Paraíso Terreal Arábico: Bortuqal, برتقال  – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jan 7 2022 

A região saloia do Termo de Lisboa marcou-se, além da pastorícia, pela agricultura intensiva a que se juntou, até há poucos anos, na aldeia de Frielas, concelho de Loures, a piscatória. Ora, durante a Ocupação Árabe da Península Ibérica (do início do século IX ao início século XIV, aquando Granada foi definitivamente conquistada pelos Reis Católicos) e dada a influência geopolítica de Lisboa, a Al-Lixbuna arábica, está fora de dúvida que parte das populações mouriscas foram rapidamente convertidas e integradas na sociedade cristã pós-Reconquista, sem que os cristãos sobreviventes da Ocupação Árabe deixassem de manter os seus núcleos ou moçarabias que antes estavam sujeitas político-economicamente, apesar de manterem a liberdade de culto religioso, às alcaçarias ou alcáçovas dos governantes árabes. Assim, pós-Reconquista mantiveram-se as canecas ou caneças (al-kanissat), glose gótica, das comunidades cristãs moçárabes, isto é, com usos e costumes árabes que herdou dos ocupantes.

Não resta dúvida que apesar dos árabes não terem incrementado todavia desenvolveram bastante a tecnologia agro-piscatória saloia, aqui particularmente a frieleira. Na agricultura, têm-se exemplos disso desde o arado radial às noras, cegonhas, condutas d´água, etc. Na pesca, observa-se o formato arabizante das barcaças e batéis que antes povoavam o Rio Trancão, semelhantes às canoas do Tejo, em rasgo de meia-lua. E nem falo do linguarejar saloio, todo ele de raízes arábicas.

Mas a prova mais rasgada da presença árabe neste lugar é, incontornavelmente, a Pedra Arábica de Frielas.

Lápide possivelmente funerária de belo mármore branco (incompleta, que a restante ainda não foi descoberta e a que há tem as medidas 0,33X0,51X0,06 cm), possui caracteres cúficos arcaizantes, possivelmente do século V da Hégira (1009-1106), tendo sido achada bem dentro da veiga de Frielas, na Quinta de Santo António, na ocasião propriedade do sr. eng.º Castanheira das Neves, então governador do Banco de Portugal, que além dessa possuía outras propriedades na região.

A partir dos meados do século V da Hégira (= 25 de Agosto de 1009 – 2 de Setembro de 1106), a decoração da epigrafia tumular do Al-Andaluz (ou seja, a Andaluzia como área fundamental de denominação muçulmana da Península Ibérica) evoluiu no sentido de uma execução formal muito mais cuidada, por vezes apoiando-se em motivos florais, arquitectónicos e outros, onde a preocupação estética foi marcante, subordinando o estilo da própria escrita.

Saliente-se, nesse fragmento de inscrição da peça arábica de Frielas, a representação de um arco muito semelhante ao que se encontra na estela funerária de Muhammad Sir, de Córdova, além da moldura exterior dos chamados “quadriláteros verticais” que vem de um período anterior. Talvez este arco seja já a representação simbólica, um pouco fruste é certo, de um mihrab, representação característica das “estelas de Almeria”, ou “lápides de arco simbólico”, datáveis do século VI da Hégira.

A escrita cúfica arcaizante, que foi usada nesta inscrição, caracteriza-se por o traçado das letras ser nitidamente angular, procurando reduzir as curvas de cada uma ao mínimo indispensável e evitando que os caracteres ultrapassem a linha base; o cúfico no Al-Andaluz, apesar da diversidade dos seus tipos regionais peninsulares, manteve sempre um certo classicismo formal, ao contrário do que aconteceu no resto do mundo muçulmano onde evoluiu para formas mais amaneiradas.

A primeira notícia deste precioso achado mereceu o entusiasmo de primeira página do Diário de Notícias (3 de Setembro de 1893):

“Na quinta do sr. Castanheira das Neves, em Friellas, foi descoberta uma verdadeira preciosidade archeologica. Trata-se de uma volumosa pedra quadrada com uma curiosa inscripção árabe.

“As inscripções árabes, como se sabe, são pouco frequentes em Portugal.”

Ora o citado proprietário, sr. eng.º José Manuel Castanheira das Neves, fotografou a estela pela qual David Lopes foi o primeiro a traduzi-la (em Cousas Arábico-Portuguezas, “O Archeologo Portuguez”, II, pág. 207, Lisboa, 1896). Seguiu-se-lhe Levi-Provençal em 1931 (em Inscriptions Arabes d´Espagne, Leyde – Paris), e Alois Richard Nykl em 1942 (em As Inscrições Árabes no Museu Etnológico do Dr. José Leite de Vasconcelos, “Ethnos”, II, págs. 23-24, Lisboa). Finalmente, em 1965, João Saavedra Machado inseriu a fotografia desta Pedra Árabe no seu grosso volume editado em Lisboa, Subsídios para a História do Museu Etnológico, que é onde está a peça em causa, com o registo E. 6877, havendo duas cópias suas em gesso: uma na Junta de Freguesia de Frielas, outra no Museu Municipal de Loures.

Quanto à sua inscrição, Alois R. Nykl é favorável a uma datação dentro do século V; talvez situá-la entre o último quartel do século V e o terceiro quartel do século VI da Hégira fosse mais consentâneo com a hipotética figuração do mihrab.

Segundo a tradução de David Lopes, assim reza o texto lapidar apresentando uma bela oração arábica:

“Deus é Eterno. Sê compassivo com o teu (bem) supérfluo, ó tu que me estás vendo, e contempla um lugar que é um dom do próprio Deus.”

Corroborando a assertiva de Pinharanda Gomes que se refere à lápide e a sua leitura (em História da Filosofia Portuguesa, vol. 3, “A Filosofia Arábigo-Portuguesa”, Guimarães Editores, Lisboa, 1991), por mim já referida (em Ode a Loures (Monografia Histórica), Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993), o referido lugar era, com efeito, a veiga de Loures, com o seu braço do Tejo, os vinhais, os olivedos, as hortas, os pomares, as águas e as salinas ainda activas antes de 1755.

Toda essa diversificada riqueza natural lourenha comparativamente às areias escaldantes e nuas do Magreb era, indubitavelmente, para o árabe recém-chegado verdadeiramente “um dom do próprio Deus”.

Não só a veiga lourenha mas todo o Bortuqal, o Portugal arábico que levou califas, vizires, guerreiros, poetas e místicos do Islão a dá-lo como Paraíso Terreal, o Jardim da Graça (Janna al-na´îm) ao mesmo tempo que Jardim da Fé (Janna al-îmânî), o que levaria à aproximação entre D. Afonso Henriques e Ibn Qasî, juntos num mesmo ideal messiânico ou madhînico na partilha dos frutos deste Paraíso como Núcleo Ocultado do Saber Primordial, ou o Jardim do Refúgio (Janna al-ma´wâ) para o mesmo Qasî, como relata Adalberto Alves na sua obra As sandálias do Mestre – O Islão Iniciático na formação de Portugal, Editora Ésquilo, Lisboa, 2009. Daí que, realmente, mais importante que a guerra belicosa e sangrenta (Fitna) entre cristãos e árabes fosse a Cavalaria Espiritual (Futuwwa) que a ambos unia na partilha de um Saber comum afim à Terra Eleita também partilhada, amplexo heterodoxo não raramente quebrado, quando regateando os seus frutos se descambava em actos de combate e conquista, nisto sendo a História profícua em contar.

Se a cristandade anacorética acabou reunindo-se, isolando-se e cerrando-se em espaços mosteirais a que chamaram Paraísos e Desertos, donde o apodo “padres do Deserto”, a islamidade da solidão (Inzawâ) levaria à fundação de azóias, mesquitas e mesquitelas, não raro só agregados solitários de al-khâssa ou iniciados na gnose corânica, que por seu modus vivendi granjearam fama dos santos e santões entre os povos vizinhos. Dessa época restam aqui e além, no espaço português, sobretudo na parte sul, as cubas e morábitos testemunhas da vida espiritual dos solitários islâmicos, e também memórias do Islão do Ocidente (Garb) que se cerrou ou fez-se esotérico, em comunidades isoladas como essa de Aracelis, no Baixo Alentejo.

Em Portugal, as cubas têm uma estrutura idêntica aos morábitos, sendo difícil fazer a distinção. Ainda assim, tem-se:

CUBA – É o túmulo de uma personagem dotada de santidade que ali habitou ou cuja memória foi perpetuada naquele imóvel. Assemelha-se na forma e nas dimensões ao morábito, neste caso podendo fazer as vezes de oratório. Muitos deles, sendo de origem árabe, foram transformados em pequenas capelas ou ermidas de romaria, sinalizando a paisagem do sul do país. Na realidade, a cuba reproduz e transpõe, para uma escala mais modesta, a forma do edifício mais importante da religião islâmica, a Caaba de Meca.

MORÁBITO – Pequena construção de forma geralmente cúbica (embora por vezes possa assumir uma planta redonda, octogonal ou hexagonal, mas sempre centralizada), com cobertura em meia-esfera, muitas vezes designada por cuba (kuba). A palavra deriva do árabe morabit, eremitério. Os morábitos podem, de facto, confundir-se com as cubas, das quais pouco diferem, sendo certo que os morábitos se destinavam a morada de um eremitão, enquanto, por definição, as cubas constituíam lugares de veneração dos restos mortais de um santão (o marabu ou marabuto). Os marabus, a maior parte das vezes, foram eremitas e/ou mestres sufis, ou seja, ascetas e místicos que se dedicaram à meditação e à doutrina esotérica ou gnóstica do Islão.

A ermida da Virgem de Aracelis (Ara ou Altar do Céu, Ara Coelis), no Monte Aracelis ou Monte da Apariça (Aparição), em São Marcos de Ataboeira, assenta num primitivo morábito árabe cristianizado pelos visitadores da Ordem de Santiago, célebre desde o século XVI pela mais importante romaria mariana que aí se efectua em 31 de Agosto. A Ara ou Altar do Céu, Aracelis, é a primitiva Boiante ou Boeira (donde a corruptela toponímica da aldeia próxima Ataboeira, saída de Ala ou Alva Boeira), a “Estrela d´Alva”, Vénus, como a mesma Stella Maris do episódio bíblico de Elias rogando a água do céu, tal qual o povo daqui a implora para a secura da planície alentejana, assim mesmo preiteando devoção à Senhora do Céu (Allatah) assinalada na mesma Vénus, alter-ego da Terra.

Grande terá sido a importância do morábito de Aracelis, que era a sétima de “seis irmãs”: Alcaria, Ourique, Aljustrel, Serpa, Martim Longo, Loulé, servindo de torre de vigia (atalaia) entre esses importantes centros de islamismo intercomunicando-se, assim compondo uma espécie de sistema geográfico em que os sete planetas tradicionais (Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus, Saturno) estivessem plasmados na Terra, cada qual com as suas idiossincrasias próprias, nisto, cada qual com o seu método de ministrar a Fé (al-Îmân).

De volta a Lisboa, a sede eclesial da devoção moçárabe era a igreja de São Cristóvão e São Lourenço, situada no sopé ocidental do bairro da Mouraria, e por sido poupada da destruição pelo terramoto de 1755 conserva no seu interior segredos de Tradição e tesouros de Arte de riqueza incalculável. Foi aqui que começou a pintura barroca em Lisboa, é o berço setecentista do barroco lisboeta como protobarroco, seguindo o programa sacro do Corpus Dei e da Santa Eucaristia conformado ao espírito da Contra-Reforma Católica (1545) à Reforma Protestante (1517).

A actual feição da igreja data de 1671-72, quando se concluiu o seu restauro, mas já sofrera um incêndio que a destruíra totalmente no reinado de D. Manuel I, possivelmente sendo quando nela se vulgarizou a evocação de São Cristóvão de Lícia, contudo já assinalado como seu Orago num documento paroquial do começo do século XIV, significativamente a centúria em que a cultura moçarábica já estava praticamente extinta na urbe e remetida aos campos agrícolas seus vizinhos, com isso recrescendo a presença çahroi ou çalaia, vulgarizada saloia, ou seja, a do “homem do campo”. No século XII, esta parte ocidental da Mouraria era o bairro dos moçárabes, os “cristãos sob regime árabe”, e a sua cabeça paroquial era esta mesma igreja então consagrada a Santa Maria de Alcamim, aparecendo ainda mencionada no primeiro quartel do século XIII.

Moçárabes mouriscos de Lisboa (séculos XIII-XIV)

A origem da igreja de Santa Maria de Alcamim talvez recue ao século IX-X, quando os árabes incorporaram os cristãos de Al-Lixbuna no seu regime administrativo, permitindo-lhes a celebração do culto. Alcamim entronca em dois significados, um geográfico e outro agrário: o de “caminho”, assinalando este templo como tutelar dos caminhos que, desde o actual Rossio, partiam para o interior, um para norte (pela actual Avenida Almirante Reis) e outro para oeste (pela actual Avenida da Liberdade), seguindo a ramificação do esteiro ainda existente na Idade Média. Por outro lado, alcamim ou al qamim significa literalmente “hortaliça”, mas também “horta”, e isto indicará o sítio como lugar de hortas e hortedos, pelo que o topónimo original bem poderia ser Santa Maria de Entre-Hortas.

Depois da conquista cristã da cidade em 1147 pelas forças de D. Afonso Henriques, houve quezília entre essas e os 38 moçárabes principais do cabido pelo senhorio da paróquia de São Cristóvão, sinal da sua grande importância já na época, e com violência o rito romano acabou por se impor ao rito hispânico, este que aos poucos foi se apagando na urbe. Contudo, até hoje permanece a memória pouco ou nada apercebida da incorporação moçarábica do santoral arábico passado ao cristão romano, como seja na imagem do próprio Cristóvão identificado àquela do Kadir por via miracula (literatura hagiográfica relacionada ao culto histórico), talvez o principal pomo da discórdia histórica e teológica, inclusive litúrgica, entre moçárabes e católicos.

Kadir é identificado pelos árabes como um dos companheiros de Moisés, dando-lhe o nome de Beliah Ibne Fáligue ou Ibne Nuh (Noé), indo incarnar um esoterismo islâmico onde se compreendem ou sintetizam tradições hebraicas relativas ao Patriarca Elias e ao Arcanjo São Miguel, este o assistente da Sinagoga (Mikael) mas também da Mesquita (Mirraïl) assim como da Igreja (Miguel). Segundo a lenda sagrada, Kadir terá descoberto a Fonte da Vida Eterna e bebido dela, pelo que não morreu e ainda é vivo (ideia parúsica do Madhi ou Messias) estando em parte incógnita aguardando o momento de ressurgir entre os fiéis. Se Kadir conduz o povo eleito a terra salva do Dilúvio Universal, por sua vez o gigante Cristóvão ou Christoferens é o que “carrega o Cristo” Menino, conduzindo-o a salvo através das águas caudalosas de um vau furioso à outra margem, lenda piedosa indicativa da Fé que resiste a todos os caudais de descrença (kufr) e mantém incólume a Igreja no caminho dos séculos. Por isto, tal como Kadir foi o condutor do seu povo, também Cristóvão é o padroeiro dos peregrinos e viajantes.

Rio de Janeiro, a “Cária” brasileira – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Nov 29 2021 

Quem está ou chega no Rio de Janeiro, a “cidade maravilhosa” e maravilhada pela sua disposição geográfica perfeita, plantada à beira da imensa baía de Guanabara dando-lhe beleza ímpar, imagem-postal que percorre o mundo, e pelas muitas tradições e monumentalidades erigidas ao longo dos tempos que criaram raízes e lhe aumentaram, a par da beleza natural, o valor da importância sociocultural necessária ao entendimento do passado histórico brasileiro, dizia, quem está ou chega se inquirido for sobre qual seja o mais antigo ex-libris da cidade, invariavelmente apontará a Pedra da Gávea.

Hoje é vista como desafio a escalar pelos montanhistas, a saltar do seu topo pelos praticantes de “asa-delta”, mas também como fonte de estórias mal-assombradas e pomo de confluência das atenções e romarias das crenças de toda a espécie, o que lhe acresce e mantém o halo de sobrenatural e mistério.

Mas não há fumaça sem fogo…

Diz a Tradição Iniciática pela voz da Teosofia Brasileira que esse imenso bloco granítico fora talhado, no tempo fenício, de maneira a configurar uma esfinge e no seu interior escavado haver um vasto espaço que inicialmente constituiu-se um templo hipógeo, depois convertido em jazigo tumular.

No sopé do colosso granítico tem-se a escassa enseada Recreio dos Bandeirantes, onde um carreiro leva directamente ao topo da Gávea; defronte a essa praia de cascalho, há umas pequenas ilhotas que debruam a enseada. Ora, quando está maré baixa vê-se numa delas uma imensa cavidade que o mar engole feroz quando a maré sobe. Quem já penetrou no seu interior e saiu vivo, pois que muitas vidas já se perderam aí, desde pescadores veteranos a mergulhadores profissionais, conta que essa gruta submarina se prolonga na direcção do continente e bem por baixo da Pedra da Gávea, o que acaso atestará a tradição da Gávea comunicar-se subterraneamente com uma ilha defronte a ela. Acaso teria sido “boca de fuga” em caso de ataque inimigo? Poderia ser e poderia não ser. Fica a conclusão para a especialidade espeleológica. Mas também poderia ou poderá, quiçá, ser muito mais ainda: embocadura levando ao ventre da Terra, a essas regiões subterrâneas sob a cidade do Rio de Janeiro que têm sido a origem de tantas lendas e polémicas. O facto provado é que à Pedra da Gávea os tupis e tamoios chamavam de Metaracanga, “cabeça bonita coroada”, e Piraquara, “a toca, o buraco de mar”.

Administrativamente, localiza-se no Bairro da Tijuca próximo de São Conrado, vizinho do Bairro da Gávea, no sul da capital carioca, tornando-se evidente ter sido essa Pedra a dar o nome a esse último bairro luxuoso, significando gávea, na língua portuguesa, o cesto colocado no alto do mastro de um navio, donde o marinheiro podia observar, vigiar e, eventualmente, avistar terra. Curiosamente, no caminho de subida ao topo do maciço o lugar da primeira vista que se tem de toda a cidade e baía em baixo, leva o significativo nome de Pedra do Navio, e logo depois, mais à frente, a Pedra do Grito ou do Avistamento. Por conseguinte, o significado desta palavra estende-se a alguém ou a algo que está a vigiar e a guardar alguma coisa.

Pedra da Gávea, Esfinge do Brasil… De facto, ela carrega vários sinais indesmentíveis como assinalam diversos autores, mesmo que as suas explicações possam ser bastante discutíveis. Nisso está o caso do livro de Eduardo B. Chaves[1], apesar de fornecer uma série de informações importantes sobre motivos decorativos desaparecidos do colossal rochedo, as quais serão reproduzidas aqui.

Um desses motivos seria a “cauda” da pressuposta “esfinge”, a tromba do elefante como lhe chamava o povo, enorme rochedo que numa noite chuvosa de 1919 rolou do alto da Pedra da Gávea. Informa também que, oculta sob a espessa vegetação escondendo a parte traseira da “esfinge”, existe uma escadaria com cerca de 50 degraus muito rentes (provavelmente desgastados pela erosão) levando a um terraço de formas ainda perfeitas que, “evidentemente, foi esculpido”. Aí existe um trono, com o braço direito semidestruído, voltado para o Oriente, ou seja, para o Sol Nascente[2].

Outro motivo seria um Sol esculpido em alto-relevo no topo, sobre a “cabeça” da Pedra da Gávea, destruído a marretada cerca de 1957, cujos vestígios do vandalismo ainda hoje podem ser confirmados facilmente.

Há também o famoso “portal” da Gávea, visto do Bairro da Barra da Tijuca. Contam os moradores da vizinhança que uma grande pedra rolou do seu alto numa noite de tempestade, dessa feita do lado esquerdo da montanha, tendo em vista que a “esfinge” não existe dessa parte. Quando o rochedo caiu, deixou à vista algo interessante: uma espécie de portal, inclusive visto de baixo. As suas dimensões são 15 metros de altura por 8 de largura e 4 metros de profundidade. Não falta quem acredite que essa seja a suposta famosa entrada para o interior da Pedra da Gávea[3].

Finalmente, exactamente defronte à Pedra da Gávea tem-se a Pedra Bonita, com os seus 609 metros de altura, cujo acesso a pé é facílimo. No seu cume aplainado, a exemplo do da Gávea, estão perfeitamente esculpidos na rocha viva sete círculos concêntricos, um dentro dos outros, defronte para a “esfinge” carioca.

Lugar altaneiro de óbvio culto astrolátrico por povos primitivos, neste contexto podendo-se instalar cários e fenícios, esses sete círculos concêntricos para uma oitava coisa assinalada na própria “esfinge”, a Tradição Iniciática permite a possibilidade do conjunto lítico poder se inscrever no culto primitivo aos Cabires ou Kabirim, “deuses poderosos”, do orbe celeste (como os mesmos Cumaras ou Kumaras védicos, os “Planetários de Rondas” da nomenclatura teosófica), da devoção dos povos mediterrâneos, inclusive dos fenícios, cultores dos Mistérios Sagrados, segundo Helena Petrovna Blavatsky[4]. Simultaneamente, poderá ser a representação do primitivo Sistema Geográfico de Teresópolis, em guisa de “círculos planetários” ou “círculos geográficos” em torno do oitavo sintético representativo do Sol Oculto, Espiritual: Teresópolis, aliás, Charma.

De maneira que desde muito cedo o contorno da Pedra da Gávea, na vertente meridional do maciço da Tijuca com os seus 842 metros de altura, foi associado a uma esfinge. Inclusive a maioria das pessoas conhecem hoje, sem mais apuramento ou erudição, o seu frontispício pelo nome de “Cara do Imperador”, referindo-se ao imperador D. Pedro II, em seu tempo caricaturado como uma esfinge na Revista Illustrada (1876), dispondo-o no lugar do maciço, provando assim que já na época existia a associação da Pedra da Gávea a uma esfinge. No interessante livro de Araken Távora[5], ele reproduz essa caricatura do imperador, informando ter ocorrido depois da sua primeira viagem ao Egipto em 1871, que era pessoa muita culta e inclusive dominava a língua sânscrita. Devido à mania de caricaturar o imperador teria surgido mais essa, mas cujo significado real, em última instância, só poderá ser: D. Pedro II era um Iniciado verdadeiro!

Uma coisa é certa: desde há muito que o enigma da Pedra da Gávea é pomo de discussões acaloradas nos meios académicos, gerador de controvérsias entre os analistas, e não faz muito tempo terem sido lançadas mais achas para a fogueira da polémica pelo jornal O Globo, na sua reportagem de domingo, 6.8.2000, assinada pelo jornalista Eric Brücher Câmara, com o título: Desvendado o Enigma da Pedra da Gávea, e o subtítulo: Expedição constata que supostas inscrições são resultado da acção do tempo e que não há túnel oculto na rocha. Pelas manchetes claramente tendenciosas revela-se já a intenção principal da reportagem: “desmistificar” tudo quanto foi dado à luz acerca do maciço como construção humana, como defendia e encabeçava a primazia teosófica do Professor Henrique José de Souza (São Salvador da Bahia de Todos os Santos, 15.9.1883 – São Paulo de Piratininga, 9.9.1963).

O jornalista informa que uma equipa de geólogos e geofísicos esteve na Pedra em 8 de Julho de 2000, levando equipamento GPR (sigla inglesa de radar de penetração no solo) que “vê” através da pedra, e que os dados obtidos não mostraram mais do que rocha maciça. Respeitante ao “Portal dos Fenícios”, reentrância rectangular com cerca de 15 metros de altura, bem próxima ao cume da Gávea, foi simplesmente remetido para o “terreno pueril da lenda”. Quanto às supostas inscrições fenícias, também foram explicadas por um dos geólogos da expedição: “Com as intempéries, os minérios mais sensíveis desgastam e o resultado é ficarem com a aparência de inscrições” (sic)!!!

Não havendo consenso entre geólogos e arqueólogos quanto à origem fenícia ou de alguma outra civilização antiga que tenha estado no Brasil e intervindo na Pedra da Gávea, assim recusando esta como sítio arqueológico ao apontarem “a “inscrição” como resultado do processo natural da erosão e o “rosto” um produto de pareidolia”, fenómeno psicológico envolvendo um estímulo vago e aleatório, geralmente uma imagem ou um som, sendo percebido como algo distinto e com significado, repito, essa última expedição apoiada pela Governo brasileiro parece ter se destinado a reconfirmar a sentença já proferida pelo mesmo quando, na década de 1950, o Ministério da Educação e Saúde do Brasil adoptou a atitude negativa do local não apresentar qualquer tipo de escrita nem alguma outra espécie de intervenção humana, até hoje sustentando essa postura oficial nas conclusões do químico suíço Paul Hermann: “A arqueologia brasileira nega totalmente a existência de inscrições fenícias em qualquer parte do país”[6]. Mas isso não é verdade, a não ser que se descartem os inúmeros estudos que contrariam tanto a posição do Governo quanto a de Hermann. Tal não pauta o preceito científico de não recusar até prova em contrário, porque a recusa da prova liminar deixa de ser preceito e passa a preconceito mais irracional que académico, gozando empiricamente de dados viciados ou preceitos supostos a priori, mesmo sem deixar de anacronicamente sugerir a América do Norte como a “eleita bíblica”, crença importada das seitas pentecostais norte-americanas, com tudo atirando para as calendas fenícias o princípio da incerteza de Heisenberg. Reafirma-se a eterna dependência, contaminação até nas ciências, desde a sociologia à política, do Brasil relativamente aos norte-americanos, cuja “cultura superior” afinal colheram da Europa onde têm a sua origem recente, menos de 300 anos.

Tomando a defesa da Teosofia no Brasil e do seu maior baluarte humano, Henrique José de Souza, devo afirmar que este nunca negou que a Pedra da Gávea não fosse um maciço rochoso, e sim que boa parte desse maciço fora esculpido de maneira a sugerir uma esfinge, com parte do interior escavado para conter um pequeno templo, depois convertido em túmulo… a que hoje não se tem acesso por qualquer parte externa do controverso maciço, para todo o efeito, monumental. Seja como for, tanto a sua gruta “garganta do céu” como a famosa “chaminé”, a trilha utilizada para chegar ao topo, revelam sinais de intervenção humana, cuja memória olvidada hoje é pomo de tantas discórdias. Também nisto, respeitante a hipógeos e outros espaço subterrâneos, os fenícios pós-atlantes (o Homo Atlantis ou Homem Diluviano, já hoje aceito e discutido na Academia Portuguesa de História, como confirmei pessoalmente em sessão magna de académicos de número) teriam herdado a sua tradição dos epoptae egípcios, conforme indicam Heródoto e Ptolomeu.

Ainda acerca do aparelho GPR, este não sonda mais de cinco a sete metros, e se a sonda estiver horizontal não capta o que está vertical, e vice-versa. Assim, por exemplo, se fosse colocada no piso em frente ao Cristo Redentor, o “Corcovado”, jamais poderia “ver” os túneis Rebouças, centenas de metros abaixo, e logo não captar o imenso afluxo de veículos que atravessam a base da montanha.

Creio que geólogos, arqueólogos, montanhistas e jornalistas obviamente não possuem bases positivas para concluir decisivamente acerca de factos ainda não completamente explorados por quem de direito, tal como, evidentemente, os historiadores, médicos e matemáticos não têm condições para validar a existência ou não de jazidas de minério. Isto a propósito da conclusão já citada do geólogo Marcos André Malmann, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que fez parte dessa expedição à Gávea no ano 2000; se os conhecimentos de História Antiga, Filologia Antropológica, Línguas Antigas comparadas, Paleontologia e Arqueologia fossem ministrados regularmente aos estudantes dos cursos de Geologia, então eu concordaria com esse senhor. Aliás, idênticas no género eram as afirmações da maioria dos geólogos e historiadores britânicos do século XVII ao meado do XIX, quando regressavam a Inglaterra com os resultados das suas expedições à Mesopotâmia e ao Egipto: que as inscrições cuneiformes e os hieróglifos nada mais eram do que meros desenhos decorativos sem significado algum, quando não simples desgastes causados pelas intempéries sobre as pedras. É universalmente sabido que foi necessário o aparecimento de um Champollion para que os “decorativos” ou os “desgastes” fossem assumidos como códigos e interpretados, de maneira à maravilhosa História do Antigo Egipto poder ser desvendada.

Mais valor terão as palavras do antropólogo que acompanhou a dita expedição, o professor Francisco Otávio da Silva: “Ainda não há prova científica da vinda dos fenícios ao Brasil”. Sim, propagar que os fenícios estiveram e se estabeleceram por largo tempo neste país, de que existem provas sobejas, embora ainda sem base científica aceite com a concordância de todas as parte, faz com que esse conhecimento se escoe e propague por outra via como é a do campo do mítico e do místico, enquanto “aguarda” a necessária comprovação científica, a qual vem sempre atrás da Ciência Iniciática, em todos os sectores, de que é exemplo a prova da existência do átomo ainda nos inícios do século XX, violentamente repudiada por alguns físicos eminentes, a despeito dos hindus, egípcios e gregos da Antiguidade já o conhecerem como atman, aton e atmon, donde átomo. Nisto também se inscreve o método de ensino do Professor Henrique José de Souza: “semear novos conhecimentos, ideias e ideais, e trabalhar para que eles se transformem, com o tempo, em realidades concretas”, acrescentando que “estamos vivendo no século da luz, mas não se deve deixar arrastar por ilusões. Raciocine-se imparcialmente e nada se aceite sem entender. Se não se compreender alguma coisa, não se a rejeite imediatamente. Procure-se estudar profundamente o assunto. Não se conforme com a pior das escravidões que é a mental. Nascemos para ser livres e só o seremos quando raciocinarmos livremente”.

As inscrições referidas encontram-se gravadas no lado direito da Pedra da Gávea, sendo atribuídas aos fenícios praticamente desde a época de D. João VI. Com efeito, na folha 66 do I Volume da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, encontra-se a seguinte carta lida pelo cónego Januário da Cunha Barbosa (Rio de Janeiro, 10.7.1780 – Rio de Janeiro, 22.2.1846), no expediente dos trabalhos da 8.ª sessão extraordinária de 23 de Março de 1839:

“Em uma das montanhas do litoral do Rio de Janeiro, ao sul da barra, há uma inscrição em caracteres fenícios, já muito destruídos pelo tempo e que revelam grande antiguidade. Esta inscrição foi vista e observada por um conhecedor das línguas orientais, e que ao vê-la concluiu que o Brasil tinha sido visitado por nações conhecedoras da navegação, e que aqui vieram antes dos portugueses. Ele me certificou que tinha dado conta desta descoberta ao governo de D. João VI, e que tinha copiado a inscrição do mesmo modo que se acha feita.”

“Requereu pois o Sr. Cunha Barbosa que o Instituto Histórico, atenta a importância desta notícia, peça com empenho aos nossos consócios oficiais de secretarias que se esforcem por descobrir nelas o relatório desta descoberta, feita no reinado de D. João VI, e oferecido pelo padre mestre Fr. Custódio, professor de grego, e versado nas línguas orientais. Esta carta foi remetida ao Sr. Guedes para fazer as indagações precisas para o descobrimento da memória de que ela fala.”

Mais adiante, nas folhas 98 a 103, encontra-se o Relatório sobre as referidas inscrições, acompanhado do desenho das mesmas, trabalho apresentado por uma comissão nomeada pelo Instituto com o fim de as estudar. Este valioso documento, que passo a transcrever, é concebido nestes termos:

“… Senhores. A comissão encarregada pelo Instituto Histórico e Geográfico para analisar e copiar a inscrição, que se acha gravada no morro da Gávea, transportou-se ao lugar, e não se poupou aos meios e fadigas, que uma primeira excursão demanda, para obter-se um resultado digno de sua missão; e vem hoje perante o Instituto Histórico e Geográfico dar conta do que viu e observou, assim como trazer uma cópia fiel da pretendida inscrição, desse monumento, que pertence à classe daqueles que Mr. Court de Gibelin coloca no seu “Mundo Primitivo”, e que têm chegado às recentes gerações envolvidas no mistério dos tempos com os hieróglifos, os caracteres cuneiformes e as construções ciclopeanas.

“A descoberta de uma inscrição é um facto, que pode trazer uma revolução na História; que pode reconquistar ideias perdidas e aniquilar outras em pleno domínio: um nome, uma frase em uma lápida podem preencher lacunas imensas, restaurando conjecturas e abrir uma estrada luminosa do Passado ao Futuro.

“Os povos que têm uma civilização nascente, são naturalmente crédulos, e sua imaginação os arrasta a ver tesouros encantados por todas as partes; e homens amigos do misterioso algumas vezes também crêem encontrar vestígios dos outros homens naquilo que é um acaso da Natureza.

“À comissão cumpre que aqui manifeste perante o Instituto Histórico e Geográfico a sua gratidão para com os Srs. Rev. Ex-vigário da Lagoa, Manoel Gomes Souto, Manoel Joaquim Pereira e João Luiz da Silva, pela bizarra e cordial hospitalidade que deles recebeu; assim como ao Rev. Sr. José Rodrigues Monteiro, capelão de S. M. I., que teve a bondade de acompanhar e servir de testemunha na averiguação da cópia que se fez da pretendida inscrição, participando dos incómodos sofridos nesta exploração arqueológica.

“Senhores. Que no cume da Gávea, do lado direito aos que vão pela Serrote da Boavista, numa pedra de forma cúbica existem caracteres, ou sulcos que a eles se assemelham é indubitável; mas a comissão não afirma que eles sejam gravados pela mão do homem, ou pela lima do tempo.

“Assim como a Natureza esculpiu sobre a rocha de ‘Bastia’ a forma de um leão em repouso; na gruta das Sereias, em ‘Tivoli’, um dragão em ar ameaçador; e na mesma Gávea a forma de um mascarrão trágico; assim como ela eleva pontes naturais, constrói fortificações e baluartes, que ao primeiro lampejo da vista fazem crer ao viajor monumentos da mão do homem e assim ela podia gravar na rocha viva aqueles caracteres que podem mais ou menos por suas formas aproximarem-se a algumas das letras dos alfabetos das nações antigas e orientais.

“A comissão não deseja representar perante o Instituto Histórico o papel dos antiquários de Walter Scott e Goldoni, para não encontrar a ilusão de suas conjecturas na ingenuidade de um mendigo, ou nas trapaças de um Brighella; tanto mais que com os seus próprios olhos ela encontrou em diversas pedra isoladas em roda da mesma Gávea, sulcos profundos entre dois veios do granito, que mais ou menos representavam caracteres hebraicos, e alguns até romanos, e de uma maneira assaz evidente e caprichosa.

“Pitágoras, senhores, olhava para o Sol como um Deus, e Anaxágoras como um Pedra inflamada. A comissão nesta sua primeira análise voltou, como os dois filósofos, vendo uma inscrição e vendo uns sulcos gravados pela Natureza.

“Argumentos notáveis se apresentam de uma e outra parte para que ambas as conjecturas tenham seu fundamento e suas principais proposições vos vão ser apresentadas.

“1ª. Que os diversos viajantes têm descoberto inscrições em diferentes rochedos do Brasil, e que a da serra da ‘Anabastabia’, aonde se crê, vai a descrição de uma batalha, assim como a das margens do ‘Iapurá’ e outras mais, que se vêem na famosa colecção das palmeiras de “Spik et Martiles”, dão uma prova da existência desta sorte de monumentos no nosso solo: acrescentando mais a tradição das ‘Letras do Diabo’ num rochedo em Cabo Frio, que depois de dados mais exactos algum de nós se transportará ao lugar para copiá-las, e descortinar mais esta ponta do véu que encobre a História primitiva desta Terra bem-aventurada.

“2ª. Que assim como Pedro Álvares Cabral, Afonso Sanches, empurrados pelos ventos, descobriram o continente da América, também algum desses povos antigos, que a ambição do comércio forçava a sulcar os mares, podia por iguais motivos aportar às nossas praias, e escrever sobre uma pedra um nome ou aquele acontecimento, para que a todo o tempo as gerações vindouras lhe restituíssem a glória de tão grande descoberta.

“3ª. Que a inscrição da Gávea se acha colocada de uma maneira vantajosa a estas conjecturas: voltada para o mar, em uma face da rocha cúbica, pouco escabrosa, com caracteres colossais de sete a oito palmos, ao rumo de L. S. E., pode ser vista a olho nu de todas as pessoas que por ali passarem; e notável é que os habitantes daqueles lugares todos conhecem as letras da pedra. A inscrição assim colocada está exposta à fúria das tempestades e dos ventos do meio-dia e por consequência, deve estar muito safada, tanto mais que o granito da pedra em que está gravada é de uma consistência menos forte, por conter muito talco e mica, e na sua base existem três concavidades esburacadas que formam o aspecto de mascarrão.

“Um dos dados arqueológicos para fortificar qualquer conjectura na averiguação de tais monumentos, é o da possibilidade de poder-se ou não gravar naquela altura imensa uma inscrição tão colossal, e o carácter geológico do mesmo lugar.

“O terreno que circunda as raízes do morro da Gávea é todo primitivo, à excepção de uma pequena enseada que está na base da colina da fazenda da Gávea, que é de terreno de aluvião, pouco acima do nível do mar, e que nada influi sobre os pontos principais que se denotam dos ‘Dois Irmãos’ à Tijuca e desta à Gávea que são massas enormes de granito, cobertas de uma crosta de terra vegetal, assaz delgada, e tendo aqui e ali glebas de carbonato de ferro, ou saibro micoso: o mar está muito próximo, nenhuma revolução grande, se exceptuarmos alguns calhaus destacados dos morros, se denota naquele recinto.

“O homem, que levado a aqueles lugares quisesse deixar uma memória da sua passagem, facilmente seria seduzido pela majestade e grandeza do morro da Gávea, e pela disposição daquela pedra com uma face quase plana, e fronteira ao mar; e quanto ao acesso do cume da Gávea, ele é incontestável, porque dias antes de nossa exploração alguns oficiais da marinha inglesa lá subiram, e colocaram umas bandeirinhas ainda que com muito custo.

“O lugar onde está a inscrição pode ser que em tempos remotos fosse mais aterrado, e que com os séculos tenha sido escalvado pelas contínuas humidades, chuvas e ventos do sul.

“Porém, senhores, além destas considerações e outras mais diminutas, que conduzem o nosso espírito à crença, outras se levantam para encontrá-las e nos obrigam a oscilar entre a afirmativa e a negativa.

“1ª. Que os pretendidos caracteres, que apresenta o rochedo da Gávea, não se assemelham aos dos povos do velho continente, que empreenderam as primeiras navegações, e muito menos aos dos modernos.

“2ª. Que estes caracteres, comparados com os alfabetos e inscrições, que Mr. Court de Gibelin dá na sua obra do “Mundo Primitivo”, não apresentam semelhança alguma de uma inscrição fenícia, cananeia, cartaginesa ou grega: e que mais parecem sulcos gravados pelo tempo, entre dois veios do granito, pois com iguais aparências se encontram não só no lado oposto do da inscrição da mesma Gávea, como em outras pedras destacadas, e principalmente numa grande, que se encontra à esquerda, na base do morro, quando se sobe para a casa do Sr. João Luiz da Silva.

“3ª. Que a parte da rocha onde começa a pretendida inscrição, além de perpendicular e de um acesso quase impossível, é a menos conservada ou a mais apagada: sendo aquela que está menos exposta à fúria das estações; alguns traços perpendiculares, outros mais ou menos oblíquos, mais ou menos curvos, ligados por hastes interrompidas, que muito e muito se assemelham a veios, fazem o todo da inscrição, e uma grande irregularidade de profundidade se observa na gravura, assim como no largo veio da base, que se poderia conjecturar como um traço, para melhor se descobrirem as letras, o que é interrompido visivelmente e dá formas não equívocas de um veio mais profundo. Este argumento é fortificado pela profundidade dos caracteres da parte esquerda que estão mais expostos do que os da direita, por entrarem na curva que se dirige para o norte.

“Os fenícios escreviam da direita para a esquerda, trabalhando destarte deviam dar a mesma profundidade às letras, para que elas fossem igualmente visíveis.

“Mas a comissão, senhores, vindo perante o Instituto Histórico e Geográfico dar conta de sua missão, está longe de protestar solenemente contra a ideia de serem, ou não, uma inscrição aqueles sulcos ou traços que se encontram no cume da Gávea, porque ela ainda não empregou os últimos recursos que lhe restam para a verificação de semelhantes monumentos; ela vem, em família, expor as suas impressões e conjecturas, e protestar que uma segunda exploração será feita com melhores instrumentos e com um dia mais favorável para ver se obtém um resultado de maior evidência, e mais positivo; lastimando, contudo, o não poder estudar a ‘Memória’ que o ilustre Fr. Custódio escrevera, noutros tempos, sobre esta mesma inscrição[7].

“A comissão tem presente na lembrança as navegações desses povos da Antiguidade, e se triunfar a ideia do ilustre Padre Mestre, ela a fortificará por uma ‘Memória’ mais ampla e circunstanciada, e nas formas demandadas pela ciência da Arqueologia, em que não somente passará em resenha todas as tradições, que temos das navegações dos antigos, como também procurará nas línguas e tradições de diversos povos a luminosa esteira traçada pela civilização dos fenícios, entre os povos das ilhas aonde eles tiveram as suas feitorias, e onde eles deixaram monumentos materiais de sua existência e passagem, tanto na Ásia e África como na América, que, segundo Stevan Sewall e Court de Gibelin, aí aportaram e deixaram inscrições na parte setentrional.

“A comissão não desespera da glória, que aguarda o Instituto Histórico e Geográfico, na descoberta de iguais monumentos; nem da esperança de ver aparecer em seu seio um Champollion brasileiro, esse Newton da Antiguidade Egípcia ou Cuvier do Nilo, para o facho de seu génio indagador iluminar esta parte tão obscura da História primeva do nosso Brasil; e porque ela pode num dia contemplar aquele monumento como Anaxágoras o Sol, e no outro como Pitágoras ver naquela rocha uma inscrição gravada pelo acaso e o tempo, ou um padrão, pelo cinzel do homem, deixado às gerações vindouras.

“Rio de Janeiro, 23 de Maio de 1839 – Manoel de Araújo Porto Alegre. – J. da C. Barbosa. Como testemunha, José Rodrigues Monteiro.”

Tal “Champollion brasileiro” estaria destinado a ser Bernardo de Azevedo da Silva Ramos (Manaus, 13.11.1858 – Rio de Janeiro, 5.2.1931), que com a paciência e a minúcia de um sábio chinês, num longo e exaustivo estudo filológico comparativo das línguas antigas, chegou à conclusão de tratar-se de escrita fenícia, dando a seguinte tradução ao texto da Pedra da Gávea[8]:

Todavia o eminente autor deixou escrito no término do seu preciosíssimo estudo, na página 436 v da obra citada, sobre a sua interpretação da inscrição: “Dada a hipótese de não a termos interpretado fielmente, resta-nos o consolo de que bem empregámos o nosso tempo, determinando com nossas modestas investigações o estímulo aos competentes, que nos perdoarão esse alvitre”.

A frase viria a ser corrigida em Maio de 1954 pelo próprio Professor Henrique José de Souza, que assim a interpretou:

YETBAAL, TYRO FENÍCIA, PRIMOGÉNITO DE BADEZIR.

Quanto ao dito recheio interior havido na Pedra da Gávea até 1938, ano em que foi tudo retirado e lacradas ainda mais as suas passagens subterrâneas conforme a primazia autoral de Henrique José de Souza, este mesmo assim o descreve[9]:

“Dentro da Pedra da Gávea, além de duas múmias colocadas uma junto à outra sobre uma mesa de pedra, aos seus pés também se acham duas outras de dois escravos núbios, sendo que à cabeceira se encontram dois jarrões contendo flores em parafina, etc. E dos lados, em dois vasos canópicos, como outrora nos túmulos faraónicos do velho Egipto, os manes das duas referidas múmias… E mais adiante, depois de uma rampa que vai dar ao mar, pela parte traseira da mesma Pedra – como esfinge fenícia que é – uma barquinha de tecto esmaltado de azul, movida por uma roda que ia ter à pequena hélice, na popa, sendo accionada por referido escravo núbio.

Pelo que se vê, o ‘casal’ cujas múmias se acham sobre as mesas de pedra, outro não é senão ‘a parelha primogénita de Badezir’, do mesmo modo que o escravo (pois a escrava morreu alguns anos depois) que movia a barquinha, e que soçobraram na baía que hoje tem o nome de Guanabara (Niterói, em língua tupi, quer dizer ‘baía grande’, mas, em língua fenícia, chamava-se outrora Nish-Tao-Ram, ou ‘o caminho iluminado pelo Sol’, como se se dissesse que os dois referidos seres, já naquela época, preparavam, na mais excelsa de todas as tessituras, a sua própria Obra do Futuro, que deveria tomar forma na referida região).

“Quando Badezir veio a saber da morte de seus dois filhos, correu pressuroso, em companhia do sumo-sacerdote Baal-Zin e de um mago (médico e mumificador), chegando, infelizmente, muitos dias depois. O choque moral e a sua própria idade, concorreram para que ele durasse pouco tempo. Mas, antes de morrer, pediu ao supracitado sacerdote que ‘logo isso acontecesse, mumificasse o seu corpo, deixando-o ao lado dos dois filhos durante sete anos, findos os quais deveria ser transportado para certa região do Amazonas’, onde até hoje se acha, num pequeno santuário oculto nas referidas selvas.”

Fazendo agora uma ordenação geosófica, tem-se que além do morro próximo chamado dos Dois Irmãos (possível evocação toponímica dos malogrados Yet-Baal-Bey e Yet-Baal-Bel), dois outros perfazem uma triangulação com a Pedra da Gávea. Um é o Corcovado (possível evocação toponímica do velho Badezir), montanha granítica com mais de 700 metros de altura, onde foi levantada a estátua do Cristo Redentor. Aí existia antes de 1831 uma famosa Pedra Santa, que presumo ter sido algum ícone ou altar sobrevivente da Proto-História, destruído nessa data conforme a notícia dada por Brasil Gerson[10]: “… Era o padre Souto um homem inquieto, que levou uma comissão do IHGB à Pedra da Gávea para destruir a lenda de que nela existiam inscrições fenícias e recebeu da Ilustríssima Câmara a incumbência de retirar do Corcovado a famosa Pedra Santa, que ameaçava o caminho para o jardim (suponho, o Botânico), e quando ele deixou a sua paróquia, em 1831, sucederam-lhe…”.

O outro morro é o Pão de Açúcar. Foi no seu sopé que Estácio de Sá, no 1.º de Março de 1565, fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, depois de se derrotarem as pretensões francesas, entre 1560 e 1567, de fundarem aqui uma colónia, França Antártica, e uma cidade Henriville, pretendendo assim tomar posse do território brasileiro para a Coroa de França. Os franceses liderados por Nicolas Durand de Villegagnon, cavaleiro oficial da Ordem de Malta, foram definitivamente derrotados e expulsos de todo o território do Rio de Janeiro, cuja batalha da Baía de Guanabara foi decisiva para a vitória de Mem de Sá à cabeça dos portugueses e temiminós juntos contra o opressor estrangeiro[11], o qual depois se vingou pela calúnia perdurando até hoje, inclusive alimentada por certos meios intelectuais brasileiros, os quais melhor do que ninguém deveriam saber que lusos e tupis mais que fraternos são irmãos, nem que seja «só» pela ligação consanguínea donde resultou o mameluco; são, enfim, a argamassa racial do Brasil Ibero-Ameríndio!… Após a vitória decisiva e à semelhança do que muito antes fizera Badezir, em 1572 o Brasil foi dividido em dois Governos: o da Bahia (sendo governador Luís de Brito e Almeida) e o do Rio de Janeiro (sendo governador António Salema). Em 1577 aboliu-se essa dualidade governativa e ficou um só Governo do Brasil, sendo Lourenço da Veiga nomeado governador-geral com sede capital na Bahia, e só em 1763 a sede do Governo Central transferiu-se para o Rio de Janeiro, que então passou a ser a capital, capitã ou cabeça política do país.

