Alcobaça e o Milagre de Cister – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Ago 18 2021 

Milagre que é a própria Abadia Real de Santa Maria de Alcobaça, já de si nascida da promessa do primeiro rei de Portugal ao abade de Claraval se conquistasse a poderosa Santarém ao agareno, o que ele confirmou ao ter uma visão do acontecimento na floresta de Citeaux, indo anteceder a certeza da vitória cristã das armas portucalenses.

D. Afonso Henriques cumpriu a promessa feita ao abade de Claraval, São Bernardo de Fontaine, borgonhês dijoniense seu primo direito por parte de seu pai, o conde D. Henrique, que nascera em Dijon em 1066, sendo o quarto filho dos duques Henrique e Sibila, regentes da Borgonha Baixa[1].

A poderosa e rica Santarém agarena foi conquistada de surpresa, num assalto nocturno ao castelo, em 15 de Março de 1147, tendo D. Afonso Henriques contado com a força militar da Ordem do Templo que tomou a dianteira no ataque, como descreve De expugnatione Scalabis [2], ela já de si inteiramente ligada à pessoa de São Bernardo que lhes dera (1128) a Regra de Vida (De laudae novae militiae ad milites Templi), cimento da disciplina monástica e castrense dos cavaleiros. A vitória da conquista escalabina foi atribuída a Santa Maria pelo próprio santo de Claraval, ela a Padroeira da Iniciação Senhorial ou Cavaleiresca. Logo os templários instalaram-se na cidadela ou alcáçova – al-qasbah – indo fundar, em 1154, a igreja-colegiada de Santa Maria da Alcáçova, por iniciativa do seu Mestre D. Hugo Martins e promoção de D. Frei Pedro Arnaldo, eleito comendador de Santarém. Ela ficaria como igreja assistencial do primitivo paço real[3].

Nessa ocasião de 1147, o rei D. Afonso entregou todo o direito do Eclesiástico escalabitano à Ordem do Templo, em carta de doação descrita pelo cisterciense Frei António Brandão, historiógrafo do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça[4]:

“Em nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espírito Santo. Eu, D. Afonso, por graça de Deus, rei dos portugueses, começando minha jornada para o castelo, que se chama Santarém, propus em meu coração, e fiz voto, que Deus por sua misericórdia me concedia, lhe ofereceria todo o direito eclesiástico e aos cavaleiros e mais religiosos do Templo de Salomão, que residem em Jerusalém em defensão do Santo Sepulcro, alguns dos quais me acompanharam nesta empresa. E porque o Senhor me fez tão grande mercê que deduziu a próspero fim meu desejo, portanto eu, D. Afonso, sobredito rei, com minha mulher a rainha D. Mafalda, fazemos doação aos cavaleiros nomeados de todo o direito eclesiástico de Santarém, para que o tenham e possuam, assim eles como seus sucessores, para sempre, de modo que não se entremeta nele pessoa alguma secular nem eclesiástica.

“Feita esta escritura no mês de Abril da era de 1185 [1147 da era cristã].”

A mais-valia da posse do Eclesiástico de Santarém pela Ordem do Templo, na prática dando-lhe domínio total da riquíssima região, desagradou às ambições do recém-nomeado bispo de Lisboa, Gilbert Hastings, inglês que acompanhara os cruzados na conquista da velha Olisipo, provocando um pleito entre o Templo e a Diocese olisiponense que se arrastou até 1159, quando o monarca interviu com a força da diplomacia conseguindo que os templários desistissem a favor do bispo de Lisboa e em troca recebendo toda a região de Ceras/Tomar[5].

Ciente da sua promessa feita a Claraval, D. Afonso Henriques ao passar pela Serra de Albardos, vindo de Coimbra para a tomada de Santarém, avistou do alto as terras vastas em baixo, logo decidindo que nelas iria mandar construir o mosteiro para os “monges brancos” de Cister, cor que os distinguia negra dos beneditinos. Faltava só escolher o local. É quando entra a lenda. Segundo Frei Bernardo de Brito na Crónica de Cister (Alcobaça, 1597), o rei português era de braço forte e arremessou uma seta ou talvez uma lança que foi cravar-se no vale abaixo, na Quiqueda (Chiqueda, Chequeda ou Chaqueda), no lugar do Vale da Ribeira do Mogo, vizinho da nascente do Rio Alcoa que nasce nessa serra. Logo D. Afonso decretou: Aqui queda (“aqui fica”), decidindo que aí seria implantado o edifício. Fizeram-se as medições do terreno e gizaram-se os caboucos, mas logo durante a noite os Anjos alteraram tudo indo dar preferência ao espaço a três quilómetros daí, respeitando-se a sua vontade.

Possivelmente o forte braço de D. Afonso Henriques seria antes a braça feita manualmente, e a seta/lança a vara de medição, cuja unidade de medida linear seria o antigo pé real (“pied du roi”), como princípio metodológico da construção, no que não deixa de remeter para os princípios da geomancia e da geometria manual ou a praticada “a olho”. Para isso, o monarca terá recorrido ao auxílio dos monges cistercienses de São João Batista de ‘Vellaria’, em Tarouca (distrito de Viseu), que aí tiveram a sua primeira casa, primeiro como eremitério beneditino (1140) e depois cisterciense (1144), tendo a Ordem de Cister sido fundada em Citeaux (1098), vindo a ser trasladado para junto do Rio Varosa como mosteiro cisterciense a partir de 1152, dependente da Abadia de Claraval que para aí enviou um grupo de monges franceses a fim de reformar o antigo cenóbio tanto na doutrina como na arquitectura, dando-lhe a feição clássica bernardina[6]. Terão sido esses “anjos” ou liberi muratori (monges construtores) quem decidiu da impossibilidade de se construir no local escolhido pelo rei, preferindo o outro de Alcobaça.

Assim, em 8 de Abril de 1153, D. Afonso Henriques, por carta de couto, doou à Ordem de São Bernardo de Claraval vasto território de couto com a condição de se fundar um mosteiro de monges bernardos ou cistercienses no lugar de Alcobaça, promovendo o povoamento e o arroteamento das terras conquistadas aos mouros. Os doze religiosos de Claraval idos para aí, acompanhados de outros tantos vindos de São João de Tarouca, em 1157 já tinham erguido as instalações precárias de madeira da sua comunidade, a chamada Abadia Velha, Mosteiro Velho ou Santa Maria-a-Velha (actual igreja de Nossa Senhora da Conceição), ano esse em que o soberano os isentou do pagamento de portagem em todo o reino, privilégio acrescido, em 1164, da bula de isenção do poder episcopal, no que o seu superior, Dom Abade, se tornou a pessoa mais poderosa do reino logo a seguir ao rei.

Seguindo rigorosamente a planta da Abadia de Claraval, em 1178 começou a ser construído o edifício do mosteiro abacial definitivo – o Mosteiro Novo – apesar das incursões almóadas de 1184 e 1195, nisso os bernardos gozando da protecção dos cavaleiros templários. A vinda de mais religiosos franceses de Claraval permitiu concluir as obras do edifício, sendo habitável em 1222. A igreja foi concluída em 1223 e sagrada em 1252 [7]. Assim se edificou no país a primeira igreja mosteiral gótica, estilo de more nostro, “do nosso modo”, como já se pensava desde 1150 no seio de Cister, ou seja, de formas ogivais sinaléticas de ascese, de elevadas paredes alvas despidas com a luz reflectida nelas por vitrais, criando o ambiente ascético propício ao desprendimento, à meditação e contemplação, tudo dentro da estética da regula vitae no espírito bernardino, indo assim o gótico cisterciense sobrepor-se ao românico beneditino.

Por ocasião da doação do couto de Alcobaça, tendo o Cister alcobacense se tornado praticamente cabeça da Ordem em Portugal, D. Afonso Henriques recebeu não em Lisboa mas em Coimbra os primeiros cinco emissários franceses de São Bernardo, chefiados pelo monge Rolando ou Rolandus, “filios noster” no dizer do abade de Claraval, portador de uma carta daquele dando reconhecimento do estado real de Afonso, e os quais em 1154 já estariam no exercício de construtores[8]. Como diz Ernesto Korrodi[9], “não se limitou a Ordem a destacar homens, embora de vasto saber, sujeitos a recursos alheios; não vieram, tampouco, munidos de um simples plano esquemático com liberdade de edificar segundo os usos do país, conquanto dentro de rigorosas prescrições quanto a dimensões e localização das diversas dependências do seu estabelecimento.

“Eram eles mesmos em pessoa os arquitectos e condutores da obra, conhecedores dos variados misteres e processos de trabalho que se prendiam com a realização de uma construção de tamanho vulto. Se assim não fora, como explicar a existência em Portugal de uma obra tipicamente borgonhesa, desde os mais insignificantes pormenores arquitectónicos até ao tipo característico das cornijas, desde a estrutura geral até à forma gaulesa das elevadas coberturas, outrora munidas de telha de escama, sem tradição na Península?”

O que se disse até aqui está descrito em painéis de azulejos do século XVIII legendados – lidos da esquerda para a direita – com fonte na Crónica de Cister de Frei Bernardo de Brito, na Sala dos Reis deste mosteiro, assim descritos por Frei Maur de Cocheril[10]: “Voto de D. Afonso Henriques em fundar o mosteiro, caso conquistasse Santarém; São Bernardo toma milagrosamente conhecimento do projecto de D. Afonso Henriques e reza com os monges; cinco monges de Claraval encontram-se com o rei em Coimbra; o rei conquista Santarém; São Bernardo toma milagrosamente conhecimento da conquista; São Bernardo recebe uma carta do rei; os Anjos traçam e medem o mosteiro no céu e trasladam-no; o rei depõe a primeira pedra”.

Os princípios geomânticos que estiveram na base da escolha do local tiveram em linha de conta factores tão importantes como o encontro preciso, naquele local, dos rios Alcoa e Baça, formando aquilo que habitualmente se chama bifurcação cisterciense, característica da fundação de outros mosteiros na confluência de dois rios (como Tarouca, por exemplo). Este facto seria fundamental para garantir uma bacia irrigada e rica em água, necessária para o funcionamento da grande abadia; por outro lado, embora devam ter pesado imperativos estruturais, não deixa de ser curioso verificar a posição do claustro à esquerda do templo, como se se tratasse do espelhamento das fundações cistercienses francesas, e, de algum modo, o próprio espelhamento induzido pela milagrosa intercessão divina por intermédio dos Anjos[11].

Nos supraditos painéis de azulejos vêem-se os Anjos gizando e medindo no Céu as bases deste edifício, o que D. Afonso Henriques com os seus acólitos – monges construtores – imitam na Terra, na mais literal consumação do princípio hermético de “o que está em cima é como o que está em baixo”.

Tais Anjos serão os que possuem a Sabedoria Celeste ou Divina com os segredos da sua aplicação justa e perfeita na Terra, nisso sinónimos Mestres Construtores dessa primitiva Maçonaria Operativa nos evos da memória, igualmente apodada de Arte [Real] de Anjos, testemunho que se repete na sala ou gruta de fresco do Palácio Real de Sintra[12].

Filologicamente, é crença comum que da bifurcação dos rios Alcoa e Baça nasceu o topónimo Alcobaça. Poderá ser, mas atendendo-se a que Alcobaça provirá dos verbos aramaicos Al, “Espírito”, e Aku, “Santo”. Donde Alaku-Batha, em aramaico, e a sua variante Alku-Batza, significando “Templo do Espírito Santo”. Terá sido este motivo filológico a levar Frei Bernardo Brito, na Crónica de Cister, a consignar esta Real Abadia como Nova Jerusalém.

Foi a partir deste Mosteiro de Santa Maria – onde funcionou a primeira escola pública a partir do século XIII, a primeira livraria e a primeira botica (farmácia) e enfermaria também pública, igualmente primando como oficina de imaginária e iluminura, sempre encabeçando a assistência e beneficência ao geral numa notável acção civilizadora – que se criou na região os primeiros elementos de civilização histórica, sendo um dos berços claustrais onde a poderosa individualidade de Portugal nascente adquiriu robustez e apurou o engenho.

Motivo suficiente para o programa da Real Abadia de Alcobaça ser inteiramente “nacional”, como se regista no Sala dos Reis onde os monges barristas do século XVII criaram as imagens policrómicas de todos até D. José I, com exclusão dos três Filipes de Espanha. Ao fundo, centralizado, vê-se a coroação de D. Afonso Henriques ajoelhado acolitado pelo Abade São Bernardo de Claraval (seu familiar e tutor espiritual) e não o Papa Eugénio II (ao contrário do que afirmam alguns) mas o Papa Alexandre III, este que na bula Manifestus Probatum (23.5.1179) declarou o Condado Portucalense independente do Reino de Leão e D. Afonso seu Rex.

As doações que, através dos sucessivos reinados, lhe foram sendo feitas pelos monarcas, vieram a constituir vastíssimo domínio de terrenos, campinas e montes estendendo-se até ao mar: os coutos de Alcobaça. Constituíam-nos treze vilas numa espécie de geografia sagrada, a cogula branca segundo os monges, expressiva do Zodíaco centralizado no Sol alcobacense: Alcobaça, Aljubarrota, Évora, Turquel, Cós, Maiorga, Cela, Alfeizarão, Pederneira, São Martinho, Santa Catarina e Paredes, sendo três destas vilas portos de mar[13].

O Dom Abade do Mosteiro de Alcobaça era personagem predominante na sociedade portuguesa. Cabiam-lhe os títulos e privilégios de “Senhor dos Coutos, Donatário da Coroa, Esmoler-mor, do Conselho de El-Rei, Fronteiro-mor”. Era senhor de águas e ventos (moinhos de água e de ar) e das treze vilas onde mantinha direito cível e de crime[14]. Era o primeiro, em seguida aos bispos, na hierarquia eclesiástica. Nos coutos não se bradava por aqui-del-rei, bradava-se por aqui-do-abade. O próprio mosteiro, em 1567, passa a ser oficialmente cabeça da Ordem de Cister em Portugal, quando a Santa Sé criou a congregação cisterciense portuguesa tendo por Abade Geral o de Alcobaça[15], sendo eleito o Cardeal-[Rei] D. Henrique.

Para celebrar a glória martiriológica da Igreja e salientar a santidade desta Real Abadia, foi edificada a capela-relicário entre 1669-1672, integrada no topo da sacristia nova, durante o abaciado de Frei Constantino de Sampaio, cuja suprema beleza e espiritualidade fez com que Reynaldo dos Santos a consignasse “Espelho do Céu”[16], tendo as figuras de São Bento à direita e a de São Bernardo à esquerda, envergando os respectivos hábitos beneditino e cisterciense.

Há um sentido ocultado na exposição do relicarium: as relíquias de santos numa igreja, como acontece nesta (também, por exemplo, nas igrejas de São Roque e da Madre de Deus, em Lisboa, ou na Basílica Real de Santa Maria da Conceição de Castro Verde), eleva-a a espaço mais que sagrado, santificado, por participar corporalmente da presença espiritual daqueles, isto mesmo que as relíquias acaso tenham sido substituídas ou furtadas entretanto, mas tendo ficado o sinal da santificação, da comunhão dos santos num chão já de si sagrado, com tal vindo espelhar os benefícios do Céu.

A figura evocativa de São Bernardo é constante aqui, facto que alguns desprevenidos mais inflamados dão como prova da presença da Ordem dos Templários nesta abadia, só por por o santo ter tido influência determinante nas duas Ordens de Cister e do Templo. Eram congregações distintas, São Bernardo chegou a proibir a migração da freiria de uma para outra para evitar confusões na mistura das fórmulas de vida das respectivas. O facto é mais simples: os monges brancos bernardos davam assistência espiritual aos cavaleiros brancos templários, e estes retribuíam com a assistência corporal, militarmente falando. Mas eram Ordens distintas: um cisterciense só entrava em casa templária como convidado ocasional, não para contrair votos, o mesmo acontecendo a qualquer templário.

Aliás, nos estatutos ou deliberações dos Capítulos Gerais de Cister são escassas e de pouca importância as referências aos templários. Uma, de 1200, diz respeito à mediação de um abade num pequeno conflito, logo sanado, entre uma casa templária e uma abadia cisterciense: “Querela quae versaturinter domum Ulmeti et Templarios, committitur abbati Bonae vallis, compositione vel iudicio terminanda” [17].

Uma outra, muito mais interessante, de 1151, relata o caso de um cavaleiro templário que tomou o hábito cisterciense de forma irregular, com a cumplicidade de monges de Cister. Ao saber do caso, São Bernardo denunciou-o ao Capítulo e o cavaleiro foi expulso (templaris militis per fraudem admissi causa)[18]. Os templários protestaram e recorreram ao Sumo Pontífice, sendo um abade, involuntariamente implicado no caso, castigado. São Bernardo escreveu então uma carta ao próprio Eugénio III, rogando a absolvição do dito abade, adiantando que os cistercienses “não podiam receber o templário no seu claustro, por não estar permitido”. Essa posição do abade de Claraval não era arbitrária, e no mesmo ano de 1151 a bula Militum Templi professio de Eugénio III estabeleceu a proibição da migração de freires do Templo para outras Ordens. Norma idêntica era estipulada pelos estatutos da Ordem do Templo, segundo os quais um cavaleiro que tivesse estado noutra Ordem e nela tivesse feito voto ou promessa seria despojado do seu hábito[19].

Apesar da proximidade existente entre templários e cisterciense, devido à referência comum de São Bernardo, a barreira da Regra e Estatuto separava, pois, o monge professo e o religioso militar. Ainda assim, houve a excepção do Mestre do Templo Everardo de Barres, que após abdicar do cargo ingressou na abadia de Claraval, vestindo o hábito branco de Cister, tendo aí morrido já em tempos pós-bernardinos (em 1174 ou 1176)[20].

Sendo abolida in bula a Ordem do Templo em 1312 no Concílio de Viena, pelo Papa Clemente V emitindo a bula Vox clamantis, nunca tendo havido nenhuma ex bula papal até hoje, o rei D. Dinis e a rainha D. Isabel iniciaram uma nova era de protecção e benefícios aos antigos cavaleiros templários indo aproximá-los, na exclusividade do espírito bernardino, da Ordem de Cister. Os monarcas, prosseguindo a política dos pontificados de Bonifácio VIII e Bento IX, impuseram ao chantre de Lisboa a devolução ao mosteiro de Alcobaça dos bens e direitos que tinham sido alienados por serem pertença dos templários. Isso levou à imensa prosperidade de Cister no reinado dionisino a nível económico e cultural, e depois de criada a nova Ordem Militar dos cavaleiros de Nosso-Senhor Jesus Cristo, prosseguidora da dos Templários, em 1319 é concedida ao abade de Alcobaça jurisdição espiritual e autoridade para reformar e visitar a nova Milícia, o que reforçou os direitos dos cistercienses. Como prova dessa superioridade, o Capítulo Geral da Ordem de Cristo, realizado em 1 de Dezembro de 1328, contou com a presença do abade de Alcobaça e do rei D. Afonso IV, o que fez da instituição cisterciense um elemento sempre presente com largas responsabilidades na administração espiritual e institucional da Ordem de Cristo[21]. E sempre com a prudência de não confundir a estrutura organizacional das mesmas, mantendo a posição de distanciar e distinguir o monge professo do religioso militar, mesmo que sob o Orago comum do padre santo Bernardo[22].

Se além de ilustrada e laboriosa a freiria alcobacense era igualmente nada frugal, tem-se a “prova” disso na porta estreita “pega-gordo” na cozinha monumental da abadia, pela qual um monge mais obeso não passava e corria o risco de aí ficar entalado até emagrecer. Isto conta a vox populi. Nada mais falso e nada mais jacobino. A regra cisterciense prescrevia a austeridade alimentar com dias de jejum e abstinência, sendo a carne e a gordura proibidas excepto aos enfermos. O Papa Alexandre VII, em 1666, autorizou o seu consumo comedido uma vez por semana, nos restantes dias continuaria a ser na base de legumes acompanhados de algum pescado. Isso ia ao encontro da Regra Velha de Cister como consta da carta de Estêvão, bispo de Tournais, a Roberto de Pontigny (século XII), estipulando no artigo 5: “Do suor do rosto nutrem-se do pão, e nem o ócio ou algum alimento incomum faz com que se excedam. Tamanha é a parcimónia no alimentar-se que se servem tão somente de duas iguarias, as quais fornece ou a lavoura de legumes ou de hortaliças. Tão raramente usam do peixe que é bem mais comum entre eles ouvir falar a respeito do que ver”.

Isso vem contrariar os tão falados “bois inteiros assados atravessados por grandes espetos” no forno dessa cozinha monumental, que a ser destinavam-se exclusivamente aos momentos especiais quando alguma sumidade ilustre da sociedade civil ou a própria corte se instalava provisoriamente no mosteiro, a maioria das vezes acompanhando os monarcas. A dita porta estreita, com cerca de 2 m de altura por 32 cm de largura, liga ao refeitório dos monges que lhe chamavam “passa-pratos”, por servir para os passar durante as refeições. Ademais, a cozinha não é a original, foi construída do século XVIII sobre o antigo calefetório (única dependência aquecida do mosteiro, onde trabalhavam os monges copistas), sendo de 1752 o seu revestimento de azulejos.

Assim se chega à figura bonacheirona de má-fama popular do “freire abade barrigudo” vencido pelo pecado da gula, por certo terá nascida do imaginário anti-eclesiástico do século XIX invejando a boa-fama da rica e variada doçaria conventual e outras especialidades gastronómicas aqui fabricadas, com as receitas de muitas chegando até hoje, na época vendidas ao exterior para sustento da casa. “Se avalias a quantidade de benefícios que provêm deles para o povo, muito mais conferem à comunidade do que comunidade a eles” (artigo 6 da carta de Estêvão)[23].

Voltando à relação Cister – Templo, também muito do património litúrgico dos cistercienses seria repassado aos templários, inclusive o musical. Desde o Saltério ao Hinário nas composições litúrgicas originais de São Bernardo, tal transparecia por igual nos cânticos do Templo e nos cantos de Cister[24]. Sempre São Bernardo, a maior sumidade de seu tempo que se desdobrou em mil e uma facetas, todas elas expressivas da sua genialidade, no que Ailbe Luddy diz sobre essa faceta dele como musicólogo reformador[25]:

“Nada foi feito até 1132. O cabido geral desse ano decidiu que esse trabalho não podia ser adiado por mais tempo. Bernardo, como autoridade suprema de cantochão da Ordem, foi incumbido de corrigir o gradual e o antifonário de acordo com o canto tradicional gregoriano, e de proceder a alterações em todas as passagens do texto que o exigissem. Todavia, como a causa da Igreja absorvia todo o tempo e atenção do abade santo, delegou esta tarefa num grupo de seus discípulos em cujos conhecimentos de assuntos musicais podia confiar plenamente. Entre estes encontravam-se Guilherme, fundador e primeiro abade de Rievaulx em Yorkshire, e Guido, fundador e primeiro abade de Cherlieu (Carus-Locus), na Borgonha. Este último já havia escrito uma obra sobre música intitulada Regulae de Arte Musica, manuscrito que ainda se conserva na biblioteca do Vaticano.

“As correcções efectuadas foram numerosas mas, relativamente, ligeiras. Embora o cabido geral, relutante em abandonar o costume em vigor, não desejasse sancionar algumas das modificações que a comissão julgou necessárias ou preferíveis (como está anotado no prefácio), ficou, não obstante, satisfeito com o resultado do trabalho. As alterações produzidas acham-se indicadas e justificadas num extenso e douto prefácio, vulgarmente atribuído a Bernardo e impresso entre os seus trabalhos com o título Tractatus de Canto; no entanto, é, mais provavelmente, obra de Guido, visto conter muitas passagens procedentes do seu livro De Arte Musica. Qualquer que haja sido o autor, mostrou profundo conhecimento da teoria de música em geral e de cantochão em particular, o que é surpreendente naquela época. A única contribuição confirmada de Bernardo para o antifonário revisto é a breve carta que antecede o trabalho, ordenando, em nome do cabido geral, o seu uso exclusivo quanto ao texto e à música em todas as casas cistercienses[26]. Esta determinação foi acatada fielmente. Os graduais e antifonários hoje utilizados nos coros cistercienses estão em perfeita conformidade com a edição bernardina.

“Alguns escritores modernos dedicaram-se seriamente às revisões cistercienses. O antifonário de Metz, ao que somos informados, merecia absolutamente a sua reputação de pureza; ao menos, quanto à sua música. O canto era genuinamente gregoriano. Os chamados defeitos e lacunas eram, na realidade, apenas particularidades do autêntico cantochão. Portanto, os correctores do antifonário estavam na verdade a alterá-lo! Trata-se, efectivamente, de uma acusação grave. Outros autores da mesma escola mostram-se mais moderados nos seus reparos. Assim, o douto Dom Johner da Abadia de Beiron contenta-se em dizer que “São Bernardo, abade de Claraval, com a assistência do abade Guido de Cherlieu, reajustou os livros corais para a Ordem Cisterciense, nos quais o compasso dos cantos se notava, não poucas vezes, mutilado, e alguns dos mais trabalhosos grupos de notas abreviados, embora sob outros aspectos tudo fosse tratado de maneira conservadora” (Nova Escola do Canto Gregoriano, pág. 195). Deve acentuar-se que na simplificação das neumas e na abreviatura de compassos, os revisores divulgavam serem guiados pelo respeito pela tradição e pelas regras de arte (como frisam no prefácio), e, de forma alguma, por princípios de ascetismo. Talvez a melhor réplica à acusação de deturpação do canto seja a sugerida pelo autor do admirável livro: Méthodedu Chant Grégorien à l´Usage des Cisterciens Réformés; apontar o facto de que o antifonário bernardino ainda em vigor entre os cistercienses não difere em aspecto algum importante dos antigos manuscritos publicados em Solesmes e representando os antifonários de Metz e S. Gall. E, onde se verificam diferenças, é impossível dizer que canto é mais autêntico, mais puramente gregoriano.

“Por muitas faltas que os críticos consigam descobrir em todas as teorias musicais e arranjos dos primeiros cistercienses, todos concedem que a sua execução do canto era totalmente admirável. Pedro de Roya fala com entusiasmo da sua salmodia, e Estêvão, bispo de Tournai (ob. 1203), escreve: “Com tanta devoção e solenidade celebram os cistercienses o ofício divino que se suporia os anjos mesclarem as suas vozes com a dos monges. Com salmos, hinos e cânticos espirituais convidam todos os homens a reunirem-se nas suas preces a Deus, e a imitarem na terra as funções dos espíritos celestiais” – Ep. 71.”

Nisso, a escala musical matematicamente colada à geometria das formas poderia igualmente aplicar-se à fachada ocidental dianteira desta abadia, e falei muito propositadamente no pretérito por ela não ser a original entretanto desaparecida, substituída no século XVII pelo monge construtor ou arquitecto bernardo Frei João Turriano (1611-1679). Trata-se de um empastelamento da sua estrutura medieval com o fim de integrar as suas linhas arquitectónicas românicas nas do estilo clássico, então em voga, e para enquadrar a fachada no grandioso conjunto dessa nova frontaria, com a extensão de cerca de 200 metros, deve-se convir que o construtor resolveu o problema de uma forma bastante hábil. Respeitando, sem mexer no interior, a posição e as dimensões da rosácea e as ventanas das naves colaterais, limitou-se a ornamental a fachada numa engenhosa transigência com as formas e os gostos barrocos e levar a mesma ao alinhamento do portal primitivo, antes saliente, de que resultou a sua conservação quase integral. Este portal gótico é o único elemento exterior da frontaria revelador da antiguidade da abadia. Os gigantes antigos, agora transformados em pilastras, marcavam nitidamente as proporções e a estrutura interna do templo.

Nessas obras de transformação suprimiu-se a monumental empena de resguardo à primitiva cobertura borgonhesa, que segundo a inclinação adoptada nos telhados da velha abadia (cujas empenas do transepto ainda estão de pé) devia alcançar uma altura não inferior a oito metros.

Assim, pois, segundo Ernesto Korrodi (ob. cit.), se conseguiu sem grandes demolições uma completa mutação de linhas e aspectos.

Aplicar, pois, a regra musical ao cálculo matemático da estrutura desta fachada – e para o fazer deveria ser sempre nas medidas cistercienses originais – como se ela fosse a primitiva original, só poderá resultar num gráfico imperfeito em perfeito exercício de fantasia, adaptando uma qualquer escala proporcional a medidas procuradas cuja lógica aparente descasa com a razão real por ausência das mesmas.

Foi sem dúvida o marquês Saint-Yves d´Alveydre no século XIX quem mais desenvolveu o tema da aplicação da regra musical à arquitectura e suas formas, dizendo: “As linhas horizontais e verticais, passando pelas divisões harmónicas das quatro cordas principais, constituem o primeiro gráfico da serpente musical. Disso procede que toda a obra de arte pode ser estabelecida em conformidade às leis científicas da harmonia”[27].

Atribuiu-se à Escola de Samos fundada por Pitágoras a origem dessa ciência[28], hoje chamada Aritmosofia, isto é, “sabedoria dos símbolos geométricos aplicados às relações matemáticas”. Mas à incoerência da aplicação indiscriminada da Aritmosofia a tudo quanto haja e por haver, chama-se aritmomania, ou seja, a compulsão para realizar diferentes ou repetidas operações aritméticas, sempre com o cálculo predeterminado para atingir o resultado pretendido.

Tomando os três níveis da fachada monumental, colando os mesmos às três notas fundamentais da escala musical (Mi, Sol, Dó) mais a quarta de Fá afim ao Fiat da Criação, ligando a disposição espacial ao simbolismo estatuário estrategicamente disposto, nisto descarecendo de quaisquer e desavisadas iluminações visionárias exóticas, como venho repetindo desde 1990, tem-se a leitura seguinte de que se subtrai a interpretação com valia esotérica/exotérica, aliás, em conformidade tanto com a teologia como com o hermetismo renascentista e humanista do período barroco:

Torres sineiras com pináculos dirigidos ao alto com Anjos ao pé da Cruz – Mundo Divino, Absoluto, Criador ou “Fiat” pela nota musical Fá. PAI NO PAI – Primeira Hipóstase do Primeiro Logos.

Andar superior: Virgem sobre Armas de Portugal – Mundo Celeste, Mãe Divina, Shekinah, nota musical Sol. PAI NA MÃE – Segunda Hipóstase do Primeiro Logos.

Andar médio: Virtudes cardeais (Fortaleza, Prudência, Justiça, Temperança) ladeando a rosácea – Mundo Humano, Filho, Metraton, nota musical Mi. PAI NO FILHO – Terceira Hipóstase do Primeiro Logos.

Andar inferior: São Bento e São Bernardo ladeado o portal gótico sobre a escadaria – Mundo Terreno, Espírito Santo, Merkabah, nota musical Dó. PAI NO ESPÍRITO SANTO – Humanidade de Cister expressando a Criação Universal do Primeiro Logos, no que dá este Templo como ‘Domus Spirito Sanctu’ ou a ‘Nova Jerusalém’.

Com isso, remato em desfecho com a Epístola de São Bernardo – Quid est Deus? Longitudo, latitudo, sublimitas et profundum (O que é Deus? Comprimento, largura, altura e profundidade.) – Da Consideração (1149-1152):

– O que é Deus? Comprimento, Largura, Altura e Profundidade. Empreguei aqui muitas palavras, no entanto o objecto a que se referem é um único. Designei o nosso Deus consoante o nosso modo de concebê-lo, e não como Ele é em si. Semelhantes distinções ou divisões pertencem-lhe, não como Ele existe na sua própria Natureza, mas apenas como é no objecto do pensamento humano. Por conseguinte, embora as palavras sejam muitas e os caminhos para procurá-lo diversos, o objecto significado pelas palavras é único. Deste modo, os quatro nomes acima mencionados não indicam divisões reais da Substância Divina, ou quaisquer dimensões físicas como vemos nos corpos humanos, distinções pessoais como adoramos na Trindade, número de propriedades como reconhecemos pertencerem às Pessoas Divinas, se bem que não objectivamente distintas das Pessoas. Na verdade, das quatro referidas, ou sejam: Comprimento, Largura, Altura e Profundidade, cada uma separadamente existe em Deus na forma em que existem todas juntas, e todas reunidas nada são mais do que separadamente. Porém, por nossa parte, como o nosso intelecto não pode representar perfeitamente a Simplicidade Divina, enquanto tentamos conceber Deus como único, manifesta-se no nosso espírito como quádruplo. Esta multiplicidade é devida à intervenção daquele espelho pelo qual nos é permitido vê-lo, ‘de uma forma obscura’ (I Cor. 13:12), enquanto vivemos aqui em baixo. Porém, quando nos for concedido vê-lo face a face, vê-lo-emos como Ele é verdadeiramente. Não devemos recear que a vista da alma, agora tão delicada, fique de modo algum deslumbrada pela refulgência, e dissolvida, por assim dizer, na sua multiplicidade anterior[29], por muito forçosamente aplicada que seja. Pelo contrário, recolherá e concentrará todas as suas energias, conformando-se assim à unidade do seu objecto, pelo que o rosto que contempla será tão simples como o Rosto contemplado. Desta forma se verificarão as palavras do Evangelista: ‘Seremos como Ele porque o veremos como é’ (I João 3:2).

O que é, portanto, Deus? Respondo: É Comprimento. E isso o que é? Eternidade. Tão extensa é a eternidade que não possui limites, que no espaço, quer no tempo. Deus é igualmente Largura. Perguntais-me o que é Largura? Caridade. Esta qualidade tão-pouco conhece limites em Deus que ama todas as coisas que existem e não odeia as que criou (Sabedoria 11:25). Portanto, os Seus próprios inimigos se acham incluídos na amplidão da sua caridade. Não se contenta com isto pois estende-se até ao infinito, ultrapassando não apenas tofo o poder finito como toda a faculdade criada de pensamento. Assim, o apóstolo, depois de nos aconselhar a ‘compreender com todos os santos o que é comprimento, largura, altura e profundidade’, diz-nos para ‘conhecermos a caridade de Cristo que ultrapassa todo o conhecimento’ (Efés. 3, 18:19). Que mais deverei dizer desta caridade? É eterna, ou antes (o que talvez seja mais grandioso) é a própria eternidade. Não aceitais que a Largura de Deus é tão gloriosa como o Seu Comprimento? Gostaria que entendêsseis igualmente isto: esta Largura não é apenas igual, mas idêntica ao seu Comprimento, aquela é o mesmo que este, ou os dois reunidos maiores que cada um deles. Deus é Eternidade. Deus é também Caridade; é Comprimento e Largura, mas em ambos é independente de todas as relações espaciais, em ambos transcende os acanhados limites de espaço e tempo, não por magnitude de capacidade, mas pela liberdade da sua natureza espiritual. Deste modo, Aquele que criou todas as coisas com medida, é em si incomensurável (Sabedoria 11:21); e, embora não possa ser medido, dispomos, não obstante, do modo de medir, por assim dizer, a sua vastidão.

Uma vez mais: o que é Deus? É Altura e Profundidade. Em Altura, encontra-se acima de todas as coisas; em Profundidade, desce abaixo de tudo. Por Altura devemos entender o Poder Divino, por Profundidade a Sabedoria Divina. Entre ambas existe uma relação de correspondência, similar à do Comprimento com a Largura; porquanto sabemos que a Altura é tão inacessível como a Profundidade insondável. São Paulo assim o testemunha ao pronunciar o grito de espanto e admiração: ‘Oh, as profundidades das riquezas da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão incompreensíveis são os seus julgamentos e misteriosas as suas maneiras!’ (Rom. 11:33). E nós igualmente, ao vermos, embora tenuemente, a mais absoluta unidade nestas perfeições de Deus e com Deus, poderemos gritar com o apóstolo: ‘Ó Poderoso Sábio, que dispõe as coisas brandamente!’ (Sabedoria 8:1). A Coisa é Única em si, mas multiforme nas suas manifestações e múltipla nas suas operações. E esta Coisa Única é Comprimento pela sua eternidade, Largura pela sua caridade[30], Altura pela sua majestade, Profundidade pela sua sabedoria.

NOTAS

[1] José Mattoso, D. Afonso Henriques, 2.ª edição. Editora Temas e Debates, Lisboa, 2014.

[2] O nome De expugnatione Scalabis (“Da conquista de Santarém”) foi atribuído por Alexandre Herculano, incluindo-o na sua colectânea de textos medievais portugueses Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, vol. I, publicado em 1854. Trata-se de um manuscrito redigido em latim, entre o final do século XII e o início do século XIII, por um monge crúzio (cónego regrante agostinho) do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, com o título Quo modo sit capta sanctaren civitas a rege alfonso comitis henrici filio (“Como foi capturada a cidade de Santarém pelo rei Afonso, filho do conde Henrique”).

[3] Luiz Duarte Villela da Silva, Memorias Historicas da Insigne e Real Collegiada de Santa Maria de Alcaçova da Villa de Santarem. Lisboa, 1817.

[4] Frei António Brandão (Alcobaça, 25.4.1584 – Alcobaça, 1637), Crónica de D. Afonso Henriques. Edição actualizada com introdução de A. Magalhães Basto. Biblioteca Histórica – Série Régia. Livraria Civilização – Editora, Porto, 1945.

[5] Maria João Violante Branco, Reis, Bispos e Cabidos: a Diocese de Lisboa durante o primeiro século da sua restauração. Universidade Católica Portuguesa, revista Lusitania Sacra, 2.ª Série, 10, Lisboa, 1998.

[6] Virgolino Ferreira Jorge, Arquitectura, medida e número na igreja cisterciense de São João de Tarouca. Universidade de Évora, revista Cistercium, 208, pp. 431-456, 1997.

[7] Artur de Gusmão, A Real Abadia de Alcobaça. Lisboa, 1948.

[8] Os cronistas alcobacenses recolheram e propagaram a tradição do século XIII de ter sido o próprio São Bernardo a desenhar a planta da igreja de Alcobaça e ter enviado um dos seus arquitectos, Desidério ou Didier, para dirigir a construção.

[9] Ernesto Korrodi, Alcobaça – Estudo Histórico-Archeológico e Artístico da Real Abbadia de Santa Maria de Alcobaça. Litografia Nacional – Edições, Porto, 1929.

[10] Frei Maur de Cocheril, Cister em Portugal. Tradução de Jorge Sampaio. Edições Panorama, Lisboa, 1965.

[11] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Arquitecturas Sagradas. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Maio de 2004.

[12] Foi com desgosto que testemunhei presencialmente o tendenciosismo especulativo, infundado, de se atribuir aos mosteiros de Tomar, Alcobaça e Batalha a intervenção da Maçonaria nos moldes em que hoje é concebida, o que é um flagrante contrassenso e contradição dos mais elementares factos históricos e até espirituais, como li em certo manual franco-maçónico cujo conteúdo é, em grande parte, respigado a quanto eu já disse e escrevi ao longo dos anos, nisto excluindo o que não lhe interessa e só incluindo o do seu particular interesse. Fica o reparo.

[13] Raúl Proença, Guia de Portugal II – Estremadura, Alentejo, Algarve. Biblioteca Nacional de Lisboa, 1927.

[14] Luís Ferrand de Almeida, O pagamento do feudo a Claraval no século XVII. Revista Portuguesa de História, tomo IV, pp. 305-316. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1949.

[15] Saul António Gomes, A congregação cisterciense de Santa Maria de Alcobaça nos séculos XVI e XII: elementos para o seu conhecimento. Revista Lusitania Sacra, 2.ª série, 18, Porto, 2006.

[16] Reynaldo dos Santos, Oito Séculos de Arte Portuguesa: História e Espírito. Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1970.

[17] Joseph Maria Canivez, Statuta Capitulorum Generalium Ordinis Cisterciensis ab annum 1116 ad annum 1786. Bibliothèque de la Revue d´Histoire Ecclésiastique, III, pp. 347-348, Louvain, 1935.

[18] Angelo Manrique, Cistercium seu verius Ecclesiasticorum Annalium a condito Cistercio, II, p. 185, Lyon, 1642.

[19] José Albuquerque Carreiras, Cister, os Templários e a Ordem de Cristo. I Colóquio Internacional ‘Cister, os Templários e a Ordem de Cristo’, Actas. Edição José Albuquerque Carreiras e Giulia Rossi Vairo, Instituto Politécnico de Tomar, 2012.

[20] Alain Demurger, A grande aventura dos templários. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006.

[21] Rui de Pina, Crónica de D. Dinis. Livraria Civilização – Editora, Porto, 1945.

[22] Virgínia Paccetti, O Mosteiro de S. Dinis de Odivelas, 1988. Edição da Junta de Freguesia de Odivelas, 1997.

[23] Renato Cardoso Corgosinho, O Livro dos Usos da Ordem de Cister: Edição e estudo paleográfico de um excerto com base em dois manuscritos portugueses do século XV. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2013.

[24] Depósito Biblioteca Nacional de Portugal: Livro dos Usos da Ordem de Cister, manuscrito copiado por Estêvão Anes Lourido e Fr. João Cisterciense. Alcobaça, 1415.

[25] Ailbe J. Luddy, Bernardo de Claraval. Editorial Aster, Lisboa, 1959.

[26] O segundo artigo da Carta de Caridade (1119) determina a todos os cistercienses a uniformidade no canto e nos livros pertencentes à missa e ao ofício divino: missais, epistolários, bíblias, graduais, antifonários, leccionários e saltérios.

[27] Saint-Yves d´Alveydre, Le Archéomètre. Editions Durbon Aïné, Paris, 1934.

[28] Christiane L. Joost-Gauguier, Pitagora e el suo influsso sul pensiero e sull´arte. Edizioni Arkeios, Roma, 2008.

