São Jorge de Portugal – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 19 2019 

São Jorge de Portugal, Patrono da Teurgia Portuguesa ao qual consagrou o seu Santuário Ak-Sherim, o do “Louvor da Luz”, em conformidade ao lema da Comunidade Teúrgica Portuguesa – Laudate Gloriam Dei, “Louvai a Glória de Deus”.

A Luz ou Esplendor do Quinto Luzeiro, Arabel, por quem age o Glorioso Al Djabal, o “Todo-Poderoso” Mikael, Midal, Milich-al-Shadai que na função de Metraton teoplasma-se na Terra como Asgartok, Vaidorge ou Akdorge, o “santus bellator” Jorge ou George, Gheoergon, o “Obreiro Universal”, na transposição livre do grego, identificado ao evoco de Rei do Mundo – Melkitsedek na Bíblia, Chakravarti nos Vedas, Summo Superius Incognitus na Rosacruz, Pater Rotan na Maçonaria, Muni-Jagrat-Khotan em Agharta, nesta onde é o Chefe Supremo das Forças Armipotentes desse Mundo e que na Face da Terra, por Lei de Causalidade, acabaria consignando-o nos meios castrenses, nomeadamente em Portugal, Patrono do Exército Português.

Mikael e Akdorge são ambos Guerreiros da Luz e do Trono de Deus, com funções distintas mas que se completam: Mikael é o Chefe das Hostes Celestiais agindo por Fohat, a Energia Celeste, que na Terra se expressa como Justiça Divina, separando os justos dos injustos, os perfeitos dos imperfeitos, as virtudes dos vícios, as skandas das nidanas. É o Arcanjo Salvador medianeiro ou psicopompo entre o Primeiro Logos Imanifestado e o Terceiro Manifestado, donde a sua função de Metraton ou “Medida entre a Terra e o Céu ou Sol” (Metra+Aton). E manifestado no Imperador do Mundo, Akdorge, Chefe das Forças Planetárias actuando por Kundalini, a Força Terrestre tomando expressão como Justiça Terrena. Tais Forças Planetárias são sétuplas nas suas características individualizadas, como sejam os Sete Dhyanis-Budhas do Novo Pramantha a Luzir, de quem é Chefe Supremo esse mesmo Cavaleiro da Espada Flamígera ou da Cruz Esplandecente, o Tetragramaton, os quais agem através dos Adeptos Perfeitos e Discípulos adiantados estrategicamente esparsos no Mundo mas ligados aos respectivos Postos Representativos da Obra do Eterno na Face da Terra, posto localizarem-se nos cinco continentes.

Um desses sete Postos Mundiais era o Posto de Sintra da Ordem dos Avizes, Marizes, Morizes, Moiros ou Morias, no dizer do Professor Henrique José de Souza, vindos de São Lourenço dos Ansiães para esta Serra Sagrada onde teceram incógnitos mas seguros o destino da Mónada Ibero-Europeia, Opera Magna, Opus – 1 a que chamaram Cruzeiro Mágico de Mariz, afinal sendo o Tetragramaton na Terra (Akdorge) iluminado, vivificado pelo Metraton, função celeste de Mikael.

Talvez ou certamente por isso, nos lugares ocupados pela Família e Ordem de Mariz o Orago seja quase sempre Santiago, misto de Peregrino com o Báculo – função sacerdotal – e de Cavaleiro com a Espada – função guerreira. Isso por Santiago ter funções idênticas às de São Jorge e se aclamar aquele no medievo antes de se generalizar a aclamação militar deste.

São Jorge, em grego Ágios Geórgios, Άγιος Γεώργιος, em latim Georgius, que a lenda hagiográfica situa o seu nascimento entre o ano 275 e 280 d. C., e a morte como mártir em 23 de Abril de 303, dia em que é celebrado (depois da sua canonização no ano 494 pelo Papa Gelásio I) como o mais proeminente santo militar, sendo igualmente um dos 14 santos auxiliares; é também festejado em 3 de Novembro, data onde no século IV foi reconstruída a igreja a ele consagrada em Lida ou Lod, cidade no Distrito Central de Israel, onde se encontram as suas relíquias.

Este “santo impossível”, com semelhantes iconográficos muito anteriores ao próprio Cristianismo (Perseu grego, Akdorge transhimalaio, etc.), dispõe-se nas mais hieráticas tradições. Com efeito, se existe um mito autenticamente ancestral no santoral dos cristãos, um mito acumulador de chaves e significados procedentes do passado mais remoto do paganismo, seguramente é o que está reflectido em São Jorge, o santo cavaleiro andante que liberta donzelas, luta com dragões, faz a tarasca e propicia o esplendor das colheitas. Se existe um santo osmótico por definição, capaz de assimilar em sua personalidade a dezenas de outros santos, sem contar deuses proibidos e heróis simbólicos, esse ser é São Jorge.

São Jorge do Norte, da Terra de João Ninguém ou a Terra do Nunca, São Jorge da Capadócia ou da Arménia no Extremo Norte da Europa, o que remete para a ideia de um Extremo Norte do Mundo, sobretudo telúrico, assim localizando-o e identificando-o ao Paraíso Terreal, a Agharta das tradições transhimalaias, e ele líder pacífico de hostes de anjos espatários como ideal de perfeição da Cavalaria, da Massenia como a do Santo Graal, assim mesmo corporificação de todas as virtudes sobre-humanas de que o cavaleiro devia estar armado e couraçado.

São Jorge vem de longe, tanto no nome como no mito, por regra nada menos que da Geórgia arménia cantada devotamente pelos mais excelsos poetas da latinidade. É o Homem da Geórgia, o Homem Primordial procedente de uma terra que era tão mítica em si mesma que mitificava quanto continha e a quanto se estendia. A lenda fê-lo militar, porém, ele não pertence a legião nem a corte alguma, antes parece ir por anexo para justificar uma armadura – couraça do espírito – e umas armas que haveriam de convertê-lo em paladino, não tanto da confissão de fé mas sobretudo da mais pura tradição iniciática. E se algo faltava, a lenda martirial converteu os seus sagrados suplícios numa serena iniciação que se prolongou, como no âmbito dos Mistérios, durante sete anos, na presença de setenta reis, com provas vitoriosas onde os suplícios com rodas, lanças, fornos e pedras de moinho foram sucessivamente superados, antes de alcançar a gloriosa apoteose depois de três ressurreições, conforme os documentos lendários e apócrifos referentes a ele que serviram para o Decreto Gelasiano do Papa Gelásio I, no século V.

Não será demais acrescentar que determinadas passagens das primeiras paixões relatam como Jorge, em meio dos terríveis suplícios, se declarou disposto a “sacrificar aos ídolos”, o que provocou que Gelásio I as condenasse proclamando-as escritas por hereges, e que o hagiógrafo Nicétas de Paphlogonie ou Nicétas David, no século X, confessasse havê-las lido “indignado”. Por desgraça, dessas primitivas paixões não ficaram mais que refundamentos expurgados muito posteriores nas obras de inspiração mais ou menos directa que escreveram, na Baixa Idade Média, recompiladores como Tiago de Voragine, no século XIII.

Contudo, tanto serviu para São Jorge ser aclamado santo padroeiro em diversas partes do Mundo, tanto de países – Inglaterra, Portugal (Orago Menor), Geórgia, Lituânia, Sérvia, Montenegro, Etiópia – como de cidades – Londres, Barcelona, Génova, Régio da Calábria, Ferrara, Friburgo em Brisgóvia, Moscovo e Beirute.

Porém, o santo georgiano esconde outra faceta simbólica da sua personalidade: a de uma perdida divindade fecunda, com evidentes conotações agrárias e florestais. James Frazer aponta as festividades centro-europeias que se faziam em honra de São Jorge, as de Jorge, o Verde, espécie de “Homem Verde” (Green Man) expressivo do “Homem Elemental Primordial”, quais um camponês revestia-se com ramos e folhas de bétula e a imagem do santo era conduzida processionalmente até um rio, onde a sua efígie era atirada nas águas. Também descreve ritos amorosos sobre os sulcos onde haviam crescido as primeiras espigas de trigo. Por seu lado, Joan Amades dá notícia de toda uma série de cerimónias agrárias sob o invoco deste santo que têm ou tiveram lugar em terras catalãs, as quais vêm confirmar o carácter de São Jorge como herdeiro de um deus perdido da fecundidade, o que condiz com a sua data litúrgica, 23 de Abril, em plena Primavera.

Tem-se, pois, a fecundidade, o progresso assegurado por um santo guerreiro e agrário que se tornaria Orago Menor de Portugal após o seu culto ter sido introduzido nele pelos cruzados ingleses que auxiliaram D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa, em 1147. Mas só mais tarde, segundo se crê no reinado de D. Afonso IV, se passou a usar a invocação “Por São Jorge de Portugal” como grito de guerra contra os inimigos, em substituição ou par com o brado “Por Santiago Mata-Mouros”.

É bem conhecido o facto de D. Nuno Álvares Pereira ser profundamente devoto deste bellator mártir, tanto que mandou gravar na sua bandeira a figura do santo. Também D. João I tinha especial devoção por São Jorge que, como se sabe, foi tido como o principal factor religioso da vitória na Batalha de Aljubarrota. Depois, a imagem gloriosa do santo a cavalo foi incorporada na procissão do Corpo de Deus (Corpus Christi) por decreto do mesmo monarca, onde cristãos, judeus e mouros participavam indistintamente, no mais nobilitante espírito eclético, à sombra equídea do divino Paladino.

Porém, como já disse, pouco se sabe historicamente da vida deste “santo impossível”. Ainda assim, diz-se que nasceu na Capadócia, de uma ilustre família, distinta não só pela nobreza como ainda pelo zelo com que professava e defendia a religião cristã. Pela sua valentia, cultura e aprumo, Jorge ganhou muito novo os favores do imperador Diocleciano, que o nomeou mestre-de-campo.

Mas quando esse imperador romano decretou a perseguição aos cristãos, Jorge, que apesar dos seus vinte anos pertencia, por direito próprio do cargo que detinha, ao Conselho de Estado, fez-lhe sentir quanta injustiça havia naquela situação. O outro, espantado com a inesperada oposição por parte do jovem general, mandou-o prender e supliciar. Milagrosamente, a roda de pontas navalhas que deveria retalhar o seu corpo, não conseguiu rasgá-lo, deixando-o incólume. Seguiram-se outras vicissitudes e suplícios dos quais o mártir saía sempre ileso, até finalmente o decapitarem no dia 23 de Abril do ano 303.

Foi a tradição hagiográfica medieval que acrescentou a esses dados a história da morte do dragão.

Diz essa tradição que havia em Silene, cidade da Líbia, um terrível dragão ao qual o povo oferecia, todos os dias, duas ovelhas. Certa vez, porém, foi necessário oferecer-lhe um sacrifício humano que melhor o apaziguasse, e foi escolhida, à sorte, a filha única do rei.

Jorge, futuro vencedor da Tarasca, apareceu na cidade no momento em que iam imolar a jovem, e imediatamente se ofereceu para a libertar e livrar a cidade do monstro.

Montado no seu galhardo jinete branco, valente investiu contra o dragão ferindo-o com a lança. Em seguida, ordenou à donzela que tirasse a sua corrente e a prendesse ao pescoço do monstro, a fim de o arrastar cativo submisso à cidade.

Uma vez ali chegados, ele montado no seu cavalo branco, ela arrastando o dragão por aquela trela improvisada, Jorge obrigou os habitantes a prometerem receber o batismo e matou o dragão. Impressionados com o prodígio, o rei e o povo de Silene fizeram-se cristãos, mas pouco tempo depois Jorge era martirizado.

Os habitantes de São Jorge, povoação perto de Aljubarrota, em cujo chão sagrado as armas vencedoras asseguraram Portugal Independente, transpuseram a tradição do mártir do Oriente para a sua terra e contam do modo que se segue a história do dragão.

Num lugar hoje impossível de precisar, tinha São Jorge, como general romano, o seu aquartelamento. Costumava mandar os soldados darem de beber aos cavalos à “Fonte dos Vales”, situada num leito do Ribeiro da Mata, mais ou menos a leste da capela que mais tarde lhe dedicaram.

Acontecia, porém, que no momento em que os cavalos se dessedentavam, surgia do interior da fonte um enorme dragão que, urrando aterrorizante, acabava por os devorar a todos.

Pouco a pouco, os sobreviventes recusaram voltar à fonte habitada pelo dragão, com medo de também eles serem devorados. As suas queixas chegaram aos ouvidos do general, que montou no seu cavalo e dirigiu-se à “Fonte dos Vales”. Aí chegado, deixou o cavalo beber, para fazer sair o monstro, e assim que a fera arremeteu cravou-lhe “um ferro” nas goelas e matou-a.

É desse modo que a tradição dos povos da região de Aljubarrota explica a imagem medieval de São Jorge que guardam na capelinha local, representando o dragão debaixo das patas do cavalo do santo.

Também nas margens do Rio Minho, onde as veigas verdejantes da Galiza se alcançam em duas braçadas, as gentes minhotas do concelho de Monção mantêm uma velha tradição que consiste em celebrar todos os anos, por ocasião da Festa do Corpo de Deus, o lendário combate travado entre São Jorge e o Dragão.

A luta tem lugar na Praça de Deu-La-Deu, cujo nome consagrado na toponímia local evoca a heroína que com astúcia conseguiu que as forças leonesas levantassem o cerco que impunham àquela praça. Perante uma enorme assistência, a coca – nome com que aqui se designa o dragão – procura, pesadamente e com grande estardalhaço, escapar à perseguição que lhe é movida por São Jorge que, envolto numa longa capa vermelha e empunhando alternadamente a lança e a espada, acaba invariavelmente por vencer o temível dragão.

O dragão é representado por um boneco que se move com a ajuda de rodízios, conduzido a partir do exterior por dois homens e transportando no seu bojo outros dois que lhe comandam os movimentos da cabeça. Depois do guerreiro lhe arrancar os brincos que lhe retiram a força e o poder, a besta é vencida quando São Jorge a consegue ferir mortalmente introduzindo-lhe a espada ou a lança na goela, momento em que de uma bolsa alojada no seu interior escorre uma tinta vermelha simulando o sangue da coca.

Como ficou dito logo ao início deste estudo, São Jorge é de longe o personagem mítico do santoral cristão mais caro à Tradição Teúrgica Portuguesa. Expressão terreal da celestial de São Miguel, vedor da porta santa do Paraíso Celestial (Mundo Celeste) tem-se este santo bellator entronizado no lugar cimeiro da Hierarquia governadora do Paraíso Terreal, a mesma Região dos Deuses (Gan-Éden) com ele na cumeeira dirigente dos “Cavaleiros de Agharta” ou os “Jinas da Arca”, os santos e guerreiros Kshatriyas.

Tais Kshatriyas são a “Hoste da Luz” dos Assuras humanizados vindo a tomar forma orgânica como Ordem dos Tributários – de Melkitsedek –fundada por JHS na sexta-feira (dia de Vénus) de 23 de Outubro de 1954, tendo precisamente por Patrono o Cavaleiro das Idades Akdorge, hoje mesmo defendendo a Obra de Deus na Face da Terra abrindo caminho à inauguração do Quinto Sistema ou Império (Ronda) sob a tutela do Augusto Deus Arabel (Planetário) viáculo de Mikael (Elohim, Dhyan-Choan Superior), e por sua vez agindo por Maitri ou Mitra-Deva, a Face do Rigor de Maitreya, o Cristo Universal.

Sobre isso, proferiu o Professor Henrique José de Souza em 1940 (in “Reminiscências Atlantes”):

“Akdorge, como escudo de Maitri, representa o Trono ou Origem da prodigiosa série de Yokanans, Arautos ou Anunciadores daquele, através dos Avataras, senão mesmo de todos os Manus raciais, desde que Maitri equivale, como Planetário da Ronda, ao Manu-Colheita. Por isso mesmo, todos os demais são preciosas Folhas dessa prodigiosa Árvore de Sabedoria, como os próprios Budhas o são da de Adi-Budha. Donde o precioso lema de certa Fraternidade do Norte da Índia, ou seja: Adi-Budha, Vaham-Budha, com o significado de “Budha veículo de Adi-Budha”, o que só por si explica tudo o mais quanto nos fosse dado revelar sobre tão transcendental mistério.

“Bem se pode dizer que Akdorge é, ao mesmo tempo, o escudo defensivo da própria Humanidade, até que se manifeste em forma integral o mesmo Maitri, como Redentor-Síntese, ou antes, o verdadeiro Prometido ou Anunciado, desde tempos imemoriais, pelos Rishis, Munis, Arhats, Sibilas e Profetas.

Miguel ou Mikael é um dos sete Arcanjos da Igreja, figurados no candelabro das sete velas, nas sete trombetas da visão de Ezequiel, etc., que em nada diferem dos Dhyan-Choans ou Espíritos Planetários das mesmas tradições orientais, como também dos Amesha-Spenta ou Ameshaspend, como sete Génios benfeitores, que na religião mazdeísta assistem a Ahura-Mazda.”

Acerca da imagem acima do Sosioh persa, o Professor Henrique José de Souza escreveu (in ob. cit.): “De facto, a gravura que nos proporciona, neste comentário, tão profundo estudo, aponta três deuses distintos, do mesmo modo que três animais, dentre eles o crocodilo, etc., ou essas mesmas etapas evolucionais às quais o Homem não deve volver, e sim esmagar, inclusive a puramente psíquica lemuro-atlante, tão do gosto e paladar das massas ignaras, como sejam: o espiritismo (melhor dito, animismo), o hipnotismo, as ridículas facetas com que se apresentam as várias religiões existentes no mundo, por serem, de facto, embaciados espelhos onde se reflecte a Religião-Sabedoria ou Teosofia, como Ciência dos Deuses, Super-Homens, Mahatmas, Génios ou Jinas.

“Por isso, depois da Atlântida todos os Avataras só poderiam ter expressões humanas, pois o estado de consciência em desenvolvimento na Raça Ária, como a 5.ª da Ronda, é o do Mental ou Manas, Manu, o Homem, etc.”

Akdorge esteve presente em toda a Obra do Professor Henrique José de Souza, que como Mestre Vivo (JHS) inclusive materializou várias imagens suas, após as desmaterializar dos vários Lugares Jinas onde estavam e voltar a materializá-las diante de centenas de pessoas, acontecimento que repetiu em diversas ocasiões, juntando às palavras as provas irrefutáveis. To be or not be

Donde lhe provinham esses poderes físico-psicomentais próprios de um Ser do Quinto Sistema? Do próprio Fogo Criador do Espírito Santo promanado do Laboratório de Kundalini ou do Espírito Santo no Seio da Terra, o seu Núcleo ou Sol Planetário associado a Shamballah, sobre o qual disse:

“O grande “Laboratório do Espírito Santo” – como a 2.ª Emanação do Logos – relaciona-se com o “Seio da Terra”, onde vive em actividade “o Fogo Serpentino” ou “Poder de Kundalini”, embora que este se manifeste tanto na Natureza como no Homem. É por isso que se diz que o despertar de tal Força concorre para coordenar as diversas manifestações vitais num todo harmónico, do mesmo modo que faz despertar os poderes psicomentais latentes no Homem. E que tal Força tanto constrói como destrói.

É o grande fenómeno da Teofania entre os neoplatónicos, isto é, o da “Iluminação do homem pela Divindade”. É o mesmo que já acontece aos Adeptos ou Homens Perfeitos e o que há-de acontecer a todos quantos estiverem harmónicos ou afins com o seu Eu Superior, o seu Cristo ou o seu Deus (o nome que lhe queiram dar, inclusive de 7.º Princípio ou estado de Consciência, etc., etc.). Por isso mesmo, é o que acontecerá no final da Ronda ou na chamada “Era da Felicidade”, ou da vitória dos Andróginos latentes.”

Para o citado shakespereano to be or not be, fica:

JHS = HOMEM FEITO DEUS

HJS = DEUS FEITO HOMEM

J.ÚPITER – H.ERMES (MERCÚRIO) – S.ATURNO

SATVA – RAJAS – TAMAS

ESPÍRITO – ALMA – CORPO

BRAHMA – VISHNU – SHIVA

PAI – FILHO – ESPÍRITO SANTO

1.º LOGOS (DIVINO)

2.º LOGOS (CELESTE)

3.º LOGOS (TERRESTRE) = TRIREGNUM, MELKITSEDEK.

O São Jorge mazdeísta, Ahura-Mazda, é o mesmo Vaidorge mongol o qual na cidade do Porto, em Portugal, transmite os seus atributos ao mitificado Vímara Peres, ideoplasmação do mesmo. Sendo Orago do Norte vai bem com a Terra do Norte, a Terra de João Ninguém, simbólica do Pólo Primordial identificado à mesmíssima Agharta como o País do Nunca onde a serpente boreal morde a própria cauda formando o zero que contém a Omnipotência do Eterno.

Por tudo isso, Jorge ou Gorgê no radical helénico vem a ser o Obreiro Universal, o Oitavo Bodhisattwa dirigente dos Sete Dhyanis-Budhas implicados no Futuro imediato do Mundo. Como Medianeiro entre a Hierarquia dos Mestres e a Humanidade comum, Jorge está para a “Fonte dos Vales” da lenda, ou seja, é o “Vale” ou Vau cabalístico, a “ponte” ligando o Presente ao Futuro, a âmbula evolucional correlacionada a Vénus e à Laringe (a “garganta”, em francês gorge) que se manifesta por Marte e a Lua (a Silene ou Selene da lenda), posto ter por sustentáculo o gástrico e o esplénico, com isto auferindo os predicados de Santo e Guerreiro, ou seja, de Muni e Kshatriya.

Motivo para as Escrituras Sagradas do Oriente descreverem Akdorge como Filho das Sete Plêiades, Mamas ou Krittikas, das quais tomou o nome de Kartikeya, o Senhor de Marte, o “Ceifador de Vidas” na função de Morte, ou antes, de Manu-Colheita expressivo da Face da Justiça do Eterno que vem a ser o Anjo da Espada, o próprio Mitra-Deva.

No Apocalipse de São João lê-se acerca do Quinto Cavaleiro, o do Cavalo Branco (este símbolo zoomórfico indicativo da Cabala ou Tradição Iniciática das Idades, igualmente assinalando a Cavalaria Celeste, a “Massenia” original ou “Maçonaria Angélica” do Santo Graal, a mesmíssima dos “Jinas da Arca” (Kshatriyas) tomando a designação de Traishus-Marutas, as “Forças Ocultas da Natureza”), que um dia virá separar os justos dos injustos e instaurar à Face da Terra o “Reinado do Cordeiro” trazendo a ela os valores da Jerusalém Celestial, outro nome para indicar a presença etérea da “Mansão do Amanhecer”, Shamballah, a oitava cidade capital de Agharta. Isso também vale pelo despertar da visão etérica da Humanidade futura para as realidades sublimes por enquanto ocultas à sua visão grosseira animada por Tejas, o fogo denso, mas não por Agni, o fogo subtil.

Akdorge representa-se na estátua do “Guerreiro” no Parque da Pena de Sintra, Serra Sagrada, o “Arquitecto” de um novo período de Humanidade que no bojo deste Quinto Chakra Planetário oculta mas certeiramente vai unindo o Trono ao Altar, a Cultura ao Carácter, o valor guerreiro do Augusto Arabel ao valor sacerdotal do Excelso Akbel, assim mesmo a Sinarquia à Teosofia na implantação do Império do Espírito Santo que é o Filho tomando forma pela Mãe, expressão cultual registada anualmente na Procissão de São Jorge em Lisboa, vinda do tempo de D. João I, o qual se perpetuaria na estátua equestre do pressuposto D. José I no Terreiro do Paço da capital, mas que ostenta todas as características iconográficas do mesmo São Jorge, não faltando a Cruz Maltense afim aos antigos Marizes na configuração geral da peanha onde assenta o afinal Rei do Mundo (Akdorge) empunhando o ceptro imperial e o cavalo calcando sob os cascos as ofiúsas ou serpentes que fazem as vezes do dragão.

Ainda segundo o Professor Henrique José de Souza, quem visitar o Mosteiro de Tjigad-Jé, no Tibete, ligado ao antigo “Retiro privado do último da série dos “Traishu-Lamas”, encontrará na sua galeria de Bodhisattwas o derradeiro ou oitavo, “o futuro Budha Branco do Ocidente”. Além da sua tez dessa cor, e não amarela como a de qualquer oriental, vem provar que “Ele se manifestará no Ocidente”. O seu adorno alegórico, em guisa de aura, é uma ferradura de pedras preciosas. Para os leigos nenhuma expressão possui essa alegoria, mas para um Iniciado a mesma significa a excelsa manifestação da 10.ª Encarnação de Vishnu – equivalente ao Filho no Cristianismo – para lá do Kala-Pani ou das águas do Oriente, portanto, no Ocidente, o Nur-Jahan. Essa Encarnação Divina toma forma como Kalki-Avatara, o “Cavaleiro do Corcel Branco”, sendo o mesmíssimo Maitreya ou o Cristo. Todos os Santos Guerreiros com a Missão de Redenção da Humanidade são alegorizados cavalgando um cavalo branco, este tão-só o totem planetário em Aquarius, tal qual o touro (Bhumi) o foi em Piscis.

Voltando à estátua do precioso Oitavo Bodhisattwa na galeria do referido Mosteiro tibetano, possui a tez branca, olhos azuis e cabelos louros, enquanto as demais são escuras, como os nascidos no Oriente. Cerceia-a uma ferradura de ouro lavrado incrustada de riquíssimas pedras preciosas. Essa imagem sagrada de Maitreya confirma a ancestral tradição transhimalaia do Kalki-Avatara, além do mais representando a Idade de Ouro ou Satya-Yuga para a qual trabalharam, e trabalham, todos os Adeptos verdadeiros do Mundo, do mesmo modo que todos os Movimentos de cunho verdadeiramente Espiritualista, sob a égide gloriosa da Excelsa Fraternidade Branca, Grande Hierarquia Oculta ou Governo Oculto do Mundo (G.O.M.).

Também na mitologia grega se encontra a lenda do Cavaleiro Perseu que salva Andrómeda, acorrentada à porta do seu palácio, antes que Medusa (Algol), a Hidra-Dragão, a devorasse, tendo-lhe decepado a cabeça com um golpe certeiro de espada, e após resgatar a princesa conduziu-a pelos céus montado no cavalo alado Pégaso. Esta lenda recebeu-a a mitologia grega dos das tradições astronómicas brahmânicas, e assim foi repassada directamente ao Cristianismo para a construção do mito de São Jorge, por isto mesmo “santo impossível”.

A Igreja Católica dá interpretação pietista, exotérica, à lenda georgiana cristianizada após a helénica: para ela, o dragão é o demónio da heresia, enquanto São Jorge é o fiel divinamente inspirado. Contudo, ambas as lendas não passam de uma mesma alegoria: a princesa acorrentada não é mais do que a Humanidade encadeada à evolução na Terra. Enquanto o dragão, neste contexto, representa a ignorância das Coisas Divinas, as da verdadeira Sabedoria Eterna. Tal ignorância é que concorre para todo o sofrimento humano, pois como dizem as Escrituras Orientais, “todo o sofrimento humano provém de Avidya”, com o significado de “ignorância”, cegueira mental, ou não Vidya, que quer dizer “Conhecimento Perfeito”, isto é, Iluminação Mental pela Iniciação nos Grandes Mistérios Divinos. “Prometeu acorrentado no Cáucaso”, antes dito, no cárcere carnal, à espera de Epimeteu libertador, na Tragédia de Ésquilo, tem o mesmo sentido alegórico das lendas anteriores, embora que na transhimalaia do “Guerreiro Kartikeya” (o mesmo Maitreya hindu-tibetano) com o nome, no entanto, de Akdorge, vem a ser o Cavaleiro das Idades (o Regente dos Ciclos simultaneamente acima deles, os quais se representam na roda navalha que na lenda, afinal, não conseguiu retalhar-lhe o corpo, ou seja, impor-lhe a dor e o sofrimento comum a qualquer criatura encadeada a Samsara, a Roda dos nascimentos e Mortes), expressão dos Avataras cíclicos como manifestação da Divindade na Terra, sendo agora a Hora do Novo Esplendor Celeste assinalado pelo Budha Uno-Trino agindo pelo Bodhisattwa Uno-Trino, em verdade, todos sendo a manifestação de uma única Essência Divina.

Desfeche o Professor Henrique José de Souza no seu artigo citado de 1940:

– Quanto a dizer-se que a Atlântida sucumbiu por ter se desviado da Lei, tais nos horrores praticados na sua decadência, tanto vale por excesso de matéria tamásica, como a mais grosseira das três qualidades de matéria (ou Gunas), na razão de Satva em relação com o Mundo Divino, força centrífuga, etc., Rajas com o Mundo Humano, força equilibrante, e Tamas ou centrípeta, existente no Seio da Terra, como Laboratório do Espírito Santo, ou onde se acha em eterna e constante ebulição o Fogo Cósmico ou Kundalini.

E como todos os Mistérios Atlantes estivessem relacionados com as coisas do céu (e a prova o mesmo termo Reis Divinos), para os cientistas modernos, com a Astronomia, mas, em verdade, com a Astrologia, a começar pelos Titãs que desejavam escalar o céu ou ver o que se passava por detrás das altíssimas muralhas da 8.ª Cidade, aí está a Mitologia Grega, por exemplo, repleta de sublimes revelações, a começar por aqueles Argonautas (de Argo, Arca, Barca, Arghia, Agharta, etc.), que no navio Argo, capitaneados por Jasão, foram à Cólcida ou País dos Calcis, Kalkis, donde o mesmo termo Kalki-Avatara, que se dá ao Redentor-Síntese da Humanidade nas tradições transhimalaias, que é o mesmo Sosioh persa, também o da lenda de Perseu e Andrómeda, do qual a Igreja copiou o seu São Jorge, que a bem dizer vale pelo termo jina ou aghartino Gorge, e até ao mesmo Akdorge tibetano. Por isso que a Etiópia (reminiscência atlante) possui tal santo como seu padroeiro, do mesmo modo que a Inglaterra (por sua vez atlante), pois o pavilhão desfraldado da 4.ª Cidade do referido continente possuía no centro um cavalo alado, na razão de Pégaso, ou aquele nascido do sangue da Medusa, e no qual ia montado Perseu, quando salva Andrómeda do monstro que a perseguia. São Jorge, cópia fiel daquele, salva a princesa acorrentada à porta do seu palácio, por sua vez, matando o dragão. Além do pavilhão atlante possuir um cavalo no centro, no Templo de Poseidon o mesmo era reproduzido oito vezes.

Para terminar: a Humanidade, qual Prometeu acorrentado no Cáucaso ou “cárcere carnal” (o “pote de argila” bíblico), pende, na Balança de Mikael ou Miguel, para o lado do Mal ou Belzebuth, na razão dos Nirmanakayas Negros, encarnados e desencarnados, como já dizia a mesma Blavatsky, para não apontar os Rakshasas Negros que tanto influíram na queda da Atlântida, ou os famosos Titãs que quiseram escalar os céus e depois destruir as invioláveis muralhas que interditavam a 8.ª Cidade (fazemos lembrar a 8.ª Loka ou Região Celeste, que tem por antípoda a possuidora do mesmo nome sânscrito Atla), como o disséssemos neste mais do que esotérico trabalho, por ser, de facto, uma nova revelação, razão por que deveria tomar por símil a Akdorge, que esmagando com as patas do seu cavalo o dragão por ele alcançado (os quatro princípios inferiores teosóficos, esmagados pelos três superiores, a Tríade, a Mónada, a Consciência Imortal), aponta ao Homem que deve fazer a mesma coisa, isto é, dominar os seus instintos inferiores, o espírito do Mal que nele reside, ou seja, o Dragão do Umbral, a que se refere o inspirado Bulwer Lytton no seu iniciático romance Zanoni. Mau karma proveniente das suas vidas anteriores, e na presente aumentado, por continuar afastado da Lei, devido à sua ignorância (avidya) das coisas superiores ou divinas. Karma, também, de sua origem, na razão da queda do Espírito na Matéria. Por isso que deve alcançar a sua própria redenção, superação, etc., por esforço próprio, na razão do faze por ti que Eu te ajudarei.

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Ritos Solsticiais ∞ Apologia da Luz – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 5 2019 

Cantam as cigarras no campo de douradas espigas de trigo no estio, quente e seco, onde o Sol “parado” no zénite teima tornar o dia mais longo do ano. Mas assim deve ser, pois afinal, neste 21 de Junho, é dia de Solstício de Verão.

O Solstício (Solstitium, em latim) associa-se à ideia do Sol ficar estacionário ao atingir a sua posição mais alta ou mais baixa de altura no céu relativamente ao equador terrestre, ou seja, aos pontos onde a declinação do astro-rei atinge os pontos extremos: o máximo no Solstício de Verão (dia mais longo do ano, 21 de Junho) e o mínimo no Solstício de Inverno (noite mais longa do ano, 21 de Dezembro), marcando o início do Inverno no hemisfério norte e do Verão no hemisfério sul, portanto, sendo fases sazonais, motivos dos povos do passado e do presente darem aso a celebrações religiosas tendo por foco central o Sol como “Espírito de Vida” propiciador de boas sementeiras e colheitas, tanto agrícolas como místicas, motivo da mudança dos ciclos da Natureza passado a ter significado místico, religioso e até esotérico ou mistérico, onde as sociedades tradicionais creditavam aos Deuses as bênçãos do equilíbrio e da equidade nos Equinócios (Aequinoctium, em latim, “noite igual”, referindo-se ao momento do ano em que a duração do dia é igual à da noite em toda a Terra), e a bênção da Luz do Sol Invictus ou Sol Indiges, o Sol da Terra, nos Solstícios, quando então depositavam as maiores esperanças na realização das mais desejadas aspirações dos homens.

Foi assim que no Antigo Egipto o faraó Akenaton, o Grande Iluminado, compôs o seu “solsticial” Hino ao Sol encomiando as suas virtudes:

“Bela é a tua alvorada, oh Aton (Sol) Vivo, Senhor da Eternidade!
Levanta-te para dar Vida,
pois Tu és o Pai e a Mãe de todas as criaturas.
Os seus olhos voltam-se para Ti quando ascendes no firmamento.
Os teus raios iluminam toda a Terra;
o coração de cada um enche-se de entusiasmo quando Te vê,
quando Tu lhe apareces como seu Senhor.”

Depois, igualmente o maior Místico que o Cristianismo já teve, São Francisco de Assis, no seu Cântico das criaturas louvou as virtudes do Sol:

“Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as tuas criaturas,
especialmente o Senhor irmão Sol,
que clareia o dia e que com a sua luz nos alumia.
E ele é bela e radiante com grande esplendor.
De Ti, Altíssimo, é a imagem.”

Isso no seguimento cultual da sociedade agrária medieval europeia, ainda fortemente celticizada cujas tradições e costumes se conservavam parcialmente vivas, uma delas, descrita na crónica do imperador romano Júlio César, A Guerra das Gálias, a do culto celta ao deus solar Belinos, Belenos ou Bel, “luminoso”, que daria no topónimo Belas, localidade próxima de Carenque, em Queluz.

Recuando aos tempos védicos da primitiva Índia, tem-se no Atharva-Veda o Surya-Upanishad que discrimina os predicados do Logos Solar (os antigos não adoravam o Sol, ao contrário do que pensam alguns, e sim o Espírito ou Logos Solar manifestando-se por esse seu “envoltório” visível, assim expressando a Suprema Divindade – Parabrahman – dirigente do Sistema Solar em cujo centro se fixa como Núcleo Flogístico):

“Om, Terra, Região Média e Céu.
Meditamos no adorável esplendor de Savitar
(Savitri, feminino de Surya, o Logos Solar)
Que inspira os nossos pensamentos.
O Sol é o Eu (Atmã, Espírito) do Mundo,
movendo-se tão bem quanto sem movimento.
De Surya nascem as criaturas, o Yajna,
e o alimento, o Prajanya.”

Ainda na Índia védica, havia um mantram dedicado a Agni, o Fogo Sagrado, que depois o Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, traduziu, compôs e musicou como hino que até hoje está presente na Ritualística Teúrgica de que repasso o excerto seguinte:

“Ó Agni,
Fogo Purificador,
Centelha Divina que ardes em todas as coisas,
Alma Gloriosa do Sol.
Aum.”

O Fogo impulsionou o progresso material, porém, foi o fogo terreno, o fogo inferior, Tejas, e não o Fogo Superior ou a sua Essência Sublimada – Agni. Hoje, o Homem domina o Ar, a Água e a Terra por meio do Fogo. Não sabe, no entanto, dominar a si mesmo, ter domínio da Quinta Essência Divina – Akasha, Fogo Etérico – que se interpreta como integração no Espírito Divino que é Luz, Chama e Calor.

Esse fogo inferior é o mesmo descrito no Fausto de Goethe, quando Mefistófeles o fez sair do cantilho de vinho diante de Valentino, irmão de Margarida, quando ele se despedia dos amigos no momento de partir para a guerra. Porém, de imediato se descobriu o malévolo estratagema de Mefistófeles e arrojaram-lhe no rosto a cruz da espada, obrigando-o a esconder-se aterrorizado num canto escuro da casa, vencido e humilhado. Esse seu terror deu-se a ser tal símbolo do mesmo do Pramantha, a Cruz Cíclica, ou antes, da Espada Flogística cujo Fogo Superior é omnipresente nas quatro direcções cardeais, sendo o centro o próprio empunhador, o Guerreiro de Luz, o Mago Superior, o Teurgo expressivo do Sol (Surya Suryaj) Fonte do Poder Supremo.

Sol que na mitologia grega é representado por Apolo, a Fonte de Energia e Vida do Sistema Solar. Do Sol chegam às criaturas da Terra a luz e o calor, como manifestações distintas da vitalidade. São os raios, as “flechas” lançadas pelo Pai-Sol a todos os recantos do Sistema seu Corpo de Manifestação. É o sangue arterial que flui por todos os lados, que tudo alimenta. É a emoção do seu próprio coração ardente. A essas “flechas” sucede o mesmo que ao sangue arterial regressando ao coração através das veias, a fim de se purificar e seguidamente alimentar todo o organismo humano.

Do mesmo modo que as águas do rio volvem, contaminadas, ao mar, para depois se evaporar e purificar no imenso alambique da atmosfera, onde formam nuvens que se desfazem em chuvas que apagam a sede abrasadora dos campos, dos animais e dos homens, igualmente as ondas electromagnéticas de retorno à Usina que as gerou se purificam no Fogo do coração do Sol. São essas, pois, as apolíneas flechas forjadas no divino Fogo de Vulcano, este o Fogo da Seio da Terra – Kundalini – e aquele o Fogo do Seio do Céu – Fohat.

Num sentido ainda mais transcendente, essas flechas atiradas por Júpiter Olímpico ao seu irmão Júpiter Plutónico – segundo o axioma cabalístico Daemon est Deus inversus, “o Demónio é o inverso de Deus” – são as próprias Mónadas saídas do Seio do Maha-Ishvara ou Ser Supremo, o Sol Espiritual dirigente do Sistema, Mónadas que depois de longa série de experiências, tanto valendo por inúmeras reencarnações na Terra, retornam ao mesmo Lugar de onde provieram, já não em estado virginal mas amadurecidas na condição consciencial. Outro não é o sentido da “Parábola do Filho Pródigo que regressa à Casa Paterna”, de tão má interpretação religiosa, embora fosse o próprio Santo Agostinho quem lhe desse o verdadeiro significado, conscientemente ou não, quando disse: “Viemos da Divindade e a ela havemos de volver”.

Como diz Helena Petrovna Blavatsky em As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria, “sobre toda a superfície da Terra – do Pólo Norte ao Pólo Sul, dos golfos gelados dos países nórdicos às planícies tórridas do sul da Índia, na América Central, na Grécia e na Caldeia – era adorado o Fogo Solar como símbolo do Poder Divino, Criador da Vida e do Amor. A união do Sol (o Espírito – elemento masculino) com a Terra e a Água (a Matéria – elemento feminino) era celebrada nos templos do universo inteiro”.

Mas é na tradição védica, base do Hinduísmo, que deve ser procurada a origem da tradição astronómica relativa aos solstícios e equinócios – que vazaria na multiplicidade de formas e fórmulas cultuais do mundo inteiro – conforme a comunicaram os Rishis primitivos da Áriavartha, a Índia, berço da actual Raça Humana. Como descreve René Guénon em Os Símbolos da Ciência Sagrada, há dois portais celestes correspondendo à saída e entrada no que ele chama “Caverna Cósmica” e aqui se designa como Região do Segundo Logos donde as Mónadas provêm à Manifestação e após volvem ao Pombal Celeste. Tais portais levam os nomes de “Porta dos Homens” e “Porta dos Deuses” e correspondem aos dois solstícios, aquela para o Solstício de Inverno e esta para o Solstício de Verão.

Afins às fases Descendente e Ascendente da Manifestação, Manvantara, tem-se Brahma Saguna – “Deus com Atributos” – como “descida do Espírito à Matéria” – Nivriti-Marga – saindo pela “Porta dos Homens” (Solstício de Inverno) que corresponde à primeira Cadeia de Saturno, motivo de estar sob a influência de Capricórnio, signo dos Kumaras dirigentes da Evolução Humana cujo início é marcado pela celebração do Natal entre os cristãos, e que na Antiguidade greco-romana festejava-se nas Saturnais. Após a Mecanogénese do desenvolvimento da Vida e da Consciência da Onda Humana, Jiva, segue-se Brahma Nirguna – “Deus sem atributos” – como “subida da Matéria ao Espírito” (Solstício de Verão) indo corresponder à integração no Reino Espiritual ou Angélico, Barishad, sob a influência da Lua e de Caranguejo, signo da Hierarquia Angélica expressiva da Mãe Divina que a todos acolhe em seu seio que é o Segundo Trono ou Céu. Tal vem a ter a sua correspondência, no calendário litúrgico, à Ressurreição Pascal e o consequente Pentecostes, sendo entre os antigos povos agrários afim às Maias e as sazonais Festas das Colheitas, quando então se celebravam as primícias da Natureza.

A razão de tudo isso está em que os povos antigos estabeleciam a divisão do ciclo anual em duas metades, uma “ascendente” e outra “descendente”. A primeira é a do decurso do Sol do Sul para o Norte – Uttarâyana, em sânscrito – indo do Solstício de Inverno para o Solstício de Verão; a segunda é a do decurso do Sol do Norte para o Sul – Dakshinâyana, em sânscrito – indo do Solstício de Verão para o Solstício de Inverno. Na tradição védica, a fase ascendente relaciona-se ao Deva-Yana (“Caminho dos Deuses”) e a fase descendente ao Pitri-Yana (“Caminho dos Pais”), coincidindo com as designações das duas portas: a “Porta dos Homens” dá acesso ao Pitri-Yana, enquanto a “Porta dos Deuses” flanqueia ao Deva-Yana.

Nas fases do dia, em escala reduzida, a metade ascendente vai da meia-noite ao meio-dia, e a metade descendente do meio-dia à meia noite. A meia-noite corresponde ao Inverno e ao Norte, e o meio-dia ao Verão e ao Sul. A manhã corresponde à Primavera e ao Oriente (nascer do Sol), e a noite ao Outono e ao Ocidente (pôr do Sol). Pode assim dizer-se que tradicionalmente a “Porta dos Deuses” situa-se ao Norte e está voltada para o Oriente, enquanto a “Porta dos Homens” localiza-se a Sul virada para o Ocidente.

Esse simbolismo solar (celeste) e polar (terrestre) relaciona-se directamente com as circunambulações rituais nas diversas formas tradicionais. De acordo com a modalidade solar, a circunambulação realiza-se mantendo-se sempre á direita o centro em torno do qual se gira. Segundo a modalidade polar, realiza-se no sentido inverso daquela, portanto, tendo o centro à esquerda. No primeiro caso está a pradakshinâ, tal como se realiza nas tradições hindu e tibetana. O segundo caso encontra-se particularmente na tradição islâmica. Na Maçonaria, na sua forma actual, o sentido das circunambulações é solar, mas segundo as Old Charges parece ter sido ao contrário, ou seja, polar na Maçonaria Operativa, onde a instalação do Trono de Salomão ou Trono de Glória fixava-se a Ocidente e não a Oriente.

Resta ainda desfazer uma aparente contradição: o Norte é designado como o ponto mais elevado (uttara), sendo para ele que se dirige o curso ascendente do Sol (Surya), enquanto o seu curso descendente é dirigido para o Sul, aparecendo como o ponto mais baixo (dakshina). Mas, por outro lado, o Solstício de Inverno, correspondendo ao Norte do ano, marca o início do movimento ascendente, em certo sentido sendo o ponto mais baixo, enquanto o Solstício de Verão, correspondendo ao Sul onde termina o movimento ascendente, é sob esse mesmo ângulo o ponto mais alto a partir do qual começará o movimento descendente, que terminará no Solstício de Inverno. A solução desta dificuldade reside na distinção a ser feita entre a ordem celeste, a que pertence o curso do Sol, e a ordem terrestre, a que pertence a sucessão das estações. Segundo a lei da analogia, essas duas ordens devem, em sua própria correlação, ser inversas uma da outra, de modo que o seja mais alto para uma se torne o mais baixo para outra. Ademais, no referente às influências espirituais inerentes a esses pontos, o Norte permanece o mais elevado por ser para onde se dirige o curso ascendente do Sol que, face ao Mundo Terrestre, equivale à entrada no Deva-Loka ou “Região dos Deuses”. Pelo contrário, o Sul será o menos elevado por marcar no céu o curso descendente do Sol que, relativamente ao Mundo Terrestre (Bhumi), é dado como a entrada no Pitri-Loka ou “Região dos Homens”.

Acerca da entrada no Deva-Loka pela “Porta dos Deuses” e no Pitri-Loka pela “Porta dos Homens”, diz Yeseus Krishna no Bhagavad-Gïta, o “Canto do Senhor”:

“Os que desencarnam com neles ardendo o Fogo do Amor Divino, iluminados pela Luz do verdadeiro Conhecimento recebido do Sol da Sabedoria, esses conhecem o Espírito Supremo e com Ele se unem; esses passam pela Porta dos Deuses e não são mais obrigados a renascer. Os que, porém, desencarnam nas brumas do erro na noite da ignorância, esses hão-de voltar à esfera da mortalidade e renascerem tantas vezes quantas as necessárias até adquirirem o necessário grau de Amor e Sabedoria. Eles passaram pela Porta dos Homens.”

Chegando à Antiguidade Clássica greco-latina herdeira dos saberes védicos, observa-se o Yanus, “caminhos”, tomar personificação como Janus bifronte, indicativo do Passado (Inverno) e do Futuro (Verão) no Presente ou trânsito entre Trópicos de Câncer e Capris. Recebeu os cognomes de “Sol Invencível” (Saturno – Sol da Meia-Noite, condição Polar ou de Agharta) e de “Sol Invicto” (Lua por que se manifesta – Sol do Meio-Dia, condição Solar ou Celeste). Por este simbolismo cosmológico, Janus seria elevado a Patrono dos Colegia Fabrorum, Colégios de Artífices, e das Guildas Romanas, Corporações de Ofícios, que constituem a Maçonaria Histórica, antecessora da Operativa como esta a é da Especulativa. Munido de chave e bastão como seus atributos, Janus seria identificado pela palavra latina Janua, “porta”, e ele mesmo considerado Janitur, “porteiro”.

Com o firmar do Cristianismo em Roma tornando-a sua sede universal, aos poucos os atributos do deus Janus começaram a ser repassados a São Pedro, primeiro bispo de Roma, e sendo os deuses romanos gradualmente remetidos ao ostracismo, então os artífices greco-latinos recorreram ao artifício de adaptar o filólogo Iohanan ou Yokanan, João, designativo de “anunciador”, àqueles que assinalavam o início e o fim dos Evangelhos, neste caso, o início e o fim da marcha do Sol marcando os Solstícios nos respectivos Trópicos, isto é, São João Baptista (24 de Junho – Verão) e São João Evangelista (27 de Dezembro – Inverno), tornados assim os São Joões Solsticiais.

Foi dessa maneira que os São Joões entraram na tradição maçónica, sobretudo o Baptista reconhecido Padroeiro Universal da Maçonaria actual fundada em Londres no dia da sua celebração, 24 de Junho de 1717.

Mas há nisso um equívoco: o São João aclamado padroeiro pela Maçonaria Operativa, findada em 1523 iniciando-se um interregno de quase 200 anos marcado pelo Canteirismo e as Old Charges, “cartas antigas”, era João Esmoler ou João Misericordioso, também chamado João de Alexandria e João de Jerusalém (Amathus, Ilha de Chipre, 550 d. C. – Amathus, 616 d. C.), sendo representado como um bispo esmolando um aleijado ou um pobre. Canonizado no período pré-congregação, São João Esmoler é comemorado no dia 12 de Novembro pela Igreja Grega, mas o seu dia oficial é 23 de Janeiro segundo o Martirológio Romano: “23 Januarii […] Alexandriae sancti Joannis Eleemosynarii, ejusdem urbis Episcopi, misericordia in pauperes celeberrimi” (“23 de Janeiro […] São João Esmoler de Alexandria, bispo daquela cidade, por sua compaixão para com os pobres”).

Quando os persas saquearam Jerusalém no ano 614, João Esmoler enviou grandes quantidades de comida, vinho e dinheiro para auxiliar os cristãos que lá residiam e queriam fugir, além de ter contribuído para a construção/reconstrução de templos em Jerusalém, em Alexandria e em Chipre. Após a sua morte, em reconhecimento ao seu desprendimento material e amor incondicional, foi canonizado com o nome de São João Esmoleiro. Desde 1632 os seus restos mortais repousam na antiga Catedral de Pressburg, actualmente Catedral de São Martinho, em Bratislava, capital da Eslováquia.

Pelos seus predicados de charitas, São João Esmoler de Alexandria e Jerusalém veio a ser aclamado Patrono da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários ou de São João do Hospital de Jerusalém, praticamente desde 1099 quando se instalou nesta cidade, e assim continuou quando a Ordem passou a chamar-se de Rhodes e de Malta. Será dessa altura que os monges-construtores ao serviço da Ordem do Hospital, e também da sua coirmã a Ordem do Templo de Jerusalém, igualmente adoptaram por Padroeiro São João Esmoler, e assim ficou, mesmo que confundido com algum dos São Joões Solsticiais, sobretudo o Baptista.

Porém, as Old Charges indicam que os maçons operativos escolhiam como data da sua reunião anual – encontro de Guildas de Ofícios, algo assim parecido na estrutura com a portuguesa Casa dos 24 – o dia de São João Baptista em 24 de Junho, ou opcionalmente o dia de São João Evangelista em 27 de Dezembro. Isso seria do conhecimento do escocês James Anderson (1679-1739), posto estar registado no Item XXII dos Regulamentos Gerais das Constituições de Anderson, de 1723: “XXII. Os Irmãos de todas as Lojas de Londres e Westminster e das imediações se reunirão em uma Comunicação Anual e Festa, em algum Lugar apropriado, no Dia de São João Baptista ou então no Dia de São João Evangelista, como a Grande Loja pensa fixar por um novo Regulamento, pois essa reunião ocorreu nos anos passados no Dia de São João Baptista: Provido […].”

O facto é que em algumas Old Charges inglesas aparece o primitivo emblema solsticial, composto por um círculo com um ponto no centro, símbolo do Sol, entre duas linhas paralelas e tangenciais, representando os Trópicos de Caranguejo e de Capricórnio e que o Sol não se manifesta fora deles, tal qual é inviolável a Consciência Monádica ou Divina no âmago profundo do Homem, estando assim em ligação directa com a observância dos Solstícios assinalados por São João Baptista e São João Evangelista, bem podendo ser figurativos do Manu-Semente (Vida) e do Manu-Colheita (Morte), Alfa e Ômega do Manvantara, o Ciclo de Manifestação.

Simbólica ou figurativamente, os dias de solstícios ocorrem ao meio-dia ou à meia-noite. A metade ascendente do ciclo diurno decorre da meia-noite ao meio-dia, enquanto a metade descendente transcorre do meio-dia à meia-noite. Ora, no simbolismo maçónico que se torna vivo através do ritual, o trabalho iniciático ou mistérico inicia-se ao meio-dia e finda à meia-noite, ou seja, vai da “Porta dos Deuses” à “Porta dos Homens”, sendo que o zénite do Sol Físico ocorre ao meio-dia e o do Sol Espiritual acontece à meia-noite, quando termina o trabalho do aperfeiçoamento espiritual do Maçom ou Obreiro, o Filho da Luz… saindo por Pitri-Yana indo transmitir essa mesma Luz à Humanidade, mas na justa e perfeita proporção consoante o desenvolvimento individual e colectivo dela, posto revelar a sabedoria a um desinteressado apávido é esforço inglório. Como sugere a palavra-passe do Companheiro Maçom, Schib∴, “espiga de trigo”, este só se deve colher quando está maduro, lá pelo estio. A bom entendedor…

Isso também explica a presença saturnina do Bode ou Caprino na simbólica maçónica, expressivo do Kumara ou Senhor do Mental, jamais devendo resvalar para pentagramas invertidos – ashivas – e teorias duvidosas onde moral e ética se esvaiem mais depressa do que se esvaiem os grãos de areia na ampulheta de Cronos ou Saturno, abrindo a porta proibida das Forças do Mal (Qliphoth) e da Perdição de um e de todos os afins, induzindo-lhes as piores vicissitudes. “Faz o que quiseres”, afirmou alguém que já não está no mundo dos vivos, mas deveria ter acrescentado: desde que não transgridas a Lei que a tudo e a todos rege.

As “borras” humanas dos Assuras humanos do Passado estão hoje manifestadas. Resta resgatá-las – as que há a resgatar – como “Folhas Soltas” da Árvore da Vida reintegrando-as à Consciência do Luzeiro de Amor-Sabedoria nesta fase crítica de Interciclos. Poderia adiantar algo mais mas não o quero fazer ficando-me pela frase lapidar, tantas vezes repetida por Henrique José de Souza e Helena Petrovna Blavatsky, de “a diferença entre Magia Branca e Magia Negra é mais ténue que um fio de cabelo”.

Quando os Superiores Incógnitos fundaram o moderno sistema maçónico do século XVIII, sobretudo os Condes de São Germano e de Cagliostro, respectivamente representativos da Autoridade Espiritual e do Poder Temporal, fizeram-no para que fosse mais que tudo uma Corrente de Iniciação e Realização individual e colectiva, restaurando os Mistérios Antigos mas projectando-os no Futuro à Luz das Revelações do Luzeiro de Amor-Sabedoria, para que a Evolução não cessasse e a marcha avante do Género Humano prosseguisse firme e certa. É assim que os posteriores 33 Graus do Rito Maçónico vêm a expressar as mais transcendentes realidades por via do Esquadro e do Compasso, seu Símbolo-Mor, conforme o esquema a seguir em que se conforma a Hierarquia Iniciática que assiste ao Esquema de Evolução Universal (Manvantara).

Ainda do ponto de vista cosmológico, uma Loja ou Loka retrata o Universo inteiro, sobretudo o Templo com a abóbada estrelada direccionada ao Delta com o Olho Central do Grande Arquitecto do Universo, expressivo da Divindade Criadora – Vishvakarman.

Expressando as Hierarquias Criadoras (Tronos, Dominações, Arcontes, Arcanjos, Anjos, etc.) têm-se figurados no Templo os doze signos do Zodíaco “vestes” daquelas, São as doze colunas zodiacais que ornam o Templo, cada uma identificada pelo respectivo signo, assim dispostas:

Coluna do Norte (Aprendizes) – Do Ocidente para o Oriente: Carneiro, Touro, Gémeos, Caranguejo, Leão, Virgem.

Coluna do Sul (Companheiros) – Do Oriente para o Ocidente: Balança, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário, Peixes.

Borla Denteada (Mestres) – Com os seus 81 nós ou borlas é o cordão que cerca todo o Templo e assim une as colunas zodiacais unindo as doze Hierarquias Criadoras ou da Geração assinalada no 8+1 = 9, número da gestação. Equivalendo ao sânscrito antahkarana, “elo que une”, cadeia de união, serviu para os antigos maçons operativos metrificarem a construção a realizar, seguindo o modelo três por quatro (ou 3×4 = 12 signos), significando agora que o Templo é justo e perfeito nos seus matras ou medidas. Também por isto os Mestres podem ocupar indistintamente tanto a Coluna do Norte como a do Sul.

Conceptualmente, o Templo Maçónico é atravessado pelo Trópico de Câncer (Solstício de Verão) que é a linha imaginária indo da Coluna Bohaz (Rigor de Bhakti, a Devoção) à Lua (Chandra); também é atravessado pela linha do Equador Celeste (Equinócios da Primavera e do Outono) indo do Ocidente ao Oriente, sendo também atravessada pelo Trópico de Capris (Solstício de Inverno), a linha imaginária distendendo-se da Coluna Jakin (Sabedoria de Jnana, o Conhecimento) ao Sol (Surya). Quando o Obreiro Maçom se desloca de uma Coluna para outra, configura os movimentos da Terra (rotação e translação), e assim se desloca de um solstício para outro, de um equinócio para  outro, percorrendo em passos triangulados as diferentes etapas e provas da evolução do Espírito em sua passagem pela Loja, Loka, Lugar ou Mundo vivente em sua multiplicidade de experiência que o enriquecerão cada vez mais, assim transformando a Vida-Energia em Vida-Consciência que é a meta final da verdadeira Iniciação.

