo de Aquarius). Por ela se faz a dispensação da Energia do Terceiro Logos – Espírito Santo – ao Mundo, facto chamado de Olkonomia pelos antigos gregos que por estas partes habitaram e que milénios depois a Ordem Secreta de Mariz, constituída de Assuras Lusos, também adoptaria, aquando se manifestou pela Ordem do Templo e de Cristo e pela de São Bento de Avis, pedúnculos daquela constituída dos Mestres Ocultos que chancelaram no solo de Portugal e deste irradiaram ao Mundo a espiritualidade, a cultura e o ser do Género Português.

CASTELO DOS MOUROS

Mikael
Saber
Sol
Terra
Laranja
Físico

111

Elevado sobre a penedia, procurando o ósculo do Sol aquentando-lhe as pedras venustas, está o castelo antiga morada de mouros e cristãos que antes fora castro de celtas galérios e de outros povos pré e proto-históricos que aqui viveram. Sob este castelo e nas suas encostas há cavernas que se perdem nas funduras subterrâneas onde bem lá no fundo diz-se existir um lago de águas correntes e numa espécie de enseada de areia macias está o túmulo de bronze de um rei mouro guardado por djins que em formas esquivas e voláteis de olhos faiscantes o guardam nos séculos de encantação. Quem era esse rei? Soleiman, o sábio? Zadig, o justo? Zadig pai da princesa Zara? Mas o árabe Zadig é o mesmo que o hebreu Tsadiq, “Mestre espiritual”, e Zaira vem a ser Zahara, a “nascida da Luz”. Estar-se-á diante do túmulo de um Rei Iluminado unido à sua Alma Divina, Zahara, talvez árabe, mas para outros um Rishi atlante e para outros ainda o próprio Manu Ur-Gardan, aquele que liderou as primeiras vagas dos celtas galos povoadores do litoral oeste do Península Ibérica nos alvores da História. Mistério… como esse de certa noite de brumas, faz decénios, em pleno espaço do castelo dar por mim de joelhos ante a aparição súbita de figura encantada saindo por uma porta de pedra cujos ferrolhos rangeram ao abrir-se na muralha onde não deve haver porta alguma! Anos depois o episódio acudiu-me à memória quando o antigo guarda do castelo, Abílio Duarte, proferiu com a maior naturalidade: “Às vezes aparecem aqui, saídas de entre as rochas, figuras brancas que logo desaparecem”… É caso para exclamar como Mário Roso de Luna: “Mira, mira lo castillo”!

SANTA EUFÉMIA
Gabriel
Beleza
Lua
Água
Violeta
Etérico
Si
369

Considerado o ponto pré-histórico onde começou a povoação humana de Sintra, aflorado por águas dotadas de propriedades medicinais, as quais viriam a ser canalizadas por vias subterrâneas aflorando num imenso tanque recriando o episódio da piscina probática de Bethesda onde Jesus curou o paralítico, e aqui, na Serra Sagrada, aqueles de saúde paralisada, sobretudo a acorrência dos leprosos da extinta gafaria de São Pedro, motivo das romarias imensas de achacados a este lugar miraculoso no transcurso dos séculos clamando por Santa Eufémia, isto é, a “Boa Fêmea”, a “Boa Mãe”, igualmente vindo a ser a venerada Senhora do Ó, nisto de esperanças pro populi na debelação da doença. A cura liga-se a Mitra-Lita, a “Água do Duat”, e assim mesmo a Mitra-Lândia, a que “Inocenta os Leprosos”, tanto morais como físicos, como descreveu Clavis Bradaschia, em 31.10.1951, servindo de eco ao Venerável Mestre JHS. Desde os celtas e os romanos aqui se celebraram cultos de cariz feminino, e aqui até estaria um templo atlante dedicado à Lua, cujos restos ficaram registados em desenhos e pinturas dos séculos XVIII e XIX de autores românticos apaixonados da serra. Hoje subsistem alguns restos líticos, dentro e em volta da capela, desse edifício venusto desaparecido nas brumas da lenda. Mas ainda aqui acorre, vez por outra, quem à luz bruxuleante da Lua se entregue a cultos animistas em arrojos eclipsando a lucidez, em audaciosos mergulhos nos abismos do subconsciente donde raramente se sai incólume. É o mergulho no submundo dos mortos e endemoinhados, na Tala sintriana, aqui figurada na Lua Infernal mitologicamente associada a Perséfone. Por isto mesmo, só no chão sagrado da Capela de Santa Eufémia se realizaram famosas e apoteóticas celebrações da Ordem do Santo Graal, no altar maior da mesma figurando imagem da Virgem Senhora aí deposta pela Ordem a instâncias minhas, faz alguns decénios. Ao contrário, no terreiro exterior vez por outra aparecem personagens bizarros, desde amadores de yoga a aventureiros do sobrenatural, miscelânea de messias e profetas de ocasião, em locazes atitudes malsãs. Fui testemunha directa de casos assim, muitos, demasiados, como aquele de três jovens mulheres desnudas transtornadas que em noite gelada se entregavam a libações à deusa das funduras, e quando me aproximei delas confundiram-me com o rei do Hades, mas eu não era nem sou rei de coisa alguma e só lhes pude sugerir a modo de conselho: “Vistam-se antes que apanhem uma constipação que a noite está fria, e ide embora para junto das vossas famílias que devem estar preocupadas”!

SÃO MARTINHO

Samael
Bondade
Marte
Fogo
Vermelho
Astral

65

Ocupando o centro da vila com o seu antigo paço real, morada de reis que antes fora de califas, tem-se no mesmo a capela do Espírito Santo em cujo altar-mor retrata-se a Nova Jerusalém, o que dispõe Sintra no centro da Parúsia ou do Advento de Cristo sobre a Terra inaugurando a Idade da Promissão, o Quinto Império do Espírito Santo, no que se afirma Sintra como Capital Espiritual da Europa. As chaminés enormes do palácio, ex libris local, prefiguram o M de Marte mas também de Maitreya, o mesmo Cristo da Nova Era de Aquarius, signo tradicionalmente traçado por dois MM sobrepostos, e assim mesmo de Makaras como a Corte do Avatara ou Messiah, Ele que na Terra possui por expressão directa Akdorge (São Jorge), o Rei do Mundo, o Chefe das Milícias Aghartinas (Terrenas) dos Manasaputras em conexão directa com Mikael, o mais próximo do Logos Eterno, o Chefe Hostes Celestes (Segundo Trono) dos Matradevas. Desfolhando as instruções do Rito Maçónico Português da G.L.U.P., acabei mesmo fazendo glup! Além de descreverem São Jorge praticamente textualmente do que escrevi e publiquei nos inícios dos anos 90, é aclamado Padroeiro desse Rito mas com bases informativas equivocadas travestidas de senso patrioteiro, para todo o efeito desfasadas historiograficamente e, sobretudo, iniciaticamente. Por exemplo, lê-se no interrogatório: “P. Quem é São Jorge para os Portugueses? R. O Chefe das Milícias Terrestres. P. Quem são os teus Senhores? R. Aviz! P. Como os reconheces? R. Pelos avisos particulares que os assinalam.” Pois sim, mas nem São Jorge é Chefe de Milícias Terrenas, e sim Infraterrenas, Aghartinas, e nem Aviz tem hoje coisa alguma a ver com os Senhores Ocultos do Mundo, que são tão-somente os Adeptos Independentes. Mas teve-o a Ordem de Mariz, efectivamente ligada à Maçonaria dos Traishus-Marutas, “Senhores da Sabedoria (Traishu) e da Força (Maruta)”, desta sendo realmente líder Akdorge, Chefe Supremo das Forças Desarmadas de Agharta agregadas em 22 Templos supra-secretos e supra-espirituais, dispostos num valor de 3 x 7 + 1. Mas esse é outro assunto intransmissível exclusivo da Verdadeira Iniciação, como seria outro o assunto se invés de me copiarem e adaptarem aos seus interesses particulares me consultassem directamente, de viva voz. Com tudo, suspeito quem seja o fogoso emissor de tais informações inéditas, antes, inauditas e despropositas, enchendo as páginas desse catecismo onde não falta o despropósito de colar hodierna e desapurada vocação maçonista aos feitores dos mosteiros de Tomar, Alcobaça e Batalha, o que, repito, fez-me soltar enorme glup! Sim, para isso vale Marte, Mars, Mors, apesar de também haver o reverso como Vitam, Amor, Bondade e Ética que, aliás, assiste ao espírito tradicional da Maçonaria Hermética, retratada com mestria nos estuques setecentistas da “Gruta dos Banhos”, obra de Giovanni Grossi, neste mesmo antigo paço real.

SETEAIS

Rafael
Pureza
Mercúrio
Subatómico
Amarelo
Intuição
Mi
260

O campo de Seteais envolve no seu aro a vizinha Quinta da Regaleira, obra monumental de teor hermético-nacional mandada fazer pelo seu proprietário luso-brasileiro dr. António Augusto Carvalho Monteiro (1848-1920), que ficou concluída em 1910 (prolongando-se ainda uma ou outra obra até 1917). Falando em Hermetismo logo acode o nome Hermes (Trismegisto), e ele aí está sobre o portão de entrada pela Rua dos Pisões na quinta. Como planeta neutro, Budha ou Mercúrio, que soa na nota musical Mi, igualmente neutra, é o que liga/desliga (antahkarana), o que une o que está em cima – Triângulo de Purusha – com o que está em baixo – Triângulo de Prakriti – por ser o quarto ponto jina na escala de sete ais ou ares suspirados, exteriorizados em lugares bem demarcados no aro sintriano que é, afinal, a Laurenta Sintrã. Pouco importa que Seteais deva a sua origem etimológica a alguma lenda heroica ou de amor situada em tempos de mouras e cristãos que por aqui viveram em apaixonados edílios, como esse da princesa moura Anasir e do cavaleiro Mendo, ela que suspirou sete ais no momento em era recolhida ao Mundo Subterrâneo por uma entrada secreta no Castelo dos Mouros, perdendo de vista o seu grande amor, pouco importam as variantes na narrativa lendária. Mas o nome Anasir evoca a fonética de Anadika e Anadir, este o Dhyani-Agnisvatta (Arcanjo) do Sol e aquela a Dhyani-Barishad (Anjo) da Lua, podendo muito bem essa lenda tão-só retratar a união andrógina do Sol e da Lua ou dos dois princípios masculino-feminino em perfeito equilíbrio como se apresentam nos Adeptos Reais, os chamados Mercurianos Perfeitos. Também esta serra era para João de Barros e Francisco de Holanda a de Solércia (Monte do Sol), juntando ao antigo de Cinthya, Xintria, Xentra, Chendra ou Chandra, a Lua (Serra da). Com a Pureza dos Sentidos (Mi-Alba) abre-se o Véu da Intuição que lhe insufla as mais atrevidas e iniciáticas cogitações sobre a Mecânica Universal levando ao entendimento de por que o Segundo Trono Celeste vem a ser a Vontade posta em Actividade na Terra como Terceiro expressando ao Logos Único, ao Demiurgo Universal, ao Senhor dos Universos: Mahaparabrahman, ou por outra, o OEE H AOO, com o H mercuriano central já de si expressando os valores transcendentes da 4.ª Cidade Aghartina afim a Karana-Loka que rege os destinos do actual 4.º Globo Terrestre, segundo as Estâncias de Akbel – o Luzeiro de Mercúrio que trouxe o Futuro ao Presente da Evolução Planetária.

PENA

Sakiel
Riqueza
Júpiter
Atómico
Púrpura
Espírito
Sol
34

A Pena da Virgem aparecida a uma pastorinha de cabrinhas, quiçá brancas, que são o símbolo animal de Capris, Cabire, Cumara ou Kumara, o que vive no cume da montanha – Cume-Mara – como figurino do Planetário desde o Plano mais elevado dirigindo a Evolução da Terra, influindo em tudo sem que nada influa nele, no que vai bem com o seu título védico Chakravarti, como seja o “Rei do Mundo” ou o mesmo Melkitsedek, aliás, assinalado na estátua de São Jorge na mata do Ferreiro – aqui do que ferra, calça ferraduras ao cavalo branco do 10.º Avatara de Vishnu, o Segundo Aspecto do Logos Único – no Parque da Pena defronte para o palácio, este que já fora convento jerónimo no século XVI e depois morada régia de um rei-iluminado, D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha, no século XIX. A estátua erecta do Guerreiro São Jorge ou Akdorge, o mesmo Asgartock em aghartino, o Palácio da Pena, que Richard Strauss apodou de “Palácio do Santo Graal”, e ainda o envolvente parque florestal, luxuriante e labiríntico dispondo na classificação de floresta sagrada com o seu cume coroado pela Cruz Alta, a mesma que o Venerável Mestre JHS chamou de Pico do Graal, que o conheceu pessoalmente em 1899 quando visitou Lisboa e Sintra, todo o compósito recria o cenário encantado da Demanda do Santo Graal, da epopeia heroica ilustrada por sobrehumanos feitos e espirituais conquistas até à derradeira Realização de Deus, que mais se sente neste bosque de mistérios e encantos. Aqui nada, absolutamente nada há que se afigure colimar a extravões animistas que a ignorância e a fantasia impõem aos que, vez por outra, pelos carreiros do parque dão-se a tais manifestações desarmónicas com o meio envolvente. Aqui reina a serenidade, a paz, o silêncio, a contemplação do que a Natureza oferece no que de mais espiritualmente belo possui, numa sinfonia sem par. A perturbação sensorial dos que se dão tais engenharias macabras, à sua própria condição perturbada o devem por ignorância e superstição. Nisto vale as palavras capitais do Cristo: “Deixa os mortos enterrar os mortos e vem a Mim”, no sentido de Eu Superior, Divino. Poderia contar episódios intermináveis com que confrontei aqui a impuberdade físico-psíquica de gente perdida, e só como ilustração lembro o daquele adepto espiritista que viu-se envolvido por vespas furiosas, qual enxame de kama-rupas atraídos por sua aura poluída, junto da távola octogonal situada no sopé da templo das colunas, ou então a daqueles homónimos desgraçados aprendizes de feiticeiros, um deles espadalhão em riste provocando os Céus que lhe respondeu com um raio trovejante acertando no corpo e na alma, fulminando a saúde, eclipsando o juízo; e ainda aqueloutros afro-lemurianos em mau brasileirismo aos berros tocando atabaques invocando endemoinhados as forças naturais, que afinal não lhes apareceram e sim eu com espada tributária dizendo-lhes isto: “O que vocês pretendem é feio e mau, nada tem a ver com este lugar sagrado. Jamais conseguireis os vossos intentos maléficos. Ide-vos daqui imediatamente e nunca mais volteis.” Mal terminadas as palavras, a dúzia ou mais desses pútridos correram desalmados serra abaixo até os perder de vista na noite embrumada, entretanto abrindo as nuvens deixando ver o constelado das estrelas bailando em guisa de Anjos rezando na Luz que a Vida alimenta.

LAGOA AZUL

Anael
Ventura
Vénus
Éter
Azul
Causal

175

A origem da Lagoa Azul deve-se à alteração dos granitos do antigo Maciço Eruptivo de Sintra que, por acção dos elementos erosivos, originaram areias e argilas indo imperbeabilizar o seu fundo, evitando que a água aí acumulada não escoe. A lagoa natural seria transformada em represa já nos anos 30-40 do século XX, estando a montante do Rio da Mula por onde passa a falha sísmica que atravessa esta parte da serra. Lugar encantador, cheio de ventura, com a linda floresta circundante, foram introduzidos na represa tem vários animais como os peixes gambusia (gambusia holbrooki), que bem me fazem lembrar os impossíveis gambusinos da credulidade humana, nisto aparentados às forças elementais da Natureza aqui tendo o seu pólo de maior extravasão devido à ruptura desta parte da Malha Etérica ou Regato Vital de Sintra inclinando já em pedúnculo para mar expressivo do Corpo Vital do Globo, por  onde se escoa. Chaga herdada da grande Tragédia Atlante de que esta então Kurat era parcela. Mas mais que tudo isso de inferior, involutivo se a condição humana a tanto (e tão pouco) se sujeitar como péssimo hábito de cultos animistas à fauna astral, a Lagoa Azul expressa a Vénus como a Expansão de Deus, que tão bem os antigos monges jerónimos do dianteiro Mosteiro da Penha Longa celebraram sob o título de Nossa Senhora da Vitória, depois Nossa Senhora da Saúde. A Vitória de Deus é a Vitória da Sua Obra, é o desvelar do Véu do Akasha, como o mesmo Manto Azul da Mãe Divina, figurado no Véu recobrindo a Taça do Santo Graal que só a Mulher, a Sacerdotisa pode desvelar. E, como diz o Mantram, quem passa além do Akasha (2.º Mundo) torna-se portador de toda a Riqueza e vence os devatas, “elementais da doença”, nisto indo bem com o apodo mariano local de Nossa Senhora da Saúde. Por cima das escarpas da Lagoa Azul, lá no alto, há no topo do morro o famoso coelho, formação lítica sugerindo os contornos desse animal sinalético dos Mundos Subterrâneos – “conejo, conejo, al infierno contigo desço”, diziam os hermetistas andaluzes – de que a Penha Longa não é alheia. A maravilhosa gruta que há nela o confirma. Espelho venusto do Akasha figurado nesta Lagoa Azul, aqui também os jerónimos cultuaram a saudade e a profecia, predicados de Vénus, como se regista na sua lenda sebástica nascida no refeitório do mosteiro, tendo a ver com o painel de azulejos retratando o banquete de Cristo no Deserto com uma criança trazendo os peixes como sendo o próprio D. Sebastião. Este estava nesse preciso momento em Alcácer-Quibir, em plena batalha, quando então a parede se abriu com estrondo precisamente na parte da cabeça do menino, e dias depois chegado a má nova da morte do rei em terras africanas. Morto, desaparecido, mas ficou a memória, a saudade e o desejo de retorno ao esplendor de Portugal e seu império que assim esvaneciam. O mito tomou forma, o símbolo sobrepôs-se ao facto e assim ficou, quer na Penha Longa, quer no seu prolongamento da Pena da Serra, para todo o efeito símbolo realengo do próprio Akdorge, filho de Adamita e Arabel, desde a primeira hora Patrono da Teurgia Portuguesa que alguns recentemente copiariam para Patrono de Rito Maçónico, que ficaria bem se as suas informações não estivessem povoadas de equívocos que a fantasia cerra. Nisso, por exemplo, levar a mão direita de punho fechado ao coração e exclamar “São Jorge”, poderá ser aí a Saudação a Akdorge, a entrega ao mesmo para que os trabalhos decorram de forma justa e perfeita, mas o acto fica incompleto por faltar a Posição Akdorge em postura de rendição vassala ao Cavaleiro das Idades. Também para acender as Três Luzes em Templo de Loja não se devia pronunciar “São Jorge” uma única vez e sim três, uma por cada círio ao ser aceso. Na Ordem do Santo Graal, na Linha dos Tributários, as Três Luzes valem por Laisin e têm por Centro = Akdorge, elevado por seus pais: Direita = Arabel; Esquerda = Adamita, a “Primeira Mãe Terrena”, por outra, At-Shin – Maa-Shin – Tubu-Schin. Responda por tudo isto o Excelso Anael, o Dhyani da Ventura, o qual escoa pelo vau da garganta e nisto cada Dhyani sendo Embocadura/Desembocadura do Corpo do Eterno Logos figurado no Pai-Mãe de todos os Sete, Akbel e Allamirah, revestidos de Fohat (Verde) e Kundalini (Vermelho), cores universais em nossa Bandeira Pátria que fundidas vêm a dar o Púrpura da Pátria Comum dos Munindras da Obra Divina: Shamballah, a Mansão do Amanhecer.

SÃO SATURNINO

Kassiel
Sublimação
Saturno
Ar
Verde
Mental

15

Ninho de águias alcandorado entre a serra e o mar, este antigo lugar de anacoretas marca o derradeiro lugar jina da Laurenta Sintrã como Trono de Deus, onde a alma se sublima no cabírico mistério, sim, o dos Cumaras que até a lenda local da menina surda-muda pastora de cabrinhas que a aparecida Senhora da Peninha curou mercê da Sua Medicina, retrata. Esotericamente, a presença de Saturno (Sat-Ur-Anas) é aqui afim ao seu aspecto superior Júpiter (Ak-Logos-Maya) de cuja conjunção sobressai o símbolo molinete da manifestação do Avatara, formado pelos signos de Júpiter e Saturno, chamada Asga-Latza, ou seja, o “Esplendor Celeste”. A influência de São Saturnino estende-se ao Convento dos Capuchos ao queal o Venerável Mestre JHS consignou no seu Livro-Revelação, Livro do Ciclo de Aquarius (1958), estudo reservado sob o título “Sintra vista com outros olhos”. Com outros olhos a terá visto o antigo guarda dos Capuchos “frei” Gaspar, que dizia ir pescar ao pescar por um caminho subterrâneo que saía deste convento, no mesmo sendeiro dos relatos sobre o “Outro Mundo” dos antigos monges capuchos aqui reclusos nos séculos XVI-XVII, um deles certa ocasião tendo se perdido nas brumas nocturnas da serra indo parar algures a uma cidade encantada cheia de luzes e gente, que lhe indicaram o caminho de volta. Lendas? Talvez. Mistérios? Certamente. Talvez tivesse resvalado para o interior do primitivo cone vulcânico desta serra… E diante de todos os presentes, que não eram poucos, o guarda de São Saturnino desferiu-me a pergunta súbita: “Sabe que debaixo destas pedras vive gente?” Respondi-lhe seco e breve que isso não me surpreendia. Segredos da Peninha, dela e das suas sete irmãs na lenda deste sítio, referência ao Sistema Geográfico Sintriano, e que no altar da Virgem daqui reparte as Letras do nome Maria por cinco estrelas heptagramáticas ou de sete pontas. Confere. Ave Mariz Nostra!

TRINDADE

Akbel – Allamirah – Arabel
Theotrim
Sol Oculto
Conhecimento Universal
Sete Elementos
Mónada Divina
Escala Musical
888

Marca o Centro do Sistema Geográfico, o Ponto Bindú e Centro Laya, este primitivo espaço dos trinos que ficava assinalado na Senhora do Ó com a estrela de sete pontas (heptagrama) por cima. Isso posta, à luz da Obra do Divino Akbel, Sintra sob a égide da Mãe Divina grávida do Quinto Sistema de Evolução chancelado pelo Quinto Luzeiro Arabel, que no Livro Colóquio Amoroso se consigna como “Senhor da Ara de Luz”, nisto valendo por o da Lux-Citânia (Lusitânia). Arabel e Adamita, cujo aspecto superior é Allamirah, vêm a ser os Pais de Akdorge, o Cavaleiro das Idades, que haverá de levar à derradeira Vitória da Obra de Deus e a sequente fundação de uma Nova Idade de Promissão para o Mundo, sempre a acompanhando o desenrolar da Evolução Humana que jamais pára nem retrocede em sua marcha triunfal avante. Certamente pressentindo tudo isto, o jerónimo frei João da Cruz, no século XVII, na sua Serra de Sintra – Poema Épico em Seis Cantos, deixaria aos pósteros as preciosas palavras de esperança e glória:

Por Glória deste Monte e deste Céu
Nele assiste a Santíssima Trindade
Por dar a conhecer que mereceu
Este Céu ter em si tal majestade.
De outra coisa tal mais se viu, nem Leo
Em tudo quanto alcança a Cristandade
De serras, ou de montes, e de glórias,
Triunfos, divindades e vitórias.

BIJAM

Bulas Papais e Ordem dos Templários – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jan 2 2020 

1139 (29 de Março) – Bula Omne datum optimum, de Inocêncio II. Dirigida aos Mestres e freires com louvores, concede-lhes tudo o que tomarem dos sarracenos, concedendo-lhes autonomia económica e dispondo-os directamente sob a sua guarda e protecção da Igreja de Roma.

1139 (1 de Maio) – Bula Quantam utilitatem, de Inocêncio II. Dirigida aos arcebispos e bispos, defende que os templários não podem abandonar a Ordem sem licença do Mestre.

1144 (15 de Maio) – Bula Milites templi, de Celestino II. Concede indulgências aos benfeitores do Templo e permite aos clérigos da Milícia celebrar ofícios divinos, mesmo em locais interditados pela Santa Sé.

1145 (7 de Abril) – Bula Militia Dei, de Eugénio III. Concede aos templários o direito de usar os seus próprios oratórios e aí se fazerem enterrar.

1151 (14 de Março) – Bula Militum templi professio, de Eugénio III. Decreta a pena de excomunhão para os cavaleiros que abandonem a Ordem do Templo após terem feito profissão.

1158 (9 de Junho) – Bula Milites templi iherosolimitani novi, de Adriano IV. Incentiva os súbditos para que ajudem com esmola a Ordem do Templo.

1158 (18 de Junho) – Bula Quantum sacra templi militae, de Adriano IV. Ordena proceder contra os que retiverem esmolas feitas à Ordem do Templo.

1158 (18 de Junho) – Bula Militia Dei quae dicitur, de Adriano IV. Concede à Ordem do Templo tomar sacerdotes ao seu serviço e edificar oratórios e igrejas nas suas terras, sem prejuízo do direito paroquial.

1162 (7 de Janeiro) – Bula Omne datum optimum, de Alexandre III. Aprova a instituição da Ordem do Templo e concede-lhe numerosas graças e privilégios.

1162 (7 de Janeiro) – Bula Justis petentium desideriis, de Ale-xandre III. Autoriza os templários a apresentarem nas suas igrejas religiosos da sua Ordem ou clérigos seculares que vivam com eles, sem ser preciso assinar congrua.

1162 (15 de Julho) – Bula Audivimus et audientes, de Alexandre III. Reconhece à Ordem do Templo o privilégio de não pagar dízimas.

1183 (25 de Abril) – Bula Audivimus et audientes, de Lúcio III. Confirma aos templários o privilégio de não pagarem dízima das terras que por si ou à sua custa lavrarem.

1183 (19 de Setembro) – Bula Ad vestram potest notitiam, de Lúcio III. Dirigida aos bispos e prelados confirmando o privilégio da bula anterior.

1183 (16 de Dezembro) – Bula Non absque dolore cordis, de Lúcio III. Emitida de Verona ordenada que os bispos e prelados de Portugal excomunguem todos os que fizerem dano à Ordem do Templo, tanto nos freires como nos seus bens.

1184 (22 de Abril) – Bula Hac itaque ratione, de Lúcio III. Dirigida à Ordem do Templo confirmando-lhe os privilégios, indulgências e liberdades concedidas pelos seus antecessores.

1185 (1 de Agosto) – Bula Omne datum optimum, de Urbano III. Confirma a instituição da Ordem do Templo e concede-lhe protecção e privilégios.

1186 (30 de Janeiro) – Bula Apostolicae sedis, de Urbano III. Dirigida à Ordem do Templo confirma-lhe os privilégios, indulgências e liberdades concedidas pelos seus antecessores.

1186 (30 de Janeiro) – Bula Quanto maiora pro defensione, de Urbano III. Concede à Ordem do Templo o direito de edificar igrejas nos lugares conquistados aos sarracenos, as quais ficam na dependência apenas da Santa Sé.

1186 (2 de Fevereiro) – Bula Audivimus et audientes, de Urbano III. Confirma aos templários o privilégio de não pagarem dízimas das terras por si ou à sua custa lavradas.

1186 (10 de Fevereiro) – Bula Religiosos vírus, de Urbano III. Dirigida ao arcebispo de Lisboa proíbe a cobrança de qualquer portagem ou direito aos freires templários, nas coisas que necessitem para comer e vestir.

1186 (22 de Maio) – Bula Cum pro defensione fidei christianae, de Urbano III. Confirma aos templários em Portugal as doações de vilas, lugares e bens que lhes foram feitas por D. Teresa, D. Afonso Henriques e por seus vassalos.

1187 (25 de Maio) – Bula Quanto maiora dilectii, de Urbano III. Ordena aos bispos e prelados a não cobrar direitos sobre as esmolas deixadas à Ordem do Templo e que consagrem as suas igrejas, oratórios e cemitérios. E que não façam cobragem da quarta parte das esmolas deixadas à Ordem pelas pessoas que em suas igrejas ou fora delas forem enterradas.

1194 (26 de Maio) – Bula Omne datum optimum, de Celestino III. Confirma a instituição da Ordem do Templo a D. Gilbert Horal, Mestre em Jerusalém, concedendo-lhe a protecção e os mesmos privilégios dados pelos seus antecessores.

1198 (7 de Julho) – Bula Quanto dilecti filii, de Inocêncio III. Dirigida ao eclesiástico determinando que admita para as igrejas dos templários os clérigos que a Ordem apresentar, e não os excomungue nem interdite.

1198 (9 de Julho) – Bula Dilecti filii nostri, de Inocêncio III. Dirigida ao eclesiástico para que não obrigue ao juramento de fidelidade e obediência os capelães da Ordem do Templo, por eles só estarem sujeitos ao Santo Padre.

1198 (15 de Julho) – Bula Omne datum optimum, de Inocêncio III. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo, confirma a sua instituição, concede-lhe protecção apostólica e renova os privilégios concedidos pelos seus antecessores.

1199 (23 de Abril) – Bula Militia Dei quae dicitur, de Inocêncio III. Concede aos templários o direito de escolherem sacerdotes para o seu serviço no culto divino e lhes administrarem os sacramentos. Permite ainda que possam edificar oratórios e igrejas nas suas terras, e que aí possam enterrar os freires da Ordem, bem como os seus servidores, que falecerem.

1199 (22 de Junho) – Bula Cum ex susceptae administrationis, de Inocêncio III. Dirigida ao eclesiástico para que não prejudique os privilégios dos templários nem proíba os seus capelães de celebrar os ofícios divinos, e os defenda contra aqueles que os quiserem ofender.

1200 (30 de Março) – Bula Cum vos tanquam, de Inocêncio III. Ordena, a favor dos templários, que não sejam observadas as cartas apostólicas que vão contra os privilégios da Ordem.

1205 (25 de Junho) – Bula Cum inter vos, de Inocêncio III. Dirigida ao Mestre e freires do Templo, declara que as cartas apostólicas que se opõem aos seus privilégios não tenham valor se não fizerem expressa menção dos privilégios.

1209 (11 de Março) – Bula Religiosos viros, de Inocêncio III. Diri-gida às autoridades eclesiásticas determinando que os prelados apliquem censuras e outras penas aos que pretendam obrigar os templários a pagar portagens ou outros tributos sobre o que sejam necessário ao seu uso e necessidades, de que já haviam sido isentados pela Santa Sé.

1209 (15 de Julho) – Bula Cum dilecti filii frates, de Inocêncio III. Dirigida às autoridades eclesiásticas ordenando-lhes que não excomunguem as pessoas da Ordem do Templo, não lhes ponham interdito e nem sobre as suas igrejas, por serem da sua jurisdição e serem imediatas à Sé Apostólica.

1210 (7 de Agosto) – Bula Audivimus et audientes, de Inocêncio III. Dirigida às autoridades eclesiásticas confirmando que os templários estavam isentos das dízimas das terras por eles cultivadas.

1212 (4 de Dezembro) – Bula Justis petentium desideriis, de Inocêncio III. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo, confirma os privilégios concedidos aos templários e seus colonos por D. Afonso Henriques de Portugal.

1214 (2 de Novembro) – Bula Justis petentium desideriis, de Inocêncio III. Confirma à Ordem do Templo a doação que lhe fez D. Afonso II de Portugal da terra da Cardosa (Castelo Branco).

1216 (16 de Janeiro) – Bula Cum apostólica sedis, de Honório III. Dirigida aos bispos e prelados a favor dos templários, para que lhes permitam serem enterrados pelos seus religiosos, e para que os seus freires sejam recebidos nas igrejas quando pedirem esmola, procedendo-se com censuras contra aqueles que os impedirem.

1216 (28 de Janeiro) – Bula Paci et quieti religiosorum, de Honório III. Dirigida aos bispos e prelados a favor do Templo, ordenando-lhes que excomunguem e tomem os bens daqueles que exerçam violência sobre os templários, não os absolvendo dessa pena enquanto os direitos da Ordem não forem satisfeitos e os infractores não se apresentarem ao Santo Padre. Determina também a excomunhão daqueles que furtarem as cavalgaduras e outros bens dos templários, não sendo absolvidos até restituírem o que furtaram.

1216 (13 de Fevereiro) – Bula Quanto dilecti filii, de Honório III. Ordena aos bispos e prelados que admitam clérigos apresentados pelos religiosos templários para servirem nas suas igrejas, e que eles possam aplicar os frutos das mesmas em socorro da Terra Santa, ou os reter livremente se os bispos não quiserem admitir os clérigos apresentados. Ordena ainda a não excomunhão nem a interdição dos templários e dos seus religiosos ou clérigos, e se os bispos o fizerem as mesmas sejam nulas.

1217 (18 de Janeiro) – Bula Uestris piis postulationibus, de Honório III. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo a pedido destes: concede o direito de edificar povoações, castelos, igrejas, oratórios e cemitérios nas terras conquistadas aos sarracenos, as quais ficariam sob a protecção directa da Santa Sé.

1217 (18 de Janeiro) – Bula Cum nobis secundum apostulum, de Honório III. Determina que os freires do Templo não tomem maior abstinência do que obriga a Regra, sem especial licença do Mestre.

1217 (10 de Fevereiro) – Bula Cum a nobis petitur, de Honório III. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo, toma sob a sua protecção, em Portugal, os castelos fundados pelos templários no Rodão e em Castelo Branco, as igrejas e demais bens, com a obrigação do censo anual de uma onça de ouro, mostrando claramente a sua tutela sobre a instituição.

1229 (14 de Outubro) – Bula Ipsa nos cogite pietas, de Gregório IX. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo, isenta-os, a seu pedido, do pagamento da dízima decretada no Concílio Geral para defesa da Terra Santa.

1231 (16 de Julho) – Bula Quotiens a nobis petitur, de Gregório IX. Confirma a instituição da Ordem do Templo, concede-lhe protecção e privilégios, e confirma todas as suas possessões tomando-as sob a protecção da Sé Apostólica. Dá-lhe licença para receber na sua Casa principal e em todas as outras da sua obediência clérigos que ministrem os sacramentos e não fiquem súbditos dos bispos e só da Ordem, só sujeitos à obediência ao seu Capítulo e ao Mestre, segundo os estatutos da mesma. Os que quiserem ser enterrados nos cemitérios da Ordem, não serão excomungados nem interditos.

1231 (23 de Julho) – Bula Quanto maiora pro defensione, de Gregório IX. Dirigida à Ordem do Templo, concede-lhe o direito de edificar igrejas nas terras onde não existe culto cristão, ficando elas directamente sujeitas à Sé Apostólica.

1235 (23 de Maio) – Bula Evangelicae doctrinae, de Gregório IX. Dirigida aos prelados e outras pessoas, ordena que não se hospedam nas Casas do Templo contra a vontade delas, salvo quando têm esse encargo na sua dotação ou fundação.

1235 (29 de Maio) – Bula Dilecti filii frates militiae, de Gregório IX. Ordena aos bispos e prelados que não imponham penas pecuniárias à Ordem do Templo, nem a castiguem com outras penitências.

1235 (30 de Maio) – Bula Paci et quieti religiosorum, de Gregório IX. Excomunga os que puserem mãos violentas nos templários e nos seus servidores e lhes tomem os bens, reservando a absolvição à Sé Apostólica.

1252 (15 de Julho) – Bula Cum nuper duxerinus, de Inocêncio IV. Determina a favor da Ordem do Templo que esta não responda perante os Ordinários dos lugares, uma vez que os seus privilégios e liberdades se mantêm inteiramente.

1254 (2 de Março) – Bula Cum felicis recordationis, de Alexandre IV. Determina que os templários não sejam compreendidos na Constituição que ordena que os isentos, por delito ou por contrato, respondam perante os Ordinários dos lugares, uma vez que todos os seus privilégios e liberdades se mantêm.

1255 (4 de Fevereiro) – Bula Felicis recordationis Honorio, de Alexandre IV. Confirma as bulas anteriores, sobretudo a de Inocêncio III, e defende que ninguém sem especial mandado do papa pode excomungar os freires da Ordem do Templo e os seus servidores, sejam eles clérigos ou leigos, nem lhes pode impor qualquer interdito.

1255 (31 de Março) – Bula Meritis vestre devotionis, de Alexandre IV. Concede aos templários o direito de prover de reitor a igreja de Santiago de Santarém, em Portugal, cada vez que ela vagar, com um freire idóneo da Ordem, e convertam em seu uso os rendimentos dela, pagando anualmente a taxa combinada ao bispo de Lisboa.

1255 (3 de Dezembro) – Bula Quantum sacra templi militia, de Alexandre IV. Ordena proceder contra os que retiverem as esmolas dadas aos templários, como se fosse um sacrilégio.

1258 (8 de Janeiro) – Bula Justis petentium desideriis, de Alexandre IV. Ordena que os templários possam apresentar nas suas igrejas religiosos da sua Ordem ou clérigos seculares que com eles vivam, sem necessidade de assinar congrua.

1258 (1 de Fevereiro) – Bula Desideriis vestris, de Alexandre IV. Isenta a Ordem do Templo da contribuição para ajuda das despesas das procurações feitas aos legados e núncios apostólicos que passam pelas suas terras. Decide ainda serem nulas todas as censuras e penas impostas à Ordem sobre este assunto.

1262 (29 de Junho) – Bula Dilecti filii frates, de Urbano IV. Ordena aos bispos e capelães das suas igrejas que não peçam juramento de obediência ou fidelidade aos templários, por eles estarem sujeitos só ao Santo Padre.

1265 (18 de Maio) – Bula Merito incongruum censeri posset, de Clemente IV. Isenta a Ordem do Templo do pagamento da vigésima ou centésima para subsídio da Terra Santa.

1265 (29 de Maio) – Bula Cum a nobis petitur, de Clemente IV. Confirma ao Mestre e freires da Ordem do Templo no Península Ibérica todos os privilégios, indulgências e liberdades que lhes foram concedidas pelos pontífices anteriores, reis e príncipes.

