Descomplexo e complexo no `Portugal Ressuscitado´ – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Jan 15 2018 

PREÂMBULO

Subentende-se, nas entrelinhas do moderno pensamento falado e escrito, que o suposto da primazia de Portugal e o pressuposto do amplexo universal de Portugalidade, não fazem sentido senão como poesia e quimera ante o constrangedor da realidade objectiva, do estado psicossocial do país permanente desfalido economicamente, derrotado estruturalmente e de alma desmoralizada.

Essa adopção mental modernista não vai além da metade final do século XIX, terá nascido de alguns românticos germanófilos e filosofistas afrancesados achando Portugal provinciano em tudo e o estrangeiro em tudo progredido, conceito e preconceito que então invadiu as artes e letras portuguesas como elemento estranho à sua identidade cultural e à idiossincrasia motora da estrutura psicossocial da nação em que subjaz o universalismo – pois que Império fomos, como o primeiro do Ocidente europeu – da noção Portugalidade, que começa na língua e se prolonga nas várias expressões características únicas do autóctone, dizia, esse pensamento modernista de certos modernos incompreende, por isso rejeita linearmente, o sentido electivo de Pátria Geográfica e, sobretudo, o ser Pátria Mítica. Não percebe nem quer entender o silogismo mínimo do ser e sentir Portugal como algo transcendente em sua natureza peculiar, como algo trescalando inédito ou sui generis nos costumes e tradições, dos mínimos aos mais elaborados, constituintes da identidade própria desta nação mais antiga da Europa cerca de meio milénio.

Aplicando sobretudo a literacia avant-garde feita dum vocabulário dissecado, complexo e complexado próprio de uma esquizofrenia psicomental limitadora da existência e do pensamento, intentando o derrube de toda e qualquer espécie de esperança tanto ao singular como ao plural em querer ser alguma coisa mais como cidadão e nação, começando na crítica feroz a quem pensou e pensa a Portugalidade transcendente e a identidade do pressuposto destino e missão da mesma, tanto ou tão pouco só pode desfechar, dissecadas as esperanças e neutralizadas as pretensões, no intento da morte de Portugal.

Aparecem no rol do racional assente no irracional, apregoando a pressuposta morte moral e caída amoral de Portugal, isto que por consequência levaria à perda da independência anulando as fronteiras geopolíticas, sem mais nem menos, aparentando desatender propositadamente aos demais factores psicossociais fundamentais do Corpo Nacional que são o cimento da Identidade Nacional, o hodierno nome de um Miguel Real (pseudónimo do escritor e ficcionista lisboeta Luís Martins)[1], postulando a mesma ideia ao lado de outros autores redutores da ideia de pátria e patriotismo, cuja crise de identidade com a nação onde nasceram parece recambiá-los à criação de um novo religiosismo niilista político-filodóxico, cuja fé inflamada no não divino vem a revelar numa vaidade pública, em nome de vaga e nebulosa noção “humanista” sempre e só teórica, ser apóstata desgostoso nas fímbrias íntimas o ter nascido em Portugal.

O autor citado, empático à linha positivista de Eduardo Lourenço no que toca às linhas mítico-sociais do povo português[2], afirmou-se-me publicamente “anti” Fernando Pessoa e sobretudo “anti” Agostinho da Silva, decerto por esses não encaixarem em pensamento e no exercício na fórmula laica de militantismo socialista avant-garde, teorizado “humanista”, fatalmente ausente de duração, solução e espiritualidade, e separa a História Nacional em vários ciclos atribuindo à Nação, representada pelos personagens mais marcantes desses mesmos ciclos, uma série de defeitos propagados e assimilados colectivamente, cuja resultante é a (omni)presente e fatal desmoralização de Portugal.

Tais defeitos originados (complexos ou nidanas) pelo artificialismo dialéctico modernista, vêm primar pela ausência de entendimento das virtudes originais (descomplexos ou skandhas) que assistiram à fundação e desenvolvimento desses mesmos ciclos históricos, feitores do País e da sua Identidade, onde só muito recentemente o materialismo dialéctico assume pretensões de sobrepujar a dialéctica do Espírito.

Não será boa profilaxia pedagógica ostracizar os inúmeros personagens do século XX português que pensaram e autoraram com provas sobejas o peculiar da identidade ibérica e, sobretudo, portuguesa, contrariando plenamente os arremessos inglórios de alguns, poucos fiteiros da inglória portuguesa sem identidade própria, sem missão nem transcendência, reduzida ao tamanho do aro dos umbigos desses propagadores, que mesmo falando português escusam o pressuposto provado do singular do Pensamento e Filosofia Portuguesa. Pelo contrário, têm-se os nomes incontornáveis de F. da Cunha Leão[3], cuja análise psicossocial é tese redundando na prova de haver Identidade singular no Ibero e, particularmente, no Português; ainda mais próximo, o incontornável Josué Pinharanda Gomes, incansável organizador do vastíssimo sistema do Pensamento e Filosofia Portuguesa que já reuniu em vários volumes de raro brilhantismo, sendo o primeiro datado de 1967 [4]. Isto sem esquecer Sampaio Bruno, António Sérgio, Teixeira de Pascoais, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Leonardo Coimbra, António Quadros, António Telmo, Dalila Pereira da Costa e inclusive Manuel Gandra, dentre muitos outros que, com sobejas provas dadas ao país e ao mundo, reiteram a intemporalidade na temporalidade da Formula Mentis Lusitanea.

Falar da Fórmula Mental Lusitana não é despropósito, sobretudo na agitação psicossocial deste tempo intercíclico em que “nada é certo e tudo é bruma de incerteza”, por germinação de valores novos em conflito com os velhos germinados, como é próprio na gestação e parto de uma nova Idade, de uma nova condição de civilização na qual o “português é tudo ou o seu nada”, isto é, tudo por ter identidade própria no seu espaço próprio, que é a nação, e nada por ser abstractamente dentro do tudo, seu anverso, a síntese, que é sempre a ausência da multiplicidade. Por isso e dando-lhe por assento o mito (raiz grega do termo mistério), Fernando Pessoa parabolizava que “o mito é o nada que é tudo”, este para a Pátria Mítica e aquele para a Pátria Geográfica. Ambos os axiomas se encontram, completam mas são nada para os intellectus limitados, sendo tudo para os de cognoscio ilimitado. Estes são livres e racionais, amam a Pátria e o Homem porque os sentem e compreendem na mais ampla universalidade; aqueles são escravos da sua própria irracionalidade, auto-amesquinhados na inferioridade do seu ser, da Pátria e do Homem tudo de bom para eles querendo, mas à Pátria e ao Homem nada de bom dando.

I

Para entender a Formula Mentis Lusitanea ou o seu Arquétipo Primordial, primeiro tem que se situar a posição geográfica da Península Ibérica e do seu nativo, o Hommo Ibericus, base antropológica dos demais povos que aqui habitaram até chegar ao Português actual, consequência de caldeações e mais caldeações raciais ao longo dos Ciclos em que se reparte a Vida Universal.

O carácter peninsular limitado pelo Oceano Atlântico a Oeste e pelo maciço natural das montanhas dos Pirinéus a Leste, criou-lhe isolamento geográfico relativo à restante Europa continental, algumas vezes contribuindo para originar uma relativa separação entre a evolução da Península Ibérica e a do restante continente. Porém, a sua localização geográfica constitui a ponte que une a Europa ao Norte da África, formando uma conexão entre os continentes africano e europeu. Outro condicionador foi a dupla influência do mar, com a ligação tanto ao Oceano Atlântico como ao Mar Mediterrâneo. No interior, a acção dos rios, mais caudalosos que actualmente, produziu planícies fluviais propiciadoras de ambiente favorável ao Homem, extinta a actividade vulcânica que antecedeu as quatro Eras Glaciais e Inter-glaciais.

O clima deixou de mudar à medida que essas Eras se desenrolavam alternadamente, e de modo geral pode dizer-se que na Meseta Ibérica havia um clima mais extremo e chuvoso que agora. A costa cantábrica era muito mais fria e húmida, e a Andaluzia gozava de um clima mais frio que o do Sul da França. No último período Inter-glacial, este ficaria como o clima da costa cantábrica, enquanto a Andaluzia ficou muito ensolarada e a região Levantina teve um clima semi-árido.

Tendo em conta que a maior actividade dos habitantes primitivos da Ibéria consistia na caça (Paleolítico), e só muitíssimo depois apareceria a agricultura (Neolítico), convém mencionar as transformações que a fauna ibérica teve com as mudanças climáticas. Nos Períodos Glaciais, os animais característicos foram o mamute, o rinoceronte peludo e a rena, espécies vindas do Centro e Norte da Europa que procuravam o clima relativamente ameno da Península. Durante os períodos Inter-glaciais, o elefante meridional, o elefante antigo e o rinoceronte de Merk foram os animais mais comuns. Indiferentes a todas as mudanças climáticas, também havia outros animais como ursos, lobos, cavalos, bisontes, javalis e cabras, sendo farta a fauna fluvial dos rios e lagos.

Todos esses fenómenos geraram uma variedade cultural de vida e mentalidades, o que explica a diversidade permanente do território peninsular, algo assim como um “micro-continente” dentro da Europa, a Sudoeste da mesma formando quase um “trapézio” cujo elo de ligação com o restante continente é o istmo pirenaico, no resto rodeado a Norte, Oeste e Sul pelo Oceano Atlântico, com a restante costa Sul e Leste pelo Mar Mediterrâneo (o Mare Nostrum de Estrabão, celebrado por Fernando Pessoa associando-o ao Mercúrio Hermético), sendo o ponto mais ocidental o Cabo da Roca, em Sintra, Distrito de Lisboa, e o mais oriental o Cabo de Creus, no Alto Ampurdán, na Catalunha.

Ao longo dos tempos a Península Ibérica foi chamada com vários nomes, enquanto era governada por povos distintos. Dentre eles, destacam-se os de Ibéria e Hispânia. Ibéria foi o nome que os gregos deram à Península, muito possivelmente por só conhecerem a parte em torno do Rio Íber ou Ebro[5]. Já Hispânia – topónimo associado ao filólogo Hespérides – foi lhe imposto durante a ocupação Romana. Os árabes chamaram-lhe Al-Andalus, separando a Península em Ocidental (Gharb) e Oriental (Chark), enquanto os judeus batizaram-na Sefarad, onde se localizariam os sefarditas. A região, depois do período histórico denominado Reconquista cristã, foi se transformando com a expulsão ou conversão dos árabes, até que Portugal surge como Estado em 1139, confirmado pelo Papa Alexandre III pela emissão da bula Manifestis Probatum. Só 353 anos depois, com o casamento em 1492 de D. Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, e com a reconquista de Granada nesse mesmo ano, o último reino ou emirado árabe (nazarí) na Península Ibérica, é que a Espanha surge como nação tendo transformado em províncias, mais ou menos autóctones, os seus vários reinos, alguns com línguas distintas (sendo exemplos o galego, o basco e o catalão), todos com distintas culturas.

O Ibero é efectivamente o Homem ante-diluviano, Atlante, o povoador original donde o Íber ou Ebro herda o nome. Portanto, estará nisso o motivo dos antigos gregos assim apelidarem o autóctone peninsular, posto o radical brah tanto significar “primeiro” como “primogénito”, e daí, consequentemente, os helénicos associaram-no à condição primaz afim aos predicados naturais da Primeira Hipóstase Primordial, depois retomada pelos cristãos figurando-a no antropomórfico Pai da Criação.

O que se sabe de fonte segura, mercê dos estudos arqueológicos e antropológicos que os historiadores vieram registando, é que a presença humana na Península Ibérica recua a cerca de 1 milhão e 500 mil anos, portanto, inserida no Período Quaternário, mesmo assim havendo fortes indícios de humanidade ibérica para lá daquele, nos finais do Período Terciário, pomo de confusão para muitos investigadores quanto à datação exacta do aparecimento do Homem nesta parte do Mundo e em todo ele.

De maneira simplificada, tem-se:

Das principais tribos ibéricas, destacam-se as dos Bastetanos e dos Turdetanos, ambas instaladas no Sul da Península, com a primeira disseminando-se no sentido NE e a segunda na direcção SO, indo resultar em outros tantos e distintos ramos e famílias. A partir dessas duas principais etnias ibéricas, desenvolveu-se o povoamento pelas várias e derivadas culturas humanas, em vagas progressivas e cíclicas, da Península até chegar na etnia Lusitana.

Estão os Lusitanos como a etnia proto-histórica mais destacada dentre todas que povoaram a Península Ibérica, principalmente por terem sido os principais intervenientes na desromanização peninsular, o embrião do “vir-a-ser”, ou seja, da formação geopolítica do futuro condado e depois país. A sua raiz idiomática ficou no falar luso-galaico, perdurando até ao final da Idade Média, donde ser a origem (aparte os latinismos, gregos e fenícios, depois também árabes) da actual língua portuguesa, enquanto a língua ibero-românica (aparte os latinismos e sobretudo germanismos trazidos para aqui do Norte da Europa pelos povos invasores) viria a ser a base filológica da actual língua castelhana. Por sua pureza e amplidão, o luso-galaico teve méritos de passar à escrita e ao falar erudito palaciano e eclesial, muito por via dos trovadores e jograis, enquanto o ibero-românico germanizado ficaria como expressão idiomática subalterna, cuja condição de língua oficial espanhola só aconteceria no meado no século XV, graças aos esforços dos reis católicos, Fernando e Isabel, dando o mote para que o seu novo país falasse uma linguagem uniforme.

Para se ficar com uma ideia clara do geral da evolução etnográfica peninsular até ao surgimento do Condado Portucalense e sua expansão, tem-se:

O Lusitano, autóctone original nómada por vocação e sedentário por necessidade, criou uma estrutura social sólida, com leis, regras, hierarquia e religião próprias, graças aos seus Reis Pastores, núcleo central da orgânica lusitana, que tomaram o nome genérico de Viriatos, e não só o Viriato que o historiador grego Diodoro da Sicília (século I a. C.) dá notícia em primeira mão num dos 40 volumes da sua História Universal, pois que já Sílio Itálico (século I d. C.) no seu poema épico, Púnica, menciona um Viriato ainda mais antigo contemporâneo de Aníbal, chamado primo Viriathus in aeuo, líder dos Gallaeci e dos Lusitanos[6]. O Viriato histórico seria o que recebeu o título de regnator Hiberae magnanimus terrae, “o mais magnânimo dos reis da terra Ibérica”, tendo o Senado de Roma chegado a pactuar com ele e quase o reconhecendo soberano de nação independente, se não fosse a traição de três dos companheiros do caudilho que o assassinaram, num pacto secreto com o governador romano da Lusitânia.

Mesmo que a superior disciplina das legiões do Lácio tenha prevalecido com a morte do último Viriato, nunca os romanos contaram com a submissão dos lusitanos, e 40.000 homens em guarda permanente nunca chegaram para suster a ânsia de liberdade dos autóctones, que vencidos nas armas acabaram aglutinando pela cultura os opressores, vencendo-os pela razão.

A condição de Viriato como rei soberano, a despeito das traições sucessivas que lhe foram cometidas, era reconhecida pelos próprios generais e cônsules romanos, ora o reconhecendo Dux do exército lusitano, ora lhe chamando Adsertor, protector da Hispânia, ou mesmo Imperator, provavelmente da confederação das tribos lusitanas e celtiberas, segundo Tito Lívio no seu Flori Epitome.

A teoria de Viriato, ou a linhagem dos Viriatos, não passar de simples pastor ou pastores dos Montes Hermínios (Serra da Estrela), é imprecisa nos dados vácuos propalados desde a segunda década do século XX [7]. Se bem que pastor remeta ao sinónimo de nomadismo, condição natural do lusitano, posso aceitar isso mas em conformidade ao definido por Maurice Pastor Muñoz, de que “Viriato seria um aristocrata proprietário de cabeças de gado”[8]. Para os romanos, os seus antepassados mais ilustres haviam sido pastores, tendo Viriato chegado a ser comparado àquele que fora o pastor mais ilustre que se tornaria no primeiro rei fundador de Roma, Rómulo. A ideologia do Rei Pastor, o Pastor feito Rei, está presente em toda a cultura mediterrânea e oriental, além da romana e grega. A metáfora do Rei Pastor do Homero era aplicada frequentemente para dar ênfase às funções e deveres de um rei, chegando Diodoro da Sicília a afirmar que “Viriato demonstrou ser um príncipe”.

Conforme informa o Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology[9], atestando a origem indo-europeia dos lusitanos por via dos ligures, eles encomiavam os seus soberanos Viriatos com os títulos honoríficos de Benfeitor (gr., Evergete) e de Salvador (gr., Soter), exactamente os mesmos dados no Egipto aos reis da dinastia ptolemaica. Viriato seria Benfeitor por seu senso de boa e universal justiça (moral), e Salvador da opressão tenaz do ocupante romano (acção); para os lusitanos seria, pois, um Rei de Justiça Universal, o próprio modelo primitivo do Guerreiro Perfeito (Kshatriya, Bellator).

A etimologia do nome Viriato derivará da raiz indo-europeia uirus, “homem”, relacionada com a força e a virilidade, que em celta se pronunciava uiro, da raiz viro e que deu no latim viri, “homem de nobreza, herói”. A elite celtibérica denominava de uiros ueramos “o homem mais alto” (nobre), cujo equivalente em latim seria summus vir. Assim, Viriato será sinónimo de “pessoa de nobreza, de cargo elevado”, portanto, um chefe distinto.

Chegado a este ponto, tem-se assente que Viriato designará não só o caudilho dos Montes Hermínios, tornado famoso pelos clássicos, mas também o colectivo da linhagem patriarcal dos Reis-Pastores da Lusitânia, iniciada com o primeiro Viriato e findada com o luso-romano Sertório. Estas palavras encontram reforço naquelas outras inseridas na obra de Adriano Vasco Rodrigues[10]:

“Houveram vários Viriathos. O nome parece ter sido vulgar na Lusitânia, como se infere de inscrições e textos clássicos. Viriatus pode aparecer em latim como adjectivo, referindo-se aos feitos valorosos praticados por um chefe; ou como transcrição fonética, mal apercebida pelos romanos, referindo um nome próprio indígena transcrito para latim. Em algumas edições críticas aparece grafado Viriathus, para o distinguir do adjectivo latino.

“Este nome seria de origem indo-europeia, derivado de uma palavra de raiz céltica, viriae, com o significado de bracelete.”

Anselmo Arenas Lopez, na sua biografia de Viriatho[11], regista de vários autores clássicos diferentes transcrições do nome do chefe lusitano: Borianzos (em J. Antiocheno), Barianzos (em Diodoro), Biriatzos e Buriatzos (em Suidas), Ouriatho (em Estrabão), Uriatho (em Appiano), Viriathus (nos Latinos).

O nome viria, “bracelete”, junto ao uirus, “homem”, deu o moderno viriato ou “homem do bracelete”, isto é, a arma defensiva que os guerreiros lusitanos usavam à semelhança dos celtas. É muito natural que essa viria fosse um símbolo de chefia no braço de um chefe aclamado pela unanimidade das tribos lusitanos e celtiberas. O que interessa é a referência intencional que o nome contém, ligada à pessoa principal que dirigiu a guerra ao opressor comum no referido período. De um outro caudilho, também chamado Viriato, fala Tito Lívio, dizendo-o chefe dos lusitanos que passaram os Pirinéus. Morreu gloriosamente na batalha de Cannas, em 216 a. C., tendo sido cantado pelo poeta Caio Silio Itálico, em Punicorum.

São três as principais fontes clássicas que servem a biografia de Viriato: Appiano, Diodoro de Sicília e Dion Cassio. Estes autores baseiam-se em Políbio, cujo relato das guerras lusitanas se perdeu. Appiano parece ter lido directamente Políbio. Diodoro buscou informações em Possidónio, assemelhando-se, por vezes, a Appiano. Dion Cassio serviu-se de outra obra literária mas procurou dados na mesma fonte[12].

Iconograficamente, a tradicional estátua do guerreiro lusitano erecto com uma redondela defensiva do seu peito (geralmente sem a falcata ou espada tradicional, o que simbolicamente é muito significativo), que se aprende nos manuais e carteiras de História Clássica como sendo a figura convencional do soldado da Lusitânia, ou até mesmo Viriato, pode muito bem ser a figuração simbólica do deus Bellus ou Endobellus, donde Endovélico, no qual a redondela aludirá ao círculo do Sol, ideia reforçada pelo símbolo solar da swástika que aparece gravada nas costas dessas mesmas estátuas, como se vê naquelas expostas no Museu Arqueológico Martins Sarmento, em Guimarães. Mesmo aparentando expressão marcial, pouco importa por se justificar pela natureza intrépida, guerreira, do lusitano montanhês, como afinal era todo o povo pastor.

Mercê do caudal bibliográfico e amplexo luso-ibérico sistematizado, ainda assim não tendo resposta para tanto e inédito na clareza dos factos, certamente a teimosia `socialiste´ de alguns pensadores do pensamento alheio, assim não sendo filósofos de saber mas filodoxos de opinião, insistirá no batido “mito salazarista” de Viriato (como se Salazar tivesse inventado a pessoa de Viriato… ele tão-só a aproveitou para a sua “ditadura romana”, para o seu nacionalismo centrípeto, nisto o caso mudando completamente de feição), indo insistir no complexo modernista de algo sem sentido mas que se dá amplexo entre pares partilhando igual complexo de inibição redutora do sentido de Portugal e Portugalidade, sobretudo partilhando a especulação naïfe da avant-garde intelectual, num caldeio intragável de História, Política e Humanismo restritos ao parcialismo pessoal, acerca da realmente desapreendida em consciência, logo, totalmente ignota, Tradição, Iniciação e Espírito, cuja horizontalidade mental os inibe de entender minimamente a mesma mente em vertical, onde assenta essa tripeça da Formula Mentis Lusitanea.

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): LIBERDADE e FIRMEZA.

DEFEITO originado (COMPLEXO): LIBERTÁRIO e VACILAÇÃO.

II

Lusitânia (em latim, Luxcitania, “Lugar de Luz”) foi o nome atribuído pelos autores clássicos da Antiguidade ao território centro-oeste da Península Ibérica onde viviam os povos lusitanos, que começaram a formar-se na fase final do Neolítico e tiveram o apogeu na Idade do Ferro. Após a conquista romana da Península Ibérica, passou a designar a Lusitânia romana cuja capital era Emerita Augusta, actual Mérida. A Lusitânia incluía aproximadamente todo o território português actual a sul do Rio Douro, a Estremadura espanhola e parte da província de Salamanca. Como disse, inicialmente fazia parte da província romana da Hispania Ulterior, tornando-se depois uma província autónoma, desde 29 a. C. até ao do vínculo com Roma e entrega aos alanos em 411 d. C. Considerada a origem ancestral de Portugal, na Lusitânia pré-romana pontuou Viriato que veio a estar na base do movimento lusitanista ou o lusitanismo, aproveitado no meado do século XX para exclusivos fins político-nacionalistas, sobretudo pelo Estado Novo, logo, despontuado no entendimento cultural do pré-princípio de Unidade Nacional como “pedra angular” da História Portuguesa, seja Sagrada ou não.

Foram os romanos quem mais propagou o sentido de “Lugar da Luz” (Luxcitania) dado a esta parte da Península, e por duas razões distintas apesar de interligadas: por aqui terem havido os maiores filões auríferos da Europa (Serra de Arga, Vale do Tejo, Cacilhas, Marateca, Rio Sado, etc.) que exploraram, por uma parte; por outra, porque desde o Paleolítico Inferior se reconhece (primeiro instintivamente, depois intuitivamente e por fim racionalmente, acompanhando o desenvolvimento da mente humana) que na Península Ibérica se encrava o (único) Pólo ou Centro Vital da Europa, dentre os sete que animam o Globo Terrestre. Foi localizado em Sintra, destarte consignada Serra Sagrada ou Monte Santo desde o alvor da Humanidade.

Com os romanos firmou-se o culto do Genius Loci, o “Espírito do Lugar”, que vem a ser o aglomerador das forças vitais da Alma Sinergética ibérica – espécie de Egrégora ou “Forma-Pensamento” colectiva – que desde Cyntia ou Sintra vem dando especiais foros sagrados, mesmo divinos, à Península, fazendo-a um todo especial aparte. A potência da Alma Sinergética centrada nessa Serra peculiar faz dela um dos Pólos, Quths, Chakras, Plexos ou Centros Vitais do Mundo, precisamente o Quinto ligado à Fala, ao Verbo, à expressão criadora do Espírito Santo, prenúncio de uma Nova Idade que, auguriam vates e sibilas, predizem profetas e iluminados desde sempre, haverá um dia de nascer nesta Península ocidental da Europa. Socorrendo-me da Tradição Iniciática das Idades, assumida Teurgia ou Obra do Eterno na Face da Terra, o planeta possui sete centros de força psicomental exteriorizados como plexos nevro-sanguíneos, dando a vitalidade e o movimento, animando a tudo e a todos, a começar pelo Homem. Ora, o Centro Laríngeo do Globo situa-se em Portugal, a alguns quilómetros de profundidade na perpendicular da zona logo a Norte do Rio Tejo, abrangendo a Serra de Sintra e Lisboa. Tem sido este Centro irradiante que ao longo dos milénios feitos de séculos tipificou toda a vida do nosso país e, por que não dizê-lo, de todo o continente europeu. Foi a sua vibração radiante que atraiu os povos da Antiguidade para este lugar e permitiu o aparecimento de várias gerações de grandes homens que, com os seus feitos, foram os responsáveis pela afirmação de Portugal no Mundo. Nesse verdadeiro movimento civilizacional, em direcção ao quinto continente americano, propriamente a América do Sul, os portugueses sob o pendão sintriano têm sido os motores psicossociais com que se caldeia o futuro do planeta e se firmam as raízes do futuro Pólo Espiritual da Terra, o Brasil, este que Pedro de Mariz, no século XVII, nos seus Diálogos de Vária História, afirmava ser a “Nova Lusitânia”.

O conhecimento profundo dessa realidade foi propagado pelos clássicos da Antiguidade, mas de forma simbólica e parabólica, ou seja, por via da mitologia greco-romana, cujos deuses e heróis ficaram encarregues dos maiores encómios necessários à perpetuação do sentido sagrado e divino da Lusitânia. Diz, por exemplo, Varrão, citando a Naturalis História de Plínio, o Velho: Usum enim liberi patris aut lyssam cum eo bachantium nomen dedisse lusitaniae et pana praefectum eius universae. “A Lusitânia toma o nome de Luso associado a Baco e a Lyssa das bacantes, e Pã é o seu governador”.

Ou seja, Luso é filho de Baco ou Dionísios, este associado astralmente a Mercúrio e aquele ao “Filho da Luz” deste, sendo as bacantes as sacerdotisas de Baco cuja chefe, Lyssa, era a sua mulher. Dos dois nasceu Luso. Lyssa ou Lys, “água”, neste caso, lustral, vem a ser a expressão astral de Vénus, enquanto Pã expressa Saturno e à própria Natureza em manifestação. De maneira que Luso nasce “androginamente” da Água de Vénus e do Vinho de Mercúrio, indicativos da natureza dúplice da Religião dos Mistérios, ficando a “água” (catequese) para os simples (Filhos de Mulher) e o “vinho” (gnose) para os eruditos (Filhos de Homem). Esses deuses greco-romanos inventados, ou melhor, simbólicos (pois que o símbolo é tudo para quem sabe lê-lo, e nada para quem desconhece o seu sentido último), seriam posteriormente retomados na glosa de vários autores portugueses do Maneirismo e da Renascença (Camões nos Lusíadas ou Fernão Álvares do Oriente na Lusitânia Transformada, por exemplo), na mesma senda e objectivo dos escritores pré e clássicos.

O mesmo encontra-se no Auto da Lusitânia, uma das últimas peças de Gil Vicente (1465-1536), escrito em 1531 e representado pela primeira vez em 1532, perante a corte de D. João III quando nasceu o seu filho, D. Manuel. A peça trata das bodas de Lusitânia e Portugal (personagens mitológicos), tendo Gil Vicente misturado no enredo e nos diálogos muitos temas, personagens e cenas constituindo como que “diversões” à margem do tema central.

Lusitânia é filha de Lisibea (Lisboa) e do Sol, e por ela se apaixonou um caçador grego de nome Portugal. Quando os amores parecem desencaminhar-se, acorrem às deusas (diesas) gregas, as Plêiades, sob cuja protecção se decide então o casamento. É a alegoria antropológica da cultura grega ou helénica que Portugal assimilou durante a fase inicial histórica da Lusitânia. Este tema desenrola-se da maneira seguinte: o auto começa com vários diálogos e recitativos de pessoas comuns acerca dos assuntos de amor e outros vulgares, alguns picarescos como convém a uma farsa, até que entra em cena o Licenciado, que faz o papel de narrador e representa Gil Vicente; ele introduz o tema das bodas dizendo que “o Sol viu Lisibea nua sem nenhuma cobertura (…) e houve dela uma filha tão ornada de sua luz que lhe puseram nome Lusitânia, que foi diesa e senhora desta Província”. Passados tempos, “um famoso cavaleiro grego de nome Portugal ouviu falar da boa caça na Serra de Sintra (Serra da Solércia), e como este Portugal, todo fundado em amores, visse a formosura sobrenatural de Lusitânia, filha do Sol, de improviso se achou perdido por ela”. Dois demónios, Belzebu e Dinato, enquanto assistem ao casamento do cavaleiro com a princesa, tecem comentários espirituosos, fazem trocadilhos, sempre procurando evidenciar temas ligados à verdade, à cobiça, à vaidade, à virtude e à honra dos homens.

Lisibea nua primogénita do Sol, é tema que já entrara no romanceiro nobiliárquico de Jacques de Voragine (século XIII), criador da lenda áurea da deusa Melusina, sempre alusiva da virgindade original incorruptível pelo ordinário humano, por ser propriedade divina, neste caso, do Sol expressivo do Logos Primordial (Helion ou Surya). Desse conluio amoroso nasceu a Lusitânia, onde depois Portugal buscará a sua identidade e a encontrará, precisamente na Serra de Sintra. Enfim, maneirismos passados para dizer coisas profundas divertindo, afastando atenções do propósito ocultado…

É na Lusitânia que se acha Portugal, ou melhor, Portucale. Com efeito, houve no actual território nacional, ao longo do processo de Reconquista, o chamado Pelágio, dois Condados Portucalenses distintos: o Condado de Portucale e o Condado Portucalense. O primeiro foi fundado pelo conde vimaranense Vímara Peres, após a presúria de Portucale (Porto) no ano 868, e incorporado no Reino da Galiza em 1071, depois da morte do conde Nuno Mendes, sendo sensivelmente equivalente ao actual Entre-Douro-e-Minho. O segundo, constituído cerca de 1095 em feudo do rei Afonso VI de Leão, foi oferecido ao conde Henrique de Borgonha que o veio auxiliar na Reconquista da Península aos árabes, recebendo ainda a mão da filha do monarca, Teresa de Leão. Este Condado Henriquino era muito maior em extensão que o anterior, pois abarcava também os territórios do antigo Condado de Coimbra, suprimido em 1091, partes de Trás-os-Montes e ainda o Sul e Centro da Galiza (mormente a Diocese de Tui, dependente do Primaz de Braga). De notar que Condado é o termo genérico para designar o Território Portucalense, já que os seus chefes eram alternativamente intitulados Comite (Conde), Dux (Duque), Princeps (Príncipe), e só depois, com a independência nacional, Rex (Rei).

O nome do Condado vem do topónimo Portucale, com o qual no século IX se designava a cidade junto à foz do Rio Douro, chamada Portus Cale ou “Porto dos Callaicos” ou Galaicos (Callaeci ou Gallaeci), povo proto-histórico que será a provável origem do Galego actual e cuja principal cidade de intercâmbio marítimo seria o actual Porto, portanto, fazendo parte do primitivo território galaico-portucalense, geocultural e idiomaticamente distinto, limitado ao Norte pela terra bracarense e ao Sul pelo Rio Vouga, tendo por centro e cabeça a cidade castreja de Portucale.

Há indicações históricas atestando a positividade da existência de Portucale. As Histórias de Salustio, do século I, referem a Cales Civitas localizada na Callaecia; o Itinerário de Antonino, do século IV, fala da povoação de Cale ou Calem, enquanto Idácio de Chaves, no século V, escreveu sobre um Portucale Castrum[13]. Desse tempo sobrevive até hoje o topónimo Antas. Embora a existência da povoação na foz do Douro durante o período romano se encontre confirmada, só nos últimos anos, graças a investigações acuradas, se soube a sua localização exacta. Com efeito, o Paroquial Suévico de São Martinho de Dume refere um povoado designado como Portucale Castrum Antiquum, na margem esquerda do Douro, que já sabe ser Gaia, e outro, o Portucale Castrum Novum, na direita, que é o actual Porto[14].

Os callaici celtas teriam dado o nome de Portucale ao território inspirado naquele outro de Cailleach, “Deusa Primordial”, que os milésios importariam daqui para a Irlanda cerca do ano 1000 a. C.

Quando se deu a invasão árabe da Península Ibérica por Tarique, no século VIII, Portucale já era, desde a segunda metade do século VI, sede da Diocese Portucalense, sendo metropolita o bispo de Braga, onde se situava o Primaz da Gallaecia e de toda a Hispania desde os finais do século IV. Portanto, Igreja proto-cristã, visigótica, na qual militaram os maiores vultos do Pensamento proto-português, lançando ao terreno mental a semente do que viria a ser a Filosofia Portuguesa, como notavelmente fez, por exemplo, Paulo Orósio (c. 385 – c. 420), historiador, filósofo, teólogo, sacerdote e apologista cristão na Hispânia Romana, possivelmente natural de Bracara Augusta (Braga), então cabeça da Província da Gallaecia. Essa diocese não sobreviveu à invasão árabe, só sendo restaurada após a conquista do Porto por Vímara Peres, no ano 868.

Foi esse o território que em 1095 o conde D. Henrique recebeu de D. Afonso VI de Leão, mas dilatando-o do Porto até Coimbra – as finis Galliciae; de Borgonha (no actual Luxemburgo, nome que também significa “Lugar de Luz”, Luxburgus, homónimo de Luxcitania) trouxe consigo povo, nobres cavaleiros e religiosos da Ordem de Cluny de cujo fundador, São Hugo de Cluny, D. Henrique era sobrinho-neto. Juntos aos galegos e moçárabes viriam a ser a população original do Condado Portucalense, que só se assumiu Portucale depois da batalha de Ourique, em 1139, onde D. Afonso Henriques, após o famoso milagre cristológico que teve no campo de lide ao árabe, se assumiu rei publicamente e ao território herdado e conquistado país independente, ele que já antes, em seguida à batalha de S. Mamede, em 1128, declarara o Condado Portucalense independente dos condes galegos autonomicamente sujeitos ao rei de Leão.

Se D. Afonso Henriques teve legitimidade para, num acto inédito, se auto-coroar rei, deve reconhecer-se que sim, atendendo a que seu pai D. Henrique era sobrinho de D. Constança de Borgonha, rainha de Leão e Castela, e pertencia à Casa Ducal, sendo o herdeiro da coroa mais próximo na linha de sucessão. Como a rainha não teve filhos varões com Afonso VI de Leão e Castela, debalde D. Henrique evocou esse direito para si, e o seu filho não esqueceu e terá invocado o mesmo para se auto-coroar e assim ser o primeiro rei não só de Portucale mas também de Léon e Castilla. Donde as hostilidades abertas com D. Afonso VII cujo direito real Afonso Henriques nunca reconheceu, mais ainda quando aquele quebrou todas as promessas que seu pai Afonso VI fizera ao conde D. Henrique, mormente no respeitante à Galiza, desanexando-a do território portucalense[15].

D. Afonso Henriques terá evocado ante a Santa Sé esse direito real que consideraria ter-lhe sido usurpado, razão de Estado suficiente, a favor do queixoso, para o Papa Alexandre III emitir, em 23 de Maio de 1179, a Bula Manifestis Probatum, declarando o Condado Portucalense como Portucale país independente do Reino de Leão, e Afonso Henriques o seu rei legítimo.

A Bula reza (em português actual):

“Alexandre, Bispo, Servo dos Servos de Deus, ao Caríssimo filho em Cristo, Afonso, ilustre Rei dos Portugueses, e aos seus herdeiros, in perpetuum. Está claramente demonstrado que, como bom filho e príncipe católico, prestaste inumeráveis serviços a tua mãe, a Santa Igreja, exterminando intrepidamente em porfiados trabalhos e proezas militares os inimigos do nome cristão e propagando diligentemente a fé cristã, assim deixaste aos vindouros nome digno de memória e exemplo merecedor de imitação. Deve a Sé Apostólica amar com sincero afecto e procurar atender eficazmente, em suas justas súplicas, os que a Providência divina escolheu para governo e salvação do povo. Por isso, Nós, atendemos às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua pessoa, tomamo-la sob a protecção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste das mãos dos Sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos os vizinhos príncipes cristãos. E para que mais te fervores em devoção e serviço ao príncipe dos apóstolos São Pedro e à santa Igreja de Roma, decidimos fazer a mesma concessão a teus herdeiros e, com a ajuda de Deus, prometemos defender-lha, quanto caiba em nosso apostólico magistério.”

Bula Manifestis Probatum emitida por Alexandre III em 23.5.1179

Se a Lusitânia foi o embrião ou semente da “identidade nacional”, o Condado Portucalense a sementeira da “formação nacional”, e Portucale foi a madureza da colheita do “país formado”. Assim, para facilitar o entendimento da base estrutural do Condado e País Portucalense, com o consequente desenvolvimento psicossocial até à actualidade, tem-se a sequência seguinte:

As classes religiosa (oratore) e militar (bellator) foram quem maior desempenho tomou na formação da identidade espiritual e política do país. A primeira, assumindo a autoritas expressa pelo sacerdócio e a instrução, teve à dianteira os clunienses e depois os bernardos. A segunda, garantindo a potens incarnada na realeza e na nobreza cuidando do exercício da justiça e das armas, na defesa e ofensiva quando necessário, contou inicialmente com a Ordem Militar dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, vulgo templários, e depois com a Ordem Militar de São Bento de Avis, vulgo bentos ou avises, fundada pelo próprio D. Afonso Henriques.

Apesar de Afonso Henriques não ter sido militante da Ordem do Templo, contudo recebeu educação templária e foi grande benfeitor da mesma, ou seja, um “irmão donato”[16]. Se tivesse sido um “irmão de Regra”, com votos totais assumidos, obviamente nunca poderia ser rei, posto este cargo político desaparelhar completamente do reservado exercício monástico. Já a Ordem de Avis cuidava da defesa e manutenção tanto da Coroa quanto das fronteiras do País, contando na retaguarda com o apoio Templário.

D. Afonso I aceitou politicamente a presença da Igreja de Roma, mas rejeitou-a linearmente nas investidas políticas pretendendo o país subjugado ao poder papal, ambicioso da autoridade e do poder retidos numa só pessoa e organização. Nisto reside o sentido velado do famoso episódio talvez lendário daquele enviado papal, Guido de Vico, que amaldiçoou o Condado Portucalense por o rei deste não querer pagar tributo a Roma, e quase ter morto o bispo quando soube do seu acto goécio ou de magia negra, obrigando-o a levantar a maldição, e a seguir nomeando um bispo negro, isto é, moçárabe do rito hispânico (visigótico), para a Diocese de Coimbra[17]. Desta maneira, D. Afonso Henriques inverteu o papel universal da Igreja Ministrante de Roma sobre a Igreja Ministrada de Portugal: fez esta última Igreja Ministrante desde Coimbra, impondo-a a Roma diminuída Igreja Ministrada, evocando os Santos Apóstolos Tiago e Pedro para a sua defesa política e teológica, dando como pretexto maior o de São Pedro fundar o Ministério Romano só depois de Santiago já ter fundado o Ministério Galaico.

É do conhecimento universal a espiritualidade esclarecida de D. Afonso Henriques a par do seu equitativo senso de justiça, pautando a sua existência como real “cavaleiro-monge”, cumpridor estrito de todas as normas de Cavalaria e Religião coevas do seu tempo. Estabeleceu-se em Coimbra, onde andou de relações próximas com a Ordem Terceira dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, da Regra de Santo Agostinho, onde foi recebido a 14 de Setembro de 1136. A cerimónia teve lugar na Casa do Capítulo, perante 72 cónegos, tendo pregado D. João Peculiar, comparando o novo irmão ao imperador bizantino Heráclio, no século VI, o qual, revestido com hábitos sacerdotais, transportou o Santo Lenho até Jerusalém em procissão. Com isso, associou a real pessoa de D. Afonso I ao próprio Melkitsedek, o Rei do Mundo e Sumo Pontífice do Altíssimo, neste caso, legítimo imperador de toda a Hispânia a quem Cristo aparecido em Ourique sagrou e à sua terra portuguesa. Também se sabe do seu entendimento aprofundado das leis de Cavalaria e Teologia, nisto tendo fundado, com o posterior reconhecimento papal, tanto a Ordem de São Bento de Avis quanto a de São Miguel da Ala, e, diz-se em sussurro, igualmente fundado uma misteriosa Ordem de Mariz, com os mais esclarecidos e iluminados das três religiões do Livro, assumindo o sacerdócio do Eterno.

Falecido em 1185, o primeiro túmulo de D. Afonso Henriques terá sido colocado no nartex da igreja de Santa Cruz de Coimbra, e logo todas as classes sociais do país começaram as romarias aos seus despojos mortais aclamando-o unanimemente rei santo, a quem foram atribuídos inúmeros milagres que ficaram registados nas crónicas dos cistercienses de Alcobaça. Posteriormente, o rei D. Duarte mandou ornar o túmulo do seu antepassado com um riquíssimo dossel de seda e ouro[18], e o rei D. Manuel I encetou junto da Santa Sé a rogativa de elevação de D. Afonso Henriques aos altares da santidade (só se o vê com auréola de santo sobre o altar-mor da igreja dos agostinhos da Senhora da Graça, em Lisboa), processo que decorre até hoje[19].

Ao ciclo afonsino poderão imputar-se as seguintes virtudes originais, que são amplexos, e os modernos defeitos originados, que são complexos:

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): INDEPENDÊNCIA e FORTALEZA.

DEFEITO originado (COMPLEXO): DEPENDÊNCIA e FRAQUEZA.

III

Saltando no tempo e espaço historiográficos, chega-se ao momento mais importante da afirmação (não da formação, que essa já estava feita) da Identidade Nacional no Mundo: o período das Descobertas Marítimas, ou seja, o da Gesta Dei per Portucalenses.

O projecto de expansão de Portugal no Mundo não se deveu só a exclusivos propósitos de comercialização ou de evangelização das terras e povos aonde chegou e acabou impondo-se a soberania portuguesa. Creio que isto é óbvio, mesmo com os factores geopolíticos, militares e socioeconómicos, como igualmente os religiosos, serem imprescindivelmente partes vitais da Diáspora da Língua e consequente formação do Império Português nas várias partes do Globo. Esse projecto civilizacional inter-continentes iniciado com a Ordem do Templo e formalizado pela Ordem de Cristo herdeira prosseguidora dessa, implicava o exercício simultâneo, interligado mas todavia distinto, dos dois Poderes Espiritual e Temporal da forma seguinte:

Império Português no Mundo

Autoridade Espiritual
(Autoritas)

– Presença missionária dos oratores ao início exclusivamente franciscanos, ao serviço da bellator Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo.

– Fundação de dioceses criando redes paroquias, viabilizando a acção pastoral.

– Manutenção das boas relações religiosas com a espiritualidade própria dos povos dos países onde chegassem, exercendo a actividade pastoral tendo sempre presente, para evitar conflitos de crença e catequese com os autóctones, os dois princípios seguintes:

– Concórdia e respeito mútuos.

– Difusão do espírito fraternal.

– Reconhecimento, independente da forma e nome dados, ou seja, da substância teológica, da essência de um Deus Único: fundamento da Diáspora Espiritual.

Poder Temporal
(Potens)

– Presença contratada de mestres de ofício e serventes, mão-de-obra especializada, ao serviço da Ordem de Cristo.

– Presença emigratória, destinada a povoamento e (ou) miscigenação, de jornaleiros (trabalhadores à jorna), assoldadados rurais que, não tendo antes património próprio, tinham a oportunidade de lavrar terra sua e apascentar gado seu.

– Contingência militar que deveria ser simultaneamente política e diplomática:

– Defesa do seu património.

– Respeito ao património alheio.

– Intercâmbio comercial e sobrevalorização da economia: fundamento da Diáspora Temporal.

Essas são as linhas gerais do processo simultâneo da diáspora civilizacional e da conquista espiritual do Mundo, ou seja, mais uma vez, a Gesta Dei per Portucalenses[20].

A partir dessas linhas gerais podem desenvolver-se outras múltiplas, inclusive as que levaram a usos e abusos colonialistas, mesmo xenófobos por alguns, esses que foram excepções mínimas ante o máximo da regra geral de concórdia e respeito de Portugal para com os outros povos. Decerto por isso ainda hoje o procuram como conselheiro e apoio político e sócio-cultural, o que não acontece com as demais antigas potências colonialistas europeias pelos colonizados por elas. Deve atender-se ao seguinte: os colonos portugueses não levaram colonização às partes do mundo aonde foram: levaram civilização, acrescendo-a às civilizações autóctones, e assim aumentaram e fizeram progredir a civilização humana. Entre colonização e civilização há diferença abissal, que é tudo.

A tentativa espúria de alguns historiografistas e filodoxistas contemporâneos, repletos de óbvias e assumidas tendências político-partidárias, assim querendo dar partido e personalizar para si factos históricos, desconhecendo o que pensavam quem os projectou e efectivou, peca e falha redondamente nisso mesmo: o tendenciosismo pessoal pretendendo limitar factos históricos às políticas particulares de quem os observa, as mesmas desenquadradas das épocas em que aqueles aconteceram e dos momentos que alguns, por seu impacto, foram verdadeiramente universais, por a sua política e religião estarem envolvidas num processo inter-continentes, e para que houvesse vitória nesse processo, obrigatoriamente teria de haver ecumenismo, sentido prático verdadeiramente universal. Se assim não tivesse sido, como seria possível que um pequeno país como era Portugal em Quatrocentos, com cerca de meio milhão de habitantes activos, poderia ter se conseguido se impor no Mundo?

Donde se subtrai o original e o originado das virtudes e defeitos:

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): EXPANSÃO e TOLERÂNCIA.

DEFEITO originado (COMPLEXO): CONTRACÇÃO e INTOLERÂNCIA.

IV

Quando o País entorpece nas suas forças vitais e a força centrípeta começa a prevalecer sobre a centrífuga, o que foi perceptível no reinado de D. João III e palpável no de D. Sebastião, cuja conse-quência seria a perda da independência nacional, com isto o Providencialismo messiânico ampliou-se de tal forma que o Sebastianismo vermelho, modo encapotado de fazer política contra a Espanha ocupante, foi ocupação permanente dos autores e intelectuais portugueses, com destaque para o padre António Vieira. Recuperada a independência nacional tendo finalmente aparecido o “rei desejado” após “os 60 anos fatais”, ou seja, o duque de Bragança eleito rei D. João IV, fez-se o Sebastianismo branco, esclarecido, teosófico, simbólico não de um rex temporalis mas de um rex spirituallis, o Rex Animas Piscatoris, como o entendiam os sefarditas ibéricos ao lado dos bernardos e bentos, como igualmente os eruditos mais reputados, cuja prosa brilhante valeu para muitos a subida ao prelo e edição.

Com efeito, a D. João IV o povo recém-liberto aclamou “D. Sebastião reaparecido”, isto por o Sebastianismo ter se constituído a religião nacional durante o jugo Filipino. “D. Sebastião reaparecido” devolvendo ao reino a sua independência junta com a promessa de restauração do império. Ele era o messias nacional que durante os longos e tenebrosos 60 anos de ocupação o povo reclamara. Assim se iniciou o Sebastianismo nacionalista, não raro com repúdio do Sebastianismo espiritualista. O que importava e só era o rei desejado, e esse rei era D. João IV, encoberto então descoberto às esperanças de Portugal todo… Isso viria a acontecer também com outros, em momentos de crise nacional, como D. Pedro II, D. João V, D. José I, D. Carlos I, D. Manuel II e até o presidente republicano Sidónio Pais, todos eles retratados como “D. Sebastião” salvador da pátria nos períodos de maior perigo para a sua identidade e independência.

Mas o Messianismo, com origem judaica, já existia em Portugal desde muitos séculos antes do nascimento de D. Sebastião, alimentando a crença esperançosa no regresso do Rei Desejado de Israel, que cedo se tornaria a de o Messias nacional, patriótico. Essa crença veio a ser fixada na pessoa de algum predestinado da Casa de Bragança. Com efeito, no século XVII, Manuel Bocarro Francês, português de ascendência judaica, também chamado Jacob Rosales (Lisboa, 1588 ou 1593 – Florença, 1668), matemático, médico, alquimista e astrónomo, anunciou o “regresso do rei salvador” baseado em sinais celestes, isto é, fazendo recurso à astrologia, como consta nas suas Anacefaloses da Monarquia Lusitana (Lisboa, 1624). Bocarro não era um sebastianista “ortodoxo”, posto não acreditar na vinda do próprio D. Sebastião, mas num seu continuador em alguém com o sangue da sua raça, da sua linhagem[21].

Como disse, Bocarro publicou em 1624, em Lisboa, um longo poema em 131 oitavas, intitulado Anacefaleoses da Monarquia Lusitana, que dedicou a Filipe III de Portugal[22]. Mas o carácter sebastianista da obra tornou o autor suspeito aos olhos de Espanha, que então dominava em Portugal; dividida em quatro partes ou estados, cantava no Estado Astrológico esperanças de glória e de império universal. A obra publicada acabou por ser apreendida, juntamente com o manuscrito da Anacefaleose IV, dedicada a D. Teodósio, duque de Bragança, pai do futuro D. João IV. Bocarro via em D. Teodósio o Encoberto:

“…………………………………………..

Obrigação te nasce de amparares
Sereníssimo Duque, o Império Triste

…………………………………………….

Eu o uy, Luzitanos, não me engano
Já temos ao Monarcha descoberto
Alviçaras me dai do soberano.”

Apreendida a obra, Manuel Bocarro foi preso mas libertado pouco tempo depois. Retirou-se para Itália, onde fez publicar a Anacefaleose IV, com o título de Luz Pequena Lunar e estelifera da Monarquia Lusitana. Aí explica os prognósticos feitos anteriormente, e garante a vinda do Príncipe Encoberto em menos de um século após o nascimento de D. Sebastião (Paço da Ribeira de Lisboa, 20 de Janeiro de 1554), portanto, até 1654.

Com a Restauração, em 1 de Dezembro de 1640, procurou-se confirmar toda a série de prognósticos feitos anteriormente. As Trovas do Bandarra, outrora proibidas, passaram a ser o texto anunciador da libertação nacional. A figura do Bandarra passou a estar exposta, como se de um santo se tratasse. Já em 1641, D. Álvaro de Abranches, governador da Beira, mandara levantar na igreja de S. Pedro da vila de Trancoso novo sepulcro para Gonçalo Anes de Bandarra, dando-lhe honra póstuma.

A edição de Nantes das Trovas (1644), feita por D. João de Castro, da família dos Castros de Sintra e neto do vice-rei da Índia do mesmo nome, constitui uma interpretação bragantina do messianismo sebastianista. Nela se pretende identificar o Encoberto com D. João IV, como se conclui do seu comentário introdutório: “Conclui-se logo com toda a certeza, e moral evidencia, que El Rei D. João O IV., nosso Senhor he o esperado, e tão desejado Rei Encuberto, de quem Santo Isidoro fallou na era de 636, escrevendo muitas couzas futuras de Hespanha, e Bandarra tantas vezes repitiu”.

Mas será o padre António Vieira (Lisboa, 6 de Fevereiro de 1608 – São Salvador da Bahia, 18 de Julho de 1697), orbitando entre o Sebastianismo espiritual e o Sebastianismo político, acaso ou decerto sabedor do sentido último ou primaz da doutrina do Messianismo recambiando-a para a Parúsia, quem teve maior e mais destacado papel nesse contexto após a Restauração. Depois da morte de D. João IV em 1656, o p.e António Vieira afirmou, num sermão pregado em São Luís do Maranhão, Brasil, que D. João IV teria de ressuscitar para operar prodígios, e nisso se apoiou na autoridade profética do sapateiro Bandarra. Era uma ideia que já demonstrara num sermão em vida do rei, a qual posteriormente ficou documentada no escrito intitulado Esperanças de Portugal, Quinto imperio do mundo, primeira e segunda vida de el rei D. João o quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo padre António Vieira[23]. Falou, portanto, na “segunda vida” de D. João IV e citou como autoridade principal o Bandarra.

O citado escrito do p.e António Vieira (integrando um pequeno escol de jesuítas iluminados pelo saber esotérico rabínico, ao mesmo tempo imbuído de forte pendor nacional ou patriótico, deixando em plano secundário o secular da regula ordinária da Companhia), valeu-lhe um processo movido pelo Tribunal do Santo Ofício, que em 1 de Outubro de 1665 prendeu-o nos cárceres de Coimbra, desapiedado da sua saúde frágil. Levando à letra o imediato desse texto, foi acusado de anunciar a ressurreição de D. João IV, apoiado no Bandarra, e de augurar para aquele rei um império ao mesmo tempo espiritual e temporal, de grandeza jamais sonhada, cuja cabeça seria Portugal. As tentativas de Vieira para se defender foram vigorosas e demonstraram profundo conhecimento teológico, argúcia e técnica retórica; o inquisidor Alexandre da Silva, encarregado dos interrogatórios, teve de defrontar a sua derrota perante uma inteligência lúcida servida por poderosa dialéctica, que a doença não chegava para destruir[24].

No seu processo constam as seguintes informações:

Idade: 55 anos

Crime/Acusação: proposições heréticas, temerárias, mal-soantes e escandalosas.

Cargos, funções, actividades: religioso professo da Companhia de Jesus.

Naturalidade: Rua dos Cónegos, freguesia da Sé, Lisboa.

Morada: Coimbra.

Pai: Cristóvão Vieira Ravasco, fidalgo da Casa Real.

Mãe: D. Maria de Azevedo.

Estado civil: solteiro.

Data da apresentação: 21/07/1663.

Data da prisão: 01/10/1665 (cárcere da custódia).

Sentença: auto-da-fé privado de 23/12/1667. Privado para sempre de voz activa e passiva e do poder de pregar, recluso no Colégio ou Casa de sua religião, de onde não sairia sem termo assinado pelo Santo Ofício, assinar um termo onde se obrigava a não tratar mais das proposições de que foi arguido, nem por palavra nem por escrito, pagamento das custas.

A leitura da sentença, sexta-feira de 23/12/1667, na Sala da Inquisição, demorou duas horas e um quarto, e no dia seguinte a mesma foi lida no Colégio. O réu, por motivos de saúde, foi autorizado a abandonar a sua reclusão no Colégio de Coimbra e a ir para a Casa do Noviciado de Lisboa. Por súplica do provincial da Companhia de Jesus, dirigida ao Santo Ofício, foi solicitada a anulação e perdão das penas que lhe foram impostas. Este pedido foi aceite por despacho do Conselho Geral do Santo Ofício, de 12/06/1668. A 30/06/1668, o réu foi chamado à Casa do Despacho da Inquisição de Lisboa, onde lhe foi comunicado o respectivo perdão e assinou o seu termo[25].

Em Agosto de 1669, o padre António Vieira partiria para Roma com licença do rei, e daí regressou de vez ao Brasil, a São Salvador da Bahia onde o Geral da Companhia tinha a sua Casa.

Como disse, o seu propalado Quinto Império era considerado simultaneamente espiritual e temporal, com cabeça em Portugal, para assim puder abarcar inteiramente a unidade universal da Humanidade. Passa, portanto, de um Sebastianismo bragantino e político para um mais lato e puro Sebastianismo universal e espiritual, cuja retórica é profética do Futuro.

