“Uma Mártir do Século XIX: Helena Petrovna Blavatsky”, por Mário Roso de Luna Domingo, Jun 20 2021 

SINOPSE

Uma Mártir do Século XIX: Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, por Mário Roso de Luna, o gigante da Teosofia Ibérica, é obra indispensável à compreensão da colosso ucraniana que em menos de metade de um século alterou os paradigmas do pensamento humano, abrangendo e indo além de todos os sectores do mesmo, da ciência à religião, à física e à metafísica, do simbolismo arcaico nas civilizações antigas, etc., provocando o assombro e a admiração gerais, inclusive dos que lhe foram abertamente hostis, unanimemente apodando-a de Esfinge, não poucos dando-a como a maior sábia do século XIX.

Mário Roso de Luna descreve de maneira clara a vida de Helena P. Blavastsky, capítulo a capítulo, desde o seu nascimento, juventude, maturidade e velhice até falecer. Fá-lo não só como biógrafo imparcial munido de valiosos documentos, não poucos inéditos aqui revelados, mas também como iniciado oferecendo ao leitor interpretações esotéricas únicas dos acontecimentos mais controversos da vida desta sua Mestra declarada.

A virgindade de Blavatsky, o seu pressuposto filho, os seus casamentos, as acusações contra ela pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas, como os assuntos mais controversos da sua vida, são aqui esmiuçados com pormenores que vêm inocentar a infeliz mártir. Mas também se abordam, detalhadamente, as faculdades psicomentais de Blavatsky, o seu reconhecimento pela Maçonaria, as aventuras das suas viagens pela Europa, pela América do Norte e do Sul, pela Ásia, indo do Japão à Índia e daí ao Tibete, onde finalmente pôde conviver em retiros secretos com os Mestres Espirituais do Mundo, dos quais recebeu os conhecimentos superiores necessários para poder executar o ensejo deles: a fundação da Sociedade Teosófica, indo decisivamente ampliar o horizonte mental e espiritual da Humanidade.

Título capital entre as obras esotéricas de maior valor e fama, este agora de Mário Roso de Luna aparece finalmente em língua portuguesa com a firme certeza de ser incontornável a quem queira conhecer o génio de Blavatsky e da colossal obra teosófica que generosamente legou ao Mundo.

ESPIRAL EDITORA

Obra referencial finalmente aparecida na língua portuguesa traduzida e prefaciada por Vitor Manuel Adrião, dada à estampa por Espiral Editora, Lisboa. Para mais informações é favor contactar o senhor Hugo Martins, com página no facebook e e-mail (endereços abaixo), que as disponibilizará a quem solicitar, esteja em Portugal ou noutros países.

hmartins.es@gmail.com

https://www.facebook.com/hugo.martins.186

O Eterno Feminino: Rainha Santa Isabel – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jun 10 2021 

Eis que aqui estamos, nesta cidade coimbrã aclamadora da sua padroeira Rainha Santa Isabel[1], para esboçar alguns traços hagiográficos da mesma, nisto procurando compor um florigério de rosas e lírios desta humana flor maior que perfumou os séculos XIII-XIV português, dando realeza à santidade do Género Feminino de que ela foi o expoente máximo, orbitando entre a fé declarada e o saber cerrado.

“Eterno Feminino”, são estas as últimas palavras de Goethe no segundo Fausto, designando a atracção que guia o desejo do homem no sentido de uma transcendência. No caso, o feminino representa o desejo sublimado. Nesse romance, Margarida ouve-se a si mesma dizer: “Vem, alça o teu voo para as altas Esferas. Se ele adivinhar a tua intenção, te seguirá”. E o coro místico proclama: “O Eterno Feminino nos atrai para o Alto”[2].

A Beatriz de Dante é um exemplo desse papel de guia. Nicolas Berdiaeff, numa das suas proféticas páginas[3], prevê que na sociedade futura “a mulher desempenhará um papel importante… Ela está mais ligada do que o homem à Alma do Mundo, às primeiras forças elementares, e é através da mulher que o homem comunga com essas forças… As mulheres estão predestinadas a ser, como no Evangelho, as portadoras de essências odoríferas… Não será a mulher emancipada nem aquela que se tornar semelhante ao homem a que terá um importante papel a desempenhar no período futuro da História, mas sim o Eterno Feminino”. Pierre Teilhard de Chardin via nessa expressão o próprio significado do Amor, como grande Força Cósmica[4]. A Virgem Maria, Nossa Senhora, é no Cristianismo a encarnação perfeita deste tema, conforme o mesmo Chardin resume: “ O Feminino autêntico e puro é, por excelência, uma Energia luminosa e casta, portadora de coragem, de ideal e de bondade: a bem-aventurada Virgem Maria”. Nisto dispõe-se longe do romantismo de Jules Michelet que abriu uma perspectiva literária profana do Eterno Feminino aos pósteros adeptos do escalpelizar psicanalítico do tema[5], onde prima o conhecer sem saber, o teorético ausente de prática efectiva, portanto, propenso ao equívoco.

Nossa Senhora torna-se a Theotoktôs, a “Toda-Poderosa” com os mesmos atributos da védica Shakti, a que expressa a Força Criadora do Espírito Santo, o Lume Místico do Amor cuja Energia aglutinadora, a Kundalini dos védicos, veio a ter as suas expressões vivas nas chamadas Cortes de Amor indicativas de Iniciação Cavaleiresca, Senhorial, Feminina ou Mariana, tendo a sua correspondente na Iniciação Kshatriya ou Guerreira na antiga Ariavartha, a Índia.

Correlacionando as personagens e elementos da Iniciação Ocidental afim à Oriental, tem-se:

Na poesia islâmica, o Eterno Feminino expressa, pela sedução das suas características predominantes, a Beleza de Deus tomando forma no ‘belo-sexo’, tema registado no salomónico Cântico dos Cânticos.

Se a noção metafísica de Eterno Feminino dispõe a Mulher na cúspide da devoção antes de o Homem, tem-se que no seu sentido primaz o próprio Logos Criador toma forma feminil, como Helena P. Blavatsky descreve em privado a um grupo selecto londrino de estudantes de Teosofia[6]: “Em todas as cosmogonias é a Deusa e as deusas que vêm primeiro, a primeira convertendo-se na Mãe Imaculada da qual procedem todos os deuses. O subjectivo passa a emanar ou cai no objectivo, e converte-se no que chamam a Deusa-Mãe, a que procede o Logos ou Deus Pai, o Imanifestado. Porque o Logos manifestado é outra coisa bastante diferente e é chamado o “Filho” em toda a cosmogonia. [O Imanifestado] é assexual, porém, o Aspecto Feminino é o primeiro que assume [a diferenciação em sexo]. Tomem a Cabala judaica. Têm “Ain-Soph” que também é ELE, o Infinito, o Eterno, o Ilimitado. Os adjectivos usados em conjunção com ELE são negativos de qualquer tipo de atributo. De ELE o negativo, o Zero, 0, procede o número Um, o positivo que é a primeira Sephira ou Coroa. Os talmudistas dizem que é a “Torah”, a Lei, que eles chamam de Esposa de “Ain-Soph”. Agora vejam a Cosmogonia hindu. Ali encontram que Parabrahman não é mencionado e sim somente Mulaprakriti, todavia ali está Parabrahman como ali está Mulaprakriti, que posteriormente é o envoltório, por assim dizer, ou o Aspecto de Parabrahman no Universo invisível. Mulaprakriti significa a “raiz da Matéria”, porém, Parabrahman não pode ser chamado a “raiz”, porque é a raiz sem raiz de tudo o que é. Portanto, devem começar com Mulaprakriti, o “Véu de Brahman” como o chamam. Tomem qualquer cosmogonia no mundo e encontrarão sempre que começa assim; a primeira Manifestação é a Deusa Mãe, o reflexo, a raiz do primeiro Plano da Substância. De, ou melhor, na Deusa Mãe forma-se o Logos imanifestado, seu Filho e Esposo por sua vez, já que a Ele se chama o Pai Oculto; a partir desses Dois tem-se o Logos manifestado o qual é o próprio Filho – o Arquitecto de todo o Universo visível.”

Portanto, tem-se: Pai Imanifestado (Primeiro Logos, Unidade, Mundo das Causas), Mãe Manifestando (Segundo Logos, Polaridade, Mundo das Leis), Filho Manifestado (Terceiro Logos, Multiplicidade, Mundo dos Efeitos), indo corresponder à Trimurti no Oriente e à Trindade no Ocidente.

Muito ao contrário do que se julga, a Mulher teve papel destacado na Idade Média, que não foi um período exclusivamente masculino, patriarcal. No século XII, a vida monástica das mulheres proporcionava uma grande vitalidade intelectual, como o demonstra Hildegarda de Bilgen, cronista religiosa, ou igualmente a contemplativa Juliana de Norwich. No âmbito secular, o papel das mulheres era, sobretudo, o de esposas que colaboravam com os seus maridos ou de viúvas que tinham uma existência mais independente. Essa foi a situação paradigmática da luso-arogonesa Rainha Santa Isabel[7] e também da madrilena Santa Maria de la Cabeza, viúva de Santo Isidro e mãe de Santo Illán. Santa Maria de la Cabeza constituiu o paradigma das mulheres esclarecidas da Idade Média que souberam unir a fé e o saber numa vivência independente, até se sobrepondo à sociedade dos homens que, rendidos, a aclamaram santa[8].

Por outro lado, no período medieval coincidente com a aparição de qualquer Virgem, houve sempre uma reactivação social, artística e cultural no seio da sociedade com a aproximação do Ocidente ao Oriente, assim mesmo provocando uma irrupção do elemento feminino, não só pelo culto mariano ou o fatimida mas também pela forma idealizada de amor cortês, comum à sociedade muçulmana, realidade incontornável marginal às grandes discussões dos escolásticos teorizando sobre a natureza, a carne e o pecado, a alma e a virtude, a castidade moral e a celibatária carnal, nisto podendo ser-se celibatário sem realmente ser casto, tal qual o qualificativo puritano não é sinónimo de pureza, estado que não se obtém por penitências, mortificações e autoflagelações corporais à custa de cilícios, posto o pecado não ter origem física mas psicomental, e por muito que a pessoa se espanque não espantará o desejo do “fruto proibido”, equívoco firmado e tomado ad littera pela doutrina tomista da Igreja, criada pelo dominicano Tomás de Aquino no século XIII, já de si nos antípodas da ordem emitida na própria Escritura Sagrada: “Sede fecundos, multiplicai-vos” (Génesis 9:6)[9], conciliando o espírito fecundo com a matéria fértil, acto afim à natureza própria do Espírito Santo corporificado na Mulher Virgem, a Aether Eternius.

Para o Islão, a virgindade de Deus como Mulher é a Luz inviolada – Mater inviolata da Ladainha mariana[10] – que ilumina os Eleitos; a esse título, é chamada de “Virgem-Mãe” a hora da vida que é a primeira. Mas é também a última. É Ela que abre o caminho da Iluminação e leva a termo o místico caminhar. A Virgem de Luz revela ao Eleito a forma espiritual que nele é o Novo Homem, tornando-se seu Guia e conduzindo-o em direcção às Alturas, à Almudena ou Cidade Celeste, a mesma Jerusalém Celeste como modelo da Terrestre, tal qual o Paraíso Celestial para o Terreal demarcado por alguma terris ou civitas sancta.

É o Espírito Santo como Mulher Celeste quem gera o Varão Terrestre, donde a sua natureza dupla como Sopro e Vida, Alma e Corpo. Desde a primeira hora seria o Orago de Isabel, princesa de Aragão e rainha de Portugal, que a Ele dedicaria a celebração e festa de uma providencial Idade futura, iniciada em terras lusas de Alenquer.

Apesar de não ser consensual por as fontes históricas serem inexactas, a menina predestinada terá nascido em Saragoça no palácio de Aljaferia, no dia 4 de Janeiro de 1271, sendo a primeira filha de Pedro III de Aragão e de Constança de Hohenstaufen, princesa da Sicília, batizada com o nome de Isabel (Elisabeth em catalão, Yzabel em português medieval) na catedral-basílica da Virgem do Pilar (relacionada à lenda jacobeia de Santiago Maior). Terá passado a sua juventude em Barcelona, onde estava instalada a corte da Coroa de Aragão. No entanto, pude confirmar no local que a memória da princesa aragonense mantém-se viva em Saragoça, nomeadamente na igreja consagrada a São Caetano mas conhecida, pelos noivos saragonenses que a preferem às demais para casar, como igreja de Santa Isabel de Portugal, vizinha das calles de Santa Isabel e do Templo, Ordem cuja sede se situava na mesma artéria actual.

Conforme registam unanimemente as crónicas, a menina Isabel terá recebido cuidada e primorosa educação, muito mais numa corte pluricultural como era a de seu pai, tendo revelado inclinação religiosa desde muito cedo, dizendo-se, com contornos de milagre, que nascera envolvida numa pele, uma “película húmida”[11], como prova da sua ligação com o Divino. Resta saber se essa pele era a subplacentária, que a sua mãe terá guardado num relicário de prata, ou a do flagelo (chicote ou cilício), feito de sete cordas para a autoflagelação na reparação espiritual do desagravo físico, no intento de expurgar o “pecado original” da carne, isto é, do sexo, função natural que o confessional abjura, mais por desejo reprimido que por temor assumido. Não creio que a corte esclarecida de Pedro III, onde conviviam sábios judeus, cristãos e árabes, fosse dada a catequeses penitenciais, além de ser absolutamente implausível uma criança, ainda para mais princesa num requintado ambiente cultural onde era desuso as mortificações corporais, autoinfligir-se por motivo de religião, mas para justificar a atitude e comportamento beatíficos ao longo da sua infância, a posterior lenda religiosa realça que já nessa altura rezava muito, jejuava e até se mortificava com cilícios[12].

Isso desconfere com o ambiente da sua meninice. A jovem infanta, nascida bela e curiosa dos saberes dominantes da época, interesse herdado de seu pai Pedro III, patrono das artes e letras, cultor da poesia e da prosa, particularmente favorável à corrente dos trovadores, ele mesmo trovador tendo escrito dois sirventeses, ou seja, poemas satíricos característicos da poesia trovadoresca provençal, a maioria deles críticas políticas como esses dois do monarca aragonês. De sua mãe, Constança de Hohenstaufen, falecida em halo de santidade e elevada a beata da Igreja, herdaria a religiosidade, a moderação, a piedade, o interesse e a dedicação à causa dos desfavorecidos da vida, nisto simpatizando com o ideal de pobreza espiritual dos frades menores de São Francisco, dos quais andou próxima desde cedo[13].

A infanta tivera como confessor frei Pedro da Serra, pertencente à Ordem dos Mercedários do Mosteiro de Santa Eulália de Barcelona. Essa Ordem dos Mercedários ou de Nossa Senhora das Mercês, fora fundada por frei Pedro Nolasco em 10 de Agosto de 1218, na cidade de Barcelona, no principado da Catalunha da Coroa de Aragão, com a missão de resgatar cativos cristãos em terras muçulmanas, especialmente ao longo da fronteira que a Coroa aragonesa compartilhava com o Al-Andalus muçulmano[14].

A infanta tivera como tutor o catalão Arnau de Vilanova ou Arnaldo de Vilanova (Valência, 1240 – Génova, 1311)[15], com cidadania aragonesa, sem dúvida um dos exponentes máximos da cultura espiritual de Aragão. Médico, filósofo e alquimista, exerceu grande influência na Europa do século XIII, dele dizendo Jerónimo Zurita[16]: “Este é aquele famoso doutor e singular médico, e um dos mais excelentes filósofos que houve em seu tempo, grande esquadrinhador dos segredos e maravilhas das influências e operações do Céu”. A princesa depois rainha Isabel teve-o sempre como seu  “mestre” em toda a sua vida, e já em Portugal manteve a correspondência regular com ele, como preciosamente regista Sebastião Antunes Henriques[17].

O primeiro biógrafo de Arnaldo de Vilanova, o francês Symphorien Champier (1471-1539), sustenta que ele manteve contactos com uma confraria de (neo)pitagóricos italianos do século XIV, de difícil comprovação, sendo mais fácil a comprovação da influência do abade cisterciense da Calábria, Joaquim de Flora, no seu pensamento e no dos franciscanos de quem andou próximo, ele já de si pai de uma santa cartuxa, Rosalina Vilanova, a qual aos doze anos de idade operou o milagre de transformar pães em rosas, como fizera antes a tia-avó da rainha Isabel de Portugal, Santa Isabel da Hungria, e depois também realizado por ela.

Arnaldo de Vilanova foi igualmente mestre do franciscano catalão Ramon Llull ou Raimundo Lúlio (1232-33 – 1314), hermetista que não escusou, tal como o seu mestre, a proximidade às culturas espirituais judaica e árabe, dizendo Pedro Rosell, em 1365, um lulista, que a doutrina de Lúlio era a do Espírito Santo que recebera de Vilanova[18]. Portanto, ambos religiosos afins alumiados pela ideia primacial de reunir a Família Humana – judeus, cristãos e árabes – em Perennis Pacis por graça e providência da Terceira Pessoa, influências essas que marcariam o pensamento e determinariam a acção da futura rainha Isabel, que remataria com a oficialização por ela do Império Popular do Divino em Alenquer, Portugal, pela mão espiritual da Ordem Franciscana (fundada em 1215) e a assistência temporal da Ordem de Cristo (criada em 1319).

Arnaldo de Vilanova entrou em conflito com a doutrina tomista dos dominicanos, em sermões ousados provocatórios do clero, o que lhe valeu o cárcere em Paris, corria o ano 1299. Em 1302, remeteu um opúsculo apologético a personalidades destacadas da Igreja rechaçando a catequese dominicana, no que esses reagiram violentamente protestando no conclave de Perúsia em 1304. Interviu no processo régio-papal (Filipe IV de França e Clemente V de Roma, deste de quem ele era amigo pessoal) contra a Ordem dos Templários, e perante a inevitabilidade da sentença já lavrada antes de terminado o julgamento, para evitar mais sofrimentos inúteis aos monges-cavaleiros, mesmo sabendo da inocência deles, advogou a sua extinção por métodos legais e pacíficos. Igualmente interviu como moderador nas dissensões na Ordem Franciscana e entre a Santa Sé e a Coroa da Sicília, procurando conciliá-las, mas nesse último acto diplomático a cúria romana deu-lhe perseguição, obrigando-o a refugiar-se na Sicília. É por essa ocasião que predica e prevê a vinda do Anticristo, e nesse sentido iniciou, a partir de 1287, uma série de viagens para convencer reis e papas de ser mais necessária a reforma eclesiástica do que qualquer cruzada.

Como Filósofo hermético, Arnaldo de Vilanova aprofundou-se na Magia, Astrologia e sobretudo na Alquimia. Dedicou-se à Grande Obra, desenvolveu o conceito dos três princípios alquímicos (enxofre, mercúrio e sal) e foi o primeiro a comparar a crisopeia (transmutação dos metais em ouro) com a vida, a paixão e a ressurreição de Cristo. É nesse simbolismo alquímico que o posterior esoterismo cristão se baseará para as suas exposições herméticas. Empático a Pitágoras, Platão e Aristóteles, escreveu tratados de Alquimia de qualidade superior, nomeadamente os célebres Tesouro dos Tesouros, Rosário dos Filósofos e O Maior de Todos os Segredos, que ficariam para a posteridade.

Comprometido no movimento dos espirituais, na linha messiânica e escatológica da translatio imperii de Joaquim de Flora, apesar das suas exigências de reforma eclesiástica e severas exortações espirituais, Arnaldo de Vilanova nunca caiu na heresia. Motivo da sentença da Junta Teológica de Tarragona que em 1316 ordenou a destruição das suas obras, ter sido considerada desmesurada e anticanónica.

Tal como o seu condiscípulo Raimundo Lúlio, igualmente Arnaldo de Vilanova foi peregrino a Santiago de Compostela, que além de ser caminho penitencial era também e sobretudo rota iniciática para os cultores das ciências herméticas congregadas como Filosofia do Fogo, nisto etimologicamente coadunada ao nome do Apóstolo Santiago Maior, o Boanergus, isto é, “Filho do Trovão, do Fogo”. Assim, tem-se que os adeptos do Hermetismo, mormente os do exercício da Alquimia, são apodados de Philosophorum per Ignium, Filósofos do Fogo. A isto também não foi alheia a Rainha Santa Isabel.

Com efeito, pelas Cartas inéditas publicadas por Sebastião Antunes Henriques fica-se a saber que Jaume ou Jaime II de Aragão informou a sua irmã D. Isabel que Arnaldo de Vilanova iria em peregrinação a Compostela, agradecendo ela enfaticamente saber do seu mestre. Em 1325, caberia a ela realizar a peregrinação jacobeia, depondo a sua coroa de rainha de Portugal nas mãos do arcebispo da catedral de Compostela, no dia 25 de Julho, recebendo dele o rico bordão de peregrina e a escarcela que a acompanhariam no túmulo[19]. Há ainda uma pressuposta segunda peregrinação, em 1335, de Santa Isabel a Santiago de Compostela, para ganhar o Jubileu. Diz-se que o seu percurso foi profundamente marcado pela humildade, trajando com simplicidade e com um reduzidíssimo número de acompanhantes, levando o seu bordão na mão e farnel às costas como “hua bem pobre romeyra”[20], de que uma canção de menestrel galaico-português dá uma ideia do seu valor singular:

Vai a romeira a Santiago
Dona Isabel de Aragón
Rainha de Portugal.
Em vez de vestes reais,
Traz um hábito de freira
Com os olhos cheios e humilde
Pedindo esmola na estrada.

Acompanhando ideologicamente o seu mestre, Raimundo Lúlio partilhou do ideal de fraternidade entre as três religiões do Livro, chamando-lhes dignitates dei, “dignidades divinas”, como consigna em O Livro do Gentio e dos Três Sábios (1274-1276) e pondo-as em correspondência com a sua hermética Ars generalis ultima ou Ars magna (“Grande Arte”), de 1305. Para a construção dessa última obra serviu-se da literatura de Cabala judaica, nomeadamente do Sepher-Yetzirah, assim como do dispositivo chamado zairja, que combinava ideias por meios mecânicos, utilizado pelos astrólogos e hermetistas árabes. É muito natural que tenha sido assim, pois em Maiorca manteve prolongado convívio íntimo com judeus e muçulmanos, antes de se converter definitivamente ao Cristianismo em 1283, ano em que os apologetas cristãos passaram a estudar em profundidade os textos judaicos e islâmicos. Uma outra das suas preocupações foi a conciliação entre a ética cristã e o ideal cavaleiresco, que o levaria, entre 1279 e 1283, a escrever o Livro da Ordem de Cavalaria, dando feição nova à antiga regra cavaleiresca enriquecida com sucessivas associações simbólicas ao Hermetismo[21], reforma essa adoptada menos pela Ordem dos Templários e mais pela sua sucessora universal portuguesa, a Ordem de Cristo.

Chega o ano de 1282. Em 11 de Fevereiro, no palácio real de Barcelona, Isabel casa por procuração com D. Dinis de Portugal, sem este presente e só os seu delegados, João Velho, João Martins e Vasco Peres. D. Pedro III de Aragão consolidava assim uma importante aliança político-militar com o rei português, não precisando de dispensa pontifícia para a concretização do matrimónio por não existirem laços de consanguinidade entre os noivos, indo o esposório realizar-se de imediato. É ela quem afirma e firma o consentimento de casar, o que desmente ter tido a intenção de guardar a sua virgindade negando-se ao dever conjugal. Não havia colisão entre a sua vocação espiritual e a futura condição esposal. Em seguida, inicia-se a viagem nupcial para Portugal escoltada pelo seu irmão, Infante D. Afonso, deste a Catalunha atá Aragão. Ao chegarem a Castela passou a ser escoltada pelo seu primo D. Sancho, que a conduziu até à fronteira de Bragança onde foi recebida pela comitiva portuguesa, entrando em Portugal por Trancoso onde D. Dinis recebeu a futura esposa, ele com 20 anos de idade e ela tendo completado poucos meses antes os 12 anos. O matrimónio celebrou-se aí em 24 de Junho de 1282. Sendo casamento de interesse político onde as idades dos cônjuges não importavam, assim mesmo aguardou-se a maturidade física de Isabel antes de se entregar no leito ao marido. Tudo isso seria precoce se não fossem mais importantes os deveres de Estado que os deveres conjugais. De maneira que só em 3 de Janeiro de 1290 – então com vinte anos de idade – teve a sua primeira filha D. Constança, e no ano seguinte, em 8 de Fevereiro de 1291, o seu filho D. Afonso[22].

Isabel terá ficado muito agradada com D. Dinis (Lisboa, 9.10.1261 – Santarém, 7.1.1325), homem de artes e letras, um trovador como seu pai, e como este também amigo dos templários, protector dos mesmos das cobiças além-Pirenéus da Coroa de França e do Sólio de Roma, até fundando sobre a Ordem abolida uma nova com os antigos tempreiros. Tudo isso encontrava eco na similar educação esmerada da jovem Infanta de Aragão e Rainha de Portugal.

Dentre as damas de corte que acompanharam a vinda de D. Isabel para Portugal, destaca-se a figura única da sua conselheira e protectora D. Vataça Lascaris (Vatatza Laskarina), Betaça ou Bataça de Vascaris, ou ainda de Ventimiglia (Ventimiglia, c. 1270 – Coimbra, 1336), dama nobre bizantina sua parente afastada e amiga dedicada em toda a sua vida. Neta de Teodoro II Lascaris, imperador de Niceia, era filha da princesa bizantina Eudóxia Laskarina, refugiada na corte de Aragão após a usurpação do trono de Niceia em 1261, e tal como Isabel ambas eram descendentes por via materna do rei André II da Hungria, pai de Santa Isabel da Hungria.

Nos anos de 1288 e 1314, D. Vataça foi agraciada com a comenda de Santiago do Cacém pela Ordem de Santiago, e depois D. Dinis elegeu-a comendadeira e senhora de São Romão de Panóias, vizinha de Ourique, no Baixo Alentejo, onde estabeleceu um pequeno paço[23]. Ofereceu várias relíquias valiosas a igrejas alentejanas, nisso contando-se o seu patrocínio do baixo-relevo em pedra de “Santiago Mata-Mouros”, encomenda da rainha D. Isabel, obra de arte gótica patente na matriz de Santiago do Cacém, as ofertas da relíquia do Santo Lenho e da famosa cabeça-relicário do Papa São Fabião, exposta na Basílica Real de Castro Verde, com função psicopompa entre o mundo dos vivos e o dos mortes com o nome de “saudador”, que um outro menos famoso também existe na igreja de São Romão que pertencera aos seus domínios, na qual estão várias relíquias osteológicas oferecidas pela nobre senhora no século XIV. Há em tudo isso um indisfarçável interesse e talvez prática do Hermetismo por essa aia dedicada da nossa rainha santa, também esta familiar ao providencialismo messiânico, inclusive o judaico.

D. Vataça terá vivido nos seus domínios de Panóias até cerca de 1325 ou 1332, altura em que acompanhou a rainha Santa Isabel quando esta estabeleceu a corte em Coimbra e abraçou a religião das clarissas franciscanas como leiga, acto secundado pela princesa bizantina. Faleceu em 1336 nessa cidade do Mondego e foi sepultada na Sé Velha, em imponente arca tumular decorado com as águias bicéfalas do império bizantino de Lascaris. Estando à esquerda no fundo do templo, é tradicionalmente visitado pelas noivas que nele se casam depositando os seus buquês de flores no túmulo da Noiva de Panóias. Isto por ela ter casado em primeiras núpcias, em 1285, com um nobre português, Martinho Anes de Soverosa, cognominado Tio, último da sua linhagem, que pela sua idade avançada seria estéril, assim não deixando descendência nesse casamento que durou dez anos. Os livros de linhagens deram-lhe a alcunha de peco. As noivas d´hoje certamente não desejarão pecos para elas pelo que recorrem com a oferta das flores nupciais à quase santa D. Vataça.

D. Isabel foi recebida entusiasticamente pela comunidade judaica dos sefarditas de Trancoso, como o seria depois pelos judeus de Alenquer, prevendo-a uma nova Ester das Escrituras Antigas, antevista mater pariturae de uma Idade nova que o Messianismo ibérico há tanto tempo previa[24]. Na literatura messiânica da sua época destacava-se o Sepher-Ha-Bahir, “Livro da Luz ou Iluminação”, com a letra deste sendo ajustada por inteiro ao Espírito sublimado dela, a Rainha da Luz (Bahir) revelada pelo Divino Esplendor (Zohar), no que lhe outorgavam os predicados da própria Shekinah ou “Presença Real de Deus” com o atributo feminino de Gloriam et Pacis, com isso se associando ao simbolismo teológico cristão do Espírito Santo, Orago de Isabel, esta que bem veio a merecer os atributos de “Herdeira Gloriosa” (Morasha) e “Rainha da Paz” (Shalom). Para a realização da sua obra providencial, Yzabel (Ísis…) só poderia contar com a sabedoria e canto de um Orfeu ou Dionysus (Dinis…), e assim foi. Ambos se completaram na Ars Magna de abrir uma Idade nova de Portugal para o Mundo.

Ainda sobre o Sepher-Ha-Bahir, o rabino cabalista do século XIII, Isaac Hakohen, relata que ele “proveio da terra de Israel para os primeiros sábios asquenazes da Alemanha, e daí para os primeiros sábios da Provença, que perseguem todos os tipos de escritos (registos) de sabedoria, e aqueles querendo conhecer o divino, o conhecimento supernal, apenas viram parte do livro e não tudo dele, não o viram na sua totalidade, na sua forma completa”. Com efeito, a obra não é um livro unificado e sim fragmentado, algumas vezes terminando a discussão a meio da frase, frequentemente saltando aleatoriamente de um tópico para outro[25]. Mas isso era propositado, não por a obra estar fragmentada, ao contrário do que se julga.

O texto obrigava à meditação de maneira ao leitor completá-lo por si mesmo, de maneira que desenvolvia a intuitio ou intuição como inteligência divina, acima da própria inteligência racional, nela se contendo a Sabedoria Divina como um dos sete Dons do Espírito Santo revelado no Homem da Idade nova, motivo do título do livro inspirar-se no seu comentário de abertura: “Agora os homens não vêm a Luz (Bahir) brilhante dos Céus (da Consciência Superior)” ( 37:21).

Ao contrário do propagado mito apologético do livro provir de Israel no século I d.C., é mais provável ser seu autor o rabino provençal Yitzhak Saggi Nehor, conhecido como Isaac, o Cego (c.1660 – Posquiére, França, 1235), relacionado aos sefarditas d´aquém-Pirenéus, cuja obra é considerada o mais antigo e importante texto cabalístico até à publicação do Sepher-Ha-Zohar (Livro do Esplendor), este do rabino ibérico Moisés de Leão.

A comunidade sefardita lusitana acolheu D. Isabel com encómios gratificantes dispondo-a entre as maiores, senão a maior, da Escritura Velha. Depositou nela as esperanças de fundação futura da Idade florida portadora de maior espiritualidade e humanidade capaz de unir a todos no todo, arquitecta de Civitas Dei agostinha no Mundo. Com ela, rainha piedosa, poderia ser que esta Terra de Luz (Luxcitânia) fosse a tão procurada Terra Prometida do Ocidente. Não poucas alfamas a aclamaram sua dona protectora, a mãe da nova Israel, Ester, em nova feição. Exemplo disso tem-se na Póvoa da Judia, hoje Póvoa da Rainha Santa, Arganil, cuja capela octogonal centralizada é consagrada a ela, que Tomé Nunes, cónego da Sé de Coimbra, mandou construir em 1633, por ocasião do processo preparatório da sua canonização[26].

Os apologistas eclesiásticos igualmente não se escusaram a ver em Isabel a eleita dos Céus. No sermão pregado pelo padre António de Andrada Rego, em Julho de 1727, na igreja do Real Convento de Santa Clara de Coimbra, a figura da rainha Isabel é elevada acima das mais destacadas figuras das Sagradas Escrituras[27]. Para efeito de comparação, o autor cita as rainhas Ester, Abigail e Sabá: “Ainda que Ester tenha sido bela, a Rainha Isabel continua bela depois de morta. Se a beleza de Ester estava na cabeça pela coroa que levava, Isabel é ainda mais bela na cabeça, nos cabelos, nos olhos, nas faces, nos dentes e no pescoço”.

Nisso ia de encontro ao proferido antes, em 1674, pelo padre António Vieira no seu sermão da Rainha Santa Isabel[28]: “A uma Rainha duas vezes coroada, coroada na Terra e coroada no Céu, coroada com uma das coroas que dá a fortuna, e coroada com aquela coroa que é sobre todas as fortunas, se dedica a solenidade deste dia. O mundo a conhece com o nome de Isabel; a nossa Pátria, que não lhe sabe outro nome, a venera com a antonomásia de Rainha Santa. E, se é coisa tão dificultosa ser rei e santo, muito mais dificultoso é ser rainha e santa. No mesmo exemplo o temos. De todos os reis de Israel e Judá, três santos; de todas as rainhas, nenhuma. O que só digo, e diz Deus a todos os reis, é que aprendam a não as perder e se perder, mas a negociar com elas, e que, com o exemplo canonizado de Isabel, Rainha e Santa, entendam que também podem ser santos sem deixar de ser reis e que então serão maiores reis quando forem santos. Assim negociou com as suas duas coroas a nossa negociante do Reino do Céu, agora maior, mais poderosa e mais verdadeira Rainha; assim está reinando e reinará para sempre; assim goza e gozará sem fim os lucros incomparáveis da sua prudente e venturosa negociação: na terra, enquanto durar o mundo, sobre os altares e no Céu, por toda a eternidade em sublime trono de glória”.

Donde se conclui:

Rainha Santa Isabel: Coroa de Glória (Santidade) e Coroa do Mundo (Realeza), expressando a Soberana Universal – Shekinah, Chakravartini, Budhai, Allatah, Senhora do Céu e da Terra.

Rainha Isabel: Coroa Real in caput das primícias de Advento, corporizado nela, abrangendo todo o Portugal como País de Eleição, conforme as palavras providenciais do próprio Cristo revelado a Afonso Henriques aquando do milagre cristológico de Ourique (1139), as quais constituem o codicilo espiritual determinador do futuro português.

Vai nessa direcção o seu milagre das rosas, igualíssimo ao de Santa Isabel da Hungria e de Santa Rosalina Vilanova, sinónimo de abertura de ciclo ecuménico assinalado como Páscoa Rosada, correspondendo ao Pentecostes, aquando o Espírito Santo se revelou em línguas de fogo a Santa Maria e os Apóstolos, conforme a Escritura Nova, cinquenta dias após a Páscoa, indo depois em pastoral a todas as partes do mundo. Esse milagre da transformação dos pães de anjos (caridade) em viçosas rosas vermelhas perfumadas (iluminação), acontecimento maior do florigério miraculoso da Rainha Santa, teve como primeiro e maior noticiador frei Marcos de Lisboa na sua Crónica dos Frades Menores, 1562, e o o seu avô, Jaime I, chama-lhe “Rosa da Casa de Aragão”.

Santa Isabel da Hungria – Milagre das Rosas – Unindo o Norte ao Sul da Europa;

Santa Rosalina Vilanova – Milagre das Rosas – Unindo o Sul da Europa, de França a Aragão;

Santa Isabel de Portugal – Milagre das Rosas – Unindo Aragão a Portugal e este ao Mundo.

A rosa como flor mariana simboliza a Iniciação no Amor, sendo muito significativo que os antigos tratados de Alquimia fossem chamados de Roseirais dos Filósofos e à Igreja de João apelidassem de Roseiral Mariano, expressando o Amor Divino no culto da Sabedoria no Amor, apanágio medieval dos Cavaleiros da Rosa, dos amantes em Cortes de Amor dados ao exercício hermético, a que não escapou a pobreza franciscana tão do agrado da Rainha Santa Isabel, inclusive cingindo nos anos finais da sua vida o cordão monástico das clarissas, pobreza espiritual essa como sinónima de despojamento da condição inferior em prol do desocultamento da superior ou divina na criatura humana. Vai nesse sentido a Promessa de Advento: a celebração do Espírito Humano que é Deus no Homem, sendo o sentido maior da Exaltação da Cruz, a ponto dela ficar despojada de Crucificado evolado aos Céus para depois ressuscitar e revelar no Homem como Cristo Vivo, Vencedor da Morte por Graça do Espírito Santo, esta a mensagem maior pascal.

Também entre os judeus a Festa de Pentecostes ela celebrada cinquenta dias (sete semanas) depois da Páscoa, como uma das quatro celebrações importantes do calendário judaico, sendo primitivamente uma festa agrária dos cananeus. Era conhecida pelos diferentes nomes das Ceifas, das Semanas ou do Dom da Lei, e tanto sefarditas como asquenazes chamavam-lhe Shabüoth, assinalando-a como o final da colheita do trigo, portanto, período de primícias. “A Festa do Divino é um eco das remotas festividades das colheitas”, diz Moisés Espírito Santo[29]. A Rainha Santa Isabel em breve adaptaria, sob evoco do Divino, as primícias da abundância agrária no abundo providencial das primícias espirituais de Advento, pretexto messiânico do Dom da Lei para Judaísmo e Cristianismo se encontrarem.  

Em conformidade à doutrina joaquimita constante no Liber Figurarum onde Joaquim de Flora (Gioacchino da Fiore, 1130-37 – 1202) desenvolve o tema “transladação de impérios” (translatio imperii) apresentado como Idades do Pai, do Filho e do Espírito Santo, relacionadas respectivamente a Jerusalém (Judaísmo), a Roma (Cristianismo) e ao Extremo Ocidental da Europa, porventura região portuguesa (Paracleto), a Rainha Santa Isabel e o seu esposo o Rei D. Dinis, ela apoiada pelos frades de menores de São Francisco e ele pela freiria militar da Ordem de Cristo, oficializaram, a partir da capela do Espírito Santo de Alenquer, a Festa Popular do Império do Divino Espírito Santo, como regista D. Rodrigo da Cunha[30], dotando-a com o programa mais singular e piedoso ao par da corografia remetendo para heterodoxas leituras a que beneditinos, clunienses e franciscanos não foram estranhos, sobretudo às ideias gerais do pensamento joaquimita[31].

Joaquim de Flora dividiu a História do Mundo através de cálculos e analogias com acontecimentos narrados no Velho Testamento, cujos correspondentes ele identificava no Novo, em três etapas distintas: 1.ª) Idade do Pai, começando em Adão e acabando em Cristo, cuja história narra o Velho Testamento; 2.ª) Idade do Filho, cujo desenrolar descreve o Novo Testamento; 3.ª) Idade do Espírito Santo, a iniciar depois da derrota do Anti-Cristo e cujo texto sagrado seria o Evangelho Eterno, fusão dos dois textos anteriores, a orientar uma época de fraternidade universal onde judeus, cristãos e árabes viveriam em paz numa atmosfera espiritualizada. A 1.ª Idade iniciara com Adão. Osias fora o anunciador da 2.ª Idade, iniciada com Zacarias, pai de João Batista. São Bento era o precursor da 3.ª Idade. A 1.ª Idade tinha sido a da servidão, a 2.ª da obediência, a 3.ª seria a da liberdade. A 1.ª Idade fora caracterizada pelo temor, a 2.ª pela fé, a 3.ª pela caridade. A 1.ª Idade fora a do casamento (rabinos casados do Velho Testamento), a 2.ª a do sacerdócio, a 3.ª do monaquismo. O Evangelho Eterno seria o Livro de que fala São João no Apocalipse 14:6: “Então vi voando à meia altura um Anjo trazendo o Evangelho Eterno a fim de proclamá-lo aos que habitam a Terra, a toda a nação e tribo, em todas as línguas, para todos os povos”.

