“Guia de LISBOA SAGRADA E PROFANA” por Vitor Manuel Adrião – Edição Lusophia. Quarta-feira, Aug 3 2016 

Guia de LISBOA SAGRADA PROFANA

Por

Vitor Manuel Adrião

EDIÇÃO LUSOPHIA / EUEDITO

JULHO DE 2016

PREÂMBULO

Por que o escudo de Portugal está inclinado 17º sobre a fachada da Gare do Rossio? Onde foi tocada pela primeira vez em Portugal a “Flauta Mágica” de Mozart e porque Mozart dedicou-a ao seu Mestre Cagliostro? Por que sobre a ideia do Quinto Império Português encontram-se tantos sinais na geografia e monumentos da cidade? Onde se encontram os mais belos azulejos de Lisboa? Por que e como a Lusitânia se tornou Portugal (Porto do Graal), lugar de recolhimento do mítico Graal de Cristo? Onde se acha a cabeça do serial killer lisboeta conservada em formol? Onde está o “jardim mágico” de Bordalo Pinheiro? Por que a fachada sul do Mosteiro dos Jerónimos foi concebida segundo os princípios kabalísticos hebraicos? Quais são os símbolos ocultos do políptico nacional de Nuno Gonçalves no Museu Nacional de Arte Antiga? Quem são verdadeiramente esses sabastianistas que, à maneira dos muçulmanos xiitas, aguardam o retorno do rei encoberto assinalado em D. Sebastião?

Lisboa tem sido desde a Idade Média um terreno de predilecção excepcional para desenvolver e aplicar as ideias de reis que foram alquimistas, de ministros que também eram maçons, de poetas ocultistas, de adeptos do Hermetismo e dos conhecimentos secretos dos Templários que se refugiaram em Portugal, após a sua interdição no século XIV no resto da Europa.

Vitor Manuel Adrião, historiador e filósofo reputado, é o herdeiro em Portugal do conjunto desses saberes esotéricos. Ele revela aqui, neste verdadeiro guia iniciático sem descuro do profano, a sua sabedoria inédita e descreve de modo estupendo os arcanos de Lisboa que alguns pensaram estar destinada a capital espiritual da Europa.

Lisboa Sagrada e Profana destina-se a todo o género de público que quer saber e conhecer as maravilhas e os insólitos esquecidos ou ignorados da capital portuguesa. Um livro que é um guia excepcional.

LUSOPHIA

ÍNDICE

ALFAMA – GRAÇA – MOURARIA

Preâmbulo

Alfama, povo e tradição

Alfama das “águas boas”

A cisterna de S. Miguel de Alfama

Lisboa – Lix Bona – Água Boa

Varina da Conceição Velha

Por que para os antigos o Tejo era rio sagrado?

Arte e Mistério em Conceição Velha

Casa histórica da Fundação José Saramago

Um jardim de falos mortos…

A santidade impossível de Vicente

Panteão Real de S. Vicente

Adoração feminina na Graça

A cadeira dos partos de São Gens

O bairro maçónico “Estrela de Ouro”

A Aula da Esfera

Colégio dos Meninos Órfãos

Segredos e tesouros de S. Cristóvão

Memória artística no Palácio dos Távora

As “pedras negras” do Templo de Cibele

Deuses do Teatro romano

Tesouro artístico do Palácio Belmonte

Curiosidades da igreja do Menino-Deus

Sinais secretos no Castelo de S. Jorge

O motivo de S. Jorge ser apeado do cavalo

A relíquia esquecida de Santiago Maior

A milagrosa Cruz de Santiago

Ordem Militar de Santiago

Os símbolos “pagãos” de Santa Luzia

Lenda da vida de Santa Luzia

S. Brás cura os males de garganta

Por que S. Brás é um dos patronos da Ordem de Malta?

O milagre de Santo António na Sé

Dedicar uma quadra a Santo António como promessa de amor

Os capitéis insólitos da Sé de Lisboa

Mistérios e segredos de Santa Maria Maior

Os signos mágicos do claustro da Sé

Princípios da Arquitectura Sagrada

O capitel das aves no claustro da Sé

A coluna das almas na Sé

A “Porta Santa” da Sé Patriarcal

Simbolismo sagrado da flor-de-lis

O mistério do Santo Graal

Como a Lusitânia se fez Portugal

BAIXA – ROSSIO

Termas subterrâneas da Rua da Prata

O “Sagrado Esculápio”

Quem é o deus Esculápio?

O misterioso Cais das Colunas

As tágides do Tejo

Os símbolos da estátua equestre de D. José I

Transferência Imperial – Translatio Imperii

Vida e obra do padre António Vieira

A mensagem oculta do Terreiro do Paço

Hermes Trismegisto, fundador do Hermetismo

Símbolos do Arco do Triunfo

Portugal “cabeça” do “corpo” da Europa

O estranho relógio do Arco da Rua Augusta

A mesa de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa: “Se és maçom, sou mais do que maçom – eu sou templário.”

A águia flamejante de São Nicolau

Arquitectura sagrada da Baixa Pombalina

As sete colinas sagradas de Lisboa

Segredos nos Paços do Concelho

Os símbolos da estátua de D. Pedro IV

O áxis mundi

Bocage no Café Nicola

Tabacaria Mónaco, Arte escondida

Arte Nova no Animatógrafo do Rossio

Alto-relevo das mãos unidas

O cumprimento maçónico

Hospital das Bonecas

Auto-de-fé a S. Domingos

Os painéis do Palácio da Independência

A “arábica” Casa do Alentejo

Segredos da sede da Casa dos 24

Os segredos de D. Sebastião na Estação Central

D. Sebastião, o “rei-sonhador”

Arcano 17 e o Horóscopo de Portugal

Por que se “endireitou” o Escudo de Portugal?

Os painéis esotéricos de Lima de Freitas

As passagens secretas do Hotel Avenida Palace

O segredo do Obelisco dos Restauradores

A “abadia” subterrânea do Palácio Foz

Os símbolos de Arte Real na “abadia”

O que é o ágape maçónico?

BAIRRO ALTO – CARMO – SANTA CATARINA

Sagrado e profano nos Armazéns Grandella

Simbolismo do pentagrama, a estrela de cinco pontas

O alquimista do Convento do Carmo

O que significa Beguino?

A espada mágica do Santo Condestável

A porta real do Carmo

Ordem do Carmo e a influência do Hermetismo

Símbolos maçónicos na Rua da Trindade

Azulejos maçónicos da Cervejaria Trindade

O Olho dentro do Triângulo

Os túmulos dos sebastianistas

Messianismo e Sebastianismo

Pensão Amor, erotismo e burlesco

Tabernas e confrarias

As “linhas de força” da Praça de São Paulo

Banhos de São Paulo

Palácio do Manteigueiro avarento

Encanto e piedade no Convento dos Cardaes

Palácio do Marquês de Pombal

Grémio Lusitano e Museu Maçónico

Cagliostro no Palácio Sobral

Traços biográficos de Cagliostro, um Mestre do Oculto

Santa Catarina: miradouro dos aluados

Escultura do Adamastor

Padres do Deserto em Santa Catarina

O subterrâneo da Praça do Príncipe Real

O Lagartagis do Jardim Botânico

ALCÂNTARA – CAMPO DE OURIQUE – ESTRELA

O baixo-relevo dos Santos Mártires

Pureza ou cheiro de santidade

O esquecido Palácio Almada-Carvalhais

Fonte bicéfala manuelina

A maravilhosa Custódia de Belém

Os segredos do Políptico de Nuno Gonçalves

Quem são Melki-Tsedek e o Preste João?

Simbolismo do Obelisco das Necessidades

A ignorada Tapada das Necessidades

Memória da Quinta do Mineiro

Jardim interior do Palácio de São Bento

A Fonte Santa dos Prazeres

Jazigo maçónico do Duque de Palmela

Jazigo templário do Dr. Carvalho Monteiro

Os Templários: factos e fantasias

Condessa d´Edla, memória tumular

A primeira bomba da República

Odisseia das relíquias do Santo Condestável

Nuno Álvares Pereira, o Santo e Guerreiro

Jardim das Francesinhas, memória e olvido

Cemitério dos Ingleses, a Inglaterra em Lisboa

O Leão da Estrela

AJUDA – BELÉM – SANTO AMARO

A “Charola” de Santo Amaro

Quem era Santo Amaro?

O mistério da Charola dos Templários

Os cinco sólidos básicos e a Geometria Sagrada

A esquecida Quinta das Águias

O Salão Pompeia do Palácio da Ega

Palácio Burnay, delírio e fausto

A misteriosa fonte das 40 bicas

Saga do defunto Marquês de Pombal

O “Chão Salgado”

As berlindas de Santa Maria de Mua

A ermida “esquecida” de Boitaca

O Manuelino, arte de passagem

Os segredos da Torre de Belém

Significado da Cruz da Ordem de Cristo

Mosteiro dos Jerónimos e Tradição Primordial

Jerónimos e Kaballah

A Kaballah Ibérica

Infante Henrique de Sagres, iniciador da Gesta

As celas “hieráticas” dos Jerónimos

Joaquim de Flora e as três Idades do Mundo

O claustro “hierático” dos Jerónimos

Alquimia e Alquimistas portugueses

FORA DO CENTRO

Jardim imaginário de Bordalo Pinheiro

A “mão diafanizada” do Teatro Anatómico

A cabeça do serial killer Diogo Alves

O lugar onde está a “Cruz da Pedra”

História rara de Carriche

Inscrições templárias no Lumiar

Quem é verdadeiramente o Baphometh?

A gruta miraculosa da Senhora da Luz

Os fantasmas do Palácio Beau Sèjour

Enigmas do Palácio Marqueses de Fronteira

O paraíso do Jardim Zoológico

O resgatado Teatro Thalia

A relíquia de S. Sebastião da Pedreira

Os painéis do Pavilhão dos Desportos

Os símbolos da estátua do Marquês de Pombal

Maçonismo na estátua do Marquês de Pombal

Quem era o Marquês de Pombal?

Lápide do chafariz de Andaluz

O desconhecido Hospital de Arroios

Balneário D. Maria II e a saúde mental

As máscaras de pele do Museu de Dermatologia

O relógio de sol mais antigo de Portugal

Culto ao Dr. Sousa Martins

A antiga Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego

O “lagarto” da Penha de França

As obras de Santa Engrácia

Amores proibidos de Santa Engrácia

Quem era Santa Engrácia?

Santa Auta da Madre de Deus

Quem foi Santa Auta?

Simbologia hermética na Madre de Deus

A maravilha da igreja de S. Félix de Chelas

A odisseia do “Braço de Prata”

Lenda de Santiago barqueiro e Caio náufrago – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Jul 25 2016 

A lenda que vou contar anda ligada a uma antiga família de Portugal, os Pimentéis de Trás-os-Montes[1]. Consta que este apelido procedeu de uma alcunha imposta pelo rei Afonso III, por volta do ano 1260, a um moço fidalgo chamado Vasco Martins de Novais, que se evidenciou pela esperteza e celeridade que em tudo mostrava. No brasão da família Pimentel estão incluídas as conchas (vieiras) da nossa lenda, que também estão representadas na torre do castelo de Bragança. Por outro lado, e como conta a história, as vieiras são o distintivo dos servos de Santiago, e os peregrinos que se dirigiam antigamente em peregrinação a Compostela levavam-nas como indicativo da finalidade da sua jornada.

Passou-se a história que vou contar no ano 44 da Era de Jesus Cristo.

Certa manhã, saiu a passear um ilustre cavaleiro da Maia chamado Caio Carpo Palenciano. Com ele ia a mulher, que desposara há pouco tempo, a nobre Claudina Lopo Zalenco, e vários outros parentes e amigos. Estava-se no Verão e, por esta razão, saíram cedo da vila, tentando aproveitar o fresco da manhã. Era uma cavalgada vistosa a que se dirigia à praia de Matosinhos: um pouco à frente iam Caio e Claudina, conversando calmamente, e seguindo-os ia um grupo animado do qual por vezes sobressaía um jovem fazendo caracolar o cavalo à volta de alguma dama. Era realmente um belo espectáculo, reluzente de armas, colorido de tecidos finos.

Cavalgavam pelo areal quando alguém avistou no mar uma barca, navegando com proa ao norte. Pararam todos para observar a majestosa beleza da embarcação, que vogava calmamente com todo o pano desfraldado. Estavam assim, um pouco esquecidos do tempo, entretidos a olhar o mar quando, repentinamente, o cavalo de Caio correu para a água. O cavaleiro tentou refrear o animal, mas este, obedecendo a uma força desconhecida, mergulhou no mar e desapareceram. Ambos voltaram à tona, entretanto, à beira da embarcação, e o cavalo, dando um impulso, subiu para bordo. Estavam os dois cobertos de vieiras.

Caio, espantado com tantas maravilhas, perguntou aos marinheiros quem eram e porque lhes aconteciam tais coisas.

Responderam os navegantes:

– Somos cristãos, discípulos de um homem santo chamado Tiago. Vimos de muito longe, fugidos ao ódio de homens que perseguem os seguidores de Cristo e trazemos aqui, nesta barca, o corpo do nosso Mestre Tiago.

– E porque vos dirigis para estas bandas? Foi o vento que vos trouxe ou fostes vós que traçastes a rota?

– Vamos para terras da Galiza, senhor, onde o nosso Mestre pregou o Evangelho de Jesus Cristo. Aí esperamos encontrar irmãos nossos e conseguir dar descanso ao corpo deste Apóstolo.

– E como explicais o prodígio operado pelo meu cavalo?

– Isso, senhor, significa que sois um escolhido de Nosso Senhor! As conchas de que vos vedes coberto são o sinal de Santiago, que quer ver-vos na lei de Jesus Cristo. A partir de hoje, distinguirão os servos deste santo homem!

Caio estava profundamente comovido pelo que ouvia, pelos milagres que via. Dentro de si sentia crescer um sentimento desconhecido, uma espécie de paz total que o levou a pedir aos marinheiros que o considerassem um dos seus. Foi assim que Caio Carpo Palenciano recebeu o baptismo da água, sobre as ondas, segurando as rédeas de um cavalo coberto de conchas.

E uma vez desembarcado e novamente reunido à esposa e aos amigos, converteu-os a todos com a narração de tão pasmoso caso.

"Fuente del Carmen", Padrón, mostrando o baptismo do peregrino e a barca fúnebre de Santiago

“Fuente del Carmen”, Padrón, mostrando o baptismo do peregrino e a barca fúnebre de Santiago

Esta lenda jacobeia portuguesa, inspirada na Lenda Áurea coluna dorsal de toda a tradição santiaguista, coloca os seus personagens no período gallo-romano (cerca 40-45 d. C.) e assinala o início da evangelização peninsular a partir do actual território português. Três elementos circunstanciais compõem a mesma, remetendo para o sentido profundo do simbolismo tradicional: a barca com os discípulos do Apóstolo finado; o cavaleiro Caio e a sua montada mergulhando nas águas; o cavaleiro e o cavalo saindo das águas para bordo da embarcação.

Segundo René Guénon[2], dentre os emblemas que foram outrora os do deus romano Janus [bicéfalo], o Papado herdou e conservou, além das duas chaves, a barca, atribuída paralelamente a S. Pedro e tornada a figura da Igreja[3] com o  Sumo Pontífice à proa da mesma: o carácter «romano» de Janus e do Papado exigiu essa transmissão dos símbolos, sem a qual ele não teria representado senão um simples facto geográfico sem conteúdo real e efectivo, marcando o Papado, desde a sua origem, como predestinado a ser «romano» na razão da situação de Roma como capital do Ocidente, desde a primeira hora amancebada ao Império, o que lhe deu esse estatuto dominante. No entanto tem-se aqui, na lenda, a deslocação da barca para o extremo ocidente da Europa, como designando o Apostolado de Tiago superior ao de Pedro ao ir mais avante na sua marcha cíclica e assim os seus tripulantes possuírem conhecimentos mais profundos que os da barca «romana», o que transfere para o seu sentido da Igreja ministrante e a Igreja ministrada, o Primaz e a Cúria, o que sabe e o que crê. Na primeira situação está a Igreja braco-galaica; na segunda, está a Igreja romano ou latina. É nisto que entra o sentido da “Grande Barca” (Maha-Yana) de Tiago Maior, indicativa da Tradição Primordial exercida como Arte Sacerdotal por via do Ministério e Instrução, superiores aos exercícios ministeriais e catequeses romanas indicadas pela “Pequena Barca” (Hina-Yana) de Pedro, esta destinada a pescar almas para a Igreja dos crentes, aquela vocacionada a salvar almas para a Igreja dos perfeitos. Tem-se nessas duas modalidades o Sacerdócio de Aarão (exotérico) e o Sacerdócio de Melkitsedek (esotérico), este cuja santidade e sabedoria exigidas fá-lo incorruptível e logo inviolável, facto figurado pelo sentido supremo da Terra Santa a quem os hindustânicos chamam Agharta, cujo símbolo é a próprio barca d´ouro do deus Osíris, oposto daquela barca d´prata da deusa Ísis.

A imagem da navegação foi frequentemente utilizada na Antiguidade greco-latina, tendo-se como exemplos mais notáveis a expedição marítima dos Argonautas à conquista do Tosão de Ouro no Jardim das Hespérides ou Hispânias e a viagem de Ulisses, vindo do mar da Grécia fundar Ulisipa (Lisboa), não esquecendo as referências feitas por Virgílio e Ovídio. Igualmente na Índia se encontra por vezes esta imagem, e no texto sagrado Atmã-Budha tem-se uma expressão singularmente semelhante à utilizada por Dante na Divina Comédia (Paradiso, II, 1-18): “O Yogui, diz Shankaracharya, tendo atravessado o mar das paixões, está unido com a tranquilidade e possui o “Ser” na plenitude”. O “mar das paixões” é evidentemente a mesma coisa que as “ondas da cupidez” e nos dois textos aparece o tema da “tranquilidade”, a qual representa o final da navegação simbólica e a conquista da Grande Paz[4]. Desde logo esta pode entender-se de dois modos, segundo se reporte ao Paraíso Terrestre ou ao Paraíso Celeste: neste último caso identifica-se à Luz de Glória e à Visão Beatífica; no outro, é a Paz propriamente dita, no sentido restrito, mas ainda assim diferente do significado profano[5]. Na lenda jacobeia aqui narrada, a barca do Apóstolo deve conduzir a humanidade dos crentes ao Paraíso Celeste, assim fazendo o papel do Papado (ou Sacerdócio, função dos Brahmanes, “sacerdotes”), enquanto o Cavaleiro sagrado, dessa maneira fazendo o papel do Imperador (ou Realeza, função dos Kshatriyas, “cavaleiros”), deve guiá-la ao Paraíso Terrestre, o que também não deixa de ser uma navegação[6]. Eis porque a Terra Santa das diversas tradições não é outra coisa senão o Paraíso Terrestre, frequentemente representado por uma ilha elevada, indicadora do núcleo de santidade e sabedoria privado das agitações públicas, imutável no meio das ondas da cupidez passional, e por isso é o “Santuário da Paz”, a “Montanha da Paz” ou, em termos bem jacobeos da peregrinação com Compostela à vista, o Monte do Gozo[7].

Falei em dois tipos de baptismo, como sejam o da água e o do fogo, o da catequese e o da gnose, manifestação de duas modalidades distintas, apesar de interligadas, de entender e viver o tema jacobeo como forma dinâmica de Iniciação, expressada pela peregrinação, facto retratado numa pintura medieval representando três pessoas montadas num cavalo branco, simbólico da própria Tradição Espiritual: Santiago Maior de permeio a Teodoro (aspecto esotérico) e Atanásio (aspecto exotérico), os seus discípulos tradicionais, todos com trajes de peregrinos, portanto, em pleno acto de Iniciação votiva ou móvel.

Pintura medieval de Santiago e seus Apóstolos montados num só cavalo

Pintura medieval de Santiago e seus Apóstolos montados num só cavalo

O sacramento do Baptismo, revelador da Espírito Santo ao crente, torna-o parte efectiva do corpo místico da Igreja ministrante (Clero) à Igreja ministrada (Assembleia). Os antigos gnósticos cristãos de Alexandria por vezes utilizavam o termo bafé métous (que os romancistas dos séculos XVIII-XIX transformaram no filólogo baphometh) para traduzir a ideia de “baptismo da sabedoria”, o do Fogo Sagrado do Espírito Santo, aferidor da condição de “Filho do Homem” ou Imortal e não mais de “Mulher” ou mortal, este relacionado com o Baptismo pela Água após o nascimento físico de todo o ser humano, aquele ultrapassando a condição material pela consciencial do Baptismo de Fogo cuja Iniciação Gnóstica, para não dizer Teosófica, confere não aos muitos chamados mas aos raros Eleitos o lume da Imortalidade, equivalente da posse efectiva da consciência integral do Tudo no Todo e do Todo (Divino) no Tudo (Humano).

Acerca-se do sentido de bafé métous a função do botafumeiro, o maior incensário do mundo que é o elemento histórico mais popular da catedral de Santiago de Compostela e que, balançando sobre as cabeças, cruza o espaço da nave enorme purificando espiritualmente as almas dos crentes com o fumo de incenso sagrado que, assim, também não deixa de ser uma espécie de Baptismo de Fogo em rolos de fumo perfumado.

O gigantesco incensário balançando na nave durante as missas dos peregrinos e outros actos importantes, além do referido significado transcendente tem um outro mais humilde e prático[8]. O início do rito do botafumeiro datará dos meados do século XIII, quando a peregrinação a Santiago já se convertera numa verdadeira rota e chegavam milhares de pessoas, saturando a catedral, indo provocar no seu interior um odor desagradável motivado pelo cheiro das roupas sujas dos peregrinos impregnadas da sua transpiração durante a caminhada. Foi quando se inventou e passou a utilizar-se o botafumeiro, para aspergir com perfumes (do latim perfumum, “pelo fumo, através do fumo”) a multidão, purificando-a espiritualmente mas também fisicamente, diminuindo os maus odores[9].

Para ser movido, o botafumeiro necessita de um grupo de oito homens conhecidos como tiraboleiros (do latim thuribulum, “lançador de fumo”), que se vestem de vermelho e são treinados para efectuar o referido manuseio através de cordas. No século XVI, o rei Luís XI de França presenteou a catedral com um incensário construído em prata no estilo renascentista e foi nesse século que, para facilitar a sua utilização, construiu-se sob a cúpula da igreja um mecanismo de polias, desenhado por Juan Bautista Celma, que permite o perfeito funcionamento do botafumeiro. Uma vez o mesmo desgastado pelo seu uso, é recolhido ao museu catedralício. O mais antigo deles que se conserva data de 1851, e outro de 1971, presente da Irmandade de Alféreces Provisionales.

Ritual do botafumeiro na catedral de Santiago de Compostela

Ritual do botafumeiro na catedral de Santiago de Compostela

O botafumeiro actual é de latão banhado em prata, pesa 62 kg vazio (originalmente pesava 60 kg, mas em 2006 acrescentou-se um banho de prata que fez aumentar a sua massa para o peso actual) e chega a pesar 80 kg quando está cheio de combustível, medindo 1,60 m de altura. Esta peça sacra foi criada em Santiago de Compostela pelo ourives Xosé Losada, em 1851. A corda que a suspende, atada do cruzeiro da catedral, é actualmente de um material sintético, mede 65 m, tem 5 cm de diâmetro e pesa 90 kg. Anteriormente as cordas eram feitas de cânhamo ou de esparto[10].

Voltando ao Baptismo no Noûs, a Mónada Divina, seja um Baptismo na Água da Geração ou no Vinho da Transmissão, ou ainda um Baptismo de Fogo no crisma do mesmo Espírito, comporta sempre uma metamorfose ou transformação, a metanoia, do iniciado por uma completa realização gnóstica ou teosófica. Por isso está escrito no Tratado IV do Corpus Hermeticum – De Hermes a Tat: o Vaso ou a Mónada: “Os que escutaram a proclamação e foram baptizados pelo Noûs, participam da Gnose e se tornam Homens Perfeitos, por terem recebido o Noûs[11].

Foi assim que na lenda jacobeia, após receber o Baptismo da Água, o cavaleiro Caio se tornou puro ou “branco”, que é o que significa o seu nome, e o pulo com a sua montada para bordo da barca e a bênção que lhe foi concedida pela apostólica tripulação, equivaleu ao Baptismo do Fogo, assinalado nas vieiras indicativas da luz esplendorosa de Vénus, a Stella Maris.

Tem-se, pois, a Cavalaria como Arte Real (Império), reconhecida e sagrada pela Apostólica como Arte Sacerdotal (Pontificado)[12]. Contém-se nesta lenda portuguesa, enfim, no prefigurado cavaleiro Caio tão-só o sinal de reconhecimento sagrado da própria Ordem Militar e Religiosa de Santiago, custódia dos caminhos jacobeos para o centro comum de Compostela, em plena terra galaica, solar e sagrada que uma vez pertenceu a Portugal.

NOTAS

[1] Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, 6 volumes. Edições Amigos do Livro, Lisboa, 1988.

[2] René Guénon, Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. Éditions Véga, Paris, 1984.

[3] A barca simbólica de Janus podia deslocar-se nos dois sentidos, quer para a frente, quer para trás, o que corresponde aos dois rostos do próprio deus, assinalados pela chave de prata (passado) e pela chave de ouro (futuro), que para a tradição hindustânica são referências às duas Leis Universais do Karma (chave de prata) e do Dharma (chave de ouro) incarnadas na pessoa do Brahmatmã, com função análoga à do Chakravarti ou Melkitsedek, isto é, Imperador e Pontífice Universal.

[4] Esta mesma conquista por vezes é representada sob a figura de uma guerra santa, como se encontra no Bhagavad-Gîta e na literatura árabe apologética da Jihad, havendo um simbolismo do mesmo género nos romances de cavalaria da Idade Média que embeberam de religiosidade as armas cristãs. Vem a ser sobretudo a luta espiritual do homem inferior, mortal, consigo mesmo, o Homem Superior, imortal.

[5] É isto que indicam muito claramente os diferentes sentidos da palavra hebraica Shekinah, “Presença Real de Deus”, como indicativa do próprio Espírito Santo manifestado sobre as Águas geradoras da Criação, configuradas nas funções psico-orgânicas femininas, o que vem a configurá-la na imagem da Mãe Divina. Os dois modos ou aspectos referenciados são aqueles que as palavras latinas Gloria et Pax designam na fórmula: Gloria in excelsis Deo, et in terra Pax hominibus bonae voluntatis. Na catedral de Santiago de Compostela, a Luz de Glória está exposta no pórtico da Glória, do Mestre Mateo, e a Grande Paz no pórtico das Pratarias, com o crisma central.

[6] Isso reporta ao simbolismo dos dois oceanos, o das “águas superiores” e o das “águas inferiores”, o do conhecer e o do crer, e igualmente aos dois tipos de baptismo comuns a todas as doutrinas tradicionais. Já o chuvisco é associado ao sentido de “influência espiritual” (baraqa, em árabe), e por isso se diz que o peregrino é abençoado pela chuva que caia em Santiago de Compostela, Cidade Santa marcada pela presença da Shekinah na forma da Arcam Majorem.

[7] Juan G. Atienza, Los Peregrinos del Camino de Santiago. Editorial Edaf, S.A., Madrid, 2004.

[8] Juan R. Sanmartín, O Botafumeiro: Parametric pumping in the Middle Ages. In American Journal of Physics, volume 52, Issue 10, Outubro 1984.

[9] Após a Missa do Peregrino, durante séculos foi tradição os peregrinos subirem ao terraço da catedral e lançarem nos queimadores que aí estão as vestes gastas e sujas que utilizaram durante a jornada. De maneira que viam-se rolos espessos de fumo subirem permanentemente do alto da catedral. Até neste costume, muito pouco conhecido actualmente, vê-se a presença do elemento ígneo que é o afim e constante do Apóstolo São Tiago Maior, o “Filho do Trovão”.

[10] O botafumeiro em toda a sua história, caiu apenas quatro vezes sem nunca ter ocorrido acidente de ordem pessoal. Uma das quedas foi no ano de 1499, na presença de D. Catarina, que ia a caminho de Inglaterra para casar-se com o Príncipe de Gales, e uma outra queda em 23 de Maio de 1622, tendo o botafumeiro se desprendido das cordas projectando-se pela porta das Pratarias indo despenhar-se na praça defronte, sem tocar em alguém da imensa multidão de pessoas presentes, o que desde logo foi considerado milagre.

[11] Frithjof Schuon, Gnosis Divine Wisdom. Ed. World Wisdom. Inc., Bloomington, 2006.

[12] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição Dinapress, Lisboa, Maio de 2011.

Barcelos, Terra do Galo – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 22 2016 

Ao cruzeiro ou padrão quatrocentista integrado no espólio do Museu Arqueológico de Barcelos[1], anda associada a curiosa lenda do galo e do enforcado[2], e apesar  dessa ave não ser o ex libris oficial de Portugal mesmo assim destaca a sua natureza predominantemente jacobeia e o próprio símbolo do Caminho Jacobeo Português[3].

De forma resumida, a lenda conta que os habitantes do burgo andavam alarmados com um crime de morte e, mais ainda, por não se ter descoberto o criminoso que o cometera. Certo dia, apareceu um galego que se tornou suspeito. As autoridades prenderam-no e, apesar dos seus protestos, ninguém acreditou nele. Não houve quem julgasse crível que o galego se dirigisse a São Tiago de Compostela em cumprimento de uma promessa, que ele fosse devoto fervoroso do santo que ali se venera, como também o fosse de São Paulo e de Nossa Senhora. Por isso foi condenado à forca. Mas antes de ser enforcado rogou que o levassem à presença do juiz que o condenara. Concedida a autorização levaram-no à residência do magistrado, nesse momento num banquete com alguns amigos. O galego voltou a reafirmar a sua inocência e, face à incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a mesa, sentenciando: “É tão certo eu estar inocente como certo é esse galo cantar quando me enforcarem”. Risos e sarcasmos não se fizeram esperar, mas, pelo sim e pelo não, não fosse o diabo tecê-las, ninguém tocou no galo. O que parecia impossível tornou-se, porém, realidade! Quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo assado ressuscitou, ergueu-se na mesa e cantou. Caíram por terra as suspeitas sobre o condenado. Correu o juiz à forca e viu o desgraçado de corda ao pescoço, mas o nó lasso, impedindo o estrangulamento. Imediatamente solto, foi mandado em paz. Passados anos, voltou a Barcelos e fez erguer o monumento em louvor à Virgem e a São Tiago.

Cruzeiro de "o galo e o enforcado", Barcelos

Cruzeiro de “o galo e o enforcado”, Barcelos

Esta lenda velhinha (contada em diferentes versões mas sendo igual no desfecho com a salvação miraculosa de São Tiago que suportou o inocente não deixando que fosse estrangulado) é das muitíssimas do espólio oral medieval que corriam entre os peregrinos jacobeos ao longo caminho português, que passa por Barcelos, quase todas elas, senão todas, abrigando valiosas referências míticas ou herméticas à Tradição Primordial, assim impondo o sagrado ao profano, a peregrinação complexa ao simples passeio, ao andar por andar sem outro sentido ou nexo.

Em primeiro lugar e antes de tudo o mais, o sentido moral desta lenda é o da advertência para o respeito e consolo que se deve dar a todo o peregrino de Santiago, ou seja, o de nunca lhe recusar a hospitalidade como cumprimento do voto maior do amor caridoso, repetindo as palavras do Codex Calixtino que o Papa Calixto II (que fora abade de Cluny e irmão do conde regente da Galiza, Raimundo de Borgonha) escreveu no século XII: “Todo o mundo deve receber com caridade e respeito os peregrinos, pobres ou ricos, que venham ou vão ao solar de Santiago, pois todo o que os recebe e hospeda com esmero terá como hóspede não só a Santiago mas ao próprio Senhor, segundo as suas palavras no Evangelho: O que a vós receber, a Mim recebe“.

Por sua aura de mistério e segredo, durante séculos o peregrino jacobeo foi visto como um ser sagrado, espécie de anacoreta santo num constante vaivém por rotas maravilhadas, traçadas numa cartografia sobrenatural pontilhada pelas estrelas da estrada celeste e pelos rios, vales e montanhas dos caminhos da terra assim abençoada com sua presença peregrina, espargindo do mais profundo do seu ser ao espírito do próprio Apóstolo São Tiago Maior.

Atentar contra o peregrino era o mesmo que atentar contra o próprio Apóstolo de Cristo, era atentar contra Cristo cujos membros são os seus apóstolos e sub-apóstolos. Daí o respeito que os caminhantes da Fé infundiram e desfrutaram em toda a religiosidade europeia da Idade Média e Renascença. Eles eram os padrões volantes ou caminhantes, o homo viator, homens representativos do espírito original do Evangelho nestas plagas lusitanas, tomando Barcelos ou Bar+Cellis como o “Monte do Céu”, o que está mais pertinho da Santa Cruz que um dia, nos alvores da Cristandade, o Apóstolo Tiago aqui fincou. Culto cristão substituto do primitivo fenício-romano, de importação egípcia, de Serapis, o deus ctónico mesopotâmico cultuado em Barcelos antes da implantação do Cristianismo, cujo busto ainda se pode ver no Museu Arqueológico desta cidade.

Contudo, bem se sabe, sempre houveram “ovelhas ranhosas” em todos os tempos e imensas vezes os peregrinos foram molestados e desdenhados na caridade por gentes sem fé nem humanidade, vindo após as lendas e narrativas afirmar que esses acabavam pagando caro e dolorosamente os seus actos indignos, por sinais manifestos da ira de Deus, intervindo por fogos e outros poderes ígneos castigadores afins à própria natureza do “Filho do Trovão” (Boanerges), Sant´Iago Zebedeu[4]. A Protecção Celeste nunca descarecia – jamais descarece! – o caminheiro da Grande Via, bem assinalada na “viande” ou vieira (que com a cabaça estão esculpidas nas colunas interiores na igreja-matriz de Barcelos, ponto de encontro dos peregrinos desde o século XIV 81325-1328), que antes era na capela da Senhora da Ponte, na  margem oposta do Cávado, pertencente à freguesia de Galegos de Santa Maria[5]).

Ponte sobre o Rio Cávado, em Barcelos, passagem obrigatório dos peregrinos de Santiago de Compostela

Ponte sobre o Rio Cávado, em Barcelos, passagem obrigatório dos peregrinos de Santiago de Compostela

Palmilhar a Grande Via em solo português ou Porto-Graal expressa exactamente isso: a Realização do Graal, a Taça Sagrada expressiva do estado de Consciência Espiritual, meta última do viandante, conquistando-a paulatinamente nas etapas do Caminho Iniciático que é sempre Solar, no sentido de expansivo e evolucional, nisto se enquadrando no próprio perfil do Gallo ou Homo Gallaeci inserido no que em sânscrito se apelida Surya-Vansa, “Linhagem Solar”, tendo à sua dianteira os Mestres de Espiritualidade, guias dos homens, palmilhando esse mesmo Caminho da Iniciação Verdadeira, aqui prefigurado pela rota jacobeia. É nisto que entra o sentido mais restrito do nome Tiago, a quem Louis Charpentier atribui o significado de Sábio, ao associá-lo ao Maxa-Jaun da mitologia basca[6] possuído do sentido de “Mestre da Natureza”, igual ao Jaunak galego, o primitivo Tuatha de Danand destas partes ibéricas chamado Tuatha de Gaedhil, indo dar em Jaun, Jacques, Jaime, Jacobo, Iacobo, Iago e finalmente Tiago. Ora, Jaun é Jina ou “Génio”, em sânscrito, sobre quem a Tradição Iniciática das Idades adianta que Jinas vêm a ser os Mestres da Humanidade, Santos e Sábios, Homens Perfeitos ocultados no próprio seio da Mãe-Terra, uma vez por outra, ciclicamente, aflorando à face do Globo para transmitir a sua Sabedoria Divina aos homens e assim impulsionar avante o progresso universal[7]. Bem parece que a nós, ibéricos, particularmente aos luso-galaicos, transmitiram-nos a Tradição do Santo Graal sob a forma da Lenda Áurea de Santiago Maior. Ao encontro disto parece vir o próprio Charpentier, quando escreve na sua obra citada: “Desde a partida no caminho de Compostela, que a cor é “anunciada”. Trata-se de um caminho iniciático de pessoas que vão procurar, no seu ofício e mediante o seu ofício, um conhecimento superior ao mesmo tempo que uma transformação profunda de si próprios… e iniciando-se nessa procura através de não se sabe que cerimónias, primitivamente no próprio seio da Mãe-Terra de onde vem todo o saber e toda a transformação”.

As estrelas envolventes da Taça Eucarística símile do Santo Graal, em Santiago de Compostela

As estrelas envolventes da Taça Eucarística símile do Santo Graal, em Santiago de Compostela

Sendo a Rota do Graal velada pelo Caminho Jacobeo e tendo este sido fundada na própria Galiza, então esta só poderá significar a Terra do Caminho Santo. Com efeito, aquando do domínio romano o Noroeste ibérico era conhecido por Gallicia, no natural galo-céltico, e Calaecia em latim, sendo os seus habitantes – os gallaici ou calaicos, posteriormente o aportuguesado galegos – a principal tribo céltica da Lusitânia. Calaecia é a prosódia latina do original celta Calacia, nome aglutinante dos termos cala e aku, respectivamente, “caminho” e “santo”. O nome Calaecia ou Gallicia significa, portanto, Terra do Caminho Santo.

A rota vem a ser assinalada no étimo Rãs, em cuja igreja está o Senhor dos Caminhos, que é o Orago dos caminhos jacobeos portugueses. Rota ou, anagramaticamente, Taro. Desta palavra Taro, em língua semita e usando-se o método da temurah ou permuta de letras, resulta Tora(h), a quem os rabinos denominam de “Lei”. Taro (ou Tarot) acha-se composto dos vocábulos tar, “via, caminho”, e ro (ros, rog…), “rei, real”, traduzindo-se o conjunto como o Caminho Real da Vida (As-taroth), que é onde se processa a dinâmica da Iniciação Verdadeira de tudo e todos, tão bem assumida e assinalada no nome de aldeia próxima de Barcelos: Mariz, berço genealógico da família deste nome da qual alguns membros entrecruzariam os seus destinos com aquela Ordem Iniciática Secreta de étimo igual, fundada no mesmo século XII da aparição borgonhesa dessa família mas desta feita em São Lourenço de Ansiães,  consignada Ordem Espiritual Portuguesa que, informa a Tradição Iniciática das Idades, a mesma Tradição Primordial, em guisa de encoberta todavia permanentemente activa, esteve por detrás por principais lances da Portugalidade no Mundo.

Assim, voltando à lenda ex libris do romanceiro barcelense, a quem se deve o famoso “galo de Barcelos” (ex libris do artesanato local), parece ter sido ela quem fez derivar o nome da cidade dum latim tardio: Barcalus, que decomposto em bar e calus significa “Filho do Monte Celeste ou Sagrado”[8], título este que se perpetuou na famosa Festa das Cruzes local (talvez as mesmas estrelas de Santiago mas aqui transformadas em cruzeiros sinaléticos da rosta costeira), de medieva idade também andando associada à belíssima lenda que liga Barcelos a Matosinhos e à Praia de Fão, por causa de três cruzes saídas do mar por divinais intentos, uma delas, a de Barcelos, reza a lenda, coberta de vieiras.

Sendo os Mestres Espirituais Homens Solares no sentido já descrito, obviamente que o seu símbolo só poderia ser o galo, a ave simbólica do Sol Levante incarnado no Cristo, ou seja, da madrugada esplendorosa que esconjura as trevas da noite. O facto de no conto ele ter ressuscitado, não deixa de induzir a ideia da Fénix mítica que “renasce das próprias cinzas”, e é assim mesmo que aparece, num aparelho de azulejaria no antigo convento das beneditinas de Santa Escolástica de Barcelos, como galo-fénix contemplando-se no speculum magicum, como atesta a legenda sob ele: “Só se compõe bem quem se vê ao Divino Espelho”. Ao ser associado ao Enforcado na lenda, com esta designa um rito de passagem marcado por uma iniciação martirial, ou seja, a entrega dócil e incondicional à Divina Providência, aqui, a fé na certeza absoluta no socorro final de Santiago.

Isso mesmo é relevado numa das faces do padrão de “o galo e o enforcado”: Santiago, trajando de peregrino, suporta o enforcado, e logo acima apresenta-se o galo a que se sobrepõe o Senhor Crucificado. O significado da alegoria será: a crucificação iniciática do iniciado jacobeo cuja aurora da ressurreição espiritual o galo anuncia. Equivale ao estado de consciencial de Chrestus ou Arhat, em grego e sânscrito.