Por tudo isso, a Maçonaria celebra com solenidade os Solstícios de Verão – dedicado ao Reconhecimento – e de Inverno – dedicado à Esperança – mais os Equinócios da Primavera e do Outono, sob os títulos seguintes:

Festa Equinocial do Despertar da Natureza – Equinócio da Primavera

Festa Solsticial do Triunfo da Luz – Solstício de Verão

Festa Equinocial do Repouso da Natureza – Equinócio do Outono

Festa Solsticial da Regeneração da Luz – Solstício de Inverno

Acerca da Festa Equinocial, tem-se que no seu juramento o Maçom do Grau 18, Cavaleiro Rosa+Cruz, contrai a obrigação de manter uma das mais belas tradições maçónicas: a de se reunir no local da sua Iniciação na primeira quinta-feira de Lua Cheia, após o equinócio sob o signo de Áries, na denominada Quinta-Feira de Endoenças (Quinta-Feira Santa). A palavra endoença provém do latim indulgentia, “perdão, absolvição”, aplicada ao conceito religioso cristão como a graça concedida pela Igreja para remissão total ou parcial das penas dos pecados na Quinta-Feira Santa.

A intenção desse encontro é a de rever os Irmãos Maçons, trazer notícias daqueles outros adoentados ou que tenham falecido. Com um ritual único, realizam uma Ceia Mística, a Ceia de Endoenças, rememorando a Última Ceia de Jesus Cristo com os seus Apóstolos. Todos os participantes rememoram as caridosas palavras: “Dai de comer a quem tem fome e dai de beber a quem tem sede” (Mateus 25:35), e compartilham o Ágape ou ceia fraternal.

Respeitante à Festa Solsticial, a Maçonaria actual mantém a tradição herdada da Maçonaria de Ofício ou Operativa da chamada Mesa de Loja ou de Banquete, cerimónia datada de 1721 mas recuando aos tempos medievos, aquando os Grémios de Ofícios se reuniam em repastos fraternais, confraternizando e trocando ideias, por altura dos Solstícios do Verão ou do Inverno. Portanto, no seguimento desta antiga tradição, a Loja de Mesa deve ser instalada pelo menos uma vez por ano, de preferência no Solstício de Inverno (no Hemisfério Sul) ou de Verão (no Hemisfério Norte). Os solstícios ocorrem quando o Sol atinge a sua posição mais afastada do Equador Terrestre: para o Hemisfério Sul o Solstício de Verão ocorre quando o Sol atinge a sua posição mais austral (meridional, sul), enquanto o Solstício de Inverno ocorre quando o Sol atinge a sua posição mais boreal (setentrional, norte). Este último acontece em 21 de Junho, sendo então a época mais propícia para a Loja de Mesa, embora muitas Lojas a realizem no dia 24 de Junho, aproveitando o solstício para homenagear o Padroeiro São João Baptista (Janus CoeliDeva-Yana). Ela também pode ser realizada no Solstício de Inverno no Hemisfério Norte, em 21 de Dezembro ou em 27 de Dezembro, em homenagem a São João Evangelista (Janus Inferni – Pitri-Yana).

Sobre o reunir para comer e beber em datas fixas do calendário cosmológico, herança das primitivas tradições agrárias de celebração no final das semeaduras e colheitas, há nisso um saber e um significado ocultados muito a ver com o que Pinharanda Gomes descreve na sua obra Entre Filosofia e Teologia com que dou o arremate final a este estudo:

– Do sabor se tira uma íntima relação para o saber. Sábio é o que sabe, mas, uma forma adjectiva como sápido, ou sípido, se aplicará por igual modo ao que sabe em si mesmo, ou que tem sabor. O que sabe, ou nos sabe bem, ou mal, está muito próximo da axiomática daquele que sabe muito, ou sabe pouco, que, ou é sábio, ou ignorante, por não dispor de saber e, logo, da possibilidade de tomar o sabor ao saber. Pelo primeiro nos decidimos à educação; pelo segundo nos dispomos à nutrição. Saber e sabor ambos ocupam, e não ocupam, lugar. Plenos, após muito estudar ou muito comer, a fase de digestão e de assimilação passada, é como se não houvéramos comido, como se não houvéramos aprendido. O comer e o saber não ocupam lugar. Transforma-se, o primeiro, na corrente aquosa do sangue vital; adere, o segundo, à torrente cristalina do espírito.

Saborear o fruto é o mesmo que sabê-lo – apreendê-lo na qualidade de valor nutriente e na virtualidade de objecto, redutível à imagem particular (um fruto), bem como à ideia universal (a fruta). Do geral se tira o sabor para o saber do universal.

Aluno é o que é alimentado (alumnus), aquele a quem, noutra instância, o mestre educa e alimenta a alma pelo saber – scire quo uno animus alitur, segundo Cícero – que é próprio da alma. Alere, qual outro alar, alimentar, flutua na metáfora do educar, de maneira que, onde dizemos da necessidade de dar pão, se prevê a liberdade de exercitar a razão, de transitar da imagem nutritiva para o conceito educativo. Der mensch ist isst – o homem é o que come e, pois, o homem é o que aprende.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Livros Dinapress, Lisboa, Setembro de 2002.

Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa. Livros Dinapress, Lisboa, Maio de 2011.

Vitor Manuel Adrião, Portugal – Dimensão Oculta. Chiado Editora, Lisboa, Dezembro de 2015.

Pinharanda Gomes, Entre Filosofia e Teologia. Fundação Lusíada, Lisboa, 1992.

Jean Hani, O Simbolismo do Templo Cristão. Edições 70, Lisboa, Dezembro de 1981.

J. M. Ragon, La Misa y sus Misterios. Muñoz Moya y Montraveta, editores, Sevilla, 1984.

H. P. Blavatsky, As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo, 1972.

René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo, 1993.

Jules Boucher, A Simbólica Maçónica. Editora Pensamento, São Paulo, 1993.

Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo, 1974.

Orlando Soares da Costa, Iniciação Real ou do Profano ao Sagrado, Livro III. Editora Europa, Rio de Janeiro, 1999.

Rizzardo da Camino, Príncipe Rosa+Cruz e seus Mistérios. Gráfica Editora Aurora Limitada, Rio de Janeiro, 1975.

Rizzardo da Camino, A Cadeia de União. Gráfica Editora Aurora Limitada, Rio de Janeiro, 1983.

Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo ou Ordem Militar da Seta [Frecha] de São Sebastião, criada por D. Sebastião no Algarve – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jun 20 2019 

D. Sebastião, filho do príncipe herdeiro do trono de Portugal, D. João Manuel (Évora, 3.6.1537 – Lisboa, 2.1.1554, sendo o oitavo filho do rei D. João III), falecido precocemente de consumo, segundo as fontes, possível referência à tuberculose ou, ainda, aos diabetes, doença que teria herdado de seu avô materno D. Filipe I de Leão e Castela, e de D. Joana de Castela (Madrid, 24.6.1536 – Escorial, Madrid, 7.9.1573), arquiduquesa da Casa de Habsburgo da Áustria, nasceu em Lisboa no dia 20 de Janeiro de 1554, dezoito dias após a morte do progenitor, e faleceu em Alcácer-Quibir, Marrocos, em 4 de Agosto de 1578.

Desde o ventre materno que D. Sebastião era desejado – e mais ainda depois de nascido – em vista da crise dinástica que Portugal atravessava. A morte de D. João Manuel, único filho sobrevivente dos nove que D. João III, deixou o reino em sobressalto e a sucessão régia passou a depender do sucesso do parto de D. Joana.  O problema não estava na falta de herdeiros ao trono português, mas sim no contrato de casamento de D. Maria Manuela, irmã do príncipe defunto, com D. Filipe II de Castela, pelo que não havendo sucessores Portugal passaria ao filho dessa união, D. Carlos, e ficaria sob o governo de Castela, intenção abominada pelos portugueses, desde o clero à nobreza e o povo.

O bispo de Lamego e arcebispo de Lisboa, D. Fernando de Meneses Coutinho e Vasconcelos (Lisboa, c. 1480 – Lisboa, 7.1.1564), ordenou que assim que começassem as dores do parto avisassem a Sé, para que fosse feita uma procissão de fé e alvissaras na hora da esperança. Quando a princesa começou a sentir as dores, na noite de 19 para 20 de Janeiro, de madrugada chegou o aviso e o povo afluiu à igreja de S. Domingos sendo tão grande a multidão que os padres pregavam uns dentro e outros do lado de fora do templo. Na manhã de sábado, 20 de janeiro, nasceu o príncipe e a notícia foi recebida com loas de alegria geral e louvores de graças a Deus. Em 27 de Janeiro, ao oitavo dia, o cardeal D. Henrique (Lisboa, 31.1.1512 – Almeirim, 31.1.1580), irmão de D. João III filhos de D. Manuel I, batizou o seu sobrinho neto com o nome Sebastião, por esse ser o dia do santo homónimo, sendo seus padrinhos o rei e a rainha seus avós. – In José Pereira Baião, Portugal cuidadoso, e lastimado com a Vida, e Perda do Senhor Rey Dom Sebastião, o desejado de saudosa memória. Historia chronologica de suas acções, e sucessos desta Monarquia, Livro I (de cinco volumes), Capítulo Primeiro, De sua Infância. Do nascimento, batismo, e aclamação del Rey D. Sebastião, de outros sucessos notáveis deste tempo. Lisboa Ocidental, 1737.

D. Sebastião ascendeu ao trono aos três anos de idade, após a morte do seu avô o rei D. João III, com regência instaurada durante a sua minoridade, liderada primeiro por sua avó, a rainha D. Catarina de Áustria, e depois pelo seu tio-avô, o cardeal D. Henrique de Portugal. Foi coroado em 16 de Junho de 1557 como D. Sebastião I de Portugal, e em 1568, com catorze anos de idade, assumiu a regência.

Desde o berço e na juventude de que não passou, D. Sebastião foi rodeado de halo de mistério sobrenatural justificado por prosas e poemas, quadros e pinturas, aplaudidas pela erudição da época pouco ou nada descasada com o senso do pensamento hermético – casando Alquimia e Cabala, Astrologia e Messianismo – já campeando na corte de D. Manuel I, retraído no reinado de D. João III e novamente expandido nesta fase do Desejado, teve ele uma educação cuidada mas igualmente exagerada no tocante à formação militar e religiosa, tanto que o levariam a assumir o estatuto de divinus rex bellator et piscatoris – senhor do mundo conquistado e conquistador de almas – acabando por perder Portugal numa tragédia bélica em breve tornada apologética, messiânica e esperançosa porque o rei não morrera, só desaparecera, haveria de voltar. Com isso nasceria o sebastianismo, coluna dorsal da mística portuguesa que chega a ser mais popular que erudita, mais política que espiritual, mais sebastianista que sebástica. Nisto, o rei-pessoa acabou superado pelo rei-símbolo, e ele próprio muito contribuiu para isso em sua curta vida.

Como aio, escolheram-lhe o leal fidalgo D. Aleixo de Meneses; como preceptor, após algumas divergências, o padre jesuíta Luís da Câmara, que exerceu grande influência no espírito do rei adolescente, e por quem o monarca chorou lágrimas sinceras quando a morte o privou dos seus ensinamentos. Ao jesuíta Luís da Câmara sucedeu o agostiniano Luís de Montoya, que já fora confessor de D. João III e do infante D. João (cf. António Machado Pires, D. Sebastião e o Encoberto. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1982).

Quiseram dar ao rei uma educação portuguesa; sentia-se a necessidade de intensificar o sentimento nacional numa época com sintomas de decadência (já há muito, em 1537, o humanista flamengo Nicolau Clenardo deixara na sua Carta a Tiago Látomo, também humanista, o registo sobre a decadência portuguesa no tempo de D. João III), por isso mesmo numa época em que se levantavam mais altas as vozes de exaltação do passado, assentando as suas ideias de que o império entrara numa fase de decadência, sentimento negativo que levava a olhar com saudosismo para os “anos dourados” do início do século, quando os portugueses se haviam espalhado, vitoriosos, pelo Índico. A edição dos Comentários de Afonso de Albuquerque, dada á estampa em 1557, certamente é um bom exemplo do ambiente pessimista que se vivia na corte; o recuo em Marrocos acentuara nitidamente essa visão. Era, como se pensava, uma hora que reclamava patriotismo, o arredo radical das intrigas palacianas, da corrupção, das lutas coloniais ou ultramarinas, enfim, dos vários sintomas de decadência.

O programa de educação do rei baseava no sentimento nacional, na exaltação do heroísmo passado, no estímulo dos grandes feitos. As leituras principais de D. Sebastião também são significativas: aos treze anos lia o Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda (de Jorge Ferreira de Vasconcelos, recém-impressa nesse ano de 1567 e dedicada a ele, “muyto Alto e muyto Poderoso Rey Dom Sebastião, primeiro deste nome em Portugal, nosso Senhor”), que tomou como o ABC da Cavalaria; leu o Cid e muitos mais romances também de Cavalaria (Amadis, Palmeirim e outros), tomando o romance como a realidade que veio a moldar e impor, aliás, com aceitação [quase] geral. Teria ainda lido a Filosofia dos Príncipes e também a Educação dos Príncipes, obras próprias para a formação de um monarca. O humanista Diogo de Teive (Braga, 1513/1514 – Brasil, 1565), cuja heterodoxia religiosa próxima das ideias de Erasmo lhe valeu ser perseguido pela Inquisição, escreveu para ele o livrinho Institutio Sebastiani Primi, traduzido por Francisco de Andrade com o título Regras para a Educação de D. Sebastião (cf. Aurelio Pérez Jiménez, José Ribeiro Ferreira, Maria do Céu Fialho, O Retrato Literário e a Biografia como estratégia de Teorização Política. Imprensa da Universidade de Coimbra / Universidad de Málaga, 2004). Com tudo, D. Sebastião viveu numa atmosfera propícia a sonhos guerreiros, heróicos, de demanda e domínio. Sentia-se um cruzado, um paladino, um cavaleiro de Ordem Militar. No seu livro D. Sebastião – Rei de Portugal (Lisboa, 1924), Antero de Figueiredo disse que se as Ordens Militares não estivessem criadas, sê-lo-iam por este príncipe. Mas foram: ele reuniu em uma só as Ordens de Cristo, de Santiago e de Avis naquela que criou de sua exclusiva iniciativa – a Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo ou Ordem Militar da Seta [Frecha] de São Sebastião.

A ideia desse projecto ter-lhe-á começado a germinar na mente por volta de 1570, altura em que transpõe o seu tópico místico-militar de império para a sua empresa particular, notoriamente hermética que talvez lhe a sugerissem aqueles mais familiares do Hermetismo da época. Essa sua empresa oficial é composta por um peixe atrás de uma vieira (bivalve) sob o céu com as estrelas e a Lua. Esta aparece em quarto crescente, sendo as estrelas a Ursa Menor onde se encontra a Estrela Polar, a Estrela Guia, no caso, o Guia do País como Messias Nacional. A sua divisa é a seguinte: Serena Celsa Favent, “o esclarecimento (ou a serenidade) favorece a excelência”, sugerindo que D. Sebastião, o Desejado, perfilhava de Filosofia que o dispunha como executante escolhido pela Virgem e as Estrelas para missão divina tal qual a de Cristo, duas vezes nascido, de mulher ou da carne e pelo batismo (vieira), convertendo os infiéis na Terra Santa. Agora seria ele a retomar a missão de Cristo buscando retomar Jerusalém para a Cristandade, ele o favorecido pelos céus, para tanto urgia a fundação de uma nova Ordem Militar e Religiosa capaz de reunir o mundo cristão (assinalado no peixe) na perfilha da ideia de cruzada nova, Ordem essa preferencialmente fundada na terra de Santa Maria de Lagos, onde o seu antepassado Infante Henrique de Sagres iniciara a Cruzada do Mar, a mesma Gesta Dei per Portucalensis manuelina correspondendo à conquista espiritual do Mundo.

A Gesta Dei per Portucalensis, divisa manuelina do Ciclo das Descobertas Marítimas, estava ao encargo da Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, vulgo Ordem de Cristo, a dos freires cavaleiros ou milites Christi, cuja organização interna e função claustral ou expansora estava consagrada desde o reinado de D. Dinis, mas que depois, em 1528, D. João III reformaria através do seu confessor frei António Moniz da Silva, dito de Lisboa, religioso dos Jerónimos de Guadalupe, próximo de Madrid, convertendo a Ordem à estrita clausura vigiada de perto pelo Tribunal da Inquisição, sujeita às exigências mais rigoristas, o que acelerou a sua decadência e com ela o início da crise no império ultramarino.

Igualmente o Mestrado da Ordem Militar de Santiago ficou sujeito às intenções e disposições exclusivas da Coroa e assim mesmo a Ordem Militar de São Bento de Avis, que abrigava a maioria da nobreza, já de si perseguida e manietada desde o reinado absolutista de D. João II. A decadência das três Ordens era notória, D. Sebastião sabia disso – como todos sabiam – e quis reuni-las numa única por si fundada.

Crente na sua missão messiânica de rex bellator, evocava constantemente a hagiologia do seu homólogo que além de santo também fora guerreiro, juntando assim a santidade e a realeza na sua exclusiva pessoa. Como tal e tanto, acreditava só ele poder fundar uma Ordem salvífica não só das antecessoras mas do mundo inteiro da perfídia herege (nesta incluindo além de árabes também judeus e cristãos, segundo o seu particular entendimento das Escrituras), a qual calcaria quando tivesse o domínio da Terra desde o seu centro geopolítico e religioso que era e é Jerusalém. Tomava-se assim como o próprio Senhor do Poder Temporal e da Autoridade Espiritual do Mundo, predicados de Melki-Tsedek e igualmente de Mikael ou Miguel, o Arcanjo Quis ut Deus (cf. René Guénon, O Rei do Mundo, 1.ª edição, Paris, 1927).

Também S. Sebastião se alistara como soldado do exército romano (cerca do ano 283 d. C.) com a única intenção animar o coração dos cristãos, enfraquecido diante das torturas. Era querido dos imperadores Diocleciano e Maximiliano, querendo-o sempre próximo deles ignorando tratar-se de um cristão, tendo-o até designado capitão da sua guarda, a guarda pretoriana. Mas, cerca do ano 286, a sua conduta branda para com os cativos cristãos levantou suspeitas, acabando por levar o imperador a julgá-lo sumariamente como traidor, ordenando a sua execução por meio de flechas (símbolo constante na sua iconografia). Dado como morto foi atirado ao rio, porém, S. Sebastião não havia morrido…

Reaparece no dia 20 de Janeiro de 1554, dia de S. Sebastião, desta feita como D. Sebastião. Nisto acreditavam muitos portugueses, para eles sendo um sinal da missão divina do rei. Religioso extremado, tomando para si a probidade do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira, que salvou a Independência Nacional, e a castidade por voto do seu antepassado o Infante D. Henrique, Mestre e Governador Geral da Ordem de Cristo, recusou o casamento por várias vezes preferindo a rigidez celibatária, imprópria para um rei que devia deixar geração sob pena de comprometer a sua sucessão legítima no trono com o risco de perigar a independência nacional, tendo sido depois esse facto aproveitado por diversos autores para darem o monarca como “avesso a mulheres”. Talvez o fosse, talvez não o fosse, mas sendo quase comum – por ausência de pensamento sagrado e sobejo de preconceitos intelectuais, castradores do nócio científico, seja ou não empírico – a ausência de enquadramento do seu perfil de adolescente inflamado nas suas declaradas pretensões místico-militares, ou de misticismo militarista, a sua principal e talvez única motivação na vida, a começar por querer se identificar a S. Sebastião, cujas setas/flechas martiriais adoptaria como divisa alternativa. Aliás, essa divisa alternativa adquiriu maior importância numismática que a sua divisa primária, vendo-se alguns exemplos na numerária indo-portuguesa do século XVI, onde as flechas são o identitário principal.

Tudo indica que D. Sebastião formalizou o plano de fundação da sua Ordem Militar em 20 de Janeiro de 1576, talvez no Convento Franciscano de Santa Catarina ou o do Corvo (hoje desaparecido), no Cabo de S. Vicente, tendo-a fundado em Março do ano seguinte na igreja de S. Sebastião (antiga ermida de Nossa Senhora da Conceição, datada de 1325) da cidade de Lagos, através do bispo de Silves (1540), D. João de Melo. Vizinho do ideal franciscano, aí instalou a sede da sua Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (decalcada inteiramente da regular e secular Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo), também chamada de Ordem da Flecha de S. Sebastião. Desde a substituição do Orago da igreja, a Senhora da Conceição por S. Sebastião, às reformas no edifício e à decoração rica de simbolismo sebástico-hermético, com destaque para as telas do pintor Álvaro Dias, terminadas em 1580, esta terá sido a Casa-Mãe dessa Ordem controversa de duração efémera, ainda assim aproveitada para resguardo pio de muitos hermetistas da época quinhentista/seiscentista algarvia, sobrando ainda a porta principal da ermida primitiva que depois das reformas das reformas de 1463 pelo bispo D. João de Melo, ficou disposta como portal lateral, com a ombreira recheada de figuras herméticas do imobiliário alquímico, tornando-a assim um liber mutus (“livro mudo”).

Dentro do templo, na abóbada em caixotão de madeira, observa-se a pintura de um pentalfa flamejante sobre a coroa régia encerrado as três setas de S. Sebastião, como ilustração central bordada pela frase latina do Salmo 71: “Bendito o Senhor que fez o Milagre do Sol”. Para o Professor Henrique José de Souza (1883-1963), fundador da Sociedade Teosófica Brasileira (aliás, a Virgem da Conceição deste templo, diz a lenda local, veio pelo mar trazida pelos Anjos do Brasil até aqui, o que é deveras significativo), o Salmo 71 tem o significado cabalístico seguinte: “Justiça igual para todos. Paz universal. Fraternidade entre os povos. Extinção da pobreza. Verdadeira liberdade. Abundância e prosperidade”. Ora, esses são precisamente os predicados da Sinarquia ou Concórdia Universal que tanto os Templários como os Freires de Cristo perseguiram e realizaram em seu espaço de actuação, particularmente nesta parte do Algarve (de Silves a Sagres) desde a surtida de 1189 por D. Sancho I, apoiado pela Ordem do Templo, que conquistaria desde Silves até à Raposeira e Vila do Bispo chegando a Sagres, logo, perpassando Lagos onde sobrevivem memórias históricas e arqueológicas desse período. Tudo isso terá sido motivo e pretexto para D. Sebastião fundar aqui a sua Ordem, atraindo para a sua real pessoa as grandezas dos feitos passados como justificativa nunca esclarecida por certo pela ausência de profundidade adulta, exagerada pela presença da superficialidade juvenil.

Sobre este tema, Manuel Joaquim Gandra escreveu (O Neotemplarismo, p. 167, em Cadernos de Tradição – O Templo e a Ordem Templária de Portugal, Ano I, N.º 1, Solstício de Verão de 2000, Lisboa – Mafra):

Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ordem Militar criada por D. Sebastião, em Março de 1577, achando-se no cabo de S. Vicente (Algarve). Alguns autores chamam-lhe, impropriamente, Ordem da Flecha de S. Sebastião.

“A missiva que, na circunstância, D. Sebastião remeteu ao embaixador em Roma faz luz sobre o evento: “[…] esta ordem que agora determino publicar é aquela mesma que tenho instituído e a que então dei princípio com nela entrar a fazer logo profissão, e que não é a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo que alguns podem cuidar que seja por a cruz dela ter muita semelhança com a que escolhi e ordenei para esta nova ordem, que tenho assentado que se chame a Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e divisa de S. Sebastião, pela Seta que com a mesma cruz ao pé dela trago” (cf. BN: cod. 887, fl. 158r-158v). Consulte-se Sampaio Bruno, O Encoberto, Porto, 1904, p. 80-97, e Camões, Oitavas sobre a Seta que o Santo Padre mandou a El-Rei D. Sebastião, no ano do Senhor de 1575. O Desejado tencionava fundar um Templo dedicado ao mártir no Terreiro do Paço (Lisboa) para nele albergar a relíquia do braço do mesmo Santo que Carlos V furtara no Vaticano, quando do saque de Roma. Francisco de Holanda apresenta o respectivo projecto no Da Fabrica que falece à Cidade de Lisboa (fl. 26v-27r).”

Com efeito, em 1571 D. Sebastião requereu do Papa Pio V autorização para alterar os estatutos das Ordens Militares de Cristo, Santiago e Avis, e acrescentar à cruz dos referidos hábitos uma seta ou frecha, em memória da arma com que fora martirizado o santo seu homónimo, assim colocando o Sebastião rei ao Sebastião santo, cuja distinção só seria conferida aos cavaleiros que se assinalassem por feitos notáveis na guerra. Ele, monarca, não sendo cavaleiro usava assim das suas prerrogativas reais para ser chefe de todos eles e “estocar”, “flechar” fatal e decisivamente as antigas Ordens seculares de Cavalaria e Linhagem nobiliárquica com mais de cinco gerações ininterruptas. Essa intenção regista-se numa pedra armoriada com as três Ordens e a de S. Sebastião por cima, num edifício da antiga Alfândega e actual Porto de Setúbal.

De saúde frágil, inquieto e imaginativo, de fantasias lúgubres, nisto rei quimérico querendo fazer-se imperador do mundo indo tomar Jerusalém a partir do Norte de África, onde se perderia e perdeu Portugal, decapitando financeira e militarmente o país, ansiava sempre copiar as grandezas dos seus antepassados, vendo-se a incarnação de todos eles e de todas elas, como constata Alexandre Ferreira na História das Ordens Militares que houve no Reyno de Portugal, Academia Real da História, Lisboa, 1735: “E passando ao que me importa, digo, que prezo El Rey desta ideia da jornada de Africa, e penhorado da Setta de S. Sebastião, para gloria da empreza, a que se encaminhava, e lembrado de que seu antigo avô, El Rey D. Affonso o I, no glorioso sucesso de Santarem contra hum numero sem numero de Barbaros, capitaneados por El Rey de Sevilha, instituira a Ordem da Ala, ou Aza de S. Miguel, para escrever com aquellas pennas as memorias do seu agradecimento, e voar com aquella Aza em gloriosos triunfos; e que El Rey D. Affonso o V, para continuar os gloriosos empregos, que lhe derão o nome de Africano, creara a Ordem da Espada de Santiago; e com estas honradas memorias creou a Ordem da Setta de S. Sebastião, espada segura para triunfar do contagio daquelles Barbaros, porque nas azas, com que voara, levaria a saude contra a peste da Infidelidade.” Informando ainda que a Cruz signitária dessa nova Ordem era idêntica à da secular Ordem de Cristo cujos cordões vermelhos da sua orladura “eram de ouro e a seta atravessando a cruz”. Igualmente António de Mariz, no seu Manuale Missalis Romanum (Coimbra, 1577), reproduz em vinheta a insígnia dessa Ordem, a das três setas atravessando a coroa, tal qual se vê ainda num dos capitéis da igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa. No mesmo sentido escreveu Manuel de Faria e Sousa na sua Europa Portuguesa, em 1667. Mais recentemente, Manuel Joaquim Gandra, em seu estudo Ordens Luso-Brasileiras e suas Insígnias (2017), aviva o testemunha desses autores não deixando, todavia, de classificar esta Ordem da Cruz de Nosso-Senhor Jesus Cristo como “Ordem Efémera”, apodo que desconheço se pela sua curta duração, se pela sua menos ou nenhuma valia tradicional no nobiliárquico, religioso e militar/cavaleiresco.

Além das alterações nos Estatutos (efectuadas em 6 de Fevereiro de 1572) indo afectar a ponto de decapitar o sentido canónico das Regras das supraditas Ordens, D. Sebastião solicitou uma das setas com que foi martirizado o santo homónimo, para a depositar na igreja que lhe pretendia edificar em 1570 em Lisboa, junto à então praia do Terreiro do Paço, mas que não passou da intenção, ficando-se a dita relíquia, depois de chegada, pelo Mosteiro de S. Vicente de Fora, ainda na capital. A morte de Pio V levou a que só o seu sucessor, o Papa Gregório XIII, pudesse satisfazer a vontade régia, já que, pelo falecimento de D. Joana de Áustria, enviou a seta embebida no sangue do mártir, acompanhada de um Breve Pontifício datado de 8 de Novembro de 1573.

Essa venerada relíquia – sacra invenção – chegou a Portugal 9 de Fevereiro de 1574, trazida pelo enviado papal Pompeo Lanoja, Cubiculário de Sua Santidade, sendo recebido pelo rei quando estava nos seus Paços de Almeirim. Motivo para Luís de Camões escrever a sua Oitava sobre a Seta que o Santo Padre mandou a El-Rei D. Sebastião, no ano de 1575.

Nesse sentido, igualmente o pressuposto rival do “príncipe dos poetas portugueses”, Pêro ou Pedro Andrade [de] Caminha (Porto, 1520 – Vila Viçosa, 9.9.1589), dedicou alguns poemas encomiantes ao Desejado dentre os quais o Epigrama CLXXXVII com o significativo título A El-Rei Nosso Senhor da Setta que traz no peito: “Com a Santa Seta, de que o peito ornaste, Grão Rei de todos os peitos nos abriste;”, etc. (cf. Poesias de Pedro Andrade Caminha, mandadas publicar pela Academia Real das Sciencias de Lisboa. Lisboa, na oficina da mesma Academia, MDCCXCI; Poesias inéditas de Pedro Andrade Caminha. Publicação de J. Priebsch como reprodução em fac-símile do exemplar datado de 1898 na Biblioteca Nacional. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1989). É ainda a este autor que se deve a pressuposta única iconografia da insígnia desta Ordem contida na sua iluminura do Elogio dos Reis de Portugal, cerca de 1578, reproduzida pelo mesmo Manuel Gandra no seu estudo por último citado.

Colado pelo batismo a S. Sebastião, D. Sebastião teve sempre, como se viu, uma constante e significativa preocupação em representar as setas ou frechas que martirizaram o santo em tudo aquilo que simbolicamente expressasse o poder régio e a sua própria pessoa como rei, assim unindo – inspirado pelos seus mentores – o Poder Real à Autoridade Espiritual concentrados na sua única pessoa, prerrogativas de Melki-Tsedek o qual parece ter querido se assumir como Soberano Supremo do Mundo, o que seria confirmado de alcançasse Jerusalém, a ocupasse e nela instalasse o seu trono, o que também já disse. Com a sua ida a Alcácer-Quibir e a derrota militar que sucedeu, a Ordem da Seta de S. Sebastião entrou em acelerado esquecimento e praticamente desapareceu nos anais da História.

As cinzas da fogueira do efémero na quimera do tempo, acabariam reavivadas séculos depois por motivos avizinhando-se realengos espelhados menos sebásticos e mais sebastianistas, como esses até hoje opondo brigantinos e anti-brigantinos, para todo o efeito, sempre esbarrando na Lei do Banimento, de 19.12.1834, e na Lei da Proscrição, de 15.11.1910, ambas revogadas pela Presidência da República no Decreto-Lei n.º 2040 publicado no Diário da República n.º 99/1950, Série I de 1950-05-27. Com tudo e talvez aparte tudo, sejam prós, sejam contras, em Janeiro de 1994 a antiga Ordem fundada por D. Sebastião foi restabelecida por D. Filipe Folque de Mendoça (16.4.1967 – ), 3.º conde de Rio Grande, filho de D. Alberto Nuno Carlos Rita Folque de Mendoça Rolim de Moura Barreto (1923-2003), 5.º duque de Loulé, que a autorizou, retomando então a primitiva denominação de Ordem Militar de São Sebastião, dita da Frecha, instalando a sua sede no antigo mosteiro beneditino de S. Salvador de Palme, Barcelos. No dia 20 desse mesmo ano e mês, dia de São Sebastião, foi celebrada uma missa em honra do santo patrono e do rei fundador da Ordem. O duque de Loulé, em carta passada de 19 de Julho de 1999, confirmaria essa autorização na pessoa de seu filho. A Ordem permaneceu adormecida até ao ano de 2003, até finalmente, em carta de 20 de Janeiro de 2004, D. Filipe a ter reactivado, diz-se que para premiar os merecimentos e com ela distinguir aqueles que mais se assinalarem por distintos serviços ao bem comum e à sua Casa, subentendendo-se que agora a batalha a ser ganha é a do reconhecimento oficial de D. Pedro José Foque de Mendoça Rolim de Moura Barreto (1958 – ), actual donatário dos títulos de duque de Loulé e conde de Vale de Reis, como legítimo e único herdeiro do trono de Portugal. Para isso, dotou-a de novas disposições estatutárias, dirigidas exclusivamente aos beneficiários dos seus graus: Colar, Grã-Cruz, Grande-Oficial, Comendador, Cavaleiro e Dama. A insígnia desta Ordem é composta de três setas [frechas] de ouro com as pontas viradas para baixo, estando a central na vertical atravessada em aspa pelas laterais ficando ao centro, no ponto de intercepção, a letra S em esmalte verde sobre círculo de ouro, rodeado pela divisa Celsa Serena Favent, em esmalte branco, donde irrompem para os lados pontas de fita em esmalte verde.

O mais a saber sobre esta Ordem larária mas armoriada só ao futuro pertence, que é nele que está e fica bem D. Sebastião, sempre Desejado, perpétuo Encoberto nas brumas da utopia, do mito e da lenda.

Cruzeiro Mágico de Portugal: adentrando St.º Emilião de Mariz (Barcelos) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Abr 24 2019 

Peri amou Ceci
E Ceci a Peri amou..
E ambos partiram para Lisboa,
De início, numa palmeira,
E depois, numa canoa.
Ao chegarem no litoral
Já no Céu estava escrito
Como se fora um manuscrito:
Eis ali PORTUGAL.

Hino ao Amor (JHS)

A bruma espessa e sebástica envolvia a cidade de Barcelos quando aí chegámos, bem à noitinha, eu e a minha companheira, no dia 15 de Setembro de 1990. O nosso primeiro passo foi dirigido ao omphalos do antigo burgo: a catedral de Santa Maria Maior, primitivo ponto de encontro dos peregrinos a Sant’Iago de Compostela, capital da Galiza próxima, e dos antigos cavaleiros da Ordem do Templo.

A nossa meta não era propriamente Barcelos – em pleno Minho, no Norte de Portugal – mas, antes, a pequena freguesia de Mariz, distada dela cerca de cinco quilómetros, e de tão humilde poderá muito bem ser a “barca pequena”, discreta como a maior Barca ou a inviolável Agharta, presente na origem latina do nome Barcellus,  apesar de igualmente ser o teónimo aramaico Bargalus, latinizado Barcalus donde o português Barcelos, “Filho do Monte Sagrado”, ou, por outras palavras, “Filho do Céu”, aquele mesmo Filho que era, simultaneamente, Homem e Deus do qual o galo, ave solar, ficaria para sempre como arauto totémico na história desta cidade.

Dirigimo-nos para essa aldeia ao amanhecer ensolarado do dia seguinte. Não deixei de sentir alguma ironia, quase risível, face às circunstâncias superiores que me norteavam o pensamento, quando solicitei ao taxista: “Faça o favor de nos levar a Mariz”. E ele lá nos levou…

Eu sabia de antemão, sobretudo pelas informações disponibilizadas pelo Professor Henrique José de Souza, que a Antiga e Soberana Ordem de Mariz no Passado havia migrado, descido do Norte ao Sul de Portugal, cuja passagem discreta mas marcante deixou traços indeléveis, inclusive tendo originando famílias brasonadas, as quais encheram de brilhantismo páginas palpitantes da História Lusa.

Sendo a Ordem de Mariz de natureza francamente lunissolar, e tendo Barcelos por totem exactamente o galo, ave sinalética do Sol que, aliás, faz jus ao Porto-Graal ou País dos Galos, Porto Gálio ou Portus Galiae, hoje Portugal, sabe-se que além da freguesia de Mariz no concelho barcelense, a supradita Ordem Soberana possuía disseminadas estrategicamente pelo país outras comendas e bailios. Tanto assim foi que além desta em questão possuía domínios no concelho de Carrazeda de Ansiães (povoação formada em volta e dentro das muralhas do castelo de São Salvador do Mundo, com a sua igreja templária de São João Batista cujos guardiões, esculpidos na sua entrada, sugerem aqueles outros hindustânicos Mahima-Kuvera), abarcando a aldeia de Pombal de Ansiães com os enigmas da sua igreja paroquial de São Lourenço e da fonte santa mais abaixo, junto ao Rio Tua. Esse topónimo São Lourenço de Ansiães além de igual possui tem ligações íntimas, Marizes, direi mesmo, àquele da aldeia de São Lourenço de Ansiães, junto às Azenhas do Mar, no concelho de Sintra. Não esqueço, também, os domínios de Redinha e Pombal, no distrito de Leiria, tendo apostolado na última, na centúria de Duzentos, o presbítero Pedro, o Mariz.

Igualmente não esqueço, como aditamento mais esotérico, que a Sede exterior ou exotérica da Ordem de Mariz foi durante muitos séculos a cidade de Coimbra (As Finis Galiciae), na qual os Gémeos Espirituais da Obra do Eterno na Face da Terra foram apresentados ao Mundo por Jesus e Maria em bendito Avatara Momentâneo, ocorrido no ano 1800, no “Morro dos Amores”, junto à “Fonte da Saudade” de quantos Gémeos Espirituais hajam enternecido com doçura e candura os séculos de Portugalidade. E idos para a cidade da “Serpente ou Colubra” (um misto de mulher e serpente, uma Melusina) que é Coimbra, custodiados pelos Maiores da Ordem de Mariz, desde o Pico do Graal assinalado na Cruz Alta da Serra Sagrada de Sintra.

Pelas suas características, Mariz era uma agremiação mistérica sem qualquer cunho confessional, interna ou externamente, tanto que a sua acção, embora superiormente concertada, era levada a efeito por cada um dos seus membros a título individual e sem qualquer identificação detectável por profanos à Ordem. Sendo, a partir de dentro, verdadeiramente secreta, hermética, selada a quaisquer infiltrações de homens na fase de infância espiritual, por estarem os seus componentes ligados – entre si e ao Governo Oculto do Mundo – pelo mais profundo e sagrado sentido de sigilo, a Ordem poderia agremiar, sem perigo de perseguição, elementos de quaisquer origem confessional ou cultural, desde judeus a cristãos e muçulmanos, reis e príncipes até nobres e cavaleiros de quaisquer outras Ordens. Teria também ramificações em qualquer lugar dentro da sua jurisdição, a coberto das identidades ou das filiações mais externas dos respectivos membros que se reconheciam, porém, num plano absoluta e claramente supra-religioso, mesmo supra-humano, relativamente às limitações de cada época.

O nome da Ordem, segundo o Professor Henrique José de Souza, “tem por origem Mouros, Mauros, Mórias”, etc. A Mauritânia, o País dos Mauros ou Mouros, era região que abarcava, tanto na toponímia como na geografia antigas, áreas muito mais vastas do que hoje, era a “Mauritânia política”, direi assim, situada ao sul de Marrocos. Por seu lado, a acção da Ordem de Mariz, embora sem dúvida centrada no território português que chancelava, relacionava-se directamente com outras Ordens irmãs por territórios e influências amplos e diversos, que se estendiam nos e para aquém do Himalaia, do Médio Oriente ao Magreb e, também, daqui ao Norte da Europa e, mais tarde, sobre o Atlântico para Ocidente, formando um verdadeiro cruzeiro geográfico (o Cruzeiro Mágico de Mariz, no dizer de JHS) que surge, aliás, na heráldica de Portugal desde o seu início (os cinco escudetes e quinas em forma de cruz).

O onomástico Mariz aparece no Alcorão e é conectado àquele outro de Djin ou Jina, nisto ficando o Mória mauritano como indicativo esotérico do Morya himalaio, que é nome de Adepto Vivo. Pois bem, atendendo ao sentido filológico árabe de Djin, “aquele que não se pode ver”, isto é, está ocultado, tanto pela roupagem da discrição e anonimato, como inclusive encoberto no seio da Terra (donde as lendas das “covas dos mouros”), desde logo remetendo para o conceito de Adepto Perfeito, Génio ou Jina (em sânscrito) que desde os alvores do Tempo guia secretamente a Humanidade, postando-se entre ela e o Mundo Espiritual. É o Jina Superior para aqueloutro estado de Jina Inferior ou “força viva da Natureza” (elemental), e o qual opera como Marid ou Maridj, em português Mariz, classificado no Islão como sendo da classe mais poderosa de Djins a que os Vedas classificam de Mahatmas, “Grandes Almas”, o “Génio Solar sobre-humano”, Tachu ou Traichu, familiar do sânscrito Tirtânkara (de que se serviu a Igreja para criar o seu Colégio dos Cardeais), cujos poderes psicomentais fazem com que os Maruts ou Marutas, as “forças vivas da Natureza”, obedeçam inteiramente à sua poderosa vontade.

Segundo Algis Uzdavinys (in Ascent to Heaven in Islamic and Jewish Mysticism. The Matheson Trunst, London, 2011), a Escada de Jacob que a sonhou adormecido com a cabeça recostada na pedra Lusa, simbolismo mediador ou psicopompo de intercâmbio entre dois Mundos, visível e invisível, terreno e espiritual, profano e iniciático, etc., associa-se aos termos árabes ma´arij, “escada”, e mi´raj, “degrau”, sendo Allah o Dhu´l-ma´arij, “Senhor da Escada”, na sura 70 do Alcorão (surata Al Ma´arij, سورة المعارج‎‎, “As Vias de Ascensão”).

Maridj, Marid, Maru, Mauro, Morya ou Mouro, diz a Tradição Iniciática das Idades, veio a constituir a poderosa Linha de 111 Adeptos Independentes que desde o seio da Serra de Sintra (Al-Shantara) vibrou intensamente sobre a Humanidade em prol da sua evolução e, particularmente no que aos portugueses concerne, influindo na formação da Nacionalidade e até mesmo na diáspora nacional, sobretudo no período dos Descobertas Marítimas, episódios marcantes figurando na chamada História Secreta de Portugal.

Ora, das várias famílias nobiliárquicas irrompidas dessa Ordini Majorem há aquela que leva precisamente o nome Mariz (que também existia na Região Centro de Portugal, precisamente em Sintra, no lugar do Lourel, e em Odivelas, cuja Quinta do Mariz pertenceu ao concelho de Loures), a qual teve solar na povoação que hoje lhe herda o nome e durante séculos foi vigararia de Vilar de Frades cujo convento, datado do século XI, era casa-mãe da Ordem de São Bento, a qual teve primazia na construção dos principais imóveis religiosos plantados ao longo da rota portuguesa para Sant’Iago de Compostela, esta que primitivamente pertenceu ao Condado Portucalense por doação de Afonso VI de Leão ao Conde D. Henrique de Borgonha, pai de Afonso Henriques. Ora, na Galiza, praticamente na fronteira com as Astúrias e no caminho para Covadonga (onde teve início o Pelágio ou Reconquista cristã da Península Ibérica, desde o Verão ano 722 com o rei Pelágio à dianteira) , está a povoação que leva o mesmo nome desta barcelense, Mariz, a qual, segundo textos reservados do foro da Tradição Iniciática, ocultamente relaciona-se às Dhyanis-Budhais afins às Plêiades ou Krittikas, tal qual esta portuguesa relaciona-se aos Dhyanis-Budhas afins à Ursa Maior e aos Rishis, ambas as toponímias idênticas de maneira a prefigurarem, divinamente, a Unidade Andrógina da Península Ibérica, direi assim, a antiga Hispânia ou Jardim dos Pomos de Ouro das Hespérides, as mesmas Plêiades.

A procura de traços, de sinais esotéricos indicativos da espiritualidade Mariz em plena raia minhota levou-me, de imediato, a associar entre si três localidades: Barcelos – Vilar de Frades – Mariz, por razões que irão aparecendo ao longo deste estudo.

A paróquia de Mariz, cuja igreja está muitíssimo restaurada de cuja traça setecentista pouco resta e da românica nada, fora anteriormente unida ao Mosteiro de Vilar de Frades pelo Papa Júlio II, a instâncias do Cardeal de Alpedrinha no ano de 1507, passando a vigararia anexa do referido mosteiro mas que depois se tornou vigararia independente, estando referenciada em 1840 como anexa à de Creixomil. Hoje é paróquia da Diocese de Braga. Mas ela já constava das Inquirições de D. Afonso II, de 1220, com a designação “De Sancto Miliano de Maariz” de Terra de Nevia, apesar da Coroa não ter nenhuma jurisdição ou propriedade sobre os Marizes, e a que havia resumia-se à função de os proteger e apoiar, dessa maneira sendo uma espécie de “escudo defensivo” ou “círculo de resistência” político deles. Isso mesmo consta nas Inquirições de D. Afonso III, onde se diz: “In Judicato de Nevia in parrochia Sancti Miliani que el Rey non est patronus da ecclesia”.

Igreja paroquial de Santo Emilião de Mariz, Barcelos

De entre as principais os Marizes trazem por Armas: de azul, com cinco vieiras de ouro, postas em cruz, acompanhadas de quatro rosas de prata. Timbre: um leão sainte de azul, sustentando uma vieira do escudo.

As vieiras, insígnias dos peregrinos a Sant’Iago de Compostela, destacam os Marizes como verdadeiros Tiagos, Iagos ou Bonergus, “Filhos do Fogo”, ou seja, Assuras, elemento esse subjacente ao Sol que é representado pelo Leão. Destarte, leão e vieira, no brasão, indicarão a sua relação luso-galaica ao tema jacobeo, mas igualmente, no particular mais iniciático, desde logo velado, a viseira da luz, correspondente ao sexto sentido: a clarividência, exactamente assinalada pela sexta concha… no topo leonino.

É esse sentido natural, ainda adormecido ou latente na maioria dos homens mas já desperto ou patente nos Iniciados e Mestres, quem demonstra ao seu possuidor a permeabilidade da Matéria, qualidade ligando-se precisamente ao sexto estado da mesma que a Química Oculta designa como subatómico, animado por Anupadaka-Tatva, segundo a Ciência Espiritual do Oriente que os Adeptos Perfeitos, através do eminente “Swami” Henrique José de Souza, trouxeram para o Ocidente Ibero-Ameríndio.

A presença leonina é constante no tema Mariz, nisto não esquecendo a presença do forte culto, em Vilar de Frades, a São Laurentino (de Laurentus e Laurenta), santo claramente solar inspirado no mais antigo ligúrico, Lug.

Descarecendo o mimoso epíteto de mitómano mas carecendo sempre do ponteiro certo das Revelações Iniciáticas do Professor Henrique José de Souza, meu teosófico Norte Mental assente nesta sua Filosofia de Akbel, cimento e fogo do carácter e espírito da Verdadeira Iniciação que marcha sempre do Passado para o Presente neste projectando o Futuro, jamais ao inverso que é ficar sem Futuro em Presente incerto por recuo ao Passado morto, gente que se revela impossível confiar-lhe algo superior sem que o conspurque e ingratamente faça por romper qualquer voto de silêncio e segredo, adianto que as flores de rosa no brasão, unidas às vieiras em cruz, assinalam precisamente a Rosa+Cruz, expressiva do Tetragramaton como signa do “Homem Cósmico” ou Logos Planetário, o Andrógino Primordial Adam-Kadmon, na Terra sendo emblemática alquímica do supremo mistério da Pedra Filosofal, colhida, lavada e lavrada da quintessência dos quatro elementos naturais (Terra, Água, Fogo, Ar), ou seja, o Éter, o mesmo Akasha dos conhecimentos esotéricos do Oriente, portanto, o quinto elemento natural ao qual os R+C chamavam de Vril e os primitivos Iniciados atlantes de Mash-Mask. Trata-se, enfim, do 5.º Regato Vital ou Parda por onde a 5.ª Corrente de Vida discorre promanada do seio do próprio “5.º Kumara em Projecção”, Ardha-Narisha-Kumara – “O que está no Meio (Vau, expressivo do estado Andrógino) da Riqueza”. E Riqueza ou Relíquia é também a Tónica fundamental do 5.º Posto Sintriano Representativo da Obra do Eterno na Face da Terra (Teurgia).

Essas mesmas rosas, já aqui herméticas (significativamente todo o antigo tratado de Alquimia levava o sibilino mas significativo nome de Roseiral Mariano… recambiando para Maria, Maris, Mariz – Ave Mariz Nostra! – tomando forma no Divino Espírito Santo, o mesmo Deus Shiva dos orientais, como seja a Terceira Hipóstase do Logos Único (daí também o designativo Sura-Loka, “Lugar dos [As]Suras”, nome tradicional da Embocadura de Sintra, a hindustânica Kala-Shista ou Sishita, por manifestar o quinto estado de consciência Mental Superior afim a essa Hierarquia Criadora, já de si representativa do Quinto Luzeiro Arabel projectando a Sua Mente Criadora desde o Sol Interno – Chakra Vishuda, Centro Laríngeo – no Duat sob a Serra Sagrada, indo animar a humana por intermédio dos mesmos Suras), dizia, essas mesmas rosas estão patentes na abóbada do convento românico de Vilar de Frades, tendo ao centro os escudetes com a primitiva cruz de Portugal – nisso designando o Cruzeiro Mágico de Mariz a Luzir nos céus da Lusitânia. Ademais, todo o corpo de nervuras abobadal prefigura a enigmática letra vatânica designativa do signo de Aquarius, mas também de Makara e de Maitreya, o “Senhor dos Três Mundos”, o Cristo Universal.

Essa mesma letra está patente no pórtico de entrada dianteira na igreja matriz de Santa Maria de Barcelos (e que igualmente se vê nos túmulos tanto na igreja de Pombal de Ansiães como nos da igreja de São João Batista de Tomar), insculpida junta a rosáceas, vieiras e swástikas. Ora, a Ordem Mística da Rosa+Cruz, saída daquela outra dos Monges-Construtores que, em Portugal, foram primeiramente os beneditinos e cistercienses, feitores originais da monumentalidade arcaica e da espiritualidade arcana na rota jacobeia, constituiu-se um misto de ideário Templário e Grémio de Ofício, tendo coroado o final da Idade Média (século XV) e o início da Renascença (século XVI), períodos afins à construção gótica desta sede devocional entre 1325 e 1350, por iniciativa de D. Pedro Afonso, terceiro conde de Barcelos.

A Rosa+Cruz está igualmente assinalada, ainda que de modo velado, no traçado exterior da igreja paroquial de Mariz: sobre a entrada dianteira abre-se um óculo em rosácea, e a toda a volta do templo, como aro protector numa curta via crucis, dispõe-se uma fileira de 8 cruzes. Número caríssimo aos Templários e seus protegidos, os Monges-Construtores, o 8 assinala a união do Sol com a Lua, do Macrocosmos com o Microcosmos, enfim, do Céu com a Terra como Aliança de Deus com o Homem.

O Orago desta aldeia é Santo Emilião. A sua imagem está à esquerda do altar-mor na paroquial e apresenta-se vestido como beneditino, com o báculo recto na sinistra tendo aos pés, à direita, a mitra episcopal. A mitra deposta assinala o seu estatuto de bispo que terá recusado posteriormente, talvez por não querer trocar a sabedoria pela confissão, a catequese dos simples pela teologia dos sábios, ou por outra, não querer recusar a tradição espiritual da cristandade a favor da política temporal do clero.

Santo Emilião Orago da paróquia de Mariz

O báculo levantado substitui aqui um outro seu atributo: uma trave de madeira, alusão hagiográfica a um milagre que terá feito: alongar uma trave que era curta para a construção de um templo. Esta é uma alusão clara à sua função de Magister Carpentarius, “Mestre de Carpinteiros”, e mesmo que acaso não o tenha sido em vida, não é de descartar que lhe coubesse o padroado de alguma guilda de mestres carpinteiros em algum tempo da Idade Média barcelense. À madeira destinada a telhado do Templo, suporta-a a pedra colunal, função do Magister Macerius, “Mestre de Pedreiros”.  Talvez, ou decerto, por isso mesmo se apresenta à sua direita, no lado oposto do altar-mor, o Menino Cristo coroando com uma grinalda d´ouro (a Laurenta, Laurentino, Lourenço…) a São José, o Iose ou Ancião do Saber com a vara de medição na destra, com tudo ficando assinalado, no figurino piedoso cristão, o Companheirismo ou primitiva Maçonaria Operativa (donde descende a Especulativa) encabeçado pelo mesmo São José, o Arche-Tekton, “Grande Arquitecto”, que à pedra sobre pedra, dispõe trave sobre trave no levantamento do Templo como, afinal, Magister Carpentarius.

Santo Emilião (“Servo do Senhor”, em grego, Aimúlios, e por isso está à esquerda ou passiva do altar-mor, para o Cristo na direita ou activa), tem ainda por atributos iconográficos dois leões deitados (não patentes nesta imagem na paroquial de Mariz), como memória de ter sido lançado às feras em Cyzico, no Hellesponto, por ordem do imperador Leão, e elas terem recusado o atacar (tal qual Daniel na Cova ou Loka dos Leões… de Fogo). Mandado para o desterro, foi novamente preso e morreu às mãos do algoz, que só o pôde decapitar quando a Voz Divina chamou a si Emilião, o fiel Servo da Verdade Viva – Servitas fidelis vivum veritas.

O dia da sua festa litúrgica é o 8 de Fevereiro, logo após o dia da celebração das “Cinco Chagas do Senhor” (o Sangue Real ou Sang Greal, donde Santo Graal), e anterior ao de Santa Apolónia, a Apola como mensageira e aspecto feminino (shakti) de Apolo, o Verbo Solar ou Deva-Vani, “Anjo da Palavra”.

Destarte, tem-se a Encarnação do Verbo Solar precisamente representada no Senhor das Chagas, crucificado sobre o altar-mor tendo atrás de si a sigla JHS, indicadora da Tríade Espiritual manifestada como “Deus feito Homem”.

Altar-mor da igreja paroquial de Mariz (foto de Júlio Loureiro)

Revela-se neste templo um mundo de simbologia helíaca, ao que não falta um Sol dourado resplandecente sobre o arco triunfal separando a capela-mor da assembleia, o que me reporta para a iconologia tradicional do galo, aliás, figurado num silhar de azulejos setecentistas na igreja do Convento de Santa Escolástica – companheira apostólica de São Bento de Núrsia – das Beneditinas de Barcelos, com a ave fitando-se no speculum magicum e por debaixo a legenda: “Só se compõe Bem, quem se vê ao divino Espelho”.

Para cá do altar-mor apresentam-se dois altares laterais, interessando-me principalmente o da direita. Vê-se nele as duas imagens do Sagrado Coração de Cristo, ornado por um Sol dourado resplandecente estando assente em peanha verde, e a do Sagrado Coração de Maria, ornada com uma Coroa prateada estando assente sobre peanha vermelha. Tem-se Cristo-Maria (Jepher-Sus e Moriah), a Parelha Andrógina Cristófora ou Farol de Iluminação, cujo Coração Místico desde sempre é referência ao Santo Graal, não ao Graal-Objecto mas ao Graal-Consciência, do qual Eles, encarnando Sol e Lua, estão à sua frente.

Adiante dessas imagens, levanta-se no altar um crucifixo florlisado, sinalético primitivo do Companheirismo, onde o Senhor, irradiando um hausto dourado, jaze pregado no madeiro azul desfechado em traços vermelhos. Tem-se nisso a referência velada às três “qualidades subtis da matéria” (Gunas – a amarela Satva para o Espírito; a azul Rajas para a Alma; a vermelha Tamas para o Corpo) dominadas pelo Homem das Dores transformadas em Delícias, o que tanto vale por Maitreya, o Vencedor dos Três Mundos ou Mayas.

Não deixa de ser profundamente significativa a homenagem que o Venerável Mestre JHS prestou à Ordem de Mariz por meio da mecânica interna da Ordem dos Tributários por ele fundada em 1952. Com efeito, as cores verde e vermelha das Energias Universais Fohat e Kundalini estão patentes nas faixas dos(as) Tributários(as), que agem como defensivo “Círculo de Resistência” da Obra Divina, e “Círculo” inicialmente constituído por 17 Membros, número que, só por «acaso», é o do Biorritmo de Portugal (Arcano 17, A Imortalidade: “Eu via o Sexto Sistema. Um Sol Central tinha por embrião enorme Borboleta, saindo de um Ser de aspecto feminino. Tive a impressão de que chocavam enorme Ovo, que era aquele mesmo Sol.” – JHS). Sendo a Ordem de Mariz de natureza andrógina em separado ou mista, inicialmente foi-lhe “Círculo de Resistência” a Ordem do Templo (assinalada pela cor vermelha da sua Cruz, representando o Poder Temporal e consequentemente a Força Terrestre, Kundalini) e a Ordem de Avis (indicada pelo verde signatário da sua Cruz, cujo Orago São Bento assinalava a Autoridade Espiritual e, com isso, a Luz Celeste, Fohat), logo, ambas montando guarda à original Ordem Tributária a Melki-Tsedek, o Rei do Mundo: a Maçonaria Universal Construtiva dos Três Mundos, a dos Traichus-Marutas, como 1.ª Rama da Grande Loja Branca dos Bhante-Jauls – cuja 5.ª Rama é a mesma Ordem de Mariz  – cujo Grão-Chefe, Takura-Bey (do qual era avatara o Traichu-Lama, antiga Suprema Autoridade Espiritual do Tibete), veio a servir de Sub-Aspecto, Veículo ou Tulku da Consciência Cósmica de Júpiter manifestada na Terra por Sakiel, o 5.º Dhyani-Cumara (ou Cuma-Mara, Maris…) que, bem sabem os da Obra Divina de Akbel, está intimamente entrosado ao Quinto Posto Representativo de Sintra sob a égide do “Olhar Celeste”, Allamirah, a Mãe Divina (Maris), por cuja Serra Sagrada se acede – quem acede… hoje em número infinitesimal ou nem isso, ao contrário das propaladas fantasias oníricas por alguns desajustados da vida – ao Quinto Templo Universal dos Sedotes da respectiva Cidade do Mundo de Badagas. Confere!