Gentios, pagãos, judeus, etc., todos indistintamente adorariam ao mesmo Senhor Deus do Universo, esse que é também o ensejo da Cristandade como parte inclusa da Espiritualidade universal partícipe da Promessa de Advento do Messias ou Avatara Único, o qual é esperança colectiva dos crentes que haverá de reinar sobre todos os povos da Terra na Sua Idade de Espírito Santo. Com efeito, a utopia ou “algo por realizar” – aposto da distopia que varre hoje o mundo – do Quinto Império deslumbrou o pensamento geo-parúsico do padre António Vieira, inserta no tema translatio imperii, e sobre ele dissertou largamente. As suas cartas e sermões de fundo profético ocuparam quase toda a sua vida e as considerou a sua obra principal. Nos escritos (incompletos) que constituem a sua História do Futuro, este iluminado religioso sebástico anuncia o advento de um V Império Lusitano na História do Mundo havendo de suceder, lógica e necessariamente, aos quatro anteriores: Império Assírio-Babilónico, Império Persa, Império Grego e Império Romano, neste em cujos prolongamentos românicos em formalismo ainda se vivia no seu tempo. Baseia-se constantemente na autoridade dos textos sagrados:

“Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem duvida, tiradas de differentes lugares de textos sagrados que vão citados à margem, e o não pusemos no corpo da História por não embaraçar o desenho dela (…) o que resta e importa mostrar he que haja de aver sem duvida este novo e prometido Império a que chamamos quinto.”[26]

António Vieira, aliás, sempre sublinhou a autoridade dos Profetas, dos quais tinha largo conhecimento, claramente demonstrado nos seus numerosos sermões. A profecia encerra, para ele, a verdade histórica mais pura[27], isto é, a superius cognoscio aparelhada com a intuitio, a pura inteligência espiritual.

Numa época onde a poesia era apenas “arte florida que pede sujeitos floridos em anos florescentes”, no dizer de Francisco Manuel de Mello[28], o profeta ganhou autoridade indiscutível; a palavra do futuro pertence unicamente ao poeta-profeta, ao vate, nunca só ao poeta que é apenas construtor de hipérboles.

Na literatura messiânico-política do século XVII, o padre António Vieira não foi exclusivamente um intérprete do Sebastianismo bragantino. Neste contexto ele foi, em rigor, um joanista, cuja importância política para a época realçou depois assumindo a sua real natureza de sebastianista. Portanto, o padre Vieira nem sempre foi joanista – começou por ser sebastianista, como prova o seu Sermão de S. Sebastião pregado na igreja do mesmo santo em Acupe (Bahia), em 1634, repleto de alusões ao rei vencido de Alcácer-Quibir. Para terminar, através do mito do Quinto Império dos Lusitanos, cuja criação setecentista apoia-se em profundo saber teológico e vasto conhecimento bíblico e da História Universal, o padre António Vieira, por excelência “príncipe da Língua Portuguesa” como o consigna Fernando Pessoa, o Paiaçu dos índios brasileiros oprimidos ou o “Grande Pai”, é quem inaugura o ciclo do Sebastianismo espiritual ao estabelecer a aliança da Profecia à História.

Para entender-se o sentido mais profundo de império, conforme a consignação do padre Vieira que tomara o tema de Manasseh Ben Israel, ou seja, o madeirense Manuel Dias Soeiro, rabi-mor da Sinagoga de Amesterdão, torna-se obrigatório recorrer à versão que a Tradição Primordial ou Iniciática das Idades dá dele. Ora, segundo o autor, a História Universal reparte-se por 5 Tempos ou Impérios, correspondentes aos grandes Períodos ou Idades Planetárias por que passou, passa e passará o Mundo. Assim:

I IMPÉRIO (PERSA) – SATYA-YUGA (IDADE DO OURO)

II IMPÉRIO (ASSÍRIO) – TETRA-YUGA (IDADE DA PRATA)

III IMPÉRIO (GREGO) – DWAPARA-YUGA (IDADE DO BRONZE)

IV IMPÉRIO (ROMANO) – KALI-YUGA (IDADE DO FERRO)

V IMPÉRIO (PORTUGUÊS) – KRITA-YUGA (IDADE DO OURO)

Essa última Idade do Ouro, zodiacalmente correspondendo a Aquarius, consciencialmente nascendo e desenvolvendo-se cada vez mais, tradicionalmente considera-se ter início em Lisboa-Sintra (Portugal) e desfecho em São Lourenço-Minas Gerais (Brasil), a “Nova Lusitânia” como é consignada por Pedro de Mariz, no século XVII, nos seus Diálogos de Vária História.

Portanto, os assinalados Impérios têm mais a ver com Idades Planetárias e respectivos estados de consciência, adquiridos e desenvolvidos ao longo das mesmas, do que propriamente com impérios geográficos político-económicos nascidos da força das armas, e que pelas armas foram derribados, reduzidos a escombros… valendo o que valeram.

Correspondendo a estados de consciência e respectivos níveis de coexistência, então esses Impérios falados, cantados, prosados e escritos pelos Maiores da Raça dos Lusos, poderão expor-se nessa outra tabela de correlações afins a uma geosofia sebástica:

I IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA FÍSICA – PLANO FÍSICO (PRITIVI, TERRA)

II IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA VITAL – PLANO ETÉRICO (APAS, ÁGUA)

III IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA EMOCIONAL – PLANO ASTRAL (TEJAS, FOGO)

IV IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA MENTAL – PLANO MENTAL (VAYU, AR)

V IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA ESPIRITUAL – PLANO CAUSAL (AKASHA, ÉTER)

O Messianismo gerou o Sebastianismo e o Sebastianismo gerou o Messianismo Nacional, na pessoa ideal de um rei iluminado, no caso, D. Sebastião que não morrera, antes desaparecera!…

O Messianismo hispânico é fruto do Profetismo judaico, fenómeno importante no século XVI português. Ilustram-no figuras bem conhecidas, como Gonçalo Anes, por alcunha o Bandarra, Luís Dias, alfaiate de Setúbal, e Simão Gomes, o sapateiro santo, este que inclusive foi visitado em sua oficina por personagens do mais alto coturno, nomeadamente D. Sebastião que o fez seu conselheiro. Por ordem régia do monarca tomou parte no Conselho de Estado que se reuniu em Almeirim, onde desenvolveu tão atilados alvitres, com visos proféticos, que logo foram postos em prática com grandes vantagens, como conta o seu cronista, o p.e Manuel da Veiga, da Companhia de Jesus, em Tratado da vida, virtudes e doutrina admiravel de Simão Gomes, portuguez, vulgarmente chamado o sapateiro santo. O livro teve tanta extracção que se fizeram quatro edições em Lisboa, correspondentes aos anos de 1625, 1673, 1723 e 1759. Esta obra estaria em conformidade às pretensões jesuítas de encetar cruzada a África, a que se opunha vivamente a Ordem Terceira de São Francisco. O frade guardião do rei D. Sebastião, que o acompanhava por toda a parte e o protegia das más influências com alvitres ajuizados, frei Salvador da Torre, atreveu-se mesmo a aconselhá-lo publicamente, em pleno sermão na capela real do Hospital de Todos os Santos, a desistir de ir a África. Isso valeu-lhe o desterro para a casa religiosa que ficasse mais longe de Lisboa: o Convento da Piedade dos franciscanos do Cabo de São Vicente, no Algarve.

Já antes, no início do século XVI, o profetismo parúsico afim ao milenarismo revelava-se bastante activo: Isaac Abarnavel, rabi-mor do Reino e conselheiro de D. Afonso V, anunciara para 1503 a vinda do Salvador, cedo associado a D. Manuel I, o Venturoso. Em contrapartida, em 1502, em Ístria, um aventureiro de sangue judeu com rasgos de profeta afirmou ser o Messias Salvador e dos homens e Regenerador das nações, o que perturbou a população judaica de Itália, devendo a notícia ter chegado ao nosso país. Em Portugal, um contemporâneo de Bandarra, o alfaiate Luís Dias, de Setúbal, fez crer que era o Messias e acabou no fogo, condenado pelo Tribunal da Inquisição de Évora, em 1542. Em 1526, chegou a Portugal um outro judeu messianista, David Rubeni, que veio anunciar a próxima chegada do Redentor. Diz-se que até fora chamado por D. João III e que seria o chefe condutor dos hebreus à Terra Prometida. A sua influência foi tão grande que muitos cristãos-novos voltaram a adoptar as velhas crenças, embora a maioria deles nunca as tivesse abandonado, sendo apenas cristãos-novos de nome e por conveniência. Um célebre discípulo de David Rubeni foi Diogo Peres, que se converteu ao judaísmo com o nome de Salomão Malco. Viajou, cultivou-se, criou fama em toda a Europa e, segundo consta, chegou a ser recebido pelo próprio Papa.

De há muito que os sefarditas hispânicos perseguiam a ideia de edificação da Nova Israel e do III Templo de Salomão, conformada à visão do Profeta Ezequiel, onde se entroncaria o “Rei-Messias” na parte mais ocidental da Europa, ou seja, Portugal. A Ordem dos Templários também perseguiu essa ideia da Nova Jerusalém, e o cisterciense da Calábria, Joaquim de Flora, deu-lhe forma no seu Evangelho do Futuro. Tratava-se, afinal e tão-só, pondo de lado os floreados simbólicos da prosa, da trasladação da “Arca Santa” da Sabedoria Tradicional das Idades do Oriente ao Ocidente, conformada à Lei dos Ciclos de Evolução e à Marcha Processional do Género Humano.

Fica assim demonstrado que a tradição do Rei Encoberto é muitíssimo anterior às coplas do Bandarra, e que teria passado de Espanha a Portugal por via do profetismo judaico colando-se ao cristão. Textos divulgados em 1520 (lendariamente baseados em Santo Isidoro, bispo de Sevilha no século VII) já falam do “rey encubierto”. Também na monarquia de Carlos V, que não agradava à maioria do povo, previa-se a sua ruína e falava-se de um chefe novo, que seria um príncipe português! São os seguintes os textos dessa esperança messiânica:

1. Coplas de Frei Pêro de Frias, Valência, 1520, anunciando “un rey que non se descubre…”.

2. Coplas de Frei João de Rocacelsa (religioso beneditino aragonês), que também se referem ao rei encoberto.

3. Profecias de Santo Isidoro, que corriam em toda a Península.

As profecias desse bispo relativas ao Encoberto, são citadas por D. João de Castro na Paraphrase às Trovas do Bandarra, nas quais o Messianismo adquire a forma definitiva de Sebastianismo.

As fontes gerais das Trovas do Bandarra, são:

1. As Sagradas Escrituras.

As Trovas acusam um fundo de messianismo judaico indiscutível. Bandarra confessa ter como fonte principal da sua autoridade profética as Profecias de Daniel e Jeremias:

CLVIII

Tudo quanto aqui se diz,
Olhem bem as Profecias
De Daniel e Jeremias
Ponderem nas de raiz.

2. O mito do Encoberto, oriundo de Espanha.

A crença no Encoberto veio de Espanha (vários “Encobertos” haviam surgido em Valência); as fontes particulares que a difundiram foram as Coplas de Pêro de Frias e as de João de Rocacelsa (1520), como se viu.

3. Lendas e profecias peninsulares.

A lenda alegórica “do leão e do porco”, ou seja, do rei cristão e do mouro infiel, onde se detectam vestígios da lenda de Merlim na qual, segundo Lúcio de Azevedo, originou-se essa alegoria:

LXXV

Já o Leão he experto
Mui alerto.
Já acordou, anda caminho.
Tirará cedo do ninho
O Porco, e he mui certo.
Fugirá para o deserto
Do Leão, e seu bramido,
Demonstra que vai ferido
Desse bom Rei Encuberto.

Profecias atribuídas a Santo Isidoro de Sevilha (século VII), que por sua vez estão na base das Coplas de Pêro de Frias e de João de Rocacelsa, e são uma das fontes que alimentam o mito do Encoberto. A estas profecias refere-se D. João de Castro na Paraphrase.

4. Reminiscências de lendas arturianas.

O rei Artur, que haveria de voltar da Ilha das Maçãs ou dos Pomos d’Oiro, Avalon, de há muito era conhecido na tradição erudita e popular portuguesa. Houve em Portugal um período de acentuada preferência pelos romances de cavalaria do ciclo arturiano. Recorde-se a epopeia graalística da época do Condestável Santo e dos 12 Palmeirins de Inglaterra (dos quais Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço, seria natural do Trancoso, terra do Bandarra ou Bandurra[29]), celebrizados por Camões que certamente se inspirou na portuguesa Ala dos Namorados, como esta se terá inspirado naquela bretã Távola Redonda.

CIV

Este Rei de grão primor,
Com furor,
Passará o mar salgado
Em um cavalo enfreado
E não sellado,
Com gente de grão valor.

Será o padre António Vieira quem, de maneira decisiva e para sempre, associará o Rei Encoberto, figurativo do Preste João, neto de Titurel e primo de Parsifal, a D. Sebastião, tornando-o Rei Desejado e até santificado, ao associá-lo ao santo do mesmo nome, o que aliás se conformava à empresa e divisa do monarca: a seta hagiológica e a frase latina Pro Fide. No já referido Sermão de S. Sebastião, pregado por ele na igreja de Acupe, Bahia, em 1634, funde num só o Sebastião rei e o santo homónimo:

“Divino Sebastião encoberto, bem-aventurado na Terra, e descoberto defensor que sempre fostes deste reino no Céu: ponde lá de cima os olhos nele, e vede o que não poderá ver sem piedade, quem está vendo a Deus; vereis pobrezas e misérias, que se não remedeiam; vereis lágrimas e aflições, que se não consolam; vereis fomes e cobiças, que se não fartam; vereis ódios e desuniões, que se não pacificam. Oh como serão ditosos e remediados os pobres, se vós lhes acudirdes: Beati pauperes! Oh como serão ditosos e aliviados os aflitos, se vós os consolardes: Beati qui lugent! Oh como serão ditosos e satisfeitos os famintos, se vós os enriquecerdes: Beati qui nunc esuritis! Oh como serão contentes os odiados e desunidos, se vós os concordardes: Beati estis cum vos oderint homines! Desta maneira, Santo glorioso, por meio de vosso amparo conseguiremos a bem-aventurança encoberta desta vida, até que por meio da vossa intercessão alcancemos a bem-aventurança descoberta da outra: Ad quam nos perducat.”[30]

Parece-me que António Vieira, sob os predicados teológicos e bandárricos (nisto inclusive servindo-se de textos sebásticos da Biblioteca do Carmelo de Santo António de Cascais[31]), adivinhava já ou tinha conhecimento directo do plano secreto urdido pelos quarenta patriotas conjurados para a Restauração de 1640. É assunto que deixo à análise de quem o queira aprofundar, porém, com uma pista: muitas das conjuras nacionalistas contra a ocupação filipina de Portugal foram secretamente preparadas no Brasil, por influência da política patriótica jesuíta favorável à restauração da independência nacional.

Não admira que as Trovas do sapateiro de Trancoso trouxessem as populações da Beira (onde se aglomeravam comunidades de judeus convertidos) em grande alvoroço. A intervenção do Santo Ofício prova o perigo que elas representavam, tendo então sido proibidas. Com tudo, o valor das Trovas não está em ser documento do messianismo judaico em Portugal: está, sim, na sua transmutação em documento da crença sebastianista. Ao serem “sebastianizadas”, as Trovas tornaram-se o texto fundamental do Sebastianismo, inicialmente alimentando o patriotismo dos portugueses de Quinhentos e Seiscentos e dos homens da Restauração, e depois ficando como base de toda a literatura sebastianista.

Com o êxito da Restauração uma imagem do Bandarra foi exposta na Sé de Lisboa, como se fosse um santo, e as Trovas foram adaptadas de maneira a convirem a D. João IV. O Sebastianismo tornou-se arma política que serviu para apoiar os restauradores da Independência. Durante todo esse período, houve significativa actividade editorial de literatura profética. Depois, nas horas de crise das invasões francesas, a renovação do Sebastianismo tornou a ser a resposta do inconsciente colectivo, provocando as mais complicadas interpretações das profecias sebastianistas.

A literatura culta (de Luís Augusto Palmeirim, Almeida Garrett, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, para citar só alguns) interessou-se pela figura do Bandarra, imortalizando-o como imagem central do Profetismo sebastianista, e na literatura popular é possível, provavelmente ainda hoje, detectar a mesma presença do Bandarrismo.

As Trovas do Bandarra, historicamente anteriores ao próprio nascimento de D. Sebastião por englobarem uma colectividade de profetas, a maioria populares, designada por Bandarrismo, tornaram-se o primeiro documento político da crença sebástica após a perda da independência nacional. Posteriormente, passaram a servir o messianismo político português em sucessivos períodos que adentraram o século XX e deram realce sebástico ao “rei-presidente” Sidónio Pais[32].

De facto, pode dividir-se a história das Trovas em períodos ou ciclos segundo a descrição de Álvaro Rodrigues de Azevedo, Dic. Univ. Português (vol. II, 1887), que aqui resumo:

Período Messíaco (1500-1578): vida do Bandarra, composição das Trovas (fase genuína); circulação das Trovas clandestinamente; perda do texto autêntico; aparecimento de vários textos, com mais ou menos inovações e alterações (fase apócrifa). Este período Messíaco é uma fase do Messianismo judaico baseado em textos bíblicos, e ainda não é Sebastianismo.

Período Sebástico (1578-1640): as Trovas ganham popularidade e apoderam-se da esperança messiânica em volta do regresso de D. Sebastião desaparecido em Alcácer-Quibir (interpretação sebastianista das Trovas). O grande intérprete: D. João de Castro (Paraphrase, 1603).

Período Bragantino (1640-1652): transposição do mito do Encoberto de D. Sebastião para D. João IV (edição das Trovas em Nantes, 1644, base das posteriores edições de 1809 e 1866).

Período do Quinto Império (1652-1750): doutrinação do p.e António Vieira referente ao Quinto Império (Esperanças de Portugal, V Império do Mundo, História do Futuro).

Período de Repressão Pombalina (1750-1799): várias correntes de sebastianistas, com ideias diferentes, provocando inquietação, levam à acção repressiva do marquês de Pombal.

Período do Século XIX (1799-1866): interpretação do Sebastianismo sob pressão das invasões francesas. Reacção anti-sebastianista expressa no opúsculo de J. Agostinho de Macedo, Os Sebastianistas (1810). Edições das Trovas de 1809 e 1866.

O mito do “Rei Salvador” tomou várias feições durante a 4.ª Dinastia. Em volta de D. João IV, como se viu, teceu-se uma complicada rede de doutrinas político-messiânicas com o fim de apoiar a Restauração. D. Afonso VI e os reis sucessivos – D. Pedro II, D. João V e D. José I – foram ainda testemunhas e objecto de interpretações messiânicas. No reinado de D. João V aumentaram os sebastianistas: uns intelectuais de foro simbólico-hermético concentrados na figura régia[33], e outros políticos descontentes com o governo da nação[34]. No tempo de D. José I, várias seitas de sebastianistas provocaram agitação e desordem: uns foram os sebastianistas ortodoxos ou puritanos, apoiados nas antigas profecias[35], e outros os chamados singelistas ou jacobeos, continuadores das ideias do Quinto Império mas sob chancela romana, antes, jesuíta, que ao início foram dirigidos por um certo Gaspar da Incarnação, e depois pelo próprio bispo-conde de Coimbra, D. Miguel da Anunciação. Algumas falsas interpretações do Bandarra iam directas ao próprio Ministro do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, o novo “encoberto” a descobrir… Não esteve o marquês de Pombal de acordo com os messianistas de ambas as cartilhas e reprimiu-os severamente. Aos ortodoxos ou puritanos, por em nome da autoridade dos textos sagrados fomentarem a guerrilha armada, de maneira a destruir a presente cabeça da Coroa, que para eles pertencia exclusivamente a D. Sebastião, que a viria retomar. Aos singelistas ou jacobeos, por fomentarem o terrorismo político objectivando o isolamento internacional do Estado português, para que melhor pudesse assumir a sua função geopolítica de Quinto Império do Mundo, com exclusão da palavra universal ou universalista aplicada ao mesmo pelo próprio padre António Vieira. Foi o marquês de Pombal, vendo em tudo isso o dédalo secreto dos jesuítas, quem acabou por mandar picar o epitáfio tumular do profeta de Trancoso, na tentativa vã de apagar a sua memória (não tivesse o Bandarra também prenunciado o seu declínio…).

Mas foi no tempo de D. João VI que a crença sebastianista intensificou-se por motivos de ordem social e política, factores que ficariam para sempre marcando tudo quanto ao Sebastianismo se refere, completamente distado do original Sebastianismo Messiânico simbólico de realidades intemporais e universais, o que transfere para o conceito de Teosofia “Lusitana”, se assim posso definir. A ameaça das invasões francesas, que então abalaram o País de Norte a Sul, provocou um estado de espírito colectivo favorável ao recrudescimento do Sebastianismo. A inquietação, a desconfiança, o temor do inimigo opressor, geraram nova corrente messiânica; esse messianismo tem explicação idêntica ao dos anos pouco posteriores a 1850, justamente porque a mitogenia tornou-se de novo inevitável. Isso gerou o aparecimento, em 1813, de António de Aguiar, demente exaltado que vestido de mouro passeava-se pelas ruas da Baixa de Lisboa, dizendo-se enviado de D. Sebastião[36]. Acusado de provocar tumultos, acabou preso no Limoeiro. Seria dementado, talvez, pela aflição das próprias invasões francesas, mas a crença iluminada em sua loucura não deixou de ser sintoma de reacção nacionalista imersa na mente popular. Por isso, ele arrastou consigo grande número de gente para o miradouro de Santa Catarina, procurando vislumbrar, com as suas lunetas apontadas à barra do Tejo, a nau que traria D. Sebastião, o Desejado, para libertar Portugal do mafarrico francês[37]. Advém daí o dito popular “ficar a ver navios no alto de Santa Catarina”…

No Sebastianismo – nome genérico dado no território nacional ao Messianismo português relativo a D. Sebastião, e, por transposição, a outros Chefes de Estado – têm-se incluído diversíssimos problemas que devem ser diferenciados:

O valor da personalidade de D. Sebastião como homem e como rei (na ética da História, Alcácer-Quibir tornou-se o lugar de juízo do rei, porque vencido)[38];

A batalha de Alcácer-Quibir (o lugar como símbolo da derrota; a derrota como símbolo da decadência; a derrota sublimada em mito de redenção futura pela volta do rei salvador)[39];

A crença no regresso do rei salvador (quer se chame D. Sebastião, D. João IV, D. João VI, D. Miguel ou até Sidónio Pais, o “rei-presidente”)[40].

O Sebastianismo é, pois, um mito messiânico ou avatárico que consiste na espera de um Rei Salvador, entronizado em Portugal mas destinado ao Mundo, idêntico ao Rei-Pescador da tradição arturiana que está, aliás, retratado num quadro de Gregório Lopes (séc. XVI) na igreja de São João Baptista, em Tomar; ele não é de modo algum D. Sebastião, embora este ainda em vida e por via jesuíta fosse elevado, por excelência, a figura messiânica do povo português. A essência do Sebastianismo não está na figura do rei (que lhe deu o nome), mas nos anelos proféticos do que há-de realizar. O Sebastianismo espiritual, simbólico ou teosófico, não preconiza o regresso logicamente improvável do monarca que foi D. Sebastião, e sim o advento do Rei do Mundo investido dos Poderes Espiritual e Temporal que se pretendia aquele tivesse sido – o Encoberto anunciado por Bandarra, que libertaria o povo das misérias e tiraria do mundo a “erronia”, indo enquadrar-se na figura testamental do próprio Melki-Tsedek, consignado “Imperador e Sacerdote Universal”. Daí a injusta intromissão dos qualificativos psicopatológicos aplicados ao rei – não porque ele não os merecesse em grande parte, mas porque nada têm a ver com o messianismo sebástico. As virtudes e qualidades do D. Sebastião mítico nada têm em comum com o D. Sebastião histórico.

O D. Sebastião-que-há-de-vir ultrapassou e está muito distante e muito acima do D. Sebastião historicamente morto nos fins do século XVI português. Este está morto, desapareceu na batalha impiedosa e desigual em força para os portugueses. Aparte os boatos de “literatura de cordel”, sem nenhuma prova concreta indesmentível, não terá fugido de Marrocos para Roma, para Limoges ou outra parte qualquer da Europa; terá mais coerência pressupor ter sido trucidado na batalha, onde o cerco árabe ao exército português e seus aliados fechou tenaz que impedia qualquer fuga, muitíssimo menos a do monarca cobiçado cabeça-de-armas das forças invasoras. Mas o espectro é mais vivo que o próprio rei; é o que José Régio faz afirmar ao sapateiro profeta, Simão Gomes, no diálogo que este sustenta com D. Sebastião, no poema dramático em três actos intitulado El-Rei D. Sebastião:

“A tua loucura não é senão entreveres o que não entendes. O teu suicídio não será senão a condição da tua vida imorredoira. Vais ficar reduzido a um espectro mais vivo que a tua própria vida! Mais real que tu próprio…”[41]

Essa loucura de que fala Simão Gomes é a que confere ao rei o poder de se projectar nos séculos com um vulto que ele não teve, a mesma que o eterniza, segundo os conhecidos versos de Fernando Pessoa na Mensagem – um D. Sebastião que se realizou somente no plano do sonho e da loucura:

“É O que eu me sonhei que eterno dura.
É Esse que regressarei.”

Observa-se, pois, o mito sebastianista como uma forma encapotada de fazer política em momentos de aflição nacional ou do exercício aberto de políticas repressivas. Pelo contrário, o mito sebástico apresenta-se como expressão viva do ser português e coluna dorsal da própria espiritualidade portuguesa, senão ibérica, transposta à universalidade espiritual conformando o seu entendimento à multivariedade de povos.

É assim que desdigo a hipocondria apátrida dos sustentadores de teses surreais dando três pilares para a História de Portugal: a “origem exemplar”, que é o complexo viriatino manipulado a bel-prazer desde o século XVI até Oliveira Salazar; a “nação superior”, que foi quando Portugal perdeu a independência no século XVII; a “nação inferior”, que foi quando Portugal recuperou a mesma independência e começou a prosperar economicamente; desses três complexos resultou um quarto chamado “canibalismo cultural”, que vem até à actualidade, onde os “canibais” são quantos perfilham da ideia sagrada que assistiu e assiste aos ciclos da História, o que é uma “redunda ignorância e superstição, completamente desfavorável ao esclarecimento e progresso da sociedade”[42]. Esta óbvia inversão dos valores nacionais não é inédita[43], mas é complexo psicossocial obviamente claro até para o leitor menos atento. Fico-me pelas virtudes originais e defeitos originados referentes ao Ciclo Providencialista do Padre António Vieira:

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): ANTEVISÃO e PREVISÃO.

DEFEITO originado (COMPLEXO): NEGAÇÃO e CONTRACÇÃO.

V

Por fim, tem-se o ciclo de modernidade da identidade nacional, podendo situar-se o seu começo no ministério do marquês de Pombal e continuando a desenvolver-se na actualidade, com períodos de retraimento, como o da Guerra Civil portuguesa no século XIX, ou a ditadura da I República que foi a antecâmara do Estado Novo chefiado por António de Oliveira Salazar, que ao assumir-se “absoluto” como os antigos “ditadores romanos”, levou o país ao egocentrismo e centripetalismo do ultramontano “orgulhosamente sós”, factor lunar que não confere com a natureza solar de Portugal, ou seja, centrifugo próprio a uma nação de diáspora desde a primeira hora. Mas esse foi um fenómeno temporário, ainda assim com aspectos positivos, mormente no evitar da Guerra Civil que a I República esteve prestes a despoletar e com isso desagregar o país então atravessando um período de extrema debilidade e inconstância governamental, militar, política-social e económica, nisto sendo repostas as finanças dos seus cofres falidos.

Falando do período pombalino, assim chamado devido ao mais que controverso ministro do rei, mas de carácter e convicções fortes, Sebastião José de Carvalho e Melo (13.5.1699 – 8.5.1782), a sua visão futurista que desejava o progresso do país fosse a que preço fosse, sem dúvida apresenta-o personagem controverso marcante do início da Modernidade portuguesa.

Como parte da nobreza conservadora e do clero tradicional, representado pelos jesuítas, se opunha às reformas sociais do marquês de Pombal, este intentou neutralizá-los, chegando até, diz-se, a engendrar um atentado contra a real pessoa de D. José I, em 3 de Setembro de 1758, mas cuja culpa recaiu sobre a família Távora, próxima da Companhia de Jesus e a principal opositora do “déspota iluminado”. O atentado deu-se nos então arrabaldes de Lisboa, perto de onde está a igreja da Memória, na Ajuda, onde muito a propósito estava o palácio de D. José de Mascarenhas, duque de Aveiro e o mais distinto dos Távoras. Todos os membros dessa família foram presos acusados da tentativa de regicídio, iniciando-se o processo dos Távoras que desfechou com a sua execução selvática, no descampado de Belém defronte ao actual palácio da Presidência da República. Ao mesmo tempo, levou-se a efeito a expulsão dos jesuítas do reino.

Apesar dos Távoras terem negado todas as acusações, foram condenados à morte, os seus bens confiscados pela Coroa, o seu nome apagado da linhagem dos nobres, os brasões familiares picados e proibido pronunciar o nome Távora. A sentença ordenou a execução de todos, incluindo mulheres e crianças. Apenas as intervenções da rainha D. Mariana e de D. Maria Francisca, a herdeira do trono, salvou a maioria deles. A marquesa de Távora, porém, não seria poupada. Ela e os outros acusados que tinham sido sentenciados à morte, foram torturados e executados publicamente em 13 de Janeiro de 1759. A execução teve requintes de selvajaria como nunca se vira: as canas das mãos e dos pés dos condenados foram partidas com paus, as suas cabeças decapitadas e depois os restos dos corpos queimados e as suas cinzas lançadas ao rio Tejo.

O palácio do duque de Aveiro foi demolido e o chão salgado, numa maldição do marquês de Pombal para que ali nunca mais nada crescesse. Mas nesse mesmo ano, D. José I mandou erigir aí um padrão de pedra com cinco anéis esculpidos (correspondentes ao número dos Távoras executados), tendo na base uma lápide referente aos acontecimentos.

Hoje, acaso só alguns saberão onde repousam os restos mortais de Sebastião José de Carvalho e Melo, e menos ainda da saga atribulada dos mesmos. Estão na Ajuda, numa urna dentro da igreja da Senhora do Livramento e S. José, monumento neoclássico de Lisboa construído em 1760, dois anos depois do episódio trágico dos Távoras, que o rei D. José I, cuja hipocondria marcou a sua fraqueza de carácter, faria erguer como voto de gratidão por se ter salvado do atentado cometido contra ele neste lugar, ficando assim conhecida como igreja da Memória.

Quis o destino que os restos mortais do ministro forte de um rei fraco tivessem por última morada esse templo, após uma série de incidentes com os mesmos e com a própria igreja, como se a maldição dos homens revertesse contra eles por Justiça de Deus.

Com efeito, o ministro Sebastião José morreu em Pombal, onde estava desterrado, em 8 de Maio de 1782, envolto no hábito franciscano e com as insígnias da Ordem de Cristo, sendo enterrado na igreja do convento de S. Francisco de N.ª Sr.ª do Cardal. Mas quando se deu a Terceira Invasão Francesa de Portugal, esse convento foi transformado em caserna da soldadesca que, vendo ali o túmulo do grande estadista e na esperança que houvessem valores dentro dele, não hesitou em profaná-lo, arrombando-o e espalhando as ossadas no chão da igreja. Acudiu o general Massena, ordenando a reposição das ossadas no túmulo e que não se mexesse mais nele. Depois, em 1856, o marechal Saldanha ordenou a trasladação das ossadas para Lisboa, ficando o caixão inutilizado em Pombal o qual se considerava uma “relíquia”.

Os restos mortais do marquês de Pombal ficaram na ermida das Mercês, à Rua do Século, onde fora baptizado em 6 de Junho de 1699, num túmulo abandonado que assentava sobre quatro elefantes. Quando se resolveu demolir essa ermida, já no século XX, pensou-se atirar fora o caixão e as ossadas juntas com o lixo da sacristia, mas em 7 de Novembro de 1910 a Câmara Municipal de Lisboa interviu e reco-lheu-as no seu Arquivo. Só em 1923 seriam trasladadas para a igreja da Memória, por iniciativa do quinto marquês de Pombal e de uma comissão republicana presidida pelo maçom Borges Grainha.

A igreja esteve fechada até 23 de Dezembro de 1951, quando um grupo de soldados do Regimento de Cavalaria 7 (almas fortes no amor de Deus), por iniciativa pessoal, reabriu-a ao culto divino, mas voltou a fechar em 1985 ferida gravemente por um raio caído sobre o seu zimbório.

Mesmo não se sabendo se o marquês de Pombal foi membro efectivo da Maçonaria, apesar dos vários indícios afirmando-o iniciado em alguma Loja de Londres ou de Viena de Áustria – nesta cidade sendo quase certo que tomou contacto íntimo com os iluminados da Baviera, apóstolos do “regalismo divino” – quando foi embaixador do nosso país nessas cidades, ainda assim ele permanece como verdadeiro patrono da Maçonaria Portuguesa a que se devem as comemorações dos seus dois centenários, a trasladação das suas cinzas para a igreja da Memória e a erecção da sua estátua monumental em plena rotunda de Lisboa, no Parque Eduardo VII, no cimo da Avenida da Liberdade[44].

Dedicado a Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras e marquês de Pombal, o projecto de construção do monumento lisboeta à sua memória teve início em 1882, por subscrição pública, e em 1914 ficou concluído o projecto assinado pelos arquitectos Francisco Sanches, Adães Bermudes e António do Couto, iniciando-se as suas fundações em 1917 e assente a primeira pedra em 13 de Maio de 1926. Finalmente, no dia 13 de Maio de 1934 o monumento foi inaugurado pelo Presidente da República, general António Óscar Carmona.

Com efeito, quem presidiu à Comissão Executiva da construção da estátua do marquês de Pombal, em 1926, foi o dr. Sebastião de Magalhães Lima (Rio de Janeiro, 30.5.1850 – Lisboa, 7.12.1928), reconhecido maçom que desempenhou as funções de presidente do Conselho da Ordem (1906-07) e depois eleito (1907) Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, cargo em que foi sucessivas vezes reeleito e mantinha quando faleceu. Acumulou-o com o de Soberano Grande Comendador do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite, a que ascendeu em 1907.

De maneira que tendo o dédalo da Maçonaria Portuguesa inspirando a feitura da composição estatuária do monumento, ficou a escultura do mesmo a cargo de Francisco dos Santos que, por sua morte, foi prosseguida por José Simões de Almeida e Leopoldo Neves de Almeida. A ideia seria a erecção de uma Coluna Perfeita que simbolizasse a realização social da Utopia Maçónica, isto é, a edificação de uma Sociedade Humana Justa e Perfeita, na qual o ministro iluminado ficaria como seu expoente máximo. É assim que se o tem no seu topo esculpido em bronze, com a mão esquerda ou passiva apoiada num leão, representando o Poder Temporal sob o seu jugo determinado, ao qual a própria Coroa se submeteu. Está defronte para a Baixa de Lisboa, que mandou reconstruir após o terramoto de 1755.

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): PROGRESSO e MODERNIDADE.

DEFEITO originado (COMPLEXO): REGRESSÃO E CONSERVAÇÃO.

 

NOTAS

 

[1] Miguel Real, A Morte de Portugal. Editorial Campo das Letras, Porto, 2007.

[2] Eduardo Lourenço, O labirinto da Saudade. Psícanálise Mítica do Povo Português. Edições D. Quixote, Lisboa, 1978.

[3] F. da Cunha Leão, O Enigma Português. Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1973.

[4] Pinharanda Gomes, Introdução à História da Filosofia Portuguesa. Editora Pax, Braga, 1967.

[5] Antonio Garcia Bellido, La Peninsula Iberica en los comienzos de su Historia. Editorial Istmo, Madrid, 1985.

[6] Enrique Flórez, Rafael Lezcano González, España Sagrada. Edición de Real Academia de la Historia, Madrid, 1859.

[7] A. Schulten, Viriatus. Neue fahubücher für der Klassicher Altertum, Berlim, 1917.

[8] Maurice Pastor Muñoz, Viriato – o herói lusitano que lutou pela liberdade do seu povo. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006.

[9] Publicado originalmente em Londres em 1849, por William Smith, em três volumes enciclopédicos como Dicionário de Grego e Romano Biográfico e Mitológico.

[10] Adriano Vasco Rodrigues, Os Lusitanos, Mito e Realidade. Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998.

[11] Anselmo Arenas Lopez, Viriatho no fué português sino celtibero. Guadalajara, 1900.

[12] António de Vasconcellos, Viriatho. Coimbra, 1894.

[13] José Leite de Vasconcelos, Cale e Portucale. Opúsculos, Vol. V – Etnologia (Parte I). Lisboa, Imprensa Nacional, 1938.

[14] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2009.

[15] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[16] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Setembro de 2007. Obra reeditada pela Madras Editora, São Paulo, 2011.

[17] Alexandre Herculano, Terceira Crónica Breve – Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, I.

[18] D. Fr. Timóteo dos Mártires, Crónica de Santa Cruz, vol. I. Coimbra, 1955.

[19] Manuel Gonçalves Cerejeira, bispo de Lisboa, D. Afonso Henriques poderá ser beatificado? Revista dos Centenários, ano 1, n.º 8, 31 de Agosto de 1939.

[20] Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004. Obra reeditada pelo autor através da Euedito em Lisboa, 2017.

[21] Pretendeu ter lido nos astros a vinda do monarca, que se daria em 1653. Vd. Lúcio de Azevedo, A Evolução do Sebastianismo, 2.ª ed., p. 55. Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1947.

[22] O poema de Bocarro é longo e sem interesse estético; não pode, no entanto, excluir-se a sua referência, pois insere-se na história do Encoberto português. Anacefaleose significa “recapitulação”; os poemas destinavam-se a recapitular as glórias de Portugal.

[23] Escrito que ele mandou ao Bispo do Japão, André Fernandes, que teve de o entregar ao Tribunal do Santo Ofício.

[24] Padre António Vieira, Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, introdução e anotações de Hernâni Cidade, 2 volumes. Livraria Progresso, Baía, 1957.

[25] Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, Processo do padre António Vieira, 1659-04-29 / 1668-06-30, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 1664.

[26] J. Lúcio de Azevedo, História do Futuro, inédito de António Vieira, com notícia explicativa. Coimbra, 1918.

[27] “Isto que nos poetas é hipérbole, no profeta é verdade pura, e certa sem encarecimento.” – In A. Vieira, Sermões – Sermão da Quinta Dominga da Quaresma. Lisboa, 1655.

[28] Francisco Manuel de Mello, Epanáforas de Vária História Portugueza. Lisboa, 1676.

[29] Pedro de Azevedo, Archivo Historico Portuguez, 1914.

[30] P.e António Vieira, Sermão de S. Sebastião, in Obras Completas do P.e António Vieira, Sermões, vol. II, pp. 335-350. Lello & Irmão-Editores, 1959.

[31] Lusitanus, Sinais dos Tempos (Fim das Nações – Império Universal – Triunfo da Cruz – Fim do Mundo). Lisboa, 1924.

[32] António Belard da Fonseca, Dom Sebastião – Antes e depois de Alcácer-Quibir. Tip. Ramos, Afonso & Moita, Lisboa, 1978.

[33] Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal. Lisboa Ocidental, 1732. Esta obra foi reeditada em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian em Fevereiro de 1987, com nota de apresentação de Yvette Kace Centeno, quase em simultâneo no mesmo ano com uma outra reedição da mesma obra, desta feita em Mafra com nota preambular de Manuel Joaquim Gandra. Conta esta última com uma dedicatória final de Anselmo Caetano a D. João V e ao elogio do V Império que a primeira não possui, apesar de melhor apresentada e organizada que a segunda.

[34] Lúcio de Azevedo cita o escrito Exame preciso dos fundamentos dos sebastianistas nas misérias em que se acha Portugal no ano de 1712 (in A Evolução do Sebastianismo, 2.ª ed., p. 100).

[35] Belard da Fonseca publicou parte da célebre resposta dada por um anónimo à pergunta se se devia ou não, ainda em 1714, esperar D. Sebastião, na qual se afirma, por vários argumentos com o auxílio de várias profecias, que ainda se deve esperar aquele rei. Esta resposta foi “dada à luz por hum anonimo no Anno de 1823 e offerecida aos amantes do Encuberto”.

[36] António de Aguiar, um enigmático retrato português. In Antiqualhas – História, Bibliografia, Arte. Edição de autor, sem nome, Lisboa, 1952.

[37] José Agostinho de Macedo, Os Sebastianistas. Lisboa, 1810.

[38] Na Literatura sebastianista: Aquilino Ribeiro (Aventura Maravilhosa de D. Sebastião Rei de Portugal depois da batalha com o Miramolim, Lisboa, 1937); a evocação histórica feita por Antero de Figueiredo (D. Sebastião Rei de Portugal, Lisboa, 1924) e os escritos polémicos de António Sérgio, nos quais se discute largamente o valor da personalidade de D. Sebastião. Na Poesia: Mário Beirão (D. Sebastião, in Lusitânia, 1917), Fernando Pessoa (Mensagem, 1934), Miguel Torga (D. Sebastião, in Alguns Poemas Ibéricos, 1952). No Teatro: José Régio (El-Rei Sebastião, 1949) e ainda Metzner Leone (El-Rey D. Sebastião, s/d).

[39] Na Literatura sebastianista: João de Lemos (Alcácer Kibir, in Cancioneiro de João de Lemos, 1859), Joaquim de Araújo (Preludios da Catastrophe, in Luís de Camões, 1887), Camilo Castelo Branco (Alcácer Kibir, in Nas Trevas, Sonetos sentimentais e humorísticos, Lisboa, 1890), Mário Beirão (Alcácer Quibir, in Lusitânia, 1917, e O Sonho de Alcácer Quibir, in Novas Estrelas, 1940), Afonso Lopes Vieira (Alcácer Quibir, in Ilhas de Bruma, 1917, e Violas de Alcácer, ibidem), Gomes Ferreira (Símbolo, in Longe, 1920), António Alves Martins (As Guitarras de Alcácer, in Anunciação, 1921), Virgínia Victorino (Alcácer Kibir, in Renúncia, 1926), Pedro de Menezes (Alcácer Kibir, in As Cinco Chagas de Cristo, 1927).

[40] Na Literatura sebastianista: Luís Augusto Palmeirim (D. Sebastião, in Poesias, Lisboa, 1859, e O Sebastianista, ibidem), António Nobre (O Desejado, in Despedidas, 1902), Afonso Lopes Vieira (O Encoberto, in Ilhas de Bruma, 1917), Antão de Morais Gomes (Profecia da Lenda, in Antão era Pastor, 1924), Fernando Pessoa (Mensagem, 1934, e ainda o messianismo do poema À Memória do Presidente Rei Sidónio Pais, em 1920).

[41] Ed. Atlântida, Coimbra, 1949, p. 154. Uma afirmação idêntica fizera Luís de Magalhães: “A individualidade histórica de D. Sebastião é secundária comparada com a que a lenda lhe criou. A sombra vale mais do que o corpo que a projecta.” – In D. Sebastião, p. 255. Coimbra, 1898.

[42] Miguel Real (pseudónimo de Luís Martins), ob. cit.

[43] Joel Serrão, Do Sebastianismo ao Socialismo em Portugal. Livros Horizonte, Lisboa, 1973.

[44] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita (em cinco línguas). Edições Jonglez, Paris, 2009. Ainda do autor, Guia de Lisboa Sagrada e Profana. Euedito, Lisboa, 2016.

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J.H.S. entre as Valquírias – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Dez 26 2017 

Sempre que este assunto é abordado, por norma em recato no óbvio receio do seu conhecimento público, o incómodo é manifesto e o arremate é sempre “deixe-se para lá” como final abrupto de tema indesejado, malquisto, de todo incompreendido. Refiro-me a Helena “Iracy” Gonçalves da Silva Neves, a Hercília Gonçalves de Souza e a Helena Jefferson de Souza, as misteriosas mulheres de Henrique José de Souza.

Os biógrafos do assunto – Sebastião Vieira Vidal e Carlos Lucas de Souza, sobretudo estes que afirmariam e selariam o seu entendimento por um colectivo institucional que o aceita por crença irreflectida, impensada, havendo minoria que suspeita por reflexão pensada  – afirmam que Helena Iracy faleceu vítima de acidente em Lisboa no ano 1899, que Hercília Gonçalves casaria com Henrique José de Souza no início do século XX e tiveram vários filhos, um deles uma menina que recebeu o nome da primeira que entretanto fora trocada pela original algum tempo depois de nascida, de modo que essa segunda Helena, para efeito imediato, seria sempre filha de Henrique e Hercília, e que um membro da família Ferreira – António Castaño Ferreira – registaria depois essa criança como sua “irmã” para evitar a fama de pederasta a Henrique José de Souza, de quem era amigo e seguidor das suas crenças esotéricas, assim o furtando à justiça penal se o caso viesse a ser denunciado, como de facto aconteceu.

Este assunto “explodiu” por volta de 1932-34, por ocasião da morte Hercília Gonçalves e antes do casamento com Helena Jefferson de Souza, quando Henrique José de Souza junto de pessoas da sua confiança encetou explicações esotéricas relativas às mulheres de sua vida, baseado nos conhecimentos do Budismo Tibetano relativos ao chamado Tulkuísmo e Avatarização. Tais confidentes, gente “prática”, manhosa até nas lides metafísicas, dotada de precaríssimos conhecimentos que não iam mais além do simplismo da linguagem dos conceitos do espiritismo kardecista (como ainda hoje acontece), ouviram tudo isso como coisa exótica intragável, bizarra, para todo o efeito, absolutamente ininteligível, e ficaram só pelo “óbvio” da pederastia de Henrique José de Souza. Vieram para a praça pública e denunciaram o caso nos jornais, deu-se o escândalo e Henrique José de Souza acabou envolvido com os tribunais. A polémica varreu a opinião pública brasileira e sul-americana de lés-a-lés. Ele foi ilibado mas a má-fama ficou até hoje, a ponto de quando no ano 2002 me entrevistei, em São Paulo, com conhecido editor e maçom de alto grau brasileiro, ter-me avisado para ter cuidado com essa seita muito malvista, que até o seu líder estuprara e engravidara a própria filha!!! Tentei explicar que esse era um grande equívoco, ignoro se debalde ou não.

1941 foi o ano do início da campanha difamatória contra Henrique José de Souza, por consequência afectando a Sociedade Teosófica Brasileira por ele fundada em 1928, começada por Armando Salles, colaborador da revista A Cigarra, e movida pela chamada tríade “TEB” (Taba – Edmundo – Bento, ou sejam Tabaja Bolanos Barbosa, Edmundo Gouveia Cardillo e Bento Martins), campanha que só terminou em 1944 depois de ter sido desmascarada em tribunal, ficando provada a sua má conduta cívica e moral. No ano anterior, 15 de Junho de 1943, essa tríade publicara num jornal no Norte do Brasil, em Belém do Pará, um artigo contra o Professor Henrique José de Souza e a S.T.B., mas a campanha difamatória não foi adiante. Com efeito, em 15 de Setembro de 1943, foi arquivado o Processo de Inquérito Judicial contra o Professor Henrique José de Souza, instaurado em virtude da denúncia feita à polícia pelos supraditos, sendo o despacho de arquivamento do mesmo feito pelo Procurador do Distrito Federal (Rio de Janeiro), dr. Romão C. Lacerda, e publicado no Jornal do Comércio. Por fim, em 24 de Setembro de 1944, a pedido da Directoria da Sociedade Teosófica Brasileira, para que o público geral fosse esclarecido acerca da campanha sinistra da tríade “TEB” (espécie de segundo tomo do casal Coulomb detrator de H. P. Blavatsky) e o bom nome do Professor Henrique José de Souza, da sua família e da S.T.B. ficassem limpos de toda e qualquer infâmia, nessa data foi publicado no Jornal do Comércio a notícia seguinte com valência jurídica:

JORNAL DO COMÉRCIO DE 24 DE SETEMBRO DE 1944

Publicações a pedido – A Sociedade Teosófica Brasileira ao Grande Público do País.

Relativamente a uma publicação dos Srs. Bento A. Martins e Edmundo G. Cardillo, feita na secção “a pedido” deste jornal, número do dia 17.09.1944, a Sociedade Teosófica Brasileira, com o único objectivo de esclarecer o grande público do País, tem a dizer o seguinte:

1.º) Os Srs. Bento A. Martins e Edmundo G. Cardillo foram sócios da Sociedade Teosófica Brasileira, durante seis anos.

2.º) Afinal, por motivos graves e devidamente comprovados, acabaram sendo eliminados dos quadros sociais da S.T.B.

3.º) Tudo fizeram os sócios eliminados para arrastar consigo os outros membros da S.T.B. o que, como é notório, jamais conseguiram; e, assim, dos três directores que iniciaram a campanha de difamação, só restam eles dois (Bento Martins e Edmundo Cardillo), de vez que o terceiro deles já se desligou, conforme carta endereçada à Directoria da S.T.B., em 28.10.1943.

4.º) Tomados de verdadeiro acesso de ódio e despeito, Bento e Edmundo continuam, por todos os meios e modos e a propósito de tudo, uma pertinaz e insidiosa campanha de vingança, campanha que não atemoriza e nem sequer atinge aqueles contra os quais é dirigida.

5.º) Ao contrário do que falsamente afirmam os Srs. Bento A. Martins e Edmundo G. Cardillo, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA não está sendo e nunca foi processado por qualquer das Varas Criminais desta Capital; quem no-lo afirma, desmentindo-os, são os próprios Distribuidores da Justiça, segundo se vê das certidões que, linhas abaixo, vão transcritas. Já a mesma coisa não poderá dizer Edmundo Gouveia Cardillo, funcionário do Ministério da Justiça, exercendo as funções de secretário do Director do Serviço de Obras do citado Ministério, que, por um crime contra a família, que confessou ao ser lavrado o respectivo flagrante, ESTÁ SENDO PROCESSADO pelo Juízo da 6.ª Vara Criminal desta Cidade. São estas as explicações que a “SOCIEDADE TEOSÓFICA BRASILEIRA” deve ao grande público do País.

CERTIDÃO DO DISTRIBUIDOR DO 8.º OFÍCIO

Eu, bacharel Aníbal Monteiro Machado, serventuário do Oitavo Ofício de Distribuidor de Justiça local do Distrito Federal, CERTIFICO que, revistos os livros de registo de distribuições de INQUÉRITOS, FLAGRANTES, CONTRAVENÇÕES E DEMAIS FEITOS aos Juízes de Direito das Varas Criminais, no período de quinze de Setembro de mil novecentos e trinta e quatro até quinze de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro, deles nada consta contra o nome por extenso de HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA.

O referido é verdade e dou fé. Capital Federal, em vinte de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro. Eu (rubrica ilegível), escrevente juramentado a dactilografei e eu, Paulo Mello Gouveia, substituto, a assino. Ass.) Paulo M. Gouveia.

CERTIDÃO DO TERCEIRO OFÍCIO

CERTIFICO que, dos livros criminais deste Cartório e, nos termos do pedido supra, nada consta contra o nome por extenso de Henrique José de Souza, de primeiro de Janeiro de mil novecentos e trinta e quatro (1934) a dezoito de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro. O referido é verdade e dou fé. Distrito Federal, dezoito de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro. Ass.) João Máximo de Andrade.

CERTIDÃO DO SEGUNDO OFÍCIO

O Doutor Hermes Valverde da Cunha Vasconcelos, serventuário do Segundo Ofício e Distribuidor da Justiça local do Distrito Federal, nomeado na forma da lei, CERTIFICA, depois de ter revisto os livros de seu cartório relativamente às distribuições CRIMINAIS, que NÃO CONSTA distribuição alguma contra o nome por extenso de HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, desde dezoito de Setembro de mil novecentos e trinta e quatro. O referido é verdade e aos mesmos livros me reporto e dou fé. Eu, João Valverde de (ilegível), escrevente auxiliar a dactilografei. Eu, João Silveira, escrevente substituto subscrevo e assino. Distrito Federal, dezanove de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro. Ass.) João Silveira.

CERTIDÃO DO PRIMEIRO OFÍCIO

O Doutor Olegário da Silva Berrardes, serventuário vitalício do Primeiro Ofício Distribuidor da Justiça do Distrito Federal, nomeado na forma da lei, CERTIFICA, depois de ter revisto os livros de seu cartório relativos às distribuições criminais desde dezoito de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro, NÃO CONSTA distribuição alguma contra HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA. Certifica mais que esta certidão abrange as varas ímpares criminais e todas as outras a partir de primeiro de Março de mil novecentos e quarenta. O referido é verdade e aos mesmos livros me reporto e dou fé. Capital Federal, dezanove de Setembro de mil novecentos e quarenta e quatro (19.09.944). Eu (ilegível), primeiro distribuidor, a subscrevo e assino. Ass.) Olegário Berrardes.

Rio de Janeiro, 23 de Setembro de 1944. J. HENRIQUE DA SILVA QUEIROZ, Director Geral da S.T.B.

Apesar de todos os desmentidos formais da Justiça brasileira sobre a pressuposta pedofilia pederasta de Henrique José de Souza, ilibando-o a toda a linha, o boato ganhou raízes e inclusive até hoje faz estremecer e duvidar muitos dos afiliados na Sociedade por ele fundada. A coscuvilhice e a intriga têm muita força nas mentes emocionais, sempre prontas para o assassínio moral seja de quem for, por isso não raro a crença feroz de hoje amanhã pode ser descrença odiosa. Déjà vu… Deixo isso na poeira da pobreza d´espírito dos que têm pudor em falar do que não houve e despudor em dizer o que não há, e passo de imediato aos factos biográficos dos personagens em causa, dando-lhes interpretação iniciática à luz desta Obra Divina em colisão aberta com o conspurco das estreitas mentes ordinárias, “práticas” e “espertas” do comércio da manipulação, mesmo que seja com o mais sagrado e puro, como recentemente disse a familiar próximo de António Castaño Ferreira, o tal «comparsa» de Henrique José de Souza:

Bom dia ————-

Recebi a sua correspondência a contento, muito obrigado pela atenção. Primeiro que tudo, devo lamentar – como já lamentei diversas vezes, em privado e em público – o descaso que a directoria da antiga Sociedade Teosófica Brasileira fez do respeitável Sr. Eng.º António Castaño Ferreira, num momento em que ele e a família necessitavam urgentemente de apoio humano, moral, económico, etc., deixando-o e aos seus entregues à triste sorte. Isto foi, é e será profundamente reprovável indigno de humanidade minimamente saudável psicomentalmente (em emoções e pensamentos), além de demonstrar ingratidão desmedida de gente de mau trato e inculta, pois se sabe que quanto mais inculto mais fanático, beato se torna. Henrique José de Souza, fundador desse movimento teosófico no Brasil em 1928, assim como a sua (segunda) esposa Helena Jefferson de Souza, sobretudo esta, quiseram auxiliar o Eng.º Ferreira mas as directorias dos departamentos da S.T.B. em São Paulo e no Rio de Janeiro, sobretudo a de São Paulo, obstaculizaram de maneira a mais descarada, infame e desprezível. Por que? Tão-só por ciúmes, vaidade e fanatismo.

António Castaño Ferreira foi um sábio, foi o primeiro a introduzir e a divulgar a Teosofia (“Sabedoria Divina”) nos departamentos da Sociedade Teosófica Brasileira, falava mais do que escrevia e era dotado de uma intuição invulgar. Conhecia obras literárias, de cunho esotérico e académico, de cor e salteado. Dotava-se de uma memória e dicção extraordinárias. Era ímpar e Henrique José de Souza tinha-o na maior das considerações, motivo de inveja para muitos outros.

Nos anos finais da sua vida (faleceu em 28 de Janeiro de 1958 no Hospital das Clínicas, em São Paulo, estando sepultado no cemitério do bairro da Vila Mariana, na Rua Lacerda Franco, na mesma capital paulista), cansado de tanto fanatismo e idolatria à pessoa de Henrique José de Souza que pedia constantemente que não o fizessem – tenho documentação particular nesse sentido, agora mesmo a meu lado – para não o cobrirem ainda mais de ridículo na praça-pública, e vendo os seus ideais de pensamento superior substituídos por crencismo cego, fanático, idólatra, Castaño Ferreira afastou-se da S.T.B. e foi para o Sul do Brasil, para o Paraná, onde viveu algum tempo. Quando regressou a São Paulo, a sua relação com a S.T.B. havia esfriado irremediavelmente, ainda frequentou algum tempo a sede do departamento paulista da S.T.B., mas já não era a mesma coisa, a organização já lhe era estranha e considerava-a nada teosófica por causa dos comportamentos dos mais destacados da mesma, arrastando atrás de si um rebanho enorme de “marias vão com as outras”, de “vaquinhas de presépio”, de “puxa-sacos ouve aqui, conta ali”, deficiência psicológica de quem se revela psiquicamente fraco, débil, inseguro de si, “manada de impuberdade” que até hoje preenche essa organização. O próprio Henrique José de Souza disse e escreveu várias vezes, nessa ocasião, que se arrependia de ter fundado a S.T.B. ante o rumo que a mesma tomara.