[29] Isto é, compelida a representar a Divindade sob uma diversidade conceitos inadequados, como na vida presente.

[30] São Tomás de Aquino entende por Largura a Omnipotência Divina, mas quanto ao resto a sua exposição de Efésios 3:18 concorda com a de São Bernardo de Claraval.

O ROSTO E A OBRA – Entrevista a Vitor Manuel Adrião Sábado, Jul 24 2021 

Data da Entrevista: 13 Julho 2014

Revista e actualizada: Agosto 2020

AP – António Paiva (entrevistador)

VMA – Vitor Manuel Adrião (entrevistado)

AP – O Vitor Adrião é historiador, investigador e presidente da Comunidade Teúrgica Portuguesa. Autor de inúmeras obras, são tantas que nem me cumpre agora destacar algumas, mas no decorrer da conversa iremos com certeza falar de uma ou de outra. Também já nos conhecemos há largos anos. A primeira vez que nos encontrámos foi na sede da Fraternidade Rosacruz dirigida na altura por um amigo comum, o João Crisóstomo, ou talvez em terras de Sintra. Podemos começar por aí, Sintra, que já na altura era um lugar de eleição para o Vitor e que continua a sê-lo, passados todos estes anos. É verdade?

VMA – É verdade. Vou fazer ao António Paiva uma pequena confissão. O senhor João Crisóstomo tinha o seu Centro Rosacruciano de Lisboa na Avenida Visconde de Valmor, e eu ajudei esse Centro quando me desloquei de Sintra para Lisboa nos anos 80-90 do século ido. Pois bem, nessa ocasião, depois de ter auxiliado a fundar o seu Círculo Esotérico com as suas particularidades, havia uma coisa que me faltava completar: ligá-lo espiritualmente a Sintra, pois era daí que eu tinha vindo por motivos que depois poderei dizer quais.

As primeiras idas, quase ou mesmo peregrinações a Sintra comigo do senhor João Crisóstomo, do senhor João Luís e de outros(as) mais, cujos nomes agora me falha a memória porque já passaram vários decénios sobre esses eventos, fui eu que as promoveu, fui eu que os levei. Houve toda uma Ritualística, novidade na época para os(as) presentes. Essa era a Ritualística da Ordem do Santo Graal em pleno bojo da Serra Sagrada, inclusive com Iniciações – na Capela de São Pedro de Canaferrim, na Ermida de Santa Eufémia, na igreja do Convento dos Capuchos, etc. – que marcaram para sempre quem as viveu, recebeu e igualmente a quantos as assistiram. Também foram muitos e tocantes os fenómenos apodados jinas, gerados desde o Mundo Interno de Sintra então acontecidos, repito, em pleno bojo da Serra Sagrada, inclusive com gente bem física desse “Outro Mundo” das “mil e uma maravilhas e mil e um encantamentos”.

Quanto a essa, Sintra, a minha relação esotérica com ela vem de 1978, quando fundei, juntamente com mais umas quantas pessoas, uma delas o falecido Júlio Baptista que me acompanhou na jornada, para decénios depois eu o acompanhar no último Ritual Magno, de nome Odissonai ou “Ode ao Som”, que fez em vida três dias antes de falecer, dizia, quando fundei no Algarve, em pleno Promontório de Sagres na noite de São João Baptista, o que viria a ser o projecto de Comunidade Teúrgica Portuguesa, esta que então, verdade se diga, não era nenhuma Comunidade, nem era Teúrgica, nem era Portuguesa. Era tão-só um projecto posto em movimento, portanto, uma fundação espiritual, subjectiva.

Depois disso vim para Sintra nela instalando a minha actividade espiritual, e foi quando estabeleci relação próxima com a autodenominada Comunidade Portuguesa de Eubiose, instalada na Casa dos Avelares na Calçada de São Pedro, nº 1, também ela trasladada mas do Algueirão para Sintra. Aí conheci pessoas interessantes, gentes curiosas, cada qual com as suas particularidades humanas no tocante ao encarar e ao viver o espiritual. Mas já então, à margem dessa instituição, da qual ouvira falar pela primeira vez em Portimão, no Algarve, ainda nos finais dos anos 70 através dos editores de uma revista esotérica chamada “Alpha”, com a qual colaborei, como igualmente colaborei nessa ocasião com o jornal esotérico “Nostra”, fundado por Jacques Bergier, dizia, eu mantinha relação e proximidade ao Brasil, praticamente desde os meus 16 ou 17 anos de idade quando abandonei o lar paterno e fiz-me andarilho no mundo.

AP – Essa relação estabeleceu-se em que moldes?

VMA – Primeiro por viagens pelo Brasil, ainda no tempo da Ditadura Militar aí, e depois, desde 1987-88, mais aprofundada e localizadamente com a antiga Sociedade Teosófica Brasileira (1928-1963), que em 28 de Setembro de 1969 adoptou o nome Sociedade Brasileira de Eubiose. Estabeleci relações com os familiares do fundador da S.T.B., o Professor Henrique José de Souza. Foi assim que conheci a esposa então já viúva desse, D. Helena Jefferson de Souza, e igualmente alguns dos quatro filhos desse casal, como sejam o Hélio, a Selene, o Jefferson e o Hermés. Conheci o Sebastião Vieira Vidal, o Paulo Machado Albernaz, o Roberto Lucíola, o António Carlos Boin, a Valéria Vera de Souza Reis, a Dona Verinha ou Muriel para os mais próximos, o Archimedes Carpentier, o Sérgio Scalfaro, enfim, conheci muita gente, inclusive o Udo Oscar Luckner, autodenominado “Hierofante do Roncador”, em Mato Grosso, no Norte do Brasil, que terminou os seus dias de maneira trágica, mas também, no Rio de Janeiro, me cruzei com o famoso José Trigueirinho Netto e as suas singularidades esotericistas.

A relação próxima com o Brasil, a de ligar a parte iniciática da Ordem do Santo Graal nos seus quatro vectores a Portugal (Templários, Tributários, Vestais e Pupilos), se não foi estabelecida por mim, ao menos por mim foi restabelecida. No fundo, antes do projecto teúrgico de 1978, e estou puxando pela memória, já havia trabalho feito. Estava afim ao projecto teosófico do Professor Henrique José de Souza para Portugal, esse que inicialmente acabou passando pela referida Casa dos Avelares, em São Pedro de Sintra, porque alguns dos seus componentes iniciais vindos do Porto para Lisboa, haviam na cidade invicta estabelecido contactos com o Professor Henrique José de Souza em 1956-57, o qual os convidou a fundar uma Casa Capitular da S.T.B. em solo português em 1963, projecto que tomou feição diferente da sugerida pelo Professor Henrique, e depois a sua viúva, D. Helena Jefferson de Souza, em 1967, quis que esse grupo inicial se constituísse em Departamento da mesma S.T.B., o que igualmente resultou debalde. Ainda assim, sobrou nesse núcleo português – que entre 1973 e 1978 se repartiu em grupos autónomos como o “Movimento Eubiótico dos Servidores de Aquário”, a “Confraria dos Eubiotas de Kurat” ou o “Grupo de Teatro 5” – um interessante projecto dito eubiótico independente, sobretudo a partir de 21 de Junho de 1979, data da sua fundação notariada por escritura pública como Comunidade Portuguesa de Eubiose, que naturalmente se dota das suas especificidades pessoais, e por certo natural e indiscutivelmente terá o seu valor próprio, na sua particular maneira de ver e entender o que seja a Teosofia Eubiótica de JHS, ou seja, de Henrique José de Souza.

AP – Era na Calçada de São Pedro que estava sediada a Comunidade Portuguesa de Eubiose?

VMA – Sim. Nisso ela poderá ser uma Comunidade, ela poderá ser Portuguesa, e poderá também ser de Eubiose, mesmo que acerca dessa última pessoalmente guarde algumas reservas. Embora respeitando sempre as crenças de cada um e de cada qual, e as suas maneiras de estarem nelas, não posso esquecer a minha experiência directa junto das fontes que, aliás, mantém-se até hoje, até este preciso momento, neste dia do Sol, domingo, Dominicus Dies. Portanto, voltando ao início, a minha relação com Sintra foi sempre ligada à presença teosófica e graalística centralizada no Professor Henrique José de Souza. Inclusive, antes do projecto de Comunidade Teúrgica Portuguesa, havia trabalho feito anteriormente, porque quando avancei para esse projecto já tinha algum traquejo espiritual, já então fazia militância…

AP – Em 1978 o Vítor tinha que idade?

VMA – Era muito jovem, sei lá, vinte e poucos, talvez, hoje estou a caminho dos sessenta e alguns anos de idade. A minha principal função nesta vida foi realmente destacar a Mística Sintriana, sempre a ligando à pessoa e obra do Professor Henrique José de Souza.

AP – Continua a ser a sua missão?

VMA – Foi aquilo que fui incumbido de realizar. Missão no sentido vulgar do guru auto-inventado recambia sempre ao apostolado imaginário de profetas mancos e falsos messias. Gente perturbada essa que pondo-se nos “bicos dos pés” apenas procura realce social não poupando coisa alguma, desde amigos a familiares, sendo sempre iguais a si mesmos, vivendo fantasias cujas realidades só existem nas suas cabeças agitadas. Conheço casos assim, não poucos, infelizmente. Portanto, considero-o tão-só um trabalho que se me indicou, uma incumbência. E essa incumbência foi feita, realizada. A maior parte do trabalho está feita. Poderei dizer que praticamente 90% está feito, realizado, sobretudo com a criação do Sistema Geográfico de Sintra a que dei forma. Mas dei-lhe forma em conformidade ao que Professor Henrique José de Souza revelara sobre Portugal e Sintra nos seus textos reservados, facto que o próprio Mário Roso de Luna sabia, e já antes Helena Petrovna Blavatsky, conforme aquele apontou na biografia desta que é tomo precioso levando de título Una Mártir del Siglo XIX – Helena Petrovna Blavatsky.

Repare só que hoje em dia, apesar destes anos todos, a juventude, uma geração nova, não tem o conhecimento dos passados, dos evos onde me incluo e que abriram novas valências até então insuspeitadas no plano da Tradição Iniciática a ver com Portugal e Sintra. Fui eu quem publicamente deu a cabeça, o pensamento, alguém teria de o ser. Hoje, realmente a Serra de Sintra é um polo de misticismo sobretudo dos movimentos “Nova Era”, com o seu espiritualismo a “la carte”, como diria o professor Eduardo Lourenço, engraçados no seu simplicismo roçando o infantil, apesar de terem a sua valia própria, sem dúvida onírica, sentimental mas não a iniciática, puramente mental superior. Porque a Iniciação não é qualquer coisa que se consiga em livros e discursos, tampouco em manifestações animistas, de sugestionamentos automediúnicos, como diria Fernando Pessoa, e pareidólicos. Mas é folclore exotérico interessante, aliás, contribui para o aumento da Serra como polo de atracção turística. Sintra é hoje conhecidíssima em todo o mundo pelo motivo turístico a que se juntou o esoterológico, sobretudo depois das reportagens que dei ao matutino “Correio da Manhã”, ainda nos anos 80, a partir de 1985, acerca do mistério esotérico de Sintra.

O Professor Henrique José de Souza esteve em Sintra na viragem do século XIX para o século XX, 1899-1900, conheceu e foi recebido por gente muito singular, alguma dela ligada à Ordem de Mariz e aos Marizes de Trás-os-Montes, alguns deles meus amigos pessoais. Depois, ao longo da carreira de toda a sua vida indo de 15 de Setembro de 1883 a 9 de Setembro de 1963, Sintra ocupou sempre um lugar predilecto na sua mente e no seu coração.

VMA no domínio Mariz de Amedo

É dito que Sintra, segundo as revelações do mesmo Henrique José de Souza, é um dos Qtûbs, em árabe, Polos ou em sânscrito Chakras do Mundo, precisamente o quinto. E isto é curioso porque acaba por relacionar-se ao tema do V Império, do Quinto Reino Espiritual, de Agharta. Aliás, no fundo tudo isto tem a ver com a Agharta e Shamballah. Mas resta saber o que é isso de Agharta e Shamballah… Enfim, se para mim tal não é missão, sem dúvida é trabalho.

AP – E em que medida esse trabalho ao longo dos anos o tem trabalhado a si próprio?

VMA – Há uma descoberta permanente. Isso é como perguntar-me: “Então, quando é que despertou para a espiritualidade?”, e eu sei lá quando é que despertei para a espiritualidade. Há quem nasça com uma vocação, e há quem nasça sem nenhuma vocação. É como a Via Sacerdotal. Uma pessoa pode entrar na Via Sacerdotal e nunca dominar a Arte respectiva. Nisso terá entrado por sindicância afiliatória, de alguma forma empurrada pelas circunstâncias sociais, pelo que não entrou por afiliação a necessidade espiritual. Conhece mas não sabe, representa mas não vive, simplesmente tão-só decora e imita… Enfim, caríssimo amigo, vale dizer que só quando a fruta está madura fica pronta a ser consumida.

Portanto, nisto há sempre um trabalho interior, um trabalho de descoberta. Porque uma Escola Iniciática tende sempre ao apelo à derradeira e suprema coisa que é a realização interior, a realização espiritual, o encontro as Divinus, o encontro com Deus, conhecendo as nossas limitações, aceitando-as sem as extrapolar quer para o remorso ou para o regozijo do passado, quer para o que sonha ou fantasia o futuro. A Realização é presente, não é passado nem futuro.

Uma pessoa conhece umas coisas, faz outras tantas dentro do nível espiritual, espanta-se consigo mesma e pensa já ser um Mestre. Não é! Aprende umas coisas, decora outras, faz aqueloutras, e assim se vai realizando, é uma conquista paulatina a do desenvolvimento da consciência do Homem. Os próprios Deuses vão se fazendo a cada dia, a cada hora e a cada tempo mais Deuses.

É um trabalho realmente intenso mas firme e sólido, o qual se for feito somente ao nível da satisfação intelectual, do conhecer pelo conhecer, do ter e querer ser mais do que outros, da afirmação feroz do “intelecto superior” aos demais mas sempre vagueando nas curiosidades fantásticas do momento, confundindo o nómeno com o fenómeno, então não passa de diversão e dispersão mental, não serve aos propósitos da verdadeira Realização.

O intelecto é apenas instrumento. O propósito é ligar, alinhar, integrar a persona ao Indivíduo, ao Ser Superior, à Tríade Superior, à Mónada Divina. Isto é, unir a personalidade à Individualidade. Ligar o homem aparente, a máscara, ao verdadeiro Actor, ao Homem Real – o  Eu Divino, o Espírito, o Atma, a Mónada ou Essência Imperecível.

Isto não é feito de um momento para o outro, vai-se fazendo…

Não posso exigir a um jovem com vinte ou trinta anos que acabou de despertar para os interesses espiritualistas ou tão só “inexplicáveis e maravilhosos”, que tem algumas curiosidades misticistas mas ainda com a “cabeça cheia de grilos”, ou seja, numa confusão identitária perante si mesmo e o seu meio ambiente, que vá ter uma posição de vanguarda iniciática, quando afinal ainda está a dar os primeiros passinhos, titubeando aquilo e aqueloutro, vacilando e duvidando aqui e acolá.

É claro que tenho consciência disso, das pessoas que me cercam e das suas limitações, mas aposto sempre nos seus valores espirituais adormecidos. Ainda assim, uma coisa é certa: não posso impor nada a alguém e a ninguém, porque tudo o que é imposto não dá bom resultado. O mais que posso fazer é apresentar propostas, abrir “janelas de oportunidade”, mas com muita “arte e manha”, como dizia o meu saudoso amigo professor Agostinho da Silva, ou seja, saber convencer sem obrigar ao convencimento. Ele falava-me disto muitas vezes juntamente com o seu condiscípulo que seguiu outros caminhos e chegou a ser Presidente da República Portuguesa, o dr. Mário Soares.

Portanto, há uma proposta. A Comunidade Teúrgica Portuguesa nunca impôs nada, tampouco eu. Às vezes a pessoa vê que são muito jovens, tem de se dar um desconto à impuberdade natural não raro extravasada nesse adolescente convencido das suas “verdades”, pensando que o mundo começou com ele, não se importando de aborrecer e passar pelo que é, “aborrescente”.

Dentro da C.T.P., nos seus Graus Superiores, só se aceitam pessoas com certa madureza de vida e idade suficiente para tanto, porque assim elas já sabem o que querem, mesmo que acaso venham dos Graus Maiores ou dos Altos Graus da Maçonaria, ou de outros Ritos ou Obediências para o nosso meio. São aceites no Oficialato Teúrgico por serem pessoas com a sua natureza definida. Sabem o que querem, não há misturas, não há confusões, não há dispersões, têm noção de Responsabilidade e Integração. Agora com os mais jovens, os destas novas gerações, deve-se ter paciência e capacidade para refrear os ímpetos naturais próprios da juventude fogosa e voluntariosa, e encaminhá-los por bons e rectos caminhos, sem nunca censurar e tampouco impedir as suas tendências e aptidões, somente os encaminhando, não deixando de repreender quando se assumem manhosos nas habilidades de quererem “passar a perna” aos mais velhos, porque isso além de ser feio prova que se teve má educação na formação do seu carácter e tendências.

AP – Somos todos relativamente jovens face aos desafios ou às propostas que a vida nos vai colocando. Mesmo os mais anciãos serão sempre jovens, eternamente à procura da sua sabedoria interior, ou pelo menos durante o percurso aqui nesta Terra. O Vitor poderia destacar alguns dos desafios que lhe foram sendo colocados, ou propostos pela vida?

VMA – Há três aspectos, três vectores. Um vector vem em continuidade ao ancião, no seguimento do que mencionei anteriormente sobre o ancião e o jovem. Quando falo em juventude, digo-o com respeito à juventude mental, porque realmente há jovens que parecem uns velhos e há velhos que parecem uns miúdos. Nem tanto ao mar e nem tanto à terra, não sei se me faço entender… Porque a verdadeira Juventude, a Eterna Primavera, a Satya Yuga interior, é algo que revela realmente o crescimento interno da pessoa.

Eu refiro-me sobretudo à impuberdade. É como a questão desses movimentos holísticos e não sei que mais. Não gosto do termo “holístico”, corruptela do grego hollos, “universal”, e muito teria a dizer sobre isso. Embora interessantes nas suas aparentes boas intenções, falta sempre algo aos movimentos de auto-cura e similares autossuficientes. Como é que alguém doente consegue curar outros doentes? “Médico, cura-te a ti mesmo”, já dizia Jesus, o Cristo, e eu acrescento: se és capaz.

No que respeita às relações com o mundo social, a minha posição espiritual, acompanhando a relação social, e este é o ponto dois, nunca colidiu, mas também sempre mantive as distâncias.

Trabalhei em algumas firmas comerciais no passado, mas sempre com distanciamento e até antipatia ou desagrado dessas actividades. O meu destino não era ser empregado de escritório com horário fixo sujeito aos caprichos de um qualquer patrão. Mas também durante vários anos colaborei com o “Correio da Manhã”, prestando consultadoria através do jornalista Victor Mendanha, com quem me relacionei, como igualmente com um outro jornalista, Fernando Dacosta. É dessa época a saída em páginas centrais das grandes reportagens de 1985-86-87, etc., no “Correio da Manhã”, mas também no “Público”, no “Semanário”, etc.

Houve outras possibilidades de destaque e élan social. Desde enveredar por um caminho mais relacionado com o mundo da política, trabalhar numa Câmara, ambicionar ser deputado da Nação e por diante, mas não fui por aí, desgostei os enredos políticos, as conspirações e revoluções de salões, ademais o meu posicionamento sinárquico foi sempre um e só. Isso custou-me sofrimento e restrições económicas, mas Deus nunca me faltou.

Tirei um curso na antiga cadeira de Histórico-Filosóficas. Está feito, segui por outros caminhos. É um instrumento que uma pessoa tem para a vida do dia-a-dia, porque todos necessitamos de ganhar o nosso pão. Toda a minha formação, a minha escolástica académica passa, de facto, pela História e a Filosofia. Daí as campanhas de investigação e tudo o mais afim que realizei. Mas também restrinjo essa relação, tanto por desgostar discussões sem fim nem finalidade, porque logo a seguir se levanta outra de dúvidas sobre descrenças, onde nunca se chega a consenso comum algum o qual não se quer e somente discutir para apurar a retórica seja ou não razoável, tanto por não ser vendível nem comprável, nem pela Academia, nem por ninguém. Há uma posição assumida, nisto englobo o estatuto académico. É o meu modo de me afirmar socialmente. Mas esse posicionamento académico também me mostrou e depois me levou a mostrar uma outra visão de Portugal, da Portugalidade e do Mundo, sobretudo da nossa diáspora. Isto continuo a fazê-lo.

Esse percurso pela diáspora, mais que tudo cultural e espiritual, levou-me a conhecer inúmeras pessoas no universo das artes, das letras, da política, do teatro, do cinema, etc., em várias partes do Mundo. Mas tive também de recusar muitas coisas, porque as tentações no caminho são múltiplas e costumam aparecer inesperadamente muito bem disfarçadas. A riqueza fácil é geralmente sinónima de pobreza também fácil ou imediata.

Por isso, não quis nem quero nada que venha a contrariar a condição da minha natureza interior, que é sobretudo uma condição vocacionada a altar, a estatuto sacerdotal, a algo verdadeiramente salvífico, imperecível e incambiável.

Logo não posso, tampouco consigo, atingido este patamar, perspectivar outras condições imediatas de bem-estar e destaque social em detrimento da minha necessidade interior, esquecendo, como se tal me fosse possível, que tudo isto afinal não passa de uma passagem, com a duração efémera que vai do berço à tumba. Qualquer um pode, na memória dos pósteros, deixar um jardim bonito, bem plantado, ou então pode deixar um molhe de cardos e urzes daninhas. Gosto ou desgosto, é livre-arbítrio de cada um e cada qual.

AP – E desses inúmeros contactos, há alguém que queira enaltecer?

VMA – No plano das Artes e Letras, deixei e conservo grandes amizades. Algumas ainda se mantêm como o Josué Pinharanda Gomes (falecido depois desta minha entrevista em 2014), que nunca nos faltámos um ao outro nestes decénios transcorridos de amizade próxima e mutuamente feito muito em prol da Cultura Portuguesa.

VMA e Pinharanda Gomes, o “pai” da sistematização da Filosofia Portuguesa, uma amizade que contou decénios

No plano Espiritual ou Iniciático – repare que eu não estou a dizer “espiritualista”, estou a dizer “Espiritual ou Iniciático” –, aí conheci pessoas que me influenciaram definitivamente, sobretudo no Brasil, porque na Índia a coisa não foi boa tal como no Tibete. São países com grandes problemas sociais e raciais. O Tibete sofre a ocupação chinesa e eu provei isso na pele, depois de atravessar a fronteira junto ao Ladakh, o “Pequeno Tibete”, e ser preso pelas tropas chinesas. Queria ir a Lhasa, e consegui à segunda tentativa, misturando-me com uma equipa de televisão francesa que ia lá, em 1982, salvo erro. No Brasil tive uma relação marcante com vários condiscípulos coevos do Professor Henrique José de Sousa. Enfim, bem ou mal, das muitas pessoas que conheci e conheço em Portugal, e já citei o Agostinho da Silva e o Pinharanda Gomes, aparece ainda na minha vida o falecido coronel João Miguel Rocha de Abreu, da Sociedade Teosófica de Portugal e presidente do Ramo Teosófico de Lagos, que me marcou bastante. Os familiares do falecido Félix Bermudes também me marcaram muito. Aliás, tenho na minha posse os diplomas olímpicos de Félix Bermudes. Também me marcaram outros Movimentos que fui conhecendo, como esse Movimento de que já falámos do Centro Rosacruciano de Lisboa, como igualmente da antiga Sociedade Teosófica Brasileira, e assim também algumas pessoas desse Movimento de Eubiose em Sintra.

Conheci pessoas muito curiosas, carismáticas, com a sua maneira peculiar de ser. Na Fraternidade Espírita de Portugal, mantive uma excelente relação de anos com o seu director Eduardo Matos, colaborei na sua revista “Fraternidade”. Conheci o Valdemar Amaral, do Centro Espírita “Perdão e Caridade”, ali na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa. Relacionei-me com gente da Federação Espírita Portuguesa. Na altura ainda procuravam recuperar o edifício do Teatro Laura Alves, que tinha sido a sede da Federação Espírita até ao momento de António de Oliveira Salazar os desalojar dele, no tempo do Estado Novo.

Também do Movimento Rosacruciano conheci o Bartolomeu Bana Martins. Conheci muita, muita gente e todos me marcaram com o seu carisma, a sua maneira de estar, as suas crenças. Foram muito interessantes na singularidade de serem como eram. Inegavelmente, foram pessoas que marcaram decisivamente o pensamento neo-espiritualista português.

A única coisa que houve de diferente entre mim e eles foi que eu «impus», entre aspas, coloquei uma tónica nova no pensamento neo-espiritualista, que foi a de Sintra e dos Mundos Subterrâneos. O tema de Agharta-Shamballah, levando para um patamar de maravilhado, de maravilhoso, de castelos encantados, de mistérios insondáveis, fazem sonhar os mais jovens quando profiro tais palavras como estas de Shamballah-Agharta, cuja mais-valia é infinitamente superior à de meros chavões em bocas de mentes turvadas pela incompreensão. Essa foi a tónica diferente que eu «impus». Cada qual «impôs» a sua tónica. A maioria já partiu, está com Deus, Deus os tenha. Marcaram uma época cujo legado deixaram para os mais novos. Estes que agora chegam aqui, pensam que isto que agora usufruem nasceu do zero, que nasceu com a internet. Isto não nasceu com a internet, senhores. Isto já é antigo e ainda há antigos vivos.

AP – E os caminhos de Santiago de Compostela? Estávamos há pouco a falar, fora da gravação, e o Vitor teceu uma série de comentários, até muito bonitos, sobre o Caminho e a sua função iniciática.

VMA – O Caminho de Santiago é muito interessante entroncando de raiz na Tradição Iniciática pertinente à Península Ibérica, mormente a Rota Portuguesa. Aliás, além da entrevista que dei ao diário “La Voz de Galicia” em 24 de Agosto de 1994, escrevi um livro sobre o Caminho Português editado pela Dinalivro, “Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa”. Igualmente escrevi outros, como “Sintra, Serra Sagrada”, “A Quinta da Regaleira”, “A História Oculta de Portugal”, “A História Secreta do Brasil”, etc. São várias dezenas de títulos editados.

Quanto aos caminhos de Santiago, estes não são só as antigas vias romanas, como se crê e se aceita comumente. Essas eram apenas vias comerciais e militares, ligando as civitas numa rede viária que ia além de Iria Flávia, vizinha de Padrón, mas que mais tarde, sobretudo a partir dos finais do século VIII d. C., por via da publicitação cristã da Lenda Áurea do Apóstolo São Tiago Maior miticamente desembarcado na Galiza, se tornaram vias devocionais, enfim, caminhos de foro religioso, transferindo-se a antiga importância política de Iria Flávia, por via do Primaz de Braga, àquela que viria a ser a actual capital da província galega, Santiago do Campo da Estrela ou Compostela.

Tudo isso tem a sua razão de ser e é coerente com a evolução social e religiosa da história do Norte de Portugal e da Galiza. As ditas vias foram de facto palmilhadas pelos romanos, mas já anteriormente a eles tinham sido trilhadas pelos celtas, uns e outros seguindo a Estrada do Pastor, o Caminho do Pastor, como seja a Via Láctea com Sírio ao fundo, esse a estrela alfa da constelação do Cão Maior, o Canis Majorem, o fiel animal companheiro de São Tiago Boanerges, o “Filho do Trovão”, o “Filho do Fogo”, na sua acção pastoral sob a égide da Virgem do Pilar, representação da primitiva Deusa-Mãe Ísis de cujo santuário ainda sobrevivem os seus restos em Braga, a Bracara Augusta. Este é, realmente, um Caminho de Fogo, do Fogo Criador do Espírito Santo ou Kundalini segundo os sábios hindus. Ele subsiste e persiste na Península Ibérica como módulo único de Iniciação Móvel, leitmotiv da Peregrinação. Esta que cedo também foi adoptada por árabes xiiitas e judeus sefarditas, sobretudo por estes onde até a Sefarad ou Ibéria ficaria associada onomasticamente a Hebreu ou Hibram, o “Único”, que é o que significa o védico Brahm, donde Brahma, o Deus Primordial. Pela maneira como se peregrina, pode ou não se aperceber estar num processo de Iniciação Móvel, como o viveu o maiorquino Ramón Lúllio, por exemplo, mas também a nossa Rainha Santa Isabel. Confessionalmente, é caminho de penitência, de resgate kármico, como dizem os sábios hindus, mas também não deixando de ser caminho de encontro com o Divino. É Rota que sobe de Sagres a Santiago de Compostela, para não dizer, à Coruña ou Corona, desembocando na Plaza de Portugal, ali próximo ao Mar dos Mortos, em Finisterra.

Mas primeiro passará pelo Sol gravado no Padrón, pois “quien vay a Santiago y non visita al Padrón, o faz romaria ou non”! Padrón fica cerca de sessenta quilómetros abaixo de Santiago de Compostela, e está lá a tal pedra solar, o tal bétilo, onde o povo diz ter atracado a barca de pedra, a Arca do Saber de São Tiago Boanerges.

Como rota religiosa e espiritual será tudo isso, e ainda assim o Caminho de Santiago abre-se, rasga-se a todos como painel de oportunidades, oportunidades onde cada um escolhe a que melhor lhe condiz. É um leque de possibilidades ad infinitum, possibilidades oferecidas indiscriminadamente pelo Caminho a todos na sua marcha para o Divino. Uns percorrem-no por um lado, outros calcorreiam-no por outro; uns conduzem-se por uma noção mais religiosa, outros por outra mais cultural, outros até só pelo turismo, o simples passeio, mas no fundo todos se identificando ou tão-só apercebendo a Algo que lhes é superior, seja Deus, seja a Natureza, seja algum santo, alguma igreja ou ermida, seja o que for. Os próprios albergues no Caminho estão demarcados estrategicamente, em guisa de demarcar as etapas da Iniciação. Nisto tem-se representado na Terra o Caminho da Verdadeira Iniciação.

Mas, como disse, o Caminho de Santiago de Compostela não é só um caminho religioso. Não é assim que a UNESCO o reconhece, nem foi só assim reconhecido ao longo da História. É sobretudo um caminho cultural. E a cultura implica o vector religioso, o vector naturalista, igualmente o hermético ou esotérico, assim abrangendo as várias partes ou aspectos do todo constitutivo da Rota Jacobeia.

Esta Rota Jacobeia é Caminho de Espírito Santo, geograficamente subindo de Sagres à Corunha, à “Corona”, e sendo Sagres o “Sacro”, o cóccix do país, é como se fosse a coluna dorsal da própria cabeça do corpus da Ibéria, como seja Portugal.

Todos os outros caminhos jacobeos, la Ruta del Estaño, la Ruta del Cobre, la Ruta del Oro, la Ruta de la Plata, etc., acabam sendo caminhos subsidiários. O próprio Caminho Francês é um caminho subsidiário em relação ao Caminho Português, conforme a narrativa da Legenda Aurea dada a conhecer por Frei Tiago de Voragine cerca de 1260, e depois por outros mais. Onde acontece a maior parte da saga narrada na Legenda Aurea? A peregrinação de São Tiago em vida, mandado pela Virgem Maria na sua primeira viagem à Península Ibérica, acontece na região de Braga, território português que já o era no tempo de Voragine. Só depois disso, continua a Lenda, é que o Apóstolo adentrou o interior hispânico indo até Saragoça, onde a Virgem lhe apareceu sobre um pilar, donde a cultuadíssimo Nuestra Señora del Pilar. Mas os principais acontecimentos dessa odisseia pastoral aconteceram na região portuguesa da antiga Bracara Augusta.

É curioso que, em Braga, as relíquias do bispo São Frutuoso e todos aqueles santos bracarenses e do Alto Minho foram furtadas durante a noite pelo bispo Gelmírez, no século XII, e levadas para Compostela. A maioria das relíquias e santos que hoje se veneram em Santiago de Compostela são, afinal, portuguesas. Além de muito curioso isto é bastante sintomático.

Os autores medievais e da Renascença consideraram que o bispo Diego Gelmírez praticou pio latrocínio, “roubo sagrado”, feito aos portugueses. Esta história está toda contada no meu livro sobre Santiago de Compostela.

AP – Obrigado por toda essa riquíssima informação que facultou sobre o Caminho de Santiago. E o caminho de Portugal? E a nossa missão? E por onde é que nós andamos? Pois há pessoas que terão consciência, que trabalham nesse sentido. Mas este caminho tem um conjunto de pessoas que está a passar sérias dificuldades materiais e também espirituais, muitas delas desnorteadas.

VMA – As crises físicas são sempre o reflexo das crises psíquicas, enquanto o Espírito dorme, isto é, não desperta. É uma crise psicossocial que afecta a sociedade portuguesa como reflexo da crise que afecta a sociedade planetária. É a dor de parto. É o Roncador, o “Ronco da Dor” de parto de uma Idade que já começou, que já iniciou astrologicamente em 28.9.2005 e só faltando despertar, florescer, começar a frutificar consciencialmente, o que vai acontecendo aos poucos, quase imperceptivelmente como uma mó triturando os grãos donde sairá a farinha, porque a Evolução jamais cessa.

Portugal é a cabeça da Europa. Segundo as várias cartas anatómicas do continente europeu, Portugal ocupa a cabeça da mesma. Por isso, Portugal reflecte tudo o que há de agradável e de desagradável na Europa. Havendo uma crise europeia, diz-se que a culpa é dos alemães, dos ingleses, etc. Não! A culpa é do Homem que está realmente queimando o Karma Colectivo. Portugal reflecte realmente todos esses anseios e em dobro, os seus e os do continente. A cabeça, o cérebro, por isso está no topo, dirige todo o corpo. Quando o coração morre, pára, o cérebro ainda lateja. Daí falar-se em morte cerebral e em morte cardíaca, posto o cérebro estar acima do coração. O mesmo em relação a Portugal perante a restante Europa.

A Profecia de Sintra proferida nos anos 70 por excelso Ser conhecido entre os homens como Leonel da Silva Neves ou Giulliano di Lorenzo, acaso se inspirando no roteiro ritualístico de chamada Ode ao Som, diz: “Quem nasce em Portugal é por Missão ou Castigo”. Tanto vale por Dharma ou Karma, segundo os sábios hindus. Para a maioria das pessoas que aqui nascem é realmente por castigo, enfim, para queimar o seu karma. Contudo, há outros que nascem com uma missão, e aí a sua finalidade poderá passar por expandir o Portugal do Pensamento no Mundo e deixar boas sementes aos presentes e vindouros.

Este é um país peculiar. É um país que não é de raça definida mesmo sendo de raça definida, isto por se constituir da fusão consanguínea dos principais povos da Antiguidade, acrescentado por outros tantos povos posteriores. Da Antiguidade vieram os fenícios, cartagineses, romanos, gregos, árabes, etc. Posteriormente chegaram os teutónicos, alemães, ingleses, franceses, espanhóis, etc. E todos se foram misturando, amalgamando no que sobressaiu o mais franco e transparente ecletismo. Portugal é uma amálgama racial, um espelho da Humanidade, um espelho do Mundo. Acompanhando a marcha dos ciclos por que se rege a Evolução Universal, Portugal está mudando, está se transformando paulatinamente para que, afinal, nele não mais se nasça por castigo e sim por missão, a da realização interior e colectiva dos Lusos, isto é, dos “Filhos da Luz”.

Até lá, façamos o nosso melhor. Nunca nos esqueçamos que a energia persegue o pensamento. Tentemos transformar este marasmo, esta neurastenia, esta depressão colectiva em que hoje está mergulhado o povo português, em algo de positivo. Educando-o superiormente, elevando-o a uma cultura superior de espírito. Propondo, nunca impondo coisa alguma, sempre propondo. Os meios de comunicação social têm nisto um papel crucial, principalmente os audiovisuais.

Os big brothers, as novelas, os futebóis, o sexualismo, etc., são muito curiosos no convoco das baixas emoções. Acabam sendo o pão dos alucinados. Mas o povo não está destinado a ser alucinado, tão-só tentam aluciná-lo. O povo não está destinado a ser estúpido, tão-só tentam estupidificá-lo.

Então, se se consegue alucinar e estupidificar momentaneamente as pessoas, por que não se conseguirá também transformá-las permanentemente em seres lúcidos e sábios?

Talvez, ou por certo, os alucinados e os estúpidos que não são lúcidos nem sábios sejam os meios de comunicação social. Não os meios de comunicação social em si, mas as grandes empresas directoras dos mesmos ao serviço da Forças da Involução. Nisto se entra nos sectores da contracultura, da contra-civilização, da contra-Iniciação, da contra-Tradição Iniciática das Idades, disposição e intenção característica apanágio satânico da chamada Linha Sinistra, inimiga letal da Humanidade por ser avessa a qualquer sinal de humanidade.

Pois tal como há uma Grande Fraternidade Branca, também há o seu oposto que vai manipulando em sentido contrário as Forças Vivas do Universo. Sendo conscientes disto, não devemos dar força à Linha Negra que vive da nossa ignorância e temor.

Conheci em tempos não muito distantes uns jovens possuídos de crenças satanistas, ou asatânicas assurinas como se diria em termos iniciáticos. Embandeiravam em arco, vestiam de preto, ausência de cor, e brandiam umas espadas de goécia, com os rostos pintados de branco lívido para dar ar cadavérico. Disse-lhes que “isso assusta coisa nenhuma. Vocês têm o valor que eu vos der, e como não vos dou valor nenhum, sois apenas ridículos”. Infinitamente mais ridículos do que as cartas de amor de Fernando Pessoa, porque essas cartas de amor não eram ridículas, eram sentimentos da alma, uma efectiva e duradoura experiência humana.

Adiantei: “Vocês fazendo isso não têm qualquer valor nem força, porque as trevas só possuem o valor e a força que a pessoa lhes dá. Pessoalmente, não lhes atribuo valor nenhum nem lhes dou força alguma, só vos considero pessoas perturbadas fazendo teatrinhos desengonçados”.

Aparte isso, movimentos, pessoas, ideias, ideais como esses de que vimos falando, sempre tendendo ao aprimoramento do carácter e da cultura, ao aperfeiçoamento humano, têm feito evoluir a sociedade no geral. Foram pessoas, como algumas das já citadas, que fizeram com que Portugal chegasse ao presente estado de progresso.

Bem sei que, no mapa da Evolução geral, há o intento de progresso e há a tentativa de recesso, mas eu não acredito em recesso, e queira-se ou não, como dizia Jesus Cristo e repetia Félix Bermudes, “o Homem está condenado a ser Deus”, ou por outra, “Deuses sois e disso vos tendes esquecido”. Note-se bem que não fico de mãos e braços cruzados vendo os cães ladrar enquanto a caravana passa. Foi coisa que nunca fiz, a de cruzar os braços passivo e rendido, porque, em termos maçónicos, nunca apontei canhões à retaguarda.

Penso que o destino de Portugal está relacionado com o Quinto Império do Mundo. Este certamente não é o quinto império segregacionista e xenófobo dos adeptos dum incerto D. Sebastião. Qual quê D. Sebastião! Esse rapaz morreu em Alcácer-Quibir a espadeiradas, aquilo foi uma encarniçada e desgraçada batalha que antes de começar já estava condenada ao fracasso das forças portuguesas. Só sonha o contrário o patrioteiro inflamado que nunca soube o que é estar em palco de guerra. Eu já vi a guerra de perto e sei o que bestialidade humana é capaz de fazer. Portanto, falo com experiência de causa. Sei também que algumas pessoas dizem ele ter escapado vivo e fugido – um rei a fugir para toda a parte menos para o seu reino… – seja para Limoges, seja para Veneza, seja para outros lugares popularizados na literatura-de-cordel baseada em boatos, nunca em factos concretos comprovados ou passíveis de provar. Assim, não passam de crenças baseadas em indícios soltos e em curiosidades fantasiadas da História, este o cimento do “Sebastianismo Vermelho” como o apodou António Sardinha e Alfredo Pimenta.

Contudo, ficou o mito, ficou o símbolo e este símbolo pátrio reverte ao Paracleto, ao Consolador das Nações, como aponta o Apóstolo São João no capítulo XIV do seu Evangelho, e nisso entramos no tema da Parúsia, o do Advento do Cristo Universal sobre a Terra em conformidade à sua Promessa de retorno no final dos Tempos do Ciclo actual, Ele o Maitreya, o Chenrazi, o Vaidorge, o Akdorge, o Miroku, o Sossioh, o Iman Madhi, o Mashiach ou Messias, o Kalki-Avatara, o Encoberto Desejado, enfim, tantos são os seus nomes conforme as tradições religiosas locais, todas apelando e apontando ao Advento do Divino, cuja Era Messiânica ou Avatárica é referida como o “Mundo vindouro”, o “Reino de Deus consumado”.

Cristo será reconhecido pela Humanidade na medida em que a Humanidade primeiro O reconhecer em si. Não há outra maneira de o fazer, senão o da identificação com o Deus Pessoal para se reconhecer e identificar ao Deus Universal.