1265 (29 de Maio) – Bula Non absque dolore, de Clemente IV. Ordena, sob pena de excomunhão e suspensão, que os templários não sejam forçados a padecer nas suas Casas e bens e possam usufruir dos privilégios que lhes foram atribuídos. Determina ainda as penas a aplicar aos que entrarem à força nas Casas do Templo, se apropriem dos seus bens ou ousem publicar excomunhão contra elas.

1265 (8 de Junho) – Bula Quanto maiora defensione, de Clemente IV. Concede à Ordem do Templo o direito de edificar igrejas nas terras onde não existe culto cristão, ficando as mesmas directamente sujeitas à Sé Apostólica.

1265 (8 de Junho) – Bula Dilecti filii frates, de Clemente IV. Dirigida à Ordem do Templo ordenando que esta Milícia não possa ser excomungada nem as suas igrejas interditas, por estarem directamente sujeitas à Santa Sé.

1265 (8 de Junho) – Bula Cum Abbates, de Clemente IV. Ordena aos bispos e prelados que a Ordem do Templo não pague dízimas das terras que lavra e utiliza por suas mãos ou à sua custa.

1265 (25 de Junho) – Bula Devotionis vestrae promeretur, de Clemente IV. Desobriga os templários de responder às cartas apostólicas contrárias aos seus privilégios.

1265 (28 de Junho) – Bula Paci et quieti religiosorum, de Clemente IV. Excomunga os que molestem e tomem os bens dos templários, reservando a absolvição à Sé Apostólica.

1265 (4 de Julho) – Bula Cum a religiosorum virorum, de Clemente IV. Ordena que as sentenças dadas a favor da Ordem do Templo não deixem de ser cumpridas, nisto se satisfazendo a Milícia.

1265 (4 de Julho) – Bula Justis petentium desideriis, de Clemente IV. Ordena que os freires templários possam ser tomados por testemunhas nas suas causas, contando que não tenham sido constrangidos a isso.

1265 (21 de Julho) – Bula Dilecti filii frates, de Clemente IV. Ordena aos bispos e capelães das suas igrejas que não peçam juramento de obediência ou fidelidade aos templários, porque eles só estão sujeitos ao Santo Padre.

1265 (29 de Agosto) – Bula Dignum esse conspicimus, de Clemente IV. Isenta a Ordem do Templo de pagar procurações em dinheiro aos legados e núncios apostólicos, salvo se foram cardeais da Igreja Romana. Recomenda que ela os receba benignamente nas suas Casas quando as visitarem.

1265 (1 de Setembro) – Bula Quieti vestrae providere, de Clemen-te IV. Desobriga os templários de responderem às cartas apostólicas contrárias aos seus privilégios, salvo se houver inteira menção da Ordem.

1265 (4 de Setembro) – Bula Quanto devotius divino, de Clemente IV. Afirma que a Ordem do Templo está desobrigada de pagar em talhas, colheitas ou dinheiro, ou outras exacções, sem especial mandado da Santa Sé.

1265 (4 de Setembro) – Bula Meritis sacrae vestrae, de Clemente IV. Desobriga os templários de responder às cartas apostólicas contrárias aos seus privilégios, mesmo que elas os derroguem e façam menção deles.

1265 (4 de Setembro) – Bula Quanto dilecti filii, de Clemente IV. Ordena aos bispos e prelados que admitam clérigos apresentados pelos religiosos templários para servirem nas suas igrejas, e que possam aplicar os frutos das ditas igrejas em socorro da Terra Santa ou os reter livremente.

1265 (8 de Setembro) – Bula Eo vobis quilibet, de Clemente IV. Isenta a Ordem do Templo do pagamento da pena ou coima pelos danos que os seus gados façam onde passarem, pagando apenas os respectivos danos.

1265 (30 de Setembro) – Bula Els praecipue ac specialiter, de Clemente IV. Ordena proceder contra quem retiver esmolas e benefícios feitos à Ordem do Templo.

1267 (22 de Novembro) – Bula Desiderio desirantes vos et ordinem, de Clemente IV. Proíbe que se dêem preceptorias das Casas ou das Províncias da Ordem do Templo a qualquer religioso dela, a rogo ou por cartas de reis e grandes senhores, ficando os religiosos que as aceitarem sujeitos a sentença de excomunhão.

1271 (21 de Maio) – Bula Cum a nobis petitur, de Gregório X. Confirma à Ordem do Templo todos os privilégios, indulgências e liberdades que lhe foram concedidas pelos pontífices anteriores, reis e príncipes.

1273 (14 de Outubro) – Bula Ipsa nos cogit pietas, de Gregório X. Isenta a Ordem do Templo do pagamento das dízimas eclesiásticas lançadas para socorro da Terra Santa.

1275 (1 de Agosto) – Bula Petitio dilectorum filiorum, de Gregório X. Isenta a Ordem do Templo do pagamento das dízimas eclesiásticas e que as excomunhões a este respeito não tenham vigor respeitante à Ordem. Ordena aos legados apostólicos e colectores da dízima destinada à Terra Santa que não a cobrem aos freires do Templo, porque os dispensou dela atendendo aos perigos a que eles se expõem na defesa da Terra Santa.

1303 (7 de Fevereiro) – Bula Cum a nobis petitur, de Bento XI. Reconfirma à Ordem do Templo todos os privilégios, indulgências e liberdades que lhe foram concedidas pelos pontífices anteriores, reis e príncipes.[1]

 

[1] Frei Pedro Álvares Seco, Livro das Escrituras da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo. Lisboa, 1563. Manuel da Silva Castelo Branco, Pedro Álvares Seco. Revista Miscelanea Histórica de Portugal, n.º 2, pp. 31-52, Lisboa, 1982.

 

* * *

 

1147 (Abril) – Carta de doação de D. Afonso Henriques à Ordem do Templo dos direitos do eclesiástico de Santarém, em cumprimento do voto que fizera antes da sua conquista.

1159 (Fevereiro) – Carta de doação do bispo de Lisboa, D. Gilberto, em comum acordo com o cabido e o rei D. Afonso Henriques, da igreja de Santiago de Santarém e do seu território paroquial à Ordem do Templo. Esta também teve a doação das terras de Tomar que o bispo isentou do tributo eclesiástico anual, mas não as de Santarém.

1159 (Fevereiro) – Carta de D. Afonso Henriques de paz e concórdia entre o bispo de Lisboa e a Ordem do Templo, na qual o rei doa aos templários o castelo e termo de Ceras (Tomar).

1159 (12 de Junho) – Bula Justis petentium desideriis, de Adriano IV. Autoriza os templários a construírem igrejas no território de Ceras (Tomar), sob a protecção directa da Santa Sé e sem obrigação de pagamento o bispo de Lisboa, mas lhe pagariam o tributo anual de uma libra de cera e ele permitiria aos freires recorrerem, quanto ao crisma, óleo santo, consagração de igrejas e altares e ordenação de clérigos, ao bispo que lhes aprouvesse.

1159 (13 de Junho) – Bula Dilecti filiis, de Adriano IV. Dirigida à Ordem do Templo confirma a concórdia entre ela e o bispo de Lisboa, respeitante à cedência das terras de Tomar e do eclesiástico de Santiago de Santarém, com mediação de D. Afonso Henriques.

1159 (15 de Junho) – Bula Ea que pro bono pacis, de Adriano IV. Confirma aos templários a concórdia feita entre o papa e o bispo de Lisboa sobre as terras de Santarém e o território de Tomar, fundamentando esse último como sendo nullius dioceses.

1168 (27 de Junho) – Bula Justis petentium desideriis, de Alexandre III. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo concedendo-lhes o direito de construir igrejas no território de Tomar, tomando-as e aos seus bens sob a protecção directa da Santa Sé, declarando-as isentas e somente sujeitas ao sumo pontífice, a quem pagariam anualmente uma libra de cera.

1169 (Outubro) – D. Afonso Henriques confirma à Ordem do Templo a doação que lhe fizera do castelo e termo de Tomar, e a doação dos do Zêzere e da Cardiga, com a terra amanhada na Cardiga pela Ordem e a vinha que ela fizera além-Tejo, junto à foz do Zêzere.

1179 (23 de Maio) – Bula Manifestis probatum est, de Alexandre III. Dirigida ao rei D. Afonso Henriques e seus sucessores no trono, a louvar-lhe os grandes serviços prestados à Igreja pelas vitórias que alcançara contra os inimigos da fé católica, a tomar o reino sob a sua protecção assim como a conceder-lhe as terras por ele libertadas do jugo sarraceno e que não poderiam ser reclamadas pelos príncipes cristãos circunvizinhos, e a aceitar o censo anual de dois marcos de ouro oferecidos pelo monarca, em seu nome e dos seus sucessores, ao sumo pontífice, o qual será entregue ao arcebispo de Braga.

1186 (28 de Janeiro) – Bula Justis petentium desideriis, de Urbano III. Dirigida ao Mestre e freires do Templo, toma sob a protecção directa da Santa Sé os bens das igrejas que forem construídas nas terras de Ceras e castelo de Tomar e a capela do Zêzere, nos termos da concessão do seu antecessor Adriano IV, declarando-as directamente sujeitas ao sumo pontífice, a quem pagarão anualmente uma libra de cera.

1190 (7 de Maio) – Bula Manifestis probatum est, de Urbano III. Dirigida a D. Sancho I e os seus sucessores no trono, reconfirma textualmente a bula anterior de Alexandre III, reconhecendo Portugal país independente com soberania própria.

1196 (8 de Agosto) – Bula Justis petentium desideriis, de Celestino III. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo, confirma os seus privilégios e declara isenta do bispo e só sujeitas directamente ao papa as igrejas de Pombal, Ega e Redinha, fundadas nas terras conquistadas por eles e lhes doadas por D. Teresa, rainha de Portugal, em esmola perpétua.

1212 (16 de Abril) – Bula Manifestis probatum est, de Inocêncio III. Dirigida a D. Afonso II, confirma textualmente as bulas dos seus antecessores reconhecendo Portugal país independente com soberania própria.

1216 (31 de Maio) – Bula Te fili magíster, de Inocêncio III. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo a resolver o pleito existente entre ela e o bispo de Lisboa, que exigia os direitos episcopais das igrejas de Tomar, e a declará-las bem como ao povo que lhes está sujeito isentas do referido prelado, totalmente livres e apenas dependendo directamente da Santa Sé, como já fora determinado pelos papas Adriano IV, Alexandre III e Urbano III.

1217 (21 de Janeiro) – Bula Justis petentium desideriis, de Honório III. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo, confirma-lhes os privilégios e isenções das igrejas de Pombal, Ega e Redinha, a exemplo do que fizera o seu antecessor Celestino III.

1217 (30 de Janeiro) – Bula Quoniam labentium temporum, de Honório III. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo, confirma a bula Te fili magíster de Inocêncio III, relativa à querela entre o bispo de Lisboa e os templários sobre as igrejas de Tomar, ordenando que elas não fossem sujeitas ao prelado mas à Sé Apostólica, nos termos das anteriores resoluções papais.

1217 (10 de Fevereiro) – Bula Justis petentium desideriis, de Honório III. Dirigida ao Mestre e freires da Ordem do Templo, confirma-lhes os privilégios e isenções das igrejas de Pombal, Ega e Redinha.

1217 (10 de Fevereiro) – Bula Cum a nobis petitur, de Honório III. Dirigida ao Mestre e freires do Templo na Hispânia, toma sob a protecção de São Pedro e na sua os castelos que eles fundaram no Rodão e em Castelo Branco, impondo-lhes, como sinal de protecção, o pagamento do censo anual de uma onça de ouro ao sumo pontífice e seus sucessores.[2]

 

[2] Regra e Deffinições do Mestrado de Nosso Senhor Jesu Christo. Valentim Fernandes, Lisboa, 1504. Com o mesmo título, a edição de Germão Galharde, Lisboa, 1520. Monumenta Henricina, volume I. Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, Coimbra, 1960.

Santiago Espatário e a Gesta de Cavalaria – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Out 6 2019 

O Códice Calixtino apresenta no seu livro IV a Historia Karoli Magni et Rothalandi, “História de Carlos Magno e de Rolando”, na qual foi vazada a tradição de Santiago Matamouros que além de Apóstolo ficou como Cavaleiro, ou seja, à sua representação apostólica figurativa da Igreja peregrina acrescentou-se a da figuração da Cavalaria cristianíssima, e para sempre, apesar de distinto, todavia interligado, ficou o Santiago eclesial e o Santiago patricial, prerrogativas singulares da Igreja hispânica cuja propaganda intensa do centro miraculoso de Compostela, onde o peregrino sem ser cavaleiro e o cavaleiro por vezes sendo peregrino, tinham em Santiago o motivo maior da Fé, afirmada pela prece e a espada. Esta maneira de cortejar a crença cristã era do agrado de todos, especialmente da nobreza, que assim tinha, ademais com a aprovação pontifícia, o motivo para realizar a sua apetência natural de bellator in equidius, nisto tudo semelhante à da Ordem dos Templários com motivação idêntica[1]; foi assim, sob pretexto da reconquista cristã da Península Ibérica aos mouros, o Pelágio, que se aclamou Patrono o Apóstolo Jacobo assim ficando com o epíteto de Santiago Matamouros, tendo vindo ajudar na reconquista gentes de armas de várias partes da Europa e do Médio Oriente, e ao mesmo tempo aumentava a fama da peregrinação jacobeia cuja impotrtãncia e fama era, não raras vezes, superior às que se faziam a Roma e a Jerusalém[2].

A aclamação de Santiago Matamouros e a adopção da cruz espatária ou espada crucífera, têm a sua origem miraculosa na mais lendária que histórica batalha de Clavijo, em La Rioja (Astúrias), travada em 23 de Maio do ano 844, durante as lutas peninsulares da reconquista cristã. Com efeito, o pequeno exército cristão, liderado pelo rei Ramiro I das Astúrias, viu-se cercado no castelo de Clavijo, no Monte Luterce, pelas numerosas forças árabes chefiadas por Abderramão II. O arcebispo de Toledo, Rodrigo Jiménez de Rada (1170-1247), na sua Crónica de Espanha, conta que, então, Ramiro I teve um sonho em que lhe apareceu o Apóstolo Santiago Maior, assegurando a sua presença na batalha e que os cristãos venceriam[3]. No dia seguinte, o pequeno exército cristão saiu da protecção das muralhas e, audaz, enfrentou e derrotou o enorme exército árabe, porque entretanto, e à vista de todos, apareceu o Apóstolo montado num cavalo branco brandindo uma espada de fogo, e assim, liderados por Santiago “Matamouros”, milagrosamente venceram a batalha com um número mínimo de baixas. A espada vermelha ou Cruz de Fogo do Apóstolo, essa veio a tornar-se a Espatária, insígnia da Ordem Militar de Santiago que teve a glória da reconquista cristã da Península Ibérica[4].

Castelo de Clavijo, Astúrias, onde pela primeira vez se evocou Santiago Matamouros

Está nesse episódio, mais mítico que histórico, repito, a origem da fundação posterior da Ordem Militar de Santiago. E mítico ou esotérico por sobretudo assinalar o embate entre duas modalidades de pensamento religioso, cristão e islâmico, pela posse de um enclave mágico como se considerava Clavijo, e até Roncesvalles, guardião da Tradição Primordial, cujo caminho desfechava em Compostela, onde a arca santa prefigurava o repositório dessa Tradição incarnada pelo próprio Santiago que, assim, além de Apóstolo ficou como Guerreiro. Quem se apoderasse do enclave mágico ficava soberana de todo o saber e com isso de todo o poder, tanto temporal como espiritual, enquanto a parte derrotada se retirava ou passava a fazer parte daquela, numa posição subalterna. Por isso, também, as lutas entre portugueses e castelhanos pela posse da Galiza, onde está Compostela sua capital, e o mesmo valendo para as Cruzadas em embate feroz com as Crescentadas peninsulares. Está nisso o sentido ocultado da Guerra Santa versus Jihad: a posse dos enclaves mágicos, cujo maior de todos era Santiago de Compostela.

Se Santiago Matamouros prefigura a conquista do lugar sagrado, logo se lhe junta Santa Maria (expressão cultual das antigas Lutércia ou Lutécia latina e Lusina céltica), configurando o próprio lugar sagrado. Sendo igualmente sinónima de Iniciação Senhorial ou Cavaleiresca, vulgo Mariana em que se continha a Audácia, a Misericórdia e a Sabedoria, fosse sob que forma cultual tivesse, Maria ou Allatha expressava a reunião de todos os saberes antigos e novos num tellos loci, ou “lugar telúrico”, desde tempos imemoriais assinalado pólo de atracção e concentração de várias correntes religiosas e espirituais do saber por que se buscava a Luz da Alma Universal, assinalada na mesma Mãe Divina, sob que nome tivesse, assim assumido enclave mágico que viria a tornar-se enclave jacobeo.

Tais enclaves, como centros nevrálgicos no mapa da Tradição Primordial, onde a conquista espiritual era facilitada por maior “afrouxamento” da fronteira entre a Terra e o Céu, caracterizam-se como lugares de cultos remotos, encruzilhadas de pontos seculares de crenças, sítios mágicos para o comum das gentes. Nesses enclaves, que continham a mensagem da Sabedoria Ancestral, não se reconheciam fronteiras territoriais, tal qual a mesma não as tem.

O facto inúmeras vezes repetido de ser precisamente nesse tipo de lugares – pobres, agrestes, de acesso difícil – que se encontram os restos mais valiosos do Passado remoto, subentende que tais restos não correspondem tanto ao facto de neles se haver desenrolado noutros tempos a vida comunal, mas sobretudo por terem sido núcleos culturais, e cultuais, deliberadamente afastados dos centros populacionais pelo seu próprio carácter sagrado, dando-lhes foros de “deserto” ou de “apartado”.

O sagrado acha-se intimamente ligado ao secreto. Isto porque o sentido da transcendência, para a qual converge toda a crença religiosa e espiritual, representa, para o ser humano comum, um mistério total intransponível. A crença originou o temor, ou antes, é uma fonte desse temor: o medo último da morte e do que se possa encontrar por detrás dela. E esse mesmo medo visceral criou a dependência do homem comum em relação àqueles que tiveram – ou aparentaram ter – conhecimento certo do chamado Além, ou por outra, dos Mistérios da Vida, como foi o caso de vários devotos jacobeos que além de ilustrados na razão eram iluminados no espírito.

Esses devotos jacobeos, orbitando entre a peregrinação e a cavalaria, sabiam existir uma realidade que nada tem a ver com o bem supremo nem com o mal mais abominável, embora seja atribuída a um ou a outro segundo a circunstância imperante. O fundo dessa realidade é o conhecimento, um conhecimento sagrado em que o homem penetra muitas vezes e, quando o faz, vê-se inevitavelmente classificado de santo ou demónio, sem que chegue a ser uma coisa ou outra, mas um ser essencialmente humano que ousar levantar o “Véu de Ísis” em algum enclave de mistério consignado pela Tradição.

Todos esses enclaves típicos das manifestações religiosas e espirituais ancestrais, estão significativamente representados nas áreas onde houve Mestrado Templário ou Santiaguista de um modo ainda mais específico, restrito e vivo. Observa-se isso no Portugal Jacobeo e Templário, cujos enclaves reclamados, desejados, exigidos pelo Templo e sua aparentada, a Ordem de Santiago, quase sempre duramente, custosamente conquistados, encontram-se sempre nas proximidades ou em contacto íntimo com esses lugares sagrados, com esses núcleos de magia milenar cuja intensidade é mais forte e se sente em toda a Galiza Jacobeia.

Santiago combatendo os Mouros na batalha de Clavijo (retábulo quinhentista da igreja de Santiago de Palmela)

A matriz ou modelo da batalha de Clavijo foi a anterior batalha de Roncesvalles, em Navarra, travada no ano 778, na qual encontrou a morte o paladino de Carlos Magno, Roldão ou Rolando, assim como os pares reais. Estes eram 12 cavaleiros de França, comandados pelo sobrinho desse rei franco, Rolando, que tinha uma espada mágica, durindana, e toda a sua saga de incursão até Santiago de Compostela e a sua derrota contra os vascones, ou bascos, cedo convertidos em mouros muçulmanos, veio a reproduzir ainda na Idade Média a epopeia bretã do rei Artur, com a sua espada mágica excalibur ou caliburna, chefiando os 12 cavaleiros da Távola Redonda, mas aqui convertido em mito galaico de conquista do enclave mágico de Compostela, e que, apesar da derrota militar cristã, abriu caminho à peregrinação de toda a cristandade a essa cidade santa. Razão mais que suficiente para Carlos Magno e Rolando terem o seu livro próprio no Códice Calixtino.

O feito desse malogrado conde franco originou a canção de Rolando ou la chanson de Roland, poema épico composto no século XI em francês antigo, sendo a mais antiga das canções de gesta escritas em língua românica. Teve enorme influência na Idade Média e inspirou muitas outras obras sobre o tema (a chamada “matéria de França”) por toda a Europa. Como outras canções do género, na época era cantada e recitada pelos trovadores e jograis nas cortes e nas praças públicas, vindo a popularizar-se entre os peregrinos jacobeos como parte importante do entretenimento e da motivação espiritual, estando entre esse portugueses, havendo até em Portugal várias localidades cujo nome se inspira em Roldão, como, por exemplo, Vila Velha de Ródão.

O poema retrata o Poder Temporal abrindo caminho à Autoridade Espiritual, o Kshatriya ou Guerreiro ao Brahmane ou Sacerdote, o Patricial ao Eclesial, vindo depois esses dois aspectos a ser retratados como duplo atributo de Santiago, o de Peregrino e o de Capitão. A base histórica do texto é a batalha real, travada em 15 de Agosto de 778 no desfiladeiro de Roncesvalles, entre a retaguarda do exército de Carlos Magno, sob o comando de Rolando, que abandonava a Península Ibérica, e um exército de montanheses bascos que a chacinou[5]. Embora considerado histórico, o acontecimento é retratado sem fidelidade histórica: os autores do massacre depressa passaram de bascos a muçulmanos, e tanto essa alteração como o tom geral do poema explica-se pelo contexto das Cruzadas e da Reconquista cristã da Península Ibérica que se viveu no século XI-XII.

A Autoridade Sacerdotal expressando o Sol ou expressivo da actividade franco-galaica, vem a ser o Ocidente cristão, enquanto o Poder Temporal manifestando a Lua ou expressiva da passividade basca, será o Oriente islâmico, ambos os vectores tendo na Terra o seu ponto de encontro e interfusão na Peregrinação jacobeia, que não distinguiu e nem distingue raças e classes sociais. Tendo sido a batalha de Roncesvalles sobretudo um facto mítico repleto de simbolismos heterodoxos, remetendo para leituras esotéricas ou iniciáticas, pode também interpretar-se o exército de Rolando, herdeiro da tradição dos antigos reis astures ou arianos, como a corte dos Arcanjos solares que cerceiam o Filho, enquanto o exército basco, herdeiro da tradição dos primitivos reis atlantes, expressará à hoste dos Anjos lunares tendo à testa a Mãe testemunha do Espírito Santo; o Filho e o Espírito Santo encontram-se no Pai, e à escala imediata no Patrão ou Patrono da Hispânia, que é Santiago Maior, cuja duplicidade de atributos lhe confere a condição andrógina própria da hierarquia dos Arqueus terrenos. Tem-se assim a Trindade Divina, cuja realização individual e colectiva era a meta suprema e o sentido último da Guerra Santa versus Jihad: para uma parte o Santiago Matamouros e para a outra a Jihad. Este vem a ser o significado do que se esculpiu num capitel românico da igreja de Santiago de Roncesvalles: dois cavaleiros cruzam lanças que insolitamente vão formar um triângulo.

Entrechoque estratégico do Oriente com o Ocidente (igreja de Santiago de Roncesvalles)

A morte trágica dos guerreiros cristãos destaca a coragem que o cavaleiro deve ter ante a morte sempre na iminência de acontecer na batalha, para que na fé sustentada pelas armas sagradas e por estas caído possa subir em espírito santificado ao seio da Virgem Maria, lá no Paraíso destinado aos santos e heróis. Ao espinho da morte à espada se acresce o perfume da rosa da imortalidade. Rosa espinhosa é bem o que significa Roncesvalles ou Roncevaux, em francês: “vale dos espinhos”, sendo que em castelhano é Rozabales: “vale das rosas”. Enfim, dos espinhos do sacrifício às rosas do júbilo.

Esses espinhos estão indicados simbolicamente no nome do lugar próximo de Roncesvalles: Espinal, enquanto as rosas no próprio vale da batalha mítica, Rozabale, onde está a capela do Espírito Santo,  do século XII,  em volta da qual foi o cemitério de peregrinos jacobeos, mas que a lenda teima em afirmar que estão nele enterrados a maioria dos que pereceram na terrível e cruel derrota no ano 778.

Roncesvalles, a Cruz dos Peregrinos de Compostela

De tudo isso fala com a sua pena magistral o grande Teósofo que foi o Professor Henrique José de Souza[6]:

“Carlos Magno com os seus “doze Pares de França” – é algo semelhante ao rei Artus com os seus doze Cavaleiros (os Cavaleiros da Távola Redonda, simbolizando ainda os doze signos do Zodíaco). Vemos o mesmo simbolismo do ponto de vista religioso em Jesus (ou Jeoshua) e os seus doze Apóstolos. Doze são, ainda, os “Goros (Sacerdotes) do Rei do Mundo”. Já então, no que respeita a este – como Rei dos Reis – Senhor dos dois Poderes: o Temporal e o Espiritual. Razão de ser representado com uma cruz e uma espada (em Magia, bagueta e espada, na razão do solve et coagula, muito bem expresso no cumárico Arcano 15 do Tarot).

“Carlos Magno é o verdadeiro príncipe dos encantamentos e da feeriö; o seu reino é como uma paragem solene e brilhante entre a barbárie e a Idade Média, é uma aparição de majestade e de grandeza que lembra as pompas do reino de Salomão (Salomão, Melkitsedek, de certo modo o mesmo Carlos Magno, não são senão representações vivas do mesmo “Rei do Mundo”. É o tradicional Akdorge das lendas transhimalaias, ou o famoso Guerreiro donde foi copiada a vida do S. Jorge cristão, pois do presente não lhe falta coisa alguma: o cavalo branco, o dragão alanceado debaixo das patas do cavalo, etc., etc.). É uma ressurreição e uma profecia. Nele, o império romano, passando sobre as ruínas gaulesas e francas, ressurge em todo o seu esplendor; nele, também, como num tipo evocado e realizado por adivinhação, mostra-se de antemão o império perfeito das idades de civilização amadurecida, império coroado pelo sacerdócio e apoiando o seu trono contra o altar.

“Com Carlos Magno começa a “era da cavalaria” e a epopeia maravilhosa dos romanos; as crónicas do reino deste príncipe assemelham-se todas à história dos quatro filhos de Aymon ou de Oberon, o encantador (todos os contos infantis de guerreiros, príncipes encantadores, etc., são vazados nas mais antigas iniciações, já procedentes da Atlântida e não apenas de Carlos Magno, que foi um dos seus mais preciosos símbolos). Os pássaros falam para indicar o bom caminho ao exército franco perdido nas florestas: colossos de bronze surgem erectos no meio do mar e mostram ao imperador as vias abertas do Oriente. Rolando, o primeiro dos paladinos, possui uma espada mágica, baptizada como uma cristã e chamada Durandal (melhor dito, Durindana, cuja origem é Duat-randa, Ananda, etc., em referência ao Mundo Jina ou de Duat, também chamado de Povo Tuatha de Dananda). O bravo fala à sua espada, e ela parece compreendê-lo, nada resiste ao esforço deste gládio sobrenatural. Rolando possui também uma trompa de marfim artisticamente trabalhada (comparável às conchas que sopravam os guerreiros da famosa batalha do Mahabharata, de que foi um dos heróis o mesmo Arjuna). Sim, essa trompa encantada (com vista, ainda, à flauta mágica de Mozart, que muito caro lhe custou…!) que o menor sopro produzia nela um ruído que se ouvia a vinte e duas léguas (e não vinte, como dizem as lendas, se ela mesma, através do seu som, tinha de percorrer, etapa por etapa, os 22 Arcanos Maiores…) e fazia tremer as montanhas (isto é, era percebida pelos Génios das Montanhas, os Guardiões das Embocaduras Sagradas da Agharta, para que viessem em auxílio de todo e qualquer Herói, além do mais, conduzindo-o ao referido Mundo Jina ou de Duat, a que nos referimos anteriormente).

A pressuposta trompa mágica de Rolando (Catedral de Santiago de Compostela)

“Quando Rolando, sucumbindo em Roncevaux, antes esmagado do que vencido, levanta-se ainda, como um gigante sob um dilúvio de árvores e de rochas movediças, toca a trompa, os sarracenos entram a fugir. Carlos Magno, que está a mais de dez léguas distante (algo assim como se estivesse no cume… da Árvore Sefirotal), ouve a trompa de Rolando e quer ir em seu socorro, é impedido pelo traidor Ganelon (símbolo caótico do Mal, para o do Bem que era o mesmo Carlos Magno, semelhante a David e o gigante Golias, Goliath, Galeno ou Ganelo), que vendeu o exército francês aos bárbaros. Rolando, vendo-se abandonado, abraça uma última vez a sua Durandal (ou Durindana), depois, reunindo todas as forças, bate com ela num quarteirão de montanha, o qual se fende sem que Durandal se despedaçasse (a protecção dos Génios das Montanhas Sagradas, a que nos referimos anteriormente). Rolando a aperta contra o peito… e morre com porte tão altivo e nobre que os sarracenos não ousam descer para dele se aproximarem, e lançam ainda, apavorados, uma saraivada de flechas contra o seu vencedor que não mais existe…”

Alegado fragmento da Durindana no Mosteiro da Virgem de Rocamadour, Sul de França

Símbolo do Espírito Santo como “Língua de Fogo” (como está descrito no Apocalipse 19: 13-15) ou Verbo Criador, a espada sagrada levou à seguinte reflexão de Raimundo Lúlio[7]: “Ao cavaleiro é dada a espada, que é feita à semelhança da cruz, para significar que assim como Nosso Senhor Jesus Cristo venceu na cruz a morte na qual tínhamos caído pelo pecado de nosso pai Adão, assim o cavaleiro com a espada deve vencer e destruir os inimigos da cruz. E porque a espada é cortante dos dois gumes, e a cavalaria é para manter justiça, e justiça é dar a cada um o seu direito, por isso a espada de cavaleiro significa que o cavaleiro deve manter com a espada a cavalaria e a justiça”.

Para a Tradição Iniciática e nas palavras do mesmo Professor Henrique José de Souza, a espada branca de pureza, logo completamente diferente e oposta de quantas e ferruginosas espadas tintas de sangue humano hajam, vem a ser a Espada do Conhecimento, o precioso símbolo, além do mais, do Cruzeiro ou Pramantha cujos braços se dirigem para as quatro direcções, na razão dos quatro Maharajas ou Arcanjos postados nos quatro portais do Paraíso Celeste (Mikael – Gabriel – Rafael – Auriel), das quatro letras sagradas hebraicas componentes do Nome de Deus ou Jehovah (Iod – He – Vau – He), etc. Espada que a própria Tradição diz ser temida pelos “espíritos” do mal… os seus “dois gumes” – um que fere ou castiga, e outro que ama ou premeia – assinalam a impessoalidade da acção da própria Lei do Eterno como princípio de Causa e Efeito, ao qual os orientais chamam Karma.

Ao cavaleiro é dada a espada, e para ser cavaleiro tem de ter cavalo; tendo cavalo e espada, robustece a couraça de aço com a da fé, e assim vai guerrear em batalhas mágicas, mais simbólicas e míticas que históricas e documentadas, como foram as de Roncesvalles e Clavijo. Pegando na raiz latina do etimólogo clavijo, ou seja, clavis, “clave, chave”, com a mesma descerra-se o duplo sentido dos elementos apresentados, seja a batalha, figurando o embate entre as forças da espiritualidade esclarecida e as do materialismo obscurecido, seja o próprio cavalo, como indicativo de Cabala, que é dizer Tradição, cujas luzes de sabedoria o cavaleiro conquista na suprema vitória mais que sobre os outros, sobre si mesmo. Isto vai ao encontro das palavras escritas por Raimundo Lúlio na sua obra citada:

“O cavalo é dado ao cavaleiro como significado de nobreza de coração e para que a cavalo seja mais alto que qualquer outro homem, e seja visto de longe e mais coisas tenha debaixo de si, e que antes seja em tudo o que convém à honra de cavalaria mais que qualquer outro homem. Ao cavalo são dados freios e às mãos do cavaleiro são dadas rédeas, para significar que o cavaleiro, pelos freios, deve refrear a sua boca de dizer palavras feias e falsas, e refrear as suas mãos, que não dê tanto que haja de pedir, nem seja tão ardoroso que do seu ardor expulse a sensatez, e pelas rédeas entenda que ele deve deixar-se levar para qualquer parte onde a ordem de cavalaria o queira empregar ou enviar. E, quando for mister, estenda as suas mãos e gaste, e dê segundo convém à sua honra; e que não hesite perante os seus inimigos; e quando hesitar em ferir, abandone a fraqueza de espírito. E se ao contrário disto o cavaleiro fizer, o seu cavalo, que é animal que não tem razão, segue melhor a regra e o ofício de cavalaria que o cavaleiro.”

A montada do cavaleiro ou equite inscreve-o, pois, num complexo transcendente de combate e numa intenção de espiritualizar esse mesmo combate, base filosófica da jihad ou “guerra santa” da Crescentada. Essa espiritualização realiza-se seja pela escolha de uma causa superior, seja pela escolha de meios nobres, seja através da admissão numa sociedade de elite, ou seja pela busca de um chefe extraordinário ao qual se deseja prestar juramento de obediência. O sonho do cavaleiro revela o desejo de participar de um grande empreendimento, que se distingue por um carácter moral elevado e de certo modo sagrado[8].

A cavalaria confere um estilo à guerra, bem como ao amor e à morte. O amor é vivido como um combate, e a guerra como um amor; tanto a uma como a outro, o cavaleiro sacrifica-se até à morte. Ele luta contra todas as forças do mal, inclusive as instituições da sociedade quando estas parecem violar as exigências interiores do seu código de conduta.

Se ao cavalo o lígure chamava egvo e o latino equus, já o celta galaico chamava-o vedra, e com este último nome tem a ver a lenda da ilha de Toja, situada à entrada da ria de Pontevedra ou “ponte do cavalo”: a história conta que um homem que tinha um cavalo muito velho decidiu um dia deixá-lo morrer de morte natural. Para isso passou o pequeno braço de terra que se descobria quando a maré baixava e que ligava a ilha a terra, abandonando o animal aí. Algumas semanas mais tarde, querendo ver o que lhe tinha acontecido, qual não foi a surpresa do homem ao deparar com o cavalo completamente rejuvenescido, como tivesse nascido de novo. O equídeo havia-se banhado nas águas de uma fonte que havia na ilha e que era uma fonte da juventude. Toja pronuncia-se Tora em castelhano, e é aqui que entra o significado oculto da lenda: o dono do cavalo será o que procura perceber o espírito subjacente à letra da Torah ou Lei, e para tanto abandona a velha e restrita pragmática da doutrina ortodoxa e vai peregrinar na procura de um novo e mais lato saber heterodoxo, no caso, a Cabala, representada no cavalo com nova vida.

Com efeito, a presença do cavalo é constante no tema jacobeo (onde não falta a “Fonte dos Cavalos” na Praça das Pratarias, em Compostela), implicando ainda o sacrifício a fazer-se para elevar a consciência física à emocional e esta à mental ou espiritual, e vice-versa no caminho de descida. Esse sacrifício está assinalado no ritual védico da imolação do cavalo, cerimónia exclusivamente Kshatriya ou de Cavalaria: a Açwamedha, onde com a morte do animal se pretende figurar a adquirição da Sabedoria Espiritual. Esta Sabedoria é a que subjaze na Tradição ou Cabala (cuja ocultação interior é figurada tanto pela Arca como pela Torre) a ser “cavalgada” pelo aspirante ao conhecimento de Deus como Espírito, Alma e Corpo. Bem parece ser este o significado da escultura colorida do Mestre Mateo (século XII), exposta no Museu da Catedral de Santiago de Compostela, com o título “Os Cavalos dos 3 Reis Magos”, onde de uma torre de três pisos, sinalética da Fé, sobressaem os bustos sobrepostos de três equídeos.

Os “Cavalos dos Três Reis Magos”, obra em pedra policrómica da autoria de Mestre Mateo (século XII)- Museu da Catedral de Santiago de Compostela, Galiza

Tendo como “mito de fundação” a batalha de Clavijo, a Ordem Militar de Santiago destinou-se inicialmente à protecção e assistência dos peregrinos que iam a Santiago de Compostela, e também à reconquista do território hispânico ocupado pelo Islão. Sendo de natureza militar-religiosa, foi aprovada pelo rei Fernando II de Leão em 1172, e reconhecida pelo papa Alexandre III em 1175. Os freires-cavaleiros instalaram-se inicialmente em Cáceres, na Estremadura espanhola, mas o rei Afonso VIII de Castela doou-lhes a cidade de Uclés onde ficaria instalada a sede principal da Milícia, sendo por isso conhecida, nos primeiros tempos, por Ordem de Uclés. Os cavaleiros de Santiago, chamados de Santiaguistas ou Espatários, fizeram votos de pobreza e obediência mas, seguindo a Regra de Santo Agostinho em vez da de Cister, não eram obrigados ao voto de castidade, e assim podiam contrair matrimónio (alguns dos seus fundadores eram casados). No entanto, a bula papal recomendava (não obrigava) o celibato, e os Estatutos da fundação da Ordem afirmavam, seguindo um princípio das Cartas Paulinas: “Em castidade conjugal, vivendo sem pecado, assemelham-se aos primeiros padres apostólicos, porque é melhor casar do que viver consumido pelas paixões”[9].