Acerca do regime frugívoro. Um dia este poderá ser, quando o espécime humano estiver dotado de organismo mais compatível com ele, a principal dieta, mas não actualmente, só servindo para purificações orgânicas com prazo limite, como a própria Medicina prescreve. O regime misto – frutas, legumes, carne e peixe, etc. – continua a ser o mais indicado para o Homem. Admito que o Eng.º Ferreira tenha sido extremado nesse regime que adoptou por sua própria iniciativa e que em si mesmo não faz mal, a não ser que seja exagerado. Jejuns e frugívoros são aconselhados, repito, até pela Medicina, mas com prazos muito limitados para não causar danos irreversíveis no organismo.

Seja como for, a postura e o pensamento metafísico de que se dotava o Eng.º António Castaño Ferreira, assim como qualquer outro(a) com as mesmas postura e pensamento, inevitavelmente entra sempre em choque com o meio humano geral de quem possui postura e pensamento “práticos” desafins a qualquer expressão religiosa ou metafísica, consequentemente não entendendo essas posturas e até as censurando por as considerar anormais no comportamento e lógica do senso comum. Nisto, o pensamento místico, metafísico, colide sempre com o pensamento “prático” comum estranho e até hostil àquele.

Compreendo a revolta do senhor seu pai nas notas que me repassou. Era filho, certamente não gostou e revoltou-se por ver o pai, a mãe e os irmãos passarem tão mal como passaram e que seria perfeitamente evitável se, repito, houvessem pessoas de boa índole capazes de dar a mão – invés de só apontar e criticar – nem que fosse por gratidão ao que fora, logo a seguir a Henrique José de Souza, o mais importante dessa organização. Haviam pessoas de muitas posses nessa ocasião que podiam ter ajudado facilmente, e não o fizeram por estarem mentalmente envenenadas por outros com cargos de destaque.

Com essa revolta e incompreensão, para mim ambas compreensíveis, aparecem algumas contradições nas notas que me repassou, que também compreendo. Aliás, a questão Henrique – Helena é o grande “calcanhar de Aquiles” nessa organização até hoje. Henrique José de Souza, por volta de 1932-34, deu a um ou a dois confidentes, inclusive ao Eng.º Ferreira, sobretudo a este, uma explicação esotérica para essa relação e a do seu primeiro casamento, mas o que disse extravasou para fora e foi de imediato interpretado com o senso comum de incesto, pederasta, etc. A coisa chegou a tribunal três vezes, e três vezes Henrique foi absolvido – a meu lado estão os documentos das sentenças dos juízes. Não foi isso que ele disse aos seus confidentes, mas as cabecinhas ordinárias da gente “prática” levou o assunto para o plano da sexualidade e incesto. O facto é que o rumor pegou e mantém-se vivo até hoje, não importando o que foi dito e provado três vezes em tribunal.

Henrique José de Souza – nascido em Salvador em 15 de Setembro de 1883 e falecido em São Paulo em 9 de Setembro de 1963 –  ainda não tinha quatro anos de idade quando foi assistir com os pais à exibição do Circo “Pery”, tendo ficado encantado com as façanhas de uma trapezista, Laureta ou Laurete Sabatini. Chegado a casa, morando no Portão da Piedade em Salvador da Bahia, foi imitar o que viu a artista fazer empoleirando-se nas grades com lanças do portão da casa. Desequilibrou-se e caiu, perfurando o peito. Aconteceu no dia 13 de Maio de 1887.  Por volta de 1914, Henrique perdeu a fortuna que herdara do pai no negócio de trapiche por causa do deflagrar da I Guerra Mundial, saiu de Salvador e foi até Nazaré procurar novos negócios que lhe possibilitassem a sobrevivência e a dos seus. Regressou depois a Salvador e mudou-se para o Rio de Janeiro, indo viver em Niterói. Nessa altura ele já era casado, desde 1903, com Hercília Gonçalves, filha de José Gonçalves e Custódia Gesteira Gonçalves, nascida em 18 de Setembro de 1886 e falecida em 17 de Agosto de 1931. Henrique casaria depois em segundas núpcias com Helena Jefferson de Souza – Helena Jefferson Ferreira, adoptando o sobrenome “de Souza” após casada – em 4 de Abril de 1937, na Conservatória do Registo Civil no Rio de Janeiro. Ele jurou até ao fim da tarde que antecedeu a noite em que morreu, na Clínica São Lucas, na capital paulista, que até à data do casamento nunca tocara sexualmente Helena, mesmo sentindo uma grande afeição por ela a que Hercília nunca fora alheia e por isso tinha muitos ciúmes, posto os seus dotes mentais e empatia metafísica serem muito restritos, era mais uma senhora “prática” com a sua vaidade feminina que os bens herdados da sua família lhe permitiam ter. Doente cardíaca foi sempre apoiada por Henrique, que a assistiu, foi-lhe dedicado e fiel até à hora de fechar os olhos. Henrique tivera o nome de batismo Honorato José de Souza por ter sido batizado à pressa em casa – o batismo repetiu-se depois e tenho aqui a certidão do seu batismo na Bahia – por doença de varíola que quase o fulminou sete dias após nascido. Depois o seu nome foi mudado para Henrique.

António Castaño Ferreira nasceu em São Paulo em 8 de Novembro de 1903, teve como irmãos Helena Jefferson Ferreira (de Souza) nascida em Pontalete, Minas Gerais, em 13 de Agosto de 1906, e Clementina Castaño Ferreira nascida no Rio de Janeiro em 12 de Outubro de 1914. Os seus pais foram João Augusto das Neves Ferreira, português natural da cidade do Porto com negócios em Viana do Castelo, e Agostina Castaño Ferreira, espanhola galega de Muxia ou de Orense nas proximidades de Santiago de Compostela, capital da Galiza. Fizeram parte das emigrações luso-galegas que no último quartel do século XIX embarcaram de Vigo e de Viana do Castelo para o Brasil, em busca de vida melhor. O famoso poeta e político Abílio Manuel Guerra Junqueiro foi primo direito de João das Neves Ferreira, e de facto um dos seus tios, João Maria Ferreira do Amaral, foi Governador de Macau em 1846, tendo antes se distinguido nas armas em 24 de Fevereiro de 1823 no Brasil, tomando parte na Batalha de Itaparica, onde foi ferido perdendo um braço. Depois, já em Macau, participou na Primeira Guerra contra o Ópio. Foi assassinado a cutiladas por chineses do narcotráfico na cidade macaense, em 22 de Agosto de 1849. Nasceu em Lisboa em 4 de Março de 1803.

Posto isso, tudo isso não desculpa o tratamento indigníssimo que o digníssimo Sr. Eng.º António Castaño Ferreira e seus familiares receberam da parte daqueles que tudo lhe deviam, no sentido doutoral de transmissão de conhecimentos sagrados até à época inéditos no Brasil. Não tem justificação possível tais atitudes e prova bem quanto baixa e doentia pode ser a condição humana sob o pretexto de uma crença qualquer que, bem parece, nem se sabe qual seja realmente. A minha visão e postura sobre Henrique José de Souza e António Castaño Ferreira são absolutamente diversas do que se apregoa nesse meio pseudo-esotérico. O que sei de ambos colide abertamente com o apregoado, tanto em teoria como em prática.

Mais uma vez, muito obrigado pela sua atenção e queira aceitar os meus mais respeitosos cumprimentos com os votos dos maiores sucessos para si e seus familiares.

Acerca do “Mistério Hercília”, para levantar o véu do seu enigma profundo torna-se necessário dispor os personagens seguintes:

HONORATO JOSÉ DE SOUZA – O sósia e tulku de Henrique José de Souza, na realidade, o Adepto AT-NIAT-DWIJA. Estava programado para casar com Hercília Gonçalves e tal aconteceria se não fosse a ocorrência trágica do acidente de Lisboa, no cruzamento da Rua Augusta com a Rua da Conceição, com Helena Gonçalves, na 5.ª feira de 27 de Julho de 1899 (Lua Nova), fazendo com que Henrique voltasse ao Brasil, mesmo assim tendo ido antes até ao Norte da Índia, a Srinagar, “Lugar dos Jinas”. Este Adepto leva o nome HONORATO  (HONORATUM, HONRADO) por ser aquele dado à pressa a Henrique quando do seu batismo apressado após sete dias de nascido e caindo às portas da morte fortemente atacado de varíola, como já disse, doença que foi debelada com o auxílio visível de dois médicos da família (drs. Manuel Vitorino Pereira e Manuel Pereira de Mesquita) e o invisível dos Auxiliares espirituais do mesmo Henrique, nomeadamente Maximus Tertius, Akadir, Kadir, Rabi-Muni, Senhor dos Munis”, e Samael, o famoso John King das façanhas psicomentais de H. P. Blavatsky, ou seja, o “Rei João” ou “Rei dos Jinas” (Todes).

HERCÍLIA GONÇALVES (DE SOUZA) – Casou-se com Henrique José de Souza, em primeiras núpcias, em 1903. Nasceu em 29 de Agosto de 1886 e faleceu em 18 de Julho de 1931, sendo filha de José Gonçalves, falecido em 1900, e de Custódia Gesteira Gonçalves, falecida em 1885 (parecendo inverosímil a data 1935 dada por alguns biógrafos para o seu falecimento), ambos brasileiros. Do casamento de Hercília com Henrique houveram oito filhos: Valter Orion de Souza, Carlos Gonçalves de Souza, Alberto de Souza, Isabel de Souza, Alzira de Souza, Altair de Souza, Selene de Souza e Altina de Souza, segundo Carlos Lucas de Souza; ou então Alberto, Isabel, Helena Iracy, Carlos, Alzira, Alina, Altair, Selene e Valter, segundo Sebastião Vieira Vidal.

Que o casal teve prole vasta é facto provado em registo notarial e em fotos de família, e é também facto impossível o que aparece nas notas do filho de Castaño Ferreira dizendo que Henrique casou Hercília que era viúva rica já mãe de filhos. Ora, Hercília na ocasião do seu casamento com aquele ainda não teria 17 anos de idade, o que torna impossível já ser viúva e mãe de vários filhos. Bastava apontar essa discrepância para derrubar todas as mais insinuações inventadas no controverso processo.

Segundo as Revelações Iniciáticas, HERCÍLIA era uma Mónada sob a égide do 4.º Senhor ATLASBEL que, por “favor kármico” devido aos bons resultados do seu casamento com Henrique, evoluiu para o nível superior do 5.º Senhor ARABEL, portanto, do Emocional ao Mental, o que vai bem como significado do seu nome, “Orvalho Matutino”, e motivo para HENRIQUE ter nomeado o seu filho Valter Orion de Souza “Guardião da Montanha Sagrada Moreb” (São Lourenço, Sul de Minas Gerais) e “representante do Senhor dessa, Rabi-Muni”. Mas o verdadeiro consorte de HERCÍLIA no Plano Interno era o próprio HONORATO, este claramente para o 5.º Senhor e que serviu de elo ou ponte para a transição de Hercília ao seu nível, ficando equiparados. Mas, “Hercília foi a Mãe de Helena Gonçalves manifestada como Helena J. Souza”. Dito assim, há algo que não confere e até sugere o travo amargo de um incesto póstumo. A verdade é a seguinte: Hercília foi a Mãe ADOPTIVA ou Tutora de Helena J. Souza que fora para a sua família (isto é, do Professor Henrique) ainda bebé, por os familiares desta – o pai viúvo e pobre – na ocasião não terem meios pecuniários para a sustentarem, e o Professor na altura fazer parte das famílias ricas de Salvador. Neste processo inter-famílias entrou também a SILVA NEVES que apadrinhou o processo. É daí que vem o realce do sobrenome paterno, das Neves, dado a Hercília, também pelos motivos que se seguirão. Quanto a Helena Gonçalves, tão-só manifestava a sua Consciência no Duat através da novel Helena na face da Terra, tendo esse processo de “avatarização sumária”, direi assim, sido encetado na Rua do Pilar, n.º 63, de São Salvador da Bahia, com a bebé de tenra idade. A saúde débil (obesidade afectando o sistema cardíaco) de D. Hercília e as privações que teve de suportar após a perda da fortuna do marido em 1914, por causa da Conflagração Mundial que então estourara afectando as Bolsas do Mundo, levou-a a morrer ainda nova, em 18 de Julho de 1931, com 45 anos e alguns meses de idade. Dessa sua “esposa morganática” (por não ser a sua verdadeira contraparte ou Shakti original), disse o Professor Henrique José de Souza no Livro da Reconstrução do Pramantha do Ciclo de Aquarius (Carta-Revelação de 2.1.1962):

Examinemos superficialmente o mistério de Hercília. Como se sabe, era ela e Honorato os dois nossos Tulkus que deviam fundar Dhâranâ, etc., por causa real ou verdadeira da Obra como nossos Anunciadores, mas não o foram devido ao acidente de Lisboa. Como minha esposa, Hercília foi mãe de filhos que, a bem dizer, foram frutos cármicos do 5.º, por sinal que todos dignos e valiosos. Sim, os primeiros não tendo sido meus (isto é, do 6.º Senhor, esotericamente falando – nota VMA), e mais quatro meus (do segundo casamento – nota VMA), isto é, aqueles sob a influência do 5.º, sendo que Walter, como se sabe, foi criança trocada, em 1922, por Ser do Duat, etc., e a quem armei Cavaleiro Rosacruz e dei outros privilégios bem merecidos. Hercília, como minha primeira esposa, espécie de esposa morganática, apresentava-se ao meu lado nos teatros e cinemas, que foram meus, ricamente vestida e coberta de jóias. Toda a plateia não tirava os olhos do nosso camarote. Viveu feliz a meu lado até que me levaram toda a fortuna. Então, a mesma mulher chegou ao ponto de cozinhar, de lavar roupa, etc. Morreu no colo de Helena, como seu Tulku. Não devemos falar do muito que sofreu, pois foi uma grande mártir na vida, mas recebeu a devida recompensa indo ter a Goberum, onde hoje se acha ao lado de Arabel. Ainda hoje os nossos inimigos continuam armando intrigas ou cigarreando injúrias, calúnias e difamações, que nós vamos vencendo à custa da nossa inteligência. Enquanto eles, asfixiados na sua ignorância, pedem esmolas aos “pés do Mestre”, ou no colo da Mestra, como quem mama na Vaca Astral.

HELENA “IRACY” GONÇALVES (DA SILVA NEVES) – Nasceu em 1884. Pressuposta irmã de Hercília Gonçalves, para a sua educação esmerada foi entregue bebé ainda aos cuidados da família dos padrinhos, os ricos armadores Barões Henrique e Helena da Silva Neves, sendo levada para Goa, antiga Índia Portuguesa, onde viveu na Vila Neves (com uma linda estátua desse deus solar Apolo no jardim dianteiro da residência) na Rua das Flores, n.º 19, nas proximidades da igreja de São Lourenço, em Agaçaim. O tupi Iracy, “Lua Faceira”, é alcunha teatral que lhe foi dada depois, possivelmente no Brasil, onde esteve com a Companhia Teatral Infantil “Tim-Tim por Tim-Tim”, que em 1899 actuou no Teatro São João de Salvador, capital baiana. Foi aí que conheceu Henrique José de Souza, tomaram-se de amores que consumaram em Caixa-Pregos, nos encantos da paradisíaca Ilha de Itaparica, fronteira à cidade, e com ela grávida (dos corpos predestinados aos Bodhisattvas AKDORGE E AKGORGE, dizem as Revelações) Henrique fugiu da casa paterna, embarcando após assinar o livro de bordo com o nome Honorato da Silva Neves, querendo passar também ele por afilhado do Barão, para acompanhar Helena no regresso a Lisboa, onde ainda nesse ano desapareceria de forma trágica num acidente de carruagem na Rua Augusta, mas antes já tendo ambos viajado a São Lourenço de Ansiães, Trás-os-Montes, e a Sintra, para que o Mistério ficasse completo. Esta é a PRIMEIRA HELENA, a ORIGINAL, cujas vestes kármicas ou corpo psicomental (kama-manásico) subsistiu até 1949, sendo incinerado em 24 de Dezembro desse ano no Caijah, capital do Mundo de Duat, mas cuja essência das mesmas vestes integrou-se em Helena Jefferson Souza, isto é, esta tomou posse plena da consciência das suas experiências do passado.

HELENA JEFFERSON FERREIRA (DE SOUZA) – Nasceu em 13 de Agosto de 1906 em Pontalete, Minas Gerais, filha de João Augusto das Neves Ferreira, português, falecido em 25 de Dezembro de 1945, e de Agostinha ou Agostina Castaño, espanhola, falecida em 1935. Helena Jefferson Ferreira teve como irmãos António Castaño Ferreira, nascido em São Paulo em 8 de Novembro de 1903 (dizendo as Revelações que a sua Mónada ou Essência Espiritual havia saído pela Embocadura de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, indo reencarnar em São Paulo), e Clementina Castaño Ferreira, nascida no Rio de Janeiro em 12 de Outubro de 1914. Após a morte da sua mãe adoptiva, D. Hercília Gonçalves de Souza, casou no cartório carioca com Henrique José de Souza, de quem teve os quatro filhos conhecidos de todos (Hélio, Selene, Jefferson e Hermés). Esta é a SEGUNDA HELENA, a “CONSEQUÊNCIA KÁRMICA” DA ORIGINAL.

Observando a coisa do ponto de vista estritamente profano, de acordo com o senso comum do ordinário ou vulgar, já antes a primeira ida em 1921 do Professor Henrique José de Souza a São Lourenço (MG) com a jovem Helena Ferreira, ele mesmo o jura nas suas cartas privadas e manteve até á hora de cerrar os olhos para o mundo, não se deveu a quaisquer interesses sexuais inconfessados a consumar longe dos olhares da sociedade, mas exclusivamente a ela ser tratada de mal de saúde nessa estância hidromineral, aproveitando a ocasião para também visitarem os familiares dela em Pontalete. O grande respeito do Professor por D. Hercília e pela sua memória póstuma, levou a que só passados sete anos de viuvez casasse com D. Helena, no Registo Civil do Rio de Janeiro em 4 de Abril de 1937, nascendo o primogénito do casal, Hélio Jefferson de Souza, em 1 de Março de 1938, e em 26 de Agosto de 1940 Selene Jefferson de Souza, depois Jefferson Henrique de Souza em 13 de Maio de 1942 e o falecido Hermés Jefferson de Souza em 6 de Fevereiro de 1944.

Como se observa, tendo ao meu lado toda a documentação oficial e oficiosa, tanto jurídica como esotérica, sobre o caso, a história humana desta família é como a de tantas outras e não se lhe descobre alguma mácula referente a incestos e outras coisas baixíssimas do género ou piores… Confesso que o assunto é-me sumamente enojante, e se tomou as proporções conhecidas foi porque nenhum dos seguidores (?) de JHS soube interpretar devida e correctamente o problema iniciático que ele lhes propusera na intimidade da confiança depositada (e traída), muito pelo contrário, levaram tudo para o pior possível no ser humano e fizeram alarde disso na praça pública da época, redundando em escândalo de grande alarido pelos jornais e tribunais cujo eco ressoa até hoje.

Mas também não foi só por isso que ele ficou malquisto e malvisto na sociedade profana e nos meios espiritualistas no quase geral brasileiro: foi e é igualmente por ciúme e despeito, não conseguindo o emocional de muitos superar o mental de um único, e pela sua relação próxima com certos políticos de nomeada da época (Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Adhemar de Barros, etc.) que fizeram a História Contemporânea do Brasil, alguns deles hoje considerados o pior que o país já teve política-economicamente. A incompreensão grassa, e a sociedade dita esotérica fundada em 28 de Setembro de 1969 pelo primogénito do Professor Henrique, invés de desfazer os equívocos gerais quanto a JHS, desgraçadamente aparenta aumentá-los com exemplos distónicos do apregoado à vista geral, que descareço descrever. O imediatismo profano parece impor-se ao sentido sagrado, iniciático ou espiritual que assiste à História da Obra do Eterno na Face da Terra.

HELENA (DOLORES GUZMÁN ou GUSMÃO ou GUSMÕES) DA SILVA NEVES – Espanhola, possivelmente nascida no povoado de Mariz, próximo de Oviedo, Astúrias, foi esposa do Barão HENRIQUE ÁLVARO ANTUNES DA SILVA NEVES (Portugal, 1849 – Brasil, 20.11.1944), abastado português transmontano, consignado Chefe Temporal da ORDEM DE MARIZ sob o nome secreto Malaquias (considerado Dharani de 1.ª Categoria), que enriqueceu prosseguindo o negócio de armador marítimo da família, repartindo a sua residência entre Lisboa, Goa e finalmente São Salvador da Bahia. Reservado mas muito activo, subsidiou a Companhia Teatral Infantil “Tim-Tim por Tim-Tim” em 1898-1899, e serviu de paraninfo do jovem Henrique José de Souza na vinda deste a Portugal, acompanhando Helena Iracy. Na capital portuguesa, o insigne casal residiu nas cercanias da Rua do Barão (de Alvito) que é vizinha da Sé Patriarcal.

De origem judaico-cristã, sabe-se que a família Neves fixou-se na Covilhã ainda no século XII, e nesse século ou no seguinte terá misturado o seu sangue com o tronco familiar dos Silvas, donde Silva Neves.  Está provado que a família Neves possui raízes judaicas sefarditas, e com a adesão ao Cristianismo de alguns dos seus membros terá adoptado por Orago Nossa Senhora das Neves, evoco máximo associando-a a Santa Maria Maior, por certo bem aceite pelos não conversos do tronco familiar identificando-a à “Santa Ester” expressiva da Virgem Branca, forma titular de descrição da própria Shekinah, a “Presença Real de Deus” associada ao Espírito Santo. Os Silva Neves espalharam-se por quase todo o Norte do País, desde o Douro Litoral e Interior até Trás-os-Montes e Minho (neste fixados próximo de Barcelos, em Mariz, berço genealógico da família deste nome), daí migrando mais para Sul, para Coimbra e Lisboa.

O casal de Barões da Silva Neves teve vários filhos, um deles António da Silva Neves, o “Antoninho”, que ficou por Goa mas acabou mudando de residência para Benares. Helena da Silva Neves foi a Mãe adoptiva de Helena Iracy em Lisboa e em Goa, a qual teve por Tutor o pintor francês, apodado “Adepto de Pondicherry” por Henry Stell Olcott, Jean Dubonnet Beauville (Abraxis), que a foi aprimorando física e espiritualmente até finalmente se tornar veículo perfeito da Consciência Celeste da Mãe Divina, Allamirah – “Olhos do Céu” – ou Maria, tanto vale.

Para demonstrar que a vinda a Portugal dos jovens enamorados em 1899-1900 não foi mera “blague” ou “lenda de fundação” inventada pelo Professor Henrique José de Souza, e que tampouco a família dos Barões da Silva Neves é pura invenção, como a de ter vivido em Goa, Lisboa e Salvador, respigo dois apontamentos históricos. O primeiro: ao fim de 18 dias de governação, em Fevereiro de 1835, o Governador da Índia Portuguesa, o goês Bernardo Peres da Silva, por carta régia de D. Pedro, Duque de Bragança, é impedido de exercer o seu cargo por uma revolta dirigida pelo governador militar, e refugia-se em Bombaim de onde ainda tentou repor a legalidade, em vão. Regressará a Lisboa em 1838 como deputado por Margão, frustrando-se assim a merecida governação da Índia Portuguesa por um goês, em parte devido às suas medidas reformistas tidas por demasiado rápidas. Médico, participante das lutas liberais na metrópole, no Brasil, publicara um Diálogo entre um Doutor em Filosofia e um Português na Índia sobre a Constituição Política de Portugal.

O segundo apontamento: por volta de 1937, em Lisboa subiu a cena a revista teatral “Zás-Trás-Pás”, na qual ficou famosa a canção de nome “Cinzas” interpretada pela cantora Maria das Neves. A dado trecho, cantava-se: “Cinzas da fogueira de um grande amor… envolto nas brumas da lenda”. E toda a Lisboa da época andava com a cantiga na boca trauteando, afinal… a memória de 1899 dos amores inflamados na Ilha de Itaparica entre os Gémeos Espirituais, deixando para trás as cinzas, as brumas e a lenda que, com “arte e manha”, no Teatro em Portugal, se poria toda a Lisboa a cantar o idílio amoroso, mesmo sem o saber, de Henrique e Helena com o Mar Grande a beijar-lhes os pés e os corpos se estreitando num amor puro como é o primeiro. E depois para a mesma Lisboa vieram…

Posto tudo isso, indispensável para clarificar todas e quaisquer situações, algumas e não poucas as mais desagradáveis, avançarei agora para o mistério avatárico de Hercília e os três Luzeiros (Ishvaras) que ao manifestarem-se tomam a forma de Planetários (Kumaras). Tudo baseado no fenómeno do Tulkuísmo, este que consiste na projecção da Consciência de um Mestre sobre o seu discípulo que pode ou não ter noção imediata disso. No seu estudo acerca dos Jinas Tibetanos e seus Tulkus (publicado na revista Dhâranâ n.º 106, Outubro-Dezembro 1940), o Professor Henrique José de Souza assim define o termo:

Por diversas vezes temos falado dos Shamanos ou Jinas (Homens Régios conquistadores, Sábios, Imortais, etc.), porém, até agora, não nos ocupámos da maneira como os mesmos se comunicam com os homens vulgares (ou “mortais”), ou, se o quiserem, como com os mesmos estão ligados directamente. Tal maneira de “comunicação” ou “ligação” possui no Tibete o nome de tulku, que anagramaticamente (por temura ou permutação de sílabas) faz-nos lembrar a palavra latina cultus, ou a veneração dispensada pelos “mortais” a tudo aquilo que desconhecem, por isso mesmo reconhecendo como superior, inclusive, as fugazes aparições astrais, ou mesmo físicas, daqueles “Imortais”, como ainda as manifestações tangíveis operadas através dos tulkus.

Se o tulku é um “Buda Vivo”, ou melhor, a mayávica ou ilusória sombra viva projetada por um Buda ou Mestre, o la-ma ou lha-ma é o seu discípulo encarnado, na razão das duas raízes lha, espírito, e ma, matéria, Mãe Natureza ou Mater-Rhea, etc., onde o Espírito tomou o seu corpo astral. O neófito, ou seja, aquele que não alcançou ainda o necessário desenvolvimento psíquico para o grau do “discipulado”, é por sua vez um trapa ou aluno.

A palavra tulku significa literalmente “uma forma criada por processo mágico”. Assim, de acordo com o que ensinam os sábios e místicos tibetanos, devemos considerar os tulkus uma espécie de fantasmas, emanações ocultas, verdadeiros arlequins (mas nunca um frankenstein, um monstro humano) fabricados por um mago, para que fiquem às suas ordens ou serviço, digamos, uma espécie de “estátua viva” onde se reflete a vontade do seu criador ou ”escultor”.

Uma grosseira interpretação para o fenómeno tulkuístico, é aquela da repercussão hiper-fisica que se dá entre o hipnotizador e o seu sujet: sendo o primeiro tocado por um estranho, o segundo acusa o lugar, justamente em que aquele foi tocado. O mesmo se dá quando, por meio de um alfinete, o sujet lançando um grito de dor leva a mão, automaticamente, ao lugar onde o operador foi ligeiramente espetado. E isso porque tal sujet não é mais do que um autómato da vontade do operador. Por isso mesmo, seu duplo ou tulku.

Sobre o que seja Avatara, o Professor Henrique José de Souza define-o em termos sucintos: “Avatara, Avatar, Avata, é termo sânscrito que significa – A encarnação ou manifestação cíclica do Espírito de Verdade, do Verbo, de Deus na Face da Terra”. Indo ao encontro do que dissera antes Helena Petrovna Blavatsky no seu Glossário Teosófico: “Avatara é a descida da Divindade na forma ilusória de uma personalidade que no Plano Físico toma aparência objectiva, mesmo realmente não a sendo. Essa aparência ilusória, essa forma ilusória não tem passado nem futuro, em virtude de não possuir encarnações anteriores e nem subsequentes nascimentos, pelo que nela não há intervenção da Lei do Karma, da Lei do Equilíbrio Universal. Muito misteriosas são, sem dúvida, essas encarnações que fogem ao círculo geral dos renascimentos”.

Trata-se do Mistério da Divina Encarnação num corpo humano, previamente preparado para tão transcendente desiderato, em cada um dos Ciclos em que se reparte a Vida Universal, onde cada Avatara ou Messias poderá trazer consigo a potencialidade de 100%, 75% ou 50% da Consciência do Absoluto, donde a sua classificação como Avataras Totais, Parciais e Momentâneos. Há ainda o avatara tulku, que foi comum no Budismo Tibetano, onde uma consciência poderosa podia agir num corpo físico alheio como se fosse o seu, algo semelhante mas não idêntico ao fenómeno espírita das “incorporações” mediúnicas.

Conforme está nas Cartas-Revelações no Livro de Tsong-Kapa (B), do Venerável Mestre JHS, ainda assim propositadamente truncadas (por isso fazer parte da mecânica do processo de Iniciação Assúrica ou Mental – rumo ao Intuicional e o Espiritual – do mesmo JHS), observa-se que Hercília – Honorato faziam parte da Corte do 4.º Luzeiro ATLASBEL, ela sendo mesmo Arauta Dele, mas que por influência benéfica, impulsionando-a para um escalão imediatamente acima, de Helena “Iracy” e de Henrique “Honorato”, passou a integrar a Corte do 5.º Luzeiro ARABEL. Helena Iracy, de quem Hercília foi Tulku, era Arauta do 5.º Senhor ou Dhyan-Choan (Logos Planetário), e todo o Trabalho inicial da Obra fez-se sob a égide da mesma Divindade – desde Lisboa e Sintra, como 5.º Posto Universal, até aos Dois Bodhisattvas AKDORGE e AKGORGE, “frutos” do 5.º Senhor dos quais ela abortou, vítima do Acidente de Lisboa, mas para os brotar finalmente em 10 de Fevereiro de 1935, no Mundo de Duat!… Honorato – Hercília passaram de Colunas do 4.º Senhor a Colunas do 5.º, com isso a Vasos de Eleição ou Veículos da Consciência Universal dos respectivos ARABEL e GOBERUM, esta a forma humana (ADAMITA) da estrela ALGOL, a contraparte sideral do antigo desterrado para a Terra, para a Geração Humana, Terceiro Luzeiro (A)LUZBEL, acompanhado da respectiva Corte de Anjos “Assúricos” revoltados – em 1963 redimida por AKBEL, enquanto aquele em 1948 – que sonegaram a Ordem do Eterno (Oitavo Logos) em prosseguir avante a Evolução que haviam iniciado no terceiro Globo da anterior Cadeia Lunar.

Entretanto, António Castaño Ferreira e Tancredo de Alcântara Gomes aprimoraram-se em vida junto de JHS, adquirindo os elementos que careciam à integralidade das suas consciências humanas, isto é, Ferreira à Sabedoria inata acrescentou o AMOR, e Tancredo à Devoção natural juntou a SABEDORIA. Foram Colunas de empréstimo do 5.º Senhor ARABEL à forma humana (JHS) do 6.º Senhor AKBEL. Após falecerem, eles voltaram ao seu verdadeiro Senhor, ou seja, o Quinto.

Norteando todo o processo de manifestação tulkuística no desenrolar humano no seio da Obra Divina, na sua cúspide está o 6.º Ishvara e a sua divina contraparte ou Shakti, como sejam AKBEL (Mercúrio) e ALLAMIRAH (Vénus), apossados das formas físicas de Henrique J. Souza (El Rike) e Helena J. Souza (El Lena), integralmente naquele, parcialmente naquela; após a desencarnação e volvimento das suas Colunas humanas, Ferreira e Tancredo,  ao Mundo de Duat, RABI-MUNI e TARA-MUNI passaram a ser as suas Colunas internas, cujos corpos ocuparam após a morte física. Como Arauta do 6.º Senhor aí está LORENZA Feliciani Domiciani, Shakti de LORENZO Paolo Domiciani (vulgo Monsieur le Comte Saint-Germain, assim reconhecido na França e restante Europa do final do século XVIII), representada sobre a Terra por Helena J. Souza, algumas vezes veiculando parcialmente a sua Consciência, sobretudo no Templo.

A fim de facilitar o entendimento de todo este intricado, exponho a seguir um pequeno esquema, posto ser este assunto que quase ninguém hoje sabe interpretar com a correcção e decência mínimas, tornando-se igualmente, por factores puramente imediatos os mais profanos, para não dizer os mais ordinários possíveis, ainda mais melindroso.

No mistério do tulkuísmo das consciências e dos avataras dos corpos está a solução deste problema magno, que, verdade se diga, não é para qualquer cabeça. Mesmo assim, creio que agora o assunto fica suficientemente clarificado.

À luz das Revelações da Obra, “cavando cada vez mais fundo [para servir ao Rei do Mundo]”, falarei agora de ADAMITA, a “Primeira Mulher”, a “Primeira Mãe”. Esta é a Filha primogénita de AKBEL e ALLAMIRAH, seus progenitores celestes, o que significa ser irmã de AKDORGE, o Filho dos mesmos Pais, aparelhando ao lado do consorte ARABEL, ela como a mesma primitiva Rainha atlante GOBERUM, que deu de si os 7 Dhyanis-Budhas do Novo Ciclo e com aquele “Deus da Ara” chefia-os da direcção humana e espiritual do Mundo desde o escrínio do Templo Jina do Roncador (Mato Grosso, Brasil), o de ARAKUNDA.

Agora discorrerei um pouco agora sobre o mistério da partogénese a ver com a mesma ADAMITA. Desde domingo de 17 de Setembro de 1899 até ao próximo 24 do mesmo mês, os Adeptos encabeçados por ABRAXIS (ou GABRIEL, o “ANJO DO NATAL”), já no Norte da Índia, levaram o jovem Henrique José de Souza – com a sua Essência Espiritual ocupando temporariamente o corpo de Lorenzo Paolo Domiciani – em sono paranishpânico (paranirvânico, monádico ou divino) ao Templo Subterrâneo de Srinagar (Jara-Lagpa ou Jara-Khan-Lhagpa), situado no Mundo de Badagas, indo juntar-se a Helena Iracy Gonçalves da Silva Neves que para aí fora levada desde o escrínio jina de Lisboa – Serra de Sintra, aquando do seu acidente “fatal” na capital portuguesa quase um mês antes, com a sua Essência Espiritual ocupando temporariamente o corpo de Lozenza Feliciani Domiciani. Apadrinharam-nos dois Kumaras, com dois outros, SANAT e sua contraparte KALI, acompanhando depois a sua viagem iniciática; estando o jovem casal em completo sono físico mas inteiro despertamento espiritual, esses seus corpos físicos constituíram um 8.º casal, ou 8.ª Essência Paranirvânica ou Monádica, que serviram de base a 7 outros casais, igualmente em sono paranishpânico, que nada mais eram que os “Meninos e Meninas do Tim-Tim por Tim-Tim”, indo ser avatarizados pelas 7 Krittikas (Plêiades) e os 7 Rishis (Ursa Maior) enquanto os seus Espíritos imortais desprendiam-se dos invólucros físicos (só permanecendo o duplo etérico, para manter a vida corporal), indo directamente para Agharta onde cada casal foi acolhido por um dos sete casais de Reis e Rainhas do Gar-Edon. Foi assim que tiveram início os 7 Rituais Manúsicos em 7 dias consecutivos.

Esses corpos vazios serviram de base física ao 8.º casal que agiu como MAHA-RISHI e MAHA-KRITTIKA, e durante sete dias consecutivos ocuparam cada casal dos sete, vibrando nele no mais transcendente dos consórcios amorosos, indo bem a sua Chave de Pushkara corporal com o nome do lugar da 7.ª Cidade Aghartina onde se realizou a divina Geração, onde se geraram os 7 Rebentos do Futuro, os Príncipes de Srinagar – vindo a ser os 7 Dhyanis-Jivas, e depois, a partir de 1949, Dhyanis-Budhas – que nasceriam 9 meses depois, sendo levados por excelsos tutores e tutoras para lugares determinados do Mundo onde receberiam primorosa educação, ficando alguns deles assinalados nos anais históricos sob nomes diversos.

Do consórcio amoroso de Henrique-Helena nos corpos de Lorenzo-Lorenza, expressando a Consciência do Andrógino Celeste ARDHA-NARISHA-KUMARA, por sua vez incarnando a Consciência Dhyan-Choânica de AKBEL – ALLAMIRAH, tendo por apoio imediato as Consciências Supremas dos Mundos de Duat e Agharta, como sejam RABI-MUNI – TARA MUNI e BAAL-BEY – BAAL-MIRAH, nasceu em SIMLAH, cidade pouco abaixo de Srinagar, ADAMITA, no domingo de 8 de Julho de 1900. A Essência Espiritual de ADAMITA passou a vibrar em Agharta, na contraparte feminina do “5.º Kumara de Projecção”, que era a própria LORENZA, aí vibrando ao lado de LORENZO, como forma concreta do mesmo Kumara. A Essência Psicomental dessa Dhyani passou a vibrar no corpo kama-manásico de HELENA IRACY, que depois seria levada para o Duat mas mantendo-se o seu corpo físico em Badagas. De maneira que só lhe faltava uma veste corpórea na Face da Terra, para por ela puder manifestar a sua consciência hiperfísica, supra-espiritual…

Isso aconteceu com uma segunda Helena (H2), a mesma Helena Iracy novamente reencarnada (ficando os seus antigos corpos em custódia nos Mundo Jinas), nascida em 13 de Agosto de 1906 em Pontalete, Minas Gerais, filha dos supraditos srs. João Augusto das Neves Ferreira e Agostinha Castaño Ferreira. Devido às grandes dificuldades económicas por que passava esse casal de emigrantes, entregou a sua filha recém-nascida, no final desse ano, aos cuidados amigos do empregador rico de João Augusto no trapiche no porto de São Salvador da Bahia, precisamente o Professor Henrique José de Souza e a sua primeira esposa, Hercília Gonçalves de Souza.

Em 24 de Fevereiro de 1907, morando o Professor Henrique José de Souza na Rua do Pilar, n.º 63, em São Salvador (BH), nessa noite chuvosa riscada pelos relâmpagos de furiosa trovoada, aconteceu que o Chefe das Forças do Mal pretendeu raptar a criança, o que resultou debalde após luta terrível com JHS de espada em riste (arrancada de sua própria coluna vertebral como a flamejante de Kundalini materializada), coadjuvado por AKADIR (Adepto ocultado na aparência ilusória do ferreiro baiano António Maceió), tendo a atenção diabólica sido atraída pelo facto das energias psicomentais da consciência de ADAMITA, nessa data, terem começado a vibrar na menina Helena, o que constituiu uma «troca» mas não tanto de corpos e sobretudo de consciências… questão francamente tulkuística. Aos poucos, com o passar dos anos, a consciência da menina – que viria a ser Helena Jefferson de Souza – foi se adaptando à da Grande Mãe, até se integrar definitivamente Nela na Noite de NATAL de 24 de Dezembro de 1949.

Em SIMLAH foi gerada ADAMITA, e em SRINAGAR foram gerados os 7 DHYANIS-JIVAS, todos como Filhos da Terra ou Eva, consequentemente, do 4.º Luzeiro ATLASBEL, e aprovados pelo Rei do Mundo, RIGDEN-DJYEPO (“Rei dos Jivas”), que os assinalou como “Jóias da Coroa”, a Cúspide Monádica expressiva da mais alta evolução do Género Humano.

Conceição ou concepção amorosa sem paixão, da qual Henrique e Helena, nos corpos de Lorenzo e Lorenza, foram os principais protagonistas, acto físico mas da maior transcendência espiritual onde estiveram implicadas diversas Hierarquias, desde o Céu do Segundo Logos (ADAM-KADMON) perpassando a Face da Terra (ADAM-HEVE) e chegando ao Seio do Mundo (ADAM-CHEVAOTH), a Shamballah mesma, cujo Sol é a expressão do 4.º Logos Planetário afim à 4.ª Cadeia em que tudo e todos estamos.

Tanto que não houve paixão cobiçosa que Henrique, servindo de intermediário ou expressão de AKBEL no consórcio sexual entre os 7 Meninos e as 7 Meninas do novo e transcendente “Tim-Tim por Tim-Tim”, chegou a confessar que na ocasião “nem sequer viu as Sri-Aghartinas” (Carta-Revelação de 17.02.1957). Para arredar de vez qualquer insinuação enviesada erótico-passional (afirmando as Revelações que o hímen rompido das jovens foi refeito após os seus partos, graças às mesmas Santas Virgens Rainhas Sri-Aghartinas desse Mundo), vale o decreto capital inserto na Mensagem provinda da Confraternidade de Simlah (Confraternity of Simlah), como consta na Carta-Revelação de 15.11.1948: – Morte ou loucura para quem se aproxime da Sacerdotisa-Mãe com segundas intenções!

Adianto ainda mais alguns pormenores relativos a este tema, respigados às Revelações da Obra dos Deuses. Quando se deu o Acidente de Lisboa, Henrique e Helena foram recolhidos ao Templo Badagas de L∴N no escrínio da Serra de Sintra. Aí foram depositados sobre duas aras onde já estavam os corpos adormecidos de Lorenzo e Lorenza, vigiados por dois Kumaras Primordiais (DHYANANDA e SANAT-SUJAT ou SANAT-BERUM como afim ao próprio Lorenzo ou São Germano). As almas dos Gémeos Espirituais transferiram-se para os corpos daqueles, cujas almas desceram para Agharta. Nesses corpos de Lorenzo e Lorenza, Henrique saiu por cima, pela Face da Terra onde tinha a sua Missão, a caminho do Norte da Índia, e Helena prosseguiu por baixo rumo ao mesmo destino. Encontraram-se em SIMLAH como Oitavos Dirigentes dos Sete Meninos (avataras dos Rishis – Agnisvattas) e das Sete Meninas (avataras das Plêiades – Barishads) onde consumaram o “Tim-Tim por Tim-Tim”, ou seja, como Assuras (Maha-Rishi e Maha-Krittika) deram origem à Oitava Dhyani-Jiva ou Mãe Humana, que Henrique batizou de ADAMITA. Por isso são Oitavos. Todo o processo da partogénese deu-se em Badagas e não na Face da Terra, que “apenas” veio a acolher os frutos do consórcio amoroso entre os deuses terrenos, frutos benditos de milhares e milhares de anos de evolução pelos próprios esforços.

A Consciência ASSÚRICA dos Gémeos Espirituais na Terra junto à Consciência ISHVÁRICA de Akbel e Allamirah no Céu, produziram do atrito amoroso a manifestação de EVA, isto é, a Oitava Dhyani-Budhai ADAMITA, tal qual ALLAMIRAH é a Oitava Dhyan-Choan ou Luzeira Mãe dos 7 Luzeiros manifestados. São sempre os Oitavos os Originais da Criação, seja a que nível for. Se Akbel identifica-se à Face Masculina do Eterno (Oitavo Logos Original ou Sol Central do Sistema de Evolução Universal), Allamirah identifica-se à Face Feminina do Eterno. Por isso é a Mãe dos Deuses, e leva o nome aghartino ZIONE (Mãe), enquanto Ele o de ZAIN (Pai).

Houveram duas Helenas que coexistiram até 1949, não raro uma por vezes fazendo as vezes da outra, como seja a Iracy (H1) substituindo a Souza (H2), coisa que o dentista de família suspeitou quando verificava a dentição prejudicada de uma, para logo a “sósia” apresentar dentição perfeita. O homem nunca percebeu como isso era possível. Isto pode muito bem explicar o facto de Helena J. Souza assinar muitas vezes como Helena Iracy, como se verifica, por exemplo, na certidão de batismo (consagração) do seu primogénito Hélio Jefferson de Souza, datada do Rio de Janeiro, 17 de Abril de 1938.

Tal como coexistiram duas Helenas, assim também houveram duas Blavatskys. Uma, a verdadeira, era a aventureira das várias partes do mundo, discípula e emissária dos Mahatmas orientais, como também a escritora profícua. O seu nome, Helena Petrovna Fadeev van Blavatsky, a UPASAKA. Outra, a Blavatsky Adepta, a própria UPASIKA que avatarizou H.P.B. quando esta foi lanceada mortalmente durante a batalha de Mentana, onde perfilou ao lado do general Garibaldi contra as forças papais, ou melhor, do “papa negro” dos jesuítas. Recolhida para uma tenda de campanha esvaindo-se em sangue já moribunda, eis que momentos depois reaparece ressuscitada como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu: a UPASIKA original havia ocupado o seu corpo, substituindo a sua consciência pela dela. A partir de então, findaram as viagens e aventuras, e aparece a Blavatsky mestra, grave, serena, fundadora da Sociedade Teosófica e “embaixatriz” da Grande Loja Branca.

Como os restos kármicos da personalidade da Blavatsky original vibraram durante algum tempo na 1.ª Helena Iracy e na 2.ª Helena Ferreira, admito as palavras do Professor Henrique José de Souza sobre essa “Tulku de HPB reencarnada numa filha de Selene e Udomeri”. O que esse viu por clarividência seria a entidade afim a HPB junto da criança, como seu guia espiritual, tendo usado o trocadilho astral para dizer o que afirmou. O nome da criança: Lísia Helena Jefferson de Souza Carvalho, filha do casal Selene Jefferson de Souza e Udomeri Jorge de Carvalho. O mesmo vale para a segunda filha desse casal, Ana Maria Jefferson de Souza Carvalho Ribeiro, de quem se diz “ter sido Annie Besant”, coisa que as apetências e capacidades imediatas da própria desmentem de cima a baixo. Igualmente para o terceiro filho Henrique Alcides Jefferson de Souza, dizendo-se “ter sido um grande navegador espanhol”, isto é, o próprio Francisco Pizarro. Ou que o recentemente falecido Hélio Jefferson de Souza Filho tivesse sido Assoka e depois Henry Stell Olcott, ou Glória Helena Fernandes Jefferson de Souza fosse a reencarnação de Anita Garibaldi, ou Neusa Fernandes Jefferson de Souza tivesse sido a santa Joana d´Arc. Tudo isso é impossível à luz das vidas dos actuais. Admito terem sido projecções astro-mentais dos seus guias espirituais nas suas infâncias e adolescências, talvez e com dúvidas ainda hoje, mas quanto a serem efectivamente essas personagens históricas é coisa afigurando-se impossível aceitar, porque não vejo como se possa “andar de cavalo para burro”, ou seja, ser ontem uma criatura muito evoluído e hoje o que se vê e sabe… em contradição flagrante com o mais elementar da Lei de Evolução da Vida e da Consciência.

Finalmente, repasso mais alguns traços biográficos acerca das Colunas Vivas, CAF e TAG, de JHS.

ANTÓNIO CASTAÑO FERREIRA era natural de São Paulo, tendo nascido no dia 8 de Novembro de 1903. Instrutor e orador emérito da Sociedade Teosófica Brasileira, a sua ficha de inscrição nas fileiras de Dhâranâ – Sociedade Cultural-Espiritualista consta do dia 30 de Agosto de 1925, mas é bem possível que em 1924, segundo diversos relatos, já militasse na mesma. Levando de nome real ou espiritual CHELA-TAIJASI, como COLUNA J actuava ao lado do Professor Henrique ocupando-se, principalmente, das responsabilidades de ensino, conforme pode ler-se na interpretação que o Mestre fez do seu nome: CAF, que em aghartino significa “O que vê de frente”, isto é, o que recebe em primeira mão as Revelações e, comentando-as, as oferece em segunda mão aos discípulos avançados. Estes, por sua vez, oferecem como instrutores da Instituição e Obra, como Templos Vivos onde quer que estejam, essa mesma sabedoria amoldada ao grau de consciência de cada ser humano seu auditor. Os discípulos mais antigos definem o Engenheiro (agrónomo) António Castaño Ferreira como um “homem extraordinário”, que pela sua proximidade com o Professor Henrique também era chamado de Professor Castaño Ferreira. Em São Paulo, em 28 de Janeiro de 1958, a dolorosa separação provocada pela morte arrancou-o do convívio terreno no meio teosófico.

TANCREDO DE ALCÂNTARA GOMES era natural do Estado do Paraná, tendo nascido no dia 28 de Outubro de 1876, filho do Dr. Leonel Pereira Gomes, natural do Paraná, casado com D. Francisca Raymundo Xavier de Alcântara (falecida no Estado do Espírito Santo), natural do Rio de Janeiro, filha do Comendador da Ordem de Torre e Espada e Capitão de Mar e Guerra da Marinha Imperial Brasileira, Francisco Xavier de Alcântara, “O Envinagrado”. Tancredo de Alcântara Gomes foi batizado no dia 25 de Novembro de 1876 na Catedral de Nossa Senhora da Luz, cidade de Curitiba, Paraná, conforme consta no seu registo paroquial: “Aos vinte e cinco dias do mês de Novembro de mil oitocentos e setenta e seis nesta matriz de Curitiba, o Reverendo José Rodrigues baptizou e pôs os Santos Óleos ao inocente Tancredo nascido aos vinte e oito de Outubro deste ano, filho legítimo de Leonel Pereira Gomes e Dona Francisca Raymundo Xavier de Alcântara. Padrinhos Joaquim Pereira Gomes e o Tenente Coronel Pedro de Alcântara Buarque, todos paroquianos. Para constar mandei fazer este assento”.

Seguindo a carreira militar na Marinha de Guerra, Tancredo de Alcântara Gomes foi Primeiro Tenente Armador e depois Capitão de mar e Guerra. Casou-se no dia 14 de Maio de 1904 com Marieta de Paula Toscano, natural do Rio de Janeiro, filha do Capitão de Mar e Guerra Clemente de Alcântara Toscano e de D. Maximina Eulydes Galvão Toscano, conforme consta no seu registo de casamento na Capital Federal (Rio de Janeiro): “Aos quatorze de Maio de mil novecentos e quatro nesta Capital Federal em a Casa número 50 da Rua Dona Mariana onde veio o Doutor José Calheiros de Mello, Juiz de Direito (…), comigo abaixo assinado nomeado e na presença das testemunhas Orlando Marcondes Machado e António Tancredo Castro Menna receberam-se em matrimónio o Primeiro Tenente Armador Tancredo Alcântara Gomes, com vinte e sete anos de idade, solteiro, natural do Estado do Paraná, Militar, morador a Rua São Pedro número trinta e seis, e Dona Marieta de Paula Toscano, com vinte e seis anos, filha legítima do Capitão de Mar e Guerra Clemente de Alcântara Toscano e de Dona Maximina Eulydes Galvão Toscano, solteira, natural desta Capital e moradora nesta casa os quais neste acto declaram que não são parentes entre si nem tem impedimento algum que os inibam de casar um com o outro. Preenchidas as formalidades legais o M. Doutor Juiz os declarou legitimamente casados desde este momento e mandou lavrar este termo que lido assina com os nubentes. Eu, António Afonso de Miranda Sobrinho escrevente (…) o escrevi. Eu Francisco José Pinto de Macedo escrivão que subscrevo”.

A ficha de inscrição de Tancredo de Alcântara Gomes nas fileiras de Dhâranâ – Sociedade Cultural-Espiritualista consta do dia 4 de Março de 1926. Membro honrado da depois Sociedade Teosófica Brasileira exerceu a função de Director-Social da mesma, encarregando-se da sua administração, e levando de nome real ou espiritual SKANDHA-BHANTE-NAZAR teve a nobre missão de ser a COLUNA B do Supremo Dirigente, Professor Henrique José de Souza. O capitão Tancredo, ornamento da Instituição, ao transpor pela primeira vez o Portal do Templo, dentre dezenas de discípulos já presentes no Santuário, alguns dos quais estavam procurando-o por toda a parte para que prestasse o seu compromisso de admissão ao Colégio Iniciático, foi recebido pelo Mestre JHS com palavras que outros jamais ouviram: “Este sim, é o meu verdadeiro Amigo e Discípulo de outras encarnações”. No dia 9 de Abril de 1936, no Rio de Janeiro, deixou a sua veste física e desapareceu para sempre na penumbra do escrínio dos Deuses. No dia 15 de Abril desse mesmo ano, foi homenageado pelo Professor Henrique com um estudo iniciático acerca do seu nome: TAG, palavra que provém do tibetano com o significado de “Montanha, coluna, colosso, baluarte, contraforte” e, portanto, Justiça ou Bohaz, para completar com a anterior da Sabedoria ou Jakim, ambas permeio a JHS.

Os Três juntamente com Helena (H2) expressaram na Obra Divina o Excelso CRUZIAT (Cruzeiro do Pramantha, “Ciclo”) concorrendo para o Centro florido assinalado pelo Rei do Mundo (CHAKRAVARTI). Num esquema significativo de JHS no seu Livro da Pedra, têm-se os dois palos laterais do cruzeiro em neutralidade: o de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) afim a CAF, e o de Porto Seguro (Bahia) afim a TAG. Essa neutralidade ou EQUILÍBRIO PERFEITO está para o positivo do palo superior assinalado pelo Roncador (Mato Grosso), Fraternidade “Masculina” (CABAYU) donde proveio a Mónada “feminina” de EL LENA para reencarnar em Salvador da Bahia. O palo inferior é o negativo indicativo de Vila Velha (Paraná), Fraternidade “Feminina” (GARÁ) de onde saiu a Mónada “masculina” de EL RIKE para se manifestar no mesmo Salvador da Bahia. Todos concorrendo para o Centro (SHAMBALLAH) indo “cavar (obrar) cada vez mais fundo (maior desenvolvimento espiritual e humano) para servir ao Rei do Mundo” (CHAKRAVARTI, MELKITSEDEK, ROTAN, etc.). Era assim que representavam o Governo Oculto do Mundo (G.O.M.) na Face da Terra, encaminhando os antigos Marambas do Quinto Senhor para o estado integrado de Munindras do Sexto Senhor. Com tudo, compreende-se o provado da afirmação de JHS às portas da morte na Clínica São Lucas: “Realizei numa única vida o trabalho inteiro de uma Ronda”!

JHS entre as Mulheres, também poderia ser o título deste trabalho. Por respeito exclusivo à sua pessoa, fi-lo de uma assentada nesta noite e dia de Natal de 2017. Com o mesmo tentei mais que refutar, eliminar os pressupostos libidinosos e incestuosos com que alguns e algumas mancham o seu Nome. Particularmente, não posso admitir que esbanjei a minha vida enganado pelo carisma de um licencioso da pior espécie. Não posso admitir nem acredito a pretexto algum. Também já passei por isso, não sou alheio à perversão de conceitos superiores em considerandos libidinosos: quando, perante certo auditório reservado, eu falei do Andrógino do Futuro Quinto Sistema (Ronda), pormenorizando o que seja, com tudo essa questão do Homem endócrino substituindo o actual Homem cérebro-espinal foi por alguns interpretada como apelo sub-reptício ao homossexualismo (!!!). E vão para a praça pública alardear que eu faço propaganda de actos perversos, indo os pobres de espírito que se perdem em intrigas e maledicências, sempre prontos a assassinar moralmente o alheio, efeminadamente pseudo-fraternos, acreditar nisso. Que mais posso dizer? Como entendo Henrique e como entendo Ferreira.

Descarece dizer que todos os personagens retratados neste estudo, assim como os lugares onde viveram e deixaram registo, são do meu conhecimento e relação pessoal desde há largos anos. Com isso, poderia dar à estampa muitíssima mais documentação, inclusive as certidões de nascimento e batismo de Henrique, Helena e Hercília, e até as moradas e as trocas de correspondência pessoal com descendentes em Lisboa e Goa dos Barões da Silva Neves, mas basta o que aí está. Não disse tudo o que sei, mas disse mais que o suficiente para assombrar a muitos, demasiados com a presunção de estarem, ante esta Instituição e Obra, em mais algum esquisso anárquico conformado ao simplismo indiscriminado tipológico do “new age”, próprio para “casas de maria joana sem rei nem roque”, ou seja, sem Ordem nem Regra. Aqui, neste Portugal “pai” do Brasil, a Ordem que mantém a idiossincrasia lusa no chão Pátrio, e a Regra que sustém na alma Mariz o potentado aghartino assegurado pelos Makaras e Assuras de JHS.

Termino respigando um trecho do Livro Vozes Celestes, de Fra Diávolo, que deixo à reflexão do leitor como chave d´ouro neste desfecho de quanto ficou dito:

Qualquer Vaso Corporal, formado com a argila ou barro da Terra mas que se torne Eucarístico, pode receber a mais excelsa de todas as Essências, inclusive a da contraparte de Akbel… Só o Espírito se assenta na Matéria. Tesouros desta natureza não podem ser guardados em qualquer Escrínio. Mister se faz que este seja o mais valioso possível, para ser condizente com os mesmos Tesouros. “Os Tesouros de Deus não se guardam na lama”. Todas as pedrarias do Seio da Terra são poucas para construir o precioso Escrínio onde os mesmos devem ser conservados. Assim também o corpo humano, donde um dia se irradiará o precioso Sol da Consciência Imortal, como fragmento desse mesmo Deus num Escrínio Humano.

