Cristóvão Colombo, o enigma português – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Ago 12 2018 

Lisboa – 600 anos de Porto Santo, 10.7.2018

 

Com três caravelas conquistarei um reino que não é o meu.

(Palavras de Cristóvão Colombo, reveladas por Henrique José de Souza)

 

Assim foi, com a esquadra formada pela nau capitania Santa Maria (com 100 tonéis e 40 tripulantes), a nau Pinta (com 55 tonéis e 26 tripulantes) e a nau Niña (com 60 tonéis – tonel é a medida náutica de capacidade – e 24 tripulantes), às duas horas da manhã de 12 de Outubro de 1492 apresentando o Novo Mundo ao Mundo.

Acerca da Epopeia Marítima dos Portugueses em Quinhentos, Gesta Dei per Portucalensis, divisa manuelina dada à empresa da Ordem de Cristo e a sua Escola Náutica única na Europa, pela documentação histórica e testemunho iconológico dado à luz da estampa por eminentes investigadores, muito já se sabe. Ainda assim, de todos destaca-se na obscuridade do tempo uma personagem de que se insiste manter no contraditório, motivo do seu envolvimento na bruma espessa do enigma, documentação essa referente ao mesmo não raro inconsistente e contraditória, quando não inventada, como foi o caso dos tristemente famosos “documentos” de Pontevedra, Galiza, forjados em 1914 por Enrique de Arribas y Turull. Refiro-me a Cristóvão Colombo (1451-1506).

Do muitíssimo que sobre ele já se disse e escreveu, permeio a apaixonadas polémicas acesas, em que entram genoveses, espanhóis, galegos e portugueses desde os finais do século XIX, com a introdução recente dos estudiosos ingleses e norte-americanos na discussão colombina, a verdade é que, apesar de todos esses esforços, mantém-se aparentemente indecifrável a origem ou naturalidade, assim como os lances principais de sua vida, não raro perspectivados controversos e contraditórios, sobre quem era e que missão teria Cristóvão Colombo, ou Colón no espanholado, apesar do seu significado diverso de Colombo, posto serem escassos os dados biográficos acerca dele, e quanto se respiga aqui e ali nos mesmos é sempre susceptível de leituras diversas, igualmente, não raro, controversas e contraditórias. Com tudo isso, mesmo assim teima em permanecer acima de tudo o mais o halo de sobrenatural e mistério envolvente da pessoa e vida do almirante, indo inflamar ainda mais a polémica.

Primeiro acreditou-se ter ele nascido em Génova, Itália, de origens humildes, filho de um obscuro alfaiate e ele próprio um simples grumete que inexplicavelmente se tornaria almirante e se casaria com uma nobre portuguesa, mesmo se sabendo que a marinha genovesa durante séculos fora somente de navegação com terra à vista, isto é, costeira, famosa pelas suas acções de corso e pirataria que deu (má) fama ao Veneto que posteriormente, só no século XVI após as empresas das descobertas marítimas portuguesas, se tornaria empório comercial; a seguir, acreditou-se que Colón teria nascido em Castela, de raízes judaicas e com foros tardios de nobreza, hipótese que logo passou à Galiza e veio a ser desmentida, quando se provou que os documentos sobre a mesma haviam sido inventados no começo do século XX. Logo que foi denunciado o logro, a autoria galega ficou desacreditada, como igualmente as hipóteses castelhana e genovesa, graças ao douto e creditado português da época, o dr. Patrocínio Ribeiro, que foi quem iniciou a escola portuguesa de estudos colombinos. Com tudo isso, em plena confusão documental, a forjada e a não forjada, onde o dédalo dos políticos de vários países interessados pretendia para si a exclusividade da origem da pessoa de Cristóvão Colombo, por exclusivos motivos de prestígio nacional conformados às políticas vigentes, os estudiosos do tema acabaram chegando a nenhuma conclusão definitiva.

Manteve-se o enigma, espécie de esfinge irritante ante a impaciência contínua do inquirido não sabendo que resposta lhe dar. Qual era a origem de Cristóvão Colombo? Qual era a sua verdadeira missão? E, sobretudo, quem ele era realmente?

Irei esboçar neste estudo algumas ideias contributivas, sem pretensões a definitivas e tão-só contributivas, à decifração do “enigma Cristóvão Colombo”. Ao par da cronologia historiográfica disporei a sua fácies oculta, sagrada e iniciática, pois nela poderá estar, como tentarei esboçar, a chave deste enigma secular.

Começo pelo elogio e referência obrigatória ao primeiro autor português que iniciou escola colombina: o já citado dr. José do Patrocínio Ribeiro (Ericeira, 9.7.1882 – Lisboa, 2.12.1923), que postumamente, em 1927, seria publicado o seu precioso livro referente ao tema colombino e, por quanto sei, ter sido o primeiro devidamente ordenado em letras impressas pelo sistema bilingue português-inglês, iniciativa do autor decerto para universalizar a sua tese. É obra rara mas que foi posteriormente a 1927 seria reeditada[1].

No ano imediato, 1928, um seu condiscípulo no tema colombino, Manuel Gregório Pestana Júnior (Porto Santo, 16.8.1886 – Porto Santo, 19.8.1969), deputado e Ministro das Finanças de um dos governos da 1.ª República Portuguesa e que teve papel relevante na Revolta da Madeira (também referida como Revolta das Ilhas e Revolta dos Deportados, levantamento militar contra a Ditadura Nacional (1926-1933) ocorrido entre de 4 de Abril a 20 do mesmo mês de 1931), iniciado na Maçonaria em 1913 ingressando na Loja Revolta, de Coimbra, com o nome simbólico de Bakunine, também ele publicou um livro dedicado ao assunto, muito pouco conhecido mas do qual me satisfaço em possuir um exemplar rubricado pelo autor[2].

Essas duas obras pioneiras viriam a ser rematadas magistralmente pelo professor Mascarenhas Barreto em 1988, num livro de grossura razoável onde procurou provar, por exaustivo cardápio documental e assentando a sua tese na Kaballah judaico-cristã, nomeadamente a Gematria[3], ter sido português o almirante Cristóvão Colombo[4]. Mais recentemente, no seguimento do anterior, tem-se a magnífica investigação e divulgação colombina realizada pelo dr. Manuel da Silva Rosa, açoriano de Madalena do Pico nascido em 1961, em várias partes do país e do mundo[5].

Contudo, para o reconhecimento merecido ir para o seu legítimo donatário, quem mais aprofundou e clareou o esoterismo colombino, em três textos magistrais, foi o fundador da Sociedade Teosófica Brasileira (1928-1969), Professor Henrique José de Souza (São Salvador da Bahia, 15.9.1883 – São Paulo, 9.9.1963)[6], polígrafo de raro talento com uma vida toda ela ao serviço incondicional da Cultura e do Espírito.

Ainda segundo Mascarenhas Barreto (Augusto Cassiano Neves Mascarenhas de Andrade Barreto, Lisboa, 27.1.1923 – Lisboa, 3.1.2017), prosseguindo a tese iniciada por Patrocínio Ribeiro, Cristóvão Colombo era filho (bastardo? – pergunto eu) do Infante D. Fernando, Duque de Viseu e de Beja, Mestre da Ordem de Cristo, e terá nascido no Baixo Alentejo, na herdade do Monte dos Columbais, perto das vilas de Colos, freguesia de Vale de Santiago, em Cuba, no concelho de Odemira, suspeição já levantada muito antes, em 1926, pelo eminente galego D. Ricardo Beltrán y Rózpide, presidente da Comissão da Casa das Índias e da Academia Real de História[7]: “que o descobridor da América não nasceu em Génova e que foi oriundo de algum lugar da terra hispânica, situada na banda ocidental da Península, entre os Cabos Ortegal e São Vicente”, isto é, entre o extremo Norte da Galiza e o extremo Sul do Algarve. É precisamente na citada herdade alentejana que os autores portugueses instalam Colombo, servindo-se dos indícios e provas que têm recolhido. O próprio Paolo Toscanelli, célebre cosmógrafo italiano que se correspondeu com ele, em carta dirigida de Génova a Lisboa, datada de 1474, fala entusiasticamente de Portugal e trata o almirante por português. Diz: “Não me surpreende, pois, por estas e muitas outras coisas que sobre o assunto poderiam ainda dizer-se, que tu, que és dotado de uma tão grande alma, e a mui nobre nação portuguesa, que em todos os tempos tem sido sempre enobrecida pelos mais heróicos feitos de tantos homens ilustres, tenhais tão grande interesse em que essa viagem se realize”[8].

Em Abril de 1507 é publicado o Mapa de Waldseemüller ou Universalis Cosmographia, da autoria do cartógrafo alemão Martin Waldseemüller, onde aparece pela primeira vez a palavra América e adicionando no seu segundo mapa, além de uma caravela portuguesa, a indicação de que “Colombo era um capitão português”[9].

Dos seus dois filhos, Diogo e Fernando Colombo (em castelhano, Diego e Hernando Colón), este último, radicado em Espanha, primeiro manifesta estranheza sobre o total desconhecimento da naturalidade de seu pai, e a seguir contrapõe com as seguintes palavras flagrantes, na sua obra biográfica Historia del Almirante: “Ele quis que fosse desconhecida e incerta a sua origem e pátria”[10]. Isto, dentre outras razões, pressuponho, talvez por causa da lei do segredo de Estado que então dominava, em razão das políticas socioeconómicas geradoras de controvérsias e hostilidades entre portugueses, espanhóis e genoveses, os principais interessados na descoberta e conquista marítima de novas terras, consequentemente, tomando para si ainda maiores riquezas. Como Portugal estava à dianteira do processo, logo tudo quanto fosse português era abertamente hostilizado pelos adversários, e assim terá convido ao almirante esconder, por motivos políticos, essa sua pressuposta naturalidade portuguesa, para isso tendo inclusive criado “blagues” em volta da sua origem verdadeira, indo adoptar a língua castelhana como oficial – em cujas cartas denota-se indisfarçavelmente entrecruzar as línguas espanhola e portuguesa – pela mesma razão estatal da lei do sigilo, e igualmente por ter sido bem acolhido na corte dos reis católicos, Fernando e Isabel, a cujo serviço esteve após ter fixado domicílio no país vizinho, em 1486. Em casa alheia adoptam-se os costumes dos hospedantes, assim mandam as regras da boa educação e ética dos países civilizados, como prevalece até hoje. Tendo o retratado contraído matrimónio, em 1479, com Filipa Perestrelo Moniz, filha do navegador Bartolomeu Perestrelo, como informam os autores portugueses, descobre-se que:

a) Pedro Álvares Cabral, descobridor oficial do Brasil, casou-se com Isabel de Castro, neta de Isabel Perestrelo (mãe de Filipa Perestrelo), pelo que, por afinidade, era primo de Cristóvão Colombo;

b) Luís Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas, era bisneto de João Vaz de Camões, irmão de Gonçalo Vaz de Camões, avô do marido de Inês Dias da Câmara, e como esta era meia-irmã de Cristóvão Colombo, este era, por afinidade em terceiro grau ascendente, parente do poeta épico;

c) Vasco da Gama era bisneto de Estêvão da Gama, tio de Guiomar Vaz da Gama, portanto, seria tio-avô de Luís Vaz de Camões, que o tornou personagem principal da sua obra épica. Como a mesma Guiomar Vaz da Gama era tia-avó de Lopo Vaz de Camões, casado com Inês Dias da Câmara (meia-irmã de Cristóvão Colombo), o descobridor do caminho marítimo para as Índias Orientais era parente do almirante das Índias Ocidentais[11].

Se porventura – como se verá mais adiante – Cristóvão Colombo seria da família Zarco, tal poderá explicar o seu interesse familiar em fixar-se na Ilha de Porto Santo, a primeira a ser descoberta ainda na Gesta Henriquina, em 1418, e descoberta por um Zarco: João Gonçalves Zarco, juntamente com Tristão Vaz Teixeira. Passados escassos oito anos, o Infante D. Henrique nomeou Bartolomeu Perestrelo (c. 1400 – Porto Santo, c. 1457), de antecedente italiano (Placência) mas nascido na freguesia de Santa Marinha de Lisboa, Mestre da Ordem de Cristo ao serviço da Casa do Infante, o primeiro Capitão Donatário de Porto Santo, em 1426, tendo iniciado o povoamento da ilha com o apoio da Ordem Franciscana em 1428.

Aquando do povoamento, segundo uma memória antiga reproduzida no Elucidário Madeirense do padre Fernando Augusto da Silva em parceria com Carlos Azevedo de Meneses, obra editada no Funchal em 1921 e depois reeditada em vários volumes em 1940, Bartolomeu Perestrelo levou consigo uma coelha prenha que acabou escapando, cujos descendentes “povoaram” a ilha depredando a sua vegetação. Isto é lenda, mas é lenda ocultando algo mais simbolizado na coelha ou coelho, já de si símbolo lunar de fecundidade. Poderá referir-se à possibilidade de Bartolomeu Perestrelo ser um “cristão novo” (judeu convertido). Com efeito, o onomástico hebreu Sepharad era dado à Península Ibérica como “Terra de Coelho”, e dele deriva o de Sefardita, o judeu ibérico, cultor de heterodoxias judaicas englobando o messianismo e as ciências herméticas a que este Capitão Donatário não terá sido alheio, nem que fosse por herança do seu avô-paterno Gabriel Palastrelli, italiano de Placência fixado em Lisboa onde era afamado astrólogo, além das suas relações próximas com o tio do Infante D. Henrique, o rei D. Afonso V, que igualmente era um cultor das ciências herméticas de que deixou um Tratado Alquímico sobre a Pedra Filosofal, que já publiquei várias vezes. Não terá sido ele alheio nem os que o acompanharam no povoamento da ilha, observando-se muitos costumes semitas na sua população, onde “todos são primos e primas”, e até nos hábitos gastronómicos, onde o bolo de caco, por exemplo, apresenta severas semelhanças com o pão de pita dos semitas.

Afigura-se-me impossível negar que os antecedentes italianos de Bartolomeu Perestrelo não tenham servido para depois inventar, no século XIX, o mito da origem genovesa de Cristóvão Colombo.

Do quarto casamento de Bartolomeu Perestrelo, cerca de 1450, com Isabel Moniz, que após enviuvar chegou a ser donatária de Porto Santo por curto período, nasceu a filha Filipa Perestrelo Moniz (c. 1455 – c. 1484), que casaria com Cristóvão Colombo por volta de 1479. Viveram na casa da família Perestrelo em Porto Santo, onde nasceria o seu primogénito, Diogo Colombo, nos fins de 1479 ou inícios de 1480. Enquanto donzela, Filipa Perestrelo Moniz viveu com uma das doze “donas” do Mosteiro de Santos-o-Velho, comenda feminina da Ordem de Santiago, em Lisboa[12]. Se bem seja afirmado como plausível que Filipa Moniz faleceu e foi sepultada na Capela da Piedade no Convento do Carmo[13], em Lisboa, também há quem conteste e afirme que ela faleceu e foi sepultada ao lado do seu pai na Matriz da Piedade, em Porto Santo, ou então na Sé do Funchal[14]. A Matriz de Porto Santo está muito alterada e falta-lhe muitíssimo do original, quase tudo, túmulos incluídos; a Sé do Funchal, muito melhor conservada, mesmo assim não revela qualquer túmulo relacionado à pessoa da nobre esposa do almirante português que deu o Novo Mundo ao Mundo.

É estranho, estranhíssimo que a esposa não esteja sepultada ao lado do esposo, seja em Sevilha, seja em Génova, e fique só na última morada em solo português. Ora, isso não confere com quaisquer pretensos antecedentes sevilhanos ou genoveses, seja qual for o pretexto, desde o mais elaborado ao mais simples, muito menos ainda era possível um plebeu de origens humildes – fosse sevilhano, genovês ou português – que misteriosamente chegou a almirante, casar com uma nobre portuguesa próxima da coroa: “As regras do tempo mostram-nos que um plebeu nunca se casava com uma nobre, pelo que a origem de Colombo é assaz duvidosa”[15].

Mas pretexto maior será o do posicionamento geográfico privilegiado de Porto Santo a 33º de latitude norte, de cujo ponto mais elevado, o Pico do Facho, irradiam-se as linhas de orientação para três blocos continentais – Europa, África, América – a que este “ponteiro” não foi insensível na partilha do mundo em Tordesilhas (7.6.1494), o que já antecedia em previsão o acontecido entre Portugal e Espanha, com a “parte de leão” para os portugueses, exclusivos conhecedores das navegações de mar de longo, não raro repassando aos nuestros vecinos informações truncadas na cartografia.

O Pico do Facho do Quinto Luzeiro que alumiaria a rota marítima de Colombo, arauto do mesmo Luzeiro (Vénus), indo lançar os alicerces de uma nova civilização num novo mundo.

A famosa sigla com que Colombo se assinava na carta ao seu filho Diogo, fechada em Sevilha a 29 de Abril de 1498, parece ser a que contém, dentre outros elementos mais, tanto o seu verdadeiro nome como a sua verdadeira origem, tanto no conspecto histórico como no esotérico, nisto utilizando a criptografia cabalística, a qual por si só, inquestionavelmente, assinala o almirante como um hermetista.

O ilustre investigador Afonso Dornelas (possível descendente de um irmão do navegador João Gonçalves Zarco), ao examinar a sigla do almirante, verificou que o traço oblíquo terminal precedido de um ponto se chama colon, tanto em português como em castelhano. É o sinal gráfico de pontuação separador de frases num mesmo período, a que os antigos chamavam separador “imperfeyto” e os modernos chamam correntemente de “ponto e vírgula”, sendo o “perfeyto” os “dois pontos”.

Como Xpõ, no diminutivo grego, significa “Cristo”, e como ferens, em latim, indica “aquele que leva, que transporta”, Afonso Dornelas concluiu que a sigla criptográfica deveria indigitar um nome. Traduzindo “Cristo-ferens” por Cristóvão e juntando-lhe o sinal colon (./), obteve: Cristóvão Colon[16].

Na continuação dessa análise mais criptográfica que paleográfica, o investigador Saul Santos Ferreira, ilustre poliglota e hebraísta português, verificou que o caracter gráfico ./ (colon ou “ponto e vírgula”) correspondia ao sinal < (aspa) da escrita hebraica, denominado zarga, zargo ou zarco.

Ora, Zarco é o apelido português celebrizado pelo já referido navegador João Gonçalves Zarco, que ao serviço do Infante D. Henrique, juntamente com Tristão Teixeira, descobriu o Arquipélago da Madeira (Porto Santo, 1418; Ilha da Madeira, 1419)[17], vindo a ser nobilitado com o sobrenome de Câmara.

Um dos mais íntegros genealogistas do século XVII, Alão de Morais, alude a um rumor de que o nome zarco poderia provir da mutação da palavra zargo, significando “vesgo”, pelo que o apelido se deveria a uma alcunha resultante de um defeito ocular[18].

Essa dedução, com base num rumor não fundamentado, está vazia de base filológica, pois ainda que a palavra significativa de “vesgo” ou “zarolho” seja zargo, já zarco adjectiva expressamente uma pessoa que “tem os olhos azuis claros ou garços”, provindo do étimo árabe zarcá[19].

O investigador Saul Santos Ferreira considerou, coerentemente, que Cristoferens nada tinha a ver com São Cristóvão, o qual, segundo a lenda hagiográfica, transportara aos ombros o Menino Jesus de uma margem para outra de um rio caudaloso. Concluiu que, na linguagem da primitiva Igreja Moçárabe da Hespanha, a palavra Cristóbal significava “Cristo Senhor”, correspondente à própria pessoa do Salvador. Para ele, a sigla deveria exprimir:

“Cristo salve, Maria salve, José salve”, é expressão equivalente a “Cristo, Maria et Joseph consalvis”. Desta maneira, deparava-se-lhe a palavra consalves, ou seja, gonçalves.

Santos Ferreira considerou Xpo ferens como sendo Salvador, os três SSS como Gonçalves, e ./ como Colon, Zarco, obtendo assim o nome civil do almirante das Índias Ocidentais: Salvador Gonçalves Zarco[20].

Interpretado dessa maneira, X M Y expressa a Cristo-Maria-Yoseph, Joseph ou José, trilogia que serviu de “santo-e-senha” entre os trinitários fundados por São João da Matha e São Félix de Valois em 17 de Dezembro de 1198, que inicialmente antes de terem Regra própria adoptaram a de São Bento, dos quais talvez fosse donato ou irmão benfeitor o mesmo Cristóvão Colombo (nisso podendo encontrar-se a justificativa do seu nome no grego Kolon, “membro, parte, partícipe”), ademais tendo sido a Cruz Trinitária quem enfunou as velas das naus capitaneadas por ele na rota certa do continente americano. Além disso, terá, tal como a Ordem da Santíssima Trindade, em diminutivo Trinitária, perfilhado da ideia messiânica das três Idades do Mundo já propalada no século XII por um outro beneditino mas da Regra de Cister: o abade Guioacchino do mosteiro da Fiore, na Calábria, ou seja, Joaquim de Flora. Colombo chega mesmo a assumir-se joaquimita confesso, como atestam os seus escritos, ou antes, os documentos que fez reunir para servirem de prova aos seus pontos de vista. Constituem parte dos mesmos trechos de João Rupescissa da Roca Talhada, condenado por heresia nos meados do século XIV[21].

O ideal paraclético e parúsico, portanto, futurista, dos trinitários, avizinhava-os ideologicamente dos bernardos e dos franciscanos “beguinos”, e inclusive dos carmelitas no que possuem de hipertúlico, e por seu pendor de expansão, centrífugo próprio para criar diáspora extracontinental, mesmo reservando-se na desculpa da sua principal missão ser a de resgatar cristãos escravos na África, desde muito cedo travaram-se de boas relações com a Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, vulgo Ordem de Cristo (sucessora directa e herdeira universal da Ordem dos Templários), sendo a própria signa cruzia da sua instituição muitíssima idêntica à pátea Templária, milícia esta que também portou o nome de Cavaleiros Pobres de Cristo e da Santíssima Trindade (Pauperes Comilitones Christi Santaeque Trinitatis). Ademais, aquando do processo de legalização da Ordem de Cristo, quem o coordenou foi um trinitário, frei Estevão de Santarém, pregador e confessor da rainha D. Isabel e do rei seu marido, D. Dinis. Aos seus conselhos, intercessão e indústria, escreveu frei Manuel da Esperança, se atribui justamente parte notável da glória que rendeu a Portugal a fundação desta Ordem[22].

Não terá sido mero acaso, perante as evidências já expostas, o facto das primeiras ilhas ameríndias avistadas pelo almirante serem batizadas com os significativos nomes de San Salvador, Cuba e a cidade de Trinidad, além de batizar uma enseada e um rio recém-descobertos com dois nomes inconfundíveis: Puerto de Santa Maria de Belen e Rio de Belen, que é dizer, o Rio Tejo defronte a Santa Maria de Belém, por esse tempo povoado arrabalde ao ocidente de Lisboa.

Em outras e vastas toponímias dadas às terras recém-descobertas, há ainda mais indícios sobre a pressuposta origem portuguesa do almirante. Por exemplo: Vale del Paraizo – foi em Vale do Paraíso, povoação próxima de Vila Franca de Xira, que Cristóvão Colombo foi recebido por D. João II de Portugal, e onde esteve hospedado três dias, em Março de 1493, quando, vindo do regresso da descoberta do Novo Mundo, intencionalmente arribou a Lisboa. Isla de San Juan BautistaSão João Batista, paróquia de Beja desde 1320. Castillo Verde foi a primeira fortaleza fundada por Colombo na América – indo identificar-se à toponímia de Castro Verde, ao sul de Beja. Cabo de San VicenteCabo de São Vicente, no extremo ocidental da província do Algarve. Por aqui fico, para não me alongar demasiado na similitude das toponímias lusa e castelhana e correr o risco de maçar o leitor…

Cristóvão Colombo – “Aquele que transporta a Pomba do Cristo” – tão-só é o nome sacramental e não cartorial, portanto, simbólico, do Iniciado que foi, ficando assim conhecido para a posteridade, enquanto o nome batismal ficaria oculto em cifra gemátrica que, solucionada, desvelaria o seu de joaquimita confesso, possivelmente ligado ainda a um Instituto muitíssimo mais secreto: a Ordem de Mariz, a quem em Espanha a de Santa Maria de Montesa (de função idêntica à de Cristo portuguesa) deu cobertura exterior.

Referindo-se a Saul Santos Ferreira e ao ilustre genealogista António Ferreira Serpa, comentadores da obra de Dom Tivisco intitulada Salvador Gonsalves Zarco, o Professor Henrique José de Souza adiantou[23]:

“Não se deve esquecer que ambos os comentadores do livro por nós citado procuram provar que Salvador Gonçalves Zarco era de origem portuguesa, por isso mesmo, embora tão valioso trabalho que a outros supera, além do mais por se servir da mais preciosa de todas as chaves, que é a filológica, bem longe está de expressar toda a verdade, ou seja, aquela por nós apontada: a de que Colombo era de “origem aghartina”, no que diz respeito à sua maternidade, pouco importando que o pai tivesse sido um nobre de sangue ao mesmo tempo português e castelhano, para fazer jus à “descida das Mónadas ibéricas”, através do chamado “Itinerário de Ió”, que deveriam formar a nova civilização ameríndia, cujo fenómeno é completado por uma outra misteriosa personagem, também de “estirpe aghartina” (pouco importando o que diga a História a seu respeito), ou seja, Pedro Álvares Cabral. Donde intitularmos a sua missão de `Codicilo do Testamento Espiritual de Colombo ao Mundo´.”

Quanto à afeição devocional do almirante ao Divino Espírito Santo, o Professor H. J. Souza também a refere com o seu raro talento e preciosa pena[24]:

“O Espírito Santo, manifestado em todas as religiões, lendas e tradições, é a Ave Sagrada da Sabedoria Divina. E, como tal, representa o Terceiro Logos. É a Voz que vem dos Céus e se manifesta na Terra como Palavra. A sua Morada é o Sanctum-Sanctorum da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria. Algo assim como se disséssemos que o Espírito aí se une com a Matéria.

“Em nosso artigo dedicado a Colombo, ao estudarmos a sua sigla e brasão, citámos a saudação que o mesmo nela fazia, seja ao Espírito Santo (em forma de Pomba), como a Maria, em forma de Água, Mar, etc. Mesmo porque Maria provém de Mar, as Águas, etc. E a prova é que nas pias de água benta dois MM entrelaçados se encontram por cima delas, não apenas para simbolizar o nome de Maria mas também para expressar o signo de Aquário.

“E como Colombo pertencesse à Ordem de Avis (anteriormente houve uma outra mais secreta ainda, com o nome de Maris), o que nos obrigou a fazer os “iniciáticos trocadilhos” que se seguem: Ave, Maria! Ave, Espírito Santo! – dizia Colombo na referida sigla. Enquanto nós outros: Ave Maris, Aves Marinhas, Avis raris in Terris! De facto, o “Grande Navegador Aghartino ou Jina” não passava de Ave rara na Terra. O seu nome provém de Columba, a Pomba de todas as Iniciações, o Espírito Santo das homenagens divinas. Do mesmo modo que em grego chamando-se ele Christoferens Columbus, é “aquele que carrega consigo o Cristo”. Donde a lenda de São Cristóvão “que carregava, de um lado ao outro do rio, as pessoas que dele necessitassem, até que um dia carregou o próprio Menino Jesus”. O sentido verdadeiro, entretanto, dessa passagem “de um lado ao outro”, é aquele de salvar as almas, conduzindo-as ao Céu, do outro lado da Vida. Donde o termo pontífice, ou “construtor de pontes”, que é muito mais antigo que o Cristianismo.”

Esses dois excertos de estudos do Professor Henrique José de Souza poderão explicar alguns dos enigmas ensombrando a figura de Cristóvão Colombo, a começar por aquele de querer manter incógnita a sua verdadeira origem, apesar de em dado momento ter se declarado natural de Génova, todavia ocultando os nomes do seu pai e da sua mãe, não se sabendo quem foram. Não creio que tenha mentido nem criado uma qualquer “blague” nova, antes lançando a jogo uma “charada iniciática”, feita não em Génova, onde não existe qualquer sinal plausível da sua presença aí, mas possivelmente em Lisboa e com o encobrimento de um italiano seu amigo radicado na capital do país: Lorenzo Giraldi, comerciante e intermediário entre ele e Paolo Toscanelli, comerciante e cartógrafo que cedeu várias cartas marítimas a Colombo, que assim soube quanto os italianos conheciam do mar de longo (mar alto) e das ilhas que nele haviam. Quanto ao pressuposto da sua “origem genovesa”, isso é expressamente alegórico e de claro sentido iniciático, senão repare-se: Génova fica, obviamente, na Itália, e sendo a Itália os “pés” da Europa, essa parte do corpo continental, tal como do humano, é astrologicamente regida pelo signo dos Peixes, estes que são o signo natal de Portugal. Génova é vizinha de Veneza ou, em transliteração livre, Vénus, que sendo “planeta do amor”, de natureza feminina, no seu mais alto sentido expressa a Mãe Divina, Universal[25]. Vénus também rege, diz a Tradição Iniciática das Idades, Lisboa e Sintra, esta consignada como Montanha de Eleição da Soberana Ordem de Mariz, deificamente afim à Hierarquia Celeste dos Arqueus ou os venustos Kumaras, com os quais Colombo seria um junto com Cabral, cuja essência espiritual de ambos, desde Quinhentos, coroa o cume da árvore genealógica dos deuses, santos e heróis da Raça dos Lusos.

Ainda sobre Veneza, tive ocasião de proferir numa carta reservada escrita para São Lourenço de Minas Gerais do Sul, Brasil, em 7.06.2005: “Veneza tem relações íntimas com Lisboa, inclusive no aspecto astrológico. Estando ambas as cidades sob a égide de Vénus, ainda assim Veneza tendo por ascendente o Leão (de São Marcos, do latim Marcus, que é o mesmo Macara sânscrito, cuja catedral é o omphalo ou ponto central da cidade), enquanto Lisboa ascende ao planeta Júpiter (dos Peixes, expressados nos mesmos do Tejo).

“Durante muito tempo a gôndola foi o principal meio de locomoção pelos canais de Veneza (em Portugal, e da mesma maneira, temos Aveiro…), todos eles desaguando na grande laguna a que se liga a lenda do misterioso dragão ou crocodilo habitando nas suas profundezas. Mas esse último é simbólico de Macara ou Makara, por habitar tanto na terra como na água, o que vai bem com a natureza psicomental desse mesmo Ser de desempenho primordial na Criação.

Quanto ao onomástico gôndola, divide-se em gundu (alemão), “intrépido”, e dôia ou gôla, do alemão wurm, “serpente”. Portanto, representa a “serpente intrépida” vogando sobre as profundezas drágonas da laguna, na realidade e pelo formato da barquinha, expressando a própria Lua com a sua órbita serpenteante em volta da Terra, a cujas águas e comoções ela assiste, transformando-as nas etéreas das volúpias amorosas de Vénus, de cujas energias é “espelho” para a Terra. Mas gundu ou guntu também significa “guerreiro”, no mesmo dialecto alemão. Tal “guerreiro” é representado pelo gondoleiro com a sua espada, ou melhor, remo arrastando a barquinha por águas seguras… para que não encalhe… no lodo doutros remos ou Ramos de Raças lunares, mais passionais que mentais. Assim, o conjunto expressa o Divino Kartikeya ou “Guerreiro Celeste” na sua Barca levando ao casal Enamorado (Arcano VI, o Andrógino em separado) ao Porto Seguro da Felicidade de um novo 5.º Sistema ou Ronda de Evolução Universal, exactamente o de Vénus, alter-ego do Globo em que vivemos e temos o ser.”

A sua devoção e culto ao Divino Espírito Santo e à Santa Virgem, ou melhor (por que não dizer?), a obediência que devia à Ordem de Mariz, levou o almirante a conduzir a sua esquadra chefiada pela nau Santa Maria, no regresso da sua primeira viagem e talvez causando estranheza à maioria dos expedicionários, invés de directamente às ilhas Canárias sob domínio de Castela[26], ao arquipélago dos Açores, domínio português. Aqui, na ilha de Santa Maria, entrevistou-se com o seu governador, o capitão D. João Castanheira, antigo cavaleiro da Ordem de Avis passado à de Cristo, comprovado protector dos trinitários e franciscanos, pois que foram estes a povoar em primeira mão os Açores, levando o Evangelho Eterno guarnecido pelas Armas Temporais de Cristo. Há, inclusive, uma ilha açoriana dedicada à memória dos trinitários: a Terceira, não só por ser a terceira ilha do arquipélago a ser descoberta mas também, sobretudo, por evocar a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade: o Divino Espírito Santo.

Em Santa Maria, onde ordinariamente se diz o almirante ter sido mal recebido, mas o mais certo terá sido o mal percebido pelos seus pares de Castela companheiros na aventura, feitas as saudações, feitos os relatórios à Ordem de Cristo, abonada de provisões e água de novo a esquadra se fez ao largo e invés de ir directamente para terras de Espanha, como seria normal, rumou a Lisboa. Também na terceira das quatro viagens que encetou ao Novo Mundo, aportou primeiro no Porto Santo e só depois nas Canárias, quando o normal seria o inverso por estas estarem mais próximas que aquele. O almirante seguiu rotas marítimas só suas conhecidas, que as soubera na Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres, onde aprendera as “primeiras letras” da navegação de longo, chegando a engolfar-se propositadamente, após passar as ilhas de Cabo Verde, nas correntes e ventos de noroeste, hoje conhecidas de todos quantos andam no mar, que inevitavelmente levariam às costas das Índias Ocidentais, indo assim chegar à actual América do Norte. Processo semelhante aplicou Pedro Álvares Cabral para alcançar a América do Sul, navegando um pouco mais de largo transversalmente indo aportar, ontem como hoje e inevitavelmente, ao areal de Porto Seguro na costa da Bahia brasileira.

Alguns, senão a maioria dos estudiosos, poderão objectar ao conhecimento prévio das rotas marítimas por Cristóvão Colombo de que durante largo tempo acreditou ter chegado à Índia Oriental, e depois passado a acreditar, com igual firmeza, que chegara ao Japão, e aí procurado avidamente o contacto com os indianos ou os japoneses. Pois seja, mas não se deveria esquecer ou tão-só ignorar que tais informações não são coevas do tempo da vida do almirante: foram escritas após a sua morte – para desacreditar a sua grande figura intentando mostrar o quão pouco ele sabia de cartografia e navegação – por aqueles mesmos ingratos que o meteram a ferros e o deixaram morrer na doença e na miséria: os inquisidores da Igreja em Espanha, apoiados por uma nobreza enciumada, despótica e oportunista ávida das riquezas imensas do Novo Mundo.

Ademais, a prerrogativa “Três Índias” vai bem com o conceito geográfico medieval que adentrou a Renascença, pois que essas subdividiam-se em Próxima Índia, Extrema Índia e Média Índia, correspondendo, respectivamente, às partes Norte e Sul do subcontinente indiano e à região africana hoje denominada Etiópia. Após a chegada ao continente americano de Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral, nos séculos XV-XVI, essas terras passaram a ser denominadas de Índias Ocidentais, contrapondo-as às Orientais, mas sempre realçando o designativo Ásia, tanto com o sentido imediato de território longínquo e exótico, para o viajante europeu, como, principalmente, com o de Assiah ou “Mundo”, cuja conquista espiritual teve a primazia da Gesta Dei per Portucalensis.

O professor Mascarenhas Barreto – assim como os seus prosseguidores portugueses, o último, mas não menos valoroso, o doutor Manuel da Silva Rosa, que graciosamente fez-me chegar às mãos um seu precioso tomo colombino[27] – acredita no seu livro, que é a sua tese, ter sido Salvador Gonçalves Zarco um espião português de D. João II posto ao serviço dos reis católicos de Espanha. Não penso assim, pois nem os acontecimentos da época, com provada cronologia documentada, tampouco o normativo canónico regulador das Ordens, permitem-me admitir essa ideia. Se Colombo pertencia à Ordem de Cristo, então só o Geral da mesma poderia decidir sobre o aprazar ou “emprestar a prazo” o navegador à Coroa, decisão que nunca teria a primazia do rei, qualquer que fosse, pelo menos legitimamente; ademais, a riqueza de conhecimentos náuticos possuída pelo almirante à Ordem a devia e à Ordem, na pessoa do seu Geral, devia primeiro prestar contas detalhadas, ou seja, os relatórios com todos os pormenores, e só depois à pessoa do monarca. Este ficaria ao par do indispensável, a fim de saber se o seu “investimento” corria ou não bem, e pouco mais nunca sem exceder o trivial. Foi sempre assim ao longo do processo das Descobertas Marítimas, pelo que a posição de independência de Cristóvão Colombo ante a Coroa não era excepcional. Por isso, tive ocasião de dizer algures: todos sabiam que a Escola de Sagres sabia, mas nem todos sabiam o que a Escola de Sagres sabia.

O normativo institucional militar, canónico e secular que assegurava a regularidade do legítimo da Ordem Militar de Cavalaria e Religião, era mantida e sujeita, por um lado, ao governador e mestre geral, que se correspondia directamente com o rei, e por outro lado, à mesa bispal e consequentemente ao papa. Mas ela veio a ser ostensivamente anulada e apropriada por D. João II, usurpo ilegítimo culminando no assassínio a punhaladas pelo próprio monarca, nos paços de Setúbal, do seu cunhado D. Diogo, Mestre da Ordem de Cristo e 4.º duque de Viseu, por pertencer ao partido da Casa de Bragança sua opositora, odiada por ele que a extinguiu (só veio a ser restaurada no reinado de D. João IV), e igualmente por ambicionar o domínio pessoal da Ordem, então senhora dos mares e terras conhecidas, o que significava um incomensurável poder e uma indescritível riqueza exclusivos à sua real pessoa[28]. Decepando a linhagem bragantina que reconduzia até ao primeiro rei de Portugal, ordenando a execução em 1483 do duque de Bragança e levando à fuga do marquês de Montemor, do conde de Faro e de outros acusados; amordaçando o clero que se opunha a tal política de “quero, posso e mando”, ficando como exemplo geral a sua ordem de decapitação pública do bispo de Évora, D. Garcia de Meneses, em 1484, e executados, presos ou mandados para o degredo muitos outros; dominada a Ordem de Cristo, também em 1484, com o assassinato do seu Mestre e Governador, que era irmão de D. Leonor, mulher do rei, declaradamente favorável ao partido da Casa de Bragança, como disse, D. João II ficou com o terreno político-religioso livre de opositores, inteiramente aberto para fazer o que quisesse e como entendesse. Com tudo isso, não se livrou a morrer de forma estranha, diz-se, por envenenamento, ele que repetia constantemente do alto da sua prepotência e domínio: “Eu sou o senhor dos senhores, não o servo dos servos”.

Foi nesse ambiente que se encetaram as negociações entre Cristóvão Colombo e D. João II, as quais continuaram depois dele já estar aprazado aos reis católicos, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela. Tendo a acreditar ter havido concordata sobre o empréstimo do almirante português aos reis do país vizinho, negociações essas levadas a cabo com a ingerência directa, ainda assim discreta, das Ordens de Cristo e de Montesa, cujos embaixadores negociavam em nome dos seus administradores, perseguindo a ambição maior, secreta mas que se apercebe em várias partes dos escritos do almirante, da realização do velho sonho sinárquico dos antigos templários, de quem eram descendentes directos: o de unir o Oriente ao Ocidente e neste edificar o Templo ou Casa da Jerusalém Celeste, visão joaquimita propícia à III Idade, cujo espaço da sua inauguração só podia ser em uma terra virgem, livre e ignorante do que fosse mal e pecado, portanto, num Novo Mundo, que a tanto ficou destinado o quinto continente – a América. Isso mesmo se conclui da leitura do Libro de las Profecías de Cristóvão Colombo, actualmente na Biblioteca Capitular e Colombina da Catedral de Sevilha, onde o almirante afirma a intenção de transportar para a América o novo biótipo humano capacitado a levantar e habitar o Novo Templo da Nova Jerusalém: “Habitat in tabernaculo tuo, aut [qui] requiescet in mons sancto tuo”, conformado à lição do Salmo 144 da Vulgata Latina. Considerando-se predestinado a essa missão, afirma: “Fiz-me mensageiro junto destes Príncipes (Reis Católicos) do novo Céu e da nova Terra de que fala Nosso Senhor no Apocalipse, pela boca de S. João, após tê-lo feito pela boca de Isaías”[29].

Com efeito, ainda em Baza o almirante teria assegurado a Fernando e a Isabel que a sua façanha seria consagrada “à reconstrução do Templo”[30]. No seu Libro de las Profecías, em que se jacta de ter sido o escolhido do Céu para descobrir o Novo Mundo, como disse, existem períodos interessantíssimos que fazem luz sobre a sua pessoa, como, por exemplo, os dois seguintes que traduzo do castelhano para português: “Quem duvida que este lume não foi do Espírito Santo, assim como de mim, o qual com raios de claridade maravilhosa consolou com a sua santa e sacra Escritura a voz muito alta e clara com 44 livros do Velho Testamento, e 4 Evangelhos com 23 Epístolas daqueles bem-aventurados Apóstolos, avivando-me a que eu prosseguisse, e de contínuo sem cessar um momento me avivam com grande pressa?”. “… e digo que não somente o Espírito Santo revela as coisas por vir às criaturas racionais, mas que no-las mostra por sinais do céu, do ar e das bestas quando lhe apraz”.

Mesmo com quanto disse até aqui, não deixará de opor-se o que afinal é o busílis da questão: se Cristóvão Colombo era português, por que optou por Espanha em vez, como seria natural, do seu próprio país?

Certamente por causa das ideias egocêntricas e atitudes repressivas de D. João II e à maior aceitação do seu projecto por parte dos reis católicos, principalmente de D. Isabel, os quais por certo queriam tomar parte na diáspora marítima e respectivo empório que até então Portugal detinha como exclusivo donatário universal. De maneira que a concordata de ceder Cristóvão Colombo a Espanha só podia ser feita em primeira mão pela Ordem de Cristo à de Montesa[31], só depois vindo ao processo as Coroas interessadas. Assim também se refrearia a desmesurada ambição de D. João II e se abriria caminho para firmar, como esse acto legítimo, a posterior partilha do Mundo entre Portugal e Espanha pelo Tratado de Tordesilhas (1494). Tanto assim é que após a chegada de Colombo às Antilhas em 1492, no ano seguinte iniciaram-se de imediato conversações na corte castelhana sobre o domínio dos mares e suas terras, requeridas pela coroa portuguesa.

De acordo com Manuel J. Gandra[32], o conflito entre Colombo e D. João II deveu-se ao facto deste soberano entender controlar e orientar todo o processo para seu próprio proveito. Contudo, durante o reinado cesarista deste “Príncipe Perfeito”, como o alcunhou a História, ainda assim não deixando de ser assassino mesmo alegando razões de Estado, é incontestável que brilharam firmes as luzes da Cultura e Conquista, não tanto por mérito real mas mais por iniciativa da corte, resultado exclusivo das ideias “humanistas e iluministas” provindas de Itália, abrindo a Renascença, entradas em Portugal reinando ainda D. Afonso V.

As represálias contra a nobreza que se lhe opunha, paralelamente à supressão dos concelhos e à espoliação da Ordem de Cristo, que se transforma no centro de reacção antiprincipesca, de cujas caravelas as suas insígnias são substituídas pelas armas reais – das quais já eliminara também a Cruz de Avis – enfraquecendo substancialmente as sinergias nacionais[33]. Centralizando todo o poder na sua política, D. João II não entendeu o simbolismo expresso nas Armas portuguesas, determinando a modificação da disposição dos escudetes dentro do Escudo de Armas de Portugal, na denominada “Operação de endireitar o Escudo” efectuada em 1485.

O monarca parece desejar que Cristóvão Colombo o sirva incondicionalmente; sabe da sua sabedoria de mar e que, ademais, é conterrâneo alentejano pertencente à melhor cepa da árvore genealógica nacional. Mitografias aparte, isto mesmo é explicitado por ele em carta ao almirante[34]:

“Cristóbal Colon.

“Nós D. João […] vos enviamos muito saudar. […] E quanto à vossa vinda cá, certo, assim pelo que apontais como por outros respeitos para que vossa indústria e bom engenho nos será necessário e prazer nos há muito de virdes porque o que a vós toca se dará [de] tal forma de que vós deveis ser contente. […] E por tanto vos rogamos e encomendamos que vossa vinda seja logo e para isso não tenhais pejo algum e vos agradeceremos e teremos muito em serviço. Avis, 20 de Março de 1488. A Cristóvam Colom nosso especial amigo em Sevilha.”

O certo é que Cristóvão Colombo (grafado na carta de dois modos diferentes, o último notoriamente em português arcaico) não atendeu ao pedido do monarca, pois ao dirigir-se a D. João II, escreveu-lhe: “Vós recebestes a Cristóvão Colombo como amigo, desejastes vê-lo, e o agasalhastes no princípio com muita humanidade. Depois disto não cometeu delito algum, e deliberais sobre tirar-lhe a vida: proceder assim é faltar ao direito das gentes, e querer atropelar sem pejo as leis mais santas da sociedade” (carta transcrita por D. Diogo de Souza em sua História de Portugal, p. 697, Lisboa, 1852). Referindo-se a este rei, Colombo já afirmara antes: “[…] digo milagrosamente, porque fui ter a Portugal, cujo rei entendia de descobrimentos mais do que nenhum outro: Ele (Deus) lhe atalhou a vista, ouvidos e todos os sentidos, que quase em 14 anos não lhe pude fazer compreender o que digo”[35].

Contudo, também não foi fácil ao navegador tornar aceites os seus projectos na corte de Castela, como desabafa numa carta endereçada aos monarcas castelhanos: “Já sabem vossas Altezas que andei sete anos em vossa corte importunando-vos por isto; nunca em todo esse tempo se achou piloto nem marinheiro, nem filósofo, nem de outra ciência que todos não dissessem que a empresa era falsa; que nunca eu encontrei ajuda de ninguém salvo de Frei António de Marchena, depois daquela de Deus eterno”.

Esse frei António de Marchena, em 1484, professaria com o cargo de custódio no mosteiro de La Rábida da Ordem dos Frades Menores de São Francisco na Província Andaluza de Huelva, sendo português de nação como João Peres de Marchena (falecido antes de 1513)[36], cujo nome nos documentos mais recentes não condiz com o inscrito nos mais antigos, ademais confirmando aquele na carta de Colombo, como demonstra com todo o rigor a resposta que lhe deu Isabel, a Católica: “Parece-nos que seria bom que levásseis convosco um bom astrólogo e parece-nos que seria bom para isso Frei António de Marchena, porque é bom astrólogo, e sempre nos pareceu que se conformava com o vosso parecer”[37].

Por seu turno, Las Casas também diz[38]:

“Segundo parece por algumas cartas de Cristóbal Colon escritas por sua mão (que eu tive nas minhas) aos Reis desta Isla Espaniola, um religioso que tinha por nome Frei António de Marchena foi quem muito o ajudou, para que a Rainha se persuadisse e aceitasse a petição. Nunca soube a que Ordem pertenceu, mas creio que fosse a de São Francisco, por conhecer que Cristóbal Colon, depois de Almirante, sempre foi devoto daquela Ordem. Tampouco consegui saber quando, nem em que ponto, nem como o favoreceu ou que entrada teve com os Reis o já dito Padre Frei António de Marchena.”

Face à política de sigilo, será natural que o consignado autor desconheça qual o tipo de intervenção exercida pelo religioso português junto da corte espanhola, também não sendo de admirar que tivesse sido ele o intermediário nas negociações do aprazamento de Cristóvão Colombo entre a Ordem de Cristo, o rei português e os reis de Aragão e Castela. A verdade é que frei António de Marchena acompanhou sempre o almirante nas suas viagens ao Novo Mundo[39]. Na primeira, e pela lista incompleta da equipagem que chegou até aos nossos dias, igualmente figuravam os nomes de dois grumetes portugueses: “João Arias, filho de Lopo Arias, de Tavira, e Bernaldim, criado de Afonso, marinheiro do piloto João Rodrigues, de Mafra”. Também a transacção comercial com os nativos do Novo Mundo fez-se em moeda portuguesa, como relata Colombo aos soberanos espanhóis: “Vi dar 16 novelos de algodão por três ceotis de Portugal, que é uma branca de Castela…” O ceotil (nome derivado de Ceuta) foi mandado cunhar por D. João I, em comemoração da primeira empresa marítima dos portugueses em África no ano 1415, de que resultou a conquista dessa praça africana para o domínio português e o início do período das Descobertas Marítimas. Além disso, nos escritos que deixou à posteridade, em latim e castelhano, verifica-se à primeira vista que a ortografia do almirante nessa última língua é arrevesada e a maioria dos termos são portugueses, ou então aportuguesados, pois muitos vocábulos que utilizou pertencem, a rigor, à língua portuguesa, e a construção sintáxica, como era na época, é positivamente lusitana.

Ainda que tenha oferecido a Espanha a glória inigualável da descoberta do caminho marítimo para a América, dando início a um novo ciclo da civilização, contudo, os louros da vitória foram depostos na cabeça dum mercador florentino, que vivia ora em Lisboa, ora em Sevilha: Américo Vespúcio, que afinal nem sequer deu o nome, Américo, ao continente descoberto, América, porque nos registos cartoriais o seu nome é Alberico[40], enquanto os naturais da costa americana onde Colombo chegou, os Amariques. Mas o poder do vil metal agitado pela política viciosa de sempre, fez cair o justo e levantar o injusto… De maneira que Vespúcio nada teve a ver com o processo marítimo, apenas o secundou ou menos que isso, se levar-se em conta que mesmo antes de Colombo os portugueses da Escola Naval de Sagres já haviam chegado à Terra Nova e ao Labrador[41]. Vespúcio não era português nem de Sagres, mas Colombo decerto era, e aí recolheu as informações necessárias ao sucesso da sua empresa. O italiano de Florença (a quem alguns historiadores posteriores deram gratuitamente parentesco com Cristóvão Colombo, ponto de partida da ideia insubstanciada do almirante ter sido genovês) não passou de comerciante fretador de navios, ajuntando ao seu espírito corso o ir sacar o que não lhe pertencia, perseguindo de longe a esquadra expedicionária, como também fez com a de Pedro Álvares Cabral, conforme acusa Jaime Cortesão. Homem de negócios num país governado pelo papado, convinha aos reinos vassalos de Roma manter com esta as melhores relações político-económicas, sob pena de excomunhão e o mesmo país tornar-se pária. O mais que Vespúcio fez foi aproveitar-se (deixando-se aproveitar…) de tudo quanto os outros fizeram, inclusive de boa parte do conhecimento de navegação e instrumentos náuticos[42]. A sua fama assenta nisso, e nada mais!… Cristóvão Colombo, por sua vez, foi votado ao ostracismo e à miséria, que geralmente é a recompensa dada aos Grandes Homens pelos pobres de espírito cujo agradecimento nunca vai além do interesse imediato, e assim, referindo-se a si próprio, escreveu no seu Diário esta frase dolorida: “O que te está sucedendo agora é a recompensa dos serviços que prestaste a outros amos”. Outros amos eram os reis de Aragão e Castela, o que desmente formalmente a origem espanhola de Colombo, porque o seu verdadeiro amo era o rei de Portugal.

Rei de Portugal repressor e narcisista, tirano e egocêntrico, cuja última fase da repressão foi preparada pelo Concílio de Trento e executada pelos “cães de fila” da ortodoxia cesarista, os dominicanos (domini canes), através da Inquisição.

A carta do monarca português ao almirante, citada anteriormente, era um “salvo-conduto” para ele entrar no reino “sem que sejais preso, retido, acusado, citado, nem demandado por nenhuma causa, ora cível, ora crime de qualquer qualidade”. Isto demonstra que Colombo não andaria nas melhores relações tanto com D. João II como nas boas graças do Santo Ofício, talvez por suspeita de partidário da Casa de Bragança, talvez também por suspeita de heresia por simpatia às ideias cabalísticas dos sefarditas judeus. Fosse como fosse, o certo é que não atendeu ao convite do rei e ficou-se por Sevilha. Disso deduzo que acaso terá sido a contragosto que D. João II viu ceder “Colón-Zarco” ao reino vizinho, e só terá aceite o facto obrigado pelos motivos impostos pela política internacional, ficando impedido de dispor a seu bel-prazer do almirante para espantalho dos seus “espalhafatos de navegação”, ele que não era da Ordem de Cristo e tampouco vez alguma fora ao mar. “Só o estar em Sintra e sentir o cheiro do mar, causa-me náuseas”, confessou uma vez quando, por razões de Estado, contrariado teve que ir ao Paço de Sintra, pois que a detestava apesar de no mesmo ter sido coroado rei em 31 de Agosto de 1481.

Pela leitura esotérica, antes, teosófica da sua sigla, Cristóvão Colombo desvela-se o Adepto Real que foi. Os três SSS da sua assinatura criptográfica são os mesmos da celebração pentecostal do Paracleto, que tanto os monges-cavaleiros templários como os seus descendentes, os freires cavaleiros de Cristo, invocavam como Sanctus Spiritus Salvatorem, que inscreviam em listeis e representavam por três SSS. Essa celebração também esteve presente na Ordem Livery Collar, no País de Gales, colar esse formado por 18 letras S, numa sequência senária das iniciais do lema templário Sanctus Spiritus Salvatorem. Ela foi introduzida em Portugal pelo príncipe plantageneta John of Gaunt, ou João de Gante[43]. O primeiro português a granjear a distinção do Livery Collar foi D. Afonso Furtado de Mendonça, em pleno reinado de D. João I, de quem João Gonçalves Zarco também fora fiel servidor estando presente na conquista de Ceuta.

Essa Milícia gália era para os ingleses o que a de Cristo era para nós portugueses, e a de Montesa para os espanhóis. E tanto uma como as outras nutriam simpatias joaquimitas, sobretudo no tocante à ideia messiânica da Parúsia e Advento.

Outra Ordem da mesma natureza, também gália, era a de Rose Collar, colar esse constituído por 24 letras S, numa sequência senária do mesmo lema templário, tendo suspensa a “Rosa de cinco pétalas” (dobradas) a quem os ingleses chamam Tudor. Foi Grão-Mestre desta Ordem sir Thomas Moore[44], que ainda viveu no mesmo século de Cristóvão Colombo, este que ao colaborar com a Coroa espanhola salvou a Aliança luso-britânica de se dissolver, num esquivo jogo diplomático, ao interferir junto da Coroa inglesa por intermédio dos reis espanhóis, evitando assim que D. João II causasse mal maior à paccis política-militar ibérica e europeia, ao mesmo tempo levando Portugal a ter parte activa e ter a “parte de leão” na “partilha do Mundo”, como foi o resultado do Tratado de Tordesilhas entre os monarcas ibéricos.

A empresa marítima de Colombo terá sido, pois, planejada em Portugal e encetada em Espanha. Ele uniu a Península Ibérica e foi seu pontífice – “construtor da ponte” entre dois blocos continentaisante a América, o quinto continente, sob o signo de Aquarius, anunciando já então o Ecce Occidens Lux pelo prenúncio do Ex Oriens Umbra!

É igualmente comum acreditar-se, entre os estudiosos colombinos, que Cristóvão Colombo foi um judeu converso aventureiro[45], um marrano, castiço ou “cristão-novo”, por causa da sua documentação conhecida estar recheada de elementos mais judaicos que cristãos, de notórias características messiânicas, pelo que é remetido para os afiliados da Kaballah Sefardita, hispânica.

A sequência dos factos apresentados leva a concluir que no sangue de Salvador Gonçalves Zarco corria a fina essência da Nobreza de Portugal, seria um varão português, aparte o facto dos judeus terem tido importância inquestionável nos sectores cultural, religioso, político e económico da Idade Média e Renascença. A tradição rabínica esotérica serviu muitas vezes de elo de proximidade e até ligação entre a Sinagoga e a Igreja, entre as Escrituras Velha e Nova, e esse assento do Cognoscio Secretum, a Tradição Iniciática do Ocidente, acasalava indissociavelmente a Kaballah com a Gnose, sendo assim o “espírito encoberto” do dogma e magistério tanto eclesial como sinagogal.

Decerto Cristóvão Colombo, pelas provas apresentadas nos seus documentos que sobreviveram aos cinco séculos, terá sido um marejador ou dominador dos arcanos mais profundos e sigilosos da Kaballah, certamente pela sua intimidade ao meio sinagogal de Beja e de Sevilha, lugares em cujas proximidades viveu. O seu mundo ideal, espiritual tão mal-entendido, o seu valor profético e teúrgico, davam-lhe um aspecto sobre-humano. Colombo não foi tão-somente o homem e o navegador, foi igualmente o génio inspirador advindo, certamente, dessa mesma tão lendária quanto impenetrável Agharta, Terra Proibida (a profanos) e Terra Modelo do Paraíso Terreal (em que se inspira a famosa lenda do “Ovo de Colombo”), a Pátria de Eleição do tetramorfo Preste João, já que tradicionalmente possui um aspecto masculino no Egipto completando com um feminino na Índia, tendo por colunas laterais um aspecto masculino na Mongólia para o respectivo feminino no Tibete.

Dela, Agharta, sob a aparência de estar se referindo à América, escreveu o almirante: “Não é possível a ninguém alcançar esse Paraíso Terrestre, salvo por Vontade Divina”[46].

Uma outra ideia sugestiva do carácter cabalístico, esotérico, de Cristóvão Colombo contém-se nos seus livros predilectos e nas cartas que escreveu ao seu filho Hernando Colón, ou Fernando Colombo. É visível o seu grande interesse pelos profetas bíblicos, que foram por ele copiados em grande parte, sobretudo as Profecias de Isaías, que citava frequentemente nas suas cartas e no seu diário, conforme o seu biógrafo ulterior, frei Bartolomé de las Casas[47]. Depois (todos expostos na Biblioteca Capitular e Colombina da Catedral de Sevilha) o livro do cardeal Pietro d´Aille, Imago Mundi; um livro de Plutarco publicado em Sevilha, em 1491; a Naturalis Historia, de Plínio, anotada por ele em português, em espanhol e um pouco de italiano (bem ao gosto de mostrar erudição conforme era costume na época, como no século XVII frei Jerónimo Munster demonstrou na sua Virgo Aurea); um Marco Polo latino, De Consuetudinibus et Conditionibus Orientalium Regionum; a Tragédia, de Séneca; um Tratado de Santo António de Florença e a Filosofia Natural de Santo Alberto Magno. Ainda um livro com muitas anotações sobre a vida do Papa Pio II, um Almanaque de Navegação e um livro de Abraão Zacuto, judeu português praticante de Astrologia cabalística ao qual D. Manuel I deverá a inspiração de adoptar a Esfera Armilar, símbolo e selo do deus egípcio Thot-Hermes, padroeiro do Hermetismo.

De maneira que a sigla criptografada de Cristóvão Colombo não deixa de possuir diversos segredos bem ocultados, todos eles de conteúdo iniciático profundo completando-se entre si como peças de um puzzle. Eles elevam o almirante muito acima das hipóteses, dos infundamentos e dos perjúrios, tão-só o assinalando Ser de grandeza rara.

Nesse sentido, a sigla mostra-se mais que simples assinatura criptográfica: possui características de mandala, ou seja, “forma geométrica de função mágica”. Agora, darei o meu contributo, à luz da Sabedoria Divina e segundo entendo, à descodificação do significado hermético da mesma.

Pela Kaballah, termo hebraico significando “Tradição” e “Livro cerrado”, logo, sinónimo de “Tradição Secreta”, neste particular judaico-cristã, Maurice Privat[48] afirma que o S repetido três vezes é igual a 15 vezes 3 = 45, ou 4 mais 5 igual a 9, número cabalístico da Terra representada pelo… “Ovo de Colombo”, que se mantém erecto após cortar-se uma das extremidades, que no Globo equivale ao Pólo Sul em que o mesmo assenta.

Em Aritmosofia 45 exprime a herança, o legado. Com esse sentido, a Missão do Templo foi, consequentemente, legada a Cristóvão Colombo pela sua herdeira Ordem de Cristo. Por outro lado, 15 dividido por 3 dá 5, correspondendo no Tarot caldaico de São Germano ao Mestre dos Arcanos, o Grande Hierofante que está entre as duas tradicionais Colunas salomónicas (a da SabedoriaJnana ou Jakin – e a do AmorBhakti ou Bohaz), portanto, sendo o Iniciador.

Por conseguinte, Colombo expõe o seu título ou grau sem rodeios com a letra A (alephe) no centro da sigla, o que vale dizer: “Eu sou o primeiro de minha Ordem”.

Ele terá sido o continuador da Missão Templária na Península Ibérica destinado a levá-la ao Novo Mundo do Ocidente, ao Norte e Centro da América, tal como o seu primo (para Mascarenhas Barreto), Pedro Álvares Cabral, igualmente ligou a Península Ibérica ao Centro e Sul da mesma América, tomando por ponto de irradiação ibero-ameríndia o Brasil.

De maneira que Colombo devia as cartas e os mapas, que lhe permitiram navegar de longo até ao Novo Mundo, não a Toscanelli (que alguns, por interesses inconfessados, desde o início do século XX afirmam ter sido roubado por ele) mas à Ordem de Cristo e à Escola de Sagres, sempre sujeito à política inviolável da lei do sigilo.

Postas as coisas assim, é muito natural que se pergunte por que terá o almirante «roubado» as cartas náuticas de Toscanelli, que presumidamente indicavam a rota para as ilhas do extremo-ocidente, se após isso deu tantos passos para encontrar documentos seguros? É lógico que se responda, assim mesmo, que tudo isso terá sido uma invenção caluniosa urdida muitos séculos depois da sua morte, para poder atribuir-se a origem do almirante à glória e prestígio deste ou aquele país sem glória nem prestígio provados nas Descobertas Marítimas Portuguesas que a estas secundou, claramente, Génova.

Quanto à sigla, como se viu, está assim predisposta:

Pelo que uma das suas interpretações iniciáticas, exclusiva de minha lavra, poderá ser:

1.º S = Salvador.

2.º S = Salvo, Consalo, Gonçalo, Gonçalves.

3.º S = Sarco, Çarco, Zarco.

A = Asgardi, Agharta, Terra Modelo, Omphalo do Mundo.

X = Xesed, Chesed, a quarta sephiroth, “esfera” ou “emanação divina” correspondendo ao “Governo ou Domínio Espiritual do Mundo”.

M = Metraton, o Primeiro Criador, o Senhor do Mundo.

Y= Yahvé, a Divindade.

Xpõ Ferens = “Portador da Pomba de Cristo”, Cristóvão Colombo.

No que resultará a mensagem seguinte:

Salvador Gonçalves Zarco, de Agharta!
Deus conceda o Senhorio Espiritual do
Mundo ao seu
Cristóvão Colombo.

Visto assim, tratar-se-á, pois, da saudação laudativa de um dignitário eleito do Rei do Mundo, Melki-Tsedek, pois que deste Cristóvão Colombo terá sido uma projecção tulkuística ou “representação viva” no Mundo Humano, destinada à Obra Maior da sementeira de futura e nova civilização em novo continente.

Essa não é uma interpretação nem afirmação “dadas de barato”, atendendo a que por volta de 1480 Colombo escreveu aos monarcas espanhóis uma carta expressiva onde se apresentava como o Príncipe do Mundo, o próprio Metraton: “Deus, que fez Ele de mais a Moisés ou a David?” E falando de si mesmo, adiantou: “Desde que nasceste sempre Ele (Deus) se preocupou contigo… Deu ao teu nome um maravilhoso eco sobre a Terra”[49].

Uma outra interpretação iniciática da sigla, completando-se com a primeira, será:

Que se traduzirá por:

Salve, Salve Deus Lustríssimo, Salve!
Deus Supremo Criador do Mundo,
A Ti o teu
Portador da Pomba do Cristo.

Adonai-Shadai é a fórmula invocatória da “Protecção Divina”, muito corrente entre cabalistas e templários afeiçoados à Gnose, e inclusive entre os hermetistas da Rosacruz.

“Ainda hoje – escreve Jean Marquès-Rivière – alguns judeus utilizam o chamado Shadai, que todas as crianças israelitas usam no momento da cerimónia dita Bar-Mitzwah. É uma medalha redonda na qual está inscrito o Nome Divino Shadai, cujo uso é de tradição imemorial. Este Nome Divino encontra-se, de resto, em muitos textos mágicos e simbólicos.”[50]

Finalmente, uma terceira interpretação da sigla, complementar das anteriores, será:

Assim se desvela, mais uma vez, o “santo-e-senha” de Joaquim de Flora, em cujo “Evangelho do Futuro” beberam várias correntes da Cristandade, nomeadamente os cistercienses, os templários, os trinitários e os franciscanos “beguinos” ou espirituais, sendo crível para judeus e cristãos que o III Templo de Salomão, correspondente à Jerusalém Celeste, deveria corresponder à III Idade do Espírito Santo, aliás, festejado a rigor em Porto Santo[51], com começo na Península Ibérica, nomeadamente em Portugal, mas estendendo as suas ramas frondosas a algum continente virgem, desconhecido mas não ignorado, de todos os males humanos criados durante as I e II Idades[52].

Com estas hipóteses, cimentadas na documentação colombina disponível, constituindo a minha tese de Cristóvão Colombo ter sido o grande navegador corporalmente nascido português e espiritualmente aghartino, acredito deixar, em guisa de proposta e nunca de conclusão, abrindo “janelas de possibilidades”, ao leitor um conjunto de pistas historiográficas e de ideias iniciáticas, destarte coadjuvando no tornar a “História velada” História desvelada à Raça de quantos por este mundo afora mantêm viva a chama gloriosa da Portugalidade.

 

NOTAS

 

[1] Patrocínio Ribeiro, A Nacionalidade Portuguesa de Cristóvão Colombo – The Portuguese Nationality of Christopher Columbus (Solução do debatidíssimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica). Livraria Renascença, Joaquim Cardoso, 1927. Reedição pela Fundação Lusíada, cerca de 1992, na “Colecção Lusíada Documentos”, I.

[2] Pestana Júnior, D. Cristóbal Colom ou Symam Palha, na História e na Cabala. Composto e impresso na Imprensa Lucas & Cia., Lisboa. A edição terá sido feita cerca de 26 de Maio de 1928.

[3] A Kaballah, a ciência esotérica ou hermética judaica que o Cristianismo depois também adoptaria, compreende literalmente três espécies de operações, a saber: o Notarikon, ou a arte dos signos; a Gematria, consistindo nas comutações e combinações das letras e palavras; a Temurah, ou as transposições das letras, das palavras e dos números.

[4] Mascarenhas Barreto, O Português Cristóvão Colombo (Agente secreto do rei Dom João II). Edições Referendo, Lisboa, 1988.

[5] Manuel Rosa, O Mistério Colombo Revelado. Ésquilo Editora e Multimédia, Lisboa, 2006; Colombo Português – Novas Revelações. Ésquilo Editora e Multimédia, Lisboa, 2009; Colón – La historia nunca contada. Esquilo Ediciones, Madrid, 2010.

[6] Henrique José de Souza, Colombo e Cabral, revista Dhâranâ, n.º 110, 1941, Rio de Janeiro; Símbolos e Brasões, revista Dhâranâ, n.º 111, 1942, Rio de Janeiro; A Pomba do Espírito Santo, revista Dhâranâ, n.os 142/144, 1951, São Paulo.

[7] Ricardo Beltrán y Rózpide, Cristóbal Colón, genovês? Madrid, 1926.

[8] G. Uzielli, La Vita e i tempi di Paolo di Pozo Toscanelli. Roma, 1864. Armando Cortesão, Cartografia Portuguesa Antiga, Lisboa, 1960.

[9] 1507 Waldseemüller Map from the US Library of Congress, Washington DC.

[10] Hernando Colón, Historia del almirante Don Cristóbal Colón. Imprenta Tomas Minuesa, Madrid, 1892.

[11] Mascarenhas Barreto, ob. cit.

[12] Pergaminho de santos o Velho que atesta a presença de uma Filipa Moniz nesse convento. Torre do Tombo, Convento de Santos-o-Novo, Doc. 477. Edição Pseudo-História Colombina, Lisboa, 26 de Setembro de 2007.

[13] “Doña Felipa Moniz su [Cristóvão Colombo] legitima mujer questá en el monasterio del Carmen en Lisboa, en una capilla que se llama de la Piedad que es de su linage de los Muñizes”, Diogo Colombo, Segundo Testamento, 1523, in Henry Harrisse, Christophe Colomb, son origine, sa vie, ses voyages, sa famille et ses descendentes. Ernest Leroux Éd., Paris,1884.

[14] Nicolau Florentino [pseudónimo de António Maria de Freitas], A Mulher de Colombo. Papelaria e Tipografia Guedes, Lisboa, 1892.

[15] Professores João Paulo Oliveira e Costa, José Damião Rodrigues e Pedro Aires Oliveira, História da Expansão e do Império Português. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2014.

[16] Afonso Dornelas, Elementos para o estudo etimológico do apelido Colon. In “Boletim da Academia das Ciências de Lisboa”, Classe Letras, vol. XX, pp. 407-422, 1924-1926.

[17] Alberto Vieira, O (Re)descobrimento / (Re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira. Secretaria Regional do Turismo e Cultura – Direcção Regional da Cultural – Centro de Estudos de História do Atlântico, Funchal, 2018.

[18] Cristóvão Alão de Morais, Pedatura. Lisboa, 1670.

[19] António de Morais Silva, Dicionário da Língua Portuguesa, vol. II. Rio de Janeiro/Lisboa, 1891.

[20] Saul Santos Ferreira, Salvador Gonçalves Zarco (Cristóbal Colon). Os Livros de Dom Tivisco. Lisboa, 1930.

[21] John Leddy Phelan, The Millenial Kingdom of the Franciscans in the New World – A Study of the writings of Gerónimo Mendietta (1525-1604). Berkeley and Los Angeles, Univ. of California Press, 1956.

[22] Abade Correia da Serra, Os verdadeiros sucessores dos Templários e o seu estado em 1805. In Archives de l´Europe, tomo VIII, 1805. Texto reeditado em Sintra, na revista “Graal”, Verão/Outono de 1982, com notas de Manuel J. Gandra.

[23] Henrique José de Souza, Símbolos e Brasões. Revista Dhâranâ, n.º 111, 1942, Rio de Janeiro.

[24] Henrique José de Souza, A Pomba do Espírito Santo. Revista Dhâranâ, n.os 142/144, 1951, São Paulo.

[25] Vitor Manuel Adrião, Venise Insolite et Secrète. Éditions Jonglez, Versailles, 2010.

[26] Acerca das Ilhas Canárias, tive oportunidade de dizer em público em Novembro de 2017 no Funchal, Ilha da Madeira: “A espionagem e a contrainformação, notícias falsas que repetidas à exaustão acabaram tornando-se verdades oficiais de Estado moldando a opinião pública, poderão explicar o controverso explorador e mercador genovês Lancelotto Malocello (Varazze, 1270 – Génova, 1336), que em navio luso descobriu as Canárias em 1312 sob o comando de Manuel Pessanha, o qual em 1317 assumiu o almirantado português”.

Ora, o genovês era agente de Afonso XI de Leão, e o português era capitão de mar-e-guerra do rei de Portugal, D. Afonso IV. Vem daí os diferendos entre os dois monarcas e das várias batalhas que se deram pela tomada e retomada das Ilhas Canárias: logo em 1313 da parte leonesa e depois em 1330 da mesma parte, enviando o rei de Portugal para as Canárias reforços militares em 1341, dando-se embate promovido pelo monarca português. A Santa Sé ingeriu em 1344 a favor do partido leonês, estabelecendo o reino das Canárias pondo à sua frente D. Luís de la Cerda. A coroa portuguesa não se conformou e ingeriu nas Canárias a partir da Madeira, sobretudo através da ingerência político-diplomática dos franciscanos portugueses, cuja maioria fixou-se nessas ilhas de pretensa posse leonesa-castelhana. Entre 1402 e 1418, o corsário francês Jean de Bettencourt, ao serviço de Henrique III de Castela, conseguiu apoderar-se das Ilhas Canárias. Portugal não se conformou e organizou várias expedições militares com o objectivo de as reconquistar a Castela: em 1415, em 1416, em 1424 e em 1427. A a batalha que ficou mais famosa foi a de 1424, com D. Fernando de Castro comandando uma força de 2500 homens. Mas foi debalde… até hoje. As Canárias foram terra portuguesa mas que espiões e corsos conseguiram furtar a Portugal. Ainda assim, Espanha não pôde furtar-se ao facto incontornável da acção civilizadora portuguesa através do vimaranense Sebastião Machado, fundador do primitivo núcleo populacional de Tacoronte, conforme atesta a placa comemorativa na praça principal dessa cidade canarina.

[27] Manuel da Silva Rosa, Eric J. Steele, O Mistério Colombo Revelado. Ésquilo Edições e Multimédia, Lisboa, 1.ª edição Outubro de 2006.