A História igualmente conta que os portugueses, quando aí chegaram, perguntaram aos índios o nome daquela montanha junto à barra, talvez por acharem estranha a sua forma. A resposta teria soado como pau-nd-açuquã, que em tupi significa “morro isolado e pontiagudo”, tendo-a os portugueses traduzido como Pão de Açúcar, deturpando sem malícia essa forma fonética. Segundo o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda[12], pão de açúcar é o tronco de açúcar branco que se forma ao aparar-se internamente a forma de açúcar dos engenhos antigos, anteriores às fábricas. Naturalmente, os portugueses acostumados que estavam com esse sistema de produção de açúcar, associaram a forma de um pão de açúcar (cónica) das suas primitivas fábricas à forma da montanha em questão, além, naturalmente, da “coincidência” fonética com o nome que os índios lhe davam.

Os teósofos brasileiros consignam o Pão de Açúcar marco do Karma Atlante-Fenício, têm-no como lugar fatídico de mau agouro, apontando ter sido nas suas imediações que terá se afundado a barca que conduzia os Gémeos Espirituais fenícios de Niterói para o Rio de Janeiro. O facto é que até as mais antigas referências históricas sobre esse maciço granítico são-lhe pouco abonáveis. Gustavo Barroso, por exemplo, no seu magnífico livro[13] cita uma lenda árabe, possivelmente recolhida da cultura fenícia, onde aponta o nome da “Ilha Brasil” em cuja entrada da barra havia uma certa Mano Satanas, a qual fazia soçobrar as embarcações que ousassem atravessá-la. Como “não há fumaça sem fogo”, verifica-se, ao compulsar-se as cartas de Pedro Reinel, de 1519, e de Gian Baptista Ramusio, de 1556, no Roteiro Cartográfico da Baía de Guanabara e Cidade do Rio de Janeiro, séculos XVI e XVIII, apud Álvaro Teixeira Filho, o deparar, respectivamente, com os termos Sombreyo para o Pão de Açúcar, e Sombriere para a baía de Guanabara. Esses dois topónimos são derivados da palavra sombra… No francês, inclusive, o verbo sombrer tem o sentido de “soçobrar”, “fazer naufragar o navio”, etc.[14]

Essa Mano Satanas de péssimo agouro divulgada pelos navegadores árabes em África e na Europa, é uma entre muitas tradições recolhidas por eles nos “lugares incógnitos” aonde chegaram e depois difundiram. Com efeito, as posteriores geografia e cartografia dos navegadores portugueses da Idade Média foram maioritariamente herdadas dos árabes, por sua vez possuindo essas informações por herança mesopotâmica – turco-síria e iraniana-iraquiana – afim à antiga Fenícia, através da grande plataforma transcontinental de intercâmbio cultural de povos que era e ainda é Jerusalém.

Entendo por literatura geográfica árabe os famosos relatos de viagens célebres, como as de Soleimão, o Mercador, à China por mar. Essa literatura havia de servir para os tratados descritivos como o de Ibn Khordadhbeh que tomou o título, depois vulgarizado, de Kitâb Al-Massâlik wa Al-Mamâlik (“Livro dos Caminhos e dos Reinos”). A partir de então, os árabes acrescentaram a China e a Sibéria aos conhecimentos do mundo antigo, atingindo as terras de Gog e Magog. No entanto, os seus mapas obedeciam ainda aos critérios de Ptolomeu, apenas havendo a acrescentar que tornaram o mundo mais extenso. O primeiro período de esplendor da Geografia árabe é o definido, cerca do ano 1000, por nomes de sábios como Balkhi, Yacubi, Istakhri, Ibn Hauakal e Al-Massudi.

Ao mesmo tempo que a Geografia descritiva dá uma extraordinária riqueza de informação e pormenor (Al-Massudi é considerado, por isso mesmo, o Plínio árabe), a Cartografia prossegue o iniciado por Ptolomeu, com os cartógrafos utilizando desenhos esquemáticos e figuras geométricas para representar os países e os acidentes geográficos. É o caso dos mapas de Istakhri, bem elucidativos desse processo. Estava-se, precisamente, na época dos mapas do Islão.

Uma época à parte pode ser considerada a de Edrisi ou Idrisi ou Abu Abdullah Muhammad al-Idrisié no século XII (1110 – 1165), que trabalhando em Palermo às ordens dos reis normandos da Sicília, não só elaborou a sua monumental Geografia como também um gigantesco mapa onde representou todo o Mundo então conhecido, da China ao Magreb, do Andaluz à Índia, de Zanzibar à Terra dos Russ (Rússia)[15]. Nos séculos seguintes surgiram os criadores dos dicionários geográficos e enciclopédias: Yaqut, Qazwini, Abu’l-Fida.

Mapa-Mundi de Al-Edrisi, situando-se o Sul no topo

No que diz respeito à cartografia, importa registar que antes de Edrisi, que já representa um notável progresso na ubicação das costas marítimas do Mediterrâneo, Abu’l-Hassan, autor de um famoso tratado de astronomia, dá numericamente a posição de 131 cidades com tanta perfeição que se tornou possível o desenho de um mapa do Mediterrâneo, onde os erros em relação à realidade hoje conhecida são quase desprezíveis. Se comparar-se o mapa de Ptolomeu com o de Abu’l-Hassan (séculos X-XI), tem-se de reconhecer que com os árabes a Geografia deu um salto gigantesco trazendo-a quase até à posição actual.

A esfericidade da Terra era ponto assente para os árabes, e entre eles não faltaram autores que admitiam a existência de um continente onde está a América, como justamente protesta José Garcia Domingues[16]. Exemplo disso é a Geografia Taqwin al-Buldân, escrita nos inícios do século XIV por Abu’l-Fida (Abu’l-Fida Ismail Ibn Ali Al-Ayubi), que teve como fontes Ibn Hauqal, Edrisi e Ibn Kondhadhbeh. Apresenta uma particularidade mais que nova, notável: a de dar a situação das diferentes localidades por meio de coordenadas – latitude e longitude. A latitude a partir do Equador, definido pelos equinócios; a longitude a contar das terras do Extremo Ocidente[17], as “Ilhas Afortunadas” – Jaza’ir-as-Sa´adat.

Com efeito, a geografia árabe estava cheia de mitos a descobrir, tal como a sua cartografia repleta de mistérios a desvendar. Ambas consequência certa de cultura e saber legadas por civilização anterior afro-mediterrânea. Abentofaíl aludira às ilhas de Vac-Vac, às quais se chegava pelas estrelas, pela orientação estelar, e Edrisi à Ilha dos Carneiros ou Ilhas Fantásticas, num texto relembrando a Navegação de São Brandão. A ideia de viagem por Ocidente em busca de terras era de tal modo grata que, no século XII, os almagrurin de Alfama encetaram empresa de viajar Atlântico fora até às Canárias. Foi de Lisboa que partiram os navegadores que, no dizer de Edrisi, iam procuram saber o que havia no Mar das Trevas (Mar Tenebroso) e quais os seus limites, tendo atingido Ua açafi (Safim?) mas não as Canárias, segundo certos autores do século XIX[18], no que não concordo por serem vastas as provas e referências romano-árabes da presença arábica nessas ilhas, nomeadamente em Tenerife, ao lado dos templários e do médico, escritor e alquimista, afamado peregrino de Santiago de Compostela, Raimundo Lúlio. Ademais, as Canárias, tal como outras ilhas atlânticas, estavam bastante mencionadas na geografia árabe. Por exemplo, Maudi, no século X, aludiu na obra Os Prados de Ouro às “Ilhas Eternas” (Jaza´ir-al-Khalidat) no Oceano Ocidental, e a tais “Ilhas Eternas”, espécie de Paraíso Terreal, refere-se também Almacarí.

Na geografia como na astronomia, filosofia, matemática, química, a ciência árabe medieval foi, na verdade, o elo de ligação entre a ciência grega, de tão nobres tradições, e a moderna, não apenas no sentido de que transmitiu a ciência grega mas ainda por trazer o saber no nível em que os gregos o deixaram, até ao momento em que foi possível elaborar a ciência moderna.

A serem verídicas, poderão ser já da época da decadência do “império” fenício no Brasil as inscrições no Pão de Açúcar, descobertas e traduzidas por Ladislau de Sousa Melo e Neto, director-geral do Museu Nacional do Rio de Janeiro, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e catedrático em Ciências Naturais, citadas no livro de Peter Kolosimo[19]:

“Somos filhos da terra de Canaã. Sobre nós pesa a desventura e a maldição. Em vão invocamos os nossos deuses; eles nos abandonaram e assim morreremos desesperados. Hoje é o décimo aniversário do infausto dia em que chegámos a estas margens. O calor é atroz, a água é podre, o ar cheio de repugnantes insectos. Os nossos corpos estão cobertos de chagas. Ó deuses, ajudai-nos! Tiro, Sidon e Baal!”

Deixo essa informação à apreciação do leitor, e como não disponho de mais dados plausíveis até ao momento, não me é possível julgar da sua mais ou menos valia. Passo, pois, de imediato à origem toponímica de São Sebastião do Rio de Janeiro. Este nome depreende-se da tradição do santoral católico em se batizar as terras descobertas em conformidade aos dias das festas do calendário litúrgico. Ainda assim, a frota comandada pelo capitão D. Nuno Manuel ao serviço do rei D. Manuel I, com a missão de explorar a costa brasileira, fugiu à praxe adoptada, pois ao alcançar a região da Guanabara, no dia 1 de Janeiro de 1502, batizou-a primeiro de Rio de Janeiro, e só depois consagrou o lugar a São Sebastião.

A título de exemplo, repasso uma pequena lista dos lugares que receberam os nomes conformados ao calendário litúrgico: a 28 de Agosto, Cabo de Santo Agostinho; a 29 de Setembro, Rio de São Miguel; a 30 de Setembro, Rio de São Jerónimo; a 4 de Outubro, Rio de São Francisco; a 21 de Outubro, Rio das Virgens; a 1 de Novembro, Baía de Todos os Santos; a 13 de Dezembro, Rio Santa Luzia; a 21 de Dezembro, Cabo de São Tomé; a 25 de Dezembro, Baía do Salvador; a 6 de Janeiro, Angra dos Reis; a 20 de Janeiro, Ilha de São Sebastião; a 22 de Janeiro, Porto de São Vicente, etc.[20]

Janeiro, nome que encerra inúmeros simbolismos, deriva de Jano ou Janus, que na mitologia romana é o “deus das duas caras”, e por estar colocado no primeiro mês do ciclo anual com uma das caras presidia aos acontecimentos dos onze meses procedentes, e com a outra reflectia os sucessos e insucessos do ano precedente. De maneira que, em termos teosóficos, simbolizava o Manu Semente e Colheita presidindo ao início e ao final de um Ciclo de Evolução Humana, facto representado no Cristianismo nas duas chaves entrecruzadas do seu sumo-pontífice[21]: a de ouro (Manu – Vida – Semente – Encarnação) e a de prata (Yama – Morte – Colheita – Desencarnação). No contexto da Evolução Cósmica, as “duas caras” representam as Duas Faces do Eterno: a Divina e a Terrena. Uma é a face de um Velho barbado, o Ancião das Idades, e a outra é a de um Jovem, o Eterno Adolescente; uma que chora, e outra que ri. As Duas Faces do Eterno representam, pois, “o Começo e o Fim das Coisas” – o Alfa e o Ômega da Criação.

Quanto a São Sebastião, Juan Atienza faz eco da Tradição Iniciática quando o aponta como paradigma da condição Kshatriya, “Guerreira ou Real”, conformada ao ideário sinárquico de Agharta em que se inspirou St.º Agostinho para a sua Civitas Dei ou “Cidade de Deus”[22], e muito mais tarde a Maçonaria Adonhiramita, ao escolher a capital carioca para nela fundar a primeira Potência Maçónica do Brasil, ela mesma ao se considerar Arte Real perseguiu o projecto magno de edificar aqui mesmo a Nova Cidade de Deus, a Nova Jerusalém, já desde a lonjura dos tempos assinalada por vates e sibilas a sua aparição no Grande Ocidente do Mundo. Tudo isso, afinal, revelando-se causalidades da Lei Suprema que a tudo e a todos rege.

Em 1921, o Governo Federal resolveu demolir o Morro do Castelo, antigo Morro de São Januário, onde se localizava a igreja de São Sebastião do Rio de Janeiro. No dia 20 de Janeiro de 1922, houve a trasladação das “relíquias históricas” da igreja de São Sebastião, acto cuja missa foi celebrada pelo então arcebispo coadjutor D. Sebastião Leme, depois cardeal. A família Leme, tão ligada à História do Brasil, de onde desponta um Fernão Dias Paes Leme, é de origem flamenga e se assinava Lem, cujos irmãos Martim Lem já haviam desempenhado papel importante na Basílica do Precioso Sangue, em Bruges, Bélgica, onde no século XV foi fundada e consagrada a Ordem do Tosão de Ouro.

Inclusive o primeiro governador do então povoado do Rio de Janeiro, Mem de Sá (Coimbra, 1500 – Salvador, 2 de Março de 1572), estava ligado à família Lem. No processo militar de expulsão dos franceses (que haviam angariado o apoio guerreiro dos tamoios contra os portugueses, por artifícios vários a ponto de depois os deixarem entregues à sua triste e má sorte), ele recebeu o auxílio de Ararigboia, chefe ou morubixaba dos temiminós, vindo com a sua gente do lugar do Espírito Santo[23] onde se haviam estabelecido em 1555, emigrados da Guanabara devido aos ataques dos mesmos tamoios.

A batalha foi rápida e brilhante, começando pela tomada do forte de Uruçú-mirim, situado na foz do rio Carioca (no fim da praia do Flamengo, próximo do local onde foi construído o Hotel dos Estrangeiros), generalizando-se depois à ilha de Villegaignon e à do Governador ou do Gato (Maracaiâ), onde se declarou a vitória final[24].

Durante o combate de Uruçú-mirim recebeu Estácio de Sá uma flechada no rosto, de que veio a morrer alguns dias depois.

Ao índio Ararigboia (em tupi, “cobra de tempestade” ou “cobra feroz”), em recompensa dos seus serviços, foi-lhe entregue o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo (tendo recebido o batismo cristão no Rio de Janeiro em 1530, segundo Frei Vicente do Salvador, recebendo do seu padrinho o nome de Martim Afonso de Sousa) e doada do outro lado da baía uma légua de terra no litoral com duas pela terra adentro, desde São Lourenço até Icarahy, compreendendo a maior parte da actual cidade de Niterói. O seu nome ficou ligado à colonização do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e da Guanabara[25].

Mem de Sá retirou-se pouco depois para a Bahia e de lá continuou a insistir pela sua demissão, vindo a falecer em São Salvador dois meses antes da chegada do seu sucessor.

Como disse, no Morro do Castelo estava a igreja de São Sebastião que durante quase quatro séculos foi o bastião da Sé, e no seu topo dominava a estátua do Arcanjo São Miguel, simples e bela, toda em cobre, que servia de ponto de referência aos navios que cruzavam a barra (Pão de Açúcar…) da baía de Guanabara. Este Arcanjo psicopompo, conduzindo as almas de um lado ao outro da vida, portador da Espada e da Balança, diz a Tradição Iniciática que seria representado pela secreta Ordem de Mariz, tendo dado início à extinção do Karma Fenício-Atlante que pesava sobre o Rio de Janeiro.

Tal Ordem Encoberta, Jina, como diria Mário Roso de Luna, avança ainda a Tradição Iniciática que ela é a Quinta das Sete Ramas da Grande Loja Branca, Maçonaria Universal ou Igreja de Melkitsedek – afim à chamada Linha Cabayu (tupi) ou Morya (sânscrito), em arábico Muridj ou Maridj, donde Mariz em português – e que levantou bem alto o seu Pavilhão Púrpura no Rio de Janeiro, a ponto de no Brasão de Armas deste a figurar centralmente o barrete frígio (simbólico do Adepto Independente ou o verdadeiro Homem Livre) sobreposto às três setas sebásticas, flechas incendiadas pelas Três Hipóstases do Deus Eterno Criador do Universo Mundanal, este assinalado na Esfera Armilar signatária do Hermetismo Manuelino, indicativa da Assiah ou o “Mundo”, que no Tarot se representa no Arcano 22 marcando o biorritmo do Brasil.

No Ermitão da Glória, obra preciosa do Genial José de Alencar (ou “Jina de Além-Mar”…), fala-se de Aires de Lucena e de Maria da Glória, autênticos gémeos espirituais profundamente enamorados que, por causa do seu amor impossível, morre ela na flor da idade e ele se torna o ermitão da Glória. Esotericamente, ela, Maria, é Vénus (Mãe, Mater, Mariz…) e ele, Aires ou Áries, é Carneiro (o “Guerreiro da Arca ou Agharta”, que toma por espada o bastão de eremita e por couraça o solidéu da renúncia), no cume do Outeiro (Solar) com o nome daquela alma amada que tão jovem partiu. Assim, Lucena acaba encarnando em si o martírio do próprio Orago, e quis a Lei de Causalidade que lá em baixo, logo ao começo da subida, fosse postada a monumental estátua de São Sebastião, “bastião” da Mui Leal e Heróica Cidade do Rio de Janeiro.

Lucena e Glória, cuja morte acaba simbolizando a “Realização do Andrógino” como parelha gémea, ficaram representados nos dois golfinhos laterais do Brasão de Armas do Rio, bem se sabendo que o delfim é tanto símbolo da Pedra Filosofal como do Messias ou Avatara, seja Cristo ou Maitreya, tanto vale, por ser a mesmíssima Consciência Divina em nova manifestação como Espírito de Verdade.

O Outeiro da Glória tem por “balizas”: à sua esquerda, o Relógio da Glória, de “quatro faces”, as quais transpostas às quatro faces de Janus, o deus das Portas, dos Portais do Mundo, vêm a representar os quatro pontos cardeais. No pedestal posta-se Brasão de Armas da cidade, ostentando a quilha de uma caravela entre a parelha de golfinhos.

À direita, encontra-se o Monumento Comemorativo da Abertura dos Portos (28.1.1888), onde duas damas sentadas vis-à-vis, a primeira tem a mão esquerda apoiada numa âncora (marinha), e a segunda empunha um caduceu (comércio); no respectivo pedestal, mais uma vez, o Brasão de Armas da cidade. Se teologicamente expressa a Esperança, esotericamente a âncora representa a fixação de um Ideal em lugar predeterminado aportado por determinado Movimento, portanto e como muito bem diz Moysés Jakubovicz, é “o símbolo do Salvador, o Avatara ou Manu, cuja “Barca” ancora em Porto Seguro… para a eclosão dos Seus preceitos, que, devidamente vivenciados pela criatura humana, realiza o equilíbrio do masculino e do feminino, energias estas representadas pelas serpentes do caduceu de Mercúrio, uma das metas da Teosofia”.

A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, a cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos e Brasília, a actual capital do país, têm uma característica comum: à luz da Tradição os seus nomes correspondem a princípios sagrados.

Cidade do Salvador – 1.ª capital (1549-1763). Início do Brasil Ibero-Ameríndio. Salvador, em grego, é Soter, com o sentido de Messias, Avatara, Legislador, Manu, etc.

Cidade do Rio – 2.ª capital (1763-1960). Brasil Luso-Mameluco. Janeiro provém de Janua, “Porta”, e Janus, o “Senhor das Eternidades”. Aqui foi a capital de Portugal e de todo o Império Português no Mundo, reinando D. João VI, e diante da dimensão geográfica do Império bem se poderá dizer que o Rio de Janeiro chegou a ser Capital do Mundo.

Cidade de Brasília – 3.ª capital (desde 1960). Brasil Americano, o Futuro. Brasília é feminino de Brasil, o que decerto terá a ver com o alvorescente V Império Universal ou a Era do Espírito Santo – a Idade do Veltro di Dio, a da Parúsia.

Para terminar, de volta à memória desse enigma brasílico que é a Pedra da Gávea e assim desfechar a saga do Brasil Fenício, informa, em lavra romanceada, Sérgio Órion de Souza do que terá sucedido após a morte abrupta de Yet-Baal-Bey e Yet-Baal-Bel[26]:

“O choque e a comoção apossaram-se do reino. Badezir foi mandado buscar às pressas pelos sacerdotes, apressando-se quanto pôde em vencer tão longo quão dificultoso trajecto, mas ao chegar nada mais pôde ser feito senão o sepultamento dos gémeos, que se deu no interior da hoje chamada Pedra da Gávea. Badezir retornou ao reino do Norte arcado pela imensa dor. Os reinos não mais lhe interessavam. Mesmo as redobradas responsabilidades políticas e administrativas – pois teve que assumir a ambos os reinos – não lhe dissiparam a tristeza de pai que muito se lamentava por nada ter conseguido fazer pela protecção dos filhos amados. Meses depois falecia Badezir de desgosto na capital de seu reino, em plena floresta amazónica. O seu corpo foi sepultado num templo piramidal, ainda lá existente, porém inacessível.

“Sob Badezir vigia a mais harmónica complementaridade entre os dois reinos, com a natural hegemonia do reino do pai, ao Norte. Com o desaparecimento dos supremos dirigentes, os sacerdotes e os militares tentaram de alguma forma manter coesos os reinos, mas as desavenças avultaram. Negavam-se os do Sul a serem governados pelos do Norte, chegando-se quase à declaração de guerra. O caos generalizou-se. Seguiram-se à dissidência política as crises administrativas e económicas. À falta de um governo central, as cidades fundadas às margens das rotas interiores foram deixadas à própria sorte; umas desapareceram, outras vingaram ainda por muito tempo, mas todas, com o passar dos séculos, foram abandonadas, pela vida mais fácil nas cercanias do litoral”… até desaparecerem definitivamente, com o fenício e o cário conversos simplesmente tupi e carioca.

Em desfecho final ao tema, agora respigo breve trecho de obra privada da lavra do Professor Henrique José de Souza, escrita nos anos 50 do século findado, levando o sugestivo título Livro da Pedra:

– Acolá, a Pedra da Gávea respondendo aos sinais semafóricos dos náufragos da vida, querendo dar entrada na Barra da “Baía de Guanabara”. Do outro lado, a Nistaoram dos amores fenícios dos Gémeos contemplando o mistério. A barquinha tradicional encalhada no bojo da serra, do monólito estranho, como Templo-Túmulo de Dois Deuses do Passado… E querendo ela mesma revelar a imortalidade indiscutível dos Gémeos. As vísceras nos vasos canópicos… querendo sangrar com as dores e saudades de outrora, duas múmias de escravos núbios postados aos pés desses mesmos Gémeos… olhando fixamente os corpos dos seus senhores… À cabeceira, dois jarrões de vítrea forma e adornados com aves exóticas e multicoloridas… mais parecem “dois pêndulos do mesmo relógio” a marcar a “Ancianidade dos Tempos”… E o perfume das flores que dentro dos mesmos existem, também na imortalidade de sua existência, a perfumar, agridocemente, o mágico ambiente do multissecular Monumento. Sim, os festejos da face da Terra, nas suas águas oceânicas, a se confundirem com os festejos de Duat repercutidos na Agharta…

E a Pedra da Gávea faz ecoar, no “tintinábulo das pedras em seu redor”, acompanhando o marulhar das águas oceânicas:

“BADEZIR… BASIL… BRASIL!” Terra do Fogo Sagrado.

A Canaã da Kumárica e Pramanthica Quadrilateralidade.

Palavras cruzadas…

NOTAS

[1] Eduardo B. Chaves, Mensagem dos Deuses (Para uma revisão da História do Brasil). Livraria Bertrand, Lisboa, 1977.

[2] Cássio Costa, História dos Subúrbios: Gávea. Departamento de História e Documentação do IHGB, Estado da Guanabara, 1963.

[3] Brasil Gerson, Histórias das Ruas do Rio de Janeiro. Editora Sousa, Rio de Janeiro, 1954.

[4] Helena P. Blavatsky, Isis Sin Velo, tomo II, cap. VI. Editorial Sirio, S. A., Málaga, 1988.

[5] Araken Távora, Pedro II através de Caricatura. Editora Bloch, Rio de Janeiro, 1975.

[6] Paul Hermann, Conquest by Man – The saga of Early Exploration and Discovery. Harper & Brothers, New York, 1954.

[7] Trata-se do padre frei Custódio Alves Serrão (1799-1873), da Ordem dos Carmelitas Calçados da Província do Reino, que durante muito tempo foi professor catedrático de Física e Química na Escola Militar no Rio de Janeiro, neste onde dirigiu o Museu Nacional por decreto de 25 de Janeiro de 1828. Em 1839 escrevera uma Memória remetida ao rei D. João VI, relatando a sua descoberta e interpretação dos pressupostos petróglifos da Pedra da Gávea.

Sacramento Blake, literato, biógrafo e historiador brasileiro, no segundo volume do seu Diccionario Bibliographico Brazileiro (1893), assim descreve este religioso erudito:

“Custodio Alves Serrão — Filho de José Custodio Alves Serrão e de Dona Joanna Francisca da Costa Leite, nasceu na villa, depois cidade de Alcântara, no Maranhão, a 2 de Outubro de 1799, e falleceu no Rio de Janeiro a 10 de Março de 1873. Carmelita professo aos quinze annos de idade, apezar de sua manifesta aversão á vida claustral, mas por imposição de seus paes, em vista da rara intelligencia que demonstrava, foi mandado, à expensas da Ordem, para Coimbra, com o fim de seguir o curso dos estudos superiores; mas bem depressa teve de entrar em lucta com os frades conimbrenses, porque queriam estes obrigal-o a estudar theologia e, como ele teimasse em seguir o curso de sciencias naturaes, chegaram ao ponto de negar-lhe um talher em seu refeitorio! Obtendo, entretanto, o gráo de bacharel com as melhores approvações e com grandes sacrificios, veiu para o Rio de Janeiro em 1825; foi nomeado em 1826 lente do botanica e zoologia da Academia Militar, passando logo com a reforma da Academia a lente de chimica e mineralogia, e em 1828 director do Museo Nacional. Do primeiro destes logares obteve aposentadoria em 1847; do segundo a exoneração que pediu, depois de elevar o Museo ao gráo de aperfeiçoamento que elle ideava. Antes disto, em 1834, exerceu as funcções de membro da commissão de melhoramentos da Casa da Moeda, onde introduziu uteis reformas e processos de analyse e refinação de metaes, que então eram novidade; depois disto, em 1859, foi nomeado para o cargo de director do Jardim Botanico, onde conservou-se alguns annos, tendo alcançado breve de secularisação em 1840. Por occasião de uma viagem ao Norte, em 1835, explorou, em Sergipe, as serras de Itabaiana, onde se dizia existirem minas de ouro e de salitre, e em Alagoas a formação betuminosa das praias de Camaragibe, remettendo amostras ao Governo. Conhecia a lingua grega e varias linguas orientaes e era notavel naturalista, vindo a cegar completamente antes de fallecer, em consequencia das repetidas observações microscopicas a que se entregava. Foi membro do Instituto Fluminense de Agricultora, socio fundador da Sociedade de Melhoramentos da Instrucção Elementar, socio do Instituto Historico do Brazil, socio e presidente honorario da Sociedade Auxiliadora da Industria Nacional, e commendador da Ordem de Christo.”

Quanto às pesquisas na Pedra da Gávea, empreendidas por esse mesmo erudito, agrega Sacramento Blake:

“Consta-me que frei Custodio, em vista de uma inscripção em caracteres phenicios, já muito carcomidas pela acção destruidora do tempo, encontrada em uma das montanhas do littoral do Rio de Janeiro, ao sul da barra, escrevera uma Memoria, em que se prova que o Brazil fôra visitado por alguma nação conhecedora da navegação, antes que aqui viessem os portuguezes. Esta Memoria foi examinada por uma commissão do Instituto Historico, mas nunca se tratou mais disto.”

[8] Bernardo Ramos, Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica (Especialmente do Brasil), vol. I, cap. XIV, “As inscrições do Morro da Gávea”. Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1930.

[9] Henrique José de Souza, Brasil Fenício. Brasil Ibero-Ameríndio. Revista Dhâranâ, ano XXIX, n.º 2, Maio / Junho – 1954, São Paulo.

[10] Brasil Gerson, História dos Subúrbios: Botafogo. Departamento de História e Documentação da Prefeitura do Distrito Federal, 1959.

[11] Vasco Mariz, Lucien Provençal, Villegagnon e a França Antártica: uma reavaliação. Nova Fronteira, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro, 2001.

[12] Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Editora Positivo, Curitiba, 2010.

[13] Gustavo Barroso, Aquém da Atlântida. Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1931.

[14] Alfredo Pinheiro Marques, A Cartografia Portuguesa e a Construção da Imagem do Mundo. Edição trilingue (português – francês – inglês). Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1991. O citado Álvaro Teixeira Filho pertencia às Armas de João Teixeira Albernaz I que, cerca de 1640, pintou uma carta antiga de Portugal Continental que se conserva até hoje em Lisboa, no Museu Calouste Gulbenkian, recentemente acrescentada nos Portugalie Monumenta Cartographica. Sendo filho de Luís Teixeira, João Teixeira Albernaz I foi cartógrafo real, entre 1597 e 1612, e o que teve influência mais notável no estrangeiro, notoriamente na Holanda, onde está boa parte da sua obra. Deve-se a ele as cartas planisféricas do litoral e interior do Brasil, que assim passou a ser conhecido dos navegadores de Seiscentos, nomeadamente holandeses e ingleses, já que desde muito antes os portugueses conheciam bem o Brasil, cerne da sua diáspora mais cultural que comercial, ao inverso dos outros. A dinastia Albernaz teve continuação sobretudo com João Teixeira Albernaz II, neto do homónimo e bisneto de Luís Teixeira. Cf. Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica), referência aos Albernaz, pp. 37-38. Lisboa, 1961.

[15] Este mapa foi publicado em Monumenta Cartographica Africae et Aegypti, de Yousouf Kamal, t. 3.º, fasc. IV, p. 867, Cairo, 1934.

[16] José Garcia Domingues, Portugal e o Al-Andalus. Hugin-Editores, Ltda., Lisboa, 1.ª edição Outubro de 1997.

[17] O texto árabe da Geografia de Abu’l-Fida, Taqwin al-Buldân, foi publicado por Reinaud et Slane, Paris, 1840. A sua tradução, sob o título La Géographie d´Abulfêda, deve-se a Reinaud e Estanislau Guyard, Paris, 1848-83.

[18] J. da Costa Macedo, Memória (…) que os Árabes não conheceram as Canárias antes dos Portugueses, in Hist. e Mem. da A.R.C.L., Tomo I (1843), 37-268. Cf. Pinharanda Gomes, História da Filosofia Portuguesa – A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

[19] Peter Kolosimo, Antes dos Tempos Conhecidos. Edições Melhoramentos, São Paulo, 1970.

[20] Moysés Jacubovicz, A Pré-História do Brasil. Revista Aquarius, ano 3, n.º 9, 1977, Rio de Janeiro.

[21] René Guénon, Symboles Fondamentaux de la Science Sacrée. Éditions Gallimard, Paris, 1962.

[22] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S. A., Barcelona, 1988.

[23] Osório Duque Estrada, História do Brasil. Jacinto Ribeiro dos Santos, Editor, Rio de Janeiro, 1922.

[24] Esta ilha teve sucessivamente os nomes de Paranapuam ou Paranapucú, Maracaiâ ou do Gato, dos Sete Engenhos e, finalmente, do Governador (Mem de Sá).

[25] Frei Vicente do Salvador, História do Brasil (1500-1627). Editora Melhoramentos, São Paulo, 1931.

[26] Sérgio Órion de Souza, O Descobrimento do Brasil em três actos. Revista Dhâranâ, ano 76, edição 235, Janeiro 2000, São Paulo.

HY-BRAZIL: DELENDA PHOENICIA – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Nov 25 2021 

Parece ter se tornado instituição o muro de silêncio e ostracismo sobre a Pré e Proto História do Brasil. É como se este nunca tivesse existido antes da chegada de Cabral… Este mistério de ignorar ou de ocultar as provas, ou então as censurar e deturpar, é daqueles que não consigo decifrar, confesso.

Lembro há uns anos atrás ter chegado a Portugal a notícia televisiva de ter sido descoberta no fundo da baía de Guanabara (RJ) uma embarcação pressupostamente fenícia. Foi o “fim do mundo”! Os mais reputados historiadores vieram a liça gesticulando coléricos que essa “não passava de um barco de pescadores afundado recentemente” (como é que eles sabiam se não assistiram ao naufrágio, tampouco realizaram alguma pesquisa submarina no local?!) e que “antes de Cabral nada havia”… e a notícia morreu aí.

Lembrei-me desse acontecimento passado por recentemente ter lido sobre ele numa revista teosófica, o que me avivou a memória[1]:

“Um triste exemplo que comprova esse aberrante comportamento (académico) tivemo-lo em 1982, quando surgiu a notícia da descoberta de três ânforas reconhecidamente fenícias, retiradas da baía de Guanabara. O arqueólogo norte-americano Robert Frank Marx iniciou, em 1975, uma série de mergulhos na citada baía, para confirmar a hipótese do afundamento de um navio fenício ali. Não encontrou navio algum, mas sim as ânforas. O caso foi mediatamente abafado e somente foi divulgado, com informações vagas, três anos depois, em 1978. O assunto só voltou à baila em 1982, quando o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, publicou matéria sobre uma Conferência da Marinha, onde o presidente da Associação Profissional das Actividades Subaquáticas, Raul Cerqueira, relatou o achado das ânforas, cada uma delas com capacidade para 36 litros, juntamente com outras 12 peças arqueológicas. O nome do mergulhador que as encontrou foi então revelado: José Roberto Teixeira, que teria ficado com uma das ânforas, entregando as outras duas para o Governo Brasileiro que, segundo informações confidenciais, as mantém em local sigiloso.”

Ainda defronte à cidade do Rio de Janeiro, na Ilha Rasa, foram encontrados esqueletos humanos e paleogravuras datados para cima de 20.000 anos. Não é isto significativo?

Há ainda a notícia da descoberta de 40 urnas funerárias em Presidente Figueiredo, a 107 quilómetros ao norte de Manaus, sendo considerada um dos mais importantes achados arqueológicos do Amazonas de todos os tempos[2]. As urnas mantinham os mortos parcialmente conservados, o que revelava conhecimento herdado dos antepassados acerca dos processos de mumificação. O secretário municipal de Turismo e Meio Ambiente de Presidente Figueiredo, o geólogo Frederico Cruz, disse aos órgãos de comunicação social: “Essas urnas podem conter informações preciosas sobre as populações passadas e sobre as migrações dos paleoíndios que habitaram a região, com certeza há mais de dois mil anos”. Uma das urnas descobertas, de cinco metros de diâmetro no chão, supôs-se “poder ser uma urna gigante usada para enterro colectivo”[3]. Frederico Cruz acrescentou ainda que a Prefeitura de Presidente Figueiredo não era irresponsável ao divulgar informação tão extraordinária. Por causa da grande pressão de jornais e arqueólogos independentes, foi decidido que uma excursão pioneira coordenada pelo arqueólogo Marco António Rocha, do Centro Ambiental da Vila de Balbina, se deslocaria até ao local do achado para realizar os primeiros estudos.

Essas são notícias factuais, referentes a descobertas cientificamente comprovadas, as quais em nada ingerem com a posterior presença de Cabral no Brasil, ao contrário do que achou certa e desavisada comissão de portugueses patrioteiros em Maio de 1968, nisso sendo “mais papistas que o Papa”, como conta Moacir Lopes na sua Introdução à obra de Ludwig Schwennhagen[4]:

“Em Maio de 1968 lemos no jornal O Dia, do Rio de Janeiro, uma notícia vinda dos Estados Unidos, acompanhada da reprodução de um quadro de símbolos. Dizia o texto: “Encontrados na Paraíba e levados para Walthan, em Massachussets, nos EUA, estes símbolos foram estudados durante quase cem anos. Finalmente o professor Cyrus Gordon, especialista em assuntos mediterrâneos, conseguiu decifrá-los. Indicam que os fenícios estiveram nas terras que hoje formam o nosso país, pelo menos dois mil anos antes de Cristóvão Colombo descobrir a América e Cabral chegar ao Brasil”.

“Dois dias após a publicação dessa nota, vimos em outro jornal outra nota: “Lusos: Cabral chegou antes”, em que alguns portugueses radicados no Brasil mostram-se mesmo “revoltados, manifestando a disposição de fazer uma representação junto à Embaixada dos Estados Unidos”…”

Isso vem revelar ignorância crassa em termos históricos, como se o período Pré-Cabralino de alguma maneira ingerisse com o Cabralino e Pós-Cabralino do Brasil. Passo adiante.

De maneira que assim vou me achegando ao estudo filológico comparativo Sumério – Tupi, que é dos mais apaixonantes da Proto-História Brasileira, indo tomar por ponto de partida a palavra bíblica Ophir, que fez a glória de Israel e foi a joia mais cara da grandeza de Tiro, esta descrita pelo profeta Ezequiel:

“Ó Tiro, tu disseste: «Eu sou de uma beleza perfeita e situada no coração do mar”… Os cartagineses que traficavam contigo, trazendo-te toda a casta de riquezas, encheram os teus mercados de prata, de ferro, de estanho e de chumbo. A Grécia, Thubal e Mosoch também estes sustentavam o teu comércio: trouxeram ao teu povo escravos e vasos de metal. Da casa de Thogorma trouxeram à tua praça cavalos, e cavaleiros, e machos. Os filhos de Dedan negociaram contigo: o comércio das tuas manufacturas se estendeu a muitas ilhas, eles em troca das tuas mercadorias te deram dentes de marfim, e de pau ébano. Os sírios se meteram no teu tráfico por causa da multidão das tuas obras, expuseram à venda nos teus mercados pérolas, e púrpura, e estofos bordados de pequenos escudos, e linhos finos, e sedas, e toda a casta de mercadorias preciosas. Os povos de Judá, e da terra de Israel, foram os mesmos que comerciaram contigo no melhor trigo, eles puseram de venda nas tuas feiras o bálsamo e o mel, e o azeite, e a resina. O de Damasco traficava contigo pela abundante variedade dos teus géneros, pela multidão de varias riquezas, em vinho generoso, em lãs da mais alva cor… A Arábia, e todos os príncipes de Cedar, estavam também metidos na dependência do teu comércio: com cordeiros, e carneiros, e cabritos vinham a ti para comerciar contigo… Os teus vasos faziam o teu comércio principal: e tu foste cheia de bens, e elevada à mais sublime glória no coração do mar…”[5]

É Cândido Costa[6], repetido por Arthur Franco[7], a não economizar detalhes filológicos, devidamente apurados, no intento de comprovar a presença fenícia na “Ínsula” que depois se revelaria o Brasil, tomando por base da sua arqueofilologia diversas passagens do Antigo Testamento.

O rei David, quando morreu, deixou ao seu filho, o rei Salomão, para a construção do Templo de Jerusalém, 7000 talentos de prata e 3000 de ouro de Ophir. O velho rei não possuía nenhum navio que navegasse nos mares exteriores. Recebia, pois, o ouro de Ophir pelo tráfico com os fenícios, os quais, segundo a mesma Bíblia, “conheciam todos os mares”. Salomão, para pôr em execução os seus grandes projectos de edificação do Templo, recorreu ao rei Hiram I de Tiro. Interessou-o nas suas empresas e contratou com ele aliança sólida.

O receio de provocar hostilidades dos povos vizinhos do Mediterrâneo, sem dúvida terá sido o motivo que decidiu Salomão a construir em Esion-Gaber, no Mar Vermelho, os navios que destinava às viagens a Ophir, havendo para isso marinheiros fenícios experimentados que Hiram lhe enviara (Paraliponemos 2, cap. 8, vers. 18: “E o rei Hirão lhe mandou por seus vassalos naus, e marinheiros práticos do mar, e foram com a gente de Salomão a Ofir, e de lá trouxeram ao rei Salomão 450 talentos de ouro”). Ademais, na época, as Colunas de Hércules estavam fechadas aos gregos por Cartago e o comércio para as terras banhadas Atlântico tinha vigilância apertada.

A frota salomónica a Ophir terá ido muito além do Mar Vermelho. Deduz-se que terá passado o Cabo africano e se reunido, já no Oceano Atlântico, à frota de Hiram que saíra do Mediterrâneo. É a partir desta hipótese que Cândido Costa, por via da Filologia, tenta levantar o véu acerca da verdadeira identidade das ricas localidades bíblicas de Ophir, Parvaim e Tarschisch. Para isso, baseou-se no estudo comparativo das antigas línguas europeias e asiáticas, bem como na língua quichua ou dos antis do Peru, a qual ainda se falava, pelo menos em 1900, na bacia superior do Rio Amazonas.

Nos Paraliponemos 1, cap. 29, vers. 2-4, conta-se que Salomão adornou a sua casa com belas pedras preciosas e que o ouro era de Ophir e de Parvaim. Ora, Parvaim é pronúncia alterada de Paruim. A terminação im dá o plural em hebraico, e vem acrescentado a Paru, decerto para indicar uma duplicidade na ínsula occidis de Ophir; efectivamente existem, na bacia superior do Rio Amazonas (nome fenício dado à Ursa Menor), no território oriental do Peru, dois rios auríferos, um com o nome de Paru, outro com o de Apu-Paru, o “rico Paru”, e que unem as suas águas para se confundirem no Ucuayli. Filologicamente, os dois rios Paru e Apu-Paru perfazem, no plural, Paru-im. Ateste-se ainda que, primitivamente, o Rio Amazonas levava o nome Paruinga e que os autóctones tupis até hoje pronunciam Paranatinga (pronúncia Paranã-tinga, “o mar ou caudal branco”)[8].

O Rio Amazonas, desde a embocadura do Ucuayli até à foz do Rio Negro, chama-se ainda hoje Solimões. Este não é mais nem menos que o nome viciado de Salomão, cujo batismo poderá dever-se aos da frota hebraico-fenícia do rei bíblico, quando tomaram conta da terra, tanto que Salomão se escreve em hebraico Solimah e em árabe Soliman, donde Solimões, corruptela tardia. Çorinam, alterado Sorimão, Solimão, donde Solimões, é o nome de uma tribo tupi do alto Amazonas que deu o seu apelido à parte do grande rio, acima do Rio Negro[9]. Nisto não se deve esquecer de que, na América, as correntes de água tiram os seus nomes das tribos que habitam junto delas. Daí também os portugueses bandeirantes setecentistas terem implantado a pronúncia rústica Solimão, por hábito de linguística não apurada em conformidade às poucas letras aprendidas, o que era comum no vulgar sertanejo.

Essa pressuposta colónia hebraico-fenícia terá tido uma duração assaz longa, pois as viagens trienais dos navios de Salomão e de Hiram se renovaram várias vezes, conforme se lê em Paraliponemos 2, cap. 9, vers. 13 e 21: “E o peso do ouro, que todos os anos se trazia a Salomão, era de 666 talentos de ouro. Porque as frotas do rei iam de três em três anos com a gente de Hirão a Tharsis (ou Tarschisch), e traziam de lá ouro e prata, e marfim, e bugios, e pavões”. “Marfim e pavões” parece remeter mais para a África congolesa do que para a amazónica América do Sul, mas poderá justificar-se o texto por eventual paragem da frota em alguma parte da costa africana. É ainda dito que a colónia amazónica não foi abandonada à sua própria sorte senão no reinado de Josaphat, rei de Judá, no tempo em que os cartagineses todo-poderosos não permitiam a nação alguma sair do Mediterrâneo. Poderá ter sido essa a razão porque Josaphat quis mandar sair do Mar Vermelho para essas mesmas regiões uma frota equipada, conjuntamente com Ochozias, rei de Israel. Porém, um terrível temporal destruiu-a completamente.

Passo agora a Ofhir, lugar de situação geográfica controversa, célebre pelas suas riquezas imensas. Antes de tudo o mais, devo lembrar que vários filólogos acreditaram poder fazer que prevalecesse o nome de Abiria, por ter sido a Ophir da Bíblia. Todavia, devem levar-se em consideração os factos seguintes:

Primeiro, o nome Abiria é a tradução latina do vocábulo grego Sabeiria, tomado da Geografia de Ptolomeu, livro VII, cap. I. A licença do tradutor é tão grande quanto censurável. Em segundo lugar, Sabeiria acha-se localizada na parte ocidental da Índia, que chamavam Indo-Scitia. Porém é reconhecido que a Índia, mormente na parte ocidental, nunca produziu ouro para o comércio; pelo contrário, os egípcios e os árabes para ali o levavam, para trocaram-no por tecidos de lã e algodão. Assim, a hipótese de que Sabeiria fosse a Ophir da Bíblia cai por si mesma!… Cândido Costa, na sua obra citada, aponta o filologista Esteban Quatremére que também não admite que Ophir estivesse colocada no Golfo Arábico ou em alguma parte da Índia, Ceilão, Sumatra, Bornéu ou em algum ponto do Extremo Oriente, pela razão muito simples de que os navios de Salomão e Hiram gastavam três anos em cada viagem dessas[10]. Mas não eram três anos de viagem, e sim viagens de ida-volta de três em três anos. Contudo, Quatremére cai no próprio erro dos que combate ao colocar Ophir em Soplah, na costa oriental de África. Para fortalecer a sua hipótese, Quatremére não hesita na escolha dos meios: assim é que, por não achar pavões na África (mas os há, como o pavão-do-congo, Afropavo congensis), quer que os pássaros chamados tulens na Bíblia sejam periquitos ou picotas. Curiosamente, muitos autores têm adoptado a teoria descabida, com laivos de brejeira ou anedótica, de Esteban Quatremére, ao colocar Parvaim e Ophir, o “País das Minas de Salomão”, na África. Devo acrescentar que o hebraico Parvaim é todo ele igual ao Paraim ou Paraima tupi, nome primitivo das Lavras de Minas, hoje Estado de Minas Gerais, enquanto Pindorama, em tupi, era o “País das Palmeiras”, hoje Brasil, o Hy-Brazil sumério.

No primeiro Livro de Reis aparece escrito Ophir em língua hebraica de três modos: Apir, Aypir e Aypira. Nada se opõe, antes se conclui, que o Aypira bíblico encontre o seu correspondente imediato no Rio Yapur, onde o Y significa “água”, ou seja, “água ou rio de Apir, Aypir ou Ophir”. Razão filológica da região de Ophir ser essa que atravessa o Rio Yapurá, no Amazonas, conectado ao significado tupi de “entre água, ilha”: Ypaú, alterado Ipaon e Upíon, este cuja fonética se identifica a Ophir.