Por isso, conforme o Hino dos Serapis – Sétima Linha do Novus Palux:

Viemos de Shamballah
Velsungos somos nós
Do Reino dos Serapis
Não podíamos vir sós.

E assim, com as nossas damas,
Em formas duais,
Ao mundo apresentamo-las,
Valquírias sem iguais…

Um tão grande e puro Amor,
Pelas Sibilas cantado,
É a Era do Redentor,
Do Deus Vivo, coroado!

 

BIJAM

“Cabala Volante” no Reguengo da Carvoeira – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Dez 7 2017 

O “REI DA ERICEIRA”

 

No início dos anos 90 do século passado, chamaram-me a atenção para a existência de uns pressupostos “cruzeiros cabalísticos” no Reguengo da Carvoeira, dentro de um raio de cinco quilómetros na região limítrofe da Ericeira, concelho de Mafra.

Mas eu sabia desses cruzeiros desde que estudara a capela da Senhora do Ó, situada junta à povoação da Carvoeira, todavia tendo deixado o seu estudo para momento futuro que agora se apresenta.

Como muito bem diz Victor Mendanha[1], a região do Reguengo da Carvoeira era assim chamada por ainda no século XIX depender directamente da coroa e não da autarquia, como aliás também acontecia no Reguengo de Colares.

Contudo, ao contrário do que se anuncia, não existem quatro mas cinco cruzeiros, o mais antigo (1688) dentro do pátio da ermida da Senhora do Ó.

Igualmente deve-se incluir no programa, para ficar completo, a fonte miraculosa de São Julião e Santa Basilisa (datada de 1788 e restaurada em 1961), junto da praia com o nome do santo, próxima da “pedra de roseta”, a chave da leitura dos cruzeiros, embutida na parede ocidental do alpendre da ermida de São Julião, ostentando no portal a data de 1768.

Antes de entrar em leituras mais profundas, necessariamente esotéricas, desde já uma dupla pergunta se impõe: quem mandou construir esses monumentos e com que finalidade?

Sabe-se quem os mandou construir, mas a finalidade continua incerta. Ainda assim, posso adiantar algumas hipóteses. Uma delas, a mais plausível, a do célebre “rei da Ericeira”, Mateus Álvares, que se tinha como el-rei D. Sebastião reaparecido de Alcácer-Quibir.

Mateus Álvares nasceu no meado do século XVI na vila da Praia da Ilha Terceira. Era filho de um mestre de obras ou pedreiro e de relações estabelecidas com a família Mourato, residente na ilha desde o século XV. Esta família de astrólogos e alquimistas[2] de origem moura tornou-se muito apreciada em toda a Terceira, tendo se convertido a cristã nova por influência de um frade da Ordem de Cristo.

Mateus Álvares foi educado primeiramente na Ilha Terceira, no convento dos franciscanos de Nossa Senhora da Conceição. Edificado à beira-mar, posteriormente, no período da revolução de 1832, o convento passou para as mãos de particulares, tendo o terramoto de 1841 o lançado por terra.

Já homem feito, Mateus Álvares enlevou-se de amores por Zara Mourato, que não lhe correspondeu. Desgostoso, abandonou os Açores, emigrou para o continente e aqui veio iniciar a sua saga.

Entrou como noviço no convento de S. Miguel, junto a Óbidos, passando depois para o convento da Cortiça, na Serra de Sintra. Não querendo submeter-se à rigidez do normativo conventual dos capuchos, abandonou-os e foi tornar-se eremita por “conta-própria”, passando a residir num eremitério junto da Ericeira onde se fixou.

Entretanto, Filipe II de Espanha acabara de ser aclamado rei de Portugal, mas o povo ansiava o regresso de D. Sebastião que não acreditava morto, antes desaparecido. Enquanto isso, crescia a fama de Mateus Álvares como profeta visionário e místico. Começou a ser acreditado como o próprio D. Sebastião finalmente reaparecido, não só pela massa popular mas também por alguma nobreza abastada fiel à dinastia portuguesa, cuja linha legítima fora interrompida com o trágico desaparecimento de D. Sebastião e o afastamento do cardeal-rei D. Henrique, já que D. Teodósio governou fugazmente e o mais que legislou ficou assinado em um ou dois documentos a que ninguém deu importância. É então, a partir daí, que tudo se precipita…

O proprietário abastado de Rio de Mouro, Pedro Afonso, jurou que antes do dia de S. João Batista havia de sentar no trono a Mateus Álvares, e este nomeou-o conde de Monsanto, senhor da Ericeira e governador de Lisboa. A filha deste importante nobre foi escolhida para sua esposa e coroada rainha de Portugal com o diadema pertencente à imagem do Orago da Ericeira, Nossa Senhora da Conceição. O pretendente ousou mesmo enviar uma carta ao cardeal-arquiduque Alberto, ordenando-lhe que saísse do reino. Espalharam-se proclamações convocando o povo às armas. A insurreição tornou-se séria. Reuniu à sua volta mais de mil homens com provisões, armas e munições. Todas as autoridades da corte enviadas à Ericeira, ou foram trucidadas ou foram lançadas ao mar do alto das escarpas. Deram-se furiosas batalhas, até que, por fim, diz-se que próxima à fonte miraculosa da Praia de São Julião, Mateus Álvares e os seus foram emboscados e derrotados pelas tropas filipinas, após demorada e sangrenta luta.

Feito prisioneiro, Mateus Álvares entrou a ferros em Lisboa no dia 12 de Junho de 1585, e, a 14, foi-lhe cortada a mão direita pelo carrasco, mão com que assinara alvarás e proclamações; depois enforcado, logo decapitado, a cabeça separada do tronco ficando durante um mês exposta no pelourinho, e o corpo (isto quase faz lembrar o sacrifício de Osíris…) retalhado em pedaços, foi repartido pelas portas da cidade.

Mateus Álvares foi mais que um simples visionário alucinado, mais que um pseudo-D. Sebastião no rol dos muitos que entretanto apareceram (e vez por outra até hoje aparecem…). Foi sobretudo um sebástico patriota que soube bem incarnar a alma da nação em momento de sufoco e aflição onde carecia de um salvador, de um encoberto libertador, de um espírito messiânico em corpo manifestado, um messias que restaurasse os valores nacionais anulados pela abolição dos mesmos; por isso foi tão bem aceite pela maioria do país ocupado e temido pelo regime filipino, a ponto de o ter retalhado mesmo depois de morto, por certo receando o nascimento do mito da ressurreição após assassinado. Mesmo dando aso a um Sebastianismo Vermelho, nacionalista e político[3],  não raro politiqueiro baseado em profecias duvidosas e acontecimentos improváveis, com tudo parece credível ter sido Mateus Álvares um patriota iluminado que ofereceu a sua vida pela honra ofendida da pátria-mãe, e só por isto bem merece um monumento comemorativo junto da Praia de São Julião, que espaço vazio não falta para tanto que é tão pouco a quem muito deu.

Repara-se também que Mateus Álvares não era alheio às ciências esotéricas e à influência dos espirituais franciscanos. Nisto, estou em crer que o seu ideal messiânico, aparte a sua apologia de messias-rei, foi depois prosseguido, secretamente, pela mesma espiritualidade franciscana na região mafrense, ficando a via crucis onde se desenrolou a epopeia e tragédia do “rei da Ericeira” assinalada em enigmáticos cruzeiros, assim mesmo igualmente assinalando uma rota telúrica, mágica e até parúsica. Como Oragos de tal rota, ficaram São Julião e Santa Basilisa, e como a meta da mesma a Virgo Pariturae – a Senhora do Ó.

 

A PARELHA MARTIRIAL

 

Tal como Mateus Álvares recebeu uma iniciação martirial, igualmente no santoral cristão São Julião e sua esposa, Santa Basilisa, estão nessa categoria da santidade pelo martírio[4], e inclusive a vida daquele possui muitas semelhanças com as destes.

Sintetizando a história dessa parelha santa, ela dispõe-se em Antióquia nos últimos anos do século III e primeiríssimos do IV, por ser entre os anos 304 e 309 que se situa cronologicamente o suposto martírio de São Julião[5], e nessa ocasião já haviam passado vários anos desde que Santa Basilisa transpusera vitoriosa as fronteiras do Céu. Conta-se de ambos que, ainda enamorados mas desejando fervorosamente dedicar a sua vida e virgindade ao Altíssimo, tiveram uma visão celeste que os pôs em contacto com Ele, permitindo-lhes cumprir o seu desejo sem contudo renunciarem à cerimónia puramente formal do matrimónio. Logo que casaram, fundaram cada qual um mosteiro – ele de monges e ela de monjas, entenda-se – nos quais começaram um labor de captação e proselitismo tão eficaz que, ao fim de pouco tempo, já as monjas falecidas baixavam do Céu para anunciar à abadessa Basilisa o dia e a hora exacta da sua passagem. Foi depois desta que começou uma terrível perseguição, tendo sido detido o abade Julião e levado diante do cruel governador pagão. Perante este e as repetidas negações em “fazer sacrifícios aos deuses”, juntamente com a surpresa do próprio filho do verdugo ter se convertido ante o valor do abade Julião, começou a série de torturas martiriais da qual o santo saiu incólume, até que o degolaram. Feito o crime sacrílego, sobreveio um terrível terramoto que matou os espectadores pagãos e os verdugos. A história do infeliz São Julião – e subsidiariamente da pobre Santa Basilisa – foi teologicamente interpretada como uma ameaça da Igreja a quem ousar atentar contra as suas cabeças reitoras.

São Julião e Santa Basilisa são interpretados, esotericamente, como o casal alquímico sublimado pelo sacrifício da incarnação do Espírito na Matéria, esta representada pela Mãe Grávida – a mesma Senhora do Ó da Ribeira (da Carvoeira), astrologicamente assinalada por Vénus, alter-ego da Terra.

Ora Vénus era representada entre os egípcios por Ísis e, curiosamente, a tradução do nome grego de Basilisa dá “rainha” (ou “trono” = Ísis), e o de Julião, na mesma língua, significa “lindo”. Juntando os onomásticos “rainha” e “lindo”, tem-se astronomicamente a Bela Rainha, a mais brilhante Estrela d’Alva que é Vénus, tanto valendo por Ísis, aliás, representada erecta e adorada sobre um cipo com o sistro na mão, num silhar de azulejos a meio da coxia no lado direito desta ermida da sua antiga vocação, assim testemunhada mesmo após tomar feição cristã.

 

A PEDRA CABALÍSTICA

 

É precisamente na popularmente denominada “pedra mágica” (ou de “roseta”) da ermida de São Julião que os dois últimos parágrafos encontram a sua confirmação esotérica. A peça, encravada no interior do alpendre do templo de lado para a entrada, é de conteúdo legendado notoriamente anagramático, o que denota uma óbvia influência da presença do pensamento pitagórico que assistiu, aliás, à construção dos chamados “quadrados mágicos” caríssimos na Idade Média à matemática astronómica da Cabala, ciência que algumas facções esotéricas viriam a prosseguir depois, mas com notórias alterações tanto na numeração como no significado alfabético. Essa vertente cabalística não deixou de ser muito apreciada por certas correntes do Cristianismo, a que não terão sido alheios os franciscanos de Mafra no século XVIII, vizinhos e apoiantes do neo-pitagorismo patenteado, por exemplo, nas ideias do já de si neo-pitagórico Santo Agostinho de Antióquia, cujo ideal sinárquico subentende-se na sua obra Civitas Dei, “Cidade de Deus”. A aproximação do franciscano ao pitagorismo alia-o, por essa via, à Cabala Profética judaico-cristã. Consequentemente, o esoterismo que se encontra nesse espaço do Reguengo da Carvoeira é notoriamente judaico-cristão, e esta será a vertente onde terei de me mover para um melhor e maior enquadramento e possível interpretação do conjunto monumental.

Cabala ou Kaballah significa, em hebraico, “Tradição”, ou, simplesmente, “Conhecimento”. Dentro da Cabala podem-se distinguir duas tendências que confluiriam, com o decorrer dos tempos, em duas correntes de pensamento tradicional: o Cabalismo Profético, atribuído a Abrahão Abulafia, e o Cabalismo Rabínico, atribuído a Isaac Luria[6].

Dessas correntes, é no Cabalismo Profético que se encontra o domínio da Inspiração sobre a Tradição. Esta vertente de adopção sefardita originou-se na Região Oeste da Europa por volta do ano 1200 d.C., sobretudo no Centro-Oeste de Portugal, na Estremadura e Andaluzia espanholas e no Centro-Sul de França. Por esta razão, é também conhecida pelo nome de Cabalismo Ibérico, em contraposição ao asquenaze Cabalismo de Safed, cidade da Palestina onde viveu Luria.

A finalidade da doutrina de Abulafia é, segundo as suas próprias palavras, “desvelar a alma, desatar os nós que a emperram”. Para conseguir esse fim, estabeleceu um objecto absoluto de meditação: a ideia da contemplação mística das letras e das suas formas, como sendo constituintes do Nome de Deus.

Partindo desse conceito, Abulafia desenvolveu uma disciplina particular que denominou Hokmath Ma-Tseruf, isto é, a “ciência da combinação das letras”. É produto dessa ciência o que se pode encontrar na “pedra cabalística” de São Julião e Santa Basilisa.

A “pedra cabalística” da Carvoeira é de formato octogonal e apresenta três quadrados com anagramas unidos por um dos ângulos, formando assim entre eles um espaço interior triangular onde se patenteia, como símbolo central, um Sol radiante, esotericamente designando o Ouro dos Filósofos Iluminados, como sendo a cristalização da Suprema Divindade.

Nesse formato encontra-se o Teorema de Pitágoras, no qual em todo o triângulo rectângulo o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual à soma dos quadrados construídos sobre os catetos.

Mas também se encontra a ideia de Quadratura do Círculo (representação geométrica simbólica da Pedra Filosofal), indo formar o octógono como forma mediadora entre o quadrado e o círculo, que é dizer entre a Terra e o Céu. Tem-se exemplo claro disso na Charola do Convento de Cristo, em Tomar, cidade-mãe da Província portuguesa da antiga Ordem dos Templários.

Afinal, trata-se de redimir coagulando a prata da Terra e solvendo o ouro do Céu. Sim, a Quadratura da Terra no Círculo do Céu, na maior Alquimia mediante a qual se obtém o Elixir da Vida Eterna – a Iluminação Espiritual garante da Imortalidade.

Na legenda superior da lápide, lê-se: ECCE CRU+CEM DOMINE – “Eis o Cruzeiro (e não “cruz”, que em latim se escreve crucis) do Senhor”. Crucem está dividida por uma cruz que possui abaixo o salvífico IHS, Iesus Homnibus Salvatorem – “Jesus Salvador dos Homens”, sendo também sigla iniciática que indica sempre o Messias ou Avatara; o H está coroado pela mesma cruz, com que designa a venusta energia rítmica ou equilibrante da Natureza, Rajas, expressiva da Anima-Mundi como Alento Universal, e assim mesmo a Hermes ou Mercúrio coroado, o divino Varão ou Andrógino Celeste.

Como cercadura de todo o corpo inscrito, unindo-o, encontra-se gravada quatro vezes a frase ORAPRONOBIS – “Ora por nós”.

O conjunto forma ainda dois triângulos médios contendo a flor do lírio, o que remete à frase bíblica: “Eu sou a Rosa de Sharon, o Lírio dos vales” (Cântico dos Cânticos, 2:1).

Tem-se assim a Rosa e a Cruz filosóficas, veladas mas subentendidas, na peça lítica. Não se deve ignorar que a Ordem Rosea+Crucis esteve activa até ao início do século XVIII, e muitos dos seus adeptos procuraram refúgio no reduto franciscano do qual Mafra não terá escusado abrigo contra a Mesa Censória, quando a Ordem Franciscana teve o convento à sua tutela.

Os dois triângulos inferiores da peça apresentam ao centro a estrela de oito pontas a qual, além de designar a Cavalaria Espiritual, igualmente designa a Stella Maris, a “Estrela do Mar”, Vénus, a Matutina mas também Vespertina. Vem a ser exactamente o quadrado principal, mas em posição inferior, que esses triângulos ladeiam. Esse “quadrado mágico” possui 81 casas ordenadas em 9 linhas verticais e 9 horizontais, estando o seu centro na 5.ª linha marcado pela estrela Vénus. A partir daí, em qualquer direcção, inicia-se a leitura pela letra M que, com as restantes, formam a palavra Matutina. Estrela e palavra dão Stella Matutina, que, repito, é a Stella Maris. A Mãe Divina está assinalada sob o quadrado na frase AVE MARIA… ou “Ave Marinha”.

O 3×9 (81), ou 999, é o número cabalístico da Lua, da Mulher em complementação do Sol, do Homem, formando os dois o casal alquímico ou hermético, expressão do Andrógino Perfeito assinalado em São Julião e Santa Basilisa.

O quadrado superior da esquerda constitui-se do nome JULIAM (Julião), e o superior da direita contém o nome BAZILIZA (Basilisa), lendo-se ambos no sentido destrocêntrico. Cada quadrado possui um total de 49 letras ordenadas em 7 linhas verticais e 7 horizontais, o que dá 3×7 (49), ou 777.

Segundo a fonte teosófica, 49 é o número de Adeptos Independentes – B∴ J∴ ou Bhante-Jauls, “Irmãos da Pureza” – e o do valor da Pedra Filosofal na Quadratura do Círculo. 777, além de também ser o valor esotérico da Hierarquia Assura ou Arqueu, a dos “Senhores da Mente”, é igualmente o número cabalístico de Júpiter que, afinal, é quem rege a Península Ibérica através de “Vénus Passiva”, ou seja, da Lua, representada na serra que leva o nome dessa, Sintra.

Ademais, se em grego Julião significa “lindo”, já no latim ele é Iulius, cuja filologia associa-se astronomicamente a Júpiter por significar, literalmente, “Filho de Elion”, por outras palavras, “Filho do Altíssimo”, o Sol aqui associado a Júpiter-Vénus, tanto valendo por Pai-Mãe, Osíris-Ísis e Julião-Basilisa.

Volvendo ao quadrado inferior e o maior dos três, Vénus na 5.ª casa da 5.ª linha, indicia o Quinto Luzeiro Arabel, o “Senhor da Ara (de Luz)”, Al-Djabal, o “Todo-Poderoso”, que a fonte iniciática aponta como o verdadeiro Encoberto do Quinto Reino Espiritual a manifestar-se no Quinto Império Terreal, o dos Lusos ou “Filhos da Luz”, esse mesmo sebástico sob a flama do Espírito Santo assinalado precisamente por Vénus, cujo cujo patronato está o futuro 5.º Globo de Evolução, na Ronda imediatamente posterior ao do 4.º Globo  da Terra.

Agora, resta iniciar o itinerário da Via Crucem, posto estarem lançados os dados, os mesmos que se vêem num pormenor do aparelho de azulejaria na sacristia (lugar do “Santo Cristo”, onde este se assume ou paramenta na pessoa do sacerdote) da ermida de São Julião, defronte para a porta de saída…

 

O PRIMEIRO CRUZEIRO

 

Na traseira da ermida de São Julião, próxima da Foz do Falcão, está o primeiro cruzeiro do itinerário, datado de 1783 (MDCCLXXXIII). Como os restantes, alia-se à ideia de salvação das almas do purgatório e à absolvição dos pecados, temas onde Julião e Basilisa, como santos martiriais, intercedem pela salvação das almas, ele assumindo o papel do Padre Eterno e ela a da Madre de Deus.

Este cruzeiro e o da Carvoeira assinalam uma ligação às “confrarias da Misericórdia”, de inspiração franciscana, destinadas a recolher esmolas para as missas de salvação das almas do purgatório, este que tanto vale pelo astral dos ocultistas ou o limbo dos alquimistas.

Ora, no rectângulo central de azulejos, muitíssimo danificados, do cruzeiro, vê-se precisamente, num lance ainda intacto, um homem caindo num precipício e por baixo uns dizeres invocando São Julião. É alegoria da alma precipitada no purgatório. Não deixa de ser curioso o cruzeiro estar à beira de um precipício tendo ao fundo uma abertura para o interior da Terra… o Inferno toma aqui o sentido de dor, mas também, e fundamentalmente, de iniciação. Assim, a concepção de “inferno” varia segundo a dimensão em que se dispõe, se direcionada a lugares paradísiacos (lokas), se precipitada a espaços tenebrosos (talas).

Por baixo dessa alegoria a frase PELAS ALMAS coroa um quadrado com as palavras PADRE NOSSO, lendo-se PADRE do centro para a periferia e NOSSO para baixo ou para cima. O Pai no interior e a Humanidade no exterior, tal poderá ser a intenção gemátrica.

Abaixo do PADRE NOSSO o evoco AVE MARIA. Inclino-me a ver nessas palavras a composição cabalística (de duplo sentido, confessional e sapiencial) da ladainha: “Padre Nosso. Ave Maria. Pelas Almas”.

Abaixo do AVE MARIA, a sigla epigráfica

que José Cardim Ribeiro interpreta como TEIXEIRA e Manuel Joaquim Gandra confirma, ao dizer num seu estudo que a autoria destes cruzeiros cabalísticos do Reguengo da Carvoeira é da “mestria gemátrica de Manuel Teixeira, ilustre cabalista, quiçá frequentador da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra”[7]. Adianta ainda que esse Manuel Teixeira “surge citado no testamento de João Fernandes da Conceição, ermitão de S. Julião (2 de Dezembro de 1764), falecido no ano de 1766, tendo-lhe deixado o seu capote de ourelo”.

Muitos dos enviados da corte filipina a Mateus Álvares foram, sem dó nem contemplação, atirados ao mar dessas escarpas… afinal, sem dúvida, um purgatório para esses desgraçados.

 

O SEGUNDO CRUZEIRO

 

Situado no alto da Serra de São Julião, evocativo do Gólgota, este cruzeiro é uma invocação aos Céus para atenuar as dores do calvário humano.

Ostenta os símbolos dos principais objectos do martírio no Gólgota, bem visíveis por alguém devoto do povo local ter pintado os insculpidos em cor azul.

Datado de 1794, ostenta de baixo para cima, na trave vertical, as insculturas seguintes evocativas do Calvário: uma caveira (a morte), uma turquês (a passagem além-morte), uma escada adiante da qual se cruzam uma lança e uma vara com a esponja do vinagre na ponta (a subida probatória do Calvário e consequente amargura), um cravo (a fixação da ideia subjacente), um martelo (o meio de fixar), uma chaga (donde escorre o Sangue Real – Sang Greal – do Divino Rei dos Reis, Imperador Universal, o qual na Idade Média também foi sinal de reconhecimento e iniciação entre os construtores livres) e um jarro (a água que mata a sede do supliciado, do “cordeiro inocente” na subida ao encontro do destino fatal, mas igualmente a versão exotérica do Santo Vaso, a Taça Eucarística onde foi foi recolhido o precioso Sangue do Messiah ou Avatara desse Ciclo de Piscis, também chamado o das Necessidades).

Dois exemplares dos “cruzeiros cabalísticos” do Reguengo da Carvoeira

No topo da cruz a sigla INRI, de dupla tradução: Ieseus Nazarenus Rex Iudeorum – “Jesus Nazareno Rei dos Judeus” – e igualmente: Ignis Natura Renovatur Integra – “Pelo Fogo se Renova a Natureza inteira”. Esta frase foi o santo-e-senha dos Rosa+Cruzes nos séculos XIV-XVIII, alusiva da superação da personalidade mortal pela metástase ao Ser Imortal, ao Cristo Interno assim ressuscitado, tal qual a Fénix ressuscita das cinzas do fogo das paixões entretanto transformadas no Amor à Humanidade por quem tudo se dá, até a própria vida, como o fez o castus Agnus Dei, o Christus qui tollis peccata mundi.

 

O TERCEIRO CRUZEIRO

 

Encontra-se na Carvoeira e data de MDCCLXXIX (1779). Apresenta um conjunto alegórico muito rico. Na dianteira, mostra um painel de azulejos com a cena de Jesus nos braços de sua Mãe Dolorosa após retirado da Cruz. Como cercadura da ilustração, lê-se no sentido destrocêntrico: VIRGEM DA PIEDADE, e em rodapé: ORAPRONOBIS (“Ora por nós”).

Por debaixo, aparece um quadrado cabalístico onde está inscrita SALVE RAINHA, lendo-se SALVE do centro para a periferia nas quatro direcções, e RAINHA como cercadura, leitura que também se faz da esquerda para a direita. Revela-A como Soberana Absoluta de todas as direcções do Mundo.

Dentro desse quadrado há quatro quadrados menores. Em cima, à esquerda, um coração envolto numa coroa de espinhos encimado por uma cruz. Assinala o Sagrado Coração de Jesus – a Terra ou Coagula. Ao lado, um outro quadrado também ostenta um coração atravessado por duas espadas coroado por uma flor-de-lis. Representa o Sagrado Coração de Maria – Vénus ou Solve.

O Professor Henrique José de Souza afirmou que a flor-de-lis é o “Loto Sagrado de Agharta” simbólico da Realeza Divina (do 2.º Mundo Celeste), consequentemente, da Consciência Universal, e o alquimista Fulcanelli vai ao encontro disso vindo reforçar a tese da influência do Adeptado Rosa+Cruz presente na feitura desta Via Crucem, portadora de mensagem claramente hermética-cabalística, quando diz[8]:

“A flor-de-lis corresponde efectivamente à rosa hermética. Junta à cruz, ela serve, como a rosa, de insígnia e brasão ao cavaleiro praticante que, pela graça divina, realizou a pedra filosofal.”

O radical lis ou liz também está presente no nome do Rio Lizandro, que separa o belo vale da Carvoeira (nome das primitivas bafometarias árabes ou comunidades corânicas instaladas em cabos-mares ou nas suas proximidades) de São Julião.

Sob esses quadrados, outros dois com alegorias do Calvário: três cravos cruzados, a escada com a lança e a vara do fel, todos sinais de iniciação martirial.

Nas costas do cruzeiro, duas outras alegorias azulejadas. Acima, Jesus na Cruz tendo aos pés a sua Santa Mãe, Maria Madalena e João Evangelista. Abaixo, um Anjo e um Franciscano (presumivelmente o próprio São Francisco de Assis) salvando as almas do purgatório.

Adensa-se, solidifica-se cada vez mais a tese da influência secreta ou tão-só discreta de Rosea+Crucis, “amancebados” ao Franciscanismo, na idealização deste projecto cabalístico volante, os quais, aliás, são referidos no livro de Alquimia dedicado a D. João V e à vila de Mafra em 1732, Ennoea, de Anselmo Caetano Munhoz de Abreu[9]. Ademais, essa “amancebia” é testemunhada numa frase gravada no lado direito do cruzeiro, a qual é muito comum nas Misericórdias locais que são, como se sabe, de origem franciscana:

IRMAM
SALVA
ACRVS
ACAMPA
NHETE
IEZVS

“Irmão salva a Cruz. Acompanhe-te Jesus.” Ou “Irmão, a Cruz salva. Acompanhe-te Jesus.”

Além do apelo à conservação da Fé, há nisso uma outra mensagem, deixada não só aos da época mas também aos vindouros, de interpretação ad litteram: conservar incólumes os cruzeiros, com isso deixando intacta a Via Crucem iniciática por eles assinalada.

Saibamos todos respeitar a mensagem, nem que seja por esmola, porque “a esmola que dais a vós mesmos a dais”, no dizer da inscrição na base do cruzeiro.

 

O QUARTO CRUZEIRO

 

E possivelmente o primeiro da série por ser o mais antigo: data de 1688. Encontra-se dentro do pátio da ermida da Senhora do Ó da Ribeira, ou Nossa Senhora do Porto do Reguengo da Carvoeira. Na sua base, a frase latina: AVE CRUX SPES ÚNICA – “Ave Cruz Esperança Única”.

Nesta série de cruzeiros encontram-se sempre uma letra e uma palavra que se repetem, como se quisessem significar mais do que aparentam na sequência lógica dos termos e frases: a letra S e a palavra Ave.

A primeira, muito ligada à ideia de “Fogo Serpenteante” como Força Ígnea do Espírito Santo, tanto valendo por Kundalini e Maha-Shakti representada pela Virgem Negra, mas também ligada à ideia de “sebástico”, corresponde ao khi na língua grega, adquirindo o significado esotérico do rasto helicoidal do Sol que no espaço chegou ao zénite da sua curva (e este cruzeiro está junto à curva da estrada), no momento final de um ciclo (assinalado no cemitério mais adiante).

Já a ideia sebástica patente no S remete a uma hierarquia de valores oculta no nome Sebastião o qual, em seu tempo, foi sinónimo de “Mestre Universal” e “embaixador ou representante do Espírito Santo” (Avis, anagramaticamente, Siva ou Shiva)[10].

Quanto à palavra Ave, em sequência directa da letra anterior, como saudação remetida a Maria (a Avis Raris in Terris revelada na forma alva de Pomba do Espírito Santo), lida de trás para a frente dá Eva, a primeira Mãe da Humanidade, ou por outra, Adamita, esposa de Adam ou Adamito; mas colocando o v adiante do a e o e a seguir a este, tem-se: vae, vai, segue… Dessa maneira, poder-se-ia ler a frase do cruzeiro: SEGUE A CRUZ, A ÚNICA ESPERANÇA!

Aparece assim novamente a ideia de rota, de caminho a palmar tanto para o vulgar devoto como para o singular iniciado. Rota feita na Tradição Ocidental e no mais ocidental da Europa, neste martírio da personalidade mortal a favor da Individualidade imortal, em paulatina cruzada onde o Fogo Divino (INRI) joga papel determinante.

Acerca da Senhora do Ó, Deusa-Mãe Primordial, com isso Ela é ligada à ideia de Mater-Prima, Anima Mundi fecundadora da Matéria, o que leva a ser considerada divindade propiciatória das colheitas e partos. Fulcanelli diz dela[11]:

“Vários monumentos muito anteriores ao Cristianismo a designam sob o nome de Virgo Pariturae, ou seja, a Terra antes da sua fecundação e que os raios do Sol hão-de em breve animar. É também a Mãe dos Deuses, como atesta uma pedra de Die: Matri Deum magnae ideae. Não se pode definir melhor o sentido esotérico das nossas Virgens Negras. Elas representam, na simbólica, a Terra Primitiva, a que o Artista deve escolher para objecto da sua Grande Obra. É a Matéria-Prima no estado mineral, tal como sai dos jazigos metalíferos, profundamente enterrada sob a massa rochosa.”

A Senhora do Ó (grávida do Menino que é igualmente expressivo da Idade Futura, se for inserido no tema sebástico-imperial do Espírito Santo) identifica-se assim com a Virgem Negra Ísis (ou I515, cuja soma e redução dá o valor 30, que sem o zero é designativo da Terceira Pessoa da Trindade, e como 15 assinala a “Força Diáblica da Inteligência”, como seja a corporização do deus Astaroth) e com a galo-celta Lusina, esposa do deus Lug, padroeira dos artífices romanos agremiados em collegia fabrorum. L da inicial do nome da deusa que é traçado ou esquadrado pelo itinerário dos cruzeiros desde a praia de São Julião até ao cemitério da Carvoeira, sendo a “dobra” precisamente este 4.º (e originalmente o primeiro e único) cruzeiro. A letra L significa a realização da Grande Obra Hermética e a consumação das Três Luzes da Santíssima Trindade, sendo igualmente a inicial do quinto signo do Zodíaco, Leo, consequentemente, afim ao ouro filosófico que se obtém da Pedra Filosofal, indicativa de Iluminação Integral correspondente ao estado supra-humano do Andrógino ou Adepto Perfeito. Este será o Homem Endócrino do Quinto Sistema de Evolução, como hoje no Quarto Sistema domina o Homem Cérebro-Espinal.

De volta à Senhora do Ó, a primeira de todas as Virgens da Cristandade por ser aquela escolhida pelo Eterno, anunciada pelo Anjo e promanada pelo evangelista Lucas, o título dessa invocação é justificado pelas antífonas recitadas pela Igreja oito dias antes do Natal, começando pela letra O: “O Sapiente, O Adonai, O Radix Jesse, O Calvis David, O Oriens, O Rex Gentium, O Emmanuel”; justificativa também encontrada na forma ovóide do ventre saliente da Senhora e no facto da letra O simbolizar a imortalidade de Deus. O Concílio de Toledo, no ano de 656, ordenou a celebração de uma festa em Sua honra em toda a Hispânia, a 18 de Dezembro. Santo Ildefonso deu-lhe o nome de Senhora da Expectação, a mesma Senhora da Esperança (que Pedro Álvares Cabral levaria ao Brasil). O Papa Gregório XIII (1572-1585) aprovou-a, porém, após o Concílio de Trento (1545 a 1563) muitas Senhoras do Ó foram retiradas dos altares ou sofreram grandes transformações, por não corresponderem às exigências impostas pelas directivas da Contra-Reforma quanto à decência das imagens e ornamento dos objectos de culto. Representada com o ventre entumescido, sobre o qual, geralmente, coloca uma das mãos, a sua iconografia tem origem apocalíptica ou pré-existente: a Mulher que há-de parir à Luz[12].

O QUINTO CRUZEIRO

 

Este encontra-se dentro do cemitério da Carvoeira e tudo indica que o “campo santo” tenha se desenvolvido à sua volta, posto estar precisamente ao centro.

A peça apresenta um quadrado de sete letras sobre um rectângulo de dezoito letras. De permeio, a data 1833, possivelmente a da sua feitura, ou então a da reconstrução sobre a original, o que me parece mais evidente.

Há nisso uma charada gemátrica, tradição muito comum entre os cabalistas quando pretendiam, ou pretendem, deixar uma mensagem do presente para o futuro. Fazem-no assim para chamar a atenção do curioso, obrigando-o a resolver o enigma pelo exercício e consequente desenvolvimento da sua faculdade intuitiva. É uma forma de iniciação pelo raciocínio, própria do método cabalístico de Abulafia, mas visando ir além do próprio raciocínio.

Antes de avançar nas suposições possíveis na resolução do enigma, convirá que primeiro exponha o alfabeto hebraico e o seu correspondente valor numérico, a fim de haver melhor e maior entendimento do que me parece ser o único método de descodificação, posto ter sido feito no exclusivo molde cabalístico gemátrico judaico-cristão.

Para se interpretar um nome deve-se primeiro fazer a transposição das letras para os números. Isso é feito de acordo com a tabela seguinte (Tabela de Abulafia):

Na Cabala, as somas e as subtracções efectuam-se de modo diferente[13] – chama-se soma cabalística de um nome a soma dos números correspondentes às letras desse nome. Subtracção ou redução cabalística é a soma dos algarismos que deverão compor-se de um de qualquer número inferior a 22.

Postos esses preliminares, passo à leitura dos quadrados do cruzeiro. Começarei pelo primeiro, atribuindo-lhe os números e as correspondentes letras hebraicas:

Beth representa simbolicamente a boca humana, a morada da Sabedoria, o interior do Homem ou Alma. Hieroglificamente designa a dualidade, a Mulher.

Cheth simboliza uma cerca. Hieroglificamente representa a existência elementar, o princípio da vida assinalado na frase: “Do pó vieste e ao pó voltarás”… Est tem a ver com o latino estõ e significa “ser, conforme”.

Yod representa o dedo indicador. Hieroglificamente designa a manifestação potencial, a adoração eterna.

2+8+10 = 20 = Khaph. Esta letra simboliza a mão no acto de pegar alguma coisa. Hieroglificamente representa a vida reflectida e passageira, facto assinalado no próprio cemitério.

As oito letras do quadrado dão o duplo quatro, equivalente a Daleth, representando a porta e o quaternário universal, a fonte de toda a existência física, que começa no berço e acaba no túmulo.

Haverá, pois, uma mensagem oculta referente à vida humana passageira, para a qual a melhor das representações será o próprio cemitério, a maior de todas as verdades do futuro terreno de todo o ente mortal.

Se as letras forem ordenadas no seu valor sequencial, intuo uma outra mensagem relacionada com a transposição acima.

Ou seja:

Santa Basilisa. Sois toda a Esperança do Mundo Cristão.

O segundo quadrado complica muito mais a charada. Contudo, o processo de resolução será o mesmo.

A soma e redução de todos os números dão 3, Ghimel, correspondente à ideia de expansão e crescimento.

Somando e reduzindo as 18 letras do quadrado obtém-se 9, que corresponde à letra Teth. Esta simboliza uma serpente, e hieroglificamente representa a casa do homem, o tecto, o abrigo, a resistência, um escudo e protecção[14].

Há cinco epígrafes, tomando por principal a segunda contando de baixo (a única gramaticalmente coerente), constituindo frases inteira-mente decompostas. Trabalharei agora na sua possível ordenação.

 

Sobra um M, de “Mãe”. Resultado: Clamo à Mãe.

Resultado: A Rota, o Caminho, Conduzir.

Resultado: Lázaro, o Ressuscitado, o Salvo.

Resultado: Campo da dor.

Ordenação e composição dos resultados de ambos os quadrados:

SANTA BASILISA
SOIS TODA A ESPERANÇA
DO MUNDO CRISTÃO.

CLAMO À MÃE DE AMOR
QUE ME LEVE À SALVAÇÃO
ALÉM DO CAMPO DA DOR.

Este foi o meu método e valência na tradução da epigráfica mensagem velada dos cruzeiros, e velada por conhecedores aprofundados da Cabala, os quais utilizaram o método gemátrico dando-lhe, pelo peregrinar na rota dos cruzeiros, feição “volante”. A ciência dos números e letras é de origem universal, porém, na tradição hebraica acha-se com toda a pujança e é, por quanto se expôs, na Cabala judaico-cristã que a resposta ao enigma da via crucem do Reguengo da Carvoeira deve ser procurada.

Acredito mesmo não haver outra alternativa senão a da Tradição.

 

NOTAS

 

[1] Victor Mendanha, O Mistério dos Quatro Cruzeiros. Matutino Correio da Manhã, 8.5.1991.

[2] Manuel António Ferreira Deusdado, Quadros Açóricos. Angra do Heroísmo, 1907.

[3] Oliveira Martins, Sistema dos Mitos Religiosos. Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1951.

[4] Juan Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[5] Não confundir com o outro São Julião chamado o Hospitalário, relacionado com o tema dos santos caçadores.

[6] António Castaño Ferreira, Mistérios e Misticismos da Bíblia. Revista Dhâranâ, n.º 33, 1970/73, Brasil.

[7] Manuel J. Gandra, A ideia do Monumento de Mafra: Arquitectura e Hermetismo. Texto inserto no Boletim Cultural “94”, edição da Câmara Municipal de Mafra.

[8] Fulcanelli, As Mansões Filosofais. Edições 70, Lisboa.

[9] Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal, Lisboa Ocidental, 1732. Esta obra foi reeditada em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Fevereiro de 1987, com nota de apresentação de Yvette Kace Centeno, quase em simultâneo com uma outra reedição no mesmo ano, desta feita em Mafra, com nota preambular de Manuel Joaquim Gandra. Conta esta última com uma dedicatória final de Anselmo Caetano a D. João V e ao elogio do V Império, que a primeira não possui apesar de melhor apresentada e organizada que a segunda.

[10] Numa breve análise filológica do nome Sebastião, lembro que o étimo grego sebàs originalmente significava “pudor” e “temor”, vindo depois a exprimir as qualidades de “santidade” e “majestade”, originando o tardio sebastòs, sinónimo de “venerável” e “augusto”, sendo que sebastocrator designava o “príncipe real primogénito” na corte bizantina. Ora, o nome Sebastião origina-se do Sebastòs grego, de significado idêntico ao árabe Al-Sabah, “Majestade Divina”. Em hebraico, como este não possui vogais e se lê da direita para a esquerda, por ser semântica lunar, o seu radical é SBSH, “serpente, dragão”, lendo-se saraf, palavra na origem de safardim e sefardita, expressiva do postulado da Cabala Profética judaico-hispânica que, inclusive, batizou a Península Ibérica de “Terra de Sefarad”. O radical SBHS encontra-se igualmente na letra simples samekh, “serpente”, do mesmo alfabeto hebraico. Portanto, sbhs, sefarad, samekh igual a “serpente, dragão”, símbolos zoomórficos do Fogo ctónico, subterrâneo, infernal, inferior (inferius) ou interior (interiora) de Kundalini como a principal “matéria-prima” do consignado “Laboratório do Espírito Santo”, assinalado no Oriente como sendo Shamballah e no Ocidente como Salém, termos distintos para uma real e única coisa que é o Sol ou Núcleo Central da Terra.

A “Serpente” (de Sabedoria) ou Saraf como Sumo-Pontífice, equivalia entre os hebreus ao Kohen-Tsedek. Este grau consciencial e hierárquico correspondia, analogamente, na Céltida ao “Mestre dos Druidas”, o Arquidruida. Já na corte bizantina era conhecido como Pantocrator (“o que tudo governa”), e assim chama-ram a Santiago Maior nos caminhos de Compostela, de hierarquia equivalente ao Pthamer egípcio ou ao Jivamukta hindustânico, o Maha-Guru ou Maha-Choan, “Supremo Dirigente da Grande Confraria Branca dos Bhante-Jaul”.

Obviamente a letra radical de Sebastião é o s que, como inicial de “serpente”, aqui serpente real (a naga hindu, a naja etíope como a mesma naha hebraica, figurativas do Adepto Real) por se reportar ao rei, indica a Iniciação pelo Fogo Kundalini ascendendo da Terra ao Céu, provocando o apartamento definitivo da velha consciência profana pela nova luz iniciática, inicialmente podendo ser dolorosa a presença dessa consciência infante, pelo que Fernando Pessoa relaciona a letra S às “lagrimas alchymicas do Christo” (in O Caminho da Serpente, no livro Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética. Texto organizado por Yvette Centeno. Editorial Presença, Lisboa, 1985). Já Dalila Pereira da Costa (in Da Serpente à Imaculada. Lello & Irmão Editores, Porto, 1984) relaciona a serpente à Iniciação Feminina da Mátria Lusitana, e, no mesmo sentido de Iniciação Colectiva da Raça dos Lusos em relação com o simbolismo serpentário, afirma Pinharanda Gomes (in A Patrologia Lusitana. Lello & Irmão Editores, Porto, 1983) que “é o sinal remoto que nos introduz numa das genealogias a divinis do povo lusitano e dos seus valores religiosos. A serpente apresenta-se como símbolo do conhecimento global: a serpente enroscada, a boca tocando o rabo, denomina simbolicamente o universo do saber; a unidade do ser (…)”.

Após o desaparecimento do rei Sebastião, o messianismo peninsular tomou forças novas e assumiu-se sebastianismo nacional, popularmente bandarrismo, sob duas vertentes, uma “branca” e outra “vermelha”, aquela metafísica e esta política, e foi esta que vingou para a posteridade deturpando o sentido original do sebastianismo messiânico (cf. Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002).

[11] Fulcanelli, O Mistério das Catedrais. Edições 70, Lisboa.

[12] Maria do Carmo Vilar, O Dogma da Imaculada Conceição, pág. 111, in O Eterno Feminino no Aro de Mafra (Roteiro Monográfico). Edição da Câmara Municipal de Mafra, Setembro 1994.

[13] Francisco Valdomiro Lorenz, Noções elementares de Cabala – A Tradição Esotérica do Ocidente. Editora Pensamento, São Paulo, 1979.

[14] William What, Mistérios Revelados da Cabala. Fundação Educacional e Editorial Universalista, Porto Alegre, Março 1982.

Madeira: arquipélago de mitos e tradições – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Dez 1 2017 

Cornucópia repleta de fertilidade, abundância e riqueza de mitos e tradições é a que traz consigo a deusa romana Fortuna, como a mesma Tique grega[1]. Ao seu lado, a roda de leme transformada naquela do destino no século VI d. C. pelo escolástico Boécio na sua De Consolatio Philosophiae[2]. Filosofia consoladora que levaria depois os nautas de Cristo ao porto seguro feito santo por intervenção divina salvadora da aflição humana no humor revolto do Mar das Hespérides, Atlântidas ou Atlante-ilhas, corria o século XV.

O Arquipélago da Madeira é ele mesmo a cornucópia da Fortuna repleta dos mais felizes mitos consumados em tradições que se perdem na noite dos tempos. As mesmas encomiam os ilhéus como privilegiados de verdadeira Ilha de Utopia bafejada pelo empíreo dos deuses sobre o vasto oceano por eles beijado sob a forma de estrelas, as quais brilham em homens e mulheres de raridade superior mental e coracional que aqui têm aportado e deixado o testemunho no património das suas obras primorosas, umas discretas, outras exuberantes.

É na literatura clássica greco-latina que se encontram as mais antigas referências à Ilha da Madeira, observando-se nas cosmografia e geografia dos clássicos a presença do senso sagrado onde o mytus se transforma em mystèrion ou mistério, e assim mesmo se apresenta sob dupla leitura, aparente e velada, nos textos clássicos chegados até hoje ornando a Madeira como a verdadeira Ilha da Ventura, extremo-mar da Europa portuguesa que em Y irradia para o Norte e o Sul do quinto continente, a América, quiçá para El Moro no Novo México, EUA, e São Lourenço no Sul de Minas Gerais, Brasil.

Na Madeira sente-se ou tão-só pressente-se ser ela (ao par dos Açores, Canárias e Cabo Verde, possessões portuguesas de que a guanche só no século XVI a perderíamos definitivamente para Castela) herdeira sobrevivente desse afogado continente que dá pelo nome de Mu, Kusha ou tão-só Atlântida, donde Atlântico, existido nas Eras Geológicas Secundária, Terciária e começo da Quaternária do Mundo[3]. Seriam seus sobreviventes humanos aquele “povo vermelho” que dá pelo nome de fenícios, os inventores da escrita com que se passou da Proto à História, considerado povo  navegador mercajedor e civilizador, progenitor dos cartagineses que depois, ao par dos romanos, em poderosas embarcações sulcariam a costa mediterrânea e o seu mar indo além das Colunas de Hércules ora descendo a costa africana, ora subindo a costa hispânica e até se arrojando em empresas de mar de longo chegando a aportar aqui na Madeira. É Plínio, o Velho,  o naturalista e cronista romano do I Século d. C., na sua Naturalis Historiae, chamando à Madeira e ao Porto Santo de Insulae Purpurariae, as Ilhas Púrpuras, adiantando que o apelido provinha da “fabricação de corantes púrpura estabelecida na ilha pelo rei Juba II da Mauritânia”[4], portanto, de descendência cartaginesa vassalo de Roma no século I.

O facto é que a cor púrpura foi inventada pelos fenícios cujo segredo de fabricação foi dos mais guardados na Antiguidade, que como cor do planeta Júpiter, Jove, Zeus, Zyaus ou Deus, era este associado à mais elevada realeza e pontifical, pelo que só as classes elevadas dominantes na política e na religião a podiam exibir. Só quando os imperadores e cônsules romanos passaram a ostentar essa cor nos trajes da sua condição superior, é que veio a saber-se que a mesma obtinha-se do molusco múrex, cuja exclusividade e comércio foi fenícia durante gerações. Mesmo assim, depois dos romanos o terem obtido, foi resguardado o segredo da fábrica da púrpura por quase dois milénios. Vai neste sentido, sobre este assunto, a descrição dada no Century Dictionary, de 1899, considerado dos melhores dicionários norte-americanos[5]. Diz a tradição que só no século XVIII o conhecimento da mesma se generalizou a partir de França, quando a arte de tinturaria foi tornada pública pelo “Superior Incógnito” chamado Conde de Saint-Germain, este que, pela Missão Secreta de que estava incumbido na Europa, ocultou-se em vários títulos com que se apresentou às cortes europeias: Marquês de Montferrat, Marquês de Aymar, Conde de Welldone, etc.

Ao par de Insulae Purpurariae, Plínio, o Velho, chamou à Ilha da Madeira de Junonia, pelo grande número de pombas (Columba Junoniae) que foram vistas a voar nas suas encostas, as quais certamente seriam as alvas “pombas do mar”, as gaivotas. Tais espécies de pombas foram dedicadas à deusa romana Giunone, ou seja, Juno, contraparte de Jove ou Júpiter, sendo Pronuba como protectora dos casamentos e nela, deusa, se realçando a dignidade espiritual e humana da Mulher. Pronuba pode hoje encontrar-se representada na padroeira da ilha, Nossa Senhora do Monte, afim ao tema hagiográfico da Assunção da Virgem, tal qual Juno está ascendida junto a Júpiter.

Igualmente Estrabão, na sua Geografia, volume II, baseado na Corografia de Pompónio Mela, volume III, e na De illustris Viris, de Cornélio Nepos (aliás, citado por Plínio na sua História Natural), descreve a história de Eudóxio, grego de Cizico na Ásia Menor, que se teria mudado para o Egipto e daí para a Índia por via marítima. Ao transpor as Colunas de Hércules, onde hoje está Gibraltar, as correntes arrastam o navio até uma ilha que se supõe ser a Madeira. Também na sua obra, Biblioteca Histórica, Diodoro Sículo ou da Sicília narra que alguns marinheiros fenício-cartagineses de Gades, ao navegarem pela costa africana, foram arrastados na direcção oposta durante alguns dias até aportarem numa grande ilha que se supõe ser Porto Santo. Por alguma via que o historiador não diz, os etruscos, cujo poderio naval não tinha rival, vieram a saber dessa descoberta e quiseram apropriar-se dela, talvez em data próxima de 474 a. C., mas esse propósito nunca veio a ser concretizado.

Finalmente, na Biografia de Sertório, escrita por Plutarco, lê-se que marinheiros de Gades ofereceram-se para levar Sertório a determinado ponto do Oceano Atlântico onde existiam duas ilhas muito férteis e de clima muito suave. Plutarco chama-lhes “Ilhas Afortunadas”[6].

Essas são algumas das informações disponibilizadas pelos autores clássicos da Antiguidade greco-latina sobre o conhecimento do arquipélago da Madeira, certamente do conhecimento de frei Gaspar Frutuoso (1522-1591), sacerdote e historiador açoriano considerado a maior sumidade insular que deixou preciosa obra em seis tomos, escritos entre 1586 e 1590, sobre os arquipélagos das Canárias, Açores e Madeira, este quem dedicou o segundo volume[7]. Por fim,  resta enquadrar o sentido de insula occultam – ilha escondida, proibida ou vedada – na ideia mágica e religiosa dos sábios antigos, no tema sendo a mais notável a insula brandonis ou Ilha de São Brandão, que Thomas More no fim do primeiro quartel do século XVI disporia como a Ilha da Utopia habitada por homens sábios e santos, ela mesma na rota atlântica da Ilha da Madeira, a Medera apontada por Rosemarie Erika Horch[8], e que só poderá ser a “floresta mágica” de Laurissilva, húmida subtropical ocupando área com cerca de 15.000 hectares.

Isso mesmo está registado numa gravura seiscentista onde ao lado das Canárias aparece a Ilha Afortunada, a mesma “Pérola do Atlântico”, tendo mais acima uma baleia em cujo dorso é consumado o sacrifício da santa missa, e por cima domina a Ilha de S. Brandão. Entra-se assim no plano dos símbolos sagrados por que se expressa o verbum mutis – a língua muda – revelador da transcendência espiritual da Iniciação.

O simbolismo da baleia liga-se simultaneamente ao da entrada na caverna e ao do peixe. No mito bíblico de Jonas, a baleia representa a arca, a barca, o Paraíso Terreal assinalado no Oriente – e também no Ocidente – como Agharta ou Asgardi. A entrada de Jonas na caverna iniciática, isto é, ser engolido pela baleia, assinala a entrada no período de obscuridade ou pralaya, intermediário entre dois estados ou modalidades de existência (manvantara). Jonas no ventre da baleia é a morte iniciática, e a sua saída expressa o renascimento após a prova da caverna de iniciação (cripta ferrata). A saída de Jonas, ser vomitado pelo mamífero marinho, é a ressurreição, o novo nascimento, tal como demonstra, de modo particularmente explícito, a tradição islâmica[9]. Com efeito, nun (ن), a vigésima nona letra do alfabeto árabe, significa “peixe” e especialmente “baleia”, que por transposição semântica transcreve-se al-hût. Essa é a razão pela qual o profeta Jonas, Sayyidnâ Yûnus, é chamado de Dhûnl-nûn. Na Kaballah judaica, a ideia do novo nascimento, no sentido espiritual, está ligada a essa letra nun. O novo nascimento iniciático inscreve-se no tema messiânico assinalado no Evangelho de Mateus (12:39-40), onde Cristo dá como único e verdadeiro dessa identidade o “Sinal de Jonas”, o que vem a inscrever-se no tema sebástico-parúsico madeirense do imobiliário legendário sebastianista tão caro a Porto da Cruz. É o Sinal do Messias, do Avatara, daquele que vem de Cordo Maris ou do “Coração do Mar”, falado por Lusitanus nos seus Sinais dos Tempos[10].

Por fim, sendo símbolo de continente secreto ou perdido, como o da Atlântida de que as ilhas e ilhéus do Atlântico podem ser os resquícios geológicos sobreviventes do terrível Dilúvio que a afundou como afirma a Tradição, é também simbólica do tesouro escondido e, às vezes, igualmente da desgraça ameaçadora, a baleia contém sempre em si a polivalência do desconhecido e do interior invisível ou ocultado; é o centro de todos os opostos que podem vir a ser. Por este motivo, também já se comparou a sua massa ovóide à conjunção de dois arcos de círculo simbólicos do mundo do alto e do mundo de baixo – o Céu e a Terra – que o ritual da missa une no momento litúrgico da hora sagrada.

Na sequência, a ilha, a que se chega depois de uma navegação ou de um vôo apoiado pelas invisíveis mas vigorosas mãos de anjos, é o símbolo por excelência de um centro espiritual, mais precisamente, do Centro Espiritual Supremo ou Primordial. A ilha é assim um mundo em miniatura, uma imagem do cosmos completa e perfeita, pois apresenta um valor sacral concentrado. Sob este aspecto, a sua noção neosética aproxima-se daquelas noções de templo e de santuário. Simbolicamente, a ilha é um lugar de eleição, de silêncio e de paz, em meio à ignorância e à agitação do mundo profano. Representando o Centro Primordial, a sua cor fundamental de pureza é sempre a branca.

Foi assim que na Idade Média as ilhas perdidas e achadas (“trobadas”) tornaram-se um dos mitos fundamentais do Paraíso Terrestre afim à ideia da Idade de Ouro, herança mitogénica do Orfismo e do Neopitagorismo. Hesíodo descreve-as em Os Trabalhos e os Dias, dizendo: “É lá que moram, com o coração livre de cuidados, nas Ilhas dos Bem-Aventurados, à borda dos turbilhões profundos do oceano, heróis afortunados para os quais o solo fecundo produz, três vezes por ano, delicadas e florescentes colheitas”[11].

A Escola Náutica de Sagres, liderada pelo Infante D. Henrique de Borgonha, filho de D. João I de Portugal, estando num país cuja maior parte é mar, cedo arrojou-se na vastidão do mesmo, desbravou-o e dele tomou posse[12]. Este Infante Henrique de Sagres – letrado nos clássicos da Antiguidade, herdeiro da cartografia marítima da Ordem do Templo de que a Ordem de Cristo, de quem era o 8.º Mestre e Administrador Geral, por sua vez era herdeira universal directa – sabia de antemão haver terra firme a Ocidente, e nessa direcção mandou navegar os capitães e pilotos da nova cruzada marítima, e após que seguissem a rota sudoeste, motivo da estranheza geral dos espiões ao serviço de Castela e de Génova infiltrados na corte portuguesa[13].

A espionagem e a contrainformação, notícias falsas que repetidas à exaustão acabaram tornando-se verdades oficiais de Estado moldando a opinião pública, poderão explicar o controverso explorador e mercador genovês Lancelotto Malocello (Varazze, 1270 – Génova, 1336), que em navio luso descobriu as Canárias em 1312 sob o comando de Manuel Pessanha, o qual em 1317 assumiu o almirantado português. Em 1336, o genovês descobriria ainda a Ilha da Madeira, isso apesar de estar acamado em Génova em cuja data faleceu. Atesta essa descoberta efabulada o famoso Atlante Mediceo ou Atlas dos Medici, datado de 1351 mas que a historiografia acusa ter sido composto em data bastante posterior e talvez furtado das mesas de trabalho dos cartógrafos portugueses da Escola de Sagres, por os lugares assinalados no mesmo – como o Cabo Bojador – serem do exclusivo conhecimento marítimo exacto português.

Controvérsias à parte, é facto cabal que em 1418 o Infante D. Henrique, baseado nos antigos mapas dos dois séculos anteriores e na cartografia árabe onde apareciam as ilhas que reivindicaria para a Coroa Portuguesa, encomendou a empresa aos capitães de mar João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira de descobrirem terra firme a sudoeste já do conhecimento dos portugueses. Assim fizeram tendo chegado nesse ano à Ilha de Porto Santo, originalmente chamada Porto Seguro por lhes ser abrigo protector na aflição de terrível tempestade entretanto desabada no mar.