No extremo da paroquial de Mariz, oposto ao altar-mor tem-se a imagem de um São Sebastião, cuja simbologia é notadamente drágona ou alegórica das forças telúricas do interior da Terra, por isso mesmo ligando-se ao tema do Mundo de Agharta, no sentido de representativo do Poder Real e Guerreiro, dos Kshatriyas ou Jinas da Arca. No santoral cristão, esse foi um dos santos da especial predilecção dos Templários ibéricos. Pelo visto, atendendo a quanto já disse e sugeri, por certo razões não lhes faltariam…

É sabido que onde existe um culto solar exterior há um culto lunar interior (e vice-versa, no sentido de masculino e feminino). Encontram-se indicativos desse último, além de nas imagens da Virgem e de São Sebastião, defronte do qual, do lado oposto, há uma pia de água benta em forma de seio de mulher (mama, mamã, mãe…), na intensidade hidrotelúrica cujo veio e corrente discorre sob o templo, dizendo o Padre Carvalho, na sua Corografia Portuguesa, que “tem uma fonte onde vão buscar água que benze o vigário para doentes, e tem muita virtude, particularmente para o fastio”.

A fonte ainda existe e está na sacristia da igreja. Tamanha intensidade hidrotelúrica por certo influi nas devoções do inconsciente colectivo local, motivo que levaria a paróquia de Mariz a ser consagrada ao “Imaculado Coração de Maria” no dia 8 de Dezembro de 1987.

Era com essa “água santa”, dotada de virtudes terapêuticas, que se enchia a pia batismal em formato de taça octogonal alegórica, como recipiendária do sacramento, do Santo Vaso – Saint Vaisel – ou o mesmo Santo Graal presente na Eucaristia dos Monges-Cavaleiros, os Templários medievais, cujos Grãos-Mestres Secretos seriam os próprios Irmãos Maiores da Soberana Ordem de Mariz, esses misteriosos Homens Representativos da nossa iniciática Portugalidade como Encobertos Obreiros do V Império no Mundo (ou o Quinto Reino Espiritual, que na Terra se expressa na supradita Agharta).

Ainda no sopé de uma cruz, junto à entrada exterior da igreja, lê-se uma inscrição semi-hieroglífica, semi-anagramática, traduzida como “M.el dOlivª 1727”, ou seja, “Manuel de Oliveira – 1727”, possivelmente o nome do mestre pedreiro responsável pelos restauros no imóvel e pela construção das cruzes, podendo também ser a data possível da elevação de Santo Emilião a Orago da freguesia, no que a âncora, como um dos hieróglifos, significará precisamente isso: a fixação patronal do santo.

Na verga transversal da porta dianteira, lê-se uma outra data: 1693, a da construção deste templo, pois a igreja paroquial da freguesia era primitivamente no lugar das Fontainhas ou Lajinhas (de que há ainda vestígios), tendo mudado no século XVII para o sítio onde está: Mariz, assento da venusta e Divina Mãe.

Junto à escada para a torre sineira, também na base e por baixo de uma caveira e duas tíbias gravadas no granito, lê-se a data: 1731, altura possível dos primeiros enterramentos no cemitério anexo.

Se Mariz (tanto a paróquia como a Ordem) era conhecida dos nossos egrégios mais insignes, secretamente vinculados à Tradição e Linhagem do Santo Graal, assim parece ser. Por exemplo, o Condestável Santo do Reino, Nuno Álvares Pereira (e que após ingressar na Ordem do Carmelo adoptou o nome de Frei Nuno de Santa Maria, ele a quem as revelações iniciáticas chamam de Malaquias, o Grão-Chefe da Ordem dos Marizes), teve casa em Barcelos junto à Sé Catedral, e quase defronte à sua a dos San Payo (Sampaio) de Luzignano, ambas bem brasonadas para não restarem dúvidas.

A escassos metros, na catedral barcelense, lá está a capela lateral de São João Baptista, cuja cabeça miraculosa é motivo de apelação das gentes aflitas da terra crentes na sua eficácia sobrenatural, mas também da devoção dos peregrinos a Santiago de Compostela invocando a protecção do santo contra os imprevistos no caminho, imagem essa ladeada pelas de Nossa Senhora da Conceição e São Miguel, Orago Gémeo de Portugal. Sendo, pois, motivo de grande devoção, essa cabeça decapitada (tal qual a de Santo Emilião), essa miracula devotioni talvez tenha origem nos tempos medievos dos Templários, estes já de si associados ao mistério terafínico da “cabeça falante”, ou seja, o misterioso baphometh, associado pelos jacobeos a “Santiago Mata-Mouros” e que consta mesmo em dois outros brasões Marizes: um braço armado segurando uma cabeça de moiro, com barba ruiva, foteada de prata. Ou: um leão nascente, de azul, tendo na garra uma espada enfiada numa cabeça de moiro. Mas, verdade seja dita, carvoaria ou bafometaria era igualmente o apodo dado pelos cristãos dado ao colégio de estudos corânicos (madrasa e madrasal, مدرسة), nisto havendo uma aproximação entre os saberes da Cristandade e do Islão, tal qual São João Batista foi o intermediário entre o Deserto (vida cenobítica, contemplativa, clausural) e a Cidade (vida comunitária, pastoral, claustral), ou seja, duas modalidades de vivência espiritual que Flávio Josefo não deixou de registar (in Antiquitates iudaicae, “Antiguidades judaicas”) no século I d. C., e nisto até esta catedral de Santa Maria Maior recebeu melhoramentos de um mestre construtor judeu local, D. Gil da Costa (1504), tornando o espaço vincadamente mendicante.

Com tudo, aprofundando ainda mais o sugerido no figurino do Anunciador, tem-se que o simbolismo iniciático relacionado a São João Batista é afim ao efectivo Ritual de Iniciação do Chrestus ou Arhat de Fogo, geralmente celebrado pela Páscoa, e que vem a ser o Ritual Jina do Yokanan (Djina-Masdhar), em muito identificado ao Ritual Maçónico de Elevação do Adonhiramita, que é essencialmente de carácter misto ou andrógino (conforme testemunha a sua lenda de passagem, passada no ambiente da rainha de Sabá e o rei Salomão), sendo o motivo sacrificial do pré-Apóstolo, J.oão B.aptista, quem estabelece a ponte entre as Escrituras Velha e Nova. No Ritual Djina-Masdhar o Yokanan sofre a “Degola” iniciática (figurada na História Lusa por D. Egas Moniz indo de baraço ao pescoço entregar-se de motu próprio ao rei de Castela), isto é, faz florescer a Rosa no centro da Cruz quando o verbo por sua laringe entoa o Odissonai (“Espaço Sem Limites” – Purusha, Espírito, Pai) e o Odissonal (“Espaço Com Limites” – Prakriti, Matéria, Mãe) a favor da defesa da Obra do Eterno na Face da Terra, logo também dele mesmo, Filho Eleito.

Consequentemente, em conformidade aos ciclos de Iniciação, esse Ritual é realizado não karmicamente mas dhármica ou voluntariamente, em conformidade à consecução da Boa Lis ou Boa Lei, inclusive tendo-o sido por preclaros Adeptos Independentes nos meados do século XX, exclusivamente por amor e devoção ao Trabalho Avatárico do Senhor Akbel e da Senhora Allamirah, servindo o Sangue Real de tais Seres para purgar o peso kármico imposto pela Humanidade ignara a tamanha e divina Obra. Assim foi, por exemplo, com os Barões da Silva Neves… mesmo que hoje e desde 1949 em outros corpos, ainda assim conservando os primitivos no Mundo das “Estátuas Vivas” que é o Duat. Enfim, mistérios da Obra, enigmas dos Deuses.

Isso mesmo, ainda em relação com os “Barões Assinalados” e o seu “sacrifício kármico na Cidade Badagas de Itapira (Ita+Pira = Pira de Fogo), sob o solo itaparicano brasileiro”, é desmentido e reiterado em primeira mão pelo próprio Venerável Mestre JHS, na sua Carta-Revelação de 11.09.1941:

“Como Refugium Peccatorum, não quer dizer que seja Lugar de Castigo. Puro engano! Mas antes de Purgação, de Elevação, de Destruição dos erros ou Karma, como o próprio Henrique Antunes da Silva Neves (o Santo Condestável) e Helena da Silva Neves (a Rainha Santa Isabel – Ísis Babel, Abel, etc.) se ocultarem até hoje, cercados de sua Corte, alguns Adeptos que auxiliaram, como Eles… os primeiros dias dos Gémeos, quando ambos de 15 para 16 anos de idade material ou humana… assumiram conscientemente a responsabilidade, indo PURGAR-se na referida Ilha (de Itaparica), desde que não podiam fazê-lo em Shamballah, nem mesmo na Agharta… S. Salvador fica fronteiriça, e passa por ser a “terra natal” de ambos, os Gémeos Espirituais ou Henrique e Helena, e como Eles, os dois prodigiosos Seres.”

Pois bem, nessa capela joanina da Catedral de Barcelos, Refugium Salvatorum, acendemos, eu e a minha companheira, cinco círios alvos, e de mão espalmada sobre o peito saudámos a Divindade e seus digníssimos Representantes, agradecendo todas as dádivas concedidas, dando assim por encerrada a nossa peregrinação a Terras de Nevia.

Saímos para o exterior, acompanhados de dois Jinas e o seu cão. A bruma voltava a cerrar, e nela empreendemos o regresso a Terras de Sintra, também estas pertença de Cordo Mariz.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

– Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão – Editores, Porto.

– Juan Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1988.

– Batalha Gouveia, O Etimólogo Emília. “Jornal do Incrível”, 28 de Janeiro de 1986.

Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, volume XVI. Editorial Enciclopédia, Limitada, Lisboa – Rio de Janeiro.

Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, volume 12. Editorial Verbo, Lisboa.

– Raúl Proença, Guia de Portugal (II-Minho), 4.º volume. Edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

– Teotónio da Fonseca, O Concelho de Barcelos Aquém e Além-Cávado, volume I. Reprodução facsimilada da edição de 1948. Barcelos – 1987.

Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Lisboa, 1961.

– Manuel de Sousa, As Origens dos Apelidos das Famílias Portuguesas. Sporpress – Sociedade Editorial e Distribuidora, Lda., Mem-Martins.

– Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal, 1.ª edição. Editora Madras, S. Paulo, 2000. Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo (História Oculta de Portugal), 2.ª edição, Editora Madras, S. Paulo, 2002.

– Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.

Textos Internos e Cartas-Revelações do Professor Henrique José de Souza e do Eng.º António Castaño Ferreira.

Ordem de Mariz Tebaida da Lusitânia – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Abr 23 2019 


Sobe da Terra ao Céu um frémito d´esperança.
Baixa do Céu à Terra um hálito de amor!

Guerra Junqueiro

Alguém perguntou ao Professor Henrique José de Souza, por volta de 1959 ou 1960, sobre a Missão de Portugal e o derradeiro destino dos Portugueses, pergunta já várias vezes feita em diferentes ocasiões, e invariavelmente o rosto do Mestre abriu-se num sorriso rasgado repleto de luz, sim, luz bem visível a todos numa benfazeja auréola de glória:

“Tudo o que acontece em Portugal reflecte-se aqui no Brasil, na Obra, e vice-versa. Toda a nossa Obra tem a ver com Portugal, e assim a Minha pessoa. Foi até no “Salão Portugal”, em Salvador, na Bahia, que cortei os meus longos cabelos quando criança… para desgosto de minha mãe.”

E disse mais nos finais de 1962, numa carta que endereçou a antigos condiscípulos portugueses:

“A Teosofia, no Brasil e em Portugal, corresponde a duas Ramas da mesma Árvore, que devem desenvolver-se em harmónico equilíbrio, como os braços de uma Balança, na qual o Fiel é a Grande Fraternidade Branca vibrando no peito do Monarca Universal, de cujo centro mesmo irradiam para os quatro direcções os Quatro Animais da Esfinge, expressão ideoplástica da Suprema Hierarquia Assúrica. Eu estou em Verdade e Espírito nessas plagas (Portugal), origem da Obra, porque aí sou exaltado com fé e amor. Eu sempre estou onde Me amam e com aqueles que crêem em Mim…”

Adiantando em carta emitida de São Paulo em 14.3.1963 dirigida ao senhor J. Neves Gonçalves, que na época representava os condiscípulos portugueses:

“Estabelecidos, assim, os laços espirituais que de há muito (tenho a certeza) nos unem, qual acontece com o Brasil e Portugal, tereis sempre notícias nossas, da Obra e da Instituição. Desse modo, nenhum livro melhor do que essa maneira de vivermos unidos para a Vida e para a Morte, de acordo com a Lei que a tudo e a todos rege.

Um grande abraço, extensivo aos outros queridos Irmãos, com os votos de PAZ, LUZ E PROGRESSO, em HARMONIA DE PENSAMENTO.

Em língua aghartina: AT NIAT NIATAT, ou seja: UM POR TODOS. TODOS POR UM.

Do servo e irmão muito grato:

Henrique José de Souza.”

Por sua parte, D. Helena Jefferson de Souza, companheira inseparável de Missão do Professor Henrique José de Souza, assim se expressou numa carta dirigida aos condiscípulos portugueses emitida da cidade de São Paulo, em 4.12.1967:

“Aí está a Serra de Sintra – ondulada pelos ventos refrescantes do Oceano Atlântico. Este mar que ladeia pelo lado do Ocidente une-nos com laços fraternais e espirituais, pois naquele Sacrossanto Monte, em 28 de Setembro de 1800, dealbava-se a aurora de um Novo Mundo.

Naquele instante histórico, portador de melhores dias para o Mundo, Portugal despontou de Luz, chamando para si as Bênçãos do Eterno, já que no glorioso momento o Profeta da Galileia e a sua compassiva Mãe apresentaram, a este mesmo Mundo, as preciosas Gemas enxertadas na Coroa do Buda Celestial.

Perante a História da Evolução Terrestre, perenemente o destino de Portugal fez brilhar a lâmpada da chama clara, inspirando novos desígnios na elaboração e construção do QUINTO IMPÉRIO. Tenha-se em conta o evento de 27 de Julho de 1899, na capital lisboeta, nessa Bela ou Boa Flor-de-Lis, que na excelsa motivação ornamentava subjectivamente a Praça dos Arcos. Aquela data marcou, de forma indelével, no Ouro e na Prata dos 23 Arcos, como prova indubitável, a Grande Missão de Portugal diante do Mundo.

Na razão do sucesso, pela essência do êxito, no meio de lágrimas, surgiu a gloriosa sentença do Eterno: “No entanto desta Mulher nascerá o Meu Filho”. E realmente cumpriu-se a sagrada profecia. Não só ressurgiu o “Monarca dos Três Logos”, o Senhor Maitreya, mas com Ele os Sete Dhyanis ou Príncipes da Sua Excelsa Corte.

Trago em Minha destra o fanal do Amor Universal. Por isso já disse o Menino Deus, no Templo subterrâneo do Caijah: “Com a Sabedoria do Pai e o Amor da Mãe se firmará no Filho a Omnipotência do Eterno”.”

Com esses testemunhos escritos tim-tim por tim-tim pelos primeiríssimos e principais actores da peça mais que iniciática, Henrique e Helena no papel de Ulisses e Ulissipa, em boa verdade desde a sua primeira hora o Novo Ciclo Avatárico da Obra do Eterno na Face da Terra, com centro irradiador na figura magistral do próprio Henrique José de Souza (1883-1963), tem como Apta, Presépio, Berço ou “Casa de Deus” da sua aparição e acção este mesmo Portugal, antes, Porto-Graal.

Em Julho-Agosto de 1899, na primavera dos seus 16 anos de idade os dois jovens enamorados, Henrique José de Souza e Helena “Iracy” Gonçalves da Silva Neves, provindos de São Salvador da Bahia para Lisboa integrados numa Companhia Teatral Infantil, dirigida por um casal lusitano dos mais insignes, os Barões Henrique e Helena da Silva Neves, realizaram um périplo iniciático no país, desde Lisboa-Sintra a Pombal de Ansiães, em Trás-os-Montes, conduzidos pelas mãos vigorosas e protectoras dos “Maiores da Tradição” (Avarat) que na velhinha Lusitânia mantêm viva a “chama clara” da sua espiritualidade, agindo de forma secreta, sim, contudo sensível a tudo e a todos, matematicamente harmónica numa justa e perfeita Ordem (Mariz).

Durante os 17 dias da sua estadia em Portugal, Henrique e Helena foram primeiro a São Lourenço dos Ansiães, junto ao Rio Tua, nas montanhas transmontanas, como se estas aqui fossem a reprodução das montanhas da Mongólia Interior do Traixu-Lama, Chefe Supremo da Grande Confraria Branca dos Bhante-Jauls. Foram de comboio até ao Porto, donde prosseguiram até Ansiães pela linha ferroviária do Rio Tua, cujo primeiro troço desde a Foz do Tua até Mirandela foi inaugurado no final de 1887, sendo São Lourenço a quinta estação, enquanto o segundo troço até Bragança só se concluiria em 1906. Foi breve estadia do jovem casal aí, um dia e uma noite. De regresso a Lisboa, vão a Sintra e visitam o Castelo dos Mouros, a Cruz Alta… indo até São Lourenço das Azenhas do Mar, para que o Mistério ficasse completo.

Por fim, na Lua Nova de 27 de Julho de 1899, 5.ª feira, cerca das 15 horas da tarde, no cruzamento da Rua Augusta com a da Conceição, em Lisboa, a caleche que transportava os jovens Henrique e Helena, vinda do Alto de Santa Catarina para a residência do Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves, junto à Sé Patriarcal, repentinamente foi interceptada por uma quadrilha de cinco malfeitores liderados por um tal de “Fuinha”, os quais eram magos negros emboscados (número assim configurando o pentagrama invertido ou quebrado, o ashiva, “não-deus”), que assustou os cavalos e fez a carruagem voltar-se. Helena sucumbiu sob os rodados do carro e os cascos das bestas mas Henrique sobreviveu, sofrendo apenas algumas escoriações ligeiras.

Por fim, na Lua Nova de 27 de Julho de 1899, 5.ª feira, cerca das 15 horas da tarde no cruzamento da Rua Augusta com a da Conceição, em Lisboa, a caleche que transportava os jovens Henrique e Helena, vinda do Alto de Santa Catarina para a residência do Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves, junto à Sé Patriarcal, repentinamente foi interceptada por uma quadrilha de cinco malfeitores, antes, magos negros (número assim configurando o pentagrama invertido), que assustou os cavalos e fez a carruagem voltar-se. Helena sucumbiu sob os rodados do carro e os cascos das bestas mas Henrique sobreviveu, sofrendo apenas algumas escoriações ligeiras.

Ela, Helena, de imediato foi levada pelos Adeptos presentes para um recanto da Sé Catedral próxima onde lhe ministraram os socorros urgentes, mas como não dava sinal de vida abriram o alçapão que aí está, próximo do altar-mor, e desceram com o corpo inerte ao seio da Terra, ao seio de Sintra, onde iriam recompor os seus ossos fracturados e ressuscitá-la no Panteão do Templo Interno do Mundo de Badagas que aí está.

Ele, Henrique, só muito mais tarde soube do destino da sua bem-amada, e enquanto não embarcou, a fim da viagem prosseguir para o Oriente, foi levado, em guisa de conforto, à “Estrela da Sé”, que era a taberna do Barão, e aí pôde saborear várias especialidades: tâmaras (mandadas vir do Oriente pelo mesmo Barão, que era armador e fretador marítimo), iguarias portuguesas e provar os famosos vinhos do Porto e da Madeira. Finalmente, na tarde de 7 de Agosto de 1899 deu-se o embarque do jovem, acompanhado de distinta comitiva de Adeptos, a caminho do Cairo, Egipto, onde se entrevistariam com o insigne Adepto Polidorus Insurenus junto à Grande Pirâmide de Kheops, e depois com destino certo a Srinagar, Norte da Índia.

Ainda acerca desse estabelecimento vizinho da Sé Patriarcal, em plena Baixa de Lisboa (tão baixa como o Muladhara ou Chakra Raiz no corpo humano), direi algumas palavras.

A casa de pasto “Estrela da Sé” (Patriarcal de Lisboa), onde em Julho-Agosto de 1899 o Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves (1849 – 20.11.1944) costumava levar o jovem Henrique José de Souza (15.9.1883 – 9.9.1963), é restaurante intimista, familiar; possui seis divisões em madeira, possuía um balcão neogótico e foi fundado em 1857 pelo maçom (REAA) galego Agapito Serra Fernandes, fundador do Bairro Maçónico “Estrela de Ouro”, junto à Graça em Lisboa. O empresário Agapito foi tio-avô da coproprietária Dolores Fernandes, familiar de Joana Dolores da Silva Neves, parente próxima do Barão. Estrela de 5 Pontas – 5.ª Catedral (Sé) – 5.º Posto Representativo – 5.º Príncipe Leonel – 5.º Luzeiro… tudo confere com o 4.º Sistema em que estamos e afinal acaba sendo o número da porta. Mistérios de Mariz. Quanto ao mais a dizer para o público, resta a advertência que nunca é demais: cuidado com as imitações! Só falo quando entendo e se nem tudo digo, verdade se diga que alguma coisa vou dizendo.

Bastaram apenas doze segundos para se consumar a Tragédia da Rua Augusta. Entretanto, os celerados sinistros haviam desaparecido sem deixar rasto. Como disse, eram magos negros chefiados pelo famigerado “Fuinha” de nome Arfik, querendo impedir que Helena, grávida, desse à luz o futuro Redentor da Humanidade (Akdorge) que cerraria para todo o sempre as “portas da morada do mal”!… Se, apesar disso, os Gémeos Espirituais escapassem do Acidente de Lisboa, os esperaria em Goa um monstro lemuriano criado pela Loja Negra em 1573 (descrito na obra demonológica de Paramatus), hermafrodita monstruoso com glândulas nas palmas das mãos exalando cheiro horrível (que é citado nas Páginas Ocultistas e Contos Macabros de H. P. Blavatsky, com comentários de Mário Roso de Luna), mas também ele foi aprisionado pelos Adeptos da Boa Lei, depois de luta terrível e cruel, e arrastado para o interior do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, ficando aprisionado numa caverna guardada por elementais ferozes, até se desfazer completamente por falta de animação maléfica.

À meia-noite desse mesmo dia 27 de Julho, com Henrique mergulhado em sono paranishpânico, também ele foi levado para o escrínio subterrâneo de Sintra, onde se realizou um Ritual do mais transcendente Tulkuísmo. O Eterno, projectado na forma deífica de Akbel, sentindo o efeito desastroso de lesa-Evolução do Acidente de Lisboa, proferiu as sentenciosas palavras: – Mesmo assim, o Meu Filho nascerá desta Mulher!

Com essa sentença – a Sentença de Deus – e constatada a gravidade dos ferimentos de Helena e a impossibilidade do seu retorno à superfície, o Eterno, em forma de Lei, houve por bem tomar providências acertadas a fim de salvar a Sua Obra e não causar prejuízo à Evolução Humana. De maneira que foram modificadas as directrizes da Obra, consequentemente, de todo o Pramantha. Essas palavras do Eterno passaram a constituir o majestoso título que encerra um primoroso capítulo da mesma Obra Divina. Eis o sentido real das palavras do Eterno que os Adeptos Independentes desde Portugal realizariam na forma de 12 Medidas:

AS 12 MEDIDAS DO ETERNO

1.ª – Que os Goros (Sacerdotes) da Sé Catedral de Lisboa propiciassem os meios pelos quais os corpos dos jovens – os Gémeos Espirituais – fossem, de maneira mayávica, conduzidos para o Templo Subterrâneo situado, desde aquele local, no escrínio da Serra de Sintra (“QUEDA”).

2.ª – Que os dois primeiros Kumaras Primordiais – Dhyananda e Sanat-Sujat – se deslocassem de Shamballah para o Templo Interno de Sintra, ocupando os corpos dos dois primeiros Kumaras Secundários – Mikael e Gabriel ou Abraxis – a fim de prestarem assistência aos Gémeos Espirituais e vitalizarem-nos durante determinado tempo (“PURIFICAÇÃO DOS CORPOS”).

3.ª – Que os referidos Kumaras auxiliassem na recuperação do corpo físico de Allamirah, ou seja, Helena (“RECUPERAÇÃO”).

4.ª – Que as Essências ou Espíritos dos Gémeos Espirituais fossem transferidas, pelo fenómeno avatárico, para os corpos de Lorenzo e Lorenza – expressões físicas do Quinto Kumara Ardha-Narisha em forma dual, ou Kumara de Projecção (“COMPENSAÇÃO”).

5.ª – Que a Essência que animava o Tulku de JHS – Honorato José de Souza ou At-Niat-Dwija – que ficara em seu lugar em São Salvador da Bahia, na casa dos progenitores, com parte da Consciência do 5.º Senhor Arabel e a Essência da Estrela Algol (contraparte do 5.º Senhor), estas fossem transferidas para os corpos de Henrique e Helena, no seio da Serra de Sintra (“MATERIALIZAÇÃO”).

6.ª – Que os Gémeos Espirituais, nos corpos de São Germano (Lorenzo) e Lorenza, seguissem viagem para o Norte da Índia com a comitiva constituída pelo Barão e a Baronesa da Silva Neves, pelo Dhyani Abraxis, por Mr. Ralph Moore e vários outros Adeptos Perfeitos (“VONTADE ESPIRITUAL, AFIRMAÇÃO”).

7.ª – Que o Itinerário seria pela face da Terra: Portugal – Egipto (Cairo) – Goa (Sul da Índia) – Ceilão (Sri Lanka) – Calcutá, Nova Deli, Leh, Srinagar no Norte da Índia, província de Cachemira (“CASTIGO”).

8.ª – Que os dois últimos Kumaras Primordiais – Sanat e Kali, hoje Satya – manifestados através dos dois últimos Kumaras Secundários (Anael e Kassiel), deveriam encontrar-se com a comitiva no Ceilão, a fim de acompanharem os Gémeos Espirituais ao Norte da Índia, ela em Leh e ele em Srinagar (“SUBLIMAÇÃO”).

9.ª – Que a Companhia Teatral Infantil se desfizesse em Lisboa, indo os seus sete principais componentes masculinos e sete femininos, ao todo catorze, reunir-se em Srinagar, no Norte da Índia (“RESPONSABILIDADE”).

10.ª – Que o Kumara de Projecção – Lorenzo e Lorenza – deveria participar de um Ritual Manúsico, a fim de dar origem à 8.ª Dhyani-Budhai – Adamita, que assim era a contraparte gerada do Quinto Senhor da “Ara de Luz” (“PERSISTÊNCIA”).

11.ª – Que JHS, no corpo de São Germano, fosse à Confraria Jina de Srinagar presidir a sete Rituais Manúsicos, a fim de serem gerados os sete Dhyanis-Jivas, depois (1949) Dhyanis-Budhas do Novo Pramantha, os “Príncipes de Srinagar”, e que nesses Rituais de Geração deveriam estar presentes as sete Filhas de Kunaton e Nefer-Tit (Dhyanis-Barishads) e os sete Filhos de Tutmés III e Nereb-Tit (Dhyanis-Agnisvattas), ou sejam, aqueles e aquelas principais meninos e meninas que tomaram parte na peça teatral Tim-Tim por Tim-Tim, levada a cena no Teatro São João em Salvador da Bahia, em 1899 (“AS SETE LUZES”).

12.ª – Que JHS, depois de realizar essas determinações, regressasse à cidade de São Salvador da Bahia, com máscara humana, ou seja, com a sua consciência imediata e não a transcendental ou avatárica, para começar a percorrer a Estreita Vereda da Vida, o Caminho de Espinhos (“SACRIFÍCIO, COMPROMETIMENTO DA DIVINDADE, INÍCIO DA REDENÇÃO”).

Ainda sobre a Tragédia da Rua Augusta ocorrida consigo, o Venerável Mestre JHS deixou escrito na sua Carta-Revelação de 25.7.1961, O estado de Consciência da Era de Maitreya, in Livro da Reconstrução do Pramantha do Ciclo de Aquarius:

“(…) com Ela aconteceu em Lisboa, na Rua Augusta, ou Sushumna, com as suas duas Ruas Ida e Pingala, que são as do Ouro e da Prata ou no sentido do que foi dito, a da Prata e a do Ouro, em lateralidade. E Eu tive que dar o meu sangue pelos dois braços ou lados, Ouro e Prata, Pingala e Ida, por Ela, na Sé Patriarcal, que inscreve no seu frontispício os dois HH dos nossos nomes. E depois acabei realizando uma espécie de “Ritual Eucarístico” numa taverna bem em frente ao lugar da Rua Augusta, onde se deu o acidente. (…) Como se vê, o pivô da nossa Obra começa na Serra de Sintra (…).”

Quanto às razões iniciáticas para a mesma Tragédia, o Mestre discrimina-as na Carta-Revelação de 28.1.1953, Sintra e seus Mistérios (para ser lido com os Olhos do Espírito), inserida no Livro Chuva de Estrelas – A.

Para todo o efeito, o Jove ou Jovem Henrique ladeado pelo Dhyani-Kumara Gabriel ou Abraxis, tutor de Helena em Goa, e o Barão Henrique da Silva Neves, acabam expressando a Trindade Divina na Terra: Henrique para Akbel e a própria Divindade – 1.º Logos; Gabriel para o Plano Intermédio dos Deuses – 2.º Logos; e o Barão para o Mundo Humano ou Jiva representado na mais sublime Milícia Iniciática Secreta – 3.º Logos.

Tem-se, pois, a Viagem Avatárica do Adolescente das 16 Primaveras (número cabalístico do Kumara, o “Eterno Adolescente” ou “Eterno Virgem”) com três etapas iniciáticas bem demarcadas, duas em solo Luso ou Assúrico, sim, o da “Terra dos Filhos da Luz” (Luxcitânia), para que resultasse a terceira derradeira:

Esses “Inferno, Purgatório e Céu” estão consentâneos com a formação gnosiológica da Quinta Rama da Excelsa Fraternidade Branca, como seja a Soberana Ordem de Mariz, cujo desenvolvimento escatológico se fez mais sensível nos seguintes lugares do País:

Norte – Ansiães – Formação (Tamas) = Conde D. Henrique e a Ordem Franca de Avarat (século XI); D. Afonso Henriques e a Ordem Lusa de Mariz (século XII).

Centro – Sintra – Organização (Rajas) = Ordens de Avis e do Templo, com as cores verde e vermelha de Fohat e Kundalini, servindo de “Escudo Defensivos” à Ordem de Mariz.

Sul – Sagres – Expansão (Satva) = Infante Henrique de Sagres e a diáspora marítima sob o pendão espiritual de Mariz representado pelas Ordens de Avis e de Cristo pelos mais insignes das mesmas.

Motivo mais que suficiente para o saudoso amigo Paulo Machado Albernaz, preclaro discípulo de JHS, escrever-me (São Paulo, 2.8.2000) o seguinte:

“Por esta razão a Península Ibérica tornou-se a verdadeira Iniciadora do Ocidente, portadora dos Mistérios. Naquela mesma ocasião foi fundada a Ordem de Avarat (que quer dizer: “A Tradição dos Nossos Maiores”). Bem mais tarde surgiria aquele príncipe de origem francesa, D. Afonso Henriques, que libertaria uma pequena parte da Península, fundando o pequeno mas glorioso Reino de Porto-Calens, hoje, Portugal. Em São Lourenço dos Ansiães, funda-se a prodigiosa Ordem de Mariz, que como sabemos usava as famosas cores verde e vermelha, que mais tarde seriam usadas no pendão português até aos dias de hoje.”

Essas palavras preciosas reproduzem quase textualmente aquelas outras sábias da Coluna J do Venerável Mestre JHS, António Castaño Ferreira, proferidas na cidade de São Paulo em 7.6.1952:

“Tornou-se a Península Ibérica a verdadeira Iniciadora do Ocidente, portadora dos Mistérios. Foi fundada então a Ordem de Avarat (que quer dizer: “A Tradição dos Nossos Maiores”). Mais tarde, (…) em São Lourenço dos Ansiães, funda-se a prodigiosa Ordem de Mariz, que como sabemos usava as famosas cores vermelha e verde (…). Este pequeno Centro deu origem às grandes navegações e, consequentemente, às grandes descobertas. Foi então que D. Henrique fundou em Sagres a sua famosa Escola de Navegação, donde sairiam os bravos marujos que descobririam para o mundo terras até então desconhecidas. D. Henrique era o Chefe da Ordem de Mariz, que tinha por sinal secreto Avi-Mar (Ave Maris) que pronunciava pondo a mão sobre o coração, gesto tão nosso conhecido. Preparou-se em seguida, em 1500, a descoberta da América.”

Disse-me ainda Paulo Albernaz, desta feita em carta datada de 28.12.1999:

“Não resta a menor dúvida que o Arcano 17 está estreitamente ligado à Nação Portuguesa, cuja extensão não deixa de ser o Brasil! “As Estrelas” guiaram os intrépidos navegantes que chegaram à “Nova Terra” e colonizaram o Brasil, dando início à Glória da Sub-Raça Latina, representada por Portugal, Espanha e antigas colónias, pois serão o Berço do Avatara.”

Com um preito de saudade apertando o coração, lembro aqui as preciosíssimas palavras que Roberto Lucíola, fidelíssimo discípulo de JHS, enviou-me de São Lourenço em 27.5.2002:

“Residir numa Região “Jina” como Sintra não deixa de ser um privilégio e, acima de tudo, indica desfrutar de um bom Karma. Como sabemos, Sintra é o Centro de Poder Espiritual da Europa, pois aí está localizado um “Posto Representativo” presidido por um Excelso Dhyani-Kumara, responsável pela Tónica da Literatura. Por aí se pode aquilatar o potencial de Conhecimento Humano que Portugal encerra em seu seio.

Todos os sete “Postos Representativos” espalhados pelo Mundo encerram em si um grande potencial da mais alta vibração de Energia Espiritual, no sentido iniciático. São, pois, Centros Irradiadores das mais sublimes Forças. Sob a égide espiritual de Sintra, estão sete importantes capitais europeias, tais como: Roma, Londres, Bruxelas, Paris, Madrid, Copenhaga, Berlim… Estas capitais estão na órbita portuguesa segundo nos ensinam os mais sagrados e misteriosos Ensinamentos Ocultos. Não esquecer que cada “Posto Representativo” abriga em seu seio uma determinada Ordem Secreta composta por um Dirigente, que é o próprio Kumara, e mais 111 Adeptos, totalizando o número cabalístico 777, ou seja: 111 x 7 = 777.

O Infante D. Henrique de Sagres foi uma expressão da Divindade encarnada entre os homens para implantar uma nova etapa na Civilização. Só este facto é suficiente para glorificar a sua Pátria e ser motivo de orgulho pertencer a uma Região escolhida por Deus para firmar a Sua Obra. Outrossim, coisa que muita gente ignora, o “Império Lusitano” não foi fruto de impulsos expansionistas ou obra do acaso, como querem os materialistas que ignoram os Desígnios de Deus. O “Império Lusitano” foi uma imposição da Lei Divina que a tudo preside. Assim sendo, ele jamais foi destruído, devido às suas origens.

Na realidade, o “Império Lusitano” é o “Império da Luz”, ou seja, da Luz Espiritual, e como tal é eterno. Esse “Império da Luz” foi recolhido aos Mundos Interditos do Interior da Terra para emergir em tempo oportuno, ele jamais foi destruído, porque o que é sagrado não pode ser destruído pela maldade humana. Os Preclaros Adeptos todos pertencentes à Linhagem do Planetário da Ronda, ou sejam, os componentes da Hierarquia dos Assuras, ao longo da História fizeram diversas tentativas para implantar na Face da Terra a Sinarquia Universal, esse “Quinto Império Encoberto” de que nos fala Fernando Pessoa.

Não sofrendo de qualquer crise de etnia xenófoba, somente o Povo Português tinha condições para dar origem a uma Nova Raça que fosse o fruto das experiências e dos sofrimentos por que já passou toda a Humanidade na sua longa caminhada em busca do seu destino, que é o retorno ao Espírito Santo, segundo as várias “Promessas” feitas por todos os Avataras que a este Mundo vieram.

Se lançarmos um olhar nas páginas da História Oculta da Humanidade, verificaremos que as Forças Obscuras, que sempre dão combate à Luz, tudo fizeram para impedir que os desideratos da Lei se cumprissem, mas sempre foram vencidas, porque a derrota dos Lusitanos seria a derrota da própria Divindade, coisa que é inconcebível e inteiramente impossível de acontecer. As Forças Obscuras foram sempre vencidas pelas Forças do Espírito Santo.

Muito embora não termos tido por estas bandas (Brasil) nenhum “Condestável”… os Céus nunca nos abandonaram. Temos a certeza que o Império Eubiótico ou Sinárquico, mais dias menos dias, será reimplantado, pois as “Sementes” nunca morreram e estão bem vivas, e na Hora aprazada florescerão como Lei bem certa. Porque contra os Desígnios da Lei não há força que resista.”

Posso citar ainda António Carlos Boin, que nos idos anos 70 e 80 do século passado exerceu o cargo de secretário de instrução em diversos departamentos da ex-S.T.B. (Maria da Fé, São Paulo e Santo André). Além da correspondência que trocámos, certa vez e em conversa telefónica com o finado amigo, a dado passo ele adiantou-me que “as cores verde e vermelha da Ordem dos Tributários são herança e reprodução directas das iguais da Ordem de Mariz, expressivas de Deus Pai-Mãe, as quais, ao nível imediato, unem Portugal e Brasil”.

Em uma Carta-Revelação de JHS escrita em São Lourenço, datada de 16.2.1963 (Arcano XVI – A Revolta no Trono, Antiga Casa de Deus, in Livro Vitória dos Bhante-Yaul), o Mestre refere que “São Lourenço dos Ansiães ligava-se outrora, subterraneamente, com o Mundo de Duat”, e aplica a seguinte dicotomia aparentemente inconciliável: por uma parte, diz que “a Ordem de Mariz não se dissolveu e sim bifurcou-se exotericamente nas de Avis e de Cristo”; por outra parte, “a Ordem de Mariz não existe mais”!

Primitiva ligação subterrânea ao Mundo de Duat, desactivada só restando a linfa quente das lavas vulcânicas, nas Caldas de São Lourenço dos Ansiães

Pois sim, é a mais pura verdade: “a Ordem de Mariz não existe mais”… em actividade franca ou aberta à Face da Terra. Isso acabou no reinado de D. João I, e depois disso o seu primeiro eco exotérico ou público foi a Escola Náutica de Sagres. Como todas as seis restantes Fraternidades de Adeptos (sendo as Ramas da frondosa Árvore dos Kumaras no todo, ou Grande Fraternidade Branca), está cerrada para o século ou ciclo profano, repito, praticamente desde os finais do reinado de D. João I, o “Mestre Perfeito”, e o desaparecimento do Santo Condestável, Nuno Álvares Pereira, depois Frei Nuno de Santa Maria, o “Galaaz do Carmelo”, que foi a antiga reencarnação do próprio Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves, de nome esotérico Malaquias, Dharani de 1.ª Classe, Grão-Chefe Temporal da Ordem de Mariz.

Desde o século XV para cá, essa Soberana Confraternidade só age franca ou abertamente em baixo, nos Mundos de Badagas e de Duat, ou então, de maneira discretíssima, junto de raríssimos homens rigorosamente selecionados – por norma discípulos adiantados de Mestres de Sabedoria, tenham ou não consciência imediata disso – com Missão superior sobre a Terra, tal qual agiu como encoberta ou encapuçada através de destacados e também discretos, sujeitos à lei do silêncio que o juramento iniciático impôs, membros das Ordens de Avis (Fohat) e de Cristo (Kundalini), respectivamente, possuidoras das cores mores verde e vermelho, cuja fusão cromática dá a púrpura de Kala-Shista ou Sishita, em védico, em caldaico Kurat-Avarat, a mesma Sintra como 5.º Posto Representativo dos Marizes, Mouros, Moryas, Marus

Falando das Sete Ramas da Árvore Genealógica dos Cabires ou Cumaras (Kumaras, Kuma-Maras, Cume-Maras, Cume-Maris), constituindo a Excelsa Fraternidade Branca dos Sete Raios de Luz, elas são:

Ordem dos Cavaleiros do Sol – Peru – Sol – Luz de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Mikael (Saber)

Ordem dos Astecas Cabalistas – México – Lua – Nome de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Gabriel (Beleza)

Ordem Andrógina da Rosacruz – E.U.A. – Marte – Sentença de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Samael (Bondade)

Ordem Secreta de Malta – Austrália – Mercúrio – Vontade de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Rafael (Pureza)

Ordem Soberana de Mariz – Portugal – Júpiter – Realização de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Sakiel (Riqueza)

Ordem dos Cavaleiros de Albordi – Egipto – Vénus – Expansão de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Anael (Ventura)

Ordem Maçónica dos Traichus-Marutas – Índia – Saturno – Trono de Deus
111 Adeptos Assuras e 1 Dhyani-Kumara = Kassiel (Sublimação)

O Venerável Mestre JHS (Henrique José de Souza) repetia amiúde que “não dava nada de bandeja”, logo, sendo o Supremo Iniciador falava e escrevia por anagramas e subentendidos para que o discípulo decifrasse e se tornasse, por fim, também ele um Iluminado, um Integrado na Sabedoria do Deus Akbel. Como essa sua frase incisiva, igualmente milhares de outras frases, parágrafos inteiros espalhados por todos os seus Livros de Revelações, são verdadeiras mayas e métodos de verdadeira Iniciação Mental, logo, Espiritual. Bem parece que raros as dobram, perpassam, vencem de vez por todas, sobretudo os que estão na Obra, pois os que estão fora dela, como profanos impúberes naturalmente dão-se às maiores fantasias de afectados exercícios oníricos, mas esses não contam em nada.

Servindo-me da mecânica sideral, planetária e natural da Yoga da Aranha (d´Ouro), dada pelo Rei de Agharta, Baal-Bey, à nossa Obra em 28 de Janeiro de 1941, transpô-la-ei para a estrutura escatológica da Hierarquia Oculta de Sintra:

Absoluto – Sideral (Constelação): Sirius (Kaliba, em aghartino).

Sirius, segundo Roberto Lucíola (in Caderno “Fiat Lux” n.º 18, Fevereiro de 1999 – Sistemas Geográficos), integra “as sete Constelações Primordiais, relacionadas às sete Montanhas Sagradas, que, por sua vez, demarcam na Face da Terra um Sistema Geográfico, onde as Mónadas atingem o seu máximo de desenvolvimento, pois é nesses locais sagrados onde também se faz presente a manifestação humanizada da Divindade através do Avatara do Ciclo e da sua Corte ou Hierarquia.

Cada uma das Montanhas Sagradas preside a um Ciclo Evolucional, onde determinados Seres de Hierarquia elevada se concentram, a fim de realizar um trabalho de natureza oculta obedecendo aos ditames da Lei. Em geral, funcionam sete Centros Iniciáticos de altíssimo potencial orbitando em volta de uma Oitava Montanha que ex-pressa a própria Lei. Actualmente, o fenómeno repete-se. As pessoas ligadas a esse Mistério estão se encaminhando para a Oitava Montanha Moreb que é a síntese e expressa os esforços e experiências das sete Montanhas que já cumpriram o seu papel na História Oculta da Humanidade.

A Montanha Moreb, na região de São Lourenço no Sul do Estado de Minas Gerais, Brasil, tem o significado de A Montanha que Ouve, e é a última Montanha do Ciclo Ariano. Ela acumula em seu seio os valores e as glórias das sete que a antecederam. Todos os valores do Passado ecoarão por Moreb. Será o Sinal dos Tempos. Sobre o assunto, assim se expressou JHS:

“Todas as glórias das Montanhas falarão por Moreb. É o Sinal da Consolidação. Depois, quando o Ciclo Ariano estiver completo, um Portal abrir-se-á através de um vulcão no Monte Moreb. Formar-se-á em São Lourenço um dos mais famosos vulcões do Mundo, cujas lavas acumuladas formarão a mais alta montanha do Globo Terráqueo.”

Pai – Planetária (Planeta): Júpiter (Jevadak, em aghartino).

Sobre o que diz D. Helena Jefferson de Souza na sua carta Aos queridos Filhos de Sintra (São Lourenço, 28.1.1977): “O nome dessa Augusta Ordem (de Mariz) tem, por origem, Morias, Mouros, Marus, e as suas insígnias (cruz e fita) eram nas cores verde e vermelha (…). Ambas essas cores, se fundidas, dão a púrpura do 5.º Posto Representativo”. Isto na sequência do Professor Henrique José de Souza ter dado, no Livro da Pedra (Carta-Revelação de 3.7.1950 – Dedicado aos Excelsos Dhyanis), Júpiter como Planeta regente do 5.º Posto de Sintra.

O Arcanjo, ou melhor, o Dhyani-Kumara relacionado a Júpiter é Sakiel (Saquiel ou Satya-Bel), observado como um imenso Sol Púrpura por detrás de uma Montanha, segundo a sua visualização tradicional dada por Akbel.

Mãe – Natural (Elemento): Éter (Akasha, em sânscrito, Mash-Mask, em aghartino, Vril para os rosacrucianos).

Animando o 5.º Chakra Laríngeo, trata-se da Quintessência ou Quinto Elemento afim à natureza do Luzeiro Feminino Allamirah (“Olhar Celeste”), que tem por Centro de Irradiação o 5.º Globo Flogístico Vénus (planeta feminino por excelência). Sobre isto mesmo, D. Helena Jefferson de Souza em carta de 4.7.1967 dirigida aos condiscípulos portugueses, proferiu quando então lhes deu o Ritual da Quinta Essência Divina: “Mentalizar uma cortina ou cascata de águas azuis de permeio a doiradas estrelas descendo ou projectando-se sobre todos os presentes. Este Ritual propiciará, no decorrer da persistência ritualística, a, digamos assim, objectivação da Quinta Essência Divina, agindo como uma Bênção dos Céus e equilíbrio para todos. Devido às actuais condições em que vive o Mundo, necessitamos de acção, coordenando-se, dessa forma, a actividade mística com a vontade sábia.

A Mãe Divina vem a expressar a Vontade posta em Actividade. Ela está na cúspide da Manifestação desde o Segundo Mundo Celeste, conforme diz a própria Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891) nos Manuscritos Perdidos da Loja Blavatsky redigidos por ela: “É o Aspecto Feminino de Brahma, o Masculino, e já que é impossível definir Parabrahma, ou Aquele que está muito além da compreensão humana, então, uma vez que falamos desse “primeiro algo” que pode ser concebido, é melhor que digamos Ela. Em todas as cosmogonias é a Deusa e as deusas que vêm primeiro, a primeira convertendo-se na Mãe Imaculada a partir da qual procedem todos os deuses. Então, o subjectivo passa a emanar ou cai no objectivo, e converte-se no que se chama a Deusa Mãe, a que procede ao Logos ou Deus Pai, o Imanifestado. Porque o Logos manifestado é outra coisa muito diferente e é chamado o Filho em toda a cosmogonia” (5.ª feira, 10 de Janeiro de 1889).

Filho – Sideral, Planetário, Natural: Arabel (Akbelaloy, em aghartino).

Segundo o Venerável Mestre JHS (in Livro do Colóquio Amoroso, 1956), trata-se do “Quinto Senhor do Lampadário Celeste, Arabel, o Deus da Ara, do Altar, ou do Fogo, como Senhor do Quinto Sistema”. Este Augusto Luzeiro em cuja fronte tremeluz o Tetragramaton, tem como veículo físico o 5.º Globo em formação, Vénus, e na Terra, no Sistema Geográfico Internacional a partir de Arakunda no escrínio do Roncador, em Mato Grosso, Brasil, manifesta-se pelos 7 Dhyanis-Kumaras dos quais o Quinto de Sintra, repito, é Sakiel, Raio Espiritual de Júpiter, feito assim aspecto inferior de Arabel ou veículo da Sua manifestação universal, dando como resultante da união de Manas (Vénus) com Atmã (Júpiter) a:

Geração – Em Cima, no Meio e em Baixo, ou Face da Terra, Duat e Agharta.

Esta Geração, Progénie ou Corte Iluminada aqui, em Sintra, é dirigida por Sakiel e constitui-se de 111 Adeptos Independentes, sobrando mais dois que são o Filho (Dhyani-Budha) e a Mãe (Dhyani-Budhai), Dirigentes temporais do Posto Representativo para o espiritual, o Pai, o Dhyani-Kumara.

Como Ambos, Budha-Budhai, têm as suas Colunas Vivas, uma encarrega-se dos Ritos da Ordem Interna desse Posto, dessa Embocadura (Loka, donde o seu nome Sura-Loka), pelo que é o seu Chefe Espiritual ou Grão-Sacerdote, enquanto a outra Coluna exerce as funções Administrativas da mesma Ordem, logo, sendo o seu Chefe Temporal, o Governador. Quem é este? Precisamente o Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves (Portugal, c. 1849 – Brasil, 20.11.1944), de nome esotérico Malaquias.

Quem foi ou é o Barão Henrique da Silva Neves?

Muito poderia dizer a respeito, mas prefiro reter-me ao que escreveu o Professor Henrique José de Souza sobre o aspecto exotérico ou público do Venerável Adepto (in Teatro São João, revista O Luzeiro, n.os 13/14, Junho-Julho 1953):

“Por Lei de Causalidade, tanto o pai de JHS como o Venerável Ser que fazia parte da comitiva que o acompanhou ao Norte da Índia (também chamado Henrique Antunes da Silva Neves, e sua esposa, Helena A. da Silva Neves, os mesmos nomes dos Dois Dirigentes da Missão Y), eram armadores. O primeiro possuía doze navios (algo assim como os 12 Signos do Zodíaco, os 12 Cavaleiros da Távola Redonda, os 12 Pares de França, os 12 Apóstolos, etc., etc.), inclusive um de nome “Rio Real”, que “tendo sido salvo de uma grande tempestade, o seu comandante prometeu ao Senhor do Bonfim uma miniatura do barco”, etc., como se pode comprovar na “Sala dos Milagres” dessa mesma igreja, na capital baiana. Quanto ao Venerável Ancião – que, diga-se de passagem, “foi um dos grandes amigos do pai do autor deste estudo” – possuía, por sua vez, dez navios, dentre eles, o de nome “Dragão”… e com os quais fazia o transporte de mercadorias de Lisboa para Goa, e vice-versa. Em tal lugar, a família possuía uma valiosa mansão, onde estivemos hospedados. E na hora da partida, a sua esposa, “a santa mulher com porte de rainha”, com as faces banhadas em lágrimas, dizia adeus com o seu lenço de linho… postada à beira do cais…”

No seu Livro das Vidas – O Mistério da Árvore Genealógica dos Kabires, datado de 1933, o Venerável Mestre JHS dá o Barão Henrique S. Neves como o 6.º Sub-Aspecto do 1.º Aspecto da Linha dos Cabayus ou dos Moryas. Diz:

“6.º: HENRIQUE ANTUNES DA SILVA NEVES, português ilustre, que viveu muito tempo em Goa. Era amicíssimo do Mestre Abraxis (Jean Feliciani Domiciani), proveniente de Lorenzo e Lorenza, de quem o mesmo era filho, com mais outros 6, que figuram como 2.os Aspectos de todas as Linhas. De seu nome nos servimos quando nos hospedámos no Hotel Globo, em 1914, quando para aqui viemos do Norte: Henrique Antunes da Silva. Fizemo-lo por motivos ocultos, pois não tínhamos necessidade de viajar a descoberto, mas incógnito. Além disso, tal Ser foi um Pai que encontrámos outrora, quando fomos à Índia às ocultas, ou fugido de nosso lar. Em sua casa estivemos hospedado juntamente com Abraxis, que nos honrava com a sua presença e nos conduziu ao Norte da Índia, donde viemos recambiado, depois de nossa missão. H. A. da Silva Neves era versado em várias línguas, inclusive indianas, e muito mais em Filosofia. O seu filho, António Neves, foi representante de “Dhâranâ” em Calcutá.”

Com efeito, António da Silva Neves, o “Antonino”, representou o Professor Henrique José de Souza, a Sociedade “Dhâranâ” e a revista “Dhâranâ” na Índia, como facilmente pode se verificar na lista de colaboradores e correspondentes nos seus primeiros números, tendo o próprio Paulo Machado Albernaz, quando foi redactor-chefe de “Dhâranâ” nas décadas de 50 a 70 do século passado, expedido regularmente por correio números da revista para o endereço do filho do Barão, cujos remetente e destinatário eram inicialmente os seguintes: “De: Sociedade Dhâranâ – Budismo-Maçonaria – Niterói – Rio de Janeiro. Para: Senhor Antonino Neves – Caixa Postal 600 – Calcutá – Índia”.

Segundo as informações disponibilizadas pelo Venerável Mestre JHS nos seus Livros de Revelações, os Barões da Silva Neves haviam sido em vidas anteriores: ele o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira (posteriormente, Tomé de Souza, 1.º Governador Geral do Brasil), e ela a Rainha Santa Isabel. Isto mesmo está escrito na Carta-Revelação de 4.1.1952 pertencente ao Livro dos Makaras. Diz:

“Todos já conhecem quem foi o Condestável na sua vida anterior… do mesmo modo que na seguinte, Tomé de Souza. E a seguir, o Barão Henrique Antunes da Silva Neves.”

Noutra parte da mesma Carta-Revelação:

“D. Nuno Álvares Pereira, tal como a Rainha Isabel, nunca deixaram de existir. As suas mortes são misteriosas… mesmo que ficassem os cadáveres, em ossos ou cinzas… para tradição das suas vidas, na História de Portugal. No entanto, mudaram de corpos. Essa esteira luminosa que mais parece a da Via Láctea… veio ter ao Brasil.”

O Mestre reitera na Carta-Revelação de 20.1.1952, pertencente ao mesmo Livro:

“Os Barões da Silva Neves não saíram apenas da Essência Espiritual do Condestável e da Rainha Isabel, a Santa, mas também dos seus corpos imortais, pouco importando o que deles fala a História Portuguesa, a época, etc. (…) O meu pai e o meu avô eram amigos e parentes dos Barões da Silva Neves; por sinal que o meu pai foi armador, e ele também. Além de pertencerem a diversas Ordens de Cavalaria, etc.”

Quanto à vida anterior do Barão como o “Santo e Guerreiro”, D. Nuno Patricial (Condestável) e D. Nuno Eclesial (Monge), sim, Avatara do próprio Akdorge ou “Homem da Couraça ou Manto Vermelho” (Marte) que lhe terá aparecido pouco antes da Batalha de Aljubarrota (14. 8.1385), o Mestre JHS diz ainda na Carta-Revelação de 4.1.1952:

“Todos os países do Mundo possuem a sua História. A verdade, porém, é que depois do Ramo Racial Greco-Latino, que inclui celtas, galos (inclusive a França), etc., nenhum se compara a Portugal ou Porto Galo, Gaulês, etc., para cujo lugar, por ser litoral e outras razões, o Manu Ur-Gardan, “o Homem do Éden ou Jardim de Fogo”, conduziu o seu povo, imitado por Nun´Álvares, porque… aqueles que se antepuseram aos seus passos foram derrotados, foram aniquilados, sofreram a morte, porque, de direito e de facto, “o Manu é Senhor de Vida e de Morte, não só sobre o seu povo como do Mundo inteiro”, cujos seres, por sua vez, são frutos, sazonados ou não, dos Manus anteriores, todos Eles, por sua vez, nascendo do Manu Primordial.”

Pois sim, avançando no tempo tem-se que após o Acidente de Lisboa, na Rua Augusta, ocorrido com os Gémeos Espirituais Henrique-Helena, alguns anos depois o insigne casal de Barões desfez-se dos seus negócios e bens em Lisboa e Goa (nesta última residindo na Rua Espelho de Flores, depois só Rua das Flores, n.º 19, junto ao Largo da Igreja de São Lourenço de Agaçaim, sobranceira ao Rio Zuari a caminho do Forte dos Reis Magos) e foi fixar residência no Brasil, em São Salvador da Bahia, ou melhor, na Ilha de Itaparica fronteira à cidade, no sítio de Caixa-Pregos, próximo a Mar Grande junto à estrada (na ocasião de terra batida) levando à igreja matriz de São Lourenço de Itaparica.