Quanto à palavra hebraica Tarschisch, grafada de forma simples Tharsis, em sumério significa “Amazonas do Alto”, neste caso e astronomicamente, a Ursa Maior, obviamente acima da Ursa Menor, mas geograficamente só poderá ser, pela mesma lógica, a Alta Amazónia.

Parentes dos fenícios foram um outro povo dos mais ilustres da Antiguidade Clássica: o cário, provindo da Ásia Menor que deu nome ao território onde se fixou, a Cária, situado na Anatólia, a sudoeste da Europa, em cujo litoral estavam as famosas cidades de Halicarnassus e Mileto. Halicarnassus era o lugar do famoso Mausoléu que foi uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Mileto era a cidade do famoso Thalkes, de origem fenícia. Próximo ficava Rhodes, também sede de uma das Sete Maravilhas, o famoso Colosso. Heródoto descreve a importância real da Cária no Passado:

“Os cários eram uma raça que veio para o continente (europeu) a partir das ilhas (egeo-cretenses). Nos tempos antigos estavam sujeitos ao rei Minos, e o foram pelo nome de leleges (donde lelúgios, lúgios e lígures…), residindo nas ilhas e, tão longe quanto pude ir em minhas pesquisas, nunca sujeitos a prestar tributo a qualquer homem. Eles serviram a bordo dos barcos do rei Minos quando ele requeria; e então, como ele era um grande conquistador e prosperou em suas guerras, os cários eram, nos seus dias, de longe os mais famosos de todas as nações da Terra. Também foram os inventores de três coisas as quais os gregos copiaram. Foram os primeiros a colocar cristas nos capacetes e a colocar dispositivos nos escudos, e também inventaram punhos para os escudos. Nos tempos antigos, os escudos eram sem punhos, e seus usuários os manejavam pela ajuda de uma tira de couro que eles penduravam em torno do pescoço e do braço esquerdo. Muito tempo depois de Minos, os cários foram retirados das ilhas pelos jónicos e dóricos, e então estabeleceram-se no continente. Isto é o que os cretenses contam dos cários. Os cários mesmo contam algo muito diferente. Eles sustentam que eram os habitantes originais (originais e pós atlantes, aventarei) da parte do continente onde agora habitam, e nunca tiveram outro nome que este que ainda levam.”[11]

Essas cristas referidas no texto são, na realidade, uma característica da América Pré-Colombiana e do Brasil Pré-Cabralino. Era um hábito estranho à população europeia, como acentuou Heródoto. Isso poderá ser mais um indício etnográfico significativo a corroborar a presença desses povos mediterrânicos no continente americano. Observa-se em 1194 a.C. essas cristas na grande invasão dos povos do mar, os que varreram o Mediterrâneo e se caracterizavam por vestimentas muito idênticas às maias sul-americanas, inclusive a crista de penas. Adianta Arthur Franco na sua obra citada:

“Diodoro da Sicília (90-21 a.C.), escrevendo em 50 a.C., disse que os cartagineses seguiram na navegação os rastos dos cários nos mares do Oeste. Os cários usavam penas como os índios americanos. Segundo alguns historiadores, foram deixando na maior parte da América o seu nome, estabelecendo uma dinastia de sua raça que reinava em Quito, capital do Equador. Plutarco, em seu Tratado das Manchas no Orbe Lunar, conta-nos que, abrangendo todo o Ocidente além das Colunas de Hércules, o continente em que reinava Merope foi visitado por Hércules numa expedição que fez para Oeste, e que os seus companheiros ali apuraram a língua grega, que começava a adulterar-se. Segundo Heródoto, as origens gregas estariam na América. Ora, os indícios que as culturas de Cuzco, no Peru, de Yucatan, no México, de San Agustín, na Colômbia, apresentam na filologia é gritante. O prefixo car aparece em numerosas culturas ameríndias. Entre os indígenas das Honduras, figura a tribo dos caras. No centro e no sul de uma vasta região contígua vivem as tribos dos caricos, carihos, caripunos, carayas, caras, carus, caris, carais, caribos, cários, carannas, caribocas, cariocas, caratoperas, carabuscos, cauros, caricoris, cararaporis, carararis, etc. Isto pode não significar uma prova, mas é significativo que todas as tribos em cujo nome aparece o prefixo car chamem os brancos europeus de caras. Carioca, por exemplo, na língua guarani, significa terra dos homens brancos.”

Como é universalmente sabido, carioca é a alcunha dada aos habitantes do Rio de Janeiro. Isso porque durante o Brasil-Colónia os negros e mestiços, tanto os alforriados como os mandados por algum dono de menos posses, andavam pelas ruas vendendo refresco de café, apregoando o produto em plenos pulmões: “I… car… ioca!”. Daí ficou “carioca”, por se destinar aos “senhores brancos”, endinheirados. Portanto, o epíteto será anterior e poderá ter sido aproveitado. Ainda hoje, mesmo em Portugal, quem deseja um café fraco solicita-o pelo nome “carioca”.

Os cários mediterrâneos, obviamente pós-atlantes ou do início do Período Histórico, seriam parentes dos outros cáris antilhos (das Antilhas ou “Atlante-ilhas”) que haviam ficado para trás, na América Central, após o Dilúvio Universal da Atlântida. Estes, mais tarde, irão ser organizados na região do Peru pelo filho de Manco-Capac e Mama-Oclo, Sumer ou Sumé, na sua marcha daí ao Sul do Brasil, já não como cáris mas sob o designativo de tupis, ou os adoradores de Tupan, o Deus Único e Verdadeiro, não como o sumério Baal-Bey (“Senhor dos Senhores”) mas como o indígena local Ara-Tupan-Cabayu (“Aquele que ‘cavalga’ ou governa a Terra”).

De maneira que, segundo Ludwig Schwennhagen na sua obra citada, nas crenças e noções religiosas dos tupis os missionários jesuítas encontraram as seguintes palavras:

1.º) Com o nome de Tupan veneravam os tupis o Único e Omnipotente Deus, como Criador e Governador do Mundo, o Fohat dos Iniciados, como “Fogo Frio Celeste” (Electricidade);

2.º) Pelo nome de Tupana indicaram os tupis a Força Divina e Criadora, exactamente como se chamava a deusa Cibele e cujo correspondente, como Feminino de Deus, está na Virgem Maria, a Kundalini dos Iniciados, como “Fogo Quente Terrestre” (Electromagnetismo);

3.º) A palavra Tupan-Kere-Tan, explicam os padres Manuel da Nóbrega e Anchieta, conforme a interpretação dada pelos pajés, traduz-se como “Terra da Mãe de Deus”, logo, “Terra Paradisíaca”, o que levaria os portugueses cabralinos da primeira vaga a batizá-la de Terra de Vera Cruz, que D. Manuel I depois quis que fosse Santa Cruz, mas nunca pegou bem este segundo apelido, mesmo sendo ambos referência última ao Cruzeiro do Sul, como vera ou verdadeira Santa Cruz que celestialmente coroa o imenso Brasil. Não tendo a língua portuguesa a letra k, os escritores posteriores escreveram Tupan-Cere-Tan, e traduziram “Terra de Ceres”, respectivamente, da Mãe da Natureza. O autor explica a palavra Tupan-Kere-Tan como a “Terra da Mãe Divina” ou a “Mãe Divina na Terra”, hoje representada na Virgem Negra “A Aparecida”, Padroeira do Brasil, como a expressão velada do Espírito Santo no Seio da Terra em permanente Actividade Criadora, posto “o Espírito Santo ser a Vontade de Deus posta em Actividade”, o que corresponde ao Filho de Deus, o Portador do “Hálito Vital”, o Prana dos Iniciados;

4.º) Existe na língua tupi também os nomes Kerina (igualmente escrito Querina) e Kera-ima, indubitavelmente derivados de Kaerimona (donde a portuguesa “cerimónia”), da língua de Car. Os piagas (ou pajés iniciados) explicaram a palavra como nome da “mulher sem sono, que não dorme e fica vigilando para ajudar às mulheres doentes que a chamam”. Outros interpretaram Kerina como a “mãe da água”, que protege a criação de peixe contra aqueles que os envenenam usando timbó (a paulinia pinnata, planta cujo suco mata o peixe, muito comum na Amazónia). Os padres jesuítas alcunharam depois as mulheres que não pediam o batizado das suas crianças de Kera-ima, qualificando-as como “adeptas de Kerima”, que é dizer, da primitiva religião cária.

Essas quatro palavras da religião tupi (a original e verdadeira do Brasil, tal como a raça), apresentam para o historiador e filologista a prova dessa religião ter sido introduzida e propagada no Brasil pelos sacerdotes chamados piagas, respectivamente da Ordem de KAR. Com efeito, o nome oficial dos membros da Ordem de KAR era piaga. P.I.A. é uma palavra cabalística dos Magos da Ásia Menor, com o significado genérico de “religião”, cuja sigla lê-se em sumério PILESER IAR ASSURETH, “domínio do Plano Mental”. A.G.A. – AGARIT AGAD AGAROM, “que faz Bem, Bom e Belo” – é “servidor de Deus, trabalhador da Fé, guia do Povo, ministro de Deus e do Rei”.  Portanto, piaga é o “propagador da religião”. No tupi encontra-se a palavra pia para “coração, bom andamento (representado pela letra k = um homem caminhando adiante), caridade e obediência”. O mesmo significado tem a palavra pia na língua fenício-pelasga. No grego mudou o p em b: bia é a “força moral e física”, bios é a “vida”, movida pelo coração. No latim tem-se: pia, pius, piare, pietas (piedade) e muitos outros compostos.

Pode-se situar na época de 1800 a 1700 a.C. o momento em que saiu da Caldeia, como emissário da Ordem dos Magos, o progenitor, consequentemente, coordenador e legislador dos povos cários, chamado K.A.R. – KHA ASSURETH RISIL (“Espírito Universal do Fogo”). A sigla do nome é uma fórmula cabalística que pertenceu aos segredos da dita Ordem, que aqui revelo pela primeira vez. Kar ou Car fundou a confederação dos povos cários, com a capital Hali-Kar-Nassos (“Jardim Sagrado de Kar”) na ponta do sudoeste da Ásia Menor. Heródoto nasceu na mesma cidade e deixou à posteridade, na sua História Universal, os principais traços da vida e da grande obra civilizadora de Car.

A religião propagada por Car baseava-se na crença em um Deus Único Omnipotente, a quem ele chamou P.A.N., também uma palavra cabalística (PILESER ASSURETH NISAB), significando “Senhor do Universo”. Já TU-PAN, o mesmo Deus Omnipotente na religião tupi, significa “adorado Pan”. Na língua dos cários, fenícios e pelasgos, o substantivo thus, thur (respectivamente tus, tur e tu), significa “sacrifício da devoção” e “incenso”. Tudo o que o homem oferece a Deus é, na língua dos sacerdotes cários, T.U. (TUN UNA), igualmente sigla cabalística. O infinito do verbo sacrificar é, no fenício, tu-na; no grego, thu-ein e thy-ein; no latim, tu-eri. Thus, também no latim, é o incenso que se oferece a Deus e os seus respectivos deuses ministros. A origem de TUPAN, como nome do Deus Omnipotente, recua à religião monoteísta de Car, PAN, vulgarizado no grego antigo como indicativo da “Religião Natural” antecessora da “Religião Crença” que um dia, queiram os Deuses, haverá de dissolver-se para só ficar a “Religião Sabedoria”.

Esse carácter monoteísta do culto a TU-PAN, o Pai, não alterado – como sucede actualmente na religião cristã – pelo culto paralelo e complementar à Divindade Feminina, a Mãe, TU-PANA ou TU-KERA, como era reconhecida na adoração dos povos da Ásia Menor, nome depois adaptado para Kybele, Cibele e Ceres. O nome da deusa Ceres foi escrito no latim arcaico Caeres e Kaeres, cujo nome é uma forma feminina de Kar. Outras formas femininas são karmosa, karmina, kaermona, kaerimona e caerimona, donde vem a palavra portuguesa cerimónia, que antigamente significava “o gesto altivo da sacerdotisa de Vesta”. A Ordem das Vestais era uma filial da Ordem das Cariátides, cuja primeira líder foi Caria, filha de Car. No Brasil, encontram-se os cabayus e as goarás ou garás entre os tupis carijós; essas assistentes daqueles, tal qual a sacerdotisa assiste ao sacerdote completando-se ambos, numa androginia mística ao longo do rito sagrado.

De maneira que se poderá situar a religião tupi, aparecida no Norte do Brasil, na época de 1050 a 1000 a.C., precisamente no período dado à presença fenícia aí. Neste sentido, essa religião seria propagada por sacerdotes cários, emissários da Ordem dos Piagas, sob a direcção do seu chefe espiritual e temporal chamado Sumer, cujo nome mudou, pelo abrandamento da letra r, em Sumé, que depois os missionários jesuítas, desejosos de impor a fé católica aos autóctones, associaram à pessoa do apóstolo Tomé[12].

Portanto, a língua tupi será um ramo da língua suméria, formada e falada pela Ordem dos Magos, na Caldeia, desde os tempos do rei Urgana, isto é, 4000 anos a.C. Esse rei Urgana possuía o título de Sumer, como supremo chefe temporal e espiritual da nação e da Ordem dos Magos. Assim, Sumer é o título daquele que detém as duas funções, a real e a sacerdotal.

De maneira que, ainda segundo Schwennhagen, a emigração dos cários (sacerdotes e instrutores) acompanhando os fenícios (guerreiros e construtores) ao Hy-Brazil, terá se efectuado desde 1100 a 700 a.C. Posteriormente os exploradores europeus, destacadamente os portugueses, encontraram no Brasil numerosas populações que se chamavam cara, carara, caru, cari, cariri, cairari, carahiba, caryo e cariboca.

Aos missionários portugueses os pajés chamaram cara, cari, cário, que significa “homem branco”. A cor branca é no tupi tinga, também uma palavra pelasga, de cuja raiz vem o nosso termo tingir. A palavra tupi tabatinga significa “preparada de cal e argila branca”. Mais tarde transferiu-se o nome tabatinga à argila dessa cor. A palavra oca significa “casa”, e pertence também à língua fenício-pelasga. No grego mudou-se oka em oeka, oika, oikia; “administração da casa” é, no grego, oiko-no-mia, donde vem a nossa palavra “economia”. Então a palavra tupi tabatinga significa “casa branca”; mas cari-oca é a “casa dos brancos”, ou seja, dos cários.

É o próprio e insuspeitável Teodoro Sampaio, no seu valioso tomo O Tupi na Geografia Nacional, na página 218, declaradamente a vir ao encontro do que aqui se expõe, afirmando e defendendo:

“CARAY. O apelido do homem branco, europeu, entre os tupis significando o mesmo que carahyba, de que é forma contrata. CARIBOCA. Tirado ou precedente do branco, do europeu. CARIIÓ. O procedente do branco, europeu. CARIOCA. O mesmo que carió ou cariyó. O mestiço descendente de branco. Pode vir ainda de cary-oca, significando a casa do branco, a residência do europeu. CARIOS. Cariós ou caryós, grafia usada por autores espanhóis para o nome da nação tupi-guarani, habitando a costa do Brasil, de Cananeia para o Sul. PIAGA. É o feiticeiro ou pajé entre os caribas.”

Esses “cários ou cariocas brasileiros” serão, na verdade sem preconceitos, antropológica, arqueológica, histórica e filológica, os descendentes dos homens brancos que emigraram para o Brasil, nos navios dos fenícios, na época de 1100 a.C. em diante. A pátria desses emigrantes eram os países reunidos na confederação dos povos cários, que abrangia quatro divisões:

1.ª) Caru, que se estendeu desde o Promontório Carmelo até ao Monte Taurus; a grande metrópole desse país era a cidade de Tur (respectivamente, Tiro). Os gregos denominaram esse país de Fenícia, e hoje é chamado Síria[13].

2.ª) Cari, que abrangia a costa meridional da Ásia Menor, à qual os gregos chamaram Kilikia, respectivamente, Cilicia. Uma das maiores cidades dessa província era Taba, que lembra Taba-jaras, podendo significar “senhores de Tabas” ou “cidadãos de Taba”. Este último sentido parece mais razoável. Perto da cidade de Taba passa o rio Pinaré, o que lembra o rio Pinaré (não Pindaré) do Maranhão, onde o lago Maracu mostra ainda hoje as linhas de estejos petrificados, que parecem ser os restos dos pressupostos estaleiros dos fenícios.

3.ª) Cara ou Cária, com a esplêndida capital Hali-Car-Nassos, cuja situação geográfica rivalizava em beleza com a do Rio de Janeiro, onde os cários terão fundado uma colónia com o nome entusiástico: “Dos Cários Casa” (Cari-oca).

4.º) Caramania foi o vasto hinterland que se estendia atrás de Caru e Cari, até ao Eufrates. A capital dessa província era Carmana, e terá sido daí que supostamente vieram os pequenos comerciantes (caramanos, mas também caramaras) indo estabelecer-se no interior do Brasil. Se assim foi, eles terão viajado nos navios fenícios e neles estará a origem do nome Carcamano.

Creio deter autoridade e autonomia bastantes para decidir do que devo e não devo dizer ou escrever ante o muito que já foi dito e escrito por outrens, não raro com equívocos sobre imprecisões cimentados em plágios de outros plágios, tornando-se quase «normal» ou vulgar a ocultação das fontes consultadas. Assim, considero chegado o momento de levantar a ponta do véu da História Secreta do Brasil Fenício. O que irei descrever será em forma de narrativa muitíssimo sintetizada, mas com todas as linhas gerais dessa odisseia mais que histórica, iniciática, sem deixar de reiterar o apelo a alguns e algumas a que doravante desistam do péssimo hábito de plagiar o alheio, tomando por seu o que a outrem pertence.

Segundo o Professor Henrique José de Souza (a quem os seus pares consideram o Venerável Mestre JHS), a flotilha que foi armada para trazer o imperador e a imperatriz (sua jovem segunda esposa) depostos, Badezir ou Baal-de-Zir e Anazir ou Bel-de-Zir, o príncipe e a princesa, irmãos gémeos, Yet-Baal-Bey e Yet-Baal-Bel, assim como os sacerdotes, elementos da corte, do exército e do povo que lhes ficaram fiéis, e algumas dezenas de escravos núbios, era composta de seis navios: no primeiro vinham Badezir e Anazir ou Anamin, os dois filhos gémeos, oito sacerdotes, cujo primeiro ou oitavo, como sumo-sacerdote, tinha o nome de Baal-Zin (“o deus da Luz e do Fogo”, que iria dar início à fusão monádica Fenício-Inca-Tupi), e o segundo com o nome de Aza-Gadir (“o escriba de Gades”), seu assistente, dois escravos núbios fiéis aos seus senhores, os príncipes e a marinhagem, acompanhada de soldados que, em princípio, deveriam voltar depois à Fenícia… Nos outros navios, além de gente do povo vinham mais 49 militares de patente superior, também expulsos do país por terem ficado ao lado do rei Badezir e dos seus dois filhos mais velhos… e mais 222 que, como Assureths, a bem dizer, constituíam a elite desterrada da nação fenícia – os Macários ou Makaras, em sânscrito – e que iriam originar o nascimento da Raça de Tupan, a Tupi, ao mesmo tempo que, direi assim, “cartografavam” os pontos nevrálgicos dessa parte do continente americano, assinalando os que viriam a ser os Sistemas Geográficos de São Lourenço (Moreb), Itaparica (Airu) e Xavantina (Ararat)[14].

Esses 222 Makaras organizados em torno de seus 7+1 sacerdotes dirigentes, os Piagas, deram origem à Ordem dos Macários, ou simplesmente Ordem dos Cários, cuja função principal era darem protecção à família real e organizarem a geração de 777 criaturas que pudessem tornar-se a semente privilegiada da futura 7.ª Sub-Raça Ariana. O seu emblema configurava-se da seguinte maneira:

Para conseguirem os seus propósitos, firmaram um Sistema Geográfico Atlante-Ário na vasta região arredor da baía de Guanabara, na zona de Niterói (Nish-Tao-Ram, o “Caminho Iluminado pelo Sol”), tendo desembarcado na praia de Caraí (ou Cária), o qual hoje é conhecido como Sistema Geográfico de Teresópolis, cujo centro “geodésico” na Serra dos Órgãos ficou assinalado no maciço rochoso “Dedo de Deus” (Aca-Bangu). Terá dirigido a sua fundação o Manu ou Legislador cário-tupi que hoje se conhece como Mora Moratin, o qual e com o decorrer do tempo, a partir do reduto central desse Sistema Geográfico, conduziu o seu povo para a região de Ayuruoca, onde seriam lançadas as bases do actual Sistema Geográfico Sul-Mineiro. Esse primitivo Sistema Geográfico Atlante-Ário constituía-se das seguintes cidades:

8.ª Cidade – TERESÓPOLIS (Charma)
7.ª Cidade – NITERÓI (Nishtaoram)
6.ª Cidade – NOVA FRIBURGO (Kariçura)
5.ª Cidade – CANTAGALO (Smurga)
4.ª Cidade – SÃO FIDÉLIS (Nanara)
3.ª Cidade – PARAÍBA DO SUL (Balabana)
2.ª Cidade – MARQUÊS DE VALENÇA (Melkzir)
1.ª Cidade – BARRA DO PIRAÍ (Numbal)

Foi a partir desse Sistema Geográfico que o imperador fenício Badezir constituiu dois Governos, no que é hoje o actual Brasil (que dele herda o nome): o Temporal, abrangendo todo o Norte, desde o Amazonas até à Bahia, dirigido por ele próprio, e o Espiritual, com jurisdição sobre a parte Sul, que, limitando-se com a parte já citada, estendia-se até onde hoje se denomina Rio Grande do Sul, o qual era chefiado pelo seu filho Yet-Baal (“o deus branco”).

Ficava constituído o Sistema Geográfico de Teresópolis, Ário e Atlante, isto é, constituído dos fenícios ou cananeus desterrados à vanguarda, com os autóctones que os seguiam e de que veio a nascer a raça vermelha dos tupis, já de si descendentes dos caraíbas atlantes, ou seja, daqueles que atravessando o Mar das Caraíbas, na Época Atlante terra firme, em fuga da catástrofe continental, foram estabelecer-se na Alta Amazónia, donde depois foram descendo e, por diferenciação, deram origem às várias tribos, aos vários povos indígenas do Brasil. Esses indígenas que se encontram hoje, esses selvagens, são assim remanescentes degenerados de raças que tiveram grandes conhecimentos em outras épocas, como demonstram as suas elaboradas e singulares tradições religiosas que, na verdade, estão em desacordo total com o primitivismo dos seus hábitos.

Disse “ficava constituído” mas não firmado esse Sistema Geográfico, por ter sido interrompido pelo rompimento da tessitura psicofísica entre o Templo da Pedra da Gávea, no actual São Sebastião do Rio de Janeiro, ex-capital da República Brasileira, e o Centro Espiritual em Teresópolis, situada também no Estado carioca a norte da sua capital, na microrregião serrana.

Com efeito, além dos dois filhos primogénitos Badezir tinha mais outros cinco, três dos quais acompanharam o pai no desterro apesar do ódio que sentiam pelos irmãos mais velhos por ciúmes deles serem os preferidos de seu pai, e foram quem instigou o povo exilado à revolta conta a política estabelecida do velho monarca, desencadeando-se uma réplica fatal da anterior revolução político-social e militar sucedida entre os de Tiro e Sidon. Foi por essa altura, diz a narrativa teosófica, que a chamada “sombra astral” do Luzeiro de Marte, chamada pousou a sua Mão de Diabo no terceiro filho do imperador desterrado, passando a agir por ele, e foi assim que passou à História Iniciática e Secreta do Brasil com o nome de Mano Satanas, apodo perpetuado nas crónicas dos navegadores árabes.

A influência maléfica de Mano Satanas insinuou-se no seio do povo e inclusive de alguns mais notáveis da corte religiosa e militar de Badezir. Geraram-se divisões, houveram contendas, a anarquia e o desespero começaram a campear, foram apagando-se as luzes de civilização no retorno ao estado de selvagismo. O ponto crítico decisivo da ruptura e fracasso total desse projecto sinárquico de uma Novis Phoenicia, de uma Hy-Brazil Delenda Phoenicia, deu-se com o seguinte episódio:

Vindos numa barca de Niterói para o Rio de Janeiro, os Gémeos Espirituais Yet-Baal-Bey e Yet-Baal-Bel, acompanhados de dois escravos núbios que lhes eram apaixonadamente fiéis, juntamente com o seu tutor espiritual Azagadir, em plena baía de Guanabara, as forças maléficas de Mano Satanas desencadearam uma súbita e terrível tempestade, tendo a barquinha naufragado perecendo os dois irmãos e os escravos, salvando-se a custo o sacerdote que recolheu os corpos afogados.

Adianta a narrativa teosófica que depois os príncipes e os escravos foram mumificados e recolhidos no interior da Pedra da Gávea, então usada pelos fenícios como mirante, já de si se sabendo que a gávea é o mirante dos navios. No interior do rochedo colossal haviam escavado um espaço enorme destinado a funções de templo, que assim se transformou em túmulo. Templo-Túmulo ou Metaracanga foi a Pedra da Gávea, durante largos séculos assinalando o pesado débito ou karma de toda a cidade condenada e ainda assim maravilhosa do Rio de Janeiro.

Mano Satanas, o grande culpado da tragédia, por sua vez foi condenado pela Lei Suprema a que o corpo de sua alma de mago satânico ou Nirmanakaya Negro ficasse encarcerado vivo no interior do Paú Assu, vulgo penedo do Pão de Açúcar, na verdade o “Cárcere do Assura”.

Essa situação manteve-se até cerca de 1938, diz a Tradição Iniciática, ano em que a Grande Fraternidade Branca dignificou o Posto da Glória e a Pedra da Gávea, ambas no Rio, ordenando pouco depois que todo o recheio fúnebre no interior dessa última fosse transladado para um outro Templo no seio da Serra do Roncador, onde também está o túmulo de Badezir e esposa, esta falecendo pouco depois da sua chegada aqui, vítima de febre tropical, e aquele, por desgosto, poucos anos após a morte dos filhos mais amados.

O Posto da Glória está hoje assinalado e velado por uma igreja cristã, no topo de um outeiro lateral ao da Gávea, por onde se penetra por vasta galeria subterrânea, inicialmente descendo em caracol, levando ao seio profundo e quiçá jucundo da Terra, à região que as tradições secretas do Oriente chamam Badagas e as sul-americanas Sedotes.

O Outeiro da Glória da cidade do Rio de Janeiro, foi outrora denominado Morro do Laripe. A igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro aí construída (1714, finais do século XVIII) pela Irmandade do mesmo nome, deve-se ao culto do Orago que surgiu no século XVII.

Devo abrir um parêntesis para repetir a afirmação do respeito pessoal pelas ideologias e crenças alheias, nisto tendo a ver com os restos renitentes do chamado Karma Atlante do que é hoje o Brasil: nas regiões litorais do Rio de Janeiro e da Bahia, maioritariamente, assim como no Mato Grosso, Goiás e no litoral Amazónico, minoritariamente, campeiam as crenças e práticas animistas afro-ameríndias, avultando o psíquico e rareando o mental, ajuntando grande número de adeptos das classes média e baixa, incluindo alguns bons esoteristas parecendo terem começado bem e seguirem mal, alguns inclusive revestindo-se de “poses e títulos imaginários”, abraçando fantasias oníricas da chamada  “arqueologia fantástica” até subindo escarpas alterosas ou adentrando cavernas perigosas, em pretensões inocentes e desapuradas, podendo resultar, e não raro resulta, em acidentes graves e até fatais, isso tanto por falta de disciplina como de informação credível o que parece desaguar na pretensão falaz de “pôr-se o carro à frente dos bois”, isto é, pretender dar saltos por cima do curso natural da Evolução. Mais que não é de mais: ninguém entra em casa alheia sem ter sido convidado. Digo isto como pretexto de apelo à boa consciência a fim de se evitarem, doravante, mais tragédias psíquicas e físicas, pessoais e colectivas, e assim mesmo reiterando o devido respeito pessoal pelas crenças alheias, mesmo sendo afro-lemurianas ou no mínimo afro-atlantes, pois o que importa é o Homem e não aquilo que ele acredita e pratica, seja por que motivo for, desde a ingenuidade à alucinação… Sim, reitero o Mundo Iniciático ou Espiritual nada tem em comum com “psiquismos populares” e “ocultismos divinatórios”, isentos de Ordem e Regra de Tradição. Peço as maiores desculpas se com isto ofendo alguém crente de alguma crença mas tal não é a minha intenção, tão-só “separar o trigo do joio”.

Para finalizar esta história retirada aos pergaminhos dos Anais da Teosofia Brasileira: com a morte prematura da família imperial desterrada, os restantes componentes da sua comitiva abandonaram o projecto de Badezir, abandonaram mesmo a Taba Hy-Brazil. Os que restaram fizeram-se ao mar de largo regressando ao Médio Oriente, onde viriam a fundar o Sistema Geográfico de Jerusalém, de maneira a criar condições humanas e sobretudo espirituais de um dia poderem regressar a essa do Futuro.

Para trás, deixaram as sementes monádicas, frutificadas na Raça Tupi, de que se serviria Mora Moratim, no ano 1000 d.C., para fundar o Sistema Geográfico Sul-Mineiro, indo projectar a sua influência até ao Norte, de maneira a fundi-las com as sementes Incaicas, dando origem à Raça Inca-Tupi como “argamassa monádica” do Futuro Brasileiro que, afinal, já desponta na alvorada dos Tempos.

NOTAS

[1] Aluysio Robalinho, Bernardo Ramos, o “Champollion Brasileiro”. In revista Dhâranâ, Ano 76, Edição 236, Agosto 2000.

[2] Jornal A Crítica, Manaus, de 4, 6, 7 de Abril de 2000.

[3] A propósito, lembro que os fenícios acreditavam na vida além-túmulo e que para a mesma, tal como os egípcios faziam, levavam o “duplo” (astral) dos objectos que lhes foram mais caros durante a vida terrena. Sepultavam o morto com os seus objectos de uso corrente, tais como lâmpadas, vasos e joias. Para evitar os costumazes violadores de sepulturas, procuravam-se lugares escondidos e abrigados, como poços profundos e cavernas. Os fenícios adquiriram o hábito, certamente por influência egípcia, de mumificar pelo menos os cadáveres das pessoas mais importantes. Não é possível dizer com certeza a época em que tal costume foi introduzido na Fenícia, pois as condições climatéricas não favoreceram, como no Egipto, a conservação indefinida das múmias. Cf. Mário Curtis Giordani, História da Antiguidade Oriental, 10.ª edição, Editora Vozes, Ltda., Rio de Janeiro, 1969.

[4] Ludwig Schwennhagen, Antiga História do Brasil (De 1100 A. C. a 1500 D. C.). Tratado Histórico. Segunda edição. Introdução e notas de Moacir C. Lopes. Livraria e Editora Cátedra Ltda, Rio de Janeiro, 1970.

[5] A Bíblia Sagrada, tradução de António Pereira de Figueiredo, Vol. V, pág. 91 e segs., Lisboa, 1807.

António Pereira de Figueiredo (n. Mação, 14.2.1725 – m. Lisboa, 14.8.1797), era filho de António Pereira e Maria de Figueiredo, cujo apelido veio a adoptar quando abandonou o hábito religioso. A 1.4.1736 entrou no Colégio Ducal de Vila Viçosa, onde aprendeu Latim, Latinidade e Música. Em 1743, passou para Santa Cruz de Coimbra. No ano seguinte, veio para Lisboa e ingressou na Casa do Espírito Santo, da Congregação do Oratório (S. Filipe Néri), onde estudou Filosofia e Teologia e se aperfeiçoou em Latim e Latinidade. Em 1757, grave doença obrigou-o a seguir para o Norte. Esteve em Viseu e no Porto, e daí, já restabelecido, em 1759 regressou a Lisboa, onde na Casa Real das Necessidades, da referida Congregação, ensinou Teologia, Latim e Retórica. Em 1761, quando estavam cortadas as relações entre Portugal e a Santa Sé, Figueiredo tomou a defesa do Regalismo, da Corte Portuguesa, contra o Papismo, a Cúria Romana, dando-se de ligações à Maçonaria Bávara por intermédio do Marquês de Pombal a quem apoiou. Como tinha a confiança deste, foi eleito deputado na Real Mesa Censória, à data da sua criação (1768), e no ano seguinte provocou o maior dos “escândalos”, que até hoje a Igreja não o perdoou e por isso o ostraciza: abandonou abruptamente o hábito religioso para se casar com uma mulher com quem convivia desde alguns anos. E para piorar as coisas, dizia-se que ela era luterana! Após abjurar ao sacerdócio, passou a exercer as funções de oficial maior de línguas na Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Em 1779, entrou para a Academia Real das Ciências, recentemente instituída. Nos últimos anos de vida, foi tomado de forte neurastenia, pelo que em 1785 se recolheu, a seu pedido, como hóspede à Real Casa das Necessidades, que deixara anos antes. Esmoler e caritativo, Figueiredo era dotado de invulgar inteligência e possuía vasta cultura. Latinista de renome europeu, provocou uma revolução no ensino, com o seu Novo Methodo de grammatica latina (editado em Lisboa, 1752), adoptado no Reino de 1759 a 1834, ano da extinção das ordens religiosas em Portugal. Músico, devem-se-lhe motetos, lições para os ofícios da Semana Santa, etc. A sua obra musical tem interesse histórico por reflectir “a luta travada entre a Escola Napolitana”, que entre nós ia ganhando terreno, “e a tradição polifónica que, embora progressiva, predomina desde o século XVI até então” (in Mário de Sampayo Ribeiro). Mas o que mais lhe perpetuou a memória foi a tradução portuguesa da Bíblia segundo a Vulgata Latina (publicada em 17 volumes, Lisboa, 1783-1790), obra de grande mérito sob os pontos de vista literário e filológico. As notas exegéticas, contrárias ao parecer oficial da Igreja, foram, porém, criticadas por outro Oratoriano (in Reflexões theologicas). E em algumas edições posteriores, as notas condenadas foram até suprimidas. Imbuído de mentalidade regalista, à qual não escaparam até vários bispos da época, Figueiredo viu algumas das suas obras condenadas pela Congregação do Índex (especialmente as teses De suprema regnum e a Analyse da profissão de fé do S. P. Pio IV). A sua formal retratação que chegou a afirmar-se, foi desmentida por um sobrinho (in A Instrucção Pública, IV).

[6] Cândido Costa, As Duas Américas. Antiga Casa Bertrand, José Bastos – Mercador de Livros, Lisboa, 1900.

[7] Arthur Franco, A Idade das Luzes. Wodan Editora Ltda, Porto Alegre, 1997.

[8] Teodoro Sampaio, O Tupi na Geografia Nacional. 5.ª edição. Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1987.

[9] Teodoro Sampaio, ob. cit. A 1.ª edição desta obra data de 1901. As 2.ª, 3.ª e 4.ª, respectivamente, de 1914, 1928 e 1955.

[10] Esteban Quatremére, Investigaciones históricas y criticas sobre la lengua y la literatura del Egipto. Paris, 1808.

[11] Heródoto, The History, Book I. Enc. Britannica, 1952.

[12] João Antenógenes Prudêncio da Costa, Purpúreo: as histórias do nome do Brasil. Edição do autor, São Paulo, Setembro de 2002.

[13] A Fenícia tinha o seu epicentro no norte da antiga Canaã, ao longo das regiões litorais dos actuais Líbano, Síria e norte de Israel. Caindo sob o domínio do Império Romano, a Fenícia foi incorporada à província romana da Síria que, curiosamente, recebeu esse nome pela corruptela da pronúncia grega do nome Tiro. Os seus habitantes eram tírios, por conseguinte, sírios. E a região, Síria, como é designada até hoje.

[14] Comunidade Teúrgica Portuguesa, Apostila 66 da Série Interna de Integração ou do Munindra.

Onde morreu D. Sebastião, Marrocos ou Limoges? – Por Vitor Manuel Adrião. Terça-feira, Nov 23 2021 

Alcácer-Quibir, Marrocos, 4 de Agosto de 1578. Dois exércitos em confronto. De um lado, gozando do apoio otomano, o poderoso exército saadiano comandado pelo sultão Mulei Moluco (que os portugueses alcunhavam de “Maluco”, como seja Abu Maruane Abdal Saadi I), composto por 50 a 60.000 homens de infantaria e cavalaria fortemente equipados, cuja artilharia contava com 26 canhões de grande porte[1]. Do outro lado, D. Sebastião I de Portugal liderava entre 15 a 20.000 homens mal equipados, famintos, sedentos e cansados na marcha pelo deserto adentro no pino do Verão, contando ainda com 36 peças de artilharia, várias delas tendo ficado inutilizadas após o primeiro disparo. A maior parte das forças portuguesas compunha-se de recrutados de última hora em todo o país, de mercenários ou aventureiros d´armas de várias nacionalidades, e ainda o melhor da nobreza nacional, cuja maioria ajuizada acompanhara contrariada a imponderada empresa do monarca[2], antevendo o insucesso político-militar dessa cruzada aventureira e o perigo que representava para a independência nacional com o esgotamento do exército e do erário público.

D. Sebastião não dava ouvidos a ninguém, vivia introvertido num mundo imaginário repleto de quimeras aventurescas há muito sonhando encetar cruzada a África, derrotar os infiéis saadianos e, quiçá, alcançar a Terra Santa, reconquistar Jerusalém e assim restaurar o empório da Cruz. Sonho delirante em breve tomando a forma de perdição nacional, quando o sultão Mulei Abu Abdala Mohammed Saadi II solicitou ajuda militar a Portugal para recuperar o trono que seu tio Mulei Moluco havia tomado. D. Sebastião abraçou a oportunidade, aprovou a Jornada de África e avançou com o seu projecto de cruzada, contra os conselhos prudentes da maioria da corte e do clero, inclusive de seu tio Filipe II de Espanha, que ainda assim enviou uma pequena força militar que fez parte do terço de espanhóis e italianos.

A batalha resultou na derrota portuguesa, mas também das pretensões otomanas de invasão da Europa pelo sul de Espanha. O combate intenso durou quatro horas, sendo derrotados os exércitos de D. Sebastião e de Mulei Saadi II, com quase 9.000 mortos e 16.000 prisioneiros, incluindo grande parte da nobreza portuguesa, de que talvez 100 sobreviventes tenham escapado, com custo, do local da batalha. D. Sebastião desapareceu liderando uma carga de cavalaria contra o inimigo, e também os dois sultões que se opunham morreram no combate, motivo deste ter ficado conhecido como Batalha dos Três Reis ou Batalha de Oued al-Makhazin, nome do rio Mocazim junto ao campo de batalha[3].

Adivinhava-se o desastre militar desde o início do combate. As forças marroquinas começaram investindo contra os cavaleiros e infantes portugueses, parados aguardando ordens para avançar, sendo dizimados a tiros de mosquetes e canhões enquanto os chefes de terços imploravam ao rei que desse ordem para atacar. Mas este calado, ausente, parecia deslumbrado com o espectáculo das manobras militares, e cada um por si foram eles a tomar a iniciativa de investir. Quando D. Sebastião caiu em si já era demasiado tarde: a investida portuguesa perdera o impulso inicial, os seus flancos estavam comprometidos pelo ataque da cavalaria saadiana que impediu o recuo estratégico português e das forças de Mulei Saadi, este morto quando atravessava o rio tentando escapar. Perante a derrota inevitável, D. Sebastião recusou os conselhos dos nobres oficiais-de-campo para que se rendesse, dizendo-lhes: “Senhores, a liberdade real perde-se com a vida”, e em resposta ao desabafo de D. João de Portugal, “que pode haver aqui outro que fazer, senão morremos todos?”, replicou: “Morrer sim, mas devagar!”[4].

E num impulso desesperado, esporeou o cavalo gritando: “Eia, eia, a eles!”, lançando-se na refrega seguido dos seus nobres e cavaleiros resultando no morticínio certo que terá sido total.

Contudo, há um documento anónimo do século XVII contrariando que o rei português tenha morrido em Alcácer Quibir. Trata-se da Relação da Batalha de Alcácer que mandou um cativo ao Dr. Paulo Afonso, onde diz o seguinte:

“Neste tempo vendo El-Rei que estava na vanguarda o seu campo desbaratado, se veio recolhendo pela banda do Duque de Aveiro, e o seguiu alguma gente de cavalo e a pé, cuidando que ia fazendo uma ponta para volver sobre os mouros, viu o campo já tão desbaratado que se retirou. Durou a batalha quatro horas sem se declarar a vitória.”

Nada mais se informa sobre o que ocorreu depois de terminarem os combates. O documento apresenta de seguida um esquema da disposição das tropas de D. Sebastião, tendo previamente o cativo descrito detalhadamente a sua composição, apontando D. Duarte de Menezes como “Mestre de Campo”[5].

Também Manuel de Faria e Sousa, historiador português seiscentista, reportou diversos testemunhos, como o de D. Luís de Brito Nogueira que acompanhou os últimos momentos do rei, que afirmavam tê-lo visto à distância no final da batalha sem ser perseguido[6].

D. Sebastião fora avistado perto do rio Mocazim, acompanhado de vários infantes e cavaleiros para onde se retirara, ou seja em termos de estratégia militar, recuara, devendo ter deparado com a via de fuga bloqueada pelo inimigo. Estará nisso a razão de lhe terem aconselhado a rendição e o último acto desesperado de lançar-se nos braços da morte afrontando o vultuoso adversário que o terá trucidado.

O espaço do campo de batalha transformou-se num lugar macabro repleto de milhares de mortos e feridos. O rei português desaparecera no combate. Os relatos dos autores portugueses não são unânimes: por uma parte, várias testemunhas terão afirmado ter ele conseguido escapar apesar de ferido; por outra parte, como na Crónica de frei Bernardo de Brito, é dito ter-se encontrado o corpo de D. Sebastião ferido cheio de sangue e que alguns alarves acabaram por o matar. Segundo Maria Lima Augusta Cruz (ob. cit.), “uma conclusão a tirar de todo este conjunto de relatos da batalha de Alcácer-Quibir é que nunca nenhum sobrevivente português declarou ter visto morrer o rei”. Ainda assim, a historiadora adianta que o verdadeiro cadáver do rei português foi encontrado no campo de batalha e reconhecido pelo seu criado de guarda-roupa, testemunho confirmado por um grupo de cativos portugueses – D. Duarte de Meneses, o capitão de Tânger, o corregedor Belchior do Amaral, D. Constantino de Bragança, D. Nuno Mascarenhas e João Rodrigues de Sá – que confirmaram a identidade do cadáver[7].

Outras testemunhas árabes, como a do autor anónimo da Crónica do Xarife Mulei Mahamet e D´El-Rei D. Sebastião, citado por Sales Loureiro[8], afirmaram, contra todas as evidências, que o cadáver de D. Sebastião fora sepultado em Tânger e negociado com os marroquinos o seu resgate. De outro modo, o corpo do rei português fora recolhido no campo de batalha na presença do capitão Belchior do Amaral e alcaide Mohamede Taba, sendo o cadáver transportado dentro de um caixão de madeira. Mas outras fontes portuguesas defendem que o rei português repousava em terras de África entre milhares de cadáveres.

A confirmação oficial da morte de D. Sebastião foi dada por Belchior do Amaral numa carta datada de 24 de Agosto de 1578, vinte dias depois da batalha, e quando essas notícias chegaram a Portugal de imediato estimularam dúvidas e semearam teorias desencontradas sobre o destino do jovem rei.

As dúvidas aumentaram sobre a morte do rei quando, ainda nesse ano, o cardeal D. Henrique – que estivera na batalha de Alcácer-Quibir, fora feito prisioneiro e solto após pagar a sua libertação – realizou as cerimónias fúnebres sem corpo presente. Seria D. Filipe II de Espanha a realizar novas exéquias em Lisboa, num cortejo feito com todo o alarido, com a presença do que dizia serem os restos mortais do seu sobrinho entretanto devolvidos pelas autoridades marroquinas[9].

Com efeito, em 10 de Dezembro de 1578 foi entregue às autoridades portuguesas de Ceuta o corpo muito desfigurado, quase ou mesmo irreconhecível, do que diziam ser de D. Sebastião, que foi deposto na igreja do Mosteiro da Santíssima Trindade dessa antiga praça portuguesa, como consta no Auto de Entrega do Corpo de D. Sebastião existente no Arquivo Geral de Simancas (Secção Estado, Leg. 396), Valladolid:

“Nós Dom Leonis Pereira Capitão e governador de Ceuta, frei Roque, e Dom Rodrigo de Meneses que abaixo firmamos nossos nomes damos fé e verdadeiro testemunho que André Gaspar Corço nos entregou o corpo del Rei Dom Sebastião Nosso Senhor (que Deus haja) quarta feira dez de Dezembro deste presente ano de mil quinhentos e setenta e oito, na porta desta Cidade às dez horas da manhã, dizendo as palavras seguintes na dita entrega. Eu André Gaspar Corço, Entrego o Corpo da Majestade del Rei Dom Sebastião Rei que foi de Portugal que Deus haja, ao muito Reverendo Padre Frei Roque do Espírito Santo, e aos Senhores Dom Leonis Pereira Capitão e governador desta Cidade de Ceuta, e a Dom Rodrigo de Meneses por mandado del Rei Muley Hamete, o qual me havia concedido o dito Real Corpo para que o apresentasse à Católica Majestade Filipe II de Espanha com tanta Liberalidade com quanta afirmou por juramento em sua lei que fizera o mesmo se o tivera vivo em prisão. E chegando uma carta da Católica Majestade, e outra da Majestade del Rei de Portugal em que lhe pediam o quisesse resgatar para o levar a Portugal me mandou que não o levasse a Castela, como primeiro me havia mandado, se não que eu o trouxesse a esta fronteira de Ceuta e nela o entregasse solenemente (como ao presente o entrego) toando por testemunho que o dito Muley Hamete concedeu e apresentou livre e graciosamente sem nenhum interesse este Real Corpo à Majestade del Rei de Portugal, a intercessão e petição da Majestade Católica del Rei Dom Filipe o qual depois de ser entregue, se trouxe com muita solenidade ao Mosteiro da Santíssima Trindade onde agora está: feita em Ceuta a dez de Dezembro de MDLXXVIII. Rubricam: Dom Leonis Pereira, Dom Rodrigo de Meneses, Frei Roque do Espírito Santo. Nós que abaixo e atrás assinamos viemos acompanhando o dito Real Corpo e somos presentes na entrega dele e como testemunhas assinamos no mesmo dia e a mando desta. Rubricam: Dom Miguel de Noronha, Dom Duarte de Castelo Luís César, Dom Jorge de Meneses.”

O reconhecimento do corpo como sendo de D. Sebastião foi feito procurando sinais naturais que o mesmo possuía[10], tendo posteriormente vários nobres admitido que ele estava tão desfigurado e mutilado que era impossível comprová-lo. Mas o interesse de Estado tinha força de lei e interessava a D. Filipe II calar as vozes dos patriotas portugueses que protestavam D. Sebastião não ter morrido em Alcácer-Quibir, tão-só desaparecera, que o monarca espanhol tinha pressa em apossar-se do trono português e das suas praças em África, o que de facto aconteceu. Convenientemente tinha um corpo para apresentar ao geral, mesmo assim não calando as suspeitas que cresciam indo tornar-se o mito sebástico maior que o rei Sebastião. A carta descrita acabava mostrando-se forçada, interesseira, tanto que a Ordem da Santíssima Trindade, encarregada de resgatar cativos em África, não foi tida nem havida e nem ouvida no caso da intercessão dos trinos na entrega dos despojos mortais do malogrado rei, em cujo mosteiro os mesmos ficaram quatro anos. Seria mais plausível admitir que ele desaparecera entre os milhares de mortos mutilados na sangrenta batalha e que por aí ficara, mas os interesses geopolíticos em jogo tinham força de lei, repito.