Este é o sentido básico da metafísica do Sebastianismo, ou antes, da Sebástica Iluminada, porque como disse há um “Sebastianismo Vermelho” que vê sinais apocalípticos augurando bizarros eventos políticos por tudo quanto é sítio, quase sempre racistas, xenófobos e segregacionistas, mas também há o “Sebastianismo Branco”, francamente teosófico, superiormente esclarecido, nunca confundindo a realidade do sentido primaz dos símbolos, sejam nacionalistas ou não, dando à Pátria um sentido transcendente. Como disse, António Sardinha e Alfredo Pimenta definem muito bem esses dois vectores. Com o “Sebastianismo Branco”, teosófico, adentra-se a Sebástica no seu sentido universal, indiscriminador de cores, raças e crenças.

É como no tema da translatio imperii, da trasladação dos impérios, afim ao do Quinto Império do padre António Vieira, ideia que se tornou ideal de vida após as receber de Manasseh Ben Israel, rabi mor da Sinagoga de Amesterdão, que era o seu amigo madeirense Manuel Dias Soeiro (1604-1657). Depois, no século XX, Fernando Pessoa, destacando-se dentre outros, prossegue o ideário de Quinto Império iniciado pelo padre António Vieira, o Paiaçú, “Grande Pai” dos tupis e guaranis da Nova Lusitânia, o Brasil, ao qual Pessoa apodou de “imperador da Língua Portuguesa”.

Mas tal Quinto Império não é o Quinto Império Português. É o Quinto Império de Portugal no Mundo. O Portugal do Verbo, o Portugal da Palavra, o Portugal do Espírito Santo, da Consolação, mais uma vez, do Paracleto. É o Quinto Império que abarca todo o Mundo, sobretudo o de expressão portuguesa, mas que alastra a toda a Humanidade porque, usando as mesmas palavras de Fernando Pessoa, todos os países são divinos, todos os países são sagrados, já que a Humanidade é sagrada e divina, não fosse ela proveniente de uma única Origem.

O Quinto Império é também o quinto estado de consciência no Homem. Temos um estado de consciência física, um estado de consciência vital, um estado de consciência emocional, um estado de consciência mental e agora urge um quinto princípio, uma quinta coisa, uma quintessência, a do estado de consciência espiritual, cujo despertar impele e apela à Concórdia Universal dos povos da Terra inteira, ou como dizia Pinharanda Gomes com muita felicidade, “ao dia em que já não haverão mais preces de súplicas, porque todos cantarão louvores a Deus e os Anjos entrarão em revoada pelos templos destelhados da Natureza”. A própria Natureza é o Mundo, então sob o terno abraço do Divino com o Humano e do Humano com o Divino. Tanto vale pelo despertar da consciência superior no Homem. Esta é a maior Mensagem de Esperança que os Seres Superiores têm trazido à Terra, dando propostas de solução para o magno problema humano, o da sua felicidade.

Trabalhemos para isso. Não fiquemos só pelas depressões, pelos futebóis, pelas paranoias das modas, pelas hipocondrias e neurastenias, pela autocomiseração que se revela como insegurança e derrota pessoais. Levantemo-nos e obremos para mais e melhor, para bem nosso e dos nossos semelhantes em Humanidade. Criemos o Céu na Terra.

Se há gente que sofre? Sim, sempre houve, mas também sempre houveram soluções independentemente das condições interiores e exteriores de cada um e cada qual. Resta as procurar e não render-se às malhas fatais do destino, deixando-se arrastar no limbo do mesmo. Todos têm a possibilidade de transformar o seu destino, ou como diriam os sábios do Oriente, de transformar o karma em dharma, mesmo porque quando os homens fecham a porta Deus abre uma janela, janela de oportunidade. Ainda assim, e também por isto, não posso confiar em pleno conhecimentos de realidades superiores à impuberdade juvenil, que tanto em idade como em convencimento autossuficiente vai dos oito aos oitenta. Por exemplo, como lhes poderei confiar mais do que o limite possível  sabendo que estão na impuberdade psicomental, alguns até na impuberdade física? Sei até onde conseguem ir, e o que tenho de saber é a arte de os acompanhar e direccionar para mais alto, ainda que por enquanto se fiquem pelos interesses e coleccionismos de coisas insólitas, pelo desinteresse em aprofundar indo além do simples maravilhamento, etc. Tudo tem o seu tempo para amadurecer, nada que seja imposto resulta positivo, algo assim como querer que fruta verde seja madura num golpe de mágica. Sim, não se deve impor, tão-só propor. Assim mesmo para o conjunto impúbere da Humanidade tomada individualmente: hoje sou do Benfica, mas amanhã já sou do Sporting e depois do Porto; hoje sou do PSD, mas amanhã já sou do PS e depois do PCP. Hoje sou disto, amanhã sou daquilo e depois de aqueloutro… Isso porque a pessoa titubeia indefinida, não sabe o que quer, anda à procura. Tem de ser de alguma coisa menos dela própria, ausente de razão própria limita-se a imitar o “dono”, seja singular ou colectivo, tem “grilos na cabeça”, problemas psicológicos por resolver quer consigo, quer com o próximo, e não acha soluções porque a sua agitação psicomental e física não conhece a serenidade que o parar para reflectir importa. Como é que a pessoa pode mostrar grandes saberes transcendentes e inéditos além dos conhecimentos decorados por acção mecânica, quando a mente se agita sem cessar? Primeiro devemos tratar da nossa casa antes de pretender tratar da casa dos outros, fazendo isso é praticamente certo que o fenómeno urbano ou suburbano dos gurus autossuficientes terminará de vez. É assim com a Humanidade, e é assim com o povo português. O que, individual e colectivamente, o povo português necessita é tirar os “grilos” da sua alma, da sua cabeça, do seu coração e abraçar aberta e incondicionalmente o seu destino último de povo predestinado. Predestinado a quê? A um laço, a um abraço de Amor e de Sabedoria com toda a Humanidade da qual afinal é espelho.

Pouco tenho a acrescentar a esta entrevista que é quase um codicilo da minha vida, onde deixo tanto por contar. Assim, acrescento só o seguinte como derradeira tentativa aqui de arredo do error e da errância: Neste tempo de pandemia sanitária geradora de pandemónio global, resgate kármico colectivo para o qual tanto avisei e tão censurado fui, nesta hora de cair das máscaras e fingimentos e com isto dos valores do passado agora já podres e gastos, tem-se que Espiritualidade e Política nunca se alhearam uma da outra, sempre foram indissociáveis. Ao longo da História sempre foram eleitos/depostos governos políticos no Mundo por intervenção directa mas encoberta de Ordens Iniciáticas que alavancaram avante a Civilização Humana. Todas as Ordens Iniciáticas e até as religiões confessionais de Tradição, sempre se opuseram à tirania, ao nepotismo, ao racismo, às autocracias, às oligarquias e ditaduras sobre os povos, independentemente dos seus credos, cores e raças. Assim foi e é na Rosacruz, na Maçonaria, na Teosofia e, obviamente, na TEURGIA – a Obra de Deus – levando a teoria à prática e a prática dirigida à praxis da transformação das consciências no inculcar de novos hábitos e costumes afins à verdadeira condição humana de Fraternidade Universal de um e todos no pessoal e colectivo, como a mais importante, crucial e verdadeira revolução de que o Homem carece há tanto tempo. Com isto, realiza-se o Quinto Império, o Quinto Sistema do Deus da Ara de Luz, a Concórdia Universal do Mundo. O resto, resto é: escórias psicofísicas e mentais transbordadas como cegueiras ideológicas retrógradas face à Evolução do momento, levando até a manifestações em palavras e actos de desumanidade irracional, mas que haverá de passar arrastada pela corrente fatal do Oceano da Vida como palha vã. Sursum mens – sursum cordis – sursum voluntatis. Glória a Deus nas Alturas e Pax na Terra aos homens de boa vontade. Tenho dito.

AP – Muito obrigado. Foi uma bela maneira de encerrarmos esta entrevista. Chegámos mesmo ao termo. Muito obrigado Vitor Manuel Adrião, mais uma vez, pela sua disponibilidade e entrega. Foi um prazer.

BIOGRAFIA

Nascido em 26 de Novembro de 1959.

Formado em História e Filosofia, antiga cadeira de Histórico-Filosóficas da F.L.L., dedica-se há mais de 30 anos à investigação histórica na área da simbologia e tradição portuguesa no período medieval, tendo coordenado vários cursos sobre História Sagrada de Portugal e visitas de estudo afins patrocinadas pela Academia de Letras e Artes e a Universidade Lusófona. Estudioso da cultura do Termo ou dos Saloios, dedicou ao tema dezenas de artigos e vários livros publicados, valendo-lhe louvores públicos de várias edilidades municipais, diplomas e a medalha de honra da freguesia de Santo António dos Cavaleiros, por seu contributo à aprovação do seu brasão e bandeira, o que igualmente sucedeu em Loures e Frielas, nesta como interventor e divulgador da cultura folclórica e etnográfica local, tendo recebido vários prémios e menções honrosas.

Animador dos caminhos portugueses para Santiago de Compostela, tem publicados artigos e um livro, “Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa”, dedicados ao tema, tendo o jornal “La Voz de la Galicia” o entrevistado em 1994 descrevendo-o com palavras elogiosas. Conferencista e escritor, com mais de 2000 palestras feitas, centenas de artigos publicados e 40 livros editados, periodicamente colabora em emissões de rádio e televisão, jornais e revistas nacionais e estrangeiras.

Autor da “História Oculta de Portugal” e da “História Secreta do Brasil”, editadas em São Paulo, a sua prestação cultural ao Brasil valeu-lhe em 2002 receber o título perpétuo da Cadeira Histórica e Cultural, certificando-o Comendador, da Sociedade de Estudos de Problemas Brasileiros. Em 2010 o Grande Oriente do Brasil concedeu-lhe a medalha e o diploma de Mérito de Honra.

Em 1978 fundou a Comunidade Teúrgica Portuguesa em Sagres, Instituição Cultural-Espiritualista que vem dirigindo desde então na linha de pensamento da antiga Sociedade Teosófica Brasileira, mas adaptada à vocação lusíada com pólo fixo em Sintra, serra de cuja História Sagrada também é o primeiro autor português, tendo escrito e publicado os livros “Sintra, Serra Sagrada” e “Quinta da Regaleira – Sintra, História e Tradição”.

Ultimamente tem dirigido um sítio da internet, “Lusophia”, com temas de Portugalidade e Tradição.

OBRAS PUBLICADAS

História e Tradição

Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993.

Rotas de Loures. Edição do Autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.

O Saloio de Loures (Génese e evolução). Edição do Autor, Loures, 1995.

Autores lourenhos. Edição do Autor, Loures, 1995.

Frielas (Memorial Histórico). Edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas, Loures, 1996.

História Oculta de Portugal. Edição policopiada do autor em 1988; Madras Editora Ltda., São Paulo, Brasil, 2000, 2002.

Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2009.

Portugal, Sagrado e Mistério (Memória Histórica). Edição do Autor chancelada pela Academia de Letras e Artes, Lisboa, 2017, 2018.

As Forças Secretas da Civilização. Madras Editora Ltda., São Paulo, Brasil, 2003.

Fernando Pessoa, Hermetismo e Ideal. Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2016.

Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Edição do Autor, Lisboa, 1994; Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, 2007; Madras Editora Ltda., São Paulo, Brasil, 2011; Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2020.

Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição policopiada do autor em 1995; Editora Dinapress, Lisboa, 2011.

História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda., São Paulo, Brasil, 2004; Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2017.

Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Edição policopiada do autor em 1990; Editora Dinapress, Lisboa, 2007.

Sintra Encantada (Deuses e Tradição – Homens e Lenda). Espiral Editora, Lisboa, 2017.

Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Edição policopiada do autor em 1991; Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, 2007.

Quinta da Regaleira (Sintra, História e Tradição). Editora Dinapress, Lisboa, 2013.

Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império. Edição do Autor, Lisboa, 1994; Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, 2007; Edição do Autor por Bubok Publishing S.I., Lisboa, 2012; Nova Vega Lda., Lisboa, 2016, 2017.

Guia de Lisboa Insólita e Secreta, em cinco línguas (português, espanhol, italiano, francês, inglês). Edições Jonglez, Versailles, França, 2010, 2015.

Guia de Lisboa Sagrada e Profana. Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2016.

Teosofia e Tradição

Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Editora Dinapress, Lisboa, 2002.

A Ordem de Mariz (Portugal e o Futuro). Editorial Angelorum Novalis Lda., Carcavelos, 2006.

Ordem de Mariz (Iniciação e Segredo). Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2019, 2020.

Portugal, os Mestres e a Iniciação. Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, 2008.

Terra Nostra (Os Mestres e a Iniciação). Madras Editora Ltda., São Paulo, Brasil, 2013.

Portugal, Dimensão Oculta. Chiado Editora, Lisboa, 2015.

Diálogos Aghartinos, volumes I, II, III. Edições Agartha, Alto Paraíso de Goiás, Brasil, 2008.

Deuses de Agharta (O Mistério do Mundo Subterrâneo). Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2017.

Teosofia e Tarot (Os 22 Arcanos Maiores). Edição do Autor, Lisboa, 1996; Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2015.

Mensagem das Estrelas (Teosofia e Astrologia). Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2017.

Agharta – Geografia da Iniciação. Espiral Editora, Lisboa, 2020.

Cristo, Vida e Mistério. Edição policopiada do autor em 1986; Espiral Editora, Lisboa, 2021.

Traduções

Cartas dos Mahatmas M. e K.H. (do francês), 1999.

Cartas dos Mestres de Sabedoria (do francês), 1999.

Esboços sobre a Iniciação, por René Guénon (do francês), 2000.

Iniciação e Realização Espiritual, por René Guénon (do francês), 2001.

Autoridade Espiritual e Poder Temporal, por René Guénon (do francês), 2001.

Estudos sobre a Franco-Maçonaria e o Companheirismo, por René Guénon (do francês), 2002.

O Rei do Mundo, por René Guénon (do francês), 2018.

O Tibete e a Teosofia, por Mário Roso de Luna (do espanhol), 2018.

Uma Mártir do Século XIX – Helena Petrovna Blavatsky, por Mário Roso de Luna (do espanhol), 2020.

Os Manuscritos Perdidos da Loja Blavatsky (do espanhol), 2020.

Notas sobre Geometria Sagrada – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 16 2021 

GEOMETRIA SAGRADA, NÚMERO D´OURO, CINCO SÓLIDOS PLATÓNICOS

A Geometria Sagrada é entendida como uma visão transcendente do imaginalis mundi onde os padrões básicos da existência configurando figuras dão-nos geometricamente apercebidos como de Origem Divina que o racional humano aplicará no plano imediato conectados ao sentido de símbolos sagrados, de aplicação gnoseológica para servir de figurações geometrizadas dos significados reais das catequeses, espirituais e religiosas, em princípio, secundadas pelo racional empírico fonte de especulações do intellectus, que representam. Donde se dizer que o Grande Arquitecto do Universo – Visvakarman, no hinduísmo – esquissou este pela Geometria, ficando as proporções das similitudes exactas ao encargo da Matemática.

Para Heródoto (II Livro de História, cap. CIX), é grega a origem da palavra geometria, composta de , “terra”, e metron, “medida”, portanto, a “medida da terra”, donde geómetra significar agrimensor ou “aquele que mede a terra”.

Através da relação com os símbolos geométricos, o geómetra, que em princípio será também matemático, contempla o Magnum Misterium que é o Grande Projecto do Universo, apreende as suas leis, princípios e inter-relacionamento das formas. As formas universais são sistematizadas num complexo geométrico onde cada figura tem a sua interpretação matemática e filosófica, sendo assim aplicadas nos projectos de Arquitectura Sagrada e Arte Sacra, sempre com as “divinas” proporções para que o Homem reflicta o Universo, e vice-versa. Geralmente aceita-se que a Geometria Sagrada e as suas relações matemáticas, harmónicas e proporcionais, também podem ser encontradas na Música, na Luz e na Cosmologia. Esse sistema de valores foi encontrado até mesmo entre os seres humanos da Pré-História, nas culturas megalítica e neolítica, donde alguns consideram-no como uma cultura ancestral da condição humana.

A Geometria Sagrada é a ciência indispensável presente na edificação de imóveis com fins sagrados, destinados a interrelacionar o visível e o invisível, o Terreno e o Divino, como sinagogas, igrejas e mesquitas e pagodes, intervindo igualmente na construção interior desses espaços, sobretudo nos altares e tabernáculos. Herança da cultura greco-egípcia exportada para a antiga Roma, daí prosseguindo até à Idade Média europeia (séculos V-XV), durante essa inspirou a criação das arquitecturas românica (domínio do cúbico, fixação, arte de fraborum) e gótica (domínio do triangular, assunção, arte de argot) das catedrais, geometrias essas incorporadas ao simbolismo condizente com a mentalidade sagrada do tempo em que surgiram: para o românico, a meditação no aqui e agora, clausural; para o gótico, a contemplação no será e porvir, claustral.

Diz-se ter sido Pitágoras (Samos, c. 570 a.C. – Metaponto, c. 497 a.C.) o fundador do sistema de Geometria Sagrada na Grécia, na sua Escola de Crotona. Este filósofo e matemático grego terá ido buscar esses conhecimentos ao Egipto e à Índia, levando-os para a Grécia. Foi a partir do valor 1.618, Número de Ouro da Proporção Áurea, aplicado às formas geométricas dos cinco sólidos básicos, que Pitágoras criou o método matemático universalmente conhecido como Geometria Pitagórica.

Com efeito, o Teorema de Pitágoras evoca de imediato o Número de Ouro, antes, Número Perfeito, resumido no Três, este que, como reza a sabedoria popular, “é o valor com que Deus se fez”. É Número de Ouro no sentido exclusivamente místico, simbólico na tripartição da doutrina pitagórica em Nous – Nómeno – Fenómeno, no que Três designa a Sabedoria, a Manifestação e a Realização. Por isso, Pitágoras chamou o Três de Número de Ouro, por “reinar em toda a parte”, sendo o Um o seu princípio. Para consolidar esse axioma da sua filosofia, apresentou o Nous, a Mente Universal, o Nómeno como a essência da Mente que se manifesta no Fenómeno, e este, o Fenómeno, como o aspecto sensível e visível, mas também ilusório, da Realidade – Nous.

O número três é universalmente aceite como fundamental no desfecho da manifestação universal da substância, da consciência e da vida. Motivo de em todas as tradições espirituais e religiosas, e até nos hodiernos conceitos científicos como teoria – tese – antítese, estar presente o simbolismo desse algarismo, pelo que em todas as doutrinas e filosofias se reflecte nas tríades correspondentes às forças primordiais expressivas das Hipóstases do Deus ou Consciência Suprema – Nous. Desta maneira, o Três é Número de Ouro no campo místico, sagrado, mesmo obviamente não o sendo no plano nos planos da matemática e geometria, contudo continuando a ser a base da Proporção Dourada ou Regra d´Ouro [1].

Chama-se Número de Ouro, Secção de Ouro ou Proporção Dourada a uma relação particular de modo que a parte menor esteja em relação à maior, assim como a maior em relação ao todo. A isto a Geometria chama de “divisão de uma recta em média e extrema razão”.

Determina-se sobre a recta AB um ponto C, que:

Chamando c a distância AB, a a distância AC e b a distância CB, obtém-se a proporção contínua:

A distância c é igual a a + b. Portanto:

Chamando de x (kappa) à relação   b, obtém-se pela fórmula de solução comum de uma equação de 2.º grau:

As duas raízes dessa equação, são:

Considera-se o valor 1.618 como o do Número de Ouro f (phi) – hieróglifo de IO, a Mónada itinerante no rosário das suas manifestações no Mundo das Formas – e 0.618 como o seu inverso, isto é:

Na prática, não se usa o valor numérico do Número de Ouro. O traçado geométrico é mais preciso, ele evita o erro que sempre resulta de uma relação de medidas. A recta AB da Proporção Dourada a ser dividida constitui o “todo”; o comprimento AC a “maior” (parte) e o comprimento CB a “menor” (parte). Pode-se, portanto, considerar três casos:

1.º Determinar a maior e a menor conhecendo o todo.
2.º Determinar a menor conhecendo a maior.
3.º Determinar a maior conhecendo a menor.

Eis porque sem 3 não haveria Teorema Pitagórico nem Proporção Dourada, ademais sendo 7 (número de iniciação ao acto de criar) a soma do duplo 3 (3+3 = 6) unido (1) pela Mónada pitagórica, Nous, assinalada no f algébrico. Isto não esquecendo o valor 137 como o número cabalístico da própria Divindade, o Logos que sendo 1 manifesta-se como 3 Hipóstases através de 7 estados de consciência.

É igualmente da autoria de Pitágoras a conclusão sobre a “charada” geométrica da Quadratura do Círculo, este como “Espírito” inscrevendo-se no interior do quadrado da “Matéria” onde incarna, podendo processar-se o inverso como Circulatura do Quadrado, figuração do “Espírito” animando e accionando a “Matéria”. É também da sua autoria o Teorema Trigonométrico, descrito imprecisamente como “Quadragésima sétima Proposição de Euclides”, ou seja, “o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos”.

Em números, o Teorema Trigonométrico é assim traduzido:

32 + 42 = 52 ou 9 + 16 = 25.

Esotericamente, interpreta-se o Teorema da forma seguinte:

Assim, a “Quadragésima sétima Proposição euclidiana” acaba sendo a chave das relações entre as três partes maiores do Homem – Espírito (Nous), Alma (Psike), Corpo (Soma):

Segundo os antigos alquimistas, essa Proposição servia-lhes de base para a proporção correcta dos três elementos fundamentais – Sal ou Nitro, Mercúrio ou Azougue e Enxofre ou Sulfur, simbólicos, respectivamente, do Corpo, Alma e Espírito da Mater Natura – entrando na formação da Pedra Filosofal, equivalente da Iluminação Filosófica. Plutarco escreveu que após essa Proposição, poderia dizer-se: “A Natureza Universal na sua mais profunda e perfeita concepção, pode ser considerada como feita de três coisas: de Inteligência, de Matéria e do que resulta dessas duas, que na língua grega é chamada Cosmos”.

A partir dessa concepção geométrica e da métrica dos Versos Áureos, Pitágoras contribuiu para se propalar a explicação cosmológica segundo a convergência dos opostos: o limitado ou material (Prakriti, que não se opõe à divisão por dois, ordem par de natureza imperfeita) e o ilimitado ou espiritual (Purusha, que se opõe à divisão por dois, ordem ímpar de natureza perfeita), completam-se reciprocamente[2]. Daí porque da oposição entre os contrários, entre o finito e o infinito, entre a unidade e a multiplicidade, resulta a polaridade inerente a todas as manifestações fenoménicas.

Dando formas às manifestações fenoménicas, Pitágoras serviu-se de cinco sólidos (tetraedro, hexaedro, octaedro, dodecaedro, icosaedro), sobre os quais Platão veio depois a filosofar, passando a chamar-se cinco sólidos platónicos [3]. Pitágoras terá se inspirado no mito grego dos brinquedos do Menino-Deus Dionísio, ou sejam, a cesta, os dados, o pião, a bola e o espelho. Transpondo esses para o plano cosmológico, tem-se: a cesta representa o Universo; os dados os cinco sólidos platónicos expressivos dos elementos naturais (éter, ar, fogo, água, terra); o pião o átomo primordial da Matéria; a bola o Globo da Terra; finalmente, o espelho que reflecte a toda a Obra da Criação do Supremo Geómetra (Dionísio), a manifestação universal da Vida e da Consciência, de Deus ao Homem e vice-versa.

Cada um dos cinco sólidos platónicos também representa uma energia planetária que se encadeia através da forma num elemento natural. Assim, o dodecaedro é tradicionalmente relacionado a Vénus e à quintessência natural, o éter, expresso no zimbório do templo; o octaedro a Saturno e ao ar, representado no cruzeiro do templo; o tetraedro a Marte e ao fogo, assinalado nas aberturas do templo, por onde jorra a luz; o icosaedro à Lua e à água, que estabelece a harmonia das formas no esquisso do templo, ordenando as linhas de ligação entre altares e colunas; o hexaedro fixa o Sol no solo, representa o elemento terra, consequentemente, delineia o traçado da base ou chão do templo.

Esse é o propósito principal da Geometria Sagrada: o de expor por formas perfeitas e cálculos matemáticos justos a Perfeição Universal, e através da Arquitectura Sagrada ir encadear, acasalar ou unir a Multiplicidade com a Unidade no espaço geometricamente consagrado para o efeito. Por isso se diz, por fim, que o Templo é a expressão estática do Corpo dinâmico de Deus, o Supremo Geómetra.

PRINCÍPIOS DA ARQUITECTURA SAGRADA
(DECUMANO, CARDO, EIXO)

Um burguês da Idade Média passeava por uma pedreira e encontrou um grupo de três trabalhadores, dirigiu-se a eles e perguntou o que faziam. “Ganho a vida”, respondeu o aprendiz. “Talho uma pedra”, respondeu o companheiro servente. O terceiro, mestre de ofício, fitou com desdém o estranho e afirmou: “Construo uma catedral”.

Possuídos do nócio hermético, metafísico da Geometria aplicada à Arquitectura com isso revestindo-a de noção transcendente indo dispô-la no plano do Sagrado, os monges construtores medievais – herdeiros dos conhecimentos operáticos dos Colegia Fabrorum latinos – constitutivos da primitiva Maçonaria Operativa,construtora dos principais monumentos românicos e góticos da Europa, principalmente as grandes catedrais, fizeram estas de maneira a reproduzirem o próprio Universo, de forma ao que está em cima (no Céu) ser igual ao que está em baixo (na Terra), e vice-versa. Se os templos são formas estáticas do movimento celeste, ainda assim são animados pela presença dos fiéis, tal como os seus símbolos são vivificados na liturgia. O plano do solo do templo é uma projecção horizontal ordenada do Universo. Na razão da orientação solar, cada ponto cardinal indica uma posição extrema do ciclo sazonal e diário, pondo o Tempo em movimento harmónico com o Espaço. O percurso no templo reproduz o ano solar ritmado pelas fachadas, no que é o caminho conduzindo das trevas à luz.

Na concepção teológica judaico-cristã, o Outono ou Crepúsculo está a Oeste; o Inverno ou Meia-Noite está a Norte; o Amanhecer ou Alva da Primavera, a Este; finalmente o Verão ou Meio-Dia, a Sul. Esta dinâmica do espaço é utilizada no calendário litúrgico pelo que, em função do momento do ano ritual, certas portas são abertas enquanto outras são fechadas, em referência ao tema “portas santas”. O Norte é o lugar menos iluminado do templo, pois expressa o frio, as trevas, o mundo invisível representado pelo mundo subterrâneo ou a cripta. Todo o simbolismo do portal norte é consagrado às origens estelares, à Estrela Polar.

O Este indica o início do Mundo. É aí que, pela primeira vez, o Sol se levanta indo o seu raio de vida incidir sobre o altar-mor. Igualmente aponta a direcção de Jerusalém, mais que tudo da “Nova Jerusalém” expressiva do Paraíso Celeste, altar maior que ao concentrar nele a potência do Sol Nascente expande-a como Espírito de Vida por todo o templo. O Sul marca o zénite solar, o apogeu da Criação e a sua frutificação. Por isso, é o lugar do púlpito, do Evangelho como Verbo Divino manifestado. O Oeste é a região do recolhimento, da Morte, do ponto de contacto entre o profano e o sagrado, e por esta razão a principal porta de entrada está a Oeste para que o mortal encare a condição imortal expressa pelo altar-mor, a Este. O Oeste marca o Outono, o Fim dos Tempos de um ciclo planetário marcado pelo Zodíaco que, aqui, é representado ao centro pelo Padre Eterno (configurando o Sol Central), ou então pelo Filho cercado pelos 12 Apóstolos figurativos dos signos.

De acordo com o decumano (sentido Este-Oeste) e o cardo (sentido Norte-Sul), há duas entradas no templo: a principal é chamada Porta do Tempo, por indicar o percurso do Sol na nave de Este a Oeste, pondo em movimento o Tempo no Espaço sagrado. O decumano determina o eixo Humano do edifício, que vai do nascimento à morte, ou seja, do Este ao Oeste. A entrada pela porta Oeste permite levar o Tempo da morte à vida, ou seja, do neófito, do que vem de fora do templo, ao iniciado, do que participa da Origem Primordial assinalada pelo altar-mor a Este.

Há também a entrada lateral chamada Porta da Eternidade, tendo a ver com o cardo, ou sentido Norte-Sul. O cardo representa o eixo da Eternidade e cruza-se com o decumano expressivo do Tempo, logo, o Tempo da Eternidade, sob o fecho da abóbada, esse que é a pedra angular, filosófica, de todo o templo.

O fecho de abóbada adiante do arco triunfal que separa o altar-mor da assembleia dos fiéis, marca o áxis mundi ou eixo do mundo (também chamado eixo cósmico, centro do mundo, pilar do mundo ou coluna cerului). A sua imagem, reflectora do macrocosmos nomicrocosmos, exprime o ponto central de conexão entre o Céu e a Terrado qual irradiam as quatro direcções cardinais, pelo que funcionacomo omphalo (umbigo) ou “centro primordial” do templo (assim como dum espaço urbano), como póloirradiador e ponto de encontro das direcções Norte-Sul (cardus) e Leste-Oeste (decumanus) que aí se cruzam. É o ponto zero do templo, como igualmente é o marco zero numa civitas [4].

Sendo o templo a expressão estática do Corpo de Deus, o seu esquisso ou planta cruciforme representa o corpo humano de braços abertos ou descaídos, o próprio Homem Cósmico Adam-Kadmon, figurativo do Logos Planetário. Cada parte do templo possui qualidades comparáveis às partes do corpo. O círculo da abside de cabeceira representa a cabeça, enquanto o cruzeiro da nave e do transepto expressa o coração, isto é, a vida que pulsa em todo o templo. Quanto à fachada oeste, representa os pés do Corpo de Deus, razão porque reproduz e resume os princípios e funções de toda a construção. Pela leitura da fachada oeste, o neófito é informado do conteúdo espiritual que deverá realizar no templo. Os “pés” de Deus evocam também os do fiel entrando na Sua Casa a fim de se realizar plenamente na Graça do Espírito de Santidade.

Toda essa disposição de “linhas de forças” geocelestes, conhecidas como leys na Idade Média e Renascença, cria estado de correspondência ou “simpatia vibratória” entre o Homem e o Cosmos. A entrada no templo corresponde à entrada no corpo humano, ou seja, à introspecção, no que o silêncio é exigido. Trata-se, realmente, da execução do princípio judaico-cristão, na realidade antigo axioma hermético greco-egípcio, de “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”.

SIMBOLISMO DO PENTAGRAMA

Vale ou saúdo tinha o valor de pentagrama, às vezes só inscrevendo este, nas cartas e/ou monumentos dos autores antigos. Um pentagrama esculpido à entrada ou/e na cabeceira de uma igreja, possuía o sentido de saudar, sem escusa do seu significado mágico de exorcizar o mal visível e invisível, além de no nível moral expressar a Perfeição Divina no Plano Humano.

O pentagrama, termo grego, pentagrammon,é a estrela composta por cinco linhas rectas que possui cinco pontas. Na língua portuguesa, pentagrama significa uma palavra com cinco letras. Na música, indica as cinco linhas paralelas que compõem a partitura.

Originalmente, era o símbolo da deusa romana Vénus, e assim é associado a este planeta cuja órbita circular com grau de excentricidade, vista da Terra, descreve aparentemente uma estrela de cinco pontas, como já informava a astronomia ptolomaica, desenvolvida por Copérnico e Galileu. Na Natureza, o pentagrama é o signo do quinto elemento (ou quintessência, posto ser as essências e não os seus metais que os antigos hermetistas designavam pelos nomes dos elementos naturais), o Éter, assinalado na sua ponta superior, enquanto nas demais pontas inferiores se assinalam os restantes quatro elementos: Ar, Fogo, Água, Terra. O pentagrama (ou pentalfa) é igualmente símbolo do Infinito: dentro do pentágono no centro do pentagrama é possível fazer outro pentagrama menor, e assim sucessivamente.

Possui simbologia múltipla, sempre fundamentada no número 5 que representa o casamento ou união do masculino (o 3, ímpar, macho) e o feminino (o 2, par, fêmea), dessa forma simbolizando a união dos contrários necessária à realização espiritual corporizada no filho, neste caso, o Cristo resultando no valor 5, e também por outra parte, relativa aos valores 2 e 3, a Lei da Polaridade na Manifestação Física sobreposta pela Lei da Unidade da Presença Espiritual.

Por essa razão, na matemática, com origem na Escola Pitagórica, o pentagrama (símbolo dessa instituição grega) anda ligado ao Número de Ouro (1.618): composto pelas diagonais de um pentágono regular e cinco triângulos isósceles, a razão entre o lado do triângulo e a sua base (lado do pentágono) é igual ao valor do Número de Ouro.

A Cabala judaica, através dos seus rabinos mais eruditos, considera o pentagrama simbólico da Vontade de Deus e da Protecção Divina. No Cristianismo é a Estrela do Natal, a do Nascimento de Cristo, no que preanuncia tanto o Espírito no Corpo (Nascimento), como o Corpo no Espírito (Ressurreição). Na Maçonaria é a Estrela Flamejante da Iniciação, plantada no Oriente da Loja, igualmente expressando a Ressurreição, no caso, após a morte simbólica do Companheiro para ressurgir como Mestre.

Quando o pentagrama se apresenta invertido (o chamado “pentalfa trevoso”), geralmente assumido símbolo do Mal contrário ao do Bem que é o pentagrama ao alto (dito “pentalfa luminoso”), quer dizer que o Espírito mergulhou na cegueira da matéria e nos padecimentos carnais da Alma humana. O pentalfa invertido é o da encarnação ou mergulho do Espírito na Matéria dentro do pentágono central do pentalfa maior, o da assunção triunfante do Espírito sobre a Matéria. Também nisto, como se observa em muitos monumentos religiosos e até lápides funerárias ostentando pentagramas invertidos, bem e mal vêm a ser relativos ou condicionados à proporção geométrica da medida áurea[5]. É preciso considerar a posição e o por que dos símbolos antes de catalogá-los a priori como “benéficos” ou “maléficos”, ainda que hajam os exclusivamente dessas naturezas.

No pentagrama invertido (assim como no triângulo invertido, yoni, em oposição ao vertido, ctéis) apresenta-se o sentido último do Eterno Feminino, expressando o derradeiro abraço mortal a Maria sinalética da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria. Donde o símbolo esculpido em pedras de cabeceira tumulares medievais, inclusive templárias, indicando que o Espírito se libertou e desceu, volveu ao seio da Mãe-Terra. Indica também a manifestação ou incarnação da Mónada por via do seu eleamento aos quatro elementos naturais, dos quais se liberta por ocasião da morte corporal volvendo à Essência Divina do Mundo – Anima-Mundi, Sophia, Shekinah, Maria, Allatah, Saravasti, etc., por regra tradicional tendo a melhor expressão na Virgem Negra. Em resumo, pentagrama vertido = inicío da Iniciação Dominical (Sacerdotal); pentagrama invertido = final da Iniciação Senhorial (Cavaleiresca). Enfim, consuma-se o das trevas à luz, da morte à imortalidade…

Os freires eruditos da antiga Ordem do Templo (séculos XII-XIV), além do citado propósito fúnebre, igualmente inscreviam o pentagrama invertido dentro do espaço geométrico do pentágono, deixando sempre, inclusive no fúnebre, o subentendido de ser parte de pentagrama maior inscrito na medida áurea resultante da equação dos valores da raiz quadrada de cinco. Essa medida é a mesmíssima presente nos imóveis de maior relevo e importância do Templo, em conformidade ao sentido pitagórico de Logos (Razão), 1.618, e de Pathos (Sentimento), 0.618, este presente no pentagrama invertido e aquele no vertido.

Um último apontamento: o pentagrama invertido só é símbolo maléfico quando aliado a intenções goécias – magia negra – com técnicas coreográficas, pictóricas, gestuais e verbais afins. De outra maneira, não! Tanto como os maçons não adorarem qualquer bezerro ou bode de algum gado (G.A.D.U. é só a sigla do Grande Arquitecto do Universo em seu Terceiro Aspecto Criador). O tal bode sinistro – que o ocultista Eliphas Lévi publicitou no século XIX, na sua constante e aflitiva órbita entre cabala e catolicismo – jamais foi símbolo do mafarrico cornúpeto e sim do Caprino ou Cumara, o poderoso Arqueu ou Assura que como “Príncipe do Mundo”, antes, “Rei do Mundo”, vem a ser o próprio Planetário da Ronda na sua função de Melkitsedek ou Chakravarti, no que se torna sobremaneira transcendente que nem o mais apurado dos intelectos humanos conseguirá apreender o seu sentido mais que espiritual, divino. A Via Negra do Kadosh, “Consagrado”, e negra por conter toda a luz, nisso na realidade sendo púrpura, é efectivamente a Via do Cumara, na qual de vez para sempre o Maçom deixa de ser “Filho da Viúva” – Ísis sem Osíris, a Terra apartada do Sol (Maha-Sun, Maçonaria, em interpretação livre) – ao tornar-se ele próprio de Filho em Pai, isto é, Osíris ressuscitado em Hórus, um Ser Cristóforo. Deixo a sugestão aos mais intuídos, capazes de perceber que 2 e 2 não é igual a 2 mais 2, ou seja, capazes de aperceber além das aparências onde o símbolo estático se torna realidade viva e dinâmica.

OLHO DENTRO DO TRIÂNGULO

A tradição do Olho dentro do Triângulo, visto sobre o altar-mor da maioria dos templos cristãos, tem a sua origem nos primeiros padres apostólicos do Cristianismo que a recolheram em Alexandria, herança do Egipto faraónico, cujo Sol Central (Ra) resplandecente viria a ser substituído pelo Olho da Divina Providência envolto numa luminosa aura de glória, inclusive cobrindo o Triângulo Divino ou Delta Luminoso, conforme ficou registado nas escrituras persas[6].

Esta figura geométrica pode ser configurada como triângulo equilátero ou como triângulo isósceles, também chamado triângulo sublime, que é o que forma a ponta do pentagrama cujo ângulo, no ápice, tem 36º, e cujos ângulos da base possuem 72º cada um. A designação de “sublime” foi-lhe dada pelos geómetras pitagóricos da Antiguidade.

Se para os antigos egípcios o triângulo equilátero representava a Tríade Osiriana (Osíris – Hórus – Ísis), para os cristãos passou a assinalar aTrindade Divina (Pai – Filho – Espírito Santo) como um só Ser indivisível assinalado no “Olho Que Tudo Vê”, muitas vezes substituído pelo Nome de Deus, Jehovah, geralmente decomposto nas quatro letras hebraicas Iod-He-Vau-He que configuram o Tetragramaton pelo qual o Logos Eterno se manifesta pelas suas Três Prosapas ou Hipóstases: Poder da Vontade – Amor-Sabedoria – Actividade Inteligente.

A marca da Trindade e do triângulo está presente na maioria das religiões tradicionais. Na Trimurti (Trindade) Hindu aparece expressa em Brahma – Vishnu – Shiva, antropomorfização da anterior Trimurti Védica Prana – Vayu – Tejas, ainda assim sendo sobretudo no Antigo Egipto ele aparece nas várias fases da sua História, pelo que além da Tríade Osiriana havia a Tríade Menfita (Ptah – Nefertoum – Sekhmet; Pai – Mãe – Filho), e a Tríade Tebana (Amon – Khonsou – Mout), todos deuses primordiais do panteão do povo do Nilo. Na Pérsia, havia Aura Mazda – Vohu Manô – Asha Vahista, ou seja, o “Mestre Sábio”, o “Bom Pensamento”, a “Perfeita Justiça”, e foi por esta primitiva Trindade que os cristãos conceberam a sua.

No século XVIII, com o aparecimento da Maçonaria Especulativa (Londres, 24 de Junho de 1717), rapidamente os maçons adoptaram este símbolo apelidando-o de Delta Luminoso, com um Sol, um Olho ou só um G ao centro radiante, designando o Grande Arquitecto do Universo, a Divindade Criadora de tudo e de todos, o Geómetra Supremo.

Por vezes os maçons substituem o triângulo por três pontos triangulados (. . .), significando o Passado, o Presente e o Futuro, enquanto o triângulo inteiro representa a Eternidade ou Essência Eterna como Substância Absoluta que na Manifestação triparte-se em Omnipotência (1.º Aspecto), Omnisciência (2.º Aspecto) e Omnipresença (3.º Aspecto). Os três ângulos expressam as três fases da revolução perpétua da existência: Nascimento – Vida – Morte… e Ressurreição, centralizada no Olho Providencial.

Em suma, o Olho no Triângulo resplandecente é o emblema da Divindade Una em Essência e Trina em Manifestação, unanimemente considerado representativo do Espírito Perfeito e do Iniciado verdadeiro unido à Essência Eterna que lhe confere a Iluminação.

NÓ DE SALOMÃO

O Nó de Salomão, assim chamado pelos artífices da Roma Antiga e da Grécia Clássica, que depois os mestres arquitectos da Idade Média continuariam a chamá-lo assim, possui qualidade mágica apotropaica, ou seja, que “pretende ter ou tem o poder de afastar o mal”.

Com efeito, na cultura tradicional onde o popular se mistura com o oculto, as amarrações ou “nós mágicos” têm a finalidade de prender os espíritos, tanto os bons como os maus. Como se crê que o Diabo leva consigo as almas perdidas, assim se supondo ter em seu poder alguma coisa que se perde, com isso amarram-no magicamente para evitar que escape e faça mal maior. As redes entrelaçadas do nó mágico tinham precisamente a função de apanhar, prender ou bloquear o mal. O Nó de Salomão é um nó eterno, as suas linhas não têm fim, não se consegue encontrar a ponta inicial ou final, e assim as forças do mal seguem linhas sem fim ficando presas na eternidade. Com isso, nasceu a tradição dos lugares amaldiçoados onde se acredita que o Demónio e os espíritos danados vivem amarrados por poder de magia maior que a sua, a de Deus.