 

Sentindo grande afecto por Henrique José de Souza, e talvez ainda coagidos pela tragédia ocorrida em Lisboa, querendo descartar a eventualidade de repetir-se em alguma outra, estes seus Paraninfos ou “Barões Assinalados”, parafraseando Camões, fizeram de Itaparica a sua nova morada, onde passaram a viver de maneira mais humilde ou recatada, discreta. Acerca da instalação dos Barões em Itaparica, o Mestre JHS escreveu na sua Carta-Revelação de 11.9.1941:

“Como Refugium Peccatorum, não quer dizer que seja “lugar de castigo”. Puro engano! Mas antes de purgação, de elevação, de destruição de erros ou karma, como o próprio Henrique da Silva Neves (o Santo Condestável) e Helena da Silva Neves (a Rainha Santa Isabel – Ísis Babel ou Abel, etc.) se ocultarem até hoje cercados da sua Corte, alguns Adeptos que auxiliaram, como Eles, os primeiros dias dos Gémeos, quando ambos tinham 15 para 16 anos de idade material ou humana. Assumiram conscientemente a responsabilidade indo purgar-se na referida Ilha, desde que não podiam fazê-lo em Shamballah, nem mesmo na Agharta… São Salvador fica fronteiriça, e passa por ser a terra natal de ambos os Gémeos Espirituais, Henrique e Helena como Eles, os dois prodigiosos Seres.”

Na Bahia, o Casal de Barões esteve ligado ao negócio das águas abastecedoras de São Salvador, e nesta mesma cidade, na Casa do Paço do Saldanha, os Preclaros Membros da Ordem de Mariz – vários de padrão superior e até de brasão exterior que haviam acompanhado o seu Chefe – costumavam reunir-se. Refira-se, ainda, que já em 1567 a Ordem de Mariz, através de D. António de Mariz, ajudara Mem de Sá a fundar a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro (in Anais do Rio de Janeiro, tomo 1.º, pp. 328-329).

De Itaparica o casal de Barões mudou-se para Teresópolis, em 24.12.1941, e finalmente, no início de 1944, para a região de Minas Gerais do Sul, onde passou a residir nas proximidades da cidade de São Lourenço, e aí costumava encontrar-se assiduamente com o Professor Henrique José de Souza. Diz-se até que a arquitectura e acústica do Templo da S.T.B. nessa cidade, inaugurado em 24 de Fevereiro de 1949, haviam sido sugeridos pelo Barão ao Professor…

O autor, VMA, na Montanha Sagrada de São Lourenço, Sul de Minas Gerais, Brasil

Bastante idosos, no final das suas vidas terrenas e numa época em que o Professor H.J.S. e a sua Obra eram severamente atacados pelas Forças Sinistras da Involução, ameaçando gravemente a sua continuidade na Face da Terra, os Barões da Silva Neves juntamente com o seu sempre fiel Mordomo José Ramayana, luso-goês então também já muito idoso, em 20 de Novembro de 1944 decidiram oferecer em holocausto as dádivas das suas vidas em troca da sobrevivência na Face da Terra de Henrique José de Souza, da sua Instituição e Obra. Então, estes insignes Yokanans ou Arautos foram recolhidos ao Interior da Terra, à capital do Mundo de Badagas, Mekatulan, localizada sob a cidade de São Lourenço (MG), e voluntariamente sujeitaram-se ao chamado Ritual Djina-Masdhar, o mesmo joanino da “Degola da Cabeça” ou do “Holocausto do Inocente”, igualmente chamado “Derrame do Sangue Real”, o qual até hoje a Maçonaria Adonhiramita reproduz no seu simbolismo ritualístico alusivo ao Martírio de São João Baptista. Isto equivale ao sacrifício voluntário na Cruz (4.ª Iniciação Real do Arhat) a favor da Ressurreição (5.ª Iniciação Real do Asheka), o que implica o sentimento doloroso do holocausto auto-imposto a favor da sobrevivência de algo ou alguma coisa, neste caso, repito, tendo como fito a salvação terrena ou humana da própria Obra do Eterno na Face da Terra, cuja expressão máxima era o próprio JHS.

Muito frequentemente o sentido da “cabeça decapitada” não representa tanto um martírio individual e mais uma “decapitação” simbólica do Chefe visível de determinada Ordem que, apesar de ter perdido quem a conduzia exterior ou publicamente, prossegue firme no Ideal plantado por aquele. Realmente, desde 20.12.1944 que os Barões da Silva Neves deixaram para sempre a Face da Terra, mas a Ordem de Mariz interiorizada prossegue a sua semeadura exclusivamente através da exteriorizada Ordem do Santo Graal, e de certo modo por quantos participam da Diáspora Espiritual a favor da Parúsia ou o Advento do Cristo Universal.

A relação do Professor Henrique José de Souza com a Ordem de Mariz foi profícua e estreita ao longo de toda a sua vida. Até chegou a receber da mesma um estojo com o pano de cores verde e vermelha envolvendo a Cruz da Ordem, pela época do sacrifício dos Barões, altura em que o Barão Henrique S. Neves ofereceu ao Venerável Mestre a sua Comenda.

No dia 14.3.1955, às 17 horas, o discípulo Carlos Lucas de Souza foi chamado à Vila Helena, residência do Professor Henrique e da sua família em São Lourenço, e aí foi nomeado “representante do Excelso Akdorge”, tendo o Mestre JHS o agraciado com a mesma Grã-Comenda que pertencera ao Barão Henrique da Silva Neves, cujo símbolo liga-se ao Dragão de Ouro (Satva, Espiritual, Solar, a própria Grande Loja Branca), isto pelo valoroso trabalho do discípulo em prol da construção da Obra, solenidade a que estiveram presentes vários Irmãos Cavaleiros de Akdorge, dentre eles Itagiba e Sebastião Vieira Vidal.

A relíquia sagrada acabou guardada por familiar de Carlos Lucas de Souza em uma caixa de papelão, conforme me informou o seu filho Henrique Arthur de Souza, a qual desgraçadamente veio a perder-se arrastada pelas enxurradas que no ano 2000 assolaram a cidade de São Lourenço.

De 20.12.1944 em diante, os Espíritos, as Essências Imortais dos Barões Henrique e Helena da Silva Neves passaram a vibrar em dois outros Seres, com 10 anos de idade, chamados Mário Lúcio e Maria Lúcia. Nascidos em 13 de Maio de 1934, tiveram como Pais espirituais Helena Iracy (1.º corpo) e Krivatza (Jesus, avatara de Akdorge), mas cujos Pais efectivos, carnais, foram os Adeptos Heinrich Gordon Schmidt e Helen Gordon Schmidt, pertencentes ao Sistema Geográfico de El Moro, E.U.A.

Como cada Yokanan ou Arauto possui três nomes diversos, de acordo com a sua localização, como revelou JHS na sua Carta-Revelação de 17.1.1951, tem-se que os mesmos Seres são:

Mário Lúcio e Maria Lúcia = El Moro (Cimarron)

Hélio e Selene (Buda-Budai) = Bairro Carioca (São Lourenço)

Hermes e Jefferson = Mekatulan (Badagas)

Com isso, ligam-se às “misteriosas crianças” que habitaram a não menos misteriosa Casa de M. T. (Meka-Tulan e Maximus Tertius) no Bairro Carioca de São Lourenço, possuídas dos mesmos nomes dos filhos carnais do casal Henrique José de Souza e Helena Jefferson de Souza, facto sobre o qual diz o Venerável Mestre JHS na sua Carta-Revelação de 25.1.1952 que pertence ao Livro dos Makaras:

“Não devemos esquecer que há muitos anos foi anunciado: que dois Seres seriam Professores de Hélio e Selene. Tal Hélio era bem outro, do mesmo modo que Selene, como prova em tais corpos estarem hoje avatarizados os Barões da Silva Neves, tendo por Coluna Central, como já antes a tivera, um Yokanan de elevada estirpe”… que é Kafarnaum, o 8.º como Chefe da Linha dos 7 Yokanans principais.

Tendo sido as Colunas Vivas “emprestadas” a Akdorge no Ocidente, de 1850 a 1944, desta data em diante perfiladas Colunas Vivas de Akgorge, Irmão Gémeo daquele, teve-se no “Barão Yokanan” o exercício do Trabalho a ver com o 5.º Senhor Arabel e a 5.ª Raça-Mãe Ariana, e na “Baronesa Sibila” a consecução do Labor relacionado ao 4.º Senhor Atlasbel e a 4.ª Raça-Mãe Atlante, anunciados pelo grande Adepto seu Filho Leonel; ambos juntos operando para o 6.º Senhor Akbel e a 6.ª Raça-Mãe Crística, Cristina, Dourada ou Bimânica, acção anunciada pela Linha do Chefe dos Yokanans, Kafarnaum, das maneiras mais diversas até hoje.

Os esquemas seguintes certamente darão uma noção mais clara desse metabolismo, dessa transformação e acção que faz parte da dinâmica permanente do Mundo dos Jinas ou Adeptos Perfeitos, exercendo a sua influência constante na humana, mortal e insípida pequenez de quem vive e só na Face da Terra.

Antes 1944:

Pós 1944:

Assim se cumpriu a Profecia de Sintra, ou seja, aquela que fala da trasladação dos valores espirituais do Oriente para o Ocidente, aqui reproduzida na versão latina e respectiva tradução portuguesa:

Sobre o que adianta o Mestre JHS no seu Livro do Graal (Carta-Revelação de 19.5.1950):

“Não é de estranhar, pois, que na Serra de Sintra, ao lado daquela profecia que fala da nossa Obra, de modo indirecto, mas para ser revelada por quem foi, embora que os lusitanos mais cultos a conheçam (inclusive através de Cintra Pinturesca), dizia, ao lado daquela famosa profecia também ali esteja mais esta: “Aqui, neste lugar, as Águas pariram dos Ventos”.”

Ar e Água, Vayu e Apas, Mental e Emocional, Homem e Mulher, Ulisses e Ulissipa, Henrique e Helena, juntos no Androginismo mais perfeito, aqui mesmo, na Montanha Sagrada dos Mouros, Moryas ou Marizes, para não dizer, Marus e Marutas ou “Forças Vivas do Rei do Mundo”. Sim, aqui mesmo onde o Quinto Senhor Arabel cada vez mais se integra no seu Retro-Trono, Shamballah, pois que a Terra já passou a metade do Quarto Sistema Planetário, motivo para o Futuro se manifestar cada vez mais na Hora Presente.

As razões apresentadas não são, de maneira alguma, voluntariosas nem imaginosas concebidas ao sabor de qualquer e pessoal apetência inflamada “patrioteira”, não: é o próprio Mestre JHS quem positivamente reitera o facto na sua Carta-Revelação de 2.5.1958, Duas e Três Tragédias, senão mais, in Livro do Ciclo de Aquarius:

“O Quinto Sistema será naquele Lugar, isto é, em Portugal, na Serra de Sintra, onde a sibila estampou o mistério do Futuro, o mistério do Quinto Império, também cantado pelo poeta lusitano, que fala de um só Altar, de um só Cálice de Ouro que há-de luzir. Portugal, Arquivo das Raças de Elite, principalmente a Greco-Romana, não podia deixar de ser o Quinto Sistema.”

Como o Sistema Geográfico do Roncador, Estado do Mato Grosso, Norte do Brasil, está igualmente para o Futuro Quinto Sistema ou Império Universal, como revelou o próprio Mestre, então ter-se-á a Sintra do Presente como o Núcleo Interno da Xavantina do Futuro. E assim as dicotomias aparentes se consolidam, se desvanecem…

Para isso concorrem as sete substâncias ou princípios naturais (tatvas) de que se compõe o Sistema Geográfico Sintriano, em guisa de “Serpente Irisiforme” desde o Seio da Terra vomitando à Face da mesma as chamas púrpuras de Kundalini, o “Fogo Criador do Espírito Santo” que aqui se faz Omnipresente por este santo vau ou “escoadouro” como Chakra Laríngeo do Mundo, sobre o que diz o Professor Henrique José de Souza na sua Carta-Revelação de 28.4.1958 (in Livro do Ciclo de Aquarius):

“Quando o Bodhisattva (Jeffersus), em 1800, realizou o Avatara dos Gémeos no alto da Serra de Sintra, razão por que até hoje semelhante lugar se chama o “Pico do Graal”. E isto diz tudo, em relação ao Graal em nosso Templo. Muito antes já tinha revelado que a Serra de Sintra também é formada de sete substâncias. Lá nasceu a Obra, no Avatara de 1800. Lá esta mesma Obra se ocultou em seu seio velada por dois Kumaras, enquanto outros dois acompanhavam as duas cigarras que ficaram naquele túmulo frio e pétreo, como o maior e mais digno de todos os Túmulos. Portugal, tu és a origem da Raça Brasileira. E esta formada por sete elos raciais, que tu guardavas também no teu régio Arquivo, como provam as tuas ruínas, a profecia da Serra de Sintra.”

Com essas sete substâncias naturais se compõem as 7 Vestes do Luzeiro em Projecção (Ishvara) através do respectivo Planetário de Projecção (Kumara), que no mapa gnosiológico da Montanha Sagrada de Sintra localizam-se nos pontos seguintes, reproduzindo na Face da Terra, como Sistema Geográfico nacional, um Sistema Planetário sideral:

MULADAK – CASTELO DOS MOUROS – PRITIVI (TERRA) – FÍSICO – SOL
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Pouso Alto (Ceçary)

ISADAK – SANTA EUFÉMIA – APAS (ÁGUA) – ETÉRICO – LUA
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Itanhandú (Inhacundá)

SAMADAK – SÃO MARTINHO – TEJAS (FOGO) – EMOCIONAL – MARTE
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Carmo de Minas (Araçaranã)

SATADAK – SÃO SATURNINO – VAYU (AR) – MENTAL INFERIOR – SATURNO
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Aiuruoca (Ajur-Loka)

ANADAK – LAGOA AZUL – AKASHA (ÉTER) – MENTAL SUPERIOR – VÉNUS
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Conceição do Rio Verde (Itiquirá)

REIFADAK – SETEAIS – ANUPADAKA (SUBATÓMICO) – INTUICIONAL – MERCÚRIO
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: Maria da Fé (Ia-Passé)

JEVADAK – PARQUE DA PENA – ADI (ATÓMICO) – ESPIRITUAL – JÚPITER
Correlação astrogeosófica ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro: São Tomé das Letras (Tassu)

Como Oitava Coisa ou Substância Síntese (MAHA-TATVA ou MAHA-BHUTA) participando da Substância Universal (SVABHÂVAT ou SINDAK, em sânscrito e aghartino), ela é representada pela própria ADITI, a “Mãe dos Deuses”, figurada na SENHORA DO Ó na QUINTA DA TRINDADE (THEOTRIM), expressiva dos Três Logos em Acção. Em sua correlação astrogeosófica ou simpatia vibratória psicomental, este Poiso dos Trinos vem a representar em solo lusitano a própria São Lourenço brasileira. Assim Portugal se une ao Brasil, a Serra de Kurat à Montanha de Moreb, pelos mais profundos laços espirituais, para não dizer, jinas.

A capela e a imagem de mármore em tamanho natural da Senhora do Ó, na Quinta da Trindade, desapareceram faz alguns anos, contudo, conservo o seu testemunho em fotos raras fazendo parte do meu arquivo pessoal e aqui reproduzo.

Na senda da presença dos Gémeos Espirituais em Portugal, no dia 3 de Agosto de 2009 desloquei-me mais uma vez a São Lourenço de Ansiães, em Trás-os-Montes, em guisa de homenagem à ida aí dos mesmos em 1899, a esse Lugar de Purgação ou Purificação.

Sobre essa aldeia transmontana, o Professor Henrique José de Souza escreveu no seu artigo Cagliostro e São Germano (in revista Dhâranâ, n.º 110, Ano XVI, Outubro a Dezembro de 1941):

“Tal Ordem (de Aviz), entretanto, servia de escudo (ou “cobertura exterior”, Círculo de Resistência, etc.) a uma outra intitulada Ordem de Mariz, pouco importa que a História a desconheça por completo. Os seus raros filiados espalhavam-se por toda a parte do Mundo, como “Membros do Culto de Melquisedec”, sendo que o nome “Mariz”, que aliás inúmeras famílias nobres de Portugal o possuíram, tem por origem: Morias, Mouros, Marus, etc., etc. Os mais antigos se reuniam nas proximidades de certo lugar, que ainda hoje traz o nome de S. Lourenço de Ansiães.

No distrito de Bragança, e concelho de Ansiães, fica a 6 quilómetros desta vila a aldeia de Pombal, distando 104 quilómetros para NE de Braga e 360 para N de Lisboa. No fundo de extenso “monte”, descendo para o rio Tua, brotam aí duas nascentes num local denominado S. Lourenço, por se achar o tanque que as recebe construído em uma casa que, em outros tempos, foi a capela dedicada ao referido santo… Tão modesto balneário foi mandado construir, em 1730, pelo padre António de Seixas, talvez membro da referida Ordem… Uma das nascentes é muito abundante, e ambas são conhecidas pelos nomes: Pombal de Ansiães, S. Lourenço e Caldas de Ansiães. Outrora, porém, ninguém sabe a razão, chamavam-se, às duas Fontes, Henrique e Helena… A água jorrava por duas bocas, representadas por dois golfinhos. E por cima, Castor e Pollux.

Volvendo a S. Lourenço de Ansiães, era aí, como se disse, onde se reuniam, em tempos mui distantes de hoje, os Preclaros Membros da Ordem de Mariz. Santos e Sábios Homens muito influíram na grandeza do velho PORTUGAL, e também na do BRASIL.

A Ordem de Mariz tinha as suas insígnias (cruz e fita) em verde e vermelho, isto é, o verde que veio a usar depois a de Aviz, e o vermelho da de Cristo. Interessante que são as mesmas cores da respeitável Bandeira de Portugal… Mistério! Embora arrisquemos a dizer que “felizes daqueles que se acham sob a referida Protecção do Governo Oculto do Mundo”! Nessas condições, até hoje: PORTUGAL E BRASIL.”

Todos os lusos que estão nas fileiras da Obra do Venerável Mestre JHS deveriam, ao menos uma vez na vida, visitar Pombal de Ansiães e a próxima Fonte Santa (Termas) de São Lourenço. Todos os que não são da Obra também a deveriam visitar, pois a aldeia é hospitaleira e tem muito e variado para oferecer aos visitantes, desde os passeios culturais aos concertos musicais e à gastronomia regional. Só dessa maneira Pombal de Ansiães será arrancada ao seu “eterno mal” que é o de todo o país interior: o isolamento e a sequente desertificação demográfica, ainda mais dificultado pelos meios de acesso, já de si parcos e pobres. Os últimos acidentes, resultando mortais, na linha ferroviário do Rio Tua, a mais bela da Península Ibérica, senão da Europa, não se deve ao ferrocarril mas aos bizarros e desequilibrados “metros de superfície”. Sugiro voltar-se aos comboios a vapor, mais afins à paisagística local e mais atractivos para o turismo em geral, principalmente o termal e ecológico.

Antes de Pombal de Ansiães deve-se primeiro visitar a aldeia vizinha de Amedo, distadas uma da outra cerca de 3,5 kms cuja ligação durante séculos se fez através da românica ponte do Torno sobre a Ribeira da Regada, porque em Amedo residia a família Mariz que até hoje mantém as suas casas e descendência.

Em Amedo, com efeito, está o Solar ou Casa Grande de Mariz, a principal, e defronte um pouco abaixo, do lado oposto da Rua das Oliveiras, levanta-se aquela outra Casa da Farronca, Farranca ou da Carranca, por igual originalmente da família do mesmo apelido. Razão de as chamarem, respectivamente, “Mariz de Cima” e “Mariz de Baixo”, por outro lado distinguindo a Casa de Mariz (Amedo) da Quinta de Mariz (Beira Grande), esta, no mapa concelhio, abaixo daquela.

Começarei pela Casa Grande, da qual é proprietário e actual conservador da memória dos seus antecedentes o dr. Rozeira Mariz, que há alguns anos, num momento de feliz inspiração, colocou na dianteira do edifício o brasão heráldico de Mariz, com coroa ducal e legendado em latim, que antes não era armoriado.

Na capela particular deste solar, hoje desactivada, prestava-se culto a São Paio ou São Pelágio, Orago da família Sampaio da Carrazeda de Ansiães entrecruzada com a Mariz. Tem-se aqui as sepulturas chãs de alguns Marizes, como a de Manuel de Sampaio (baptizado em 10.4.1812) que foi frade da Ordem Terceira da Penitência e faleceu nesta Casa Grande do Amedo; a de Aires de Sampaio Mariz e Castro que vice-presidente da Câmara de Carrazeda de Ansiães em 1841, e presidente em 1847, 1876 e 1878, tendo falecido em 12.2.1881; também aqui foi deposto, em 1888, o finado reverendo Dionísio Inácio de Sampaio Mariz, filho de Luís António de Sampaio Castro e Mello e de D. Angélica de Mariz Sarmento.

A imagem original de São Paio (Sampaio) desapareceu há muito desta casa mãe dos Carvalho Mariz do Amedo, grande propriedade agrícola referenciada pela Cerca, que ao longo dos séculos foi aumentada, abandonada e novamente recuperada, sendo que o actual solar corresponde a obras realizadas nos inícios do século XIX.

Amedo estava integrada na antiga Comenda da Ordem do Hospital – recolheram-se neste lugar pedras de cabeceira tumulares medievais tendo inscritas cruzes do Hospital, a depois Ordem de Malta – e um dos santos caríssimo aos hospitalários foi precisamente São Paio (Pelaio, Pelágio), sob cuja invocação eles formaram o Pelágio, aparentemente destinado a socorrer os peregrinos cristãos que iam e vinham de Santiago de Compostela venerar o túmulo do Apóstolo, motivo por que São Paio é celebrado no dia imediato ao de São Tiago Maior, ou seja, 26 de Junho, e também o principal motivo da igreja desta paróquia ser consagrada a São Tiago dotado dos símbolos da peregrinação jacobeia. Ao par disso, os cavaleiros hospitalários dedicavam-se à guerra ao Islão – cuja resistência e ofensiva foi iniciada por Pelaio (718-733), fundador do reino das Astúrias – abrindo caminho à Reconquista e à cristianização das vias celto-romanas (veja-se os testemunhos pétreos da Anta de Zedes, da Ponte do Torno, etc.) que tinham início ou fim na mesma cidade capital da Galiza.

Por outro lado, o Pelágio apresentava igualmente um aspecto cultural e inclusive hermético onde os saberes gnóstico, cabalístico e alquímico das três grandes religiões do Livro (judaica, cristã e islâmica) comungavam juntos da mesma demanda de realização espiritual, independente das contingências geopolíticas da época, motivo do Pelágio ser igualmente sinónimo da existência de uma Ordem Iniciática fechada ou secreta, porventura ou por certo na primazia da assistência à génese histórica do particular português e na chancelaria do percurso evolutivo da Nacionalidade, desde a primeira hora posta sob a advocação da Virgem Santíssima. Refiro-me à primacial Ordem de Mariz, originalmente saída dos mais selectos – mental e moralmente, partícipes do status mistérico – da Família de Mariz.

Assiste à igreja de São Tiago de Amedo o Santíssimo Sacramento, no topo do altar maior sob o tabernáculo figurativo da Jerusalém Celeste. Mas quem dá o Testemunho da Graça é a Senhora Coroada esplendente de Luz, expressiva da própria Shekinah ou a “Manifestação Real (donde a Coroa) de Deus” como Mulher na Terra. Liturgicamente, a candeia acesa, alimentada pelo azeite benzido, vem a ser expressiva da Luz da Mãe Divina manifestada, que era da particular devoção das senhoras (as fidalgas, como as chamava o povo) da Casa Grande ou “Mariz de Cima”, já de si localizada na Rua das Oliveiras, facto que originou uma lenda miraculosa contada pelos mais velhos da terra:

– As fidalgas eram bondosas e ajudavam as crianças. Um dia, uma fidalga quis oferecer um jarro de azeite a um menino para que levasse para os seus pais que eram pobres, mas quando ela abriu a talha viu que estava vazia. Tornou a fechá-la e triste preparava-se para dar a má notícia quando lhe apareceu a Santa Virgem, que lhe disse: “A talha está cheia. Vai recolher o azeite que prometeste”. Assombrada e consolada em seu coração, a boa Mariz apressou-se a cumprir a ordem divina: tornou a abrir a talha e viu que estava cheia de azeite quase a transbordar. Nesse dia, ressoaram por toda a casa louvores à Mãe de Deus e todas as crianças da aldeia receberam jarros de azeite.

Segue-se “Mariz de Baixo”, a Casa da Carranca, onde igualmente viveram Marizes idos para aí da Casa principal, “Mariz de Cima”.

A Casa da Carranca é igualmente um antigo e grande solar com as suas belas janelas de avental, joaninas, cuja construção destaca nitidamente duas fases distintas, situadas entre os meados dos séculos XVIII e XIX. Hoje o edifício está completamente degradado, contudo, recebendo obras de recuperação graças ao esforço meritório do senhor Luís António Borges, particular local.

Segundo as Memórias Paroquiais de Amedo/Ansiães, vol. 3, n.º 64, pp. 491-496, 1758, e os Assentos Paroquiais do Amedo / baptizados, casamentos e óbitos, cujo registo foi dado à estampa por Cristiano Morais na sua importante obra monográfica Por Terras de Ansiães (edição Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, Agosto de 2006, vol. I, Novembro de 2014, vol. II), a origem do nome dos “Marizes de Baixo” recua ao tronco familiar do dr. Pedro António Pinto de Carvalho, médico, natural do Amieiro (Alijó), filho de Caetano Gonçalves e de Maria Pinto de Carvalho, casado em 16.8.1811 com D. Senhorinha Teresa Jácome, natural do Amedo, filha de Miguel Jácome e de Maria Jácome. Residiram nesta Casa na Farronca e tiveram três filhos: José que faleceu solteiro no Amedo, em 20.10.1834; Miguel António, militar, assassinado em Vilarinho das Azenhas quando tentava atravessar o Rio Tua, em 25.4.1847; D. Carolina, batizada no Amedo em 13.12.1817.

D. Carolina Amália de Jesus casou no Amedo, em 26.6.1844, com José Martins da Veiga, natural de Samorinha, filho de José Marins dali natural, e de D. Anastácia da Silva Sampaio, natural de Pereiros. Residiram na Casa da Farronca e ali nasceram: César Augusto, em 12.5.1845; D. Maria, falecida em 4.10.1846; D. Maria da Conceição, em 14.3.1848; João, em 1.7.1849; Joaquim, em 2.2.1851; D. Luísa da Luz, em 19.7.1857; Manuel da Assunção, em 13.5.1860; António, em 9.9.1861.

Joaquim da Veiga Martins casou na Amedo em 5.11.1888 com D. Maria Ermelinda de Sampaio Mariz dali natural, batizada em Águas Revés (Valpaços), filha de Frederico de Sampaio Mariz e Castro e de D. Maria Madalena de Gouveia. Deixaram descendência. Desde então a Casa da Carranca passou a ser conhecida como Casa do Mariz de Baixo.

No Amedo, segundo as Memórias Paroquiais de 1758, existiam duas capelas, a de São Martinho e a de Santa Marinha. Aquela ainda sobrevive, está junto ao Paço, mas esta não se sabe onde estaria, dizendo Cristiano Morais: “No entanto, sobre esta capela, nada mais encontramos, ficando-nos a dúvida se ela estaria no campo, acabando por ser derribada, depois do seu abandono, ou se será a de S. Paio”.

Atendendo ao conjunto da carranca com a cruz por cima, carranca que é chaminé por onde saía o fumo envolvendo a figura numa cena aterrorizante dos mais temerosos, logo sossegando vendo que a cruz não deixava escapar o demoníaco Amedo, e também observando o oratório da capela privada da casa, decorado com lavrados chamejantes lembrando escamas de dragão, dou este espaço como o da invocação setecentista de Santa Marinha. Esta Santa Marinha ou Marina de Antióquia (mártir no século III) é a mesma Santa Margarida, cujo nome provém do latim margarita, “pérola”, a mesma em fiada sob o seu coração argênteo de virgem mártir em pedra lavrada fechando a base do oratório. Também Santa Marinha, segundo a Lenda Áurea, venceu o Diabo que se assumira na forma de dragão e entretanto a engolira, mas ela com uma cruz rasgou a pele do Demo saindo viva de dentro dele, e vitoriosa calcou-o sob si, impondo-lhe o cruzeiro sobre a cabeça que furiosa vomitava fumo e cinzas. Foi o triunfo da Fé.

Não me causaria admiração que o Barão Henrique da Silva Neves e a sua comitiva tivessem pernoitado no Amedo, em 1899, no ambiente recatado de gente que lhes era próxima.

Finalmente, Pombal de Ansiães. No muitíssimo abandonado lugar da Fonte Santa, junto à arruinada “Casa da Acácia” (flor simbólica da Iniciação na Maçonaria Tradicional) que funcionou como hotel rural e pertenceu à família do dr. João Carlos Noronha, está a humilde capelinha de São Lourenço, mandada fazer pelo pároco, talvez familiar de algum ascendente brasileiro (muitas famílias brasileiras, ou luso-brasileiras, procuraram refúgio em Pombal de Ansiães nos fins do século XIX e aí construíram as suas moradias, algumas delas sumptuosas mas bem enquadradas na paisagem rural), certamente a pedido dos fiéis.

Por cima da ombreira de entrada na capelinha está uma inscrição muitíssimo mal realçada a negro por alguém recente, rezando o seguinte que até hoje ninguém conseguiu traduzir, conforme me informaram:

“Mandou fazer o vigário da freguesia José de Almeida Neves no ano de 1839.”

O vigário José Neves talvez fosse parente do Barão Henrique da Silva Neves.

Mais uma vez deixei-me absorver pelo odor e fumo intenso das águas sulfurosas, vulcânicas, correndo constantes e abundantes dentro da Fonte Santa, edifício piramidal encimado exteriormente por uma cruz a qual, se for perspectivada na base do mesmo, apontando ao Seio Assúrico da Terra, dá precisamente o símbolo alquímico do Enxofre Filosófico, expressivo do Espírito manifestado. Assim, a dupla perspectiva desse símbolo hermético vem a significar os opostos complementares como Fogo Purificador (Interior da Terra) e Água Sublimada (Exterior da Terra), ou, noutro sentido, as Iniciações Dórica e Jónica juntas para darem matematicamente certo o Andrógino em separado na Face da Terra. O ardor sulfuroso é o Arqueu do indivíduo, o seu Princípio Mental Superior ou o Génio interno (Jina para os hindu-tibetanos, e Daimon para os socráticos), exaltado na sua soberania (Iniciação Dórica ou Devek, “União” – donde o Um por Todos e Todos por Um). A Água Sublimada vem a ser o puro sentimento reflectindo as virtudes do Alto impressas na Alma Humana que nelas se banha (Iniciação Jónica ou Josephi, “Beleza, Perfeição” – donde o Justus et Perfectus). Para a Realização da Grande Obra, a entrada do Iniciado em si faz-se pela Via Seca do Jónico (Kundalini como Fogo ou Força ou de Coesão, de cor vermelha), ao passo que a saída de si se processa pela Via Húmida do Dórico (Fohat como Luz ou Energia de Expansão, de cor verde). Eis aí as duas cores universais plasmadas no pano da gloriosa Bandeira Pátria.

Este é lugar de purgação, de purificação psicofísica a que foram sujeitos os Gémeos Espirituais em 1899, pouco antes da Tragédia na Rua Augusta, Lisboa. Aliás, tudo neste lugar de Pombal de Ansiães (os Anciães da Ave do Espírito Santo fundadores da Portugalidade Iniciática, ao início com residência nas proximidades, no castelo templário de São Salvador do Mundo, tanto podendo ser o Cristo como o Quinto Luzeiro agindo por Ele, quanto ainda a corporificação operática de Ambos na Soberana Ordem de Mariz, na época – século XII – tendo como “Círculo de Resistência” externo a Ordem do Templo representada pelos seus mais ilustres e espirituais afiliados, nobres e clérigos distintos do comum confrade) tem a ver com a provação e a purgação corporal e anímica.

Ruínas do castelo templário de São Salvador do Mundo, Carrazeda de Ansiães

Vem de encontro às minhas palavras aquelas outras do célebre coevo de D. José Alves Mariz, bispo de Bragança (1885-1912), ou seja, Francisco Manuel Alves, o abade de Baçal (Baçal, Bragança, 9.4.1865 – ib., 13.11.1947), descrevendo estas Caldas de São Lourenço em termos deveras incomuns num sacerdote regular católico (in Memórias Arqueológicas do Distrito de Bragança, tomo IX, 1946, Bragança):

“POMBAL, concelho de Carrazeda de Ansiães. Fonte chamada Caldas de São Lourenço, por brotar perto da capela deste santo. São conhecidas há perto de trezentos anos, pelo menos (in António Carvalho da Costa, Corografia Portuguesa, tomo I, p. 437), como eficazes em curas reumáticas (in Alfredo Luís Lopes, Águas Minero-Medicinais…, p. 348).

É curiosa a explicação que os padres do Tibete (lamas) dão das águas térmicas. Dizem eles que “o fogo, vendo-se cheio de pecados, pelos muitos males que fazia no mundo, se fora pedir remédio ao Pagode Badrid, o qual lhe disse que ficasse naquele lugar com ele, que assim ficaria purgado de todos aqueles pecados; teve o fogo por grande mercê esta que lhe fazia o Pagode (Lamaseria), e assim ficou a seus pés; e por isso saía aquela fonte de água tão “quente” de baixo do Pagode. Este fogo teve primitivamente o poder de converter em ouro tudo quanto tocava, diz a mesma lenda, mas perdeu tal virtude devido à cobiça de um ferreiro que lançou lá grande quantidade de ferro a fim de enriquecer” (in António de Andrade, O descobrimento do Tibete em 1624, p. 53, edição de Francisco Maria Esteves Pereira, 1921).”

Pois sim, esse motivo purgatorial regista-se não só nas águas sulfúricas, vulcânicas, da fonte como no interior da igreja de São Lourenço, na aldeia próxima de Pombal, onde está o interessante retábulo processional legendado das “almas do Purgatório e o Juízo Final”, revelando o significativo pormenor da alma humana castigada implacavelmente pelo “bicho da consciência”.

Esta igreja de traça barroca, datada de 1750, anexa à Reitoria e Comenda de São João do Hospital, deve-se à iniciativa do reverendo pároco António de Seixas apoiado por Pascoal Fernandes e Apolinário Gonçalves, moradores deste lugar, “por serem homens velhos (ansiães) e de bom conhecimento (sábios)”. Pela Escritura de arrematação da obra da igreja, de 8.3.1790, sabe-se quem foram alguns dos intervenientes na mesma obra: os mestres canteiros Bento José de Melo, de Vilarinho da Castanheira, e José Ferreira Simões, da freguesia de S. Pedro da Cota, termo de Viseu; o mestre carpinteiro João Lopes Velho, do lugar do Mogo; o mestre pintor José António Ferreira de Andrade, do lugar do Castanheiro deste termo de Pombal, que fez a obra de douramento e pintura.

No tecto feito de caixotões de madeira, tem-se no seu centro a pintura extraordinária do busto de São Lourenço sobre a menorah, o candelabro de sete bocas acesas. Sendo Lourenço um santo graalístico, solar ou luminário, tem-se então retratado o próprio “Senhor da Luz” incarnado no Cavaleiro da Couraça ou Manto Vermelho que vem a ser o próprio Akdorge (Jorge, em português, santo mítico), expressão fidedigna do “Senhor da Ara de Luz”, Arabel, no topo do candelabro celeste (cujas borlas pendentes da figura formam um triângulo representativo da Tríade Superior, Flogística, em formação) que é o dos Sete Fachos Vivos ou Luzeiros, dos quais Arabel mesmo sendo o Quinto entre eles é o Primeiro aqui, na Lux-Citânia ou “Terra de Luz”, sim, a da Luz Lúcida promanada do Seio da Terra desde o Quinto Posto Mundial em Sintra. Arabel, Samael, Sintra… tudo se enquadra, desde que se saiba fazê-lo à luz da Sabedoria Iniciática afim à Obra do Eterno.

Por baixo da pintura dentro de um caixilho oval, inscreve-se uma legenda latina alusiva ao martírio de São Lourenço numa grelha incandescente:

Adhaes it animà mea post te, quia caro mea igne cremàta est prote, Deus meus.

Tradução:

“Acolhe a minha alma em Ti, porque a minha carne queimada é destruída, meu Deus.”

O simbolismo e significado esotérico desta pintura, extraordinária e raríssima no género, já foi motivo de desenvolvimento no meu livro A Ordem de Mariz (Portugal e o Futuro), dado à estampa pela Editorial Angelorum Novalis em Maio de 2006, com algumas imprecisões cronológicas e epigráficas, geradas pela rápida e deficiente observação quando aí estive na virada do milénio, mas entretanto já aqui rectificadas.

O autor, VMA, na igreja de Pombal de Ansiães

No chão da igreja estão alguns túmulos junto ao arco triunfal que abre para o altar-mor, cujas tampas sepulcrais inscrevem unicamente uma misteriosa letra aghartina, usada tanto para designar o signo de Aquarius como, sobretudo, o de Makara. É caso para perguntar: quem seriam esses Makaras que escolheram este templo para sua morada eterna?

Pedra com inscrição datada na igreja de Pombal de Ansiães

No exterior da igreja, tem-se no topo da parede traseira, entre a cruz e a rosa, a inscrição seguinte: “Esta obra mandou fazer o reverendo António de Seixas 1750”. O padre António Morais de Seixas, vigário de Pombal (in As Freguesias do Distrito de Brangança nas Memórias Paroquiais de 1758), está retratado sobre o andro antes da assembleia, por debaixo do coro alto, mas a pintura sobre madeira do seu rosto apresenta-se degradada, com as tábuas apodrecidas, em manifesta reclamação das obras de restauro que este templo carece desde há muito tempo.

Chegado aqui, impõe-se que repita o seguinte para evitar confusões estéreis: a Ordem Secreta de Mariz é uma e o Ramo Genealógico de Mariz é outro bem diferente, só tendo em comum o nome. Ainda assim pode acontecer que, por méritos pessoais de destaque espiritual e social, membros da Família de Mariz tomem conhecimento efectivo da Ordem de Mariz e sejam engajados nela, em casos raríssimos. Mas acontecendo, vão estabelecer a ligação entre a linhagem de sangue e a linhagem eleita (também chamada família espiritual). Neste sentido, observa-se que muitos Marizes genealógicos – alguns apoiados por Marizes secretos, os da Ordem – fundaram comendas e bailios um pouco por todo o país, de Norte a Sul. Tem-se nisso os domínios de Redinha e Pombal, no distrito de Leiria, nesse último tendo apostolado, no século XIII, o presbítero Pedro, o Mariz (“Pedro Omariz, presbítero – falecido aos XVIIº Kalendas Iannuarii Era Mº CCº XLª VIIIº” – in Liber anniversariorum Ecclesiae Cathedralis Colimbriensis (Livro das Kalendas), vol. II, p. 149. Edição de Pierre David e Torquato de Sousa Soares, 2 vols., Coimbra, 1947-48), de ligações íntimas à Ordem do Templo, na época em que haviam desavenças ríspidas com o Cabido da Sé de Coimbra que pretendia assenhorear-se daqueles domínios, indo encontrar pela frente a forte oposição dos templários (vd. Maria Alegria Fernandes Marques, O Litígio entre a Sé de Coimbra e a Ordem do Templo pela posse das igrejas de Ega, Redinha e Pombal, in Jornadas sobre Portugal Medieval, Leiria, 1983).

A origem do ramo familiar Mariz situa-se perto de Barcelos, precisamente na aldeia de Mariz cuja igreja de Santo Emilião, muitíssimo restaurada de cuja traça setecentista pouco resta e da românica nada, fora anteriormente unida ao convento de Vilar de Frades pelo Papa Júlio II, a instâncias do Cardeal de Alpedrinha, em 1507, mas já constando das Inquirições de D. Afonso II, de 1220, com a designação “De Sancto Miliano de Maariz” de Terra de Nevia, ainda que a Coroa não tivesse nenhuma jurisdição ou direito sobre os Marizes, e a que tinha seria tão-só para os proteger e apoiar, servindo de “Escudo Defensivo” ou “Círculo de Resistência”, como foi o caso da Ordem dos Cavaleiros Templários (de pendão vermelho – Kundalini) e da Ordem dos Frades de São Bento de Avis (de pendão verde – Fohat). Isso mesmo consta nas Inquirições de D. Afonso III, onde está escrito: “In Judicato de Nevia in parrochia Sancti Miliani que el Rey non est patronus da ecclesia.” – In Teotónio da Fonseca, O Concelho de Barcelos Aquém e Além-Cávado, volume I. Reprodução facsimilada da edição de 1948, Barcelos, 1987.

Como disse, a “Mui Nobre e Antiga Família Mariz” teve o seu solar nesta freguesia, cuja Paço era a Casa de Argemil, depois passa-da a Morgado dos Ferreiras da Casa de Cavaleiros.

Segundo o Armorial Lusitano – Genealogia e Heráldica (Lisboa, 1961), os Marizes dizem-se descendentes de Mengo de Mery e o mais antigo que se conhece do apelido, em Portugal, se chamou Afonso Nunes de Mariz, casado com D. Maria Carrilho Esteves, filha de Estêvão Gonçalves e de sua mulher, Urraca Afonso. Alguns autores dão a seguinte ascendência a Afonso Nunes de Mariz: Roberto Mengo de Mariz passou de França a Espanha, reinando Afonso VII, e esteve na batalha que Nuno Afonso, governador de Toledo, deu aos mouros de Córdova e de Sevilha, e cortou a cabeça ao rei mouro Bencarra, de Sevilha; o seu filho, Pedro Mengo de Mariz, casou com uma filha de Nuno Afonso e o seu neto, Nuno Peres Mengo de Mariz, viria a casar com Iria Gonçalves Palomeque, de cujas núpcias sairia o referido Afonso Nunes de Mariz.

De entre as suas Armas principais, os Marizes trazem por brasão: de azul, com cinco vieiras de ouro, postas em cruz, acompanhadas de quatro rosas de prata. Timbre: um leão sainte de azul, sustentando uma vieira do escudo.

Para encerrar este estudo dedicado à Excelsa Mãe Divina incarnada na Ordem que A representa como Espírito Santo na Terra, respigo alguns trechos da carta de Dona Helena Jefferson de Souza, esposa viúva do Professor Henrique José de Souza, escrita em São Lourenço (MG) em 28.1.1977, dirigida Aos queridos Filhos de Sintra:

– Felicito a todos por tão feliz empreendimento, que vem provar o entusiasmo e amor de vocês pela nossa Obra, a qual teve o seu ponto de apoio, para chegar ao Brasil, aí em Portugal, ou, mais precisamente, em Sintra, que lhe deu grande cobertura espiritual, com o vigoroso impacto dos Gémeos Espirituais pelos braços poderosos do 5.º Bodhisattwa. Notem bem: o 5.º Bodhisattwa no 5.º Posto Representativo. Não é admirável? É tema de meditação.

No Presente trabalhamos para o Futuro. E já que tenho falado tanto em 5.º Princípio, 5.º Sistema, não será demais lembrar que o número 5, ou melhor, o Arcano 5 é a chave numérica do Pentagrama Sagrado, o qual deu origem à forma do corpo humano. A criatura humana, de braços e pernas abertos, é uma Estrela de Cinco Pontas. É o ser da 4.ª Hierarquia com a possibilidade de alcançar o 5.º Princípio Cósmico. Será o sistema endócrino que formará a estrutura humana do 5.º Sistema, como hoje o cérebro-espinal o é do 4.º Sistema. Adianto-lhes que já existem Seres que são frascos humanos que abrigam a Quinta Essência Divina, que desceu dos Céus como Hálito de Deus. Estes são os Orientadores da Humanidade. Ai dela se não existissem esses suportes físicos, garantindo-lhe a possibilidade de evoluir.

 

 

Para terminar, um conselho que há tempos dei no Templo: “Sem o Amor Universal nós não podemos trabalhar pela Obra. Tem que haver “esta unidade”. Nós somos “um” aqui dentro; o nosso pensamento tem que ser uníssono, o corpo tem que ser “um”. Então, se Eu sofro, todos sofrem comigo, se o meu Filho sofre, todos sofrem com Ele; se o meu Irmão sofre, todos sofrem com Ele. Tem que existir essa “Unidade Absoluta” aqui dentro”.

AT NIAT NIATAT

(Um por Todos e Todos por Um)

BIJAM

Três documentos originais da Ordem de Cristo (Reformação, Regra e Definições, Ritual de Armação) – Textos organizados por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Abr 8 2019 

 

CONSULTA DA REFORMAÇÃO DA ORDEM DE CRISTO

 

Consulta da Reformação da Ordem de Cristo.

1589 – Dezembro, 13, Tomar.

Biblioteca Nacional, códice 13216.

Publicado: António Maria Falcão Pestana de Vasconcelos, A Ordem Militar de Cristo na baixa Idade Média. Espiritualidade, Normativa e Prática, in Militarium Ordinum Anacleta, n.º 2, pp. 63-93.

(Versão actualizada por VMA)

 

Consulta da Reformação da Ordem de Cristo
(fl. 1)
Título I
Da fundação & criação da Ordem de Nosso Senhor, Jesus Cristo

 

Na cidade sancta de Jerusalém, no ano do Senhor de mil e noventa e seis (Francisco de Rades, na Crónica de Calatrava, f. 3, col. 4) foi instituída a Ordem militar dos cavaleiros templários, confirmou-a o papa Honório Segundo no ano de mil cento e vinte e quatro, e deu-lhes por hábito mantos brancos: Eugénio Terceiro, no ano de mil cento e quarenta e cinco, lhes concedeu que sobre eles trouxessem Cruz vermelha, na feição quase semelhante à dos cavaleiros de São João. Foi o intento desta cavalaria guardar o Santo Sepulcro, e os mais lugares da Terra Santa; por cuja defensão, e das pessoas, que os visitavam faziam guerra de contínuo, contra os Infiéis, havendo deles grandes vitórias. Foi situada a Casa desta Ordem no lugar do Templo de Jerusalém, que estes cavaleiros escolheram para sua principal habitação, e por isso teve esta Ordem nome dos cavaleiros do Templo de Salomão. Cresceu o número, e foram tantos os que entraram nela, de todas as partes da Cristandade, e tão grandes as doações, que todos os Reis cristãos, em seus reinos lhe fizeram, que em pouco tempo, tiveram, e adquiriram por todos eles, muitas rendas, e muitos privilégios, assim dos Santos Padres no espiritual, como dos Reis no temporal. (fl. 1v) Com esta ocasião, se derramaram por todas as partes da Cristandade, assim do Oriente, como do Ocidente, e por estes reinos de Portugal, onde já residiam, quando El-Rei D. Afonso Henriques, primeiro Rei deles, conquistou os Mouros, que o ocupavam, e com sua ajuda e esforço, os lançou fora deles: pelo que, fez a esta Ordem dos templários grandes doações, e concedeu grandes privilégios, sendo Mestre D. Gualdim Pais, depois de vir da Casa de Jerusalém, natural de Braga, criado do dito senhor.

A principal Casa que tinham neste reino, era Santa Maria do Olival, na vila de Tomar, e o castelo dela edificado pelo mestre sobredito, além d’outras casas, castelos, e bailiados que tinham por outras partes deles. Mas todos davam a obediência, e recorriam ao mestre, que residia em Jerusalém, o qual, porque os que governavam cá por estas e outras partes, se chamavam também mestres tinha título de Grã[o] Mestre. Sendo depois destruída a cidade santa [d]e Jerusalém, e as mais cidades da província de Síria, no ano do Senhor de mil duzentos e noventa, se perderam também nela o mestre, e cavaleiros desta Milícia do Templo, e alguns, que ficaram se recolheram por as províncias da Cristandade, nas casas e fazendas da Ordem: e assim o fizeram neste reino, nas partes onde nele tinham suas fazendas e principalmente na vila de Tomar onde em Santa Maria do Olival estão enterrados a maior parte dos mestres (fl. 2) que nesta Ordem houve nestes reinos. Perseverou assim a Ordem dos templários até o ano de mil trezentos e onze, quase duzentos e catorze anos depois de seu princípio, tempo em que era Papa Clemente o Quinto: no qual, no concílio Vienense, que se celebrou no dito ano de mil trezentos e onze e mil trezentos e doze, foi extinta, e de todo acabada a Ordem dos templários authoritate apostolica reinando nestes reinos El-Rei D. Dinis sexto Rei deles.

E porque todos os bens, e rendas, que esta Ordem do Templo tinha ficaram pelo mesmo concílio Vienense reservados à disposição da Santa Sé apostólica, parecendo (no livro da 1 parte, fl. 18, p. 2) a El-Rei D. Fernando o Quarto de Castela, e a El-Rei D. Dinis de Portugal; que o Papa os desse para fora dos seus reinos, mandaram por seus procuradores requerer no dito concílio, que os bens, que dos templários ficavam nestes reinos, e nos de Castela, se não desse, nem alienassem para fora deles, alegando para isto justas causas. Pelas quais, quando o Papa fez doação d’alguns bens dos templários à Ordem de São João de Jerusalém, e seu Hospital, logo exceptuou, e reservou os bens, que nestes reinos de Portugal havia, e nos de Castela, limitando certo termo peremptório aos Reis sobreditos, dentro do qual por seus procuradores mandassem diante dele justificar as causas que alegavam.

Mandou El-Rei D. Dinis seus procuradores ao Papa (fl. 2v) que já neste tempo era (Prima parte, fls. 56 e 57, pte. 2) João Vigésimo Segundo imediato sucessor de Clemente Quinto: e foi eleito Papa no ano de mil trezentos e dezasseis. E entre outras muitas coisas que justificaram, foram as graves injúrias, grandes, e multiplicados males, que os infiéis inimigos da Cruz de Jesus Cristo faziam de contínuo nas partes deste reino, vizinhas às do Algarve, que tinham ocupadas; que com as rendas e bens que ficaram dos templários, sendo para isso aplicadas podiam ter remédio com grandes esperanças do grande acrescentamento da santa Fé católica. E por que a vila de Castro Marim está na fronteira donde os inimigos residiam, e o sítio dela era acomodado para se fortificar, foi da parte d’el Rei D. Dinis, por os procuradores sobreditos informado o Papa, que nela se podiam assentar, e fundar uma nova e santa religião militar; cujos cavaleiros e professores, deixadas as vaidades do mundo, e incitados com zelo da verdadeira Fé, não somente resistiriam às injúrias dos inimigos infiéis, mas ainda os lançariam fora, e recuperariam as outras partes, que por eles estavam tiranicamente ocupadas: e para isto ofereceram ao Papa da parte d’el Rei D. Dinis a dita vila de Castro Marim, com todas suas rendas e jurisdição, mero, e misto Império. E como a petição era tão justa, e o remédio tão necessário, o Papa João Vigésimo Segundo, em Avinhão, em catorze dias do mês de Março, no terceiro ano de seu pontificado, que foi o ano do Senhor de mil trezentos e dezanove (fl. 3) a pedimento del Rei D. Dinis, instituiu (pela bula no livro da 1 pte, fl. 56) e fundou authoritatem apostolica, esta nova Ordem militar para honra de Deus, exaltação da Fé católica, amparo dos Cristãos, abatimento, e opressão dos infiéis: e quis que se nomeasse para sempre Ordem da Milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo: e que a Casa principal dela fosse em Castro Marim, e lhe uniu a igreja paroquial daquela vila com todos seus direitos. E mandou que como em própria Ordem professassem os cavaleiros dela as observâncias regulares da Regra e Ordem de Calatrava, e gozassem de todos os privilégios, liberdades, e indulgências concedidas a seus mestres e cavaleiros. E por este respeito lhe deu por primeiro mestre D. Gil Martins porque era cavaleiro professo, e mestre na Ordem de São Bento de Avis, e por superior e visitador o abade de Alcobaça da Ordem de Cister, por serem as mesmas de Calatrava.

E logo lhe concedeu, doou, uniu, incorporou, e para sempre aplicou as vilas de Castelo Branco, Langroiva, Tomar, Almourol, e todos os outros castelos, fortalezas, bens móveis, e de raiz todos em geral, e em particular, assim eclesiásticas, como seculares, direitos, e também jurisdições, mero, e misto Império, honras, homens, vassalos, com as igrejas, capelas, e oratórios, e seus direitos, termos, e todas suas pertenças, que ficaram (fl. 3v) da Ordem do Templo nestes reinos de Portugal, e dos Algarves, assim e da maneira que os templários as tinham e lhes pertenciam, com as declarações seguintes:

Item. Que o abade de Alcobaça, ou seu logotente receba do Mestre desta Ordem em nome do Papa e Igreja Romana o juramento de fidelidade, na forma, que se declaram na bula desta fundação ibi forma vero, e que o envie à Sé apostólica (não tem hoje pela mudança que houve depois de haver o convento de Tomar).

Item. Que o mestre faça outro juramento aos reis destes reinos de Portugal, perante eles, antes que comecem de administrar o mestrado na mesma bula onde diz videlicet quod ipse magister: e que o Rei seja obrigado a receber o dito juramento dentro de dez dias, depois que por o mestre lho for oferecido, o não lho recebendo, se possa o mestre ir sem mais licença d’el rei e administrar seu ofício de mestre.

Item. Que o mesmo juramento pela mesma maneira façam os comendadores inferiores do mestre dentro do mesmo termo (fl. 4) quando novamente vierem a suas preceptorias na mesma bula onde diz: inferiores quoque.

Item. Que o mestre e comendador-mor desta Ordem, e os outros comendadores nestes reinos venham à corte d’el Rei, e sejam obrigados a fazer a todos os reis destes reinos tudo o que a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, que nestes reinos de Portugal, e do Algarve há, lhes costuma fazer; e que fiquem aos Reis todos os direitos, e servias na Ordem desta cavalaria de Jesus Cristo, que os Reis passados costumavam haver da dita Ordem do Hospital até àquele tempo na dita bula onde diz volumus autem.

Item. Que por morte do mestre, ou vagando o mestrado por qualquer outra maneira, os freires dela, segundo o costume da Ordem de Calatrava elegiam uma pessoa expressamente professa nela, em seu mestre, o qual sem outra confirmação, seja logo ouvido por confirmado authoritate apostolica. E que quando o mestrado estiver vago, seja a Ordem administrada pelos que forem deputados para isso, segundo os costumes e observâncias da Ordem de Calatrava, que manda se guardem na mesma bula onde diz statuimus praeteria.(fl. 4v).

 

Título II

Das cousas que hoje estão mudadas das declaradas

Na bula de fundação desta Ordem

 

[…]

Neste modo e debaixo da Regra da Ordem de Calatrava procedeu esta Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo até o ano de 1449 em que o Bispo de Viseu João, que primeiro o fora de Lamego, por comissão do Papa Eugénio 4 à instância do Infante D. Henrique, filho Del Rei D. João o Primeiro, que então era administrador dela a reformou e fez nova regra, e novas definições das (fol. 7) quais e doutras que depois fez em capítulo geral El Rei D. Manuel no ano de 1503 se usou até agora. E porque logo depois do dito capítulo feito no dito ano de 1503 se duvidou por o dito senhor Rei, cavaleiros e freires desta Ordem se guardando as ditas definições, ficavam desobrigados de cumprir e guardar as observâncias regulares da Ordem de Calatrava, por haver nisto escrúpulos de consciência, o Papa Júlio 2 [1 pte, fol. 155, pág. 2, maxime; fol. 162 vs cum aut sicut] a pedimento do dito senhor no ano de 1502 confirmou as definições e estatutos feitos pelo Bispo de Viseu.

 

Título XXX

Dos Visitadores

 

Pela definição no cap. 37 está ordenado, que em capítulo geral às mais vozes (sic) de três em três anos sejam eleitas duas pessoas da Ordem para visitadores – sendo – um cavaleiro e um vigário, ou freire, e quando se não fizesse capítulo ao terceiro ano, então faria o mestre ou governador por si só estes visitadores, e tomará acerca disto o parecer dalguns cavaleiros que em sua casa estiverem (pareceu que este parecer deve ser dos definidores) e que [os] visitadores sejam tementes a Deus, e instruídos na regra, definições, e costumes da Ordem e hajam juramento de bem e fielmente fazerem seu ofício. E que visitem todos os castelos, vilas, muros, torres, pontes, casas e todos outros lugares das comendas e igrejas segundo o regimento que lhes foi dado pelos definidores do capítulo ou pelo mestre quando ele somente os fizer. E assim visitarão todas as propriedades e possessões da Ordem (para o que pareceu que os comendadores sejam obrigados a lhes mostrar os tombos de suas comendas; e os inventários das cousas delas, conforme ao que se contém no título 27 e 28 na 2 parte) e mandaram reedificar, lavrar, e reparar tudo o que for necessário, assim como nesta definição se contém, e que dêem conta no capítulo de sua visitação, trazendo a ele as visitações. A qual lhe poderá também tomar o mestre, ou governador (fl. 44v) (e pareceu que lhe deve tomar com os oficiais e definidores da Ordem) onde, e quando lhe parecer. E que os ordenados de seu trabalho se lhes declarem, ao tempo que forem mandados a visitar, segundo a qualidade de suas pessoas, à custa da mesa mestral, quando visitarem as cousas dela. E à custa das comendas,  ou doutras cousas dadas a cavaleiros da Ordem, posto que comendas não sejam, porque sempre serão pagos [a]os visitadores as custas dos que as possuírem e tiverem. Pareceu que esta definição se deve assim cumprir como nela se contém, com as declarações sobreditas. E os visitadores não pousem com os comendadores quando os houverem de visitar.