Em 1582, o rei ocupante de Portugal mandou trasladar de Ceuta para Lisboa os pressupostos restos mortais do seu real sobrinho. Chegou de barco ao porto de Faro (enquanto na ida a frota ancorou na baía de Lagos), fazendo-se a restante jornada por terra na companhia de oito nobres portugueses que tinham sido seus companheiros de armas em Alcácer-Quibir, convocados para o efeito. O préstito fúnebre teve a direcção do vedor Francisco Barreto de Lima e era composto pelos seguintes fidalgos: D. Francisco de Castelo Branco, Jerónimo Moniz de Luzinhano (Lusignan), D. João de Castro (sebastianista neto do grande vice-rei da Índia), Ruy Lourenço de Távora, Henrique Correia da Silva, D. Lucas de Portugal, D. Lourenço de Almada e Diogo da Silva[11].

Nesse mesmo ano de 1582, com o maior aparato convocando toda a Lisboa, o pressuposto corpo de D. Sebastião entrou no Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, em cujo transepto da igreja foi sepultado. Em 1682, foi colocado no seu actual jazigo, na capela direita do mesmo transepto, onde até hoje se encontra, na qual se colocou uma lápide em latim, da autoria do poeta Diogo Bernardes, cuja tradução é a seguinte: “Se é vera a fama, aqui jaz Sebastião, / Vida nas plagas de África ceifada. / Não duvideis de que ele é vivo, não! / A morte deu-lhe vida ilimitada”.

A “vida ilimitada” do mito que ele já era ainda em vida, vizinho e conviva do messianismo hispânico que o faria confundir com o seu homólogo São Sebastião em diversas ocasiões, de maneira que a Batalha de Alcácer-Quibir viria a era ponto de partida para foros providenciais de Advento do próprio “Rei Pessoa” corporificando o “Rei Mito” em presença regressada da Ilha de Bruma em alguma manhã de nevoeiro, quiçá desembarcando no cais das colunas do Terreiro do Paço de Lisboa. Alcácer-Quibir foi o ponto do crescimento sebastianista incorporando o anterior messianismo. Como ainda em vida do jovem monarca os interesses do seu tio Filipe II ingeriam nos nacionais, esse foi o fermento com que se fez e cresceu depois o “messianismo nacional”, não tanto sebástico mas mais sebastianista. O sentido universal de Parúsia e Avatara atribuído ao Cristo, veio a ser contraído nas inflamações de “patriotismo transcendental” atribuindo a peanha nacional de indefinido “Quinto Império” ao totalitarismo realengo de um desejado rei encoberto, sem mais apuramento nem aprofundamento, crença nacionalista perdurando até à actualidade que recrudesce nos períodos de crises sociopolíticas.

Alcácer-Quibir tornou-se “chão sagrado” para os saudosistas adeptos do rei desaparecido ou “em dormência”, marco eterno do Império Português em África que recebeu civilização da Raça Lusa, o que não está incorrecto nas premissas amplas mas só nas intenções restritas. Isto levou a que no campo da Batalha de Alcácer-Quibir, junto à aldeia de Douar Souaken, fosse levantado um Memorial no ano de 1939, em pleno Protectorado Espanhol, por um grupo de universitários de Coimbra. Nele lia-se: “Em honra do Rei de Portugal Dom Sebastião, símbolo da Raça Lusíada, estímulo eterno dos moços sequiosos de ideal e votados à tarefa peregrina de engrandecer, num sonho de civilização, o Império Português” (em foto da Bibliothèque Général et Archives de Tetouan). O monumento seria depois destruído por patriotas marroquinos e hoje só sobram os seus restos, tendo, no entanto, levantado um outro em memória dos três reis tombados.

D. Sebastião nascera e crescera criança de aspecto delicado e frágil, acentuado pelos cabelos louros e a brancura da pele, diz Maria Augusta Lima Cruz (ob. cit.). Aos nove anos de idade foi afectado por problemas de saúde, falando-se em indisposição de rins, e aos doze anos padeceu de febres, tonturas e desmaios, e de “secreções”, colocando-se várias possibilidades para a doença que o afectava, desde uretrite, espermatorreia ou gonorreia, esta última, segundo Harold B. Johnson, da Universidade de Virgínia, transmitida sexualmente por um pedófilo[12], que para o autor seria nem mais nem menos que o seu preceptor e confessor, padre Luís Gonçalves da Câmara, da Companhia de Jesus, ideia de que discordo mas entendo atendendo ao anti-catolicismo norte-americano do referido e ao desconhecimento dos hábitos rígidos, quase ou mesmo castrenses, do clero na corte da época, muitíssimo mais na proximidade e educação do rei. Posso admitir traços de carácter efeminado em D. Sebastião, como também a prodigalidade da sua imaginação doentia como demonstrou diversas vezes, mas daí a ser vítima de pedofilia vai uma distância insuperável. Talvez esses sintomas se devessem à sua excessiva precocidade e abstinência sexual. Nessa altura instalou-se uma discussão tendo por base a convicção de que o rei teria uma vida curta, dividindo-se as opiniões sobre se deveria casar quanto antes, assegurando a descendência dinástica garante da independência nacional, ou se o casamento lhe abreviaria mais a vida[13].

Sem dúvida que a relação entre o educando real e o seu padre mestre foi determinante na formação da sua personalidade, isso independentemente das grandes dificuldades em relacionar-se com as mulheres que D. Sebastião aparentava ter, talvez por preferir ser só um casto e religioso cavaleiro como aqueles que lia sôfrego nos romances da Távola Redonda. Adiou sucessivamente os possíveis casamentos de Estado que lhe foram propostos ao longo da vida, com Isabel de Áustria, Margarida de Valois, Isabel Clara Eugénia e Catarina Micaela, filhas de Filipe II, a filha de Francisco de Médicis, Grão-Duque da Toscana, Maximiliana, filha do Duque da Baviera ou filha do Duque de Lorena.

Também não serve para confirmação de inconfessáveis actos indecorosos a morte do padre Luís Gonçalves da Câmara ocorrida em 1575, provocando grande desgosto em D. Sebastião que lhe tinha afeição quase ou mesmo filial, motivo do seu recolhimento choroso num quarto do Palácio Real de Évora durante três dias, e mais dez dias no Convento Jerónimo de Nossa-Senhora do Espinheiro, nos arredores dessa cidade. Convém também ter em conta que a maioria dos relatos das doenças de D. Sebastião foram feitos convenientemente por D. Alonso de Tovar, embaixador castelhano, que prometera a Filipe II de Espanha nunca abandonar o rei português[14].

Torna-se evidente que esse perturbador controlo, para não lhe chamar ingerência, de Filipe II não podia deixar de incrementar a animosidade já instalada contra a intromissão castelhana em assuntos internos portugueses. No mesmo ano fatídico de 1578 morreu o príncipe D. Carlos, único filho varão de D. Filipe II, situação que colocou o seu sobrinho, D. Sebastião de Portugal, em posição de lhe suceder na Coroa de Espanha, o que fez prever um aumento da já indesejada ingerência castelhana nos assuntos de Portugal.

Como se esperava, as consequências da campanha de Alcácer-Quibir foram catastróficas para Portugal. A maioria da nobreza portuguesa que participou na batalha ou morreu ou foi feita prisioneira, e os bispos e arcebispos nela presentes foram mortos. Para pagar os elevados resgates exigidos pelos marroquinos, o país ficou enormemente endividado e depauperado nas suas finanças. D. Sebastião desaparecera deixando como sucessor o seu tio-avô, o cardeal D. Henrique, falecendo dois anos depois sem deixar descendência. Ocupou o seu lugar D. António, prior do Crato, filho natural do infante D. Luís e neto de D. Manuel I, aclamado rei de Portugal em 1580 mas ficando a sua autoridade confinada a algumas ilhas dos Açores até 1583, gastando a sua fortuna em empreendimentos militares a favor da manutenção da independência nacional, como o da tentativa fracassada do desembarque de tropas nacionalistas ao largo do Cabo de S. Vicente, no Algarve, até que, em 1595, acabou os seus dias exilado no convento grande dos franciscanos de Paris. Não consta da lista dos reis de Portugal.

Com efeito, a disputa do trono português teve vários pretendentes: D. Catarina de Médicis, rainha de França, que se dizia descendente de D. Afonso III de Portugal; D. Catarina, duquesa de Bragança, infanta de Portugal, sobrinha do cardeal D. Henrique; Emanuel Felisberto de Saboia, duque de Saboia, e D. António de Portugal, prior do Crato, ambos sobrinhos do rei; Rainúncio I Farnésio de Parma, filho da infanta portuguesa D. Maria de Guimarães e sobrinho do cardeal-rei; por fim, Filipe II de Espanha, tio de D. Sebastião, que se tornaria Filipe I de Portugal ao ascender ao trono em 1580, período que ficou conhecido como o da crise dinástica.

A história poderia acabar aqui, mas não, antes é aqui que começa o seu enfabulamento com engenhosos argumentos e algum documental, sobretudo de trocas epistolares de fiéis à causa sebastianista: D. Sebastião não morrera em Alcácer-Quibir, conseguira escapar do campo de lide acompanhado de alguns cortesãos e clérigos leais, entre eles o cavaleiro Sebastião Figueira, indo embarcar em segredo e desaparecer das vistas de África. Invés de regressar a Portugal onde era desejado como assegurador da identidade nacional, ademais tendo a forte possibilidade de vir a ser o rei único da Península Ibérica quando ocupasse o trono vacante de Filipe II por falecimento deste, por ser o ascendente mais próximo, contudo o rumor diz ter preferido rumar incógnito para terras estrangeiras: chega à Ilha Terceira nos Açores, talvez para fazer aguada e provisionar-se, e depois toma o rumo de Veneza em cuja cidade dos doges aparece como pessoa pouco faladora e não falando português, mas que alguns portugueses patriotas aí residentes reconheceram pelos seus sinais corporais ser deveras o infeliz rei de Portugal, o “Cavaleiro da Cruz” (da Ordem da Flecha de S. Sebastião, por ele fundada no Algarve)[15]. O rumor tomou proporções tamanhas que o embaixador de Filipe I, por ordem deste, exigiu das autoridades venezianas a sua entrega. Para evitar conflitos diplomáticos assim fizeram, tendo o prisioneiro acabado por confessar chamar-se Marco Tulio Catizone e ser de origem calabresa[16].

Ora, Marco Tulio apareceu em Veneza em 1598, numa época tardia relativa ao período do desaparecimento de D. Sebastião, dizia-se ser este e que fizera o voto de não falar português durante um certo tempo. Foi preso e condenado às galés, mas D. João de Castro (1551-1623), patriota do partido sebastianista então exilado em Veneza, conseguiu a sua libertação. Insistindo o embaixador espanhol, o duque de Médicis fê-lo prender novamente, tendo-o entregue às autoridades espanholas que o enforcaram em San Lucar de Barrameda, província de Cadiz, em 1603[17].

A história também não acaba aí: diz-se que foi entregue às autoridades espanholas um falso Catizone parecido com o verdadeiro, que em vão reclamou a sua inocência. Enquanto isso, o verdadeiro Catizone, que seria D. Sebastião, escapou de Veneza para Florença até que reapareceu na Aquitânia, França, mais propriamente na cidade de Limoges, em cujo convento dos agostinhos encontrou refúgio terminando aí os seus dias, talvez em 1641 ou 1642, já depois da Restauração, segundo Manuel Joaquim Gandra que foi o primeiro a dar esta notícia em Portugal[18], prosseguido por outros que a abraçaram e divulgaram[19].

Manuel Gandra tomou por base da sua teoria um escrito do antiquário Jac-Rémi-Antoine Texier (1813-1859), arqueólogo amador e estudioso da arte monumental de Limoges, cidade onde terá nascido e morrido, e inclusive chegou a deslocar-se à cidade aquitanense na procura de provas da presença do rei português que pressupostamente se escondera nela. Acredita tê-las encontrado… Começa por transcrever parte de uma carta do referido antiquário, suposto abade e conservador da Biblioteca de Limoges, dirigida à Comissão dos Monumentos Históricos de França, a qual não chegou ao destino por morte do mesmo, fazendo parte de um opúsculo editado após o seu falecimento (que Manuel J. Gandra traduziria, com notas e foto suas)[20], onde revela:

“Quando se fizeram escavações na igreja do mosteiro dos Agostinhos de Limoges, que é hoje uma fábrica de porcelana, encontrou-se entre ossadas humanas uma medalha de ouro em volta da qual se lia: Sebastianus primus Portugaliae rex. Esta medalha representava uma estátua pedestre em trajo de monge. Vi-a, examinei-a, quis moldá-la, mas com o pretexto de que dela se obteria um ouro mais puro para pintar a porcelana, não consegui, apesar do preço que propus, obtê-la daquele vândalo, que preferiu fundi-la antes de eu poder tirar-lhe o molde, tal o medo de não poder fazer o que queria.”

Noutra passagem do opúsculo, Antoine Texier esclarece que “a medalha fora encontrada num túmulo de granito, ao lado de um esqueleto muito bem conservado”. Que isso corroborava a tradição local de que na capela de S. Sebastião da dita igreja jaziam os restos mortais de um rei homónimo. Manuel Gandra acrescenta que “os arquivos do Convento de Limoges levaram sumiço durante a Revolução Francesa, inviabilizando o acesso aos documentos que porventura pudessem existir com interesse para esta investigação”.

O dito convento agostinho de Limoges – que antes de ser cidade viu surgir nela, no ano 503, os eremitas de Santo Agostinho, depois constituídos em Ordem[21] – é antes a desaparecida abadia de São Martial (Marcial) fundada por monges beneditinos em 848, no reinado carolíngio de Carlos, o Calvo[22]. Lugar de peregrinação no caminho aquitanense para Santiago de Compostela e cuja enorme cripta continha o sepulcro de São Martial, padroeiro da Aquitânia, seria Carlos o Infante, filho do monarca apontado, aquando foi coroado rei em 855 na igreja do Salvador desta abadia, a consigná-la de real, momento em que a vida canónica se transferiu à vida monástica[23]. A abadia conheceu o auge da sua importância em 1065, quando foi incorporada aos bens de Abadia de Cluny. Em 1535 foi secularizada e depois, em 1791, durante a Revolução Francesa, a municipalidade de Limoges encetou a demolição do edifício, igreja e abadia, completada em 1807. A área foi nivelada e transformada num novo espaço público, a Place de la République, onde surgiu a Fábrica de Porcelana de Limoges estabelecida ainda em 1771 pelo intendente da cidade, Anne Robert Jacques Turgot, barão de Laune, nascido e falecido em Paris (1727-1781). Conhece-se como era a abadia e igreja de São Martial pelas plantas antigas, das quais a mais conhecida é a de 1784 atribuída ao abade Legros[24], que apresentarei mais adiante. Entre 1960 e 1967, durante a construção de um parque subterrâneo para automóveis nessa Praça da República, foram postos a descoberto os restos da capela de São Pedro do Sepulcro e os túmulos de São Martial e seus companheiros, cuja cripta aberta que é um dos mais importantes sítios arqueológicos visitáveis em Limoges, ocupando parte do primitivo espaço abacial que prefigurava ampla cidadela. Fora dela, estavam a sé-catedral de Saint-Etienne, padroeiro de Limoges, a igreja de Saint-Pierre du Queyroix e a igreja de Saint-Michel des Lions, joias monumentais subsistindo até hoje. Os jacobinos republicanos da Revolução Francesa no século XVIII apenas destruíram essa de Saint-Martial, por exclusivas razões de emancipação municipal do regime político-económico até então sujeitado ao domínio secular do abacial da mesma.

O recheio artístico, literário e religioso da abadia de São Martial não desapareceu com ela, foi retirado antes da demolição: a comunidade católica de Limoges transferiu as relíquias dos santos para a igreja vizinha de Saint-Michel des Lions, enquanto outra parte ficaria à responsabilidade da municipalidade e hoje integra o Museu de Limoges; o vastíssimo recheio literário – documentos, plantas, iluminuras e tomos – é conservado na Biblioteca Nacional de França.

A capela de S. Sebastião da igreja real e colegial de São Martial, onde repousariam os restos mortais do autodesterrado rei português homónimo do santo, como revelou Antoine Texier e divulgou Manuel Gandra, reparo não aparecer assinalada em qualquer das plantas antigas do desaparecido imóvel; elas assinalam todas as demais capelas mas não essa, é como se nunca tivesse existido: capela de Nossa-Senhora das Árvores; capela de Santa Ana; capela de Nossa-Senhora da Boa Confiança; capela de São Cláudio; capela de Santa Ágata; capela do Confessional; capela de Jesus Agonizante; capela dos Anjos da Guarda; capela de São Eutrópio; capela de Nossa-Senhora dos Sete Juízos; capela do Anjo da Guarda; capela de São Crispim, antanho de São Pedro do Sepulcro; capela de São Bento; capela do Crucifixo; capela subterrânea, cripta, do sepulcro de São Martial.

Igualmente no Obituário de São Martial de Limoges, do século XII ao século XVIII, não se detecta qualquer referência a essa capela nem a algum túmulo na mesma, tampouco a algum frade Sebastien falecido e sepultado nas datas estabelecidas entre 1578 e 1641-42, o que é deveras estranho[25].

Estranho e inquietante é igualmente o motivo de identificar uma floreira, aquando da deslocação do senhor Gandra a essa cidade francesa, como sendo originalmente o túmulo de D. Sebastião, ela que estava num recanto do museu de porcelana da fábrica e por inutilidade veio a ser posta defronte ao edifício servindo para decoração floral. Ora, é sabido existir o costume das sobras dessa e doutras fábricas de porcelana servirem para pavimentar as ruas e criar artes interessantes nos canteiros de flores, até mesmo criando canteiros de flores com as mesmas sobras assim dando-lhes utilidade, o que deixa Limoges com um estilo próprio muito formoso.

Por fim, a famosa e intrigante medalha de ouro de D. Sebastião com a legenda identitária deste ilustrada pela sua figura trajada de monge, a qual entretanto foi derretida, como descreve Texier.

Não sei se se trata de Dom ou de São Sebastião, como não sei explicar como uma pessoa que pretenda passar incógnita ostente medalha identitária. Isto em local permanentemente preenchido de gente de várias partes do continente aí chegada e partida em peregrinação, num espaço já de si real e, contudo, não haver notícia nenhuma de aí estar um rei português em reclusão monástica, num tempo em que as cortes europeias mantinham comunicações estreitas entre elas, muitas ligadas por laços de parentesco.

Não sei como definir tudo isso, mais parecendo inspirado no famoso providencialismo francês da Vendeia que tem no desaparecido delfim Luís XVII o seu D. Sebastião. Há algo com semelhança ao “diz que disse”, ao boato ou rumor de caso que se jura alguém ter visto e ainda existe, mas quando se chega ao sítio nada se encontra senão rumores. Assim parece acontecer nesse opúsculo de Texier, o qual como “arqueólogo e religioso” insiste em imprecisões e desconhecimentos muito óbvios até para um leigo nessas matérias, sobretudo no relativo a Limoges donde pressupostamente era natural, cidade que seria natural conhecer bem. Ademais, tendo vivido 46 anos, falecendo jovem, afinal com que idade o sobredito alcançou o cargo de “abade” (de qual abadia?), por norma assumido por pessoas mais idosas e idóneas na religião professada?

O opúsculo do autor, assinado com nome diferente do seu, aparentemente editado na capital francesa em 1904, no caso de não passar de elaborada blague providencialista, acaso terá se inspirado no quadro identificado de D. Sebastião descoberto em casa de particular na Itália, ou até mesmo na estátua de D. Sebastião infante da autoria do escultor Simões de Almeida que foi notícia na página 116 do primeiro número de 1878 da revista Occidente, ilustrada de Portugal e do Estrangeiro, publicada em Lisboa?

Essa estátua foi concebida em gesso por Simões de Almeida para integrar a exposição da Sociedade Promotora das Belas-Artes em Portugal, em 1874. A obra foi aclamada pelo público e fez tanto sucesso que foi encomendada em mármore de Carrara pelo rei D. Luís I, por dois contos de réis, passando a peça a integrar a coleccção real[26]. Foi ainda disputada por D. Fernando II que, na impossibilidade de a adquirir, convidou Simões de Almeida a leccionar aulas de escultura à condessa d´Edla[27]. A estátua foi depositada no Palácio Nacional da Ajuda em 1924, e hoje está em exposição pública no Museu Nacional de Arte Contemporânea no Chiado, Lisboa.

Ainda assim, é escultura pouco conhecida do público geral. Nela retrata-se D. Sebastião infante sonhador, futuro “rei de dormição”. De uma expressividade sensível claramente naturalista afim ao espírito romântico da época, vê-se o jovem monarca cabisbaixo e pensativo reflectindo sobre os destinos da nação, tendo nas mãos um livro de História de Portugal. O traje cortesão renascentista que usa, juntamente com um colar da Cruz de Cristo e uma adaga à cintura, acompanhado de uma capa encostada ao suporte, é pormenorizado nos pregueados que se ajustam ao corpo, nos calções e nos folhos da gola maneirista. A vivacidade do personagem, expressivamente decidido, parece ultrapassar o material marmóreo utilizado, indo dar vida a uma ideia e o conjunto a uma história.

Em suma, voltando ao pomo da questão intrigante, se D. Sebastião morreu em Marrocos ou em Limoges, após os factos apresentados, reservo ao leitor a conclusão, que da minha parte concluo campear o fascínio e inquietação no querer reescrever a História.

NOTAS

[1] David Lopes, A Expansão em Marrocos. Editorial Teorema, Lisboa, 1982. Publicação original em António Baião, Hernâni Cidade e Manuel Murias, História da Expansão Portuguesa no Mundo, 3 vols. Editorial Ática, Lisboa, 1937.

[2] Luís Costa e Sousa, A Batalha de Alcácer-Quibir 1578. Visão ou Delírio de um Rei?. Pedro de Avilez Editor, Tribuna, Lisboa, 2009.

[3] Maria Lima Augusta Cruz, D. Sebastião. Círculo de Leitores e Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa. Rio de Mouro, 2009.

[4] Miguel Leitão de Andrada, Miscellanea [1629]. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1993. Edição em fac-simile da 2.ª edição publicada pela Imprensa Nacional em 1867.

[5] Fr. Bernardo da Cruz, Chronica d´el-rei D. Sebastião, vol. I. Escriptorio, Lisboa, 1903. O Relatório ou Relação do cativo faz parte dessa obra pertencente à Colecção de vários Documentos para a vida d´el-rei D. Sebastião, constando no códice 443 da Livraria Manuscrita de Alcobaça.

[6] Manuel de Faria e Sousa, Epitome de las historias portuguesas. Francisco Martinez, impressor e mercador de livros, Madrid, 1628.

[7] Khalid Ben Omar, O relato de Alcácer-Quibir entre duas línguas e duas culturas. Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Setembro de 2016.

[8] Sales Loureiro, Prefácio in Anónimo – Crónica do Xarife Mulei Mahamet e D´El-Rei D. Sebastião. Heuris/Europress, Odivelas, 1987.

[9] João Francisco Marques, A Parenética Portuguesa e a Dominação Filipina. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, Fevereiro de 2010.

[10] José Agostinho de Macedo, Inventario da refutação analytica – O cadáver del Rei D. Sebastião foi enterrado em Ceuta com toda a solemnidade, e sinaes para se não equivocar com outros cadáveres. Lisboa, 1810.

[11] Henrique Salles da Fonseca, Coisas que poucos sabem. Elos Clube de Lisboa, 19 de Julho de 2011.

[12] Harold B. Johnson, Dois Estudos Polémicos. Ed. Wheatmark, Virgínia, 1.ª ed., 1 de Julho de 2004.

[13] J. M. de Queiroz Velloso, D. Sebastião 1554-1578. Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1935.

[14] Sofia Guimarães Barros de Sá, D. Sebastião. Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa, 2008/2009.

[15] J. Lúcio d´Azevedo, A Evolução do Sebastianismo. Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1918.

[16] João Carlos Gonçalves Serafim, Elevar um rei com vaticínios: textos e pretextos no caso do Rei D. Sebastião de Veneza (1598-1603). Revista Letras, Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande do Sul, v. 24, n.º 49, Jul./Dez. 2014.

[17] Miguel d´Antas, Les Faux D. Sébastien – Étude sur l´histoire de Portugal. Auguste Durand, Libraire, Paris, 1866.

[18] Manuel J. Gandra, Sebastianismo. In Portugal Misterioso, Selecções do Reader´s Digest, Lisboa, 1998.

[19] Maria Luísa Martins da Cunha, Grandes Enigmas da História de Portugal, volume III. Ésquilo – Edições e Multimédia, Lisboa, Dezembro de 2011.

[20] Hubert Texier, Pesquisas históricas sobre Sebastião I, Rei de Portugal, ou de como o Desejado morreu no exílio, em Limoges. Paris, 1904.

[21] Carlos A. Moreira Azevedo, Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho em Portugal (1256-1834). Edição da Colecção de Memórias de Fr. Domingos Vieira, OESA. Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2011.

[22] Abbé Joseph Nadaud, Nobiliaire du Diocese et de la generanité de Limoges, quatro tomos. Editions Histoire & Patrimoine, Limoges, 1863-1882.

[23] Bernadette Barrière, Limousin médiéval, le temps des créations. Limoges, Outubro de 2006.

[24] Charles De Lasteyrie, L´Abbaye De Saint-Martial De Limoges. Alphonse Picard et fils, éditeurs, Paris, 1901.

[25] Abbé Joseph Nadaud, Pouillé historique du diocese de Limoges. Manuscrito de 1775 publicado por A. Lecler no Bulletin de la Société archéologique et historique du Limousin, t. 53, 1903. Société de l´historie de France, Chroniques de Saint-Martial de Limoges. Éd. H. Duplés-Agier, Paris, 1874. Abbaye Saint-Martial de Limoges (IXe siècle – 1790), reportório numérico por Martine Sainte-Marie, conservador do património. Limoges, 1976. Jean-Loup Lemaître, Le Limousin monastique: autor de quelques textes. Musée du pays d´Ussel – Diffusion de Boccard, 1992.

[26] Raquel Henriques Silva, Romantismo e Pré-Naturalismo. In História da Arte Portuguesa, volume III. Círculo de Leitores, Lisboa, 1995.

[27] José Augusto França, O Romantismo em Portugal: estudo de factos socioculturais. Livros Horizonte, Lisboa, 1974.

Do Sítio da Nazaré aos ‘Sanctus Venatores’ – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Out 25 2021 

Sanctus venatores ou “caçadores santos”, monteiros na arte venatória transformada em requisito de demanda, de caçada da transcendência e encontro súbito com o Divino na sua forma primária ante-humana, como seja a animal que vai perigar o monteiro, prova derradeira de superação que a aparição súbita da Virgem ajuda a salvar de cair no precipício mortal da derrota.

Assim aconteceu com D. Fuas Roupinho no sítio da Nazaré, corria o século XII. Vindo em longa cavalgada na perseguição de um veado enorme, negro e estranho, que escapava veloz e escorreito, à frente dos servos que ficaram para trás na correria fatal, caçador e caça chegaram ao precipício sobranceiro ao mar deste sítio, indo o veado se precipitar no abismo e o cavalo empinando-se estacar mesmo à sua beira, com o brado do cavaleiro a clamar na aflição à Senhora da Nazaré. Ambos se salvaram miraculosamente, ficando as patas traseiras do cavalo gravadas no rochedo que ainda ali podem ser vistas, diz o povo. Entretanto o veado, que era o diabo tentador, desfez-se em fumo no ar. Em agradecimento à Virgem intercessora pela graça da sua salvação, D. Fuas Roupinho mandou construir no local uma pequenina capela cúbica – formato lembrando uma cuba arábica – que doravante ficou conhecida por Memória.

Na saliência lateral do sítio sobre o precipício alguém traçou uma cruz marcando-o como signa sancta do milagre, porventura durante o século XV quando se iniciou a sua difusão tomando forma de lenda, que depois frei Bernardo de Brito prosseguiria como o seu maior divulgador.

Mas quem era D. Fuas Roupinho? Nascido cerca de 1145 e falecido em 1184, foi o capitão de mar-e-guerra que deu a primeira vitória de batalha naval a Portugal, vencedor dos corsos almóadas estando ao serviço de D. Afonso Henriques e da Ordem do Templo. Apesar de não se saber o local exacto do seu nascimento, é provavelmente descendente dos condes da Galiza com o nome de Churrichano ou Churrichão, em luso-galaico, como aparece nos documentos da Catedral de Orense (de 1268 a 1271). Conforme Virgínia Almeida[1], o seu nome completo era Fernão Gonçalves Churrichão, o Farroupim, passado à História como D. Fuas Roupinho. De facto, é escassa e vaga a informação sobre o local exacto do seu nascimento, mas estou em crer que terá tido cargo importante em Óbidos – onde terá começado a sua perseguição ao veado da lenda – após se tornar alcaide-mor de Porto de Mós, nisto sabendo-se que em 1179 era alcaide-mor de Coimbra e se encontrava no castelo de Leiria donde partiu com as suas forças indo conquistar a Gamir, vizir de Mérida, a alcáçova de Porto de Mós, como consta na Crónica de 1419 [2] que o professor José Mattoso anotou[3]. Acerca da Crónica de 1419, possivelmente foi redigida pelo cronista Fernão Lopes, iniciador da Lenda da Nazaré pondo como personagem central o monteiro D. Fuas Roupinho, que seria prosseguida, em 1609, pelo cronista alcobacense frei Bernardo de Brito no volume II da Monarquia Lusitana.

Sabe-se igualmente que D. Fuas Roupinho foi aio do Infante D. Afonso, filho de D. Afonso Henriques, possivelmente tendo sido de afiliação à Ordem do Templo onde organizou a Marinha Templária introduzindo os “navios de bico” na frota, inovação militar que em 1180 levou à vitória portuguesa na batalha travada ao largo do Cabo Espichel, perseguindo o inimigo almóada até ao largo do Promontório de Sagres indo desbaratá-lo completamente. Com efeito, comandando nove galés templárias saídas de São Martinho do Porto, em 15 de Julho de 1180, defronte ao Cabo Espichel confrontou a frota de dez galés de corsos almóadas comandados por Gamim Ben Mardanis, vindos do saque na costa de Lisboa, desfechando com a retumbante vitória dos templários portugueses que afundaram uns e apresaram outros dos navios sarracenos que rumavam a Sevilha com o saque, trazendo os despojos e os prisioneiros para Lisboa onde D. Fuas e os bravos marinheiros templários foram triunfalmente recebidos por D. Afonso Henriques, vindo às pressas de Coimbra, e pelo bispo da cidade, além de inúmero povo gritando e cantando loas de vitória e glória.

D. Fuas Roupinho chegou a contar com uma frota de quarenta navios e inclusive fez surtida gloriosa a Ceuta, séculos antes do início do ciclo ultramarino português nessa mesma cidade mauritana com D. João I. Segundo o cronista árabe Ibne Kaldhun[4], o almirante português morreu em 17 de Outubro de 1184 durante a batalha naval contra a esquadra sarracena vinda de Sevilha, facto confirmado pelos cronistas e historiadores portugueses[5], onde vinte e dois navios lusos enfrentaram valorosamente cinquenta e quatro galés mouras que os derrotaram.

Quando D. Fuas Roupinho mandou construir a capela da Memória no sítio da Nazaré, o milagre ficou completo com a descoberta da pequena imagem de Santa Maria escondida entre as fragas, negra com o Menino ao colo, diz a lenda pela pena de frei Bernardo de Brito, em 1609, a qual fora talhada pelo próprio São José e pintada por São Lucas, indicativos de um ser mestre carpinteiro e outro evangelista mariano.

A pequena imagem de madeira, com cerca de 20 cm de altura, retrata uma Virgem do Leite, caríssima ao devocional templário, pois está amamentando o Menino Jesus sentado no seu colo. Virgem Negra com o rosto e as mãos pintados dessa cor, não tem costas nem lados da cintura para baixo, indiciando ter sido esculpida com a intenção de encaixá-la numa estrutura em forma de trono (trono de glória). Frei Bernardo de Brito relata ter encontrado no cartório do mosteiro de Alcobaça uma doação territorial datada de 1182, onde se descrevia a história desta imagem da Senhora, acrescentando que se tratava da transcrição de um pergaminho escrito cerca do ano 714. Conforme esse documento e de acordo com a tradição oral, a imagem terá sido venerada nos primeiros tempos do Cristianismo em Nazaré da Galileia, onde esta localidade portuguesa terá ido buscar o nome. Da Galileia foi trazida, no século VI, para um convento perto de Mérida, e daí, face ao avanço das invasões árabes da Península Ibérica, no ano 711 para este sítio da Nazaré, até ao momento da sua descoberta miraculosa – Virgem resgatada, segundo Paulo Pereira[6] – em 14 de Setembro de 1182, com círio a esta Nossa Senhora da Vitória celebrada anualmente na quinta-feira da Ascensão.

É muito possível que a imagem tenha sido escondida aí pelos monges da igreja de São Gião, exemplar visigótico dos raros sobreviventes no país, na quinta do mesmo nome situada cinco quilómetros a sul da Nazaré[7]. No interior da ermida da Memória estão duas lápides de mármore escritas em latim por frei Bernardo de Brito, que o doutor Rui Lourenço, provedor da comarca de Leiria, poucos anos depois traduziria para que todos soubessem do ocultamento e achamento da milagrosa imagem enegrecida da Senhora do Leite da Nazaré:

“A sagrada e venerada imagem da Virgem Maria que sendo trazida da Cidade de Nazareth, resplandeceo em tempo dos godos com milagres no Mosteiro de Cauliniana, junto à cidade de Merida, foy trazida a esta ultima parte do mundo pelo monge Romano, sendo-lhe companhia El Rey D. Rodrigo, no anno de Christo de 714, em que aconteceo a perda geral de Hespanha, e como [o] monge morresse e El Rey se partisse, ficou aqui escondida em huma pequena choça, posta entre estes dous escabrosos penedos, por espaço de 469 annos. E sendo depois achada por D. Fuas Roupinho, capitão de Porto de Mós, no anno de 1182 como ele testifica na sua doação, sucedeo que arremeçando inconsideradamente o cavalo no alcance de hum veado, que lhe fugiu e por ventura era fingido, e indo já para cair na ultima ponta deste despenhadeiro, invocando o nome da Virgem, foy livre da queda, e mais da morte, e Lhe dedicou esta primeira ermida. Finalmente foy tresladada por El Rey D. Fernando de Portugal a essoutro Templo mayor que elle mandou levantar desde os primeiros fundamentos no anno de 1377. E o douctor Fr. Bernardo de Britto dedicou esta obra à Virgem e à eterna lembrança, por voto que tinha feito.”

Dando por finalizada a tradução latina, encontra-se também o seguinte suplemento:

“Como consta da Monarchia Lusitana do mesmo Fr. Bernardo de Britto 2 p. fl. 391. E se acha conforme as tradições antíguas desta sacrossanta Imagem da Virgem de Nazareth obrada pelas mão de S. Joseph, na própria presença da May de Deos, e encarnada por S. Lucas, e que de Nazareth a trouxe Ciriaco Monge a S. Jeronimo a Belem adonde o dito santo a enviara a Santo Agostinho a Africa, sendo Bispo de Hipponia, e d’ahi este Santo Bispo a enviou ao Mosteiro Cauliniano, do qual a trouxe Romano na companhia del Rel Rey D. Rodrigo, ultimo dos Godos, ate aquelle monte de S. Bartholomeu té então monte Seão, onde acharão aquelle Crucifixo que está na Sacristia, e d’ahi a dias para este lugar, em que ficou debaixo da terra os ditos 469 annos em que apareceu ao tal cavaleiro D. Fuas no dito anno de 1182. O devoto que o letreiro traduzio pede hua Ave Maria a esta Senhora de Nazareth, anno de 1623.”[8]

A presença do elemento marítimo nesta lenda nazarena é constante: se D. Fuas Roupinho era marinheiro, a Virgem salvadora paira sobre o mar. É assim a Senhora do Mar, título com que desde o primeiro instante os marinheiros e pescadores se encomendam a Ela e Nela buscam refúgio nas horas de aflição nas águas revoltas. O próprio nome Nazaré, oriundo do turânio ou asiânico Natharata, que os semitas vozeiravam Nazarata, significa “Água da Mãe-Terra”. A aclamação Senhora do Mar é prerrogativa carmelita herdada do episódio bíblico ocorrido com o profeta Elias que invocou as “águas celestes” para caírem sobre Jerusalém num tempo de grande seca, sendo atendido pela Misericórdia Divina a quem apodou de Stella Maris, “Estrela-do-Mar”, apontada como sendo Vénus, planeta “feminino” por excelência, tal como o reconhece a Tradição. Santa Maria (Mariae, Maris, Mareum) acaba equivalendo ao Oceano da Vida sobre o qual sopra o Espírito Santo ou de Santidade trescalada da própria pessoa da Mãe Divina, assumida como designando as Águas Primordiais, o Mar da Criação.

Por essa razão, os antigos escritores judeus afirmam claramente que o Mar é uma criação de Deus (Génesis, 1:10), que Ele pode submetê-lo (Jeremias, 31:35), que Ele pode secá-lo para que a humanidade dos fiéis possa atravessá-lo com segurança (Êxodo, 14:15 s.) e suscitar ou acalmar as suas tempestades (Jonas, 1:4; Mateus, 8:23-27). O Mar foi assim feito símbolo da Criação, acreditando-se que o Criador o dominava enquanto o Homem era por ele dominado, mas que apelando a Ele o podia dominar. Era a derradeira prova: ou se precipitava nas funduras mortais das águas revoltas, ou estacava diante do precipício com a força da fé e da lucidez renascendo para uma nova vida, para uma nova condição de ser. Talvez por isso é que está no interior da ermida da Memória o silhar de azulejo com a fénix hermética portando a legenda latina Et vivam, “e viveu”, renasceu, venceu na derradeira iniciação marcada pelo hermetismo da arte venatória, no que bem se ajusta ao título dado aqui à Virgem Mãe, Nossa Senhora da Vitória.

Entre os místicos cristãos, o Mar simboliza o mundo e o coração humano, enquanto lugar de paixões revoltas contra a serenidade do sentimento de Amor. “Eu escapei do naufrágio da vida”, escreveu São Gregório Magno no ano 575 a propósito do seu ingresso na vida monástica (Morais sob Job, Carta dedicatória). Segundo Aelred de Riévaulx (século XII), o mar situa-se entre Deus e o Homem e designa o tempo presente. Uns se afogam, outros o transpõem, tanto valendo por vencer ou perecer na derradeira iniciação. Para atravessar o mar é necessário um navio (presente na iconografia do Milagre da Nazaré), e nisto o casamento corporal é como um navio frágil, enquanto a vida espiritual se compara a um navio robusto. Para que haja só navio robusto em ambos os casos, tem-se como Barca de Salvação a própria Virgem Maria que também foi esposa e religiosa, Mãe do Salvador sendo Mãe da Humanidade como Esposa do Verbo.

A Senhora de Nazaré por sua cor negra original revela estar-se na presença da Deusa Mãe Primordial, herança iconológica dos cultos primitivos celtas relacionados ao Útero gerador da Mãe Terra, dando-a como expressiva da fertilidade e fecundidade. Quando é fértil está manifestada, tem a cor branca (Assunção). Quando é fecunda encerra a semente ocultada, tem a cor negra (Conceição). Portanto, a condição de fecundidade antecede a de fertilidade, pois nada é fértil sem ser primeiro fecundado.

Com o atributo de fecundidade, para os alquimistas vem a ser a Matéria-Prima, a Negra primordial (Nigredo) ou ante-Manifestação, em conformidade à prerrogativa bíblica ao início do Génesis de que “antes da Luz (branca, dia) havia a Treva (negra, noite)”. Isto mesmo é corroborado pelo enigmático Jean-Julien Champagne (1839-1953) que se velou no pseudónimo Fulcanelli, alquimista francês autor de duas magníficas obras de Alquimia: O Mistério das Catedrais (1926) e As Mansões Filosofais (1930).

Famosa pelo seu grande poder de realizar milagres sempre relacionados à vida e a morte, tornando os lugares da sua aparição polos aglutinadores de grande poder devocional pela intensidade das peregrinações a eles, no contexto da sociedade rural medieval a Virgem Negra era sobretudo uma deusa agrária por cuja imagem devocionada se manifestavam os atributos benfeitores da Grande Deusa Mãe Primordial, culto original tendo encómios maiores que ao Deus Filho, por ser Ela a origem da fé fecunda revelada na natureza íntima do crente vendo a sua expressão na Natureza fértil, de cujas colheitas abundantes dependiam os povos. Quando a lenda diz que a sua imagem esteve muito tempo escondida na terra entre fragas à beira do precipício, é o mesmo que consigná-la Deusa Oculta, Negra, facto assinalada na Lua expressiva do Útero, da Matriz da Criação, cujas fases regulam os períodos agrários de semeadura e colheita, e igualmente o da gestação dos seres.

Por esse motivo a cor negra da Virgem é a mesma primordial indicativa do Grande Útero da Vida que se gera nele e a ele, no final da existência periódica, a mesma Vida se recolhe. Com isso, a Grande Mãe, com o seu potencial de gestação e geração, possibilita todas as manifestações, transformações e evoluções da Vida, a qual recolhe a si no fim de cada manifestação, seja ela a de um homem ou a de um mundo. Razão porque personifica a Magna Dea, a Grande Deusa, Maha-Shakti para o Oriente, a Força Vital que gera, mantém, anima e unifica, sendo Ela o Grande Oceano conduzindo aos seres imersos nas suas correntes pelos movimentos das suas Águas da Vida, donde ser apelidada de Conceição ou Concepção, sobreposta à Lua crescente que, como astro da noite ou do negro, representativo do Caos ou Noite Cósmica, o mesmo Pralaya assinalado nas escrituras do Oriente, assiste aos ciclos de vida e morte de todos os seres. O período de existência destes vem a ser o Cosmos ou Dia CósmicoManvantara para os orientais, marcado pela cor branca e a Lua Cheia, para todo o efeito, antecedido pelo negro primordial sinalético da ausência de cor, para aquele que é a síntese da cor.

Por essa razão, a Virgem Negra simboliza a Terra Virgem, ainda não fecundada ou povoada, pelo que vem a valorizar o elemento passivo do estado virginal. O escurecimento das imagens das Virgens, enaltecido na Europa ocidental na Baixa Idade Média, também se deveu à cor sombria dos ícones orientais da religião bizantina, nessa época exercendo grande influência na arte religiosa latina[9].

Por outro lado, no período medieval coincidente com a aparição de qualquer Virgem Negra, houve sempre uma reactivação social, artística e cultural no seio da sociedade pela aproximação do Ocidente ao Oriente, assim mesmo uma irrupção do elemento feminino, não só com o culto mariano mas igualmente na forma idealizada do amor cortês, a despeito das grandes discussões dos teóricos escolásticos sobre a natureza, a carne e o pecado, a alma e a virtude, semeando uma improdutiva disfunção entre o Espírito e a Matéria que chegou aos nossos dias.

Finalmente, para o Islão a virgindade de Deus como Mulher é a Luz Inviolada (Mater Inviolata na ladainha) que ilumina os Eleitos; a esse título, é chamada de Virgem-Mãe a hora da vida que é a primeira. Mas é também a última. É Ela quem abre o caminho da Iluminação e leva a termo o místico caminhar. A Virgem de Luz revela ao Eleito a forma espiritual que nele é o novo Homem, tornando-se seu Guia conduzindo-o às alturas da Morada Celeste. Assim, et vivam.

Como D. Fuas Roupinho, também o rei D. Dinis foi monteiro e se bateu em luta de morte com um javali para as bandas de A-da-Beja. Valeu-lhe Santa Maria. O episódio está esculpido no seu túmulo no antigo convento das bernardas de Odivelas. Igualmente o seu filho D. Pedro Afonso foi adepto da arte venatória, como se observa na ilustração de caçada no frontal do seu túmulo no mosteiro de São João de Tarouca, Lamego. Outros reis, príncipes e nobres portugueses seguiram a mesma arte que, no fundo, é expressão da dinâmica da iniciação guerreira, kshatriya, em tempos de paz.

Se D. Fuas Roupinho vinha em perseguição do demónio disfarçado de veado desde as bandas de Óbidos, e se tudo isso é alegórico de saberes ocultados, haverá nessa vila algum sinal indicador da proximidade ao hermetismo da Ordem do Templo na qual ele era afiliado? Sim, há. Está numa inscultura lapidar templária do século XIII, à entrada da igreja de São Pedro, de imediato remetendo para a geometria sagrada como ramo da Tradição Iniciática, de cujo conjunto simbólico pode extrair-se sugestivas conclusões.

A igreja de São Pedro de Óbidos (construída no gótico dos fins do século XIII e reconstruída no século XVIII) em Trezentos foi sede da Colegiada de São Pedro, com jurisdição sobre Santa Maria da Mouta (Moita) e visitação do Arcebispado da Lourinhã, que desde D. Sancho I estava aforada pela Coroa à Ordem do Templo.

A enigmática inscultura encontra na arquitectura tradicional uma proximidade que liga pela sua disposição de forte sentido simbólico a megalítica à medieval do Templo, como se regista principalmente na feitura dos kraks ou castelos deste, os quais originalmente englobavam a cidadela, tal qual os fortificados celtas incluíam a citânia, simbolismo denotado nas cidades lídias caracterizando-se por uma tríplice cintura de muralhas que, aquém do sentido iniciático, as protegiam das investidas inimigas, como se verificou naquelas gregas de Lerna, Tirinto, Micenas, etc., e nas portuguesas de Leiria, Tomar, Sintra, Lisboa, etc. Essa cintura muralhada tríplice entre os citas, que deram nos celtas, possuía um grande sentido simbólico, apresentando-se a disposição geral formada por três quadrados concêntricos ligados entre si por quatro linhas em ângulo recto, expressando as artérias principais.

Para Paul Le Cour e René Guénon, trata-se do simbolismo da “tríplice muralha” dos castros fortificados celtas cujo significado metafísico, além do utilitário imediato, os sacerdotes dessa raça, os druidas, vieram a propagar de tal maneira que acabou vulgarizando-se em várias formas de jogo, como o “jogo do moinho” e até, com menos traços mas não deixando de ser, na marcação dos campos de futebol. Com efeito, para os druidas a “tríplice muralha” representaria os três graus da sua hierarquia sacerdotal: druida, vate e bardo, ou seja, sacerdote, profeta e instrutor. O candidato ia subindo na hierarquia até chegar ao grau supremo, equivalente ao “Grande Centro” ou Pantheon dos Heróis dessa primitiva religião europeia, como já tive ocasião de dizer quando analisei figura idêntica a essa lapidada na parede lateral à entrada na Escola de San Rocco, em Veneza[10].