Em Portugal, a Ordem de Santiago começou a actuar logo desde os seus primórdios, ainda no reinado de D. Afonso Henriques, mas só teve maior visibilidade a partir do reinado de D. Afonso II (1185) e, sobretudo, de D. Sancho II (1210). Teve como casa-mãe o castelo de Palmela e depois o de Alcácer do Sal, que se tornou sede da Província Espatária Portuguesa, acabando o ramo português da Ordem por se separar definitivamente do espanhol em 1452, o que ficou aprovado na bula do papa Nicolau V, Etsi romanus pontifex[10].

Foi Mestre Geral da Ordem de Santiago em Alcácer do Sal o grande cavaleiro português Paio Peres Correia (1205-1275), a quem a moirama ribeirinha do Tejo chamava Pires Coxe, nome de localidade próxima de Santa Iria de Azóia, Loures, o qual em 1242 chegou a Mestre Geral da Ordem em Mérida, tendo dado um valioso contributo para a reconquista de Portugal ao Islão, pois entre 1234 e 1242 reconquistou grande parte da região Sadina, Baixo Alentejo e Algarve. Foi também com o auxílio desta Ordem que Afonso III consumou a conquista do Algarve em 1249, tomando os derradeiros redutos árabes de Faro, Loulé, Albufeira e Aljezur. Como recompensa, a Ordem Militar de Santiago foi agraciada, no território nacional, com várias terras do Sado, Alentejo e Algarve, ficando ao seu encargo povoá-las e defendê-las, ao mesmo tempo que propagava os caminhos da Fé levando os peregrinos a Santiago de Compostela, desde Sagres a Lisboa e desta à Galiza. A isto não é alheio o facto de ainda hoje muitas povoações portuguesas terem por Orago Santiago Maior, e nas suas Armas figurar a cruz espatária[11].

A partir do reinado de D. Afonso V de Portugal (1448), na igreja de Santiago em Lisboa a Milícia foi rebaptizada com novo nome: Ordem Militar de Santiago da Espada. Em 1789, a rainha D. Maria I reformou as Ordens Militares e, desde então, a Grã-Cruz de Santiago da Espada constituiu-se em ordem honorífica da qual o Chefe de Estado é o seu líder máximo[12].

A formação da estrutura militar da Ordem de Santiago ter-se-á inspirado na da Ordem do Templo, anterior a ela, e o facto é que ambas as Milícias andaram juntas no espaço peninsular, sobretudo no português, tanto na guerra ao agareno como na devoção em que chegavam a partilhar a mesma assembleia, como significativamente se vê na igreja de Santiago de Coimbra encimada pela cruz templária, mas tendo abaixo as colunas dianteiras decoradas com as cabaças e vieiras da peregrinação jacobeia.

Igreja de Santiago, Coimbra

Desde muito antes de Nicolau V que os Espatários portugueses andavam em conflitos com o Mestrado castelhano por desejo confessado de autonomia e até de rompimento com ele, mesmo mantendo o nome da Ordem, querendo que ela ficasse só portuguesa com Mestrado próprio, independente do de Castela. O facto é que já no reinado de D. Dinis, em Portugal a Ordem de Santiago era composta só por portugueses, que se separaram do Mestre Geral espanhol e elegeram um Mestre português no Conselho dos Treze, assim chamado por estarem presentes treze cavaleiros designados entre os governadores e comendadores para dentre eles um ser eleito o Geral. Diz D. Diogo de Souza[13]:

“Ainda antes de concluído o tratado com o clero, uma bula do Papa (a 16 de Setembro de 1288), por meio da qual era permitido, aos cavaleiros portugueses, poderem eleger um mestre particular para os dirigir em Portugal, que se consideraria, contudo, subordinado ao grão-mestre castelhano. Depois que esta ordenança foi confirmada, em 1290, por uma segunda bula, treze cavaleiros portugueses da Ordem, que contavam direito de eleição, nomearam o primeiro grão-mestre da Ordem de S. Thiago em Portugal. A escolha unânime recaiu sobre D. João Fernandes, que de todos era o mais digno. Seguidamente o novo mestre provê de remédio às muitas queixas alevantadas contra o grão-mestre castelhano.”

Foi a partir dessa altura que ficou declarada a cissão autonómica com o Mestrado de Castela. Cissão que em 1288 o papado acatou pela bula Pastoralis Oficii de Nicolau IV, e nem a ameaça de excomunhão do papa Bonifácio VIII (bula Ab antiquis retro, de 20 de Julho de 1295) fez os Espatários portugueses recuar na sua decisão de autonomia[14]. Finalmente, em 1320 o rei D. Dinis conseguiu a “nacionalização” da Ordem de Santiago pelo reconhecimento do papa João XXII.

Apesar do Mestrado castelhano continuar a protestar e argumentar durante cerca de um século, o facto é que nunca teve resultados práticos e, finalmente, em 1452 o papa Nicolau V deu por encerrado o assunto.

Tal como a Ordem dos Templários, também a Ordem de Santiago incluía pessoas de ambos os sexos, sobre o que diz Frei António Brandão[15]:

“O mosteiro de Santos (o Velho, em Lisboa) ficou à Ordem destinado para recolhimento das mulheres e filhas dos Comendadores que iam à guerra. Não se protestou nesta Religião em seu princípio a castidade como nas outras, mas somente a conjugal, e assim foi conveniente conseguir-se casa para recolhimento daquelas senhoras. Ainda perdura em parte este estilo, não neste convento antigo, mas em Santos o Novo fundado em tempo d´el rei Dom João o Segundo, para o qual se mudaram as freiras em cinco de Setembro do ano de 1492. A Prelada se chama Comendadeira, sendo esta a senhora principal, e houve algumas muito chegadas à Casa Real.

“O hábito dos Cavaleiros é uma espada coroada em forma de Cruz, sendo as guarnições das espadas antigas, esta trazem sobre o manto branco, e também sobre os vestidos ordinários do próprio modo que os cavaleiros das outras Ordens trazem seus hábitos. As armas da Ordem são a mesma espada com as vieiras ou conchas, insígnias do Apóstolo Santiago. Entre os selos dos Mestres da Ordem e dos conventos havia alguma diferença, a qual ao presente é mais notória, depois que os Reis tomaram posse do Mestrado.

“O catálogo dos Mestres em Portugal, conforme o traz Frei Jerónimo Romano (na Centurius da Ordem Agostiniana), é o seguinte:

“Dom João Fernandes governou ano e meio.
D. Lourenço Annes foi Mestre 23 anos.
D. Pedro Escacho teve o Mestrado 15 anos.
D. Garcia Pires era Mestre no ano de 1346.
D. Vasco morreu ao que parece no ano de 1367.
Dom Gil Fernandes de Carvalho, de quem fala o Conde D. Pedro.
Dom Estêvão Gonçalves serviu nas guerras de Castela a el-Rei Dom Fernando.
D. Fernando Afonso de Albuquerque, de quem se faz menção na história do mesmo Rei.
Mem Rodrigues de Vasconcelos serviu valorosamente a el-Rei D. João o Primeiro nas guerras contra Castela, e acompanhou o Condestável Nuno Álvares na jornada que fez contra os Mestres de Santiago e Calatrava.
O Infante D. João, filho del-Rei Dom João o Primeiro.
Dom Diogo, filho do Infante Dom João.
O Infante Dom Fernando, filho del-Rei Dom Duarte.
D. João, filho do dito Infante.
O Príncipe Dom João filho del-Rei Dom Afonso o Quinto.
O Príncipe Dom Afonso filho del-Rei Dom João o Segundo.
Dom Jorge Duque de Coimbra, filho do próprio Rei, por cuja morte se uniu à Coroa Real este Mestrado, e o de Avis, de quem também foi Grão-Mestre.”

Ao contrário de Frei António Brandão, o Padre António Carvalho da Costa não chama João mas Pedro Fernandes ao primeiro Mestre da Ordem de Santiago portuguesa[16], e também diferente é a sua relação dos Mestres. Diz:

Relação dos Mestres da Ordem de Santiago, de que há memória no Cartório do Convento de Palmela.

“D. Pedro Fernandez, que foi nove anos Mestre. D. Fernão Dias, que foi quatro anos Mestre, e deixou o Mestrado. D. Sancho Fernandez de Lemos, que foi seis anos Mestre, e deixou o Mestrado. D. Gonçalo Ordenes, que foi 18 anos Mestre, e deixou o Mestrado. D. Soeiro Rodriguez, que foi dois anos Mestre. D. Fernão Gonçalvez, que foi Mestre 14 anos, e deixou o Mestrado. D. Payo Aquas, que foi 4 anos Mestre. D. Garcia Rodriguez Daremcom, que foi dois anos Mestre, e deixou o Mestrado. D. Gabriel Barrengon, que foi três anos Mestre, e o mataram os Mouros. D. Garcia Gonçalvez Darendajo, que foi dois anos Mestre, e deixou o Mestrado. D. Fernando Choca, que foi dois anos Mestre, e deixou o Mestrado. D. Pedro Gonçalves, que foi quatro anos Mestre. D. Pedro Ienhegum, que foi quatro anos Mestre, e deixou o Mestrado. D. Paay Rodriguez, que foi trinta e quatro anos Mestre. D. Gonçalo Rodriguez Giron, que foi Mestre cinco anos e três meses, mataram-no os Mouros. D. Pedro Nunes, que foi Mestre sete anos. D. Gonçalo Matel, que foi Mestre oito meses. D. Pedro Fernandez Matiria, que foi Mestre cinco anos e meio. D. João Usores, que foi Mestre 18 anos, e deixou o Mestrado. D. Diogo Moniz, que foi Mestre oito anos. D. Garcia Fernandez, que cegou, e deixou o Mestrado. D. Vasco Rodriguez, que foi Mestre oito anos.”

Entrega da bandeira da Ordem ao Mestre D. Pedro Fernandes (retábulo quinhentista da igreja de Santiago de Palmela)

Finalmente, no século XV a Ordem de Santiago receberia nova reforma, dessa vez pela mão do nosso “Rei Alquimista” D. Afonso V[17], o qual foi cabeça de um grupo de 27 cavaleiros fundadores da Ordem da Torre e Espada que, segundo um livro encontrado pelo padre Frei Jerónimo Romano na Casa de Bragança quando escrevia a história desta família, o monarca fundou em África após a vitória de Alcácer-Ceguer, em 1459. Segundo a lenda nobiliárquica, chegando-lhes aos ouvidos a notícia de que em Fez existia uma torre por cujo remate passava uma espada e, mais a mais, envolvida pela tradição de que lá a iria tirar um príncipe cristão, rápido a resgatou como se fosse Artur resgatando excalibur, e logo após (re)fundou uma nova Ordem de Cavalaria: a dita da Torre e Espada.

Ela tinha por Orago o Apóstolo São Tiago Maior, a quem D. Afonso V mandou erigir uma igreja em Lisboa a qual possuía um rico coro com 27 cadeiras, em cada uma delas vendo-se o escudo das armas do cavaleiro, às quais por sua morte se juntavam as do que seria eleito no seu lugar. Todo o 24 de Julho, véspera do dia de São Tiago, havia solenidade presidida pelo rei acompanhado dos seus cavaleiros que eram mimoseados pelo Grão-Mestre com um refresco, logo acabada aquela. No dia seguinte, 25, fazia-se uma grande festa dedicada ao Orago das Hespanhas, e depois dela todos os cavaleiros assistentes iam comer com o rei à sua mesa, e em seguida havia jogos de canas, torneios e outros divertimentos semelhantes, tudo recriando o ambiente festivo de Camelote e da Távola Redonda.

Ainda que a Chancelaria de D. Afonso V seja muda sobre este assunto, a Centurius da Ordem Agostiniana do Padre Romano, referida por D. António de Sousa[18], fala dele, facto que o próprio Vieira Guimarães não deixa de citar[19].

O ritual de investidura do cavaleiro da Ordem de Santiago da Torre e Espada no século XVIII, sem dúvida muito adulterado comparado ao primitivo da Ordem Militar de Santiago, veio a ser publicado por António José Xavier Monteiro[20], mas que pela sua importância histórica e, sobretudo, percepção do que seria o seu espírito e praxis, como o de outras Ordens da época (de Cristo, de Avis e de Malta), certamente a editarei no futuro próximo.

 

NOTAS

 

[1] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Setembro de 2007.

[2] El mundo de las peregrinaciones – Roma, Santiago, Jerusalén, textos de vários autores a cargo de Paolo Caucci von Saucken. Lunwerg Editores, Barcelona e Madrid, 1999.

[3] Javier Gorosterratzu, D. Rodrigo Jiménez de Rada. Gran estadista, Prelado y Escritor. Pamplona, 1925.

[4] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Insólita e Secreta, pp. 38-41. Editorial Jonglez, Versailles, 2010.

[5] Les Textes de la Chanson de Roland I (Manuscrit d´Oxford). Édition Raoul Mortier, Paris, 1940.

[6] Henrique José de Souza, Cagliostro e São Germano. Revista “Dhâranâ”, n.º 110, Outubro a Dezembro de 1941, Ano XVI, São Paulo, Brasil.

[7] Ramon, Llull, Livro da Ordem de Cavalaria. Assírio & Alvim, Lisboa, 1992.

[8] Alain Gheerbrant e Jean Chevalier, Dicionário de Símbolos. Paris, 1906.

[9] Alselmo Braamcamp Freire, A Ordem de Santiago. In “Crítica e História – Estudos”, 1.º volume, 2.ª edição fac-simile, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996.

[10] Arquivo Nacional Torre do Tombo, Ordem de Santiago e Convento de Palmela, PT/TT/OSCP, 1184/1883.

[11] As Ordens Militares e as Ordens de Cavalaria na construção do Mundo Ocidental. Actas do IV Encontro sobre Ordens Militares (30 de Janeiro a 2 de Fevereiro de 2002) coordenadas por Isabel Cristina F. Fernandes. Edições Colibri – Câmara Municipal de Palmela, 2005.

[12] W. Maigne, Dicionário Enciclopédico das Ordens de Cavalaria Civis e Militares. Hugin Editores, Lda., Lisboa, Julho de 2005.

[13] D. Diogo de Souza, História de Portugal desde os Tempos Primitivos até à fundação da Monarchia e d´esta época até hoje. Obra inteiramente inédicta. Edição adornada de gravuras. Typographia de José Carlos d´Aguiar Vianna, Rua dos Calafates, N.º 114, Lisboa, 1852.

[14] Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, volume I. Portucalense Editora, S.A.R.L., Porto, 1967.

[15] Frei António Brandão, Monarquia Lusitana, Livro III. Lisboa, 1632.

[16] Padre António da Costa, Corografia Portuguesa, Tomo III. Lisboa, 1712.

[17] Vitor Manuel Adrião, Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Março de 2007.

[18] D. António de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo III, pág. 5. Lisboa Ocidental, 1737.

[19] Vieira Guimarães, Marrocos e Três Mestres da Ordem de Cristo. Academia das Ciências de Lisboa, 1916.

[20] António José Xavier Monteiro, Formulário de Orações e Cerimónias para se armarem Cavaleiros, e se lançarem os hábitos das Ordens e Milícias de Nosso Senhor Jesus Cristo, S. Tiago da Espada, S. Bento de Avis e S. João de Malta. Porto, na Oficina de João Agathon, ano 1798.

Carta rara de D. Fr. Benito Jerónimo Feijóo (1676-1764) sobre o Processo da Ordem dos Templários Quarta-feira, Out 2 2019 

D. Fr. Benito Jerónimo Feijóo y Montenegro, Mestre Geral da Ordem de S. Bento, Cartas Eruditas y Curiosas do Theatro Crítico Universal, Tomo I, Carta XXVIII, 1742, Madrid. Estas Cartas Eruditas y Curiosas perfazem o número de 163 e repartem-se por 5 volumes escritos entre 1742 e 1760. Cf. A. Castillo de Lucas, El Padre Feijóo y las tradiciones populares, in Revista de Etnografia, v. 5, t. 2, n.º 10, pp. 384-418, 1965; Joseph Santos, Indice alfabético de las cosas notables que contienen todas las obras del M.I.S. Dr. Fr. Benito Jerónimo Feijóo y los tomos del P. Sarmiento, 1774, Madrid.

1. Meu muito senhor: Pesada carga é a que me impõe V. Sª solicitando que lhe explique o meu parecer sobre o negócio dos Templários, isto é, se padeceram inocentes ou culpados, se a sentença que se deu contra eles foi justa ou injusta: grande problema na História, não tanto pela oposição dos autores na narração, na qual a maior parte está de acordo, mas pelos próprios factos ministrarem fundamento bastante para juízos opostos. Se bem que seja verdade que reparei numa circunstância de muito peso, como demonstrarei abaixo, na maioria dos historiadores mal instruídos.

2. Dos autores que consultei sobre a matéria, ou nos seus próprios livros, ou citados por outros, são poucos os que afirmam a inocência dos Templários. Os demais não se atrevem a decidir sobre a dúvida. O comum é mostrar inclinação a um ou outro extremo, porém sem resolver. A verdade é que exceptuando a maior parte dos escritores franceses, os quais são particularmente interessados na causa, porque se a condenação foi injusta, quase toda a iniquidade vem a cair sobre os indivíduos daquela nação, os restantes, a maioria, à medida que vão referindo o caso vão descobrindo um ânimo propenso a crer inocentes os Templários. Porém no fim, vendo sair-lhes ao caminho a autoridade de um Pontífice Romano, que sentenciou a extinção daquela Ordem, e de um Concílio Geral, que se diz aprovou ou confirmou a Sentença, ou se detêm perplexos, ou se retiram medrosos.

3. E verdadeiramente, posta de parte esta consideração, apenas há coisa de algum peso contra a inocência daqueles Cavaleiros, e também ocorrem razões muito eficazes a favor dela. Os primeiros fundamentos da sua ruína não podiam ser de pior condição. Os acusadores foram dois delinquentes da mesma Religião, condenados por ela a prisão perpétua, e que já a estavam padecendo em Paris, como pena de delitos atrozes: um francês, o prior de Montfaucon; outro cavaleiro, Noffo, florentino. Estes, ou para vingar-se dos seus Juízes ou para conseguir a impunidade das suas maldades, ou por uma e outra, fizeram chegar ao conhecimento do Rei os horrendos crimes que suponham em toda a Religião. A qualidade dos acusadores merecia que se desprezasse a acusação. Porém eles sabiam a que porta batiam: a do Rei de França, Filipe, o Belo, homem avaríssimo e de consciência estragada. Ímpio lhe chama, sem estar com rodeios, o Cardeal Barónio: A Rege importuno pariter ac impio. Estava então opulentíssima a Religião dos Templários. Que não faria um Príncipe deste carácter, oferecendo-se-lhe a oportunidade de aproveitar-se dos seus despojos? Tais foram os primeiros instrumentos que obraram a ruína daquela Religião.

4. É verdade que cada autor varia algo quanto às pessoas dos acusadores. O Abade Fleuri, supondo que esta circunstância se refere a diversas maneiras, inclina-se, como a mais verosímil, a que o acusador foi um vizinho de Beziers, chamado Squin de Florian, o qual estava preso juntamente com um templário apóstata, não em Paris mas num castelo real da diocese de Tolosa; e como os delitos de um e outro fossem tão graves que esperavam por eles o suplício capital, estimulados pelos remorsos da sua consciência confessaram-se reciprocamente um ao outro, como faziam naquele tempo (acrescenta o autor citado) os que se achavam em algum grande perigo de perder a vida; e constatando a Squin, pela confissão do templário, as abominações estabelecidas na sua Religião, resolveu solicitar a graça revelando-as ao Rei, ministrando-lhe este meio para adquirir grandes riquezas.

5. O que escrevemos acima, dando a ordem dos autores da acusação, é o que se fala comumente entre os historiadores. Porém, dado o caso de que o acusador fosse o que pretende o Abade Fleuri, mesmo detendo a acção de um homem merecedor da morte pelos seus delitos, a sua intenção continuaria a ser a mesma. Um homem deste carácter repararia pouco em levantar horrendos testemunhos a toda uma Religião, quando não achasse outro arbítrio para salvar a vida.

6. Torna-se muito inverosímil que os delitos acometidos aos Templários fossem verdadeiros. Que todos, na sua admissão à Ordem, renegassem a Jesus Cristo; que cuspissem sobre a sua Sacrossanta Imagem; que na mesma admissão interviessem certas cerimónias extremamente ridículas e torpes; que se praticasse por Estatuto a idolatria; que ao ídolo que adoravam sacrificassem vítimas humanas; que se permitissem geralmente à torpeza nefanda, são coisas que, sem fazer um grande esforço de entendimento, não podem acreditar-se comuns a toda uma Religião.

7. A sessenta Cavaleiros, entre eles o Grão Mestre, que em distintas ocasiões foram condenados ao fogo, se lhes ofereceu a vida se confessassem os crimes de que eram acusados; porém todos, sem exceptuar um só, foram constantes em negá-los, protestando até ao último momento a sua inocência. Isto, caindo sobre a inverosimilhança dos factos, sobre a perversidade dos acusadores e o interesse do Rei, em quem cresciam os delitos, forma uma preocupação extremamente forte a favor dos réus.

8. Torna-se também uma força imensa a de que sendo os delitos tão grandes, tão comuns e que desde há muito se praticavam, não tivessem sido denunciados antes ao público. É possível que entre tantos, ou centenas, ou milhares de Cavaleiros, algum, ou alguns, movidos pelos remorsos da consciência, não os delatassem a quem deviam? Muitos faleceram separados dos seus Irmãos, ou em alguma viagem, ou em casas dos seus parentes ou amigos. Por que nem sequer à hora da morte alguns destes, para livrar-se da condenação eterna, deixaram alguma declaração escrita, com ordem de apresentá-la ao Príncipe?

9. Porém, o mais decisivo na matéria é que, apesar de em todos os Reinos da Cristandade se ter procedido ao que seria a inquisição sobre os delitos dos Templários, em nenhum, à excepção da França, foi conduzido Templário algum ao suplício. Prova, parece clara, de que o apaixonado influxo do Rei Filipe era quem os fazia delinquentes. Onde não se estendia o domínio do Rei de França, não apareciam Templários apóstatas da Fé; sendo assim que nos processos feitos em França se pretendia que o crime de Apostasia era comum a todos, como uma condição, sine qua non, para receber o Hábito. Em Espanha, examinou-se o caso com grande madureza. Em Salamanca juntou-se para este efeito um Concílio, composto pelo Arcebispo de Santiago e pelos Bispos de Lisboa, da Guarda, de Zamora, de Ávila, de Ciudad Rodrigo, de Plasencia, de Astorga, de Mondoñedo, de Tui e de Lugo. E depois de bem observada a Causa, todos aqueles Padres unânimes declararam os Templários inocentes: De vinctis, atque supplicibus quaestione habita, causaque cognita, pro eorum innocentia, pronunciatum communi Patrum suffragio (in Collect. Labb. tom. 7, pág. 1320).

10. É verdade que os delitos dos Templários se provaram com muitas testemunhas, e que grande número dos mesmos Templários os confessaram. Porém, atendidas as circunstâncias, umas e outros provam pouco. Quanto às primeiras, quem não deixa de ver que, por inocentes que estivessem os Templários, interessando-se o Rei de França em torná-los delinquentes, não lhe haviam de faltar testemunhas? As Histórias estão cheias de casos semelhantes. Sempre que algum Príncipe, por má vontade sua, quis que, observando a forma judicial, se castigasse como malfeitor algum vassalo inocente, teve testemunhas de sobra para quantos delitos quis imputar-lhe. Casos destes são os que a cada página, como disse, se encontram nas Histórias.

11. Porém, dentre todos, o mais oportuno ao nosso intento foi um em que interviu o próprio Filipe, o Belo. É notória, para todos os que leram algo de História, a mortal e escandalosa inimizade que este Príncipe teve com o Papa Bonifácio Oitavo,  assim como o sacrílego e cruel atropelamento da sua Pessoa e Dignidade, executado em Anagnia por ordem do mesmo Rei, de que resultou perder logo a vida o maltratado Bonifácio. Isto não bastou para aplacar a ira do furioso Monarca. Continuou-se a sua raiva, sendo objecto dela a memória e cinzas do Pontífice defunto, de que nasceu a sua horrível pretensão com Clemente Quinto para que declarasse herege a Bonifácio, e como tal fosse castigado na forma que pode sê-lo um morto, isto é, em sua memória e em suas cinzas. Clemente devia o Pontificado ao Rei Filipe, e sobre isso se falava dentro dos seus domínios por ser menos venerado como Papa e mais tratado como súbdito, e, ainda que com grande desgosto seu, admitiu a acusação. O pretendido crime de heresia de Bonifácio foi uma das maiores quimeras que até agora se fingiu. No entanto, com quarenta testemunhas, a maior parte respondendo sobre os mesmos factos, provou-se que Bonifácio havia negado não só à Presença Real de Cristo na Eucaristia, mas também à Ressurreição dos homens e à imortalidade da alma, e que havia dito que tanto a Religião Cristã como a Judaica e a Maometana eram meras invenções de homens: as testemunhas depuseram com a advertência de ter ouvido estas blasfémias do próprio Bonifácio. Veja-se sobre o assunto o Abade Fleuri, no Tom. 19 da sua História Eclesiástica, liv. 91, núm. 14. Se se reparar bem, a mesma quantidade de testemunhas prova a sua falsidade, porque dado o caso de que Bonifácio padecesse daqueles erros, é totalmente incrível que um homem tão advertido, e político, como todos o supunham, tivesse a facilidade de vertê-los nos corrilhos. Com efeito, no Concílio de Viena deu-se a sentença a favor de Bonifácio, mesmo suavizando-a com certos temperamentos a favor do Rei, para evitar a sua ira, e também, antes de sentenciar a Causa, com rogos se havia procurado aplacar ao Papa Clemente.

12. Considere-se, que se não tendo faltado testemunhas ao Rei de França para uma calúnia tão atroz contra um Soberano Pontífice, lhe faltariam para provar os delitos dos Templários, por falsos que fossem? E considere-se juntamente, se quem pôde compor com a sua boa consciência aquele horrível atentado, era capaz de compor este outro?

13. Alguns autores pretendem justificar o Rei, dando por falso que a cobiça o movesse a solicitar a ruína dos Templários, porque (dizem) os bens destes foram adjudicados aos Cavaleiros de São João de Jerusalém, que hoje, pelo sítio do seu estabelecimento, chamamos de Malta; por conseguinte, o Rei não se interessou na extinção daquela Ordem, e não se interessando, não pôde ser movido de cobiça, pelo que se deve discorrer que obrou puramente impelido de um zelo cristão.

14. Mesmo admitindo o facto de que a fazenda e possessões dos Templários se adjudicaram aos Cavaleiros de São João, isto não basta para justificar o Rei de França. Primeiro, porque aos de São João só se deram os bens raízes, com que ficou bastante ceva a cobiça do Rei nos móveis, e com efeito é constante que as duas terças partes destes entraram no Fisco a título de satisfazer os gastos do Processo. Paulo Emílio disse que todos os móveis, e não só as duas terças partes, passaram à posse do Rei. E apesar de não se duvidar que os ditos gastos seriam grandes, segundo todos unanimemente responderam da opulência dos Templários, deve-se discorrer que ficou na bolsa Real a maior parte daqueles despojos. Segundo, porque, segundo alguns autores, mesmo pelos bens raízes o Rei se interessou muito. Santo Antonino disse que quando chegou o momento de entrar na possessão deles a Religião de São João, achou-os ocupados pelo Rei e outros senhores leigos, pelo que foi preciso, para os redimir, dar aos Rei e a outros donos intrusos tão grandes somas de dinheiro que mais empobreceu que enriqueceu os novos donos da aquisição. Unde, conclui o Santo, depauperata est mansio Hospitalis, quae se existimabant, inde opulentam fieri (3. part. Cronic. tit 21, cap. 3). Thomas Walsinghan dá a entender o mesmo, ou o equivalente, quando diz que o Papa consignou as possessões dos Templários aos de São João mediante uma grande soma de dinheiro que estes deram: Papa hospitalariis haec (bona) assignavit, non sine magnae pecuniae interventu; e apesar de não explicar se aquele dinheiro foi para o Papa ou para o Rei, é muito natural, e muito mais conforme ao que dizem outros autores, entender ao segundo.

15. Foi a partir daqui, apesar de darmos inteira fé aos instrumentos, que Pedro Du-Puy fez a sua produção retirada do Arquivo do Parlamento de Paris, para provar que Filipe, o Belo, não só se conformou com a translação dos bens dos Templários à Religião de São João, mas ainda que de alguma maneira a solicitou; deixa sempre de fora que a sua cobiça se interessasse muito na ruína daquela Milícia. Desde que se começou a proceder contra os Templários até que se fez o destino dos seus bens, passaram quatro anos, pouco mais ou menos: o que pode muito bem ter sucedido é que o Rei tivesse em mira apoderar-se de todos os bens, tanto raízes como móveis, dos Templários, movendo com esse fim os procedimentos contra eles, e depois, ou por encontrar na execução arduidades que não havia previsto, ou por fazer reflexão sobre a grande desonra que se seguiria, resolveu contentar-se com menos.

16. Pelo que se vê, tampouco a confissão dos próprios Templários deve dar força, constatando que a muito foi sacada à força de tormentos, e a muitos mais com o temor da morte, que se lhes assegurava infalível se não confessassem os delitos impostos, prometendo-lhes ao mesmo tempo salvar a vida se os confessassem. Usando de tais diligências, parece-me, atendendo à fragilidade humana, que a maior parte dos indivíduos de qualquer Religião poderão confessar delitos que não cometeram.

17. Ultimamente se argumenta contra os Templários com a grande autoridade do Papa Clemente Quinto e do Concílio Geral de Viena do Delfinado, que se diz aprovou e confirmou a sentença que deu Clemente contra aquela Religião. Aqui põem quase toda a sua força os que se empenham em persuadir que os crimes dos Templários foram verdadeiros, e não porque pretendam que a decisão do Papa ou a do Concílio numa questão puramente de facto, como é a presente, sejam absolutamente infalíveis, mas tão somente muito respeitáveis e de sumo peso, para inclinar a um assenso firme de fé humana.

18. No entanto, nem uma nem outra autoridade, gritadas pelos sectários daquela opinião, embaraçaram nem a Boccacio, nem ao Abade Tritémio, nem a Juan Villani, historiador muito exacto e fidedigno, nem a Santo Antonino de Florência, nem a Papirio Masson e nem a outro autor francês contemporâneo o sucesso que este cita, sem nomeá-lo, para declarar-se a favor dos Templários. Sobretudo admira-me a intrepidez de Papirio Masson, o qual, depois de assentar que os Templários padeceram sem culpa, conclui que o menos que se pode dizer contra o Rei de França e contra o Papa, é que o Rei foi um ímpio e o Papa não Clemente, mas sim inclemente. Quid hic lectores dicturi sunt? Regem illum certe impium, Pontificem Inclementem fateantur necesse est. Minorem enim sententiam dicere non possint. É caso para muito advertir que este autor era francês.

19. Eu não seguirei senda tão áspera para defender como inculpados aos Templários, porque tenho outra mais segura, apesar de pouco pisada. Fiz notar anteriormente que numa circunstância muito importante à presente questão, estão os demais historiadores mal instruídos. Esta circunstância é a Sentença condenatória dos Templários, que quase geralmente os autores supõem pronunciada em toda a forma legal pelo Papa Clemente, e aprovada pelo Concílio de Viena; sendo assim, o que houve nessa, tanto da parte do Concílio como do Papa, mais determina o juízo a favor dos Templários que contra eles. O que houve da parte do Papa consta da sua própria Bula; o que houve da parte do Concílio, nos ensina o Abade Fleuri e o douto Estevan Balucio, autores a nenhum capítulo suspeitosos, ambos franceses e ambos versadíssimos na História Eclesiástica, a que se pode acrescentar que tendo sido Balucio bibliotecário de Mr. Colbert, teve à mão aquela riquíssima Biblioteca, onde só em manuscritos se contavam nove mil tomos, fontes inumeráveis para sacar puras as notícias, e tendo este autor escrito muito de propósito e largamente, em dois tomos em quarto, as Vidas dos Papas que tiveram a sua residência em Avignon, dos quais foi o primeiro Clemente Quinto, não se pode duvidar que examinasse com grande diligência quanto conduzia a um ponto tão importante da sua História.

20. O caso, pois, passou-se deste modo: congregado o Concílio de Viena, como um dos fins da sua convocação era a decisão sobre o negócio dos Templários, apresentaram-se nele todos os Autos feitos sobre aquela causa, e lidos todos, propôs o Papa aos Padres que proferissem o seu ditame. Eram mais de trezentos os Bispos congregados de todos os Reinos da Cristandade, a que se juntavam muitos Prelados menores. A resposta foi quase unânime, de que aqueles autos não eram suficientes para condenar os Templários, e que antes de dar a Sentença era preciso ouvi-los no Concílio. Disse que a resposta foi quase unânime, pois em tão grande número de Prelados só três franceses e um italiano discordaram. Isto passou-se nos princípios de Dezembro de 1311, e não se tratou mais desta matéria até à Primavera do ano seguinte, em que o Papa formou e fez ler no Concílio a Bula Ad Providam, em que decretou a extinção da Ordem dos Templários. Porém, como? Não por via de Sentença jurídica mas sim provisionalmente. Notem-se estas importantíssimas palavras da Bula: Eiusque Ordinis statum, habitum, atque nomen, non sine cordis amaritudine, & dolore, Sacro approbante Concilio, non per modus deffinitivae sententiae, cum eam super hoc secundum inquisitiones, & processus super his habitos, no possemus ferre de iure; sed per viam promissionis, seu ordinationis Apostolicae irrefragablili, & perpetuo valitura sustulimus sanctione. Confessa o Papa que em todos os Processos feitos não havia fundamento para condenar os Templários, segundo o Direito. O mesmo haviam manifestado directamente os Padres do Concílio, e assim na autoridade do Concílio, como na do Papa, mais estão a favor dos Templários que contra eles.

21. É verdade que o Papa, na mesma Bula, faz memória dos delitos dos Templários, porém, como não suficientemente provados e sim como divulgados pela fama e rumor públicos, as quais eram motivo razoável para o Decreto provisional da sua extinção, porque já difamada de tal modo aquela Religião, não podia ser muito útil à Cristandade. Nem por isto se fazia necessário para que o Papa, usando a plenitude de sua potestade, transferisse os bens dos Templários aos Cavaleiros de São João: bastava que os bens retirados das mãos destes revertessem com mais utilidade para a Igreja, do que possuídos por aqueles. E realmente este motivo deveria existir ainda antes que a causa dos Templários começasse a agitar-se, tomando por certo que aquela Religião havia decaído tanto da observância do seu Instituto e empregava, a maioria das vezes, tão mal as suas riquezas (isto é, num excessivo fausto, regalo e pompa) que, em caso de não a reformar severamente, convinha passar aquelas riquezas a melhores mãos.

22. Pelo que se vê, acerca da má fama dos Templários, sobre os crimes impostos que os seus inimigos gritaram tanto, deve-se advertir que essa fama nasceu inteiramente da acusação e procedimentos contra eles. Antes não havia tal má fama. E a prova concludente é o assombro com que todo o mundo ouviu aqueles crimes, quando em seguimento à prisão de todos os Templários de França se espalhou a notícia deles. Assim a má fama pôde nascer e propagar-se, sem culpa alguma dos Templários. Porém, apesar de padecerem inocentes aquela infâmia, uma vez que esta não se podia apagar por uma conveniente justificação da sua inocência aos olhos do mundo, o que muitas circunstâncias tinham então tornado impossível, a má fama pôde concorrer como motivo, pelo menos inadequado, para a sua extinção provisional.

23. Acrescentemos também que, posto que o Papa não procedesse à extinção como Juiz e sim como Soberano, possam ter intervido no caso alguns motivos (digamos assim) puramente políticos. Muitas vezes os Papas, a instâncias dos Príncipes, fazem coisas que não fariam se não houvessem tais instâncias. O Rei Filipe havia abraçado com suma firmeza o empenho de aniquilar aquela Religião. A pessoa do Papa, habitando em seus domínios, estava ao arbítrio dele. Quantos danos, não só para si mas ainda para toda a Igreja, podia temer de um Príncipe de tanto poder e nada escrupuloso, se não o satisfizesse no que procurava com tanto ardor? Os que, por ter lido a História Eclesiástica daqueles tempos, sabem o que ao Rei Filipe devia o Papa Clemente, como e sobre que preliminares cooperou aquele na exaltação deste Pontificado (matéria de que os historiadores italianos, espanhóis e de outras nações falam sem disfarce, nem mistério), se quiserem poderão acrescentar sobre aquelas circunstâncias outras reflexões, que eu para nada delas necessito, tendo mostrado que não obstante a inocência dos Templários pôde o Papa, sem obrar contra a Justiça, extinguir aquela Religião.

24. Já se deixa entender que a justificação que fazemos dos Templários só é aplicável ao comum da Religião. Entre os particulares, é possível que houvessem alguns muito maus, e também é crível que a malícia dos inimigos daquela Religião confundisse a iniquidade de alguns com a corrupção de todos.

Isto é quanto sobre a Causa dos Templários se me oferece para satisfazer a curiosidade de V. Sª a quem obedeci e com isto termino.

Do Louvor da Nova Milícia e dos Soldados do Templo – Por São Bernardo de Claraval (1130) Terça-feira, Set 24 2019 

DO LOUVOR  DA NOVA MILÍCIA  E DOS SOLDADOS DO TEMPLO

[DE LAUDE NOVAE MILITIAE AD MILITES TEMPLI]

 

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL A HUGO, MESTRE DOS CAVALEIROS TEMPLÁRIOS
(1130)

 

PRÓLOGO

 

Bernardo, abade de Claraval, mas somente de nome, a Hugo, cavaleiro de Jesus Cristo e grande mestre da milícia cristã, deseja-lhe que peleje um bom combate.[1]

Pediste-me uma, duas e três vezes, se não me engano, Hugo caríssimo, que fizesse um discurso de exortação para ti e os teus cavaleiros. E, como não me era permitido servir-me da lança contra os insultos dos inimigos, desejaste que, ao menos, empregasse a minha língua e o meu engenho contra eles, assegurando-me que te farias um pequeno socorro se animasse com a minha pena aos que não podia animar pelo exercício das armas. Confesso que por algum tempo diferi satisfazer-te, não porque tivesse pouco respeito à tarefa que me pediste, mas pelo temor de que me acusassem de demasiada precipitação ao empreendê-la com a minha imperícia costumeira invés de outro mais ilustrado que eu podendo-a cumprir com melhor sucesso, e assim, tal coisa muito necessária se fosse tratada por mim teria menos utilidade. Mas, enfim, vendo-me até agora frustrado em minha expectativa, resolvo-me a fazer o que puder, temendo que acreditem faltar-me mais a vontade que a capacidade. O leitor julgará se desenvolvo ou não a empresa; e, se o meu trabalho não agradar ou não bastar a alguém, não lamentarei muito por isso, visto ter feito o possível para satisfazer a tua vontade.