[28] Não é demais repetir que a principal base de sustentação da Coroa, capaz de competir com ela, era a Ordem de Cristo, que se encontrava, quando D. João II subiu ao trono, solidamente ligada às mais nobres Casas do reino. A sua administração andava, então, no ramo real que D. João II detestava. Como exemplo, repito, D. Diogo de Almeida, 4.º duque de Viseu e administrador da Ordem, foi apunhalado até à morte dentro dos paços de Setúbal pelo próprio rei, seu cunhado, com o apoio de três fidalgos desejosos dos favores reais, que seriam atendidos conforme descreve o teólogo Diogo Paiva de Andrade (1528-1575) nas suas Memórias inéditas: D. Pedro de Eça, alcaide-mor de Moura (em cujo Museu Municipal está hoje a adaga assassina de D. João II), homem forte que foi quem manietou o Mestre da Ordem de Cristo para o rei poder matá-lo à-vontade a punhaladas, Diogo da Azambuja e Lopo Mendes do Rio, todos agraciados com os favores reais depois do crime. Houveram outros mais implicados na armadilha fatal estendida a D. Diogo de Almeida, que pensava ir a uma entrevista amistosa com o monarca quando, na realidade, o esperava uma fatídica câmara escura com o real assassino escondido num canto dela e os três comparsas prontos a agarrá-lo e dominá-lo. Cf. D. Diogo de Souza, História de Portugal desde os tempos primitivos até à fundação da Monarquia e desta época até hoje. Lisboa, 1852.

[29] O Libro de las Profecías de Cristóvão Colombo foi escrito entre os anos 1502 e 1504, começado antes de iniciar a sua quarta viagem à América e terminado após o seu regresso. Para a sua realização contou com a colaboração de frei Gaspar de Gorricio, monge cartuxo do Mosteiro de Santa Maria das Covas de Sevilha. A obra consta de 84 folhas de que só se conservam 70, e está escrita em castelhano e latim, aqui e ali aparecendo termos portugueses. Inclui 385 citações bíblicas e de Padres da Igreja, das quais 326 são do Antigo Testamento e unicamente 59 pertencem ao Novo Testamento. A obra é uma auto-apologia da predestinação de Colombo desde o nascimento à recuperação de Jerusalém no Novo Mundo, interpretando as descobertas marítimas à luz das profecias bíblicas com acentuado pendor joaquimita, como se verifica na citação do Oraculum Turcicum (Oráculo Turquesco) de Flora, na carta que enviou aos reis católicos a respeito da sua quarta viagem. Cf. F. Álvarez Seisdedos, Cristóbal Colón. Libro de las Profecías. Testimonio Compañía Editorial, Madrid, 1984.

[30] Salvador de Madariaga, Christophe Colombe. Ed. Calmann-Lévy, Paris, 1968.

[31] A Ordem Militar de Montesa, no país vizinho do nosso, teve desempenho público semelhante ao da Ordem Militar de Cristo, em Portugal. Extintos os templários, Jaime II de Aragão, temeroso de que os imensos bens dessa Ordem caíssem em mãos estranhas ao seu reino, solicitou de Clemente V autorização para constituir um Instituto que substituísse aquela e tomasse a seu cargo as propriedades da mesma. Nada conseguiu desse papa, porém sim do seu sucessor, João XXII, que para tal fim expediu uma bula em 1317, adjudicando à Ordem de Santa Maria de Montesa todos os bens que os templários possuíram nos domínios do monarca aragonês. O castelo de Montesa, no reino de Valência, foi a sede da Ordem nascente, motivo do nome adoptado. Os seus componentes deram muitos exemplos de heroísmo e esplendor, lutando em campanhas, tanto dentro como fora da Península Ibérica. A insígnia usada, após várias vicissitudes, é a de Alcântara, em sabre, carregada com uma cruz plana de goles.

[32] Manuel J. Gandra, Martinets de Pasquallys e a tradição Quinto Imperial. Texto inserido na sua tradução do livro Tratado da Reintegração dos Seres Criados, de Martinets de Pasquallys. Edições 70, Lisboa, 1979.

[33] Rui de Pina, Crónica de D. João II, cap. XIX. Publicações Alfa, Lisboa, Abril de 1990.

[34] Esta carta, cuja autenticidade foi comprovada por diversos autores nacionais e estrangeiros, é transcrição parcial do texto completo inserido nos livros citados de Patrocínio Ribeiro e de Pestana Júnior. Cf. ainda o mesmo texto em Navarrete, Collecion de los viajes y descubrimientos, e em Teixeira de Aragão, Memória acerca do descobrimento da América, 1852; a mesma carta no opúsculo de Luciano Cordeiro, De la decouverte de l´Amerique, 1876, e em Henri Vignand nos Nouvelles etudes critiques sur la vie de Christophe Colombe, Paris, 1911.

[35] Carta do almirante citada por seu filho Fernando Colon inserida no Diário del primer viage. In Fernando Colon, Vida del Almirante Don Cristóbal Colon. Versão castelhana da Histoire, México, 1947.

[36] Alonso Ramón, Historia General de la Orden de Nuestra Señora de la Mercês, vol. II., cap. VI. Madrid, 1530.

[37] Em Carta-mensageira que os reis católicos dirigiram ao almirante em 25 de Setembro de 1492, fazendo-o ciente dos seus interesses acerca da sua viagem ao Novo Mundo, publicada por Fernández Navarrete na sua colecção de Documentos Diplomáticos, Tomo II, Madrid, 1825.

[38] Rev. Fr. Bartolomé de las Casas, La Historia General de las Indias, Parte 1.ª, Capítulo XXXII. Boletín de la Real Academia de la Historia, Tomo 78, Madrid, 1921.

[39] “Este Fraile fué la persona sola de aquesta vida, à quien Colón más comunicó de sus secretos”, diz Gonzalo de Oviedo em 1535 na sua Historia General y natural de las Indias, islas y tierra firme del mar océano. Tomo I, Cap. V.

[40] Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2004. Nova edição, revista e ampliada, com o mesmo título, em Lisboa pela Euedito, 2017.

[41] Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, vol. II, cap. Viagens para Ocidente. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, Dezembro de 1990.

[42] Antonio Ballesteros y Beretta, Cristóbal Colón y el Descubrimiento de América. Barcelona, 1945.

[43] Duque de Lencastre, quarto filho do rei Henrique III de Inglaterra e pai de D. Filipa de Lencastre, que veio a casar com D. João I, rei de Portugal, matriz da “Ínclita Geração” e origem da Aliança Luso-Britânica, hoje a mais antiga do mundo.

[44] Sendo Lord Chanceler do rei Henrique VIII de Inglaterra, sir Thomas Moore recusou-se a reconhecer a autoridade do seu soberano como chefe supremo da Igreja inglesa, assim separada da Igreja romana, também não dando o seu consentimento a que aquele monarca se divorciasse da rainha D. Catarina de Aragão. Por isso foi preso, tendo estado um ano na Torre de Londres, sendo depois decapitado, em 1535, e posteriormente canonizado como São Tomás Maurus, um dos mais ilustres pensadores do seu tempo a quem se deve a obra literária, de inspiração rosacruz, Utopia, na qual coloca à cabeça do enredo um navegador português, Rafael Itlodeo.

[45] Simon Wiesenthal, A Missão Secreta de Cristóvão Colombo. Editorial Futura, Lisboa, 1974.

[46] Salvador de Madariaga, ob. cit., p. 268.

[47] Colombo era judeu, artigo não assinado. In revista Planeta, n.º 22, Junho 1974. Editora Três, Brasil.

[48] In Le Grand Nostradamus, n.º 1, Maio de 1934. Esta revista deixou de publicar-se em 1936.

[49] Salvador de Madariaga, ob. cit., p. 554.

[50] Jean Marquès-Rivière, Amullettes, Talismans et Pentacles. Editions Payot, Paris, 1938.

[51] Fátima Menezes e Élvio Sousa, Inventário do património da Ilha de Porto Santo. Câmara Municipal de Porto Santo, 2009.

[52] Noeli Dutra Rossatto, Joaquim de Fiore: trindade e nova era. Edipucrs, Porto Alegre, 2004.

Anúncios

A Quinta da Regaleira de Sintra e os signos da Tradição – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Jul 2 2018 

Multa paucis… Muitas coisas em poucas palavras.

Quem está defronte da capela privada ou familiar da Quinta da Regaleira, vê no nicho lateral direito, em tamanho natural, a imagem de Santa Teresa de Ávila ou de Jesus. Além de conectar-se à antroponímica familiar de Carvalho Monteiro por parte materna, Ana Teresa Carolina de Carvalho, devota leiga da Ordem do Carmelo no Rio de Janeiro, essa santa também o está para Portugal no contexto sebástico, facto por certo do conhecimento ilustre do encomendante que mandou impô-la onde está.

Após o desastre militar de Alcácer-Quibir, ante o desespero geral que invadiu o reino com a sucessão dinástica abruptamente interrompida e não havendo sucessor para governar, aventou-se que D. Sebastião não teria morrido na desastrosa campanha africana, tão-só desaparecido… Partilha disso Teresa de Ávila: escrevendo a um dos seus amigos, lamenta que o rei se houvesse “perdido”, sem contudo admitir a morte física, como era então crença geral. Esse motivo do “monarca perdido” levaria Santa Teresa a constituir, no século XVII, um dos suportes eruditos do Restauracionismo Lusitano, em que a ideia sebástica do Encoberto amadureceu e se propagou[1]. Tanto levou a que varões doutíssimos seguissem “não a vulgar dúvida da morte, mas que passassem a esperar com a sua vida a restituição do seu Império”[2], esperança acalentada e propagada durante o período filipino pela Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, cuja influência política patriótica acabou por conduzir o duque de Bragança à ocupação do trono de Portugal como rei D. João IV, consumando-se assim a restauração da independência nacional, facto que levou alguns, em inflamados discursos patrióticos, a verem no monarca o próprio “Príncipe Encoberto”, com isso ligando-o simbolicamente à pessoa desejada do desaparecido D. Sebastião, como fez o próprio Padre António Vieira, finalmente revelado restaurador da pátria ofendida[3].

António Augusto Carvalho Monteiro revela-se também perfilhar, no seu particular catolicismo “esotérico”, do ideal sebástico como “religião pátria”, expressando-o através das várias formas de arte plástica mas parecendo atribuir um valor menos conspirativo e mais metafísico ao mito do Encoberto, inclusive relacionando-o com a sua própria ascendência familiar inscrevendo-a numa linhagem sebástica ou de seres espiritualmente iluminados, distanciados da noção vaga sebastianista que aguarda a vinda do “rei-salvador”, tal qual os judeus esperam até hoje o advento do seu Messias restaurador, sabendo-se que o rei malogrado D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer-Quibir em 4.8.1578, com ele morrendo a independência do país mas nascendo o mito nacional do Sebastianismo, filho do Messianismo ibérico muito mais antigo[4].

O mesmo deve ter-se passado com Santa Teresa, apesar de parecer confundir em diversos trechos das suas cartas o Sebastião real com o Sebastião simbólico. Mesmo assim, ela dispõe-no sempre no Castelo Interior ou as [Sete] Moradas, que o Anjo lhe apresentou através de uma visão resplandecente[5], não me custando admitir que a torre da Regaleira acaso igualmente figure, à posteriori por iniciativa de Carvalho Monteiro, a torre carmelita.

Em uma outra obra minha[6], aquando falei de Moscavide, tive ocasião de dizer sobre Santa Teresa de Ávila:

“Ainda em Moscavide e pegando com a Quinta do Cabeço, existe a Quinta do Candeeiro, com capela do século XVIII, fundada por Lázaro Monjardim, “mordomo do culto divino” na igreja do Loreto, depois de 1718. Hoje é propriedade das servas de Nossa Senhora de Fátima, tendo sido antes (Outubro de 1899) convento das carmelitas descalças, foragidas em 1834 do Convento da Estrela, anexo à basílica, em Lisboa.

“Aquando da sua fuga, as carmelitas levaram consigo para Moscavide uma relíquia bastante singular do século XVII: o braço direito, metido num relicário de prata, da falecida Santa Teresa de Ávila. O culto popular a essa relíquia foi tão grande que ainda hoje perdura a sua memória no nome da estação ferroviária de Braço-de-Prata (não confundir com o célebre militar do século XVII, António de Sousa Meneses, de alcunha também o “braço-de-prata”), antes apeadeiro dos peregrinos ribatejanos que iam aos Olivais venerá-la[7].

“Por volta de 1930, o relicário e o membro sacro foram oferecidos pelas carmelitas do Candeeiro ou da Estrela (apodos dados ao luminoso astro matutino, Vénus) à família do Generalíssimo Franco, que os levou para Ávila, em Espanha. De então para cá, não havendo relíquias para venerar o culto feneceu…

“Mas já era grande o culto a Santa Teresa com ela ainda viva. Apesar de em vida não ter visto impresso nenhum título do seu vasto cardápio literário, contudo, após a sua morte, as suas obras seriam largamente difundidas internacionalmente. Seis anos antes da canonização de Madre Teresa, o leitorado português recebeu uma edição integral dos livros da sua autoria: Los libros de la B. Madre Teresa de Iesus (Lisboa, 1616), na edição da imprensa de António Alvarez.

“O seu livro Castelo Interior ou as Moradas, teria profunda influência tanto no Restauracionismo Lusitano quanto no Romantismo religioso, direi assim, do homem mais singular que Sintra conheceu nos fins do século XIX e inícios do imediato: António Augusto Carvalho Monteiro, que foi quem mais exaltou a pessoa de Santa Teresa, por via da arte escultórica e vitral, na sua capela da Quinta da Regaleira.

“Reza também a tradição popular sobre a Quinta do Candeeiro que o poço desta tem fundura incalculável e é uma espécie de torre subterrânea do “Castelo Interior” falado por Santa Teresa nas suas Cartas. Enfim, tradições sibilinas e coisas de sibilas!…”

A visão carmelitana do “Castelo Interior”, inferior ou subterrâneo, seria materializada na Quinta da Regaleira nas duas torres subterrâneas e mais a terceira que deu o nome à propriedade, nessa última ficando exposta, de maneira velada, ainda assim patente, a figura romantizada da fada Melusina. Todas as três torres possuídas do sentido substancial de pólo, com isto apontam a presença ocultada da Terra Primordial, do Paraíso Terrestre de Dante, igual à Agharta ou “Terra sem Mal” das tradições hindus e tibetanas, donde haverá de vir o Prometido, o mesmíssimo Encoberto vislumbrado nas visões da carmelita iluminada de Ávila, identificado no Messianismo Lusitano ao Desejado Imperador Universal que inaugurará a Quinta Idade do Mundo, o V Império ou a Quinta Monarquia já falada no século XVII por frei Sebastião de Paiva[8]. O sebástico Imperador do Quinto Império a advir, como Messias é identificado com o Cristo cumprindo a sua Promessa de Advento, assim sendo o mesmo Avatara ou “Manifestação Divina” aguardada por todos os povos da Terra sob os mais diversos nomes, desde Emmanuel a Maitreya…

Alegoria de “As Moradas” de St.ª Teresa de Ávila

As tradições espirituais e religiosas representam o Messias ou Avatara do V Império do Espírito Santo como um Menino (como se vê na coroação do imperador incarnado num delfim nos festejos populares do Império do Divino), por significar algo novo, virgem, puro, imaculado. Pois bem, no exterior do Palácio da Regaleira, esquinando (ou fazendo quina… à guisa daquelas da bandeira pátria) sobre o início da subida da Rua Barbosa do Bocage, quem nesta passa, olhando para cima, pode ver um menino carregando uma goteira no topo de uma coluna pétrea lavrada com troncos de vides e abundantes cachos de uvas, aguentando-a em baixo quatro corpulentos leões nas posições cardeais. Essa é bem a representação da Árvore de Jessé, de cujo tronco (genealógico de David) os profetas da Escritura Velha (esculpidos juntamente com as sibilas nos candelabros de carvalho na capela da quinta) anunciaram, particularmente Isaías[9], o advento do Messias vinhateiro ou o que traz a vide da Sabedoria (Gnose), com ela imperando com justiça e perfeição sobre todas as partes do Mundo a guisa de régulo ou leão real do mesmo. Esta versão bíblica foi adaptada e inscrita nos tempos do Futuro por Carvalho Monteiro, fazendo recurso à iconologia gnóstica-teosófica que nisto não deixa dúvidas, atendendo que por cima da coluna tem-se o flagrante da figura clássica do Makara. A meio da parede exterior do palácio sobre a mesma rua, vê-se a escultura de uma senhora sentada de lado escudada (ou de sentido ocultado) atrás de um escudo triangular aos pés, no qual se lê a palavra Salvé, com o S em destaque. Mesmo não sendo uma figura de convite, ainda assim também não deixa de saudar quem passa em baixo. Mas juntando a palavra com a figura feminina que tem sobre a cabeça um meio-arco em guisa de auréola, ressalta a frase laudatória presente no hinário mariano: Salvé, Senhora. Sendo assim, ter-se-á encriptada a pessoa da Senhora das Senhoras, a Virgem Divina, a Sabedoria Salvadora que os gnósticos chamam Sophia e os hindus Sarasvati, representação antropomórfica da mesmíssima Teosofia como “Sabedoria de Deus”, também nisto e pela linguagem muda dos signos da Tradição Primordial, revelando o Palácio da Regaleira destinado a “Casa de Advento”.

Tanto assim poderá ser que o S no escudo da referida escultura feminina repetirá a letra igual – inicial da palavra Salvé – no brasão ex-libris de António Augusto Carvalho Monteiro, a qual se torna motivo sebástico ao enroscar-se como uma serpente na trave vertical que a perpassa, tornando-se uma espécie de bastão de Asclépio, deus da Medicina, designativo da Taumaturgia, mas também sendo símbolo bíblico da Serpente da Sabedoria enroscada no tronco da Árvore da Vida – inclinado 17º para a esquerda no brasão – que estava no centro do Jardim do Éden, motivo depois repetido por Moisés quando domou a serpente do Egipto que se fixou em volta do seu bastão. Por isto, tradicionalmente a letra S é expressiva do movimento de unificação dos opostos, sejam quais forem. Não deixa também de ser flagrante que muitos Mestres Reais, os chamados Makaras humanizados, como o Conde de Cagliostro, por exemplo, usaram signa idêntica como ex-libris pessoal, ou seja, o do pomo de ouro engolido pela serpente de sabedoria enroscada na cruz (como se vê em Vila Viçosa), no bastão, no tronco ou na flecha, por certo a do Sagitário (signo regente da Península Ibérica) indicativa do Eixo do Mundo, tornando o emblema simbólico do Axis Mundi e assim mesmo do Pólo Primordial, Primus Polus, motivo esotérico que a Teosofia põe em relação com as iniciações crípticas afins às do Antigo Egipto dos Mistérios de Serapis (aliás, trazidos para a Lusitânia pelos antigos romanos de que é prova flagrante o santuário de Panóias, em Vila Real) ou “Seres Divinos” (Ser+Apis), os chamados “construtores do seio da Terra”. Tanto assim poderá ser que a escultura da senhora escudada ou velada está sobre a varanda da sala oposta àquela por onde se acedia aos aposentos privados de Carvalho Monteiro – scriptorium e laboratoriumnos quais só ele entrava, diz-se, e posicionada sobre a sala onde pode ver-se Adão e Eva (o Padrão da Humanidade) separados pelo tronco da Árvore da Vida onde se enrosca a serpente.

Pressupondo que o Palácio da Regaleira é uma “Casa de Advento”, este pressuposto justifica-se pelo vasto expositório de símbolos da “religião pátria” que o decoram interiormente, sendo o primeiro o padrão com a Cruz de Cristo plantado à sua entrada, e defronte a ele um globo-mundi em pedra com os meridianos e os continentes em relevo, mostrando o curioso de se ver Portugal defronte para a Cruz de Cristo e o Brasil, onde Carvalho Monteiro nasceu, na direcção da capela (o que parece sugerir a frutificação do V Império do Espírito Santo no 5.º Continente, mais propriamente no Brasil ou a “Nova Lusitânia”, na expressão feliz de Pedro de Mariz no século XVII). Ao lado do globo-mundi está uma esfera armilar também em pedra, e juntos vêm a representar a esfera terrestre e a esfera celeste. Por cima da esfera armilar, cravado na parede, vê-se um ouroboros (serpente que morde a própria cauda, formando um círculo no espaço) muito sui-generis, feito no estilo particular de Carvalho Monteiro, o qual, dando significado aos globos, poderá vazar-se na expressão hermética de “o que está em cima é como o que está em baixo”. Antes do globo-mundi estão esculpidas numa coluna uma cigarra (símbolo da poesia ou atributo das musas, igualmente considerada metáfora da “fidelidade aos princípios”), uma rã (símbolo de ressurreição e, ainda, no âmbito religioso, expressiva do “homem que caminha e aprende”) e uma tartaruga (símbolo da ordem imutável do Universo).

Que António Augusto Carvalho Monteiro acaso tenha bebido nas fontes blavatskyanas não me admirará, levando em conta ter sido contemporâneo de Francisco Stuart de Morão, o visconde de Figanière (1827-1908), que escreveu uma “Doutrina Secreta” portuguesa, antecessora da de Helena Petrovna Blavatsky[10], completada em 30 de Maio de 1888: Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo[11].

Essa obra, apesar de não ter tido grande impacto no meio académico português da época, contudo não deixou de influenciar vultos de renome como Antero de Quental, Oliveira Martins e Teófilo Braga[12], dentre outros, entre os quais certamente se contava Carvalho Monteiro, que, aliás, havia sido colega de carteira de alguns deles na Universidade de Coimbra.

Com efeito, na época deste ilustre senhor que fez de Sintra a sua pátria reservada, a Teosofia estava em pleno auge e muita da doutrina dela parece não ter-lhe passado despercebida, especialmente as partes tocantes à gnose judaico-cristã, ou por outra, o chamado “cristianismo esotérico”. Os sinais deste, com o duplo sentido confessional e erudito, repetem-se na porta lateral direita no exterior da capela, que dá para a sacristia ou lugar do “Sacro Cristo”, onde o sacerdote O assume no acto de se paramentar nesse espaço reservado do templo.

Porta lateral da capela da Regaleira por que se acede à sacristia

Obra possivelmente saída do cinzel de João Machado, a toda a volta da ombreira de mármore dessa porta estão lapidados símbolos bíblicos susceptíveis de interpretação, além da ortodoxa, heterodoxa, regularmente interrompidos por friso vegetal (tronco de vide) rematado na cimalha por uma cabeça de anjo ou querubim sobre duas asas cruzadas em fecho. O conjunto dispõe-se na ordem seguinte:

O trono lateral ao Agnus Dei será o do Espírito Santo, no qual se senta o sacerdote no período de reflexão na celebração, em tudo idêntico àquele dentro da capela agora desocupado, quiçá aguardando o seu legítimo donatário: o Encoberto, o Xvarnah, o Messiah desejado, neste particular, por todo o Portugal Sebástico. Isso mesmo aponta a estrela davídica abaixo em guisa de estar iluminando a rosa lateral a ela, tal qual Cristo se revela por Maria e Maria desvela a Cristo, a “Rosa de Sharon”: o “Messias aguardado”, segundo a descrição de Números, 27:14, que é o livro do Antigo Testamento escolhido para eleição do Messianismo.

Relacionado com isso, tem-se o movimento cíclico ou marcha precessional do Sol através do constelado celeste (mobilismo cósmico chamado Pramantha-Dharma pelos sábios hindus) desde o Oriente ao Ocidente, motivo porventura assinalado nas duas torres e no mosteiro representativo da própria Igreja, desta maneira designando a “Torre de Jerusalém” (destelhada), a “Torre de Roma” (telhada) e a “Tebaida da Regaleira” (representativa de Lisboa, ou melhor, de Portugal e a religião do Futuro), nesta se ocultando o Thesaurus Majorem (a Arca, Barca ou Agharta), tudo de acordo com as 3 Idades do Mundo segundo Joaquim de Flora:

O tema joanino do Agnus Dei, repetido na sacristia, está descrito no Apocalipse, que o dispõe sobre o Monte Sião e no centro da Jerusalém Celeste. Tomando a descrição quase idêntica do Brahmaputra (ou Brahmapitri, o “Mundo do Pai”) dada pelo Bhagavad-Gïta (15, 6), e da Jerusalém Celeste fornecida pelo mesmo Apocalipse, gera-se uma aproximação entre o Agnus latino e o Agni védico, o Fogo Sagrado, que aliás é carregado por um cordeiro na iconografia hindu. A similitude não pode ser fortuita porque, além do aspecto sacrificial do Agnus e de Agni, tanto um como o outro urgem como a Luz no centro espiritual da criatura humana, Luz que se alcança pela conquista da Sabedoria Divina, tornando-se a criatura Agnatus ou Iluminado, algo semelhante ao termo sânscrito Akta e ao grego Chrestus, ambos significando Ungido[13].

Essa aproximação com o deus védico do Fogo manifesta o aspecto solar, viril e luminoso do cordeiro: é a face leonina do anho que se encontra igualmente assinalada no Apocalipse, onde a palavra cordeiro é empregada 28 vezes para designar Cristo como o Agnus imolado, portanto, pascal. Mas, neste caso, o símbolo refere-se ao Cristo ressuscitado em glória, como aliás era aceite entre os cavaleiros da antiga Ordem dos Templários, assim O descrevendo na sua catequese, motivo porque nas suas casas comunitárias os crucifixos estavam despossuídos da figura humana, não havendo Homem e tão-só a Cruz, mesmo assim sem transgredirem a ortodoxia da doutrina mas por certo evocando os vários apodos triunfais de Cristo como constam na “Revelação Secreta”, ou seja, no Apocalipse, estabelecendo novos harmónicos: “Cordeiro vencedor da Morte” (5:1-14), “Vencedor das Forças do Mal” (12:7-8), “Todo-Poderoso, Divino” (11:15-17) e “Juiz das Nações” (14:1-5).

A Cruz Pascal carregada pelo “Cordeiro de Deus”, para se tornar sinónima do “vencedor da Morte” pela Ressurreição na Vida eterna, deve ser adornada ao centro pela Rosa mística que neste portal se vê abaixo do Agnus, assim se fazendo Rosa+Cruz como sinalética do Amor Divino que ilumina a Alma ressurgida da Paixão, tal qual a Pedra Filosofal nasce dos esforços do Adepto como o seu ganho final.

Angelus Silesius, o filósofo místico do século XVII[14], fez da rosa a imagem da Alma, da Mãe, e ainda a imagem de Cristo de quem a Alma recebe a marca do potentado espiritual. Diz ele em O Peregrino Querubínico (livro reunindo dísticos alexandrinos rimados): “A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nem pergunta se alguém a vê…”, ou seja, identifica-se com o sentido do crente que se entrega à Divina Providência na qual confia. A rosa de ouro, outrora abençoada pelo Papa no quarto domingo de Quaresma, era símbolo de poder e de instrução dominical, mas também, é claro, de ressurreição e imortalidade.

Branca ou vermelha, a rosa é a flor predilecta dos alquimistas, tendo frequentemente intitulado os seus tratados herméticos de Roseiras dos Filósofos. A rosa branca foi relacionada com a “Pedra em branco”, meta da Pequena Obra tratando da obtenção da Prata Filosófica (Argiopeia), sinónima da purificação da Alma representada por Maria, enquanto a rosa vermelha foi associada à “Pedra em vermelho”, meta da Grande Obra pretendendo a conquista do Eldorado ou Ouro Filosófico (Crisopeia), correspondendo à iluminação do Espírito representado por Cristo.

A caçada ou montaria de tal Alquimia (Allah-Chêmia, “Química Divina, de Deus ou Allah”), realiza-se no laboratório que os antigos hermetistas também chamavam de “castelo ou torre de Hermes” (patente, aliás, nas traseiras da capela, com a finalidade aparente de goteira), vedado a todas as presenças e influências visíveis e invisíveis alheias às do próprio alquimista, seja só como teórico da Arte Magna, seja juntando a teoria à prática laboratorial. A “torre de Hermes”, na continuação da leitura hermética dos símbolos aqui patentes, representa-se igualmente na torre cerrada e telhada, abaixo da rosa filosófica, nisto se enquadrando no sentido dado ao “castelo interior” por Santa Teresa de Ávila, na feição mística que caracteriza a “cozinha do Filósofo” onde mistura, depura e extrai dos elementos a quintessência da Natureza, facto representado na alquimia da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. Por este motivo é que aparece esculpida a flor do maracujá que significativamente é mais conhecida por “flor da paixão” (evocativa da naturalidade brasileira de Carvalho Monteiro e também evocativa da ingratidão humana para com ele, fazendo-o sofrer padecimentos como injustamente o Senhor os sofreu pela Humanidade). O poema épico Caramurú, da autoria de frei José de Santa Rita Durão[15], da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural de Cata-Preta, em Minas Gerais, dá o significado seguinte a esta “ex-libris” da flora do Brasil:

“XXXVII

Nem tu me esquecerás, flor admirada,
Em quem não sei, se a graça, se a natura
Fez da Paixão do Redentor Sagrada
Uma formosa, e natural pintura:
Pende com pomos mil sobre a latada,
Áureos na cor, redondos na figura,
O âmago fresco, doce, e rubicundo,
Que o sangue indica, que salvara o Mundo.

XXXVIII

Com densa cópia a folha se derrama,
Que muito à vulgar Era é parecida,
Entrefechando pela verde rama
Mil quadros da Paixão do Autor da vida:
Milagre natural, que a mente chama
Com impulsos da graça, que a convida,
A pintar sobre a flor aos nossos olhos
A Cruz de Cristo, as Chagas, e os abrolhos.

XXXIX

É na forma redonda, qual diadema
De pontas, como espinhos, rodeada,
A coluna no meio, e um claro emblema
Das Chagas santas, e da Cruz sagrada:
Vêem-se os três cravos, e na parte extrema
Com arte a cruel lança figurada,
A cor é branca, mas de um roxo exangue,
Salpicada recorda o pio sangue.

XL

Prodígio raro, estranha maravilha,
Com que tanto mistério se retrata!
Onde em meio das trevas a fé brilha,
Que tanto desconhece a Gente ingrata:
Assim do lado seu nascendo filha
A humana espécie, Deus piedoso trata,
E faz que quando a Graça em si despreza,
Lhe pregue co´esta flor a natureza.”

Dando o sentido duplo à leitura dos símbolos, o que aliás Jesus Cristo fazia e o crente Carvalho Monteiro por certo repetiu[16], o facto poderá estar assinalado nas duas torres sinaléticas da Fé, uma expressando a confissão (pública, destelhada ou exotérica) e outra a erudição (privada, telhada ou esotérica), para todo o efeito, ambas dentro da regularidade canónica da doutrina.

Na mesma sequência, aparece a barca de Noé com a pomba sobre ela, tendo no bico o ramo de oliveira, e uma igreja. O conjunto sugere a recipiendária judaico-cristã (arca e igreja) do saber tradicional, tanto como clausural ou ortodoxo como claustral ou heterodoxo, procedendo à sua trasladação de um ciclo racial para outro, facto atestado pelo nome Noé que, anagramaticamente, dá Éon, que em grego significa “ciclo de manifestação universal”. Finalmente, vê-se a balança ao lado do cálice donde sobressai a hóstia com a gravação IHS. Sendo a Balança da Justiça de Deus, como signo é a Libra que por Vénus (assinalada na Estrela da Anunciação) causalmente rege Sintra, sendo o Cálice Eucarístico representativo do Santo Graal – Saint Vaisel, Kratalle – que nesta mesma Serra Sagrada seria transposto do mundo dos mitos à realidade dos factos, desde a Alta Idade Média até ao momento da sua apoteose monumental neste espaço privilegiado da Quinta da Regaleira.

Na cimalha da porta, o grupo de símbolos nas ombreiras é fechado pelo anjo de asas cruzadas ou cerradas. Trata-se da figura tradicional do Querubim, Cherub ou Kerub em hebraico, o “Guardião do Tesouro”, este que é, pelo nome português dado ao ente da Corte Celeste, Senhor da Sabedoria, a sabedoria da mensagem encerrada nos símbolos da capela. Ao mesmo tempo, designa a evolação ou voo audaz ao Quinto Mundo Espiritual (sendo os anteriores o Mineral, Vegetal, Animal e Hominal), chamado de “Ilha dos Imortais” no Taoismo, de “Jerusalém Celeste” nas Escrituras judaico-cristãs, de “Paraíso Terreal” por Dante e “Ilha dos Amores” por Camões, vindo a ser a mesmíssima Shamballah ou então a Agharta da Tradição Iniciática das Idades.

Essa pequena porta, no lado sul da capela, por seu sentido de “voo audaz” encerra o significado de elevação da alma à imortalidade, e, bem vistas as coisas, adiante eleva-se a torre de sino único cujo pináculo sugere precisamente o voo audaz da oração… motivo fazendo aflorar ao pensamento a bela oração do beneditino Guilherme de Saint-Thierry (1085-1148), que assim termina:

Ó Tu que disseste: “Eu sou a Porta”!
Mostra-nos a Mansão de que és a Porta,
em que instante e a quem Tu a abres.
A Casa de que és a Porta
é o Céu que Teu Pai habita.

A oração inspira-me igualmente a disposição trina da Quinta da Regaleira, ou seja, dos três elementos distintos que a completam (palácio, capela, jardim), também isto me remetendo para o sentido das 3 Idades do Mundo conformadas às Três Pessoas da Santíssima Trindade, segundo o esquema escatológico do abade Joaquim de Flora, e a dispor este espaço da maneira seguinte:

Descarece repetir quanto já disse sobre a hodierna teoria maçonista que alguns tornaram icónica da Quinta da Regaleira por motivos alheios à mesma. Por outra parte, há também quem só veja nela exuberância realenga de gosto duvidoso de quem não sabia como gastar os seus milhões, ainda assim deixando aqui os sinais singulares do lúdico que marcou decisivamente o final do romantismo em Sintra. Essas duas visões são as predominantes na maioria dos que visitam este espaço, consequentemente ficando o visitante entregue ao seu juízo próprio conforme o seu entendimento permita, seja por via do sagrado, seja por via do profano, e isto é válido, sem dúvida, mas não se pode dizer o mesmo das pretensões impostas que a obrigação de alguns interesses tornaram «oficiais». Há, pois, duas maneiras distintas de interpretar a Regaleira, como sejam:

Inscrita ou postada num dos 7+1 lugares considerados sagrados ou jinas da serra, perfazendo um Sistema Solar em miniatura como Sistema Geográfico[17], a Quinta da Regaleira aparece sob a égide de Mercúrio (aliás, patente no jardim bem defronte para o palácio) como planeta expressivo do atributo da Pureza e da Mecânica da Ordem do Universo regulada por princípios preestabelecidos, que os pensadores metafísicos atribuem à Lei de Deus. Que a Regaleira se parece a uma “barca d´alva”, lá isso parece, e nisto o seu “mastro” será a torre de pensamento superiormente dirigido, quadro geral evocativo do poema A Barca, de Johannes Tauler, místico alemão do século XIII, depois transformado em canção de Advento:

Uma barca vem chegando…
Carregada vem, olhai!
Transporta o Filho de Deus,
O Verbo eterno do Pai.

A barca veleja calma,
Pois traz valioso lastro;
Sua vela é o amor,
O Espírito Santo o mastro…

 

NOTAS

 

[1] Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

[2] Frei Manuel de Melo, Alterações de Évora, 28, 1637. Obra reeditada com introdução e notas de Joel Serrão, Portugália Editora, Lisboa, 1967.

[3] Luís Marinho de Azevedo, El Principe Encubierto – Manifestado en Quatro Discursos Políticos. Lisboa, 1642.

[4] António Machado Pires, Dom Sebastião e o Encoberto: Estudo e Antologia. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1969. José Matoso, História de Portugal. Edição Círculo de Leitores, Lisboa, 1993.

[5] Santa Teresa de Jesus (Teresa de Cepeda y Ahumada, Ávila, 28.3.1515 – Alba de Tormes, 4.10.1582), Castillo Interior o las Moradas. Ediciones Aguillar, Madrid, 1957.

[6] Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.

[7] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Insólita e Secreta (edição em português, espanhol, italiano, francês e inglês). Editorial Jonglez, Versailles, Abril de 2010.

[8] Frei Sebastião de Paiva, Tratado da Quinta Monarquia. Prefácio e revisão científica de Arnaldo do Espírito Santo, introdução de José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2006. Esta obra sebástica datada de 1641, da autoria do padre frei Sebastião de Paiva, da Ordem dos Trinitários professando no Convento da Trindade em Lisboa, fez parte da biblioteca de António Augusto Carvalho Monteiro, conforme divulgou Manuel J. Gandra após tê-la encontrado na Biblioteca do Congresso, em Washington: “P-26-393 Frei Sebastião de Paiva (+1659), Tractado da Quinta Monarchia, e Felicidades de Portugal profetizadas. Composto pello Rdo. Padre Fr. Sebastião de Paiva, Lector da Sagrada Theologia da Sanctissima Trindade, natural de Lisboa, Escripto anno de 1641. 224 folhas. Na lombada: Tratado da Quinta Monarchia. MS. Encadernação em pele com as armas do conde de Olivais Penha Longa”. In Manuel J. Gandra, Sebástica manuscrita na Biblioteca do Congresso. Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[9] “Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará”, Isaías, 11:1-3.

[10] Vitor Manuel Adrião, O Visconde de Figanière. Revista “Pax”, órgão oficial da Comunidade Teúrgica Portuguesa, n.º 49, Setembro-Outubro, 1993.

[11] Visconde de Figanière, Estudos Esotéricos – Submundo, Mundo, Supramundo. Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora Lugan & Genelioux, Porto, 1889.

[12] Pinharanda Gomes, Pensamento Português, IV. Gnose e Liberdade (Notas à Obra do Visconde de Figanière). Lisboa, 1979. Vitor Manuel Adrião, Portugal, os Mestres e a Iniciação. Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Agosto de 2008.

[13] Clovis Bradaschia, A manifestação cíclica do “Espírito de Verdade”. Revista “Dhâranâ”, n.º 3-4 de 1957, São Paulo.

[14] Pseudónimo de Johannes Schelfer, nascido em 1624 em Breslau, Polónia, e falecido na mesma cidade em 1676.

[15] Fr. José de Santa Rita Durão, Caramurú. Poema épico do descobrimento da Bahia. Régia Oficina Tipográfica, Lisboa, 1781.

[16] “A vós é dado conhecer os Mistérios do Reino dos Céus, mas a eles (as gentes comuns) não lhes é dado… Por isso lhes falo por parábolas, porque eles vendo, não vêem, e ouvindo, não ouvem nem entendem”, Mateus, 13:11-13; “Nada lhes falava sem usar parábolas, mas quando estava a sós com os seus discípulos, explicava-lhes tudo”, Marcos, 4:34; “Então lhes abriu o entendimento (aos discípulos) para compreenderem as Escrituras”, Lucas, 24:45.

[17] Sistema Geográfico de Sintra: Santíssima Trindade – Quinta da Trindade; Sol – Castelo dos Mouros; Lua – Santa Eufémia; Marte – São Martinho; Mercúrio – Seteais; Júpiter – Parque da Pena; Vénus – Lagoa Azul; Saturno – São Saturnino.

A Quinta da Regaleira e António Augusto Carvalho Monteiro – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jun 3 2018 

Uma mansão numa quinta digna dos contos das Mil e Uma Noites, instalada num dos recantos luxuriantes de Sintra, junto a Seteais, no lugar dos Pisões, é a comummente conhecida Regaleira, Torre ou, ainda mais vulgarmente, “dos Milhões”.

Inacessível até 1998, quando foi aberta ao público por determinação da Câmara Municipal de Sintra, que a comprara ao grupo japonês Aoki Corporation em Março de 1997, desde a primeira hora vim dizendo que o conjunto ímpar da Regaleira deveria destinar-se, sobretudo, a Quinta-Museu dos dias idos do Romantismo “neomanuelino”, aberto a Portugal e ao Mundo, deixando a cada um e cada qual cada um a sua apreciação e leitura, conforme a sua visão e entendimento alcance, a despeito de porventura ser alheio a conotações e colagens que se fazem hoje, atribuindo-lhe filiações no mínimo bizarras, tanto quanto o desinteresse pelas mesmas da parte do proprietário original, António Augusto Carvalho Monteiro.

A Quinta da Regaleira está hoje classificada como “Imóvel de Interesse Público” de acordo com o Decreto n.º 5/2002, Diário da República, 1.ª Série-B n.º 24, de 19-02-2002, abrangida pela “Paisagem Cultural e Natural de Sintra” incluída na Lista de Património Mundial – MN (n.º 7, do art.º 15, da Lei 107/2001 de 8 de Setembro).

A mansão da Regaleira afigura-se um “bolo de noiva” ou um “palácio de fadas”, tendo para isso contribuído o seu molde arquitectónico, num ecletismo de estilos apesar de sobressair o neomanuelino, e a decoração coreográfica, dando-lhe halo de sortilégio e encantamento, essa é inspirada numa “heráldica falante” de exaltação das armas e feitos familiares com o singular de beber a inspiração directa no simbolismo da Divina Comédia, de Dante Alighieri, e de Os Lusíadas, de Luís de Camões, também autor de uma Comédia (1587), aquele o escritor ao serviço da Ordem do Templo e este o Fiel de Amor que cantou Portugal e a Tradição dos seus Maiores que Carvalho Monteiro aqui mandaria pintar, cinzelar e esculpir, deixando à posteridade os símbolos principais da “religião pátria” segundo o seu entendimento peculiar.

Esse entendimento peculiar, revelado por uma amálgama simbológica extraída da mitologia greco-romana, do catolicismo e do hermetismo, acabou resultando numa fusão feliz, ao mesmo revelando a sua grande cultura e conhecimento profundo dos símbolos da Tradição, como também a sua possível filiação a um tipo particular de cristianismo gnóstico ou teosófico, em que parecia não encontrar conflitualidade ou desafecto entre o sapiencial e o confessional. Por esse motivo, escrevi numa outra obra[1]:

“Esse vínculo supra-esotérico (de Carvalho Monteiro), direi assim, levou-o ao culto permanente do Oculto, do Subterrâneo, do Mistério escondido (tomando por base as lendas árabes das 1001 Noites, nisto tanto valendo por Véus de Io ou Ísis). Donde a constância de criptas, grutas, etc., em toda a sua obra, culminada com a deposição do seu féretro na cripta fúnebre do Jazigo da Família Carvalho Monteiro (gizado por Luigi Manini, e lá está a assinatura dele), no Cemitério dos Prazeres, Lisboa, tendo entrado nele a 2 de Abril de 1922, trasladado do anterior da família no mesmo cemitério, onde entrara às 17 horas do dia 27 de Outubro de 1920.

“Obra tendo sempre por centro axial a torre (havendo na quinta, como já disse, duas torres subterrâneas, erroneamente chamadas «poços», ainda que de poços nada tenham…), cerne do mito Lusignan, romance medieval cujos elementos simbólicos principais terão servido de programa a Carvalho Monteiro que bem parece o ter recriado neste espaço (havendo numa terceira torre – que ao espaço infinito está vertida, as outras invertidas – a imagem pétrea de Melusina, “la Dame du Lac” na versão pastoril própria do Romantismo, a qual tem no regaço uma pomba com um cisne aos pés (ou talvez um ganso, simbolicamente aparentados, pois aquele designa a irmandade, e este a operática) de que um, o possivelmente serpentário, está oculto, a qual daria o seu nome ao jardim: da Fada). Isso pelo motivo possível da aproximação directa do ortónimo Carvalho Monteiro ao outro de Sampaio e Lusignan o qual, segundo a história da qual não se sabe onde acaba a lenda e começa a realidade, possuiria o Sangue Real (donde Sang Greal, Saint Grial e finalmente Santo Graal) herdado do próprio Jesus Cristo acaso unido maritalmente a Maria Madalena de que Sara “Kali” seria filha e iria insuflar o sangue dos progenitores numa linhagem iniciada por São Maurício[2], fundador da Casa de Lorena cuja Cruz fora feita, ainda segundo a lenda áurea, com a madeira da própria Árvore de Jessé – patente na parede exterior do Palácio da Regaleira, onde um menino suporta um tronco florido cujo topo é uma goteira figurativa da “Água da Salvação” que é o próprio Messiah ou Avatara – de cujo tronco genealógico, rezam as profecias bíblicas[3], haverá de vir o futuro Messias Redentor da Humanidade, motivo que seria transposto para o tema nacional do Rei Encoberto, pedra angular da doutrina da “religião pátria”. Com a quase certeza pessoal que o cenário envolvente impõe, Carvalho Monteiro possuiria todos esses dados históricos, bíblicos e míticos e com eles assumiria, tomado da sua razão e direito, o estatuto da sua ascendência a tão grande e divina linhagem – a linhagem apostólica provinda do Médio Oriente para o Ocidente, após a Tragédia do Gólgota – vindo criar obra soberba condigna à mesma, o figurino simbológico decorativo da própria Quinta da Regaleira, linhagem essa com cujo sangue se uniu pelo seu matrimónio com Perpétua Augusta Pereira de Melo (nascida em 1852 e falecida na tarde de 25 de Dezembro de 1913 – por causa disto C.M. passou a azarar o n.º 13, doravante nunca mais tirando o luto – com 61 anos de idade), com ligações familiares a Sebastião José de Sampaio Melo e Castro Lusignano (1764-1826). A mãe deste, a condessa Teresa Violante Eva Judite de Daun, descendente dos Sabóia de Lorena, significativamente está deposta no Jazigo da Família Carvalho Monteiro, no Cemitério dos Prazeres em Lisboa.

“Resta não esquecer que os descendentes de Carvalho Monteiro possuem ainda hoje o apelido “fulano X de Poitier”, como é o caso do seu falecido neto, faz alguns anos, José António de Carvalho Monteiro Poitier ou Poitiers, esta a cidade francesa vizinha de Lusignan e ambas no condado do Poitou, onde se deu a lenda nobiliárquica originada pelo cavaleiro Remondin e a fada Melusina. Inclusive o brasão de Coimbra, onde Carvalho Monteiro em sua juventude viveu e estudou e o mandou pintar neste seu Palácio da Regaleira, também é associado à lenda de Melusina[4]. Será tudo isto mero acaso? Duvido.”

É a seguinte a origem e descendência do proprietário original da Quinta da Regaleira:

António Augusto Carvalho Monteiro – Nasceu no Rio de Janeiro em 27 de Novembro de 1848 e faleceu no seu palácio de Sintra em 25 de Outubro de 1920.

Pai – Francisco Augusto Mendes Monteiro * 9.3.1816 – 1.11.1890.

Mãe – Teresa Carolina de Carvalho * 1.10.1810 – 2.4.1871.

Casamento (1.º e único) – 1873 com Perpétua Augusta Pereira de Melo * 1852 – 25.12.1913.

Filhos do casamento – Pedro Augusto de Melo Carvalho Monteiro * Petrópolis, Rio de Janeiro, 10.11.1873. Casou com Maria Raquel George Poitier.

Maria de Melo Carvalho Monteiro * 1877. Casou com D. Francisco de Assis Nazaré de Almeida, nascido em Santos-o-Velho, Lisboa, em 16.12.1868.

Foi precisamente no Brasil, no Rio de Janeiro, que Carvalho Monteiro nasceu, vindo para Portugal com 10 anos de idade. O que humana e intelectualmente era e para traçar o perfil da sua pessoa, restam os testemunhos dos seus netos[5], além das entrevistas pessoais que fiz à sua neta, a marquesa de Pombal, Sr.ª D. Maria de Nazaré Monteiro de Almeida Carvalho Daun e Lorena, e à Sr.ª D. Jesélia Fonseca, filha do escultor José Fonseca que interveio nas obras da Regaleira.

António Augusto Carvalho Monteiro tirou dois cursos, Filosofia, que não terminou, e Direito, licenciando-se em Leis (1871). Matriculou-se pela primeira vez no ano lectivo de 1866-1867 e terminou a licenciatura em 1870-1871. Para a sua entrada na Universidade de Coimbra houve necessidade de fazer publicar uma portaria especial, pois era ainda muito novo[6]. Pertenceu ao grupo de Guerra Junqueiro (a quem o Professor Henrique José de Souza (1883-1963), fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, deu-o com ligações à misteriosa Ordem de Mariz), João Penha, Gonçalves Crespo, Júlio Vilhena, Simões de Castro, Hintze Ribeiro, Bernardino Machado, Vicente Monteiro e Victório Paretto, com os quais conviveu intimamente. Também iniciou o curso de Medicina, mas desistiu. Curiosamente, nunca recorreu a nenhum médico: automedicava-se, tal qual os antigos terapeutas que no tempo de Jesus Cristo eram os essénios. Pouco depois de se haver licenciado, Carvalho Monteiro regressou ao Brasil, onde permaneceu alguns anos, vindo posteriormente a fixar a sua residência em Lisboa, primeiro na Quinta do Vadre ou da Torre de São Domingos de Benfica, e depois no antigo Palácio Farrobo, na Rua do Alecrim, tendo destinado inicialmente a Quinta da Regaleira de Sintra a residência de Verão, mas acabando por tornar-se morada permanente.

Como diz muito bem Regina Anacleto, valendo-se do estudo de José Lobo d´Ávila Lima[7], António Augusto Carvalho Monteiro era dono e senhor de uma maneira de ser muito peculiar, e já desde os tempos de Coimbra frequentava um dos vários “templos” da cultura que então ali se desenvolviam. Na sua opção, além de outros factores (interesses nacionais, místicos, etc.), certamente pesava a nacionalidade brasileira que o levava amiudadamente ao n.º 97 da Couraça de Lisboa (em cujo prédio funcionava o “Parnasso em dois andares”: Gonçalves Crespo no rés-do-chão e João Penha no primeiro andar), residência do mesmo Gonçalves Crespo, não muito longe da sua casa, que ficava no n.º 28 da mesma rua. Nesse “Parnasso” coimbrão, a mística camoniana deve ter começado a desenvolver-se nele de forma tão singular quanto aquele cenáculo mondeguino onde se reuniam Marçal Pacheco, Coelho de Carvalho, Vicente Monteiro (amigo íntimo de Carvalho Monteiro), Luís de Andrade, Sérgio de Castro, Alberto Braga, Vicente Pindella, Teixeira de Queiroz (que assinava os seus escritos com o pseudónimo de Bento Moreno), Bernardino Machado, Cândido de Figueiredo, António de Melo e Carvalho Monteiro, que discutiam calmamente, quase sempre em pé por falta de cadeiras, assuntos dos seus interesses ligados aos aspectos sociais e culturais do país[8].

– Ele falava latim como nós falamos o português. Dizia Os Lusíadas de cor, canto por canto. E soubemos há pouco que tinha uma enciclopédia luso-brasileira. – Lembrou o seu neto, António Poitier Carvalho Monteiro.

Aliás, Carvalho Monteiro custeou várias edições de Os Lusíadas e muita fama adquiriu a Camoniana que reuniu (onde contava com um exemplar da primeira edição da Comédia, de Luís de Camões). Encontra-se hoje, infelizmente, longe de Portugal, na Biblioteca do Congresso, nos EUA, depois de ter seguido um curso tortuoso. Com efeito, em 1926, Pedro Carvalho Monteiro vendeu um primeiro lote da biblioteca particular de seu pai a Maurice Ettinghausen que o enviou para Londres, com o intuito de enriquecer a colecção de livros portugueses antigos do rei D. Manuel II, então exilado na capital de Inglaterra[9]. Em 1927 a Maggs Brothers adquiriria o segundo lote, e o terceiro derradeiro em 1929, ano em que, contrariando os acordos firmados com Pedro Carvalho Monteiro e seu filho António Carvalho Monteiro, seriam vendidos à Biblioteca do Congresso em Washington, onde estão depositados. Há um catálogo em inglês discriminando as obras literárias que pertenciam a Carvalho Monteiro[10], no qual constam 3602 itens referentes à adquirição em 1927 e 1929 de livros, panfletos e 600 manuscritos das bibliotecas particulares do conde de Olivais e Penha Longa e do dr. António Augusto Carvalho Monteiro, que em 1909 comprara a biblioteca daquele. Entre os manuscritos, que recuam até 1438, incluem-se documentos originais e cópias[11]. Nos itens da livraria de Carvalho Monteiro há um número significativo respeitante ao Messianismo e ao Sebastianismo (de que destaco dois títulos: Tratado da Quinta Monarquia, de frei Sebastião de Paiva (século XVII), e Oráculo dos Oráculos Sebásticos, miscelânea dos meados do século XVIII incluindo versos, escritos e profecias do padre Cristóvão dos Mártires, de D. Pedro Pires (um dos emissários do rei D. Dinis junto da Santa Sé para tratar da criação da Ordem de Cristo a partir da do Templo), de frei Jerónimo Basílio, do padre Bartolomeu Salutivo, etc.), adquirido entre 1850 e 1920. Denota-se ainda, pelos mesmos itens, o interesse particular de Carvalho Monteiro pela acção histórica do marquês de Pombal (estando em sua posse o original do seu último discurso, informação reiterada pela Enciclopédia Luso-Brasileira), de D. Pedro IV, de D. Miguel e de D. Maria II. A Colecção dos Manuscritos Portugueses está ainda microfilmada em 75 rolos contendo 3.602 títulos num total aproximado de 154.000 páginas. Diz Manuel J. Gandra[12]:

“Em 1929, o núcleo central da Biblioteca de Carvalho Monteiro, transacionado por 1000 libras (doc. 4)[13], era expedido de Lisboa, por via marítima, com destino à DCL (Biblioteca do Congresso), onde lhe havia de ser atribuído o código de aquisição 387270´29.

“A encomenda pesava quinze toneladas e ascendia ao astronómico número de 28.480 livros, 14.000 dos quais em língua portuguesa, 6.000 em francês, 900 em inglês, 450 em italiano, 400 em espanhol, 500 em alemão, 150 em latim, 40 jornais, 650 revistas, 920 almanaques, 70 livros de música, 4.400 panfletos (doc. 6)[14], não incluindo nem os 767 volumes manuscritos, nem um número indeterminado de peças iconográficas, ofertadas pelo vendedor[15].”

Livro raro (1749) de Leonarda Gil da Gama[16]pertencente à biblioteca particular de Carvalho Monteiro

Eram igualmente comentadas e elogiadas as inúmeras colecções de Carvalho Monteiro, desde borboletas, conchas, relógios, instrumentos musicais, mobílias, pratas artísticas e outras antiguidades, nas quais gastou somas consideráveis, que hoje andam perdidas ou dispersas nas mãos familiares ou de conhecidos, ou de simples coleccionadores anónimos.

Mas segundo Denise Pereira, no seu estudo Quinta da Torre da Regaleira[17], “todavia nem tudo se perdeu. Uma preciosa colecção camoniana adquirida pelo município em 1980 é o título de um artigo publicado na revista municipal de Lisboa[18], em que se refere que a edilidade conseguiu comprar algumas centenas de espécies, muito diversificadas, pertencentes ao acervo de António Augusto Carvalho Monteiro. Das restantes colecções, saliente-se o conjunto de instrumentos musicais adquirido para o Conservatório Nacional de Lisboa pelo Dr. Júlio Dantas, entre 1930 e 1935, e a colecção de conchas que se encontra integrada no Museu da Universidade de Ciências de Coimbra”.

No tempo em que não havia “uma folha no chão da quinta”, a criadagem do dr. Carvalho Monteiro era composta por seis pessoas (cocheiros e motoristas), dois carpinteiros permanentes, dois homens encarregados do gerador que podia fornecer luz a Sintra inteira, uns 14 criados e mais de uma dúzia de jardineiros. “Vendêmo-la porque a vida teve uma evolução enorme. Aquilo só dá despesa. É uma quinta para ser tratada como um menino”, comentou o seu neto António Poitier em 1985, adiantando: “Nem sei quanto valerá aquilo hoje. Diz-se que há uns 12 anos pediam 100 mil contos a uns árabes. Na minha opinião, aquilo não se devia vender a estrangeiros”. A neta D. Maria de Nazaré é da mesma opinião: “Sem ser nas mãos do meu avô, só para o Estado”[19].

Católico assumido, monárquico convicto, António Augusto Carvalho Monteiro era amigo particular do rei D. Carlos e da rainha D. Amélia, e essa simpatia política valeu-lhe a prisão em Outubro de 1913, sendo levado para o Quartel dos Loios, em Lisboa, como descreve o jornal A Capital (Lisboa – Terça-feira, 21 de Outubro de 1913): “Prisão do dr. Carvalho Monteiro – Pelas 19 horas deu entrada no governo civil o sr. dr. Carvalho Monteiro, abastado capitalista, conhecido em Lisboa por Monteiro Milhões o residente na Rua do Alecrim. Do governo civil, seguiu em trem para o Quartel dos Loios”. Dois dias depois, o mesmo jornal dava a notícia seguinte (Lisboa – Quinta-feira, 23 de Outubro de 1913): “Últimos acontecimentos: o sr. Carvalho Monteiro protesta a sua inocência e diz que se deu dinheiro para a caravela o fez no uso d´um direito – O sr. Carvalho Monteiro, preso anteontem como sendo um dos cabecilhas da trapalhada conspiratória que tão ridiculamente acabou, continua preso no Quartel dos Loios, de onde tem vindo ao governo civil para ser interrogado. Tanto na polícia como no referido quartel, o riquíssimo capitalista e proprietário não deixa de afirmar a sua inocência, clamando que nada tinha com o movimento monárquico e jurando que nunca foi conspirador. A sua atitude de protesto tem atingido por vezes uma veemência extraordinária, que o leva a um estado de irritação verdadeiramente excepcional. O sr. Carvalho Monteiro apenas confessou que contribuiu largamente para a caravela que os monárquicos portugueses ofereceram ao ex-rei, por ocasião do seu casamento. Acrescenta, porém, que o fez no uso d´um direito, visto dispor como entender do seu dinheiro que é muito. Resta ver até que ponto são verdadeiras as afirmações do opulento proprietário e esperar que se saiba se os cabecilhas monárquicos se reuniam nas suas propriedades com o seu consentimento ou sem que para tal contribuísse com a sua cooperação. A polícia o dirá”.

António Augusto Carvalho Monteiro fora preso como implicado na intentona monárquica de 1913 contra Afonso Costa, presidente da República, cujos revolucionários costumavam reuniam-se no antigo Hotel Levy, na Praia das Maçãs[20]; após o fracasso da intentona o seu chefe, Azevedo Coutinho, procurou refúgio no Palácio da Regaleira onde seria detido juntamente com o proprietário, conforme narra a revista Illustração Portugueza, n.º 401, de 27 de Outubro de 1913.

Carvalho Monteiro foi julgado como criminoso de “lesa-pátria” quase um mês depois no Tribunal da Boa-Hora, acusado de promover reuniões monárquicas conspiratórias contra a República no seu Palácio da Regaleira de Sintra e no n.º 70 do seu palácio da Rua do Alecrim, em Lisboa, e de auxiliar com largas verbas o rei no exílio, D. Victor Manuel II. Essa prisão deveu-se a dois factos absolutamente contrários ao estado de anarquia revolucionária que lavrava no país onde os carbonários haviam apontado como inimigos maiores da causa republicana a Igreja e a Coroa: 1.º) quando em 4 de Setembro de 1913 se celebrou o matrimónio de D. Manuel II, no seu exílio de Londres, com a princesa Augusta Vitória de Hohenzollern, Carvalho Monteiro organizou em Lisboa uma subscrição pública para um presente de casamento aos reais consortes, uma caravela em prata, o que foi considerado um “pecado capital” pelos republicanos e jacobinos; 2.º) em 20 de Outubro de 1913 deu-se a intentona revolucionária monárquica liderada por João de Azevedo Coutinho, que embora prevista também para o Porto acabou por restringir-se à capital, não indo além da destruição das redacções dos jornais republicanos O Dia e A Nação, bem como alguns estragos no Museu da Revolução, vindo Carvalho Monteiro a ser detido acusado de fazer parte da intentona falhada[21].

Mas a sua boa-conduta, a sua dupla nacionalidade, o não se provar o seu crime e, sobretudo, a sua incomensurável fortuna que por certo encheu as bolsas dos carcereiros, salvaram-no às penas das masmorras da República que, de tão infante e ociosa, não se sabia bem se era um novel regime republicano jacobino ou carbonário… ou uma mistura inextrincável de tudo isso, para todo o efeito, anti-regalista e anti-papista.

Quando o rei D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço em 1 de Fevereiro de 1908, a dor, a revolta, as lágrimas e o luto campearam na Quinta da Regaleira e Carvalho Monteiro cobriu o palácio de crepes roxos e negros durante vários dias, contou-me a marquesa de Pombal sua neta.

Atitudes como essa desencadearam o ódio e a inveja insuperáveis contra o abastado e culto Carvalho Monteiro por parte dos republicanos e jacobinos. Odiavam-no de morte e não tinham como o atingir… restava-lhes a maledicência, filha da inveja, e a intriga, filha da raiva. Foi quando Francisco Valença (1882-1962), o cartoonista republicano dos “sete costados”, servindo-se da sua arte que outra possuía para mal dizer e pior fazer, inventou uma alcunha boçal para o riquíssimo luso-brasileiro: “caga-milhões”, nome de um seu cartoon onde representa Carvalho Monteiro montado num burro expelindo como fezes moedas de ouro. A alcunha pegou e ficou até hoje na vox populi. O tal cartoon aparece em O Moscardo, semanário humorístico dirigido por Francisco Valença mas de muito curta duração: de 27 de Maio a 17 de Junho de 1913. Tendo como lema “zumbe, zomba e ferra… o ridículo”, na carta de apresentação de O Moscardo o autor define claramente o seu posicionamento político e a finalidade do semanário: “Zumbindo e zombando, irei ferindo os ridículos da política e dos maus costumes. Metendo o ferrão em toda a parte, menos na privada de cada qual, entrarei no Congresso e boca de certos oradores que quando a abrem é para entrarem moscas ou saírem asneiras. Nas pastas dos ministros acharei pasto para a minha “verve”. Irei pelas redacções, cafés e teatros ouvindo, comentando e documentando. Enxergando uma calva à mostra pousarei, não para repousar, mas para ir pousar n´outra. Republicano de antes de 5 e d´antes quebrar que torcer, reservarei para os monárquicos a graça grossa. Perante eles ou seja quem for, jamais baterei as asas, ainda que esteja em perspectiva apanhar umas de pau”.

Nem após a sua morte Carvalho Monteiro foi poupado aos vilipêndios e estórias anedóticas saídas da verve republicana que enchiam as revistas e jornais em 1920 sobre ele, dando-o como avaro nababo, como a seguinte ainda o corpo recém-falecido estava quente:

“Acaba de falecer em Lisboa o dr. António Augusto Carvalho Monteiro, conhecido em todo o Portugal por “Monteiro dos Milhões”. Como o cognome indica, era riquíssimo, e tinha uma qualidade raríssima no mercado dos milionários: era esmoler. Conta-se dele a seguinte anedota:

“Como quase sempre o fazia, mandou um seu criado particular comprar dois bilhetes para a loteria espanhola do Natal. Um bilhete era para ele, e o outro para a criadagem. De uma vez bateu-lhe a sorte grande à porta, mas no bilhete com que ele tinha ficado, saindo o dos criados, branco. O servo foi ter com o dr. Monteiro e disse-lhe muito comovido:

“– Eu trouxe os dois bilhetes a Vossa Excelência…

“– Sim, e depois?

“– Vossa Excelência guardou um e deu o outro aos seus criados…

“– Sim, e depois?

“– Ora o de Vossa Excelência saiu com a sorte grande…

“– Continua, homem!

“– E o nosso saiu em branco…

“– Mas o que queres tu dizer com tudo isso?

“– Eu vinha ver… se Vossa Excelência dava alguma coisinha à criadagem. Era de justiça…

“O doutor tirou uma pitada da sua caixa de ouro, e respondeu repoltreando-se na cadeira:

“– Ora diz-me com franqueza, se te tivesse saído a sorte grande davas-me alguma coisa?

“– Saiba Vossa Excelência que lhe dava os meus agradecimentos.

“– Pois é isso mesmo o que eu vou fazer…

“E levantando-se, estendeu a mão ao criado e disse-lhe muito cortês:

“– Agradecido João pelo bilhete que te mandei comprar.

“Posso garantir que este facto autêntico correu todo o Portugal.”

O panfletário republicano Conceição e Silva Júnior (João Paulo), tomado de inveja mortal do dr. Carvalho Monteiro, ainda em 1909 dedicou-lhe o seguinte mimo gratuito: “Doutor António Augusto Carvalho Monteiro (Monteiro Milhões) – Um filósofo de pacotilha a deitar milhões para as suas arcas”[22].

Ficando até hoje nas vozes dos simples como o “caga-milhões”, a pessoa deturpada de António Augusto Carvalho Monteiro é tida como a de um avaro excêntrico incapaz de ajudar quem quer que fosse – por na realidade, como homem de negócios que era, naturalmente não gostar de esbanjar a sua riqueza e normalmente regatear, no momento do ajuste, o preço dos serviços que lhe prestavam, embora não conste que entrasse nos seus hábitos ficar a dever a alguém – e a de um narcisista que cultuava a sua própria imagem. Antes se devera dizer que realçava o sentido humano da casta familiar, dando-lhe foros sagrados, em guisa de divinização do nome da mesma; por outro lado, foi mecenas anónimo de muitos a quem a pobreza afligia, no que lembro aqui, de uma penada, ter ajudado com largas somas a Misericórdia de Sintra, contribuído com somas e bens para o depauperado elenco artístico do Real Teatro de S. Carlos e prestado auxílio regular ao célebre Padre Cruz (1859-1948), que só soube quem era o seu benfeitor secreto depois da morte dele.

António Augusto de Carvalho Monteiro revelava-se “um homem humilde, tímido, discreto e avesso a festas e coisas mundanas”, afirmou-me a sua neta D. Maria de Nazaré. Ele agia anonimamente, sem ostentação, pelo que, em palavras do próprio, “quando a mão direita faz a caridade, a mão esquerda fica no bolso”, ou “a mão esquerda não precisa saber o que faz a direita”.

Dele, disse-me ainda D. Maria de Nazaré Carvalho Daun e Lorena:

– Era um homem bom, extraordinariamente simples; estatura mediana, barba que parecia seda, voz suave e doce. Detestava discussões, era muito difícil zangar-se e amava a verdade acima de tudo. Não gostava de mostrar o que sentia. Era muito reservado e só se abria com íntimos.

E prosseguiu:

– Gostava da beleza e do grandioso. Tinha o culto do belo mas não era para se exibir. Era “família” o mais possível e nunca dava festas. Era muito bom, dava muita coisa mas com a condição de o seu nome não aparecer. Educou muita gente no estrangeiro, dava imensas mesadas a pessoas que necessitavam, ajudou a montar negócios sem exigir fosse o que fosse em troca. Foi um dos fundadores da Assistência Nacional aos Tuberculosos. Muito religioso e fechado tinha horror à Maçonaria e a tudo que fosse escuro.

Essa sua feição filantrópica lembra-me o episódio protagonizado por Carvalho Monteiro que a própria marquesa sua neta me contou. Sendo cliente habitual da “casa da música”, vendedora de instrumentos musicais situada no Largo do Chiado em Lisboa e de cujo proprietário era amigo, passando longas horas juntos em amena cavaqueira, conheceu aí um jovem escriturário empregado da casa, o qual, apesar de dotado de escassos recursos, também queria abrir um negócio seu, sem no entanto ter possibilidades económicas para o fazer. Sem que soubesse, o mecenas piedoso arranjou-lhe casa para instalar esse negócio. Casa já tinha, faltava tudo o resto e ele não sabia como conseguir… Ora, passado algum tempo, pouco, esse rapaz casou com uma jovem, também de parcos recursos, e, como prenda de casamento Carvalho Monteiro ofereceu-lhes uma linda secretária de escritório, adiantando para tomarem atenção ao “segredo”. O casal, mal chegou a casa, foi cuidar de descobrir o “segredo” que a escrivaninha escondia. Mexendo daqui, dali e dacolá acabaram descobrindo um botão que, premido, abriu uma gaveta secreta… cheia de moedas de ouro. Carvalho Monteiro era assim.

Acrescento ainda que Carvalho Monteiro também foi, durante muitos anos, mecenas benfeitor do Jardim Zoológico de Lisboa, ele próprio sócio-fundador do mesmo assim como o seu pai, Francisco Augusto Mendes Monteiro, e igualmente o rei D. Fernando II.

António Augusto Carvalho Monteiro comprou a Quinta da Regaleira em 11 de Dezembro de 1893 por 25 contos de réis, e o tabelião que “o comprador pagou em moeda corrente do reino”. Para as obras do palácio, capela e jardim (tendo-as começado nos inícios de 1900 e terminado em 1910, com mais uns arranjos que demoraram até 1912, e um pouco mais até 1918 para os arranjos florais do jardim) mandou vir de diversas partes do país artistas nacionais, especialmente de Coimbra[23]. Mas quem concessionou a obra foi o arquitecto-cenógrafo italiano, acabado de executar o Palácio-Hotel do Buçaco, Luigi Pietro Manini.

– Era um senhor de compleição forte de quem nós, os netos, então crianças, não gostávamos, pois só tinha conversas sérias com o nosso avô das quais não percebíamos nada, além de que as suas visitas significavam ficarmos apartados do convívio com o avô que gostava tanto de nós quanto nós o adorávamos. Ciúmes… era, enfim, conversa animada de arquitecto e matemático… mas o avô gostava muito dele, e perdiam horas juntos a falar e a passear pela quinta: o avô apontava um sítio, dizia-lhe uma coisa e o Manini escrevia num livro de apontamentos, o “caderno dos recados”, que trazia sempre consigo. O avô pensava e dizia e o Manini fazia escrupulosamente o que lhe era mandado fazer. – Afirmou-me a marquesa de Pombal.

António Carvalho Monteiro encomendara em 1898 a esse mestre d’arte o projecto para as obras da Regaleira (palácio, capela e cocheiras), começando-se a lançar os caboucos ainda em 1899 e levantando-se as paredes da capela e cocheiras já em 1900. Em 1905 iniciou-se a construção do palácio, tendo Manini dado largas à sua mestria inigualável que tornaria o conjunto da Regaleira um dos mais belos e expressivos monumentos neomanuelinos de Portugal e, quiçá ou decerto, da Europa e do Mundo, com toda a sua composição arquitectónica, paisagística e cenográfica assente nos símbolos principais da Tradição Primordial de acordo com a vontade expressa do solicitador[24].

Sobre isso mas sobrepondo o saber de Manini ao querer de Monteiro, Paulo Pereira, investigador da História de Arte, escreveu o seguinte[25]:

“Mas é provável, ainda, que para o resultado inaudito da quinta tenha contribuído o conhecimento eventualmente tradicionalista do arquitecto Luigi Manini, contratado por Monteiro. Luigi Manini veio para Portugal em 1879 como cenógrafo do Teatro de São Carlos, no qual sucedeu à dupla Rambois e Cinatti, numa altura em que a arte cenográfica em Portugal necessitava de renovação. Sem deixar discípulos, Manini produziu cenários de teor naturalista de grande qualidade cénica, ilustrando óperas de todos os géneros. Dotado de uma ampla cultura visual, que o levava a dominar com rigor os diversos estilos “históricos” exigidos pelas muitas óperas que cenografou, Manini logo se interessou pelo poderoso efeito decorativo do manuelino, que interpretou à sua maneira, algo eclética. A sua familiaridade com o imaginário operático pode ter determinado algumas das opções ornamentais e estruturais do palácio. Por outro lado, dada a densidade simbólica deste e o agenciamento de espaços insólitos e de cariz iniciático a que nele se assiste, não custa admitir que Manini conhecesse romances “de formação” ou “de iniciação” e que neles se tivesse inspirado. No Palácio Milhões, Luigi Manini trabalhou com João Machado (que ficou em Coimbra), José da Fonseca e Luís da Fonseca enquanto escultores e entalhadores de pedra (além de outros oficiais do chamado “ateliê do Arnado” que com eles se deslocaram à boa maneira das empreitadas medievais, em que o nomadismo dos artistas era uma constante), e Júlio da Fonseca (irmão de José e Luís), que foi o entalhador de madeira. Manini enviava os desenhos das peças principais para Coimbra, que ali eram executadas em pedra-de-ançã e depois transportadas e assentadas em Sintra. Outras peças foram talhadas no local ou próximo dele, sendo pensadas na altura em articulação com o arquitecto-cenógrafo e com o proprietário. Sabe-se que Monteiro acompanhou os trabalhos com rigor extremo e chegou a recusar peças “prontas a assentar”. Este facto explica, quanto a nós, porque é que o capitalista recusou o projecto inicial encomendado ao francês Henry Lusseau, que o executou em estilo neogótico. Mas a escolha do manuelino e de Manini parecem encerrar, igualmente, outra dimensão: a de que nenhum outro estilo poderia corresponder ao empenho historicista e simbólico – sobretudo simbólico – que Monteiro queria ver constelado em pedra.”

Quanto à pedra utilizada para construir o palácio e a capela da Quinta da Regaleira, trata-se de um calcário muito fino. vindo da zona do Outil, próxima de Coimbra, transportado, diz-se, em carros de bois, num processo idêntico ao utilizado para o Convento de Mafra. Fernando d´Orey, que foi um dos 18 herdeiros dessa família donatária tardia desta propriedade, disse que Carvalho Monteiro fez as obras “com o rendimento dos rendimentos”.