É assim que René Guénon classifica o significado esotérico das três muralhas expressivas dos três graus básicos do sistema de iniciação[11], de tal maneira que o seu conjunto pode muito bem ser, de certo modo, a representação da hierarquia druídica como expressão tradicional do ensinamento iniciático. Com essa mesma explicação, o sentido das quatro linhas dispostas em cruz, que ligam as três muralhas, torna-se de imediato muito claro: serão os canais por meio dos quais o ensinamento da doutrina tradicional se comunica de cima a baixo, a partir do grau supremo, que é o depositário legal desse mesmo ensinamento, repartindo-se hierarquicamente pelos demais graus. A parte central da figura corresponderá, portanto, à “Fonte da Tradição” de que falam Dante e os Fedeli d´Amore, e a disposição crucial dos quatro canais que dela partem identifica-se aos quatro rios do Pardes ou Paraíso. Nesse caso, o centro da figura, como “Fonte da Tradição”, corresponde à Autoridade Espiritual afim à Arte Sacerdotal, e os canais subalternos expressam o Poder Temporal correlacionado à Arte Real, onde a interacção entre os dois poderes é permanente, mas com o primeiro revelando-se pelo segundo, tal qual o Paraíso Celeste se expressa no Paraíso Terrestre, assim como o Centro Supremo do Mundo (Salém, Shamballah, Walhallah, etc.) se revela nos Centros Sagrados estrategicamente esparsos pelo mesmo Mundo.

Na Idade Média, um pouco por toda a Europa também foram construídos castelos com tríplice muralha, em lugares previamente assinalados pela Tradição Primordial como propícios a uma maior aproximação do Mundo Espiritual aproveitando a energia concentrada das correntes telúricas aí entrecruzando-se geradoras de nódulos, como igualmente as conjunções propícias dos astros influindo localmente, disposição geo-celeste característica dos assim consignados “lugares mágicos”, tudo conformado às primitivas regras geomânticas das “leys”.

A “tríplice muralha” medieval acabou assimilando o significado que tinha entre os celtas vindo a assinalar a hierarquia da Cavalaria: cavaleiro, escudeiro e pajem, cuja evolução do candidato à nobreza das armas começava do mais exterior para o “Grande Centro”, este representado pelo rei do país ou pelo governador do lugar.

Ainda na Idade Média, para a espiritualidade judaico-cristã essa figura geométrica resumia o sentido do bétilo, isto é, da “pedra sagrada, considerada como morada de um deus”. Assim aparece a figurar o próprio Templo de Salomão, em Jerusalém, como o descreve a Bíblia (I Reis, 7:12), com a sua tríplice cintura separando o povo dos levitas e estes do sumo-sacerdote, o único com acesso ao centro onde estava o “Santo dos Santos” (Sanctum Sanctorum), lugar reservado à Arca da Aliança. Como o Templo de Salomão representava o próprio Paraíso Terrestre, então o simbolismo geométrico da “tríplice muralha” será, em última análise, figurativo desse mesmo Éden original.

A haver Paraíso Terreal haverá Paraíso Celestial como seu modelo, indicado no Apocalipse como a Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados. Para a figura geométrica a representar, coloca-se diagonalmente as quatro linhas em cruz em relação aos dois quadros extremos, a fim do espaço compreendido entre eles ficar dividido em doze triângulos rectângulos iguais, simbolizando as doze portas do Paraíso Celeste (Apocalipse, 21:12), no centro do qual está a Árvore da Vida (Apocalipse, 22:2) aqui assinalada pela flor-de-lis dúplice (“o que está em cima é como o que está em baixo”) ao lado da Cruz da Cristandade desde o século VIII, de palos páteos que a Ordem do Templo adoptaria no século XII.

Do ponto de vista do simbolismo numérico, o conjunto dos três quadrados forma o duodenário, e dispostos da forma assinalada por último em relação à Jerusalém Celeste, vêm a constituir a figura pela qual os antigos inscreviam o Zodíaco (como se vê numa inscultura junto às “escadinhas dos clérigos (trinos)”, em Sintra), o que vai muito bem por a mesma Jerusalém Celeste expressar o Universo inteiro, tal qual o Zodíaco.

Essa figura geométrica era igualmente considerada como expressiva da Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados, pelo que possui uma relação evidente com o significado indicado para a figura quadrangular da tríplice muralha, a qual significa o Paraíso Terrestre. É exactamente essa formação geométrica de sentido astronómico que se repara na inscultura templária à entrada da igreja de São Pedro de Óbidos, onde terá começado a saga venatória de D. Fuas Roupinho[12].

Para denominarem as supracitadas muralhas, os latinos dispunham de um termo de origem iraniana: pari, o qual aparece no composto pari-daiza, ou seja, “cintura” (pari) e “modelo” (daiza). Paridaiza ou Paradhesa é a arquetípica das palavras hindu-europeias indicativas de Paraíso.

É de crer que dentro dos seus kraks os templários terão criado núcleos sinárquicos no esforço imediato de reproduzirem o Paraíso de Deus, falado pelo inspirado St.º Agostinho na sua magistral Civitas Dei, decerto por isso se regiam no seu meio por regras muito suas, independentemente do estatuto castrense, não dando satisfações detalhadas a ninguém do que faziam e pretendiam, incluindo ao papa e ao rei, apesar de a esses aparentemente renderem obediência pontifícia e vassalagem militar.

De maneira que a simbiose entre a Jerusalém Celestial e o Paraíso Terreal, representado no plano imediato da Tradição pela cidade de Jerusalém, tem a sua expressão efectiva no relacionamento entre a Autoridade Espiritual e o Poder Temporal, entre o Sacerdócio e a Realeza, esta encontrando a legitimação por aquela. Isto mesmo pode ser lido no Midrash Tankhuma, obra teológica judaica que trata da relação entre os dois Poderes Espiritual e Temporal, simbolizados pela Jerusalém “axis coeli” e pela Jerusalém “axis terris”, na qual São Bernardo acaso terá se inspirado para o seu Louvor à Nova Milícia (1130) e para a redacção da sua Regra. Diz esse texto judaico:

“Vós vereis que existe uma Jerusalém do alto que corresponde à Jerusalém de baixo. Por amor da Jerusalém terrestre, Deus fez uma no alto. Eu não entrarei na Jerusalém celeste antes de ter entrado na Jerusalém terrestre.”[13]

Por essa razão primaz da divindade e universalidade da simbólica jerusalemita, é que os templários cunharam moeda com a efígie do Templo de Salomão de que se assumiam, afinal, guardiães, certamente não tanto das suas ruínas mas mais da Tradição Primordial representada pelo mesmo, o que se reflectia no binómio sinárquico Autoridade-Poder, certamente conhecendo-o e exercendo-o, como se observa no testemunho deixado nas figuras decorativas de vários edifícios que construíram, por exemplo, na igreja de São Pedro de Rates, no Minho, onde junto à pia baptismal lavraram na pedra duas figuras: um bispo com o báculo na mão esquerda faz o sinal hierático com a destra a um rei coroado, com uma mão no peito e a outra empunhando a espada. Cena de sagração e investidura: bispo e báculo dominando = Autoridade Espiritual; rei e espada dominado = Poder Temporal. Algo idêntico a Purusha originando Prakriti, ou seja, o Espírito dar de si a Matéria, o que reverte novamente ao conceito da Jerusalém Celeste e da Jerusalém Terrestre, paradigmas máximos da Autoritas e da Potens.

Além de Portugal também na Escócia, na Bretanha, na Alemanha, na Itália, etc., houveram reis que igualmente foram “santos caçadores” (sanctus venatores), e no nosso país além de D. Fuas Roupinho também aparecem “caçadores” São Frutuoso de Braga, e até mesmo mais recentemente (1910) António Augusto de Carvalho Monteiro, que no seu Palácio da Regaleira de Sintra não se esqueceu de destacar a cabeça de um veado, e na capela particular da família retratar a lenda do Milagre da Nazaré. Tem-se ainda Saint-Thélo da Bretanha, David I da Escócia, São Conrado da Alemanha, Santo Eustáquio de Roma, Santa Genoveva, São Mamede e Santo Huberto das Ardenas, este o mais famoso dos santos “reis caçadores” (rex venatores).

A todos eles apareceu, durante as suas caçadas, um cervo ou veado imponente tendo entre as hastes uma cruz luminosa, assinalando o animal como mensageiro do Alto assim dando à caçada sentido transcendente, alegórico de demanda iniciática. Como a história de São Huberto é muito conhecida, ficarei pelas de David I da Escócia e de Saint-Thélo da Bretanha.

Segundo as lendas de fundação da abadia escocesa de Holyrood, uma delas conta que David I (em gaélico escocês Dabíd Mac Maíl Choluim, 1084 – 24 de Maio de 1153), rei da Escócia desde 1124 até à sua morte, no ano 1127 andava caçando nos bosques próximos de Edimburgo quando de repente foi atacado por um cervo furioso, ficando debaixo das suas hastes procurando trespassá-lo. Mas dois irmãos, Johannes e Gregan, do baronato de Crawford, em Strathclyde Alba, acudiram e salvaram o rei. Este, em agradecimento, fê-los cavaleiros e fundou a abadia de Holyrood no ano seguinte. Desse dia em diante, esse ramo da família Crawford adoptou como seu brasão a cabeça de um cervo com uma cruz de ouro entre as hastes, acompanhada do lema latino Tutum Te Robore Redam (“A nossa força te dará força”). A segunda lenda, que cola com a anterior, conta que esta abadia foi uma oferta de David I, em 1128, aos cónegos regulares de Santo Agostinho, talvez vindos de St.º Andrews, em agradecimento de ter escapado milagrosamente da galhada de um cervo quando caçava perto de Edimburgo no dia da Santa Cruz.

Com a Santa Cruz se liga o nome Holyrood, sendo rood antiga palavra gaélica para designar a cruz onde Jesus Cristo foi crucificado, enquanto holy assinala a sacralidade desse acontecimento bíblico. Portanto, etimologicamente Holyrood equivale a Cruz Sagrada ou Santa Cruz. Ainda hoje preserva-se na igreja de Holyrood, num relicário de ouro, o fragmento da Vera Cruz, trazido da abadia de Waltham, conhecido como Black Rood of Scotland. Tamanha foi a devoção a esta Cruz Negra da Escócia que nesta abadia a sua igreja só poderia ser cruciforme, tal qual é representada no selo de 1141 do seu primeiro abade Alwyn, confessor real, que está guardado nas Newbottle Charters.

David I morreu com fama de santidade e está deposto no panteão dos “santos caçadores”, isto por o cervo ou veado com a cruz resplandecente entre as hastes ser associado no antigo simbolismo judaico-cristão à Árvore da Vida, por causa da sua alta galhada, que se renova periodicamente. Simboliza a fecundidade, os ritmos do crescimento, os renascimentos. Com isto, o cervo é o anunciador da Luz tal como Cristo o foi, e assim guia os homens para a claridade do dia, cuja cruz entre as suas galhadas fá-lo a imagem do Cristo, o símbolo do dom místico, da revelação salvífica. De maneira que a arte venatória torna-se simbólica de Iniciação Real, Senhorial, Cavaleiresca, Guerreira ou Kshatriya, em sânscrito, pautada pela acção dinâmica da busca do Divino até o encontrar em alguma caçaria encantada que transformará o caçador num iluminado na Sabedoria de Deus, como o terá sido David I usufruindo dos conhecimentos superiores junto dos sábios agostinhos de Holyrood.

Santos caçadores ou perseguidores de Maria, Sophia ou a Gnose como Sabedoria Divina, Dona Sapienza, também terão sido os cavaleiros-monges da Ordem do Templo, cuja instalação na Escócia remonta ao encontro em 1128 entre David I e Hugues de Payens, fundador da Ordem, tendo o rei concedido a terra de Balantrodoch a ela, o que constituiu a sua primeira possessão escocesa. Em 1189, Alan Fitz Walter (1140-1204), o segundo senhor de High Steward da Escócia, tornou-se benfeitor da Ordem do Templo e participou activamente na sua expansão no território escocês, e tamanha foi a influência do Templo na sua pessoa que o seu selo pessoal possui todos os mesmos símbolos dos desta Ordem, sem faltar a sua cruz pátea.

Segue-se Saint-Thélo e o cervo de Daoulas em Finistére, na Bretanha Norte. Num recanto da igreja da abadia de Santa Maria de Daoulas, em Finistére, vê-se uma curiosa imagem dum bispo com báculo e mitra montando um veado, tudo em madeira policromada do século XIII, o que tem suscitado as mais variadas interrogações sobre quem seja e o que significa.

Trata-se de Saint-Thélo, um dos santos bretões mais ou menos míticos cuja santidade não é reconhecida oficialmente pela Igreja Católica. Thélo ou Théliau foi bispo de Landaff, no País de Gales, sendo filho de Ensic e de sua mulher, Guenhaff. Nasceu cerca do ano 485 na parte meridional de Inglaterra, perto da cidade de Monmouth, e acostou a Dol (Ille-et-Vilaine), na Bretanha, onde foi acolhido cerca de 549 pelo bispo Samson. A sua morte é comummente fixada nos anos 560 ou 565. De notar ainda que fora sagrado bispo de Landaff para substituir o seu mestre entretanto falecido, Saint Dubrice, no ano 520, e quando depois se retirou substituiu-o o seu sobrinho, Saint Oudocée.

O nome deste santo anda associado ao da cidade de Saint-Thélo, comuna francesa da região administrativa da Bretanha Norte, no departamento Côtes-d´Armor ou Costas da Armónia, nascida do desmembramento da paróquia primitiva de Cadelac, por causa da redução ou detrimento da floresta de Loudéac, onde os celtas tinham importante santuário dedicado ao deus Cernunnos, representado com cabeça de veado.

Sendo o cervo considerado animal de abundância e agilidade pelos celtas, sinal de exteriorização das próprias e divinizadas forças telúricas animando a Terra, só as poderia “montar” um Hommo-Teluricus, isto é, o próprio Thélo ou Thelos, familiar hagiográfico de São Telmo, nova versão cristianizada do primitivo deus da abundância Cernunnos, agora celebrado anualmente em 9 de Fevereiro, disposto assim no calendário litúrgico muito apropriadamente para não se confundir com o Imbolc ou Oilmec, que a cultura celta celebrava a 2 de Fevereiro como uma das suas principais festas agrícolas, celebrando a recuperação da terra do Inverno e o Sol fortalecendo-se para a Primavera. Era a época de início do processo de aragem da terra e do plantio, processo cujo êxito punham sob a protecção da deusa Brígida (Brigith ou Briga, que veio a ser a Brigite cristianizada), que era quem abençoava as semeaduras para frutificarem e darem boas colheitas.

Igualmente não deixa de ser significativo o facto dos antigos cavaleiros da Ordem do Templo terem uma especial veneração por Saint-Thélo, inclusive aparecendo o nome deste (Saint Theliaut) numa acta de 1182 enumerando os bens dos templários na Bretanha, particularmente em Saint-Thélo cujo primitivo mosteiro de Daoulas, fundado no século VI, foi substituído pela abadia de Santa Maria cerca de 1167-1173, dos cónegos regulares de Santo Agostinho. Esta casa religiosa esteve sob a protecção directa do Templo, podendo até aventar-se a hipótese da imagem de Saint-Thélo montando o cervo ser produção templária.

Ao par da arte da volataria ou falcoaria, anda a do monteiro ou montaria, ambas a ver com o ideal cavaleiresco desenvolvido em dois grandes momentos. Por um lado, na corte, envolto num conjunto de símbolos e normas, que permitiam ao nobre um divertimento fora do tempo de guerra. Por outro lado, na floresta, com toda a sua dimensão e perigo. Tal como refere Georges Duby[14], a floresta era “de facto na orla das planícies, o vasto campo das emboscadas, da montaria e dos torneios: domínio do selvagem, do indomável, dos perigos estranhos (…)”. De maneira que esse sítio impregnado de mistério e de desafio representava a imagem do palco guerreiro e do inimigo, que poderia atacar, a todo o momento. Franco Cardini reporta-se às Ordens fundadas ao século XII, apresentando o ideal do cavaleiro templário em oposição ao cavaleiro leigo[15]. Enquanto este ostentava atributos de riqueza no seu percurso, mostrando a vanidade e exuberância, aquele, só e endurecido na lide e na gesta, “caça apenas animais ferozes (…). Este exercício (…), para além de ser símbolo da pugna spiritualis, dado que, na ciência alegórica da época, as feras são frequentemente símbolo e figura do demónio – lhe é também útil para a guerra”.

A mutação do cervo de mensageiro do Cristo em demónio tentador é indispensável à iniciação do monteiro, de maneira que ao perseguir a Palavra o animal signífero, em correria demoníaca e fatal, punha à prova a sua firmeza d´alma, até finalmente o caçar, equivalente da purificação espiritual, tendo por evoco a assistência da Mãe Divina e meta última o alcançar a Cristificação, isto é, o tornar-se um Iluminado portador da signa de Cristo, enfim, sanctus venator.

Assim aconteceu com D. Fuas Roupinho no Milagre da Nazaré.

NOTAS

[1] Virgínia de Castro e Almeida (1874-1945), Dom Fuas Roupinho. Secretariado de Propaganda Nacional, Lisboa, 1943.

[2] Os feitos de D. Fuas Roupinho na Crónica de 1419. Revista Portuguesa de História, tomo XLIII, Universidade de Coimbra, 2012. Tiago João Queimada e Silva, Os feitos de D. Fuas Roupinho na Crónica de 1419. Revista Portuguesa de História, tomo XLIII, Universidade de Coimbra, 2012.

[3] José João da Conceição Gonçalves Mattoso, A Nobreza Medieval Portuguesa: a Família e o Poder. Editorial Estampa, Lisboa, 1994.

[4] Citado por Tiago João Queimada e Silva, ob. cit.

[5] António Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe: História. Editorial Caminho, Lisboa, 1989.

[6] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Cabos do Mundo e Finisterras. Círculo de Leitores, Lisboa, Janeiro de 2005.

[7] Adriano Figueiredo, Igreja de São Gião. In Portugal: Património, volume VI. Coordenação de Álvaro Duarte de Almeida e Duarte Belo. Círculo de Leitores, Rio de Mouro, 2007.

[8] D. Manuel de Brito Alão (1554-1638), administrador das rendas do Santuário da Nazaré, Antiguidade da Sagrada Imagem de Nossa Senhora da Nazaré. Edições Colibri, Lisboa, 2001. Reedição da versão original na oficina de João Galram, Lisboa, 1684, obra antecedida na edição por outra do mesmo autor, Prodigiosas historias, e miraculosos sucessos acontecidos na Casa de Nossa Senhora de Nazareth. Parte segunda. Na Oficina de Lourenço Crasbeeck, Impressor del Rey, Lisboa, 1637.

[9] Vitor Manuel Adrião, Bretagne Nord Insolite et Secrète. Editions Jonglez, Versailles, 2011.

[10] Vitor Manuel Adrião, Venise Insolite et Secrète. Editions Jonglez, Versailles, 2010.

[11] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo, 1984.

[12] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Euedito, Lisboa, 2020.

[13] Bernard H. Mehlman, Seth M. Limmer, Medieval Midrash: The House for Inspired Innovation. Ed. Brill, Hardcover, November 2016.

[14] Georges Duby, As Três Ordens ou o Imaginário do Feudalismo. Editorial Estampa, Lisboa, 2002.

[15] Franco Cardini, O Homem Medieval. Editorial Presença, Queluz, 1990.

Quem era o pai de D. Afonso Henriques? – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Out 14 2021 

A versão oficial dá D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, como filho do conde D. Henrique de Borgonha e de D. Teresa de Leão, filha ilegítima de D. Afonso VI de Galiza, Leão e Castela, e de Ximena Moniz, nobre leonesa filha da condessa Velasquita Moniz e de Munio Moniz de Bierzo, em Leão, que até ao século XIX fez parte do reino da Galiza[1]. Todavia, há a versão marginal tomando forma por força de circunstâncias improvadas as quais a lenda fez florescer no terreno fértil do imaginário colado ao miracula, vindo desmentir que D. Afonso fosse realmente filho dos condes portucalenses Henrique e Teresa, antes o sendo de D. Egas Moniz de Ribadouro, ou então uma criança que o aio teria trocado por outra durante o seu preceptorado do infante[2].

As três lendas correntes são unânimes na afirmativa de D. Afonso Henriques ter nascido muito fraco com debilidades de saúde e corpo raquítico, e que cedo o conde D. Henrique, ou a sua mulher, pouco importa, entregou-o aos cuidados do aio.

Uma das versões conta que Egas Moniz terá levado a criança de Guimarães para Chaves, na tentativa de a curar nas águas termais daquela cidade transmontana. Naquele tempo a viagem entre Guimarães e Chaves demorava cerca de três semanas, por entre caminhos de terra e fragas em carros de bois. Acontece que o infante terá falecido durante o trajecto. Ao chegar a Vila Pouca de Aguiar, Egas Moniz ter-se-á cruzado com um pastor que tinha um filho da mesma idade de Afonso Henriques, muito saudável com o vigor físico típico de um transmontano. Então, comprou o filho ao pastor e levou-o para Chaves, onde durante quatro anos educou-o e transformou-o num menino com educação típica da realeza. Conta-se que o substituto de Afonso Henriques era tão saudável fisicamente que aos treze anos já media 1,80 m, quando naquela época o normal era medir 1,60 m na idade adulta.

Outra versão dá Afonso Henriques como sendo realmente filho do próprio Egas Moniz, que terá sido pai na mesma altura que o conde D. Henrique. Fiel ao conde, o aio concordou em trocar o seu filho saudável pelo filho doente daquele.

Há hermetismo na primeira versão da lenda, sobretudo quando se escolhe Vila Pouca de Aguiar próxima das minas auríferas de Jales e das Fragas de Panóias, onde se encontra o santuário romano consagrado ao deus Serapis, dos fins do século II d. C. Esse deus era correlacionado aos Mistérios Infernais ou Ctónicos, portanto, do Mundo Subterrâneo, do qual, diz a Tradição Iniciática, provinham Seres privilegiados que substituíam outros idênticos, mas de menor capacidade, na face da Terra. Resta saber se o pastor transmontano que “vendeu o filho” era condutor de gado ou guia de almas, portanto, um iniciado nos Mistérios Pastoris familiar daqueles dos Fiéis de Amor nascidos na corrente trovadoresca e jogral, nisto não esquecendo que o irmão de Egas Moniz, com nome igual, foi afamado trovador[3]. Daí a tradição das crianças trocadas, entrada no cardápio legendário do século XVI em diante.

A terceira versão da lenda situa-se em Santa Maria de Carquére (Resende, distrito de Viseu) e posta a interrogação inquietante: “D. Egas Moniz foi tutor ou pai de D. Afonso Henriques?”.

Lenda à parte, obviamente que o pai de D. Afonso Henriques foi o conde D. Henrique que, como era costume acerca dos filhos da nobreza destinados a governar, a partir dos três ou quatro anos de idade da criança a sua viúva D. Teresa entregou-a aos cuidados e educação do fiel tutor ou aio D. Egas Moniz, cavaleiro portucalense de Ribadouro, declarada e abertamente anti-partido galaico-leonês. A lenda diz que o infante era enfezado, corcunda, raquítico de frágeis pernas tortas, e que o aio teve a ideia de o pôr sobre o altar de Santa Maria de Carquére e implorar à Senhora que o curasse. Assim aconteceu, ficando ele de imediato curado das pernas – frágeis como as de toda a criança dando os primeiros passos – vindo a tornar-se no jovem e no adulto robusto.

A partir dessa lenda figurando na Crónica de Portugal de 1419, aumentada, obra que serviu de tese de doutoramento a Filipe Alves Moreira[4], nasceram todas as lendas posteriores dando Egas Moniz como o dedicado progenitor de Afonso Henriques, agindo ao contrário dos condes D. Henrique e D. Teresa que não queriam saber da criança, o que não é verdade como se lê nas palavras testamentárias do conde ao infante seu filho[5]. Contudo, a lenda ganhou força e passou à literatura-de-cordel no norte e centro do país, ficando até hoje para gáudio dos adeptos das narrativas fantasiadas da História com descaso acrítico da realidade factual.

D. Egas Moniz de Ribadouro instruiu ou iniciou o infante nas lides militares e na honra da Cavalaria tomando por Orago Santa Maria, nesta mesma terra que antes de ser Portucale e Portugal era Terras de Santa Maria, daí a sua consagração cavaleiresca à Senhora Branca de Carquére, sendo que Branca ao par de Neves é epíteto de Maior. Na imagem substituta da medieval, hoje em altar lateral na igreja visense da Sua evocação, vê-se o Menino desatando o cinturão da Senhora que tem uma rosa aos pés, sinais de Iniciação Senhorial, Cavaleiresca ou Mariana. Nisto, nesta imagem substituta tardia, o Menino bem poderá correlacionar-se idealmente à figura do Infante de Portugal.

Esse, com três dias de nascido em 1106 (tendo falecido em Coimbra a 6 de Dezembro de 1185), fora batizado e consagrado a São Miguel Arcanjo na primitiva capela do castelo de Guimarães, assistido por seus pais D. Henrique e D. Teresa, oficiando ao sacramento o arcebispo de Braga, São Geraldo, conforme está descrito na Vida de São Teutónio, biografia escrita nos finais do século XII acerca do santo bispo visense de muita proximidade ao nosso primeiro rei[6]. Ao sacramento do batismo juntou-se depois a iniciação na Cavalaria, nesta onde Santa Maria é tudo para o cavaleiro como auxiliadora na hora da morte e intercessora junto ao Eterno nos momentos incertos da batalha. Nas letras, o infante D. Afonso recebeu a educação dos crúzios ou cónegos regrantes de Santo Agostinho, que, aliás, (re)construíram no século XII esse mosteiro românico de Santa Maria de Carquére (ou Cárcade), dependente do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, as finis Galiciae ou onde findava o Condado Portucalense, conforme narra Duarte Galvão na sua crónica afonsina escrita, a mando do rei D. Manuel I, entre 1500 e 1550, tendo recebido reedição posterior no século XVIII [7], e ainda no século XIX (1838) no volume 2 da Revista Litteraria do Porto.

Que D. Afonso Henriques era de facto filho dos condes D. Henrique (Dijon, Borgonha, 1066 – Astorga, Leão, 24.4.1112) e D. Teresa (Leão, 1080 – Montederramo, Galiza, 11.11.1130) prova-o, dentre outros documentos da época, o Foral de Guimarães outorgado pelo conde aos aforados vimaranenses e confirmado por seu filho em 1128:

[1] Em nome de Deus.
[2] Eu, conde D. Henrique, juntamente com minha esposa, infanta D. Teresa:
[3] Aprouve-nos, por boa paz e boa vontade, que façamos carta de bons foros a vós, homens que viestes povoar Guimarães, e àqueles que aí quiserem habitar até ao fim (do mundo).
[4] Em primeiro, de cada uma das vossas casas dareis 12 dinheiros, desde a festa de Santo André até à festa de Santo André do ano seguinte.
[5] E das vossas bancas onde vendeis carne, 12 dinheiros.
[6] De vender cavalo e égua, 12 dinheiros. De asno, 6 dinheiros.
[7] De trouxel que vier em cavalo ou em égua, 12 dinheiros. De trouxel de asno,6 dinheiros. De peão, 3 dinheiros.
[8] De pele de coelho, 3 dinheiros. De manto, 2 dinheiros. De capa, 2 dinheiros. De saia, 1 dinheiro.
[9] De boi ou de vaca, 2 dinheiros. De cabra ou de ovelha, 1 dinheiro. De porco ou de porca, 1 dinheiro.
[10] De bragal, 1 dinheiro.
[11] De coiro de boi ou de vaca, 1 dinheiro.
[12] De nenhuma coisa que se vender por menos de 12 dinheiros cobrem portagem.
[13] E quem bater com punho fechado dê 12 dinheiros. À bofetada, 5 soldos. Por derrame de sangue, 7 soldos e meio. De puxar de arma por ira, fora de casa, 60 soldos. Por ferida que faça cair, 7 soldos e meio.
[14] No vosso gado que for pastar fora ninguém ponha a mão por má vontade, senão por sentença judicial.
[15] A não ser o devedor ou fiador, nenhum homem de Guimarães em toda a nossa terra seja penhorado; e quem o penhorar pagar-nos-á quinhentos soldos e dará em dobro o que tiver penhorado, ao respectivo dono.
[16] E quem vender ou comprar algum haver em Guimarães perante o concelho o possua livremente e ninguém tenha depois a ousadia de lho requerer por mal, mas dê a sua portagem, conforme está escrito.
[17] Nenhum cavaleiro tenha pousada em Guimarães a não ser por amor do seu senhor.
[18] E nenhum saião (funcionário encarregado de executar as sentenças judiciais) ouse entrar na casa de burguês por má vontade, mas, se tiver de lá ir por direito, peça um fiador que lhe dê a garantia de 5 soldos, e o burguês que cometer uma infracção apresente ao saião um fiador, em 5 soldos, que lhe dê garantia ante o juiz posto pelo concelho, e o juiz julgue o recto juízo entre o saião e o burguês que cometeu a infracção.
[19] E se, contra esta sentença, o saião entrar na casa do burguês por mal, e aí for morto, não se pague nada por isto.
[20] E se (o burguês) for morto por esta ocasião, (o saião) pague 300 soldos.
[21] E os homens de Guimarães vão em apelido tão longe que num dia possam ir e voltar.
[22] E se dois homens ou mais tiverem uma rixa e se agredirem a punho, à bofetada ou à paulada, ou puxarem pelos cabelos, o saião não cobre disso nenhuma coima a não ser se um deles clamar; se não clamarem, o saião não requeira nenhuma coima.
[23] E aqueles que estes foros desrespeitarem sejam malditos de Deus e excomungados e condenados com Judas traidor e com o diabo e os seus anjos no inferno, pelos séculos dos séculos, amém.
[24] Eu, conde D. Henrique, e a minha esposa, infanta D. Teresa, firmamos esta carta com as nossas mãos.
[25] Mendo presbítero notou.

Confirmação e ampliação por D. Afonso Henriques

[1] Em nome de Deus.
[2] Eu, infante D. Afonso Henriques:
[3] Aprouve-me, por boa paz e boa vontade, fazer [bons foros] a vós, homens de Guimarães, porque me destes honra e apoio e me prestastes bom e fiel serviço. E eu quero dar-vos honra e apoio, a vós e aos vossos filhos e a toda a vossa descendência.
[4] Autorizo o foro que vos deu meu pai e minha mãe e, além disso, dou-vos por foros que:
[5] em toda a minha terra não pagueis portagem;
[6] e o cavaleiro ou o vassalo de infanção ou qualquer homem que for ingénuo (i.e. livre) e vier morar em Guimarães, e aí fizer a sua casa, não dê fossadeira e a sua herdade e o seu haver seja livre e salvo;
[7] e o júnior (i.e., o servo) seja livre e salvo com o seu haver, se aí vier habitar, e, se quiser ter a sua herdade, sirva por ela ao senhor da terra onde está;
[8] e o homicida e o violador que vier habitar em Guimarães, nada pague por este delito, mas em Guimarães não seja tão ousado que cometa rouso (violação) na vila;
[9] e quantos em Guimarães vierem habitar tenham sempre estes foros, como os primeiros que para aí vieram;
[10] e os burgueses que comigo suportaram o mal e o sacrifício em Guimarães nunca dêem fossadeira das suas herdades e o seu haver onde quer que seja esteja a salvo e quem o tomar por mal pague-me 60 soldos e dê, além disso, o haver em dobro ao seu dono.
[11] E quem desrespeitar este juízo e este foro que dei a vós, homens de Guimarães, seja maldito de Deus e excomungado e tenha sobre si a maldição, como a invocou o meu pai.
[12] Esta carta foi escrita a 5 das calendas de Maio (27 de Abril), reinando D. Afonso (VII) em Leão.
[13] Eu, Afonso Henriques, firmei esta carta com a minha mão.
[14] Era de MCLXXVI (Ano de 1128).

Com respeito ao Arcanjo São Miguel ser o Orago de D. Afonso Henriques, também é apontado em várias versões medievais, a começar pela Vida de São Teutónio onde cita o texto bíblico do Livro de Josué no referente ao Chefe das Milícias Celestes (Jos. 5:13-15), invocado na oração rezada antes da Batalha de Ourique indo rogar a sua divina intercessão, segundo Duarte Galvão na sua Crónica de Afonso Henriques. É dito que nesse dia 25 de Julho de 1139, no campo de lide do Baixo Alentejo, em Ourique vizinho de Castro Verde, São Miguel guiou as armas portuguesas à vitória sobre a moirama, após o próprio Cristo desprendido da Cruz ter abençoado o nosso futuro primeiro rei e o reino que se formava. Batalha mitificada[8] a partir de fossado, corredura ou correria, como seja a incursão rápida em território inimigo, não tão rápida para ser algara ou ainda mais rápida, mas já não sendo mito que após a mesma D. Afonso Henriques foi aclamado rei pelos cavaleiros portucalenses alçando-o sobre o seu escudo (pavês). Este poderia já apresentar-se com as armas reais afonsinas, ou seja, carregado de cinco escudetes em cruz cobertos de carbúnculos simbólicos do granizo de São Miguel Arcanjo, Chefe da Hoste Celeste e destruidor dos reis inimigos, segundo Josué, facto referido com vastas provas pelo marquês de Abrantes na sua obra capital[9] sobre o tema, apoiado com ainda mais provas por Hervé Baron Pinoteau[10], ambos ilustres heraldistas comprovando o acontecimento descrito no segundo volume das Crónicas Breves de Santa Cruz de Coimbra (também chamado Livro das Lembranças, em quatro volumes), do século XIV, e a Crónica Geral de Espanha, adaptada por D. Pedro, conde de Barcelos, em 1344, no qual aquele tomo dos crúzios coimbrãos se terá inspirado.

Se D. Afonso Henriques não era filho do conde D. Henrique, então a rainha D. Teresa seria sua madrasta, e como ela detestasse a criança e a maltratasse, quando esta teve força de homem vingou-se dos maus tratos infligidos: sem nenhuma afeição filial e muito desafecto de afilhado maltratado, sovou-a sem dó nem piedade e pô-la a ferros com grilhões na masmorra do castelo de São Mamede. Nisto a lenda, porque é lenda, afirma e reafirma o episódio já tornado facto cristalizado no imaginário popular.

Isso deve-se em grande parte às lendas portuguesas coligidas, fantasiadas, publicadas e popularizadas por Alexandre Herculano no século XIX, já de si compondo-as a partir das suas compilações de Portugaliae Monumenta Historica e respectivas traduções latinas e interpretações pessoais[11].

Aparece assim o episódio vizinho da batalha de São Mamede (travada em 24 de Junho de 1128, segundo o calendário juliano, ou em 1 de Julho de 1128, segundo o calendário gregoriano), aquando D. Afonso Henriques e os portucalenses derrotaram os galaico-leoneses de Fernão Peres de Trava, com o espancamento e prisão a ferros da sua mãe Dona Teresa, tal como o de ter partido a perna ou as pernas e ser feito prisioneiro pelo seu primo D. Afonso VII no pressuposto desastre da tomada militar de Badajoz, no limite de Olivença que viria a ser, em 1230, terra portuguesa, conquistada pela Ordem do Templo saída de Elvas para aí[12]. Também pertence ao imaginário o episódio de D. Egas Moniz ter ido com corda de enforcado, com a sua família, entregar-se à justiça de D. Afonso VII por D. Afonso Henriques ter quebrado os acordos de não invadir a Galiza, no que ele empenhara a sua palavra de honra, quando na verdade fora o monarca leonês quem quebrara o acordo firmado por seu pai D. Afonso VI de doação da terra galega ao conde D. Henrique, por altura do casamento de Estado, hoje dir-se-ia de conveniência, deste com Dona Teresa, filha bastarda daquele.

D. Afonso Henriques bateu ou bateu-se com a sua mãe? Isto porque haviam dois partidos, o portucalense e o galaico, em declarado confronto político-militar. O episódio já de si legendário nada tem a ver com quaisquer razões passionais particulares, tem a ver com o partido galego encabeçado pelo conde Fernão Peres de Trava (c. 1100 – Santiago de Compostela, 1.11.1155), da poderosa família Trava, que pretendia englobar o Condado Portucalense no domínio condal da Galiza através da viúva D. Teresa com quem vivia em mancebia, ela já de si galaico-leonesa. Ora, D. Afonso Henriques pretendia o contrário: englobar a Galiza em Portucale, essa que fora oferecida por D. Afonso VI ao seu pai D. Henrique de Borgonha, compromisso que D. Afonso VII rasgou, repito. Donde o conflito político-militar que se seguiu, com a derrota das forças galaico-leonesas na batalha de S. Mamede, tendo o filho sitiado a mãe e a obrigado a assumir os antigos compromissos firmados com o seu finado marido. Por conseguinte, D. Afonso Henriques bateu-se, não bateu na mãe. Mas as estórias implausíveis são mais fáceis de tragar que os factos plausíveis, sobretudo para quem vive a banda-desenhada e sonha ser espadachim de capa e espada.

O mais que se pode dizer é ter sido D. Teresa quem entregou o infante Afonso Henriques aos cuidados do poderoso nobre duriense D. Egas Moniz, cognominado o Aio, concedendo-lhe o cargo de “príncipe colimbriense”, que depois ela lhe retirou para os dois leoneses Fernando e Vermudo Peres. Mas a dedicação do Aio ao Infante de Portucale e à causa da independência levou depois esse a nomeá-lo dapifer curiae (mordomo-mor), além de lhe conceder numerosas doações e privilégios que o tornaram um dos nobres mais poderosos do seu tempo: pertenceram-lhe as terras de Tarouca, incluindo Lalim e Ribelas, e também os paços de Britiande e de Dálvares, na margem esquerda do rio Barosa, além de lhe terem sido devolvidas as posses que lhe retiraram durante o consulado do de Trava, e oferecidas outras pelo próprio rei portucalense como recompensa pelos prejuízos sofridos. Isto sem contar com as terras por ele coutadas à Abadia de Santa Maria de Salzedas, onde supostamente decorreu boa parte da infância de Afonso Henriques.

D. Egas Moniz nasceu por volta de 1080 (segundo o calendário juliano, já então em vigor em Portugal), filho de Monio Ermiges de Ribadouro e de Ouroana, da família dos Gascos, no território condal de Riba Douro (Ribadouro), ou seja, entre o Douro e o Minho[13]. Rico-homem portucalense, ao “honrado e bem-aventurado D. Egas Moniz de Ribadouro”, como consta nas Inquirições do século XIII, e a sua esposa Dordia Pais, é cometida por D. Teresa de Leão a criação e educação do infante Afonso Henriques após a morte do seu pai em 1112. Por volta de 1126, em resultado de viuvez, D. Egas Moniz contrai novo matrimónio com D. Teresa Afonso, filha do conde D. Afonso Nunes, jovem mulher de preciosos dotes pessoais, futura Meana (“minha Senhora”) das gentes de Ribadouro, a mulher portucalense mais louvada do seu tempo. D. Egas Moniz faleceu em 3 de Agosto de 1146 e foi sepultado no Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, Penafiel, fundado no século X por D. Godo Trutesindo Galindes, seu ascendente que aí ergueu o seu paço.

Observando o tempo de vida de todos os monarcas da primeira Dinastia – de 1109 a 1383 – conclui-se que D. Afonso Henriques foi o único a chegar aos quase 80 anos de idade: faleceu com 79 anos (1106-1185). Senão, veja-se as idades de falecimento dos seus descendentes: D. Sancho I, 57 anos; D. Afonso II, 37 anos; D. Sancho II, 39 anos; D. Afonso III, 68 anos; D. Dinis, 64 anos; D. Afonso IV, 66 anos; D. Pedro I, 46 anos; D. Fernando I, 37 anos. Dos nove monarcas só quatro foram sexagenários, uma fracção menor verificando-se o caso ímpar de ter vivido, no geral, mais uma década que os mais velhos dos seus descendentes[14]. Atingir 79 anos de idade, no começo do século XII, era uma proeza só reservada a alguns humanos gozando de saúde excepcional. Terá sido o caso de D. Afonso Henriques, ou haverá conjunção de factores remetendo para análise mais ousada?

Sabe-se que Henriques era a forma medieva de se indicar que Afonso era filho de Henrique. Sabe-se também Egas Moniz tinha um filho, chamado igualmente Afonso, O Moço, para o distinguir do filho de D. Teresa, como seja Afonso Viegas de Ribadouro (1110-1165), fruto do seu primeiro casamento[15]. Também se sabe acerca das lutas constantes entre as dioceses de Braga, Compostela e Toledo para determinar a qual se deveria obediência, por razões de importância geopolítica e antiguidade. Igualmente se sabe do clima de intriga e conflito entre os grandes senhores de Entre-Douro-e-Minho e os da Galiza, procurando uns desligarem-se dos laços de dependência e outros demandando o seu reforço. Há conhecimento de igual disputa ter existido entre o conde D. Henrique de Portucale e o seu primo D. Raimundo, conde da Galiza, desacordo prolongando-se para além de ambos através das suas viúvas com os apoios dos grandes senhores de ambas as regiões[16].

Sabendo-se de tudo isso, acode então a possibilidade de:

O filho do conde D. Henrique e de D. Teresa não ter sobrevivido à maleita apresentada aquando do seu nascimento: tolheito das pernas, segundo a Crónica de 1419, condição que o professor José Mattoso considerou improvável dada a distância temporal entre os acontecimentos e a escrita do relato[17].

– Egas Moniz, na defesa do interesse daqueles que desejavam libertar-se da dependência dos barões galegos, ter substituído o filho dos condes de Portucale por um filho seu, daí resultando a necessidade de cognominar o seu Afonso de O Moço.

– Para reforçar a certeza da sua atrevida decisão, fez-se marcar que o outro Afonso era o Henriques, que perdurou ao longo dos séculos[18].

Essa hipótese pode encontrar lastro de verosimilhança na longevidade de D. Afonso I de Portugal. Com efeito, se se tivessem verificado as condições antes expostas, a única coisa que Egas Moniz não poderia alterar era o ano de nascimento do filho dos condes de Portucale. Assim se justificaria a longevidade do primeiro rei de Portugal, porque o substituto teria nascido alguns anos depois do verdadeiro Afonso Henriques. O episódio lendário do velho Aio apresentar-se em trajes de condenado com baraço ao pescoço diante de Afonso VII pelo facto de Afonso, dito Henriques, ter faltado à palavra dada, desmente a curiosa teoria: poderia admitir a culpa por aquele ser filho dos condes Henrique e Teresa, mas jamais admitiria a culpa do seu próprio filho, ou não se teria entregue acompanhado da sua restante família, incluindo O Moço.

Conforme registam as fontes históricas, as origens genealógicas do primeiro rei de Portugal são as seguintes:

Genealogia paterna. D. Afonso Henriques era, através de seu pai, o conde D. Henrique, bisneto de Roberto, o Velho, duque de Borgonha (m. 1076), e trineto do pai deste, o rei de França Roberto II, o Pio (c. 970-1031). Este último era nada menos que filho de Hugo Capeto (938-996), fundador da dinastia francesa dos Capetos, tetravô do nosso primeiro rei[19].

Genealogia materna. A mãe de D. Afonso Henriques era filha do rei da Galiza, Leão e Castela, D. Afonso VI, o Bravo (Santiago de Compostela, Junho de 1040 – Toledo, 1 de Julho de 1109), reconquistador de Toledo (1085), primitiva capital da Hispânia, intitulando-se desde 1077 imperator totius Hispaniae (“imperador de toda a Hispânia”). Este era filho do rei de Leão e Castela Fernando I, o Magno (1016-27.12.1065), cujo pai era Sancho Garcês III de Pamplona, o Grande (c. 991-18.10.1035), reinando em Navarra desde 1004 até 1035 (trisavô, pois, de D. Afonso Henriques). D. Teresa era filha ilegítima de Afonso VI com Ximena Moniz, nobre leonesa filha da condessa Velasquita Moniz e de Munio Moniz, conde de Bierzo, como indiquei no início deste estudo. Casou com D. Henrique de Borgonha com treze anos de idade, tendo ele vinte e quatro. Depois de enviuvar, D. Teresa governou o Condado Portucalense como rainha por direito próprio, sendo reconhecida como tal pelo Papa Pascoal II (bula Fratum Nostrum de 18 de Junho de 1116), pela sua irmã Urraca de Galiza, Leão e Castela, e depois pelo seu sobrinho Afonso VII de Galiza, Leão e Castela. A partir de 1117 assina como “Ego regina Taresia de Portucalis regis Ildefonssis filia”. Pressupõe-se a sua intenção de tornar o Condado Portucalense parte integrada na Galiza mas esta como reino independente de Leão e Castela. Tal desagradou à sua meia-irmã D. Urraca, cujo exército atacou o daquela que recuou, derrotado e disperso desde a margem esquerda do rio Minho, indo D. Teresa refugiar-se no castelo de Lanhoso, onde foi cercada em 1121. Em posição de inferioridade, conseguiu ainda negociar o Tratado de Lanhoso pelo qual salvou o seu governo do Condado Portucalense. Nessa revolta galaico-portucalense esteve o seu futuro amante, o poderoso Fernão Peres de Trava, que chegou a governar o Porto e Coimbra e a firmar com Teresa importantes disposições e documentos no Condado Portucalense, como descreve a Cronica Latina de los Reys de Castilla ou Chronica latina regnum Castellae, escrita no segundo quartel do século XIII[20]. Da aliança e ligação de D. Teresa com o conde galego nasceram duas filhas, Sancha Fernandes de Trava e Teresa Fernandes de Trava, portanto, meias-irmãs de D. Afonso Henriques, cuja descendência estaria destinada a governar o Condado Portucalense. Isso indispôs contra ela a nobreza portucalense e o seu próprio filho legítimo, D. Afonso Henriques. O resto é conhecido do geral, tendo com o reconhecimento papal pela bula Manifestus Probatum, de 23 de Maio de 1179, de Alexandre III, iniciado oficialmente o país independente que é hoje Portugal.

NOTAS

[1] Luiz de Mello Vaz de São Payo, A Herança Genética de D. Afonso Henriques. Universidade Moderna, 1.ª edição, Porto, 2002.

[2] Miguel Sanches de Baena, Paulo Alexandre Loução, Grandes Enigmas da História de Portugal, volume 1. Editora Ésquilo, Lisboa, 2009.

[3] D. Diogo de Souza, História de Portugal desde os tempos primitivos até à fundação da Monarchia e d´esta epocha até hoje. Typographia de Jose Carlos d´Aguiar Vianna, Lisboa, 1852.

[4] Filipe Alves Moreira, A Crónica de Portugal de 1419: Fontes, Estratégias e Posteridade. Faculdade de Letras do Porto, 2010.

[5] António Brochado da Mota, Testamentos Régios – Primeira Dinastia (1109-1383). Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, Setembro 2011.

[6] João Soalheiro, São Teutónio assiste o Rei D. Afonso Henriques. In “Arte, Poder e Religião nos Tempos Medievais. A Identidade de Portugal em construção”. Edição Câmara Municipal de Viseu, 2009.

[7] Duarte Galvão, Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso Henriques, primeiro Rey de Portugal. Officina Ferreyriana (Miguel Lopes Ferreyra), Lisboa Occidental, 1726.

[8] Rui de Azevedo, Documentos falsos de Santa Cruz de Coimbra (séculos XII e XIII). Edição José Fernandes Júnior, Lisboa, 1935.