Por meio dessa breve síntese é possível avaliar o impacto que terá causado a doutrina providencialista de Joaquim de Flora entre os seus seguidores, aos quais se juntariam os espirituais franciscanos encabeçados São Francisco de Assis (1182-1226), contemporâneo daquele. Essa doutrina rapidamente migrou do sul de Itália, da Sicília para a Provença (aparecendo nos Lais de Amor e no Romance da Rosa, na parte escrita por Jean de Meung), para Aragão (pela acção de Arnaldo de Vilanova e de Raimundo Lúlio) e para Portugal (na pessoa da Rainha Santa Isabel).

Posteriormente, o padre António Vieira, da Companhia de Jesus[32], pela ideia de Parúsia promanada do abade cisterciense calabrês, como se repara quando relaciona o Sebastião rei com o Sebastião santo, aliás, em conformidade ao significado do Veltro na Divina Comédia de Dante. O Veltro, que Papini considera o símbolo do Espírito Santo (Veltro de Dio)[33], tem a sua origem no nome Evangelho Eterno (Vang E Lo e Te Rn O – Veltro) e indica o clero ou o papado, assim como a coroa ou o trono, renovados no Espírito Santo inaugurador de uma Nova Idade de Paz e Liberdade universais.

No Sermão do Esposo da Mãe de Deus, S. José, proferido na Capela Real de Lisboa em 19 de Março de 1642, o padre António Vieira retoma as três Idades do Mundo do esquema joaquimita indo comutá-las e proclamá-las cinco, sendo a última a do V Império Português, conceito que herdaria do messianismo judaico por via do seu amigo radicado em Amesterdão, Menasseh ben Israel, rabi-mor da sinagoga local, ou seja, o madeirense Manuel Dias Soeiro (1604-1657). Os cinco Impérios do esquema de Vieira tiveram inspiração na parte do Velho Testamento que relata o sonho de Nabucodonosor interpretado pelo profeta Daniel, tendo o rei sonhado com uma enorme estátua com cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, as ancas de bronze e as pernas metade de ferro e metade de barro, destruída por uma pedra que logo se transformou numa alta montanha enchendo toda a Terra. Daniel, 2:44-45, interpreta: “O Deus do Céu fará aparecer um Reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará a outro povo. Foi o que pudeste ver na pedra que se desprendeu da montanha sem intervenção de mão alguma, e que reduzia a migalhas o ferro, o bronze, a argila, a prata e o ouro”.

Os Impérios são as Idades ou Yugas, os Ciclos tradicionais da Evolução da Terra e do Homem, que em conformidade ao esquema de Vieira assim dispõem:

Não é consensual a data do começo da Festa do Império na “vila-presépio” de Alenquer. Rodrigues de Azevedo adianta o ano de 1280, baseado numa escritura que consultara na Câmara Municipal de Alenquer[34], enquanto Jaime Cortesão[35], adoptando a sugestão de frei Manuel da Esperança[36] e tendo à vista documentos do Arquivo de Alenquer, afirma ter sido o Mosteiro de São Francisco desta mesma vila o palco da sua primeira realização em 1323. A ser verdade, essa última data acaso viria na continuidade de D. Isabel de Araújo, em Alenquer no dia de Pentecostes de 1296, ter convocado o clero, a nobreza e o povo para tomar parte nas solenidades religiosas de inauguração da Confraria ou Casa do Espírito Santo, a que chamaram Império[37].

Mas deve-se à Rainha Santa Isabel a oficialização da Festa do Divino, e no sentido de religião nacional do Advento, expressa pelo exercício da Folia ou Império, obviamente só podia ter na Terra por modelo paradigmático da Jerusalém Celeste um lugar que unisse os dois pólos do Mundo, e esse lugar escolhido foi precisamente Alenquer, de quem já escrevi[38]: “Mas Alenquer significa também, etimologicamente, além e quer, ker ou kar, em celta, “pedra”, isto é, Pedra do Além (sugerindo a do sonho de Nabucodonosor), Pedra Divina, o mesmo que Lusa, a mesma onde Jacob recostou a cabeça, adormeceu e sonhou com a Escada do Céu, tendo sido o nome primitivo da Belém hebraica onde nasceu o Cristo incarnando o Espírito Santo na sua elevada expressão solar, enquanto a Lua, a Mãe, ficaria assinalada em (Santa Quitéria de) Meca, complemento de Alenquer donde dista escassos quilómetros. Não terá sido por acaso que a Rainha Santa Isabel, à dianteira dos franciscanos, escolheu para inaugurar a Festa Popular do Divino Espírito Santo precisamente Alenquer com Meca à vista, representativos do Ocidente e Oriente do Mundo. Enfim, coisas de história que a História vela”… como essa da mártir bracarense Quitéria (século II) remeter para o sentido islâmico de Khalwâ, “retiro” espiritual.

Desde a morte de D. Dinis em 7 de Janeiro de 1325 que D. Isabel vivia como religiosa sem votos no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde passava a maior parte do tempo, delegando as funções de Estado no seu filho, o rei D. Afonso IV. Entretanto deslocara-se para os paços do castelo de Estremoz já tocada pela lepra, contagiada por algum desses inúmeros agafados a quem tão corajosamente prestava os caritativos cuidados.

Desde há muito a rainha vinha cuidando da sua morte, como é notório nas suas declarações num primeiro testamento lavrado em 1314, onde declara pretender ser sepultada no Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, Casa-Mãe dos bernardos em Portugal, ou em São Dinis de Odivelas, em túmulo junto ao do seu esposo que aí jaze, também em casa bernarda. Mas em 2 de Janeiro de 1325 lavrou um segundo testamento, revogando o primeiro. Nele afirma querer ser sepultada amortalhada no Mosteiro de Santa Clara (a Velha, ou a primitiva Casa das franciscanas) de Coimbra, ficando o seu corpo finado à guarda da abadessa. Para o efeito, mandou lavrar em pedra de Ançã o seu túmulo que aí ficaria e é um dos mais belos exemplares do imobiliário funerário gótica que existem em Portugal. Deverá ter sido construído entre 1329 e 1330, pois aquando da sagração da igreja do mosteiro (8 de Julho de 1330), o túmulo já estava feito e colocado no lugar escolhido.

Enquanto isso, ela deslocou-se para o paço do castelo de Estremoz. Em 4 de Julho de 1336 (quinta-feira), após assistir à missa, comungar e cear com a nora D. Beatriz e os netos D. Pedro e a infanta D. Leonor, a rainha recolheu-se aos seus aposentos (que mais tarde D. Luísa de Gusmão, mãe de D. Afonso VI, converteria em capela da rainha santa Isabel) e, no maior dos silêncios e sublimidade em Deus, finou-se[39].

O corpo da rainha foi convenientemente tratado com ervas aromáticas, vestido com o hábito de clarissa, envolto num sudário de linho muito fino e sobre este uma colcha grossa. Esta foi envolta em pano de linho grosso, cozido com uma agulha, e sobre ele num outro de algodão, de modo a todo o volume ficar bem fechado, evitando que a lepra alastrasse. Sobre esse volume colocou-se uma colcha de algodão branca e grossa, sendo o corpo metido num caixão rectangular de madeira hermeticamente fechado e envolvido em pele de boi com o pêlo voltado para fora. Finalmente, foi coberto com um pano de púrpura cuidadosamente repregado[40].

Em 5 de Julho (sexta-feira), iniciou-se a viagem para Coimbra sob um calor abrasador, integrando o cortejo fúnebre muitos cavaleiros, damas de corte e prelados, dentre eles o bispo de Lamego, D. Frei Salvador. Apesar do receio das tábuas do ataúde se despregarem e ter começado a correr líquido do seu interior, sinal do corpo estar entrando em decomposição, a verdade é que dele exalava um agradável cheiro de santidade sem o corpo mostrar sinal de corrupção, o que foi tomado como milagre.

Em 11 de Julho, ao princípio da tarde e após sete dias de viagem, o cortejo fúnebre chegou a Coimbra, entrando o corpo na igreja do Mosteiro de Santa Clara ao som das harmonias plangentes das clarissas, dos lamentos e lágrimas do povo coimbrão, e no dia seguinte é deposto seu túmulo[41]. Se grande foi o florigério dos seus milagres em vida, ele não findou com a sua morte e prossegue até hoje, desde esta cidade do Mondego para todas as partes onde haja devocional isabelino[42], pelo que em 25 de Fevereiro de 1755 a Câmara Municipal de Coimbra elegeu a “Rainha Santa Isabel Padroeira da Cidade”, cujo feriado municipal coincide com o dia do seu finamento (4 de Julho).

Aclamada Rainha Santa ainda em vida, muito mais depois de morta, com o povo venerando os seus despojos mortais, prestando-lhe culto, atribuindo-lhe favorecimentos e milagres, sempre com fama crescente, a abertura do seu processo de canonização foi quase imediato à sua morte[43]. Isso levou D Manuel I a envidar esforços junto da Santa Sé para conseguir a sua beatificação, ou seja, o seu reconhecimento de alma pura que está no Paraíso Celeste em estado de beatitude, com poder de interceder por quem a ela recorre na prece. Assim, foi beatificada em 15 de Abril de 1516 pelo Papa Leão X, mas nesse Breve de Beatificação designou-a por Branca invés de Isabel. O lapso levou a que, em 1545, o bispo de Coimbra, João Soares, considerasse o seu culto ilegítimo. Se foi lapso por descuido ou intencional, desconheço, mas sabe-se das proximidades da Rainha Santa ao culto do Divino também chamado de Branco pelos elementos heterodoxos que o preenchem, mais ainda com o acréscimo da corte de seu pai ter acolhido vários “hereges” cátaros ou “puros” (brancos) vindos do Sul de França aí se refugiando, acabando por diluir-se na sociedade religiosa e laica da época, ademais sem a aprovação dos cistercienses e franciscanos nunca os tendo  reconhecido canonicamente (São Bernardo, São Francisco e Santo António predicaram a seu desfavor em terras occitanas) senão como movimento religioso pietista colado e aproveitado por aquele político independentista dos condes do Languedoque (Occitânia), sobre o qual a poderosa Aragão possuía o senhorio. Seja como for, o considerando do controverso bispo de Coimbra não teve resultados práticos, foi ignorado por todas as classes, desde religiosos e nobre até ao imenso povo simples que acorriam à Santa Clara-a-Velha, tanto que a Festa da Bem-Aventurada Rainha Santa Isabel, desde 4 de Julho de 1517 quando se celebrou pela primeira vez em Coimbra, nunca sofreu interrupções.

Para corrigir o erro no breve pontifício D. João III, sucedendo a D. Manuel I, solicitou ao Papa Júlio III, em 1550, a sua correcção e a extensão do culto isabelino à capela real, uma vez que a beatificação reconhecida no tempo do seu antecessor circunscrevia o seu culto solene à diocese de Coimbra. O Papa deferiu o pedido do monarca português, que em 21 de Janeiro de 1556 solicitaria e obteria de Paulo IV a extensão do culto a todo o reino[44]. Após D. João III, os esforços de canonização de D. Isabel foram prosseguidos por D. Sebastião e interrompidos pelo seu desaparecimento abrupto no desastre militar português em Alcácer-Quibir.

A canonização ou subida aos altares de santidade de D. Isabel só aconteceria em pleno domínio filipino que entretanto ocupara Portugal. Filipe II iniciou esse processo de canonização em 1611, e no prosseguimento, em 26 de Março de 1612, procedeu-se à abertura do túmulo, declarando quem viu que o corpo se achava inteiro e incorrupto[45].  Por fim, Filipe II obteve do Papa Urbano VIII, em 25 de Maio de 1625, a santificação e eleição da Rainha Santa Isabel como Padroeira de Portugal. Mas havia uma intenção escondida: a de num golpe astuto de royal politique levar o próprio Papado a reconhecer e legitimar a soberania de Espanha sobre Portugal, que nisso até a sua padroeira nascera espanhola.

Foi essa a razão do rei D. João V ter solicitado ao papa Benedito ou Bento XIV a confirmação da canonização de Rainha Santa Isabel de Portugal, pelo que foi expedida a bula Rationi congruit, de 28 de Abril de 1742, declarando a canonização de Isabel. Tratou-se da resposta política a Filipe II: o rei português ficaria com a última palavra, Isabel era Rainha de Portugal e só Infanta de Aragão.

Assim ficou até hoje.

NOTAS

[1] Conferência do autor no Recordatório Rainha Santa Isabel, Coimbra, 24 de Novembro de 2018.

[2] Johann Wolfgang Von Goethe, Fausto: Tragédia de Goethe. Tradução de Agostinho d´Ornellas. Typographia Franco-Portugueza, Lisboa, 1867.

[3] Nicolas Berdiaeff, La doctrine de la Sophia et de l´Androgyne. Jacob Böhme et les courants sophiologiques russes, t. I, pp. 29-45. In Jacob Böehme, Mysterium Magnum. Tradução francesa de N. Berdiaeff. Aubier Montaigne, Paris, 1945.

[4] Pierre Teilhard de Chardin, Le Coueur de la Matière. Collection Oeuvres de Teilhard de Chardin, n.º 13. Éditions du Seuil, Paris, 1976.

[5] Jules Michelet (1798-1874), A Mulher. Martins Fontes, São Paulo, 1995.

[6] Helena P. Blavatsky, Os manuscritos perdidos da Loja Blavatsky (1889-1891). Tradução espanhola de Vitor M. Adrião, Lisboa, 2020.

[7] Teresinha Maria Duarte, Santa Isabel Rainha de Portugal: modelo de santidade feminina e leiga. OPSIS – Revista do NIESC, Universidade de Brasília, vol. 6, 2006.

[8] Vitor Manuel Adrião, Madrid Insólita y Secreta. Éditons Jonglez, Versailles, 2011.

[9] Adolphe Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética y Mística. Ediciones Palabra, Madrid, 1990.

[10] Mário Martins, Ladainhas de Nossa Senhora em Portugal (Idade-Média e séc. XVI). Revista “Lusitânia Sacra”, Centro de Estudos de História Eclesiástica, tomo V, pp. 121-220, Lisboa, 1960/61.

[11] Vitorino Nemésio, Isabel de Aragão Rainha Santa, Obras Completas, vol. X. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2002.

[12] Joana Ramôa, Isabel de Aragão, rainha e santa de Portugal: o seu jacente medieval como imagem excelsa de santidade. “Cultura – Revista de História e Teoria das Ideias”, vol. 27, pp. 63-81. Lisboa, 1 de Junho de 2010.

[13] Helena Costa Toipa, A linhagem da Rainha Santa Isabel segundo ‘De Vita et Moribus Beatae Elisabethae Lusitaniae Reginae’ de Pedro João Perpinhão. Revista Humanitas, vol. LXVI, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014.

[14] James William Brodman, Ransoming Captives in Crusader Spain – The Order of Merced on the Christian-Islamic frontier. University of Pennsylvania Press, U.S.A, 1986.

[15] Marcelino Menéndez Pelayo, Historia de los heterodoxos españoles. Editorial Católica, Madrid, 1967.

[16] Jerónimo Zurita (historiador e cronista, Saragoça, 4.12.1512 – Saragoça, 3.11.1580), Anales de Aragón, escritos entre os anos 1562 e 1580, livro V, capítulo LXXXII. Edição de Ángel Canellas López em 8 volumes, Instituição “Fernando, o Católico”, Saragoça, 1967-1977.

[17] Sebastião Antunes Henriques, Rainha Santa – Cartas inéditas e outros documentos. Coimbra Editora, Coimbra, 1958.

[18] Conde de Moucheron, Isabel de Aragão. Edições Ésquilo, Lisboa, Abril de 2008.

[19] A peregrinação de D. Isabel é relatada pormenorizadamente pelo seu primeiro biógrafo, o autor do texto anónimo do século XIV, Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, Dona Isabel e seus bons feitos e milagres em sa vida e depois da morte. Foi publicado no século XVII por Fr. Francisco Brandão, na Monarquia Lusitana, Parte VI (1672), com o título Relaçam da vida gloriosa de Santa Isabel, Rainha de Portugal, transladada de um livro escrito de mão, que está no convento de Santa Clara de Coimbra. A partir desta edição e com consulta de uma cópia manuscrita existente no Museu Machado de Castro, em Coimbra, J.J. Nunes publicou em 1921 o texto “reconstruído”, no Boletim de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, com o título Vida e Milagres de Dona Isabel, Rainha de Portugal.

[20] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa. Livros Dinapress, Lisboa, 2011.

[21] Ramon Llull, Livro da Ordem de Cavalaria. Editora Assírio & Alvim, Lisboa, 1992.

[22] Maria Filomena Andrade, Isabel de Aragão, Rainha Santa, Mãe Exemplar. Temas e Debates, Lisboa, 2014.

[23] Maria Helena da Cruz Coelho e Leontina Ventura, Os bens de Vataça. Visibilidade de uma existência. Revista da História das Ideias, 9, O Sagrado e o Profano. Instituto de História e Teoria das Ideias – Faculdade de Letras, Coimbra, 1987.

[24] Marcos Silva e Ísis Carolina Garcia Bispo, Os arcanos profundos do Criptojudaísmo – O papel da Cabala na resistência cultural dos Sefarditas à perseguição inquisitorial. Editora da Universidade Federal de Sergipe, Brasil, 2015.

[25] Rabi Nehunia Ben Hakaná, Sepher ha-bahir – El libro de la claridad. Editora Obelisco, Barcelona, 2012.

[26] António Nogueira Gonçalves, A capela de Santa Isabel na freguesia de Pombeiro, in Comarca de Arganil. Arganil, 1948.

[27] P.e António de Andrada Rego, Sermaõ da Raynha S. Izabel, sexta de Portugal, pregado em a Igreja do Real Convento de Santa Clara de Coimbra: assistido em Prestito a Universidade em 4 de Iulho de 1727, pelo D. António de Andrade Rego, Reytor, & Collegial, que foi do Collegio Real de S. Paulo, Lente da Cadeira de Decreto, Conego Doutoral da Sé de Faro, Dezembargador dos Aggravos da Casa da Supplicaçao, & Comissario das obras Reais do mesmo Convento. Coimbra, Officina do Real Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1727.

[28] P.e António Vieira, Sermão da Rainha Santa Isabel, pregado em Roma na Igreja dos Portugueses no ano de 1674. In Sermões, II, 8, Lisboa, 1682.

[29] Moisés Espírito Santo, Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa. Assírio & Alvim, Lisboa, 1998.

[30] D. Rodrigo da Cunha, História Eclesiástica da Igreja de Lisboa, fl. 122. Lisboa, 1642.

[31] Francesco Russo, Gioacchino da Fiore e le fundazione florensi in Calabria. Nápoles, 1958.

[32] Marjorie Reeves, The Abbot Joachim and the Society of Jesus. In Medieval and Renaissance Studies, 5, pp. 163-181, Oxford, 1961.

[33] Giovanni Papini, Dante Vivo, pp. 280-297. Mac Milan, New York, 1935.

[34] Álvaro Rodrigues de Azevedo, Benavente. Estudo Histórico-Descritivo, 1926 (1924). Minerva Lisbonense, Lisboa

[35] Jaime Cortesão, História dos Descobrimentos Portugueses, I. Lisboa, 1979.

[36] Fr. Manuel da Esperança, História Seráfica dos Frades Menores de S. Francisco na Província de Portugal, I. Lisboa, 1656.

[37] Rogério de Figueiroa Rego, A Casa do Espírito Santo em Alenquer – relação de alguns confrades. Estremadura, Boletim da Junta de Província, Série II, N.º X, pp. 355-365, 1945.

[38] Vitor Manuel Adrião, Estremadura, o Extremo Ibérico. Revista “Cidades”, Ano II, N.º 4, 1988.

[39] Livro que fala da boa vida que fez a Rainha de Portugal. I Dona Isabel & de seus beons feitos & milagres em sa vida & depois da morte, de autor anónimo. Esta biografia redigida em português, vulgarmente conhecida pela designação de Lenda da Rainha Santa, foi publicada por frei Francisco Brandão em apêndice à parte no volume VI da Monarquia Lusitana, na primeira edição de 1672, com o seguinte título: Relaçam da Vida da Gloriosa / Santa If abel Rainha de Portugal, tresladada de hum li-uro ef crito de maõ, que ef ta no Conuento de S. Clara de / Coimbra.

[40] José Crespo, Santa Isabel na doença e na morte, 2.ª edição. Coimbra Editora, Coimbra, 1972.

[41] Posteriormente, devido às enchentes no rio Mondego inundando o mosteiro velho, construiu-se um novo mosteiro de franciscanas, Santa Clara-a-Nova, sendo trasladados para uma capela provisória aí os restos mortais da Rainha Santa, em 29 de Outubro de 1677, onde permanecem até hoje.

[42] António de Vasconcelos, A evolução do culto a Dona Isabel de Aragão (a Rainha Santa), 2 vols. em edição facsimilada (1891-1894). Arquivo da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1993.

[43] Giulia Rossi Vairo, Le origini del processo di canonizzazione di Isabella d´Aragona, Rainha Santa de Portugal, in un atto notarile del 27 Luglio 1336. “Collectanea Franciscana”, 74, pp. 147-193, Roma, 2004.

[44] A. S. Pinto, Cronologia da Rainha Santa Isabel. Separata do Arquivo Coimbrão, vol. XXVI. Coimbra. Câmara Municipal de Coimbra, 1973.

[45] António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, Primeira abertura do túmulo de D. Isabel de Aragão (a Rainha Santa). Instituto, 39, 11, pp. 841-852, Coimbra, 1891.

Corte de Amor na Cardiga – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 17 2021 

No Foral de Tomar de 1162, D. Gualdim Pais, Mestre Geral da Ordem do Templo, reflecte a preocupação em centrar a primitiva Tomaris como núcleo defensivo do caminho do Sul entre Coimbra – as finis Galiciae, onde então residia a corte de D. Afonso Henriques nesse extremo do Condado Portucalense – e Santarém, incluindo a via fluvial Zêzere-Tejo, sobretudo este, e para tanto ordenou a construção de uma série de atalaias ou postos avançados no território conquistado ao agareno que, num contra-ataque, poderia ir querer reconquistá-lo. Tais atalaias, segundo o mesmo Foral, eram da responsabilidade dos freires-militares do Templo, incluindo não só o castelo e a área conventual, a alcáçova, mas também a área residencial urbana, a almedina, tendo-se notícias documentais disso desde muito cedo[1], a partir dessa escritura de 1162, como regista Manuel Conde[2].

A partir de Setembro de 1169, D. Afonso Henriques, face à crescente ameaça representada pelas forças almohadas, e a fim de incentivar a empresa da Reconquista e do povoamento, fez doação à Ordem do Templo da terça parte de todas as terras que a Milícia viesse a conquistar além-Tejo, com a condição dos seus rendimentos serem aplicados no serviço de Deus e do Rei. No mês seguinte, em 7 de Outubro de 1169, D. Afonso Henriques doou ao Templo os castelos e seus termos de Ozêzar (Zêzere), actual concelho de Vila Nova da Barquinha, e da Cardiga, actual concelho da Golegã[3]. Conforme pode ler-se nas inscrições lapidares, datadas de 1171, nos castelos templários de Pombal e de Almourol, D. Gualdim Pais foi o responsável pela construção do castelo da Cardiga[4]. Deste, hoje sobrevive apenas o torreão de planta rectangular e paramentos aprumados, em alvenaria de pedra, rasgados por seteiras, inicialmente com três pisos sobradados, conforme é descrita no Tombo de Tomar de 1504, assim o elevando a torre ameada. Desses três pisos apenas o primeiro terá sido construção templária, por se saber que D. Dinis mandou acrescentar um segundo e D. João III ou o seu irmão D. Luís, o restante. Ele é quanto resta da época dos templários.

O castelo seria térreo com pequena torre de vigia, não muito elevada, assente em terra chã com o Rio Tejo mais adiante que não chegava a ele. Era, pois, uma atalaia com guarnição razoável dominando os Campos da Cardiga escassos quilómetros adiante da poderosa fortaleza da ilhota de Almourol, que até hoje é símbolo do poder e independência nacional. A vasta área da Cardiga veio a ser povoada por populações cristãs emigrantes de francos e flamengos, também de outras nacionalidades, chegadas aqui ainda em tempo de D. Afonso Henriques, mas cujo maior fluxo migratório foi sobretudo no tempo do seu filho D. Sancho I, o Povoador, as quais cedo se dedicaram à agropecuária e à vinicultura, nisto sendo a génese do povoamento da actual Quinta da Cardiga.

A tão falada Açafa ou território de Além-Tejo (Alentejo) e Riba-Tejo (Ribatejo), praticamente a partir das Portas de Rodão, foi território dominado pela Ordem do Templo desde que em 1169 D. Afonso Henriques lhe dou todas as terras na margem direita do Tejo, logicamente incluindo a Cardiga, e é nesta parte do país que hoje se tem o maior registo patrimonial da presença templária, tanto no cultual ou religioso como no socioeconómico e sobretudo militar, a ponto do polígono militar de Tancos não deixar de ser ser uma continuação viva da presença dos antigos e poderosos militares do Templo, seguidos da Ordem de Cristo, nesta zona nevrálgica e estratégica do país.

Os templários além de militares eram monges, já foi dito, possuíam Regra e Estatuto. Foram também promotores de riqueza e desenvolvimento económico-social, como particularmente se registou na Quinta da Cardiga, e talvez mais que tudo boa porção deles, sem fugir à ortodoxia da religião, mais ilustrados no saber e na espiritualidade, abraçou a heterodoxia dos conhecimentos herméticos que colaria ao regular da fé, dest´arte conhecendo “o espírito que vivifica ou ilumina sob a letra que esconde”, ou seja, sendo confessionais na aparência piedosa da catequese, igualmente apostolavam o nócio mistérico dos saberes gnósticos e gimnosofistas que haviam procurado e abraçado no Ultramar, mais que tudo na Síria e na Jordânia onde conviveram tanto com os assacis como com os mandeus, trazendo-os para o continente vindo influenciar a outros afins, cujo registo ficaria para sempre lapidado em vários monumentos e assinalado em diversos documentos[5].

Isso colava ao sentido místico e providencial dado a Portugal desde a primeira hora por D. Afonso Henriques, cedo tornando-o o primeiro país europeu com fronteiras definidas, ora o apodando de Porto-Graal nos seus sinais rodados, ora justificando a prerrogativa naquele que é o verdadeiro codicilo espiritual de Portugal relativo ao Milagre de Ourique dado à estampa pela primeira vez por Pedro de Mariz, em 1597, nos seus Diálogos de Vária História, narrativa que frei Bernardo de Brito viria a inserir na Crónica de Cister, livro III, capítulo II, Alcobaça, 1602, posteriormente reproduzida por frei António Brandão na Monarquia Lusitana, Parte III, livro X, capítulo V, Lisboa, 1632. Nesse codicilo lavrado após a vitória das Armas Portuguesas na batalha de Ourique, onde a presença templária dominou com a graça de Cristo revelado ao que seria o nosso primeiro rei, resume-se:

Por essa altura do pelágio templário em terras de Açafa, D. Afonso Henrique lavra a carta de doação à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Jerusalém do castelo de Cera em lugar das igrejas de Santarém, exceptuando a de Santiago que continuaria a pertencer-lhe, na qual aparece o famoso sinal rodado afonsino. O documento, depositado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (gaveta 7, maço 3), figura na Monumenta Henricina indicando a doação ao Templo do castelo de Cera ou Ceras, englobando as terras que iam até Tomar e esta. Essa carta, lavrada em Fevereiro de 1159, dentro da política de concórdia com arbítrio papal (Adriano IV, expedindo a bula Justis potentium sideriis), terá servido, segundo o professor Luís de Albuquerque, para doar a mesma Tomaris à Ordem do Templo, aí instalando a sua Casa-Mãe em seguimento a Cera, Ceras ou Cellas. Tal sinal rodado afonsino, feito de maneira gemátrica conformada á cultura hermética do tempo, aparece ainda em várias outras cartas de doação e/ou de aforamento real, como sucede nas de Sintra e do Reguengo de Colares, por exemplo. Ele possui três leituras interrelacionadas apesar de distintas: hermética, teológica e nobiliárquica/militar. Em 1990 identifiquei essa carta de Ceras como a da doação de Tomar aos templários, e agora deixo clareado o por que. Abrange todo o espaço primitivo do concelho tomarense, Ceras e Tomar incluídos. Assim, o documento é sobretudo carta de doação concelhia perpassando a mingueza geográfica de um castelo e terras arredor do mesmo, antes indo mais além dele, ficando a poderosa Santarém sob o domínio militar-económico, também pastoral da religião, da Ordem Religiosa e Militar de Santiago. Nesse acto de fina diplomacia geopolítica, Afonso I evitou conflitos entre espatários e templários e ao mesmo tempo vedou as ambições diocesanas do Cabido de Lisboa, então encabeçado por um bispo inglês, Gilbert of Hastings, pondo essas terras ricas na posse do Exército que delas se ocupou demográfica, política, económica e religiosamente, porque além de serem militares eram religiosos com votos contraídos.

O facto da Ordem do Templo não ceder a igreja de Santiago de Santarém e os seus bens móveis e imóveis aos espatários, é sinal de reivindicar para ela a exclusividade da cristianização do território conquistado e a sua promoção pelas antigas vias romanas desde os finais do século VIII convertidas em caminhos de peregrinação a Santiago de Compostela, na Galiza que nos evos de D. Afonso VI de Leão eram terras portucalenses oferecidas ao conde D. Henrique de Borgonha, pai de D. Afonso Henriques, oferta depois retirada por D. Afonso VII, motivo das inúmeras guerras de Afonso I de Portugal com Leão e Castela e a sua penetração militar em território galaico com a intenção de reconquista[6]. A Ordem do Templários era secundada pela Ordem dos Espatários, motivo de se observar em igrejas santiaguistas a Cruz do Templo ornando o topo das mesmas, como acontece na igreja de São Tiago em Coimbra, por exemplo.

O Caminho Português de Santiago – igualmente os de outras partes europeias – constituía-se numa dicotomia confessional e mistérica. Se por um lado era caminho de penitência a que os culpados eram condenados, por outro era via de iniciação nos saberes ocultados na Natureza e nas coisas dispostas ao longo do caminho santiaguista. Foi assim que Raimundo Lúlio e Arnaldo de Vilanova, por exemplo, o entenderam, como por certo os mais doutos da Ordem do Templo, decerto conhecedores da literatura hermética judaica que guiaria o seu pensamento gnóstico, desde a Coroa de Realeza (Kether-Malkuth) de Avicebrão Ibne Gabirol (c. 1020-1058), ao Livro da Sabedoria de Moisés Maimónides (1135-1204), até ao primeiro texto de Cabala no século XII, o Livro da Claridade (Sepher Ha-Bahir), a que se juntariam o Livro da Criação (Sepher Yetzirah) e o Livro do Esplendor (Sepher Ha-Zohar), este já do século XIII, dentre outros, sem esquecer os apologéticos romancescos do ciclo do Graal que aparelhavam com a literatura hermética islâmica cultora do Amor, pomo da proximidade do Templo à corrente Trovadoresca que daria à Mulher sentido teofânico, figura central do culto à Beleza revelada como a Inteligência do Amor, tanto humano como espiritual, concepção unitária que pela “linguagem secreta” da poesia seria encarnada pelos Fiéis do Amor (Fedeli d´Amore) ainda no século XII. Era nesse Amor ideal que procuravam iniciar-se por via dinâmica ou móvel quantos palmilhavam o Caminho Jacobeo feito assim Caminho de Iniciação, reflectindo o esoterismo e a mística, mais que de penitência. Com isso, tomou forma o amor cortês, galante[7], em cortesias amorosas ainda assim distadas das cortes de amor, estas revestidas de função soteriológica animada por conhecimento superior, gnóstico, suportado por ritos iniciáticos privilegiando o tema central do Amor Divino representado na Senhora (la Madona Inteligenza) que a Cavalaria Cristã associaria à Virgem Maria, dando começo à Cavalaria Espiritual e à missão primaz desta de conquista espiritual do Mundo, a partir de centros iniciáticos estabelecidos, sobretudo em Portugal, como seria o da Cardiga-Golegã.

A Golegã está no Caminho para Santiago de Compostela, e se filologicamente para uns ela é o Gólgota penitencial, onde o Sangue do Redentor escorreu e se representou depois na noética vinicultura – iniciada ainda na época dos templários, como possível corporização do apodo “Divino Vinhateiro” (Mateus 21:33-43) – que tornou famosos os vinhos desta região, para outros provirá da forma genitiva céltica Galagana, “o Caminho, a Via ou Passagem (Gala) da Génia (Gana)”, a Procriadora do Senhor, representada na padroeira local, Nossa-Senhora da Conceição[8]. Na grandiosa igreja gótica desta vila, com belíssimo portal manuelino da lavra do mestre arquitecto Diogo Boitaca, vêm-se ainda nas bases das duas altas colunas adiante do altar-mor uma mão e um cão, aquela indicadora do caminho e este protector do peregrino jacobeo que aqui chegava. Manus et Cannis vêm a ser também sinaléticos estelares do Cannis Majorem – Cão Maior – por cuja brilhante estrela Sirius se guiava o viandante no seu peregrinar para o Norte até desembocar no Campus Stellae, “Campo da Estrela”, donde Compostela.

Chega-se ao século XIV. A Quinta da Cardiga era rica, próspera, não faltavam olhares cobiçosos da mesma, igualmente temerosos dos seus donatários como força militar de elite. Entretanto em França ardia-se o plano de extinção da Ordem, de um lado o rei Filipe IV, avaro dos bens do Templo, e do outro o seu capataz papa Clemente V, que não fazia senão cumprir as ordens daquele que o colocara no sólio de S. Pedro. Assim, em 12 de Agosto de 1307, esse papa dirige ao rei de Portugal, D. Dinis, a bula Regnans in ecclesis triumphans, convidando-o e aos prelados portugueses a irem ao Concílio de Viena, onde ele procuraria determinar o que fazer da Ordem do Templo e dos seus bens móveis e imóveis, por causa dos pressupostos erros e excessos dos seus comendadores e cavaleiros. D. Dinis percebeu a ganância do rei de França por detrás desse golpe com aparência de legal, e apressou-se a tomar uma série de medidas, internas e externas, para evitar que os bens templários caíssem em mãos alheias: ordenou inquirição sobre o património da Ordem e, por via judicial, incorporou-o na Coroa, alegando que as doações do mesmo foram da responsabilidade régia e obrigavam à prestação de serviços ao rei e ao reino[9].

Em 22 de Março de 1312 aconteceu o inevitável antevisto por D. Dinis: Clemente V extinguiu a Ordem do Templo pela bula Vox Clamantis. Percebendo que não conseguia pilhar os bens templários noutros países, em 2 de Maio desse ano emitiu a bula Ad provirem, concedendo aos soberanos a posse interina dos bens da Ordem do Templo, até o conselho pontifício decidir o que fazer com eles. O papa falece e sucede-lhe João XXII. Este, em 14 de Março de 1319, a instâncias de D. Dinis através dos delegados junto da Cúria, pela bula Ad ea ex quibus institui a Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, encurtada Ordem de Cristo, para a qual passam todos os bens e pertenças da Ordem do Templo: “Outorgamos e doamos e ajuntamos e incorporamos e anexamos para todo o sempre, à dita Ordem de Jesus Cristo (…), Castelo Branco, Longroiva, Tomar, Almourol e todos os outros castelos, fortalezas e todos os outros bens, móveis e de raiz”. Em 11 de Junho de 1321, fez-se a divisão em 38 comendas da Ordem de Cristo dos antigos bens pertencentes aos templários, referindo-se na partição a instituição das comendas de Almourol e da Cardiga, cada uma tendo de pagar anualmente 250 libras de renda ou tença à Casa-Mãe no Convento de Tomar. Dois anos depois, em 1323, no início do Mestrado de D. João Lourenço, a Comenda da Cardiga recebeu uma doação de território que pertencia um antigo cavaleiro da Ordem do Templo[10].

A riqueza e lucro da Comenda da Cardiga eram de tal forma avultados que davam rendas a três comendadores. Em 1494 era seu comendador frei Afonso Furtado, tendo se realizado em 1504 o Tombo dos Bens da Comenda da Cardiga. Em 1520, frei Nuno Furtado Mendonça sucede ao seu pai no cargo de comendador, e após a sua morte, em 1536, a Comenda da Cardiga foi cedida ao Convento de Tomar em troca da Comenda de Santiago de Santarém, passando a alimentar o convento tomarense e o Colégio de Coimbra[11].

Reinava D. João III (1502-1557), o Piedoso, menos rei e mais teocrático romano, por ele se introduzindo o Tribunal da Inquisição no país. Suspeita-se das “heresias” das freiria de Cristo, herdando-as e prosseguindo-as dos antecessores templários. Decide-se pôr cobro a isso e iniciam-se as reformas morais e sociais da Ordem de Cristo, para tanto sendo incumbido pelo monarca o jerónimo frei António Moniz da Silva, mais conhecido por frei António de Lisboa, familiar do Santo Ofício[12]. Como o D. Prior de Tomar, frei Diogo do Rego, em 1529, se recusou aderir à reforma imposta por frei António, a mando de D. João III, foi expulso do convento com muitos outros freires que foram dispersos por várias casas religiosas do reino, alguns deles inclusive sido expulsos da Ordem por esse novo D. Prior de Tomar, cabeça da mesma.

Sete anos depois, em 1536, a Comenda da Cardiga deixaria de existir como unidade jurídico-administrativa, e sob a alegação do Convento de Tomar necessitar de terrenos para os seus gados, a Ordem sob administração real retira-lhe o título de comenda ficando só o de quinta, criando em substituição a comenda da Igreja de Santiago de Santarém[13]. Em 7 de Novembro desse ano, por carta de concessão de D. João III, frei António de Lisboa tomou conta da Cardiga in situ perante o contador régio Francisco de Aboim, cavaleiro da Cúria Real, na ausência do contador do Mestrado de Cristo, Pio Rodrigues, e aí passou a viver um reitor da Ordem nomeado pelo mesmo frei António, pouco importando a este ter escolhido um leigo quase analfabeto mas com sucesso nos negócios de transformar a Cardiga em quinta do Convento de Tomar, constituindo-se na base económica substancial da Ordem de Cristo, já então enclausurada por reivindicado direito régio sobreposto ao eclesiástico, ela que antes fora Ordem claustral ou de expansão continental e ultramarina, facto que frei Gonçalo Velho, comendador da Cardiga, demonstrou bem ser assim na Gesta Dei per Portucalensis ou Conquista Espiritual do Mundo ao participar na demanda marítima da Índia e da América, ou do Oriente e do Ocidente, como regista a inscrição de 1926 na lápide, com retrato do encomiado por cima, junto à entrada da quinta:

“FREI CONCALO VELHO / COMMENDADOR DA / CARDIGA NA ORDEM DE / IESVS CRHISTO ABRIV O CAMINHO / MARITIMO DA INDIA EM 1416 / CHEGANDO A TERRA ALTA E O / DAS AMERICAS EM . 1431 . 1432 . / DESCOBRINDO OS AÇORES / + PARA PERPETVA MEMORIA DE / TÃO ECRECIO VARÃO SE COLOCOV / ESTA LAPIDE A PEDIDO DO INSTITVTO / HISTORICO DO MINHO CELEBRANDO / O . V . CENTENARIO DO PRIMEIRO / DESCOBRIMENTO PORTVGUEZ / + MCCCCXVI + MDCCCCXVI +”

Data de 20 de Julho de 1544 a referência a esse reitor da Cardiga, de nome Francisco Lopes, como “criado, feitor e procurador” de frei António de Lisboa.

Isso apesar de só em 1623, reinando Filipe III, aparecer registada a designação de quinta à Cardiga, vulgarizada a partir de 1629-1630, sendo feitor o sobrinho de frei António de Lisboa, frei Pedro Moniz, eleito nesse cargo, desde 1592, por quatro vezes, segundo Luís Miguel Batista (ob. cit.).

Sob pretexto de desassorear as Terras da Cardiga a fim de facilitar o escoamento das águas do Tejo, em 1545 o infante D. Luís (1506-1555), irmão de D. João III e autorizado por este, mandou fazer a importante obra hidráulica de mudança do curso do rio, construindo-se então a cerca envolvente da quinta-convento indo as águas bater nela. “Tirando-o do alveo a que hoje se chama Tejo Velho, mudando-lhe a corrente para o Tejo Novo por motivo de coitar o ímpeto das areias que carregavam as lezírias das Barrocas que ficavam por cima de Santarém”[14].