Para a cenografia quase ou mesmo mágica do jardim, sobremaneira singular, inclusive inédita (como é inédito e singular tudo nesta quinta), informa Denise Pereira[26]: “A vegetação exótica, no caso particular da Quinta da Regaleira, importada do Brasil, é plantada sem ordem aparente, parecendo reforçar o efeito de nostalgia. Dos trópicos chegou pela mão do dr. João Victório Paretto, primo e amigo pessoal de Carvalho Monteiro, um número considerável de palmeiras, grande parte delas plantadas na alameda das cavalariças. A encomenda, feita no Grande Estabelecimento de Horticultura em Villa Isabel, no Rio de Janeiro, a 27 de Junho de 1905, chegou a Lisboa por via marítima, no vapor Victória. Contudo, esta não foi a única porque em cartas familiares se menciona por várias vezes, desde 1903, a compra de fetos e palmeiras para enviar para Portugal. A identificação de grande parte destas espécies na Regaleira, ainda existentes, permite confirmar o destino da encomenda. O documento permite-nos ainda definir em termos cronológicos que as preocupações com o jardim tiveram início por volta de 1903, prolongando-se pelo menos até 1918. Na listagem sobressaem particularmente as palmeiras e as tamareiras, destinadas a zonas como o patamar dos deuses e a avenida das cocheiras. A palmeira e a tamareira são símbolos de renascimento. Árvores da mesma família eram conhecidas dos gregos sob o nome de phoenix, ou seja, a fénix hermética que se imola no ninho construído com aromáticas folhas de mirra e incenso e renasce das próprias cinzas”.

Diga-se ainda que a capela de Nossa Senhora da Peninha também pertenceu a Carvalho Monteiro, que mandou construir um palácio encostado à mesma no alto das fragas, mas a morte veio surpreendê-lo quando se preparava para a restaurar.

Antes de penetrar a neose ou ciência dos símbolos esculpidos e pintados na Regaleira, constantes do aparato da sua cenografia singular, impondo neste espaço uma “microdimensão” de geografia sagrada ou geosofia, onde o recurso ao figurino dos clássicos de Dante e Camões revela-se constante, não me parece, ao contrário de alguns, que o figurino constante na Tábua de Cebes tenha sido transposto para ilustrar este mesmo espaço particular[27], posto que entre um e outro figurinos há severas dissemelhanças a despeito dessa obra clássica da mitologia grega ter integrado a biblioteca de Carvalho Monteiro, e inclusive participado nos estudos medievais e renascentistas como elo de ligação entre os saberes clássicos greco-romanos e as virtudes cristãs por via da hipérbole do duplo sentido encerrado nas figuras e discursos da mesma, o que tornava obrigatória a sua leitura nas cadeiras de teologia e moral.

Infinitamente menos ainda a Quinta da Regaleira será ou ostentará algum imobiliário iconológico maçonista derivado de eventuais ligações directas ou indirectas de Carvalho Monteiro ou Luigi Manini à instituição maçónica[28], como sustentam outros por motivos particulares que levantam suspeições severas ao comparar-se afirmativas como essa com a biografia de Carvalho Monteiro, mormente os seus interesses políticos e religiosos. Isto mesmo venho desdizendo desde 1990, quando se inventou a farsa do «palácio maçónico» da Quinta da Regaleira, e durante largos anos, a despeito dos ataques pessoais à minha pessoa, parecia “andar a pregar no deserto”… Ao fim de tanto tempo, recentemente vem juntar-se à minha voz e prosa, fazendo eco das mesmas, com inteira propriedade e justeza, conhecedor como eu dos motivos privados que o público geral desconhece, o dr. Manuel Joaquim Gandra, achando por bem contribuir para o acaso maçonista relativo à Regaleira, nestas suas palavras simples mas directas, justas e perfeitas[29]:

“Para alcançar um tal desiderato, e não obstante a Franco-Maçonaria constituir hoje uma fonte de curiosidade desmedida por parte dos profanos (mercê, designadamente, dos escândalos e atitudes censuráveis não apenas do ponto de vista maçónico, por parte de alguns dos seus membros destacados ou não), só lhe granjeará vantagens a circunstância de as suas actividades continuarem a ser conduzidas de forma discreta.

“O texto supra foi transcrito de A Maçonaria exposta, introdução ao catálogo Colecção Maçónica Pisani Burnay[30], cuja elaboração me foi cometida por Eduardo Geada, na sua qualidade de Administrador Delegado da Quinta da Regaleira (Fundação Cultursintra).

“A realização concomitante de uma Exposição de grande número de artefactos e bibliografia maçónicos e antimaçónicos, reunidos por Pisani Burnay, distinto maçom e colecionador, deu azo a que o argumento de que a Regaleira era uma Mansão Maçónica, mais se divulgasse, adquirindo foros de dogma.

“Convém salientar, no entanto, que tal dogma não se impôs tacitamente, na sequência da (para alguns) providencial aquisição da propriedade pelo município sintrense. Na realidade, esse dogma emergiu de uma campanha de marketing, gizada magistralmente e orquestrada, dentro e fora das fronteiras nacionais, por um lobby maçónico em ascensão[31], não dispondo de uma sede condigna, mas perseguindo activamente esse desiderato.

“É evidente que a impreparação da autarquia no que concerne ao enquadramento histórico e iconológico da Regaleira, bem como a atitude de desdém, seria mais adequado chamar-lhe menosprezo, por parte da historiografia de arte, ambas não garantindo, atempadamente, um discurso consentâneo com a índole não convencional do conjunto, fez o resto.

“E, não obstante, a Quinta da Regaleira, hoje tão celebrada enquanto alegada Mansão Maçónica, não contempla no seu programa iconográfico um só que seja dos símbolos consabidamente creditáveis à Maçonaria.

“São distintas as suas fontes de inspiração, de facto, porém, o grau de intoxicação atingiu tais proporções que não é frequente encontrar-se alguém com capacidade para discernir entre o que é catequese e o que releva do bom senso.

“No caso vertente, o bom senso mandaria que se escrutinassem minuciosamente as opções ideológicas do proprietário e do arquitecto que aquele elegeu para seu cúmplice.

“Que se revolvessem até à exaustão todas as fontes de informação credíveis, incluindo as bibliotecas e objectos pessoais dos protagonistas deste intrigante, mas igualmente fascinante, caso de estudo.

“E o que se tem feito, salvo em circunstâncias excepcionais?

“Uma vez preparado o argumento à exacta medida das paralaxes propagandísticas, tem-se conservado em lume brando, adicionando, de quando em vez, algum condimento susceptível de prolongar o mais possível a cozedura, sem a preocupação de averiguar previamente se a receita final é digerível ou intragável.

“E tudo isso à custa da curiosidade e da boa-fé de uma multidão de famintos, carentes de alimento espiritual, os quais, sentindo-se órfãos de um Evangelho caduco, crêem ter descoberto outro, contraponto daquele incapaz de responder aos seus anseios mais profundos e desígnios mais nobres.

“Convém recordar que António Augusto Carvalho Monteiro, católico confesso, professou um cristianismo gnóstico, nos antípodas dos ideais maçónicos, sendo de descartar, liminarmente, qualquer hipótese de uma filiação na Franco-Maçonaria[32].

“A sua biblioteca pessoal é um testemunho insofismável do desinteresse que votava ao tema.

“O catálogo que apresento, relativo ao insignificante núcleo bibliográfico (13 obras), saído de um acervo que ultrapassava os 33.000 títulos, exige duas clarificações:

“Não poderá dar-se o caso de existirem mais obras de índole maçónica, ainda não referenciadas, no acervo de Carvalho Monteiro adquirido pela Biblioteca do Congresso, uma vez que se desconhece o teor de uma parte significativa da segunda aquisição (1929)? A resposta é negativa, porquanto os livros sobre Maçonaria e afins (bem como outros temas não relevantes neste momento) têm, consoante as normas biblioteconómicas vigentes na Biblioteca do Congresso, tratamento privilegiado e prioritário, não aguardando catalogação durante muito tempo. Ora, desde a aquisição, em 1929, decorreram 83 anos…

“A colecção em apreço inclui uma obra impressa em 1924, a qual só poderia ter sido ali inserida por Pedro Carvalho Monteiro, uma vez que seu pai morrera em 1920. Poderá inferir-se daí que todos os demais títulos (à excepção dos dois antimaçónicos, transitados da biblioteca de Olivais Penha Longa) procedem da mesma origem?”

A seguir, Manuel Gandra enumera o catálogo magríssimo, insignificante desaparecendo entre milhares de títulos, da “biblioteca maçónica” de Carvalho Monteiro, com o quesito insuportável desses livros serem realmente seus ou anexados posteriormente pelo filho, tirando os dois supraditos títulos antimaçónicos pertencentes à livraria do conde da Penha Longa.

1. Boletim Official do Grande Oriente Lusitano Unido, n.º 4, 3.ªsérie, 12.º ano, Julho 1880.

2. Fernão Botto-Machado, A Maçonaria e a Sociedade das Nações (Tese apresentada ao Congresso Maçónico de 1924). Tipografia do Grémio Lusitano, Lisboa, 1924.

3. Constituição e Regulamentos Gerais da Ordem Maçónica no Brasil promulgados pelo Grande Oriente do Brasil. Tipografia Austral, Rio de Janeiro, 1842.

4. António Maria do Couto, Palmatoria contra Pedreiros-Livres, refutação à Herética Pravidade de seus Modernos Escriptos e à Introducção do Manifesto do Grande Oriente Lusitano por o Censor Profano. Impressão de Alcobia, Lisboa, 1821.

5. Miguel António Dias, Historia da Franc-Maçonaria ou dos Pedreiros Livres pelo author da Bibliotheca Maçónica. Tipografia de F. A. da Rocha, Lisboa, 1843.

6. G. O. de France – Solstice d´hiver 5839 – Procès Verbal de la Fête de l´Ordre, célébrée par le G. O. de France le 22 Jº du 10e mois lunaire (Thebet), l´an de la V. L. 5839 (27 Decembre 1839, ère vulg[ai]re). O. de Paris, Veuve Dondey-Duprè, 1840.

7. Ignacio Xavier Gayozo, Divertimento em forma de Analysi, sobre a Analysi dos Cathecismos dos Pedreiros Livres, a qual foi dada pelos senhores Tiburcio, & Firmino. Impressão de Joze Baptista Morando, Lisboa, 1823.

8. Guide des maçons ecossais, ou Cahiers des trois grades symboliques du rit ancien et accepté. Edimburgo, s.d.

9. Mitglieder-Verzeichniss, Der unter Constitution Hochwürdigsten Grossen Landes-Loge der Freimaurer von Deutchland in Berlin arbeitenden ger. verb. und volk St. Johannes-Loge. Waldenburg, 31 Mai 1847.

10. Regulador Maçónico do Rito Moderno, contendo os Rituaes segundo o Regímen do G. O. de França, bem como formalidades e disposições diversas, concernentes à Ordem, Offerecido, para uso das Oficinas deste Rito, ao G. O. do Brasil – Primeiro Grão Aprendiz. Tipografia Austral, Ano da V. L. 5837 [1837].

11. Regulador Maçónico do Rito Moderno, contendo os Rituaes segundo o Regímen do G. O. de França, bem como formalidades e disposições diversas, concernentes à Ordem, Offerecido, para uso das Oficinas deste Rito, ao G. O. do Brasil – Segundo Grão Companheiro. Tipografia Austral, Ano da V. L. 5837 [1837].

12. Regulador Maçónico do Rito Moderno, contendo os Rituaes segundo o Regímen do G. O. de França, bem como formalidades e disposições diversas, concernentes à Ordem, Offerecido, para uso das Oficinas deste Rito, ao G. O. do Brasil – Terceiro Grão Mestre. Tipografia Austral, Ano da V. L. 5837 [1837].

13. J. M. do Rosário, Instrucções para os Sublimes Capítulos dos Sublimes Principes de Heredom e de Kilwinning, Cavalleiros da Águia e Perfeitos Maçons Livres com o titulo de Rosa-Cruz do Rito Escocez Antigo e Acceito para o Império do Brazil, recopiladas dos melhores Authores e oferecidas ao I. Cav. R+, F. de Paula Brito, pelo seu amigo, Grau 30. Tipografia Imparcial do Ir. F. de P. Brito, Rio de Janeiro, 1838.

Tudo isso esfuma decisivamente a hodierna invenção propositadamente teimando em dar a Quinta da Regaleira como projecto jacobino, apesar de despossuído do que seja do simbolismo maçónico clássico[33], tendo chegado alguns ao inverosímil de dar Pedro Monteiro, filho de Carvalho Monteiro, como afiliado maçom, tendo recebido nesta propriedade em Setembro de 1930 o mago inglês Aleister Crowley e o poeta português Fernando Pessoa, onde todos juntos procederam a um “ritual mágico-maçónico-templário” (!!!), e que foi o motivo para uma exposição apresentada no Palácio da Regaleira em Julho de 1996, como prelúdio da abertura do seu espaço ao público geral[34]. O que então vi chocou-me sobremaneira, a ponto de ter aconselhado os familiares de Carvalho Monteiro a não irem à quinta enquanto durasse essa exposição com intenso e macabro cheiro a satanismo, e inclusive ter deixado o protesto pessoal junto do falecido Pisani Burnay, com quem me correspondi durante largos anos. Igualmente continua a chocar-me a toponímia incoerente inventada para os vários espaços da propriedade, toda ela com o gosto da fantasia juvenil de algum leitor das aventuras fantásticas de Harry Potter, e onde hoje “esotericistas” de todos os gostos e feitios têm aí verdadeira “disneylândia” à escala internacional.

Essa elaboração fantasiosa, absolutamente vazia da mínima prova provada, foi tecida para justificar pretensões pessoais, sobretudo de natureza maçonista, chegando-se a indicar um «caminho iniciático», associado à ideia avulsa de «maçonaria hermética ou alquímica», dentro da propriedade conhecida de muito perto por Fernando Pessoa, dizem (mas, afinal, quem vá ou esteja em Sintra não conhece a Regaleira, nem que seja só de vê-la da rua, devido à singularidade exuberante do seu aspecto?), o que  me leva a considerá-la em três alíneas cujos princípios estão interligados[35]:

1.º – Afirma-se que o simbolismo patente na Quinta da Regaleira é «maçónico-templário e católico-monárquico». Será antes católico e gnóstico, confessional e sapiencial, patenteando os símbolos primaciais das Ordens do Templo e de Cristo, como organizações expressivas da “religião pátria”, para não dizer, da Patrística Lusitana incarnada no seu pensamento nacionalista donde frutificaria a diáspora e cresceria o império, sempre mantendo a fidelidade rigorosa à sua Regra e Estatutos; a par disso, aparece aqui e acolá, na propriedade, aparte o figurino simplesmente decorativo, um cardápio razoável de símbolos facilmente identificáveis como resgatados da tradição hermética da Alquimia transpostos, assim mesmo, para o sentido de heráldica falante afim aos predicados quase ou mesmo supra-humanos, vazados no tema nacional da Sebástica, que Carvalho Monteiro conferia à sua família e ascendência.

2.º – Refere-se haver nesta quinta um percurso iniciático «alquímico-rosacruciano». Será antes alquímico e cristão gnóstico, imediatamente conectado às alíneas anterior e posterior.

3.º – Diz-se que a cenografia de todo este espaço aberto e fechado contém cifrada, na linguagem muda dos seus símbolos, a Tradição Espiritual Portuguesa, e isto está certo, sendo exactamente o que venho dizendo desde cerca de 1980, altura em que comecei a estudar o recheio da Quinta da Regaleira.

A ideia de “religião pátria” assumida por António Augusto Carvalho Monteiro, mais que um pressuposto é uma evidência, aliás, reforçada pelas palavras da sua própria neta, D. Maria de Nazaré: “O meu avô gostava de tudo que era de Portugal, e apesar de não ter nascido aqui era mais português que muitos portugueses”.

A via mais apropriada para a leitura simbológica da Regaleira será a teosófica ou gnóstica na sua vertente cristã[36], com um e outros apontamentos resgatados ao figurino da tradição hindu por Carvalho Monteiro e Manini, certamente para reforçarem o significado iniciático da mensagem encriptada como a entenderam expor.

Dominando o espaço envolvente da propriedade, tem-se a sua torre evocativa da Montanha Sagrada da Iniciação, conhecida pelos orientais como Monte Meru, que tradicionalmente é ascendido num trajecto espiralado a partir da sua “metade” encoberta representada por uma câmara subterrânea, ou por uma outra torre subterrânea, cuja chegada ao cume marca a conquista do Céu, servindo assim a torre para expressar os três Mundos: Céu, Terra e Inferno, o que está muito bem assinalado nas duas torres subterrâneas (erroneamente chamada “poços”) da Regaleira: uma inacabada assinalando o Inferno (Saturno), outra completa designando a Terra (Hermes ou Mercúrio), e a terceira como a principal elevada ao Céu (Júpiter). Isto representa-se nesta torre principal com a sua câmara inferior para o Mundo Subterrâneo, a câmara circular para o Mundo Intermédio, a cuja entrada está um escudo de pedra em campo vazio, por encher com as virtudes do futuro Adepto vitorioso, e finalmente o mirante para o Mundo Superior.

Expressiva da Torre da Fé presente nas três religiões do Livro (judaica, cristã, islâmica), o simbolismo da torre encontra-se nas litanias da Virgem (Turris Davidica, Turris Eburnea), sem esquecer que os termos Virgem e Igreja estão associados, ele encerra um significado muito preciso. As torres, na Idade Média, podiam servir para espreitar eventuais inimigos, mas tinham também o sentido místico da escada: as relações entre o Céu e a Terra eram recordadas pelos degraus. Cada degrau da escada, cada andar da torre marcava uma etapa na ascensão. Fixada num centro (Centro do Mundo, Axis Mundi), a torre revela o mito ascensional e, como o campanário, traduz uma energia solar ou superior transmitida à Terra[37]. Foi numa torre de bronze, onde se encontrava aprisionada, que Danae recebeu a chuva de ouro fecundante de Zeus. De acordo com Alredo de Rievaulx (1110-1167), a Ordem de Cister é comparável a uma cidade fortificada, cercada de muros e torres que protegem das surpresas do inimigo. A pobreza forma muros e o silêncio uma torre que eleva a alma até Deus[38].

Na câmara inferior da torre que deu o nome à quinta vê-se ao fundo uma gruta artificial donde escorre água para um pequeno lago, adiante do qual figura uma donzela sentada com uma pomba no regaço e um ganso aos pés, um dos quais  está escondido debaixo da veste, como se fosse alegórico do pé serpentário que ninguém devia ver e que é o motivo da “proibição melusínica”. Trata-se da “Senhora do Lago”, Leda, Melusina ou Lusina (representada precisamente pelo ganso, símbolo primitivo dos agremiações de mestres-construtores cristãos cuja padroeira era Santa Madalena ou Magdala, cujo diminutivo hebraico, Migdal, expressivamente significa “Torre”[39]). Na lenda arturiana, a “Senhora do Lago” é a progenitora sobrenatural do “Cavaleiro do Cisne”, Lancelote do Lago, “o melhor (mais perfeito) Cavaleiro do Mundo”, aqui só podendo ser figurado em Carvalho Monteiro.

Fitando a imagem, não deixa de acudir-me à memória o último soneto da Vita Nuova de Dante Alighieri, onde a figura de Batraz ou Beatriz faz o papel de Melusina:

Além da roda (torre) que mais ao largo gira (espiralada)
Passa um suspiro que meu coração exala:
Um espírito novinho, que o Amor em pranto
Colocou nele, sempre mais alto o eleva.
Quando alcança onde ele deseja,
Dama aparece, que recebe toda honra,
E ela reluz de tão claro esplendor,
Que o espírito peregrino demorado a admira.

Com efeito, o figurino geral visto nesta câmara parece ter sido copiado a “papel químico” do cenário descrito por Jean d’Arras no seu romance nobiliárquico O Livro de Melusina ou a Nobre História dos Lusignan, no qual a fada era guardada por um dragão postado à entrada da sua gruta ou torre subterrânea (a que se pode chegar subindo até à metade desta indo desembocando num pátio amplo onde ao fundo, guardando o acesso subterrâneo à torre levantada no ventre na serra, vêem-se os escultóricos de dois lagartos ou dragões encadeados, figurando, entre outras coisas, o princípio hermético do solve et coagula).

A torre subterrânea ou jina, como diria Mário Roso de Luna, compõe-se de nove patamares cada um com quinze degraus, cuja soma e redução cabalística (9×15 = 135, 1+3+5 = 9) dá o nove indicativo do Hommo Inferius ou Incarnado, que os cabalistas judaico-cristãos identificavam como Adam-Chevaoth, ou seja, o Terceiro Aspecto do Logos Único, correspondendo ao Espírito Santo (ou Shiva, para os orientais) interiorizado no seio da Terra como Saturno sombrio, enquanto à sua face superior ou Primeiro Aspecto como Júpiter luminoso chamavam Adam-Kadmon, sendo que a sua humanização correspondia a Adam-Heve, o Hermes-Mercúrio ou Andrógino em separado como Homem e Mulher, o que dá o Segundo Aspecto do Logos Único. Por isso as escrituras sagradas dizem que “o Homem foi feito à imagem e semelhança de Deus” (Génesis, 1:26-27).

Os nove patamares desta torre subterrânea levando ao ventre da Mãe-Terra, remetem igualmente para a ideia dos nove estados do Plano Físico de acordo com a noção teosófica dos tatvas ou “estados subtis da matéria”, como sejam: sólido, líquido, gasoso, químico, vital, luminoso, reflector, subatómico, atómico. Este conceito é afim à cosmologia gnóstica onde cabe a ideia teológica dos “sete e nove Céus” e respectivas Cortes Espirituais (Arqueus, Arcanjos, Anjos, etc.), que Dante Alighieri exprimiria nos cantos da sua Divina Comédia e inclusive Luís de Camões em Os Lusíadas, de cujos cantos Carvalho Monteiro selecionaria para si determinados versículos que escreveu e assinou com o próprio punho em tarjetas, a maioria deles expressando o conceito divino do Cosmos, como o seguinte do canto X, versículo 80:

Vês aqui a grande Máquina do Mundo,
etérea e elemental, que fabricada
assim foi do Saber, alto e profundo,
que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
é Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,
que a tanto o engenho humano não se estende.

Revela-se aí a aceitação da existência de Deus (an sit Deus) e a preocupação em entender a essência de Deus (quid sit Deus), que sendo aceite como profissão de fé contudo não é entendido na condição de saber, motivo para a adopção do “Saber alto e profundo” para chegar ao Conhecimento do Divino, ou seja, tornar-se Gnosis ou Iluminado, motivo onde a condição material é absolutamente indispensável para poder, com o consequente engenho da segurança, subir os degraus ou graus da Sabedoria de Deus, e isto acaso explicará uma sentença constante de Carvalho Monteiro: “A matéria supera o engenho”.

É assim que esta turris inferius de assunção ao superius, ou vice-versa[40], retrata bem aquela outra da viagem interior ou espiritual descrita por Dante no canto XXXI do Paraíso (43-48):

E como um peregrino que se consola
Quando olha para o templo de seu voto,
Esperando já contar como ele é feito,
Assim como, errante pela viva luz
Eu passeava pelos degraus de minha visão,
Ora p´ra cima, ora p´ra baixo, ora circulando (ou em espiral).

Estando a parede da torre decorada por nichos representativos das almas que se manifestam, com os mesmos também poderá ajustar-se o canto XXVIII do Paraíso (127-129):

Todos admirando para o alto se tendem
E para o baixo são vencedores por próprio esforço;
Para Deus são levados e todos a Ele levam.

Pode-se relacionar a conquista espiritual da torre (como sinónimo de absorção salvífica em Maria, Turris Fidelis) com o sentido derradeiro do poema medieval do trovador D. Gonçalo Eanes do Vinhal (CV 309, BNL 671)[41]:

Quand´eu subi nas torres sobe-lo mar
e vi onde soía a bafordar
o meu amig´, amigas, tan gran pesar
ouv´eu enton por ele no coraçon,
quand´eu vi estes outros per i andar,
que a morrer ouvera por el enton.

Quand’ eu catei das torres derredor
e non vi meu amigo e meu senhor,
que oj´el por mi vive tan sem sabor,
ouv´eu enton tal coita no coraçon,
quando me nembrei d´el e do seu amor,
que a morrer ouvera por el enton.

Descrente e vazio da mínima prova de algum tipo de ritual esotérico praticado nesta Quinta da Regaleira por Carvalho Monteiro ou algum dos seus descendentes, contudo admito, ante o figurino exposto, que ele terá mandado dispor aqui o cenário próprio das iniciações gnósticas sírio-egípcias, impondo como pano de fundo a ideia de Ordem do Templo, como a primacial portuguesa, porque antes dela não havia outra no país como milícia castrense com regra e estatutos conferindo-lhe o foro legítimo de Ordem religiosa e militar, e como cenário o romântico da própria Serra de Sintra, assumindo o Romantismo como a pretensão de “regresso ao campo”, ao estado natural, sinal da reintegração do Homem na Natureza, predicado igual ao do retorno à condição e Origem Divina, percurso iniciático cujo figurino é o próprio dispositivo monumental da quinta. Com isso, avento a hipótese da Regaleira (com a sua planta pentagonal) acaso repartir-se em cinco etapas iniciáticas exclusivamente cénicas e figurativas de um teatro sem elenco humano, as quais perfazendo um pentalfa (o Tetragramaton) disponho da seguinte maneira:

Recepção do Neófito (Elemental) = Interior da torre de Melusina ou “la Dame du Lac”;

1.ª Prova (Terra) = Entrada e saída nas duas torres subterrâneas, «velha» e «nova», designando a “morte do homem velho” e o “nascimento do homem novo”;

2.ª Prova (Água) = Saída das trevas cavernosas e travessia do lago dos cisnes por cima de quinze pedras serpenteantes;

3.ª Prova (Fogo) = Reflexão na casa ou “câmara egípcia”, a que tem a ave íbis retratada, simbólica da iniciação e renascimento, nas cercanias da estátua do leão e «encravada» entre três bancos triangulando-se, cujas figuras que os decoram são as mesmas usadas na Alquimia para designar os tradicionalmente chamados três “espíritos alquímicos”: Sal – Mercúrio – Enxofre;

4.ª Prova (Ar) = Subida ao cume da torre da Regaleira, subida essa que se deve achar pois a dada altura a ascensão interrompe-se;

5.ª Prova (Éter) = Recepção do Iniciado na capela da quinta e a sua investidura na cripta da mesma;

Recepção do Iniciado (Subatómico e Atómico) = Acesso pleno do novo Iniciado ao palácio e ao templo, usufruindo do Poder Real e da Autoridade Espiritual assim representados na Regaleira, esta bem parecendo o lugar privilegiado de encómio ao culto graalístico em Sintra logo ao começo do século XX, cujas iniciais C. M. da sua figura central, Carvalho Monteiro, por tudo isso, sou induzido a transpô-las para aquelas outras de Cristo-Maria, cuja mística do Sagrado Coração ainda hoje prevalece na paroquial de Lagos da Beira, terra natal do pai deste génio que em Sintra terá realizado os mais íntimos e sublimes anseios.

As iniciais C. M. repetem-se na fonte monumental postada no caminho que vai da torre da quinta às entradas para as torres subterrâneas. Mandada fazer por Carvalho Monteiro a José da Fonseca[42], vê-se na sua fácies um círculo formado por 16 esferas (valor remetendo para a correspondência tarôtica do Arcano XVI, “A Torre”) dentro do qual inscreve-se o C sobre o M, iniciais de Carvalho Monteiro, mas também de Cristo sobre Maria, e ainda mais veladamente, de Cordo Maris, “Coração do Mar”, alusivo à “Ilha Encoberta” (Insula Hermetica) como a mesma Agharta das tradições míticas do Oriente. Transpondo o CM para algarismos romanos obtém-se o número 900, sendo que este valor designa cabalisticamente a Lua com os seus 9 ciclos de gestação necessários à formação do ser humano; daí que igualmente seja o número cabalístico do “Homem” ou Adam, gerado nas águas do barro da Terra (movimento assinalado nas cruzes swástikas decorativas dos obeliscos laterais da fonte), dele saindo depois Heve, indo formar a parelha primordial geradora da espécie humana. Por este motivo genesíaco, defronte da torre está um trono destinado a ser ocupado por um par, e diante dele uma mesa larga, espécie de távola evocativa da Obra Divina da Criação, onde todos os elementos em jogo “são postos sobre a mesa”. Abaixo do círculo uma flor-de-lis fálica direcciona-se a dois golfinhos entrelaçados, simbólicos do Androginismo dos Tempos do início e do fim da Humanidade, estado de perfeição esse representado tanto na Pedra dos Filósofos como no Encoberto e Desejado com que a mitologia portuguesa designa o Avatara do Futuro, o Messias a advir na pessoa do próprio Cristo. Com isto, o tema da Génese e da Parúsia, alfa e ómega da Grande Obra do Criador, será a mensagem velada nos símbolos desta fonte monumental, motivo de inquietação para uns e de sossego para outros.

Considero ainda que a reprodução cenográfica das etapas da iniciação gnóstica, postada tão ao gosto do épico teatral de Carvalho Monteiro, toda ela é vazada do figurino constante na lenda dourada da fada Melusina, com o acréscimo ou enriquecimento dos símbolos nacionais que a transpõem para a conceição lusa de um Sebastianismo esclarecido, teosófico, milenarista talvez, certamente apologético da Parúsia sem tempo certo para acontecer, porque a acontecer será só quando o Paracleto entender.

Com tudo, mesmo assim e por isso mesmo, parece que o tipo de Mistérios Iniciáticos expressados cenograficamente nesta Quinta da Regaleira seriam os que Rudolf Steiner chamou de “Iniciação da Hibérnia”, esta a primitiva Irlanda filha da Ibéria, desta indo para aí  várias vagas humanas na Proto-História, a última a dos Milésios cerca do ano 1000 a. C. Consequentemente, essa “Iniciação Hibérnica” melhor se poderia chamar “Iniciação Ibérica”, a qual se dotava de dois atributos que afinal vêm a ser os mesmos que distinguem e tornam ímpar este espaço monumental: a Ciência e a Arte. Diz o referido autor[43]: “Já vimos que esta Iniciação da Hibérnia comportava duas estátuas simbólicas. Sobre a cabeça da estátua do Conhecimento lia-se a palavra Ciência, e sobre a cabeça da outra estátua lia-se o termo Arte. Após a iniciação, o iniciado era levado para fora do templo e os dois iniciadores ficavam à porta, e então um tomava-lhe a cabeça entre as mãos e voltava-a para o que o outro lhe mostrava: a figura do Cristo, e as palavras de advertimento ressoavam. O sacerdote que lhe havia mostrado a imagem de Cristo, dizia-lhe: “Toma em teu coração a Palavra e a Força deste Ser”. Depois o outro sacerdote acrescentava: “E recebe Dele o que as duas estátuas querem-te dar: a Ciência e a Arte”.

De certa forma trescala do texto a aproximação entre o gnosticismo cristão e o gnosticismo pagão, que no caso da Regaleira é observável em dois espaços distintos: a estufa e o patamar que desfecha o jardim. Sobre a fachada da estufa quente (idealizada em 1908 por Manini para recolher a colecção de orquídeas e espécies exóticas de Carvalho Monteiro), lateral à torre, abre-se um largo painel de azulejos pintado por Angelo Samarani, cenógrafo italiano colaborador de Manini que foi quem desenhou a composição do mesmo, diz-se que inspirado em gravuras oitocentistas das revistas Ilustracion Artistica e L´Illustrazione Italiana, paradigmas do gosto romântico da época, mas que esse arquitecto-cenógrafo transporia para o cenário mitológico de Sintra. O painel representa um grupo de seis vestais greco-romanos rodeadas de pombas, cães galgos lebreiros e uma corça, fazendo a oferenda de uma braçada de flores a uma possível deusa de que só se vê os pés sobre o pedestal, junto ao qual fumegam as fragrâncias sagradas elevando-se de uma pira acesa.

Servindo de decoração a um espaço destinado à flora, à primeira vista o painel parece evocar a Arcádia ou Paraíso original, motivo central do Romantismo tomado como estado naturalista de retorno do homem moderno dessacralizado à aurea mediocritas ruralis, a poética primitiva da Primavera dos Deuses ou Idade de Ouro (Satya-Yuga, em sânscrito). Possivelmente a deusa homenageada será a própria Cynthia, nome grego da deusa Artemis ou Artemísia a quem os romanos chamaram de Diana, a mais pura e casta das deusas, irmã gémea de Apolo, o Sol, filhas de Zeus e Latona, mas cuja origem mitológica está na Kinthya celta, vulgarizada Cynthia e que deu nome à serra da sua eleição, Cintra ou Sintra. É a divindade lunar protectora da Natureza, musa inesgotável dos artistas e a primeira das ninfas sua rainha[44].

No patamar onde o jardim finda, quase a tombar sobre a Rua dos Pisões, corre uma fileira de nove estátuas de deuses da mitologia greco-romana, de certa forma relacionados com os signos do Zodíaco e as Hierarquias Criadoras do Universo Divino, segundo as concepções teosóficas ou gnósticas. À direita e sobre o portão de entrada pela supradita rua, aparece em primeiro plano o deus Hermes (Mercúrio, relacionado com Gémeos e a Virgem); segue-se Vulcano (deus dos fogos subterrâneos, assim expressando a própria Terra com o seu Núcleo Central ou Sol Oculto), logo seguido de Dionísio ou Baco (deus de eleição das primitivas bacantes e pai de Luso, o progenitor mitológico da raça com o seu nome, a lusa ou lusitana. Está em simpatia com Marte e os signos do Carneiro e do Escorpião). Depois surge Pã (o fauno saturnino que os primitivos povos migratórios aclamaram deus da pastorícia, sinónima de mobilidade ou nomadismo. Relaciona-se com Capricórnio e Aquário), seguido de Ceres (a deusa das colheitas relacionada aos primitivos povos agrários que se sedentarizaram em terrenos férteis regados por águas boas, e por isso expressa a Lua e o Caranguejo), logo vindo a deusa Flora (expressiva da Primavera e do início do ciclo agrário desejado de boas colheitas, com isso sendo associada a Vénus e ao Touro, este também representativo das boas gestações maternas), completada pela deusa Vénus (a do amor e da paixão, com isto representada pelo signo da Balança, sendo igualmente a padroeira dos mistérios sagrados). Por fim, aparece Orfeu (deus da poesia e da música, ligado à sabedoria e à iniciação, completando-se como Mercúrio com a anterior Vénus, donde Hermes-Afrodite ou Hermafrodita, que melhor seria chamá-lo Andrógino Perfeito representativo do próprio Adepto Real) antes de terminar na estátua da deusa Fortuna (a da abundância terrena e divina, pelo que carrega a cornucópia ou cornu-copus dos deuses, repleta de dádivas por graça de Júpiter ou Zeus, com isto associada aos signos de Sagitário e Peixes). Entre essas duas últimas estátuas e as restantes, está postado num pedestal a estátua de bronze de um enorme leão, fitando na direcção do palácio, obra de P. Rouillard (assinada por ele), remontando à época da baronesa da Regaleira, facto atestado por um grafite sobre papel de 1885 feito pelo rei D. Carlos, desenhando o animal junto à balaustrada primitiva da quinta. Posteriormente seria colocado por Carvalho Monteiro no pedestal onde hoje se vê, precisamente aí para assinalar cenograficamente a sua saída do bosque, motivo que levou Manuel Gandra a associá-lo ao “leão saído do bosque” bíblico mas com a ponderação acautelada que o tema suscita. Diz[45]:

O Leão saído do Bosque. Este tema radica numa fonte contemporânea dos derradeiros escritos do Novo Testamento, considerada um dos pontos altos da literatura messiânica hebraica pós-exílio, originada pela destruição de Jerusalém por Tito, no ano 70. Consagrada pelos títulos de Esdras IV e Apocalipse de Esdras, a Igreja Católica chama-lhe deuterocanónica, por outras palavras, não lhe reconhece o carácter de livro autenticamente revelado. A redacção original realizada numa língua semita, o hebraico ou o aramaico, data do século I da era cristã. A partir do século V passaria a ser considerado apócrifo. No entanto, ao contrário de inúmeros outros apócrifos de pendor geralmente apocalíptico que haviam representado idêntico papel no misticismo hebraico (e que foram alvo de sistemática censura por parte da Igreja Romana), a versão latina, não obstante ter sido parcialmente expurgada, teve uma extraordinária difusão durante a Idade Média.

Esdras IV pertence, com efeito, a uma outra classe de textos. Com efeito, centra-se na problemática da Restauração Messiânica e do papel escatológico e ético do Messias no Juízo Final. Os protagonistas são personagens bíblicas que acedem a uma revelação ou epifania mediada por um Anjo e completada pela contemplação da Mercabah (Carro ou Trono) de Deus, ou pelo arrebatamento e ascensão ao Empíreo.

“Quererei com isto sustentar que o programa da Quinta da Regaleira se inspira em Esdras IV?

“De modo nenhum! Viso apenas mostrar que um elemento, regra geral inócuo e desvalorizado, porque pré-existente nas abordagens hermenêuticas vigentes, foi reintegrado de forma subtil por Carvalho Monteiro na cenografia do lugar, encerrando o percurso da peregrinação alegórica exposto na Regaleira. Refiro-me, é óbvio, ao leão em bronze que, literalmente, sai do bosque, o qual serve de guia aos visitantes-viandantes, apontando-lhes o sentido da marcha em direcção ao Olimpo, por outras palavras, ao Quinto Reino ou Império.”

Símbolo-mor da Realeza e particularmente parte distinta das Armas de Lusignan, como quinto signo do Zodíaco no sentido cosmogónico, o Leão expressa o próprio Sol em torno do qual se postam os doze signos assinalados aqui pelos deuses greco-romanos do Empíreo. Este simbolismo zodiacal é corroborado por René Guénon, quando escreve acerca dos doze Adityas ou “Sóis” menores promanados do Sol Único e Indivisível (Surya), expressivo da Divindade Absoluta[46]: “São igualmente manifestações de uma Essência Única e Indivisível. E diz-se também que esses doze Sóis aparecerão simultaneamente no fim do Ciclo, reentrando então na Unidade essencial e primordial da sua natureza comum. Entre os gregos, os doze grandes deuses do Olimpo estão também em correspondência com os doze signos do Zodíaco”.

Postado em destaque o leão, animal solar associado ao ouro como “o mais nobre dos metais”, é também considerado um dos símbolos do Rei do Mundo, pelo que René Guénon na obra citada avança: “É exactamente o que a liturgia católica atribui ao Cristo, quando lhe aplica o título de Sol Justitiae: o Verbo é efectivamente o “Sol Espiritual”, isto é, o verdadeiro “Centro do Mundo”; além disso, essa expressão Sol Justitiae refere-se directamente aos atributos de Melki-Tsedek. É também de notar que o leão, animal solar, era na Antiguidade e na Idade Média um emblema da justiça e, ao mesmo tempo, do poder; o signo do Leão é, no Zodíaco, o domicílio próprio do Sol. O Sol de doze raios pode ser considerado como representando os doze Adityas; sob outro ponto de vista, se o Sol representa o Cristo os doze raios são os doze Apóstolos (a palavra apóstolo significa “enviado”, e os raios também são “enviados” pelo Sol). Por outro lado, pode ver-se no número dos doze Apóstolos uma marca, dentre muitas outras, da perfeita conformidade do Cristianismo à Tradição Primordial”.

Poderoso, soberano, símbolo solar e luminoso ao extremo, o leão, rei dos animais, por sua categoria incarna os predicados do Poder, da Sabedoria e da Justiça, com isso tornando-se a representação do Pai, do Mestre, do Guia. Pela qualificação de Justiça, faz-se garantia tanto da Autoridade Espiritual como do Poder Temporal e por isso serve de montaria ou trono a numerosas divindades, ornamentando tanto o trono de Salomão como o dos antigos reis de França e até o dos bispos medievais, associando-se a figura do animal resplandecente à do Trono de Deus, igualmente chamado Leão de Fogo e de certa maneira ligado à doutrina cabalística da Merkabah. Com isto, torna-se igualmente símbolo do Cristo-Juiz e do Cristo-Doutor, de quem ele carrega o livro ou o rolo, e nesta mesma perspectiva é o emblema do evangelista S. Marcos, fundador da Igreja de Alexandria, uma das principais sedes do Cristianismo primitivo. O leão de Judá falado ao longo de toda escritura sagrada, desde o Génesis (49:9) até ao Apocalipse (5:5), manifesta-se em plenitude na pessoa de Cristo ,cujo advento como “Coração do Universo” (expresso como quinto signo do Zodíaco de quem o Leão é o “coração” do mesmo) é aguardado pela comunidade dos fiéis lusitanos sob o figurino alegórico afim ao tema sebástico do Encoberto, também este “Coração”, Vaso Sagrado ou Santo Graal revelado na hora final da consumação do V Império ou Reino Espiritual a urgir na “Terra de Luz”, isto é, Lux-Citânia ou Lusitânia, tudo em conformidade com a ideologia messiânica da “religião pátria” cultuada por Carvalho Monteiro.

Isso explicará também a sua predilecção por esse animal (cuja figura espalha-se por toda a Regaleira), a ponto de trazer ao pescoço uma medalha de ouro com um leão entronizado e a divisa Quis audet (“Quem ousará atacá-lo?”), “decerto alusiva ao carácter universal e insuplantável do Encoberto”, diz Manuel Gandra. Este autor informa ainda que aquela (a única que usava) fazia parte de um total de sete medalhas “todas emblemáticas do seu desígnio de vida”, com figuras e as respectivas legendas latinas significando em português: “Não desces nunca”, “Conquanto me agrade”, “Dá o teu fruto sem o prometer”, “Serpenteio, mas não me desvio”, “Privado de ti, morro”, Não espero, senão de mim mesmo” e “Quem ousará atacá-lo?”. Como Carvalho Monteiro reservava exclusivamente para si esses conceitos metafísicos de lonjura mental, revelando-se insuperáveis e incompreensíveis até para os seus mais próximos, a sua neta D. Maria de Nazaré teve o desabafo próprio de quem não entende: “Era o mais supersticioso que havia”.

De maneira que, à parte o significado iniciático, o leão ficaria tão-só como emblemático da Realeza que Carvalho Monteiro aproveitaria para si da baronesa da Regaleira, atendendo à atribuição da mercê de Moço Fidalgo da Casa Real que lhe fez D. Luís I em 1882. E talvez também e por igual, no contexto mágico das crenças populares concessoras de poderes sobrenaturais a seres e objectos, o leão da Regaleira ficasse com a reputação de afugentar os demónios e de trazer saúde e prosperidade para os locatários e até a toda a vila de Sintra, esta que o poderoso magnata pretendeu adquirir como revela ainda a sua neta: “Ele queria comprar todas as quintas à volta e fazer ali um domínio só seu”.

Tão grande cultura a par de ainda maior espiritualidade, dispõe António Augusto Carvalho Monteiro no patamar de quase Mahatma, ou seja, de “Grande Alma” para a teologia hindu, afim à condição de Homem Perfeito ou Adepto Real. Não quero dizer com isso que o tenha sido mas que houve pretensão a tanto, nem que fosse só como Homem Representativo da Tradição Espiritual Portuguesa fincada em Sintra, facto reforçado na Regaleira por uma figura estranha à iconologia ocidental. Com efeito, aparece na chaminé do palácio (em guisa de escudo armoriado na fachada sul e por cima de uma esfera armilar com um letreiro onde se lê Domvs aedificata ano domini MCMX, “Casa edificada no ano do Senhor [de] 1910”) a escultura de um estranho animal mitológico o qual, com inteira exactidão, corresponde à alegoria hindu do Makara (que estando junto à esfera armilar significa Makara Lusitano, ou por extenso, Casa do Makara Lusitano), termo com que os sábios orientais designam os deuses humanizados como “Grandes Almas” ou Adeptos Perfeitos. Na iconologia védica, o Makara é provido de uma espécie de tromba parecida à do elefante e o qual Varuna, deus do Oceano, monta. É representado com a forma de um animal, possuindo a cabeça e as patas dianteiras de um antílope e a cauda de peixe[47]. É exactamente isso que está esculpido na chaminé do Palácio da Regaleira, tanto como sinal do que Carvalho Monteiro acaso assumia ser, como igualmente indício de ter bebido nas fontes teosóficas dos seus contemporâneos Helena Petrovna Blavatsky e Francisco Stuart Mourão, o visconde de Figanière, numa época em que a Sociedade Teosófica estava em plena expansão na Europa, apesar do orientalismo teosófico ser transposto aqui para os signos da Tradição Espiritual Ocidental, particularmente para o contexto nacional do tema sebástico.

Ainda sobre o Makara, na cosmologia teosófica ele é disposto como a quinta Hierarquia Criadora (segundo a contagem dos Reinos Mineral, Vegetal, Animal, Humano e Espiritual) do Mundo e do Homem, o padrão da perfeição integral deste. Por esse motivo, a estrela de cinco pontas, o pentalfa, marcando o quinto princípio espiritual, é a signa representativa do Makara, chamada na cultura védica Makaram. Em português, Makara significa literalmente “crocodilo”, o animal cuja natureza anfíbia simboliza a condição psicopompa ou intermediária entre o Cosmos criado e o Caos primordial (o Leviathan bíblico). A sua postagem no alto do palácio da Regaleira expressa isso mesmo: a Ordem saída do Caos (Ordo ab Chao), ou por outra, o estado diferenciado nascido do estado indiferenciado. A natureza dúplice do Makara presente às funções mentais e reprodutoras do Homem, por esta mesma razão a mitologia greco-romana correlacionou-o com o deus Cúpido (Kama-Deva nos Vedas), cuja seta inquietante (expressiva da cauda do crocodilo representado no Empório pela constelação do Escorpião, e nisto a seta cúpida será o aguilhão do mesmo) podendo acertar em qualquer um(a), tanto pode despertar o sentimento do mais elevado e puro amor, como a emoção da mais fogosa e intensa paixão. Se a seta será de ouro ou de ferro, tudo depende da motivação e interesse para que pende cada um e cada qual.

Direccionado a norte, o Palácio da Regaleira ostenta antes do padrão com a Cruz de Cristo à entrada onde o visitante é recebido pelo listel “Salvé”, a estranha figura de um animal mordendo a própria cauda: trata-se do ouroboros hermético, motivo do apodo “mansão filosofal” resgatado a Fulcanelli[48]. Com efeito e alguma estranheza geral, por vezes encontra-se na iconologia e literatura teológica cristã a imagem, desenho ou pintura de uma serpente enrolada mordendo a própria cauda. Apresentada assim, é a representação simbólica do conhecimento universal que dispõe o Ser em unidade com o Universo, sendo o sinal remoto que introduz no significado da genealogia ou linhagem a divinis do Cristo, princípio e fim da Igreja Universal, tendo os Profetas por começo e os Apóstolos por final, sendo a Palavra de Deus o elo de ligação presente do Passado (cauda da serpente) com o Futuro (cabeça da serpente). Por tratar-se de um símbolo pré-cristão, para todo o efeito, o conceito de Sabedoria é predominante nele, não só no Cristianismo como em todas as culturas religiosas desde a mais alta Antiguidade.

É chamado tradicionalmente ouroboros, palavra de adopção grega mas oriunda do copta e do hebraico, sendo que ouro significa “rei” em copta, e ob quer dizer “serpente” em hebreu, portanto, “serpente real”, a mesma naha hebraica ou naga hindu, simbólica do hommo serpens indicativo do Iluminado espiritual de quem o réptil, elevado da base do corpo ao alto da cabeça, figurativamente falando, é simbólica da respectiva Iluminação, por o mesmo representar o Fogo Divino chamado pelos orientais Kundalini, o qual a Medicina ocidental da Idade Média e Renascença viria a associar esse calor corporal subindo do cóccix ao crânio à venena bibas (“veneno tragado”, de que fala São Bento de Núrsia) da serpente, cuja mordida venenosa só se cura com peçonha igual, facto que se transporia para o sentido místico de que só uma vivência espiritualizada poderia resultar numa realização espiritual.

Os gregos vulgarizaram a palavra ouroboros, dando-lhe o significado literal de “serpente engolindo a cauda”. Eles receberam essa figura dos fenícios relacionados aos hebreus que, por sua vez, a herdaram do Egipto, onde o ouroboros já aparece numa estela datada de 1600 anos a. C. que retrata o deus Rá, ou da Luz, ressuscitando das trevas da noite, sinónima de morte. Isto reporta ao tema do eterno retorno, da vida, morte e recomeço da existência, facto que também dispõe o símbolo como indicador da reencarnação das almas em sucessivos corpos humanos até alcançarem o máximo da evolução que as torne perfeitas corporal e espiritualmente, tema caríssimo aos povos do Médio e Extremo Oriente. É assim que o acto da serpente engolir-se a si mesma também pode interpretar-se como uma interrupção do ciclo de desenvolvimento humano (representado pelo réptil) para iniciar o ciclo de evolução espiritual (representado no círculo). Pitágoras deu-lhe o sentido matemático de infinito, por a serpente disposta assim configurar o zero, número abstracto utilizado para designar a eternidade que toma forma ou se concretiza quando o ouroboros é figurado a girar sobre si mesmo, representando a actividade universal de um ciclo de evolução assinalado no círculo, desta maneira contendo as ideias de movimento, continuidade, autofecundação e, por consequência, eterno retorno. Fechando-se sobre o próprio círculo, ou seja, mordendo a própria cauda, a serpente evoca a Roda da Vida, da Existência, donde ser a evocação plástica da Criação do Universo por Deus Omnipresente, identificado pelos cristãos gnósticos com o Espírito Santo, cuja Sabedoria revela-O Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, dando-Lhe por expressão máxima na Terra o próprio Cristo. Por este motivo, o ouroboros é associado na literatura gnóstica grega à frase Hen to pan, isto é, “O Todo”, “O Único”, e desde os séculos IV-V foi adoptado popularmente como amuleto protector contra os maus espíritos e as mordidas das serpentes venenosas. Ficou conhecido como Abraxas, nome de deus do primitivo panteão gnóstico que os egípcios reconheciam como Serapis, tendo-se tornado um dos mais famosos talismãs mágicos da Idade Média.

A Alquimia grega cedo adoptou a figura do ouroboros (ou uroboro) que chegou aos filósofos herméticos de Alexandria, com os quais os pensadores árabes aprenderam e difundiram a sua imagem através das suas escolas de Hermetismo e Alquimia que se tornaram conhecidas na Idade Média graças aos cristãos que as procuravam, inclusive havendo registos históricos de alguns membros da Ordem dos Templários, além de outros místicos cristãos, terem-nas procurado no Cairo, na Síria e até em Jerusalém para iniciarem-se nas ciências herméticas, apesar de proibidas pelas autoridades eclesiásticas mais por motivação política a ver com a sobrevivência da secularidade da própria Igreja, do que propriamente com alguma questão teológica.

O ouroboros representa a síntese de todos os elementos da Grande Obra de construção do Universo e do Homem, primeiro “vomitando” de si os elementos metálicos “em estado puro”, e depois, após depurá-los e apurá-los no processo de evolução universal do Ciclo da Vida, “engolindo” esses mesmos elementos já aperfeiçoados, “em estado maduro”, resultado da sabedoria que os tornou de incipientes em sapientes. Por conter a ideia de síntese de todos os elementos manifestados desde o Abismo (Abyssus) da Substância Universal, os hermetistas gregos apodaram o ouroboros de Agathos Daimon, o “Espírito Bom”, expressando a ideia do “Tudo no Todo”, ou seja, os seres vivos como partes do Absoluto. Foi assim que Heráclito comparou o Demiurgo, Deus, a uma “criança a jogar”, dando a ela o nome de Éon, Ciclo de Evolução Universal, e ao jogo de solve et coagula apodou de ouroboros, dessa maneira o período cósmico que vai da criação à destruição do Universo, durante o qual a sabedoria (gnôsis) que se obtém dará o conhecimento necessário para se criar novo e mais amplo Universo, ideia que mantém a solução eterna da Evolução do Criador e das criaturas encontrada no conceito hindu de Manvantaras e Pralayas, ou seja, os períodos de “Actividade” e de “Repouso” universais, em que num se acumula sabedoria pelas experiências múltiplas e noutro se assimila ou digere essa mesma sabedoria, para depois executá-la com maior experiência e exactidão.

No palácio abunda a letra M, por vezes vista envolta em grinaldas de rosas, a qual, além de ser a inicial óbvia de Monteiro, é também a da Mãe de Deus, Maria, em quem o Espírito Santo incarnou como Matéria-Prima, aqui figurada nos melhores materiais com que se edificou a residência. O M e as rosas sugerem igualmente o Roseiral Mariano, nome dado na Idade Média aos tratados de Alquimia genericamente chamados Roseiras dos Filósofos. Tomada como indicativa da décima terceira letra-mãe do alfabeto hebraico, Mem, esta assinala tanto o Eterno Feminino (indicado na vulva humana e geográfica que é a gruta ou cripta, de onde sai a vida e se recolhe a mesma pela morte) como as próprias Águas da Criação marcadas sideralmente por Vénus, a carmelitana Stella Maris, aliás, o planeta afim ao biorritmo da própria Sintra cuja natureza sobretudo feminina Carvalho Monteiro parece ter querido assinalar aqui, ele que, como anteriormente desejou D. João de Castro, queria para si toda a serra.

O facto de dominarem temas evocativos de Santo António, de predominarem alegorias do carvalho e cenas abundantes de montaria nesta propriedade, de maneira alguma são sinónimos do narcisismo desmedido do “ricaço nababo” António Carvalho Monteiro: são antes elementos de heráldica falante que ele assim quis plantar como encómio e perpétuo da memória familiar, motivo justificado no antigo direito romano da sucessão e transmissão hereditária[49], aqui acrescida, por via simbológica, do princípio da transmissão iniciática, crucial para a dispor no patamar privilegiado de linhagem eleita, tema remetendo novamente ao sentido sebástico da Parúsia.

Fernando Martins de Bulhões, o Santo António português doutor da Igreja, é um beato helíaco, solar por seu próprio nome associado ao cóptico Aton, “Sol”; o carvalho, com a equivalência simbólica de templo entre os celtas, é a árvore do fogo e do poder; finalmente, a montaria relaciona-se à supradita tradição dos “santos caçadores”, acontecendo a iluminação espiritual “durante uma caçada”, sinal claro da busca da Transcendência, do Saint Vaisel ou Santo Graal marcado pela presença do “veado carregando a cruz entre as suas hastes”, ou então no “javali indómito”, simbólico da “posse do poder e da sabedoria espiritual”, facto originador de numerosos mosteiros em “enclaves mágicos” tradicionalmente consagrados e reconhecidos[50], como foi o caso notável da Nazaré com a sua “carvoaria” ou “bafometaria” (colégio de estudos corânicos) associada à anterior igreja visigótica de S. Julião, a qual motivou a célebre lenda local do caçador-templário D. Fuas Roupinho, episódio aliás patente num painel de azulejos policrómicos dentro da capela desta quinta.

As referências à caçaria, abundando na Regaleira, vêm a ser transpostas, pelos motivos já descritos, para o sentido de “caçada mística”, um dos principais paradigmas da gnose dos Fiéis de Amor medievais que o maneirista Camões, a seu modo também um Fiel de Amor, não deixou de expressar no seu Auto do Filodemo (1587)[51], obra teatral conhecida de Carvalho Monteiro, o maior bibliógrafo camoniano de sempre, até hoje não superado, sendo tão grande a sua mais que admiração devoção pelo poeta pátrio que até os charutos que fumava eram da marca “Camões”.

Sobre isso, diz Paulo Pereira[52]: “Na obra de Camões, que Carvalho Monteiro conhecia muitíssimo bem, encontra-se igualmente o paradigma da caça, precisamente num dos seus escritos mais curiosos, o Auto do Filodemo. O seu conhecimento por parte do proprietário pode ter feito bascular positivamente o efeito da representação deste acto, como referência subliminar ao universo camoniano e reforço semântico e celebrativo do conjunto.

“Este auto, que foi já objecto de interpretações esotéricas – começando pelo título, com “Filodemo”, que esconde a palavra philo-daimon, “amante do espírito ou da alma” –, trata da caça ao veado ou cervo como forma de demanda prática de uma Filosofia do Amor, simétrica à procura da senhora ou pastora amante.

“Na caça aí empreendida, como parte integrante de uma peça muito complexa, encontramos a personagem do “monteiro”, companheiro do seu senhor, Venadoro. Acerca da nobreza de tal função diz o monteiro, enaltecendo-a: “Aprovada antiguamente / Foi, e muito de louvar, / A ocupação de caçar, / E da mais antigua gente / havida por singular. / É o mais contrário ofício (ao) / Que tem a ociosidade, / Mãe de todo o bruto vício: / Por este limpio exercício / Se reserva a castidade”.

“É ainda o mesmo monteiro que depois se queixa de ter perdido o seu amo na caça: “Perdeu-se por esta brenha / Venadoro, meu senhor, / Sem que novas dele tenha: / Queira Deus que inda não venha / desta perda outra maior. / Contra esta parte daqui / Despós um cervo correu; / logo desapareceu. / Como de vista o perdi, / O gosto se me perdeu”.

“Sem pretender simplificar em demasia este jogo de identificações e cumplicidades, podemos dizer que brenhas existem em profusão no parque do palácio e, neste, frequentes referências à caça, sobretudo em pequenas fontes ou recantos. E não faltará até uma fonte dentro de uma gruta, com uma dama, como que recordando o episódio de Florimena (que canta “O monte e a sua aspereza / De flores se veste ledo;”) quando encontra Venadoro, “com um pote que vai à fonte”.”

Quanto à morte do javali (varâha, em sânscrito, simbólico da Autoridade Sacerdotal) sob a lançada do monteiro, equivale à conquista do Pólo Espiritual que está assinalado na torre mística, consequentemente, vale pela integração no Centro Primordial oculto, até então pressentido e doravante possuído[53]. Posto assim, o monteiro prefigura-se em pleno acto iniciático inscrito na chamada Iniciação Mariana ou Senhorial, herança das antigas tradições guerreiras celtas que igualmente demandavam o domínio do corpo e da alma como fórmula activa de Iniciação Transcendente e que era representada na caçada ao javali ou ao porco selvagem, prosseguida como arte venatória como exclusiva da nobreza medieval, cedo tornada sinónima de conquista da Sabedoria pela morte ou domínio da mundanidade, da condição profana assinalada no dito animal.

Relacionada com a montaria anda a falcoaria (o falcão era a ave caçadora predilecta da nobreza medieval, com isso vindo a representar a casta Militar, Cavaleiresca ou Kshatriya e até a ser associada à fénix, a ave mitológica expressiva da ressurreição em que se crê o guerreiro tombado na guerra justa, usando a expressão de São Bernardo de Claraval no seu Louvor da Milícia do Templo[54]), ambas artes lúdicas de preparação pela caça para o exercício efectivo da guerra, motivo da sua ligação estreita à Iniciação Kshatriya, cuja expressão superior se vai encontrar na Arte Real de “guerrear” os elementos naturais que é a Alquimia.

O motivo do dragão, lagarto, serpente, etc., presente na iconologia hermética da Quinta Regaleira remete para a “caçada hermética” do “monstro fabuloso”, isto é, para o domínio do Fogo Sagrado no próprio Homem e na Natureza, latente no imo de ambos, o qual, como já disse, os orientais chamam Kundalini e os ocidentais de Fogo do Espírito Santo, representado na Virgem Maria que é a Padroeira dos Philosophos per Ignium, os Filósofos do Fogo, nome tradicionalmente dado aos Alquimistas, detentores da Arte Real de marear os elementos subtis e físicos da Natureza, demandando a maior Perfeição, e também possuidores da Arte Sacerdotal que acompanha a devoção e entrega a Deus pelo serviço à Humanidade. A ambas chamavam Ergon e Paraergon, Teurgia e Alquimia, Opera Magna ou Grande Obra de aprimoramento do espiritual e do humano onde um não prescindia do outro, acasalando na mais sublime das núpcias químicas a mente e o coração, a cultura e o carácter, vivendo na Terra as venturas do Céu. Serge Hutin chama-as de Taumaturgia Alquímica, adiantando[55]: “O que constitui a originalidade da Gnose Alquímica é o facto de ela se aliar estreitamente a uma Taumaturgia, a operações práticas realizadas sobre a “Matéria-Prima” da Obra. Existe um rigoroso paralelismo entre o processo interno de Iluminação e as operações materiais que são, simultaneamente, a sua “simbolização” e “confirmação” prática. Ao mesmo tempo que é iluminado pelo conhecimento que salva e se opera nele a “transmutação” mística, o Adepto contempla, no Ovo Filosófico, a operação pela qual o Princípio Luminoso pode ser extraído da Matéria em que está “cativo” e tornar-se, desse modo, susceptível de transfigurar esta última. Fazendo isso, o Alquimista contempla uma manifestação do Fogo Divino da Vida Universal”.

A Alquimia (matriz da Química moderna) fez parte das ciências tradicionais ou esotéricas que a Igreja Católica tolerou relativamente num dos seus três aspectos, a saber: a Externa ou Alquimia Metálica, portanto, laboratorial e física; a Interna ou Alquimia Mística, a ver com a mudança espiritual dos estados de consciência do homem, e era esta que a Igreja tolerava (como se viu pelas práticas filosóficas de Santo Agostinho e Santo Alberto Magno, por exemplo); finalmente, a Arte Magna, a mais perfeita, onde simultaneamente à transmutação da Matéria dava-se a transformação da Alma, sendo esta a preferida de todos os verdadeiros Alquimistas.

A Alquimia processa-se por duas vias, chamadas Via Húmida e Via Seca. A primeira é um caminho de experimentações metálicas graduais, lentas mas seguras, sempre com a presença de um casal, cujo elemento principal nessas operações é a água que se ferve num fogo intensificado gradualmente, à medida que o crisol da Matéria-Prima aparece no fundo da retorta. A esta fase chama-se Anunciação. A Matéria-Prima é a Primordial, ausente de metais impuros, e é com ela que se obtém a Pedra Filosofal, chamando-se este caminho para a fábrica da Pedra de Crisopeia, “obtenção do Ouro”, tanto místico como metálico. Enquanto na Via Húmida se passa primeiro pela “obtenção da Prata”, chamada Argiopeia, na Via Seca não: o caminho é directo para a Crisopeia e o elemento dominante é o fogo, com o Alquimista operando sozinho abreviando o tempo para alcançar o seu fim, o que não deixa de ser muito arriscado. A Via Seca é representada pela árvore seca com nós, estes os «nós» (nidhanas) da Alma que o Adepto do Fogo vai «desatando» de maneira radical ou ascética, ou seja, procurando alcançar a Iluminação espiritual no mais breve prazo de tempo possível, resultado assinalado na obtenção externa do Ouro alquímico.

A colagem dos processos das operações alquímicas, representadas desde símbolos e emblemas astrológicos e mitológicos a episódios específicos dos Antigo e Novo Testamentos, principalmente aqueles onde domina a presença feminina, seja como heroína ou como santa, ou ambas, recua ao ano 1100 na Europa, quando as universidades árabes passaram a divulgar a ciência alquímica, tendo-as frequentado místicos e sábios judeus e cristãos, adaptando os símbolos e alegorias herméticas a passagens demarcadas das escrituras sagradas, levando a leitura e interpretação dessas para o campo da heterodoxia característica da Tradição Primordial. Na Europa, foram precisamente os beneditinos, e depois os cistercienses seus descendentes, os primeiros a aceitar a ideia de ligar a Bíblia à Alquimia, facto que no mundo bizantino já era aceite desde Zózimo de Panápoles, que cerca do ano 300 d. C. deu início à Escola Alquímica em Alexandria e foi o primeiro a ser chamado Filósofo do Fogo. Ele havia recolhido esses conhecimentos herméticos junto dos sábios da Ásia, na China e sobretudo na Índia.

Ora, encontra-se no piso superior do Palácio da Regaleira um pequeno aposento possuído das especificidades de um laboratorium alquímico. Neste compartimento só entrava o proprietário, como contam os seus descendentes, o qual pega com outra contingência octogonal identificada como o scriptorium, também exclusivamente reservada a Carvalho Monteiro. Socorrendo-me da Cabala Fonética – que o Islão apoda poeticamente de “Fala dos Pássaros”, identificados com os Anjos – poderei muito bem transpor scriptorium e laboratorium para o sentido do ora et labora dos hermetistas beneditinos e cuja frase originou o filólogo laboratório, isto é, labor+oratório, expressão estática do universo alquímico. Ademais, em guisa de reforço da ideia desse mesmo universo, saindo desses aposentos para subir ao belveder por cima, vêem-se os seus colunelos decorados com conchas de caracol, que é a expressão simbólica da evolução gradual da Grande Obra do Supremo Demiurgo. Nos colunelos aparecem as efígies dos mais que certos inspiradores de Carvalho Monteiro: Ulisses (sem certeza mas com a certeza de ter sido o inspirador lendário da Ulisseia homérica), Platão ou Séneca (também sem certeza, porque um era filósofo e o outro legislador, saberes em que C. M. era formado, isto se não for a sua própria efígie), Gualdim Pais (como possibilidade, que foi o Grão-Mestre Templário donatário da Vila de Sintra no século XII), Luís de Camões (com toda a certeza, o épico da Portugalidade laureado), e Beatriz (com menos certeza mas certo de ter sido a musa amorosa de Dante Alighieri). Não faltam ainda, nos beirais sobre os terraços do edifício, motivos escultóricos decisivamente herméticos: a águia com seios de mulher, o coelho com escudo vazio, o morcego críptico, o canguru austral, etc. Neste expositório representa-se indiscutivelmente a Tradição Hermética da qual a Alquimia é o corpo, o Corpus Hermeticum.

A passadeira que cobria o soalho de acesso ao pressuposto laboratório era vermelha e tinha em banda, alternadas, a esfera armilar manuelina (insígnia de Hermes Trismegisto, consignado “selo hermético” da retorta adoptado pelos cabalistas judaico-cristãos portugueses dos séculos XIV-XV) e a cruz de Santo André, aspada, dentro de um oval. Este motivo seria aproveitado para o desenvolvimento posterior da tese destinada a vincular Santo André tanto com a “Terra Branca”, como com a presença “regular” de alguma maçonaria neste espaço, com descuro de todo o cenário simbológico envolvente, o que obriga a dizer umas quantas palavras sobre o assunto. Com efeito, a antiga Albion, “Terra Branca”, epíteto da Virgem Branca ou da Assunção (Alba, em gaélico), foi o nome dado à primitiva Escócia, cujo termo latino Scotia aparece pela primeira vez na Crónica Anglosaxónica do século X, generalizando-se o nome na Baixa Idade Média. Ora, Alba tinha por símbolo mítico o unicórnio mas que, com a cristianização, foi substituído por Santo André, até hoje Orago desse país. Este Apóstolo, padroeiro dos construtores e arquitectos, junto ao nome primitivo “Terra Branca”, foi assumido como o mestre-construtor do país dos scotis ou “homens livres”, nome gaélico dado tanto aos escoceses como aos habitantes da Hibérnia, actual Irlanda. Talvez por isso, no século XVIII a Maçonaria Especulativa tenha originalmente se cognominado de Escocesa e posto a Arte Real (simbolizada pelo leão) sob o padroado de Santo André (substituto do unicórnio)[56].

André provém etimologicamente do grego Andrós, significando “homem”. Andrós é uma contracção de Alexandrós, correspondendo a “defensor dos homens”. Ora Santo André relaciona-se com a ideia da ressurreição alquímica da ave Fénix, queimada sobre uma fogueira feita de dois lenhos em aspa, tal como a cruz em que ele foi crucificado em Patras, ele que fora discípulo de João Baptista e depois se tornara apóstolo de Jesus Cristo, razão porque na interpretação sinóptica da Escritura é considerado intermediário entre o Anunciador e o Anunciado, entre a Palavra da Anunciação (Prenúncio) e a Palavra da Revelação (Verdade)[57].

A forma oval com a cruz de Santo André representa o “Ovo d’Ouro” (Hiranyagharba, em sânscrito), a Substância Universal da qual nasceram todos os elementos da Matéria de que é formado o Universo, cujo movimento contínuo é dado pelo impulso do Pramantha ou “Cruz Cíclica” no centro da qual está a “fénix”, antes, Andrós ou o Demiurgo repartindo em ciclos a Vida Universal.

Por o conceito de ressurreição estar presente no simbolismo de Santo André, é que este tornou-se expressivo da própria Magnus Opus para os praticantes da Alquimia laboratorial, sobretudo para os que estão na sua fase derradeira, prestes a conquistar o “Ouro Filosófico” extraído da igualmente “Pedra Filosófica”: a realização da Crisopeia. Este período final da Grande Obra fica sempre assinalado pelo próprio templo como lugar de realização divina; talvez ou certamente por isso, observa-se na traseira exterior da capela da Regaleira, na direcção do acesso ao interior da torre, a sua goteira artisticamente esculpida dando a ideia de “forno alquímico” ou athanor, no formato singular de castelo cerrado assente sobre ondados (não só representativos da sua função de goteira mas igualmente expressivos da mareação dos elementos), sob o qual se oculta esta goteira bizarra, que é uma boca escancarada com a língua de fora, simbólica da Revelação de Deus. O facto do athanor alquímico assumir a forma de um castelo ou, mais commumente, de uma torre, significa que as transmutações procuradas nas operações metálicas humanas e naturais encaminham-se todas no sentido da elevação, tanto da água ao ar, como do chumbo ao ouro ou do peso carnal à leveza espiritual.

O pressuposto de ter havido aqui prática hermética por Carvalho Monteiro, sob que pretexto fosse, certamente não colidiria com a sua confissão religiosa e, ainda mais certo, estaria dentro do cenário simbólico de uma Alquimia Nacional, se assim pode dizer-se, posto os símbolos nacionais dominarem os restantes, inclusive aos mais herméticos ou esotéricos. A exaltação pátria está patente na antiga “sala do bilhar”, fortemente remodelada por Waldemar d´Orey cerca de 1950, que a alterou sensivelmente. As suas paredes estavam pintadas de folhas de arminho em losângulos onde alternadamente estavam inscritas as expressões latinas épicas Festina lente (“Apressa-te devagar”), atribuída pelo cronista Suetónio ao imperador Augusto (27 a. C.), e Macte animo (“Toma coragem”), verso do poeta Estácio ligeiramente modificado por Virgílio (Eneida IX, 641). Na fácies da chaminé do fogão de sala, “lareira medieval” projectada por Luigi Manini e lavrada por João Machado, mestre conimbricense, em pareceria com José da Fonseca, cerca de 1907, o mesmo Manini desenhou o brasão monogramado de António Augusto Carvalho Monteiro, que Waldemar d´Orey substituiria pelo brasão de Sintra. As armas do proprietário encabeçavam os brasões parietais de quatro cidades relacionadas com a sua pessoa, todas pinturas do arquitecto-cenógrafo italiano que felizmente sobreviveram ao germanismo d´Orey: Lisboa (onde residiu, o político), Coimbra (onde estudou, o intelectual), Porto (onde foi accionista da Bolsa, o empresário) e Braga (onde a sua mulher viveu, o religioso). Lisboa também pode ser interpretada como a cidade de Ulisses, herói solar, destinada a capital do V Império sonhado pelos Maiores da Portugalidade, Carvalho Monteiro incluído. Coimbra como a cidade da Rainha Santa Isabel e onde também Pedro Vicente da Torre se fixaria. Porto como o primitivo burgo de Vímara Peres, que no ano 868 lançaria os caboucos geopolíticos do que viria a ser o Portugal monárquico. Braga como o Primaz hispânico da Igreja Católica, religião professada pelo senhor da Regaleira.

Nas sancas parietais correm duas galerias iconográficas, sobre fundo de ouro, de vinte reis e quatro rainhas das várias linhagens dinásticas da monarquia portuguesa – Borgonha, Avis e Bragança – como programa pátrio delineado por Carvalho Monteiro e Luigi Manini em 1907, e concretizado pelo pintor ferreirense António Francisco Baeta. Os retratos reais, possivelmente inspirados na obra de Pedro de Mariz que foi a primeira obra historiográfica ilustrada com os retratos dos reis de Portugal[58], seriam pretexto para um artigo regionalista de Jorge Matos[59] que lhes deu a identificação seguinte:

Galeria leste. Dinastia de Borgonha: D. Afonso Henriques (1139-1185), D. Sancho I (1185-1211), D. Afonso II (1211-1223), D. Sancho II (1223-1248), D. Afonso III (1248-1279), Santa Isabel de Aragão, D. Inês de Castro, D. Dinis (1279-1325), D. Afonso IV (1325-1356), D. Pedro I (1356-1367), D. Fernando I (1367-1383. Dinastia de Avis: D. João I (1385-1433). Galeria oeste. Dinastia de Avis: D. Duarte (1433-1438), D. Afonso V (1438-1481), D. João II (1481-1495), D. Manuel I (1495-1521), D. João III (1521-1557), D. Filipa de Lencastre, D. Luísa de Gusmão, D. Sebastião (1557-1578). Dinastia de Bragança: D. João IV (1640-1656), D. Afonso VI (1656-1683), D. Pedro II (1683-1706), D. João V (1706-1750).

Mais concorde com Manuel Joaquim Gandra e a tese sebástica quase de certeza afim ao pensamento gnóstico-nacional de Carvalho Monteiro exposta nesta hoje chamada “sala dos reis”, reproduzo uns quantos excertos de uma sua interessante monografia editada[60]:

“Em suma: o duque de Bragança, que não se revia detentor dos sinais apontados pelas profecias, jamais parece ter-se creditado, nem como a 16.ª geração atenuada de Afonso Henriques, nem como o Capitão e Supremo Imperador alegado por elas[61], apenas aceitou ser aclamado (consoante ditava a tradição nacional), na condição de Libertador dos portugueses do seu cativeiro, suposto exórdio ou acto precursor do regresso de D. Sebastião e prelúdio da ventura que o seu advento representaria para Portugal.

“Para promover tal advento maravilhoso, e face ao exposto, tornam-se compreensíveis os motivos pelos quais D. João IV abdicaria em favor de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa!