Com esse sucesso, o Infante D. Henrique tratou logo de colonizar a ilha. Ordenou a João Gonçalves Zarco e a Tristão Vaz Teixeira que voltassem a Porto Santo, dando-lhes por companheiro um outro criado da sua casa, Bartolomeu Perestrelo. Foi nessa segunda viagem que descobriram ou demandaram a Ilha da Madeira, saindo Tristão Vaz e Gonçalves Zarco do Porto Santo no dia 1 de Julho de 1419, indo aportar à Madeira no ponto a que chamaram de S. Lourenço, nome do navio que os conduziu. Fizeram depois em torno da ilha uma viagem de circum-navegação indo batizar os diferentes acidentes da costa. Nessa viagem a principal baía da ilha recebeu o nome de Baía do Funchal (oscilando a origem do termo entre “funcho” e a “fundeação” do navio português), e a uma grande lapa onde se abrigavam lobos marinhos, que os navegadores caçaram, deram o nome de Câmara de Lobos, tendo o próprio João Gonçalves Zarco e os seus descendentes tomado desse sítio o apelido de Câmara. Quanto a Bartolomeu Perestrelo, apesar de não ter participado da “descoberta” veio a ser o primeiro capitão donatário da Ilha de Porto Santo, cuja filha Filipa Moniz viria a casar com Salvador Gonçalves Zarco, o famoso almirante português ao serviço dos reis católicos de Leão e Castela, ou seja, Cristóvão Colombo. Demorando-se na ilha sob pretexto de fazer aguada e recolher mantimentos antes de arrojar-se na empresa marítima que o levaria a descobrir a América do Norte em 12 de Outubro de 1492, Cristóvão Colombo foi visita assídua na sede capitania da Ordem de Cristo na ilha, motivo causador estranheza: um navegador pressupostamente galego, castelhano ou italiano ao serviço de país rival andar de intimidades com os capitães de mar portugueses e, como se não bastasse, casar com uma nobre portuguesa e estabelecer casa familiar em Porto Santo. Ou os oficiais portugueses da época andavam muito distraídos fazendo pouco caso dos espiões estrangeiros, ou, o mais certo, a história colombina poderá estar toda mal contada[14].

Com efeito, a Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, em diminutivo Ordem de Cristo, era donatária exclusiva das ilhas do Oceano Atlântico onde se incluíam, obviamente, a Madeira e Porto Santo. Nas Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, lê-se: “Pertencem à Mesa Mestral desta Ordem todas as ilhas do mar oceano, porque as rendas do espiritual elas estão unidas à Ordem, por Bulas Apostólicas, que dos Santos Padres impetrou o Infante D. Henrique, filho del Rei D. João o I, além dos direitos reais, que S. Majestade nas ditas ilhas tem, como Rei e Senhor”[15].

Se havia ligação temporal à Coroa com direito legal à dízima ou décima parte dos bens taxados pelas Comendas da Ordem proprietária da maioria dos terrenos do arquipélago madeirense que aforavam aos agricultores, assim como do pescado no mar da sua costa, já a ligação espiritual e a prestação de relatórios ao eclesiástico e ao papa sob o bom andamento das missões pastorais junto dos insulares pouco mais seria que convencional por o Mestrado da Ordem só responder perante o seu Administrador Geral, como se lê na Tavoada e Reportório da Primeira Parte da Chancelaria da Ordem de Cristo: “[…] porque o Infante D. Henrique defendeu aos cavaleiros da Ordem que não respondessem perante as justiças seculares que não entendessem neles por serem isentos de sua jurisdição” (fls. 17-17v).

Isso possibilitou à Freiria de Cristo dar largas à sua teologia heterodoxa que já vinha da sua antecessora, a Ordem do Templo, motivo de encontrarem-se nestas ilhas, em antigos imóveis da Ordem ou em espaços onde ela interveio, elementos decorativos de foro gnóstico retirados dos compêndios herméticos medievais, impossíveis de encontrar no continente. Na mesma senda, próxima da Milícia de Cristo, andou nestas ilhas a Ordem Franciscana da Província de Portugal, cujos espirituais beguinos deram largas à manifestação esotérica do seu pensamento heterodoxo, informando o vigário geral do bispado do Funchal, fr. Nuno Cão, em 20 de Fevereiro de 1499, que “os franciscanos possuíam uma tradicional liberdade de movimento e uma grande independência de acção”[16]. Inclusive na manifestação do pensamento heterodoxo, como está presente na capela da Morgada na igreja de Nossa Senhora da Piedade (século XV), em Porto Santo, nos seus motivos geometrizantes e até na pintura central do Noli me tangere (“Não me toques”), narrando o aparecimento de Cristo Ressuscitado a Maria Madalena. Já na Ilha da Madeira, em Ponta Delgada, a igreja do Senhor Bom Jesus (erigida possivelmente em 1470), sobretudo o altar-mor e a capela dos Reis Magos, o seu aparato decorativo remete para ideais herméticos a que acaso não terá sido estranho Manuel Afonso Sanha, fixado nesta actual freguesia e sepultado nesta igreja em 1507, servidor da Casa do Infante D. Henrique, governador da Ordem de Cristo e senhor no temporal destas ilhas[17]. A própria cruz processional na matriz de Nossa Senhora da Assunção do Funchal (obra iniciada cerca de 1493), na Madeira, obra notável da ourivesaria portuguesa do século XVI atribuída ao mestre Gil Vicente, acaso poderá expressar algum simbolismo de carácter hermético inspirado no tema brandónico, sobretudo a meio dela onde o cinzel talhou o Templo ladeado pelos Profetas e cujo formato sugere uma ilha, quiçá a própria Madeira como ínsula sacra que elevada ao alto na procissão a todos aviva a memória do espaço sagrado onde vivem.

Quanto às dignidades da Ordem de Cristo, a primeira e principal, depois do mestre, era o prior-mor, com jurisdição no espiritual e no temporal, exercitando a autoridade espiritual junto dos clérigos mas também dos cavaleiros. Ao prior-mor competia convocar por cartas a capítulo geral para nova eleição de mestre, a quem tomava o juramento de obediência à Ordem e após ao papa, geral da religião professada. A segunda dignidade era a de comendador-mor, que presidia na ausência do prior-mor, e por falecimento do mestre, no ínterim da vacante, lhe pertencendo governar a Ordem. Seguia-se o claveiro-mor, cujo ofício era ter as chaves de todas as comendas, competindo-lhe ainda a distribuição dos mantimentos e a anotação dos gastos que se faziam. Seguia-se o sacristão-mor, a quem pertencia em capítulo ter os selos da Ordem. A quinta e última dignidade era o alferes-mor, que levava a bandeira da Ordem nas procissões e em todos os actos de guerra em que ia o mestre[18].

Sob a aparência da ortodoxia da religião, conservadora da moral e da ordem estabelecidas, a heterodoxia das ideias avançava, alcançando o cume no século XVIII com os ideais iluministas reformadores sociais pela razão esclarecida soprando de França sobre Portugal e os territórios insulares, afectando-os decisivamente. Muito religiosos católicos abraçaram o Iluminismo, imensos do grupo heterogéneo da fidalguia madeirense também. Reuniram-se em segredo, discutindo e decidindo da vida social e espiritual segundo as novas ideias. Em 24 de Junho de 1717 fundava-se em Londres a Maçonaria Especulativa, dava-se início ao Rito Escocês Antigo e Aceite. Em breve repassaria a Paris, França, e daí ao resto da Europa alcançando a Madeira e o Porto Santo. Ante a laicidade do novo culto humanista não confessional, a janela de oportunidades democráticas que a sua estrutura oferecia permitindo aos afiliados participarem activamente isentos de autorização apostólica, nestas ilhas em breve trecho raros eram os que não seriam maçons, dignidades eclesiásticas incluídas.

Em 1768 foi fundada no Funchal a primeira Loja Maçónica por “alguns dos principais desta Ilha”, segundo António Loja[19]. Dentre eles destacou-se Aires de Ornelas Frazão, que ocupou o cargo de Venerável, irmão de Agostinho de Ornelas e Vasconcelos, 10.º morgado do Caniço que, em 1767, desempenhava o cargo de escrivão da Mesa Grande da Alfândega do Funchal. Referidos, em 1770, pelo então governador António de Sá Pereira, como “os espíritos inquietos, livres, soberbos e indomáveis da principal nobreza”, surgem os nomes de Agostinho de Ornelas e Vasconcelos, do seu outro irmão, Francisco de Ornelas Frazão, de Nuno de Freitas da Silva e de António Correia Brandão Henriques, todos membros da elite municipal funchalense. São ainda mencionados como membros dessa Loja no Funchal, em 1770, Mendo de Brito de Oliveira e Pedro Júlio da Câmara Leme. De todos, só Aires de Ornelas Frazão foi preso e enviado para o reino. Segundo Oliveira Marques[20], Ornelas Frazão teria recebido a Luz da Ordem Maçónica entre 1768 e 1770, mas Octávio Pimenta Sousa contrapõe[21], e parece-me o mais certo, que em 1767 ele já seria Venerável, pelo que terá sido admitido na Maçonaria muito antes das datas indicadas pelo ilustre historiador. Depois da sua prisão em 1770, conseguiu evadir-se do cárcere em Lisboa em 1773, homiziando-se em Espanha e depois na Inglaterra. Regressou à Madeira em 1779, sendo mais tarde novamente perseguido e obrigado a fugir para os Estados Unidos em 1792 após denunciado ao Santo Ofício[22].

Enquanto durou o governo do marquês de Pombal, a Maçonaria foi respeitada e acolhida. Mal o ministro do reino foi afastado, iniciou-se a perseguição aos maçons em 1790, mais feroz ainda que a de 1770, tendo a rainha D. Maria I assinado o Edital do Santo Ofício, de 10 de Abril de 1792, que legalizava a perseguição, prisão e tortura aos “mafarricos de avental”. Foi a época de clandestinidade e maior resistência da Ordem na Madeira e Porto Santo, nunca deixando de existir, aumentar em número de membros vinda até à actualidade. Aliás, esse ano de 1790 foi o da aparição, na Ilha da Madeira, da Maçonaria Cavaleiresca da Ordem da Cruz Tripla, de origem francesa e baseada na mitologia das Cruzadas medievais na Terra Santa. Em verbetes no seu Dicionário da Maçonaria Portuguesa, volumes I e II, Oliveira Marques assim descreve:

“FUNCHAL – A cidade do Funchal, na Ilha da Madeira, foi, porventura, a segunda localidade portuguesa onde houve Maçonaria. Sabe-se da existência de uma Loja, de 1768 a 1792, certamente fundada pelos ingleses residentes na Ilha da Madeira. Por volta de 1790 ter-se-ia instalado uma segunda Loja, activa até 1792 e, talvez em 1791, uma terceira, que igualmente parou a sua actividade em 1792 devido às perseguições. Despois desta fase, só nos começos da década de 1840-50 ou nos finais da anterior voltou a organizar-se a Maçonaria funchalense, com as Lojas Constância (II), n.º 3000, e Firmeza (II), criadas no seio do Grande Oriente Lusitano. Numa terceira fase e já no seio do Grande Oriente Lusitano Unido, fundaram-se: em 1871, a Loja Liberdade I, n.º 66, do REAA (Rito Escocês Antigo e Aceite), desaparecida em 1894 mas reconstituída pouco depois e activa até à clandestinidade; Trabalho, n.º 75, do REAA, activa de 1873 a 1883; União Liberal, n.º 111, do REAA, activa de 1877 a 1883; Cinco de Junho, n.º 118, do mesmo REAA, trabalhando de 1878 a 1883; uma nova Trabalho, n.º 219, sempre do REAA, com actividade de 1901 a 1923 e de 1930 a 1935; Evolução e Progresso, n.º 231 do RF (Rito Francês), em 1902, cujo quadro não chegou a ser aprovado; Britanic, n.º 282, do RY (Rito de York), com trabalhos de 1908 a 1913; Cinco de Outubro II, n.º 351, do REAA, de 1911 a 1916, de 1919 a 1929 e de 1929 à clandestinidade; Pátria Portuguesa, n.º 385, do REAA, instalada em 1916 e desaparecida só durante a clandestinidade; Agrippa, n.º 433, do REAA, organizada em 1928 mas que não chegou a funcionar; e Atlântida, n.º 469, instalada em 1933 e já desaparecida em 1937.

“PORTO SANTO – Na Ilha de Porto Santo (Madeira) fundou a Loja Liberdade I, n.º 66, do Funchal, o Triângulo n.º 33, do REAA. Durou de 1903 a 1908.”

As inquirições do Tribunal do Sacro Ofício em 1792, segundo João Pedro Ferro, apenas vieram confirmar o que todos suspeitavam: os poderes políticos e religiosos da Madeira encontravam-se representados na Maçonaria, incluindo o próprio governador, alguns dos principais magistrados, membros da primeira nobreza, grandes proprietários, importantes mercadores, deões e cónegos da Sé, curas de aldeia, juízes, advogados, médicos, funcionários públicos e até artífices e clientes. A Câmara Municipal era controlada pela Maçonaria, sempre em busca de um ideal humanitário para uma sociedade mais justa e perfeita. O Governo Central de Lisboa não teve outro remédio senão arquivar o processo, não sendo ninguém preso[23]. Mesmo assim, a perseguição resultou num clima de desconfiança e discriminações sociais e religiosas, levando mesmo ao exílio de alguns maçons, os mesmos portugueses que estariam presentes na fundação dos Estados Unidos da América do Norte e na implantação da Ordem Maçónica nesse país, sempre com a cobertura de dois Superiores Incógnitos escapados do Terror francês na Europa para o Norte-América nos fins do século XVIII, dizendo a tradição terem aportado nesta ilha madeirense para abastecerem-se de água e mantimentos: São Germano e Cagliostro, acompanhados de outros personagens insignes, diz a Tradição Iniciática, na rota de conquista espiritual e humana do Oeste, a caminho de Washington – Cimarron, no Novo México.

Particularmente activo na disseminação desse clima persecutório, esteve o bispo do Funchal, D. José da Costa Torres, que apavorado via-se cercado de maçons perigosos atentadores do conservadorismo da própria Igreja, como diz Fortunato Almeida[24]. Com efeito, descobriu-se que pertenciam à Maçonaria o governador do bispado, sete cónegos e beneficiados da Sé, dois vigários-gerais do bispado, o tesoureiro e o capelão do bispado, o visitador-geral, quase todos os curas das freguesias orientais da ilha (a parte mais povoada), o director do Seminário e vários professores, o capelão da principal fortaleza militar da ilha e até o confessor do convento feminino do Funchal[25]. A maioria dos eclesiásticos que desempenhavam funções na Sé foi demitida ou suspensa, sendo muitos proibidos de pregar e confessar[26]. Imagine-se o impacto que este fenómeno teve junto da população que, ao dirigir-se ao confessionário, não sabia se se dirigia a um clérigo que pertencia à Ordem proscrita pela Igreja Católica[27]. Reacção que deixou vestígios nos meados do século XIX e abalou o seguinte cimentado já o preconceito reacionário que, na essência última, a espiritual ou iniciática, não tem sentido algum.

A Igreja e a Maçonaria têm a mesma fonte comum: a Tradição Iniciática das Idades. Aquela é dirigida aos simples como confessional. Esta é encaminhada aos eruditos como iniciática. Ambas como um só propósito salvífico e libertador, espiritualmente falando. Nisto, as bulas papais condenatórias da Ordem Maçónica, como essa Humanum Genus do papa Leão XIII, de 20 de Abril de 1884, deixam de ter sentido, só restando a ignorância mãe de todas as superstições, a estreiteza mental matriz dos preconceitos. Essa proximidade espiritual Igreja – Maçonaria ficaria registada aqui mesmo num imóvel religioso madeirense: a igreja de S. Jorge, no concelho de Santana (Santa Ana, mãe da Virgem Maria, que aliás não figura nos evangelhos sinópticos mas exclusivamente nos apócrifos), ao norte da ilha.

A origem da igreja de S. Jorge recua a 1475, quando foi fundada a primitiva ermida com esta invocação no Sítio do Calhau, destruída por um grande incêndio em 1598. Em 19 de Julho de 1660 o morgado Francisco de Carvalhal e Vasconcelos fez doação do terreno do Sítio da Achada para a construção da nova igreja mas sob a antiga invocação, sendo as obras iniciadas em 4 de Setembro. Elas demoraram, fizeram-se ampliações, melhoramentos, embelezamentos até que em 17 de Setembro de 1761 o bispo do Funchal, D. Afonso da Costa Brandão, procedeu à bênção e sagração da nova igreja[28].

Mas a sua história replete-se de atribulações insólitas, como essa do incêndio de 1598 que o povo local logo atribuiu ao castigo divino por ter sido contrariada a ordem do rei D. Sebastião[29] – que em 12 de Março de 1574 dotara da tença anual de 5.000 réis a fábrica deste templo – em perpetuar secula seculorum a Colegiada de São Jorge, extinta em 18 de Março de 1578. Depois, satisfazendo o pedido do pároco António Fernando Barradas, em 10 de Outubro de 1727, o bispo do Funchal nomeou provisoriamente o padre Sebastião Gonçalves para coadjutor do vigário, em 28 de Agosto de 1728. Segundo é dito, mais por via oral do que documental, esse padre andou de proximidades com os heréticos calvinistas e protestantes franceses e ingleses que habitavam a ilha, muitos deles com fama, e talvez proveito, de serem fina-flor maçonista. Dizem até que havia momentos em que só eles podiam estar fechados na igreja e mais ninguém, tocando-se um sino quando saíam. Verdade ou não, o facto é que o padre Barradas foi admoestado várias vezes pela diocese, até que em 3 de Outubro de 1731 recebeu a visitação da cónego doutor Bernardo Rodrigues Nogueira, comissário do Santo Ofício, que o admoestou severamente – sob pretexto do pouco asseio e abandono da igreja – e afastou o pároco. Em Setembro de 1732, iniciou funções como vice-vigário o padre Francisco Marques de Mendonça, mas passado algum tempo, em 3 de Julho de 1734, também ele foi examinado para vigário de São Jorge, sendo o padre Barradas afastado para a Calheta. Essas suspeições eclesiásticas de alguns dos seus partilharem do maçonismo, agravavam-se ainda mais por Aires Ornelas de Frazão ser dos principais beneficiários, senão o principal, da igreja de São Jorge, inclusive um seu familiar, o morgado Diogo de Ornelas de Frazão Figueirôa e sua mulher, D. Isabel Maria Brito, em 24 de Setembro de 1776, terem lavrado a escritura de doação do terreno anexo à igreja designado por Passal[30].

Edificada no estilo barroco chão, com porte grandioso, a igreja de São Jorge possui um belíssimo altar-mor em talha dourada, barroca e rococó, obra de 1751 do talhador Julião Francisco Ferreira e do dourador José António da Costa. Nele se evoca a Exaltação da Santa Cruz. As pinturas parietais, retratando a vida de São Jorge, por via das suas ilustrações muito heterodoxas como não podiam deixar de ser num santo nascido da lenda sagrada, inclinam-se para leituras tanto teológicas como hermetistas, segundo o entendimento de cada um. Tem-se nisso o Anjo do Apocalipse sobre o púlpito, tocando a tombeta anunciando o “Final dos Tempos” ou o término de um ciclo de evolução humana pelo dealbar de outro, quiçá, mais promissivo e próspero para o Mundo. Também é o caso do empíreo pintado no tecto do altar-mor, com os seus três céus – do tema cosmológico de Virgílio e de Dante, prosseguido por Camões em Os Lusíadas – povoados por 78 Anjos, número que, dentre outras interpretações, remete para os 78 Génios da Cabala judaico-cristã plasmados no figurino dos 78 Arcanos do chamado Livro de Thot ou Tarot, termo oriundo do fenício-caldaico Astaroth ou Asta-Roth, o “Caminho Real da Iniciação”. Esta Iniciação é acessível a alguns ou a todos? A todos, registo verificado na separação do Tarot em Arcanos Maiores (primeiras 22 lâminas) sinaléticos dos Mistérios Maiores, nisto ficando para a Ordem Maçónica, e em Arcanos Menores (restantes 56 lâminas) indicativos dos Mistérios Menores, nisto ficando para a Igreja Católica. Uns e outros são inseparáveis, como inseparável deve ser o trono do altar, a arte sacerdotal da arte real, a autoridade espiritual do poder temporal, nisto os espíritos esclarecidos incompreendendo as vicissitudes ordinárias levantadas entre avental e batina. Se esta é confessional e salvífica, aquela é mental e libertadora. Ambas completam-se nas suas funções próprias. E completam-se aqui sob o evoco do Rei do Mundo – Melkitsedek na Bíblia, Chakravarti nos Vedas, Rotan na Maçonaria – em que se reconhece a figura lendária do santo Jorge, George ou Gheoergon, o Obreiro Universal.

Se existe um mito autenticamente ancestral no santoral dos cristãos, um mito acumulador de chaves e significados procedentes do passado mais remoto do paganismo, seguramente é o que está reflectido em S. Jorge, o santo cavaleiro andante que liberta donzelas, luta com dragões e propicia o esplendor das colheitas. Se existe um santo osmótico por definição, capaz de assimilar em sua personalidade a dezenas de outros santos, sem contar deuses proibidos e heróis simbólicos, esse ser é S. Jorge[31].

S. Jorge do Norte, da Terra de João Ninguém ou a Terra do Nunca, S. Jorge da Capadócia ou da Arménia no Extremo Norte da Europa remetendo para a ideia de um Extremo Norte do Mundo, telúrico, localizando-o o Paraíso Terreal, a Agharta das tradições transhimalaias, e ele líder pacífico de hostes de anjos espatários como ideal da perfeição de Cavalaria, da Massenia como a do Santo Graal, assim mesmo corporificação de todas as virtudes sobre-humanas de que o cavaleiro deveria estar armado e couraçado.

S. Jorge vem de longe, tanto no nome como no mito, por regra nada menos que da Geórgia arménia cantada devotamente pelos mais excelsos poetas da latinidade. É o Homem da Geórgia, o Homem Primordial procedente de uma terra que já era tão mítica em si mesma que mitificava quanto continha. A lenda fez-se militar, porém não pertence a legião nem corte alguma, mas parece ir por anexo para justificar uma armadura – couraça do espírito – e umas armas que haveriam de convertê-lo em paladino, não da fé mas da mais pura tradição iniciática. Mas se algo faltava, a lenda martirial converteu os seus sagrados suplícios numa serena iniciação que se prolongou, como no âmbito dos Mistérios, durante sete anos, na presença de setenta reis, com provas vitoriosas onde os suplícios com rodas, lanças, fornos e pedras de moinho foram sucessivamente superados, antes de alcançar a gloriosa apoteose depois de três ressurreições.

Não será demais acrescentar que determinadas passagens das primeiras paixões relatam como Jorge, em meio dos terríveis suplícios, se declarou disposto a “sacrificar aos ídolos”, o que provocou que o papa Gelásio I, no século V, as condenasse, proclamando-as escritas por hereges, e que o hagiógrafo Nicétas de Paphlogonie ou Nicétas David, no século X, confessasse havê-las lido “indignado”. Por desgraça, dessas primitivas paixões não ficaram mais que refundamentos expurgados muito posteriores nas obras de inspiração mais ou menos directa que escreveram, na Baixa Idade Média, recompiladores como Tiago de Voragine, no século XIII.

Porém, o santo georgiano esconde outra faceta simbólica da sua personalidade: a de uma perdida divindade fecunda, com evidentes conotações agrárias e florestais. James Frazer aponta as festividades centro-europeias que se faziam em honra de S. Jorge[32], as de Jorge o Verde, nas quais um camponês revestia-se com ramos e folhas de bétula e era conduzido processionalmente até ao rio, onde a sua efígie era atirada nas águas. Também descreve ritos amorosos sobre os sulcos onde haviam crescido as primeiras espigas de trigo. Por seu lado, Joan Amades dá notícia de toda uma série de cerimónias agrárias que têm ou tiveram lugar em terras catalãs[33], as quais vêm confirmar o carácter de S. Jorge como herdeiro de um deus perdido da fecundidade, o que condiz com a sua data litúrgica, 23 de Abril, em plena Primavera.

É, pois, a fecundidade, o progresso de um santo guerreiro e agrário que, para terminar, evoco para o Arquipélago da Madeira e Porto Santo desejando a todos e todas as maiores venturas e realizações espirituais e humanas, como ontem hoje e sempre.

 

NOTAS

 

[1] Comunicação do autor realizada no Grémio Literário da Madeira. Funchal, 4.11.2017.

[2] La Consolación de la Filosofia. Introdução, tradução e notas de P. Rodríguez Santridrián. Biblioteca temática – Clássicos da Grécia e Roma. Alianza Editorial, Madrid, 1999.

[3] Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2004. Nova edição revista e ampliada, com o mesmo título, em Lisboa pela Euedito em 2017.

[4] Gaius Plinius Secundus, Historia naturalis. Impresso in Venesia, Bartolomeo Zani, 1489.

[5] Whitney William Dwi, Century Dictionary & Cyclopedia. Hardcover, 1899.

[6] Geraldo Cantarino, Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro. Mauad Editora Ltda, Rio de Janeiro, 2004.

[7] Doutor Gaspar Fructuoso, As Saudades da Terra – Historia das Ilhas do Porto-Sancto, Madeira, Desertas e Selvagens. Manuscripto do seculo XVI annotado por Alvaro Rodrigues de Azevedo. Typ. Funchalense, Funchal, 1873.

[8] Rosemarie Erika Horch, Quais as fontes para os Mapas da Novae Insulae de Sebastian Münster? Revista da Universidade de Coimbra, Separata, vol. XXXIV, 1988.

[9] Jean Chevalier e Alain Gherbrant, Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1990. Adalberto Alves, As Sandálias do Mestre – O Islão Iniciática na Formação de Portugal. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda, Lisboa, Outubro 2009.

[10] Lusitanus (pseudónimo de Abel de Sousa Vasconcelos, 1865-1937), Sinais dos Tempos (Fim das Nações – Império Universal – Triunfo da Cruz – Fim do Mundo). Imprensa Lucas & C.ª, Lisboa, 1924.

[11] Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias. Tradução Mary de Camargo Neves Lafer. Editora Iluminuras, São Paulo, 1989.

[12] Peter Russel, Henrique o Navegador. Livros Horizonte, Lisboa, 2004.

[13] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2011.

[14] Mascarenhas Barreto, O Português Cristóvão Colombo (Agente secreto do rei Dom João II). Edições Referendo, Lisboa, 1988.

[15] Fr. Damião das Neves, Compêndio da Regra e Definições dos Cavaleiros da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, com alguns breves pontifícios e privilégios reais, etc. Lisboa, 1607.

[16] ANTT, CSF, avulsos, mç 11, doc. 1.

[17] F. A. Silva, Elucidário Madeirense. Funchal, 1940.

[18] Aleixo Tavano e José Augusto da Silva, Notícia histórica das ordens militares e civis portuguesas, etc. Lisboa, 1881. J. Vieira da Silva Guimarães, A Ordem de Cristo. Lisboa, 1901.

[19] António Loja, A Luta do Poder contra a Maçonaria. Quatro perseguições no século XVIII. Imprensa Nacional, Lisboa, 1986.

[20] A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa – I. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[21] Octávio Pimenta Sousa, A Maçonaria na Madeira. Alocução do autor editada em 3 de Dezembro de 2014.

[22] ANTT, Doc. Nº 17304, texto em três folhas da denúncia feita por Anastácio Neri da Silva ao cónego João Venâncio de Vasconcelos, comissário do Santo Ofício no Funchal, em 5 de Maio de 1792. Esse personagem fora introduzido no convívio da fina-flor da Maçonaria funchalense com o objectivo de denunciar a “Sociedade dos Pedreiros Livres” na ilha, pôr a descoberto as suas figuras principais, com destaque para “Diogo de Ornelas Frazão Figueiroa, morador na Calçada do Convento de Santa Clara”, no Funchal, juntamente com António José de Ornelas, Francisco António de Souza, Luís Vicente de Carvalhal, etc.

[23] Miguel António Dias (Cavaleiro R+C da Maçonaria Eclética ou Rito Lusitano, idealizado desde 1834), Bibliotheca Maçonnica, ou Instrucção Completa do Franc-Maçon, seis tomos. Casa de J. P. Aillaud, Paris, 1840-1842. Miguel António Dias, Annaes e Codigo dos Pedreiros Livres em Portugal. Lisboa, 1853. Reedição Sol Invictus, Ericeira, Novembro 1990. Manuel Borges Grainha, História da Franco-Maçonaria em Portugal (1733-1912), Lisboa, 1912. Reedição Colecção Janus, Editorial Vega, Lisboa, 1976.

[24] Fortunato Almeida, História da Igreja em Portugal, vol. III. Livraria Civilização Editora, Porto, 1970.

[25] Rui Carita, História da Madeira, vol. V. Secretaria Regional de Educação, Funchal, 1999.

[26] João Pedro Ferro, José Anastácio da Cunha, i. e., João Pedro Ferro – Em torno da Maçonaria. Lisboa, 1995.

[27] Ana Madalena Trigo Sousa, O Exercício do Poder Municipal na Madeira e Porto Santo na Época Pombalina e Pós-Pombalina. Centro de Estudos de História do Atlântico, Funchal, 2004.

[28] Padre Silvério Aníbal de Matos, São Jorge e suas Ermidas. Edição da Câmara Municipal de Santana, 2000.

[29] Em comunicação feita à Associação dos Arqueólogos Portugueses em 1924, Alfredo António de Castro Teles de Meneses de Freitas Branco, visconde do Porto da Cruz (1890-1962), descreve a lenda sebástica insular corrente para os lados do Faial, concelho do Machico, na Madeira: quando o Sol se põe aparece no horizonte uma ilha envolta em brumas, onde D. Sebastião, o “Rei Desejado”, dorme desde a fatal batalha de Alcácer-Quibir um “sono de encantamento”. Refere que “a credulidade popular é tão sincera e espontânea que todos os anos, na noite de S. João, quando o povo desce do arraial, vai ao mar ver a sua sombra, ou ouvir os clamares distantes da cidade encantada. Perdidos entre o marulhar das ondas, é vulgar soarem as trovas regionais invocando o rei D. Sebastião e pedindo-lhe que deixe o seu encantamento de Arguim para vir à terra que lhe serviu de berço e para o povo que tanto o amou”. Narra ainda a outra lenda da espada de D. Sebastião, tendo como cenário a paisagem ao fundo do Porto da Cruz: “Olhando dos lados do Faial, a Penha de Águia apresenta uma encosta acessível, muito verde e mesmo fértil, mas sobre o Porto da Cruz é árida, a prumo, rasgando-se em grandes cavernas onde nunca entrou um ente humano e que, ao romper do dia ou ao anoitecer, lembram grandes olhos negros e sombrios dos monstros das lendas que detiveram durante tantos tempos a audácia dos navegadores e a expansão da Europa. Sobre o mar, onde a rocha corta verticalmente, numa só linha, como se engenhos de homens assim a talhassem, destaca-se uma elevação, que serviu de motivo à fantasia popular para criar a lenda de que a espada de el-rei D. Sebastião ali está enterrada… E o bom povo lastima-se de não poder subir ao cabeço mágico e, tomando pelos copos a espada encantada, arrancá-la da rocha e trazer com o Rei Desejado o bem e engrandecimento desta pátria”.

[30] Rui Carita, Ficha de Monumento. Pt, 2003.

[31] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[32] James George Frazer, La rama dorada: magia y religión. Fondo de Cultura Económica, México, 2011.

[33] Joan Amades, Costumari Català, cinco volumes. Editorial Salvat, Barcelona, 1952.

Sintra: da Heráldica ao Graal – Por Vitor Manuel Adrião Sábado, Nov 18 2017 


Não há país sem bandeira nem bandeira sem país. Ipso facto. Tudo porque as sinergias manifestadas deste estão estampadas naquela como que expressando o Arquétipo primordial. A esta regra primeiríssima obviamente não escapa o pavilhão sintrense, como expressão da sua própria idiossincrasia de concelho inserto no todo do Espírito Nacional; tal como tudo evolui da condição mais primária e rude à mais elaborada e rarefeita, o mesmo aconteceu às Armas de Sintra, evoluindo desde totem lítico altaneiro às penhas da serra a bandeira desfraldada ao vento sudoeste.

Que não há país sem símbolo ou sem bandeira, é um facto. Por detrás de cada símbolo ou bandeira oculta-se uma verdade cíclica. A bandeira é a expressão sintética de certa verdade universal, ligada a um povo ou a uma raça, em determinado ciclo evolutivo. Os símbolos, como as bandeiras, são verdadeiros mantos protectores para que determinados princípios mais elevados de um povo não pereçam durante a luta pela sua evolução, permitindo assim que esse mesmo povo possa atravessar, são e salvo, os “invernos” a que periodicamente está sujeito e ressurgir assim, na etapa ou época justa, como a fénix, renascida de suas próprias cinzas, com uma formação superior na ciência, na filosofia, na religião, nas artes e na política social e económica.

Na bandeira de cada povo se acha expresso o propósito oculto de suas gentes e o sentido secreto da sua formação e desenvolvimento, e também a maneira como deverá florescer a sua civilização, o que, na verdade, constitui um aspecto particular do “processo evolutivo universal”, por intermédio do qual evolui a “Mónada Humana”, palmilhando o “Caminho” (ou “Tao”) que outro não é senão o místico Itinerário de “Io” (ou do Eu, de Ísis, que se esconde por detrás do véu ilusório das formas, das mutações…).

Nos símbolos, nos emblemas e nas bandeiras que ornam os monumentos, os templos e os palácios, concentram-se representações de atributos e qualidades que assumem uma forma definida e objectiva no inconsciente do povo, de tal modo que poderá dizer-se haverem em tais emblemas como que deuses tutelares ou heróis guardiões personificando-os, nos quais sempre se encontram os vestígios dessa incorruptível linguagem universal dos símbolos. Até mesmo os caracteres alfabéticos, hierogramas ou pictogramas usados pelos homens nas suas várias fases de evolução, dela se derivam e nela se amoldam.

As bandeiras encerram sempre uma grande força mágica, exercendo, por isso, poderosa influência sobre os povos a que elas presidem. Como símbolos do inconsciente colectivo, expressam uma força psicológica de excepcional transcendência capaz de promover a transmutação da energia latente, adormecida no imo de cada um, em energia patente, dinâmica. Isto torna-se mais efectivo e evidente à medida em que as populações cerram fileiras, conscientemente, em torno do seu emblema maior, pois a bandeira recebe sobre si a transferência das aspirações do povo, devolvendo-lhe a seguir todo o potencial energético captado, mas devidamente transmutado e adaptado sob a forma de nobres sentimentos patrióticos e ímpetos realizadores. Esta é uma transformação mágica que se vem operando através dos tempos, de etapa em etapa, de ciclo em ciclo, desde as origens da Humanidade até aos nossos dias, por meio da representação simbólica, dos emblemas e, sobretudo, das bandeiras que põem em actividade os poderes interiores do Homem, sobretudo as forças da sua identidade psicossocial.

É como diz Carl Gustav Jung: “Todo o desenvolvimento psíquico se expressa por meio de símbolos. Historicamente, sempre foi representado por símbolos e é através destes que ainda hoje se manifesta o desenvolvimento individual e colectivo da personalidade. Este processo permite que o obscuro dê movimento à luz, que o inconsciente se torne consciente”.

O símbolo, o emblema ou a bandeira não assumem tão-somente a categoria de causa, senão também a de efeito. Assim é que a dinâmica dos símbolos comporta duas fases distintas:

a) A da construção, quando exercem a função de sustentação do processo (que pode ser evolutivo ou involutivo, conforme a natureza do símbolo construído).

b) A da identidade, quando já adquiriram autonomia no seu dinamismo, permitindo ao povo que se identifique com eles. Em tal fase, constituem-se em “arquivos” das verdades interiores de cada época e das experiências da Humanidade, exercendo, assim, como arquétipos, a função de elementos inspiradores “no número, na cor, na forma e no som”, este como hino que acompanha o símbolo mor nacional.

Etimologicamente, o termo bandeira é correntemente considera-do proveniente de uma língua eslava, talvez germânica, pois em godo bandwa significava “sinal, insígnia”. No entanto, não é de excluir a hipótese de ser celta a sua raiz, uma vez que está documentada em regiões de fala celta da Península Ibérica a divindade pré-romana Bandua, conotada com a ideia de “atar, laço”, associada a grupos de guerreiros celtiberos e lusitanos ligados por vexilo; e, em alguns linguajares célticos, ban quer dizer “altura, saliência”.

As tropas romanas usaram dois tipos de signas no topo de uma haste: uma continha uma figura sagrada ou signo – o signum; a outra exibia um pedaço de tela colorida – o vexillum. Por isso se chama vexilologia ao “estudo das bandeiras”. No entanto a novidade das bandeiras, quando se generalizaram a meio da Idade Média juntamente com a heráldica, residiu não apenas na materialização de um significante não linguístico a duas dimensões, em tecido seguro numa haste, mas também na fixação de um rudimento de código que permitiu a proliferação do seu uso dentro de uma ordem essencial. Num sentido lato que é hoje o mais comum, a bandeira abrange todas as signas vexilológicas. Antigamente, porém, quando se generalizou e ordenou o uso dessas signas, a terminologia delas não correspondia à actual. Havia mesmo distinções das signas segundo a forma. E só uma delas era denominada bandeira. Em Portugal, até fins do século XV, valia o estabelecido no Libro de las Siete Partidas do rei de Castela, Afonso X, o Sábio, avô paterno do rei luso D. Dinis. Deverá ele ter-se inspirado no Armorial Borgonhês trazido para a Península Ibérica por D. Raimundo, contemporâneo de Afonso VI de Leão e Castela. As signas eram:

O estandarte, quadrado, que era usado pelo príncipe soberano, contendo as armas deste;

A bandeira, rectangular, cuja composição era totalmente diferente das armas do representado;

O pendão, ou balsão, que abrangia todas as outras formas de signas, como o pendão caudal (rectângulo terminando em segmento de círculo, usado por ricos-homens) e o guião (pequena signa quadrada ou de ponta farpada); os pendões, em geral, não ostentavam o brasão, e sim cores diferentes desse brasão ou da libré, ou simples emblemas (como sucedeu na balsa ou balsão da Ordem do Templo).

Parece, pois, que inicialmente se chamava estandarte à bandeira real, que diferia das outras por ser quadrada e não rectangular. Mas cedo começou a empregar-se também o termo “bandeira” para a signa real institucional.

Os autores dos séculos XVI e XVII (decerto apoiando-se em fontes acaso hoje já não existindo) dão como primeira Bandeira de Portugal, cabível ao reinado do primeiro rei, D. Afonso Henriques, a da Casa de Borgonha: pano quadrado com fundo branco atravessado em todo o comprimento e altura por cruz azul de braços iguais. Isto é contestado por muitos autores contemporâneos: informam que a cruz dos cruzados era vermelha e não azul, ademais nem Afonso I e nem seu pai, o conde D. Henrique, foram alguma vez cruzados! Permito-me retorquir: a cruz azul designa, no caso, não a Cruzada mas o cristianíssimo Condado Real de Borgonha, praticamente berço genesíaco de França que a esta deu tantos reis e rainhas saídos dos Capetos, sendo, além disso, cor da libré que para sempre ficou na bandeira desse país, a par do branco. Que o conde D. Henrique e o seu filho Afonso I nunca tenham sido cruzados, é um grande equívoco! Afonso VI apelou à Casa de Borgonha precisamente para dar combate ao invasor árabe da Hispânia, e os da Casa responderam ao apelo vindo como cruzados, tanto mais que inicialmente a Cruzada não se processou extra-continentalmente, no ultramar, e sim intra-continental-mente, no processo de reconquista chamado Pelágio, exactamente desde o Sul de França para baixo.

A cruz azul de braços iguais igualmente indica a grega do rito bizantino, o primeiro a instalar-se em Portugal vigorando incorporado ao rito moçárabe durante a ocupação árabe da Península Ibérica desde o Chark ao Gharb, o Oriente e o Ocidente da mesma. Essa bandeira depressa sofreu alterações, quase todas inspiradas no mito fundacional do país, como seja o milagre cristológico de Ourique, pelo que as cinco estrelas do pendão islâmico, então em vigor, foram substituídas pelas cinco quinas (este termo deriva da palavra latina designativa de cinco em plural neutro – quina) ou chagas do Salvador, para o número já então fixado também em cinco dos escudetes e besantes. A dominante Lua crescente foi substituída pelos escudetes comportando as quinas, de maneira a configurarem geometricamente a cruz pátea da Ordem do, que era então a vanguarda defensiva do país, em formação e expansão, das investidas agarenas.

De maneira que, desde a mais recuada Proto-História, o Homem se manifesta e impõe no meio circundante por intermédio de formas geométricas, conferindo o seu cunho pessoal às mesmas e assim originando a emblemática.

Um conjunto de símbolos (podendo ser só dois, como a Rosa+Cruz, por exemplo) forma um emblema. E esse emblema, quando é consignado a designar os atributos e predicados psicossociais, religiosos e mesmo míticos fundacionais de dada família ou lugar, é denominado brasão, escudo d’armas assinalando emblematicamente os valores qualitativos da alma sinergética, inconsciente colectivo ou egrégora grupal de um conjunto humano idóneo agrupado corporificando a ideia plástica expressa nas figuras do seu brasão, podendo ser de natureza solar, lunar, terrígena, etc., de acordo a simbologia plasmada nele. Brasão é a honra e glória, na linguagem heráldica, conquistadas por determinado agregado familiar ou populacional, aos quais só caberão foros de nobreza se tiveram (ou têm) uma intervenção directa junto do trono real, e houvessem membros relacionados consanguineamente, de um ou outro modo, com o mesmo trono.

O brasão é o santo-e-senha de família nobiliárquica no meio social, age como catalisador e dimanador psíquico de agregado distinto de pessoas. Quanto mais antigo é o brasão mais poder possui, por aglomerar permanentemente forças sinergéticas afins a essa família ou mesmo população, indo determinar os seus momentos de nascimento, crescimento, apoteose, decrescimento, decadência e desaparecimen-to, conformados à Lei do Destino e da Evolução de uma família, cidade, país, continente e civilização.

Tanto assim é que se vê grandes Casas de respeitável brasonato terem existido, jogado os lances principais da evolução ibero-europeia e, logo depois, de acordo com a ciclicidade da sua manifestação, extinguirem-se, como foi o caso, dentre outras, dos Távoras e dos Marizes (apesar de ainda haverem resquícios desses últimos em Sintra, no sítio do Lourel ou do “Louro” de Apolo – o Sol – como registam os sobrenomes de vários locatários daí).

Em todas as vezes que fiz parte de comissões para a aprovação de brasões autárquicos (Loures, Santo António dos Cavaleiros, Frielas, etc.), afirmei que a Heráldica “não é uma ciência democrática”, posto obedecer a regras muito rígidas nascidas com ela. Também é aquela que mais e melhor unifica a Cavalaria Espiritual com o Governo Temporal, do ponto de vista da Tradição Simbólica. É, como diz o Marquês de Abrantes, o relacionamento, sob determinados aspectos, da Magia Branca com a Armaria Medieval, especialmente no que toca à Simbologia.

No campo da Heráldica Portuguesa medieval, devem-se considerar três períodos principais: prolonga-se o primeiro até meados do século XII, isto é, até ao primeiro embate com influências extrapeninsulares, designadamente a franco-bretã; o segundo vai até ao último quartel da centúria seguinte e ao início da influência anglo-normanda; e o terceiro, portando elementos dos dois anteriores, acaba no século de Quatrocentos, marcando o final da Idade Média.

Todavia, a Emblemática não possui data de origem específica, ela é intemporal, eterna e cósmica. É a Língua Universal, como diz a Tradição Iniciática, pela qual os deuses se intercomunicam e interferem junto dos homens. À sua leitura e interpretação, segundo os clássicos gregos, chama-se neose.

Na antiga Cítia, 5.000 anos a.C., a qual se estendia do Oceano Atlântico aos mares polares e que foi pátria do lendário Ram, Manu ou Legislador dessa raça, cada tribo possuía uma contra-senha de reunião, sob a forma de um animal totémico. Os chefes ostentavam nos frontões dos seus palácios de madeira águias, cabeças de javali, de urso ou de búfalo, etc., o que historicamente constitui a origem dos brasões. A insígnia preferida dos citas era o touro, que Ram substituiu pelo carneiro por motivos psicossociais, espirituais e astrológicos de passagem do signo ou signa de Taurus a Áries.

Por sua vez e magistralmente, Helena Petrovna Blavatsky faz com grande e douta valia o desenvolvimento da diferença entre símbolo e emblema, no volume II da sua A Doutrina Secreta:

“Conforme o demonstrou o sábio mação e teósofo Kenneth Mackenzie em sua Royal Masonic Cyclopoedia, há uma grande diferença entre emblema e símbolo. O primeiro “compreende uma série de pensamentos maiores que os do símbolo, o qual se deve antes considerar como destinado a esclarecer uma só ideia especial”. Daí resulta que os símbolos – solares ou lunares, por exemplo – de vários países, compreendendo cada qual uma ideia ou série de ideias especiais, formam colectivamente um emblema esotérico. Este último é “uma pintura ou signo concreto visível, que representa princípios ou uma série de princípios, compreensíveis para aqueles que receberam certas instruções (iniciados)”. Para dizer ainda com maior clareza, um emblema compõe-se geralmente de uma série de pinturas gráficas, consideradas e explicadas alegoricamente e que desenvolvem uma ideia em vistas panorâmicas, apresentadas uma depois das outras. Diz ainda a mesma autoridade: “Todas as sociedades esotéricas fizeram uso de emblemas e símbolos – como a Sociedade Pitagórica, a dos Eleusianos, as Confrarias Herméticas do Egipto, os Rosa+Cruzes e os Franco-Mações. Muitos desses emblemas não convém que sejam divulgados; e uma diferença muito pequena pode modificar consideravelmente a significação do emblema. Os selos mágicos, ainda que pareçam monstruosos e ridículos aos olhos dos ignorantes, transmitem todo um corpo de doutrina aos que souberem reconhecê-los”.”

Os “selos e quadrados mágicos” foram muito usados pelos cabalistas judaico-cristãos portugueses na Idade Média, uso prolongado, ainda que esporadicamente, até aos finais do século XVIII. Dentre três exemplos flagrantes, um monumental e dois literários, há o da “Pedra Mágica” evocativa da Stella Maris exposta no alpendre da igreja de São Julião da Carvoeira, inserida no Aro de Mafra, a qual se integra num conjunto de cruzeiros onde se patenteia claramente a Cabala Gemátrica, sendo tudo obra dos finais do século XVIII e da possível autoria do cabalista Manuel Teixeira[1]; o outro exemplo da prática de lapidação de “quadrados mágicos” em livros e monumentos, conformada ao exercício quase corrente, ainda assim velado, nos séculos XVII-XVIII da Cabala Gemátrica, é notícia dada por D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) na sua obra póstuma[2], não deixando de referir um outro grande cabalista português seu contemporâneo, o dr. Manuel de Valle de Moura; o terceiro exemplo encontra-se no livro raro de frei Tiago Boaventura Hepburn de Escócia (1573-1621), que deixou praticamente uma “pedra de roseta” dos diversos alfabetos conhecidos e desconhecidos usados para a composição cabalística de “selos e quadrados mágicos”[3]. Dou em seguida três exemplos de “selos mágicos” consignados a Júpiter, usados pelos antigos hermetistas que giraram em torno e dentro da Serra Sagrada de Sintra.

Portanto, como disse atrás, na prossecução da leitura do objecto em presença, o brasão vem a ser o pólo sinergético fundamental de uma família, vila, cidade, país ou continente, pelo qual actua o lar ou espírito familiar (com certa relação ao manes encerrado no vaso canópico dos antigos romanos, o mesmo que serviu para a lenda árabe do “génio da lamparina”), o mesmo anjo tutelar ou deva-grupal, e o qual, brasão, igualmente narra na discorrência dos seus símbolos a origem e destino desse mesmo agregado humano.

Sendo a Heráldica a “arte ou ciência dos brasões”, ou um “conjunto de emblemas de brasão”, ela mesma é uma linguagem cifrada cuja leitura neosética cabe unicamente ao heraldista ou heráldico, cujo significado etimológico, heraldo, indica a sua função específica: heraldus, que traduzido do latim é arauto, anunciador, mensageiro, de que dá notícia Alfredo Souto Feijoo (vd. bibliografia no final):

“Digamos duas palavras sobre as “justas” e “torneios” a que já aludimos e em cujos actos tinham intervenção específica os heraldos. Eram os festejos por excelência na época medieval, como a ocasião que se apresentava aos cavaleiros para medir as suas armas e patentizar a destreza no manejo delas. Apesar do carácter “bélico” destes encontros, como não se tratava de defender a ideia de Deus, nem de debater questões de honra, de que já desfrutavam a inteira satisfação, ficava a terceira invocação, a dama (já então se aplicava o aforismo de cherchez la femme em qualquer assunto), por quem irrompiam no palanque os esforçados cavaleiros e esgotavam as suas energias para oferecer o tributo à dona de seu coração. Os anunciavam os heraldos de viva voz, dando os nomes dos rivais, seus títulos, dignidades, feitos de armas, hierarquias e qualidades. Os heraldos dirigiam, na realidade, os combates, velavam pelas normas cavaleirescas e, por fim, resolviam em última instância todo o regulado ao caso, proclamando os vencedores ou desqualificando a quem saía das condições estipuladas.”

Por sua vez, no seu precioso estudo Heráldica, Gastão de Mello de Matos e Luiz Subbs Saldanha M. Bandeira, dão atributos mais latos aos heraldos que os unicamente “bélicos”. Com efeito, chamavam-se Oficiais de Armas os indivíduos encarregados de regular e pôr em prática as leis heráldicas.

Foram estabelecidos três Oficiais de Armas, correspondentes a cada um dos reinos de Portugal, Algarve e Índia. Os Reis de Armas tinham nos diferentes países nomes variados, mas em Portugal tiveram os nomes dos reinos, sendo Portugal Rei de Armas o principal.

Heraldo Rei de Armas

Os três oficiais de categoria imediatamente inferior eram os Arautos, que tinham, respectivamente, os nomes das principais cidades dos reinos: Lisboa, Silves e Goa. E os de terceira categoria eram os Passavantes, respectivamente chamados Santarém, Lagos e Cochim, as vilas mais importantes dos mesmos reinos.

O Rei de Armas principal dirigia todos: exercia especialmente as suas funções no que era respeitante ao reino de Portugal, desde os serviços de assentamentos da Casa Real, organização do armorial e genealogia das diferentes linhagens, assim como também tomava nota dos feitos notáveis de cada um dos nobres do reino.

Seguiam-se os Arautos, cuja principal função era levar aos príncipes estrangeiros as comunicações que el-rei lhes mandava entregar; reconheciam os aventureiros que tomavam parte em justas, torneios, etc. Os Passavantes acompanhavam os Arautos em diferentes funções, e substituíam-nos quando fosse preciso.

Para ser titular de cada um desses cargos era necessário – depois do pretendente ser julgado apto, moral e materialmente, a desempenhá-lo, e ter jurado cumprir fielmente os seus deveres – que passasse pela cerimónia do batismo real, que lhe era conferido por el-rei, após o que se lhe entregava a copa que servira na cerimónia e se proclamava o seu nome, para que todos os interessados o conhecessem.

Esses Oficiais distinguiam-se nas vestes, porque usavam cotas de armas diferentes. Os Passavantes (adaptação do francês poursuivant) eram os únicos que podiam abandonar a sua carreira, porque para isso os Arautos e os Reis de Armas precisavam de autorização especial.

De maneira que o latim heraldus acerca-se do grego herakles, Hércules ou Hermes e até mesmo Henrique: o Sol Mercurial exposto na brasa ou brasão. Assim, tem-se o brasão como uma mensagem simbólica, cifrada, exposta em caracteres ígneos ou solares, no sentido de universais.

O brasão, às vezes designado por cotas de armas, destinado a identificar famílias, clãs, corporações, lugares, cidades e nações, contém em si a inteira potência manifestativa dos mesmos lugares ou/e grupos, nos três Planos ou Vias por que apercebe tanto a Vida como a Consciência universais.

1.º – O Plano Espiritual, relacionado com a Consciência do Pensador – Imago.

2.º – O Plano Mental, relacionado com a Ideia do Pensador – Imaginare.

3.º – O Plano Físico, relacionado com a Imagem do Pensador – Visionare.

Essas três Esferas de acção, interpenetradas e logo inseparáveis umas das outras, vinculam-se às três ciências que entram na Heráldica. Assim:

a) – O Plano Espiritual o está com a Filosofia – Conceber.

b) – O Plano Mental o está com a Aritmética – Equacionar.

c) – O Plano Físico o está com a Geometria – Solucionar.

Logo, o Símbolo possui:

I   – Um conceito que o distingue.

II  – Um valor numérico que lhe é próprio.

III – Uma figura colorida que o caracteriza.

Isso vem demonstrar que o símbolo sagrado, por exemplo, não tem a mera e profana finalidade morta de simples decoração geométrica, antes sendo o veículo de expressão de determinada potência espiritual, destinado a evocador/invocador de afim Consciência e Força vivas, encerrando, além do mais, determinadas ideias em síntese tanto de natureza religiosa como filosófica e científica. Pelo ritual, os símbolos inertes tomam forma viva, são vivificados.

A propósito, transcrevo parte de texto interno respigado ao corpus doutrinal da Comunidade Teúrgica Portuguesa:

“Convém informar que o símbolo é um catalisador físico de determinada (ou determinadas) energia universal, representando igualmente uma realidade cósmica. Portanto, é um organismo    geométrico material com vida própria que lhe concederam as forças a que esteja interligado. O segredo teúrgico para activar sensivelmente essa energia condensada no objecto canónico, reside em fórmulas mágicas certas mantrânicas e múdricas, isto é, “verbais” e “gestuais”, sonoras e mudas. Desde logo, o Simbolismo não é mera decoração geométrica da arquitectura. É antes de tudo um condensador de poderosas voltagens energéticas que em templo o templário exerce e aplica cientificamente de acordo com as Leis da Natureza, e das mesmas recebe a resposta afim à sua evolução, pessoal e colectiva”… influindo decisivamente no poder de imaginare et creare do observante.

Posto isso, pode dispor-se a Heráldica tridividida no tríplice nível de coexistência e a sua função cósmica quer no Plano do Sagrado (como simbologia esotérica ou iniciática), quer no nível do profano (como emblemática designativa dos “feitos d’armas” de uma família ou população).

Dadas as bases de entendimento do desenvolvimento da origem e função esotérica/exotérica da ciência heráldica, intimamente ligada à falerística, o “estudo dos emblemas e símbolos”, e à sigilografia, a “ciência das matrizes e selos”, que em Portugal teve o seu clímax entre os séculos XII e XV, avanço agora para o motivo central deste estudo: a falerística da Pedra d´Armas da veneranda vila de Sintra.

Importa-me sobretudo o significado teúrgico e teosófico, iniciático, do simbolismo transposto do brasão sintrense, muito mais que a leitura imediata, exotérica ou profana, sempre vaga e incerta porque em si só incompleta, vagando sempre para a inquietação da dúvida insatisfeita. Na venusta heráldica (soli)lunar de Sintra, nas suas figuras esquivas aos olhares mais despercebidos do seu conteúdo mistérico, a pequena e amorável vila revela-se bojo da aventura espiritual ibero-bretã que veio a ser gesta maravilhada de la Quête du Graal.

A antiga Pedra d´Armas de Sintra, cujas figuras signitárias recuam à Idade Média sintrense, foi mandada retirar do frontal da capela da Misericórdia pelo antigo presidente da autarquia, dr. Joaquim Fontes, erudito arqueólogo, e que está hoje no Museu Municipal da edilidade. Essa pedra gravada, rectangular, com a medida maior no sentido horizontal, mede 0,44X0,33 m e, pela forma característica do desenho, recuará ao século XV ou ao início do século XVI, o que já é pouco provável.  A gravação apresenta o que se assinalará como o mítico castelo amourisco do Santo Graal, a mesma râbita do vaso Djin, sendo a sua característica arquitectónica lunisolar, ou árabe-europeia medieval, para não dizer islâmica-cristã e assim dispor o imóvel como moçárabe, desta maneira baseando a sua arquitectura nas mesmas e consignadas tradições espirituais oriental-ocidental, indo conferir-lhe um carácter eclético, universal; consta de seis torres na base com mais três torres sobrepostas, entre as quais se vêem dois zimbórios sobre muralhas recolhidas. Todas as nove torres estão encimadas por coruchéus, no topo das quais vêem-se sete crescentes e duas estrelas, estas à direita do observador. Até D. João V estas Armas eram usadas oficialmente, como consta do seu sinete de prata também existente no mesmo museu.