Mas a empresa resultou em grande prejuízo para a Ordem de Cristo e a Quinta da Cardiga: vários mapas antigos assinalam uma ribeira que em 1900 ainda se denominava Tejo Velho, resultado da escorrência das águas provenientes dos relevos da margem sul mostrando que as areias não tinham sido totalmente imobilizadas como se pretendia. O novo troço (com dez quilómetros de extensão) ou Tejo Novo saído, segundo as crónicas, da Lagoa Fedorenta vizinha da quinta, directa e rectilíneamente para sul, não agradou ao rio que escolheu novo traçado deslocando-se cada vez mais para norte, tornando-se progressivamente mais sinuoso, desenvolvendo ampla curvatura a norte da dita lagoa. Como consequência da erosão provocada na margem côncava da curva que se formava, foram desaparecendo as terras de cultivo da Quinta da Cardiga[15]. O desastre foi total e em cerca de quinze anos erodiu toda a área que ia do canal artificial até às casas da quinta, junto às quais passava (e passa)[16].

Entre 1545 e 1557 o rei D. João III instalou-se várias vezes no palácio desta quinta, tendo subido o rio de barco, pernoitado na Cardiga, e depois seguido a cavalo para observar – vigiar e censurar – as obras no convento de Tomar levadas a efeito pelo seu censor frei António de Lisboa. A mesma intenção censória o terá assistido aqui na Cardiga, desde que em 1540 frei António de Lisboa a transformara em palácio paçal digno do rei e da sua esposa, rainha D. Catarina, sob risco do mestre arquitecto biscainho João de Castilho (1470-1552), responsável pelas obras no Convento de Tomar e também aqui.

Mas esse não era um mestre qualquer, já brilhara no providencialismo messiânico do Manuelino, possuía a arte da dissimulação com que bem soube iludir tanto ao inquisidor frei António como ao monarca igrejeiro, e arguto, figura de destaque na corrente dos Mestres-Canteiros como um dos principais na introdução da Renascença em Portugal, deixou sinais da presença hermética na Cardiga indicativos da existência de Corte de Amor, espaço já de si courela “mística” (parcela mista) desde o século XII, sobretudo a partir da centúria de XIV, onde a Iniciação Senhorial ou Mariana, afim ao ideal de Cavalaria, seja esta militar ou filosófica, aqui teve o seu foro, a despeito do censório eclesiástico.

Essa arte de dissimular, como a de apresentar uma coisa aparentemente piedosa e inocente mas realmente com sentido diverso primando conceitos herméticos só acessíveis a raros iniciados, vem a reproduzir aquelas outras palavras em francês provençal contidas em Alexandre, de Albéric de Pisançon ou de Briançon (cerca de 1110)[17]:

“Aquele a quem Deus concede o senso,
não deve escondê-lo sem cuidado,
antes deve certificar-se de que aqueles
a quem o confia são dignos de o conhecer,
pois grande loucura cometerá
quem deitar a porcos a sua pérola.”

Seria sobretudo no século XVI a formação de Corte de Amor em núcleo fechado, e com a Cardiga não tendo mais a função militar defensiva do Tejo contra invasões mouras e castelhanas como outrora, pois tudo estava pacificado, consolidado desde há muito, remeteu-se a Ordem de Cristo à exclusividade das lides culturais e metafísicas, destacando a demanda do Supremo Amor no assinalado Santo Vaso de nome Santo Graal, intimamente correlacionado ao tema mariano[18], consequentemente, ao culto da Mulher, da Senhora Ideal, aprofundamento exigindo o hermetismo que a teologia confessional não possuía (nem possui). Isso também coincidiu com o aparecimento de duas obras literárias maneiristas tornadas universais: em Espanha, o D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, assinalando o fim da Cavalaria Temporal; em Portugal, Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, marcando o começo da Cavalaria Espiritual.

Nessa última obra, a “Bíblia” dos Lusos, Camões utiliza o método danteano e virgiliano dos Fiéis de Amor de revelar escondendo. Opõe a Igreja do Amor à de Roma, e assim fariam os Fiéis de Amor não a ostracizando, antes a rectificando indo além da “letra que esconde”. Se Camões desfeche com a Ilha dos Amores no seu poema imortal, aqui na Cardiga eleva-se o Palatium Amoris, com o carácter de centro primordial – centrum primum – replicando a condição idêntica do castelo do Graal, da morada do Amor nas lendas e narrativas medievais escoadas nos saberes iluminados da Renascença. Assim, a quinta da Cardiga batida pelo Tejo não deixa de ser réplica do castelo do Graal “rodeado por um grande rio”[19], tudo no seguimento da primeira e mais difundida obra literária latina deste género surgida na segunda metade do século XII, o De Amore ou De arte honeste amandi ou Gualtieri, de Andrea Cappellano (1150-1220), tratado de normas de amor cortês com o subentendido de realmente tratar de amor ideal, espiritual, carregando o simbolismo hermético associativo do feudo de amor ao feudo celeste, ao Centro Primordial do Mundo, pomo da demanda e reintegração do Iniciado, despertando a Madona Inteligenza em si, a Shakti,“contraparte” ou alma espiritual dotada do Fogo Criador do Espírito Santo, este associado à Força Electromagnética que leva o nome hindu de Kundalini. Se, na linguagem alegórica dos Fiéis de Amor, a “amizade expressa” representa o acto da Iniciação, o “amante no Amor” é o Imortal, o que perpassou a condição física de morte, e no Amor ou Iluminação tem por símbolo a Rosa, símbolo da Mulher Ideal em quem doravante está integrado[20], nisto sendo legitimamente Cavaleiro da Rosa, outro nome dado ao Fiel de Amor, sinal observável em medalhão de abóbada, obra de João de Castilho, na “adega dos frades” desta quinta da Cardiga.

O sentido místico de castelo do Graal dispõe-o na igualmente mística insula occultam (“ilha oculta ou velada”) já assinalada no século XIII pelo iraniano Ali Ibne Fazel Mazandarani em Relato das coisas estranhas e maravilhosas que ele contemplara e vira com os seus olhos na Ilha Verde situada no Mar Branco, epopeia iniciática liga à tradição xiita do 12.º Iman ou “Iman Oculto”, recambiando para a versão ocidental do Encoberto na insula brandonis, “ilha de São Brandão”. Apresenta severas semelhanças com as epopeias ocidentais da Cavalaria Mística, mais que tudo a da Demanda do Santo Graal. A Ilha Verde, associada aos Mons Salvat do mito arturiano, é para Henry Corbin o “lugar onde os seus fiéis [os do 12.º Iman ou o Encoberto] se aproximam do Pólo Místico do Mundo”[21], a Ilha que abriga a Fonte da Vida à sombra do Paraíso Terreal. Para o autor, os amigos e amantes de Deus islâmicos e cristãos possuem muitas convergências identitárias eles. Enquanto os mulahs privilegiaram o simbolismo hermético e a busca iniciática, aqui os dotados das luzes superiores da Ordem de Cristo destacaram a cavalaria espiritual e mística, encadeando-se a essa sociabilidade cristã motivada pela esperança de uma comunidade utópica de perfeitos na Arte do Amor demandado e por fim realizado.

Sendo a Corte de Amor sinónima de Centro Iniciático, assinalado neste espaço pelo monóptero ou templete com a Cruz de Cristo, construção quinhentista do mestre biscainho a que se chegava saindo da capela primitiva hoje desaparecida, mais que “casa de fresco” deitando para o jardim (simbólico do éden) tem-se no mesmo a representação simbólica do Sanctum Sanctorum do antigo Templo de Salomão, a porta de acesso das almas salvas, eleitas pelos seus próprios méritos, à Jerusalém Celeste[22]. Por isso paira sobre o jardim em baixo. O protótipo salomónico do Santo dos Santos influenciou a forma de muitos sacrários e tabernáculos, razão pela qual foram construídos segundo um modelo centralizado, em rotunda figurativa da hóstia – para Francisco de Holanda – expressiva da Mónada ou Nous que pela sua circulatura expressa a infinitude divina, “sem princípio nem fim”, com isso encomiando o Santíssimo Sacramento que a devoção conheceu nos tempos pós-tridentinos, em reacção ao cisma protestante que não aceitava a presença de Cristo na Eucaristia[23].

Celebrando os deuses galantes na primavera de Advento, autêntica Corte de Aldeia (1619) para o igual “amante” Francisco Rodrigues Lobo, prosseguidor de Fernão Álvares do Oriente com a sua bucólica Lusitânia Transformada (1607), tinha-se:

Nisto entram os chamados “discursos secretos” em junção com os “livros de segredo”, tendo como matrizes os tratados de Hermetismo, cuja influência estendeu-se desde as artes e ofícios até obras filosóficas e religiosas, “discursos” inclusive aplicados em círculos restritos de Ordens aparentemente de rígida ortodoxia confessional[24]. Vários acontecimentos censórios, condenatórios e persecutórios registados na História Eclesiástica durante a Idade Média e na primeira metade da Renascença, haviam concorrido para esse ambiente de segredo e secreto em núcleos selectos no seio da própria Igreja, que assim precavenidos escaparam ao condenatório desta, o que igualmente terá ocorrido aqui na Cardiga.

Falando em Hermetismo evoca-se o nome do seu criador Hermes Trismegisto ou Trimegistus, que em latim significa “Hermes o três vezes Grande”, associado pelos neoplatónicos, alquimistas, cabalistas e demais hermetistas ao deus egípcio Thot, identificado com o deus grego Hermes e até com o patriarca Enoch do Antigo Testamento. Personagens fabulosos nos dias de hoje, os antigos consideravam-nos os criadores originais da escrita fonética, da magia teúrgica e do profetismo messiânico nas respectivas culturas.

Thot estava relacionado com os ciclos lunares cujas fases expressam a harmonia do Universo. Os escritos egípcios referem-no como “duas vezes grande”, por ser o deus do Verbo e da Sabedoria. Na atmosfera sincrética do império romano deu-se ao deus grego Hermes o epíteto do deus egípcio Thot, mas como “três vezes grande” (trimegistus), no Verbo, na Sabedoria e por ser Mensageiro de todos os deuses do Eliseu ou Olimpo, pelo que os romanos o associaram a Mercúrio, planeta mediador entre a Terra e o Sol, facto que os cabalistas judeus apelidaram Metraton, “Medida Perpendicular entre a Terra e o Sol”.

Como “escriba e mensageiro dos deuses” no Egipto helénico, Hermes era considerado autor de um conjunto de textos sagrados, ditos herméticos, contendo ensinamentos sobre arte, ciência, religião e filosofia – o Corpus Hermeticum – cujo propósito era a deificação da Humanidade através do Conhecimento de Deus (Gnôsis). É provável que esses textos tenham sido escritos não por uma só pessoa mas pelo conjunto de personalidades que corporificavam a Escola Hermética do Antigo Egipto, assim expressando o saber acumulado ao longo do tempo indo atribuí-lo ao seu deus da Sabedoria, em tudo similar ao deus Ganesha do panteão hindu.

O Corpus Hermeticum, datado provavelmente de entre o século I e o século III d. C., representou a fonte de inspiração do pensamento hermético e neoplatónico renascentista. Apesar do erudito suíço Casaubon ter pretendido provar o contrário no século XVII, continuou a acreditar-se que o texto remontava à antiguidade egípcia anterior a Moisés e que nele também estava contido o prenúncio do Cristianismo. Segundo Clemente de Alexandria, eram 42 livros subdivididos em seis conjuntos. O primeiro tratava da educação dos sacerdotes; o segundo, dos rituais no templo; o terceiro, de geologia, geografia, botânica e agricultura; o quarto, de astronomia e astrologia, de matemática e arquitectura; o quinto, continha os hinos em louvor aos deuses e um guia de acção política para os reis; o sexto, era um tratado de medicina.

Acredita-se que Hermes Trimegisto terá inventado um baralho de cartas repletas de símbolos esotéricos, sendo as primeiras 22 feitas em lâminas de ouro e as restantes 56 em lâminas de prata. Esse é o chamado Tarot ou “Livro de Thot”. Também é creditado a Hermes a escritura do Livro dos Mortos ou “Livro da Saída para a Luz”, além do mais famoso texto alquímico: a Tábua de Esmeralda, que exerceu uma grande influência sobre a Alquimia e a Magia praticadas na Europa medieval.

Na mesma Europa medieval, sobretudo entre os séculos V e XIV, o Hermetismo também foi uma Escola de Hermenêutica, que considerava alguns poemas da Antiguidade, os diversos mitos e as obras de arte enigmáticas como tratados alegóricos de Alquimia ou Ciência Hermética. Por isso, ainda hoje o termo hermetismo designa o carácter esotérico de um texto, de uma obra, de uma palavra, de uma acção, no sentido de possuírem um significado oculto que exige uma hermenêutica, isto é, uma ciência filosófica que interprete correctamente o sentido velado do objecto apresentado.

Os princípios herméticos foram adoptados e aplicados pelos collegia fabrorum romanos, agremiações de artífices de construções civis, militares e religiosas, cujos conhecimentos foram herdados no século XII pelos monges construtores cristãos, edificadores dos grandes edifícios românicos e góticos da Europa, executando as suas obras pelo método da arquitectura sagrada tendo como modelo a também geometria sagrada. Esta é herança directa dos conjuntos terceiro e quarto do Corpus Hermeticum, pelos quais as cidades e os edifícios eram construídos de maneira a interrelacionarem-se com determinados planetas e constelações para que reproduzissem na Terra a disposição do céu, encadeando nela as suas energias cósmicas ou siderais, constituindo isto a actualmente chamada arqueoastronomia. Tudo isso para dar cumprimento à sentença hermética de “o que está em cima é como o que está em baixo”.

Durante a Renascença europeia (séculos XVI-XVII), o Hermetismo foi substituído pelo Humanismo. As formas foram racionalizadas e o transcendente ignorado, desaparecendo a sociedade tradicional substituída pela sociedade laica, barroca e pré-modernista abrindo caminho ao advento do materialismo mecanicista que domina o mundo moderno. Ainda assim, houve excepções a essa regra dominante na Europa: a aparição dos mestres canteiros, herdeiros dos monges construtores, em Portugal no século XVI, inaugurando o estilo Manuelino baseado nas regras herméticas da arquitectura sagrada. A influência desses construtores livres manteve-se até ao século XVIII e a sua última grande obra foi a restauração de Lisboa após o terramoto de 1755. Por isso é que a Lisboa Pombalina está traçada e construída segundo as medidas geométricas e arquitectónicas da tradição legada por Hermes Trismegisto [25].

Esse Hermetismo ou Gnose era a Teosofia ou Sabedoria Divina, palavra muito anterior à sua divulgação universal no século XIX pela ucraniana Helena Petrovna Blavatsky, tendo sido Jabob Boheme (Jakob Böhme, 1575-1624)) o primeiro a usar e reivindicar para si o termo na sua obra De signatura rerum (1621). Já antes, em 1618, Valentin Weigel empregou o mesmo vocábulo no seu Libellus theosophiae. Seguiram-se outros autores, como Johann Georg Gichtel (1638-1710) ou Gottfried Arnold (1665-1714). A partir do início do século XVIII, a utilização da palavra tornou-se corrente e o seu significado fixou-se. Dentre as obras que contribuíram para a fixar, destacam-se as seguintes: La Très Sainte Trinosophie (Ms. n.º 2400 na Biblioteca de Troyes), obra setecentista do Conde Saint-Germain, Theophilosophia theoretica et practica (1710), de Sincerus Renatus, Opus magocabalisticum et theosophicum (1721), de George von Welling, e ainda a obra em latim de Johann Jacob Brucker, Historica critica philosophiae (1741), consagrando um capítulo inteiro à Teosofia (De theosophiis). Foram as obras destes e outros filósofos herméticos que deram direito de cidadania a essa palavra e à sua realidade. A Teosofia quer-se sobretudo como uma abordagem mental aos princípios que unem a Divindade, a Natureza e o Homem, baseando-se numa hermenêutica esotérica instruída no princípio das correspondências e das homologias. Nisto, prolonga os ensinamentos que o Hermetismo e as diferentes Filosofias da Natureza haviam veiculado: tudo participada da lei da analogia ou homologia na Criação, estando cada parcela do Universo em íntima relação com a Luz Divina. Simultaneamente, a Teosofia participa de duas opções: a que consiste em penetrar em compreender, a partir da experiência interior, os mistérios da Divindade, e a que se preocupa mais profundamente com aproximar esses mistérios no e pelo Universo criado. Esta última opção integra evidentemente uma Filosofia da Natureza e uma conceituação esotérica, ao passo que a primeira situa-se sobretudo do lado iluminação interior e da contemplação mística. A função da imaginação criadora é importante neste caso, posto tudo participar, por efeitos de “espelho”, dos processos analógicos. As duas opções completam-se e dão a Teosofia completa, como teórica e prática, como via de entendimento e vivência do entendido, e a isto chamava-se Filosofia Querubínica [26], aliás, registada em vários lavores na Quinta da Cardiga e por certo assumida em segredo por doutos da Ordem de Cristo.

Na fachada nordeste do palácio da Cardiga, defronte para o jardim com o Tejo adiante, tem-se a porta por onde se acederia à primitiva capela pelas traseiras, cuja cimalha quinhentista apresenta o busto de um homem novo à esquerda e o de um homem velho à direita, este que alguns teimam em associar à figura célebre do misterioso baphometh templário. Abaixo da cimalha apresenta-se a Cruz de Cristo laureada com folhas de carvalho, que na simbólica antiga era indicativo de Templo pela fortaleza das suas madeiras, agora indicativa da Glória e Triunfo da Ordem de Cristo. Além de retratarem personagens importantes que aqui terão vivido, não deixam de evocar o discípulo (jovem cortesão) e o mestre (artesão encapuçado) na Ars Magna conservada secreta no esconso da freiria de Cristo.

Por falar em baphometh, afigura-se conveniente dedicar algumas palavras a essa figura mítica popularizada a partir do século XIX pelo ocultista Eliphas Lévi em seu Dogma e Ritual da Alta Magia (1855), seguido de outros autores que fariam da efabulação enublada vero facto.

Associado ao crânio, este tem sentido duplo, apesar de para o Catolicismo só significar a lembrança da morte. Mas o crânio contém o cérebro e está na parte mais alta do homem. Por isso é o lugar sagrado do corpo humano por excelência e o símbolo da descoberta do Saber Supremo.

O termo baphometh provém do árabe ouba-al-fometh, a “boca do Pai”, com o sentido de Saber Supremo verbalizado pelo Pai. Como o Pai contém o Filho e o Espírito Santo, Ele é também a Luz da Sabedoria, a que alguns deram o sentido grego tardio de Baphêmétous. Nisto residirá o sentido da frase no poema Ira et Dolor, escrito em 1265 por um trovador occitano: “E Baphometh obra de son poder” – E Baphometh fez brilhar o seu poder. Na língua mourisca da Península Ibérica herdada do mudéjar, escrevia-se Abufihamat (e pronunciava-se soando Buphimat), com os sentidos de “Pai, Fonte, Compreensão”. Uma expressão derivada, Ras-el-fah-mat, significando “Cabeça do Conhecimento”, refere-se à capacidade mental do homem após a sua consciência ter sofrido um aprimoramento. A tal processo reporta-se precisamente a expressão “Eu construo uma cabeça”, usada por algumas escolas corânicas da Península Ibérica que os cristãos medievais, a maioria de catequese e confissão simples, chamaram depreciativamente bafometarias e carvoarias, no sentido impopular de “negras e diabólicas”, pois aí ensinavam e praticavam conhecimentos secretos ou ininteligíveis aos simples para os quais, por isso mesmo, só podiam ser “coisas do Diabo”.

É assim que o crânio «baphomético» vem a prefigurar uma Iluminação Mental, muito próxima da finalidade da oração mental dos jerónimos, tal qual como no simbolismo de Santa Brígida, figurando no santoral dos antigos templários, tratando-se da readaptação da Brigite celta presidindo ao Imbolc, a festa da purificação celebrando o fim do Inverno, representando a iluminação do Mundo após as trevas estéreis. Eis o motivo de, por vezes, Santa Brígida também aparecer iconografada com um círio na mão e uma vaca aos pés, esta expressando a lactação, no caso, referindo-se ao retorno da vida na Primavera. Talvez por isso o conjunto escultórico esteja defronte ao jardim, como também, por feliz causalidade, a Cardiga foi poderosa exploração agropecuária.

Assim se chega a 30 de Maio de 1834, quando então o Ministro dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, Joaquim António de Aguiar (1792-1884), declarou extintas as Ordens religiosas e os seus bens secularizados e incorporados na Fazenda Nacional. Tal acto valeu-lhe a alcunha de “mata-frades”. Regia D. Pedro IV  desde os Açores em nome da sua filha D. Maria da Glória, futura D. Maria II de Portugal. Foi quando que a Quinta da Cardiga passou para a posse do Estado, que passado pouco tempo, ainda nesse ano de 1834, vendeu-a ao capitalista Almeida Lima, o “Lima da Cardiga”[27].

Depois o imóvel transitou por outros proprietários até finalmente Luís Sommer de Andrade, de ascendência germânica cujo antepassado Henrique Francisco Luís von Sommer se alistara no exército liberal de D. Pedro IV e fora um dos 7.500 “bravos do Mindelo” sendo promovido capitão, o adquirir. Homem culto e prático, mostrou afecto e respeito pelo espaço já despojado dos bens imobiliários da freiria de Cristo que o enriqueciam outrora[28]. Então, a partir de 1908, encetou a obra do seu engrandecimento na tentativa de lhe restituir a primitiva dignidade espiritual e temporal, intento onde não foi infeliz e demonstrou a sua pessoa culta e informada. Assim chegou até hoje como solução “nacionalizada”, ou vernacular, do modelo clássico de palácio-fortaleza, conforme a recebera ainda no século XVIII.

Luís Sommer mandou aparelhar uma nova capela, cujo pórtico manuelino exterior adquiriu da igreja demolida de Castanheira do Ribatejo, mandando-o colocar aqui, e comprou a um colecionador de arte o retábulo em pedra lavrada de Nossa Senhora da Misericórdia, da autoria de João de Ruão, para figurar sobre o altar. Também o grupo de azulejos seiscentistas com legendas da Ladainha Mariana nas paredes do pátio interior do palácio[29], aí colocados entre 1939 e 1940, foram adquiridos por Luís Sommer da extinta igreja de Santa Apolónia, em Lisboa, situada onde hoje está a estação ferroviária[30].

Chegado aqui, endereço o agradecimento ao dr. Ruy Sommer de Andrade por gentilmente me ter aberto as portas deste seu palácio e sido guia conhecedor dos seus cantos e recantos.

Em plena lezíria ribatejana, num recanto paradisíaco à beira-Tejo, carregando o silêncio e o significado histórico português, a Quinta da Cardiga continua a manter a aura mística que não deixa ninguém indiferente, fruto de séculos de preces e divinais  labores, agora aguardando destino digno da sua grandeza e tradição de outrora que viverá sempre na egrégia memória portuguesa, como vibra no testemunho patrimonial legado pelos passados aos presentes, agora o  devendo destinar aos futuros desta nossa pátria, tudo a bem da Alma-Mater de Portugal.

NOTAS

[1] Rui de Azevedo, “Período de formação territorial: Expansão pela conquista e sua consolidação pelo povoamento. As terras doadas. Agentes colonizadores”, in História da Expansão Portuguesa no Mundo, vol. I, Lisboa, 1937.

[2] Manuel Sílvio Alves Conde, Tomar Medieval – O espaço e os homens. Cascais, 1996.

[3] Monumenta Henricina, vol. I, doc. 7. Lisboa, 1960.

[4] Mário Jorge Barroca, Epigrafia Medieval Portuguesa (862-1422), vol. II, t. I, Porto, 1995.

[5] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Euedito, Lisboa, 2020.

[6] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Ed. Dinalivro, Lisboa, 2011.

[7] Gustave Cohen, la grande clarté du Moyen Âge. Editions Gallimard, Paris, 1945.

[8] João José Alves Dias, As Comendas de Almourol e da Cardiga, das Ordens do Templo e de Cristo, na Idade Média. In As Ordens Militares em Portugal. Actas do 1.º Encontro sobre Ordens Militares. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1991.

[9] Batalha Gouveia, A Origem dos Nomes – Golegã. Jornal do Incrível, n.º 110, 28 de Dezembro de 1981.

[10] Iria Gonçalves (organização), Tombos da Ordem de Cristo. Comendas do Médio Tejo, vol. 2. Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 1995.

[11] Luís Miguel Preto Batista, Cardiga: de Comenda a Quinta da Ordem de Cristo (1529-1630). Torres Novas: Município de Torres Novas, 2009.

[12] Isaías da Rosa Pereira, Notas sobre a Inquisição em Portugal no século XVI. Revista Lusitânia Sacra, 1.ª Série, 1956-1978), Tomo 10 (1978), Centro de Estudos de História Eclesiástica, Lisboa.

[13] João de Almeida, Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, vol. III. Lisboa, 1947.

[14] A.N.T.T., Conventos de Tomar, Ordem de Cristo. Maço 30, n.º 1 e 4 (vermelho), fl. 21.

[15] J.J. Alves Dias, Uma grande obra de engenharia em meados do séc. XVI. Mudança do curso do Rio Tejo. Revista Nova História, Editorial Estampa, Lisboa, 1984.

[16] M. Teresa M. Azevêdo, A utilização dos dados históricos no estudo das cheias do Tejo. In “Estudos do Quaternário”, 4, Lisboa, 2001.

[17] Jean-Claude Rixte, Rhône-Alpes, terre de troubadours. EMCC, Lyon, 2012.

[18] Mário Martins, Nossa Senhora nos romances do Santo Graal e nas ladainhas medievais e quinhentistas. Edições “Magnificat”, Braga, 1988.

[19] Luigi Valli, Il linguaggio segreto di Dante e dei “Fedeli d´Amore”. Roma, 1928.

[20] Julius Evola, O Mistério do Graal. Editorial Vega, Lisboa, Julho de 1978.

[21] Henry Corbin, En Islam Iranien:Aspects spirituels et philosophiques, tomo I de 4 volumes. Éditions Gallimard, Paris, 1971-1973.

[22] Mircea Eliade, Imágenes y Símbolos. Taurus Ediciones, Madrid, 1974.

[23] Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões. Martins Fontes, São Paulo, 2002.

[24] Ana Maria Alfonso-Goldfarb, As derivações enciclopédicas no Hermetismo medieval e seus vestígios na Ciência do Seiscentos: um estudo sobre os trânsitos e correlações entre dois nichos documentais. Revista “Tecnologia e Sociedade”, Curitiba, 2006.

[25] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Insólita e Secreta (Guia editado em seis línguas: português, espanhol. Italiano, francês, inglês e alemão). Editorial Jonglez, Versailles, 2010.

[26] Ângelus Silesius (1624-1677), O Peregrino Querubínico. Edições Loyola, São Paulo, 1996.

[27] Gustavo de Matos Sequeira, Inventário Artístico de Portugal, vol. 3. Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1949.

[28] Luís Miguel Preto Batista, Cardiga ou a História de uma Quinta (1169-2019). Edição dos Municípios do Entroncamento, Golegã e Barquinha, 2019.

[29] J. M. dos Santos Simões, Azulejaria em Portugal no Século XVII, tomo I. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1997.

[30] Ana Cristina Ferreira Rodrigues, Estudo, avaliação de risco e conservação e restauro do património azulejar da Quinta da Cardiga. Instituto Politécnico de Tomar, 2015.

Saudação aos Maçons – Por Sebastião Vieira Vidal Terça-feira, Maio 4 2021 

No dia 11 de Junho de 1949, o Presidente da Sociedade Teosófica Brasileira, Professor Henrique José de Souza, recebeu na sede da entidade, no Rio de Janeiro, uma delegação norte-americana, liderada por Mr. Ralph Moore, da Augusta Ordem Maçónica, pertencente ao Rio de York, uma das Obediências da Maçonaria Universal, que O saudou como seu Supremo Mestre Secreto.

Nós vos saudamos, Venerável Mestre desta Loja, assim como a todos os Obreiros deste Augusto Quadro.

LUZES DO NORTE!

Prodigiosos Obreiros desta nossa Oficina!

LUZES DO SUL!

Glória a todos aqueles que deram entrada nesta Loja, ansiosos pela Fraternidade Universal!

Encontramo-nos, desta maneira honrosa, neste Templo, onde se acham Irmãos sedentos de conhecimentos dos aspectos da Verdade Eterna encobertos pelos sublimes véus da Linguagem Simbólica, a Linguagem da Iniciação na Sabedoria Iniciática das Idades.

É uma imensa alegria, algo indiscritível, deparar com elevadas criaturas que se interessam por tão excelsos conhecimentos, embora envoltos pelo manto da Simbologia.

Estamos nesta Loja, neste Templo, defrontando-nos com estudiosos dos ensinamentos da Verdade Eterna, adquiridos por aqueles que se interessam em vivenciar as Iniciações Arcaicas, cuja herança foi legada por Irmãos de Maior Idade que souberam honrar, em todos os Templos e Tempos, o poderoso Nome do G. . . Arch. . . D. . . U. . .

Reunidos estamos para uma conversa íntima, para conversa em família, por isso falando de peito aberto, porque há confiança mútua.

Embora militando noutra Coluna, trazemos aos Veneráveis Irmãos desta Loja a Mensagem Fraterna e Amiga dos componentes da Ordem do Santo Graal, com Sede em São Lourenço, Estado de Minas Gerais, Brasil.

A Augusta Ordem do Santo Graal foi fundada em 28 de Dezembro de 1951 pelo seu Grão-Mestre Perpétuo, Professor Henrique José de Souza, com a finalidade de continuar, de manter o Culto de MELKI-TSEDEK na Face da Terra, e ao mesmo tempo preparar a Mentalidade Humana para o Advento do Budha Síntese ou do Cristo Universal, que se manifestará como G. . . Arch. . . D. . . U. . ., ou seja, do Avatara do Ciclo de Aquarius, dest´arte inaugurando uma Nova Era para o Mundo.

Para esse Ciclo é que vários seres e de vários modos, todos juntos trabalhamos de acordo com o estado de consciência de cada um, em conformidade às Iniciações vivenciadas.

Ela é, por assim dizer, a co-herdeira do Trabalho, da Iniciação, dos Ensinamentos dos Sábios, Magos, Magis, Magisteres, dos Maha-Logoi, dando, portanto, continuidade ao desenvolvimento dos Mistérios estudados na Ciência das Idades.

A Ordem do Santo Graal, segundo os ensinamentos do seu Grão-Mestre, Professor Henrique José de Souza, tem a Missão de divulgar, como já dissemos, os conhecimentos relativos às Iniciações do Futuro, adoptando, sem dúvida, novos Ritos, nova Liturgia, novos métodos de iniciar os homens.

Promove em todos a transformação das tendências, a superação da inteligência e a identificação, a metástase com o Espírito de Verdade, com a Consciência Superior.

A prática destes Mistérios é salutar para o desenvolvimento da espiritualidade entre as criaturas humanas, posto que na época que atravessamos urge a necessidade dos homens procurarem viver sob o pavilhão do bom entendimento, da concepção real da vida, da compreensão e respeito mútuos, a fim de não serem arrastados pela torrente destruidora que assola o Mundo inteiro.

E para resistirmos à descomunal tempestade, ameaçando destruir a tudo e a todos, não há como adoptarmos e vivenciarmos o maravilhoso lema: “UM POR TODOS E TODOS POR UM”.

A Iniciação do Professor Henrique José de Souza permite ao Discípulo fortalecer a Personalidade, para que o poder da Ideia possa plasmar-se com toda a potência. O que se transforma de Pedra Bruta em Pedra Polida, esta para a Individualidade, é a Personalidade com todas as suas complexidades. A Personalidade como veículo do Som, do Verbo Divino.

Quando a Tradição Iniciática, os Mestres Vivos falam no Pai-Mãe no Mundo Objectivo, dão forma aos actos da Individualidade através do termo Pai, e fortalecendo a Personalidade pela expressão Mãe. Eis aí o Espírito Polido e a Matéria Bruta que cabe transformar a um e todos os Obreiros do Novo Edifício Humano e, por consequência, Social.

Desde que os homens começaram a desenvolver a inteligência e  a sensibilidade através do sistema cérebro-espinhal, a adquirir a Individualidade, a serem à semelhança de Deus Criador, da Consciência Superior, da Divindade em relação ao que “há de vir”, ao “vir a ser”, passaram, naturalmente, a se diferenciar.

Uns andando muito rápido, outros mais devagar.

De acordo com a solicitação íntima, com o interesse interno, passaram a ter preferências vocacionais.

Essas preferências vocacionais variam de acordo com a evolução espiritual de cada um.

Se o Homem pensa, logo existe… e, via de regra, os mais avançados fogem ao consenso comum, por isso são julgados ignaramente, são repudiados pelos da sua época. Tempos depois são reconhecidos.

Toda a ideia nova promove naturalmente a modificação da rotina, da acomodação, da falta de circulação da vida.

As novas ideias, para os espíritos fracos, para os inseguros, oferecem receios, posto que uma nova Ideia e um novo Ideal são como sementes…

Há sempre o perigo de não germinarem, e se germinarem há muita erva para destruí-las antes de darem os frutos.

A erva daninha, no caso, é o consenso comum, profano, que não quer ter o trabalho de aprender e menos ainda praticar, e esta disposição psicofísica chega até a adentrar os recintos mais sagrados por desprecaução dos seus responsáveis.

Entre os maçons há a cerimónia do Adonhiramita, tendo a sua origem nos Mistério do Sacrifício assinalado pela palavra sânscrita Yagú, que no Culto do Santo Sangue, no Mistério do Santo Graal, corresponde aos Mistérios dos Sacrifícios dos Bodhisattwas, dos Compassivos Seres Divinos, dos Yokanans ou Arautos que foram sacrificados perdendo a cabeça, a fim de redimirem com o seu acto sacrificial os componentes das Hierarquias que rolaram das Esferas Celestes para os Reinos tenebrosos da Matéria.

Logo, os que se dedicam ao Culto do Santo Graal, digo, ao Culto do Santo Sangue, dos Mistérios do Santo Graal, é o mesmo que se dissesse: os que se dedicam aos Mistérios dos Sacrifícios, ao Culto do Sacrifício.

Mas também os que praticaram, desencadeando a Lei Kármica ou de Causa-Efeito, o acto de atraiçoarem a Missão, os segredos, os ensinamentos superiores que lhes foram confiados, perdem as suas cabeças, o seu juízo e paz mental se esvaem.

HIRAM ABIFF, arquitecto do Templo de Salomão, também foi um Yokanan, posto ter sido assassinado por três indivíduos que lhe queriam arrancar os segredos da Arte Real.

Em cada Portal do Templo recebeu um golpe mortal.

Isso quer dizer que foi assassinado por três Sombras relacionadas com os restos kármicos dos Seres de Reinos inferiores ao Hominal: Mineral, Vegetal e Animal.

Recebeu um golpe mortal no Portal do Meio-Dia, outro no Portal do Ocidente e o terceiro no Portal do Oriente.

Símbolo, sem dúvida, do trabalhos dos três primeiros Nirmanakayas Negros ou Adeptos Tenebrosos, tendo as suas expressões nos três Flagelos Humanos: Átila, Ghengis-Khan e Tamerlão, senão, Mussolini (Fascismo), Hitler (Nazismo) e Estaline (Comunismo)… acima de todos, a Concórdia Universal, a Sinarquia, o Fio-de-Prumo do Equilíbrio disposto por Henrique ou EL RIKE, expressão lídima de MELKI-TSEDEK.

É digno de atenção: Hiram Abiff foi morto com três pancadas no ano 985 antes de Cristo. Mil anos mais tarde, em determinado Templo Tibetano, com o nome de Jara-Khan-Lhagpa, por coincidência, ou antes, causalidade, JHS, Akbel, Hiram… também foi mutilado e assassinado, no ano 985 depois de Cristo.

Hiram Abiff nasceu em 1063 e morreu em 985 a.C., logo, viveu 78 anos na Face da Terra.

Para o efeito do Equilíbrio, devemos dar “a César o que é de César” e “a Deus o que é de Deus”.

Baseados no equilíbrio dessa sentença dúplice, no seu verdadeiro significado, e para evitar desequilíbrio social, colectivo, na Antiguidade surgiu dos Magos ou Sábios o método da Iniciação. Mas Iniciação como estudo e prática da Ciência Sagrada das Idades. Sim, passaram a existir dois métodos conformados à evolução dos candidatos: os Mistérios Menores e os Mistérios Maiores.

Iniciação Simbólica, Hierográfica, e Iniciação Real.

A Iniciação Simbólica consiste na apresentação do símbolo na sua forma gráfica e com o que está relacionado, o que representa, de modo vago. É o estado de Especulativo.

Na Iniciação Real estuda-se e pratica-se em todos os sentidos, em todos os aspectos, penetrando-se os mistérios que nela se encerram. É a condição de Operativo.

Por exemplo, na Iniciação Simbólica tomamos contacto com o Triângulo com um Olho no centro donde irradiam 13 Raios. Na mesma aprende-se que expressa o G. . . Arch. . . D. . . U. . ., a Divina Providência.

Na Iniciação Real vamos mais além, estudamos o que representa o Olho central, o significado real do Triângulo e dos 13 Raios, quer no aspecto cosmogénico, quer no aspecto antropogénico, procurando senti-los, como chave do Conhecimento Transcendente, como orientação da nossa própria vida, no sentido de se ser uma miniatura DELE.

O grande Pitágoras apresentou ao Mundo a sua TETRAKTYS representada pelo número 4, base da construção das Pirâmides, base da Filosofia dos 4 Kumares ou Kabires.

Baseadas na primorosa TETRAKTYS pitagórica, vimos as grandes Ordens aplicarem essa maravilhosa Lei dos Números para organizar universalmente as constituições.

Tratando-se de Ordens Ocultas, Maçónicas, vejamos:

1.º) O Ciclo Maçónico teve o seu início na construção do Templo de Salomão, logo, numa fase tipicamente hebraica, e daí a origem dos Kadosh, “consagrados, santificados”.

Esta fase equivale aos Graus de 1 a 14, o que equivale a dizer, ao valor das 14 Hierarquias Criadoras.

O Arcano 14, cujo sentido iniciático é o Perfeito Equilíbrio.

2.º) A Filosofia Cristã baseada no Ciclo do Ocidente, na Era Cristã.

A Maçonaria funcionando como cobertura da Nova Civilização.

Por isso, as cidades tradicionais relacionadas à vida do Cristo têm os nomes de Belém e Jerusalém, ou seja, as iniciais da qualificação das duas Colunas, Jakim e Bohaz.

Corresponde aos Graus 17 e 18. Sim, à fusão do Oriente (18, a Lua) com o Ocidente (17, a Estrela).

3.º) A iniciação dos Kadosh, Kadoshim, Kodesh – Graus 19 a 30, posto que os Kadosh são os realizadores das Grandes Iniciações, são os realizadores dos Supremos Ritos.

4.º) os componentes dos Grande Conselhos – Graus 30 a 33.

Em determinadas Ordens o Grau 33 cabe ao mais elevado em evolução. M. . . T. . . M. . . só pode usá-lo o Senhor MELKI-TSEDEK, REI DE SALÉM e SACERDOTE DO ALTÍSSIMO, ou então quem as suas vezes fizer.

A Verdade apresenta-se como se fosse alguma Lei Universal através da Polaridade.

Sempre existiram dois sectores na orientação do Mundo: um tipo Templário, mantenedor do EU INTERNO de cada um, mantendo a Fé iluminada pelo Conhecimento, mas que pode transformar-se em religião confessional, em crença… fanatismo… por falta dos esclarecimentos necessários.

O outro sector é realizado através das Ordens Ocultas, das Associações Secretas, prestando cobertura ao primeiro sector.