Esta Ordem deve sempre ser visitada por pessoas da mesma Ordem, e assim o manda a definição sobredita que posto que Sua Majestade tem faculdade pessoal para mandar visitar as três Ordens militares por as pessoas que lhe parecer, ainda que não sejam regulares das mesmas Ordens, e sejam seculares por uma bula de Gregório XIII do ano de (15)83 pareceu que achando-se pessoas idóneas das mesmas Ordens [s]e devem visitar por elas e não por outras. Na mesma bula de Gregório XIII se contém que possa Sua Majestade particularmente fazer estes visitadores fora de capítulo o que também diz a definição sobredita.

 

Título XXXII

Das dignidades desta Ordem

 

Depois do Mestre, a primeira e principal dignidade que há nesta Ordem é o D. Prior do Convento de Tomar, há qual é anexa de sua natureza a cura geral de todas as pessoas da ordem como fica dito no título XI e neste lugar depois do Mestre a põem a definição antiga no capítulo 52.

A segunda dignidade é o Comendador mor pela definição da ordem no capítulo 53. No princípio desta Ordem tinha o Comendador mor a administração dos bens do Convento, e punha em arrecadação suas rendas, e mandava entregar ao celeireiro o que era ordenado para o Convento, e o celeireiro provia ao Comendador mor de comer, e beber, e a quinze homens seus, e de cevada para seus bestas. E além deste mantimento tinha 1900 libras. No tempo que os cavaleiros não tinham privilégio para poder testar, pertenciam ao Comendador mor as armas e cavalo[s] dos cavaleiros que morriam pela definição da regra no capítulo 18 o que agora já não é, porque cada um pode dispor em vida  (fol. 46) e por sua morte do que tem livremente, como fica dito no título 5 e assim foi determinado na Ordem de Avis. E ao Comendador mor pertence levar (assim era na Ordem de Avis nas definições fol. 27 1 col.) o estoque diante do Mestre na procissão do capítulo geral.

A terceira dignidade é a do Claveiro pela definição do capítulo 54 [ou só 5]. A cujo ofício pertencem ter as três chaves: e pertencerá ao Claveiro a roupa de vestir, e cama dos cavaleiros quando morriam pelo definição da regra no dito capítulo 18 o que já hoje não [tem] lugar, porque pode cada um dispor do que [tem] livremente como dito é.

A esta dignidade foi antigamente anexa a comenda d’Arredinha e a comenda de 100$000 da Mina, como se vê da definição no capítulo 54.

Depois El Rei D. Sebastião impetrou do Papa Pio 4 (no livro das comendas fl. 192) pelo ofício da penitenciária, que apartasse as ditas comendas d’Arredinha e Mina da dita dignidade de Claveiro, e que os cem mil reais da Mina se tornassem a casa da Mina para a mesa mestral e na Arredinha pudesse erigir tantas preceptorias, quantas lhe parecesse, como consta da bula, que se passou no ano de 1560. Agora pareceu que as ditas comendas de Arredinha e Mina devem ser restituídas à Clavaria por ser dignidade principal e assim que se deve cumprir a dita definição do capítulo 54. E lembrou-se que se devia saber o que importam as rendas que agora tem a Clavaria, e as (fol. 46v) que tinha antigamente, para conforme a isso fazer Sua Majestade o que for mais seu serviço.

O ofício de Sacristão é havido em algumas Ordens militares por dignidade, é ofício honrado que anda em religiosos, e a que pertencem ter cargo das cousas oferecidas ao culto divino, assim como o tem nas igrejas seculares o Tesoureiro mor. Os sobreditos precedem no[s] assentos e lugares a todos os outros comendadores e cavaleiros como se contém no título seguinte.

 

Título XXXIII

Da precedência entre os cavaleiros desta Ordem

 

Nesta Ordem as dignidades sobreditas no título 5 (anterior?) próximo, precedem sempre nos autos da Ordem nos lugares, e assentos a todos os outros cavaleiros, e comendadores, ainda que nela mais antigos sejam, por esta maneira que o D. Prior do Convento irá e estará à parte direita do Mestre, e logo após ele o Sacristão, e freires clérigos, e o Comendador mor à parte esquerda, com o Claveiro, comendadores, cavaleiros, e não estando no dito ajuntamento o D. Prior estará à parte direita o Comendador mor e o Claveiro à esquerda, e daí em diante cada um por sua antiguidade e anciania, o que entre si devem sempre guardar: e o escrivão da matrícula terá cuidado de dar a cada um o lugar que lhe couber. Na procissão que se há-de fazer no princípio do capítulo geral irá (fol. 47) o D. Prior à parte direita do Mestre, e após ele o Sacristão, freires, e priores, por suas antiguidades como é dito: e à parte esquerda o Claveiro e os comendadores, e cavaleiros. E o Mestre no couce da procissão, e diante dele o Comendador mor com o estoque, e após ele o alferes com a bandeira, e por esta maneira se fará nas mais procissões que se fizerem por bem da Ordem, em que houverem de ir as ditas insígnias magistrais.

Os definidores desta Ordem em um dos apontamentos pedem a Sua Majestade haja por bem mandar que em qualquer auto para que forem chamados os comendadores e cavaleiros precedam os comendadores sempre aos cavaleiros que não têm comendas, ainda que sejam mais antigos, guardando os comendadores entre si, e assim os cavaleiros suas ancianias. E pareceu que se devia reservar este particular para o capítulo geral onde podem ser ouvidos os cavaleiros, para o que se lembra, que na Ordem de Calatrava assim está recebido por definição expressa que os comendadores precedam sempre aos cavaleiros.

E porque está ordenado que o hábito desta Ordem se deve sempre receber no Convento de Tomar, como fica dito no título 19 e para que haja efeito, deve o que nele o recebe ter mais alguma preeminência, que aqueles que o tomam fora do dito Convento, ainda que [s]eja por mandado de Sua Majestade como sempre deve ser. Pareceu que quando dois ou mais tomarem o hábito em um dia, um no Convento e outro fora dele, seja sempre preferido na Ordem aquele que recebeu o hábito no Convento a[o] que recebeu fora dele. Os cavaleiros desta Ordem, que foi lançado o hábito dela sem tença, não têm privilégio algum da Ordem, como se declara no título 2 da quarta parte pelo que pareceu que ainda que sejam nela mais anciãos, e antigos que os outros, a que foi lançado com tença não devem entrar em capítulo.

E porque os actos, e ajuntamentos desta Ordem, para que podem ser chamados cavaleiros, e comendadores se podem muitas vezes fazer fora do Convento, nesta cidade ou em outros lugares onde Sua Majestade mandar como governador e administrador dela, e será necessário saber-se da matrícula a ancianidade de cada um, segundo a qual deve preceder no lugar e assento, da qual por estar no Convento de Tomar, se não pode ter cá fácil notícia, parece que na Igreja da Conceição desta cidade haja sempre o treslado dela para se poder por ele saber o sobredito quando cumprir.

 

A REGRA E DEFINIÇÕES DA ORDEM E MESTRADO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

 

A Regra e Definições da Ordem e Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo.

1503 – Dezembro, 8, Tomar.

Arquivo Nacional Torre do Tombo, Série Preta, n.º 1393.

Publicado: António Maria Falcão Pestana de Vasconcelos, A Ordem Militar de Cristo na baixa Idade Média. Espiritualidade, Normativa e Prática, in Militarium Ordinum Anacleta, n.º 2, pp. 63-93.

(Versão actualizada por VMA)

 

A Regra e Definições da Ordem e Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo

 

(…)

Capítulo IX, da eleição do mestre novo

Item. Ordenamos e mandamos que há eleição do mestre se faça como o comendador mor e dom prior e sacristão e claveiro e com nove cavaleiros os mais anciãos que na ordem houver que àquele tempo da eleição poderem ser presentes. E há forma da eleição seja segundo [a] forma de direito canónico e segundo as constituições da ordem assim acerca da pessoa: como modo e forma da dita eleição.

(…)

Capítulo XII, da cura das almas que a Dom prior e ao vigário pertencem

Item. Aprovamos que o vigário que tem cura das almas assim em Tomar e seus termos e em Santiago de Santarém e em outros lugares onde se sua jurisdição estende e isso mesmo da cura prior do convento e das outras pessoas da ordem que por costume absolviam de todos os casos pontificais e ainda dos outros papais não achamos que ao papa a nenhum remetesse: nem achamos expressa autoridade porque se assim fizesse: porém por tolher dúvida e escrúpulo de consciência que em tais casos e muitas partes poderia vir. Por autoridade apostólica declaramos e mandamos que o prior em seu convento e pessoas religiosas: e seus familiares sobre que antigamente teve e tem jurisdição espiritual. E isso mesmo o dito vigário a seus súbditos e pessoas assim eclesiásticas como seculares a que se sua jurisdição estende tenham e tenha prior e vigário aquela autoridade nos casos pontificais que cada um bispo tem em sua diocese, os quais por si ou pelos seus comissários possam fazer e exercitar. E o prior possa para si eleger confessor. E por autoridade apostólica nós lhe havemos por cometidos os casos assim agora como então para o que houver de absolver. E o dito prior por essa mesma ordenamos e estabelecemos que possa dar autoridade ao vigário que para si possa eleger confessor e o possa absolver dos casos sobreditos. E por semelhante guisa possa fazer ao mestre quando o confirmar ou lho requerer.

Capítulo XIII, da jurisdição e liberdades do vigário

Item. Outorgamos e mandamos por autoridade apostólica que o vigário de Tomar use da sua jurisdição direitos e liberdades como sempre usou e teve de costume e como sempre os outros usaram.

Capítulo XIII, como hão-de [re]partir os bens das pessoas da ordem

(…) Estabelecemos por autoridade apostólica que todas as pessoas da ordem assim mestre ou governador ou prior ou comendador mor ou claveiro ou quaisquer outros cavaleiros ou freires ou conventuais ou serventes da dita ordem. Que derem ou pagarem para as obras e ornamentos do convento a metade das rendas que agora igualmente rendem um ano as suas comendas e rendas que têm ou lhes depois forem acrescentadas pela ordem que eles possam fazer de todo o móvel que tiverem até à hora da morte o que lhes prouver livremente. (…)

Seguem-se as definições do capítulo que el Rei nosso senhor governador do mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo fez no convento da vila de Tomar no mês de Dezembro de ano de mil quinhentos e três

(…)

Capítulo II, dos sacerdotes que não forem donários que uma vez na semana digam missa, e os que não são de missa comunguem seis vezes no ano

Além disto os sacerdotes que não forem donários das missas conventuais, uma vez na semana celebrem e digam missa, sob pena de serem privados da ração do vinho. E os que não são de missa as festas abaixo declaradas devotamente confessados receberam a santa comunhão a missa conventual, a saber, por Natal, e primeiro Domingo da Quaresma, dia de Páscoa, Pentecoste, Santa Maria d’Agosto, e dia de Todos os Santos. E os jejuns e silêncio e todas as outras cerimónias de todo sejam guardadas segundo os antigos costumes da dita ordem e nossa regra o manda. E aqueles que disto forem trespassadores asperamente sejam castigados por Dom prior.

Capítulo IV, das obrigações das missas e ofícios que tem dom prior

Item. Porque não achamos em definição nem em estatuto alguma obrigação que dom prior tem das missas que há-de dizer, e ofícios que há[-de] fazer. Conformando-nos com os usos antigos, porque em nosso tempo se saiba, declaramos por essa nossa decisão que o dito dom prior é obrigado de dizer as missas e fazer os ofícios abaixo declarados, a saber,

Terá sua semana como cada um dos outros freires do convento.

Item. Véspera de Natal dirá a missa.

Item. Ao dia de Natal dirá a missa.

Item. Na festa dos Reis dirá a missa.

Item. Dia da Purificação o ofício das candeias, e dirá a missa e alevantará a custódia na procissão. No die Beata Virgo.

Item. Dia de Ramos fará o ofício da bênção deles, e na procissão alevantará a custódia. Ingrediente domino, e dirá a missa.

Item. Quinta feira e sexta e Sábado da semana maior fará todos os ofícios e dirá as missas.

Item. Ao Sábado véspera de Páscoa benzerá o fogo.

Item. Dia de Páscoa dirá a missa.

Item. Dia da Ascensão dirá a missa, e na procissão alevantará a custódia. O Rex Glorie.

Item. Véspera de Pentecoste dirá a missa.

Item. [N]O Dia de Pentecoste dirá a missa.

Item. Dia da Trindade dirá a missa.

Item. Dia de Corpus Christi dirá a missa.

Item. Dia de São João Baptista dirá a missa.

Item. São Pedro e São Paulo dirá as missas d’ambas estas festas.

Item. Dia de São Bento dirá a missa.

Item. Todas as festas de Nossa Senhora dirá as missas.

Item. Vésperas d’Ascensão de Nossa Senhora, e da Nascença dirá as missas.

Item. Há-de benzer os noviços.

Item. Há-de dizer a missa pelo finado presente e fazer todos os outros ofícios.

Item. Há-de levantar todas as custódias da Ma[g]nificat, e Benedictus das festas principais do ano e das festas de Nossa Senhora, e assim as vésperas como nos dias, e todas as demais do Natal, Páscoa, e Pentecoste e dias das doze lições.

E mais além de tudo isto satisfará todas as outras obrigações declaradas nos usos. E estas coisas aqui declaradas não lhas ordenamos ora novamente somente por acharmos que pelos usos e antigos costumes todos os dom priores são a elas obrigados. E mandamos do dito dom prior que tudo assim cumpra e satisfaça por si ressalvando quando tal impedimento ou necessidade extrema tiver para o não puder fazer, porque então o satisfará por quem seu carrego tiver. E porém não sendo de infirmidade pagar-lhes as missas que[m] assim por ele disser.

(…)

Capítulo XIX, dos freires clérigos

Item. O que houver de entrar na ordem para ser freire clérigo, deve de entrar por autoridade de dom prior e outorgamento e mandado do mestre e seja sisudo e tal que em seu ofício faça serviço a Deus e à ordem, e não seja aleijado nem torvado da vista nem da fala nem adorado de tal dor por que seja impedido para não puder servir a ordem em sacerdote.

(…)

Capítulo XXIII, que os freires não saiam fora da cerca do convento sem licença de dom prior

Item. Outrossim porque nenhuma coisa em tanto grau é inimiga ao religioso como andar fora da crausta [claustro] vagando. Estreitamente defendemos por esta definição que nenhum freire não seja ousado de sair fora da cerca do dito convento sem licença de dom prior ou daquele que em seu lugar estiver, quando por ventura ele no convento não for ou que por outra alguma causa está impedido, isso mesmo não seja dada a nenhum licença sem justa causa e se algum sem licença do dito dom prior ou quem seu lugar tiver o fizer seja punido e castigado segundo alvitre do dito dom prior. E assim mesmo quanto ao tempo limitado por ele os tais não vierem indo com sua licença.

Capítulo XXVI, de como dom prior proverá dos benefícios da ordem de que ele pode prover

Item. Porque é coisa justa que os benefícios deste convento de que dom prior pode prover aos freires da ordem sejam dados em capítulo por eleição do dito prior e freires, porque fazendo-se em outra maneira seria coisa muito desordenada. Definimos ordenamos e mandamos que daqui em diante o provimento dos ditos benefícios se faça por eleição do dito dom prior e freires professos em capítulo na maneira que se segue, a saber, o dito dom prior chamará a cabido, e juntos nele todos os freires professos do dito convento, dirá como são ali juntos para ser provido do benefício tal que é vago. E primeiro que outra alguma coisa acerca disto se faça se elegerem as mais vozes dois freires do dito convento para com o dito dom prior ajam de tomar as vozes de todo o cabido. E eleitos estes dois assim às mais vozes ser-lhes a dado juramento por dom prior que bem e verdadeiramente tomem as ditas vozes. E feito assim serão por dom prior e por eles tomadas as vozes de todo o capítulo, as quais logo ali serão vistas e examinadas e aqueles que as mais vozes saírem serão providos do tal benefício e lhes mandará dom prior dar suas cartas e provisões do seu provimento na forma acostumada e que por direito se deve fazer. E nesta maneira se cumprirá e não em outra, e se dom prior d´outra maneira prover algum d´algum benefício. Definimos e mandamos que o tal provimento fique nenhum e de nenhuma força e ficará pelo mesmo caso devoluto ao mestre ou governador para dele prouver de novo qual lhes mais prouver sem mais em tempo algum o dito dom prior poder dele prover.

Capítulo XXX, da eleição do mestre e do modo em que se fará

Item. Por quanto à eleição do novo mestre deve ser feita e ordenada em tal perfeição e modo que se faça segundo Deus e como a ordem possa ser melhor regida e governada a bem e proveito dos cavaleiros e pessoas dela, conformando-nos nisso com as antigas definições e estatutos. Definimos e ordenamos que daqui em diante para em todos os tempos se guarde esta maneira na eleição do mestre.

Primeiramente tanto que o mestre ou governador for falecido, o comendador mor até ser elegido mestre tenha a governança do dito mestrado, e o sacristão do convento tenha o estoque e a bandeira e o selo do mestre, e [o] dom prior do convento fará logo chamar por suas cartas a capítulo geral ao dito convento e não a outro lugar o comendador mor e craveiro e sacristão e todos os comendadores cavaleiros vigários e freires da dita ordem fazendo-lhes saber como assim o mestre ou governador é falecido, e assinando-lhe dia certo a que todos sejam por si em pessoa no dito convento o qual não passe de até dez dias do dia em que o mestre falecer. (…) E sendo assim todos juntos com o dito dom prior, comendador mor, craveiro, sacristão, no dito convento o dito dom prior dirá missa do Espírito Santo (…) E todos assentados no dito cabido e o intróito e verso de Emitte Spiritum Tuum acabado o dito dom prior encomendará que todos muito devotamente se encomendem ao Espírito Santo que alumie seus corações para ali ser elegido mestre qual for mais serviço a Deus e bem da ordem. E dito assim por ele dará o dito dom prior juramento dos Santos Evangelhos ao dito comendador mor craveiro comendadores cavaleiros vigários e freires que no dito convento estiverem que verdadeiramente e sem afeição elejam nove cavaleiros da dita ordem tementes a Deus e de sãs consciências e que bem e verdadeiramente façam a eleição do dito mestre com ele dito dom prior comendador mor craveiro sacristão com que são treze que há dita eleição hão-de fazer. (…) E então feito assim se apartam todos treze para darem as vozes da eleição do dito mestre sem um mais se ver nem falar com o outro, no que o dito dom prior terá grande avisamento para assim se fazer, e cada um dos sobreditos assim apartado dará sua voz ao dito dom prior em escrito cerrado e selado nesta maneira (…).

Capítulo XXXII, da maneira que se terá com o mestre falecido

Item. Quando acontecer de morrer o mestre ter-se a esta maneira, a saber, Dom prior do convento depois que o mestre for falecido o fará enterrar com aquela honra que for acordada com os comendadores e freires que então aí estiverem a custa da despesa do mestrado se o mestre não fizer testamento e se o fizer segundo forma da bula do papa Alexandre oitavo que fala acerca da maneira de testar o mestre e pessoas da ordem seu testamenteiro tenha cargo de fazer seu enterramento (…).

Capítulo XXXIII, da maneira em que se fará dom prior do convento

Item. O prior da casa há de ser freire da dita ordem qual ao mestre bem visto for e que saiba os costumes e regra da ordem e homem discreto e sisudo e conhecido por bom e é lhe cometida a cura das almas e poder de legar e absolver e o regimento do espiritual em todo o lugar sobre as pessoas da ordem.

Item. A Dom prior pertence a cura de todas as almas dos cavaleiros e comendadores e freires no espiritual em todo lugar e assim mesmo dos freires, e somente a obediência reverencial pertence ao mestre.

Capítulo XXXV – De como se há-de fazer vigário

Item. Quando vagar a vigairia de Tomar há-de ser elegido o que houver de ser vigário pelo mestre e convento e apresentá-lo-ão a dom prior. E ele dito dom prior tem poder de o confirmar segundo compridamente é contido na bula do Bonifácio nono e o que houver de ser elegido para vigário há-de ser primeiro professo da ordem e o dito dom prior lhe cometa a cura do povo.

Capítulo LII, do acrescentamento de dom prior

Item. Porque [o] principal ofício e dignidade de nossa ordem depois do mestre é dom prior do convento dela e com razão por sua dignidade deve ser acrescentado em honra e bem. E porque Nosso Senhor para isso tem tanto e cada dia mais ajuda[do] a nossa ordem e ao acrescentamento das rendas dela. Definimos e ordenamos por louvor de Deus e bem da dita nossa ordem e mais acrescentamento do dito dom prior que dom prior que ora é e assim todos os outros dom priores que pelos tempos do dito convento forem tenham e ajam e lhe fique para sempre anexado com o dito priorado tudo o que agora tem, dom prior reservando a igreja de Santiago de Santarém que por ser priorado não [pode] com direito a ser suprimido para sempre. E outorgamos e definimos mais que os cinquenta mil reais que dom prior agora tem de tença em cada um ano na mesa mestral apartadamente de fora da renda de seu priorado contando os dez mil reais que já eram dados ao dito priorado lhe fiquem assim para sempre anexados e dados em préstimo com toda a outra mais renda que tem o dito priorado na maneira que dito é de maneira que com ela tenha e aja em sua vida tudo o que tem e depois de seu falecimento o aja assim mesmo quem aceder ao priorado e assim todos os outros que depois dele vierem.

Capítulo LV, do acrescentamento do vigário

Item. Do vigário de nossa ordem e ofício dela muito honrado e principal e segundo sua jurisdição poderes e autoridade que tem. Deve sempre andar em pessoas honradas e de literatura e tais que nas coisas de nossa ordem proveja e entenda assim como por serviço de Deus e bem dela deve fazer e é ofício de muito contínuo trabalho assim no temporal como no espiritual no que sua jurisdição se estende. Este achamos que não tem da ordem tanto como com razão parece que deve ser pelos respeitos que ditos são. E porque seja acrescentado e receba benefício do que Nosso Senhor nela acrescenta e cada dia mais esperamos com sua ajuda. Definimos e ordenamos que sejam anexados à dita vigairia além da renda que agora tem quarenta mil reais de tença em cada um ano para todo sempre os quais lhe sejam assentados na vintena das coisas da Índia. E começará a vencê-los o vigário que ora é de Janeiro que vem do ano de [mil] quinhentos e quatro em diante e por seu falecimento todos os outros vigários que pelos tempos forem com outra mais renda que até ora teve e é ordenada a vigairia.

 

RITUAL DE ARMAÇÃO NA ORDEM DE CRISTO

 

Formulario de Oraçoens, e Cerimonias para se armarem Cavalleiros, e se lançarem os habitos das Ordens, e Milicias de Nosso Senhor Jesus Christo, S. Tiago da Espada, S. Bento de Aviz, e S. Joaõ de Malta. Dado à luz por Antonio Joze Xavier Monteiro, Cavaleiro Professo na Ordem de S. Tiago, e Tenente Secretário do Segundo Regimento do Porto. Porto: Na Oficina de João Agathon. Ano 1798. Com licença da Mesa do Desembargo do Paço.

(Versão actualizada por VMA)

 

ORDEM DE CRISTO

I

Como se deve armar o Cavaleiro

Quando se houver de armar algum Cavaleiro, o que se faz em uma Igreja, se porá ao lado esquerdo do Altar Mor um bufete coberto de seda, e em cima dele as Armas, que são: espada, murrião, e umas esporas de prata. A este acto assistem três Cavaleiros, um dos quais serve de Padrinho, que deve ser da mesma Ordem, e todos vestidos com o Manto branco; assistindo igualmente um Freire Clérigo, e na sua falta outro qualquer Sacerdote constituído em dignidade Eclesiástica, para fazer as bênçãos do estilo. E estando assim tudo preparado, se apresentará o novo Cavaleiro de joelhos defronte do Altar Mor, e um dos Cavaleiros assistentes trará a espada desembainhada em cima de um prato grande, e posto ao lado do Sacerdote, este paramentado principiará na forma seguinte.

Bênção da Espada

V. Adjutorium nostrum in nomine Domini.

R. Qui fecit Coelum, & terram.

V. Domine exaudi orationem meam.

R. Et clamor meus ad te veniat.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Exaudi quaesumus, Domine, preces nostras, & hunc ensem, quo hic samulus tuus circumcingi desiderat, majestatis tuae dextra dignare bene X dicere, quatenus esse possit defensor  Ecclesiarum, viduarum, orfanorum, omniumque Deo servientium, contra saevitiam Paganorum, aliisque fibi insidiantibus fit terror, & formido, praestans ei, quae in persecutionis, & defensionis fint effectum Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Benedic Domine Sancte Pater Omnipotens aeterne Deus, per invocationem sancti tui nominis, & per adventum Christi Filii tui Domine nostri, per donum Spiritus Sancti Paracliti hunc enfem, ut hic famulus tuus, qui hodierna die, eo, tua concedente pietate, praecingitur, invisibiles inimicos sub pedibus conculcet, victoriaque per omnia potitus maneat semper illaesus.

E logo lançará água benta sobre a espada.

Acabada a bênção da mesma, o Padrinho tomará a espada, e a embainhará, e a cingirá ao afilhado, e depois de a ter cingida, dirá o Sacerdote o seguinte.

Bênção das Armas

V. Adjutorium nostrum in nomine Domini.

R. Qui fecit Coelum, & terram.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Signaculum, & benedictio Dei Omnipotentis Patris X†, & Filii †, & Spiritus † Sancti descendat super haec arma, & super induentem, cum quibus ad tuendam justitiam induatur. Rogamus te Domine Deus, ut illum protegas, & defendas. Qui vivis, & regnas Deus per omnia saecula saeculorum. Amen.

Oremos

Deus Omnipotens, in cujus manu victoria plena consistit, quique etiam David ad expugnandum rebellem Goliam vires mirabiles tribuisti, clementiam tuam humili prece deposcimus, ut haec arma almifica pietate bene †dicere digneris, & concede famulo tuo eadem gestare cupienti, ut ad munimen, ac defensionem Sanctae Matris Ecclesiae, pupillorum, & viduarum, contra invisibilium hostium impugnationem, ipsis libere, & victoriose utatur. Per Dominum nostrum Jesum Christum. Amen.

E lançará água benta sobre as armas, dizendo depois o seguinte.

Benedictus Dominus Deus meus, qui docet manus meas ad praelium, & digitos meos ad bellum.

Misericordia mea, & refugium meum susceptor meus, & liberator meus.

Protector meus, & in ipso speravi, qui subdit populum meum sub me.

Gloria Patri, &c.

V. Salvuni fac servum tuum Domine.

R. Deus meus sperantem in te.

V. Esto ei Domine turris fortitudinis.

R. À facie inimici.

V. Domine exaudi orationem meam.

R. El clamor meus ad te veniat.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Domine Sancte Pater Omnipotens Deus, cuncta solus ordinans, & recte disponens, qui ad coercendam malitiam reproborum, & tuendam justitiam usum gladii in terris hominibus tua salubri dispositione permisisti, quique per Beatum Joannem Baptistam militibus ad se in deserto venientibus, ut neminem concuterent, sed propriis stipendiis contenti essent, dici fecisti, clementiam tuam, Domine, suppliciter exoramus, ut sicut David puero tuo Goliam superandi largitus es facultatem, & Judam Machabaecum de feritate gentium nomen tuum non invocantium triumphare fecisti; ita ec huic famulo tuo, qui noviter jugo militiae colla supponit, pietat Coelesti, vires, fortitudinem, ac fidei, & justitiae defensionem tribuas, & praestes fidei, spei, & charitatis augmentum, & tui timorem pariter, & amorem, humilitatem, perseverantiam, obedientiam, & patientiam bonam, & cuncta in eo recte disponas, ut neminem cum gladio isto, vel alio injuste laeda, & omnia cum eo justa recte defendat; & sicut ipse de minori statu ad novum miles promoventur honorem, ita veterem hominem deponens cum actibus suis, novum induat hominem, ut recte retineat, & recte colat, perfidorum confortitia vitet, & suam proximis charitatem expendat. Praeposito suo in omnibus obediat, & suum in civitate justum officium exequatur. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Dito isto, o Padrinho tomará o murrião, e o porá na cabeça do afilhado, e os dois Cavaleiros assistentes lhe calçarão as esporas, cada um a sua; e o mesmo Padrinho tirando logo a espada da bainha ao novo Cavaleiro, lhe pergunta: Quereis ser Cavaleiro? Responde: Sim. Pergunta-lhe mais: Se promete de guardar tudo o que os Cavaleiros são obrigados a guardar, segundo a Ordem da Cavalaria? Responde: Sim. E logo o Padrinho lhe dará um golpe no murrião com a espada, dizendo: Deus vos faça bom Cavaleiro.

E o Sacerdote dirá então: Esto miles pacificus, strenuus, fidelis, & Deo devotus.

O Padrinho lhe tornará a meter a espada na bainha, e o Sacerdote tomando-o pela mão, lhe diz: Exciteris à somno malitiae, & vigila in Fide Christi, & fama laudabili.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Omnipotens sempiterne Deus, super hunc famulum tuum N. qui hoc eminenti mucrone circumcingi desiderat, gratiam tuae bene † dictionis infunde, & eum dextarae tuae virtute fretum, fac contra cuncta adversantia coelestibus armare pnefidiis, ut nullis in hoc saeculo tempestatibus bellorum turbetur. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Acabada a Oração, o Padrinho tirará o murrião da cabeça ao afilhado, e os dois Cavaleiros assistentes lhe tirarão as esporas, e ele mesmo descingirá a espada da cinta; depois abraça a estes, e aos mais assistentes.

II

Como se deve lançar o Hábito

Concluído o dito acto, o Sacerdote revestido de capa de Asperges, se assentará em uma cadeira de braços ao lado do Altar Mor, e vindo o novo Cavaleiro acompanhado dos Padrinhos, se ajoelhará aos pés daquele, que lhe diz: Que é o que demandais? Responde: A misericórdia de Deus e ajuda desta Santa Ordem. Então o Sacerdote o mandará levantar, e lhe diz depois o seguinte.

“Antigamente como os Cavaleiros desta Ordem viviam em Comunidade, como nas outras Religiões, faziam-lhe, como nelas se costuma, muitas perguntas, e exames, antes de lhe lançarem o Hábito, para verem se tinham algum impedimento, ou enfermidade, com que pudessem ser pesados, ou prejudicar aos outros; e assim lhe perguntavam algumas cousas acerca da Fé, e liberdade de suas pessoas, que para aqueles tempos eram necessárias, e para o de agora usadas; pois o estado, e modo de viver se mudou em a Ordem, nem se recebe pessoa alguma a ela, senão conhecida, e aprovada pelo Mestre que é S. Majestade, e o hão-de ser seus Sucessores, e por isso somente vos farei três perguntas, a que é necessário me respondais.

“Primeiramente se vindes confessado, e comungado, como devem fazer os que novamente houverem de entrar na Ordem, para que recebam o Hábito dela em estado de graça? Responda: Que sim.

“Secundariamente vos pergunto, se tendes feito voto de entrar em outra Religião mais apertada, que esta; porque posto que tendo feito tal voto, entrando, e fazendo Profissão nesta, possais licitamente ficar nela, e conforme a Direito fiqueis absoluto do voto simples, que de antes fizestes, e que fique derrogado com fazer voto solene desta Ordem, seria pecado mortal se quebrantasses o tal voto, ao que esta Religião não há-de dar consentimento, nem favor; e por isso vos pergunto se tendes feito o tal voto? Responderá a verdade.

“Outrossim vos pergunto, se tendes feito algum voto de serviço temporal, como é ir a Jerusalém, ou a Roma, ou a S. Tiago, ou a outros semelhantes lugares; porque ainda que fiqueis desobrigado de todos eles, fazendo Profissão nesta Ordem, que é voto solene, e perpétuo, se todavia os quiseres cumprir, há-de ser com licença do Mestre, sem a qual não podeis daqui por diante sair do Reino; e para efeito somente de saberdes isto, vos faço esta pergunta?” Responderá a verdade.

E respondendo o novo Cavaleiro, que não tem impedimento algum, dirá o que lhe lançar o Hábito o seguinte.

“Ora pois, que pela bondade de Nosso Senhor não tendes impedimento algum, pelo qual não possais entrar nesta Ordem, antes que recebais o Hábito, vos quero declarar as asperezas, e obrigações dela, para que saibais a mudança, que haveis de fazer em vosso estado, e vida, e vejais se vos atreveis a isto.

“Primeiramente haveis de saber, que entrando nesta Religião, e fazendo nela Profissão, ficais obrigado aos três votos substanciais, que são: Obediência, Pobreza, e Castidade, em esta maneira:

“Pelo voto da Obediência renunciais vossa própria vontade, e entregais ao Mestre da Ordem, que é S. Majestade, ao qual, em lugar de Cristo nosso Senhor, pondes sobre vossa cabeça, para lhe obedecer em tudo em que vos mandar, sendo cousa lícita, e honesta, o que é mui dificultoso de cumprir; porque a cousa que o homem mais estima, é a liberdade, a qual perde, fazendo este voto de Obediência, porque muitas vezes quereis descansar, e repousar, e mandar-vos-ão trabalhar, encomendando-vos negócios do serviço de Deus, e da Ordem, e ocupando-vos naquele santo exercício das armas, e guerra, em defensão da nossa santa Fé Católica, para que ela principalmente foi estabelecida; mas quanto este voto é mais dificultoso de cumprir, tanto é de maior merecimento diante de Deus, quando por seu amor os homens se esforçam a guardá-lo inteiramente.

“O segundo voto, que é da Pobreza, não se guarda já como antigamente, quando os Cavaleiros desta Ordem viviam em Comunidade; porque então tudo era da Ordem em comum, e nenhuma cousa própria. Agora sendo já mudado o modo de viver nela, dispensou o Santo Padre Alexandre VI com os Cavaleiros, e Freires da Ordem, que pagando para a fábrica, e obras do Convento os três quartos do que rendem em um ano as Comendas, Tenças, ou Benefícios, que da Ordem tiverem, em dois anos, possam ter próprios, e testar de todos os bens, assim dos que dantes tinham, como dos que depois adquiriram com as rendas da Ordem, e morrendo ab intestato, lhes sucedem seus herdeiros, assim como se Religiosos não fossem; e não querendo pagar os ditos três quartos, não gozam da dita graça, mas ficam sujeitos aos antigos Estatutos da Ordem: porém S. Majestade tem provido como todos paguem, sem haver nisso falta.

“No terceiro voto, que é Castidade, também se dispensou, para que os Cavaleiros desta Ordem pudessem casar, e usar de legítimo Matrimónio, o que antigamente não havia, mas eram obrigados a guardar Castidade, como os outros Religiosos; porém pela dita dispensação não haveis de entender, que vos fica levantado de todo o voto de continência, porque não foi dispensado em mais, que para usar de legítimo Matrimónio. Donde se segue, que se o Cavaleiro desta Ordem, fora de legítimo Matrimónio, deixar de guardar continência, além de pecar como Cristão, pelo preceito Divino, que quebranta, quebranta também o voto, como verdadeiro Religioso, que é; e assim comete em um acto dois pecados, que necessariamente se devem declarar na Confissão. Isto é quanto aos votos.

“As mais obrigações, que vos ficam daqui por diante, segundo a Regra, e Estatutos da Ordem, são as seguintes.

“Primeiramente haveis de trazer de contínuo o Bentinho da Ordem; porque esse é o principal Hábito dela: e assim haveis de trazer sempre em todos os vossos vestidos de fora a Cruz, de maneira que nunca sejais visto sem ela.

“Haveis de rezar cada dia as Horas de N. Senhora, e no fim das Matinas a Antífona, Verso, e Oração da Cruz, e um Pater Noster, e Ave Maria.

“Haveis-vos de confessar quatro vezes no ano, e comungar por Natal, Páscoa, Espírito Santo, e dia da Exaltação da Cruz em Setembro, o que fareis no Convento, se nele vos achardes, e estando fora, podereis eleger Confessor secular, ou Regular.

“Haveis de jejuar todas as sextas feiras de cada semana. Tendo Comenda, sois obrigado a mandar dizer cada ano pelos Freires, e Cavaleiros, que falecerem da Ordem, quatro Missas; e tendo somente Tença, duas Missas.

“Haveis de ter vestido o Manto da Ordem nos dias de N. Senhor, e de N. Senhora aos Ofícios Divinos.

“Sois obrigado a fazer Profissão, logo que receberdes o Hábito, sob pena que o não fazendo, e tendo Comenda, ou Tença, ficareis privado dela ipso jure.

“Quando passardes pela Vila de Tomar, ireis fazer Oração à Igreja do Convento desta Ordem, e tomar a bênção ao D. Prior.

“Haveis de ter sempre o livro da Regra, e Definições desta Ordem, para que saibais as obrigações, que dela haveis de guardar, que guardareis todos os dias da vossa vida.

“Vindes com vontade, e propósito de guardar, e cumprir estas cousas por serviço de Deus, e salvação de vossa alma?”

Responderá o Cavaleiro: Sim. E logo o que lhe lançar o Hábito, dirá: Eu em nome de Sua Majestade, como Governadora, e perpétua Administradora desta Ordem, cujas vezes, e poderes para isso tenho, vos recebo a ela.

E pondo-se o Cavaleiro de joelhos, dirá o Sacerdote o seguinte: Qui incaepit in te Deus, ipse perficiat.

Tomará depois o Bentinho, e lance-lho, e sobre ele o Manto branco com a Cruz de Noviço, dizendo: Induat te Deus novum hominem, qui secundum Deum creatus est in justitia, & sanctitate veritatis. Amen.

E levantando-se em pé o Sacerdote dirá voltado para o Altar o seguinte.

V. Salvum fac servum tuum.

R. Deus meus sperantem in te.

V. Esto ei Domini turris fortitudinis.

R. À facie inimici.

V. Nihil proficiat inimicus in eo.

R. Et filius iniquitatis non apponat nocere ei.

V. Mitte ei Domine auxilium de Sancto.

R. Et de Sion tuere eum.

V. Domine exaudi orationem meam.

R. Et clamor meus ad te veniat.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Praesta, Domine, famulo tuo renuntianti saecularibus pompis, gratiae tuae aperiri, qui despecto diabulo confugit sub titulum Christi: jube eum venientem ad te, fereno vulto suscipi, ne de eo valeat inimicus triumphare: tribue ei brachium infatigabile auxilii tui; & mentem ejus fidei loricâ circumda, ut pericula cuncta, & diaboli tentamenta se gaudeat evasisse. Per eundem Christum Dominum nostrum. Amen.

Acabada a Oração, lança-lhe água benta, e o abraça, e depois se assenta; e o Cavaleiro lhe beija a mão; feito isto, o Sacerdote o manda levantar, e lançando-lhe a bênção, diz o seguinte.

“Até aqui éreis Cavaleiro secular, mas agora sois Cavaleiro da Ordem, e Milícia de N. Senhor Jesus Cristo. Quanto subistes a maior grau, e dignidade, tanto ficais obrigado a mais perfeição de virtude; porque crescendo as mercês da parte de N. Senhor, crescem da vossa as obrigações para o servir, e indigno se faz de receber outras maiores aquele, que das recebidas se mostra ingrato, e por isso a deveis fazer daqui por diante na vida, e costumes. Se até aqui éreis muito zeloso das cousas da nossa Santa Fé Católica, daqui por diante o deveis de ser muito mais; e sendo necessário por defensão dela pôr a vida, vós haveis de ser dos primeiros, que o façais, porque para este efeito foi esta Ordem principalmente instituída. E se até aqui éreis inclinado ao amparo dos órfãos, e das viúvas, a fazer esmolas, e a cumprir as obras de misericórdia, daqui por diante o deveis de ser muito mais, para que a todos sejais exemplo de virtude, e santidade, e conheçam das obras serdes dos verdadeiros Cavaleiros de Cristo, e mereçais por elas receber a sua graça, a qual lhas faça aceitas, e dignas da vida eterna, que ele vos conceda, e a todos os fiéis Cristãos por sua infinita misericórdia. Amen.”

E lhe lança a bênção.

III

Como se deve fazer a Profissão

Em o Sacerdote acabando de dizer o que fica dito, o Noviço se porá de joelhos, e o mesmo lhe pergunta: Que é o que demandais? Responde: Estabelecimento, e firmeza de nossa santa Ordem.

Diz o que recebe a Profissão: “Vós, Irmão, fostes recebido a esta Ordem de N. Senhor Jesus Cristo, e tendes notícia dela, e a que vos obriga, assim como também a mesma Ordem a tem havido de nós, de vossa vida, e costumes; mas ainda estais livre, e sem nenhuma obrigação da Ordem, e a podeis deixar livremente, se vos aprouver, e tornar-vos ao estado secular, e também a Ordem vos pode deixar. E se quereis ser Freire Cavaleiro, e fazer Profissão, para ficardes para sempre nela, sem poderdes tornar ao estado secular, eu em nome da Rainha Nossa Senhora, Governadora, e perpétua Administradora desta Ordem, cujas vezes, e poderes para isso tenho, e os Irmãos Freires dela, por vos conhecermos por bom, e tal, que podeis bem servir a Deus, e à Ordem vos recebemos a ela por Irmão Freire Cavaleiro, e aceitaremos vossa Profissão”.

Responde o Noviço: Praz-me ser Freire cavaleiro desta Ordem de N. Senhor Jesus Cristo, que tenho provada, e com sua ajuda, e favor quero nela fazer Profissão.

É posto o Bentinho, e Manto em cima de um prato grande de prata, o benzerá o Sacerdote na forma seguinte.

Bênção do Bentinho, e Manto

V. Adjutorium nostrum in nomine Domini.

R. Qui fecit Coelum, & terram.

V. Sit nomen Domini benedictum.

R. Ex hoc nunc, & usque in saeculum.

V. Domine exaudi orationem meam.

R. Et clamor meus ad te veniat.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Domine Jesu Christi, qui tegmen nostrae mortalitatis induere dignatus es, obsecramus tuae immensae largitatis abundantiam, ut hoc genus vestimenti, quod Sancti Patres ad innocentiae, & humilitatis indicium abrenunciantibus saeculo serre sanxerunt, tu ita bene † dicere digneris, ut hic famulus tuus, qui hoc usus suerit, induere mereatur. Qui vivis, & regnas in saecula saeculorum. † Amen.

O Sacerdote lançará água benta sobre o Bentinho, Manto, Cruz, e Hábito do Professo, e o que lhe receber a Profissão, lhe tomará as mãos entre as suas, tendo a Carta da sua Profissão diante, e a lerá clara, e distintamente, a qual é do teor seguinte.

“Eu Fr. N. Cavaleiro Professo da Ordem de N. Senhor Jesus Cristo, faço profissão a Deus, e a vós Fulano em nome da Rainha N. Senhora, como Governadora, e perpétua Administradora da dita Ordem, cuja pessoa por sua comissão representais de obediência, castidade conjugal, e pobreza, conforme aos Estatutos desta Ordem até a minha morte, a Sua Majestade, e a todos os Mestres, e Governadores, que ao diante em minha vida canonicamente à dita Ordem vierem; e prometo de viver, e morrer nela, guardando inteiramente seus Estatutos, e Definições, por cuja fé, e testemunho, fiz, e assinei esta Carta de minha mão nesta Igreja de tal, aos tantos dias de tal mês, e ano, &c.”

O que recebe a Profissão despirá logo o Bentinho, e Manto de Noviço ao Cavaleiro, dizendo: Exuat te Dominus hominem veterem cum actibus suis. Amen. E lhe veste o Bentinho, e Manto de Professo, dizendo: Induat te Dominus novum hominem, qui secundum Deum creatus est in justitia, & sanctitate veritatis. Amen. E dirá mais: “Eu em nome da Rainha Nossa Senhora, Governadora, e perpétua Administradora desta Ordem, cujas vezes, e poder para isso tenho, vos recebo, e aceito a Profissão”.

O Professo se levantará depois, e irá pôr a Carta da sua Profissão no Altar, e fazendo inclinação, volte ao seu lugar, e posto de joelhos, o Sacerdote se levanta em pé, e virado para o Altar diz o seguinte.

V. Confirma hoc Deus, quod operatur es in nobis.

R. À Templo sancto tuo, quod est in Hierusalem.

V. Salvum fac servum tuum Domine.

R. Deus meus sperantem in te.

V. Mitte ei Domine auxilium de sancto.

R. Et de Sion tuere eum.

V. Esto ei Domine turris fortitudinis.

R. À facie inimici.

V. Ecce quam bonum, & quam jucundum.

R. Habitare frates in unum.

V. Sit nomen Domini benedictum.

R. Ex hoc nunc, & usque in saeculum.

V. Domine exaudi orationem meam.

R. Et clamor meus ad te veniat.

V. Dominus vobiscum.

R. Et cum spiritu tuo.

Oremos

Domine Jesu Christi, qui es via, sine qua nomo veniat ad Patrem, benignissimam clementiam tuam postulamus, ut hunc famulum tuum carnalibus desideriis abstractum per iter disciplinae regularis deducas, qui peccatores vocare dignatus es, dicens: Venite ad me omnes, Qui laboris, & onerati estis, & ego vos resiciam: praesta, ut haec vox invitationis tuae ita in eo convalescat, quatenus peccatorum onera deponens, & quam dulcis est, gustans tuam refectionem, sustentari mereatur; & sicut attestari de tuis ovibus dignatus es, agnosce eum in oves tuas, & ipse te agnoscat, ut alienum non sequatur, nec audiat vocem alienorum, sed tuam, qua dicis: Qui mihi ministrat, me sequatur. Qui vivis, & regnas Deus in saecula saeculorum. Amen.

Oremos

Adesto, quaesumus, Domine, suplicationibus nostris, & hunc samulum tuum benedicere dignare, cui in tuo sancto nomine habitum sacrae Religionis imponimus; ut, te largiente, devotius in Ordine persistere valeat, & vitam percipere mereatur aeternam. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Oremos

Deus, qui es fons veri luminis, a quo est omne bonum descendens a Patre luminum, essunde super hunc samulum tuum septem gratiae charismata, & sanctae benedictionis tuae fertilissimam copiam tribue ei justitiam. Amen.

Tribue ei fortitudinem. R. Amen. E per hujus vitae laborem cum triumpho gloriae, praemia sempirterna. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Logo o Professo beijará a mão ao que lhe recebeu a Profissão, e este lhe lança a bênção, depois se levanta, e abraça os Padrinhos, e mais assistentes, com que se finaliza este acto.

Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo (da Tradição Histórica à Tradição Hermética) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Abr 1 2019 

Desde os finais do século XIII e durante o primeiro quartel do século XIV, à medida que chegavam a esta parte da Península Ibérica as notícias das atrocidades cometidas pelo rei de França, manipulando o papa contra a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Jerusalém, os templários, o rei de Portugal, D. Dinis, recorrendo à diplomacia de Estado, evocando o estatuto de país independente decisório exclusivo dos seus destinos e do que nele havia, apressava-se a defendê-la e aos seus bens móveis e imóveis contra as arbitrariedades realengas do ambicioso monarca francês, Filipe IV.

A vigilância cerrada que os reis de Portugal exerciam sobre os direitos da Coroa, todavia sem embaraçar os cavaleiros da Milícia Templária de Cristo no livre desenvolvimento do seu mister, explica em boa parte o facto memorável que se conheceu pela inquirição final do seu viver e da sua conduta: nos dois séculos da sua existência no reino nada lhes havia a increpantemente atribuir, se não a admissão de um cavaleiro estrangeiro, sobrinho do sétimo Grão-Mestre. Nunca os templários portugueses se afastaram da lealdade devida ao seu rei, mostrando-se sempre possuídos de afeição pelo imperante e pela pátria[1].

Assim viviam os templários em Portugal quando o bispo de Lisboa, D. João Martins de Soalhães, com alguns prelados, recebeu o encargo do papa Clemente V de submeter a conduta e o viver dos tempreiros portugueses a um exame minucioso, ordem expedida pela bula papal de 12 de Agosto de 1308, Regnum in coelis. Mas nada se encontrou do que o papa tanta desejava para justificar os actos de Filipe IV. Ainda assim, meses depois nesse mesmo ano chegou ao reino nova bula papal, Callidis serpentis vigil, ordenando a prisão de todos os templários daqui e a apreensão dos seus bens. Evitando um confronto aberto com o poder papal, superior ao de qualquer rei do Ocidente, D. Dinis não ignora a ordem pontifícia mas, como grande estratega político que demonstrou ser, contornou-a através dos seus jurisprudentes que decantaram no texto da bula várias interpretações possíveis capazes de contrariar o próprio texto, isso de maneira a favorecer o Templo à luz da jurisprudência da época, a do direito romano que só seria reformado no reinado de D. João I de Portugal. D. Dinis convocou todos os membros destacados da Ordem e, singularmente, um a um, foi os questionando, até que finalmente chegou à conclusão que em Portugal os templários eram inocentes das terríveis acusações de heresias e abusos de poder, usura inclusive, que lhes imputava o rei de França.

Tendo agido assim dentro da lei, “escusado será dizer que, dos templários portugueses, nenhum foi preso. Todos se puderam refugiar no país e em país estranho, escapando assim, não tanto às iras do papa, como às de Filipe. Sem tirar as mãos da questão, o rei de Portugal recebia os bens que o processo ia dizendo que de novo deveria pertencer à Coroa. […] Não só o rei se reconheceu com direito aos bens dos templários. Outros indivíduos e corporações religiosas os reclamaram pelos seus, mas D. Diniz, fino e hábil, soube, pelo seu tacto, não desviar esses bens por outras mãos. […] Não se podia D. Diniz conformar com a ideia da negra injustiça praticada para com os templários e procurava por todos os modos conciliar as várias opiniões»[2].

Já no ano anterior, em 12 de Agosto de 1308, o papa comunicara numa bula a D. Dinis que tencionava convocar Sínodo Geral em Viena para decidir sobre a Ordem do Templo, e convidava o rei de Portugal a estar presente [3]. Nessa bula, Deus ultionum Dominus, descreveu os crimes praticados pelos templários franceses e ordenou aos bispos lusitanos que comparecessem em Viena, a fim de esclarecerem também os delitos dos cavaleiros da sua nação. D. Dinis viu de longe aproximar-se a procela e preparou-se para a receber, antes dela entrar em Portugal. O plano de circunspecção empregado sabiamente pelo rei, nesse grande processo contra a Ordem do Templo, faz supor que ele previa o caminho que seguiria. D. Dinis era conhecedor do poder do papa e do clero, e da influência que ambos exerciam sobre a nobreza e o povo. De maneira que sabia não lhe ser favorável opor franca resistência à medida do sumo pontífice, pelo que recorreu ao lícito das leis pela prudência e precaução calculadas a respeito dos templários em Portugal. Ele não só os julgava inocentes como até benéficos e úteis ao reino e ao trono lusitanos, pelo que a perseguição a eles devia parecer-lhe tão imprudente como injusta. Por isso mesmo, mostrou-se pouco inclinado a abandonar o país para quase confirmar, pela sua presença em Viena, a sentença condenatória, já de antemão pronunciada, que repugnava ao seu poder independente de soberano, assim como à sua prudência política e sentimento de justiça. Contudo, enviou alguns bispos, provavelmente com instruções cuja perda documental se tem a deplorar, comitiva essa liderada pelo seu confessor D. Fr. Estêvão, franciscano, bispo que foi do Porto e de Lisboa, nem sempre bem-quisto pelo monarca[4].

Contudo, o rei não ficou inactivo em casa. Mandou instaurar processo judicial contra os templários, mas não consoante as intenções do papa: nisso Clemente V foi ludibriado o tempo suficiente para que a sua desilusão não pudesse tornar-se nociva a D. Dinis e à Ordem em Portugal. De maneira que os templários portugueses escaparam, apesar de não a conselho do rei mas decerto com o seu assentimento discteto, à prisão e ao confisco dos seus bens que reverteriam a favor do papado. As manobras políticas entraram em acção: imediatamente os procuradores régios de D. Dinis tomaram a maior parte dos bens da Ordem do Templo porque, segundo a razão apresentada, haviam sido ilegalmente separados da Coroa, e assim procederam judicialmente contra os cavaleiros. De maneira que novamente passaram para o poder da Coroa, em 27 de Novembro de 1309, as povoações de Pombal, Soure, Ega e Redinha, funcionando nessa causa, como juízes, o bispo de Lisboa, o prior geral dos franciscanos da mesma cidade e o mestre João das Leis. Em 1310, procedeu-se da mesma maneira, invocando o direito de Estado, com respeito às povoações e castelos de Idanha-a-Velha, Salvaterra do Extremo, Rosmaninhal e outras[5].

Tais processos foram julgados com uma velocidade estranha ao habitual andamento judicial deste reinado. Além do rei, também poderosos eclesiásticos e conventos levantaram, sob diversos pretextos, pretensões aos bens móveis e imóveis da Ordem do Templo. Todavia, o monarca ordenou, em virtude da ausência do Mestre Geral da Ordem e dos seus representantes nomeados, a suspensão dessas reclamações e da penhora dos domínios em questão, até que os templários houvessem defendido a sua causa perante o papa e recebido a sentença final.

Dessa forma chegaram, sucessivamente, todos os bens móveis e imóveis da Ordem do Templo em Portugal ao poder de D. Dinis. Com isso, alguma coisa estava feita. No entanto, ele não ignorava que sozinho não era suficientemente poderoso para resistir à vontade papal. De maneira que procurou uma aliança com os reis vizinhos de Castela, Leão e Aragão, tendo encetado negociações com o rei D. Fernando de Castela, seu genro, em 1309, resultando das mesmas uma convenção entre ambos os monarcas em 21 de Janeiro de 1310, pela qual se obrigavam reciprocamente a conservar para os seus reinos, caso fosse suspensa ou abolida a Ordem do Templo, os bens e rendimentos dela e a defendê-los contra quem quer que fosse[6].

Essa aliança de resistência dos reis ibéricos produziu efeito. Quando Clemente V veio a ordenar a abolição da Ordem do Templo, concedendo todos os bens móveis e imóveis da mesma à Ordem do Hospital, fez uma excepção a favor daqueles soberanos. Fixou-lhes, contudo, um prazo dentro do qual haviam de entender-se e combinar com a Santa Sé sobre a aplicação desses bens. O papa nomeou para administrador dos bens e territórios da Ordem portuguesa o bispo do Porto, D. Frei Estêvão, mas que D. Dinis rejeitou como homem suspeito. No tempo em que ele um simples religioso franciscano da Ordem dos Frades Menores, como contava D. Dinis, “mendigava de sacola às costas”, e o monarca apiedado dele tomou-o sob a sua protecção, elevando-o a seu confessor e depois a bispo do Porto (1310). Pleno de confiança num homem que lhe devia o bem-estar, confiou-lhe o assunto tão importante do Templo e enviou-o ao Concílio de Viena. Quarenta mil libras, que o rei lhe mandara entregar aí, deviam servir para pagar as despesas e para influxo de maior energia à sua oratória.

Mas com a boa sorte do prelado subira também o seu orgulho: o interesse próprio apagara nele todo o sentimento de gratidão para com o seu benfeitor. Afastado da sua vista e longe do juízo dos seus concidadãos, trabalhou unicamente para os seus próprios fins e proveitos, gastando nisso a soma recebida. Concebera o plano de subir à cadeira episcopal de Lisboa e de alcançar a do Porto para o seu sobrinho, pois que a morte do bispo de Braga, durante o Concílio de Viena, proporcionou-lhe o ensejo de alcançar tal dignidade. O rei queria transferi-lo para Braga, mas a cidade de Lisboa, sendo mais influente, prometia à ambição do prelado um terreno mais amplo e mais favorável. De maneira que Estêvão, que sabia servir-se da sua posição, alcançou do papa que o bispo de Lisboa fosse transferido para Braga, e ele próprio para Lisboa (8 de Outubro de 1312), recebendo o seu sobrinho, mais tarde, a diocese do Porto[7]. Em Lisboa é encontrado, ulteriormente, ateando o fogo da discórdia na desgraçada contenda entre D. Dinis e o seu filho D. Afonso, como inimigo declarado do rei; depois, fugitivo e activo na corte do papa, caluniando o seu soberano e benfeitor.

Era esse o homem nomeado pelo sumo pontífice para administrador dos bens dos templários mas que o rei, porém, rejeitou. Foi ele também que, em vez de apressar as negociações com a Santa Sé e de alcançar o que o monarca desejava, sacrificou este desejo ao seu próprio proveito, demorando as negociações pelas suas intrigas. Apesar dessa resistência e de todos os esforços em contrário das intrigas sobre intrigas do bispo de Lisboa, D. Dinis acabou vencendo alcançando quanto aspirava, com firmeza, prudência e perseverança.

O monarca previra o que se iria passar no Concílio de Viena. Quando foi publicada a bula de anulação da Ordem, esse golpe não pôde ferir coisa alguma em Portugal, porque nada existia: os cavaleiros haviam desaparecido; os seus bens estavam em poder de D. Dinis; o administrador do papa achava-se repudiado. O rei soube até frustrar uma tentativa papal para dispor dos bens dos templários portugueses. João XXII, sucessor de Clemente V no trono romano, tomou a liberdade de presentear o seu favorito, o cardeal Bertrand, com a povoação e castelo de Tomar e seus aditos e reditos, um dos domínios mais consideráveis da Ordem (1317). O assunto suscitou reparo. O rei, aparentemente tranquilo, instigou o príncipe herdeiro e alguns nobres do reino a apresentarem um protesto, decisivo e formal. O cardeal desistiu da posse para que estava autorizado por uma bula, e não se falou mais nisso[8]. O papa, porém, adquirira a experiência de que não podia contar com coadjuvação alguma, nem do príncipe herdeiro nem dos grandes do reino de Portugal, que tantas vezes a tinham prestado aos seus antecessores. Também não lhe podia passar despercebido que o rei português trabalhava, com agrado do povo e da nobreza, concedendo protecção à Ordem do Templo. E, de facto, os seus cavaleiros encaminharam-se, passada a borrasca, um após outro para Portugal. Foram-lhes concedidas pensões sobre os bens penhorados; foram tratados com consideração, reconhecidos inocentes maltratados, e, apesar da Milícia estar abolida, não deixaram de ser reconhecidos nos documentos e actos públicos como “antigos Cavaleiros Templários” (quondam Milites Templi)[9].

