Carvalho Monteiro e a Peninha de Sintra – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Dez 7 2016 

A Peninha da Serra é um pedestal de penhas donde se abarca vasta visão de Sintra à Arrábida. Um ninho de águias feito por titânicos e misteriosos desígnios.

Ela marca o final ou o início, depende de como se começa o itinerário, do Sistema Geográfico Sintriano. Na base do seu morro está a capela de São Saturnino, tosca de traça românica muito alterada e em estado adiantado de degradação, cuja origem recua aos primórdios da Nacionalidade pois “dizia-se ter sido fundada por Pêro Pais, um dos companheiros de D. Afonso Henriques”[1].

Pêro Pais pertencia à linhagem dos Maias com origem em familiares próximos de D. Ramiro II, rei de Leão, havia desempenhado o cargo de signifer ou signífero (“porta-bandeira”) de D. Afonso I de Portugal e “deixara a Corte retirando-se para a Serra a fim de fazer penitência”, segundo o Visconde de Juromenha[2]. Com efeito, os conquistadores cristãos de Colares (cerca de 10 kms distante de Sintra) haviam sido comandados por Pedro ou Pêro Pais, alferes-mor e “porta-bandeira” de D. Afonso Henriques, que veio a abraçar a vida eremita na serra, aqui mesmo em São Saturnino da Peninha, onde fundou uma cella ou ermida onde viveu largo tempo, a qual nos fins do século XV foi ampliada para capela e hoje é o templo cristão mais antigo de toda a Sintra e arrabaldes[3]. Passado algum tempo, Pêro Pais acabou abandonando o seu eremitério e desceu para Colares onde fundou outra cella, que veio a dar na ermida de Nossa Senhora de Milides, termo significando “olhos de mocho”, a ave da prudência e do saber, o que relaciona Milides com Minerva, a deusa grega da sabedoria. A prova de que o antigo guerreiro era eremita famoso, encontra-se na doação que D. Sancho I lhe faz de Cellas ou Colares em 1192: “Petro heremite de Sintria”.

Ruína da Capela de São Saturnino da Serra de Sintra

Ruína da Capela de São Saturnino da Serra de Sintra

Muito possivelmente, Pêro Pais andaria próximo das doutrinas sufis da heterodoxia corânica ministradas na carvoaria, espécie de mosteiro de recoletos do Islão, da Azóia ou az-zawiya, vizinha de Almoçageme (al-mesjide, “a mesquita”), junto ao Cabo da Roca ou da Serpente (serpens ou cola, donde também colir, o colar serpentário possível indicativo de pressupostos cultos ctónicos neste lugar), na qual, a par do estudo e entendimento das escrituras sagradas, se preparavam as milícias da Crescentada para a jihad, igual na Cruzada à guerra justa, temas desenvolvidos tanto por Becre David Al-Xintari como por São Bernardo de Claraval, padroeiro da Ordem do Templo e pai espiritual de Portugal, dando prosseguimento ao que enunciara Santo Agostinho de Antioquia, um dos Doutores da Igreja sem deixar de ser neoplatónico.

O primeiro historiador de Colares foi o árabe Abu Ibne Mahmud Al-Qazwini (1203-1283), na sua geografia Ajâ´ib al-Buldân (“Maravilhas dos Países”), tecendo as maiores loas a Colares equiparando-a a um “paraíso maravilhoso”, certamente não só pelas suas fartas riquezas naturais mas também por ser lugar de paz e onde em paz se podia aprofundar a praxis litúrgica no respectivo mosteiro ou azóia, junto ao cabo-mar na extensão da Serra Sagrada reconhecida e assumida pelos Iluminados Maridjs a Qut-Xvarnah, o Pólo do Espírito Santo algo idêntico ao Chakra Vishuda dos hindus, correspondendo ao lugar do Laríngeo por onde escoa o Verbo inflamado pelo Fogo Criador do Espírito de Santidade (chamado Kundalini e que é representada pela mesma serpente, cola ou colir, que nesta parte colarense, em São Saturnino – Cabo da Roca, está representada na víbora cornuda, a vípera latastei).

Víbora cornuda (vípera latastei) da serra de Sintra

Víbora cornuda (vípera latastei) da serra de Sintra

No século XVI, a veneranda imagem de Nossa Senhora da Peninha era motivo de culto e romaria anual pela população de Sintra, Colares, Cascais e Milharado, organizada em confraria, e cerca de 1579 a ermida foi elevada a capela – com direito a capelão – tendo recebido melhoramentos e ampliações. Ela veio a possuir um rico altar cujo painel frontal era em azulejo policromado do século XVII, segundo José Azevedo[4], o qual está hoje no Museu do Azulejo, em Lisboa. A sua composição é a seguinte: dentro de um ornato circular está uma fita acompanhando o círculo, com a legenda: “Esta obra mandaram fazer os oficiais da nau Nossa Senhora da Oliveira”, e noutra fita horizontal, tangente à primeira na sua parte inferior: “De Gimarois – Era de 1636”. Segundo Virgílio Correia[5], o painel fora oferecido à Senhora de São Saturnino pelos marinheiros da nau Gimarois que esteve em risco de naufragar defronte ao Cabo da Roca, de onde se avista esta capela cuja Orago os assistiu e salvou na aflição do mar tormentoso.

“Gimarois” é, bem entendido, Guimarães, onde está a linda igreja de Nossa Senhora da Oliveira, sede da mais antiga confraria católica portuguesa, sendo ainda a oliveira simbólica da Árvore da Vida e do Presbiterianismo na cultura mediterrânea. Esse frontal azulejado de altar mostra ainda, no cimo, uma fita circular cortada por uma flor-de-lis ladeada por dois ramos de oliveira levantados, e em baixo também é também cortada por outro ramo da mesma árvore, tombado; ao centro, domina uma mitra episcopal levantada um báculo pastoral deitado. O conjunto representa a sumidade pontifical incarnando a Autoridade Espiritual, sinónima de Tradição e Conhecimento. No conjunto, o frontal é um quadrado com oito azulejos de cada lado e não se sabe quando foi retirado daqui, contudo sabendo-se que em 1673 ainda se oficiava o culto a Virgem da Peninha nesta capela. O seu imobiliário litúrgico também devia ser rico, pois há notícia de haver nela uma mitra de prata ornada com pedras preciosas, datada de 1764. Essa igualmente não se perdeu: está no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa[6].

Quanto ao onomástico São Saturnino, a sua pessoa figurando na hagiografia cristã possivelmente terá sido inspirada na greco-romana do pai de Júpiter, Saturno, o deus que se retirou para a Lácia e ali construiu a Idade de Ouro, como igualmente António Augusto Carvalho Monteiro se retiraria para este lugar inóspito em guisa de aqui reviver o espírito anacorético dos inícios do Cristianismo, mandando construir uma “Regaleira pequena” onde, quiçá, discreto e isolado, pudesse dedicar-se a misteriosas e alquímicas fábricas auríferas.

Enquanto Júpiter, como “Pai” do Céu, é o aspecto superior de Saturno, como “Pai” da Terra”, nisto o mesmo Saturnino como Saturno também é Cronos, o deus do Tempo que demarca os Ciclos tradicionais da Vida Universal, alegorizado naquele gigante mitológico devorador dos seus próprios filhos[7], isto é, o que regula fatalmente o período de existência corporal de um e de todos os seres viventes, saídos da existência intemporal para um dia volverem engolidos nas entranhas do Pai Eterno. Com toda a certeza Carvalho Monteiro conhecia esse mito grego[8], ou não teria mandado esculpir um relógio solar numa penha sob o seu palácio, ademais sendo possuidor do relógio mais completo e complexo do mundo em seu tempo. Sim, para um estudioso como ele era da filosofia clássica, certamente não lhe era desconhecido o elementar de Cronos ser o deus do Tempo e o padroeiro dos relojoeiros cuja arte é ofício tradicional.