Associação Secreta porque não ensina tudo o que sabe, ou por outras palavras, ministra os ensinamentos somente àqueles que estão preparados para os receber.

No Cristianismo, por exemplo, há o aspecto clerical que começou com Pedro, e há as Ordens de todos conhecidas, fazendo a cobertura política, a manutenção…

Mas tudo evolui, logo, vai assumindo outros aspectos em conformidade ao desenvolvimento das concepções humanas.

Palavras do Senhor da Palavra Perdida:

– Maçons do Brasil!

Maçons de todas as partes do Globo!

Quem vos dirige a Palavra é um humilde servidor do Eterno, para vos dizer que HIRAM, o “Filho da Viúva”, ressuscitou…

E traz consigo o mais precioso de todos os símbolos que é o Excelso TETRAGRAMATON, como expressão ideoplástica do Homem Cósmico que é JEHOVAH!

Glória a todos os Maçons portadores do Compasso e do Esquadro, para medirem o grau de espiritualidade, o grau de inteligência superior.

Aliás, essas principais ferramentas dos Pedreiros-Livres ou Maçons que, entrelaçadas e invertidas, formam o HEXÁGONO, símbolo, também, do Macrocosmos e do Microcosmos, da Cosmogonia e da Antropogonia.

Colocadas nas direcções horizontal e vertical, apresentam claramente a ROSA e a CRUZ, desde que se firme no centro a Folha de Acácia, simbólica da Iniciação e Imortalidade.

HIRAM, KUNATON, CHRISTIAN ROSENKREUTZ, SÃO GERMANO! Pouco importa o nome, posto que ELE JÁ VEIO E VÓS NÃO O RECONHECESTES…

Mas… em breve Ele voltará à sua Santa Morada, para fazer jus à antiga palavra franco-maçónica, VITRIOL, constituída de sete letras, com as quais era formada a frase mais secreta que se conhece, verdadeira palavra de passe, cujo sentido real até hoje não foi decifrado senão por Aquele que tem o direito de penetrar no mais sublime de todos os Tabernáculos:

“VISITA INTERIORA TERRIS RECTIFICANDO INVENIES OCCULTUM LAPIDEM”.

Como outrora no Egipto:

MISRAIM – MENFIS – MAISIM!

Essas três palavras eram assinaladas entre as Colunas do Templo Maçónico por 3 M. . ., os quais possuíam outras interpretações de imenso valor nos Ritos egípcios. Trata-se do MAHA-RISHI e as suas duas Colunas Vivas MAHIMÃ e MOHIMÃ, o qual nas tradições transhimalaias é chamado de BRAHMATMÃ, o REI DO MUNDO, com as mesmas Colunas, os Três como Supremos Orientadores da MAÇONARIA DOS TRAICHUS-MARUTAS ou os Mantenedores do CULTO DE MELKI-TSEDEK.

Por isso estão no Reino de MALKART.

E com isto aceitai – velhos Irmãos e Amigos – as homenagens de quem hoje, já não estando no mundo dos homens mas vivendo o verdadeiro sentido da palavra de passe VITRIOL, vos respeita e admira, mas também pede que homenagens, por sua vez, sejam prestadas àqueles que já se foram e sobre cujos respeitáveis túmulos não devemos permitir que seque e desapareça a simbólica e sagrada Flor de Acácia.

Com a destra voltada para o Céu e o polegar invertido para a Terra, contrariamente a quantas saudações caóticas foram instituídas pelas decadentes ideologias deste Ciclo em franco declínio, maiores homenagens devemos prestar ao mais Digno e Excelso de todos os Construtores:

O G. . . Arch. . . D. . . U. . .

SAUDAMOS, FINALMENTE,  OS KADOSH, KODESH, KADESHIM, REALIZADORES DAS SUPREMAS INICIAÇÕES, DOS MAIS ELEVADOS RITUAIS!…

JUSTUS ET PERFECTUS!

CONSUMMATUM EST.

Mistério do Pentecostes (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Sábado, Fev 13 2021 

O Pentecostes marca e remata o sétimo Mistério da Vida e Obra de Jesus, o Cristo, deixando a derradeira mensagem de esperança no Advento da Divindade à Humanidade, ao mesmo tempo que floresce nos peitos de um e de todos. Nisto se cumpre a mais que poética retórica, realidade subtil, etérea transcendente e imanente, cheia de graça em esperança, de que quando Cristo sorri a Humanidade enxuga as lágrimas.

A celebração do Pentecostes (“quinquagésimo”, em grego) é quando o Judaísmo e o Cristianismo se encontram e se conciliam nas suas idiossincrasias teológicas, sobretudo nas relativas ao porvir do Messias. Historicamente, pela sua origem agrária, recua à festa hebraica das colheitas (shavuot), aquando o povo ia oferecer a dízima das primícias ao Templo de Jerusalém, nisto também celebrando a entrega dos Dez Mandamentos no Monte Sinai a Moisés, cinquenta dias depois do Êxodo.

É, pois, uma festa do antigo calendário bíblico (Êxodo 23:14-17, 34:18-23) referida com vários títulos:

Festa da Colheita ou Sega (Hag Haqasir, em hebraico). Por se tratar de uma colheita de grãos (trigo e cevada), ganhou esse nome.

Festa das Semanas (Hag Xabu´ot, em hebraico). A razão do seu nome está no período mediando entre a Páscoa (Pessach, “trânsito”, “passagem”, em hebreu) e esta festa, que é de sete semanas. Acontece cinquenta dias depois da Páscoa, com a colheita da cevada e encerrando com a colheita do trigo.

Festa das Primícias dos Frutos (Yom Habikurim, em hebraico), nome tendo a sua origem de ser pela entrega de uma oferta voluntária, a Deus, dos primeiros frutos colhidos naquela sega (Números 28:26). Possivelmente, a oferenda das primícias acontecia em cada uma das três festas tradicionais do calendário bíblico. Na primeira (Páscoa), oferecia-se uma ovelha nascida naquele ano; na segunda (Colheita ou as Semanas), entregava-se a dízima (décima parte) dos primeiros grãos colhidos; finalmente, na terceira festa (Tabernáculos ou Cabanas), o povo oferecia a dízima da colheita dos primeiros frutos, como uvas, tâmaras e especialmente figos. Por essas dízimas agrárias verifica-se que o Templo beneficiava de grande riqueza, motivo dos levitas não abdicarem das suas funções nele por lhes trazerem fartura de bens.

Festa de Pentecostes. Os motivos deste novo nome são vários, a começar por nos séculos III-I a.C. os gregos terem assumido o controle do mundo conhecido e imposto a sua língua, que se popularizou entre os hebreus. Assim, os nomes hebraicos Hag Haqasir e Hag Xabu´ot perderam as suas actualidades sendo substituídos pela denominação Pentecostes, cujo significado é “cinquenta dias depois (da Páscoa)”. Como o império grego passou a ter hegemonia em 331 a.C., é possível que o nome Pentecostes tenha ganhado popularidade a partir desse período. Também devido às três línguas dominantes (hebraico, grego e latim) na Judeia e Palestina, é que Pilatos ordenou se escrevesse com as mesmas a célebre frase na tabuleta da Cruz – Iesus Nazarenus Rex Iodeorum (Jesus Nazareno Rei dos Judeus).

No Cristianismo, o dia de Pentecostes chega a ser considerado como o dia do nascimento da Igreja cristã, origem do movimento pentecostal católico (“universalista”, por abranger os países latinos, gregos e orientais da Ásia Menor) que originalmente era “os do Caminho”. Constitui uma das celebrações mais importantes do calendário cristão, comemorando a descida do Espírito Santo em Línguas de Fogo sobre os Apóstolos de Cristo encabeçados no cenáculo por sua Mãe Maria, que logo começaram a falar todas as línguas do mundo dotados de poderes maravilhosos (curar os leprosos, ressuscitar os mortos, etc.). Aconteceu ao meio-dia de cinquenta dias após o domingo de Ressurreição e no décimo dia depois da Ascensão de Jesus, após Ele ter permanecido quarenta dias entre os discípulos, transmitindo-lhes os derradeiros ensinamentos. Entre os cinquenta dias que se completam da Páscoa até ao último dia de Pentecostes, sobram dez dias. Esses foram o tempo que os Apóstolos com Maria Mãe e Maria Madalena permaneceram no cenáculo, até à descida ou manifestação do Espírito Santo. Por este motivo, o domingo de Pentecostes é o último dia da Festa do Divino Espírito Santo, tomando forma em Portugal na Festa do Império do Divino Espírito Santo (pelas mãos da Rainha Santa Isabel, em 1321, na vila de Alenquer), depressa se fixando no Brasil e noutras partes lusas do antigo império português.

O Espírito Santo no Cristianismo é o mesmo Espírito de Santidade no Judaísmo, referido como a Terceira Potência Divina cuja manifestação, para ambas as religiões, é sempre sob a forma de uma pomba, em hebraico yohnah, palavra derivada de ´anah, “prantear”, referente ao arrulho lamuriento da ave, universalmente considerada a mensageira da Boa Nova e portadora da Paz, como igualmente da sublimação da vida, da existência corpórea à vivência espiritual, como se representa no trânsito de São Policarpo com uma pomba branca, imaculada, saindo do seu corpo.

Como Pomba de Luz vem a ser representativa da manifestação do Fogo Criador do Divino Espírito Santo, ao qual os sábios do Oriente identificam como Kundalini, a Força Electromagnética da Mãe-Terra que a sustenta desde o seu Centro Ígneo, agindo como bioenergia motora das capacidades criativas humanas, de forma inconsciente na maioria dos seres pensantes, e de maneira consciente, despertada, activada e dirigida desde o cóccix à corona, ao alto da cabeça onde se revela como aura flamejante, nos raros Iniciados na ciência de marejar as suas forças ocultas e assim as de toda a Natureza. Eis aqui o símbolo do Fogo Criador expressado na figura feminina, seja Maria no cenáculo, seja a sarça de Horeb no Monte Sinai, seja a Maha-Shakti criadora do Universo, com as suas sete Forças que, afinal, vêm a ser os sete Dons do Espírito Santo irradiando sete Raios da Luz do Logos Único, cada um com uma qualidade da Mãe Universal. Esta dá à Luz o Filho, saído da Alma do Segundo para o Corpo do Terceiro Logos manifestado em tudo e em todos.

O termo Espírito SantoRuach ou Ruah-Elohim – aparece apenas três vezes na Bíblia hebraica, em Salmos 51:11, e duas vezes em Isaías 63:10-11. Já o termo Ruah ha-Kodesh (“Espírito de Santidade”) aparece com frequência no Talmude e na Midrash, utilizado como uma hipóstase ou metonímia de Deus, IHVH (Iod-He-Vau-He), por meio da qual é concedida a inspiração profética ao Kadosh (“consagrado”). Ruah significa literalmente “sopro, vento, ar, alento”, aparecendo em várias outras combinações na Bíblia hebraica com o significado de Espírito de Deus, associado a Ruah ha-Kodesh, o mesmo Ru al-Qudus islâmico, o Pneuma to Hagion grego ou o latim Spiritu Sanctu, Espírito Santo.

No Cristianismo, o Espírito Santo é a Terceira Prosopon ou Pessoa da Santíssima Trindade, revelando Deus Omnipresente. Como Hypostasis ou Hipóstase, contém a Primeira como Omnipotência (Spiritu) e a Segunda (Sanctu) como Omnisciência promanadas de uma Divina Substância Única (Ousia, em grego) a quem chamam Deus.

Acompanhados das respectivas contrapartes expressivas do Eterno Feminino, assim clareando por que a Deusa-Mãe era o único pomo de culto e adoração à Divindade entre os povos antigos, que durou até muito tarde chegando mesmo a adentrar o período patriarcal sucessor do matriarcal.

O despertar e ascender de Kundalini ao topo cranial vale por Poder da Mãe Divina manifestado – Shekinah, “Presença Real de Deus” – em cujo acto Madalena assinala a conversão do sexo (initio, cóccix) e a Nazarena a assunção da mente (finis, corona).

As sete Forças de Kundalini afins aos sete Dons do Espírito Santo, pelo desenvolvimento do Chakra Vibhutî ou Cardíaco Inferior, são:

Por aí se vê quão distantes estão da realidade certas seitas hodiernas ditas carismáticas/pentecostais, servindo-se da ingenuidade alheia em sua tenra idade mental para, pretensamente, irem colmatar as suas deficiências/carências psico-orgânicas. Colmatando o vazio espiritual das mesmas com bizarras corografias folcloristas, estão nos antípodas de exploração psicossocial que nadíssima tem a ver com os poderes desenvolvidos, por esforço próprio, do Adepto verdadeiro, do verdadeiro Iniciado na Ciência da Vida.

O mesmo vale para a dízima ou oferta da décima parte dos seus ganhos, tradição iniciada com Abraão rendendo tributo a Melki-Tsedek, o Rei do Mundo, para as bandas das terras de Gar-Édon ou a Agharta, sendo a dízima nada mais que o resgate kármico da décima parte do seu povo, nunca pondo os valores materiais à dianteira da mais-valia espiritual.

Paulo de Tarso, por sua vez, identifica não sete mas nove dons ou poderes do Espírito Santo, o Terceiro Logos tomando forma no Filho, que irão manifestar-se pelo Apóstolo ou Adepto. Diz: “A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom dos milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas.” – I Coríntios 12:8-10.

Nisto, os nove dons espirituais podem ser repartidos em três grupos, como Dons de Poder, Dons de Revelação, Dons de Fala, não deixando de estar relacionados às naturezas Dharmakaya (Espírito Omnipotente), Shambogakaya (Alma Omnisciente) e Nirmanakaya (Corpo Omnipresente) afins ao Tríplice Logos manifestado na Unidade imperecível do Adepto Perfeito.

Dons de Poder


Curar
Operar maravilhas

Dons de Revelação

Palavra de sabedoria
Palavra de conhecimento
Discernimento dos espíritos

Dons de Fala

Profecia
Variedade de línguas
Interpretação de línguas

O Mistério do Pentecostes, como disse, assinala a última etapa da Vida e Obra do Cristo, que sendo sete vêm as mesmas iniciáticas do Homem em seu gradual volvimento ao estado Divino.

Restam a Consolação da doutrina e do rito até ao Advento que marcará o início da Nova Jerusalém, ou seja, a da Idade da Promissão assinalando um Novo Ciclo de Humanidade, com a sua transição de Piscis a Aquarius, por certo portador de melhores dias para o Mundo.

Com o Pentecostes consolidou-se a derradeira Promessa de Cristo, antes da Ascensão, quanto à sua segunda vinda no final dos Tempos, ou seja, do Ciclo vigente, tal qual Krishna prometera ao seu discípulo Arjuna, como consta no Bhagavad-Gïta: “Todas as vezes, ó filho de Bhârata (a Índia), que Dharma (a Lei justa) declina e Adharma (a lei injusta) se levanta, Eu me manifesto para salvação dos bons e destruição dos maus. Para restabelecimento da Lei Eu nasço em cada Yuga (Idade)”. Ou aquela outra profecia contida no Vishnu-Purana: “Quando o fim da Idade das Trevas estiver próximo, o Kalki-Avatara (Manifestação Divina) descerá sobre a Terra. Dotado das oito qualidades sobre-humanas, Ele estabelecerá a Justiça no Mundo”.

Para a Segunda Vinda do Messias, Segundo Advento ou Parúsia (“Presença”, em grego), concorrem as três religiões monoteístas do Livro, mas também todas as demais tradicionais do Oriente, cada qual interpretando ao seu modo milenarista a futura manifestação do Avatara, todas concordando na certeza do Advir.

Acerca disso, Pinharanda Gomes escreveu no seu Dicionário de Filosofia Portuguesa (Edição Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1990):

“MESSIANISMO. Teoria da esperança ou da expectação em um Messias salvador e redentor de uma Humanidade considerada em estado degradado, quedado ou de perdição (por, ou ter perdido a natureza sagrada, ou ter caído da sua condição original, ou ter cometido pecado), após cuja vinda a mesma Humanidade recupera, regenera, restaura e redescobre o primitivo estado de felicidade, e nela se consagra para sempre. Esta simples definição contém variantes conceptuais, por exemplo, o messianismo formulado na Sagrada Escritura e relativo ao Messias Salvador, e as tendências messiânicas inerentes, tanto às culturas como aos povos e às políticas, em que variamente se mostra um messianismo entendido como a procura de um arquétipo, ou paradigma, de bondade, de beleza e de verdade, possuidor do remédio para os males, ou como a promessa de um chefe ou condutor que detenha o ceptro da sabedoria, e seja digno de instaurar a harmonia na cidade terrestre. Em todas as acepções o messianismo manifesta o conhecimento de antinomias existenciais – o que está mal, o que é bem, o que se julga ser o bem, pelo que, em todas as suas variantes, é remédio, cura e solução. A ideia messiânica envolve a reconquista da felicidade original (Paraíso Perdido), a restauração dos bens destruídos (Idade de Ouro), a instauração da harmonia (Paz Perpétua) e, noutra instância, a assunção do homem à sua essencial dignidade (Reino de Deus). A teoria messiânica tem diferentes linhas discursivas, tanto consistindo num messianismo sem Messias, capaz de realizar a justiça na República, pela simples vontade operativa dos homens, num projecto de imanência, como num messianismo que passa pelo coração humano, mas se realiza por aliança do divino e do humano, aí chamado por Deus à salvação. Esta forma messiânica manifesta os atributos da transcendência, é escatológica, teleológica e soteriológica, sendo estes os predicados do messianismo paradigmático, o judaico-cristão, mesmo considerando que a ele afluíram as teses do providencialismo das outras religiões monoteístas, designadamente o Islamismo, teses essas que são devedoras ao finalismo da filosofia grega que, em tempo, se adjuvou à teoria da esperança salvífica hebraico-cristã.

“A figuração messianológica aparece em plurais situações, por exemplo, nos mitos germânicos dos “heilbringer” ou “portadores da salvação”, no mito do “Salvador” inteligido por Virgílio (Écloga IV), na imagem persa de “Saohyant”, na concepção hindu de “Buda Maitreya”, na esperança islâmica de “Mahadi” e na tábua de salvação da autonomia portuguesa, figurada no nome “Sebastião”. Todavia, a original e originante figura do Messias é hebraica, derivando do aramaico Meshihà, pelo hebraico Hammashiah (= o Ungido), pelos gregos ou helenos traduzido no nome Christós. A raiz do substantivo é meshah (= ungir), verbo com que se designa a unção sacerdotal, profética e real das chefias temporais e espirituais do povo de Israel. O javismo, que se concretiza na aliança do Sinai, assume Javé como “Rei de Israel” (Gén., 49, 10), o “Ceptro de Judá”, razão para um povo que se constituirá assembleia de religião única, verdadeira, perfeita e definitiva, com mensagem salvífica destinada a todos os povos, conforme se vê na passagem em que Javé chama Abraão e o manda olhar para o firmamento para que, contando as estrelas, fique a saber quantos filhos há-de ter (Gén., 15, 5). Israel seria o veículo condutor deste messianismo à divinis que se dinamiza em torno de fórmulas quais o Restaurador do Povo de Deus, Messias de Israel e Salvador da Humanidade, no fim dos tempos, cujos dias ninguém conhece. No messianismo israelita, e consoante a evolução do povo de David, o messianismo é real, profético e sacerdotal, mas a ideia nuclear, ainda que o nome Messias pouco apareça no Antigo Testamento, revela a tipologia de um Rei-Sacerdote, que virá no fim dos tempos, para instaurar o Amor, a Justiça e a Paz. A sua figura é absorvente nos livros históricos, poéticos e sapienciais, sendo revelado como “Rei Messias” (Jer., 30, 9), “Servo Sofredor” (Js., 53, 1) e “Filho do Homem” (Dan., 7, 13), cognomes antigos que a modernidade evangélica atribui a Jesus de Nazaré, olhado como o verdadeiro Messias já vindo. Este hossana, atribuído ao filho do carpinteiro, constitui (sobretudo a partir dos dias de Pôncio Pilatos, que ficaria no símbolo da pística cristã, o Credo, como o referencial histórico do tempo) a causa da cisão na unidade do messianismo hebraico, na medida em que, ao Messias vindo dos seguidores de Jesus, se opõe – por vezes com a rigidez de Saulo, antes da estrada de Damasco – o fariseísmo e o tradicionalismo judaicos, cujos tempos messiânicos continuam por vir, sine die adiados.

“As formas históricas e temporais, quando desligadas do primordial núcleo teológico, são mais um sentimento de carência do que um pensamento agente, decidido a transformar o pessimismo da perdição no optimismo da redenção. Ora, conforme se prova pelo contexto do Livro da Corte Enperial, que é uma súmula isagógica do século XV sobre os dogmas e artigos de fé das três religiões bíblicas, e cujo tema é a tipologia e a vinda do Messias, a tradição messianológica predomina em filosofia e teologia e bebe de três tradições sapienciais, documentadas, tanto na tradição oral, como no documento escrito.”

Antigamente usava-se o termo parúsia para descrever a visita de um rei ou imperador. Esse sentido foi colado ao Ritual Eucarístico para assinalar o Advento da Divindade no momento alto da bênção eucarística com o Ostensório, ou tão-só com o Cálice Eucarístico, figurativo da Taça Sagrada do Santo Graal, aquando o Futuro se torna Presente com a Visita ou Parúsia do Rei dos Reis durante o momento de comunhão do crente com o seu Cristo Interno e, sequentemente, com o Espírito do Cristo Universal.

Assim se cumpre o Advento, a Parúsia Divina, o Futuro se faz eterno Presente na hora da Elevação, postura maior em que se encerra a mensagem primicial do Mistério do Pentecostes.

Encerro com um trecho breve de obra reservada no chamado Mundo de Duat, com o título Livro do Grande Império Universal – capítulo “Os Sete Dedos de Deus” (Secção 5 – Códice 17):

A Anarquia e as Trevas seguirão – com a alma de Judá e o corpo do Judeu errante – até as memórias da Tragédia se tornarem cinzas, para que uma Nova Idade e um Novo Salvador venham reinar.

Mistério da Ascensão (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Fev 10 2021 

Conforme a tradição canónica inscrita nos evangelhos sinópticos, quarenta dias após a Ressurreição, Jesus, o Cristo, reuniu todos os seus discípulos no “monte chamado olival” (Actos 1:9-12), o Monte das Oliveiras, vizinho da vila de Betânia, e à vista de todos, purificados pelo orvalho matinal, invocou os Poderes do Eterno indo ficar encoberto pelas brumas que se levantaram do seio da Terra. Com a Promessa “voltarei!”, desapareceu no seio do Mistério como que ascendido de volta à Morada do Pai, o Segundo Trono Celeste na Terra – a Mansão do Amanhecer, Shamballah.

A Ascensão de Cristo marca o Mistério do segundo elemento subatómico (anupadaka) constituinte do Corpo Intuicional ou Búdhico de que se reveste o Corpo Espiritual ou Átmico, constituído do primeiro elemento atómico (adi), sendo, pois, o cerúleo “Véu da Noiva Celeste” (Budhi Taijasi, Intuicional Iluminado), indo tomar forma no terceiro elemento etérico (akasha) afim à constituição do Veículo Causal (Mental Superior, Manas Arrupa) como encausador dos anteriores, formando o Corpo Flogístico de Espírito Santo tomando forma na Mãe Divina assinalada na Assunção de Maria. É assim que as Vestes Dharmakaya, Shambogakaya, Nirmanakaya se fundem em uma só Substância Única (Svabhâvat, Ain-Soph, Tudo-Nada) que leva ao desaparecimento ou ascensionamento do Adepto Perfeito nas cumeeiras do Plano Divino.

Pelo referido segundo elemento é que se tece a União Real (tanto valendo por Raja-Yoga) da Alma do Adepto com a Alma Universal, o mesmo “Véu da Noiva Celeste” ou a Veste de Glória, aquando o Filho (3.º Logos) se liga ao Pai (1.º Logos) por intermédio do 2.º Logos, a Mãe Divina, e é Um com Ele, ou quando o Espírito readquire a Glória que possuía “antes que o Mundo existisse” (João 17:5), isto é, antes da sua manifestação na Matéria, tornando-se de Espírito Inconsciente (Vida-Energia, Jiva) em Espírito Consciente (Vida-Consciência, Jivatmã).

É quando o Espírito Tríplice se torna Um, sentindo-se e vivendo-se eterno, transcendente e imanente. É quando o Deus Oculto se revela plenipotente no seio espiritual do Iluminado como Absoluto, como Atmã Universal, como a Tríade Superior manifestada no Quarternário Inferior, e vice-versa. Esta Metástase Avatárica apresenta-se, no véu da alegoria, sob o aspecto do sexto Mistério da Ascensão de Cristo e Assunção de Maria, pelo menos no tocante ao Homem encarnado de forma individual.

Com efeito, para a Humanidade a Ascensão não tem lugar senão quando a Raça inteira alcançar a “condição de Cristo”, a condição filial onde o Filho se une ao Pai e é Deus manifestado em tudo e em todos.

Eis aqui a meta figurada pelo triunfo do Iniciado, a qual para ser alcançada faz-se necessário que o Homem consiga a Perfeição de si mesmo e assim a Humanidade, a “grande Órfã”, deixe de o ser ao reconhecer-se, pleniconsciente, Filha de Deus, o Logos Eterno.

Encarando desta maneira as doutrinas da Ressurreição e da Ascensão, revelam-se as verdades que, veladas pelo simbolismo, contêm-se nos Mistérios Iniciáticos sob a veste cristã. E começa-se a entender, na sua plenitude, a verdade do Ensinamento Apostólico, de que Cristo não foi somente a manifestação de uma Individualidade mas igualmente “as primícias dos que estão dormentes” ou adormecidos (I Coríntios 15:20), pois todo o homem pode tornar-se um Cristo.

O Cristo não era, pois, tão-só considerado um Salvador de natureza diferente da nossa, cujos méritos salvaram, por substituição, o Homem da Ira de Deus (Dei Irae). Conforme a gloriosa e consoladora doutrina ministrada na Igreja Primitiva, o Cristo era as Primícias da Humanidade, o Modelo de Perfeição que todo o homem pode reproduzir em si, e se deve ou não fazê-lo tal é relativo face ao seu crescimento interior e ao total respeito pela Lei do Livre-Arbítrio que assiste à Natureza e a todos os seres viventes. Os Iniciados foram sempre considerados como Primícias, como penhor da segurança da Humanidade em sua perfeição construindo-se do Presente ao Futuro.

Para os cristãos dos primeiros séculos, o Cristo Universal tinha a sua expressão viva na Divindade faiscando neles, o Fruto glorioso da Semente que traziam em seus corações, era o Símbolo Vivo da Mónada Humana individualizada no Aspecto Amor-Sabedoria. Daí a frase enigmática de Jesus a João: “Eu ascendo ao meu e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus” (João 20:17). Por que não disse nosso no comum em vez de meu e vosso no singular? Porque na manifestação da Mónada na Matéria ela é individual, não colectiva, diferindo na evolução de pessoa para pessoa (persona, máscara) em que se manifesta como Actor real, com mais o menos consciência de Si mesma nesse mergulho na Matéria e no emergir no Espírito (Evolução). Portanto, “o meu Pai” (proximidade consciente) e “o vosso Pai” (afastamento inconsciente).

A doutrina primitiva do Esoterismo Cristão presente nos Mistérios dos Sacramentos era alheia ao conceito salvífico exterior dos simples ou de confissão, pelo contrário, implicava que o postulante se elevasse na criação, perfeição e glorificação do seu Cristo Interior, pois outra maneira não havia, nem há, de reconhecer ao Cristo Universal. Assim, todo o noviço era convocado a se tornar o Filho. A vida do Filho decorria entre os homens até ao dia da Ressurreição marcar o seu termo entre os mesmos. Então, o Cristo Glorificado revelava-se e tornava-se, para o mundo, um Perfeito Salvador.

Esse estado equivale à 6.ª Iniciação Real que é a do estágio de Choan, termo tibetano equivalente ao Chuan chinês, ao Chubilgan mongol e até ao Chu egípcio, todos significativos de “Chefe”, de Dirigente de Linha ou Raio, como Oitavo do mesmo para Sete Adeptos Independentes (Ashekas), pelo que um Choan para o ser equivale ao esforço conjunto de sete Adeptos, e o sendo voga acima deles como “Cisne” celeste, simbólico da Origem Andrógina, Mercuriana ou Uraniana, que em páli é a sua interpretação literal.

Havendo Sete Linhas com Sete Adeptos para cada uma delas, multiplicando 7×7 tem-se os 49 Adeptos Independentes constituintes do G.O.M. (Governo Oculto do Mundo) mais os 7 Choans, representantes dos 7 Planetários – os 7 Arcanjos da Igreja – assinalados na Menorah ou Candelabro de 7 Chamas.

Nos evangelhos sinópticos são incluídas duas breves descrições da Ascensão de Jesus na presença de onze dos seus discípulos, ocorrendo no quadragésimo dia após a Ressurreição, em Lucas 24:30-53 e Marcos 16:19, com uma descrição mais detalhada em Actos 1:9-11.

A tradição canónica dá o Monte das Oliveiras,  junto a  Betânia vizinha de Jerusalém, como o Monte da Ascensão, onde mais tarde seria construída a pequena capela/mesquita da Ascensão, votiva ou circular, sagrada para cristãos e islâmicos, tendo no interior uma pedra circular com uma marca que o populi acredita tratar-se da pegada de Jesus. A sua construção original data do ano 390, quando foi chamada de Eleona Basílica [1], mas que foi destruída pelos persas sassânidas durante o cerco de Jerusalém em 614. Depois foi reconstruída pelos cruzados, e em 1198 adquirida por dois emissários de Saladino.

Antes da conversão ao Cristianismo do imperador romano Constantino no ano 312 d.C., os primeiros cristãos acreditavam que a Ascensão teria ocorrido numa caverna no Monte das Oliveiras, e no ano 384 já esse lugar era venerado como o da realização do sexto Mistério, no cimo do monte por cima da caverna.

A ascensão ou subida de Jesus ou Jeffersus numa caverna equivale a interiorização física e elevação consciencial, tanto valendo por descida aos Mundos Jinas ou Subterrâneos, donde oculto às vistas profanas passou a vibrar sobre o Mundo. O mesmo aconteceria depois com a sua Excelsa Mãe e Divina Contraparte, Maria ou Moriah.

Tendo a presença de Agharta, Sanctum Sanctorum da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria, neste Mistério, de imediato acodem à memória os títulos originais das Cartas Paulinas ou de São Paulo dirigidas às Sete Igrejas assinaladas no Apocalipse, representativas das sete “Embocaduras” da Ásia Menor e por igual dos sete “selos” do Livro da Revelação, conforme foram traduzidas do aramaico para o grego e depois para o latim da Vulgata: Agharta al-Galatim (“Agharta aos Gálatas”), Agharta al-Ephesim (“Agharta aos Efésios”), Agharta al-Romin (“Agharta aos Romanos”)[2].

A palavra latina ascensionis, de ascensio, “subir”, como ascensão refere-se exclusivamente a Jesus. Já o termo assunção, em latim assumpta, significa que Maria foi “assunta”, ou seja, “elevada, levada, tomada” pelo Poder Divino. E embora no ano 377 Epifânio de Salamina tenha afirmado que ninguém sabia se Maria tinha morrido – dormição – ou não, os relatos apócrifos sobre a sua assunção circulam pelo menos desde o quarto século[3], cuja narrativa mais antiga é o chamado Liber Requiei Mariae (“Livro do Repouso de Maria”), sobrevivendo intacto numa tradução etíope[4], cuja composição será do início do século IV e a narrativa apócrifa do começo do século III.

Também são muito primitivas as Narrativas da Dormição dos ‘Seis Livros’, cujas versões mais antigas desse apócrifo foram preservadas em diversos manuscritos em siríaco dos séculos V e VI, embora o texto em si seja provavelmente do século IV. Textos apócrifos posteriores baseados nesses mais antigos incluem o De Obitu S. Dominae, atribuído ao Apóstolo São João mas realmente de autor anónimo de cerca do ano 500, sendo um sumário da narrativa dos ‘Seis Livros’. A Dormição e seguida Assunção aparece igualmente em De Transitu Virginis, obra do final do século V atribuída a São Melito, preservando a versão teologicamente editada das tradições presentes no Liber Requiei Mariae [5]. Uma carta escrita em língua arménia atribuída a Dionísio, o Areopagita, em algum momento do século VI, também menciona o evento. Finalmente, João Damasceno (645-749) e os seus contemporâneos Gregório de Tours e Modesto de Jerusalém promoveram o conceito da Assunção que se implantou em toda Igreja, no Oriente e no Ocidente.

Em algumas versões da história a Dormição e Assunção teria ocorrido na cidade grega de Éfeso (onde se situava uma das Igrejas apontadas no Apocalipse ou “Revelação Secreta”), na costa da Jónia, na casa da Virgem Maria, ainda que todas as tradições anteriores apontem o final da sua vida nas proximidades de Jerusalém, no vale de Cedron aos pés do Monte das Oliveiras.

Cerca do século VII apareceu uma variante na narrativa, contando que um dos Apóstolos, geralmente identificado como sendo São Tomé, não esteve presente na Dormição e Assunção de Maria aos Céus amparada pelos Anjos entoando Hozanah entronizando-a no Trono de Glória. A chegada atrasada do Apóstolo – que para o simples é o eterno céptico – provocou a reabertura do túmulo da Virgem, descobrindo-se então que estava vazio, sem nada senão as suas mortalhas. Numa outra variante posterior, do século VIII, Maria lançou do Céu o seu cinto – símbolo da castidade matrimonial – para o Apóstolo, como prova do acontecimento. Este episódio aparece muitas vezes nas esculturas e pinturas sobre a Assunção.

O facto da ausência de Tomé, aliás, Jairo, na passagem de Maria, serve para o canónico corroborar o apócrifo assim justificando a sua entretanto subida para o Norte da Índia, para Srinagar, axis do Sistema Geográfico Hindu-Tibetano constituído por sete localidades mais uma central: Srinagar – Simlah, Leh, Gartock, Ladak, Naringol, Lhasa, Tjigad-Jé. E tê-lo-á feito logo após a Ressurreição, enquanto Jesus, pouco depois daquele, ascendia em consciência e descendia geograficamente na direcção do Ocidente.

São, afinal, o Cristo Budista e o Cristo Essénio das tradições sob a direcção da sua Quintessência Viva, o Bodhisattva. As famosas e lendárias viagens de Jesus pelo mundo, para uns indo ao Japão onde morreu[6], para outros chegando à América do Norte onde “se manifestou junto das tribos perdidas de Israel” aí instaladas[7], assim entrecruzando Leste e Oeste, apenas justificam o acontecimento da sua deslocação para plagas longínquas que, para a Tradição Iniciática, serviu para reactivar nesse novo ciclo de Piscis a acção espiritual e psicossocial dos Sistemas Geográficos de Srinagar, Índia, e Sintra, Portugal.

As sete Igrejas da Ásia Menor assinaladas no Apocalipse eram destinadas a unir a Raça Semita (judeus e árabes) trazendo o Oriente ao Ocidente, nomeadamente a Roma, dando início ao ciclo messiânico de Cristo inaugurando uma nova Idade no Mundo, a do Reino de Melki-Tsedek destinado a transformar a sociedade humana política (regnum) e espiritualmente (sacerdotium)[8]. Mas, como revelou de viva voz o Professor Henrique José de Souza em 28.04.1954 e que consta no seu Livro do Colóquio Amoroso, “os judeus não quiseram participar juntamente com os árabes e não admitiram partilhar com eles o Messias. Este veio, e eles não O reconheceram. O Messias se foi e eles foram espalhados pelo mundo como tribos kármicas. Hoje voltaram para a Palestina e se defrontam com os árabes, porém, em lutas kármicas”. Adiantando em 12.5.1954: “Da luta entre árabes e judeus, os primeiros ficaram com a maior parte dos conhecimentos secretos, e a prova é que milénios mais tarde invadiram a Península Ibérica, no Itinerário de Io (a Mónada peregrina), levando tais conhecimentos a Portugal e Espanha”.

Quando a Missão Roma fracassa com as mortes de Pedro (fundador) e Paulo (organizador) e os afastamentos de Nicodemos e José de Arimateia, Jeffersus recolhe-se ao seio espiritual do continente europeu que é Sintra, onde se localiza o quinto Centro Vital do Globo, Qtub ou Chakra, donde depois passou a irradiar sobre a mesma Roma e restante Europa indo alcançar o quinto continente americano, através de sete catedrais canonicamente edificadas para o efeito do Ecce Occidens Lux – Santa Maria Maggiore (Roma), Westminster (Londres), Bruges (Bélgica), Lisboa (Portugal), Washington (América do Norte), Cidade do México (México) e São Salvador da Bahia (Brasil).

Entende-se agora as palavras do Professor Henrique José de Souza no seu Livro do Ciclo de Aquarius, em carta-revelação de 28.4.1958:

“Quando se diz que “Roma seria o 5.º Sistema”, não implica em que fosse só ela semelhante Sistema, mas que ela seria a central para as outras cidades ou Estados que a cercam, inclusive Veneza, que por saber tal coisa muitos Adeptos ali se alojaram, mesmo que depois da Tragédia do Gólgota, como fossem o Veneziano e outros mais.

“Quantas e quantas vezes eu aponto ROMA como a velha Romakapura atlante? E usando da chave filológica, falo em ROMA, AMOR, MORS ou MORTE, não apenas no sentido sexual, mas também no da Tragédia que levou o Bodhisattwa à Crucificação na e da Terra. Por ser o AMOROSO, ou uma das suas facetas, por ser aquele o Bijã dos Avataras, a sua Semente, teve AMOR em demasia por sua Obra, por sua Missão na Terra. Roma seria uma São Lourenço (MG) de hoje, Centro do Novo Sistema.”

Nesse mesmo Livro de Revelações, em carta de 2.5.1958, encontra-se claríssimo: “O Quinto Sistema seria, talvez, naquele Lugar, isto é, Portugal, na SERRA DE SINTRA, onde a sibila estampou o mistério do Futuro… o mistério do QUINTO IMPÉRIO, também cantado pelo poeta lusitano, que fala de um só Altar, de um só Cálice de Ouro que havia de luzir.

“Portugal, Arquivo das Raças de Elite, principalmente greco-romanas, não podia deixar de ser o Quinto Sistema, já que este perdera o seu lugar no Mundo. Não esquecer que o Manu Ur-Gardan que trouxe o seu povo da “Terra (celta) do Fogo”, veio ter a Portugal ou Porto-Galo, dando como capital de toda essa região Ulissipa, como feminino de Ulisses, o grande herói de Tróia, donde procede o mistério do ODISSONAI, que é a origem de todas as ODES, de todos os psalmos, cânticos, etc.”

Em Roma nasce a Religião Católica e oculta-se a sua semente, a Ordem do Santo Graal, passando a agir no mistério, encoberta, mas marcando com a sua influência todo o Ciclo das Necessidades (Ano 0 – 24 de Junho de 1956) até que inaugurou o Ciclo do Espírito Santo (24 de Junho de 1956 em diante).

Tem-se o Graal como a Taça Sagrada expressiva do Espírito Santo em cujo interior se dão as mais sublimes e finas transmutações alquímicas, no sentido de transformar a Vida-Energia em Vida-Consciência, portanto, representativa do verdadeiro Caminho da Iniciação.

Jesus – Jairo – João constituíram a Tríade expressiva do Avatara do Segundo Logos como Amor – Rigor – Lei, e no seu Projecto Sinárquico cada um deles, com as suas respectivas Colunas Vivas, assumiu a função que lhe competia na realização espiritual e política do Reino de Melki-Tsedek na Face da Terra. De viva voz, em 11.2.1954, o Professor Henrique José de Souza deu a Jeffersus como Colunas Vivas Barrabás e Jonafas, representando a Autoridade Espiritual (Autoritas), as quais pessoalmente disporia, atendendo aos dados constantes nos textos canónicos e apócrifos, como Jetro e Jaino; a Jairo deu Nicodemos (signo Marte) e José de Arimateia (signo Terra), exprimindo o Poder Temporal (Potens); a João Baptista indicou como Ministros Jetro e Jaino, expressando a Vontade Popular (Voluntatis), que pessoalmente daria como Barrabás e Jonafas. Mas fica como está a descrição do Professor Henrique, não me custando aceitar que o fez assim talvez como método de Iniciação para obrigar o discípulo a raciocinar por si mesmo.