I.

LOUVA MUITO O ESTABELECIMENTO DA NOVA MILÍCIA E DÁ  EXCELENTES  CONSELHOS  A TODOS OS CAVALEIROS

1. Voa por todo o mundo a fama do novo género de milícia que se estabeleceu nesse mesmo país que o Filho de Deus, feito visível pela carne, honrou com a sua presença, para exterminar, no mesmo lugar donde então expulsou Ele os príncipes das trevas com a força do seu braço, os seus infelizes ministros, que são os filhos da infidelidade, dissipando-os pelo valor destes bravos cavaleiros, e assim fazendo no dia de hoje a redenção do seu povo arvorando, novamente, o troféu de nossa salvação na casa de David, seu servo. Este é, volto a dizer, um novo género de milícia não conhecida nos séculos passados; no qual dão-se ao mesmo tempo dois combates com um valor invencível: contra a carne e o sangue, e contra os espíritos de malícia que estão espalhados no ar. Na verdade, sabe-se não ser maravilhoso nem raro resistir generosamente a um inimigo corporal só com as forças do corpo. Tampouco é coisa extraordinária, apesar de louvável, fazer guerra aos vícios ou aos demónios com a virtude do espírito, pois vê-se todo o mundo cheio de monges que estão continuamente neste exercício. Mas, quem não se pasmará com uma coisa tão admirável e tão pouco usada como é a de ver um e outro num homem poderosamente armado destas duas espadas e nobremente revestido da faixa militar? Certamente que este soldado é intrépido e está defendido por todos os lados; o seu espírito acha-se armado com o capacete da fé, igual ao da couraça de ferro do seu corpo. Estando fortalecido com estas duas espécies de armas, não teme nem os demónios nem os homens. E digo mais: não teme a morte, posto que deseja morrer. Com efeito, que poderá temer, seja vivendo ou seja morrendo, quem encontra a sua vida em Jesus Cristo e a sua recompensa na morte? É certo que combate com confiança e com ardor por Jesus Cristo; porém, todavia deseja mais morrer e estar com Jesus Cristo, porque este é toda a sua felicidade. Eia, pois, valorosos cavaleiros, marchai com segurança, derrotai com uma coragem intrépida os inimigos da cruz de Jesus Cristo e estais certos de que nem a morte nem a vida poderão separar-vos da caridade de Deus que está em Jesus Cristo; em todos os perigos, pensai dentro de vós com frequência nestas palavras do Apóstolo: Vivamos ou morramos, somos de Deus (Rom. 14, 8). Oh! Com quanta glória regressam do combate estes vencedores! Oh! Com quanta felicidade morrem estes mártires na peleja! Regozija-te, campeão valoroso, de viver e de vencer no Senhor; porém, regozija-te mais de morrer e de ser unido ao Senhor. Sem dúvida que a tua vida é frutuosa e a tua vitória gloriosa; mas com muito justa razão a tua morte sagrada deve ser preferida a uma e a outra. Porque, se os que morrem no Senhor são bem-aventurados, quanto mais serão os que morrem pelo Senhor?

2. Na verdade, de qualquer maneira que se morra, seja no leito, seja na guerra, a morte dos santos será sempre preciosa diante de Deus; mas a que ocorre na guerra é tanto mais preciosa quanto maior é a glória que a acompanha. Oh! Que segurança há na vida que está acompanhada de uma consciência pura! Oh! Que segurança, repito, há na vida que espera a morte sem temor algum! Oh! Deseja-a com ânsia e recebe-a com devoção. Oh! Quão santa e segura é esta milícia e quão livre e isenta está deste duplo perigo em que se acham ordinariamente as gentes de guerra que não têm a Jesus Cristo por fim dos seus combates! Porque tantas vezes quantas as que entras na peleja, tu, que não combates senão por um motivo temporal, deves estar em temor de matar a teu inimigo enquanto corpo e a ti mesmo enquanto alma, ou então de seres morto por ele enquanto corpo e enquanto alma juntamente. Pois o perigo ou a vitória do cristão não se deve considerar pelo sucesso do combate, mas pelo afecto do coração. Se a causa daquele que peleja é justa, o seu êxito não pode ser mau, assim como o fim não pode ser bom se é defeituoso o seu motivo e torcida a sua intenção. Se, com a vontade de matar a teu inimigo, tu próprio ficas tolhido, morres fazendo-te homicida; e, se ficas vencedor e fazes perecer o teu contrário com o desígnio de triunfar dele e de vingar-te, vives homicida. Assim, quer morras, quer vivas, quer sejas vitorioso ou vencido, de nenhuma maneira te é vantajoso ser homicida. Desgraçada vitória a que te faz sucumbir ao vício ao mesmo tempo que triunfar dum homem. Em vão te glorias de haver triunfado de teu inimigo enquanto a cólera ou a soberba te reduzem a escravo. Há outros que matam a um homem sem paixão de vingança e sem cobiça de vencer, mas somente para livrar-se do perigo. Pelo que toca a mim, não ousaria aprovar esta vitória, porque dos dois males, o menor é morrer no corpo do que na alma. Donde de maneira alguma é permitido concluir que a alma morre com o corpo, pois só o pecado dá-lhe a morte, segundo estas palavras da Escritura: A alma que peca morrerá.

II.

DA MILÍCIA SECULAR

3. Qual é o fim e o fruto, não digo desta milícia, mas desta milícia do século, quando aquele que mata peca mortalmente e aquele que é morto perece por uma eternidade? Para servir-me das palavras do Apóstolo: Aquele que trabalha, deve trabalhar na esperança da colheita, e aquele que semeia grão, deve fazê-lo na esperança de gozar do seu fruto (I Cor. 9, 10). Mas dizei-me, valentes do século: que ilusão espantosa é esta e que insuportável furor combater com tantas fadigas e gastos sem outro salário que o da morte ou o do crime? Cobris os cavalos de belas gualdrapas de seda, forrais as couraças com ricas telas que pendem delas, pintais as lanças, os escudos e as selas, levais as bridas dos cavalos e as esporas cobertas de ouro, de prata e de pedraria, e com toda esta pompa brilhante precipitai-vos na morte com um furor vergonhoso e com uma estupidez que não tem a menor lucidez. São essas equipagens de guerra e já não adornos de mulheres? O quê? Pensais que a espada do inimigo terá respeito ao ouro que levais? Que preservará a vossa pedraria e não será capaz de passar essas belas telas de seda? Enfim, julgo, e sem duvida que o experimentais com bastante frequência, que há três coisas que são inteiramente necessárias a um combatente. É necessário que o prudente e valoroso cavaleiro esteja muito seguro de si para burlar os golpes do contrário, que tenha expedicidade e habilidade em mover-se para todos os lados, que esteja bem preparado para carregar sobre o inimigo. Vós fazeis tudo ao contrário: levais, à maneira das damas, grandes cabeleiras, que vos estorva ver em redor; embaraçais as pernas com os vossos largos vestidos, envolveis os braços e as delicadas mãos com grandes véus. Mas sobretudo isto, o que deve assustar mais a consciência dos combatentes é que ordinariamente empreende-se uma guerra muito perigosa por motivos muito ligeiros e de nenhuma importância. E, efectivamente, o que suscita os combates e as querelas entre vós não é, a maioria das vezes, senão um movimento de cólera pouco razoável, um certo apetite de vanglória ou o avaro desejo de possuir um pedaço de terra. Com semelhantes causas não há nenhuma segurança em matar a um homem ou em ser morto por ele.

III.

ELOGIA A NOVA MILÍCIA

4. Mas não é o mesmo a respeito dos cavaleiros de Jesus Cristo, pois combatem somente pelos interesses do seu Senhor, sem temor de incorrer em algum pecado pela morte dos seus inimigos nem em perigo nenhum pela sua própria, porque a morte que se dá ou recebe por amor de Jesus Cristo, muito longe de ser criminosa é digna de muita glória. Por uma parte, faz-se uma ganância para Jesus Cristo, e por outra, é o próprio Jesus Cristo que se adquire; porque este recebe gostoso a morte de seu inimigo que o desagravou e dá-se ainda mais gostoso ao seu fiel soldado para sua consolação. Assim, o soldado de Jesus Cristo mata seguro o seu inimigo e morre com maior segurança. Se morre, assim fá-lo bem; se mata, fá-lo por Jesus Cristo, porque não leva em vão a seu lado a espada, pois que é o ministro de Deus para fazer a vingança sobre os maus e defender a virtude dos bons. Certamente, quando mata a um malfeitor, não passa por um homicida, mas antes, se me é permitido falar assim, por um malicida; pelo justo vingador de Jesus Cristo na pessoa dos pecadores e pelo legítimo defensor dos cristãos. E quando o mesmo perde a vida, isto é para ele mais uma vantagem que uma perda. A morte, pois, que dá a seu inimigo é uma ganância para Jesus Cristo e a que recebe dele é a sua verdadeira felicidade. Um cristão se glorifica na morte dum pagão porque Jesus Cristo é glorificado nela, e a liberalidade do Rei dos reis faz-se manifesta na morte dum soldado cristão porque se eleva da Terra para remunerá-lo. À vista daquele, o justo se regozijará vendo a vingança executada nele. Deste dirão os homens: Ficará o justo sem recompensa? Não haverá um Deus que é Juiz sobre a Terra? (Ps. 57, 12) É certo que não se deveria exterminar os pagãos se houvesse algum outro meio de estorvar os maus tratos e as opressões violentas que exercem contra os cristãos. Porém é muito mais justo combatê-los agora que sofrer sempre a dominação dos pecadores sobre a cabeça dos justos para que os justos não venham a cometer a iniquidade com eles.

5. Com efeito, se de nenhum modo fosse permitido a um cristão fazer a guerra, porque o percursor do Salvador declarou no Evangelho que os soldados devem estar contentes com as suas pagas (Lc. 3, 14) e não proibiu todo o tipo de guerra? E se, como é certo, este é um emprego lícito para todos aqueles que Deus destinou a ele e não estão empenhados em outra profissão mais perfeita, quem, rogo-vos, a poderá exercer com mais vantagens que os nossos valorosos cavaleiros, que por força do seu braço e da sua coragem conservam generosamente a cidade de Sião como o baluarte mais forte de todo o cristianismo, a fim de que, escorraçados dele os inimigos da lei de Deus, as nações fiéis, que guardam a verdade, possam com toda a segurança entrar ali? Dispersem, pois, e dissipem com segurança aos infiéis que buscam a guerra e sejam exterminados aqueles que nos perturbam continuamente e arrojados da cidade do Salvador todos os ímpios que cometem a iniquidade, que anelam roubar os inestimáveis tesouros do povo cristão, de que a cidade de Jerusalém é sagrado depósito; profanar as coisas santas e dispor do santuário de Deus como se fosse herdade sua. Sejam vibrantes as duas espadas dos fiéis contra as sevícias dos inimigos a fim de destruir toda a altura que queira elevar-se contra a ciência de Deus, que é a fé dos cristãos, para que os gentios não digam um dia: Onde está o Deus destas nações? (Ps. 113, 2)

6. Então, expelidos os inimigos de sua casa, Ele mesmo voltará a sua herdade, da qual predisse em sua cólera: Vede que a vossa casa ficará desamparada como um deserto (Mt. 23, 38); e dela se queixa pela boca do seu profeta nestas vozes: Deixei minha casa e abandonei minha herdade (Jer. 12, 7). Cumprirá esta profecia de Jeremias: O Senhor resgatou seu povo e o libertou; e eles virão e se regozijarão sobre a montanha de Sião e gozarão com prazer dos bens do Senhor (Jer. 31, 11, 12). Alegra-te, oh Jerusalém!, e reconhece o tempo de tua visita. Regozijai e entoai cânticos de louvor, desertos de Jerusalém, porque Deus tem consolado a seu povo, tem livrado Jerusalém e tem preparado a força de seu braço santo à vista de todos os gentios. Virgem de Israel, estavas caída e não se encontrava ninguém que te levantasse. Levanta-te agora, filha de Sião, Virgem cativa e sai da poeira. Levanta-te, repito, e sobe sobre as mais altas eminências e olha o consolo e alegria que te vem da parte de teu Deus. Nunca mais te chamarão deserta e desamparada e não se dirá que o teu país está na última desolação, porque o Senhor agradou-se de ti e tua terra será habitada. Olha em tua volta e vê que todos estes povos se juntaram e vieram para teu consolo. Do lugar santo foi enviado este auxílio, e verdadeiramente, por meio destas tropas fiéis, se cumpre em teu favor esta antiga promessa, de que falou o profeta Isaías: Estabelecerei em ti a glória de todos os séculos passados e uma alegria que durará nas gerações futuras (Is. 60, 15, 16). Absorverás o leite das nações e serás alimentada do peito dos reis (Is. 66, 13). E noutra parte: Como uma mãe acaricia a seus filhos, do mesmo modo eu lhes mostrarei a minha ternura e tereis em Jerusalém um consolo sensível. Não veis como aprovam muitos testemunhos dos profetas a nossa nova milícia e nós próprios reconhecemos na cidade do Senhor a primeira luz das virtudes de tudo o que temos aprendido nas Escrituras santas? É necessário, com isto, ter um grande cuidado para que esta explicação literal em nada prejudique o sentido espiritual. De maneira que devemos esperar para a eternidade isto que atribuímos ao tempo presente tomando à letra as palavras dos profetas; para que as coisas que vimos não borrem em nossos espíritos o que cremos, nem o pouco que possuímos diminua as riquezas que esperamos, nem a segurança dos bens presentes nos faça perder a dos séculos futuros. E, em verdade, a glória temporal da cidade terrestre não destrói em nós os bens que nos estão reservados no Céu, mas pelo contrário, serve para estabelecê-los melhor, se, com tudo isso, não duvidarmos de maneira alguma de que esta Jerusalém aqui embaixo é a figura verdadeira daquela que nos Céus é a nossa mãe.

IV.

DA VIDA QUE TÊM OS CAVALEIROS TEMPLÁRIOS

7. É necessário agora que, para exemplo ou confusão de nossos soldados, digamos umas palavras da vida e dos costumes dos cavaleiros de Jesus Cristo e de que maneira se portam na guerra e em sua vida particular, a fim de fazer conhecer melhor a diferença que há entre a milícia de Deus e a do século. Primeiramente, num e noutro estado guarda-se perfeitamente a disciplina e a obediência é exacta, porque, segundo o testemunho da Escritura, o menino que vive sem disciplina, perecerá (Ecles. 22, 31). E também: É um crime de magia resistir, e pecado de idolatria não querer obedecer (I Reg. 15, 23). Vá-se e venha-se ao primeiro sinal da vontade do que manda, vista-se do que se dá e não se ouse buscar noutra parte nem o vestido nem o alimento. Não se veja mais que o supérfluo no sustento nem no vestido, contentando-se em satisfazer a pura necessidade. Todos vivem em comum numa sociedade agradável e modesta; em um mesmo acordo, moram todos juntos numa mesma casa, sem alguma propriedade particular, tendo um cuidado muito grande por conservar a unidade de espírito no laço da paz. Direis que toda esta multidão de pessoas não tem senão um só coração e uma só alma. Para tanto cada um procura não seguir a sua própria vontade, mas sim obedecer pontualmente ao mandato do superior. Nunca estão ociosos nem correm daqui para ali desejando satisfazer a sua curiosidade, e quando não estão em marcha, o que sucede raramente, estão sempre ocupados, para não comer ociosamente o seu pão, em refazer o que se rompeu nas suas armas ou nos seus hábitos, em reparar o que já está demasiado velho ou em reduzir à ordem o que está deslocado; enfim, em trabalhar em tudo aquilo que a vontade do grande mestre ou a comum necessidade prescreve. Entre eles não há excepção de pessoas; tem-se em consideração a palavra dada, e não a maior nobreza. Antecipam-se a honrar uns aos outros e levam as cargas do próximo, a fim de cumprir por este meio a lei de Jesus Cristo. Uma palavra insolente, uma acção inútil, uma risada imoderada, uma leve queixa ou o menor murmúrio, jamais ficam sem castigo neste lugar. O jogo de xadrez e dos dados é detestado aqui. A caça causa horror; não se tem gosto – como noutras partes – em caçar aves em voo. Detestam e têm horror aos cómicos e aos mágicos, aos contos de fábulas, às canções burlescas e a todos os tipos de espectáculos e de comédias, como vanidades e loucuras falsas. Levam os seus cabelos curtos, sabendo que, segundo o Apóstolo, é vergonhoso a um homem manter a sua cabeleira. Nunca se penteiam; deixam os seus cabelos inteiramente eriçados no ar, cobertos da poeira e negros pela cota de malha e pelos veementes ardores do sol[2].

8. Quando estão dispostos a entrar em guerra, fortificam-se por dentro com a fé e por fora com as armas de aço, e não douradas, para infundir, armados desta maneira, sem ornamentos preciosos, terror aos inimigos invés de excitar a sua avareza. Cuidam muito em ter bons cavalos, fortes e ligeiros, e não reparam que sejam de pêlo formoso ou ricamente arreados. Pensam mais em combater que em apresentar-se com fausto e pompa, e, aspirando à vitória e não à vanglória, procuram fazer-se mais respeitar que admirar pelos seus inimigos. Ademais nunca marcham em confusão e com impetuosidade, nem se precipitam com ligeireza nos perigos, mas sim guardam sempre o seu posto com precaução e prudência imagináveis. Põem-se em batalha com a mais bela ordem, segundo o que está escrito do povo de Deus: Os verdadeiros israelitas marcham para a batalha com um espírito pacífico. Mas, chegado o momento, põem então de lado toda a sua mansidão ordinária, como se dissessem: Não é certo, Senhor, que aborreço a todos os que te aborrecem e que me consumo de cólera contra os teus inimigos? (Ps. 138, 21) Lançam-se como leões sobre os seus contrários, olhando as tropas inimigas como uns rebanhos de ovelhas; e, ainda que se poucos em número, não temem, de maneira alguma, a multidão dos seus soldados nem a sua crueldade inteiramente bárbara. Igualmente, estão ensinados a não presumir nada de suas próprias forças, mas sim a esperar tudo do poder do Deus dos exércitos, para quem é fácil, segundo a sentença do generoso Macabeo, entregar as fileiras numerosas nas mãos dum curto punhado de pessoas, não havendo diferença nenhuma, para o Deus do Céu, em livrar o seu povo com muita ou pouca gente (Mac. 3, 18, 19). Porque a vitória da guerra não vem do grande número de soldados, mas sim do favor do Céu. Isto têm-no experimentado frequentemente, ao ponto de muitas vezes haver-se visto um milhar de homens posto em fuga quase por só um, e dez mil por dois somente. Enfim, vê-se todavia no dia de hoje, por uma providência singular e admirável, que são mais mansos que os cordeiros e mais ferozes que os leões. De maneira que, em boa fé, não acerto em dizer se se deve qualificá-los com o nome de monges ou de cavaleiros, ou se não será melhor chamá-los com um e outro nome, posto que têm tanto a mansidão dos monges como o esforço dos soldados. Mas que se pode dizer aqui senão que é o próprio Deus o autor destas maravilhas que vemos com pasmo diante de nossos olhos? Foi Deus, volto a dizer, quem escolheu para si tais servos e os juntou, desde as extremidades da Terra, dentre todos os mais valentes de Israel, para guardar fiel e animosamente o leito do verdadeiro Salomão, ou seja, o santo sepulcro, com a força de suas armas e com a sua destreza nos combates.

V.

DO TEMPLO DE JERUSALÉM

9. Há um templo na cidade de Jerusalém no qual todos estes cavaleiros habitam conjuntamente, que não é, na verdade, tão magnífico em sua estrutura como o famoso e antigo templo de Salomão, porém tampouco nada cedendo quanto ao esplendor de sua glória. Porque toda a magnificência do primeiro consistia unicamente na matéria corruptível do ouro e da prata com que estava enriquecido, na união maravilhosa das pedras e na diversidade das madeiras com que estava fabricado. Mas a grande piedade e a excelente maneira de vida dos que habitam este faz todo o seu ornamento. Aquele era admirável pela variedade das suas cores, este é venerável pelas muitas virtudes e acções santas que se praticam nele. Também a santidade é o verdadeiro ornamento da casa de Deus (Ps. 92, 51), o qual não se agradou tanto com a polidez dos mármores como do arreigo aos costumes e ama as almas puras muito mais que as paredes douradas. Não quero dizer com tudo isto que a fachada deste templo não esteja ornada; mas o está com excelentes armas, não com pedras preciosas. Invés das coroas de ouro, com que estavam cobertos os muros do antigo, os deste estão carregados de escudos impenetráveis que cobrem todas as partes. E esta casa está provida de bons arneses, de selas de cavalos, de freios e de lanças em lugar dos candelabros, incensórios e vasos de que estava cheia a dos antigos sacerdotes. Todas estas coisas fazem ver claramente que os nossos cavaleiros estão animados do mesmo zelo pela casa de Deus que manifestou noutro tempo o grande Capitão dos exércitos quando, animado de cólera e a mão armada não de ferro, mas de um açoite de cordas, entrou no templo e expulsou dele os vendedores, voltou as mesas dos traficantes e atirou ao chão todas as tendas dos que vendiam pombas (Jo. 2, 15), julgando que era uma coisa inteiramente indigna profanar a casa da oração com estes tipos de negócios e tráficos temporais. Assim, os nossos piedosos cavaleiros, animados por este exemplo de seu Rei e vendo que os lugares santos estavam manchados pelos infiéis com muito maior indignidade e de uma maneira muito mais insuportável que pelos antigos marcadores do templo, vieram estabelecer-se na casa da santidade com os seus cavalos e armas. E, depois de haverem expulsado desta morada e dos demais santos lugares toda a infâmia e todos os horrores de uma tirana infidelidade, desempenham noite e dia neste mesmo lugar ocupações úteis e honestas. Honram com uma santa emulação o templo de Deus pelos serviços que fazem aqui assiduamente e com sinceridade de coração, sacrificando todos os dias com uma devoção constante não a carne das bestas, ao modo dos antigos judeus, mas sim as vítimas verdadeiramente pacíficas de uma caridade fraterna, de uma devota obediência, de uma pobreza voluntária.

10. Estas maravilhas que se passam em Jerusalém animam a todos os povos da Terra. As ilhas escutam estas novas e os povos mais remotos entusiasmam-se com elas; e de todos os lados vêm estabelecer-se aqui, do Oriente e do Ocidente, como uma torrente que alegra a cidade de Deus. Porém, o mais agradável e mais útil é que entre essa grande multidão de pessoas que vêm a estes lugares, vereis muito poucos que não sejam malfeitores, ímpios, ladrões, sacrílegos, homicidas, perjuros ou adúlteros. De maneira que assim como a sua viagem produz um duplo bem, assim também resulta dele uma dupla alegria, pois se regozijam por sua partida os da país donde saem e por sua chegada estes a quem vêm socorrê-los com as suas pessoas. Assim, são de utilidade a uns e a outros; a estes, apresentando-se para defendê-los, e àqueles, cessando de oprimi-los. Por um lado, o Egipto enche-se de alegria pela sua partida; por outro, Sião e as filhas de Judá enchem-se de gozo pela protecção que recebem com a sua chegada. O Egipto se gloria de estar livre de suas mãos e Sião vê-se em maior segurança pela força de seus braços. Aquele perde com agrado os que o roubavam com crueldade e esta recebe alegre os que a vêm defender com fidelidade, sendo uma mesma a causa da desolação saudável do Egipto e do doce consolo de Jerusalém[3]. Assim sabe Jesus Cristo vingar-se perfeitamente dos seus inimigos; assim costumava triunfar não só deles mesmos mas também por eles mesmos, tanto mais gloriosamente quanto o faz mais poderosamente. No qual não se encontra menos prazer que proveito, pois começa a ter por protectores aos mesmos que por tanto tempo lhe haviam sido opostos e faz um fiel soldado de seu próprio inimigo, como noutro tempo fez dum Saulo perseguidor um Paulo predicador (Act. 9). Por isso, não me admiro de que, segundo a expressão do Salvador, a corte celestial manifeste mais alegria pela conversão dum pecador que faz penitência do que pela perseverança de muitos justos que não têm necessidade dela. Porque a conversão dum pecador e dum ímpio é para muitos mais vantajosa que a nociva má vida que tinham antes.

11. Deus te salve, pois, oh cidade santa!, que o Filho do Altíssimo santificou para sua morada a fim de obrar em ti e por ti a salvação das nações da Terra. Deus te salve, cidade do grande Rei, na qual se manifestaram ao mundo tão novos e tão agradáveis prodígios em todos os tempos, desde o seu princípio. Deus te salve, soberana das nações, princesa das províncias, possessão dos patriarcas, mãe dos profetas e dos apóstolos, origem da fé, glória e honra de todo o povo cristão. Deus permitiu que fosses facilmente combatida a fim de que tu mesma fosses para os nossos valentes guerreiros ocasião de salvação, como também de esforço e de valor. Deus te salve, terra de promissão, que, havendo noutro tempo manado leite e mel em benefício de teus primeiros habitantes, apresentas agora a todos os povos do universo os alimentos da vida, os remédios da salvação. Terra, volto a dizer, boa e excelentíssima, que, recebendo em teu seio fecundo o grão celestial da abundância do coração paterno, produziste desta divina semente um número acrescido de santos mártires; que, como um torrão mais fértil que todas as terras, não tens cessado de tornar fiéis já o trigésimo, já o sexagésimo, já o centésimo fruto. Donde acontece que todos quantos te visitaram, gostosamente saciados e ricamente cheios da grande abundância da tua doçura, a anunciam por todo o mundo e não falam a quantos não te tenham visto, senão da magnificência de tua glória e das maravilhas que se fazem em ti. Sim, cidade de Deus, de ti dizem-se coisas que são inteiramente gloriosas. Mas digamos agora nós mesmos também alguma coisa destas grandes delícias de que gozas em louvor e glória de teu nome.

VI.

DA CIDADE DE BELÉM

12. Belém, que significa casa do pão, é a primeira que se apresenta para o sustento das almas santas; na qual primeiramente este pão vivo que descendeu do céu se fez visível depois da Virgem Maria lhe dar a luz do mundo. Ali se mostra o casebre que serviu aos piedosos animais, e neste casebre o feno que foi produzido no prado virginal, a fim de que, ao menos por este meio, o boi reconheça o seu Dono, e o asno o casebre de seu Senhor. Com efeito, toda a carne é feno e toda a sua glória é como a flor do feno (Is. 40, 6). Mas porque, não compreendendo o homem a honra em que havia sido criado (Ps. 48, 13), foi justamente comparado aos animais irracionais e feito semelhante a eles, o Verbo, que era o pão dos anjos, fez-se o manjar dos animais, a fim de quem houvesse deixado de nutrir-se do pão do Verbo tivesse o feno da carne para comê-la até que, restabelecido em sua primeira dignidade pelo Homem Deus e trocado, pela segunda vez, de besta em homem, pudesse dizer com São Paulo: Apesar de conhecermos a Jesus Cristo segundo a carne, já não o conhecemos desta maneira (2 Cor. 5, 16). Mas não creio que alguém possa compreender verdadeiramente esta linguagem senão aquele que aprendeu com São Pedro da boca da Verdade: As palavras que vos digo são espírito e vida e a carne de nada serve (Jo. 6, 64). Certamente, o que encontrou a vida nas palavras de Jesus Cristo, não cuida já da carne e é seguramente do número dos bem-aventurados que não viram mas creram (Jo. 20, 29). Só os pequenos infantes têm necessidade do leite, e só às bestas é necessário o feno. Mas o que não peca pela boca é um varão perfeito e capaz de um alimento mais sólido e come o pão do Verbo sem ofensa, ainda que com o suor de seu rosto. Predica também com segurança e sem escândalo a Sabedoria de Deus, porém somente aos perfeitos, distribuindo as coisas espirituais aos espirituais e não propondo senão a Jesus Cristo crucificado aos infantes e às bestas, mas com muita precaução e segundo a sua capacidade. Com tudo isso, não é mais que um só e mesmo manjar o que, tendo vindo dos pastos celestiais, a besta rumina e o homem come com suavidade; o que nutre aos imperfeitos e fortifica aos perfeitos.

VII.

DA CIDADE DE NAZARÉ

13. Vê-se também perto deste lugar a cidade de Nazaré, que significa flor, onde o Verbo, que havia nascido em Belém, foi nutrido como um fruto em flor para que o odor desta flor precedesse ao sabor do paladar e o seu santo licor passasse das narinas dos profetas às faces dos apóstolos; o qual, contentando-se os judeus em sentir a sua fragrância muito ligeiramente, saciasse inteiramente aos cristãos com as excelências do seu gosto. Com tudo isso, Natanael havia sentido que o odor desta flor era mil vezes mais suave que os mais excelentes aromas, o que o fazia dizer: É possível que de Nazaré possa vir coisa boa? (Jo. 1, 46) Mas, não satisfeito em sentir somente a fragrância deste odor, seguiu com grande vontade a São Filipe logo que lhe deu esta resposta: Vem e vê (Gén. 27, 27). De maneira que, encontrando-se cheio deste perfume maravilhosamente agradável e pelo atractivo desta fragrância, apaixonado do sabor, procurou, sendo ela mesma o seu guia, chegar quanto antes ao gozo do fruto, desejando experimentar com mais abundância o que não havia sentido senão de passagem e apreciar em pessoa o que noutro tempo não havia ouvido senão ligeiramente. Todavia vejamos se o bom olfacto de Isaac não nos quis vaticinar algo semelhante logo que sentiu a fragrância das vestes de Jacob. A Escritura fala assim: No instante que sentiu a fragrância das suas vestes (de Jacob, sem dúvida): Eis aí, disse, o odor de meu filho como o odor de um campo fértil, a quem deu a sua bênção o Senhor (Gén. 27, 27). Sentiu a fragrância da veste, mas não reconheceu a pessoa que a levava, e, havendo sentido grande prazer no odor que saía dessa veste como se fosse de uma flor muito perfumada, não apreciou a doçura do fruto interior ao ficar privado por algum tempo do conhecimento do mistério e de seu Filho de eleição. Mas, a quem se dirige tudo isto? A veste é o Espírito, e a letra, a carne do Verbo. Os judeus não conhecem ainda agora o Verbo na carne nem a Divindade no homem, nem até ao presente conseguiram descobrir o sentido espiritual que está encerrado sob o véu da letra. E, apalpando por fora a pelugem do cabrito que lhes expressou a semelhança do Filho Maior, ou seja, do primeiro e antigo pecador, todavia não puderam chegar ao conhecimento da verdade pura. Certamente, Aquele que veio ao mundo para desfazer o pecado e não para cometê-lo, não se fez visível em carne de pecado, mas somente à semelhança da carne de pecado; para que, como Ele mesmo explicou, aqueles que não vêem, vejam, e aqueles que vêem, caiam na cegueira (Jo. 9, 39). Enganado, pois, o profeta por esta semelhança e estando cego ainda no dia de hoje, dá a sua bênção aquele que não conhece quando não reconhece pelos milagres o que as Escrituras Santas lhe desvelam; e, tocando-lhe com as suas próprias mãos, atando-o, açoitando-o e esbofeteando-o, permanece todavia na ignorância, ainda que haja ressuscitado. Com efeito, se o tivessem conhecido, nunca teriam crucificado ao Senhor da glória (I Cor. 2, 8). Discorramos agora brevemente pelos demais lugares santos, e já que não podemos visitar todos, visitemos alguns, falando sucintamente dos mais consideráveis e insignes, posto que não estamos em condições de admirar cada um em particular.

VIII.

DO MONTE DAS OLIVEIRAS E DO VALE DE JOSAFAT

14. Sobe-se a montanha das Oliveiras e desce-se ao vale de Josafat a fim de que penseis de tal maneira nas riquezas da divina misericórdia, para não perderdes a memória dos rigores do último juízo. Porque, se bem que Deus esteja disposto a perdoar pela grandeza infinita de sua clemência, os seus juízos, com tudo isso, são um abismo infinitamente profundo que nos deve fazer conhecer que é extremamente terrível nos desígnios que tem sobre os filhos dos homens. O próprio David assinala-nos o monte das Oliveiras, quando diz: Senhor, salvarás os homens e as bestas segundo tenhas, meu Deus, multiplicado a tua misericórdia, e tampouco deixando de falar-nos no mesmo salmo do vale do juízo universal nestes termos: Não venha até mim o pé da soberba; e a mão do pecador não me lance fora do meu posto (Ps. 35, 7, 12). E confessa que tem um horror extremo a este precipício quando fala e ora desta maneira noutro lugar: Trespassa a minha carne com o sentimento de teu temor, pois estou possuído de espanto com a ideia de teus juízos (Ps. 118, 120). O soberbo cai e faz-se em pedaços neste vale; mas o humilde desce a ele e não corre perigo. O soberbo procura desculpas para o seu pecado, e o humilde acusa a si mesmo, sabendo que Deus não julga duas vezes uma mesma coisa e que, se julgarmos a nós mesmos, não seremos julgados outra vez (I Cor. 11, 31).

15. Certamente, não considerando o soberbo que coisa terrível é cair nas mãos de Deus Vivo, procura facilmente palavras de malícia para alegar desculpas aos seus pecados. E, na verdade, é uma malícia extrema não teres pena de ti mesmo e desejar a confissão, que é o único meio que te resta depois da culpa, encerrando em teu seio o fogo invés de sacudi-lo daí, não dando ouvidos aos conselhos do Sábio, que te está dizendo: Tem pena de tua alma, procurando agradar a Deus (Ecle. 30, 24). E, como é que aquele que é mau para si mesmo pode ser bom para outro? Agora vai-se julgar o mundo; agora o príncipe deste mundo vai ser lançado fora (Jo. 12, 31). Ou seja, fora de teu coração, se é que, humilhando-te, julgas a ti mesmo. O juízo do Céu se fará quando o teu próprio Céu for chamado de alto e a Terra de baixo, para fazer a separação de seu povo (Ps. 49, 4). É de temer que neste juízo sejas precipitado com o príncipe das trevas e seus anjos, se ainda não te tiveres julgado. Porque o homem espiritual que julga todas as coisas não será julgado por ninguém (I Cor. 2, 15). Também por isto mesmo o juízo começa pela casa de Deus, a fim de que, quando chegar o Juiz, encontre julgados todos os que lhe são conhecidos e nada mais tenha a fazer com eles quando forem julgados os que não estão no trabalho dos homens nem são afligidos pelos homens (Ps. 72, 5).

IX.

DO JORDÃO

16. Com que alegria o Jordão recebe os cristãos depois de ter a glória de ter sido consagrado pelo baptismo de Jesus Cristo! Seguramente, o leproso da Síria afastou-se muito da verdade quando preferiu não sei que águas de Damasco às de Israel (4 Reg. 5, 12), tendo dado, devoto, o nosso Jordão tantas provas de obediência às ordens de Deus quando, detendo o seu curso por um milagre inteiramente evidente, ficou seco a fim de dar livre passagem quer ao profeta Elias, quer a seu discípulo Eliseo (4 Reg. 2), quer, para dizer alguma coisa de mais antigo, ao grande capitão Josué e a todo o povo que o acompanhava (Jos. 3). Enfim, qual de todos os rios foi mais louvado que este, que recebeu uma consagração particularíssima pela presença sensível e manifesta da Santíssima Trindade? O Pai fez ouvir aqui a sua voz, o Espírito Santo fez-se ver aqui sob a figura de uma pomba, e o Filho foi baptizado aqui em sua própria pessoa. Com grande razão, pois, todos os cristãos experimentam em suas almas, obedecendo a Jesus Cristo, esta mesma virtude que o sírio Naamán sentiu em seu corpo (4 Reg. 5, 14), ao seguir o conselho do profeta.

X.

DO CALVÁRIO

17. Ao sair de Jerusalém vai-se ao lugar do Calvário, onde o verdadeiro Eliseo, depois de ter servido de riso aos meninos insensatos, mereceu o doce riso da glória eterna para aqueles de quem disse: Vede-me aqui e aos meninos que o Senhor me deu (Is. 8, 18). Meninos inteiramente bons aos quais, em oposição aos outros maliciosos, o salmista convida a cantar os louvores de Deus por estas palavras: Louvai, meninos, louvai o seu santo Nome (Ps. 112, 1), a fim de que este louvor se faça perfeito na boca dos santos infantes e daqueles que ainda mamam do peito de suas mães, visto que ele tem faltado na dos invejosos ingratos, de quem se queixa o Senhor nestas sentidas palavras do profeta: Alimentei e louvei filhos, mas eles me desprezaram (Is. 1, 2). Subiu, pois, à cruz o nosso Calvo místico e foi exposto ao riso do mundo pela salvação do mundo. E, trabalhando para apagar o pecado, o rosto e a fronte descobertos, não teve dificuldade em expor-se não somente à vergonha mas também ao suplício de uma morte tão ignominiosa como cruel para livrar-nos do opróbrio e restabelecer-nos na glória eterna. Não é isto maravilhoso? E de que deveria envergonhar-se quem de tal maneira lavou-nos de nossos pecados, que foi não como um água que arrasta as sujidades e as detém em si, mas sim como um raio de sol que as disseca conservando a sua pureza? Assim também é a Sabedoria de Deus, alcançando a todas as partes por causa da sua pureza singular.

XI.