A providência de Santiago presente na lenda de "o galo e o enforcado"

A providência de Santiago presente na lenda de “o galo e o enforcado”

Com efeito, sendo o galo considerado universalmente um símbolo solar, por o seu canto anunciar o nascimento do Sol, a tradição hindu atribui-lhe a personificação de Skandha e Prana, ou seja, a Virtude e a Energia Vital provinda do mesmo Astro-Rei. Por ser também um emblema do Cristo, nele recai a ênfase do seu simbolismo solar: Luz e Ressurreição. Já no Livro de Job o galo é símbolo da inteligência recebida de Deus, cuja sabedoria é atributo exclusivo do Homem[9]. Como o Messias (Messiah ou Avatara), o galo anuncia o nascer do dia do esclarecimento espiritual que sucede às trevas da noite da ignorância das coisas divinas[10]. Por sua função de arauto – como o foi S. João Baptista, cuja cabeça degolada é venerada na igreja matriz de Barcelos – cabe ao galo ser colocado no lugar mais alto, nas flechas das igrejas e nas torres das catedrais. Essa posição, no cimo dos templos, evoca a supremacia da influência espiritual na vida humana, a origem celeste da iluminação salvífica, a vigilância da alma atenta para perceber, nas trevas da noite que morre, os primeiros clarões do Espírito que se levanta. Por isto, o Talmud faz do galo um mestre de polidez, porque ele apresenta o seu Senhor, o Sol, anunciando-o com o seu canto.

Igualmente no Islão o galo de goza de uma veneração sem igual em relação aos outros animais, e o Profeta Mahometh em pessoa dizia (Alcorão, sura 8:60): “O galo branco é meu amigo. Ele é o inimigo do inimigo de Deus… O seu canto assinala a presença do Anjo”. Atribui-se, da mesma maneira, ao Profeta a proibição de maldizer o galo que convida à oração. Mahometh ter-lhe-á conferido uma dimensão cósmica: “Dentre as criaturas de Deus – teria dito ele – há um galo cuja crista está debaixo do trono, os pés assentados na terra inferior e as asas no ar. Quando passarem dois terços da noite e só restar um terço a passar, ele bate as asas e diz: ‘Louvor ao Rei Santíssimo, digno de exaltação e santidade, e que não tem associado’. Nesse momento, todos os animais batem as asas e todos os galos cantam”[11].

Na outra face do padrão vê-se o Senhor Crucificado sobre um dragão, significando tanto a esconjuração das heresias quanto a saída da treva para a Luz, da noite para o dia. Aparecem também Santa Maria e São Paulo, além de uma Lua e um Sol. Maria é a Mater Mundi, e Paulo, com a espada e o livro, expressa a Pacis Cognoscio, a “Paz do Conhecedor”, este que expressa a Igreja Claustral, a da pastoral apostólica afim à própria natureza heterodoxa ou livre de Maria, corporificação do Espírito Santo ou Espírito Livre, cuja condição andrógina ou lunissolar (Sol e Lua), no fim de contas, é desde o primeiro momento prerrogativa do próprio caminho jacobeo, palmilhado por todas as condições humanas sem distinção de sexos, raças e credos.

Ressurreição e elevação é, afinal, a mensagem implícita no padrão velhinho de que nasceu a lenda agora tratada, passada às margens do Cávado ou Gab-Atu mesopotâmico, o parda ou rio das “Águas Celestes”, sobre o qual anuncia a aurora triunfante o galo cristóforo, ave sacralizada que faz de Barcelos jóia singular de Portugal que não é “cauda” mas cabeça de uma Europa orgânica constituída meio milénio após ele[12].

Enfim, paragem obrigatória no caminho jacobeo, visitar e peregrinar por esta linda cidade é, sobretudo, percorrer a via-sacra que leva da Cruz ao Monte e deste ao Céu, sendo tão-só o que significa Barcelos.

NOTAS

[1] Teotónio da Fonseca, O Concelho de Barcelos Aquém e Além-Cávado, volume I de II. Reprodução fac-similada da edição de 1948. Barcelos, 1987.

[2] Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, 6 volumes. Edições Amigos do Livro, Lisboa, 1988.

[3] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição Dinapress, Lisboa, 2011.

[4] Juan G. Atienza, Leyendas del Camino de Santiago. Editorial Edaf, S.A., Madrid, 1998.

[5] Ernesto Amorim Magalhães, Barcelos no Passado e no Presente. Barcelos, 1958.

[6] Louis Charpentier, Santiago de Compostela, enigma e tradição. Editorial Minerva, Lisboa, 1973.

[7] Na Bíblia, no Livro de Job (28: 3-4, 20-23 e 27-28), lê-se: “O homem põe um limite às trevas, e esquadrinha, com exactidão, as rochas que estão em densa obscuridade. Abre galerias longe dos lugares habitados, que são ignoradas pelos pés dos transeuntes, porque estão em lugares inacessíveis. […] Donde vem, pois, a sabedoria? Onde está o lugar da inteligência? Está oculta aos olhos de todos os viventes, e até às aves do céu está escondida. O inferno e a morte dizem: Apenas ouvimos falar dela. Deus é quem conhece os seus caminhos e sabe da sua morada. […] Ele viu-a e descreveu-a, penetrou-a e conheceu-a ao fundo. Depois, disse ao homem: O temor do Senhor é a sabedoria, e fugir do mal é a inteligência”.

[8] Batalha Gouveia, A origem etimológica de Barcelos. “Jornal do Incrível”, Lisboa, 1983.

[9] Job, 38:36 – Quem pôs a sabedoria no coração do homem? Ou quem deu inteligência ao galo?

[10] Também a Maçonaria veio a adoptar o simbolismo do galo, dispondo-o na sua “câmara de reflexões” que antecede a entrada do neófito no templo, pondo-o como signo da vigilância e do advento da luz espiritual por via da transmissão iniciática. Na Alquimia, corresponde ao mercúrio hermético.

[11] Toufic Fahn, La naissance du monde selon l´Islam. In Sources Orientales, Paris, 1959.

[12] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

Cultura céltica na Ordem dos Templários – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jul 10 2016 

A cultura céltica, nomeadamente a hispânica celtibera (celta e ibera), pelos dados históricos disponíveis, dá a entender que marcou decisivamente a organização Templária desde o Sul de França até para cá dos Pirinéus, como igualmente a sua actuação numa sociedade essencialmente rural, o que irá ser motivo de análise neste estudo.

Assim, além das culturas romana e árabe, quase nos primórdios do Período Histórico encontra-se a civilização celta incorporada à autóctone ibérica de que sairiam os lusitanos ou lugsignan, identificados aos ligures da Península Itálica que terão sido povo com sangue atlante descendente directo dos mais míticos que mitológicos Tuatha de Danand, os quais estão na origem da tradição e civilização ibérica e hibérnica (irlandesa)[1].

De raízes neolíticas, os lugsignan (mistura de celtas e iberos) certamente foram os arquitectos da monumentalidade lítica que hoje é testemunha dos primórdios da presença humana nesta nossa Península, eles os intuídos que cedo souberam estabelecer uma simbiose telúrica entre o espaço sideral e a Terra, a sua estrutura vital aflorada à superfície por campo de nódulos e correntes energéticas envolvendo todo o Globo. O celtibero e o lusitano conectaram a sua vivência com a disposição desse espaço energético, sacralizaram-no plantando monumentos (cromeleques, tholos, dólmens, antas, antelas, menires, etc.) onde eram mais intensa a afluência telúrica, e assim deram nascimento ao culto da Grande Deusa, a Deusa-Mãe, afinal, a própria Terra, fecundada pelo Sol e fecundante pelo poder das suas energias vitais, o que se revelava nas boas águas para beber e pescar, nos bons terrenos para semeadura e colheita, nos ares saudáveis e nos espaços verdejantes para pastorícia e saúde do gado. Essa foi a primitiva religião agrária, nómada por um lado, por se mover sob o pretexto de busca constante de terras e águas boas, e sedentária por outro, indo plantar castros e citânias para habitação em lugares oferecendo essas condições indispensáveis à manutenção da vida, as quais só poderiam atribuir à Grande Deusa, Mãe Primordial de todos os demais deuses zoomórficos e antropomórficos em que se constituía o seu monopanteísmo original, de que deixaram testemunho à posteridade nesses lugares, repito, previamente demarcados por basta e variada monumentalidade lítica.

Nascem assim os bosques sagrados, os lagos sagrados, as montanhas sagradas, as grutas sagradas, etc., sempre assentes em confluências de telurismo intenso, como acontece no aro megalítico do Alentejo, que junto com Sagres e Sintra formam o espaço telúrico de maior intensidade do país[2]. Esses conhecimentos geomânticos primitivos viriam a ser recuperados pelos Templários para se instalarem em espaços já anteriormente demarcados e consignados sagrados pela religiosidade celta, os quais vieram a dar no que hoje se convencionou chamar de “enclaves mágicos” do Templo, tão celebrizados por uma cultura marginal “pop new age” mais urbana que rural, campesina, paisan ou “pagã” como era na origem.

Herança desse dominador mágico celta herdado pelo Saber Templário em meio de uma sociedade predominantemente rural, tem-se:

1 – As bases geométricas da Arquitectura, como se repara, por exemplo, na composição dos cromeleques “quadrados” com o menir fálico, da pujança viril, cravado ao centro, que viriam a estar na inspiração geométrica do “quadrado da terra” e do “padrão” ou mundus da arquitectura românica nascida dos colegia fabrorum ou de artífices da Roma antiga. Há mesmo casos repetidos de antas primitivas terem sido posteriormente adaptadas a ermidas e capelas cristãs, como também o do aproveitamento do espaço de antigos cromeleques para sobre eles se assentarem as bases de igrejas e castelos, e assim igualmente o aproveitamento de muitas mamoas para “mães d’água”.

2 – O conhecimento geomântico exacto do movimento das linhas telúricas da Terra e os pontos de encontro de várias delas como nódulos telúricos, assim sabendo onde estavam as terras e águas boas para semeadura e consumo, como igualmente o lugar preciso para plantar um edifício, sacro ou não, que ficasse isolado das correntes negativas afectando o espaço ambiental e meteorológico, e assim aos temperamentos humanos e dos restantes seres vivos (animais, vegetais e minerais).

3 – O conhecimento exacto das propriedades medicinais das plantas e minerais, ou seja, a farmacognosia, aplicada como farmacologia natural sendo claramente um saber taumatúrgico herdado dos celtas. Foram os médicos do Templo quem descobriram a causa da lepra negra (assim chamada por deixar os corpos enegrecidos, em putrefacção ainda vivos, contaminando de imediato outros): estaria no centeio (com que se fazia o pão) plantado em zonas pantanosas próximas do mar, contaminado pelo salitre e pelos insectos.

Esses são exemplos da recolha feita do saber celta pelos mais doutos do Templo, e que tanto a religião como a medicina populares, do conhecimento dos mais antigos, ainda preserva[3].

Cromeleque "quadrado" do Xarez em Reguengos de Monsaraz, Alentejo

Cromeleque “quadrado” do Xarez em Reguengos de Monsaraz, Alentejo

Bem antes da presença celta regista-se na Península Ibérica a existência dos ligures, a quem Saint-Yves d’Alveydre (nos seus Arqueómetro e Missão dos Judeus) chama de “mestres do mar”, ao decompor a palavra em li+guru, o que lhes atribui origem além-Atlântica, isto é, atlante, cujos conhecimentos de navegação igualmente se reflectiram naqueles outros fenícios proto-históricos. Os ligures ter-se-ão mesclado aos iberos e dado essa etnia nova dos lugsignan ou lusitanos, cuja existência longa iria atravessar vários milénios a ponto de virem a fundir-se depois tanto nos celtas, dando os celtiberos, como nos romanos, dando os luso-romanos.

Os lusitanos, já então celtiberos, receberam o legado cultural e mágico dos primitivos lugares (isto é, lug+ara, “altar de Lug”) consagrados ao culto desse deus supremo do panteão ligure, a par de sua esposa Lusina, destinada à eleição de padroeira dos construtores-livres no período cristão, tanto sob a feição de Santa Madalena como de Santa Luzia. São marcas indeléveis da presença de Lug os referidos lugares “Lug” ou “Lux”, no contexto geral a Lusitânia inteira, como “Terra de Luz”, e no mais particular Lisboa, Logroño e Lugo, por exemplo, no caminho da peregrinação a Santiago de Compostela e nos caminhos encobertos da Intra-História peninsular. Lug (depois assumido como deus Endovélico pelos celtiberos e que o judaico-cristianismo identificaria a Mikael ou São Miguel, tudo em conformidade à sucessão dos ciclos religiosos nas respectivas antropologias civilizacionais), obreiro universal, demiurgo, mestre de artes e alquimista, músico, guerreiro e mago, o poderoso deus tutelar da Lusitânia que os ligures e os celtas transportaram consigo na sua marcha para onde o Sol se põe, as Occidens, com os olhares fixos no caminho estelar de Santiago ou a Via Láctea e tendo por guia o Canis Majorem, a estrela do Cão (símbolo jacobeo do guia, guardião e protector do peregrino viandante ou itinerante), chegando finalmente as finis Terrae, onde toda uma civilização megalítica e castreja foi plantada junto à orla atlântica ornando o espaço do que é hoje Portugal[4].

O caminho tortuoso da Iniciação Ligure ficou assinalado nos labirintos decorando o espaço interior de várias catedrais cristãs, como a de Chartres[5] e a de Santiago de Compostela, nesta última palmilhado pelo peregrino que a adentra indo prestar homenagens ao Apóstolo, desde o Pórtico da Glória com a Coluna de Jessé até à descida na cripta onde repousam os pressupostos restos mortais de São Tiago Maior, encerrados num sarcófago de prata. Este labrys ou redondo para o ponto central de si mesmo, é representado em uma escala simples e lúdica pelo simbolismo do Jogo da Glória ou do Ganso, “oca” em espanhol, e que foi o emblema de Lusina adoptado como insígnia dos construtores-livres medievais, pois, como se vê nas estelas funerárias do antigo cemitério de Iria Flávia,  a maioria deles assinava as suas obras com um pé de ganso, forma estilizada simples da flor-de-lis, esta considerada na Tradição Iniciática símbolo da Consciência Universal como lótus sagrado de Agharta.

Rafael Alarcón[6], acerca do Jogo do Ganso ou da Pata (a pata do ganso, a meu ver, já que o pato é a expressão mais doméstica do ganso, aquele mais passivo e aquático e este mais irreverente e ígneo), diz o seguinte:

“Há um complicado puzzle de símbolos ancestrais que querem significar algo muito mais distinto do que representam: um cisne e uma pata têm três filhos, dois pequenos cisnes e uma pequena pata; a pequena pata é raptada por um herói grego, já cinquentão, que havia conseguido entrar e sair do labirinto de Minos vencendo os seus perigos graças aos ensinos dum centauro; os irmãos cisnes vão resgatá-la para evitar que Helena-pata sofra a sorte de Ariadne, abandonada pelo seu herói pouco depois de ter sido raptada. Anos mais tarde a pequena pata, já crescida, será raptada por um troiano; serão então todos os gregos a quererem-na resgatar, provocando a conseguinte guerra no transcurso da qual se inventará o Jogo da Pata.

“É desde logo uma mitologia “labiríntica”, plena de símbolos com duplo e triplo sentido, que só pode ser desmascarada seguindo um fio subtil. Talvez o fio de Ariadne, levando à porta do labirinto? Labirinto espiralado que os Companheiros puderam percorrer, indistintamente, no lombo da Jaca-Cábala, a pé com as suas patas palmeadas, ou cavalgando sobre um caracol…

“Retornando aos nossos Companheiros medievais, há certos signos ou elementos simbólicos que lhes são próprios correspondendo-se paralelamente com elementos do Caminho Jacobeo e do Caminho da Pata, ainda que seja, quiçá, mais acertado dizer que determinadas casas do Jogo da Pata estão marcadas, definidas, pelos simbólicos elementos ocultos do Caminho de Santiago…

“A entrada, podemos comprovar em todos os tabuleiros, antigos e modernos, fica assinalada pela pessoa “mágica” do personagem que, sobre o desenho, vai realizar a peregrinação. O dito personagem, que pode aparecer tanto numa casa especial sem número como na número um, adopta as mais variadas características: um jogral, um gnomo, um mago ou astrólogo, um peregrino, etc., o qual costuma aparecer numa destas duas posturas: ou está em atitude de lançar os dados para começar o jogo, ou então conduz uma pequena bandada de patas incitando-as com a sua vareta a caminhar pelo caminho espiralado. Em qualquer dos casos fica claro que o nosso personagem simboliza o Mestre Iniciador, disposto a guiar-nos pelo caminho com a ajuda da sua vareta mágica ou com as instruções contidas nas medidas harmónicas dos dados, verdadeiras pedras angulares do jogo, como de toda a construção teórica.”

Realmente, a disposição desse jogo é muito significativa. O tabuleiro compõe-se de 63 casas, valor que reduzido teosoficamente dá 9, número dos ciclos da Terra (e a cada 9 casas dá-se novo período de jogo), e à divisão do círculo em “9” os monges-construtores chamavam de “pata de ganso”, sendo daí que o jogo recebeu esse nome. Na casa 58 (valor que somado e reduzido dá o Arcano 13) tem-se a “Morte”, e quem a vencer ou transpor fica a 5 casas de chegar à Glória, à Vitória, à Perfeição Humana que é o que o 5 alegoriza.

Sobre a Iniciação Ligure praticada pelos Lusitanos, tive oportunidade de descrevê-la na minha História Oculta de Portugal (cap. 15, pp. 300-302):

“Voltando aos dólmens, eram formados por uma câmara octogonal, interiormente da altura de um homem e com um pequeno corredor de acesso, com cerca de 1,2 m de altura. Assim constituído teria o formato de um útero, o útero da Mãe-Terra onde só podiam entrar, logicamente, pessoas do sexo masculino, devido aos opostos macho-fêmea.

“A câmara octogonal devia situar-se sobre o cruzamento de dois lençóis de água subterrâneos, ponto nevrálgico para onde o telurismo converge fazendo se sentir mais. O formato em octógono, para os Lugsignan, permitia a recepção máxima dessa força e a sua reflexão para o centro da câmara onde o iniciado, nos momentos propícios ao acto solene, mantinha-se de pé 24 horas[7].

“O dólmen possuía tradicionalmente uma tríplice porta, duas entradas laterais e uma central, todas com cerca de 1,6 m de altura, o que forçava, a quem a transpunha, baixar a cabeça – sinal de veneração e humildade perante a cerimónia de iniciação que se iria desenrolar. O momento escolhido era decidido em função do posicionamento dos astros, no instante em que as forças telúricas atingissem, no entendimento esotérico dos druidas, o máximo de fixação e irradiação local[8].

“Depois disso o iniciado era obrigado a inclinar o tronco para atravessar o pequeno corredor, de 1,2 m de altura, até à câmara. Acreditavam os druidas (termo oriundo do celto-bretão dru-vid, “o que possui a sabedoria e o poder”) que essa posição forçada lhes permitia a valorização do nível emocional do corpo humano. Eles acreditavam existir 3 níveis – o mental para o cérebro, o emocional para o coração e o impulsivo para o baixo-ventre –, quase se anulando o primeiro e o último níveis naquela posição. Havia mesmo dólmens (como o de Torres Novas, por exemplo) em que o corredor só podia ser transposto rastejando… como a serpente, simbólica das sinuosas correntes telúricas, facilitando assim uma comunhão mais íntima com as forças interiores da Mãe-Terra.

“Em conformidade sintónica com o momento ideal de recepção do máximo de telurismo vibrante, entravam na câmara octogonal e durante 24 horas mantinham-se de pé no seu centro, o tempo necessário para a rotação completa da Terra. Estavam prontos, depois, já devidamente instruídos, para desempenhar a missão que lhes iria ser confiada como novos druidas.”[9]

O "tellus draconis" celta no Castelo Templário de Tomar

O “tellus draconis” celta no Castelo Templário de Tomar

Pois bem, quando os celtas, vindos da Gália e da Bretanha, atravessaram os Pirinéus e se instalaram na Península Ibérica, incorporaram o elemento autóctone ibero-lusitano o qual, por sua parte, também os incorporou, e assim nasceram os celtiberos.

O nome celta ou kelta tem a sua raiz no etimólogo ligúrico eld, ald ou oold, que encontramos na kaldeia ou aldêia, a comunidade hindu, e igualmente na aldeia, a comunidade rural portuguesa. O termo celta ou ka-eld indica, pois, a “assembleia dos anciãos”, ou sejam os druidas, cujo colégio constituía o poder central da pequena sociedade rural que era a aldeia e cujo modelo serviu, depois, para os Templários organizarem e dirigirem o espaço social inserto no território sob a sua jurisdição com o governo centralizado em alguma Casa sua.

Esses eram os primitivos galos oriundos da Gália, aos quais a Galiza deve o nome, dizendo Jorge Ramos[10] que os seus condutores espirituais, os druidas, não só tinham como centro referencial do seu culto o Sol, Oiw, como igualmente cultuavam a Ísis céltica, Ceres ou Ceridwen, afinal, a Natura Naturante et Naturata.

Júlio César dedica aos druidas três capítulos dos seus Comentários, e Estrabão e Artemido comparam os seus ritos aos de Samotrácia, apesar de Dionísio de Halicarnasso (8. a. C.) os equiparar aos de Baco, ainda que, em boa verdade, possuíssem todas as características do Rito Mitraico. Por Diógenes Laércio e Júlio César sabe-se que o método druida de instrução era por símbolos, enigmas e alegorias, sendo a explicação só oral, enquanto por escrita era proibida (coisa que os Templários também terão feito, e daí a dificuldade em encontrar hoje documentação de sua própria lavra). Também se diz que as suas cerimónias de iniciação admitiam tanto homens como mulheres (tal qual como entre os Templários), e exigiam muita purificação física, moral e mental. A iniciação dividia-se em períodos trimestrais, celebrando-se durante os Equinócios (para as mulheres) e os Solstícios (para os homens), compreendendo três graus em que se dividia a hierarquia druida, cujo conselho dos 12 anciães estava organizado em torno de um 13.º, o arquidruida.

Portanto, tem-se:

Joaquim Gervásio de Figueiredo[11] diz que os principais mandamentos impostos aos druidas, eram: “Obediência à Lei Divina. Interesse pelo bem-estar da comunidade. Suportar com fortaleza todos os males da vida”. Adianta o mesmo autor que terminando o seu período probatório, vestiam o candidato com uma túnica de estrias brancas, azuis e verdes, cores da Verdade, Devoção e Simpatia, alegorizando os Mundos Espiritual, Psíquico e Material; encerravam-no numa tumba com o formato interior de um corpo humano e aí ficava deitado durante três dias em transe profundo (que nada tem a ver com os famosos “estados catalépticos” da confusa psicanálise e nem, tampouco, com os “transes animistas” do deplorável espiritismo, ou melhor, animismo psíquico, mas mais com a consciência desdobrada da forma física em projecção ao nível espiritual). Após despertar, o iniciado mantinha-se sob as ordens do Iniciador e este fazia-o dar nove voltas no santuário, com um passo comedido no começo mas aumentando até terminar numa carreira rápida. Enquanto fazia essas circunvalações, ouviam-se instrumentos musicais e recitações em louvor daqueles que foram heróicos na guerra, corteses na paz e amigos na religião. Terminada essa cerimónia, o neófito jurava guardar segredo e passava por diversos actos nos quais representava vários personagens, exclamando entre outras coisas: “Eu morri” e “Eu ressuscitei”, em alusão à morte e ressurreição místicas. A este respeito comenta o dr. Olivier na sua History of Initiation, pág. 146: “Nisto consistiam a morte e o sepultamento celebrados nos Mistérios Druídicos. Ao terminar os nove meses, dizia-se que o aspirante havia nascido de novo do ventre da deusa Ceridwen e declarava-se que, por isso, era agora uma pessoa regenerada, purificada de suas antigas impurezas”.

Desconheço a existência de algum documento coevo dos Templários explicitando que também eles realizavam o rito da morte e ressurreição, mas conheço vários monumentos funerários seus nos quais os interiores dos túmulos estão cavados em forma humana, como se verifica, por exemplo, em Monsanto e em Vila Franca de Xira, domínios que foram seus.

Tanto nas Gálias como na Bretanha, os druidas foram tratados com o máximo rigor pelos invasores romanos depois de uma heróica e tenaz resistência, devido ao poder da sua influência política e religiosa sobre o povo, como relata Tácito e outros. Mas no norte de Inglaterra eles subsistiram ainda até 714 d. C., aquando os monges de Iona foram expulsos da Escócia pelo rei picto Nechtan, e o seu lugar foi em grande parte ocupado pelos culdeus da Irlanda, que parece terem seguido a mesma tradição até ao século XIV, quando desapareceram dos anais históricos da Europa, mas não sem antes terem infundido na religiosidade cristã e rural esses cultos e crenças pré-cristãs, cuja fase mais notória da sua infusão foi precisamente a páleo-cristã (visigótica).

Todo o itinerário lusitano e celtibero desde Sagres a Finisterra está sulcado de testemunhos megalíticos assinalando a sua presença, e nesses mesmos espaços telúricos onde estão não raro os Templários construíram próximos a eles castelos, conventos, igrejas, capelas e ermidas, como que assimilando a potência antiga Druida à novel Templária[12].

O autor junto ao Menir do Outeiro ou Penedo Comprido, em Monsaraz, o maior da Península Ibérica

O autor junto ao Menir do Outeiro ou Penedo Comprido, em Monsaraz, o maior da Península Ibérica

Chega-se mesmo a ver dólmens convertidos em capelas, o que dá continuidade à tradição do megalitismo agora no terreno da Cristandade que a recebeu em boa parte graças, decerto, à influência do saber geomântico dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão. Um caso notável tem-se no limiar da povoação de Alcobertas, junto da Serra de São Bento, a caminho de Rio Maior. Vê-se aí a singular igreja de Santa Maria Madalena com um dólmen do Paleolítico transformado em ermida adossada a ela. E diz a lenda que foi a própria santa quem transportou à cabeça todas aquelas pedras para ali, impondo assim a construção da igreja arrimada ao dólmen e destruindo todas as noites as tentativas de edificação noutro lugar[13].

A «pecadora» galileia, Myriam Ben Magdala, é bem a versão cristã e cortês de Melusina ou Lusina (a mesma Atégina celto-lusitana)[14], a Deusa-Mãe dos povos proto-históricos destinada a ser Orago dos construtores-livres. Esposa do deus Lug, observa-se este na nova versão tanto do Apóstolo Lucas como do mártir Lourenço, o santo que, por «acaso», está sempre presente nos enclaves mágicos dos Templários, lugares igualmente propícios à observação dos fenómenos celestes como esse das “chuvas de estrelas”, às quais o povo chama de “lágrimas de São Lourenço”. Santo solar ou ígneo, indicia sempre um itinerário da mesma natureza pelo que, com as devidas e raras excepções, marca  presença no começo ou final deste, razão de ser dessas capelas de São Lourenço em Tomar, de Carnide em Lisboa, junto à Pontinha desta, de Azeitão, às portas da Serra da Arrábida, ou ainda de Budens, a caminho do Promontório de Sagres pouco antes da “Vila” do Infante D. Henrique, ou seja, a Quinta da Guadalupe.

O saudoso amigo Juan Garcia Atienza, não hesita em atribuir a São Lourenço a “advocação graálica”[15], cuja lenda hagiográfica é claramente decalcada das tradições gahélicas dos Tuatha-de-Danand transmitidas pelos monges culdeus irlandeses dos primeiros séculos da Idade Média, por cujas narrativas acabaram transformando o céltico Caldeirão de Daghda no cristão Santo Cálice assumido o da Última Ceia e do Calvário.

Já Maria Madalena é identificada simbolicamente ao Útero Materno da Terra, à Cripta, ao Hipogeo, rezando as tradições provençais que após a sua chegada à Europa recolheu-se numa caverna no Sul de França, conhecida como Saint Baume (“Gruta Santa”), onde diariamente orava as sete Horas canónicas[16]. Este episódio encontro-o repetido tanto em São Bento da Porta Aberta, no Minho, como na Gruta do Monge, no Parque da Pena de Sintra, transformada de dólmen em oratório de um anacoreta jerónimo da Serra da Lua[17].

Assim como Santa Madalena e São Lourenço foram personagens caríssimos no Santoral Templário, igualmente não se deve esquecer Santa Brígida.

Brígida nada mais é que Brigite, a divindade céltica reverenciada em todo o Ocidente europeu. Era filha de Daghda, o mítico deus-rei dos Tuatha-de-Danand, e esposa de Bress, rei do povo Fomoré. Dele teve três filhos: Brian, Iuchar e Uar, que foram tidos por génios da inspiração. E o embróglio mítico-simbólico desfeche com o feito dos três engendrarem um só filho de todos eles a quem chamaram Ecné (cujo fonema soa Hermé ou Hermes), significando “saber, ciência ou poesia”. A Brigite também chamaram Dana, donde os Tuatha-de-Danand terem sido o “povo de Dana” ou Brigite. Houve mesmo cidades que foram levantadas em honra desta divindade feminina, como Braccara (Braga) e Brigantium (Bragança)[18].

Além da Santa Brigida da Suécia canonizada pelo Papa Bonifácio IX em 1401, que viveu entre 1303 e 1373 e foi fundadora da Ordem do Santíssimo Salvador e mãe da também Santa Catarina de Siena, não devendo ser confundida com aquela de Alexandria no século IV, a homóloga Santa Catarina (do grego Katharós, “Puríssima”, cuja derivante é Katter, raiz de Cátara como “Pura”, caríssima à devoção Templária, e que estará na génese do ramo familiar Costo ou Costa), aparece uma outra mais obscura Santa Brígida decalcada directamente da Brigite celta, sobre quem pouco se sabe excepto que viveu entre os séculos X-XI, era natural da Escócia ou da Irlanda e filha dum tal Duptaco (Daghda?). Para se consagrar inteiramente a Deus sem que fosse incomodada pelos apetites carnais dos homens, já que era muito bela, Ele desfigurou-lhe um olho e assim tornou-a feia; dessa maneira pôde começar um rol de milagres em nome do Altíssimo, um deles o de fazer brotar fontes de água cristalina para dessedentar os caminhantes sedentos[19].

É esta última Santa Brígida que se vai encontrar no Santoral Templário, achando-se notícia exacta da mesma em Lisboa, na parede exterior lateral à entrada da igreja de São João Baptista do Lumiar (termo de raiz Lug ou LuzAlumiar, reforçado por outros tantos nomes de localidades vizinhas com igual sentido luminoso: Odivelas e Loures), estando encrostadas nela três sepulturas, lendo-se na terceira a epigrafia lapidar seguinte:

Os ditos três Cavaleiros (parecendo apontar à sugestão do mito hibérnico ou irlandês dos três filhos de Brigite) seriam Templários, pois que a igreja de São João do Lumiar estava antanho dentro dos terrenos do lugar da Ameixoeira que era pertença da Ordem do Templo e que a Ordem de Cristo herdou como “comenda velha”, conforme informam as Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, na parte IV, Título II, “Das Comendas e Fazendas da Ordem”, página 147, Lisboa, 1746: “Os bens que a Ordem tem na Ameixoeira, também estão dados por emprazamento”.

Em 1283 era Grão-Mestre Provincial do Templo em Portugal D. Frei João Fernandes, que andou de ligações estreitas com D. Dinis e D. Afonso, o Sábio, tendo detido três Mestrados: os de Portugal, de Leão e de Castela, quase tendo obtido também o da Catalunha, como informa Frei José de Brito nas suas Memórias da Ordem do Templo (inédito existente na Biblioteca Nacional de Lisboa).

Não deixa de ter interesse para o caso o facto dos saloios da Ameixoeira serem precisamente apodados de “catalões”. Terá isso a ver com alguma emigração hispânica para aí promovida pelos Templários? Seriam catalões os cavaleiros que trouxeram para aqui a cabeça de St.ª Brígida da Hibérnia ou Ibérnia, a Irlanda, a mando do Grão-Mestre D. João Fernandes?

Mas, mais importante, por que só a cabeça? Há em tudo isto uma forte sugestão bafomética, atendendo a quanto já se disse anteriormente, o mesmo acontecendo com a cabeça de St.ª Iria. Ainda hoje se cultua nesta igreja de São João Baptista do Lumiar a relíquia de Santa Brígida da Irlanda: uma parte do crânio, depositada numa urna de prata dourada, elegantíssima, estilo D. João V, que se diz ter vindo do Mosteiro de São Dinis de Odivelas.

Mais além do Lumiar e passando a ermida de S. Sebastião, tem-se a escassos quilómetros a igreja e convento de Nossa Senhora da Luz que foram da Ordem de Cristo, tendo a primeira sido fundada no reinado de D. Afonso V em 8 de Setembro de 1464, então uma simples ermida votiva em memória da Virgem ter aparecido em “Luz” aí, junto à chamada Fonte da Machada, ao cavaleiro Pêro Martins. Mas já antes, em 13 de Setembro de 1442, o rei doara ao seu sobrinho, o Infante D. Henrique, essa mesma paróquia de Carnide[20].

Paulo Pereira diz com muito acerto[21]: “Deve registar-se, neste caso, a proximidade de um topónimo com conotações “luminosas” idênticas: Lumiar. E é quase certo que entre a Luz e o Lumiar, através da ermida de São Sebastião e até à igreja de São João Baptista, se perpetue um antigo “caminho dos mortos” ou “estrada do Sol”, segundo a tradição das leys”[22]. Sem dúvida, porque a igreja de S. João Baptista está anexa ao cemitério da Ameixoeira, e a de N.ª Sr.ª da Luz está próxima do cemitério de S. Lourenço de Carnide, cuja igreja e adro anexo ainda conservam alguma memória da presença Templária.

Além disso e indo à sua filologia, Carnide é nome comportando o tema egeu-anatólico car ou kar, “pedra”, aproveitado pela língua celta, enquanto o feminino ker encerra o sentido de “morte”, pelo que se poderá interpretar o etimólogo Carnide com o significado de “caminho da morte”, ademais sendo Ker a divindade feminina psicopompa que conduz as almas dum lado ao outro do caminho da vida, a qual, com a advento do Cristianismo, foi substituída por N.ª Sr.ª da Boa Morte, Hipóstase da Mãe de Deus que todos esperamos venha a rogar, a interceder por nós na hora de nossa morte e nos leve em Luz ao seu Divino Filho, para Este nos julgar em conformidade às nossas acções neste vale de lágrimas. Por esta razão necrolática, Carnide tem por Orago Nossa Senhora da Luz, reforçado pelo igualmente luminoso ou solar São Lourenço, ambos anunciados logo à entrada do “caminho das almas” por São João Baptista, o que transporta o etimólogo Carnide à aproximação daquele outro asiânico, Aragata, “Cordeiro Santo”, tanto valendo por Agnus Dei, afinal, atributo iconográfico do Anunciador.

Vestígios templários no adro da igreja de São Lourenço de Carnide

Vestígios templários no adro da igreja de São Lourenço de Carnide

A igreja de N.ª Sr.ª da Luz, mandada fazer pelo cavaleiro de Cristo Pêro Martins e inaugurada na supradita data de 8 de Setembro de 1464, pela Festa da Natividade de Nossa Senhora, recebeu então na sua capela a miraculosa do Orago, a cujo acto estiveram presentes o bispo de Lisboa, D. Afonso Nogueira, o rei D. Afonso V, a corte e muito povo, como descreveu Frei Roque do Soveral[23].

A imagem da Virgem miraculosa foi descoberta em 1463 por Pêro Martins, na pequena gruta sobre que assenta a igreja e cujo altar-mor ergue-se precisamente sobre a fonte de águas santas ou miraculosas, o que denuncia uma arquitectura de características geomânticas e levando, pelos atributos de luz ou fogo e água, a associar o Orago à própria deusa primitiva dos construtores-livres, Lusina, enquanto Lug está mais adiante, assinalado em São Lourenço na sua capela.

Com efeito, a imagem morenada da Senhora, junta ao seu atributo, Luz, não deixam de sugerir tratar-se da encapotada Virgem Negra Lusina, assim como a fonte milagrosa a capacidade miraculosa de Santa Brígida em fazer irromper nascentes, ambas ligadas a um tipo de culto notoriamente linfo-matriártico e cripto-lunar.

Pêro Martins deu com a imagem depois da Virgem lhe ter aparecido em sonhos repetidamente durante um mês, na altura em que estava prisioneiro dos mouros em Tânger, numa data incerta, talvez 1437, talvez 1459. As palavras consoladoras de Nossa Senhora ao desgraçado cavaleiro cativo, são reproduzidas pelo mesmo Frei Roque do Soveral:

“Filho, consola-te. Eu te livrarei do cativeiro em que ora estás. E como te livrar, ainda que sejas pobre e de parentes necessitados, não deixarás de fazer o que agora te digo. Irás ao lugar de Carnide no Termo de Lisboa, donde és natural, e fazer-me-ás sobre a Fonte da Machada uma ermida como tu puderes. E será a invocação de Santa Maria da Luz, por ser este o nome que me convém e de que meu Filho é servido me chame. Nesse lugar há-de ser meu nome glorificado, honrado e aumentado com muitas maravilhas e milagres que nele serão feitos por minha intercessão em muitas pessoas devotas. E quando chegares, já lá acharás de minha luz e claridade os sinais, que teus naturais hoje vêem sobre a mesma Fonte da Machada. Aí acharás (buscando-a) uma imagem minha, a que farás o que te digo, e nela mostrarei o que sou.”

Liberto o cavaleiro de seu cativeiro, graças à intercessão da Ordem dos Trinos ou da Trindade, logo se apressou a achar a imagem e dar início à construção do templo sobre a cripta donde, narram todos os autores, irradiava uma luz semelhante ao arco-íris, o que veio a ser grafado no topónimo actual do sítio e da titular: Luz. A própria fala lendária da Senhora ao cativo mais parece um incitamento à conquista do V.I.T.R.I.O.L.: Visita Interiora Terris Rectificando Invenies Occultum Lapidem – “Visita o Interior da Terra e rectificando encontrarás a Pedra Oculta”.

Como disse, Pêro Martins deu com a imagem na gruta donde irrompe a água milagrosa que vai alimentar a anexa Fonte do Machado ou da Machada, como já aparece grafada num documento de 27 de Maio de 1311. A sobredita era Urraca Martins Machado ou Machada, donatária de Chelas e freira cisterciense no mosteiro de São Bernardo em Carnide, cujos votos abandonou optando pela vida civil[24].

Regista-se a notícia de já em 1325 haver “casa religiosa” de freiras da Ordem de São Bernardo nesta freguesia de Carnide[25]. Igualmente os freires bernardos (cistercienses após a reforma da Ordem) aqui tiveram “casa religiosa” anexa à igreja de São Lourenço, os quais vieram do mosteiro de Seiça (Montemor-o-Velho, Coimbra), conforme noticiaram Frei Bernardo de Brito (in Crónica de Cister, pp. 854-855, Lisboa, 1720) e o Dr. Baltazar de Faria (in Corpo Diplomático Português, V, p. 242, Lisboa, 1874).

Como já foi dito, a hierarquia tradicional de valores dos Druidas celtiberos terá influenciado a posterior hierarquia Templária numa sociedade, repito, mais rural que urbana, desde a herança de conhecimentos tradicionais à respectiva ordenação escatológica. Inclusive pode fixar-se uma tabela de similitudes nas principais funções de ambas as estruturas, como sejam:

Igualmente encontra-se na arquitectura uma proximidade que liga por sua disposição de forte sentido simbólico a megalítica à medieval do Templo, como se regista principalmente na feitura dos kraks ou castelos deste, os quais originalmente englobavam a cidadela, tal qual os fortificados celtas incluíam a citânia, simbolismo denotado nas cidades lídias caracterizando-se por uma tríplice cintura muralhada que, aquém do sentido iniciático, as protegiam das investidas inimigas, como se verificou nas antigas cidades gregas de Lerna, Tirinto, Micenas, etc., e nas portuguesas de Leiria, Tomar, etc.[26]

Essa cintura muralhada tríplice, entre os citas que deram nos celtas, possuía um grande sentido simbólico, apresentando-se a disposição geral formada por três quadrados concêntricos ligados entre si por quatro linhas em ângulo recto, expressando as artérias principais.

Para Paul Le Cour e René Guénon[27], trata-se do simbolismo da “tríplice muralha” dos castros fortificados celtas cujo significado metafísico, além do utilitário imediato, os sacerdotes dessa raça, os druidas, vieram a propagar de tal maneira que acabou vulgarizando-se em várias formas de jogo, como o “jogo do moinho” e até, com menos traços mas não deixando de ser, na marcação dos campos de futebol.