“Assumindo-se, doravante, como um mero regente de Portugal, inaugurou o Interregno identitário nacional (que interrompeu Portugal), prognosticado em Ourique, lançando um anátema ou maldição sobre herdeiros e sucessores (bem como sobre os respectivos primogénitos masculinos) daqueles, incluso monarcas, que violassem o compromisso de vassalagem[62].

“Atento à mensagem implícita no acto joanino, António Augusto Carvalho Monteiro[63] dar-lhe-ia corpo na denominada Galeria dos Reis que se observa na Sala de Bilhar da Mansão.

“Aí, além de 4 rainhas (Santa Isabel, D. Inês de Castro, D. Filipa de Lencastre e D. Luísa de Gusmão), são figurados 16 monarcas (acham-se ausentes o Cardeal D. Henrique, bem como os Filipes, reis, ilegítimo, o primeiro, e intrusos, os espanhóis), o derradeiro dos quais, D. Sebastião (ostentando Coroa Imperial), encerra o ciclo monárquico português. Os quatro Braganças que lhe sucedem (D. João IV, D. Afonso VI, D. Pedro II e D. João V), destituídos de Coroa, não passaram, por conseguinte, de regentes do Reino.

“Enfim, aqui chegados, o leitor poderá legitimamente suspeitar ser minha convicção firme a adesão de António Augusto Carvalho Monteiro ao ideário Sebástico. Sim, de facto, além de coleccionador das fontes do Sebastianismo (Luís de Camões e Camoniana, incluídos), Carvalho Monteiro foi convicto adepto sebástico.

“A profissão de fé na Tradição Profética Lusíada foi-nos legada pelo próprio em dois impressivos monumentos, um destinado a ser exibido, outro absolutamente do foro íntimo: um brasão de armas e uma medalha emblemática, respectivamente.

“O campo do brasão de armas, concebido para acompanhar a Galeria dos Reis, é integralmente ocupado pela letra S, de Sebastião…

“A medalha em ouro que trazia ao pescoço juntamente com outras seis, todas emblemáticas do seu desígnio de vida, apresenta um leão entronizado, acompanhado pela divisa Quem ousará atacá-lo, decerto alusiva ao carácter universal e insuplantável do Encoberto…”

Retrato de D. Sebastião no Palácio da Quinta da Regaleira

O motivo por que a partir de D. João IV, com excepção de D. João V (também identificado ao Encoberto Imperador do Mundo, e talvez por isso), os reis e rainhas de Portugal nunca mais usaram coroa, merece explicação mais detalhada obrigando a recuar ao período da fundação histórica de Portugal em Guimarães, como já explicitei numa outra obra[64], certamente clareando ainda mais qual seria o sentido real de “religião pátria” para Carvalho Monteiro, posto o autor estar morto e só restar os sinais dos seus interesses quando vivo.

O culto vimaranense primitivo do tellos draconis (dragão telúrico) teve o seu espaço ocupado pelo do Sancte Spiritus ou Creator Spiritus ao qual o país foi consagrado, na pessoa de Maria, propagada pela escolástica eclesial assegurando o Marialis Cultus, que na sua expressão erudita vem a ser a Iniciação Senhorial característica da Honra da Ordem de Cavalaria, na qual eram iniciados os futuros cavaleiros que deviam ser tão puros e honrados quanto pudessem, à semelhança do que é a Mãe do Céu dando de si a Matéria-Prima com que se fez o Mundo e, no particular, Portugal. Razão de dizer-se que o Espírito Santo toma forma feminina em Maria ainda que, essencialmente, Ele participe das duas naturezas do Filho e da Mãe, esta que iconograficamente O traz sempre em Seus braços, no regaço ou no colo, como demonstrativo velado da natureza dúplice ou estado andrógino do Santo Espírito.

Cristo fica participando da natureza do Pai como Espírito, e Maria como Mãe ou Matéria em estado Santo ou de Santidade participa da natureza de Seu Filho, a quem oferece ao Mundo. Donde se conclui:

Se o Conde D. Henrique de Borgonha sonhou ou visionou a Divindade precipitar-se em forma cometária flamejante no rio separando a Galiza do Minho, que o levou e à progénie que para aqui trazia, no mesmo sonho ou visão, a exclamar: “Porto Graal! Porto Graal! Porto Graal!”, este o símbolo maior do Divino Espírito Santo, tanto como objecto sagrado como estado de consciência santificada, já o seu filho Afonso Henriques ofereceu o reino sonhado ao Divino ignorando a humanidade de Roma, inclusive Cristo tendo-lhe aparecido no Cruzeiro nas vésperas da Batalha de Ourique, decisiva para a independência definitiva da terra sua e de Deus que lhe garantiu os favores do Céu e a bênção eterna à gente portucalense.

Mais tarde, a Rainha Santa Isabel de Portugal e Princesa de Aragão, oficializa o Culto do Divino acompanhado das prerrogativas sobre-humanas da Páscoa Rosada em que se traduz o célebre “Milagre das Rosas”. Independência ameaçada, “Terra de Luz” perigando apagar-se, eis aí no século XIV o “Galaaz de Portugal”, o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, depois Frei Nuno de Santa Maria, levando D. João I, em vésperas da Batalha de Aljubarrota, a ter a visão exaltada de Nossa Senhora da Oliveira acompanhada de São Bernardo de Claraval. Mais uma vez, o Céu abençoou a terra pátria por Deus escolhida, e o perigo foi vencido. Finalmente, após os “60 anos fatais” da profecia, correspondendo ao tempo de ocupação Filipina de Portugal, D. João IV libertou o país da mesma e ofereceu a Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, a Coroa dos Reis nacionais, investindo-a, além de Mãe dos Céus que já era, Rainha de Portugal. Desde então, nunca mais as rainhas portuguesas (e até os reis) tornaram a usar coroa, que não concebiam dignidade para tanto comparando a sua míngua humana à grandeza divina da Mãe Soberana, a mesma que sob este título é aclamado na antiga terra árabe de Alolieh ou Loulé, no Algarve, terra que tão-bem conheço das horas passadas da infância e adolescência.

Conclui-se que, desde a primeira hora, Portugal está consagrado ao Divino Espírito Santo em Cristo e Maria sob o evoco Conceição, e, seja por qual e misteriosa maneira for, a Sua protecção nunca escusou aos seus filhos e ao desta “Terra de Luz”, por certo a caminho de um Império de Espírito que também é o Seu, abraçando a toda a Terra numa unidade de Amor e Graça.

O dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria foi proclamado pelo Papa Pio IX, em 1854, com a bula Ineffabilis Deus. Esta solene definição pontifícia foi resultado do desenvolvimento da devoção popular aliada a intervenções papais e infindáveis debates teológicos. O calendário romano já incluíra a festa em 1476, mesmo existindo desde o século VII a sua celebração na Igreja Oriental e que cedo entrou na Hispânia através do rito visigótico, paleocristão. Em 1570, Pio V publicou o novo Ofício e, em 1708, Clemente XI estendeu a festa, tornando-a obrigatória em toda a Cristandade.

Em Portugal, o culto foi oficializado sob feição patrística por D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança, assim aclamado no 1.º de Dezembro de 1640, quando se iniciava a Festa da Imaculada Conceição. Seis anos depois, com a aprovação das Cortes de Lisboa, o monarca dedicou à Virgem Imaculada todo o Portugal e o seu vasto Império de então, fazendo-a sua Rainha e Padroeira, e fê-lo através da Ordem honorífica por ele fundada no Alentejo: a Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, de que fez parte o comendador Francisco Monteiro, pai de Carvalho Monteiro, e em cuja igreja matriz está a imagem do Orago e Soberana celeste da pátria comum à lusitana gente[65].

O acto piedoso oficial de D. João IV foi confirmado pelo Papa Clemente X, que aprovou a solene declaração régia de 25 de Março de 1646. Esta fora rezada de joelhos e em voz alta pelo monarca na capela real dos Paços da Ribeira, em Lisboa, nos termos seguintes:

Dom João, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, de aquém e de além-mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia, etc., faço saber aos que esta provisão virem, que sendo ora restituído por mercê muito particular de Deus nosso Senhor à Coroa destes meus Reinos e senhorios de Portugal.

Considerando que o Senhor Rei Dom Afonso Henriques meu progenitor e primeiro Rei deste Reino, sendo aclamado e levantado por Rei, em reconhecimento de tão grande mercê, de consentimento de seus vassalos, tomou por especial advogada sua a Virgem Mãe de Deus Senhora nossa, e debaixo de sua sagrada protecção e amparo Lhe ofereceu todos seus sucessores, Reino e vassalos com particular tributo em sinal de feudo e vassalagem.

Desejando eu imitar seu santo zelo, e a singular piedade dos Senhores Reis meus predecessores, reconhecendo ainda em mim avantajadas e contínuas mercês e benefícios da liberal e poderosa Mãe de Deus nosso Senhor, e por intercessão da Virgem Nossa Senhora da Conceição.

Estando ora juntos em Cortes com os três Estados do Reino, lhes fiz propor a obrigação que tínhamos de renovar e continuar esta promessa, e venerar com muito particular afecto e solenidade a festa de sua Imaculada Conceição. E nelas, com parecer de todos, assentamos de tomar por Padroeira de nossos Reinos e senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição, na forma dos Breves do Santo Padre Urbano VIII, obrigando-me a haver confirmação da Santa Sé Apostólica, e Lhe ofereço… à sua Santa Casa da Conceição sita em Vila Viçosa, por ser a primeira que houve em Espanha desta invocação, cinquenta cruzados de ouro em cada ano, em sinal de tributo e vassalagem.

E da mesma maneira prometemos e juramos com o Príncipe e Estados, de confessar e defender sempre (até dar a vida sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original… esperando com grande confiança… que por meio desta Senhora (Deus) nos ampare e defenda de nossos inimigos para glória de Cristo nosso Deus, exaltação da nossa Santa Fé Católica Romana, conversão das gentes e redução dos hereges.

E se alguma pessoa intentar coisa alguma contra esta nossa promessa… queremos que seja logo lançado fora do Reino; e se for Rei (o que Deus não permita) haja a sua e nossa maldição, e não se conte entre nossos descendentes… e esta minha provisão se guarde no Cartório da Casa de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, e na nossa Torre do Tombo.

Dada nesta nossa cidade de Lisboa, a 25 de Março de 1646 – El-Rei.

Na antiga sala de jantar do Palácio da Regaleira, hoje chamada “sala de caça”[66], encontra-se uma lareira monumental, obra do escultor Rodrigo de Castro, onde se vê um monteiro com dois cães, um galgo e um pastor, defronte para um javali, no extremo da sala, obra do mesmo autor. Representa a demanda, a quête, a aventura do Iniciado protegido pelo cão, simbólico do guardião mas também do fogo (do lar, donde “lareira”). Sendo demanda simbólica com sentido hermético, neste sentido o galgo vem a designar o “solve” e o pastor o “coagula”, estando de lado a figura dum encapuçado: será o Filósofo do Fogo, o Superior Incógnito. A escultura monumental da montaria ao veado como se vê transversalmente nesta lareira, igualmente obra de Rodrigo de Castro, denuncia o dito Filósofo do Fogo como o próprio Augusto Carvalho Monteiro, posto que na relação axional entre o monteiro e o carvalho do baixo-relevo incrustado na lareira alude-se à pessoa do proprietário, cujas iniciais AACM aparecem envoltas no cordame que cinge o baixo-relevo, unificando a emblemática obra em torno da personalidade do seu encomendante[67].

No piso superior do palácio, o aposento que se julga ter sido o da biblioteca de Carvalho Monteiro, tem o seu tecto decorado por um grande painel com a linda pintura de três deusas. São as representações tradicionais, inspiradas na mitologia greco-latina, das três Parcas, Normas ou Graças do Mundo que o Cristianismo colaria às três Virtudes capitais: , Esperança e Caridade ou Amor cujo facho jamais se apaga. Tais Ragas (“Normas”), as mesmas da Divina Comédia de Dante, assistem às três tradicionais e iniciáticas Margas (“Caminhos”): Dever (Karma-Marga – Físico, Fé), Devoção (Bhakti-Marga – Emocional, Esperança), Inteligência Iluminada (Jnana-Marga – Mental, Caridade). Contudo, a despeito de alguns verem na pintura as “Três Luzes da Maçonaria” (Força, Sabedoria e Beleza) dando-a como prova flagrante da simpatia ou até mesmo afiliação maçónica de Carvalho Monteiro, recentemente Manuel Gandra veio afirmar que a mesma foi adquirida pela família d´Orey em 1950, logo, não fazia parte do imobiliário artístico do proprietário original.

O motivo da Trindade repete-se em igual número de portais monumentais neomanuelinos (dois abrindo para varandas sobre a rua e um para a escadaria levando ao cimo da torre de prazer ou miradouro) numa sala vizinha à do referido painel, e que talvez fosse o motivo para os d´Orey terem-no colocado aí, mesmo quase de certeza desconhecendo o significado desses portais nesta sala tendo a um canto uma lareira feita de ferro forjado, decorada por uma cabeça de leão flamejante dentro de um trevo (donde três). O portal encimado por uma cabeça de leão e decorado nos colunelos por bustos de meninos, sinónimos de pureza e virgindade, representará a Idade do Filho, o “pequeno Leão” ou Regulus, em latim, expressão menor do Grande Rei ou Divindade Suprema prefigurada por Cor Leonis (“Coração de Leão”), devido à posição central que ocupa no Empório como superior a todos os astros e signos. A estrela Regulus ou Régulo era considerada a coroa da constelação dos reis, e por isso o “novo Leão jubado” associava-se à tribo de Judah e ao próprio Cristo como o Messias aclamado Senhor do Mundo, o Leão Ardente da Nova Jerusalém[68]. O portal oposto é encimado por uma cabeça menino cercada de motivos florais, que pode muito bem ser alusão simbólica da Idade do Espírito Santo. No portal central, por cima de uma esfera armilar cercada de cordões de marear, vê-se Adão e Eva como a parelha primordial nascida na primeira Idade do Pai, o Senhor das Alturas (marcadas pela ascensão ao miradouro). Como andrógino separado pela macieira do Paraíso, em cujo tronco se enrola a serpente, figuração do Pecado Original como perversão do Mental caído no Sexo, tem-se aí o casal progenitor do Género Humano assumido e identificado pelas letras no tecto da sala, ou seja, um P e dois AA entrecruzados, casados, iniciais de Perpétua (nome da mulher de Monteiro) e do nome próprio do proprietário (António Augusto). Revela-se nisto a heráldica falante cujo sentido místico aqui associa-se abertamente ao tema translatio imperii, que no século XII foi concebido como as Idades do Mundo (os portais que abrem para uma nova visão da existência) pelo abade cisterciense da Calábria, Joaquim de Flora[69].

Por fim, a capela. Privada, exclusiva da família, o proprietário freguês ou filius Ecclesiae, “filho da Igreja”, não se poupou a mimoseá-la com os mais finos requintes e particularidades eruditas do simbolismo cristão entre 1904 e 1910, com tão grande e singular riqueza artística que a deixaria como um dos mais expressivos edifícios religiosos neomanuelinos de Sintra e do país.

Encimada pela cruz pátea dada como a primacial da Cristandade no Oriente e que a partir do século XII a Ordem do Templo adoptaria como insígnia com o mesmíssimo sentido, a capela parece reservar assim o sentido de primaz salvífico para a cristianíssima família Carvalho Monteiro. Esta intenção devocional é reforçada pelo motivo escultórico da Anunciação, por cima da entrada no templo, no qual o Padre Eterno aparece abençoando por cima de dois Anjos abrindo um listel com a frase latina retirada do Evangelho de S. Lucas (considerado o evangelista mariano): Ecce Ancilla Domini, “Eis [aqui] a Serva do Senhor” (Lucas, 1:38). A “Serva do Senhor” é a própria Igreja, sendo o motivo do nascimento pelo baptismo em Maria, expressiva da assembleia cristã, o mesmo que receber a Salvação, que é Cristo Filho daquela. A Mãe é a Igreja e o Filho é o Sacramento. Para o ministério dos sacramentos teria que haver sacerdote, posto que a capela só a é quando há capelão, e havendo-o – possivelmente da igreja de Santa Maria de Sintra de que Carvalho Monteiro era freguês assíduo – foram encomendados a Luigi Manini os vários desenhos para a execução das alfaias litúrgicas, o que ele fez, tendo viajado em seguida, em 1908, para Itália, indo confiar a sua realização à oficina de Giuseppe Guelfi, em Milão.

As alfaias realizadas segundo o estilo da ourivesaria portuguesa, concebidas para aparelharem harmoniosamente com o estilo da capela, foram as seguintes: crucifixo, cálice, patena, galheta, moldura, sineta, lampadário, píxide para as hóstias, o hostiário, naveta em forma de caravela para o incenso, cibório e turíbulo. De entre todas sobressaía a custódia neomanuelina, imitação da Custódia de Belém (século XVI), com pé hexagonal, encimada pela esfera armilar onde assenta a cruz (que no desenho de Manini era uma cruz pátea), abrindo-se no repositório destinado a receber o Santíssimo Sacramento, obra muito rica que Guelfi, orientado por Manini, terminou em 1911. Quando a Quinta da Regaleira foi vendida a Waldemar d´Orey, a família Carvalho Monteiro recolheu e levou consigo todas as alfaias da capela e, em 1956, doou ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima essa rica custódia, e fê-lo certamente porque o seu patriarca, António Augusto, revelara-se crente nas chamadas aparições marianas na Cova da Iria, não tendo recusado encomiá-las em privado e em público, como soube junto das fontes familiares. Adianto ainda que foi a esposa de Carvalho Monteiro, Perpétua Augusta, senhora muito devota, a ter o papel relevante da decoração do templo, sobretudo na rica paramentária (toda ela executada com requinte, nas cores litúrgicas – branco, vermelho, roxo e negro – em tecido adamascado e lavrado a ouro), contando para isso com a orientação de um clérigo próximo da família.

Laterais à entrada no templo, estão postadas em dois nichos as estátuas em tamanha natural de Santo António de Lisboa e de Santa Teresa de Ávila, bem podendo ajustar-se os seus nomes aos de António e Teresa, esta como a mãe do proprietário, mas sobretudo revelando ao mesmo tempo que guardando (como guardas da entrada na Casa do Senhor), os ideais patrístico e matrístico da Igreja levados a efeito, respectivamente, pela Ordem Franciscana e pela Ordem Carmelitana, nas quais esses santos ibéricos foram as sumidades máximas, ele como doutor eclesial, expressando o pensamento superior, e ela como visionária profeta, manifestando o sentimento exaltado, ambos ao mesmo nível ou em perfeito equilíbrio, tal qual devem estar a cultura e o carácter, de maneira a possibilitar alcançar na Terra das venturas do Céu.

O desenho e modelação das estátuas da capela são do ilustre antigo professor da Escola de Desenho Industrial de Coimbra, António Augusto Gonçalves, tendo sido a execução das esculturas decorativas da autoria do seu discípulo e professor na mesma Escola, habilíssimo artista mondeguino, João Machado, a quem se deve o baixo-relevo do púlpito, “Lava-Pés de Cristo aos Apóstolos”, por sua vez distribuindo pelos seus assistentes outros trabalhos: António Gomes realizou o sacrário e João das Neves fez o baptistério, postado à esquerda de quem entra, com a Pomba do Espírito Santo, símbolo da Revelação de Deus como Orago do Sacramento do Baptismo, por cima.

Na fácies da pia baptismal está esculpido o busto de António Augusto com um leão por detrás, revelando-se novo motivo messiânico conformado ao significado do baptismo, singularmente particularizado na figura do patriarca da família Carvalho Monteiro, parecendo querer reproduzir (ou evocar o padroeiro S. João Baptista da terra natal de seu pai, Lagos da Beira) a acção pastoral do Baptista no deserto: “Então vieram até ele Jerusalém, toda a Judeia, e toda a região circunvizinha ao Jordão. E eram por ele baptizados no rio Jordão, confessando os seus pecados” (Mateus, 3:5-6). É o que se denominou baptismo por imersão, como foi praticado durante largos séculos, sendo simbólico da purificação e da renovação. Era conhecido no meio Zadokita e Essénio (assim como o ritual do “lava-pés”, ou da humilhação sacerdotal), como no Judaísmo em geral, tomando-o como rito de passagem, especialmente do nascimento e da morte. No entanto, os editores da Bíblia de Jerusalém observam, a esse propósito, aquilo que diferencia o baptismo de João dos outros ritos de imersão: tinha um objectivo já não só ritual mas sobretudo moral; não se repetia, o que lhe dava o carácter de uma iniciação; por fim, tinha carácter escatológico, introduzindo o baptizado no grupo dos que professavam uma espera diligente do Messias que estava para vir e que constituíam, por antecipação, a sua comunidade.

Quaisquer que fossem as modificações trazidas pela liturgia das diversas confissões cristãs, o rito do baptismo continua a incluir dois gestos ou duas fases de notável alcance simbólico: a imersão e a emersão. A imersão, hoje reduzida à aspersão, é por si só rica de muitos significados: indica o desaparecimento do ser pecador nas águas da morte, a purificação através da água lustral, o retorno do ser à fonte de origem da vida. A emersão revela a aparição do ser em estado de graça, purificado, reconciliado com a fonte divina de vida nova.

A análise mais detalhada do rito católico do baptismo faz ressaltar o riquíssimo simbolismo dos múltiplos gestos e objectos que intervêm na administração desse sacramento: imposição das mãos, insuflação, sinais da cruz, tradição do sal da sabedoria, abertura da boca e das orelhas, renúncia ao demónio, recitação do Credo, unção de diversos óleos de exorcismo e de Eucaristia, colocação da vestimenta branca e do círio aceso. Todos os passos desta cerimónia iniciática traduzem a dupla intenção de purificar e de vivificar. Revelam também a estrutura folheada do simbolismo traduzido numa acção efectiva: em primeiro plano, o baptismo lava o homem da sua sujidade moral e outorga-lhe a vida eterna (passagem da morte à vida); em segundo plano, evoca a morte e a ressurreição de Cristo: o baptizado assimila-se ao Salvador, a sua imersão na água simboliza a colocação no túmulo, e a sua saída a ressurreição; em terceiro plano, o baptismo liberta a alma do baptizado da sua sujeição ao demónio, introduzindo-o na Milícia de Cristo ao impor-lhe a marca do Espírito Santo, pois esta cerimónia consagra um compromisso de servir à Igreja. Não opera uma transformação mágica, antes confere a força de desenvolver-se, pela fé e pelos actos, no sentido do Evangelho. Toda esta liturgia simboliza e realiza, na alma do baptizado, o nascimento da Graça, princípio interior de aperfeiçoamento espiritual[70].

O trabalho da talha de todo o imobiliário da capela ficou a cargo de mestre Júlio da Fonseca, que com os seus irmãos José da Fonseca e Luís da Fonseca ficaram a ultimar os trabalhos da Regaleira depois da partida de Luigi Manini em 1912, desgostoso com o que via em Portugal (regicídio, deposição da monarquia, revoluções permanentes, etc.). Para o pavimento, Manini realizou esboços iniciais em grafite e um belo desenho final aguarelado, os quais foram levados para Itália para serem realizados pelo atelier Castaman de Veneza, assim como o painel do altar-mor. À firma italiana Corvaya Bazzi & C.ª devem-se igualmente os painéis de vidro feitos em 1910, simulando técnica de vitral, desenhados por Manini de acordo com a vontade de Carvalho Monteiro e colocadas por Júlio da Fonseca.

O interior da capela condiz com o seu exterior: sobre o fundo alvo das suas paredes, o encanto das suas formas e ornamentos revelam a mensagem devota de sabedoria e piedade, mas sobretudo a esperança solene num supremo e derradeiro momento a advir, o Advento.

Dentro, logo à entrada sobre o nártex[71], está o Triângulo com o Olho da Divina Providência ao centro, designando Deus como Três Pessoas distintas mas sendo Uma só em essência, assentando sobre a Cruz pátea em resplendor, simbólica da Cristandade triunfante. Desta maneira, ao transpor o nártex o crente é, simbolicamente, além de abençoado, reconhecido como fazendo parte da Milícia do Senhor, com direito a privar da sua Casa. Este Delta luminoso pode muito bem sujeitar-se a interpretações pitagóricas e platónicas afins às primitivas doutrinas gnósticas, e como está assente sobre a Cruz tanto basta para desmentir as pretensões avulsas a identificá-lo como triângulo maçónico, obviamente podendo estar em esplendor mas de certeza sem a Cruz. Além disso, querer que haja um delta maçónico numa capela católica vale tanto como dizer que “Maomé morreu de indigestão de toucinho”…

Aqui, sim, para afastar de vez pretensões inválidas simbólica e historiograficamente, por não passarem de lúdicas avenções, poderei arrematar com um pouco de cada um dos três poemas escritos por Fernando Pessoa em 9 de Junho de 1935, St.º António – S. João – S. Pedro, publicados por Yvette Kace Centeno[72]:

Santo António:

Santo António és portanto
O meu santo,
Por isso quero que passes
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Catholico, apostholico e romano.
(…) deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
(…) Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei Antonio –
Isso sim.

São Pedro:

Parece que com essas barbas brancas
Por um phenomeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.
(…) O Santo são as chaves, e não tu.

São João:

Eu a julgar-te até catholico,
E tu sahes-me maçom.
Bem, ahi é que há espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vario.
Que o teu sorriso doure quanto estudo
E o teu cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Prompto a fazer falar o coração
Alto e bom som
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo o que torna o homem precario.
Se és maçom,
Sou mais do que maçom – eu sou templário.
(…) Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal.

Sobre o altar ao fundo, os escultóricos de dois anjos, turibulário (“o que agita o turíbulo para incensar”) e turiferário (“o que leva o turíbulo”), ladeiam o painel central representativo da Coroação da Virgem, donde a capela herda o nome (escusando o atributo de Santíssima Trindade que hoje lhe é dada gratuitamente, ainda assim repleto de intenções alheias aos cânones deste espaço sagrado), reforçado pelo M de Maria cinzelado na pedra branca sobre a ara com a pomba por cima. Feito em mosaico italiano, o painel representa a Pomba do Espírito Santo baixando e de cada lado três querubins (do hebraico kerub, “tesouro”, e cherub, “guardião”, logo, “guardiões do tesouro” que é “real segredo”, aqui por certo a ver com o mistério da eleição da Igreja de Cristo), os quais testemunham Jesus Cristo sentado no trono de glória coroando a mulher sem halo de santidade, nisto tanto podendo ser Santa Maria antes da sua eleição como Mãe dos fiéis que é a Igreja, como também Maria Madalena, a «pecadora arrependida» que na iconologia cristã é a única mulher a não apresentar halo de santidade. Seja como for, como “tesouro esposal” ou “tesouro filial”, Maria tem o reconhecimento da coroação pelo Verbo Vivo, e este é representado pelo querubim soprando sobre a coroa o ânimo provindo do Céu.

A Coroação da Virgem equivale à sua proclamação como Rainha dos Céus e da Igreja, a incarnação do Espírito Santo, cujo poder se manifesta pelos sacramentos, sobretudo o da conversão que é o do baptismo, seja pela água da confissão, seja pelo fogo da sabedoria ou entendimento. Neste último sentido, a Coroação da Virgem Maria equivale ao seu reconhecimento como Shekinah, a “Presença Real de Deus na Terra”, tema caríssimo à Cabala judaica incorporado no Cristianismo como a mesma “Coroação da Virgem”. A palavra “coroa” é originalmente muito próxima dessa outra “corno”, e exprimem a mesma ideia: a de elevação, poder, iluminação. Uma e outro elevam-se acima da cabeça e são simbólicas do poder e da luz. Este será o significado da coroa crística imposta a Santa Maria pelo seu Divino Filho, pois só se chega a Ele por Ela, tal como só por Ele se chega a Deus Pai. Por esta razão, Maria tinha que ser reconhecida como Rainha do Mundo e do Céu.

A origem do tema “Coroação da Virgem” tem por base o último episódio da vida de Santa Maria, sendo a sequência da Assunção ou Dormição. A sua base bíblica é encontrada no Cântico dos Cânticos (4:8), nos Salmos (44:11-12) e no Apocalipse (12:1-7). O título de “Rainha do Céu” (Regina Coeli) dado a Nossa Senhora remonta, no mínimo, ao século XII e a São Bernardo de Claraval. O tema foi atraído a partir da ideia da Virgem Maria como o “Trono de Salomão”, que é o trono onde a Mãe se senta com o Menino no regaço (e que é o significado do trono feito de carvalho dentro desta capela). Desde então o trono foi assumido cada vez mais como assento de realeza, retratando a corte celestial espelhada na corte terrena. Por fim, a “Coroação de Maria” é o quinto mistério glorioso do Santo Rosário, cujo fruto é a perseverança, a confiança na intercessão da Mãe de Deus. A Igreja Católica celebra o evento em 22 de Agosto.

A Coroação da Virgem influiu na tradição medieval do sacramento do casamento com Deus das religiosas que contraíam votos perpétuos, durante o qual o bispo colocava uma coroa na cabeça da virgem e proferia as palavras sacramentais: “Recebe um sinal de Cristo sobre a cabeça, a fim de que te tornes sua esposa. E se permaneceres nesse estado, serás coroada pela eternidade”.

A expressão mais notável da casada com Cristo por certo será Maria Madalena, a que O ungiu com perfumes e bálsamos, reconhecendo a sua realeza divina de Ungido ou Christus. Pelo enigma com que as próprias escrituras sagradas envolvem a sua pessoa muito próxima, de João Evangelista, póstero de João Baptista, Madalena, por todos predicados que a envolvem, inclusive o de “torre” presente no seu nome hebraico, veio a tornar-se a expressão venusta da iniciação críptica ou subterrânea (também pela vida eremítica que levou numa gruta no Sul de França após ter emigrado da Palestina para aí, segundo a Lenda Áurea como retrato figurativo da disseminação pastoral dos primeiros tempos dos Apóstolos e Padres Apostólicos, começo da Sucessão Apostólica), alegoria gnóstica aplicada à transmissão regular de um saber esotérico, secreto e heterodoxo, com isso ligando-se à Igreja “Secreta” de S. João Baptista, que ainda é a dos Padres do Deserto, aqui não como terreno árido mas como área sagrada vedada ao ordinário do mundo profano, destinada ao exercício da arte sacerdotal. Aliás, a cabeça «bafomética» de São João Baptista revela-se adiante e acima da cruz boleada que orna o altar.

Adiante do painel central sobressai o M encimado pela Pomba do Espírito Santo num lindo rendilhado de mármore alvo, numa espécie de dossel, pálio ou baldaquino, reforçando e destacando a importância e primazia do espaço sagrado. O dossel imóvel é igual ao dossel móvel, um pálio, que é um toldo com postes sob o qual se abriga a principal dignidade religiosa durante as procissões de maior pompa. É herança da primitiva jupa com que os antigos hebreus, no seu êxodo pelo deserto do Sinai, abrigavam a Arca da Aliança, e foi assim que este elemento que figurou depois no antigo Templo de Salomão, ficando como símbolo da antiga Aliança de Deus com o seu Povo, a Humanidade por Ele escolhida para O representar na Terra. Aqui, nesta capela da Regaleira, o dossel representa a Aliança de Cristo com Maria, a Igreja ou Assembleia, por meio da celebração da Santa Eucaristia onde se revela o Espírito Santo.

O baldaquino, dossel ou pálio, seja imóvel ou móvel, é sempre símbolo de protecção, seja oferecida ou seja recebida por aquele que se encontra debaixo dele. Se se tratar de um rei, ele oferece-a aos seus súbditos recebendo-a do Céu. O rei é o centro de irradiação de um núcleo humano e como tal é a representação do Centro do Mundo, do mesmo Rei do Mundo – representado aqui por Cristo – irradiando como Sol Vivo para os seres viventes em seu redor, a comunidade dos crentes. Daí o uso do dossel para tornar manifesta essa dignidade e esse poder. O dossel rectangular (que aqui é o formato do altar) tem relação simbólica com a Terra e os bens terrenos, portanto, com a Realeza ( encómio de exaltação divina da monarquia pelo “supra-monárquico” Carvalho Monteiro) e o Poder Temporal, donde o apodo de Pedro (a Petra ou Pedra Angular com que se construiu o edifício social da Igreja) como “príncipe dos Apóstolos”, sendo Cristo o Rei. O dossel circular (aqui expressado pelos círculos fechando as cruzes no chão, cerceadas de estrelas de cinco pontas) expressa os bens celestes vertidos do próprio Céu, com isso representando o Sacerdócio e a Autoridade Espiritual.

Por esse motivo, o Alcorão dispõe o simbolismo do baldaquino (al-rafraf) em relação com o Paraíso, pelo que os baldaquinos supremos designam a morada da Glória de Deus, ou seja, por onde Ele se manifesta desocultando-se através da graça da Fé e da Sabedoria, facto que a religião judaica chama Shekinah, “manifestação real de Deus”, e o Cristianismo de Revelação do Espírito Santo. Por tudo isto, ainda, os budistas e os hindus consideram o baldaquino como o objecto principal do Chakravarti, o “Rei do Mundo”, função que a sua catequese naturalmente atribui a Buda e a Vishnu. Isto por essa peça representar o Trono de Deus, por onde Ele se revela ao Mundo através do monarca ou do pontífice canonicamente investidos para o efeito.

As quatro colunas do baldaquino (aqui assinaladas nas ombreiras laterais do painel extensivas às duas bases do altar, onde figuram Santa Isabel, prima da Virgem Maria, e o Apóstolo S. Marcos) representam os quatro princípios naturais (Ar, Fogo, Água, Terra) que animam e sustêm o Mundo, facto que a iconologia religiosa por vezes assinala em quatro figuras angélicas com os nomes tradicionais de São Miguel, São Gabriel, São Rafael e o Santo Custódio (Ariel). Ao centro fica o altar como “quinta coisa” ou quintessência, para onde se dirige o foco da Fé e onde a Fé toma forma através da celebração sagrada.

Com efeito, para o altar, microcosmo catalizador do Universo sagrado, convergem todos os gestos litúrgicos, todas as linhas arquitectónicas. Reproduz em miniatura o conjunto do templo e do Universo no seu significado transcendente ou divino. No recinto consagrado, devidamente preparado e aparelhado, é onde o sagrado transcendente se condensa com a intensidade máxima através do sacerdote ou o que exerce o “sacro ofício”, isto é, o que realiza o sacrifício sagrado sobre o altar ou ara, ou junto a esta. Por isto o altar (de altum e altus, donde altare, em latim, “elevado, alto”) é o ponto mais elevado em relação a tudo que o rodeia no espaço do templo. Igualmente reúne em si o simbolismo de “Centro do Mundo”, ou seja, o ponto central donde irradia a Luz da Fé e para onde conflui a devoção da assembleia. Como centro activo da espiral ou passos graduais da celebração eucarística, procurando a santificação dos corpos e a assunção das almas dos fiéis, desta maneira sugere e influi sobre a espiritualização progressiva do Mundo e do Universo. O altar representa todo o templo e o momento em que o ser se torna sagrado por meio de uma operação sagrada que o divinizará, nem que seja só durante os instantes da celebração.

Por isso, o altar constitui o “ponto geométrico” onde confluem e se concentram as energias do Céu e da Terra. Estas representam-se no que o Judaísmo chama Debir Hekal, as três colunas ou pilares do Poder da Vontade, do Amor-Sabedoria e da Actividade Criadora de Deus (também representados nos três degraus tradicionais que levam ao estrado do altar), que no altar-mor da igreja católica ficam assinaladas nas duas colunas laterais ao sacrário. Essas colunas representam a Sabedoria de Deus indicada na linha vertical do altar ao Céu, e do Amor de Deus apontado na linha horizontal do altar à Terra ou assembleia dos fiéis. O altar é, com efeito, verdadeiramente a cabeça e o coração do templo, o seu espaço mais sagrado a partir do qual se organiza toda a sua estrutura, e onde simbolicamente finaliza o percurso horizontal (assimilado à passagem pelo labirinto), começando a ascensão vertical que conduz aos Mistérios mais profundos da Iniciação Mística, onde a Igreja de Pedro finda para iniciar a Igreja de Cristo nessa viagem axial para o Paraíso, a Jerusalém Celeste ou o Mundo Espiritual. O altar pertence assim ao simbolismo da “passagem” ou “trânsito” de uma realidade a outra, neste caso, da realidade condicionada e horizontal (limitada pelo tempo e o espaço) à realidade incondicionada e vertical, que é divinamente eterna e infinita.

Quem entra na capela, vê no seu pavimento ladrilhado primeira a Cruz da Ordem do Templo e após a Cruz da Ordem de Cristo sucessora daquela em Portugal, como se significasse estar em chão sagrado onde o Cristianismo presente é todo ele com sentido exclusivamente nacional, e que todo o recheio artístico trazido de Itália para aqui seria uma espécie de vazar Roma e encher Lisboa, que é dizer, Portugal, o que vai de encontro ao sentido camoniano da translatio imperii como se lê no Canto 6, 7, de Os Lusíadas:

Via estar todo o céu determinado
De fazer de Lisboa nova Roma;
Não no pode estorvar, que destinado
Está doutro Poder que tudo doma.

Isso vai de encontro ao tema do Quinto Império sob o Orago da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, tema caríssimo ao padre António Vieira no século XVII e que tão poucos têm compreendido por não saberem separar o sebastianismo vermelho (político e reaccionário) do sebastianismo branco (erudito e simbólico)[73]. Já nos meados dos anos 80 do século findado eu apontava haver sinais disso mesmo dentro desta capela, inclusive sendo também eu quem os apontou em primeira mão à dr.ª Denise Pereira da Silva, entidade responsável na Fundação Cultursintra, na altura em que a Câmara Municipal de Sintra acabara de comprar a propriedade. Pois bem, eles estão na balaustrada do coro onde vêem-se enrolados em cordame de marear o III e o V em letras romanas. III para o Espírito Santo e V para o Império…

Segundo o esquema escatológico do Padre Vieira (1608-1697), os cinco Impérios do Mundo (correspondendo às Yugas, Idades ou Ciclos tradicionais)[74] são os seguintes:

SATYA-YUGA – IDADE DE OURO – I IMPÉRIO ASSÍRIO
TETRA-YUGA – IDADE DE PRATA – II IMPÉRIO PERSA
DWAPARA-YUGA – IDADE DE BRONZE – III IMPÉRIO GREGO
KALI-YUGA – IDADE DE FERRO – IV IMPÉRIO ROMANO
KRITA-YUGA – IDADE DE OURO – V IMPÉRIO PORTUGUÊS

Esses 4+1 Impérios descritos por Vieira, aliás, de relações próximas com a Cabala judaica através do seu amigo Menasseh Ben Israel, o madeirense Manuel Dias Soeiro[75], inspiraram-se no episódio descrito no Antigo Testamento que relata o sonho de Nabucodonosor, interpretado pelo profeta Daniel, no qual o rei sonhou com uma estátua gigantesca com cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, as ancas de bronze e as pernas metade de ferro e metade de barro, destruída por uma pedra que logo se transformou numa alta montanha enchendo toda a Terra. Diz Daniel (2:44-45): “O Deus dos Céus fará aparecer um Reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará a outro povo. Foi o que pudeste ver na pedra que se desprendia da montanha sem intervenção de mão alguma, e que reduzia a migalhas o ferro, o bronze, a argila, a prata e o ouro”. Logo concluindo Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco[76] que “a misteriosa Pedra, que derrubou a Estátua, representa o V Império de Cristo”, a irromper no Ocidente Médio e Extremo, isto é, em Portugal e no Brasil.

António Vieira reconhecia com verídicas as profecias do sapateiro do Trancoso, Gonçalo Anes Bandarra, referentes ao destino privilegiado de Portugal, e deu realce à 1.ª quadra do III Corpo de Trovas do dito profeta popular, reconhecendo nela o esboço das três Idades do Mundo segundo Joaquim de Flora (Idade do Pai – Israel; Idade do Filho – Roma; Idade do Espírito Santo – Lisboa):

Em vós que haveis de ser o Quinto
Depois de morto o Segundo
Minhas profecias fundo
Nestas letras que vos aqui pinto.

Nas variantes VOS e AQUI da quarta linha, condensa-se o mistério[77]. Desdobrando-as em palavras latinas, tem-se:

VOS – Vis (Força) / Otium (Ócio) / Scientia (Ciência).
AQUI – Arma (Armas) / Quies (Sossego) / Intellectus (Inteligência).

Com isso, fica-se perante o esquema de Flora e o seu modelo explicativo da História da Humanidade, onde a trasladação dos impérios acompanha a sucessão das Pessoas da Santíssima Trindade, explicação para a qual ele distingue dois tipos de inteligência: a “segundo a Letra” (exotérica) e a “segundo o Espírito” (esotérica).

1. Segundo a Letra ou típica: histórica – moral – alegórica.

2. Segundo o Espírito ou atípica: tropológica – contemplativa – analógica.

Aquele que “será o Quinto”, para o padre António Vieira é o Quinto Império do Mundo, Império simultaneamente espiritual e temporal, tendo como “Cabeça de Tibes” a Lusitânia[78]. Como disse, os Impérios anteriores haviam sido o Assírio, o Persa, o Grego e o Romano, sendo o Português o derradeiro, incluindo no espaço lusófono o Brasil, este que já antes, em 1598, Pedro de Mariz chamara de “Nova Lusitânia”. Certamente Carvalho Monteiro, brasileiro nado, deteria todos estes conhecimentos da translatio imperii, ou não tivesse mandado colocar o III e o V na balaustrada do coro da sua capela, onde um vitral retrata sete cabeças de meninos (os seus sete netinhos) em torno de um triângulo dourado, expressivos dos “Virgens Celestes”, chamados Kabires na cultura assíria e Kumaras na hindu, cerceando o Deus Único e Verdadeiro manifestado como Três Hipóstases que são as mesmas “Pessoas” da Trindade.

Duas portas de carvalho laterais ao altar, dão acesso à torre e à sacristia, respectivamente, configurando os seus postigos a Grã-Cruz da Ordem do Santo Graal vertida na de São Bento de Avis. Na pequena sacristia, vê-se a escultura do Agnus Dei postado sobre o Livro da Revelação, estando esculpidos a um canto os vários instrumentos da Paixão do Senhor, com destaque para o Santo Cálice envolto num “laço de amor”, além da imagem de uma senhora em atitude de exaltação ao céus (a qual me intriga se será Santa Teresa, Santa Madalena ou Santa Noémia) com o olhar dirigido ao alto da torre sineira, e um novo vitral com a Cruz da Ordem de Cristo e o IHS desfeche o compósito onde claramente predomina a formula mentis lusitanea como base da “religião pátria”, aqui com o óbvio sentido gnóstico onde se dá primazia tanto ao Apocalipse como à Paixão segundo São João.

Na capela, do lado direito de quem entra, uma escadaria estreita em caracol conduz à cripta, de ambiente mais ascético com o seu despojamento austero. Feita em abóbada de berço com paredes pintadas de branco, além do seu chão ladrilhado em xadrez só apresenta uma pia de água benta e um altar ao fundo com uma cruz franciscana. Por esta cripta tem-se acesso ao jardim cuja entrada está vedada por um portão gradeado ostentando um pentagrama ou estrela de cinco pontas, cujo significado já dei quando se abordou Lagos da Beira e a propriedade de Quintais por motivo do seu portão com igual símbolo geométrico. No corredor subterrâneo que leva da cripta ao jardim há uma mina aberta no ventre da serra que se destinava a canalizar a água para a capela e a fonte exterior ao dito portão. Não foi terminada pela simples razão de entretanto ter-se aberto uma nova conduta, a que fornece água à fonte que alimenta o jardim dianteiro ao palácio.

Esta cripta serviu de câmara ardente a António Augusto Carvalho Monteiro, na sequência da sua morte ocorrida no Palácio da Regaleira em 25 de Outubro de 1920, facto que a própria neta D. Maria de Nazaré Monteiro confirmou-me pessoalmente, e depois de ter estado em vigília toda a noite, no dia seguinte o seu corpo foi levado daqui para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, fechando-se assim o ciclo de vida do homem mais enigmático que Sintra e o país conheceram nos finais do século XIX e nas primeiras décadas do imediato. Mas ficou a sua memória eterna, como eterna parece ser a mensagem deixada neste “jardim de fadas” que é a Quinta da Regaleira.

 

NOTAS

 

[1] Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Editora Dinapress, Lisboa, 2000.

[2] Segundo a narrativa hagiográfica (cf. Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão – Editores, Porto), Maurício de Agaune (22 de Setembro, mártir, terá sido o chefe da legião tebeia encarregada de combater os bagaudas (gauleses que, entre os séculos III e V, se revoltaram contra a ocupação romana) no tempo do imperador Maximiano Hércules. Como recusasse, com outros soldados cristãos, a participar num sacrifício, foi massacrado com os seus companheiros. Este massacre terá tido lugar em Agaune-en-Vallais, nos fins do século III. Dele escaparam alguns cristãos, entre eles Santo Urso, São Gereão e São Vitor. Iconograficamente é representado muitas vezes como negro (por confusão com São Mauro, o Africano, monge mártir do século III, que era negro). Veste armadura de cavaleiro, tem lança, espada ou um estandarte, e apoia-se no escudo. Raramente se apresenta a cavalo. Por confusão de dus (chefe) com duque, às vezes figura com uma coroa ducal na cabeça.

[3] A Árvore de Jessé é a representação da árvore genealógica de Jesus a partir de Jessé, pai do rei David, aparecendo o seu nome citado no Antigo Testamento, particularmente em Isaías, 11:1-3: “Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará”. Motivo frequente na arte cristã entre os séculos XII e XV, a Árvore de Jessé aparece em inúmeros manuscritos, pinturas, vitrais, talha decorada e esculturas de madeira e de pedra, sendo a sua representação mais antiga conhecida datada de 1086, no Codex Vyssegradensis. Nessas reproduções, Jessé surge reclinado ou adormecido, com uma árvore a crescer do seu corpo, sendo os antepassados de Jesus, de acordo com a Bíblia, são descritos nos galhos da árvore, juntamente com os profetas e o próprio Cristo no topo. Na igreja de Santa Maria de Olivença, fundada pela Ordem dos Templários nos inícios do século XIII, está a maior e mais monumental representação da Árvore de Jessé  não só da Península Ibérica como de toda a Europa.

[4] D. Luís Gonzaga de Lacerda, O selo medieval de Coimbra e o seu simbolismo esotérico. Separata da Revista Armas e Troféus, Lisboa, 1979.

[5] Leonor Figueiredo, Monteiro Milhões, o nosso “Luís da Baviera”. Jornal “Correio da Manhã”, 29 e 30.1.1985.

[6] O Annuario da Universidade de Coimbra no Anno Lectivo de 1866 para 1867 (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1866), no capítulo “Faculdade de Direito” para o 1.º ano da 3.ª cadeira de “História e princípios gerais de Direito Civil Português”, na página 34 dá o número, nome e morada do cursante: “30 António Augusto Carvalho Monteiro, filho de Francisco Augusto Mendes Monteiro, natural do Rio de Janeiro, império do Brasil – Couraça de Lisboa, n.º 28”.

[7] José Lobo d´Ávila Lima, Meio século de vida coimbrã. Revista Illustração Portugueza, 22, 1.º semestre, 2.ª série, p. 687, Lisboa, 1906.

[8] Maria Regina Dias Baptista Teixeira Anacleto, Arquitectura Neomedieval Portuguesa, 1780-1924, volume I. Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Coimbra, 1997.

[9] Maurice J. Ettinghausen, Rare Books and Royal Collectors: memoirs of and Antiquarian Bookseller. Simon and Schuster, New York, 1966.

[10] The Portuguese Manuscripts Collection of the Library of Congress: A Guide. Compiled by Christopher C. Lund and Mary Ellis Kahler. Washington, Library of Congress, 1980.

[11] J. Mimoso Barreto, Carvalho Monteiro – Mecenas da Cultura. Cadernos de Museologia, Associação Portuguesa de Museologia, Colóquio APOM/85 (Extracto das Actas), Sintra – 1986.

[12] Manuel J. Gandra, Colecção Portuguesa I e II da Biblioteca do Congresso (subsídios para a sua história). Centro Ernesto Soares de Iconologia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[13] Consoante informação constante de um Memorandum do Bibliotecário da DCL, datado de 21 de Março de 1929.

[14] Carta de Maurice Ettinghausen remetida, em 19 de Março de 1929, a Herbert Putnam, 8.º bibliotecário da DCL (1899-1939).

[15] Librarian of the Congress, Report of the Librarian of Congress for the fiscal yaer ending June 30, 1930, Washington, 1930, p. 54-55 [DCL: Z733. U57A]. Desta aquisição a estatística anual apenas consigna 12000 volumes entrados na DCL. Uma nota manuscrita apensa à correspondência trocada entre a DCL e a Maggs Brothers, bem assim como o Annual Report – Division of Accessions 1928-29, registam a oferta.

[16] Leonarda Gil da Gama, anagrama de Maria Madalena Eufémia da Glória, nasceu em Sintra a 17 de Maio de 1672 e terá morrido por volta de 1750. Ainda com 16 anos incompletos entrou a professar no Convento de Nossa Senhora da Piedade da Esperança de Lisboa, feminino franciscano da Ordem dos Frades Menores da Província de Portugal da Observância. Entre 1733 e 1749 fez imprimir, pelo menos, cinco obras de literatura monástica onde o virtuosismo barroco atinge o seu esplendor, em loas a santos e santas, em louvor da religião e de visões sagradas tidas pela própria. Os seus livros são muito raros por nunca terem sido reeditados, excepção feita a uma antologia organizada por Mendes dos Remédios, em 1914, publicada em Coimbra com prosa e versos de Leonarda Gil da Gama.

[17] Denise Pereira, Paulo Pereira, José Anes, Quinta da Regaleira – História, Símbolo e Mito. Fotografias de Nuno Antunes. Edição da Fundação Cultursintra, Sintra, 1998.

[18] Revista Municipal de Lisboa, 2.ª série, n.º 2, 1982.

[19] Leonor Figueiredo, Monteiro Milhões, o nosso “Luís da Baviera” – Quem era o homem que queria fazer de Sintra terra das mil e uma noites. Jornal Correio da Manhã, 30.1.1985.

[20] É tradição mais oral que documental o facto do Casal “Três Marias”, na Praia das Maçãs, vizinho da Vivenda “Rafaela” de Alberto Totta, ter sido a casa de praia de António Augusto Carvalho Monteiro, que a mandou construir para as netas (?) que tal como ele aí veraneavam, segundo informação disponibilizada por Waldemar d´Orey.

[21] Existem duas fotografias muito interessantes e significativas que retratam um grupo de presos políticos monárquicos na Penitenciária de Coimbra três anos após a implantação da República. Ambas de 1913, a mais importante delas no contexto histórico é a que, além de identificar os detidos, trabalho (17×23 cm) da “Photographia União – Avenida Navarro – Coimbra”, de 27.10.1913, tem uma dedicatória à “Exma. Sra. Dona Luísa da Costa Correia de Sampaio e Mello como homenagem pela protecção dispensada aos presos políticos”. Tratava-se, portanto, de uma lusignan do ramo português próxima da família Carvalho Monteiro.

[22] Conceição e Silva Júnior (João Paulo), in Varões Assinalados, 1909-1911. Publicação humorística bimensal de Francisco Valença, director e proprietário da mesma.

[23] Revista Arquitectura Portuguesa, números 8/9. Lisboa, Agosto e Setembro de 1917.

[24] Ainda em Sintra, em 1890 Luigi Manini terminou as pinturas decorativas da capela privada e salões do Chalé Biester e começou o projecto da Vila Sassetti. Também em Sintra, em 1897 realizou o projecto arquitectónico da casa de Lima Mayer, e em 1902 projectou a casa de Vicente Monteiro, amigo e antigo colega de carteira de Carvalho Monteiro na Universidade de Coimbra.

[25] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal (Templários e Templarismos), volume VIII. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Agosto de 2005.

[26] Denise Pereira, ob. cit.

[27] Cebes Tebano, Tábua ou Quadro da Vida Humana. Tradução de António Teixeira de Magalhães, introdução e notas de Manuel J. Gandra. Centro Ernesto Soares de Iconologia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[28] José Anes, Digressão Hermética por uma Mansão Filosofal Portuguesa, o «Palácio Milhões» em Sintra. Revista “Vária Escrita”, n.º 1, Janeiro / Junho de 1994, Sintra.

[29] Manuel J. Gandra, Colecção Portuguesa I e II da Biblioteca do Congresso – Livros maçónicos. Centro Ernesto Soares de Iconologia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[30] Sintra, 2000.

[31] Dando de barato os reiterados anacronismos produzidos pelos proponentes da tese maçónica, nenhuma das fontes alegadamente apontadas como determinantes na concepção e desenho da propriedade constou da tão bem apetrechada biblioteca de António Augusto Carvalho Monteiro, o que não deixa de ser, concomitantemente, paradoxal e sintomático.

[32] O nome de António Augusto Carvalho Monteiro não consta (nem tão pouco o de Giuseppe Manini) de nenhum dos ficheiros de qualquer das obediências maçónicas portuguesas ou brasileiras activas durante o período correspondente ao da sua vida (1848-1920). Cf. M. Borges Grainha, História da Franco-Maçonaria em Portugal (1733-1912), Lisboa, 1913; Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, Lisboa, 1986, 2 volumes; Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria, São Paulo, 1978.

[33] Vitor Manuel Adrião, O sagrado e o profano na Quinta da Regaleira. Jornal de Sintra, sexta-feira, 28 de Fevereiro de 1997.

[34] Victor Belém, Fernando Pessoa versus Aleister Crowley. Exposição de foto-ficções, foto-colagens e objectos. Quinta da Regaleira – 12 a 21 de Julho de 1996, Festival do Monte da Lua, Sintra.

[35] Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Editora Dinapress, Lisboa, Abril de 2007.

[36] Se Teosofia significa em grego “Sabedoria Divina”, Gnose tem significado idêntico como “Sabedoria” do Supremo Demiurgo de que o gnóstico procura tomar conhecimento, equivalendo a luz da Revelação (Gnosis). Sendo o Gnosticismo uma corrente filosófica sincrética, ele veio a mimetizar-se com o Cristianismo a partir do ano 100 d. C. através de Cerinto, que fundara uma corrente gnóstica com elementos cristãos e essénios e que durou praticamente até meados do século IV, constituindo a vertente heterodoxa do Cristianismo Primitivo. Depois feneceu sob as diversas acusações papais de heresia face à ortodoxia da doutrina imposta, mesmo assim conseguindo sobreviver a título particular e até colectivo mas sempre privado, donde o onomástico esotérico, isto é, “reservado, privado, oculto”. A corrente gnóstica mais cristianizada foi a siríaca-egípcia derivada das influências platónicas, cedo se infiltrando no Catolicismo e moldando o pensamento de muitos católicos que não viam haver realmente conflito entre o confessional e o sapiencial, a catequese e a gnose, entre o pensamento confessional e o pensamento mistérico. Este parece ter sido o caso de António Augusto Carvalho Monteiro, igualmente resgatando, por via do panteão mitológico greco-romano, ideias do chamado Gnosticismo Pagão ou não-cristão, anterior a este, tendo origem na Pérsia e Babilónia, as quais transporia para o jardim da Quinta da Regaleira por via da estatuária que o decora.

[37] Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1990.

[38] Aelredo di Rievaulx, L´Amicizia Spirituale. Fonti Cristiani per il terzò millenio, Roma, 1927.

[39] Jacobo de Vorágine, La Leyenda Dorada, 2 volumes. Tradução directa do latim por José Manuel Macías. Alianza Editorial, Madrid, 2005.

[40] O sentido de assunção ao alto da torre é o mesmo da subida de Dante ao Paraíso, ou de Vasco da Gama ao cume da Ilha dos Amores; pelo contrário, a descensão configura a ida ao seio da Terra, seja no sentido cemiterial, seja no sacrificial mas sagrado da morte do profano e ressurreição do iniciado no Centro do Mundo, motivo apenas acessível a quem conheça o segredo da abertura da porta da torre, isto é, quem possua o conhecimento superior que lhe possibilite realizar hermeticamente o V.I.T.R.I.O.L. (Visita Interiora Terris Rectificando Occultum Lapidem), ou seja, “Visita o interior da Terra e rectificando encontrarás a Pedra Oculta”.

[41] Poesia e Prosa medievais. Selecção, introdução e notas por Maria Ema Tarracha Ferreira. Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, edição patrocinada pelo Instituto Português do Livro.

[42] A Construção Moderna, n.º 12, Lisboa, 25.6.1918.

[43] Rudolf Steiner, Centres Iniciatiques (Origines, Influences). 14 conferências realizadas em Dornach de 23 de Novembro a 23 de Dezembro de 1923. Editions Anthroposophiques Romandes, Genève/Suisse, 1977.

[44] Vitor Manuel Adrião, Sintra Encantada (Deuses e Tradição – Homens e Lenda). Espiral Editora, Sintra, Abril de 2017.

[45] Manuel J. Gandra, A Quinta da Regaleira. Legado Sebástico-Templarista de António Augusto Carvalho Monteiro. Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[46] René Guénon, O Rei do Mundo. Editorial Minerva, Lisboa, 1978.

[47] Helena P. Blavatsky, Glossário Teosófico. Publicações Sociedade Teosófica, Londres, 1892.

[48] Há quem diga que Fulcanelli era o Conde Saint-Germain, Adepto famoso na corte de Luís XVI e Maria Antonieta pelas suas práticas de Teurgia e Alquimia. Outros, mais recatados, aventam que Fulcanelli não passaria do pseudónimo do alquimista francês Eugène Léon Canseliet (Sarcelles, 18.12.1899 – Savignies, 17.4.1982). Tamanho secretismo e discrição da pressuposta pessoa de Fulcanelli explica-se pelo facto de a Alquimia ser uma via solitária e dos Adeptos Filosofais se resguardarem do que chamam “poluição psicomental”, provinda do mundo profano ou ordinário. Para não serem afectados por ela e continuarem com perfeição a sua Obra Filosofal, os verdadeiros Alquimistas resguardaram-se sempre do convívio mundano, ocultando-se no maior sigilo e anonimato. Isto lembra as palavras de D. Maria da Nazaré acerca do seu avô, Carvalho Monteiro: “Não gostava de festas nem de as dar. Reserva-se muito e era muito fechado, só se abrindo com os amigos íntimos”.

Deve-se a Eugène Canseliet a revelação de quem terá sido Fulcanelli, de quem se considerava um dos poucos discípulos aceite por aquele desde 1915: tratava-se do pseudónimo de Jean-Julien Champagne (1839-1953). Através do mesmo Canseliet sabe-se que Fulcanelli é um pseudónimo resultante do jogo de duas palavras: Vulcan ou Vulcano, que os hermetistas greco-latinos associaram ao “Fogo Subterrâneo da Terra”, ao “Metalúrgico operando os metais no Mundo Subterrâneo”, e El, “Deus”, para os cananeus. Portanto, Fulcanelli significa o “Portador do Fogo Divino”, algo assim semelhante a Prometeu ou Lúcifer (o Arabel do conto de Melusina), o mesmo que os antigos cabalistas judeus e gnósticos cristãos identificaram como associado ao Fogo Criador do Divino Espírito Santo, que os alquimistas chamaram Fogo Radical ou Seco e os sábios hindus de Kundalini, a Energia Electromagnética animadora da Terra desde o seu Centro.

Fulcanelli ficaria famoso como autor de dois livros sobre Alquimia que foram publicados com a ajuda de Canseliet: Le Mystère des Cathédrales (“O Mistério das Catedrais”), escrito em 1922 e publicado em 1926 em Paris, e Demeures Philosophales (“Mansões Filosofais”), publicado em 1929 em Paris. Escreveria ainda um terceiro livro que não chegou a ser editado: Finis Mundi Gloriae (“Fim da Glória do Mundo”), cujo manuscrito original esteve durante algum tempo na posse de Canseliet.

Os dois livros publicados de Fulcanelli estão escritos de uma forma enigmática, parabólica e erudita, repletos de trocadilhos latinos e gregos destinados a dar ao simbolismo alquímico duplos sentidos. É em Le Mystère des Cathédrales que “apresenta a Catedral fundada na Ciência Alquímica”, e descreve a de Nossa Senhora (Notre-Dame) de Paris possuída dessa mesma simbologia esculpida na Idade Média pelos argots ou mestres do Gótico, associando esta palavra a Got e God, “Deus”, logo sendo uma arte divina por as suas proporções e formas se elevarem da Terra ao Céu como que querendo trazer este a ela e unirem-se numa verdadeira “núpcia química”, o que vai bem com a palavra Alquimia ou Allah-Chêmia, isto é, “Química de Allah ou Deus”, portanto, “Química Divina ou Oculta”.

[49] Elbert Chamoun, Instituições de Direito Romano. Editora Forense, Rio de Janeiro, 1968. Arnaldo Rizzardo, Direito de Família. Editora Forense, Rio de Janeiro, 2004.

[50] Juan Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[51] Luís de Camões, Auto do Filodemo. In “Obras completas – Teatro e cartas”, volume II. Edição Círculo de Leitores, Lisboa, 1984.

[52] Paulo Pereira, A Quinta da Regaleira. Simbolismo e História da Arquitectura. In Quinta da Regaleira (História, Símbolo e Mito), edição da Fundação Cultursintra, 1998.

[53] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada, capítulo 24, “O Javali e a Ursa”. Editora O Pensamento, São Paulo.

[54] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra do Ordem do Templo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2011.

[55] Serge Hutin, La Tradition Alchimique. Pierre philosophale et elixir de longue vie. Éditions Dangles, St. Jean de Braye, France, 1979.

[56] As lendas e milagres referentes a Santo André, foram motivo de análise acurada por F. Dvornik, em The Idea of Apostolicity in Byzantium and the Legend of the Apostle Andrew. Dumbarton Oaks Studies, Cambridge, 1958.

[57] Gregório de Tours foi o biógrafo eclesiasticamente autorizado do Apóstolo, como consta na Monumenta Germaniae Historica II, e que foi traduzido por M. R. James em The Apocryphal New Testament. Oxford, 1963.

[58] Pedro de Mariz, Diálogos de Vária História dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderam achar. Editados por António Craesbeek de Mello, impressor da Casa Real, Lisboa, 1672.

[59] Jorge Matos, A Sala de Bilhar do Palácio da Quinta da Regaleira – um panteão heráldico-iconográfico. Revista “Vária Escrita”, n.º 5, Câmara Municipal de Sintra, 1998.

[60] Manuel J. Gandra, A Quinta da Regaleira. Legado sebástico-templarista de António Augusto Carvalho Monteiro. Centro Ernesto Soares de Iconologia e Simbólica, Mafra, Abril de 2012.

[61] Um Encoberto justamente à medida dos desígnios dos conjurados. Sintomaticamente, Ardizone Spínola chamou a D. João IV Encoberto de Portugal, reservando para outro “que Deus sabe” o título de Encoberto do Mundo…

[62] D. Pedro II terá sido muito afeiçoado a esta ideia, jamais tendo aceitado ser coroado. Já D. João V fez-se coroar. No entanto, talvez em desagravo, havia de receber do Papa Clemente XII, em 1732, o título de [João] Baptista. Na convicção de que tal pudesse ter ocorrido radicam os insistentes, quase obsessivos, votos formulados por sucessivos monarcas brigantinos no sentido de obterem descendência.

[63] A Biblioteca do Congresso (DCL) tornou-se proprietária da bibliografia manuscrita e impressa concernente à questão, que lhe pertenceu.

[64] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, Setembro de 2009. Do mesmo autor, Portugal, Sagrado e Mistério (Memória Histórica). Euedito, Lisboa, 2018.

[65] Pe. Miguel de Oliveira, Pe. Moreira das Neves, A Padroeira de Portugal. Edições Letras e Artes, Lisboa, 1940.

[66] Nesta sala, também remodelada por Waldemar d´Orey, havia igualmente legendas latinas cujo sentido explicava-se pela finalidade do espaço, mesmo sem deixarem de ter o sentido duplo de evocação pantagruélica e interpretação filosófica, talvez mesmo gnóstica: “O vinho bom alegra o coração dos homens”, “O Tempo é devorador, mas o Homem ainda mais”, “Com conta, peso e medida”.

[67] Quinta da Regaleira – Luigi Manini (Imaginário & Método – Arquitectura & Cenografia). Edição da Fundação Cultursintra, 2006.

[68] Também a Arte Real dos construtores livres é representada pelo leão, como símbolo de nobreza e poderio na arte escultórica de “cantar” Deus na própria pedra, revelando a estética divina nos contornos harmoniosos das formas esculpidas, como se vê nestes três portais do Palácio da Regaleira e em toda ela.

[69] Francesco Russo, Gioacchino da Fiore e le fondazioni florensi in Calabria. Nápoles, 1958.

[70] Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. Livraria José Olympio Editora S. A., Rio de Janeiro, 1990.

[71] O termo arquitectónico nártex (em latim narthex, com origem no grego narthikas) refere-se à zona de entrada num templo, havendo outras designações associadas com ele: pronaos, átrio, vestíbulo, galilé ou paraíso. Quando se situa no exterior do edifício, é denominado exo-nártex, e quando está no interior do mesmo é chamado endo ou eso-nártex, como está aqui na capela da Regaleira, cujo átrio abre para o jardim legitimando o sentido canónico de paraíso.

[72] Yvette K. Centeno, Fernando Pessoa: Magia e Fantasia. Edições Asa, Porto, 2003.

[73] Padre António Vieira, Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo. In Obras Inéditas, volume I, Lisboa, 1856. Obra reeditada pela Editora Ática, Lisboa, 2007. O fundamento desta tese do Quinto Império é exposto pelo padre Vieira, seguindo os critérios rigorosos da exegese bíblica, na sua História do Futuro, Oficina de Domingos Rodrigues, Lisboa, 1755. Obra reeditada por Maria Leonor Carvalhão Buescu pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1982.

[74] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta (Capital do Quinto Império). Editora Nova Vega, 2.ª edição, Lisboa, 2017.

[75] António José Saraiva, António Vieira, Menasseh Ben Israel et le Cinquième Empire. Studia Rosenthaliana, Amesterdão, 1972.

[76] Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal. Lisboa Ocidental, 1732. Esta obra foi reeditada em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Fevereiro de 1987, com nota de apresentação de Yvette Kace Centeno, quase em simultâneo com uma outra reedição no mesmo ano, desta feita em Mafra, com nota preambular de Manuel Joaquim Gandra. Esta última conta com uma dedicatória final de Anselmo Caetano a D. João V e ao elogio do V Império, que a primeira não possui.

[77] Augusto Ferreira Gomes, Quinto Império. Prefácio de Fernando Pessoa. Edição António Maria Pereira, Lisboa, 1934.

[78] Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2000.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.

Raúl Proença, Guia de Portugal, volume I. Lisboa, 1924.

Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, volume 13. Editorial Verbo, Lisboa, 1972.

Anne de Stoop, Quintas e Palácios nos arredores de Lisboa. Barcelos, Dezembro de 1990.

Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada. Porto, 1984.

Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Edição de Representações Zairol, L.da, Lisboa, 1961.

Manuel de Sousa, As Origens dos Apelidos das Famílias Portuguesas. Sporpress – Soc. Editorial e Distribuidora, Lda. Mem-Martins – Portugal, 2001.

Domingos de Araújo Affonso e Ruy Dique Travassos Valdez, Pombal (Marqueses de). In Livro de Oiro da Nobreza. Prefácio do Dr. José de Sousa Machado. Tomo II, na Tipografia da «Pax», Braga, MCMXXXIII.

Armando de Mattos, Brasonário de Portugal. Livraria Fernando Machado, Porto, MCMXLIII.

Cristóvão Alão de Morais, Pedatura Lusitana (Nobiliário de Famílias de Portugal). Marizes. Tomo quarto, volume segundo, Livraria Fernando Machado, Rua das Carmelitas – 15, Porto, 1943.

C. Jung, Psychologie et Alchimie. Éditions Buchet/Chastel, Paris, 1979.

Pierre Gordon, Melusine. Arma Atis, Neuilly-sur-Seine, 1983.

Claude Lecouteux, Mélusine et le Chevalier au Cygne. Préface de Jaques Le Goff. Ouvrage couronné par l´Académie française. Editions Imago, Paris, 1997.

García Mercadal, Viajes de extranjeros por España y Portugal. Ediciones Aguillar, Madrid, 1952.

Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal (Montes Sagrados, Altos Lugares e Santuários), volume VI. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Abril de 2005.

Francesco Colonna, Hypnerotomachia Poliphili. Fac-símile, traduzido e editado com comentários de Marco Ariani e Mino Gabriele, 2 volumes. Adelphi Edizioni, Milão, 1998.

Ian Caldwell, Dustin Thomason, A Regra de Quatro. Editorial Presença, Lisboa, 2004.

José Manuel Pedreirinho, Dicionário dos Arquitectos (activos em Portugal do Século I à Actualidade). Edições Afrontamento, Porto, 1994.

Vitor Serrão, Sintra. Editorial Presença, Lisboa, 1989.

Mimoso Barreto, Carvalho Monteiro mecenas da cultura, em Colóquio APOM/85. Extracto das actas. Museus da região de Sintra. Edição da Câmara Municipal de Sintra, 1986.

Maria Regina Dias Baptista Teixeira Anacleto, Bolseira do Instituto Nacional de Investigação Científica e da Fundação Calouste Gulbenkian, Arquitectura Neomedieval Portuguesa, 1780-1924, volumes I e II. Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Coimbra, 1997.

Denise Pereira, Paulo Pereira, José Anes, Quinta da Regaleira – História, Símbolo e Mito. Fotografias de Nuno Antunes. Edição da Fundação Cultursintra, Sintra, 1998.

José Manuel Anes, Os Jardins Iniciáticos da Quinta da Regaleira. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda., Lisboa, Novembro 2005.

Robert Bonnell, Dante o Grande Iniciado. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2006.

Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2006.

O Império Popular do Divino Espírito Santo – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Maio 11 2018 

A Festa Popular do Império do Divino no lugar do Penedo, Sintra, consignada “aldeia do Espírito Santo”, recua nas suas origens franciscanas quase ao início da Monarquia Portuguesa, sendo todos os passos da mesma escrupulosamente cumpridos.

Já na época dos primeiros reis de Portugal o Festejo do Divino Império Popular – no que remete para o conceito de “Quinto Império do Mundo ou da Humanidade”, conforme o Padre António Vieira nas suas Esperanças de Portugal (1659) – era realizado em Lisboa, no sítio de São Sebastião da Pedreira (onde tinha início a Estrada Real de Sintra), e que depois foi oficializado pela Rainha Santa Isabel em Alenquer, incentivada pela Ordem dos Franciscanos. Em Quatrocentos, ele teve especial relevo em Lisboa e arredores. Na capital existia a poderosa Irmandade de Nossa Senhora dos dos Remédios e Hospital do Divino Espírito Santo dos Pescadores e Navegadores, em Alfama[1], cuja fundação ocorrera precisamente na época de Quatrocentos. De uma outra agremiação de homens do mar – a Irmandade dos Mareantes e Pescadores do Alto da Confraria do Espírito Santo – instalada na igreja de São Miguel de Alfama, ficou igualmente notícia.

Ambas as confrarias, celebradoras do Divino Império Popular revivendo e reavivando antigas tradições céltico/moçarábicas, exaltando a mística pátria e sobretudo suspendendo ou quebrando por alguns dias a opressiva dogmática político-religiosa do clero vigente dominante, foram notícia do alvará Seiscentista de reformulação de compromisso “para bom governo della por estar o uelho em alguas couzas mui demenuto”[2].

A censura e o ostracismo cultivadas pelo Tribunal do Santo Ofício mostravam-se impotentes perante a força colectiva da Festa do Divino Império, nada mais sendo que a pura e poderosa manifestação da vontade da alma popular, caracterizada por uma espiritualidade original pela qual requeria, exigia o retorno às origens ancestrais dos deuses “pagãos” ou do “campo” (é no campo que se inicia toda a forma de civilização, transformando-se gradualmente de nómada em sedentária, com as suas modalidades religiosas  afins ao culto e cultura dos chamados deuses paisans, ou sejam os “campestres”, em que se assenta, em todas as suas vertentes de manifestação, a chamada religião popular, de origem genuinamente campesina), e que a Roma eclesial tentou pelo terror da repressão apagar da memória colectiva, contudo recuando ante as ameaças ferozes, prestes a cumprir-se, do mesmo colectivo popular. Nisto, recordo a resposta brutal e directa que há alguns anos me deu a guardadora das alfaias do Culto e Festa do Divino no Penedo, quando lhe perguntei que fariam se o padre da paróquia recusasse ir aí, à igreja de Santo António, celebrar a Missa de Pentecostes ou da Páscoa Rosada[3]: “Nesse caso, iremos buscá-lo. E se não vier a bem, virá a mal!”

D. Manuel I, o Rei Venturoso, concedeu a aprovação régia ao festejo popular do Pentecostes e autorizou o povo de Cascais e Sintra a recolher madeira nas suas matas para as fogueiras do Bodo, segundo revelou em 1895 Pedro de Azevedo através da publicação de uma carta da Chancelaria de D. Manuel a qual, embora não referindo expressamente a instituição do Império em Sintra, contudo indica a existência da Festa do Pentecostes, com a consequente solenidade do Bodo.

No reinado de D. Sebastião o festejo atinge o extremo do mais febril misticismo entrecruzado de apocalíptico e messiânico: implora-se a São João, roga-se a São Sebastião, clama-se ao Anjo Custódio, São Miguel “nosso Anjo guardador”. O jovem monarca vem a ser aclamado pela “arraia miúda”, mas também por alguma letrada, cansadas de Roma e dos seus capatazes exploradores e tiranos físicos, morais e intelectuais, como messias nacional. A fantasia confunde-se com a realidade. D. Sebastião participa dos festejos do Império, revoga o consentimento deles se realizarem em Sintra, no Palácio Real da Vila, propriamente no Paço dos Infantes, autorização concedida anteriormente por D. Manuel I.