O número 9 é omnipresente neste brasão primitivo (9 torres + 9 astros = 18; 1+8 = 9. Logo, 999, número cabalístico da Lua), sendo precisamente o valor numérico do Homem Primordial Adão ou Adam, que se escreve em hebraico Adm, o qual designa tanto o Iniciado Perfeito quanto a Humanidade evoluinte, Adam-Heve, ascendente à origem divina no Logos Criador, Adam-Kadmon, sendo o seu valor matemático oposto ao 666, algarismo da Humanidade involuinte ou descendente do Mundo Divino ao seio da Matéria, representada por Adam-Chevaoth.

Dessa maneira, o número 9 das antigas Armas sintrianas, “moçarábicas”, antes, morabitas ou marabutas de inspiração Maridj, direi assim, com as luas elevadas às estrelas (Vénus), transfere do palco da Evolução Universal para o particular geográfico, reproduzindo na Terra um mesmo Sistema Planetário, como seja assinalar o Axis Mundi, Centro Primordial ou Tebaida Geradora aonde se recolhem os verdadeiros Iluminados que, sempre e infalivelmente, estão em consciência e acção à dianteira da Humanidade presente, por serem da Humanidade futura, esta que até o mais comum das gentes deseja ser mais justa e perfeita para o Mundo; assim, esses Homens Representativos decerto serão os Guias, a Cúspide Humana e Espiritual da Humanidade presente. São eles os transformadores da Distopia em Utopia, da Anarquia em Sinarquia, do sonho de ontem na realidade de hoje, e certamente quem trarão a solução do magno problema humano: o da felicidade entre todos os povos, do homem consigo mesmo e do homem com o seu próximo.

No século XX, porém, após a implantação da República, a Câmara Municipal de Sintra encarregou, em 1929, o ilustre heraldista (e esoterista, ao que soube) Afonso de Dornelas, de estudar as novas Armas e o Estandarte da vila, capital espiritual da Europa, o que ele fez. De maneira que as novas Armas do concelho, vingando até hoje, foram aprovadas pelo Instituto Histórico de Sintra na sua sessão de 15 de Agosto de 1929, conforme o parecer elaborado pelo dr. Joaquim Fontes (in Heráldica de Domínio – Sintra, no Elucidário Nobiliárquico, revista dirigida por Afonso de Dornelas, volume II, pp. 275-279, Lisboa, 1929).

Iniciarei, pois, a leitura da mítica sintriana à luz da sua heráldica não menos mítica, sagrada, ao ponto de consignar este lugar como sede e cerne privilegiado do V Império do Mundo proclamado pelo padre António Vieira e os demais vates da Portugalidade, ou seja, o Grande Ocidente Ibero-Ameríndio projectado desde a Praia Grande de Sintra ao Mar Grande de Itaparica, defronte à Bahia de Todos os Santos, no Brasil, este a “Nova Lusitânia” como a consignou Pedro de Mariz no século XVII nos seus Diálogos de Vária História.

TORRE – Antes, torre torreada, ou seja, torre sobreposta a outra, de formato arábico, assim designando o primitivo castelo árabe altaneiro à vila no topo do Morro dos Penedos. Essa duplicação da torre esotericamente indica a dupla função que a fortaleza possuía: a de fortificação militar e a de santuário religioso, desta maneira convertida em râbita, “templo-fortaleza”. Esse culto espiritual estaria na via da Mahaba ou Amor Divino, cuja maior difusora foi a célebre sufi Râbi`a al-`Adawiyyah (713-801 d.C.), desde logo possuiria característica lunar, matricial, ademais assinalado no nome do Orago da anexa mesquita de Fátima (que, com a ocupação cristã, seria transformada em capela de S. Pedro de Penaferrim), quinta filha do Profeta Mahometh e expressão maior corânica das fathmas ou “mulheres oráculos”, videntes e sibilas, na linha daquelas mais antigas celtiberas, depois greco-romanizadas, que das altas penhas da Montanha da Lua perscrutavam os lances do futuro e imolavam pombas e coelhos brancos à deusa Cyntia à luz luxuriante das Luas Cheias, sempre prenhas de mágicos sortilégios de encantamento e beleza.

No brasão, a torre é amarela dourada por fora e azul índigo por dentro. Cores do Munindra ou o “Pequeno Sábio”, vêm a ser a referência esotérica astral ao fluxo do Sol (amarelo), exterior, e ao refluxo de Vénus – Lua (azul), interior, de maneira que mais uma vez se denota que em todos os consignados lugares sagrados onde haja culto lunar, feminino, igualmente há culto solar, masculino, e vice-versa, a fim do equilíbrio dos opostos estar sempre presente, tal qual acontece nesse Mundo Jina ou dos Deuses que é Agharta, ou melhor, Duat, sendo esse o sentido oculto do cipo romano descoberto na Praia das Maçãs, onde figuram um Sol e uma Lua juntos.

Foi o culto solar, expressado pela Cristandade cuja difusão era encabeçada pela Ordem do Templo em seu tempo, particularmente em Sintra, quem abraçou e abarcou o culto lunar, corânico do Islão, fincando-se aqui, na idílica serra, a mais harmónica união dos dois e tal maneira que foi única na Europa, facto expresso e também testemunhado na arquitectura singular do magnífico Palácio da Penha, vulgo Pena, construído sobre o antigo Convento de São Jerónimo pelo rei iluminado D. Fernando II, no século XIX, cuja ala esquerda (a que se acede pela Porta do Inferno, a Morte – Janua Mors) é em estilo árabe granadino, expressando o Oriente, enquanto a ala direita (a que se acede pela Porta do Céu, a Vida – Janua Vita) é de linha franco-bávara, indicando o Ocidente, unidos arquitectonicamente no próprio edifício.

A Torre, que ao assinalar o castelo-santuário com isso assume o predicado de turris fides, possui em baixo uma porta e duas janelas laterais amouriscadas. Transpondo o seu significado esotérico para o sentido da anatomia oculta do Homem, tem-se nisso a representação dos canais físico-etéricos discorrendo ao longo da coluna espinhal: a janela direita fica para o canal solar ou masculino (Pingala), activo, a janela esquerda para o canal lunar ou feminino (Ida), passivo, e a porta como o canal central, andrógino ou neutro, mercuriano afim ao estado terrígeno (Sushumna). Os seus contornos são semelhantes aos de fechaduras, cuja chave – replicando aquela outra apocalíptica à entrada da Alhambra, em Granada – está sobre o portal de adentro do Palácio da Pena, apontando abaixo, para o seio mesmo da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria, representada pelas penhas verdejantes no brasão. Com isso, tem-se assinalado o sentido velado de demanda e conquista ou realização da Consciência Iluminada – que o Hinduísmo designa pelos termos altamente místicos Manas Taijasi e Budhi Taijasi – posto ao par da Infera Viaticu, a iniciática descida aos Infernos, Inferiores ou Interiores Lugares dos Deuses, o misterioso seio da Terra cuja entrada, abertura ou deslocamento da lápide vitriólica está simbolicamente guardada pelo tritão Gerião, o lendário “Atlante do Mar de Sintra”, que domina a fachada dianteira deste palácio de D. Fernando II. Tritão ou triturador, transformador das humanas imperfeições jivas (nidhanas) nas sobrehumanas ou jinas perfeições (skandhas) assinaladas na estátua erecta do “Guerreiro” próximo ao mesmo palácio, afinal, o divino Akdorge ou São Jorge de Portugal, Senhor do V Império dos Lusos, os “Filhos da Luz” (Assuras ou Arqueus).

Na mesma correnteza interpretativa, as cinco ameias da subtorre constituem a coroa dignitária do Iluminado, do que despertou em si a Chama crepitante de Kundalini, como seja o Fogo Criador do Divino Espírito Santo na sua expressão de Mãe Divina, cujo Templo Universal, diz a Tradição, vela-se no bojo desta mesma Serra Serra. Já a sobretorre carrega as quinas antigas de Portugal, em azul, formando uma cruz sinalética da crucificação da Energia Celeste (Eléctrica, verde, Fohat) vertical (assinalada no pentagrama de evoco Tetragramaton) com a Força Terrestre (Electromagnética, vermelha, Kundalini) horizontal (apontada na Lua sob o evoco Chaitânia).

Assim como a subtorre designa, nesta leitura esotérica, a 4.ª Iniciação de Chrestus ou Arhat e a consequente descida ao Mundo Subterrâneo, a sobretorre representa, no mesmo contexto, a 5.ª Iniciação, a Ressurreição, o Adeptado Coroado ou Real, enfim, o “Caminho Iluminado pelo Sol Espiritual” (Shin – Tao – Ram = Sintra), sempre se sobrepondo e mesmo distando, imensamente além, quase ou mesmo ao infinito, de todas e quaisquer vias e modalidades das vãs curiosidades profanas e vulgares excitações oníricas, psíquicas onde inevitavelmente, como é da sua natureza, a imagem impõe-se sempre à ideia, determinando posturas e atitudes carismáticas em afirmativas de teor “messianista” em diversos do comum das gentes.

A torre assinala ainda a assunção à “Casa de Deus”, a qual é sempre figurada pelo sentido de “Montanha Sagrada da Iniciação” que, aqui e para todo o efeito neste extremo ocidente da Europa, é Sintra. Esta, espiritualmente está sob a égide do Arcano 5 do Tarot, “O Hierofante”, e temporalmente sob a influência do Arcano 16, “A Casa de Deus”, lâminas que São Germano intitula respectivamente de “O Mestre dos Arcanos” e “A Queda da Grande Torre”. Por sua parte, o Professor Henrique José de Souza designa-as de “O Poder Religioso separado do Temporal” e “A Queda do Espírito na Matéria”.

PENHAS – O termo penha, donde deriva “penedo”, igualmente significa “prenha”, antes, “pedra prenha”, “pedra de gigante” ou “pedra gigante” (que o rito, o mito, a lenda e a crença haverão de tornar “pedra sagrada” e “pedra santa”), assim perfilando no significado desse outro megalítico menir. Salpicados de verdejante, os penedos são de cor negra, em heráldica correspondendo à terra e significando honestidade, clareza de costumes. Segundo se pode contar em exemplares do brasão desta vila, ainda que não seja número fixo porque varia em diversos exemplares, o monte é formado por 17 penhas, e, por feliz causalidade, 17 é o Arcano de Portugal, “A Estrela dos Magos” ou “O Candelabro Celeste”, a quem o Professor Henrique José de Souza apelida “As Sete Trombetas, como Voz do Logos Criador”. Tal estrela não é outra senão Sirius correlacionada a Vénus, vindo a expressar sideralmente o Terceiro Logos Criador como Espírito Santo, o que demarca na Terra a marcha peregrina da Mónada Humana, marcha cíclica essa de Norte a Sul e de Oriente a Ocidente que leva de nome Itinerário de Io.

No brasão, as penhas amontoadas representam a Serra de Sintra, antanho chamada Cyntia em celta, Sentra em latim e Xentra em árabe, como a grafava Edrisi, o célebre geógrafo do século XII, e que veio a ser a origem do tepónimo actual. Como Serra da Lua, os lugsignan ou lusitanos chamavam-na Cyntia, outra não sendo senão a expressão da velhinha Deusa-Mãe dos povos estremenhos paleolíticos e neolíticos que fizeram desta sua serra todo um altar de devoção a Ela, origem dos seus foros sagrados.

Com tais foros sagrados, Sintra é o Mons Salvat (topónimo que entra na geografia sintrense, quer como Monserrate, o mesmo Montserrat do poema Os Segredos, de Goethe (1784), quer como o mais singular Monte Salvo, junto à Estrada de Colares, e que é aquele do Parsifal, de Wagner, estreado em 13.1.1882), a Montanha ou Monte da Salvação inserida na Epopeia do Santo Graal, conforme atesta a Tradição Iniciática do Ocidente. Sabe-se hoje que a Taça do Santo Graal peregrinou do Médio-Oriente à Europa no rumo certo da Sé Patriarcal de Lisboa, no século XII, e dela para Sintra, o mesmo Mons Salvat “wagneriano” situado “algures” nos confins da Europa, como seja o extremo cabo-mar da Península Ibérica. Acerca disso, lembro o que contou, a dado trecho da célebre ópera, Gurnemanz, cavaleiro da Ordem do Santo Graal, aos seus irmãos de fé e ideal:

“Na tarde em que Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo celebrou a última ceia com os seus discípulos, bebeu o vinho por um cálice que, mais tarde, José de Arimateia usou para recolher o sangue vivificante que escorria de um dos lados do Redentor. José de Arimateia guardou igualmente a lança ensanguentada e conservou estas relíquias consigo, através de imensos perigos e perseguições. Enfim, os Anjos o guardaram até que, certa noite, um mensageiro místico enviado por Deus apareceu a Titurel, pai de Amfortas, ordenando-lhe que fizesse construir um castelo que servisse de abrigo às santas relíquias. Assim se construiu, sobre uma alta Montanha, o castelo de Mons Salvat onde se guardaram os sagrados tesouros, sob a vigilância de Titurel e de uma companhia de santos e castos cavaleiros. Esse castelo tornou-se um centro de onde se projectaram sobre o mundo exterior poderosas influências espirituais.”

Quase de certeza terá sido esse excerto que levou Richard Strauss, aquando da sua visita a Sintra em 1909, a exclamar extasiado ante a visão deslumbrante do Palácio da Pena: “Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conheço a Itália, a Sicília, a Grécia e o Egipto, e nunca vi nada, nada, que valha a Pena. É a coisa mais bela que tenho visto. Este é o verdadeiro jardim de Klingsor e, lá no alto, está o Castelo do Santo Graal”.

Com efeito, além da Pena sua expressão, o castelo encantado do Santo Graal subsiste inviolável às vicissitudes e incertezas no rosário inconstante dos tempos, sim, existe ainda nem que seja como o mais belo e alvissareiro sonho da espiritual infância da criatura humana. Ele é sabido do que ousou espreitar além do “espelho de Alice”, na peugada do coelho, e descobrir o “País das Maravilhas”, elevado sobre iniciáticas grandezas, onde a injustiça, a doença, a fome e a ignorância não existem jamais. Ele é a Terra de João Ninguém, a Terra Santa do Preste João, a mesma dos Jinas da Agharta imortal que ressoam palavras de conforto e incitamento nas almas dos que sonham belos sonhos e vão além realizá-los. Isto remete-me àquelas outras palavras de Helena Petrovna Blavatsky, em Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria:

“Os verdadeiros sobreviventes dos Maçons são esses do Templo Inferior, ou a Cripta, lugar sagrado da Iniciação; são os únicos guardiões dos verdadeiros segredos maçónicos perdidos agora para o mundo.

“Falar-se de alguém que houvesse descido aos Infernos equivalia, na Antiguidade, a designá-lo como um Iniciado Perfeito.

“Os clérigos benévolos que, sob a menor das provocações, estão sempre prontos a mandar-nos ao Tártaro e às regiões infernais, não suspeitam o bom voto formulado a nosso respeito, e qual o carácter de santidade que deveremos adquirir para entrar num local tão sagrado.”

Estou a referir-me ao Mundo de Duat, o mesmo Hades dos gregos, a Ermedri dos latinos ou o Amenti dos egípcios, aqui, à sua Quinta Cidade, Loka ou Cantão, consignada às “Três Luzes” do Eterno de que a venusta “Lua Azul” é reflexo feminino representado nesta serra pela Lagoa Azul seu “espelho”, junto à Penha Longa.  Tem-se assim sob Sintra, diz a Tradição Iniciática das Idades, o Templo Universal do Submundo de Badagas sob a égide de Júpiter e do Touro. Nisto me fico, com tais frases estranhas, bizarras mesmo, mas propositadas, deixando que o doce e etéreo sonho azul tome posse do respeitável leitor despertando-lhe elevados pensamentos e sentimentos.

A cor verde, encrostada nas penhas negras do brasão, além de associar-se à clorofila vegetal, designa igualmente o Poder Criador da Natureza-Mãe impulsionada pelas energias luni-solares (azul-amarelo da bandeira) que a sustêm. Da fusão cromática do azul com o amarelo extrai-se, precisamente, o verde, ocultamente a cor da força mental.

FUNDO VERMELHO PÚRPURA DO ESCUDO – O vermelho indicado para o campo de armas representa em heráldica o sangue derramado no serviço nobre e leal das Armas assinaladas, mesmo que Sintra não tenha sido tomada pelo cristão ao árabe pela guerra e sim por cordiais e concordatas palavras. Sendo purpurado (cor resultante da fusão do verde celeste com o vermelho terrestre), igualmente representa aqui a influência astral de Júpiter sobre Sintra, por cuja constelação do Sagitário age sobre o lugar dimanado-se a toda a Península Ibérica, a ela se associando essa outra constelação do Touro, com a intervenção de mais dois importantes constelados: a Ursa Maior e a Lebre. Energias astro-telúricas que são espargidas de maneira harmónica pelo serrano Anjo Tutelar (Genius Loci) tomando forma iconográfica em Santa Eufémia (a “Boa Fêmea”), mas que possui o nome oculto de Ab-Sin (“Senhora da Lua”).

CRESCENTES E ESTRELAS – O crescente selenita, cor de prata, assinala a religião Islâmica e o brasão como emblema lunar. O pentagrama, de matiz prateado, aponta os “cinco elementos subtis da Natureza” (Tatvas), princípios, alphas, hálitos ou alentos vitais dimanados desde o primeiro contando como quinto afim ao respectivo planeta sagrado: Vénus, o alter-ego da Terra. Nos elementos fundamentais da Natura-Naturante que formam o Pentalfa Flamejante (Tetragramaton) como signa do Supremo Demiurgo, tem-se:

Na Pedra d´Armas da bela e altaneira Sintra, crescente e estrela são duplos, nisso esotericamente assinalando a duplicidade alternada, como sístole e diástole marcadas por Sol e Lua. Representam também as duas Taças referidas pelo Professor Henrique José de Souza em A Voz do Espírito de Verdade: “A Taça da Amargura, de Soma ou da Lua transformada na Taça da Exaltação, da Glória e da Justiça, que é a de Shukra ou Vénus”.

DOURADO E AZUL FUNDAMENTAIS – No pano da bandeira, heraldicamente o amarelo ouro significa nobreza, fé e poder, enquanto o azul corresponde, ainda em heráldica, ao ar, à visão ampla. Traduzem as “qualidades fundamentais da Matéria”, chamadas tradicionalmente Gunas (literalmente, “cordas”, podendo-se traduzir como “encadeação da qualidade tríplice da Matéria”): Satva, a energia amarela da actividade, e Rajas, a energia azul rítmica ou equilibrante. São o Espírito e a Alma da “coisa” sintrã. Quanto ao Corpo, ou seja, Tamas, o atributo vermelho da estabilidade, está assinalado na cor de fundo do escudo. De um modo mais profundo, tem-se patentes as relações secretas de Sintra com Shamballah: o amarelo liga-se a Agharta sob a égide de Mercúrio (Pai – Aleph); o azul a Duat auspiciado por Vénus (Mãe – Mem); o vermelho a Badagas sob a influência de Marte (Filho – Schin); já o listel branco em meia-lua sob o brasão, corresponderá aqui à Face da Terra (reunião das Três “Pessoas”, antes, Hipóstases, ou a Santíssima Trindade). Ora havendo uma predominância de amarelo e azul, adiantando-se o vermelho como Filho gerado pelo Pai-Mãe, tem-se assim expostas as três Gunas em relação directa com a natureza dos Mundos Jinas e o sacrossanto nome transhimalaio de Maitreya, ou seja, o Cristo Universal, Senhor dos Universos, concretizando a Parúsia Sintriana em um Novo Ciclo de Humanidade.

Segundo a Teurgia e a Teosofia, são precisamente Mercúrio e Vénus (amarelo-azul) que maior influência exercem na construção do Homem Futuro, do futuro “Andrógino Alado” ou Adepto Perfeito, se assim posso dizer. A Lua, por seu turno, exerce uma pressão tremenda sobre os sensitivos psíquicos, recambiando para o desabrochamento das suas faculdades medianímicas que, se não tiverem o espiritual apoio do Sol, tecerão o seu fatal destino psíquico com o lastro das mais desoladoras neuroses e vícios, em suas multivariadas manifestações e consequências letais, motivo de todos os Grandes Iluminados do Passado e os livros sagrados de todas as religiões desaconselharem gravemente os cultos psíquicos e o desenvolvimento do medianimismo, por serem manifestações óbvias de involução humana. Ao invés de paralisar na fase anímica ou emocional, deverá o Homem avançar para o desenvolvimento e domínio do mental, no rumo certo do espiritual.

LISTEL E FRASE – Por debaixo das Armas, um listel branco com a frase Vila de Sintra, a negro. A faixa branca, em formato de crescente, designa a Lua. A frase a negro, possui o significado oculto: “Velo a Lua, Ísis ou Ió”. O branco assinala a Manifestação, o Manvantara, o Cosmos, e o negro o Repouso, o Pralaya, o Caos.

Tudo isso, repito, visto exclusivamente pela perspectiva esotérica, e não pela exotérica ou imediata, pois ainda que ambas as perspectivas se encontrem em muitos aspectos, contudo não são iguais, e confundi-las levará inevitavelmente à queda na fantasia pueril, tanto da parte académica como da ocultista. O mal de uma e outra partes é exactamente este: não saberem fazer as devidas distinções, cada uma querendo a exclusividade para si como se a outra não existisse, quando na realidade ambas se completam como dois domínios de um só panorama mental.

ELEMENTOS RESTANTES – Os cordões e borlas da bandeira são de ouro e azul. A lança e a haste, igualmente de ouro, sugerem a lança do centurião romano Longino, Longuino ou Lanké (em grego), com a qual trespassou, no Calvário, o peito do Redentor. A lança simboliza a acção penetrante do Verbo ou Filho. Quanto à coroa mural de quatro torres, além de representar as quatro freguesias locais (Santa Maria, S. Miguel, S. Martinho e S. Pedro, correspondendo exactamente às cores heráldicas azul, dourado, vermelho e verde ou negro), aponta a Rota ou Caminho Real da Iniciação, aliás, apontada num anagrama cabalístico, ornado por uma rã, num vitral do Palácio da Pena. As coroas murais figuram somente nos brasões de vilas e cidades, por causa de designarem colectividades populacionais e não colectividades ou agregados familiares.

Esse Caminho Real da Iniciação está assinalado nos sete mais um pontos-chaves ou jinas da Serra Sagrada de Sintra, como sejam:

8) Trindade da Serra (Quinta) – Theotrim, Síntese
7) Capuchos e S. Saturnino da Peninha – Kassiel, Saturno
6) Penha Longa e Lagoa Azul – Anael, Vénus
5) Parque e Palácio da Pena – Sakiel, Júpiter
4) Seteais e Regaleira – Rafael, Mercúrio
3) Paço e igreja de S. Martinho – Samael, Marte
2) Santa Eufémia da Serra – Gabriel, Lua
1) Castelo dos Mouros – Mikael, Sol

A Serra de Sintra possui tradições remontando à mais esquecida noite dos tempos. Ptolemeu, geógrafo romano dos séculos I-II d.C., transmitiu à posteridade um conhecimento tradicional sobre Sintra muitíssimo anterior ao seu tempo. Juntando os cultos hidrotelúricos da serpente e do coelho totémicos à veneração aos heróis passados ou santos Jinas, assim como ao culto mistérico da profecia e da iniciação, forte cunho de eleição sagrada marca até hoje esta montanha. Ritos de iniciação e de revelação oracular, pela força ctónica dos deuses, vinculados ao hidrotelurismo assinalado na Lua, no coelho e na serpente ou ophiussa, unem-se na tradição mitogénica de Cyntia. Nela o azul da água mansa se acasala com o dourado do Sol ardente. O próprio Camões o diz em Os Lusíadas (III, LVI): “E nas terras da Lua conhecidas, / Subjuga a fria Sintra, o duro braço, / Sintra onde as Náiades escondidas / Nas fontes, vão fugindo ao doce laço / Onde Amor as enreda brandamente / Nas águas acendendo fogo ardente”.

Tendo o seu cerne profundo em Sintra, conforme fica atestada na leitura teosófica feita sobre a heráldica local, de Bandarra ao padre António Vieira afirma-se uma Tradição que é, para o génio insofismável de Fernando Pessoa, a Tradição genuinamente Lusitana, logo, Universal, porque a Lusitânia, “Terra de Luz” ou “Pátria-Luz”, está em tudo e em todos, citando, em remate final, o trecho extraído do seu livro Sobre Portugal, página 177:

“Que Portugal tome consciência de si mesmo. Que rejeite os elementos estranhos. Ponha de parte Roma e a sua religião. Entregue-se à sua própria alma. Nela encontrará a tradição dos romances de Cavalaria onde passa, próxima ou remota, a Tradição Secreta do Cristianismo, a Sucessão Super-Apostólica, a Demanda do Santo Graal. Todas essas coisas, necessariamente dadas em mistério, representam a verdade íntima da alma, a conversação com os símbolos.”

ALEA JACTA EST

“A sorte está lançada”

Cumpra-se o Destino!

NOTAS

[1] Esse Manuel Teixeira era um ilustre cabalista e possível frequentador da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, surgindo citado no testamento de João Fernandes da Conceição, ermitão de São Julião (2 de Dezembro de 1764), falecido no ano de 1766. – Cf. Manuel J. Gandra, A ideia do Monumento de Mafra: Arquitectura e Hermetismo. Texto inserto no “Boletim Cultural “94”, edição da Câmara Municipal de Mafra.

[2] D. Francisco Manuel de Melo, Tratado da Ciência Cabala, Lisboa Ocidental, 1724. Reeditada pela Editorial Estampa, Lisboa, 1972, por intercessão do saudoso amigo pessoal Dr. José Blanc Portugal, antigo cônsul de Portugal em Brasília, coevo e amigo do filósofo da Parúsia Lusitana, José Marinho, assim como de tantos outros, nomeadamente Pinharanda Gomes, dados às antigas e célebres tertúlias de Lisboa donde saíram as conceições nunca antes concebidas por inteiro da Filosofia Portuguesa.

[3] Frei Tiago de Boaventura Hepburn de Escócia (1573-1621), Virga Aurea (“Vara Dourada”). Apesar das tentativas dos falecidos dr. José Eduardo Pisani Burnay e de André Jean Paraschi, chegando a ser meus correspondentes durante largos anos, sobretudo o primeiro, essa obra nunca foi devidamente publicada e muitíssimo menos dada ao conhecimento geral. Escrita após uma peregrinação de frei Tiago a Santiago de Compostela, a obra é consagrada à eterna Virgini Maris e ao secular Papa Paulo V. A Virga Aurea constitui-se de um “Calendário Perpétuo de Magia Natural das coisas secretíssimas”, classificando e resumindo a quase totalidade dos conhecimentos esotéricos da Teogonia, Cosmogonia, Angeologia, Astrologia, Magia, Talismânica, Alquimia, etc.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Helena P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, volume II. Editora O Pensamento, São Paulo.

Helena P. Blavatsky, Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria. Editora O Pensamento, São Paulo.

Henrique José de Souza, A Verdadeira Iniciação. Fundação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1966.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, Apostila n.º 19 – A Boa Liz Governadora, Grau Peregrino.

Jean-Charles de Fontbrune, História e Profecia dos Papas. Publicações Europa-América, Mem Martins.

Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

Fernando Pessoa, Moral, Regras de Vida, Condições de Iniciação. Textos estabelecidos e comentados por Pedro Teixeira da Mota. Edições Manuel Lencastre, Lisboa, 1988.

Roberto Lucíola, Princípios da Sinarquia. Colecção Fiat Lux, Caderno n.º 28, Agosto de 2001, São Lourenço do Sul de Minas Gerais, Brasil.

G. Jung, Psychologie et Alchimie. Éditions Buchet/Chastel, Paris, 1970.

Aquarius-Pesquisa, Simbolismo das Bandeiras. Revista Aquarius, ano I, n.º 3, 1975, Rio de Janeiro.

Pedro Álvaro Bernardi, Uma breve introdução ao estudo da Heráldica. Revista Dhâranâ, edição 236, ano 76, Agosto 2000, São Paulo.

Oliveira Martins, História da Civilização Ibérica. Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Augusto Ferreira do Amaral, As bandeiras de Portugal. In A Monarquia Portuguesa (Reis e Rainhas na História de um Povo). Edições das Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, Abril de 1999.

Marquês de Abrantes, O Estudo da Sigilografia Medieval Portuguesa. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, Dezembro de 1983.

Alfredo Soto Feijoo, Diccionario y Ciencia Heraldica. Editora Siler, Madrid, 1957.

Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Edição Representações Zairol, Lda, Lisboa, 1961.

Manuel de Sousa, As origens dos apelidos das famílias portuguesas. SporPress, Sociedade Editorial e Distribuidora, Lda, Mem Martins.

Cristóvão Alão de Morais, Pedatura Lusitana (Nobiliário de Famílias de Portugal). Edição da Livraria Fernando Machado, Porto.

Domingos de Araujo Affonso e Ruy Dique Travassos Valdez, Livro de Oiro da Nobreza, com Prefácio do Dr. José de Sousa Machado. Publicação patrocinada pela Academia Nacional de Heráldica e Genealogia, na Tipografia da PAX, Braga, MCMXXXIII.

Armando de Mattos, Brasonário de Portugal. Edição da Livraria Fernando Machado, Porto, MCMXLIII.

Visconde de Juromenha, Cintra Pinturesca. Lisboa, 1838.

Cyntra – Archivo Histórico. Dezembro de 1907.

Braamcamp Freire, Brasões da Sala do Palácio de Sintra, vol. I, pág. 56 e segs. Coimbra, 1921.

José Alfredo da Costa Azevedo, Velharias de Sintra, vol. I. Publicação da Câmara Municipal de Sintra, 1980.

António Machado de Faria, Uma Pedra Antiga com As Armas de Sintra. Publicações da Câmara Municipal de Sintra, 1960.

Afonso Dornelas, Heráldica de Domínio – Sintra. In Elucidário Nobiliárquico, revista dirigida pelo autor, II volume, Lisboa, 1929.

O enigmático Monóptero de São Gonçalo – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Nov 2 2017 

Na Quinta Nova ou Quinta do Nogueira, junto a Penas Róias, no concelho de Mogadouro, distrito de Bragança em Trás-os-Montes, em pleno campo surpreende a aparição súbita de um estranho monumento barroco semiarruinado que até hoje traz intrigados os estudiosos de História e Arte sobre a sua função. Trata-se de um monóptero que, diz-se, terá sido dedicado a São Gonçalo.

Monóptero é um templete em rotunda, circular, sem paredes e sustentado por uma só ordem colunata. Diz-se que as suas características baseiam-se no modelo grego do tholos (século IV a. C.), que no sentido amplo designa um “templo circular”. Mas ao contrário desse o monóptero (do grego ὁ μονόπτερος, menopteros) não possui cela, donde o seu significado de “singular” e “único” conforme o politónico μόνος. Na Antiguidade clássica greco-romana, especialmente a romana, o monóptero servia inter alia como uma forma de baldaquino para uma imagem de culto. Na arquitectura barroca e clássica, o monóptero foi classificado como “templo de musas” e tornou-se motivo popular no embelezamento dos jardins durante o Romantismo francês, inglês e alemão, sem esquecer o português, onde no Parque da Pena de Sintra o pai do rei D. Fernando II mandaria erguer o “templo das colunas” ou templete-mirante (o “quiosque” para o vulgo, obra de 1840), no alto da colina de St.º António, que na realidade é um monóptero cilíndrico com doze colunas compósitas e a particularidade de se apresentar emparedado, havendo uma porta à frente e uma janela atrás, com a pequena rotunda interior com quatro nichos laterais e a Cruz da Ordem de Cristo, vermelha em medalhão, na cúpula[1].

Mas o monóptero de São Gonçalo destaca-se pela singularidade dos seus contornos, no que é exemplar barroco único na Península Ibérica e de grande raridade em toda a Europa. É uma construção em granito, tipo pavilhão, de planta circular (excepto a cúpula abobadada) assente sobre um soco de quatro degraus circulares em forma de toro. Sobre o soco erguem-se seis plintos paralelepipédicos onde assentam seis colunas torsas salomónicas de 1,90 m de altura, cada uma encimada por capitéis jónicos. Sobre estes correr um travejamento circular de 3 m rematado pela cornija do tipo balaustrada, constituindo o seu remate superior, donde nasce uma cúpula (quase totalmente destruída) feita em material cerâmico aparelhado com saibro, que teria a função de protecção dos seus ocupantes. No interior, encostado a cada plinto, tem-se um banco em cantaria de granito. O pavimento lajeado igualmente em granito, apresenta no centro uma cavidade rectangular de 87×58 cm, onde estaria implantada a base da imagem de São Gonçalo. A construção deste monóptero na antiga propriedade da família Távora, foi comparticipada pela população local com o fim de albergar a imagem do santo. Portanto, destinava-se a “assinalar um lugar santo, tal como a cruz assinalava as cabeceiras das igrejas paroquiais abandonadas”[2].

Com efeito, o monóptero de São Gonçalo veio substituir a função cultual do orago que se fazia na desaparecida ermida da sua invocação, vizinha deste. Fora fundada em 1571 na Quinta Nova, propriedade do marquês Luís Álvares de Távora, linhagem que durante muito tempo senhoreou a vila de Mogadouro em acumulação com a alcaidaria da cidade de Miranda do Douro, pelo piedoso ermitão Fernão de Álvares, para nela manifestar a devoção a São Gonçalo e “poder dizer missa e celebrar ho ofisio debino”[3]. Mas em 1720 esse templo encontrava-se já bastante arruinado. A descrição que em Abril desse ano Agostinho Dias da Silva, pároco de Azinhoso, faz da ermida, revela que nessa data apenas subsistia a capela-mor, transformada em estábulo onde se recolhia o gado[4]. Mas esse padre também informa que nesse local fora erguida, a expensas da população, uma outra construção para albergar a imagem do santo, em alabastro, ou seja, essa nova arquitectura do monóptero, cuja edificação deverá situar-se nesse ano de 1720: “em memoria da devoção que os lugares vezinhos tinhão ao santo eregião sobre a mesma caza um chepitel sobre colunas à salamonica em que esta a imagem de S. Gonçalo obrada de alabastro labastro [sic] mas com a impossibilidade de celebrar nella o santo sacraficio [sic] da missa”[5].

Causa estranheza substituir uma ermida por um monóptero salomónico plantado no meio de nenhures onde é impossível celebrar eficazmente os passos da missa, ainda por cima dando destaque a um santo que não o é mas tão-só beato. Tudo tresanda a heterodoxias religiosas recambiando para o hierático, para outros herege, dos consignados enclaves sagrados. Afinal está-se nos domínios da antiga Ordem dos Templários tão acostumada a esses afazeres mistéricos, parecendo continuados pela Ordem de Cristo nestas portuguesíssimas paragens das comendas velhas de Penas Róias (penhas rubras, vermelhas), Mogadouro (lugar de monges), Algoso (Algol), etc., de que dá notícia Nuno Villamariz Oliveira[6]. Ainda mais escolhendo como orago Gonçalo de Amarante, santo português exclusivo da hagiografia nacional.

Jorge Campos Tavares, na sua obra descritiva da hagiografia e iconografia do santoral cristão[7], assim descreve São Gonçalo de Amarante: “GONÇALO DE AMARANTE (Em 10 de Janeiro e 1.º sábado e domingo de Junho). Terá nascido no princípio do século XII em Arriconha, freguesia de Tagilde, concelho de Guimarães. Estudou na arquidiocese de Braga e foi ordenado sacerdote, sendo-lhe dada uma paróquia. Peregrinou à Terra Santa e regressou catorze anos depois. Foi mal recebido pelo sacerdote e afastou-se dela, dedicando-se à pregação. Ao fazê-lo, confirmava a doutrina com milagres para espanto e edificação dos fiéis. Entrou na Ordem de S. Domingos e recebeu o hábito das mãos de S. Pedro Gonçalves Telmo. Fixou-se depois como eremita em Amarante, onde morreu por volta de 1260. Atribui-se-lhe a construção (ou o restauro) da ponte de Amarante e é considerado como santo promotor de casamento de mulheres já longe da juventude. Foi beatificado por Pio IV em 1561. Nunca foi canonizado. Representa-se com báculo de abade, hábito dominicano, um livro na mão e a maquete de uma ponte”.

O principal biógrafo de S. Gonçalo de Amarante foi Francisco Fernandes Galvão em 1591, no seu livro Sermões das Festas dos Santos escrito no Mosteiro d´Anunciada em Lisboa, obra publicada alguns anos depois[8]. Ele e os demais biógrafos do santo taumaturgo foram unânimes em destacar de todos os milagres que fez aquele da construção ou reconstrução da ponte, o que o converte num mestre construtor igual a outros tantos anónimos ou não de agremiações e confrarias de monges-construtores medievais espalhadas ao longo dos caminhos santiaguistas ou jacobeos, como este de Penas Róias – Mogadouro – Algoso, patrocinados e protegidos pela Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Jerusalém[9].

Mas a ponte de Amarante fica longe desta Quinta Nova, resta saber se porventura nesta também haja algum elemento afim capaz de inscrevê-la no simbolismo miraculoso da ponte. Há, com efeito, nas proximidades da desaparecida ermida a ribeira de S. Gonçalo a qual tinha obrigado à construção de duas pontes, conforme informação prestada em 1768 pelos homens da governança de Penas Róias[10], adiantando Luís Alexandre Rodrigues, no seu valioso estudo citado, não se conhecerem as razões que levaram à sua degradação.

Se o nome Gonçalo deriva do latim “Deus salvo”, em tal salvação entrará a ponte que leva do mundo dos perigos corporais àquele dos espiritualmente salvos, o que transfere para a heterodoxia do simbolismo religioso da ponte indicativa do pontifex latino, no entendimento de S. Bernardo de Claraval (in Tratactus de Moribus et Officio Episcoporum, III, 9, 1126): “O pontífice, como indica a etimologia da palavra, é uma espécie de ponte entre Deus e o Homem[11]. Com este sentido familiar do pontífice máximo da Arte Sacerdotal, ao ser construída a ponte por mãos de mestre, juntando o místico ao operático, ela é também indicativa da Arte Real, expressão mantida até hoje pela Maçonaria[12].

Com efeito, o título de pontifex, que foi o do imperador romano e permanece sendo o do papa, significa precisamente construtor de ponte. O pontífice é ao mesmo tempo o construtor e a própria ponte, como mediador entre a Terra e o Céu, o intermediário perfeito entre Deus e o Homem, o Criador e a Criação. Também nisto há duplicidade no entendimento do saber apreendido e do saber aplicado. Pode ser apreendido como gnose ou esotérica, e pode ser aplicado ou transmitido como teologia exotérica, de foro exclusivamente confessional. Motivo de muitos teólogos também serem iniciados. É nisto que entra o simbolismo das pontes do diabo, pomo de inumeráveis superstições e lendas populares onde se alternam Deus, o Diabo e seus adoradores. Nessa denominação observa-se uma espécie de reconhecimento da extrema dificuldade em construir tamanhas obras de arte e arquitectura causando espanto por sua beleza, polidez e firmeza. O conhecimento proibido ou inacessível ao vulgo é sempre considerado danado, criação da mente conspurcada do próprio príncipe das trevas, como pretende a demonologia, um dos ramos da teologia, que tem na Gnose ou Sabedoria Divina a maior adversária à ordem teologal instituída. Assim, na “ponte enfeitiçada por artes malignas”, a alma do primeiro passante deverá pertencer ao diabo: é a quota dele; de outro modo, teria trabalhado à vista de todos sem ser em segredo e no nocturno secreto, mas ele fora enganado pelas artes mistéricas do diabo, fixara a ponte para um enclave mágico onde a fé e a religião sofriam a mácula do erro e da heresia condenadas pela Igreja do populi. Diz-se também que a primeira pessoa que atravessa a “ponte maldita” morre naquele ano. As lendas populares indicam, em todos os casos, a angústia que suscita uma passagem difícil sobre um local perigoso e reforçam a simbólica geral da ponte e a sua significação onírica: um perigo a superar e, do mesmo modo, a necessidade de se dar um passo. A ponte coloca o homem sobre uma via estreita, onde ele encontra inexoravelmente a obrigação de escolher. E sua escolha o dana ou o salva[13].

No caso deste enigmático monóptero, se o beato Gonçalo vem a ser representação do próprio pontífice servindo de medianeiro postado no seu centro fechado pelas colunas salomónicas, então, como bem diz Luís Alexandre Rodrigues, o próprio monóptero será figuração simbólica do Sanctum Sanctorum do antigo Templo de Salomão, a porta de acesso das almas salvas, eleitas por seus próprios méritos, à Jerusalém Celeste, sob a mediação psicopompa do taumaturgo português.

O protótipo salomónico do Santo dos Santos influenciou a forma de muitos sacrários e tabernáculos, razão pela qual foram construídos segundo um modelo centralizado, em rotunda figurativa da hóstia – para Francisco de Holanda – expressiva da Mónada ou Nous que por sua circulatura expressa a infinidade divina, “sem princípio nem fim”, com isto encomiando e exaltando o Santíssimo Sacramento que a devoção conheceu nos tempos pós-tridentinos, em reacção ao cisma protestante que não aceitava a presença de Cristo – Agnus Dei – na Eucaristia. Por isso, Carlos Barromeo evidencia a conveniência do tabernáculo da Eucaristia ser colocado no altar maior definindo para a sua configuração planimetrias centralizadas, circulares ou poliédricas, como as mais apropriadas ao estado de perfeição: “Octogonal o redonda, en la medida que parezca más elegante y religiosamente apropriado para la forma de la iglesia”[14].

Em consequência dessas orientações, conclui Luís Rodrigues, afirmar-se-ia a tendência para os sacrários passarem a ser construções independentes ao mesmo tempo que na sua organização não raro se contemplavam algumas das possibilidades estéticas oferecidas pelas diversas correntes arquitectónicas, mas que se enquadrassem no sentido primacial de Santo dos Santos como este salomónico do enclave sagrado da Quinta Nova.

Redondo foi o formato proposto por Francisco de Holanda para a fábrica de “uma sumptuosíssima igreja ou capela em glória e exaltação e memória do Santíssimo Sacramento”, a construir em Lisboa, empresa completada com os desenhos de uma “charola pola parte de dentro onde há de estar o sacrário”, um sacrário e ainda uma custódia[15]. Essa igreja está assinalada como sendo a do Alto de Santo Amaro, na capital. Exemplos de sacrários com planta centralizada são conhecidos de Norte a Sul de Portugal. No entanto, por justificarem a aceitação regional do mesmo formulário, convém dar conta desses modelos na Sé de Miranda do Douro ou na igreja do antigo mosteiro franciscano de Mogadouro. Já a Jerusalém Celeste está retratada nos frescos na capela-mor do Convento de S. Francisco de Bragança.

O supracitado Luís Alexandre Rodrigues, justificando Francisco de Monzon que no século XVI equiparava Lisboa a Jerusalém e enaltecia as contribuições de D. João III para obras públicas, religiosas e militares, sentenciando que “bien puede Salomon y todos los príncipes de la tierra dar ventaja al Rey Don Juan Nuestro Señor”[16], apresenta vários rostos de baldaquinos condizentes com o do Templo de Jerusalém e com a própria Jerusalém Celeste, testemunho desse figurino simbológico ser conhecido dos autores clássicos greco-latinos, nomeadamente a gravura na portada do tomo III de Apparatus urbis, AC Templi hierosolymitani, obra de cariz tipográfico intitulada In Ezechielem Explanationes, da autoria dos padres jesuítas Jerónimo do Prado e João Baptista Villalpando, cujos três volumes foram impressos em Roma entre 1595 e 1606. Também aparece o rosto da edição de 1678 do tratado de Arquitectura civil recta y obliqua, considerada y debuxada en el Templo de Jerusalem, de Caramuel de Lobkowitz (1606-1682), engenheiro militar madrileno que em 1635 estava em Portugal.

Interessa particularmente a gravura da portada que representa um baldaquino de quatro colunas salomónicas, onde a inscrição Templum Salomonis não deixa lugar a dúvidas sobre o modo como o novo Santo Sepulcro – Templum Domini – devia ser representado[17], sendo flagrante a sua semelhança com o monóptero de S. Gonçalo.

Se o monóptero está para o Santo dos Santos lugar central do Templo por que se interage com a Jerusalém Celeste expressiva do estado de Graça usufruto eterno dos 144.000 eleitos do Paradisi que haverão que consumar na Terra a Parúsia ou Advento prometido do Agnus Dei, do Filho de Deus, tem-se que tal número simbólico 144 somado dá 9 de ADM (Adam), expressivo do próprio Homem, sobretudo do Homem que habitará o Paraíso Terrestre correspondendo à Idade Futura do Espírito Santo, demarcada pelos enclaves sagrados e de que é símbolo o próprio monóptero. Se, por um lado, Jerusalém expressa a visão de paz, de justiça e da união para todas as tribos de Israel (Salmo 122), por outro lado, o principal unanimemente aceite pelas três religiões monoteístas do Livro, manifesta o reino messiânico aberto a todos os povos, ideia alvissareira que no século XVII tomou forma em Portugal como a do Quinto Império, a de uma Nova Idade de Humanidade afim àquela da Jerusalém Celeste conforme descreve o Apocalipse 21:1-6, dando-a como a nova ordem psicossocial justa e perfeita que substituirá o estado caótico do mundo actual no fim dos tempos, isto é, de final de um ciclo de evolução pelo dealbar de um outro mais promissivo para o Género Humano.

Cabe insistir sobre a forma quadrada da Jerusalém Celeste, que a distingue do Paraíso Terrestre, geralmente representado sob uma forma redonda: é que este é o Céu na Terra, enquanto a Nova Jerusalém é a Terra no Céu. As formas circulares dizem respeito ao Céu; as quadradas, à Terra. A transmutação do Universo representado pela Nova Jerusalém, não é o regresso ao passado idílico, mas sim decisivamente a projecção do futuro sem precedentes[18].

Parece não ter existido conflito entre o pensamento mistérico e o pensamento confessional, entre a hermenêutica esotérica e a hermenêutica sociológica que terá assistido à fundação e finalidade do monóptero de S. Gonçalo. Se por um lado terá servido de estímulo ao reforço da identidade nacional na zona de fronteira, não sendo fácil esquecer o esforço de consolidação da Restauração, com os sucessos relativos a 1710 quando o exército castelhano depois de tomar Miranda e saquear Moncorvo corria impunemente toda a zona do Douro internacional, por outro lado o figurino sagrado em presença perpassa o imediatismo do sentido patriótico, recambiando tanto para a leitura teológica como para a interpretação gnóstica ou teosófica, não colidindo entre elas porque sendo uma Palavra o seu entendimento é diverso, conformado do menor ao maior aprofundamento das Escrituras Sagradas segundo a capacidade de quem as lê e aplica, indo do confessional ao mistérico, do exoterismo ao esoterismo[19].

Com efeito, há três modos de ler a Bíblia, do mais superficial ao profundo:

Não é raro observar-se o teólogo procurando aprofundar o seu conhecimento adentrando o campo gnóstico, sobretudo a gnose judaico-cristã de inspiração grega, e é quando se inicia nos Mistérios Cristãos – como o fizeram Paulo de Tarso, Jâmblico, Plotino, etc. – realizando os seus passos ou graus até à sua completa realização espiritual, à sua absorção em Cristo Deus (Logoi) e poder finalmente afirmar na plenitude: “Eu e o Pai somos Um!” – João 10:30.

Essa é a Teurgia, a Obra Divina como a mais Excelsa Magia assistindo tanto ao acto das Iniciações nos Mistérios como aos mistérios dos Sacramentos. Sobre isto, diz Annie Besant[20]:

“De Jâmblico, o grande teurgo do terceiro e quarto séculos depois de Cristo, muito há a aprender com relação à finalidade dos Mistérios. A Teurgia era a Magia, “a parte mais adiantada da Ciência Sacerdotal”[21]; ela era praticada nos Mistérios Maiores, para evocar a aparição de Seres Superiores. Resumida em poucas palavras, a teoria que serve de base aos Mistérios é a seguinte: primeiramente o Único[22], anterior a todos os seres, imóvel, concentrado na solidão da sua própria Unidade. Dele emana o Deus Supremo[23], Gerador de Si mesmo, o Bem, a Fonte de todas as coisas, a Raiz, o Deus dos Deuses, a Causa Primária, cuja manifestação é a Luz. Desta surge o Mundo Inteligível ou Universo Ideal, a Mente Universal, o Nous, do qual dependem os deuses incorpóreos e intelectuais. Do Nous procede a Alma do Mundo, à qual pertencem as “formas divinas intelectuais que acompanham os corpos visíveis dos deuses”. Em seguida, vêm as diferentes Hierarquias de Seres super-humanos, os Arcanjos, os Arcontes (Governadores), os Cosmocratores, os Anjos, os Daimones, etc. O Homem constitui uma Ordem menos elevada mas de natureza análoga à deles, pode chegar a conhecê-los, a experiência mostrou isso nos Mistérios e conduz à união com Deus.

“Conforme as doutrinas professadas nos Mistérios, “todas as coisas procedem do Único e para Ele voltam”, “o Único é superior a tudo”. Ademais, esses diferentes Seres eram invocados e apareciam ora para instruir, ora para elevar e purificar apenas com a sua presença.

“Os deuses benevolentes e misericordiosos – diz Jâmblico – difundem liberalmente a luz aos teurgos; atraem para eles as almas destes, unindo-as a eles e habitando-as, embora ligadas aos corpos, a se separarem destes e a evoluíram para a Causa Eterna e Inteligível”. Porque como a alma tem uma dupla vida, uma com o corpo e outra distinta do corpo, é indispensável aprender a separar a alma do corpo, a fim de que ela possa unir-se aos deuses por sua parte intelectual e divina, e aprender, com os verdadeiros princípios do Conhecimento[24], as verdades do mundo inteligível. A presença dos deuses dá-nos a saúde do corpo, a virtude da alma, a pureza da inteligência, numa palavra, a volta de tudo que está em nós às causas próprias… O que não é corpo, ela o representa como corpo aos olhos da alma, por intermédio dos olhos do corpo. Nas epifanias dos deuses, as almas recebem a perfeição extraordinária e extrema, e participam do Amor divino e da Alegria indivisível. “É assim que nós obtemos uma vida divina e nos tornamos, na realidade, divinos”.

“O ponto culminante dos Mistérios era a transformação do Iniciado em Deus, seja pela união com um Ser divino exterior, seja abrindo os olhos à existência divina dentro dele.”

Finalmente, para terminar, a mensagem parúsica que o monóptero de S. Gonçalo parece reter, igualmente bem parece ajustar-se bem àquelas outras palavras no Sermão V de São Bernardo de Claraval, da Vinda intermediária de Cristo e a fundação do seu Reino sobre a Terra com o Homem e Jerusalém renovados[25]:

Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta, não. Na primeira vinda o Senhor apareceu na Terra e conviveu com os homens. Foi então, como Ele próprio declara, que viram-no e não o quiseram receber. Na última, todo homem verá a salvação de Deus (Lc. 3:6) e olharão para aquele que transpassaram (Zc. 12:10). A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos O vêem em si mesmos e recebem a salvação. Na primeira, o Senhor veio na fraqueza da carne; na intermediária, vem espiritualmente, manifestando o poder da Sua graça; na última, virá com todo o esplendor da Sua glória.

Esta vinda intermediária é, portanto, como um caminho que conduz da primeira à última: na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; na intermediária, é nosso repouso e consolação.

Mas, para que ninguém pense que é pura invenção o que dissemos sobre esta vinda intermediária, ouvi o próprio Senhor: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele (cf. Jo. 14:23). Lê-se também noutro lugar: Quem teme a Deus, faz o bem (Ecl. 15:1). Mas vejo que se diz algo mais sobre o que ama a Deus, porque guardará suas palavras. Onde devem ser guardadas? Sem dúvida alguma no coração, como diz o profeta: Conservei no coração vossas palavras, a fim de que eu não peque contra vós (Sl. 118:11).

Guarda, pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo da tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem e tua alma se deleitará na fartura. Não esqueças de comer o teu pão para que teu coração não desfaleça, mas que tua alma se sacie com este alimento saboroso.

Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará. Virá a ti o Filho em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém e fará novas todas as coisas. Graças a essa vinda, como já refletimos a imagem do Homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do Homem celeste (1Cor. 15:49). Assim como o primeiro Adão contagiou toda a Humanidade e atingiu o Homem todo, assim agora é preciso que Cristo seja o Senhor do Homem todo, porque Ele o criou, redimiu e o glorificará.

 

NOTAS

 

[1] Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, Abril de 2007.

[2] Luís Alexandre Rodrigues, O monóptero de S. Gonçalo: uma proposta de leitura. Departamento de Ciências e Técnicas do Património, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Actas do II Congresso Internacional do Barroco, pp. 411-421, Porto, 2001.

[3] A.D.B., Mitra, Cx. 37, doc. n.º 17. A par com a indicação para o documento se arquivar no cartório do Cabido também se pode ler: “doação de hu ermitão da Bemposta que lhe fes Luis Alvares de Tavora”.

[4] Jozé Botelho de Mattos, Documentos vários para a Historia Eclesiastica do Bispado de Miranda, 1896. B.N.L., Res., COD. 154, fl. 99v.

[5] Jozé Botelho de Mattos, ob. cit. B.N.L., Res., COD. 154, fls. 99v-100.

[6] Nuno Villamariz Oliveira, Castelos Templários em Portugal. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda, Lisboa, Outubro de 2010.

[7] Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão Editores, Porto, 1990.

[8] Francisco Fernandes Galvão, Sermões das Festas dos Santos. Ed. Pedro Crasbeeck, Lisboa, 1613.

[9] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Livros Dinapress, Lisboa, Maio de 2011.

[10] A informação, assinada pelo juiz da Ordenação, Procurador e dois vereadores, tinha o Provedor da comarca como destinatário e fazia parte de um processo destinado a ouvir os governantes das várias localidades sobre a disponibilidade para aceitarem uma finta destinada à reconstrução da ponte de Castrelos nas proximidades de Bragança. A.N.T.T., Desembargo do Paço, Repartição do Minho e Trás-os-Montes, Mç. 49, Cx. 60. Cf. Luís Alexandre Rodrigues, ob. cit.

[11] Patrologia Latina, CLXXXII 807-834A. Esta obra compõe-se de uma enorme colecção de escritos dos Padres da Igreja, editada em Paris por Jacques-Paul Migne entre 1844 e 1855, sendo os índices publicados entre 1862 e 1865.

[12] René Guénon, O Rei do Mundo. Editorial Minerva, Lisboa, 1978.

[13] Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1990.

[14] Carlos Barromeo, Instrucciones de la fábrica y del ajuar eclesiásticos. Universidade Nacional Autónoma de México, México, 1985.

[15] Francisco de Holanda, Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, 1571. Livros Horizonte, Lisboa, 1984.

[16] Francisco de Monzon, Libro primero del perfecto christiano. Lisboa, 1544.

[17] René Taylor, Juan Bautista Villalpando y Jerónimo de Prado: de la arquitectura prática a la reconstrucción mística, in Dios Arquitecto. Ediciones Siruela, Madrid, 1991.

[18] Gérard de Champeaux, Sébastien Sterckx, Introduction au monde des symboles. Ed. Zodiaque, Paris, 1966.

[19] António de Macedo, Cristianismo Iniciático. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda, Lisboa, Março de 2011.

[20] Annie Besant, O Cristianismo Esotérico. Editora Pensamento, São Paulo, 1978.

[21] Thomas Taylor, Jâmblico sobre os Mistérios Egípcios. Ed. Chiswick Whittingham, Londres, 1821.

[22] Substância Absoluta Informe, Ain-Suph, Svabhâvat, Tudo-Nada, etc., segundo as diversas escatologias mistéricas e religiosas (nota do autor).

[23] O Logos Original dotado de Três Hipóstases que estão na base das diversas Trindades religiosas e esotéricas (nota do autor).

[24] Gnose, Teosofia, Gupta-Vidya, Sabedoria Divina, Conhecimento Secreto, etc. (nota do autor).

[25] São Bernardo, Sermo V in Adventu Domini: Opera Omnia. Editiones Cisterciensis, Roma, 1966.