Muitos foram os que estiveram ligados consanguineamente à pessoa de Jesus, é facto tanto canónico quanto histórico, mesmo tendo se perdido o rasto de muitos deles nos evos do tempo. No canónico, tem-se o grego desposyni para designar os “parentes” do Mestre, termo que foi aplicado pela primeira vez por Sexto Júlio Africano, no século III, indo de encontro ao texto grego do Novo Testamento quando indica os adelphos (adelphoi), “irmãos”, palavra essa familiar de delphys, “útero”, pelo que adelphos significa literalmente “os do mesmo útero”.

Havia, pois, uma Família Espiritual e uma Família Humana interrelacionada, onde o sangue era o mesmo e o espírito da doutrina idem, cuja genealogia recuava até David e Salomão conforme inscreve a Árvore de Jessé, justificativa da ascendência de Jesus como verdadeiro Messias preanunciado pelo profetas e sibilas da Escritura Velha.

Se Barrabás beneficiou do indulto pascal e se acaso era primo de Jesus, esta ligação familiar não se encontra nos evangelhos canónicos e só nos apócrifos, ricos na descrição dos próprios antecedentes de Maria de Nazaré, como relata, por exemplo, o Evangelho Secreto da Virgem Maria, apócrifo do século IV atribuído a certa religiosa jerusalemita de nome Etéria. Além desse, tem-se ainda o Protoevangelho de Tiago: Nascimento de Maria; Evangelho do Pesudo-Mateus; História de José, o Carpinteiro; Evangelho Arménio da Infância; Evangelho dos Hebreus; Livro da Infância do Salvador; Aparição a Maria: Fragmentos de textos coptas; Lamentação de Maria: Evangelho de Gamaliel; Maria fala aos Apóstolos: Evangelho de Bartolomeu; Trânsito de Maria do Pseudo-Militão de Sardes; Livro do Descanso.

Conforme as narrativas apócrifas, a dormição e assunção de Maria teria acontecido quando ela contava 84 anos de idade. Pelo lado paterno, descendia do ramo de Aarão, sendo os seus ascendentes quase todos do número dos consagrados à vida divina, sacerdotal (kadoshs).

Pelo lado materno, os seus antepassado derivavam do casamento do rabino Stolamus (também chamado Garecha e Sazirius) com Esmarum, de quem nasceria três filhas: Esméria ou Isméria, Emerência e Enué.

O seu avô paterno, Eliud, era zadoquita da tribo de Levi, enquanto o seu bisavô pertenceu à Ordem dos Profetas.

A sua avó materna, Isméria, pertencia à tribo de Benjamim.

A sua bisavó materna era natural de Mará e chamava-se Marunum ou Esmarum, palavra hebraica significando “mãe augusta”.

Do casamento de Eliud com Isméria nasceram três filhas: Sobá, Maraha e Ana.

Sobá casou com o levita Afra, ou Ofras, do que lhes nasceu Isabel, futura mãe de João Afra, o Baptista.

Maraha casou com Zebedias e foi mãe de José Barrabás (Joseph Ben Abbas), futuro chefe do partido zadoquita e primo de Jesus.

Ana casou com Heli (Heliachim ou Heliakim, em hebreu) ou Joaquim, filho de Mathat que era o irmão mais novo de Jacob, filho de Mathan Naüm.

Esse Mathan descendia de David por Salomão e teve dois filhos: Jacob e Joses. Como Mathan morresse, a viúva contraiu segundas núpcias com Levi Panthera, descendente de David, mas por Mathan. Deste Levi Panthera é que nasceu Mathat, pai de Heli ou Joaquim.

O filho mais velho de Mathan, Jacob Naüm, foi o pai de José Naüm que veio a casar-se com Myrian Ben Panthera ou Pandira.

O primeiro fruto do consórcio entre Joaquim e Ana foi o nascimento de uma menina, Maria Sobé. Com o seu parto a mãe deixou de gerar, tornando-se estéril.

Esse foi o motivo que levou Joaquim a fazer um sacrifício no Grande Templo de Jerusalém, rogando ao Eterno a graça de restituir a fecundidade a sua esposa, deixando a oferenda das vestes alvas de uma criança, motivo para o levita Ruben o injuriar e troçar dele em público. Magoado, retirou-se para junto dos essénios no deserto de Gadi, junto ao Monte Herman, no limite das terras de pastoreio dos seus rebanhos, isso sem dar conhecimento a sua esposa que durante cinco anos ignorou o seu paradeiro.

Também Ana foi igualmente injuriada por uma das servas, judia de nome Ester, que exprobou a desonra da sua esterilidade. Essa Ester seria depois violada e assassinada por um legionário romano de nome Álio, alcunhado pelos amigos de “bruto” e pelos inimigos de “porco”.

Por ocasião da Festa dos Tabernáculos, tanto Joaquim como Ana decidiram cada qual ir a Jerusalém, ao Grande Templo, e foi quando se reencontraram à saída da cidade, junto à porta dourada onde lhes apareceu o Anjo Gabriel que concedeu a Ana a graça de ficar fecunda da sua segunda filha, Maria.

Fiel à sua palavra, quando atingiu a idade legal – 12-14 anos – a menina foi oferecida ao serviço do Templo, sob a direcção da anciã Saboé, e como virgem consagrada iniciou essa nova fase da sua vida que só seria interrompida pelo seu desposório com o viúvo José, futuros pais de Jesus.

Foi só em Roma que a religião cristã se organizou como tal, onde Pedro e Paulo foram os seus principais promotores, e se aquele fundou e este organizou, na realidade tudo se deve mais a Paulo do que a Pedro, este que na Paixão de Jesus mentiu dizendo aos algozes que não O conhecia, tendo depois fugido da cidade dos césares perante a perseguição feroz das autoridades romanas aos cristãos, e já na Via Ápia deparou-se com a visão do Senhor que se encaminhava para Roma donde ele fugia, e caindo de joelhos perguntou-lhe: Quo vadis, Domine? (“Onde ides, Senhor?”) Ao que Ele lhe respondeu: Vou a Roma morrer por Pedro, já que Pedro não quer morrer por Mim. Arrependido, penitenciando-se voltou para trás, acabando crucificado no coliseu de cabeça para baixo, na cruz invertida a seu pedido, por não se considerar digno de morte igual à do Mestre.

Para terminar e conforme revelou o Professor Henrique José de Souza, têm-se as palavras de Cristo ao Apóstolo Paulo, o Grande Iniciado que se pode considerar o verdadeiro Fundador do Cristianismo como religião organizada, na Estrada de Damasco ou na Senda da Iniciação:

– Tu tens Olhos e não vês. Tu tens Ouvidos e não ouves. Mas de tua Boca é que sairá a Minha Palavra!

 

NOTAS

 

[1] Em grego elaion, “olival”, de elaia, “oliveira”, termo com similaridade a eleos, “misericórdia”.

[2] Saint-Yves D´Alveydre, La Misión de la India en Europa. Luis Cárcamo, Editor, Madrid, 1988.

[3] Juan G. Atienza, Nuestra Señora de Lucifer – Los misterios del culto a la Madre del Dios. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1991.

[4] Stephen J. Shoemaker, Ancient Traditions of the Virgin Mary´s Dormi-tion and Assumption. Oxford University Press, Oxford, 2002.

[5] O Decretum Gelasianum – Decreto Gelasiano – atribuído ao Papa Gelásio I (492-496) como oposição à difusão da literatura gnóstica referente ao transitus Mariae proibiu-a, declarando-a apócrifa no sentido de inventiva com muitas heresias. Os manuscritos sobreviventes desse Decreto possuem uma lista dos livros da Bíblia que, ao contrário do decretado, antes foram considerados canónicos pelo Papa Dâmaso I (366-383).

[6] “Cristo morreu no Japão”. Lenda religiosa inventada pelos missionários jesuítas no Japão, nos finais do século XVI, para darem força de lei à implantação do Cristianismo no país do Xintoísmo ancestral, colonização religiosa que não resultou senão a do martírio da quase totalidade deles, depois de repetidas admoestações das autoridades locais, às mãos dos xoguns, “senhores feudais”, que os tinham como “bárbaros do Sul”. Mas como a lenda tem sempre muita força, o comum crente cristão nipónico (que constitui minoria face ao Xintoísmo, a religião oficial muitíssimo anterior ao Cristianismo) tem por verdade que em Shingô, distrito de Aomori, encontra-se o Kirisuto no Haka (Sepultura de Cristo), pois que Kirisuto (Cristo) não morrera na cruz e sim o seu irmão menor Isukiri (Issah, Jairus), tendo ido para o Japão onde casou, teve três filhas e morreu com 106 anos de idade. Foi cremado e as suas cinzas enterradas na Vila de Herai (Herodes?) onde se encontra a sua suposta sepultura, em Shingô, antigo bastião do Xintoísmo. Num monte próximo, para dar ainda mais força e relevância ao testemunho, é dito que está enterrada a orelha do irmão de Cristo e uma mecha dos cabelos de Maria, mãe de ambos, que foram as únicas relíquias que Kirisuto pôde trazer da sua família ao escapar da Judeia. As alegações prós e contras do facto começaram em 1933, quando foram descobertas crónicas jesuítas narrando a lenda na antiga Missão da Companhia em Shingô, as quais o Governo em Tóquio mandou recolher. Resta a comprovação da Igreja saber que houveram “dois Cristos”, mas que a fantasia lengedária obscureceu o factual da existência dos mesmos. Tudo o mais é lenda, mentira pia, invenção sagrada, mas ainda assim, na tenra idade mental da Humanidade, por ter muita força a lenda vence sempre.

[7] Essa é a base da invenção sagrada do norte-americano Joseph Smith Jr. (Sharon, 23.12.1815 – Carthage, 27.6.1844), a quem um dito anjo Moroni se revelara entregando-lhe umas placas de ouro contando a saga das tribos perdidas de Israel que foram fixar-se na América do Norte. Ele copiou os escritos nas placas que desapareceram a seguir (como sempre acontece nas lendas de fundação), e assim nasceu o Livro de Mórmon, filho de Moroni, o qual está muito bem imaginado e concebido no óbvio decalque dos Livros dos Reis I e II da Bíblia. Tomo por certo que Joseph Smith ouvira falar das viagens transatlânticas dos fenícios na Proto-História, motivo da sua transposição imaginosa para as tribos hebraicas perdidas. E ouvira falar certamente dentro da Maçonaria onde se filiara em Março de 1842, quando foi iniciado Aprendiz na Loja de Navoo, Illinois. Quando às placas de ouro reveladas pelo anjo Moroni numa abóbada de pedra no alto de uma colina, será extrapolação ecoando ao mito de Enoque no Rito do Arco Real. Nesse mito, o profeta Enoque, instruído por uma visão, preservou os Mistérios Maçónicos esculpindo-os numa placa de ouro, que colocou numa abóbada de pedra arqueada sustentada por pilares, onde seria redescoberta por Salomão, agora o imaginoso Smith, que começara a sua faina oculta com o seu pai, Joseph Smith Sr., na “escavação de dinheiro”, prática fantástica norte-americana de recuperar tesouros enterrados escondidos por “espíritos malignos”. A estrutura organizacional da sua Igreja dos Santos dos Últimos Dias, milenarista, apocalíptica e nacionalista, é inteiramente decalcada e readaptada da maçónica, como se repara facilmente até nos rituais de investidura dos seus santos élderes, o que não será de estranhar atendendo a que vários fundadores desse movimento (Herber C. Kimball, Hyrum Smith e outros) em 1820 estavam filiados em Lojas maçónicas. Cf. Mervin B. Hogan, Mormonism and Freemasonry: The Illinois Period. Springfield, Illinois, 1980. John L. Brooke, The Refiner´s Fire: The Making of Mormon Cosmoloy, 1644-1844. Cambridge University Press, New York, 1994.

[8] Nachman Falbel, Melquisedec no Judaísmo e no Cristianismo e seu significado na disputa entre Regnum e Sacerdotium na Idade Média. Revista de História, n.º 165, Jul./Dez. 2011, Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

Mistério da Ressurreição (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Fev 5 2021 

O Mistério da Ressurreição é o momento alto da confirmação da fé para o cristão, é a derradeira e suprema fase pascal do dobrar a lei da morte e afirmar a lei da vida em Cristo, por Cristo e para Cristo, ou seja, na presença e integração do Sétimo Princípio Espiritual agindo pelo Sexto Intuicional e o Quinto Mental, isto é, a Mónada ou Nous Imperecível ida Além-Morte e regressada Aquém-Vida. É o Poder da Vontade, o Amor-Sabedoria e a Actividade Inteligente imanifestada e manifestada do Divino Ser, o Adepto Triunfante empunhando o Lábaro da Suprema Vitória, o da Revelação da Glória da Ressurreição – Resurrectio gloria ostenditur.

Com efeito, a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo é o aspecto central do calendário litúrgico cristão. Ressurreição ou Anastase (resurrectio, em latim, anastasis, em grego) é entendida como voltar à vida após a morte. Resta saber de que forma, posto que corporalmente é biologicamente impossível ao mesmo corpo falecido há dois mil e tantos anos voltar à vida, a não ser que se explique pela lei das vidas múltiplas ou reencarnação, onde a alma toma importância determinante sobre a acção do corpo em conformidade à lei de causa-efeito que rege a ela e a todas.

A ressurreição dos mortos é crença escatológica padrão nas religiões abrahâmicas (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo). Como conceito religioso, é usado em dois aspectos distintos: a crença na ressurreição das almas individuais que é actual e contínua (idealismo cristão, escatologia realizada), ou a crença numa ressurreição dos mortos no Fim dos Tempos, isto é, no final de um Ciclo de Evolução, com o correspondente Julgamento Planetário, donde se dizer que “Cristo é o Juiz dos Vivos e Mortos”. Ainda assim, alguns teólogos acreditam ser a alma o veículo real pelo qual as pessoas são ressuscitadas, não os seus corpos. Mas tudo se passa sempre em conformidade à Lei de Evolução do Género Humano pontuada pelas de causa-efeito (Karma) e vidas sucessivas (Reencarnação) até ao término do respectivo ciclo evolutivo.

Que a crença na reencarnação estava (e está) presente na vida dos povos do Médio Oriente e Ásia Menor, provam-na a pergunta dirigida a Jesus em querer saber “se João Baptista foi Moisés e Elias?” (João 1:19-23), ao que Ele respondeu não importar o que fora mas o que era. O passado passara, só contava a personalidade presente e a sua obra de arauto, com isso descartando o interesse mórbido pelo que se fora anteriormente com descuro do que se é, assim arredando os interesses pela fenomenologia do psiquismo tal qual Budha fizera anteriormente ao aconselhar Ananda, seu discípulo: “Deixa os teus sidhis (faculdades psíquicas) para a próxima vida”, vai protelando-os, que são mais empecilhos que outra coisa útil. Ademais, informam os Grandes Mestres, alguém só pode conhecer com exactidão as suas vidas passadas quando mergulha no registo do Corpo Búdhico ou Intuicional, o que só é acessível aos Grandes Iniciados na Ciência da Vida, ficando todo o resto por conta das ilusórias crenças neurológicas/oníricas.

“XI – 9. Todas as coisas que são feitas sem Deus não passam de erros grosseiros, seduções e encantamentos que apenas mostram como a alma de quem as pratica está cheia de desvergonha, mentira e impureza.”Apócrifo de Issah, Himis, Tibete.

A crença popular na ressurreição dos mortos no final dos Tempos recua ao mal apreendido e incompreendido conceito praticado na religião dos Mistérios, na qual um deus (iniciado, epoptae) de vida, morte e ressurreição é uma divindade (ser realizado) que morre e ressuscita ao terceiro dia defronte para o Sol Espiritual, para o Logos em que se integrou em Essência e pessoa.

Assim, este quinto Mistério da crise iniciática da Ressurreição relata-se igualmente a respeito de Hércules, de Baldur, de Mitra, de Orfeu e de outros Grandes Iluminados. Um dos primitivos Padres da Igreja, Julius Firmicus Maternus, astrólogo e apologista do Cristianismo que viveu no reinado do imperador Constantino, relatou que os Mistérios de Osíris (simbólico do Sol Espiritual) guardavam conexão estreita com os Mistérios Cristãos e que nestes, tal como na Ressurreição de Osíris, os iniciados exultavam no final da cerimónia: “Nós O reencontrámos!”[1] Annie Besant, no seu livro Cristianismo Esotérico, destaca esse facto numa passagem iluminadora:

“Nos Mistérios Cristãos, como nos do Antigo Egipto e outros, existia um simbolismo exterior marcando os estágios que o homem devia atravessar. O candidato era levado ao templo da iniciação e lá era deitado com os braços estendidos – ora numa cruz de madeira, ora no chão do pavimento – na atitude de um crucificado. O tirso – lança da crucificação – tocava-lhe o coração, e deixando o seu corpo passava aos mundos do Além; o seu invólucro físico ficava em profunda letargia – a morte do crucificado; transportado para um sarcófago de pedra, aí ficava encerrado sob cuidadosa vigilância. Durante isso, o Homem Real percorria as sombrias regiões chamadas de “Coração da Terra”, para depois galgar a Montanha Celeste revestido do seu Corpo de Beatitude – já então plenamente constituído como um Corpo de Consciência.

“Revestido desse novo Corpo, ele voltava ao seu corpo de carne, tornando à vida. A cruz que sustentava o corpo, ou quando não havia cruz, era o corpo adormecido e rígido retirado do sarcófago e colocado numa superfície inclinada, na direcção do Oriente, antes do levantar do Sol, na manhã do terceiro dia.

“No momento em que os raios do Sol lhe tocavam o rosto, o Cristo – o Iniciado Perfeito ou Mestre – entrava no seu corpo, glorificando-o com um novo Corpo de Consciência de que agora estava revestido, transformando o corpo carnal no contacto com o Corpo de Bem-Aventurança, conferindo-lhe novas propriedades, faculdades e aptidões, transformando-o na Sua própria imagem. Tal é a Ressurreição de Cristo, depois da qual o corpo carnal transformado adquirira uma nova natureza.”

Eis por que o Sol era, e é, tomado como símbolo do Cristo Ressuscitado, e porque nos hinos de Páscoa é feita alusão constante ao Sol de Justiça (Solis Justitiae). Por isso, as palavras relativas ao Cristo Triunfante: “Eu estou vivo, e estive morto, mas eis que estou vivo para todo o sempre. E tenho as Chaves da Morte e do Inferno” (Apocalipse 1:18). O Filho pode dispor, de ora em diante, de todos os Poderes dos Mundos Interiores, em virtude do seu glorioso Triunfo. A morte já não tem mais poder sobre Ele porque “tem a vida e a morte em Sua mão poderosa” (H.P. Blavatsky, A Voz do Silêncio). Ele é o Cristo Ressuscitado, o Cristo Triunfante.

Vê-se assim que a história do Mistério da Ressurreição é muitíssimo mais antiga que o Cristianismo e que o Eterno sempre sustentou, através dos Mistérios e dos seus Filhos Iluminados, a presença da Imortalidade, como aconteceu para o Ciclo dos Peixes com a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o Cristo.

Tem-se neste quinto Mistério o ponto culminante da Manifestação Avatárica do Divino Bodhisattva, sendo os dois Mistérios restantes (Assunção e Pentecostes) a consolidação dos anteriores. Este Mistério foi e é a ideia central da Ordem Maçónica tendo o seu eixo no simbolismo do 3.º Grau de Mestre. Essa elevação maçónica tem uma particular relação com o Sermão de Benares pronunciado por Budha aos discípulos, na parte acerca dos Cinco Pontos da Verdade, podendo-se relacionar tais Pontos com as cinco Crises do Cristo, as quais não deixam de se reflectir nos cinco Landmarks ou Pontos da Tradição Maçónica, em conformidade ao sentido ético e moral da Estrela Flamejante do Oriente, a do Natal ou Nascimento pela Iniciação. Estas referências servem para demonstrar a continuidade da Revelação onde a Ressurreição é a apoteose para o mundo cristão, e, uma vez mais, reflectida no 18.º Grau de Príncipe Rosacruz ou Cavaleiro do Pelicano, símbolo do Sacrifício e Ressurreição de Cristo, sendo que o Pelicano Eucarístico vem a ser indicativo da própria Eucaristia ou comunhão com o Eu-Crístico.

Como falei em Astrologia por motivo de Firmicus Maternus, face às três Cruzes do Gólgota abordarei agora o simbolismo das mesmas afins ao Cristo Crucificado, ao Cristo Adormecido ou Oculto e ao Cristo Ressuscitado, no tocante às cruzes fixa, cardinal e mutável da Astrologia Esotérica ou Astrosofia[2].

O Cristo Crucificado relaciona-se à cruz fixa formada pelos quatro signos fixos (Aquário, Touro, Leão, Escorpião), expressando a força vermelha centrípeta (Tamas), a energia radiando para o centro. Esses signos associam-se ao princípio de inércia e igualmente ao poder de concentração e perseverança. Os signos fixos são os mais concentrados no “aqui e agora”, por a energia estar muito concentrada sob o poder da pessoa. Transmitem estabilidade, perseverança, segurança. A cruz fixa é a cruz da transmutação, do desejo em aspiração e do egoísmo em altruísmo.

Tal como o Senhor foi crucificado entre dois outros condenados, assim também existem duas outras cruzes, a cruz mutável e a cruz cardinal. A primeira tem a ver com os signos mutáveis (Rajas), equilibrantes e harmónicos expressando o Cristo Adormecido ou Oculto, enquanto a segunda, afim aos signos centrífugos e irradiantes (Satva), designa o Cristo Ressuscitado.

Tal como o Cristo Crucificado assinala a aspiração da Humanidade à Hierarquia dos Mestres, o Cristo Oculto a comunhão do Hierarquia dos Mestres com o Centro Supremo do Mundo, Shamballah, o Cristo Ressuscitado vem a ser a manifestação de Shamballah na figura do Planetário da Ronda, o Rei do Mundo (Melki-Tsedek ou Chakra-Varti)[3]. Donde se ter:

Tem-se assim a Cruz no seu mais elevado sentido cíclico carregando em cada palo uma letra das quatro do Nome de Deus, Yod-He-Vau-He, no que se torna símbolo da expressão ideoplástica do Homem Cósmico como Jehovah, que é quem faz mover o Pramantha ou dar animação ao Ciclo de Evolução como Logos do mesmo, portanto, da Terra, a quem Cristo manifestou manifestando ao Oitavo Logos do Sistema Solar, no que se tem este quinto Mistério como repasse do bastão de comando da Evolução do Quarto Logos Terrestre (Atlasbel, o mesmo com o Mundo ou Cruzeiro às costas) ao Quinto Logos da próxima Cadeia de Vénus (Arabel, o Esplendoroso Triunfante), marcando a acção do Futuro no Presente.

A ver com isso está a ressurreição cíclica dos Manasaputras, os Filhos da Mente Cósmica (Mahat), criações dos Kumaras Assuras na 3.ª Raça-Mãe Lemuriana por meio do Poder Místico de Kriya-Shakti, uma das oito qualidades de Kundalini, o Fogo Criador do Espírito Santo, os quais são os mesmos Vasos Insignes de Devoção da Ladainha de Todos-os-Santosvas insigne sirituale, vas honorabile, vas insigne devotionis – que a Igreja invoca apesar de desconhecer o seu significado real, como o de serem o Corpo de Glória ou Causal como Augoeides do Adepto Perfeito. São os mesmos “Mortos-Vivos” quebrando as cristalinas lajes sepulcrais para desembocar, sair dos jazigos subterrâneos por ocasião da expiração do Cristo de volta ao seio da Terra. Eis aí o V.I.T.R.I.O.L. consumado: Visita Interiora Terris Rectificando Invenies Occultum Lapidem – “Visita o Interior da Terra e Rectificando (Integrando) descobrirás a Pedra Oculta” (Pedra Filosofal do Adepto, Pedra Pontiaguda do Mestre, sinónima de Suprema Iluminação).

Este é o nível em que o homem se torna Super-Homem, Mestre Real, Adepto Perfeito, Superior Incógnito, Illuminati Dei, Iluminado Divino, Asheka, Nirmanakaya, Jivanmukta, Jivatmã, etc. Libertou-se para sempre de todos os grilhões terrenos, e se doravante, diante dos sete Caminhos abrindo-se diante dele, escolher continuar na Terra auxiliando nela os seres em evolução, então terá optado pelo Caminho dos Homens, o da Compaixão de Bodhisattva como o mais duro e difícil sempre com incontáveis sacrifícios, como até no dia-a-dia se verifica e testemunha no embate físico e sobretudo psicológico entre a consciência do Iniciado (qualidade) e a noção do profano, vulgar ou ordinário (quantidade).

Os Sete Caminhos abrindo-se perante o Adepto, podendo escolher um deles para prosseguir a sua evolução avante:

Manasaputras eram os dois Devas de Aquém-Akasha que arredaram a laje do sepulcro de Cristo para Este sair à luz do terceiro dia, sendo os opostos aos legionários Jivas que não permitiam abrir o mesmo, vencidos pelas Forças do Espírito mergulhando-os em torpor e esquecimento. Eis aí, também, o embate entre Purusha e Prakriti, Espírito e Matéria.

Os quatro evangelhos são unânimes na afirmação de que no final da tarde do dia da crucificação José de Arimateia pediu permissão a Pôncio Pilatos para resgatar o corpo inerte de Jesus, no que foi atendido e logo retirou-o da cruz, envolveu-o numa mortalha de linho e colocou-o num sepulcro. Esse acto estava de acordo com a lei mosaica (Deuteronómio 21:22-23) que determinava que uma pessoa enforcada numa árvore não devia ficar lá à noite e ser enterrada antes do pôr-do-sol.

O Evangelho de Marcos afirma que quando José pediu o corpo de Jesus, Pilatos ficou admirado por ele já estar morto e enviou um centurião para confirmar a morte antes de o entregar. O Evangelho de João relata que José teve o auxílio de Nicodemos, que trouxe uma mistura de mirra e aloés, misturando os perfumes na mortalha, conforme o costume judaico.

Em resumo, no Novo Testamento depois de ser crucificado pelos romanos instigados pelos judeus, Jesus é lavado e ungido com bálsamo, envolto numa mortalha de linho e sepultado num sepulcro novo por José de Arimateia. Ao terceiro dia ressuscita dos mortos e aparece a muitas pessoas durante um período de quarenta dias, quando então ascende ao Céu e se entroniza à direita do Pai. Os cristãos celebram a Ressurreição no Domingo de Páscoa, o terceiro dia depois da Sexta-Feira Santa (Dia do Santo Sangue, Sangue Real ou Santo Graal), que foi a da Crucificação. A data da Páscoa cristã correspondeu, de grosso modo, com a Páscoa judaica, o dia de observância dos judeus associado ao Êxodo (saída do povo hebreu da escravidão do Egipto), calculado como sendo a noite da primeira Lua Cheia depois do Equinócio da Primavera[4].

Quando Maria Madalena se dirigiu ao sepulcro e viu-o aberto e vazio, ficou aflita receando que os fariseus ou os romanos tivessem roubado o corpo para assim não ser venerado. Mas ela estava destinada a ser proto-testemunha da Ressurreição: vislumbrou a figura erecta de um homem luminoso, transfigurado, um pouco afastado do túmulo, e logo reconheceu o seu amado Rabôni (Mestre). Correu a abraçá-lo tendo Ele lhe estacado os passos com as palavras: Noli me tangere, “não me toques”. Mas ela chorando feliz ajoelhou aos seus pés e beijou a alva mortalha que o envolvia, no que a frase latina extraída do original greco-hebraico será antes: Tangere noli timere, “não tenhas medo de me tocar”, porque “ainda não subi para o Pai” (João 20:16-18).

Tal significará que Jesus se revelou a Madalena em seu Corpo de Glória, o Augoeides, e se por um lado o “não me toques” significará “porque estou visível mas não tangível”, por outro, como Jairo ou Krivatza, “O que traz o peito chagado”, deixará a sua contraparte tocá-lo por estar visível e tangível, pelo que não era um Ser incorpóreo, espiritual, explicação do obscuro remate “ainda não subi para o Pai”.

Isso em contraposição ao facto de Tomé ter duvidado que Jesus houvesse ressuscitado e Ele deixado que o gémeo lhe tocasse as chagas. Por que? Porque fora ele o crucificado e não o outro, que no entanto recebera iguais estigmas por repercussão psicofísica à distância na Fraternidade Iniciática onde estivera recolhido. Felizes dos que não vêem e crêem (João 20:29), isto é, dos que não estão ao par do desenrolar secreto dos acontecimentos mas acreditam ou aceitam as palavras daqueles que neles participaram.

Se os evangelhos sinópticos dizem que Jesus viveu 40 dias entre os seus discípulos após a Ressurreição, esse número poderá muito bem ser simbólico dos anteriores iguais passados com Ele no Deserto ou com Moisés no Monte Sinai, mais parecendo que o valor 4(0) seja indicativo simbólico do compasso quaternário da Terra pelo qual a mesma evolui e nela Ele se manifestou. A Pistis Sophia, a “bíblia” dos gnósticos, dá um período mais longo quanto à permanência de Jesus no mundo após ressuscitar, doze anos, durante os quais instruiu e iniciou os seus discípulos nos Mistérios Maiores da Sabedoria Divina, dando continuidade mas sob feição superior, no dogma e rito, ao antigo Colégio dos Profetas, então substituídos, por lei cíclica de Evolução, pelo Colégio dos Apóstolos (base orgânica da constituição da futura Igreja confessional, iniciada com os Padres Apostólicos garantes da Sucessão Apostólica vinda de Pedro até ao Papa actual).

O Colégio dos Profetas foi fundado por Samuel em Naiote (I Samuel 19:20) nos moldes de estrutura iniciática cujos ensinamentos foram transmitidos aos sucessores no mesmo. Colégios análogos existiam em Betel e Jericó (II Reis 2:2-5), encontrando-se na Concordância de Cruden (artigo School) a seguinte nota interessante: “As Escolas, ou Colégios, dos Profetas são as primeiras de que encontramos referências nas Escrituras. Os filhos dos Profetas – isto é, os seus discípulos – aí consagravam o seu tempo aos exercícios de uma vida retirada e austera, ao estudo, à meditação e à leitura das leis de Deus… Estas Escolas ou Sociedades dos Profetas foram mais tarde substituídas pelas Sinagogas.”[5]

O ensinamento reservado (esotérico) ministrado no seio do Colégio dos Apóstolos poderá encontrar-se de modo esparso e sem exegética interpretativa nos textos apócrifos gnósticos mais antigos (do século I-II ao século IV-VI), de que se destaca a citada Pistis Sophia ou a Sophia de Jesus Cristo, como pertencente ao Códice III da Biblioteca de Nag Hammadi, descoberta no Egipto em 1945, mas já então circulando um outro original greco-cóptico, depositado na Biblioteca Nacional de Berlim, que foi o consultado por Helena P. Blavatsky na segunda metade do século XIX.

Esse manuscrito copta foi datado como sendo do século IV d.C., completado por uns poucos fragmentos em grego datados do século anterior, pelo que a sua data será mais antiga que a datada. O texto tem forte similaridade com a Epístola de Eugnostos, manuscrito anterior no mesmo Códice III, um pouco mais expandido e com “moldura” mais cristã[6]. Talvez seja mesmo parte “solta” da Pistis Sophia [7].

O título Pistis Sophia é inconsensual, traduzido ora como Sabedoria da Fé, ora como Sabedoria na Fé ou ainda Fé na Sabedoria. A tradução mais rigorosa, levando em conta o seu contexto gnóstico, é Fé de Sophia, uma vez que essa era para os gnósticos a divina sizígia (par) de Cristo, que se em grego significa Sabedoria, em aramaico será Miriam, “Soberana”, remetendo para a Mãe Soberana como contraparte espiritual de Cristo – Maria. Por isso é a Sophia de Jesus Cristo, conforme declara a própria Pistis:

– O Perfeito Salvador disse: “O Filho do Homem entendeu-se com Sophia, sua consorte, e revelou uma grande Luz Andrógina. O seu nome masculino é designado Salvador, Progenitor de todas coisas. O seu nome feminino é designado Toda-Progenitora Sophia. Alguns a chamam de Pistis”.

Pistis Sophia, Fé e Sabedoria, Cristo e Maria, fundadores dos Mistérios do Santo Sangue aos quais depois os neoplatónicos alexandrinos chamariam de Teosofia, Sabedoria Divina. A partir da mesma Paulo, que era Saulo antes do Encontro na estrada de Damasco, organizou a fundação da Igreja confessional ao mesmo tempo que se recolhia a mistérica Ordem do Santo Graal.

Deixando, contudo e para terminar, o precioso conselho inscrito no Apócrifo de Issah:

“VII – 18. Aspirareis à suprema beatitude, não apenas purificando-vos a vós mesmos mas ainda guiando os outros pela via que lhes permita conquistar a primitiva perfeição.”

 

NOTAS

 

[1] Julius Firmicus Maternus, Ancient Astrology Theore And Practice – Ma-theseos Libri VIII. Noyes Press, Hardcover, 1975.

[2] Alice Ann Bailey, Astrología Esotérica. Editorial Kier, S.A., Buenos Aires, 1950.

[3] Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda, São Paulo, 2006.

[4] Tamara Prosic, The Development and Symbolism of Passover, vol. 57. New York and London: T & T Clark UK, 2005.

[5] Alexander Cruden (1699-1770), Concordância de Cruden ou A Concordância completa com as Sagradas Escrituras. Londres, 1737.

[6] A Epístola de Eugnostos, ou Eugnostus, o abençoado, não deve ser entendida como uma carta real escrita por alguém chamado Eugnostos, pois que significa em grego “pensamento correcto”, sendo o designativo epístola uma convenção literária familiar na Antiguidade. O mais aproximado que se poderá dizer é ela ser produto do pensamento colectivo de determinado Colégio Gnóstico, dos muitos que haviam na Antiguidade médio-oriental e mediterrânica.

[7] Raul Branco, Pisthis Sophia – Os Mistérios de Jesus. Comentários de Helena P. Blavatsky. Tradução e interpretação de Raul Branco. Editora Teosófica, Brasília, 2009.

Mistério da Crucificação (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Fev 1 2021 

O quarto Mistério poderá ser o mais doloroso mas também o mais auspicioso, desde que na Cruz mundanal floresça a Rosa de esperança no porvir do imortal. É aqui que a religião toma o seu verdadeiro sentido latino, religione, de religio, religar, como seja o Homem mortal, a personalidade, ao Homem imortal, a Individualidade, pelo que possui o mesmo significado que Yoga, União.

A trave vertical do cruzeiro vem a representar o fluxo descendente da Energia Celeste (Fohat) encontrando-se com a trave horizontal indicativa da vibração da Força Terrestre (Kundalini), assim se fazendo simbólica do Pramantha, a Cruz Luminosa sinalética do Chrestus ou Arhat de Fogo, do Homem Espiritual que padece a Crucificação na Matéria ciente na sua próxima Ressurreição no Espírito, assim ressurgindo da derradeira crise da Quarta Iniciação Humana para a Quinta do Adepto Perfeito como Asheka ou Jivanmukta, este sendo então verdadeiro Deus humanizado com pleniconsciência da quinta Ronda e afim quinta Cadeia do Futuro. Será o Homem Representativo do Futuro no Presente.

Sendo a verdadeira Iniciação a transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência, o que se consegue paulatinamente pelos três vectores Escola – Teatro – Templo afins aos princípios Transformação – Superação – Metástase, tem-se nos primeiros quatro Mistérios do Cristo a tomada gradual de consciência acompanhando as Rondas da Terra e os respectivos elementos naturais, tudo em conformidade aos 4 Graus Iniciáticos da Tradição das Idades afins aos mesmos do Budhismo Esotérico, como seja:

NASCIMENTO – ASPIRANTE (SOTAPATI) – TERRA
BAPTISMO – PROBACIONÁRIO (SAKADAGAMI) – ÁGUA
TRANSFIGURAÇÃO – ACEITE (ANAGAMI) – FOGO
CRUCIFICAÇÃO – UNIDO (ARHAT) – AR

Por outra:

Tanto o tirso como o caduceu e até mesmo o ábaco, expressam na sua configuração o esquema evolutivo das Iniciações Humanas desde o Nascimento até à Ressurreição do Homem “Angélico” ou o do quinto Reino Espiritual, acompanhando os passos da Iniciação ao par da Evolução da Terra.

A Tradição Iniciática chama Dwija ou “duas vezes nascido” (pela maternidade e pela iniciação) ao Adepto Perfeito (5.ª Iniciação), classificado nos evangelhos sinópticos e apócrifos de “Filho do Homem”, “Varão Celeste”, etc., razão da réplica de Jesus que a própria Igreja confessional desconhece: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” (Mateus 12:46-50, e também Marcos 3: 31-35), logo adiantando: “Quem faz a Vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. O cumprir a Vontade do Pai equivale ao Jivanmukta que está além do Druwa ou Chrestus possuidor da 4.ª Iniciação como “Filho de Mulher”, nascido da maternidade ainda na fase derradeira da verdadeira Iniciação, portanto, ainda encadeado à Lei de Causa-Efeito (Karma) que rege o Mundo. “Filho de Mulher”, “de Eva ou a Terra” foi João Baptista e também Jairo. Mais além hierarquicamente acima do Dwija encontra-se o Dharani, “Poder, Coluna Viva”, possuidor da 6.ª Iniciação de Choan ou “Senhor de Linha, Raio, etc.”, e logo após o Dhyani, o “Ser Perfeito”, o Christus, o Bodhisattva, cuja 7.ª Iniciação é classificada no Grau de Mahachoan (“Grande Choan” ou “Cisne Celeste”), todos consentâneos ao estado de consciência e vibração das três mais uma Hierarquias Criadoras em função na Terra.

Na vida de Jesus, o Cristo, a crise da 4.ª Iniciação tem começo na pessoa de João Baptista que a paixão insatisfeita mandou degolar, início da debacle que seria a posterior retirada do Avatara no solilóquio nocturno no Monte das Oliveiras.

Se a sigla iniciática JHS é indicativa do Homem manifestando Deus, o Homem-Deus, quando o H central, letra intermediária por sua natureza mercuriana, se repete na mesma acaba auto-anulando-se, deixa de surtir efeito, perde o sentido, o que vale por anulação do Homem-Deus, o Avatarizado. Isto verifica-se no JHHS, como seja, João – Herodes – Herodíade – Salomé, os personagens principais do episódio funesto sucedido por razões espirituais e políticas interrelacionadas.

Herodíade era mulher luxuriosa e ambiciosa. Nascida cerca de 15 a.C. e falecida depois do ano 39, foi neta de Herodes, o Grande, e irmã de Herodes Agripa I, rei da Judeia, sendo filha de Aristóbulo IV, filho de Herodes, e de Berenice. Teve como primeiro esposo Herodes Filipe, filho de Herodes, o Grande, com Mariana II, filha do sumo-sacerdote Simão, de quem teve uma filha, Salomé. Como o seu marido não exercia qualquer cargo público não passando de simples cidadão, Herodíade separou-se dele para casar com outro meio-tio, Herodes Antipas, e este para desposar Herodíade teve de divorciar-se da sua primeira esposa, Fasélia, filha do rei nabateu Aretas IV. Passaram a viver juntos antes de estar consumado o divórcio, e tal união foi condenada publicamente por João Baptista com palavras severas, acusando o casal de incesto, provocando grande animosidade no povo, e desencadeando o ódio mortal da mulher voluptuosa contra ele. Esse consórcio libidinoso justificava o pretexto do Arauto de Cristo de com isso a linhagem legítima dos reis de Israel estar findada e o rei legítimo da nação “escolhida” ser então bem outro, apontando-o em Jeoshua Ben Pandira, descendente em linha directa de David e Salomão.