Com efeito, para os druidas a “tríplice muralha” representaria os três graus da sua hierarquia sacerdotal: druida, vate e bardo, isto é, sacerdote, profeta e instrutor. O candidato ia subindo na hierarquia até chegar ao grau supremo, equivalente ao “Grande Centro” ou Pantheon dos Heróis dessa primitiva religião europeia, como já tive ocasião de dizer quando analisei figura idêntica à que está acima, gravada na parede lateral à entrada na Escola de San Rocco, em Veneza[28].

É assim que René Guénon classifica o significado esotérico das três muralhas como expressivo dos três graus básicos do sistema de iniciação, de tal maneira que o seu conjunto pode muito bem ser, de certo modo, a representação da hierarquia druídica como expressão tradicional do ensinamento iniciático. Com essa mesma explicação, o sentido das quatro linhas dispostas em cruz, que ligam as três muralhas, torna-se de imediato muito claro: serão os canais por meio dos quais o ensinamento da doutrina tradicional se comunica de cima a baixo, a partir do grau supremo, que é o depositário legal desse mesmo ensinamento, repartindo-se hierarquicamente pelos demais graus. A parte central da figura corresponderá, portanto, à “Fonte da Tradição”, de que falam Dante e os Fidelli della Amore, e a disposição crucial dos quatro canais que dela partem identifica-se aos quatro rios do Pardes ou Paraíso. Nesse caso, o centro da figura, como “Fonte da Tradição”, corresponde à Autoridade Espiritual ou Sacerdotal, e os canais subalternos expressam o Poder Temporal ou Real, onde a interacção entre os dois poderes é permanente mas com o primeiro revelando-se pelo segundo, tal qual o Paraíso Celeste se manifesta no Paraíso Terrestre, assim como o Centro Supremo do Mundo (Salém, Shamballah, etc.) se revela nos Centros Sagrados esparsos pelo mesmo Mundo.

Na Idade Média e um pouco por toda a Europa, também foram construídos castelos com tríplice muralha em lugares previamente assinalados pela Tradição Primordial como sendo propícios a uma maior proximidade ao Mundo Espiritual por via das poderosas energias telúricas aí concentradas, e igualmente das boas conjunções dos astros auspiciando esses assim consignados “lugares mágicos”, o que se conformava às primitivas regras das leys.

A “tríplice muralha” medieval acabou assimilando o significado que tinha entre os celtas e veio a assinalar a hierarquia da Cavalaria: cavaleiro, escudeiro e pajem, cuja evolução do candidato à nobreza das armas começava do mais exterior para o “Grande Centro”, este representado pelo rei do país ou pelo governador do lugar.

Também na Idade Média mas para a espiritualidade judaico-cristã, essa figura geométrica sintetizava o sentido do bétilo, ou seja, da “pedra sagrada, considerada como morada de um deus”. É assim que aparece a figurar o próprio Templo de Salomão, em Jerusalém, como o descreve a Bíblia (I Reis, 7:12), com a sua tríplice cintura que separava o povo dos levitas e estes do sumo-sacerdote, o único com acesso ao centro onde estava o “Santo dos Santos” (Sanctum Sanctorum), lugar reservado à Arca da Aliança. Como o Templo de Salomão representava o próprio Paraíso Terrestre, então o simbolismo geométrico da “tríplice muralha” será, em última análise, figurativo desse mesmo Éden Primordial.

A haver Paraíso Terreal haverá Paraíso Celestial como seu modelo, o qual é indicado no Apocalipse (21, 11:22) como a Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados. Para que a figura geométrica a represente, deve colocar-se diagonalmente as quatro linhas em cruz em relação aos dois quadros extremos, a fim do espaço compreendido entre eles ficar dividido em doze triângulos rectângulos iguais, simbolizando as doze portas do Paraíso Celeste.

Do ponto de vista do simbolismo numérico, o conjunto dos três quadrados forma o duodenário, e dispostos da forma assinalada por último em relação à Jerusalém Celeste, vêm a constituir a figura pela qual os antigos inscreviam o Zodíaco (como se vê numa inscultura junto às “escadinhas dos clérigos (trinos)”, em Sintra), o que vai muito bem por a mesma Jerusalém Celeste expressar o Universo inteiro, tal qual o Zodíaco.

Essa figura também era considerada como a da Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados, o que possui uma relação evidente com o significado que se indicou para a figura quadrangular da tríplice muralha, a qual  significa o Paraíso Terrestre. É exactamente esta formação geométrica de sentido astronómico que se repara numa inscultura Templária à entrada da igreja de S. Pedro em Óbidos, terra natal do almirante-mor do Templo, D. Fuas Roupinho.

Para denominaram as supracitadas muralhas, os latinos dispunham de um termo de origem iraniana: pari, o qual aparece no composto pari-daiza, ou seja, “cintura” (pari) e “modelo” (daiza). Paridaiza ou Paradhesa é a arquetípica das palavras hindu-europeias indicativas de Paraíso.

Tudo leva a crer que no interior dos seus kraks os Templários terão criados núcleos sinárquicos no esforço imediato de reproduzirem o Paraíso de Deus, de qual fala o inspirado St.º Agostinho na sua magistral Civitas Dei, e decerto por isso regiam-se no seu meio por regras muito suas, sem darem satisfações detalhadas do que faziam a ninguém de fora, inclusive ao papa e ao rei.

De maneira que a simbiose entre a Jerusalém Celeste e o Paraíso Terrestre, representado no plano imediato da Tradição pela Jerusalém Terrestre, tem a sua expressão efectiva no relacionamento entre a Autoridade Espiritual e o Poder Temporal, entre o Sacerdócio e a Realeza, esta encontrando a legitimação por aquela. Isto mesmo pode ser lido no Midrash Tankhuma, obra teológica judaica que trata da relação entre os dois Poderes Espiritual e Temporal, simbolizados pela Jerusalém “axis coeli” e a Jerusalém “axis terris”, na qual São Bernardo acaso terá se inspirado para o seu Louvor à Nova Milícia e inclusive ingerir na escritura da Regra. Diz esse texto judaico:

“Vós vereis que existe uma Jerusalém do alto que corresponde à Jerusalém de baixo. Por amor da Jerusalém terrestre, Deus fez uma no alto. Eu não entrarei na Jerusalém Celeste antes de ter entrado na Jerusalém Terrestre.”

Por essa razão primaz da divindade e universalidade da simbólica Jerusalemita, é que os Templários cunharam moeda com a efígie do Templo de Salomão de que se assumiam, afinal, guardiães, certamente não tanto das suas ruínas mas mais da Tradição Primordial representada pelo mesmo, indo reflectir-se no binómio sinárquico Autoridade-Poder, o qual certamente conheciam e exerciam, como se observa no testemunho deixado nas figuras decorativas de vários edifícios que construíram, por exemplo, a igreja de São Pedro de Rates, no Minho, onde junto à pia baptismal lavraram na pedra duas figuras: um bispo com o báculo na mão esquerda faz o sinal hierático com a destra a um rei coroado, com uma mão no peito e a outra empunhando a espada. Cena de sagração e investidura: bispo e báculo dominando = Autoridade Espiritual; rei e espada dominado = Poder Temporal. Algo idêntico a Purusha originando Prakriti, ou seja, o Espírito dar de si a Matéria, o que reverte novamente ao conceito da Jerusalém Celeste e Terrestre, paradigmas máximos da Autoritas e da Potens.

Para terminar e volvendo ao celticismo, a corrente celta pôde sobreviver culturalmente através do Templo e continuar, em boa parte através da cultura rural, após esse dar desenvolvimento aos Monges-Construtores, por um lado, e aos Rosa+Cruzes, por outro. Destes últimos brotaram as posteriores Correntes Iniciáticas do Ocidente, com o propósito único de restaurar os laços psicossociais e espirituais rompidos, após a destruição do Templo, entre o Oriente e o Ocidente, e assim contribuírem universalmente para a restauração da Tradição Primordial e consequente edificação de uma Sociedade Humana mais justa e perfeita.

NOTAS

[1] Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal (Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2000 e 2002.

[2] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[3] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

[4] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta (Capital do V Império). Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Abril de 2007.

[5] Sonja Ulrike Klug, Catedral de Chartres (A Geometria Sagrada do Cosmos). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2002.

[6] Rafael Alarcón, A la Sombra de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1986.

[7] Rudolf Steiner, Centres Iniciatiques (Origines-Influences). Editions Anthroposophiques Romandes, 13, Rue Verdaine, 1204 Genève/Suisse, 1977. T.G.E. Powell, Os Celtas. Editora Verbo, Lisboa, 1965.

[8] Acerca do culto lunissolar Lusitano, transcrevo uma passagem importante do livro do professor Adriano Vasco Rodrigues, Os Lusitanos, Mito e Realidade. Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998:

“O culto solar, saído das épocas mais remotas do Neolítico e do Bronze, aparece testemunhado em documentos arqueológicos do período romano. Prende-se às festividades solsticiais, expressas nas orvalhadas da manhã de S. João, e aos festejos desse dia, inclusive as danças de purificação, que originariamente só incluíam a passagem do gado pelo meio de filas de fogueiras. O sacrifício do cordeiro sobrevive na imolação do anho, que serve as ceias da noite de S. João, entre os povos do Norte, com particular relevo para o Porto. Liga-se ao Solstício. Sabemos que os Lusitanos efectuavam danças religiosas nas noites de plenilúnio. Os planetas Marte, Vénus e Lua seriam motivadores de danças rituais. O culto da Lua, nas populações lusitanas, prende-se à estrutura económica ganadeira, e no Norte da Península, ao matriarcado, por influência daquela nos ciclos menstruais.”

[9] Raymundo de Burlet, Pitágoras e os Druidas. Revista “Dhâranâ”, Ano XII, n.º 103, Janeiro-Março 1940, Rio de Janeiro. Ten. L. Verdera Franco, Galicia, celta. Revista “Ejército”, Março, 1969.

[10] Jorge Ramos, O que é a Maçonaria. Editorial Minerva, Lisboa, 1983.

[11] Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo, 1974.

[12] Cf. Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Paisagens Arcaicas, vol. I. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Março de 2004.

[13] Cf. Francisco Hipólito Raposo, Estremadura e Ribatejo em passeio de braço dado. Edição da Mobil Oil Portuguesa, Março de 1987.

[14] Vitor Manuel Adrião, Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Março de 2007.

[15] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1988.

[16] As sete Horas canónicas distribuíam-se ao longo do dia do seguinte modo: 1.ª Matinas (24 horas) e Laudes (3 horas); 2.ª Prima (6 horas); 3.ª Terça (9 horas); 4.ª Sexta (12 horas); 5.ª Nona (15 horas); 6.ª Vésperas (18 horas) e 7.ª Completas (21 horas).

[17] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006. E Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, 2007.

[18] D´Arbois de Jubainville, El Ciclo Mitológico Irlandés. Vision Libros, Barcelona, 1981.

[19] Alonso de Villegas, Flos Sanctorum. Barcelona, 1775.

[20] In Místicos, Livro 3.º, fl. 138 vº, A.N.T.T., citado por José Baptista Pereira, Memórias de Carnide, 1914, pág. 169.

[21] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Idades do Ouro, vol. III. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Agosto de 2004.

[22] Na Idade Média e durante a Renascença, as leys consistiam em padrões ou alinhamentos de faixas ou linhas invisíveis cuja potência teoriza, demarca e liga entre si determinados espaços sagrados e naturais como lugares mágicos. Hoje essa teoria antiga já perdeu o seu foro de ciência tradicional e é apresentada pelas hodiernas crenças neo-espiritualistas que a popularizam como radiestesia, energia psíquica ou mística, etc.

[23] Frei Roque do Soveral, História do insigne aparecimento de N. Senhora da Luz e suas obras. Lisboa, 1610.

[24] Pedro A. de Azevedo, Urraca Machado, Dona de Chelas, in Archivo Histórico Portuguez, III (1905), p. 10, documento VII.

[25] Pedro A. de Azevedo, ob. cit.

[26] Juan G. Atienza, la mística solar de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1983.

[27] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, S. Paulo, Brasil.

[28] Vitor Manuel Adrião, Guia de Veneza Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010.

Santos e profetas da Ordem do Templo (Santoral Templário) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jun 1 2016 

O Cristianismo dos primeiros tempos na Europa caracterizava-se por grupos de cristãos vivendo em regime de reclusão anacorética onde campeavam santões e profetas de poucas letras mas de muito fundamentalismo religioso, o que os convertia, não raro, em milenaristas instigadores das multidões crentes à realização dos mais diversos e incríveis propósitos. A autoridade eclesial ainda não dominava plena, os movimentos cristãos floresciam sem regra alguma, numa desorganização selvagem, de maneira que era usual o bizarro confundir-se inextrincavelmente com o bom senso, vendo-se assim o fanatismo de líderes religiosos carismáticos levar os sequazes a campanhas de saque e morte contra aqueles que consideravam hereges, muito particularmente os judeus e depois os árabes, mas não se excluindo de também atacarem cristãos considerados “transviados” do seu entendimento particular da doutrina. Em suma, a maioria dessa seitas era pouco mais que bandos de arruaceiros e salteadores, em nome de propósitos religiosos pouco ou nada claros apregoados pelos seus líderes.

Se bem que não fosse o panorama geral, pois deve-se excluir os conventos e eremitérios sujeitos a alguma regra de vida, como foi o caso dos beneditinos de São Bento de Núrsia que uniu a Cristandade Oriental à Ocidental, a verdade é que aparte essas felizes excepções o Cristianismo que campeou entre os séculos V e XII na Europa pouco mais era do que um módulo religioso completamente anárquico sem ordem nem ortodoxia algumas, algo assim parecido com o moderno fenómeno urbano do «new age».

Seria São Bernardo de Claraval (século XII), e no século seguinte São Francisco de Assis, quem poriam ordem e disciplina na estrutura claustral e clausural da Igreja. Da mesma maneira, seriam os templários (século XII) quem transformariam de vez a Cavalaria em exército regular disciplinado, invés de bandos de mercenários e saqueadores como os havia por toda a parte até então.

De maneira que os profetas populares desde muito cedo campearam pela Europa rural, com o seu carisma e verbo inflamado arrastando multidões atrás de si e, não raro, desfechando nos maiores desmandos. Exemplo típico disso, foi o que aconteceu no ano 590 d. C., no Sul do Reino dos Francos (França actual), onde apareceu um camponês da região do Berry, com pressupostos dons de adivinhação e cura, que afirmava ser o próprio Cristo. Ganhou fama, foi adorado como um rei, turba enorme de miseráveis e camponeses seguia-o por toda a parte. Acirrou os seguidores a atacar os viajantes e as propriedades, saqueando-as e dividindo os bens entre os indigentes. Pregava contra os bispos, ameaçava e matava quem o perseguisse. Provocou o maior alvoroço e terror. Por fim, o exército do bispo Aurélio, da cidade de Puy-en-Velay, conseguiu cercar o bando e dizimá-lo após luta sem quartel, durante a qual foi morto o falso Cristo.

O terror do fim do mundo no ano 1000 trouxe novos milenaristas, anunciando a da boa-nova de estar próximo o tempo da Jerusalém Celeste reaparecer sobre a Terra e o reinado dos heréticos estar prestes a findar. Para tanto, devia-se acelerar o processo e encetar santa cruzada à terra que Nosso Senhor pisara e expulsar dela, a golpes de espada, todos os infiéis, fossem judeus, fossem muçulmanos.

Às gentes dos séculos X-XI não faltavam messias e profetas que por sinais, prodígios e milagres lhes anunciavam o mundo estar chegando ao fim, infundindo-lhes o maior terror. De maneira que era comum ver estrelas cadentes ou nuvens vermelhas como sangue rumando em direcção a Jerusalém. Fala-se que até mesmo animais, como galos, gansos, outros pássaros e até peixes, dirigiam-se para o Oriente, e logo eram seguidos por bandos de cristãos fanáticos iletrados crentes da Jerusalém Celeste estar prestes a aparecer na Terra.

Foi nesse controverso ambiente milenarista que teve início o fenómeno de Pedro de Amiens, o Eremita. Afirmava ter recebido uma mensagem do Céu em que Deus lhe ordenava que libertasse a Terra Santa. O religioso francês iniciou a sua pregação inflamada e comovente juntando em Colónia um enorme séquito de mendigos, camponeses, mulheres, crianças, velhos e alguns cavaleiros sem honra nem fortuna. Havia terminado há pouco o Concílio de Clermont (1095). Os discursos de Pedro, o Eremita, iam na direcção de se organizar cruzada à Terra Santa. Conseguiu organizá-la com a desorganização que havia. Assim, em Abril de 1096, formou-se a Cruzada Popular ou dos Mendigos com cerca de 17.000 pessoas, movimento que caracterizou o misticismo milenarista da época formado à margem da autoridade pontifícia, portanto, antecedendo a primeira cruzada oficial (1096-1099), chamada de Cruzada dos Nobres, dos Cavaleiros ou dos Barões, por nenhum rei ter participado nela.

Essa cruzada extraoficial partiu de Colónia em direcção à Terra Santa, tendo como líder Pedro, o Eremita, e como seu capitão d´armas um cavaleiro franco aventureiro sem fortuna nem honra, Gautier Sans-Avoir (Galtério Sem Vintém). Não fazendo distinção entre judeus e muçulmanos, esses cruzados por conta-própria ao chegarem à Renânia massacraram os judeus que aí haviam, e o que sobrou foi repasto para saque geral. Prosseguiram a marcha caótica para Jerusalém, mas na Anatólia defrontaram-se com o exército turco que dizimou a quase todos. Os que sobreviveram, dentre eles Pedro, o Eremita, procuraram refúgio em Constantinopla, corria o 1.º de Agosto de 1096, sendo acolhidos pelo imperador bizantino Alexius Commeno I. Mas logo o bando de maltrapilhos, esquecendo a sua crença obscura pela ganância a que a miséria levava, começou a saquear a cidade, pelo que o imperador obrigou-os a alojar fora dela, perto da fronteira muçulmana, instigando-os a atacarem antes os infiéis. Assim fizeram. Os que não desmobilizaram antes, ou morreram pelas armas em mãos destras ou acharam a escravatura certa. Por aí terminaram os dias da saga aventureira de Pedro, o Eremita, possivelmente encontrando a morte no anonimato de algum convento bizantino que dele se apiedou e o acolheu.

Pedro, o Eremita, aponta o caminho de Jerusalém aos cruzados (iluminura francesa, cerca de 1270)

Pedro, o Eremita, aponta o caminho de Jerusalém aos cruzados (iluminura francesa, cerca de 1270)

Obviamente não terminou aí a série caótica de messias e profetas populares. Como mais um exemplo, nos meados do século XII apareceu na Bretanha, Norte de França, um tal Eudo de Stella, misto de pregador de verbo fácil inflamado e salteador. Pregava uma doutrina libertária e libertinista. Vivia como rei entre os seus e incitava-os a atacar as aldeias e os mosteiros, não poupando as mulheres ao estupro, cultuando-se também a sodomia entre homens agradados do sexo igual. Eudo de Stella acabou preso em 1148 pela tropa comandada pelo arcebispo de Reims, numa altura em que se realizava concílio nessa cidade com a presença do Papa Eugénio III. Levado diante deste e lhe perguntado quem era, o messias respondeu arrogante: “Eu sou Eudo, que veio julgar os vivos e os mortos e o mundo pelo fogo!” O falso profeta e os seus adeptos foram julgados e condenados à fogueira.

Esse tipo de messias e profetas visionários, é bom que se diga, constituiu-se como elemento marginal à autoridade eclesiástica, à ortodoxia tanto religiosa como política estabelecidas, pelo que qualquer hodierna tentativa espúria de associar as suas palavras e actos às dos cavaleiros templários estabelecidos com Ordem e Regra, não passam de mera coincidência e puro descontexto, talvez por ignorância da lei de direito canónico a que se conformava a política social medieval, e com isto partindo da mais elementar premissa dos cavaleiros do Templo serem parte reconhecida da legalidade política sujeita à ortodoxia eclesial da época. Por conseguinte, não eram marginais aventureiros, arruaceiros e salteadores desafiando qualquer autoridade, tampouco santões, profetas e adivinhos por conta-própria: eram reconhecida Milícia Regular da Igreja composta por cavaleiros de nobreza universalmente reconhecida, logo, de acesso livre a qualquer trono, a qualquer corte, assim como a quaisquer paços episcopais, para não dizer, ao próprio Papa.

Da mesma maneira os santos do seu culto, todos eles beatificados e santificados pela autoridade apostólica, desde logo reconhecidos e aceites pela Igreja Universal. Não importa a interpretação esotérica ou gnóstica que possa ser dada dada a alguns desses santos, o que importa é que estão dentro da mais rigorosa legalidade apostólica, com isso e tanta devoção a eles só poderia reflectir “os templários como bons e os melhores dos cristãos”, como reconhecia o rei de Aragão, Jaime II, o Justo.

Nesse sentido, os cavaleiros templários tiveram uma especial devoção por oito santos reconhecido no Canónico, obviamente além de a Cristo Glorificado: São Miguel Arcanjo, São João Baptista, São João Evangelista, São Tiago, São Lourenço, São Gregório, São Bartolomeu e São Julião Hospitalário. No seu Santoral também distinguiram outros: São Gil e São Ginário, São Brás, São Sebastião e São Pantaleão. Quanto a santas, além de Nossa Senhora, sobretudo a do atributo soberano Santa Maria Maior, e de Santa Maria Madalena, veneraram especialmente a: Santa Iria, Santa Luzia, Santa Catarina e Santa Águeda.

Padre templário (gravura do século XIX)

Padre templário (gravura do século XIX)

Entre os santos protectores dos templários encontra-se San Durán (ou São Durando), não sendo senão o cavaleiro frei Guillem Duran, o único santo que foi templário, cuja vida piedosa levou-o a ser venerado como beato nos altares até meados do século XVII, como reflectiu o padre Domenech no seu escrito sobre os santos catalães. A sua ascensão à santidade foi a justa recompensa à sua vida abnegada, dedicada por inteiro a velar pelos cátaros, pelos peregrinos e por outros grupos humanos que fugindo às fogueiras, às cruzadas contra as heresias e aos horrores da Inquisição no Languedoc, cruzavam em condições penosas a barreira dos Pirenéus na direcção Sul, procurando sobreviver àquele barbárie buscando refúgio seguro em solo ibérico, fixando-se em Aragão e na Catalunha sem mais expansão para o extremo ocidental da Península, como tive oportunidade de confirmar tanto no lado francês como no espanhol da citada cordilheira.

Em desacordo tanto com os amadores da História afirmando a presença cátara em Portugal nos séculos XIII-XIV, sem nenhum indício documental e/ou monumental concretos e só analógicos facilmente desmentíveis, a qual como Igreja regular findou definitivamente em Trezentos vítima da Cruzada contra os Cátaros e Albigenses promovida pelo Papado em Avinhão e em Roma, de que restam só algumas memórias e costumes etnográficos na região de Albi, Sul de França, como igualmente com Antonio Galera Gracia que afirma nunca ter existido qualquer San Durán por o santoral católico não o registar (mas isso possivelmente por ser um santo “marginal”, que o dédalo censório do Eclesiástico hostil ao evoco da Ordem do Templo encarregou-se de apagar a memória)[1]. Contudo, San Durán (século XIII) é descrito como nascido e vivido na comarca catalã da Cerdanya (actuais províncias de Girona e Lleida). Frei Guillem Durán desafiou a Inquisição, cujos frades dominicanos levantavam fogueiras para queimar vivas, ou em efígie, a centenas de pessoas condenadas como hereges. O templário ajudava esses desgraçados a transpor os precipícios da cordilheira pirenaica através dos estreitos e perigosos carreiros do Caminho dos Bons Homens, que liga o castelo de Montségur (Aiège), ao Norte, com o santuário catalão de Queralt (Berga), ao Sul, onde se presta culto a uma Virgem Negra. San Durán também escreveu uma obra que não tardou a ser condenada pela Igreja: Rationale Enchyridion Divinorum[2]. Após a queda em desgraça do Templo, a memória dos restos mortais do piedoso frei cavaleiro não tardou a ser apagada de Puigcerdà e do resto da comarca de Cerdanya, juntamente com todos os outros testemunhos templários, de que ainda resta o campanário de Santa Maria em Puigcerdá. Aqui, San Durán recebeu sepultura na igreja de São Bartolomeu, e depois de morto continuou a fazer milagres em favor das gentes daquelas terras. Assim, converteu-se no protector dos perseguidos. Lamentavelmente, não se conseguiu conservar os seus restos, porque a igreja de São Bartolomeu foi destruída no ano de 1936 até às suas bases, durante a Guerra Civil de Espanha[3].

Campanário de Santa Maria em Puigcerdá, Catalunha

Campanário de Santa Maria em Puigcerdá, Catalunha

No contexto dos santos e profetas coevos dos Templo ou mesmo pertencentes a este, vem a aparecer o nome de Jean de Vézelay, dito Jean de Mareuil ou João de Jerusalém, pressuposto profeta templários que teria escrito em francês medieval, a langue d´oil, 40 premonições, entre 1117 e 1119, quando se encontrava como peregrino junto aos cruzados em Jerusalém.

Esse profeta João teria nascido em 1042 e acompanhado os cruzados à Terra Santa, onde chegou em 1099. Já no final da sua vida teria escrito aí, em Jerusalém, os seus vaticínios, num estilo escorreito e simples, preanunciando de forma apocalíptica eventos que se perspectivavam num horizonte temporal vindo do milénio em que viveu até ao milénio que se iniciou no ano 2000. Beneditino, abraçara a Regra no mosteiro de Vézelay, França, ficando notícia dele como um dos seus priores. Muito viajado, há também notícia de ter feito várias peregrinações a Santiago de Compostela e se deslocado a Bizâncio, onde integrou a Cruzada a Jerusalém, segundo M. Galvieski[4].

Esse professor Galvieski diz ter descoberto por acaso o manuscrito original das Profecias de João de Jerusalém nos inícios de 1942, na biblioteca pública da comunidade judaica de Varsóvia, pouco antes de ser saqueada pelos nazis. O autor não informa se chegou a copiar o documento. A verdade é que o gueto de Varsóvia foi completamente saqueado e arrasados pelos nazis, indo o saque parar à Alemanha de Hitler. Após a conquista deste país pelas forças aliadas também estas se entregaram ao saque, tendo assim procedido com especial dedicação o exército soviético em Berlim. De maneira que, ainda segundo Galvieski, entre os finais de 1992 e os inícios de 1993 ele tornaria a descobrir o documento das Profecias, dessa feita na Rússia, nos arquivos do mosteiro da Saint Trinité de Saint-Serge em Zargorsk, perto de Moscovo.

Em 1994, o professor Galvieski publicaria esse insólito documento, tendo-o traduzido para o francês moderno[5]. De então para cá, o texto foi sucessivamente editado por outros nas suas respectivas línguas (francês, inglês, alemão e espanhol). Pessoalmente tenho dúvidas – iguais no respeitante à veracidade das pressupostas cartas trecentistas de Larmenius, parecendo-me simples invenção para «provar» que a Franco-Maçonaria e todas as correntezas templistas aparecidas nos séculos XVIII-XIX são herdeiras directas da original Ordem do Templo – quanto à veracidade do mesmo, tanto mais que há severas semelhanças entre o que está escrito nele e as profecias do Vishnu-Purana e mesmo o que Ferdinand Ossendowsky descreveu no clássico Animais, Homens e Deuses, o que se agrava com a ausência em muitos pontos do estilo literário medieval. Por outro lado, para contrapor à minha dúvida, a dado passo das suas Profecias João de Jerusalém refere Heródoto e continentes imensos para além das Colunas de Hércules, apontando claramente a África e a América. Pois bem, na catedral do mosteiro de Vézelay, terminada em 1140, encontram-se pinturas murais com representações fantásticas dos diferentes povos do mundo (gigantes, pigmeus, etíopes, etc.), as quais estão inteiramente conformadas às descrições fornecidas pelo mesmo Heródoto. Isto não deixa de ser significativo.

Pórtico de entrada na catedral do mosteiro beneditino de Vézelay, França

Pórtico de entrada na catedral do mosteiro beneditino de Vézelay, França

Por outra parte, temo a invenção de um novo “protocolo secreto” tal qual foram inventados, também na Rússia, os “Protocolos dos Sábios de Sião”, e agora este sendo aproveitado de todas as maneiras para justificar as mais extravagantes “teorias da conspiração”, como aqueles o foram para justificar as mais bizarras e sanguinárias “teorias xenófobas”.

Apesar de tudo, como o texto integral nunca foi dado em língua portuguesa, considerei ter chegado o momento de traduzi-lo da versão francesa apresentando-o, sem  mais nenhum comentário, ao critério de sua mais ou menos valia à consideração exclusiva do leitor de obra antiga minha[6], editada e reeditada desde os anos 90, com o que aqui termino.

NOTAS

[1] Antonio Galera Gracia, La verdadeira historia de la Orden del Temple de Jerusalén a la luz da documentación histórica. Editorial Edaf, S. L., Madrid, 2008.

[2] Cf. Anacleta Sacra Tarraconensia, Vol. XXXIX, MCMLXVI, Fasc. 2.º: Julio-Diciembre.

[3] Jesús Ávila Granados, El santoral templario. In Codex Templi, Santillana Ediciones Generales, S.L., Madrid, Abril 2006.

[4] Juan de Jerusalén, Las profecias de los templarios. Introdução, notas, textos e epílogo de M. Galvieski. Ed. Tikal, Girona, 1996.

[5] Le Livre des Prophéties – Le troisiéme millénaire révélé – de Jean de Jerusalem, traduit par M. Galvieski, qui a découvert le manuscrit du Livre des Prophéties. Ed. J. C. Lattés, 1994.

[6] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora, São Paulo, 2011.

Projecto “Fátima Subterrânea” – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, May 19 2016 

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No início do ano 1998 fui convidado pela Firma Risco, do senhor arquitecto Vittorio Gregotti, a concorrer, em nome dela, ao concurso de decoração sacra de um futuro espaço subterrâneo, onde caberiam cerca de sessenta mil pessoas, a nascer sob a praça defronte ao Santuário de Fátima, o de maior afluência Mariana do Mundo. Isso por já não caber mais gente, sempre a aumentar em número, no recinto exterior e as condições deste serem pouco abonáveis ao conforto dos que piamente aí vão.

Ponderei o convite. Acedi e concorri. A minha Proposta (datada de 7.3.1998) de decoração sacra de dois “grandes espaços cobertos para assembleias” (GECAS) gorou-se, não por motivos culturais-religiosos (em cujo projecto iria dispor de vasta equipe dos mais renomeados desenhistas, pintores, ceramistas e escultores preferencialmente só portugueses) mas simplesmente por razões económico-fiduciárias, conforme alegou como desculpa a Reitoria do Santuário. Foram apresentadas ao concurso três propostas, cada uma de um país diferente. Perderam a meu favor os espanhóis e perdi a favor dos gregos, apesar do minha Proposta ter merecido Menção Honrosa. Seja como for, o facto é que perdi e como essa Proposta agora só serve para enriquecer o curriculum pessoal – vendo as obras concluídas pelos gregos nessa nova igreja defronte ao Santuário na qual não caberão mais de seis a nove mil pessoas, cujo custo final duplicou ou triplicou (fala-se em setenta milhões de euros mais dez milhões para acabamentos) sobre o orçamento inicial, ultrapassando em largos milhões de euros a Proposta portuguesa que iria ficar bem num lugar de culto todo ele português, mas que a cúria romana não quis – achei por bem, invés de a abandonar e esquecer numa gaveta, trazê-la aqui para mais-valia do enriquecimento cultural e espiritual do leitor, acrescendo à Proposta o significado esotérico, aqui revelado mas que não fiz junto da cúria romana, subjacente ao imobiliário decorativo dos dois espaços – duas assembleias, o que engloba duas igrejas.

No íntimo persegui aquilo que o Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, nos inícios do século XX, idealizou e realizou na arquitectura e decoração da sua Quinta da Regaleira em Sintra: deixar um testamento esotérico e exotérico (velado e desvelado, racional e confessional afins à teologia e à catequese) à posteridade, ao entendimento iluminado e à devoção popular.

Enfim, Carvalho Monteiro conseguiu realizar. Eu, somente idealizar… contrariado pelos fortes “lobbies” dos poderes económicos.

Antes de adentrar a exposição da minha Proposta, acho por bem discorrer um pouco sobre a génese histórica e espiritual da vila de Fátima (hoje elevada a cidade, no sopé da serra de Aire que fica no concelho de Leiria), e igualmente aflorar o fenómeno das aparições da Virgem aos três pastorinhos aí, na Cova da Íria.

Assim, ter-se-á de recuar ao ano 1158 quando a metade Sul de Portugal, do Tejo ao Algarve (Al-Garb transposto a Allah-Garden, “Jardim de Deus” postado no “Ocidente” ou Garb), era ainda território do Islão. Numa manhã de São João desse ano longínquo, conta a lenda assumida história, saiu do castelo de Alcácer do Sal (antiga Salácia romana, depois a árabe Al-Cassir, “O Castelo”, ainda assim prevalecendo aquela nos salacianos) um garrido cortejo moiresco de moços e moças indo em alegre inocência divertir-se nas margens do rio Sado.

Mas eis que os jovens moiros caem numa emboscada preparada pelos cavaleiros portucalenses chefiados pelo temível “tragamoiros” D. Gonçalo Hermingues. Os que se salvaram da surtida foram feitos cativos e levados para Santarém, à presença de D. Afonso Henriques. Como recompensa do feito pelo capitão cristão, o rei concedeu-lhe a mão da mais bela das cativas: Fátima, filha do walî da wilaya alcacerense, tendo esse nome por se a considerar da descendência directa de Ismael, portanto, de linhagem fatimida originada naquela outra Fátima, quinta filha do profeta Mahometh.

Desposada à-força com o cavaleiro infiel e batizada cristã, por certo também à-força, a bela Fátima recebeu o novo nome de Oureana (que faz lembrar o de Orejona, a deusa Vénus que veio povoar a Terra como contam as tradições maias e polinésias). Com esse laço nupcial mesclou-se o sangue real de Borgonha com o sacerdotal Fatímida, para não dizer, o patrístico e o matrístico em que afinal assenta a Patrologia Lusitana, e assim, em conformidade aos documentos disponíveis anteriores ao século XIX, desde já podendo afirmar não ter havido nenhuma surtida, nem emboscada e tampouco matança, a não ser na fantasia romântica de certos autores oitocentistas. A haver núpcias terá sido com consentimento mútuo por afeição mútua, podendo-se muito bem concluir que o cavaleiro cristão e a donzela moira estariam deveras enamorados entre si. Se nas bodas esposais esteve presente a Ordem do Templo, a Tradição informa que essa servia de “escudo defensivo” a uma outra muito mais secreta e soberana de quantas haviam na Península Ibérica, a Ordem de Mariz, a real emissora da aprovação do consórcio através da Ordem do Templo que estava para a Ordem de Mariz como estava a Ordem de Santa Maria de Montesa do lado espanhol. Essa Milícia, publicamente, exercia funções idênticas às que exerceu a portuguesa Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas internamente, cerrada ao século, seria dinamizada pelos próprios raros mas insignes confrades da Ordem de Mariz, os “Caballeros del Grial”, como os consignou o ilustríssimo Dr. Mário Roso de Luna nos volumes da sua Biblioteca das Maravilhas.

A História conta-nos que a Ordem Militar de Santa Maria de Montesa, ramo aragonês saído do Templo, remonta à sua aprovação pontífica por João XXII e reconhecimento do rei Jaime II de Aragão em 10 de Junho de 1317, recebendo a Regra da Ordem de Cister. Extintos os templários no território aragonês a despeito dos protestos de Jaime II, o Justo, em 1312, o monarca temeroso que numerosos bens do Templo caíssem na posse de estranhos ao reino e à Ordem, solicitou do papa Clemente V autorização para constituir Milícia que substituísse aquela e tomasse a seu cargo as suas propriedades móveis e imóveis. Não foi atendido por esse papa e sim pelo seu sucessor João XXII, tendo-lhe enviado a bula de aprovação da nova Ordem, assim adjudicando à Ordem de Montesa todos os bens que os templários possuíam em território aragonês. O castelo de Montesa, no reino de Valência, foi a sede da nova institução militar, motivo aparente do nome adoptado para ela. Os seus membros deram muitos exemplos de heroísmo e esplendor, batendo-se em campanhas tanto dentro como fora da Península. A insígnia adoptada por ela, após várias vicissitudes, é a de Alcântara, em sable, com uma cruz plana de goles.

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Pois bem, recorrendo aos anais ocultos da Tradição Espiritual da Península Ibérica, verifica-se que Afonso Henriques, (Anrique, o Terrível, ou melhor, El Rike ou Allah-Rishi, o Rei Divino) era na época o próprio Chefe Supremo da Soberana Ordem de Mariz, consequentemente, esta terá na sua real pessoa apadrinhado os esposais Hermingues e Oureana nos paços de Santarém. Dessa maneira o sangue lusitano se fundiu na fina essência arábica, nomeadamente a de Fátima, para todo o efeito, tronco delfim feminino do próprio Profeta assim expressando a Allatah, a Mãe Divina na Fé corânica, tal qual Ester e Maria as são para judeus e cristãos. Fátima (português), Fatmah (árabe) ou Fathan (aghartino), como “libertadora das mentes humanas pela insuflação de novas ideias”, aquivale ainda à Sakali hindu, a Goberum atlante em quem a “Estrela” Algol incarnou, a fim de tornar-se Rainha de Agharta.

Essas são realidades sibilinas que se velam no críptico da mais Alta Iniciação, para todo o efeito, sendo facto provado a união consanguínea de duas castas raciais opostas, com isso unindo a Haste Lunar da Tradição à Haste Solar da mesma, passando o touro de Ismael e o cordeiro de Cristo a pastar juntos no mesmo prado pastoral.

Afonso Henriques fez oferta da vila de Abdegas aos recém-casados, e então o lugar mudou de nome tomando o da sua nova dona Oureana, hoje Ourém.

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Quando Oureana entregou ainda moça a alma a Deus, Gonçalo Hermingues, desgostoso, abjurou ao mundo e fez-se monge na abadia cisterciense de Alcobaça, a trinta quilómetros de Ourém, recentemente fundada a pedido do próprio S. Bernardo de Claraval e que funcionava além de mosteiro como escolástico, deixando mesmo supor, como vários indícios documentais transpiram, a presença da praxis heterodoxa própria de um colégio iniciático, nessa que foi a Casa-Mãe da Ordem de Cister em Portugal.

Com o passar dos anos, os cistercienses alcobacenses quiseram fundar um outro mosteiro da serra mesmo ao pé. Como rezam as crónicas, foi ao próprio frei Gonçalo Hermingues atribuída essa incumbência, por certo por sua virtude e dedicação. Apenas terminada a capela, apressou-se a mandar trasladar para lá o corpo da saudosa esposa amada, aí ficando para sempre sem nenhuma inscrição a assinalar a sepultura. Em volta desse mosteiro um pequeno povoado edificava-se a breve trecho: Fátima tinha nascido.

O edifício desapareceu em meados do século XVI, mas a capela com os restos mortais da bela princesa foi poupada. Todavia, com as restaurações e transformações posteriores, tornada igreja paroquial da então vila, em pouco tempo desapareceu a capela sob o chão da actual que assenta em lajes sepulcrais.

O valoroso amigo senhor Hermínio de Freitas Nunes, notável investigador da história da região já com vasta e preciosa colheita literária editada, chamou-me a atenção para a possibilidade da míngua bibliográfica no tocante a Gonçalo Hermingues – Fátima /Oureana. Concordei com ele e passo a transcrever parte da carta (datada de 28.1.1999) que lhe enderecei referente ao assunto, adiantando os devidos respeitos:

“Começo por D. Gonçalo Hermingues, o “Tragamoiros”. O que se depreende na leitura da Monarquia Lusitana, Livro X, pág. 181, sobre a Comenda cisterciense de Tomaréis, a “escassos dez quilómetros” da Comenda Velha (Templária) da Sabacheira, ter sido uma fundação senhorial pelo capitão do primeiro rei português, possivelmente para “servir de panteão familiar e assegurar a narração futura da gesta e dos actos heroicos do iniciador da dinastia”, não está errado. Tampouco há contradição com o que escrevi, talvez ou decerto só insuficiência descritiva, que agora comatarei.