Conhece-se a historia do Nó Górdio e a “delicada” solução para o mesmo feita por Alexandre, o Grande, rei da Frígia (Ásia Menor), e ter ficado conhecido pelos gregos e romanos como Nodus Herculaneus, um nó mágico conhecido na Kaballah judaico-cristã como Nó de Salomão, ao traduzir-se a palavra hebraica peka´im como significando “botão” ou “nó”, como se encontra na Bíblia em I Reis 6:18 e 7:24. No entanto, os exegetas modernos traduzem-no como “ornamento em forma de cabaça”.

Mas o Nó de Salomão, este Rei que trocou a riqueza pela sabedoria (I Reis 3:11-12), ou seja, sendo verdadeiro Iniciado nos saberes mais altos do Espírito, assim ficando para sempre como sinónimo de Rei Sábio nos Mistérios Maiores inacessíveis ao comum e vulgar, possui o significado primordial de união do Homem com a Esfera Divina (Sphera Dei). Com efeito, ao observar-se o símbolo identifica-se no nó circular duas redes que se entrelaçam diversas vezes numa geometria constante formando uma cruz absorvida sobre si mesma, sem princípio nem fim, como o Homem e o Divino espelhando um ao outro, recambiando para o sentido hermético de “o que está em cima é como o que está em baixo”, e vice-versa.

Assim é o Nó de Salomão em cruz, com os laços horizontal e vertical expressivos da Terra e do Mundo Divino, respectivamente, onde o tríplice nó é evocativo da Trindade Pai, Filho, Espírito Santo afins ao Espírito, Alma, Corpo, encadeados entre si na manifestação visível e tangível[7].

Os arquitectos medievais, à semelhança dos seus antecessores gregos e romanos, utilizavam o Nodus Salomonici para decorar tanto o pavimento como as paredes e colunas dos templos e palácios para neles encadear as forças geocelestes de maneira a possibilitarem a abertura da via de comunicação entre a Terra e o Céu, facto viabilizado no acto ritual da liturgia. Mas a crença popular extravasou o símbolo para a função apotropaica e gravou-o tanto à entrada como no interior das suas residências, como protector seguro contra as influência malignas, talvez memória semi-inconsciente do tempo de Moisés quando os hebreus pintaram com sangue de cordeiro os umbrais das portas de suas casas, para que as pragas da Ira de Deus não os atingisse.

Ao Nó de Salomão se associa a Swástika Clavígera que é a chave do esquisso de toda a catedral canónica, ou edificada segundo os cânones tradicionais da Arquitectura Sagrada, e até mesmo das rosetas hexapétalas vistas em alguns vitrais e gravadas em colunas e portais cujos contornos floridos configuram o hexalfa ou estrela de seis pontas, comumente chamada Estrela de David, simbólica da Alma Universal por os seus dois triângulos entrelaçados expressarem tanto a Terra como o Céu unidos.

Igualmente na Arte islâmica encontra-se o Nó de Salomão, e com tal profusão e beleza de traços que até hoje traz fascinados e confusos os historiadores de Arte. Para uns, dever-se-á ao facto da proibição religiosa de representações figurativas; para outros, à importância conferida pelos islâmicos e muçulmanos ao estudo da matemática e da ciência dos números; ainda para outros, os mais certos sem descuro dos anteriores, representa a indivisibilidade do Único (Allah), cuja explicação conservam no hermetismo dos códigos das suas confrarias iniciáticas, familiares do xiismo e do sufismo, impondo assim a influência do pensamento espiritual e religioso, místico, à mentalidade dos artistas que nas infinitas formas dos traços reflectiam a crença comum na unidade do Homem e Deus.

VESICA PISCIS, MANDORLA, FLOS VITAE

A designação latina Vesica Piscis, “bexiga de peixe”, surgiu no Cristianismo Primitivo entre os séculos I e III d.C., durante o período de intolerância e perseguição aos cristãos em Roma. Serviu-lhes de santo-e-senha, sinal secreto da fé partilhada ao desenharem na areia dois círculos entrelaçados, de modo que a parte central ou bexiga configurasse um peixe – afim ao Ciclo de Piscis aquando surgiu o Cristianismo – que em grego se escreve ichthus, adoptado como o anagrama Iesus Christos Theous Uios Soter, “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”.

Depois do Édito de Milão, declarado no ano 313 d.C., assinalando o acordo no qual o Império Romano se manteria neutro relativamente ao Cristianismo, indo passar o período de perigo, esse sinal de reconhecimento entre cristãos entrou em desuso, como relata Frédérick Tristan em Les premières images chrétiennes: Du symbole à l´icône (Editions Fayard, Paris, 1996).

Se a Vesica Piscis entrou em desuso como sinal de reconhecimento, o mesmo não lhe aconteceu na arte arquitectónica dos colegia fabrorum que lhe dariam aproveitamento e execução na Alta Idade Média através dos monges conscrutores beneditinos e depois os cistercienses. Foi assim que a Vesica Piscis entrou nas lojas e oficinas dos grémios medievais de arquitectos e construtores para designar a superfície compreendida entre dois arcos de círculo do mesmo raio, como se observa facilmente nos arcos geminados entrelaçados dos claustros de muitos mosteiros (Alcobaça, Jerónimos, etc.).

O próprio Albrecht Dürer (1471-1528), pintor, ilustrador, matemático e ensaísta alemão de Nuremberga, bebendo na tradição dos geómetras medievais foi buscar o termo fischblase, “bexiga de peixe”, para designar as figuras que resultam da intersecção de dois círculos. No seu tratado geométrico Underweysung der Messung, mit dem Zirckel und Richtscheyt (“Instruções para medições à régua e ao compasso”, 1525), Dürer utiliza palavras como “bexiga de peixe” para descrever a forma que queria expressar, como se nota na explicação da construção do eneágono no Livro II desse seu tratado, utilizando o termo fischblase: “O eneágono pode ser obtido a partir do triângulo. Desenha um grande círculo em redor de um centro a. Inscreve nele, com a ajuda de um compasso da mesma abertura, três bexigas de peixe”. Este tratado de Dürer vem a ser a prova escrita mais antiga conhecida do termo “bexiga de peixe” como figura geométrica[8].

Da Vesica Piscis deriva a Mandorla, consistindo no ponto de intersecção dos dois arcos que, como se disse, era primitivamente o santo-e-senha dos cristãos perseguidos que se reuniam em segredo nas catacumbas de Roma, com um desenhando um arco no solo e outro completando o símbolo com novo arco, assim se reconhecendo confrades partilhando da mesma fé.

A palavra mandorla provém do italiano e significa “amêndoa”. Por regra, na arte ocidental cristã da Idade Média a forma em amêndoa era utilizada para envolver a figura de Cristo na Assunção, ou da Virgem ou de algum outro santo destacado. Originalmente, a Mandorla representava a nuvem sobre a qual o Cristo ascendia, mas com o tempo passou a ser usada como “Aura de Glória” – Veste do Espírito Santo, o Augoeides – ou a Auréola emanando a Luz de um Ser Divino, que na classificação teosófica corresponde ao Corpo Causal. Por este motivo, foi representada para representar Cristo na Transfiguração, na Assunção e em Majestade no Trono de Deus.

Nisso fica bem o termo amendoeira, em hebraico shaquedh, “vigilante”, e como sinal de vigilância mal vem o Sol floresce, não espera pela Primavera, sendo assim sinal antecipador e anunciador de grandes novas, remetendo para o tempo de Parúsia ou Advento. Às suas flores brancas os antigos rabinos davam-nas como expressivas da Luz ocultada, o que representavam no fruto inviolável (prunus dulcis) dentro da casca da amêndoa, como grão ou semente do Fogo Divino destinado florescer, a incandescer o kadosh ou “consagrado” nos Mistérios de Arca da Aliança de Deus com o Homem, e vice-versa, tema remetendo para o sentido de inviolabilidade de Agharta, o Sanctum Sanctorum da Mãe-Terra[9].

Motivo porque na coluna de glória fincada no ponto de intersecção de dois arcos geminados se coluna no nicho, no pórtico de entrada na igreja, o santo da evocação desta, algumas vezes podendo ser alheio ao reconhecido oficial no santoral da Igreja, como vê, por exemplo em Lisboa, no pórtico sul do Mosteiro dos Jerónimos, apresentando o Infante Henrique de Sagres espadado, ou no pórtico dianteiro da igreja de Conceição-a-Velha, ostentando a Varina com espada e balança.

No século XII, a Escola Rabínica de Troyes, França, famosa pelos seus estudos cabalísticos, dirigida por Shlomo Yietzhaki, mais conhecido pelo acrónimo Rabi Rashi (1040-1105), autor do Perushe Rashi ´al ha-Torah, organizou o alfabeto hebraico desenvolvendo a sua interpretação geométrica a partir da Vesica Piscis. Sobrepôs sete círculos onde ao centro se uniam seis mandorlas figurando uma flor a que chamaram Flor da Vida, cedo repassada ao Cristianismo que a adoptaria como Flos Vitae, tanto indicativa do Filho como da Virgem, tendo os franciscanos a chamado de Flor do Paraíso, ligando-a ao sentido de Advento.

Esse último sentido está registado na Flor da Vida gravada sobre a entrada no pombal, altaneiro ao olivedo abaixo, dos freires capuchos, dentro da cerca do Conventinho de Loures. Tem-se nisso a recriação do Monte das Oliveiras onde Cristo se recolhia abrigado pela Ave do Espírito Santo, a Semente e Flor da Vida como Terceiro Logos Criador.

A imagem da Flor da Vida é formada por círculos distribuídos uniformemente com espaçamentos iguais, sendo que a partir do centro de cada um se pode criar novos seis círculos, induzindo o conceito de Vida Universal abarcando o tempo e o espaço em qualquer período passado, presente e futuro, por participar da própria Essência Divina irradiada do Coração do Logos assinalado na esfera radiante do Sol como astro-rei.

Durante a Renascença esta flor vital foi motivo de grande interesse por Leonardo da Vinci, tendo-a esquematizado em várias das suas obras fascinado com as suas propriedades matemáticas[10]. Certamente conheceria a sua origem cabalística e as várias formas e significados entrando na sua composição, como seja:

1. Semente da Vida, assinalada pelo círculo, marcando o nascimento ou irrompimento da Flor.

2. Ovo da Vida, assinalado pelos sete círculos, marcando os Dias ou Ciclos da Criação, indo formar a Flor e com isso representando o crescimento e a expansão.

3. Fruto da Vida, expressando a reprodução feita com treze círculos, onde por meio de setenta e oito linhas são ligados uns aos outros os centros dos mesmos, formando o cubo da matéria em que assenta a raiz da Flor elevada ao céu sinalético do espírito, no que entra o nome cabalístico Metraton, ou seja, “a medida (metra ou matra) perpendicular entre o Sol (Aton) e a Terra”.

4. Flor da Vida, a forma final, permitindo o surgimento de nova semente (bijã) e o início de um novo ciclo (yuga).

Última nota final necessária. As modernas modalidades alternativas do chamado neoespiritualismo, maioritariamente baseadas em experiências individuais de estímulos oníricos, pareidolias, etc., revestiram de sentimentalismo vácuo as figuras da Geometria Sagrada dando o resultado de alteração do significado original ou tradicional dos símbolos da mesma, colando-os a crenças aleatórias, vagas e imprecisas que preenchem o chamado universo “new age”. O que hoje se conhece nesse meio por “geometria sagrada” e afim significado, espécie de migalhas caídas da mesa de banquete das Escolas Iniciáticas da Antiguidade, seria para os antigos geómetras e hermetistas algo completamente anómalo onde de certeza se irreconheceriam. Necessita-se “separar as águas”, devolver os símbolos ao seu sentido original de Ciência Sagrada desvanecendo os equívocos, estes acaso podendo ser belos e atractivos na sua apresentação mas nem por isso deixando de ser equívocos, e para isso assentando o intento de repor a originalidade nestas notas.

NOTAS

[1] Jules Boucher, A Simbólica Maçónica.  Editora Pensamento, São Paulo, 1984.

[2] C. R. Gomes, Pitágoras de Samos: seu mito e sua herança científico-cultural. Oficina de Livros, Scientiarum Historia III, Livro de Anais, Rio de Janeiro, 2010.

[3] C. R. Gomes, Platão – o “criador” de matemáticos. Editora da UFRJ, Scientiarum Historia IV, Livro de Anais, Rio de Janeiro, 2011.

[4] Paulo Pereira, Edifícios discretos. Academia.edu, Lisboa, 2014.

[5] Jules Boucher, ob. cit.

[6] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo, 1984.

[7] René Guénon, A Grande Tríade. Editora Pensamento, São Paulo, 1990.

[8] Filipe Alberto da Silva, A figura da Mandorla e da Vesica Pisces. As suas possibilidades de construção. Universidade de Lisboa – Faculdade de Belas-Artes, 2013.

[9] René Guénon, O Rei do Mundo. Espiral Editora, Lisboa, 2019.

[10] Nigel Pennick, Geometria Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo, 1981.

“Uma Mártir do Século XIX: Helena Petrovna Blavatsky”, por Mário Roso de Luna Domingo, Jun 20 2021 

SINOPSE

Uma Mártir do Século XIX: Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, por Mário Roso de Luna, o gigante da Teosofia Ibérica, é obra indispensável à compreensão da colosso ucraniana que em menos de metade de um século alterou os paradigmas do pensamento humano, abrangendo e indo além de todos os sectores do mesmo, da ciência à religião, à física e à metafísica, do simbolismo arcaico nas civilizações antigas, etc., provocando o assombro e a admiração gerais, inclusive dos que lhe foram abertamente hostis, unanimemente apodando-a de Esfinge, não poucos dando-a como a maior sábia do século XIX.

Mário Roso de Luna descreve de maneira clara a vida de Helena P. Blavastsky, capítulo a capítulo, desde o seu nascimento, juventude, maturidade e velhice até falecer. Fá-lo não só como biógrafo imparcial munido de valiosos documentos, não poucos inéditos aqui revelados, mas também como iniciado oferecendo ao leitor interpretações esotéricas únicas dos acontecimentos mais controversos da vida desta sua Mestra declarada.

A virgindade de Blavatsky, o seu pressuposto filho, os seus casamentos, as acusações contra ela pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas, como os assuntos mais controversos da sua vida, são aqui esmiuçados com pormenores que vêm inocentar a infeliz mártir. Mas também se abordam, detalhadamente, as faculdades psicomentais de Blavatsky, o seu reconhecimento pela Maçonaria, as aventuras das suas viagens pela Europa, pela América do Norte e do Sul, pela Ásia, indo do Japão à Índia e daí ao Tibete, onde finalmente pôde conviver em retiros secretos com os Mestres Espirituais do Mundo, dos quais recebeu os conhecimentos superiores necessários para poder executar o ensejo deles: a fundação da Sociedade Teosófica, indo decisivamente ampliar o horizonte mental e espiritual da Humanidade.

Título capital entre as obras esotéricas de maior valor e fama, este agora de Mário Roso de Luna aparece finalmente em língua portuguesa com a firme certeza de ser incontornável a quem queira conhecer o génio de Blavatsky e da colossal obra teosófica que generosamente legou ao Mundo.

ESPIRAL EDITORA

Obra referencial finalmente aparecida na língua portuguesa traduzida e prefaciada por Vitor Manuel Adrião, dada à estampa por Espiral Editora, Lisboa. Para mais informações é favor contactar o senhor Hugo Martins, com página no facebook e e-mail (endereços abaixo), que as disponibilizará a quem solicitar, esteja em Portugal ou noutros países.

hmartins.es@gmail.com

https://www.facebook.com/hugo.martins.186

O Eterno Feminino: Rainha Santa Isabel – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jun 10 2021 

Eis que aqui estamos, nesta cidade coimbrã aclamadora da sua padroeira Rainha Santa Isabel[1], para esboçar alguns traços hagiográficos da mesma, nisto procurando compor um florigério de rosas e lírios desta humana flor maior que perfumou os séculos XIII-XIV português, dando realeza à santidade do Género Feminino de que ela foi o expoente máximo, orbitando entre a fé declarada e o saber cerrado.

“Eterno Feminino”, são estas as últimas palavras de Goethe no segundo Fausto, designando a atracção que guia o desejo do homem no sentido de uma transcendência. No caso, o feminino representa o desejo sublimado. Nesse romance, Margarida ouve-se a si mesma dizer: “Vem, alça o teu voo para as altas Esferas. Se ele adivinhar a tua intenção, te seguirá”. E o coro místico proclama: “O Eterno Feminino nos atrai para o Alto”[2].

A Beatriz de Dante é um exemplo desse papel de guia. Nicolas Berdiaeff, numa das suas proféticas páginas[3], prevê que na sociedade futura “a mulher desempenhará um papel importante… Ela está mais ligada do que o homem à Alma do Mundo, às primeiras forças elementares, e é através da mulher que o homem comunga com essas forças… As mulheres estão predestinadas a ser, como no Evangelho, as portadoras de essências odoríferas… Não será a mulher emancipada nem aquela que se tornar semelhante ao homem a que terá um importante papel a desempenhar no período futuro da História, mas sim o Eterno Feminino”. Pierre Teilhard de Chardin via nessa expressão o próprio significado do Amor, como grande Força Cósmica[4]. A Virgem Maria, Nossa Senhora, é no Cristianismo a encarnação perfeita deste tema, conforme o mesmo Chardin resume: “ O Feminino autêntico e puro é, por excelência, uma Energia luminosa e casta, portadora de coragem, de ideal e de bondade: a bem-aventurada Virgem Maria”. Nisto dispõe-se longe do romantismo de Jules Michelet que abriu uma perspectiva literária profana do Eterno Feminino aos pósteros adeptos do escalpelizar psicanalítico do tema[5], onde prima o conhecer sem saber, o teorético ausente de prática efectiva, portanto, propenso ao equívoco.

Nossa Senhora torna-se a Theotoktôs, a “Toda-Poderosa” com os mesmos atributos da védica Shakti, a que expressa a Força Criadora do Espírito Santo, o Lume Místico do Amor cuja Energia aglutinadora, a Kundalini dos védicos, veio a ter as suas expressões vivas nas chamadas Cortes de Amor indicativas de Iniciação Cavaleiresca, Senhorial, Feminina ou Mariana, tendo a sua correspondente na Iniciação Kshatriya ou Guerreira na antiga Ariavartha, a Índia.

Correlacionando as personagens e elementos da Iniciação Ocidental afim à Oriental, tem-se:

Na poesia islâmica, o Eterno Feminino expressa, pela sedução das suas características predominantes, a Beleza de Deus tomando forma no ‘belo-sexo’, tema registado no salomónico Cântico dos Cânticos.

Se a noção metafísica de Eterno Feminino dispõe a Mulher na cúspide da devoção antes de o Homem, tem-se que no seu sentido primaz o próprio Logos Criador toma forma feminil, como Helena P. Blavatsky descreve em privado a um grupo selecto londrino de estudantes de Teosofia[6]: “Em todas as cosmogonias é a Deusa e as deusas que vêm primeiro, a primeira convertendo-se na Mãe Imaculada da qual procedem todos os deuses. O subjectivo passa a emanar ou cai no objectivo, e converte-se no que chamam a Deusa-Mãe, a que procede o Logos ou Deus Pai, o Imanifestado. Porque o Logos manifestado é outra coisa bastante diferente e é chamado o “Filho” em toda a cosmogonia. [O Imanifestado] é assexual, porém, o Aspecto Feminino é o primeiro que assume [a diferenciação em sexo]. Tomem a Cabala judaica. Têm “Ain-Soph” que também é ELE, o Infinito, o Eterno, o Ilimitado. Os adjectivos usados em conjunção com ELE são negativos de qualquer tipo de atributo. De ELE o negativo, o Zero, 0, procede o número Um, o positivo que é a primeira Sephira ou Coroa. Os talmudistas dizem que é a “Torah”, a Lei, que eles chamam de Esposa de “Ain-Soph”. Agora vejam a Cosmogonia hindu. Ali encontram que Parabrahman não é mencionado e sim somente Mulaprakriti, todavia ali está Parabrahman como ali está Mulaprakriti, que posteriormente é o envoltório, por assim dizer, ou o Aspecto de Parabrahman no Universo invisível. Mulaprakriti significa a “raiz da Matéria”, porém, Parabrahman não pode ser chamado a “raiz”, porque é a raiz sem raiz de tudo o que é. Portanto, devem começar com Mulaprakriti, o “Véu de Brahman” como o chamam. Tomem qualquer cosmogonia no mundo e encontrarão sempre que começa assim; a primeira Manifestação é a Deusa Mãe, o reflexo, a raiz do primeiro Plano da Substância. De, ou melhor, na Deusa Mãe forma-se o Logos imanifestado, seu Filho e Esposo por sua vez, já que a Ele se chama o Pai Oculto; a partir desses Dois tem-se o Logos manifestado o qual é o próprio Filho – o Arquitecto de todo o Universo visível.”

Portanto, tem-se: Pai Imanifestado (Primeiro Logos, Unidade, Mundo das Causas), Mãe Manifestando (Segundo Logos, Polaridade, Mundo das Leis), Filho Manifestado (Terceiro Logos, Multiplicidade, Mundo dos Efeitos), indo corresponder à Trimurti no Oriente e à Trindade no Ocidente.

Muito ao contrário do que se julga, a Mulher teve papel destacado na Idade Média, que não foi um período exclusivamente masculino, patriarcal. No século XII, a vida monástica das mulheres proporcionava uma grande vitalidade intelectual, como o demonstra Hildegarda de Bilgen, cronista religiosa, ou igualmente a contemplativa Juliana de Norwich. No âmbito secular, o papel das mulheres era, sobretudo, o de esposas que colaboravam com os seus maridos ou de viúvas que tinham uma existência mais independente. Essa foi a situação paradigmática da luso-arogonesa Rainha Santa Isabel[7] e também da madrilena Santa Maria de la Cabeza, viúva de Santo Isidro e mãe de Santo Illán. Santa Maria de la Cabeza constituiu o paradigma das mulheres esclarecidas da Idade Média que souberam unir a fé e o saber numa vivência independente, até se sobrepondo à sociedade dos homens que, rendidos, a aclamaram santa[8].

Por outro lado, no período medieval coincidente com a aparição de qualquer Virgem, houve sempre uma reactivação social, artística e cultural no seio da sociedade com a aproximação do Ocidente ao Oriente, assim mesmo provocando uma irrupção do elemento feminino, não só pelo culto mariano ou o fatimida mas também pela forma idealizada de amor cortês, comum à sociedade muçulmana, realidade incontornável marginal às grandes discussões dos escolásticos teorizando sobre a natureza, a carne e o pecado, a alma e a virtude, a castidade moral e a celibatária carnal, nisto podendo ser-se celibatário sem realmente ser casto, tal qual o qualificativo puritano não é sinónimo de pureza, estado que não se obtém por penitências, mortificações e autoflagelações corporais à custa de cilícios, posto o pecado não ter origem física mas psicomental, e por muito que a pessoa se espanque não espantará o desejo do “fruto proibido”, equívoco firmado e tomado ad littera pela doutrina tomista da Igreja, criada pelo dominicano Tomás de Aquino no século XIII, já de si nos antípodas da ordem emitida na própria Escritura Sagrada: “Sede fecundos, multiplicai-vos” (Génesis 9:6)[9], conciliando o espírito fecundo com a matéria fértil, acto afim à natureza própria do Espírito Santo corporificado na Mulher Virgem, a Aether Eternius.

Para o Islão, a virgindade de Deus como Mulher é a Luz inviolada – Mater inviolata da Ladainha mariana[10] – que ilumina os Eleitos; a esse título, é chamada de “Virgem-Mãe” a hora da vida que é a primeira. Mas é também a última. É Ela que abre o caminho da Iluminação e leva a termo o místico caminhar. A Virgem de Luz revela ao Eleito a forma espiritual que nele é o Novo Homem, tornando-se seu Guia e conduzindo-o em direcção às Alturas, à Almudena ou Cidade Celeste, a mesma Jerusalém Celeste como modelo da Terrestre, tal qual o Paraíso Celestial para o Terreal demarcado por alguma terris ou civitas sancta.

É o Espírito Santo como Mulher Celeste quem gera o Varão Terrestre, donde a sua natureza dupla como Sopro e Vida, Alma e Corpo. Desde a primeira hora seria o Orago de Isabel, princesa de Aragão e rainha de Portugal, que a Ele dedicaria a celebração e festa de uma providencial Idade futura, iniciada em terras lusas de Alenquer.

Apesar de não ser consensual por as fontes históricas serem inexactas, a menina predestinada terá nascido em Saragoça no palácio de Aljaferia, no dia 4 de Janeiro de 1271, sendo a primeira filha de Pedro III de Aragão e de Constança de Hohenstaufen, princesa da Sicília, batizada com o nome de Isabel (Elisabeth em catalão, Yzabel em português medieval) na catedral-basílica da Virgem do Pilar (relacionada à lenda jacobeia de Santiago Maior). Terá passado a sua juventude em Barcelona, onde estava instalada a corte da Coroa de Aragão. No entanto, pude confirmar no local que a memória da princesa aragonense mantém-se viva em Saragoça, nomeadamente na igreja consagrada a São Caetano mas conhecida, pelos noivos saragonenses que a preferem às demais para casar, como igreja de Santa Isabel de Portugal, vizinha das calles de Santa Isabel e do Templo, Ordem cuja sede se situava na mesma artéria actual.

Conforme registam unanimemente as crónicas, a menina Isabel terá recebido cuidada e primorosa educação, muito mais numa corte pluricultural como era a de seu pai, tendo revelado inclinação religiosa desde muito cedo, dizendo-se, com contornos de milagre, que nascera envolvida numa pele, uma “película húmida”[11], como prova da sua ligação com o Divino. Resta saber se essa pele era a subplacentária, que a sua mãe terá guardado num relicário de prata, ou a do flagelo (chicote ou cilício), feito de sete cordas para a autoflagelação na reparação espiritual do desagravo físico, no intento de expurgar o “pecado original” da carne, isto é, do sexo, função natural que o confessional abjura, mais por desejo reprimido que por temor assumido. Não creio que a corte esclarecida de Pedro III, onde conviviam sábios judeus, cristãos e árabes, fosse dada a catequeses penitenciais, além de ser absolutamente implausível uma criança, ainda para mais princesa num requintado ambiente cultural onde era desuso as mortificações corporais, autoinfligir-se por motivo de religião, mas para justificar a atitude e comportamento beatíficos ao longo da sua infância, a posterior lenda religiosa realça que já nessa altura rezava muito, jejuava e até se mortificava com cilícios[12].

Isso desconfere com o ambiente da sua meninice. A jovem infanta, nascida bela e curiosa dos saberes dominantes da época, interesse herdado de seu pai Pedro III, patrono das artes e letras, cultor da poesia e da prosa, particularmente favorável à corrente dos trovadores, ele mesmo trovador tendo escrito dois sirventeses, ou seja, poemas satíricos característicos da poesia trovadoresca provençal, a maioria deles críticas políticas como esses dois do monarca aragonês. De sua mãe, Constança de Hohenstaufen, falecida em halo de santidade e elevada a beata da Igreja, herdaria a religiosidade, a moderação, a piedade, o interesse e a dedicação à causa dos desfavorecidos da vida, nisto simpatizando com o ideal de pobreza espiritual dos frades menores de São Francisco, dos quais andou próxima desde cedo[13].

A infanta tivera como confessor frei Pedro da Serra, pertencente à Ordem dos Mercedários do Mosteiro de Santa Eulália de Barcelona. Essa Ordem dos Mercedários ou de Nossa Senhora das Mercês, fora fundada por frei Pedro Nolasco em 10 de Agosto de 1218, na cidade de Barcelona, no principado da Catalunha da Coroa de Aragão, com a missão de resgatar cativos cristãos em terras muçulmanas, especialmente ao longo da fronteira que a Coroa aragonesa compartilhava com o Al-Andalus muçulmano[14].

A infanta tivera como tutor o catalão Arnau de Vilanova ou Arnaldo de Vilanova (Valência, 1240 – Génova, 1311)[15], com cidadania aragonesa, sem dúvida um dos exponentes máximos da cultura espiritual de Aragão. Médico, filósofo e alquimista, exerceu grande influência na Europa do século XIII, dele dizendo Jerónimo Zurita[16]: “Este é aquele famoso doutor e singular médico, e um dos mais excelentes filósofos que houve em seu tempo, grande esquadrinhador dos segredos e maravilhas das influências e operações do Céu”. A princesa depois rainha Isabel teve-o sempre como seu  “mestre” em toda a sua vida, e já em Portugal manteve a correspondência regular com ele, como preciosamente regista Sebastião Antunes Henriques[17].

O primeiro biógrafo de Arnaldo de Vilanova, o francês Symphorien Champier (1471-1539), sustenta que ele manteve contactos com uma confraria de (neo)pitagóricos italianos do século XIV, de difícil comprovação, sendo mais fácil a comprovação da influência do abade cisterciense da Calábria, Joaquim de Flora, no seu pensamento e no dos franciscanos de quem andou próximo, ele já de si pai de uma santa cartuxa, Rosalina Vilanova, a qual aos doze anos de idade operou o milagre de transformar pães em rosas, como fizera antes a tia-avó da rainha Isabel de Portugal, Santa Isabel da Hungria, e depois também realizado por ela.

Arnaldo de Vilanova foi igualmente mestre do franciscano catalão Ramon Llull ou Raimundo Lúlio (1232-33 – 1314), hermetista que não escusou, tal como o seu mestre, a proximidade às culturas espirituais judaica e árabe, dizendo Pedro Rosell, em 1365, um lulista, que a doutrina de Lúlio era a do Espírito Santo que recebera de Vilanova[18]. Portanto, ambos religiosos afins alumiados pela ideia primacial de reunir a Família Humana – judeus, cristãos e árabes – em Perennis Pacis por graça e providência da Terceira Pessoa, influências essas que marcariam o pensamento e determinariam a acção da futura rainha Isabel, que remataria com a oficialização por ela do Império Popular do Divino em Alenquer, Portugal, pela mão espiritual da Ordem Franciscana (fundada em 1215) e a assistência temporal da Ordem de Cristo (criada em 1319).

Arnaldo de Vilanova entrou em conflito com a doutrina tomista dos dominicanos, em sermões ousados provocatórios do clero, o que lhe valeu o cárcere em Paris, corria o ano 1299. Em 1302, remeteu um opúsculo apologético a personalidades destacadas da Igreja rechaçando a catequese dominicana, no que esses reagiram violentamente protestando no conclave de Perúsia em 1304. Interviu no processo régio-papal (Filipe IV de França e Clemente V de Roma, deste de quem ele era amigo pessoal) contra a Ordem dos Templários, e perante a inevitabilidade da sentença já lavrada antes de terminado o julgamento, para evitar mais sofrimentos inúteis aos monges-cavaleiros, mesmo sabendo da inocência deles, advogou a sua extinção por métodos legais e pacíficos. Igualmente interviu como moderador nas dissensões na Ordem Franciscana e entre a Santa Sé e a Coroa da Sicília, procurando conciliá-las, mas nesse último acto diplomático a cúria romana deu-lhe perseguição, obrigando-o a refugiar-se na Sicília. É por essa ocasião que predica e prevê a vinda do Anticristo, e nesse sentido iniciou, a partir de 1287, uma série de viagens para convencer reis e papas de ser mais necessária a reforma eclesiástica do que qualquer cruzada.

Como Filósofo hermético, Arnaldo de Vilanova aprofundou-se na Magia, Astrologia e sobretudo na Alquimia. Dedicou-se à Grande Obra, desenvolveu o conceito dos três princípios alquímicos (enxofre, mercúrio e sal) e foi o primeiro a comparar a crisopeia (transmutação dos metais em ouro) com a vida, a paixão e a ressurreição de Cristo. É nesse simbolismo alquímico que o posterior esoterismo cristão se baseará para as suas exposições herméticas. Empático a Pitágoras, Platão e Aristóteles, escreveu tratados de Alquimia de qualidade superior, nomeadamente os célebres Tesouro dos Tesouros, Rosário dos Filósofos e O Maior de Todos os Segredos, que ficariam para a posteridade.

Comprometido no movimento dos espirituais, na linha messiânica e escatológica da translatio imperii de Joaquim de Flora, apesar das suas exigências de reforma eclesiástica e severas exortações espirituais, Arnaldo de Vilanova nunca caiu na heresia. Motivo da sentença da Junta Teológica de Tarragona que em 1316 ordenou a destruição das suas obras, ter sido considerada desmesurada e anticanónica.

Tal como o seu condiscípulo Raimundo Lúlio, igualmente Arnaldo de Vilanova foi peregrino a Santiago de Compostela, que além de ser caminho penitencial era também e sobretudo rota iniciática para os cultores das ciências herméticas congregadas como Filosofia do Fogo, nisto etimologicamente coadunada ao nome do Apóstolo Santiago Maior, o Boanergus, isto é, “Filho do Trovão, do Fogo”. Assim, tem-se que os adeptos do Hermetismo, mormente os do exercício da Alquimia, são apodados de Philosophorum per Ignium, Filósofos do Fogo. A isto também não foi alheia a Rainha Santa Isabel.

Com efeito, pelas Cartas inéditas publicadas por Sebastião Antunes Henriques fica-se a saber que Jaume ou Jaime II de Aragão informou a sua irmã D. Isabel que Arnaldo de Vilanova iria em peregrinação a Compostela, agradecendo ela enfaticamente saber do seu mestre. Em 1325, caberia a ela realizar a peregrinação jacobeia, depondo a sua coroa de rainha de Portugal nas mãos do arcebispo da catedral de Compostela, no dia 25 de Julho, recebendo dele o rico bordão de peregrina e a escarcela que a acompanhariam no túmulo[19]. Há ainda uma pressuposta segunda peregrinação, em 1335, de Santa Isabel a Santiago de Compostela, para ganhar o Jubileu. Diz-se que o seu percurso foi profundamente marcado pela humildade, trajando com simplicidade e com um reduzidíssimo número de acompanhantes, levando o seu bordão na mão e farnel às costas como “hua bem pobre romeyra”[20], de que uma canção de menestrel galaico-português dá uma ideia do seu valor singular:

Vai a romeira a Santiago
Dona Isabel de Aragón
Rainha de Portugal.
Em vez de vestes reais,
Traz um hábito de freira
Com os olhos cheios e humilde
Pedindo esmola na estrada.

Acompanhando ideologicamente o seu mestre, Raimundo Lúlio partilhou do ideal de fraternidade entre as três religiões do Livro, chamando-lhes dignitates dei, “dignidades divinas”, como consigna em O Livro do Gentio e dos Três Sábios (1274-1276) e pondo-as em correspondência com a sua hermética Ars generalis ultima ou Ars magna (“Grande Arte”), de 1305. Para a construção dessa última obra serviu-se da literatura de Cabala judaica, nomeadamente do Sepher-Yetzirah, assim como do dispositivo chamado zairja, que combinava ideias por meios mecânicos, utilizado pelos astrólogos e hermetistas árabes. É muito natural que tenha sido assim, pois em Maiorca manteve prolongado convívio íntimo com judeus e muçulmanos, antes de se converter definitivamente ao Cristianismo em 1283, ano em que os apologetas cristãos passaram a estudar em profundidade os textos judaicos e islâmicos. Uma outra das suas preocupações foi a conciliação entre a ética cristã e o ideal cavaleiresco, que o levaria, entre 1279 e 1283, a escrever o Livro da Ordem de Cavalaria, dando feição nova à antiga regra cavaleiresca enriquecida com sucessivas associações simbólicas ao Hermetismo[21], reforma essa adoptada menos pela Ordem dos Templários e mais pela sua sucessora universal portuguesa, a Ordem de Cristo.

Chega o ano de 1282. Em 11 de Fevereiro, no palácio real de Barcelona, Isabel casa por procuração com D. Dinis de Portugal, sem este presente e só os seu delegados, João Velho, João Martins e Vasco Peres. D. Pedro III de Aragão consolidava assim uma importante aliança político-militar com o rei português, não precisando de dispensa pontifícia para a concretização do matrimónio por não existirem laços de consanguinidade entre os noivos, indo o esposório realizar-se de imediato. É ela quem afirma e firma o consentimento de casar, o que desmente ter tido a intenção de guardar a sua virgindade negando-se ao dever conjugal. Não havia colisão entre a sua vocação espiritual e a futura condição esposal. Em seguida, inicia-se a viagem nupcial para Portugal escoltada pelo seu irmão, Infante D. Afonso, deste a Catalunha atá Aragão. Ao chegarem a Castela passou a ser escoltada pelo seu primo D. Sancho, que a conduziu até à fronteira de Bragança onde foi recebida pela comitiva portuguesa, entrando em Portugal por Trancoso onde D. Dinis recebeu a futura esposa, ele com 20 anos de idade e ela tendo completado poucos meses antes os 12 anos. O matrimónio celebrou-se aí em 24 de Junho de 1282. Sendo casamento de interesse político onde as idades dos cônjuges não importavam, assim mesmo aguardou-se a maturidade física de Isabel antes de se entregar no leito ao marido. Tudo isso seria precoce se não fossem mais importantes os deveres de Estado que os deveres conjugais. De maneira que só em 3 de Janeiro de 1290 – então com vinte anos de idade – teve a sua primeira filha D. Constança, e no ano seguinte, em 8 de Fevereiro de 1291, o seu filho D. Afonso[22].

Isabel terá ficado muito agradada com D. Dinis (Lisboa, 9.10.1261 – Santarém, 7.1.1325), homem de artes e letras, um trovador como seu pai, e como este também amigo dos templários, protector dos mesmos das cobiças além-Pirenéus da Coroa de França e do Sólio de Roma, até fundando sobre a Ordem abolida uma nova com os antigos tempreiros. Tudo isso encontrava eco na similar educação esmerada da jovem Infanta de Aragão e Rainha de Portugal.

Dentre as damas de corte que acompanharam a vinda de D. Isabel para Portugal, destaca-se a figura única da sua conselheira e protectora D. Vataça Lascaris (Vatatza Laskarina), Betaça ou Bataça de Vascaris, ou ainda de Ventimiglia (Ventimiglia, c. 1270 – Coimbra, 1336), dama nobre bizantina sua parente afastada e amiga dedicada em toda a sua vida. Neta de Teodoro II Lascaris, imperador de Niceia, era filha da princesa bizantina Eudóxia Laskarina, refugiada na corte de Aragão após a usurpação do trono de Niceia em 1261, e tal como Isabel ambas eram descendentes por via materna do rei André II da Hungria, pai de Santa Isabel da Hungria.

Nos anos de 1288 e 1314, D. Vataça foi agraciada com a comenda de Santiago do Cacém pela Ordem de Santiago, e depois D. Dinis elegeu-a comendadeira e senhora de São Romão de Panóias, vizinha de Ourique, no Baixo Alentejo, onde estabeleceu um pequeno paço[23]. Ofereceu várias relíquias valiosas a igrejas alentejanas, nisso contando-se o seu patrocínio do baixo-relevo em pedra de “Santiago Mata-Mouros”, encomenda da rainha D. Isabel, obra de arte gótica patente na matriz de Santiago do Cacém, as ofertas da relíquia do Santo Lenho e da famosa cabeça-relicário do Papa São Fabião, exposta na Basílica Real de Castro Verde, com função psicopompa entre o mundo dos vivos e o dos mortes com o nome de “saudador”, que um outro menos famoso também existe na igreja de São Romão que pertencera aos seus domínios, na qual estão várias relíquias osteológicas oferecidas pela nobre senhora no século XIV. Há em tudo isso um indisfarçável interesse e talvez prática do Hermetismo por essa aia dedicada da nossa rainha santa, também esta familiar ao providencialismo messiânico, inclusive o judaico.

D. Vataça terá vivido nos seus domínios de Panóias até cerca de 1325 ou 1332, altura em que acompanhou a rainha Santa Isabel quando esta estabeleceu a corte em Coimbra e abraçou a religião das clarissas franciscanas como leiga, acto secundado pela princesa bizantina. Faleceu em 1336 nessa cidade do Mondego e foi sepultada na Sé Velha, em imponente arca tumular decorado com as águias bicéfalas do império bizantino de Lascaris. Estando à esquerda no fundo do templo, é tradicionalmente visitado pelas noivas que nele se casam depositando os seus buquês de flores no túmulo da Noiva de Panóias. Isto por ela ter casado em primeiras núpcias, em 1285, com um nobre português, Martinho Anes de Soverosa, cognominado Tio, último da sua linhagem, que pela sua idade avançada seria estéril, assim não deixando descendência nesse casamento que durou dez anos. Os livros de linhagens deram-lhe a alcunha de peco. As noivas d´hoje certamente não desejarão pecos para elas pelo que recorrem com a oferta das flores nupciais à quase santa D. Vataça.