Acerca disso, quanto à evidência do Messias no seu duplo aspecto espiritual e temporal, encontra-se registado nos próprios Evangelhos de São Mateus e de São Lucas. Por eles repara-se ser Jesus descendente directo de David, este como o oitavo dentre sete irmãos. David teve por filhos Salomão, Rei de Israel, e Nathan, como Sacerdote, ou seja, esses últimos representando o duplo aspecto de Melki-Tsedek: a Linha Temporal, ou o Poder Político, era exercida por Salomão, enquanto a Linha Espiritual, ou a Autoridade Sacerdotal, cabia a Nathan. Ao esquematizar a árvore genealógica, tem-se o seguinte: São Mateus diz que José é filho de Jacob e recua até Salomão, deixando o subentendido do Messias Davídico ou Temporal; por sua vez, São Lucas coloca Heli como pai de José recuando até Nathan, subentendendo-se estar a referir-se ao Messias Sacerdotal.

João Baptista, fundador do movimento, de raiz essénia, dos Mendayeh de Yahia, “discípulos de João”, intensamente zadoquita contestador da autoridade instituída, movimento a que pertenciam Barrabás e Jonafas, enfrentavam a forte oposição de Caifaz, presidente do Sinédrio, e de Anaz, seu antecessor no cargo e que continuava a ser a alma do partido fariseu em que se inscreviam os levitas (“servidores do Templo” descendentes de Levi), sendo esses dois os que iriam acusar Jesus diante de Pilatos, o governador romano da Judeia.

De maneira que ao triângulo construtivo de anúncio do Império Temporal tendo na chefia Jairo, logo se opôs um outro triângulo destrutivo que decepou aquele, dando início ao comprometimento do êxito universal da Missão do Avatara.

Segundo os evangelhos sinópticos (Mateus 14:1-12, Marcos 6:14-29, Lucas 9:7:9), Herodes Antipas mandara prender João por este o ter admoestado em divorciar-se da sua esposa legítima Fasélia (Phasaelis) e ilegitimamente tomar como amante Herodíade, a esposa do seu irmão Herodes Filipe I. Mas isso não bastava à mulher cruel despeitada. Convenceu a sua filha Salomé a seduzi-lo no dia de aniversário dele. Foi quando a formosa Salomé meio-desnuda dançou a “dança dos sete véus” (dança kamásica ou passional nos antípodas do desnudo dos sete véus de Ìsis, a Deusa Sabedoria) para Antipas ébrio de paixão, o qual lhe prometeu tudo se partilhasse o leito com ele. A jovem acedeu e conforme o antecipadamente combinado com a mãe, exigiu a cabeça decapitada de João Baptista. Ele acedeu e pouco depois era trazida numa salva a cabeça ensanguentada do mártir, decapitado no cárcere, ponto alto do banquete infernal – antítese da Última Ceia – que ditou o destino fatal da tríade kamásica, isso também sendo o preanúncio da queda temporal e espiritual de Israel com a próxima destruição do Sinédrio e do Grande Templo às mãos de Tito (70 d.C.).

O historiador judeu Flávio Josefo refere-se à morte de João Baptista[1], mas nada diz sobre o episódio do banquete nem sobre a acção conjunta de Herodíade e Salomé, fazendo de Antipas o único responsável pela decapitação do Anunciador, dizendo tê-lo feito por motivos políticos, “pois a grande influência que João tinha sobre o povo poderia colocar nas suas mãos [de João] o poder e a vontade de levantar uma rebelião, pois o povo parecia pronto para fazer o que ele pedisse. [Assim Herodes] pensou que o melhor seria eliminá-lo”.

Flávio Josefo afirma ainda que os judeus acreditavam que a derrota militar que sobreveio a Herodes pelas mãos de Aretas, seu sogro, pai de Fasélia, que ofendido lhe declarou guerra e destruiu todo o seu exército, fora uma punição divina pela indignidade e desumanidade que tivera com João.

Mas a ambição de Herodíade, a Hasmoneia, não tinha limites: convenceu o marido a ir a Roma junto do imperador procurar dignidade semelhante ou maior que a de Herodes Agripa I, que havia servido o império latino por menos tempo. Mas esse antecipou-se e enviou uma carta ao imperador Gaio Calígula na qual, mentindo, acusava Antipas de participar num plano para assassinar o imperador Tibério. Então, Calígula ordenou o exílio de Herodes Antipas para o sul da Gália, enquanto a Herodíade foi oferecida a possibilidade de não ser exilada e manter os seus bens, o que não parece viável por se saber que o rei judeu era fantoche à mercê dos caprichos dela que era quem maquinava tudo[2], pretendendo impor a vontade da sua casa dos hasmoneos à dos herodianos. Seja como for, terá recusado a proposta e acompanhado o esposo no desterro kármico para Lugduno Convenarum ou dos Convenas (actual Saint-Bertrand-de-Comminges[3]).

Se Josefo nas Antiquitates indica essa cidade gaulesa como a do exílio do casal desterrado, já no Bellum lê-se a Hispânia como o lugar do desterro, tradição adoptada na Idade Média baseada num texto antigo (que reza Profugus a facie Dei uixt in Tarracone et Emerita, et foede occiditur in Rhodio Lusitaniae oppido), assinalando que Herodes teria morrido em território português, nisto várias terras beirãs “reclamarem” o lugar da morte do rei judeu: Roda, Ródão, Redinha. As populações acreditam, porém, tratar-se de Herodes, o Grande, talvez pela “fama” do nome em termos de religiosidade popular[4]. Todavia, a lenda estará mais ligada a Herodes Antipas e à tradição medieval, tendo relacionado o Ródano gaulês a esses topónimos lusitanos[5].

A lenda herodiana em território nacional transfere secretamente para o sentido soberano da presença da Ordem Secreta de Mariz agindo externamente pela Ordem de São João do Hospital, chancelando o destino “carrasco” ou kármico de Portugal desde a sua origem[6].

A cabeça decepada, associada ao simbolismo do crânio, possui duplo significado, ainda que o Cristianismo lhe tenha dado unicamente o de lembrança da morte. O crânio contém o cérebro e está situado no cume do ser humano. É por isso o lugar sagrado do nosso corpo e o sinal da descoberta daquilo que se mantém secreto: o Saber Supremo.

Com tudo, aprofundando ainda mais o sugerido no figurino do Anunciador, tem-se que o simbolismo iniciático relacionado a São João Baptista é afim ao efectivo Ritual de Iniciação do Chrestus ou Arhat de Fogo, geralmente celebrado pela Páscoa, e que vem a ser o Ritual Jina do Yokanan (Djina-Masdhar), em muito identificado ao Ritual Maçónico de Elevação do Adonhiramita, que é essencialmente de carácter misto ou andrógino (conforme testemunha a sua lenda de grau, passada no ambiente da rainha de Sabá e o rei Salomão), sendo o motivo sacrificial do pré-Apóstolo, J.oão B.aptista, quem estabelece a ponte entre as Escrituras Velha e Nova. No Ritual Djina-Masdhar o Yokanan sofre a “Degola” iniciática (figurada na História Lusa por D. Egas Moniz indo de baraço ao pescoço entregar-se de motu próprio ao rei de Castela), isto é, faz florescer a Rosa no centro da Cruz quando o verbo por sua laringe entoa o Odissonai (“Espaço Sem Limites” – Purusha, Espírito, Pai) e o Odissonal (“Espaço Com Limites” – Prakriti, Matéria, Mãe) a favor da defesa da Obra do Eterno na Face da Terra, logo também dele mesmo, Filho Eleito.

Paralelamente a esses acontecimentos, Jesus Cristo levava a efeito a instituição do Mistério Eucarístico – na realidade a (re)fundação cíclica da Ordem do Santo Graal – no Cenáculo do Monte Sião, fora das muralhas da cidade velha de Jerusalém[7], conforme a narrativa de Marcos 14:13-15. Era o tempo da Pessach ou Páscoa judaica.

Tratou-se da celebração da Última Ceia quando Cristo instituiu o Ritual da Eucaristia. Abençoou o Pão e o Vinho e repartiu-os entre os Apóstolos presentes, como figurando o Seu Corpo e o Seu Espírito, a Fortaleza e a Sabedoria unidas no Seu Amor de Avatara manifestado[8], com isso inaugurando a “Nova Aliança” ou Idade já mencionada pelo profeta Jeremias.

O próprio Alcorão na quinta surata, Al-Ma´ida (“A Mesa”), sura 5:113, refere a refeição numa mesa posta por Deus (Allah) para Issa (Jesus) e os Hawariyyin (Apóstolos), sabendo-se que na tradição árabe as tâmaras e as uvas repartidas entre os convivas mais íntimos equivalem ao pão e o vinho na repartição eucarística.

Yehudhah ish Qeryoth (Judas Iscariotes) tomaria papel importantíssimo na consumação deste quarto Mistério. O seu nome em português provém do grego bíblico Iouda Iskariôth, sendo Iouda a helenização do nome hebraico Yehûdâh, Judá, interpretado como “abençoado, louvado”, “objecto de louvor”. Seria o quarto filho de Jacob Iscariotes, ou seja, “homem de Querioth”, sua terra natal, na Judeia. Letrado, possível doutor em leis, Judas partilhava o messianismo político dos zelotas, os “zelosos” da lei instigadores da rebelião armada contra o império romano ocupante. A sua noção de Messias restringia-se ao contexto político-militar, era um homem “prático”, de soluções imediatas para quem as noções metafísicas não iriam além de simbólicas de aplicações práticas, concretas. A sua retórica era absolutamente intelectual com laivos de agnóstica. Pretendia uma nação eleita temporalmente independente do jugo do sinédrio e do senado, dos fariseus e dos césares. Debalde Jesus tentou trazê-lo à razão explicando-lhe a sua Missão Espiritual, que a Autoridade Espiritual é uma e o Poder Temporal bem outro, que para isso haviam duas funções e respectivos representantes, sendo Ele o Espírito animador, que nação sem Espírito era igual a corpo sem alma. Debalde. Mas já antevendo o papel que Judas iria desempenhar em relação a ele, ainda assim tentou trazê-lo à razão, conforme se depreende das palavras seguintes no apócrifo (século II) Evangelho de Judas [9]:

“E disse-lhe Jesus (a Judas): Vem para que te ensine sobre os segredos que nenhum homem viu. Pois que há um Grande Logos Ilimitado que nenhuma geração de Anjos viu, onde existe um Grande Espírito Invisível.”

Sem dúvida Jesus estava referindo-se ao Avatara partícipe directo do Logos que o acalentava.

Segundo informa a Tradição Iniciática, é por essa altura, pouco depois da decapitação de João Baptista, que Yehudhah se torna Ashaverus, isto é, avatarizado ou veiculado por Luzbel, o terceiro Luzeiro tomando forma como Planetário na sua luta revoltosa contra o Desígnio do Eterno e assim mesmo contra o seu Irmão Akbel acatando a Ordem do mesmo Eterno Oitavo Logos, tomando expressão em Jeoshua. Daí em diante, Judas, com o auxílio de dois outros zelotas funcionando como suas colunas vivas, como sejam os seus irmãos Elasbão e Gereão, passou a agir como opositor aberto à Missão do Avatara, duvidando da sua Divindade por as ideias Dele não coincidirem com as suas…

Apareceu um novo triângulo destrutivo fazendo oposição ao triângulo construtivo, numa nova e dramática luta entre Akbel e Luzbel, conforme abaixo:

Aconteceu que uma “gralha” feminina, uma mulher de nome Messalina, em diminutivo Salina, possivelmente uma dessas “donas de casa” desocupadas ocupando o seu tempo em seguir o Cristo mais por curiosidade e alguma crença cega, puro beatismo (sem dúvida terão sido milhares os que na época seguiram com paixão e intriguismo, pão dos pobres de espírito – os aloucados, não os pobres pelo espírito, os humildes – as “novidades” diárias sobre Jesus Cristo…), tomada de bisbilhotice ouviu uma conversa privada entre Jesus, Tiago, João e Pedro acerca dos planos de transformação política e social que seriam levados a efeito, tendo Jairo como chefe ou dirigente, estendendo-se de Jerusalém até Roma, a fim do cesarismo ser derrubado. Messalina correu a contar a Judas essa trama, numa hora em que ele estava reunido com muitos membros e simpatizantes zelotas do partido zadoquita. Todos ouviram a denúncia da “gralha” Messalina[10] e depressa a notícia espalhou-se por toda a Jerusalém, como consta no texto apócrifo dos Manuscritos de Salinas. Logicamente que aquele plano de transformação político-social seria uma espécie de “revolução branca” levada a efeito sem derramamento de sangue, e foi assim que chegou ao conhecimento das autoridades romanas e farisaicas, alheias a esse projecto sinárquico, que o era, com o nome de “Missão Roma”[11].

Tomaram-se de imediato providências para sufocar o movimento. Judas, que não acreditava que Jesus fosse capaz de levar avante semelhante Missão por o ter como um “visionário” e não um “homem prático”, acabou vendendo por trinta dinheiros de prata à autoridade farisaica a informação de onde se localizava o Retiro Privado de Cristo, para os lados do Monte das Oliveiras, em Jerusalém. Ele acreditava que Jesus seria detido sem violência e por processos pacíficos o demoveriam dessa “utopia”, nunca que o torturassem ferozmente e o condenassem à pena capital da morte na cruz conforme a lei romana destinava aos criminosos e inimigos do Estado.

Cai a noite dramática, húmida e agourenta, Jeffersus o Christus retira-se de cena, o Christus retira-se de Jeffersus, e Jairus fica só… mas o Avatara antecipara os acontecimentos e horas antes, durante a Última Ceia, chamara à parte José de Arimateia (futuro Mestre Kadir) e Nicodemos (Nicodemus Ben Gurion, mencionado no Talmude, futuro Mestre Akadir)[12], o “discípulo secreto” de Jesus, e transmitira-lhes instruções precisas respeitantes ao futuro próximo da Ressurreição.

Sentindo a tragédia eminente Jesus, o Homem, ou antes, Jairo levanta a sua voz ao Eterno numa prece de angústia e entrega: – “Senhor, se não sou digno[13] de tamanho martírio, afastai de Mim o Cálice da Amargura!” Ao que o Eterno lhe respondeu: – “Cumpre agora o martírio, para que a tua Missão reviva no próprio Espírito!”.

Judas levou os soldados de Caifaz até onde o Mestre se encontrava, no Getsémani, horto no sopé do Monte das Oliveiras, e logo o prenderam. Na famosa cena do beijo da traição, Judas não apontou o verdadeiro Cristo e sim o aspecto humano do mesmo, pois Jesus havia se retirado com o aspecto celestial do Avatara, de maneira que Jairo foi confundido com o seu gémeo e levado ao julgamento mais que forjado, de antemão condenado à morte.

Tomando consciência do seu crime lesa-Divindade, apercebendo finalmente ter sido enganado pelos fariseus, Judas ainda protestou junto deles a inocência de Jesus e devolveu os trinta dinheiros atirando-os horrorizado no soalho do Sinédrio. Tudo em vão, só teve como resposta risos e olhares ferozes. Tomado de arrependimento profundo, chorando lágrimas de sangue, ardendo no fogo implacável da consciência acusadora, tomou noção de ter sido veículo de Força Maligna que o levara ao acto de assassínio do Homem-Deus, e já tresloucado de dor e pranto foi enforcar-se numa figueira. A sua alma penitente tomada por Ashaverus seria convertida no famoso “Judeu Errante”.

Já Elasbão e Gereão acabaram os seus dias no vale dos leprosos, onde morreriam depois de grandes e prolongados sofrimentos, tendo de presenciar a sua própria carne podre caindo aos pedaços em meio a lágrimas e gemidos.

Quanto a Messalina, o Professor Henrique José de Souza revelou numa carta de 26.03.1953 que ela assistiu ao Calvário do Senhor, e desde então passou a ter a visão contínua do Cristo caindo e levantando, com suores frios e ensanguentados, com isso ela acabando por enlouquecer até que, num acto desesperado para afastar a visão terrível, atirou-se numa fogueira que a devorou.

Luzbel visava atingir ao próprio Cristo Universal na pessoa de Jesus, mas o Eterno (8.º Logos, Centro do Universo ou Sistema Solar, o mesmo Elli, Eloi, Elion, Elohim ou Logos Solar clamado como Pai por Jesus no madeiro da morte) “trocou-lhe as voltas” através de Akbel e só ficou Jairo, sobre quem pendia o Aspecto Superior (Arabel) do mesmo Revoltado celeste na face da Terra, de maneira que Luzbel acabou atentando contra si mesmo, retardando a sua Redenção dos grilhões kármicos que o prendiam ao Cáucaso, isto é, ao “cárcere carnal”.

Após detido, Jeoshua ou Jairo foi levado ao Sinédrio onde as autoridades farisaicas o condenaram, só faltando a aprovação do governador Pôncio Pilatos a cuja presença o arrastaram. Tal como Nicodemos, membro do Sinédrio, fizera todos os possíveis na defesa do Inocente perante Caifaz, igualmente Pilatos fez quanto podia para o inocentarem e libertarem, porque “não achava nele culpa alguma”. Mas o partido fariseu, encabeçado por Caifaz e Anaz, estava determinado a matar Jeoshua (Jairo) sem dó nem piedade. Pôncio Pilatos, a sua esposa Cláudia Prócula, assim identificada no Pseudo-Dexter (Flavius Lucius Dexter, historiador romano do século IV d.C. e amigo de São Jerónimo), redigido em 1619, e os seus dois irmãos Lucas e Dimas que faziam “pendant” com ele, pertenciam ao Movimento Secreto de Jairo Ben Pandira, tendo se deslocado propositadamente para a Judeia e a Palestina a fim de facilitar a Missão do Avatara aí, no terreno político-social. Mas a ameaça de Caifaz em intervir junto do próprio imperador em Roma caso não fosse cumprida a sua exigência de condenar à morte o Senhor, deixou o governador de “braços atados” que assim acabou cedendo, “lavando as suas mãos da morte de um homem que sabia inocente”. Contudo, não deixou de dar instruções aos seus legionários, sobretudo a Longuino, o centurião, que deixassem o infeliz inanimado na cruz (dando-lhe uma beberagem que o adormecesse) sem que morresse e não lhe quebrassem os ossos, não deixando também de facilitar as acções futuras de Nicodemos e Arimateia quanto aos seus propósitos ocultos de resgatarem o corpo do Senhor.

Pôncio Pilatos é hoje o insigne Adepto Maximus Tertius. Juntamente com os seus irmãos – Pilatos (P), Lucas (L), Dimas (D) – constituíam a sigla tributária LPD. Relativamente a esta, ressalta que todas as missões políticas executadas pela Grande Fraternidade Branca nas pessoas dos seus mais conspícuos Membros, são sempre caracterizadas pelas iniciais LPD. Razão porque se observa Pilatos muito próximo da Missão do Christus no aspecto temporal, granjeando prestígio através da execução da parte política. Governador (praefectus) da província romana da Judeia entre os anos 26 e 36 d.C., inimigo ferrenho de Herodes Antipas, como descrevem os evangelhos sinópticos, Pilatos era filho de um cônsul romano com uma mulher de origem árabe, sendo os seus irmãos as suas Colunas Vivas.

Mais uma vez, apresenta-se o triângulo construtivo tendo a oposição aberta do triângulo destrutivo, como seja:

A própria esposa de Pilatos, Cláudia, terá pedido ao marido que não condenasse Jesus à morte, dizendo: “Não te envolvas no caso desse Justo, porque muito sofri, hoje, em sonhos, por causa dele” (Mateus 27:19).

Na sua Homilia sobre Mateus, do século II, Orígenes sugere que Cláudia se tornara cristã, ou que fora convertida por um Anjo, ideia compartilhada por diversos teólogos da Antiguidade e da Idade Média, a despeito dos que afirmaram o sonho ter sido provocado por Satan na tentativa de impedir a absolvição de Cristo.

Todas as tentativas de salvar Jesus resultaram debalde, depois de o enviarem de Herodes para Pilatos e deste para aquele por ninguém querer assumir a culpa do assassínio do Justo. Preferiu-se a libertação de Bar Abbas ou Barrabás, o guerrilheiro zelota que matara um legionário romano, e preteriu-se Jesus, o rabino essénio que salvava um e muitos. A multidão instigada pelos levitas e fariseus gritava que soltassem Barrabás e condenassem Jesus. Assim foi feito, soltaram o zelota, para daí a pouco tempo também ele ser assassinado pelos companheiros do soldado morto.

Eis Jesus açoitado a caminho do Calvário (Calvaria, em latim), o “Monte da Caveira”, sítio da supliciação, Homem das Dores caindo e levantando sob o peso do madeiro da cruz, só tendo a acompanhá-lo à distância João Zebedeu e as três Marias (a Pandira, a Cleofas e a Magdala), mas também as copiosas mulheres de Jerusalém, gritando a inocência do Senhor. Ele que as sossegou augurando fatal:

– Ó Filhas de Jerusalém,
não choreis a minha sorte.
Se vossos peitos comovo,
Chorai a sorte de um povo
Que morre com a minha morte.

“De ti, Jerusalém, não ficará pedra sobre pedra” (Lc. 19:44).

O Cristo Deus – o Avatara – sofria à distância, por repercussão hiperfísica, as dores por que passava o Jesus Homem, no drama solene da Paixão e Morte do Cordeiro Inocente assim resgatando o Karma da Humanidade, por Sua imensa compaixão e amor às gentes de um ciclo que fenecia – Agnus Dei qui tollis pecatta mundi.

Eis o Salvador crucificado entre dois ladrões, possivelmente zelotas, que os textos apócrifos identificam como Himas, o bom ladrão, e Jestas, o mau ladrão[14]. O derradeiro H – S – J ou HJS, o Homem feito Deus, anverso do JHS, o Deus feito Homem.

Com isso, a Cruz Suplicial tomava a feição de Cruz Primacial, como regista o manuscrito apócrifo Livro da Penitência de Adão, recambiando a origem do Cruzeiro até às origens adâmicas do Género Humano:

“Quando Adão morreu, Set recebeu do Anjo Guardião da entrada do Paraíso três grãos contendo toda a força vital da Árvore da Ciência e da Árvore da Vida, que se achavam reunidas formando uma só. Seguindo as instruções do Anjo, Set colocou os três grãos na boca do seu falecido pai. Os ramos que saíram desses três grãos formaram a sarça ardente na qual Deus se revelou a Moisés. Este colheu um tríplice ramo da sarça sagrada e fez a vara dos milagres. Esta vara, apesar de separada da raiz, não deixou de viver e de florir e assim foi conservada na Arca.

“O rei David replantou esse ramo vivo na Montanha de Sião, e Salomão mais tarde tornou a madeira dessa árvore no tríplice tronco com que fez as duas colunas Jakin e Bohaz da entrada do Templo; ele revestiu-as de bronze e pôs o terceiro pedaço da madeira mística no frontal da porta principal.

“Mais tarde, os levitas corrompidos arrancaram durante a noite essa barreira contra as impurezas arremessando-a no fundo da piscina probática, enchendo-o de pedras.

“Desde esse momento, o Anjo de Deus agitou todos os anos as águas da piscina e comunicou-lhes uma virtude milagrosa, para evitar que os homens procurassem lá a árvore de Salomão.

“No tempo de Jesus Cristo limparam a piscina, e os judeus achando o madeiro, inútil no pensar deles, levaram-no da cidade e fizeram uma ponte sobre o ribeiro de Cedron. Por esta ponte passou Jesus depois da sua prisão nocturna e os algozes, na sua pressa em preparar o instrumento do suplício, levaram-na consigo. A ponte era uma tábua de três peças, composta de três madeiras diferentes, e com ela fizeram a cruz.”[15]

Essa narrativa absolutamente lendária, invenção sagrada de algum piedoso da Antiguidade cristã, ainda assim reveste-se de significados absolutamente iniciáticos, herméticos, que dispõem o Cruzeiro como simbólico do Pramantha, do Ciclo de Evolução figurado por aquele.

Obviamente o do Ciclo de Piscis ou Ychtu, os Peixes (sinal e senha que os cristãos desenhavam nas catacumbas de Roma pelo qual se reconheciam entre eles), simbólicos do “Pecado Original” ou “Queda no Sexo” (Geração Humana) de Luzbel por fim redimido por Akbel. Tem-se o episódio do peixe que Jeoshua traçou no chão quando lhe apresentaram a mulher “adúltera”, enquanto replicava: “Quem estiver isento deste pecado (do sexo) que atire a primeira pedra”… tendo os falsos juízes e juízos recuado vencidos… pela força passional que os consumia.

Os instrumentos do martírio do Senhor no Gólgota  foram todos recolhidos por José de Arimateia e Nicodemos (cruz, tabuleta do escárnio, coroa de espinhos, cana verde, azorrague, lança de Longuino, cravos ou pregos, capa rubra purpurada, mortalha, etc.) e levados para as Fraternidades Iniciáticas a que eles pertenciam. O Professor Henrique José de Souza revelou como verdadeiras as medidas da cruz do Gólgota, 4,32 m x 2,16 m, e da tabuleta do escárnio, 1,08 m x 0,32 m, assim configuradas:

Essas medidas, na mesma ocasião em que as revelou, foram assim descritas pelo mesmo Professor Henrique José de Souza numa sua carta de 5.04.1952:

“E pelas medidas da Cruz – 4,32 x 2,16, sendo que 2,16 representa a metade de 4,32 – pode a mesma ser avaliada, sem contar com o pedaço que se enterra no chão, para que o símbolo da Terra se expresse Naquele que por ela morre.

“A Cruz possui 12 concavidades (3 em cada terminal da Cruz) e simbolizam as fases de um Ciclo. A extremidade superior vertical é o activo IOD, enquanto a inferior é o menos activo VAU. Ambas são andróginas, porém, possuem elementos de actividade (masculina e feminina).

“As extremidades do braço horizontal estão marcadas pelos signos passivos HE, porém, a ponta direita é mais activa que a esquerda, porque a ponta direita se transforma em IOD no próximo Ciclo. Portanto, leva em si a semente da futura actividade, já que o primeiro HE, como Mãe, pode dar nascimento somente a uma criatura andrógina – VAU.

“Jesus foi sacrificado como JHS, a Tríade Superior para JNRJ, o quaternário inferior desta mesma Terra (expressando o 4.º Senhor). A Tabuleta da Tragédia do Gólgota (medida de 1,08) acompanhou os Gémeos Espirituais de vida em vida, sempre oculta aos seus olhos e presença. As quatro letras da Tabuleta, J ou INRI, como o “quaternário da Terra”, traz inscrito o ano do Julgamento Humano.”

Sacrificado como Cordeiro Inocente de Deus que tira os pecados do Mundo, isto é, resgata a quarta parte do Karma Planetário, com isso acelerando a extinção das três partes restantes, logo sendo o Agnus Castus por cuja Luz alumia as consciências terrenas, assim se torna o Agni Dei, o Fogo Sagrado que irá dar um segundo sentido à frase da Tabuleta da Cruz, mandada inscrever e colocar por Pilatos que sabia estar aí Jairo: Iesus Nazarenus Rex Iudeorum (“Jesus Nazareno Rei dos Judeus”), ou seja, Ignis Natura Renovatur Integra (“Pelo Fogo se renova a Natureza inteira”).

Ou em hebraico:

I.AM (Água) – Reino Vegetal
N.OUR (Fogo) – Reino Animal
R.UACH (Ar) – Reino Hominal
I.ABESHAH (Terra) – Reino Mineral

Fogo Vivo de Shamballah, o Laboratório do Espírito Santo, portanto, vivificador e renovador do próprio Logos Planetário. Enfim, tal é o mistério da Cruz e da Tabuleta do Gólgota.

Momento de trânsito entre dois estados, agonia, angústia e abandono, a humanidade de Cristo repete as palavras clementes do Salmo 22:

– Eli, Eli lama lama sabactani?

(Pai, Pai por que me abandonaste?)

É a crise da Passagem (Pessach) do Chrestus, do dobrar o Avichi ou Gehenna (Inferno), morada das turbações e perturbações físico-psicomentais, para ascender em Espírito ao Nirvana ou Shameh (Céu), assim matando a morte de vez para sempre, nisto, e como o aramaico não tem consoantes, terá exclamado triunfante:

– Lh lh lhm sbbhh thn!

(Pai, Pai quanto me glorificais!)

Da angústia da incerteza (1.ª frase) passou à serenidade da certeza (2.ª frase), para em suspiro final fazer a Sua entrega:

– Elohim ani noten rú-ahh.

(Pai, nas Tuas entrego o meu Espírito – Pater in manus tuas commendo spiritum meumPatéra sta chéria sô paradído to pneuma mou)

Era sexta-feira. Crucificado à hora terceira (9 horas da manhã) expirou à hora nona (15 horas da tarde). Cobriram-se os céus com nuvens revoltas num vendaval medonho eclipsando Sol e Lua, como refere Pedro nos Actos dos Apóstolos 2:20 assinalando a “Lua de sangue” (avermelhada por refração da luz lunar através da atmosfera terrestre) e o “Sol convertendo-se em trevas”. Tremeu a terra e a turba insana gritou apavorada: “Ai de nós, que matámos um Justo”!

E a terra não deixa de tremer, caiem homens e bestas, caiem casas e arraiais, rasga-se o véu do Templo entre ventos e relâmpagos, estremecem as tumbas e os mortos voltam à vida… desce o Chrestus corporização do Planetário de Vénus, o Quinto, enquanto sobem, num despertar momentâneo, os “Filhos da Mente Universal”, os Manasaputras, desde o Panteão de Shamballah, esta que a “cidade santa” de Salém ou Jerusalém deveria corporificar. Cerra-se um ciclo, abre-se outro. Doravante nada seria como antes.

Na sua descida aos Infernos ou Inferius, o Homem-Deus perpassa as regiões do Mundo Psíquico mais baixo donde resgata, só com a Sua presença, diz a Tradição, 432.000 almas em sofrimento. E logo se interna no Sol Místico da Terra que é Shamballah, onde adormece temporariamente em Sono Paranisphânico ou Paranirvânico (Monádico, Divino). Os Manasaputras subiram temporariamente enquanto o Avatara descia também temporariamente. Contrabalanço das conchas da Balança da Lei, indo o Sangue Real – gotejando para a Taça Sagrada, a mesma utilizada na Última Ceia, aí levantada por José de Arimateia, que depois a levaria para regiões ignotas encabeçadas por Fraternidades Jinas – escorrido no Deicídio vibrar – como ojas ou energia vital – no sangue da quatro quartos da Humanidade, anulando o seu Karma por instantes, e se não definitivamente é por se saber que que a vibração do Avatara é bem uma coisa, e a reacção do Homem ao mesmo impacto poder ser outra bem diferente. Questão de livre-arbítrio.

Um dos episódios mais marcantes da Crucificação é o de Longuino, o centurião. Segundo se conta, ele sofria de miopia em estado adiantado – outros dizem que entretanto cegara – e que meses antes houvera pedido a Jesus que lhe restaurasse a visão (tanto física como espiritual), mas esse achando-o imaturo, um impúbere psíquico, recusou atendê-lo. Revoltado, Longuino prometeu em seu íntimo desprestigiá-lo em público na primeira oportunidade que tivesse. Ora, quando a expressão carnal do Bodhisattva deu último suspiro na cruz ele tomou da sua lança e perfurou-lhe o peito, junto ao coração, para ter a certeza de estar morto. Então, o sangue jorrou sobre o rosto do centurião atingindo-lhe os olhos, logo ficando curado da miopia. À vista daquela cena dolorosa que era o drama do mundo, tomou-se de remorso profundo e por pouco não enlouqueceu. De maneira que com a recuperação da visão para a estranheza daquele quadro trágico, o impacto da essência líquida vital do Eterno humanizado revolveu-lhe a alma assúrica ou de anjo revoltado, a tal ponto que, até ao final dos seus dias, passou a dedicar-se exclusivamente à Obra do Cristo, tendo chegado a ser um dos fundadores da Igreja no Ocidente.

Sendo Jesus a expressão do Quinto Luzeiro e da Quinta Hierarquia Espiritual, Arqueu ou Assúrica, ele só podia ser alanceado por um ser de ordem inferior relacionado ao Quarto Luzeiro e à Quarta Hierarquia Humana, Jiva, mesmo que possuísse alma assúrica. Longuino ou Longinos, ao trespassar o peito do Senhor com a lança (lanké, em grego) cumpria assim a dolorosa missão que a Lei lhe determinara. De maneira que tudo já estava programado desde os Céus de Shamballah, inclusive a acção contrária dos eternos inimigos da Lei… crucificada nessa hora. O Bodhisattva sabia, como Grande Iluminado que era, que o seu Sangue seria dado em holocausto a favor do Karma Humano. Longuino teve o papel de abrir-lhe o peito, como já estava antevisto por Lei. Com esse episódio ele recebeu a dupla luz: a física e a espiritual. E tornou-se num dos maiores paladinos cristãos.

No instante em que o Divino Sangue jorrou do Sagrado Coração de Cristo, José de Arimateia, apoiado por Nicodemos, aproximou-se e recolheu-o num enorme Cálice de Ouro – o Santo Graal ou Santo Vaso (Saint Vaisel), modelo do Cálice Eucarístico – tendo em seguida desaparecido levando-o consigo e ao Mistério da Renovação do Sangue Real dos Avataras.

De maneira que o Sangue Divino jorrou para três partes:

1.ª – Olhos de Longuino = Iluminação da Humanidade;

2.ª – Santo Cálice = Renovação dos Mistérios Sagrados;

3.ª – Solo da Terra = Impacto planetário da Quinta Essência (Quintessência) Divina.

A terceira alínea também equivale ao início de um novo ciclo de consciência, ou seja, à abertura de um novo Pramantha. Assim “Deus escreveu direito por linhas tortas”… mais uma vez contrariando Luzbel, como seja, as forças contrárias à Lei de Evolução.

Existem provas documentais da crucificação de Jesus como acontecimento histórico, inclusive da parte de autores não cristãos, nisto tendo-se talvez como primeira referência a carta de Mara Bar Serapion para o seu filho, escrita em algum momento após o ano 73 d.C., onde o autor sírio, não judeu e não cristão, para encorajar esse na aquisição do conhecimento usa os exemplos de Pitágoras, de Sócrates e do “Rei Sábio” que foi crucificado pelos judeus em virtude da sua introdução de novas leis e novos saberes[16].

Tácito, um dos maiores historiadores romanos não cristão, no início do século II descreveu em Os Anais (cerca de 116) a perseguição aos cristãos sob Nero e afirmou que Pilatos ordenara a execução de Jesus.

Josefo Flávio, o historiador judeu, já afirmara nas suas Antiguidades Judaicas (obra escrita cerca do ano 93) que Jesus fora crucificado por ordem de Pilatos. Ao encontro disso vai o Talmude babilónio (Sinédrio 43a) dizendo que Jesus praticou a apostasia da magia e por isso foi pendurado na véspera da Páscoa. Pendurado ou crucificado tem o mesmo sentido em Lucas 23:39 e em Gálatas 3:13.

Alguns dos primeiros movimentos gnósticos, acreditando que Jesus não possuía substância física (tese conhecida como docetismo), negavam que ele tivesse sido crucificado. Por certo estariam a referir-se ao Avatara e não ao Avatarizado. Mas a ad litteram de Inácio de Antioquia recusou isso e insistiu que Jesus nasceu verdadeiramente e foi verdadeiramente crucificado, tendo escrito que os que defendiam que Jesus apenas pareceu sofrer apenas pareciam ser cristãos.

Ao contrário desse exegeta e da exegética oficial, o Islão defende que Jesus não foi crucificado nem morto de outra forma, chegando a afirmar que a morte de Jesus foi simulada e que o Enviado de Deus (Avatara) estava ausente. Assim, para terminar, lê-se no Alcorão 4:157-158:

“E por dizerem: Matámos o Messias, Jesus, filho de Maria, o Mensageiro de Deus, embora não sendo, na realidade, certo que o mataram, nem o crucificaram, senão que isso lhes foi simulado. E aqueles que discordam, quanto a isso, estão na dúvida, porque não possuem conhecimento algum, abstraindo-se tão-somente em conjecturas; porém, o facto é que não o mataram. Outrossim, Deus fê-lo ascender até Ele, porque é Poderoso, Prudentíssimo.”

 

NOTAS

 

[1] Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, 5.4.

[2] Nuno Simões Rodrigues, Herodes Ântipas e Herodíade a caminho do exílio: fragmentos da errância judaica no século I. Revista Phoínix, Rio de Janeiro, 19-2: 107-119, 2013.

[3] Saint-Bertrand-de-Comminges é uma comuna nos Pirenéus franceses, localizada no departamento da Alta Garona, região da Occitânia, no sudoeste da Gália romana.

[4] J. N. Carreira, Camões e o Antigo Testamento. Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 1982.

[5] O próprio carrasco, arbusto de folhas com margens serradas a dentadas e espinhosas, espécie que se encontra em toda a região mediterrânica e em Portugal com maior facilidade no Centro e Sul, os locais daqui por vezes também lhe dão a alcunha de “Herodes” e “Herodes-carrasco”, talvez por lhes  lembrar a lâmina ferina que decepou a cabeça de João Baptista por ordem daquele.

[6] Vitor Manuel Adrião, Ordem de Mariz – Iniciação e Segredo. Euedito, 2.ª edição, Lisboa, 2019.

[7] A Igreja Ortodoxa Síria localiza a sala do Cenáculo na igreja de S. Marcos em Jerusalém (anterior ao actual do século XII), que se situa no subsolo da mesma, numa altitude correcta relativamente às ruas de Jerusalém no século I, que estavam num nível pelo menos 3,6 metros abaixo do actual, motivo porque muitos dos edifícios dessa época terem hoje o seu andar superior abaixo do nível da rua. Também ali é hoje reverenciado um ícone da Virgem Maria supostamente pintado por S. Lucas.

[8] Durante o Cristianismo Primitivo observava-se uma refeição ritual conhecida como Festa do Ágape (“Festa do Amor”), onde cada participante trazia comida e todos comiam juntos no salão comunal. Era realizada a cada domingo, assim passando a ser conhecido como “Dia do Senhor”. Ágape é uma das quatro principais palavras gregas para o “Amor”, no sentido de Amor Espiritual, incondicional, em contraposição ao desejo e afeição condicional (amor parental, por exemplo). Embora os cristãos interpretem o Ágape como uma forma expressa de Amor Divino acima do humano, todavia na língua grega moderna esse termo é utilizado no sentido de “eu te amo” (amor romântico), como óbvio afastamento dessacralizado do sentido original.

[9] Evangelho de Judas. Organizado por Sofia-Torallas Tovar e António Piñero. Editora Ésquilo, Lisboa, Julho de 2006.

[10] Messalina aparece como Pompónia Grecina, judia-romana convertida ao Judaísmo e depois ao Cristianismo que foi julgada e condenada em Roma. Cf. Nuno Simões Rodrigues, O processo de Pompónia Grecina, um caso de opressão religiosa no século I d.C. Revista “Humanitas”, LXI, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Clássicos, 2009.

[11] Juan Arias, Jesus, esse Grande Desconhecido. Editora Objectiva, Rio de Janeiro, 2002.

[12] Nicodemos é dado como autor dos Acta Pilati, “Actos de Pilatos”, ou Evangelho de Pilatos, aparecendo no texto medieval em latim como Evangelho de Nicodemos, um dos livros apócrifos do Novo Testamento.

[13] Digno é também o título de Arhat ou Chrestus.

[14] Eduardo Proença, Apócrifos e Pseudo-Epígrafos da Bíblia. Ed. Novo Século, São Paulo, 2004.

[15] Cf. Jacir de Freitas Faria, As origens apócrifas do Cristianismo. Edições Paulinas, São Paulo, 2003.