[9] D. Luís Gonzaga de Lancastre e Távora, Marquês de Abrantes, O Estudo da Sigilografia Medieval Portuguesa. Instituto da Cultura e Língua Portuguesa – Ministério da Educação, Lisboa, 1983.

[10] Hervé Baron Pinoteau, Nouvelles recherches sur les origines des armes de Portugal. In Genealogia & Heráldica, Lisboa, 1986. Actas do 17.º Congresso Internacional das Ciências Genealógicas e Heráldica, Instituto Português de Heráldica, Lisboa, 1989.

[11] Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas, dois volumes compostos a partir de uma colectânea de histórias publicadas, entre 1839 e 1844, nas revistas O Panorama e A Ilustração. Casa da Viúva Bertrand, Lisboa, 1851.

[12] Manuel Martínez, Olivenza y el Tratado de Alcañices. Ayuntamiento de Olivenza, 1997.

[13] Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, fragmento manuscrito do século XIV. Edição de Teresa Brocardo. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, Janeiro de 1970.

[14] Carlos da Silva Tarouca, Crónicas dos sete primeiros Reis de Portugal. Edição crítica. Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1952.

[15] A. de Almeida Fernandes, A acção das linhagens no repovoamento. Porto, 1960.

[16] Alexandre Herculano, História de Portugal, tomo I. Editora Bertrand, Amadora, 1980.

[17] José Mattoso, D. Afonso Henriques. Edições Temas e Debates, Lisboa, 2007.

[18] Duarte Galvão, Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques. Editora Escriptorio, Lisboa, 1906.

[19] D. Antonio Caetano de Sousa, Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, tomo I. Officina de Joseph Antonio da Sylva, impressor da Academia Real, Lisboa Occidental, 1735.

[20] Obra editada pelas Ediciones Akal em Madrid, Abril de 1999.

Alcobaça e o Milagre de Cister – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Ago 18 2021 

Milagre que é a própria Abadia Real de Santa Maria de Alcobaça, já de si nascida da promessa do primeiro rei de Portugal ao abade de Claraval se conquistasse a poderosa Santarém ao agareno, o que ele confirmou ao ter uma visão do acontecimento na floresta de Citeaux, indo anteceder a certeza da vitória cristã das armas portucalenses.

D. Afonso Henriques cumpriu a promessa feita ao abade de Claraval, São Bernardo de Fontaine, borgonhês dijoniense seu primo direito por parte de seu pai, o conde D. Henrique, que nascera em Dijon em 1066, sendo o quarto filho dos duques Henrique e Sibila, regentes da Borgonha Baixa[1].

A poderosa e rica Santarém agarena foi conquistada de surpresa, num assalto nocturno ao castelo, em 15 de Março de 1147, tendo D. Afonso Henriques contado com a força militar da Ordem do Templo que tomou a dianteira no ataque, como descreve De expugnatione Scalabis [2], ela já de si inteiramente ligada à pessoa de São Bernardo que lhes dera (1128) a Regra de Vida (De laudae novae militiae ad milites Templi), cimento da disciplina monástica e castrense dos cavaleiros. A vitória da conquista escalabina foi atribuída a Santa Maria pelo próprio santo de Claraval, ela a Padroeira da Iniciação Senhorial ou Cavaleiresca. Logo os templários instalaram-se na cidadela ou alcáçova – al-qasbah – indo fundar, em 1154, a igreja-colegiada de Santa Maria da Alcáçova, por iniciativa do seu Mestre D. Hugo Martins e promoção de D. Frei Pedro Arnaldo, eleito comendador de Santarém. Ela ficaria como igreja assistencial do primitivo paço real[3].

Nessa ocasião de 1147, o rei D. Afonso entregou todo o direito do Eclesiástico escalabitano à Ordem do Templo, em carta de doação descrita pelo cisterciense Frei António Brandão, historiógrafo do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça[4]:

“Em nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espírito Santo. Eu, D. Afonso, por graça de Deus, rei dos portugueses, começando minha jornada para o castelo, que se chama Santarém, propus em meu coração, e fiz voto, que Deus por sua misericórdia me concedia, lhe ofereceria todo o direito eclesiástico e aos cavaleiros e mais religiosos do Templo de Salomão, que residem em Jerusalém em defensão do Santo Sepulcro, alguns dos quais me acompanharam nesta empresa. E porque o Senhor me fez tão grande mercê que deduziu a próspero fim meu desejo, portanto eu, D. Afonso, sobredito rei, com minha mulher a rainha D. Mafalda, fazemos doação aos cavaleiros nomeados de todo o direito eclesiástico de Santarém, para que o tenham e possuam, assim eles como seus sucessores, para sempre, de modo que não se entremeta nele pessoa alguma secular nem eclesiástica.

“Feita esta escritura no mês de Abril da era de 1185 [1147 da era cristã].”

A mais-valia da posse do Eclesiástico de Santarém pela Ordem do Templo, na prática dando-lhe domínio total da riquíssima região, desagradou às ambições do recém-nomeado bispo de Lisboa, Gilbert Hastings, inglês que acompanhara os cruzados na conquista da velha Olisipo, provocando um pleito entre o Templo e a Diocese olisiponense que se arrastou até 1159, quando o monarca interviu com a força da diplomacia conseguindo que os templários desistissem a favor do bispo de Lisboa e em troca recebendo toda a região de Ceras/Tomar[5].

Ciente da sua promessa feita a Claraval, D. Afonso Henriques ao passar pela Serra de Albardos, vindo de Coimbra para a tomada de Santarém, avistou do alto as terras vastas em baixo, logo decidindo que nelas iria mandar construir o mosteiro para os “monges brancos” de Cister, cor que os distinguia negra dos beneditinos. Faltava só escolher o local. É quando entra a lenda. Segundo Frei Bernardo de Brito na Crónica de Cister (Alcobaça, 1597), o rei português era de braço forte e arremessou uma seta ou talvez uma lança que foi cravar-se no vale abaixo, na Quiqueda (Chiqueda, Chequeda ou Chaqueda), no lugar do Vale da Ribeira do Mogo, vizinho da nascente do Rio Alcoa que nasce nessa serra. Logo D. Afonso decretou: Aqui queda (“aqui fica”), decidindo que aí seria implantado o edifício. Fizeram-se as medições do terreno e gizaram-se os caboucos, mas logo durante a noite os Anjos alteraram tudo indo dar preferência ao espaço a três quilómetros daí, respeitando-se a sua vontade.

Possivelmente o forte braço de D. Afonso Henriques seria antes a braça feita manualmente, e a seta/lança a vara de medição, cuja unidade de medida linear seria o antigo pé real (“pied du roi”), como princípio metodológico da construção, no que não deixa de remeter para os princípios da geomancia e da geometria manual ou a praticada “a olho”. Para isso, o monarca terá recorrido ao auxílio dos monges cistercienses de São João Batista de ‘Vellaria’, em Tarouca (distrito de Viseu), que aí tiveram a sua primeira casa, primeiro como eremitério beneditino (1140) e depois cisterciense (1144), tendo a Ordem de Cister sido fundada em Citeaux (1098), vindo a ser trasladado para junto do Rio Varosa como mosteiro cisterciense a partir de 1152, dependente da Abadia de Claraval que para aí enviou um grupo de monges franceses a fim de reformar o antigo cenóbio tanto na doutrina como na arquitectura, dando-lhe a feição clássica bernardina[6]. Terão sido esses “anjos” ou liberi muratori (monges construtores) quem decidiu da impossibilidade de se construir no local escolhido pelo rei, preferindo o outro de Alcobaça.

Assim, em 8 de Abril de 1153, D. Afonso Henriques, por carta de couto, doou à Ordem de São Bernardo de Claraval vasto território de couto com a condição de se fundar um mosteiro de monges bernardos ou cistercienses no lugar de Alcobaça, promovendo o povoamento e o arroteamento das terras conquistadas aos mouros. Os doze religiosos de Claraval idos para aí, acompanhados de outros tantos vindos de São João de Tarouca, em 1157 já tinham erguido as instalações precárias de madeira da sua comunidade, a chamada Abadia Velha, Mosteiro Velho ou Santa Maria-a-Velha (actual igreja de Nossa Senhora da Conceição), ano esse em que o soberano os isentou do pagamento de portagem em todo o reino, privilégio acrescido, em 1164, da bula de isenção do poder episcopal, no que o seu superior, Dom Abade, se tornou a pessoa mais poderosa do reino logo a seguir ao rei.

Seguindo rigorosamente a planta da Abadia de Claraval, em 1178 começou a ser construído o edifício do mosteiro abacial definitivo – o Mosteiro Novo – apesar das incursões almóadas de 1184 e 1195, nisso os bernardos gozando da protecção dos cavaleiros templários. A vinda de mais religiosos franceses de Claraval permitiu concluir as obras do edifício, sendo habitável em 1222. A igreja foi concluída em 1223 e sagrada em 1252 [7]. Assim se edificou no país a primeira igreja mosteiral gótica, estilo de more nostro, “do nosso modo”, como já se pensava desde 1150 no seio de Cister, ou seja, de formas ogivais sinaléticas de ascese, de elevadas paredes alvas despidas com a luz reflectida nelas por vitrais, criando o ambiente ascético propício ao desprendimento, à meditação e contemplação, tudo dentro da estética da regula vitae no espírito bernardino, indo assim o gótico cisterciense sobrepor-se ao românico beneditino.

Por ocasião da doação do couto de Alcobaça, tendo o Cister alcobacense se tornado praticamente cabeça da Ordem em Portugal, D. Afonso Henriques recebeu não em Lisboa mas em Coimbra os primeiros cinco emissários franceses de São Bernardo, chefiados pelo monge Rolando ou Rolandus, “filios noster” no dizer do abade de Claraval, portador de uma carta daquele dando reconhecimento do estado real de Afonso, e os quais em 1154 já estariam no exercício de construtores[8]. Como diz Ernesto Korrodi[9], “não se limitou a Ordem a destacar homens, embora de vasto saber, sujeitos a recursos alheios; não vieram, tampouco, munidos de um simples plano esquemático com liberdade de edificar segundo os usos do país, conquanto dentro de rigorosas prescrições quanto a dimensões e localização das diversas dependências do seu estabelecimento.

“Eram eles mesmos em pessoa os arquitectos e condutores da obra, conhecedores dos variados misteres e processos de trabalho que se prendiam com a realização de uma construção de tamanho vulto. Se assim não fora, como explicar a existência em Portugal de uma obra tipicamente borgonhesa, desde os mais insignificantes pormenores arquitectónicos até ao tipo característico das cornijas, desde a estrutura geral até à forma gaulesa das elevadas coberturas, outrora munidas de telha de escama, sem tradição na Península?”

O que se disse até aqui está descrito em painéis de azulejos do século XVIII legendados – lidos da esquerda para a direita – com fonte na Crónica de Cister de Frei Bernardo de Brito, na Sala dos Reis deste mosteiro, assim descritos por Frei Maur de Cocheril[10]: “Voto de D. Afonso Henriques em fundar o mosteiro, caso conquistasse Santarém; São Bernardo toma milagrosamente conhecimento do projecto de D. Afonso Henriques e reza com os monges; cinco monges de Claraval encontram-se com o rei em Coimbra; o rei conquista Santarém; São Bernardo toma milagrosamente conhecimento da conquista; São Bernardo recebe uma carta do rei; os Anjos traçam e medem o mosteiro no céu e trasladam-no; o rei depõe a primeira pedra”.

Os princípios geomânticos que estiveram na base da escolha do local tiveram em linha de conta factores tão importantes como o encontro preciso, naquele local, dos rios Alcoa e Baça, formando aquilo que habitualmente se chama bifurcação cisterciense, característica da fundação de outros mosteiros na confluência de dois rios (como Tarouca, por exemplo). Este facto seria fundamental para garantir uma bacia irrigada e rica em água, necessária para o funcionamento da grande abadia; por outro lado, embora devam ter pesado imperativos estruturais, não deixa de ser curioso verificar a posição do claustro à esquerda do templo, como se se tratasse do espelhamento das fundações cistercienses francesas, e, de algum modo, o próprio espelhamento induzido pela milagrosa intercessão divina por intermédio dos Anjos[11].

Nos supraditos painéis de azulejos vêem-se os Anjos gizando e medindo no Céu as bases deste edifício, o que D. Afonso Henriques com os seus acólitos – monges construtores – imitam na Terra, na mais literal consumação do princípio hermético de “o que está em cima é como o que está em baixo”.

Tais Anjos serão os que possuem a Sabedoria Celeste ou Divina com os segredos da sua aplicação justa e perfeita na Terra, nisso sinónimos Mestres Construtores dessa primitiva Maçonaria Operativa nos evos da memória, igualmente apodada de Arte [Real] de Anjos, testemunho que se repete na sala ou gruta de fresco do Palácio Real de Sintra[12].

Filologicamente, é crença comum que da bifurcação dos rios Alcoa e Baça nasceu o topónimo Alcobaça. Poderá ser, mas atendendo-se a que Alcobaça provirá dos verbos aramaicos Al, “Espírito”, e Aku, “Santo”. Donde Alaku-Batha, em aramaico, e a sua variante Alku-Batza, significando “Templo do Espírito Santo”. Terá sido este motivo filológico a levar Frei Bernardo Brito, na Crónica de Cister, a consignar esta Real Abadia como Nova Jerusalém.

Foi a partir deste Mosteiro de Santa Maria – onde funcionou a primeira escola pública a partir do século XIII, a primeira livraria e a primeira botica (farmácia) e enfermaria também pública, igualmente primando como oficina de imaginária e iluminura, sempre encabeçando a assistência e beneficência ao geral numa notável acção civilizadora – que se criou na região os primeiros elementos de civilização histórica, sendo um dos berços claustrais onde a poderosa individualidade de Portugal nascente adquiriu robustez e apurou o engenho.

Motivo suficiente para o programa da Real Abadia de Alcobaça ser inteiramente “nacional”, como se regista no Sala dos Reis onde os monges barristas do século XVII criaram as imagens policrómicas de todos até D. José I, com exclusão dos três Filipes de Espanha. Ao fundo, centralizado, vê-se a coroação de D. Afonso Henriques ajoelhado acolitado pelo Abade São Bernardo de Claraval (seu familiar e tutor espiritual) e não o Papa Eugénio II (ao contrário do que afirmam alguns) mas o Papa Alexandre III, este que na bula Manifestus Probatum (23.5.1179) declarou o Condado Portucalense independente do Reino de Leão e D. Afonso seu Rex.

As doações que, através dos sucessivos reinados, lhe foram sendo feitas pelos monarcas, vieram a constituir vastíssimo domínio de terrenos, campinas e montes estendendo-se até ao mar: os coutos de Alcobaça. Constituíam-nos treze vilas numa espécie de geografia sagrada, a cogula branca segundo os monges, expressiva do Zodíaco centralizado no Sol alcobacense: Alcobaça, Aljubarrota, Évora, Turquel, Cós, Maiorga, Cela, Alfeizarão, Pederneira, São Martinho, Santa Catarina e Paredes, sendo três destas vilas portos de mar[13].

O Dom Abade do Mosteiro de Alcobaça era personagem predominante na sociedade portuguesa. Cabiam-lhe os títulos e privilégios de “Senhor dos Coutos, Donatário da Coroa, Esmoler-mor, do Conselho de El-Rei, Fronteiro-mor”. Era senhor de águas e ventos (moinhos de água e de ar) e das treze vilas onde mantinha direito cível e de crime[14]. Era o primeiro, em seguida aos bispos, na hierarquia eclesiástica. Nos coutos não se bradava por aqui-del-rei, bradava-se por aqui-do-abade. O próprio mosteiro, em 1567, passa a ser oficialmente cabeça da Ordem de Cister em Portugal, quando a Santa Sé criou a congregação cisterciense portuguesa tendo por Abade Geral o de Alcobaça[15], sendo eleito o Cardeal-[Rei] D. Henrique.

Para celebrar a glória martiriológica da Igreja e salientar a santidade desta Real Abadia, foi edificada a capela-relicário entre 1669-1672, integrada no topo da sacristia nova, durante o abaciado de Frei Constantino de Sampaio, cuja suprema beleza e espiritualidade fez com que Reynaldo dos Santos a consignasse “Espelho do Céu”[16], tendo as figuras de São Bento à direita e a de São Bernardo à esquerda, envergando os respectivos hábitos beneditino e cisterciense.

Há um sentido ocultado na exposição do relicarium: as relíquias de santos numa igreja, como acontece nesta (também, por exemplo, nas igrejas de São Roque e da Madre de Deus, em Lisboa, ou na Basílica Real de Santa Maria da Conceição de Castro Verde), eleva-a a espaço mais que sagrado, santificado, por participar corporalmente da presença espiritual daqueles, isto mesmo que as relíquias acaso tenham sido substituídas ou furtadas entretanto, mas tendo ficado o sinal da santificação, da comunhão dos santos num chão já de si sagrado, com tal vindo espelhar os benefícios do Céu.

A figura evocativa de São Bernardo é constante aqui, facto que alguns desprevenidos mais inflamados dão como prova da presença da Ordem dos Templários nesta abadia, só por por o santo ter tido influência determinante nas duas Ordens de Cister e do Templo. Eram congregações distintas, São Bernardo chegou a proibir a migração da freiria de uma para outra para evitar confusões na mistura das fórmulas de vida das respectivas. O facto é mais simples: os monges brancos bernardos davam assistência espiritual aos cavaleiros brancos templários, e estes retribuíam com a assistência corporal, militarmente falando. Mas eram Ordens distintas: um cisterciense só entrava em casa templária como convidado ocasional, não para contrair votos, o mesmo acontecendo a qualquer templário.

Aliás, nos estatutos ou deliberações dos Capítulos Gerais de Cister são escassas e de pouca importância as referências aos templários. Uma, de 1200, diz respeito à mediação de um abade num pequeno conflito, logo sanado, entre uma casa templária e uma abadia cisterciense: “Querela quae versaturinter domum Ulmeti et Templarios, committitur abbati Bonae vallis, compositione vel iudicio terminanda” [17].

Uma outra, muito mais interessante, de 1151, relata o caso de um cavaleiro templário que tomou o hábito cisterciense de forma irregular, com a cumplicidade de monges de Cister. Ao saber do caso, São Bernardo denunciou-o ao Capítulo e o cavaleiro foi expulso (templaris militis per fraudem admissi causa)[18]. Os templários protestaram e recorreram ao Sumo Pontífice, sendo um abade, involuntariamente implicado no caso, castigado. São Bernardo escreveu então uma carta ao próprio Eugénio III, rogando a absolvição do dito abade, adiantando que os cistercienses “não podiam receber o templário no seu claustro, por não estar permitido”. Essa posição do abade de Claraval não era arbitrária, e no mesmo ano de 1151 a bula Militum Templi professio de Eugénio III estabeleceu a proibição da migração de freires do Templo para outras Ordens. Norma idêntica era estipulada pelos estatutos da Ordem do Templo, segundo os quais um cavaleiro que tivesse estado noutra Ordem e nela tivesse feito voto ou promessa seria despojado do seu hábito[19].

Apesar da proximidade existente entre templários e cisterciense, devido à referência comum de São Bernardo, a barreira da Regra e Estatuto separava, pois, o monge professo e o religioso militar. Ainda assim, houve a excepção do Mestre do Templo Everardo de Barres, que após abdicar do cargo ingressou na abadia de Claraval, vestindo o hábito branco de Cister, tendo aí morrido já em tempos pós-bernardinos (em 1174 ou 1176)[20].

Sendo abolida in bula a Ordem do Templo em 1312 no Concílio de Viena, pelo Papa Clemente V emitindo a bula Vox clamantis, nunca tendo havido nenhuma ex bula papal até hoje, o rei D. Dinis e a rainha D. Isabel iniciaram uma nova era de protecção e benefícios aos antigos cavaleiros templários indo aproximá-los, na exclusividade do espírito bernardino, da Ordem de Cister. Os monarcas, prosseguindo a política dos pontificados de Bonifácio VIII e Bento IX, impuseram ao chantre de Lisboa a devolução ao mosteiro de Alcobaça dos bens e direitos que tinham sido alienados por serem pertença dos templários. Isso levou à imensa prosperidade de Cister no reinado dionisino a nível económico e cultural, e depois de criada a nova Ordem Militar dos cavaleiros de Nosso-Senhor Jesus Cristo, prosseguidora da dos Templários, em 1319 é concedida ao abade de Alcobaça jurisdição espiritual e autoridade para reformar e visitar a nova Milícia, o que reforçou os direitos dos cistercienses. Como prova dessa superioridade, o Capítulo Geral da Ordem de Cristo, realizado em 1 de Dezembro de 1328, contou com a presença do abade de Alcobaça e do rei D. Afonso IV, o que fez da instituição cisterciense um elemento sempre presente com largas responsabilidades na administração espiritual e institucional da Ordem de Cristo[21]. E sempre com a prudência de não confundir a estrutura organizacional das mesmas, mantendo a posição de distanciar e distinguir o monge professo do religioso militar, mesmo que sob o Orago comum do padre santo Bernardo[22].

Se além de ilustrada e laboriosa a freiria alcobacense era igualmente nada frugal, tem-se a “prova” disso na porta estreita “pega-gordo” na cozinha monumental da abadia, pela qual um monge mais obeso não passava e corria o risco de aí ficar entalado até emagrecer. Isto conta a vox populi. Nada mais falso e nada mais jacobino. A regra cisterciense prescrevia a austeridade alimentar com dias de jejum e abstinência, sendo a carne e a gordura proibidas excepto aos enfermos. O Papa Alexandre VII, em 1666, autorizou o seu consumo comedido uma vez por semana, nos restantes dias continuaria a ser na base de legumes acompanhados de algum pescado. Isso ia ao encontro da Regra Velha de Cister como consta da carta de Estêvão, bispo de Tournais, a Roberto de Pontigny (século XII), estipulando no artigo 5: “Do suor do rosto nutrem-se do pão, e nem o ócio ou algum alimento incomum faz com que se excedam. Tamanha é a parcimónia no alimentar-se que se servem tão somente de duas iguarias, as quais fornece ou a lavoura de legumes ou de hortaliças. Tão raramente usam do peixe que é bem mais comum entre eles ouvir falar a respeito do que ver”.

Isso vem contrariar os tão falados “bois inteiros assados atravessados por grandes espetos” no forno dessa cozinha monumental, que a ser destinavam-se exclusivamente aos momentos especiais quando alguma sumidade ilustre da sociedade civil ou a própria corte se instalava provisoriamente no mosteiro, a maioria das vezes acompanhando os monarcas. A dita porta estreita, com cerca de 2 m de altura por 32 cm de largura, liga ao refeitório dos monges que lhe chamavam “passa-pratos”, por servir para os passar durante as refeições. Ademais, a cozinha não é a original, foi construída do século XVIII sobre o antigo calefetório (única dependência aquecida do mosteiro, onde trabalhavam os monges copistas), sendo de 1752 o seu revestimento de azulejos.

Assim se chega à figura bonacheirona de má-fama popular do “freire abade barrigudo” vencido pelo pecado da gula, por certo terá nascida do imaginário anti-eclesiástico do século XIX invejando a boa-fama da rica e variada doçaria conventual e outras especialidades gastronómicas aqui fabricadas, com as receitas de muitas chegando até hoje, na época vendidas ao exterior para sustento da casa. “Se avalias a quantidade de benefícios que provêm deles para o povo, muito mais conferem à comunidade do que comunidade a eles” (artigo 6 da carta de Estêvão)[23].

Voltando à relação Cister – Templo, também muito do património litúrgico dos cistercienses seria repassado aos templários, inclusive o musical. Desde o Saltério ao Hinário nas composições litúrgicas originais de São Bernardo, tal transparecia por igual nos cânticos do Templo e nos cantos de Cister[24]. Sempre São Bernardo, a maior sumidade de seu tempo que se desdobrou em mil e uma facetas, todas elas expressivas da sua genialidade, no que Ailbe Luddy diz sobre essa faceta dele como musicólogo reformador[25]:

“Nada foi feito até 1132. O cabido geral desse ano decidiu que esse trabalho não podia ser adiado por mais tempo. Bernardo, como autoridade suprema de cantochão da Ordem, foi incumbido de corrigir o gradual e o antifonário de acordo com o canto tradicional gregoriano, e de proceder a alterações em todas as passagens do texto que o exigissem. Todavia, como a causa da Igreja absorvia todo o tempo e atenção do abade santo, delegou esta tarefa num grupo de seus discípulos em cujos conhecimentos de assuntos musicais podia confiar plenamente. Entre estes encontravam-se Guilherme, fundador e primeiro abade de Rievaulx em Yorkshire, e Guido, fundador e primeiro abade de Cherlieu (Carus-Locus), na Borgonha. Este último já havia escrito uma obra sobre música intitulada Regulae de Arte Musica, manuscrito que ainda se conserva na biblioteca do Vaticano.

“As correcções efectuadas foram numerosas mas, relativamente, ligeiras. Embora o cabido geral, relutante em abandonar o costume em vigor, não desejasse sancionar algumas das modificações que a comissão julgou necessárias ou preferíveis (como está anotado no prefácio), ficou, não obstante, satisfeito com o resultado do trabalho. As alterações produzidas acham-se indicadas e justificadas num extenso e douto prefácio, vulgarmente atribuído a Bernardo e impresso entre os seus trabalhos com o título Tractatus de Canto; no entanto, é, mais provavelmente, obra de Guido, visto conter muitas passagens procedentes do seu livro De Arte Musica. Qualquer que haja sido o autor, mostrou profundo conhecimento da teoria de música em geral e de cantochão em particular, o que é surpreendente naquela época. A única contribuição confirmada de Bernardo para o antifonário revisto é a breve carta que antecede o trabalho, ordenando, em nome do cabido geral, o seu uso exclusivo quanto ao texto e à música em todas as casas cistercienses[26]. Esta determinação foi acatada fielmente. Os graduais e antifonários hoje utilizados nos coros cistercienses estão em perfeita conformidade com a edição bernardina.

“Alguns escritores modernos dedicaram-se seriamente às revisões cistercienses. O antifonário de Metz, ao que somos informados, merecia absolutamente a sua reputação de pureza; ao menos, quanto à sua música. O canto era genuinamente gregoriano. Os chamados defeitos e lacunas eram, na realidade, apenas particularidades do autêntico cantochão. Portanto, os correctores do antifonário estavam na verdade a alterá-lo! Trata-se, efectivamente, de uma acusação grave. Outros autores da mesma escola mostram-se mais moderados nos seus reparos. Assim, o douto Dom Johner da Abadia de Beiron contenta-se em dizer que “São Bernardo, abade de Claraval, com a assistência do abade Guido de Cherlieu, reajustou os livros corais para a Ordem Cisterciense, nos quais o compasso dos cantos se notava, não poucas vezes, mutilado, e alguns dos mais trabalhosos grupos de notas abreviados, embora sob outros aspectos tudo fosse tratado de maneira conservadora” (Nova Escola do Canto Gregoriano, pág. 195). Deve acentuar-se que na simplificação das neumas e na abreviatura de compassos, os revisores divulgavam serem guiados pelo respeito pela tradição e pelas regras de arte (como frisam no prefácio), e, de forma alguma, por princípios de ascetismo. Talvez a melhor réplica à acusação de deturpação do canto seja a sugerida pelo autor do admirável livro: Méthodedu Chant Grégorien à l´Usage des Cisterciens Réformés; apontar o facto de que o antifonário bernardino ainda em vigor entre os cistercienses não difere em aspecto algum importante dos antigos manuscritos publicados em Solesmes e representando os antifonários de Metz e S. Gall. E, onde se verificam diferenças, é impossível dizer que canto é mais autêntico, mais puramente gregoriano.

“Por muitas faltas que os críticos consigam descobrir em todas as teorias musicais e arranjos dos primeiros cistercienses, todos concedem que a sua execução do canto era totalmente admirável. Pedro de Roya fala com entusiasmo da sua salmodia, e Estêvão, bispo de Tournai (ob. 1203), escreve: “Com tanta devoção e solenidade celebram os cistercienses o ofício divino que se suporia os anjos mesclarem as suas vozes com a dos monges. Com salmos, hinos e cânticos espirituais convidam todos os homens a reunirem-se nas suas preces a Deus, e a imitarem na terra as funções dos espíritos celestiais” – Ep. 71.”

Nisso, a escala musical matematicamente colada à geometria das formas poderia igualmente aplicar-se à fachada ocidental dianteira desta abadia, e falei muito propositadamente no pretérito por ela não ser a original entretanto desaparecida, substituída no século XVII pelo monge construtor ou arquitecto bernardo Frei João Turriano (1611-1679). Trata-se de um empastelamento da sua estrutura medieval com o fim de integrar as suas linhas arquitectónicas românicas nas do estilo clássico, então em voga, e para enquadrar a fachada no grandioso conjunto dessa nova frontaria, com a extensão de cerca de 200 metros, deve-se convir que o construtor resolveu o problema de uma forma bastante hábil. Respeitando, sem mexer no interior, a posição e as dimensões da rosácea e as ventanas das naves colaterais, limitou-se a ornamental a fachada numa engenhosa transigência com as formas e os gostos barrocos e levar a mesma ao alinhamento do portal primitivo, antes saliente, de que resultou a sua conservação quase integral. Este portal gótico é o único elemento exterior da frontaria revelador da antiguidade da abadia. Os gigantes antigos, agora transformados em pilastras, marcavam nitidamente as proporções e a estrutura interna do templo.

Nessas obras de transformação suprimiu-se a monumental empena de resguardo à primitiva cobertura borgonhesa, que segundo a inclinação adoptada nos telhados da velha abadia (cujas empenas do transepto ainda estão de pé) devia alcançar uma altura não inferior a oito metros.

Assim, pois, segundo Ernesto Korrodi (ob. cit.), se conseguiu sem grandes demolições uma completa mutação de linhas e aspectos.

Aplicar, pois, a regra musical ao cálculo matemático da estrutura desta fachada – e para o fazer deveria ser sempre nas medidas cistercienses originais – como se ela fosse a primitiva original, só poderá resultar num gráfico imperfeito em perfeito exercício de fantasia, adaptando uma qualquer escala proporcional a medidas procuradas cuja lógica aparente descasa com a razão real por ausência das mesmas.

Foi sem dúvida o marquês Saint-Yves d´Alveydre no século XIX quem mais desenvolveu o tema da aplicação da regra musical à arquitectura e suas formas, dizendo: “As linhas horizontais e verticais, passando pelas divisões harmónicas das quatro cordas principais, constituem o primeiro gráfico da serpente musical. Disso procede que toda a obra de arte pode ser estabelecida em conformidade às leis científicas da harmonia”[27].

Atribuiu-se à Escola de Samos fundada por Pitágoras a origem dessa ciência[28], hoje chamada Aritmosofia, isto é, “sabedoria dos símbolos geométricos aplicados às relações matemáticas”. Mas à incoerência da aplicação indiscriminada da Aritmosofia a tudo quanto haja e por haver, chama-se aritmomania, ou seja, a compulsão para realizar diferentes ou repetidas operações aritméticas, sempre com o cálculo predeterminado para atingir o resultado pretendido.

Tomando os três níveis da fachada monumental, colando os mesmos às três notas fundamentais da escala musical (Mi, Sol, Dó) mais a quarta de Fá afim ao Fiat da Criação, ligando a disposição espacial ao simbolismo estatuário estrategicamente disposto, nisto descarecendo de quaisquer e desavisadas iluminações visionárias exóticas, como venho repetindo desde 1990, tem-se a leitura seguinte de que se subtrai a interpretação com valia esotérica/exotérica, aliás, em conformidade tanto com a teologia como com o hermetismo renascentista e humanista do período barroco:

Torres sineiras com pináculos dirigidos ao alto com Anjos ao pé da Cruz – Mundo Divino, Absoluto, Criador ou “Fiat” pela nota musical Fá. PAI NO PAI – Primeira Hipóstase do Primeiro Logos.

Andar superior: Virgem sobre Armas de Portugal – Mundo Celeste, Mãe Divina, Shekinah, nota musical Sol. PAI NA MÃE – Segunda Hipóstase do Primeiro Logos.

Andar médio: Virtudes cardeais (Fortaleza, Prudência, Justiça, Temperança) ladeando a rosácea – Mundo Humano, Filho, Metraton, nota musical Mi. PAI NO FILHO – Terceira Hipóstase do Primeiro Logos.

Andar inferior: São Bento e São Bernardo ladeado o portal gótico sobre a escadaria – Mundo Terreno, Espírito Santo, Merkabah, nota musical Dó. PAI NO ESPÍRITO SANTO – Humanidade de Cister expressando a Criação Universal do Primeiro Logos, no que dá este Templo como ‘Domus Spirito Sanctu’ ou a ‘Nova Jerusalém’.

Com isso, remato em desfecho com a Epístola de São Bernardo – Quid est Deus? Longitudo, latitudo, sublimitas et profundum (O que é Deus? Comprimento, largura, altura e profundidade.) – Da Consideração (1149-1152):

– O que é Deus? Comprimento, Largura, Altura e Profundidade. Empreguei aqui muitas palavras, no entanto o objecto a que se referem é um único. Designei o nosso Deus consoante o nosso modo de concebê-lo, e não como Ele é em si. Semelhantes distinções ou divisões pertencem-lhe, não como Ele existe na sua própria Natureza, mas apenas como é no objecto do pensamento humano. Por conseguinte, embora as palavras sejam muitas e os caminhos para procurá-lo diversos, o objecto significado pelas palavras é único. Deste modo, os quatro nomes acima mencionados não indicam divisões reais da Substância Divina, ou quaisquer dimensões físicas como vemos nos corpos humanos, distinções pessoais como adoramos na Trindade, número de propriedades como reconhecemos pertencerem às Pessoas Divinas, se bem que não objectivamente distintas das Pessoas. Na verdade, das quatro referidas, ou sejam: Comprimento, Largura, Altura e Profundidade, cada uma separadamente existe em Deus na forma em que existem todas juntas, e todas reunidas nada são mais do que separadamente. Porém, por nossa parte, como o nosso intelecto não pode representar perfeitamente a Simplicidade Divina, enquanto tentamos conceber Deus como único, manifesta-se no nosso espírito como quádruplo. Esta multiplicidade é devida à intervenção daquele espelho pelo qual nos é permitido vê-lo, ‘de uma forma obscura’ (I Cor. 13:12), enquanto vivemos aqui em baixo. Porém, quando nos for concedido vê-lo face a face, vê-lo-emos como Ele é verdadeiramente. Não devemos recear que a vista da alma, agora tão delicada, fique de modo algum deslumbrada pela refulgência, e dissolvida, por assim dizer, na sua multiplicidade anterior[29], por muito forçosamente aplicada que seja. Pelo contrário, recolherá e concentrará todas as suas energias, conformando-se assim à unidade do seu objecto, pelo que o rosto que contempla será tão simples como o Rosto contemplado. Desta forma se verificarão as palavras do Evangelista: ‘Seremos como Ele porque o veremos como é’ (I João 3:2).

O que é, portanto, Deus? Respondo: É Comprimento. E isso o que é? Eternidade. Tão extensa é a eternidade que não possui limites, que no espaço, quer no tempo. Deus é igualmente Largura. Perguntais-me o que é Largura? Caridade. Esta qualidade tão-pouco conhece limites em Deus que ama todas as coisas que existem e não odeia as que criou (Sabedoria 11:25). Portanto, os Seus próprios inimigos se acham incluídos na amplidão da sua caridade. Não se contenta com isto pois estende-se até ao infinito, ultrapassando não apenas tofo o poder finito como toda a faculdade criada de pensamento. Assim, o apóstolo, depois de nos aconselhar a ‘compreender com todos os santos o que é comprimento, largura, altura e profundidade’, diz-nos para ‘conhecermos a caridade de Cristo que ultrapassa todo o conhecimento’ (Efés. 3, 18:19). Que mais deverei dizer desta caridade? É eterna, ou antes (o que talvez seja mais grandioso) é a própria eternidade. Não aceitais que a Largura de Deus é tão gloriosa como o Seu Comprimento? Gostaria que entendêsseis igualmente isto: esta Largura não é apenas igual, mas idêntica ao seu Comprimento, aquela é o mesmo que este, ou os dois reunidos maiores que cada um deles. Deus é Eternidade. Deus é também Caridade; é Comprimento e Largura, mas em ambos é independente de todas as relações espaciais, em ambos transcende os acanhados limites de espaço e tempo, não por magnitude de capacidade, mas pela liberdade da sua natureza espiritual. Deste modo, Aquele que criou todas as coisas com medida, é em si incomensurável (Sabedoria 11:21); e, embora não possa ser medido, dispomos, não obstante, do modo de medir, por assim dizer, a sua vastidão.

Uma vez mais: o que é Deus? É Altura e Profundidade. Em Altura, encontra-se acima de todas as coisas; em Profundidade, desce abaixo de tudo. Por Altura devemos entender o Poder Divino, por Profundidade a Sabedoria Divina. Entre ambas existe uma relação de correspondência, similar à do Comprimento com a Largura; porquanto sabemos que a Altura é tão inacessível como a Profundidade insondável. São Paulo assim o testemunha ao pronunciar o grito de espanto e admiração: ‘Oh, as profundidades das riquezas da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão incompreensíveis são os seus julgamentos e misteriosas as suas maneiras!’ (Rom. 11:33). E nós igualmente, ao vermos, embora tenuemente, a mais absoluta unidade nestas perfeições de Deus e com Deus, poderemos gritar com o apóstolo: ‘Ó Poderoso Sábio, que dispõe as coisas brandamente!’ (Sabedoria 8:1). A Coisa é Única em si, mas multiforme nas suas manifestações e múltipla nas suas operações. E esta Coisa Única é Comprimento pela sua eternidade, Largura pela sua caridade[30], Altura pela sua majestade, Profundidade pela sua sabedoria.

NOTAS

[1] José Mattoso, D. Afonso Henriques, 2.ª edição. Editora Temas e Debates, Lisboa, 2014.

[2] O nome De expugnatione Scalabis (“Da conquista de Santarém”) foi atribuído por Alexandre Herculano, incluindo-o na sua colectânea de textos medievais portugueses Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, vol. I, publicado em 1854. Trata-se de um manuscrito redigido em latim, entre o final do século XII e o início do século XIII, por um monge crúzio (cónego regrante agostinho) do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, com o título Quo modo sit capta sanctaren civitas a rege alfonso comitis henrici filio (“Como foi capturada a cidade de Santarém pelo rei Afonso, filho do conde Henrique”).

[3] Luiz Duarte Villela da Silva, Memorias Historicas da Insigne e Real Collegiada de Santa Maria de Alcaçova da Villa de Santarem. Lisboa, 1817.

[4] Frei António Brandão (Alcobaça, 25.4.1584 – Alcobaça, 1637), Crónica de D. Afonso Henriques. Edição actualizada com introdução de A. Magalhães Basto. Biblioteca Histórica – Série Régia. Livraria Civilização – Editora, Porto, 1945.

[5] Maria João Violante Branco, Reis, Bispos e Cabidos: a Diocese de Lisboa durante o primeiro século da sua restauração. Universidade Católica Portuguesa, revista Lusitania Sacra, 2.ª Série, 10, Lisboa, 1998.

[6] Virgolino Ferreira Jorge, Arquitectura, medida e número na igreja cisterciense de São João de Tarouca. Universidade de Évora, revista Cistercium, 208, pp. 431-456, 1997.

[7] Artur de Gusmão, A Real Abadia de Alcobaça. Lisboa, 1948.

[8] Os cronistas alcobacenses recolheram e propagaram a tradição do século XIII de ter sido o próprio São Bernardo a desenhar a planta da igreja de Alcobaça e ter enviado um dos seus arquitectos, Desidério ou Didier, para dirigir a construção.

[9] Ernesto Korrodi, Alcobaça – Estudo Histórico-Archeológico e Artístico da Real Abbadia de Santa Maria de Alcobaça. Litografia Nacional – Edições, Porto, 1929.

[10] Frei Maur de Cocheril, Cister em Portugal. Tradução de Jorge Sampaio. Edições Panorama, Lisboa, 1965.

[11] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Arquitecturas Sagradas. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Maio de 2004.

[12] Foi com desgosto que testemunhei presencialmente o tendenciosismo especulativo, infundado, de se atribuir aos mosteiros de Tomar, Alcobaça e Batalha a intervenção da Maçonaria nos moldes em que hoje é concebida, o que é um flagrante contrassenso e contradição dos mais elementares factos históricos e até espirituais, como li em certo manual franco-maçónico cujo conteúdo é, em grande parte, respigado a quanto eu já disse e escrevi ao longo dos anos, nisto excluindo o que não lhe interessa e só incluindo o do seu particular interesse. Fica o reparo.

[13] Raúl Proença, Guia de Portugal II – Estremadura, Alentejo, Algarve. Biblioteca Nacional de Lisboa, 1927.

[14] Luís Ferrand de Almeida, O pagamento do feudo a Claraval no século XVII. Revista Portuguesa de História, tomo IV, pp. 305-316. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1949.

[15] Saul António Gomes, A congregação cisterciense de Santa Maria de Alcobaça nos séculos XVI e XII: elementos para o seu conhecimento. Revista Lusitania Sacra, 2.ª série, 18, Porto, 2006.

[16] Reynaldo dos Santos, Oito Séculos de Arte Portuguesa: História e Espírito. Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1970.

[17] Joseph Maria Canivez, Statuta Capitulorum Generalium Ordinis Cisterciensis ab annum 1116 ad annum 1786. Bibliothèque de la Revue d´Histoire Ecclésiastique, III, pp. 347-348, Louvain, 1935.

[18] Angelo Manrique, Cistercium seu verius Ecclesiasticorum Annalium a condito Cistercio, II, p. 185, Lyon, 1642.

[19] José Albuquerque Carreiras, Cister, os Templários e a Ordem de Cristo. I Colóquio Internacional ‘Cister, os Templários e a Ordem de Cristo’, Actas. Edição José Albuquerque Carreiras e Giulia Rossi Vairo, Instituto Politécnico de Tomar, 2012.

[20] Alain Demurger, A grande aventura dos templários. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006.

[21] Rui de Pina, Crónica de D. Dinis. Livraria Civilização – Editora, Porto, 1945.

[22] Virgínia Paccetti, O Mosteiro de S. Dinis de Odivelas, 1988. Edição da Junta de Freguesia de Odivelas, 1997.

[23] Renato Cardoso Corgosinho, O Livro dos Usos da Ordem de Cister: Edição e estudo paleográfico de um excerto com base em dois manuscritos portugueses do século XV. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2013.

[24] Depósito Biblioteca Nacional de Portugal: Livro dos Usos da Ordem de Cister, manuscrito copiado por Estêvão Anes Lourido e Fr. João Cisterciense. Alcobaça, 1415.

[25] Ailbe J. Luddy, Bernardo de Claraval. Editorial Aster, Lisboa, 1959.

[26] O segundo artigo da Carta de Caridade (1119) determina a todos os cistercienses a uniformidade no canto e nos livros pertencentes à missa e ao ofício divino: missais, epistolários, bíblias, graduais, antifonários, leccionários e saltérios.

[27] Saint-Yves d´Alveydre, Le Archéomètre. Editions Durbon Aïné, Paris, 1934.

[28] Christiane L. Joost-Gauguier, Pitagora e el suo influsso sul pensiero e sull´arte. Edizioni Arkeios, Roma, 2008.

[29] Isto é, compelida a representar a Divindade sob uma diversidade conceitos inadequados, como na vida presente.

[30] São Tomás de Aquino entende por Largura a Omnipotência Divina, mas quanto ao resto a sua exposição de Efésios 3:18 concorda com a de São Bernardo de Claraval.

O ROSTO E A OBRA – Entrevista a Vitor Manuel Adrião Sábado, Jul 24 2021 

Data da Entrevista: 13 Julho 2014

Revista e actualizada: Agosto 2020

AP – António Paiva (entrevistador)

VMA – Vitor Manuel Adrião (entrevistado)

AP – O Vitor Adrião é historiador, investigador e presidente da Comunidade Teúrgica Portuguesa. Autor de inúmeras obras, são tantas que nem me cumpre agora destacar algumas, mas no decorrer da conversa iremos com certeza falar de uma ou de outra. Também já nos conhecemos há largos anos. A primeira vez que nos encontrámos foi na sede da Fraternidade Rosacruz dirigida na altura por um amigo comum, o João Crisóstomo, ou talvez em terras de Sintra. Podemos começar por aí, Sintra, que já na altura era um lugar de eleição para o Vitor e que continua a sê-lo, passados todos estes anos. É verdade?

VMA – É verdade. Vou fazer ao António Paiva uma pequena confissão. O senhor João Crisóstomo tinha o seu Centro Rosacruciano de Lisboa na Avenida Visconde de Valmor, e eu ajudei esse Centro quando me desloquei de Sintra para Lisboa nos anos 80-90 do século ido. Pois bem, nessa ocasião, depois de ter auxiliado a fundar o seu Círculo Esotérico com as suas particularidades, havia uma coisa que me faltava completar: ligá-lo espiritualmente a Sintra, pois era daí que eu tinha vindo por motivos que depois poderei dizer quais.

As primeiras idas, quase ou mesmo peregrinações a Sintra comigo do senhor João Crisóstomo, do senhor João Luís e de outros(as) mais, cujos nomes agora me falha a memória porque já passaram vários decénios sobre esses eventos, fui eu que as promoveu, fui eu que os levei. Houve toda uma Ritualística, novidade na época para os(as) presentes. Essa era a Ritualística da Ordem do Santo Graal em pleno bojo da Serra Sagrada, inclusive com Iniciações – na Capela de São Pedro de Canaferrim, na Ermida de Santa Eufémia, na igreja do Convento dos Capuchos, etc. – que marcaram para sempre quem as viveu, recebeu e igualmente a quantos as assistiram. Também foram muitos e tocantes os fenómenos apodados jinas, gerados desde o Mundo Interno de Sintra então acontecidos, repito, em pleno bojo da Serra Sagrada, inclusive com gente bem física desse “Outro Mundo” das “mil e uma maravilhas e mil e um encantamentos”.

Quanto a essa, Sintra, a minha relação esotérica com ela vem de 1978, quando fundei, juntamente com mais umas quantas pessoas, uma delas o falecido Júlio Baptista que me acompanhou na jornada, para decénios depois eu o acompanhar no último Ritual Magno, de nome Odissonai ou “Ode ao Som”, que fez em vida três dias antes de falecer, dizia, quando fundei no Algarve, em pleno Promontório de Sagres na noite de São João Baptista, o que viria a ser o projecto de Comunidade Teúrgica Portuguesa, esta que então, verdade se diga, não era nenhuma Comunidade, nem era Teúrgica, nem era Portuguesa. Era tão-só um projecto posto em movimento, portanto, uma fundação espiritual, subjectiva.

Depois disso vim para Sintra nela instalando a minha actividade espiritual, e foi quando estabeleci relação próxima com a autodenominada Comunidade Portuguesa de Eubiose, instalada na Casa dos Avelares na Calçada de São Pedro, nº 1, também ela trasladada mas do Algueirão para Sintra. Aí conheci pessoas interessantes, gentes curiosas, cada qual com as suas particularidades humanas no tocante ao encarar e ao viver o espiritual. Mas já então, à margem dessa instituição, da qual ouvira falar pela primeira vez em Portimão, no Algarve, ainda nos finais dos anos 70 através dos editores de uma revista esotérica chamada “Alpha”, com a qual colaborei, como igualmente colaborei nessa ocasião com o jornal esotérico “Nostra”, fundado por Jacques Bergier, dizia, eu mantinha relação e proximidade ao Brasil, praticamente desde os meus 16 ou 17 anos de idade quando abandonei o lar paterno e fiz-me andarilho no mundo.