A tradição veste-se de povo e salta à rua, ufana e quisitadora, alegre e grave. Os reis, até à dinastia de Avis, são tidos de casta divina, da cepa de Cristo como Este garantira a Afonso Henriques em Ourique, e no avesso a Igreja Romana é associada à “besta escarlate” do Apocalipse!… O povo, sufocado por séculos de cleptocracia senhorial e de batina, suplica a D. Sebastião a fundação do reinado de justiça, equidade e fraternidade em que consiste o Império Universal do Divino em quem ele era, como acreditava o simples nebulado pela fantasia religiosa e inflamado pelo desespero da injustiça social fazendo crescer o delírio febril, e com tantas vozes implorando o monarca, tocado já na sua fértil imaginação, assumiu o delírio e acreditou-se messias salvador, e logo volvendo a atenção para o império ultramarino português em franco declínio desde D. João III, encara África como o reduto do demo, aparelha armada contra ele e, contra os conselhos ajuizados da corte e até do seu tio D. Filipe II de Espanha, avança quixotescamente para Alcácer-Quibir, onde é desafrontado com a derrota fatal indo desaparecer no meio da refrega, com isso aumentando mais ainda a crise por que Portugal passava. Apesar de tudo, é justo dizê-lo, foi em Alcácer-Quibir que se impediu a invasão da Europa pelos turcos, preparando-se para a tomar pelo Sul de Espanha.

Eivado com estava do espírito messiânico, se acaso D. Sebastião vencesse em Alcácer-Quibir por certo avançaria pelo interior da África até Jerusalém, possivelmente o seu propósito principal nessa “cruzada santa”, e após a eventualidade de conquistar esse centro das três religiões do Livro, a consequência seria se autocoroar monarca universal por graça e direito, isto é, assumir-se “rei do mundo”. Contudo, sabe-se, esse seu propósito de domínio espiritual e temporal do mundo não passou de intenção aventureira levada insensatamente à prática, a qual o país teve de pagar e bem caro.

Não irei descrever neste estudo os lugares idos e presentes de realização da Festa Popular do Império Divino. Acerca deles, a bibliografia é vasta e riquíssima, o que é muito natural por ser esta festa pagã/religiosa genuína e exclusivamente portuguesa[4].

Mas seria imperdoável não transcrever aqui o texto comprovativo da oficialização da Festa do Espírito Santo em Alenquer, dado à estampa por D. Rodrigo da Cunha[5]:

E por estarmos em Alenquer, razão será não saiamos dela sem apontar o que achámos escrito em certo memorial, que os do governo da mesma vila ofereceram a Felipe II na ocasião que queria desanexar da sua coroa este lugar para o dar ao conde de Salinas D. Diogo da Silva, vice-rei, que foi deste reino. Ali se diz, como vivendo ainda a Rainha St.ª Isabel e andando com pensamentos de fundar nela uma igreja sumptuosa ao Espírito Santo, achou pela manhã lançados os fundamentos por mãos de Anjos e a obra em altura que já se podia nela ver a mesma traça, pela qual a Santa Rainha a determinava edificar.

Ela e El-Rei D. Dinis seu marido foram os autores da festa que se chama do Espírito Santo, cuja solenidade foi tão célebre por todo o reino e mais nos maiores e mais populosos lugares dele, como ouvimos contar os antigos: a que hoje dura em Alenquer tinha a mesma celebridade pelo reino, isto é, eleger-se e constituir-se imperador, que na primeira oitava do Espírito Santo, com majestade real, assistisse aos ofícios divinos, andasse na procissão, condecorasse com sua presença as mesas, honrasse as festas e invenções, em que o povo procurava alegrar-se.

Aqui em Alenquer se celebra ainda esta acção, que chamam do Império, com grande aparato. Levam três coroas e uma delas, que foi da Rainha St.ª Isabel. Servem pessoas nobres, e de qualidade ao imperador, que está em trono, debaixo do dossel, onde se assenta depois de haver oferecido junto do altar uma daquelas coroas, na mão do sacerdote, que diz a missa. E mandaram estes Senhores Reis, que assistindo o príncipe herdeiro do reino nesta ocasião em Alenquer ele fosse o que levasse a coroa, da igreja do Espírito Santo à do mosteiro de S. Francisco, onde se dá princípio à festa: cuja parte principal é que no sábado, véspera de Pentecostes se cerca com uma coroa ou rolo de cera benta tudo o que há na vila, começando do mosteiro de S. Francisco até à igreja do Espírito Santo, assistindo toda ela em procissão, no que viram já por vezes milagrosos efeitos, porque fazendo-se esta cerimónia em tempo de grande peste foi Deus servido acabar-se o mal e tornar-se a serenidade.

Abordarei neste estudo, sobretudo, o pouco ou nada conhecido aspecto esotérico do corpus simbólico do Festejo, e, desde já, impõe-se uma questão: se está por advir um Quinto Império Português, sendo os anteriores o Persa, o Assírio, o Grego e o Romano[6], acaso haverá alguma relação matemática quanto à duração das dinastias portuguesas com o momento do seu Jubileu adventício?

A resposta só pode ser positiva. Com efeito, se se dispuser o quadro cronológico das 4 dinastias, indo de 1128 até 1978 (ano que para Fernando Pessoa encerra o ciclo da existência do império temporal português, iniciando um outro marcado pela transição do Sol da 4.ª para a 5.ª casa do seu “Horóscopo de Portugal”), distam 850 anos perfazendo exactamente 50 ciclos de 17 anos, distribuídos organicamente no decurso da História Nacional, conforme o quadro seguinte composto por Manuel Gandra e inserido num seu estudo[7]:

Cinquenta é o número do Jubileu e consequente retorno ao Estado Primordial, o número da instauração definitiva da Era Messiânica antecedida pela República, a qual tão-só configura a fermentação básica do 5.º Ciclo ou Império, e pela qual as políticas nacionais e estrangeiras importadas concorrem, de uma ou de outra maneira (“escrever direito por linhas tortas”…), para o advento do Império do Espírito Santo, tanto valendo por Parúsia Universal.

Essa Parúsia Universal tendo como expressão a religião nacional do Advento, expressa pela função Folia ou Império, obviamente só podia ter na Terra por modelo paradigmático da Jerusalém Celeste um lugar que unisse os dois Pólos do Mundo, e esse lugar escolhido foi precisamente Alenquer, sobre o qual já escrevi[8]: “Mas Alenquer significa também, etimologicamente, além e quer, ker ou kar, em celta, “pedra”, isto é, Pedra do Além, Pedra Divina, o mesmo que Lusa, nome primitivo da Belém hebraica onde nasceu o Cristo, incarnando o Espírito Santo no seu dualismo Celestial-Terreal, e aqui a Mãe, a Terra, a Lua, a encantada Moura fatímida está em [Santa Quitéria de] Meca, complemento de Alenquer, de que dista parcos quilómetros. Não é por acaso que a Rainha Santa Isabel oficializou, à testa dos franciscanos, a celebração do Império Popular do Divino Espírito Santo precisamente em Alenquer[9], com Meca à vista! Enfim, coisas de história que a História vela…” como essa da mártir bracarense Quitéria (século II) remeter para o sentido islâmico de Khalwâ, “retiro” espiritual.

Por sua vez em Sintra, no Palácio Real da Vila, tem-se o Paço dos Infantes de Portugal defronte para o Terreiro de Meca, tal qual a aldeia do Penedo franciscano está defronte para a morabitana aldeia de Almoçageme (al-Masjide, “a Mesquita”). Estes são factos provocados pela causa profunda de quem sabia, e bem, o que fazia: conformar no mapa estremenho os dois Pólos do Mundo “unindo o Oriente ao Ocidente” conforme o lapidado na Profecia de Sintra, pela graça do Divino Espírito Santo que une às nações como reza nos Actos dos Apóstolos, tudo em conformidade à natureza e condição centrífuga, universalista de Portugal, antes, Porto-Graal, como consta no selo afonsino da vila, indo-se às veladas origens Marizes em Afonso Henriques, desde São Lourenço de Ansiães de Trás-os-Montes até São Lourenço das Azenhas do Mar, na Estremadura litoral. Sim, a de Maris Nostrum

Quanto à transição de Neptuno-Peixes para Urano-Aquário, no “Horóscopo de Portugal” feito por Fernando Pessoa[10] e que depois António Telmo voltou a publicar[11], também se relaciona aos festejos latinos do bicéfalo Janus, em feminino Janas. Janus era entre os romanos o deus da iniciação aos Mistérios, com isso o patrono dos Collegia Fabrorum, corporações de artífices e artesãos que atravessaram toda a Idade Média, e pelo Companheirismo até aos tempos modernos, onde a memória perdura nas chamadas “Lojas de São João”. Com efeito, esse deus bicéfalo veio a ter correspondência simbólica, com a implantação do Cristianismo, com o São João Veraneal e o São João Invernal, o Batista e o Evangelista, correspondendo cosmogonicamente aos Solstícios de Verão e de Inverno, assim dividindo o ano em duas partes[12]:

A Fase Ascendente (Nivriti-Marga) corresponde ao signo do Caranguejo e a São João Batista corporificando Deva-Yana, o Anunciador da Luz, do Pentecostes ou Páscoa Rosada quando o Sol brilha no auge, tal qual os Impérios Populares extravasando a sua alegria nas folias que são a popularização de ritos solares, como se verá mais adiante.

A Fase Descendente (Pritivi-Marga) corresponde ao signo do Capricórnio e a São João Evangelista expressando Pitri-Yana, o Anunciador da Natividade, da descida à Gruta, ao Útero Materno, mas renascendo das “Trevas Primordiais”, o Nihil ab Chao, quando o Batista pronuncia o Fiat Lux, pela Festa da Ressurreição, isto é, quando a Natureza irrompe viva e colorida do ventre da Mãe-Terra para a alegria da luz do dia, pela Primavera, pelas Maias. Daí o espaço de celebração da Missa de Pentecostes estar na ocasião tapetado com flores de cores variadas, onde se destacam as amarelas, azuis e vermelhas numa mistura simbiótica, configurando formas geométricas de beleza ímpar. Representa, o tapete floral, o Divino Espírito Santo plenamente manifestado na Natureza como Bem, Bom e Belo expressando o Amor Divino.

Os São Joões representam igualmente a energia centrífuga (Satva, amarela) e a energia centrípeta (Tamas, vermelha) opositoras, degladiadoras entre elas como forças opostas vitais a toda a Natureza que as equilibra com o seu ritmo ou Rajas, princípio azuláceo permeio às anteriores. Por isto, todos os templos exclusivamente consagrados ao Divino Espírito Santo (como o de Santo António do Penedo) estão pintados de azul celeste. Ainda sobre essa “oposição” Joanina, não deixa de estar assinalada zodiacalmente em Câncer-Capris, opostos vitais ou complementares um do outro.

São as traves-mestras da Criação, as colunas siderais do Espírito Santo que é o Supremo Arquitecto (Vishwakarman, em sânscrito) projectando-se como Avatara na função de Paràklitôs ou “Advogado” das Nações, com Deva-Yana à destra e Pitri-Yana à sinistra.

Nesses dois últimos parágrafos estará a chave oculta d´alguns dos Mistérios da Tradição Iniciática das Idades, e também estará a razão da origem dos Impérios que, se se seguir o fio quase subtil das tradições histórico-religiosas, acaso remontarão aos cultos lunissolares dos Atlantes ibéricos, como muito bem disse Mário Roso de Luna em Gentes del Otro Mundo.

Assim, dotado desses elementos, poderei compor o esquema seguinte:

Na folia do Império, o ritual de imolação do touro pelo povo, num improvisado toureio, sugere-me a ressurreição do culto bodivo de Ísis, venerada em quase todo o território nacional durante o período luso-romano, tendo-se divinizado esse animal, característica que depois a Igreja soube logo assimilar. Nesta tendência se enquadram as bênçãos de animais e a tolerância para a sua participação em festejos de índole religiosa, como o boi de São Marcos, em Alter do Chão, o boi bento de São João de Braga e os bois consagrados junto à igreja circular ou votiva (formato identificado por Francisco de Holanda, no século XVI, à Hóstia Eucarística, e por mim ao Rodel do Espírito Santo, tanto valendo por Tur-Zin-Muni – “o touro alado cavalgado por Akbel”) de São Mamede de Janas (perto do qual o pintor teve casa ou “monte”), em Sintra, e que é o maior templo votivo ou circular da Península Ibérica.

Ísis era apodada piedosamente de “Vaca Divina” e “Nutridora Celeste”. Conforme esse último epíteto, virá a ser a carne do touro imolado que alimentará todos quantos, sem distinção de posições sociais, políticas e religiosas, se sentarem à mesa comum do Bodo.

Tal qual se pratica na Ilha Terceira, Açores, e se praticava na Lisboa quinhentista[13], fazia-se na aldeia do Penedo a tourada à corda, amarrando duas extensas cordas às hastes emboladas do cornúpeto, e dois ranchos de homens, puxando cada qual para o seu lado, procuravam sofrear-lhe o ímpeto. Lentamente, a multidão ia comprimindo-se em torno do animal até este não se poder mover. Então, junto ao chafariz, o matador, manejando habilmente a choupa sobre o cachaço da rês, à frente de todos, abatia-a, sem que ninguém esboçasse um gesto de dor ou de repugnância. Era apenas um ritual milenar que se cumpria.

O touro simboliza a Mãe-Terra, a “Vaca Sagrada” Bhumi. Tradicionalmente, os ranchos que seguravam pelas cordas as hastes da rês eram de seis homens para cada banda. Representavam os doze signos do Zodíaco num fatalismo cósmico ligados aos destinos da Terra, encadeada pelo Cordão de Ariadne, com seis signos Terra-Água ligados ao Passado, à Fase Descendente, e outros seis signos Fogo-Ar ligando-se ao Futuro, à Fase Ascendente. O matador, como 13.º personagem, não participava dos ranchos limitando-se a aguardar o momento fatal, pelo que assinalava o Sol sacrificando a Terra, ou seja, determinando pelo relógio das constelações o final de um Ciclo, para que outro possa urgir como novo Período ou Império.

Os cultos bodivos ou taurobólios eram na Atlântida, informa a Tradição, praticados por sacerdotes e sacerdotisas de Mu-Ísis, implorando em suas antífonas e litanias aos deuses siderais da constelação do Boieiro, Pai da Mãe-Terra, através de Vénus-Balança (signo regente da Atlântida, esta a da “Raça Equilibrante” entre as três passadas e as três futuras), protecção e alimento para si e o seu povo.

No final, os oficiantes do templo de Neptuno, deus supremo do panteão atlante, representado por Atlas, adormeciam com uma beberagem mágica uma vaca branca e sacrificavam-na. O seu sangue era colocado numa imensa pira no pedestal do ponto mais elevado do templo. Faziam uma fogueira ritual e ofereciam o sangue à Deusa-Mãe, derramando-o no fogo (tradição esta que os levitas hebreus herdaram dos semitas atlantes e praticaram com o sacrifício de animais do Altar dos Holocaustos ou Oferendas no Templo de Salomão, e a Igreja cristã repete no acto da ingestão da hóstia).

Os restos da rês eram distribuídos pelo povo, cada qual guardando um pedaço da carne sagrada (essa primitiva hóstia cujo formato veio a ser associado simbolicamente aos templos votivos ou circulares), como se tratasse de um poderoso talismã propício à protecção da Lua, de Mu-Ísis, Alma Psíquica da Terra, e desfrutar até ao próximo rodel imperial (assim se chamava o ritual praticado no templo circular ou votivo de Neptuno) das suas benesses e graças.

O bodivo ou bodo são vocábulos assentes na palavra boi com que se designava os antigos ágapes, “refeições rituais”, que nos primórdios do Cristianismo se realizavam no interior dos templos[14].

Viterbo diz que, em Portugal, “não há dúvida alguma que estes ágapes se continuaram e com a moderação possível, durante o jugo dos sarracenos”, portanto, durante o período moçárabe sob jugo árabe. Após a vitória dos cristãos, a piedade religiosa fez aumentar estes “bodivos que, ao depois, se disseram bodos, isto é, refeição, jantar ou comedoria, que aos pobres se dava pelas almas dos defuntos”[15].

Ainda acerca dessa cerimónia do “rodel imperial”, ela teve um especial relevo entre os vascos ou bascos da Península Ibérica, gente lunar de descendência atlante adoradora da Vaca, em oposição aos gallaici ou galegos adoradores do Sol, de Mu-Ká do Templo de Jehovah, Io-Pithar, Júpiter ou Zeus, o Pai dos Deuses que veio a ser o Lug  dos lígures e celtas e depois o Endovélico dos lusitanos, e com a implantação definitiva do Cristianismo peninsular e a fundação da Monarquia Lusitana, tomou a nova forma de Arcanjo Custódio de Portugal, Mikael ou Metraton (Orago protector da Igreja ao par do da Sinagoga e da Mesquita).

Ora, por razões causais traçadas no Arquétipo da Natureza, precisamente Portugal está sob a custódia ou influência astrológica de Peixes-Neptuno, tal como toda a Península Ibérica é influenciada por Sagitário-Júpiter, o que não deixa de ser significativo.

Poderá ser essa a razão fundamental das touradas terem a sua origem na Península Ibérica, e tanto o rodel atlante como o actual acabam não sendo senão um Zodíaco em cujo constelado se senta o público; o Iniciador, Hierofante ou Mestre, é o Cavaleiro; os bandarilheiros são os Companheiros, e os forcados, por sua vez, os Aprendizes. Os primeiros vão sobre o cavalo (símbolo perfeito do Sagitário), significando a natureza superior do homem domina a natureza inferior do animal ou a anímica. Os Companheiros, ao cravarem as bandarilhas ou bastões, já começam a sentir-se superiores à fera, algo à semelhança do Arjuna do Bhagavad-Gïta perseguindo o inimigo, enquanto o Mestre-toureiro com a capa vermelha tamásica da ilusão, domina Maya, e com a Espada do Conhecimento Iniciático resulta, ao modo do deus Krishna do acima citado Poema, não o perseguidor mas o matador da fera, da simbólica besta bramadora, enquanto os Aprendizes ou forcados, ainda indefesos na arte de bem-domar, a enfrentam com as mãos nuas sujeitando-se às incertezas da sorte.

Há uma diferença crucial entre touro e vaca: o touro representa o Fogo, o Solstício do Verão, o Deva-Yana (“Anjo da Sabedoria”) afim ao 5.º Mundo Espiritual, à plenitude fecundante da Natureza. A vaca assinala a Água, o Solstício do Inverno, o Pitri-Yana (“Pai da Sabedoria”) empático ao V Império Terreal, à gestação da Natureza fecundada, destinada a dar á luz pelas Maias de Maio, por enquanto recolhido ou interiorizada durante o frio gélido do Inverno. Ora, se nas touradas são as vacas que conduzem os touros ao recolhimento do redil, no Bodo da folia do Divino são as mulheres que preparam as suas carnes, e a elas, as de Sintra, se deve a invenção de um bolo especialmente originalmente feito para a ocasião mas que depressa se generalizou graças ao seu sucesso comercial: os bolos da lua, tornados as tradicionais e saborosas queijadas.

Segundo a Sabedoria Iniciática, as Estações são regidas por quatro poderosos Arcanjos, para uns os “Quatro Anjos Coroados” mas para a Tradição Teúrgica os “Quatro Maharajas” (Grandes Reis, postados nos quatro pontos cardeais do Universo). O Solstício de Verão é regido pelo Arcanjo Mikael (Fogo); durante os três meses do seu Império tem por símbolo a imagem da Pomba, associando à cor azul celeste da Mãe Natureza o vermelho vivo da aura humana enrubescida pelo enxofre veraneal, onde tem destaque a aurífera acção substancial do Pai Eterno, o Logos Solar. Entre o Pai e a Mãe contempla-se o Filho. O Império do Espírito Santo nasce assim. O fundo sobre o qual se destaca é dado pela figura de Mikael, “Quem é Deus” (Quis ut Deus), que sendo o “Primeiro em Deus” (Primus Divinus) é o próprio Deus como Solus Vitae, representado na aldeia do Penedo pelo seu Orago: St.º António (do radical Akton, o Sol) do Espírito Santo.

Ora, as cores tradicionais do Paracleto são, precisamente, vermelho entremesclado ou chamejado com dourado sobre fundo azul céu. Quanto aos “Quatro Maharajas”, na nomenclatura judaico-cristã são:

Três santos são os padroeiros tradicionais do culto e festa do Império do Divino Espírito Santo: São João Baptista, São Sebastião e o Anjo Custódio.

De São João, tanto o que fala anunciando como o que escreve prognosticando, ambos profetizando o Advento que inaugurará o Reinado de Pax et Lex (Justitiae) no Mundo, já falei. Por certo, afim à promessa de primícias, será essa a principal razão do Evangelho de São João ser o eleito na Missa do Divino, além de possuir a preferência heterodoxa ou “livre” das tradições espirituais e religiosas do Ocidente, por ser quem melhor exprime o espírito da Religião do Verbo, da Palavra Criadora, Primordial e Solar.

Segundo Rudolf Steiner[16], foi Lázaro quem escreveu o Evangelho de João. Realmente, Lázaro recebeu do próprio Cristo a 4.ª Iniciação Real (a de Arhat ou Chrestus, equivalente à Crucificação ou Morte) indo descer à cripta, sinónima de Crypta Ferrata indicativa de Mundos Inferiores ou Interiores, mas ressuscitando ao terceiro dia – de uma espécie de estado cataléptico como desdobramento consciente da alma do invólucro carnal – vindo a tornar-se um Dwija ou “duas vezes nascido” (a primeira vez da Mulher ou pelo Corpo, e a segunda vez do Homem ou pelo Espírito), ou seja, um Iniciado Perfeito. Ora, os Preclaros Membros da Linhagem dos Arautos ou Yokanans, os São Joões, Escudeiros da Obra do Avatara de Piscis, o Christus, eram todos eles Grandes Iniciados que haviam atravessado e vencido a crise da 4.ª Iniciação, desse modo tornando-se Crestados (como São Lourenço passado vivo pela grelha incandescente), Chrestus ou Arhats de Fogo, de que Lázaro se tornou o símbolo vivo dessa colectividade de Iluminados por obra e graça do Espírito Santo – o Terceiro Logos, Shiva ou Adam-Chevaoth na Terra para o Celeste Adam-Kadmon, este o Andrógino Primordial que ao manifestar-se em separado toma forma na Parelha Humana Adam-Heve.

Fazendo recurso da “chave filológica” acerca do significado de Lázaro, tem-se:

Lázaro ou Lahzar = O Iniciado bíblico.

Lazarim = A colectividade dos Iniciados aramaicos (os Lazareth, que viviam em       Nazar-Heth (Nazaré), então uma comunidade espiritual dos Nazar, que se tornavam Lazareth quando passavam da 3.ª para a 4.ª Iniciação. Esta companhia ficou conhecida na História como Ordem dos Essénios (dividida em Puros e Terapeutas), que tinha por Instrutores os Nazar, por Iniciadores os Lazareth e por Patriarcas ou Perfeitos os Lazarinos. Os Lazarinos ou Lazarim eram os “duas vezes nascidos”, possuidores da 5.ª Iniciação Real, pelo que se haviam reintegrado ao 5.º Reino Espiritual (assinalado na Terra pelo Mundo de Agharta); viviam em isolamento quase total ao longo das margens do Mar Morto, orbitando entre a Palestina, a Judeia e o Egipto. João Batista, João Evangelista, Jesus, Lázaro, Paulo e uns quantos mais eram Lazareth, vindo depois a ser, pelo processo de Iniciação Real, Lazarim.

O topónimo jina Lazarim é, inclusive, o de uma localidade na margem sul do Rio Tejo, próxima de Cruz de Pau, que neste contexto tanto vale pelos palos do Madeiro Santo inflamado dos Arhats de Fogo, os Lazareth.

O Cristo ou Christus era o Messias (Messiah), o Enviado de Helli (Helius ou Elion) o Sol Espiritual, no que era o Chefe Supremo de todos os Lazarinos ou Adeptos Reais. Para terminar, distinguindo o conceito mistérico do confessional, apercebe-se que a fraqueza teológica da catequese católica é não saber distinguir entre o Imanente e o Transcendente, entre o Jesus-Homem e o Cristo-Deus. São Entidades perfeitamente distintas, apesar de interligadas.

São Sebastião, incarnando a paradigmática do Cavaleiro, Guerreiro ou Kshatriya, tendo morrido mártir atravessado por três flechas, o seu nome em hebreu escreve-se SBSH, equivalente ao Telo-Gens (Ente Telúrico) ou Homo Serpens (Homem Serpente), recambiando-o para a condição de Iniciado na e da Cripta Secreta (Crypta Ferrata), e por extenso para a energia telúrica encadeada num lugar ou ente, ou em ambos simultaneamente. No seu significado esotérico ou velado, as flechas vêm a representar as três qualidades básicas da Matéria (Mater-Rhea, Mãe Terra): Satva, Rajas e Tamas, ou sejam, Energia Centrífuga, Energia Rítmica e Energia Centrípeta. Nas igrejas que têm por Orago São Sebastião, é costume verem-se representadas as três flechas enlaçadas por uma coroa: designa a Matéria Coroada, ou melhor, a Alma do Mundo Coroada (Anima Mundi Coronata), como derradeiro resultado do martiriológio transcendente de Sebastião. Mesmo não o sendo, ainda assim no Festejo do Divino Império Sebastião é assumido português, confundindo-se os predicados do Sebastião-santo com os do Sebastião-rei, e vai bem assim, porque afinal Portugal é país sebástico cuja apologética destina-o a consolador das nações.

Quanto ao Arcanjo dito Anjo Custódio, já se sabe ser São Miguel, ou seja, Mikael, prerrogativa concedida por D. Manuel I ao país de O invocar como Guardião Nacional (que é dizer, o Espírito da Egrégora ou “Alma Sinergética” de Portugal), pois a ele compete por missão velar pela Terra dos vivos e pelo Oceano dos mortos, na sua função psicopompa de medianeiro e Guardião do Umbral entre a Morte e a Imortalidade. Por isso, possuía também o nome Bérrio, por separar os viventes dos não-viventes e demarcar a fronteira entre os Mundos Espiritual e Material, este assinalado pelos descrentes perdidos e aquele nos eleitos ou viventes na alegria ou folia do Divino Espírito Santo.

Mikael tem por atributos a balança e a espada: uma pesa as almas separando os justos dos injustos, impondo a Lei da Justiça Suprema, representada por Vénus; a outra designa a Harmonia Universal, a Ordem, o Verbo, a Paz assinalada por Mercúrio. Nisso, dá-se a identificação de Mikael com o Melkitsedek bíblico, Rei e Sacerdote, modelo do Preste João, Rei de Justiça (Lex) e de Salém (Pax)[17].

A manifestação do Arcanjo Primeiro, Custódio do Reino, assinala sempre a glória da Shekinah, a Grande Paz e Luz do Messias, representada pela 10.ª Sephiroth ou “Emanação Divina”, Malkuth, com o significado de o “Reino” (Assiah) e o “Justo” (Tsedek), remetendo para a prerrogativa de “Rei do Mundo”, Melkitsedek.

Portugal assume-se, assim, desde os primórdios da sua existência como país estruturado, com a cobertura de Cister, de Avis e do Templo, como Anunciado e Ungido de Deus, confirmado no Milagre Cristológico de Ourique, pois nele o Sacerdócio de Melkitsedek, conceptualmente compatível com o ministério de Realeza Sagrada, corresponde ao de El-Elion e este ao de Emmanuel, razão de não pouco peso para no século XVI o Rei D. Manuel I, Emmanuel de batismo, que fora antes Mestre da Ordem de Cristo e depois, não menos curiosamente, o 14.º Rei de Portugal (como aliás a Profecia de Isaías exigia), ter se apresentado como “Rei de Portugal e do resto”, isto é, como Rei do Mundo, conforme está gravado no seu túmulo no Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa. O que lhe conferia, inclusive, legitimidade para convocar a cruzada contra o turco, como se depreende das suas cartas ao Cardeal de Cisneros[18].

O próprio nascimento desse Rei Venturoso é rodeado de mistério sobrenatural e prognóstico aventurado, como relata Damião de Góis[19]:

E parece que houve em seu nascimento mistério, porque havia já alguns dias que a Infanta Dona Beatriz sua mãe andava com dores, sem puder parir, e quis Nosso-Senhor alumiá-la com o Santo Sacramento, chegando à porta da sua casa, por onde passava a procissão, e por o dia em que nasceu ser o da invocação do venerável Sacramento, lhe puseram o nome de Emmanuel, o qual é um dos grandes do Senhor Deus, cuja festa se celebrava naquele dia, em quem lhe aprouve dar ser tão exaltado e glorificado como ao presente é por todo o universo, onde por meio, indústria e despesa deste magnânimo Rei a Nação Portuguesa por armas, ou por amor pôde penetrar.

Até aqui falei do significado do sentido do Divino Império Popular, da sua origem mítica e do posterior desenvolvimento pagão/religioso, e também do toureio e dos santos da invocação do Pentecostes. Falarei, agora, do Imperador e da tríplice Coroação durante a cerimónia do Divino Império.

O Menino-Imperador, empunhando com as ambas as mãos o ceptro, símbolo do Poder Temporal do Mundo e, consequentemente, do Monarca Universal, vem ladeado por outro par de meninos: à esquerda, o imperador do ano transacto carregando a bandeira do Império, religiosamente guardada na igreja durante o tempo que medeia entre duas festas. Representa o Império ou Ciclo passado e o Guardião da Tradição. À direita, o condestável com o espadim real ou faim, palavra que Bluteau considera já muito antiga[20], encostado ao ombro esquerdo (o lado passivo, subjectivo do homem, indicativo do que está por cumprir), será também coroado para reger no Império do ano seguinte. Designa o Garante da Tradição no Império ou Ciclo futuro.

A designação Império, nesta tradição popular, equivale à Festividade Pentecostal, sendo a Casa do Império o lugar onde se guardam as alfaias, a Igreja do Império onde se celebra a Missa do Pentecostes e se faz a Coroação, o Terreiro do Império, espaço aberto fronteiro ao templo, onde tem lugar a morte do touro e o bodo, a Cabeça do Império, finalmente, é a Confraria do Espírito Santo local encarregada de escolher o Imperador pelos dotes de “bem e virtude” da sua família, pelo que esta nomeação é a maior honra que ela pode almejar.

A tríplice Coroação dos três Meninos ou Delfins (todos juntos valendo pelo hindustânico Maitreya, o “Senhor dos Três Mundos”, Céu – Terra – Inferno, no Ocidente identificado ao próprio Cristo), ela não deixa de estar associada à tríplice tiara, o triregnum de São Pedro (o Penedo, a Pedra Angular da Igreja iluminada pelo helíaco Santo António) e de São Bernardo, referindo-se ao Governo Supremo, Temporal e Espiritual, encabeçado pelo Brahmatmã, Chakravarti, Melkitsedek ou o mesmo Rei do Mundo, cumeira da Hierarquia Espiritual da Terra  e que tem por emblema duas chaves cruzadas sobre a tiara, representando os Três Mundos. Por isso se diz que Ele é o Senhor do Céu, da Terra e do Inferno. Nisso, há uma analogia com a tríplice Coroação dos Infantes e os Tempos existenciais:

Nos Açores, o Menino-Imperador é conduzido, vestindo os trajes tradicionais (capa vermelha, jaqueta e calção em ouro misturado com azul e calçando sapatos brancos), montado num cavalo branco, para e da Missa do Pentecostes, com os imperadores dos anos ido e porvir atrás, a pé.

É a representação clássica do Cavaleiro da Promessa de Advento, Akdorge ou São Jorge, para todo o efeito, Aquele que instaurará finalmente na Pátria por Deus escolhida o 5.º e derradeiro Império Universal dos Justos e Perfeitos, desses que são as verdadeiras Crianças do Senhor!…

Falando nisso, na preferência em um menino por reflectir a castidade e pureza, igualmente terá a ver com algo novo a criar que, para o Bandarrismo judaico-cristão, toma a figura do divino Delfim do Advento, tema enquadrado no lema sebástico e graalístico, Adveniat Regnum Tuum, “Advenha Vosso Reino”, pelo que também se identifica como indicando um novo Movimento Espiritual. pessoalmente, creio representar o Menino-Messias, o Cristo de uma Nova Idade, à dianteira do Movimento dos seus Apóstolos que são os Mestres e Iniciados da Excelsa Loja Branca do Mundo, essa mesma Igreja de Melkitsedek.

Os Impérios foram levados do continente para a Madeira e os Açores a bordo das caravelas da Ordem de Cristo, onde iam embarcados franciscanos beguinos aos quais se deve, inegavelmente, a disseminação das folias do Império, base popular da celebração pentecostal nas ilhas atlânticas onde Portugal chegou primeiro. Daí trasladaram-se para o quinto continente, para o Canadá e Américas. Destas destaca-se o Brasil, onde os bandeirantes e cabouclos propagaram e fincaram a sua tradição dando forma ao Divino Império Luso-Brasileiro, a mesma Nova Lusitânia assim consignada por Pedro de Mariz nos seus seiscentistas Diálogos de Vária História.

Da exportação do Divino Império de Portugal para o Brasil elevando-se soberano de todas as demais festividades religiosas, falam inúmeros autores brasileiros irmanados aos portugueses pela mesma Pátria que é a Língua Portuguesa, nas palavras vaticínias de Fernando Pessoa.

Diz Alceu Maynard de Araújo[21]: “A Festa do Pentecostes, que no meio rural é conhecida pelo nome de Festa do Divino Espírito Santo, é uma das mais antigas tradições religioso-profanas que possuímos. Oriunda de Portugal, pois foi introduzida pela Rainha Isabel, aqui aportou nos primórdios da colonização”.

Já antes, Benedicto Pires de Almeida havia escrito[22]: “A origem desta tradição sob o céu do Brasil é contada por Melo Morais Filho em seu apreciado livro “Festas e Tradições do Brasil”, em que diz: “Referem antigos cronistas que as Festas do Divino foram instituídas em Portugal pela Rainha Santa Isabel”…”.

Por seu turno, Câmara Cascudo reitera[23]: “Desde o século XVI foi festa divulgada no Brasil, dizendo-se que datava em Portugal de El-Rei D. Dinis e da Rainha Santa Isabel”.

Finalmente, Walter Spalding diz[24]: “As Festas Populares do Espírito Santo foram instituídas pela Rainha Santa Isabel de Aragão e El-Rei Dom Diniz lá pelo ano de mil duzentos e tantos, logo após seu casamento com a Rainha Santa. Teve essa Festa por berço a então vila de Alenquer, de onde se irradiou para todo o continente português, instalando-se definitivamente e com raízes profundas, no arquipélago dos Açores desde o início de seu povoamento regular”.

Assim, também por festejo misto de profano e sagrado, para todo o efeito, chancelado pelo Divino Espírito Santo, Portugal-Brasil se unem Pátria-Gémea onde impera uma só Língua, um só Valor, um só Espírito que haverá, na maior das Promessas de Advento, imperar sobre todos os impérios fatais do Mundo.

Resta terminar, e com palavras respigadas às ilustres de Elísio Gala[25], as quais bem servem de encerramento a quanto disse e sugeri, não pouco entrelinhas: – Portugal sempre foi um país católico, isto é, ecuménico. Um dos nossos paradigmas, o V Império supõe que haverá lugar para todos os homens pelos quais cada homem e cada povo invoca o nome de Deus. O convívio experienciado de três tradições filosóficas e teológicas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – serve de testemunho aos construtores do V Império. Com o vindouro Infante de Sagres, o Espírito passará.

Em jubilosa esperança fica-se aguardando por entre as três colunas do Templo do Espírito Santo: a Saudade, o V Império, o Messias. Como preconiza Pinharanda Gomes: “Nesse dia celebraremos a missa sobre o mundo. No altar do mundo, a missa de louvor de toda a humanidade. A liturgia já não celebrará os mistérios da paixão e da morte. A literatura litúrgica arquivará as orações de súplica. Tudo será liturgia de louvor. Cantaremos e adoraremos, ter-nos-emos associado para amar e, desse modo, já desnecessário será pedir, suplicar. Só louvaremos, pela liturgia do louvor, como anjos reboando, pombas brancas, no azul celeste, entoando glórias à Vida”.

 

NOTAS

 

[1] Eduardo Freire de Almeida, Elementos para a História do Município de Lisboa, t. V, pp. 86-87, 1882.

[2] Chancelaria de D. João IV, livro 15, p. 53, 1640-1656. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa.

[3] Pentecostes, do hebreu, “Quinquagésima”. Festa celebrada pela Igreja cristã 50 dias após a Páscoa da Ressurreição, porque em tal dia – segundo lemos nos Actos (II) – o Espírito Santo desceu, sob a forma de línguas de fogo, sobre os apóstolos, que então começaram a falar em diversas línguas. Esta mesma festa é também celebrada pelos judeus, com grande solenidade, 50 dias depois da Páscoa do Cordeiro, em memória da lei dada a Moisés no Sinai, 50 dias depois da saída do Egipto, razão pela qual era também denominada de “Festa das Semanas”, porque era celebrada 7 semanas depois da Páscoa. Era chamada ainda de “Festa das Primícias”, porque em tal dia os israelitas levavam ao templo as primícias dos frutos de seus campos. – In Glossário Teosófico, de Helena Petrovna Blavatsky. Editora Ground Ltda., 1995, São Paulo, Brasil.

A “Festa Popular do Culto do Império do Divino Espírito Santo”, genuinamente portuguesa, realiza-se nos primeiros dias de Junho, iniciando-se a uma quinta-feira e culminando na terça-feira seguinte, sendo uso na aldeia do Penedo o programa seguinte:

1.º dia – 5.ª feira (Júpiter): Manhã = Alvorada pirotécnica / Tarde = Arraial / Noite = Baile.

2.º dia – 6.ª feira (Vénus): O mesmo que no dia anterior.

3.º dia – Sábado (Saturno): Manhã = Alvorada pirotécnica / Tarde = Passeio da banda filarmónica pela terra e redondezas / Corrida do touro à corda / Imolação do touro / Ladainhas ao Espírito Santo na igreja / Limpeza das carnes para o Bodo / Noite = Arraial e baile.

4.º dia – Domingo (Sol): Manhã = Alvorada pirotécnica / Confecção do Bodo / Cortejo do Espírito Santo e seu séquito / Coroação do Menino-Imperador na igreja de St.º António e do Divino Espírito Santo, evoco franciscano, pelo prior da freguesia, que fará a leitura do Evangelho de São João e dos Actos dos Apóstolos / Cortejo pelo Penedo do novo Imperador do Império do Espírito Santo / Tarde = Refeição oferecida na casa dos pais do Imperador, representando este, aos oficiais da confraria e às forças vivas do poder local / Cortejo do Espírito Santo com o Imperador à dianteira / Bodo aos pobres / Promessas ao Imperador e ao Divino Espírito Santo / Cortejo / Noite = Jantar dos festeiros / Arraial e baile.

5.º dia – 2.ª feira (Lua): Manhã = Alvorada pirotécnica / Missa do Espírito Santo na igreja / Tarde = Bodo dos peregrinos / Noite = Jantar dos festeiros / Arraial e baile.

Existe ainda um sexto dia, a 3.ª feira, em que oficialmente é dada por terminado o Festejo, mesmo que liturgicamente o tenha sido no dia anterior. Ainda assim, animado pelos festeiros, veja-se o que decorre ao longo dele:

6.º dia – 3.ª feira (Marte): Manhã = Alvorada pirotécnica / Tarde e noite = Arraial e baile, este encerrando com lançamento de foguetes, anunciando o fim da Festa.

[4] Aconselho a quem pouco saiba deste tema a leitura de três títulos básicos: Os Impérios Populares, por Maria Micaela Soares. “Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa”, III Série – N.º 88 – 1.º Tomo – 1982. Roteiro Lexical do Culto e Festas do Espírito Santo nos Açores, por Manuel Breda Simões. Instituto da Língua Portuguesa, Ministério da Educação, 1987. Contributos para o estudo das festividades populares em louvor do Divino Espírito Santo no lugar do Penedo (Colares-Sintra), por Maria Elisabeth Figueiredo Cabral e Maria Luísa Abreu Nunes. “Sintria”, I-II, Tomo I, 1982-1983, Gabinete de Estudos de Arqueologia, Arte e Etnografia. Museu Regional de Sintra – Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas.

[5] D. Rodrigo da Cunha, História Eclesiástica da Igreja de Lisboa, fl. 122. Lisboa, 1642.

[6] Padre António Vieira, As Esperanças de Portugal. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa.

[7] Manuel Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal. Lisboa, 1986.

[8] Vitor Manuel Adrião, Estremadura, o Extremo Ibérico. Revista “Cidades”, Ano II, N.º 4, 1988.

[9] Não sendo consensual a data do seu começo nesta “vila presépio”: A. Rodrigues de Azevedo, baseado numa escritura que existiu na Câmara Municipal de Alenquer, adianta o ano 1280, enquanto Jaime Cortesão, adoptando a sugestão de Frei Manuel da Esperança e tendo à vista documentos do Arquivo de Alenquer, afirma ter sido o Mosteiro de São Francisco da mesma vila o palco da sua primeira realização, em 1323. A ser verdade, essa última data acaso viria na continuidade de D. Isabel de Araújo, em Alenquer, ter convocado no dia de Pentecostes de 1296 o clero, a nobreza e o povo para tomarem parte nas solenidades religiosas realizadas na inauguração de uma confraria, a que chamaram de Império.

[10] Portugal – Pessoa responde ao inquérito “Portugal, Vasto Império”. Primeira publicação em O Jornal do Comércio e das Colónias, 73.º ano, n.º 21693, Lisboa, 28-5-1926. Segunda publicação por Augusto da Costa em Portugal, Vasto Império. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1934.

[11] António Telmo, História Secreta de Portugal. Editorial Vega, Lisboa, 1977.

[12] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora “O Pensamento”, São Paulo, 1993. E também do mesmo autor, Estudos sobre Franco-Maçonaria e Companheirismo, dois volumes, traduzidos da língua francesa por V. M. Adrião.

[13] Pedro de Azevedo, Costumes e Festas Populares dos Séculos XV e XVI. Revista Lusitana, vol. XV, p. 134, Lisboa, 1912.

[14] Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, vol. III, p. 432. Lisboa, 1711.

[15] Frei Agostinho de Santa Rosa de Viterbo, Elucidário das Palavras, Termos e Frases que em Portugal antigamente se usaram, vol. II. 2.ª edição, Lisboa, 1865.

[16] Rudolf Steiner, O Evangelho Segundo João. Edição da Associação Pedagógica “Rudolf Steiner”, São Paulo, 1981.

[17] Vitor Manuel Adrião, Portugal, Sagrado e Mistério (Memória Histórica). Euedito, Lisboa, 2018.

[18] Costa Brochado, A espiritualidade dos descobrimentos e conquistas dos portugueses. Revista Brotéria, vol. XL, pp. 25-42, 1945.

[19] Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel I. Lisboa, 1566.

[20] Rafael Bluteau, Vocabulário Português e Latino, vol. IV, p. 14. Coimbra, 1743.

[21] Alceu Maynard de Araújo, Festa do Divino Espírito Santo. Revista do Arquivo Municipal, 157, p. 63, São Paulo, 1954.

[22] Benedicto Pires de Almeida, A Festa do Divino. Revista do Arquivo Municipal, 59, p. 33, São Paulo, 1939.

[23] Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, p. 236. Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1954.

[24] Walter Spalding, A Festa do Divino Espírito Santo e sua Origem, em Tradições e Superstições do Brasil Sul, p. 176.  Rio Solimões, 1955.

[25] Elísio Gala, As Linhas Míticas do Pensamento Português. Fundação Lusíada, Lisboa, 1995.

Profecias de João de Jerusalém, dito profeta dos Templários – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Abr 15 2018 

No contexto dos santos e profetas coevos da Ordem do Templo ou mesmo afiliado nela, vem a aparecer o nome de Jean de Mareuil, dito Jean de Vézelay ou João de Jerusalém, pressuposto profeta dos Templários que teria escrito em francês medieval 40 premonições, entre 1117 e 1119, data da sua morte, quando se encontrava como peregrino junto aos cruzados em Jerusalém.

Este profeta João terá nascido na França em 1042 e acompanhado os cruzados à Terra Santa, onde chegou em 1099. Já no final da sua vida, escreveria aí os seus vaticínios, num estilo escorreito e simples, anunciando de forma apocalíptica eventos que se perspectivam num horizonte temporal vindo do milénio em que viveu até ao milénio que se iniciou no ano 2000.

Abraçou a Regra da religião de São Bento dos beneditinos de Mosteiro de Vézelay, França, ficando notícia dele como um dos seus priores. Muito viajado, há também notícia de ter feito várias peregrinações a Santiago de Compostela e se deslocado a Bizâncio, onde integrou a Cruzada a Jerusalém, segundo M. Galvieski[1].

Procuração de Jean de Mareuil. Avignon, Arch. dép. Vauclese, 3 E 5 994 (fol. 34v, haut)

Esse professor Galvieski diz ter descoberto por acaso o manuscrito original das Profecias de João de Jerusalém nos inícios de 1942, na biblioteca pública da comunidade judaica de Varsóvia, pouco antes de ser saqueada pelos nazis, mas não informa se chegou a copiar o documento. A única verdade provada é que o gueto de Varsóvia foi completamente saqueado e arrasado pelos nazis, tendo  o saque ido parar à Alemanha de Hitler. Após a conquista desta última pelas forças aliadas, também estas se entregaram ao saque, e assim procedeu com especial dedicação o exército soviético ocupante de Berlim. De maneira que, ainda segundo o professor Galvieski, entre os finais de 1992 e os inícios de 1993, ele tornaria a descobrir o documento das Profecias, dessa feita na Rússia, nos arquivos do Mosteiro da Saint Trinité de Saint Serge em Zargorsk, perto de Moscovo.

Em 1994, o professor Galvieski publicaria esse insólito documento que traduziu para o francês moderno[1]. De então para cá, o texto foi sucessivamente editado por outros nas suas respectivas línguas (francês, inglês, alemão e espanhol). Pessoalmente tenho dúvidas – iguais no respeitante à veracidade das pressupostas cartas trecentistas de Larmenius, parecendo-me simples invenção para «provar» que a Franco-Maçonaria e todas as correntezas templistas ou neo-templárias, aparecidas nos séculos XVIII-XIX, são herdeiras directas da original Ordem do Templo – quanto à veracidade do mesmo, tanto mais que há severas semelhanças entre o que está escrito nele e as profecias do Vishnu-Purana e mesmo o que Ferdinand Ossendowsky descreveu no seu clássico Animais, Homens e Deuses, o que se agrava com a ausência em muitos pontos do estilo literário medieval. Por outro lado, para contrapor à minha dúvida, a dado passo das suas Profecias João de Jerusalém refere Heródoto e continentes imensos para além das Colunas de Hércules, apontando claramente a África e a América. Pois bem, na basílica do Mosteiro de Vézelay, terminada em 1140, encontram-se pinturas murais com representações fantásticas dos diferentes povos do mundo (gigantes, pigmeus, etíopes, etc.), as quais estão inteiramente conformadas às descrições fornecidas pelo mesmo Heródoto. Isto não deixa de ser significativo.

Por outra parte, temo a invenção de um novo “Protocolo Secreto” tal qual foram inventados, também na Rússia, os “Protocolos dos Sábios de Sião”, e agora este que é aproveitado de todas as maneiras para justificar as mais extravagantes “teorias da conspiração”, como aqueles o foram para justificar as mais bizarras e sanguinárias “teorias xenófobas”.

Apesar de tudo, como o texto integral nunca foi dado em língua portuguesa, considero chegado o momento de traduzi-lo da versão francesa apresentando-o sem nenhum mais comentário pessoal, deixando o critério da sua mais ou menos valia à consideração exclusiva do leitor.

PROFECIAS DE JOÃO DE JERUSALÉM

Eu vejo e sei.

Os meus olhos descobrem no Céu o que será e atravesso o tempo num só passo.
Uma mão me guia para o que não vedes nem sabeis.

Mil anos terão passado e Jerusalém não será mais a cidade dos Cruzados de Cristo.
A areia terá enterrado sob os seus grãos as muralhas dos nossos castelos, as nossas
armaduras e os nossos ossos. Ela terá sufocado as nossas vozes e as nossas preces.

Os Cristãos vindos de longe como peregrinos ali, onde estavam o seu Direito e a
sua Fé,  não ousarão aproximar-se do Sepulcro e  das Relíquias senão escoltados
por Cavaleiros Judeus, que terão aqui, como se o Cristo nunca tivesse sofrido na
Cruz, o seu Reino e o seu Templo.

Os Infiéis serão uma multidão inumerável que se espalhará por toda a parte
e a sua fé ressoará como um tambor de um extremo ao outro da Terra.

Eu vejo a Terra imensa.

Continentes que Heródoto não nomeou, nem nos seus sonhos, e mais além das grandes
florestas de que fala Tácito, serão acrescentados, lá longe no fim  dos mares ilimitados
que começam após as Colunas de Hércules.

Mil anos terão passado desde o tempo em que vivemos e por toda a parte os feudos se
reunirão em grandes reinos e vastos impérios.
Guerras, tão numerosas como as malhas da cota que portam os Cavaleiros da Ordem,
se entrecruzarão, arruinarão os reinos e os impérios, e tecerão outros.

E os servos, os vilões, os pobres sem lar se revoltarão mil vezes, queimando as colheitas,
os castelos e  as cidades,  até que sejam queimados vivos e  os sobreviventes obrigados a
voltar aos seus covis.
Eles terão se acreditado Reis.

Mil anos terão passado e o Homem terá conquistado o fundo dos mares e dos céus
e será como uma estrela no firmamento.
Ele terá adquirido o poder do Sol e  se tomará por Deus,  levantando sobre a Terra
imensa mil Torres de Babel.
Ele terá construído muros  sobre as ruínas daqueles  levantados pelos Imperadores
de Roma, e eles separarão, numa nova vez, as Legiões das Tribos Bárbaras.
Mais além das grandes florestas, haverá um Império.
Quando os muros se afundarem, o Império não será mais que uma água lamacenta.
Os povos serão mais uma vez misturados.

Então começará o Ano Mil que vem após o Ano Mil.
Eu vejo e sei o que ele será.
Eu sou o escriba.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil, o Homem estará diante da
entrada sombria de um labirinto obscuro.
E eu vejo no fundo dessa noite na qual ele vai entrar, os olhos vermelhos do Minotauro.
Guarda-te do seu furor cruel, tu que viverás o Ano Mil que vem após o Ano Mil.

QUANDO COMEÇAR O ANO MIL QUE VEM APÓS O ANO MIL…

1.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O ouro estará no sangue
De quem olha as estrelas e conta os lucros.
Quem entrar no Templo avistará os mercadores.
Os Soberanos serão cambistas e usuários.
O Gládio defenderá a Serpente.

Mas o fogo alastrará.
Cada cidade será Sodoma e Gomorra.
E os filhos dos filhos tornando-se a nuvem ardente,
Levantarão os velhos estandartes.

2.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem terá povoado os Céus e a Terra e os Mares
Com as suas Criaturas.
Ele ordenará.
Ele quererá os poderes de Deus.
Ele não conhecerá qualquer limite.

Mas cada coisa retornará.
Ele titubeará como um rei ébrio.
Galopará como um cavaleiro cego
E a golpes de espora adentrará a sua montada na floresta.
No final do caminho estará o abismo.

3.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Se levantarão em todos os lugares da Terra as Torres de Babel.
Assim será em Roma e assim será em Bizâncio.
Os campos ficarão vazios
E não haverá justiça em parte alguma.

Mas os Bárbaros ocuparão a cidade
E não haverá mais pão para todos.
E as manipulações deixarão de resultar
Quando as pessoas sem futuro alimentarem os grandes incêndios.

4.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
A fome encherá o ventre de tantos homens
E o frio gelará tantas mãos
Que eles desejarão ver um outro mundo
E verão os mercadores de ilusões propondo a poção.

Mas ela destruirá os corpos e apodrecerá as almas.
E aqueles que misturaram a poção ao seu sangue
Serão como a besta selvagem caída na armadilha.
E matarão e violentarão e espoliarão e roubarão
E a sua vida será um apocalipse a cada dia.

5.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Cada um procurará desfrutar de tudo o que puder.
O homem repudiará a sua esposa tantas vezes quantas se casar
E a mulher irá pelos caminhos perdidos (fúteis) tomando daí
Quanto lhe der prazer.
Parirá sem dar o nome do Pai.

Mas nenhum Mestre guiará o Menino.
E cada um entre os demais estará só.
A Tradição estará perdida.
A Lei será esquecida
Como se o Anúncio não tivesse sido feito,
E o Homem tornar-se-á selvagem.

6.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O pai buscará o prazer com a sua filha,
O homem com o homem, a mulher com a mulher,
O velho com a criança impúbere,
E isso perante os olhos de todos.

Mas o sangue se tornará impuro.
O mal se espalhará de leito em leito.
O corpo acolherá todas as putrefacções da terra,
Os rostos serão corroídos, os membros descarnados.
O amor será uma grande ameaça para aquele que não se conhecem
Senão pela carne.

7.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Aquele que falar de Juramento e de Lei não será ouvido,
Aquele que pregar a Fé do Cristo perderá a sua voz no deserto.
Mas por toda a parte se estenderão as águas poderosas das religiões infiéis.

Os falsos messias reunirão os homens cegos
E o infiel armado será como nunca antes tinha sido.
Ele falará de injustiça e de direito e a sua fé ardente e cortante
Se vingará da Cruzada.

8.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
A fama do assassínio correrá como a tempestade sobre a Terra.
Os bárbaros serão misturados com os soldados das últimas legiões.
Os infiéis viverão no coração das Cidades Santas.
Cada um será mais bárbaro que o outro, infiel e selvagem
E não terá nenhuma ordem nem regra.

O ódio se espalhará como a chama na floresta seca.
Os bárbaros massacrarão os soldados.
Os infiéis degolarão os crentes.
A selvajaria será de cada um e de todos e as cidades perecerão.

9.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens se julgarão entre si segundo o seu sangue e a sua fé.
Ninguém escutará o coração sofredor das crianças,
Serão abandonadas como passarinhos
E não haverá ninguém para as proteger da mão dura enluvada.

O ódio inundará as terras que se acreditavam pacíficas
E ninguém será poupado, nem os velhos, nem os feridos.
As casas serão destruídas ou assaltadas,
Uns usurpando o lugar dos outros,
Cada um fechando os olhos para não ver as mulheres violadas.

10.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Cada um saberá o que existe em todos os lugares da Terra.
Se verá a criança com os ossos percebendo-se através da pele,
Àquele cujos olhos estão cobertos de moscas
E aquele que se persegue como a um rato.

Mas o homem que veja afastará o olhar
Porque não se importa senão consigo.
Ele só dará um punhado de grãos como esmola
Quando estiver seguro de ter os sacos cheios,
E o que der com uma mão recuperará com a outra.

11.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem fará mercado com tudo.
Cada coisa terá o seu preço,
A árvore, a água e o animal.
Verdadeiramente nada será dado e tudo será vendido.
Então o Homem não será mais que o peso da carne.

Trocará o seu corpo como um quarto de carne.
Venderá os seus olhos e o seu coração.
Nada lhe será sagrado, nem a sua vida, nem a sua alma.
Os seus despojos serão disputados como uma carcaça a esquartejar.

12.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem terá modificado a face da Terra.
Julgar-se-á o Mestre e o Soberano das florestas e dos rebanhos.
Terá cruzado a terra e o céu
E traçado o seu sulco nos rios e nos mares.

Mas a Terra estará nua e estéril.
O ar será ardente e a água fétida.
A vida fenecerá porque o Homem esgotará a riqueza do mundo.
E o Homem estará só como um lobo
No ódio a si mesmo.

13.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Também a própria criança será vendida.
Alguns se servirão dela como de uma quintana *
Para gozar da sua pele jovem.
Outros a tratarão como um animal servil
Esquecendo a fraqueza sagrada da criança
E seu mistério.

Ela será como um sapato que se usa,
Como um cordeiro degolado que se abate.
E o Homem não será mais que barbárie.

(*) Nota V.M.A. – A quintana era aquela espécie de manequim estofado de que os cavaleiros se serviam para treinar à espada ou à lança (cf. Larousse).

14.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O olhar e o espírito dos homens serão prisioneiros.
Eles serão ébrios e o ignorarão.
Tomarão as imagens e os reflexos pela verdade do mundo.
Será feito com eles o que se faz com a carneirada.

Então os carniceiros virão.
Os repaces os enganarão para melhor os guiar para o abismo
E os lançar uns contra os outros.
Serão esfolados para ficar com a sua lã e a sua pele.
E se o Homem sobreviver estará despojado da sua Alma.

15.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Reinarão os Soberanos sem crença.
Mandarão nas multidões humanas inocentes e passivas,
Esconderão os seus rostos e guardarão os seus nomes secretos.
E as suas fortalezas estarão perdidas nas florestas
Mas decidirão da sorte de tudo e de todos.

Ninguém participará das assembleias da sua Ordem.
Cada um será um verdadeiro escravo mas que se acredita homem livre e cavaleiro.
Serão os únicos a ser enviados às cidades selvagens e às fés heréticas,
Mas logo serão vencidos e queimados vivos.

16.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens serão tão numerosos sobre as terras
Que se parecerão a um formigueiro onde se crava um bastão.
Agitar-se-ão e a morte os esmagará com o seu tacão como a insectos enlouquecidos
Por grandes movimentos empurrando uns contra os outros.

As peles escuras se mesclarão às peles brancas,
A Fé do Cristo àquela da Infidelidade.
Alguns pregarão a paz jurada
Mas por toda a parte será a guerra das tribos inimigas.

17.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens quererão transpor todos os limites.
A mulher terá os cabelos grisalhos de uma velha.
O caminho da Natureza será abandonado
E as famílias serão como grãos separados que nada pode unir.

Esse será então um outro mundo
Onde cada um errará sem freio como um cavalo embalado
Indo em todos os sentidos sem direcção.
Infeliz do cavaleiro que cavalgar tal montada,
Ela não terá estribos e o atirará no fosso.

18.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens não se submeterão mais à Lei de Deus
Mas quererão guiar a sua vida como uma cavalgadura.
Eles irão escolher as suas crianças no ventre das suas mulheres
E matarão aquelas que não desejam.
Mas o que será o homem que se toma assim por Deus?

Os Poderosos se apoderarão das melhores terras e das mais belas mulheres.
Os pobres e os fracos serão como gado.
Cada casebre tornar-se-á mirante,
O medo será em cada coração como um veneno.

19.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Uma Ordem Negra e Secreta terá surgido.
O ódio será a sua lei e a sua arma o veneno.
Desejará sempre mais ouro e estenderá o seu reino por toda a Terra.
E os seus servidores estarão unidos entre si por um beijo de sangue.
Os homens justos e os fracos sofrerão a sua regra.

Os Poderosos se porão ao seu serviço.
A única lei será aquela ditada na Sombra.
O veneno será vendido até nas igrejas
E o mundo marchará com o escorpião sob os seus calcanhares.

20.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
A maioria dos homens ficará parada de braços cruzados.
Muitos caminharão sem meios de olhos vazios
Por não terem mais forja onde bater o metal
Nem mais campo para cultivar.

Eles serão como um grão sem raiz,
Errantes e desnudos, humilhados e desesperados.
Frequentemente sem ligações, os mais jovens e os mais velhos
Não terão senão a guerra por salvação
E logo combaterão entre eles e odiarão a sua vida.

21.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
As águas enfermas do céu e da Terra
Atingirão o Homem e o ameaçarão.
Ele desejará fazer renascer o que destruiu e proteger quanto subsiste.
Terá saudades dos dias do Passado
Mas será demasiado tarde.

O deserto consumirá a Terra e a água estará cada vez mais no fundo.
Em certos dias ela cairá em toda a parte como um dilúvio
E no dia seguinte faltará na Terra.
E o vento estremecerá os corpos dos mais fracos.

22.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
A terra tremerá em muitos lugares e as cidades se afundarão.
Tudo quanto tenha sido construído sem ouvir os Sábios será ameaçado e destruído.
A lama submergirá as cidades e o solo se abrirá sob os palácios.
O Homem se obstinará porque o orgulho é a sua loucura.
Ele não entenderá o aviso repetido da Terra.

Mas o incêndio destruirá as novas Romas
E nos escombros acumulados
Os pobres e os bárbaros pilharão, malgrado as Legiões,
As riquezas abandonadas.

23.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Sol queimará a Terra.
O ar não será mais o véu que protege do fogo.
Ele não será senão uma cortina esburacada
E a luz ardente queimará as peles e os olhos.

O mar se elevará como a água que ferve
E as cidades e os rios serão engolidos
E continentes inteiros desaparecerão.
Os homens se refugiarão nas alturas
E logo esquecendo reconstruirão quanto sobreviveu.

24.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens saberão tornar vivas as miragens.
Os sentidos serão enganados e eles acreditarão que tocam no que não existe.
Eles seguirão por caminhos que só os seus olhos vêem
E assim o sonho poderá tornar-se vivo.

O Homem não saberá mais separar o que é do que não é
E perder-se-á em labirintos falsos.
Aqueles que souberem fazer nascer as miragens
Rirão do homem ingénuo ao enganá-lo,
E muitos homens se tornarão cães de fila.

25.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os animais que Noé tinha embarcado na sua Arca
Não serão mais nas mãos do Homem
Do que bestas transformadas segundo a sua vontade.
E quem se apiedará do seu sofrimento vivo?
O Homem terá feito de cada espécie o que quis
E terá destruído inumeráveis.

Que acontecerá ao homem que tenha alterado as Leis da Vida?
Que tenha feito do animal vivo um torrão de argila?
Será ele o igual de Deus ou o filho do Diabo?

26.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Temer-se-á pelo filho do Homem.
A peste e o desespero o envolverão.
Não desejará senão para si e não para o próximo ou para o mundo.
Será acossado pelo prazer e por vezes venderá o seu corpo.
Mas mesmo aquele que é protegido pelos seus
Sofrerá a ameaça de ver o seu Espírito morto.

Viverá no jogo e na miragem que o guiarão,
Porque não terá mais Mestre nem ninguém
Que o ensinem a esperar e a agir.

27.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O homem se acreditará Deus ainda que seja igual a quando nasceu.
Agirá sempre dominado pela cólera e pela inveja.
O seu braço estará armado do poder em que se ampara
E o Prometeu cego poderá destruir tudo à sua volta.

Será um anão como alma mas terá a força dum gigante.
Avançará em largas passadas ignorando o caminho a seguir.
A sua cabeça estará pesada de sabedoria
Mas não saberá por que vive e por que morre.
Será sempre como o louco que esbraveja ou como a criança que choraminga.

28.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Países inteiros serão os despojos da guerra
Além do limés * romano e mesmo sobre o antigo território do Império.
Os homens dessas mesmas cidades se degolarão.
Aqui será a guerra entre tribos e lá entre crentes.

Os Judeus e os filhos de Allah não deixarão de se confrontar
E a terra do Cristo será o seu campo de batalha.
Mas os infiéis quererão em toda a parte defender a pureza da sua fé
E não haverá em face deles senão dúvida e poder.
Então a morte avançará em toda a parte como o estandarte dos tempos novos.

(*) Nota V.M.A. – O limés é o conjunto de fortificações mais ou menos contínuo que marcava outrora os limites do Império Romano (cf. Larousse).

29.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Multidões de homens serão excluídos da vida humana.
Eles não terão nem direitos, nem tecto, nem pão.
Estarão nus e não terão senão os seus corpos para vender.
Serão expulsos para longe das Torres de Babel da opulência.

Agitando-se como um remorso e uma ameaça,
Eles ocuparão países inteiros e proliferarão.
Escutarão as prédicas da vingança
E se lançarão ao assalto das Torres orgulhosas.
Será chegado o tempo das invasões bárbaras.

30.

Quando começar o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem será atirado no labirinto obscuro.
Terá medo e fechará os olhos por não mais saber ver.
Desconfiará de tudo e receará a cada passo.
Mas será impelido adiante por nenhuma paragem lhe ser permitida.
A voz de Cassandra soará em toda a parte alta e forte
E não será ouvida.

Porque ele quererá possuir sempre mais e a sua cabeça estará perdida nas miragens.
Aqueles que forem os seus mestres o enganarão
E não terá senão maus pastores.

QUANDO FOR PLENO O ANO MIL QUE VEM APÓS O ANO MIL…

31.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens terão finalmente aberto os olhos.
Não estarão mais fechados nas suas cabeças e nas suas cidades.
Ver-se-ão e ouvirão de um ponto ao outro da Terra.
Saberão que o que golpeia a um fere ao outro.

Os homens formarão como que um corpo único
De que cada um será uma parte ínfima.
E juntos constituirão o coração
E haverá uma língua que será falada por todos
E nascerá enfim o Grande Humano.

32.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem terá conquistado o céu.
Criará estrelas no grande mar azul sombrio
E navegará nessa nave brilhante
Novo Ulisses companheiro do Sol para a Odisseia celeste.

33.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Os homens poderão mergulhar nas águas.
O seu corpo será novo e eles serão peixes
E alguns voarão mais alto que os pássaros
Como se a pedra não caísse.

Eles comunicarão entre si
Por o seu espírito estar tão aberto que recolherá todas as mensagens.
E os sonhos serão partilhados
E eles também viverão tanto tempo como o mais velho dos homens,
Aquele de que falam os Livros Santos.

34.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem saberá qual é o espírito de toda a coisa.
Na pedra ou na água, no corpo do animal ou no olhar de outro
Ele perceberá os segredos possuídos pelos Deuses antigos.
Atravessará porta após porta no labirinto da vida nova.

Criará com o poder e a alegria de uma fonte.
Ensinará a Sabedoria à multidão de homens
E as crianças conhecerão a Terra e o Céu mais que nenhuma outra antes delas.
E o corpo do Homem será engrandecido e hábil
E o seu Espírito terá envolvido todas as coisas e as possuirá.

35.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem não será mais o único soberano porque a Mulher empunhará o Ceptro.
Ela será a Grande Mestra dos tempos futuros
E o que pensar imporá aos homens.
Ela será a Mãe desse Ano Mil que vem após o Ano Mil.

Derramará a doçura terna de Mãe após os dias do Diabo.
Será a beleza após a fealdade dos tempos bárbaros.
O Ano Mil que vem após o Ano Mil mudará presto
E se amará e se partilhará,
Se sonhará e se dará vida aos sonhos.

36.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem conhecerá um segundo nascimento.
O Espírito dominará as hostes dos homens
Que comungarão na Fraternidade.
Então se anunciará o fim dos tempos bárbaros.

Esse será o tempo de um novo vigor da Fé
Depois dos dias negros do começo do Ano Mil que vem após o Ano Mil.
Começarão os dias felizes,
O homem reencontrará o caminho dos homens
E a Terra será ordenada.

37.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
As vias irão de um lado ao outro da Terra, e do Céu ao outro lado.
As florestas serão novamente densas
E os desertos terão sido irrigados.
As águas serão novamente puras,
A Terra será como um jardim.

O Homem protegerá tudo o que vive,
Purificará o que conspurcou
E será sábio pensando nos vindouros.

38.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
Cada um será como um passo regulado.
Saberá tudo do mundo e do seu corpo,
Cuidará da doença antes dela aparecer.
Cada um será médico de si e dos outros,
Pois compreendeu que deve ajudar para sobreviver.

E o Homem após os tempos de isolamento e de avareza
Abrirá o seu coração e a sua bolsa aos mais desmunidos.
Se sentirá Cavaleiro da Ordem Humana
E assim será num Tempo Novo que começará.

39.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem terá aprendido a dar e a partilhar.
Os dias amargos de solidão terão passado.
Acreditará novamente no Espírito
E os bárbaros terão adquirido o direito de cidadania.

Mas isso virá depois das guerras e dos incêndios,
Isso surgirá dos escombros enegrecidos das Torres de Babel.
E terá sido necessário pulso de ferro
Para se ordenar a desordem
E o Homem encontrar o bom caminho.

40.

Quando for pleno o Ano Mil que vem após o Ano Mil
O Homem saberá que todos os seres vivos são portadores da Luz
E que são criaturas a respeitar.
Terá construído novas cidades
No céu, sobre a Terra e sobre o mar.

Conservará a memória do que foi
E saberá ler o que será.
Não mais terá medo da sua própria morte
Porque terá vivido em sua vida muitas vidas,
E saberá que a Luz jamais se extinguirá.

*

[1] Juan de Jerusalén, Las profecias de los templarios. Introdução, notas, textos e epílogo de M. Galvieski. Ed. Tikal, Girona, 1996.

[2] Le Livre des Prophéties – Le troisiéme millénaire révélé – de Jean de Jerusalem, traduit par M. Galvieski, qui a découvert le manuscrit du Livre des Prophéties. Ed. J. C. Lattés, 1994.

A Vida Oculta de Sintra (Estudo Teosófico) – Por Vitor Manuel Adrião Sábado, Mar 10 2018 

Fevereiro de 2003

A Intuição é mais atrevida que a Inteligência.

Prof. Henrique José de Souza

A Vida Oculta, psicomental e espiritual, é um “Véu de Ísis” que se desvela apresentando maravilhosa e maravilhada realidade que queda a palavra humana ante a vastidão e abrangência que perpassa os limites dos cinco sentidos comuns da criatura humana; é o mundo das infinitas possibilidades e das mais gratas surpresas ao homem e à mulher consagrados de mente e coração ao seu aprimoramento interior, espiritual, consequentemente, ao desenvolvimento da sua vida-consciência, mas isso sem forçar coisa alguma, quer em si mesmos quer perante o próximo, procurando viver o melhor que souberem e puderem em conformidade com as Leis da Natureza, percebendo na essência do fenómeno universal da mecânica dos efeitos o nómeno espiritual em que estão as suas causas, estas que na mais prístina expressão são Bem, Bom e Belo, nisto a Beleza da Mãe Universal cuja Divindade desvela-se nos vários Planos em que a Natureza se apresenta, cada vez mais amplos e abrangentes numa vibração indefinível de Amor envolvente do Todo no Tudo.

Sei bem que este estudo (realizado muito antes da data assinalada, pois recua aos anos 80 da centúria passada tendo sido publicado várias vezes, inclusive enviado para edição na revista Dhâranâ da ex-S.T.B., no Brasil) foi aguardado com expectativa por larga plêiade de discípulos, estudantes e pupilos da Obra do Eterno na Face da Terra, esta mesma Teurgia de Akbel, mas, caríssimos amigos e Veneráveis Irmãos de Ideal, revela-se bem pouco quanto tenho a oferecer sobre a Vida Oculta de Sintra, tema tão vasto que perpassa largamente a minha humilde pessoa… muito mais por não ser de maneira alguma um Adepto, Mahatma, Guru ou coisa que o valha. Tão-só me tenho na conta de Munindra ou Discípulo de Bhante-Jaul, algures no trilho do Caminho da Iniciação, membro efectivo de uma comunidade espiritualista de que tenho sido eco nesta parte do mundo, e por estar aqui à dianteira da mesma sou quem mais fica exposto ao juízo público por via da comunicação social e outros meios de informação. Mas não sou nem actuo como “caso isolado”, antes sendo parcela activa de um colectivo cultural-espiritualista de que tomei a dianteira em Portugal, nesta função representativa o propagado desde 1978, ciente de ter contribuído muitíssimo na divulgação do já chamado, impropriamente, “Ocultismo Português”. Essa Instituição fonte de minha iniciação espiritual, é a antiga Sociedade Teosófica Brasileira, cujo programa de informação e formação actualmente é prosseguido pela Comunidade Teúrgica Portuguesa.

Quanto sei ao Pensamento Iluminado, Manas Taijasi, do Professor Henrique José de Souza (para teúrgicos e teósofos, o Mestre JHS) o devo, inclusive a eventual possibilidade de alguma vivência junto ao mundo encantado da decantada Maya astral, esse mesmo dos deuses Jinas… Mas como quereis este pobre decanto de letras astrais, antes, psicomentais, pois seja, prossigamos avante, não sem antes advertir que o Astral, Psíquico ou Anímico é uma coisa e o Espiritual, bem outra. Tanto como os dotes psíquicos, sidhis, jamais foram sinónimo de espiritualidade, muito pelo contrário, vezes imensas revelam-se empecilhos do desenvolvimento da verdadeira espiritualidade e levam a confundir o ilusório com o real.

Posto isso, inicio com duas premissas básicas acerca da constituição sinergética, psicomental, da velhinha Kurat-Avarat, Kala-Shista ou Sishita, hoje Sintra: as influências energéticas planetárias do raio púrpura de Júpiter (como Luzeiro ou Princípio Celeste, a Divina Essência – Adi) e do raio azul de Vénus (como Planetário ou Princípio Terrestre, o Chakra – Vishuda). Estas são as linhas de forças fundamentais deste Quinto Posto Representativo Internacional, todo ele ligado ao Mistério dos Assuras ou Arqueus – Senhores do Mental – e ao correspondente Arcano “A Casa de Deus”, assim também vinculando-se aos Mistérios do Quinto Bodhisattva Jepher-Sus (Jesus) e da Mãe Divina Moriah (Maria), o que me faz reverter à carta da saudosa Grã-Mestrina (desta Obra Divina) D. Helena Jefferson de Souza (avatara da Budhai Adamita), endereçada aos teósofos portugueses em 28 de Janeiro de 1977.