Cemitério para nados-mortos, marcado pela cruz franciscana, lateral à capela de S. Saturnino de Sintra

Cemitério para nados-mortos, assinalado pela cruz franciscana, lateral à capela de São Saturnino de Sintra

A propósito do interesse saturnino ou cronosiano de Carvalho Monteiro, transcrevo a notícia publicada por Leonor Figueiredo faz alguns anos[9]:

“DAR AS HORAS DE 125 LOCAIS… – Um relógio ultracomplicado está hoje exposto no museu de Besançon, em França. Relógio esse que pertenceu e, segundo os netos, foi idealizado pelo próprio Carvalho Monteiro.

“Trata-se dum exemplar em ouro executado em Besançon e Paris de 1897 a 1901. Foi o próprio rei D. Carlos que o trouxe da capital francesa. A autoria é dada ao relojoeiro L. Leroy no livro “Evolution de L´Horlogerie” de Lucien Balvay, onde nem sequer o nome de Carvalho Monteiro é referido.

“É notável o número de informações que fornece. A hora, o minuto, o segundo, os dias do mês, os anos bissextos, as estações do ano, solstícios e equinócios.

“Também por este objecto se pode saber a fase da Lua e o estado do céu nos hemisférios boreal e austral. A parte que representa o céu está animada de movimento sideral.

“Um mostrador indica a hora de 125 cidades do Mundo, onde se inclui Lisboa. Indicando também, nesta última, a hora do nascer e pôr do sol.”

relógio de sol mandado insculpir por António Carvalho Monteiro numa penha sob o seu Palácio da Peninha de Sintra

Relógio de sol mandado insculpir por António Carvalho Monteiro numa penha sob o seu palácio da Peninha de Sintra

Marcando o espírito de colecionador de Carvalho Monteiro, também Regina Anacleto faz referência ao famoso relógio e ao que lhe sucedeu depois da morte do seu proprietário, nisto devendo registar que a autora serviu-se de informações imprecisas provavelmente oriundas de fonte obscura que vincasse algum tipo de tese jacobina. Diz[10]:

“Colecionava moedas, armas, relógios, borboletas, mobiliário, pratas e livros, a par de um bricabraque vultuoso, como ainda era uso e costume na época. O seu conhecido relógio de fabrico francês que marcava, para além das horas, os meses, dias, anos, fases da Lua, eclipses e outros fenómenos deste tipo até ao ano dez mil, foi transacionado pelo filho a um cigano por 200$00; este, com o seu espírito de negociante, vendeu-o, pouco tempo depois, a um museu suíço, onde presentemente se encontra, por 200.000$00.”

A história deste relógio, identificado como Leroy 01, começa em 1867 quando o moscovita conde Nicolas Nostitz encomendou à famosa casa de relojoaria Le Roy & Fils, mais tarde L. Roy & Cie., um relógio com onze complicações, que veio a ser exposto na Exposição Universal de Paris de 1878 antes de ser entregue ao conde. Com a morte deste, em 1897 o dr. António Carvalho Monteiro adquiriu o relógio, porém, mandou acrescentar-lhe mais complicações. Com efeito, enviou-o a Louis Leroy acompanhado de uma carta dando instruções resumidas no seguinte: fabricar um relógio que reunisse tudo o que a ciência e a mecânica da época pudessem reunir num objecto portátil. Assim foi feito, e essa obra única da arte relojoeira veio a admiração geral na Exposição Universal de Paris de 1900, catalogada como Leroy 01 – ultracomplicado. O resultado de três anos de pesquisas reuniu 24 sistemas (complicações), 975 peças, num mecanismo de 4 níveis contidos numa caixa de ouro (com tampa gravada com ilustração mitológica encomendada por Carvalho Monteiro a Luigi Manini) decorada com pérolas, esmeraldas e rubis, com 228 gramas de peso e 7 cm de diâmetro. Desenvolvido e aperfeiçoado pelo especialista e célebre relojoeiro de La Vallé de Joux (localidade suíça célebre pela concentração de relojoeiros famosos), Charles Piguet au Brassus, o relógio foi concluído e montado nos ateliers de L. Leroy na Square St. Amour. Mas ele só chegou a Portugal em 1905 trazido pelo próprio rei D. Carlos, fiel cliente da marca que entretanto estava em Paris, tendo-o entregue pessoalmente a Carvalho Monteiro no Palácio das Necessidades, em Lisboa. A obra custou 20.000 francos.

Além dos mecanismos das horas, minutos e segundos, o Leroy 01 oferece ainda: 1) dia da semana; 2) dia do mês; 3) calendário perpétuo dos meses e dos anos bissextos; 4) milésimo por cem anos; 5) fases da Lua; 6) estações do ano, solstícios e equinócios; 7) equação do tempo; 8) cronógrafo; 9) contador de minutos com retorno a zeros; 10) contador de horas; 11) mecanismo de mola; 12) toque regulável em som forte, médio e silencioso; 13) repetição da hora, dos quartos e dos minutos, com três timbres, tocando como um carrilhão; 14) estado do tempo no hemisfério boreal, no momento do dia, indicado pela data (o céu estando animado pelo movimento sideral, isto é, avançando 3 minutos e 56 segundos por dia sobre o tempo médio; a representação do céu e do horizonte de Paris, com 236 estrelas; a representação do céu e do horizonte de Lisboa, com 560 estrelas); 15) estado do céu no hemisfério austral (no meio de um mecanismo de recarga que anima o céu por um movimento de rotação de oeste para este, a representação do céu e do horizonte do Rio de Janeiro, com 611 estrelas); 16) hora de 125 cidades do mundo; 17) hora do nascer do sol em Lisboa; 18) hora do pôr do sol em Lisboa; 19) termómetro metálico centígrado; 20) higrómetro de cabelo; 21) barómetro; 22) altímetro para 5000 metros; 23) sistema de acerto do relógio sem abri-lo; 24) bússola.

Leroy 01, o relógio de Carvalho Monteiro. Fotografia sem data, produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. Biblioteca de Arte – Fundação Calouste Gulbenkian

A chegada do Leroy 01 a Portugal não passou desapercebida e foi motivo de notícia num número do Diário de Notícias de Janeiro de 1905, com o título: “Um relógio de 4 contos de réis do exm.º sr. dr. Carvalho Monteiro”, artigo ilustrado com duas fotos do relógio que é descrito com minúcia. Só 33 anos depois da morte de Carvalho Monteiro, em 1953, em vista das dificuldades económicas que passavam, os seus herdeiros demonstraram interesse em vender essa peça, entretanto adquirida por um joalheiro português que a levou a Besançon, na França. As autoridades francesas locais mostraram interesse em adquirir o “relógio mais complicado do mundo”, e lançaram uma subscrição pública nacional para recolher os dois milhões de francos pedidos pelo vendedor. A 26 de Março de 1955 foi finalmente adquirido e passou a figurar no Museu do Tempo do Palácio Granvelle, em Besançon, sendo actualmente conhecido por Lucie, em homenagem à sua conservadora Lucie Cornillot que foi quem fechou o negócio da compra do relógio. A peça voltaria por breves dias a Lisboa em Novembro de 1967, por motivo da ocorrência no Hotel Ritz da “Jornada do Relógio Francês”, sendo nessa ocasião exposto “o relógio mais complicado do mundo, o L1”[11].