“Vamos, pois, aos factos. Ainda cavaleiro da Ordem de S. Bento de Avis, D. Gonçalo Hermingues, estremenho com morada em Tomaréis, toma parte activa na fundação da Casa e Comenda de Cister, aquela “encostada” a esta tal a pouca distância que as separa, possivelmente em troca de favores dos conhecimentos (agrários, alfabetização e assistência religiosa) da freiria cisterciense, a fim de desenvolver e promover o espaço do seu senhorio. O laborare et orare dos cistencienses de Alcobaça, traduzido como trabalho intelectual e manual, aos quais o Portugal de hoje deve muitíssimo no sentido do progresso socioeconómico alavancando o país rural para o industrial, é facto atestado pelo próprio fr. Fortunato de São Boaventura, alcabacense professante na Ordem de Cister desde 25 de Agosto de 1795. Diz ele nas suas Considerações Gerais sobre a Santidade dos Institutos Religiosos, Cap. I, Tit. I da sua História Cronológica e Crítica da Real Abadia de Alcobaça, edição de 1827: “Limito-me agora a ponderar que as virtudes cristãs, em que sobressaíam estes monges, foram o primeiro móvel de quantos benefícios se originaram dos seus institutos; que sucedendo outros males e a ignorância, eles, como professos de uma religião que não teme os sábios e que preza as ciências, salvarem estas de um naufrágio iminente, e nos guardaram os mais preciosos monumentos da literatura clássica dos gregos e latinos. Era a virtude da penitência que os fazia lançar mão da enxada e da charrua, para desbravar as terrras incultas; pois lembrados da pena que se cominara ao primeiro homem, queriam levá-la em todo o rigor, adquirindo o sustenho à custa de suores e fadigas”.

“Após a morte precoce porque ainda jovem da sua esposa, talvez por doença o que não era raro na época, o viúvo choroso ter-se-á recolhido primeiro aí em Tomaréis, o que leva a pensar ter abandonado o seu palácio em Ourém, possivelmente por estar impregnado das memórias da falecida chorada que o traria em desgosto permanente. Depois, talvez influenciado pela comunidade cisterciense de Tomaréis, indo contrair e professar votos perpétuos na Casa-Mãe portuguesa de Cister, ou seja, o Real Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Daí, passados anos, fr. Gonçalo Hermingues iria partilhar na fundação de uma nova Casa de Cister, em torno da qual se desenvolveu povoado modesto que seria a génese da vila de Fátima, em cuja paroquial ainda lá está apagado e esquecido, sob o soalho, o túmulo da malograda princesa moura de linhagem fatimida, portanto, descendente do tronco familiar do próprio Mahometh.

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“De maneira que o percurso cisterciense de fr. Gonçalo inicia-se em Tomaréis, passa a Alcobaça e finalmente a Fátima. Em Abdegas, hoje Ourém, teve domínio senhorial, acastelado, oferecido por D. Afonso Henriques a ele e sua esposa Fátima/Oureana. A sua linhagem nobiliárquica apesar de importante é pouco destacada pela historiografia. Pessoalmente, estou em crer que ela é a família Ourém de que fala o Armorial Lusitano, pág. 408: “Ourém. Família de origem desconhecida, cujo apelido deve ser tomado da Vila de seu nome. Atribuem-se-lhe as seguintes Armas: de prata, com uma águia estendida de negro, armada de vermelho. Timbre: a águia do escudo”. E é tudo, tal a pobreza ou intenção deliberada de diminuir ou até apagar a memória de tão grande vulto que teve a suprema audácia de miscenizar à Alma e ao Sangue de Portugal a descendência directa do próprio autor do Alcorão. Ficou só a lenda e o apodo de “Tragamoiros”, mesmo assim porque, por tudo o dito, em verdade “tragou, assimilou o Sangue Moiro, Moria, Maru, Mariz”…

“O seu domínio primitivo, presumo que herdado de seu pai que o teria recebido do conde D. Henrique de Borgonha em uma das surtidas ao Sul, seria de facto Tomaréis, o qual doaria à Ordem de Cister introduzida no país por S. Bernardo de Claraval e seu sobrinho, D. Afonso Henriques, aquele consignado fundador espiritual de Portugal e este fundador temporal do mesmo que, desde a primeira hora da fundação, é posto sob o padroado geral de São Miguel Arcanjo e de Santa Maria Maior, esta também evocada como Sagrado Coração de Maria expressivo do Graal-Consciência de que o Graal-Objecto é representação simbólica.

“Tudo isso é o que deduzo de todos os autores consultados, não raros, se não todos, com insuficiências descritivas.”

Foi em torno da meseta da serra de Aire que se desenrolaram os mais renhidos combates entre cristãos e mouros jogando o destino da formação do novo país… bem à vista de Fátima, tendo o justo equivalente em Nossa Senhora da Conceição, posto participarem do atributo comum de Deusas de humana justiça e espiritual nutrição.

Senhora da Conceição que, ao lado do Dragão Verde dos Lusos, igualmente figurou no estandarte da Ala dos Namorados (ou os figurados Andróginos em separado), indo abençoar no campo de Aljubarrota a vitória retumbante dos portugueses sobre as armas de Castela, ficando garantida a Independência Nacional pelo feito glorioso do Condestável Nuno Álvares Pereira, depois, ingresso na Ordem do Carmo, Fr. Nun´Álvares de Santa Maria, que Pinharanda Gomes muito justamente apodou de “Galaaz do Carmelo”. Sim, vitória retumbante das armas de Portugal nesse 14 de Agosto de 1385, coroando a dinastia de Avis (ou Siva, anagramaticamente, assinalado pela Avis raris do Espírito Santo) já de si incorporando a glória das gestas passadas da dinastia de Borgonha.

Como se repara, Portugal sempre esteve sob o manto protector da Mãe Divina, donde a Sua evocação constante, quer lhe chamem Fátima ou Senhora da Conceição, ou algum outro dos Seus atributos locais, como antanho a chamavam Ísis e antes desta, aqui na Península Ibérica, de Atégina e Lusina, a Grande Deusa-Mãe, cedo esculpida, pintada e iconografada Virgem Negra por ser a Primordial ante-Criação que assiste à génese desta, por isto sendo a Única e Soberana Mãe do Verbo em Sua Concepção ou Conceição feliz, o Aspecto Feminino do Criador como a própria Criação Universal – a Natura Naturante et Naturada.

No lugar da Ortiga terá aparecido o “Anjo da Paz”, também chamado “Anjo de Portugal”, aos três pastorinhos Francisco, Jacinta e Lúcia (a única a restar viva até há poucos anos e que cedo entrou em reclusão religiosa em Casa da Ordem do Carmelo), sendo que da terceira vez apareceu na Loca do Cabeço, corria o Outono de 1916 (estranhamente essa data coincidia com a sexta-feira de 13 de Outubro de 1307, quando Filipe IV de França ordenou a prisão massiva dos cavaleiros da Ordem do Templo dando início ao processo da sua extinção, acontecimento que doravante marcaria a “sexta-feira 13” como data azarenta, superstição possivelmente tendo a sua origem na próprio Portugal Templário reinando D. Dinis), portando o cálice e a hóstia (evocativos da Eucaristia) e evocando a presença da Santíssima Trindade, esta que assim se reflecte na carne, no sangue e na alma lusitana. Por fim, em 13 de Outubro de 1917 a Virgem Celeste, sob o patronímico “Senhora do Rosário”, apareceu pela última vez aos pastorinhos, episódio desfechado com o “milagre do Sol” ante mais de setenta mil pessoas, mesmo nem todas vendo o que outras ao seu lado viam: o astro-rei girando em velocidade vertiginosa de encontro à Terra, efeito espectacular de fenómeno astro-telúrico de maya-vada ou espelhismo, certamente provocado pela excitação psíquica colectiva. Isso culminando as três aparições da Senhora cuja primeira aconteceu em 13 de Maio de 1917, como conta a voz corrente. Não deixa de ser interessante a igreja paroquial da Ortiga ser consagrada a Nossa Senhora cuja imagem no altar mor, só por “acaso”, é a de uma Virgem Negra medieval, possivelmente coeva dos templários.

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O próprio apelativo “Nossa Senhora” deve-se a São Bernardo, pois, conforme a sua hagiografia miraculosa, dirigiu-se à Senhora do Leite (de quem há igualmente uma imagem nas cercanias de Fátima, possivelmente coeva de Cister e do Templo) nos seguintes termos: Monstrate Matrem, “Mostra-te Materna”, resultando logo a seguir, por corrupção fonética, em Noster Mater, “Nossa Mãe”, “Nossa Senhora”, ficando assim como o primeiro a tratá-La tão familiarmente, indo depois compor o belíssimo hino Ave Maris Stella dedicado a Maria como “Estrela do Mar” – Vénus, a Misericórdia que ilumina – servindo de estrela polar aos navegadores a bordo da Barca da Fé cruzando o mar incerto do corporal mundano.

Ante a vasta presença medieval de Cister e do Templo na região tendo o epílogo na Senhora da Azinheira, centro da devoção simples mas sincera do povo mariano reunido em Fátima, acode-me à memória essa outra lenda templária galega da Virgen de la Encina, ou seja, a Virgem da Azinheira. A sua história tem lugar na comarca do Bierzo, ou “Berço”, e conta que nos meados do século V São Toribio de Liebana trouxe da Palestina para a Galiza várias relíquias, dentre elas a imagem da Virgem. Alguns séculos depois, durante as guerras sarracenas, para evitar o saqueio todas essas relíquias foram escondidas por diversos sítios. Passaram-se os anos, os decénios e mesmo alguns séculos, até que cerca de 1178 quando os cavaleiros da Ordem do Templo construíram um castelo naquele lugar, um deles, encarregado do corte das árvores, viu um resplendor que saía da floresta. Ao chegar perto do sítio de onde a luz emanava, viu uma azinheira que tinha uma abertura no tronco, e olhando para dentro descobriu a imagem da Virgem que ali estava escondida há tanto tempo. Em breve a imagem miraculosa tornou-se motivo de veneração geral sob o patrocínio da Ordem dos Templários.

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Realmente, volvendo ao espaço estremenho português, tudo quanto tem a ver com a mística de Fátima prende-se de raiz aos templários e os seus mentores, os cistercienses, uns cavaleiros-monges, outros monges-sacerdotes, todos trajando o branco alvo da Pureza. Tudo tresanda a mistério, a arcanum templarium. Tomar é logo ali ao lado, estendendo-se por toda essa meseta bailios e granjas do Templo e de Cister!… Também não deixo de anotar a hostilidade mais ou menos declarada da “Fátima eclesial” à “Fátima mesquital”, como a tentativa constante de apagar a segunda da memória colectiva.

O ano 1917 (cujo valor 17 marca numerologicamente o biorritmo de Portugal) foi importante em Aparições Marianas: em 13 de Fevereiro de 1917 aconteceu a aparição da Virgem Negra a Endoxia Andrianova, na Rússia, tendo os cristãos ortodoxos passado a chamá-la Kervajnaie, “tornada branca”, a “Nossa Senhora Branca” por estar vestida dessa cor. Logo a seguir, em 13 de Maio desse mesmo ano, deram-se as aparições de Fátima, mas sem esquecer as anteriores em La Sallete em 1848, em Obernaebach, Baviera, nesse mesmo ano, e ainda em Lourdes em 1858. Aparições sucedendo sempre em lugares telúricos, hídricos e junto ou dentro de grutas, onde no passado distante já haviam cultos matriciais à Mãe-Terra, ou seja, à Grande Deusa-Mãe Primordial, Ghea ou Rhea, que mais tarde, com a cristianização territorial, tomaria forma iconológica em alguma santa, fosse qual fosse desde que fosse mulher, posto o género feminino santificado ser a expressão mundanal do Divino Espírito Santo que toma forma na Matéria como a própria Mater-Rhea.

Segundo a Teosofia, os Três Logos ou Hipóstases do Logos Único, como sejam os Três Tronos constituindo a Santíssima Trindade, assim se dispõem no Esquema de Evolução Planetária:

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Raio ou Fluxo de Vida, Energia e Consciência provindo do Eterno Logos Solar, tanto vale. O Quarto Raio, aquele que predomina na actual etapa da Evolução Humana influindo no desenvolvimento Mental (Superior e Inferior) em consonância com as características do Quarto Globo em que tudo e todos vivemos e evoluímos, é o que une o Espírito à Matéria conferindo Unidade às Hipóstase dos Logos que assim se torna Uno-Trino, que é dizer, Um mais Três como valor do Quarto Raio gerador da Harmonia Universal entre os pólos contrários.

Reconhece-se sem dificuldade que hoje campeia a fantasia, não raro grotesca e bizarra como essa dos improváveis “discos-voadores extraterrestres”, vindo a terreno pretender explicar o acontecimento dito milagroso da Aparição da Virgem de Fátima aos três pastorinhos. Já para não falar em teorias da conspiração e outras coisas mais e más do género, por haver para todos os gostos e feitios: basta escolher de acordo com o paladar. São «explicações» descontextualizadas tanto do fenómeno espiritual como dos cânones tradicionais. A mecânica oculta da Natureza age provocando os ditos “milagres” aos olhos do povo ingénuo e crédulo, mas também sincero na sua devoção, “milagres” esses que para os entendidos ou formados na Sabedoria Divina, que é dizer Teosofia, são apenas os efeitos visíveis de causas ocultas naturais, pois não acreditam em milagres e sim em forças ou energias postas em acção pela Alma Universal que é a mesma Mãe Natureza (Íria, Ísis, Sophia, Maria, etc., tanto vale). De maneira que, cingindo-me exclusivamente à Tradição Iniciática das Idades como a única salvaguarda segura para o entendimento correcto do Transcendente ou Espiritual manifestado como Patente ou Psicomaterial, os fenómenos psico-telúricos ocorridos na Cova da Íria em 1917 apontam como sendo o que a Teosofia chama manifestação de forças elementais da Natureza a ver com os silfos ou “elementais do Ar”, aos três meninos pastores (assim sendo videntes congénitos, de visão e sensibilidade psíquicas activadas pela intensidade hidro-telúrica do espaço natural de seu habitat. Ademais, quantas não são as crianças que vêem “Nossa Senhora”, o “Menino Jesus”, os “Anjos”, os “amiguinhos anões e gnomos”, etc., nos primeiros anos da sua vida inocente, para depois, no decurso dos anos de vida corporal com os sentidos voltados exclusivamente para a atenção exterior, essa visão etérica embotar-se e desaparecer?), com os subsequentes fenómenos de mayas-vadas ou espelhismo, como já foi dito, pelos que os presenciaram (o Sol movendo-se de encontro à Terra, os flocos ectoplasmáticos caídos do céu visíveis mas não tangíveis, etc.).

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Com tudo isso, de maneira alguma pretendo afirmar que a Divindade Feminina acaso não tenha se manifestado por meio dessas forças elementais ou primárias da Natureza. Os Mahatmas ou “Grandes Almas” costumam agir dessa maneira, tanto quanto sei, mas quanto ao resto o crédito parece impossível… ficando só o credo sincero das bocas e nas almas do povo simples que aí vai adorar a Mãe de Deus, criando e alimentando poderosa Egrégora viva ou “Forma Psicomental Colectiva”.

Todo o território em redor de Fátima é intensamente telúrico, mas a construção da gigantesca rede ferroviária do Entroncamento acabou afectando os veios e nódulos telúricos locais provocando como que uma alteração, perturbação ou rompimento da tela etérica ou vital do espaço local e com isso alterando o estado fisioanímico dos habitantes locais mais sensíveis, tornando-se mais propensos a cultos mediúnicos nesse espaço ambiental alterado propício a aparições… “marianas”, ou seja, de cariz lunar como é todo o medianimismo. E assim se tem Fátima, Ladeira do Pinheiro, Alcaria…

Falo das possibilidades e fundamento oculto dos pretensos “milagres”, deixando inteiramente de lado a incoerência das especulações fantásticas e o charlatanismo, porque senão ir-se-á encontrar “terra sim, porta sim” uma “vidente milagreira” e um “messias santeiro”… a justificar os famosos fenómenos do Entroncamento.

Maio é o mês das Maias, da fecundação aquando a Natureza regurgita vibrante lançando para fora as suas sementes dando flor e fruto. É o mês da alegria, da comunhão, do Touro sideral e totem sinergético da Terra. Antanho, os romanos costumavam imolar um boi branco a Apolo, tal como os cretenses um touro a Mitra. Hoje, tem-se a sua memória no sacrifício do touro como parte do programa da Festejo Popular do Império do Divino Espírito Santo, em Sintra, em Alenquer, nos Açores e demais lugares do mundo onde o Português o levou.

Também na Lua Cheia de Maio, correspondendo ao signo de Touro e a Vénus, os antigos druidas e druidisas cortavam com uma foicinha de ouro o visco que nasce nos ramos de certas árvores, como a azinheira, o carvalho, a pereira, etc. Tido como possuindo propriedades miraculosas, o visco tornou-se sagrado entre os celtas, gauleses e bretões; Ram consagrou-lhe a Memória, instituindo a Festa do Natal, a do Solis Invictus como depois lhe chamaram os latinos. Os discípulos de Ram andavam por toda a Cítia com os seus ramos de visco, sendo considerados mensageiros divinos e o seu mestre um deus.

O número 13, do dia da primeira Aparição da Virgem aos pastorinhos, assinala a Rota da Iniciação no acto de transformar a vida-energia em vida-consciência, pois sendo o valor do Arcano da Morte (Yama) esta dá-se em toda a natureza inferior no sentido de gerar, ressurgir como natureza superior, pelo que no Tarot sacerdotal Aghartino tem o significativo nome de A Grande Mãe. Na Teurgia e Teosofia, o 13 de Maio não deixa de ser considerado como Dia das Mães, e dele diz o Professor Henrique José de Souza num texto datado de 1952:

“O dia 13 de Maio, a própria Igreja consagra a Nossa Senhora de Fátima – ao par da das Graças – considerada “como a mais milagrosa”. A maior prova que se tem do caso é feita ao lugar onde Ela se acha, na gloriosa Terra Lusitana, da qual, na sua grande maioria, os Brasileiros descendem. Sim, o sangue nobre dos Portugueses infundido na Raça autóctone (a Tupi), da qual surgiu a nossa.

“Sim, “Bendito seja o fruto do ventre de Maria”, mas também o de todas as Mães ou Mulheres que sabem honrar tão dignificantes nomes.”

Passo, agora, à descrição da minha Proposta de Decoração Sacra do Grande Espaço Coberto para Assembleias (GECAS), destinado a nascer subterraneamente defronte ao actual Santuário de Fátima.

Pessoal - Vitor Manuel Adrião

PROJECTO DO “GRANDE ESPAÇO COBERTO PARA ASSEMBLEIAS” (GECAS)

No perímetro interior do G1 figurarão as 14 estações da Via Sacra, representadas em cruzes latinas de madeira de carvalho, simples mas torneadas nas extremidades em flores-de-lis, incrustadas nas paredes distadas uma das outras 33 metros, idade com que Jesus morreu, como é de tradição nos santos evangelhos. 14 x 33 = 462, e 4+6+2 = 12, Arcano O Sacrifício, expressivo da Paixão e Morte do Senhor e consequente descida aos Mundos Interiores ou Inferiores (donde Inferius e o seu derivado latino Infernus, como seja o Mundo Subterrâneo dos “Mortos-Vivos”, dos Iluminados, ao qual a Tradição chama Duat), para ao terceiro dia de Aleluia ressuscitar, sempre amparado pelo Arcanjo de Deus Todo-Poderoso, Al-Djabal ou o mesmo São Miguel. A Via Crucis é o caminho da Morte garante da Ressurreição para os crentes verdadeiros na verdadeira Fé, esta nada tendo a ver com crença simples e petitiva, pois ao primeiro desaire pode descobrir-se que quem crê muito poderá descrer ainda mais…

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – O formato estipulado para o altar corresponde ao da tampa navegante do Santo Sepulcro, tendo sido o adoptado nos templos dos antigos cavaleiros templários e de São João do Hospital de Jerusalém (depois de Rodes e por fim de Malta). Os seus suportes jónicos relacionam-se simbolicamente à finalidade feminina ou mística (coracional) da ara, mara ou aram, onde se praticam os sacrifícios devocionais ao Senhor das Eternidades, que no particular representa-se na Mulher (ara) como base do Homem (sacrifício), nisto incarnado pelo presbítero tendo altar e ofício adiante de si, ou como se canta no Hino Exaltação ao Graal: “Sol e Lua à sua frente”. Tampa “navegante” porque levantada sobrenaturalmente pelos Anjos de cujo sepulcro saiu Cristo Ressuscitado triunfante da Morte. Geosoficamente, também o rectângulo de Portugal defronte ao Mar Oceano dos Vivos e dos Mortos, como Reino dos Lusos ou “Filhos da Luz” em guisa de Duat aflorado sobre a Terra, vem a simbolizar a tampa ou portal de Cordo Maris (“Coração do Mar”), já não tanto como Sepulcro mas Lugar Iluminado da Aliança de Deus com o Homem, a Humanidade, nisto participando a assinalada Montanha Sagrada de Sintra, Salém, Shamballah, etc., variando os nomes mas não o sentido que deve corresponder com justeza e perfeição ao interiorizado Lugar da Pax, o Locus Amoenus ou o mesmo Paraíso Terreal teoplasmação do Paraíso Celeste.

A cruz latina, cujos palos devem desfechar em flores-de-lis mas despossuída da figura de Jesus Crucificado, além de corresponder à Igreja do Ocidente, a Romana, igualmente corresponde ao entrosamento real (donde a supracitada flor, além de designar a Realeza Divina do Segundo Trono expresso pelo Cristo Universal e por isto mesmo considerada Lótus Sagrado de Agharta indicativo da Consciência Universal, tendo sido adoptada como insígnia dos Companheiros do Dever saídos da correnteza operática dos Construtores Livres ou Monges-Construtores medievais) do Poder Espiritual com a Força Material (Purusha – Prakriti, em sânscrito, Espírito – Matéria), exercício realizado pelo ancião ou presbítero, o preste, pai ou chefe espiritual da comunidade dos crentes. Esse, juntando o seu título presbitérico (do grego, πρεσβυτερος, presbyteros) ao do tutelar São João da Igreja de Jerusalém (Iod ou Jod-He-Shadai), onde se encontra o Santo Sepulcro, resulta o latino Pater Iohanis, Pai, Preste ou Presbítero João, a misteriosa representação medieval do mesmíssimo Melki-Tsedek, o Rei do Mundo por em si reunir a Arma e o Sacerdócio, e cuja emanação universal (este o sentido literal da palavra grega católico, “universal, universalista”) o presbítero deve incarnar no acto do sacramento, na liturgia da ressurreição dos vivos e dos mortos onde Deus, o Espírito e o Homem fazem-se um.

O Arcanjo S. Miguel, Custódio do Céu e da Terra (particularmente de Portugal, prerrogativa instituída por D. Afonso Henriques e oficializado o seu culto por D. Manuel I), como Mikael é o “Assistente da Sinagoga” e como Mirraïl é o “Assistente da Mesquita”. Aclamado Chefe das Milícias Celestes, a tradição judaico-cristã situa-o no topo da Árvore da Vida como “Pólo Celeste” (Metraton) para o “Pólo Terrestre” (Sandalphon) expresso como Shekinah, a “Presença Real de Deus”, de quem o presbítero é a expressão corporal diante da assembleia dos fiéis. Assim, a Pax e a Lex dos Pólos Celeste – Terrestre (Kether – Malkuth, a primeira e a última sephiroths ou “emanações da Árvore da Vida – Otz Chaim) tomam forma racional como Magistério e Dogma da Igreja desde o mais alto Céu à Terra na inter-relação psicopompa Arcanjo – Presbítero.

De altura entre o natural e o atlante, mais atlante ou agigantado em virtude da vastidão do espaço G1, S. Miguel figurará com a balança na sinistra e a espada flamejante (mizna) na destra, apresentando-se como guerreiro alado com as asas abertas em modo de dar a impressão de abarcar com a sua presença toda a assembleia, o que se enquadra no seu anagrama cabalístico Malaki, “Meu enviado”, isto é, “Enviado de Deus”, ou por extenso, Maleak-Ha-Elohim, “Anjo no qual é Deus”, a ponto de ambos se confundirem em um só (tal qual o sacerdote na liturgia deve confundir-se com o Divino) indo suscitar entre os latinos a interrogação pasmada: Quis ut Deus, “Quem é Deus”? Respondendo os fatimidas: Mirraïl Al-Djabal, “Miguel, o Todo-Poderoso”.

As 14 estações da Via Sacra ou Via Crucis correspondem ao Caminho das Angústias, afinal, a Via do Discipulado irrevogavelmente Cristocêntrica, por nela a criatura humana, caindo e levantando sempre, realizar interiormente a sua transformação rumo à superação e consequente metástase com o seu Deus Interno, Único e Verdadeiro, para que, de facto e direito, seja verdadeiramente cristã.

Acompanhando o compasso quaternário da Terra (Bhumi) e as fases de solstícios e equinócios, tem-se também as 14 estações da Via Sacra corresponderem ao “desatar dos nós” ou nadhis e cada uma das quedas de Cristo corresponder a uma Pessoa da Trindade, com Ele de rosto contra o pó, ou não estivesse Deus no Centro da Terra… O desenrolar do caminho último da Paixão encontra as seguintes similitudes astro-teosóficas:

EQUINÓCIO DA PRIMAVERA

1.ª Estação = Jesus é condenado à morte

2.ª Estação = Jesus carrega a cruz às costas

3.ª Estação = Jesus cai pela primeira vez > Chakra Raiz > Manifestação do Espírito Santo

4.ª Estação = Jesus encontra a sua Mãe

SOLSTÍCIO DE VERÃO

5.ª Estação = Simão Cirineu ajuda a Jesus

6.ª Estação = Verónica limpa o rosto de Jesus

7.ª Estação = Jesus cai pela segunda vez > Chakra Cardíaco > Manifestação do Filho

EQUINÓCIO DO OUTONO

8.ª Estação = Jesus encontra as mulheres de Jerusalém

9.ª Estação = Jesus cai pela terceira vez > Chakra Coronário > Manifestação do Pai

10.ª Estação = Jesus é despojado das suas vestes

11.ª Estação = Jesus é pregado na cruz

SOLSTÍCIO DO INVERNO

12.ª Estação = Jesus morre na cruz

13.ª Estação = Jesus morto nos braços de sua Mãe

14.ª Estação = Jesus é descido ao sepulcro

Como os solstícios são os períodos em que o Sol se “acende (Verão) e apaga (Inverno)” em relação à Terra, isso vem a representar a Tríade Superior imanifesta. Como os equinócios são os períodos em que o Sol se “apaga (Outono) e acende (Primavera)” relativamente ao nosso Globo, com isto representa-se o Quaternário Inferior manifesto.

Como já disse, as cruzes latinas indicam a ocidentalidade da Igreja e, aparte as flores-de-lis torneadas, o restante das peças é simples e nu em madeira de carvalho (árvore que para os antigos celto-lusitanos tinha o significado de templo), de maneira a melhor e mais intensamente inspirar à nudez ou despojamento dos habituais e viciosos hábitos físicos, morais e mentais e à adopção de outros mais simples e saudáveis, naturais e mais eficientes na vida do corpo e da alma para o Espírito de Deus poder finalmente manifestar-se em um e todos.

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GECA 1

2.9 – CAPELA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO = Altar-mor de três patamares; no topo, imagem de Jesus Cristo em Glória. Abaixo, imagem de Nossa Senhora de Fátima tendo aos pés os três pastorinhos ajoelhados. Por fim o sacrário, no terceiro patamar, onde se guardará o Santíssimo Sacramento.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – Os três patamares ou andares equivalem aos três Planos Universais do Espírito, da Alma e do Corpo, correspondendo aos Três Tronos (Santíssima Trindade, Orago do GECA), ficando no topo Cristo para o Pai (“Não ireis ao Pai senão por Mim”, João 14:6), desde logo em Glória, Ressuscitado, não Morto para sempre Imortal. No Plano Intermédio a Mãe Divina, onde os pastorinhos a seus pés simbolizarão, mais que o acto místico da Aparição, as três gunas (em sânscrito, “cordas” ou cordame de enlace, encadear, unir) ou “qualidades subtis da Matéria” (Mater-Rhea, Mãe-Terra): Satva – Rajas – Tamas, ou seja, energia centrífuga, energia rítmica ou equilibrante, energia centrípeta. Finalmente, no patamar o Plano Inferior iria dispor-se o Santíssimo Sacramento, o Santo Vaso (Saint Vaisel) repositório eucarístico do Sangue Real (Sang Greal, San Grial, Santo Graal) como ideoplasmação do Terceiro Trono, Deus Espírito Santo.

2.5 – PRESBITÉRIO = Altar rectangular com tampa navegante suportada por quatro colunelos jónicos. Crucifixo tradicional de proporções ajustadas às dimensões do espaço. À direita do altar, lado da Epístola, a imagem, conformada à iconologia tradicional, do Arcanjo Custódio de Portugal e das Almas como Primeiro em deus, S. Miguel (Quis ut Deus).

GECA 2

Entre as 1.ª e 2.ª colunas (todas jónicas, atendendo à Iniciação Matrística, Coracional ou Feminina por que se distingue Fátima), do lado direito, imagem pia de S. Francisco de Assis. Entre as 1.ª e 2.ª colunas, do lado esquerdo, imagem pia de S. Bento de Núrsia (evocativa da sua Regra Trinitária conformada ao dogma da Santíssima Trindade, Orago do GECA). Entre as 2.ª e 3.ª colunas, do lado direito, imagem pia de St.ª Clara de Assis. Entre as 2.ª e 3.ª colunas, do lado esquerdo, imagem pia de St.ª Teresa do Carmelo. No espaço a partir da 3.ª coluna, no parietal lateral direito, representação pictórica de: a) Anjo da Paz falando aos três pastorinhos; b) Nossa Senhora sobre a azinheira falando aos três pastorinhos. No espaço a partir da 3.ª coluna, no parietal lateral esquerdo, representação pictórica de: a) Papa Pio XII; b) Papa Paulo VI, ambos devotos de Fátima, aquele promulgador da peregrinação e este peregrino à Cova da Íria (tanto valendo por Loka de Ísis, a que não falta a procissão das velas como antanho se fazia nas nocturnas a essa deusa).

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SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – S. Francisco e St.ª Clara expressam o aspecto Patrístico ou Masculino (Pingala) da Igreja, representado no Franciscanismo expressivo do ideal de pobreza e pureza. St.ª Teresa de Ávila do Menino Jesus refere-se ao aspecto matrístico ou Feminino (Ida) da mesma Igreja, assinalado no Carmelo como ideal de contemplação e adoração. Ambas as vertentes encontram-se em S. Bento, cuja Regra Trinitária uniu a Cristandade Oriental à Ocidental, dando assim à Igreja carácter universal (católico) e andrógino (Sushumna) no sentido perfeição absoluta, de maneira que esta assembleia vem a transmitir a ideia benta de Scalae Coeli, “Escada do Céu”, como lugar de recolhimento, adoração e assunção.

ÁTRIOS / NÁRTEX

1.0 – ANDRO = Fonte com escultura de Santa Luzia, de rosto moreno, tendo na destra o cálice eucarístico donde sobressaem dois olhos de que irrompem dois pequenos repuxos (alusivos aos “olhos d´água” e ás “águas matriciais”, as que devolvem a luz aos cegos de quem esta santa é padroeira, cegueira essa tanto corporal como espiritual).

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – Foi esta peça a que maior confusão provocou nas cabeças do Reitoria do Santuário de Fátima. Expliquei o significado dela mas sem o aprofundar, de maneira a não chocar as mentalidades conservadoras, e os responsáveis acabaram aprovando. Além de ir decorar e dar ar de frescura a entrada larguíssima, há um outro sentido em tudo isso: Luzia, Deusa-Luz (que ilumina os cegos corporais e sobretudo espirituais), nada mais é que a cristianizada deusa celta Lusina (feita Melusina nas trovas e prosas medievais), Virgem Negra raiz matricial de toda e qualquer espécie de culto hidro-telúrico, seja ou não ctónico. O cálice eucarístico alude ao Santo Graal e os olhos irrompendo dele tão-só o convite a ver e compreender com “outros olhos” quanto o crente e o não crente venham a avistar dentro das assembleias.

1.1 – ÁTRIO PRINCIPAL = Escultura do Papa João Paulo II, declarado devoto e peregrino de Fátima, a quem atribuiu a salvação da sua vida após sofrer um atentado na Praça de S. Pedro, no Vaticano.

1.9 – ÁTRIO SECUNDÁRIO = Defronte à igreja da Reconciliação, escultura da Rainha Santa Isabel no acto de deixar cair do regaço, com a sinistra, as rosas do seu milagre tradicional, e com a destra segurando recto o bastão em tau de peregrina jacobeia, o qual foi sepultado com ela na igreja das franciscanas de Santa Clara a Velha, em Coimbra.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – Sendo rainha e santa, Isabel deve apresentar a cabeça coroada de cujo aro da coroa sobressaem cinco flores-de-lis estando o interior fechado de modo a sobressair do centro a cruz de Cristo sobre o globo do mundo, ela, rainha santa, verdadeira Budai (como feminino de Buda) cujas rosas de amor e caridade, evocando a Misericórdia do Céu, reconciliou Portugal com o seu rei e o seu Deus, donde o merecido epíteto de Anjo da Paz. O ano: 1336; o lugar: Estremoz, indo ela interpor-se entre exércitos prestes a bater-se; o rei: D. Afonso IV, seu filho; o opositor: D. Afonso XI de Castela. O Deus: reencontrado na Páscoa Rosada (donde a lenda do “milagre dos rosas”) correspondendo ao período da Quaresma, antecedendo quarenta dias a Páscoa. Também por intermédio da Ordem Terceira (da Regra) de S. Francisco, a rainha santa instituiu em Alenquer a celebração do culto do Império Popular do Divino Espírito Santo, no que a Ordem de Cristo auxiliou sobremaneira na sua propagação dentro e fora de fronteiras, dando início ao tempo da translatio imperii (tema depois assumido como os cinco Impérios do padre António Vieira, o derradeiro sendo o Português divinamente chancelado pelo Espírito Santo) e da gesta Dei per Portucalensis (que teria o seu auge no período ecuménico das Descobertas Marítimas).

2.1 – NÁRTEX = Permeio às colunas, ao centro a escultura do Anjo da Paz ladeada pelos escultóricos tradicionais da Fé, Esperança, Caridade e Obediência.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – As estátuas das quatro Normas, em mármore fino da região de Coimbra, tomariam aspecto antropomórfico para assim a humanidade simples dos crentes melhor as entender e apreender. Ao centro ficaria o Anjo da Paz, que é o mesmo da Obra de Deus (Theos-Ergon, em grego, Teurgia). Ele seria configurado com longos cabelos louros em cascata, vestido de túnica branca em tau e com asas brancas de cisne (simbólico da comunhão espiritual); carregaria na mão esquerda um globo azul anilado onde se inscreveria triangularmente em letras douradas a palavra Pax, e a mão direita configuraria, com três dedos erectos e dois recolhidos, a bênção sacerdotal (trishulahastra, em sânscrito, designando a Trimurti ou Trindade). Em representação do Senhor do Mundo (Ardha-Narisha, Chakravartin ou Melkitsedek, tanto vale), teria como emissários outros quatro Anjos (todos com asas de cisnes) representativos dos Senhores da Evolução: Manu (Legislador) para a Obediência; Yama (Executivo) para a ; Karuna (Judiciário) para a Esperança; Astaroth (Coordenador) para a Caridade. Sendo os cinco Anjos afins aos respectivos cinco Reinos da Natureza: Espiritual, Humano, Animal, Vegetal, Mineral, ficando tudo sintetizado num Pentalfa dourado (Tetragramaton) aos pés do Anjo da Pax, marcando assim o tradicional “centro do mundo”.

LAUSPERENE

5.3 – PRESBITÉRIO = Escultura evocativa do Sagrado Coração de Maria, tendo na base um listel onde se inscreve, em caracteres góticos, a legenda latina: Ave Mariz Nostra.

Aparte do campo de visão do Ostensório, nas paredes laterais figurarão três peças pictóricas retratando os Mistérios da Encarnação, da Cruz e da Eucaristia.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – O Sagrado Coração de Maria tem conotação mística ao Graal-Consciência como cerne de demanda de si mesmo pela tomada definitiva da Consciência Divina, onde a Mente Espiritual é o afloramento mais próximo da condição passageira do ser mortal. A legenda em caracteres góticos, estilo marcando a ascese ou assunção, designa tanto o Salve Nossa Mãe como Salve Nossa Mariz, legenda essa que é o lema da Ordem Soberana que tomou esse nome Mariz, de acordo com as fontes da Tradição, e apesar da História a desconhecer quase por completo ela marcou indelevelmente os destinos de Portugal e da Europa, até mesmo do Brasil, a partir do século XII quando foi fundada por D. Afonso Henriques nas proximidades de São Lourenço do Pombal de Ansiães, Carrazeda de Ansiães, dizem as mesmas fontes tradicionais. Estas adiantam que essa Ordem Iniciática Secreta seria como que quinta Rama de entre as sete que constituem a Árvore frondosa da Comunhão dos Santos e Sábios, os Mestres ocultados da Humanidade agregados em Grande Fraternidade Oculta distendida estrategicamente por todo o Orbe.

Essa Ordem de Mariz constituída em Carrazeda mas familiarmente formada e tomando o solar próximo de Barcelos, constituía-se dos melhores intelectual e moralmente da Raça Humana desde o Centro ao Sul da Europa com extensão a África, donde as suas características alquímicas, cabalísticas e gnósticas afins ao pensamento heterodoxo da Tradição Iniciática das Idades, sempre tomando por Orago a Mãe Divina expressiva do Divino Espírito Santo, tomasse o nome que tomasse mas sendo sempre Ela, como se denota na sua ladainha já de si participando da herança evocativa de outras expressões anteriores suas, conforme demonstra o quadro sinóptico da Ladainha à Virgem extraído do tomo III de Ísis sem Véu da magistral Helena Petrovna Blavatsky:

Tabela da ladainha mariana

Estando a igreja do Lausperene desta assembleia subterrânea vocacionada sobretudo para a meditação e a oração, sob a direcção das Servas de Maria, congregação feminina fundada por Lúcia, a mais velha dos três pastorinhos (falecida com 97 anos de idade em 13.2.2005), todo este espaço votivo, circular ou redondo, centraliza-se na Hóstia Sagrada (expressiva da Mónada Divina) no Ostensório, ficando à guarda das religiosas do Santuário. Acrescentarei ainda que a freiria feminina católica com contracção perpétua de voto de castidade, simbolicamente casadas com o Eterno corporificado em Cristo-Deus como se fosse as suas contrapartes femininas (shaktis) em ponto menor, têm o seu precedente nas virgens consagradas a Ísis, no Egipto, nas vestais a Vesta, em Roma, nas pitonisas a Pítia, na Grécia, nas goris do Islão, nas devasis de Nari, na Índia, etc., todas elas vivendo em celibato rigoroso.

O espaço da igreja do Lausperene deve estar inteiramente pintado de azul claro suave, cor rajásica da Mãe Divina, expressiva da Fé e do Amor, igualmente propícia à meditação, adoração e elevação da alma do crente em solilóquio consigo mesmo, essa sendo a cor do Céu ou do protector Manto Azul (do Akasha ou Éter) da Excelsa Mãe como Alma Universal, presente não só nos templos cristãos mas igualmente egípcios e hindus.

Os Mistérios da Encarnação, da Cruz e da Eucaristia possuem significado cosmogónico e antropogónico: referem-se às respectivas Involução do Espírito à Matéria, Manifestação do Espirito na Matéria e Evolução da Matéria ao Espírito no Esquema do Universo, da Terra e do Homem, pelo que no contexto do ser humano aqui se lhe apresenta o convite mudo à reflexão sobre a sua encarnação, carnação e desencarnação de volta à Eternidade.

IGREJA DA RECONCILIAÇÃO

5.13 – SACRAMENTO = Imagem de Nossa Senhora do Rosário, em destaque. Haverá, em ambas as paredes laterais, quatro peças pictóricas ou quadros: a) evocação do Purgatório; b) evocação do Céu; c) evocação da Ascensão de Jesus; b) evocação da Ascensão de Maria.