DO SANTO SEPULCRO

18. Dentre estes santos e amáveis lugares o sepulcro tem, de certa maneira, a primazia e aí se sentem não sei que movimentos da maior devoção no lugar em que Nosso Senhor repousou depois de sua morte, mais que em todos os outros onde esteve durante a sua vida. Até a memória da sua morte move-nos, com mais eficácia que a da sua vida, aos sentimentos de piedade e devoção. Julgo que isso vem da doçura que aparece naquela, enquanto nesta não se vê senão austeridade. De maneira que o repouso do sono é mais agradável à fraqueza humana que o trabalho de uma vida laboriosa, e a segurança de uma boa morte mais que a rectidão de vida. A vida de Jesus Cristo foi-me dada para modelo da minha, mas a sua morte terá sido o resgate da morte que eu havia merecido. Aquela tem instruído a minha vida, esta destruído a minha morte. A sua vida, na verdade, foi penosa, porém a sua morte preciosa; e uma e outra têm-me sido inteiramente necessárias. Com efeito, de que pode servir a morte de Jesus Cristo a quem tem uma má vida, ou a vida do mesmo Salvador a quem morre em estado de condenação? Ainda pensais que a morte de Jesus Cristo liberta da morte eterna aos que vivem aqui embaixo em pecado até à morte? Ou que a santidade de sua vida libertou do cativeiro os santos padres antes de Nosso Senhor? Não está escrito: Que homem viverá sem ver a morte e quem libertará a sua alma da potência do inferno? (Ps. 88, 49) Mas como ambas as coisas nos são igualmente necessárias, ou seja, o viver piedosamente e o morrer seguros de nossa salvação, foi-nos ensinado a viver com a sua vida e a morrer com segurança com a sua morte. Isto porque morreu para ressuscitar e haver dado aos que morrem uma esperança certa na sua ressurreição. Porém concedeu ainda um terceiro benefício, sem o qual todos os outros de nada serviriam: o de perdoar os pecados. Pois, no que toca à verdadeira e soberana bem-aventurança, quem aproveitaria qualquer rectitude ou longitude da vida mesmo que só estivesse manchado do pecado original? O pecado antecedeu para que a morte o seguisse; se o homem o tivesse evitado, jamais teria apreciado a morte.

19. Pecando, pois, perdeu a vida e encontrou a morte, porque não somente Deus o havia assim predito, mas porque é uma coisa muito justa que o homem morra se pecar. Porque, haverá coisa mais conforme com a justiça do que a pena do talião? Pois, sendo Deus a vida da alma, como esta é a vida do corpo, é justo que, havendo querido perder o princípio de sua vida pecando mortalmente, perdesse também, para seu pesar, o poder de dar a vida a seu corpo. Voluntariamente desprezou a vida não querendo viver mais; é justo, pois, que não possa dá-la mais a quem queira e nem da maneira que queira. A alma não quis deixar-se governar pela bondade de Deus; o seu corpo, pois, não será mais governado por ela. Se ela não obedeceu ao seu superior, porque há-de mandar no seu inferior? Posto que o Criador encontre a sua criatura em rebelião, é então justo que a alma encontre resistência na carne, que não existe senão para servi-la. Tornado o homem transgressor da lei de Deus, merece justamente encontrar em seus membros uma lei que resista à lei do seu espírito e que o reduza a escravo sob a lei do pecado (Rom. 7, 23). O pecado, como diz a Escritura, faz a separação entre Deus e nós mesmos (Is. 59, 2); portanto, faz a morte também a separação entre o nosso corpo e nós mesmos. Como a alma não se pode separar de Deus senão pelo pecado, tampouco o corpo pode ser separado dela senão pela morte. Para quê queixar-se do rigor do castigo, visto só sofrer o vassalo que ousou investir contra o seu Senhor? Certamente que nada é mais congruente que produzir a morte outra morte: a espiritual engendra a corporal; a criminal, a penal; a voluntária, a necessária.

20. Assim, havendo sido o homem condenado a estas duas mortes nas duas partes que o compõem, uma espiritual e voluntária, e outra corporal e necessária, o Homem Deus, por sua benignidade e poder, trouxe o remédio para ambas só com a sua morte corporal e voluntária e condenou as outras duas que merecemos, unicamente porque Ele quis sofrer por amor a nós. E isto se fez com toda a justiça possível, porque, tendo sido uma destas mortes o fruto do pecado e a outra a sua pena, Jesus Cristo, tomando sobre si a pena sem ter cometido o pecado, ofereceu-nos justamente a vida e a santidade somente pela morte que quis sofrer em seu próprio corpo. Com efeito, se não houvesse padecido corporalmente não teria satisfeito a nossa dívida; e, se não houvesse morrido voluntariamente, não teria tido mérito algum a sua morte, pois, como já dissemos, se o pecado é fruto da morte, e a morte a dívida do pecado, assumindo Jesus Cristo o pecado e morrendo pelos pecadores, torna-se Ele o fruto da morte ficando a dívida inteiramente paga.

21. Mas como sabemos que Jesus Cristo tem o poder de redimir os pecados? Certamente que nós o sabemos, porque é Deus e porque pode tudo o que quer. Mas donde conhecemos que é Deus? Os seus milagres são uma prova convincente. Pois, sem falar dos oráculos dos profetas e do testemunho que nos foi dado pela voz do Pai, que se fez com magnificência ouvir desde o Céu por meio da glória brilhante que apareceu sobre o monte Tabor, fez coisas que são impossíveis a outro. E, se Deus está por nós, quem poderá algo contra nós? Se Deus nos justifica, quem poderá condenar-nos? Se é a Ele mesmo e não a outro que confessamos as nossas culpas todos os dias, dizendo-lhe: Só contra Ti pequei (Ps. 50, 6), quem melhor ou, antes, quem outro poderá condenar-nos o pecado que foi cometido contra Ele? Não o poderá Ele fazer, podendo todas as coisas? Como? Está em meu poder, se quiser, perdoar o que se fez contra mim; e Deus não poderá redimir o que se fez contra Ele? Se é Todo-Poderoso para redimir os pecados e só Ele pode redimi-los, visto terem sido cometidos contra Ele, certamente é bem-aventurado aquele a quem não imputa o seu pecado. Assim, veis claramente como Jesus Cristo pôde perdoar os pecados pelo poder de sua divindade?

22. Mas, agora, quem duvidará de sua vontade? Pensais que aquele Senhor que se revestiu de nossa carne e que quis padecer a nossa morte poderá recusar-nos a sua justiça? Incarnou-se voluntariamente, padeceu voluntariamente, foi crucificado porque quis, e só retirará de nós a sua justiça? Não! Ao que nos consta manifestou-se-nos por querer por sua humanidade conforme o poder de sua divindade. Mas, donde retiramos nós esta certeza de que destruiu a morte? De a ter sofrido sem a haver merecido. E com que razão se nos pediria segunda vez uma dívida que Ele mesmo pagou por nós? Aquele mesmo Senhor, que apagou a dívida do pecado, comunicando-nos a sua justiça, satisfez plenamente a obrigação da morte e deu-nos a vida. Assim, a vida retornou pela própria morte e a justiça foi restabelecida pela destruição do pecado, posto que, pela morte de Jesus Cristo, a morte foi rechaçada tendo-nos sido imputada a sua justiça. Mas como pôde Ele morrer se era Deus? A resposta é muito fácil: porque também era homem. E como pode satisfazer a outro a morte deste homem? Pode muito bem, porque também era justo. Verdadeiramente, porque era homem pôde morrer, e porque era justo não morreu inutilmente. É certo que um homem manchado pelo pecado não pode satisfazer por outro a obrigação da morte, visto que cada um morre por si mesmo. Mas aquele que não está obrigado a morrer pelo seu próprio crime, haverá de morrer em vão por outro? Certamente que é a coisa mais indigna que morra aquele que não mereceu a morte, como é a coisa mais justa que viva este, por quem aquele deu a vida.

23. Mas que justiça há, direis, em o inocente morrer pelo culpado? Confesso que isto não é justiça, mas antes misericórdia. Com efeito, se fosse justiça não morreria gratuitamente, mas por obrigação; e, se fosse por obrigação, na verdade, morreria, mas aquele por quem morria, não viveria. E se não há justiça nisto, tampouco há nada contra a justiça; doutra maneira, a justiça e a misericórdia não poderiam achar-se numa mesma pessoa. Mas ainda que um justo possa satisfazer sem injustiça por um pecador, como pode um só satisfazer por muitos? Parece ser bastante, para guardar a justiça, que a morte de um só dê só a outro a vida. Escuta a resposta do Apóstolo: Assim como pelo pecado de um só caíram na condenação todos os homens, assim, pela justiça de um só, os homens recebem a justificação da vida. Pois do mesmo modo que muitos se fizeram pecadores pela desobediência de um só homem, assim muitos serão feitos justos pela obediência de um só (Rom. 5, 18, 19). Mas pode restituir um a justiça a muitos, porém não a vida? Sem embargo que o Apóstolo disse: A morte entrou por um homem no mundo, e a vida por outro homem; e assim como todos morreram em Adão, assim também todos serão vivificados em Jesus Cristo (I Cor. 15, 21, 22). Como? Fazendo pecado um só, todos se fizeram culpados; a obediência de outro não poderá ser aproveitada por mais que um só? É possível que a justiça de Deus seja menos poderosa a socorrer do que a condenar? Ou que Adão tenha tido mais poder para o mal do que Jesus Cristo para o bem? O pecado de Adão me será imputado, a justiça de Jesus Cristo não me servirá de nada? Perdi-me na desobediência do primeiro, e não me restabelecerei na obediência do segundo?

24. Porém há muitas razões, direis, para que todos nós contraiamos a culpa de Adão, visto que todos pecámos nele, quando todos estávamos encerrados nele quando pecou, e todos fomos engendrados da sua carne pela concupiscência da própria carne. Mas quem duvida que o nascimento segundo o espírito que tivemos de Deus não é abundância mais íntima que aquele que tivemos de Adão segundo a carne, sendo certo que estivemos em Jesus Cristo segundo este espírito muito antes que estivéssemos em Adão segundo a carne? E com tal confiemos ser do número ditoso daqueles de quem o Apóstolo, falando do Pai a respeito de seu Filho, disse: O qual nos elegeu Nele antes da criação do Mundo! (Efes. 1, 4) O Evangelista São João também dá testemunho do nascimento que recebemos de Deus quando fala daqueles que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim do próprio Deus (Jo. 1, 13). E também na sua primeira carta: O nascido de Deus não peca, porque a geração celeste conserva-o (I Jo. 3, 9). Mas a concupiscência carnal, direis, testifica que tem origem na carne, e o pecado que sentimos nesta carne prova manifestamente que, segundo a carne, descendemos da carne de um pecador. Concordo com esta verdade, mas estas geração espiritual faz-se sentir no coração, e não na carne, e somente os daquela podem dizer com São Paulo: Nós temos o sentido e o espírito de Jesus Cristo (I Cor. 2, 16). E no qual conhecem também que fizeram um progresso tão grande, que não temem dizer com toda a confiança possível: O seu Espírito dá testemunho a nosso espírito de que somos filhos de Deus (Rom. 8, 16). E porque: Nós não temos recebido o espírito deste mundo, mas sim o Espírito que é de Deus, para conhecer os dons que nos tem dado (I Cor. 2, 12). Pelo Espírito que é de Deus difunde-se em nossos corações a caridade, do mesmo modo que pela carne, que vem de Adão, se insinua e derrama em nossos membros a concupiscência. E assim como esta, que se retira do pai dos corpos, nunca se afasta da carne durante esta vida mortal, também a caridade, que vem do Pai dos espíritos, nunca se afasta da intenção dos filhos que estão na perfeição.

25. Se, pois, nascemos em Deus e somos eleitos em Jesus Cristo, que haverá em que a geração humana e terrena seja mais poderosa para danificar que a divina e celestial para fazer-nos bem, em que a extracção da carne supere a eleição de Deus e em que a concupiscência carnal, comunicada no tempo, prescreva contra o seu eterno desígnio? Porém se a morte aconteceu por um homem, porque a vida não nos será dada por outro homem, e outro homem tal como Jesus Cristo? Se todos temos morrido em Adão, porque não seremos todos vivificados em Jesus Cristo, e de uma maneira muito mais eficaz? Enfim, o delito não é o mesmo que a graça; porque temos sido condenados no juízo de Deus por um só pecado, enquanto somos justificados pela graça depois de muitos pecados (Rom. 5, 15, 16). É, pois, verdade que Jesus Cristo pôde redimir os pecados, porque é Deus, e pôde morrer, porque é homem; que, morrendo, tenha podido satisfazer a obrigação que tínhamos de morrer, porque é justo e, finalmente, que só Ele tenha sido capaz de merecer a todos os homens a justiça e a vida, visto que de um só homem procedem todos os homens, assim como o pecado e a morte.

26. Mas também foi inteiramente necessário que este Homem, retardando a sua morte, quisesse viver por algum tempo entre os homens, a fim de que, pelas instruções frequentes e cheias de verdade, os elevasse ao conhecimento das coisas invisíveis, os fortificasse na fé por suas obras milagrosas e os formasse nos bons costumes pela santidade das suas acções. Que faltou a este Homem-Deus que teve sempre uma vida regrada, justa e santa diante dos homens, que predicou sempre a verdade, obrou prodígios e sofreu mil indignidades para conseguir a nossa salvação? E se acrescentarmos também a graça da remissão dos pecados, ou seja, a remissão gratuita dos nossos crimes, não é seguramente isto a consumação perfeita da obra de nossa salvação? Certamente não devemos temer que falte a Deus o poder ou que em Jesus Cristo, que sofreu, e sofreu com tanto excesso pelos pecadores, falte a vontade para perdoar-nos os pecados, desde que tenhamos o cuidado que devemos ter em seguir os seus exemplos e venerar os seus milagres, e não sermos rebeldes à sua doutrina nem ingratos aos seus sofrimentos.

27. Enfim, tudo o que Jesus Cristo fez por nós, foi-nos meritório; tudo tem-nos sido necessário e vantajoso, para a nossa salvação; a sua própria fraqueza não tem-nos sido menos útil que a sua majestade. Porque, se pela potência de sua divindade libertou-nos do cativeiro do pecado, também pela fraqueza de sua carne destruiu todos os direitos da morte. Pelo que formosamente disse o Apóstolo: O que parece fraqueza em Deus tem mais força que os homens. Mas ainda esta necessidade, pela qual lhe agradou salvar o mundo a fim de combater a sabedoria do mundo e confundir os sábios, possuindo pois a natureza divina e sendo igual a Deus, abateu-se a si mesma tomando a forma dum Servo; sendo rico, fez-se pobre por amor a nós; de grande, pequeno; de elevado, humilde; fraco, de poderoso que era, padeceu fome e sede,  fatigou-se nos caminhos e sofreu voluntariamente e não por necessidade; esta espécie de necessidade, volto a dizer, não terá sido para nós um caminho de sabedoria, um modelo de justiça e um exemplo de santidade, segundo o que disse o mesmo Apóstolo: O que parece uma necessidade de Deus é mais sábia que os homens (I Cor. 1, 25)? O mais certo é que a morte nos libertou da morte, a vida do erro, e a graça do pecado! Assim, a morte consumou a sua vitória pela justiça, porque, tendo o justo satisfeito uma dívida que não contraiu, mereceu justamente receber o que perdeu. A vida foi satisfeita pela sabedoria do que era de seu dever, ao dar-nos as instruções da verdade e o exemplo da santidade de vida que devemos ter. A graça redimiu os pecados pela potência de que acabamos de falar, porque fez absolutamente tudo o que quis. A morte de Jesus Cristo foi a morte de minha morte, visto que morreu para que eu vivesse. E de facto, como será possível que aquele que morreu pela Vida não viva? E quem temerá enganar-se doravante no caminho da virtude e no conhecimento da verdade tendo a Sabedoria por guia e condutora? Quem será tido por culpado depois de ter sido absolvido pela Justiça? Jesus Cristo dá este testemunho de si mesmo no Evangelho, quando diz: Eu sou a Vida (Jo. 14, 6). E o Apóstolo São Paulo assegura-nos das duas coisas seguintes quando fala de Jesus Cristo nestes termos:  Foi-nos dado por Deus Pai para ser a nossa justiça e a nossa sabedoria (I Cor. 1, 30).

28. Porém se a lei do Espírito e da Vida em Jesus Cristo nos libertou da lei do pecado e da morte, provém estarmos todavia sujeitos à morte e não gozarmos o dom da imortalidade? A razão é para que a verdade de Deus se cumpra; pois, como Deus ama a misericórdia e a verdade (Ps. 83, 12), é preciso que o homem morra, por Deus havê-lo declarado assim; e é também necessário que ressuscite da morte para a vida, para que Deus não se esqueça de ter misericórdia. E, ainda que a morte não tenha um império perpétuo sobre nós, apesar de tudo tem-no por algum tempo, por causa da verdade de Deus; do mesmo modo não é inteiramente destruído o pecado em nós, ainda que não exerça já tão poderosamente a sua tirania em nosso corpo mortal. Por isso, São Paulo gloria-se de estar em parte liberto da lei do pecado e da morte; e, por outro lado, queixa-se das misérias e penas que sente algumas vezes da parte de uma e outra lei, quando clama contra os ataques do pecado nestas palavras lastimosas: Sinto outra lei em meus membros (Rom. 7, 23), ou seja, quando geme pelas misérias que o afligem, as quais são, sem dúvida, as da lei da morte, aguardando com ânsia a libertação de seu corpo (Rom. 8, 23).

29. Ademais, de qualquer maneira que os cristãos considerem todas estas coisas e outras semelhantes a elas que possam vir-lhes ao pensamento em relação com o santo sepulcro, pois cada um abunda em seu sentido sobre assuntos desta natureza, julgo que aquele que se encontre nestes lugares vendo-os em sua própria pessoa, sentirá uma doce devoção muito sensível em sua alma e que a visão corporal do mesmo lugar de repouso do Senhor lhe será extremamente proveitosa. Pois, ainda que este sepulcro esteja agora privado da posse dos seus membros sagrados, não deixa, apesar disso, de estar cheio dos nossos agradáveis mistérios. Chamo-os nossos, e muito nossos, desde que com tal os abracemos com tanto afecto como com tanta segurança aceitemos as palavras do Apóstolo: Fomos sepultados com Ele pelo baptismo para morrer por Ele, afim de que assim como Jesus Cristo ressuscitou para a glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova. Pois, se tivermos sido enxertados Nele pela semelhança de sua morte, também o seremos pela semelhança de sua ressurreição (Rom. 6, 4, 5). Ah! Que coisa tão doce para os peregrinos, depois de haverem sofrido as grandes fadigas de uma longa viagem, depois de haverem escapado a uma infinidade de perigos a que se expuseram por mar e terra, repousar, finalmente, no mesmo lugar em que o seu mesmo Senhor foi depositado! Certamente que acredito que recebem então uma alegria tão grande que deixam de sentir as fadigas do caminho e o agravamento dos seus gastos, e sim que, segundo o pensamento da Escritura, elevam-se de gozo logo que chegam ao santo sepulcro (Job 3, 22), a quem olham como a recompensa de seus trabalhos e o prémio de sua carreira. Mas não penseis que foi por acaso, ou subitamente ou pelo rumor comum de um povo enganado que tenha sido tão recomendado para todo o mundo este santo sepulcro, pois já o profeta Isaías predisse-o muito claramente, séculos antes, nestes termos: Nesse tempo se elevará da raiz de Jessé um Príncipe que mandará nas nações; e as mesmas dirigirão as suas orações a Ele, e o seu sepulcro será glorioso (Is. 2, 10). Assim vemos efectivamente cumprido o que foi predito pelos profetas; e, se é uma coisa nova para quem o vê com os seus olhos, é antiga para aquele que leu as Escrituras. De maneira que, se a novidade dá alegria ao peregrino, a antiguidade tampouco deixa de confirmar com a sua autoridade. E seja isto bastante para o que olha o santo sepulcro.

XII.

DO VALE DE BETFAGE

30. Que direi do lugar de Betfage, que era a casa dos sacerdotes e que quase havia esquecido, o qual compreende tanto o sacramento da confissão como o mistério do ministério sacerdotal? Betfage significa morada da boca. E escrito está: A palavra está perto de tua boca e de teu coração (Deut. 30, 14). Tem presente que esta palavra não está nem em uma nem em outro somente, mas juntamente em ambos. Assim, a palavra produz a contrição saudável no coração do pecador, e esta mesma palavra destrói na boca a vergonha perniciosa para não estorvar a confissão que é inteiramente necessária. Donde a Escritura declarar que há uma vergonha que traz pecado e uma vergonha que traz glória (Ecle. 4, 25). A vergonha útil é a que nos dá a confusão de ter cometido o pecado ou de cometê-lo actualmente, e faz que, sem ninguém ser testemunha de tua acção, respeites, com tudo isso, a vista de Deus mais que a dos homens com tanta retenção quanto sabes que Deus te é muito mais presente que a criatura, e que o pecador tanto mais gravemente o ofende quanto o pecado lhe for mais essencialmente oposto. Sem dúvida desterra o opróbrio e dispõe a glória quando não consente o pecado, ou, se cometido, o castiga pela penitência e o lança fora pela confissão se, com tudo isso, o testemunho de nossa consciência é o motivo de nossa glória. Porém, se algum tem vergonha de confessar o pecado que lhe pesa, esta vergonha produz o pecado e destrói a glória que vem do testemunho da consciência, e invés do estorvo desta néscia vergonha mantendo cerrada a boca, que a língua ponha fora o pecado que o compungimento se esforça por arrojar do fundo do coração; a exemplo de David deverá clamar: Não, eu não te estorvarei a meus lábios para que falem, Senhor, tu o sabes! (Ps. 39, 10) Também deste pudor néscio e irracional, segundo penso, o rei penitente fazia-se esta repreensão: Porque estive calado, a corrupção envelheceu em meus ossos (Ps. 31, 3). O que igualmente lhe faz desejar que se ponha uma porta de circunspecção nos seus lábios (Ps. 140, 3), afim de saber abrir a sua boca para a confissão e cerrá-la para as desculpas. Enfim, pede abertamente a Deus esta mesma graça sabendo muito bem que a confissão e a magnificência são obra sua (Ps. 110, 3). Certamente que é um grande bem esta dupla confissão, pela qual não ocultamos a nossa malícia e anunciamos a magnificência da bondade e da potência divina; e também isto é um puro dom da liberalidade de Deus. Por isso fala-se nestes termos: Senhor, não sofras por meu coração deixar-se levar por palavras de malícia procurando desculpas para os meus pecados (Ps. 140, 4). É, pois, muito necessário os sacerdotes, como ministros que são de Deus, terem um particular cuidado moderando as palavras de temor e de contrição nos corações dos pecadores, para que não se sobressaltem e retirem da confissão de seus pecados. Abram de tal maneira os corações que as suas bocas não se fechem e não dêem a absolvição senão aos que, estando verdadeiramente compungidos, tenham confessado todos os seus crimes. Pois, segundo a máxima do Apóstolo: É necessário crer de coração para ser justificado, e confessar de boca para ser salvo. De outra maneira, a confissão perece na morte como se não existisse (Ecle. 17, 26). Qualquer, pois, que tenha a palavra na boca e não no coração é um inútil ou um enganador, e aquele que a tem no coração e não na boca ou é orgulhoso ou tímido.

XIII.

DE BETÂNIA

31. Quanto ao mais, ainda que me apresse a acabar, não devo de nenhum modo passar em silêncio a casa de obediência, que é o que significa o nome de Betânia, que era o castelo de Maria e de Marta onde Lázaro foi ressuscitado; a qual nos representa a figura da vida activa e contemplativa e nos recorda o lugar em que a infinita bondade de Deus se manifestou com tanto esplendor aos pecadores, e a virtude da obediência se achou tão ditosamente junta com os frutos da penitência. Basta, pois, advertir sucintamente neste lugar que nem a prática das boas obras, nem o repouso de uma santa contemplação, nem as lágrimas da penitência jamais serão tão agradáveis fora de Betânia que fez ao Senhor tanta estima de obediência, que preferiu perder a vida a esta virtude, sendo obediente a seu Pai até à morte. Estas são, sem dúvida, aquelas riquezas que o profeta Isaías nos promete da palavra do Senhor: Deus, diz, consolará a Sião e a erguerá de todas as suas ruínas; transformará o seu deserto em lugar de delícias, e da sua solidão se fará o jardim do Senhor. Não se verá nela senão gozo e alegria, acções de graças e cânticos de louvores (Is. 51, 3). Estas delícias do orbe, este tesouro celestial, esta herança dos povos fiéis, foram confiadas à vossa fé, caríssimos, e encomendaram-se à vossa prudência e ao vosso valor. E vós sereis capazes de guardar fielmente este sagrado depósito, desde que com tal nada presumais da vossa prudência e da vossa força e tão-só ponhais toda a vossa segurança no socorro de Deus. Pois deveis saber que o homem não deve retirar o seu apoio de sua própria força. Portanto, deveis dizer com o profeta: O Senhor é minha força, meu refúgio e meu libertador (Ps. 17, 2). E também: Conservarei minha força para ti, ó meu Deus, porque tu és meu protector e meu Deus. A tua misericórdia me provirá (Ps. 58, 10, 11). E todavia: Nós a nós Senhor, não a nós, mas sim ao teu nome dá a glória (Ps. 115, 1). Para que aquele Senhor que dirige as vossas mãos na guerra e os vossos dedos no combate seja bendito em todas as coisas (Ps. 143, 1).

Finis

 

NOTAS

 

[1] De Laude novae militiae ad milites Templi, in Obras vários de S. Bernardo [BN: cod. Alc. 152, fl. CXXVII-CXXXIIIv]. Livro também editado por J. Leclercq, Roma, 1963, Sancti Bernardi Opera, traduzido por C. Greenia e inserido em “Cistercian Fathers Series”, 19, Michigan, 1977.

[2] Exagero na prosa, certamente e pelo pragmatismo ascético que pontuou a vida de São Bernardo, mas igualmente referência velada à condição ascética dos Monges-Cavaleiros, assim completamente distada e distinta da milícia secular ou temporal. Este Louvor bernardino juntamente com a Regra canónica veio a dispor a Ordem do Templo, e também a do Hospital, como a primeira Força Armada do Ocidente perfeitamente organizada e disciplinada, motivo principal das suas vitórias militares retumbantes, e tal disciplina ou hábitos castrenses mantêm-se até hoje em qualquer exército regular.

[3] São Bernardo estará aqui a referir-se aos milicianos contratados pelo Templo e sujeitos aos Estatutos deste, ou seja, os Turcópolos vindos do Egipto, do Cairo e Alexandria, na sua origem sendo filhos de pais turcos e mães gregas, antigos mercenários vivendo do saque mas doravante conversos a soldados de Cristo pelo abraço à nova disciplina imposta pelas Armas e reforçada pela Fé, assim se regularizando em corpo de cavalaria a soldo da Milícia Templária.

Regra de Vida dos Cavaleiros da Ordem do Templo – Escrita por São Bernardo de Claraval (1128) Segunda-feira, Set 23 2019 

Regra dos Cavaleiros Pobres do Templo na Cidade Santa [de Jerusalém]

 

Regula
Pauperum Commilitonum
Templi in Sancta Civitate

 

Quando escrevi a primeira versão do livro Portugal Templário – Vida e Obra da Ordem do Templo e a editei do meu bolso, em 1997, inscrevi nela o texto integral da “Regra dos Cavaleiros Pobres do Templo na Cidade Santa de Jerusalém” retirado do Suplemento Histórico ou Memórias, e Notícias da célebre Ordem dos Templários, para a História da admirável Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, dedicado ao Rei D. João V, Nosso Senhor. Primeira Parte. Tomo I. Escrito por Alexandre Ferreira. Lisboa Ocidental, MDCCXXXV [1735].

Logo a seguir houve a reacção de vários autores consignados mostrando-se desfavoráveis à versão setecentista da Regra Templária impressa pelo dr. Alexandre Ferreira, dizendo dela Manuel Gandra que “para além de não respeitar a redacção original [e] quer a sequência dos seus parágrafos, deixou-a truncada»[1]. Já antes Pinharanda Gomes informara-me pessoalmente que “Alexandre Ferreira desleixara a composição da Regra, e, talvez por cansaço de escritor, ignorara os critérios do texto original”. O mais que pude replicar ao erudito e admirável amigo, é que a publicara só por Alexandre Ferreira ser português e a primeira vez que a Regra aparecia na língua-mãe. Certamente que esse não será o mesmo texto inspirador dos Estatutos distintos asseverados por Maillard de Chamburene, notícia dada pelo mesmo Manuel Gandra, de que “os cavaleiros do Templo em Portugal possuíam estatutos distintos daqueles por que se regiam os franceses”, adiantando que “a sua subordinação ao poder civil e o costume de não admitirem senão nacionais, fazia deles uma Ordem diferente”[2].

Após tudo e em plena fase de revisão do meu livro citado, consultei diversos autores que haviam publicado a Regra, contudo em versões distintas, conformadas à língua nacional da Província onde os Templários se inscreviam, e confesso as ter desgostado, por muito bem apresentadas que estejam, como o fizeram Henri de Curzon[3] e J. Ward[4], relativamente às versões francesa e inglesa da Regula Templi, mas obviamente distantes da redacção original inspirada na Regra de São Bento, a mesma de Cister e Claraval,  onde São Bernardo se inspirou.

Como, entretanto, o incansável paladino da Filosofia Portuguesa, Pinharanda Gomes, dera à lavra a Regra primitiva francesa, no francês d’oil do século XII, que ele traduziu e está mais conformada à versão original[5], aproveitei para transcrever aqui, e somente, o Prólogo da Regra, inserto na tradução e publicação do ilustre amigo e autor, pois que Alexandre Ferreira não o transcreveu e logo tampouco editou, contudo mantendo deste último o restante da sua  tradução portuguesa da mesma Regra cujo texto (excepção feita a D. Diogo de Souza in História de Portugal desde os tempos primitivos até a fundação da Monarchia e d’esta epocha até hoje. Obra inteiramente inedicta. Edicção adornada de gravuras. Typographia de Jose Carlos d’Aguiar Vianna, Rua dos Calafates, n.º 114, Lisboa, 1852, pp. 418-421), verdade se diga, até hoje nunca foi publicado completo, tão-somente excertos aqui e ali, neste artigo ou naquele livro, apesar de ser documento primaz na nossa língua-mãe, reparando igualmente que o ilustre autor setecentista fez a sua redacção do original a partir dos escritos latino e francês d’oil, como se denota na semelhança com a tradução feita por Pinharanda Gomes. De maneira que é deste a tradução do Prólogo, e de Alexandre Ferreira os restantes 72 artigos da mesma Regra do Templo, conforme se segue.

REGRA DOS CAVALEIROS POBRES DO TEMPLO NA CIDADE SANTA [DE JERUSALÉM]

[PRÓLOGO]

Começa aqui o Prólogo da Regra dos Cavaleiros Pobres de Jesus Cristo e do Templo de Salomão.[6]

Dirigimos antes de mais este discurso a todos os que têm a generosidade de renunciar à sua própria vontade, e que desejam militar com uma pura intenção na Milícia do verdadeiro e do soberano Rei, para os encorajarmos no desejo que eles mostram de se revestirem da bela armadura da obediência, para a observarem com grande atenção, e cumpri-la até ao fim com perseverança. Vós, portanto, que seguistes até aqui, não para servir Jesus Cristo, mas por causa dos vossos interesses particulares a Milícia secular, nós vos exortamos com toda a humanidade possível a juntar-vos de pronto aos que o Senhor elegeu da massa da perdição, e que ele juntou por sua graça, para a defesa da Santa Igreja. Assim, sejais quem sejais, ó Cavaleiro de Jesus Cristo, que escolhestes esta santa companhia, deveis evidenciar um zelo puro e uma perseverança sem desleixo à vossa Profissão, que Deus distinguiu com sinais tão nobres, tão santos, e tão elevados; de modo que se ela for observada puramente e com firmeza, vós merecereis obter a mesma felicidade dos Cavaleiros, que deram as suas vidas por Jesus Cristo. Foi ela que fez reflorir e reviver a Ordem militar, entre aqueles que, sem nenhum respeito pela justiça, não procuravam defender os Pobres e as Igrejas, como era seu dever, mas cometer violências, saques e mortes. É portanto para nós um grande privilégio, que Nosso Senhor nos tenha trazido da Santa Cidade aos confins da França e da Borgonha os seus amigos, que para nossa salvação, e para a propagação da verdadeira Fé, não cessam de oferecer a Deus as suas almas como hóstias agradáveis a seus olhos. Portanto, nós, no ano da Incarnação do Filho de Deus de 1128, o nono da fundação da susodita Cavalaria, na festa de Santo Hilário, pela inspiração do Espírito Santo, e sob a conduta de Deus, tendo vindo de diversos lugares da Província Ultramontana, com uma afabilidade e uma piedade fraternal, pelas súplicas de Mestre Hugo, que deu início à mencionada Milícia, e estando nós reunidos em Troyes, onde tivemos a graça de ouvir da boca do referido Mestre Hugo, a Regra e Observância da Ordem da Cavalaria, capítulo a capítulo; Nós aprovámos o que nos pareceu ser bom, segundo o parco entendimento do nosso saber. Mas porque, pelo que nos parecia absurdo, e que se não podia recitar nem representar na presente Assembleia, sem muita complacência, Nós o remetemos ao exame e ao discernimento do nosso mui venerável Padre Honório, e também às luzes seguras do muito ilustre Estevão Patriarca de Jerusalém que tem pleno conhecimento da Religião Oriental, e dos Pobres Cavaleiros de Jesus Cristo, depois que o recebemos por consentimento unânime desta Assembleia. Todos os quais artigos devem ser reputados como santos, tendo sido aprovados e estimados como tal por um grande número de Padres Religiosos, que a Divina Providência aqui juntou. É do que me creio obrigado a dar testemunho, eu, João de S. Miguel, que tive a honra de ser escolhido pelos Padres aqui presentes, para Secretário, a fim de pôr por escrito o que me fosse ordenado pelo Concílio e pelo Venerável Abade de Claraval a quem o cuidado de redigir os presentes Estatutos foi cometido.

Nomes dos Padres assistentes ao Concílio.

Mateus Albani Bispo e Legado da Santa Igreja Romana tinha o primeiro lugar: em seguida Renaud Arcebispo de Reims, depois Henrique Arcebispo de Sens. Em seguida estavam os seguintes Prelados: Rankede Bispo de Chartres, Gossen Bispo de Soissons, o Bispo de Paris, o Bispo de Troyes, o Bispo de Orléans, o Bispo de Châlons, o Bispo de Laon, o Bispo de Beauvais, o Abade de Vezelai, que pouco depois foi eleito Arcebispo de Lyon e Legado de Sua Excelência Reverendíssima o Abade de Cister, o Abade de Pontigni, o Abade de Trois Fontaines, o Abade de São Reme de Reims, o Abade de Saint Etienne de Dijon, o Abade de Molesme já acima nomeado, o Abade Bernardo de Claraval também se achava presente, e os seus discursos foram aplaudidos pelos acima nomeados. Entre os Mestres contavam-se Albérico de Reims e Fulger e muitos outros, cujos nomes seria moroso enumerar, por escrito. Quanto a pessoas sem Letras, parece-nos oportuno mencioná-las também como testemunhas e amantes da Verdade: o Conde Thibaud, o Conde Nevers, e André de Bandimento, que examinaram com muito cuidado o que seria melhor, rejeitando o que não lhes parecia razoável; foi por esse motivo que eles assistiram ao Concílio. Mas Hugo, o Mestre da Cavalaria, decerto não faltou, e trazia com ele vários dos seus confrades, por exemplo, o Irmão Godofredo, o Irmão Roralle, o Irmão Geofredo Bifol, o Irmão Payen de Mondier, Archambaud de Saint Amand. Ora o Mestre Hugo com os mesmos Discípulos apresentou aos susoditos Padres, tanto quanto a memória reteve, a Regra e Observância da sua Ordem de Cavalaria então muito pequena de começo, a qual extrai a sua primeira origem daquele que diz: “Sou eu o Princípio e sou eu que vos falo” (João, 8, 25). Eis porque ao Concílio aprouve receber por escrito o que desse modo foi aprovado e maduramente examinado sobre as Divinas Escrituras com uma exacta confrontação, sob a autoridade do Pontífice Romano e do Patriarca de Jerusalém, e também com o consentimento do Capítulo e dos Pobres Cavaleiros do Templo, que está em Jerusalém, para que nada possa ser esquecido, mas para que fosse observado inviolavelmente, e que portanto eles mereçam por suas louváveis acções atingir nas suas carreiras directamente o seu Criador, cuja doçura ultrapassa tanto em excelência a do mel, que tudo o mais não passa, por comparação, de um absinto muito amargo, tudo com a graça d’Aquele, para quem e por quem eles combatem, e que seja bendito para sempre. Amen.

 

Como hão-de ouvir o Ofício Divino.

I.

Vós outros, que renunciastes os próprios afectos, e os demais, que em vossa companhia militam por tempo determinado com armas, e cavalos em serviço do Supremo Senhor Rei dos Reis, e pela salvação das almas; procurem geralmente todos assistir com pio, e puro afecto às Matinas, e a todo o Ofício Divino inteiramente, conforme a Instituição Canónica, e costume dos observantes Religiosos da Santa Cidade. E por isso a vós outros, Veneráveis Irmãos, obriga com especialidade; porque desprezando as cousas desta vida, sem temer os trabalhos do corpo, oferecestes pisar perpetuamente o enfurecido Mundo pelo serviço de Deus. Satisfeitos pois, e fortalecidos com o Manjar Celestial, e esforçados com os Divinos preceitos, ouvida Missa, nenhum tema a batalha, seguro da vitória.

Quantos Padres-Nossos hão-de rezar, os que não poderem ouvir o Ofício Divino.

 II.

Se algum faltar ao Ofício Divino por ocupações da Cristandade do Oriente (de cujo acidente não duvidamos) na tal ausência julgamos por louvável, e declaramos unânimes por devido, que pelas Matinas rezem três vezes o Padre Nosso, e por cada uma das outras horas sete, e pelas Vésperas nove. Porque os assim ocupados em trabalhos de tanta utilidade, não podem acudir a tempo ao Ofício Divino; mas se poderem, não deixem passar o tempo, sem cumprir a obrigação do seu Instituto.