Esse relógio de bolso mandado executar por Carvalho Monteiro com desenho decorativo de Luigi Manini no tampo; no cimo deste vê-se a letra grega ômega envolvendo uma coroa de conde, por certo evocativa do titular anterior da peça, o conde Nicolas Nostitz, mas também e alinhando com o Brasão Nacional no fundo do tampo, alusivo ao Condado Portucalense, e possivelmente ao tempo de um ciclo português que finda para outro que haverá de dealbar. Com efeito, tem-se em baixo o deus Cronos ou Saturno prostrado sobre as Armas de Portugal, com o braço esquerdo cruzando o monograma CM (Carvalho Monteiro) no centro do conjunto, em guisa de apontar a intemporalidade do nome da família na temporalidade de que ele é deus alado, expressando a libertação das almas do cativeiro carnal; por cima dele, representam-se as três Parcas romanas ou Moiras gregas, as tecelãs do destino: no topo, Átropos ou Morta, ameça cortar com a tesoura o fio da vida que cerca o redondo do tampo e marca o ciclo da existência, com isso assinalando a morte que é o futuro fatal de todos os seres vivos; Cloto ou Nona, à esquerda, segura a roca de onde sai o fio da vida, correspondendo ao nascimento e ao momento presente; Láquesis ou Décima, à direita, enrola o fio no fuso, remetendo todas as coisas e seres para o passado e o olvido[12]. Ainda nos lados, à esquerda está a Cruz da Ordem de Cristo e à direita a Cruz da Ordem de Avis, emblemáticas do Poder Temporal e da Autoridade Espiritual assinalando o ciclo de Portugalidade, aliás, assinalada nas Armas com quinas em cruz no fundo do tampo.

No ermo de São Saturnino, que insolitamente Carvalho Monteiro elegeu para si, muito antes do culto paleocristão a esse santo terá havido aqui ou nas proximidades algum santuário rupestre da cultura oestriminide ou ligúrica ao deus (Endo)belos, o mesmo Baal da cultura púnica, e como testemunho litolátrico do passado remoto vêem-se nas penhas no alto do morro da Peninha uma série de covinhas possivelmente destinadas a algum tipo de culto votivo, além de não muito longe estarem o tholos chamado “do Monge” e a anta de Adrenunes (André Nunes), esta em alinhamento directo à ponta extrema do Cabo da Roca. Isto levou Paulo Pereira a considerar[13]: “Por detrás da Capela de São Saturnino, alcandorada no âmago de pedras deste monte, encontra-se a Capela da Peninha. É certo que o local, de onde se avista todo o arco da barra do Tejo, deveria ter sido precedido por um santuário pré-histórico cuja memória se perpetuou nesta humilde capela. O invulgar orago remete para cultos saturnianos, em tudo semelhantes aos que se podem encontrar nos Cabos de Sagres e de São Vicente, este dedicados também a divindades saturnianas ou ligadas ao Tempo, entendido como ciclo e sucessão vital face à disposição astral dos corpos celestes – neste caso o Sol poente (Baal, Hércules, Kronos, Saturno). Será pois uma manifestação típica dos cultos das finisterras, neste caso a do próprio Cabo da Roca, que dali se avista”.

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O Cabo da Roca, pela sua clara importância geográfica, não poderia deixar de suscitar forte temor e veneração aos marinheiros fenícios da Proto-História, época em que terão elevado aqui um santuário consagrado a Baal-Saturno, o mesmo Cronos-Saturno[14], hipótese muito verosímil apesar de faltarem as comprovações arqueológicas. Saturno representava o princípio masculino da luz, do fogo e do calor, motivo para o associarem ao “Sol da Meia-Noite”, mas também o de deus da fertilidade agrícola e da renovação cíclica das energias da Terra, nisto sendo representado por um touro que lhe era consagrado e sacrificado, animal que tem papel central na hagiografia de São Saturnino[15].

Com efeito, é dito que São Saturnino viveu no século III e atribuem-se-lhe muitos milagres e numerosas conversões, dentre elas destacando-se a de um fazendeiro de Nimes, chamado Honesto, a quem ordenaria sacerdote e o qual, desde então, se tornaria, com São Papul, o seu fiel companheiro. Foi também São Saturnino quem, em Navarra, baptizou São Firmino, futuro bispo de Ambiano (Gália), hoje Amiens. Em Tolosa, por ser firme na sua fé, os gentios amarraram-no a um touro que em grande correria o arrastou pelas ruas da cidade, causando-lhe morte horrorosa[16]. Por isso, o atributo iconográfico de São Saturnino passou a ser o touro. Signo venusto, aceite como emblema de energia vital e fonte de fertilidade entre os povos primitivos, participa, tal como outros animais cornúpetos, porém representando-os a todos, de todo o tipo de cultos. Com isso, o taurobólio – que viria a dar nas vulgares touradas – veio a representar o sacrifício da Era de Taurus, a imolação da Divindade às mãos do Homem que almeja alcançar o Seu poder e significado transcendente, deicídio esse expressado pela sujeição corporal às penas agrestes da Natureza característica da vivência eremita, no pretenso de absorver-se na condição incorporal que lhe dará acesso e posse da Consciência de Deus, facto interpretado como o «sacrifício» simbólico do Criador mãos da Sua criatura que assim se torna igual a Ele.

Quanto à imagem milagrosa da Virgem deposta na capela no alto no monte da Peninha, já não é a original que datava do século XVI. Quanto a quem erigiu o templo, foi Pedro da Conceição, “canteiro de seu ofício e homem iluminado”[17]. Tinha 28 anos de idade na altura em que construiu a capela (1690) custeada pelas esmolas recebidas do povo devoto dos lugares arredores (Malveira da Serra, Azóia, Almoçageme, Colares, etc., e até quase ao início de 1990 fez-se aqui romaria de importante Círio saloio à Senhora da Peninha[18]), tendo contado ainda com a ajuda directa do rei D. Pedro II. Faleceu no dia 18 de Setembro de 1726, notícia atestada pela inscrição tumular vista a meio da coxia da ermida e que assim reza:

Sª DO IRMITA.

O. Pº DA CÕCE

ÇÃO PEDE HV

P. N. E HVA. A

VE. Mª PELOS

BE. FEITORS

FALº EM. 18. DE

SETRº D. 1726. Ã.

Traduzida:

Sepultura do ermitão

Pedro da Conceição pede

um Padre Nosso e uma

Avé Maria pelos benfeitores.

Faleceu em 18 de Setembro

do ano 1726.

Por cima do arco triunfal lê-se, em círculo, esta legenda:

O I. Pº FES ESTA. OBRA.

COM ESMOLAS. DOS. FIEIS.

ANº DE 1690.

O Irmão Pedro fez esta obra com esmolas dos fiéis. Ano de 1690.

Após a morte de Pedro da Conceição, tendo gasto na obra todo o dinheiro que possuía e vivido 35 anos numa gruta ou cella próxima daqui, sucedeu-lhe o ermitão João Francisco, que ao falecer em 1766 foi sucedido por Sebastião Nabo, com quem termina a sucessão de eremitas neste lugar que, posto assim, parece ter funcionado como Deserto. Em 19 de Abril de 1779 o padre Pedro Rodrigues Pereira é nomeado capelão do santuário da Peninha, numa altura em que a capela e a cerca estavam a ser administradas abusivamente por Francisco Xavier Stokler, como dá conta o beneficiado da igreja de São Martinho de Sintra, padre Francisco de Albuquerque. A querela prolongou-se até 1892, quando a Peninha foi adquirida pelo conde de Almedina, e em 1918 veio finalmente a ser adquirida pelo dr. António Augusto Carvalho Monteiro.