[16] William Cureton, Spicilegium Syriacum: contendo testemunhos de Bardesan, Meliton, Ambrose e de Mara Bar Serapion. Rivingtons, Waterloo  Place, Londres, 1855.

Mistério da Transfiguração (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jan 21 2021 

Bodhisattva (sânscrito). Literalmente: “Aquele cuja Essência (Sattva) tornou-se Inteligência (Bodhi)”. Aquele a quem falta apenas uma encarnação para chegar a ser um Budha Perfeito, isto é, para ter direito ao Nirvana (Atmã Universal, Espaço Sem Limites, Além de todas as Formas). Aquele que possui o dom ou qualidade de Bodhi (Inteligência Suprema ou Iluminação). Na ordem hierárquica, o Bodhisattva é inferior ao “Budha Perfeito”. Na linguagem exotérica, esses dois termos são muito confundidos. Contudo, o inato e justo sentimento popular, em razão do grande sacrifício que o Bodhisattva fez de Si mesmo, em sua respeitosa estima, coloca-o em lugar mais eminente que o de Budha. Nos países budistas do Norte da Ásia, cada novo Bodhisattva, o Grande Adepto Iniciado, recebe o nome de “Libertador da Humanidade” (Voz do Silêncio, III). – Helena Petrovna Blavatsky, Glossário Teosófico.

Conforme a ordem hierárquica, o Bodhisattva (बोधिसत्त, em sânscrito, “Espírito Misericordioso”) é um Ser possuidor da 7.ª Iniciação Real que se situa entre o Mundo das Formas (Segundo Logos) e o Mundo Sem Formas (Primeiro Logos), que por sua imensa Compaixão e Amor à Humanidade pode manifestar-se ciclicamente acompanhando a Evolução das Raças Humanas. E fá-lo agindo por um veículo físico de antemão preparado para tanto, como foi o caso de Jesus veiculado consciencialmente pelo divino Christus vibrando no seu Corpo Áurico Vital, afectando positivamente além do Físico denso as Emoções e Pensamentos, tudo graças ao estabelecimento do antahkarana ou elo de Vida-Consciência entre o Eu Superior e a Personalidade, agindo o Supremo Instrutor do Mundo por aquele nesta.

Já o Budha reserva-se de manifestar-se no Mundo das Formas por ter transposto o limiar além dele e se integrado ao Absoluto Informe, ao Mahaparanirvana ou Plano Divino. Daí Budha significar, em devanagari e sânscrito (बुद्ध), “Iluminado”, “Desperto” no Além-Nirvana. Na ordem hierárquica possui a 8.ª Iniciação e igualmente pode se projectar ciclicamente no Mundo Humano, mas através do Bodhisattva, o “Ungido” (Khristôs, em grego), o também “Iluminado” na Luz do Paranirvana ou Mundo Monádico.

Isso significa, na sequência das Raças já manifestadas e por manifestar, que o Cristo, aclamado Maitreya pelos povos da Ásia, age através do Raio Espiritual de Vénus nesta 5.ª Raça-Mãe Ariana da qual é o Bodhisattva, para assumir a condição de Budha na vindoura 6.ª Raça-Mãe Bimânica ou Dourada sob o influxo espiritual de Mercúrio. Daí se falar no vindouro Budha-Mercúrio ou Budha Branco por advir no Ocidente.

Conforme as informações disponibilizadas pelo Professor Henrique José de Souza e as constantes da obra clássica do Budhismo Tibetano referentes a Shamballah, o Sol Interno da Terra no centro das sete cidades de Agharta, como seja o Kalachakra-Tantra, são os seguintes os Budhas e Bodhisattvas regentes das sete Raças-Mães da actual 4.ª Ronda Terrestre, neste 8.º Ramo da 5.ª Sub-Raça Teutónica da 5.ª Raça-Mãe Ariana em que todos estamos:

Acerca dos termos gregos Christos e Chrestus, repasso a palavra ao Professor Henrique José de Souza que escreve sob o pseudónimo Laurentus[1]:

“Quanto ao termo Cristo, procede do grego Chrestus (ou Krestus), que tem o significado de Ungido, Sábio, Iluminado, etc. Na mesma razão está o termo Bodhisattwa, que significa “essência áurea de Sattwa transformada em Sabedoria”. Quem atinge este estado, não necessita mais do que uma encarnação para se tornar um Budha (ou Buda). Determinado número de Bodhisattwas, e mais o de um Manu, acrescido do de um Budha ou Oitavo Ramo Racial (fenómeno que está acontecendo agora), equivale a um Avatara.

“O Chrestus de todas essas lutas terrenas, prévias e indispensáveis para ser alcançada a Perfeição absoluta, ao chegar ao fim do Caminho (o da Evolução) recebe o nome de Christos, termo que, como diz a incomparável Helena Petrovna Blavatsky no seu Glossário Teosófico, foi empregado no século V (a.C.) por Ésquilo, Heródoto e outros. Os manteumata pythocresta, “oráculos transmitidos por um deus Pítio” através de uma pitonisa, são mencionados pelo primeiro (Ésquilo, cap. 901); e pythocrestus é derivado de crao. Chresterion não é apenas o “testemunho de um oráculo”, mas também um “oferecimento ao oráculo”. Chrestes é aquele que explica os oráculos, um “profeta e adivinho”. O primeiro escritor cristão, Justino Mártir, em sua Primeira Apologia, chama a seus correligionários de chrestians. “O facto de os homens se chamarem a si mesmos cristãos, é a maior das ignorâncias”, diz Lactâncio (Livro IV, cap. VII). Os termos Cristo, Cristãos, escritos originalmente Chrest, Chrestians, foram extraídos do vocabulário dos templos dos pagãos. Nele Chrestos significa “discípulo posto à prova” (donde as “provas” iniciáticas da antiga Maçonaria e de outras Ordens Secretas), candidato que aspirava à dignidade de hierofante, e que, depois de haver alcançado esse grau por meio da Iniciação, através de duras provas e sofrimentos, depois de ser ungido (ou “untado com azeite”, como o eram os iniciados e ídolos dos deuses, segundo a prática da última cerimónia do rito, que ainda hoje é usado pela Igreja nos baptismos, etc.), transformava-se em Christos, “o Purificado, o Ungido, o Iluminado”, em linguagem esotérica. Realmente, em simbologia mística, Christes ou Christos significava que “o Caminho, a Vereda, havia sido percorrido e a meta alcançada”; que os frutos do trabalho penoso para unir a Personalidade de barro (ou o “pote de argila” bíblico), passageira, com a indestrutível Individualidade, a transformava no Ego Imortal. No fim do Caminho, de facto, se encontra o Christos, o Purificador. Uma vez levada a cabo essa União (com vistas ao termo Yoga, já por nós explicado), o Chrestes, o “Homem da Dor”, converte-se no mesmo Christus. Paulo, o Iniciado (que também poderia ser chamado de Budha ou Cristo…), conhecia todas essas coisas, como prova quando diz, em linguagem velada e de tão má interpretação pelos que nada entendem do assunto: “Padeço de dores de parto até que seja formado o Cristo em vós” (Gálatas IV, 19), cujo verdadeiro significado é: “até que tenhais formado o Cristo dentro de vós”. Os profanos, porém, que sabiam unicamente, naquela época, que Chrestus estava, de certo modo, relacionado com os profetas e sacerdotes, ignorando, portanto, o significado oculto de Christos, insistiam – como o fize-ram Lactâncio e Justino Mártir – em ser chamados Chrestians em vez de Christians (crestãos em vez de cristãos).

“Como se vê, “todo o ser bom pode falar ao Cristo em seu Homem Interno”, seja judeu, cristão, budista, muçulmano, etc.”

Com isto, descarta-se o zelo segregador e ignorante da frase comum num certo neo-espiritualismo confessional sobremaneira evangelista, interrogando em modo de obrigar os seus prosélitos a escolher entre  “Budha OU Christus?”, apostasia que antes devera ser “Budha E Christus!”, por se tratar do Sétimo Princípio Espiritual, o Jivatmã ou verdadeiro Homem Interno, que todo o Jiva ou simples crente deverá formar em seu âmago.

É assim que o Budhismo Esotérico ao par do Cristianismo Esotérico identificam o “Homem das Dores” ao Chrestus ou Arhat, o elevado Iniciado portador da 4.ª Iniciação Real, às portas do Adeptado ou prestes a tomar a condição de Mestre Perfeito detentor da 5.ª Iniciação Real, a de Jivanmukta. Enquanto ao Misericordioso “Senhor de Amor-Sabedoria”, o Christus, reconhecem na função de Bodhisattva.

Para haver avatarização é necessária a sincronicidade total entre as Três Vestes (Trikaya) do Chrestus identificado ao seu Augoeides ou Espírito Divino (Atmã), o Cristo Interno, e as universais do Cristo Externo, o Christus assim vibrando por elas indo escoar a Sua Vida, Consciência e Substância no “Regato Vital” ou Corpo Etérico daquele. Tais Santas Vestes, são:

Assim, o Eterno Logos em Seu Segundo Aspecto através do Trikaya do Cristo Universal fecundou, ou antes, avatarizou as Três Vestes de Jesus,  o Cresto  Humano.  Vem daí,  também,  o nome Maitreya como “Senhor dos Três Mundos”[2].

Os poderes taumaturgicos demonstrados pelo Cristo junto dos seus mais próximos e da plebe provavam à saciedade ter plenamente desenvolvidas as faculdades superiores do seu Sagrado Coração, o Vibhutî (Chakra Cardíaco Inferior ou abaixo do Superior, Chakra Anahata), “Pêndulo Místico” da Vida-Consciência pleniluminado característico de todo o Adepto Perfeito senhor dos “Oito Poderes do Yoga”, como sejam os sidhis do Eu Divino pelos quais realizou os «milagres» e feitos sobre-humanos descritos pelas escrituras sagradas.

As oito “pétalas”, raios ou linhas do Vibhutî estão ordenadas da forma seguinte (com os seus nomes tradicionais contidos no Gheranda-Samnhita, obra clássica da tradição hindu, além de levarem outros nomes ocultos, aghartinos, revelados pelo Insigne Mestre JHS, Professor Henrique José de Souza) e correspondem aos seguintes poderes transcendentais do Adepto Perfeito:

1. LAGHIMA (LAYA, segundo JHS) – O poder de levitar, realizado através da anulação da inércia e consequente eliminação da força gravitacional. Este poder desperto através da vibração da 1.ª “pétala” destrói a inércia, esta tomada no sentido de inércia que prende ao passado e ao ser destruída liberta o Iniciado, permitindo-lhe progredir de forma efectiva.

2. MANANA (MAHIMÃ, segundo JHS) – O “poder bioplástico” de mudar a estatura e a aparência para qualquer forma que se deseje. Aqui também com o sentido de transformação ao nível do carácter e da natureza interna, ou seja, da Personalidade pela Individualidade.

3. VASHUTA (VASHITA, segundo JHS) – O poder de criar ou de destruir mayas-vadas, ou seja, ilusões e fascínios afectando as pessoas. É também a capacidade, mesmo em forma reduzida, de manipular a Energia Electromagnética Cósmica chamada Kundalini. Os Adeptos Reais podem utilizar este sidhi para ressuscitar um indivíduo que tenha falecido há poucas horas, ou seja, com o duplo etérico intacto ainda ligado ao corpo físico inerte.

4. ANIMAN (HANAMAN, segundo JHS) – O poder de focar a consciência em qualquer ponto ou região desejada, esteja próxima ou longínqua. Quando o Yogui alcança o estado de Dhâranâ, “concentração absoluta”, coloca imediatamente em actividade este 4.º sidhi (“faculdade, dom ou poder psicomental”… activado pelo próprio Espírito agindo sobre a Alma e o Corpo).

5. PRAPTI (PARAMAN, segundo JHS) – O poder de transferir a consciência para qualquer ponto do Universo. Corresponde também ao Samadhi que é o estado de “Êxtase Supremo” ou comunhão absoluta com o Eterno, no qual o Yogui pode afirmar com toda a legitimidade: “Eu e o Pai somos Um”!

6. PRAKAMYA (PARANTAPA, segundo JHS) – O poder absoluto da Vontade, ou melhor, da Supra-Vontade como Vontade Superior ou Divina, a que distingue o liberal do ditador, seja ele grande ou pequeno, pois este sidhi caracteriza a natureza interior e exterior de todo e qualquer Iniciado verdadeiro que realizou a Suprema Renúncia.

7. ISHITA (SHAMA, segundo JHS) – O poder de alcançar a supremacia sobre todos os seres manifestados. O Venerável Mestre JHS disse que o poder deste 7.º sidhi refere-se, na realidade, à supremacia de poder decidir, de forma totalmente independente, o que se deseja ser, possuindo o nome oculto de Shama.

8. KAMA-VASHAYTA (SHUHAN, segundo JHS) – O poder de dominar o desejo passional, destruindo-o. É também a capacidade de ficar indiferente a toda e qualquer emoção, seja ela de alegria ou de tristeza. Comportando o nome oculto Shuhan, segundo JHS, este sidhi transposta o Yogui para o estado de consciência mais elevado possível, o qual antecede o grande mergulho no Absoluto, só ao alcance dos Grandes Iluminados, dos Seres Perfeitos da natureza de um Krishna, de um Budha, de um Cristo, de um JHS…

A relação dos sidhis superiores ou poderes prânicos (vitais) com o sistema glandular do Homem, dispõe-se da seguinte maneira:

Em guisa de remate, o Professor Henrique José de Souza sintetiza[3]:

“O 7.º Princípio (Espírito ou Atmã) é a Primeira Emanação do Absoluto. É o Unigénito Filho de seu Pai e da mesma Idade que o Pai, porque o Absoluto manifestado só poderia fazer-se “PAI” com o nascimento do FILHO. É o Verbo Vivo. É o Homem em quem o Filho de Deus se manifesta. É um Cristo. É o Eu Divino de cada homem; a sua própria semelhança etérea original, sem fragilidade alguma, porque esta pertence à FORMA. Não é uma personalidade, porém, pode individualizar-se no Homem e permanecer também como a sua Essência impessoal. É um Princípio Vivo, omnipresente, incorruptível e imortal…”

Torna-se, pois, indissociável o Cristo histórico do Cristo místico, como bem apercebeu Annie Besant[4] e bem soube desenvolver depois António de Macedo[5].

Após a realização do Baptismo o Senhor internou-se sozinho no Deserto da Judeia indo jejuar 40 dias e 40 noites, período durante o qual Satan ou Shaitan, “Adversário”, lhe apareceu, no episódio canónico que ficou conhecido como Tentação de Jesus, prólogo do desfecho apoteótico da Transfiguração de Cristo.

Os evangelhos sinópticos relatam o acontecimento: Mateus 4:1-11, Marcos 1:12-13 e Lucas 4:1-13, sendo Marcos muito breve no relato, enquanto os outros dois descrevem com mais pormenores o confronto entre o Homem-Deus e o Homem-Diabo. É tradicionalmente considerado como o local exacto desse encontro, mesmo não havendo provas precisas, o Monte Quarantania, situado entre Jerusalém e Jericó.

Cabe anotar que “deserto” é também sinónimo de “lugar aparte”, afastado do mundo profano reservando-se aos que levam vida espiritual, vocacionada ao estudo e culto dos Mistérios Divinos, portanto, uma comunidade fechada ou Ordem Espiritual, talvez Essénia, aonde Jesus se recolheria pelas mãos benfazejas de insignes Adeptos Vivos, a fim da sua consciência humana (psicomental e física) se ajustar, adaptar ao tremendo impacto das energias do Bodhisattva vibrando nele. Ao mesmo tempo, acontecia o derradeiro confronto entre a sua Individualidade espiritual e a sua Personalidade material, aquela expressada por Akbel, o Sexto Luzeiro manifestando a Mercúrio ou o Sol Oculto, o Futuro no Presente, e esta por Luzbel, o Terceiro Luzeiro opositor do Eterno na já morta Cadeia da Lua, o Passado no Presente. É, pois, o embate entre as skandhas – virtudes, tendências – e as nidhanas – vícios, desejos.

Tal como Moisés permaneceu no Monte Sinai 40 dias e 40 noites (Êxodo 24:18), por igual período Jesus se recolheu no Monte Quarantania. Vale o 44 com a exclusão dos zeros. A Tradição Iniciática informa que aos 44º (graus) a Força Criadora de Kundalini despoleta no Homem, de baixo para cima, do cóccix para a corona, indo queimar todas as escórias físicas e psicomentais à sua passagem, mas também todas as demais, sendo então necessária a Energia Encausadora de Fohat descendo de cima para baixo, encontrando-se ambas no ventre (omphalos do corpo) cujo atrito fá-las recuar ao Centro Cardíaco onde a Luz Vital de Prana as tempera, dando Energia à Força e Força à Energia justamente equilibradas, arredando qualquer perigo mental e psicossomático, assim transformando o Ser em Cristóforo.

O pão dos Anjos alimento do Cristo que eles lhe traziam, é sinónimo de Caridade para com os infortunados da vida, portanto, da Compaixão característica do Avatara. Mas o Adversário escusa a humanidade espiritual e tenta com a oferta da mundanidade material, no alto, no meio e embaixo em três provas decisivas para o mental, o emocional e o físico.

1.ª prova (física) – O Opositor desafia Jesus a transformar pedras (petra) em pães (panem) para mitigar a sua fome. Moralmente significa a tornar-se de altruísta em egoísta. Com isso, o Senhor iria perder-se no deserto, neste caso interpretado pelo vulgo como fora dos limites da sociedade, marginal à mesma, região estéril e vazia de moral e virtude, lar árido de almas penantes e de demónios como Azazel (Levítico 16:10). Jesus recusou e venceu.

2.ª prova (emocional) – O Tentador, por processo de maya-vada ou “ilusão dos sentidos”, dispõe Jesus no topo da torre principal do Templo (de Jerusalém, segundo Lucas) e incita-o a saltar para que os Anjos o salvem da queda fatal. Põe à prova a sua fé no Poder Invisível citando Salmos 91:11-12, onde se afirma que Deus nunca falta a quem Nele crê. Trata-se do conflito emocional entre crença e fé, entre o sacrifício sacerdotal (rito) e a letra da confissão (dogma). Cristo, em princípio, paira sobre o Templo, é o Espírito do mesmo, não precisa provar nada, o próprio Peshiqta Rabbati o diz: “Os nossos rabis relataram que quando o Messias for revelado, Ele virá e permanecerá no cume do Templo”. Acudiram os Anjos e a ilusão presunçosa de Luzbel foi desfeita, talvez pelo próprio Arcanjo Mikael chefe das Milícias Celestes na sua guerra contra o Mal, como narra o Rolo de Guerra, texto essénio achado no sítio arqueológico de Khirbet Qumran. Jesus recusou e venceu.

3.ª prova (mental) – O Adversário leva Jesus ao topo de um monte muito alto donde se avistavam todos os reinos da Terra, segundo Mateus, e oferece-lhe o senhorio do mundo que fora seu em troca da sua vassalagem a ele, como descreve Lucas. Luzbel fora Senhor, Planetário da Terra Lunar na respectiva Cadeia findada abruptamente aquando da sua Revolta contra o Trono de Deus, mas já não o era, portanto, na presente Cadeia Terrestre. Essa sua tentação espicaçando a vaidade e a cobiça não passava de ilusão enganadora que nada tinha para oferecer. A recusa em o vassalar também é sinal de que Cristo (Akbel) como Sol Humano está à dianteira de Ashaverus (Luzbel) indo atrás, na sua traseira lunar (vadre retro satana, praemisit ad meMc. 8:33). Jesus recusou e venceu.

Vencidas as tentações, o Bodhisattva inicia a sua Missão pública com as maiores demonstrações do seu poder taumaturgico, ressuscitando mortos, expulsando demónios, devolvendo a visão e a audição a cegos e surdos, etc. Mas sempre desaconselhando os cultos animistas como é das Regras da Grande Fraternidade Branca – Sudha Dharma Mandalam – desde o estabelecimento das mesmas logo ao início da presente Raça Ária, donde ir ao encontro de igual desaconselhamento dos Grandes Iluminados que o antecederam (Krishna, Budha, etc.), por se tratarem formas de culto lemuriano-atlantes afins ao Mundo Psíquico ou Astral (Kama-Loka), onde se agitam multivariadas formas de vida não poucas de evolução precária, contrastando com a serenidade do Mundo Mental (Manas-Loka), o Devakan dos hindus, o Céu dos cristãos. Cristo actuou como sábio mediador, dominando as forças visíveis e invisíveis mercê do seu poder espiritual supra-desenvolvido pela disciplina iniciática e o conhecimento exacto dos poderes ocultos da Natureza, jamais como um impotente e indisciplinado médium sensitivo sujeito aos caprichos das forças cegas da Natureza, tanto elementais como elementares, tanto “espíritos da Natureza” (devas inferiores) como almas humanas de parca evolução (kama-rupas)[6].

Nas célebres Cartas dos Mahatmas datadas do quartel final do século XIX, em uma delas pode ler-se:

“Felizes, três vezes felizes, em comparação, são as entidades desencarnadas que dormem um longo sono e vivem em sonho no seio do Espaço! E infelizes daquelas que trishna (“desejo de viver”) atrai aos médiuns, e infelizes destes últimos que as tentam por um upadana (“meio material”) tão fácil. Porque apoderando-se delas e satisfazendo-lhes a sua sede de viver, o médium contribui para lhes desenvolver um novo grupo de skandhas – um novo corpo de tendências e de paixões bem piores que aquelas que tiveram no corpo que perderam. De facto, ele é a causa dessas skandhas (“tendências”) e desse novo corpo. E todo o futuro daquelas será determinado não somente pelo karma (“causa e efeito” ou “lei de retribuição”) de demérito do conjunto ou grupo precedente, mas ainda pelo novo grupo da futura criatura encarnada. Se os médiuns e os espiritistas somente soubessem, como já disse, que por cada “anjo-guia” que acolhem entusiasticamente lançam sobre ele um upadana que será gerador de uma quantidade de males indizíveis para o novo Ego que nascerá sob a sua sombra funesta, e que em cada sessão (sobretudo de materialização) eles multiplicam as causas de miséria (causas que mancharão o nascimento espiritual do infortunado Ego e o farão renascer numa existência pior que nunca), poderia ser que fossem menos pródigos na sua hospitalidade.

“No Devakan […] o Espírito está inteiramente absorvido na sua beatitude pessoal, sem dar atenção alguma aos elementos que lhe sejam intrusos. Já afirmei que ele não pode regressar.

“Lamento contradizer-vos. Eu não tenho conhecimento dos “melhores espíritos” que aparecem nos círculos espiritistas e “ensinam a moral mais elevada”, e desde logo seguramente não conheço nenhum círculo “perfeitamente puro”. A verdade obriga-me a declarar que Allan Kardec não é um ser vivente totalmente imaculado, pelo que, desde logo, não é um Espírito muito puro. No que respeita ao ensinamento da “moral mais elevada”, vive não muito longe da minha residência um shamar dugpa (“feiticeiro”) que é um homem verdadeiramente notável, pouco poderoso como feiticeiro, mas sendo-o excessivamente como bêbado, ladrão, mentiroso e orador. Neste último papel, ele pode bater aos pontos Mrs. Glastone e Bradlaugh, e mesmo o reverendo H. W. Beacher, como o mais eloquente predicador moralista e o maior transgressor dos mandamentos do presidente dos Estados Unidos da América. Quando tem sede, esse lama Shapa-toung pode extrair de um largo auditório de “barretes amarelos” laicos toda a sua reserva anual de lágrimas, ao contar-lhes pela manhã o seu arrependimento e os seus sofrimentos, depois de se ter embebedado durante a noite e roubado todos os habitantes da povoação após tê-los, por mesmerismo, imerso num sono profundo. Portanto, pregar e ensinar a moral com um objectivo interesseiro, não prova grande coisa.”

A diferença abissal entre mediador e médium está notavelmente assinalada nos textos canónicos no episódio de Jesus exorcizando o possesso geraseno (cf. Marcos 5:1-20, Mateus 8:28-34 e Lucas 8:26-39).

Em Gérasa, actual Jerash, na Galileia, havia um necromante possesso de cascões e larvas astrais que invocara sem que as conseguisse esconjurar, as quais em legião infectavam o seu ovo áurico etérico-astral fazendo dele um farrapo humano arrastando-se mirrado e demente, rindo, chorando, uivando, gritando entre as quadras do cemitério e a lixeira pública. Não havia sossego nem de dia e nem de noite, todos o temiam. Sentindo a presença próxima do divino Taumaturgo, saiu do seu covil imundo e gemendo acercou-se dele que se apiedou e ordenou à legião dos harbim de garbal (“fantasmas dos ossos”, restos putrefactos de duplos etéricos deixados por almas humanas subidas ao Mundo Celeste) que abandonasse essa criatura, por certo já arrependida de ter pretendido violar as leis da Natureza.

A legião dos harbim de garbal que o devorava em vida dirigiu-se então para uma vara de porcos (dizem os textos canónicos que cerca de 2.000, número parecendo-me exagerado, antes parecendo menos número e mais palavra: “duplo”) que pastava próxima, passando a vibrar subitamente nos duplos astrais dos animais de imediato enlouquecendo, correndo a precipitar-se de um penhasco abaixo, como que querendo libertar-se daqueles intrusos súbitos.

O significado disso é bem mais profundo do que o simples acto «miraculoso» tão do agrado dos simples. Toda esta história provavelmente inspira-se em Isaías 65:4, onde aparece o paralelo entre os túmulos e os porcos. Em sânscrito, porco é pisâcha, “espectro”, tanto como vara ser legião, estando isso mais consentâneo com a realidade oculta: Cristo desintegrou-os ao expulsá-los da aura humana. Mas porco é também sinónimo de profano, do que está à margem dos Mistérios Sagrados, logo, é alheio aos princípios e leis da Sabedoria Divina, motivo para a sentença do Senhor: nolite mittere margaritas ante porcos.

A separação distintiva entre a celebração espiritual e o culto animista fica definitivamente marcada no episódio bíblico daquele homem que, na sua impuberdade psicofísica, enlevado com as palavras de Cristo, queria segui-Lo mas primeiro teria de ir enterrar o seu falecido pai, ao que o Senhor lhe replicou: “Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos” (Lucas 9:57-60, Mateus 8:19-22).

Parece haver alguma confusão lexical em termos da Vulgata, como seja entre o hebreu qavar, “enterrar”, e o latim cultu, cultuar”, pois só assim destitui-se a frase do Mestre de intransigência, de desafecto e desrespeito pelo finado e o órfão ao aparentemente opor-se ao funeral, Ele que sempre se mostrou cumpridor das leis e costumes hebraicos. O significado será antes este: – Deixa os mortos fisicamente serem cultuados pelos mortos espiritualmente e segue-Me, no sentido de Eu Superior, Divino.

O conjunto de nidhanas ou “desejos” inferiores a que Cristo chama de “vimes soltos”, é quem realmente atrai almas poucos evoluídas e sensitivos humanos afins a elas à manutenção do desaconselhável, em termos evolutivos, medianimismo. Com a fomentação e crescimento do grupo de skandhas ou “tendências” superiores, a que Cristo chama de “feixe de vimes”, aumenta o “Tesouro do Céu” da Consciência Superior, apreendendo-se de vez por todas que um e todos, corpóreos e incorpóreos, têm por Lei Suprema o de não regredirem, descerem, mas subirem aos páramos da Imortalidade, onde usufruem de infinitamente mais do que poderá dar o limitado estado terreno.

Segue-se a maldição da figueira, relatada por Mateus 21:18-22, e por Marcos 11:12-14 e 11:20-25, logo após a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém e antes da limpeza do Templo, ou seja, da expulsão dos cambistas que fizeram do altar sagrado balcão de negócios. Segundo a narrativa, o Senhor amaldiçoou uma figueira por estar sem frutos maduros, e logo a árvore definhou. Isso estimulou-o a falar do poder da oração, sinónimo de possibilidades espirituais.

Sendo a figueira (teenah, em hebreu, e atten, em árabe) considerada sagrada na tradição mesopotâmica partilhada por judeus e árabes, ela é símbolo de fortificação (sukon, em grego), no caso, a “fortificação da fé” assinalada no Grande Templo muralhado de Jerusalém. Dentre os significados dados a esta planta, pode-se apontar o de paz e abundância entre os judeus, e o de Árvore do Paraíso entre os árabes, com os predicados de sabedoria e integridade[7], motivo dos antigos astrólogos terem atribuído a esta planta a influência de Júpiter, o Zyaus-Dyaus, donde Zeus como Deus ou Pai, o Princípio, o Primeiro.

A maldição da figueira configura a denúncia da pouca fé dos que serviam no Templo, vivendo em comodidade e abundância material com detrimento da sabedoria e integridade, donde o seu apelo às práticas espirituais e o viver conforme as mesmas, rematada pela acção de expulsão dos cambistas ou falsos sacerdotes que haviam tornado a Casa do Pai (Dyaus) descarado mercado de negócios. Essa acção coube a Jairo, Poder Temporal, enquanto o Sermão da Montanha caberia a Jesus, Autoridade Espiritual, inspirado por Cristo.

Falando em Jairo, logo acode à mente o episódio ocorrido imediatamente após o exorcismo de Gérasa, ou seja, quando Cristo ressuscitou a filha de Jair (em aramaico) ou Jairo (na variante grega) em Cafarnaum. O seu nome é referido em Mateus 9:18-26, Marcos 5:21-43 e Lucas 8:40-56.

O episódio foi o seguinte: a filha única de Jairo caiu doente e ele apelou para Jesus. Mas este quando chegou já ela, com doze anos de idade, falecera. Jesus diz a Jairo para crer sem temer e “acorda” a jovem (Mc. 5:36). O elo vital, fio de vida, “cordão prateado” ou antahkarana psicomental que ligava a alma ao corpo da “adormecida” ainda não se havia rompido, motivo oculto por que Jesus pelo poder do seu magnetismo, pegando as mãos da menina (contrariando a lei judaica de não tocar em pessoas mortas), pôde fazer com que a alma voltasse a animá-la corporalmente, após ordenar: – Talitá cumi! Ou seja, “Menina, acorda!” Assim foi, para espanto de todos, despertando ela com grande apetite pedindo que lhe dessem de comer. Para o crente comum o acontecimento extraordinário era efectivamente um «milagre de ressuscitar a morta».

Nos evangelhos sinópticos Jairo é identificado como chefe de sinagoga, portanto, um rabino maior. Fora isso, não se sabe mais nada sobre ele. Mateus apenas diz que ele era “um chefe”, sem explicar que tipo de chefia exercia e nem mesmo dar o seu nome (Mt. 9:18). Marcos e Lucas aprofundam as informações e qualificam o tipo de chefia de Jairo, dizendo que era “um dos principais da sinagoga” (Mc. 5:22, Lc. 8:41). Essa é a tradução do grego archisynagogos, que não o identifica como “principal” mas como “príncipe da sinagoga”. Isto é, como Príncipe de Israel e Principal da mesma na Religião e na Lei, donde ser identificado na etimologia hebraica à “Luz de Jehovah”, Jess, Iss, Issa, Jair, Jairo, Jeseu, Iesus, Ioshua, Jeoshua, Jesus. Isto dispõe ambos em grau familiar no que a jovem poderia ser sobrinha do próprio Jesus Nazareno.

Tantas foram as voltas e reviravoltas que os evangelhos sofreram em quase dois mil anos de traduções e retraduções que tudo acabou redundando num conto pio em catequese de simples.

Tanto quanto as Bodas de Caná, perícola (episódio) bíblica narrada exclusivamente no Evangelho de João (2:1-11), aquando Jesus transformou a água em vinho, o que transfere para a exegética de elevar a catequese a gnose. Considerado como o primeiro milagre de Jesus pelos sinópticos, teria ocorrido em Caná, actual cidade de Kafr Kanna, a cerca de sete quilómetros a nordeste de Nazaré, na Galileia.

Na perícola, há uma surpreendente contradição: apesar de Jesus e sua mãe serem convidados na boda, o facto é que ela comporta-se como senhora da casa e ele como dono da mesma, ao informar Jesus que o vinho havia acabado e ele tomado providências de imediato. Sobre o que diz João 2:9-10: “O mestre-sala provou a água transformada em vinho, sem que soubesse a sua origem, apesar dos serventes saberem por terem sido eles quem trouxeram a água, e chamou o esposo, dizendo-lhe: Todo o homem serve primeiro o vinho bom, e só depois de muito bebidos é que serve o mau; porém, tu, reservaste o vinho bom para agora”. Conclui-se dessas palavras que Jesus e o esposo aparentam ser a mesma pessoa.

Resta saber se a boda seria a sua própria ou a do seu gémeo, como teima em afirmar a Tradição Iniciática, e se o seu gémeo seria “príncipe da sinagoga”, então era obrigatório por lei ser homem casado, já para não dizer que todo o Adepto em missão entre os homens necessita da sua contraparte feminina como completar, a mesma a quem os Vedas chamam de Shakti (“contraparte criadora”), enquanto ele é o Kartri (“princípio originador”), elementos caríssimos à doutrina do shaktismo que, é sabido, choca frontalmente com os princípios pietistas da catequese puritana ocidental. Mesmo hoje, a tradição da Igreja Copta mantém que o evangelista Marcos foi um dos servos nas Bodas de Caná, o que despejou a água que Jesus transformou em vinho. Ora, “servo” era efectivamente um dos graus da hierarquia da Ordem Essénia, conforme já foi dito, o que pressupõe os convivas desse festim como personagens importantes muito chegados à Missão do Cristo e à pessoa de Jesus. Assim, é muito natural que a boda fosse na sua própria casa, ademais, conformando-se ao ideal zadoquita essénio, a perícola estabelece a ligação entre esse acontecimento e o de Moisés transformando, como praga, as águas do Nilo em sangue aquando do êxodo hebraico da escravidão do Egipto, enquanto a água agora transformada em vinho indicava o Sangue Real de Cristo como Salvador da Humanidade, já não para um só povo escolhido mas para todo o Género Humano eleito.

A presença da Mulher é constante na Obra do Divino Bodhisattva, tanto em Maria de Nazaré como em Maria de Magdala ou Madalena, como as mais destacadas de muitas outras. Constantemente ambas aparecem juntas nos textos canónicos, para não falar dos apócrifos, onde Maria Madalena corrobora, em palavras e actos, a Maria Nazarena, bem lhe cabendo o título de Odighitria, “Aquela que indica o caminho” às “mulheres de Jerusalém”, início do Marialis Cultus.

Pode-se objectar: como poderia Maria Madalena ser personagem tão distinta se não passava de prostituta arrependida diante do Salvador, ungindo os seus pés com bálsamo e secando-os com os cabelos, portanto, uma mulher ordinária, vulgar? Ainda hoje diz-se, na vox populi, “chorar como uma Madalena arrependida”…

Poderei opor: em parte alguma dos evangelhos Maria Madalena é descrita como prostituta. Gregório I, o Magno (c. 540 – 12. 3.604), na sua compilação dos Sete Pecados Capitais, feita a partir das oito tentações descritas pelo monge Euagrios Pontikos dois séculos antes, e a Igreja Latina, que a celebra a 22 de Julho, é que a identificaram à pecadora anónima de Lucas (7:36-50) e a Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro. Um capítulo antes de falar de Madalena ou Magdala (cidade da Galileia), Lucas alude a uma mulher que ungiu Jesus. No evangelho de Marcos há uma unção parecida, feita por uma mulher cujo nome não indica. Nem Lucas nem Marcos identificam explicitamente essa mulher como sendo Maria Madalena. No entanto, Lucas diz tratar-se de uma “mulher caída”, de uma “pecadora”. Comentadores e exegetas posteriores supuseram que fosse Madalena, dado que, segundo parece, tendo saído dela “sete demónios” (no texto grego: “sete génios (gigno, “dado à luz”), sete forças (dynamis)”, algo assim como os sete atributos da Energia Criadora latente no Homem a que os hindus chamam Kundalini) só poderia ser uma pecadora. Com base nisso, a mulher que unge Jesus e Madalena foram consideradas a mesma pessoa. Na realidade, é possível que fossem. Se Maria Madalena tinha a ver com um culto pagão, marginal ao dos fariseus, saduceus e levitas da capital Jerusalém, onde estava o Grande Templo, culto esse possivelmente essénio, com fundamentos mitraicos e já na época ostracizado, certamente por isso haveriam de a converter em “pecadora” aos olhos não só de Lucas como também dos autores posteriores.

A verdade é que as crenças essénias andavam próximas das fenícias no tocante à astrolatria, sendo que no tempo de Jesus os cananeus davam o nome da deusa fenícia Astarte às prostitutas e às hereges, estas as mulheres contestadoras do ministério oficial exercido pelos levitas junto do povo. Recebiam o dito epíteto ou um outro pelo qual também se conhece AstarteAstoreth, feminino de Astaroth, o “deus da perdição”, na realidade, o Deus da Inteligência, das “diáblicas interjeições mentais” que obrigam à Pureza e à Inteligência, ou seja, à posse efectiva da Gnose.

Se Madalena era uma pecadora, está muito claro que também era algo mais que a prostituta vulgar da tradição popular. Salta à vista que era uma mulher de bens. Diz Lucas, por exemplo, que entre as suas amizades se contava a esposa de um alto dignitário da corte de Herodes e que ambas as mulheres, juntas com várias outras, utilizavam os seus recursos económicos para apoiar Jesus e os seus discípulos. Também a mulher que ungiu a Jesus era pessoa de posses. No evangelho de Marcos insiste-se que o unguento aromático que ela utilizou na unção de Jesus era muito caro.

Madalena, por vezes a “mulher anónima”, é quem acompanha Jesus na Morte e quem testemunha a sua Ressurreição. Na função de ungir com ricos e raros óleos ao Salvador, de todos a única com autoridade para isso, e sendo esse um rito de passagem e autenticação, ela faz então o papel de pontífice, testemunhando a sua presença na Morte e Ressurreição. É, pois, a Odighitria, função que prossegue após a Ascensão de Cristo aos Céus, instruindo os Apóstolos nos mistérios da doutrina que o Senhor confiara a ela e a João. Ademais, a unção era a prerrogativa tradicional dos reis sagrados, neste caso, a do Messias legítimo, ou seja, do Ungido, palavra que traduzida do grego dá exactamente Cristo (Kristós e Christus, em grego e latim). Disto se depreende que Jesus foi reconhecido Messias autêntico em virtude da sua unção. E a mulher que o consagrou em tão excelso papel impossivelmente poderia ser insignificante. Por isso mesmo seria associada à Torre da Fé, o resguardo e suporte da acção pastoral posterior, sobretudo no Ocidente europeu, onde o sobrenome da sua origem galileia, Magdala, foi associado ao diminutivo hebraico Migdal, precisamente significando Torre.

A Tradição Iniciática dá Maria e Madalena como contrapartes do Jesus Espiritual e do Jesus Humano, como sejam:

Jairo   – Madalena
Jesus  – Maria

Esses últimos como Jeffersus e Moriah, na Tradição Aghartina, reconhecidos nos Vedas como Bodhisattva e Lakshami, identificados no Cristianismo como Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria. Isto sem esquecer os anteriores Krishna e Krishnaya e o Budha e a Budhai.

O Coração expressando o Graal-Consciência que é sempre representado pelo Graal-Objecto, a Taça Sagrada – Saint Vaisel, o Santo Vaso Eucarístico ou Eu-Crístico – repositório das mais elevadas essências espirituais.

Para a efectivação da sua Missão, Cristo seleccionou doze personagens distintos, todos piscatores ad anima, “pescadores de almas”, portanto, versados nos saberes superiores de Israel, destinando-os a seus Apóstolos, termo grego para “emissários, arautos, obreiros”. Seriam, pois, Nahas, em hebraico, equivalente do hindustânico Nagas, nomes formados da raiz camito-asiânica na, “água”, e aha, “santa”, à letra, “água santa”, equivalente ao fluido vital discorrendo serpentariamente ao longo da coluna vertebral, donde naha e naga também se associarem a naja, a “serpente” real, vista no uréus ou adorno na fronte dos faraós egípcios e a mes-ma que protegeu Gotama Budha das investidas do Mal. É sinónima de Iniciado Perfeito.