D. Isabel foi recebida entusiasticamente pela comunidade judaica dos sefarditas de Trancoso, como o seria depois pelos judeus de Alenquer, prevendo-a uma nova Ester das Escrituras Antigas, antevista mater pariturae de uma Idade nova que o Messianismo ibérico há tanto tempo previa[24]. Na literatura messiânica da sua época destacava-se o Sepher-Ha-Bahir, “Livro da Luz ou Iluminação”, com a letra deste sendo ajustada por inteiro ao Espírito sublimado dela, a Rainha da Luz (Bahir) revelada pelo Divino Esplendor (Zohar), no que lhe outorgavam os predicados da própria Shekinah ou “Presença Real de Deus” com o atributo feminino de Gloriam et Pacis, com isso se associando ao simbolismo teológico cristão do Espírito Santo, Orago de Isabel, esta que bem veio a merecer os atributos de “Herdeira Gloriosa” (Morasha) e “Rainha da Paz” (Shalom). Para a realização da sua obra providencial, Yzabel (Ísis…) só poderia contar com a sabedoria e canto de um Orfeu ou Dionysus (Dinis…), e assim foi. Ambos se completaram na Ars Magna de abrir uma Idade nova de Portugal para o Mundo.

Ainda sobre o Sepher-Ha-Bahir, o rabino cabalista do século XIII, Isaac Hakohen, relata que ele “proveio da terra de Israel para os primeiros sábios asquenazes da Alemanha, e daí para os primeiros sábios da Provença, que perseguem todos os tipos de escritos (registos) de sabedoria, e aqueles querendo conhecer o divino, o conhecimento supernal, apenas viram parte do livro e não tudo dele, não o viram na sua totalidade, na sua forma completa”. Com efeito, a obra não é um livro unificado e sim fragmentado, algumas vezes terminando a discussão a meio da frase, frequentemente saltando aleatoriamente de um tópico para outro[25]. Mas isso era propositado, não por a obra estar fragmentada, ao contrário do que se julga.

O texto obrigava à meditação de maneira ao leitor completá-lo por si mesmo, de maneira que desenvolvia a intuitio ou intuição como inteligência divina, acima da própria inteligência racional, nela se contendo a Sabedoria Divina como um dos sete Dons do Espírito Santo revelado no Homem da Idade nova, motivo do título do livro inspirar-se no seu comentário de abertura: “Agora os homens não vêm a Luz (Bahir) brilhante dos Céus (da Consciência Superior)” ( 37:21).

Ao contrário do propagado mito apologético do livro provir de Israel no século I d.C., é mais provável ser seu autor o rabino provençal Yitzhak Saggi Nehor, conhecido como Isaac, o Cego (c.1660 – Posquiére, França, 1235), relacionado aos sefarditas d´aquém-Pirenéus, cuja obra é considerada o mais antigo e importante texto cabalístico até à publicação do Sepher-Ha-Zohar (Livro do Esplendor), este do rabino ibérico Moisés de Leão.

A comunidade sefardita lusitana acolheu D. Isabel com encómios gratificantes dispondo-a entre as maiores, senão a maior, da Escritura Velha. Depositou nela as esperanças de fundação futura da Idade florida portadora de maior espiritualidade e humanidade capaz de unir a todos no todo, arquitecta de Civitas Dei agostinha no Mundo. Com ela, rainha piedosa, poderia ser que esta Terra de Luz (Luxcitânia) fosse a tão procurada Terra Prometida do Ocidente. Não poucas alfamas a aclamaram sua dona protectora, a mãe da nova Israel, Ester, em nova feição. Exemplo disso tem-se na Póvoa da Judia, hoje Póvoa da Rainha Santa, Arganil, cuja capela octogonal centralizada é consagrada a ela, que Tomé Nunes, cónego da Sé de Coimbra, mandou construir em 1633, por ocasião do processo preparatório da sua canonização[26].

Os apologistas eclesiásticos igualmente não se escusaram a ver em Isabel a eleita dos Céus. No sermão pregado pelo padre António de Andrada Rego, em Julho de 1727, na igreja do Real Convento de Santa Clara de Coimbra, a figura da rainha Isabel é elevada acima das mais destacadas figuras das Sagradas Escrituras[27]. Para efeito de comparação, o autor cita as rainhas Ester, Abigail e Sabá: “Ainda que Ester tenha sido bela, a Rainha Isabel continua bela depois de morta. Se a beleza de Ester estava na cabeça pela coroa que levava, Isabel é ainda mais bela na cabeça, nos cabelos, nos olhos, nas faces, nos dentes e no pescoço”.

Nisso ia de encontro ao proferido antes, em 1674, pelo padre António Vieira no seu sermão da Rainha Santa Isabel[28]: “A uma Rainha duas vezes coroada, coroada na Terra e coroada no Céu, coroada com uma das coroas que dá a fortuna, e coroada com aquela coroa que é sobre todas as fortunas, se dedica a solenidade deste dia. O mundo a conhece com o nome de Isabel; a nossa Pátria, que não lhe sabe outro nome, a venera com a antonomásia de Rainha Santa. E, se é coisa tão dificultosa ser rei e santo, muito mais dificultoso é ser rainha e santa. No mesmo exemplo o temos. De todos os reis de Israel e Judá, três santos; de todas as rainhas, nenhuma. O que só digo, e diz Deus a todos os reis, é que aprendam a não as perder e se perder, mas a negociar com elas, e que, com o exemplo canonizado de Isabel, Rainha e Santa, entendam que também podem ser santos sem deixar de ser reis e que então serão maiores reis quando forem santos. Assim negociou com as suas duas coroas a nossa negociante do Reino do Céu, agora maior, mais poderosa e mais verdadeira Rainha; assim está reinando e reinará para sempre; assim goza e gozará sem fim os lucros incomparáveis da sua prudente e venturosa negociação: na terra, enquanto durar o mundo, sobre os altares e no Céu, por toda a eternidade em sublime trono de glória”.

Donde se conclui:

Rainha Santa Isabel: Coroa de Glória (Santidade) e Coroa do Mundo (Realeza), expressando a Soberana Universal – Shekinah, Chakravartini, Budhai, Allatah, Senhora do Céu e da Terra.

Rainha Isabel: Coroa Real in caput das primícias de Advento, corporizado nela, abrangendo todo o Portugal como País de Eleição, conforme as palavras providenciais do próprio Cristo revelado a Afonso Henriques aquando do milagre cristológico de Ourique (1139), as quais constituem o codicilo espiritual determinador do futuro português.

Vai nessa direcção o seu milagre das rosas, igualíssimo ao de Santa Isabel da Hungria e de Santa Rosalina Vilanova, sinónimo de abertura de ciclo ecuménico assinalado como Páscoa Rosada, correspondendo ao Pentecostes, aquando o Espírito Santo se revelou em línguas de fogo a Santa Maria e os Apóstolos, conforme a Escritura Nova, cinquenta dias após a Páscoa, indo depois em pastoral a todas as partes do mundo. Esse milagre da transformação dos pães de anjos (caridade) em viçosas rosas vermelhas perfumadas (iluminação), acontecimento maior do florigério miraculoso da Rainha Santa, teve como primeiro e maior noticiador frei Marcos de Lisboa na sua Crónica dos Frades Menores, 1562, e o o seu avô, Jaime I, chama-lhe “Rosa da Casa de Aragão”.

Santa Isabel da Hungria – Milagre das Rosas – Unindo o Norte ao Sul da Europa;

Santa Rosalina Vilanova – Milagre das Rosas – Unindo o Sul da Europa, de França a Aragão;

Santa Isabel de Portugal – Milagre das Rosas – Unindo Aragão a Portugal e este ao Mundo.

A rosa como flor mariana simboliza a Iniciação no Amor, sendo muito significativo que os antigos tratados de Alquimia fossem chamados de Roseirais dos Filósofos e à Igreja de João apelidassem de Roseiral Mariano, expressando o Amor Divino no culto da Sabedoria no Amor, apanágio medieval dos Cavaleiros da Rosa, dos amantes em Cortes de Amor dados ao exercício hermético, a que não escapou a pobreza franciscana tão do agrado da Rainha Santa Isabel, inclusive cingindo nos anos finais da sua vida o cordão monástico das clarissas, pobreza espiritual essa como sinónima de despojamento da condição inferior em prol do desocultamento da superior ou divina na criatura humana. Vai nesse sentido a Promessa de Advento: a celebração do Espírito Humano que é Deus no Homem, sendo o sentido maior da Exaltação da Cruz, a ponto dela ficar despojada de Crucificado evolado aos Céus para depois ressuscitar e revelar no Homem como Cristo Vivo, Vencedor da Morte por Graça do Espírito Santo, esta a mensagem maior pascal.

Também entre os judeus a Festa de Pentecostes ela celebrada cinquenta dias (sete semanas) depois da Páscoa, como uma das quatro celebrações importantes do calendário judaico, sendo primitivamente uma festa agrária dos cananeus. Era conhecida pelos diferentes nomes das Ceifas, das Semanas ou do Dom da Lei, e tanto sefarditas como asquenazes chamavam-lhe Shabüoth, assinalando-a como o final da colheita do trigo, portanto, período de primícias. “A Festa do Divino é um eco das remotas festividades das colheitas”, diz Moisés Espírito Santo[29]. A Rainha Santa Isabel em breve adaptaria, sob evoco do Divino, as primícias da abundância agrária no abundo providencial das primícias espirituais de Advento, pretexto messiânico do Dom da Lei para Judaísmo e Cristianismo se encontrarem.  

Em conformidade à doutrina joaquimita constante no Liber Figurarum onde Joaquim de Flora (Gioacchino da Fiore, 1130-37 – 1202) desenvolve o tema “transladação de impérios” (translatio imperii) apresentado como Idades do Pai, do Filho e do Espírito Santo, relacionadas respectivamente a Jerusalém (Judaísmo), a Roma (Cristianismo) e ao Extremo Ocidental da Europa, porventura região portuguesa (Paracleto), a Rainha Santa Isabel e o seu esposo o Rei D. Dinis, ela apoiada pelos frades de menores de São Francisco e ele pela freiria militar da Ordem de Cristo, oficializaram, a partir da capela do Espírito Santo de Alenquer, a Festa Popular do Império do Divino Espírito Santo, como regista D. Rodrigo da Cunha[30], dotando-a com o programa mais singular e piedoso ao par da corografia remetendo para heterodoxas leituras a que beneditinos, clunienses e franciscanos não foram estranhos, sobretudo às ideias gerais do pensamento joaquimita[31].

Joaquim de Flora dividiu a História do Mundo através de cálculos e analogias com acontecimentos narrados no Velho Testamento, cujos correspondentes ele identificava no Novo, em três etapas distintas: 1.ª) Idade do Pai, começando em Adão e acabando em Cristo, cuja história narra o Velho Testamento; 2.ª) Idade do Filho, cujo desenrolar descreve o Novo Testamento; 3.ª) Idade do Espírito Santo, a iniciar depois da derrota do Anti-Cristo e cujo texto sagrado seria o Evangelho Eterno, fusão dos dois textos anteriores, a orientar uma época de fraternidade universal onde judeus, cristãos e árabes viveriam em paz numa atmosfera espiritualizada. A 1.ª Idade iniciara com Adão. Osias fora o anunciador da 2.ª Idade, iniciada com Zacarias, pai de João Batista. São Bento era o precursor da 3.ª Idade. A 1.ª Idade tinha sido a da servidão, a 2.ª da obediência, a 3.ª seria a da liberdade. A 1.ª Idade fora caracterizada pelo temor, a 2.ª pela fé, a 3.ª pela caridade. A 1.ª Idade fora a do casamento (rabinos casados do Velho Testamento), a 2.ª a do sacerdócio, a 3.ª do monaquismo. O Evangelho Eterno seria o Livro de que fala São João no Apocalipse 14:6: “Então vi voando à meia altura um Anjo trazendo o Evangelho Eterno a fim de proclamá-lo aos que habitam a Terra, a toda a nação e tribo, em todas as línguas, para todos os povos”.

Por meio dessa breve síntese é possível avaliar o impacto que terá causado a doutrina providencialista de Joaquim de Flora entre os seus seguidores, aos quais se juntariam os espirituais franciscanos encabeçados São Francisco de Assis (1182-1226), contemporâneo daquele. Essa doutrina rapidamente migrou do sul de Itália, da Sicília para a Provença (aparecendo nos Lais de Amor e no Romance da Rosa, na parte escrita por Jean de Meung), para Aragão (pela acção de Arnaldo de Vilanova e de Raimundo Lúlio) e para Portugal (na pessoa da Rainha Santa Isabel).

Posteriormente, o padre António Vieira, da Companhia de Jesus[32], pela ideia de Parúsia promanada do abade cisterciense calabrês, como se repara quando relaciona o Sebastião rei com o Sebastião santo, aliás, em conformidade ao significado do Veltro na Divina Comédia de Dante. O Veltro, que Papini considera o símbolo do Espírito Santo (Veltro de Dio)[33], tem a sua origem no nome Evangelho Eterno (Vang E Lo e Te Rn O – Veltro) e indica o clero ou o papado, assim como a coroa ou o trono, renovados no Espírito Santo inaugurador de uma Nova Idade de Paz e Liberdade universais.

No Sermão do Esposo da Mãe de Deus, S. José, proferido na Capela Real de Lisboa em 19 de Março de 1642, o padre António Vieira retoma as três Idades do Mundo do esquema joaquimita indo comutá-las e proclamá-las cinco, sendo a última a do V Império Português, conceito que herdaria do messianismo judaico por via do seu amigo radicado em Amesterdão, Menasseh ben Israel, rabi-mor da sinagoga local, ou seja, o madeirense Manuel Dias Soeiro (1604-1657). Os cinco Impérios do esquema de Vieira tiveram inspiração na parte do Velho Testamento que relata o sonho de Nabucodonosor interpretado pelo profeta Daniel, tendo o rei sonhado com uma enorme estátua com cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, as ancas de bronze e as pernas metade de ferro e metade de barro, destruída por uma pedra que logo se transformou numa alta montanha enchendo toda a Terra. Daniel, 2:44-45, interpreta: “O Deus do Céu fará aparecer um Reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará a outro povo. Foi o que pudeste ver na pedra que se desprendeu da montanha sem intervenção de mão alguma, e que reduzia a migalhas o ferro, o bronze, a argila, a prata e o ouro”.

Os Impérios são as Idades ou Yugas, os Ciclos tradicionais da Evolução da Terra e do Homem, que em conformidade ao esquema de Vieira assim dispõem:

Não é consensual a data do começo da Festa do Império na “vila-presépio” de Alenquer. Rodrigues de Azevedo adianta o ano de 1280, baseado numa escritura que consultara na Câmara Municipal de Alenquer[34], enquanto Jaime Cortesão[35], adoptando a sugestão de frei Manuel da Esperança[36] e tendo à vista documentos do Arquivo de Alenquer, afirma ter sido o Mosteiro de São Francisco desta mesma vila o palco da sua primeira realização em 1323. A ser verdade, essa última data acaso viria na continuidade de D. Isabel de Araújo, em Alenquer no dia de Pentecostes de 1296, ter convocado o clero, a nobreza e o povo para tomar parte nas solenidades religiosas de inauguração da Confraria ou Casa do Espírito Santo, a que chamaram Império[37].

Mas deve-se à Rainha Santa Isabel a oficialização da Festa do Divino, e no sentido de religião nacional do Advento, expressa pelo exercício da Folia ou Império, obviamente só podia ter na Terra por modelo paradigmático da Jerusalém Celeste um lugar que unisse os dois pólos do Mundo, e esse lugar escolhido foi precisamente Alenquer, de quem já escrevi[38]: “Mas Alenquer significa também, etimologicamente, além e quer, ker ou kar, em celta, “pedra”, isto é, Pedra do Além (sugerindo a do sonho de Nabucodonosor), Pedra Divina, o mesmo que Lusa, a mesma onde Jacob recostou a cabeça, adormeceu e sonhou com a Escada do Céu, tendo sido o nome primitivo da Belém hebraica onde nasceu o Cristo incarnando o Espírito Santo na sua elevada expressão solar, enquanto a Lua, a Mãe, ficaria assinalada em (Santa Quitéria de) Meca, complemento de Alenquer donde dista escassos quilómetros. Não terá sido por acaso que a Rainha Santa Isabel, à dianteira dos franciscanos, escolheu para inaugurar a Festa Popular do Divino Espírito Santo precisamente Alenquer com Meca à vista, representativos do Ocidente e Oriente do Mundo. Enfim, coisas de história que a História vela”… como essa da mártir bracarense Quitéria (século II) remeter para o sentido islâmico de Khalwâ, “retiro” espiritual.

Desde a morte de D. Dinis em 7 de Janeiro de 1325 que D. Isabel vivia como religiosa sem votos no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde passava a maior parte do tempo, delegando as funções de Estado no seu filho, o rei D. Afonso IV. Entretanto deslocara-se para os paços do castelo de Estremoz já tocada pela lepra, contagiada por algum desses inúmeros agafados a quem tão corajosamente prestava os caritativos cuidados.

Desde há muito a rainha vinha cuidando da sua morte, como é notório nas suas declarações num primeiro testamento lavrado em 1314, onde declara pretender ser sepultada no Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, Casa-Mãe dos bernardos em Portugal, ou em São Dinis de Odivelas, em túmulo junto ao do seu esposo que aí jaze, também em casa bernarda. Mas em 2 de Janeiro de 1325 lavrou um segundo testamento, revogando o primeiro. Nele afirma querer ser sepultada amortalhada no Mosteiro de Santa Clara (a Velha, ou a primitiva Casa das franciscanas) de Coimbra, ficando o seu corpo finado à guarda da abadessa. Para o efeito, mandou lavrar em pedra de Ançã o seu túmulo que aí ficaria e é um dos mais belos exemplares do imobiliário funerário gótica que existem em Portugal. Deverá ter sido construído entre 1329 e 1330, pois aquando da sagração da igreja do mosteiro (8 de Julho de 1330), o túmulo já estava feito e colocado no lugar escolhido.

Enquanto isso, ela deslocou-se para o paço do castelo de Estremoz. Em 4 de Julho de 1336 (quinta-feira), após assistir à missa, comungar e cear com a nora D. Beatriz e os netos D. Pedro e a infanta D. Leonor, a rainha recolheu-se aos seus aposentos (que mais tarde D. Luísa de Gusmão, mãe de D. Afonso VI, converteria em capela da rainha santa Isabel) e, no maior dos silêncios e sublimidade em Deus, finou-se[39].

O corpo da rainha foi convenientemente tratado com ervas aromáticas, vestido com o hábito de clarissa, envolto num sudário de linho muito fino e sobre este uma colcha grossa. Esta foi envolta em pano de linho grosso, cozido com uma agulha, e sobre ele num outro de algodão, de modo a todo o volume ficar bem fechado, evitando que a lepra alastrasse. Sobre esse volume colocou-se uma colcha de algodão branca e grossa, sendo o corpo metido num caixão rectangular de madeira hermeticamente fechado e envolvido em pele de boi com o pêlo voltado para fora. Finalmente, foi coberto com um pano de púrpura cuidadosamente repregado[40].

Em 5 de Julho (sexta-feira), iniciou-se a viagem para Coimbra sob um calor abrasador, integrando o cortejo fúnebre muitos cavaleiros, damas de corte e prelados, dentre eles o bispo de Lamego, D. Frei Salvador. Apesar do receio das tábuas do ataúde se despregarem e ter começado a correr líquido do seu interior, sinal do corpo estar entrando em decomposição, a verdade é que dele exalava um agradável cheiro de santidade sem o corpo mostrar sinal de corrupção, o que foi tomado como milagre.

Em 11 de Julho, ao princípio da tarde e após sete dias de viagem, o cortejo fúnebre chegou a Coimbra, entrando o corpo na igreja do Mosteiro de Santa Clara ao som das harmonias plangentes das clarissas, dos lamentos e lágrimas do povo coimbrão, e no dia seguinte é deposto seu túmulo[41]. Se grande foi o florigério dos seus milagres em vida, ele não findou com a sua morte e prossegue até hoje, desde esta cidade do Mondego para todas as partes onde haja devocional isabelino[42], pelo que em 25 de Fevereiro de 1755 a Câmara Municipal de Coimbra elegeu a “Rainha Santa Isabel Padroeira da Cidade”, cujo feriado municipal coincide com o dia do seu finamento (4 de Julho).

Aclamada Rainha Santa ainda em vida, muito mais depois de morta, com o povo venerando os seus despojos mortais, prestando-lhe culto, atribuindo-lhe favorecimentos e milagres, sempre com fama crescente, a abertura do seu processo de canonização foi quase imediato à sua morte[43]. Isso levou D Manuel I a envidar esforços junto da Santa Sé para conseguir a sua beatificação, ou seja, o seu reconhecimento de alma pura que está no Paraíso Celeste em estado de beatitude, com poder de interceder por quem a ela recorre na prece. Assim, foi beatificada em 15 de Abril de 1516 pelo Papa Leão X, mas nesse Breve de Beatificação designou-a por Branca invés de Isabel. O lapso levou a que, em 1545, o bispo de Coimbra, João Soares, considerasse o seu culto ilegítimo. Se foi lapso por descuido ou intencional, desconheço, mas sabe-se das proximidades da Rainha Santa ao culto do Divino também chamado de Branco pelos elementos heterodoxos que o preenchem, mais ainda com o acréscimo da corte de seu pai ter acolhido vários “hereges” cátaros ou “puros” (brancos) vindos do Sul de França aí se refugiando, acabando por diluir-se na sociedade religiosa e laica da época, ademais sem a aprovação dos cistercienses e franciscanos nunca os tendo  reconhecido canonicamente (São Bernardo, São Francisco e Santo António predicaram a seu desfavor em terras occitanas) senão como movimento religioso pietista colado e aproveitado por aquele político independentista dos condes do Languedoque (Occitânia), sobre o qual a poderosa Aragão possuía o senhorio. Seja como for, o considerando do controverso bispo de Coimbra não teve resultados práticos, foi ignorado por todas as classes, desde religiosos e nobre até ao imenso povo simples que acorriam à Santa Clara-a-Velha, tanto que a Festa da Bem-Aventurada Rainha Santa Isabel, desde 4 de Julho de 1517 quando se celebrou pela primeira vez em Coimbra, nunca sofreu interrupções.

Para corrigir o erro no breve pontifício D. João III, sucedendo a D. Manuel I, solicitou ao Papa Júlio III, em 1550, a sua correcção e a extensão do culto isabelino à capela real, uma vez que a beatificação reconhecida no tempo do seu antecessor circunscrevia o seu culto solene à diocese de Coimbra. O Papa deferiu o pedido do monarca português, que em 21 de Janeiro de 1556 solicitaria e obteria de Paulo IV a extensão do culto a todo o reino[44]. Após D. João III, os esforços de canonização de D. Isabel foram prosseguidos por D. Sebastião e interrompidos pelo seu desaparecimento abrupto no desastre militar português em Alcácer-Quibir.

A canonização ou subida aos altares de santidade de D. Isabel só aconteceria em pleno domínio filipino que entretanto ocupara Portugal. Filipe II iniciou esse processo de canonização em 1611, e no prosseguimento, em 26 de Março de 1612, procedeu-se à abertura do túmulo, declarando quem viu que o corpo se achava inteiro e incorrupto[45].  Por fim, Filipe II obteve do Papa Urbano VIII, em 25 de Maio de 1625, a santificação e eleição da Rainha Santa Isabel como Padroeira de Portugal. Mas havia uma intenção escondida: a de num golpe astuto de royal politique levar o próprio Papado a reconhecer e legitimar a soberania de Espanha sobre Portugal, que nisso até a sua padroeira nascera espanhola.

Foi essa a razão do rei D. João V ter solicitado ao papa Benedito ou Bento XIV a confirmação da canonização de Rainha Santa Isabel de Portugal, pelo que foi expedida a bula Rationi congruit, de 28 de Abril de 1742, declarando a canonização de Isabel. Tratou-se da resposta política a Filipe II: o rei português ficaria com a última palavra, Isabel era Rainha de Portugal e só Infanta de Aragão.

Assim ficou até hoje.

NOTAS

[1] Conferência do autor no Recordatório Rainha Santa Isabel, Coimbra, 24 de Novembro de 2018.

[2] Johann Wolfgang Von Goethe, Fausto: Tragédia de Goethe. Tradução de Agostinho d´Ornellas. Typographia Franco-Portugueza, Lisboa, 1867.

[3] Nicolas Berdiaeff, La doctrine de la Sophia et de l´Androgyne. Jacob Böhme et les courants sophiologiques russes, t. I, pp. 29-45. In Jacob Böehme, Mysterium Magnum. Tradução francesa de N. Berdiaeff. Aubier Montaigne, Paris, 1945.

[4] Pierre Teilhard de Chardin, Le Coueur de la Matière. Collection Oeuvres de Teilhard de Chardin, n.º 13. Éditions du Seuil, Paris, 1976.

[5] Jules Michelet (1798-1874), A Mulher. Martins Fontes, São Paulo, 1995.

[6] Helena P. Blavatsky, Os manuscritos perdidos da Loja Blavatsky (1889-1891). Tradução espanhola de Vitor M. Adrião, Lisboa, 2020.

[7] Teresinha Maria Duarte, Santa Isabel Rainha de Portugal: modelo de santidade feminina e leiga. OPSIS – Revista do NIESC, Universidade de Brasília, vol. 6, 2006.

[8] Vitor Manuel Adrião, Madrid Insólita y Secreta. Éditons Jonglez, Versailles, 2011.

[9] Adolphe Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética y Mística. Ediciones Palabra, Madrid, 1990.

[10] Mário Martins, Ladainhas de Nossa Senhora em Portugal (Idade-Média e séc. XVI). Revista “Lusitânia Sacra”, Centro de Estudos de História Eclesiástica, tomo V, pp. 121-220, Lisboa, 1960/61.

[11] Vitorino Nemésio, Isabel de Aragão Rainha Santa, Obras Completas, vol. X. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2002.

[12] Joana Ramôa, Isabel de Aragão, rainha e santa de Portugal: o seu jacente medieval como imagem excelsa de santidade. “Cultura – Revista de História e Teoria das Ideias”, vol. 27, pp. 63-81. Lisboa, 1 de Junho de 2010.

[13] Helena Costa Toipa, A linhagem da Rainha Santa Isabel segundo ‘De Vita et Moribus Beatae Elisabethae Lusitaniae Reginae’ de Pedro João Perpinhão. Revista Humanitas, vol. LXVI, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014.

[14] James William Brodman, Ransoming Captives in Crusader Spain – The Order of Merced on the Christian-Islamic frontier. University of Pennsylvania Press, U.S.A, 1986.

[15] Marcelino Menéndez Pelayo, Historia de los heterodoxos españoles. Editorial Católica, Madrid, 1967.

[16] Jerónimo Zurita (historiador e cronista, Saragoça, 4.12.1512 – Saragoça, 3.11.1580), Anales de Aragón, escritos entre os anos 1562 e 1580, livro V, capítulo LXXXII. Edição de Ángel Canellas López em 8 volumes, Instituição “Fernando, o Católico”, Saragoça, 1967-1977.

[17] Sebastião Antunes Henriques, Rainha Santa – Cartas inéditas e outros documentos. Coimbra Editora, Coimbra, 1958.

[18] Conde de Moucheron, Isabel de Aragão. Edições Ésquilo, Lisboa, Abril de 2008.

[19] A peregrinação de D. Isabel é relatada pormenorizadamente pelo seu primeiro biógrafo, o autor do texto anónimo do século XIV, Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, Dona Isabel e seus bons feitos e milagres em sa vida e depois da morte. Foi publicado no século XVII por Fr. Francisco Brandão, na Monarquia Lusitana, Parte VI (1672), com o título Relaçam da vida gloriosa de Santa Isabel, Rainha de Portugal, transladada de um livro escrito de mão, que está no convento de Santa Clara de Coimbra. A partir desta edição e com consulta de uma cópia manuscrita existente no Museu Machado de Castro, em Coimbra, J.J. Nunes publicou em 1921 o texto “reconstruído”, no Boletim de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, com o título Vida e Milagres de Dona Isabel, Rainha de Portugal.

[20] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa. Livros Dinapress, Lisboa, 2011.

[21] Ramon Llull, Livro da Ordem de Cavalaria. Editora Assírio & Alvim, Lisboa, 1992.

[22] Maria Filomena Andrade, Isabel de Aragão, Rainha Santa, Mãe Exemplar. Temas e Debates, Lisboa, 2014.

[23] Maria Helena da Cruz Coelho e Leontina Ventura, Os bens de Vataça. Visibilidade de uma existência. Revista da História das Ideias, 9, O Sagrado e o Profano. Instituto de História e Teoria das Ideias – Faculdade de Letras, Coimbra, 1987.

[24] Marcos Silva e Ísis Carolina Garcia Bispo, Os arcanos profundos do Criptojudaísmo – O papel da Cabala na resistência cultural dos Sefarditas à perseguição inquisitorial. Editora da Universidade Federal de Sergipe, Brasil, 2015.

[25] Rabi Nehunia Ben Hakaná, Sepher ha-bahir – El libro de la claridad. Editora Obelisco, Barcelona, 2012.

[26] António Nogueira Gonçalves, A capela de Santa Isabel na freguesia de Pombeiro, in Comarca de Arganil. Arganil, 1948.

[27] P.e António de Andrada Rego, Sermaõ da Raynha S. Izabel, sexta de Portugal, pregado em a Igreja do Real Convento de Santa Clara de Coimbra: assistido em Prestito a Universidade em 4 de Iulho de 1727, pelo D. António de Andrade Rego, Reytor, & Collegial, que foi do Collegio Real de S. Paulo, Lente da Cadeira de Decreto, Conego Doutoral da Sé de Faro, Dezembargador dos Aggravos da Casa da Supplicaçao, & Comissario das obras Reais do mesmo Convento. Coimbra, Officina do Real Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1727.

[28] P.e António Vieira, Sermão da Rainha Santa Isabel, pregado em Roma na Igreja dos Portugueses no ano de 1674. In Sermões, II, 8, Lisboa, 1682.

[29] Moisés Espírito Santo, Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa. Assírio & Alvim, Lisboa, 1998.

[30] D. Rodrigo da Cunha, História Eclesiástica da Igreja de Lisboa, fl. 122. Lisboa, 1642.

[31] Francesco Russo, Gioacchino da Fiore e le fundazione florensi in Calabria. Nápoles, 1958.

[32] Marjorie Reeves, The Abbot Joachim and the Society of Jesus. In Medieval and Renaissance Studies, 5, pp. 163-181, Oxford, 1961.

[33] Giovanni Papini, Dante Vivo, pp. 280-297. Mac Milan, New York, 1935.

[34] Álvaro Rodrigues de Azevedo, Benavente. Estudo Histórico-Descritivo, 1926 (1924). Minerva Lisbonense, Lisboa

[35] Jaime Cortesão, História dos Descobrimentos Portugueses, I. Lisboa, 1979.

[36] Fr. Manuel da Esperança, História Seráfica dos Frades Menores de S. Francisco na Província de Portugal, I. Lisboa, 1656.

[37] Rogério de Figueiroa Rego, A Casa do Espírito Santo em Alenquer – relação de alguns confrades. Estremadura, Boletim da Junta de Província, Série II, N.º X, pp. 355-365, 1945.

[38] Vitor Manuel Adrião, Estremadura, o Extremo Ibérico. Revista “Cidades”, Ano II, N.º 4, 1988.

[39] Livro que fala da boa vida que fez a Rainha de Portugal. I Dona Isabel & de seus beons feitos & milagres em sa vida & depois da morte, de autor anónimo. Esta biografia redigida em português, vulgarmente conhecida pela designação de Lenda da Rainha Santa, foi publicada por frei Francisco Brandão em apêndice à parte no volume VI da Monarquia Lusitana, na primeira edição de 1672, com o seguinte título: Relaçam da Vida da Gloriosa / Santa If abel Rainha de Portugal, tresladada de hum li-uro ef crito de maõ, que ef ta no Conuento de S. Clara de / Coimbra.

[40] José Crespo, Santa Isabel na doença e na morte, 2.ª edição. Coimbra Editora, Coimbra, 1972.

[41] Posteriormente, devido às enchentes no rio Mondego inundando o mosteiro velho, construiu-se um novo mosteiro de franciscanas, Santa Clara-a-Nova, sendo trasladados para uma capela provisória aí os restos mortais da Rainha Santa, em 29 de Outubro de 1677, onde permanecem até hoje.

[42] António de Vasconcelos, A evolução do culto a Dona Isabel de Aragão (a Rainha Santa), 2 vols. em edição facsimilada (1891-1894). Arquivo da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1993.

[43] Giulia Rossi Vairo, Le origini del processo di canonizzazione di Isabella d´Aragona, Rainha Santa de Portugal, in un atto notarile del 27 Luglio 1336. “Collectanea Franciscana”, 74, pp. 147-193, Roma, 2004.

[44] A. S. Pinto, Cronologia da Rainha Santa Isabel. Separata do Arquivo Coimbrão, vol. XXVI. Coimbra. Câmara Municipal de Coimbra, 1973.

[45] António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, Primeira abertura do túmulo de D. Isabel de Aragão (a Rainha Santa). Instituto, 39, 11, pp. 841-852, Coimbra, 1891.

Corte de Amor na Cardiga – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 17 2021 

No Foral de Tomar de 1162, D. Gualdim Pais, Mestre Geral da Ordem do Templo, reflecte a preocupação em centrar a primitiva Tomaris como núcleo defensivo do caminho do Sul entre Coimbra – as finis Galiciae, onde então residia a corte de D. Afonso Henriques nesse extremo do Condado Portucalense – e Santarém, incluindo a via fluvial Zêzere-Tejo, sobretudo este, e para tanto ordenou a construção de uma série de atalaias ou postos avançados no território conquistado ao agareno que, num contra-ataque, poderia ir querer reconquistá-lo. Tais atalaias, segundo o mesmo Foral, eram da responsabilidade dos freires-militares do Templo, incluindo não só o castelo e a área conventual, a alcáçova, mas também a área residencial urbana, a almedina, tendo-se notícias documentais disso desde muito cedo[1], a partir dessa escritura de 1162, como regista Manuel Conde[2].

A partir de Setembro de 1169, D. Afonso Henriques, face à crescente ameaça representada pelas forças almohadas, e a fim de incentivar a empresa da Reconquista e do povoamento, fez doação à Ordem do Templo da terça parte de todas as terras que a Milícia viesse a conquistar além-Tejo, com a condição dos seus rendimentos serem aplicados no serviço de Deus e do Rei. No mês seguinte, em 7 de Outubro de 1169, D. Afonso Henriques doou ao Templo os castelos e seus termos de Ozêzar (Zêzere), actual concelho de Vila Nova da Barquinha, e da Cardiga, actual concelho da Golegã[3]. Conforme pode ler-se nas inscrições lapidares, datadas de 1171, nos castelos templários de Pombal e de Almourol, D. Gualdim Pais foi o responsável pela construção do castelo da Cardiga[4]. Deste, hoje sobrevive apenas o torreão de planta rectangular e paramentos aprumados, em alvenaria de pedra, rasgados por seteiras, inicialmente com três pisos sobradados, conforme é descrita no Tombo de Tomar de 1504, assim o elevando a torre ameada. Desses três pisos apenas o primeiro terá sido construção templária, por se saber que D. Dinis mandou acrescentar um segundo e D. João III ou o seu irmão D. Luís, o restante. Ele é quanto resta da época dos templários.

O castelo seria térreo com pequena torre de vigia, não muito elevada, assente em terra chã com o Rio Tejo mais adiante que não chegava a ele. Era, pois, uma atalaia com guarnição razoável dominando os Campos da Cardiga escassos quilómetros adiante da poderosa fortaleza da ilhota de Almourol, que até hoje é símbolo do poder e independência nacional. A vasta área da Cardiga veio a ser povoada por populações cristãs emigrantes de francos e flamengos, também de outras nacionalidades, chegadas aqui ainda em tempo de D. Afonso Henriques, mas cujo maior fluxo migratório foi sobretudo no tempo do seu filho D. Sancho I, o Povoador, as quais cedo se dedicaram à agropecuária e à vinicultura, nisto sendo a génese do povoamento da actual Quinta da Cardiga.

A tão falada Açafa ou território de Além-Tejo (Alentejo) e Riba-Tejo (Ribatejo), praticamente a partir das Portas de Rodão, foi território dominado pela Ordem do Templo desde que em 1169 D. Afonso Henriques lhe dou todas as terras na margem direita do Tejo, logicamente incluindo a Cardiga, e é nesta parte do país que hoje se tem o maior registo patrimonial da presença templária, tanto no cultual ou religioso como no socioeconómico e sobretudo militar, a ponto do polígono militar de Tancos não deixar de ser ser uma continuação viva da presença dos antigos e poderosos militares do Templo, seguidos da Ordem de Cristo, nesta zona nevrálgica e estratégica do país.

Os templários além de militares eram monges, já foi dito, possuíam Regra e Estatuto. Foram também promotores de riqueza e desenvolvimento económico-social, como particularmente se registou na Quinta da Cardiga, e talvez mais que tudo boa porção deles, sem fugir à ortodoxia da religião, mais ilustrados no saber e na espiritualidade, abraçou a heterodoxia dos conhecimentos herméticos que colaria ao regular da fé, dest´arte conhecendo “o espírito que vivifica ou ilumina sob a letra que esconde”, ou seja, sendo confessionais na aparência piedosa da catequese, igualmente apostolavam o nócio mistérico dos saberes gnósticos e gimnosofistas que haviam procurado e abraçado no Ultramar, mais que tudo na Síria e na Jordânia onde conviveram tanto com os assacis como com os mandeus, trazendo-os para o continente vindo influenciar a outros afins, cujo registo ficaria para sempre lapidado em vários monumentos e assinalado em diversos documentos[5].

Isso colava ao sentido místico e providencial dado a Portugal desde a primeira hora por D. Afonso Henriques, cedo tornando-o o primeiro país europeu com fronteiras definidas, ora o apodando de Porto-Graal nos seus sinais rodados, ora justificando a prerrogativa naquele que é o verdadeiro codicilo espiritual de Portugal relativo ao Milagre de Ourique dado à estampa pela primeira vez por Pedro de Mariz, em 1597, nos seus Diálogos de Vária História, narrativa que frei Bernardo de Brito viria a inserir na Crónica de Cister, livro III, capítulo II, Alcobaça, 1602, posteriormente reproduzida por frei António Brandão na Monarquia Lusitana, Parte III, livro X, capítulo V, Lisboa, 1632. Nesse codicilo lavrado após a vitória das Armas Portuguesas na batalha de Ourique, onde a presença templária dominou com a graça de Cristo revelado ao que seria o nosso primeiro rei, resume-se:

Por essa altura do pelágio templário em terras de Açafa, D. Afonso Henrique lavra a carta de doação à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Jerusalém do castelo de Cera em lugar das igrejas de Santarém, exceptuando a de Santiago que continuaria a pertencer-lhe, na qual aparece o famoso sinal rodado afonsino. O documento, depositado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (gaveta 7, maço 3), figura na Monumenta Henricina indicando a doação ao Templo do castelo de Cera ou Ceras, englobando as terras que iam até Tomar e esta. Essa carta, lavrada em Fevereiro de 1159, dentro da política de concórdia com arbítrio papal (Adriano IV, expedindo a bula Justis potentium sideriis), terá servido, segundo o professor Luís de Albuquerque, para doar a mesma Tomaris à Ordem do Templo, aí instalando a sua Casa-Mãe em seguimento a Cera, Ceras ou Cellas. Tal sinal rodado afonsino, feito de maneira gemátrica conformada á cultura hermética do tempo, aparece ainda em várias outras cartas de doação e/ou de aforamento real, como sucede nas de Sintra e do Reguengo de Colares, por exemplo. Ele possui três leituras interrelacionadas apesar de distintas: hermética, teológica e nobiliárquica/militar. Em 1990 identifiquei essa carta de Ceras como a da doação de Tomar aos templários, e agora deixo clareado o por que. Abrange todo o espaço primitivo do concelho tomarense, Ceras e Tomar incluídos. Assim, o documento é sobretudo carta de doação concelhia perpassando a mingueza geográfica de um castelo e terras arredor do mesmo, antes indo mais além dele, ficando a poderosa Santarém sob o domínio militar-económico, também pastoral da religião, da Ordem Religiosa e Militar de Santiago. Nesse acto de fina diplomacia geopolítica, Afonso I evitou conflitos entre espatários e templários e ao mesmo tempo vedou as ambições diocesanas do Cabido de Lisboa, então encabeçado por um bispo inglês, Gilbert of Hastings, pondo essas terras ricas na posse do Exército que delas se ocupou demográfica, política, económica e religiosamente, porque além de serem militares eram religiosos com votos contraídos.

O facto da Ordem do Templo não ceder a igreja de Santiago de Santarém e os seus bens móveis e imóveis aos espatários, é sinal de reivindicar para ela a exclusividade da cristianização do território conquistado e a sua promoção pelas antigas vias romanas desde os finais do século VIII convertidas em caminhos de peregrinação a Santiago de Compostela, na Galiza que nos evos de D. Afonso VI de Leão eram terras portucalenses oferecidas ao conde D. Henrique de Borgonha, pai de D. Afonso Henriques, oferta depois retirada por D. Afonso VII, motivo das inúmeras guerras de Afonso I de Portugal com Leão e Castela e a sua penetração militar em território galaico com a intenção de reconquista[6]. A Ordem do Templários era secundada pela Ordem dos Espatários, motivo de se observar em igrejas santiaguistas a Cruz do Templo ornando o topo das mesmas, como acontece na igreja de São Tiago em Coimbra, por exemplo.