Era esse o estado geral no Reino quando D. Dinis, em 1318, encetou negociações com a Santa Sé pretendendo que se fundasse sobre a Ordem extinta uma outra em Portugal. De maneira que enviou a João XXII os seus procuradores Pedro Peres, cónego de Coimbra, e João Lourenço, cavaleiro de Avis em Monsaraz, portadores da carta seguinte cuja ortografia galaico-portuguesa medieval (e não o latim eclesiástico como era uso, sinal claro da afirmação política de Estado independente, com línguas e leis próprias) já foi transposta para o português moderno e publicada por Amorim Rosa[10]:

“Saibam quantos as letras desta Procuração virem, que Nós, D. Dinis, por Graça de Deus Rei de Portugal e do Algarve, fazemos e ordenamos nossos procuradores verdadeiros, lídimos e avendosos e especiais mensageiros, o nobre barão João Lourenço, Cavaleiro, e o sagres Barão Pedro Peres, Cónego de Coimbra, nossos familiares, portador ou portadores das presentes letras e cada um pelo todo não seja maior do que os outros mais, o que um começar o outro possa mear e acabar por ganhar por nós e pelos ditos Reinos grandes favores do mui Santo Nosso Padre D. João pela provisão que dê [como] Papa desta Igreja de Roma e para tratar, ordenar e compor com o dito Senhor Papa e com outros quaisquer que creiam que lhes pertence, de haver Reino sobre todos os bens e cada um deles que os freires do Templo em outros tempos tinham em nossos Reinos e sobre todos os outros bens que outra Ordem de Cavalaria qualquer tem ou que costumava ter em esses Reinos e para pôr e ordenar Mestre de Mestres em todos os ditos bens, assim como aos nossos procuradores e a cada um deles parecer que mister é, outorgando a ambos e a cada um geral livre e comprido poder sobre os ditos negócios, e sobre cada um deles. E geralmente para fazerem e usarem nas ditas cousas e em cada uma delas todas as coisas que cada uma delas requeira cumprir, e que é mister desse fazerem, e que Nós faríamos se em nossa pessoa presentes fossemos, ainda que demandem especial mandado; prometendo Nós a haver firme todos os nossos bens que qualquer pelos nossos ditos procuradores ou por cada um deles for feito e procurado nas ditas coisas e em cada uma delas. E em testemunho disto, mandamos selar estas letras de nossa procuração de nosso selo pendente. Dada em Lisboa, aos 12 dias do mês de Agosto El-Rei o mandou fazer. Domingo Anes o fez. Era de 1356 [1318] anos.”

As negociações prosseguiram até que, em 1319, foi instituída canonicamente a Ordo Militiae Jesu Christi, Ordem da Milícia de Nosso-Senhor Jesus Cristo, em Santarém, a 18 de Novembro, fundada sob a aprovação pontifícia da bula Ad ea ex quibus, do papa João XXII, datada de 14 de Março e ratificada pelo rei D. Dinis a 5 de Maio desse ano. Por ela, os direitos de visita e de correição foram entregues ao abade de Alcobaça, na medida em que seguiam a Regra de São Bento, na versão transmitida por Cister à Ordem de Calatrava. A referida bula autorizava ainda a incorporação, na nova Milícia, de Castelo Branco, Longroiva, Tomar, Almourol e de todos os castelos, bens móveis e de raiz, direitos, jurisdições, honras, homens e vassalos que tinham pertencido à Ordem do Templo suprimida por abolição papal. Ainda em 1319, a 26 de Novembro, D. Dinis mandou entregar à Ordem de Cristo todos os domínios que tinham pertencido à Ordem do Templo, que guardara como seu procurador real. Desta forma, foi transformada numa Ordem Nacional cujo signo mor perdura até hoje nas Armas de Portugal, seja nas Forças Armadas, seja em igrejas e mosteiros, seja como comenda de distinção, seja, enfim, como o ex-libris desta Terra Portuguesa.

Ainda em 14 de Março desse mesmo ano de 1319, encontrando-se D. Dinis nos seus Paços de Santarém, antigo solo templário com a sua igreja de Santa Maria de Alcáçova, foi lido com toda a pompa e solenidade, perante o rei, a corte e os prelados, o documento aprovatório da nova Milícia de Cristo, sendo-lhe concedida por Casa-Mãe o castelo e a igreja de Santiago de Castro Marim, Algarve, apesar de em 1357 a transferirem para Tomar, primitiva Casa-Mãe do Templo em Portugal. O texto é o seguinte[11]:

“[…] Nós, tendo entendido diligentemente as ditas causas e razões, e discorrendo nelas com atenta consideração, por amor da segurança e amparo dos fiéis e por muitos bens que, com o favor do Senhor, daí se haviam de seguir; havida primeiro diligentemente deliberação sobre estas matérias com os nossos irmãos, dispusemos de seguir favoravelmente o louvável intento que nesta parte tinha El-Rei. Pelo que, de conselho dos mesmos irmãos e com inteiro poder apostólico, determinamos de proceder na forma abaixo escrita, invocando para isso o Divino socorro. Porque como aquela torpe nação dos ditos sarracenos e inimiga ímpia do nome cristão, que esta fronteira, como se diz, do dito Reino do Algarve com os terrenos vizinhos, tinha aflito o mesmo Reino e seus fiéis, com tribulações e sujeito a vários perigos, e tinha muitas vezes armado sua ferocidade, como ainda agora pretende armar para desterro dos mesmos fiéis em grande ofensa do Supremo Rei, por sucessos, grandor de diversos tempos passados. Desejando Nós, pois, com ajuda de Deus, atentar pelo bem do mesmo Rei e Reinos e fiéis, em razão de quebrantar os nefários intentos dos infiéis, tivemos por bem de ordenar casa de nova Ordem da milícia de Jesus Cristo no dito castelo de Castro Marim. A qual casa decretamos que seja a cabeça da mesma Ordem e damos-lhe a igreja paroquial de Santa Maria do mesmo castelo, da diocese de Silves. E outorgamos e anexamos e juntamos à dita Ordem, com todos seus direitos e pertenças, e para honra de Deus, exaltação da Fé católica, amparo dos fiéis e abatimento dos infiéis. Com autoridade apostólica estabelecemos e ordenamos a dita Ordem na qual deve ter assento a sobredita milícia dos lidadores da Fé, os quais sendo idóneos e constantes nela, professem ordem própria, debaixo da regra de Calatrava, guardando as observâncias regulares da mesma regra, de modo que o mesmo Reino e fiéis dele tanto com maior fervor possam resistir aos ditos inimigos, quando juntas as forças em um se fundam em maior poder. Outrossim estabelecemos com autoridade apostólica e de consentimento dos mesmos nossos irmãos, que a Ordem dos ditos cavaleiros desta nova milícia se intitule para todo o sempre Ordem da milícia de Jesus Cristo. E com a mesma autoridade e de conselho de nossos irmãos, creiamos em Mestre da dita milícia ao amado filho Gil Martins, que até agora foi Mestre de Calatrava e professo na mesma Ordem, de cuja pureza de vida, zelo da religião, madureza de costumes, valor de pessoa, inteireza na Fé, e de outros merecimentos de sua natural bondade, tivemos louváveis testemunhos. […] E se alguém presumir intentar isto, saiba que há-de incorrer na indignação de Deus todo-poderoso e dos seus bem-aventurados Apóstolos S. Pedro e S. Paulo.”

Castelo e igreja de Castro Marim, Algarve, primitiva Sede da Ordem de Cristo

Com a emissão da Ad ea exquibus desencadeia-se uma série de factos probatórios de que a antiga Ordem do Templo reaparecia numa forma nova, precisamente a Ordem de Cristo. O papa intitulou a Milícia de Ordem Militar de Jesus Cristo (Ordo Militiae Jesu Christi) e os cavaleiros de Milites Christi, como se viu e conforme o desejo expresso de D. Dinis. Ora, esse era o nome dado aos templários já anteriormente nos diplomas públicos referentes à sua Ordem, e eles próprios usaram dele alternando-o com o título de templários nos actos civis. Esses primitivos cavaleiros de Cristo seguiam a Regra Cisterciense e estes novos a mesma Regra, apesar de sujeitos à de Calatrava onde professava o Mestre D. Gil Martins. Contudo, a Regra de Calatrava era a mesma de Avis, ou seja, a cisterciense, donde os Milites Christi, segundo a bula papal, teriam como superior espiritual o abade de Alcobaça que procedia, tantas vezes quantas julgasse conveniente, à inspecção “do chefe e membros”, que era mister igual ao que exercia o mesmo abade na Ordem do Templo.

Também a vila e castelo de Calatrava, situada no arcebispado de Toledo (primitiva capital da Hispânia), fora antigamente dos templários, que não a tendo podido defender dos agarenos a largaram a el-rei D. Sancho de Portugal para que a defendesse, o que foi feito por D. Raymundo, abade de Santa Maria de Fiteiro, da Ordem de Cister, e seu companheiro, o cavaleiro Diogo Vallasques. De maneira que o rei português lhes fez doação dessa vila em 1157 e D. Raymundo estabeleceu aí a nova Ordem de Calatrava, confirmada pelo papa Alexandre III em 1164. Por estes monges-guerreiros terem estado muito tempo sem Regra alguma e havendo Capítulo Geral da Ordem de Cister, foram nele recebidos como irmãos, ficando sujeitos ao abade de Santa Maria de Alcobaça. Por tudo isso, mesmo seguindo a Regra de Calatrava os Mestres da Ordem de Cristo prestavam o juramento em nome do papa nas mãos do abade de Alcobaça, velha tebaida de Saber Bernardino/Templário, e perante os reis de Portugal.

Como na Ordem do Templo, o Grão-Mestre e os outros superiores da Ordem de Cristo eram obrigados, antes de começar os seus cargos, a prestar juramento de lealdade ao rei. Como aos templários, assim aos cavaleiros de Cristo era proibido alienar bens da sua Ordem, dentre outras analogias entre ambas as Milícias.

Não se deve estranhar que o papa nomeasse o Mestre da Ordem de Calatrava, D. Gil Martins, transferido de Avis a esta, para Grão-Mestre da Ordem de Cristo. Como disse, os cavaleiros de Avis e de Calatrava seguiam a Regra de Cister, tal como os templários, e esse procedimento do papa estava em harmonia com o que então andava em uso: por exemplo, nomeava-se um religioso de uma abadia para aos irmãos de outra da mesma Regra os instruir nos seus deveres e funções, a fim de levantar a abadia decaída, neste caso, a Ordem abolida na nova em bula sob nova feição. Só dessa vez o papa nomeou um Grão-Mestre, interferindo directamente na sua escolha. Depois do seu falecimento deviam ser, segundo a bula de fundação, os próprios irmãos da nova Ordem a eleger um Grão-Mestre, que tinha de ser um membro da mesma.

Todos os bens móveis e imóveis que a Ordem do Templo possuíra em Portugal e no Algarve, todos os domínios, com todos os direitos e privilégios, foram adjudicados, como propriedade, à Ordem de Cristo, por decisão directa do rei D. Dinis. Não só ordenou em 26 de Novembro de 1319 a entrega de todos os domínios da Ordem do Templo à de Cristo[12], declarando sem efeito todas as sentenças judiciais que, por cuja força de lei, lhe adjudicaram os bens dos templários aquando da sua abolição, como também mandou restituir aos cavaleiros de Cristo os rendimentos cobrados pelos almoxarifes régios nos bens do Templo, desde a sua extinção[13]. Finalmente, para coroar a sua empresa concedeu à Ordem de Cristo, para estabelecimento da sua Casa-Mãe, o castelo e povoação de Castro Marim, no Algarve, sob o pretexto das necessidades de defesa do Reino perante a ameaça constante de invasão pelo Sul pelos muçulmanos de Granada e Marrocos, mesmo não constando que os cavaleiros de Cristo alguma vez aí se tenham batido com eles[14].

De maneira que originalmente a Ordem de Cristo teve aí o seu convento e castelo, sendo onde viveram os primeiros noviços que nela ingressaram. Segundo os registos que existiam no Arquivo de Tomar, os primeiros membros admitidos em Castro Marim pelo Grão-Mestre eram antigos templários, e, o que aparecia ainda mais notável, é que gozando da liberdade se não se apresentassem à admissão na nova Ordem dentro do prazo de três meses seriam forçados a isso, sob pena de castigos espirituais[15]. O próprio D. Vasco Fernandes, último Mestre dos Templários portugueses, faleceu sendo comendador de Montalvão professo na Ordem de Cristo.

Depois de investidos alguns cavaleiros, pensou o novo Grão-Mestre em dar posição e firmeza à Ordem com novas ordenações e leis, em rejuvenescer a Instituição e regular a sua administração. Para esse fim, convocou em Lisboa, em 11 de Junho de 1321, no antigo convento dos senhores do Templo, um Capítulo, que consistia, na maior parte, de membros dessa Ordem. Tomou-se como base as constituições dos cavaleiros de Calatrava, que lhes permitia assumir uma atitude missionária ante o século fora dos paredes dos conventos e que viria a ser “pedra angular” do processo ecuménico da Ordem de Cristo no Mundo, mormente no Período Henriquino e das Descobertas Marítimas. Pelo cálculo dos rendimentos da Ordem de Cristo, fixou-se que ela devia contar, pelo menos, com oitenta e quatro membros, dos quais sessenta e nove seriam cavaleiros (freires cavaleiros) e os restantes irmãos religiosos (freires clérigos). Além destes, fixou-se o número de dez cavaleiros para acompanharem permanentemente o Grão-Mestre. Não podiam possuir nenhuma comenda e tinham de sustentar-se dos bens destinados para a Mesa do Mestre (Mesa Mestral), que se compunham dos rendimentos que a Ordem usufruía das suas propriedades nos territórios de Lisboa, Alenquer e Santarém (exceptuando as comendas de Pinheiro e Casavel). Não muito depois da reunião deste Capítulo, morreu D. Gil Martins (13 de Novembro de 1321). Deixou a Ordem de Cristo num estado florescente, acompanhando-o para a sepultura a fama de que havia sido um Mestre e pai zelosamente activo e sinceramente cuidadoso para com os seus filhos.

 

Ritual de Investidura na Ordem de Cristo
(Pintura moderna de autor anónimo)

Finalmente, em 1357 os antigos monges-guerreiros do Templo regressam a Tomar, agora envoltos no manto de Cristo, este mesmo idealização do velho mito Templário, o Sudário do Salvador, e aí fixam doravante a sua Casa-Mãe[16]. Desta incarnação militante do Templo em Cristo fala Fr. Bernardo da Costa, professo e cronista dessa nova Ordem Religiosa e Militar, em seu Compêndio Histórico escrito entre 1771 e 1775:

“Estas são as notícias que me parece eu dever dar ao público como devidas à História da Ordem Militar de Cristo para que me destinou a obediência. Sem elas ficava a sua História muito falta e diminuta, pois, sendo a Ordem de Cristo fundada nas ruínas da do Templo e sua herdeira universal, sendo património seu quanto adquiriram os cavaleiros do Templo em Portugal pelo preço do sangue e das vidas, pois, nas Campanhas, servindo a Fé e ao Rei, as entregaram tantas e, entre estes, dos seus Mestres eles foram ao menos cinco.”

Quanto à localização da primeira Sede da Ordem de Cristo, Fr. Bernardo da Costa (in História da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, dedicada a El-Rei D. José I, cap. II, pp. 39-40) rebate alguns equívocos levantados em seu tempo referentes ao assunto:

“Um dos enganos em que se embaraçam alguns Autores que escreveram como dissemos das cousas da Ordem, foi em quererem persuadir-nos que o Convento transferido de Castro Marim não fora mudado e edificado imediatamente para Tomar. Dizem uns que fora edificado em Montalvão, outros que em Castelo Branco. É intolerável este engano… A Ordem jamais teve outro que o primeiro em Castro Marim e depois o segundo imediatamente em Tomar.”

Além de terem readquirido o seu primitivo domínio tomarense, estes freires de Cristo também se assemelhavam pela indumentária aos seus antecessores templários: trajavam o hábito cisterciense, adoptado pela Ordem de Calatrava, com escapulário branco, e a sua insígnia crucífera, oficializada em 1330 mas decerto sendo anterior, era em tudo semelhante à do Templo: interiormente a grega, de cor branca, e exteriormente a vermelha pátea ou triangulada nas pontas de maneira a formar rodela, ou seja, a fechar-se sobre si mesma.

Igualmente a estrutura hierárquica da Ordem de Cristo era muitíssimo semelhante à do Templo, como se repara no composto seguinte:

ORDEM DE CRISTO

MESTRE (Geral da Ordem)

PRIOR-MOR (Superintendente espiritual)

COMENDADOR-MOR (Superintendente temporal)

CLAVEIRO (Responsável pelas chaves das Casas da Ordem)

SACRISTÃO-MOR (Responsável pelas festividades religiosas)

ALFERES-MOR (Cabeça de cavalaria e porta-bandeira)

FREIRE CAVALEIRO (Sempre de nobreza reconhecida)

FREIRE CLÉRIGO (Prior ou sacristão)

NOVIÇO (Na Regra, nos Estatutos, na Religião e nas Armas)

Quanto aos Mestres Gerais da Ordem de Cristo, segundo autor anónimo oitocentista[17], foram os seguintes:

1 – D. Gil Martins, governou 3 anos e morreu em 1321.

2 – D. João Lourenço, 5 ditos e morreu em 1326.

3 – D. Martins Gonçalves Leitão, 8 ditos e morreu em 1335.

4 – D. Estevão Gonçalves Leitão, 9 ditos e morreu em 1344.

5 – D. Rodrigues Annes, 14 ditos, e renunciou ao Mestrado.

6 – D. Nunes Freire d’Andrade, 18 ditos e morreu em 1372.

7 – D. Lopo Dias de Souza, 46 ditos e morreu em 1417.

8 – Infante Henrique de Sagres, 40 ditos e morreu em 1460.

9 – Infante D. Fernando, 10 ditos e morreu em 1470.

10 – D. Diogo, Duque de Viseu, 14 ditos e morreu em 1484.

11 – D. Manuel, Duque de Beja e Rei, 37 ditos e morreu em 1521.

12 – D. João III, Rei, 35 ditos e morreu em 1557.

Foi durante o reinado desse último monarca que a Ordem de Cristo sofreu alterações profundas que a remeteriam à esterilidade da clausura, abolindo completamente o seu sentido de missão e diáspora a ponto de, já no período da regência do cardeal-rei D. Henrique (1578-1580), pensar-se seriamente em extingui-la. Com efeito, em 28 de Julho de 1529, tendo em 1531 recebido aprovação do acto pela bula papal, Exposcit debitum, de Clemente VII,  D. João III acometeu a reforma da Ordem ao dominicano Frei António Moniz, natural de Lisboa, tendo expulso os antigos freires de Cristo que se opuseram a ela e imposto a clausura aos restantes[18], elaborando-se novos estatutos afins a essa nova condição de cárcere, conformados à Regra de São Bernardo destinada aos clausurais. No ano seguinte, prosseguiu a reforma espiritual acompanhada da reforma temporal da Ordem de Cristo, e na sua Sede em Tomar, o Convento de Cristo, teve início a campanha de obras pardas que alterariam por completo a feição primitiva dessa Râbita Templária. Tal reforma de Frei António de Lisboa só seria abolida em 1789. Em 1551 e por bula do papa Júlio III o Mestrado, Governação e Administração da Ordem de Cristo foram incorporados na Coroa portuguesa, passando a ser chefes dela os reis e rainhas de Portugal. Com D. Sebastião passa a ser um cargo vitalício que ele, em 20.1.1576, intentou substituir pela sua Ordem da Cruz de Nossa-Senhor Jesus Cristo ou Ordem Militar da Seta de S. Sebastião, larária de duração efémera, e com a reforma D. Maria I, em 1789, mesmo existindo como Ordem monástico-militar realmente já não é mais do que simples título honorífico[19].

Mesmo antes de D. João III a Ordem de Cristo já começara o seu declínio, devido às interferências nocivas de D. João II, ambicioso das riquezas da Milícia, que chegou ao ponto de, dentro dos Paços de Setúbal, apunhalar mortalmente pelas costas, num acto traiçoeiro indigno de humanidade e de um rei de Portugal, o 10.º Grão-Mestre e Administrador da Ordem, D. Diogo, duque de Viseu. A Milícia de Cristo estava de tal modo decaída na época do cardeal-rei D. Henrique que ele conseguiu, do papa Gregório XIII, uma bula que a extinguia. A extinção só não se efectuou porque Frei Duarte de Araújo, procurador da Ordem, se dirigiu a Roma e de lá trouxe instruções em contrário[20].

Como ficou dito, o 1.º Mestre Geral da Ordem de Cristo foi D. Gil Martins, Mestre de Calatrava e de São Bento de Avis. Tendo a Ordem se instalado inicialmente em Castro Marim, por sugestão do rei ao papa que a aprovou na sua bula, mais tarde o Mestre, por conselho da Ordem e já não do papa, transferiu o seu principal assento para a vila de Tomar, com assentimento do rei D. Pedro I, tendo D. João Vicente, bispo de Lamego e sendo-o já de Viseu, na reforma posterior que fez na Milícia pela bula papal Auctoritate Apostolica,de 1449, aprovado e confirmado a referida trasladação para o convento de Tomar, ficando aí a cabeça da Ordem[21], como a tinha sido em Castro Marim (ficando nesta as propriedades agrícolas e uma comenda da Milícia). Depois, a reunião capitular de 1503 marcou o momento de viragem na Ordem de Cristo: foi quando D. Manuel I participou dela na sua dupla qualidade de rei do País e de administrador da Ordem. Determinou-se que os freires receberiam vários donativos régios, desde que se confinassem ao seu “mester”, passando essas regalias pela melhoria das condições de vida dos religiosos, inclusive na assistência sanitária[22]. Se o poder e riqueza da Ordem já era grande, passou a ser muito maior, rivalizando ou mesmo superando o da Coroa, e certamente terá sido esse o motivo para a reforma fatal que D. João III lhe impôs.

Hábito e escapulário dos freires reformados da Ordem de Cristo. Reprodução fiel do hábito e escapulário a que ficavam obrigados os freires de clausura criados pela reforma de Fr. António de Lisboa (1529). Aos professos só de nove em nove anos lhes era permitido renovar o velho hábito e, mesmo assim, a arbítrio do rei e dos juízes do Tribunal de Consciência e Ordens. Em 1759, um hábito novo importava em 2000 cruzados (cf. Fernanda Olival, As Ordens Militares e o Estado Moderno: Honra, mercê e Venalidade em Portugal (1641-1789), revista Estar, pp. 237-282, Lisboa, 2001; da mesma autora, Mercado de hábitos e serviços em Portugal (séculos XVII-XVIII), revista Análise Social, vol. XXXVIII, 2003, Departamento de História da Universidade de Évora). 

Sob a Regra de Calatrava procedeu sempre Ordem de Cristo até 1449, altura em que o bispo D. João, por comissão do papa Eugénio IV e a instâncias do Infante D. Henrique (então o seu 8.º Grão-Mestre e Administrador Geral), a reformou e deu-lhe nova Regra de inspiração Bernardina, confirmada por D. Manuel I no Capítulo Geral de 1503, pela qual os cavaleiros de Cristo ficaram desobrigados de seguir daí em diante a de Calatrava, prerrogativa confirmada pelo papa Júlio II em 1505, e por Paulo III em 1542, que também revogou a superioridade que nela tinham os abades de Alcobaça.

A última mudança que houve depois da fundação da Ordem de Cristo foi que, vagando o Mestrado, não se elegesse para ele pessoa professa nela, nem se fizesse juramento de fidelidade aos reis do reino, como anteriormente. Isso porque os Mestrados das Ordens de Cristo, de Santiago e de Avis haviam sido unidos e incorporados na Coroa nacional pelo papa Júlio III, em 1551, reinando D. João III, e a sua administração concedida a partir de então aos reis e rainhas de Portugal.

A Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, tripartida genericamente em Mestre – Professo – Noviço, comportou inicialmente três votos de profissão: Pobreza (revogado depois por dispensa apostólica), Castidade (o que também foi revogado), Obediência. Além desses tinha ainda, como os antigos templários, os de Fraternidade, Hospitalidade e Prelecção. Também as suas insígnias, como já disse, eram semelhantes às da sua antecessora templária: cruz branca centrada e marginada de vermelho sobre hábito branco.

Como divisa a Ordem adoptou o lema do imperador Constantino, In Hoc Signo Vinces (“Com este Sinal vencerás”), o qual é a sua própria Cruz Emérita, decalcada da templária como signo máximo da Cristandade, e desde cedo ela foi considerada bentinha, salvífica, portanto, quer pelo povo geral como pelo Infante D. Henrique, D. Manuel I e todos os demais que a levaram consigo tanto na cavalaria da terra como na do mar, e isso tem algo a ver com a Regra Beneditina professada pela Freiria de Calatrava e de Cristo. Veja-se como, indo à hagiografia do próprio São Bento.

Os feitos da vida de São Bento de Nursia (480-547) são sempre narrados a partir do que narrou o seu primeiro biógrafo, São Gregório Magno, e prescindindo dos inúmeros acontecimentos pressupostamente sobrenaturais que se lhe atribuem para potencializar a sua santidade, denotam-se as características de um verdadeiro Iniciado que soube impregnar de transcendência cada instante da sua vida, aproveitando as circunstâncias que se lhe punham ao alcance.

A Regra dos Mosteiros que lhe é atribuída, foi a única capaz de unificar as mil tendências cristãs em que vagava a vida cenobítica e eremítica no primeiro milénio do Cristianismo. A Regra Beneditina, acercando-se grandemente da Regra Latina do Templo (ambas constam de 72 capítulos mais um inicial ou intróito), demonstra o valor humano de uma transcendência à flor da pele, na qual todos os caminhos da Iniciação ficam abertos sem que, todavia, nenhum chegue a insinuar-se. Nela também se reserva o mistério da Tradição Primordial manifestando-se hermética ou subterraneamente, desde citações evangélicas precisas até ao número preciso e estrito dos capítulos que a compõem[23].

Realmente, os 72+1 capítulos da Regra de São Bento respondem a razões numerológicas em que intervêm as cifras 1+72, números chaves da Unidade integrada num conjunto múltiplo de 12 (12×6), por sua vez esquema cabalístico em que o 70 corresponde à letra hebraica Ayin, significando “Providência Divina”, como estado de alerta da consciência, e o 2 à letra Beth, relacionada com a sephiroth Chokmah, a do Filho, do Messiah, do Cristo como “Projecção Divina da Sabedoria” retida por aquela Milícia levando o nome do Salvador: Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo.

A própria Cruz da Ordem de Cristo contém em si o conjunto múltiplo de 12, nos lados dos seus triângulos ornando os extremos da Cruz Latina: 12 lados totais por 6 parciais dos triângulos laterais ou verticais, o que a faz corresponder ao valor 73 da Regra. Ela constituiu-se a partir do octógono (cujo valor 8, para a Cristandade, era indicativo da Perfeição), sendo possível observar que as serifas das hastes da cruz grega formam um ângulo de 45 graus com a sua base, e as linhas que compõem o formato do desenho do logótipo podem ser obtidas a partir da ligação com as rectas dos vértices do interior do polígono octógono, associado a linhas paralelas aos lados[24].

A Cruz de Cristo, tornada célebre com a Diáspora Marítima dos Portugueses no Mundo e que hoje é o ex-libris das Armas Nacionais, possui, com efeito, uma relação privilegiada com a simbologia tradicional que vem a revelá-la dotada das mesmas propriedades miraculosas já antes atribuídas à Cruz Templária (por se lhe atribuir a maioria dos milagres que ocorriam sob a sua invocação), e se até as cores de ambas é a mesma, o vermelho indicativo do Sangue Real de Cristo, também, como se viu, é igual o seu esquema geométrico. A única diferença notável é que apesar de ambas serem cruzes gregas as suas hastes são aparentemente diferentes, as do Templo evoluírem da forma de acha para triângulo naquelas da de Cristo, para designar as Divinas Pessoas da Santíssima Trindade. Esta última é, então, a verdadeira e salvífica Cruz de Cristo, heraldicamente solta ou navegante gravada nas naus da Diáspora Portuguesa, inspirada nos Preceitos de São Bento e nos Latinos de São Bernardo, como simbólica da: 1 – Intuitio, 2 – Sapientia, 3 – Magisterium, afinal, In Hoc Signo Vinces!

Se a Ordem do Templo possuiu na Península Ibérica uma missão desbravadora e semeadora de novos e mais amplos conceitos culturais, religiosos e sociais, contudo, seria a Ordem de Cristo a cuidar dessa mesma sementeira e colheita no crisol da evolução universal por via da expansão marítima, o que resultou na Lusofonia e na Lusofia em todas as partes do Mundo aonde o Génio Lusitano chegou.

Apesar de haver quem considere que D. Dinis tão-só pretendia fomentar a guerra com a moirama da Granada vizinha e para isso ordenou a instalação dos cavaleiros de Cristo em Castro Marim, “que era na fronteira dos mouros de Espanha e de África”[25], o facto é que eles, sediados desde 1319 na dita praça algarvia, não empreenderam qualquer acção militar contra o Islão granadense e muito menos atravessaram o mar para os ir atacar no Magreb. O mais que houve, em sucessos militares, foram as lutas de defesa da fronteira contra as pretensões ocupantes do rei de Castela[26].

Inteiramente ao avesso da crença ordinária nas intenções militares da Ordem de Cristo contra o Islão no Sul do País, creio antes que D. Dinis ao sugerir a sua instalação no Algarve pretendia estabelecer ou aprofundar os laços culturais e espirituais com a tradição arábica, rica em conhecimentos cartográficos, de navegação, matemáticos, astrológicos, etc., necessários a uma futura empresa de alargamento das fronteiras marítimas do reino. Para esse processo se tornar viável, o “Rei Lavrador” ordenou o plantio de pinhais (Leiria, Azambuja, Santarém, etc.) a fim conseguir a madeira suficiente para a empresa das naus que levariam em suas velas enfunadas a Cruz de Cristo aos confins do Mundo. Isto mesmo diz o Abade Correia da Serra[27]: “Encontram-se às vezes coincidências extraordinárias nos acontecimentos. Este mesmo soberano [D. Dinis], que com tanta solicitude tratou de reconstruir a Ordem [do Templo], plantou vastas florestas de árvores, próprias para a construção de navios, em terrenos incultos próximos do mar. Estes cavaleiros, e estas florestas, se tornaram, um século depois da sua morte, os imediatos instrumentos da grandeza da nação, e de uma das mais extraordinárias revoluções de que a História faz menção”.

O projecto marítimo idealizado por D. Dinis terá começado a amadurecer por volta de 1315-16. Foi por essa altura que o rei mandou procurar um sucessor para o então falecido D. Nuno Fernandes Cogominho, primeiro detentor do título de “almirante-mor”, e em princípios de 1317 (1 de Fevereiro) foi contratado o experiente navegador genovês Manuel Pessanha ou Pezagno. Logo no ano seguinte, Agosto de 1318, D. Dinis enviou os seus embaixadores ao papa para lhe apresentarem a proposta e petição de criação da Ordem de Cristo.

Na conjunção dessas duas diligências estarão os primeiros passos para o início da execução do projecto marítimo de D. Dinis.

Que ele não pretendia qualquer acção militar contra o Islão, bem o diz o longo e exaustivo contrato firmado pelo almirante-mor Pezagno, colocando em pé de igualdade tanto cristãos como mouros: “E prometo, por este juramento que faço, vos servir contra todos os homens do mundo, de qualquer estado ou de qualquer condição que sejam, tanto cristãos como mouros”[28].

Assim foi feito. Assim foram lançadas a terreno as sementes de um Império Temporal que atravessou os séculos e uniu os mais diversos povos, até hoje falando a língua única portuguesa. Sim, sem dúvida que D. Dinis era um Rei Iluminado, tanto pelo Ideal Templário que atravessou o seu tempo e de cuja Ordem terá sido donato, já que trovador e fiel de Amor certamente o foi[29], tanto quanto a sua real esposa, D. Isabel, passada à História como Rainha Santa, ambos cultíssimos do Divino Espírito Santo[30], ela que veio para Portugal impregnada dos ideais paracléticos do joaquimismo dominantes na corte ilustrada de seu pai, o rei Pedro III de Aragão, ideais esses igualmente presentes na Igreja Portuguesa, mormente no primaz Rito Bracarense, moçarábico de raiz e parúsico de fim, motivo da sua oposição, ou melhor, de boa parte do vicariato da Sé Portuguesa apoiada pela Coroa, ao Rito Romano, motivo religioso e político dos inúmeros anátemas papais aos reis portugueses, cujo conflito aberto e quase permanente arrastou-se até ao reinado de D. João I[31]. Com isso tudo, não é de excluir a proximidade da Rainha Santa às ciências herméticas, tendo mesmo chegado a ser discípula do alquimista Arnaldo de Vilanova, num ante-momento de peregrinação a Santiago de Compostela[32].

Não podia, pois, haver melhor casal real para lançar as bases da expansão portuguesa através da projectada Ordem de Cristo [33] que fundaria o Império Temporal de Portugal no Mundo, e, sobre ele, o ainda maior Império Espiritual que, este sim, nunca se desfez: perdura e perdurará enquanto houver o Pensamento e a Língua Portuguesa.

 

NOTAS

 

[1] Henrique Schaefer, Os Templarios e a Ordem de Christo, in História de Portugal, volume I. Porto, 1893.

[2] Vieira Guimarães, A Cruz da Ordem de Cristo nos Navios dos Descobrimentos Portugueses. Lisboa, Oficinas Fernandes, 1935.

[3] Fr. Pedro Álvares Seco, Livro da Regra e Definições da Ordem de Cristo, com Privilégios, Indulgências e Graças atribuídos pelos Pontífices e Reis. Reedição do original do século XVI coordenada por Joana Lencart, Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade (CEPESE), Porto, 2018.

[4] Esboços biográficos de D. Fr. Estêvão, por ordem cronológica da sua publicação: D. Rodrigo da Cunha, Catalogo e historia dos bispos do Porto, pp. 121-128, Porto, 1623, e Historia Ecclesiastica da Igreja de Lisboa, ff. 232v-236, Lisboa, 1642; Fr. Manuel da Esperança, Historia Serafica da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco na Provincia de Portugal, vol. II, pp. 234-238, Lisboa, 1666; Fr. Francisco Brandão, Monarchia Lusitana, vol. VI, pp. 151, 191-195, 433-435, Lisboa, 1672; José Augusto Ferreira, Memorias Archeologico-Historicas da cidade do Porto, vol. I, pp. 292-303, Braga, 1923; Fortunato de Almeida, Historia da Igreja em Portugal, vol. I, pp. 630-631, 633, Coimbra, 1910.

[5] In Monarquia Lusitana, Livro 18, cap. 25.

[6] “… que nós e vós nos paremos a o emparar [ao Templo] e a o defender contra todos aqueles que o quiserem demandar”, etc. Leia-se o tratado entre esses monarcas na Monarquia Lusitana, Livro 18, cap. 26.

[7] In España Sagrada, Tomo XXI, pág. 114 e segs.

[8] In Monarquia Lusitana, Parte VII, Tomo XXI, Liv. 4, cap. 3, num. 3.

[9] Veja-se o documento em Fr. António Brandão, Monarquia Lusitana, Livro 18, cap. 26.

[10] Amorim Rosa, De Tomar, p. 61, primeiro de dois volumes. Fábricas Mendes Godinho, 2.ª edição, Tomar, 1988.

[11] A presente transcrição é feita dos Anais da União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo, Volume 4, Junho de 1963, pp. 87-95, surgindo traduzida do latim. O original está na Torre do Tombo, Lisboa, incluído nos Livros dos Mestrados da Ordem de Cristo.

[12] Na carta pela qual ele ordena a entrega à Ordem de Cristo das povoações, dos castelos e lugares de Soure, Pombal, Ega, Redinha, situados na Estremadura e no Bispado de Coimbra, e de Idanha Nova e Velha, Salvaterra, Segura, Proença e Rosmaninhal, estes no Bispado da Guarda, diz o rei: “que a Ordem de Cristo se tinha feito em Reformação da Ordem do Templo, que se desfez”. – Viterbo, Elucidário, Tomo II, pág. 374.

[13] In Monarquia Lusitana, Livro 19, capítulo 4.

[14] O rei já tinha informado, pelos seus enviados, antes de publicar a bula de fundação, o papa do seu intento de fazer a dádiva de Castro Marim à Ordem de Cristo, motivo por que na bula se menciona essa povoação.

[15] In Monarquia Lusitana, Livro 19, capítulo 10.

[16] Ernesto José Nazaré Alves Jana, A actuação dos D. Priores da Ordem de Cristo durante o século XVI. In As Ordens Militares e as Ordens de Cavalaria na Construção do Mundo Ocidental. Actas do IV Encontro sobre Ordens Militares, 30 de Janeiro a 2 de Fevereiro de 2002. Edições Colibri – Câmara Municipal de Palmela, Lisboa, Fevereiro de 2005.

[17] Trata-se de Miguel António Dias, (1805-1878), criador do Rito Eclético Lusitano e autor dos Annaes e Codigo dos Pedreiros Livres em Portugal. Lisboa, 1853. Reimpressão em 1990 por “Sol Invictus Atelier”, Ericeira.

[18] Segundo Manuel J. Gandra, o Santo Ofício exigia, da consciência de cada cristão cumpridor, a denúncia de certas das suas próprias culpas, bem como, inclusivamente, as dos seus familiares e amigos. Foi esse o pregão lançado dos púlpitos e contido quer na Carta do Édito e Tempo de Graça de 20 de Outubro de 1536, quer no Monitório de 18 de Novembro do mesmo ano.

[19] W. Maigne, Dicionário Enciclopédico das Ordens de Cavalaria Civis e Militares. Editora Hugin, Lisboa, 2005.

[20] Maria Madalena Oudinot Larcher, A Ordem de Cristo e o Padroado na visão de um Cardeal Rei. Publicação subsidiada pela Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores. Fundação para a Ciência e Tecnologia, Novembro de 2016.

[21] Maria Isabel Rodrigues Ferreira, Fontes para o estudo da Ordem de Cristo: sumário de dois códices existentes na Torre do Tombo. In revista Lusitania Sacra, nº 22, pp. 223-244, Universidade Católica de Lisboa, 2010.

[22] Fr. Damião das Neves, Regra e Definições da Ordem e Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Lisboa, 1607.

[23] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[24] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010.

[25] Rui de Pina (Guarda, 1440 – Guarda, 1522), Crónica do Muy Alto e Esclarecido Príncipe D. Diniz sexto Rey de Portugal, segundo o códice inédito n.º 891 da Biblioteca Pública Municipal do Porto. Seguida da versão actualizada da edição pela Oficina Ferreiriana, 1729.

[26] Vieira Guimarães, Ordem de Cristo. Imprensa Nacional de Lisboa, 1936.

[27] Abade Correia da Serra (1750-1823), Os verdadeiros sucessores dos Templários e o seu estado em 1805. Texto inserto no volume II do periódico A Illustração – Jornal Universal, de 3, 10 e 17 de Julho de 1846. Foi impresso originalmente com o título Sur les vrais sucesseurs des Templiers et leur état actuel, nos Archives Littéraires de l´Europe, tomo VIII (1805), pp. 273-288, e sofreu uma reedição facsimilada de 36 exemplares em Lisboa, “no ano de 1890 da era de Roma por um fiel do Amor”.

[28] L. T. Belgrano, Documenti e genealogia dei Pessagno ammiragli del Portogallo. In Atti della Societá ligure di storia patria, tomo XV, pp. 241-316, Génova, 1881.

[29] Américo Cortez Pinto, Diónisos, poeta e rey. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa – Secretaria de Estado do Ensino Superior – Ministério da Educação, Lisboa, 1982.

[30] Fr. Manuel da Esperança, História Seráfica da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco na Província de Portugal, Lisboa, 1656.

[31] Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, tomo I, pág. 104. Coimbra, 1910.

[32] Sebastião Antunes Rodrigues, Rainha Santa, Cartas Inéditas e Outros Documentos. Coimbra Editora, 1958.

[33] Tudo o dito invalida a priori a legalidade canónica e histórica de hodiernas “ordens” templistas pseudo-cavaleirescas e afins, quase todas, se não todas, de inspiração maçonista do século XVIII, assim mesmo buscando na invenção de “mitos fundacionais” a regularidade de transmissão e continuidade do Templo à modernidade que nunca houve, apesar do retorço e distorço de factos soltos da historiografia, inclusive da religião e do hermetismo, para justificar o injustificável. Como dizia alguém, quando não se é militar, quando não se é religioso, quando não se é nobre, quando não se é coisa alguma mas se quer ser tudo e ser mais grande do que os Grandes o foram, resta a invenção de “ordens” templistas pseudo-cavaleirescas às quais René Guénon, com razão, chamou “ordens de paródia”. Destas algumas hoje parecem andar a parodiar, a gozar com a tropa e as autoridades religiosas e civis. Afinal não falta, nesta Kali-Yuga ou Idade Sombria por que o passa o Mundo, gente tão retorcida que até consegue vender óculos de sol a um cego… só não vê quem não consegue, ou tão-só não quer ver. Hoje, a Verdade é mentira e a Mentira é verdade. Para demasiados parece que uma roupa vistosa decorada com medalhas basta para fazer vistão e dar aspecto legal à coisa, e assim acontece com todo aquele despossuído do mínimo de conhecimentos verdadeiramente iniciáticos, sem despertar interior algum, apenas dotado de curiosidade mistérica ou talvez nem isso, pelo que só lhe resta parodiar o passado da História, cuja ingenuidade e vaidade fazem-no vítima de oportunistas caçadores de fortuna fácil marcados por vidas frustradas mas sabidos no encantar e alimentar a fraqueza de ego daqueles de quem se acercam. Infelizmente, confere.

Mestres Arquitectos – Arte, Segredo, Ideal (Civitas Sacer et Templum Sacrum) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Mar 13 2019 

A presença e intervenção das quatro classes tradicionais da sociedade medieval europeia, Clero (Oratore), Nobreza (Bellator), Burguesia (Burgus) e Povo (Laboratore), correspondendo às quatro castas tradicionais que na Índia são designadas de Brahmane, Kshatriya, Vaishya, Shudra, está patente mesmo aquém do mais vasto nacional, por exemplo, no nascimento de uma povoação, devendo estar de posse de todos os elementos naturais necessários à sua sobrevivência e desenvolvimento: águas férteis, umas para pescaria e outras para consumo, terrenos ricos para agricultura e pastorícia, localização geográfica propícia a defesa militar eficiente, etc.

Tal hierarquia social, em conformidade ao padrão tradicional, assim se dispunha originalmente:

Ao Brahmane (Sacerdote) correspondia a “qualidade subtil de matéria” (Guna) denominada Satva (energia centrífuga, correspondendo ao Espírito); ao Kshatriya (Guerreiro) correspondia Rajas (energia rítmica ou equilibrante, afim à Alma); o Vaishya (Mercador) era o elo de ligação entre Rajas e Tamas, no que se caracteriza pela energia psicofísica; o Shudra (Povo) era afim a Tamas (energia centrípeta, próprio da agregação dos elementos do Corpo).

Observa-se assim, na cúspide da antiga hierarquia social, o Clero como detentor original da Autoridade Espiritual que a Sabedoria Tradicional lhe conferia. Tal Sabedoria outorgava primazia ao Clero que, pelos seus mais doutos nos saberes tradicionais, mormente na Geometria e Arquitectura sagradas, destas se serviam como Monges-Construtores para a fundação de todo e qualquer povoado, muito particularmente dos edifícios sagrados que eram os primeiros a ser construídos, fazendo-se uso do principal conhecimento tecnológico dos arquitectos da Idade Média: a Geometria Pitagórica (Junta à Teomância), na qual a raiz ou base sobre a planta original era sempre a “charada” da “Quadratura do Círculo”, mas também da “Circulatura do Quadrado”, fixando como centro do povoado a nascer a igreja matriz, cercada por paliçada ou muralhas que se iriam desenvolver como fortaleza, esta dando protecção ao povoado arredor que logo ao início era ordenado em quatro artérias principais, com toponímias significativas (Rua do Norte, Rua do Poente, etc.), como ainda se verifica em diversas povoações do país que mantêm a feição primitiva do seu “omphalo” ou ponto imagético de nascimento, por norma a partir do “Largo da Matriz”[1].

Sendo a igreja matriz atravessada perpendicularmente pela linha imagética ou via principal norte-sul, chamada cardo, do povoado, ela constitui o centro de uma cruzeta feita por outra linha imaginária lateral ou recta nascente-poente, chamada decumano. Esse centro ou rossio leva de nome mundus[2]. De maneira que aplicando a geometria sagrada do círculo e do quadrado, e vice-versa, na génese de uma povoação, disponho-os da maneira seguinte:

Em Simbologia Tradicional (Neose), o círculo representa o Céu, o Espírito; o quadrado expressa a Terra, a Matéria. Neste particular, o círculo está para a população e o quadrado para o povoado. Em um sentido mais lato, conformado ao princípio de analogia, tem-se o Arquétipo (círculo) que se traduz por Ideia Prima, sendo a Solução, e o Protótipo (quadrado) traduzível como Mística, cuja Tradição ou “Movimento Cíclico” do Pensamento Humano ordenado sob uma Ordem natural e deifica, perfaz a Combinação, até conseguir – ou volver pelo processo evolutivo à Perfeição do Arquétipo – a Solução, o retorno à Origem. Nisto se consubstancia a Formula Mentis Lusitanea, a “Fórmula Mental Lusitana”, base do Pensamento e Filosofia Portuguesa[3].

A “Combinação” tradicional apresenta-se pelos vários Movimentos de Sabedoria Arcana que têm surgido ao longo dos Tempos acompanhando a Marcha Evolucional da Civilização de Oriente para Ocidente, neste encontrando-se em Portugal, exactamente em Sintra como ponto de encontro dos dois hemisférios geográficos do Conhecimento Tradicional e “alavanca de Arquimedes” vital à sua projecção no 5.º Continente, a América do Sul, em que o Brasil se perfila destacado como continuador, no Porvir, da Obra Divina começada em Portugal e que nele terá o desfecho cíclico, por via de um mesmo Pensamento e Língua Lusitana, tanto no plano do Sagrado como no do Profano, dando assim a “Solução” ao Futuro imediato do Mundo, a “Solução”, enfim, à Evolução Global do mesmo. Esta é a Arquitectura Mental Iluminada dos Maiores do pensar e falar Português desde os inícios do século XX, com os notáveis do Movimento do “Orpheu” à dianteira, sobressaindo deles a figura incontestável de Fernando Pessoa. Mas tal Arquitectura Mental era já (re)criada nos séculos anteriores no mesmo espaço edénico sintrense, colando o telúrico ao cósmico que a arqueoastronomia testemunha, por exemplo, na arquitectura do Palácio da Pena tomado como molde da constelação da Ursa Menor cuja estrela-alfa é a Estrela Polar.

Essa Arquitectura Mental também foi utilizada no Passado para se criar o Presente. Ela se fixou e ficou na tradição e memória dos pósteros como Arquitectura Sagrada. Já disse que antigamente construía-se primeiro a igreja e só depois o povoado, ao contrário de hoje: faz-se a cidade e após, se algum espaço sobrar, virá a igreja. Isto está conformado à dessacralização social. Mesmo assim e procurando algum templo, preferencialmente cisterciense por ser abrigo predilecto dos primitivos Monges-Construtores, acaso “sobrado” da Idade Média, com a grande sorte de ter sobrevivido ao camartelo brutal dos modernos – preterindo-o por alguma nova “catedral” futebolística ou centro comercial, espaços de recreio desnaturalizados que isenta o urbano de proximidade ao campo – e a custo o achar, abandonado entre as novas “babéis” que são os arranha-céus repletos com todos os luxos indispensáveis ao “novo-riquismo”, irei tomá-lo como exemplo de Arquitectura Sagrada recuando no espaço e no tempo ao momento em que a Sociedade e o Homem estavam naturalmente integrados em um mesmo lugar e tradição sagrados, por se integrarem, tanto topográfica como demograficamente, no divino biorritmo da própria Natureza, afinal, a Mãe Soberana de todos os seres viventes que, para eles estarem bem e Ela bem estar, necessitam respeitar-se e viver em harmonia recíproca.

De maneira que tomarei por exemplo máximo da Instituição dos Monges-Construtores medievais aquela que mais deles albergou em seu seio: a Ordem de Cister, tendo andado de intimidades com a Ordem dos Templários da qual foi a “Escriba” e ela, por sua vez, a “Arquivista”, ambas constituindo o Templis Sapientia Sacratum não raro também Secretum. Ou seja, Cister foi a mestra do Templo, e no secretum de muitos esquissos, por exemplo no da Sé Patriarcal de Lisboa, aninham-se veladas ideias sinaléticas da mais pura e profunda Tradição Iniciática de que dou exemplo seguinte do sentido esotérico ou hermética da planta da Sé de Lisboa:

Por norma, onde havia um priorado ou um bailio templário havia (ainda que nem sempre, ressalve-se) um mosteiro ou uma abadia cisterciense. Os cistercienses acompanharam desde a origem os templários, instruindo-os e compartilhando a sua geografia sagrada, instalando-se em enclaves geralmente nas encostas ou nos vales, estes como se fossem cabalísticos vaus, encravados teluricamente como “pontes” ou pontos intermediários aos Mundos Espiritual e Terreno.

Isso vai bem com a definição de Pontífice dada por São Bernardo de Claraval, como sendo a etimologia da palavra latina Pontifex, uma espécie de “ponte entre Deus e o Homem” (in Tractatus de Moribus et Officio Episcoporum, III, 9)[4]. Mas, neste caso, a “ponte” entre a Comunidade de Fé visível e a Comunidade de Perfeição invisível.

Os cistercienses ou bernardos, trajando de branco tal como os templários, obedeciam à Regra Trinitária de São Bento, mas reformada desde a Reforma de Cluny (iniciada no ano 910), sobre a qual Robert de Champagne da abadia de Molesme, monge cluniense ou de Clúnia, instituiria depois, em 1075, a Estrita Observância. Tendo os cistercienses saído dos clunienses e estes dos beneditinos, por esta razão  aqueles primeiros hábito idêntico ao dos últimos, mas de cor diferente: inicialmente castanho logo passou a branco, com escapulário castanho (e depois preto)[5].

A Ordem de Cister teve a sua origem em França, na abadia de Citeaux (em português, Cister; em latim, Cistercium), na comuna de Saint-Nicolas-lés-Citeaux, Borgonha, em 1098, por Robert de Champagne, abade de Molesme. Ele e alguns monges terão abandonado Cluny para retomar a Estrita Observância da antiga Regra Beneditina, como reacção ao relaxamento da Ordem Cluniense. Passado pouco tempo, acolheria o que viria a ser o mais proeminente da Ordem: Saint-Bernard, abade de Clairvaux (Claraval) que fundara em 1115, tornando-se filial de Citeaux.

Saint-Bernard ou, em bom português, São Bernardo, é quase unanimemente reconhecido como o verdadeiro guia espiritual da Cristandade durante cerca de 40 anos. Mal haviam passado cinco anos da sua entrada em Citeaux,  logo se apressou – face à deterioração crescente no seio da comunidade desde o cisma havido entre cistercienses e clunienses, aqueles mais conservadores e estes mais liberais – a inspirar as Constituições da Ordem de Cister (1120), reorganizando esta em função de duas razões fundamentais à sobrevivência da unidade monástica da Ordem: por um lado em reacção contra Cluny, restabeleceu a austeridade da Regra tanto no mosteiro como na vida dos monges; por outro lado, mostrando abertura ao progresso imparável, adaptou a vida da Ordem às novas condições sociais e económicas. Foi assim que os monges de coro, saídos da aristocracia, consagrou-os aos exercícios espirituais, enquanto os conversos, de origem camponesa, encarregou-os da manutenção física da comunidade, através da agricultura e do pastoreio.

São Bernardo em iluminura cisterciense do século XIII

Após a morte de São Bernardo de Claraval, em 1153, a Ordem de Cister conheceu a mesma evolução que Cluny: a sua opulência colectiva tornou-se flagrante, tendo a pobreza monástica se tornado incompatível com a riqueza temporal. Além disso, com o desprezo às actividades intelectuais, que outrora caracterizaram Cister (ainda assim se tendo mantido em Portugal, nomeadamente em Alcobaça, segunda Casa Mater da Província, já que a primeira foi São João de Tarouca, e desde a Reforma implantada por São Bernardo que os cistercienses passaram a ser chamados no país de os bernardos, tendo a sua Sede Primacial em Claraval), deixou-se de responder às aspirações de uma sociedade já menos rural e mais urbana, mais ávida de saber do que de crer.

Em Portugal, sem dúvida tomou primazia bernarda a Casa-Mãe de Santa Maria de Alcobaça (topónimo derivado da bifurcação cisterciense do rios Alcoa e Baça, onde se situa o edifício), foro de lendas e tradições, fundada a mando directo de São Bernardo, cuja cerimónia de lançamento da primeira pedra (2.2.1140) foi encabeçada pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, sobrinho do abade santo. Esse foi o Mosteiro Velho, e este Mosteiro Novo que hoje se vê, reconstrução  ou amplianção daquele recuando a 1178. Além do sentido toponímico dos rios da bifurcação próxima que deram o nome a Alcobaça, esta também terá a ver com o aramaico Alaku-Batha, cuja variante Alku-Batza transfere ao sentido de Espírito (Al) Santo (Aku), a quem esta Casa Abacial seria consagrada com o seu vasto couto comportando treze vilas, motivo suficiente para Frei Bernardo de Brito, na Crónica de Cister (1602), a consignar de Nova Jerusalém. Ateste-se ainda que a Real Abadia de Alcobaça é em sua planta a reprodução fiel das abadias de Citeaux e Clairvaux, concentrando no seu corpo muito do saber hermético da época, como se repara logo ao início na sua fachada dianteira, apesar dessa já ser barroca posterior.

Em 1145 floresciam no Ocidente mais de 350 mosteiros cistercienses, tal a influência de São Bernardo junto da Cúria e das Cortes da Europa, arrastando multidões devotas consigo. Observa-se que o traçado do mosteiro andará sob a influência da austeridade de Bernardo: a sua fachada não é ornamentada, é nua, simples, com o espírito de renúncia banhando por inteiro a igreja. Pela sua estrutura única, pelos ritmos da sua construção, pela sua disposição simbólica, a igreja cisterciense é feita a conduzir o espírito às alturas místicas. À luz do dia traça os caminhos da contemplação. Nenhuma tensão vertical, nem orgulho, só um equilíbrio acordado às medidas do Universo.

Como ele todo o mosteiro medieval (seja de que Ordem for), em cuja volta eventualmente nascerá um povoado, tradicionalmente seguia sete regras básicas para a sua feitura, como Ars Secretum da primitiva Maçonaria Operativa dos Construtores-Livres ou Monges-Construtores. São elas: 1.ª) escolha do sítio; 2.ª) determinação do eixo vertical; 3.ª) orientação do espaço ou quadrado do Céu; 4.ª) quadratura do círculo primitivo ou quadrado da Terra; 5.ª) construção; 6.ª) consagração; 7.ª) utilização.

Os Anjos Construtores (Massenia Angélica) gizando o espaço em que levantará o templo  (projecção horizontal ordenada do Universo). – Silhar de azulejos (século XVIII) na Sala dos Reis do Mosteiro de Alcobaça

Tal como o Espírito governa a Matéria, o eixo vertical organiza o espaço horizontal. Esse é uma coluna ou padrão plantado no solo, no sítio escolhido, que vai revitalizar as características telúricas do lugar, à semelhança da acção das agulhas de Acupunctura. O acto litúrgico da incarnação consiste então na edificação da coluna, realizada pelo Mestre de Obra que age como um sacerdote.

Sobre a base do círculo incarnado pela coluna, o Mestre de Obra (Mundus) traça um círculo que manifesta o horizontal. Por definição, o círculo não possui orientação. Ao levantar e pôr-do-sol, a sombra da coluna que se projecta sobre o círculo marcará dois pontos que determinarão o primeiro eixo do templo.

Esse eixo primitivo que orienta o círculo de Este para Oeste, é chamado decumanus. Em função da data escolhida para esse rito, é possível declinar esse eixo para ficar em relação com os cardeais magnéticos. A data retida no ciclo sazonal marcará a que Orago se irá consagrar o templo.

A posição zenital do Sol marcará, pela sombra do padrão, o cardus ou eixo Norte-Sul.

Essa operação simples faz intervir a mão do Céu para orientar o espaço. A cruz cardinal reconstitui as diagonais do quadrado do Céu: o espaço é qualificado.