Os azulejos que revestem a nave da ermida são lindíssimos e datam do século XVIII. Espelham os 44 Passos da Vida da Virgem Maria – Vitam Maria – recheados de símbolos referentes à mesma, muitos deles de origem carmelita o que deixa pressupor a influência e presença aqui da Ordem do Carmelo, possivelmente a sediada em Cascais que se trasladaria para Colares, reparando o professor Virgílio Correia[19] que “são do estilo de António de Oliveira Bernardes, azulejista e decorador do século XVIII, e que atendendo à sua data (1711) e a outras afinidades, a atribuição é verosímil”. António de Oliveira Bernardes nasceu no terceiro quartel do século XVII e morreu em 1732. O professor Virgílio Correia chama ainda especial atenção para o painel que se encontra na parte interna do tímpano, “em que se divisam quatro anjos de movimentação muito elegante e graciosa, os quais envolvem uma data escrita no próprio azulejo: 1711”.

A capela-mor é toda forrada de um tapete de mármores da região, de várias cores (branco, negro, rosado e amarelo), e o altar, tal como o púlpito, é revestido por belos embutidos do mesmo material e com as mesmas cores.

Como já foi dito, a imagem que santificava o altar-mor já não era a primitiva do Orago, pois essa era “tosca”, como está relatada na lenda do sítio sobre a aparição da Virgem, nos finais do século XVI, a uma moça surda e muda guardadora de ovelhas[20]. A veneranda imagem da Senhora da Peninha, mais recente, muito bem trabalhada e de rosto muito expressivo, possivelmente dataria dos inícios do século XX.

Ainda sobre a lenda mariana relatada por frei Agostinho de Santa Maria, ela quase que serve de “lenda de fundação” ao supradito Círio à Senhora da Peninha, como descreve com muita propriedade Manuel J. Gandra[21]:

“A Serra de Sintra, que avançava muitas centenas de quilómetros para Sudoeste, sofreu grande afundamento, originando-se com ele o actual estuário do Tejo, o qual antes (Miocénico) desembocava com o Sado num extenso delta comum, que abrangeria a região desde Ferreira do Alentejo a Alenquer. O santuário de Nossa Senhora da Peninha alcandora-se num penhasco da Serra de Sintra, situando-se sobranceiro ao mar, na freguesia de Colares. (…) Na Azóia atribui-se a fundação do santuário a seis marinheiros que, por andarem perdido no mar, haviam feito promessa de construir uma igreja na primeira terra que avistassem, versão que é seguida em Atalaia e Malveira da Serra, onde corre que “a Senhora da Peninha era advogada dos marítimos”, o que parece crível, atendendo a três ex-votos, um dos quais naviforme, provenientes do templo (no Museu Regional de Sintra); em Almoçageme, além de se afirmar que a menina “veio dos Milheirados [Milharado] trabalhar para a Malveira [da Serra]”, indo pastar o gado para a serra, onde ocorreu o episódio tal como o Santuário Mariano o narra (motivo por que “os dos Milheirados fizeram uma festa – no mês de Setembro – e vinham em círio festejar a Nossa Senhora da Peninha”), conta-se que “a Senhora da Peninha tem sete irmãs, por isso quis ir para o alto do penhasco, porque aí avistava as sete irmãs, que são: a Senhora da Atalaia, a Senhora da Pena, a Senhora da Penha de França (Quinta da Arriaga, próxima de Almoçageme), Santa Eufémia, Santa Quitéria de Meca – a advogada dos cães danados[22] –, Santa Baziliza (Guia, Cascais) e a Senhora do Cabo (Espichel)”. Do Círio há notícias desde 1579. Uma inscrição patente na fonte da Peninha refere-se a uma romaria proveniente de Lisboa, no ano de 1739, porém, segundo Frei Agostinho de Santa Maria, a primeira confraria de Nossa Senhora da Peninha foi instituída por devotos do Milharado, tradição corroborada por afirmações como: “A Peninha era dos milharandos, eles é que faziam a festa; o’pois deixaram de vir e os azoianos ficaram com a Peninha; o’pois acabou” (Amélia Maria, Malveira da Serra); ou “Os milharandos faziam lá na Capela de Nossa Senhora da Peninha a festa – o Círio – todos os anos, e deixavam as louças de uns anos para os outros, louças lindas! E foram lá da Azóia e roubaram as louças, o manto e as toalhas[23]. Os ladrões morreram todos empenados (curvados), foi um espelho para as pessoas verem quem tinha roubado a Senhora” (António Manuel Rodrigues, Azóia). Na Cintra Pinturesca (p. 160) lê-se que em 1905 ainda vinha um círio do Milharado, reportando-se, contudo, ao ano de 1909 (3-6 Set.) a derradeira notícia documentada acerca de tal evento.”

Mas ele prosseguiu para além dessa data, como está documentado fotograficamente no livro citado, O Trabalho e as Tradições Religiosas no Distrito de Lisboa, com fotografias da romaria à Senhora da Peninha datadas de 1986, informando ainda que “a romagem e Círio provinham de Colares, Sintra, Milharado, Malveira da Serra, Azóia e São João das Lampas”.

Fonte no caminho para o Santuário da Peninha

Fonte dos romeiros no caminho para o Santuário da Peninha

No altar-mor da ermida, além do Orago existiram mais cinco imagens: Santa Rita de Cássia, São Miguel Arcanjo, São José, Santo Agostinho e São Brás. Ainda no altar, tinha-se a imagem do Senhor na Cruz cujas extremidades dos palos desfechavam em flores-de-lises prateadas, e era assim mesmo que a tomavam como emblemática das suas agremiações operáticas os monges construtores medievais, e depois as confrarias de mestres canteiros organizados em guirlandas de ofícios nos inícios da Renascença. Para eles, Santa Maria era a sua padroeira universal e tomando-a como exemplo da incarnação do Divino Espírito Santo na Matéria, serviam-se desta para deixar o testemunho, através das artes de pedreiro e carpinteiro, da Perfeição Divina com que foi feito o Mundo todo resumido na Casa do Senhor, o templo. Por isso, o frontal do altar apresenta as cinco letras do nome de Maria, cada uma inscrita dentro de uma estrela de sete pontas, e por cima a coroa imperial. Trata-se de heráldica falante, designando Maria Regina Mundi, espécie da Cabala Gemátrica que igualmente se revela no famoso relógio de António Carvalho Monteiro, também ele cultor mariano.

Além do título auferido por Maria como “Rainha do Mundo”, o seu nome inscrito dentro das estrelas igualmente designa-a Stella Maris, evocação presente na ladainha assinalando-a com o predicado celeste da Estrela d´Alva e do Crepúsculo, Vénus, levantando-se e pondo-se sobre o Mar Incógnito (Mare Incognitus) adiante deste ermo marcando o Finis Terrae, lugar dos saberes ocultados que os marinheiros do vasto oceano de Espírito desocultaram fazendo-o Mare Nostrum, epíteto hermético dado ao “Mercúrio dos Sábios”. Nisto, na mais pura e franca heterodoxia, o tema sebástico igualmente faz-se presente, sem dúvida encoberto mas patente neste frontal de altar. A profecia bíblica em Números (24:17), principal influência da simbólica messiânica, levou a exegese a interpretar a estrela como uma imagem ou o nome do Messias aguardado[24], tema transposto para a fórmula mental lusitana do V Império e do Imperador Universal, donde a coroa imperial presente no frontispício da mesa dos sacrifícios. Revelando-se a estrela de sete pontas, simboliza a Criação absoluta, como também a totalidade do Tempo e a totalidade do Espaço repartidos em ciclos, com estes abrindo uma janela de oportunidade para que Maria novamente dê à luz ou revele o Divino Espírito Santo, ou seja, a nova Parúsia na qual o Messias se revelará à Humanidade, contando a hora da Sua revelação a partir do momento que é anunciado.