Esses doze discípulos iniciais do Mashiach, “Messias”, informa a Tradição, estavam hierarquizados da seguinte maneira:

3 Perfeitos

(João Zebedeu, o Evangelista, e seu irmão Tiago, o Maior, filhos de Zebedeu e de Maria Salomé, e Simão Pedro)

8 Irmãos

(André, irmão de Simão Pedro, Filipe, Bartolomeu, Tomé, dito o “gémeo”, Mateus Levi, o Publicano, Tiago Alfeu, o Menor, Judas Tadeu e Simão, o Zelota)

1 Zelador

(Judas Iscariotes, natural de Querioth, na Judeia)

Os 12 Apóstolos ou Adeptos em volta do Bodhisattva como Sol Espiritual constituíam um Zodíaco Vivo, tal qual acontecera com as 12 Tribos de Jacob a quem Jehovah chamou Israel (Gen. 49). Tudo isso em conformidade às palavras canónicas do Talmude: Malchuta deará ke´en malchuta derakiá – “O Reino na Terra é reflexo do Reino do Céu”.

Associando os 4 Animais da Esfinge (Tetramorfos, em grego, “quatro formas) aos 4 Evangelistas, tem-se:

Anjo ou Homem Alado (Gemini) – Mateus;
Leão (Leo) – Marcos;
Touro (Taurus) – Lucas;
Águia (Scorpio) – João.

Afins às respectivas seguintes Hierarquias Criadoras: Assuras (Arqueus – Águia), Agnisvattas (Arcanjos – Leão), Barishads (Anjos – Touro), Jivas (Homens – Homem).

Informam os escritos mais reservados da Tradição Iniciática que além dos 12 Apóstolos houveram mais 111 Essénios, dirigidos por Jesus, e 777 Nazireus, chefiados por Jairo, os Bem-Aventurados ou Makarioi (termo grego traduzido do hebraico Asrë, remetendo para os fonemas védicos Makara e Assura) directamente implicados na Missão do Cristo Universal.

Chegou finalmente a hora do Baptismo de Fogo ou da Luz. Acompanhado de João, Tiago e Pedro, Jesus encaminhou-se ao Monte Tabor, no Vale de Jizreel, 17 km a oeste do Mar da Galileia. É também conhecido como Har Tavor, Itabyrium, Jebel et-Tur ou Monte da Transfiguração.

Aí, diante dos três discípulos, conforme a narrativa de Mateus 17:1-9, Marcos 9:2-8, Lucas 9:28-36 e Epístola II de Pedro 1:16-18, a forma humana de Jesus transfigurou-se revelando o Glorioso Corpo Espiritual do Bodhisattva, do Salvador de Vidas, como seja o Augoeides, dizendo que “o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a Luz”, tendo os Apóstolos “visto a sua Glória”. Tal como no Mistério do Baptismo, ressoou a Voz do Espírito de Verdade proclamando: “Este é o meu Filho, o meu Eleito, ouvi-o e seguiu-o!” Os discípulos ajoelhados, hirtos de divino temor, viram projectar-se ao lado do Cristo as imagens etéreas de Moisés e Elias entabulando conversa com Ele, não que fossem os próprios Patriarcas em presença mas as suas projecções luminosas Aquém-Akasha, isto é, no Akasha ou Éter inferior, que pouco depois se desvaneceriam como que absorvidas pelo Corpo de Glória do Senhor.

Isso estaria em conformidade com a Tradição, pois Moisés representava a Lei (Torah) e Elias a Profecia (Neviim) tomando forma viva no próprio Mashiach.

Exaltado, Pedro propôs “armar três barracas para Cristo, Moisés e Elias”. Mas a frase é desconforme e contraria a possibilidade de Pedro possuir conhecimentos superiores, aliás, apresenta-o ingénuo, simples, rendido. Contudo, o texto aramaico transposto para o greco-latino não fala em “barraca” mas em tenda, ou num derivado filológico desta. Como termo afectivo, “armar a tenda” representa a própria pessoa, sendo que na tradição talmudística hit ohel mo´ed é a “tenda do encontro”, com fim sagrado, tal qual o latim tabernaculum, “tabernáculo”, donde proveio a simples tendere, “tenda”. A tenda abrigo comum nos povos do deserto, chamada obel em hebraico, skene em grego e tendere em latim, são sentidos ordinários ou vulgares incabíveis em tamanho Mistério e nos escolhidos para testemunhar a sua Revelação, assim só sobrando hit ohel mo´ed e tabernaculum. A pretensão seria exclusivamente a seguinte: Pedro quis levantar um tabernáculo em honra do Mistério revelado.

Primitivo lugar de culto dos povos cananeus, considerado Mons Sacer pelas tribos de Zabulão, Issacar e Neftali, com a altura de 300 metros, cuja forma cónica faz lembrar um vulcão apesar da sua origem calcária, revela-se de uma grande beleza natural onde, entre lírios e açucenas primaveris, parece ainda descortinar-se dentre as brumas da memória sagrada a presença sublime do Avatara do Ciclo de Peixes transfigurado, revelando o seu Corpo de Luz à Humanidade inteira, ressoando as divinas palavras:

– Eu sou o Caminho do Mestre, a Verdade do Discípulo e a Vida da Obra!

 

NOTAS

 

[1] Laurentus, Ocultismo e Teosofia. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1983.

[2] Sebastião Vieira Vidal, Série Juventude. Edição Sociedade Teosófica Brasileira, São Lourenço, Brasil.

[3] Henrique José de Souza, Livro Síntese da Missão dos Sete Raios de Luz. Obra reservada constando de 52 capítulos terminada em 28 de Setembro de 1935.

[4] Annie Besant, O Cristianismo Esotérico. Editora Pensamento, São Paulo, 1978.

[5] António de Macedo, Cristianismo Iniciático. Ésquilo Edições e Multimédia Lda., Lisboa, Março de 2011.

[6] H. P. Blavatsky, Isis Sin Velo, tomo II. Editorial Sirio, S.A., Málaga, 1988.

[7] Sarita Leonel e Aloísio Costa Sampaio (Orgs.), A Figueira. Editora Unesp, São Paulo, 2011.

Mistério do Baptismo (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jan 13 2021 

O edomita Herodes I governou a Judeia deste o ano 37 a 4 a.C., região anexada à província romana da Síria depois da tomada de Jerusalém em 63 a.C. Quando o edomita soube pelos Reis Magos do Nascimento do Menino que, segundo as profecias contidas na Escritura Velha, seria o Rei legítimo de Israel, debalde procurou o seu paradeiro por todos os meios, primeiro porque ainda não tinha nascido, pois nessa ocasião, em sua longa viagem, os Magos apenas estavam seguindo os sinais dos astros preanunciando o Nascimento próximo, e depois de nascido ter ficado ocultado no seio das Ordens Espirituais que lhe serviram de cobertura protectora.

Flávio Josefo deixou o testemunho de Herodes, o Grande, ser propenso a cometer actos assassinos, fossem sobre religiosos, fossem sobre a sua própria família, fossem sobre quem fosse onde concebesse um rival. Tendo os Reis Magos iludido as suas pretensões de saber quem era a criança escolhida para o destronar, e evitando-o no seu regresso de Belém da Galileia, “seguindo por outro caminho” (Mt. 2:12), portanto, contornando Jerusalém, acabaria por ordenar o famoso infanticídio na mesma Belém. De maneira que Herodes também reproduzia aqueloutro massacre dos inocentes ocorrido três mil anos antes (hoje cinco mil anos) com Ieseus Krishna, como descreve Helena Petrovna Blavatsky[1]:

“O rei Herodes é a representação de Kansa, tirano de Mathurâ e tio materno de Krishna. Os astrólogos haviam prognosticado a Kansa que um filho de sua sobrinha Devakî arrebatar-lhe-ia a coroa e tiraria a sua vida; em vista disso, o tirano mandou matar o menino (Krishna); porém, graças à protecção de Mahadêva, seus pais conseguiram colocá-lo a salvo. Então, Kansa quis assegurar-se da morte do verdadeiro menino e, com este fim, ordenou uma matança geral dos meninos do seu reino.”

Atendendo ao carácter brutal de Herodes, como o descreve Flávio Josefo dizendo que “ele nunca parou de vingar e punir diariamente os que tinha escolhido estar ao lado dos seus inimigos”[2], não tenho dificuldade de aceitar a veracidade do massacre dos inocentes, aparte os exageros posteriores dos exegetas dos textos canónicos, certamente tendo-o feito por motivo de apologética catequética.

Mas o qualificativo ou sobrenome Inocentes ou Puros também era dado aos Iniciados na Sabedoria Arcaica no Médio Oriente antes da era cristã, como aponta H. P. Blavatsky (ob. cit.). Herodes e os seus partidários fariseus desgostavam abertamente esses Magos Iniciados, indiscriminadamente perseguindo a todos a despeito das distinções feitas pelo Profeta Daniel (2:2) entre Magos ou Sábios (Hakhammin) e adivinhos e feiticeiros (Hartummim), estes como cultores do Mundo Psíquico ou Lunar e aqueles do Mundo Mental ou Solar, conforme o indicado pelo Profeta Ezequiel (8:14-17). Ademais, juntando a tudo isso e mais que motivo para evitar os arremedos tresloucados de Herodes, os Reis Magos teriam igualmente presente a perseguição aos cultores da Arte Magna no tempo de Dário (século VI a.C.), quando os Magos ou Inocentes foram perseguidos e apunhalados em suas casas e nas ruas, tendo esse dia de matança se tornado festivo para o poder político, mediante a festa chamada Magofania [3].

No texto canónico, o massacre dos inocentes só aparece no Evangelho de Mateus (2:16-18) onde dá confirmação ao cumprimento da profecia de Jeremias (31:15). Em mais nenhuma parte dos livros canónicos aparece esse episódio do infanticídio perpretado por Herodes, ainda que apareça no Pseudo-Mateus (XVII, 1-2) e no Proto-Evangelho de Tiago (escrito cerca de 150 d.C.), neste, ao contrário daquele, com exclusão da fuga para o Egipto da Sagrada Família e trocar o foco central da história de Jesus pelo Menino João Baptista:

“E quando Herodes soube que havia sido enganado pelos Magos, furioso enviou assassinos, dizendo-lhes: “Matem as crianças de até dois anos de idade”. E Maria tendo ouvido que as crianças estavam sendo mortas, ficou com medo, tomou o menino e enfaixou-o, escondendo-o num curral. E Isabel (sua prima), tendo ouvido que eles estavam procurando por João (seu filho), tomou-o e levou-o para as montanhas, procurando um lugar para escondê-lo. Mas não encontrava nenhum. Então, Isabel, suplicando em voz alta, disse: “Ó Montanha de Deus, recebe esta mãe e seu filho”. E imediatamente a montanha abriu-se e recebeu-os. E uma luz brilhou sobre eles, pois um Anjo do Senhor estava com eles, vigiando-os.”

Em boa Teosofia e Ocultismo, isso equivale ao recolhimento de mãe e filho em alguma Fraternidade Iniciática no interior de uma Montanha Sagrada, talvez o próprio Monte de Ein Karem, no declívio ocidental de Jerusalém, referido pelo profeta Jeremias dirigindo-se aos benjamitas: “No cume de Bet-Acarem erguei uma bandeira” (Jr. 6:1). Isabel encontrava-se aí, enquanto Maria estava em Belém.

A primeira referência não cristã ao massacre só apareceu quatro séculos depois, em Macróbio (c. 395 – 423 d.C.), que escreveu na sua Saturnalia:

“Quando ele [imperador Augusto] ouviu que entre os meninos da Síria com menos de dois anos de idade que Herodes, o rei dos judeus, tinha mandado matar, também se contava o seu filho, disse: ‘Melhor seria que tivesse sido o porco de Herodes que o seu filho’.”

Esta história assumiu um papel importante na tradição cristã posterior. A liturgia bizantina estimou em 14.000 os santos inocentes degolados, enquanto uma lista síria de santos afirmou que o número seria 64.000. As fontes coptas subiram esse número para 144.000 e dataram-no em 28 de Dezembro[4] (Santos Inocentes). Tomando a narrativa ao pé da letra e estimando a população de Belém na época, a Enciclopédia Católica (1913) sugeriu que esses números estavam inflacionados e que provavelmente teriam sido entre seis a vinte crianças assassinadas na povoação e cerca de uma dúzia nas redondezas.

Dando como certo o infanticídio, aparte o número incerto de vítimas, Mateus retoma o relato dizendo que o acontecimento foi antecipado por um Anjo – possivelmente Gabriel – ou um Jina, Ser Superior de alguma dessas Fraternidades Iniciáticas Secretas da época que avisou José, num sonho profético, a fugir depressa com a sua esposa Maria e o filho para o Egipto (Mt. 2:13-23). Assim fez, indo a Sagrada Família escapulir-se na escuridão da noite tendo por montada um burrico[5].

Existiam dois itinerários principais para chegar ao Egipto. Um, mais cómodo mas também o mais frequentado, descia pela margem do Mediterrâneo e atravessava a cidade de Gaza. Deverão ter evitado esse. O outro, menos utilizado, passava por Hebrom e Bersabé, antes de atravessar o deserto de Idumeia e entrar no Sinai. Terão escolhido esse, como aconselhou o Anjo, segundo o Pseudo-Mateus. Tratava-se de uma longa viagem, de várias centenas de quilómetros, que deve ter durado de dez a catorze dias.

Em Hebrom ou em Bersabé (esta última cidade situada a 60 quilómetros de Belém), deverão ter comprado provisões antes de enfrentar a travessia do deserto. É provável que nessa parte da viagem se tivessem incorporado a alguma caravana, senão mesmo já se incorporando a uma caravana de Adeptos prevenidos ainda em Belém, que seria quem os guiaria ao destino certo.

Esse destino certo, para a Tradição Iniciática, era a arábica Miṣr (مصر) ou al-Qâhirah, donde Cairo, oitava cidade principal dentre outras sete representadas por igual número de Ordens Iniciáticas Secretas lideradas por Adeptos Vivos vindo a corporizar o Sistema Geográfico Egípcio, que se distende a vários países do Médio-Oriente e África intrinsecamente ligados à Vida e Obra de Jeoshua Ben Pandira e sua Família, tanto a Espiritual (apostólica) como a Humana (consanguínea).

À sombra benfazeja da Pirâmides do Egipto se recolheu a Sagrada Família beneficiando dos suaves eflúvios da Sabedoria Primordial, resguardada por Santas Criaturas da chamada Linha Serapis encabeçada pelo seu Bey ou Senhor.

Ainda assim, os historiadores contemporâneos não são unânimes em fixar o lugar de residência da Sagrada Família: Menfis, Heliopólis, Leontópolis… havendo no amplo delta do Nilo a florescência de muitas comunidades de essénios hebreus[6]. São muitos os lugares assinalados que reivindicam para si o pressuposto da Família ter estado neles. Destaca-se, sem dúvida, Abu Serghis, no Cairo, onde se encontra a igreja copta de São Sérgio e São Baco, datada do século IV, isso depois do Apóstolo Marcos ter feito a sua pastoral evangelizadora na Terra Negra de Al-Khemî, o Egipto.

Passado cerca de um ano, o Anjo ou Jina – senão mesmo a decerto informada Ordem Iniciática que acolhera a Sagrada Família – informou José que podiam regressar em segurança a Nazaré da Galileia, que Herodes I morrera. Assim fizeram.

Os evangelhos sinópticos levantam uma cortina de silêncio acerca da infância de Jesus, nada dizem sobre onde esteve e o que fez dos 13 aos 30 anos. O único episódio ocorrido nesse período da sua vida é o narrado por Lucas (2:42-51), quando durante os festejos pascais em Jerusalém o jovem se afastou dos seus pais que aflitos o procuraram por toda a parte, acabando por encontrá-lo entre os doutores (rabinos) discutindo as Escrituras entre pares no Grande Templo. A história difere ligeiramente no texto apócrifo Evangelho da Infância de Tomé (19:1-12). Seja como for, a idade dos treze anos é a fixada para a realização da cerimónia do Bar Mitzvá, “filho do Mandamento”, aquando o jovem é considerado maduro para aprender e seguir os mandamentos da Lei escrita. Mas tanto no texto canónico como no apócrifo Jeoshua não é apresentado como simples ouvinte passivo da palavra dos anciãos, antes discute activamente com eles e até se lhes sobrepõe. Então, onde terá aprendido tais e superiores conhecimentos da Lei que emudeceram os doutores no Grande Sinédrio do Templo?

Para responder a isso, tem-se o recurso aos textos tradicionais da Tradição Iniciática ao par dos apócrifos de que boa parte são escoados dela, via tradição gnóstica, além de outros tantos testemunhos que a Arqueologia tem trazido à luz.

O Evangelho de Lucas termina dizendo que depois desse episódio no Sinédrio, os pais de Jesus levaram-no de volta a casa em Nazaré. Seguiu-se o manto de silêncio, com o evangelista só dizendo que Jesus cresceu em sabedoria e em estatura (Lc. 2:52).

Os evangelhos sinópticos nada dizem da vida de Jesus entre os 13 e os 30 anos de idade. Por eles mantém-se o enigma total. Contudo, no Apocalipse de Elias [7], texto apócrifo como continuação do Apocalipse de Sofonias, dá-se Jesus vindo da “Cidade do Sol”, em Menfis, Egipto[8], na qual eram celebrados os apolíneos Mistérios de Osíris, para a comunidade essénia do Monte Karmel (Carmelo), no norte de Israel, que era cultora do messianismo bicéfalo, ou seja, do Messias e do/como Rei. Depois, em 1923, munido de autorização especial para pesquisar na Biblioteca Secreta Vaticana, o húngaro Edmond Bordeaux Szekely encontrou entre outras raridades o chamado Evangelho Essénio da Paz [9], pressupostamente escrito pelo próprio São João Evangelista, descrevendo passagens da vida desconhecida de Jesus que o davam como líder essénio. Também o Professor Henrique José de Souza indica um documento com quase dois mil anos descoberto no Monte Carmelo, levando de cabeçalho: Jesus esteve … entre os Essénios, faltando uma palavra que ele repôs: Jesus esteve AQUI entre os Essénios [10]. Igualmente Raymond E. Brown expõe a proximidade do Cristo aos essénios e nazarenos tomando por base os escritos canónicos e apócrifos, num discurso que convence mais do que desmente[11].

Atendendo aos dois Irmãos Gémeos, Jesus e Jairo, a Tradição Iniciática desloca Jesus para o seio da Ordem Nazireia e Jairo para o redil privilegiado da Ordem Essénia, enfocando nesse último o privilégio de Rex aguardado, como já haviam feito os Magos.

Sobre esse último aspecto, Pinharanda Gomes, na sua monografia Memória acerca dos Reis Magos (Braga, 2012), escreveu:

“Herodes chamou os Magos e apoiou a sua ida a Belém, pedindo que, tendo encontrado o Rei, o informassem, para também ele lá se deslocar e adorar. Os Magos foram, fizeram o que tinham a fazer, e regressaram às suas terras, mas avisados por um Anjo, evitaram passar por Jerusalém (Mt. 2, 12). O Evangelho Arménio da Infância, apócrifo do séc. VI, dedica o capítulo X à minuciosa descrição dos Magos a Jerusalém, concitando a curiosidade de Herodes, que os questionou: – Quem vos informou dessas coisas e como as soubestes?

“Os Magos responderam que tinham recebido um testemunho escrito, guardado e selado, durante anos e anos, e que um Anjo lhes revelou esse testemunho, não por ser humano, mas por desígnio divino. Logo Herodes os interpelou sobre o paradeiro de tal livro, e os Magos replicaram que nenhuma nação, excepto a deles, tinha conhecimento directo ou indirecto desse documento, e narraram a história de Seth, constante do Livro da Caverna dos Tesouros [12].

“Numa das mais antigas histórias orientais, sobre a viagem dos Magos, aparece este Livro que estivera guardado na caverna do Monte das Vitórias[13], estando relacionado com o Pecado Original. De acordo com a narrativa nele contida, e num acto sacrificial messiânico, Adão, após a queda, escondeu os dons (ouro, incenso e mirra) na “Caverna dos Tesouros”, aí ficando enquanto gerações e gerações passavam, até que, cumprindo as instruções de Adão ao filho Seth, os Magos os levaram a Belém onde reconheceram o Deus Menino como o esperado Messias, tudo isto sendo também narrado por um dos apócrifos árabes, o Evangelho Árabe da Infância (cap. VII), embora os escrituristas modernos considerem que tal narrativa é de origem siríaca[14]. Era o termo de uma longa viagem que durara apenas treze dias (segundo uns) e nove meses segundo outros.

“Segundo um monge carmelita do século XIV, João de Hildesheim[15], que terá herdado algumas catequeses do tempo em que os seus confrades do Monte Carmelo ainda haviam registado tradições orais, e que também se serviu dos apócrifos, os três Magos foram depois evangelizados pelo apóstolo Tomé, que evangelizou a Índia até ao Malabar. Tomé baptizou os Magos, que se tornaram apóstolos, sendo consagrados bispos. Faleceram já muito idosos, segundo a lenda áurea.”

Desse trecho do insigne e saudoso amigo (Jesué Pinharanda Gomes, Quadrazais, Riba-Côa, 16.7.1939 – Santo António dos Cavaleiros, Loures, 27.7.2019) destaco três apontamentos: 1.º) O Livro da Caverna do Tesouro, que aponta a condição primacial do Género Humano, portanto, recambia para as suas origens antropogénicas, sendo tal fólio uma espécie de Livro ou Memória da Natureza, os chamados Registos Akáshicos ou Livro do Kâmapa; 2.º) A Caverna do Tesouro é epíteto igualmente dada a Agharta, o Mundo Subterrâneo dos Deuses “celeiro monádico das raças humanas do passado, presente e porvir”, segundo Henrique José de Souza; 3.º) A lenda áurea dos três Reis Magos baptizados por Tomé, o “Gémeo”[16], possui o sentido diverso do reconhecimento de Jairo Ben Panthera como Rex, ainda na cena presepial, pelos três principais representantes do Governo Oculto do Mundo, cujo destino deveria ser a restauração do Império Sinárquico da antiga Israel distendendo-o ao Ocidente, com o seu aspecto espiritual em Jeoshua Ben Panthera como Messias redentor do Karma Semita desde os evos finais da Raça Atlante.

A pregação e obra de Jeoshua Ben Panthera teve como centro principal a opulenta cidade de Cafarnaum, a noroeste do Lago Genesaré, cujo norte e oeste desse era ocupado por tribos descendentes de Zabulon e Neftali, portanto, mais além do Rio Jordão[17]. “Galileia dos gentios” (Mt. 4:15) era chamada essa parte do território por nele coabitarem gentes de várias origens com os seus cultos próprios mas entremescladas aos hebreus. A Síria abrangia as regiões ao norte da Galileia. A Decápole, “dez cidades”, situava-se a nordeste da Galileia e era habitada por povos de origens diversas, sobretudo asiáticas hindustânicas, explicação do facto de Jairo ter entrado em contacto com os mesmos e depois, após o Mistério do Calvário, ter encetado viagem para o Norte da Índia, para a região de Srinagar, na província de Cachemira, onde ficaria conhecido como Santo Issa, segundo o documento depositado na biblioteca do mosteiro lamaísta de Himis, em Leh, capital do Ladack, o “Pequeno Tibete”, conforme a informação disponibilizada pelo jornalista viajante Nicolas Notovitch[18]. O facto é que a maior comunidade judaica na Índia está em Srinagar, como também o santuário de Rozabal onde se encontra o túmulo do Santo Issa, venerado unanimemente sem distinguir hindus, judeus, cristãos[19] ou islâmicos, estes que lhe chamam Yuz Asaf (Youza Asouph), como seja, “Mestre dos Terapeutas”[20].

Retomando o relato dos textos sinópticos, neles aparece Jesus já com trinta anos predicando Aquém e Além Jordão, em cujas margens deste um outro Iluminado com inúmeros seguidores predicava e baptizava em nome do que haveria de vir: João Baptista, o Anunciador ou Arauto (Yokanan), cujo verbo inflamado convulsionava as consciências ouvintes provocando autênticos “golpes de estado” mentais e morais, tanto políticos como religiosos.

João era filho de Isabel, prima de Maria, e do sacerdote Zacarias. Nasceu na vizinhança da data do nascimento de Jesus e faleceu em 28 d.C., aproximadamente. O seu nome Iohanan Ab Kerem, em aramaico, remete para o local onde terá nascido: Ein Kerem, aldeia a cerca de seis quilómetros de distância ao oeste de Jerusalém. Segundo o Evangelho de Lucas era nazireu de nascimento, enquanto outros textos dão-no como integrado na Ordem Nazirita ou Nazarena na puberdade, sendo considerado unanimemente um homem consagrado ou eleito (kadosh).

O único relato sobre o nascimento de João Batista está no Evangelho de Lucas (1:5-25) que não é pródigo em pormenores, ao contrário do Proto-Evangelho de Tiago. Não tendo Zacarias e Isabel filhos, já sendo de idade avançada, durante um serviço no Templo de Jerusalém ele foi escolhido para incensar o altar dourado do Santo dos Santos. Foi então que aí lhe apareceu o Anjo Gabriel e lhe predisse que a sua esposa – pertencente à Ordem das Filhas de Aarão, Sacerdócio Menor – iria dar à luz um menino (Lc. 1:8-23). Zacarias não acreditou no Anjo e foi-lhe retirada a voz (simbolismo remetendo para a perda da Palavra Primordial assim se tornando Palavra Perdida). Com o nascimento de seu filho os parentes quiseram dar-lhe o nome do pai, mas Zacarias, sem poder falar, contestou escrevendo: “O seu nome é João”, significando “Deus é propício”. Tendo obedecido à ordem divina, recuperou a voz, recebeu o dom da profecia e previu o futuro do seu filho, no que os exegetas o tomaram como protótipo do sacerdócio cristão. O cântico que Zacarias cantou em seguida, chamado Benedictus, é utilizado até hoje na liturgia católica.

Ao oitavo dia de nascido João, o seu pai Zacarias procedeu à cerimónia da circuncisão, o brit milá, na qual o prepúcio do recém-nascido é cortado como símbolo da aliança entre Deus e o seu povo, cerimónia post-atlante dos povos do deserto alcançando a África profunda onde a letra substituiu o espírito ou real significado da cerimónia, como seja a simbólica da pureza emocional pelo domínio passional, elevando as energias criadoras do sexo à subtilidade puramente mental. Ser casto não é o mesmo que castrado, pois um castrado apesar disso poderá nunca ser casto por as paixões continuarem a dominá-lo. A disciplina interior nada tem em comum com a mutilação exterior. Foi assim, tal como em muitos outros povos orientais e africanos, que o espírito da tradição foi substituído pela letra do costume.

A partir dos seis anos de idade, João iniciou a sua escolaridade pelas mãos de seus pais, tendo-o ensinado a ler e escrever. Aos treze anos deu-se uma mudança no ensino, e os progenitores entregaram a sua educação à comunidade nazarita de Ein Gedi, actual Qumram junto ao Mar Morto, que nada mais era que um ramo da Ordem Essénia. A sua educação ficou ao cuidado do sábio líder da comunidade chamado Ebner.

Tendo efectuado os votos nazaritas de essénio, a disciplina implicava a abstenção de bebidas alcoólicas, o regime naturalista ou vegetariano e, sobretudo, o não tocar nos mortos, isto é, não se entregar às funestas práticas necromantes características dos hartummim, cujas práticas psiquistas roçavam e até adentravam a involucional goécia ou magia negra, razão por que Moisés e os Profetas os condenaram, perseguiram ou ostracizaram remetendo-os para a condição de leprosos, isto é, de ímpios psicofísicos contrários à Lei de Evolução. Entre o Teurgo medianeiro e o médium animista a distância entre eles, em palavras e actos, é maior que a da Terra à Eternidade. Os primeiros são partícipes dos Mistérios, os segundos cevam à margem dos Mistérios.

Segundo o relato bíblico (Mateus 3:4) que despertou as imaginações plasmadas na iconografia piedosa, João trajava de maneira simples (uma veste de pele de camelo com um cinto de couro cingindo-a) e alimentava-se de maneira igualmente simples: “mel silvestre e gafanhotos”, palavra esta que antes poderá ser alfarrobas, possível confusão na tradução do texto aramaico para o grego e depois o latim devido à similitude dos termos hebraicos hagavim, “gafanhoto”, e haruvim, “alfarrobeira”. Esta é árvore (Ceratonia siliqua) nativa da região mediterrânica e médio-oriental de fruto adocicado comestível, chamado em hebraico charuv, “semente”, completado pelo árabe al-karrub, “vagem”, sendo ainda conhecida como Pão de João, Pão de São João, Figueira de Pitágoras e Figueira do Egipto [21].

Mas não deixa de ser verdade que os povos do deserto arábico e africano, devido à escassez de alimentos na aridez imensa, comem gafanhotos levemente torrados no fogo ou secos ao sol e salgados, depois de lhes tirarem a cabeça, asas e intestinos. Nisto, a palavra gafanhoto remete igualmente para o significado de broto, a ponta ou extremidade da videira, mais uma vez recambiando para o sentido de regime naturalista ou vegetariano.

Igualmente no Talmude é feita menção à alfarrobeira, na parábola de altruísmo conhecida como “Honi e a árvore de alfarroba”, mencionando que uma alfarrobeira leva setenta anos para dar frutos, o que é interpretado como o plantador não ir beneficiar do seu trabalho mas agindo no interesse das gerações futuras, apesar de na realidade a frutificação das alfarrobeiras variar.

João exercia o rito do baptismo considerado como de passagem para uma vida nova (Mc. 10:38 e Lc. 24:49), em consciência e vivência, e consequente aceitação entre-pares no seio da comunidade e da Ordem. Rito egípcio adoptado pelos mitríacos e depois pelos hebreus, tanto por levitas herdeiros do Tabernáculo do Deserto como, sobretudo, por essénios, interpretado como ritual de purificação, a ablusão do baptismo realiza-se com água sobre o iniciado por imersão, efusão ou aspersão. O termo português baptismo é a transliteração do grego baptismö para o latim baptismus, conforme se lê na Vulgata Latina em Colossenses 2:12. Este substantivo também se apresenta como baptisma e baptismós, derivado do verbo baptizö, podendo ser traduzido por “baptizar, imergir, banhar, lavar, derramar, cobrir, tingir ou purificar”, conforme se utiliza na Escritura Nova e na Septuaginta, a versão da Bíblia hebraica traduzida para o grego koiné. Através da discussão entre os discípulos de João e os discípulos de Jesus (João 3:25:26) observa-se que as purificações ou katharismós são utilizadas como sinónimas de baptismo.

No baptismo cristão é utilizado um de dois modos: por aspersão ou efusão, como nos ritos de purificação na Escritura Velha, onde se aspergia o óleo e o sangue crismando no reconhecimento de novo filho de Israel, agora crismando com óleo e água purificando o sangue no espírito do Sangue de Cristo. Ou por imersão, não deixando de haver derramamento de óleo sobre o baptizado, expressando o derramar e lavar do Espírito Santo, afundando para a velha vida pecaminosa ou profana e emergindo como nova criatura revestida da presença de Cristo.

Foi no modo de imersão que Jesus foi baptizado no Jordão, aonde se deslocou e requereu ser baptizado, apesar dos protestos iniciais de João considerando-se seu Arauto e não o Anunciado, conforme repetia aos seus seguidores naziritas e outros, assinalando a sua reforma moral consolidar-se pelo baptismo na água (Iniciação Lustral ou Astral), enquanto a daquele pelo baptismo de fogo (Iniciação Ígnea ou Mental) na Sabedoria contida no Espírito de Santidade.

“Então Paulo lhes explicou: O baptismo realizado por João foi um baptismo de arrependimento. Ele ordenava ao povo que cresse naquele que viria depois dele, ou seja, em Jesus!”Actos 19:4.

“Então João esclareceu a todos: Eu, de facto, vos baptizo com água. Entretanto, chegará alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno sequer de desamarrar as correias das suas sandálias. Ele sim, vos baptizará com o Espírito Santo e com fogo.”Lucas 3:16.

Jesus adverte João que a Lei tem de cumprir-se escrupulosamente, para ficar o seu registo às gerações futuras.

E João cede… Jesus acede à ribeira, junto com aquele, que agarrando-lhe suavemente a cabeça fá-lo mergulhar no Jordão.

Momento electrizante, os camelos param, serpentes e chacais do deserto também, os pássaros quedam seu canto, seu voo, os homens contraem-se tensos, a Natureza retrai-se sustendo o hálito vital… Angústia e aguardo de um momento único… só o rio corre, mansamente, rompendo o silêncio geral ante o Mistério anunciado pelos profetas e sibilas nos evos da memória.

Então, num frémito de luz qual pomba branca irrompe do Céu o Espírito de Cristo indo fundir-se vitalmente no Cresto, solene e poderoso erguendo-se da água e caminhando vagaroso e só, imponente para o Deserto do Mundo, com a Natureza erguendo-se em tons de glória e os homens ajoelhando rendidos ao Mistério Vivo.

Manifestara-se o Avatara, o Messias, o Bodhisattva Compassivo, a Luz do Segundo Trono, o Senhor dos Três Mundos, chame-se-Lhe Christus ou Maitreya, tanto vale, pois é O Sem Nome por os ter a todos.

Esse é o significado derradeiro de “o Espírito do Senhor repousa sobre mim” (Lc. 4:18), tendo Apolinário de Laodiceia (c. 310 – c. 390) classificado o acontecimento como a União Hipostática, descrevendo-a como a união da natureza divina do Cristo e da natureza humana de Jesus em uma só Essência ou Substância, esta que é a do Logos no seu Segundo Aspecto humanizada, manifestada como Terceiro Aspecto.

Teodoro de Mopsuéstia ou de Antióquia (350 – 428) também argumentou que em Jesus, o Cristo, coabitavam em simultâneo duas naturezas e duas substâncias divina e humana, o que posteriormente a Igreja Ortodoxa Oriental aceitou no Concílio de Calcedónia, no ano 451, mas insistindo que essa definição não seria tanto de natureza mas mais de pessoa, no que concordava com o conceito trinitário de Deus como Três Hipóstases ou Prosapas, teosoficamente Imanifesto – Gerado – Manifestado. Assim, o Concílio declarou que no Messias há duas naturezas, cada qual com as suas próprias propriedades, juntas, unidas numa substância e numa pessoa.

Ainda assim, houve rejeições motivando até a separação das Igrejas Síria e Alexandrina (Copta). Os que rejeitam o Credo de Calcedónia são monofisistas, só aceitam Cristo como tendo uma única natureza, enquanto os restantes são diofisistas, aceitando a União Hipostática de Cristo.

Como a simples teologia carecendo de conhecimento teosófico não consegue explicar o significado da Encarnação ou Manifestação Divina (Avatarização), e de que forma se realiza a união das duas substâncias de Purusha e Prakriti (Espírito e Matéria), remete a União Hipostática para o conceito de União Mística, mesmo nisso tendo o Transcendente o o Imanente se unido e manifestado, condição dispondo o Cristo Universal como Senhor dos Anjos e Homens e de todas formas manifestadas nos Três Mundos (Céu, Coeli, Terra, Terris, e Inferno, Inferius, ou Mundo Subterrâneo)[22], consequentemente, o legítimo possuidor do trirregnum na soberania de Supremo Instrutor do Mundo.

 

NOTAS

 

[1] Helena P. Blavatsky, Glossário Teosófico, pág. 250. Editora Ground Ltda., São Paulo, 2012. Edição da versão original, publicada por G.R.S. Mead em Londres, 1892.

[2] Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro XV.

[3] Heródoto, Os Nove Livros da História, III, 79.

[4] E. Porcher, Patrologia Orientalis, Paris, 1915, tradução e edição de Histoire d´Isaac, patriarche Jacobite d´Alexandrie de 686 à 689, écrite par Mina, évêque de Pchati (em árabe, grego e siríaco), t. 11, p. 526.

[5] O burrico ou asno, montada dos Seres Divinos, irá aparecer inúmeras vezes ao longo da vida do Meigo Nazareno. É animal simbólico da paz, inocência, desapego, pobreza, humildade e também da coragem. A Tradição Iniciática não hesita em atribuir-lhe o símbolo do Conhecimento, da Sabedoria das Idades. Ele está presente sobretudo na segunda fase da vida de todo o Avatara, a Consumação, enquanto na primeira, a Manifestação, por norma aparece montado num fogoso alazão branco.

[6] A proximidade entre israelitas e egípcios está confirmada na famosa Estela de Israel depositada no Museu Arqueológico do Cairo, descoberta em 1896 por Flinders Petrie no primeiro piso do templo mandado construir em Tebas por Merenptha, décimo terceiro filho e sucessor de Ramsés II. Cf. Jean-Pierre Corteggiani, L´Egypte des Pharaons au Musée du Caire. Éditions Aimery Somogy para a 1.ª edição, Paris, 1979, reeditado, revisto e corrigido pelas Éditions Hachett, Paris, 1986.

[7] Mila Antares, Apocalipse de Elias – Textos apócrifos. São Paulo, 2020.

[8] Nesse caso, será Heliopólis, “Cidade do Sol” ou Aton, referência destinada a reforçar o carácter solar ou superior do Cristo como Avatara, a apolínea “Manifestação da Divindade”.

[9] Edmond Bordeaux Szekely, O Evangelho Essénio da Paz. Editora Pensamento, São Paulo, 1997.

[10] Henrique José de Souza, O Verdadeiro Caminho da Iniciação. São Paulo, 1966.

[11] Raymond E. Brown, The Birth of the Messiah: A Commentary on the Infancy Narratives in Matthew and Luke. G. Chapman, London, 1977.

[12] Pat. Graeca, 56, cols. 611-946.

[13] Título dado ao Monte Carmelo, do siríaco Kerem, “jardim, horto, vinhedo”, desde que aí o profeta Elias vencera os sacerdotes de Baal e depois foi triunfalmente arrebatado aos céus, segundo o I Livro de Reis. Também aí viveu o profeta Eliseu e foi fundada a Escola de Profetas, El Hader, em árabe. Na parte oeste do monte existem numerosas cavernas, mais de mil, com aberturas estreitas mas muito amplas.

[14] Aurélio dos Santos Otero, Los Evangelios Apocrifos. Ed. bilingue crítica, Madrid, BAC, 1988, pp. 303-306. Antes: P. Peeters, Évangiles Apocriphes II: L´Évangile de l´Enfance. Redactions syriaque, arabe et arménienne, traduites et annotées, Paris, 1914.

[15] João de Hildesheim, O Livro dos Magos, trad. port., da versão italiana, Lx.ª, Principia, 2004. Cf. outrossim, Reis Magos, História, Arte, Tradições. Fontes e referências, de A.M. Furtado da Silva, Ed. Léo Christiano, 2006.

[16] Segundo vários exegetas interpretando os textos canónicos à luz dos apócrifos, sobretudo do Evangelho da Natividade da Virgem Maria, da História de José, o Carpinteiro, e da Vida da Virgem e a Morte de José, do seu casamento com ela tiveram sete filhos: Jesus, Tomé, Efraim, Simão, Elisabeth, André e Ana.

[17] No tempo de Jesus Cristo a Palestina estava dividida em quatro partes: Judeia, Samaria, Galileia e Pereia, sendo esta última vulgarmente chamada “Além Jordão”.

[18] Nicolas Notovitch, A vida desconhecida de Jesus Cristo na Índia e no Tibete. Edição original em 1894, reedição por Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Fevereiro de 2006.

[19] Holger Kersten, Jesus viveu na Índia. Madras Editora, São Paulo, 2004.

[20] Cf. Nicholas Roerich, Heart of Asia. Roerich Museum Press, New York, 1930.

[21] António Houaiss, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, vol. IX. Temas & Debates, Lisboa, 2005.

[22] Pinharanda Gomes, Dicionário de Filosofia Portuguesa, Messianismo, pp. 147-155. Ed. Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1990.

Página seguinte »