Que hão-de rezar pelos Irmãos Freires defuntos.

III.

Quando algum dos Religiosos perpétuos acabar a vida a império da morte inexorável a todos; mandamos aos Capelães, e Clérigos, que por certo tempo servem na vossa companhia ao Sumo Sacerdote, que digam, com pura intenção solenemente por ele a Missa, e Ofício dos Defuntos. E os Irmãos Freires assistam ali, desvelando-se em rogar a Deus pela salvação do defunto, e rezarão, em sete dias pela sua alma, cem vezes o Padre Nosso, desde aquele, em que receberem o aviso da sua morte. Pedimos além disto com toda a caridade, e com autoridade Pastoral mandamos, que quarenta dias se dê de comer a um pobre, gastando com ele o mesmo, que com o Irmão Freire defunto se gastava, e devia gastar. E com isto proibimos totalmente todas as demais esmolas, e ofertas, que a pobreza voluntária dos Religiosos Soldados de Cristo costumava dar, com favor indiscreto, na morte de seus Irmãos, nas Páscoas, e outras Festas solenes.

Aos Capelães se dará somente de comer, e de vestir.

 IV.

As ofertas, e todo o género de esmolas, que se fizerem de qualquer sorte aos Capelães, e aos demais, que por tempo certo assistem, com especial cuidado mandamos se dêem à Comunidade de todo o Capítulo. Aos Ministros pois, e criados da Igreja se lhes dê somente o sustento, e vestido com a decência conveniente; e não poderão eles pretender, que se lhes dê mais; senão quando os Mestres por sua graciosa vontade lhes quiserem dar alguma coisa demais.

Quando morre algum dos Cavaleiros, que servem por tempo certo.

V.

Há Cavaleiros, que por tempo certo, e determinado vivem em união com nós outros na Casa de Deus, e Templo de Salomão. Pelo que com especial compaixão vos pedimos, rogamos, e finalmente com todo o encarecimento vos mandamos, que quando a temerosa Mão de Deus tirar algum desta vida, deis pela alma do defunto a um pobre de comer por sete dias.

Que nenhum dos Religiosos perpétuos ofereça esta oferta.

VI.

Determinamos, como dizemos acima, que nenhum dos Religiosos perpétuos pretenda fazer outras ofertas, e esmolas; senão que em todo o tempo com puro coração, se conserve na sua vocação, para se fazer semelhante ao mais sábio dos Profetas, que dizia: Beberei o Cálice da Salvação, e na minha morte imitarei a do Senhor. Porque assim como Cristo Senhor Nosso deu a sua vida por mim; assim devo estar disposto a oferecê-la por meus Irmãos. E esta é a melhor oferta, e a vítima mais agradável a Deus.

Da demasia de estar em pé no Ofício Divino.

VII.

Porque temos sabido por notícia segura, que ouvis o Ofício Divino com assistência excessiva em pé; não só mandamos se prossiga tal cerimónia; antes a condenamos, ordenando, que acabado o Psalmo Venite exultemos Domino, com o Invitatório, e o Hino, se sentem todos, assim os achacados, como os vigorosos para evitar escândalo. Sentados pois todos até se acabar o Psalmo, ao rezar o Gloria Patri, se levantarão dos assentos, inclinando-se ao Altar, em honra da Santíssima Trindade, que ali se nomeia; e os enfermos façam alguma inclinação. E também, que estejais de pé ao ler-se o Evangelho, e no Te Deum laudamus, e em todas as Laudes até dizer o Benedictus, e o mesmo nas Matinas do Ofício de Nossa Senhora.

Da refeição comum.

VIII.

Entendemos, que todos comeis em Comunidade em uma casa, ou Refeitório; onde se faltar alguma coisa (ignorando o sinal com que se há-de pedir) se pedirá particularmente, e sem fazer ruído, porque sempre, ainda as coisas, que são precisas, haveis de buscar com humildade, e sujeição, e mais particularmente na mesa, pois diz o Apóstolo: Come o teu pão com silêncio; e vos deve animar o Psalmista, quando dizia: Pus guardas à minha boca; isto é, determinei não ofender a Deus; e vem a ser, com a língua: ou, terei muito cuidado de não falar mal.

Da Leitura.

 IX.

Ao jantar, e ceia se leia sempre algum livro sagrado. E se amamos ao Senhor, com muita atenção devemos escutar os seus saudáveis conselhos, e preceitos: e o que ler faça sinal, para que todos se calem.

Do comer carne.

X.

Não se coma mais que três vezes carne na semana, excepto nas Festas do Nascimento, da Virgem Maria Nossa Senhora, e de Todos os Santos; porque o comer ordinariamente carne é um estrago dissimulado do corpo. Porém se na terça-feira cair algum jejum da Igreja, em que se proíbe comer carne, no dia seguinte se dê com mais abundância a todos. Nos Domingos aos Religiosos perpétuos, e Capelães, se lhes dêem dois pratos em honra da Sagrada Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os demais, como são os escudeiros, e criados contentem-se com um, e o recebam com acção de graças.

O que hão-de observar os Religiosos no comer.

XI.

Convém, que comam geralmente todos de dois em dois, para que um cuide com atenção do outro, e se não introduza no comer asperezas de vida em abstinências dissimuladas. Julgamos, que a cada um dos Soldados, ou Religiosos se lhes dê com igualdade, e pela mesma medida a ração do vinho.

Que nos mais dias lhes bastem dois, ou três pratos de legumes.

XII.

Nos mais dias, que são segunda, e quarta, e sábado, parece-nos, que basta dar-se-lhes dois, ou três pratos de legumes, ou semelhantes guisados. E mandamos, que se observe assim, porque se algum deles não comer de um, coma do outro.

O que se há-de guardar na comida de sexta feira.

XIII.

Nas sextas feiras, desde a Festa de Todos os Santos, até à da Ressurreição, não sendo dia de Natal, Festas de Nossa Senhora, ou de Apóstolos, temos por mui louvável, comam todos na forma, que na Quaresma, uma vez ao dia, em reverência da Paixão do Senhor, excepto os enfermos, e achacados. No outro tempo, não havendo jejum universal, comam duas vezes ao dia.

Que dêem graças depois de comer.

XIV.

Mandamos, que sem excepção de pessoa alguma, dêem todos depois de jantar, e cear ao nosso Sumo Procurador Jesus Cristo, ou na Igreja se estiver junto, ou no mesmo lugar da mesa. Guarde-se o pão, que ficar inteiro, e dos pedaços, que sobejarem se dêem aos pobres, e criados.

Que dêem ao Esmoler de cada dez pães um.

XV.

Ainda que aos pobres lhes está prometido o prémio da pobreza, que é o Reino dos Céus; com tudo isso, vós outros, a quem confessa por pobres a Fé Cristã, dareis ao Esmoler o dízimo de todo o pão, que vos derem.

Que a colação esteja a arbítrio do Mestre.

XVI.

Ao pôr do Sol, ouvido o sinal conforme o costume dessa região, convém muito, que todos vão a Completas; porém antes delas, desejamos, que tomem uma colação em Comunidade. Esta refeição deixamos ao arbítrio do Mestre, que seja de água, ou de vinho aguado, como ele o dispuser, e mandar; porém convém, que isto não seja com demasia, e destemperança, mas, parcamente; pois vemos, que também os sábios se descompõem com o vinho.

Que se guarde silêncio depois de Completas.

XVII.

Acabadas as Completas, é conveniente que se vão recolher: saindo de Completas nenhum fale em lugares públicos, senão de coisas necessárias; e o que tiver, que falar com o seu escudeiro seja em voz baixa; e ainda que algumas vezes sucederá, que ao tempo, que saiam das Completas, seja preciso, que alguns de vós outros juntos faleis ao Mestre, ou ao que depois dele serve de Superior, do estado da guerra, ou negócios do Mosteiro, por não haver tido tempo em todo o dia. Mandamos pois, que se guarde desta maneira o silêncio, porque está escrito: Que no muito falar não faltará pecado, e em outra parte: A morte, e a vida estão nas mãos da língua. Naquela junta proibimos as chanças, e palavras ociosas, que ocasionam riso: e mandamos, que se algum tiver falado com pouca atenção, reze, quando se for deitar, um Padre Nosso com toda a humildade, e devoção.

Que se não levantem a Matinas os que se acharem cansados.

XVIII.

Porque se manifesta não ser justo, que se levantem a Matinas, os que se acharem cansados. Mandamos, que com licença do Mestre, ou do que estiver em seu lugar, descansem; e depois cantem as treze Orações assinaladas; de sorte, que com as vozes se ajuste a atenção, pois diz o Profeta: Cantai ao Senhor sabiamente, e em outra parte: Em presença dos Anjos cantarei os vossos louvores, mas isto sempre a arbítrio do Mestre.

Que no trato se guarde igualdade.

XIX.

Nas letras sagradas se lê: Que se dava a todos; conforme o que a cada um era necessário. Por isso mandamos, que não haja excepção de pessoas, senão exame das necessidades. O que menos necessita, dê graças a Deus, e se não entristeça pelo que derem ao outro. O que necessita mais, humilhe-se por sua fraqueza, e não se ensoberbeça na misericórdia, que com ele se usa, e assim viverão unidos os membros deste religioso Corpo. Proibimos a todos a singularidade nas mortificações, e mandamos guardem a vida comum.

Do modo do vestido.

XX.

Mandamos, que os vestidos sejam sempre de uma cor, como branco, ou negro, ou por melhor dizer de burel. Declaramos a todos os Cavaleiros professos, que no Verão, e Inverno, podendo ser, o vestido branco, para que, pois deixaram as trevas da vida secular, se conheçam por amigos de Deus no vestido branco, e luzido. Que é a cor branca senão inteira pureza? A pureza é segurança do ânimo, e saúde do corpo. Se o Religioso Militar não guardar pureza, não poderá chegar à eterna felicidade, e vista de Deus, afirmando S. Paulo: Guardai paz com todos, guardai pureza, sem a qual nenhum verá ao Senhor. Mas porque este vestido nem há-de mostrar vaidade, nem gala; mandamos, que seja de tal feitio, que cada um só se possa vestir, despir, calçar, e descalçar. O que tiver o cuidado de dar os vestidos, cuide com toda a atenção, que nem sejam compridos, nem curtos, senão ajustados à proporção de quem os veste. Saindo com vestido novo, entreguem o que deixam, para se guardar na rouparia, ou no lugar, que escolher o que tem esta incumbência, para que sirvam aos escudeiros, e criados, e algumas vezes aos pobres.

Que os criados não tragam vestidos brancos.

XXI.

Isto, que sem ordem, e decreto do Capítulo, se usava na Casa de Deus, e dos Religiosos Militares do Santo Templo, proibimos totalmente, e o tiramos como vício mui escandaloso; porque de levarem antigamente os criados, e escudeiros estes vestidos brancos, se seguiram graves inconvenientes. Levantaram-se nas partes Ultramarinas falsos Irmãos, uns, e outros casados, que se chamavam do Templo, sendo do Mundo. Estes pois ocasionaram muitos danos, e perseguições à Cavalaria. E os demais criados ensoberbecendo-se, causaram não poucos escândalos. Usem pois vestidos negros, e se os não acharem desta cor, vistam do que se poder achar naquela Província, ou o mais grosseiro vestido, que de uma cor se poder descobrir, como burel.

Que só os Religiosos perpétuos vistam de branco.

XXII.

A nenhum tempo seja lícito trazer mantos brancos, ou capas da dita cor, senão aos Cavaleiros perpétuos de Cristo.

Que usem somente de peles de Cordeiros.

XXIII.

Determinamos de comum consentimento, que nenhum Cavaleiro use de peles preciosas para vestido comum, nem para cobertor, senão de peles de Cordeiros, ou Carneiros.

Que os vestidos velhos se dêem aos escudeiros.

XXIV.

O Roupeiro procure com todo o cuidado distribuir os vestidos velhos aos escudeiros, criados, e pobres, fiel, e igualmente.

Ao que procurar o melhor vestido se lhe dê o pior.

XXV.

Se algum Irmão, como devido, e com ânimo soberbo, pretender os vestidos mais novos, e curiosos; por tal pretensão merece se lhe dêem os piores.

Que nos vestidos se observe a quantidade, e qualidade.

XXVI.

Convém, que o distribuidor dos vestidos procure dá-los ajustados à estatura de cada um, que não seja mais largo, ou curto: e nisto seja curioso.

Que na distribuição dos vestidos se guarde igualdade.

XXVII.

O Procurador, no tamanho dos vestidos, como se disse acima, observe com amor fraternal ajustar a medida, para que os olhos dos murmuradores, que tudo censuram, não tenham que notar. E em tudo considere a justiça, e igualdade de Deus.

Da superfluidade dos cabelos.

XXVIII.

A todos, principalmente, os que não estão na campanha, convém levem cortados os cabelos, a uma mesma proporção, e pelos lados da cabeça com a mesma ordem; e o mesmo se guarde na barba; para que se não note o vício da demasia, e gala.

Das tranças, e copetes.

XXIX.

Não há dúvida, que é de Gentios levar tranças, e copetes; e pois isto parece tão mal a todos, o proibimos, e mandamos, que nenhum traga tal alinho, nem permitimos, aos que servem por determinado tempo, estas tranças, e copetes. E mandamos, que não tragam crescido o cabelo, nem os vestidos demasiadamente compridos; porque aos que servem ao Sumo Criador, lhes é necessária a interior, e exterior pureza, afirmando-o assim, quando diz: Sede puros, porque Eu o sou.

Do número dos cavalos, e escudeiros.

XXX.

Cada um dos Soldados pode ter três cavalos; porque a muita pobreza da Casa de Deus, e Templo de Salomão, não dá lugar a que por ora seja maior o número: salvo com licença do Mestre.

Que nenhum castigue o escudeiro, que o serve sem salário.

XXXI.

Pela mesma causa concedemos a cada um dos Cavaleiros um escudeiro somente. Porém se este servir sem dispêndio graciosamente, ou pelo amor de Deus; a nenhum é lícito maltratá-lo, ou castigá-lo ainda havendo alguma culpa.

Como se hão-de receber os que vierem a servir por tempo determinado.

XXXII.

Todos os Soldados, que com intenção pura desejam militar em serviço de Deus Nosso Senhor em sua Santa Casa por tempo determinado, comprem cavalos, e armas a propósito, para as ocasiões, que cada dia se oferecem, e tudo o necessário para este efeito. Além disto, guardando-se igualdade de ambas as partes, julgamos ser útil, e conveniente ajustar o preço dos cavalos; e que este se escreva, para que não esqueça: e se lhe dê com toda a caridade tudo, o que lhe for necessário, para si, para o cavalo, e escudeiro das rendas da Casa, e além disto os arreios do cavalo, conforme as possibilidades da Casa. Porém se por algum acaso perder o cavalo no serviço da Ordem, o Mestre lhe dê outro, se o permitir a renda do Convento. Mas chegado o tempo de tornar à Pátria, o Soldado pelo amor de Deus perdoe a metade do preço, e a outra, querendo, a pode pedir ao Convento.

Que nenhum se governe pela vontade própria.

XXXIII.

Convém aos Religiosos Militares, que nenhuma coisa buscam, e amam, mais que a Cristo, pelo Instituto, que professam, ou pela glória da suma bondade de Deus, ou pelo temor do Inferno, que obedeçam sempre ao Mestre. Há-de guardar-se pois esta obediência de modo, que emendando o Mestre, ou quem tem o seu lugar, alguma coisa, obedeçam com a pontualidade, e prontidão, que ao mesmo Deus; porque destes diz a Suma Verdade: Em me ouvindo logo me obedeceu.

Se se pode sair pelo Lugar sem Ordem do Mestre.

XXXIV.

Aos Soldados Hospitalares, que renunciaram à própria vontade, e aos demais, que servem por tempo assinalado, lhes mandamos com todo o encarecimento, que sem licença do Mestre, se não atrevam a sair pelo Lugar, salvo ao Santo Sepulcro, e aos Santos Lugares, que se visitam dentro dos muros da Cidade.

Se podem ir sós.

XXXV.

Os que saírem desta maneira, nem de dia, nem de noite vão sem companhia; isto é sem Cavaleiro, ou Religioso dos perpétuos. Quando vão no Exército, depois que estiverem aquartelados, nenhum Soldado, ou escudeiro ande pelos quartéis dos mais, para ver, ou falar com algum, se não é com licença, como está dito; e assim de comum consentimento ordenamos, que nenhum Soldado desta Ordem milite a seu arbítrio, mas se sujeite inteiramente ao que o Mestre lhe ordenar, seguindo o conselho do Senhor, que diz: Não vim fazer a meu gosto, mas o de quem me mandou.

Que nenhum busque singularmente o que lhe for necessário.

XXXVI.

Mandamos, que entre os mais se observe este costume, por evitar o vício de cada um diligenciar para si as suas conveniências. Nenhum pois dos Militares perpétuos busque para si cavalos, ou armas. Como pois se há-de portar? Se os seus achaques, ou as poucas forças do cavalo, ou o peso das armas, é de tal sorte, que o ir com elas será dano comum; represente-o ao Mestre, ou ao que tiver o seu lugar, e proponha-lhe com sinceridade o inconveniente. E assim fique à disposição do Mestre, e na sua falta, do Mordomo.

Dos freios, e esporas.

XXXVII.

Mandamos, que de nenhuma sorte se leve ouro, ou prata (que é o especialmente precioso) nos freios, peitorais, esporas, e estribos: nem seja lícito a algum dos Militares perpétuos,  comprá-los. Porém se de esmola lhes derem alguns destes instrumentos velhos, e usados, cubram o ouro, e a prata de sorte, que o seu luzimento, e riqueza a ninguém pareça vaidade. Porém se os que se derem, forem novos, o Mestre disponha deles a seu arbítrio.

Que as lanças, e escudos não tenham guarnições.

XXXVIII.

Não se ponham guarnições nas lanças, nem escudos; porque isto, não só não é de utilidade alguma, porém se reputa por danosa a todos.

Do poder do Mestre.

XXXIX.

Pode o Mestre dar cavalos, e armas, e tudo o que quiser a quem lhe parecer.

De Malha, e Cota.

XL.

A ninguém se concede ter Cota, ou Malha em propriedade. Manifestar-se-ão de sorte, que nenhum possa usar delas sem licença do Mestre, ou de quem tem o seu lugar nos negócios da Casa. Nesta Regra não se compreendem os Procuradores, e os que vivem em várias terras, nem aos Mestres Provinciais.

Do abrir das cartas.

XLI.

Nenhum dos Religiosos possa abrir cartas de seu Pai, ou de qualquer outra pessoa, nem outrossim uns dos outros, sem licença do Mestre, ou Procurador. Depois que tiver licença, leia a carta diante do Mestre, se ele quiser. Se seus Pais lhe mandarem alguma coisa, não se atreva a recebê-la sem gosto do Mestre. Esta Regra não se estende ao Mestre, nem ao Procurador da Casa.

Da conversação de suas culpas.

XLII.

Se toda a palavra ociosa ocasiona pecado, que poderão responder ao Juiz rigoroso os que fazem gala dos seus vícios? Mostra-o bem o Profeta: Se algumas vezes convém omitir boas práticas, por não faltar ao silêncio, com quanta maior razão, temendo o castigo do pecado, se há-de fugir de conversações impertinentes? Vedamos pois, e com todo o esforço proibimos, que algum dos Religiosos perpétuos se atreva a referir de si, ou de outros os descaminhos da sua vida secular, nem as comunicações, que teve com mulheres perdidas: e se algum ouvir a outro tais palavras, o faça calar, e tanto que puder, com passos obedientes se saia da conversação, e não dê a sua alma ouvidos, a quem vende tal veneno.

Do receber, e gastar.

XLIII.

Se a algum dos Religiosos se lhe der alguma coisa sem a procurar, ou graciosamente,  leve-a ao Mestre, ou Dispenseiro. Porém se seu Pai, ou algum amigo lha der, com tal condição, que haja de servir a ele somente, de nenhum modo a receba sem licença do Mestre. Nenhum sinta, que se dê a outro, o que a ele presentearem; antes tenha por certo, que agastando-se por isto ofende a Deus. Mas isto não compreende os Oficiais, a quem toca; porém são compreendidos no que toca à malha, e cota.

Dos freios, ou cabeçadas dos cavalos.

XLIV.

A todos é útil este preceito estabelecido por nós outros, para que daqui em diante se guarde sem desculpa. E assim nenhum Freire se atreva a fazer freios, ou cabeçadas de linho, ou lã, com o fim de que sirvam aos seus cavalos, nem os tenham. As rédeas poderão ser deste material.

Que nenhum troque, ou busque coisa alguma.

XLV.

Fica resoluto, que nenhum sem licença do Mestre possa trocar coisa alguma com outro Religioso, nem buscar, ou pedir, senão um Religioso a outro, e coisa de pouco valor, e estimação.

Que nenhum vá à caça com falcões, e outras aves.

XLVI.

Sentimos todos, que algum vá à caça de volateria, porque não está bem a um Religioso viver tão preso aos deleites mundanos, senão ouvir a Divina Palavra, estar frequentemente na Oração, e nela confessar a Deus com gemidos, e lágrimas cada dia os seus pecados. Nenhum pois vá com homem, que caça com falcões, ou outras aves pela causa, que se há dito.

Que nenhum mate as feras com arco, ou besta.

XLVII.

Convém andar com toda a modéstia religiosa, e sem risadas, e com humildade, falando pouco, e a seu tempo, e sem levantar muito a voz. Especialmente mandamos, que nenhum Religioso professo intente nos bosques perseguir feras com besta, ou arco, nem vá a esse fim com quem caçar, senão para guardá-lo dos pérfidos Gentios: não incite os cães, nem pique o cavalo com intento de caçar alguma fera.

Que matem sempre o Leão.

XLVIII.

Porque é sem dúvida ter-se-vos fiado, e viveis com a obrigação de arriscardes a vossa vida pelos próximos, e lançar fora os infiéis, que perseguem ao Filho da Virgem. Sabei, que o Leão busca rodeando a quem tragar, e que as suas mãos são contra todos, e as de todos sejam contra ele.

Que ouçam a sentença de qualquer queixa, que contra ele se der.

XLIX.

Sabemos, que são inumeráveis os inimigos de nossa Santa Fé, e que procuram embaraçar com pleitos, aos que mais fogem deles. Seja pois nesta matéria o parecer do Concílio com acertada resolução; que se algum nas partes Orientais, ou em qualquer outra, se queixar seja do que for contra vós, ouçais a sentença, que vos derem os Juízes ajustados, e amigos da verdade; e mandamos, que sem escusa alguma façais o que for justo.

Que esta Regra se observe em tudo o mais.

L.

Em todas as mais coisas, que injustamente vos tirarem, observai sempre esta Regra.

Que todos os Religiosos Militares possam ter terras, e vassalos.

LI.

Por Divina Providência, como cremos, se começou por vós outros este novo género de Religião nestes Santos Lugares; para que juntásseis com a Religião a Milícia, e fique a Religião fortificada com as armas, para fazer guerra justa ao inimigo. Com razão pois julgamos, que se vos chamais Soldados do Templo, tenhais, e possuais (pelo insigne, e especial merecimento da Santidade) casas, terras, vassalos, obreiros, e os governeis, e cobreis deles o tributo instituído, e determinado.

Que se cuide muito dos achacados.

LII.

Sobretudo se hão-de ter cuidado, e desvelo dos Religiosos achacados, e que se sirvam, como a Cristo, tendo na memória o Evangelho, que diz: Estive enfermo, e me visitaste. Os enfermos pois se hão-de sofrer com tolerância, e paciência; porque assim se logra abundante paga de Deus.

Que se assista aos enfermos com todo o necessário.

LIII.

Mandamos encarecidamente aos Enfermeiros, que com toda a atenção dêem o que for necessário para o serviço, e cura de qualquer enfermidade conforme a possibilidade da Casa: carne, aves, e o mais necessário.

Que nenhum provoque a outro a ira.

LIV.

Há-de haver grande cuidado, em que um não dê a outro ocasião de ressentimento; porque a Suma Clemência uniu com vínculo de Irmandade, e amor igual aos ricos, e aos pobres.

De que sorte hão-de ser recebidos os casados à Irmandade.

LV.

Permitimos, que recebais no número dos Religiosos aos casados, porém com estas condições: que se desejam ser participantes do benefício de vossa Irmandade, e comunicação, os dois ofereçam depois da sua morte ao Capítulo parte da sua fazenda, e tudo o que adquirirem neste tempo. Enquanto vivem, conservem honestidade de vida, e procurem o bem de seus Irmãos; mas não usem do vestido branco. Se o marido morrer primeiro, deixe a sua parte aos Religiosos seus Irmãos, e sua mulher se sustente da outra. Porém temos por inconveniente, que estes Irmãos casados vivam em uma mesma casa, com os que têm feito Voto de Castidade.

Que fora deste caso daqui em diante não hajam outras Irmãs.

LVI.

É muito perigoso, fora deste caso, unir com vós outros algumas Irmãs; porque o inimigo comum derrubou a muitos do caminho do Céu, pela conversação das mulheres. E assim, Irmãos caríssimos, para guardar em flor a pureza, não se permita daqui em diante tal trato, e comunicação.

Que os Religiosos Templários não tratem com excomungados.

LVII.

Irmãos, temei muito, e adverti, que nenhum dos Soldados de Cristo comunique com os excomungados, assim em público, como em particular, nem trate as suas coisas; para que não o compreenda a mesma excomunhão. Porém se estiver somente suspenso, bem poderá comunicá-lo, e favorecer seus negócios.

Como se hão-de receber os Soldados seculares.

LVIII.

Se algum Soldado de vida perdida, e estragada, ou outro qualquer secular, quiser deixar o Mundo, e as suas vaidades, desejando ser recebido na vossa companhia, não se defira logo à sua petição; senão, conforme ensina S. Paulo: Examine-se o espírito, se é de Deus, e deste modo seja recebido na Ordem. Leia-se a Regra na sua presença, e oferecendo-se a obedecer com cuidado aos preceitos da Regra, que se lhe mostrou, então (se ao Mestre, e Religiosos parecer bem recebê-lo) convocados, e juntos os Irmãos descubra-lhes a sua petição, e desejo. Depois fique no arbítrio, e execução do Mestre o tempo da aprovação, que houver de ter, como pedir a correspondência da vida, do que pretender ser recebido.

Que se não chamem todos os Religiosos para as Juntas secretas.

LIX.

Mandamos, que não chamem todos os Freires a Consulta; mas somente aqueles, que ao Mestre parecerem de juízo, e prudência. Mas quando se tratarem coisas maiores, como dar uma Comenda, disputar sobre coisas da Ordem, ou receber algum Religioso; então chame o Mestre toda a Congregação, parecendo-lhe conveniente, e ouvido o parecer de todos, siga-se o que o Mestre julgar por melhor.

Que rezem sem fazer ruído.

LX.

Mandamos de comum parecer, que rezem conforme o fervor, e devoção de cada um, sentados, ou em pé; porém com suma reverência, e modéstia, e sem fazer ruído, para que um não estorve o outro.

Que se tome juramento aos que servem.

LXI.

Sabemos, que muitos de diversas Províncias, assim escudeiros, como criados, desejam com pura intenção dedicar-se por toda a sua vida ao serviço das almas nas vossas casas; e assim convém, que lhes tomeis a sua fé por juramento, e palavra; e não suceda, que o inimigo exercitado em nos fazer guerra, lhes persuada cousa indigna do serviço de Deus, e os aparte do bom propósito.

Que os moços durante a pouca idade, se não recebam para Religiosos.

LXII.

Ainda que a Regra dos Santos Padres permite receber aos moços nos Mosteiros; não é conveniente, que vós outros vos encarregueis deles. Porém se algum quiser dedicar filho seu, ou parente nesta Religião Militar, o crie, até à idade competente, em que esforçadamente com as armas possa lançar fora de toda a Terra Santa aos inimigos de Cristo. Depois o pai, ou os parentes, o levem aos Religiosos, e representem a sua pretensão. Porque é melhor não fazer os votos na primeira idade, que faltar a eles na madura.

Que se tenha sempre respeito aos velhos.

LXIII.

Convém respeitar com pia atenção aos velhos, e ajudar a fraqueza das suas forças, e não lhes dêem com miséria o necessário com observância da Regra.

Dos que andam por diversas Províncias.

LXIV.

Os que forem mandados a diversas Províncias guardem a Regra, quanto lhes for possível no comer, e beber, e em tudo o mais, vivendo irrepreensivelmente, para dar bom exemplo aos seculares. Não desdenhem com palavra, ou obra o Instituto da Religião; e especialmente aos que tratarem, e comunicarem, procurem dar mostras de virtude, e boas obras. A casa, em que se hospedarem seja de boa fama, e segura; e se puder ser, não falte luz de noite no seu quarto, e não suceda, que às escuras (o que Deus não permita) algum inimigo, fiado nas trevas, o mate. Mandamos, que vão aonde souberem, se juntam os Militares não excomungados, pretendendo nisto, não tanto a consolação espiritual, como a salvação das suas almas. Constituído pois assim os Irmãos, que mandamos às partes Ultramarinas, com esperança de aproveitamento, temos por louvável, que aos que quiserem entrar nesta Ordem Militar, os recebam na forma seguinte: Juntem-se ambos diante do Bispo daquela Província, e o Prelado ouça as súplicas, do que deseja entrar na Ordem. Ouvida a petição, o Religioso o mande ao Mestre, e aos Freires, que vivem no Templo de Jerusalém; e se a sua vida é ajustada, e merecedora de tal companhia, o recebam com toda a piedade, parecendo assim ao Mestre, e Religiosos. E se morrer neste tempo, façam-lhe os sufrágios como a Irmão, pelo trabalho, que teve.

Que o sustento se dê a todos com igualdade.

LXV.

A todos os Religiosos se dê o sustento necessário com igualdade, conforme a possibilidade da Casa; porque não é justa a excepção das pessoas, e muita atenção às enfermidades.

Que os Cavaleiros Templários possuam dízimos.

LXVI.

Cremos, que deixadas muitas riquezas vos sujeitastes à pobreza voluntária. E assim a vós, que viveis em Comunidade, concedemos, que possais possuir dízimos na forma seguinte: Se o Bispo vos quiser dar alguns dízimos da sua Igreja pelo amor de Deus de consentimento de todo o Cabido; vos serão dados daqueles dízimos, que consta possui a Igreja; porém se algum secular vos quiser dar a décima parte da sua fazenda, obrigando-a à tal quantidade, com licença do que preside, ou à sua vontade, e não do Capítulo, se deve distribuir.

Dos pecados mortais, e veniais.

LXVII.

Se algum na conversação, ou na campanha cair em alguma falta leve, ele por sua vontade a descubra ao Mestre, para satisfazer por ela. Culpas leves se não forem muito frequentes, castiguem-se com leve penitência. Porém se calando ele a sua culpa, outro a descobrir ao Mestre, castigue-se com maior, e mais rigorosa pena. Mas se a culpa for grave, separem-no da comunicação dos mais Religiosos, nem coma juntamente com eles, senão à parte, sujeito em tudo à disposição, e arbítrio do Mestre, para ficar livre, e seguro no dia do Juízo.

Por que delitos hão-de ser despedidos.

LXVIII.

Há-de prevenir-se primeiramente, que nenhum fraco, esforçado, poderoso, ou pobre se pretender adiantar-se, ou avantajar-se aos demais fique sem castigo; e se não se emendar, dê-se-lhe maior penitência. Porém se com avisos suaves, e Orações não quiser emendar-se, antes se desvanecer mais, e mais se ensoberbecer, lance-se então do rebanho de Cristo, seguindo ao Apóstolo, que diz: Lançai da vossa companhia o mau. É forçoso separar a ovelha empestada da comunicação dos Fiéis. O Mestre pois, que tem o báculo, e a vara (báculo para sustentar os fracos, vara para castigar com zelo santo os delitos) não se resolva a castigar, senão com o parecer do Patriarca, e havendo-o encomendado a Deus; e não seja, diz S. Máximo: Que a demasiada brandura relaxe o justo rigor, ou a demasiada aspereza desespere os delinquentes.

Que da Páscoa até Todos os Santos não se vista senão uma camisa de linho.

LXIX.

Por atender ao muito calor das partes Orientais, da Páscoa da Ressurreição até à Festa de Todos os Santos, se dê uma camisa de linho, e não mais; não por obrigação, mas por graça, ou Indulgência a cada um, aquele digo, que quiser usar. Porém no mais tempo todos vistam camisas de lã.

Qual seja o necessário para as camas.

LXX.

De comum parecer mandamos, que não sendo com grave ocasião, durma cada um em cama aparte. Tenha cada um seu leito decente, conforme a disposição do Mestre. Parece-nos, que basta a cada um um colchão, almofada, e manta. A quem faltar alguma destas três coisas, dê-se-lhe um cobertor, ou sobre-cama, e em todo o tempo se lhe permite um lençol de linho. Não durmam sem camisa, nem ceroulas: e não falte luz toda a noite no dormitório dos Irmãos.

De evitar a murmuração.

LXXI.

Mandamos, que fujais da emulação, invejas, e murmurações, como de perniciosa peste. Cuide muito cada um não culpar, nem murmurar de seu Irmão, nem em ausência, conforme o conselho do Apóstolo: Não sejas acriminador, nem murmurador no povo: quando souberes claramente, que teu Irmão tem caído em alguma falta, repreende-o particularmente com caridade fraternal, e pacificamente, para cumprires com o preceito Evangélico do Senhor. Se não fizer caso, chama a outro Irmão para o mesmo efeito. Se desprezar o aviso de ambos; fazei-o público diante de toda a Comunidade; porque sem dúvida estão muito cegos, os que murmuram de outrem, e muito desgraçados, os que são invejosos, e vêm cair nos laços do nosso antigo, e enganador inimigo.

Que se fujam aos abraços, e ósculos de qualquer mulher.

LXXII.

É muito perigoso, e arriscado atender com curiosidade, e cuidado ao rosto das mulheres. E assim nenhum se atreva a dar ósculo a viúva, nem donzela, nem a mulher alguma, ainda que muito chegada em parentesco, como mãe, irmã, ou tia. Fuja o Cavaleiro de Cristo dos afagos da mulher, que põem ao homem no último risco; para que com pura vida, e segura consciência chegue a gozar de Deus para sempre. Amém.

Fim da Regra

 

NOTAS

 

[1] Manuel Gandra, Regra Primitiva da Ordem do Templo (tradução, introdução e notas). Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica, Mafra, 1998.

[2] Segundo Manuel Gandra, a suspeita dos investigadores tem origem nos elementos recolhidos no processo contra os Templários. Consulte-se Théodore Juge, L´Ordre du Temple: Examen de trois manuscrits des XIIe et XIIIe siècles, contenant les anciens réglements secrets qui furent maintenus en vigueur dans l´Ordre du Temple jusque´au commencement du XIVe siècle, in Globe (1839), pp. 59-61.

[3] Henri de Curzon, La Régle du Temple. Paris, 1886.

[4] J. M. Upton Ward, A Regra dos Templários, 1992. Primeira edição portuguesa por “A Esfera dos Livros”, Lisboa, Fevereiro de 2006.

[5] Pinharanda Gomes, A Regra Primitiva dos Cavaleiros Templários. Hugin – Editores, Lda., Lisboa, 1999.

[6] Há quem traduza o latim Pauperes Commilitonum por “Pobres Cavaleiros”, o que está incorrecto, pois eles não eram pobres nem tristes. A tradução correcta é “Cavaleiros Pobres”, isto por voto assumido de Pobreza espiritual em Cristo, ou seja, despossuídos do mundo, da mundanidade, e cheios da riqueza de Deus que a Fé lhes dava. Se vieram a ficar ricos dos bens do mundo, contudo, mantiveram a máxima “possuir despossuidamente”, donde a confiança total que foi depositada neles por quantos lhes confiaram os seus bens temporais, tamanha era a fama de honra e honestidade de que gozavam. Ainda hoje, para firmar a palavra dada, se usa a expressão “palavra de honra de templário vale ouro”.

Teosofia Eubiótica, além do Véu de Maya – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Set 1 2019 

Sim, Teosofia Eubiótica além do “Véu de Maya” ou da Ilusão dos Sentidos. Sobretudo para quem ceifa nos conhecimentos dados a público por esta Escola Iniciática e dos mesmos se serve como argumentário para a denegrir e ao seu líder fundador incontestável, o Professor Henrique José de Souza (1883-1963).

É reparo que tenho feito ao longo dos decénios como alerta ao público geral e sobretudo àqueles seguidores da ideologia teosófica do Professor Henrique José de Souza que, assim parece, têm “apontado canhões à retaguarda”, deixando a multidão infindável de falsos profetas e messias mancos ir desferindo estocada após estocada até à fatal, sob o impulso do ódio enciumado que têm tanto a HJS como à sua Obra, porque o Mental desse supera infinitamente o Emocional desses muitos. Dentre estes, há aqueles de erudição virtual tão grande que os “sete sábios da Grécia” perante eles não passam de ignorantes; sabem tudo, conhecem tudo, falam de tudo, enfim, é o autoconvencimento típico de gente povoando o espaço dessacralizado de um tempo intercíclico como é o actual. Para este “gurusismo” só a sua exclusiva verdade conta e é a única certa, e todos os seus imaginários adversários são alvos a abater pela maledicência e a intriga, ou seja, pelo assassínio moral do próximo que lhes pareça fazer sombra, esta que é a sua própria. E assim vão enganando o povo impúbere, vendendo-lhe a tralha de suas inutilidades no alimento das suas fantasias, regando-lhes a vaidade, alimentando-lhes o ego, aumentando-lhes a ignorância. Eles mesmos se não forem constantemente adulados como todo-prepotentes, acabará faltando-lhes o ânimo e simplesmente desistem, voltando ao reassumir da condição profana donde, afinal, nunca saíram. No umbral da consciência entre dois estados, o ordinário e o espiritual, orbitam entre um e outro na mais frenética agitação de que só poderão resultar as mais disparatadas manifestações. Para esses, a Sabedoria e a Iniciação estão mais distantes que o Sol da Lua…

Ademais, não se aceitando a realidade dos Mundos Subterrâneos menos ainda se aceitará Henrique José de Souza, e consequentemente esta Obra da mais profunda e distinta espiritualidade. Sem isso, estar-se-á num contínuo navegar pelo oceano incerto das opiniões desencontradas indo entrechocar com os arrecifes da maledicência aguçados pelos preconceitos, formando nuvens carregadas que desencadeiam furiosas tempestades morais, com o risco grave de soçobrar fisicamente.