O Caminho Português de Santiago – igualmente os de outras partes europeias – constituía-se numa dicotomia confessional e mistérica. Se por um lado era caminho de penitência a que os culpados eram condenados, por outro era via de iniciação nos saberes ocultados na Natureza e nas coisas dispostas ao longo do caminho santiaguista. Foi assim que Raimundo Lúlio e Arnaldo de Vilanova, por exemplo, o entenderam, como por certo os mais doutos da Ordem do Templo, decerto conhecedores da literatura hermética judaica que guiaria o seu pensamento gnóstico, desde a Coroa de Realeza (Kether-Malkuth) de Avicebrão Ibne Gabirol (c. 1020-1058), ao Livro da Sabedoria de Moisés Maimónides (1135-1204), até ao primeiro texto de Cabala no século XII, o Livro da Claridade (Sepher Ha-Bahir), a que se juntariam o Livro da Criação (Sepher Yetzirah) e o Livro do Esplendor (Sepher Ha-Zohar), este já do século XIII, dentre outros, sem esquecer os apologéticos romancescos do ciclo do Graal que aparelhavam com a literatura hermética islâmica cultora do Amor, pomo da proximidade do Templo à corrente Trovadoresca que daria à Mulher sentido teofânico, figura central do culto à Beleza revelada como a Inteligência do Amor, tanto humano como espiritual, concepção unitária que pela “linguagem secreta” da poesia seria encarnada pelos Fiéis do Amor (Fedeli d´Amore) ainda no século XII. Era nesse Amor ideal que procuravam iniciar-se por via dinâmica ou móvel quantos palmilhavam o Caminho Jacobeo feito assim Caminho de Iniciação, reflectindo o esoterismo e a mística, mais que de penitência. Com isso, tomou forma o amor cortês, galante[7], em cortesias amorosas ainda assim distadas das cortes de amor, estas revestidas de função soteriológica animada por conhecimento superior, gnóstico, suportado por ritos iniciáticos privilegiando o tema central do Amor Divino representado na Senhora (la Madona Inteligenza) que a Cavalaria Cristã associaria à Virgem Maria, dando começo à Cavalaria Espiritual e à missão primaz desta de conquista espiritual do Mundo, a partir de centros iniciáticos estabelecidos, sobretudo em Portugal, como seria o da Cardiga-Golegã.

A Golegã está no Caminho para Santiago de Compostela, e se filologicamente para uns ela é o Gólgota penitencial, onde o Sangue do Redentor escorreu e se representou depois na noética vinicultura – iniciada ainda na época dos templários, como possível corporização do apodo “Divino Vinhateiro” (Mateus 21:33-43) – que tornou famosos os vinhos desta região, para outros provirá da forma genitiva céltica Galagana, “o Caminho, a Via ou Passagem (Gala) da Génia (Gana)”, a Procriadora do Senhor, representada na padroeira local, Nossa-Senhora da Conceição[8]. Na grandiosa igreja gótica desta vila, com belíssimo portal manuelino da lavra do mestre arquitecto Diogo Boitaca, vêm-se ainda nas bases das duas altas colunas adiante do altar-mor uma mão e um cão, aquela indicadora do caminho e este protector do peregrino jacobeo que aqui chegava. Manus et Cannis vêm a ser também sinaléticos estelares do Cannis Majorem – Cão Maior – por cuja brilhante estrela Sirius se guiava o viandante no seu peregrinar para o Norte até desembocar no Campus Stellae, “Campo da Estrela”, donde Compostela.

Chega-se ao século XIV. A Quinta da Cardiga era rica, próspera, não faltavam olhares cobiçosos da mesma, igualmente temerosos dos seus donatários como força militar de elite. Entretanto em França ardia-se o plano de extinção da Ordem, de um lado o rei Filipe IV, avaro dos bens do Templo, e do outro o seu capataz papa Clemente V, que não fazia senão cumprir as ordens daquele que o colocara no sólio de S. Pedro. Assim, em 12 de Agosto de 1307, esse papa dirige ao rei de Portugal, D. Dinis, a bula Regnans in ecclesis triumphans, convidando-o e aos prelados portugueses a irem ao Concílio de Viena, onde ele procuraria determinar o que fazer da Ordem do Templo e dos seus bens móveis e imóveis, por causa dos pressupostos erros e excessos dos seus comendadores e cavaleiros. D. Dinis percebeu a ganância do rei de França por detrás desse golpe com aparência de legal, e apressou-se a tomar uma série de medidas, internas e externas, para evitar que os bens templários caíssem em mãos alheias: ordenou inquirição sobre o património da Ordem e, por via judicial, incorporou-o na Coroa, alegando que as doações do mesmo foram da responsabilidade régia e obrigavam à prestação de serviços ao rei e ao reino[9].

Em 22 de Março de 1312 aconteceu o inevitável antevisto por D. Dinis: Clemente V extinguiu a Ordem do Templo pela bula Vox Clamantis. Percebendo que não conseguia pilhar os bens templários noutros países, em 2 de Maio desse ano emitiu a bula Ad provirem, concedendo aos soberanos a posse interina dos bens da Ordem do Templo, até o conselho pontifício decidir o que fazer com eles. O papa falece e sucede-lhe João XXII. Este, em 14 de Março de 1319, a instâncias de D. Dinis através dos delegados junto da Cúria, pela bula Ad ea ex quibus institui a Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, encurtada Ordem de Cristo, para a qual passam todos os bens e pertenças da Ordem do Templo: “Outorgamos e doamos e ajuntamos e incorporamos e anexamos para todo o sempre, à dita Ordem de Jesus Cristo (…), Castelo Branco, Longroiva, Tomar, Almourol e todos os outros castelos, fortalezas e todos os outros bens, móveis e de raiz”. Em 11 de Junho de 1321, fez-se a divisão em 38 comendas da Ordem de Cristo dos antigos bens pertencentes aos templários, referindo-se na partição a instituição das comendas de Almourol e da Cardiga, cada uma tendo de pagar anualmente 250 libras de renda ou tença à Casa-Mãe no Convento de Tomar. Dois anos depois, em 1323, no início do Mestrado de D. João Lourenço, a Comenda da Cardiga recebeu uma doação de território que pertencia um antigo cavaleiro da Ordem do Templo[10].

A riqueza e lucro da Comenda da Cardiga eram de tal forma avultados que davam rendas a três comendadores. Em 1494 era seu comendador frei Afonso Furtado, tendo se realizado em 1504 o Tombo dos Bens da Comenda da Cardiga. Em 1520, frei Nuno Furtado Mendonça sucede ao seu pai no cargo de comendador, e após a sua morte, em 1536, a Comenda da Cardiga foi cedida ao Convento de Tomar em troca da Comenda de Santiago de Santarém, passando a alimentar o convento tomarense e o Colégio de Coimbra[11].

Reinava D. João III (1502-1557), o Piedoso, menos rei e mais teocrático romano, por ele se introduzindo o Tribunal da Inquisição no país. Suspeita-se das “heresias” das freiria de Cristo, herdando-as e prosseguindo-as dos antecessores templários. Decide-se pôr cobro a isso e iniciam-se as reformas morais e sociais da Ordem de Cristo, para tanto sendo incumbido pelo monarca o jerónimo frei António Moniz da Silva, mais conhecido por frei António de Lisboa, familiar do Santo Ofício[12]. Como o D. Prior de Tomar, frei Diogo do Rego, em 1529, se recusou aderir à reforma imposta por frei António, a mando de D. João III, foi expulso do convento com muitos outros freires que foram dispersos por várias casas religiosas do reino, alguns deles inclusive sido expulsos da Ordem por esse novo D. Prior de Tomar, cabeça da mesma.

Sete anos depois, em 1536, a Comenda da Cardiga deixaria de existir como unidade jurídico-administrativa, e sob a alegação do Convento de Tomar necessitar de terrenos para os seus gados, a Ordem sob administração real retira-lhe o título de comenda ficando só o de quinta, criando em substituição a comenda da Igreja de Santiago de Santarém[13]. Em 7 de Novembro desse ano, por carta de concessão de D. João III, frei António de Lisboa tomou conta da Cardiga in situ perante o contador régio Francisco de Aboim, cavaleiro da Cúria Real, na ausência do contador do Mestrado de Cristo, Pio Rodrigues, e aí passou a viver um reitor da Ordem nomeado pelo mesmo frei António, pouco importando a este ter escolhido um leigo quase analfabeto mas com sucesso nos negócios de transformar a Cardiga em quinta do Convento de Tomar, constituindo-se na base económica substancial da Ordem de Cristo, já então enclausurada por reivindicado direito régio sobreposto ao eclesiástico, ela que antes fora Ordem claustral ou de expansão continental e ultramarina, facto que frei Gonçalo Velho, comendador da Cardiga, demonstrou bem ser assim na Gesta Dei per Portucalensis ou Conquista Espiritual do Mundo ao participar na demanda marítima da Índia e da América, ou do Oriente e do Ocidente, como regista a inscrição de 1926 na lápide, com retrato do encomiado por cima, junto à entrada da quinta:

“FREI CONCALO VELHO / COMMENDADOR DA / CARDIGA NA ORDEM DE / IESVS CRHISTO ABRIV O CAMINHO / MARITIMO DA INDIA EM 1416 / CHEGANDO A TERRA ALTA E O / DAS AMERICAS EM . 1431 . 1432 . / DESCOBRINDO OS AÇORES / + PARA PERPETVA MEMORIA DE / TÃO ECRECIO VARÃO SE COLOCOV / ESTA LAPIDE A PEDIDO DO INSTITVTO / HISTORICO DO MINHO CELEBRANDO / O . V . CENTENARIO DO PRIMEIRO / DESCOBRIMENTO PORTVGUEZ / + MCCCCXVI + MDCCCCXVI +”

Data de 20 de Julho de 1544 a referência a esse reitor da Cardiga, de nome Francisco Lopes, como “criado, feitor e procurador” de frei António de Lisboa.

Isso apesar de só em 1623, reinando Filipe III, aparecer registada a designação de quinta à Cardiga, vulgarizada a partir de 1629-1630, sendo feitor o sobrinho de frei António de Lisboa, frei Pedro Moniz, eleito nesse cargo, desde 1592, por quatro vezes, segundo Luís Miguel Batista (ob. cit.).

Sob pretexto de desassorear as Terras da Cardiga a fim de facilitar o escoamento das águas do Tejo, em 1545 o infante D. Luís (1506-1555), irmão de D. João III e autorizado por este, mandou fazer a importante obra hidráulica de mudança do curso do rio, construindo-se então a cerca envolvente da quinta-convento indo as águas bater nela. “Tirando-o do alveo a que hoje se chama Tejo Velho, mudando-lhe a corrente para o Tejo Novo por motivo de coitar o ímpeto das areias que carregavam as lezírias das Barrocas que ficavam por cima de Santarém”[14].

Mas a empresa resultou em grande prejuízo para a Ordem de Cristo e a Quinta da Cardiga: vários mapas antigos assinalam uma ribeira que em 1900 ainda se denominava Tejo Velho, resultado da escorrência das águas provenientes dos relevos da margem sul mostrando que as areias não tinham sido totalmente imobilizadas como se pretendia. O novo troço (com dez quilómetros de extensão) ou Tejo Novo saído, segundo as crónicas, da Lagoa Fedorenta vizinha da quinta, directa e rectilíneamente para sul, não agradou ao rio que escolheu novo traçado deslocando-se cada vez mais para norte, tornando-se progressivamente mais sinuoso, desenvolvendo ampla curvatura a norte da dita lagoa. Como consequência da erosão provocada na margem côncava da curva que se formava, foram desaparecendo as terras de cultivo da Quinta da Cardiga[15]. O desastre foi total e em cerca de quinze anos erodiu toda a área que ia do canal artificial até às casas da quinta, junto às quais passava (e passa)[16].

Entre 1545 e 1557 o rei D. João III instalou-se várias vezes no palácio desta quinta, tendo subido o rio de barco, pernoitado na Cardiga, e depois seguido a cavalo para observar – vigiar e censurar – as obras no convento de Tomar levadas a efeito pelo seu censor frei António de Lisboa. A mesma intenção censória o terá assistido aqui na Cardiga, desde que em 1540 frei António de Lisboa a transformara em palácio paçal digno do rei e da sua esposa, rainha D. Catarina, sob risco do mestre arquitecto biscainho João de Castilho (1470-1552), responsável pelas obras no Convento de Tomar e também aqui.

Mas esse não era um mestre qualquer, já brilhara no providencialismo messiânico do Manuelino, possuía a arte da dissimulação com que bem soube iludir tanto ao inquisidor frei António como ao monarca igrejeiro, e arguto, figura de destaque na corrente dos Mestres-Canteiros como um dos principais na introdução da Renascença em Portugal, deixou sinais da presença hermética na Cardiga indicativos da existência de Corte de Amor, espaço já de si courela “mística” (parcela mista) desde o século XII, sobretudo a partir da centúria de XIV, onde a Iniciação Senhorial ou Mariana, afim ao ideal de Cavalaria, seja esta militar ou filosófica, aqui teve o seu foro, a despeito do censório eclesiástico.

Essa arte de dissimular, como a de apresentar uma coisa aparentemente piedosa e inocente mas realmente com sentido diverso primando conceitos herméticos só acessíveis a raros iniciados, vem a reproduzir aquelas outras palavras em francês provençal contidas em Alexandre, de Albéric de Pisançon ou de Briançon (cerca de 1110)[17]:

“Aquele a quem Deus concede o senso,
não deve escondê-lo sem cuidado,
antes deve certificar-se de que aqueles
a quem o confia são dignos de o conhecer,
pois grande loucura cometerá
quem deitar a porcos a sua pérola.”

Seria sobretudo no século XVI a formação de Corte de Amor em núcleo fechado, e com a Cardiga não tendo mais a função militar defensiva do Tejo contra invasões mouras e castelhanas como outrora, pois tudo estava pacificado, consolidado desde há muito, remeteu-se a Ordem de Cristo à exclusividade das lides culturais e metafísicas, destacando a demanda do Supremo Amor no assinalado Santo Vaso de nome Santo Graal, intimamente correlacionado ao tema mariano[18], consequentemente, ao culto da Mulher, da Senhora Ideal, aprofundamento exigindo o hermetismo que a teologia confessional não possuía (nem possui). Isso também coincidiu com o aparecimento de duas obras literárias maneiristas tornadas universais: em Espanha, o D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, assinalando o fim da Cavalaria Temporal; em Portugal, Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, marcando o começo da Cavalaria Espiritual.

Nessa última obra, a “Bíblia” dos Lusos, Camões utiliza o método danteano e virgiliano dos Fiéis de Amor de revelar escondendo. Opõe a Igreja do Amor à de Roma, e assim fariam os Fiéis de Amor não a ostracizando, antes a rectificando indo além da “letra que esconde”. Se Camões desfeche com a Ilha dos Amores no seu poema imortal, aqui na Cardiga eleva-se o Palatium Amoris, com o carácter de centro primordial – centrum primum – replicando a condição idêntica do castelo do Graal, da morada do Amor nas lendas e narrativas medievais escoadas nos saberes iluminados da Renascença. Assim, a quinta da Cardiga batida pelo Tejo não deixa de ser réplica do castelo do Graal “rodeado por um grande rio”[19], tudo no seguimento da primeira e mais difundida obra literária latina deste género surgida na segunda metade do século XII, o De Amore ou De arte honeste amandi ou Gualtieri, de Andrea Cappellano (1150-1220), tratado de normas de amor cortês com o subentendido de realmente tratar de amor ideal, espiritual, carregando o simbolismo hermético associativo do feudo de amor ao feudo celeste, ao Centro Primordial do Mundo, pomo da demanda e reintegração do Iniciado, despertando a Madona Inteligenza em si, a Shakti,“contraparte” ou alma espiritual dotada do Fogo Criador do Espírito Santo, este associado à Força Electromagnética que leva o nome hindu de Kundalini. Se, na linguagem alegórica dos Fiéis de Amor, a “amizade expressa” representa o acto da Iniciação, o “amante no Amor” é o Imortal, o que perpassou a condição física de morte, e no Amor ou Iluminação tem por símbolo a Rosa, símbolo da Mulher Ideal em quem doravante está integrado[20], nisto sendo legitimamente Cavaleiro da Rosa, outro nome dado ao Fiel de Amor, sinal observável em medalhão de abóbada, obra de João de Castilho, na “adega dos frades” desta quinta da Cardiga.

O sentido místico de castelo do Graal dispõe-o na igualmente mística insula occultam (“ilha oculta ou velada”) já assinalada no século XIII pelo iraniano Ali Ibne Fazel Mazandarani em Relato das coisas estranhas e maravilhosas que ele contemplara e vira com os seus olhos na Ilha Verde situada no Mar Branco, epopeia iniciática liga à tradição xiita do 12.º Iman ou “Iman Oculto”, recambiando para a versão ocidental do Encoberto na insula brandonis, “ilha de São Brandão”. Apresenta severas semelhanças com as epopeias ocidentais da Cavalaria Mística, mais que tudo a da Demanda do Santo Graal. A Ilha Verde, associada aos Mons Salvat do mito arturiano, é para Henry Corbin o “lugar onde os seus fiéis [os do 12.º Iman ou o Encoberto] se aproximam do Pólo Místico do Mundo”[21], a Ilha que abriga a Fonte da Vida à sombra do Paraíso Terreal. Para o autor, os amigos e amantes de Deus islâmicos e cristãos possuem muitas convergências identitárias eles. Enquanto os mulahs privilegiaram o simbolismo hermético e a busca iniciática, aqui os dotados das luzes superiores da Ordem de Cristo destacaram a cavalaria espiritual e mística, encadeando-se a essa sociabilidade cristã motivada pela esperança de uma comunidade utópica de perfeitos na Arte do Amor demandado e por fim realizado.

Sendo a Corte de Amor sinónima de Centro Iniciático, assinalado neste espaço pelo monóptero ou templete com a Cruz de Cristo, construção quinhentista do mestre biscainho a que se chegava saindo da capela primitiva hoje desaparecida, mais que “casa de fresco” deitando para o jardim (simbólico do éden) tem-se no mesmo a representação simbólica do Sanctum Sanctorum do antigo Templo de Salomão, a porta de acesso das almas salvas, eleitas pelos seus próprios méritos, à Jerusalém Celeste[22]. Por isso paira sobre o jardim em baixo. O protótipo salomónico do Santo dos Santos influenciou a forma de muitos sacrários e tabernáculos, razão pela qual foram construídos segundo um modelo centralizado, em rotunda figurativa da hóstia – para Francisco de Holanda – expressiva da Mónada ou Nous que pela sua circulatura expressa a infinitude divina, “sem princípio nem fim”, com isso encomiando o Santíssimo Sacramento que a devoção conheceu nos tempos pós-tridentinos, em reacção ao cisma protestante que não aceitava a presença de Cristo na Eucaristia[23].

Celebrando os deuses galantes na primavera de Advento, autêntica Corte de Aldeia (1619) para o igual “amante” Francisco Rodrigues Lobo, prosseguidor de Fernão Álvares do Oriente com a sua bucólica Lusitânia Transformada (1607), tinha-se:

Nisto entram os chamados “discursos secretos” em junção com os “livros de segredo”, tendo como matrizes os tratados de Hermetismo, cuja influência estendeu-se desde as artes e ofícios até obras filosóficas e religiosas, “discursos” inclusive aplicados em círculos restritos de Ordens aparentemente de rígida ortodoxia confessional[24]. Vários acontecimentos censórios, condenatórios e persecutórios registados na História Eclesiástica durante a Idade Média e na primeira metade da Renascença, haviam concorrido para esse ambiente de segredo e secreto em núcleos selectos no seio da própria Igreja, que assim precavenidos escaparam ao condenatório desta, o que igualmente terá ocorrido aqui na Cardiga.

Falando em Hermetismo evoca-se o nome do seu criador Hermes Trismegisto ou Trimegistus, que em latim significa “Hermes o três vezes Grande”, associado pelos neoplatónicos, alquimistas, cabalistas e demais hermetistas ao deus egípcio Thot, identificado com o deus grego Hermes e até com o patriarca Enoch do Antigo Testamento. Personagens fabulosos nos dias de hoje, os antigos consideravam-nos os criadores originais da escrita fonética, da magia teúrgica e do profetismo messiânico nas respectivas culturas.

Thot estava relacionado com os ciclos lunares cujas fases expressam a harmonia do Universo. Os escritos egípcios referem-no como “duas vezes grande”, por ser o deus do Verbo e da Sabedoria. Na atmosfera sincrética do império romano deu-se ao deus grego Hermes o epíteto do deus egípcio Thot, mas como “três vezes grande” (trimegistus), no Verbo, na Sabedoria e por ser Mensageiro de todos os deuses do Eliseu ou Olimpo, pelo que os romanos o associaram a Mercúrio, planeta mediador entre a Terra e o Sol, facto que os cabalistas judeus apelidaram Metraton, “Medida Perpendicular entre a Terra e o Sol”.

Como “escriba e mensageiro dos deuses” no Egipto helénico, Hermes era considerado autor de um conjunto de textos sagrados, ditos herméticos, contendo ensinamentos sobre arte, ciência, religião e filosofia – o Corpus Hermeticum – cujo propósito era a deificação da Humanidade através do Conhecimento de Deus (Gnôsis). É provável que esses textos tenham sido escritos não por uma só pessoa mas pelo conjunto de personalidades que corporificavam a Escola Hermética do Antigo Egipto, assim expressando o saber acumulado ao longo do tempo indo atribuí-lo ao seu deus da Sabedoria, em tudo similar ao deus Ganesha do panteão hindu.

O Corpus Hermeticum, datado provavelmente de entre o século I e o século III d. C., representou a fonte de inspiração do pensamento hermético e neoplatónico renascentista. Apesar do erudito suíço Casaubon ter pretendido provar o contrário no século XVII, continuou a acreditar-se que o texto remontava à antiguidade egípcia anterior a Moisés e que nele também estava contido o prenúncio do Cristianismo. Segundo Clemente de Alexandria, eram 42 livros subdivididos em seis conjuntos. O primeiro tratava da educação dos sacerdotes; o segundo, dos rituais no templo; o terceiro, de geologia, geografia, botânica e agricultura; o quarto, de astronomia e astrologia, de matemática e arquitectura; o quinto, continha os hinos em louvor aos deuses e um guia de acção política para os reis; o sexto, era um tratado de medicina.

Acredita-se que Hermes Trimegisto terá inventado um baralho de cartas repletas de símbolos esotéricos, sendo as primeiras 22 feitas em lâminas de ouro e as restantes 56 em lâminas de prata. Esse é o chamado Tarot ou “Livro de Thot”. Também é creditado a Hermes a escritura do Livro dos Mortos ou “Livro da Saída para a Luz”, além do mais famoso texto alquímico: a Tábua de Esmeralda, que exerceu uma grande influência sobre a Alquimia e a Magia praticadas na Europa medieval.

Na mesma Europa medieval, sobretudo entre os séculos V e XIV, o Hermetismo também foi uma Escola de Hermenêutica, que considerava alguns poemas da Antiguidade, os diversos mitos e as obras de arte enigmáticas como tratados alegóricos de Alquimia ou Ciência Hermética. Por isso, ainda hoje o termo hermetismo designa o carácter esotérico de um texto, de uma obra, de uma palavra, de uma acção, no sentido de possuírem um significado oculto que exige uma hermenêutica, isto é, uma ciência filosófica que interprete correctamente o sentido velado do objecto apresentado.

Os princípios herméticos foram adoptados e aplicados pelos collegia fabrorum romanos, agremiações de artífices de construções civis, militares e religiosas, cujos conhecimentos foram herdados no século XII pelos monges construtores cristãos, edificadores dos grandes edifícios românicos e góticos da Europa, executando as suas obras pelo método da arquitectura sagrada tendo como modelo a também geometria sagrada. Esta é herança directa dos conjuntos terceiro e quarto do Corpus Hermeticum, pelos quais as cidades e os edifícios eram construídos de maneira a interrelacionarem-se com determinados planetas e constelações para que reproduzissem na Terra a disposição do céu, encadeando nela as suas energias cósmicas ou siderais, constituindo isto a actualmente chamada arqueoastronomia. Tudo isso para dar cumprimento à sentença hermética de “o que está em cima é como o que está em baixo”.

Durante a Renascença europeia (séculos XVI-XVII), o Hermetismo foi substituído pelo Humanismo. As formas foram racionalizadas e o transcendente ignorado, desaparecendo a sociedade tradicional substituída pela sociedade laica, barroca e pré-modernista abrindo caminho ao advento do materialismo mecanicista que domina o mundo moderno. Ainda assim, houve excepções a essa regra dominante na Europa: a aparição dos mestres canteiros, herdeiros dos monges construtores, em Portugal no século XVI, inaugurando o estilo Manuelino baseado nas regras herméticas da arquitectura sagrada. A influência desses construtores livres manteve-se até ao século XVIII e a sua última grande obra foi a restauração de Lisboa após o terramoto de 1755. Por isso é que a Lisboa Pombalina está traçada e construída segundo as medidas geométricas e arquitectónicas da tradição legada por Hermes Trismegisto [25].

Esse Hermetismo ou Gnose era a Teosofia ou Sabedoria Divina, palavra muito anterior à sua divulgação universal no século XIX pela ucraniana Helena Petrovna Blavatsky, tendo sido Jabob Boheme (Jakob Böhme, 1575-1624)) o primeiro a usar e reivindicar para si o termo na sua obra De signatura rerum (1621). Já antes, em 1618, Valentin Weigel empregou o mesmo vocábulo no seu Libellus theosophiae. Seguiram-se outros autores, como Johann Georg Gichtel (1638-1710) ou Gottfried Arnold (1665-1714). A partir do início do século XVIII, a utilização da palavra tornou-se corrente e o seu significado fixou-se. Dentre as obras que contribuíram para a fixar, destacam-se as seguintes: La Très Sainte Trinosophie (Ms. n.º 2400 na Biblioteca de Troyes), obra setecentista do Conde Saint-Germain, Theophilosophia theoretica et practica (1710), de Sincerus Renatus, Opus magocabalisticum et theosophicum (1721), de George von Welling, e ainda a obra em latim de Johann Jacob Brucker, Historica critica philosophiae (1741), consagrando um capítulo inteiro à Teosofia (De theosophiis). Foram as obras destes e outros filósofos herméticos que deram direito de cidadania a essa palavra e à sua realidade. A Teosofia quer-se sobretudo como uma abordagem mental aos princípios que unem a Divindade, a Natureza e o Homem, baseando-se numa hermenêutica esotérica instruída no princípio das correspondências e das homologias. Nisto, prolonga os ensinamentos que o Hermetismo e as diferentes Filosofias da Natureza haviam veiculado: tudo participada da lei da analogia ou homologia na Criação, estando cada parcela do Universo em íntima relação com a Luz Divina. Simultaneamente, a Teosofia participa de duas opções: a que consiste em penetrar em compreender, a partir da experiência interior, os mistérios da Divindade, e a que se preocupa mais profundamente com aproximar esses mistérios no e pelo Universo criado. Esta última opção integra evidentemente uma Filosofia da Natureza e uma conceituação esotérica, ao passo que a primeira situa-se sobretudo do lado iluminação interior e da contemplação mística. A função da imaginação criadora é importante neste caso, posto tudo participar, por efeitos de “espelho”, dos processos analógicos. As duas opções completam-se e dão a Teosofia completa, como teórica e prática, como via de entendimento e vivência do entendido, e a isto chamava-se Filosofia Querubínica [26], aliás, registada em vários lavores na Quinta da Cardiga e por certo assumida em segredo por doutos da Ordem de Cristo.

Na fachada nordeste do palácio da Cardiga, defronte para o jardim com o Tejo adiante, tem-se a porta por onde se acederia à primitiva capela pelas traseiras, cuja cimalha quinhentista apresenta o busto de um homem novo à esquerda e o de um homem velho à direita, este que alguns teimam em associar à figura célebre do misterioso baphometh templário. Abaixo da cimalha apresenta-se a Cruz de Cristo laureada com folhas de carvalho, que na simbólica antiga era indicativo de Templo pela fortaleza das suas madeiras, agora indicativa da Glória e Triunfo da Ordem de Cristo. Além de retratarem personagens importantes que aqui terão vivido, não deixam de evocar o discípulo (jovem cortesão) e o mestre (artesão encapuçado) na Ars Magna conservada secreta no esconso da freiria de Cristo.

Por falar em baphometh, afigura-se conveniente dedicar algumas palavras a essa figura mítica popularizada a partir do século XIX pelo ocultista Eliphas Lévi em seu Dogma e Ritual da Alta Magia (1855), seguido de outros autores que fariam da efabulação enublada vero facto.

Associado ao crânio, este tem sentido duplo, apesar de para o Catolicismo só significar a lembrança da morte. Mas o crânio contém o cérebro e está na parte mais alta do homem. Por isso é o lugar sagrado do corpo humano por excelência e o símbolo da descoberta do Saber Supremo.

O termo baphometh provém do árabe ouba-al-fometh, a “boca do Pai”, com o sentido de Saber Supremo verbalizado pelo Pai. Como o Pai contém o Filho e o Espírito Santo, Ele é também a Luz da Sabedoria, a que alguns deram o sentido grego tardio de Baphêmétous. Nisto residirá o sentido da frase no poema Ira et Dolor, escrito em 1265 por um trovador occitano: “E Baphometh obra de son poder” – E Baphometh fez brilhar o seu poder. Na língua mourisca da Península Ibérica herdada do mudéjar, escrevia-se Abufihamat (e pronunciava-se soando Buphimat), com os sentidos de “Pai, Fonte, Compreensão”. Uma expressão derivada, Ras-el-fah-mat, significando “Cabeça do Conhecimento”, refere-se à capacidade mental do homem após a sua consciência ter sofrido um aprimoramento. A tal processo reporta-se precisamente a expressão “Eu construo uma cabeça”, usada por algumas escolas corânicas da Península Ibérica que os cristãos medievais, a maioria de catequese e confissão simples, chamaram depreciativamente bafometarias e carvoarias, no sentido impopular de “negras e diabólicas”, pois aí ensinavam e praticavam conhecimentos secretos ou ininteligíveis aos simples para os quais, por isso mesmo, só podiam ser “coisas do Diabo”.

É assim que o crânio «baphomético» vem a prefigurar uma Iluminação Mental, muito próxima da finalidade da oração mental dos jerónimos, tal qual como no simbolismo de Santa Brígida, figurando no santoral dos antigos templários, tratando-se da readaptação da Brigite celta presidindo ao Imbolc, a festa da purificação celebrando o fim do Inverno, representando a iluminação do Mundo após as trevas estéreis. Eis o motivo de, por vezes, Santa Brígida também aparecer iconografada com um círio na mão e uma vaca aos pés, esta expressando a lactação, no caso, referindo-se ao retorno da vida na Primavera. Talvez por isso o conjunto escultórico esteja defronte ao jardim, como também, por feliz causalidade, a Cardiga foi poderosa exploração agropecuária.

Assim se chega a 30 de Maio de 1834, quando então o Ministro dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, Joaquim António de Aguiar (1792-1884), declarou extintas as Ordens religiosas e os seus bens secularizados e incorporados na Fazenda Nacional. Tal acto valeu-lhe a alcunha de “mata-frades”. Regia D. Pedro IV  desde os Açores em nome da sua filha D. Maria da Glória, futura D. Maria II de Portugal. Foi quando que a Quinta da Cardiga passou para a posse do Estado, que passado pouco tempo, ainda nesse ano de 1834, vendeu-a ao capitalista Almeida Lima, o “Lima da Cardiga”[27].

Depois o imóvel transitou por outros proprietários até finalmente Luís Sommer de Andrade, de ascendência germânica cujo antepassado Henrique Francisco Luís von Sommer se alistara no exército liberal de D. Pedro IV e fora um dos 7.500 “bravos do Mindelo” sendo promovido capitão, o adquirir. Homem culto e prático, mostrou afecto e respeito pelo espaço já despojado dos bens imobiliários da freiria de Cristo que o enriqueciam outrora[28]. Então, a partir de 1908, encetou a obra do seu engrandecimento na tentativa de lhe restituir a primitiva dignidade espiritual e temporal, intento onde não foi infeliz e demonstrou a sua pessoa culta e informada. Assim chegou até hoje como solução “nacionalizada”, ou vernacular, do modelo clássico de palácio-fortaleza, conforme a recebera ainda no século XVIII.

Luís Sommer mandou aparelhar uma nova capela, cujo pórtico manuelino exterior adquiriu da igreja demolida de Castanheira do Ribatejo, mandando-o colocar aqui, e comprou a um colecionador de arte o retábulo em pedra lavrada de Nossa Senhora da Misericórdia, da autoria de João de Ruão, para figurar sobre o altar. Também o grupo de azulejos seiscentistas com legendas da Ladainha Mariana nas paredes do pátio interior do palácio[29], aí colocados entre 1939 e 1940, foram adquiridos por Luís Sommer da extinta igreja de Santa Apolónia, em Lisboa, situada onde hoje está a estação ferroviária[30].

Chegado aqui, endereço o agradecimento ao dr. Ruy Sommer de Andrade por gentilmente me ter aberto as portas deste seu palácio e sido guia conhecedor dos seus cantos e recantos.

Em plena lezíria ribatejana, num recanto paradisíaco à beira-Tejo, carregando o silêncio e o significado histórico português, a Quinta da Cardiga continua a manter a aura mística que não deixa ninguém indiferente, fruto de séculos de preces e divinais  labores, agora aguardando destino digno da sua grandeza e tradição de outrora que viverá sempre na egrégia memória portuguesa, como vibra no testemunho patrimonial legado pelos passados aos presentes, agora o  devendo destinar aos futuros desta nossa pátria, tudo a bem da Alma-Mater de Portugal.

NOTAS

[1] Rui de Azevedo, “Período de formação territorial: Expansão pela conquista e sua consolidação pelo povoamento. As terras doadas. Agentes colonizadores”, in História da Expansão Portuguesa no Mundo, vol. I, Lisboa, 1937.

[2] Manuel Sílvio Alves Conde, Tomar Medieval – O espaço e os homens. Cascais, 1996.

[3] Monumenta Henricina, vol. I, doc. 7. Lisboa, 1960.

[4] Mário Jorge Barroca, Epigrafia Medieval Portuguesa (862-1422), vol. II, t. I, Porto, 1995.

[5] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Euedito, Lisboa, 2020.

[6] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Ed. Dinalivro, Lisboa, 2011.

[7] Gustave Cohen, la grande clarté du Moyen Âge. Editions Gallimard, Paris, 1945.

[8] João José Alves Dias, As Comendas de Almourol e da Cardiga, das Ordens do Templo e de Cristo, na Idade Média. In As Ordens Militares em Portugal. Actas do 1.º Encontro sobre Ordens Militares. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1991.

[9] Batalha Gouveia, A Origem dos Nomes – Golegã. Jornal do Incrível, n.º 110, 28 de Dezembro de 1981.

[10] Iria Gonçalves (organização), Tombos da Ordem de Cristo. Comendas do Médio Tejo, vol. 2. Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 1995.

[11] Luís Miguel Preto Batista, Cardiga: de Comenda a Quinta da Ordem de Cristo (1529-1630). Torres Novas: Município de Torres Novas, 2009.

[12] Isaías da Rosa Pereira, Notas sobre a Inquisição em Portugal no século XVI. Revista Lusitânia Sacra, 1.ª Série, 1956-1978), Tomo 10 (1978), Centro de Estudos de História Eclesiástica, Lisboa.

[13] João de Almeida, Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, vol. III. Lisboa, 1947.

[14] A.N.T.T., Conventos de Tomar, Ordem de Cristo. Maço 30, n.º 1 e 4 (vermelho), fl. 21.

[15] J.J. Alves Dias, Uma grande obra de engenharia em meados do séc. XVI. Mudança do curso do Rio Tejo. Revista Nova História, Editorial Estampa, Lisboa, 1984.

[16] M. Teresa M. Azevêdo, A utilização dos dados históricos no estudo das cheias do Tejo. In “Estudos do Quaternário”, 4, Lisboa, 2001.

[17] Jean-Claude Rixte, Rhône-Alpes, terre de troubadours. EMCC, Lyon, 2012.

[18] Mário Martins, Nossa Senhora nos romances do Santo Graal e nas ladainhas medievais e quinhentistas. Edições “Magnificat”, Braga, 1988.

[19] Luigi Valli, Il linguaggio segreto di Dante e dei “Fedeli d´Amore”. Roma, 1928.

[20] Julius Evola, O Mistério do Graal. Editorial Vega, Lisboa, Julho de 1978.

[21] Henry Corbin, En Islam Iranien:Aspects spirituels et philosophiques, tomo I de 4 volumes. Éditions Gallimard, Paris, 1971-1973.

[22] Mircea Eliade, Imágenes y Símbolos. Taurus Ediciones, Madrid, 1974.

[23] Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões. Martins Fontes, São Paulo, 2002.

[24] Ana Maria Alfonso-Goldfarb, As derivações enciclopédicas no Hermetismo medieval e seus vestígios na Ciência do Seiscentos: um estudo sobre os trânsitos e correlações entre dois nichos documentais. Revista “Tecnologia e Sociedade”, Curitiba, 2006.

[25] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Insólita e Secreta (Guia editado em seis línguas: português, espanhol. Italiano, francês, inglês e alemão). Editorial Jonglez, Versailles, 2010.

[26] Ângelus Silesius (1624-1677), O Peregrino Querubínico. Edições Loyola, São Paulo, 1996.

[27] Gustavo de Matos Sequeira, Inventário Artístico de Portugal, vol. 3. Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1949.

[28] Luís Miguel Preto Batista, Cardiga ou a História de uma Quinta (1169-2019). Edição dos Municípios do Entroncamento, Golegã e Barquinha, 2019.

[29] J. M. dos Santos Simões, Azulejaria em Portugal no Século XVII, tomo I. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1997.

[30] Ana Cristina Ferreira Rodrigues, Estudo, avaliação de risco e conservação e restauro do património azulejar da Quinta da Cardiga. Instituto Politécnico de Tomar, 2015.

Saudação aos Maçons – Por Sebastião Vieira Vidal Terça-feira, Maio 4 2021 

No dia 11 de Junho de 1949, o Presidente da Sociedade Teosófica Brasileira, Professor Henrique José de Souza, recebeu na sede da entidade, no Rio de Janeiro, uma delegação norte-americana, liderada por Mr. Ralph Moore, da Augusta Ordem Maçónica, pertencente ao Rio de York, uma das Obediências da Maçonaria Universal, que O saudou como seu Supremo Mestre Secreto.

Nós vos saudamos, Venerável Mestre desta Loja, assim como a todos os Obreiros deste Augusto Quadro.

LUZES DO NORTE!

Prodigiosos Obreiros desta nossa Oficina!

LUZES DO SUL!

Glória a todos aqueles que deram entrada nesta Loja, ansiosos pela Fraternidade Universal!

Encontramo-nos, desta maneira honrosa, neste Templo, onde se acham Irmãos sedentos de conhecimentos dos aspectos da Verdade Eterna encobertos pelos sublimes véus da Linguagem Simbólica, a Linguagem da Iniciação na Sabedoria Iniciática das Idades.

É uma imensa alegria, algo indiscritível, deparar com elevadas criaturas que se interessam por tão excelsos conhecimentos, embora envoltos pelo manto da Simbologia.

Estamos nesta Loja, neste Templo, defrontando-nos com estudiosos dos ensinamentos da Verdade Eterna, adquiridos por aqueles que se interessam em vivenciar as Iniciações Arcaicas, cuja herança foi legada por Irmãos de Maior Idade que souberam honrar, em todos os Templos e Tempos, o poderoso Nome do G. . . Arch. . . D. . . U. . .

Reunidos estamos para uma conversa íntima, para conversa em família, por isso falando de peito aberto, porque há confiança mútua.

Embora militando noutra Coluna, trazemos aos Veneráveis Irmãos desta Loja a Mensagem Fraterna e Amiga dos componentes da Ordem do Santo Graal, com Sede em São Lourenço, Estado de Minas Gerais, Brasil.

A Augusta Ordem do Santo Graal foi fundada em 28 de Dezembro de 1951 pelo seu Grão-Mestre Perpétuo, Professor Henrique José de Souza, com a finalidade de continuar, de manter o Culto de MELKI-TSEDEK na Face da Terra, e ao mesmo tempo preparar a Mentalidade Humana para o Advento do Budha Síntese ou do Cristo Universal, que se manifestará como G. . . Arch. . . D. . . U. . ., ou seja, do Avatara do Ciclo de Aquarius, dest´arte inaugurando uma Nova Era para o Mundo.

Para esse Ciclo é que vários seres e de vários modos, todos juntos trabalhamos de acordo com o estado de consciência de cada um, em conformidade às Iniciações vivenciadas.

Ela é, por assim dizer, a co-herdeira do Trabalho, da Iniciação, dos Ensinamentos dos Sábios, Magos, Magis, Magisteres, dos Maha-Logoi, dando, portanto, continuidade ao desenvolvimento dos Mistérios estudados na Ciência das Idades.

A Ordem do Santo Graal, segundo os ensinamentos do seu Grão-Mestre, Professor Henrique José de Souza, tem a Missão de divulgar, como já dissemos, os conhecimentos relativos às Iniciações do Futuro, adoptando, sem dúvida, novos Ritos, nova Liturgia, novos métodos de iniciar os homens.

Promove em todos a transformação das tendências, a superação da inteligência e a identificação, a metástase com o Espírito de Verdade, com a Consciência Superior.

A prática destes Mistérios é salutar para o desenvolvimento da espiritualidade entre as criaturas humanas, posto que na época que atravessamos urge a necessidade dos homens procurarem viver sob o pavilhão do bom entendimento, da concepção real da vida, da compreensão e respeito mútuos, a fim de não serem arrastados pela torrente destruidora que assola o Mundo inteiro.