AP – Essa relação estabeleceu-se em que moldes?

VMA – Primeiro por viagens pelo Brasil, ainda no tempo da Ditadura Militar aí, e depois, desde 1987-88, mais aprofundada e localizadamente com a antiga Sociedade Teosófica Brasileira (1928-1963), que em 28 de Setembro de 1969 adoptou o nome Sociedade Brasileira de Eubiose. Estabeleci relações com os familiares do fundador da S.T.B., o Professor Henrique José de Souza. Foi assim que conheci a esposa então já viúva desse, D. Helena Jefferson de Souza, e igualmente alguns dos quatro filhos desse casal, como sejam o Hélio, a Selene, o Jefferson e o Hermés. Conheci o Sebastião Vieira Vidal, o Paulo Machado Albernaz, o Roberto Lucíola, o António Carlos Boin, a Valéria Vera de Souza Reis, a Dona Verinha ou Muriel para os mais próximos, o Archimedes Carpentier, o Sérgio Scalfaro, enfim, conheci muita gente, inclusive o Udo Oscar Luckner, autodenominado “Hierofante do Roncador”, em Mato Grosso, no Norte do Brasil, que terminou os seus dias de maneira trágica, mas também, no Rio de Janeiro, me cruzei com o famoso José Trigueirinho Netto e as suas singularidades esotericistas.

A relação próxima com o Brasil, a de ligar a parte iniciática da Ordem do Santo Graal nos seus quatro vectores a Portugal (Templários, Tributários, Vestais e Pupilos), se não foi estabelecida por mim, ao menos por mim foi restabelecida. No fundo, antes do projecto teúrgico de 1978, e estou puxando pela memória, já havia trabalho feito. Estava afim ao projecto teosófico do Professor Henrique José de Souza para Portugal, esse que inicialmente acabou passando pela referida Casa dos Avelares, em São Pedro de Sintra, porque alguns dos seus componentes iniciais vindos do Porto para Lisboa, haviam na cidade invicta estabelecido contactos com o Professor Henrique José de Souza em 1956-57, o qual os convidou a fundar uma Casa Capitular da S.T.B. em solo português em 1963, projecto que tomou feição diferente da sugerida pelo Professor Henrique, e depois a sua viúva, D. Helena Jefferson de Souza, em 1967, quis que esse grupo inicial se constituísse em Departamento da mesma S.T.B., o que igualmente resultou debalde. Ainda assim, sobrou nesse núcleo português – que entre 1973 e 1978 se repartiu em grupos autónomos como o “Movimento Eubiótico dos Servidores de Aquário”, a “Confraria dos Eubiotas de Kurat” ou o “Grupo de Teatro 5” – um interessante projecto dito eubiótico independente, sobretudo a partir de 21 de Junho de 1979, data da sua fundação notariada por escritura pública como Comunidade Portuguesa de Eubiose, que naturalmente se dota das suas especificidades pessoais, e por certo natural e indiscutivelmente terá o seu valor próprio, na sua particular maneira de ver e entender o que seja a Teosofia Eubiótica de JHS, ou seja, de Henrique José de Souza.

AP – Era na Calçada de São Pedro que estava sediada a Comunidade Portuguesa de Eubiose?

VMA – Sim. Nisso ela poderá ser uma Comunidade, ela poderá ser Portuguesa, e poderá também ser de Eubiose, mesmo que acerca dessa última pessoalmente guarde algumas reservas. Embora respeitando sempre as crenças de cada um e de cada qual, e as suas maneiras de estarem nelas, não posso esquecer a minha experiência directa junto das fontes que, aliás, mantém-se até hoje, até este preciso momento, neste dia do Sol, domingo, Dominicus Dies. Portanto, voltando ao início, a minha relação com Sintra foi sempre ligada à presença teosófica e graalística centralizada no Professor Henrique José de Souza. Inclusive, antes do projecto de Comunidade Teúrgica Portuguesa, havia trabalho feito anteriormente, porque quando avancei para esse projecto já tinha algum traquejo espiritual, já então fazia militância…

AP – Em 1978 o Vítor tinha que idade?

VMA – Era muito jovem, sei lá, vinte e poucos, talvez, hoje estou a caminho dos sessenta e alguns anos de idade. A minha principal função nesta vida foi realmente destacar a Mística Sintriana, sempre a ligando à pessoa e obra do Professor Henrique José de Souza.

AP – Continua a ser a sua missão?

VMA – Foi aquilo que fui incumbido de realizar. Missão no sentido vulgar do guru auto-inventado recambia sempre ao apostolado imaginário de profetas mancos e falsos messias. Gente perturbada essa que pondo-se nos “bicos dos pés” apenas procura realce social não poupando coisa alguma, desde amigos a familiares, sendo sempre iguais a si mesmos, vivendo fantasias cujas realidades só existem nas suas cabeças agitadas. Conheço casos assim, não poucos, infelizmente. Portanto, considero-o tão-só um trabalho que se me indicou, uma incumbência. E essa incumbência foi feita, realizada. A maior parte do trabalho está feita. Poderei dizer que praticamente 90% está feito, realizado, sobretudo com a criação do Sistema Geográfico de Sintra a que dei forma. Mas dei-lhe forma em conformidade ao que Professor Henrique José de Souza revelara sobre Portugal e Sintra nos seus textos reservados, facto que o próprio Mário Roso de Luna sabia, e já antes Helena Petrovna Blavatsky, conforme aquele apontou na biografia desta que é tomo precioso levando de título Una Mártir del Siglo XIX – Helena Petrovna Blavatsky.

Repare só que hoje em dia, apesar destes anos todos, a juventude, uma geração nova, não tem o conhecimento dos passados, dos evos onde me incluo e que abriram novas valências até então insuspeitadas no plano da Tradição Iniciática a ver com Portugal e Sintra. Fui eu quem publicamente deu a cabeça, o pensamento, alguém teria de o ser. Hoje, realmente a Serra de Sintra é um polo de misticismo sobretudo dos movimentos “Nova Era”, com o seu espiritualismo a “la carte”, como diria o professor Eduardo Lourenço, engraçados no seu simplicismo roçando o infantil, apesar de terem a sua valia própria, sem dúvida onírica, sentimental mas não a iniciática, puramente mental superior. Porque a Iniciação não é qualquer coisa que se consiga em livros e discursos, tampouco em manifestações animistas, de sugestionamentos automediúnicos, como diria Fernando Pessoa, e pareidólicos. Mas é folclore exotérico interessante, aliás, contribui para o aumento da Serra como polo de atracção turística. Sintra é hoje conhecidíssima em todo o mundo pelo motivo turístico a que se juntou o esoterológico, sobretudo depois das reportagens que dei ao matutino “Correio da Manhã”, ainda nos anos 80, a partir de 1985, acerca do mistério esotérico de Sintra.

O Professor Henrique José de Souza esteve em Sintra na viragem do século XIX para o século XX, 1899-1900, conheceu e foi recebido por gente muito singular, alguma dela ligada à Ordem de Mariz e aos Marizes de Trás-os-Montes, alguns deles meus amigos pessoais. Depois, ao longo da carreira de toda a sua vida indo de 15 de Setembro de 1883 a 9 de Setembro de 1963, Sintra ocupou sempre um lugar predilecto na sua mente e no seu coração.

VMA no domínio Mariz de Amedo

É dito que Sintra, segundo as revelações do mesmo Henrique José de Souza, é um dos Qtûbs, em árabe, Polos ou em sânscrito Chakras do Mundo, precisamente o quinto. E isto é curioso porque acaba por relacionar-se ao tema do V Império, do Quinto Reino Espiritual, de Agharta. Aliás, no fundo tudo isto tem a ver com a Agharta e Shamballah. Mas resta saber o que é isso de Agharta e Shamballah… Enfim, se para mim tal não é missão, sem dúvida é trabalho.

AP – E em que medida esse trabalho ao longo dos anos o tem trabalhado a si próprio?

VMA – Há uma descoberta permanente. Isso é como perguntar-me: “Então, quando é que despertou para a espiritualidade?”, e eu sei lá quando é que despertei para a espiritualidade. Há quem nasça com uma vocação, e há quem nasça sem nenhuma vocação. É como a Via Sacerdotal. Uma pessoa pode entrar na Via Sacerdotal e nunca dominar a Arte respectiva. Nisso terá entrado por sindicância afiliatória, de alguma forma empurrada pelas circunstâncias sociais, pelo que não entrou por afiliação a necessidade espiritual. Conhece mas não sabe, representa mas não vive, simplesmente tão-só decora e imita… Enfim, caríssimo amigo, vale dizer que só quando a fruta está madura fica pronta a ser consumida.

Portanto, nisto há sempre um trabalho interior, um trabalho de descoberta. Porque uma Escola Iniciática tende sempre ao apelo à derradeira e suprema coisa que é a realização interior, a realização espiritual, o encontro as Divinus, o encontro com Deus, conhecendo as nossas limitações, aceitando-as sem as extrapolar quer para o remorso ou para o regozijo do passado, quer para o que sonha ou fantasia o futuro. A Realização é presente, não é passado nem futuro.

Uma pessoa conhece umas coisas, faz outras tantas dentro do nível espiritual, espanta-se consigo mesma e pensa já ser um Mestre. Não é! Aprende umas coisas, decora outras, faz aqueloutras, e assim se vai realizando, é uma conquista paulatina a do desenvolvimento da consciência do Homem. Os próprios Deuses vão se fazendo a cada dia, a cada hora e a cada tempo mais Deuses.

É um trabalho realmente intenso mas firme e sólido, o qual se for feito somente ao nível da satisfação intelectual, do conhecer pelo conhecer, do ter e querer ser mais do que outros, da afirmação feroz do “intelecto superior” aos demais mas sempre vagueando nas curiosidades fantásticas do momento, confundindo o nómeno com o fenómeno, então não passa de diversão e dispersão mental, não serve aos propósitos da verdadeira Realização.

O intelecto é apenas instrumento. O propósito é ligar, alinhar, integrar a persona ao Indivíduo, ao Ser Superior, à Tríade Superior, à Mónada Divina. Isto é, unir a personalidade à Individualidade. Ligar o homem aparente, a máscara, ao verdadeiro Actor, ao Homem Real – o  Eu Divino, o Espírito, o Atma, a Mónada ou Essência Imperecível.

Isto não é feito de um momento para o outro, vai-se fazendo…

Não posso exigir a um jovem com vinte ou trinta anos que acabou de despertar para os interesses espiritualistas ou tão só “inexplicáveis e maravilhosos”, que tem algumas curiosidades misticistas mas ainda com a “cabeça cheia de grilos”, ou seja, numa confusão identitária perante si mesmo e o seu meio ambiente, que vá ter uma posição de vanguarda iniciática, quando afinal ainda está a dar os primeiros passinhos, titubeando aquilo e aqueloutro, vacilando e duvidando aqui e acolá.

É claro que tenho consciência disso, das pessoas que me cercam e das suas limitações, mas aposto sempre nos seus valores espirituais adormecidos. Ainda assim, uma coisa é certa: não posso impor nada a alguém e a ninguém, porque tudo o que é imposto não dá bom resultado. O mais que posso fazer é apresentar propostas, abrir “janelas de oportunidade”, mas com muita “arte e manha”, como dizia o meu saudoso amigo professor Agostinho da Silva, ou seja, saber convencer sem obrigar ao convencimento. Ele falava-me disto muitas vezes juntamente com o seu condiscípulo que seguiu outros caminhos e chegou a ser Presidente da República Portuguesa, o dr. Mário Soares.

Portanto, há uma proposta. A Comunidade Teúrgica Portuguesa nunca impôs nada, tampouco eu. Às vezes a pessoa vê que são muito jovens, tem de se dar um desconto à impuberdade natural não raro extravasada nesse adolescente convencido das suas “verdades”, pensando que o mundo começou com ele, não se importando de aborrecer e passar pelo que é, “aborrescente”.

Dentro da C.T.P., nos seus Graus Superiores, só se aceitam pessoas com certa madureza de vida e idade suficiente para tanto, porque assim elas já sabem o que querem, mesmo que acaso venham dos Graus Maiores ou dos Altos Graus da Maçonaria, ou de outros Ritos ou Obediências para o nosso meio. São aceites no Oficialato Teúrgico por serem pessoas com a sua natureza definida. Sabem o que querem, não há misturas, não há confusões, não há dispersões, têm noção de Responsabilidade e Integração. Agora com os mais jovens, os destas novas gerações, deve-se ter paciência e capacidade para refrear os ímpetos naturais próprios da juventude fogosa e voluntariosa, e encaminhá-los por bons e rectos caminhos, sem nunca censurar e tampouco impedir as suas tendências e aptidões, somente os encaminhando, não deixando de repreender quando se assumem manhosos nas habilidades de quererem “passar a perna” aos mais velhos, porque isso além de ser feio prova que se teve má educação na formação do seu carácter e tendências.

AP – Somos todos relativamente jovens face aos desafios ou às propostas que a vida nos vai colocando. Mesmo os mais anciãos serão sempre jovens, eternamente à procura da sua sabedoria interior, ou pelo menos durante o percurso aqui nesta Terra. O Vitor poderia destacar alguns dos desafios que lhe foram sendo colocados, ou propostos pela vida?

VMA – Há três aspectos, três vectores. Um vector vem em continuidade ao ancião, no seguimento do que mencionei anteriormente sobre o ancião e o jovem. Quando falo em juventude, digo-o com respeito à juventude mental, porque realmente há jovens que parecem uns velhos e há velhos que parecem uns miúdos. Nem tanto ao mar e nem tanto à terra, não sei se me faço entender… Porque a verdadeira Juventude, a Eterna Primavera, a Satya Yuga interior, é algo que revela realmente o crescimento interno da pessoa.

Eu refiro-me sobretudo à impuberdade. É como a questão desses movimentos holísticos e não sei que mais. Não gosto do termo “holístico”, corruptela do grego hollos, “universal”, e muito teria a dizer sobre isso. Embora interessantes nas suas aparentes boas intenções, falta sempre algo aos movimentos de auto-cura e similares autossuficientes. Como é que alguém doente consegue curar outros doentes? “Médico, cura-te a ti mesmo”, já dizia Jesus, o Cristo, e eu acrescento: se és capaz.

No que respeita às relações com o mundo social, a minha posição espiritual, acompanhando a relação social, e este é o ponto dois, nunca colidiu, mas também sempre mantive as distâncias.

Trabalhei em algumas firmas comerciais no passado, mas sempre com distanciamento e até antipatia ou desagrado dessas actividades. O meu destino não era ser empregado de escritório com horário fixo sujeito aos caprichos de um qualquer patrão. Mas também durante vários anos colaborei com o “Correio da Manhã”, prestando consultadoria através do jornalista Victor Mendanha, com quem me relacionei, como igualmente com um outro jornalista, Fernando Dacosta. É dessa época a saída em páginas centrais das grandes reportagens de 1985-86-87, etc., no “Correio da Manhã”, mas também no “Público”, no “Semanário”, etc.

Houve outras possibilidades de destaque e élan social. Desde enveredar por um caminho mais relacionado com o mundo da política, trabalhar numa Câmara, ambicionar ser deputado da Nação e por diante, mas não fui por aí, desgostei os enredos políticos, as conspirações e revoluções de salões, ademais o meu posicionamento sinárquico foi sempre um e só. Isso custou-me sofrimento e restrições económicas, mas Deus nunca me faltou.

Tirei um curso na antiga cadeira de Histórico-Filosóficas. Está feito, segui por outros caminhos. É um instrumento que uma pessoa tem para a vida do dia-a-dia, porque todos necessitamos de ganhar o nosso pão. Toda a minha formação, a minha escolástica académica passa, de facto, pela História e a Filosofia. Daí as campanhas de investigação e tudo o mais afim que realizei. Mas também restrinjo essa relação, tanto por desgostar discussões sem fim nem finalidade, porque logo a seguir se levanta outra de dúvidas sobre descrenças, onde nunca se chega a consenso comum algum o qual não se quer e somente discutir para apurar a retórica seja ou não razoável, tanto por não ser vendível nem comprável, nem pela Academia, nem por ninguém. Há uma posição assumida, nisto englobo o estatuto académico. É o meu modo de me afirmar socialmente. Mas esse posicionamento académico também me mostrou e depois me levou a mostrar uma outra visão de Portugal, da Portugalidade e do Mundo, sobretudo da nossa diáspora. Isto continuo a fazê-lo.

Esse percurso pela diáspora, mais que tudo cultural e espiritual, levou-me a conhecer inúmeras pessoas no universo das artes, das letras, da política, do teatro, do cinema, etc., em várias partes do Mundo. Mas tive também de recusar muitas coisas, porque as tentações no caminho são múltiplas e costumam aparecer inesperadamente muito bem disfarçadas. A riqueza fácil é geralmente sinónima de pobreza também fácil ou imediata.

Por isso, não quis nem quero nada que venha a contrariar a condição da minha natureza interior, que é sobretudo uma condição vocacionada a altar, a estatuto sacerdotal, a algo verdadeiramente salvífico, imperecível e incambiável.

Logo não posso, tampouco consigo, atingido este patamar, perspectivar outras condições imediatas de bem-estar e destaque social em detrimento da minha necessidade interior, esquecendo, como se tal me fosse possível, que tudo isto afinal não passa de uma passagem, com a duração efémera que vai do berço à tumba. Qualquer um pode, na memória dos pósteros, deixar um jardim bonito, bem plantado, ou então pode deixar um molhe de cardos e urzes daninhas. Gosto ou desgosto, é livre-arbítrio de cada um e cada qual.

AP – E desses inúmeros contactos, há alguém que queira enaltecer?

VMA – No plano das Artes e Letras, deixei e conservo grandes amizades. Algumas ainda se mantêm como o Josué Pinharanda Gomes (falecido depois desta minha entrevista em 2014), que nunca nos faltámos um ao outro nestes decénios transcorridos de amizade próxima e mutuamente feito muito em prol da Cultura Portuguesa.

VMA e Pinharanda Gomes, o “pai” da sistematização da Filosofia Portuguesa, uma amizade que contou decénios

No plano Espiritual ou Iniciático – repare que eu não estou a dizer “espiritualista”, estou a dizer “Espiritual ou Iniciático” –, aí conheci pessoas que me influenciaram definitivamente, sobretudo no Brasil, porque na Índia a coisa não foi boa tal como no Tibete. São países com grandes problemas sociais e raciais. O Tibete sofre a ocupação chinesa e eu provei isso na pele, depois de atravessar a fronteira junto ao Ladakh, o “Pequeno Tibete”, e ser preso pelas tropas chinesas. Queria ir a Lhasa, e consegui à segunda tentativa, misturando-me com uma equipa de televisão francesa que ia lá, em 1982, salvo erro. No Brasil tive uma relação marcante com vários condiscípulos coevos do Professor Henrique José de Sousa. Enfim, bem ou mal, das muitas pessoas que conheci e conheço em Portugal, e já citei o Agostinho da Silva e o Pinharanda Gomes, aparece ainda na minha vida o falecido coronel João Miguel Rocha de Abreu, da Sociedade Teosófica de Portugal e presidente do Ramo Teosófico de Lagos, que me marcou bastante. Os familiares do falecido Félix Bermudes também me marcaram muito. Aliás, tenho na minha posse os diplomas olímpicos de Félix Bermudes. Também me marcaram outros Movimentos que fui conhecendo, como esse Movimento de que já falámos do Centro Rosacruciano de Lisboa, como igualmente da antiga Sociedade Teosófica Brasileira, e assim também algumas pessoas desse Movimento de Eubiose em Sintra.

Conheci pessoas muito curiosas, carismáticas, com a sua maneira peculiar de ser. Na Fraternidade Espírita de Portugal, mantive uma excelente relação de anos com o seu director Eduardo Matos, colaborei na sua revista “Fraternidade”. Conheci o Valdemar Amaral, do Centro Espírita “Perdão e Caridade”, ali na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa. Relacionei-me com gente da Federação Espírita Portuguesa. Na altura ainda procuravam recuperar o edifício do Teatro Laura Alves, que tinha sido a sede da Federação Espírita até ao momento de António de Oliveira Salazar os desalojar dele, no tempo do Estado Novo.

Também do Movimento Rosacruciano conheci o Bartolomeu Bana Martins. Conheci muita, muita gente e todos me marcaram com o seu carisma, a sua maneira de estar, as suas crenças. Foram muito interessantes na singularidade de serem como eram. Inegavelmente, foram pessoas que marcaram decisivamente o pensamento neo-espiritualista português.

A única coisa que houve de diferente entre mim e eles foi que eu «impus», entre aspas, coloquei uma tónica nova no pensamento neo-espiritualista, que foi a de Sintra e dos Mundos Subterrâneos. O tema de Agharta-Shamballah, levando para um patamar de maravilhado, de maravilhoso, de castelos encantados, de mistérios insondáveis, fazem sonhar os mais jovens quando profiro tais palavras como estas de Shamballah-Agharta, cuja mais-valia é infinitamente superior à de meros chavões em bocas de mentes turvadas pela incompreensão. Essa foi a tónica diferente que eu «impus». Cada qual «impôs» a sua tónica. A maioria já partiu, está com Deus, Deus os tenha. Marcaram uma época cujo legado deixaram para os mais novos. Estes que agora chegam aqui, pensam que isto que agora usufruem nasceu do zero, que nasceu com a internet. Isto não nasceu com a internet, senhores. Isto já é antigo e ainda há antigos vivos.

AP – E os caminhos de Santiago de Compostela? Estávamos há pouco a falar, fora da gravação, e o Vitor teceu uma série de comentários, até muito bonitos, sobre o Caminho e a sua função iniciática.

VMA – O Caminho de Santiago é muito interessante entroncando de raiz na Tradição Iniciática pertinente à Península Ibérica, mormente a Rota Portuguesa. Aliás, além da entrevista que dei ao diário “La Voz de Galicia” em 24 de Agosto de 1994, escrevi um livro sobre o Caminho Português editado pela Dinalivro, “Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa”. Igualmente escrevi outros, como “Sintra, Serra Sagrada”, “A Quinta da Regaleira”, “A História Oculta de Portugal”, “A História Secreta do Brasil”, etc. São várias dezenas de títulos editados.

Quanto aos caminhos de Santiago, estes não são só as antigas vias romanas, como se crê e se aceita comumente. Essas eram apenas vias comerciais e militares, ligando as civitas numa rede viária que ia além de Iria Flávia, vizinha de Padrón, mas que mais tarde, sobretudo a partir dos finais do século VIII d. C., por via da publicitação cristã da Lenda Áurea do Apóstolo São Tiago Maior miticamente desembarcado na Galiza, se tornaram vias devocionais, enfim, caminhos de foro religioso, transferindo-se a antiga importância política de Iria Flávia, por via do Primaz de Braga, àquela que viria a ser a actual capital da província galega, Santiago do Campo da Estrela ou Compostela.

Tudo isso tem a sua razão de ser e é coerente com a evolução social e religiosa da história do Norte de Portugal e da Galiza. As ditas vias foram de facto palmilhadas pelos romanos, mas já anteriormente a eles tinham sido trilhadas pelos celtas, uns e outros seguindo a Estrada do Pastor, o Caminho do Pastor, como seja a Via Láctea com Sírio ao fundo, esse a estrela alfa da constelação do Cão Maior, o Canis Majorem, o fiel animal companheiro de São Tiago Boanerges, o “Filho do Trovão”, o “Filho do Fogo”, na sua acção pastoral sob a égide da Virgem do Pilar, representação da primitiva Deusa-Mãe Ísis de cujo santuário ainda sobrevivem os seus restos em Braga, a Bracara Augusta. Este é, realmente, um Caminho de Fogo, do Fogo Criador do Espírito Santo ou Kundalini segundo os sábios hindus. Ele subsiste e persiste na Península Ibérica como módulo único de Iniciação Móvel, leitmotiv da Peregrinação. Esta que cedo também foi adoptada por árabes xiiitas e judeus sefarditas, sobretudo por estes onde até a Sefarad ou Ibéria ficaria associada onomasticamente a Hebreu ou Hibram, o “Único”, que é o que significa o védico Brahm, donde Brahma, o Deus Primordial. Pela maneira como se peregrina, pode ou não se aperceber estar num processo de Iniciação Móvel, como o viveu o maiorquino Ramón Lúllio, por exemplo, mas também a nossa Rainha Santa Isabel. Confessionalmente, é caminho de penitência, de resgate kármico, como dizem os sábios hindus, mas também não deixando de ser caminho de encontro com o Divino. É Rota que sobe de Sagres a Santiago de Compostela, para não dizer, à Coruña ou Corona, desembocando na Plaza de Portugal, ali próximo ao Mar dos Mortos, em Finisterra.

Mas primeiro passará pelo Sol gravado no Padrón, pois “quien vay a Santiago y non visita al Padrón, o faz romaria ou non”! Padrón fica cerca de sessenta quilómetros abaixo de Santiago de Compostela, e está lá a tal pedra solar, o tal bétilo, onde o povo diz ter atracado a barca de pedra, a Arca do Saber de São Tiago Boanerges.

Como rota religiosa e espiritual será tudo isso, e ainda assim o Caminho de Santiago abre-se, rasga-se a todos como painel de oportunidades, oportunidades onde cada um escolhe a que melhor lhe condiz. É um leque de possibilidades ad infinitum, possibilidades oferecidas indiscriminadamente pelo Caminho a todos na sua marcha para o Divino. Uns percorrem-no por um lado, outros calcorreiam-no por outro; uns conduzem-se por uma noção mais religiosa, outros por outra mais cultural, outros até só pelo turismo, o simples passeio, mas no fundo todos se identificando ou tão-só apercebendo a Algo que lhes é superior, seja Deus, seja a Natureza, seja algum santo, alguma igreja ou ermida, seja o que for. Os próprios albergues no Caminho estão demarcados estrategicamente, em guisa de demarcar as etapas da Iniciação. Nisto tem-se representado na Terra o Caminho da Verdadeira Iniciação.

Mas, como disse, o Caminho de Santiago de Compostela não é só um caminho religioso. Não é assim que a UNESCO o reconhece, nem foi só assim reconhecido ao longo da História. É sobretudo um caminho cultural. E a cultura implica o vector religioso, o vector naturalista, igualmente o hermético ou esotérico, assim abrangendo as várias partes ou aspectos do todo constitutivo da Rota Jacobeia.

Esta Rota Jacobeia é Caminho de Espírito Santo, geograficamente subindo de Sagres à Corunha, à “Corona”, e sendo Sagres o “Sacro”, o cóccix do país, é como se fosse a coluna dorsal da própria cabeça do corpus da Ibéria, como seja Portugal.

Todos os outros caminhos jacobeos, la Ruta del Estaño, la Ruta del Cobre, la Ruta del Oro, la Ruta de la Plata, etc., acabam sendo caminhos subsidiários. O próprio Caminho Francês é um caminho subsidiário em relação ao Caminho Português, conforme a narrativa da Legenda Aurea dada a conhecer por Frei Tiago de Voragine cerca de 1260, e depois por outros mais. Onde acontece a maior parte da saga narrada na Legenda Aurea? A peregrinação de São Tiago em vida, mandado pela Virgem Maria na sua primeira viagem à Península Ibérica, acontece na região de Braga, território português que já o era no tempo de Voragine. Só depois disso, continua a Lenda, é que o Apóstolo adentrou o interior hispânico indo até Saragoça, onde a Virgem lhe apareceu sobre um pilar, donde a cultuadíssimo Nuestra Señora del Pilar. Mas os principais acontecimentos dessa odisseia pastoral aconteceram na região portuguesa da antiga Bracara Augusta.

É curioso que, em Braga, as relíquias do bispo São Frutuoso e todos aqueles santos bracarenses e do Alto Minho foram furtadas durante a noite pelo bispo Gelmírez, no século XII, e levadas para Compostela. A maioria das relíquias e santos que hoje se veneram em Santiago de Compostela são, afinal, portuguesas. Além de muito curioso isto é bastante sintomático.

Os autores medievais e da Renascença consideraram que o bispo Diego Gelmírez praticou pio latrocínio, “roubo sagrado”, feito aos portugueses. Esta história está toda contada no meu livro sobre Santiago de Compostela.

AP – Obrigado por toda essa riquíssima informação que facultou sobre o Caminho de Santiago. E o caminho de Portugal? E a nossa missão? E por onde é que nós andamos? Pois há pessoas que terão consciência, que trabalham nesse sentido. Mas este caminho tem um conjunto de pessoas que está a passar sérias dificuldades materiais e também espirituais, muitas delas desnorteadas.

VMA – As crises físicas são sempre o reflexo das crises psíquicas, enquanto o Espírito dorme, isto é, não desperta. É uma crise psicossocial que afecta a sociedade portuguesa como reflexo da crise que afecta a sociedade planetária. É a dor de parto. É o Roncador, o “Ronco da Dor” de parto de uma Idade que já começou, que já iniciou astrologicamente em 28.9.2005 e só faltando despertar, florescer, começar a frutificar consciencialmente, o que vai acontecendo aos poucos, quase imperceptivelmente como uma mó triturando os grãos donde sairá a farinha, porque a Evolução jamais cessa.

Portugal é a cabeça da Europa. Segundo as várias cartas anatómicas do continente europeu, Portugal ocupa a cabeça da mesma. Por isso, Portugal reflecte tudo o que há de agradável e de desagradável na Europa. Havendo uma crise europeia, diz-se que a culpa é dos alemães, dos ingleses, etc. Não! A culpa é do Homem que está realmente queimando o Karma Colectivo. Portugal reflecte realmente todos esses anseios e em dobro, os seus e os do continente. A cabeça, o cérebro, por isso está no topo, dirige todo o corpo. Quando o coração morre, pára, o cérebro ainda lateja. Daí falar-se em morte cerebral e em morte cardíaca, posto o cérebro estar acima do coração. O mesmo em relação a Portugal perante a restante Europa.

A Profecia de Sintra proferida nos anos 70 por excelso Ser conhecido entre os homens como Leonel da Silva Neves ou Giulliano di Lorenzo, acaso se inspirando no roteiro ritualístico de chamada Ode ao Som, diz: “Quem nasce em Portugal é por Missão ou Castigo”. Tanto vale por Dharma ou Karma, segundo os sábios hindus. Para a maioria das pessoas que aqui nascem é realmente por castigo, enfim, para queimar o seu karma. Contudo, há outros que nascem com uma missão, e aí a sua finalidade poderá passar por expandir o Portugal do Pensamento no Mundo e deixar boas sementes aos presentes e vindouros.

Este é um país peculiar. É um país que não é de raça definida mesmo sendo de raça definida, isto por se constituir da fusão consanguínea dos principais povos da Antiguidade, acrescentado por outros tantos povos posteriores. Da Antiguidade vieram os fenícios, cartagineses, romanos, gregos, árabes, etc. Posteriormente chegaram os teutónicos, alemães, ingleses, franceses, espanhóis, etc. E todos se foram misturando, amalgamando no que sobressaiu o mais franco e transparente ecletismo. Portugal é uma amálgama racial, um espelho da Humanidade, um espelho do Mundo. Acompanhando a marcha dos ciclos por que se rege a Evolução Universal, Portugal está mudando, está se transformando paulatinamente para que, afinal, nele não mais se nasça por castigo e sim por missão, a da realização interior e colectiva dos Lusos, isto é, dos “Filhos da Luz”.

Até lá, façamos o nosso melhor. Nunca nos esqueçamos que a energia persegue o pensamento. Tentemos transformar este marasmo, esta neurastenia, esta depressão colectiva em que hoje está mergulhado o povo português, em algo de positivo. Educando-o superiormente, elevando-o a uma cultura superior de espírito. Propondo, nunca impondo coisa alguma, sempre propondo. Os meios de comunicação social têm nisto um papel crucial, principalmente os audiovisuais.

Os big brothers, as novelas, os futebóis, o sexualismo, etc., são muito curiosos no convoco das baixas emoções. Acabam sendo o pão dos alucinados. Mas o povo não está destinado a ser alucinado, tão-só tentam aluciná-lo. O povo não está destinado a ser estúpido, tão-só tentam estupidificá-lo.

Então, se se consegue alucinar e estupidificar momentaneamente as pessoas, por que não se conseguirá também transformá-las permanentemente em seres lúcidos e sábios?

Talvez, ou por certo, os alucinados e os estúpidos que não são lúcidos nem sábios sejam os meios de comunicação social. Não os meios de comunicação social em si, mas as grandes empresas directoras dos mesmos ao serviço da Forças da Involução. Nisto se entra nos sectores da contracultura, da contra-civilização, da contra-Iniciação, da contra-Tradição Iniciática das Idades, disposição e intenção característica apanágio satânico da chamada Linha Sinistra, inimiga letal da Humanidade por ser avessa a qualquer sinal de humanidade.

Pois tal como há uma Grande Fraternidade Branca, também há o seu oposto que vai manipulando em sentido contrário as Forças Vivas do Universo. Sendo conscientes disto, não devemos dar força à Linha Negra que vive da nossa ignorância e temor.

Conheci em tempos não muito distantes uns jovens possuídos de crenças satanistas, ou asatânicas assurinas como se diria em termos iniciáticos. Embandeiravam em arco, vestiam de preto, ausência de cor, e brandiam umas espadas de goécia, com os rostos pintados de branco lívido para dar ar cadavérico. Disse-lhes que “isso assusta coisa nenhuma. Vocês têm o valor que eu vos der, e como não vos dou valor nenhum, sois apenas ridículos”. Infinitamente mais ridículos do que as cartas de amor de Fernando Pessoa, porque essas cartas de amor não eram ridículas, eram sentimentos da alma, uma efectiva e duradoura experiência humana.

Adiantei: “Vocês fazendo isso não têm qualquer valor nem força, porque as trevas só possuem o valor e a força que a pessoa lhes dá. Pessoalmente, não lhes atribuo valor nenhum nem lhes dou força alguma, só vos considero pessoas perturbadas fazendo teatrinhos desengonçados”.

Aparte isso, movimentos, pessoas, ideias, ideais como esses de que vimos falando, sempre tendendo ao aprimoramento do carácter e da cultura, ao aperfeiçoamento humano, têm feito evoluir a sociedade no geral. Foram pessoas, como algumas das já citadas, que fizeram com que Portugal chegasse ao presente estado de progresso.

Bem sei que, no mapa da Evolução geral, há o intento de progresso e há a tentativa de recesso, mas eu não acredito em recesso, e queira-se ou não, como dizia Jesus Cristo e repetia Félix Bermudes, “o Homem está condenado a ser Deus”, ou por outra, “Deuses sois e disso vos tendes esquecido”. Note-se bem que não fico de mãos e braços cruzados vendo os cães ladrar enquanto a caravana passa. Foi coisa que nunca fiz, a de cruzar os braços passivo e rendido, porque, em termos maçónicos, nunca apontei canhões à retaguarda.

Penso que o destino de Portugal está relacionado com o Quinto Império do Mundo. Este certamente não é o quinto império segregacionista e xenófobo dos adeptos dum incerto D. Sebastião. Qual quê D. Sebastião! Esse rapaz morreu em Alcácer-Quibir a espadeiradas, aquilo foi uma encarniçada e desgraçada batalha que antes de começar já estava condenada ao fracasso das forças portuguesas. Só sonha o contrário o patrioteiro inflamado que nunca soube o que é estar em palco de guerra. Eu já vi a guerra de perto e sei o que bestialidade humana é capaz de fazer. Portanto, falo com experiência de causa. Sei também que algumas pessoas dizem ele ter escapado vivo e fugido – um rei a fugir para toda a parte menos para o seu reino… – seja para Limoges, seja para Veneza, seja para outros lugares popularizados na literatura-de-cordel baseada em boatos, nunca em factos concretos comprovados ou passíveis de provar. Assim, não passam de crenças baseadas em indícios soltos e em curiosidades fantasiadas da História, este o cimento do “Sebastianismo Vermelho” como o apodou António Sardinha e Alfredo Pimenta.

Contudo, ficou o mito, ficou o símbolo e este símbolo pátrio reverte ao Paracleto, ao Consolador das Nações, como aponta o Apóstolo São João no capítulo XIV do seu Evangelho, e nisso entramos no tema da Parúsia, o do Advento do Cristo Universal sobre a Terra em conformidade à sua Promessa de retorno no final dos Tempos do Ciclo actual, Ele o Maitreya, o Chenrazi, o Vaidorge, o Akdorge, o Miroku, o Sossioh, o Iman Madhi, o Mashiach ou Messias, o Kalki-Avatara, o Encoberto Desejado, enfim, tantos são os seus nomes conforme as tradições religiosas locais, todas apelando e apontando ao Advento do Divino, cuja Era Messiânica ou Avatárica é referida como o “Mundo vindouro”, o “Reino de Deus consumado”.

Cristo será reconhecido pela Humanidade na medida em que a Humanidade primeiro O reconhecer em si. Não há outra maneira de o fazer, senão o da identificação com o Deus Pessoal para se reconhecer e identificar ao Deus Universal.

Este é o sentido básico da metafísica do Sebastianismo, ou antes, da Sebástica Iluminada, porque como disse há um “Sebastianismo Vermelho” que vê sinais apocalípticos augurando bizarros eventos políticos por tudo quanto é sítio, quase sempre racistas, xenófobos e segregacionistas, mas também há o “Sebastianismo Branco”, francamente teosófico, superiormente esclarecido, nunca confundindo a realidade do sentido primaz dos símbolos, sejam nacionalistas ou não, dando à Pátria um sentido transcendente. Como disse, António Sardinha e Alfredo Pimenta definem muito bem esses dois vectores. Com o “Sebastianismo Branco”, teosófico, adentra-se a Sebástica no seu sentido universal, indiscriminador de cores, raças e crenças.

É como no tema da translatio imperii, da trasladação dos impérios, afim ao do Quinto Império do padre António Vieira, ideia que se tornou ideal de vida após as receber de Manasseh Ben Israel, rabi mor da Sinagoga de Amesterdão, que era o seu amigo madeirense Manuel Dias Soeiro (1604-1657). Depois, no século XX, Fernando Pessoa, destacando-se dentre outros, prossegue o ideário de Quinto Império iniciado pelo padre António Vieira, o Paiaçú, “Grande Pai” dos tupis e guaranis da Nova Lusitânia, o Brasil, ao qual Pessoa apodou de “imperador da Língua Portuguesa”.

Mas tal Quinto Império não é o Quinto Império Português. É o Quinto Império de Portugal no Mundo. O Portugal do Verbo, o Portugal da Palavra, o Portugal do Espírito Santo, da Consolação, mais uma vez, do Paracleto. É o Quinto Império que abarca todo o Mundo, sobretudo o de expressão portuguesa, mas que alastra a toda a Humanidade porque, usando as mesmas palavras de Fernando Pessoa, todos os países são divinos, todos os países são sagrados, já que a Humanidade é sagrada e divina, não fosse ela proveniente de uma única Origem.

O Quinto Império é também o quinto estado de consciência no Homem. Temos um estado de consciência física, um estado de consciência vital, um estado de consciência emocional, um estado de consciência mental e agora urge um quinto princípio, uma quinta coisa, uma quintessência, a do estado de consciência espiritual, cujo despertar impele e apela à Concórdia Universal dos povos da Terra inteira, ou como dizia Pinharanda Gomes com muita felicidade, “ao dia em que já não haverão mais preces de súplicas, porque todos cantarão louvores a Deus e os Anjos entrarão em revoada pelos templos destelhados da Natureza”. A própria Natureza é o Mundo, então sob o terno abraço do Divino com o Humano e do Humano com o Divino. Tanto vale pelo despertar da consciência superior no Homem. Esta é a maior Mensagem de Esperança que os Seres Superiores têm trazido à Terra, dando propostas de solução para o magno problema humano, o da sua felicidade.

Trabalhemos para isso. Não fiquemos só pelas depressões, pelos futebóis, pelas paranoias das modas, pelas hipocondrias e neurastenias, pela autocomiseração que se revela como insegurança e derrota pessoais. Levantemo-nos e obremos para mais e melhor, para bem nosso e dos nossos semelhantes em Humanidade. Criemos o Céu na Terra.

Se há gente que sofre? Sim, sempre houve, mas também sempre houveram soluções independentemente das condições interiores e exteriores de cada um e cada qual. Resta as procurar e não render-se às malhas fatais do destino, deixando-se arrastar no limbo do mesmo. Todos têm a possibilidade de transformar o seu destino, ou como diriam os sábios do Oriente, de transformar o karma em dharma, mesmo porque quando os homens fecham a porta Deus abre uma janela, janela de oportunidade. Ainda assim, e também por isto, não posso confiar em pleno conhecimentos de realidades superiores à impuberdade juvenil, que tanto em idade como em convencimento autossuficiente vai dos oito aos oitenta. Por exemplo, como lhes poderei confiar mais do que o limite possível  sabendo que estão na impuberdade psicomental, alguns até na impuberdade física? Sei até onde conseguem ir, e o que tenho de saber é a arte de os acompanhar e direccionar para mais alto, ainda que por enquanto se fiquem pelos interesses e coleccionismos de coisas insólitas, pelo desinteresse em aprofundar indo além do simples maravilhamento, etc. Tudo tem o seu tempo para amadurecer, nada que seja imposto resulta positivo, algo assim como querer que fruta verde seja madura num golpe de mágica. Sim, não se deve impor, tão-só propor. Assim mesmo para o conjunto impúbere da Humanidade tomada individualmente: hoje sou do Benfica, mas amanhã já sou do Sporting e depois do Porto; hoje sou do PSD, mas amanhã já sou do PS e depois do PCP. Hoje sou disto, amanhã sou daquilo e depois de aqueloutro… Isso porque a pessoa titubeia indefinida, não sabe o que quer, anda à procura. Tem de ser de alguma coisa menos dela própria, ausente de razão própria limita-se a imitar o “dono”, seja singular ou colectivo, tem “grilos na cabeça”, problemas psicológicos por resolver quer consigo, quer com o próximo, e não acha soluções porque a sua agitação psicomental e física não conhece a serenidade que o parar para reflectir importa. Como é que a pessoa pode mostrar grandes saberes transcendentes e inéditos além dos conhecimentos decorados por acção mecânica, quando a mente se agita sem cessar? Primeiro devemos tratar da nossa casa antes de pretender tratar da casa dos outros, fazendo isso é praticamente certo que o fenómeno urbano ou suburbano dos gurus autossuficientes terminará de vez. É assim com a Humanidade, e é assim com o povo português. O que, individual e colectivamente, o povo português necessita é tirar os “grilos” da sua alma, da sua cabeça, do seu coração e abraçar aberta e incondicionalmente o seu destino último de povo predestinado. Predestinado a quê? A um laço, a um abraço de Amor e de Sabedoria com toda a Humanidade da qual afinal é espelho.

Pouco tenho a acrescentar a esta entrevista que é quase um codicilo da minha vida, onde deixo tanto por contar. Assim, acrescento só o seguinte como derradeira tentativa aqui de arredo do error e da errância: Neste tempo de pandemia sanitária geradora de pandemónio global, resgate kármico colectivo para o qual tanto avisei e tão censurado fui, nesta hora de cair das máscaras e fingimentos e com isto dos valores do passado agora já podres e gastos, tem-se que Espiritualidade e Política nunca se alhearam uma da outra, sempre foram indissociáveis. Ao longo da História sempre foram eleitos/depostos governos políticos no Mundo por intervenção directa mas encoberta de Ordens Iniciáticas que alavancaram avante a Civilização Humana. Todas as Ordens Iniciáticas e até as religiões confessionais de Tradição, sempre se opuseram à tirania, ao nepotismo, ao racismo, às autocracias, às oligarquias e ditaduras sobre os povos, independentemente dos seus credos, cores e raças. Assim foi e é na Rosacruz, na Maçonaria, na Teosofia e, obviamente, na TEURGIA – a Obra de Deus – levando a teoria à prática e a prática dirigida à praxis da transformação das consciências no inculcar de novos hábitos e costumes afins à verdadeira condição humana de Fraternidade Universal de um e todos no pessoal e colectivo, como a mais importante, crucial e verdadeira revolução de que o Homem carece há tanto tempo. Com isto, realiza-se o Quinto Império, o Quinto Sistema do Deus da Ara de Luz, a Concórdia Universal do Mundo. O resto, resto é: escórias psicofísicas e mentais transbordadas como cegueiras ideológicas retrógradas face à Evolução do momento, levando até a manifestações em palavras e actos de desumanidade irracional, mas que haverá de passar arrastada pela corrente fatal do Oceano da Vida como palha vã. Sursum mens – sursum cordis – sursum voluntatis. Glória a Deus nas Alturas e Pax na Terra aos homens de boa vontade. Tenho dito.

AP – Muito obrigado. Foi uma bela maneira de encerrarmos esta entrevista. Chegámos mesmo ao termo. Muito obrigado Vitor Manuel Adrião, mais uma vez, pela sua disponibilidade e entrega. Foi um prazer.

BIOGRAFIA

Nascido em 26 de Novembro de 1959.

Formado em História e Filosofia, antiga cadeira de Histórico-Filosóficas da F.L.L., dedica-se há mais de 30 anos à investigação histórica na área da simbologia e tradição portuguesa no período medieval, tendo coordenado vários cursos sobre História Sagrada de Portugal e visitas de estudo afins patrocinadas pela Academia de Letras e Artes e a Universidade Lusófona. Estudioso da cultura do Termo ou dos Saloios, dedicou ao tema dezenas de artigos e vários livros publicados, valendo-lhe louvores públicos de várias edilidades municipais, diplomas e a medalha de honra da freguesia de Santo António dos Cavaleiros, por seu contributo à aprovação do seu brasão e bandeira, o que igualmente sucedeu em Loures e Frielas, nesta como interventor e divulgador da cultura folclórica e etnográfica local, tendo recebido vários prémios e menções honrosas.

Animador dos caminhos portugueses para Santiago de Compostela, tem publicados artigos e um livro, “Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa”, dedicados ao tema, tendo o jornal “La Voz de la Galicia” o entrevistado em 1994 descrevendo-o com palavras elogiosas. Conferencista e escritor, com mais de 2000 palestras feitas, centenas de artigos publicados e 40 livros editados, periodicamente colabora em emissões de rádio e televisão, jornais e revistas nacionais e estrangeiras.

Autor da “História Oculta de Portugal” e da “História Secreta do Brasil”, editadas em São Paulo, a sua prestação cultural ao Brasil valeu-lhe em 2002 receber o título perpétuo da Cadeira Histórica e Cultural, certificando-o Comendador, da Sociedade de Estudos de Problemas Brasileiros. Em 2010 o Grande Oriente do Brasil concedeu-lhe a medalha e o diploma de Mérito de Honra.

Em 1978 fundou a Comunidade Teúrgica Portuguesa em Sagres, Instituição Cultural-Espiritualista que vem dirigindo desde então na linha de pensamento da antiga Sociedade Teosófica Brasileira, mas adaptada à vocação lusíada com pólo fixo em Sintra, serra de cuja História Sagrada também é o primeiro autor português, tendo escrito e publicado os livros “Sintra, Serra Sagrada” e “Quinta da Regaleira – Sintra, História e Tradição”.

Ultimamente tem dirigido um sítio da internet, “Lusophia”, com temas de Portugalidade e Tradição.