Nela a Venerável Grã-Mestrina refere as Ordens de Avis e de Cristo como antigas colunas de apoio e guardas avançadas, protectoras ou “Escudo de Resistência”, da Quinta Rama do Governo Oculto do Mundo (G.O.M.), a mesma Excelsa Fraternidade Branca dos Sete Raios de Luz (Shuda-Dharma-Mandalam), ou seja, a Ordem de Mariz chancelada e soberana no território português, e isto em relação ao Passado. Reportando-me ao Presente, de acordo com as prerrogativas do Venerável Mestre JHS para a Obra Divina, tem-se:

Pelo Quinto Centro de Vida, por outra, pelo Quinto Sol que alumiará o futuro Quinto Sistema ou Ronda de Evolução sob a égide do Senhor do Esplendor (Arabel) geograficamente incidindo por esta Embocadura de Sintra – a Sura-Loka relacionada à Fala, ao Verbo Criador como Âmbula de Evolução Universal escoando-se a todo o Mundo – no final de contas por ele se escoa o vapor ígneo ou purpúreo de Kundalini, cuja natureza interior ou feminina expressa a venusta Mãe Divina da Criação e a quem a fecundou, cosmogonicamente falando: o poderoso Thor, Zeus ou Júpiter, o que leva a rematar em modo de saudação: Ave Mariz Nostra!

“Tudo quanto se passa na Obra, no Brasil, tem a ver com Portugal, e vice-versa”, afirmou repetidas vezes o Professor Henrique José de Souza, palavras corroboradas naquelas outras em carta datada de 1956 que endereçou aos teósofos portugueses de então:

“A Obra, no Brasil e em Portugal, corresponde a duas Ramas da mesma Árvore, que devem desenvolver-se em harmónico equilíbrio, como os braços de uma Balança, na qual o Fiel é a Grande Fraternidade Branca, vibrando no peito do Monarca Universal, de cujo centro mesmo irradiam para as quatro direcções os quatro Animais da Esfinge, expressão ideoplástica da Suprema Hierarquia Assúrica. Eu estou em Verdade e Espírito nessas plagas (Portugal), origem da Obra, porque, aí, sou exaltado com fé e amor. Eu sempre estou onde Me amam e com aqueles que crêem em Mim…”

O Venerável Mestre Henrique, El Rike ou Maha-Rishi sempre teve o grupo teosófico português na maior das considerações e nele apostou fortemente, sei-o de fonte segura e a mais próxima dele. O que o futuro depois trouxe, essa já é outra história!… Acabado de se firmar nesse já afastado ano de 1956, logo no ano imediato, em 14 de Abril de 1957, o Quinto Senhor Arabel inaugurou o Quinto Sistema de Evolução e após Ritual Nobre no Templo do Mekatulam, capital do Mundo de Badagas, desceu a Agharta e peregrinou por todas as suas cidades, da 1.ª à 7.ª, volvendo depois à superfície (em Badagas, o mundo semi-subterrâneo) pelo Templo de Jara-Khan-Lhagpa, em diminutivo Jara-Lagpa, a 50 graus de latitude norte a oeste do Tibete, passando a visitar os 7 Postos Representativos da Sistema Geográfico Internacional avatarizado nos principais 7 Adeptos das 7 Linhas do Pramantha ou Ciclo de Manifestação.

No 5.º Posto de Sintra esteve três dias, desde o dia 23 a 26 de Maio de 1957, na pessoa do Muito Venerável Thomas Vaughan (Ara-Amu-Cabayu, seu nome esotérico), representante do Teshu-Lama, antes, de Takura-Bey, Supremo Dirigente da Maçonaria Universal Construtiva dos Três Mundos ou a dos Tachus-Marus ou Traichus-Marutas. Ora, o Excelso Deus do Pentalfa Flamejante, Arabel, aqui deixou um Tode da Corte de Samael ou Luzbel: Jina-Maruth. Também aqui deixou um Muni da Corte de Akbel representada em Rabi-Muni, “Senhor das Sete Montanhas Sagradas”: Apta-Muni, expressando a Quinta Veste Mental Superior ou Venusiana do Eterno – Astar-Muni – de quem o mesmo Rabi-Muni é a Sétima Veste Nirvânica ou Jupiteriana. Apta-Muni é o Guardião da Obra Divina em que se cria o Novo Presépio (Apta, Família Espiritual) em plagas lusas. Jina-Maruth é o Guardião da Embocadura Sagrada e da Instituição Maruta, Maçónica no sentido de “Construtiva” (mas também “Destrutiva” das formas velhas, podres e gastas do despreparo do Passado ante o Presente projectando o Futuro), agindo com as forças elementares e elementais da Natureza, ou seja, com almas humanas e com “espíritos” naturais.

Mas também, como disse, no sentido de “Destrutiva”, ao remeter para as Talas sombrias ou regiões demoníacas e infernais do “Cone da Lua” (Baixo Astral) todos quantos por Sintra, neste particular, ousam afrontar a Sentença de Deus (Karma) e a Realização de Deus (Dharma), pretendendo impor às Cidades ou Lokas luminosas de Agharta a presença das sombras nefastas das astralinas cavernas tenebrosas sob elas, e por aí ao mundo inteiro. É assim que a Loja Negra e os seus maiorais dos curros astrais agem secretamente nos cérebros e nos peitos dos alucinados psíquicos transviados, vítimas desvairadas na constante agitação mental e psicomotora envoltas no crepe mortal da Maya serrana. Por isso, entre 1998-2000, usando da Face do Rigor em Nome da Grande Loja Branca, em Nome da Lei impus-me às trevas destruidoras, e bem se vê hoje as coisas estarem muitíssimo melhores na Serra Sagrada de Sintra. Também muitos impúberes psíquicos se salvaram dessa maneira, quase boçal (e que quase me custou a vida), a que fui obrigado a fazer recurso, cuja intenção última bem poucos compreenderam e menos ainda me ajudaram numa batalha declarada e decisiva aos olhos do mundo, cuja vox populi já desde muito antes profetizava: “A 2000 chegarás, de 2000 não passarás”… Mas se passou, mesmo sem o apoio desses que se dizem “discípulos dos Mestres de Luz, quando não eles mesmos os próprios Mestres”. Dizem-se? Deixe-se que digam…

Ainda assim, algo mais tenho a dizer: na Estremadura ou o Portugal Central existe um triângulo de forças psicomentais composto por Sintra – Mafra – Lisboa. A primeira está para as Lokas, a terceira para as Talas, a segunda para o jogo equilibrante entre elas, tal qual Fohat e Kundalini no “diabolô” verde-vermelho entre Akbel e Arabel. Tanto que se a hindustânica Mahara, “Grande Altar”, é hoje Mafra, este topónimo revela-se antítese de Rafak, se se deitar ou prostrar o M, por extenso Arfak, a sede mundial da Loja Negra, na Papua, Nova Guiné. Em Mafra, neste particular do triângulo de forças, tanto se pode encaminhar o Mental para o “Cone do Sol” (Evolução) quanto para o “Cone da Lua” (Involução), este tão bem representado na lenda das “ratazanas nos subterrâneos do convento”, o que ocultamente exprime as almas em extinção…

De maneira que foi graças a Arabel que firmaram presença em Sura-Loka um Muni e um Tode, expressando a Quinta Veste Divina, e firmando mais ainda, ante o Novo Ciclo que já despontou (às 15 horas de 28 de Setembro de 2005), a ligação deste Quinto Posto ao Quinto Sub-Posto de Tassu (São Thomé das Letras, Sul de Minas Gerais, Brasil), por via de um Cabayu (Linha Morya) e de um Gará (Linha Kut-Humi) aí instalados montando guarda lateral ao Templo Sedote ou Badagas sob o Pico do Leão (Leo…nel) reflexo geográfico do de aqui, sob o Pico do Graal (Cruz Alta).

De maneira que se tem a exposição seguinte das 7 Linhas do Novo Pramantha e dos 7 Postos Representativos assinalados nos respectivos países por onde o Augusto Senhor Arabel transitou, em guisa de antecipar a abertura do Mundo Jina a este mesmo novel Ciclo de Evolução Universal.

Nota: – Os Dhyanis-Kumaras (Deuses) estão para os Raios Planetários (provindos do Logos Solar ao Logos Planetário) e os Dhyanis-Jivas (Adeptos) para a adaptação dos mesmos Raios a Tatvas ou “estados de vibração subtil da matéria”, os quais irão determinar as vibrações particulares dos respectivos Chakras e estados de Consciência, tanto do Globo como do Homem.

Sabido é que nestes lugares serranos luxuriantes de flora, de água, vento e sol, os devas menores ou elementais, vulgo “espíritos da Natureza”, encontram neles ambiente perfeito para habitarem e se reproduzirem.

Os elementais da Terra, são os gnomos; da Água, as ondinas; do Fogo, as salamandras; do Ar, os silfos; do Éter ou Quinto Elemento (Quintessência), os Anjos. Os primeiros actuam no corpo físico do Homem; as segundas no corpo etérico; as terceiras no corpo astral; os quartos no corpo mental concreto; os quintos no corpo mental abstracto ou causal, ou seja, o encausador dos elementos à contextura do quaternário inferior humano, como expressão ou reflexo microcósmico do processo idêntico ou macrocósmico com o quaternário inferior do Logos. Os elementais agregados aos veículos de manifestação do Jiva (Homem) chamam-se, precisamente, devas encadeados; os demais, subjacentes à Natureza, devas libertos.

O Quinto Sol produz e alimenta os elementos da Natureza sintriana. Este Sol chama-se Avarat, termo que se traduz cosmogonicamente como “Força Maior”, e antropogonicamente como “Tradição dos nossos Maiores”, e o bijam é Krol entoado de maneira especial ou secreta de maneira a atrair e encadear o Fogo Criador do Espírito Santo (Kundalini).

Acerca da origem do Reino Elemental, não tenho senão que passar a palavra à consideração sábia da Coluna CAF do Venerável Mestre JHS, o Eng.º António Castaño Ferreira, numa aula realizada no Rio de Janeiro, em 1948, destinada à antiga Série D da Sociedade Teosófica Brasileira:

“Antes da Vida manifestar-se na Forma e expressar o estado de Consciência que chamamos Mineral, ela atravessou um outro que poderemos chamar de Elemental. O próprio tipo de Evolução do nosso Sistema conduz a que, no seu desenvolvimento, apenas possam existir consciências do tipo Elemental nos três últimos Planos (Mental, Astral e Físico). Isso força a consciência elemental a surgir apenas nesses mesmos Planos. No entanto, vimos que existem sete tipos de Consciência, sendo a Mineral a menos evoluída. Como compreender, então, a existência de um estágio paralelo? A resposta poderá ser dada nos seguintes termos: as consciências elementais não são consciências individualizadas como as outras, mas antes forças vivas da Natureza, plenamente cegas e inconscientes, orientadas pelas Consciências mais elevadas que para tal possuem aptidões. Elas são, no fundo, o resultado da animação da actividade dos três Planos inferiores pelas Energias Cósmicas que dimanam dos Três Logos ou Tronos.”

Pela regularidade dos exercícios espirituais prescritos para o Munindra pelo Mestre JHS, visando o aprimoramento corporal (mental, emocional, vital, físico), ele vai, vector a vector, grau a grau num processo de Iniciação verdadeira, subtilizando os seus devas encadeados indo influindo nos soltos ou libertos – assinalados no meio-ambiente que o rodeia, assim cada vez mais a Natureza lhe obedecendo… – de maneira a alcançar, por seus próprios esforços permanentes na transformação da vida-energia em vida-consciência, esse estado de Superação a que alguns chamam Reino Angélico, outros Quinto Reino Espiritual, sempre representado na Terra pelo próprio Reino de Agharta, o Mundo dos Seres Viventes.

Sintra, consignada “Serra da Lua” (astrosoficamente elevada a Vénus), é uma lomba que se distende do Algueirão / Rio de Mouro até ao Capum Lunarum ou Serpens, hoje da Roca (Rocha), o ponto mais ocidental da Europa, como é do conhecimento geral.

Poderei assemelhar esta lomba a uma cordilheira (semelhante à que cerca a cidade de São Lourenço do Sul de Minas Gerais, Brasil, conforme confirmei in situ, como sendo a extensão da Serra da Mantiqueira, mas aí como Montanha Sagrada Moreb, “Montanha que Fala” para aquela “Montanha que Ruge”, Ararat), cujo ápice é o pico da Cruz Alta, o Pico do Graal ou Pico dos Kurats, onde em tempos remotos aí se levantou grandioso templo de culto matriarcal ou feminino por sacerdotisas atlantes afins à Hierarquia Angélica ou Barishad e que era consagrado ao lunar astro nocturno (Chandra ou Chendra), do qual hoje mesmo sobeja a memória repleta de lenda e resta o testemunho arqueológico solto ou esparso.

 

Pois bem, diz a Tradição que quando um pico é parte de uma cordilheira toda esta, por sua vez, é presidida por um Ser de bem maior evolução, da mesma ordem dos Deuses dos picos isolados, só que mais evoluído ainda. É o Anjo da Montanha, o Deva Regente de todos os elementos que nela vivem como corpúsculos celulares de Seu corpo de expressão, a mesma Montanha… Ele influi em toda a sua natureza: terra, água, etc., etc., e mesmo nos humanos que junto ou dentro da Aura de Sintra (que é o seu Ovo Áurico) habitam, assim influenciando com o seu carácter e particularidades as dos sintrenses, estes com comportamento semelhante ao dos Todes e Badagas da Nilgiria e do Ceilão, ou seja, pessoas pouco ou nada nocturnas, caseiras e um tanto taciturnas, no sentido de pouco faladoras, como se uma parte sua estivesse permanentemente recolhida sobre si mesma.

Ora, essas são particularidades lunares ou de alma, de expressão interiorizada tal qual a Lua que só surge, timidamente, quando tudo se recolhe ao descanso do Sol.

A própria serra se feche em si mesma e necessita-se muito da consciência superior feminina, a intuitiva, para aperceber a sua natureza real. Tudo nela é mistério, sortilégio, magia… Os sussurros do vento nas copas das árvores, o borbulhar dos riachos, os templos perdidos entre as sombras fantásticas das folhagens, as mansões principescas ocultas ou coroadas pelas penhas verdejantes, enfim, tudo, mas tudo possui um quê de sibilino e fugidio, como se os deuses se escondessem na esquina de qualquer fraga ou árvore à aproximação do homem ignaro…

O Deva da Serra Sagrada de Sintra, diz a Sabedoria Divina pelos olhos e a boca de quem sabe, possui uma deslumbrante Aura púrpura rósea e, onde se situa a sua cabeça, parece rodear a fronte um hausto de luz clara azul marinha, salpicada de pontos estrelados dourados, estes os seus “devas” ou formas-pensamento espécie de “abelhas” douradas projectando-se na serra. Como criação do Segundo Logos em evolução Dévica paralela à Humana, é um Ser enorme com cerca de 17 metros de altura, maravilhosamente esbelto, e se bem que pareça masculino a sua contextura interior é bem mais feminina, denotando-se pelos movimentos esguios, lânguidos e centrípetos.

Os serranos o têm como aquela cultuada na parte oriental da serra, St.ª Eufémia (isto é, Eu+Fêmea = a Boa Fêmea, a Boa Mulher, a Boa Mãe), mas o intuo como Ab-Sin – “Filho da Lua”… alimentada por Vénus… fecundada por Júpiter. O que vale dizer: a Energia Flogística do Centro da Terra e a Energia Luminosa do Segundo Logos ou Seio do Céu ao Centro da Terra, formando a Cruzeta Ígnea (Pramantha) sobre a Face da mesma.

Possui às suas ordens uma corte de Anjos de tons púrpuras e de Anjos de tons azuis, os quais dirigem as obras dos elementais de Sintra (“os obreiros silenciosos do Templo de Salomão”). Os Anjos “púrpuras” são mais perceptíveis nas zonas do Castelo dos Mouros, Cruz Alta e Capuchos. Os Anjos “azuis” na Torre do Lago dos Passarinhos, Lagoa Azul e já nas proximidades do mar oceano. Silfos e ondinas estão às ordens dos Anjos “azuis”; salamandras e gnomos dos Anjos “púrpuras”. Estes maravilhosos Anjos possuem de três a cinco metros de altura e os seus aspectos, embora graves e profundos (mais nos “purpurados”), igualmente demonstram alegria e felicidade (mais nos “azuláceos”).

São eles que intuem o viandante solitário pelos trilhos incógnitos da serra, verdadeiro Peregrino da Vida se Iniciado for, o protegem e o conduzem pelo maravilhoso Mundo de Aladino, Allah-Djin ou dos Jinas, graças ao despertar das suas adormecidas virtualidades.

Um breve parêntesis. O Professor Henrique José de Souza dá o termo aura como verbo masculino, o que não deixa de ser singular mas, como ele disse, originalmente era assim considerado. O termo aura provém do grego αύρα, “sopro”, exportado ao latim aura, “brisa”. Em espanhol o termo é aplicado muitas vezes como masculino “un aura”, mas em português aparece sempre no feminino como expressivo de “ar vital”, oriundo da raiz indo-europeia awer, “envelar, envolver”, e wer, “vento, ar”, portanto, “ar envolvente”, podendo ser este o motivo do Professor Henrique lhe dar o sentido masculino.

Os silfos têm a seu cargo a direcção dos ventos, das correntes aéreas, distribuindo pelo éter-ambiente as partículas douradas do Prana vitalizador, a Energia Vital que torna os “bons ares” da serra os melhores do país e da Europa.

Por sua vez, as ondinas captam, por afinidade simpática, grande parte dessas partículas para seu alimento, vitalizando de tal modo as águas de riachos e fontes que as tornam quase (ou mesmo) medicinais.

Os silfos de Sintra são de cor branca leitosa de 5 a 6 centímetros de altura, e geralmente manifestam-se através do sussurro da ramagem, até então quieta, ao viandante que passa. Ou então como fugazes flashs de luz adiante dos olhos. São criaturas simpatizando com os sábios e repelindo os ignorantes e cruéis dos seus territórios. Esses últimos ficam sujeitos aos caprichos das súbitas variações climáticas: à ramagem que se agita furiosa, às lufadas violentas de vento no rosto, aos assobios arrepiantes, enfim, é ver tais indesejáveis escapulirem-se nem sabem por e para onde…

As ondinas serranas são deveras graciosas, de azul claro com laivos marinhos, emanam uma coloração cristalina e é vê-las deslizarem dolentes nos riachos e nascentes onde nascem, vivem e morrem, sintoma este reflectindo-se no apodrecimento, enlameamento e secagem desses mesmos riachos e nascentes. Inspiram melodia, melancolia, saudade, romance, amor e paixão. De 2 a 3 centímetros de altura, movimentam-se em grupo e tendem a acercar-se dos de firme carácter e forte vontade em bem fazer, dos que respeitam e amam a Natureza-Mãe. Fogem aterrorizadas ao impacto com a aura dos que vibram em emoções violentas e passionais. Ou então, se com estes se afinizam, vampirizam as suas energias psíquicas e físicas indo desenvolvem-lhes a mediunidade com todas as suas mayas-vadas sensoriais e consequentes prejuízos psico-orgânicos.

As salamandras movimentam-se em cascatas turbilhonantes pelo éter-ambiente da serra, principalmente nas zonas altas e ensolaradas durante os meses de Verão. São criaturinhas ígneas de cor vermelha purpurada, por vezes com laivos dourados, medindo entre 8 a 10 centímetros de altura. Se provocadas e agitadas, desencadeiam incêndios que rapidamente se descontrolam, ainda assim, na finalidade última, indo purificar essas zonas da serra onde foram provocadas e afrontadas. Já diz o povo: “Quem brinca com o lume, acaba… queimando-se”! Vezes imensas se reparou haver um intercâmbio estreito entre elas e os silfos, originando correntes de ar frias e quentes destinadas a vitalizar e purificar determinados pontos da floresta. Quando as salamandras e os silfos, através da atracção magnética dos ventos, atraem as ondinas dos lagos e riachos, formam-se vapores, nevoeiros que são autênticas cortinas dimensionais por que se podem manifestar os misteriosos Traichus-Marutas (cujas iniciais, T. M., também as podem ser de Tributários de Melkitsedek), etéreos Guardiões dos Lugares e Templos Sagrados pertencentes à Agharta, os quais sendo de natureza masculina e feminina, Arcangélica e Angélica, que é dizer, Agnisvatta e Barishad, ficam os Arqueus ou Assuras permeio, demonstrando assim a natureza andrógina desta Hierarquia Jupiteriana. Ainda que raras, as salamandras são a projecção do chákrico Sol Interior de Sintra (o Quinto dentre os Sete que o Logos Planetário possui em seu Corpo que é a Terra) e agem como servidoras fiéis dos Anjos “púrpuras”. Ocorrem à ordem divina dos Quatro e Um Maharajas pronunciados no Ritual Teúrgico, sendo elas quem purificam com a sua radiação o ambiente serrano.

Aquando em rituais, yogas e meditações comunicam com o executante através do seu chakra frontal possibilitando-lhe, assim, adentrar clarividentemente a luz astro-mental, isto se a vibração entre ambos for simpática e o considerar de ousada mas nobre intenção, em sintonia com os ritmos naturais da Natureza-Mãe.

Se, pelo contrário e contrariando esses mesmos ritmos ou pulsares naturais, for um feiticeiro de alguma das muitas seitas mais que tenebrosas que faziam da serra (ainda há pouco haviam casos esporádicos no cruzamento para o Convento dos Capuchos e em São Saturnino da Peninha… mas que a breve trecho acabarão, porque as Forças da Lei não dormem) palco de mixórdias macumbeiras, aí as salamandras unem-se às ondinas – que por sua natureza linfática e bioplástica, como todo o Reino Elemental, são verdadeiras imitadoras de tudo quanto vêem nos humanos, seja bom ou mau – e desencadeiam nele estados febris de ansiedade e neurastenia, podendo até mesmo provocar a cegueira e o cancro, como soube ter acontecido a alguns… Por outras palavras, vampirizam-no até ao completo esgotamento sanguíneo e nervoso, linfático e bilioso.

Como ilustração e exemplo de triste memória, para que doravante se aprenda com os erros alheios a no passado próximo não os cometer, narro dois casos de que tive conhecimento directo. Certa vez, um desses ajuntamentos feiticistas eivado da mais pura e anímica fantasia mórbida, misturando práticas de Escolas diversas sem serem de nenhuma pois que as apreenderam exclusivamente em literatura pública, foi surpreendido em pleno acto ritualístico por um grupo de escuteiros que passeava na serra. Estes acharam tanta piada, em sua santa ingenuidade, ao que viram que, dias depois, foram eles os surpreendidos, dessa vez por mim. Que estavam fazendo? Simplesmente a dar a iniciação da praxe escutista a um novato (“lobito”) dentro de uma gruta, seguindo “a rigor” os preceitos de um ritual… franco-maçónico!!!

O outro caso é o daquele impúbere psíquico, já de si possuído dos dotes congénitos dum mago negro, que, acompanhado do amigo de nome homónimo, pegou nuns quaisquer grimórios de magia invocatória, dirigiram-se à serra, acenderam umas velas e, ele de espadalhão em riste que dava “um vistão”, não a fez por menos: apontou-o ao céu e ordenou a aparição submissa dum… Arcanjo. A resposta não se fez tardar: em plena noite fria, estrelada, de súbito um raio trovejante irrompeu das Alturas e arremessou-o pelo ar, velas, grimório e espadalhão juntos, contra uma árvore, donde foi recolhido inconsciente pelo amigo de índole igual à sua. Conclusão: durante mais de um mês sofreu de absoluta insanidade mental – de que nunca se curou inteiramente, mantendo-se a obesidade mórbida que o arrasta na penúria d´corpo e alma – e com tudo não tenho a certeza se acaso terá aprendido a dura lição, pois apesar de conseguir enganar pessoas de boa-fé o mesmo já não acontece com… um Arcanjo!

Esses episódios lastimáveis podem muito bem servir de ilustração para alguns tresloucados d´hoje que, querendo imitar-me in argumentum ad nauseam, ficando-se pela aparência que a essência é inimitável por ser condição natural do possuidor, intransmissível e inalcançável a outrem que não o próprio, tal qual uma operação ao cérebro não devolve o juízo a quem nunca o possuiu, porque o juízo não é físico mas produto da consciência diversa do órgão físico veículo daquela, se os vê arrastarem outros tantos afins por perigosos atalhos na negra floresta da existência, levando-os a perder-se em dores e infortúnios ou “azares de vida” desnecessários.

Os gnomos são seres bem pequenos hostis a quase todos os humanos. São eles quem originam os estados de tensão e, mais que medo, terror, em determinados pontos e épocas na serra, podendo, no curioso profano que afronta e insiste em desafiar com o afloramento das suas energias internas, nidhanas, pondo-as em conflito com as exteriores, descambar em crise nervosa, histeria e até mesmo num eventual colapso cardíaco.

Só o Iniciado pode captar a sua simpatia e até mesmo amizade, o que não é fácil. Várias vezes se os viu, com contornos faciais semelhantes aos do humano, actuarem através de uma penha gigante ou de uma simples pedra musgada, nisto também estando na origem dos famosos fenómenos psicológicos de pareidolia. De cor castanha terrosa, possuem de 4 a 6 centímetros de altura, aspecto atarracado e envelhecido. Têm uma propensão natural para os fenómenos psíquicos, para eles estados naturais de ser, originando as alterações climáticas e os bem famosos estados de tensão ou quebra da mesma na criatura humana.

Habitam nas cavernas, poços, minas e demais lugares subterrâneos, havendo uma grande movimentação de gnomos junto a esses lugares quase sempre de natureza hidrotelúrica. Tenazes e perigosos guardiões de Embocaduras, não raro recorrendo a “ilusões dos sentidos” (as ditas mayas-vadas ou mayas budistas, por outra, espelhismos) e a outras formas de manifestação, incluindo até répteis venenosos, para as defender, protegem as suas entradas feroz e ferreamente, dessa maneira sendo a guarda elemental (sob a direcção de Jina-Maruth) da Fraternidade Oculta de Sintra. Muitos curiosos e magos de índole mais que duvidosa têm sido vítimas dos gnomos ou Povo Gob(i) que os faz cair nas mais variadas armadilhas, algumas delas resultando fatais, ou, quando com sorte, apenas ridículas, como aconteceu com aquele exótico personagem que à dianteira dos seus próximos, todos juntos, entraram numa gruta que era “caminho directo para Agharta”. As suas lanternas tremulando nas mãos nervosas apontaram brilho ao fundo e, felizes, três vezes felizes, apressaram o passo para caírem, todos juntos, os infelizes… num imenso lodaçal subterrâneo.

Mas Agharta, fixe-se bem, não é física… tampouco o Duat! Os pormenores… os Iniciados da Obra do Eterno os conhecem, sempre conformados, sem poluições ou ingerências de correntezas alheias à mesma Obra, aos ensinamentos do Mestre JHS.

Os gnomos simpatizam com os fortes de carácter decidido, franco e honesto, atentos e sinceros buscadores dos espirituais tesouros da Mãe-Terra. Dos que sabem ouvir mais e calar muito, porque o silêncio é d´ouro.

Durante a Primavera os silfos acasalam com as ondinas e nascem as fadas. É vê-las esvoaçar em bando multicolorido e airoso pelas faldas da Serra Sagrada como lusco-fuscos graciosos. As fadas sintrianas são muito belas, de matiz azul céu parecendo revestidas de uma capa branca rósea. São elas quem vão trabalhar as sementes a fim da Natureza germinar e brotar a sua vegetação prodigiosa, policrómica e multivariada. Não medem mais que 3 a 3,5 centímetros de altura. Quando o Verão atinge o pino as fadas começam a fenecer e a desvanecer-se nos ares, isto é, integram-se na natureza dos silfos.

Quando caem as primeiras chuvas, é deveras fascinante observar o bailado mais grácil das ondinas em doce sinfonia caindo como “lágrimas” policrómicas do regaço dos Anjos “azuis”, indo fecundar as fontes, regatos e solos, alimentando aos gnomos e aos devas das árvores, portando consigo o éter líquido necessário à vida da Natureza.

Como cada região possui o seu tipo particular de “espíritos da natureza” que é próprio ao clima e características da mesma, no século XIX o Rei Iluminado D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha pretendeu acasalar elementais de todos os géneros do mundo com os sui generis sintrãos, e para tanto mandou plantar no parque florestal do Palácio da Pena exemplares da flora de todas as regiões do Globo. Daí resultou uma simbiose alquímica-natural originando tipos bem singulares de elementais, inéditos em todo o planeta, fazendo do Mundo Oculto Sintrão o alter-ego do Mundo Elemental Planetário.

Não se deverá ignorar que D. Fernando II era um Iniciado no Conhecimento Hermético e reconhecido preclaro Membro da Fraternidade Oculta de Sintra, juntamente com a sua esposa morganática, D. Elise Hensler, a Condessa de Edla.

Também no sentido de simbiose vegetal mandou, na sua Quinta da Torre da Regaleira, o Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, o último reminiscente Lusignan de tronco português e igualmente Grande Iniciado nos Mistérios de Mariz, nos inícios do século XX plantar uma exótica “árvore-serpente” escandinava à entrada do seu palácio. As folhas em ponta dessa árvore só caem quando outras novas ocupam o seu lugar, algo semelhante à muda de pele da serpente, que, neste particular iniciático, pode muito bem ser indicativa da “Serpente Irisiforme” – KINEMELAROTOZUS – de que já falava o Professor Henrique José de Souza quando definia “Sintra como uma Serpente composta de sete substâncias” (Tatvas). Essa árvore é um reservatório natural, também catalisador, da Energia Kundalini, como Fogo Terrestre, da qual Carvalho Monteiro se servia para as suas operações espagíricas e alquímicas. Aliás, ele era um profundo conhecedor da flora, sabendo de botânica aos mais ínfimos pormenores, conforme atestam os testemunhos de seus netos, António Potiers e Maria Nazaré Carvalho Monteiro van Daun Lorena e Lusignan, Marquesa de Pombal, com os quais me entrevistei em pessoa.

Sintra hoje é algo parecida com São Thomé das Letras, no tocante a instalar-se no “roteiro turístico esoterológico”, com muitíssima bizarria exótica característica hippie dos movimentos “new age”, cuja última moda é a de destituir o Homem do antropocentrismo e desclassificar as espécies naturais mandando às urtigas a evolução das mesmas, parecendo incapazes de perceber o elementaríssimo dos animais só raciocinarem e falarem como gente na banda desenhada. Assim, observa-se o fenómeno psicossocial de agrupamentos, mais ou menos numerosos, dotados de misticismo animista francamente impúbere – recordo o encontro com uma dessas pessoas que forçou a entrevista comigo na serra, e após lhe ter perguntado o que fazia na vida, respondeu-me com a maior das ingenuidades que “tinha a honrosa profissão de… falar com os mortos”!!! – concorrerem para pontos diversos da serra onde, imitando os seus líderes medianímicos ou clarividentes involuntários manobrados a bel-prazer pelos silfos, inventam teorias as mais extravagantes, desconexas e fantásticas, do tipo haver em dado sítio uma “base de óvnis”, um “templo de espíritos superiores”, o “túmulo encantado dum mago atlante”, de que “em dada data e hora ali e acolá vai ocorrer um evento mundial, que até pode redundar no fim do mundo”, etc., etc. Mesmo que acaso possa haver algum fundo de verdade no mínimo disso, já é descaso ser a aparência verdade… porque tudo isso deve-se à influência psico-anímica dos elementais, dispondo as receptivas mentes agitadas num estado febril propenso à invenção das mais variadas (e tresloucadas) fantasias (próprias da inteligência emocional mais afim aos folclores astrais que ao estudo sério e criterioso das Leis da Vida e da Natureza), por isto mesmo sendo a realidade e a consciência psicofísica imediata afogada pelos turbilhões psicomentais, kama-manásicos, infundidos do exterior ao interior do receptor.

Dessa maneira, tais pessoas – independentemente da boa índole e boas intenções que as possam dotar – revelam-se simples escravas das forças primárias da Natureza. Confundem-se e confundem tudo, e o eventual bem-estar que possam sentir acaso se deverá tanto à auto-catarse do fenómeno de grupo como, sobretudo, à evasão mental pelo preenchimento fenoménico, mesmo que não haja fenómeno algum e tão-só se o imagine, algo assim a “ver o mundo cor-de-rosa” sob alcoolemia ou quaisquer outros entorpecentes dos sentidos, estropiando a realidade.

A atracção que sentem pela serra, pode dever-se a dois factores básicos:

1.º –  Sendo médiuns ou sensitivos de escasso mental e muito emocional, dirigindo-se mais por imagens do que por ideias, por curtas frases poéticas sem outro significado profundo senão o básico colorido das imagens que transmitem, dizia, vivendo perto da serra o seu mundo elemental atrai-os para aí, a fim de se satisfazer com as energias kama-manásicas que o psíquico ou sensitivo pode facultar por via dos seus chakras inferiores (abaixo do cardíaco), anormalmente desenvolvidos mercê de alguma doença no passado, de algum acidente que lhe aconteceu ou, então, por patologia congénita do seu próprio karma, que o terá feito nascer com tais anomalias psíquicas, para todo o efeito, um doente. Essas energias são muito apreciadas pelos elementais, podendo ser comparadas ao chocolate que se oferece à criança gulosa.

2.º – Foram em vidas anteriores residentes em Sintra, amantes da sua terra mas ignorantes da sua Vida Oculta. Ou, então, simples pessoas que viveram nos dias atlantes de Sintra (Kurat) comparticipando do seu dia-a-dia. Mercê das suas samskaras ou “impressões mentais”, resíduos kármicos do passado gravados no seu átomo-semente búdhico ou intuicional, a que não têm acesso por sua parca evolução interior, instintivamente são psíquicamente atraídas para aí e logo misturam tudo numa algaraviada sem ordem nem regra, vendo-se claramente o recurso a bizarrias de psicologia e metodologia infantis no utilizo de métodos mais que incorrectos, sem sentido nenhum, com a ausência total do mínimo resquício de disciplina iniciática capaz de ordenar “cada coisa no seu devido lugar”.

Os elementais comunicam com os humanos por sons naturais: sopros para os silfos; borbulhar para as ondinas; crepitar para as salamandras; batuques ou toques para os gnomos; zumbidos para os Anjos. A todos une uma fórmula única de comunicação com os homens: a música, de preferência exclusiva a de conteúdo erudito, espiritual.

Os Anjos comunicam, ainda, por ideias e imagens como símbolos coloridos projectados na mente humana.

Há uma linguagem própria da Natureza que os homens desconhecem, e até se pode dizer que poucos deles realmente sabem falar. Os sons emitidos por um indivíduo palrador projectam-se no Astral numa catadupa de formas desconexas e absurdas, o que faz lembrar as vibrações emitidas pelo canário e pelo papagaio.

Os Anjos irradiam uma Paz profunda e um Amor permanente, ao par daquela Sabedoria que só de Deus pode advir directamente, e um Poder inexcedível próprio dos que Nele vivem.

Certa vez, numa “conversa” entre um Munindra e um Barishad “púrpura”, este assim falou:

A Montanha sempre foi o símbolo da elevação do Homem a Deus. Os Mestres vivem em seu topo, longe dos olhares perniciosos dos humanos conspurcados por si mesmos, usufruindo das energias suaves e puras do Deus da Montanha que lhes fornece os elementos necessários à sua vida e obra.

É bom que todos venham à Montanha, melhor seria que todos vivessem a Montanha. Todos recebem as nossas Bênçãos, Graças do Divino, e ai daqueles que ousam as macular. O Raio de Deus os fustigará.

Nós somos os conservadores da Glória da Mãe Divina. Queremos comungar com a Humanidade, mas sabemos que tal só é possível quando ela comungar de inteiro com a Mente de Deus.

Do Pico do Graal estamos prontos a levar a gema divina ao pico mental de cada homem. Rogamos, destas etéreas plagas, à Abundância Suprema Paz, Amor e Fraternidade para todos quanto se encadeiam nos quatros princípios: os homens, nossos irmãos, diferentes, mas nossos irmãos.

Já deve se ter percebido que as palavras deste estudo são válidas não só para Sintra mas também para São Lourenço e quantas mais Montanhas Sagradas brilham sobre a Terra como Jóias iridescentes da Coroa ou Cabeça Coroada do Logos Planetário.

Volvendo a Sintra – Portugal e aos seus três misteriosos Arcanjos ou Arcanos XIII, XIV, XV (“A Grande Mãe”, “O Equilíbrio”, “A Grande Luz”), dos quais o Dhyani Bey Al Bordi (Mikael) fazia sentir que “estavam no Seio da Terra, por debaixo do Fogo Sagrado em nosso Santuário”, logo, em correspondência com a Quinta Cidade Universal do Mundo de Badagas, com os seus dois Templos laterais para um terceiro central, na razão de um Coordenador, um Governador e um Sacerdotal, isso mesmo é sibilinamente apontado pelo nosso Venerável Mestre JHS na sua Carta-Revelação datada de 28.01.1953, escrita em São Paulo, com o título sugestivo: Sintra e seus Mistérios (para ser lido com os Olhos do Espírito), inserida no Livro-Revelações Chuva de Estrelas – A. É com um precioso trecho dessa carta que dou o arremate final a este estudo, oferecendo-o humildemente ao respeitável leitor e, especialmente, a todos os meus Irmãos da Obra Divina no Mundo, e se acaso pequei ou omiti algo, peço desculpa, mas, como disse ao início, grande é a Obra e pequeno é o obreiro.

– Para quê irmos mais adiante para provar que Portugal está repleto de mistérios, ao mesmo tempo, Atlantes e Ários?… Há um verso, basta dizer tal coisa, chamado Sendro-Vajra. E outro chamado Arya… Não falemos no termo Venestabela, para lembrar a Bela Vénus… já em outro idioma, que não o sânscrito. E assim por diante. Pelo que se vê, repetimos, Portugal, principalmente em Sintra, conserva vestígios indeléveis de várias civilizações, desde a Atlante à Ária, até chegar à Romana indo ter na Árabe. Principal razão, pois, de os Gémeos (Espirituais, Henrique-Helena) estarem ligados a Portugal.

Falam, em primeiro lugar, Três Anjos ou Arcanjos Cumáricos, prestando Homenagem à Mãe Divina:

Primeiro Anjo

Como apoz ruidosa porcella
Vem um dia sereno e formoso,
Apoz annos de horrores e crimes
Portugal é, enfim, venturoso!
Porque nos Céus, por elle
Orava a Mãe de Deus;
E um Anjo de Bondade
Davam à Terra os Céus;
E este Anjo, como a Virgem,
Maria se chamava;
E a Mão da Providência
Num Throno a colocava,
E esse Throno augusto,
De Glória rodeado,
Da Fé amparo e abrigo
Por nós é proclamado.
Honra e Glória à Rainha dos Anjos,
Que é nos Céus efficaz Protectora!
Glória à Imagem mais bella da Virgem,
A Maria da Fé salvadora!

Segundo Anjo

E vós, Excelso Esposo, que nascido
Longe de nós, a Terra do Occidente
Aceitastes por Pátria, e ser quizestes
Irmão e Pai da Lusitana Gente;
Vós, que entre nós não tendes Sceptro herdado,
Mas que sois, mais que Rei, amigo nosso,
Tendes Reino de Amor que vale muito,
E em nossos corações o Império vosso.

Terceiro Anjo

Tenro Príncipe, que um dia
Cingireis a antiga Cr´oa,
Cuja Glória ainda ressoa
Pela Europa, e além do mar,
Possais vós nunca esquecerdes
Que essa Herança vos tocou,
Porque Deus sempre a salvou
Para a Fé eternizar;
Que onde as Quinas tremulavam
(Desses reis que já lá vão)
Das conquistas por padrão
Uma Cruz se via alçar;
Pela Virgem conduzidas,
Nossas Armas se estenderam;
Foi assim que elas fizeram
Longes povos accurcar.

Possais vós a crença avita,
Nosso amor, nossa esperança,
Pura sempre, e sem mudança,
Entre nós fazer reinar.

Todos Três (formando a Divina Tríade, dizemos nós)

Consolação dos afflictos,
Virgem Pura e Immaculada,
Que nunca pelos humanos
Debalde sois invocada,
Alcançai para este Povo
A Divina Misericórdia.
Alcançai para Portugal
União, Paz e Concórdia.

AVE MARIS NOSTRA!

ADVENIAT REGNUM TUUM!

BIJAM!

Santa Maria de Harun, hierática e eclética – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Mar 1 2018 

Quem, vindo do Patacão para entrar em Faro (actual capital do Algarve, a primeira havia sido Lagos no Período Árabe e a segunda Silves, durante a Reconquista), avista pouco antes de entrar na cidade, à sua direita, uma estranha casa das figuras que exibe em relevo no seu frontão de alvenaria, de margem ondulada, dois dragões cornudos com rostos humanos, tendo os corpos e as pernas cobertos de escamas e os pés em forma garras. De cada lado um delfim ou golfinho, em que se apoiam os braços de um guerreiro negro africano em meio corpo, sobrepondo-se ao centro no ornato concheado. Na base, três cartelas com os dizeres: “Qolein / Bois Marinos / Acaçalansada as feras / Mostros da Merica / Qolein”, isto é, “Delfim – Bois Marinhos – A caça lançada às feras – Monstros da América – Delfim”.

Situado na Estrada Nacional 125, à entrada da cidade, é um edifício do tipo barroco vernacular, de planta longitudinal simples e piso único. Terá sido mandado construir pelo desembargador Veríssimo de Mendonça Manuel nos meados do século XVIII, para servir de armazém agrícola ao solar da Quinta da Horta dos Ourives[1].

Casa das Figuras à entrada de Faro

É aqui que inicio o périplo mitosófico farense que desfecharei no celeiro da Horta de São Francisco, extra-muralhas com Olhão ao fundo.

Faro, feitoria que foi dos fenícios, vasto porto de mar de gregos e romanos, depois de árabes, judeus e cristãos, indubitavelmente tem o seu nome ligado à Rainha do Céu, título perpetuado pelos árabes e moçárabes farenses, ligando a imagem matricial a formosa lenda relacionada com a ria e o mar que vêm beijar suas margens.

Em Ossónoba (Faro) ter-se-á instalado um núcleo de cristãos logo no século I, e a presença da diocese nesta cidade é já assinalada no concílio de Elvira, nos primeiros anos do século IV. Contudo, a primeira catedral digna deste nome, só é elevada depois da chegada dos visigodos (ano 418) e consagrada a Santa Maria, Rainha do Céu. Isto é histórico. A lenda é a seguinte: com a presença árabe ocupante da cidade no ano 713, capital de principado independente no século IX, e andando esses de poucas amizades com os moçárabes, pegaram na imagem da sua padroeira e arrojaram-na ao mar. Consequência: toda a pesca desapareceu daquelas águas. Recuperada a imagem, os peixes voltaram em grande abundância e os árabes, agradecidos e temerosos, fizeram-lhe um nicho nas muralhas para que Ela, Santa Maria Ibne Harun (depois Harune, Faaron e Faaram, “povoação de cavaleiros”, donde Faro), protegesse sempre a ria e a sua fauna[2]. Talvez por isso, os cristãos não foram incomodados em Ossónoba.

Iluminura das cantigas de Santa Maria – Afonso X, o Sábio, 1280

Essa palavra Ossónoba, topónimo túrdulo, pré-romana referida por Pompónio Mela, Estrabão e Ptolomeu, para o professor Batalha Gouveia possui o mesmo sentido mariano de “Terra da Virgem”[3], decompondo o termo em osson, “terra”, e noba, “virgem”, donde provirá Harun até finalmente Faro.

Árabes e cristãos unem-se em torno da Rainha do Céu na terra por Ela escolhida. Mas também os judeus, instalados em Faro desde tempos antiquíssimos, no século I d. C. já aqui habitavam empós a sua diáspora da Palestina para o Ocidente da Europa nessa data[4], votaram culto à Mãe Divina, identificada na Escritura Velha a Ester, depois a Santa Ester dos criptojudeus, Mãe da Raça Abraâmica[5].

Capela de Nossa Senhora do Repouso dentro das muralhas de Faro

O actual cemitério judaico de Faro (na Estrada da Pena, junto ao Estádio de São Luís [de França]) data somente de 1820 (com funções até 1932), tendo sido comprado o seu terreno em 1851 por Joseph Sicsu, o Cantor, Moses Sequerra e Samuel Amram, subsidiados pela próspera comunidade judaica farense, composta de sessenta famílias, conhecida como “Pequena Jerusalém”. À entrada, por cima do portal, está a data de 5638, correspondente à data cristã de 1887, que terá sido aí colocada aquando da construção do muro envolvente[6]. Mas já no foral de D. Afonso III, de 12 de Julho de 1269, são referidos os judeus da cidade[7], sabendo-se que a aljama, alfama ou judiaria de Faaram, na Vila-Adentro muralhas, era das mais importantes na época de D. Manuel I, que em 1495 foi forçado pelas cláusulas do contrato do seu casamento com D. Maria de Aragão e Castela, filhas dos reis católicos, à expulsão deles do país, e a solicitar em 1515 a instalação da Inquisição em Portugal, o que só aconteceria no reinado seguinte de D. João III. Que D. Manuel I não desejava a expulsão dos judeus de Portugal, é facto facilmente detectável logo nas primeiras premissas do seu decreto, favorecendo-os, não lhes apressando a conversão, dando-lhes tempo para escaparem ou então engendrarem um qualquer procedimento capaz de contornar as leis que eram menos da coroa e mais do pontifício. Este assunto melindroso até hoje carece de abordagem isenta, descomprometida e despreconceituosa, dos historiadores e estudiosos da política diplomática, social e religiosa dessa época.

Seria imperdoável não referir Samuel Gacon, o tipógrafo quinhentista que na sua oficina farense, em 30 de Junho de 1487, imprimiu o primeiro incunábulo judaico no país, um Pentateuco. Desta obra religiosa o único exemplar conhecido está guardado na British Library, em Londres[8]. Foi roubado em Portugal aquando do saque à cidade de Faro pelos ingleses em 1596, quando sofríamos a ocupação filipina e a Inglaterra estava em guerra com a Espanha. Fez parte de um conjunto de 3.000 livros roubados em Faro nesse ano por Robert Devereux, 2.º conde de Essex e favorito da rainha Elisabeth I, que ofereceu esse saque ao seu amigo Thomas Bodley, a quem se deve a Bodleian Library of Oxford.

Pentateuco editado por Samuel Gacon

A maior prova da presença medieval dos judeus farenses será a lápide funerária do rabino Josef de Tomar, datada de 16 de Shebat do ano 5075 (23 de Janeiro de 1315), achada no Espaldão, Faro, e que foi incorporada no muro deste cemitério, onde hoje só existe uma cópia porque a lápide original foi removida para a sinagoga-museu de Tomar nos anos 30 do século XX. A tradução da legenda, feita por Samuel Schwartz, é a seguinte: “Na quinta-feira de dezasseis de Shebat do ano cinco mil e setenta e cinco, faleceu o respeitável Rabino Josef de Tomar. Que a sua alma descanse em paz. Foi sepultado neste sepulcro”[9].

Lápide funerária evocativa do rabino Josef de Tomar, no cemitério judaico de Faro

Com a fixação dos franciscanos em Faro no segundo quartel do século XVI, indo os frades capuchos da Província da Piedade, depois substituídos pelos observantes da Província de Portugal, fundar o Convento de S. Francisco em 1529, o culto à Rainha do Céu recresceu e por via do imobiliário simbólico vivificado pelo culto terá mesmo assumido a condição mítico-imperial do tema translatio imperii indicador do reinado futuro do Divino Espírito Santo, teoplasmado na figura hipertúlica da Santa Virgem, e na evocação franciscana do mártir S. Sebastião. No culto feminino estiveram presentes as clarissas de S. Francisco, com duas franciscanas de Beja, Maria das Chagas e Leonor da Trindade, na liderança da construção, em 1519, do Convento de Nossa Senhora da Assunção no lugar da antiga judiaria farense, contando com o apoio da rainha D. Leonor (1458-1525), mulher de D. João II, já que desde 1491 Faro estava integrado nos bens da Casa da Rainha. Esta foi profundamente marcada pela devotio moderna, movimento espiritual nascido no século XIV estreitamente ligado aos valores humanistas. No culto masculino na pessoa de S. Sebastião, encontra-se a presença franciscana na origem da ermida do santo nesta cidade, possivelmente fundada nos fins do século XV ou inícios do XVI, sabendo-se que em 1516 estavam instalados nela dois frades franciscanos, possivelmente capuchos do rol dos que viriam a fundar o Convento de S. Francisco[10].

A proximidade franciscana ao sefardismo farense, sem esquecer que esta antiga vila foi a teve maior número de escravos negros alforriados, que chegaram a ser mais que a população branca nos séculos XVI-XVII, marcando fortemente a presença de África aqui, sem esquecer de anexar a evocação da América, mormente do Brasil, em figuras decorativas de antigos imóveis históricos (na Casa das Figuras à entrada e também quase à saída da urbe, no Celeiro de S. Francisco junto ao resto da muralha seiscentista), dá foro eclético intercontinental a Santa Maria de Harun juntando os vários povos do Mundo aqui e reunindo em uma só assembleia os crentes das três religiões do Livro, assim A aclamando, além de Rainha do Céu, igualmente Mãe Soberana desta sua Terra – Ossónoba.

Revela-se em Faro a evocação do Império Ultramarino Portu-guês, na sua dupla fácies de Espiritual e Temporal, indo bem com a intenção inicial de demanda da “Terra do Preste João”, termo procedente da época do rei São Luís de França (cuja igreja está aqui próxima do cemitério judaico), das viagens de Carpino, missionário franciscano italiano do século XIII na Mongólia, e Rubruquis, religioso franciscano francês explorador da Ásia no século XIII. Constando na Europa que na “Terra do Preste João” a Autoridade Espiritual era exercida em simultâneo com o Poder Temporal, tais funções sendo as mesmas atribuídas a Melki-Tsedek, consignado Rei do Mundo, associariam o Presbítero Máximo do Oriente com esse misterioso personagem bíblico, como ilustra o episódio do dr. Luís Miguel Teixeira, Vigário Geral do Bispado de Faro, que em 1750, perante o Infante D. Pedro, refere-se a Melki-Tsedek como Aquele que une “o Sacerdócio com o Império”[11].

No seu De statu et planctu ecclesie, frei Álvaro Pais, espiritual franciscano que foi bispo de Silves entre 1333 e 1348, atribui a Autoridade Espiritual ao Sacerdotium, “instituído por Deus e transmitido a determinados homens com o fim de conduzirem os fiéis à bem-aventurança eterna”, e o Poder Temporal ao Imperium “assumido pelos príncipes seculares, pelo qual os cidadãos são orientados para o bem comum”[12]. Sendo a Autoridade superior ao Poder, a Instrução maior que o Regime para Álvaro Pais, baseava-se assim nas ideias desenvolvidas pelo agostiniano Tiago de Viterbo (c. 1260-1308), antigo aluno de Egídio Romano, na sua famosa obra De Regime Christiano (1302), escrita no auge do áspero conflito entre o sumo-pontífice Bonifácio VIII e Filipe IV, o Belo, rei de França, na qual o Papa é apresentado como superior ao Imperador[13].

A Ordem Franciscana fundada por São Francisco de Assis em 1209, também é chamada Ordem dos Frades Menores (Ordo Fratum Minorum) e cedo destacou-se por suas proximidades aos ideais de pureza e pobreza do Cristianismo Primitivo, para cujo convencimento e recondução dos fiéis, visando a reforma moral e social da Igreja, fez uso e propaganda da literatura apocalíptica e messiânica, com severas proximidades às ideias joaquimitas do novo evangelho eterno conformado à translatio imperii afim às Idades do Mundo calculado em gerações, como sugere o Evangelho de S. Mateus (1:1) para o famoso abade de Flora.

A Ordem dos Frades Menores tem como ramos os Frades Franciscanos Conventuais (também de 1209), os Frades Franciscanos Observantes (com Regra simplificada pelo Papa Leão XIII na Reforma de 1368), os Frades Franciscanos Capuchinhos (de 1528, ramo reformado dos Franciscanos Observantes) e os Frades Franciscanos da Imaculada (ramo reformado, em 2.8.1970, dos Franciscanos Conventuais). A Regra da Ordem Franciscana – Regula non bullata em 1221, volumosa, e sucinta como Regula bullata, em 1223 – esteve na base da Terceira Ordem Regular de São Francisco (Tertius Ordo Regularis Sancti Francisci), fundada pelo próprio em 1221, saída da Terceira Ordem da Penitência cujos membros desejavam levar um estilo de vida mais próximo do rigor da Primeira Ordem, igualmente da Ordem das Clarissas, fundada por Santa Clara de Assis em 1212 para freiras, e também na base da Ordem Franciscana Secular (Ordo Franciscanus Saecularis) para leigos, sendo a actual denominação da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, ou Irmãos e Irmãs da Penitência.

Ainda que seja dada a presença de S. Francisco de Assis em Portugal em 1214, por via de tradição oral e menos documental, que os documentos que existem sobre o caso estão todos baseados na oralidade[14], o facto comprovado é que a presença franciscana no país só aconteceu três anos mais tarde, depois do Capítulo Geral de 1217. Após essa assembleia magna foram enviados frades por toda a Europa. A Crónica dos XXIV Gerais, compilada em 1370, tendo por base documentação mais antiga, refere os nomes dos dois franciscanos italianos que vieram para Portugal, frei Gualter, que fundou o convento de Guimarães, e frei Zacarias, que fundou o convento de Alenquer[15]. A mesma Crónica refere a passagem por Portugal de frei Berardo e companheiros, em 1220, a caminho de Marrocos onde foram mártires, com a entrada de santa António de Lisboa na Ordem Franciscana. Ele foi, talvez, o primeiro franciscano português.

Praticamente desde o seu início a Ordem Franciscana pretendeu, como disse, a restauração e social da Igreja, mormente do Eclesiástico, e ela mesma tendo se afastado da pobreza original que a caracterizou, houve em seu seio vozes que se levantaram e protestaram pelo restauro e volvimento à sua condição original como Cristo e o Irmão Francisco ditaram, invés da mancebia e partilha dos bens corporais com o clero secular em detrimento dos valores espirituais em que, afinal, a Ordem tinha as suas fundações. Isso gerou forte polémica no seu seio, houveram dissensões e formaram-se partidos, uns a favor das reformas seculares e outros a favor da manutenção da secularidade da Regra. Assim, no início do século XVI (1517-1525), com a aparição do Renascimento, houve grande atrito dentro da Ordem Franciscana, que se dividiu em duas facções: 1.ª) Frades Menores da Regular Observância, ou simplesmente Frades Menores, e Frades Menores Conventuais. Em Portugal essa separação deu origem à criação de duas Províncias: 1.ª) Província de Portugal da Regular Observância, com 27 conventos e sede no Convento de S. Francisco em Lisboa, perfilhando o ideal primitivo franciscano cimentado nos votos de pobreza, castidade e obediência; 2.ª) Província de Portugal dos Claustrais, com 22 conventos e sede no Convento de S. Francisco no Porto, adepta da Reforma e da abertura ao mundo exterior, ao pensamento humanista que então surgia por toda a Europa. As casas da Ordem nas Ilhas da Madeira e Porto Santo ficaram a pertencer aos observantes, e as dos Açores aos claustrais. A presença destes em Portugal e Espanha terminou em 1567, durante o pontificado do Papa dominicano Pio V. Um breve de 1567 obrigou os conventos da claustra a integrarem-se na observância. O breve foi executado no ano seguinte. Antes, em 1525, quando da nova reforma da observância deu-se origem aos Frades Menores Capuchinhos, aprovados pelo Papa Clemente VII em 1528.

Nos séculos XVI e XVII os franciscanos observantes tiveram grande desenvolvimento em Portugal estando organizados em dois grupos de Províncias e Custódias. Havia o grupo da Regular Observância, que era formada pela Província de Portugal, fundada em 1517, pela Província dos Algarves, fundada em 1532, pela Província de S. João Evangelista dos Açores, fundada em 1639, e pelas Custódias de S. Tiago Menor na Madeira, de 1683, e da Conceição dos Açores, de 1715.

Conclui-se que os franciscanos farenses eram observantes da Regra, esta que como espírito da letra dos Estatutos, assim é definida: “A Regra e a vida dos franciscanos seculares é esta: observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo o exemplo de São Francisco de Assis, que fez do Cristo o inspirador e o centro de sua vida com Deus e com os homens” – Rg. 4; 1 Cel. 18, 115).

A Ordem Primeira dos Frades Menores incumbia o apostolado de seguir os passos de Jesus Cristo e de exemplo de obediência para a Igreja. Contrai votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

A Ordem Segunda das Pobres Senhoras consagrava-se ao sacrifício, à oração e ao amor a Deus no Claustro. Contrai votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

A Ordem Terceira da Penitência tem a missão de reavivar nas consciências a honestidade dos costumes e os sentimentos cristãos de paz e caridade, destinada a homens e a mulheres que sem deserção da própria família e sem renunciar às suas propriedades, tentam alcançar a perfeição cristã. São adoptados os Estatutos como regra de vida, mas sem se contraírem os votos perpétuos da Regra da Ordem.

Com as atenções focadas no quinto continente cuja propaganda encomiantes os franciscanos farenses não deixaram em mãos alheias, unindo o Herático com a Tradição, para eles a “Terra Nova” do Preste João já não seria a Etiópia ou a Ásia e sim a América, particularmente o Brasil, a “Nova Lusitânia” de Pedro de Mariz nos seus Diálogos de Vária História, Brasil que até hoje se o reconhece com alma franciscana, desde que em 1500 o franciscano frei Henrique Soares celebrou a primeira Missa do Espírito Santo no areal de Vera Cruz. Terra Virgem destinada a um novo Tempo de uma nova Idade já em si trazendo o culto do Júbilo num novo Templo, o da Igreja do Amor, nisto não deixo de registar, num painel de azulejos na igreja de S. Francisco de Faro, o seu Orago amparando e levantando o edifício da Igreja, a Casa da Nova Igreja, por certo essa do futuro Reinado do Espírito Santo que corresponde ao V Império do Mundo.

S. Francisco impedindo de tombar o edifício da Igreja (painel de azulejos, séc. XVIII, igreja de S. Francisco de Faro)

Também por isso, como alegoria contendo a mensagem ocultada, se vê na cimalha da supracita Casa das Figuras, à entrada de Faro, os dois bois dragónicos americanos, designando a Força Temperadora de Kundalini, como seja o Fogo do Espírito Santo. “Força” como dragão, e “Temperança” como boi manso. Acima o Delfim Negro, a oculta Pedra Filosofal humanizada que é todo o Adepto Perfeito, esse o Makara das tradições iniciáticas portador da Quintessência Mental, logo, Espiritual, irrompido da linfa lustral do Lethes subterrâneo, aqui representado na área florestal da Ria Formosa próxima, o Ludo.

Em paralelismo com o programa decorativo da Casa das Figuras tem-se na Rua Manuel Penteado aquele do Celeiro de São Francisco, próximo da igreja deste santo e da cerca seiscentista do respectivo convento[16]. Como aquela também foi mandado construir pelo desembargador Veríssimo de Mendonça Manuel – cujo brasão feito em massa está sobre a entrada deste torreão octogonal – que encomendou a feitura desta e aquela obras a famoso mestre-canteiro algarvio, o arquitecto Diogo Tavares de Ataíde (Faro, 1711 – Lagoa, 1765)[17]. Este espaço estava integrado na Quinta da Horta dos Cães e o edifício teria a função de celeiro, apesar de ultimamente alguns autores classificarem-no como espécie de casa de fresco de suposta quinta de recreio[18]. Sendo o conjunto de gosto rocaille, as obras do edifício foram completadas entre 1761 e 1789 pelo neto do desembargador, o capitão-mor Manuel Mascarenhas Figueiredo Manuel, que em 1780 vendeu a propriedade aos frades marianos que aí tencionavam construir um convento, cujo propósito não chegou a concretizar-se.

O edifício é de planta centralizada octogonal com dois pisos separados interiormente por abóbada de aresta oitavada. O piso térreo é rasgado por oito óculos, aos quais correspondem no interior os panos da abóbada. No piso superior abrem-se sete janelas rectangulares, também com molduras de massa, e uma porta, do lado oposto à entrada principal do piso anterior, à qual se acede por uma escada de ferro que substitui a original, de cantaria. Numa das faces foi rasgado o portal principal de volta perfeita, sobrepujado pelo brasão da família Manuel. À direita, aparece Hércules coberto com uma pele de leão, empunhando uma maça com que domina a Hidra de Lerna aos seus pés. À esquerda, um índio tupi com toucar, chefe indígena do Brasil, empunha uma vara afiada que enfia na goela de um crocodilo sob ele, acompanhado da inscrição “Cabo da Boa Esperança Adamastor”.

Celeiro de S. Francisco, Faro

Ambas as ilustrações assinalam a vitória da natureza humana sobre a condição animal, a derrota da condição anímica ou psíquica pela mental ou espiritual. Isto como o significado mais óbvio. Do ponto de vista geosófico e em comparação com aquelas ilustrações da Casa das Figuras onde um africano domina feras americanas, aqui um índio brasileiro dobra o crocodilo “Adamastor” do cabo africano, sobrando Hércules (Herakles) vencendo a Hidra (sinónima de Água) de Lerna (filologicamente empática a Lethes ou o Ludo), ficando assim como indicador dos saberes gregos, base da cultura europeia simbolicamente assinalada nesta região sul de Portugal. Com isso fica a sugestão de mensagem alegórica do inter-relacionamento espiritual e cultural triangulado entre África – América – Europa, feita desde aqui, de Santa Maria de Faro, empresa ultramarina de civilização na qual os franciscanos tiveram “parte de leão”.

Hércules matando a Hidra de Lerna é trabalho astrologicamente afim ao signo do Escorpião, o mesmo Makara védico associado no Ocidente ao deus Cúpido, que os orientais chamam Kama-Deva. Sendo o tupi a representação astral do Sol, tal como Hércules (ainda que este esteja mais para o Sol Mercurial), e como ambos como aspecto superior do Makara dominam o inferior do Escorpião, tem-se o Sol em Scorpio que designa, na oitava casa do Zodíaco, vencer anónimo a morte e o reconhecimento póstumo dessa vitória, acarretando a fama do ser imortal. Assinala o devir, o que está por cumprir, nisto e por todas as prerrogativas presentes, o V Império do Espírito Santo, Deus consumidor e renovador, atributos assinalados na função do próprio celeiro, onde se guarda e donde se distribui os cereais que alimentam a vida.

Nesse contexto de reservatório da seara da vida, o formato octogonal do torreão remete ainda para o simbolismo egípcio da cidade mitológica de Chemenu (em árabe, a actual Ashmun; em grego, Hermonópolis, a “Cidade dos Oito”, número da Perfeição), povoada de crocodilos e dragões que haviam nascido do barro original de que nascem todas as criaturas (Mulaprakriti ou a Matéria-Prima do Universo). Com esses seres, o deus Sol (Aton ou Hércules) erigiu a torre original que se tornou o celeiro de tudo quanto vive.

Esse mito egípcio de Chemenu parece enquadrar bem no significado hermético do Celeiro da Horta de São Francisco, onde o Escorpião (Makara), como Hierarquia dos Senhores do Mental Criador, cria os dispositivos necessários à criação do Homem Novo de Nova Idade do Mundo, segundo a tese iniciática, sendo o mais interessante de tudo o tecer-se tamanho plano ou desígnio em terras do Ocidente ou Al-Gharb (الغرب), o Algarve como Jardim de Allah (Allah-Garden), o mesmo Paraíso Terreal, Terra da Virgem, centralizado em Faro capital da extrema província sul de Portugal, na arrancada decisiva para um novo estado de Humanidade.

 

NOTAS

 

[1] José António Pinheiro e Rosa e António Centeno Serrano Santos, Monumentos e Edifícios Notáveis do Concelho de Faro. Edição da Câmara Municipal de Faro, 1984. Francisco Lameira, Faro Edificações Notáveis. Edição da Câmara Municipal de Faro, 1995.

[2] Rui Paula e Frederico Paula, Ossónoba, Santa Maria Ibne Harun. Edição Câmara Municipal de Faro, Novembro de 1993.

[3] Batalha Gouveia, O topónimo Faro. Jornal do Incrível, Lisboa, 12.1.1982.

[4] Manuel Viegas Guerreiro, Judeus, em Dicionário de História de Portugal, pág. 409, vol. III. Livraria Figueirinhas, Porto, 1981.

[5] Alberto Iria, Os Judeus no Algarve Medieval. Anais do Município de Faro, vol. XIV, 1984.

[6] Ralf Pinto, Cemitério Israelita de Faro e Museu, 1838-1932. Edição da Câmara Municipal de Faro, 1997.

[7] Frei Vicente Salgado, Memórias Eclesiásticas do Reino do Algarve, Tomo I (único publicado). Régia Oficina Tipográfica, Lisboa, 1786.

[8] Pentateuco – 1.º Livro Impresso em Portugal, com um estudo introdutório de Manuel Cadafaz de Matos, da Academia Portuguesa de História. Editora “Sul, Sol e Sal”, Faro, 2017.

[9] J. M. Santos Simões, Tomar e a sua Judiaria. Edição do Museu Luso-Hebraico, Tomar, 1943.

[10] Frei Jerónimo de Belém, Chronica Serafica da Santa Provincia dos Algarves da Regular Observancia de nosso Serafico Padre S. Francisco. Lisboa, 1755.

[11] Oração funebre que nas exéquias, à Magestade Fidelíssima do Muito Alto, e Poderoso Rey, e Senhor D. João V celebrou na Catedral de Faro em 29 de Agosto de 1750 o Excelentissimo, e Reverendissimo Senhor D. Ignacio de S. Teresa, Arcebispo Bispo daquela Diocese. Lisboa, 1751.

[12] João Morais Barbosa, O «de statu et planctu ecclesiae», Estudo crítico. Universidade Nova, Lisboa, 1982. Do mesmo autor, Álvaro Pais. Colecção Pensamento Português, Editorial Verbo, Lisboa, 1992.

[13] José António de Souza, As causas eficiente e final do poder espiritual na visão de D. Frei Álvaro Pais. Anales del Seminario de Historia de la Filosofia, Universidad Complutense de Madrid, 2008.

[14] O autor de uma das primeiras crónicas da Ordem, fr. Marcos de Lisboa, que escreveu a sua Crónica em 1557, aventa a hipótese de S. Francisco, na sua peregrinação a Compostela, ter passado por Guimarães e se ter encontrado com D. Urraca, esposa de D. Afonso II (Livro I, cap. xxxv). Sem apresentar documentos comprovativos, fr. Marcos de Lisboa refere simplesmente que é “segundo alguns dizem” e que “se acha escrito”. Esta tradição foi-se arraigando e fr. Manuel da Esperança, no primeiro volume da sua Crónica da Província Franciscana de Portugal, apresenta um trajecto completo dessa suposta viagem. Segundo ele, S. Francisco teria passado pela Guarda, Guimarães, Braga e Ponte do Lima, e no regresso teria passado por Bragança e aí fundado o primeiro convento da Ordem em Portugal. A falta de documentos históricos não permite afirmar a veracidade dessas tradições, que dão S. Francisco de Assis em terras portuguesas em 1214.

[15] Crónica da Ordem dos Frades Menores (1209-1285). Edição José Joaquim Nunes, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1918.

[16] José Victor Adragão, Algarve. Editorial Presença, Lisboa, 1985. Raul Proença, Guia de Portugal II (Estremadura, Alentejo, Algarve). Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Abril de 1991.

[17] Daniel Santana, Diogo Tavares e o acrescentamento da igreja de Nossa Senhora do Carmo de Faro (1742). Revista do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 7-8, 2009.

[18] José Eduardo Horta Correia, A Torre da Horta dos Cães. Em Monumentos 24: Faro, de vila a cidade. Lisboa, 2006.

Pinharanda Gomes, a universalidade de um Filósofo lourenho – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Fev 11 2018 

Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1995

Falar de Pinharanda Gomes não me afigura tarefa fácil. Menos ainda falar do seu vastíssimo cardápio literário disperso em artigos de jornais, revistas, ensaios, monografias e livros, em número vultuoso de centenas, mais de trezentos, contando-se diversas traduções dos clássicos germânicos, nomeadamente Goethe.

“Monge” das Letras, Jesué Pinharanda Gomes é um notável talento polimorfo que respira num à-vontade surpreendente quer nas alturas da Filosofia ou da História, quer em simples trabalhos de etnografia e obras regionalistas, as quais são um arcadiano ramo de flores campestres que depõe no altar da sua terra em louvor às raízes de que se alimenta e vive.

Pinharanda Gomes (Jesué) nasceu em Quadrazais, freguesia do concelho do Sabugal, na vigília da festa de Nossa Senhora do Carmo (16 de Julho) em 1939, embora só fosse registado em 7 de Outubro do mesmo ano, pela festa da Senhora do Rosário. Costuma, por isso, dizer que nasceu natural e civilmente sob o signo de Maria. É, de resto, membro de uma confraria carmelita, que ajudou a fundar no dia 13 de Julho de 1984, na paróquia de Santo António dos Cavaleiros (fundada em 17 de Maio de 1983), no concelho de Loures, tendo também intervido directamente nesta freguesia na fundação da sua igreja paroquial, inaugurada e sagrada em 10 de Outubro de 1982.

Foi este notável pensador o primeiro a historiografar a freguesia de Santo António dos Cavaleiros, com um seu primeiro livro regionalista lourenho levando de título:

O Carmo em Loures (Camarate, Frielas, Stº António dos Cavaleiros). Loures, 1979.

Seguiram-se:

Povo e Religião no Termo de Loures. Paróquia de Stº António dos Cavaleiros, Loures, 1982.

Os Tojais e a Casa do Gaiato (Monografia Histórica). Patriarcado de Lisboa, 1990.

Santo António dos Cavaleiros (Monografia Histórica). Loures, 1992.

Além desses títulos o caríssimo Pinharanda Gomes, aliás, tendo a gentileza de ser meu amigo e a bondade de prefaciar dois livros meus de temática lourenha – Ode a Loures (Monografia História), Loures, 1993; Rotas de Loures, 1994 –, possui a versão integral, por si anotada e aumentada, da rara e notável obra de Mendes Leal: Admiravel Egreja Matriz de Loures, Lisboa, 1909. Faz-se votos que as autoridades responsáveis pela cultura no concelho de Loures tomem em mãos essa obra preciosa e a editem quanto antes.

Por seus préstimos morais e sociais à freguesia de Stº António dos Cavaleiros (fundada em 25 de Agosto de 1989), Pinharanda Gomes foi recentemente homenageado com a Medalha de Mérito pelo Presidente desta Junta, Sr. Dr. João Pedro de Campos Domingues, que também me fez a honra de homenagear com idêntica Medalha de Mérito.

Das conversas que temos mantido na sua residência em Stº António dos Cavaleiros, onde aliás vive há mais de uma vintena de anos, destaco o gosto e desvelo de Pinharanda Gomes pela aldeia de Frielas, inclusive tendo-me solicitado parceria para a feitura de um futuro livro exclusivamente dedicado á tradição histórica e etnográfica frieleira. Se Deus nos der sabedoria e saúde, haveremos de o escrever – e acabou sendo escrito por mim em 1996, editado pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros” – Frielas (Memorial Histórico). Frielas merece.

Pinharanda Gomes é filho de lavradores de Riba-Côa e a sua ascendência é identificável até aos trisavós, que viveram nos meados do século XIX. Por parte do pai descende dos Gomes Freire e de um Peñaranda de Bracamonte que se exilou para cá da fronteira, durante os conflitos monárquicos em Espanha. Ainda por parte do seu pai e pela linha da avó paterna, radica no mais fundo do povo. O seu bisavô Manuel Torro era almocreve e fez grande casa agrícola vendendo azeite, que ia buscar em odres a Penamacor. A filha deste, Maria, casou com Alberto Pinharanda, uma plebeia com um aristocrata. Os seus avós maternos foram gente do povo, e a sua mãe também.

Filho único de um lavrador em crise endémica, queria-o o pai na terra, atrás das vacas. Mas, por volta de 1950, a sua tia Dª Isaura levou-o para a cidade da Guarda, onde trabalhou na farmácia da familiar, e depois como marçano. À noite frequentava a Escola dos Gaiatos, onde conheceu e aprendeu a rdtimar figuras da sua vida, destacando-se o Dr. Alberto Dinis da Fonseca, notário, homem de caridade pública e militante social-católico, o Professor Artur Martins Madaleno, pedagogo e didacta, e sobretudo Dª Maria das Dores Sampaio, mãe dos jovens pobres da cidade e seu “anjo da guarda”. Já não sorria quando o Dr. Alberto dizia que todos os anjos eram da guarda, porque intuía que o Dr. Alberto se referia ao carisma dos anjos e não à cidade.

Resolvidos certos problemas familiares, Pinharanda Gomes entrou no Colégio de São José da Guarda por intervenção do Cónego Álvaro Quintal da Cunha, pedagogo, director do mesmo. Introvertido e contemplativo, Pinharanda revelou-se um aluno medíocre, preferindo às aulas a solidão da leitura na biblioteca.

Sentiu-se escritor aos doze anos. Nunca mais desejou outra coisa a partir de então. Influenciado pelos românticos alemães, contraiu um autonomismo que teria de caldear-se na aventura.