A orientação do espaço

A operação seguinte visa estabelecer um segundo quadrado inscrito no círculo primitivo e que fixará pelos seus ângulos a posição dos grandes pilares do cruzeiro do transepto. Esse quadrado terrestre, estabelecido em oposição ao quadrado celeste, realiza o espaço de sustentação do templo. O quadrado da Terra é, pois, o complementar daquele do Céu.

Falta então inscrever no círculo primitivo um espaço quadrangular que fará o módulo geométrico do edifício, ou seja, a largura da nave e do transepto. Esse módulo será traduzido nos dois eixos E.-O. e N.-S. dando todas as proporções do templo de acordo com a “proporção dourada”, ou seja, o “número d´ouro” pitagórico em que assenta a Quadratura do Círculo: 1.618.

O primeiro quadrado ou quadrado do Céu dá a orientação fixa, a consagração, isto é, a Vontade do Céu. O quadrado da Terra é aquele da incarnação do princípio Celeste.

O módulo, uma vez fixado, é traçado com a ajuda de dois círculos do mesmo diâmetro centrados sobre os pontos de intersecção do eixo E.-O. com o círculo primitivo.

O quadrado da Terra no esquisso da catedral

O espaço orientado torna-se o centro das seis direcções do Universo cujo ponto central é materializado pela coluna do centro do círculo primitivo. Terminado o traçado de base a coluna é destruída, mas a sua função de Eixo do Mundo será assegurada pela seta, no centro do cruzeiro, como se fosse uma verdadeira “antena cosmo-telúrica” do templo.

O casamento dos dois quadrados do Céu e da Terra produz o octógono (como se vê num silhar de azulejos na Sala dos Reis do Mosteiro de Alcobaça) que se encontra, por exemplo, na forma dos antigos batistérios ou nos campanários das igrejas românicas.

Se o traçado inicia do cruzeiro à coluna, a construção, pelo contrário, começa pela abside, ou seja, pelo Este marcando o Nascimento do Mundo – o Sol Levante.

O mesmo acontecia nas comunidades rurais dirigidas por monges: o mosteiro estava direccionado no sentido E.-O. e o povoado no de N.-S. Pouco importava se o curso das águas acaso seguisse direcções diferentes, o que importava era a manutenção dessas coordenadas canónicas para o colectivo humano de que o mosteiro, envolvendo a igreja, é a expressão estática, ou seja, a representação fiel do universo espiritual em permanente actividade.

Passo de seguida às coordenadas do templo de conformidade com o estabelecido na Arquitectura Sagrada dos Monges-Construtores, dando assim livre feição artística – por via da geometria dos símbolos cujo significado só eles conheciam mas parecendo, não raro, andarem coladas às mais heterodoxas doutrinas consentâneas com o Hermetismo da época – aos lugares de culto da Cristandade medieval.

Mestre Construtor medieval (século XIV) num dos ângulos da Sala do Capítulo do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha

O plano do solo do templo é uma projecção horizontal ordenada do Universo. Na razão da orientação solar, cada ponto cardinal indica uma posição extrema do ciclo sazonal e diário, pondo assim o Tempo em movimento harmónico com o Espaço.

O percurso do templo reproduz o ano solar, ritmado pelas fachadas. Este é o caminho que conduz das Trevas à Luz.

Na concepção teológica judaico-cristã, o Outono ou Crepúsculo está a Oeste; o Inverno ou Meia-Noite, está ao Norte; o Amanhecer ou a Alva da Primavera, ao Este; por fim o Verão ou Meio-Dia, ao Sul. Esta dinâmica do espaço é utilizada no calendário litúrgico: assim, em função do momento do ano ritual, certas portas são abertas e outras são fechadas (por exemplo, na Catedral de Santiago de Compostela os peregrinos entram no mês de Julho pela “santa porta dos perdões” na fachada sul, a qual está fechada durante o resto do ano).

Ainda que essas coordenadas já não sejam as originais da Tradição Iniciática das Idades, mesmo assim são as adoptadas pelos referidos cânones litúrgicos judaico-cristãos desde a Baixa Idade Média, copiadas dos romanos decadentes que as copiaram da Grécia decadente, tendo perdido as verdadeiras chaves da Arquitectura e Geometria Sagradas que receberam por legado do Egipto e este da Índia, com alter-ego no Tibete. Por isso e seguindo a concepção adoptada pela Igreja que a recebeu dos Mestres-Construtores, aos quais albergou mas cujo pensamento iluminado ou ideal de perfeição perseguida ela geralmente desconhecia, irei reter-me na leitura do sentido sagrado das mesmas coordenadas conforme o Judaico-Cristianismo.

O Norte é o lugar menos iluminado do templo. É o frio, as trevas, o mundo invisível representado pelo mundo subterrâneo ou a cripta. Toda a simbólica do portal norte é geralmente consagrada às origens estelares, à Estrela Polar. A sua cor simbólica é o azul escuro que, em princípio, encontra-se como tonalidade de base da rosácea norte. O tema desta rosácea é desde logo consagrado à Mãe do Mundo e o número governador do seu crescimento geométrico é o 8, designando a Eternidade e o Infinito (o número cabalístico do Cristo é o 608).

Nesse estado cosmogónico, a semente da Criação ainda não saiu da sua Matriz Cósmica. Tudo está ainda na Grande Noite. O Norte indica o Nadir ou o “Sol da Meia-Noite” assinalado pela sacristia, pequeno espaço privado onde o “Sacro-Cristo” se recolhe antes da Liturgia da Vida.

O Este indica o princípio do Mundo – é aí que o Sol se levanta pela primeira vez. Está associado à Árvore da Vida. A sua cor simbólica é o verde que, no arco celeste, separa o amarelo do azul, tal como o Este “separa” o Sul do Norte. Esta região do templo é também aquela do altar-mor que recebe o primeiro raio do Sol da Manhã.

A Semente da Criação germinou e o Jardim do Éden está verde de caules e folhas. O Este igualmente aponta a direcção de Jerusalém, sobretudo da Jerusalém Celeste. Único espaço curvo do templo, ele focaliza a potência do Sol Nascente (Cristo Levante) e expande-a em todo o edifício.

O Sul marca o Zénite solar, o apogeu da Criação e a sua frutificação. É o Ser, a Natureza manifestada e harmonizada. O Sul representa o Dia Eterno, tal como o Norte a Noite Eterna. O Cristo em Glória surge ao Sul, enquanto Rei e Sacerdote da Terra e do Céu, pelo que esta coordenada se associa à Realeza e ao Ministério de Melki-Tsedek. A cor simbólica que se lhe identifica é a amarela, e o número que governa aqui é o quatro, imagem da Ordem, da Harmonia e da Estabilidade do Mundo Organizado – tem a ver, também, com o lugar do Evangelho, do Verbo manifestado.

O Oeste é a região do recolhimento, da morte, da “queda” do Sol nas Trevas (Cristo descendo aos Infernos… o Oeste; Cristo indo para o Deserto ou Trevas do Mundo… o Norte), ponto de contacto entre o Dia e a Noite, a Vida e a Morte, o Visível e o Invisível, e também do Profano e do Sagrado (a dúplice e principal saída, mas também entrada do templo). O Oeste é o Outono do Mundo, o Fim dos Tempos (melhor dito, o fim de um Ciclo Cósmico pelo dealbar de outro, esse indicado no templo pelo Este oposto do Oeste, tal como a Vida se opõe à Morte).

A Semente volta a recolher-se ao subsolo para a sua longa noite que lhe preparará um novo nascimento, a Este, pela Primavera. Lugar consagrado ao Juízo Final e ao Apocalipse, a sua cor é o vermelho púrpura igual à do Sol que se recolhe (Occidens). O número canónico do Oeste é o 12, valor igual ao do percurso do Sol pelo Zodíaco, donde a rosácea oeste geralmente apresenta temário zodiacal cerceando o Padre Eterno, por vezes da figura pantocrática do Filho.

Devo também falar da porta do Tempo, que é o percurso do Sol na nave de Este a Oeste, pondo em movimento o Tempo no Espaço sagrado.

O decumano determina o eixo Humano do edifício, que é dizer aquele do futuro, do nascimento à morte, estados associados respectivamente ao Este e ao Oeste. A entrada pelo portal Oeste permite levar o Tempo da morte à vida, isto é, do profano, situado fora do recinto sagrado, ao Este, às Origens Primordiais.

O cardo representa o eixo da Eternidade e o cruzamento do Tempo e da mesma Eternidade no lugar sob o fecho da abóbada, este que é a pedra angular, fundamental, de todo o templo.

Fecho de abóbada da da Charola Templária do Convento de Cristo, Tomar

Sendo o Templo a expressão estática do Homem Cósmico, logo o plano do seu solo representa, antes de tudo o mais, o Corpo do Homem Cósmico, ou seja, Adam-Kadmon como Terceiro Trono ou Espírito Santo plasmado na Matéria assim Sagrada. É importante precisar que o modelo do edifício é absolutamente independente da escolha da cruz, seja latina ou grega, pois que isso fica a cargo da Igreja em que se está, a Ocidental ou a Oriental. Importa, sim, que se fixe a cruz, para que o espaço seja efectivamente sagrado por configurar esse mesmo Corpo de Deus, o do Homem Cósmico na Terra.

Cada parte do templo possui as qualidades assimiláveis às partes do corpo humano. O círculo absidal representa a cabeça, o cruzeiro da nave e do transepto, o coração, que é dizer, a vida que late no edifício. Quanto à fachada oeste, ela representa os pés de Adam-Kadmon. Segundo a Acupunctura, a planta dos pés dá uma imagem reduzida dos órgãos e funções do corpo humano. No templo, a fachada oeste reproduz os princípios e funções de toda a construção. Os pés de Adam-Kadmon recordam também aqueles do peregrino. Toda a doutrina espiritual opõe-se severamente às manipulações leigas e profanas, e será nela que o neófito deverá procurar conhecer o percurso que pretende realizar antes mesmo de, efectivamente, entrar na Via. Pela leitura da fachada oeste o neófito é informado do conteúdo espiritual do percurso iniciático que deverá efectuar no templo.

Toda essa disposição cria um estado de “simpatia vibratória” entre o Homem e o Cosmos. A entrada no templo corresponde à entrada no corpo do homem, ou seja, uma introspecção. Trata-se, de facto, da tradução judaico-cristã do “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”.

Desde a fundação de Cister, sobretudo depois pelo extraordinário impulso incutido na Ordem pelo borgonhês Bernard de Fontaine, filho de Alef, dama da Corte, ou seja, São Bernardo, parente do seu conterrâneo Conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, que as abadias ricas auxiliavam os mosteiros pobres.

O tipo geral de uma abadia cisterciense consistia: igreja, incluindo um vasto coro ao mesmo nível, claustro, capítulo, refeitório, cozinha, dormitórios (celas), sala, celeiro, alas circundantes. O claustro, ao centro, comunicava com a igreja e restantes dependências.

A Casa-Mãe cisterciense de Claraval e as suas abadias na Província de Portugal (composição de Virgínia Paccetti)

A Regra de São Bento, inspiradora de Cluny e de Cister, para a Província de Portugal, estipulava que:

– Os monges repartissem o tempo entre o trabalho manual, o intelectual e a oração;

– Os monges vivessem em clausura perpétua;

– Respeitassem o silêncio;

– As abadias cistercienses devessem ficar isoladas;

– Devessem ser edifícios modestos, pouco ornamentados;

– As monjas e a abadessa não poderiam sair do mosteiro exclusivo a mulheres, onde só entravam priores de Cister para administrar os sacramentos, visitadores da Ordem, o rei, que podia fazer-se acompanhar de três pessoas idóneas, o infante, o bispo e o abade de Santa Maria de Alcobaça, podendo cada um destes levar consigo duas pessoas honestas, e o médico e artífices, mas sempre acompanhados de dois religiosos;

– Dormir no chão;

– Diariamente alimentar-se apenas de meio quilo de pão e dois pratos de legumes;

– Nunca deveriam comer carne, peixe ou lacticínios;

– Obrigatoriedade de se vestirem com um simples hábito branco de tecido áspero;

– Obrigatoriedade de ir ao coro e manter o silêncio e perfeição de vida nas cerimónias.

Em nenhum outro país a Ordem de Cister exerceu tão grande e duradoura influência como em Portugal. Até ao século XVII foram edificados no nosso país mais de trinta mosteiros cistercienses, uns para monges, outros para monjas, todos em uma especial devoção à Virgem Maria (Virgo Mariam). Também todos os mosteiros das Províncias de Cister estavam subordinados ao Abade Geral em Claraval, e dentro de Portugal ao Abade Provincial em Alcobaça – por sua vez prestando contas directamente ao Geral da Ordem – que era eleito dentre os seus pares da Província, depois confirmado pelo Geral e até, excepcionalmente, pelo Papa.

Morte (dormição) de São Bernardo. – Obra de Mestre Castilho dos monges barristas do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça

Os monges cistercienses nunca atingiram, na época moderna, importância semelhante à que haviam obtido na Idade Média. Já no século XVIII se manifestavam grandes sintomas de decadência. As invasões francesas e as lutas liberais, em Portugal, vieram precipitar essa decadência, culminada com a extinção das Ordens religiosas em 1834. Nesse mesmo ano, os mosteiros masculinos foram vendidos em hasta pública, sem o mínimo pudor da política jacobina chamada “mata-frades”. Da maioria deles hoje restam só as igrejas, havendo casos de convertidas em paroquiais, e algumas construções arruinadas, ou então as melhores usurpadas pelo Estado, com a implantação da República, para nelas, sem que os donos legítimos fossem tidos e ouvidos, por custo mínimo ou nenhum instalarem hospitais, asilos, quartéis, tribunais, penitenciárias, etc. Pelo contrário, os mosteiros femininos não foram extintos, contudo ficou interdito o recrutamento. Assim, as comunidades monásticas desapareciam quando vinha a falecer a última monja, ainda que alguns desses mosteiros tenham chegado intactos até aos nossos dias, mas já sem a presença secular.

Enfim, passa-se que tal como o Homem também as Ordens nascem, crescem e fenecem, desaparecendo para sempre da ribalta do mundo, mas não sem que antes o maior dos cistercienses, Bernardo de Claraval, inspirasse a Regra e depois o Elogio da Nova Milícia dos  Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão.

 

NOTAS

 

[1] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[2] Maria João Madeira Rodrigues, Pedro Fialho de Souza, Horácio Manuel Pereira, Vocabulário técnico e crítico de Arquitectura. Quimera Editores, Coimbra, 1996.

[3] A grande matriarca das letras da Alma-Mater ou Lusa Mátria, como lhe chamava o Padre António Vieira mas aqui Dalila Pereira da Costa, constitui tríptico com o mesmo processo, ainda assim usando de designação diversa mas significativa: Mito – Revelação – História. In A Nau e o Graal, Lello & Irmão Editores, Porto, 1978.

[4] Cf. René Guénon, O Rei do Mundo. Espiral Editora, Lisboa, 2019.

[5] Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2003.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

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Infante Henrique de Sagres (Algaraviana Hermética) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Fev 6 2019 

Vulto imponente de nossa História, Mestre por excelência, “alumeado pelo Spiritu Sanctu naçido en et movido no divinal mistério», no dizer do seu cronista, Gomes Eanes Zurara[1], o Infante D. Henrique de Borgonha e Lencastre foi incontestavelmente o pensador e grande arquitecto da Epopeia Marítima que depois se conviu chamar, muito apropriadamente, de Gesta Henriquina, incarnando em si mesmo a potencialidade messiânica ou avatárica do mesmo Espírito Santo, ou seja, o Terceiro Logos Shiva ou Siva, anagramaticamente Avis, cujo atributo é a Omnipresença de Si mesmo, Deus revelado em Aspecto Feminino com o atributo genesíaco das Águas (Maris Nostrum).

Se na Santíssima Trindade cristã está-se em presença do Pai, Filho e Espírito Santo, entre os primitivos gnósticos já a Hipóstase remanescente era a Mãe: Pai, Mãe e Filho, assumindo assim o Espírito Santo um aspecto mediador ou psicopompo como Alma entre o Espírito e o Corpo. No Egipto mítico e iniciático, Osíris, o Pai, reflecte-se no Filho, Hórus (o lado tangível ou material, tanto que o faraó era a Ele identificado), através de Ísis, a Mãe, o Elo ou Mediadora entre os Mundos. Na tradição islâmica, que não aceita a Trindade e sim a Unidade fundamental e indivisível de Deus, o Espírito Santo é identificado com o Arcanjo Gabriel (Jibraîl), o mesmo que ditou o Corão a Maometh e que, seiscentos anos antes, havia anunciado a Maria o nascimento do Messias Jeoshua (Nabi Iça, o Profeta), como é relevado no mesmo Corão, capítulo XIX, suratas 16 a 35. Ainda assim, algumas correntes islâmicas concebem perfeitamente a noção materna existencial de Allath, a forma feminina de Allah (Deus), donde o carinho particular, por exemplo, por Fatmah (Fátima), a quinta filha do Profeta por não poucos associada à mesma pessoa da Mãe Divina, possuído de predicados iguais aos de Ester entre os hebreus.

Como uma veste do Verbo Divino (do Sopro, Ain-Soph, etc.), o Arcanjo Gabriel aparece, portanto, inteiramente relacionado com uma função feminina, ou com o Aspecto Feminino da Criação, como seja aquela da expressão da Revelação em si mesma como acção intermediária entre o Divino e o Humano, a ponte criada (concebida, com forma) entre a ideia primordial e o conceito manifestado, ou por outra, entre o Mundo das Causas ou Vénus Nutridora (Shukra, “celeiro” do Akasha ou Éter) e o Mundo dos Efeitos ou Lua Nutriente (Soma, “seara” de Kama ou a Emoção), de maneira que a Lua expressa Vénus que assim é como o seu Sol. Do mesmo modo, o ser humano passa de lunar a solar pela Iniciação Real, tornando-se de “Filho de Mulher” em “Filho do Homem”, o que acontece no plano imediato quando a mulher concebe: deixa de estar sujeita ao ciclo lunar (Terra) para entrar no ciclo anual (solar) de Vénus, pois que o ano venusiano dura nove meses terrestres.

No Novo Testamento, Maria e os Apóstolos, no Pentecostes, são tocados pelo Espírito Santo, passando a ter o poder de falar todas as línguas, de curar enfermos, de falar com a Sabedoria do Filho e explicar a Revelação em todas as linguagens. Seguindo o prodigioso ensinamento do sede iguais a Mim assim como Eu sou igual ao Pai, seria forçoso que qualquer místico cristão, em qualquer época, entendesse que quando se fizesse igual ao Mestre teria o Poder e a Sabedoria do Mestre, isto é, daria nascimento ao Cristo dentro de si, como Maria, sendo, portanto, tocado pelo Espírito Santo. E, verdadeiramente, assim acontece em qualquer época, porque o Filho não é mais que o cíclico Avatara de Vishnu, como se consigna no Oriente, ou seja, a face visível do Pai (Brahma), o Eterno, o Sem Nome, cujas formas são infinitas justamente por não possuir forma objectiva alguma, como Essência Divina que é. Sendo assim, o Iniciado – cristão ou não, pouco importa – que se fez igual ao Mestre é igualmente tocado pelo Espírito Santo, tradicionalmente alegorizado por uma Língua de Fogo, justamente porque se acendeu nele a Luz Única, o Poder Mediador, Transformador e Construtor, não particular ou monopólio de qualquer religião no mundo; ele não é o Verbo mas fala por Ele, como João Baptista, São Paulo, etc., e é esse Poder Transformador, sem intermediários, a plena liberdade da mente humana iluminada por dentro, mas funcionando integrada na responsabilidade imposta pela Lei que a tudo e a todos rege, e que é anunciada pelas profecias relativas à Idade do Espírito Santo. Essa era a verdadeira revolução espiritual que estava em curso nos séculos XIII, XIV e XV, num mundo medieval à beira do seu fim onde alguns bravos de espírito o arremessaram numa nova Idade de Luzes, dentre eles destacando-se o Infante Henrique de Sagres[2].

Mestre Supremo da Soberana Ordem de Mariz (Allath-Maridj), pouco importa que a História a desconheça por inteiro, 8.º Grão-Mestre e Administrador da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, estabelecedor em Tomar da britânica Ordem da Jarreteira, modelo da posterior a Ordem do Cardo, igualmente britânica, ambas tendo por Patrono São Jorge, o Infante D. Henrique elegeu por Orago de sua vida e obra o Divino Espírito Santo na figura da Mãe Soberana mas encoberta sob a “letra que mata”: a Virgem Negra (Nigro Virgo igual a Hermeticum Maris, simbolizada pelo Mare Incognitus, neste contexto designativo do Mercúrio Filosófico do Hermetismo).

Infante Henrique de Borgonha e Lencastre (1394-1460)

Filho do rei D. João I e da rainha D. Filipa de Lencastre, terá nascido na cidade do Porto em 24 de Novembro, ou em Dezembro, de 1394 e vivido largo tempo em Viseu e em Tomar, mas tendo sido no Algarve, no périplo envolvente de Lagos e Sagres, que o Infante D. Henrique deu largas à sua obra de expansão marítima  do reino, cujos efeitos ainda hoje se sentem. Vindo a falecer na sua Vila ou Quinta da Guadalupe, na Raposeira, entre Budens e Vila do Bispo, em 13 de Novembro de 1460, o seu corpo foi levado para a igreja de Santa Maria de Lagos, então a sede da “Confraria do Compromisso”. Passado pouco mais de um mês, por ordem do seu sobrinho o rei D. Afonso V, procedeu-se à trasladação dos restos mortais do príncipe para o mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha, em 1461. Diogo Gomes, fidalgo que assistiu à sua morte, narra os acontecimentos afirmando que o corpo de D. Henrique não havia sofrido corrupção após quase dois meses feitos do seu falecimento.

Túmulo do Infante D. Henrique na Panteão da Ínclita Geração no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgo Batalha

O cronista do Infante D. Henrique, Gomes Eanes de Zurara[3], homem douto dado às ciências herméticas da Kaballah e da Astrologia de que deixou provas dispersas nas suas várias crónicas impressas, possivelmente sendo de ascendência cristã-nova, dá-se na sua Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné ao levantamento do horóscopo do Ínclito Infante Navegador, onde diz: “Porém vos quero aqui escrever como ainda por pungimento de natural influência, este honrado Príncipe se inclinava a estas coisas [esotéricas]. E isto é porque o seu ascendente foi Áries, que é casa de Mars, e é exaltação do Sol. E porquanto o dito Mars foi em Aquário, que é casa de Saturno, e em casa de Esperança, significou que este Senhor se trabalhasse de conquistas altas e fortes, especialmente de buscar as coisas que eram cobertas aos outros homens, e secretas, segundo a qualidade de Saturno, em cuja casa ele é. E por ser acompanhado do Sol, como disse, e o Sol ser em casa de Júpiter, significou todos os seus tratos e conquistas serem lealmente feitos, e a prazer de seu Rei e Senhor”.

Portanto, segundo o cronista Zurara que certamente dispôs de elementos precisos sobre a hora, dia, mês e ano do nascimento do Infante, os quais hoje são impossíveis de conhecer comprovadamente, ele terá nascido em Aquário – Saturno, esteve sob o auspício de Sol – Júpiter e teve por ascendente Áries – Marte em Aquário no seu mapa natal. Este horóscopo veio a ser motivo lúdico de pintura em toda a parede do lado direito da escadaria nobre do Palácio-Hotel do Buçaco, junto à vila de Luso.

Marte ou Makon (hebreu), correspondente ao respectivo “Céu” da classificação ptolomaica, está em Aquário e é o planeta do signo de Áries, o Carneiro, associado ao Nisan hebraico, sendo o mês da festa móvel da Pesah ou Páscoa, exactamente como “passagem” de um estado a outro, implicando ser maior ou mais lato para a “coisa” envolvida (seja consciencial, geográfica, pessoal, colectiva, etc.). Isto corresponde no Hemisfério Norte à elevação do Sol, ao início da Primavera, à passagem do frio ao calor, da treva à luz, o que não deixa de se relacionar com o mito dos 12 argonautas da nau “Argos” em demanda do Velocino de Ouro no Jardim das Hespérides, tradição esta também evocada pelo carneiro servindo de montaria à divindade hindu Kuvera, guardiã dos tesouros do seio da Terra. Mas a demanda do Velocino de Ouro é, sobretudo por se associar à Copa Sagrada (o Saint Vaisel ou o mesmo Santo Graal), a de um tesouro espiritual, isto é, o da Sabedoria Divina, em que se torna ordálio real. Ora, na antiga China o carneiro participava dos ordálios judiciários, nos quais desempenhava o mesmo papel do unicórnio. Na mesma época e área cultural, o carneiro também é, por vezes, a montaria de um Imortal (Ko Yeou), e na Índia é a metamorfose do próprio Imortal no Fogo do Sacrifício, Agni, o que bem se associa ao Cordeiro Sacrificial hebraico-latino da Pesah – o Agnus Dei.

Na Gália, havia numerosos cães de lareira (peça utilizada para apoiar a lenha a arder na lareira, a fim de evitar que ela rolasse para fora) em pedra com cabeças de carneiro, o que se relaciona com o simbolismo ígneo do animal assim expressando a permanência da luz no lar, este tanto podendo ser um conjunto familiar como uma filiação espiritual.

Depois do Velocino (ou Tosão: velo de carneiro) é o chifre do animal de ouro (afinidade solar) que fica carregado de um valor simbólico, fonte de inumeráveis costumes, tradições e imagens derivadas do mesmo simbolismo original, sendo que, de todos, o mais forte é sem dúvida a cornucópia, a taça da abundância, pelo que evoca a esta tanto no material como no espiritual, aqui designando a Iniciação. Certamente no caso do Infante Henrique de Sagres tratar-se-á de Iniciação Real, Guerreira ou Kshatriya, também chamada de Iniciação Mariana por todo o Cavaleiro eleger por Orago a Santa Maria na hora da sua armação. O ideal e execução da Iniciação Mariana ligam-se por inteiro a Mariae, Maris e ao Mare ou Via Marítima (Húmida ou Feminina) da Alquimia, Caminho e Arte de Espírito Santo que, na época do Infante, foram assumidos por ele próprio reunindo em si todo o substractum da Ordem de Cristo. Decerto, também, a abundância material, tendo-a buscado na “Ilha” ou Ínsula Brasil[4], quando ordenou aos seus Cavaleiros do Mar, novéis argonautas, navegarem para Ocidenteas finis Terris.

Cabalisticamente, Marte associa-se à sephiroth Geburah, “Força”, por seu turno e por sua natureza ígnea associada ao estado de consciência Budhi-Taijasi, isto é, o Intuicional (Christus) iluminado pelo Espiritual (Paeternus). Essa condição consciencial é assumida cosmogonicamente pelas “Serpentes de Fogo” (Sarafs), os Serafins portando em seu imo a Purificação, a Iluminação e o Amor. Desde Salém, Shamballah ou o Centro do Mundo à Face da Terra, por eles se manifesta Deus Espírito Santo conferindo o Amor ao seu Eleito e à Igreja de sua Eleição, a dos Fiéis do Amor, antes, a da lustríssima Mãe Santíssima como Virgo Mariz, por decreto do Infante do Mar trasladada do extremo-ocidental da Europa ao extremo-ocidental do Mundo: o Brasil!

Também nisso entra a influência benfazeja do Sol do Solo ou Seio da Terra, lugar ascendente no horóscopo do Infante D. Henrique que daí era descendente: Saraf, Seraf, Serafim, Serapis… os Senhores da 7.ª Linha Teúrgica do Novis Phalux a Luzir, sim, o Cruzeiro Mágico de Cordo Mariz sob a égide de Surya, Elion ou Helius, o Sol mesmo. Remata a tradição hermética que se está na presença de um vocábulo cujas sonoridades são em vermelho e ouro, em afinidades astrais com Marte e o Sol.

Seguindo a antiga classificação ptolomaica, o alquimista português Anselmo Caetano Munhoz de Abreu coloca Marte como o quinto dos sete planetas tradicionais e assim o classifica no seu Oráculo Profético: “[…] subindo mais alto a procurar a protecção de Marte, que é o Planeta Quinto, e tão ilustrado de luzes, que tem a luz do Sol por centro. Como Marte é o Quinto entre os Planetas, e também o Deus da Guerra entre os Indigentes, posto que também seja Infortuna menor, por estes mesmos três motivos lhe consagro este Oráculo Profético, em que alegoricamente discorro sobre o Quinto Império do Mundo; porque o Império Quinto pertence ao Quinto Planeta, a conquista do Mundo ao Deus Marte, e à Infortuna menor a maior Fortuna. Lisboa Ocidental, 31 de Julho de 1733″.

Sendo o último Administrador do Tesouro do Templo, possivelmente do que restaria dele e que terá aplicado na promoção das navegações, D. Henrique de Borgonha e Lencastre foi também o grande universitário. Artur Moreira de Sá[5] chama-o “protector dos estudos em Portugal”. No Sumário dos Estatutos da Universidade de Lisboa, firmados na Sé da mesma cidade, em 16 de Julho de 1431, os quais receberam a influência do Infante, lê-se no parágrafo 8 do Doutoramento que o futuro doutor antes de ser nomeado tal era levado à Sé onde se celebrava a Missa do Espírito Santo.

As disciplinas ministradas na Universidade de Lisboa antes do Infante, constantes das Cartas de 25 de Outubro de 1400 e de 23 de Agosto de 1418, eram: Leis – Decretais – Gramática – Lógica – Física – Filosofia – Teologia – Música. D. Henrique aumentou as disciplinas, segundo o mencionado na Carta de Doação de 12 de Outubro de 1431: Leis – Decretais – Gramática – Lógica – Medicina – Filosofia Natural e  Moral – Teologia – Aresmética – Geometria – Astrologia.

Consta nas Cartas de 12 de Outubro de 1431, de 25 de Março de 1448 e de 22 de Setembro de 1460 que no dia de Santa Maria da Anunciação, a 25 de Março, “hão-de ir todos os lentes e escolares encomendar minha alma” ao Convento da Graça, ordenança que será “feita para todo o sempre enquanto houver Estudo Geral em Lisboa”.

O Infante decretava assim a perpetuamente os reitores, lentes, conselheiros e escolares irem todos os anos à igreja do convento da Graça, em Lisboa, em saimento solene, ouvir missa em sua intenção e de seus sucessores no Mestrado e Administração da Ordem de Cristo[6].

Deve-se ao Infante a tradução da língua hebraica, e consequente composição, do livro Segredo dos Segredos de Astrologia, tratado assente na filosofia aristotélica mas com explanação de astrologia cabalística, sobre o que diz Jaime Cortesão: “[…] não é sem fundamento que no catálogo da livraria de Fernando Colombo figurava um “Libro en español de mano, llamado Secreto de los Secretos de Astrologia, compuesto por el Infante D. Enrique de Portugal”. Do título se infere tratar-se do Livro de Secretis Secretorum, obra pseudo-aristotélica, em forma de conselhos de Aristóteles a Alexandre Magno. Em nota a uma referência do Leal Conselheiro ao “Livro Secretis Secretorum”, retomando o assunto Joseph Piel comentou: “Foi encontrada recentemente por Armando Sousa Gomes uma antiga versão portuguesa deste livro (cf. O Instituto, vol. 93, pp. 193-201), que o benemérito descobridor por inadvertência quis identificar com a “Grande Moral”, de Aristóteles, opinião rectificada por Joaquim de Carvalho no mesmo volume da citada revista. A atribuição da tradução portuguesa ao Infante D. Henrique parece-nos fundamentada, embora também consideremos pouco provável, senão impossível, que o manuscrito descoberto seja o mesmo que, sob o título “Secretos de los Secretos de Astrologia”, figurava na Biblioteca Colombina e que era, sem dúvida, escrito em espanhol. Não repugna admitir que esta redacção castelhana, hoje desaparecida, fosse uma versão da tradução portuguesa, o que viria confirmar a autoria do Infante D. Henrique quanto à obra recentemente descoberta que – facto de real importância – pertenceu primitivamente à Livraria de Alcobaça”[7].

À difusão da Astrologia (tão necessária aos pilotos das naus que se aventuravam por mares ignotos e só tinham por cartas inalteráveis a disposição das estrelas), natural e cabalística, nos séculos XIV-XV, paralelamente fizeram eco o Livro da Montaria, de D. João I, o Leal Conselheiro, de D. Duarte, o Livro da Virtuosa Benfeitoria, do Infante D. Pedro, e as próprias crónicas e cronicões da época.

Convém fazer aqui uma destrinça importante, para de antemão evitar quaisquer mal-entendidos futuros respeitantes a hodiernos fenómenos de crenças divinatórias e milagreiras que preenchem o espaço psicossocial do chamado «new age», caracterizado por superstições alimentadas indistintamente por certo urbanismo subdesenvolvido em matéria de cultura verdadeiramente tradicional a qual, pelo contrário, caracterizou a espiritualidade e mesmo a religiosidade dos povos antigos na sua relação com o mundo sideral.

A Astrologia foi durante muitos séculos predominantemente mântica ou divinatória. Com o tempo surgiu a sua variante genetlíaca ou judiciária, baseada num horóscopo natal e em outras técnicas posteriores. Essa transição histórica foi muito importante. Para compreender a atitude de aceitação do factor astrológico por parte das teologias da Sinagoga e da Igreja, deve considerar-se a diferença entre Astrologia natural e Astrologia judiciária. A Astrologia natural, aceite e até exercida oficialmente na Universidade coeva da Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres, estuda a alegada influência dos astros sobre a Terra, a Natureza, os organismos vivos e, portanto, sobre o carácter e a alma humanos. A Astrologia judiciária pretende, por meio de certas técnicas (particularmente por meio do horóscopo), levar a “julgamentos”, a “conclusões” sobre o destino dos indivíduos e dos povos segundo a posição e configuração dos planetas a partir de determinados momentos da sua vida ou história.

A Igreja Católica não contestava a legitimidade da Astrologia natural. Dionísio Aeropagita, S. Cesário, S. Jerónimo, Alberto Magno, Tomás de Aquino e muitos outros admitiam a sua legitimidade. Em contraste, a Igreja e a Sinagoga reprovavam e reprovam a Astrologia judiciária que afirma estar o destino do Homem “lavrado nas estrelas que ditam o seu porvir”, porque tal posição vem a negar a liberdade humana do livre-arbítrio e direito de acertar e/ou errar na experiência da vida, onde cada um e cada qual evolui por seus próprios esforços e méritos sem necessitar depender a sua existência de quaisquer factores externos, astrolátricos.

Na sua Suma contra os Gentios, começada a escrever em 1265 e que deixou inacabada por sua morte, Tomás de Aquino apresenta um resumo da história da Astrologia. Dedica dois opúsculos aos horóscopos – De Sortibus e De Judiciis Astrorum. Neste último, pode ler-se: “Se alguém se serve do juízo dos astros para conhecer efeitos corporais, por exemplo, a ocorrência de tempestades ou de bom tempo, a saúde ou a doença dos corpos, a abundância ou a esterilidade das colheitas e outras coisas que dependem de causas naturais cognoscíveis, não há nisso pecado, pois todos os homens são obrigados a nisso submeter-se aos astros. O agricultor só pode semear ou colher prudentemente se se assegurar dos movimentos do Sol (…). Em contraste, é forçoso afirmar que a vontade do Homem não está sujeita à necessidade dos astros; se o estivesse estaria arruinada a liberdade, que, eliminada, não permitiria atribuir aos homens nem acto bom nem acto mau, meritório ou culpável… É um grande pecado recorrer aos horóscopos nestes assuntos”[8].

Na época do Infante D. Henrique ficaram célebres as traduções portuguesas do Lybro de Magyka, de Juan Gil de Castiello, ou de Burgos, e do Lybro Conprydo en los Juyzos de las Estrellas, de Ali Aben Ragel, que pertenceu à Biblioteca de D. Afonso V.

Quanto à tradução portuguesa do Lybro de Magyka, encontra-se em manuscrito do século XV na “Bodleian Library”, de Oxford (Ms. Laud. Or. 282). E do Libro Conprydo, de Ali Ragel, conserva-se na mesma Biblioteca (Ms. Laud. Or. 310) a tradução dos livros IV a VII, feita ou copiada em 1418 por Joseph B. R. Gelalyah.

O Infante D. Henrique cumpriu rigorosamente os três votos perpétuos de Obediência – Pobreza – Castidade da Freiria de Cristo, de cuja Milícia era Grão-Mestre e de cujos bens o Administrador Geral, sendo essa a razão imediata da sua castidade e austeridade mais de monge que de príncipe!… A sua própria divisa francesa, Talant de Bien Faire, “Talento [ou Propósito] de Bem Fazer [ou Criar]”, a par dos feitos notáveis preenchendo a sua biografia, demonstram bem que a pia Alma deste I.H.S. abarcava a Terra inteira, em carácter e cultura, o que é inerente às inéditas e Grandes Almas. As iniciais do seu nome, I ou JHS, significam na Tradição Iniciática: “O Homem na Divindade”, assim como HJS significa “A Divindade no Homem”.

Com efeito, no seu Talant de Bien Faire velam-se, inclusive, as Três Hipóstases Divinas, cada qual manifestando-se por uma das três gunas (“cordas”, em sânscrito) ou “qualidades subtis da matéria”, nas suas volições de centrífuga, equilibrante ou rítmica, e centrípeta, respectivamente, em sânscrito, Satva – Rajas – Tamas.

D. Henrique passou à Arte da Musa Clio, a História, com o cognome de Navegador devido à sua intervenção primaz na Diáspora Marítima, é sabido do comum das gentes. Mas o menos sabido é o seguinte: foi a partir de Lagos que as pretensões expansionistas do rei D. Afonso V (1432-1481), sucessor e filho do rei D. Duarte irmão do Infante de Sagres, e cuja Escola de Navegação apoiou e protegeu, viram a efectivação. Com efeito, ele militou na Confraria do Espírito Santo, vulgarmente conhecida por Companhia do Compromisso de Lagos, fundada nesta cidade em 1444 por Lançarote Pessanha, escudeiro do Infante D. Henrique, a qual terá sido a matriz e motor da Escola Náutica do Navegador.

Vários indícios dessa época ainda existentes em Lagos, dão a Confraria do Espírito Santo não só como gestora espiritual e jurídica da Escola Náutica como também cadinho de secretas filiações herméticas, possivelmente de alquimistas professos da Via Húmida ou Marítima, donde usarem o apelido argonautas, ou simplesmente nautas, sendo o timoneiro ou dirigente apelidado de Navegador.

Se o fundador dessa Ordem fora Lancelote de Lagos, certamente o arturiano Mestre Supremo era o próprio Infante Henrique de Sagres, dentro dela chamado de Navegador, e ao qual a corte de Carlos, o Temerário, primo de Afonso V, e os filósofos de Luís XI de França, davam igual designativo: Nautonnier.

Assim, o Infante Ínclito dos Mares passou à História com o cognome de Navegador, na realidade sendo o grau supremo da Confraria do Espírito Santo mas que a historiografia vulgarizou na pleição de todos conhecida.

Ainda hoje se vêem lavrados no pórtico lateral da igreja de Santa Maria de Lagos, primitiva sede da Confraria do Espírito Santo, dois vasos alquímicos cada qual encimado por uma flor-de-lis. Essa prova surpreendente leva-me a associar esses lavores pétreos ao significado do Santo Graal, por raros apercebido, havendo uma perfeita correlação física e espiritual na própria palavra:

– GRAL é o almofariz, objecto de laboratório onde são feitas certas misturas químicas.

– GRAAL é a Taça Sagrada. Nela, naturalmente, são feitas as mais sublimes, espirituais e místicas fusões alquímicas.

Mas a prova de maior sucesso quanto à filiação hermética desta Confraria de Navegantes, está no pórtico lateral da igreja de S. Sebastião (primitivamente da Conceição) de Lagos, sendo tão óbvio o simbolismo hermético esculpido nele que me atrevo a baptizá-lo de Portal do Adepto. Teria pertencido à primitiva igreja de S. Sebastião fundada pelo bispo D. João de Melo no século XV, depois transformada, como hoje se vê, no século XVI[9]. Como já fiz a leitura pormenorizada desse pórtico numa outra obra[10], escuso-me de repeti-la aqui, no entanto apontando no interior do templo várias pinturas de grande significado esotérico que aqui me traz: numa, vê-se São Bernardo de Claraval com três mitras aos pés, indicativas das três Idades tradicionais do esquema da Fiore; noutra, observa-se a descida do Senhor da Cruz que é um Tau, estando Nicodemus com o sudário ou “pano do suor” com os três cravos, tendo a seu lado José de Arimateia com o barrete frígio, símbolo do Adeptado navegante, volante ou móvel, com o pormenor acrescido de Nicodemus fazer um sinal de reconhecimento a João Evangelista enquanto fita Maria Madalena. Esta assumirá no contexto a figura da Virgem Negra ou Guadalupe, isto é, Guapa-Lupe, a “Beleza da Lua”, neste caso, a “Bela Senhora da Noite”, esta indicativa do que está encoberto, do “espírito que vivifica sob a letra que mata”, remetendo para o sentido primaz do Templo críptico como sinal de Mistério e de Iniciação, e tudo isto remete por inteiro ao simbolismo de Ísis, donde foi decalcada a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Pórtico lateral – liber mutus alquímico – da igreja de São Sebastião de Lagos

No tecto da igreja, em caixotão de madeira, observa-se a pintura de um Pentalfa Flamejante sobre toda a ilustração bordada pela frase latina do Salmo 71: “Bendito o Senhor que fez o Milagre do Sol”.

Para o Professor Henrique José de Souza, o Salmo 71 tem o seguinte significado cabalístico seguinte: “Justiça igual para todos. Paz universal. Fraternidade entre os povos. Extinção da pobreza. Verdadeira liberdade. Abundância e prosperidade”[11]. Ora, esses são precisamente os paradigmas da Sinarquia que tanto os Templários quanto os Freires de Cristo perseguiram e até realizaram em seu espaço de acção, particularmente nesta parte do Algarve (de Lagos a Sagres), o que depois para o rei D. Sebastião terá sido motivo não entendido por ausência de profundidade adulta, mas exagerado pela presença de superficialidade juvenil.

Com efeito, tudo indica que ele instalou nesta igreja de São Sebastião de Lagos a sede da sua Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (copiada inteiramente da regular e secular Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo), também chamada de Ordem Militar da Seta (Frecha) de São Sebastião. Desde a substituição do Orago da igreja, a Senhora da Conceição por São Sebastião, às reformas no edifício e à decoração rica de simbolismo sebástico-hermético, esta terá sido a Casa-Mãe dessa Ordem controversa de duração efémera, ainda assim aproveitada para resguardo pio de muitos hermetistas da época seiscentista algarvia. Sobre o assunto, escreveu Manuel J. Gandra[12]:

Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ordem Militar criada por D. Sebastião, em Março de 1577, achando-se no cabo de S. Vicente (Algarve). Alguns autores chamam-lhe, impropriamente, Ordem da Flecha de S. Sebastião.

“A missiva que, na circunstância, D. Sebastião remeteu ao embaixador em Roma faz luz sobre o evento: “[…] esta ordem que agora determino publicar é aquela mesma que tenho instituído e a que então dei princípio com nela entrar a fazer logo profissão, e que não é a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo que alguns podem cuidar que seja por a cruz dela ter muita semelhança com a que escolhi e ordenei para esta nova ordem, que tenho assentado que se chame a Ordem da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e divisa de S. Sebastião, pela Seta que com a mesma cruz ao pé dela trago”. (Cf. BN: cod. 887, fl. 158r-158v). Consulte-se Sampaio Bruno, O Encoberto, Porto, 1904, p. 80-97, e Camões, Oitavas sobre a Seta que o Santo Padre mandou a El-Rei D. Sebastião, no ano do Senhor de 1575. O Desejado tencionava fundar um Templo dedicado ao mártir no Terreiro do Paço (Lisboa) para nele albergar a relíquia do braço do mesmo Santo que Carlos V furtara no Vaticano, quando do saque de Roma. Francisco de Holanda apresenta o respectivo projecto no Da Fabrica que falece à Cidade de Lisboa (fl. 26v-27r).”

Com efeito, em 1571 D. Sebastião requereu do Papa Pio V autorização para alterar os estatutos das Ordens Militares de Cristo, Santiago e Avis, e acrescentar à cruz dos referidos hábitos uma seta ou frecha (flecha), em memória da arma com que fora martirizado o santo seu homónimo, assim colocando o Sebastião rei em paridade com o Sebastião santo, cuja distinção só seria conferida aos cavaleiros que se assinalassem por feitos notáveis na guerra. Ele, monarca, não sendo cavaleiro usava assim das suas prerrogativas reais para ser chefe de todos eles e “estocar”, “flechar” fatal e decisivamente as antigas Ordens seculares de cavalaria e linhagem nobiliárquica com mais de cinco gerações ininterruptas. Essa intenção regista-se em uma pedra epigráfica com as três Ordens e a de São Sebastião por cima em edifício da antiga Alfândega de Setúbal.

De saúde frágil, inquieto e imaginativo, de fantasias lúgubres, rei quimérico querendo fazer-se imperador do mundo indo tomar Jerusalém a partir do Norte de África, onde se perderia e perdeu Portugal, ansiava sempre copiar as grandezas dos seus antepassados, vendo-se a incarnação de todos eles e de todas elas, como constata Alexandre Ferreira[13]: “E passando ao que me importa, digo, que prezo El Rey desta ideia da jornada de Africa, e penhorado da Setta de S. Sebastião, para gloria da empreza, a que se encaminhava, e lembrado de que seu antigo avô, El Rey D. Affonso o I, no glorioso sucesso de Santarem contra hum numero sem numero de Barbaros, capitaneados por El Rey de Sevilha, instituira a Ordem da Ala, ou Aza de S. Miguel, para escrever com aquellas pennas as memorias do seu agradecimento, e voar com aquella Aza em gloriosos triunfos; e que El Rey D. Affonso o V, para continuar os gloriosos empregos, que lhe derão o nome de Africano, creara a Ordem da Espada de Santiago; e com estas honradas memorias creou a Ordem da Setta de S. Sebastião, espada segura para triunfar do contagio daquelles Barbaros, porque nas azas, com que voara, levaria a saude contra a peste da Infidelidade.” No mesmo sentido escreveu Manuel de Faria e Sousa na sua Europa Portuguesa, em 1667.

Além das alterações nos Estatutos, afectando as Regras, das supraditas Ordens (efectuadas em 6 de Fevereiro de 1572), D. Sebastião solicitou uma das setas com que foi martirizado o santo homónimo, para a depositar na igreja que lhe pretendia edificar em Lisboa, mas que não passou da intenção, ficando-se a dita relíquia, depois de chegada, pelo Mosteiro de S. Vicente de Lisboa. A morte de Pio V levou a que só o seu sucessor, o Papa Gregório XIII, pudesse satisfazer a vontade régia, já que, pelo falecimento de D. Joana de Áustria, enviou a seta embebida no sangue do mártir, acompanhada de um Breve Pontifício datado de 8 de Novembro de 1573.

Essa venerada relíquia – sacra invenção – chegou a Portugal 9 de Fevereiro de 1574, trazida pelo enviado papal Pompeo Lanoja, cubiculário de Sua Santidade, sendo recebido pelo rei quando estava nos seus Paços de Almeirim.

Tendo nascido em 20 de Janeiro de 1554, no dia de S. Sebastião, razão pela qual foi batizado com esse nome, D, Sebastião teve uma constante e significativa preocupação em representar as setas ou flechas que martirizaram S. Sebastião em tudo aquilo que simbolicamente representasse o Poder Régio e a sua própria pessoa como rei, assim unindo – inspirado pelos seus mentores – o Poder Real à Autoridade Espiritual concentrados na sua única pessoa, prerrogativas de Melki-Tsedek o qual parece ter querido se assumir como Soberano Supremo do Mundo, o que seria confirmado de alcançasse Jerusalém e ocupasse o seu trono. Com a sua ida a Alcácer-Quibir e a derrota militar que sucedeu, esse Ordem entrou em esquecimento e praticamente desapareceu nos anais da História, apesar de alguns hoje a quererem reavivar por motivos menos sebásticos e mais sebastianistas, com tudo esbarrando na Lei do Banimento que até hoje opõe entre si brigantinos e anti-brigantinos. Enfim, nisto parece valer a frase concisa de Mário Roso de Luna no seu Livro que a Mata a Morte: “Há jovens que deveriam ser proibidos de ler literatura de Cavalaria, porque se empolgam alucinando-se, levam tudo à letra e põem-se a destruir a torto e a direito”. Mais palavras para quê?…

Deixando os empolgamentos inflamados de D. Sebastião de lado e voltando à Alquimia Mareante (apontada num quarto quadro descrevendo S. Vicente deposto na barca vigiada pelos corvos à proa e à ré, havendo o Promontório de Sagres ao fundo com um mouro nele), também chamada, como já disse, dos Navegadores ou Argonautas, sendo Via Húmida onde a paridade sexual ou casal hermético imita a Obra da Criação do Andrógino Primordial, ou seja, o Grande Demiurgo como Espírito Santo (Siva ou Shiva), cujo símbolo é precisamente o Sopro e a Barca navegando sobre as Águas da Génese.

A ciência da navegação foi também mística para o Infante D. Henrique, e motivo para ordenar a demanda do Reino do Preste João, identificado ao Rei do Mundo, sobre quem direi agora algumas palavras.

Em todos os compostos religiosos e sociais houve sempre uma tríade dirigindo a governação dos mesmos que, no aspecto político-governamental da Idade Média, era assumida pelo Rei, o Conselheiro jurídico e o Marechal de tropas. Hoje tem-se o Presidente da República, o Presidente da Assembleia e o Primeiro Ministro. São, ao nível social imediato, uma imagem fugaz mas nem por isso menos real da Trindade Melki-Tsedek ou do Rei do Mundo, exposta, o que já disse, como Melki-Tsedek (Monarca e Pontífice Universal), Kohen-Tsedek (Pontífice Universal) e Adonai-Tsedek (Monarca Universal).

Essa Trindade Sacra da tradição hebraica veio a influenciar todo o sistema sócio-religioso do Ocidente medieval e ela mesma se baseia, diz-se, numa outra e soberana Trindade Aghartina, chamada no Oriente de Brahmatma (“O Apoio dos Espíritos no Espírito de Deus”), equivalente a Melki-Tsedek, Mahinga (“O Representante da Alma Universal”), equivalente a Kohen-Tsedek, e Mahanga (“A Expressão de toda a organização material do Cosmos”), equivalente a Adonai-Tsedek. Ela era na época do Infante representada à Face da Terra pela Igreja Lamaísta ou Tibetana (a quem a de Roma, através dos seus emissários, iria depois buscar a maioria dos símbolos e paramentária litúrgica que utiliza como exclusivo seu, desde a mitra à sineta), nas pessoas do Buda-Vivo Gheghen, expressando a Santidade ou a Divindade no Homem, do Traichu-Lama, detentor da Ciência Sagrada ou Teúrgica, e do Dalai-Lama, realizando a Unidade Social com viabilidade.

Informa ainda a Tradição Iniciática que, de permeio à Trindade Aghartina e aos altos Dignitários do Lamaísmo, há a Assembleia dos Santos e Sábios, a “Igreja Secreta ou Oculta de João”, ou seja, a Grande Fraternidade Branca ou Governo Oculto do Mundo dirigido pelos seus três Grandes Oficiais: o Manu (dirigindo a Política Mundial da Raça Humana), o Bodhisattva (dirigindo as variedades da Fé das Religiões do Mundo) e o Mahachoan (dirigindo a Educação científica e moral de toda a Civilização), os quais estavam representados na antiga Ordem do Templo pelo Mestre Geral, o Grão-Prior e o Senescal (donde derivou o Marechal).

Ora, conforme o vasto cardápio documental que chegou até hoje, foi o impulso à demanda do Reino do Preste João que, do ponto de vista mais espiritual que religioso, levou a encetar as odisseias marítimas. Essa Terra de Promissão ainda assim enigmática, localizava-se em lugar vago numa geografia incerta: ora se dizia estar na Índia, ora na Abissínia, ora em outros lugares mais, ainda que, ao certo, ninguém soubesse onde ficava esse País decantado de João Sem Terra, logo, de João Ninguém!…

Inevitavelmente a realidade acabou confundida com a fantasia, e logo nasceu o sonho ambicioso do Eldorado. Poucos sabiam, e sabem, o que é na realidade da Terra do Preste João, mas esses poucos calavam, e calam, mantendo por prudência a profana dúvida, e com esse motivo da busca dos cristãos do Oriente e do seu Presbítero são enviados os argonautas lusos a outros continentes à demanda, pela Fé e pela Cultura, não raro também pelas Armas quando as circunstâncias exigiam, desse mesmo Pai João da Ásia, ou melhor, da Assiah, isto é, do Mundo.

Sobre este tema palpitante, já conhecido dos Templários no século XII, escreveu Oliveira Martins na sua História de Portugal, III, 1:

“Desde o meado do XII século que se propagara na Europa a notícia da existência de um império cristão no Extremo Oriente. O núncio da Igreja da Arménia falara ao Papa (Eugénio III) em um príncipe, chamado João, cujos domínios estavam situados para além da Arménia e da Pérsia, e que reunia ao Império o Sacerdócio: era um Papa do Extremo Oriente, e fizera numerosas conquistas, o Preste-Joham.”

Ora a Terra do Preste João, segundo informa ainda a Tradição Iniciática em que me baseio para com segurança agir nestas profundezas do pensamento, é afinal de contas o Centro Espiritual Supremo, identificado tanto a Agharta como a Shamballah, e ele próprio Melki-Tsedek ou o Rei do Mundo. Certamente o Infante Henrique de Sagres saberia disso, nos moldes do pensamento e linguagem da sua época, ele a quem Fernando Pessoa na Mensagem chamou de “único Imperador”. Muito sintomaticamente a ver com Sagres anda a velhinha “lenda do Rei do Mundo”, que contarei mais adiante.

D. Henrique saberia bem o que era de facto o Reino do Preste João. Aquando da tomada de Ceuta e aí armado cavaleiro de Avis por seu pai, D. João I, terá entrado em contacto privado com os Maurus islâmicos que lhe forneceram informações importantes sobre “como navegar para a Terra do Grande Preste”. Segundo Zurara, na Crónica da Conquista da Guiné, a um dos navegadores da sua Escola o Infante declarou que “não somente daquela terra desejava ter sabedoria, mas ainda das Índias, e da terra do Preste Joham”.

Os documentos relativos ao misterioso Presbítero João são fonte de muita confusão para os investigadores, pois que aparecem quatro personagens com esse nome em quatro lugares distintos do Globo: no Tibete, na Mongólia, na Índia e na Etiópia, embora prefira apontar para essa última o Egipto. Conforme a Tradição Iniciática, seriam quatro representantes do mesmo e único Poder, havendo um aspecto masculino no Egipto para um feminino na Índia, tendo por formas laterais, colunas ou ministros um aspecto masculino na Mongólia e outro feminino no Tibete, com os nomes seguintes na disposição a seguir:

Chakravarti é outra designação sânscrita para o mesmo Melkitsedek hebraico, e significa “Aquele em torno do qual tudo se move sem que Ele se mova”, ou comparticipe do movimento, antes, é quem provoca o movimento. Neste caso, é a Excelsa Loja Branca actuando em volta do seu Supremo Dirigente e daí influindo sobre os seus satélites, os dirigentes religiosos e políticos da Humanidade.

Prosseguindo na peugada do postulado hermético do Infante D. Henrique, deixa-se Lagos e a sua Escola Náutica fundada pelo próprio, de que ainda sobeja uma janela do primitivo edifício (a famosa “Janela do Infante”, igualmente conhecida por “Janela de D. Sebastião”, donde este falou às tropas no areal antes da empresa fatal de Alcácer-Quibir), e ruma-se pela Estrada do “Fim do Mundo” a Sagres, passando a aldeia da Luz e avistando-se logo após a capela de São Lourenço, junto à aldeia de Budens.

Aí depara-se com os indícios das relações proto-históricas de Budens com Sagres. Ainda que Ptolomeu tenha situado o primitivo Templo de Hércules no Hierón Akrotérion (“Promontório Sagrado”), estou mais em crer que o de Cronos ou Saturno fosse aí, mas não o de Hércules certamente situado junto a Budens, como narra o Domingo Illustrado de 1908:

“O terramoto de 1755 actuou fortemente nesta freguesia. O ribeirinho de água doce que aqui desagua no mar, foi fio condutor da invasão oceânica, irrompendo até três quilómetros terra adentro, elevando-se em muralhas de doze metros de altura.

“Quando as águas recolheram deu-se outro caso que deixou pasmada toda a gente. Na praia, onde de memória de novos e velhos só existira areia e água, apareceram edifícios mui notavelmente grandes e magnificentes, e muralhas de espessura rara. A Este via-se a descoberto uma calçada larga, ladeada de paredes de cantaria, muito rijas, com portas gradeadas de ferro. Outra porta também lá estava, maior que as demais, e parecendo entrada do templo. Rente ao chão uma cisterna, e farta quantidade de alicerces pelo lado do mar, e paredes, restos de edifícios desabados, pintados de cores vivas, em bom estado. Voltada ao oceano havia uma entrada para o recinto, formando em arco, de cantaria, ornada de colunas elegantemente talhadas em mármore.

“O edifício ali é dividido em pequenas peças, e o solo apresenta lindo mosaico matizado a capricho, com letras de alfabeto desconhecido.