OBRAS PUBLICADAS

História e Tradição

Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993.

Rotas de Loures. Edição do Autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.

O Saloio de Loures (Génese e evolução). Edição do Autor, Loures, 1995.

Autores lourenhos. Edição do Autor, Loures, 1995.

Frielas (Memorial Histórico). Edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas, Loures, 1996.

História Oculta de Portugal. Edição policopiada do autor em 1988; Madras Editora Ltda., São Paulo, Brasil, 2000, 2002.

Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2009.

Portugal, Sagrado e Mistério (Memória Histórica). Edição do Autor chancelada pela Academia de Letras e Artes, Lisboa, 2017, 2018.

As Forças Secretas da Civilização. Madras Editora Ltda., São Paulo, Brasil, 2003.

Fernando Pessoa, Hermetismo e Ideal. Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2016.

Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Edição do Autor, Lisboa, 1994; Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, 2007; Madras Editora Ltda., São Paulo, Brasil, 2011; Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2020.

Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição policopiada do autor em 1995; Editora Dinapress, Lisboa, 2011.

História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda., São Paulo, Brasil, 2004; Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2017.

Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Edição policopiada do autor em 1990; Editora Dinapress, Lisboa, 2007.

Sintra Encantada (Deuses e Tradição – Homens e Lenda). Espiral Editora, Lisboa, 2017.

Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Edição policopiada do autor em 1991; Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, 2007.

Quinta da Regaleira (Sintra, História e Tradição). Editora Dinapress, Lisboa, 2013.

Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império. Edição do Autor, Lisboa, 1994; Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, 2007; Edição do Autor por Bubok Publishing S.I., Lisboa, 2012; Nova Vega Lda., Lisboa, 2016, 2017.

Guia de Lisboa Insólita e Secreta, em cinco línguas (português, espanhol, italiano, francês, inglês). Edições Jonglez, Versailles, França, 2010, 2015.

Guia de Lisboa Sagrada e Profana. Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2016.

Teosofia e Tradição

Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Editora Dinapress, Lisboa, 2002.

A Ordem de Mariz (Portugal e o Futuro). Editorial Angelorum Novalis Lda., Carcavelos, 2006.

Ordem de Mariz (Iniciação e Segredo). Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2019, 2020.

Portugal, os Mestres e a Iniciação. Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, 2008.

Terra Nostra (Os Mestres e a Iniciação). Madras Editora Ltda., São Paulo, Brasil, 2013.

Portugal, Dimensão Oculta. Chiado Editora, Lisboa, 2015.

Diálogos Aghartinos, volumes I, II, III. Edições Agartha, Alto Paraíso de Goiás, Brasil, 2008.

Deuses de Agharta (O Mistério do Mundo Subterrâneo). Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2017.

Teosofia e Tarot (Os 22 Arcanos Maiores). Edição do Autor, Lisboa, 1996; Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2015.

Mensagem das Estrelas (Teosofia e Astrologia). Edição do Autor por Euedito, Lisboa, 2017.

Agharta – Geografia da Iniciação. Espiral Editora, Lisboa, 2020.

Cristo, Vida e Mistério. Edição policopiada do autor em 1986; Espiral Editora, Lisboa, 2021.

Traduções

Cartas dos Mahatmas M. e K.H. (do francês), 1999.

Cartas dos Mestres de Sabedoria (do francês), 1999.

Esboços sobre a Iniciação, por René Guénon (do francês), 2000.

Iniciação e Realização Espiritual, por René Guénon (do francês), 2001.

Autoridade Espiritual e Poder Temporal, por René Guénon (do francês), 2001.

Estudos sobre a Franco-Maçonaria e o Companheirismo, por René Guénon (do francês), 2002.

O Rei do Mundo, por René Guénon (do francês), 2018.

O Tibete e a Teosofia, por Mário Roso de Luna (do espanhol), 2018.

Uma Mártir do Século XIX – Helena Petrovna Blavatsky, por Mário Roso de Luna (do espanhol), 2020.

Os Manuscritos Perdidos da Loja Blavatsky (do espanhol), 2020.

Notas sobre Geometria Sagrada – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 16 2021 

GEOMETRIA SAGRADA, NÚMERO D´OURO, CINCO SÓLIDOS PLATÓNICOS

A Geometria Sagrada é entendida como uma visão transcendente do imaginalis mundi onde os padrões básicos da existência configurando figuras dão-nos geometricamente apercebidos como de Origem Divina que o racional humano aplicará no plano imediato conectados ao sentido de símbolos sagrados, de aplicação gnoseológica para servir de figurações geometrizadas dos significados reais das catequeses, espirituais e religiosas, em princípio, secundadas pelo racional empírico fonte de especulações do intellectus, que representam. Donde se dizer que o Grande Arquitecto do Universo – Visvakarman, no hinduísmo – esquissou este pela Geometria, ficando as proporções das similitudes exactas ao encargo da Matemática.

Para Heródoto (II Livro de História, cap. CIX), é grega a origem da palavra geometria, composta de , “terra”, e metron, “medida”, portanto, a “medida da terra”, donde geómetra significar agrimensor ou “aquele que mede a terra”.

Através da relação com os símbolos geométricos, o geómetra, que em princípio será também matemático, contempla o Magnum Misterium que é o Grande Projecto do Universo, apreende as suas leis, princípios e inter-relacionamento das formas. As formas universais são sistematizadas num complexo geométrico onde cada figura tem a sua interpretação matemática e filosófica, sendo assim aplicadas nos projectos de Arquitectura Sagrada e Arte Sacra, sempre com as “divinas” proporções para que o Homem reflicta o Universo, e vice-versa. Geralmente aceita-se que a Geometria Sagrada e as suas relações matemáticas, harmónicas e proporcionais, também podem ser encontradas na Música, na Luz e na Cosmologia. Esse sistema de valores foi encontrado até mesmo entre os seres humanos da Pré-História, nas culturas megalítica e neolítica, donde alguns consideram-no como uma cultura ancestral da condição humana.

A Geometria Sagrada é a ciência indispensável presente na edificação de imóveis com fins sagrados, destinados a interrelacionar o visível e o invisível, o Terreno e o Divino, como sinagogas, igrejas e mesquitas e pagodes, intervindo igualmente na construção interior desses espaços, sobretudo nos altares e tabernáculos. Herança da cultura greco-egípcia exportada para a antiga Roma, daí prosseguindo até à Idade Média europeia (séculos V-XV), durante essa inspirou a criação das arquitecturas românica (domínio do cúbico, fixação, arte de fraborum) e gótica (domínio do triangular, assunção, arte de argot) das catedrais, geometrias essas incorporadas ao simbolismo condizente com a mentalidade sagrada do tempo em que surgiram: para o românico, a meditação no aqui e agora, clausural; para o gótico, a contemplação no será e porvir, claustral.

Diz-se ter sido Pitágoras (Samos, c. 570 a.C. – Metaponto, c. 497 a.C.) o fundador do sistema de Geometria Sagrada na Grécia, na sua Escola de Crotona. Este filósofo e matemático grego terá ido buscar esses conhecimentos ao Egipto e à Índia, levando-os para a Grécia. Foi a partir do valor 1.618, Número de Ouro da Proporção Áurea, aplicado às formas geométricas dos cinco sólidos básicos, que Pitágoras criou o método matemático universalmente conhecido como Geometria Pitagórica.

Com efeito, o Teorema de Pitágoras evoca de imediato o Número de Ouro, antes, Número Perfeito, resumido no Três, este que, como reza a sabedoria popular, “é o valor com que Deus se fez”. É Número de Ouro no sentido exclusivamente místico, simbólico na tripartição da doutrina pitagórica em Nous – Nómeno – Fenómeno, no que Três designa a Sabedoria, a Manifestação e a Realização. Por isso, Pitágoras chamou o Três de Número de Ouro, por “reinar em toda a parte”, sendo o Um o seu princípio. Para consolidar esse axioma da sua filosofia, apresentou o Nous, a Mente Universal, o Nómeno como a essência da Mente que se manifesta no Fenómeno, e este, o Fenómeno, como o aspecto sensível e visível, mas também ilusório, da Realidade – Nous.

O número três é universalmente aceite como fundamental no desfecho da manifestação universal da substância, da consciência e da vida. Motivo de em todas as tradições espirituais e religiosas, e até nos hodiernos conceitos científicos como teoria – tese – antítese, estar presente o simbolismo desse algarismo, pelo que em todas as doutrinas e filosofias se reflecte nas tríades correspondentes às forças primordiais expressivas das Hipóstases do Deus ou Consciência Suprema – Nous. Desta maneira, o Três é Número de Ouro no campo místico, sagrado, mesmo obviamente não o sendo no plano nos planos da matemática e geometria, contudo continuando a ser a base da Proporção Dourada ou Regra d´Ouro [1].

Chama-se Número de Ouro, Secção de Ouro ou Proporção Dourada a uma relação particular de modo que a parte menor esteja em relação à maior, assim como a maior em relação ao todo. A isto a Geometria chama de “divisão de uma recta em média e extrema razão”.

Determina-se sobre a recta AB um ponto C, que:

Chamando c a distância AB, a a distância AC e b a distância CB, obtém-se a proporção contínua:

A distância c é igual a a + b. Portanto:

Chamando de x (kappa) à relação   b, obtém-se pela fórmula de solução comum de uma equação de 2.º grau:

As duas raízes dessa equação, são:

Considera-se o valor 1.618 como o do Número de Ouro f (phi) – hieróglifo de IO, a Mónada itinerante no rosário das suas manifestações no Mundo das Formas – e 0.618 como o seu inverso, isto é:

Na prática, não se usa o valor numérico do Número de Ouro. O traçado geométrico é mais preciso, ele evita o erro que sempre resulta de uma relação de medidas. A recta AB da Proporção Dourada a ser dividida constitui o “todo”; o comprimento AC a “maior” (parte) e o comprimento CB a “menor” (parte). Pode-se, portanto, considerar três casos:

1.º Determinar a maior e a menor conhecendo o todo.
2.º Determinar a menor conhecendo a maior.
3.º Determinar a maior conhecendo a menor.

Eis porque sem 3 não haveria Teorema Pitagórico nem Proporção Dourada, ademais sendo 7 (número de iniciação ao acto de criar) a soma do duplo 3 (3+3 = 6) unido (1) pela Mónada pitagórica, Nous, assinalada no f algébrico. Isto não esquecendo o valor 137 como o número cabalístico da própria Divindade, o Logos que sendo 1 manifesta-se como 3 Hipóstases através de 7 estados de consciência.

É igualmente da autoria de Pitágoras a conclusão sobre a “charada” geométrica da Quadratura do Círculo, este como “Espírito” inscrevendo-se no interior do quadrado da “Matéria” onde incarna, podendo processar-se o inverso como Circulatura do Quadrado, figuração do “Espírito” animando e accionando a “Matéria”. É também da sua autoria o Teorema Trigonométrico, descrito imprecisamente como “Quadragésima sétima Proposição de Euclides”, ou seja, “o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos”.

Em números, o Teorema Trigonométrico é assim traduzido:

32 + 42 = 52 ou 9 + 16 = 25.

Esotericamente, interpreta-se o Teorema da forma seguinte:

Assim, a “Quadragésima sétima Proposição euclidiana” acaba sendo a chave das relações entre as três partes maiores do Homem – Espírito (Nous), Alma (Psike), Corpo (Soma):

Segundo os antigos alquimistas, essa Proposição servia-lhes de base para a proporção correcta dos três elementos fundamentais – Sal ou Nitro, Mercúrio ou Azougue e Enxofre ou Sulfur, simbólicos, respectivamente, do Corpo, Alma e Espírito da Mater Natura – entrando na formação da Pedra Filosofal, equivalente da Iluminação Filosófica. Plutarco escreveu que após essa Proposição, poderia dizer-se: “A Natureza Universal na sua mais profunda e perfeita concepção, pode ser considerada como feita de três coisas: de Inteligência, de Matéria e do que resulta dessas duas, que na língua grega é chamada Cosmos”.

A partir dessa concepção geométrica e da métrica dos Versos Áureos, Pitágoras contribuiu para se propalar a explicação cosmológica segundo a convergência dos opostos: o limitado ou material (Prakriti, que não se opõe à divisão por dois, ordem par de natureza imperfeita) e o ilimitado ou espiritual (Purusha, que se opõe à divisão por dois, ordem ímpar de natureza perfeita), completam-se reciprocamente[2]. Daí porque da oposição entre os contrários, entre o finito e o infinito, entre a unidade e a multiplicidade, resulta a polaridade inerente a todas as manifestações fenoménicas.

Dando formas às manifestações fenoménicas, Pitágoras serviu-se de cinco sólidos (tetraedro, hexaedro, octaedro, dodecaedro, icosaedro), sobre os quais Platão veio depois a filosofar, passando a chamar-se cinco sólidos platónicos [3]. Pitágoras terá se inspirado no mito grego dos brinquedos do Menino-Deus Dionísio, ou sejam, a cesta, os dados, o pião, a bola e o espelho. Transpondo esses para o plano cosmológico, tem-se: a cesta representa o Universo; os dados os cinco sólidos platónicos expressivos dos elementos naturais (éter, ar, fogo, água, terra); o pião o átomo primordial da Matéria; a bola o Globo da Terra; finalmente, o espelho que reflecte a toda a Obra da Criação do Supremo Geómetra (Dionísio), a manifestação universal da Vida e da Consciência, de Deus ao Homem e vice-versa.

Cada um dos cinco sólidos platónicos também representa uma energia planetária que se encadeia através da forma num elemento natural. Assim, o dodecaedro é tradicionalmente relacionado a Vénus e à quintessência natural, o éter, expresso no zimbório do templo; o octaedro a Saturno e ao ar, representado no cruzeiro do templo; o tetraedro a Marte e ao fogo, assinalado nas aberturas do templo, por onde jorra a luz; o icosaedro à Lua e à água, que estabelece a harmonia das formas no esquisso do templo, ordenando as linhas de ligação entre altares e colunas; o hexaedro fixa o Sol no solo, representa o elemento terra, consequentemente, delineia o traçado da base ou chão do templo.

Esse é o propósito principal da Geometria Sagrada: o de expor por formas perfeitas e cálculos matemáticos justos a Perfeição Universal, e através da Arquitectura Sagrada ir encadear, acasalar ou unir a Multiplicidade com a Unidade no espaço geometricamente consagrado para o efeito. Por isso se diz, por fim, que o Templo é a expressão estática do Corpo dinâmico de Deus, o Supremo Geómetra.

PRINCÍPIOS DA ARQUITECTURA SAGRADA
(DECUMANO, CARDO, EIXO)

Um burguês da Idade Média passeava por uma pedreira e encontrou um grupo de três trabalhadores, dirigiu-se a eles e perguntou o que faziam. “Ganho a vida”, respondeu o aprendiz. “Talho uma pedra”, respondeu o companheiro servente. O terceiro, mestre de ofício, fitou com desdém o estranho e afirmou: “Construo uma catedral”.

Possuídos do nócio hermético, metafísico da Geometria aplicada à Arquitectura com isso revestindo-a de noção transcendente indo dispô-la no plano do Sagrado, os monges construtores medievais – herdeiros dos conhecimentos operáticos dos Colegia Fabrorum latinos – constitutivos da primitiva Maçonaria Operativa,construtora dos principais monumentos românicos e góticos da Europa, principalmente as grandes catedrais, fizeram estas de maneira a reproduzirem o próprio Universo, de forma ao que está em cima (no Céu) ser igual ao que está em baixo (na Terra), e vice-versa. Se os templos são formas estáticas do movimento celeste, ainda assim são animados pela presença dos fiéis, tal como os seus símbolos são vivificados na liturgia. O plano do solo do templo é uma projecção horizontal ordenada do Universo. Na razão da orientação solar, cada ponto cardinal indica uma posição extrema do ciclo sazonal e diário, pondo o Tempo em movimento harmónico com o Espaço. O percurso no templo reproduz o ano solar ritmado pelas fachadas, no que é o caminho conduzindo das trevas à luz.

Na concepção teológica judaico-cristã, o Outono ou Crepúsculo está a Oeste; o Inverno ou Meia-Noite está a Norte; o Amanhecer ou Alva da Primavera, a Este; finalmente o Verão ou Meio-Dia, a Sul. Esta dinâmica do espaço é utilizada no calendário litúrgico pelo que, em função do momento do ano ritual, certas portas são abertas enquanto outras são fechadas, em referência ao tema “portas santas”. O Norte é o lugar menos iluminado do templo, pois expressa o frio, as trevas, o mundo invisível representado pelo mundo subterrâneo ou a cripta. Todo o simbolismo do portal norte é consagrado às origens estelares, à Estrela Polar.

O Este indica o início do Mundo. É aí que, pela primeira vez, o Sol se levanta indo o seu raio de vida incidir sobre o altar-mor. Igualmente aponta a direcção de Jerusalém, mais que tudo da “Nova Jerusalém” expressiva do Paraíso Celeste, altar maior que ao concentrar nele a potência do Sol Nascente expande-a como Espírito de Vida por todo o templo. O Sul marca o zénite solar, o apogeu da Criação e a sua frutificação. Por isso, é o lugar do púlpito, do Evangelho como Verbo Divino manifestado. O Oeste é a região do recolhimento, da Morte, do ponto de contacto entre o profano e o sagrado, e por esta razão a principal porta de entrada está a Oeste para que o mortal encare a condição imortal expressa pelo altar-mor, a Este. O Oeste marca o Outono, o Fim dos Tempos de um ciclo planetário marcado pelo Zodíaco que, aqui, é representado ao centro pelo Padre Eterno (configurando o Sol Central), ou então pelo Filho cercado pelos 12 Apóstolos figurativos dos signos.

De acordo com o decumano (sentido Este-Oeste) e o cardo (sentido Norte-Sul), há duas entradas no templo: a principal é chamada Porta do Tempo, por indicar o percurso do Sol na nave de Este a Oeste, pondo em movimento o Tempo no Espaço sagrado. O decumano determina o eixo Humano do edifício, que vai do nascimento à morte, ou seja, do Este ao Oeste. A entrada pela porta Oeste permite levar o Tempo da morte à vida, ou seja, do neófito, do que vem de fora do templo, ao iniciado, do que participa da Origem Primordial assinalada pelo altar-mor a Este.

Há também a entrada lateral chamada Porta da Eternidade, tendo a ver com o cardo, ou sentido Norte-Sul. O cardo representa o eixo da Eternidade e cruza-se com o decumano expressivo do Tempo, logo, o Tempo da Eternidade, sob o fecho da abóbada, esse que é a pedra angular, filosófica, de todo o templo.

O fecho de abóbada adiante do arco triunfal que separa o altar-mor da assembleia dos fiéis, marca o áxis mundi ou eixo do mundo (também chamado eixo cósmico, centro do mundo, pilar do mundo ou coluna cerului). A sua imagem, reflectora do macrocosmos nomicrocosmos, exprime o ponto central de conexão entre o Céu e a Terrado qual irradiam as quatro direcções cardinais, pelo que funcionacomo omphalo (umbigo) ou “centro primordial” do templo (assim como dum espaço urbano), como póloirradiador e ponto de encontro das direcções Norte-Sul (cardus) e Leste-Oeste (decumanus) que aí se cruzam. É o ponto zero do templo, como igualmente é o marco zero numa civitas [4].

Sendo o templo a expressão estática do Corpo de Deus, o seu esquisso ou planta cruciforme representa o corpo humano de braços abertos ou descaídos, o próprio Homem Cósmico Adam-Kadmon, figurativo do Logos Planetário. Cada parte do templo possui qualidades comparáveis às partes do corpo. O círculo da abside de cabeceira representa a cabeça, enquanto o cruzeiro da nave e do transepto expressa o coração, isto é, a vida que pulsa em todo o templo. Quanto à fachada oeste, representa os pés do Corpo de Deus, razão porque reproduz e resume os princípios e funções de toda a construção. Pela leitura da fachada oeste, o neófito é informado do conteúdo espiritual que deverá realizar no templo. Os “pés” de Deus evocam também os do fiel entrando na Sua Casa a fim de se realizar plenamente na Graça do Espírito de Santidade.

Toda essa disposição de “linhas de forças” geocelestes, conhecidas como leys na Idade Média e Renascença, cria estado de correspondência ou “simpatia vibratória” entre o Homem e o Cosmos. A entrada no templo corresponde à entrada no corpo humano, ou seja, à introspecção, no que o silêncio é exigido. Trata-se, realmente, da execução do princípio judaico-cristão, na realidade antigo axioma hermético greco-egípcio, de “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”.

SIMBOLISMO DO PENTAGRAMA

Vale ou saúdo tinha o valor de pentagrama, às vezes só inscrevendo este, nas cartas e/ou monumentos dos autores antigos. Um pentagrama esculpido à entrada ou/e na cabeceira de uma igreja, possuía o sentido de saudar, sem escusa do seu significado mágico de exorcizar o mal visível e invisível, além de no nível moral expressar a Perfeição Divina no Plano Humano.

O pentagrama, termo grego, pentagrammon,é a estrela composta por cinco linhas rectas que possui cinco pontas. Na língua portuguesa, pentagrama significa uma palavra com cinco letras. Na música, indica as cinco linhas paralelas que compõem a partitura.

Originalmente, era o símbolo da deusa romana Vénus, e assim é associado a este planeta cuja órbita circular com grau de excentricidade, vista da Terra, descreve aparentemente uma estrela de cinco pontas, como já informava a astronomia ptolomaica, desenvolvida por Copérnico e Galileu. Na Natureza, o pentagrama é o signo do quinto elemento (ou quintessência, posto ser as essências e não os seus metais que os antigos hermetistas designavam pelos nomes dos elementos naturais), o Éter, assinalado na sua ponta superior, enquanto nas demais pontas inferiores se assinalam os restantes quatro elementos: Ar, Fogo, Água, Terra. O pentagrama (ou pentalfa) é igualmente símbolo do Infinito: dentro do pentágono no centro do pentagrama é possível fazer outro pentagrama menor, e assim sucessivamente.

Possui simbologia múltipla, sempre fundamentada no número 5 que representa o casamento ou união do masculino (o 3, ímpar, macho) e o feminino (o 2, par, fêmea), dessa forma simbolizando a união dos contrários necessária à realização espiritual corporizada no filho, neste caso, o Cristo resultando no valor 5, e também por outra parte, relativa aos valores 2 e 3, a Lei da Polaridade na Manifestação Física sobreposta pela Lei da Unidade da Presença Espiritual.

Por essa razão, na matemática, com origem na Escola Pitagórica, o pentagrama (símbolo dessa instituição grega) anda ligado ao Número de Ouro (1.618): composto pelas diagonais de um pentágono regular e cinco triângulos isósceles, a razão entre o lado do triângulo e a sua base (lado do pentágono) é igual ao valor do Número de Ouro.

A Cabala judaica, através dos seus rabinos mais eruditos, considera o pentagrama simbólico da Vontade de Deus e da Protecção Divina. No Cristianismo é a Estrela do Natal, a do Nascimento de Cristo, no que preanuncia tanto o Espírito no Corpo (Nascimento), como o Corpo no Espírito (Ressurreição). Na Maçonaria é a Estrela Flamejante da Iniciação, plantada no Oriente da Loja, igualmente expressando a Ressurreição, no caso, após a morte simbólica do Companheiro para ressurgir como Mestre.

Quando o pentagrama se apresenta invertido (o chamado “pentalfa trevoso”), geralmente assumido símbolo do Mal contrário ao do Bem que é o pentagrama ao alto (dito “pentalfa luminoso”), quer dizer que o Espírito mergulhou na cegueira da matéria e nos padecimentos carnais da Alma humana. O pentalfa invertido é o da encarnação ou mergulho do Espírito na Matéria dentro do pentágono central do pentalfa maior, o da assunção triunfante do Espírito sobre a Matéria. Também nisto, como se observa em muitos monumentos religiosos e até lápides funerárias ostentando pentagramas invertidos, bem e mal vêm a ser relativos ou condicionados à proporção geométrica da medida áurea[5]. É preciso considerar a posição e o por que dos símbolos antes de catalogá-los a priori como “benéficos” ou “maléficos”, ainda que hajam os exclusivamente dessas naturezas.

No pentagrama invertido (assim como no triângulo invertido, yoni, em oposição ao vertido, ctéis) apresenta-se o sentido último do Eterno Feminino, expressando o derradeiro abraço mortal a Maria sinalética da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria. Donde o símbolo esculpido em pedras de cabeceira tumulares medievais, inclusive templárias, indicando que o Espírito se libertou e desceu, volveu ao seio da Mãe-Terra. Indica também a manifestação ou incarnação da Mónada por via do seu eleamento aos quatro elementos naturais, dos quais se liberta por ocasião da morte corporal volvendo à Essência Divina do Mundo – Anima-Mundi, Sophia, Shekinah, Maria, Allatah, Saravasti, etc., por regra tradicional tendo a melhor expressão na Virgem Negra. Em resumo, pentagrama vertido = inicío da Iniciação Dominical (Sacerdotal); pentagrama invertido = final da Iniciação Senhorial (Cavaleiresca). Enfim, consuma-se o das trevas à luz, da morte à imortalidade…

Os freires eruditos da antiga Ordem do Templo (séculos XII-XIV), além do citado propósito fúnebre, igualmente inscreviam o pentagrama invertido dentro do espaço geométrico do pentágono, deixando sempre, inclusive no fúnebre, o subentendido de ser parte de pentagrama maior inscrito na medida áurea resultante da equação dos valores da raiz quadrada de cinco. Essa medida é a mesmíssima presente nos imóveis de maior relevo e importância do Templo, em conformidade ao sentido pitagórico de Logos (Razão), 1.618, e de Pathos (Sentimento), 0.618, este presente no pentagrama invertido e aquele no vertido.

Um último apontamento: o pentagrama invertido só é símbolo maléfico quando aliado a intenções goécias – magia negra – com técnicas coreográficas, pictóricas, gestuais e verbais afins. De outra maneira, não! Tanto como os maçons não adorarem qualquer bezerro ou bode de algum gado (G.A.D.U. é só a sigla do Grande Arquitecto do Universo em seu Terceiro Aspecto Criador). O tal bode sinistro – que o ocultista Eliphas Lévi publicitou no século XIX, na sua constante e aflitiva órbita entre cabala e catolicismo – jamais foi símbolo do mafarrico cornúpeto e sim do Caprino ou Cumara, o poderoso Arqueu ou Assura que como “Príncipe do Mundo”, antes, “Rei do Mundo”, vem a ser o próprio Planetário da Ronda na sua função de Melkitsedek ou Chakravarti, no que se torna sobremaneira transcendente que nem o mais apurado dos intelectos humanos conseguirá apreender o seu sentido mais que espiritual, divino. A Via Negra do Kadosh, “Consagrado”, e negra por conter toda a luz, nisso na realidade sendo púrpura, é efectivamente a Via do Cumara, na qual de vez para sempre o Maçom deixa de ser “Filho da Viúva” – Ísis sem Osíris, a Terra apartada do Sol (Maha-Sun, Maçonaria, em interpretação livre) – ao tornar-se ele próprio de Filho em Pai, isto é, Osíris ressuscitado em Hórus, um Ser Cristóforo. Deixo a sugestão aos mais intuídos, capazes de perceber que 2 e 2 não é igual a 2 mais 2, ou seja, capazes de aperceber além das aparências onde o símbolo estático se torna realidade viva e dinâmica.

OLHO DENTRO DO TRIÂNGULO

A tradição do Olho dentro do Triângulo, visto sobre o altar-mor da maioria dos templos cristãos, tem a sua origem nos primeiros padres apostólicos do Cristianismo que a recolheram em Alexandria, herança do Egipto faraónico, cujo Sol Central (Ra) resplandecente viria a ser substituído pelo Olho da Divina Providência envolto numa luminosa aura de glória, inclusive cobrindo o Triângulo Divino ou Delta Luminoso, conforme ficou registado nas escrituras persas[6].

Esta figura geométrica pode ser configurada como triângulo equilátero ou como triângulo isósceles, também chamado triângulo sublime, que é o que forma a ponta do pentagrama cujo ângulo, no ápice, tem 36º, e cujos ângulos da base possuem 72º cada um. A designação de “sublime” foi-lhe dada pelos geómetras pitagóricos da Antiguidade.

Se para os antigos egípcios o triângulo equilátero representava a Tríade Osiriana (Osíris – Hórus – Ísis), para os cristãos passou a assinalar aTrindade Divina (Pai – Filho – Espírito Santo) como um só Ser indivisível assinalado no “Olho Que Tudo Vê”, muitas vezes substituído pelo Nome de Deus, Jehovah, geralmente decomposto nas quatro letras hebraicas Iod-He-Vau-He que configuram o Tetragramaton pelo qual o Logos Eterno se manifesta pelas suas Três Prosapas ou Hipóstases: Poder da Vontade – Amor-Sabedoria – Actividade Inteligente.

A marca da Trindade e do triângulo está presente na maioria das religiões tradicionais. Na Trimurti (Trindade) Hindu aparece expressa em Brahma – Vishnu – Shiva, antropomorfização da anterior Trimurti Védica Prana – Vayu – Tejas, ainda assim sendo sobretudo no Antigo Egipto ele aparece nas várias fases da sua História, pelo que além da Tríade Osiriana havia a Tríade Menfita (Ptah – Nefertoum – Sekhmet; Pai – Mãe – Filho), e a Tríade Tebana (Amon – Khonsou – Mout), todos deuses primordiais do panteão do povo do Nilo. Na Pérsia, havia Aura Mazda – Vohu Manô – Asha Vahista, ou seja, o “Mestre Sábio”, o “Bom Pensamento”, a “Perfeita Justiça”, e foi por esta primitiva Trindade que os cristãos conceberam a sua.

No século XVIII, com o aparecimento da Maçonaria Especulativa (Londres, 24 de Junho de 1717), rapidamente os maçons adoptaram este símbolo apelidando-o de Delta Luminoso, com um Sol, um Olho ou só um G ao centro radiante, designando o Grande Arquitecto do Universo, a Divindade Criadora de tudo e de todos, o Geómetra Supremo.

Por vezes os maçons substituem o triângulo por três pontos triangulados (. . .), significando o Passado, o Presente e o Futuro, enquanto o triângulo inteiro representa a Eternidade ou Essência Eterna como Substância Absoluta que na Manifestação triparte-se em Omnipotência (1.º Aspecto), Omnisciência (2.º Aspecto) e Omnipresença (3.º Aspecto). Os três ângulos expressam as três fases da revolução perpétua da existência: Nascimento – Vida – Morte… e Ressurreição, centralizada no Olho Providencial.

Em suma, o Olho no Triângulo resplandecente é o emblema da Divindade Una em Essência e Trina em Manifestação, unanimemente considerado representativo do Espírito Perfeito e do Iniciado verdadeiro unido à Essência Eterna que lhe confere a Iluminação.

NÓ DE SALOMÃO

O Nó de Salomão, assim chamado pelos artífices da Roma Antiga e da Grécia Clássica, que depois os mestres arquitectos da Idade Média continuariam a chamá-lo assim, possui qualidade mágica apotropaica, ou seja, que “pretende ter ou tem o poder de afastar o mal”.

Com efeito, na cultura tradicional onde o popular se mistura com o oculto, as amarrações ou “nós mágicos” têm a finalidade de prender os espíritos, tanto os bons como os maus. Como se crê que o Diabo leva consigo as almas perdidas, assim se supondo ter em seu poder alguma coisa que se perde, com isso amarram-no magicamente para evitar que escape e faça mal maior. As redes entrelaçadas do nó mágico tinham precisamente a função de apanhar, prender ou bloquear o mal. O Nó de Salomão é um nó eterno, as suas linhas não têm fim, não se consegue encontrar a ponta inicial ou final, e assim as forças do mal seguem linhas sem fim ficando presas na eternidade. Com isso, nasceu a tradição dos lugares amaldiçoados onde se acredita que o Demónio e os espíritos danados vivem amarrados por poder de magia maior que a sua, a de Deus.

Conhece-se a historia do Nó Górdio e a “delicada” solução para o mesmo feita por Alexandre, o Grande, rei da Frígia (Ásia Menor), e ter ficado conhecido pelos gregos e romanos como Nodus Herculaneus, um nó mágico conhecido na Kaballah judaico-cristã como Nó de Salomão, ao traduzir-se a palavra hebraica peka´im como significando “botão” ou “nó”, como se encontra na Bíblia em I Reis 6:18 e 7:24. No entanto, os exegetas modernos traduzem-no como “ornamento em forma de cabaça”.

Mas o Nó de Salomão, este Rei que trocou a riqueza pela sabedoria (I Reis 3:11-12), ou seja, sendo verdadeiro Iniciado nos saberes mais altos do Espírito, assim ficando para sempre como sinónimo de Rei Sábio nos Mistérios Maiores inacessíveis ao comum e vulgar, possui o significado primordial de união do Homem com a Esfera Divina (Sphera Dei). Com efeito, ao observar-se o símbolo identifica-se no nó circular duas redes que se entrelaçam diversas vezes numa geometria constante formando uma cruz absorvida sobre si mesma, sem princípio nem fim, como o Homem e o Divino espelhando um ao outro, recambiando para o sentido hermético de “o que está em cima é como o que está em baixo”, e vice-versa.

Assim é o Nó de Salomão em cruz, com os laços horizontal e vertical expressivos da Terra e do Mundo Divino, respectivamente, onde o tríplice nó é evocativo da Trindade Pai, Filho, Espírito Santo afins ao Espírito, Alma, Corpo, encadeados entre si na manifestação visível e tangível[7].

Os arquitectos medievais, à semelhança dos seus antecessores gregos e romanos, utilizavam o Nodus Salomonici para decorar tanto o pavimento como as paredes e colunas dos templos e palácios para neles encadear as forças geocelestes de maneira a possibilitarem a abertura da via de comunicação entre a Terra e o Céu, facto viabilizado no acto ritual da liturgia. Mas a crença popular extravasou o símbolo para a função apotropaica e gravou-o tanto à entrada como no interior das suas residências, como protector seguro contra as influência malignas, talvez memória semi-inconsciente do tempo de Moisés quando os hebreus pintaram com sangue de cordeiro os umbrais das portas de suas casas, para que as pragas da Ira de Deus não os atingisse.

Ao Nó de Salomão se associa a Swástika Clavígera que é a chave do esquisso de toda a catedral canónica, ou edificada segundo os cânones tradicionais da Arquitectura Sagrada, e até mesmo das rosetas hexapétalas vistas em alguns vitrais e gravadas em colunas e portais cujos contornos floridos configuram o hexalfa ou estrela de seis pontas, comumente chamada Estrela de David, simbólica da Alma Universal por os seus dois triângulos entrelaçados expressarem tanto a Terra como o Céu unidos.

Igualmente na Arte islâmica encontra-se o Nó de Salomão, e com tal profusão e beleza de traços que até hoje traz fascinados e confusos os historiadores de Arte. Para uns, dever-se-á ao facto da proibição religiosa de representações figurativas; para outros, à importância conferida pelos islâmicos e muçulmanos ao estudo da matemática e da ciência dos números; ainda para outros, os mais certos sem descuro dos anteriores, representa a indivisibilidade do Único (Allah), cuja explicação conservam no hermetismo dos códigos das suas confrarias iniciáticas, familiares do xiismo e do sufismo, impondo assim a influência do pensamento espiritual e religioso, místico, à mentalidade dos artistas que nas infinitas formas dos traços reflectiam a crença comum na unidade do Homem e Deus.

VESICA PISCIS, MANDORLA, FLOS VITAE

A designação latina Vesica Piscis, “bexiga de peixe”, surgiu no Cristianismo Primitivo entre os séculos I e III d.C., durante o período de intolerância e perseguição aos cristãos em Roma. Serviu-lhes de santo-e-senha, sinal secreto da fé partilhada ao desenharem na areia dois círculos entrelaçados, de modo que a parte central ou bexiga configurasse um peixe – afim ao Ciclo de Piscis aquando surgiu o Cristianismo – que em grego se escreve ichthus, adoptado como o anagrama Iesus Christos Theous Uios Soter, “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”.

Depois do Édito de Milão, declarado no ano 313 d.C., assinalando o acordo no qual o Império Romano se manteria neutro relativamente ao Cristianismo, indo passar o período de perigo, esse sinal de reconhecimento entre cristãos entrou em desuso, como relata Frédérick Tristan em Les premières images chrétiennes: Du symbole à l´icône (Editions Fayard, Paris, 1996).

Se a Vesica Piscis entrou em desuso como sinal de reconhecimento, o mesmo não lhe aconteceu na arte arquitectónica dos colegia fabrorum que lhe dariam aproveitamento e execução na Alta Idade Média através dos monges conscrutores beneditinos e depois os cistercienses. Foi assim que a Vesica Piscis entrou nas lojas e oficinas dos grémios medievais de arquitectos e construtores para designar a superfície compreendida entre dois arcos de círculo do mesmo raio, como se observa facilmente nos arcos geminados entrelaçados dos claustros de muitos mosteiros (Alcobaça, Jerónimos, etc.).

O próprio Albrecht Dürer (1471-1528), pintor, ilustrador, matemático e ensaísta alemão de Nuremberga, bebendo na tradição dos geómetras medievais foi buscar o termo fischblase, “bexiga de peixe”, para designar as figuras que resultam da intersecção de dois círculos. No seu tratado geométrico Underweysung der Messung, mit dem Zirckel und Richtscheyt (“Instruções para medições à régua e ao compasso”, 1525), Dürer utiliza palavras como “bexiga de peixe” para descrever a forma que queria expressar, como se nota na explicação da construção do eneágono no Livro II desse seu tratado, utilizando o termo fischblase: “O eneágono pode ser obtido a partir do triângulo. Desenha um grande círculo em redor de um centro a. Inscreve nele, com a ajuda de um compasso da mesma abertura, três bexigas de peixe”. Este tratado de Dürer vem a ser a prova escrita mais antiga conhecida do termo “bexiga de peixe” como figura geométrica[8].

Da Vesica Piscis deriva a Mandorla, consistindo no ponto de intersecção dos dois arcos que, como se disse, era primitivamente o santo-e-senha dos cristãos perseguidos que se reuniam em segredo nas catacumbas de Roma, com um desenhando um arco no solo e outro completando o símbolo com novo arco, assim se reconhecendo confrades partilhando da mesma fé.

A palavra mandorla provém do italiano e significa “amêndoa”. Por regra, na arte ocidental cristã da Idade Média a forma em amêndoa era utilizada para envolver a figura de Cristo na Assunção, ou da Virgem ou de algum outro santo destacado. Originalmente, a Mandorla representava a nuvem sobre a qual o Cristo ascendia, mas com o tempo passou a ser usada como “Aura de Glória” – Veste do Espírito Santo, o Augoeides – ou a Auréola emanando a Luz de um Ser Divino, que na classificação teosófica corresponde ao Corpo Causal. Por este motivo, foi representada para representar Cristo na Transfiguração, na Assunção e em Majestade no Trono de Deus.

Nisso fica bem o termo amendoeira, em hebraico shaquedh, “vigilante”, e como sinal de vigilância mal vem o Sol floresce, não espera pela Primavera, sendo assim sinal antecipador e anunciador de grandes novas, remetendo para o tempo de Parúsia ou Advento. Às suas flores brancas os antigos rabinos davam-nas como expressivas da Luz ocultada, o que representavam no fruto inviolável (prunus dulcis) dentro da casca da amêndoa, como grão ou semente do Fogo Divino destinado florescer, a incandescer o kadosh ou “consagrado” nos Mistérios de Arca da Aliança de Deus com o Homem, e vice-versa, tema remetendo para o sentido de inviolabilidade de Agharta, o Sanctum Sanctorum da Mãe-Terra[9].

Motivo porque na coluna de glória fincada no ponto de intersecção de dois arcos geminados se coluna no nicho, no pórtico de entrada na igreja, o santo da evocação desta, algumas vezes podendo ser alheio ao reconhecido oficial no santoral da Igreja, como vê, por exemplo em Lisboa, no pórtico sul do Mosteiro dos Jerónimos, apresentando o Infante Henrique de Sagres espadado, ou no pórtico dianteiro da igreja de Conceição-a-Velha, ostentando a Varina com espada e balança.

No século XII, a Escola Rabínica de Troyes, França, famosa pelos seus estudos cabalísticos, dirigida por Shlomo Yietzhaki, mais conhecido pelo acrónimo Rabi Rashi (1040-1105), autor do Perushe Rashi ´al ha-Torah, organizou o alfabeto hebraico desenvolvendo a sua interpretação geométrica a partir da Vesica Piscis. Sobrepôs sete círculos onde ao centro se uniam seis mandorlas figurando uma flor a que chamaram Flor da Vida, cedo repassada ao Cristianismo que a adoptaria como Flos Vitae, tanto indicativa do Filho como da Virgem, tendo os franciscanos a chamado de Flor do Paraíso, ligando-a ao sentido de Advento.

Esse último sentido está registado na Flor da Vida gravada sobre a entrada no pombal, altaneiro ao olivedo abaixo, dos freires capuchos, dentro da cerca do Conventinho de Loures. Tem-se nisso a recriação do Monte das Oliveiras onde Cristo se recolhia abrigado pela Ave do Espírito Santo, a Semente e Flor da Vida como Terceiro Logos Criador.

A imagem da Flor da Vida é formada por círculos distribuídos uniformemente com espaçamentos iguais, sendo que a partir do centro de cada um se pode criar novos seis círculos, induzindo o conceito de Vida Universal abarcando o tempo e o espaço em qualquer período passado, presente e futuro, por participar da própria Essência Divina irradiada do Coração do Logos assinalado na esfera radiante do Sol como astro-rei.

Durante a Renascença esta flor vital foi motivo de grande interesse por Leonardo da Vinci, tendo-a esquematizado em várias das suas obras fascinado com as suas propriedades matemáticas[10]. Certamente conheceria a sua origem cabalística e as várias formas e significados entrando na sua composição, como seja:

1. Semente da Vida, assinalada pelo círculo, marcando o nascimento ou irrompimento da Flor.

2. Ovo da Vida, assinalado pelos sete círculos, marcando os Dias ou Ciclos da Criação, indo formar a Flor e com isso representando o crescimento e a expansão.

3. Fruto da Vida, expressando a reprodução feita com treze círculos, onde por meio de setenta e oito linhas são ligados uns aos outros os centros dos mesmos, formando o cubo da matéria em que assenta a raiz da Flor elevada ao céu sinalético do espírito, no que entra o nome cabalístico Metraton, ou seja, “a medida (metra ou matra) perpendicular entre o Sol (Aton) e a Terra”.

4. Flor da Vida, a forma final, permitindo o surgimento de nova semente (bijã) e o início de um novo ciclo (yuga).

Última nota final necessária. As modernas modalidades alternativas do chamado neoespiritualismo, maioritariamente baseadas em experiências individuais de estímulos oníricos, pareidolias, etc., revestiram de sentimentalismo vácuo as figuras da Geometria Sagrada dando o resultado de alteração do significado original ou tradicional dos símbolos da mesma, colando-os a crenças aleatórias, vagas e imprecisas que preenchem o chamado universo “new age”. O que hoje se conhece nesse meio por “geometria sagrada” e afim significado, espécie de migalhas caídas da mesa de banquete das Escolas Iniciáticas da Antiguidade, seria para os antigos geómetras e hermetistas algo completamente anómalo onde de certeza se irreconheceriam. Necessita-se “separar as águas”, devolver os símbolos ao seu sentido original de Ciência Sagrada desvanecendo os equívocos, estes acaso podendo ser belos e atractivos na sua apresentação mas nem por isso deixando de ser equívocos, e para isso assentando o intento de repor a originalidade nestas notas.

NOTAS

[1] Jules Boucher, A Simbólica Maçónica.  Editora Pensamento, São Paulo, 1984.

[2] C. R. Gomes, Pitágoras de Samos: seu mito e sua herança científico-cultural. Oficina de Livros, Scientiarum Historia III, Livro de Anais, Rio de Janeiro, 2010.

[3] C. R. Gomes, Platão – o “criador” de matemáticos. Editora da UFRJ, Scientiarum Historia IV, Livro de Anais, Rio de Janeiro, 2011.

[4] Paulo Pereira, Edifícios discretos. Academia.edu, Lisboa, 2014.

[5] Jules Boucher, ob. cit.

[6] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo, 1984.

[7] René Guénon, A Grande Tríade. Editora Pensamento, São Paulo, 1990.

[8] Filipe Alberto da Silva, A figura da Mandorla e da Vesica Pisces. As suas possibilidades de construção. Universidade de Lisboa – Faculdade de Belas-Artes, 2013.

[9] René Guénon, O Rei do Mundo. Espiral Editora, Lisboa, 2019.

[10] Nigel Pennick, Geometria Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo, 1981.

“Uma Mártir do Século XIX: Helena Petrovna Blavatsky”, por Mário Roso de Luna Domingo, Jun 20 2021 

SINOPSE

Uma Mártir do Século XIX: Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, por Mário Roso de Luna, o gigante da Teosofia Ibérica, é obra indispensável à compreensão da colosso ucraniana que em menos de metade de um século alterou os paradigmas do pensamento humano, abrangendo e indo além de todos os sectores do mesmo, da ciência à religião, à física e à metafísica, do simbolismo arcaico nas civilizações antigas, etc., provocando o assombro e a admiração gerais, inclusive dos que lhe foram abertamente hostis, unanimemente apodando-a de Esfinge, não poucos dando-a como a maior sábia do século XIX.

Mário Roso de Luna descreve de maneira clara a vida de Helena P. Blavastsky, capítulo a capítulo, desde o seu nascimento, juventude, maturidade e velhice até falecer. Fá-lo não só como biógrafo imparcial munido de valiosos documentos, não poucos inéditos aqui revelados, mas também como iniciado oferecendo ao leitor interpretações esotéricas únicas dos acontecimentos mais controversos da vida desta sua Mestra declarada.

A virgindade de Blavatsky, o seu pressuposto filho, os seus casamentos, as acusações contra ela pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas, como os assuntos mais controversos da sua vida, são aqui esmiuçados com pormenores que vêm inocentar a infeliz mártir. Mas também se abordam, detalhadamente, as faculdades psicomentais de Blavatsky, o seu reconhecimento pela Maçonaria, as aventuras das suas viagens pela Europa, pela América do Norte e do Sul, pela Ásia, indo do Japão à Índia e daí ao Tibete, onde finalmente pôde conviver em retiros secretos com os Mestres Espirituais do Mundo, dos quais recebeu os conhecimentos superiores necessários para poder executar o ensejo deles: a fundação da Sociedade Teosófica, indo decisivamente ampliar o horizonte mental e espiritual da Humanidade.

Título capital entre as obras esotéricas de maior valor e fama, este agora de Mário Roso de Luna aparece finalmente em língua portuguesa com a firme certeza de ser incontornável a quem queira conhecer o génio de Blavatsky e da colossal obra teosófica que generosamente legou ao Mundo.

ESPIRAL EDITORA

Obra referencial finalmente aparecida na língua portuguesa traduzida e prefaciada por Vitor Manuel Adrião, dada à estampa por Espiral Editora, Lisboa. Para mais informações é favor contactar o senhor Hugo Martins, com página no facebook e e-mail (endereços abaixo), que as disponibilizará a quem solicitar, esteja em Portugal ou noutros países.

hmartins.es@gmail.com

https://www.facebook.com/hugo.martins.186

Página seguinte »