E para resistirmos à descomunal tempestade, ameaçando destruir a tudo e a todos, não há como adoptarmos e vivenciarmos o maravilhoso lema: “UM POR TODOS E TODOS POR UM”.

A Iniciação do Professor Henrique José de Souza permite ao Discípulo fortalecer a Personalidade, para que o poder da Ideia possa plasmar-se com toda a potência. O que se transforma de Pedra Bruta em Pedra Polida, esta para a Individualidade, é a Personalidade com todas as suas complexidades. A Personalidade como veículo do Som, do Verbo Divino.

Quando a Tradição Iniciática, os Mestres Vivos falam no Pai-Mãe no Mundo Objectivo, dão forma aos actos da Individualidade através do termo Pai, e fortalecendo a Personalidade pela expressão Mãe. Eis aí o Espírito Polido e a Matéria Bruta que cabe transformar a um e todos os Obreiros do Novo Edifício Humano e, por consequência, Social.

Desde que os homens começaram a desenvolver a inteligência e  a sensibilidade através do sistema cérebro-espinhal, a adquirir a Individualidade, a serem à semelhança de Deus Criador, da Consciência Superior, da Divindade em relação ao que “há de vir”, ao “vir a ser”, passaram, naturalmente, a se diferenciar.

Uns andando muito rápido, outros mais devagar.

De acordo com a solicitação íntima, com o interesse interno, passaram a ter preferências vocacionais.

Essas preferências vocacionais variam de acordo com a evolução espiritual de cada um.

Se o Homem pensa, logo existe… e, via de regra, os mais avançados fogem ao consenso comum, por isso são julgados ignaramente, são repudiados pelos da sua época. Tempos depois são reconhecidos.

Toda a ideia nova promove naturalmente a modificação da rotina, da acomodação, da falta de circulação da vida.

As novas ideias, para os espíritos fracos, para os inseguros, oferecem receios, posto que uma nova Ideia e um novo Ideal são como sementes…

Há sempre o perigo de não germinarem, e se germinarem há muita erva para destruí-las antes de darem os frutos.

A erva daninha, no caso, é o consenso comum, profano, que não quer ter o trabalho de aprender e menos ainda praticar, e esta disposição psicofísica chega até a adentrar os recintos mais sagrados por desprecaução dos seus responsáveis.

Entre os maçons há a cerimónia do Adonhiramita, tendo a sua origem nos Mistério do Sacrifício assinalado pela palavra sânscrita Yagú, que no Culto do Santo Sangue, no Mistério do Santo Graal, corresponde aos Mistérios dos Sacrifícios dos Bodhisattwas, dos Compassivos Seres Divinos, dos Yokanans ou Arautos que foram sacrificados perdendo a cabeça, a fim de redimirem com o seu acto sacrificial os componentes das Hierarquias que rolaram das Esferas Celestes para os Reinos tenebrosos da Matéria.

Logo, os que se dedicam ao Culto do Santo Graal, digo, ao Culto do Santo Sangue, dos Mistérios do Santo Graal, é o mesmo que se dissesse: os que se dedicam aos Mistérios dos Sacrifícios, ao Culto do Sacrifício.

Mas também os que praticaram, desencadeando a Lei Kármica ou de Causa-Efeito, o acto de atraiçoarem a Missão, os segredos, os ensinamentos superiores que lhes foram confiados, perdem as suas cabeças, o seu juízo e paz mental se esvaem.

HIRAM ABIFF, arquitecto do Templo de Salomão, também foi um Yokanan, posto ter sido assassinado por três indivíduos que lhe queriam arrancar os segredos da Arte Real.

Em cada Portal do Templo recebeu um golpe mortal.

Isso quer dizer que foi assassinado por três Sombras relacionadas com os restos kármicos dos Seres de Reinos inferiores ao Hominal: Mineral, Vegetal e Animal.

Recebeu um golpe mortal no Portal do Meio-Dia, outro no Portal do Ocidente e o terceiro no Portal do Oriente.

Símbolo, sem dúvida, do trabalhos dos três primeiros Nirmanakayas Negros ou Adeptos Tenebrosos, tendo as suas expressões nos três Flagelos Humanos: Átila, Ghengis-Khan e Tamerlão, senão, Mussolini (Fascismo), Hitler (Nazismo) e Estaline (Comunismo)… acima de todos, a Concórdia Universal, a Sinarquia, o Fio-de-Prumo do Equilíbrio disposto por Henrique ou EL RIKE, expressão lídima de MELKI-TSEDEK.

É digno de atenção: Hiram Abiff foi morto com três pancadas no ano 985 antes de Cristo. Mil anos mais tarde, em determinado Templo Tibetano, com o nome de Jara-Khan-Lhagpa, por coincidência, ou antes, causalidade, JHS, Akbel, Hiram… também foi mutilado e assassinado, no ano 985 depois de Cristo.

Hiram Abiff nasceu em 1063 e morreu em 985 a.C., logo, viveu 78 anos na Face da Terra.

Para o efeito do Equilíbrio, devemos dar “a César o que é de César” e “a Deus o que é de Deus”.

Baseados no equilíbrio dessa sentença dúplice, no seu verdadeiro significado, e para evitar desequilíbrio social, colectivo, na Antiguidade surgiu dos Magos ou Sábios o método da Iniciação. Mas Iniciação como estudo e prática da Ciência Sagrada das Idades. Sim, passaram a existir dois métodos conformados à evolução dos candidatos: os Mistérios Menores e os Mistérios Maiores.

Iniciação Simbólica, Hierográfica, e Iniciação Real.

A Iniciação Simbólica consiste na apresentação do símbolo na sua forma gráfica e com o que está relacionado, o que representa, de modo vago. É o estado de Especulativo.

Na Iniciação Real estuda-se e pratica-se em todos os sentidos, em todos os aspectos, penetrando-se os mistérios que nela se encerram. É a condição de Operativo.

Por exemplo, na Iniciação Simbólica tomamos contacto com o Triângulo com um Olho no centro donde irradiam 13 Raios. Na mesma aprende-se que expressa o G. . . Arch. . . D. . . U. . ., a Divina Providência.

Na Iniciação Real vamos mais além, estudamos o que representa o Olho central, o significado real do Triângulo e dos 13 Raios, quer no aspecto cosmogénico, quer no aspecto antropogénico, procurando senti-los, como chave do Conhecimento Transcendente, como orientação da nossa própria vida, no sentido de se ser uma miniatura DELE.

O grande Pitágoras apresentou ao Mundo a sua TETRAKTYS representada pelo número 4, base da construção das Pirâmides, base da Filosofia dos 4 Kumares ou Kabires.

Baseadas na primorosa TETRAKTYS pitagórica, vimos as grandes Ordens aplicarem essa maravilhosa Lei dos Números para organizar universalmente as constituições.

Tratando-se de Ordens Ocultas, Maçónicas, vejamos:

1.º) O Ciclo Maçónico teve o seu início na construção do Templo de Salomão, logo, numa fase tipicamente hebraica, e daí a origem dos Kadosh, “consagrados, santificados”.

Esta fase equivale aos Graus de 1 a 14, o que equivale a dizer, ao valor das 14 Hierarquias Criadoras.

O Arcano 14, cujo sentido iniciático é o Perfeito Equilíbrio.

2.º) A Filosofia Cristã baseada no Ciclo do Ocidente, na Era Cristã.

A Maçonaria funcionando como cobertura da Nova Civilização.

Por isso, as cidades tradicionais relacionadas à vida do Cristo têm os nomes de Belém e Jerusalém, ou seja, as iniciais da qualificação das duas Colunas, Jakim e Bohaz.

Corresponde aos Graus 17 e 18. Sim, à fusão do Oriente (18, a Lua) com o Ocidente (17, a Estrela).

3.º) A iniciação dos Kadosh, Kadoshim, Kodesh – Graus 19 a 30, posto que os Kadosh são os realizadores das Grandes Iniciações, são os realizadores dos Supremos Ritos.

4.º) os componentes dos Grande Conselhos – Graus 30 a 33.

Em determinadas Ordens o Grau 33 cabe ao mais elevado em evolução. M. . . T. . . M. . . só pode usá-lo o Senhor MELKI-TSEDEK, REI DE SALÉM e SACERDOTE DO ALTÍSSIMO, ou então quem as suas vezes fizer.

A Verdade apresenta-se como se fosse alguma Lei Universal através da Polaridade.

Sempre existiram dois sectores na orientação do Mundo: um tipo Templário, mantenedor do EU INTERNO de cada um, mantendo a Fé iluminada pelo Conhecimento, mas que pode transformar-se em religião confessional, em crença… fanatismo… por falta dos esclarecimentos necessários.

O outro sector é realizado através das Ordens Ocultas, das Associações Secretas, prestando cobertura ao primeiro sector.

Associação Secreta porque não ensina tudo o que sabe, ou por outras palavras, ministra os ensinamentos somente àqueles que estão preparados para os receber.

No Cristianismo, por exemplo, há o aspecto clerical que começou com Pedro, e há as Ordens de todos conhecidas, fazendo a cobertura política, a manutenção…

Mas tudo evolui, logo, vai assumindo outros aspectos em conformidade ao desenvolvimento das concepções humanas.

Palavras do Senhor da Palavra Perdida:

– Maçons do Brasil!

Maçons de todas as partes do Globo!

Quem vos dirige a Palavra é um humilde servidor do Eterno, para vos dizer que HIRAM, o “Filho da Viúva”, ressuscitou…

E traz consigo o mais precioso de todos os símbolos que é o Excelso TETRAGRAMATON, como expressão ideoplástica do Homem Cósmico que é JEHOVAH!

Glória a todos os Maçons portadores do Compasso e do Esquadro, para medirem o grau de espiritualidade, o grau de inteligência superior.

Aliás, essas principais ferramentas dos Pedreiros-Livres ou Maçons que, entrelaçadas e invertidas, formam o HEXÁGONO, símbolo, também, do Macrocosmos e do Microcosmos, da Cosmogonia e da Antropogonia.

Colocadas nas direcções horizontal e vertical, apresentam claramente a ROSA e a CRUZ, desde que se firme no centro a Folha de Acácia, simbólica da Iniciação e Imortalidade.

HIRAM, KUNATON, CHRISTIAN ROSENKREUTZ, SÃO GERMANO! Pouco importa o nome, posto que ELE JÁ VEIO E VÓS NÃO O RECONHECESTES…

Mas… em breve Ele voltará à sua Santa Morada, para fazer jus à antiga palavra franco-maçónica, VITRIOL, constituída de sete letras, com as quais era formada a frase mais secreta que se conhece, verdadeira palavra de passe, cujo sentido real até hoje não foi decifrado senão por Aquele que tem o direito de penetrar no mais sublime de todos os Tabernáculos:

“VISITA INTERIORA TERRIS RECTIFICANDO INVENIES OCCULTUM LAPIDEM”.

Como outrora no Egipto:

MISRAIM – MENFIS – MAISIM!

Essas três palavras eram assinaladas entre as Colunas do Templo Maçónico por 3 M. . ., os quais possuíam outras interpretações de imenso valor nos Ritos egípcios. Trata-se do MAHA-RISHI e as suas duas Colunas Vivas MAHIMÃ e MOHIMÃ, o qual nas tradições transhimalaias é chamado de BRAHMATMÃ, o REI DO MUNDO, com as mesmas Colunas, os Três como Supremos Orientadores da MAÇONARIA DOS TRAICHUS-MARUTAS ou os Mantenedores do CULTO DE MELKI-TSEDEK.

Por isso estão no Reino de MALKART.

E com isto aceitai – velhos Irmãos e Amigos – as homenagens de quem hoje, já não estando no mundo dos homens mas vivendo o verdadeiro sentido da palavra de passe VITRIOL, vos respeita e admira, mas também pede que homenagens, por sua vez, sejam prestadas àqueles que já se foram e sobre cujos respeitáveis túmulos não devemos permitir que seque e desapareça a simbólica e sagrada Flor de Acácia.

Com a destra voltada para o Céu e o polegar invertido para a Terra, contrariamente a quantas saudações caóticas foram instituídas pelas decadentes ideologias deste Ciclo em franco declínio, maiores homenagens devemos prestar ao mais Digno e Excelso de todos os Construtores:

O G. . . Arch. . . D. . . U. . .

SAUDAMOS, FINALMENTE,  OS KADOSH, KODESH, KADESHIM, REALIZADORES DAS SUPREMAS INICIAÇÕES, DOS MAIS ELEVADOS RITUAIS!…

JUSTUS ET PERFECTUS!

CONSUMMATUM EST.

Mistério do Pentecostes (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Sábado, Fev 13 2021 

O Pentecostes marca e remata o sétimo Mistério da Vida e Obra de Jesus, o Cristo, deixando a derradeira mensagem de esperança no Advento da Divindade à Humanidade, ao mesmo tempo que floresce nos peitos de um e de todos. Nisto se cumpre a mais que poética retórica, realidade subtil, etérea transcendente e imanente, cheia de graça em esperança, de que quando Cristo sorri a Humanidade enxuga as lágrimas.

A celebração do Pentecostes (“quinquagésimo”, em grego) é quando o Judaísmo e o Cristianismo se encontram e se conciliam nas suas idiossincrasias teológicas, sobretudo nas relativas ao porvir do Messias. Historicamente, pela sua origem agrária, recua à festa hebraica das colheitas (shavuot), aquando o povo ia oferecer a dízima das primícias ao Templo de Jerusalém, nisto também celebrando a entrega dos Dez Mandamentos no Monte Sinai a Moisés, cinquenta dias depois do Êxodo.

É, pois, uma festa do antigo calendário bíblico (Êxodo 23:14-17, 34:18-23) referida com vários títulos:

Festa da Colheita ou Sega (Hag Haqasir, em hebraico). Por se tratar de uma colheita de grãos (trigo e cevada), ganhou esse nome.

Festa das Semanas (Hag Xabu´ot, em hebraico). A razão do seu nome está no período mediando entre a Páscoa (Pessach, “trânsito”, “passagem”, em hebreu) e esta festa, que é de sete semanas. Acontece cinquenta dias depois da Páscoa, com a colheita da cevada e encerrando com a colheita do trigo.

Festa das Primícias dos Frutos (Yom Habikurim, em hebraico), nome tendo a sua origem de ser pela entrega de uma oferta voluntária, a Deus, dos primeiros frutos colhidos naquela sega (Números 28:26). Possivelmente, a oferenda das primícias acontecia em cada uma das três festas tradicionais do calendário bíblico. Na primeira (Páscoa), oferecia-se uma ovelha nascida naquele ano; na segunda (Colheita ou as Semanas), entregava-se a dízima (décima parte) dos primeiros grãos colhidos; finalmente, na terceira festa (Tabernáculos ou Cabanas), o povo oferecia a dízima da colheita dos primeiros frutos, como uvas, tâmaras e especialmente figos. Por essas dízimas agrárias verifica-se que o Templo beneficiava de grande riqueza, motivo dos levitas não abdicarem das suas funções nele por lhes trazerem fartura de bens.

Festa de Pentecostes. Os motivos deste novo nome são vários, a começar por nos séculos III-I a.C. os gregos terem assumido o controle do mundo conhecido e imposto a sua língua, que se popularizou entre os hebreus. Assim, os nomes hebraicos Hag Haqasir e Hag Xabu´ot perderam as suas actualidades sendo substituídos pela denominação Pentecostes, cujo significado é “cinquenta dias depois (da Páscoa)”. Como o império grego passou a ter hegemonia em 331 a.C., é possível que o nome Pentecostes tenha ganhado popularidade a partir desse período. Também devido às três línguas dominantes (hebraico, grego e latim) na Judeia e Palestina, é que Pilatos ordenou se escrevesse com as mesmas a célebre frase na tabuleta da Cruz – Iesus Nazarenus Rex Iodeorum (Jesus Nazareno Rei dos Judeus).

No Cristianismo, o dia de Pentecostes chega a ser considerado como o dia do nascimento da Igreja cristã, origem do movimento pentecostal católico (“universalista”, por abranger os países latinos, gregos e orientais da Ásia Menor) que originalmente era “os do Caminho”. Constitui uma das celebrações mais importantes do calendário cristão, comemorando a descida do Espírito Santo em Línguas de Fogo sobre os Apóstolos de Cristo encabeçados no cenáculo por sua Mãe Maria, que logo começaram a falar todas as línguas do mundo dotados de poderes maravilhosos (curar os leprosos, ressuscitar os mortos, etc.). Aconteceu ao meio-dia de cinquenta dias após o domingo de Ressurreição e no décimo dia depois da Ascensão de Jesus, após Ele ter permanecido quarenta dias entre os discípulos, transmitindo-lhes os derradeiros ensinamentos. Entre os cinquenta dias que se completam da Páscoa até ao último dia de Pentecostes, sobram dez dias. Esses foram o tempo que os Apóstolos com Maria Mãe e Maria Madalena permaneceram no cenáculo, até à descida ou manifestação do Espírito Santo. Por este motivo, o domingo de Pentecostes é o último dia da Festa do Divino Espírito Santo, tomando forma em Portugal na Festa do Império do Divino Espírito Santo (pelas mãos da Rainha Santa Isabel, em 1321, na vila de Alenquer), depressa se fixando no Brasil e noutras partes lusas do antigo império português.

O Espírito Santo no Cristianismo é o mesmo Espírito de Santidade no Judaísmo, referido como a Terceira Potência Divina cuja manifestação, para ambas as religiões, é sempre sob a forma de uma pomba, em hebraico yohnah, palavra derivada de ´anah, “prantear”, referente ao arrulho lamuriento da ave, universalmente considerada a mensageira da Boa Nova e portadora da Paz, como igualmente da sublimação da vida, da existência corpórea à vivência espiritual, como se representa no trânsito de São Policarpo com uma pomba branca, imaculada, saindo do seu corpo.

Como Pomba de Luz vem a ser representativa da manifestação do Fogo Criador do Divino Espírito Santo, ao qual os sábios do Oriente identificam como Kundalini, a Força Electromagnética da Mãe-Terra que a sustenta desde o seu Centro Ígneo, agindo como bioenergia motora das capacidades criativas humanas, de forma inconsciente na maioria dos seres pensantes, e de maneira consciente, despertada, activada e dirigida desde o cóccix à corona, ao alto da cabeça onde se revela como aura flamejante, nos raros Iniciados na ciência de marejar as suas forças ocultas e assim as de toda a Natureza. Eis aqui o símbolo do Fogo Criador expressado na figura feminina, seja Maria no cenáculo, seja a sarça de Horeb no Monte Sinai, seja a Maha-Shakti criadora do Universo, com as suas sete Forças que, afinal, vêm a ser os sete Dons do Espírito Santo irradiando sete Raios da Luz do Logos Único, cada um com uma qualidade da Mãe Universal. Esta dá à Luz o Filho, saído da Alma do Segundo para o Corpo do Terceiro Logos manifestado em tudo e em todos.

O termo Espírito SantoRuach ou Ruah-Elohim – aparece apenas três vezes na Bíblia hebraica, em Salmos 51:11, e duas vezes em Isaías 63:10-11. Já o termo Ruah ha-Kodesh (“Espírito de Santidade”) aparece com frequência no Talmude e na Midrash, utilizado como uma hipóstase ou metonímia de Deus, IHVH (Iod-He-Vau-He), por meio da qual é concedida a inspiração profética ao Kadosh (“consagrado”). Ruah significa literalmente “sopro, vento, ar, alento”, aparecendo em várias outras combinações na Bíblia hebraica com o significado de Espírito de Deus, associado a Ruah ha-Kodesh, o mesmo Ru al-Qudus islâmico, o Pneuma to Hagion grego ou o latim Spiritu Sanctu, Espírito Santo.

No Cristianismo, o Espírito Santo é a Terceira Prosopon ou Pessoa da Santíssima Trindade, revelando Deus Omnipresente. Como Hypostasis ou Hipóstase, contém a Primeira como Omnipotência (Spiritu) e a Segunda (Sanctu) como Omnisciência promanadas de uma Divina Substância Única (Ousia, em grego) a quem chamam Deus.

Acompanhados das respectivas contrapartes expressivas do Eterno Feminino, assim clareando por que a Deusa-Mãe era o único pomo de culto e adoração à Divindade entre os povos antigos, que durou até muito tarde chegando mesmo a adentrar o período patriarcal sucessor do matriarcal.

O despertar e ascender de Kundalini ao topo cranial vale por Poder da Mãe Divina manifestado – Shekinah, “Presença Real de Deus” – em cujo acto Madalena assinala a conversão do sexo (initio, cóccix) e a Nazarena a assunção da mente (finis, corona).

As sete Forças de Kundalini afins aos sete Dons do Espírito Santo, pelo desenvolvimento do Chakra Vibhutî ou Cardíaco Inferior, são:

Por aí se vê quão distantes estão da realidade certas seitas hodiernas ditas carismáticas/pentecostais, servindo-se da ingenuidade alheia em sua tenra idade mental para, pretensamente, irem colmatar as suas deficiências/carências psico-orgânicas. Colmatando o vazio espiritual das mesmas com bizarras corografias folcloristas, estão nos antípodas de exploração psicossocial que nadíssima tem a ver com os poderes desenvolvidos, por esforço próprio, do Adepto verdadeiro, do verdadeiro Iniciado na Ciência da Vida.

O mesmo vale para a dízima ou oferta da décima parte dos seus ganhos, tradição iniciada com Abraão rendendo tributo a Melki-Tsedek, o Rei do Mundo, para as bandas das terras de Gar-Édon ou a Agharta, sendo a dízima nada mais que o resgate kármico da décima parte do seu povo, nunca pondo os valores materiais à dianteira da mais-valia espiritual.

Paulo de Tarso, por sua vez, identifica não sete mas nove dons ou poderes do Espírito Santo, o Terceiro Logos tomando forma no Filho, que irão manifestar-se pelo Apóstolo ou Adepto. Diz: “A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom dos milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas.” – I Coríntios 12:8-10.

Nisto, os nove dons espirituais podem ser repartidos em três grupos, como Dons de Poder, Dons de Revelação, Dons de Fala, não deixando de estar relacionados às naturezas Dharmakaya (Espírito Omnipotente), Shambogakaya (Alma Omnisciente) e Nirmanakaya (Corpo Omnipresente) afins ao Tríplice Logos manifestado na Unidade imperecível do Adepto Perfeito.

Dons de Poder


Curar
Operar maravilhas

Dons de Revelação

Palavra de sabedoria
Palavra de conhecimento
Discernimento dos espíritos

Dons de Fala

Profecia
Variedade de línguas
Interpretação de línguas

O Mistério do Pentecostes, como disse, assinala a última etapa da Vida e Obra do Cristo, que sendo sete vêm as mesmas iniciáticas do Homem em seu gradual volvimento ao estado Divino.

Restam a Consolação da doutrina e do rito até ao Advento que marcará o início da Nova Jerusalém, ou seja, a da Idade da Promissão assinalando um Novo Ciclo de Humanidade, com a sua transição de Piscis a Aquarius, por certo portador de melhores dias para o Mundo.

Com o Pentecostes consolidou-se a derradeira Promessa de Cristo, antes da Ascensão, quanto à sua segunda vinda no final dos Tempos, ou seja, do Ciclo vigente, tal qual Krishna prometera ao seu discípulo Arjuna, como consta no Bhagavad-Gïta: “Todas as vezes, ó filho de Bhârata (a Índia), que Dharma (a Lei justa) declina e Adharma (a lei injusta) se levanta, Eu me manifesto para salvação dos bons e destruição dos maus. Para restabelecimento da Lei Eu nasço em cada Yuga (Idade)”. Ou aquela outra profecia contida no Vishnu-Purana: “Quando o fim da Idade das Trevas estiver próximo, o Kalki-Avatara (Manifestação Divina) descerá sobre a Terra. Dotado das oito qualidades sobre-humanas, Ele estabelecerá a Justiça no Mundo”.

Para a Segunda Vinda do Messias, Segundo Advento ou Parúsia (“Presença”, em grego), concorrem as três religiões monoteístas do Livro, mas também todas as demais tradicionais do Oriente, cada qual interpretando ao seu modo milenarista a futura manifestação do Avatara, todas concordando na certeza do Advir.

Acerca disso, Pinharanda Gomes escreveu no seu Dicionário de Filosofia Portuguesa (Edição Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1990):

“MESSIANISMO. Teoria da esperança ou da expectação em um Messias salvador e redentor de uma Humanidade considerada em estado degradado, quedado ou de perdição (por, ou ter perdido a natureza sagrada, ou ter caído da sua condição original, ou ter cometido pecado), após cuja vinda a mesma Humanidade recupera, regenera, restaura e redescobre o primitivo estado de felicidade, e nela se consagra para sempre. Esta simples definição contém variantes conceptuais, por exemplo, o messianismo formulado na Sagrada Escritura e relativo ao Messias Salvador, e as tendências messiânicas inerentes, tanto às culturas como aos povos e às políticas, em que variamente se mostra um messianismo entendido como a procura de um arquétipo, ou paradigma, de bondade, de beleza e de verdade, possuidor do remédio para os males, ou como a promessa de um chefe ou condutor que detenha o ceptro da sabedoria, e seja digno de instaurar a harmonia na cidade terrestre. Em todas as acepções o messianismo manifesta o conhecimento de antinomias existenciais – o que está mal, o que é bem, o que se julga ser o bem, pelo que, em todas as suas variantes, é remédio, cura e solução. A ideia messiânica envolve a reconquista da felicidade original (Paraíso Perdido), a restauração dos bens destruídos (Idade de Ouro), a instauração da harmonia (Paz Perpétua) e, noutra instância, a assunção do homem à sua essencial dignidade (Reino de Deus). A teoria messiânica tem diferentes linhas discursivas, tanto consistindo num messianismo sem Messias, capaz de realizar a justiça na República, pela simples vontade operativa dos homens, num projecto de imanência, como num messianismo que passa pelo coração humano, mas se realiza por aliança do divino e do humano, aí chamado por Deus à salvação. Esta forma messiânica manifesta os atributos da transcendência, é escatológica, teleológica e soteriológica, sendo estes os predicados do messianismo paradigmático, o judaico-cristão, mesmo considerando que a ele afluíram as teses do providencialismo das outras religiões monoteístas, designadamente o Islamismo, teses essas que são devedoras ao finalismo da filosofia grega que, em tempo, se adjuvou à teoria da esperança salvífica hebraico-cristã.

“A figuração messianológica aparece em plurais situações, por exemplo, nos mitos germânicos dos “heilbringer” ou “portadores da salvação”, no mito do “Salvador” inteligido por Virgílio (Écloga IV), na imagem persa de “Saohyant”, na concepção hindu de “Buda Maitreya”, na esperança islâmica de “Mahadi” e na tábua de salvação da autonomia portuguesa, figurada no nome “Sebastião”. Todavia, a original e originante figura do Messias é hebraica, derivando do aramaico Meshihà, pelo hebraico Hammashiah (= o Ungido), pelos gregos ou helenos traduzido no nome Christós. A raiz do substantivo é meshah (= ungir), verbo com que se designa a unção sacerdotal, profética e real das chefias temporais e espirituais do povo de Israel. O javismo, que se concretiza na aliança do Sinai, assume Javé como “Rei de Israel” (Gén., 49, 10), o “Ceptro de Judá”, razão para um povo que se constituirá assembleia de religião única, verdadeira, perfeita e definitiva, com mensagem salvífica destinada a todos os povos, conforme se vê na passagem em que Javé chama Abraão e o manda olhar para o firmamento para que, contando as estrelas, fique a saber quantos filhos há-de ter (Gén., 15, 5). Israel seria o veículo condutor deste messianismo à divinis que se dinamiza em torno de fórmulas quais o Restaurador do Povo de Deus, Messias de Israel e Salvador da Humanidade, no fim dos tempos, cujos dias ninguém conhece. No messianismo israelita, e consoante a evolução do povo de David, o messianismo é real, profético e sacerdotal, mas a ideia nuclear, ainda que o nome Messias pouco apareça no Antigo Testamento, revela a tipologia de um Rei-Sacerdote, que virá no fim dos tempos, para instaurar o Amor, a Justiça e a Paz. A sua figura é absorvente nos livros históricos, poéticos e sapienciais, sendo revelado como “Rei Messias” (Jer., 30, 9), “Servo Sofredor” (Js., 53, 1) e “Filho do Homem” (Dan., 7, 13), cognomes antigos que a modernidade evangélica atribui a Jesus de Nazaré, olhado como o verdadeiro Messias já vindo. Este hossana, atribuído ao filho do carpinteiro, constitui (sobretudo a partir dos dias de Pôncio Pilatos, que ficaria no símbolo da pística cristã, o Credo, como o referencial histórico do tempo) a causa da cisão na unidade do messianismo hebraico, na medida em que, ao Messias vindo dos seguidores de Jesus, se opõe – por vezes com a rigidez de Saulo, antes da estrada de Damasco – o fariseísmo e o tradicionalismo judaicos, cujos tempos messiânicos continuam por vir, sine die adiados.

“As formas históricas e temporais, quando desligadas do primordial núcleo teológico, são mais um sentimento de carência do que um pensamento agente, decidido a transformar o pessimismo da perdição no optimismo da redenção. Ora, conforme se prova pelo contexto do Livro da Corte Enperial, que é uma súmula isagógica do século XV sobre os dogmas e artigos de fé das três religiões bíblicas, e cujo tema é a tipologia e a vinda do Messias, a tradição messianológica predomina em filosofia e teologia e bebe de três tradições sapienciais, documentadas, tanto na tradição oral, como no documento escrito.”

Antigamente usava-se o termo parúsia para descrever a visita de um rei ou imperador. Esse sentido foi colado ao Ritual Eucarístico para assinalar o Advento da Divindade no momento alto da bênção eucarística com o Ostensório, ou tão-só com o Cálice Eucarístico, figurativo da Taça Sagrada do Santo Graal, aquando o Futuro se torna Presente com a Visita ou Parúsia do Rei dos Reis durante o momento de comunhão do crente com o seu Cristo Interno e, sequentemente, com o Espírito do Cristo Universal.

Assim se cumpre o Advento, a Parúsia Divina, o Futuro se faz eterno Presente na hora da Elevação, postura maior em que se encerra a mensagem primicial do Mistério do Pentecostes.

Encerro com um trecho breve de obra reservada no chamado Mundo de Duat, com o título Livro do Grande Império Universal – capítulo “Os Sete Dedos de Deus” (Secção 5 – Códice 17):

A Anarquia e as Trevas seguirão – com a alma de Judá e o corpo do Judeu errante – até as memórias da Tragédia se tornarem cinzas, para que uma Nova Idade e um Novo Salvador venham reinar.

Mistério da Ascensão (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Fev 10 2021 

Conforme a tradição canónica inscrita nos evangelhos sinópticos, quarenta dias após a Ressurreição, Jesus, o Cristo, reuniu todos os seus discípulos no “monte chamado olival” (Actos 1:9-12), o Monte das Oliveiras, vizinho da vila de Betânia, e à vista de todos, purificados pelo orvalho matinal, invocou os Poderes do Eterno indo ficar encoberto pelas brumas que se levantaram do seio da Terra. Com a Promessa “voltarei!”, desapareceu no seio do Mistério como que ascendido de volta à Morada do Pai, o Segundo Trono Celeste na Terra – a Mansão do Amanhecer, Shamballah.

A Ascensão de Cristo marca o Mistério do segundo elemento subatómico (anupadaka) constituinte do Corpo Intuicional ou Búdhico de que se reveste o Corpo Espiritual ou Átmico, constituído do primeiro elemento atómico (adi), sendo, pois, o cerúleo “Véu da Noiva Celeste” (Budhi Taijasi, Intuicional Iluminado), indo tomar forma no terceiro elemento etérico (akasha) afim à constituição do Veículo Causal (Mental Superior, Manas Arrupa) como encausador dos anteriores, formando o Corpo Flogístico de Espírito Santo tomando forma na Mãe Divina assinalada na Assunção de Maria. É assim que as Vestes Dharmakaya, Shambogakaya, Nirmanakaya se fundem em uma só Substância Única (Svabhâvat, Ain-Soph, Tudo-Nada) que leva ao desaparecimento ou ascensionamento do Adepto Perfeito nas cumeeiras do Plano Divino.

Pelo referido segundo elemento é que se tece a União Real (tanto valendo por Raja-Yoga) da Alma do Adepto com a Alma Universal, o mesmo “Véu da Noiva Celeste” ou a Veste de Glória, aquando o Filho (3.º Logos) se liga ao Pai (1.º Logos) por intermédio do 2.º Logos, a Mãe Divina, e é Um com Ele, ou quando o Espírito readquire a Glória que possuía “antes que o Mundo existisse” (João 17:5), isto é, antes da sua manifestação na Matéria, tornando-se de Espírito Inconsciente (Vida-Energia, Jiva) em Espírito Consciente (Vida-Consciência, Jivatmã).

É quando o Espírito Tríplice se torna Um, sentindo-se e vivendo-se eterno, transcendente e imanente. É quando o Deus Oculto se revela plenipotente no seio espiritual do Iluminado como Absoluto, como Atmã Universal, como a Tríade Superior manifestada no Quarternário Inferior, e vice-versa. Esta Metástase Avatárica apresenta-se, no véu da alegoria, sob o aspecto do sexto Mistério da Ascensão de Cristo e Assunção de Maria, pelo menos no tocante ao Homem encarnado de forma individual.

Com efeito, para a Humanidade a Ascensão não tem lugar senão quando a Raça inteira alcançar a “condição de Cristo”, a condição filial onde o Filho se une ao Pai e é Deus manifestado em tudo e em todos.

Eis aqui a meta figurada pelo triunfo do Iniciado, a qual para ser alcançada faz-se necessário que o Homem consiga a Perfeição de si mesmo e assim a Humanidade, a “grande Órfã”, deixe de o ser ao reconhecer-se, pleniconsciente, Filha de Deus, o Logos Eterno.

Encarando desta maneira as doutrinas da Ressurreição e da Ascensão, revelam-se as verdades que, veladas pelo simbolismo, contêm-se nos Mistérios Iniciáticos sob a veste cristã. E começa-se a entender, na sua plenitude, a verdade do Ensinamento Apostólico, de que Cristo não foi somente a manifestação de uma Individualidade mas igualmente “as primícias dos que estão dormentes” ou adormecidos (I Coríntios 15:20), pois todo o homem pode tornar-se um Cristo.

O Cristo não era, pois, tão-só considerado um Salvador de natureza diferente da nossa, cujos méritos salvaram, por substituição, o Homem da Ira de Deus (Dei Irae). Conforme a gloriosa e consoladora doutrina ministrada na Igreja Primitiva, o Cristo era as Primícias da Humanidade, o Modelo de Perfeição que todo o homem pode reproduzir em si, e se deve ou não fazê-lo tal é relativo face ao seu crescimento interior e ao total respeito pela Lei do Livre-Arbítrio que assiste à Natureza e a todos os seres viventes. Os Iniciados foram sempre considerados como Primícias, como penhor da segurança da Humanidade em sua perfeição construindo-se do Presente ao Futuro.

Para os cristãos dos primeiros séculos, o Cristo Universal tinha a sua expressão viva na Divindade faiscando neles, o Fruto glorioso da Semente que traziam em seus corações, era o Símbolo Vivo da Mónada Humana individualizada no Aspecto Amor-Sabedoria. Daí a frase enigmática de Jesus a João: “Eu ascendo ao meu e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus” (João 20:17). Por que não disse nosso no comum em vez de meu e vosso no singular? Porque na manifestação da Mónada na Matéria ela é individual, não colectiva, diferindo na evolução de pessoa para pessoa (persona, máscara) em que se manifesta como Actor real, com mais o menos consciência de Si mesma nesse mergulho na Matéria e no emergir no Espírito (Evolução). Portanto, “o meu Pai” (proximidade consciente) e “o vosso Pai” (afastamento inconsciente).

A doutrina primitiva do Esoterismo Cristão presente nos Mistérios dos Sacramentos era alheia ao conceito salvífico exterior dos simples ou de confissão, pelo contrário, implicava que o postulante se elevasse na criação, perfeição e glorificação do seu Cristo Interior, pois outra maneira não havia, nem há, de reconhecer ao Cristo Universal. Assim, todo o noviço era convocado a se tornar o Filho. A vida do Filho decorria entre os homens até ao dia da Ressurreição marcar o seu termo entre os mesmos. Então, o Cristo Glorificado revelava-se e tornava-se, para o mundo, um Perfeito Salvador.

Esse estado equivale à 6.ª Iniciação Real que é a do estágio de Choan, termo tibetano equivalente ao Chuan chinês, ao Chubilgan mongol e até ao Chu egípcio, todos significativos de “Chefe”, de Dirigente de Linha ou Raio, como Oitavo do mesmo para Sete Adeptos Independentes (Ashekas), pelo que um Choan para o ser equivale ao esforço conjunto de sete Adeptos, e o sendo voga acima deles como “Cisne” celeste, simbólico da Origem Andrógina, Mercuriana ou Uraniana, que em páli é a sua interpretação literal.

Havendo Sete Linhas com Sete Adeptos para cada uma delas, multiplicando 7×7 tem-se os 49 Adeptos Independentes constituintes do G.O.M. (Governo Oculto do Mundo) mais os 7 Choans, representantes dos 7 Planetários – os 7 Arcanjos da Igreja – assinalados na Menorah ou Candelabro de 7 Chamas.

Nos evangelhos sinópticos são incluídas duas breves descrições da Ascensão de Jesus na presença de onze dos seus discípulos, ocorrendo no quadragésimo dia após a Ressurreição, em Lucas 24:30-53 e Marcos 16:19, com uma descrição mais detalhada em Actos 1:9-11.

A tradição canónica dá o Monte das Oliveiras,  junto a  Betânia vizinha de Jerusalém, como o Monte da Ascensão, onde mais tarde seria construída a pequena capela/mesquita da Ascensão, votiva ou circular, sagrada para cristãos e islâmicos, tendo no interior uma pedra circular com uma marca que o populi acredita tratar-se da pegada de Jesus. A sua construção original data do ano 390, quando foi chamada de Eleona Basílica [1], mas que foi destruída pelos persas sassânidas durante o cerco de Jerusalém em 614. Depois foi reconstruída pelos cruzados, e em 1198 adquirida por dois emissários de Saladino.

Antes da conversão ao Cristianismo do imperador romano Constantino no ano 312 d.C., os primeiros cristãos acreditavam que a Ascensão teria ocorrido numa caverna no Monte das Oliveiras, e no ano 384 já esse lugar era venerado como o da realização do sexto Mistério, no cimo do monte por cima da caverna.

A ascensão ou subida de Jesus ou Jeffersus numa caverna equivale a interiorização física e elevação consciencial, tanto valendo por descida aos Mundos Jinas ou Subterrâneos, donde oculto às vistas profanas passou a vibrar sobre o Mundo. O mesmo aconteceria depois com a sua Excelsa Mãe e Divina Contraparte, Maria ou Moriah.

Tendo a presença de Agharta, Sanctum Sanctorum da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria, neste Mistério, de imediato acodem à memória os títulos originais das Cartas Paulinas ou de São Paulo dirigidas às Sete Igrejas assinaladas no Apocalipse, representativas das sete “Embocaduras” da Ásia Menor e por igual dos sete “selos” do Livro da Revelação, conforme foram traduzidas do aramaico para o grego e depois para o latim da Vulgata: Agharta al-Galatim (“Agharta aos Gálatas”), Agharta al-Ephesim (“Agharta aos Efésios”), Agharta al-Romin (“Agharta aos Romanos”)[2].

A palavra latina ascensionis, de ascensio, “subir”, como ascensão refere-se exclusivamente a Jesus. Já o termo assunção, em latim assumpta, significa que Maria foi “assunta”, ou seja, “elevada, levada, tomada” pelo Poder Divino. E embora no ano 377 Epifânio de Salamina tenha afirmado que ninguém sabia se Maria tinha morrido – dormição – ou não, os relatos apócrifos sobre a sua assunção circulam pelo menos desde o quarto século[3], cuja narrativa mais antiga é o chamado Liber Requiei Mariae (“Livro do Repouso de Maria”), sobrevivendo intacto numa tradução etíope[4], cuja composição será do início do século IV e a narrativa apócrifa do começo do século III.

Também são muito primitivas as Narrativas da Dormição dos ‘Seis Livros’, cujas versões mais antigas desse apócrifo foram preservadas em diversos manuscritos em siríaco dos séculos V e VI, embora o texto em si seja provavelmente do século IV. Textos apócrifos posteriores baseados nesses mais antigos incluem o De Obitu S. Dominae, atribuído ao Apóstolo São João mas realmente de autor anónimo de cerca do ano 500, sendo um sumário da narrativa dos ‘Seis Livros’. A Dormição e seguida Assunção aparece igualmente em De Transitu Virginis, obra do final do século V atribuída a São Melito, preservando a versão teologicamente editada das tradições presentes no Liber Requiei Mariae [5]. Uma carta escrita em língua arménia atribuída a Dionísio, o Areopagita, em algum momento do século VI, também menciona o evento. Finalmente, João Damasceno (645-749) e os seus contemporâneos Gregório de Tours e Modesto de Jerusalém promoveram o conceito da Assunção que se implantou em toda Igreja, no Oriente e no Ocidente.

Em algumas versões da história a Dormição e Assunção teria ocorrido na cidade grega de Éfeso (onde se situava uma das Igrejas apontadas no Apocalipse ou “Revelação Secreta”), na costa da Jónia, na casa da Virgem Maria, ainda que todas as tradições anteriores apontem o final da sua vida nas proximidades de Jerusalém, no vale de Cedron aos pés do Monte das Oliveiras.