SIGNIFICADO ESOTÉRICO: – A imagem beatíssima evocativa do Rosário, além de padronizar o conselho dado pela Virgem aparecida aos pastorinhos à prática do mesmo, conselho já antecedido pelo Anjo da Paz, conforme é tradição corrente, significa mais ocultamente a evolução da Mãe-Terra ao longo do extenso rosário de Cadeias, Globos, Rondas e Raças por que o Logos e o Homem têm de passar. O Purgatório é o Mundo Inferior ou Astral como Tala, e o Céu é o Mundo Superior ou Mental como Loka. A Ascensão de Jesus representa a Libertação do Espírito, e a de Maria a Sublimação da Matéria, isto no Esquema de Evolução Universal por meio das duas Energias Cósmicas básicas: Fohat (Electricidade, Fogo Frio Celeste) e Kundalini (Electromagnetismo, Fogo Quente Terrestre). Do atrito de ambas, tudo se locomove no esteiro da transformação da vida-energia em vida-consciência até à Reconciliação final, a Reintegração do Tudo no Todo.

Volvendo ao rosário, o uso deste foi introduzido em Portugal durante o século XIII pelos religiosos de S. Domingos de Gusmão, os dominicanos também chamados frades pregadores (Ordo Praedicatorum). S. Domingos teria adoptado do Islão o uso do rosário, durante as suas viagens pelo Médio Oriente. Esse uso islâmico terá sido importado das práticas religiosas asiáticas, nomeadamente hindu-tibetanas, objecto que por norma é utilizado como suporte de mais fácil concentração mental em determinada ideia ou coisa, indo servir como instrumento de encantação e base mnemo-técnica.

O rosário cristão consta de um conjunto de contas enfiadas num fio que se fazem desfiar uma a uma por entre os dedos, enquanto se vai recitando Padres Nossos e Ave Marias. Compõe-se de 15 Mistérios ou dezenas, ou seja, de 150 contas que se vão desfiando contando-as no rosário da interiorização: Utiliza-se da maneira seguinte: reza-se um Padre Nosso e a Gloria Patri para cada conta mais grossa; para cada conta menor, reza-se a Ave Maria. A divisão da terça parte do rosário composta de 50 contas (evocativas dos cinco Mistérios principais da vida de Cristo: Nascimento, Batismo, Transfiguração, Crucificação, Ressurreição), chama-se terço.

imagem 11

Por norma, as contas do rosário são de madeira torneada e escavada (também podendo ser feitas de alguma outra matéria mais rica) e enfiadas num fio ou corrente (nisto possuindo o sentido oculto de Cordão de Sutratmã, o elo espiritual que liga as criaturas e os mundos entre si).

Por sua vez, o “colar de reza” ou salah muçulmano consta de 99 contas esverdeadas, número cíclico referente aos Nomes de Deus. A centésima conta, não manifestada, exprime o retorno do Múltiplo à Unidade, do Manifestação ao Princípio.

A redução teosófica de 99 conduz sempre ao algarismo 9, que é o número cabalístico do Santo e Sábio da Comunhão Apostólica, o Adepto Perfeito como Iluminado Espiritual. Esse número leva-me ao outro 432, que somado e reduzido também dá 9. Ora, 432 acrescido de sete zeros equivale a um Dia de Brahma segundo a concepção cosmogónica hindu, ou seja, um período de Manifestação Universal ao qual chamam Manvantara (4.320.000.000 anos).

É precisamente no Hinduísmo que o rosário como fileira de pérolas enfiadas num fio ou cordão toma o seu significado de Cordão de Sutratmã, descrito no Bhagavad-Gïta (“Cântico do Senhor”) como sendo o fio Atmã ou Purusha no qual todas as coisas são enfiadas, encadeadas, todos os Mundos, todas os estados da Manifestação. Purusha, o Espírito Universal, liga esse Mundos entre si através do seu Sopro ou Prana que lhes dá o Jiva, a Vida. Por isto, em princípio a fórmula pronunciada para cada conta do rosário deve estar ligada ao ritmo da respiração (pranayama, “disciplina do sopro ou do respirar”).

Na tradição hindu, o rosário possui 108 contas (12×9), cifra cíclica do Homem Universal (Brahma) percorrendo as 12 casas do Zodíaco em um só Dia que é o seu, motivo de normalmente ser aplicado à expressão de desenvolvimento da Manifestação Universal (Prakriti, a Matéria) representada nas próprias contas. Na mesma teologia hindu, atribui-se o rosário ao Pensamento de Brahma e da sua Shakti ou consorte, Sarasvati (equivalendo no Cristianismo ao Padre Eterno e á Madre Celeste), fixado como o alfabeto, ou alfa e beta em grego, como seja o “princípio” e a “boca” ou beth, em hebreu, consequentemente, o Poder Criador da Palavra produzido pelos Dois – Vishnu, Vâch ou o Verbo como Filho. O seu rosário (akshamala) comporta 50 contas (aksha) correspondentes às 50 letras do alfabeto sânscrito, de a a ksha. Como sempre acontece no caso de guirlanda de letras, o rosário hindu está ligado ao seu Criador (Shabda) e ao sentido da Audição (Akasha-Tatva).

No Lamaísmo tibetano o rosário também tem 108 contas, por vezes as dezenas sendo separadas por aros de prata. A matéria e a cor do “colar de reza” (donde rosário) variam segundo as personagens do seu santoral: rosário amarelo para os Budas; contas azuis para os Bodhisattvas; contas de coral ou então contas brancas feitas de conchas para aquele que converteu o Tibete arrancando-o da necromancia nefasta, Tsong-Kapa; para o terrível Yamantaka, o “domador da Morte” como o mesmíssimo Yama hindu, rodelas cranianas, pintadas de vermelho, de nadjorpas ou eremitas santões falecidos; para as Divindades do Yoga (Tchakram-Bija-Avataras), sementes de um arbusto chamado tulosi; finalmente, para os simples mortais, ele é feito em madeira comum e pintado de negro.

CAPELAS LATERAIS

6.2 – CAPELA 1 = Altar com imagem evocatória de S. João Evangelista e a águia.

6.3 – CAPELA 2 = Altar com imagem evocatória de S. Marcos e o leão.

6.4 – CAPELA 3 = Altar com imagem evocatória de S. Lucas e o touro.

6.5 – CAPELA 4 = Altar com imagem evocatória de S. Mateus e o anjo.

6.6 – CAPELA 5 = Altar com imagem evocatória S. Tiago Maior, Padroeiro da Península Ibérica e primeiro Peregrino Mariano.

6.7 – CAPELA 6 = Altar com imagem evocatória de S. Cristóvão, protector dos peregrinos, romeiros e viajantes, ele mesmo Kristus-Baal como Cristo Andante ou Volante, ou seja, o Princípio Crístico activo ou a activar na criatura humana.

6.8 – CAPELA 7 = Altar consagrado ao Divino Espírito Santo com a iconografia tradicional da Pomba dentro do Triângulo em resplendor.

NOTA: – Em todas essas capelas laterais deve figurar uma imagem subsidiária de Nossa Senhora de Fátima: nas quatro primeiras em azulejaria de painel de caixilho, colorida onde sobressaia o azul; nas três restantes em peças escultóricas, coloridas nos tons tradicionais a ver com os respectivos ícones, de proporções modestas mas não ínfimas.

As secções restantes dos GECAS deverão receber decoração apropriada ao espaço sagrado, conforme a utilidade de cada uma delas, exceptuando as secções destinadas ao uso profano, as quais nada deverão receber por serem desapropriadas à evocação Divina.

Terminei. E logo alguém sussurrou-me ao ouvido: “Está tudo muito bem, mas esqueceu-se do principal: falta S. Pedro, o primeiro Bispo de Roma…”, ao que respondi, também em sussurro:

– Não esqueci: ignorei. Ainda assim ele aí está nessa nova imagem de Pio XII, o Pietrus Christi, hoje com as Chaves da Salém Celeste abrindo o seu Portal ao Advento do Divino, e com isto não creio que me esteja percebendo. Mas certamente perceberá que em Terra Portuguesa manda Portugal e nenhum outro e qualquer império psicofísico, pois que assim é desde D. Afonso Henriques e também porque a Igreja de Roma é afinal vassala da que foi fundada antes dela por Apóstolo de Cristo e Devoto de Maria, S. Tiago Maior, aqui mesmo, na Península Ibérica, começando em Braga e desfechando em Compostela. Sempre foi aqui, a esta Terra de Santa Maria Maior, Terra de Luz do Divino Espírito Santo, que desde sempre peregrinam papas, imperadores e reis prestando-lhe a vassalagem da sua devoção. Com isto, fica tudo dito.

A Ordem dos Templários e a Mística Judaica – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, May 3 2016 

Geograficamente, o centro axial da espiritualidade ocidental e médio oriental foi, incontestavelmente, Jerusalém. Para ela concorreram, e ainda concorrem, as três principais religiões do Livro: a judaica, a cristã e a islâmica, consignando-a Cidade Santa como modelo do Centro Primordial do Mundo, Salém, a “Cidade da Paz”, equivalendo à hindu-tibetana Shamballah e até mesmo à escandinava Walhallah, “Vale de Allah” ou “Morada de Deus”.

Jerusalém como Centro do Mundo. Gravura de Heinrich Buting´s em "Travels according to the Scriptures" (1581).

Jerusalém como Centro do Mundo. Gravura de Heinrich Buting´s em “Travels according to the Scriptures” (1581)

Com efeito, desde a origem que o carácter teóforo de Jerusalém é evidenciado pelo nome divino Salém ou Shalem, mencionado em Génesis, 14:18, a propósito da história de Abraão e Melkitsedek. A equivalência de Salém com Jerusalém-Sião é visivelmente admitida na literatura bíblica, da mesma forma que faz fé na utilização indistinta de Salém e de Sião como sinónimos no Salmo 72:2: “Salém é a tenda e a morada está em Sião”. Aliás, na etimologia popular esse elemento teóforo que se descobre tanto em Salém como em Jerusalém, a saber, o nome da divindade Shalem, está identificado praticamente com o nome hebreu Shalom, a Paz, de onde vem o nome de Schlomoh, Salomão, dado ao donatário do Templo.

Assim, dentro da perspectiva primeiro só judaica e depois judaico-cristã, concebe-se a elevação de Jerusalém ao título de “Cidade da Paz” por expressar directamente a esse Centro Primordial onde reina a Pax perene, a Pax Mundi segundo a concepção teológica medieval perfilhada pelos místicos e cruzios europeus demandante dessa Terra Santa plantada próxima de onde fora o Jardim do Génesis onde apareceu a primeira parelha humana – Adam e Heve.

Tal concepção encontra, sem dúvida, a sua expressão mais marcante no Salmo 122, composto após o exílio, onde “a Paz sobre Jerusalém” é a palavra-chave. Mais expressamente ainda, Shalem e Shalom estão identificadas em Hebreus 7:1-2, com a paráfrase do episódio já citado do encontro de Abraão (Ab-Ram) com Melkitsedek: “Com efeito, esse Melkitsedek, Rei de Salém, Sacerdote do Deus Altíssimo, que foi ao encontro de Abraão que voltava do massacre dos reis, e o abençoou, a quem Abraão ainda atribuiu o dízimo de tudo”, desde já de quem interpretamos o nome como Rei de Justiça (Adonai-Tsedek) e que também é Rei de Salém (Koro-Tsedek), que quer dizer “Rei de Paz”. Passando a peregrinação do deserto, o profeta percebe o Monte de Sião onde o Eterno encontrará “o lugar de seu repouso”. O objectivo final da saído do Egipto não é estabelecer em Eretz um foco nacional mas uma Morada de Deus, “a residência da tua santidade” (Nevé quedoskha), é o que ele diz no versículo 13 de Êxodo.

Por que ele chama-a de “monte da herança”? A noção de herança, no sentido amplo, implica uma tripla relação entre YHWH, Israel e a Terra, pois todos os três são objectos de herança. Israel é a herança do Senhor (Êxodo, 34: 9), como o Senhor é, Ele próprio, herança de Israel (Salmos, 16: 5), e a Terra é prometida a Abraão a título de património hereditário (Génesis 15:18). Eis, pois, que se é levado à marcha de Abraão para a Terra Santa.

“A essa Terra Abraão deu o nome de YHWH yirê: “o Eterno verá”; de alguma maneira como dizemos hoje em dia: “Sobre a montanha o Eterno será visto” (Génesis, 22:14).”

O caminhar de Abraão, “pai” da Raça Hebraica, é uma dupla marcha: “marchai na minha presença e sede perfeito” (Génesis, 17:1), indica bem o título desse seu caminhar: Lekhlekha (Ide!); ele marcha em direcção a uma terra a princípio desconhecida, depois marcha sobre o país de Moriah, onde deverá sacrificar o seu filho Isaac. O nome de Moriah acerca-se do de Yaréah, significando “temor”. Assim, os cabalistas judaico-cristãos vêem no Monte Moriah (Har-Habayit) “a montanha do temor de Deus”. Após ter marchado três dias na obscuridade da Fé, “Abraão levantou os olhos e viu o lugar (makom) de longe” (Génesis, 22: 4). Ele o viu na bruma: “O lugar é uma predestinação” (Sanh., 14b).

De facto, a Cidade-Templo (Shalem ou Shalmon-Shulmanu) pré-israelita, governada pelo Rei Melkitsedek que oficiava no Santuário de “El Elion” (o Deus Altíssimo), foi hebraizada porque aí ficava o Hieros Logos do sacrifício de Isaac por seu pai Abraão (Génesis, 22) sobre o Monte Moriah, que desde esse tempo imemorial está associado à fundação de Jerusalém.

Esse monte será tardiamente considerado por II Crónicas, 3:1, como sendo o próprio Monte Sião. Aí, na área de Arauna, o Anjo do Senhor parou de atormentar o povo (II Samuel, 24: 16). Aí David ergueu o Altar e Salomão edificou o Templo. É, portanto, o lugar “que o Eterno vosso Deus” escolheu, diz a Bíblia, e a visão de Abraão vai a partir de então concretizar-se com a fixação ou sedentarização das doze tribos, a partir da conquista da Terra Santa por Moisés e Josué. A visão concretizada revela-se na edificação do Templo consagrado ao Deus de Israel (Ish-Ra-Elli), segundo a tradição conservada por Crónicas, 15:16-22.

De Abraão chega-se agora a David, que vai fazer de Jerusalém (Milich-Ha-Shadai) a pedra angular de Israel.

É verdade que a Paz não nasce da divisão, ainda que a pronúncia futura entre os hebreus de Yeroushalaïm seja dual, embora a ortografia seja a do singular. Se Élie Benamozeg vê nessa dualidade a união de Israel e da Humanidade, resta que a união supõe a dualidade e não a unidade. Mas a Yeroushalaïm do “Volume da Santa Lei” é de facto um singular e representa a Unidade, onde reina o Único.

“Escuta, Israel, o Eterno teu Deus, o Eterno é o Único”, frase do Shema que será definida por Cristo (Mateus, 22, 36-40) como o primeiro mandamento pelo Amor que dele decorre: “E tu amarás o Senhor teu Deus, etc.”[1]

É dentro desse contexto de Unidade, e de Unicidade do Universo manifestado, que a Shalem dos primórdios anuncia a Shalem dos tempos futuros que serão “Plenitude e Paz”: “A Justiça produzirá a Paz” (Isaías, 31:17)[2].

A abraamização do lugar de Moriah ou Sião fará dele posteriormente o centrum in trígono centri do monoteísmo mediterrâneo e, portanto, o sinal de uma Tradição Única. Tudo isso começa na visão do pai dos crentes, visão cujas consequências inscrevem-se no património espiritual confiado a Jerusalém mencionado pelo profeta Isaías, 2: 8: “De Sião sairá a Torah”. Visão que igualmente prefigura o objectivo do êxodo de Moisés e do povo de Israel na saída do Egipto; visão, em Moisés também, do “Monte da Herança”, segundo a fórmula de Êxodo, 15:16-17:

“Que passe, esse povo que Tu escolheste.

Tu o farás vir e Tu o fixarás sobre a montanha da Tua herança;

Morada para Tua residência que tu fizeste, Senhor,

Santuário, ó Senhor, edificado por Tuas mãos.”

Com efeito, Moisés acabara de atravessar o mar de caniços, pantanoso e barrento (donde o apodo vermelho), com o povo escolhido de Israel. Ele se manifesta em acções de graças pela intervenção de Deus e canta o seu cântico da Libertação. Jerusalém aparece então numa luz pascal. Moisés celebra apenas as maravilhas passadas, mas o Espírito lhe revela ainda as maravilhas futuras. Vê o povo em marcha para o Sinai onde ele receberá a Torah, depois para a Terra Prometida onde entrará para Sião, onde o Templo será construído, enfim, não por Israel mas pelas mãos do próprio Deus. Pelas “suas duas mãos”, sublinha Rashi, embora o Mundo tenha sido criado com uma só mão, conforme Isaías, 48: 13. Isso para significar, é claro, que a construção do Templo é uma obra maior que a criação do Mundo.

De maneira que o duplo binómio Melkitsedek – Abraão e Salém – Jerusalém, assim se dispõe:

MELKITSEDEK, SENHOR DE SALÉM

(Cidade Santa Primordial encoberta)

recebeu o tributo da dízima de

ABRAÃO, “PAI DE ISRAEL”

(Doze Tribos)

e concedeu-lhe MORIAH, centro de JERUSALÉM

(Cidade Santa Primordial descoberta)

Melkitsedek legou a Abraão a tríplice herança em graças da dízima recebida:

A Israel como herança do Eterno;

O Eterno como herança de Israel;

A Terra Prometida como herança da prole de Abraão.

Por isso é que as escrituras sagradas consideraram Jerusalém o centro espiritual de Israel, logo, toda ela assumida Terra Santa pelo Povo do Livro descendente dos filhos de Abraão, Isaac (judeus) e Ismael (árabes).

Nos inconciliáveis históricos desde há 5000 anos opondo judeus e árabes, ainda assim houve um período de conciliações, apesar de frequentemente interrompidas por motivações mais geopolíticas que religiosas, que correspondeu à fase de implantação da Ordem do Templo na Terra Santa, talvez graças ao espírito ecuménico exercido por ela que, é notório, recebeu forte influência do Judaísmo, mormente na parte gnóstica ou velada do seu doutrinal, e com essa mesma religião, afinal de contas, sempre andou de relações estreitas, mormente em Portugal, onde exerceu um papel de «policiamento» junto do saber sinagogal.

Melkitsedek com o Santo Graal abençoa o Mestre Gualdim Pais, fazendo as vezes de Abraão, “pai” da raça Judaica, mas aqui incarnando a Perfeição da Alma Templária Lusitana. – Pintura de Gregório Lopes, da Escola Portuguesa da primeira metade do século XVI, exposta na igreja de São João Baptista, em Tomar.

Melkitsedek com o Santo Graal abençoa o Mestre Gualdim Pais, fazendo as vezes de Abraão, “pai” da raça Judaica, mas aqui incarnando a Perfeição da Alma Templária Lusitana. – Pintura de Gregório Lopes, da Escola Portuguesa da primeira metade do século XVI, exposta na igreja de São João Baptista em Tomar

A posse efectiva da Terra Santa implicava possuir a sua Tradição Primordial e ser parte integrante dela. Estará nisso a causa suprema de quantas Cruzadas e Crescentadas houveram de parte a parte.

Reduzidas a gueto (aljama ou alfama) dentro do seu próprio centro espiritual de Jerusalém pelos muçulmanos desde o ano 634-644 d. C., muitas famílias judaicas optaram pelo êxodo e encetaram diáspora na direcção do Ocidente rumo à Europa, principalmente as descendentes da linhagem de Benjamim em cujas veias corria o sangue de vários dos primeiros reis de Israel, nomeadamente de Saúl, inconformadas com tão humilhante quão castrante opressão do árabe intolerável.

Surge assim em vagas sucessivas, com intensidade crescente, ao longo da orla costeira mediterrânea indo até ao extremo ocidental da Europa, o estabelecimento de comunidades judaicas. que a partir do século XI ganharam notoriedade devido a boa adaptação social, política, cultural e religiosa com os povos europeus. Contudo, não se ignora haver registo da presença judaica na Europa já antes da era cristã, e que essa população judaica europeia cresceu substancialmente após a conquista romana da Judeia e da Palestina pouco antes do século I d. C.[3]

Face à impossibilidade de recuperarem militarmente a Terra Santa, no século XII os judeus da diáspora decerto viram os propósitos de conquista ultramarina pela Ordem do Templo servirem perfeitamente aos seus propósitos. Isso tanto no aspecto militar, como no político e no religioso. Daí financiarem largamente as Cruzadas; daí iniciarem propositadamente vários e distintos cavaleiros templários nos segredos mais selectos do Judaísmo, ou seja, na Kaballah, a “Tradição Velada do Livro”.

Nesse sentido, pode-se aventar não ter sido escolhida ao acaso a cidade de Troyes para a realização em 1128 do concílio solicitado por São Bernardo a pedido de Hugues de Payens e seus oito companheiros, a fim de ser aprovada oficialmente a nova Milícia do Templo. A maioria deles tinha laços familiares à Casa de Borgonha a qual, significativamente, esteve na fundação de Portugal. Ora, nessa cidade francesa, domínio do conde Hugues de Champagne, residia o próprio cavaleiro Hugues de Payens, parente do conde seu feudatário, ambos íntimos do pensamento heterodoxo do rabino Rashi da Escola de Estudos Rabínicos de Troyes, onde o estudo da Kaballah ocupava lugar destacado, a qual prosperava desde 1070, época de Godofredo de Bouillon[4]. Além disso, o próprio São Bernardo possuía proximidade familiar aos cavaleiros requerentes da nova Ordem, sendo sobrinho do cavaleiro André de Montbard por sua mãe, Alette, ter casado com Técelin de Montbard, senhor do feudo de Fontaine, todos com grande proximidade ao esoterismo sinagogal[5]. Será ainda na cidade de Troyes que nascerá um trovador célebre, Chrétien de Troyes, que cerca de 1160 iniciará o ciclo literário do maior dos mitos medievais: o do Santo Graal, que um trovador templário posterior, Wolfram Von Eschenbach, irá atribuir a sua posse efectiva à Cavalaria da Ordem do Templo.

Rashi de Troyes (1040-1105)

Salomon Rashi de Troyes (1040-1105)

Já antes de 1128, em 1125, o cavaleiro português Arnaldo da Rocha e o francês Hugues de Payens firmaram juntos um documento onde assinaram respectivamente “o Grão-Prior e o Grão-Mestre”, o qual confirma a existência de um plano secreto de consolidação do Templo que o posterior concílio apenas viria oficializar[6]. Inclusive há quem chegue a afirmar que já em 1114 a Ordem era conhecida do Papado, talvez por ter recorrido a arquivos e a documentos hoje irremediavelmente perdidos, como foi o caso de Pedro de Mariz que escreveu em 1672: “Porque no tempo do Pontífice Pascoal II, no ano do Senhor de 1114, teve princípio a Ordem dos Cavaleiros Templários em Jerusalém, fonte, e origem, de todas as mais Ordens de Milícia, que houve na Europa”[7].

Conscientes da impossibilidade de restaurar o Templo de Salomão assim como a linhagem divina dos reis de Israel, interrompida definitivamente, os judeus benjamitas da diáspora desviam os olhares do Médio Oriente e fixam as atenções no mais Ocidente da Europa, na Terra de Sefarad ou dos sefarditas que aqui eram, neste mesmo País então em formação destinado a abrir um novo ciclo de Humanidade. Servindo-se do pretexto da política militar de reconquista da Península Ibérica ao Islão, impelem os Barões de França, liderados por D. Henrique de Borgonha, à consagração do novo Condado Portucalense como Terra Santa, sentido místico que cedo incutiram neste finis Terris in Occidis, por certo prevendo que cedo o Condado se tornaria País independente, o primeiro da Europa feudal, e teria todas as condições para nele se fundar a nova Israel. Posteriormente, os cavaleiros templários trariam para esta outra Terra Santa, o “Porto do Graal” (como está no sinal rodado nas cartas de doação de Tomar e Sintra por D. Afonso Henriques a Gualdim Pais, Mestre Provincial do Templo), essa mesma Arca da Aliança, as Tábuas de Moisés, o Cálice de Salomão, enfim, expressões diversas para uma única Sabedoria Iniciática alegorizada no Saint Vaisel, que como objecto cerrado vem a simbolizar o saber velado, trazido para aqui possivelmente pela mão de Arnaldo da Rocha, em segredo, encarregando-se o Mestre Gualdim Pais de soerguer um novo e terceiro Templo de Salomão digno de albergar a Santa Relíquia vinda do Oriente. Ideia escondida mas que deu concepção e nascimento à Charola ou Rotunda octogonal em torno da qual se formaria o Convento de Cristo em Tomar, a região mais ao centro de Portugal, construída como réplica exacta da Cúpula do Rochedo em Jerusalém que assenta sobre as antigas ruínas do Templo de Salomão.

Exterior da Charola Templária de Tomar

Exterior da Charola Templária de Tomar

Estavam lançadas as base do novis Templis Salomonici, em Tomar e ao centro do Reino, como se fosse o centro do Mundo para que concorreriam as mais diversas correntes de pensamento numa nova demanda espiritual da novis Civitas Hierosilimita ad Occidis Mundi. Padrão sinalético da transferência dos valores espirituais do Oriente ao Ocidente, eis aqui a Charola tomarense soerguida cerca de 1170, cujo formato octogonal revela o valor solar 8 do número cabalístico do Cristo, 608, assim  reunindo a potência da Idade do Pai (Ciclo de Jerusalém) e a essência da Idade do Espírito Santo (Ciclo da Lusitânia), ficando a do Filho (Ciclo de Roma) assegurada pela própria Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo. Esta construção em octógono, consagrada à Ressurreição de Cristo, só pode revelar ter sido construída com intenção mística, posto que em arquitectura militar o octógono tem interesse nulo, pelo que o seu valor para a Ordem pertenceria ao exclusivo plano do transcendente, ademais sendo a figura geométrica determinada pela sua Cruz pátea, insígnia da Cristandade.

Com efeito, a Charola, Rotunda ou Oratório dos Templários foi mandada edificar por D. Gualdim Pais possivelmente aos Monges-Construtores da Ordem de Cister, resultando uma réplica exacta da mesquita de Omar e da igreja do Santo Sepulcro, ambos edifícios de planta circular, em Jerusalém, ocupando o espaço do antigo Templo de Salomão. Como disse, considera-se que a construção da Charola de Tomar teria o objectivo de representar um novo Templo Jerusalemita no extremo ocidental da Península Ibérica, indo adaptar-se ao Ocidente o espírito tradicional do Oriente capaz de reunir num só Templo de Deus Único e Verdadeiro as três religiões do Livro (judaica, cristã e islâmica). Trata-se, pois, do translatio imperii, a “trasladação do império”, tema de ciclicidade subjacente ao intento velado da construção da Charola.

Também como disse, ela era o Oratório dos Templários, baseada no tipo clássico das mesquitas sírias, e originalmente deveria ser muito simples. Mas quando, em 1356, Tomar passou a ser a Sede da Ordem de Cristo, abolida a dos Templários, a Charola recebeu muitos enriquecimentos e foi adaptada às funções do novo Convento da nova Ordem de Cristo pelo Infante D. Henrique, que a tornaria capela-mor da igreja. São do século XVI a maioria das pinturas e frescos (quase só cenas bíblicas) e a estatuária dourada sob a sua cúpula bizantina. A planta da Charola é octogonal pelo interior (o tambor central possui oito faces), pelo que as suas paredes exteriores possuem – ou possuíram – dezasseis panos reforçados por sólidos e altos contrafortes (dois destes panos de parede foram eliminados nas obras de engrandecimento manuelinas, no século XVI).

Interior da Charola Templária em Tomar

Interior da Charola Templária de Tomar

Por esse esquisso da Charola – palavra que revela a forma circular do edifício, associada ao termo francês carole, uma dança encadeada, “em roda” – tem-se presente o octógono e o respectivo número oito das suas faces. O simbolismo medieval de ambos ajusta-se inteiramente às primitivas funções de oratório e altar-mor da Charola como lugar de passagem da mortalidade à imortalidade, logo, com a função psicopompa ou medianeira entre os mundos visível e invisível, assim representando a Arca da Aliança de Deus com a Humanidade.

O octógono representou na Idade Média a figura de passagem entre o quadrado – a Terra – e o círculo – o Céu – pelo que assumia o simbolismo espiritual do trânsito, ou seja, da Ressurreição de Cristo e o começo da Perfeição Humana. É assim que o octógono expressa o Poder Divino na Mundo Humano, o que veio a ser representado como a descida da Jerusalém Celeste na Terra, ideia programática assinalada pela Charola.

O significado cabalístico do número oito reforça o sentido do simbolismo octogonal. Número figurativo do duplo quadrado da Terra e do Homem em equilíbrio, a tradição cristã considera o valor oito como o da Redenção e Prosperidade. Oito é sete mais um, o transbordar da Plenitude. A Plenitude judaica (o sete) foi ultrapassada por Cristo em sua Ressurreição na manhã do oitavo dia. O oitavo dia passou assim a ser o primeiro dia (o dia do Senhor, Domenica dies), domingo, em oposição ao sábado (Shabath, descanso, sétimo dia em que o Senhor descansou da Obra da Criação). Por isso as grandes festas cristãs (Natal, Páscoa) têm uma oitava, isto é, celebram-se durante oito dias, sendo o domingo dessa oitava o prolongamento da grande festa celebrada. Sendo o oitavo dia o Dia da Ressurreição em que os cristãos são associados, pelo baptismo, ao Mistério Pascal de Jesus Cristo, é também comum encontrar, na arquitectura, a forma octogonal como planta muito frequente dos baptistérios. Também as estrelas de oito pontas (dois quadrados sobrepostos e rodados que simbolizam a transformação espiritual) da arte românica e as rosáceas com oito pétalas têm o mesmo significado.

A Charola lusitana, novel Tabernáculo de Ouro salomónico, é toda ela uma construção cifrada, um enigma de pedra que lembra o estipulado no artigo 8 dos pressupostos Estatutos Secretos do Templo: “Lá onde construirdes grandes edifícios fazei os sinais de reconhecimento”.

Planta do Convento de Cristo em Tomar

Planta do Convento de Cristo em Tomar

Em volta da Charola está o Castelo desta maneira assumido Reduto ou Râbita como “Templo-Fortaleza”, construção iniciada antes daquela, ou seja, em 1 de Março de 1160 por ordem de Gualdim Pais, no topo do monte que as sortes deitadas por três vezes pelo Mestre por três vezes lhe apontaram esse lugar, como diz a lenda, e após isso o Mestre Gualdim encetou montada a um porco montês indo tomá-lo já morto no topo do mesmo cabeço. Diz o vozerio popular que desse episódio adveio o nome Tomar[8]. Mas como as montadas e especialmente os “jogos de sorte e azar” eram expressamente proibidos aos templários, então ter-se-á de perceber um outro sentido nesse episódio lendário, ou seja, o da demanda do centro axial aliado à prática geomântica, onde os “dados lançados” serão referência à escolha do terreno e ao lançamento da pedra fundamental do edifício da Nova Casa de David cujo filho, Salomão, aí tomaria forma na própria Milícia do Templo, ao mostrar-se reformadora e parúsica, sustentáculo ecuménico de uma Nova Igreja, não de Roma mas do Amor: consoladora da Humanidade afligida; compadecente da Humanidade desejosa de ciência.

Michelet afirmaria a esse propósito[9]: “(…) o ideal do Templo, mais elevado e geral do que o da Igreja, planava, de certo modo, acima da religião. A Igreja tinha idade, o Templo não a possuía. Contemporâneo de todas as eras, constituía como que o símbolo de perpetuidade religiosa. (…) A Igreja é a Casa de Deus, o Templo a do Espírito Santo”.

Segundo Manuel Joaquim Gandra[10], no que parece estar muito bem, a Ordem do Templo visava o aperfeiçoamento intelectual e moral da Humanidade, motivo porque não dissociava (como se vê nos escultóricos exteriores no Convento de Cristo, em Tomar) o Querubim (Anjo da Sabedoria) do Serafim (Anjo do Amor): sabia que só no Amor existe Sabedoria.

O Querubim (Sabedoria) e o Serafim (Amor) no Convento de Cristo, Tomar

O Querubim (Sabedoria) e o Serafim (Amor) no Convento de Cristo, Tomar

De maneira que, inspirado pelo saber judaico e idealizado pelo messianismo templário, é levantado o Novo Templo de Salomão, não no Oriente mas nos confins do Ocidente, na região mais ao centro de Portugal, sobre a sua “coluna espinhal” que sobe de Sagres a Santiago (de Compostela), assim feita simbólica e geosófica Árvore de Jessé de cujo tronco, segundo as profecias, há-de advir o Paracleto, o Imperador do Espírito Santo, Julgador e Consolador das Nações, identificado à Parúsia Universal como o Cristo em seu segundo Advento.

Assim, bem parece que se firmou na velha Sellium, Nabância ou Tomar a mítica Dinastia do Santo Graal, onde os descendentes de Isaac e de Ismael vão se encontrar e até irmanar na Paz (Shalom) em Terra de Luz (Shalem), o que remete para a Concórdia Universal ou Sinarquia que a Cristandade Templária bem tentou perpetuar. O facto parece estar assinalado no resto de um tímpano medieval encrostado na parede frontal exterior da igreja de S. João Baptista desta cidade (possivelmente provindo do templo primitivo antes dos restauros que recebeu no século XVII). Nele observa-se à direita o leão (de Judá) e à esquerda o cão ou, mais certo, atendendo ao nome do Orago S. João Baptista e os seus símbolos iconográficos, cordeiro (de Cristo), tendo permeio um caule longo em formato de taça donde sobressai a flor-de-lis (de Ismael), designativa tanto da Realeza Divina quanto daquele que a assumia em seu tempo: o “Ancião da Montanha Primordial” ou Alborj, o mesmo Al-Bordi, como seja o mesmo Monarca Universal para os Assacis ismaelitas, também aqui plantado graças à visão ecuménica do Templo, quiçá numa antevisão de que com a perda da Terra Santa do Oriente o Rei do Mundo haveria de deslocar o foco da sua actividade, em um outro movimento axial, para esta outra Terra Santa do Ocidente.

Alegoria corânica semelhante à do frontal exterior da igreja de S. João Baptista, em Tomar.

Alegoria corânica semelhante à do frontal exterior da igreja de S. João Baptista, em Tomar

Curiosamente, relacionada com a simbologia dessa pedra esculpida encontra-se no Beatus Facundus, manuscrito com iluminuras moçárabes de cerca de 1047 ilustrando os comentários sobre a Revelação de S. João pelo Beato de Liebana no século VIII, o mesmo tema servindo de comentário a uma passagem do Apocalipse (V, 5:10). Diz:

“(…) Eis aqui o Leão de Judá, a raiz de David, que pela sua vitória alcançou o poder de abrir o Livro e de desatar os seus sete selos.

“E olhei e vi no meio do Trono e dos quatro Animais e no meio dos Anciãos um Cordeiro como morto que estava em pé, o qual tinha sete cornos e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus, mandados por toda a Terra.

“E veio e tomou o Livro da mão direita do que estava sentado no Trono.

“E tendo aberto o Livro, os quatro Animais e os vinte e quatro Anciãos se prostraram diante do Cordeiro tendo cada um a sua cítara e a sua redoma cheia de perfume, que são as orações dos Santos.

“E cantavam um cântico novo, dizendo: Digno és, Senhor, de tomar o Livro e de desatar os seus selos, porque tu foste morto e nos remiste para Deus pelo teu sangue, de toda a Tribo e de toda a Língua e de todo o Povo e de toda a Nação.

“E nos tens feito para o nosso Deus, Reis e Sacerdotes: e reinaremos sobre a Terra.”

Iluminura moçárabe do "Beatus Facundus"

Iluminura moçárabe do “Beatus Facundus”

Esse tímpano teve uma leitura arqueoastronómica por parte de Maurice Guinguand e Beatrice Lanne (in ob. cit.), que assim dizem: “Em frente do miradouro [do Castelo de Tomar] foi construída uma igreja a que foi dada o nome tradicional de São João Baptista – posição do Sol no solstício –, que fica também defronte do campanário octogonal. Na fachada foi esculpido um baixo-relevo.

“Dois animais de tamanhos diferentes, colocados de cada lado do motivo central, estão virados um para o outro. O maior representa um cão, indicando a constelação do Cão Maior, cuja estrela principal é Sírio ou Sothis. O outro, um leão, está relacionado com a constelação do mesmo nome e com a sua estrela Régulo.

“Quanto à figura central, trata-se de uma taça estilizada, relacionada com a constelação da Taça. O ângulo que parte do centro é de trinta e quatro graus, idêntico ao ângulo formado por esta constelação. Perto do baixo-relevo, para a direita, encontra-se uma pedra bastante pesada com uma cabeça de esfinge, formando um relevo bastante pronunciado, que nos recorda que é conveniente consultá-la para podermos compreender o significado da placa.

“Nela encontramos, evidentemente, todas as indicações necessárias e até outras. A constelação do Leão forma com a da Taça e a estrela Sírio, do Cão Maior, um ângulo de trinta e quatro graus à meia-noite real do dia 20 de Janeiro. Esta data coincide com a festa de São Sebastião, um dos santos padroeiros dos Templários.”

A verdade é que os atributos de São Sebastião indiciam-no Hommo Teluricus, e toda a sua hagiografia e posterior iconografia inserem-no, postam-no como axis do ideal aghartino, ctónico, diáblico e assim mesmo soberano, de maneira que se o vai encontrar idealmente identificado tanto a esse outro São Jorge (patente no tímpano desta igreja, recuando o seu culto aqui a D. João I e sua esposa, D. Filipa de Lencastre, e igualmente no claustro do Convento de Cristo próximo) quanto à enigmática e caprina figura do Baphometh, igualmente exposto em fecho de abóbada no claustro de Santa Bárbara no mesmo convento.

Tímpano medieval no exterior da igreja de S. João Baptista, Tomar.

Tímpano medieval no exterior da igreja de S. João Baptista, Tomar

Tudo aponta o Mestre Gualdim Pais (n. Amares, Braga, 1118 – m. Tomar, 13.10.1195) como o principal consolidador da Milícia de Agnus Castus (Sacerdotes), simultaneamente Domine Canes (Guerreiros), “Cães do Senhor”, ou seja, Guardiões da Fé, que foram os templários em Portugal (e igualmente nas outras Províncias). Em volta do Ideal Templário agregou as três correntes tradicionais do Livro e deu-lhes como que feição dinástica reunidas no culto ao mais santo dos objectos medievais: o Santo Graal, expressivo do Saint Grial ou Sangue Real que, afinal de contas, tanto poderá ser o de Cristo como o de todos os Fundadores da Fé.

Até esse Mestre (nado próximo de Braga, Primaz da Hispânia, e nesta vivido possivelmente em casa localizada na actual Rua de D. Gualdim), a Casa-Mãe da Ordem em Portugal era em Ceras (1159-1160), e antes em Santarém (1147-1159), Soure (1128-1147) e Fonte Arcada (1125-1128). Foi ele que a transferiu ad perpetum para Tomar que, assim, para sempre ficaria ligada ao seu nome.

Gualdim Pais foi eleito Mestre da Província de Portugal no início de 1159, quer pelo Capítulo reunido, quer pela vontade real, sucedendo no Mestrado a D. Fr. Pedro Arnaldo. Isto após ter feito a Guerra Santa no Oriente onde esteve presente no cerco de Ascalon, como testemunha uma lápide com caracteres latinos maiúsculos entrelaçados trazida do Castelo de Almourol e mandada colocar à entrada da capela-mor, por sobre a porta da sacristia velha do Convento de Tomar, pelo Infante D. Henrique quando era administrador da Ordem de Cristo:

“Era de 1209[11]. O Mestre Gualdim certamente de nobre geração natural de Braga, existiu no tempo de Afonso, ilustríssimo Rei de Portugal. Abandonando a milícia secular em breve se elevou como um Astro, porquanto, soldado do Templo, dirigiu-se a Jerusalém onde durante cinco anos levou vida trabalhosa. Com seu Mestre e seus Irmãos, entrou em muitas batalhas, movendo-se contra o rei do Egipto e da Síria como fosse tomada Ascalona, partindo, logo para Antioquia pelejou muitas vezes pela rendição de Sidon. Cinco anos passados, voltou, então, para o Rei que o criara e o fizera. Feito Procurador da Casa do Templo em Portugal, fundou, neste, o castelo de Pombal, Tomar, Zêzere e este que é chamado Almourol, e Idanha e Monsanto.”