Está-se num tempo de fingimento e vaidade, num tempo em que a ausência de valores é o único padrão de tantos e iguais mataiotes. Trata-se do culto individualista do “eu”, exacerbado nas modas acríticas de “auto-curas” e “auto-ajudas” onde se tem por chavão narciso o “se eu não gostar de mim, quem gostará?”. Isso conduz ao vale-tudo da mais irracional egolatria, onde mirar-se ao espelho acaba sendo mais confortante que o afago de mão amiga, aliás, interpretando cada alheio como um adversário a vencer e a extorquir. Tanto me traz à memória aquele personagem bizarro que abandonando, com o que conseguiu levar, a Comunidade Teúrgica Portuguesa por não ter conseguido tomar de assalto a sua chefia, na sua ambição permanente de élan ou destaque sobre os demais, sem o qual, aliás, a sua “imensíssima espiritualidade” fenece, vem dizendo em público que o seu principal foco de atenção desde há cerca de vinte anos é a espiritualidade, e, portanto, só pode ser muito espiritual; que tem muitos livros que lê – os livros são para ler, creio eu – e por isso é muito sábio além de muito humilde, confessa-se no seu auto-elogio; inventou uma ‘escolinha’ de apartamento nos subúrbios da capital tendo feito o seu registo notarial, logo afirmando ser a única e verdadeira e ele o “impoluto” líder incontestável dos seus correligionários; até faz palestras avulsas e de avulso escreve livros com quanto surripiou da C.T.P. e/ou ouviu e leu de mim, imitando-me em tudo no mais grotesco dos mimetismos; é guru, está nas alturíssimas da consciência, fala com todos os deuses, frequenta todos os recantos miríficos e discursa sobre tudo, gosta de palavras majestáticas, estrondosas, espampanantes, é feliz na sua soltura, deixou de ser questionado pelos que lhe eram próximos e se afastaram; resolve dilemas, “põe num chinelo” os maiores do pensamento humano, corrige todos, só ele está certo, e contudo se o problema é exacto e a solução igualmente exacta, as propostas para a sua solução são equívocas e assim o problema mantém-se insolúvel. Quimérico no onirismo dos sentidos, já de si fantasiados pelo impulso indomado do extremo narciso distorcendo a realidade sensorial assim alterada, aos tombos por montes e buracos no chão, visionando “realidades” da mais pura ilusão psicossomática, frenético vai enganando a sua descrença por realmente nunca ter sido o que arvora ser e ter, aparte o furtado, quer a mim/C.T.P., quer ao que vai rapinando daqui e dacolá em fontes avulsas, não se inibindo da utilização, que aliás aconselha a quem lhe está próximo, de perfis falsos na internet… Mataiotes mataioteton ta panta mataiotes – “Vaidade das vaidades é tudo vaidade” (ματαιότης ματαιοτήτων τὰ πάντα ματαιότης), fútil, vazio, sem sentido, diz o Eclesiastes 12:8, e repete Diógenes na Grécia, vindo a ser a mesma sentença latina vanitas vanitatum et omnia vanitas.

Tudo isto acerca de um recente detrator do Professor Henrique José de Souza, cuja intervenção visionada assisti com o maior cuidado e atenção. O que esse cidadão, por sinal brasileiro, disse, inspirou-me a dar uma aula de retificação na Comunidade Teúrgica Portuguesa e que agora descrevo aqui.

Talvez a primeira imprecisão desse autor muito infeliz nas suas dissertações, tenha sido a sua afirmação do Professor Henrique José de Souza ter inventado a partir do nada o neologismo ou palavra nova eubiose. Será neologismo mas não é inventado do nada, pois no Dicionário de Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, assim como nos demais dicionários da mesma língua, aparece o verbete: “Eubiótica, f. Arte de bem viver. (Do gr. eubiotos)”. Eubiótica é termo muito utilizado em Medicina Biológica – Henrique José de Souza foi estudante na Faculdade de Medicina de São Salvador da Bahia, na sua juventude – que é constituída por um conjunto de procedimentos diagnósticos e terapêuticos que visam a integridade do biossistema humano e, consequentemente, permitem exercer a avaliação orientada para uma concepção sinergética integral do ser humano.

O grego eubiotos, ευβιότες, em português eubiótica, serviu de inspiração ao Professor Henrique José de Souza para criar a palavra eubiose, com significado idêntico àquela. Com efeito, eubiose divide-se em três raízes gregos: eu, “bem”, bios, “vida”, ose, “método”, portanto, a “arte de bem viver”, esta sendo a própria Ciência da Vida ou a Eubiose que cuida do Bem, do Bom e do Belo no cultivo da Alma, predicados se expressando como Ética, Estética e Beleza vindo revelar a verdadeira Mística.

Que assim é, o próprio Professor Henrique José de Souza o afirma no seu precioso estudo Conselho Úteis – O que é Eubiose, publicado na revista O Luzeiro n.º 5, Outubro de 1955, que assina sob o pseudónimo Lorenzo Paolo Domiciani:

Eubiose é a Ciência da Vida. E como tal, é aquela que se ensina os meios de se viver em harmonia com as leis da Natureza, e consequentemente, com as leis universais, das quais as primeiras se derivam. Pelo que se vê, nenhuma diferença existe entre Eubiose e Teosofia, porque esta, como Ciência ou Sabedoria Divina, se propõe a mesma coisa, como “Tronco donde se originam as ciências, religiões, filosofias, línguas e tudo o mais quanto já existe e há-de existir no mundo”. Desse modo, não apenas os Adeptos da Boa Lei mas também todos os Iluminados que a este mundo vieram, pautaram as suas vidas eubiótica ou teosoficamente, ensinando aos demais a que agissem do mesmo modo. E isto de acordo com a evolução natural da época dos seus vários aparecimentos.”

Nesse seguimento, aparece o seguinte título da Carta-Revelação do Professor Henrique J. Souza emitida de São Paulo com a data 13 de Abril de 1963: Cristianismo, Budismo e Teosofia Eubiótica. Adiantando noutra parte:

“A nossa Obra é um plano universal de evolução que segue três caminhos, desenvolvendo: a Emoção pela Educação; a Inteligência pela Instrução; e a Vontade pelo Trabalho.”

Isso levou-me a estruturar o “tripé” da Obra do Eterno na Face da Terra, mas foi Carlos Lucas de Souza, discípulo próximo do Professor Henrique, quem primeiro o sugeriu na sua obra volumosa O Raiar de um Novo Mundo, 1968.

Baseado nas premissas enunciadas pelo Mestre, assim disponho o “tripé” de realização individual e colectiva:

Teurgia = Templo … conduzindo à Metástase (Mente – Espírito);
Eubiose = Teatro … conduzindo à Superação (Emoção – Alma);
Teosofia = Escola … conduzindo à Transformação (Vontade – Corpo).

Por fim, o Professor Henrique José de Souza não criou o supradito neologismo em 1924 e sim em 1954, como está registado nos documentos internos desta Obra.

Na mesma sequência de equívocos datísticos, consequência da má ceifa na seara alheia, por certo apressada não fosse ele ser apanhado, o despudorado autor revela saber mais da História da Obra que os que nela estão e descreve-a de modo absolutamente errado, tanto nos títulos como nas datas. Reponho a verdade dos factos para o público geral, porque os que vivem na Obra sabem disto de cor e salteado:

1905 – Henrique José de Souza é membro activo da Loja Alcyone, em São Salvador da Bahia, Rama da Sociedade Teosófica de Adyar, Índia, a qual funcionou primeiro na sua residência e depois na do seu amigo Magalhães, sempre ocupando o cargo de tesoureiro. Abandonou a mesma em 1907, em discordância com a ideia do “Novo Messias” Jiddu Krishnamurti.

1916 – Em 28 de Setembro H.J.S. funda, no Rio de Janeiro, o Centro de Estudos Comunhão Esotérica Samyama, que durou até 22 de Dezembro de 1919.

1924 – Após sete Rituais afins aos sete Planetas tradicionais, H.J.S. funda na Rua Santa Rosa, n.º 426, em Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro, às 15 horas de domingo de 10 de Agosto desse ano, com 14 pessoas presentes, Dhâranâ – Sociedade Mental-Espiritualista, durando até 8 de Maio de 1928. Em Agosto de 1925 começou a publicar-se a revista Dhâranâ, órgão oficial da entidade, com redacção na Rua Andrade Neves, n.º 305, Niterói (aponto isto por ter sido afirmado que a revista oficial da Obra é a Aquarius, mas o n.º 1 desta data de 1975 e foi editada no Rio de Janeiro pela Associação Editorial Aquarius, registada no Cartório Civil de Pessoas Jurídicas, na capital carioca, em 18 de Dezembro de 1974).

1928 – Em 8 de Maio, a anterior Sociedade Mental-Espiritualista mudou o seu nome para Sociedade Teosófica Brasileira, cujos estatutos já haviam sido aprovados em assembleia geral em 18 de Março de 1928 e registados em 23 de Abril do mesmo ano, instalando-se a sua Sede na Rua Gavião Peixoto, n.º 284, Niterói. Em 5 de Novembro de 1932, mudou-se para a Rua Buenos Aires, n.º 81, 2.º andar, Rio de Janeiro.

1969 – Em 28 de Setembro, a S.T.B. mudou de nome e estatutos, aparecendo com nova orgânica como Sociedade Brasileira de Eubiose presidida por Hélio Jefferson de Souza, o primeiro dos quatro filhos do casal Henrique José de Souza e Helena Jefferson de Souza.

Que o pai de Henrique José de Souza tenha sido “empresário teatral”, também não é verdade. Honorato José de Souza, progenitor daquele, estava ligado ao negócio dos fretes marítimas possuindo alguns trapiches em São Salvador da Bahia. Faleceu em 10 de Agosto de 1907 e o filho retomou o negócio de família, ficando à frente deles até 1914, ano da sua ruína devido ao deflagrar da I Grande Guerra Mundial.

“Empresário teatral” era um outro personagem, dessa feita lusitano, envolvido na vida de Henrique José de Souza em 1899, no Teatro São João na capital baiana. Escuso dar o seu nome, tanto mais que o voluntarioso caluniador declara publicamente que Henrique José de Souza nunca foi à Índia, tampouco veio a Portugal, quando tinha 16 anos de idade, por tudo “isso não passar de uma patranha maluca inventada pelo próprio”, “muito mais porque o Governo Inglês que então ocupava o Tibete não permitia a entrada de estrangeiros”.

Primeiro que tudo, a invasão britânica do Tibete só aconteceu em 1903, tendo ocupado Lhasa em 3 de Agosto de 1904. Em 1899, entrava-se no Tibete com um salvo-conduto do maharaja de Cachemira e autorização especial do Dalai-Lama. E foi isso que sucedeu com a comitiva que levou Henrique a Leh e daí a Srinagar, cidades distantes entre elas cerca de 419 kms em linha paralela, no Norte da Índia. Foram recebidos pelo soberano da província de Cachemira, o maharaja Partab Singh, neto do Adepto Gulab Singh, que também foi maharaja entre 1846 e 1857, e na posse do indispensável salvo-conduto penetraram no Tibete pela província do Ladak.

Quanto a Henrique não ter vindo a Portugal e aos lugares que assinalou nos seus diversos documentos, públicos e reservados, torna-se ainda mais espantoso como o mesmo sabia deles detalhadamente e das pessoas singulares, a maioria Adeptos Vivos, que nos mesmos viviam. Pude testemunhar isso pessoalmente no tocante à misteriosa Ordem de Mariz que em terra lusa sob a sua chancela recepcionou Henrique José de Souza. Ora as informações disponibilizadas por essa acerca de lugares específicos do Portugal profundo não vinham nem vêm descritas em algum almanaque ou roteiro turístico. Então, como sabia ele de tudo isso? Como tudo pode estar certo se afinal nunca veio a Portugal? Não confere, resta só a palha vã intriguista.

Não percebendo dos ciclos em que se reparte a Vida Universal, dos lugares assinalados destacados em cada ciclo, não percebendo a brasilidade “incontinente” de Henrique José de Souza que desde a sua pátria brasílica abraçava todos os povos e países no mais amplexo e sinárquico sentido de Concórdia Universal, o pretensioso crítico chama tudo isso de cretinice e recusa que alguma vez tenha havido algo que assinalasse o papel destacado do Brasil no Futuro imediato do Mundo.

É de imediato contradito pelas profecias indicadoras da Nova Raça do Ocidente – o Brasil está no Ocidente do Mundo – constantes no capítulo IV do Vishnu-Purana e no capítulo CCLXXII do Matsya-Purana, havendo ainda referências no Bhagavata-Purana (sloka XII) e no Vayu-Purana, na parte referente a Moru (Morya) que restabelecerá a linhagem Kshatriya ou Guerreira na próxima Yuga ou Idade. Mais recentemente, tem-se a profecia do 13.º Dalai-Lama Thubten Gyatso (12.2.1876 – 17.12.1933) proferida em 1924, onde é indicado O Fu Sang (Brasil) como berço da futura Raça Dourada. No mesmo sentido profetizou, em 1948, o Lama Lha Kuo, superior do Mosteiro de Gyang-tsé, no Tibete. Aqui no Ocidente, apontando o Planalto Central do Brasil como berço de uma futura civilização, têm-se as profecias de São Francisco de Paula e de São João Bosco, a deste que tanto influenciaram aquele discípulo do Professor Henrique José de Souza que foi o Presidente da República Federativa do Brasil, Juscelino Kubitschek de Oliveira, promotor da fundação de Brasília, actual capital do país, em 21 de Abril de 1960, e poucos meses depois, já no final do seu mandato, visitou Portugal onde foi recebido apoteoticamente.

Com tudo isso, o Ex Oriens Umbra decai no crepúsculo do Passado e o Ecce Ocidens Lux levanta-se cada vez mais na alvorada do Futuro, hoje mesmo na hora presente.

Razão e facto incontornável que levou o Professor Henrique José de Souza a deixar escrito no seu livro O Verdadeiro Caminho da Iniciação:

“Desde 1921 as Consciências ou Divinas Essências que animavam aquela Corte tibetana de nobres e ilustres Marambas, começaram a projectar-se nas mentes dos Filhos do Ocidente. A sublime imagem daquele Santo Ancião (Bogdo Khan) embora tenha deixado o cenário humano não abandonou, no entanto, os nossos corações ocidentais. Com uma precisão matemática as suas profecias vão se realizando no Oriente, e as suas visões objectivando-se rapidamente. O que outrora era tomado como símbolo, hoje é dura realidade.

“Observando as coisas com os olhos da Iniciação, verificamos que o Oriente de hoje se ocidentalizou com as artes bélicas, com a ciência positiva e materialista, característica do pensamento e temperamento ocidental, ao passo que o Ocidente está aos poucos se orientalizando com as filosofias e conhecimentos das tradições exotéricas e esotéricas do Oriente. As consciências esclarecidas do hemisfério oriental estão voltadas para as nossas plagas. Os mistérios guardados ciosamente nos corações dos transhimalaios, estão aos poucos sendo transladados para o âmago dos templos ocultos em… cordilheiras americanas. A tradição do Monte Meru já cedeu lugar à do Monte Ararat, no Roncador, e do Monte Moreb, nos contrafortes na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, Brasil.

“Isto posto, podemos dizer que o Himalaia e a Mantiqueira se consorciaram, cujo himeneu dará ao Mundo aqueles que realizarão a Concórdia Universal.”

Posto assim, tem-se o deslocamento das consciências do Oriente para o Ocidente, não um deslocamento geográfico mas consciencial, em conformidade à evolução cíclica de seres e coisas, e mesmo que um dia haja um deslocamento geográfico irá ficará devendo-se ao movimento contínuo das placas tectónicas intercontinentais acompanhando a gradual verticalização do eixo terrestre, inclinado 23º desde o chamado Dilúvio Universal, que coincidiu com o afundamento da Atlântida e o emergir de boa parte de continentes antes no fundo dos oceanos. Essa verticalização é impropriamente chamada “inversão dos pólos”, antes significando que nesse Passado longínquo o Sol se levantava a Ocidente, esta palavra latina, Occidis, significando “Sol Poente”, lugar de recolhimento da Fonte de Vida (Sol) e assim associado à “morte” pelas várias tradições religiosas do mundo. Mas também o lugar onde a Fonte de Vida repousa o seu Saber, portanto, onde a Sabedoria está ocultada, motivo por que os cultos promontoriais (Sagres, São Vicente, Roca, Carvoeiro, etc.) eram sempre psicopompos ou intermediários entre dois estádios, o profano e o sagrado, a morte e imortalidade, o Mundo de Agharta e a Face da Terra, assegurados por Colégios de Mistérios, desde a cultura celta à árabe e a cristã, para não ir mais longe. Enfim, a Geologia e a Geografia, acompanhando a Antropologia, explicam tudo isso muito bem e detalhadamente, para não falar da Antropogénese ou da Criação do Homem à luz da Sabedoria Iniciática das Idades, onde igualmente aparece o Brasil Fenício (da Pré-História à Proto-História), o Brasil Luso-Ameríndio (da História à Modernidade) e o Brasil Pan-Americano (da Modernidade ao Futurismo).

Conforme o esquema acima, tem-se:

Brasil Fenício = Badezir ou Baal-Zir, Jeth ou Ieth-Baal-Bey, Jeth ou Ieth-Baal-Bel – Ciclo do Pai (Germinação), encabeçado pela Ordem dos Cários.

Brasil Luso-Ameríndio = Pedro Álvares Cabral, Frei Henrique Soares, Saixê – Ciclo do Filho (Fundação), encabeçado pela Ordem de Cristo.

Brasil Pan-Americano = Henrique José de Souza, Honorato José de Souza, Helena Jefferson de Souza – Ciclo do Espírito Santo (Irradiação), encabeçado pela Ordem do Santo Graal.

Tomando de avulso os nomes Ordem do Santo Graal e Filhas de Allamirah, respigados de informações soltas que recolheu em sítios de internet, o fogoso caluniador tomado de ciúme loquaz chama ao Templo Teosófico onde se reúnem as citadas de Templo de Maitreya, em São Lourenço no Sul de Minas Gerais, e lança-se nas mais infamantes invectivas pareando Henrique José de Souza e Helena Petrovna Blavatsky como “dois inveterados mentirosos compulsivos”, sobretudo o primeiro “possuído da mais alucinante fantasia”. Tais invectivas não atingem os visados, cujas vidas e obras falam por si mesmas, antes, espécie de “choque de retorno”, só demonstram a vilania da mediocridade humana de quem as emite.

Primeiro que tudo, o Templo em São Lourenço está desde a sua fundação – 24 de Fevereiro de 1949 – “dedicado a todas as religiões do Mundo” pelo seu próprio fundador, Professor Henrique José de Souza, e consagrado ao Messias ou Avatara do Novo Ciclo de Aquário, Maitreya, o Cristo Universal (“Senhor dos Universos”, segundo a oração judaica e islâmica adoptada pela Maçonaria Escocesa), e daí o seu nome interno: Templo de Mitra-Sherim, que significa em aghartino “Louvado seja Mitra”, um dos Aspectos do mesmo Espírito de Verdade. Afim ao Templo sanlourenciano está o Templo Teúrgico dos Portugueses consagrado a Akdorge, “Sub-Aspecto” de Maitreya, com o seu nome interno Ak-Sherim, “Louvada seja a Luz” (de Deus).

As Filhas de Allamirah integram a Ordem do Santo Graal que é uma “quinta Coisa” síntese de quatro Ordens que a constituem em conformidade aos quatro Graus Iniciáticos desta Obra Divina:

Ordem dos Templários – Fundada em 24 de Fevereiro de 1949, no dia 28 de Dezembro de 1951 fundou-se a Guarda do Santo Graal, exclusivamente masculina, composta por Templários do Santo Graal que originalmente eram 32 repartidos em Sacerdotes ou Goros, Cavaleiros e Arqueiros. Expressa o Pai (1.º Logos) e foi originalmente dirigida pelo Professor Henrique José de Souza, passando depois a ser chefiada pelo seu filho primogénito do segundo casamento, Hélio Jefferson de Souza.

Ordem das Filhas de Allamirah – Fundada na mesma data da Ordem do Santo Graal (Templários), é exclusivamente feminina. Tem por função apoiar aqueles que guardam a Tradição do Santo Graal, os Templários de Maitreya ou de Agharta. Desempenha, pois, espiritual e humanamente função complementar. Expressa a Mãe (2.º Logos) e originalmente foi dirigida por D. Helena Jefferson de Souza, posteriormente por sua filha Selene Jefferson de Souza.

Ordem dos Tributários – Foi fundada pelo Professor Henrique José de Souza na sexta-feira de 23 de Outubro de 1954, com a finalidade de dar cobertura física, psíquica, mental e espiritual à Obra do Eterno na Face da Terra e aos seus representantes máximos, Henrique – Helena, bem como divulgar, por meio da instrução, os ensinamentos deste Mestre Vivo que o foi e ficou provado na sua vida e obra, desde o berço ao túmulo. Esteve na sua direcção, por algum tempo, o quarto filho do casal HJS, Hermés Jefferson de Souza, já falecido (em 26.9.1987, em Nova Xavantina, Mato Grosso).

Ordem do Ararat – Fundada pelo Professor Henrique José de Souza em 24 de Março de 1958, dia imediato àquele onde os dois Irmãos – Akbel e Arabel, os 6.º e 5.º Planetários – beberam na mesma Taça, onde o Amoroso e o Rigoroso se tornaram Amoroso e Esplendoroso, ou seja, nem Bem nem Mal mas o sublime Equilíbrio da Lei, cessando assim as milenares lutas estratégicas entre Ambos, a fim de doravante a Evolução Humana prosseguir com maior equilíbrio. Esta Ordem – equivalente à portuguesa de Kurat – foi criada com a finalidade de propiciar as condições favoráveis para o entendimento e vivência do novo estado de consciência, exigido por Lei, para o Ciclo de Aquário, e tem por lema “Realização através do Carácter e da Cultura”. Isto dá a trilogia Escola – Teatro – Templo expressa na sua real função, posto destacar-se na mesma a formação trinitária contida no lema: Cultura – Carácter – Realização. Esta Ordem expressa o Filho (3.º Logos) e originalmente devia ser dirigida por Valter Orion de Souza, fruto do primeiro casamento do Professor Henrique com D. Hercília Gonçalves, entretanto falecida, mas que depois foi dirigida por Henrique Jefferson de Souza, terceiro filho do segundo casamento do Professor Henrique com D. Helena Jefferson de Souza, igualmente na chefia da Ordem dos Tributários como Grão-Tributário.

Como disse, as quatro Ordens correspondem aos quatro Graus Iniciáticos e respectivos estados de consciência. Juntas perfazem uma “quinta coisa” e um quinto estado de consciência espiritual que se assinalam no Grau Interno de Integração, ou seja, a própria Ordem do Santo Graal possuindo na sua estrutura os supraditos quatro patamares definidos de Realização, palavra esta afim à Realização de Deus que é a Tónica do Quinto Posto Representativo de Sintra. Mais uma vez, revela-se que tudo na Obra tem a ver com Sintra, com Portugal, e queira-se ou não foi assim que a Lei do Eterno determinou.

Essa é a Missão Y a favor da Concórdia Universal, mais além dos incidentes, paixões e preconceitos do vulgo, mais além dos efeitos do Karma Humano neste Interciclos, e em consciência sempre me ative e atenho exclusivamente às Causas, Mundo que é a única e exclusiva panaceia para a Felicidade Humana. Assim deveria proceder todo o verdadeiro espiritualista, qualquer que seja a sua ideologia, seja confessional ou iniciática, sempre unindo e jamais semeando discórdia, por esta alguns demasiados impúberes pretendendo – para vã glória pessoal de autossatisfação – confundir e colar o mesmo ao mais que haja de podre e gasto de um ciclo mais que morto. Isso não tem valor humano nem força moral.

O lema da Sinarquia é um só: Unir para governar! Mais além de partidos e querelas politiqueiras, mais além de cores e pretexto pretextando a União da Humanidade sob a cor alvinitente de uma única Bandeira: a da Pax Universal. Para cujo soerguimento intervêm secreta mas certeiramente as Potências Espirituais, Jinas, de Consciências Cósmicas projectadas no escrínio de dois Enclaves Aghartinos causalmente encravados em solo português e brasileiro, garantindo a solução do Futuro imediato do Mundo e a respectiva Evolução Humana.

Nesse sentido, afirmando-se como Mestre Vivo que era e é no Plano em que ora está, o Professor Henrique José de Souza escreveu na sua Carta-Revelação emitida de São Paulo em 2.11.1954:

“Pena, entretanto, como aflição, os que estando com os Gémeos pensam de modo diferente. Nesse caso, melhor seria jamais terem procurado a nossa Obra para seguirem as suas opiniões pessoais, inclusive quando dizem: “Eu penso de modo diferente”… da Lei, do Professor. Ora, passem muito bem deixando a Obra, mas ao menos tenham a dignidade de não levarem para o mundo profano aquilo que aprenderam connosco. Nós defendendo a Obra, defendendo estamos o Brasil, o Mundo inteiro.

“Sim, Eu sou a Lei, Eu sou a Razão, Eu sou a Sabedoria Divina. E quando digo Eu faço, seja o que for, é sempre estribado em tais coisas ou resoluções. Dentre os Quatro, Manu, Yama, Karma e Astaroth, Eu sou o Moderador, Eu sou Aquele que representa o voto desempatador de Minerva, a Deusa Sabedoria.”

Manifestando a prosápia do autoconvencimento com que comata a sua ignorância, o fogoso injuriador dá-se à crítica aberta de haverem Lojas Maçónicas tendo ao próprio Henrique José de Souza por Patrono, “facto inconcebível demonstrando que a seita tresloucada daquele também já penetrou e polui a Augusta Ordem”. Usando fraseologia maçónica não me parece que esse personagem seja maçom, e se o for de certeza não possui o espírito superior que caracteriza a essência última da Maçonaria como Ordem Iniciática, e poderá ser “facto inconcebível” e “tresloucado” para ele, mas não para os que conhecem de perto os acontecimentos que aproximaram Teosofia – Maçonaria com a presença ainda viva do augusto Mentor. Realmente, há Lojas Maçónicas constituídas por teósofos formados à sombra da antiga Sociedade Teosófica Brasileira, como aquelas “Luz do Ocidente”, “Graal do Ocidente”, “Loja Simbólica Professor Henrique José de Souza”, etc., todas legalizadas pelo Grande Oriente do Brasil.

Importando exclusivamente o Espírito Tradicional inerente à Maçonaria interpretável com a devida profundidade pela Teosofia, posto aquela ter simbologia e falerística mas não doutrina, o fogoso autor parece-se com alguém maçonista que por um desses dias soltou-me no rosto a afirmação de quem ignora tudo além do que eu já dei publicamente em notas soltas: “É lastimável que Henrique José de Souza tenha ficado por essa Teosofia e não prosseguisse só na Maçonaria”! Ignorância manifesta de quem não sabe, como a de alguns maçons mais zelosos fascinados convencidos de sua “superioridade” recambiando para suas esposas “profanas” a leitura das minhas obras, mas que se calam quando lhes afirmo e provo a ingenuidade do seu convencimento acerca dos Mistérios Antigos, há muito foram superados por esta mesma Obra Divina pela qual leio e interpreto os 33 Graus tradicionais da Maçonaria, e que eu se falasse na Linguagem do Futuro (e a falo quando necessário) não iriam perceber nada de nadíssima do sentido último da Maçonaria como meio de Iniciação e o que esta seja realmente. Portanto, por exclusivo respeito aos dois Superiores Incógnitos, Mestres Reais, do século XVIII que a implantaram no Ocidente, um vindo de Kaleb – São Germano – e outro de Luxor – Cagliostro – como Fraternidades Jinas afins à Maçonaria Aghartina ou Traishu-Maruta com os seus Ritos Djina-Masdhars (coisas que de naturalmente nunca ouviram falar, sendo-lhes vedado tais conhecimentos impróprios para profanos, mesmo que sendo iniciados simbólicos mas não reais), tenho prestado o devido apoio filosófico – às vezes prático em Loja, só para demonstrar o significado real das palavras, actos e símbolos aí vivificados por meio do rito – ao entendimento dessa simbólica Arte Real, mas sempre com a condição primeira de solicitarem apoio e sem se apoiarem na presunção do convencimento que perde, do género ser iniciado só por estar, sem fazer nenhum esforço real em serem realmente Iniciados, que implica sempre condição de ser espiritual, dotado de ética e saber superiores ao comum. Isto implica a transformação da pedra bruta (da personalidade) em pedra polida (da individualidade), ou por outra, a transformação da vida-energia em vida-consciência, que é a derradeira meta da Verdadeira Iniciação.

Com efeito, é quase comum ouvir-se hoje em dia em determinados meios esotéricos a prerrogativa: “Só é iniciado quem for maçom”! Nada mais errado. Isso esporadicamente é-me apontado em Portugal, e logo segue a resposta para agrado ou desagrado do ouvinte, e também me foi repetido em vários sectores maçónicos brasileiros acerca do Professor Henrique José de Souza (São Salvador da Bahia, 15.09.1883 – São Paulo, 09.09.1963) ter “sido Iniciado porque fora Maçom”! Nada mais errado.

Fui e sou obrigado a esclarecer que a passagem do Professor HJS pela Maçonaria fora a mais acidental possível, ainda jovem e pela mão do seu pai, Honorato José de Souza, e do seu avô, o comendador Jacinto José de Souza, ainda na primeira década do século XX (1906 ou 1907), sendo levado à Suprema Potência Maçónica do Brasil, o Grande Oriente do Brasil então sediado no Rio de Janeiro. Esse episódio esporádico desfechou pouco tempo depois com o seu desquite da Maçonaria (possivelmente em 1907, ano do falecimento do progenitor – 10.08.1907), pelo menos da sua parte visível ou social, e se depois manteve algum vínculo a essa Instituição terá sido exclusivamente como membro honorário (principalmente a partir de 1914, ano em que se mudou com a família para o Rio de Janeiro). Depois disso, já nas décadas de 40 e  50 do século XX, tentou inculcar profundas reformas espirituais – “Reformas Assúricas” – no seio da Maçonaria (inclusive enviando discípulos seus para ela com essa missão, depressa esquecida pela maioria deles que ficaram pela mesma e com isso até ganhando forte animosidade não justificável contra JHS, como me confessou, com esgar de desagrado profundo, Roberto Lucíola), facto que lhe granjeou as homenagens do próprio Governo Oculto do Mundo (G.O.M.) em 11 de Julho de 1949, quando uma comitiva de Membros da Maçonaria Escocesa ligados ao Rito de York, liderados pelo Adepto Independente Mr. Ralph Moore, visitou JHS na sede da entidade Sociedade Teosófica Brasileira, na cidade do Rio de Janeiro, saudando-o e reconhecendo-o como o seu “Mestre Secreto Universal”, revelando ainda que o “santo-e-senha” dos confrades desse Rito de “Arco Real” (ou a Real Agharta) fora, durante muito tempo, Henrich, Henrique ou El Rike, o que é deveras significativo.

Henrique José de Souza nascera Iniciado mercê dos seus próprios esforços desenvolvidos em vidas anteriores. O único trabalho inicial que teve foi o de reassumir essa condição interior primordial que já portava consigo, ou seja, o de se reintegrar na sua Consciência Espiritual, Divina, e para isso contou com o apoio imprescindível de elementos externos, de Mestres Espirituais ou Reais porque já plenamente reintegrados em si mesmos, o que se deu definitivamente em 28 de Abril de 1928, no Santuário de Dhâranâ – Sociedade Mental-Espiritualista, na Rua Otávio Carneiro, n.º 9, Niterói. Foi o dia da tomada da Conciência Integral, motivo de ter ficado como “Dia da Imortalidade ou da Vinda Definitiva do Mestre”, quando HJS torna-se de vez JHS de pleno direito espiritual, portanto, iniciático e mesmo avatárico por realizar a Metástase Superior com o seu Ser Divino, o próprio Akbel. Não há menor nem maior no Caminho da Verdadeira Iniciação, tão-só os mais adiantados e os menos adiantados, todos rumando à Integração na sua Divindade e por esta na Divindade Absoluta. O mais, é nada!

Adianto duas notas necessárias sobre a acção oculta da Maçonaria Universal. A primeira, é que todos os Movimentos Iniciáticos provindos do Passado até hoje são, no fundo, um único e com dupla função. Explico:

1.º – São “um único” por na realidade se tratar do mesmo espírito colectivo de Makaras e Assuras (Hierarquia Primordial) reunidos pela mesma Egrégora que toma nomes e formas diversas de acordo com os ciclos históricos em que se manifesta (Maçonaria Escocesa, Rosacruz Andrógina, Ordem Órfica, Essénios e Nazarenos, etc.).

2.º – A “dupla função” Destruens et Construens ou Karma (Lua) e Dharma (Sol), o primeiro aspecto é o da destruição das formas podres e gastas do Passado – acção Guerreira ou Tributária do Quinto Planetário Arabel (Rigor) – e a acção imediata do segundo aspecto: a da construção dos modelos de novas e mais amplas expressões evolucionais no Presente construindo assim o Futuro – acção Sacerdotal ou Templária do Sexto Planetário Akbel (Amor). O aspecto Construens apresenta-se sempre através de um Divino Avatara cerceado da sua Corte ou um Movimento Espiritual, que constitui o seu reforço mental e psicofísico e até a sua expressão física imediata. O aspecto Destruens manifesta-se desde que há Kali-Yuga ou Idade Sombria através dum Avatara Demoníaco apoiado por alguma Rama da Grande Loja Negra, que indo ser sempre a oposição do aspecto Construens contudo com o fel do mal aniquila o próprio Mal, isto é, agindo com Rigor. Por isso se diz que muitas vezes Akbel se disfarçou de “Príncipe do Mal” junto das hordas demoníacas para levar à perda destas, que o confundiam o seu verdadeiro Senhor, o Avatara Sinistro, também ele derrotado por essa estratégia da Divindade «travestida de Mal», no dizer do Venerável Mestre JHS.

As Forças da Involução agem desde o Akasha Médio no Akasha Inferior, e as da Evolução também, mas como Forças Vivas do Akasha Superior. Logo, é no Akasha Médio que se dá o embate estratégico entre a Evolução e a Involução (o “Campo de Batalha de Kurukshetra”, no Bhagavad-Gïta), entre Fohat e Kundalini, e nos momentos que as Forças da Involução estão agindo exclusivamente no Akasha Inferior por vezes acontece que as Superiores do Akasha Médio se «travestem» com a máscara do Mal, e assim descem daquelas indo dissipá-las, derrotá-las no seu próprio meio. Trata-se da acção do Rigor como Lei Justa e Perfeita, cuja mecânica e meios de actuação na maioria das vezes, senão na totalidade, escapa ao entendimento e à moral do homem comum.

A Revolução Francesa foi um desses exemplos: os 432.000 judeus que apoiaram a queda do Cristo e a Sua morte, vieram a pagar bem caro o karma terrível que contraíram e então passaram sob a lâmina afiada da guilhotina, alguns sofrendo ainda mais que os outros, e esses alguns eram Assuras humanos decaídos no tempo de Cristo, que sabiam da sua Missão e mesmo assim revoltaram-se contra Ele. Esse é o Karma Judaico em boa parte decepado durante o Terror francês, e a parte restante foi perdoada por JHS, em Nome de Melkitsedek, já nos anos 50 do século XX.

A segunda e última nota tem a ver com Mr. Ralph Moore, um Adepto enigmático de quem pouco se fala e se sabe ainda menos. Juntamente com outro Adepto britânico têm uma relação íntima com o Trabalho dos Adeptos europeus para este continente e a América do Sul, particularmente o Brasil, aí onde esteve algumas vezes, no Rio de Janeiro e inclusive se deslocado a Santos, no litoral paulista. Chegou a entrevistar-se com várias personalidades pertencentes ao Colégio Português nessa cidade e marcou a presença maçónica aí, isto cerca dos finais dos anos 30 e inícios de 40 do século passado. Na Praia do Embaré, onde está a escultura recente (6.3.1992) do esquadro e o compasso, defronte à baía, diz-se que foi onde atracou o navio britânico que trouxe esse insigne Superior Incógnito. Também o Professor Henrique José de Souza falou bastante de Monte Serrat, na mesma Santos, onde esteve várias ocasiões (eu próprio adquiri aí, em Mont Serrat, várias medalhas com a efígie da Pomba do Espírito Santo que depois ofereci a portugueses e brasileiros). Resta só somar dois personagens mais um, a própria cidade… com as suas casas inclinadas, ou perpendiculares ao Novo Mundo que ora se constrói, se alinha com o Sol Espiritual vibrando no seio da Serra da Mantiqueira, o que vai bem com o cabalístico Metraton – “Medida Perpendicular da Terra ao Sol”, ao Céu de Shamballah, cujo zimbório é a mesma Mantiqueira, “Manteigueira” ou Mantika onde se desenvolve o embrião da futura Raça Dourada, tão dourada (epiderme) como a mesma “manteiga” das Lavras do Sul de Minas Gerais.