O autor estreou-se no jornal Correio da Beira (Guarda), em 1956, dando colaboração à maior parte dos jornais de província entre 1958 e 1965, tendo depois colaborado na imprensa de Lisboa. Para aqui emigrou, sendo já órfão de pai e mãe, trazendo oitenta escudos no bolso, após interromper os estudos oficiais e algum descontentamento face ao conformismo eclesiástico.

O dinheiro durou três semanas. Depois veio a fome, e o resto. Dormiu em camaratas públicas e promíscuas, e durante um ano ou dois atravessou um deserto árido. Aos vinte e dois anos – tendo o seu estudo nas bibliotecas continuado, e na Biblioteca Nacional de Lisboa chegou a permanecer dias inteiros alimentando o espírito, já que não podia alimentar o estômago – iniciou contactos com os meios literários e jornalísticos da capital, a maioria deles de efeito frustrado. Não desanimou, insistiu. Guedes de Amorim, jornalista em O Século, aceitou-lhe os primeiros artigos, e logo a seguir Natércia Freire abriu-lhe as portas do Diário de Notícias. Gratuitamente, colaborou semanalmente em O Debate, o que lhe foi muito útil para se treinar na escrita, para largar a experiência e para conhecer pessoas.

Profissionalmente, preparou-se em línguas e obteve colocação numa grande empresa privada de máquinas agrícolas, onde se mantém há mais de trinta anos, na qual contraiu sucessivas e acrescidas responsabilidades.

Trabalhando de dia, frequentou cursos nocturnos de latim e de grego no Liceu Francês, em Lisboa. Por outro lado, nas férias, treinaria a língua inglesa em Inglaterra.

A decisão do seu perfil intelectual ocorreu, porém, a partir de 1962. Por ser então mais literato – esperava ser novelista – entrou no grupo dos discípulos de Leonardo Coimbra, onde foi recebido com muita abertura e acolhimento. Álvaro Ribeiro (+ 1981), o propositor da Filosofia Portuguesa, e José Marinho (+ 1975), o filósofo do Ser e da Verdade, investiram a sua dedicação em Pinharanda. Acreditaram nele e formaram-no. Por isso, ele considera-se discípulo de ambos, cujas obras tem procurado continuar.

Do ponto de vista estrutural, o seu pensamento obedece ao formalismo de Aristóteles (que herdou de Álvaro Ribeiro) e ao ideísmo de Platão (que herdou de José Marinho). É, portanto, numa tradição que vem de longe, um aristotélico platonizante que concilia razão e visão, acção e contemplação, ao modo de Leonardo, considerando-se antes do mais filósofo, termo a que dá acepção aristotélica-platónica: Filosofia é a ignorância com vontade de ciência.

Considera, no entanto, que é intrinsecamente um meditativo e um contemplativo, como que herança genética-espiritual do seu nascimento sob o fulgor da carmelitana Stella Maris.

Do ponto de vista relacional, entende o Homem como criatura evoluinte em trânsito de regeneração, donde o carácter messiânico e profético de muitos dos escritos de Pinharanda. Admite um Português próprio, o que lhe permite singularizar um corpo espiritual lusíada no contexto mais vasto do corpo da Humanidade. Propõe, como modelos de Filosofia, Sócrates e Cristo, e como modelo de Vida, Maria, sem cuja presença o perfil do Homem ficaria decapitado.

Essa sua versão mito-filosófica do Pensamento Português como semente mental da Diáspora Universal dos Lusos, que frutificou em todos os cantos do Mundo, atraiu os estudiosos e pensadores nacionais e estrangeiros inclinados ao tema da Parúsia e do V Império Lusitano, á convivência com a espiritualidade esclarecida de Pinharanda Gomes, o “Filho da Sabedoria”, ou seja, Philo-Sophos, em grego, donde Filósofo.

Pinharanda Gomes foi o único a ordenar e sistematizar, até ao momento, em vários volumes de grossura considerável, o Pensamento Português e a História da Filosofia Portuguesa. Do que publicou, destaca-se como coroa áurea do seu vastíssimo cardápio literário:

Pensamento Português I. Ed. Pax, Braga, 1969.

Pensamento Português II. Ed. Pax, Braga, 1972.

Pensamento Português III. Ed. Pax, Braga, 1975.

Pensamento Português IV. Ed. do Templo, Lxª, 1979.

História da Filosofia Portuguesa. 1. A Filosofia Hebraico-Portuguesa. Lello & Irmão, Porto, 1981.

História da Filosofia Portuguesa. 2. A Patrologia Lusitana. Lello & Irmão, Porto, 1983.

História da Filosofia Portuguesa. 3. A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lxª, 1991.

Por tudo isso e muitíssimo mais aqui não vindo ao caso, incontestavelmente a universalidade mental de Pinharanda Gomes figura já no panteão de ilustres imortais da Cultura Portuguesa, mormente da Lourenha, neste particular abrilhantando a Freguesia que lhe é Arcádia querida, a ponto de pretender iniciar as já por si batizadas Tertúlias do Planalto: Stº António dos Cavaleiros.

Arte e Hermetismo Manuelino (St.ª Maria de Jerónimos e Canteiros) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Fev 7 2018 

O século XVI é coroado pela Epopeia das Descobertas Marítimas chancelada pelo português marinheiro cabeça de nova cavalaria de demanda dos oceanos levando diáspora às partes do Mundo, ideia pensada já em tempo de D. Dinis e iniciada com Gesta Henriquina no século XV. No centro da glória cumprindo-se, marcando para sempre os altos eventos da Raça Lusa pelo Mar Oceano, D. Manuel I mandou erigir em louvor de Nossa Senhora dos Reis Magos o Mosteiro que ficaria para sempre como o de Santa Maria de Belém, o qual recebeu a primeira pedra em 6.1.1501 ou 1502, dia dos Reis Magos, sendo destinado a companhia de cerca cem monges (exactamente setenta) da Ordem de São Jerónimo, ida para aí do Convento da Penha Longa de Sintra, mas ficando na tutoria a Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, da qual o monarca venturoso era o 11º Grão-Mestre.

Nossa Senhora dos Reis (Magos) da Dinastia de Avis é a primitiva Virgem da Ermida do Lugar da Estrela (que por corruptela deu nome ao sítio, Restelo, que antes era o moçárabe lugar de Alcolena, do árabe al-qunïna ou al-qullïna, “coelho”[1]) da primitiva invocação do Infante D. Henrique de Borgonha[2]. Estrela brilhante que é Vénus, a Ísis celeste estrela guia dos homens do mar, a Stella Maris, mas igualmente Maria Virgem Negra, padroeira dos alquimistas e mestres-construtores, a cuja devoção e tradição hermética se entregou o Infante Henrique de Sagres, dando-lhe continuidade e projecção (como se repara na Virgem Negra de Guadalupe ou a Senhora da Lua (Guapa Lupe), na Raposeira vizinha de Sagres, Algarve, a quem o Infante levantou altar). Para o culto divino da mesma Deusa Mãe, Estrela d´Alva, o rei venturoso, D. Manuel I, mandou fazer esta Casa devocional sob a primazia da Gesta Dei per Portucalensis, e assim se tem este monumental Mosteiro de Santa Maria de Belém.

Belém (do hebraico, Beith-Lehem, como a grafava o Infante D. Henrique) é a “Casa do Pão”, do Maná, da Mente (afim à oração mental jerónima) ou Manas afim ao Manu na função de Legislador Espiritual e Temporal; antes era Lusa (em celta, Luzi), a “Pedra Divina”. Caberia ao Cristo, segundo o relato evangélico, transformar a pedra em pão, o trigo em hóstia, a matéria bruta em espírito rarefeito, a treva em luz, a carência em abundância… Isso mesmo foi o que aconteceu aqui, no então subúrbio a ocidente de Lisboa, pela mão da Ordem de Cristo, supervisionadora dos monges jerónimos, na transferência dos valores espirituais da Ermida do Restelo, cúbica de traça românica (“Pedra Divina”), para o Mosteiro à beira-Tejo implantado (“Casa do Pão”).

Mas não se confunda a Ermida da Senhora do Restelo como a da Memória que se mantém. Esta trata-se da Ermida de S. Jerónimo, situada no alto da antiga cerca do Mosteiro de Santa Maria de Belém, numa posição hoje lindamente ajardinada de onde se desfruta um dos mais belos panoramas do rio e de parte da cidade.

É obra que se deve ao risco do mesmo arquitecto da primeira fase do Mosteiro dos Jerónimos, o francês Jacques Boytac ou Diogo Boitaca (possivelmente oriundo do Languedoc, nascido cerca de 1460 – falecido na Batalha, em 6.12.1527), pois já estava em construção no ano de 1514 e foi acabada na empreitada do português mestre Rodrigo Afonso, em 1517. O templo é de planta quadrada e tem cerca de 11 metros de comprimento. O seu corpo e a capela-mor contrafortam-se em quatro gigantes ou botaréus nos ângulos, e mais dois botaréus laterais muito bem marcados e rematados por seis pináculos ou coruchéus cónicos torcidos. Apresenta seis gárgulas de sabor renascentista nas paredes lisas, com uma pequena cruz encimando a fachada principal. A porta dianteira, pequenina, é decorada na zona superior com as armas manuelinas: escudo das quinas com coroa e esferas armilares. No interior, vê-se um arco triunfal polibobado com alcachofras nos pendentes e torcidos. Por cima do fecho do arco, está o emblema heráldico de S. Jerónimo. A abóbada da nave, de elegante traça e riqueza decorativa semelhante à cúpula estrelada, fornece um bom modelo de arquitectura. A mesma capela-mor já teve três altares, recobertos de azulejos sevilhanos quinhentistas, e o que hoje existe é do século XX mas mantendo-se os azulejos originais.

Esta ermida, onde esteve sepultado Pina Manique (1733 – 1805), fundador da Casa Pia de Lisboa, é uma das três que o rei D. Manuel I mandou construir em Belém em cada extremo da cerca (muro) do vasto terreno dos Jerónimos: a Ermida de N.ª Sr.ª de Belém (coeva do Infante D. Henrique já desaparecida mas que deu nome ao sítio, Belém, que era antes Restelo Velho e depois Restelo Novo, com as modernas urbanizações), a do Santo Cristo, perto do estádio de futebol “Os Belenenses”, e esta de S. Jerónimo. Decerto prefigurariam o sentido da Trindade Divina, ficando Cristo para o Pai, Maria para a Mãe e finalmente S. Jerónimo para o Filho, tipomorfizado como Espírito Santo na quadratura da Matéria, donde a planta quadrada desta ermida, plantada no alto no morro, vir a configurar o sentido arábico da Kaaba, a “Casa do Homem Primordial” Adam, a qual se alinha em linha recta com a Torre de Belém deixando subentendida a pressuposta intenção prática de gizar uma geografia sagrada, em modo de presentificar o Espiritual e o Temporal, este presente na Ordem Militar de Cristo e aquele na Oratória de S. Jerónimo.

Para que esse programa geosófico acontecesse, D. Manuel I recorreu à mão d’obra francesa, depois luso-francesa, da Guilda dos Mestres-Canteiros, herdeiros tradicionais da operática medieval dos Monges Construtores, a qual inventou, conformada às especificidades desse ciclo régio, um estilo arquitectónico novo puramente português, voltado para o exterior (portas, janelas e fachadas), portanto, centrífugo ou expansivo de acordo com a natureza eclética da própria diáspora dos portugueses, para sempre ficando conhecido como Arte Manuelina ou o Manuelino.

A Arte Manuelina, por vezes também chamada de Gótico Português Tardio ou Flamejante, é um estilo arquitectónico, escultórico e de arte móvel que se desenvolveu no século XVI durante o reinado de D. Manuel I. É uma variação portuguesa do gótico final, bem como da arte lusomourisca ou arte mudéjar, marcada por uma sistematização de motivos iconográficos próprios, de grande porte, simbolizando o poder régio[3]. O termo manuelino foi criado por Francisco Adolfo Varnhagen na sua Notícia Histórica e Descritiva do Mosteiro de Belém, de 1842. Esta tendência artística do Manuelino era conhecida, na época, como a variante portuguesa da arquitectura ad modum hispaniae (ao modo hispânico), que por sua vez estava incluída na corrente arquitectónica ao modo moderno, expressão utilizada para o gótico tardio. Esta corrente opunha-se à arquitectura ao modo antigo ou ao romano.

Foi o francês Jacques Boytac, liderando os contratados mestres canteiros, quem inaugurou oficialmente em Portugal o estilo Manuelino, tendo feito os primeiros ensaios no Palácio Real da Vila de Sintra mas cuja obra-prima deixaria lavrada neste monumental Mosteiro dos Jerónimos, em Belém. O Manuelino é sobretudo um estilo de passagem, de transição das trevas à luz, por isso está mais que tudo presente na decoração das portas e janelas. Também não mascara a estrutura dos edifícios ao mantê-los livres de ornamentação desnecessária: geralmente as paredes exteriores ou interiores são nuas, concentrando-se a decoração em elementos estruturais de passagem, como igualmente em colunas, pilares, arcos, frisos, óculos e contrafortes, além de túmulos, fontes, cruzeiros, etc.

Estilo essencialmente ornamental, o Manuelino caracteriza-se também pela aplicação de determinadas fórmulas técnicas de altura, como as colunas e as abóbadas com nervuras polinervadas a partir de mísulas. É precisamente na escultura que esta arte revela o seu maior amadurecimento e hegemonia, sendo que é através da simbologia decorativa que é reconhecida como estilo próprio nacional e não uma aliteração de outros estilos europeus. Os escultores e arquitectos de Portugal definiram, neste contexto, um estilo de originalidade vigorosa que ainda hoje causa espanto dentre todo o património artístico português[4].

O “discurso” artístico presente no estilo manuelino teve considerável influência da personalidade de D. Manuel I (1469-1521), sobretudo das suas aspirações ao projecto de uma Cruzada que unificaria o mundo cristão do Ocidente, com Emmanuel Rex à cabeça, com o mítico reino cristão do Oriente governado pelo Preste João, dessa maneira tornando-o o “rei dos mares” (e assim foi, de facto, designado por diversos autores estrangeiros) na empresa da Gesta Dei per Portucalensis (“Gesta Divina pelos Portugueses”), motivo maior do ciclo marítimo das Descobertas Quinhentistas.

O estilo manuelino transmite em grande parte essas aspirações messiânicas de um rei cuja ascensão ao poder foi, no mínimo, insólita, depois das mortes consecutivas de outros herdeiros directos do trono (como o príncipe D. Afonso e o seu irmão D. Diogo, assassinado). Desde a transposição da Spera Mundi, a Esfera Armilar que lhe foi concedida como divisa (inspirada no cabalístico Selo de Toth-Hermes, talvez por influência do astrónomo e astrólogo sefardita Abraão Ben Samuel Zacuto (Salamanca, c. 1450 – Damasco, c. 1522), consultor de D. João II e de D. Manuel I), até à interpretação do seu próprio nome, Emmanuel (“Deus connosco”, em hebraico), foram vários os “sinais” indicadores de que este rei fora o “escolhido” por Deus para grandes feitos. A sua própria concepção política, influenciada pelo seu preceptor Diogo Rebelo e pelo Joaquimismo (de Joaquim de Flora), crente na vinda próxima do Messias, fá-lo-ia acreditar que estava destinado a fundar um Novo Reino no Mundo, tema que mais tarde o padre António Vieira retomaria chamando-o de Quinto Império.

Sem dúvida a incomparável Epopeia do Mar, em Quinhentos, propiciou um ambiente ecuménico tanto no cultural humano quanto na afirmação da raça, princípios dominantes na Arte Manuelina, que como “arquitectura de passagem” conforma-se à definição bíblica do Espírito Santo (ר֣וּחַ אֱלֹהִ֔ים, Ruach Elohim) vogando sobre as águas da vida (Gén. 1:2), assim mesmo à natureza nómada afim ao carácter viandante, aventureiro, do Luso. Esse período de exaltação nacional nascido de empresas por mares ignotos, tomou grandeza, e ao deparar com o que a arquitectura gótica fizera eclodir num hausto de beleza, pôde realizar com harmonia a aliança de certos motivos já existentes com o que o simbolismo nacional sugeria, prodigiosamente, na invocação das rotas dos mares[5]. É todo um mundo de apetrechamento náutico, desse emblematismo profuso que constitui o motivo onde foram fixar-se estilizações magníficas e pormenores de esplendoroso significado mítico ou iniciático.

Essa floração e efabulamento manuelinos são da lavra primeira de Mestre Boytac, espécie de ressurgido arquitecto Hiram Abiff ao qual D. Manuel I, também espécie de rei Salomão venturoso, recorreu para que o mosteiro nascesse. Boytac encabeçou vasta lista de mestres-canteiros, franceses e portugueses, onde se contam os nomes, dentre outros, de Nicolau de Chanterene, Mateus Fernandes, João Rodrigues, João de Castilho, etc. Foi ele quem fundou e inaugurou a grandeza da arquitectura manuelina, e dele disse Sampaio Ribeiro[6]: “Foi, talvez, o último iniciado das confrarias de pedreiros livres que viveu entre nós”.

Jacques Boytac (este último nome oriundo da raiz hebraica beth, “boca”, o órgão da fala que o poderá indiciar, por todos os seus dotes, “detentor do Verbo Criador”, o que simbolicamente é assinalado pelo boi, em sânscrito vach, que significa o mesmo “verbo”) por certo foi um J. B. ou B∴ J∴ como Bhante-Jaul, um “Irmão de Pureza” equivalente ao Adepto Real, para o qual os grandes e poderosos deste mundo eram menos que grãos de areia do deserto. Boytac gozava da elevada consideração de D. Manuel I, que lhe conferiu o prestigioso e merecido título de “Mestre das Obras do Reino”, talvez ainda em 1492 quando iniciou a sua actividade no país, e em 1510, por sua participação no segundo cerco de Arzila em 1509, D. Vasco Coutinho, 1.º conde de Borba e 1.º conde de Redondo, capitão de Arzila (hoje Asilah, em Marrocos), armou-o cavaleiro da Ordem de Cristo, mercê justificativa tanto do seu mérito de artista como do seu carácter nobre e indómito, que o caso seguinte define[7]:

D. Manuel, em certa cerimónia da corte, notara a Boitaca que não se curvara perante uma alta personalidade palaciana, conforme a pragmática o exigia, ao que o Mestre-Arquitecto não se demorou a objectar: – “Senhor, Vossa Alteza em seus reinos pode fazer quantos grandes quiser, mas não a um Mestre Boytac, porque esse só Deus o faz”.

Mas não ficam por aí as referências insólitas à heterodoxia espiritual e simultânea independência da Coroa e da Igreja dos mestres-canteiros, como se observa neste outro caso[8]:

João Rombo, aprendiz de cantaria ao serviço do seu mestre Nicolau de Chanterene, criador do retábulo do altar-mor do Mosteiro de Nossa Senhora da Pena de Sintra, acusou-o de feitiçaria, em 1538, ao tribunal do Santo Ofício, por posse de uma mandrágora e de uma bíblia herética. O caso não teve consequências para o mestre e o ingrato aprendiz viu a sua denúncia ser arquivada pelo tenebroso tribunal.

É, pois, o sítio de Belém o berço de eleição da Arte Manuelina sob o orago venusto de Nossa Senhora dos Reis Magos. Arte conjuntiva do Românico de horizontalidade com o Gótico de verticalidade, logo das duas a fixadora, onde a austeridade e a beleza são envoltas na traça parcial dos exteriores ou expansivos do Manuelino.

“Esse esforço de inspiração portuguesa – escreveu Ramalho Ortigão[9] – reagindo simultaneamente sobre a tradição gótica e sobre a regressiva invocação greco-latina, cria pela conjunção desses dois estilos de importação na Península (…) um novo estilo compósito, ao qual, pela primeira vez em toda a evolução da arquitectura portuguesa, o espírito nacional, de legítimo e glorioso orgulho, consegue imprimir uma acentuada, ainda que fugidia, feição própria, um inconfundível cunho de raça.

“(…) Ele é a mais sincera revelação do nosso temperamento, a mais triunfal afirmação do nosso génio artístico.”

Quanto ao confio do mosteiro aos frades jerónimos, poderá dever-se ao facto do rei encontrar neles as condições propícias para assegurar a conservação sem corrupção nem ingerência alheia dos saberes cristológicos centralizados na oração mental animadora da ideia peculiar da translatio imperii. Em resultado dos estudos de Américo Castro[10] e José Adriano de Freitas Carvalho[11], concluiu-se que os jerónimos seriam igualmente joaquimitas, tendo recebido dos fraticelli franciscanos as ideias parúsicas de Gioacchino da Fiore acerca das Idades do Pai, do Filho e do Espírito Santo, heterodoxismo doutrinal de um nuevo evangelio joaquimita patente nos símbolos desta Casa religiosa e particularmente nos figurinos das portadas das celas dos frades jerónimos.

Essas celas do Mosteiro de Santa Maria de Belém comunicam com o claustro e o interior da igreja. É nesta que se apresentam, sobre as portadas dos seus exíguos compartimentos, figurações de carácter claramente hermético, geralmente passando despercebidas ou não se dando a atenção devida.

A entrada de cada cela pela igreja tem sobre ela uma alegoria hermética, e tal flagrante associa imediatamente essa Ordem religiosa, nascida em Itália em 1377 na sequência do movimento piedoso animado por Tommasuccio da Foligno, originariamente regrante da Ordem Terceira de S. Francisco, à espiritualidade iluminada dos Padres do Deserto dos quais S. Jerónimo foi um deles, consequentemente, aos possuidores dos segredos da Arte Sacerdotal, enquanto os mestres canteiros detinham os mistérios da Arte Real.

A espiritualidade claustral jerónima centralizava-se na oração mental, reflectindo sobre a Sabedoria de Cristo como fizera o Santo Padre Jerónimo ou Hierónimo, isto é, Hiero-Manas, “Mente Iluminada” (igual ao termo sânscrito altamente místico, Manas Taijasi) ou “Sabedoria Universal”, esta a Gnose que os monges claustrais deste lugar vivenciavam, adaptando o messianismo milenarista de Joaquim de Flora à ideia ecuménica das Descobertas Marítimas portuguesas (a “Conquista Espiritual do Mundo”), então em plena expansão. Flora, cujas ideias já tinham influenciado os fraticelli franciscanos, autor gnosesófico das “Três Idades do Mundo”, destas a última do Espírito Santo incarnado por Emmanuel que era, afinal, o nome de D. Manuel I, o que em parte justifica a doação deste mosteiro aos hieronimitas vindos da Penha Longa de Sintra para aqui.

Sobre uma cela, vê-se esculpido o Janus ou Cristo Tricéfalo, indicador dos 3 Tempos ou Idades do Mundo: o Passado para o Pai e Adão – Jerusalém; o Presente para o Filho e Cristo – Roma; o Futuro para o Espírito Santo e S. Bento (Flora era cisterciense, logo, saído da regra beneditina cujo conceito trinitário influenciou todas as profissões cristãs, mormente a jerónima) – Lisboa. Esta ideia repete-se noutra composição de 3 cães juntos, figurativos dos guardiões da Igreja Universal (domini-canes, “cães do Senhor”, não como dominicanos mas como guardas da Sabedoria Tradicional) e dos Tempos do Mundo, por igual sendo os 3 “Ares da Alquimia”: o Enxofre (aqui a águia sobre uma cabeça de mouro) para o Espírito e o Pai; o Mercúrio (aqui a cabeça laureada por dois anjos, simbólicos do andrógino alado) para a Alma e o Filho; e o Sal (aqui um dragão alado que é uma cabeça bafomética tricórnia) para o Corpo e o Espírito Santo. A Prata está representada numa rainha coroada, e o Ouro no mesmo Mercúrio laureado, sendo a jubilosa Maris Nostrum da invocação jerónima.

A introdução dos mestres-canteiros em Portugal poderá mesmo dever-se aos jerónimos que nesse sentido terão intercedido junto da Coroa, pois mesmo antes da sua vinda para Lisboa já em Sintra andavam de proximidades, vila que foi a primeira a receber as primeiras influências da arquitectura manuelina (o Paço Real da Vila, o Mosteiro Jerónimo da Senhora da Pena e a igreja de Santa Maria, são exemplos notáveis) por nela se terem realizado os primeiros ensaios desse estilo.

Acerca da origem dos jerónimos em Portugal. No tempo de D. João I (11.4.1357 – 14.8.1433) propagou-se em Itália o culto a São Jerónimo, devido à publicação da obra Hieronymianus escrita em 1346 por um jurista de Bolonha, Giovanni dell’Andrea, ao mesmo tempo tendo se desenvolvido pelas leituras hieronimitas feitas pelos humanistas italianos que se iam formando. Da Itália o culto passou a Espanha e a Portugal. Em Espanha, converteu-se na “grande Ordem de São Jerónimo sob a Regra de Santo Agostinho”[12].

Entre os seguidores de Tommasuccio da Foligno (1319-1377), principal animador do movimento eremítico hieronimita italiano que saíra da Ordem Franciscana, contava-se o terço franciscano frei Vasco Martins, português natural de Leiria, donde também ser conhecido por frei Vasco de Portugal[13]. Adoptou a Regra Jerónima e instalou-se na sua Província de Toledo, tendo em 1373 vindo fundar a Ordem em Portugal, cuja Província acabaria por separar-se da espanhola em 1389. A convite de D. João I com a garantia de protecção pela Coroa, ele veio para Sintra acompanhado de alguns religiosos eremitas, instalando-se no lugar da “Pera Longa” (Penha Longa), comprado para eles pelo próprio rei, onde fundaram um eremitério, que depois seria transformado em mosteiro de noviciado cabeça da Ordem no país. Tempo depois, frei Vasco Martins deixaria Sintra e seguiria para São Jerónimo de Córdova, Lupiana, onde viria a falecer. Apesar de um seu condiscípulo, frei Fernando João de São Jerónimo, ter conseguido do Papa Bonifácio IX a bula Piis votis fidelim para fundar, em 1 de Abril de 1400, canónica e juridicamente o Mosteiro de Nossa Senhora da Saúde da Penha Longa, tornando-se seu prior, “o certo é que fr. Vasco Martins é tradicionalmente o fundador dos jerónimos portugueses”[14].

Desde o seu início em Portugal que os jerónimos usufruíam da protecção directa da Ordem de Cristo, de quem seria seu Grão-Mestre, no século XVI, o futuro rei D. Manuel I, admirador declarado do culto hieronimita, tal como sua primeira esposa, D. Isabel de Aragão e Castela, tendo inclusive, ainda como duque de Beja, recebido a oferta da chamada Bíblia dos Jerónimos, iluminada pela oficina dos Atavanti de Florença[15]. Por sua vez, o reformismo jerónimo levaria ao apadrinhamento da introdução em Portugal dos mestres-canteiros franceses, com Jacques Boytac à dianteira, como disse.

Estando este mosteiro integrado no circuito hipertúlico da devoção mariana, o programa simbólico do mesmo conforma-se à Promessa de Advento prenunciado por Santa Maria da Estrela e assegurado por São Miguel, “nosso Anjo guardador”, sobre o portal que lhe leva o nome. Esse Advento, na época, ficaria marcado pela Gesta Dei per Portucalensis que assinalou um novo ciclo de Renascença começada efectivamente desde que se pôs a primeira pedra nesta Casa de oração mental por aqueles que fundiriam a sua mente humana em Gerom, Jerom, Hierom, Hierónimo ou Jerónimo, como seja a Mente Universal alumiada por Hiero, a Luz, a Nova Luz que desde aqui, deste lugar de nascimento ou começo (Belém), transformaria decisivamente os destinos do Mundo.

Este Mosteiro de Santa Maria dos Reis Magos (no qual perdia horas perdido nas horas da minha infância, aquando vivi com os meus pais no Restelo – Caramão da Ajuda, e em cuja pia batismal o meu irmão consanguíneo recebeu o sacramento), possui leitura mitosófica de cristocêntrico, realizável num roteiro interior exterior do edifício, vindo a revelar às mentes e olhares mais sagazes a Missão do Português e da Portugalidade no Mundo. Isso se retém no programa simbológico composto pelos três grupos escultóricos da Anunciação, da Natividade e da Adoração dos Reis Magos (Epifânia), na entrada principal oeste, na decoração do pórtico sul de S. Miguel e St.ª Maria, lateral, e no conjunto de medalhões decorando as colunas dos “passos perdidos” do claustro.

O portal ocidental, obra de Nicolau de Chanterene (2.1.1517), não deixa de possuir leitura hermética relacionada com a origem do sítio. Em graciosas esculturas, vê-se aí D. Manuel I com S. Jerónimo, e D. Maria de Aragão e Castela, segunda esposa do rei português, com S. João Batista, nos lados adorando o Nascimento do Menino Jesus, tendo ao centro logo abaixo as armas reais suportadas por dois Anjos. Aqui, os monarcas assumem o papel epifânico de Reis Magos ante o Salvador recém-nascido, e Belém remete para Nossa Senhora da Estrela que veio a ser o sítio do Restelo. Trata-se de cena de inspiração no Evangelho de Lucas adaptada ao episódio primordial do nascimento desta “Casa do Pão” (Espiritual).

O monumental portal sul, obra de João de Castilho (1517), revela-se ainda mais misterioso. No topo tem-se o Arcanjo Custódio de Portugal, S. Miguel, no meio Nossa Senhora dos Reis Magos tendo no regaço o Menino com um pão (remetendo para o sentido de Belém ou Beith-Lehem, “Casa do Pão”), enquanto Ela empunha a Taça da Oferenda, sinalética da Eucaristia (trigo e vide, pão e vinho), e em baixo o Infante Henrique de Sagres com a espada embainhada e os leões, iconográficos de S. Jerónimo, no sopé. Ladeiam-nos os 4 Profetas maiores, os 4 Doutores da Igreja, as 4 Virgens mártires, os 12 Apóstolos e os Anjos da Música como uma referência à Kaballah Fonética. No todo, o conjunto prefigura a própria Árvore das Sephirots ou dos “Atributos” de Deus, estando o Arcanjo para Kether ou a “Coroa”, representando a Potência Divina como Metraton (Espírito), a Virgem para Tiphereth, a “Beleza”, como a Iluminação da Shekinah ou “Presença Real de Deus” (Alma), e finalmente o Infante para Malkuth, o “Reino” (Corpo), como pólo terreal do celestial, ficando assim como áxis-mundi a Virgem intercessora.

Kaballah é, literalmente, a Tradição Esotérica judaico-cristã, a via entendimento e realização espiritual do Homem em Deus, caminho percorrido paulatinamente através da Árvore da Vida dotada de 10 Atributos Divinos, chamados “Mundos”, “Esferas” ou Sephirots. Isto mesmo está retratado de maneira singular no pórtico sul do mosteiro, evocando a presença do Poder Divino no Mundo Terreno[16].

Sendo tal Árvore a representação da via de comunicação de Deus com a comunidade dos homens, a Igreja, e vice-versa, ela patenteia-se no pórtico sul ao centro, numa linha vertical, corroborada pela presença no pólo inferior do Infante Henrique de Sagres, o Iluminado representativo da própria comunidade, e no pólo superior pelo Arcanjo Mikael, o Emissário de Deus. A Virgem com o Menino assegura a mediação entre o Homem e Deus, encontrando em São Miguel o veículo do Verbo. Por isto, a coluna central é a expressão, por via icónica, da corporificação do Verbo, a designada Shekinah ou “Presença Real de Deus”, como Arquétipo Divino, cuja presença emanente na Terra representa-se no Infante, instaurador do Templo Terrestre, e a presença transcendente no Céu aponta-se no Arcanjo, sacerdote do Templo Celeste. A aparição de Mikael equivale sempre à revelação da Shekinah, como diz a tradução latina do Sepher-Ha-Zohar, do rabino Moisés de Leon, obra do século XII escrita em Leão mas, pressupostamente, começada em Alfama de Lisboa: Ubicumque inveneris Michaelem qui est primus illorum (angelorum), ibi subintellige Schechinam (“Sempre que encontrares mencionado Mikael, que é o primeiro dos Anjos, subentende a Shekinah”). “Enfim, uma aparição de Miguel equivale a uma aparição da Shekinah”, remata Henri Corbin[17].

Portal Sul do Mosteiro dos Jerónimos e o seu esquema sephirótico composto por Manuel Joaquim Gandra[18]

Essa coluna central de comunicação Criador-Criação é, pois, o canal central da Árvore das Sephirots da concepção kabalística. A organização global da imaginária “porta travessa” visa concordar com a representação da mesma Árvore. Esta constela os Poderes emanentes (criadores, intervenientes na Terra) de Deus, ao mesmo tempo abscôndito (Ain-Soph), consubstanciado em 10 Sephirots, que no pórtico (sobrepondo-lhe o esquema sephirótico) correspondem aos grupos de imaginário ali figurados e a sua ética peculiar:

(1) KETHER ELION (“Coroa de Deus”)

No topo, onde está São Miguel Arcanjo, correspondendo ao Metraton ou “Intermediário” entre o Céu e a Terra.

(2) CHOKMAH (“Sabedoria”)

(3) BINAH (“Inteligência”)

Correspondem aos Padres e Doutores da Igreja.

(4) CHESED (“Misericórdia”)

(5) GEBURAH (“Temor”)

Correspondem aos Profetas e Sibilas, ou seja, aos tempos messiânicos anteriores à vinda do Cristo, tempos da religião de Deus Pai, a dos Patriarcas.

(6) TIPHERETH (“Beleza”)

Ao centro do esquema iconográfico, cabe a Virgem Nossa Senhora dos Reis Magos.

(7) NETZACH (“Vitória”, “Resistência Passiva de Deus”)

(8) HOD (“Honra”, “Força Activa de Deus”)

Cabe inteiramente à ética martirial e evangelizadora dos Apóstolos de Cristo.

(9) YESOD (“Fundamento”)

Sobrepujada pelo pequeno S. Sebastião, iconográfico da Alma encoberta pelo Corpo descoberto.

(10) MALKUTH (“Reino”)

Esta sephiroth, a “Glória” ou o “Reino de Deus na Terra”, está representada no Infante D. Henrique, com o seu estatuto privilegiado de representante da comunidade dos homens perante o Eterno, incarnando a natureza feminina da Shekinah ou o Espírito Santo de quem foi Avatara Momentâneo, iniciador do período em que começa-ram as Descobertas Marítimas, inicialmente lideradas por ele, donde ser conhecido como o da Gesta Henriquina.

As duas colunas laterais (equivalentes a Jakim e Bohaz, respectivamente, “Sabedoria e “Rigor”, no Oriente conhecidas como Jnana e Bhakti, ou sejam, “Conhecimento” e “Devoção”) da Árvore da Vida (Otz Chaim) e respectivas Sephirots sobrepõem-se aos restantes grupos de imagens, adequando-se esses atributos à ética dos santos, profetas e sibilas ali representados.

Perde-se na noite dos tempos a origem da Kaballah, termo hebraico que, como disse, literalmente significa Tradição. Mas Tradição Primordial, esotérica ou velada como “espírito” subjacente à “letra” das escrituras sagradas. Este conhecimento herdou-o a raça hebraica dos sábios egípcios adaptando-o ao seu monoteísmo, logo após o Êxodo do Egipto dirigido pelo Patriarca Moisés.

Mais tarde, de entre os fariseus e saduceus já afastados da Tradição Primordial e logo do entendimento correcto do Pentateuco reunido no Talmude, surgiu uma terceira corrente: a dos “puros” ou essénios. Foram estes os garantes fiéis da sabedoria da Kaballah até à época de Jesus Cristo, que imediatamente a acoplou ao seu pensamento. Depois de Cristo, a Kaballah judaica foi assimilada pela corrente dos gnósticos cristãos de Alexandria e adaptada ao seu conceito particular do Universo e do Homem. Assim nasceu a Kaballah judaico-cristã.

No século XII, a ideia da Kaballah foi reunida na extensa obra do rabino Moisés de Leon, chamada Sepher-Ha-Zohar, o “Livro do Esplendor”, escrito em Leão mas pensado talvez em Lisboa. Por esse livro, juntamente com um outro anterior (século III d. C.) chamado Sepher-Ha-Yetzirah, “Livro da Criação”, considera-se o sistema kabalístico com origem na Maasseh Merkavah, o primeiro compósito místico judaico, que no século I d. C. escolarizou-se por via da sua “História do Carro” ou da Tradição volante, móvel, interpretando os textos sagrados da Torah e criando nova doutrina, ao início só comunicada por via oral (shebeal pe) aos seus cultores chamados iordei merkavah.

Pelo Sepher-Ha-Yetzirah, tratando do Universo e das leis que o regem, num monólogo do patriarca Abraão, revela-se a compreensão da Natureza e das suas manifestações como Emanações de Deus. Os vários Planos da Criação formam dez Esferas (Sephirots) interligadas por tramos que são vias de realização espiritual do kabalista e vêm a configurar uma Árvore da Vida (Otz Chaim). O Espírito feito Palavra ou Verbo é a primeira Esfera, e por meio do Sopro a segunda Esfera, que dele emana, cria as demais através de combinações de letras. A terceira Esfera é a da Água que produz a Terra, a Matéria, o barro, os elementos subtis tornados rudes. A quarta Esfera é a do Fogo que alimenta a Vida. As últimas seis Esferas são os quatro pontos cardeais e os dois pólos. Em suma, a Árvore da Vida é a representação gráfica do Universo Humano e Cósmico com as suas mutações e evoluções.

Ao contrário da Kaballah Rabínica atribuída a Isaac Luria e que era a de Jerusalém ortodoxa, a dos asquenazes restritos à letra da Escritura, a praticada pelos sefarditas ibéricos era a Kaballah Profética, atribuído a Abraão Abulafia (1200 d. C.), heterodoxa, intérprete do espírito sob a letra da Escritura, e que foi a principal fonte do milenarismo hispânico (doutrina apocalíptica sobre o Final dos Tempos e a vinda do Messias universal), do sebastianismo português (doutrina apocalíptica sobre o advento do Messias como Rei nacional) e demais correntes gnósticas luso-europeias nos seus primórdios, inclusive a dos mestres canteiros no século XVI e da Maçonaria Portuguesa no século XVIII.

A doutrina de Abulafia procurava “desvelar a alma, desatar os nós que a emperram”, isto é, o retorno da multiplicidade universal à Unidade Primordial, usando da figuração simbólica e da visão profética, no particular nacional, do Homem ante o País e o Mundo.

Como disse, a oração mental possuía especial destaque entre os monges jerónimos, por sua natureza pessoal impelindo à meditação e contemplação, estados místicos direccionados ao sentido de conquista espiritual do Mundo que deixaram testemunhado simbolicamente intra-mosteiro, precisamente no claustro monumental, em 20 medalhões junto às arcadas geminadas e mais 8 insculturas emblemáticas, decorando com mensagem simbólica este espaço que já foi ajardinado, dividido em quatro partes ou canteiros, e teve uma fonte no centro, como descreve o erudito abade de Rio de Moinhos, Arcos de Valdevez, António Dâmaso de Castro e Sousa[19]:

“… dando lugar no meio deste claustro a um tanque que, em forma engenhosa e figura circular, sustenta um repuxo, como chapéu de pedra um pilar, e em roda dele o circundam quatro passagens, também de pedra, e quatro canteiros, que costumam ter flores.”

Estando o claustro posicionado em conformidade ao significado hermético das posições cardeais, disponho-o conforme abaixo com a fonte ao centro, em guisa de síntese daquelas como Fons Vitae.

Representando a quadratura da Matéria concorrendo para o Centro Primordial, Espiritual, o 1.º grupo de medalhões está a Ocidente, representando a Terra, o Initio da transformação do Império do Mundo em Império do Cristo, na peanha da Lusitânia:

1.º grupo (lado Ocidental) – Terra – Initio

1Letra X
2. Lança+ vara
3. Cinco chagas
4. Coroa de espinhos
5. Mundo

O 2.º grupo está a Norte expressando o Ar, o Meditare subtil na unidade do Portugal de Cristo e Maria com o Jerónimo missionário no Mundo:

2.º grupo (lado Norte) – Ar – Meditare

6Cinco chagas
7. Ramo de açucenas
8. Letra M coroada
9. Esfera armilar
10. IHS

O 3.º grupo, a Oriente, indica a Água, o Contemplare das águas lacrimejantes e dores lancinantes da Paixão desfechada na Cruz da Morte mas com esperança elevada ao Monte da Ressurreição:

3.º grupo (lado Oriental) – Água – Contemplare

11. Coluna+corda
12. Cruz laureada sobre monte
13. Martelo, turquês, escada
14. Cravos+látego
15. Galo sobre coluna

O 4.º grupo, a Sul, expressa o Fogo, o Consummatum universal do Império Lusitano fundado pelos grandes navegadores sob o pendão luminoso do Sol Invicto de Cristo:

4.º grupo (lado Sul) – Fogo – Consummatum

16. Pedro Álvares Cabral
17. Nicolau Coelho
18. Paulo da Gama
19. Vasco da Gama
20. Sol

Reservo-me, apesar de já o ter feito[20], de interpretar aqui um a um o significado dos medalhões e das insculturas, isto por homenagem póstuma ao primeiro que o fez e foi quem teve a primazia de abordar e publicar o esoterismo deste Mosteiro de Santa Maria dos Jerónimos, ou seja o professor António Telmo[21].

Quanto às insculturas, tem-se:

Lado Ocidental

1. Brasão de Portugal
2. Mortificação

Lado Norte

3. Anunciação
4. Pietá

Lado Oriental

5. S. Jerónimo
6. Brasão de D. Maria

Lado Sul

7. Brasão de Avis
8. Brasão de Glória

Diogo Boitaca é o autor da ornamentação deste claustro, palavra que significa “o oculto”, “o fechado”. Todos esses símbolos associam a imitação jubilosa da vida de Cristo pelos jerónimos à glorificação apoteótica da gesta Pátria tendo o seu auge com D. Manuel I, portanto, dando prerrogativa à ideia de Portugal Sagrado, cujo brasão aqui se apresenta inclinado 17º com o dragão verde dos Lusos em cima, e nos lados a Esfera Armilar e a Cruz de Cristo plantadas no Santo Vaso, prerrogativa de Porto-Graal, ideia ecuménica reunida neste claustro de contemplação pátria e oração divina, enfim, um livro mudo de Alquimia Nacional para decifrar.

Poucos monumentos como o dos Jerónimos consubstanciam tão exuberantemente o valor da nossa Raça na rememoração do tempo e feitos que nobilitam a História Pátria. Há um sortilégio invocador no primor com que as pedras foram trabalhadas pela magia admirável do cinzel dos seus mestres-canteiros; esse poder raro de “abrandar a pedra”, no dizer eloquente dum grande orador sagrado, de “a afeiçoar aos seus dedos hábeis”, teve a sua acção magnífica nos Jerónimos. É necessário sentir o influxo dos grandes feitos e, mais do que isso, vivê-lo ardentemente, para conseguir esses prodígios que levam a uma verdadeira espiritualização que o lavrante soube imprimir numa hora de tão sublime inspiração, de conceição feliz e impulsionadora de grande significado artístico-simbólico. Vibração, sonoridade de linhas, palpitação de lavores, imaginário rico de motivos, tudo o que na Arte é alma, sentimento, beleza, se expande numa orquestração de decorativo excepcionalmente grandioso. Há que admirar, simultaneamente, o sentido rítmico da construção e a finalidade lusitana que ela fulgurante- mente sintetiza. No conjunto e no pormenor, é obra atingindo proporções inigualáveis no domínio da estética, e na plastificação das ideias e dos factos reside, compendia-se, incarna-se um mundo de rutilas criações do Belo levando à mais alta das expressões artísticas casada com o sentido espiritual, da mítica com o senso da História.

Monumento glorioso de Lisboa, glória monumental de Portugal, ele serve de afirmação ao voo prodigioso da Arte Iluminada, quando posta a representar e, mais que isso, a expressar o augusto tempo berço da Portugalidade, do ser Português, aqui e no Mundo, e se “mais houvesse lá chegaríamos”.

É como diz, em remate final, a inscrição no cruzeiro deste templo:

… o sinal santo que as remata e une
e que por toda a parte está marcando
as vitórias do Lenho triunfante,
o vexilo da Glória portuguesa.

 

NOTAS

 

[1] José Pedro Machado, Arabismos na toponímia lisboeta. Sociedade de Língua Portuguesa, Lisboa, 1992.

[2] Fr. Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, tomo I, pp. 112-116. Lisboa, 1707.

[3] José Custódio Vieira da Silva, O Tardo-Gótico em Portugal (A Arquitectura no Alentejo). Livros Horizonte, Lisboa, Abril de 1989.

[4] M. C. Mendes Atanázio, A Arte do Manuelino. Lisboa, 1984.

[5] M. Costa Ramalho e Nogueira de Brito, Mosteiro dos Jerónimos. In Guia de Portugal Artístico, volume III, Lisboa, Junho de 1940.

[6] Mário de Sampaio Ribeiro, Do Sítio do Restelo e de suas Igrejas de Santa Maria de Belém, p. 345. Lisboa, 1949.

[7] Frei Jacinto de São Miguel, Mosteiro de Belém, p. 57. Lisboa, 1901.

[8] Descrito por Vitor Serrão, O Baixo-Relevo Tardo-Renascentista da Igreja-Matriz de Rio de Mouro. In Sintria, I-II, Câmara Municipal de Sintra, 1982-83.

[9] Ramalho Ortigão, O Culto da Arte em Portugal. Lisboa, 1896.

[10] Américo Castro, Aspectos del vivir hispânico. Espiritualismo, messianismo, actitud personal en los siglos XIV al XVI. Cruz del Sur, Santiago do Chile, 1949.

[11] José Adriano de Freitas Carvalho, Joachim de Flore au Portugal: XIII.ème – XVI.ème siècles. Un itineráire possible. Marietti, Génova, 1991.

[12] Cândido dos Santos, Os Jerónimos em Portugal, das origens aos fins do séc. XVII. Centro de História da Universidade do Porto, 1980.

[13] José Adriano de F. Carvalho, Das Origens dos Jerónimos na Península Ibérica: Do Franciscanismo à Ordem de S. Jerónimo – O itinerário de Fr. Vasco de Portugal. Separata da Revista da Faculdade de Letras do Porto, n.º 1, Porto, 1984.

[14] Cândido dos Santos, ob. cit.

[15] Mendes Atanázio, ob. cit.

[16] Ana Cristina, L. Paulo Pereira, Iconologia e Imaginário do Mosteiro de Santa Maria de Belém. Revista História, n.º 87, Lisboa, Janeiro de 1986.

[17] “… o misericordioso Miguel (…) aparece à comunidade de Israel como que investido, na sua posição mediadora, da mais alta dignidade que essa comunidade conhece: Miguel é o grande príncipe e o grande padre oficiante no templo celeste. É que, como tudo sobre a Terra, o templo terrestre, com o seu culto, tem igualmente o seu arquétipo no céu.” – Henri Corbin, Necessité de l’angeologie in L’Ange et l´Homme, p. 38. Albin Michel, Cahiers de L’ Hermetisme, Paris, 1978.

[18] Manuel Gandra, O Projecto Templário e o Evangelho Português. Ésquilo Edições e Multimédia, Lisboa, 2006.

[19] Abade A. de Castro e Sousa, Descripção do Real Mosteiro de Belém com a notícia da sua fundação. Lisboa, 1837.

[20] Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2003.

[21] António Telmo, História Secreta de Portugal. Editorial Vega, Lisboa, 1977.

Descomplexo e complexo no `Portugal Ressuscitado´ – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Jan 15 2018 

PREÂMBULO

Subentende-se, nas entrelinhas do moderno pensamento falado e escrito, que o suposto da primazia de Portugal e o pressuposto do amplexo universal de Portugalidade, não fazem sentido senão como poesia e quimera ante o constrangedor da realidade objectiva, do estado psicossocial do país permanente desfalido economicamente, derrotado estruturalmente e de alma desmoralizada.

Essa adopção mental modernista não vai além da metade final do século XIX, terá nascido de alguns românticos germanófilos e filosofistas afrancesados achando Portugal provinciano em tudo e o estrangeiro em tudo progredido, conceito e preconceito que então invadiu as artes e letras portuguesas como elemento estranho à sua identidade cultural e à idiossincrasia motora da estrutura psicossocial da nação em que subjaz o universalismo – pois que Império fomos, como o primeiro do Ocidente europeu – da noção Portugalidade, que começa na língua e se prolonga nas várias expressões características únicas do autóctone, dizia, esse pensamento modernista de certos modernos incompreende, por isso rejeita linearmente, o sentido electivo de Pátria Geográfica e, sobretudo, o ser Pátria Mítica. Não percebe nem quer entender o silogismo mínimo do ser e sentir Portugal como algo transcendente em sua natureza peculiar, como algo trescalando inédito ou sui generis nos costumes e tradições, dos mínimos aos mais elaborados, constituintes da identidade própria desta nação mais antiga da Europa cerca de meio milénio.

Aplicando sobretudo a literacia avant-garde feita dum vocabulário dissecado, complexo e complexado próprio de uma esquizofrenia psicomental limitadora da existência e do pensamento, intentando o derrube de toda e qualquer espécie de esperança tanto ao singular como ao plural em querer ser alguma coisa mais como cidadão e nação, começando na crítica feroz a quem pensou e pensa a Portugalidade transcendente e a identidade do pressuposto destino e missão da mesma, tanto ou tão pouco só pode desfechar, dissecadas as esperanças e neutralizadas as pretensões, no intento da morte de Portugal.

Aparecem no rol do racional assente no irracional, apregoando a pressuposta morte moral e caída amoral de Portugal, isto que por consequência levaria à perda da independência anulando as fronteiras geopolíticas, sem mais nem menos, aparentando desatender propositadamente aos demais factores psicossociais fundamentais do Corpo Nacional que são o cimento da Identidade Nacional, o hodierno nome de um Miguel Real (pseudónimo do escritor e ficcionista lisboeta Luís Martins)[1], postulando a mesma ideia ao lado de outros autores redutores da ideia de pátria e patriotismo, cuja crise de identidade com a nação onde nasceram parece recambiá-los à criação de um novo religiosismo niilista político-filodóxico, cuja fé inflamada no não divino vem a revelar numa vaidade pública, em nome de vaga e nebulosa noção “humanista” sempre e só teórica, ser apóstata desgostoso nas fímbrias íntimas o ter nascido em Portugal.

O autor citado, empático à linha positivista de Eduardo Lourenço no que toca às linhas mítico-sociais do povo português[2], afirmou-se-me publicamente “anti” Fernando Pessoa e sobretudo “anti” Agostinho da Silva, decerto por esses não encaixarem em pensamento e no exercício na fórmula laica de militantismo socialista avant-garde, teorizado “humanista”, fatalmente ausente de duração, solução e espiritualidade, e separa a História Nacional em vários ciclos atribuindo à Nação, representada pelos personagens mais marcantes desses mesmos ciclos, uma série de defeitos propagados e assimilados colectivamente, cuja resultante é a (omni)presente e fatal desmoralização de Portugal.

Tais defeitos originados (complexos ou nidanas) pelo artificialismo dialéctico modernista, vêm primar pela ausência de entendimento das virtudes originais (descomplexos ou skandhas) que assistiram à fundação e desenvolvimento desses mesmos ciclos históricos, feitores do País e da sua Identidade, onde só muito recentemente o materialismo dialéctico assume pretensões de sobrepujar a dialéctica do Espírito.

Não será boa profilaxia pedagógica ostracizar os inúmeros personagens do século XX português que pensaram e autoraram com provas sobejas o peculiar da identidade ibérica e, sobretudo, portuguesa, contrariando plenamente os arremessos inglórios de alguns, poucos fiteiros da inglória portuguesa sem identidade própria, sem missão nem transcendência, reduzida ao tamanho do aro dos umbigos desses propagadores, que mesmo falando português escusam o pressuposto provado do singular do Pensamento e Filosofia Portuguesa. Pelo contrário, têm-se os nomes incontornáveis de F. da Cunha Leão[3], cuja análise psicossocial é tese redundando na prova de haver Identidade singular no Ibero e, particularmente, no Português; ainda mais próximo, o incontornável Josué Pinharanda Gomes, incansável organizador do vastíssimo sistema do Pensamento e Filosofia Portuguesa que já reuniu em vários volumes de raro brilhantismo, sendo o primeiro datado de 1967 [4]. Isto sem esquecer Sampaio Bruno, António Sérgio, Teixeira de Pascoais, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Leonardo Coimbra, António Quadros, António Telmo, Dalila Pereira da Costa e inclusive Manuel Gandra, dentre muitos outros que, com sobejas provas dadas ao país e ao mundo, reiteram a intemporalidade na temporalidade da Formula Mentis Lusitanea.

Falar da Fórmula Mental Lusitana não é despropósito, sobretudo na agitação psicossocial deste tempo intercíclico em que “nada é certo e tudo é bruma de incerteza”, por germinação de valores novos em conflito com os velhos germinados, como é próprio na gestação e parto de uma nova Idade, de uma nova condição de civilização na qual o “português é tudo ou o seu nada”, isto é, tudo por ter identidade própria no seu espaço próprio, que é a nação, e nada por ser abstractamente dentro do tudo, seu anverso, a síntese, que é sempre a ausência da multiplicidade. Por isso e dando-lhe por assento o mito (raiz grega do termo mistério), Fernando Pessoa parabolizava que “o mito é o nada que é tudo”, este para a Pátria Mítica e aquele para a Pátria Geográfica. Ambos os axiomas se encontram, completam mas são nada para os intellectus limitados, sendo tudo para os de cognoscio ilimitado. Estes são livres e racionais, amam a Pátria e o Homem porque os sentem e compreendem na mais ampla universalidade; aqueles são escravos da sua própria irracionalidade, auto-amesquinhados na inferioridade do seu ser, da Pátria e do Homem tudo de bom para eles querendo, mas à Pátria e ao Homem nada de bom dando.

I

Para entender a Formula Mentis Lusitanea ou o seu Arquétipo Primordial, primeiro tem que se situar a posição geográfica da Península Ibérica e do seu nativo, o Hommo Ibericus, base antropológica dos demais povos que aqui habitaram até chegar ao Português actual, consequência de caldeações e mais caldeações raciais ao longo dos Ciclos em que se reparte a Vida Universal.

O carácter peninsular limitado pelo Oceano Atlântico a Oeste e pelo maciço natural das montanhas dos Pirinéus a Leste, criou-lhe isolamento geográfico relativo à restante Europa continental, algumas vezes contribuindo para originar uma relativa separação entre a evolução da Península Ibérica e a do restante continente. Porém, a sua localização geográfica constitui a ponte que une a Europa ao Norte da África, formando uma conexão entre os continentes africano e europeu. Outro condicionador foi a dupla influência do mar, com a ligação tanto ao Oceano Atlântico como ao Mar Mediterrâneo. No interior, a acção dos rios, mais caudalosos que actualmente, produziu planícies fluviais propiciadoras de ambiente favorável ao Homem, extinta a actividade vulcânica que antecedeu as quatro Eras Glaciais e Inter-glaciais.

O clima deixou de mudar à medida que essas Eras se desenrolavam alternadamente, e de modo geral pode dizer-se que na Meseta Ibérica havia um clima mais extremo e chuvoso que agora. A costa cantábrica era muito mais fria e húmida, e a Andaluzia gozava de um clima mais frio que o do Sul da França. No último período Inter-glacial, este ficaria como o clima da costa cantábrica, enquanto a Andaluzia ficou muito ensolarada e a região Levantina teve um clima semi-árido.

Tendo em conta que a maior actividade dos habitantes primitivos da Ibéria consistia na caça (Paleolítico), e só muitíssimo depois apareceria a agricultura (Neolítico), convém mencionar as transformações que a fauna ibérica teve com as mudanças climáticas. Nos Períodos Glaciais, os animais característicos foram o mamute, o rinoceronte peludo e a rena, espécies vindas do Centro e Norte da Europa que procuravam o clima relativamente ameno da Península. Durante os períodos Inter-glaciais, o elefante meridional, o elefante antigo e o rinoceronte de Merk foram os animais mais comuns. Indiferentes a todas as mudanças climáticas, também havia outros animais como ursos, lobos, cavalos, bisontes, javalis e cabras, sendo farta a fauna fluvial dos rios e lagos.

Todos esses fenómenos geraram uma variedade cultural de vida e mentalidades, o que explica a diversidade permanente do território peninsular, algo assim como um “micro-continente” dentro da Europa, a Sudoeste da mesma formando quase um “trapézio” cujo elo de ligação com o restante continente é o istmo pirenaico, no resto rodeado a Norte, Oeste e Sul pelo Oceano Atlântico, com a restante costa Sul e Leste pelo Mar Mediterrâneo (o Mare Nostrum de Estrabão, celebrado por Fernando Pessoa associando-o ao Mercúrio Hermético), sendo o ponto mais ocidental o Cabo da Roca, em Sintra, Distrito de Lisboa, e o mais oriental o Cabo de Creus, no Alto Ampurdán, na Catalunha.

Ao longo dos tempos a Península Ibérica foi chamada com vários nomes, enquanto era governada por povos distintos. Dentre eles, destacam-se os de Ibéria e Hispânia. Ibéria foi o nome que os gregos deram à Península, muito possivelmente por só conhecerem a parte em torno do Rio Íber ou Ebro[5]. Já Hispânia – topónimo associado ao filólogo Hespérides – foi lhe imposto durante a ocupação Romana. Os árabes chamaram-lhe Al-Andalus, separando a Península em Ocidental (Gharb) e Oriental (Chark), enquanto os judeus batizaram-na Sefarad, onde se localizariam os sefarditas. A região, depois do período histórico denominado Reconquista cristã, foi se transformando com a expulsão ou conversão dos árabes, até que Portugal surge como Estado em 1139, confirmado pelo Papa Alexandre III pela emissão da bula Manifestis Probatum. Só 353 anos depois, com o casamento em 1492 de D. Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, e com a reconquista de Granada nesse mesmo ano, o último reino ou emirado árabe (nazarí) na Península Ibérica, é que a Espanha surge como nação tendo transformado em províncias, mais ou menos autóctones, os seus vários reinos, alguns com línguas distintas (sendo exemplos o galego, o basco e o catalão), todos com distintas culturas.

O Ibero é efectivamente o Homem ante-diluviano, Atlante, o povoador original donde o Íber ou Ebro herda o nome. Portanto, estará nisso o motivo dos antigos gregos assim apelidarem o autóctone peninsular, posto o radical brah tanto significar “primeiro” como “primogénito”, e daí, consequentemente, os helénicos associaram-no à condição primaz afim aos predicados naturais da Primeira Hipóstase Primordial, depois retomada pelos cristãos figurando-a no antropomórfico Pai da Criação.

O que se sabe de fonte segura, mercê dos estudos arqueológicos e antropológicos que os historiadores vieram registando, é que a presença humana na Península Ibérica recua a cerca de 1 milhão e 500 mil anos, portanto, inserida no Período Quaternário, mesmo assim havendo fortes indícios de humanidade ibérica para lá daquele, nos finais do Período Terciário, pomo de confusão para muitos investigadores quanto à datação exacta do aparecimento do Homem nesta parte do Mundo e em todo ele.

De maneira simplificada, tem-se:

Das principais tribos ibéricas, destacam-se as dos Bastetanos e dos Turdetanos, ambas instaladas no Sul da Península, com a primeira disseminando-se no sentido NE e a segunda na direcção SO, indo resultar em outros tantos e distintos ramos e famílias. A partir dessas duas principais etnias ibéricas, desenvolveu-se o povoamento pelas várias e derivadas culturas humanas, em vagas progressivas e cíclicas, da Península até chegar na etnia Lusitana.

Estão os Lusitanos como a etnia proto-histórica mais destacada dentre todas que povoaram a Península Ibérica, principalmente por terem sido os principais intervenientes na desromanização peninsular, o embrião do “vir-a-ser”, ou seja, da formação geopolítica do futuro condado e depois país. A sua raiz idiomática ficou no falar luso-galaico, perdurando até ao final da Idade Média, donde ser a origem (aparte os latinismos, gregos e fenícios, depois também árabes) da actual língua portuguesa, enquanto a língua ibero-românica (aparte os latinismos e sobretudo germanismos trazidos para aqui do Norte da Europa pelos povos invasores) viria a ser a base filológica da actual língua castelhana. Por sua pureza e amplidão, o luso-galaico teve méritos de passar à escrita e ao falar erudito palaciano e eclesial, muito por via dos trovadores e jograis, enquanto o ibero-românico germanizado ficaria como expressão idiomática subalterna, cuja condição de língua oficial espanhola só aconteceria no meado no século XV, graças aos esforços dos reis católicos, Fernando e Isabel, dando o mote para que o seu novo país falasse uma linguagem uniforme.

Para se ficar com uma ideia clara do geral da evolução etnográfica peninsular até ao surgimento do Condado Portucalense e sua expansão, tem-se:

O Lusitano, autóctone original nómada por vocação e sedentário por necessidade, criou uma estrutura social sólida, com leis, regras, hierarquia e religião próprias, graças aos seus Reis Pastores, núcleo central da orgânica lusitana, que tomaram o nome genérico de Viriatos, e não só o Viriato que o historiador grego Diodoro da Sicília (século I a. C.) dá notícia em primeira mão num dos 40 volumes da sua História Universal, pois que já Sílio Itálico (século I d. C.) no seu poema épico, Púnica, menciona um Viriato ainda mais antigo contemporâneo de Aníbal, chamado primo Viriathus in aeuo, líder dos Gallaeci e dos Lusitanos[6]. O Viriato histórico seria o que recebeu o título de regnator Hiberae magnanimus terrae, “o mais magnânimo dos reis da terra Ibérica”, tendo o Senado de Roma chegado a pactuar com ele e quase o reconhecendo soberano de nação independente, se não fosse a traição de três dos companheiros do caudilho que o assassinaram, num pacto secreto com o governador romano da Lusitânia.

Mesmo que a superior disciplina das legiões do Lácio tenha prevalecido com a morte do último Viriato, nunca os romanos contaram com a submissão dos lusitanos, e 40.000 homens em guarda permanente nunca chegaram para suster a ânsia de liberdade dos autóctones, que vencidos nas armas acabaram aglutinando pela cultura os opressores, vencendo-os pela razão.

A condição de Viriato como rei soberano, a despeito das traições sucessivas que lhe foram cometidas, era reconhecida pelos próprios generais e cônsules romanos, ora o reconhecendo Dux do exército lusitano, ora lhe chamando Adsertor, protector da Hispânia, ou mesmo Imperator, provavelmente da confederação das tribos lusitanas e celtiberas, segundo Tito Lívio no seu Flori Epitome.

A teoria de Viriato, ou a linhagem dos Viriatos, não passar de simples pastor ou pastores dos Montes Hermínios (Serra da Estrela), é imprecisa nos dados vácuos propalados desde a segunda década do século XX [7]. Se bem que pastor remeta ao sinónimo de nomadismo, condição natural do lusitano, posso aceitar isso mas em conformidade ao definido por Maurice Pastor Muñoz, de que “Viriato seria um aristocrata proprietário de cabeças de gado”[8]. Para os romanos, os seus antepassados mais ilustres haviam sido pastores, tendo Viriato chegado a ser comparado àquele que fora o pastor mais ilustre que se tornaria no primeiro rei fundador de Roma, Rómulo. A ideologia do Rei Pastor, o Pastor feito Rei, está presente em toda a cultura mediterrânea e oriental, além da romana e grega. A metáfora do Rei Pastor do Homero era aplicada frequentemente para dar ênfase às funções e deveres de um rei, chegando Diodoro da Sicília a afirmar que “Viriato demonstrou ser um príncipe”.

Conforme informa o Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology[9], atestando a origem indo-europeia dos lusitanos por via dos ligures, eles encomiavam os seus soberanos Viriatos com os títulos honoríficos de Benfeitor (gr., Evergete) e de Salvador (gr., Soter), exactamente os mesmos dados no Egipto aos reis da dinastia ptolemaica. Viriato seria Benfeitor por seu senso de boa e universal justiça (moral), e Salvador da opressão tenaz do ocupante romano (acção); para os lusitanos seria, pois, um Rei de Justiça Universal, o próprio modelo primitivo do Guerreiro Perfeito (Kshatriya, Bellator).

A etimologia do nome Viriato derivará da raiz indo-europeia uirus, “homem”, relacionada com a força e a virilidade, que em celta se pronunciava uiro, da raiz viro e que deu no latim viri, “homem de nobreza, herói”. A elite celtibérica denominava de uiros ueramos “o homem mais alto” (nobre), cujo equivalente em latim seria summus vir. Assim, Viriato será sinónimo de “pessoa de nobreza, de cargo elevado”, portanto, um chefe distinto.

Chegado a este ponto, tem-se assente que Viriato designará não só o caudilho dos Montes Hermínios, tornado famoso pelos clássicos, mas também o colectivo da linhagem patriarcal dos Reis-Pastores da Lusitânia, iniciada com o primeiro Viriato e findada com o luso-romano Sertório. Estas palavras encontram reforço naquelas outras inseridas na obra de Adriano Vasco Rodrigues[10]:

“Houveram vários Viriathos. O nome parece ter sido vulgar na Lusitânia, como se infere de inscrições e textos clássicos. Viriatus pode aparecer em latim como adjectivo, referindo-se aos feitos valorosos praticados por um chefe; ou como transcrição fonética, mal apercebida pelos romanos, referindo um nome próprio indígena transcrito para latim. Em algumas edições críticas aparece grafado Viriathus, para o distinguir do adjectivo latino.

“Este nome seria de origem indo-europeia, derivado de uma palavra de raiz céltica, viriae, com o significado de bracelete.”

Anselmo Arenas Lopez, na sua biografia de Viriatho[11], regista de vários autores clássicos diferentes transcrições do nome do chefe lusitano: Borianzos (em J. Antiocheno), Barianzos (em Diodoro), Biriatzos e Buriatzos (em Suidas), Ouriatho (em Estrabão), Uriatho (em Appiano), Viriathus (nos Latinos).

O nome viria, “bracelete”, junto ao uirus, “homem”, deu o moderno viriato ou “homem do bracelete”, isto é, a arma defensiva que os guerreiros lusitanos usavam à semelhança dos celtas. É muito natural que essa viria fosse um símbolo de chefia no braço de um chefe aclamado pela unanimidade das tribos lusitanos e celtiberas. O que interessa é a referência intencional que o nome contém, ligada à pessoa principal que dirigiu a guerra ao opressor comum no referido período. De um outro caudilho, também chamado Viriato, fala Tito Lívio, dizendo-o chefe dos lusitanos que passaram os Pirinéus. Morreu gloriosamente na batalha de Cannas, em 216 a. C., tendo sido cantado pelo poeta Caio Silio Itálico, em Punicorum.

São três as principais fontes clássicas que servem a biografia de Viriato: Appiano, Diodoro de Sicília e Dion Cassio. Estes autores baseiam-se em Políbio, cujo relato das guerras lusitanas se perdeu. Appiano parece ter lido directamente Políbio. Diodoro buscou informações em Possidónio, assemelhando-se, por vezes, a Appiano. Dion Cassio serviu-se de outra obra literária mas procurou dados na mesma fonte[12].

Iconograficamente, a tradicional estátua do guerreiro lusitano erecto com uma redondela defensiva do seu peito (geralmente sem a falcata ou espada tradicional, o que simbolicamente é muito significativo), que se aprende nos manuais e carteiras de História Clássica como sendo a figura convencional do soldado da Lusitânia, ou até mesmo Viriato, pode muito bem ser a figuração simbólica do deus Bellus ou Endobellus, donde Endovélico, no qual a redondela aludirá ao círculo do Sol, ideia reforçada pelo símbolo solar da swástika que aparece gravada nas costas dessas mesmas estátuas, como se vê naquelas expostas no Museu Arqueológico Martins Sarmento, em Guimarães. Mesmo aparentando expressão marcial, pouco importa por se justificar pela natureza intrépida, guerreira, do lusitano montanhês, como afinal era todo o povo pastor.

Mercê do caudal bibliográfico e amplexo luso-ibérico sistematizado, ainda assim não tendo resposta para tanto e inédito na clareza dos factos, certamente a teimosia `socialiste´ de alguns pensadores do pensamento alheio, assim não sendo filósofos de saber mas filodoxos de opinião, insistirá no batido “mito salazarista” de Viriato (como se Salazar tivesse inventado a pessoa de Viriato… ele tão-só a aproveitou para a sua “ditadura romana”, para o seu nacionalismo centrípeto, nisto o caso mudando completamente de feição), indo insistir no complexo modernista de algo sem sentido mas que se dá amplexo entre pares partilhando igual complexo de inibição redutora do sentido de Portugal e Portugalidade, sobretudo partilhando a especulação naïfe da avant-garde intelectual, num caldeio intragável de História, Política e Humanismo restritos ao parcialismo pessoal, acerca da realmente desapreendida em consciência, logo, totalmente ignota, Tradição, Iniciação e Espírito, cuja horizontalidade mental os inibe de entender minimamente a mesma mente em vertical, onde assenta essa tripeça da Formula Mentis Lusitanea.

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): LIBERDADE e FIRMEZA.

DEFEITO originado (COMPLEXO): LIBERTÁRIO e VACILAÇÃO.

II

Lusitânia (em latim, Luxcitania, “Lugar de Luz”) foi o nome atribuído pelos autores clássicos da Antiguidade ao território centro-oeste da Península Ibérica onde viviam os povos lusitanos, que começaram a formar-se na fase final do Neolítico e tiveram o apogeu na Idade do Ferro. Após a conquista romana da Península Ibérica, passou a designar a Lusitânia romana cuja capital era Emerita Augusta, actual Mérida. A Lusitânia incluía aproximadamente todo o território português actual a sul do Rio Douro, a Estremadura espanhola e parte da província de Salamanca. Como disse, inicialmente fazia parte da província romana da Hispania Ulterior, tornando-se depois uma província autónoma, desde 29 a. C. até ao do vínculo com Roma e entrega aos alanos em 411 d. C. Considerada a origem ancestral de Portugal, na Lusitânia pré-romana pontuou Viriato que veio a estar na base do movimento lusitanista ou o lusitanismo, aproveitado no meado do século XX para exclusivos fins político-nacionalistas, sobretudo pelo Estado Novo, logo, despontuado no entendimento cultural do pré-princípio de Unidade Nacional como “pedra angular” da História Portuguesa, seja Sagrada ou não.

Foram os romanos quem mais propagou o sentido de “Lugar da Luz” (Luxcitania) dado a esta parte da Península, e por duas razões distintas apesar de interligadas: por aqui terem havido os maiores filões auríferos da Europa (Serra de Arga, Vale do Tejo, Cacilhas, Marateca, Rio Sado, etc.) que exploraram, por uma parte; por outra, porque desde o Paleolítico Inferior se reconhece (primeiro instintivamente, depois intuitivamente e por fim racionalmente, acompanhando o desenvolvimento da mente humana) que na Península Ibérica se encrava o (único) Pólo ou Centro Vital da Europa, dentre os sete que animam o Globo Terrestre. Foi localizado em Sintra, destarte consignada Serra Sagrada ou Monte Santo desde o alvor da Humanidade.

Com os romanos firmou-se o culto do Genius Loci, o “Espírito do Lugar”, que vem a ser o aglomerador das forças vitais da Alma Sinergética ibérica – espécie de Egrégora ou “Forma-Pensamento” colectiva – que desde Cyntia ou Sintra vem dando especiais foros sagrados, mesmo divinos, à Península, fazendo-a um todo especial aparte. A potência da Alma Sinergética centrada nessa Serra peculiar faz dela um dos Pólos, Quths, Chakras, Plexos ou Centros Vitais do Mundo, precisamente o Quinto ligado à Fala, ao Verbo, à expressão criadora do Espírito Santo, prenúncio de uma Nova Idade que, auguriam vates e sibilas, predizem profetas e iluminados desde sempre, haverá um dia de nascer nesta Península ocidental da Europa. Socorrendo-me da Tradição Iniciática das Idades, assumida Teurgia ou Obra do Eterno na Face da Terra, o planeta possui sete centros de força psicomental exteriorizados como plexos nevro-sanguíneos, dando a vitalidade e o movimento, animando a tudo e a todos, a começar pelo Homem. Ora, o Centro Laríngeo do Globo situa-se em Portugal, a alguns quilómetros de profundidade na perpendicular da zona logo a Norte do Rio Tejo, abrangendo a Serra de Sintra e Lisboa. Tem sido este Centro irradiante que ao longo dos milénios feitos de séculos tipificou toda a vida do nosso país e, por que não dizê-lo, de todo o continente europeu. Foi a sua vibração radiante que atraiu os povos da Antiguidade para este lugar e permitiu o aparecimento de várias gerações de grandes homens que, com os seus feitos, foram os responsáveis pela afirmação de Portugal no Mundo. Nesse verdadeiro movimento civilizacional, em direcção ao quinto continente americano, propriamente a América do Sul, os portugueses sob o pendão sintriano têm sido os motores psicossociais com que se caldeia o futuro do planeta e se firmam as raízes do futuro Pólo Espiritual da Terra, o Brasil, este que Pedro de Mariz, no século XVII, nos seus Diálogos de Vária História, afirmava ser a “Nova Lusitânia”.

O conhecimento profundo dessa realidade foi propagado pelos clássicos da Antiguidade, mas de forma simbólica e parabólica, ou seja, por via da mitologia greco-romana, cujos deuses e heróis ficaram encarregues dos maiores encómios necessários à perpetuação do sentido sagrado e divino da Lusitânia. Diz, por exemplo, Varrão, citando a Naturalis História de Plínio, o Velho: Usum enim liberi patris aut lyssam cum eo bachantium nomen dedisse lusitaniae et pana praefectum eius universae. “A Lusitânia toma o nome de Luso associado a Baco e a Lyssa das bacantes, e Pã é o seu governador”.