Gualdim Pais trouxe consigo do Oriente as ideias religiosas de Bizâncio, inculcadas em muita da monumentalidade que mandou construir e decorar em Portugal, assim como também trouxe a relíquia sacra da mão direita de São Gregório Nanziazeno – que juntamente com São João Evangelista provaram a divindade de Cristo – “que em Tomar se guarda incorrupta, assim como o resto do corpo se guarda em Roma, com igual incorrupção”, segundo Viterbo no seu Elucidário, vol. II, pág. 580. A relíquia já não está na capela de São Gregório que em Tomar se construiu no século XVI, apesar da evocação do santo aqui recuar ao período de Gualdim Pais. De planta octogonal, esse pequeno templo sugere todo ele uma imitação ou réplica da Rotunda dos Templários, inclusive não lhe faltando o busto pequeno do “Ancião dos Dias” ou Adam-Kadmon, o Logos Planetário como Deus da Terra marcando os seus Ciclos ou Dias e do qual Melkitsedek é o mais próximo, algo assim como a Alma para o Espírito. Quanto à capela, apresenta um altar de talha popular ao fundo e azulejos de dois painéis de Setecentos vindos das Trinas de Lisboa; três portas – alusivas às 3 Pessoas da Santíssima Trindade aonde se recolhem as almas dos crentes, e durante largo tempo aqui funcionou como capela mortuária – dão-lhe entrada, com a do meio, rectangular, apresentando um curioso desenho formado por troncos e folhagens que se encontram na verga atados por nós em pedra esculpida, tendo ao centro a pequena e inesperada cabeça de homem barbado, o mesmo Adam-Kadmon como se vê na iconologia cabalística do Judaísmo. A sua cobertura é de abóbada. Um alpendre de oito colunas ligadas duas a duas, deixando três entradas livres, tem quatro águas irregulares, tudo numa feição rústica que vai resistindo ao tempo[12].

Entrada central da capela de S. Gregório, Tomar

Entrada central da capela de S. Gregório, Tomar

A função mortuária da capela de São Gregório (o “gargarejo”, gregório e gregorina como garganta emissora da voz orante cantada) assume assim carácter psicopompo ligado à Mãe das Almas, Nossa Senhora da Piedade, que do seu Monte próximo cola a este sítio por ladeira de degraus empedrados que os romeiros sobem e descem por altura da festa religiosa à Virgem, indo reflectir a subida das almas à Salvação e após encaminhando-se para o lugar do Trono do Padre Eterno, representado pela própria Charola. Com efeito, Manuel Gandra ao inscrever no plano da cidade uma circunferência configura nesta alguns triângulos isósceles, um deles formado nos ângulos por São Gregório, a Sinagoga e a Charola[13]. Isso é muito significativo e não deixa de corroborar o que acabei de dizer da condução das almas por intercessão de São Gregório junto da Senhora da Piedade, que as levará ao Céu do Eterno. A presença da Sinagoga impõe o seu padroeiro, São Miguel, também de carácter psicopompo antecedendo o santo bizantino.

Tendo sucedido ao Mestre D. Pedro Arnaldo que governara até então a Ordem através de um Colégio Magisterial ou Mestral, o novo Mestre D. Gualdim Pais, junto com a edificação da do Castelo de Tomar e da Charola mandou (re)construir a igreja de Santa Maria do Olival, na margem do Rio Nabão oposta ao castelo, obra iniciada em 1160 e terminada em 1175. A Casa Capitular da Ordem teve assento aqui, sendo cenóbio dos monges cavaleiros antes de puderem habitar dentro da cerca fortificada. Entretanto, juntara-se população e Santa Maria do Olival (sendo Orago a Senhora do Leite, a mesma do milagre da lactação de São Bernardo), que certamente se completou com a fachada terminada já em estilo evoluído na segunda metade do século XIII, foi bailio da Ordem e nela se instalou o panteão dos Mestres, cujos túmulos hoje não se vêm todos por causa de destruição perpetrada pelas más obras de «restauro» que lhe infligiu D. João III e o seu prior capataz, Fr. António de Lisboa[14].

De facto, até ao reinado de D. João I a igreja de Santa Maria do Olival foi “corporal” ou panteão dos Mestres do Templo em Portugal, desde D. Gualdim Pais até D. Lourenço Martins. Depois serviu igualmente de “corporal” aos Mestres da Ordem de Cristo, desde D. Gil Martins até D. Lopo Dias de Sousa.

Por causa das obras de demolição havidas no reinado de D. João III, hoje só sobra nesta igreja para memória daqueles Mestres Templários dois epitáfios tumulares, o de D. Gualdim e o de D. Lourenço. A daquele, colocada na capela lateral do lado direito da assembleia, escrita em latim assim se poderá traduzir:

“Morreu Frei Gualdim, Mestre dos Cavaleiros do Templo em Portugal, na era de 1233[15], terceiro dos idos[16] de Outubro. Este castelo de Tomar, como muitos outros, povoou. Descanse em paz. Ámen.”

Inscrição tumular de Gualdim Pais na igreja de Santa Maria do Olival, Tomar

Inscrição tumular de Gualdim Pais na igreja de Santa Maria do Olival, Tomar

A cruz inicial da legenda, a sua grafia, o seu pautado e o seu latim bárbaro dos princípios da Nacionalidade, são provas sobejas dela ser coeva da morte do Mestre, acontecida em 13.10.1195 da era cristã. Na do segundo, lê-se: “Aqui jaz D. Lourenço Martins que foi Mestre do Templo em Portugal. Passou em dia um de Maio da era de 1346 [1308]”[17].

Sobre esse último Mestre, escreveu José Manuel Capêlo[18]: “Renuncia ao Mestrado [em 1293], desgostoso, porventura, por notícias que lhe chegavam da situação por que passava a Ordem no Ultramar, depois da morte do Mestre da Palestina, Guillaume de Beaujeu – aquando da rendição de São João de Acre e da retirada para a ilha de Chipre do que restava da Milícia. Disse a lenda [ou a palavra posterior e demasiado fácil] que teria previsto, depois de tudo isto, a queda da Ordem. Assim, para não passar por vexames, devia evitar estar no seu governo quando tal acontecesse. Passou a simples cavaleiro, mas requereu a Comenda de Santarém”.

As prerrogativas, regalias e usos da igreja da Senhora do Olival, conservadas intactas até D. João II, são referidas por José António dos Santos que dá notícia da grande importância do lugar[19]:

“A egreja de Santa Maria do Olival foi bailia e matriz de todas as egrejas que a ordem de Christo possuia no reino, nas ilhas, em Africa, nas Indias e no Brazil. Gozava das honras de cathedral, e tinha ao seu serviço, como se vê em todas as sés, um masseiro com o bastão ou sceptro, e outros com massas de prata. Era isempta da jurisdicção dos bispos, não reconhecendo superioridade senão ao papa. O seu prelado tinha honras de bispo, celebrava pontifical e gosava de poderes quasi episcopaes na extensa prelazia de Thomar. Era n’esta egreja que as duas ordens do Templo e de Christo celebravam as suas solemnidades, apesar de ficar distante cerca de um kilometro do castello, onde tinham a sua residencia principal e templo com capacidade sufficiente para os mesmos actos.

“Havia n’esta egreja um livro similhante ao de Nôa do convento de Santa Cruz de Coimbra, no qual se iam registando todos os acontecimentos notaveis nao só da ordem e do paiz mas tambem da christandade e do mundo, os obitos dos mestres da ordem e dos soberanos do reino, as victorias alcançadas contra os infieis, o martyrio e canonisação de santos, terramotos, calamidades geraes, etc., constituindo assim interessantissimos annaes. Este livro, que denominam Bezerro, perdeu-se, infelizmente. Talvez que alguem o achasse.”

Se a igreja de Santa Maria do Olival destinava-se originalmente ao culto divino pelos tempreiros (como os consigna Viterbo no seu Elucidário), convém não ignorar que dentro do recinto do castelo, ao sul da alcáçova e não muito distante dela, havia um outro templo da invocação de Santa Catarina, anteriormente de Santa Maria do Castelo, que era destinado aos ofícios das tempreiras. Arruinado desde há longo tempo foi demolido no século XIX o que restava de pé, por ameaçar desabar. Respeitou-se apenas o campanário que, apesar de meio tapado, ainda se eleva acima da muralha.

Campanário da desaparecida igreja de Santa Catarina das templárias do castelo de Tomar

Campanário da desaparecida igreja de Santa Catarina das templárias do castelo de Tomar

É tradição, confirmada por um documento pertencente ao cartório do Convento de Cristo, que houve freiras templárias e tinham o seu convento dentro do Castelo de Tomar anexo à citada igreja de Santa Catarina, tendo uma fidalga de nome Justa, em 1271, lhes doado todas as casas que possuía intramuralhas para as usufruírem para todo o sempre, segundo notícia dada por Frei Bernardo da Costa[20]. Quanto ao documento comprovativo é uma escritura feita a 17 de Maio de 1290, na ocasião em que se celebrava o Capítulo Geral da Ordem do Templo presidido pelo Grão-Mestre D. Afonso Gomes, mandada lavrar por D. Maria (ou Mécia) Peres, senhora ilustríssima que foi mulher de D. Estevão Pires Espinal. Estes cônjuges já nesse tempo estavam separados: ele era freire templário e comendador de Santarém, e ela era freira templária tendo professado a Regra até ao fim dos seus dias.

Sobre o assunto e com muita acuidade, diz José Manuel Capêlo[21]:

“Tem-se, como em tudo o que à Milícia do Templo diz respeito, especulado com a existência de freiras templárias.

“Por vezes nos mesmos recintos, mas em casas separadas, onde viviam os monges-guerreiros, existiram conventos de templárias. Estas que nada tinham de guerreiras [que se saiba], apenas se confinavam à sua condição de monjas. Recebiam, para a Ordem, em seu nome, doações [a mais das vezes daquelas que nela queriam ingressar], bem como senhoras oriundas da alta e média nobreza, que, pelas mais variadas razões, procuravam professar. Ou porque tivessem enviuvado ou porque os respectivos maridos teriam professado no Templo como monges, chegando nalguns casos, como vimos a comendadores.

“A grande maioria, como se deixou dito, eram viúvas e, muito poucas, separadas. Raramente as solteiras pretendiam professar nesta Ordem essencialmente masculina. O rigor eclesiástico e a existência presbiteriana eram ainda maiores que as exercidas em outras congregações de religiosas. Também era raríssimo alguma abandonar, depois de ter, em consciência, professado.

“Em Portugal, os casos mais conhecidos destas figuras históricas, depois da rainha D. Teresa se ter tornado a primeira confrade da Ordem, em 1126, são:

“D. Maria Mendes, no Mestrado de D. Fr. Fernão Dias. Foi mulher de Aires Dias, que igualmente foi recebido como familiar;

“D. Maria Vasques, no Mestrado de D. Fr. Martim Sanches. Não se tem absoluta certeza de que se tenha tornado templária. Foi mulher de Pedro Ferreiro. Ambos requererão, através de doações feitas em nome da Ordem, a protecção desta, não só para si mesmos como para os seus descendentes;

“D. Fruíla Ermiges, no Mestrado de D. Fr. Guilherme Fulcon. Foi mulher de D. Afonso Ermiges, que professara e veio a ser comendador de Castelo Branco;

“D. Sancha Martins, no Mestrado de D. Fr. Martim Martins;

“D. Maria Pires, no Mestrado de D. Fr. Gonçalo Martins;

“D. Mécia [ou Maria] Peres, no Mestrado de D. fr. Afonso Gomes. Quando professou encontrava-se separada de seu marido, D. Estevão Pires Espinal, igualmente templário e comendador de Santarém.

“De que se tenha conhecimento, só em Tomar, no interior do castelo, parece ter existido um mosteiro para freiras templárias. Ao contrário de seus irmãos templários, aquando da extinção da Ordem, as religiosas filiadas no Templo, que viviam em Tomar, não ingressaram na nova Ordem e tiveram que mudar de hábito.”

Apesar de não se terem descoberto provas concretas da existência de mosteiros de templárias fora de Tomar, ainda assim mantém-se a suspeita, isto tanto para os seus territórios de Castelo Branco, como para Monsanto e Idanha-a-Velha e mesmo para Sintra, dentre outros lugares.

Essas monjas realizavam quase sempre trabalhos de hospital, mas algumas vezes dedicavam-se a confeccionar os uniformes dos cavaleiros: mantas, mantos, dalmáticas, etc. (o que era considerado trabalho de pano), e também se dedicavam às actividades de semeadura e colheita nos campos e ao cuidado do gado. Cabia-lhes armazenar todas as colheitas e os produtos lácteos que fabricavam (queijos, etc.) para os enviar aos cavaleiros na Terra Santa. Também lhes cabia a recepção das doações à Ordem, principalmente da parte de outras donatárias ilustres e abastadas, muitas das quais vieram a ingressar na Ordem.

Com efeito, houveram muitos mosteiros de monjas templárias espalhados pela Europa, como aquele que existiu em Combe-aux-Nonnains, na Borgonha, que dependia da Comenda de Épailly. Ainda em França, cito igualmente a filiação de madre Inês, abadessa de Camaldules de Saint-Michael de Ermo, e de toda a sua comunidade, à Ordem dos Templários. De igual modo casos similares em Lyon, Arville, Thor, Metz, etc.

O mesmo ocorreu com Azalais, mulher nobre de Roselon em 1133, que se entregou de corpo e alma a Deus e à Santa Cavalaria de Jerusalém, a do Templo, “para servir a Deus e viver sem bens sob a autoridade do Mestre”. Para isso entregou como esmola o seu feudo de Vilamolaque, com o consentimento dos seus dois filhos: “E que Deus me conduza até à verdadeira penitência e ao seu Santo Paraíso”[22].

Outro caso é o de D. Joana de Chaldefelde, esposa de Ricardo de Chaldefelde de Inglaterra, que entre 1189 e 1193 contraiu votos como irmã do Templo ante Azo, bispo de Wilshire. Este enviou-a com um certificado à Casa do Templo, “tendo em conta que havia superado a idade em que podia levantar suspeitas”. O curioso neste episódio de D. Joana é que ele proporciona um exemplo claro de uma postulante que observa as formalidades da Regra Latina e contrai votos ante o bispo da Diocese, que a envia ao Mestre provida de um certificado[23].

Monja templária em documento inglês da Ordem (fins do século XIII)

Monja templária em documento inglês da Ordem (fins do século XIII)

Volvendo ainda à igreja de Santa Maria do Olival, ou dos Olivais, defronte a ela eleva-se uma torre quadrada sua coeva medieval, depois mandada restaurar por D. João III. Entra-se nela por uma estreita porta ogival onde uma escadaria leva ao topo. A sua finalidade tem sido objecto de controvérsia por parte dos investigadores: para uns, destinava-se a proteger os Templários das razias agarenas, que assim resistiam até vir ajuda do castelo; para outros, seria uma espécie de zigurate caldaico ou observatório astronómico igualmente destinado, em épocas pré-fixadas, à celebração de certos ritos marginais à religião oficial (facto indesmentível é que no seu topo erguem-se dois vasos alquímicos). Poderá ser, tanto que não há memória nem registo de qualquer ataque agareno a Santa Maria do Olival, apesar de estar fora da protecção das muralhas.

Tanto mais que a caneça ou gueto dos cristãos moçárabes aí estaria, fora de portas (sinal de marginalização ante a sociedade religiosa e civil dominante, no caso, a árabe), e há memória de terem havia outras igrejas em volta desta: a de S. Pedro Fins, que se julga ter pertencido ao mosteiro de beneditinos ali existente in illo tempore; a capela de S. Miguel, situada defronte desta igreja; a capela de St.ª Maria Madalena, que se erguia junto à fachada setentrional da igreja de St.ª Maria do Olival. Foram todas destruídas num período prolongando-se desde o reinado de D. Maria I até à reforma de 1840, sendo os seus materiais aplicados na construção dos muros da vedação do cemitério próximo.

Terá sido estreita a relação entre a caneça eclesial e a alfama sinagogal tomarenses, aquela fornecendo a esta os óleos necessários para alimentar as lamparinas da sinagoga, por ser donatária do vasto olival arredor, e esta dando àquela os livros necessários ao entendimento da Fé.

Tem-se assim Luz e Fé, onde o Mikael sinagogal aparelha com a Myriam eclesial nas expressões de igreja celebrante e torre estrelada reflectindo, neste contexto, a Merkabah e a Shekinah, o “Carro da Luz” e a “Torre da Fé”, conceitos judaico-cristãos utilizados para expressar a Divindade no Céu e no Seio da Terra e que, como Homem Cósmico ou Adam-Kadmon, vem a ser assinalada na Estrela de Salomão, ou seja o pentagrama, afinal de contas, decorando a cimalha exterior da cabeceira e da entrada desta igreja “corporal” dos Mestres do Templo. Pentagrama ou pentalfa esse – igualmente esconjurativo das trevas vindo a expressar ao próprio Cristo, adoptado como signa dos primitivos monges-construtores – que viria a servir de logotipo às quinas das Armas de Portugal, aqui mesmo, nesta que foi a matriz ou sede prelatícia de todos os santuários marianos de Portugal Continental e Ultramarino.

Igreja de Santa Maria do Olival e Torre anexa, Tomar

Igreja de Santa Maria do Olival e Torre anexa, Tomar

Tão boa e próxima terá sido a relação entre judeus e cristãos que a mulher de Afonso Lopes Sapaio (ou Sampaio), trovador de origem judaica residente em Tomar, está sepultada nesta igreja de Santa Maria.

A Judiaria de Tomar (que ocupava inteiramente o espaço da Rua Nova, actualmente Joaquim Jacinto) é no mínimo anterior aos primeiros anos do século XIV (como prova a inscrição na lápide funerária do rabi Ioseph de Tomar, falecido em Faro no ano de 1315), e a sua sinagoga, alma do complexo alfamita, deu-lhe real importância no século XV, altura em que foi construída, entre 1430 e 1460, segundo Santos Simões[24], sendo indesmentível o contributo judaico fundamental para o crescimento de Tomar entre os séculos XV e XVI.

Na arquitectura desta Sinagoga de Tomar que conseguiu resistir às vicissitudes do tempo, ainda se vêem nas paredes as doze mísulas que simbolizam as doze tribos de Israel. As quatro colunas representam as quatro matriarcas: Sara, Rebeca, Lea e Raquel, estas duas últimas as gémeas filhas de Labão. É por isso que os capitéis decorados com motivos vegetais são em duas colunas e diferentes nas restantes.

Nada desdiz que moçárabes e judeus fossem coevos e que ambas as comunidades não tenham sido «enquadradas» posteriormente pela Ordem do Templo, simultaneamente «policiando-as» servindo de garante à transmissão do conhecimento de que eram depositárias. A própria disposição geográfica e toponímica do Castelo dos Templários, no cabeço do monte da Mata dos Sete Montes, enquadra-se nessa intenção esotérica: segundo a geografia do Centro Espiritual Supremo, tem sete faces o Monte Meru, a Montanha Primordial (Har-Qadim ou Arcádia), morada da Shekinah, Casa de Deus e Tabernáculo dos seus Anjos[25].

A própria disposição geométrica da sinagoga reflecte a disposição canónica da Casa de Deus, morada dos Justos e Perfeitos. A própria casa árabe, assim como a judaica (as quais a casa saloia da Estremadura tomou como modelo), fora este ou aquele excesso destoante, assentou originalmente sobre a raiz quadrada de dois (√2), portanto, sobre uma planta quadrada, tendo a habitação judaica no seu centro a casa de fora, ou de entrada, por onde se acedia às restantes divisões, enquanto a habitação árabe fechava-se em torno de um claustro quadrado encerrando no seu centro um jardim ou fonte, ou ambos: trata-se de um universo fechado em quatro dimensões (centro, altura, comprimento, largura), cujo jardim central é evocação do Éden, do Paraíso Terreal (presente em todos os espaços ajardinados monásticos com cerca em volta), aberto exclusivamente à influência celeste[26].

Para Abu Ya’qûb, o quaternário era o valor perfeito: o da Inteligência e o do Nome Divino, ALLH. Não há, pois, diferenças marcantes entre o significado atribuído às construções de planta quadrada, no Ocidente e no mundo judaico-islâmico[27].

Imitando o modelo judaico, observa-se que na cidade islâmica o elemento base é a casa, não a rua. A casa, como a mesquita e a madrasa, é um lugar sagrado, como diz acertadamente Hélder Manuel Ribeiro Coutinho[28]. Afirma o Al-Corão, cap. XLIX: “O interior da tua casa é um santuário: os que o violam chamando-te, quando estás nela, faltam ao respeito que devem ao intérprete do céu. Devem esperar que saias de lá: a decência o exige”.

Sendo a casa a imagem do homem, do seu morador e dono, vê-se na Idade Média a combinação das proporções, a unidade da medida ser determinada a partir das dimensões da figura humana, geometricamente representada pelo quadrado, aplicando-se frequentemente na arquitectura do Renascimento, ainda que durante o Gótico já fosse comum para o traçado das catedrais, o uso do sistema de proporções inteiramente derivado do quadrado (ad quadratum). Esta concepção foi traduzida no célebre desenho, o vitruvium de Leonardo da Vinci, onde o Homem, como Microcosmos, aparece inscrito no círculo e no quadrado. A largura dos seus braços estendidos é igual à altura do tronco e pernas unidas, portanto, formando uma cruz (o quaternário) correspondendo à medida do lado do quadrado. Sendo o Homem considerado o centro do Universo, segundo Pico della Mirandola, e elo de ligação entre Deus (o círculo celeste) e o Mundo (o quadrado dos quatro elementos da Natureza), a sua individualidade está impressa na robustez, humilde ou rica, da sua casa, por ela concretizando a quadratura do círculo, problema geométrico «insolúvel» que servia para assinalar a ascese mística como era corrente entre os neoplatónicos, ou seja, aquela permissora da elevação do homem racional à esfera divina.

Sinagoga de Tomar e a sua planta quadrada

Sinagoga de Tomar e a sua planta quadrada

A planta quadrada sinagogal vê-se ainda, de maneira estupenda, na tampa de sepultura de um rabi coevo do Infante Henrique de Sagres, tendo sobre ela o báculo ou ábaco do seu ministério. Essa peça funerária está depositada no pequeno museu de arte sacra de Vila do Bispo, Algarve, tendo sido achada nas suas cercanias, o que comprova ter havido aí presença judaica e possível influência cabalística junto do Ínclito Infante dos Mares.

Para diferenciar a sinagoga da igreja, deu-se vazão no século XIII à tradição do cruzeiro adiante da segunda, mas nem por isso deixando de ser herança judaica da disposição do primitivo Tabernáculo do Deserto e do Templo de Salomão, pois onde ele está estariam idealmente o Altar das Oferendas no centro do adro defronte ao Tabernáculo, e o Mar de Bronze dos Sacrifícios no Templo salomónico.

Isso porque as medidas geométricas do Templo cristão são as mesmas canónicas herdadas por via bíblica do antigo Templo judaico. Ademais, em matéria de Tradição Espiritual nada é feito ao acaso: o Conhecimento é transferido dos Anciãos (Profetas) aos Novos (Apóstolos) por herança regular, sem desvios de espécie alguma, e só os transvios poderão ocorrer após a transmissão, mas desta nunca há desvio.

Não devo terminar sem referir a maior herança etnográfica judaico-cristã sobrevivendo até hoje e exclusiva de Tomar: a Festa da Romaria dos Tabuleiros.

Sendo festejo consagrado ao Divino Espírito Santo mas em versão diferente da tradicional de Alenquer e Sintra, terá sido na Idade Média que os templários cristianizaram esta celebração popular genuinamente judaica da Festa dos Tabernáculos, sobrepondo-lhe o ideal messiânico (Joaquimita) da Igreja do Amor, pelo que se vê no topo de cada tabuleiro a coroa do Espírito Santo encimada pelo ícone da pomba, ou então a Cruz Salvífica de Cristo, sendo aí mesmo lugar o lugar cimeiro ou majestático da Shekinah, a “Presença Real de Deus”. Os pães de 400 gramas cada, tipo “tabuleiros”, alongados e roliços com cintura, são enfiados em grupos de seis em cinco canas ou varas, ao todo 30, cujos cestos só podem ser transportados à cabeça por mulheres, apoiadas pelos seus pares masculinos, tal qual os de Proposição que as mulheres de Israel acompanhadas dos maridos levavam ao Templo de Jerusalém, pela Festa do Tabernáculo na Primavera, e as flores que os decoram serão as da germinação de um novo ciclo de prosperidade o qual, para o conceito de Parúsia dos templários, certamente seria sinal mais amplo da futura Idade do Espírito Santo.

Bandeira do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar

Bandeira do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar

O grande cortejo dos Tabuleiros (festa que se realiza a 4 de Julho em cada 4 anos) onde fiadas de casais desfilam pelas ruas de Tomar, é seguido dos carros triunfais com a carne, o pão e o vinho (que no dia seguinte são distribuídos pelos necessitados do concelho, acto semelhante ao bodo mas aqui chamado pêza), os quais são puxados por bois de cornos dourados e fitas pendentes – os bois do Espírito Santo.

De maneira que sendo o pão e o vinho generosamente distribuídos na eucaristia dos pobres, tal acto recorda-me aquelas outras palavras de São Clemente de Alexandria: “Bem-aventurados aqueles que alimentam os que têm fome de justiça pela distribuição do Pão”. Ora os Pães de Proposição dos hebreus também não tinham significado diferente desse. E o pão ázimo – de que hoje se compõe a hóstia – “representa ao mesmo tempo a aflição da privação, a preparação para a purificação e a memória das origens”, diz São Martinho.

É tradição que Beith-El, a “Casa de Deus”, que é Lusa, a “pedra de cabeceira” erguida por Jacob, se tenha transformado em Beth-Lhem, a “Casa do Pão”. A pedra se transforma em pão, ou seja, a presença simbólica de Deus se converte em presença substancial, em alimento espiritual impondo-se ao inteiramente corporal. O pão, ainda, nas vivências eucarísticas relaciona-se tradicionalmente com a vida activa, claustral, e o vinho com a vida contemplativa, clausural; o pão com os Pequenos Mistérios, e o vinho com os Grandes Mistérios, a catequese e a teologia. Isso  aproxima-se do que dizem os Evangelhos acerca do milagre dos pães (a sua multiplicação), sendo esse de ordem quantitativa, e do milagre do vinho (nas bodas de Caná), que é de ordem qualitativa.

O simbolismo do fermento exprime-se, nos textos evangélicos, sob dois aspectos: de um lado, ele é o princípio activo da panificação – símbolo de transformação espiritual; a sua ausência comporta, por outro lado, e aqui volta-se ao significado do pão ázimo, a noção de pureza e sacrifício.

Também se distribui a carne, e nisto entra o simbolismo do boi, ou melhor, do touro de chifes dourados e enfeitado por fitas coloridas. Símbolo da Força Criadora da Mãe-Terra, o touro representou o Deus El da Israel do Deserto, sob a forma de uma estatueta destinada a ser presa à extremidade de um bastão ou de uma haste: uma insígnia portátil, semelhante à do Bezerro de Ouro. O culto de El, praticado pelos patriarcas hebreus, foi proscrito por Moisés, ainda que tenha subsistido até ao reinado de David. Já no Templo de Salomão (I Reis, 7: 25), doze touros carregavam o Mar de Bronze destinado a conter a água lustral: “Este repousava sobre doze bois, dos quais três olhavam para o norte, três para o oeste, três para o sul e três para o leste; o Mar se elevava sobre eles e a parte posterior dos seus corpos estava voltada para o interior”.

De modo que se está perante um festejo de raízes judaicas mas já aqui cristianizadas, e ao mesmo tempo, por via do seu carácter agrário ou campesino, com sabor céltico, o que vai bem com a herança sociológica medieval da cultura rural pelos templários. Nisto, o touro El hebreu seria o cornúpeto Lug céltico, logo aproveitado para montada «bafomética» do Espírito Santo na forma de Shekinah encoberta no Centro da Terra, ou seja, em seu Sanctum Sanctorum.

Touros do Divino Espírito Santo, na Festa dos Tabuleiros de Tomar

Touros do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar

Por isso, ainda hoje a Romaria dos Tabuleiros faz-se na parte baixa da cidade, desde a igreja de São João Baptista e indo atravessar a ponte sobre o Nabão em direcção a Santa Maria do Olival, cujo Leite dá a beber, idealmente, aos filhos da Sua devoção. Filhos esses que são conduzidos a Ela pelos próprios templários, os cavaleiros de manto branco sobreposto pela cruz vermelha, afinal as cores daqueles devotos carregando hoje os tabuleiros quais assacis modernos: nelas a faixa vermelha perpendicularmente sobre longo vestido branco, e neles a gravata vermelha sobre camisa branca e calças pretas.

O Tabernáculo era a parte mais reservada e sagrada do Templo de Salomão (algo semelhante à Custódia no altar-mor da igreja), por nele se conter a Arca da Aliança. Representava o macrocosmo universal sintetizado, contido no microcosmo humano: era a “Morada de Deus” (Êxodo, 26:11), pelo que “o mundo inteiro está descrito no sinal sagrado do Tabernáculo”, segundo São Jerónimo, Epístola 64 para Fabíola. No Altar de Proposição ou de Oferendas do Templo de Salomão haviam doze pães (representativos das doze tribos de Israel, auspiciadas pelos doze signos do Zodíaco) que, como alimento místico, assinalavam a Sabedoria a qual, a par do néctar ou seiva vital da Mãe da Criação, associa-se ao Amor, logo, Panis Vitae alimentando as mentes e os corações dos justos e perfeitos, cada par carregando o seu tabuleiro florido como se fosse uma coluna de luz da Jerusalém Celeste que, nesta Festa tomarense, por momentos é testemunhada na Terra.

Romaria da Festa dos Tabuleiros, Tomar

Romaria da Festa dos Tabuleiros, Tomar

Assim cada romeiro(a) transforma-se tanto em arauto como em pontífice ou medianeiro do Céu com a Terra, carregando o pão espiritual alimento de toda a Humanidade para que, enfim, possa se consumar a suprema Eucaristia Mental e Coracional de Deus com o Homem e a Nova Idade de Promissão floresça finalmente em todo o Orbe, que não é tão-só a Lusitânia mas toda a Terra em Luz.

Essa é a maior mensagem da Festa dos Tabuleiros. Realizá-la, depende de um e de todos.

NOTAS

[1] Os Dez Mandamentos cristãos provêm do Kodesh hebraico. O “primeiro mandamento” é o do Deuteronómio, 6: 4-5 (cf. também Marcos, 12: 29-32), e o “segundo mandamento”, igual ao primeiro, decorre do Levítico, 19:18: “Tu amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Eterno”.

[2] Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2006.

[3] John R. Hinells, Dicionário das Religiões. Editora Cultrix, São Paulo, 1995.

[4] Rafael Alarcón, La otra España del Temple. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[5] Maurice Guinguand e Beatrice Lanne, O Ouro dos Templários (Gisors ou Tomar?). Livraria Bertrand, Lisboa, 1978.

[6] R. Röhricht, Regesta Regni Hierosolymitani. Innsbrück, 1839, p. 19 doc. n.º 83, e p. 25 doc. n.º 105.

[7] Pedro de Mariz, Diálogos de Vária História dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderam achar. Lisboa, por António Craesbeek de Mello, impressor da Casa Real, ano 1672.

[8] Vieira Guimarães, Thomar, Santa Iria. Lisboa, 1927. E ainda, segundo Manuel Gandra, Pedro Álvares, Escrituras da Ordem de Cristo, in Arquivo Nacional da Torre do Tombo, gaveta 15, maço 3, n.º 15; Mestrados, fl. 93v.

[9] J. Michelet, Procès des Templiers (Collection des Documents inédits sur l´Histoire de France). Paris, 1841-1851.

[10] Manuel J. Gandra, Martinets de Pasquallys e a Tradição Quinto-Imperial. Lisboa, 1979.

[11] Ano 1171, da era de Cristo.

[12] José-Augusto França, Tomar. Editorial Presença, Lisboa, 1994.

[13] Manuel J. Gandra, O Projecto Templário e o Evangelho Português. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda., Lisboa, Março 2006.

[14] Monumentos de Portugal, Thomar. Litografia Nacional, Porto, 1929.

[15] 1195 d. C.

[16] Terceiro dos idos, o mesmo que treze.

[17] Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, A Igreja de Santa Maria dos Olivais, n.º 27, Março de 1942.

[18] José Manuel Câpelo, Portugal Templário. Relação e sucessão dos seus Mestres [1124-1314]. Aríon Publicações, Lda., Lisboa, 2003.

[19] José António dos Santos, Monumentos das Ordens Militares do Templo e de Christo em Thomar. Typografia da Bibliotheca Universal, Lisboa, 1879.

[20] Frei Bernardo da Costa, História da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo. Officina de Pedro Ginioux, Coimbra, 1771.

[21] José Manuel Capêlo, ob. cit., pp. 205-206.

[22] Gigues Alexis Marie Joseph André, Marquis d´Albon (1866-1912), Cartulário geral da Ordem do Templo, 1119? – 1193, carta n.º LXVIII – 1150. Deste Cartulário do Marquês foi feita depois a recolha e inventariado das suas cartas por Emmanuel de Grasset, tendo cabido o reportório dos registos e dos papéis a Joseph Billioud, investigadores ao serviço do Arquivo Departamental da Câmara Municipal de Marselha, 1966.

[23] Beatrice A. Lees, Records of the Templars in England in de twelfth century: the inquest of 1185. Munchen, Kraus Reprint, 1981.

[24] J. M. Santos Simões, Tomar e a sua Judiaria. Edição do Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto, Tomar, 1943.

[25] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal. Lisboa, 1986.

[26] Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. Paris, 1906.

[27] Jaime Manuel Sousa, Arquitectura Alentejana: o Quadrado. In “O Estudo da História”, Boletim dos Sócios da Associação de Professores de História, n.º 5-6 (II Série), 1988.

[28] Hélder Manuel Ribeiro Coutinho, Al-Usbuna – a Lisboa Muçulmana. In revista “História”, n.º 96, Outubro de 1986.

Sintra e os Mundos Subterrâneos – Conferência pública de Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Apr 22 2016 

12928168_842314685873418_3794491292588342019_n[1]

O autor anónimo desse poema sintrão é João da Cruz, frade jerónimo do Convento de Nossa Senhora da Pena de Sintra, segundo indicação de João Rodil que foi quem descobriu essa obra perdida num alfarrabista de Lisboa e a deu à estampa em 1993, na mesma vila de Sintra, acrescida de esboço analítico-descritivo, transliteração e notas da sua autoria.

Abri esta intervenção com excerto desse poema por entender enquadrar-se e justificar quanto se segue empós. Antes de tudo, o texto relaciona Leo ou Leão à Cristandade, isto por Cristo ser o “Leão de David”, que é dizer, descendente dessa Casa Real de Israel, esta com o Judaísmo representado por Áries ou o Cordeiro (Pascal), enquanto o Islão fica assinalado em Taurus ou o Touro simbólico da força viril do Corão de Mahometh.

De certa maneira isso vem ao encontro do tema translatio imperii onde o Sol inclinou sobre os 7 Montes de Jerusalém no Ciclo do Carneiro, depois sobre os 7 Montes de Roma no Ciclo de Peixes e agora desloca-se para incidir sobre os 7 Montes de Lisboa no Ciclo do Aquário, Lisboa tendo por alter-ego a norte essa serra mais ocidental da Europa que as brumas do mistério trazem em enigma velho de séculos feitos milénios, Sintra. Berçário espiritual de Portugal – ficando o político para Guimarães – mesmo antes de o ser, aquando, como disse João Rodil, o misterioso povo antediluviano Tuatha de Danann (ou Duat de Ananda…), ramificado em Oestrymnico (donde Estremadura) e Ophiussa (cultor da Serpente que com o passar do tempo se transformaria no Dragão dos Lusos), na realidade sendo a primitiva nação Ghaedil ou Kurat assinalada no Leabhar Gabhala, o “Livro das Invasões” dos celtas hibérnicos desde o ano 1000 a. C. descendentes dos ibéricos, dizia, aquando esse misterioso povo antediluviano mergulhou no seio da Terra nesta mesma serra e desapareceu para sempre.

Na certeza de que o chamado “Maciço Eruptivo de Sintra” originou-se há cerca de 800 milhões de anos e irrompeu à superfície há perto de 30 milhões de anos, associado ao processo da abertura do Oceano Atlântico (já de si relacionado ao mito universal do Dilúvio descrito nas tradições e escrituras sagradas dos vários povos do Oriente e do Ocidente), tem-se nesta serra o extinto vulcão a cujo cone interior teriam acedido esses povos proto-históricos e nele se fixado. Nisto assenta o conceito esotérico de Humanidade intraterrestre de Sintra, ideia pouco e mal explorada por hodiernos grupos ou entidades singulares acorrendo ao lugar sempre perseguindo as ideias que a Teurgia/Teosofia propositadamente tem deixado resvalar ao exterior. Grupos e entidades ainda assim em número ínfimo, por o tema revestir-se de secreto e enigma postando-se nos antípodas dessa outra teoria “extraterrestre”, bem mais popular e de fácil assimilação pela inteligência emocional característica do fenómeno urbano “new âge”, curioso dos mistérios inexplicáveis raramente ultrapassando o estado onírico, psíquico, onde o espantoso da imagem vale mais que o transcendente da ideia, sobretudo quando ela se revela de índole doutrinária com ordem como parede e com regra como cimento, por norma de imediato escusada sob a alegação de inibição dos sentidos e da liberdade individual, preterindo aquela e preferindo o que realmente revela-se extravagância e dispersão em desregro e desordem. Liberdade e libertinismo são preceitos hoje confusamente misturados apesar de distintos. Mas deixe-se ao Tempo o tempo necessário à experiência e amadurecimento da consciência, pois é assim que se desenvolve a Lei da Evolução de um e de todos. Sim, porque todos nascem iguais em princípio e todos crescem desiguais em consciência. Por isto, ninguém é absolutamente igual a alguém, as experiências de vida são tão numerosas e variadas quanto diversa é a Humanidade.

Cheguemos ao século VIII-IX d. C. e à invasão da Península Ibérica pelos árabes chefiados por Tarik, atravessando o Estreito de Gibraltar para logo fundarem o Gharb e o Chark, a Ibéria Ocidental e Oriental. Pelo Gharb subiram até ao centro do que é hoje Portugal e instalaram-se na Serra de Sintra a quem chamaram Al-Shantara (depois Xentra, Xintria, Cintria, Cyntia e Sintra). Quando aqui chegaram já havia comunidade judaica, sefardita, instalada no que é hoje a Vila Velha, e também cristãos logo convertidos em moçárabes ou sob regime árabe. Todos se irmanaram, todos eram monoteístas e descendentes do tronco único de Abraham. A tomada de Sintra fez-se pacificamente, nada havia a guerrear, nem podia haver guerra porque sangue humano não pode correr em terra sagrada sob risco de corrupção fatal. Assim a consideravam os mauritanos ou mouros recém-chegados, por certo os mais ilustrados sabedores das tradições antigas respeitantes ao povo desaparecido nas entranhas desta serra, ademais tomando-a por Qtûb ou Pólo Espiritual dos sete que tem o Mundo, tanto valendo por Chakra na cultura religiosa hindu, com o significado de “centro bioenergético”, à letra, “roda”.

É assim que seguindo a transcrição geográfica do geógrafo andaluz Al-Údri (Dalías, 1003 – Almeria, 1085), o também geógrafo, astrónomo e cronista Abu Ibne Mahmud Al-Qazwini (1203-1283), árabe possivelmente de descendência persa, na sua Ajâ´ib al-Buldân, “Maravilhas dos Países”, descreve a costa do mar de Sintra e fala das suas cavernas maravilhosas onde habitam os Djins aonde vão os crentes, tanto corporalmente como espiritualmente, tanto por méritos conquistados em vida como por méritos desfrutados pós-morte. Dispõe aí o Éden, o Paraíso Terreal, o Monte Meru ou a Montanha Kâf expressiva do Áxis-Mundi como Qtûb do mesmo, Tubo Cósmico que liga a Terra ao Céu e ao Inferior Lugar dos Deuses, verdadeiro Locus Amoenus ou Arcádia dos Eleitos. “Tubo Cósmico” esse assinalado na coluna central da igreja votiva de Janas, próxima de São Lourenço das Azenhas do Mar, estabelecendo a ligação entre a assembleia redonda dos fiéis, o céu de Sintra e a cripta cemiterial abaixo, marcando o pouso subterrâneo para onde vão as almas dos justos.