A Teosofia e a Lei da Polaridade – Por Zélia Scorza Pires Quarta-feira, Out 18 2017 

Quando uma obra de caridade é criada, frequentemente encontra ela muitos interessados; mas, se o seu progresso depender de estudos e pesquisas da parte de seus membros, o número dos adeptos da mesma obra diminuirá sensivelmente. Poucos são, na verdade, aqueles que, dentro de uma fraternidade, sentem atracção pelos estudos. O que se nota, para tristeza dos Deuses e atraso da Evolução Humana, é um permanente interesse pelos fenómenos psíquicos, chamados muito erradamente, por alguns, de “milagres”, e que em nada colaboram para o progresso espiritual da criatura humana.

Os verdadeiros milagres são sempre fenómenos naturais, realizados por Seres estudiosos das forças da Natureza. São os TAUMATURGOS – Seres que agem, verdadeiramente, dentro das Leis da Teosofia. Há, também, seres que, mesmo ignorando (aparentemente) as forças da Natureza, nascem com a missão de serem “canais” por onde o Poder Divino pode fazer fluir parte da sua força, a fim de aliviar o sofrimento humano.

Ora, estamos num ciclo em que os fenómenos psíquicos não mais deveriam ser encarados com tanto interesse. O que deve ser objecto de atracção para uma criatura humana interessada em evoluir, é o desenvolvimento da Inteligência, o despertar da Mente Superior, que é aquela que nos liga, definitivamente, ao nosso Deus Interior ou Centelha Divina. É esta Mente que fará de cada um de nós um Ser teosófico.

É, sem dúvida, um atraso imperdoável essa atracção pelos fenómenos psíquicos, pois isso significa permanecer num estado de consciência anímico, que foi o atributo desenvolvido na Raça Lemuriana, anterior à Raça Atlante, portanto. Ora, nós já estamos no final da Raça Ariana, quando deveria sobressair o Mental Abstracto, a Mente Superior, que é a Mente do raciocínio superdesenvolvido, do discernimento apurado, das ideias, da percepção das coisas subjectivas, das coisas dos Céus… No entanto, o que se vê é algo inteiramente diferente. Vê-se a quase totalidade das pessoas sentirem-se atraídas pelo animismo, cooperando, dessa forma, para um enorme e irrecuperável atraso na Evolução Humana. A Nova Era, que se aproxima a passos gigantescos, exige desta mesma Humanidade que dê, também, passos agigantados, no que se refere ao seu adiantamento espiritual, sob pena de não ser aproveitada para o Novo Ciclo uma grande parte desta mesma Humanidade. A Terra, segundo nos ensina o Mestre J.H.S., está com a sua rotação mais rápida. O tempo urge, portanto. É necessário que acompanhemos esta nova velocidade ou dimensão… Não há em tal exigência qualquer excesso, como poderia parecer aos não estudiosos do assunto. Trata-se da realização de um trabalho cósmico, que não pode ser prejudicado ou atrasado, pois abrange a tudo e a todos. Estamos no ciclo do rigor, do “ajuste das contas”… A época das súplicas e dos alertas dos Deuses já passou, pois que, lamentavelmente, tais súplicas e alertas não foram atendidas pelos homens, que, insensíveis, persistem nos erros. Referimo-nos aqui aos erros prejudiciais à colectividade, uma vez que os erros restritos, relativos a cada ser humano em particular, são, de certa forma, naturais, já que a Vida é “um perene cair e levantar”… à semelhança da Via Crucis de Jeoshua Ben Pandira, o Jesus bíblico, que mostrou, no seu trajecto até ao Gólgota, o que a própria Humanidade tem que passar para evoluir. Todos os nossos erros (desde que neles não reincidamos deliberadamente), após conscientizados, servem, admiravelmente, de experiências valiosas para a Evolução Humana. Há, porém, actos que são tão desastrosamente nocivos que chegam a atingir a toda uma colectividade, ao povo, à nação, à Humanidade e, finalmente, ao próprio planeta.

É o que se vê actualmente, com as sucessivas e catastróficas experiências nucleares, afectando a segurança da própria Terra e fazendo-a sofrer. Como diz o nosso Mestre, “sofrem até os animais no fundo dos mares”…

Será terrível o que vem por aí como consequência das nossas “brincadeiras” perigosas e irresponsáveis… Sobre tudo isso o nosso Mestre fartou-se de alertar, de suplicar mesmo… Nesse sentido, foram enviadas mensagens até mesmo à ONU, chamando a atenção para o perigo do degelo dos pólos, da energia nuclear “roubada” do Núcleo da Terra… Mas, a face da Terra continua a ser castigada impiedosamente. O tributo a ser pago por nós, por todos esses males impostos à Mãe Natureza, será pesado e doloroso, sem dúvida. Dele ninguém poderá escapar, pois o tempo da tolerância já se esgotou. De facto, atravessamos o ciclo dos efeitos, relativos às causas por todos nós geradas. Estamos num ciclo totalmente lunar, e a Lei do Rigor (KARMA) impõe ao Mundo a sua Justiça perfeita! É o Quinto Planetário agindo com o Rigor que lhe compete, em todo o orbe terrestre, a fim de realizar a selecção da SEMENTE ou dos “Eleitos do Novo Ciclo”!

Os Seres que já têm despertada a Mente Superior, Abstracta, não são compreendidos pelos medíocres e, como consequência, são sempre combatidos, perseguidos até, pois raciocinam muito além do nível da massa comum. Os grandes Génios (ou Jinas) são Seres Solares que raciocinam dentro das leis da TEOSOFIA e, por isso mesmo, sofrem ataques dos lunares, sendo por eles ridicularizados, escarnecidos e caluniados.

O mundo ainda está longe de ser um mundo teosófico, mas em todas as épocas, por mais difícil que tenha sido, sempre houve Seres que vivenciaram a TEOSOFIA, que tentaram, à custa de muitos sacrifícios, propagá-la. Graças a esses primorosos Seres, a TEOSOFIA, como uma rosa desfolhada, deixou, em várias partes do mundo, um pouco do seu precioso perfume…

Um dos aspectos mais importantes da MISSÃO do nosso Mestre, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, foi o de “despertar” a Humanidade para a TEOSOFIA, através do Movimento que , em sua primeira fase, tomou o nome de DHÂRANÂ, e que, em sua segunda fase, ficou conhecido como SOCIEDADE TEOSÓFICA BRASILEIRA, em homenagem à incomparável mártir do século passado, que foi Helena Petrovna Blavatsky, de cujo trabalho foi o nosso Mestre, neste século, o continuador, mas no sentido de ir adiante, ir além, vindo por isso a dar-lhe a designação própria de Teosofia Eubiótica, ao criar o neologismo EUBIOSE. Aliás, toda a vida do nosso Mestre constitui-se num exemplo incomparável de “vivência eubiótica”, razão por que ela só foi compreendida por aqueles que alcançaram, realmente, a condição de discípulos verdadeiros. Discípulos verdadeiros de J.H.S. são aqueles que aceitam e vivem a TEOSOFIA EUBIÓTICA. Ora, viver a EUBIOSE é transformar o Eu inferior, animal, em Eu Superior ou Divino. O homem educado, desde pequenino, eubioticamente, viverá sempre em harmonia com as Leis da Natureza e será, no futuro, um homem superior (ou “super-homem”, no sentido filosófico). Eis porque a Humanidade do Futuro será uma Humanidade feliz, harmónica, perfeita…

Todos nós somos uma miniatura do Universo e, também, um espelho que o reflecte. Enquanto não vivermos em sintonia perfeita com ele, seremos como um espelho partido, a reflectir imagens deformadas. Eis uma das razões para a crença popular que afirma “dar azar” o espelho partido. Sim, porque enquanto a Personalidade reflectir imagens defeituosas, não estará adequada a ser veículo de expressão do nosso próprio Ego Divino ou Deus Interior. A palavra EUBIOSE é composta pelo prefixo grego EU, que quer dizer “bem, belo, excelente”, e BIOSE, “vida, vivência”, de fácil adaptação, próspero (na mais alta acepção espiritual), de fácil adaptação às Leis do Universo!

Como todos devem saber, nas escolas e nas faculdades os estudos não são de natureza teosófica, pois estão muito distanciados da Lei Universal e da Ciência Iniciática, além de contrariarem, na maioria das vezes, as verdadeiras tendências e anseios dos alunos pela forma como são apresentados. Os estudos num verdadeiro Colégio Iniciático, como é o nosso, obedecem a uma outra sistemática, sendo dados, em grande parte, de modo teatralizado, pois que são encenados ritualisticamente, para que haja a vivenciação, pelo discípulo, dos ensinamentos do nosso Mestre. Tem-se, neste caso, a educação e a instrução, simultaneamente. Conforme afirma um Grande Ser (Dr. Maurus), a Instrução refere-se à Inteligência e a Educação refere-se à Emotividade. Diz Ele ainda que “uma instrução que cansa, uma educação que oprime, não é eubiótica… Deve-se pôr o educando em condições de continuar aperfeiçoando-se por si mesmo, quando já não esteja sob a direcção dos seus mestres”… Foi justamente isso que o nosso Mestre, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, fez com os seus discípulos.

Dando-nos as necessárias “ferramentas”, resta agora manejá-las com equilíbrio, sem fanatismos, pois o exagero, em tudo, é sempre nocivo, prejudicial, doentio. Por isso mesmo, é preferível não se crer em coisa alguma a se tornar um fanático. Continuando, diz o mesmo Grande Ser que “é desbiótica (e, portanto, nociva) a preguiça, a avareza, o orgulho, a vaidade, e muito pior que todas elas, o egoísmo”.

Com a teatralização do ensino em nosso Colégio Iniciático, o aluno sincero aprimora o físico, o emocional e o mental. Aprimora o físico porque as músicas (mantrans) e as yogas da nossa Obra têm o poder de transformar, aos poucos, os órgãos físicos, de modo a torná-los mais sensíveis à espiritualidade. Esta transformação não se opera só visivelmente, mas sobretudo internamente. Vai ocorrendo uma lenta e progressiva sublimação desses órgãos, cujos resultados se fazem notar na parte emocional ou psíquica. Por seu lado, as emoções grosseiras, banais, fúteis, inferiores (e sempre prejudiciais), vão sendo transmutadas em emoções nobres, subtis, delicadas, superiores, dando como resultado um aumento considerável do potencial do intelecto, transformando-o em Inteligência Superior, em Sabedoria Divina.

A Mente passa, então, a raciocinar abstractamente, ou seja, passa a usar a Razão superior, que é o elo que nos permite o desenvolvimento de atributos ainda mais subtis dos estados de consciência mais elevados, ligando-nos de vez ao TODO, a DEUS, do qual, um dia, todos viemos, o que nos comprova que a TEOSOFIA sempre existiu em nosso próprio interior, tendo sido por nós esquecida, ficando adormecida, entorpecida pelos múltiplos aromas emanados dos vários Planos em que se manifesta a Vida Universal. Com o despertar da Mente Superior ou Abstracta, realiza-se uma espécie de “Eucaristia Mental e Coracional”, fazendo com que se transborde, aos poucos, o Conhecimento Divino, que é a mesma TEOSOFIA, e que todo o ser humano traz, latente, dentro de si… Esta Sabedoria Divina já existe, portanto, como uma “enciclopédia orgânica”, impressa dentro de cada ser humano, faltando apenas, a cada um, abri-la, folheá-la, o que se consegue fazer através dos vários renascimentos e mortes, ou seja, das sucessivas reencarnações. É a chamada Roda da Vida.

Dentro do simbolismo da nossa Obra, a POLARIDADE (ou Dualidade) manifesta-se como “Face do Rigor” e “Face da Misericórdia” ou “Face do Amor”… Para seguir as Leis da Teosofia Eubiótica, a criatura humana tem que expressar, em si mesma, essas duas “Faces”, equilibrando-as. A do “Rigor”, para consigo mesma, para com os seus pensamentos, as suas atitudes, solicitações íntimas, etc., mantendo-se, em consequência, sempre respeitosa para com as coisas divinas, ou seja, trabalhando com dedicação para a rápida realização dos planos da Lei. Sim, porque nem todo o trabalho é eubiótico. A esse propósito, diz o mesmo Grande Ser que há pouco mencionámos que “não é eubiótico o trabalho que desperdiça as faculdades em vez de desenvolvê-las; não é eubiótico o que esgota as forças além do reparável; não é eubiótico o trabalho que não deixa uma sensação de prazer ou de felicidade”… Quanto à “Face da Misericórdia” (ou do Amor), devemos manifestá-la para com todas as pessoas e coisas, mesmo quando recebemos ofensas e calúnias. Assim foi HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA; assim é a TEOSOFIA, que pode ser resumida nas três palavras: Trabalhar, Amor e Perdoar… Esse é o lema do nosso Mestre e é o que Ele espera dos seus discípulos. A “Face do Rigor” expressa a Justiça, o Poder Temporal, o Poder realizador, o Poder de comando, o Poder guerreiro (mas o verdadeiro, que é o da luta contra a ignorância), e a “Face da Misericórdia” (ou do Amor) expressa a Redenção, a Bênção, a Salvação, a Compaixão, a verdadeira Mística, a Revelação, etc.

A Consciência Cósmica (ou Deus), em sua função criadora, é sempre dual ou polarizada.

Assim sendo, a POLARIDADE é o aspecto básico da Manifestação, do Demiurgo! As Centelhas, saídas da Consciência Universal dual ou polarizada, constituem as Mónadas Humanas. Seguindo o caminho evolucional, as Centelhas atravessam os vários Planos da Forma, atraindo para si os elementos materiais de cada Plano. Desse modo, elas atraem para si a matéria chamada RAJAS, que representa a Emoção, formando a Alma ou Corpo Psíquico. Uma vez formada a Alma, as Centelhas continuam a sua trajectória evolucional e atraem a matéria denominada TAMAS, que é a mais densa, constituindo com ela o Corpo Físico. Essas matérias (ou energias), chamadas RAJAS e TAMAS, representam-se de forma mais subtil ou menos subtil, conforme os Planos e subplanos em que é repartida a Vida Universal. Na marcha da Evolução, a polaridade “latente” nas Centelhas ou Mónadas Humanas se desprende e cada parte adquire corpos adequados à sua vibração, sendo cada qual contraparte perfeita do outro, isto é, conformando pares ou casais, que devem se identificar nos vários Planos da Matéria. É a essa união espiritual (ou “casamento cósmico”) que se refere a conhecida frase: “O que Deus uniu, o Homem não pode separar”… Esse é o significado da tradição de Adão e Eva.

É a “maçã inteira”, que pode simbolizar a Centelha Divina ou Mónada Humana, e a “maçã partida” ou “provada”, que pode simbolizar a polaridade, ou os casais.

Apesar da frequência vibratória dessas Centelhas ou Mónadas ir-se modificando à medida que atravessam Planos mais densos, no entanto, elas mantêm intactos os dons divinos que lhes são próprios. No Plano da face da Terra, podemos considerar esse dom divino como sendo a Voz da Consciência ou o Deus Interior. Cada Mónada Humana (completa, isto é, polarizada) tem uma finalidade de ser e de existir que lhe é dada pela Consciência Universal: é a missão de cada um… seja ela grande ou pequena, pouco importa, pois todas fazem parte dos planos divinos. No interior de cada um pulsa o verdadeiro Ser, que no seu aspecto universal é chamado de Homem Cósmico, e que é o mesmo JEHOVAH das Escrituras Sagradas. Em seu aspecto polarizado esse Homem Cósmico é o mesmo ADAM-KADMON das tradições cabalistas, o qual, na face da Terra, é conhecido como ADAM-HEVE ou Adão e Eva!

O DEVER de cada ser humano é procurar conhecer esta Lei que vive dentro de si mesmo, e cumprir a missão para a qual foi destinado. Por isso, a Iniciação realizada num verdadeiro Colégio Iniciático, como é o nosso, concede aos discípulos as preciosas “ferramentas” para uma rápida conscientização. Sem a Iniciação Real, a ampliação da consciência processa-se lentamente, podendo até ocorrer que o total dos renascimentos concedidos pela LEI não seja suficiente para certas criaturas. De certa forma, a Humanidade passa, actualmente, por uma Iniciação Real, que é a do sofrimento, a do chamado “resgate kármico colectivo”, como prestação das dívidas acumuladas em vidas passadas.

Eis, pois, a razão do existir: sabermos quem somos, de onde viemos e para onde vamos. São as três enigmáticas questões da Esfinge propostas a todos os Peregrinos da Vida, que somos todos nós. Essas perguntas, no entanto, deixam de ser enigmáticas para todos os que se iniciam nos Grandes Mistérios! A própria LEI estabelece, na Suprema Perfeição, que o ser humano que não lograr se conscientizar plenamente da razão do existir, ao longo das 777 encarnações previstas, ficará fora da Roda da Evolução. Uma famosa sentença, de grande sabedoria, afirma que “a caravana passa, embora ladrem os cães”… Ela demonstra a dinâmica da Evolução, pois a “caravana” é a própria Lei Evolucional em sua marcha para o Infinito, e os “cães” representam os seres que falam muito mas que não resolvem nada, que não querem esforçar-se para evoluir. Os valores espirituais são, pois, os únicos que seguem connosco após a morte do corpo físico. Para que haja um acúmulo de tais valores (como verdadeiras pérolas no colar da Divina Mãe), a LEI concede a cada ser humano a oportunidade de 777 vidas (ou renascimentos), para que no final desse prazo (que abrange milhões e milhões de anos) cada um tenha se encontrado, isto é, tenha despertado o seu Deus Interior.

O Eu Superior (ou Divino) à medida que vai descendo nos Planos Inferiores ou Humanos, vai perdendo a noção da sua realeza em virtude da crescente densidade dos Planos, por isso mesmo chamados de “Planos tenebrosos da Matéria”… e que facilmente iludem a todos e mais ainda aos que não mantêm a Vigilância dos Sentidos, como bem diz a nossa Grã-Mestrina D. Helena Jefferson de Souza.

Para escapar dessas mayas (ou ilusões) há que se praticar o “Vigiai e Orai” recomendado por Jeoshua Ben Pandira, o Cristo, e que é a mesma Vigilância dos Sentidos.

O processo de Evolução, que é representado pela Roda da Evolução ou a divina Cruz Suástica (a positiva, portanto), consiste em fazer voltar ao seu ponto de origem as Mónadas Humanas (ou Centelhas Divinas), porém trazendo as experiências acumuladas durante os milénios e milénios de existência nos vários Planos em que é repartida a Vida Universal.

Vimos, anteriormente, que a POLARIDADE é a Lei da Manifestação. Assim, temos os mais variados pares de opostos, como por exemplo: o dia e a noite, a sabedoria e a ignorância, o espírito e a matéria, o bem e o mal, o quente e o frio, o positivo e o negativo, a luz e a treva, o homem e a mulher, a força centrífuga e a força centrípeta, a alegria e a tristeza, o oriente e o ocidente, a sinarquia e a anarquia, o amor e o ódio, o movimento e o repouso, o nascer e o morrer, o inspirar e o expirar, o fogo e a água, o plantar e o colher, a suástica e a sovástica, a vigilância e o sono, o círculo e o quadrado, o anjo e o assurim, o Amor de Deus e a Ira de Deus, a paz e a guerra, , a Luz de Deus e a Sombra de Deus, Deus e Diabo, etc., etc.

Todos esses pares de opostos filosóficos que citámos são apenas alguns exemplos da Lei da Polaridade manifestada em todo o Universo. A frequência vibratória e o estado de consciência de todos os elementos existentes, variam conforme os Planos a que pertencem. Os elementos fogo e água nos Planos mais subtis, por exemplo, não podem ser comparados com os elementos fogo e água que conhecemos no nosso Plano, pois são reflexos daqueles. Assim também o é em relação ao Sol que nós vemos, que é reflexo ou espelho de um outro Sol, o SOL CENTRAL existente no interior da Terra, conforme ensina o nosso Mestre J.H.S.

O homem teosófico é um Homem Verdadeiro, no seu alto sentido, e é assim definido pelo Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA: “O Homem Verdadeiro, estando colocado no centro, não participa mais do movimento das coisas, mas na realidade dirige esse movimento, por sua simples presença, porque nele se reflecte a Actividade do Céu”… Tal Ser usa, com assiduidade, a Linguagem do Segundo Trono (Céu), que é doce e branda. Foi esta Linguagem que deu origem à poesia, à música, ao ritmo, à harmonia, ao bailado sagrado, à divina estética e à delicadeza de costumes. Tal Linguagem fica gravada no espaço sonoro do AKASHA Médio, que é uma espécie de biblioteca do Universo. Se os cientistas, dentro da avançada tecnologia moderna, descobrissem um aparelho capaz de captar o que vibra no AKASHA Médio, poderiam ouvir a Voz dos Grandes Mestres do Passado, dos Avataras, que são “Manifestações de Deus” ou a “Descida da Lei” em corpo físico, humano.

A nossa Obra é um Trabalho Universal.

Revista Aquarius, Ano 3, N.º 12, 1977

Padre António Vieira, o Paiaçú da Cultura Luso-Brasileira – Por Hugo Martins Terça-feira, Out 3 2017 

No passado dia 23.6.2017, no Largo Trindade Coelho junto à igreja de São Roque, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi inaugurada a estátua do padre António Vieira, única no País, da autoria do escultor Marco Fidalgo. Local marcado por forte carga simbólica e pela intensidade dos sermões proferidos pelo religioso nesta igreja, Vieira foi o jesuíta aclamado pelos tupinambás, tupis, aimarés, etc., autóctones do Brasil, o Manu ou Paiaçú, “Grande Pai”, carinhoso protector dos índios, dos escravos, dos negros, dos judeus, das crianças desamparadas, enfim, dos desprotegidos da sorte, ao par de escritor profícuo de verbo inflamado propagador do ideal português de Quinto Império, eivado de conceitos herméticos tendo-lhe valido a prisão várias vezes, sob suspeita de heresia, nos cárceres da Inquisição em Coimbra e Lisboa; também por isso, foi consignado vate e “Imperador da Língua Portuguesa” pelo grande poeta Fernando Pessoa. É no encontro com esta personagem singular marcante da religiosidade e cultura luso-brasileira, iluminado por excelência no conceito salvífico de iluminação espiritual do Mundo no seu derradeiro V Império ou Tempo de Espírito Santo, que hoje celebramos e honramos a sua vida profícua, o seu ideal de vida e a sua vida intelectual cujo legado deixado nos seus inúmeros escritos é património da Humanidade, dedicando-lhe este pequeno artigo, em guisa de bosquejo biográfico,  ficando para memória pública do leitorado geral.

A Companhia de Jesus e o Sacerdócio

O Padre António Vieira (Lisboa, Bairro da Sé, 6.2.1608 – São Salvador da Bahia, Mosteiro de Jesus Salvador, 18.7.1697), numa abordagem simplificada, pode se definir como orador e escritor, nisto sendo também patriótico, simpático incontestável do partido do duque de Bragança, futuro rei D. João IV, filantropo e caritativo na execução constante da maior das virtudes teologais, a caridade, e sebastianista possuído de ideais heterodoxos afins à “transladação imperial” (translatio imperii) de cunho lusíada que chocaram frontalmente, inúmeras vezes, com a ortodoxia romana vigente. Filho de pais de condição modesta, as suas origens surgem dos percalços de um amor proibido que se sobrepôs à visão moralista e segregacionista da sociedade de então. O seu avô, criado dos condes de Unhão, enamorara-se de uma mulata que também os servia. Expulsos da casa senhorial, foram depois readmitidos nela, porque o “pecado” do amor acabara tendo no casamento a sua sagração aceite pela Igreja. Este episódio dá a Vieira origem africana e inclusive herdando ele próprio o aspecto mulato, se bem que na sua biografia sejam incertas e mínimas as referências ao facto, mesmo com isso dando-lhe a força vigorante de um crisol de raças que defenderia calorosamente da prepotência dos poderes políticos e religiosos instituídos, como foram os judeus segregacionados na Europa, os negros escravizados de África e os índios perseguidos no Brasil.

Em 1614, com 6 anos de idade, partiu com a sua família para o Brasil, instalando-se na então capital São Salvador da Bahia, por o seu pai servir na Relação então criada, o que o obrigou a vir buscar a família. Foi nessa cidade, no colégio dos jesuítas, que António Vieira passou de aluno aplicado a noviço dedicado, com 15 anos de idade. Relata-se que isso relaciona-se com o episódio de certa noite, fortemente impressionado com o que ouvira no sermão de padre Fernando Cardim acerca do Inferno, o rapaz fugira da casa paterna para ir pedir aos religiosos que o admitissem como noviço na Companhia.

Às prodigiosas capacidades do estudante não faltavam as virtudes que melhor as poderiam fecundar. Era faminto de saber e ainda mais do prazer de agir, a ponto de – conforme declara na sua defesa perante a Inquisição – numa fase do seu noviciado ter feito voto de dedicar-se exclusivamente à actividade de catequizador dos índios, renunciando à exclusividade da ortodoxia do sacerdócio indo aprofundar-se no conhecimento das línguas indígenas, necessárias para essa missão. Os seus superiores quiseram desviá-lo desse propósito e demovê-lo de tal voto. Os talentos do jovem estudante eram demasiado elevados e raros para serem despendidos em misteres que outros, de bem mais modestas capacidades, bem o podiam substituir. Mas sem o desviar inteiramente dessa devotado vocação pela actividade pastoral junto dos menos favorecidos, a quem tantos e generosos esforços haveria de consagrar, desde cedo foram-lhe confiadas missões onde as suas elevadas aptidões tiveram oportunidade de brilhar. Mesmo antes de receber a ordenação sacerdotal, em 1635, estreou-se como diácono no púlpito e na catequese dos índios. Em 1640, na igreja de Nossa Senhora da Ajuda de Salvador da Bahia, pregou o célebre Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, abominando a perseguição aos índios pelos holandeses, protestando a ilegitimidade da sua presença no solo português da colónia, defendendo a legitimidade soberana de D. João IV de Portugal, revelando assim o seu alto senso patriótico.

A Corte de Lisboa e a Defesa dos Fracos – Índios e Judeus

De 1641 a 1652 ocorreu a sua primeira estadia na Europa, e no ano de 1644, retido pelo rei, António Vieira vem a Portugal acompanhando D. Fernando de Mascarenhas, filho do vice-rei, para prestar homenagem ao novo monarca, D. João IV. Este a quem ele próprio, no seu Sermão dos Bons Anos, transferiu a fé e a incarnação que os sebastianistas depositavam no rei perdido, D. Sebastião, em Alcácer Quibir. Ganhou o prestígio e a protecção do monarca que o elegeu pregador da corte, e a sua influência foi intensa a ponto de mover o clero, a nobreza e o povo na contribuição, em móveis, imóveis e pessoas para a Guerra da Independência do jugo filipino de Espanha, teimosa em manter-nos numa forçada união que durante 60 anos procurou transformar em sujeição: Vos estis sal terrae (“Vós sois o sal da terra”), foi o termo impulsionador que utilizou em 13 de Junho de 1654 no seu Sermão de Santo António aos Peixes, como exórdio aos homens, pregado na igreja de S. Luís do Maranhão, no qual revela grande sagacidade no manejo e aplicação da simbólica aos conhecimentos teológicos e cosmográficos da época, aplicando-a, por exemplo, numa analogia dos três elementos naturais com os três estratos sociais: fogo/clero, ar/nobreza, e água/povo. Além de pregador real, também foi confessor e conselheiro do rei, que o nomeou embaixador do reino, encarregado de espinhosas missões, em França, Holanda e Itália.

De 1652 a 1661, António Vieira está no Brasil, por licença régia, não para repousante trégua da sua pugnacidade mas para retomar a vida missionária, aplicando-a a nova luta. Levou consigo um decreto real para a libertação dos índios. Esta luta seria agora contra os colonos ricos, donos de fazendas e roças, cuja economia não podia evitar as entradas no sertão, a caça aos índios para os fazer escravos necessários aos trabalhos forçados dos engenhos de açúcar, dos cafezais e de quanto mais se cultivava na terra. Provocou as reacções violentíssimas violentas dos colonos – momento alto foi quando pregou os então famosos Sermões do Rosário e de Santo António aos Peixes. Sobre a escravatura do índio, colocou na sua defesa as seguintes palavras:

“O que não são [os índios], sem embargo de tudo isto, senão escravos […], nem ainda vassalos. Escravos não, porque não são tomados em guerra justa; e vassalos também não, porque, assim como o espanhol ou o genovês cativo em Argel, contudo é vassalo do seu rei e da sua república, [também] assim o não deixa de ser o índio, posto que forçado e cativo, como membro que é do corpo e da cabeça política da sua nação, importando igualmente para a soberania da liberdade, tanto a coroa de penas como a de oiro, e tanto o arco como o ceptro.”

Adiantando dirigindo-se directamente à aristocracia agrária do Maranhão: “Só resta a última razão, ou sem razão, por que os senhores desprezam os escravos, que é a vileza e miséria da sua fortuna. Oh fortuna! […] Virá tempo, e não tardará muito, em que esta roda dê volta, e então se verá qual é a melhor fortuna, se a vil e desprezada dos escravos ou a nobre e honrada dos senhores”. Rematando: “[…] solteis as ataduras da injustiça, e que deixais ir livres os que tendes captivos”.

Nessa sua acção missionária, marcadamente revolucionária, despendeu enorme esforço pastoral na tentativa de mudar as mentalidades, tendo até conseguido do rei dispositivos legais contra os excessos inumanos do colonato, num autêntico apostolado em nome da Companhia de Jesus. Isto gerou-lhe a antipatia feroz não só dos senhores escravocratas, mas igualmente de outras ordens religiosas, como a Dominicana e a do Carmo, rivais do Apostolado Inaciano, às quais não se estenderam os privilégios e vantagens feitos à Companhia. A oposição sobretudo político-económica chegou ao ponto de depois, no século XVIII, os jesuítas serem expulsos do Brasil, ao grito de: Abaixo os urubus! Fora os urubus!

Na sua segunda estadia na Europa (1661-1681), marcada pelo Sermão da Epifania perante a rainha regente de Portugal D. Luísa de Gusmão e da sua corte na Capela Real de Lisboa, em 1662, Vieira defenda a Missão no Maranhão como lugar onde ocorreu a Segunda Criação e onde ocorrerá a Segunda Epifânia. Prova a responsabilidade da Coroa Lusitana com a propagação da Fé mediante três alegorias factuais: a alegoria da Criação do Mundo, a alegoria da conversão dos Reis Magos e a alegoria do Bom Pastor. Nessa sua transposição do texto bíblico ao messianismo nacional, Vieira revela abertamente a sua afeição ao milenarismo hierático que haveria de atirá-lo nos cárceres da Inquisição em Coimbra (1665-1667).

António Vieira, na metrópole, já não possuía a mesma protecção que tivera antes de D. João IV, antes encontrava uma corte hostil inteiramente diferente daquela que o favorecera e que se formara em torno do novo rei D. Afonso VI, sob a administração do Conde de Castelo Melhor, primeiro ministro plenipotenciário. Mas o bom padre jesuíta não tinha contra si apenas o ódio dos escravocratas de aquém e além-Atlântico: contava ainda com a oposição dos inimigos do judaísmo, enfurecidos por tudo quanto ele obtivera de D. João IV a favor da gente-de-nação – os judeus batizados – cujos recursos económicos e fiduciários haviam contribuído, e esperava-se obter maior contribuição ainda, para a defesa da Monarquia e da Independência Nacional em perigo. Sobretudo, eram contra ele os dominicanos do Santo Oficio, alarmados, na rigidez da sua teologia segregacionista, com a proclamada ideia do Quinto Império Português, a qual naturalmente acolheria os hebreus, os africanos, os árabes e os índios do Brasil, todos convertidos no batismo em Cristo. O grande missionário, nos longos e místicos solilóquios durante as suas andanças pelo sertão brasílico, lendo o Livro de Horas e lembrando as profecias bíblicas ajustadas ao conceito de Quinto Império Universal que partiria de Portugal, reconhecia que essas promessas divinas haveriam de cumprir-se, por serem o único meio legítimo na Palavra de, num prazo compatível com a Vontade de Deus, poder realizar-se a cristianização da Humanidade inteira. Mas por meios exclusivamente humanos ou ordinários, dizia-lhe a experiência ser impossível tal sonho, tamanha utopia tornar-se realidade. Mas quem seria o Soberano desse Quinto Império? Cristo assegurado por São Bento alumiado pelo Divino Espírito Santo? Poderia ser, a escritura sagrada o assegurava. D. Sebastião assegurado por seu homónimo S. Sebastião? Também poderia ser, já que no Quinto Império do Mundo o trono (rei) estará colado ao altar (santo). O Soberano do Quinto Império é o Rei do Povo (Humanidade) que, mais do que nenhum outro, em lonjura de tempo e largueza de espaço, empenha-se em colaborar com Deus Pai (Patris) na efectivação do seu Reino (Pátria). Sobretudo o Povo que os profetas nacionais – Gonçalo Anes o Bandarra, principalmente – indicavam como o Eleito de Deus para tal Missão, ou seja, o Português de Porto-Graal, conforme está no sinal redondo afonsino.

Processo de Inquisição e Processo de Defesa

É neste ponto que gostávamos de deixar ao leitor, antes de descrever o processo, a homenagem ao grande historiador e ensaísta Hernâni António Cidade, responsável pelo estudo e divulgação do processo inquisitorial de António Vieira publicado em edições sob o título Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, na Universidade Federal de Salvador, Bahia, 1957, e depois em dois grossos volumes pela Editora Arcádia, Lisboa, insertos na colecção “A Obra e o Homem”, 1979. Posto isso, avancemos para o Processo de Inquisição ou Inquirição ao padre António Vieira.

Padre António Vieira (quadro em óleo sobre tela, 90 x 66 cm, autor desconhecido). Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Após a morte de D. João IV, seu protector, a vida do padre António Vieira complicou-se pelo número de inimizades geradas, não só pelo humanismo e senso de justiça social da sua acção missionária, incansável e sincera, mas também pelo idealismo hierático com que encarava e expunha, à luz das visões proféticas da Bíblia e dos biblicistas, a História do Mundo. O leitmotiv da acusação contra ele foram as cartas que enviara ao seu amigo e irmão de Companhia, o bispo do Japão, André Fernandes, nas quais expusera a sua tese acerca do já referido Quinto Império Universal, considerada próxima ou mesmo herética por sua proximidade às ideias messiânicas do judaísmo. Denunciada essa correspondência incriminatória e sem alternativa para proteger o seu amigo, o bispo André Fernandes foi obrigado a entregá-la ao censo do Tribunal do Santo Oficio, vindo a constituir a base de acusação de heresia ao padre Vieira que na ocasião estava em Coimbra onde foi detido.

A Inquisição, convocando-o à mesa do Santo Tribunal, sabendo-o já sem a protecção do rei e da corte, deu largas ao seu ódio contra o santo padre. Durante dois anos têm-no detido com residência fixa numa casa de repouso ou retiro da Companhia, nos arredores da cidade coimbrã. Depois encarceram-no e retêm-no mais dois anos, sob a acusação de heresia e conspurcação da fé tomando ad litteram o texto de Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda Vida de el rei D. João o Quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo Padre António Vieira. Acusaram-no de anunciar a ressurreição de D. João IV, entretanto morto, com base no judaísmo de Bandarra, e augurar para esse rei um império ao mesmo tempo espiritual e temporal, de grandeza jamais sonhada, cuja cabeça seria Portugal. Tomando a sua própria defesa perante o Tribunal do Eclesiástico, António Vieira fê-la vigorosamente demonstrando profundo conhecimento teológico, político-social, argúcia e técnica retórica; o inquisidor Alexandre Silva, encarregado dos interrogatórios, teve de aceitar a sua derrota perante aquela inteligência lúcida servida por poderosa dialética, que a doença não chegava para destruir. Só em 1667, velho achacado já cansado de lutar, aceitou as censuras e confiou na piedade do Sacro Tribunal, na estreita cela da sua prisão, doente, cada vez mais enfraquecido por hemoptises frequentes, agravadas por sangrias, normais na medicina do tempo; desdenhando isso, constantemente, várias vezes por dia, os “santos” inquisidores arrancavam-no do cárcere, arrastavam-no para a mesa da inquirição e, à vista da ameaça dos instrumentos de tortura, sujeitavam-no a cerrados e longos interrogatórios, procurando obrigá-lo a reconhecer de viva voz e por escrito que as suas proposições eram de heresia, ao que ele contrapunha sempre que as mesmas não eram heréticas por não transgredirem a ortodoxia da escritura sagrada, tanto na parte velha como na nova. Por fim, ao ouvir que o próprio Sumo Pontífice Clemente X declarara a sua doutrina como confusa da fé, sucumbiu, deu-se por derrotado, mas não sem antes entregar ao Conselho Geral do Sacro Tribunal a sua Representação ou Defesa que foi escrevendo no cárcere, sem outro auxilio senão não o da memória. A leitura da própria Bíblia fora-lhe proibida, só lhe sendo consentido o manuseio do Breviário. Apesar de tudo, foram numerosíssimos os sábios convocados ao conclave teológico que, ao apelo da sua memória, em espírito se reuniram no seu cárcere, dando-lhe apoio e fornecendo-lhe argumentos. A defesa de António Vieira é densíssima em erudição e poderosíssima em dialética. Nela há surtos admiráveis de eloquência, às vezes veemente, às vezes lírica, sempre certeira. Também não faltam as amargas reacções contra a injustiça dos homens e, segundo o providencialismo de Vieira, o abandono de Deus…

“Mas é Deus tão bom e liberal, que os prémios com que paga uma pequena faísca de zelo, ao mais indigno operário desta vinha, são, como diz o mesmo S. Paulo, vincula et carceres!”

Apesar de tudo, o grande jesuíta, o genuíno apóstolo de Jesus, foi condenado na tarde de sexta-feira de 25 de Dezembro de 1667 (in Torre do Tombo, Lisboa, Manuscritos da Livraria, n.º 2453). Ele sucumbira dando-se por vencido, quando foi informado de que a sua alegada teimosia já não era apenas contra os juízes da mesa do Tribunal mas também contra o próprio Sumo Pontífice. Resignou-se, cessou de opor-se, aceitou o destino a que os homens, no seu abandono de Deus, o condenavam. Quando foi mandado levantar para ouvir a leitura da sentença, deu-se um episódio curioso. Todos os seus irmãos em religião, presentes, levantaram-se com ele. Todos sentiram que o golpe atingia a Companhia inteira, assim desferido pela rivalidade dos dominicanos. A condenação privava-o de voz activa e passiva, fixava-lhe residência em Colégio da Companhia, que a Inquisição escolhesse, que seria a Casa do Noviciado em Lisboa, e sobretudo proibia-o de escrever e pregar!

Processo Inquisitorial do padre António Vieira. 1659-04-29 / 1668-06-30. Portugal, Torre do Tombo, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 1664.

Mas a pena condenatória não duraria muito tempo. Durante esse período ocorreu o golpe de Estado que repusera no poder os seus amigos – Infante D. Pedro e seus partidários – e fizera de D. Afonso VI o prisioneiro do Palácio de Sintra, e de Castelo Melhor o exilado de Inglaterra e de Milão. Esse acontecimento veio abreviar-lhe a condenação. Logo que foi posto em liberdade, não tardou a procurar, em Roma, refúgio contra o recrudescimento das oposições provocadas, e num Breve Pontifício a isenção pessoal da jurisdição inquisitorial portuguesa. Por súplica do Provincial da Companhia de Jesus, dirigida ao Santo Ofício, foi solicitada a anulação e perdão das penas que foram impostas ao padre Vieira. O pedido foi aceite por despacho do Conselho Geral do Santo Ofício, em 12.6.1668. Em 30.6.1668, o réu foi chamado à Casa do Despacho da Inquisição de Lisboa, onde lhe comunicaram o respectivo perdão e assinou o seu termo. Meses depois, com licença régia, em Agosto de 1669, o padre António Vieira partiu para Roma.

Ei-lo de novo na posse de si mesmo e da liberdade para os seus voos de águia. Viveu em Roma, Itália, de 1669 a 1675, pregando então algumas das suas melhores peças oratórias. Fulgurou nos púlpitos, pregando já em italiano, já em português, e não deixou de manobrar junto da Cúria a favor das pretensões que os cristãos-novos apresentavam contra o Santo Ofício português. A rainha Cristina, da Suécia, que para a cidade eterna havia transferido a sua corte, teve-o como pregador régio, e nos seus salões o sábio e santo jesuíta encontrou o melhor acolhimento da sua pessoa e os maiores aplausos ao seu génio.

Regressou a Portugal em 1675, logo encetando a publicação dos seus Sermões. Mas não se reteve muito tempo na corte lisboeta, que, sob regência de D. Pedro II, e apesar de escandalosamente lhe ter lisonjeado o casamento com a cunhada e a rapidez do aparecimento do primeiro filho, já não lhe dava já o acolhimento a que D. João IV o habituara.

Em 1681, iniciou a sua última estadia no Brasil: no retiro da Quinta do Tanque, na Bahia, preparou as suas obras para a impressão. Entre 1688 a 1691, apesar dos anos, ainda exerceu alto cargo de Visitador do Brasil. Dessa maneira, em Salvador prosseguiu a actividade pastoral e literária que a velhice, em crescimento acelerado, não conseguia pôr cobro. Preparou a publicação dos seus Sermões e continuou escrevendo as suas Cartas, sempre interessado pelas coisas deste mundo, no seu espírito missionário de homem feito para a acção, ele que um dia, já distante, escrevera:

“Sabei, amigo, que a melhor vida é esta (a que lhe decorria na actividade missionária no Brasil). Ando vestido de um pano grosseiro cá da terra, mais pesado que forte; como farinha de pau, durmo pouco, trabalho de pela manhã à noite […]. Finalmente, ainda que com grandes imperfeições, nenhuma coisa faço que não seja com Deus, por Deus e para Deus, e para estar na bem-aventurança só me resta vê-Lo, que seria mais grata, mas [se]não maior felicidade”.

Faleceu quase nonagenário, com 89 anos em 18 de Junho de 1697, no Colégio da Companhia em S. Salvador da Bahia.

V Império e Sebastianismo “Branco” ou Intelectual

Foi o padre António Vieira, orbitando entre o Sebastianismo Intelectual (“branco”) e o Sebastianismo Político (“vermelho”, como definiu António Sardinha), acaso ou decerto sabedor do sentido último ou primaz da doutrina messiânica, quem teve maior e mais destacado papel no contexto político-social português após a Restauração de 1640. Depois da morte de D. João IV, em 6 de Novembro de 1656, o padre António Vieira afirmou, no já citado sermão pregado no Maranhão, que D. João IV haveria de ressuscitar para operar prodígios, e para isso apoiou-se na autoridade profética do sapateiro Bandarra. Essa ideia já a expusera, aliás, num sermão ainda em vida do rei, que posteriormente ficaria documentada no escrito intitulado Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda Vida de el rei D. João o Quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo Padre António Vieira. Falou, portanto, na “segunda vida” de D. João IV, e citou como principal autoridade o Bandarra.

O propalado Quinto Império no escrito citado de António Vieira (integrando pequeno escol de jesuítas iluminados no saber esotérico rabínico, simultaneamente imbuído de forte pendor nacional ou patriótico, assim se distando largamente das regras ordinárias constituintes da Companhia), é simultaneamente espiritual e temporal, sacerdotal e real, com cabeça em Portugal, e a partir deste ir alcançar-se a unidade universal da Humanidade. Passa, portanto, de um sebastianismo bragantino e político para uma mais lata e pura sebástica universal e intelectual, cuja retórica é sempre profética feliz das premissas do Futuro. No Quinto Império inscrevem-se indiscriminadamente gentios, pagãos, judeus, mouros, africanos, cristãos, etc., todos em adoração ao mesmo Senhor Soberano. Esse também o desejo comum de uma Cristandade ou Espiritualidade Universal encabeçada pelo Messias cumpridor da Parúsia ou Segunda Volta, o Avatara único que haverá de reinar sobre todos os povos da Terra. A escatologia mítica do Quinto Império enlevou António Vieira, sobre ele dissertou largamente e quis fazer da Utopia uma plenirealidade feliz. Os seus textos sebástico-messiânicos ocuparam quase toda a sua vida e hoje são considerados o principal da sua obra. Nos escritos (incompletos) que constituem a sua História do Futuro, o iluminado padre sebástico anuncia o advento de um V Império Português ao Mundo indo suceder, lógica e necessariamente, aos quatro anteriores: Império Assírio-Babilónico, Império Persa, Império Grego e Império Romano, cujos prolongamentos romanos ou latinos ainda se viviam intensamente em seu tempo. Baseou-se sempre na autoridade dos textos sagrados:

“Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida, tiradas de diferentes lugares de textos sagrados que vão citados à margem, e o não pusemos no corpo da História para não embaraçar o desenho dela, […] o que resta e importa mostrar he que haja de aver sem duvida este novo e prometido Império a que chamamos Quinto.”

António Vieira, aliás, sublinhou sempre a autoridade dos Profetas, ao par do poder dos Patriarcas, dos quais detinha largo conhecimento claramente demonstrado nos seus inúmeros sermões. A profecia encerra, para ele, a verdade histórica mais pura. Assim, na literatura messiânico-politica do século XVII, o padre António Vieira não foi o exclusivo intérprete do sebastianismo bragantino. Nisto mesmo tendo sido, em rigor, um joanista, cuja importância política para a época realçaria assumindo a sua real natureza de sebastianista. Mas o padre António Vieira não foi só joanista, foi sobretudo sebastianista e como tal assim começou. Prova-o o seu Sermão de S. Sebastião, pregado na igreja do mesmo santo em Acupe (Bahia), em 1634, repleto de alusões ao vencido de Alcácer-Quibir comparando o seu desaparecimento fatal ao sacrifício do homónimo no santoral. Para terminar, através do mito e da mítica do Quinto Império Universal dos Lusos, para cuja criação setecentista apoiou-se no seu profundo saber teológico e no vasto conhecimento bíblico ao par do grande conhecimento da História do Mundo, o padre António Vieira é por excelência aquele que inaugura o ciclo do Sebastianismo Intelectual, para isso estabelecendo a aliança da Profecia com a História.

Pensamento de António Vieira e o seu Património Cultural

No espólio de António Vieira, destacamos como obras publicadas: Sermões, 1679-1748, em 15 volumes, Livro Anteprimeiro da História do Futuro, 1718, História do Futuro, 1718, e Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, 1957, em dois volumes, mas continua inédita a sua obra, deixada incompleta na qual trabalhou largos anos, intitulada Clavis Prophetarum (“Chave dos Profetas”). Como orador, contemporâneo de alguns (nomeadamente Bossuet e Bourdaloue) dos maiores vultos da oratória sacra de todos os tempos, se não iguala a majestade da construção harmoniosa dos sermões de Bossuet nem a força apostólica da lógica implacável na eloquência de Bourdaloue, supera-os na opulência da imaginação e na agudeza de uma inteligência posta ao serviço de uma ideia que ele como ninguém soube expor, desenvolver e fundamentar num encadeamento envolvente de imagens, conceitos e argumentos, que, cativando a atenção deslumbrada pelo jogo dos raciocínios, arrebatava tanto o universo humano de Portugal e do Brasil como o requintado mundo dos cardeais da cúria romana. Índice da perene actualidade dos sermões do padre António Vieira, é o facto de em 1960 terem sido editados em Milão quatro, apresentados como lição político-social aos homens de Estado. Pouco antes disso, o arcebispo local (depois Paulo VI) fizera publicar o Sermão da Sexagésima, como modelo para os pregadores que iam participar numa missão pastoral na sede da arquidiocese. Expoente da oratória sacra portuguesa e um dos maiores da oratória universal, foi político, missionário, defensor dos fracos, crítico audaz dos poderosos e patriota de visão transcendente. A sua inteligência excepcional proporcionou-lhe numa nitidez implacável como moralizador, ao encarar a vida nos seus mais ínfimos pormenores. O seu visionário talvez não excessivo casava-se com o dinamismo desmedido no campo da acção imediata. Apesar de ter sido, ao que parece, tuberculoso crónico, atravessou sete vezes o Atlântico e percorreu milhares e milhares de quilómetros, muitas vezes a pé ou em fracos meios de locomoção. Dessa raríssima conjunção, por vezes quase atingindo as raias da divina loucura, resultou uma clarividência singular, a qual lhe permitiu retratar ao vivo os actores do grande “teatro” do mundo com uma ironia finíssima, frequentemente tocada pela embriaguez da subtileza, mas certeira em escalpelizar os vícios dos homens seus contemporâneos e de todos os tempos.

São todas essas definições extraordinárias do vulto magnânimo de António Vieira, que sobreviveram ao ordinário do tempo como uma onda gigantesca levantada após maremoto, chegando como espuma do mar ao Modernismo Português na belíssima poética de Fernando Pessoa, batizando-o como “Imperador da Língua Portuguesa”, igualmente nas famosas Conversas Vadias, transmitidas em canal público, RTP1, nos idos anos 90 pelo filósofo e ensaísta Agostinho da Silva, e nas longas-metragens cinematográficas do realizador, internacionalmente reconhecido, Manoel de Oliveira, com os filmes da Palavra e Utopia, o V Império e Non ou a Vã Glória de Mandar. Que a robustez do bronze da estátua do padre António Vieira erigida em Lisboa, faça com que ele permaneça fixo na memória e no imaginário colectivo português, e que a mensagem do grande homem oriente por bons caminhos os destinos da Humanidade na sua nova Diáspora para a construção do tão almejado Quinto Império Espiritual do Mundo.

Adveniat Regnum Tuum

 Obras consultadas

Hernâni Cidade e Carlos Selvagem, Cultura Portuguesa, volume nº9. Empresa Nacional de Publicidade, 1972.

Hernâni Cidade, Padre António Vieira: a Obra e o Homem. Editora Arcádia, Lisboa, 1979.

J. Lúcio de Azevedo, História de António Vieira, vol. 1. Clássica Editora, Lisboa, 1992.

Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

A propósito de Mavalankar nas Escrituras Teosóficas – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Set 12 2017 

O nome ou sobrenome Mavalankar tem dado origem a discussões infrutíferas acerca da verdadeira identidade de Damodar Karhâda Mavalankar confundido com Djwal Khul Mavalankar, ou de Mavalankar, dito Mestre Tibetano. Será que um é o outro ou será que por má interpretação das informações disponíveis confundiu-se um com o outro? Ou será que nas Cartas dos Mahatmas endereçadas a Helena Petrovna Blavatsky e seus pares da época (Henry Stell Olcott, Alfred Percy Sinnett, William Judge e uns poucos mais), é exactamente por esse pormenor que se poderá provar a falsidade dessas cartas e que afinal os ditos Mahatmas ou são tão falíveis como qualquer mortal, ou simplesmente não passam de uma gigantesca invenção, monstruosa impostura da mesma Blavatsky? É nisto que crêem os cépticos da Teosofia de todos as crenças positivistas e religiosas, todos unidos como inimigos declarados da mesma Mestra, sempre à cata de pormenores somenos onde a possam flagrar em contradição e mentira.

Déjà vu… sim, porque algo semelhante encontrei na Sociedade Teosófica de Adyar em Portugal quando cheguei a ela no início dos anos 80 do século findado, onde o colectivo do Ramo Alvorada andava acalorado de “candeias às avessas” sem se entender acerca do Karma, se ele provoca ou não dor física e moral, e se alguém pode ter uma vida inteiramente isenta de dor? Discussões inúteis, infrutíferas que respondi conforme sabia. Após, a discussão amainou e aos poucos regressou-se ao miolo invés de catar as possíveis fissuras da casca. Nisso, agora também aqui entra o sobrenome Mavalankar sobre que direi algumas palavras.

Primeiro que tudo: não discuto a Palavra dos Mestres de Sabedoria e não me atrevo a pô-la em causa, acredito neles como a principal razão da minha vida, provas pessoais não me faltam mas ficam só para mim que são minhas, e com isso sei que uma aparente incongruência ou um talvez equívoco da parte dos Mestres seja afinal o meu equívoco, a minha incongruência. O que parece, pode não ser, e que pode não ser, pode parecer. Razão para H. P. Blavatsky afirmar aos do Círculo Interno da S. T. fundado por ela e H. Olcott em moldes budistas (dogma) e maçónicos (ritual): “Por mais absurda que vos pareça uma ordem dos Mestres, não hesiteis em cumpri-la!” No mesmo sentido, isso reafirmou o Professor Henrique José de Souza, sobretudo durante o período de 1924-1928, quando dirigiu Dhâranâ – Sociedade Mental-Espiritualista em Niterói, Brasil. Nunca o discípulo, ou tão-só o candidato a tal, de sentidos limitados, poderá perceber as intenções animando o pensamento superior de um Adepto Independente cujas alturíssimas mentais e tirocínio certeiro está sempre muito além do imediatismo dos factos aparentes, indo prever os lances do futuro conformando a eles o presente.

Pois bem, Damodar Karhâda (Karada) Mavalankar nasceu em Setembro de 1857 em Ahmedabad, no Gujarat indiano, numa família rica de casta hindu superior, brahmane. Sobre a sua morte, a última notícia que se sabe dele é ter partido para os Himalaias em 1885 em busca dos Mestres de Sabedoria, desaparecendo para sempre nas entranhas do mistério. Em 1879 conheceu Helena P. Blavatsky e Henry S. Olcott em Bombaim, e ficou de tal modo fascinado pelos ensinamentos teosóficos que se afiliou à Sociedade Teosófica desistindo da sua casta em 1880, abraçando o budismo quando estava no Sri Lanka junto com o casal fundador da S. T. Essas suas atitudes e cortes radicais com a ortodoxia hindu familiar geraram conflito insanável com esta, sobretudo com o seu avô, o seu pai e o seu sogro que adiantara uma renda de 50.000 rupias como dote de casamento (combinado entre os progenitores masculinos) da sua filha ainda de tenra idade com ele. Damodar desistiu da herança, da segurança familiar e acabou deserdado, indo definitivamente viver e trabalhar com os fundadores da S. T. até ao momento de partir para o Tibete onde desapareceu misteriosamente (in Henry S. Olcott, Folhas de um Velho Diário – História Autêntica da Sociedade Teosófica, vol. II, 1900).

O episódio da deserdação familiar aparece igualmente num outro personagem que alguns confundem com Damodar, a ponto dos Adeptos também o apodarem nas suas Cartas, escritas em inglês, The Disinherited, “O Deserdado”. Refiro-me a Djwal Khul, dito o Tibetano. O Mahatma Koot Hoomi Lal Sing, brahmane de Cachemira, escreveu na Carta nº VIII datada de cerca de 20 de Fevereiro de 1881, recebida por Madame Blavatsky mas endereçada a Douglas Hume, que viria a preterir a Teosofia pelo mediunismo espiritista: “E agora, passemos a assuntos mais importantes. O tempo é precioso e os materiais (de que me sirvo para escrever) ainda mais. Sendo agora a “precipitação” proibida no que lhe respeita, a falta de tinta e papel não tem mais hipóteses de ser superada por tamasha, e estando muito longe de minha residência, em lugar onde uma papelaria é menos necessária que o ar respirável, a nossa correspondência ameaça cessar bruscamente, a menos que utilize judiciosamente a reserva que disponho. Um amigo prometeu fornecer-me, em caso de grande necessidade, algumas folhas separadas, relíquias do testamento de seu avô, no qual este o deserdou, fazendo assim a sua “fortuna”. Mas como nunca escreveu uma linha, salvo uma vez, declarou ele, nestes últimos onze anos…” o que não confere com Damodar e sim com Djwal Khul, que nessa mesma carta escreve uma curta nota assinando o Deserdado. Por seu turno, Damodar mantinha uma relação epistolar intensa com William Q. Judge, de que transcrevo trecho da sua carta endereçada àquele datada de 24 de Janeiro de 1880, descrevendo a sua apreciação de H. P. Blavatsky e a sua deslocação em corpo astral ao interior do Templo de seu Mestre:

“Sei que Madame Blavatsky, que eu venero como minha Guru, estimo como minha benfeitora e amo mais que uma mãe, e outros cuja simples recordação dá ao meu coração uma emoção que me faz tremer de veneração, faz-me favores de que não tenho o menor merecimento… Cerca de um mês depois de eu aderir à Sociedade, ouvi uma voz interior que me sussurrava que Madame Blavatsky não é o que descrevem ser… Eu penso que seja algum grande Adepto indiano que tomou essa forma ilusória.