Em volta do morro havia até há pouco tempo várias casas arruinadas: elas foram construídas nos séculos XVIII-XIX pelos romeiros aqui vindos prestar culto à milagrosa Virgem da Peninha. Mas por volta de 1918, quando o Dr. Carvalho Monteiro comprou este espaço com a possível intenção de também ele fazer aqui as suas reclusões, mandou demolir um grupo de três casas e no seu lugar ordenou a construção de um edifício apalaçado sob projecto de Júlio da Fonseca, vendo-se de fora, do lado sul, o seu vasto terraço ou loggia de paredes ameadas dando-lhe o aspecto de castelo.

Vindo a morte recolher Carvalho Monteiro em 1920, o seu Palácio da Peninha não ficou concluído, mas tendo ele se acautelado antecipadamente, certamente por causa dos interesses cobiçosos que já então haviam para este lugar, deixou expressa a sua vontade que dentre os principais interessados em adquiri-lo se preferisse o seu advogado, dr. José Maria Ferreira Rangel de Sampaio. Assim aconteceu, e de imediato o novo proprietário procurou o artista sintrense Júlio da Fonseca para fornecer-lhe novo projecto a fim de poder acabar a obra, o que também aconteceu, mas esse novo projecto era praticamente idêntico ao anterior que esquissara para o dr. Carvalho Monteiro. Por disposição testamentária do dr. Rangel, todo o conjunto da Peninha passou para a posse da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e assim se manteve até 1991, quando foi comprado pelo Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza por 90 mil contos.

Assentando no formato cúbico ameado encostado ao templo, penetrando-o mesmo, o palácio sugere tanto a ideia da Caaba árabe quanto a da Rabita moçárabe, além de também parecer querer unir a Autoridade Espiritual (representada na capela) com o Poder Temporal (assinalado no palácio). Tendo sofrido obras há poucos anos que alteraram severamente a sua feição interior, o traçado deste imóvel era deveras intrigante, com os seus dois acessos à capela, um pela porta dianteira lateral à daquela, e outro interior passando para meio da coxia próximo do púlpito.

Entrando pela porta principal do palácio, alonga-se uma sala relativamente estreita (“estreito é o Caminho…”) seccionada em três arcarias (ou “Idades”…), havendo logo à entrada de quem entra, em jeito de “figuras de convite”, dois painéis de azulejos nos lados, retratando um Anjo Turibulário e um Anjo Turiferário (motivos por demais estranhos para uma habitação que se pretendia civil, deixando a suspeita de originalmente querer-se destiná-la a fins herméticos só do conhecimento de Carvalho Monteiro). A decoração das paredes prossegue com outros belos exemplares de azulejos azuis e brancos, possivelmente do século XVIII resgatados de outro lugar e trazidos para aqui, com motivos florais, de vida campestre e de vida religiosa entremeada com simbologia hermética. Nisto observava-se, por exemplo, um pavão entre rosas[25], ou então uma greta, espécie de vulva vaginal ou virginal igualíssima à da entrada na caverna nas traseiras do edifício (hoje cimentada), que leva à mina d´água subterrânea que alimenta São Saturnino da Serra de Sintra. Na parede lateral direita junto ao terraço abre-se uma lareira onde estava uma salamandra envelhecida muito deteriorada, possivelmente coeva de Carvalho Monteiro, que pelo seu formato de vaso fazia lembrar o vaso hermético utilizado nas operações de Alquimia com o respectivo forno ou athanor. Não afirmo que o fosse, mas que o sugeria lá isso sugeria…

A salamandra sugestiva do "vaso hermético" no Palácio da Peninha

A salamandra sugestiva do “vaso hermético” no Palácio da Peninha

Todo o edifício estava disposto em espiral descendente, como tendente a mergulhar nas entranhas da Mãe-Terra. Além de uma escadinha pela qual se sobe ao terraço no fundo da sala-corredor, num outro espaço destinado a sala de estar há uma outra escadaria, a meio da sala de entrada, que levava a um aposento quadrangular subterrâneo, aberto ao lado de uma cisterna cuja fundura perdia-se nos abismos da Terra. Uma porta de grade de ferro, caída e enferrujada, por sua vez dava acesso a outro aposento mais pequeno, que tinha num dos cantos uma espécie de altar em triângulo montado pela própria rocha viva.

A citada sala-corredor que tem janelas mas não tinha vidros e onde estranhamente não entrava o vento – sabendo-se quanto furiosamente ventosa é a Peninha – foi concebida como prolongamento lateral da capela, espécie de “costela” desta, evocativa de Adão parindo Eva, ou por outra, da parte devocional assistindo à laboratorial, donde o ora et labora origem do termo laboratorium, laboratório. Isto reconduz à capela, ou antes, à sacristia onde está – ou esteve, quiçá – uma belíssima fonte barroca feita de mármore da região, possivelmente obra do século XVIII, de onde jorrava água destinada a ser benta. A sua ornamentação é muito sugestiva: mostra no topo uma cruz latina branca (adoptada pelos franciscanos como Cruz Patrística[26] e da Igreja  Primacial, como seja a da Regra do Ocidente centrado em Roma) com uma rosa vermelha em cada extremo da trave horizontal, e uma terceira rosa no centro. Mais abaixo, nova cruz branca em espigão floral, tendo cada pétala uma rosa vermelha, e ao centro a boca d´água. Toda a peça tem por fundo a cor azul e vem a assinalar a “Água da Fonte de Maria”, Fons Acqua Maria ou Fons Maris, vindo as rosas e as cruzes, donde Rosa+Cruz, a ser sinaléticas da presença próxima da Pedra Filosofal – também chamada “Cabeça de Bode” ou “de Caprino”, indicativo do Planetário do Ciclo ou o Cumara – ou da Iluminação Espiritual seja a que nível for, porque nesta heterodoxia o confessional confunde-se com o racional, ou por outra, a catequese dos simples com a teologia dos eruditos. Por isto, Maria é Mãe de todos os crentes, e Saturnino o Oráculo das realizações próximas.

Fonte na sacristia da Capela de Nossa Senhora da Peninha de Sintra

Fonte na sacristia da Capela de Nossa Senhora da Peninha de Sintra

Realmente, a Peninha e São Saturnino marcam o fim da marcha iniciática sintrã, onde os corpos encontram o repouso final e as almas se evolam ao seio da Eternidade. Por certo terá sido o que aqui procurou, com tudo indicando que achou, António Augusto Carvalho Monteiro (ele que queria comprar toda a serra, como disseram os seus netos) e os anteriores ermitões com fama de santões deste ermo, onde tem lugar a morte profana, corporal, mas também onde tem lugar a ressurreição iniciática, espiritual. Este facto transcendente é, para o povo simples morador arredor daqui, a “maldição” da Peninha… mas bênção para quem sabe e acha.

NOTAS

[1] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, volume 29, página 226. Esta enciclopédia compõe-se 40 volumes publicados entre 1936 e 1960 em Lisboa e no Rio de Janeiro, pela Editorial Enciclopédia Lda.

[2] Visconde de Juromenha, Cintra Pinturesca. Lisboa, 1838.

[3] A. de Silva Pereira, Cintra, Collares e seus arredores. Lisboa, 1888.

[4] José Alfredo da Costa Azevedo, Velharias de Sintra, volume I. Publicação da Câmara Municipal de Sintra, 1980.

[5] Virgílio Correia, Azulejos datados. Lisboa, 1922. Do mesmo autor, Azulejos. Livraria Gonçalves, Coimbra, 1956.

[6] Carlos de Azevedo, Julieta Ferrão, Adriano de Gusmão, Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, volume II, página 23. Lisboa, 1963.

[7] Estando de certa forma relacionada com a lenda mitológica de Cronos devorando os filhos, não deixa de ser curioso existir lateral à capela de S. Saturnino um cemitério onde eram enterrados os nados-mortos, estando gravada numa fraga, próxima da cisterna romano-árabe em meia-lua, uma cruz franciscana, possivelmente feita pelos monges do Convento dos Capuchos próximo.