“Há todas as probabilidades de ser este edifício o famigerado templo de Hércules, que Ptolomeu diz ser construído sobre a praia, no Cabo. A praia desapareceu por efeito do perpétuo labor geológico. Em 1715 deu-se ali uma erupção marítima, e surgiu das águas um cais de excelente cantaria, no qual havia duas argolas. Ficava junto do mencionado edifício. Pouco a pouco o mar tornou a ocultar aquele vetusto monumento de épocas famosas.”

A descrição sugere-me a aparição de uma cidade atlante, descoberta e recoberta pelas fúrias oceânicas. Se a notícia merece ou não credibilidade, é assunto contestável por se saber “cada cabeça, sua sentença”. Mas o incontestável é existir em Budens as ruínas de um castelo romano, cujos caboucos parecem recuar à Idade do Bronze, data da necrópole situada junto a ele[14].

Ruínas de villa romana junto à Boca do Rio, Budens

É a partir dessa localidade e até dentro do Promontório Sagrado que se distende um filão telúrico marcado por menires, boa parte deles com caracteres e símbolos ogâmicos dos primitivos Cúneos ou Cónios do Sul. Sacraliza-se assim a Estrada do “Fim do Mundo”, como era conhecida na Idade Média e ainda hoje, levando ao Finis Terrae, lugar de comunicação com o Além, com o outro Mundo, o Mundo Jina. Relacionado com isso tem-se entre Lagos e Budens a povoação Barão de S. Miguel, topónimo lembrando-me os “Barões Assinalados” de Camões que nada mais eram senão os misteriosos Confrades de Mariz.

Após Budens chega-se ao lugar da Raposeira, onde se situava a Vila ou Quinta de Guadalupe, propriedade do Infante de Sagres, a qual se distendia até Vila do Bispo. Ainda se encontra aí a “Casa do Infante”, edifício soerguido sobre o primitivo e que dá a impressão de constituir a letra-mãe hebraica Mem, sobrando os muros adjacentes e o poço originais, além de um lindo lintel quinhentista, com sóis esculpidos, que encimava a porta do primeiro andar da residência original. Esse lintel desapareceu e não sei do seu paradeiro até hoje, lamento que trago por na ocasião eu próprio não ter recolhido a peça e a trazido para Lisboa, destinando-a a fim museológico. Nessa ocasião, serviu-me de guia o falecido sr. Romão da Raposeira, freguês local, que me conduziu aí e igualmente à ermida do Infante, a capela da Virgem de Guadalupe, alter-ego da Quinta.

Casa do Infante Henrique de Sagres e lintel original, na primitiva Quinta da Guadalupe, Raposeira

Vim a confirmar ser Virgem Negra o Orago da Vila do Infante de Sagres, recuando o seu culto possivelmente a 1189, altura em que D. Sancho I apoiado pela Ordem do Templo, realizou uma expedição ao Algarve apoderando-se de Silves, Alvor, Lagos e Tarsanabal, esta o cartaginês “Porto de Aníbal” de que fala o cronista Fernão Lopes (século XVI), identificando-o ao lugar de Sagres, “porto” esse que considero estivesse antes em Budens. Com D. Sancho I teriam ido para aí os Templários (cuja presença é testemunhada em pedras tumulares suas depositadas nos Museus de Lagos e de Vila do Bispo), aos quais se deve edificação, no primeiro quartel do século XIII, da capela romano-gótica de Nossa Senhora de Guadalupe, ainda que o Orago primitiva tivesse sido, como atestam vários indícios no interior do próprio templo e algumas citações de crónicas de época, Santa Catarina. Isto na Raposeira, distada sete quilómetros do Promontório e à beira Estrada do “Fim do Mundo”, constituindo hoje o exemplar mais completo da arquitectura Templária/Ordem de Cristo no Algarve[15].

Capela de Nossa Senhora de Guadalupe, Raposeira, e estelas funerárias templárias, Vila do Bispo

Nesse templo, vulgarmente conhecido por “Ermida do Infante Henrique de Sagres”, fez-se culto à Virgem Negra, Orago local decerto levado para aí pela Ordem do Templo. O seu culto prosseguiu no reinado de D. Dinis sob a direcção da Ordem de Cristo (sucessora directa daquela), e terá sido durante o reinado de D. Afonso IV, a partir da vitória na batalha do Salado, onde portugueses e castelhanos batalharam juntos como cruzados, que o culto da Virgem Negra foi associado a Guadalupe, já então pomo de grande devoção no reino vizinho e que adentraria a nossa fronteira pelo Sul[16]. Na época do Infante D. Henrique o templo terá sofrido restauros e alterações e o culto da Virgem de Guadalupe, talvez por intercessão de D. Afonso V, o “Africano”, assumido devoção e fama maior do que nunca, decerto por ingerência da Ordem de Cristo cuja cruz orna o edifício, devoção essa que ainda se mantém mesmo sem o vigor de outrora, onde era costume levar-se os animais até à porta do templo para serem benzidos, o que também remete para um tipo de culto bodivo do qual, acaso, o boi gravado num dos seus capitéis a isso se refira, com todo o simbolismo tradicional que carrega.

Essa Virgem Negra, pequena imagem pétrea colorida romano-gótica sentada num trono em majestade, com um báculo (desaparecido) na destra e o Menino à esquerda no regaço, é, como disse, a Guapa-Lupe, a “Bela da Lua”, neste caso, a “Bela Senhora da Noite” como sinal de “Guardiã dos Mistérios”, cuja iconografia expressa a Shekinah ou “Presença Real da Divindade” na Terra, em seu seio mesmo. É ainda a ressurgência da primitiva Lusina, tal qual acontece em Budens com S. Lourenço, versão cristã do deus solar dos ligures e celtas, Lug, cujo sentido Luz enquadra-se no topónimo com esse nome de aldeia próxima.

Imagem original de Nossa Senhora de Guadalupe, depositada no Museu Paroquial de Vila do Bispo

Ainda assim, vários autores dão uma origem hídrica ao etimólogo Guadalupe, o qual viria de Água de Lupe[17] ou Augua de Lupe[18], tendo sofrido a evolução seguinte: Água de LuceÁgua de LupeAgualupeGuadalupe[19]. Esta interpretação não estará incorrecta se, uma vez mais, identificar-se Luce a Luzia ou Lusina, e as “águas doces” às nutrientes da Mãe Divina, representada na Lua faceira ou a mesma Lupe, mantendo a vida do Género Humano e a dos demais seres.

O interior do templo apresenta nos capitéis e nos medalhões ornando as nervuras da abóbada algumas figuras e símbolos de forte sabor hermético. Por exemplo, num capitel vê-se um rosto humano ao lado de uma cabeça de touro, o que torna o conjunto, como já disse, uma alusão óbvia ao taurobólio ou “conquista da Divindade pelo Homem”. Noutro, observam-se duas sereias machos com rostos humanos, que na Via Húmida da Alquimia é referência simbólica à “Pedra Filosofal” que se extrai da natureza liquefactia da Mãe Terra por acto atlante ou de gigante em pensamento e acção, portanto, disposição de Génio ou Jina. Noutro ainda, duas folhas de carvalho cruzadas, losangulares com a Cruz Templária ao centro. Carvalho e Cruz indicam exactamente o “Templo de Eleição”. Este último significado é reforçado pelas ilustrações dispersas pelos restantes capitéis e medalhões com motivos vegetais profusos, os quais para S. João da Cruz possuíam o significado de “imagem da perfeição espiritual” e de “retorno ao estado edénico”, indicado precisamente por Guadalupe, a Guardiã dos Mistérios da Terra Santa, aqui, Sagres, o Lugar Sagrado. A peça mais antiga dentro desta ermida, possivelmente recuando aos Templários, é a pia de água benta. Vê-se nela o ondulado ornado pela cruz e uma esfera lateral: o conjunto designa as “Águas da Salvação” (Acqua de Luce) preanunciadas pela Stella Maris, onomástico cristão dessa outra Stella: a Soberana Ordem de Mariz, a qual, direi em enigma para cerrar ainda mais o mistério, é a Tebaida dos 111 Makaras e 777 Assuras Lusos sobre a égide do Quinto Luzeiro que o Céu tem na Terra plantado.

Da Raposeira e após passar Vila do Bispo (sendo este D. Fernando Coutinho, que a fundaria em 1515), adentra-se de imediato o Promontório Sagrado ou Sacro, pois estar em Sagres é contemplar uma das páginas mais enigmáticas da Portugalidade, é defrontar o mistério, a esfinge oceânica que o Infante D. Henrique venceu.

Promontório de Sagres

É constantemente localizado na rota do Paraíso Terreal ou “Terra sem Mal”, a ponto de, no romance místico Viagem de São Brandão, de Sagres, outrora consagrado a Cronos, terem partido as naus em busca da Ilha dos Santos ou de São Brandão, a Ilha Encoberta (Illia Occultam). É também por este primitivo istmo que se chega a Abraxa ou a Ilha da Utopia, aonde o português Rafael Hitlodeu conduziu Thomas Morus[20]. Por seu lado, Avieno, poeta do século IV d. C., na Ora Marítima refere-se a um santuário de Saturno localizado na ponta de Sagres, e Frei Bernardo de Brito, na Monarquia Lusitana, dá Tubal, rei da Ibéria, neto de Noé e filho de Seth, como sepultado neste extremo da Península (o facto é que no Promontório existem sepulturas que dato desde o Paleolítico Superior à Idade do Ferro, e de uma cheguei a retirar fragmentos de ossadas humanas e de cerâmica). Os primeiros gregos também estabeleceram nas proximidades daqui um culto ao Hércules primitivo, Thasios, deus ctónico e agrário, ligado ao outro culto de Deméter, sendo que junto ao Cabo de São Vicente foi achada uma estatueta em bronze representando um touro, este o animal da Deusa-Mãe assinalada em Deméter[21].

Aqui se celebraram os divinos mistérios da noite iluminada pelo atear do Fogo Sagrado, portanto, Fogo Nocturno, o que se liga ao culto do “Sol da Meia-Noite”, logo, às Saturnais: os fenícios a Cronos, os gregos a Thasios, os celtas a Lug, os celtiberos a Tubal-Endobelus, os árabes a Kadir e os cristãos a Vicente, este como derradeira versão dos deuses do panteão antigo da Ibéria, todos assinalando veladamente Lúcifer, o “Anjo da Luz” como Luzbel que, rezam as tradições sagradas, ao ser desterrado do Céu ficou agrilhoado no seio da Terra.

Para Estrabão, na sua Geografia, este é “o ponto mais ocidental, não só da Europa mas também de toda a Ecúmena”. Era o lugar onde os deuses se reuniam à noite, onde a presença do vulgo humano era interdita, segundo o mesmo autor. Aí havia um templo, inacessível por terra e por mar e onde os sacerdotes eram semideuses… e no mesmo sentido sacral, milénios depois, seria neste Promontório que se fundaria espiritualmente a Comunidade Teúrgica Portuguesa, na noite de São João Baptista de 1978.

Frei Bernardo de Brito retomou no século XVII essa tradição e escreveu na Monarquia Lusitana: “E tal foi o amor que lhe tiveram (os antigos), que nunca se perdeu a memória de sua sepultura (a de Tubal), antes a visitavam e veneravam, como coisa santa; e introduzindo-se depois a idolatria e superstição gentílica… que tanto era noite ninguém se atrevia mais a passar por junto dela, dizendo que andavam os deuses naquele lugar”. A este testemunho se juntou o de J. Leite de Vasconcelos[22], que propositadamente visitou o lugar em 1894; e todos eles vieram ainda a confirmar que sendo o Promontório, desde o Passado mais remoto, eleito a ser uma abertura, passagem sobre o Inferno, assim também consagrado aos deuses e heróis que na sua vida desceram a essa Infera, Inferior ou Interior lugar, como Hércules e Dióniso, e ao culto necrolático dos antepassados, com a sacralização ritual das pedras e a firmação da afirmativa de espíritos encantados.

As referências a ter havido aí um “templo inacessível frequentado por semideuses”, levam-me a interpretação teosófica, pois parecem-me, sobretudo, alusões a um templo subterrâneo de origem atlante ou terciária, tanto mais que Mário Roso de Luna considerava este Promontório como a primitiva estrada que ligava a Poseidónis, capital da Atlântida[23]. A verdade é que a tese de Estrabão escrita em 29 a. C. era perfilhada por Éforo, geógrafo grego do século IV a. C., tendo posteriormente, durante a Época Romana, Plínio o Velho, Pompónio Mela e Ptolomeu designado este lugar por Promontorium Sacrum ou Sacrum Promontorium.

Não poderá ser fantasia vã, delírio febril de mente afectada, tipo «new age» folclorista desprovida de fundamentos iniciáticos e académicos, afirmar que os Templários e os Freires de Cristo sabiam da existência de um Reino Subterrâneo. Sabiam e professavam a tese! Por exemplo, no texto em itálico Nova Instrucçam Filosofica, da autoria de Frei Francisco de Vasconcelos, professo na Ordem Militar de São Bento de Avis, Mestre em Artes e Doutor na Sagrada Teologia no ano de 1761, diz na Instrucçam VI[24]:

“Em que se dá notícia dos hydrofilacios ou receptaculos de agoa, que residem nas entranhas da terra, a que o mar se cômunica por diferentes portas e aberturas, que para esse fim lhe franqueou a natureza.

“[…] Ainda dizem mais alguns filósofos: e é que não só se precipita o mar a estes caudalosos abysmos, senão que também se cômunica circularmente pelo corpo da terra, imitando a circulação contínua que o sangue faz pelas veias de qualquer corpo, que se anima com alma sensitiva; em tal forma, que baixam às entranhas da terra por muitas partes as agoas marítimas por ter o solo do mar para esse fim diferentes portas: singularmente se despenham por uma porta mui dilatada que os Geógrafos tem descuberto debaixo do polo Ártico: dividindo-se logo em vários ramos, que são as veias, e ocultos condutos, por onde se vão comunicando, sucessivamente repartindo por todo o globo terráqueo; e tornando-se depois a unir saem também continuando o seu curso por outra dilatada porta, que há debaixo do polo Antártico: novamente se espalham pelo líquido elemento e depois de formarem varias correntes tornam outra vez a baixar pelo polo Ártico […] estabeleceram os Authores todo este discurso na maravilhosa relação que fizera o que por arte diabólica fora levado a registrar ambos os polos da terra, porque dizem, que confessara tinha visto a franqueza das portas, por onde estão entrando e saindo continuamente as agoas marítimas, sendo assim que bastava para comprovar à circulação destas agoas não poderem chegar os navios, nem ainda aproximarem-se aos polos sem evidente perigo de padecerem o naufrágio: argumento e manifesto indício de precipitar-se o mar por um, e sair por outro polo […].”

Esse conceito de Frei Francisco de Vasconcelos de maneira alguma é singular, visto ser a continuação daquele expedido já em 1665 pelo padre jesuíta Atanasius Kircher, no seu tratado Mundus Subterraneus (editado em 1682 em Amesterdão), ambos dando vazão à tradição mediterrânea das Cryptas Ferratas, criptas cerradas ou secretas, iguais às hindustânicas Gupta-Lokas, de significado igual, espaços privilegiados, destinados a cerimónias de cariz iniciático secreto, disseminados por vários lugares subterrâneos da mesma bacia mediterrânea. O próprio Francisco de Holanda, pintor português do século XVI, pintou a Terra no 1.º Dia da Criação com uma abertura no Pólo Norte. Será tudo isso acaso, ou será a continuação e testemunho de antiga tradição, geralmente passada de “boca a ouvido”, ou seja, por comunicação oral, e grafada, esculpida ou pintada nessa forma que o símbolo esconde? A verdade é que o Promontório é oco por dentro e as profundezas da vizinha Gruta/Lapa do Monte Francês (que vivi directamente) comunicam com ele.

Gruta/Lapa do Monte Francês, Sagres

Com tudo isso, ainda, identifica-se plenamente a bem pouco conhecida Lenda de Sagres, recolhida oralmente junto dos locais pelo meu caríssimo amigo Adolfo Cavaco, a qual me limitei a apurar linguística e ortograficamente:

“LENDA DE SAGRES – Promontório cuja terra sagrada é fustigada pelo vento, por ordem dos deuses, atemorizando os homens. Diz o povo simples e o esclarecido que, outrora, aí se reuniam os deuses para decidir do destino do Mundo. Quando a invernia sossegava, aí todo o ser vivente se aquietava e curava. O tempo passou e tudo mudou… mas várias coisas notáveis ficaram assinaladas. Como essa de um homem que por ali passando encontrou um Ser divino, que lhe disse que os deuses novamente voltariam quando, como ele, a Humanidade tivesse todos os Génios de novo reunidos em si, o que iria ser a origem de um Novo Povo.

“Que esse homem e esse Povo receberiam o Ceptro, nesta Nação pequena mas grande dos confins do Ocidente, mas que não mandariam no Mundo nem por ele seriam mandados.”

A origem dessa lenda estará no Apocalipse do Pseudo-Metódio (bispo greco-bizantino), obra escrita em língua siríaca no final do século VII d. C. que era afamada entre bizantinos, árabes e moçárabes (a caneça do Cabo de São Vicente era das mais ilustradas e famosas do Gharb islâmico), cujas profecias dão-nas como do “Imperador dos Últimos Dias”[25].

Do período Celta ainda se avista em pleno Promontório restos de um templo circular, adaptado a aparelho de artilharia no século XVI, e antes das muralhas da fortaleza mas já sobre o Promontório acima da praia da Mareta, ergue-se um conjunto de pequenos marcos pétreos dispostos em círculo. Em resumo, os indícios ainda existentes apontam ter existido culto ctónico/necrolático em todo este espaço promontórico, cujo “composto” sinergético seria a fonte de toda a magia sagrada aqui levada a efeito pelos sacerdotes das diversas religiões que, ciclicamente, transitaram por este verdadeiro cóccix ou sacro de Portugal.

Com a ocupação árabe do sítio, no século VIII, deu-se ao Promontório o nome de Chak Rak (sonância fazendo lembrar aquela outra palavra sânscrita, Chakra), “Ilha dos Rochedos”, posteriormente mudado para Çacron, “Pedra de Fogo”, topónimo originado no latino Sacrum, “Sagrado”, donde se deu a corruptela Sagres, mesmo assim associado a Segrel, ou seja, o Trovador que na corte henriquina da Guadalupe decerto terá encontrado pouso seguro para as suas composições remuneradas.

No período árabe já aí viviam cristãos, junto ao Cabo de São Vicente, na “Caneça da Península” – Kaniçat al-Ghurab – cujo culto era celebrado na “Igreja do Corvo” (Elkenicietal Corabh), como referem os historiadores árabes do século XII, Muhammad al-Idrisi e Abu Hamid al-Andalusi. O cronista Ahmad al-Razi, que viveu no século X, é fonte para a História Geral de Espanha de 1344 no tocante ao culto moçárabe feito às relíquias de São Vicente na igreja do Corvo, desde o ano 779, reinando Abdrramã I, culto esse que seria o pólo de transição, no sudoeste da Península, do Islamismo para o Cristianismo.

O culto Vicentino atrairia para o lugar deste Promontório Sacro tantos os místicos e eruditos do Islão como os da Cristandade, desde toda a Estremadura, Algarve e Andaluzia, constituindo assim um importante pólo de aglutinação da espiritualidade no sudoeste da Península Ibérica, precisamente na mesma época em que na Galiza crescia o culto a Santiago de Compostela, atraindo grande quantidade de peregrinos. A peregrinação jacobeia terá mesmo descido a Sagres, em visita ao lugar do santo de Valência (mesmo depois dos seus restos mortais já terem sido trasladados para a Sé Catedral de Lisboa…), e de Sagres, por sua vez, a peregrinação terá subido a Compostela e à Corunha, até junto da “Senhora da Barca” ao pé do “Mar dos Mortos”, o Finis Terrae do Norte. Memória disso ficaria aqui, no Sul, o Caminho Santo junto à aldeia de Touro, e o onomástico Monte Francês no qual, como já disse, se abre profunda caverna cuja entrada fiz pela sua chaminé indo adentrar o mundo subterrâneo sagrense. Outra gruta natural a que desci, situa-se em pleno promontório e explana-se pela ocacidade deste.

Entrada da Gruta/Lapa do Monte Francês

Em 4 de Outubro de 1434, D. Duarte, após solicitação ao Papa Eugénio IV, concedeu aos Franciscanos a licença de fundação dum hospital, destinado a albergar peregrinos enfermos, junto ao Cabo de São Vicente, assim prosseguindo eles neste Concelho algarvio a obra espiritual iniciada pelos Templários, já que os continuadores destes, os Freires de Cristo, estavam então completamente absortos no missionário da expansão marítima, pelo que se recorreu aos Franciscanos, talvez Beguinos mas decerto não deixando de ser patrísticos e patrológicos. No início do século XVI, o Bispo de Silves, D. Fernando Coutinho, mandou fazer um convento no Cabo de São Vicente destinado aos frades Jerónimos, mas estes só estiveram lá até 1516, sendo substituídos em 1519 por religiosos Franciscanos de Santa Maria da Piedade, vindos de Lagos.

Já antes, o Infante D. Henrique mandara levantar no Promontório Sagrado uma igreja consagrada a Santa Maria, sob a evocação da Stella Maris. De facto, em 14 de Outubro de 1459 o Papa Pio II, através da bula Ex iniuncto nobis, elevou, a pedido do Infante, a paroquial esse templo pertença da Ordem de Cristo. Em 1516 seria elevada a matriz, sob a evocação de Nossa Senhora da Graça, afinal, a Padroeira de São Bernardo de Claraval (Notre Dame de Toutes Graces) e a quem se associa a Candelária, festividade litúrgica que fora caríssima aos Templários.

Do tempo do Infante há ainda no interior desse templo o frontal de azulejos do altar (restaurado ou substituído por outro igual no século XVII), onde se vê ao centro a vide e a espiga entrelaçadas (alusão à Sagrada Eucaristia conforme o Rito de Melki-Tsedek), e nos lados pavões em cima de roseiras floridas de branco (referência ao compost stella da Grande Obra Hermética que está sob o Orago da Mãe Divina, pois que a Alquimia e os seus tratados escritos ou só ilustrados também são chamados de Roseiral Mariano e Roseiras dos Filósofos). Da mesma época tem-se a imagem de Santa Catarina, o baptistério (em formato de taça), a pia de água benta (em formato de mama, de seio feminino) e uma curiosa “fonte santa” na sacristia: apresenta no frontal um quadrado sob um triângulo e dentro deste um M com um coração ao centro. Designa o quaternário da Matéria sobreposto pelo ternário do Espírito, representado pelo Coração de Maria (Cordo Maris), símbolo matrístico do Santo Graal tanto para os Templários como para os Franciscanos, estes os “Ligures” da Cristandade. Tenho ainda a acrescentar que o altar original constituía-se de sete patamares os quais, decerto, representavam os Sete Céus ou Planos de Evolução Universal por que se reparte a Vida e a Consciência.

A “fonte santa” na sacristia da igreja paroquial de Sagres

No exterior tem-se um dos monumentos mais enigmáticos de Sagres, constituído por uma forma geométrica com raios desenhados por fiadas de pedras toscas e desiguais, sendo vulgarmente designado por “rosa dos ventos”. Do centro dessa configuração, com um diâmetro de 43 metros, divergem 49 raios em linhas rectas que, assim, fazem ruir a hipótese de “rosa dos ventos”, pois não se conhecem disposições desta natureza com mais de 32 rumos. O argumento mais verosímil é dado pelo professor Luís de Albuquerque[26], quando diz tratar-se de “um quadrante de gnómon vertical, de que essa enigmática figura foi, afinal, o quadrado horizontal”. Ora, o gnómon do relógio solar, como se vê na torre de vigia da muralha por cima desse “quadrado horizontal”, estava direccionado a Cabo Verde e a Porto Seguro, no Brasil, portanto, ao Extremo Ocidente do Globo, para onde o Infante D. Henrique dirigiu a sua atenção na demanda da “Terra da Ventura”, que ele bem sabia existir por conhecimentos herdados pelos Templários dos navegadores antigos, árabes e fenícios, e o qual gnómon marcava originalmente a direcção sudoeste.

Disposição matemática do “quadrado horizontal” de Sagres

Havendo em tudo isso matemática astral marcada pela posição dos astros, lembro uma vez mais o nome árabe do Promontório: Chak Rak, como disse foneticamente semelhante ao sânscrito Chakra, aqui o Sacro na base espinhal do Homem e do País como Cruz Flogística ou “quadrante solar” (⊕), decerto bem manobrado por aquela que fez (e quiçá ainda o faça, mesmo cerrada para o século ou ciclo) de Sagres o Santuário do Infante e dos Deuses: a Soberana Ordem de Mariz (cujo nome está impresso numa tela seiscentista exposta na igreja de Santa Maria de Lagos), dizendo a Tradição Iniciática ser constituído de 111 Adeptos Independentes como viáculos representativos do Sol Espiritual, Oculto ou Saturnino, portanto. Sendo Sagres o Centro Sacro ou Chakra Raiz de Portugal, como organismo vivo e dinâmico, corresponde-lhe a terceira letra-mãe hebraica, Shin, e aí se concentram as energias flogísticas de Kundalini ou do “Laboratório do Espírito Santo”, bem assinalado no simbolismo da Virgem Negra.

“Laboratório de Kundalini ou do Espírito Santo”, o cóccix da coluna dorsal da Lusitânia (curiosamente, a imagem aérea geral do Promontório assemelha-o a um falo ou a uma flor-de-lis), acaso será essa a verdadeira e espiritual Vila do Infante, Tarsanabal ou Sagres, que a crónica de Zurara diz ter sido fundada no século XV, acrescentando a História não saber onde a situar… por não haver a mínima pista que positivamente a localize em Sagres ou no Cabo de São Vicente. Quanto muito, em Quatrocentos, a verdadeira e temporal Vila do Infante estaria entre a Raposeira e a Vila do Bispo, mas em Sagres, então reduzida a escassos e esparsos casebres de pescadores, nunca! Mesmo que fosse para melhor e mais eficaz exercício da lei do sigilo, referente aos segredos de navegação cujo monopólio universal era exclusivo da Escola Náutica do Infante, ainda assim faltam aqui as provas que abundam em Lagos, talvez sendo a maior a necessidade de sustentar uma Escola com tanta e diversa gente, boa parte habituada aos luxos próprios da vida palaciana, que Sagres de maneira alguma poderia dar: só peixe para comer, água salobra para beber, casebres desabrigando dos ventos rijos, enseada desabrigada à mercê das correntes fortes dos oceanos mediterrâneo e atlântico que aí se cruzam, tempestades varrendo para terra naus atracadas e em terra destruindo um e qualquer hipotético estaleiro. Nada, mesmo nada Sagres tinha, enfim, para manter a sobrevivência e a dinâmica de Escola… excepto a observação astronómica. Mas a Escola não se fez só de observações dos astros…

Com tudo o dito, devo agora recapitular em desfecho final: o Infante D. Henrique tinha a sua Confraria Espiritual em Sagres e a Escola de Navegação em Lagos[27], tendo residido a meio caminho entre ambas. Essa Academia de Navegantes congregou os maiores especialistas que iriam inaugurar uma era de Renascença, em termos de avanços tecnológicos e culturais para o mundo de então. Por Sagres[28], através da figura imponente do Infante, o país projectou-se  no mundo em diáspora, a Gesta Dei Per Portucalensis, sobretudo de civilização, cultura e concórdia, a qual faz-se sentir ainda hoje onde quer que a presença de Portugal seja reclamada.

 

NOTAS

 

[1] Gomes Eanes Zurara, Crónica dos Feitos da Guiné (1452-1453), segundo o manuscrito da Biblioteca Nacional de Paris. Reimpresso em dois volumes pela Editora Civilização, Porto, 1973.

[2] Peter Russel, Henrique o Navegador. Livros Horizonte, Lisboa, 2004.

[3] Gomes Eanes de Zurara. Filho de um cónego, nasceu entre 1410 e 1420 e faleceu em 1473 ou 1474. Educado na Casa do rei D. João I, ascendeu depois aos cargos de guarda-mor das escrituras da Torre do Tombo e cronista real, no que sucedeu a Fernão Lopes. Escreveu a Crónica da Cidade de Ceuta, ou 3.ª parte da Crónica de D. João I (edição posterior de F. M. Esteves Pereira, Coimbra, 1915), a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, a Crónica de D. Duarte de Meneses (ambos os tomos na edição única dos Ineditos de Historia Portugueza, 1792-93) e a Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné (edição posterior de A. Dias Dinis, Lisboa, 1949). Muito apoucado pela generosidade dos autores modernos no confronto com Fernão Lopes, Zurara tem, no entanto, um enorme mérito como cronista se o situar no seu tempo e o equiparar aos congéneres estrangeiros. As suas crónicas mantêm uma metodologia sólida e a capacidade de captar situações e sentimentos colectivos. As duas crónicas dos Meneses, interessantíssimas como fontes, aguardam o historiador que delas se ocupe e lhes dê edição moderna e crítica.

[4] O nome Ínsula Brasil já era conhecido de há muito, por certo graças à herança documental e cartográfica dos antigos navegadores fenícios e árabes que a Marinha Templária possuiria e depois a Escola Náutica de Sagres ligada à Ordem de Cristo através do Infante D. Henrique, seu Administrador Geral. Com efeito, os cartógrafos medievais destacam nas suas cartas náuticas o nome da terra Brasil, como é o caso da Carta de Pizigano, de 1367, do Atla de Andrea Bianco, de 1436, ou da Carta de Bartolomeu Pareto, 1455. Por seu turno, aquando da viagem à Índia do almirante Vasco da Gama, em 1498, ele navegou para Ocidente e ancorou defronte a terra firme e larga, que os historiadores consideram hoje ter sido o Brasil, antes de retomar a marcha para Oriente. Já antes, em 1487 e 1488, Pedro Vaz da Cunha, o “Bizagudo”, e João Fernandes de Andrade navegaram do Golfo da Guiné para o Brasil. Duarte Pacheco Pereira, autor do famoso Esmeraldo de Situ Orbis, também para aí se dirigiu várias vezes antes de Pedro Álvares Cabral em 1500, data oficial da sua Descoberta (vd. a minha História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae), Madras Editora, S. Paulo, 2004). Antes de todos esses e segundo Assis Cintra baseado nos escritos do jesuíta Manuel Fialho, o capitão de mar Sancho Brandão, que pertencera à Marinha de Guerra da Ordem do Templo e terá se transferido para a de Cristo, teria chegado numa expedição de reconhecimento à “Ilha perdida do Mar do Ocidente”, mais além das Canárias e apontada como o Brasil, notícia comunicada por D. Afonso IV de Portugal ao Papa Clemente VI em 12 de Fevereiro de 1343 (St. Brendan´s Search for Paradise, in A brief history of the European Mith of de Garden. Press American Studies and the University of Virginia, 2001). Muito possivelmente já nos anteriores séculos XII e XIII haveriam navegações de longo no Mar Ocidental à Ínsula Brasil, pois esse nome era muito comum nas falas lisboetas do século XIII por aplicado para designar os carvoeiros da cidade como os “brasis”, certamente alcunha comparativa entre esses que manuseiam o carvão e o estado sujo, lastimoso em que regressavam à terra aqueles marinheiros de mar alto que a História traz esquecidos.

[5] A. Moreira de Sá, O Infante D. Henrique e a Universidade. Comissão Executiva das Comemorações do Quinto Centenário da Morte do Infante D. Henrique, Lisboa, 1960.

[6] Foi grande a devoção do Infante ao Espírito Santo e chegou mesmo a atribuir-lhe os Descobrimentos marítimos, ligando implicitamente o Culto do Divino Espírito Santo à Expansão que presidira ou realizara. Terá mesmo encomendado aos capelães, pagos pela Ordem de Cristo, das igrejas do Cabo de São Vicente, de St.ª Catarina da Raposeira, do Restelo e de além-mar, “que lhes praza cada semana ao sábado para sempre em minha vida e depois da minha morte, dizer uma missa de Santa Maria e a comemoração seja do Espírito Santo…” – in João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, tomo I, pp. 576-594. Instituto para a Alta Cultura, Lisboa, 1944.

[7] Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses – II, p. 317. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa. Vd. também o Leal Conselheiro, de D. Duarte. Edição de Joseph Piel, Paris, 1882.

[8] Cf. Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

[9] José E. Horta Correia, A Arquitectura Religiosa do Algarve de 1520 a 1600. Publicações Ciência e Vida, Lda., Lisboa, 1987.

[10] Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora, Ltda., São Paulo, 2003.

[11] Henrique José de Souza, Salmos de Davi – Interpretados por JHS. Ed. Sociedade Brasileira de Eubiose, São Lourenço, 1999.

[12] Manuel J. Gandra, O Neotemplarismo, p. 197. In Cadernos da Tradição – O Templo e a Ordem Templária de Portugal, Ano I, N.º 1, Solstício de Verão de 2000, Lisboa – Mafra.

[13] Alexandre Ferreira, História das Ordens Militares que houve no Reyno de Portugal, Academia Real da História, Lisboa, 1735.

[14] José Manuel Garcia, Sagres. Câmara Municipal de Vila do Bispo, 1.ª edição – Julho de 1990.

[15] Silva Lopes, na Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Lisboa, Academia das Ciências, 1841, pp. 218-219, diz sobre este sítio vizinho de Sagres: “Raposeira, aldeia pequena e pobre, da qual só 13 casas ficaram em pé, e essas arruinadas pelo terramoto, tendo então 90 fogos. […] Entre esta aldeia e a Figueira, pouco distante na estrada a N., está a igreja de N.ª Sr.ª de Guadalupe, mui antiga e que se diz foi dos Templários, a qual nada sofreu no terramoto”. E Augusto Soares d´Azevedo Barbosa de Pinho Leal, em Portugal Antigo e Moderno, vol. I, Lisboa, Livraria Editora de Mattos Moreira e C.ª, 1873, p. 51, diz: “Esta igreja [N.ª Sr.ª de Guadalupe] e umas casas que lhe ficam próximas, nada sofreram com o referido terramoto [1755], o que o povo atribui a milagre da Senhora”. E na nota 12 do mesmo livro, diz ainda Pinho Leal: “Entre a Raposeira e a aldeia da Figueira está a igreja de N.ª Sr.ª de Guadalupe, muito antiga, e que consta ter sido dos Templários”. Por seu turno, Raul Proença no Guia de Portugal, vol. II, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1927, p. 310, reitera os autores anteriores: “A sua construção [da igreja de N.ª Sr.ª de Guadalupe] deve datar do século XII [antes, do século XIII], e já no reinado de D. Dinis se lhe encontram referências; é possivelmente fundação dos Templários”.

[16] Ana Maria de Passos Parente, Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe na Raposeira. Texto inserto na dissertação da autora no Mestrado de História da Arte – Escultura Figurativa na Arquitectura Religiosa do Algarve, na Baixa Idade Média. Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa, 1987.

[17] Monumenta Henricina, vol. VII (1439-1443), p. 104. Coimbra, 1965.

[18] Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné, vol. II, Lisboa, 1949, p. 242: “Dos outros Mouros que filharam em Tider [Tenerife] envyarom Lançarote e os outros capitães, […] e a Santa Marya de augua de Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos”. Repetido por Mário Martins em Peregrinações e Livros de Milagres na Idade Média, Coimbra, 1961, pp. 66-68: “V – Peregrinações a N.ª Sr.ª, no séc. XV […] Pescadores e marinheiros faziam promessas a algum santuário da Mãe de Deus. E assim, escreve Zurara que Gil Eanes, Lançarote e outros capitães, de volta da Ilha de Tider, mandaram um escravo para se vender a Santa Maria de augua de Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos”.

[19] Serafim Cruz, Senhora de Guadalupe: Bosquejo Histórico da Ermida de Águas Santas – Maia, Porto, 1973, p. 25: “Que quer dizer “Guadalupe”? Não tenho qualquer contribuição filológica sobre este interessantíssimo assunto. O nosso povo, por vezes simplificador em assuntos de etimologia, diz “Água de Lupe”. Será “Lupe” a contrafacção de “lúcida”? […] “Lupe” seja a contrafacção de lúcida, límpida, saborosa, pura, água santa, […] Não estou, reafirmo, documentado para essa afirmação positiva. Mas é de admitir esta ginástica vocabular: Água de Luce – Água de Lupe – Agualupe – Guadalupe”.

[20] Thomas Morus, A Utopia. Tradução de Pinharanda Gomes. Guimarães Editores, Lisboa, 1992.

[21] Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada. Lello & Irmão Editores, Porto, 1984.

[22] José Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, vol. II. Lisboa, 1897.

[23] Mário Roso de Luna, De Sevilla al Yucatán (Viaje ocultista através de la Atlântida). Madrid, 1926.

[24] Documento publicado em primeira mão por dito “Anónimo de Sintra” (Olímpio Neves Gonçalves), como Apêndice ao livro A Terra Oca, de Raymond Bernard. Editorial Minerva, Lisboa, 1976.

[25] Paul J. Alexander, The Medieval Legend of the Last Roman Emperor and its Messianic OriginIn Journal of the Warburg and Coustauld Institutes, vol. 41, University of California Press, 1978; Paul J. Alexander, The Byzantine Apocalyptic Tradition. University of California Press, 1985; José van dean Belessar, A profecia apocalíptica do Pseudo-MetódioIn Luso-Brazilian Review, 28, 1991.

[26] Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, direcção de Luís de Albuquerque, coordenação de Francisco Contente Domingues, 2 vols. Lisboa, Círculo de Leitores e Editorial Caminho, 1984.

[27] Pouco importa que a Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres estivesse sedeada na baía de Lagos e que o nome sagrense surja graças à concessão de 1443 do regente D. Pedro a esse seu irmão que lhe pediu essa região para fundar uma vila (Raposeira). Se a Escola Náutica de Sagres veio a ser coberta de halo de mito e mistério, deve-se aos escritos apologéticos de João de Barros (1496-1570), justamente apodado o “Grande” ou o “Tito Lívio Português”, desenvolvidos e, 1625 pelo cronista inglês Samuel Purchas (1575-1626). Um facto é certo: o Infante D. Henrique reuniu na sua Escola ou Academia – não se deverá ignorar a sua faceta de universitário e reformador da Universidade portuguesa – sábios, capitães e gentes de mar de diversas nacionalidades, que ficaram ao abrigo do espiritual e temporal da Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, em troca exigindo-lhes  os compromissos de silêncio e segredo, indispensáveis para que Portugal viesse a ser o exclusivo empório marítimo dos séculos XV-XVI, facto que atraiu invejas e cobiças de outros países que não se coibiram em inventar estorietas onde reclamavam para si, através de acontecimentos fantasiados, a primazia das descobertas marítimas que, acusavam, afinal os portugueses só haviam secundado. Também nisto a Madeira e o Porto Santo, tal como as demais colónias portuguesas nos cinco continentes, não escaparam aos reclamos de alheios tardios, tresandando a política corsa, por via do invento de personagens e nomes fictícios destinados a semear a confusão a favor da instalação de interesses político-económicos, financeiros e militares estrangeiros.

[28] Ante as alterações profundas que se registam hoje no espaço monumental do Promontório de Sagres, que lhe retiram quase toda a sua traça primitiva, obras que foram levadas avante por certos políticos da actualidade que não sabem o que fazem e o que fazem é sem saber, lembro a polémica sobre as obras de remodelação que se pretenderam para Sagres em 1933, as quais não se realizaram, altura em que Fernando Pessoa escreveu no Diário de Notícias de 8 de Julho de 1934 palavras preciosas e bem actuais encabeçadas pelo título:

“DEIXEM SAGRES EM PAZ. Mas se Sagres é, assim, um monumento por si só, para quê a vaidade dos homens, seja a de um ministro ou a de um arquitecto iluminado, pretender erguer outros monumentos que serão sempre extemporâneos, desintegrados, inúteis, por mais intelectuais que sejam os propósitos e os autores?

“Sejamos humildes, na nossa geração, com foram as gerações anteriores, perante a Natureza e a História, para que a imaginação continue a ter em Sagres a sua referência, o seu abstracto. Graal português, não construindo aí mais nada que para nada mais servirá senão para perturbar e diminuir o pouco ou nada que lá existe!”

Arte Real dos Mestres-Canteiros na Matriz de Loures (Templo, Siglas e Marcas) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Jan 21 2019 

Santo Antão é dos porcos,
São José dos carpinteiros,
Santa Luzia dos trolhas,
O Diabo dos pedreiros.

Tradicional

Como muitas igrejas e mosteiros de veneranda antiguidade, também a igreja matriz de Loures, com foro de catedral,  está decorada nas suas paredes exteriores por enigmáticas siglas companheiris geralmente atribuídas a agremiações de Construtores-Livres, estes constituindo a primitiva Maçonaria Operativa que, reunida em guirlandas de ofícios tradicionais, vinha a ser a Arte Real de levantar, pedra sobre pedra e trave sobre trave, Casas consagradas a fins espirituais sobretudo, nisso aplicando a geometria e a arquitectura sagradas, cujos segredos d’Arte, com o finar desses verdadeiros Maçons, com eles desapareceu. Hoje nada existe senão o lúdico saudosista, quase tornado uma paródia das grandezas do passado.

Escasseia em Portugal a bibliografia sobre as siglas ou signos lapidários (marcas de canteiro). Há, todavia, no meio da aridez e desconhecimento do assunto, um livro que é feliz excepção à regra: editado pela Imprensa Nacional, Lisboa, em língua francesa, trata-se daquele «catálogo» sobre siglas da autoria do arquitecto do Rei, Joaquim Possidónio Narciso da Silva, datado de 1868, obra rara depositada na Biblioteca Nacional de Lisboa, com a referência II. G. 6879 A[1]. Nele o autor escreve a dado passo, reconhecendo a complexidade do assunto e cujas palavras iniciais faço minhas:

“Desejando conhecer a fundo a origem da invenção destes sinais (…), não temos a presunção de ter decifrado o enigma, mas simplesmente tentar facilitar o trabalho a alguém mais inteligente e sabedor que consiga resolver esta questão tão problemática até agora.

“O senhor conde de Raczynsky foi o primeiro que em Portugal fez gravar na sua notável obra As Artes em Portugal, três gravuras com algumas siglas copiadas do Castelo de Freixo de Espada à Cinta, de Moncorvo, de Numão, de Lamego e de Beja; ele crê que estas marcas eram escolhidas pelos Construtores-Livres para se reconhecerem; isto porque os trabalhadores que pertenciam a esta Sociedade e que durante a Idade Média percorriam a Europa Central para exercer a sua profissão, construíram os monumentos do estilo ogival.”

E Possidónio da Silva prossegue em toda a extensão de sua obra o querer provar que as siglas lapidárias tinham unicamente a finalidade utilitária da identificação do trabalhador para efeito de pagamento do seu trabalho. Decerto que essa opinião está correcta mas só parcialmente, pois que a maioria desses sinais insculpidos é positivamente identificada como pertencente ao espólio da simbologia mística e hermética que se comprovam nas ilustrações de inúmeros fólios e grimórios medievais, logo, sendo símbolos sagrados, os quais nesses tempos medievos de intensa espiritualidade sobreposta ao imediatismo temporal, característico da mentalidade social “mágica” medieval, por certo nenhum iniciado na Arte Real ninguém pensaria gravá-los só como simples marca utilitária de identificação pessoal para fins salariais, portanto, exclusivamente profanos, muitíssimo menos em edifícios religiosos, já de si assumidos Moradas de Deus que, se fosse só isso, justificaria a premissa da usura contrariando a sua proibição nas Escrituras Sagradas (Levítico 25:17; Mateus 25:13-30; Lucas 19:12-26), e com ela aflorando a ganância e a desconfiança do próximo.

A preciosa obra de Possidónio da Silva viria a ser comentada numa outra que abordou as siglas e marcas lapidárias do Paço de Sintra, da autoria do Conde de Sabugosa[2].

Pessoalmente, tendo a crer que as siglas serviriam como assinatura petroglífica não pessoal mas colectiva da irmandade (de “irmão”), companhia (de “companheiro”). confraria (de “confrade” ou “com frater”, isto é, “entre irmãos”)  ou corporação (de “cooperativa”, “co-operativa”, cooperação operática) assim deixando a sua marca, o seu ex-libris em determinada obra do seu empenho, ao mesmo tempo expressando, em termos velados ou herméticos, na linguagem universal da simbologia, o teor reservado da doutrina perfilhada pela mesma corporação.

Exemplar de marca de canteiro (século XVI) no Mosteiro de Santa Maria de Belém ou dos Jerónimos, Lisboa

Tanto assim será que os signos canteiros não se perfilam num só tipo e sim dispõem-se em quatro classes gerais, conforme estão gravados tanto nos monumentos como nos incunábulos, como sejam:

1) Signos páleo-cristãos;
2) Signos mágico-cabalísticos;
3) Signos astrológicos;
4) Signos numéricos.

A ciência das siglas e marcas lapidárias, quase de certeza inspirada na iconografia judaica constante da Kaballah (que depois influenciaria a Mística do Islão, mormente a Guemetria e Temurah originando a Numerologia que os místicos corânicos têm até hoje como ciência tradicional), também se regista numa sua congénere medieval a que anda associada a Heráldica: a Sigilografia, ou “ciência das matrizes e selos”. Em determinados aspectos essa ciência sigilográfica, englobando a simbologia numismática ou das moedas, estabelece a relação da Magia Branca com a Armaria Medieval, especialmente no que toca aos símbolos, como diz muito bem o Marquês de Abrantes[3].

Esse ideografismo impresso tanto na pedra como no pergaminho, inclusive na madeira, seja em tábua ou em retábulo, atraiu a atenção do finado André Jean Paraschi (1946-1997) que, num livrinho de proporção modesta[4], publicou alguns símbolos e siglas retirados de “uns quarenta pergaminhos referentes à Ordem do Templo e umas quatro centenas redigidos durante a existência da Ordem de Cristo, fazendo parte da colecção especial do Arquivo Nacional da Torre do Tombo”.

Exemplares de moedas cunhadas pela Ordem do Templo (século XIII)

Como disse, na Idade Média viu-se o surgimento dos Monges-Construtores, apadrinhados e protegidos pelos Templários (e posteriormente pelos Freires de Cristo, mas então sob a forma de Mestres-Canteiros), muitos deles usando os hábitos ora beneditino ou cisterciense, a maioria, ora franciscano ou carmelitano, a minoria. Com efeito, dos Monges-Construtores, desaparecidos nos finais do século XIV, saíram os Mestres-Canteiros, aparecidos nos inícios do século XV, em pleno vigor e sempre ligados a confrarias locais, como aconteceu em Loures, que tiveram existência activa, com mais ou menos intensidade, praticamente até 28-30 de Maio de 1834, data que o Ministro da Justiça Joaquim António de Aguiar, maçom antieclesiástico com o justo apodo de “mata-frades”, liberalmente extinguiu as ordens religiosas em Portugal, tendo então a rainha D. Maria II transformado as ordens militares de Cristo, de Avis e de Santiago em simples titulares honoríficas, de mérito e laicas, no seguimento das reformas impostas às mesmas pela rainha D. Maria I, em carta de lei de 19 de Junho de 1789. Tudo isso consumou o desaparecimento definitivo dos reais segredos d´Arte.

Ora, a catedral de Santa Maria de Loures, pretendida cabeça do 28.º Mestrado do Templo, depois transferida a Bailio da Ordem de Cristo[5], recebeu importantes obras de restauro e ampliação desde 1695 a 1781, cujas receitas foram obtidas dos dízimos da Comenda de Cristo e das dádivas do povo da freguesia.

Ábaco de Mestre da Ordem do Templo na laje sepulcral defronte à entrada da catedral de Santa Maria de Loures

Por esse período de tempo foi criada na paróquia a Irmandade do Santíssimo Sacramento, dizendo dela o Padre Álvaro Proença[6]:

“Em redor do culto ao Santíssimo Sacramento e sobre toda a Confraria recaíam as maiores responsabilidades, tendo em contrapartida, também, as maiores honras.

“Começou a existir no ano de 1675 quando a Irmandade de N.ª Sr.ª da Assunção se juntou à Corporação dos Louvados formando a Irmandade do Santíssimo com 70 membros.

“A Irmandade (…), admitindo apenas oito mordomos por ano, tinha uma receita de 768.000 réis o que representava uma entrada de capital quase fabulosa.

“Por isso mesmo pôde auxiliar as obras de mosaico e a talha da capela-mor e apressar a conclusão, em 1716, da parte do trono e abertura do camarim.”

Os factos, carregados pela documentação histórica existente, apontam essa Irmandade como abrigo de confraria de Mestres-Canteiros, e talvez fosse por essa razão ter sido muito estimada tanto pelos Franciscanos da Mealhada como pelos Freires de Cristo de Odivelas, ambas as Ordens ainda conservando na época vestígios de antiga e iniciática Tradição Operativa.

Terá, pois, nascido essa do Santíssimo das primitivas Irmandades da Senhora da Assunção e dos Louvados, esta desde 1594 encarregada da manutenção da Matriz na qual, em 1620, encetou as primeiras obras de restauro, abatendo a velha torre dos Templários (de que restam umas pedras abandonadas ao lado da igreja) e levantando uma nova que ora se vê.

Referindo-se à ordenação do cemitério anexo e das lajes, Joaquim Mendes Leal, no seu livro hoje raridade bibliográfica[7], atribui tal encargo à Confraria dos Louvados usando abertamente o termo canteiro: “(…) que fosse oficial de pedreiro ou canteiro, com o vencimento de 40 réis por cada laje que levantasse e nivelasse a campa quando a baixasse, vendendo assim 120 réis por cada adulto que fosse à sepultura”.

Da intervenção dos Mestres-Canteiros da irmandade do Santíssimo nas obras desta Matriz, sabe-se dos nomes de alguns deles por meio de um documento raríssimo publicado pelo mesmo Mendes Leal nesse seu livro, sob o título Contrato entre a Irmandade do Santíssimo e obreiros, 1721. Nele se diz a dado trecho:

“(…) em virtude da procuração que apresentou que ao diante será incorporada, isto de uma parte e da outra Bento da Fonseca de Azevedo mestre entalhador, morador ao relógio de S. Roque, e outrossim Manuel Francisco Botelho mestre pedreiro morador na rua da Rigueira, por eles Manuel Domingues e Bernardo Gomes e Bento da Fonseca Azevedo foi dito em minha presença e das testemunhas ao diante nomeadas que eles estão contratados em seus nomes e nos que representam com ele mestre entalhador Bento da Fonseca fazer uma obra do seu ofício na mesma Igreja, a saber que ele mestre fará do arco da capela-mor para dentro a obra que contém um risco que ele mestre deu a eles oficiais e a seus constituintes no qual todos se acham assinados por detrás do mesmo risco (…)”

Avança o Padre Álvaro Proença, no seu livro também já citado: “As obras continuaram até 1781 e neste ano a igreja foi reaberta completamente restaurada e transformada num amplo e maravilhoso templo.

“Na porta principal, feita em 1778 e que custou 282.000 réis, foi gravada a data de 1781 por ser a da reabertura da igreja.

“A obra do mosaico foi executada pelo mestre canteiro Manuel Francisco Botelho e desconhece-se o preço por que ficou.

“A obra de talha do camarim da capela-mor importou em 10.500 cruzados, quantia que foi paga ao artista e empreiteiro Bento da Fonseca, pela Irmandade do Santíssimo. A talha dourada do resto da capela só se concluiu em 1740”.

Sigla dos Mestres-Canteiros da Irmandade do Santíssimo na igreja matriz de Loures

Sabe-se, pois, os nomes de alguns dos Mestres-Canteiros da Irmandade do Santíssimo, cooperação operática protegida da Ordem de Cristo por intermédio dos seus vigários de Loures, os quais custearam e protegeram enormemente os obreiros e as obras em questão. Recorrendo a Mendes Leal (ob. cit.), veja-se agora quem foram os vigários da paróquia entre 1694 e 1794:

De 1694 a 1733, foi vigário o cavaleiro da Ordem de Cristo p.e André de Carvalho, por 41 anos.

De 1734 a 1745, foi vigário o cavaleiro da Ordem de Cristo p.e Estevão de Brito Barros, por 10 anos.

De 1752 até 1794, foi vigário o cavaleiro da Ordem de Cristo p.e Teotónio José de Brito Barros, por 42 anos, “tendo deixado à igreja tudo quanto possuía” (in P.e Álvaro Proença, ob. cit.).

Assim se chega ao ponto de entendimento das iniciáticas marcas lapidares, quem foram os mestres da pedra lourenhos e sob que confraria operaram.

Em toda a volta da Matriz contei 60 siglas (mas creio haver mais nas partes altas das paredes onde a vista não alcança) com as figurações seguintes:

As da primeira fiada são as mais fartas, e as restantes as mais raras, conforme publiquei em primeira mão em 1990 num artigo de revista local (Loures Magazine), depois novamente publicado pelo Município[8], tema que Manuel J. Gandra tomaria depois, incluindo esse meu lourenho ad litteram, assinalando siglas e marcas lapidárias em diversos imóveis portugueses[9].

Siglas lapidares nas paredes exteriores da igreja matriz de Loures

Para haver uma confraria de companheirismo no auge da Renascença saloia, terá que haver um chefe da mesma. Ora, o Mestre-Canteiro ou Oficial de Pedreiro encarregado de revestir a superfície inferior das paredes internas da Matriz com mármores embutidos de várias cores, de belo efeito decorativo, desde o altar-mor até à porta principal, foi Manuel Francisco Botelho, que executou a obra em 1760[10].

Vários sinais fazem-me acreditar que foi efectivamente Manuel Francisco Botelho o Mestre dos Irmãos canteiros da Irmandade do Santíssimo Sacramento, ademais no exterior desta igreja, junto à porta lateral do lado do Evangelho (o lugar do Verbo, da Fala Divina ou Filia Vocis ordenando do Céu à Terra ordenada), há uma sepultura sem inscrição mas cuja laje está ornada com símbolos canteiros. O interessante é nela apresentarem-se as mesmas siglas fartas já apontadas, acrescentando-se alfaias da profissão de canteiro (esquadro e pêndulo, martelo e escopo, maço sobreposto pela cruz, esta assinalando a profissão de fé cristã do defunto quando vivo, e nessa vida o Santíssimo a quem devia obediência o pedreiro livre na Arte).  Por que não, então, estar aí sepultado o próprio Manuel Francisco Botelho, pressuposto Mestre de Cantaria da Irmandade do Santíssimo Sacramento?

Pressuposta sepultura chã do Mestre-Canteiro Manuel Francisco Botelho, no exterior junto à porta lateral da igreja matriz de Loures

Sendo a letra S a inicial dessa Irmandade, encontra-se no seu significado hermético o símbolo do duplo processo de Evolução – abertura para o alto – e de Involução – curvatura para baixo. Também é possível ver nela a subida sinuosa da fumaça sacrificial. O que domina nessas percepções diversas é o símbolo de uma unidade de movimento que põe em relação seres, elementos, níveis diferentes e até mesmo núcleos opostos. Já entre os Companheiros o S é inicial de Sabedoria, aqui, a Sabedoria do Santíssimo Sacramento como versão católica e popular do mais profundo Santo Graal devocionado como Vaso ou Taça Eucarística.

As pistas aqui ficam e com elas o meu contributo, na simples pretensão de que seja alavanca para leituras mais profundas aqui não cabendo senão a sugestão ou convite, como se queira, à demanda do maravilhoso e do belo daqueles egrégios que sabiam “fazer cantar a pedra”, nas palavras devotas de São Bernardo de Claraval, também ele construtor mas da Portugalidade.

 

NOTAS

 

[1] Joaquim Possidónio Narciso da Silva, Mémoire de l´archéologie sur la veritable signification des signes qu´on voit gravés sur les anciens monuments du Portugal (“Memória da arqueologia sobre a verdadeira significação dos sinais que se vêem gravados sobre os antigos monumentos de Portugal”), Lisboa, 1868.

[2] Conde de Sabugosa, O Paço de Sintra. Imprensa Nacional, Lisboa, 1903. Reimpressão anastática da edição original pelo Gabinete de Estudos Históricos e Documentais da Câmara Municipal de Sintra, 1989-1990.

[3] Marquês de Abrantes, O Estudo da Sigilografia Medieval Portuguesa. Edição do Instituto da Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, Dezembro de 1983.

[4] André Paraschi, Símbolos Mágicos (?) da Ordem do Templo e da Ordem de Cristo. Ericeira, Março de 1992.

[5] Eduardo Brazão, A Igreja Matriz de Loures e os Templários. Academia Portuguesa de História, Anais, II Série, Vol. 22. Lisboa, 1975.

[6] P.e Álvaro Proença, Subsídios para a História do Concelho de Loures, Volume I, pág. 90. Lisboa, 1940.

[7] Mendes Leal, Admiravel Egreja Matriz de Loures (oriunda do século V, edificada pelos Templários, analiticamente historiada em livro ornado de estampas pelo Octogenario) José Joaquim da Silva Mendes Leal. Typographia do Commercio, Lisboa, 1909.

[8] Vitor Manuel Adrião, Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993.

[9] Manuel J. Gandra, Siglas e Marcas Lapidares – Subsídios para o Corpus Lusitânico, In “Cadernos da Tradição”, Ano I, N.º 2, Solstício de Inverno de 2001. Hugin Editores, Lda., Lisboa.

[10] Maria Máxima Vaz, Património Histórico-Artísticoin Loures – Tradição e Mudança, Vol. II. Edição da Câmara Municipal de Loures, 1986.

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