“O Irmão ∴ ordenou-me para segui-lo. Após uma curta distância de meia milha, nós entrámos por uma passagem subterrânea natural que fica sob o Himalaia. O caminho é muito perigoso. Há um caminho natural que discorre por baixo do Rio Indo com toda a sua fúria. Somente uma pessoa de cada vez pode passar por ele, e um passo em falso marca o destino do viajante. Acima do caminho há vários vales a serem cruzados. Depois de andar uma distância considerável por esta passagem subterrânea, surge uma planície aberta em L—K. Há aí uma grande construção maciça com milhares de anos. Em frente dela um enorme Tau egípcio. O edifício apoia-se em sete grandes pilares em forma de pirâmides. A porta de entrada tem um grande arco triangular. No interior há vários compartimentos. O edifício é tão grande que eu penso que possa conter 20.000 pessoas. Foram-me mostrados alguns dos compartimentos. Este é a principal localização central onde todos os da nossa secção que foram preparados para a Iniciação nos Mistérios têm de ir para a cerimónia final, e ali permanecer durante o período requerido para isso. Eu entrei com o meu Guru no enorme salão. A grandiosidade e a serenidade do lugar é o suficiente para impressionar alguém, impondo-lhe respeito. A beleza do Altar que está na parte central e no qual cada candidato toma os seus votos no momento da sua Iniciação, certamente deslumbra o mais brilhante dos olhares. O esplendor do Trono do Senhor é incomparável. Todas as coisas estão estabelecidas num princípio geométrico e contendo vários símbolos que são explicados somente aos Iniciados. Mas não posso falar mais, agora que eu fiquei com a obrigação de Segredo que ∴ me fez tomar.”

Damodar voltava frequentemente ao assunto dos Adeptos, “porque é o único assunto em que estou interessado”, discorrendo longamente sobre eles mas sem admitir entusiasmos que o colocassem fora da sua discrição e devoção natural. Ainda em carta a W. Judge, conta a visita que lhe fez o seu Mestre em Maio de 1880, quando estava no Ceilão em companhia de Blavatsky e Olcott, tendo se instalado numa pousada onde havia lugar apenas para duas pessoas, tendo ele ficado na poltrona da sala de jantar. Mal se acomodara, ouviu uma batida leve na porta:

“Eu abri-a, e que grande alegria senti quando vi ∴ novamente! Num sussurro muito baixo, ele ordenou-me que me vestisse e o seguisse. Defronte à porta dos fundos da pousada está o mar. Eu seguiu-o, como me ordenou. Ele levou-me pela porta dos fundos da residência e andámos cerca de três quartos de hora pela beira do mar. Então nos dirigimos em direcção ao mar. Tudo à volta era água, mas por onde caminhávamos estava bem seco. Ele caminhava na frente e eu seguia-o. Assim andámos cerca de sete minutos, quando chegámos a um local que parecia uma pequena ilha. (…) Lá, num pequeno jardim em frente, encontrámos um dos Irmãos sentado. Eu o havia visto antes na Sala do Conselho, e é a ele que esse lugar pertence. ∴ sentou-se próximo dele e eu fiquei em pé defronte deles. Estivemos lá cerca de meia hora. (…) O Mestre desse lugar, cujo nome não sei, colocou a sua abençoada mão sobre a minha cabeça, e ∴ e eu viemos embora. Regressámos até perto da pousada onde eu iria dormir, e de imediato ele desapareceu subitamente.”

Esse Mestre de Damodar era o próprio Koot Hoomi Lal Sing, o mesmo de Djwal Khul, como aparece descrito nas Cartas de H. P. Blavatsky a A. P. Sinnett e ainda no volume III das Folhas de um Velho Dário, de H. Olcott, que inclusive dá a descrição física de Djwal Khul acrescentando que não era tibetano e sim hindu (tibetano será mais por adopção do lugar onde viveu e não do país onde nasceu) como o seu Mestre:

“Depois de esperar um pouco, ouvimos e vimos um Hindu de estatura alta aproximando-se pelo lado da planície aberta. Chegou a uns quantos metros de nós e fez sinais a Damodar para ir até junto dele, o que ele fez. Disse-lhe que o Mestre se apresentaria dentro de poucos minutos e que tinha alguns assuntos a tratar com Damodar. Era um aluno do Mestre K. H. Finalmente vimos chegar o Mestre proveniente da mesma direcção, passando junto ao seu aluno que se havia retirado para pouca distância. (…) Mais tarde, antes de deitar-me, encontrava-me na minha tenda de campanha quando o aluno, antes mencionado, de K. H. levantando a cortina da porta fez-me sinais para que eu saísse da tenda, apontando com o dedo para o Mestre que encontrava do lado de fora, esperando por mim debaixo da luz das estrelas.”

Adiantando: “Já encontrei o artigo que a Sociedade Teosófica publicou na sua revista narrando esse encontro, e por duas vezes estipula que o discípulo que acompanhou o Mahatma Kuthumi era efectivamente Djwal Khul: “O Mestre estava sendo acompanhado em pessoa pelo Irmão Djwal Khul” (p. 22); “O mensageiro de que falam era Djwal Khul” (p. 30)”. – In revista The Theosophist, Vol. V, n.º 351, 1883, artigo transcrito em The Blavatsky Collected Writings, Vol. VI, p. 21, 1883-1885.

Tem-se, pois, Damodar Mavalankar e Djwal Khul como duas personalidades distintas discípulas de um único Mestre. E duas personalidades distintas com dois factos iguais nas suas vidas, o de serem deserdados das respectivas famílias. Ambos da Corte de Arhats do Budismo do Norte – Mahayana – que cerceou Upasika (H.P.B.), onde Djwal Khul apoiou o despertar na infância espiritual de Damodar Mavalankar, servindo-lhe assim como prolongamento do Mestre e como Mestre ou Tutor, no que se sabe que a vida do discípulo reproduz sempre, ao seu nível, os principais lances daquela corporal do Mestre. Esta poderá muito bem ser a explicação iniciática para o deserdo familiar sofrido por ambos. Sabe-se que o discípulo quando se idêntica ao Mestre adopta tanto os seus hábitos como até os seus traços psicológicos e fisionómicos, sofrendo uma autêntica transformação interior e exterior. É natural, pois, que ele venha a reproduzir nos lances de sua vida os principais daquela do Mestre.

Por fim, o sobrenome Mavalankar, tanto para Damodar que assina com o nome inteiro a Carta 142 b do Mestre K. H. que o incumbira de o representar, como para Djwal Khul, cujo nome aparece por inteiro na Carta n.º XXXVII recebida em Allahabad, Janeiro de 1882, após assinar “O Deserdado”: “Se deseja escrever-lhe, se bem que não possa escrever por si mesmo, o Mestre receberá com prazer as suas cartas (as de A. P. Sinnett). Pode fazê-lo por intermédio de D. K. Mavalankar”. Algumas outras cartas também são assim assinadas, como a Carta n.º CXXV, “Djwal Khul M. XXX”.

Além dos laços espirituais entre Damodar e Djwal, que poderá explicar a adopção do sobrenome familiar Mavalankar do primeiro pelo último, não fica nisso o significado mais importante do termo, e para entendê-lo no sentido iniciático devo recorrer aos comparativos filológicos sânscritos: tem-se Mava e Lankar presentes em Mavalankar, sendo que Mava deriva de Maula provindo do radical Mûla, designativo de “Raça Pura”, Superior, Jina ou Jinashastra, moradora em Lankar ou Lanka, ilha do Ceilão que a Bhagavata Purana diz ser o primitivo cume do Monte Meru, a Montanha Primordial onde se formou a Raça dos Puros ou Bhante-Jauls, Irmãos de Pureza. Nisto, aparece Mauna, derivada de Muni, significando a “condição do Muni”, o Sábio, sendo que Mauna-Vrata é literalmente o “voto de silêncio do Muni”, enquanto Maunim é “o silencioso, o asceta ou retirado que pratica o silêncio”.

E retirado do palco do mundo profano foi Damodar Karhâda Mavalankar, místico abnegado da Causa dos Mestres de Sabedoria que desapareceu nas entranhas do Tibete, tal como o explorador inglês Percy Fawcett desapareceu misteriosamente no sertão brasileiro em busca da Cidade dos Deuses, desaparecimentos que interrogam severos os conhecimentos humanos do mundo que se crê de todo conhecido e, mais que isso, garantindo que a Fraternidade dos Santos e Sábios existe, só faltando ao comum das gentes saber o caminho para ela após conquistar os méritos por seus próprios esforços para chegar ao diapasão igual do Eldorado, a Shangri-La dos mais doces e esperançosos sonhos da Humanidade.

O Giro do Círio dos Saloios (Senhora da Pedra de Mua) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Ago 23 2017 

Hoje[1], Dia de Portugal, que é dizer do início da Portugalidade no Mundo como País soberano cerca de 500 anos á dianteira dos demais europeus, que estruturados em feudos com os seus duques e condes isentavam-se de um poder central, é, pois, neste velhinho rectângulo pátrio que irrompe a diáspora da fé, do saber e das armas assinaladas, inicialmente a todas as partes da Europa, e depois às do Mundo. Ser português é uma maneira de estar, de sentir, pensar e ser… sempre duvidoso das suas capacidades reais de realizar e, anacronicamente, sempre ansioso de as realizar.

Em um aspecto particular isso mesmo regista-se no saloio, etnia arábica provinda de Saleh, cidade marítima da Mauritânia, nos finais do século VIII para estas bandas ocidentais da Europa, depressa miscenizando-se aos cristãos submetidos ao jugo árabe ocupante, pelo que em breve eles mesmos se tornariam moçárabes, “como que árabes”, desde logo mal vistos pelos de puro sangue árabe, não corrompido pela mistura ao de outras etnias consideradas inferiores, assim remetidos ao desprezo das fainas mais humildes, contudo essenciais à vida, do cultivo dos campos arredores das grandes urbes estremenhas, particularmente de Lisboa.  De maneira que ao natural de Saleh deverá depois a sua origem o “homem do campo”, o saloio.

A origem da designação saloio tem sido motivo de estudo desde há largo tempo. Apesar de eu considerar a sua marginalização fora dos muros das urbes ainda durante o período árabe, o Padre Rafael Bluteau remonta a sua origem aos tempos de D. Afonso Henriques: “(…) deixando el-Rei Dom Afonso Henriques ficar no termo de Lisboa os Mouros, em suas fazendas, e lugares (…), a estes chamaram Saloios ou Çaloyos, que quer dizer gente de Çalaa, e daquela seita de Mouros”[2].

Já Frei João de Sousa[3] associa a denominação saloio a três significados distintos, todos eles com origem árabe: (1) Çala – Salah, que significa “oração, deprecação”, por derivação do verbo sálla, “orar, rezar, deprecar”; (2) Çalá Ben Çala – Saléh Ben Saléh, nome próprio que significa “o justo” ou “filho do justo”, por derivação do verbo Saleha, de “ser justo, perfeito ou completo”; (3) Çaloyo – Çalauio, referente ao “Çalatino, homem natural de Çalé, cidade marítima da Mauritânia, donde creio que se deriva o dito nome em razão de alguns dos seus habitantes terem vindo talvez povoar os subúrbios de Lisboa”.

Nisso, David Lopes[4] considera que o termo saloio deriva de Çala, no sentido atribuído por frei João de Sousa (“oração, seita de mouros”) ou de Salé, e introduz a referência ao pão cozido, considerando que o vocábulo çalaio era o “tributo que se pagava do pão cozido na cidade e Patriarcado de Lisboa. (…) Ainda hoje, como é sabido, se vende pão saloio pela cidade, trazida a ela em burros e dentro de alforges. Çalaio é, cremos, a mesma palavra que saloio, mas romanizada”[5].

Devo informar que o nome moçárabe, aliás escrito na forma plural, aparece pela primeira vez no foral que Afonso VI (1101) concedeu à cidade de Toledo, onde o monarca refere os súbditos quos vulgo mozarabes vocitant, de onde se infere que o nome carecia de uso nas instituições culturais e jurídicas[6]. Essencialmente, como já disse, o moçárabe é o “como que árabe”, ou seja, o árabe miscenizado ao cristão e o cristão inserido e subordinado à estrutura social muçulmana, excepto na religião, ainda que a Cruz e o Crescente em muito se identifiquem através dele[7].

Durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, o Estado islâmico limitou a propagação judaica e cristã a guetos ou lugares de delimitação fixa. Assim, a paróquia é o gueto dos cristãos, como a alfama ou aljama é o asilo ou gueto dos judeus (e após a Reconquista cristã criar-se-ia, imitando o modelo islâmico, o gueto da moirama, isto é, a mouraria), com a diferença de que a paróquia – nome gótico – se designa, no direito muçulmano, por al-kenîssah, ou kulicia. Al-kenîssah não é apenas um templo, nem uma capela, nem uma ermida no monte. É, mesmo na forma evolutiva da palavra (kenîssah, caniça, caneça), uma cabeça de assembleia cristã: a sede paroquial[8], que na cidade de Al-Usbuna (Lisboa) situava-se em São Cristóvão de Alfama que na época era Santa Maria de Alcamim, de “Entre-Hortas”[9].

O desenvolvimento da rede paroquial durante a Reconquista cristã alerta para a função da freguesia nas acções da conquista e da consolidação do domínio das caneças contra as assembleias mesquitais. Algumas dessas caneças feneceram, ocupadas pela moirama e logo transformadas em mesquitas e mesquitelas, enquanto outras vingaram durante os séculos de ocupação. Caneça, ou caneças, é uma igreja paroquial onde ocorrem semanalmente as populações circunvizinhas, as populações desse gueto cristão tornado mais importante em regime de hábito disperso, como sucedia em toda a região da Estremadura, mormente nas terras saloias de Loures, Mafra, Sintra e Cascais, as quais se estendiam etnologicamente, por um lado, até Torres Vedras[10], inclusive registando-se vestígios da cultura saloia em Óbidos; por outro lado, ia até à região sadina de Setúbal, Arrábida, Sesimbra e Espichel[11].

Dentro da caneça o moçárabe é cidadão de pleno direito, freguês, felgrês, feligrês ou filius Ecclesia, “filho da Igreja” (donde a freguesia ser extensão da paróquia, tal qual, numa sociedade tradicional, o Poder Temporal é justificado e confirmado pela Autoridade Espiritual), mesmo que a mulher sirva de lavadeira ao califa.

O modelo jurídico islâmico, por sua perfeição aristotélica, serviria de inspiração ao senado latino dos cristãos, reformulado por D. João I mas cuja origem recuará a D. Afonso II. O senado islâmico era a shari’a, o tribunal no qual o cadi ou juiz actuava como representante do califa. Por via de regra, era um muçulmano do sexo masculino, de bom carácter e comprovado saber. Embora a sua jurisdição abrangesse ao mesmo tempo a lei civil e a lei penal, na prática o Estado encarregava-se da maior parte da última. Ora, era exactamente isso que o senado latino fazia: mantinha a lei civil e só aplicava a penal após ordens expressas do Estado vigente[12].

Com tudo isso, premissas indispensáveis ao entendimento da génese do Círio dos Saloios à Virgem de Mu ou Espichel, tema que aqui me traz, pretendo agora afirmar que, com a maior das possibilidades, tal Círio Votivo ou Giro seria já cardápio do devocional do saloio moçárabe no tempo da ocupação árabe, cuja lei era permissiva e não repressiva da fé cristã submetida, desde que a mesma não se convertesse em política anti-estatal subversiva. Ficar-se pela fé, respeitava-se; extravasar-se para a política, reprimia-se[13].

Tanto assim é que não raros autores de obras consignadas a leitura obrigatória nesta área historiográfica, como Frei Bernardo de Brito (in Monarquia Lusitana, Parte I, Livro IV) e Manuel de Faria e Sousa (in Europa Portuguesa, cap. I, IX), afirmam que a devoção a Nossa Senhora da Pedra de Mua, de Mu ou do Cabo é remotíssima e muitíssimo anterior a 1410 [14] e até mesma mesmo a 1215 [15] e 1275 [16], cujo primeiro registo documental consta na Chancelaria de D. Pedro I,  em sua carta régia de 14 de Abril de 1366: os lugares do Termo de Sesimbra “jazem em huu dos cabos do mundo e fora de todo o caminho salvo os que vaão em romeria a Sancta Maria do cabo”. 1414 é o ano em que D. João I doou ao Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, terrenos no sítio do Cabo Espichel para ele, devoto confesso de Nossa Senhora do Carmelo, dar ao povo Casa condigna à devoção da Virgem, sendo edificada a Ermida de Santa Maria da Pedra de Mua, vulgo Ermida da Memória, humilde resto de formato kaábico do antigo espaço carmelita do qual ainda sobejam as ruínas ao lado da actual basílica (1701-1707)[17]. A pequena ermida, mais sendo oratório de ermitão ou homem do deserto, como Santo Antão que lá está em azulejo fazendo o sinal de silêncio, foi restaurada em 1758, data dos seus painéis de azulejos que indicam ser esse o “próprio lugar onde a milagrosa imagem de Nossa Senhora do Cabo se manifestou aos venturosos velhos de Caparica e Alcabideche e em que primeiro foi venerada”, segundo Frei Bernardo de Brito.

Ermida da Memória, Cabo Espichel

Ora, o primitivo culto celta estremenho (Estremadura, Oestrymnia) à Grande Deusa-Mãe prolongou-se até ao período visigótico e depois moçárabe, já aqui na forma hagiográfica da Mãe Divina, fixando-se definitivamente, por via do Santo Condestável D. Fr. Nuno Álvares de Santa Maria, na popularização da romaria, giro ou bodo à Virgem Santíssima, esta mesma Santa Maria do Cabo, a Stella Maris inspirada no episódio bíblico protagonizado pelo Profeta Elias (I Reis, 18) onde aparece como “homem de fogo”, abrasado pelo amor de Deus, e que faz parte do imobiliário simbológico da Ordem do Carmelo, inclusive associando Espichel a novel Carmelo Lusitano, nisto corporificando a oração trecentista do Flos Carmeli (“Flor do Carmelo”):

Do Carmo a Flor
vide florida
do Céu esplendor.
Virgem fecunda,
singular,
Mãe sem par
de homem ignorada!
Ao Carmo vem dar
a tua ajuda,
Ó Estrela do Mar!

Foi grande a devoção popular ao Santo Condestável, devotadíssimo de Santa Maria do Cabo, a ponto da devoção feminina saloia ter-lhe dedicado várias danças e cantares mouriscos, chacóinas ou chaconas, de natureza apologética abertamente matricial, inclusive atribuindo-lhe o “poder de ressuscitar os mortos”, o que vai bem com igual atributo da Deusa-Mãe agora corporificada na pessoa do “Cavaleiro Santo”, do “Galaaz do Carmelo”, no dizer de Pinharanda Gomes, tanto mais que a Iniciação Cavaleiresca, Senhorial, é sinónima de Iniciação Mariana. Convém, sim, não confundir Cavalaria Espiritual com Cavalaria Militar. A propósito da Chacona do Condestável, de origem medieval, ela foi recolhida e integrada no reportório do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, que gentilmente cedeu-ma pela mão do seu presidente na ocasião, senhor José Henriqueta. Passo a descrevê-la[18]:

DANÇA: É somente dançada por mulheres. Tem a sua origem na Procissão ao Carmo de Lisboa, organizada em primeira mão pelo próprio D. Nuno Álvares Pereira. Para esta dança, tal como na judenga, era obrigatória a comparência, em caso de falta haveria castigo de multa.

MÚSICA: É baseada em quatro notas que procedem por graus unidos, sobre os quais se fazem muitas consonâncias e coplas sempre com a mesma volta.

LETRA (ortografia semi-medieval):

A CHACONA

Do Restelo a Sacavém
Nem ningola nem ninguém
Tem semelho ao Condestabre
Que le prouge e que le preze
Ho fazermos tanto bem.

E BEM E BEM

O rapaz das coberturas
Que mórre, e cahe pra tráz,
Já não vai à sepultura
Que outra vez, vive o rapaz:
E ho Conde le fizo o bem.

E BEM E BEM

Á filha de Joana estés
Que finou por non mamar
Ao do moinho do Cubo
Que finou por se afogar
Viventa o Conde também.

E BEM E BEM

O mal daquela alfayata
O gram dor de Lopo Afonso
Nos les chega aos corações
Que o Santo Conde los guarde:
Y todo por fazer bem.

E BEM E BEM

E bem Condestabre Santo
Cobrimos com nosso manto
Com nosso manto de Galés
Defendimentos dos males
E fagamos muito bem.

E BEM E BEM

É ainda a Arqueologia a comprovar quanto antigo é o culto à Grande Deusa-Mãe, independentemente dos nomes que adopte de acordo com a ciclicidade dos movimentos religiosos imperantes na mentalidade do tempo de dado espaço histórico, no Cabo Espichel, outrora conhecido dos cronistas gregos e árabes como Promontório Barbárico, e dos latinos como Capresicum Lugum, isto é, Cabo de Capris ou da Cabra[19].

Cabo Espichel, Sesimbra

Com efeito, as Lapas do Bugio e do Fumo, ambas de muito difícil acesso pela alcantilada escarpa costeira sesimbrense, forneceram descobertas surpreendentes dentre vário espólio eneolítico (c. 300 a.C.): junto à entrada da Lapa do Bugio encontrou-se um esqueleto cujo crânio fitava o mar, tendo sido intencionalmente desmembrado e os ossos serrados[20], o que sugere um tipo de ritual funerário isíaco, o que aliás indaga Manuel Joaquim Gandra[21]. Na outra Lapa do Fumo, encontraram-se mais ossadas humanas intencionalmente serradas, e cerâmica de fabrico demasiado esmerado para poder considerar-se de carácter meramente utilitário, campaniforme, argárica, com ornatos a cores, datável da Idade do Ferro e Medieval, designadamente do Período Muçulmano, este também representado por oitenta quirates (moedas) cunhados em Silves, que se verificou haverem sido lançados sobre as sepulturas de presumíveis homens santos (çalás ou “justos” nos cargos de mulâs (ملا) ou “mestres” na teologia e na lei maométicas) venerados pelo Islão[22]. Que terá o mulâ a ver com a mula com que no cabo Nossa Senhora subiu escarpa acima, segundo a lenda sagrada? Ou mesmo com essa outra mula (buraq, termo árabe familiar de baraqa, “bênção”) com que Mahometh subiu ao Céu? Haveria algum ponto de encontro entre o Islão xiita e o Cristianismo heterodoxo, onde a Virginis Aeternis, a mesma Marah corânica, seria o pólo comum?

A acrescer tudo isso, a existência de diversas pistas de dinossáurios, com maior realce nas escarpas da enseada da praia dos Lagosteiros, pretexto para as pegadas deixadas na Pedra de Mua pela burrinha (mula ou muar) que transportou a Senhora encosta acima[23], transpondo-se assim o óbvio geológico para a maior valia da aparição sobrenatural da Virgem, o que recata à finalidade consagratória desse mais um finis-terrae ou lugar sagrado. Assim quis o povo e assim está muito bem, na sua maneira simples e ingénua mas sincera de pensar e sentir o sobrenatural, insensível à discussão científica esclarecida mas sensível à simplicidade da fé iluminada pela graça da Virgem Mãe, a Stella Maris, o que reporta à devoção ao Divino Espírito Santo, soprando onde quer sobre o Oceano da Vida, por aqueles homens e mulheres que dados às fainas do mar caprichoso a Ele e a Ela tantas vezes recorrem nas horas de aflição, ou esses camponeses dependentes, também eles, das boas colheitas que os caprichos da Mãe-Natureza lhes concede. São motivos mais que suficientes para cultuar a Senhora do Cabo, Orago dos saloios que vivem da terra, mas também daqueles que vivem do rio e do mar.

É assim que nasce a fruição hagiográfica da aparição da Senhora da Mua, que os velhos contavam oralmente e que depois Frei Agostinho de Santa Maria transpôs literalmente ao seu Santuário Mariano (liv. II, tit. 72), tendo por personagem central o nauta irlandês S. Brandão, o que coloca o Cabo de Mu na rota marítima das “ilhas perdidas ou encantadas” de algum finado e mítico continente da Atlântida, aqui reachado[24] e até confirmado pelo achado da Tábua Árabe na Lapa 4 de Maio (dia do Senhor das Chagas), na Serra da Azóia, no ano 2000 pelos espeleólogos Rui Francisco e Miguel Amigo, na qual está escrita dois dois lados a Sura 39.ª do Alcorão, prometendo aos justos que “Ele (Allah) o introduzirá em jardins, abaixo dos quais correm os rios”[25].

A lenda sagrada contada por Frei Agostinho de Santa Maria, é a seguinte:

“[Cerca] de 1215 pouco mais ou menos […] uma nau em direitura a Lisboa, no fim de alguns dias estando já na altura de Lisboa, não longe da costa lhe anoiteceu, e sobreveio juntamente uma tão terrível tormenta, e com uma cerração tão obscura que todos se davam por perdidos. A cada instante julgavam tocar em um baixo ou despedaçar-se a nau naquela brava costa; porque além de serem (como estrangeiros) pouco versados nela com a obscuridade da noite, não sabiam onde estavam, nem ainda que o soubessem, lhes podia aproveitar pelo desmalado furor dos ventos, e braveza dos mares, que não deixavam que a nau obedecesse ao leme. Todos os que vinham nesta nau eram cristãos e católicos, como o eram então todos os Ingleses e entre eles vinha um Religioso Eremita de meu Patriarca S. Agostinho chamado Haildebrant (isto é, Brandão), que devia ser Capelão da nau, ou de um fidalgo, que também ali vinha, chamado D. Bartolomeu. Trazia este bom Religioso consigo uma Imagem de Nossa Senhora, com que tinha especial devoção […] a foi buscar no seu camarote para se recomendar a ela, e a pedir-lhe que lhe valesse, e a todos os mais que vinham na nau. Mas não a achou no lugar em que a trazia […]: começou a dar vozes ao céu para que lhe valesse naquele grande aperto, em que ele, e todos se achavam pedindo-lhe valesse: o mesmo fizeram os mais desamparando o governo da nau, pondo-se de joelhos em oração e pedindo com lágrimas a Nosso Senhor que lhes acudisse interpondo o socorro de sua Santíssima Mãe. Eis que de improviso viram em um alto uma grande luz, que no meio daquela escura noite lhe alumia a nau e a viram como o podiam fazer com a luz do Sol em um dia claro. Após isto sossegaram os mares, abrandaram as ondas e se amansaram os ventos, quando a nau à Lua em tranquila bonança. Entenderam por estes sinais ser do Céu aquela luz, e aquela maravilha e assim animados e seguros navegaram para ela, até que vendo-se junto da costa lançaram ferro e se deixaram estar surtos até amanhecer o dia dando muitas graças a Deus, que de tão evidente perigo os havia livrado. Notaram que a luz os guiara e o lugar onde aparecera, para que tanto que fosse claro o dia, irem saber o que aquilo era. Chegou a manhã e saindo a terra Haildebrant (Brandão) com alguns dos principais da nau e subindo ao lugar notado, em que tendo visto a luz, descobriram a mesma Imagem da Rainha dos Anjos que o Religioso Padre Haildebrant trazia no seu camarote e que lhe havia falado dela na ocasião da tormenta em que [a] buscava. Admirados todos de tão grande maravilha e agradecidos juntamente à Senhora pelo singular benefício que lhes fizera, não cessavam de dar graças a Deus e também a sua Mãe Santíssima. Consideravam que o achar-se a Santa Imagem em aquele lugar milagrosamente era mostrar-lhes que tinha feito eleição dele, e que ali queria ser venerada, e assim se resolveram a não a tirar daquele sítio, sendo o principal voto desta deliberação o do nosso Eremita Haildebrant (Brandão), de quem era a Santa Imagem. E para que ficasse decentemente naquele lugar, com esmolas que juntou dos companheiros, e com licença do Bispo de Lisboa, lhe edificou boa Ermida em o mesmo lugar, e junto a ela uma cela, ou aposento para si, e para D. Bartolomeu, que os quis acompanhar naquela solidão tão áspera […].”

Desconheço se São Brandão acaso seja o capitão de mar-e-guerra Sancho Brandão, da mesma época, pertencente à Marinha de Guerra da Ordem do Templo e que, segundo Assis Cintra baseado nos escritos do padre jesuíta Manuel Fialho, terá chegado numa expedição de reconhecimento à “Ilha Perdida do Mar do Ocidente”, apontada como o Brasil, notícia comunicada pelo Rei de Portugal ao Papa Clemente VI, em 12 de Fevereiro de 1343 [26]. Igualmente desconheço se Sancho Brandão acaso será São Brandão… Para todo o efeito, tem-se a navegação sobrenatural afim à via húmida da Alquimia – Macho/Fêmea, Fohat/Kundalini, Sol/Lua, aliás, estes últimos pintados em painéis laterais à entrada interior da Basílica do Cabo, conferindo-lhe carácter astrolátrico correlacionado ao tema da lenda sagrada: Cristo para o Sol e Maria para a Lua, mas também Maria como Lua vestida de Sol; a heterodoxia da leitura iconográfica inclusive é aconselhada pela legenda do azulejo junto ao altar-mar: “Ver o outro sentido além do aparente” – e que é a Arte Magna de Espírito Santo. Assim, há igualmente a crença na presença discreta da Ordem do Templo na divulgação inicial deste santo lugar marítimo do Cabo Espichel[27], desconheço se tal aconteceu, até ao momento não obtive provas disso apesar de saber que os Templários ocuparam vários lugares da margem sul, inclusive povoados dentro do Giro do Círio, mas se isso aconteceu significa que só depois interviu a Ordem do Carmo, encarregada da propagação e popularização da Hipertúlia, do culto miraculoso à Virgem, as Virgini Maris.

A publicação em Lisboa em 1707 do acontecimento milagroso de salvação dos marinheiros ingleses e posterior aparição inexplicável da imagem da Virgem no cimo do cabo, veio a dispô-lo no ciclo e no circuito hipertúlico justificado pelas aparições miraculosas da Virgem. Mais que isso, veio corroborar o que antes, em 1409-10, acontecera com uma velha saveira do Monte da Caparica (a Capa-Rica, tanto quanto a que depois se depôs sobre a imagem) e com um velho saloio de Alcabideche, vizinho de Sintra e freguês de Cascais, que sem se conhecerem tiveram uma visão idêntica: viram uma brilhante estrela levantada sobre o Mar (Stella Maris), ao longe, alumiando sobre o Cabo Espichel, lugar que Nossa Senhora lhes revelara em sonhos, advertindo-os que ali achariam a sua imagem, escondida desde há séculos numa fraga pelo próprio S. Brandão pelo ano de 1215, reinando D. Afonso II de Portugal, tendo a Virgem acrescentado que os devotos lhe deveriam prestar culto[28]. O romeiro saloio e a velha caparicana viriam a encontrar-se em romaria ao Cabo, e depois de aí orarem, ambos fizeram uma ermidinha de alecrim, arbusto saturnino que vegeta abundantemente no lugar, e dentro colocaram a pequena imagem da Virgem Mãe achada entre fragas.

Quererá isso dizer, além do sentido imediato do acontecimento maravilhoso e maravilhado, que terá sido por essa data de 1410 que o Condestável Santo – novel “São Malaquias” da Gesta de Avis, Siva ou do Espírito Santo, empático ao Carmelo, que em egípcio se diz Espichel, tornando este um Carmelo Lusitano em Cabo de “Fim do Mundo” (Finis Terrae), tema aglutinador e revelador do Genius Loci (Espírito do Lugar), para onde confluíram as três grandes religiões monoteístas afro-mediterrâneas (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo) – começou a interessar-se pela fé popular dos saloios e saveiros na Virgem do Cabo, e, com o amplo apoio do mesmo povo, acrescido do real e do religioso carmelita, seria iniciada em 1414 a construção da Ermida da Memória do Milagre aí ocorrido em 1215, possivelmente o ano em que o culto à Virgem Celeste assumiu definitivamente o modelo cristão, e possivelmente largado o primitivo de feições arábicas, antes, moçarábicas.

Ambos esses acontecimentos da salvação da nau de Brandão e da construção da Ermida da Memória, constam nas crónicas posteriores às visões sobrenaturais dessas duas pessoas anciãs, que é dizer, de juízo formado, e serviram para publicitar o privilégio da «descoberta» do Santuário eleito pela Senhora, isto é, o seu enquadramento no Cristianismo, ou melhor, a aceitação e oficialização pelas autoridades eclesiásticas do culto mariano realizado  aí pelo povo desde, quiçá, muito antes da Nacionalidade, como narra a primeira das três lendas (duas já estão narradas, a do nauta S. Brandão e a dos velhos romeiros de visão comum) do Cabo Espichel, cuja origem poderá remontar ao período moçárabe, mesmo tendo forte sabor carmelitano. Diz ela[29]:

“Conta a lenda que na venturosa noite em que a Virgem Mãe deu à luz o Menino Deus, a Serra da Arrábida foi coberta por um clarão extraordinário, que iluminou por completo o Promontório Barbárico (Cabo Espichel). Viu-se então uma enorme nuvem, cheia de resplendores, a qual, como se fora o Sol no seu declínio, foi cair nas águas revoltas do oceano (Stella Maris), onde se sumiu […].”

De volta a Frei Agostinho de Santa Maria, ele é o único autor a dispor a Virgem montada numa jumentinha ou burrinha subindo a escarpa do Espichel, o que remete para tradição claramente moçarábica. Diz[30]: “[…] afirmam que a Senhora aparecera na praia (dos Lagosteiros) que lhe fica embaixo da mesma penha, onde se edificou a Ermidinha, e que aparecera sobre sua jumentinha, e que esta subira pela rocha acima, e que ao subir ia firmando as mãos, e os pés na mesma rocha, deixando impressos nela os vestígios das mãos, e pés. […] De ser isto assim o afirmava a tradição dos que viram estes mesmos sinais, que hoje tem gastado, e consumido o tempo”, acrescentando que a ermida “se fundou no lugar aonde a Senhora parou, naquela liteirinha vivente que a levava”, e que a capela “desfez muitas vezes o tempo; mas a devoção dos que a servem, a reformou outras tantas vezes, apesar dos seus rigores”.

Segundo documentação reservada na Biblioteca Nacional de Lisboa, a oficialização do Círio Saloio do Termo ou do Bodo, constituído pelo Giro entre freguesias (inicialmente 30) da margem norte do Tejo, com deslocação anual e rotativa ao Santuário da Senhora do Cabo,  terá tido início cerca de 1430, “21 anos depois do aparecimento da milagrosa imagem”[31], presume-se por acordo tácito popular, tendo sido canonicamente organizado com o passar do tempo: a Bula Apostólica confirmada em 15 de Maio de 1585, aprovada por Provisão do Cardeal Arcebispo de Lisboa, em 19 de Setembro de 1697, estabelecia que não se criaria aos romeiros “algum impedimento em os caminhos ou passagens de mar aos carreiros, almocreves, barqueiros e mais pessoas que os servirem pelo meirinho dos clérigos ou outras justiças”. O ano de 1606 será o da instituição da Confraria de Nossa Senhora do Cabo, estando o seu compromisso datado de 1671, aquando os “Giros” já se efectuavam há largo tempo[32]. Foi pouco depois dessa última data que D. Pedro II, em 1701, mandou construir a Basílica de Santa Maria de Mua, com traço do Arquitecto real João Antunes, obra terminada em 1707 e de imediato se transladou para a Real Basílica a imagem primitiva da Senhora. Entre 1715 e 1794 edificaram-se as casas destinadas a alojar os romeiros, as hospedarias sobre arcaria com terreiro (arraial) anexo. Também D. João V, D. José I e D. João VI mandaram fazer importantes obras aí, sendo que o primeiro encomendou ao cenógrafo Lourenço da Cunha a pintura monumental do tecto, em arquitectura perspectivada retratando a Assunção; o segundo mandou refazer os altares laterais e repintar o tecto.

O Círio do Termo à Senhora de Mu inclusive chegou, cerca de 1849, pela pompa e aparato que a realeza lhe devotou, a ser chamado de Real Círio dos Saloios, e a a fama de que usufrui até hoje provém sobretudo da protecção que a Coroa lhe deu. Com efeito, a rainha D. Carlota Joaquina confeccionou o manto riquíssimo (Capa-rica – posta em analogia com o Véu ou Manto de Ísis) que revestiu a imagem da Virgem, tendo antes disso o rei D. José I e a rainha D. Maria I oferecido à Confraria do Cabo a bandeira com a imagem de Nossa Senhora bordada a ouro, bem como a monarca D. Maria Pia oferecido, em 1887, a bandeira que os “anjos” usaram no Círio desse ano.

O Círio Real dos Saloios ainda resplandecia de importância no último quartel do século XIX, em todas as freguesias do Termo por onde ele girava. Tal era acompanhado da maior assistência aos romeiros. É como diz Luís Chaves[33]: “Hia antigamente ao Sítio do Cabo no Círio do Termo ou dos Saloios, hum cirurgião da Caza-Real, por conta do Infantado, e levava uma Botica (Farmácia) volante para acudir aos Romeiros em cazo de necessidade”.

Círio é a grande vela de cera acesa benzida e sagrada pela devoção a Orago comum, no caso, Santa Maria do Cabo, expressiva do Espírito Santo vogando sobre o Oceano da Vida justificativo dos predicados de votivo e itinerante em itinerário praviamente demarcado pelo qual vai gradualmente identificando-se com o Divino até á absorção Nele no final da jornada, ou tão-só a Sua aclamação como Pater Majorem dos fregueses, os filius Ecclesiae, dispondo a freguesia como fiel de Maria, Mater Prima, Sua protectora e consoladora, no que o Espírito Santo é Nela.  No fundo, o Círio não deixa de ser peregrinação, e peregrinação é sempre, não importa se consciente ou inconscientemente, uma iniciação móvel, neste caso particularizada como iniciação mariana popularizada na etnia saloia, esta que, acaso, pode não se gostar à primeira, vai-se aprendendo a gostar… Hoje mesmo ela é a nata do povo, simples e rude mas sincero e bom, sempre acreditando nas boas intenções de “seus senhores”, esses “mandantes lá de Lixbôa” que, desgraçadamente, acabam esquecendo a palavra dada com muitíssima mais facilidade que a capacidade de hoje separar o rural do urbano. De maneira que ambos sofrem na mesma medida.

O Giro do Círio à Senhora da Pedra de Mua tinha como cabeça dele a Freguesia de Belas, onde os procuradores se reuniam impreterivelmente a 25 de Março de cada ano para prestar contas e realizar eleições para os novos cargos. O prior de Belas era o juiz executor e o de Barcarena o seu tesoureiro perpétuo. Como disse, inicialmente o Giro compunha-se de 30 Freguesias do Termo dos Saloios, mas após o 10.º Giro 4 delas resolveram abandoná-lo: Bucelas (1709), Unhos (1711), Arranhó (1716) e Mafra (1722), ficando as restantes 26, número que se mantém até hoje. A sua ordenação e a data em que iniciaram o Giro é a seguinte:

1 – S. Vicente de Alcabideche (1431)
2 – S. Romão de Carnaxide, hoje Linda-a-Velha (1432)
3 – S. Julião do Tojalinho, hoje Tojal (1433)
4 – S. Pedro de Penaferrim de Sintra (1434)
5 – Nossa Senhora da Misericórdia de Belas (1435)
6 – Santa Maria de Loures (1436)
7 – S. Lourenço de Carnide (1437)
8 – Nossa Senhora da Purificação de Bucelas (1438)
9 – S. Pedro de Barcarena (1439)
10 – S. Pedro de Lousa (1440)
11 – S. Silvestre de Unhos (1441)
12 – Santo Antão do Tojal (1442)
13 – Nossa Senhora da Purificação de Oeiras (1443)
14 – Nossa Senhora do Amparo de Benfica (1444)
15 – S. Domingos de Rana (1445)
16 – S. João das Lampas (1446)
17 – S. Lourenço do Arranhol, hoje Arranhó (1447)
18 – Nossa Senhora da Purificação de Montelavar (1448)
19 – Nossa Senhora de Belém de Rio de Mouro (1449)
20 – Nossa Senhora da Ajuda de Belém (1450)
21 – Ascensão e Ressurreição de Cascais (1451)
22 – Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas (1452)
23 – S. Martinho de Sintra (1453)
24 – Santo André de Mafra (1454)
25 – S. Pedro de Almargem do Bispo (1455)
26 – Santo Estêvão das Galés (1456)
27 – Nossa Senhora da Conceição da Igreja Nova (1457)
28 – S. João Degolado da Terrugem (1458)
29 – S. Saturnino de Fanhões (1459)
30 – Santa Maria e S. Miguel de Sintra (1460)

Nos primeiros tempos do Círio, a passagem de testemunho de uma freguesia do Giro a outra, era feita no próprio Santuário do Cabo e concretizada através da entrega da bandeira da Confraria pelo juiz da freguesia que saía ao juiz da freguesia que entrava. Saliente-se que tendo em conta o número de freguesias participantes no Giro (26), cada uma delas só festeja a Senhora do Cabo de 26 em 26 anos. No ano de 1751, essa bandeira foi substituída por uma imagem da Virgem feita à semelhança da original – que nunca saiu do Santuário – e a partir dessa data começou a acompanhar os Círios.

Círio de S. Vicente de Alcabideche em 1909

Inicialmente, a procissão do Círio organizava-se segundo uma coreografia de cortejo, que abria com um friso de anjos, seguindo-se a música e os carros enfeitados transportando os romeiros – o que se ajustava a um ludismo que, situado na transição do popular folclórico para o ritmo sagrado, orientava a função colectiva para os Mistérios Iniciáticos.

Em 1893 e devido à pouca afluência de romeiros ao Cabo, foi necessário tomar novo compromisso, onde se consignou que os festeiros se limitariam a levar a imagem peregrina de freguesia em freguesia sem deslocação ao Cabo Espichel, e só quando chegasse a vez da última freguesia do Giro – St.ª Maria e S. Miguel de Sintra – todas elas iriam em procissão ao Santuário de Mua e aí seria entregue a imagem aos festeiros da primeira freguesia – Alcabideche –, recomeçando assim um novo Ciclo ou Giro (o que se enquadra naquele princípio teosófico do Terceiro Logos Criador das Rondas e Cadeias dos Planos de Matéria e peregrinando por elas, evoluindo e fazendo evoluir os seus seres viventes). O facto é que, desde essa data, a imagem peregrina nunca mais voltou ao Cabo, verificando-se assim uma adulteração do ritual primitivo, por ela passar directamente de freguesia para freguesia após 26 anos de ausência. Foi também nessa altura que se perdeu o hábito dos procuradores dos vários Círios se reunirem em Belas, no já referido dia 25 de Março de cada ano, para aí serem prestadas as contas.

Em 1910 e logo a seguir à promulgação da lei separativa do Estado e da Igreja, foi assaltada a igreja-matriz de Alcabideche onde se encontrava a imagem peregrina, provocando-lhe vários danos. A este facto sucedeu um interregno de 15 anos nos festejos a Nossa Senhora do Cabo, que recomeçaram em 1926 com Odivelas a ser a primeira freguesia a reclamar a imagem tomando a iniciativa de a ir buscar à Ressurreição de Cascais, onde fora recolhida do vendaval jacobino anti-eclesiástico, de maneira que foi o Círio do Santíssimo de Odivelas quem suscitou a retoma do Giro.

Comissão de Festeiros de Odivelas e carro dos “anjos” defronte ao Mosteiro de S. Dinis e S. Bernardo (1926)

Depois disso as romarias continuaram, mas já destituídas da grande pompa que possuíam outrora, até que, mais uma vez, foram interrompidas desde 1976 a 1979.

Até finais do século XIX o Círio durava cinco dias[34]. Saía da freguesia que tinha a imagem da Senhora na terça-feira que antecedia a Ascensão (40 dias após a Páscoa: quinta-feira da Ascensão ou da Espiga), e ia depositá-la na Capela de Nossa Senhora das Dores, em Belém. No dia seguinte atravessava o Tejo, enquanto as fortalezas davam salvas de 21 tiros, desembarcando de galeotas e bergantins da Casa Real em Porto Brandão (que herda o nome do santo da lenda descrita pelo supradito Frei Agostinho de Santa Maria).

Uma vez em terra, o cortejo reorganizava-se, fazendo paragem na Capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Daí seguia para a Ermida de Nossa Senhora do Cabo na Banática e para a homónima da Caparica (Quinta da Piedade de Domingos da Costa e Almeida, antiga propriedade de meus familiares), seguindo para o Cabo Espichel pela beira-mar, ao longo do areal. Os romeiros costumavam chegar ao Cabo na véspera da Ascensão, entrando o cortejo no terreiro e dando três voltas a este antes de se dirigir para o interior da basílica.

Os festejos iniciavam-se nessa quinta-feira, dia consagrado, com missa de Requiem, aos festeiros falecidos. No sábado havia solenidade consagrada a S. Joaquim (aludido pai da Virgem Maria), e no domingo acontecia a festa que faziam os que entregavam a imagem de Nossa Senhora. Nesse dia, à tarde, realizava-se a procissão, na qual se incorporavam os festeiros dessa freguesia e da que ali a iam receber. Seguia-se-lhe a entrega da bandeira, no interior do santuário, com Te Deum, Ladainha e Sermão. Os festeiros que entregavam, mais o respectivo prior, o juiz com a bandeira e três anjos, todos se colocavam do lado direito do altar-mor, e os que recebiam, do lado esquerdo. O mestre de cerimónias, que era o prior do santuário, tirava a capa de asperges dos ombros do prior da freguesia que entregava, pondo–a nos do que acompanhava a que recebia. Ao entregarem o Círio, os festeiros passavam todos para o lado esquerdo do altar. Concretizada a entrega era-lhes oferecido um copo de água (tradição que teve início, segundo Ribeiro Guimarães[35], apenas em 1752), ao qual sucedia a entrega das alfaias, lavrando-se acta do sucedido, assinada por todos os presentes. Conservavam-se os festeiros no local até a segunda-feira seguinte, dia em que ocorria o regresso.

Depois da travessia do Tejo para Belém, iniciava-se a caminhada para o respectivo destino, para a freguesia de eleição do Giro. Abria uma força de cavalaria, de imediato o carro do Fogo, seguido pelos juízes com a bandeira e acompanhantes, mais os ternos de chamarelas e três anjos a cavalo, vestidos de soldados romanos. A imagem peregrina era conduzida na sua berlinda puxada por duas parelhas, ladeadas por doze devotos com as tochas acesas. Após ela, os carros triunfais dos anjos das loas (louvores), do padre, dos procuradores, uma galera que levava a música e o habitualmente longo cortejo com a multidão dos festeiros[36].

Berlinda processional da Senhora de Mua chegando a Odivelas vinda de Cascais (2003)

Houve oito freguesias que não foram abrangidas pelo compromisso seiscentista, as quais organizaram os seus próprios Círios a Nossa Senhora do Cabo Espichel[37]: Lisboa (terceiro domingo após o Espírito Santo), Seixal e Arrentela (2.ª oitava do Espírito Santo), Almada (domingo da Trindade), Palmela (15 de Agosto), Azeitão e Sesimbra (primeiro domingo de Setembro). Os Círios organizados na Costa da Caparica possuíam uma organização semelhante à do Giro das freguesias do Termo de Lisboa. A Freguesia era dividida em 4 Varas: 1.ª – Monte da Caparica (onde vivi nove meses e fiz a 1.ª classe da primária escolar, cuja igreja da Capa Rica guarda, como quer a lenda, um tesouro, encobrindo igualmente o segredo que lhe dá acesso – são observáveis dois retábulos azulejares os quais, significativamente, têm por tema o Dilúvio Universal) e Porto da Caparica (Porto Brandão, onde, também infante, ia morrendo afogado e sem ninguém próximo para dar a mão de socorro, contudo “força misteriosa” ou “mão de anjo caridoso” empurrou-me para terra seca. São coisas que não se esquecem…); 2.ª – Trafaria; 3.ª – Costa da Caparica; 4.ª – Sobreda, as quais se revezavam anualmente na organização do Círio e na manutenção da bandeira numa ermida própria até à festa seguinte[38].

Hoje, tudo mudou e muito. Os usos e costumes, sem dúvida. A fé, acaso não. Como também não as freguesias do Giro, e assim também o Santuário do Círio do Termo dos Saloios[39]. Ele lá está, sentinela solene, debruado sobre o Mar Atlântico lavrando as escarpas de Mu. Nada falta, em remate final, para devolver à solenidade litúrgica a pompa mais que justificada merecida de outrora, não faz muito tempo, e que era prova tamanha da unidade social portuguesa reunida em torno de uma única Fé, de uma única Mãe: Santa Maria dos Saloios, do Espichel, de todo o Portugal que é dele este dia[40].

Honra e Glória, pois, à Pátria amada que nos é berço, Portugal, e a todos quantos, no rolar dos séculos idos, por certo votando naqueles do porvir, fizeram as suas grandezas que tão bem e imortalmente a Musa de Camões soube cantar, cujo eco abrasa o coração e empolga a mente. Portugal das Armas, Portugal da Fé, Portugal das Letras, Portugal do Povo que não tem casta e que é todo o Português no Mundo da nossa Diáspora. Morrer a Ideia e a Pátria, jamais! Transformar e Evoluir a Ideia e a Pátria, sempre!

Com esta oração, tenho dito.

 

NOTAS

 

[1] Conferência pública, aqui revista e aumentada, que proferi em 10 de Junho de 2003, no anfiteatro da antiga cisterna da cidadela militar de Cascais, perante as autoridades religiosas, militares e civis, além de vasto povo, por ocasião da chegada aí do Círio Real dos Saloios devotos da Virgem do Cabo Espichel, com a posterior ida para a paróquia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, sede de concelho.

[2] Raphael Bluteau, Vocabulario Portuguez e Latino. Coimbra, 1712.

[3] Frei João de Sousa, Vestigios da Lingoa Arabica em Portugal, ou Lexicon etymologico das palavras, e nomes portuguezes, que tem origem arábica. Lisboa, 1830.

[4] David Lopes, Cousas arábico-portuguesas: algumas etimologias. In Boletim da Segunda Classe da Academia das Ciências de Lisboa, 1917.

[5] Cf. Ana Lúcia Rodrigues Fernandes Vaz, A identidade e o património imaterial saloio: contributos para a criação de uma oferta turística sustentável. O caso do concelho de Mafra. Instituto Politécnico de Leiria – Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, Setembro 2015.

[6] Alexandre Herculano, Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, 84. Obra publicada em quatro secções pela Academia das Ciências de Lisboa entre 1856 e 1917.

[7] Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.

[8] Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

[9] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Sagrada e Profana. Euedito, Lisboa, 2016.

[10] Carlos Guardado da Silva, A estruturação e o povoamento da defesa na Estremadura Islâmica: elementos para o seu estudo. In Turres Veteras V: História Militar e da Guerra. Edição Câmara Municipal de Torres Vedras, 2003.

[11] Francisco Keil do Amaral, O Santuário de Nossa Senhora do Cabo no Espichel. Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1964.

[12] Augusto Vieira da Silva, Dispersos, volume I. Lisboa, 1968.

[13] A repressão aos cristãos moçárabes de Lisboa e a sua consequente chacina, a ponto de poucos vestígios da sua presença na cidade sobreviverem até hoje, deve-se anacronicamente aos cruzados cristãos que conquistaram a urbe e cujos legados papais depressa impuseram à força o direito da lei romana ao direito da lei hispânica. Com efeito, depois da conquista da cidade em 1147 pelas forças chefiadas por D. Afonso Henriques, houveram quezílias entre os católicos romanos e os cristãos moçárabes, talvez o mais grave a posse do senhorio da paróquia de S. Cristóvão, sinal da sua grande importância já na época, vindo o rito romano impor-se ao rito hispânico que aos poucos feneceu até desaparecer completamente. Mesmo assim, permanece a memória, pouco ou nada apercebida, da incorporação moçarábica do santoral arábico que passou ao romano, como seja exemplo a figura do próprio Cristóvão identificado àquela do Kadir por via Miracula (literatura hagiográfica relacionada ao culto histórico), sendo o principal pomo da discórdia histórica e teológica, inclusive litúrgica, entre moçárabes e católicos. Kadir é identificado pelos árabes como um dos companheiros de Moisés, dando a este o nome de Beliah Ibne Fáligue ou Ibne Nuh (Noé), indo encarnar um esoterismo islâmico onde se compreendem ou sintetizam tradições hebraicas relativas ao Patriarca Elias e ao Arcanjo S. Miguel, este o assistente da Sinagoga (Mikael) mas também da Mesquita (Mirrail), que como assistente da Igreja é Miguel. Segundo a lenda sagrada, Kadir terá descoberto a Fonte da Vida Eterna e bebido dela, pelo que não morreu e ainda é vivo, estando em parte incógnita aguardando o momento de ressurgir entre os fiéis. Se Kadir conduz o povo eleito a terra salva do Dilúvio Universal, por sua vez o gigante Cristóvão ou Christoferens é o que “carrega o Cristo” Menino, conduzindo-o a salvo através das águas caudalosas de um vau furioso à outra margem, lenda piedosa indicadora da fé que resiste a todos os caudais de descrença e mantém incólume a Igreja no caminho dos séculos. Por isto, tal como Kadir foi o condutor do seu povo, também Cristóvão é o padroeiro dos peregrinos e viajantes.

[14] Francisco Ildefonso dos Santos, Memórias sobre a Antiguidade das Romarias, e Romaria ao sítio de Nossa Senhora do Cabo. BNL, Ms. 98 da Colecção Pombalina, 1854-1857.

[15] Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, volume II, Lisboa, 1874. Raposo Botelho, Nossa Senhora do Cabo – Resumo Histórico, Lisboa, 1928.

[16] BNL, manuscrito 74, 1585, Apparições de Nossa Senhora da Luz, do Cabo Espichel, etc.

[17] INTT, Chancelaria de D. Afonso V, Livro 24, fl. 40-40v.

[18] Vitor Manuel Adrião, Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993. Vitor Manuel Adrião, Frielas (Memorial Histórico). Edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas, 1996.

[19] Vitor Manuel Adrião, Os trilhos da História Sadina. Revista Cidades, S. Pedro do Estoril, 1988.

[20] Agostinho F. Isidoro, A Lapa do Bugio (Necrópole pré-histórica da Azoia). Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. XIX, fasc. 1, Porto, 1963. José Luís Cardoso, A Lapa do Bugio. In Setúbal Arqueológico, vol. 9-10, pp. 82-225, 1992.

[21] Manuel Joaquim Gandra, Os Círios ou aspectos da Grande Deusa na Estremadura. In Comunicações, publicadas pela Câmara Municipal de Loures, das Jornadas sobre Cultura Saloia – 2 e 3 de Dezembro de 1994.

[22] Eduardo da Cunha Serrão, Cerâmica pré-histórica da Lapa do Fumo – Sesimbra – com ornatos coloridos e brunidos. In Zephyrus, 9, n.º 2, pp. 177-186, 1958.

[23] Miguel Telles Antunes, Dinossáurios Eocretácios de Lagosteiros. Lisboa, 1976.

[24] W. Scott-Elliot, Lendas da Atlântida e Lemúria. Madras Editora, São Paulo, 2002.

[25] Vd. Nova Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra. Edição Câmara Municipal de Cascais, 2011.

[26] St. Brendan´s Search for Paradise. In A brief history of the European Myth of the Garden. Press American Studies and the University of Virginia, 2001.

[27] Maria Clara de Almeida Lucas, A literatura visionária na Idade Média portuguesa. Biblioteca Breve, vol. 105, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1.ª edição – 1986.

[28] J. Raposo Botelho, Nossa Senhora do Cabo (Resumo Histórico), pp. 8-9. Sintra, 1928.

[29] J. Raposo Botelho, ob. cit., pp. 6-7.

[30] Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, t. 2, liv. II, tit. 34, pp. 348-353. Lisboa, 1707.

[31] BNL, Memórias, cod. Pombalina 98.

[32] Francisco Sousa, O Círio dos Saloios a Nossa Senhora do Cabo. In Aspectos Religiosos e Profanos das Festas Populares em Loures, edição do Museu Municipal de Loures, 1993.

[33] Luís Chaves, O Archeologo Portuguez, 21, 70 – 1916.

[34] Manuel Joaquim Gandra, ob. cit.

[35] Ribeiro Guimarães, Summario de Varia Historia. Lisboa, 1872.

[36] Olegário Paz, Loas a Nossa Senhora. In Jornal de Sintra, 12 de Setembro de 1986. Pinharanda Gomes, O Carmo em Loures. Edição da Comunidade Paroquial de Santo António dos Cavaleiros, Loures – 1979. O Trabalho e as Tradições Religiosas no Distrito de Lisboa. Exposição de Etnografia, Governo Civil de Lisboa – 1991.

[37] Frei Cláudio da Conceição, Memórias Prodigiosas de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa, 1817.

[38] Conde dos Arcos, Caparica através dos séculos. Cacilhas, 1974.

[39] Diogo Francisco da Piedade e Costa, História de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa, 1899.

[40] Tanto o Círio à Senhora de Mu – secundado por aquele à Virgem Negra da Nazaré – como a Festa Popular do Império do Divino Espírito Santo, não deixam de ter a influência secreta da pouca ou nada conhecida, pouco importa, Ordem de Mariz, para todo o efeito, bojo da Portugalidade no Mundo dando a este as sementes do seu Futuro que se deseja promissor.

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