[8] Há uma curiosa fotografia dos finais do século XIX onde se vê a família Carvalho Monteiro pousando para o retrato junto às portas e escadaria das Termas de Vidago ou Pedras Salgadas, onde aparece o tio e padrasto de Perpétua Augusta Pereira de Melo, ou seja, Gaspar José Viana, um homem de fato branco, de longas barbas e cabelos brancos, na pose singular de segurar uma enorme foice numa mão e uma ampulheta na outra, como alusão óbvia a Cronos-Saturno. Esta fotografia esteve em exposição na Quinta da Regaleira durante algum tempo, e talvez ainda lá esteja junto às escadarias para o primeiro andar do palácio, à saída da primitiva sala do bilhar.

[9] Leonor Figueiredo, Monteiro Milhões, o nosso “Luís da Baviera” – Quem era o homem que queria fazer de Sintra terra das mil e uma noites. Jornal “Correio da Manhã”, 30.1.1985.

[10] Regina Anacleto, Arquitectura Neomedieval Portuguesa, 1880-1924, volume I, página 327, nota 3. Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Coimbra, 1997.

[11] Fernando Correia de Oliveira, História do Tempo em Portugal. Elementos para uma História do Tempo, da Relojoaria e das Mentalidades. Diamantouro, Lisboa, Novembro de 2003.

[12] Quinta da Regaleira – Luigi Manini (Imaginário & Método – Arquitectura & Cenografia). Edição da Fundação Cultursintra, 2006.

[13] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Cabos do Mundo e Finisterras. Edição Círculo de Leitores, Lisboa, Janeiro de 2005.

[14] André de Resende, As Antiguidades da Lusitânia, Évora, 1593. Reedição da Fundação Calouste Gulbenkian, com introdução, tradução e comentário de R. M. Rosado Fernandes, Lisboa, 1996.

[15] José Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1989.

[16] Omer Englebert, Vida dos Santos, volume II, página 621. União Gráfica, Lisboa, 1953.

[17] Raul Proença, Guia de Portugal, volume I. Lisboa, 1924.

[18] O Trabalho e as Tradições Religiosas no Distrito de Lisboa. Exposição de Etnografia. Governo Civil de Lisboa, 1991.

[19] Virgílio Correia, Azulejos datados. Lisboa, 1922.

[20] Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, t. I, liv. I, tit. 16, pp. 53-55. Lisboa, 1707.

[21] Manuel J. Gandra, Os Círios ou aspectos do culto da Grande Deusa na Estremadura. Texto inserto em Comunicações – Jornadas sobre Cultura Saloia, 2 e 3 de Dezembro de 1994, nas quais, passo a informação, igualmente intervi com a alocução Mitos e tradições saloias. Edição Câmara Municipal de Loures – Departamento Sócio-Cultural, Divisão do Património Cultural.

[22] “Cães danados”, digo eu, também podendo ser sinónimos dos que professam heresias para o clero vigente.

[23] Para mim, essas denúncias justificam-se exclusivamente por “rivalidades bairristas” entre os do Milharado e da Azóia.

[24] “Eu o vejo, mas não no presente; eu o contemplo, mas não de perto; de Jacó procederá uma estrela, de Israel se levantará um ceptro que ferirá os termos de Moabe, e destruirá todos os filhos de orgulho.” – Quarta profecia de Balaão, Números, 24:17.

[25] O pavão é um dos símbolos mais caros da Alquimia, por expressar o “arco-íris” ou as sete cores da Grande Obra antes do processo chamado “Composto”, já se sabendo que aos tratados de Alquimia, na Idade Média e nos inícios da Renascença, se chamavam “Roseiras dos Filósofos” ou “Roseiral da Filosofia”.

[26] Há diferenças entre Patrística e Patrologia. A Patrística ocupa-se do pensamento teológico dos Padres da Igreja, e a Patrologia ocupa-se da vida e dos escritos dos mesmos. In Patrologia-Patrística – Diccionario Patristico y de la Antigüedad cristiana, Verdad y Imagen, Salamanca, 1998.

Lagos da Beira e a Família Carvalho Monteiro – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Nov 17 2016 

cabecalho

“Lagos da Beira é uma verdadeira pérola para o conhecimento e compreensão da figura singular que foi António Augusto Carvalho Monteiro. Esta aldeia singela mas com tanto para contar, é o ponto de partida de toda a minha investigação sobre esta família. Aqui é a origem. Foi aqui que tudo começou com o seu pai, Francisco Augusto Mendes Monteiro (cuja árvore genealógica recuando até ao século XVI, dá todos os seus antecedentes como naturais da região de Lagos da Beira – Oliveira do Hospital), marcando decisivamente o carácter e pessoa do filho. O Brasil, a fortuna colossal, a Quinta da Regaleira de Sintra e tudo o mais, vieram depois”. Isto mesmo disse ao ilustre lagoense senhor Vitor Fernandes, responsável da Biblioteca-Museu Tarquínio Hall, quando visitei Lagos da Beira em 8 de Maio de 2012.

Nesta freguesia do concelho de Oliveira do Hospital, na Beira Alta, nasceu Francisco Augusto Mendes Monteiro em 9 de Março de 1816, vindo a falecer com 74 anos de idade em 1 de Novembro de 1890 no seu Palácio da Rua do Alecrim, Lisboa, depois de uma vida cheia e próspera. O filho herdaria do pai a natureza suave e devotada do beirão, com a têmpera rija daquele criado junto a fragas ásperas levantadas ao céu e a águas ora intrépidas, ora mansas correndo para o Mondego distante, enriquecendo a imensidade tortuosa e telúrica dos campos beirões, como atestam os seus inúmeros lençóis de água subterrânea donde por certo lhe advirá o topónimo Lagos.

O seu nome aparece no Livro IV das Inquirições de D. Afonso III em 1258, onde um dito Pedro Garcia responde à inquirição real afirmando-se natural desta terra então chamada S. João de Lagos, cuja vila e igreja eram reguengo da Coroa, estando aforado à Ordem de S. João do Hospital[1]. Em 15 de Março de 1514, D. Manuel I concedeu foral a S. João de Lagos elevando-a à categoria de vila e sede de concelho, devido à sua prosperidade económica por via da agricultura e vinicultura, ficando como padroeira da Casa do Infantado. Nessa ocasião, também por foral régio, a poderosa comenda hospitalária de Ulveira do Espital (Oliveira do Hospital) torna-se sede de concelho vizinho de Lagos. Como consequência da extinção da Casa do Infantado por decreto-lei de 18 de Março de 1834, o mapa geopolítico do país foi consideravelmente modificado. Já no ano anterior, o decreto-lei de 28 de Março de 1833 alterara o nome S. João de Lagos para o topónimo que ficou até hoje, Lagos da Beira, tendo o decreto-lei de 18 de Julho de 1835 inserido o concelho no distrito de Coimbra e, finalmente, o decreto-lei de 6 de Novembro de 1836 extinguiu o concelho de Lagos da Beira, anexando-o ao concelho de Oliveira do Hospital (vila erigida em cabeça de comarca por decreto-lei de 23 de Dezembro de 1875), perdendo com isso a povoação a categoria de vila e ficando só a de aldeia[2].

Independente do mapa geopolítico, o mapa canonical dispõe Lagos da Beira como fazendo parte da vasta e rica comenda da Ordem de S. João do Hospital, que tinha a Casa-Mãe em Leça do Bailio. Com efeito, Tarquínio Hall descobriu na Quinta do Boco desta aldeia um bloco de granito rectangular, com 148 cm de comprimento e 40 de largura, completamente preenchido com a seguinte inscrição: “Este cazal e seos terragedos S. [ão] do Espital de Jerusalém da Sagrada R. [eligião] de Malta conforme foral deste concelho… he militar… Joam Pinto de Aragam – 1787”[3].