Cerca do século VII apareceu uma variante na narrativa, contando que um dos Apóstolos, geralmente identificado como sendo São Tomé, não esteve presente na Dormição e Assunção de Maria aos Céus amparada pelos Anjos entoando Hozanah entronizando-a no Trono de Glória. A chegada atrasada do Apóstolo – que para o simples é o eterno céptico – provocou a reabertura do túmulo da Virgem, descobrindo-se então que estava vazio, sem nada senão as suas mortalhas. Numa outra variante posterior, do século VIII, Maria lançou do Céu o seu cinto – símbolo da castidade matrimonial – para o Apóstolo, como prova do acontecimento. Este episódio aparece muitas vezes nas esculturas e pinturas sobre a Assunção.

O facto da ausência de Tomé, aliás, Jairo, na passagem de Maria, serve para o canónico corroborar o apócrifo assim justificando a sua entretanto subida para o Norte da Índia, para Srinagar, axis do Sistema Geográfico Hindu-Tibetano constituído por sete localidades mais uma central: Srinagar – Simlah, Leh, Gartock, Ladak, Naringol, Lhasa, Tjigad-Jé. E tê-lo-á feito logo após a Ressurreição, enquanto Jesus, pouco depois daquele, ascendia em consciência e descendia geograficamente na direcção do Ocidente.

São, afinal, o Cristo Budista e o Cristo Essénio das tradições sob a direcção da sua Quintessência Viva, o Bodhisattva. As famosas e lendárias viagens de Jesus pelo mundo, para uns indo ao Japão onde morreu[6], para outros chegando à América do Norte onde “se manifestou junto das tribos perdidas de Israel” aí instaladas[7], assim entrecruzando Leste e Oeste, apenas justificam o acontecimento da sua deslocação para plagas longínquas que, para a Tradição Iniciática, serviu para reactivar nesse novo ciclo de Piscis a acção espiritual e psicossocial dos Sistemas Geográficos de Srinagar, Índia, e Sintra, Portugal.

As sete Igrejas da Ásia Menor assinaladas no Apocalipse eram destinadas a unir a Raça Semita (judeus e árabes) trazendo o Oriente ao Ocidente, nomeadamente a Roma, dando início ao ciclo messiânico de Cristo inaugurando uma nova Idade no Mundo, a do Reino de Melki-Tsedek destinado a transformar a sociedade humana política (regnum) e espiritualmente (sacerdotium)[8]. Mas, como revelou de viva voz o Professor Henrique José de Souza em 28.04.1954 e que consta no seu Livro do Colóquio Amoroso, “os judeus não quiseram participar juntamente com os árabes e não admitiram partilhar com eles o Messias. Este veio, e eles não O reconheceram. O Messias se foi e eles foram espalhados pelo mundo como tribos kármicas. Hoje voltaram para a Palestina e se defrontam com os árabes, porém, em lutas kármicas”. Adiantando em 12.5.1954: “Da luta entre árabes e judeus, os primeiros ficaram com a maior parte dos conhecimentos secretos, e a prova é que milénios mais tarde invadiram a Península Ibérica, no Itinerário de Io (a Mónada peregrina), levando tais conhecimentos a Portugal e Espanha”.

Quando a Missão Roma fracassa com as mortes de Pedro (fundador) e Paulo (organizador) e os afastamentos de Nicodemos e José de Arimateia, Jeffersus recolhe-se ao seio espiritual do continente europeu que é Sintra, onde se localiza o quinto Centro Vital do Globo, Qtub ou Chakra, donde depois passou a irradiar sobre a mesma Roma e restante Europa indo alcançar o quinto continente americano, através de sete catedrais canonicamente edificadas para o efeito do Ecce Occidens Lux – Santa Maria Maggiore (Roma), Westminster (Londres), Bruges (Bélgica), Lisboa (Portugal), Washington (América do Norte), Cidade do México (México) e São Salvador da Bahia (Brasil).

Entende-se agora as palavras do Professor Henrique José de Souza no seu Livro do Ciclo de Aquarius, em carta-revelação de 28.4.1958:

“Quando se diz que “Roma seria o 5.º Sistema”, não implica em que fosse só ela semelhante Sistema, mas que ela seria a central para as outras cidades ou Estados que a cercam, inclusive Veneza, que por saber tal coisa muitos Adeptos ali se alojaram, mesmo que depois da Tragédia do Gólgota, como fossem o Veneziano e outros mais.

“Quantas e quantas vezes eu aponto ROMA como a velha Romakapura atlante? E usando da chave filológica, falo em ROMA, AMOR, MORS ou MORTE, não apenas no sentido sexual, mas também no da Tragédia que levou o Bodhisattwa à Crucificação na e da Terra. Por ser o AMOROSO, ou uma das suas facetas, por ser aquele o Bijã dos Avataras, a sua Semente, teve AMOR em demasia por sua Obra, por sua Missão na Terra. Roma seria uma São Lourenço (MG) de hoje, Centro do Novo Sistema.”

Nesse mesmo Livro de Revelações, em carta de 2.5.1958, encontra-se claríssimo: “O Quinto Sistema seria, talvez, naquele Lugar, isto é, Portugal, na SERRA DE SINTRA, onde a sibila estampou o mistério do Futuro… o mistério do QUINTO IMPÉRIO, também cantado pelo poeta lusitano, que fala de um só Altar, de um só Cálice de Ouro que havia de luzir.

“Portugal, Arquivo das Raças de Elite, principalmente greco-romanas, não podia deixar de ser o Quinto Sistema, já que este perdera o seu lugar no Mundo. Não esquecer que o Manu Ur-Gardan que trouxe o seu povo da “Terra (celta) do Fogo”, veio ter a Portugal ou Porto-Galo, dando como capital de toda essa região Ulissipa, como feminino de Ulisses, o grande herói de Tróia, donde procede o mistério do ODISSONAI, que é a origem de todas as ODES, de todos os psalmos, cânticos, etc.”

Em Roma nasce a Religião Católica e oculta-se a sua semente, a Ordem do Santo Graal, passando a agir no mistério, encoberta, mas marcando com a sua influência todo o Ciclo das Necessidades (Ano 0 – 24 de Junho de 1956) até que inaugurou o Ciclo do Espírito Santo (24 de Junho de 1956 em diante).

Tem-se o Graal como a Taça Sagrada expressiva do Espírito Santo em cujo interior se dão as mais sublimes e finas transmutações alquímicas, no sentido de transformar a Vida-Energia em Vida-Consciência, portanto, representativa do verdadeiro Caminho da Iniciação.

Jesus – Jairo – João constituíram a Tríade expressiva do Avatara do Segundo Logos como Amor – Rigor – Lei, e no seu Projecto Sinárquico cada um deles, com as suas respectivas Colunas Vivas, assumiu a função que lhe competia na realização espiritual e política do Reino de Melki-Tsedek na Face da Terra. De viva voz, em 11.2.1954, o Professor Henrique José de Souza deu a Jeffersus como Colunas Vivas Barrabás e Jonafas, representando a Autoridade Espiritual (Autoritas), as quais pessoalmente disporia, atendendo aos dados constantes nos textos canónicos e apócrifos, como Jetro e Jaino; a Jairo deu Nicodemos (signo Marte) e José de Arimateia (signo Terra), exprimindo o Poder Temporal (Potens); a João Baptista indicou como Ministros Jetro e Jaino, expressando a Vontade Popular (Voluntatis), que pessoalmente daria como Barrabás e Jonafas. Mas fica como está a descrição do Professor Henrique, não me custando aceitar que o fez assim talvez como método de Iniciação para obrigar o discípulo a raciocinar por si mesmo.

Muitos foram os que estiveram ligados consanguineamente à pessoa de Jesus, é facto tanto canónico quanto histórico, mesmo tendo se perdido o rasto de muitos deles nos evos do tempo. No canónico, tem-se o grego desposyni para designar os “parentes” do Mestre, termo que foi aplicado pela primeira vez por Sexto Júlio Africano, no século III, indo de encontro ao texto grego do Novo Testamento quando indica os adelphos (adelphoi), “irmãos”, palavra essa familiar de delphys, “útero”, pelo que adelphos significa literalmente “os do mesmo útero”.

Havia, pois, uma Família Espiritual e uma Família Humana interrelacionada, onde o sangue era o mesmo e o espírito da doutrina idem, cuja genealogia recuava até David e Salomão conforme inscreve a Árvore de Jessé, justificativa da ascendência de Jesus como verdadeiro Messias preanunciado pelo profetas e sibilas da Escritura Velha.

Se Barrabás beneficiou do indulto pascal e se acaso era primo de Jesus, esta ligação familiar não se encontra nos evangelhos canónicos e só nos apócrifos, ricos na descrição dos próprios antecedentes de Maria de Nazaré, como relata, por exemplo, o Evangelho Secreto da Virgem Maria, apócrifo do século IV atribuído a certa religiosa jerusalemita de nome Etéria. Além desse, tem-se ainda o Protoevangelho de Tiago: Nascimento de Maria; Evangelho do Pesudo-Mateus; História de José, o Carpinteiro; Evangelho Arménio da Infância; Evangelho dos Hebreus; Livro da Infância do Salvador; Aparição a Maria: Fragmentos de textos coptas; Lamentação de Maria: Evangelho de Gamaliel; Maria fala aos Apóstolos: Evangelho de Bartolomeu; Trânsito de Maria do Pseudo-Militão de Sardes; Livro do Descanso.

Conforme as narrativas apócrifas, a dormição e assunção de Maria teria acontecido quando ela contava 84 anos de idade. Pelo lado paterno, descendia do ramo de Aarão, sendo os seus ascendentes quase todos do número dos consagrados à vida divina, sacerdotal (kadoshs).

Pelo lado materno, os seus antepassado derivavam do casamento do rabino Stolamus (também chamado Garecha e Sazirius) com Esmarum, de quem nasceria três filhas: Esméria ou Isméria, Emerência e Enué.

O seu avô paterno, Eliud, era zadoquita da tribo de Levi, enquanto o seu bisavô pertenceu à Ordem dos Profetas.

A sua avó materna, Isméria, pertencia à tribo de Benjamim.

A sua bisavó materna era natural de Mará e chamava-se Marunum ou Esmarum, palavra hebraica significando “mãe augusta”.

Do casamento de Eliud com Isméria nasceram três filhas: Sobá, Maraha e Ana.

Sobá casou com o levita Afra, ou Ofras, do que lhes nasceu Isabel, futura mãe de João Afra, o Baptista.

Maraha casou com Zebedias e foi mãe de José Barrabás (Joseph Ben Abbas), futuro chefe do partido zadoquita e primo de Jesus.

Ana casou com Heli (Heliachim ou Heliakim, em hebreu) ou Joaquim, filho de Mathat que era o irmão mais novo de Jacob, filho de Mathan Naüm.

Esse Mathan descendia de David por Salomão e teve dois filhos: Jacob e Joses. Como Mathan morresse, a viúva contraiu segundas núpcias com Levi Panthera, descendente de David, mas por Mathan. Deste Levi Panthera é que nasceu Mathat, pai de Heli ou Joaquim.

O filho mais velho de Mathan, Jacob Naüm, foi o pai de José Naüm que veio a casar-se com Myrian Ben Panthera ou Pandira.

O primeiro fruto do consórcio entre Joaquim e Ana foi o nascimento de uma menina, Maria Sobé. Com o seu parto a mãe deixou de gerar, tornando-se estéril.

Esse foi o motivo que levou Joaquim a fazer um sacrifício no Grande Templo de Jerusalém, rogando ao Eterno a graça de restituir a fecundidade a sua esposa, deixando a oferenda das vestes alvas de uma criança, motivo para o levita Ruben o injuriar e troçar dele em público. Magoado, retirou-se para junto dos essénios no deserto de Gadi, junto ao Monte Herman, no limite das terras de pastoreio dos seus rebanhos, isso sem dar conhecimento a sua esposa que durante cinco anos ignorou o seu paradeiro.

Também Ana foi igualmente injuriada por uma das servas, judia de nome Ester, que exprobou a desonra da sua esterilidade. Essa Ester seria depois violada e assassinada por um legionário romano de nome Álio, alcunhado pelos amigos de “bruto” e pelos inimigos de “porco”.

Por ocasião da Festa dos Tabernáculos, tanto Joaquim como Ana decidiram cada qual ir a Jerusalém, ao Grande Templo, e foi quando se reencontraram à saída da cidade, junto à porta dourada onde lhes apareceu o Anjo Gabriel que concedeu a Ana a graça de ficar fecunda da sua segunda filha, Maria.

Fiel à sua palavra, quando atingiu a idade legal – 12-14 anos – a menina foi oferecida ao serviço do Templo, sob a direcção da anciã Saboé, e como virgem consagrada iniciou essa nova fase da sua vida que só seria interrompida pelo seu desposório com o viúvo José, futuros pais de Jesus.

Foi só em Roma que a religião cristã se organizou como tal, onde Pedro e Paulo foram os seus principais promotores, e se aquele fundou e este organizou, na realidade tudo se deve mais a Paulo do que a Pedro, este que na Paixão de Jesus mentiu dizendo aos algozes que não O conhecia, tendo depois fugido da cidade dos césares perante a perseguição feroz das autoridades romanas aos cristãos, e já na Via Ápia deparou-se com a visão do Senhor que se encaminhava para Roma donde ele fugia, e caindo de joelhos perguntou-lhe: Quo vadis, Domine? (“Onde ides, Senhor?”) Ao que Ele lhe respondeu: Vou a Roma morrer por Pedro, já que Pedro não quer morrer por Mim. Arrependido, penitenciando-se voltou para trás, acabando crucificado no coliseu de cabeça para baixo, na cruz invertida a seu pedido, por não se considerar digno de morte igual à do Mestre.

Para terminar e conforme revelou o Professor Henrique José de Souza, têm-se as palavras de Cristo ao Apóstolo Paulo, o Grande Iniciado que se pode considerar o verdadeiro Fundador do Cristianismo como religião organizada, na Estrada de Damasco ou na Senda da Iniciação:

– Tu tens Olhos e não vês. Tu tens Ouvidos e não ouves. Mas de tua Boca é que sairá a Minha Palavra!

 

NOTAS

 

[1] Em grego elaion, “olival”, de elaia, “oliveira”, termo com similaridade a eleos, “misericórdia”.

[2] Saint-Yves D´Alveydre, La Misión de la India en Europa. Luis Cárcamo, Editor, Madrid, 1988.

[3] Juan G. Atienza, Nuestra Señora de Lucifer – Los misterios del culto a la Madre del Dios. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1991.

[4] Stephen J. Shoemaker, Ancient Traditions of the Virgin Mary´s Dormi-tion and Assumption. Oxford University Press, Oxford, 2002.

[5] O Decretum Gelasianum – Decreto Gelasiano – atribuído ao Papa Gelásio I (492-496) como oposição à difusão da literatura gnóstica referente ao transitus Mariae proibiu-a, declarando-a apócrifa no sentido de inventiva com muitas heresias. Os manuscritos sobreviventes desse Decreto possuem uma lista dos livros da Bíblia que, ao contrário do decretado, antes foram considerados canónicos pelo Papa Dâmaso I (366-383).

[6] “Cristo morreu no Japão”. Lenda religiosa inventada pelos missionários jesuítas no Japão, nos finais do século XVI, para darem força de lei à implantação do Cristianismo no país do Xintoísmo ancestral, colonização religiosa que não resultou senão a do martírio da quase totalidade deles, depois de repetidas admoestações das autoridades locais, às mãos dos xoguns, “senhores feudais”, que os tinham como “bárbaros do Sul”. Mas como a lenda tem sempre muita força, o comum crente cristão nipónico (que constitui minoria face ao Xintoísmo, a religião oficial muitíssimo anterior ao Cristianismo) tem por verdade que em Shingô, distrito de Aomori, encontra-se o Kirisuto no Haka (Sepultura de Cristo), pois que Kirisuto (Cristo) não morrera na cruz e sim o seu irmão menor Isukiri (Issah, Jairus), tendo ido para o Japão onde casou, teve três filhas e morreu com 106 anos de idade. Foi cremado e as suas cinzas enterradas na Vila de Herai (Herodes?) onde se encontra a sua suposta sepultura, em Shingô, antigo bastião do Xintoísmo. Num monte próximo, para dar ainda mais força e relevância ao testemunho, é dito que está enterrada a orelha do irmão de Cristo e uma mecha dos cabelos de Maria, mãe de ambos, que foram as únicas relíquias que Kirisuto pôde trazer da sua família ao escapar da Judeia. As alegações prós e contras do facto começaram em 1933, quando foram descobertas crónicas jesuítas narrando a lenda na antiga Missão da Companhia em Shingô, as quais o Governo em Tóquio mandou recolher. Resta a comprovação da Igreja saber que houveram “dois Cristos”, mas que a fantasia lengedária obscureceu o factual da existência dos mesmos. Tudo o mais é lenda, mentira pia, invenção sagrada, mas ainda assim, na tenra idade mental da Humanidade, por ter muita força a lenda vence sempre.

[7] Essa é a base da invenção sagrada do norte-americano Joseph Smith Jr. (Sharon, 23.12.1815 – Carthage, 27.6.1844), a quem um dito anjo Moroni se revelara entregando-lhe umas placas de ouro contando a saga das tribos perdidas de Israel que foram fixar-se na América do Norte. Ele copiou os escritos nas placas que desapareceram a seguir (como sempre acontece nas lendas de fundação), e assim nasceu o Livro de Mórmon, filho de Moroni, o qual está muito bem imaginado e concebido no óbvio decalque dos Livros dos Reis I e II da Bíblia. Tomo por certo que Joseph Smith ouvira falar das viagens transatlânticas dos fenícios na Proto-História, motivo da sua transposição imaginosa para as tribos hebraicas perdidas. E ouvira falar certamente dentro da Maçonaria onde se filiara em Março de 1842, quando foi iniciado Aprendiz na Loja de Navoo, Illinois. Quando às placas de ouro reveladas pelo anjo Moroni numa abóbada de pedra no alto de uma colina, será extrapolação ecoando ao mito de Enoque no Rito do Arco Real. Nesse mito, o profeta Enoque, instruído por uma visão, preservou os Mistérios Maçónicos esculpindo-os numa placa de ouro, que colocou numa abóbada de pedra arqueada sustentada por pilares, onde seria redescoberta por Salomão, agora o imaginoso Smith, que começara a sua faina oculta com o seu pai, Joseph Smith Sr., na “escavação de dinheiro”, prática fantástica norte-americana de recuperar tesouros enterrados escondidos por “espíritos malignos”. A estrutura organizacional da sua Igreja dos Santos dos Últimos Dias, milenarista, apocalíptica e nacionalista, é inteiramente decalcada e readaptada da maçónica, como se repara facilmente até nos rituais de investidura dos seus santos élderes, o que não será de estranhar atendendo a que vários fundadores desse movimento (Herber C. Kimball, Hyrum Smith e outros) em 1820 estavam filiados em Lojas maçónicas. Cf. Mervin B. Hogan, Mormonism and Freemasonry: The Illinois Period. Springfield, Illinois, 1980. John L. Brooke, The Refiner´s Fire: The Making of Mormon Cosmoloy, 1644-1844. Cambridge University Press, New York, 1994.

[8] Nachman Falbel, Melquisedec no Judaísmo e no Cristianismo e seu significado na disputa entre Regnum e Sacerdotium na Idade Média. Revista de História, n.º 165, Jul./Dez. 2011, Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

Mistério da Ressurreição (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Fev 5 2021 

O Mistério da Ressurreição é o momento alto da confirmação da fé para o cristão, é a derradeira e suprema fase pascal do dobrar a lei da morte e afirmar a lei da vida em Cristo, por Cristo e para Cristo, ou seja, na presença e integração do Sétimo Princípio Espiritual agindo pelo Sexto Intuicional e o Quinto Mental, isto é, a Mónada ou Nous Imperecível ida Além-Morte e regressada Aquém-Vida. É o Poder da Vontade, o Amor-Sabedoria e a Actividade Inteligente imanifestada e manifestada do Divino Ser, o Adepto Triunfante empunhando o Lábaro da Suprema Vitória, o da Revelação da Glória da Ressurreição – Resurrectio gloria ostenditur.

Com efeito, a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo é o aspecto central do calendário litúrgico cristão. Ressurreição ou Anastase (resurrectio, em latim, anastasis, em grego) é entendida como voltar à vida após a morte. Resta saber de que forma, posto que corporalmente é biologicamente impossível ao mesmo corpo falecido há dois mil e tantos anos voltar à vida, a não ser que se explique pela lei das vidas múltiplas ou reencarnação, onde a alma toma importância determinante sobre a acção do corpo em conformidade à lei de causa-efeito que rege a ela e a todas.

A ressurreição dos mortos é crença escatológica padrão nas religiões abrahâmicas (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo). Como conceito religioso, é usado em dois aspectos distintos: a crença na ressurreição das almas individuais que é actual e contínua (idealismo cristão, escatologia realizada), ou a crença numa ressurreição dos mortos no Fim dos Tempos, isto é, no final de um Ciclo de Evolução, com o correspondente Julgamento Planetário, donde se dizer que “Cristo é o Juiz dos Vivos e Mortos”. Ainda assim, alguns teólogos acreditam ser a alma o veículo real pelo qual as pessoas são ressuscitadas, não os seus corpos. Mas tudo se passa sempre em conformidade à Lei de Evolução do Género Humano pontuada pelas de causa-efeito (Karma) e vidas sucessivas (Reencarnação) até ao término do respectivo ciclo evolutivo.

Que a crença na reencarnação estava (e está) presente na vida dos povos do Médio Oriente e Ásia Menor, provam-na a pergunta dirigida a Jesus em querer saber “se João Baptista foi Moisés e Elias?” (João 1:19-23), ao que Ele respondeu não importar o que fora mas o que era. O passado passara, só contava a personalidade presente e a sua obra de arauto, com isso descartando o interesse mórbido pelo que se fora anteriormente com descuro do que se é, assim arredando os interesses pela fenomenologia do psiquismo tal qual Budha fizera anteriormente ao aconselhar Ananda, seu discípulo: “Deixa os teus sidhis (faculdades psíquicas) para a próxima vida”, vai protelando-os, que são mais empecilhos que outra coisa útil. Ademais, informam os Grandes Mestres, alguém só pode conhecer com exactidão as suas vidas passadas quando mergulha no registo do Corpo Búdhico ou Intuicional, o que só é acessível aos Grandes Iniciados na Ciência da Vida, ficando todo o resto por conta das ilusórias crenças neurológicas/oníricas.

“XI – 9. Todas as coisas que são feitas sem Deus não passam de erros grosseiros, seduções e encantamentos que apenas mostram como a alma de quem as pratica está cheia de desvergonha, mentira e impureza.”Apócrifo de Issah, Himis, Tibete.

A crença popular na ressurreição dos mortos no final dos Tempos recua ao mal apreendido e incompreendido conceito praticado na religião dos Mistérios, na qual um deus (iniciado, epoptae) de vida, morte e ressurreição é uma divindade (ser realizado) que morre e ressuscita ao terceiro dia defronte para o Sol Espiritual, para o Logos em que se integrou em Essência e pessoa.

Assim, este quinto Mistério da crise iniciática da Ressurreição relata-se igualmente a respeito de Hércules, de Baldur, de Mitra, de Orfeu e de outros Grandes Iluminados. Um dos primitivos Padres da Igreja, Julius Firmicus Maternus, astrólogo e apologista do Cristianismo que viveu no reinado do imperador Constantino, relatou que os Mistérios de Osíris (simbólico do Sol Espiritual) guardavam conexão estreita com os Mistérios Cristãos e que nestes, tal como na Ressurreição de Osíris, os iniciados exultavam no final da cerimónia: “Nós O reencontrámos!”[1] Annie Besant, no seu livro Cristianismo Esotérico, destaca esse facto numa passagem iluminadora:

“Nos Mistérios Cristãos, como nos do Antigo Egipto e outros, existia um simbolismo exterior marcando os estágios que o homem devia atravessar. O candidato era levado ao templo da iniciação e lá era deitado com os braços estendidos – ora numa cruz de madeira, ora no chão do pavimento – na atitude de um crucificado. O tirso – lança da crucificação – tocava-lhe o coração, e deixando o seu corpo passava aos mundos do Além; o seu invólucro físico ficava em profunda letargia – a morte do crucificado; transportado para um sarcófago de pedra, aí ficava encerrado sob cuidadosa vigilância. Durante isso, o Homem Real percorria as sombrias regiões chamadas de “Coração da Terra”, para depois galgar a Montanha Celeste revestido do seu Corpo de Beatitude – já então plenamente constituído como um Corpo de Consciência.

“Revestido desse novo Corpo, ele voltava ao seu corpo de carne, tornando à vida. A cruz que sustentava o corpo, ou quando não havia cruz, era o corpo adormecido e rígido retirado do sarcófago e colocado numa superfície inclinada, na direcção do Oriente, antes do levantar do Sol, na manhã do terceiro dia.

“No momento em que os raios do Sol lhe tocavam o rosto, o Cristo – o Iniciado Perfeito ou Mestre – entrava no seu corpo, glorificando-o com um novo Corpo de Consciência de que agora estava revestido, transformando o corpo carnal no contacto com o Corpo de Bem-Aventurança, conferindo-lhe novas propriedades, faculdades e aptidões, transformando-o na Sua própria imagem. Tal é a Ressurreição de Cristo, depois da qual o corpo carnal transformado adquirira uma nova natureza.”

Eis por que o Sol era, e é, tomado como símbolo do Cristo Ressuscitado, e porque nos hinos de Páscoa é feita alusão constante ao Sol de Justiça (Solis Justitiae). Por isso, as palavras relativas ao Cristo Triunfante: “Eu estou vivo, e estive morto, mas eis que estou vivo para todo o sempre. E tenho as Chaves da Morte e do Inferno” (Apocalipse 1:18). O Filho pode dispor, de ora em diante, de todos os Poderes dos Mundos Interiores, em virtude do seu glorioso Triunfo. A morte já não tem mais poder sobre Ele porque “tem a vida e a morte em Sua mão poderosa” (H.P. Blavatsky, A Voz do Silêncio). Ele é o Cristo Ressuscitado, o Cristo Triunfante.

Vê-se assim que a história do Mistério da Ressurreição é muitíssimo mais antiga que o Cristianismo e que o Eterno sempre sustentou, através dos Mistérios e dos seus Filhos Iluminados, a presença da Imortalidade, como aconteceu para o Ciclo dos Peixes com a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o Cristo.

Tem-se neste quinto Mistério o ponto culminante da Manifestação Avatárica do Divino Bodhisattva, sendo os dois Mistérios restantes (Assunção e Pentecostes) a consolidação dos anteriores. Este Mistério foi e é a ideia central da Ordem Maçónica tendo o seu eixo no simbolismo do 3.º Grau de Mestre. Essa elevação maçónica tem uma particular relação com o Sermão de Benares pronunciado por Budha aos discípulos, na parte acerca dos Cinco Pontos da Verdade, podendo-se relacionar tais Pontos com as cinco Crises do Cristo, as quais não deixam de se reflectir nos cinco Landmarks ou Pontos da Tradição Maçónica, em conformidade ao sentido ético e moral da Estrela Flamejante do Oriente, a do Natal ou Nascimento pela Iniciação. Estas referências servem para demonstrar a continuidade da Revelação onde a Ressurreição é a apoteose para o mundo cristão, e, uma vez mais, reflectida no 18.º Grau de Príncipe Rosacruz ou Cavaleiro do Pelicano, símbolo do Sacrifício e Ressurreição de Cristo, sendo que o Pelicano Eucarístico vem a ser indicativo da própria Eucaristia ou comunhão com o Eu-Crístico.

Como falei em Astrologia por motivo de Firmicus Maternus, face às três Cruzes do Gólgota abordarei agora o simbolismo das mesmas afins ao Cristo Crucificado, ao Cristo Adormecido ou Oculto e ao Cristo Ressuscitado, no tocante às cruzes fixa, cardinal e mutável da Astrologia Esotérica ou Astrosofia[2].

O Cristo Crucificado relaciona-se à cruz fixa formada pelos quatro signos fixos (Aquário, Touro, Leão, Escorpião), expressando a força vermelha centrípeta (Tamas), a energia radiando para o centro. Esses signos associam-se ao princípio de inércia e igualmente ao poder de concentração e perseverança. Os signos fixos são os mais concentrados no “aqui e agora”, por a energia estar muito concentrada sob o poder da pessoa. Transmitem estabilidade, perseverança, segurança. A cruz fixa é a cruz da transmutação, do desejo em aspiração e do egoísmo em altruísmo.

Tal como o Senhor foi crucificado entre dois outros condenados, assim também existem duas outras cruzes, a cruz mutável e a cruz cardinal. A primeira tem a ver com os signos mutáveis (Rajas), equilibrantes e harmónicos expressando o Cristo Adormecido ou Oculto, enquanto a segunda, afim aos signos centrífugos e irradiantes (Satva), designa o Cristo Ressuscitado.

Tal como o Cristo Crucificado assinala a aspiração da Humanidade à Hierarquia dos Mestres, o Cristo Oculto a comunhão do Hierarquia dos Mestres com o Centro Supremo do Mundo, Shamballah, o Cristo Ressuscitado vem a ser a manifestação de Shamballah na figura do Planetário da Ronda, o Rei do Mundo (Melki-Tsedek ou Chakra-Varti)[3]. Donde se ter:

Tem-se assim a Cruz no seu mais elevado sentido cíclico carregando em cada palo uma letra das quatro do Nome de Deus, Yod-He-Vau-He, no que se torna símbolo da expressão ideoplástica do Homem Cósmico como Jehovah, que é quem faz mover o Pramantha ou dar animação ao Ciclo de Evolução como Logos do mesmo, portanto, da Terra, a quem Cristo manifestou manifestando ao Oitavo Logos do Sistema Solar, no que se tem este quinto Mistério como repasse do bastão de comando da Evolução do Quarto Logos Terrestre (Atlasbel, o mesmo com o Mundo ou Cruzeiro às costas) ao Quinto Logos da próxima Cadeia de Vénus (Arabel, o Esplendoroso Triunfante), marcando a acção do Futuro no Presente.

A ver com isso está a ressurreição cíclica dos Manasaputras, os Filhos da Mente Cósmica (Mahat), criações dos Kumaras Assuras na 3.ª Raça-Mãe Lemuriana por meio do Poder Místico de Kriya-Shakti, uma das oito qualidades de Kundalini, o Fogo Criador do Espírito Santo, os quais são os mesmos Vasos Insignes de Devoção da Ladainha de Todos-os-Santosvas insigne sirituale, vas honorabile, vas insigne devotionis – que a Igreja invoca apesar de desconhecer o seu significado real, como o de serem o Corpo de Glória ou Causal como Augoeides do Adepto Perfeito. São os mesmos “Mortos-Vivos” quebrando as cristalinas lajes sepulcrais para desembocar, sair dos jazigos subterrâneos por ocasião da expiração do Cristo de volta ao seio da Terra. Eis aí o V.I.T.R.I.O.L. consumado: Visita Interiora Terris Rectificando Invenies Occultum Lapidem – “Visita o Interior da Terra e Rectificando (Integrando) descobrirás a Pedra Oculta” (Pedra Filosofal do Adepto, Pedra Pontiaguda do Mestre, sinónima de Suprema Iluminação).

Este é o nível em que o homem se torna Super-Homem, Mestre Real, Adepto Perfeito, Superior Incógnito, Illuminati Dei, Iluminado Divino, Asheka, Nirmanakaya, Jivanmukta, Jivatmã, etc. Libertou-se para sempre de todos os grilhões terrenos, e se doravante, diante dos sete Caminhos abrindo-se diante dele, escolher continuar na Terra auxiliando nela os seres em evolução, então terá optado pelo Caminho dos Homens, o da Compaixão de Bodhisattva como o mais duro e difícil sempre com incontáveis sacrifícios, como até no dia-a-dia se verifica e testemunha no embate físico e sobretudo psicológico entre a consciência do Iniciado (qualidade) e a noção do profano, vulgar ou ordinário (quantidade).

Os Sete Caminhos abrindo-se perante o Adepto, podendo escolher um deles para prosseguir a sua evolução avante:

Manasaputras eram os dois Devas de Aquém-Akasha que arredaram a laje do sepulcro de Cristo para Este sair à luz do terceiro dia, sendo os opostos aos legionários Jivas que não permitiam abrir o mesmo, vencidos pelas Forças do Espírito mergulhando-os em torpor e esquecimento. Eis aí, também, o embate entre Purusha e Prakriti, Espírito e Matéria.

Os quatro evangelhos são unânimes na afirmação de que no final da tarde do dia da crucificação José de Arimateia pediu permissão a Pôncio Pilatos para resgatar o corpo inerte de Jesus, no que foi atendido e logo retirou-o da cruz, envolveu-o numa mortalha de linho e colocou-o num sepulcro. Esse acto estava de acordo com a lei mosaica (Deuteronómio 21:22-23) que determinava que uma pessoa enforcada numa árvore não devia ficar lá à noite e ser enterrada antes do pôr-do-sol.

O Evangelho de Marcos afirma que quando José pediu o corpo de Jesus, Pilatos ficou admirado por ele já estar morto e enviou um centurião para confirmar a morte antes de o entregar. O Evangelho de João relata que José teve o auxílio de Nicodemos, que trouxe uma mistura de mirra e aloés, misturando os perfumes na mortalha, conforme o costume judaico.

Em resumo, no Novo Testamento depois de ser crucificado pelos romanos instigados pelos judeus, Jesus é lavado e ungido com bálsamo, envolto numa mortalha de linho e sepultado num sepulcro novo por José de Arimateia. Ao terceiro dia ressuscita dos mortos e aparece a muitas pessoas durante um período de quarenta dias, quando então ascende ao Céu e se entroniza à direita do Pai. Os cristãos celebram a Ressurreição no Domingo de Páscoa, o terceiro dia depois da Sexta-Feira Santa (Dia do Santo Sangue, Sangue Real ou Santo Graal), que foi a da Crucificação. A data da Páscoa cristã correspondeu, de grosso modo, com a Páscoa judaica, o dia de observância dos judeus associado ao Êxodo (saída do povo hebreu da escravidão do Egipto), calculado como sendo a noite da primeira Lua Cheia depois do Equinócio da Primavera[4].

Quando Maria Madalena se dirigiu ao sepulcro e viu-o aberto e vazio, ficou aflita receando que os fariseus ou os romanos tivessem roubado o corpo para assim não ser venerado. Mas ela estava destinada a ser proto-testemunha da Ressurreição: vislumbrou a figura erecta de um homem luminoso, transfigurado, um pouco afastado do túmulo, e logo reconheceu o seu amado Rabôni (Mestre). Correu a abraçá-lo tendo Ele lhe estacado os passos com as palavras: Noli me tangere, “não me toques”. Mas ela chorando feliz ajoelhou aos seus pés e beijou a alva mortalha que o envolvia, no que a frase latina extraída do original greco-hebraico será antes: Tangere noli timere, “não tenhas medo de me tocar”, porque “ainda não subi para o Pai” (João 20:16-18).

Tal significará que Jesus se revelou a Madalena em seu Corpo de Glória, o Augoeides, e se por um lado o “não me toques” significará “porque estou visível mas não tangível”, por outro, como Jairo ou Krivatza, “O que traz o peito chagado”, deixará a sua contraparte tocá-lo por estar visível e tangível, pelo que não era um Ser incorpóreo, espiritual, explicação do obscuro remate “ainda não subi para o Pai”.

Isso em contraposição ao facto de Tomé ter duvidado que Jesus houvesse ressuscitado e Ele deixado que o gémeo lhe tocasse as chagas. Por que? Porque fora ele o crucificado e não o outro, que no entanto recebera iguais estigmas por repercussão psicofísica à distância na Fraternidade Iniciática onde estivera recolhido. Felizes dos que não vêem e crêem (João 20:29), isto é, dos que não estão ao par do desenrolar secreto dos acontecimentos mas acreditam ou aceitam as palavras daqueles que neles participaram.

Se os evangelhos sinópticos dizem que Jesus viveu 40 dias entre os seus discípulos após a Ressurreição, esse número poderá muito bem ser simbólico dos anteriores iguais passados com Ele no Deserto ou com Moisés no Monte Sinai, mais parecendo que o valor 4(0) seja indicativo simbólico do compasso quaternário da Terra pelo qual a mesma evolui e nela Ele se manifestou. A Pistis Sophia, a “bíblia” dos gnósticos, dá um período mais longo quanto à permanência de Jesus no mundo após ressuscitar, doze anos, durante os quais instruiu e iniciou os seus discípulos nos Mistérios Maiores da Sabedoria Divina, dando continuidade mas sob feição superior, no dogma e rito, ao antigo Colégio dos Profetas, então substituídos, por lei cíclica de Evolução, pelo Colégio dos Apóstolos (base orgânica da constituição da futura Igreja confessional, iniciada com os Padres Apostólicos garantes da Sucessão Apostólica vinda de Pedro até ao Papa actual).

O Colégio dos Profetas foi fundado por Samuel em Naiote (I Samuel 19:20) nos moldes de estrutura iniciática cujos ensinamentos foram transmitidos aos sucessores no mesmo. Colégios análogos existiam em Betel e Jericó (II Reis 2:2-5), encontrando-se na Concordância de Cruden (artigo School) a seguinte nota interessante: “As Escolas, ou Colégios, dos Profetas são as primeiras de que encontramos referências nas Escrituras. Os filhos dos Profetas – isto é, os seus discípulos – aí consagravam o seu tempo aos exercícios de uma vida retirada e austera, ao estudo, à meditação e à leitura das leis de Deus… Estas Escolas ou Sociedades dos Profetas foram mais tarde substituídas pelas Sinagogas.”[5]

O ensinamento reservado (esotérico) ministrado no seio do Colégio dos Apóstolos poderá encontrar-se de modo esparso e sem exegética interpretativa nos textos apócrifos gnósticos mais antigos (do século I-II ao século IV-VI), de que se destaca a citada Pistis Sophia ou a Sophia de Jesus Cristo, como pertencente ao Códice III da Biblioteca de Nag Hammadi, descoberta no Egipto em 1945, mas já então circulando um outro original greco-cóptico, depositado na Biblioteca Nacional de Berlim, que foi o consultado por Helena P. Blavatsky na segunda metade do século XIX.

Esse manuscrito copta foi datado como sendo do século IV d.C., completado por uns poucos fragmentos em grego datados do século anterior, pelo que a sua data será mais antiga que a datada. O texto tem forte similaridade com a Epístola de Eugnostos, manuscrito anterior no mesmo Códice III, um pouco mais expandido e com “moldura” mais cristã[6]. Talvez seja mesmo parte “solta” da Pistis Sophia [7].

O título Pistis Sophia é inconsensual, traduzido ora como Sabedoria da Fé, ora como Sabedoria na Fé ou ainda Fé na Sabedoria. A tradução mais rigorosa, levando em conta o seu contexto gnóstico, é Fé de Sophia, uma vez que essa era para os gnósticos a divina sizígia (par) de Cristo, que se em grego significa Sabedoria, em aramaico será Miriam, “Soberana”, remetendo para a Mãe Soberana como contraparte espiritual de Cristo – Maria. Por isso é a Sophia de Jesus Cristo, conforme declara a própria Pistis:

– O Perfeito Salvador disse: “O Filho do Homem entendeu-se com Sophia, sua consorte, e revelou uma grande Luz Andrógina. O seu nome masculino é designado Salvador, Progenitor de todas coisas. O seu nome feminino é designado Toda-Progenitora Sophia. Alguns a chamam de Pistis”.

Pistis Sophia, Fé e Sabedoria, Cristo e Maria, fundadores dos Mistérios do Santo Sangue aos quais depois os neoplatónicos alexandrinos chamariam de Teosofia, Sabedoria Divina. A partir da mesma Paulo, que era Saulo antes do Encontro na estrada de Damasco, organizou a fundação da Igreja confessional ao mesmo tempo que se recolhia a mistérica Ordem do Santo Graal.

Deixando, contudo e para terminar, o precioso conselho inscrito no Apócrifo de Issah:

“VII – 18. Aspirareis à suprema beatitude, não apenas purificando-vos a vós mesmos mas ainda guiando os outros pela via que lhes permita conquistar a primitiva perfeição.”

 

NOTAS

 

[1] Julius Firmicus Maternus, Ancient Astrology Theore And Practice – Ma-theseos Libri VIII. Noyes Press, Hardcover, 1975.

[2] Alice Ann Bailey, Astrología Esotérica. Editorial Kier, S.A., Buenos Aires, 1950.

[3] Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda, São Paulo, 2006.

[4] Tamara Prosic, The Development and Symbolism of Passover, vol. 57. New York and London: T & T Clark UK, 2005.

[5] Alexander Cruden (1699-1770), Concordância de Cruden ou A Concordância completa com as Sagradas Escrituras. Londres, 1737.

[6] A Epístola de Eugnostos, ou Eugnostus, o abençoado, não deve ser entendida como uma carta real escrita por alguém chamado Eugnostos, pois que significa em grego “pensamento correcto”, sendo o designativo epístola uma convenção literária familiar na Antiguidade. O mais aproximado que se poderá dizer é ela ser produto do pensamento colectivo de determinado Colégio Gnóstico, dos muitos que haviam na Antiguidade médio-oriental e mediterrânica.

[7] Raul Branco, Pisthis Sophia – Os Mistérios de Jesus. Comentários de Helena P. Blavatsky. Tradução e interpretação de Raul Branco. Editora Teosófica, Brasília, 2009.

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