Kâf, a Montanha Primordial na Geografia de Al-Qazwini

Falei em Djins, convirá explicar o que sejam na cultura religiosa pré-islâmica e islâmica. Indicam os Génios, Jins ou Jinas indicativos tanto das forças vivas da Natureza (elementais), com isso podendo ser benévolos, virtuosos e protectores, como igualmente malévolos e tentadores, dependendo da sua condição natural na escala evolutiva por maior aproximação ao estado angélico puro ou por proximidade à condição humana comum e imperfeita, a quem imitam e influenciam-se reciprocamente como, repito, forças vivas mas cegas ou inconscientes, primárias, da mesma Natureza. Mas há também outro significado mais afim à condição jina de Sintra, atendendo desde logo ao sentido filológico árabe de Djin, “aquele que não se pode ver”, isto é, está ocultado, encoberto no seio da Terra, desde logo remetendo para a ideia do Adepto Perfeito, Génio ou Jina que desde os alvores do Tempo guia secretamente a Humanidade postando-se entre esta e o Mundo Espiritual. É o Jina Superior para o outro estado de Jina Inferior, pelo qual opera como Marid ou Maridj, em português Mariz, classificado no Islão como da classe mais poderosa de Djins a que os Vedas classificam de Mahatmas, “Grandes Almas”, o “Génio Solar sobre-humano”, Tachu ou Traichu, familiar do sânscrito Tirtânkara (de que se serviu a Igreja para criar o seu Colégio de Cardeais), cujos poderes psicomentais fazem com que os Maruts ou Marutas, as “forças vivas da Natureza”, obedeçam inteiramente à sua poderosa vontade.

O Anjo e o Jina na Geografia de Al-Qazwini

Maridj, Marid, Maru, Mauro, Morya ou Mouro, diz a Tradição Iniciática das Idades, veio a constituir a poderosa Linha de 111 Adeptos Independentes que desde o seio da Serra de Sintra (Al-Shantara) vibrou intensamente sobre a Humanidade em prol da sua evolução e, particularmente no que aos portugueses se refere, influindo na formação da Nacionalidade e até mesmo na diáspora nacional, sobretudo no período dos Descobertas Marítimas, episódios figurando na chamada História Secreta de Portugal.

A procura da absorção transcendente no Seio da Mãe-Terra (Mater-Rhea, Matéria), levou muitos místicos árabes a iniciarem vivência anacorética em Al-Shantara, como o pastoril Ibne Mucane Alisbune, de Alcabideche (séculos X-XI), ou o santão Becre Ibne David Al-Xintari (“de Sintra”), coevo do Conde D. Henrique, peregrino, eremita, pregador, poeta e asceta da Serra da Lua, tendo pregado uma religião onde Islamismo, Cristianismo e Judaísmo se acordavam harmoniosamente. Quando em 1147 D. Afonso Henriques e a Ordem dos Templários chefiados por D. Gualdim Pais ocuparam pacificamente Sintra, encontraram nela todas as condições para se estabelecer um Feudo de Amor onde três raças e respectivas três religiões conviveram harmoniosamente durante séculos. Tudo isso contribuiu para aumentar ainda mais a aura sagrada da serra e propagá-la ao restante país e aos povos distantes tanto da Europa Central e do Norte como do Magreb, fama depois alcançando a Ásia e o Novo Mundo, a América, sobretudo o Brasil, em cuja cidade de São Paulo não falta o topónimo Nova Cintra, hoje freguesia do Espírito Santo.

Essa vivência anacorética procurando o estado Jina por entre as penhas e grutas de Al-Shantara, influenciaria também a místicos judeus e cristãos deste lugar serrano. Talvez o exemplo mais notável de asceta judeu tenha sido Bernardim Ribeiro (1482-1552), o autor da obra pastoril Menina e Moça que viveu recolhido no Castelo dos Mouros durante algum tempo. Outro exemplo notável de vida ascética em celas escavadas na rocha pura foi a dos Capuchos do Convento de Santa Cruz, no século XVI, havendo ainda notícia de cristãos eremitas em São Saturnino, próximo de Almoçageme ou Al-Mesjid, “a Mesquita”, possível alusão à Azóia mesquital vizinha do Cabo da Roca ou Capum Serpens, ponto mais ocidental da Europa onde a mesma acaba… ou começa, assim dispondo Sintra como a serra mais ocidental do continente, ela mesma direcionada de Este a Oeste, neste país sob a égide de Peixes onde o Sagitário domina sobre toda a Península Ibérica ou Terra de Sepharad, literalmente “coelho”, totem tradicional da Sintra atlante e animal lunar representativo do Mundo Subterrâneo. Donde o dito dos hermetistas andaluzes: Conejo, conejo, contigo al Infierno yo desço.

O Sagitário e o Peixe-Caprino (figurino do Makara) na Geografia de Al-Qazwini

Esse ditado vai ao encontro daquela outra Visita Interiora Terris Rectificando Invenius Occultum Lapidem (“Visita o Interior da Terra, rectificando descobrirás a Pedra Oculta”), que até hoje a Maçonaria Especulativa utiliza na sua Câmara de Reflexão a qual não significa tão-somente o estado psicológico da condição pessoal, mas sobretudo, passando do simbólico ao efectivo ou real, o estado de mergulho interior no Ser individual (transformar a “pedra bruta” em “pedra polida”) para efectivamente poder descer ao Seio da Terra, rectificado, alinhado ou integrado, indo assim encontrar a Pedra Filosofal, sinónima de Iluminação Espiritual e o que os Iniciados chamam de Luz de Chaitânia. Era isto que os místicos da Serra de Sintra demandavam no bojo de seu seio. Muitos terão encontrado, como também muitos maçons terão descoberto sobretudo quando a palavra de passe na sua Ordem era V.I.T.R.I.O.L., ou então Heinrich na Maçonaria do Arco Real alemã do século XVIII, que é dizer, Henrique, Allah-Rishi, El-Rike. Com isto, ainda aqui, é bom que se saiba, que tal como num Templo de Iniciação também nenhuma Embocadura abre por fora, só de dentro para fora, donde resulta que todo o esforço corporal ausente de noção espiritual, como seja pretender entender e abarcar o espaço sagrado por padrão profano, redunda sempre em fracasso, inevitável desfecho inglório da vã ilusão dos sentidos.

Ademais, a verdadeira Realização Interior alcança-se por esforços próprios, porque realmente ninguém pode evoluir por alguém, quanto muito só aconselhar se predicados e experiência prudente tiver para tanto. Prudência para evitar danos graves ao afirmar que a Evolução é geradora de causas produzidas na Face da Terra e que só na mesma se evolui como Teatro da Vida, pois nos Mundos Internos dos Deuses apenas se usufrui os efeitos benéficos dessas mesmas causas. Com tudo, rareará sempre nos caminhos de demanda aquele(a) que consegue chegar ao fim da jornada fiel à Lei que a tudo e a todos rege, e vitorioso penetrar em seu Reino Interno penetrando em consonância no Mundo Interno da Mãe-Terra que é o Corpo do Logos Planetário de quem somos “células”, vendo finalmente realizarem-se as palavras intuídas do poeta Joaquim Nunes Claro (Lisboa, 20.4.1878 – Sintra, 4.5.1949):

Quem quer que sejas tu que neste abrigo

Vieste em hora mansa hoje parar,

Feliz, vens encontrar aqui contigo

Os tesouros que andaste a procurar.

Posto isso e no seguimento das descrições ctónicas de Sintra pelos sábios árabes, no século XVIII e ao serviço do rei D. João V de Portugal, o botânico suíço Charles-Fréderic de Merveilleux descreve as grutas encantadas de Sintra guardadas por génios temíveis, afirmando mesmo ter penetrado nesse Mundo Subterrâneo nas suas Memórias Instrutivas de Portugal (1723-1726), rematando em dada passagem dessa obra: “Enquanto estive na Serra de Sintra cheguei à conclusão que esta serra é constituída de uma maneira muito particular e a tal ponto que julgo não haver outra assim em todo o mundo. Neste país (reino de Portugal) tudo é mistério, sortilégio e magia”.

No dealbar do século XX a fácies oculta de Sintra relativa ao Mundo Subterrâneo seria divulgada com imparidade única pela pessoa singular do Professor Henrique José de Souza (São Salvador da Bahia, 15.10.1883 – São Paulo, 9.10.1963), brasileiro de ascendência portuguesa fundador da Sociedade Teosófica Brasileira em 1928. Tendo conhecido de perto Portugal, sobretudo Lisboa e Sintra onde esteve em 1899, Henrique José de Souza dedicaria a esta Serra Sagrada páginas brilhantes com conteúdos inéditos nunca antes falados que deixaria à posteridade tanto em números avulsos da revista Dhâranâ, órgão oficial da S.T.B., como em escritos privados aos seus condiscípulos, as chamadas Cartas-Revelações. O Professor indicaria mesmo a Serra de Sintra como localização geográfica de um dos Chakras Planetários de maior importância na Evolução actual do Mundo, como seja o quinto relacionado à Laringe (Chakra Vishuda), âmbula do Verbo Divino por onde escoa o Fogo do Espírito Santo, que é dizer, Kundalini como Força Criadora da Idade Futura do Género Humano, o consignado Quinto Império da Humanidade corresponde à Realização de Deus, esta a quinta linha da Ode ao Som ou Odissonai, cuja cenografia de teatro ritualizado foi revelada pelo mesmo Mestre Vivo, como assim o reconhecem Teúrgicos e Teósofos.

Segundo a tese teosófica de Henrique José de Souza, a Terra reparte-se interiormente em vários espaços distintos constituindo mundos diversos afins aos vários estados de consciência e matéria, como sejam: Face da Terra para o estado sólido; Mundo de Badagas para o estado etérico; Mundo de Duat para o estado astral; Mundo de Agharta para o estado mental; Shamballah, Núcleo Interno do Globo como capital ou centro desse último Mundo, para o estado espiritual tripartido em flogístico, etérico e atómico. Cada um desses Mundos, por sua vez, reparte-se em sete estados chamados lokas, indo constituir núcleos distintos que, de modo simplificado, identificam-se como “sete cidades aghartinas, sete cidades duats, sete cidades badagas, também chamadas sedotes, jinas ou do submundo”, finalmente expressas em sete lugares distintos de um espaço único sobre a Terra por onde as energias internas irradiam, sendo uma espécie de sub-chakras de um Chakra como oitavo, o que constitui um Sistema Geográfico símile planetário de um Sistema Solar onde o Sol tem em seu redor sete Planetas principais. Cada um manifesta um estado de consciência empático a um estado de matéria, indo o Oitavo representar a própria Divindade Uno-Trina. Por esta razão o Professor Henrique José de Souza estabeleceu a seguinte analogia: “Sintra é como uma serpente de sete cores afins a sete substâncias”, como sejam os sete elementos naturais chamados tatvas: atómico, subatómico, etérico, aéreo, ígneo, aquoso e terrígeno. Por tudo isto, desde 1978-1984 dei como constituindo o Sistema Geográfico de Sintra os seguintes lugares da Serra Sagrada: 1.º Castelo dos Mouros – Sol; 2.º Santa Eufémia – Lua; 3.º São Martinho – Marte; 4.º Seteais – Mercúrio; 5.º Parque da Pena – Júpiter; 6.º Lagoa Azul – Vénus; 7.º São Saturnino – Saturno; 8.º Quinta da Trindade – Sol Oculto. É nos Sistemas Geográficos que a Evolução se processa com maior desenrolo e a Divindade se faz sentir com maior intensidade, tudo em conformidade ao trajecto peregrino da Mónada evoluinte de Oriente a Ocidente, o tradicionalmente chamado Itinerário de Io.

O Sistema Geográfico de Sintra estava assinalado na estrela de sete pontas que ornava a imagem da Virgem do Ó na Quinta da Trindade, e nas estrelas de pontas, encerrando as letras do nome de Maria, no frontal do altar de Nossa Senhora da Peninha. Foi aqui, faz anos, que um dia o guarda do eremitério da Peninha me desferiu no rosto o flagrante: “Sabe que há vida abaixo destas pedras?” Ou então o que “frei” Gaspar, antigo guarda do Convento dos Capuchos, desassombrado contava: “Às vezes saio daqui por uma caverna e vou pescar no mar”… que fica distante uns bons pares de quilómetros. Histórias, mil histórias tão assombrosas ou mais que essas vim ouvindo ao longo dos anos de gente vivendo próxima do Pouso dos Deuses, pessoas algumas já partidas desta vida e que mais me pareciam Gentes del Outro Mundo, citando Mário Roso de Luna, outro iluminado embevecido pelos mistérios de Sintra.

Para desfechar esta dissertação já longa, respigo alguns excertos soltos de Cartas-Revelações do Professor Henrique José de Souza referentes a Portugal e sobretudo a Sintra.

Diz na Carta-Revelação de 7.7.1941: “Sublime homenagem prestada ao Posto Português, em verdade, o de maior Irradiação por alcançar toda a Europa”.

Adiantando na Carta-Revelação de 28.04.1958: “… Muito antes já se tinha revelado que a Serra de Sintra também é formada de sete substâncias. Lá nasceu a Obra, no Avatara de 1800. Lá esta mesma Obra se ocultou em seu seio, velada por Dois Kumaras, enquanto outros Dois acompanhavam as duas cigarras que ficaram, naquele túmulo frio e pétreo, como o maior e mais digno de todos os Túmulos. Portugal, tu és a origem da Raça Brasileira. E esta formada por sete elos raciais, que tu guardavas também no teu régio arquivo, como provam as tuas ruínas, a profecia da Serra de Sintra.”

E finalmente na Carta-Revelação de 3.05.1958: “O Quinto Sistema naquele lugar, isto é, em Portugal, na Serra de Sintra, onde a sibila estampou o mistério do Futuro… o mistério do Quinto Império, também cantado pelo poeta lusitano que fala de um só Altar, de um só Cálice de Ouro que haverá de luzir. Portugal, Arquivo das Raças de Elite, principalmente greco-romanas, não podias deixar de ser o Quinto Sistema. Não esquecer que o Manu Ur-Gardan, que trouxe o seu povo da “Terra (celta) do Fogo”, veio ter a Portugal ou Porto Galo, dando como capital de toda essa região Ulissipa, como feminino de Ulisses, o grande herói de Tróia, donde procede o mistério do Odissonai, que é a origem de todas as Odes, de todos os Psalmos, Cânticos, etc.”.

Resta terminar dizendo que essas e outras informações detalhadas pertinentes ao tema em questão constam do meu livro Portugal – Dimensão Oculta (Luz do Grande Ocidente), dado à estampa pela Chiado Editora nesta cidade de Lisboa em 2015 e agora apresentado ao público geral.

Por fim, reitero que o mistério da descoberta espiritual de si mesmo pode conduzir à revelação do seio da Mãe-Terra que, no particular Luso, centra-se em Sintra, já de si assinalada em sua condição feminina pela Lua por onde se esprai o fulgor de Vénus, a Stella Maris, igualmente sinalética estelar da Ordem Maior Soberana da Portugalidade no Mundo desde esta mesma Serra Sagrada: Mariz.

Tenho dito. Muito obrigado pela vossa atenção.

A Mensagem Lusófica em “Os Lusíadas” – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Apr 12 2016 

Camões - cabeçalho

Inicio este estudo com a dedicatória ao “príncipe dos poetas portugueses”, Luís de Camões, o épico de nossa História Literária e precursor da bandárrica Sebástica Messiânica ou Sephardim de Gonçalo Anes, o Bandarra, do Padre António Vieira, de Guerra Junqueiro, de Sampaio Bruno, de António Sérgio, de Fernando Pessoa, de Agostinho da Silva, de António Telmo, de Pinharanda Gomes e de tantos outros mais excelentes na Mítica da Nacionalidade e na Mística do Marear Português, do pressentir ou augúrio do Futuro de Portugal nas Primícias do Mundo.

Luís Vaz de Camões terá nascido cerca de 23 de Janeiro de 1524/1525 possivelmente em Lisboa[1], filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá e Macedo, vindo a falecer na mesma capital portuguesa em 10 de Junho de 1580. Quatrocentos e alguns anos após a sua partida deste mundo, tem-se ainda estar por descobrir o enigma profundo por detrás do homem, do académico coimbrão, do poeta e filósofo de Os Lusíadas e de tantos outros sonetos e rimas de primor maneirista, do aventureiro de capa e espada nos exílios de África, da Índia e de Macau, do romântico apaixonado em amores perdidos nas paixões fugazes da vida…

Mais que todas essas facetas da sua vida terrena ou corporal, Camões é sobretudo o cantor alumiado pelo génio da Pátria bafejada pelos Deuses que na mesma tomam forma humana como Filhos da Luz, os Lusos da progénie de Luso filho de Baco, o Deus da Sabedoria, e o fez transformando a mitologia dos clássicos em Mítica Nacional a que deu o nome épico de Os Lusíadas, assim mesmo dispondo no poema imortal a Lusofia como Sabedoria Lusa, destinada a tornar-se a “bíblia” da Lusofonia no Mundo. Com isso, Camões é mais que tudo o Homem-Representativo do Espírito Português, também ele ambicionando o desejado Quinto Império da Humanidade quando do mais fundo do seu íntimo arremeda estas palavras aos homens: “… Não temais perigo algum nos vossos Lusitanos… que vejais esquecerem-se Gregos e Romanos, pelos ilustres feitos que esta gente há-de fazer…” (Os Lusíadas, II, 44).

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Para escapar aos juízos implacáveis da Inquisição na pessoa do censor frei Bartolomeu Ferreira, Luís de Camões ao escrever Os Lusíadas, o “Livro Sagrado de Portugal” no dizer de António Telmo[2], teve que velar o Conhecimento Espiritual, que recolhera nas fontes iniciáticas da época, sob a roupagem de fábulas e alegorias retiradas da mitologia greco-romana, mas entremeando-as com episódios bíblicos da patrologia, vindo a sobressair dessa exegese magnífica os feitos épicos dos Maiores de Portugal em uma discorrência entre a bruma do mito e a heterodoxia do sagrado que a Inquisição não soube apreender, por miúda visão e mais miúdo entendimento, como facilmente se depreende das palavras do próprio frei Bartolomeu Ferreira no Alvará Régio da edição de 1572 de Os Lusíadas: “Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos Lusiadas de Luis de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizerão em Asia & Europa, e não achey nelles cousa algűa escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes, somente me pareceo que era necessario aduertir os Lectores que o Autor pera encarecer a difficuldade da nauegação & entrada dos Portugueses na India, usa de hűa fição dos Deoses dos Gentios. E ainda que sancto Augustinho nas sas Retractações se retracte de ter chamado nos liuros que compos de Ordine, aas Musas Deosas. Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poetico não tiuemos por inconueniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salua a verdade de nossa sancta fe, que todos os Deoses dos Gentios sam Demonios. E por isso me pareceo o liuro digno de se imprimir, & o Autor mostra nelle muito engenho & muita erudição nas sciencias humanas. Em fe do qual assiney aqui. Frei Bertholameu Ferreira”.

É crível Luís de Camões ter tido os seus primeiros contactos com os sobreditos meios esotéricos ainda na sua juventude, possivelmente quando estudante em Coimbra sob a protecção e educação do seu tio Bento Camões, na época chanceler da Universidade e prior dos agostinhos do Mosteiro de Santa Cruz, dizendo a tradição mais oral que documentada Camões ter-se revelado estudante indisciplinado mas ávido de conhecimentos, interessando-se pela História, Cosmografia e Literatura Clássica[3], por esta recebendo a influência determinante de Dante Alighieri, Homero, Francesco Petrarca e Virgílio, sobretudo do primeiro indo reparar-se que a estrutura de Os Lusíadas é muitíssimo semelhante à de A Divina Comédia.

Sabe-se que no século XVI a agremiação esotérica Los Alumbrados ou os Filhos da Luz, que é dizer, iluminados nas antigas tradições pitagóricas e platónicas em que se vazava a filosofia da Kaballah e da Alquimia (Allah-Chêmia), tinha sede em Sevilha e possuía ramificações em Portugal junto dos centros culturais da época[4], inclusive a sua influência terá penetrado a corte do malogrado jovem rei D. Sebastião por via de alguns intelectuais da época, como Manuel de Portugal e António Ribeiro Chiado, coevos próximos de Luís de Camões. O subentendido da filosofia oculta sob a aparência de a quem se dirige em termos inocentes, deixa-o claramente Manuel de Portugal na sua écloga seguinte[5]:

“Certamente eu trazia errada a conta,

que´inda há quem nos renove o tempo antigo,

de que tanto se escreve e tanto conta;

agora me repreendo e me castigo;

fazia à nossa Lusitania afronta:

cuidei que só buscava prata e ouro,

buscaste-me no meu escondedouro.”

Parece que os Alumbrados baseavam a sua doutrina nas ideias cátaro-maniqueístas[6] do século XIII, em cuja escatologia doutrinal consideravam ter sido originalmente “Lúcifer o Anjo Bom e principal sustentador do Bem Eterno e da Luz Universal”[7] antes da sua Queda, chegando mesmo a associar a pessoa de Cristo a Lúcifer como expressivo de Vénus. Essas e outras heterodoxias revelaram-se aos olhos políticos de Roma autênticas heresias, pretexto para a sua Cruzada contra os Cátaros entre 1209 e 1244, por instigação do Papa Inocêncio III, e a exterminação dos mesmos, sendo que os que sobreviveram procuraram a parte ibérica dos Pirenéus indo instalar-se sobretudo na Catalunha e em Aragão, neste encontrando receptividade na corte de D. Pedro III e de sua mulher Constança da Sicília, pais da futura Rainha Santa Isabel a qual, significativamente, no seu processo de beatificação é chamada “Rainha Branca”, sendo que “branco” era apodo de “puro” ou katter, ou seja, cátaro.

Segundo Sampaio Bruno[8] e o mesmo António Telmo, Camões teria sido um maniqueu no seu maneirismo literário, algo assim como um fidelli d’Amore cuja doutrina alumbrada aparenta resumir no Canto IX (e X) de Os Lusíadas: A Ilha dos Amores. Ora a palavra de reconhecimento, o santo-e-senha dos confrades dessa sociedade esotérica era a palavra Amor, inversão literal do termo Roma a quem os alumbrados ou alumiados, como anteriormente os cátaros e os maniqueístas, consignavam por morada do Anti-Cristo, incarnação da morte e do ódio marcadas pela intransigência da “infabilidade papal”, consequentemente sendo o oposto do espírito eclético que deveria marcar a Igreja de Amor sempre nos antípodas da antítese do Cristo, incarnação do Amor e da Vida, segundo os mesmos fidelli. Amor, Roma, Mors, Morte

simbolo dos Alumbrados

Como disse, a casa-mãe dessa organização esotérica estaria instalada em Sevilha e julgo ter sido nela, ou em alguma sua ramificação portuguesa, que Luís Vaz de Camões terá recebido a luz dos seus mistérios mais recônditos e profundos, ou as suas mais “recônditas heresias” para a Igreja Romana, tal como já anteriormente teria sucedido com Cristóvão Colombo, odiado de morte pelos teólogos da cúria papal, conforme demonstram as suas ingerências perniciosas conspirando entre os reis católicos de Espanha e o almirante português.

Como na vida de todos os verdadeiros Iniciados na Sabedoria de Deus, também Luís de Camões não escapou a provar com intensidade da taça do fel das agruras e provações mundanas, constantemente pondo à prova o seu carácter humano e o seu virtuosismo espiritual, homem rico por dentro, pobre por fora mas nunca fugindo aos seus deveres para com o mundo.

Devo agora adiantar que o objectivo das Fraternidades Iniciáticas sempre foi e será um só: o de levar o ser humano a se conscientizar e a viver a sua realidade interna, os seus verdadeiros e, em última análise, únicos objectivos na vida. O ser humano deverá adaptar-se às suas características originais e não apenas à vida vegetativa, e sim procurar viver a vida plena em que a mesma vida como energia se acresce, transforma em mais vida, energia e consciência. Isto é essencialmente a verdadeira Iniciação.

Astrologicamente[9], a referência às “estrelas infelizes” que logo o “fizeram (…) obrigado”, denuncia o conhecimento do seu tema natalício que, de facto, era-lha extremamente desfavorável. O Sol estava em “exílio”; Marte, o princípio masculino, estava “peregrino”; Júpiter, o indicativo da abastança e das pessoas altamente colocadas na sociedade, estava “forte”, mas em “conjunção” com Saturno, o travão, o criador da pobreza, mas mestre da rectidão, encontrando-se ambos em Peixes, regente de Portugal, signo que dessa forma era-lhe adverso, remetendo-o ao desterro, ao exílio. A Lua, que representa o princípio feminino, estava “peregrina”, caminhando para quarto minguante indo, pois, perdendo luz, além de se encontrar na casa 12, que Camões denomina o “inferno do horóscopo”, por corresponder às dores, às tristezas, aos hospitais, às prisões; para o poeta, a Lua representava a mãe que perdera ao nascer e a esposa que jamais encontrara.

Ao escrever Os Lusíadas, bem podendo considerar-se a “bíblia sagrada” dos lusos no conspecto místico-patriótico, o Iluminado veio a revelar o seu alto Saber desvelando a origem divina do Reino e o excelso Futuro que lhe cabe cumprir!…

Na monumental “Ode Lusitana”[10], Camões revela-se polígrafo na vastidão dos seus conhecimentos das ciências clássicas da época, como a geografia, a matemática, a medicina, a filosofia e a literatura, evidenciando profundo saber da mitologia greco-romana, da astrologia e do hermetismo. As «fantasias» do poeta, como alguns pretendem hoje, esvaem-se completamente se perspectivadas pelo modo sagaz, com muita “arte e manha”, onde por perífrases e prolepses construiu parábolas afins à exegética da Sabedoria Iniciática das Idades exposta no modo maneirista do tempo, espécie de prebarroco, que sabia colocar na sua condição exacta de Iniciado, ficando tão bem sintetizada e ordenada nesta sua tão soberba quão magistral Epopeia Lusófica.

Disse ordenada por os 10 Cantos ajustarem-se inteiramente ao esquema kabalístico da Árvore das Sephirots ou “Emanações Divinas”, contendo cada Canto ou “Corpo” a sua “Alma” em determinado número de estrofes, e o seu “Espírito” ou chave-mestra em estrofe principal que encerra a mensagem de todo o Canto e a profecia que lhe dá “Alma”.

KETHER (COROA) – (CORPO, NEPHESEH) – CANTO I.

ALMA (RUACH) – ESTROFES 20-43 (1.º CONCÍLIO DO OLIMPO).

ESPÍRITO (NESCHAMAH) – ESTROFE 28 (1.ª PROFECIA DE JÚPITER):

“Prometido lhe está do Fado eterno,

Cuja alta lei não pode ser quebrada,

Que tenham longos tempos o governo

Do mar que vê do Sol a roxa entrada.

Nas águas tem passado o duro Inverno;

A gente vem perdida e trabalhada.

Já parece bem feito que lhe seja

Mostrada a nova terra que deseja.”

1.ª linha: Promessa a Portugal de Protecção Superior (Kether) no seu Fado ou Destino.

2.ª linha: A Lei Suprema é sempre imutável como Pensamento de Deus.

3.ª linha: Seja a Lusitânia no governo longo do destino do Mundo.

4.ª e 5.ª linhas: Neptuno (Kether) entra em Peixes (Mar) pelo Oriente (Sol nascente ou entrante).

6.ª, 7.ª e 8.ª linhas: A continuação dos Cantos vem a revelar Portugal como Berço do V Império do Mundo (a nova terra que deseja), devido ao esforço e amadurecimento do Luso como essencialmente Filho da Luz (6.ª linha).

CHOKMAH (SABEDORIA) – CORPO – CANTO II.

ALMA – ESTROFES 44-45 – (VATICÍNIOS DE JÚPITER À LUSITÂNIA).

ESPÍRITO – ESTROFE 45 (2.ª PROFECIA DE JÚPITER):

“Que, se o fecundo Ulisses escapou

De ser na Ogígia Ilha eterno escravo,

E, se Antenor os seios penetrou

Ilíricos e a fonte de Timavo,

E, se o piedoso Eneias navegou

De Cila e de Caríbdis o mar bravo,

Os vossos, mores cousas atentando,

Novos mundos ao mundo irão mostrando.”

Cosmogonicamente, o “fecundo Ulisses” é o fulgurante Sol ou Ur, enquanto a sua fuga da Ilha Ogígia da ninfa Calipso, é referência velada à sua contraparte aquática, Ânia, assim mesmo expressando Deus Pai-Mãe revestidos dos dois princípios universais, Fogo e Água, com que foi criado o Universo e que ao mesmo sustêm e animam. Daí ter-se Ur+Ânia, ou seja, Urânia, esta o aspecto feminino de Urano (Chokmah) representado por Antenor, o troiano que escondeu Ulisses em sua casa, isto é, astrologicamente o Sol em Urano, propiciador de todas as energias positivas ou masculinas que animam o Universo através da Corte Celestial ou Hierarquia Criadora dos Querubins, os mesmos Senhores da Sabedoria assinalados no constelado celeste pela Ursa Maior ou Sapta-Rishi.

As duas últimas linhas estróficas sentenciam que mais do que fizeram Gregos e Troianos farão os Portugueses, conforme a profetizada edificação de Nova Civilização marcando a Renascença Sinárquica soerguida sobre o carácter (moral) e a cultura (mental) superiores, indo a Humanidade auferir de novas luzes abrindo um novo e mais amplo estado de consciência colectiva e da qual foi augúrio a Diáspora Marítima de Quinhentos, ou antes, o primeiro arremesso como saque espiritual ao Futuro, procurando fundir em uma só todas as raças pelo entrecruzamento consanguíneo dando possibilidade à geração de uma Nova Civilização a cujo surto não é alheio o Planalto Central do Brasil, a “Nova Lusitânia” aclamada por Pedro de Mariz em seus Diálogos de Vária História (Coimbra, 1594).

BINAH (ENTENDIMENTO) – CORPO – CANTO III.

ALMA – ESTROFES 1-21 (INVOCAÇÃO A CALÍOPE).

ESPÍRITO – ESTROFE 20.

“Eis aqui, quase do cume da cabeça

Da Europa toda, o Reino Lusitano,

Onde a terra se acaba e o mar começa

E onde Febo repousa no Oceano.

Este quis o Céu justo que floresça

Nas armas contra o torpe Mauritano,

Deitando-o de si fora; e lá na ardente

África estar quieto o não consente.”

Geosoficamente ou segundo a geografia sagrada, a Lusitânia é o rosto da cabeça da Europa alcançando o topo, o “cume da cabeça” ou “Monte do Entendimento” que é regido por Capris, o Caprino ou Capricórnio, o Cumara cuja Esfera Divina é Binah domicílio de Saturno e região da Hierarquia Assura ou Arqueu, a dos Senhores do Mental como a primeira do Globo Saturnino que foi o primeiro a manifestar-se neste Sistema de Evolução Universal. Donde Saturno ou Sat-Ur-Anas ser chamado de “Avô do Universo”.

“Onde Febo repousa no Oceano” designa o ocaso, onde o Sol se põe, o Ocidente (Occidis), com isso assinalando Portugal como o mais velho e mais ocidental dos reinos da Europa.

O “Céu e as Armas” estróficas (parecendo evocar “a cruz e a espada” do emblema dos alumbrados) ajustam-se bem à natureza matrística de Binah, nome da Mãe Divina para os cabalistas judeus. Esses dois elementos significam a Fé e a Força, a Pena e a Espada, a Mãe (“Céu florescido”) assegurando a Força do Filho (a Humanidade) através das “armas” interiores que são, essencialmente, a força de carácter determinante da pureza de conhecimento.

“Torpe Mauritano” não é só, como aparenta, o homem africano, o tipo humano mais antigo da Terra descendente directo da 3.ª Raça-Mãe Lemuriana. É também e sobretudo a metáfora simbólica das paixões, vícios e desregramentos perniciosos de todos os homens e povos atrasados tanto em carácter como em cultura, cabendo aos verdadeiros Lusos como Filhos da Luz combater e transformar essas mesmas “arestas” da personalidade humana, levando-a à formação e integração na individualidade espiritual, o que em termos maçónicos é representado por debastar a pedra bruta em pedra polida para finalmente conseguir formar a pedra pontiaguda, ou por outra, a pedra filosofal simbólica da Iluminação Superior.

CHESED (MISERICÓRDIA) – CORPO – CANTO IV.

ALMA – ESTROFES 67-75 (SONHO PROFÉTICO; 3.ª PROFECIA).

ESPÍRITO – ESTROFE 69.

“Aqui se lhe apresenta que subia

Tão alto, que tocava a Prima Esfera,

Donde diante vários mundos via,

Nações de muita gente, estranha e fera;

E lá bem junto donde nasce o dia,

Depois que os olhos longos estendera,

Viu de antigos, longínquos e altos montes

Nascerem duas claras e altas fontes.”

A “Prima Esfera” é Kether, a Coroa do Mundo, da qual se avista a imensidão esplendorosa do Universo (“donde diante vários mundos via”) em suas “Nações” ou Planos coexistenciais, através da visão espiritual ou clarividência, esta sugerida por “os olhos longos estendera”. A quarta linha alude ainda a Júpiter (Chesed), regente dos povos e nações: Tsedek. As “duas claras e altas fontes” não são tão-somente o Indo e o Ganges, como essencialmente a referência ocultada às sephirots ou “emanações divinas” Chokmah e Binah, que com a primeira, Kether, constituem as Moradas das Três Hipóstases do Logos Único ou a Santíssima Trindade na Árvore Sephirótica (Otz Chaim) expressada por Chesed por meio de Júpiter – a Misericórdia Divina.

GEBURAH (FORÇA) – CORPO – CANTO V.

ALMA – ESTROFES 41-59 (MALDIÇÕES DE ADAMASTOR; 4.ª PROFECIA).

ESPÍRITO – ESTROFE 42.

“Pois vens ver os segredos escondidos

Da natureza e do húmido elemento,

A nenhum grande humano concedidos

De nobre ou de imortal merecimento,

Ouve os danos de mim que apercebidos

Estão a teu sobejo atrevimento,

Por todo o largo mar e pela terra

Que inda hás-de subjugar com dura guerra.”

Os “segredos escondidos da Natureza” são a sua Vida Oculta, Psicomental, cujo “húmido elemento” (Apas-Tatva, “Elemento Água”) vem a ser o produtor etérico (as “Águas do Akasha” ou “Águas da Criação”) do estado sólido, mistérios antropogénicos esses inacessíveis a homem vulgar algum e só ao verdadeiro Iniciado nos Mistérios da Vida Universal, esse que se desprendeu de si mesmo, da sua velha e profana “máscara” ou persona e ousou ir mais longe, só, sempre só, no mistério da noite íntima e sem um adeus sequer (“ouve os danos de mim que apercebidos”), ao encontro do mais elevado estado de Adepto ou Homem Perfeito que todo o Género Humano um dia será!… “Subjugar o mar e a terra” alude ao poder de Geburah (Força), que sob a influência de Marte este é assinalado na frase final: “Subjugar com dura guerra”, que é dizer, a luta interior do indivíduo entre as suas naturezas espiritual e material, afinal a maior das batalhas a travar e vencer como aquelas de Kurushetra no Bhagavad-Gïta ou do Armagedão na Bíblia, em correspondência exacta com o dobrar, vencer o Adamastor, o Mostrengo Guardião do Umbral dos Lusos que só depois de o derrotarem puderam unir o Oriente (viagem marítima de Vasco da Gama à Índia) ao Ocidente (viagem marítima de Pedro Álvares Cabral ao Brasil) sob o Pendão Crístico das Quinas Lusitanas na Conquista Espiritual do Mundo.

Adamastor

TIPHERETH (BELEZA) – CORPO – CANTO VI.

ALMA – ESTROFES 7-37 (2.º CONCÍLIO DOS DEUSES; 5.ª PROFECIA – PROTEU).

ESPÍRITO – ESTROFE 7.

“Via estar todo o Céu determinado

De fazer de Lisboa nova Roma;

Não no pode estorvar, que destinado

Está doutro Poder que tudo doma.

Do Olimpo desce, enfim, desesperado;

Novo remédio em terra busca e toma:

Entra no húmido reino e vai-se à corte

Daquele em quem o Mar caiu em sorte.”

“Via estar todo o Céu determinado”, alude à futura ordenação planetária em conformidade ao Horóscopo de Portugal por apontar “Lisboa nova Roma”, que sem dúvida é alusão profética à actual capital política do País como destinada a Capital Espiritual do V Império do Mundo e Sede da Igreja do Amor, antítese da de Roma, em conformidade ao tema da translatio imperii assinalada na precessão cíclica do Sol pelo Zodíaco, onde incluinou sobre Jerusalém durante o Ciclo do Carneiro e depois sobre Roma durante o Ciclo de Peixes, havendo de inclinar futuramente sobre Lisboa durante o Ciclo de Aquário.

O Olimpo é o Jardim de Zeus ou Júpiter, Pai dos deuses, assim referência velada a Tiphereth. A “descida desesperada do Olimpo” à Terra, é alusão oculta ao mistério da “Queda de Luzbel” ou Lúcifer, o Anjo da Luz (Mental), na Geração Humana, logo ao início do presente Globo Terrestre, indo despertar nela a beleza de pensar e o poder de criar. “Entra no húmido reino”, que é dizer, penetra em Portugal sob a influência aquática dos Peixes regidos por Júpiter e Neptuno (“daquele em quem o Mar caiu em sorte”), e a partir daqui, onde se localiza o Quinto Centro Bioenergético ou Chakra do Globo envoltório do Logos Planetário, iniciou o exercício de sua função planetária de Luzeiro desterrado “buscando novo remédio”, ou seja, procurando o resgate da sua expiação por ter sonegado a ordem do Eterno em prosseguir a marcha avante da Evolução que ele mesmo iniciara no anterior Globo Lunar, indo assim oferecer e adquirir experiências novas pela sua Consciência Divina agrilhoada à Humana. É Prometeu acorrentado no Cáucaso ou “cárcere carnal”, que que as mais secretas tradições dizem já ter sido libertado por seu Irmão Epimeteu também chamado Akbel.

NETZACH (VITÓRIA) – CORPO – CANTO VII.

ALMA – ESTROFES 78-87 (INVOCAÇÃO ÀS NINFAS).

ESPÍRITO – ESTROFE 79.

“Olhai que há tanto tempo que, cantando

O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,

A Fortuna me traz peregrinando,

Novos trabalhos vendo e novos danos:

Agora o mar, agora experimentando

Os perigos Mavórcios inumanos,

Qual Cánace, que à morte se condena,

Numa mão sempre a espada e noutra a pena.”

Na primeira e segunda linhas sobrepõe-se a distinção Divina concedida a Portugal, segundo o mito bélico da Batalha de Ourique aquando sucedeu o milagre cristológico de Deus Filho sagrando por D. Afionso Henrique a Portugal, o primeiro dentre as nações da Europa, sendo a “Fortuna peregrinando” referência a Vénus, alter-ego da Terra.

Os “perigos Mavórcios”, no conspecto astrológico, serão as influências de Marte, aspecto inferior de Vénus, esta que daquele é Mãe, através dos quais Cánace (Netzach) entra na esfera de influência da Humanidade (“à morte se condena”), quer agindo através da espada (Marte, a Lei, o Rigor), quer através da pena (Vénus, a Paz, o Amor).

HOD (HONRA) – CORPO – CANTO VIII.

ALMA – ESTROFES 35-51.

ESPÍRITO – ESTROFE 35.

“Olha que dezassete Lusitanos,

Neste outeiro subidos, se defendem,

Forte, de quatrocentos Castelhanos,

Que em derredor, para os tomar, se estendem;

Porém logo sentiram, com seus danos,

Que não só se defendem, mas ofendem.

Digno feito de ser, no mundo, eterno,

Grande no tempo antigo e no moderno!”

Os 17 Lusitanos é valor sinalético do Biorritmo de Portugal, 17, o número “do esquecimento, do porvir”, segundo Isaac Abarnavel. Quanto ao valor de 400 Castelhanos, se lhe tirar os zeros sobra 4, e nisto entra Mercúrio, regente de Hod (o “outeiro subido”), como sendo o quarto planeta do Sistema Solar, cujo “feito digno de ser grande no tempo” será, porventura, referência velada do poeta a esse Astro ser hoje ante o futuro o Sol Oculto do mesmo Sistema, donde o cabalístico 17 do Porvir.

Toda a estrofe inspira e transpira esforço guerreiro, glória e honra, ou Hod, predicados que sempre distinguiram Portugal nas gestas antigas mas também, não raro, nas modernas, feitos épicos registados na eternidade como exemplos a desfrutar e seguir pelas gerações vindouras.

YESOD (FUNDAMENTO) – CORPO – CANTO IX.

ALMA – ESTROFES 69-95 (A ILHA DOS AMORES).