Ou seja, Luso é filho de Baco ou Dionísios, este associado astralmente a Mercúrio e aquele ao “Filho da Luz” deste, sendo as bacantes as sacerdotisas de Baco cuja chefe, Lyssa, era a sua mulher. Dos dois nasceu Luso. Lyssa ou Lys, “água”, neste caso, lustral, vem a ser a expressão astral de Vénus, enquanto Pã expressa Saturno e à própria Natureza em manifestação. De maneira que Luso nasce “androginamente” da Água de Vénus e do Vinho de Mercúrio, indicativos da natureza dúplice da Religião dos Mistérios, ficando a “água” (catequese) para os simples (Filhos de Mulher) e o “vinho” (gnose) para os eruditos (Filhos de Homem). Esses deuses greco-romanos inventados, ou melhor, simbólicos (pois que o símbolo é tudo para quem sabe lê-lo, e nada para quem desconhece o seu sentido último), seriam posteriormente retomados na glosa de vários autores portugueses do Maneirismo e da Renascença (Camões nos Lusíadas ou Fernão Álvares do Oriente na Lusitânia Transformada, por exemplo), na mesma senda e objectivo dos escritores pré e clássicos.

O mesmo encontra-se no Auto da Lusitânia, uma das últimas peças de Gil Vicente (1465-1536), escrito em 1531 e representado pela primeira vez em 1532, perante a corte de D. João III quando nasceu o seu filho, D. Manuel. A peça trata das bodas de Lusitânia e Portugal (personagens mitológicos), tendo Gil Vicente misturado no enredo e nos diálogos muitos temas, personagens e cenas constituindo como que “diversões” à margem do tema central.

Lusitânia é filha de Lisibea (Lisboa) e do Sol, e por ela se apaixonou um caçador grego de nome Portugal. Quando os amores parecem desencaminhar-se, acorrem às deusas (diesas) gregas, as Plêiades, sob cuja protecção se decide então o casamento. É a alegoria antropológica da cultura grega ou helénica que Portugal assimilou durante a fase inicial histórica da Lusitânia. Este tema desenrola-se da maneira seguinte: o auto começa com vários diálogos e recitativos de pessoas comuns acerca dos assuntos de amor e outros vulgares, alguns picarescos como convém a uma farsa, até que entra em cena o Licenciado, que faz o papel de narrador e representa Gil Vicente; ele introduz o tema das bodas dizendo que “o Sol viu Lisibea nua sem nenhuma cobertura (…) e houve dela uma filha tão ornada de sua luz que lhe puseram nome Lusitânia, que foi diesa e senhora desta Província”. Passados tempos, “um famoso cavaleiro grego de nome Portugal ouviu falar da boa caça na Serra de Sintra (Serra da Solércia), e como este Portugal, todo fundado em amores, visse a formosura sobrenatural de Lusitânia, filha do Sol, de improviso se achou perdido por ela”. Dois demónios, Belzebu e Dinato, enquanto assistem ao casamento do cavaleiro com a princesa, tecem comentários espirituosos, fazem trocadilhos, sempre procurando evidenciar temas ligados à verdade, à cobiça, à vaidade, à virtude e à honra dos homens.

Lisibea nua primogénita do Sol, é tema que já entrara no romanceiro nobiliárquico de Jacques de Voragine (século XIII), criador da lenda áurea da deusa Melusina, sempre alusiva da virgindade original incorruptível pelo ordinário humano, por ser propriedade divina, neste caso, do Sol expressivo do Logos Primordial (Helion ou Surya). Desse conluio amoroso nasceu a Lusitânia, onde depois Portugal buscará a sua identidade e a encontrará, precisamente na Serra de Sintra. Enfim, maneirismos passados para dizer coisas profundas divertindo, afastando atenções do propósito ocultado…

É na Lusitânia que se acha Portugal, ou melhor, Portucale. Com efeito, houve no actual território nacional, ao longo do processo de Reconquista, o chamado Pelágio, dois Condados Portucalenses distintos: o Condado de Portucale e o Condado Portucalense. O primeiro foi fundado pelo conde vimaranense Vímara Peres, após a presúria de Portucale (Porto) no ano 868, e incorporado no Reino da Galiza em 1071, depois da morte do conde Nuno Mendes, sendo sensivelmente equivalente ao actual Entre-Douro-e-Minho. O segundo, constituído cerca de 1095 em feudo do rei Afonso VI de Leão, foi oferecido ao conde Henrique de Borgonha que o veio auxiliar na Reconquista da Península aos árabes, recebendo ainda a mão da filha do monarca, Teresa de Leão. Este Condado Henriquino era muito maior em extensão que o anterior, pois abarcava também os territórios do antigo Condado de Coimbra, suprimido em 1091, partes de Trás-os-Montes e ainda o Sul e Centro da Galiza (mormente a Diocese de Tui, dependente do Primaz de Braga). De notar que Condado é o termo genérico para designar o Território Portucalense, já que os seus chefes eram alternativamente intitulados Comite (Conde), Dux (Duque), Princeps (Príncipe), e só depois, com a independência nacional, Rex (Rei).

O nome do Condado vem do topónimo Portucale, com o qual no século IX se designava a cidade junto à foz do Rio Douro, chamada Portus Cale ou “Porto dos Callaicos” ou Galaicos (Callaeci ou Gallaeci), povo proto-histórico que será a provável origem do Galego actual e cuja principal cidade de intercâmbio marítimo seria o actual Porto, portanto, fazendo parte do primitivo território galaico-portucalense, geocultural e idiomaticamente distinto, limitado ao Norte pela terra bracarense e ao Sul pelo Rio Vouga, tendo por centro e cabeça a cidade castreja de Portucale.

Há indicações históricas atestando a positividade da existência de Portucale. As Histórias de Salustio, do século I, referem a Cales Civitas localizada na Callaecia; o Itinerário de Antonino, do século IV, fala da povoação de Cale ou Calem, enquanto Idácio de Chaves, no século V, escreveu sobre um Portucale Castrum[13]. Desse tempo sobrevive até hoje o topónimo Antas. Embora a existência da povoação na foz do Douro durante o período romano se encontre confirmada, só nos últimos anos, graças a investigações acuradas, se soube a sua localização exacta. Com efeito, o Paroquial Suévico de São Martinho de Dume refere um povoado designado como Portucale Castrum Antiquum, na margem esquerda do Douro, que já sabe ser Gaia, e outro, o Portucale Castrum Novum, na direita, que é o actual Porto[14].

Os callaici celtas teriam dado o nome de Portucale ao território inspirado naquele outro de Cailleach, “Deusa Primordial”, que os milésios importariam daqui para a Irlanda cerca do ano 1000 a. C.

Quando se deu a invasão árabe da Península Ibérica por Tarique, no século VIII, Portucale já era, desde a segunda metade do século VI, sede da Diocese Portucalense, sendo metropolita o bispo de Braga, onde se situava o Primaz da Gallaecia e de toda a Hispania desde os finais do século IV. Portanto, Igreja proto-cristã, visigótica, na qual militaram os maiores vultos do Pensamento proto-português, lançando ao terreno mental a semente do que viria a ser a Filosofia Portuguesa, como notavelmente fez, por exemplo, Paulo Orósio (c. 385 – c. 420), historiador, filósofo, teólogo, sacerdote e apologista cristão na Hispânia Romana, possivelmente natural de Bracara Augusta (Braga), então cabeça da Província da Gallaecia. Essa diocese não sobreviveu à invasão árabe, só sendo restaurada após a conquista do Porto por Vímara Peres, no ano 868.

Foi esse o território que em 1095 o conde D. Henrique recebeu de D. Afonso VI de Leão, mas dilatando-o do Porto até Coimbra – as finis Galliciae; de Borgonha (no actual Luxemburgo, nome que também significa “Lugar de Luz”, Luxburgus, homónimo de Luxcitania) trouxe consigo povo, nobres cavaleiros e religiosos da Ordem de Cluny de cujo fundador, São Hugo de Cluny, D. Henrique era sobrinho-neto. Juntos aos galegos e moçárabes viriam a ser a população original do Condado Portucalense, que só se assumiu Portucale depois da batalha de Ourique, em 1139, onde D. Afonso Henriques, após o famoso milagre cristológico que teve no campo de lide ao árabe, se assumiu rei publicamente e ao território herdado e conquistado país independente, ele que já antes, em seguida à batalha de S. Mamede, em 1128, declarara o Condado Portucalense independente dos condes galegos autonomicamente sujeitos ao rei de Leão.

Se D. Afonso Henriques teve legitimidade para, num acto inédito, se auto-coroar rei, deve reconhecer-se que sim, atendendo a que seu pai D. Henrique era sobrinho de D. Constança de Borgonha, rainha de Leão e Castela, e pertencia à Casa Ducal, sendo o herdeiro da coroa mais próximo na linha de sucessão. Como a rainha não teve filhos varões com Afonso VI de Leão e Castela, debalde D. Henrique evocou esse direito para si, e o seu filho não esqueceu e terá invocado o mesmo para se auto-coroar e assim ser o primeiro rei não só de Portucale mas também de Léon e Castilla. Donde as hostilidades abertas com D. Afonso VII cujo direito real Afonso Henriques nunca reconheceu, mais ainda quando aquele quebrou todas as promessas que seu pai Afonso VI fizera ao conde D. Henrique, mormente no respeitante à Galiza, desanexando-a do território portucalense[15].

D. Afonso Henriques terá evocado ante a Santa Sé esse direito real que consideraria ter-lhe sido usurpado, razão de Estado suficiente, a favor do queixoso, para o Papa Alexandre III emitir, em 23 de Maio de 1179, a Bula Manifestis Probatum, declarando o Condado Portucalense como Portucale país independente do Reino de Leão, e Afonso Henriques o seu rei legítimo.

A Bula reza (em português actual):

“Alexandre, Bispo, Servo dos Servos de Deus, ao Caríssimo filho em Cristo, Afonso, ilustre Rei dos Portugueses, e aos seus herdeiros, in perpetuum. Está claramente demonstrado que, como bom filho e príncipe católico, prestaste inumeráveis serviços a tua mãe, a Santa Igreja, exterminando intrepidamente em porfiados trabalhos e proezas militares os inimigos do nome cristão e propagando diligentemente a fé cristã, assim deixaste aos vindouros nome digno de memória e exemplo merecedor de imitação. Deve a Sé Apostólica amar com sincero afecto e procurar atender eficazmente, em suas justas súplicas, os que a Providência divina escolheu para governo e salvação do povo. Por isso, Nós, atendemos às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua pessoa, tomamo-la sob a protecção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste das mãos dos Sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos os vizinhos príncipes cristãos. E para que mais te fervores em devoção e serviço ao príncipe dos apóstolos São Pedro e à santa Igreja de Roma, decidimos fazer a mesma concessão a teus herdeiros e, com a ajuda de Deus, prometemos defender-lha, quanto caiba em nosso apostólico magistério.”

Bula Manifestis Probatum emitida por Alexandre III em 23.5.1179

Se a Lusitânia foi o embrião ou semente da “identidade nacional”, o Condado Portucalense a sementeira da “formação nacional”, e Portucale foi a madureza da colheita do “país formado”. Assim, para facilitar o entendimento da base estrutural do Condado e País Portucalense, com o consequente desenvolvimento psicossocial até à actualidade, tem-se a sequência seguinte:

As classes religiosa (oratore) e militar (bellator) foram quem maior desempenho tomou na formação da identidade espiritual e política do país. A primeira, assumindo a autoritas expressa pelo sacerdócio e a instrução, teve à dianteira os clunienses e depois os bernardos. A segunda, garantindo a potens incarnada na realeza e na nobreza cuidando do exercício da justiça e das armas, na defesa e ofensiva quando necessário, contou inicialmente com a Ordem Militar dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, vulgo templários, e depois com a Ordem Militar de São Bento de Avis, vulgo bentos ou avises, fundada pelo próprio D. Afonso Henriques.

Apesar de Afonso Henriques não ter sido militante da Ordem do Templo, contudo recebeu educação templária e foi grande benfeitor da mesma, ou seja, um “irmão donato”[16]. Se tivesse sido um “irmão de Regra”, com votos totais assumidos, obviamente nunca poderia ser rei, posto este cargo político desaparelhar completamente do reservado exercício monástico. Já a Ordem de Avis cuidava da defesa e manutenção tanto da Coroa quanto das fronteiras do País, contando na retaguarda com o apoio Templário.

D. Afonso I aceitou politicamente a presença da Igreja de Roma, mas rejeitou-a linearmente nas investidas políticas pretendendo o país subjugado ao poder papal, ambicioso da autoridade e do poder retidos numa só pessoa e organização. Nisto reside o sentido velado do famoso episódio talvez lendário daquele enviado papal, Guido de Vico, que amaldiçoou o Condado Portucalense por o rei deste não querer pagar tributo a Roma, e quase ter morto o bispo quando soube do seu acto goécio ou de magia negra, obrigando-o a levantar a maldição, e a seguir nomeando um bispo negro, isto é, moçárabe do rito hispânico (visigótico), para a Diocese de Coimbra[17]. Desta maneira, D. Afonso Henriques inverteu o papel universal da Igreja Ministrante de Roma sobre a Igreja Ministrada de Portugal: fez esta última Igreja Ministrante desde Coimbra, impondo-a a Roma diminuída Igreja Ministrada, evocando os Santos Apóstolos Tiago e Pedro para a sua defesa política e teológica, dando como pretexto maior o de São Pedro fundar o Ministério Romano só depois de Santiago já ter fundado o Ministério Galaico.

É do conhecimento universal a espiritualidade esclarecida de D. Afonso Henriques a par do seu equitativo senso de justiça, pautando a sua existência como real “cavaleiro-monge”, cumpridor estrito de todas as normas de Cavalaria e Religião coevas do seu tempo. Estabeleceu-se em Coimbra, onde andou de relações próximas com a Ordem Terceira dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, da Regra de Santo Agostinho, onde foi recebido a 14 de Setembro de 1136. A cerimónia teve lugar na Casa do Capítulo, perante 72 cónegos, tendo pregado D. João Peculiar, comparando o novo irmão ao imperador bizantino Heráclio, no século VI, o qual, revestido com hábitos sacerdotais, transportou o Santo Lenho até Jerusalém em procissão. Com isso, associou a real pessoa de D. Afonso I ao próprio Melkitsedek, o Rei do Mundo e Sumo Pontífice do Altíssimo, neste caso, legítimo imperador de toda a Hispânia a quem Cristo aparecido em Ourique sagrou e à sua terra portuguesa. Também se sabe do seu entendimento aprofundado das leis de Cavalaria e Teologia, nisto tendo fundado, com o posterior reconhecimento papal, tanto a Ordem de São Bento de Avis quanto a de São Miguel da Ala, e, diz-se em sussurro, igualmente fundado uma misteriosa Ordem de Mariz, com os mais esclarecidos e iluminados das três religiões do Livro, assumindo o sacerdócio do Eterno.

Falecido em 1185, o primeiro túmulo de D. Afonso Henriques terá sido colocado no nartex da igreja de Santa Cruz de Coimbra, e logo todas as classes sociais do país começaram as romarias aos seus despojos mortais aclamando-o unanimemente rei santo, a quem foram atribuídos inúmeros milagres que ficaram registados nas crónicas dos cistercienses de Alcobaça. Posteriormente, o rei D. Duarte mandou ornar o túmulo do seu antepassado com um riquíssimo dossel de seda e ouro[18], e o rei D. Manuel I encetou junto da Santa Sé a rogativa de elevação de D. Afonso Henriques aos altares da santidade (só se o vê com auréola de santo sobre o altar-mor da igreja dos agostinhos da Senhora da Graça, em Lisboa), processo que decorre até hoje[19].

Ao ciclo afonsino poderão imputar-se as seguintes virtudes originais, que são amplexos, e os modernos defeitos originados, que são complexos:

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): INDEPENDÊNCIA e FORTALEZA.

DEFEITO originado (COMPLEXO): DEPENDÊNCIA e FRAQUEZA.

III

Saltando no tempo e espaço historiográficos, chega-se ao momento mais importante da afirmação (não da formação, que essa já estava feita) da Identidade Nacional no Mundo: o período das Descobertas Marítimas, ou seja, o da Gesta Dei per Portucalenses.

O projecto de expansão de Portugal no Mundo não se deveu só a exclusivos propósitos de comercialização ou de evangelização das terras e povos aonde chegou e acabou impondo-se a soberania portuguesa. Creio que isto é óbvio, mesmo com os factores geopolíticos, militares e socioeconómicos, como igualmente os religiosos, serem imprescindivelmente partes vitais da Diáspora da Língua e consequente formação do Império Português nas várias partes do Globo. Esse projecto civilizacional inter-continentes iniciado com a Ordem do Templo e formalizado pela Ordem de Cristo herdeira prosseguidora dessa, implicava o exercício simultâneo, interligado mas todavia distinto, dos dois Poderes Espiritual e Temporal da forma seguinte:

Império Português no Mundo

Autoridade Espiritual
(Autoritas)

– Presença missionária dos oratores ao início exclusivamente franciscanos, ao serviço da bellator Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo.

– Fundação de dioceses criando redes paroquias, viabilizando a acção pastoral.

– Manutenção das boas relações religiosas com a espiritualidade própria dos povos dos países onde chegassem, exercendo a actividade pastoral tendo sempre presente, para evitar conflitos de crença e catequese com os autóctones, os dois princípios seguintes:

– Concórdia e respeito mútuos.

– Difusão do espírito fraternal.

– Reconhecimento, independente da forma e nome dados, ou seja, da substância teológica, da essência de um Deus Único: fundamento da Diáspora Espiritual.

Poder Temporal
(Potens)

– Presença contratada de mestres de ofício e serventes, mão-de-obra especializada, ao serviço da Ordem de Cristo.

– Presença emigratória, destinada a povoamento e (ou) miscigenação, de jornaleiros (trabalhadores à jorna), assoldadados rurais que, não tendo antes património próprio, tinham a oportunidade de lavrar terra sua e apascentar gado seu.

– Contingência militar que deveria ser simultaneamente política e diplomática:

– Defesa do seu património.

– Respeito ao património alheio.

– Intercâmbio comercial e sobrevalorização da economia: fundamento da Diáspora Temporal.

Essas são as linhas gerais do processo simultâneo da diáspora civilizacional e da conquista espiritual do Mundo, ou seja, mais uma vez, a Gesta Dei per Portucalenses[20].

A partir dessas linhas gerais podem desenvolver-se outras múltiplas, inclusive as que levaram a usos e abusos colonialistas, mesmo xenófobos por alguns, esses que foram excepções mínimas ante o máximo da regra geral de concórdia e respeito de Portugal para com os outros povos. Decerto por isso ainda hoje o procuram como conselheiro e apoio político e sócio-cultural, o que não acontece com as demais antigas potências colonialistas europeias pelos colonizados por elas. Deve atender-se ao seguinte: os colonos portugueses não levaram colonização às partes do mundo aonde foram: levaram civilização, acrescendo-a às civilizações autóctones, e assim aumentaram e fizeram progredir a civilização humana. Entre colonização e civilização há diferença abissal, que é tudo.

A tentativa espúria de alguns historiografistas e filodoxistas contemporâneos, repletos de óbvias e assumidas tendências político-partidárias, assim querendo dar partido e personalizar para si factos históricos, desconhecendo o que pensavam quem os projectou e efectivou, peca e falha redondamente nisso mesmo: o tendenciosismo pessoal pretendendo limitar factos históricos às políticas particulares de quem os observa, as mesmas desenquadradas das épocas em que aqueles aconteceram e dos momentos que alguns, por seu impacto, foram verdadeiramente universais, por a sua política e religião estarem envolvidas num processo inter-continentes, e para que houvesse vitória nesse processo, obrigatoriamente teria de haver ecumenismo, sentido prático verdadeiramente universal. Se assim não tivesse sido, como seria possível que um pequeno país como era Portugal em Quatrocentos, com cerca de meio milhão de habitantes activos, poderia ter se conseguido se impor no Mundo?

Donde se subtrai o original e o originado das virtudes e defeitos:

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): EXPANSÃO e TOLERÂNCIA.

DEFEITO originado (COMPLEXO): CONTRACÇÃO e INTOLERÂNCIA.

IV

Quando o País entorpece nas suas forças vitais e a força centrípeta começa a prevalecer sobre a centrífuga, o que foi perceptível no reinado de D. João III e palpável no de D. Sebastião, cuja conse-quência seria a perda da independência nacional, com isto o Providencialismo messiânico ampliou-se de tal forma que o Sebastianismo vermelho, modo encapotado de fazer política contra a Espanha ocupante, foi ocupação permanente dos autores e intelectuais portugueses, com destaque para o padre António Vieira. Recuperada a independência nacional tendo finalmente aparecido o “rei desejado” após “os 60 anos fatais”, ou seja, o duque de Bragança eleito rei D. João IV, fez-se o Sebastianismo branco, esclarecido, teosófico, simbólico não de um rex temporalis mas de um rex spirituallis, o Rex Animas Piscatoris, como o entendiam os sefarditas ibéricos ao lado dos bernardos e bentos, como igualmente os eruditos mais reputados, cuja prosa brilhante valeu para muitos a subida ao prelo e edição.

Com efeito, a D. João IV o povo recém-liberto aclamou “D. Sebastião reaparecido”, isto por o Sebastianismo ter se constituído a religião nacional durante o jugo Filipino. “D. Sebastião reaparecido” devolvendo ao reino a sua independência junta com a promessa de restauração do império. Ele era o messias nacional que durante os longos e tenebrosos 60 anos de ocupação o povo reclamara. Assim se iniciou o Sebastianismo nacionalista, não raro com repúdio do Sebastianismo espiritualista. O que importava e só era o rei desejado, e esse rei era D. João IV, encoberto então descoberto às esperanças de Portugal todo… Isso viria a acontecer também com outros, em momentos de crise nacional, como D. Pedro II, D. João V, D. José I, D. Carlos I, D. Manuel II e até o presidente republicano Sidónio Pais, todos eles retratados como “D. Sebastião” salvador da pátria nos períodos de maior perigo para a sua identidade e independência.

Mas o Messianismo, com origem judaica, já existia em Portugal desde muitos séculos antes do nascimento de D. Sebastião, alimentando a crença esperançosa no regresso do Rei Desejado de Israel, que cedo se tornaria a de o Messias nacional, patriótico. Essa crença veio a ser fixada na pessoa de algum predestinado da Casa de Bragança. Com efeito, no século XVII, Manuel Bocarro Francês, português de ascendência judaica, também chamado Jacob Rosales (Lisboa, 1588 ou 1593 – Florença, 1668), matemático, médico, alquimista e astrónomo, anunciou o “regresso do rei salvador” baseado em sinais celestes, isto é, fazendo recurso à astrologia, como consta nas suas Anacefaloses da Monarquia Lusitana (Lisboa, 1624). Bocarro não era um sebastianista “ortodoxo”, posto não acreditar na vinda do próprio D. Sebastião, mas num seu continuador em alguém com o sangue da sua raça, da sua linhagem[21].

Como disse, Bocarro publicou em 1624, em Lisboa, um longo poema em 131 oitavas, intitulado Anacefaleoses da Monarquia Lusitana, que dedicou a Filipe III de Portugal[22]. Mas o carácter sebastianista da obra tornou o autor suspeito aos olhos de Espanha, que então dominava em Portugal; dividida em quatro partes ou estados, cantava no Estado Astrológico esperanças de glória e de império universal. A obra publicada acabou por ser apreendida, juntamente com o manuscrito da Anacefaleose IV, dedicada a D. Teodósio, duque de Bragança, pai do futuro D. João IV. Bocarro via em D. Teodósio o Encoberto:

“…………………………………………..

Obrigação te nasce de amparares
Sereníssimo Duque, o Império Triste

…………………………………………….

Eu o uy, Luzitanos, não me engano
Já temos ao Monarcha descoberto
Alviçaras me dai do soberano.”

Apreendida a obra, Manuel Bocarro foi preso mas libertado pouco tempo depois. Retirou-se para Itália, onde fez publicar a Anacefaleose IV, com o título de Luz Pequena Lunar e estelifera da Monarquia Lusitana. Aí explica os prognósticos feitos anteriormente, e garante a vinda do Príncipe Encoberto em menos de um século após o nascimento de D. Sebastião (Paço da Ribeira de Lisboa, 20 de Janeiro de 1554), portanto, até 1654.

Com a Restauração, em 1 de Dezembro de 1640, procurou-se confirmar toda a série de prognósticos feitos anteriormente. As Trovas do Bandarra, outrora proibidas, passaram a ser o texto anunciador da libertação nacional. A figura do Bandarra passou a estar exposta, como se de um santo se tratasse. Já em 1641, D. Álvaro de Abranches, governador da Beira, mandara levantar na igreja de S. Pedro da vila de Trancoso novo sepulcro para Gonçalo Anes de Bandarra, dando-lhe honra póstuma.

A edição de Nantes das Trovas (1644), feita por D. João de Castro, da família dos Castros de Sintra e neto do vice-rei da Índia do mesmo nome, constitui uma interpretação bragantina do messianismo sebastianista. Nela se pretende identificar o Encoberto com D. João IV, como se conclui do seu comentário introdutório: “Conclui-se logo com toda a certeza, e moral evidencia, que El Rei D. João O IV., nosso Senhor he o esperado, e tão desejado Rei Encuberto, de quem Santo Isidoro fallou na era de 636, escrevendo muitas couzas futuras de Hespanha, e Bandarra tantas vezes repitiu”.

Mas será o padre António Vieira (Lisboa, 6 de Fevereiro de 1608 – São Salvador da Bahia, 18 de Julho de 1697), orbitando entre o Sebastianismo espiritual e o Sebastianismo político, acaso ou decerto sabedor do sentido último ou primaz da doutrina do Messianismo recambiando-a para a Parúsia, quem teve maior e mais destacado papel nesse contexto após a Restauração. Depois da morte de D. João IV em 1656, o p.e António Vieira afirmou, num sermão pregado em São Luís do Maranhão, Brasil, que D. João IV teria de ressuscitar para operar prodígios, e nisso se apoiou na autoridade profética do sapateiro Bandarra. Era uma ideia que já demonstrara num sermão em vida do rei, a qual posteriormente ficou documentada no escrito intitulado Esperanças de Portugal, Quinto imperio do mundo, primeira e segunda vida de el rei D. João o quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo padre António Vieira[23]. Falou, portanto, na “segunda vida” de D. João IV e citou como autoridade principal o Bandarra.

O citado escrito do p.e António Vieira (integrando um pequeno escol de jesuítas iluminados pelo saber esotérico rabínico, ao mesmo tempo imbuído de forte pendor nacional ou patriótico, deixando em plano secundário o secular da regula ordinária da Companhia), valeu-lhe um processo movido pelo Tribunal do Santo Ofício, que em 1 de Outubro de 1665 prendeu-o nos cárceres de Coimbra, desapiedado da sua saúde frágil. Levando à letra o imediato desse texto, foi acusado de anunciar a ressurreição de D. João IV, apoiado no Bandarra, e de augurar para aquele rei um império ao mesmo tempo espiritual e temporal, de grandeza jamais sonhada, cuja cabeça seria Portugal. As tentativas de Vieira para se defender foram vigorosas e demonstraram profundo conhecimento teológico, argúcia e técnica retórica; o inquisidor Alexandre da Silva, encarregado dos interrogatórios, teve de defrontar a sua derrota perante uma inteligência lúcida servida por poderosa dialéctica, que a doença não chegava para destruir[24].

No seu processo constam as seguintes informações:

Idade: 55 anos

Crime/Acusação: proposições heréticas, temerárias, mal-soantes e escandalosas.

Cargos, funções, actividades: religioso professo da Companhia de Jesus.

Naturalidade: Rua dos Cónegos, freguesia da Sé, Lisboa.

Morada: Coimbra.

Pai: Cristóvão Vieira Ravasco, fidalgo da Casa Real.

Mãe: D. Maria de Azevedo.

Estado civil: solteiro.

Data da apresentação: 21/07/1663.

Data da prisão: 01/10/1665 (cárcere da custódia).

Sentença: auto-da-fé privado de 23/12/1667. Privado para sempre de voz activa e passiva e do poder de pregar, recluso no Colégio ou Casa de sua religião, de onde não sairia sem termo assinado pelo Santo Ofício, assinar um termo onde se obrigava a não tratar mais das proposições de que foi arguido, nem por palavra nem por escrito, pagamento das custas.

A leitura da sentença, sexta-feira de 23/12/1667, na Sala da Inquisição, demorou duas horas e um quarto, e no dia seguinte a mesma foi lida no Colégio. O réu, por motivos de saúde, foi autorizado a abandonar a sua reclusão no Colégio de Coimbra e a ir para a Casa do Noviciado de Lisboa. Por súplica do provincial da Companhia de Jesus, dirigida ao Santo Ofício, foi solicitada a anulação e perdão das penas que lhe foram impostas. Este pedido foi aceite por despacho do Conselho Geral do Santo Ofício, de 12/06/1668. A 30/06/1668, o réu foi chamado à Casa do Despacho da Inquisição de Lisboa, onde lhe foi comunicado o respectivo perdão e assinou o seu termo[25].

Em Agosto de 1669, o padre António Vieira partiria para Roma com licença do rei, e daí regressou de vez ao Brasil, a São Salvador da Bahia onde o Geral da Companhia tinha a sua Casa.

Como disse, o seu propalado Quinto Império era considerado simultaneamente espiritual e temporal, com cabeça em Portugal, para assim puder abarcar inteiramente a unidade universal da Humanidade. Passa, portanto, de um Sebastianismo bragantino e político para um mais lato e puro Sebastianismo universal e espiritual, cuja retórica é profética do Futuro.

Gentios, pagãos, judeus, etc., todos indistintamente adorariam ao mesmo Senhor Deus do Universo, esse que é também o ensejo da Cristandade como parte inclusa da Espiritualidade universal partícipe da Promessa de Advento do Messias ou Avatara Único, o qual é esperança colectiva dos crentes que haverá de reinar sobre todos os povos da Terra na Sua Idade de Espírito Santo. Com efeito, a utopia ou “algo por realizar” – aposto da distopia que varre hoje o mundo – do Quinto Império deslumbrou o pensamento geo-parúsico do padre António Vieira, inserta no tema translatio imperii, e sobre ele dissertou largamente. As suas cartas e sermões de fundo profético ocuparam quase toda a sua vida e as considerou a sua obra principal. Nos escritos (incompletos) que constituem a sua História do Futuro, este iluminado religioso sebástico anuncia o advento de um V Império Lusitano na História do Mundo havendo de suceder, lógica e necessariamente, aos quatro anteriores: Império Assírio-Babilónico, Império Persa, Império Grego e Império Romano, neste em cujos prolongamentos românicos em formalismo ainda se vivia no seu tempo. Baseia-se constantemente na autoridade dos textos sagrados:

“Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem duvida, tiradas de differentes lugares de textos sagrados que vão citados à margem, e o não pusemos no corpo da História por não embaraçar o desenho dela (…) o que resta e importa mostrar he que haja de aver sem duvida este novo e prometido Império a que chamamos quinto.”[26]

António Vieira, aliás, sempre sublinhou a autoridade dos Profetas, dos quais tinha largo conhecimento, claramente demonstrado nos seus numerosos sermões. A profecia encerra, para ele, a verdade histórica mais pura[27], isto é, a superius cognoscio aparelhada com a intuitio, a pura inteligência espiritual.

Numa época onde a poesia era apenas “arte florida que pede sujeitos floridos em anos florescentes”, no dizer de Francisco Manuel de Mello[28], o profeta ganhou autoridade indiscutível; a palavra do futuro pertence unicamente ao poeta-profeta, ao vate, nunca só ao poeta que é apenas construtor de hipérboles.

Na literatura messiânico-política do século XVII, o padre António Vieira não foi exclusivamente um intérprete do Sebastianismo bragantino. Neste contexto ele foi, em rigor, um joanista, cuja importância política para a época realçou depois assumindo a sua real natureza de sebastianista. Portanto, o padre Vieira nem sempre foi joanista – começou por ser sebastianista, como prova o seu Sermão de S. Sebastião pregado na igreja do mesmo santo em Acupe (Bahia), em 1634, repleto de alusões ao rei vencido de Alcácer-Quibir. Para terminar, através do mito do Quinto Império dos Lusitanos, cuja criação setecentista apoia-se em profundo saber teológico e vasto conhecimento bíblico e da História Universal, o padre António Vieira, por excelência “príncipe da Língua Portuguesa” como o consigna Fernando Pessoa, o Paiaçu dos índios brasileiros oprimidos ou o “Grande Pai”, é quem inaugura o ciclo do Sebastianismo espiritual ao estabelecer a aliança da Profecia à História.

Para entender-se o sentido mais profundo de império, conforme a consignação do padre Vieira que tomara o tema de Manasseh Ben Israel, ou seja, o madeirense Manuel Dias Soeiro, rabi-mor da Sinagoga de Amesterdão, torna-se obrigatório recorrer à versão que a Tradição Primordial ou Iniciática das Idades dá dele. Ora, segundo o autor, a História Universal reparte-se por 5 Tempos ou Impérios, correspondentes aos grandes Períodos ou Idades Planetárias por que passou, passa e passará o Mundo. Assim:

I IMPÉRIO (PERSA) – SATYA-YUGA (IDADE DO OURO)

II IMPÉRIO (ASSÍRIO) – TETRA-YUGA (IDADE DA PRATA)

III IMPÉRIO (GREGO) – DWAPARA-YUGA (IDADE DO BRONZE)

IV IMPÉRIO (ROMANO) – KALI-YUGA (IDADE DO FERRO)

V IMPÉRIO (PORTUGUÊS) – KRITA-YUGA (IDADE DO OURO)

Essa última Idade do Ouro, zodiacalmente correspondendo a Aquarius, consciencialmente nascendo e desenvolvendo-se cada vez mais, tradicionalmente considera-se ter início em Lisboa-Sintra (Portugal) e desfecho em São Lourenço-Minas Gerais (Brasil), a “Nova Lusitânia” como é consignada por Pedro de Mariz, no século XVII, nos seus Diálogos de Vária História.

Portanto, os assinalados Impérios têm mais a ver com Idades Planetárias e respectivos estados de consciência, adquiridos e desenvolvidos ao longo das mesmas, do que propriamente com impérios geográficos político-económicos nascidos da força das armas, e que pelas armas foram derribados, reduzidos a escombros… valendo o que valeram.

Correspondendo a estados de consciência e respectivos níveis de coexistência, então esses Impérios falados, cantados, prosados e escritos pelos Maiores da Raça dos Lusos, poderão expor-se nessa outra tabela de correlações afins a uma geosofia sebástica:

I IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA FÍSICA – PLANO FÍSICO (PRITIVI, TERRA)

II IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA VITAL – PLANO ETÉRICO (APAS, ÁGUA)

III IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA EMOCIONAL – PLANO ASTRAL (TEJAS, FOGO)

IV IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA MENTAL – PLANO MENTAL (VAYU, AR)

V IMPÉRIO – CONSCIÊNCIA ESPIRITUAL – PLANO CAUSAL (AKASHA, ÉTER)

O Messianismo gerou o Sebastianismo e o Sebastianismo gerou o Messianismo Nacional, na pessoa ideal de um rei iluminado, no caso, D. Sebastião que não morrera, antes desaparecera!…

O Messianismo hispânico é fruto do Profetismo judaico, fenómeno importante no século XVI português. Ilustram-no figuras bem conhecidas, como Gonçalo Anes, por alcunha o Bandarra, Luís Dias, alfaiate de Setúbal, e Simão Gomes, o sapateiro santo, este que inclusive foi visitado em sua oficina por personagens do mais alto coturno, nomeadamente D. Sebastião que o fez seu conselheiro. Por ordem régia do monarca tomou parte no Conselho de Estado que se reuniu em Almeirim, onde desenvolveu tão atilados alvitres, com visos proféticos, que logo foram postos em prática com grandes vantagens, como conta o seu cronista, o p.e Manuel da Veiga, da Companhia de Jesus, em Tratado da vida, virtudes e doutrina admiravel de Simão Gomes, portuguez, vulgarmente chamado o sapateiro santo. O livro teve tanta extracção que se fizeram quatro edições em Lisboa, correspondentes aos anos de 1625, 1673, 1723 e 1759. Esta obra estaria em conformidade às pretensões jesuítas de encetar cruzada a África, a que se opunha vivamente a Ordem Terceira de São Francisco. O frade guardião do rei D. Sebastião, que o acompanhava por toda a parte e o protegia das más influências com alvitres ajuizados, frei Salvador da Torre, atreveu-se mesmo a aconselhá-lo publicamente, em pleno sermão na capela real do Hospital de Todos os Santos, a desistir de ir a África. Isso valeu-lhe o desterro para a casa religiosa que ficasse mais longe de Lisboa: o Convento da Piedade dos franciscanos do Cabo de São Vicente, no Algarve.

Já antes, no início do século XVI, o profetismo parúsico afim ao milenarismo revelava-se bastante activo: Isaac Abarnavel, rabi-mor do Reino e conselheiro de D. Afonso V, anunciara para 1503 a vinda do Salvador, cedo associado a D. Manuel I, o Venturoso. Em contrapartida, em 1502, em Ístria, um aventureiro de sangue judeu com rasgos de profeta afirmou ser o Messias Salvador e dos homens e Regenerador das nações, o que perturbou a população judaica de Itália, devendo a notícia ter chegado ao nosso país. Em Portugal, um contemporâneo de Bandarra, o alfaiate Luís Dias, de Setúbal, fez crer que era o Messias e acabou no fogo, condenado pelo Tribunal da Inquisição de Évora, em 1542. Em 1526, chegou a Portugal um outro judeu messianista, David Rubeni, que veio anunciar a próxima chegada do Redentor. Diz-se que até fora chamado por D. João III e que seria o chefe condutor dos hebreus à Terra Prometida. A sua influência foi tão grande que muitos cristãos-novos voltaram a adoptar as velhas crenças, embora a maioria deles nunca as tivesse abandonado, sendo apenas cristãos-novos de nome e por conveniência. Um célebre discípulo de David Rubeni foi Diogo Peres, que se converteu ao judaísmo com o nome de Salomão Malco. Viajou, cultivou-se, criou fama em toda a Europa e, segundo consta, chegou a ser recebido pelo próprio Papa.

De há muito que os sefarditas hispânicos perseguiam a ideia de edificação da Nova Israel e do III Templo de Salomão, conformada à visão do Profeta Ezequiel, onde se entroncaria o “Rei-Messias” na parte mais ocidental da Europa, ou seja, Portugal. A Ordem dos Templários também perseguiu essa ideia da Nova Jerusalém, e o cisterciense da Calábria, Joaquim de Flora, deu-lhe forma no seu Evangelho do Futuro. Tratava-se, afinal e tão-só, pondo de lado os floreados simbólicos da prosa, da trasladação da “Arca Santa” da Sabedoria Tradicional das Idades do Oriente ao Ocidente, conformada à Lei dos Ciclos de Evolução e à Marcha Processional do Género Humano.

Fica assim demonstrado que a tradição do Rei Encoberto é muitíssimo anterior às coplas do Bandarra, e que teria passado de Espanha a Portugal por via do profetismo judaico colando-se ao cristão. Textos divulgados em 1520 (lendariamente baseados em Santo Isidoro, bispo de Sevilha no século VII) já falam do “rey encubierto”. Também na monarquia de Carlos V, que não agradava à maioria do povo, previa-se a sua ruína e falava-se de um chefe novo, que seria um príncipe português! São os seguintes os textos dessa esperança messiânica:

1. Coplas de Frei Pêro de Frias, Valência, 1520, anunciando “un rey que non se descubre…”.

2. Coplas de Frei João de Rocacelsa (religioso beneditino aragonês), que também se referem ao rei encoberto.

3. Profecias de Santo Isidoro, que corriam em toda a Península.

As profecias desse bispo relativas ao Encoberto, são citadas por D. João de Castro na Paraphrase às Trovas do Bandarra, nas quais o Messianismo adquire a forma definitiva de Sebastianismo.

As fontes gerais das Trovas do Bandarra, são:

1. As Sagradas Escrituras.

As Trovas acusam um fundo de messianismo judaico indiscutível. Bandarra confessa ter como fonte principal da sua autoridade profética as Profecias de Daniel e Jeremias:

CLVIII

Tudo quanto aqui se diz,
Olhem bem as Profecias
De Daniel e Jeremias
Ponderem nas de raiz.

2. O mito do Encoberto, oriundo de Espanha.

A crença no Encoberto veio de Espanha (vários “Encobertos” haviam surgido em Valência); as fontes particulares que a difundiram foram as Coplas de Pêro de Frias e as de João de Rocacelsa (1520), como se viu.

3. Lendas e profecias peninsulares.

A lenda alegórica “do leão e do porco”, ou seja, do rei cristão e do mouro infiel, onde se detectam vestígios da lenda de Merlim na qual, segundo Lúcio de Azevedo, originou-se essa alegoria:

LXXV

Já o Leão he experto
Mui alerto.
Já acordou, anda caminho.
Tirará cedo do ninho
O Porco, e he mui certo.
Fugirá para o deserto
Do Leão, e seu bramido,
Demonstra que vai ferido
Desse bom Rei Encuberto.

Profecias atribuídas a Santo Isidoro de Sevilha (século VII), que por sua vez estão na base das Coplas de Pêro de Frias e de João de Rocacelsa, e são uma das fontes que alimentam o mito do Encoberto. A estas profecias refere-se D. João de Castro na Paraphrase.

4. Reminiscências de lendas arturianas.

O rei Artur, que haveria de voltar da Ilha das Maçãs ou dos Pomos d’Oiro, Avalon, de há muito era conhecido na tradição erudita e popular portuguesa. Houve em Portugal um período de acentuada preferência pelos romances de cavalaria do ciclo arturiano. Recorde-se a epopeia graalística da época do Condestável Santo e dos 12 Palmeirins de Inglaterra (dos quais Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço, seria natural do Trancoso, terra do Bandarra ou Bandurra[29]), celebrizados por Camões que certamente se inspirou na portuguesa Ala dos Namorados, como esta se terá inspirado naquela bretã Távola Redonda.

CIV

Este Rei de grão primor,
Com furor,
Passará o mar salgado
Em um cavalo enfreado
E não sellado,
Com gente de grão valor.

Será o padre António Vieira quem, de maneira decisiva e para sempre, associará o Rei Encoberto, figurativo do Preste João, neto de Titurel e primo de Parsifal, a D. Sebastião, tornando-o Rei Desejado e até santificado, ao associá-lo ao santo do mesmo nome, o que aliás se conformava à empresa e divisa do monarca: a seta hagiológica e a frase latina Pro Fide. No já referido Sermão de S. Sebastião, pregado por ele na igreja de Acupe, Bahia, em 1634, funde num só o Sebastião rei e o santo homónimo:

“Divino Sebastião encoberto, bem-aventurado na Terra, e descoberto defensor que sempre fostes deste reino no Céu: ponde lá de cima os olhos nele, e vede o que não poderá ver sem piedade, quem está vendo a Deus; vereis pobrezas e misérias, que se não remedeiam; vereis lágrimas e aflições, que se não consolam; vereis fomes e cobiças, que se não fartam; vereis ódios e desuniões, que se não pacificam. Oh como serão ditosos e remediados os pobres, se vós lhes acudirdes: Beati pauperes! Oh como serão ditosos e aliviados os aflitos, se vós os consolardes: Beati qui lugent! Oh como serão ditosos e satisfeitos os famintos, se vós os enriquecerdes: Beati qui nunc esuritis! Oh como serão contentes os odiados e desunidos, se vós os concordardes: Beati estis cum vos oderint homines! Desta maneira, Santo glorioso, por meio de vosso amparo conseguiremos a bem-aventurança encoberta desta vida, até que por meio da vossa intercessão alcancemos a bem-aventurança descoberta da outra: Ad quam nos perducat.”[30]

Parece-me que António Vieira, sob os predicados teológicos e bandárricos (nisto inclusive servindo-se de textos sebásticos da Biblioteca do Carmelo de Santo António de Cascais[31]), adivinhava já ou tinha conhecimento directo do plano secreto urdido pelos quarenta patriotas conjurados para a Restauração de 1640. É assunto que deixo à análise de quem o queira aprofundar, porém, com uma pista: muitas das conjuras nacionalistas contra a ocupação filipina de Portugal foram secretamente preparadas no Brasil, por influência da política patriótica jesuíta favorável à restauração da independência nacional.

Não admira que as Trovas do sapateiro de Trancoso trouxessem as populações da Beira (onde se aglomeravam comunidades de judeus convertidos) em grande alvoroço. A intervenção do Santo Ofício prova o perigo que elas representavam, tendo então sido proibidas. Com tudo, o valor das Trovas não está em ser documento do messianismo judaico em Portugal: está, sim, na sua transmutação em documento da crença sebastianista. Ao serem “sebastianizadas”, as Trovas tornaram-se o texto fundamental do Sebastianismo, inicialmente alimentando o patriotismo dos portugueses de Quinhentos e Seiscentos e dos homens da Restauração, e depois ficando como base de toda a literatura sebastianista.

Com o êxito da Restauração uma imagem do Bandarra foi exposta na Sé de Lisboa, como se fosse um santo, e as Trovas foram adaptadas de maneira a convirem a D. João IV. O Sebastianismo tornou-se arma política que serviu para apoiar os restauradores da Independência. Durante todo esse período, houve significativa actividade editorial de literatura profética. Depois, nas horas de crise das invasões francesas, a renovação do Sebastianismo tornou a ser a resposta do inconsciente colectivo, provocando as mais complicadas interpretações das profecias sebastianistas.

A literatura culta (de Luís Augusto Palmeirim, Almeida Garrett, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, para citar só alguns) interessou-se pela figura do Bandarra, imortalizando-o como imagem central do Profetismo sebastianista, e na literatura popular é possível, provavelmente ainda hoje, detectar a mesma presença do Bandarrismo.

As Trovas do Bandarra, historicamente anteriores ao próprio nascimento de D. Sebastião por englobarem uma colectividade de profetas, a maioria populares, designada por Bandarrismo, tornaram-se o primeiro documento político da crença sebástica após a perda da independência nacional. Posteriormente, passaram a servir o messianismo político português em sucessivos períodos que adentraram o século XX e deram realce sebástico ao “rei-presidente” Sidónio Pais[32].

De facto, pode dividir-se a história das Trovas em períodos ou ciclos segundo a descrição de Álvaro Rodrigues de Azevedo, Dic. Univ. Português (vol. II, 1887), que aqui resumo:

Período Messíaco (1500-1578): vida do Bandarra, composição das Trovas (fase genuína); circulação das Trovas clandestinamente; perda do texto autêntico; aparecimento de vários textos, com mais ou menos inovações e alterações (fase apócrifa). Este período Messíaco é uma fase do Messianismo judaico baseado em textos bíblicos, e ainda não é Sebastianismo.

Período Sebástico (1578-1640): as Trovas ganham popularidade e apoderam-se da esperança messiânica em volta do regresso de D. Sebastião desaparecido em Alcácer-Quibir (interpretação sebastianista das Trovas). O grande intérprete: D. João de Castro (Paraphrase, 1603).

Período Bragantino (1640-1652): transposição do mito do Encoberto de D. Sebastião para D. João IV (edição das Trovas em Nantes, 1644, base das posteriores edições de 1809 e 1866).

Período do Quinto Império (1652-1750): doutrinação do p.e António Vieira referente ao Quinto Império (Esperanças de Portugal, V Império do Mundo, História do Futuro).

Período de Repressão Pombalina (1750-1799): várias correntes de sebastianistas, com ideias diferentes, provocando inquietação, levam à acção repressiva do marquês de Pombal.

Período do Século XIX (1799-1866): interpretação do Sebastianismo sob pressão das invasões francesas. Reacção anti-sebastianista expressa no opúsculo de J. Agostinho de Macedo, Os Sebastianistas (1810). Edições das Trovas de 1809 e 1866.

O mito do “Rei Salvador” tomou várias feições durante a 4.ª Dinastia. Em volta de D. João IV, como se viu, teceu-se uma complicada rede de doutrinas político-messiânicas com o fim de apoiar a Restauração. D. Afonso VI e os reis sucessivos – D. Pedro II, D. João V e D. José I – foram ainda testemunhas e objecto de interpretações messiânicas. No reinado de D. João V aumentaram os sebastianistas: uns intelectuais de foro simbólico-hermético concentrados na figura régia[33], e outros políticos descontentes com o governo da nação[34]. No tempo de D. José I, várias seitas de sebastianistas provocaram agitação e desordem: uns foram os sebastianistas ortodoxos ou puritanos, apoiados nas antigas profecias[35], e outros os chamados singelistas ou jacobeos, continuadores das ideias do Quinto Império mas sob chancela romana, antes, jesuíta, que ao início foram dirigidos por um certo Gaspar da Incarnação, e depois pelo próprio bispo-conde de Coimbra, D. Miguel da Anunciação. Algumas falsas interpretações do Bandarra iam directas ao próprio Ministro do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, o novo “encoberto” a descobrir… Não esteve o marquês de Pombal de acordo com os messianistas de ambas as cartilhas e reprimiu-os severamente. Aos ortodoxos ou puritanos, por em nome da autoridade dos textos sagrados fomentarem a guerrilha armada, de maneira a destruir a presente cabeça da Coroa, que para eles pertencia exclusivamente a D. Sebastião, que a viria retomar. Aos singelistas ou jacobeos, por fomentarem o terrorismo político objectivando o isolamento internacional do Estado português, para que melhor pudesse assumir a sua função geopolítica de Quinto Império do Mundo, com exclusão da palavra universal ou universalista aplicada ao mesmo pelo próprio padre António Vieira. Foi o marquês de Pombal, vendo em tudo isso o dédalo secreto dos jesuítas, quem acabou por mandar picar o epitáfio tumular do profeta de Trancoso, na tentativa vã de apagar a sua memória (não tivesse o Bandarra também prenunciado o seu declínio…).

Mas foi no tempo de D. João VI que a crença sebastianista intensificou-se por motivos de ordem social e política, factores que ficariam para sempre marcando tudo quanto ao Sebastianismo se refere, completamente distado do original Sebastianismo Messiânico simbólico de realidades intemporais e universais, o que transfere para o conceito de Teosofia “Lusitana”, se assim posso definir. A ameaça das invasões francesas, que então abalaram o País de Norte a Sul, provocou um estado de espírito colectivo favorável ao recrudescimento do Sebastianismo. A inquietação, a desconfiança, o temor do inimigo opressor, geraram nova corrente messiânica; esse messianismo tem explicação idêntica ao dos anos pouco posteriores a 1850, justamente porque a mitogenia tornou-se de novo inevitável. Isso gerou o aparecimento, em 1813, de António de Aguiar, demente exaltado que vestido de mouro passeava-se pelas ruas da Baixa de Lisboa, dizendo-se enviado de D. Sebastião[36]. Acusado de provocar tumultos, acabou preso no Limoeiro. Seria dementado, talvez, pela aflição das próprias invasões francesas, mas a crença iluminada em sua loucura não deixou de ser sintoma de reacção nacionalista imersa na mente popular. Por isso, ele arrastou consigo grande número de gente para o miradouro de Santa Catarina, procurando vislumbrar, com as suas lunetas apontadas à barra do Tejo, a nau que traria D. Sebastião, o Desejado, para libertar Portugal do mafarrico francês[37]. Advém daí o dito popular “ficar a ver navios no alto de Santa Catarina”…

No Sebastianismo – nome genérico dado no território nacional ao Messianismo português relativo a D. Sebastião, e, por transposição, a outros Chefes de Estado – têm-se incluído diversíssimos problemas que devem ser diferenciados:

O valor da personalidade de D. Sebastião como homem e como rei (na ética da História, Alcácer-Quibir tornou-se o lugar de juízo do rei, porque vencido)[38];

A batalha de Alcácer-Quibir (o lugar como símbolo da derrota; a derrota como símbolo da decadência; a derrota sublimada em mito de redenção futura pela volta do rei salvador)[39];

A crença no regresso do rei salvador (quer se chame D. Sebastião, D. João IV, D. João VI, D. Miguel ou até Sidónio Pais, o “rei-presidente”)[40].

O Sebastianismo é, pois, um mito messiânico ou avatárico que consiste na espera de um Rei Salvador, entronizado em Portugal mas destinado ao Mundo, idêntico ao Rei-Pescador da tradição arturiana que está, aliás, retratado num quadro de Gregório Lopes (séc. XVI) na igreja de São João Baptista, em Tomar; ele não é de modo algum D. Sebastião, embora este ainda em vida e por via jesuíta fosse elevado, por excelência, a figura messiânica do povo português. A essência do Sebastianismo não está na figura do rei (que lhe deu o nome), mas nos anelos proféticos do que há-de realizar. O Sebastianismo espiritual, simbólico ou teosófico, não preconiza o regresso logicamente improvável do monarca que foi D. Sebastião, e sim o advento do Rei do Mundo investido dos Poderes Espiritual e Temporal que se pretendia aquele tivesse sido – o Encoberto anunciado por Bandarra, que libertaria o povo das misérias e tiraria do mundo a “erronia”, indo enquadrar-se na figura testamental do próprio Melki-Tsedek, consignado “Imperador e Sacerdote Universal”. Daí a injusta intromissão dos qualificativos psicopatológicos aplicados ao rei – não porque ele não os merecesse em grande parte, mas porque nada têm a ver com o messianismo sebástico. As virtudes e qualidades do D. Sebastião mítico nada têm em comum com o D. Sebastião histórico.

O D. Sebastião-que-há-de-vir ultrapassou e está muito distante e muito acima do D. Sebastião historicamente morto nos fins do século XVI português. Este está morto, desapareceu na batalha impiedosa e desigual em força para os portugueses. Aparte os boatos de “literatura de cordel”, sem nenhuma prova concreta indesmentível, não terá fugido de Marrocos para Roma, para Limoges ou outra parte qualquer da Europa; terá mais coerência pressupor ter sido trucidado na batalha, onde o cerco árabe ao exército português e seus aliados fechou tenaz que impedia qualquer fuga, muitíssimo menos a do monarca cobiçado cabeça-de-armas das forças invasoras. Mas o espectro é mais vivo que o próprio rei; é o que José Régio faz afirmar ao sapateiro profeta, Simão Gomes, no diálogo que este sustenta com D. Sebastião, no poema dramático em três actos intitulado El-Rei D. Sebastião:

“A tua loucura não é senão entreveres o que não entendes. O teu suicídio não será senão a condição da tua vida imorredoira. Vais ficar reduzido a um espectro mais vivo que a tua própria vida! Mais real que tu próprio…”[41]

Essa loucura de que fala Simão Gomes é a que confere ao rei o poder de se projectar nos séculos com um vulto que ele não teve, a mesma que o eterniza, segundo os conhecidos versos de Fernando Pessoa na Mensagem – um D. Sebastião que se realizou somente no plano do sonho e da loucura:

“É O que eu me sonhei que eterno dura.
É Esse que regressarei.”

Observa-se, pois, o mito sebastianista como uma forma encapotada de fazer política em momentos de aflição nacional ou do exercício aberto de políticas repressivas. Pelo contrário, o mito sebástico apresenta-se como expressão viva do ser português e coluna dorsal da própria espiritualidade portuguesa, senão ibérica, transposta à universalidade espiritual conformando o seu entendimento à multivariedade de povos.

É assim que desdigo a hipocondria apátrida dos sustentadores de teses surreais dando três pilares para a História de Portugal: a “origem exemplar”, que é o complexo viriatino manipulado a bel-prazer desde o século XVI até Oliveira Salazar; a “nação superior”, que foi quando Portugal perdeu a independência no século XVII; a “nação inferior”, que foi quando Portugal recuperou a mesma independência e começou a prosperar economicamente; desses três complexos resultou um quarto chamado “canibalismo cultural”, que vem até à actualidade, onde os “canibais” são quantos perfilham da ideia sagrada que assistiu e assiste aos ciclos da História, o que é uma “redunda ignorância e superstição, completamente desfavorável ao esclarecimento e progresso da sociedade”[42]. Esta óbvia inversão dos valores nacionais não é inédita[43], mas é complexo psicossocial obviamente claro até para o leitor menos atento. Fico-me pelas virtudes originais e defeitos originados referentes ao Ciclo Providencialista do Padre António Vieira:

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): ANTEVISÃO e PREVISÃO.

DEFEITO originado (COMPLEXO): NEGAÇÃO e CONTRACÇÃO.

V

Por fim, tem-se o ciclo de modernidade da identidade nacional, podendo situar-se o seu começo no ministério do marquês de Pombal e continuando a desenvolver-se na actualidade, com períodos de retraimento, como o da Guerra Civil portuguesa no século XIX, ou a ditadura da I República que foi a antecâmara do Estado Novo chefiado por António de Oliveira Salazar, que ao assumir-se “absoluto” como os antigos “ditadores romanos”, levou o país ao egocentrismo e centripetalismo do ultramontano “orgulhosamente sós”, factor lunar que não confere com a natureza solar de Portugal, ou seja, centrifugo próprio a uma nação de diáspora desde a primeira hora. Mas esse foi um fenómeno temporário, ainda assim com aspectos positivos, mormente no evitar da Guerra Civil que a I República esteve prestes a despoletar e com isso desagregar o país então atravessando um período de extrema debilidade e inconstância governamental, militar, política-social e económica, nisto sendo repostas as finanças dos seus cofres falidos.

Falando do período pombalino, assim chamado devido ao mais que controverso ministro do rei, mas de carácter e convicções fortes, Sebastião José de Carvalho e Melo (13.5.1699 – 8.5.1782), a sua visão futurista que desejava o progresso do país fosse a que preço fosse, sem dúvida apresenta-o personagem controverso marcante do início da Modernidade portuguesa.

Como parte da nobreza conservadora e do clero tradicional, representado pelos jesuítas, se opunha às reformas sociais do marquês de Pombal, este intentou neutralizá-los, chegando até, diz-se, a engendrar um atentado contra a real pessoa de D. José I, em 3 de Setembro de 1758, mas cuja culpa recaiu sobre a família Távora, próxima da Companhia de Jesus e a principal opositora do “déspota iluminado”. O atentado deu-se nos então arrabaldes de Lisboa, perto de onde está a igreja da Memória, na Ajuda, onde muito a propósito estava o palácio de D. José de Mascarenhas, duque de Aveiro e o mais distinto dos Távoras. Todos os membros dessa família foram presos acusados da tentativa de regicídio, iniciando-se o processo dos Távoras que desfechou com a sua execução selvática, no descampado de Belém defronte ao actual palácio da Presidência da República. Ao mesmo tempo, levou-se a efeito a expulsão dos jesuítas do reino.

Apesar dos Távoras terem negado todas as acusações, foram condenados à morte, os seus bens confiscados pela Coroa, o seu nome apagado da linhagem dos nobres, os brasões familiares picados e proibido pronunciar o nome Távora. A sentença ordenou a execução de todos, incluindo mulheres e crianças. Apenas as intervenções da rainha D. Mariana e de D. Maria Francisca, a herdeira do trono, salvou a maioria deles. A marquesa de Távora, porém, não seria poupada. Ela e os outros acusados que tinham sido sentenciados à morte, foram torturados e executados publicamente em 13 de Janeiro de 1759. A execução teve requintes de selvajaria como nunca se vira: as canas das mãos e dos pés dos condenados foram partidas com paus, as suas cabeças decapitadas e depois os restos dos corpos queimados e as suas cinzas lançadas ao rio Tejo.

O palácio do duque de Aveiro foi demolido e o chão salgado, numa maldição do marquês de Pombal para que ali nunca mais nada crescesse. Mas nesse mesmo ano, D. José I mandou erigir aí um padrão de pedra com cinco anéis esculpidos (correspondentes ao número dos Távoras executados), tendo na base uma lápide referente aos acontecimentos.

Hoje, acaso só alguns saberão onde repousam os restos mortais de Sebastião José de Carvalho e Melo, e menos ainda da saga atribulada dos mesmos. Estão na Ajuda, numa urna dentro da igreja da Senhora do Livramento e S. José, monumento neoclássico de Lisboa construído em 1760, dois anos depois do episódio trágico dos Távoras, que o rei D. José I, cuja hipocondria marcou a sua fraqueza de carácter, faria erguer como voto de gratidão por se ter salvado do atentado cometido contra ele neste lugar, ficando assim conhecida como igreja da Memória.

Quis o destino que os restos mortais do ministro forte de um rei fraco tivessem por última morada esse templo, após uma série de incidentes com os mesmos e com a própria igreja, como se a maldição dos homens revertesse contra eles por Justiça de Deus.

Com efeito, o ministro Sebastião José morreu em Pombal, onde estava desterrado, em 8 de Maio de 1782, envolto no hábito franciscano e com as insígnias da Ordem de Cristo, sendo enterrado na igreja do convento de S. Francisco de N.ª Sr.ª do Cardal. Mas quando se deu a Terceira Invasão Francesa de Portugal, esse convento foi transformado em caserna da soldadesca que, vendo ali o túmulo do grande estadista e na esperança que houvessem valores dentro dele, não hesitou em profaná-lo, arrombando-o e espalhando as ossadas no chão da igreja. Acudiu o general Massena, ordenando a reposição das ossadas no túmulo e que não se mexesse mais nele. Depois, em 1856, o marechal Saldanha ordenou a trasladação das ossadas para Lisboa, ficando o caixão inutilizado em Pombal o qual se considerava uma “relíquia”.

Os restos mortais do marquês de Pombal ficaram na ermida das Mercês, à Rua do Século, onde fora baptizado em 6 de Junho de 1699, num túmulo abandonado que assentava sobre quatro elefantes. Quando se resolveu demolir essa ermida, já no século XX, pensou-se atirar fora o caixão e as ossadas juntas com o lixo da sacristia, mas em 7 de Novembro de 1910 a Câmara Municipal de Lisboa interviu e reco-lheu-as no seu Arquivo. Só em 1923 seriam trasladadas para a igreja da Memória, por iniciativa do quinto marquês de Pombal e de uma comissão republicana presidida pelo maçom Borges Grainha.

A igreja esteve fechada até 23 de Dezembro de 1951, quando um grupo de soldados do Regimento de Cavalaria 7 (almas fortes no amor de Deus), por iniciativa pessoal, reabriu-a ao culto divino, mas voltou a fechar em 1985 ferida gravemente por um raio caído sobre o seu zimbório.

Mesmo não se sabendo se o marquês de Pombal foi membro efectivo da Maçonaria, apesar dos vários indícios afirmando-o iniciado em alguma Loja de Londres ou de Viena de Áustria – nesta cidade sendo quase certo que tomou contacto íntimo com os iluminados da Baviera, apóstolos do “regalismo divino” – quando foi embaixador do nosso país nessas cidades, ainda assim ele permanece como verdadeiro patrono da Maçonaria Portuguesa a que se devem as comemorações dos seus dois centenários, a trasladação das suas cinzas para a igreja da Memória e a erecção da sua estátua monumental em plena rotunda de Lisboa, no Parque Eduardo VII, no cimo da Avenida da Liberdade[44].

Dedicado a Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras e marquês de Pombal, o projecto de construção do monumento lisboeta à sua memória teve início em 1882, por subscrição pública, e em 1914 ficou concluído o projecto assinado pelos arquitectos Francisco Sanches, Adães Bermudes e António do Couto, iniciando-se as suas fundações em 1917 e assente a primeira pedra em 13 de Maio de 1926. Finalmente, no dia 13 de Maio de 1934 o monumento foi inaugurado pelo Presidente da República, general António Óscar Carmona.

Com efeito, quem presidiu à Comissão Executiva da construção da estátua do marquês de Pombal, em 1926, foi o dr. Sebastião de Magalhães Lima (Rio de Janeiro, 30.5.1850 – Lisboa, 7.12.1928), reconhecido maçom que desempenhou as funções de presidente do Conselho da Ordem (1906-07) e depois eleito (1907) Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, cargo em que foi sucessivas vezes reeleito e mantinha quando faleceu. Acumulou-o com o de Soberano Grande Comendador do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite, a que ascendeu em 1907.

De maneira que tendo o dédalo da Maçonaria Portuguesa inspirando a feitura da composição estatuária do monumento, ficou a escultura do mesmo a cargo de Francisco dos Santos que, por sua morte, foi prosseguida por José Simões de Almeida e Leopoldo Neves de Almeida. A ideia seria a erecção de uma Coluna Perfeita que simbolizasse a realização social da Utopia Maçónica, isto é, a edificação de uma Sociedade Humana Justa e Perfeita, na qual o ministro iluminado ficaria como seu expoente máximo. É assim que se o tem no seu topo esculpido em bronze, com a mão esquerda ou passiva apoiada num leão, representando o Poder Temporal sob o seu jugo determinado, ao qual a própria Coroa se submeteu. Está defronte para a Baixa de Lisboa, que mandou reconstruir após o terramoto de 1755.

VIRTUDE original (DESCOMPLEXO): PROGRESSO e MODERNIDADE.

DEFEITO originado (COMPLEXO): REGRESSÃO E CONSERVAÇÃO.

 

NOTAS

 

[1] Miguel Real, A Morte de Portugal. Editorial Campo das Letras, Porto, 2007.

[2] Eduardo Lourenço, O labirinto da Saudade. Psícanálise Mítica do Povo Português. Edições D. Quixote, Lisboa, 1978.

[3] F. da Cunha Leão, O Enigma Português. Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1973.

[4] Pinharanda Gomes, Introdução à História da Filosofia Portuguesa. Editora Pax, Braga, 1967.

[5] Antonio Garcia Bellido, La Peninsula Iberica en los comienzos de su Historia. Editorial Istmo, Madrid, 1985.

[6] Enrique Flórez, Rafael Lezcano González, España Sagrada. Edición de Real Academia de la Historia, Madrid, 1859.

[7] A. Schulten, Viriatus. Neue fahubücher für der Klassicher Altertum, Berlim, 1917.

[8] Maurice Pastor Muñoz, Viriato – o herói lusitano que lutou pela liberdade do seu povo. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006.

[9] Publicado originalmente em Londres em 1849, por William Smith, em três volumes enciclopédicos como Dicionário de Grego e Romano Biográfico e Mitológico.

[10] Adriano Vasco Rodrigues, Os Lusitanos, Mito e Realidade. Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998.

[11] Anselmo Arenas Lopez, Viriatho no fué português sino celtibero. Guadalajara, 1900.

[12] António de Vasconcellos, Viriatho. Coimbra, 1894.

[13] José Leite de Vasconcelos, Cale e Portucale. Opúsculos, Vol. V – Etnologia (Parte I). Lisboa, Imprensa Nacional, 1938.

[14] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2009.

[15] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[16] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Setembro de 2007. Obra reeditada pela Madras Editora, São Paulo, 2011.

[17] Alexandre Herculano, Terceira Crónica Breve – Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, I.

[18] D. Fr. Timóteo dos Mártires, Crónica de Santa Cruz, vol. I. Coimbra, 1955.

[19] Manuel Gonçalves Cerejeira, bispo de Lisboa, D. Afonso Henriques poderá ser beatificado? Revista dos Centenários, ano 1, n.º 8, 31 de Agosto de 1939.

[20] Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004. Obra reeditada pelo autor através da Euedito em Lisboa, 2017.

[21] Pretendeu ter lido nos astros a vinda do monarca, que se daria em 1653. Vd. Lúcio de Azevedo, A Evolução do Sebastianismo, 2.ª ed., p. 55. Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1947.

[22] O poema de Bocarro é longo e sem interesse estético; não pode, no entanto, excluir-se a sua referência, pois insere-se na história do Encoberto português. Anacefaleose significa “recapitulação”; os poemas destinavam-se a recapitular as glórias de Portugal.

[23] Escrito que ele mandou ao Bispo do Japão, André Fernandes, que teve de o entregar ao Tribunal do Santo Ofício.

[24] Padre António Vieira, Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, introdução e anotações de Hernâni Cidade, 2 volumes. Livraria Progresso, Baía, 1957.

[25] Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, Processo do padre António Vieira, 1659-04-29 / 1668-06-30, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 1664.

[26] J. Lúcio de Azevedo, História do Futuro, inédito de António Vieira, com notícia explicativa. Coimbra, 1918.

[27] “Isto que nos poetas é hipérbole, no profeta é verdade pura, e certa sem encarecimento.” – In A. Vieira, Sermões – Sermão da Quinta Dominga da Quaresma. Lisboa, 1655.

[28] Francisco Manuel de Mello, Epanáforas de Vária História Portugueza. Lisboa, 1676.

[29] Pedro de Azevedo, Archivo Historico Portuguez, 1914.

[30] P.e António Vieira, Sermão de S. Sebastião, in Obras Completas do P.e António Vieira, Sermões, vol. II, pp. 335-350. Lello & Irmão-Editores, 1959.

[31] Lusitanus, Sinais dos Tempos (Fim das Nações – Império Universal – Triunfo da Cruz – Fim do Mundo). Lisboa, 1924.

[32] António Belard da Fonseca, Dom Sebastião – Antes e depois de Alcácer-Quibir. Tip. Ramos, Afonso & Moita, Lisboa, 1978.

[33] Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal. Lisboa Ocidental, 1732. Esta obra foi reeditada em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian em Fevereiro de 1987, com nota de apresentação de Yvette Kace Centeno, quase em simultâneo no mesmo ano com uma outra reedição da mesma obra, desta feita em Mafra com nota preambular de Manuel Joaquim Gandra. Conta esta última com uma dedicatória final de Anselmo Caetano a D. João V e ao elogio do V Império que a primeira não possui, apesar de melhor apresentada e organizada que a segunda.

[34] Lúcio de Azevedo cita o escrito Exame preciso dos fundamentos dos sebastianistas nas misérias em que se acha Portugal no ano de 1712 (in A Evolução do Sebastianismo, 2.ª ed., p. 100).

[35] Belard da Fonseca publicou parte da célebre resposta dada por um anónimo à pergunta se se devia ou não, ainda em 1714, esperar D. Sebastião, na qual se afirma, por vários argumentos com o auxílio de várias profecias, que ainda se deve esperar aquele rei. Esta resposta foi “dada à luz por hum anonimo no Anno de 1823 e offerecida aos amantes do Encuberto”.

[36] António de Aguiar, um enigmático retrato português. In Antiqualhas – História, Bibliografia, Arte. Edição de autor, sem nome, Lisboa, 1952.

[37] José Agostinho de Macedo, Os Sebastianistas. Lisboa, 1810.

[38] Na Literatura sebastianista: Aquilino Ribeiro (Aventura Maravilhosa de D. Sebastião Rei de Portugal depois da batalha com o Miramolim, Lisboa, 1937); a evocação histórica feita por Antero de Figueiredo (D. Sebastião Rei de Portugal, Lisboa, 1924) e os escritos polémicos de António Sérgio, nos quais se discute largamente o valor da personalidade de D. Sebastião. Na Poesia: Mário Beirão (D. Sebastião, in Lusitânia, 1917), Fernando Pessoa (Mensagem, 1934), Miguel Torga (D. Sebastião, in Alguns Poemas Ibéricos, 1952). No Teatro: José Régio (El-Rei Sebastião, 1949) e ainda Metzner Leone (El-Rey D. Sebastião, s/d).

[39] Na Literatura sebastianista: João de Lemos (Alcácer Kibir, in Cancioneiro de João de Lemos, 1859), Joaquim de Araújo (Preludios da Catastrophe, in Luís de Camões, 1887), Camilo Castelo Branco (Alcácer Kibir, in Nas Trevas, Sonetos sentimentais e humorísticos, Lisboa, 1890), Mário Beirão (Alcácer Quibir, in Lusitânia, 1917, e O Sonho de Alcácer Quibir, in Novas Estrelas, 1940), Afonso Lopes Vieira (Alcácer Quibir, in Ilhas de Bruma, 1917, e Violas de Alcácer, ibidem), Gomes Ferreira (Símbolo, in Longe, 1920), António Alves Martins (As Guitarras de Alcácer, in Anunciação, 1921), Virgínia Victorino (Alcácer Kibir, in Renúncia, 1926), Pedro de Menezes (Alcácer Kibir, in As Cinco Chagas de Cristo, 1927).

[40] Na Literatura sebastianista: Luís Augusto Palmeirim (D. Sebastião, in Poesias, Lisboa, 1859, e O Sebastianista, ibidem), António Nobre (O Desejado, in Despedidas, 1902), Afonso Lopes Vieira (O Encoberto, in Ilhas de Bruma, 1917), Antão de Morais Gomes (Profecia da Lenda, in Antão era Pastor, 1924), Fernando Pessoa (Mensagem, 1934, e ainda o messianismo do poema À Memória do Presidente Rei Sidónio Pais, em 1920).

[41] Ed. Atlântida, Coimbra, 1949, p. 154. Uma afirmação idêntica fizera Luís de Magalhães: “A individualidade histórica de D. Sebastião é secundária comparada com a que a lenda lhe criou. A sombra vale mais do que o corpo que a projecta.” – In D. Sebastião, p. 255. Coimbra, 1898.

[42] Miguel Real (pseudónimo de Luís Martins), ob. cit.

[43] Joel Serrão, Do Sebastianismo ao Socialismo em Portugal. Livros Horizonte, Lisboa, 1973.

[44] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita (em cinco línguas). Edições Jonglez, Paris, 2009. Ainda do autor, Guia de Lisboa Sagrada e Profana. Euedito, Lisboa, 2016.

Página seguinte »