Conclui-se pelo texto da lápide que Lagos da Beira ainda no século XVIII era um casal, granja ou fazenda da Ordem Hospitalária (depois Maltesa), fazendo parte da grande Província do Hospital, iniciada no reinado de D. Teresa (século XII), repartida em espaços maiores ou menores dentro da sua jurisprudência e geografia. As possessões maiores chamavam-se Priorados ou Preceptorias (como veio a ser Leça do Bailio, que com a elevação do seu mosteiro e importância que teve para a região passaria a este estatuto); as menores, Bailios ou Comendas (comendadorias ou comandadorias regionais, como foi a de Oliveira do Hospital); e as ínfimas, Granjas ou Fazendas (casais, como terá sido Lagos da Beira). À cabeça da Província estava o Mestre ou Provincial da Ordem, representado na Preceptoria pelo respectivo Preceptor, coadjuvado por um Prior nomeado pelo Mestre Geral, pelo que nesse espaço teria de haver obrigatoriamente uma igreja que fosse matre ou matriz do Priorado. Nos Bailios a mesma coisa, mas sendo o Preceptor representado por um Comandante ou Comendador de Província e, finalmente, nas Fazendas esse Comendador nomeando seu auxiliar ou “lugar-tenente” o Comendador de Cavaleiros, geralmente defendendo o espaço com uma esquadra de dez cavaleiros[3].

A dependência canonical de Lagos da Beira relativamente a Oliveira do Hospital é provada nas Inquirições de D. Dinis (1288), quando a sua igreja paroquial, consagrada a S. João Baptista (Orago da Ordem do Hospital), aparece com novo patrono: “Santa Cruz de Ulveira do Sprital” – hoje Exaltação da Santa Cruz, que significa o mesmo. Observa-se assim o nome da povoação ligada a Oliveira do Hospital. Por isso, o brasão da freguesia de Lagos da Beira aparece com a Cruz Hospitalária (que se repete no interior e exterior da sua igreja) que, por ser semelhante, é confundida muitas vezes com a Cruz Templária. Seja como for, o santo padroeiro de Lagos da Beira mantém-se desde os alvores da Nacionalidade como sendo S. João Baptista.

Cruz Hospitalária no exterior da igreja paroquial de Lagos da Beira

Cruz Hospitalária no exterior da igreja paroquial de Lagos da Beira

A Festa da Exaltação ou Triunfo da Santa Cruz foi a principal das celebrações litúrgicas dos hospitalários, também chamada de Festa da Cruz Gloriosa. Segundo a tradição, a Vera Cruz foi descoberta no ano 326 por Helena de Constantinopla, mãe do imperador Constantino I, durante uma peregrinação a Jerusalém. No local da descoberta mandou construir a igreja do Santo Sepulcro, que no século XII, depois da Segunda Cruzada (1147-1149) e conquista da cidade santa aos muçulmanos, passaria a ficar à guarda da Ordem de S. João do Hospital. Enquanto a Sexta-Feira Santa é dedicada à Paixão e Crucificação, a Festa da Exaltação da Santa Cruz, em 14 de Setembro, celebra o Cruzeiro como instrumento de Salvação, fonte de Santidade e símbolo revelador da vitória de Cristo sobre o pecado, a morte e o demónio. De acordo com as regras litúrgicas da Igreja Católica Romana, neste dia o presbítero deve utilizar vestimentas vermelhas. Se a celebração ocorrer num domingo, a Festa tem precedência sobre a liturgia do tempo comum. Até 1969, a quarta-feira, a sexta-feira e o sábado após 14 de Setembro eram considerados como um dos quatro conjuntos de dias de têmporas[4]. A Exaltação da Santa Cruz constitui a festa principal dos Cónegos Regulares da Ordem da Santa Cruz, como o foi em Coimbra com esses regrantes agostinhos e que por certo António Augusto Carvalho Monteiro terá conhecido de perto em sua juventude, quando estudou nesta cidade do Mondego. Em Lagos da Beira mantém-se o cruzeiro como sinal eterno do triunfo da vida sobre a morte.

Tendo os hospitalários instalado-se em Chipre (entre 1290 e 1309) após a perda da Terra Santa para o Islão, ficou o registo das suas relações próximas com a Casa Real dos Lusignan de Nicósia que cedo abraçaram e divulgaram na Ilha a particular celebração cristã que a Ordem para aí levara: a Festa da Exaltação da Santa Cruz, que ainda hoje é das mais celebradas pelos cipriotas cristãos ortodoxos sustentados na autoridade episcopal de Santo André de Creta ou de Jerusalém, que nos séculos VII-VIII ficara célebre pelos seus sermões e hinografia encomiando as virtudes salvíficas da Vera Cruz[5].

A partir de 1309-1310, a Ordem de São João do Hospital instalou-se na Ilha de Rodes, onde adquiriu uma feição “insular”, no dizer de Fr. Lucas de Santa Catarina[6], mantendo-se aí até 1522, quando a ilha foi tomada pelos turcos. Finalmente, a partir de 1530 por doação de Carlos V instalou-se na Ilha de Malta, fixando o seu Mestrado residência em La Valeta, e desde então até hoje ficou conhecida por Ordem Soberana de Malta, nunca deixando de exercer a vocação hospitalar de socorro aos carecidos e doentes como virtude cardeal de caridade ou amor que foi o motivo da sua fundação em 1099, quando alguns cristãos mercadores de Amalfi fundaram em Jerusalém, sob a Regra de S. Bento e com a indicação de Santa Maria Latina, uma casa religiosa para recolha de peregrinos. Anos depois construíram junto dela um hospital que recebeu de Godofredo de Bouillon doações que lhe asseguraram a existência, desligando-se da igreja de Santa Maria e passando a formar congregação especial sob o Orago de São João Baptista. Em 1113, o Papa Pascoal II reconheceu-a Ordem de São João do Hospital e deu-lhe Regra própria. Em 1120, o cavaleiro francês Raimundo de Puy, nomeado Mestre Geral, acrescentou ao cuidado com os doentes o serviço militar[7].

Em Portugal, a Ordem do Hospital manteve-se independente. Não recebeu os bens da Ordem dos Templários como pretendia o papa Clemente V, que habilmente o rei D. Dinis fez transferir para a Ordem de Cristo então criada (1319). Também não foi incorporada na Coroa em 1551 com as Ordens de Avis, de Cristo e de Santiago, apesar da dignidade de Prior do Crato ser atribuída aos Infantes D. Luís, filho de D. Manuel I, e mais tarde a seu filho D. António, mantendo assim o carácter singular e o epíteto de “Soberana” que lhe foi atribuído quando passou a designar-se de Malta[8].

Isso significa que a Comenda de Oliveira do Hospital e a Fazenda de Lagos da Beira mantiveram-se sempre na posse dos cavaleiros hospitalários até praticamente 1834. Por este motivo, ainda em 1910 a Cruz de Malta figurava no Brasão de Armas na fachada do Paço do Concelho de Oliveira do Hospital, como descreve o dr. António de Vasconcelos num precioso e raro estudo[9].