ESPÍRITO – ESTROFE 69:

“Dá Veloso espantado um grande grito:

“Senhores, caça estranha (disse) é esta!

Se inda dura o Gentio antigo rito,

A Deusas é sagrada esta floresta.

Mais descobrimos de que o humano espírito

Desejou nunca, e bem se manifesta

Que são grandes as cousas e excelentes

Que o mundo encobre aos homens imprudentes.”

A Ilha de Thetis é o Éden original onde decorre todo o Canto IX, e que vem a ser o Omphalo, o Centro radiativo e irradiativo de todo o Livro dos Lusos. Sob o véu da alegoria mitológica, este Cântico de Amor esconde o esoterismo da doutrina alumbrada ou iluminada que Camões transpôs ao Mito Pátrio. É, enfim, o Fundamento (Yesod)[11] de Os Lusíadas. O programa deste Canto é determinado pelas mulheres-deusas, as mesmas virgens ou vestais atlantes ou de além-Mar, as Plêiades ou Krittikas conservando o “antigo rito” da Iniciação ao Amor que sendo feminino ou matrístico tem por fundamento o astro da noite, a Lua.

Segundo António Telmo[12], a Ilha Angélica é uma Terra Sagrada de Arcanjos e Anjos femininos, indubitavelmente correspondendo aos Arcanjos e Anjos femininos de Erân-Vaêjo (a mesmíssima Ilha Encoberta de São Brandão ou a Agharta das tradições transhimalaias, a Terra Incorruptível, ou ainda a Avalon dos mitos arturianos), o que torna possível homologar Thetis (a Lua, a deusa-marinha, a mulher-polvo esposa do deus Oceano, Neptuno) com Andrî Sûrâ Anahîtâ da mitologia persa, deusa imaculada e casta das águas, presidindo a uma das três montanhas sagradas (o Monte Alborj), e as Fravartis com as Ninfas, duplos anímicos de cada criatura humana segundo a Teosofia de Zoroastro, e também conforme o que deve ter sido a Teosofia nos Actos de São Tomé, o “Gémeo” (Dhydimos Thomas, em grego), Apóstolo do Oriente, nomeadamente da Índia.

MALKUTH (REINO) – CORPO – CANTO X.

ALMA – ESTROFES 138-156.

ESPÍRITO – ESTROFE 143.

“Podeis vos embarcar, que tendes vento

E mar tranquilo, para a pátria amada.”

Assim lhe disse; e logo movimento

Fazem da Ilha alegre e namorada.

Levam refresco e nobre mantimento;

Levam a companhia desejada

Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,

Por mais tempo que o Sol o Mundo aquente.”

É o canto da despedida: a Grande Obra vislumbra já o final. Partem os Lusos em companhia de suas Amadas, as Ninfas (nisto simbolizando a Alma Purificada), “que hão-de ter eternamente”. Estava cumprida Malkuth, o Reino, o Mundo Português de Quinhentos, o Mar havia sido traçado, agora e de vez para sempre falta só cumprir-se Portugal, em conformidade à marcha precessional dos Ciclos por que evolui a Vida Universal, o que é dizer, no Poema, “por mais tempo que o Sol o Mundo aquente”.

Num dos seus artigos publicados em A Águia (número 38, Fevereiro de 1915), de título O Emprego da Noite, reunido com outros no volume Os Cavaleiros do Amor, Sampaio Bruno identifica a Árvore Triste (em alusão ao Canto X, 1, “os lírios e jasmins que a calma agrava”) de uma história atribuída a Rodrigues Lobo, com dúvidas se não é de Camões ou de Fernão Álvares do Oriente, à Igreja do Amor, cujos adeptos se protegiam com a noite reunindo-se secretamente a conspirar contra a Inquisição e a dar vazão às suas práticas iniciáticas de “Filhos da Luz”, nisto havendo, no século XVI, uma Loja de Alumbrados em Lisboa, junto aos Paços da Ribeira, saindo do Rossio a oeste, e outra em Sintra, em plena Vila, na residência privada de Manuel de Portugal, amigo pessoal de Camões. As flores dessa Árvore Triste só abrem ao entardecer e fecham pela manhã. O seu nome no Brasil é Nyctanthes arbor, ou seja, Árvore da Noite. Informa o Larousse Ilustrado, consultado por Sampaio Bruno, que “tem o nome de Jasmim da Arábia”. É, pois, uma jasminácea.

O jasmim (em sânscrito pavitra, “pureza”), e isto não sabia o ilustre “Teurgo das Letras do Norte”, como alguém consignou a Sampaio Bruno, é aquele que a par do lírio ou flor-de-lis são as flores sagradas de L.isboa – Y – S.intra, o jasmim para a Lua e a flor-de-lis para a sua “oitava superior”, Vénus.

O jasmim surge no início do Canto X, quando o Sol declina e se anuncia a noite que torna as estrelas visíveis. Reunem-se nautas e nereides, já ligados pelo Amor, no Palácio dos Hinos, termo que Camões vai buscar pela literatura clássica, mais uma vez, a Zoroastro. Também no Canto X, Vasco da Gama e o seu grupo cumprem a Viagem Avatárica ou Messiânica, já como Iluminados nos Conhecimentos inteligíveis ou dos Arquétipos, realizados no divino Amor que é o leme da Arte de Espírito Santo, a de Navegar no Oceano desconhecido e bem domar em dobrados esforços quantos Adamastores hajam.

Ainda em boa parte de acordo com o professor António Telmo, o esquema completo de Os Lusíadas é manifestamente o seguinte, conformado à estrutura vital da simbólica “Árvore da Noite” (que é dizer, a Oculta ou Esotérica como sendo a Sephirótica):

1. Intuição do mundo abscôndito inimaginável e ininteligível.

Corresponde a:

Ain Soph Aur, a Luz Infinita Universal, patente no espírito estrófico de cada Canto ou Corpo.

2. Ascensão do monte e visão da “esfera unida”: passagem do mundo subtil inimaginável ao mundo subtil imaginável.

Corresponde a:

Atziluth (Plano Divino, Emanador), envolvendo Kether, Chokmah e Binah, correspondendo aos Cantos I, II e III.

3. Descoberta da oitava parte e aparição auroral da Ilha: passagem do mundo subtil ao mundo sensível.

Corresponde a:

Briah (Plano Arquetipal, Criador), abarcando Chesed, Geburah, Tiphereth, Netzach e Hod, identificando-se dos Cantos IV a VIII.

4. Travessia do mar profundo e conhecimento das suas sete partes.

Corresponde a:

Yetzirah (Plano Formador, Mundo dos Deuses), que envolve Yesod e o Canto IX.

5. A Terra do Limite (Portugal, “onde a terra se acaba e o mar começa”).

Corresponde a:

Assiah (Plano Formado, Mundo dos Homens), abarcando Malkuth e o Canto X, sendo Cristo substuído por D. Sebastião, e S. Tomé, o Apóstolo do Hermetismo, ocupar o plano central do Canto, encerrando Camões, por fim, com vaticínios às glórias futuras de Portugal.

Se a Ilha dos Amores representa a Terra Transfigurada dos Lusos, há logo depois a Revelação no cume da Montanha Primordial da Héptada, dando assim a Sabedoria Eterna a quem lá chega, onde “são grandes as cousas e excelentes / Que o mundo encobre aos homens imprudentes”, isto é, aos profanos e vulgares. Fica assim a Ilha dos Amores para a Iluminação Coracional e a Montanha Primordial para a Iniciação Mental.

Para se entender a Mensagem Camoniana, a sua raiz sagrada e iniciática sobreposta à constituição literária do poema, incumbe-se primordialmente procurar visionar com a intuição aquilo que o simples intelecto pode apenas nocionar. Aperceber o espírito vivo além da letra morta, parece ser a derradeira solicitação dos versos de Luís de Camões, o último Fiel de Amor da Renascença Portuguesa, pois com ele encerra todo um ciclo apologético no areal quente da tragédia de Alcácer-Quibir só ficando, para glória e exaltação futura, Os Lusíadas, poema épico da Pátria no presente e no transcendente.

NOTAS

[1] Maciel Souto-Mayor, Onde nasceu Luís de Camões? In Archivo Pittoresco, volume 10, Tipografia de Castro Irmão, Lisboa, 1867.

[2] António Telmo, Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões. Guimarães e Cª Editores, Lisboa, 1982.

[3] Georges Le Gentil, Camões: l´oeuvre épique & lyrique. Editions Chandeigne, Paris, 1995.

[4] António Vitor Ribeiro, O Auto dos Místicos – Alumbrados, profecias, aparições e inquisidores (séculos XVI-XVIII). Dissertação de Doutoramento em História da Época Moderna apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2009.

[5] Luís Fernando de Sá Fardilha, Poesia de D. Manoel de Portugal e Profana. Edição das suas fontes. Instituto da Cultura Portuguesa, Revista da Faculdade de Letras, Série “Línguas e Literaturas”, Anexo IV, Porto, 1991.

[6] Pedro Santonja, Las doctrinas de los alumbrados españoles y sus posibles fuentes medievales. Dicenda, Cuadernos de Filología Hispánica, 2000.

[7] René Nelli, Os Cátaros. Edições 70, Lisboa.

[8] Sampaio Bruno, Os Cavaleiros do Amor. Guimarães e Cª Editores, Lisboa, 1960.

[9] Mário Saa, As Memórias Astrológicas de Camões. Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1940.

[10] Para o efeito deste estudo de Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões, consultei a edição da Porto Editora organizada por Emanuel Paulo Ramos, académico permanente do Instituto de Coimbra, professor efectivo do Liceu e do Colégio Militar.

[11] William What, Mistérios revelados da Cabala. Edições F.E.U.U., Porto Alegre, Brasil, Março de 1982.

[12] António Telmo, ob. cit.

Carta ao Teósofo sobre Brasilidade e Teosofia – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Mar 28 2016 

pan-americanismo - Miranda Júnior - Cópia

Bom dia, Exm.º Sr. e Venerável Irmão.

Confesso ter hesitado bastante em responder à sua carta e respectivo anexo boletim de política controversa por esse senhor … afiliado em uma organização brasileira dita espiritualista, sobretudo com as dores que me devoram na zona dos rins desde que anteontem – Sábado de Aleluia – entrei no Santuário Akdorge de Portugal e, ao agachar-me para agarrar algo, elas sobrevieram mais uma vez, impondo-me uma espécie de Cruz dolorosa, e assim estou esperando que passem. Quem imita Cristo ou quer imitar Cristo – o Divino Senhor da Compaixão (Bodhisattva) –  fica sujeito a tudo a ver com Ele, sobretudo as Suas dores por uma Humanidade tão desavinda como é a de hoje.

Entro assim directamente no assunto em pauta. A “Brasilidade” proclamada por esse senhor … é a mesma nascida do Movimento Verde-Amarelismo fundado em 1924 por Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Plínio Salgado. Movimento literário modernista brasileiro, propunha um nacionalismo puro, com a interferência de algumas características europeias, sobretudo luso-francesas, mas sem tendências nativistas. Esse movimento viria mais tarde a incorporar-se em um outro fundado pelo mesmo jornalista e político Plínio Salgado, que o fundou em 7 de Outubro de 1932: a Acção Integralista Brasileira conhecida pelo seu grito de guerra “Anauê” (invenção linguística baseada na língua tupi), desde o primeiro instante imitando o método do fascismo italiano  de Benito Mussolini e abertamente simpático às políticas de conquista e domínio de Adolf Hitler. Com a instauração do Estado Novo durante a vigência do Presidente Getúlio Vargas, esse movimento foi oficialmente extinto em 10 de Novembro de 1937, mas subsistiram adeptos simpatizantes activos do mesmo durante toda a II Guerra Mundial em solo brasileiro os quais vêm até hoje. É desses movimentos nacionalistas de Direita que nasce a noção patriótica de “Brasilidade”, divulgada por uma propaganda literária apoiada em teses de natureza histórica-filológica-arqueológica rebuscadas à Antiguidade Brasileira, de que tiveram a primazia os verde-amarelistas Bernardo Ramos e a sua tese do “Brasil Fenício”, Gustavo Barroso e a sua tese do “Brasil Atlante”, Ludwig Schwennhagen com iguais teses “Fenícia e Atlante” na origem do Brasil, com a preocupação particular de criar distâncias históricas de Portugal ao querer reduzir a importância de Pedro Álvares Cabral na Descoberta do Brasil e o início da miscigenação com os autóctones do território, os índios (tupinambás, tupis e só depois guaranis), esses que são os brasileiros originais, pois todos os outros são de origem importada por via de emigrações, com os portugueses à cabeça.

Começa aí a teoria esdrúxula de “a culpa é do Cabral”, alimentada e propagandeada até se tornar “palavra de fé” a partir do 1.º de Abril de 1964, data da instauração da Ditadura Militar ou a Quinta República Brasileira, quando os movimentos de Esquerda são reprimidos e anacronicamente os seus intelectuais e artistas aproveitam as ideias nacionalistas da Direita, mas para chorralharem as culpas dos seus males político-sociais com origem nos “portugueses colonialistas”. Com o fim da Ditadura Militar em 15 de Março de 1985, a História do Brasil é feita e ensinada de um modo notoriamente esquerdista, sempre preocupada em diminuir e apresentar Portugal como antiga potência que destruiu o país nos seus alicerces psicossociais. É assim que aparece esse senhor … incorporado num rol imenso de simpatizantes dessa teoria, logo não sendo de estranhar que chame a “Portugal país de ladrões e assassinos”, dentre outros mimos do género, onde “o pior da sociedade europeia foi habitar e espoliar o Brasil”, o que está errado e é mentira óbvia a toda linha: quem começou a habitar o Brasil foi a nata aristocrática portuguesa, brasonada e ilustrada próxima da Coroa, acompanhada dos mais eruditos cavaleiros da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus-Cristo e da Ordem Terceira de S. Francisco da Província de Portugal, juntando-se-lhes depois os Capuchinhos, e após a Ordem do Carmo e a Companhia de Jesus. Acompanharam-nos vagas de gente humilde mas também abastada, em breve juntando-se aos autóctones, donde resultaria a etnia luso-indígena Mameluca, e sem impor trabalho escravo – mesmo com essa ou aquela excepção mas que não faz a regra geral – antes respeitando as tabas ou territórios indígenas. Para a mão-de-obra escrava usou-se o africano a partir da segunda metade do século XVI, e mesmo esse usufruía de regalias que não haviam noutras partes, como a das facilidades de educação e alforria, vindo também o africano a miscigenar-se no território com portugueses e índios. A “caça ao índio” é feita pelos holandeses no século XVII, sobretudo no período em que Portugal estava sob domínio dos Filipes de Espanha, mas foram os mesmos índios que aliando-se aos portugueses venceram os franceses na Batalha de Guanabara – quando o Rio de Janeiro era chamado “Nova França” e “França Antártida” – e escorraçaram-nos do território, e assim também no interior com as Bandeiras dos exploradores lusos já domiciliados e com carta passada de origem lusa mas com cidadania brasileira, mais que contra os índios aliando-se com estes contra as forças ocupantes holandesas, inglesas e espanholas.

Agora o seguinte: o conceito de Brasilidade não nasce no século XX pela mão da Direita e posterior aproveitamento da Esquerda. Ela nasce com Pedro Álvares Cabral e Frei Henrique Soares de Coimbra, expande-se com Mem de Sá, Martim Afonso de Souza, António de Mariz, etc., e vem até ao Império Brasílico do português D. Pedro I do Brasil, IV de Portugal. O encómio erudito e místico ao Brasil é feito por diversos historiadores portugueses entre os séculos XVI-XIX, propagandeado pelas crónicas capuchinhas e jesuítas – sobretudo as de São Paulo de Piratininga, cidade onde não falta o topónimo “Nova Cintra”, hoje freguesia do Espírito Santo – e é assim que Pedro de Mariz, nos seus “Diálogos de Vária História”, em 1594 chama o Brasil de “Nova Lusitânia”, seguindo-se a “Feliz Lusitânia” como era chamado, em 1616, o núcleo primitivo de Belém do Pará (Santa Maria de Belém do Grão-Pará, porta da Amazónia). Talvez como últimos ecos da noção original de Brasilidade nascida da Portugalidade, serão o escritor e político José de Alencar e o cónego carmelita Raimundo Ulisses de Pennafort.

Brasileiro dos “sete costados” desde a sua infância, o Professor Henrique José de Souza certamente conheceria todos esses elementos e em breve os adaptaria à sua visão teosófica da História do Brasil, mas sem ostracizar a origem portuguesa, antes realçando-a com raro trato carinhoso, inscrevendo-a em três períodos distintos ainda assim interligados: Brasil Atlante – Brasil Fenício – Brasil Iberoameríndio, aqui com grande realce para a figura incontornável de Pedro Álvares Cabral. Mas “não há bela sem senão”: a sua noção esotérica da História do Brasil adaptava-se e adapta-se perfeitamente às ideias particulares de “direitistas” e de “esquerdistas”, motivo porque em breve nos conceitos de muitos ela perdeu o seu sentido transcendente e até místico e ficou só o imediato politizado, exaltando-se os efeitos em detrimento das causas que a Teosofia de H.J.S. aponta mas que hoje poucos atendem, com o tresando insuportável de proximidade à xenofobia encapotada de “misticismo” por parte de alguns pretendentes à soberania brasileira do Mundo no plano social imediato, o que objectivamente revela-se absolutamente contrário ao que se vê hoje no Brasil, país jovem que naturalmente ainda procura a sua independência histórica, nisto entrando alguns com mais literacia que servindo-se de factos históricos, uns prováveis e outros improváveis mas quase todos aflorados pela rama ou a superfície, superfluamente tentam impor a sua visão particular da História Brasileira, por norma quase ou mesmo geral só aceites entre os seus pares de crença, seja mística ou seja política, pior ainda quando os dois vectores se misturam aumentando a confusão.

Confusão como essa dos Três Poderes Políticos (Legislativo – Executivo – Judiciário) e a própria estrutura do próprio Edifício Político brasileiro basear-se no norte-americano, apesar de adaptado à idiossincrasia nacional que alguns apodam de “gostinho tropical”, no sentido pejorativo de adaptar-se ao “jeitinho brasileiro para corromper-se e corromper”, no que não concordo e sim e só nas facilidades corruptivas que esse género de estrutura política suscita. Todos aí dizem mal dos norte-americanos mas no entanto imitam-nos em tudo, e pelo que se vê hoje na sociedade da América do Norte há muito pouco de digno e edificante para imitar. Até as igrejas carismáticas que inundam o Brasil, pretensamente saídas da Aliança Evangélica norte-americana, além dos repórteres de TV, imitam os norte-americanos, sobretudo no seu modo de falar agressivo e explosivo “à cowboy”. Ah, sim, o Brasil ainda não se encontrou desde a sua independência em 1822, e o que o Professor Henrique José de Souza vaticinou para esse país maior que um continente ainda não existe, está sendo construído, lenta mas seguramente, e sempre atendendo a que a noção de tempo dos homens não é a mesma da dos deuses. Além disso, as novas gerações, mais informadas e inconformadas com as ideias conservadoras, sejam “vermelhas” ou sejam “verde-amarelistas”, dos mais velhos, assim como as próprias forças militarizadas em franca mudança mental recusando-se atacar o povo, logo recusando qualquer espécie de uma nova ditadura militar, por certo haverão de pôr fim definitivo a tal “corrupção crónica” que parece estender-se de um Lula a um Aécio e vice-versa, passando por todos(as) os outros(as), todos produtos de uma época social – orbitando entre o capitalismo e o proletariado, e vice-versa, incluindo as hodiernas noções pretensas de monarquismo ou de algum tipo teocrático desejado por determinado “evangelismo”, por noção repasta de uma cobiçada maior e totalitária fonte de riqueza, dita “dízima”, à escala nacional imposta por radicalismo religioso – cuja razão de existir já passou, queira-se ou não.

Com respeito aos dois cidadãos cujos nomes aponta na sua carta, as suas atitudes, que tenho acompanhado de perto desde os inícios dos anos 80 do século passado, tornaram-me crente de serem fanáticos incapazes de sair da órbita limitada das suas crenças já de si estreitas, acreditando que os fins justificam os meios, sejam quais forem, em nome de uma mística para-religiosa abscôndita, onde por um lado divinizam personalidades humanas, e por outro galvanizam um país como soberano “metafísico” do Mundo, a despeito do estado em que todo o mundo o vê. Desses cidadãos, um é brasileiro e vizinho do outro, português, ambos tomados de ideias muito pessoais da Teosofia de JHS e ambos com uma ora aberta, ora encapotada, hostilidade a Portugal e aos Portugueses. Servem-se da retórica e lógica para afirmarem tese, mas retórica nunca foi sinónima de lógica e a lógica nem sempre é certa. A premissa poderá estar correcta, mas a proposição poderá ser incorrecta. Esse cidadão português assaltou com os seus próximos os Templos da Obra em Sintra e no Porto, nos inícios dos anos 80, acredito que tomado de zelo fanático; contatei-o ainda nos anos 80, tentando uma proximidade espiritual entre Portugal e o Brasil (como igualmente fizera antes com o finado senhor Udo Oscar Luckner, fundador do seu “Monastério Teúrgico do Roncador”, na época da minha primeira deslocação ao Brasil em 1983 e que foi a mais longa, quase um ano de permanência aí), perseguindo sempre o que o Professor Henrique José de Souza procurara estabelecer nos fins dos anos 50 e inícios dos 60 entre os dois Países, mas não resultou e os detalhes deixarei para uma outra ocasião; tentei o mesmo já nos anos 90 com a dita Instituição espiritualista, sujeitando-me ao que considero equívocos de doutrina e política da mesma (eu vinha da experiência de director da Rama “Despertar” da Sociedade Teosófica de Portugal e de Membro activo da Comunidade Portuguesa de Eubiose, no que não era um principiante imaturo), e como também resultou debalde, afastei-me. Conservo os documentos e as carteiras de identificação desses períodos que vivi (de que certos sabidos feitos e confiados por MIM hoje alardeiam sem saberem do que falam, metendo-se nas vidas alheias que não lhes diz respeito algum, chafurdando no que é público e publicado e fazendo chafurdo em proveito próprio de quanto lhes confiei, não importando que por menos da metade, jamais em tempo algum sendo da Hierarquia de JHS, e que na época desses acontecimentos da minha vida não passavam de miudagem vadiando ao gosto das idades e temperamentos). Hoje, se algum ou todos dos familiares vivos descendentes do Professor Henrique José de Souza pretenderem estabelecer uma aproximação comigo nesse sentido de união internacional, por certo a minha disposição mantém-se e por respeito exclusivo ao Professor H.J.S. a aceitarei, mas desde que se respeitem as idiossincrasias próprias deste meu país, Portugal, relativamente à Obra, como eu e os Portugueses da Obra respeitamos as idiossincrasias próprias do Brasil. Há muitos traços de proximidade, as linhas gerais são semelhantes mas não são idênticas: igual é só o Mestre JHS.

Brasil e JHS

Ainda ao longo dos anos 90 e até hoje mantenho relações privadas com discípulos directos que conviveram com o Professor Henrique José de Souza. Aceitaram-me entre pares pelos meus pergaminhos ocultistas e teosóficos, e todos reiteraram que o meu pretenso de unidade Portugal – Brasil sempre foi aquele do Mestre. Isto lembra-me certa ocasião no Hotel Jina, em São Lourenço (MG), em que estando o apartamento de Roberto Lucíola repleto de membros da dita Instituição espiritualista além dele e de mais dois ou três ainda da época do Professor, tendo-o conhecido pessoalmente e dele recebido instruções directas, esses membros novos assombraram-se com o discurso dos antigos por ser absolutamente estranho ao que lhes ensinam hoje em dia. Fica à reflexão, se assim se entender.

Mas há uma razão esotérica para ter Portugal e o Mundo como subalternos do Brasil: é que São Lourenço e as 7 Cidades do Sistema Geográfico Sul-Mineiro dirigem os 7 Postos Mundiais e com isso o Mundo. Trata-se de uma corrupção hodierna do ensinamento de JHS e uma verdadeira inversão de um princípio básico da Teosofia: cada Posto Mundial é afim a um Chakra Planetário ou Centro Bioenergético do Logos da Terra, sendo o 8.º de São Lourenço algo em formação alimentado pelos demais. Os Sub-Postos Mineiros são espécie de Sub-Chakras que recebem essas Energias dos Chakras canalizando-as para o 8.º, jamais o inverso porque o 8.º não está formado, pois se estivesse formado a Terra seria um Planeta já integrado à Divindade Absoluta, e o que se vê é exactamente o oposto: a Humanidade desavinda com Deus, as “células” do Logos Planetário que somos nós, humanos, ainda agitando-se doentes afectando todo o organismo que é o Globo Terrestre. Só o exclusivismo da impuberdade nacionalista de alguns pode explicar essa inversão de factos e valores, como se uma coisa em formação pudesse animar algo já formado e animador, tal como um Chakra para um Sub-Chakra, onde este passa a ter primazia vital sobre aquele. Não confere! Nessa inversão assumida como verdade, é que se impõe a noção exclusivista de soberania do Brasil sobre o Mundo. Poderá sê-lo um dia, mas não hoje nem tão cedo, talvez na próxima 5.ª Ronda da Terra, talvez antes, na 7.ª Raça-Mãe Atabimânica deste Período Ário.

Na carta desse cidadão brasileiro que o senhor anexa, repetem-se os complexos nacionalistas (do género “sejam os brasileiros atlantes, fenícios, cários, tudo o que se quiser menos portugueses, escória entre a escória europeia”! Déjà-vu…) misturados com muitos chavões de conhecimentos teosóficos respigados dos escritos que já identifiquei como sendo de Sebastião Vieira Vidal. Chavões porque não passam de frases feitas, repassadas sem mais e nenhum aprofundamento, como esse do “Brasil ser o terreno geológico mais antigo do Mundo”. Será, mas também a Mongólia Interior, o Planalto do Tibete, a Bacia do Eufrates, a África Setentrional e Central, a própria Península Ibérica, etc. Também o “Brasil Fenício” não possuía dois Reinos, um ao Norte e outro ao Sul, e sim duas imensas Feitorias litorais (“reinos” é modo prosaico de descrever), e é por isso que a maioria das descobertas arqueológicas são feitas nesses espaços, atribuindo-as a esse período histórico esquecido da História Brasileira, e “esquecido” hoje em dia por andar colado às velhas tendências políticas “verde-amarelistas”. A única pessoa que transpôs as noções do “Brasil Atlante e Fenício” para um patamar superior teosófico e apolítico, foi o Professor Henrique José de Souza. Essas noções, repito, são hoje assacadas à exaustão para aplicações nacionalistas tanto por “esquerdistas” como por “direitistas”, facções presentes nessa Sociedade hoje dita “religiosa” (o que contraria os princípios universais regentes da Sociedade Teosófica, apolítica e irreligiosa nos sentidos de sectarismo), as quais trazem-na na maior das confusões e conflitos internos. Tudo isso por lhe faltar um líder verdadeiramente espiritual, disposto acima dos gostos e desgostos das facções capaz de as conciliar, e também por aqueles que têm mais alguns conhecimentos se enclausurarem no exclusivismo “esotérico e patrioteiro” afunilando o conhecimento invés de o abrirem e o tornarem mais atrativo à Humanidade.

Ainda na carta em questão, há muitos erros de índole doutrinária onde os chavões repetem-se numa manobra de repetição própria da inteligência emocional. Não apontarei a todos que é por demais exaustivo, deixo só duas rectificações: a Maçonaria Egípcia apodava as Três Luzes do Governo Oculto do Mundo de Menfis – Maisim – Misraim, enquanto a Maçonaria Especulativa – segundo o mito de fundação atribuída a Kunaton, fundador da Rosacruz dos Andróginos ou Rosacruz Andrógina, em 1370 a. C.– só surge no Brasil após a data da sua fundação em Inglaterra, em 1717, levada de Portugal para aí e cujo Grau máximo, ainda no tempo do imperador D. Pedro I, era o de Rosacruz no Rito Adonhiramita, o primeiro a ser instituído no Brasil, cuja Potência e Palácio Maçónico sediava-se no Rio de Janeiro.

Finalmente, colar geopolímeros (facto conhecido de qualquer arqueólogo versado em egiptologia, como sejam as pedras amolecidas com água talhadas no local) com vimanas ou “discos-voadores” tendo a “confirmação” de textos sagrados do Oriente e do Ocidente, tudo dentro das famosas teorias da conspiração e silêncio dos governos, etc., como essa das “forças do Reich, durante a II Guerra Mundial, procurarem as Embocaduras para os Mundos Subterrâneos em Minas Gerais”, facto de todo improvado e indocumentado ao contrário do que aconteceu no Norte do Brasil mas com os interesses nipónicos, é realmente “a maneira mais simples de desconstruir uma Nação, de fazer com que uma Nação seja um aglomerado de pessoas sem um ideal comum, é fazer com que esse povo, essa Nação não tenha História, não tenha Passado”, porque estórias da carochinha não convencem ninguém, por mais crédulo que seja.

Tenho dito. Respeitosa e fraternalmente,

Vitor Manuel Adrião

P.S. – No dia 22 de Abril de 1500, no oitavo dia da Páscoa cristã, a frota de Pedro Álvares Cabral teve o primeiro contacto visual com um elevado cume que por motivo da data recebeu o nome de Monte Pascoal, e à terra descoberta de Vera Cruz, ou seja, a da Verdadeira Cruz do Calvário cultuada neste período do calendário litúrgico. Depois passou a chamar-se Terra de Santa Cruz. Desembarcados os navegadores, levantou-se na hoje Santa Cruz Cabrálica, município baiano, um padrão em forma de Cruz feito com o pau brasil, diz-se, e Frei Henrique Soares, com os seus quatro companheiros do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, realizaram a Missa Pascal do Espírito Santo, a primeira realizada no Brasil com portugueses e índios unidos na mesma celebração. É por isto que a Festa da Páscoa tem especial relevo entre o povo brasileiro, por para ele ser a primeira do calendário litúrgico. Não há acasos… e sim muitas causalidades.

V.M.A.

MEMÓRIAS TROCADAS…

Boa tarde, Exm.º Sr.

Pouco tenho a acrescentar à campanha de difamação e perseguição que esse cidadão Jorge António Oro vem promovendo contra mim desde 2012. Primeiro, admirava-me e dizia-se meu fã, até publicou um vídeo com um livro meu (“História Secreta do Brasil”), esgotadíssimo, tecendo os maiores elogios ao mesmo. Depois, como viu que eu não me convertia às suas ideias particulares, passou a difamar-me e a perseguir-me por tudo quanto é sítio. Não sou da Sociedade Brasileira de Eubiose, e o que herdei de privado foi-me dado pelos próprios discípulos de Henrique José de Souza, a maioria deles já falecidos. Tenho tido a maior deferência na utilização desses escritos e sempre dentro do pensamento livre que distingue todo e qualquer teósofo, seja da Índia seja do Brasil. Consequentemente, nada de «secreto» pretendi dessa organização nem pretendo. Isso é fantasia mentirosa desse senhor, ao confundir troca de informações com pedidos exuberantes, pois o que me repassassem eu repassaria em dobro. Já agora, repasso o link do vídeo onde esse senhor faz elogios ao meu livro “História Secreta do Brasil”, mas agora parece que já não presta porque eu não lhe pedi autorização pessoal. Deixo à sua consideração.

A HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL – YouTube ▶ 2:10:23 https://www.youtube.com/watch?v=pxTz-qhQ-U4 1. Semelhante 25/02/2011 – Carregado por Fernando Piti PROGRAMA VIDA INTELIGENTE – A HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL … sob o Atlântico, oceano que …

Esse cidadão António Oro quer ser ele a fazer o prólogo do livro de Roso de Luna, e para isso não olha a meios para alcançar os objectivos. Sou um investigador da História, por vezes faço citações de Henrique José de Souza (mas também de Blavatsky, de Roso de Luna, etc.) para reforçar as ideias apresentadas, e foi nessa condição que escrevi com o maior gosto o Prólogo à obra do Dr. Roso de Luna. Esse tal António não diz que o meu Prólogo está errado, diz que eu não devo falar de Henrique José de Souza porque não sou da Sociedade a que ele pertence; assim, nesta linha anti-teosófica, também não se deveria falar de Blavatsky, de Roso de Luna e de tantos outros mais citados em milhares e milhares de livros teosóficos e não teosóficos. Para mim, isso não tem sentido algum, e só encontro explicação no seu “ciúme ofendido” e na pretensão descarada de querer brilhar seja de que maneira for. Resulta em  consequência disso o meu pedido  para que não editem o meu Prólogo, no que fui atendido a contragosto, adiantando-me os teósofos espanhóis que assim também não editarão uma só palavra referente ao Professor Henrique José de Souza. Assim, este Grande Teósofo revelado Adepto Vivo continua a ser o mais ostracizado no meio iniciático, a começar pelo brasileiro, graças ao fanatismo e interesses instalados dos seus exclusivos «administradores». É assim que esse cidadão António Oro empolgado na sua autossatisfação revela a los nuestros hermanos teósofos españoles: …”en 1969, cambiamos para Eubiose (um neologismo criado por Henrique José de Souza), dando início a una tercera fase que vá a permanecer asta cuando devemos cambiar nuevamente nuestro nombre para Orden de Maytrya.” Palavras bem reveladoras do que parece(m) andar aprontando: fundar uma “ordem de maytrya” (Maitreya é o termo correcto, digo eu) dando fim à sbe tal como acabaram com a S.T.B., e então já não haverão eubiotas mas só “maytryas”. Deixo à reflexão geral, que há mistérios que ultrapassam a minha compreensão. Com toda essa minha incapacidade de compreender, mesmo assim acredito que isso irá acontecer quando Hélio Jefferson de Souza, primogénito do segundo casamento de Henrique José de Souza, já não estiver neste mundo, de certeza que muito pouco tempo após a sua passagem e a interesseira divinização da sua pessoa. O que ele não é em vida passa a ser depois… invenção inescrupulosa de mitómano(s). Dejá-vu, dejá-vu

Em 2004 estive mais uma vez no Brasil, e corria a teoria de que em 2005 viria Maitreya em pessoa aparecer na Terra, na estância hidromineral de São Lourenço no Sul de Minas Gerais. Eu e alguns condiscípulos de Henrique José de Souza contrapusemos essa teoria com princípios básicos da Teosofia, demonstrando o esdrúxulo da coisa, nessa hora em que se falava abertamente em suicídio e até agressão corporal ao filho mais velho de Henrique J. Souza, que deveria ser «avatarizado» por Aquele, se nada acontecesse, isto é, se Maitreya não aparecesse, e obviamente não apareceu. Creio ter contribuído em São Lourenço, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Salvador da Bahia, em Brasília, etc., para evitar um descalabro maior, que as crenças afirmadas iam todas nessa direcção. Possuo a documentação particular de todos esses eventos. Obviamente não me perdoaram, mas ainda assim mantiveram-se calados, até que depois da farsa de “2012 fim do mundo” que eu desmascarei temendo, mais uma vez, o fenómeno psicossocial de suicídio colectivo, como é comum nas seitas milenaristas e apocalípticas como medida desesperada quando não encontram saída para a confirmação das suas crenças, esse cidadão virou-se contra mim e tive que lhe responder a preceito. Daí para cá, tem sido um descalabro da parte dele, metendo tudo e todos nas confusões que apronta. Pessoalmente não o conheço senão por correspondência que encetou enviar-me e eu responder-lhe após.

Tudo isso vale o que vale, para mim nada, mas é de uma pobreza teosófica que nunca vi em parte nenhuma do mundo e só empobrece a organização que esse cidadão diz representar. Se um teósofo não pode falar de Henrique José de Souza sem a autorização da mesma, também Adyar deveria proibir que se falasse de H. P. Blavatsky, o Ateneu que se proferisse Roso de Luna, etc. Onde já se viu tal coisa? Assim, como pode avançar no Mundo a Teosofia, se alguns sequazes não querem que sejam outros a fazer para só eles poderem brilhar, e para isso vale tudo a começar pelo assassínio moral? Deixo tudo isto à sua consideração que nada mais tenho a dizer, excepto que para mim seria uma honra maior ser um teósofo ibérico a prefaciar o maior Teósofo da Ibéria, fancarias tropicais à parte.

Os meus mais respeitosos e fraternos cumprimentos.

V.M.A.

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A ETERNA MANIA DE QUERER MANDAR NOS OUTROS

Fiz parte dos quadros de sócios da SBE em 1994-1995, e cumpri no exigido pela mesma até à Apostila n.º 5 da sua Série Peregrino, recebendo a correspondência directamente de São Lourenço (MG) e de nenhuma outra representação portuguesa afim, com quem nunca contactei para esse efeito. Afastei-me dessa organização passados cinco meses por total desempatia de ideias que via e vejo não serem afins às originais teosóficas do fundador, Henrique José de Souza, sobretudo as singulares crenças milenaristas e messiânicas em tudo idênticas às que observo abundantemente nas chamadas religiões evangélicas ou protestantes, além de que assume vícios e manias psicofísicas que indesmentivelmente imitam as da catequese católica nas similitudes das crenças professadas, como repara qualquer um com o mínimo de conhecimento de ciência das religiões e seus métodos. Tentei que houvesse uma interrelação superior, verdadeiramente teosófica. Não houve, então afastei-me por iniciativa própria, não que alguém precisasse afastar-me. Estou lendo os documentos da época agora ao meu lado para não cometer imprecisões. Antes, em 1987-1988 mantive relações com a representação portuguesa da SBE e recebi duas colecções policopiadas de textos sem indicativos de quaisquer graus mas que afirmavam serem graus. Foi uma relação muito esporádica que interrompi, como primeiro embate com o excesso de zelo ou fanatismo ou puritanismo ou o que seja com os sócios dessa entidade, e deitei no lixo o dito recebido por descrédito e descrença no mesmo, além de haverem erros gritantes até na mais elementar Teosofia. Tudo isso apesar de já estar na entidade teosófica desde muito jovem (fiz a minha primeira conferência com 16 anos em Vila Nova de Cacela, no Algarve) cuja relação durou até 1978-84 (eu já estivera na Sociedade Teosófica de Portugal, onde dirigi o Ramo “Alvorada”, e também na Comunidade Portuguesa de Eubiose onde alcancei o seu Grau Karuna, portanto, não era um novato, um neófito vendado nestas lides quando contactei a organização brasileira), já intercalada com as actividades culturais-espiritualistas da Comunidade Teúrgica Portuguesa em cuja fundação estive à dianteira, primeiro em Sagres (1978, tinha 21 anos de idade), depois em Sintra (1982, tinha 25 anos) e finalmente em Lisboa com a sua abertura ao público (1984, tinha 27 anos de idade).

Conhecedores do meu trajecto teosófico empático com o pensamento de Henrique José de Souza e a dedicação exclusiva ao mesmo, manifestada sobretudo através da escrita como ensaio que edito desde sempre, vários(as) discípulos(as) daquele relacionaram-se comigo desde cedo e deles vim recebendo consecutivamente, ao longo dos anos, o confio espontâneo do legado que receberam do líder da entidade Sociedade Teosófica Brasileira, repito, sempre de espontânea vontade sem alguma vez eu ter pedido alguma coisa ou pressionado nesse sentido, o mais que houve foi solicitação de informações para pelas mesmas encetar diálogo produtivo e esclarecedor de ambas as partes em diálogo ou conversação.

A prova da veracidade das minhas palavras está, por exemplo, no acontecido no ano 2004 na cidade de São Lourenço (MG), propriamente no Hotel Jina, quando de livre e espontânea vontade, à vista de todos(as) que enchiam o apartamento, a maioria meus desconhecidos mas que estão identificados(as), um discípulo já finado do Professor Henrique José de Souza ofereceu-me todo o seu espólio literário pessoal, desde o mais privado ao mais público. Factos idênticos a esse passaram-se com muitos outros e muitas outras, cujos nomes reservo à evocação no lugar apropriado se for caso disso, coisa que não acredito venha a acontecer porque há muitos “telhados de vidro” e não convém a certa gente andar a atirar pedras com risco de mandar a sua casa abaixo.

O legado teosófico inteiro do Professor Henrique José de Souza que chegou à minha posse aconteceu da maneira descrita acima, não da forma com que dois «artistas» de vaidade ofendida, arrastando mais uns quantos(as) pobres de espírito, acharam dever começar campanha de calúnia contra mim: por roubo ou plágio de bens e pessoas, estas as da tal organização das quais sou livre de discordar inteiramente das suas palavras e atitudes. Se não concordo, como posso plagiar ou roubar aquilo que discordo? Não confere. Deixo à aferição geral.

Vitor Manuel Adrião

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