Ralph Moore, o “Velho Escocês” de que fala H. P. Blavatsky, além de Manu da Escócia é o Mestre Secreto dirigente da Maçonaria Escocesa e durante muitos anos esteve vinculado ao Rito de York, americano, mantendo uma Loja de Adeptos na cidade de Washington – D. C., portanto, ligado aos Goros da Catedral daí e, sobretudo, ao Posto Representativo de El Moro (Marus, Moryas…). Com efeito, seguindo as Revelações Iniciáticas, este Adepto é o 4.º Aspecto da 5.ª Linha Morya ou Cabayu, levando o nome esotérico Ara-Amanaçu-Cabayu. Teve um casal de filhos: Ellen Moore (casada com o “6.º São Germano”, ou seja, Sadhu Okal, o antigo Jâmblico, etc.) e Albert Jefferson Moore (tio do Duque de Windsor, em quem vibrou ou inspirou inúmeras vezes), este que foi quem trouxe a Chave de Pushkara ao Venerável Mestre JHS em 28 de Setembro de 1933. Por sua vez, Albert Jefferson Moore teve uma filha, Heloísa (que chegou a ser professora no Colégio Beneth no Rio de Janeiro, nos meados dos anos 30 do século passado), a qual seria a mãe de Cafarnaum, o Chefe dos Yokanans de 1.ª categoria. Tudo isso feito do consórcio amoroso e espiritual entre os Adeptos e Adeptas da 5.ª Linha Morya e da 3.ª Linha Germana ou Rakowsky.

Usando a Linguagem do Novo Ciclo ou Novis Palux (Pramantha), se Albert Jefferson Moore (Jorge V) é a representação de Ralph Moore (Jorge VI), tem-se Jorge VII no próprio Cafarnaum, com todos formando “cadeia de união” ou “círculo de resistência” em volta de seu Pai comum – El Rike (Jorge VIII), expressando o próprio Eterno.

É ainda Mr. Ralph Moore quem disponibiliza o navio britânico que em 1899 trouxe de São Salvador da Bahia Henrique José de Souza para Lisboa, e depois de Lisboa a caminho do Norte da Índia, de Srinagar, Sede da Ordem Maçónica dos Traichus-Marutas, na ocasião dirigida pelo Traichu-Lama que então era representado nessa cidade indiana pelo Maharaja de Cachemira, nome este que vai bem com Akasha-Mira, sim, esse “Olhar do Éter Universal”, o “Espelho do Akasha” pelo qual Mãe Divina Allah-Mirah mira a Terra.

Depois, juntamente com o Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves, é ainda Mr. Ralph Moore quem promove, em 1900, o regresso seguro de Henrique José de Souza à casa paterna, em São Salvador da Bahia.

Para encerrar este assunto Teosofia – Maçonaria, Helena Petrovna Blavatsky e Henrique José de Souza afirmam claramente que não há quaisquer inconciliáveis entre ambas, muito pelo contrário, são co-irmãs na construção do Homem e da Sociedade sob o pendão da Fraternidade Universal.

Nos Manuscritos Perdidos da Loja Blavatsky, H.P.B. diz:

“Nas regras preliminares da Secção Esotérica, diz-se: “Todos aqueles que queiram estudar a Ciência Esotérica Oriental, por favor tenham a amabilidade de não pertencer a nenhuma Sociedade excepto às Sociedades Maçónicas ou Velhos Companheiros, e aparte estas, que são totalmente inofensivas, não devem pertencer a nenhuma das Sociedades Ocultas que ensinam segundo o método ocidental”. Pois bem, esta manhã recebi um insulto. O Sr. Westcott escreveu-me dizendo: “Eu sou um membro da Sociedade Teosófica e vou ser chantageado e expulso para fora do redil como uma ovelha negra, porque tenho pertencido a uma Sociedade”. Respondi-lhe: “Estimado membro, não tenho nada a ver consigo. Como você não pertence à minha Secção Esotérica, pode pertencer a tudo o que quiser”. Agora vem a enorme confusão que se estabeleceu em vocês, simplesmente porque leram a Eliphas Lévi. Como será com outros que estudam noutras Sociedades e dizem que o Tetragramaton é a Divindade Superior? A continuardes nessa confusão nunca aprendereis nada de uma coisa nem de outra, e a consequência é continuardes no mais espantoso estado de confusão. Eu digo que podem pertencer às Sociedades Maçónicas, mas não às Sociedades Ocultas. Estou totalmente segura que tenho tido o suficiente para fazer, e quer hajam 300 membros ou 30 não me preocupa. Mas será um trabalho inútil ensinar e reensinar para descobrir que não entendem.”

Em A Minha Mensagem ao Mundo Espiritualista (1927), H.J.S. diz:

“Os Grandes Seres que dirigem o destino da Humanidade, principalmente Aquele que se acha à frende da Grande Obra para a América Latina, servem-se de todos os grandes Centros de actividade espiritualista. A Maçonaria será talvez a que maiores serviços prestará à Causa que nos empolga, porém… já está entendido, passando pela grande reforma de que vem se ressentindo há tanto tempo…

“Mister se faz que o “Ramo da Acácia” de todos os tempos não venha a secar sobre o túmulo glorioso dos seus antepassados!…

“Os Tempos são chegados, Ir∴, e Hiram vai ressuscitar dentro de cada um daqueles que quiserem imitar o eterno gesto do Supremo Arquitecto: construir, edificar coisas belas e perfeitas para a Grande Obra da Humanidade… Maçons e Teósofos, uni-vos! Uni-vos na verdadeira Fraternidade, para construirmos um Brasil digno de ser o Berço da Nova Civilização, a Nação portadora da Espiritualidade para a Nova Era!…”

Na sequência, segue a acusação da “loucura” de Henrique José de Souza em se pretender “a encarnação de Jesus Cristo, de Melkitsedek, de São Germano, etc.”, o que “revela o seu estado perturbado a ponto de se considerar o próprio JHS”!

Primeiro que tudo, o Professor Henrique José de Souza nunca disse ter sido esses personagens, mas disse e repetiu que os representava nas suas funções na Face da Terra. Algo assim como o vice-rei que representava o rei durante o período do império ultramarino português, era o rei nos lugares onde estava mesmo realmente não o sendo. Ainda hoje, o embaixador é o representante do presidente de seu país, mas não é o presidente e nem tampouco o país. Paulo Machado Albernaz, mais de uma vez na minha presença, aplicou a comparação do Professor Henrique ser uma espécie de para-raios ou de antena de rádio que captava as emissões dos Adeptos Vivos que representava, estando eles ocultos nos seus Retiros Privados. A comparação não é a melhor, mas também não está errada. Quanto a Henrique José de Souza ser igualmente um Adepto Vivo, sim, era e é, motivo de se lhe aplicar a sigla iniciática JHS, igualmente cabível a Ieseus Krishna, Sidharta Gautama e, obviamente, Jesus Cristo, dentre outros mais Iluminados.

HJS expressa Deus manifestado no Homem, o Deus-Homem; JHS é o Homem manifestando Deus, o Homem-Deus. Portanto, é sigla avatárica que com todo o direito iniciático cabe a Henrique José de Souza, razão por que os Teúrgicos e Teósofos o chamam de Mestre JHS.

O H (agá) é a letra mestra de todo o mistério, e por ela adentro a Cabala Fonética observando-a como a oitava letra do alfabeto português e igualmente a sexta consoante.

Mas o H não é propriamente consoante e nem vogal, por não ter valor algum de som, sendo apenas classificado como letra diacrítica, especificamente a segunda letra de um dígrafo, tornando impossível a existência de fonemas que apontem para ela. É assim uma letra muda intermediária, plasmática ou adaptável a servir de ponte entre um fonema e outro, o que condiz com a nota musical Mi e até com a natureza do Mercúrio, que é sempre adaptável a dois estados servindo tanto a um quanto a outro, o que os astrólogos também associam à natureza do planeta do mesmo nome. Por esta característica intermediária ou de passagem, o H seria associado ao significado da letra hebraica Vau, precisamente significando “ponte”.

Historicamente, a letra H surgiu de um hieróglifo egípcio que representava a planta peneia. Depois os sumérios utilizaram-no para designar um som gutural. Mais tarde, os fenícios, seguidos dos hebreus, chamaram-lhe Heth, “cerca”, devido às semelhanças do seu aspecto. Por fim, os gregos também adoptaram esta palavra e como não a pronunciavam denominaram-na de êta, sendo já o seu formato bastante semelhante ao actual.

Até no nome Agharta (de Ag, “Fogo”, e Harta, “Coração”, consequentemente, Coração Ardente do Mundo) o H desempenha papel fundamental na transmutação dos fonemas e respectivos significados desse nome transhimalaio para designar o Paraíso Terreal, manifesto nos dias áureos da 4.ª Raça-Mãe Atlante e interiorizado desde o início da actual 5.ª Raça-Mãe Ária. Assim, tem-se:

Na sua Carta-Revelação de 22 de Novembro de 1956, o Venerável Mestre JHS recomenda escrever o H na sexta posição do nome Agartha, decerto assim marcando o seu Trabalho Jina a ver com a edificação da 6.ª Sub-Raça como semente como semente da consequente 6.ª Raça-Mãe Bimânica, em que lançará no espaço do Futuro as sementes das longínquas 6.ª Ronda e 6.ª Cadeia de Mercúrio. Assim, como Homem Representativo, como Mercuriano Perfeito, JHS plantou no Presente a solução evolucional do Futuro. Razão, também, da sua afirmação repetida: “Sou o maior dos Absurdos! Porque existo e não existo”.

Ou não fosse a sua Essência Espiritual (Mónada) a de Anupadaka-Deva ou Planetário de Mercúrio (Budha, em védico), correspondendo à forma celeste do respectivo Luzeiro.

A disposição anterior do H de Agharta estava na terceira posição, e assim se mantém entre os Portugueses da Obra Divina assegurando o sentido exacto de Alma Ardente do Mundo, eles como Assuras ou Filhos da Luz (Lusos) asseguradores da manutenção de Agni, o Fogo Sagrado, brilhando em chamas brilhantes sobre o Altar, por cima do qual tremeluz o Triângulo Mágico da Iniciação.

Acompanhando o H de Agharta aparece a sigla iniciática JHS, muitíssimo anterior ao Cristianismo, que distingue todo o Avatara ou Manifestação do Espírito de Verdade ciclicamente manifestado desde essa Terra de Promissão na face do Mundo, conforme essas essas iniciais no alfabeto aghartino igualmente chamado Vatan ou Escrita de Votan, o Fogo do Seio da Terra (Asgarmak), já de si reveladas pelo próprio punho de Henrique José de Souza em 1941.

A escrita hieroglífica do Antigo Egipto igualmente revela, através da Pedra de Roseta de Jean-François Champollion, em 1822, o JHS hieroglífico cuja valor somado dá o Ptah ou Ptahmer, o Deus da Sabedoria e da Iniciação, com o valor hierárquico do Mahachoan no Tibete ou do Chakravarti na Índia, personagem misterioso identificado a Melkitsedek na Bíblia e que vem a ser o mesmíssimo Imperador Universal, o Rei do Mundo. Ptahmers ou Ptah-Mers eram também os Sacerdotes dos Mistérios de Osíris – o Sol Espiritual – de funções iguais às dos Goros do Rei do Mundo no Tibete e na Mongólia.

Na escrita hebraica aparece o Iod ou Jod, He, Shin no grafar da sigla JHS, cuja soma e redução dos algarismos dessas letras (respectivamente 10, 5, 300) dão o 9 de Teth, “Telhado, Cobertura, Protecção”, sendo nove ainda o número da Geração, tanto de um ser como de um ciclo de manifestação, que neste caso é o da geração ou manifestação de Massiah ou Messias, o mesmo Avatara a quem bem cabe a sigla JHS astrosoficamente expressiva de Júpiter (Espírito), de Hermes ou Mercúrio (Alma) e de Saturno (Corpo), cuja conjunção à dois mil e alguns anos formou a “Estrela do Natal” sobre os céus de Belém, na Galileia. Portanto, dá-o como Senhor dos Três Mundos (Maitreya), o legítimo portador do triregnum ou tríplice tiara assinalando-o Soberano do Céu, da Terra e do Inferno ou Mundo Inferior, Subterrâneo, portanto, Senhor dos Universos, função análoga à de Melkitsedek de cuja Ordem (Governo Oculto do Mundo) Cristo foi Sacerdote eterno, expressando-o junto da Humanidade (novamente o Vice-Rei para o Rei, da comparação feita anteriormente), conforme Paulo de Tarso na sua Carta aos Hebreus.

Na língua grega, as letras ita, eta, sigma dão a sigla JHC, que os cristãos da Igreja Oriental tornaram cristograma como abreviatura de Jesus Cristo, contando as duas primeiras e a última letras das palavras ΙΗΣΟΥΣ ΧΡΙΣΤΟΣ, escrevendo-se ΙΗϹΟΥϹ ΧΡΙϹΤΟϹ com a sigma lunática C comum em grego medieval. Foi assim que passou ao latim da Igreja Ocidental para designar Iesus Hominum Salvator, “Jesus Salvador dos Homens”. A vulgarização cristã desta sigla latina deve-se ao franciscano São Bernardino de Siena (1380-1444) e depois ao jesuíta Santo Inácio de Loyola (1491-1556).

Posto tudo, demonstra-se que a sigla JHS mais que pia e confessional cristã é sobretudo mistérica e sapiencial, de antiguidade recuando a milhares de anos antes da aparição do Cristianismo, que era utilizada nos Mistérios Antigos para assinalar os Grandes Iniciados que ao longo dos tempos foram surgindo no cenário do mundo para guiar a Evolução Humana. JHS foi Krishna, Budha, Jesus, etc., e no Brasil, trazendo um novo de estado de consciência ao mesmo, também Henrique José de Souza o foi. Daí a dizer-se que por isso “pretendia-se ser Cristo” e outras patacoadas avulsas, tem o valor de nada que é o zero da ignorância amante de narciso.

Ele seria Cristo (Cristo e Budha significam o mesmo, Ungido ou Iluminado) mas no sentido de ter desperta a sua Consciência Crística, Divina, pois JHS igualmente designa a Tríade Superior, espiritualmente formada e manifestada no verdadeiro Homem Espiritual, ou seja, o Adepto Perfeito, portanto, com o pleno direito a usar essa sigla iniciática.

No seu livro O Verdadeiro Caminho da Iniciação, o Professor Henrique José de Souza diz:

“O jovem (Henrique) faz-se homem e as 3 prodigiosas iniciais J.H.S. passam a ser: H.J.S. Sim, porque o “filho do homem” (Honorato) não podia deixar de ter o H no começo do seu nome terreno.

“Ademais, o H, como letra aspirada, é a consoante única que faz vibrar as vogais do OEEHAOO sagrado, na razão das “Sete Vozes Celestes ou Dhyânicas” apercebidas por Ezequiel, na sua visão extraterrena! Momento de Êxtase, Samadhi ou União com a Consciência Universal.

“Juntando-se estas 3 consoantes (JHS) às referidas vogais descidas à Terra através do Hálito Divino, dentre outras palavras transcende a do mesmo JEOSHUA (Ben Pandira), sem falar nas que figuram na mesma Taça Eucarística, como é de todos conhecido, embora ignorada, sim, a sua verdadeira razão de ser. Neste caso, envolvendo o mistério das 3 letras hebraicas Jod – He – Shin (em outras línguas sagradas, Suss, Suos, etc.) que, a bem dizer, também se ligam ao da Tríplice Corrente ou Emanação Divina (Positiva, Negativa e Neutra, Pai, Mãe e Filho ou Espírito Santo) a ponto de tomar forma humana, à qual se dá o excelso nome de Governo Oculto (ou Espiritual) do Mundo…

“Sublime revelação àqueles que já sabem, que já conhecem os Mistérios Maiores:

“O H equilibrante do OEEHAOO, ou aquele que fica em quarto lugar, justamente quando se colocam tais letras da referida maneira (o que aliás até hoje ninguém fez…), indica a direcção ou governo do nosso Globo como QUARTO do Sistema. É aquele cuja visão penetra através do Estrela Polar, e a quem se dá o precioso nome de “Olho de Druva”. Hermes, o Trismegisto, ou “Três Vezes Grande”, não podia deixar de ter o nome iniciado por um H. Hermes e Budha-Mercúrio possuem o mesmo significado… Qualquer dos dois representa o Planetário da Ronda. Por isso que, como o Quarto entre os Sete Irmãos ou “Autogerados do UNO-TRINO”, é expresso na referida palavra composta de sete letras, no quarto lugar.”

Dando o final a este estudo, respigo o trecho seguinte da Carta-Revelação de 5.4.1963 do Professor Henrique José de Souza:

– […] Agora com a CHAVE DE PUSHKARA, Pedra Angular da verdadeira TEOSOFIA EUBIÓTICA, em nossas mãos, para o Ciclo de AQUARIUS ou de MAITREYA… Se não bastasse o termo JHS, que ainda ontem à noite expliquei, inclusive que as referidas iniciais por Mim adoptadas equivalem a JÚPITER – HERMES ou MERCÚRIO – SATURNO.

Jesus abençoava com o indicador e o médio, por ser Ele, ao mesmo tempo, JÚPITER e SATURNO, mas adoptava o JHS por se ligar ao OEEHAOO e formar o seu nome Jeoshua Ben Pandira. O H é central porque na 4.ª Cadeia do 4.º Sistema, que é o nosso, é o que fica sobre o Olho de Druva, ou da ESTRELA POLAR, enquanto no próximo ficará no 5.º lugar…

Na Obra nada existe errado. Tudo é cabalístico, tudo é REAL como a própria VONTADE DE DEUS ou da LEI.

ADVENIAT REGNUM TUUM

AT NIAT NIATAT

BIJAM

Santo António do Termo dos Saloios – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Ago 27 2019 

Intervenção do autor na Jornada Antoniana em Junho de 1995, no salão paroquial da igreja de Santo António dos Cavaleiros, Loures, na comemoração do oitavo centenário do nascimento de Santo António.

*

Ó meu Padre Santo António,
A vossa capela cheira,
Cheira a cravos, cheira a rosas,
Cheira a flor de laranjeira.

Popular de Évora

Este nosso Santo António, namoradeiro e casamenteiro, por certo é o mais querido do povo de Lisboa e do Termo dos Saloios, hoje praticamente desaparecido por a cidade e o campo já não possuírem as separações demográficas que antes, não faz muitos anos, haviam.

Nasceu em Lisboa em 13 de Setembro de 1191 (e faleceu em Pádua, em 13 de Junho de 1231), dizendo-se que os seus pais, Martinho de Bulhões, nobre rico com cargo no Senado de Lisboa, e Maria Teresa Taveira de Azevedo, senhora da alta nobreza, fizeram-no batizar na Sé Catedral uma semana após o nascimento, recebendo o nome de Fernando de Bulhões e Taveira de Azevedo.

Cedo ingressou na vida religiosa, com apenas 15 anos de idade, fazendo-se noviço na Ordem dos Cónegos Regrantes de São Vicente de Fora, em Lisboa, onde ficou dois anos, mas acabou por pedir a transferência para os agostinhos do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde se formou em filosofia e teologia. Viajando em acção pastoral em Marrocos, no Norte de Itália e no Sul de França, foi aqui, em Albi, onde travou severos e infrutíferos embates teológicos com os albigenses da chamada seita milenarista dos cátaros, mista de independentista do Languedoque e contestatária da autoridade pontifícia (donde a alegoria do seu “sermão aos peixes”, quando os homens não o quiseram ouvir), em 1221 acabou tornando-se discípulo e amigo confidente de S. Francisco de Assis, acabando por se fixar em Pádua, Itália, onde veio a morrer. Grande pregador e sábio, Santo António é considerado um dos “Doutores da Igreja”, mas a fama da sua vida está sobretudo nas suas qualidades ímpares de taumaturgo.

Nesse sentido, a lenda antoniana afirma que Santo António livrou o seu pai da forca, no largo junto à Sé. Com efeito, no momento em que pregava em Pádua, subitamente sentiu que o seu progenitor padecia aflições em Lisboa, e logo se recolheu em meditação ante o olhar dos presentes. De imediato, mercê do dom de bilocação que possuía, apareceu junto de onde o seu pai estava prestes a ser enforcado, acusado injustamente do homicídio de um jovem. Este foi ressuscitado pelo santo que a seguir lhe perguntou se de facto o seu pai o assassinara, ao que respondeu que estava inocente desse crime, e logo depois o jovem voltando a dormir o sono eterno.

Libertado o inocente, que tinha sido acusado por falso testemunho, Santo António desapareceu à vista de todos e voltou à consciência imediata em Pádua, retomando a sua pregação onde a havia interrompido. Ficam assim representados aqui dois factos miraculosos num só: a bilocação e o poder de ressuscitar os mortos.

Como disse, Santo António é reconhecido Doutor da Igreja (desde 16.1.1946 por Pio XII, na breve Exulta Lusitania Felix) e já antes, no século XVII, o Padre António Vieira classificava-o de “Arca da Aliança”, por conter o espírito de missão tão próprio do espiritual português que este santo soube incarnar tão bem, colando a simplicidade devocional popular ao erudito doutoral da Igreja, juntando ricos e pobres, sábios e simples, senhores e prelados à mesma mesa da Palavra, que nos seus sermões era directa mas salvadora, implacável todavia consoladora.

No calendário litúrgico dos santos ou o santoral, é-lhe consagrado o dia 13 de Junho. Iconograficamente, é representado em hábito de franciscano. Os seus atributos iconográficos são as “chamas” (por confusão com Santo Antão), a flor-de-lis, o crucifixo florido, os peixes escutando o seu formoso sermão aos albigenses, e um macho (ou um burro) ajoelhado diante da hóstia, todos alusivos de alguns dos seus milagres. É o padroeiro dos louceiros, sendo comummente representado com um livro fechado dos Evangelhos na sinistra, sobre o qual se senta o Menino Jesus – que lhe terá aparecido várias vezes – atestando ser essa a sua Palavra Viva, acompanhado de um lírio, prestando-se a simbolizar a pureza celeste, que ostenta na destra, por vezes substituído por uma flor-de-lis, indicativa da realeza divina.

Essa sua condição de místico colada ao magistério do sacerdócio, iria despertar-lhe o dom de curar insuflado pela Força do Divino Espírito Santo, em si revelado como o mesmo Menino Jesus, o seu Eu-Crístico. Ficaria para sempre consignado o Taumaturgo da Cristandade, incensado pelas mais miraculosas façanhas num florígero milagreiro tão ao gosto popular.

Ora, na tradição popular portuguesa muita da simbologia de São Jorge acabou sendo introduzida nas festas anuais dos três santos – António, João e Pedro. Poucos reconhecem ainda a origem jeorgeana na alcachofra ou no cravo rubro cujas hastes trespassam a rama de um manjerico, tradicional desses festejos, sobretudo do antoniano em Lisboa.

A alcachofra brava, em flor, é chamuscada numa fogueira junina, após o que crava na rama crespa do aromático manjerico, também chamado basilisco e cujas folhas pequenas verde escuras lembram as escamas do dragão mitológico. Na Antiguidade, esta planta era criada para perfumar as aras das vestais greco-romanas, e na Idade Média da Península Ibérica as religiosas dos conventos femininos cultivavam-na e cuidavam-na, nos jardinetos dos claustros conventuais, destinando-a a decorar os altares. Diz-se, em francês, basilic, em inglês basil, e em alemão basilienkraut, étimos que também designam o dragão como basílico, em português, e basileus em latim, com o significado tanto de “mestre de basílica” como de “morada do dragão”, esta tanto valendo pela lugar da tarasca, a fera dragónica da lenda provençal vencida por Santa Marta e São Trófilo ou José de Arimateia, e aquele significado de basileus igualmente afim ao designativo hierofante, do grego hierophantes, “aquele que explica as coisas sagradas”, como sacerdote supremo ou sumo sacerdote, nisto equivalendo ao Sumo Pontífice (Sumo Pontifex), ou seja, o que estabelece a ponte (pontifex, na exacta interpretação de São Bernardo de Claraval) entre a Divindade e a Humanidade.

A alcachofra, depois de reflorir, no que simboliza a ressurreição mítica da fénix, representa, nessa prática tradicional, a ombreira e o braço de São Jorge, sendo a haste a lança que penetra no sulfuroso monstro alado. Esta é a versão mais corrente no Norte do País, particularmente no Porto, cuja preferência vai para São João Batista.

Na Região Centro, especialmente em Lisboa, a população inclina-se mais à devoção a Santo António, e a função da alcachofra é substituída por um cravo, filologicamente simbólico daquele que cravou Cristo na Cruz, e como esse ensanguentado pela própria cor rubra das suas pétalas. E porque Santo António, tanto na tradição alfacinha como na saloia, foi protector dos namorados, o acto de introduzir aquela haste na rama crespa do manjerico passou a significar uma promessa de amor, com sentido já erótico. Isto por a cortejada expor o vaso com o manjerico e o pretendente cravar nele a alcachofra ou o cravo. Nisto, ainda nos milagres atribuídos a Santo António, o imaginário popular inseriu acções lendárias como as do seu poder de consertar a bilha que uma moça deixasse partir, assim simbolizando a restauração do hímen violado, mas também, num sentido mais grado para o eclesial, a virgindade monástica.

Era junto às fontes de Santo António que as moçoilas saloias casadoiras se juntavam com a rapaziada da terra ou dos lugares vizinhos, para trocarem promessas de amor, ou mesmo o consumarem num recanto mais discreto, antecipando o quase inevitável casamento.

Por isso se diz que

Santo António era bô santo,
Se num fosse tão gaiato.
Foro três moças à fonte.
De três, viero quatro.

(Recolha de Maria Micaela Soares inserida em O Povo da Lezíria e a Literatura Oral, separata do Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, III Série, n.º 81, p. 241, Lisboa, 1975. E A Mudança na Cultura Rural Portuguesa, texto engrossando o Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, 2.º Tomo, n.º 88, p. 199, Lisboa, 1982)

Assim acontecia em Caneças e em Loures, nesta junto à fonte das almuinhas, termo moçarábico significando “horta”, e em mais lugares do Termo.

Santo António (nome oriundo do cananeu Atunu, “Senhor Primogénito”), por essa sua natureza taumatúrgico passou a ser, tal como Santo Antão, o paradigma do sacerdócio e da prerrogativa eclesiástica entendida e aceite pela multidão dos fiéis.

O saloio lourenho não esquece o 13 de Junho e o seu Santo António. Este é festejado na Apelação (onde ainda restam as ruínas da outrora imensa Quinta de Santo António); em Frielas (com a sua Quinta de Santo António, onde no passado viveu o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira), paroquiada pelos padres carmelitas de Santo António dos Cavaleiros; na Mealhada (com o seu Conventinho dos Arrábidos franciscanos, o 13.º da Província de São Francisco de Portugal); em Moscavide, cujo Orago é este nosso santo; na Murteira, cuja festa atrai muitos forasteiros ao lugar; no Olival-Basto (com a sua Quinta de Santo António, dividida pela ribeira entre esta freguesia e a da Póvoa de Santo Adrião); em Santo Antão de Santo António dos Tojais, em cuja Quinta dos Arcebispos ainda se vê num enorme painel de azulejos (século XVIII) este nosso retratado com os seus símbolos tradicionais; em Unhos, onde ainda permanece a formosa Quinta de Santo António, fundada por um antigo comendador da Ordem de Cristo; e, muito possivelmente, a par do louvor a Nossa Saúde, em Sacavém, aqui teria havido em Setecentos culto antoniano, difundido pela sacavenense e extinta Irmandade de Santo António Pobre, a qual, com o fim de recolher fundos, em 1740 promoveu a realização de touradas no Campo Pequeno (o contrário do Campo Grande, ambos os campos ligados às artes equestres), em Lisboa, segundo o Dicionário da História de Lisboa, dirigido por Francisco Santana e Eduardo Sucena, 1994. Além destes lugares, os festejos de Santo António espalham-se hoje um pouco por toda a parte do Termo, tamanha é a sua difusão.

Deixei propositadamente Santo António dos Cavaleiros para fim, por ser aqui que o santo é mais celebrado liturgicamente e mais festejado popularmente, inclusive evocado nas Armas municipais desta vila, em todo o concelho de Loures.

Freguesia recente, fundada em 25 de Agosto de 1989 por desanexação da de Loures, como paróquia não é mais antiga, recua a 27 de Maio de 1983, criada para satisfazer às necessidades espirituais da sua população, que antes recorria quer a Santo Adrião da Póvoa de Loures, quer a esta.

Assim mesmo foi respeitada a tradição do garante jurisprudente da Autoridade Sacerdotal sobre o Poder Político, o que tanto vale por domínio espiritual da Paróquia sobre o temporal da Freguesia, por norma esta filha daquela.

Por curiosidade, deixo aqui a definição de paróquia, segundo o actual Código do Direito Canónico:

“É uma das partes distintas em que foi dividido o território da diocese, tendo uma igreja própria, com a sua população determinada, e com um reitor especial à sua frente, como pastor próprio da mesma, para o necessário cuidado das almas.”

Sendo a paróquia (termo grego importado pelo gótico paroecia e integrado na latino parochia) a cabeça ou “directoria espiritual” da comunidade cristã, também não será menos curioso saber-se a origem da palavra freguês. Adveio do latim filius Ecclesiae, “filho da Igreja”, que por corrupção filológica deu feligrês ou felgrês e, finalmente, freguês.

Freguesia, pois, significa o conjunto de homens fregueses, ou seja, “filhos da Igreja”. Depois passou a ser chamado assim o território habitado pelos mesmos “filhos da Igreja”. Deste modo, vê-se a igreja paroquial aparecer como matriz de determinado espaço habitado, registando-se que até 1859 os párocos eram designados de diversos modos, usando a partir dessa data, uniformemente, a de prior. Não integrados em freguesias eram os territórios isentos de jurisdição eclesiástica, as alfamas ou judiarias e as mourarias, e só quando se extinguiram, em 1496, é que foram anexadas às paróquias, estas filhas das caneças moçárabes, limítrofes.

Há quem conteste que o binómio paróquia/freguesia é indistinto, por haver casos, não raros, onde a última surge antes da primeira. Todavia, quando assim acontece a freguesia fica sob a jurisdição coordenadora da diocese, até á fundação da paróquia, assim se garantindo a tradicional supremacia da Autoridade Espiritual (paróquia) sobre o Poder Temporal (freguesia). Ademais, sabe-se que outrora os povoados nasciam e desenvolviam-se em volta da igreja local sua matriz (a mater genitrix de um núcleo populacional), ao contrário de hoje, resultado da dessacralização social, em que se constrói a cidade e, se restar espaço, só depois a igreja…

Regressando ao tema principal que aqui me traz, muitos(as) dos(as) fregueses(as) antonienses desta vila antoniana (pois foi elevada de freguesia a vila em 16 de Agosto de 1991) foram – aquando dos inícios desta que seria a “cidade-jardim” do Termo, em 1965, sob projecto paisagístico do arquitecto Ribeiro Teles – “noivos(as) de Santo António”, casais de fracos recursos socorridos pela célebre iniciativa do vespertino Diário Popular, que em 1958 adoptou essa ideia concebida pelo jornalista e vereador da Câmara Municipal de Lisboa, Augusto Pinto, os quais vieram para aqui habitar o célebre Bairro da Caixa Económica, começado a construir em 1966, ou então indo para Guerreiros.

Assim, Santo António não deixa de estar parcialmente ligado à origem demográfica desta vila, acrescentando-se-lhe o título dos Cavaleiros, produto do marketing de comércio imobiliário quase por certo inspirado nos solares apalaçados e quintas brasonadas que haviam nesta do parte do concelho lourense, da Flamenga ao Marchão nas terras do Caldeira.

Creio, pois, que a inspiração toponímica Santo António dos Cavaleiros, espalhada nos anos sessenta pelo marketing da construção civil, não passou de apropriação de algo que recua aos tempos em que estas terras de várzea e planalto andavam sob o senhorio de senhores rurais familiares da Cavalaria da Ordem de São João de Malta.

Na Quinta do Marchão, junto ao recente aldeamento das vivendas do Solar (o mesmo Marchão), por cima da Cidade Nova e abaixo das Torres da Bela Vista, houve até há não muito tempo a Capela de Santo António, que, sei de fonte oral pelos mais velhos do sítio, era muito concorrida pelos saloios dos arredores, sobretudo os da Póvoa, especialmente nos dias da sua celebração.

Hoje esse templo já não existe, resta só o formato exterior do edifício dentro da cerca da quinta, já de si também muito alterada nos últimos anos. Vi-o ser desmontado e reduzido a entulho o seu aparelho de azulejaria setecentista. Mas já no tempo do Padre Álvaro Proença (1912-1983), prior de Benfica desde 1955, esse templo velhinho apresentava estado lastimável de abandono. Ele assim o descreve (in Subsídios para a História do Concelho de Loures, Lisboa, 1940):

“Pertenceu ao contador-mor do reino e no altar tinha um lindo retábulo de Nossa Senhora com o Menino Jesus e Santo António, hoje muito sumido e sujo.

“A capela é grande e toda circundada por azulejo simples.

“Tem um só altar formando uma capela num plano superior ao resto do templo e separado deste por um arco cruzeiro em boa cantaria. Tem também coro. A antiquíssima imagem de Santo António encontra-se ainda no templo mas aflitivamente mutilada.

“De resto, templo e imagens, jazem em abandono extremo.”

A casa nobre é um imponente solar que goza de uma vista admirável. Talvez seja por esta razão que, ao contrário do que é costume, o andar nobre se encontre no rés-do-chão, encimado por uma espécie de mezzanino. Este conjunto, pelo estilo e traça joaninos, sugere datar do século XVIII.

São dessa época as salas espaçosas e uma enorme bacia de mármore na sala de jantar. A quinta é toda murada, possui seis tanques, restos de painéis de azulejos, um jardim bem irrigado com a sua fonte monumental e os seus canteiros à francesa. Para Anne de Stoop (in Quintas e Palácios nos Arredores de Lisboa, Porto, 1990), todo este espaço “faz lembrar, ainda hoje, um oásis perdido no meio de colinas áridas”.

Esta quinta foi cedida em 1965 a Joaquim Manuel Queiroz de Andrada pelos Rodrigues Malvas que a adquiriram, em 1879, de Adelaide Leopoldina de Sousa, que a comprara em 1872 à família de Sousa d´Alte Espargoza, da qual um dos membros foi contador-mor da Casa da Índia.

Os Sousa Espargoza deverão ter herdado esta quinta de algum membro da família Marchão, cuja toponímia manteve-se até hoje. O Armorial Lusitano (Lisboa, 1961) diz na página 341 que os Marchão são de origem espanhola, e que no tempo de D. João I de Portugal na Batalha de Trancoso foi morto Pedro Marchão, cavaleiro e capitão, nomeado por Fernão Lopes, entre o adiantado de Caçorla, o comendador de Huelgas e outros fidalgos, de onde se vê que também o era. Os Marchan espanhóis deram vasta progénie que se espalhou por diversos países: os Marshan ingleses, os Marchionni italianos e os Marchão portugueses.

Pinharanda Gomes, o ilustre historiador desta vila, afirma na página 117 da sua obra Santo António dos Cavaleiros (Monografia Histórica), edição 1992, que o referido Pedro Marchão terá habitado esse solar do Monte e, quiçá, avento eu, seja ele o seu edificador.

A existência histórica desse capitão coevo de D. João I, o de Boa Memória, é ainda atestada pela Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, volume XVI.

O nome Marchão também se escreveu Marachão, conforme adianta o mesmo Armorial Lusitano. Este diz que Pedro Marachão, em 1513, morador em Abrantes, ali tinha fazenda mística com uma tapada de João Caldeira, foreira à Ordem de Malta.

Parece-me haver imprecisão geográfica nessa localização, pois João Caldeira morou precisamente neste luar do Monte [Soeirão], e esta Quinta do Marchão ou Marachão (termo oriundo do árabe maraja, “dique”, e água aqui não falta por irromper uma nascente no solo onde se acha a própria casa) andou aforada aos Cavaleiros da Ordem de Malta sediados no sopé do Monte que aí teriam fazenda, vizinha da Quinta do Barruncho, conforme regista sobre a sua primitiva entrada um escudo armoriado com a Cruz de São João de Malta com a data de 1638.

Essa teria sido a “fazenda mística” dos Cavaleiros maltenses vizinhos da Quinta de Santo António do Marchão, sendo o sítio do Monte lugar de caçaria chã (lebres, perdizes, etc.) nas horas lúdicas da nobreza arrendatária do sítio.

As Armas que se atribuem aos Marchão, são: de azul, com uma palmeira de ouro, assente num monte de prata, em ponta; chefe cosido de vermelho, carregado de uma cruz de prata. Timbre: a palmeira do escudo.

Creio estar nisso o fundamento histórico do topónimo Santo António dos Cavaleiros, que não figura nas cartas e mapas dos séculos passados apesar de Santo António e os Cavaleiros terem figurado nestas partes lourenhas, não faltando uma antiga imagem em pedra do santo supracitado no jardim do Quinta do Barruncho, abandonada e finalmente roubada (mas que conservo a sua fotografia), mas que não pertenceria aí, como me informaram os donos da propriedade.

Abaixo do Monte, para nascente, situava-se o Casal do Bravo, outrora pertencente à família Rouze, cujo brasão à entrada desta vila é desde há alguns anos, por “empréstimo”, a sua honra heráldica. Mas por ser brasão nobiliárquico e não autárquico, a Junta de Freguesia local vem estudando a aprovação de um novo que porte os símbolos que possam transmitir o “espírito” desta vila antoniana. Ao que parece, irão figurar nele além das barras cruzadas do brasão dos Rouze, a cruz e os bulhões ou “bolotas” do nome civil do nosso Orago Santo António. É uma ideia feliz, e deixo o voto que brevemente ondeie ao vento sueiro a bandeira com o gravado heráldico antoniano.

Para terminar, passo agora a responder ao Sr. Ministro do Emprego e Segurança Social, Eng.º Falcão e Cunha, que ando visitando esta vila não soube como designar os que nela vivem. Pois bem, como muitos dos aqui residentes não são cristãos devido à pluridiversidade cultural e religiosa existente, qual deverá ser o apelido onomástico dos habitantes de Santo António dos Cavaleiros? Santo Antonianos? Impossível, o designativo é religioso e não cabe aqui, que não é lugar de freiria franciscana ou de qualquer outra, aparte a Ordem do Carmelo que aqui tem jurisprudência espiritual, mas que não vem ao caso da freguesia polivalente. Cavaleirenses? Soa mal e não fica bem. Parece-me que o mais ajustado será: Santo Antonienses ou, simplesmente, Antonienses.

Com Fernando de Bulhões iniciei e com Santo António termino. A todos, o meu agradecimento pela vossa atenção.

Tenho dito.

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