Antigo Brasão d´Armas de Oliveira do Hospital

Antigo Brasão d´Armas de Oliveira do Hospital

Um dos santos caríssimos aos hospitalários foi São Paio (Pelaio, Pelágio), e sob a sua evocação formaram o Pelágio, aparentemente destinado a socorrer os peregrinos cristãos que iam e vinham de Santiago de Compostela venerar o túmulo do Apóstolo, motivo porque São Paio é celebrado no dia imediato ao de São Tiago Maior, ou seja, 26 de Junho. A par disso, dedicavam-se à guerra ao Islão – cuja resistência e ofensiva foi iniciada por Pelaio (718-733), fundador do Reino das Astúrias – abrindo caminho à Reconquista e à cristianização das vias celto-romanas tendo início ou fim na mesma cidade capital da Galiza[10]. Por outro lado, o Pelágio apresentava igualmente um aspecto cultural e inclusive hermético onde os saberes gnóstico, cabalístico e alquímico das três grandes religiões do Livro (judaica, cristã e islâmica) comungavam juntas da mesma demanda de realização espiritual, independente das contingências temporais da geopolítica da época, motivo do Pelágio ser igualmente sinónimo de pressuposta existência de uma Ordem Iniciática fechada ou secreta porventura na primazia da assistência à génese histórica e ao percurso evolutivo da Nacionalidade, desde a primeira hora posta sob a advocação da Virgem Santíssima. Deste Pelágio terá participado o cultíssimo António Augusto Carvalho Monteiro, ao observar-se a sua inclinação para a simbologia hermética em que não foi avaro na decoração dos imóveis que foram seus. Possivelmente os seus antecedentes beirões, particularmente o seu pai, igualmente não seriam alheios ao Pelágio espiritual que, a par do temporal, deu nome a família portuguesa ligada aos Lusignan nacionais (Sampaio de Luzignano) e assim também ficou como topónimo de várias localidades vizinhas de Lagos da Beira: São Paio de Gramaços, São Paio do Mondego, São Paio de Gouveia[11].

O facto é que na herdade de Quintais, que foi do dr. Carvalho Monteiro em Lagos da Beira, aparece no seu portão de ferro forjado uma estranha sigla permeio ao signo salomónico (pentagrama) que acaba por remeter para o tema do Pelágio e da eventual presença Lusignan. A sigla tem sido interpretada como as iniciais do dono da propriedade depois de Carvalho Monteiro, e poderia muito bem ser se o portão não fosse coevo do proprietário original. Apesar da sigla apresentar claramente as letras ACL, mesmo assim há quem veja nelas invés do C um G para conferir com o nome António Gomes Lobo, que por volta de 1929/30 comprou Quintais por trinta contos de réis ao dr. Pedro Augusto de Melo de Carvalho Monteiro, filho de António Augusto Carvalho Monteiro. Natural de S. Paio, concelho de Oliveira do Hospital, António Gomes Lobo era de origem humilde, emigrou para a África onde trabalhou na construção civil e fez fortuna. Autodidacta de cultura feita às suas custas por gosto à mesma, regressou à terra natal e estabeleceu-se em Lagos da Beira, vindo a casar com Carminda Chaves Maia, licenciada em farmácia, natural de Aradas, Chaves. Por essa altura comprou a quinta para dedicar-se à agricultura e a sua progénie crescer calma e feliz. Actualmente vive aí uma filha de António Gomes Lobo, Isabel Chaves Maia Lobo, com o marido, partilhando a propriedade com o seu irmão João Chaves Maia Lobo, residente em Lisboa.

O portão em causa tem severas semelhanças com um outro existente na Quinta da Regaleira de Sintra, ao qual também não falta o signo salomónico, e que é aquele vedando o caminho subterrâneo de saída ou acesso à cripta da capela da quinta. Ao lado deste aqui também não faltam as torres ameadas ao gosto (neo)medieval, uma servindo de depósito de água e outra como chaminé com torreão central, motivo sugerindo severamente a presença da Alquimia, em cujo programa iconográfico aparece igualmente a torre simbólica do athanor ou “forno alquímico”. Duas torres, tal qual como na Regaleira, em guisa de evocação hermética do solve et coagula, sendo ainda a Torre da Fé aquela mesma que dessedenta o crente com a Água da Vida que é a Palavra Viva da Igreja de Cristo.

Na heráldica falante, é marcante a presença da torre no imobiliário da família Carvalho Monteiro posta em relação severa com a famosa torre do mito de Melusina, mãe da progénie Lusignan. Neste sentido, o ACL gravado no portão poderá muito bem ser António Carvalho Lagoense, por afeição, posto em relação com a sereia dos lagos de Lusignan.

Portão de Quintais, Lagos da Beira

Portão de Quintais, Lagos da Beira

A estrela de cinco pontas ou pentagrama (o símbolo salomónico aqui representado em duplicado para condizer esteticamente com a duplicidade do portão) terá aqui um significado muito especial atendendo ao especial “gnosticismo católico” de Carvalho Monteiro: a iconologia cristã utiliza-a como referência às cinco chagas do Cristo Crucificado, mas também como um signo que pela sua forma fechada corresponde ao círculo, indo representar a união do princípio e fim em Cristo. Curioso que entre os monges construtores medievais o pentagrama significava ainda a realização, a expressão do perfeito, tendo chegado a ser usado como sinal de reconhecimento entre os membros das confrarias de construtores, que traçavam este símbolo nas suas cartas como forma de saudação, equivalendo à palavra latina vale: passe bem. Era então conhecido como higia, nome grego de Higia ou Higeia, a deusa da saúde. É igualmente signo mágico de exorcismo e protecção contra as influências malignas, tanto visíveis quanto invisíveis, considerado na Idade Média o talismã com mais poder por representar o próprio Cristo Todo-Poderoso, senão o próprio Deus Vivo ante o qual as trevas malignas revelam a sua impotência. Com isso, dispondo os pentagramas à entrada da sua propriedade, por certo Carvalho Monteiro quis exorcizá-la das forças das trevas, protegendo-a de gente e almas malignas.

Como se viu, o pentagrama é a estrela composta por cinco linhas rectas e que possui cinco pontas. Na língua portuguesa, pentagrama significa uma palavra com cinco letras. Na música, indica as cinco linhas paralelas que compõem a partitura. Originalmente era o símbolo da deusa romana Vénus (figurada na mesma Melusina), e assim é associado a este planeta cuja órbita, vista da Terra, descreve aparentemente uma estrela de cinco pontas, como já informava a astronomia ptolemaica. Na Natureza, o pentagrama é o signo do quinto elemento, o Éter, assinalado na sua ponta superior, enquanto nas demais pontas inferiores se assinalam os restantes quatro elementos naturais: Ar, Fogo, Água, Terra. O pentagrama (ou pentalfa) também é símbolo do Infinito: dentro do pentágono no centro do pentagrama é possível fazer outro pentagrama menor, e assim sucessivamente. Possui simbologia múltipla sempre fundamentada no número 5, que representa o casamento unindo o masculino (o 3) e o feminino (o 2), desta forma simbolizando a união dos contrários necessária para a realização espiritual e também a fundação da progénie familiar. Por todos esses motivos, na matemática com origem na Escola Pitagórica, o pentagrama (emblema dessa instituição grega) anda ligado ao número de ouro (1.618): composto por um pentágono regular e cinco triângulos isósceles, a razão entre o lado do triângulo e a sua base (lado do pentágono) é o número de ouro. A Cabala judaica, através dos seus rabinos mais eruditos, considera o pentagrama símbolo da Vontade de Deus e da Sua Protecção. No Cristianismo é a Estrela do Natal, a do Nascimento de Cristo preanunciando a Ressurreição, tanto do Espírito no Corpo (Nascimento) como do Corpo no Espírito (Ressurreição).

Na Maçonaria é a Estrela Flamejante da Iniciação, plantada ao Oriente da Loja, assim também simbolizando a Ressurreição, após a Morte, do profano como novo Iniciado. Quando o pentagrama se apresenta invertido, geralmente assumido símbolo do Mal contrário ao do Bem que é o pentagrama ao alto, quer dizer que o Espírito mergulhou na cegueira da Matéria e nos padecimentos carnais da alma humana[12].

Parentes do Pelágio em tempo de paz e cortesia são as artes venatórias, particularmente as da falcoaria e montaria, exclusivas na nobreza e por isso chamadas de Arte Real. Pois bem, no seu significado transcendente a montaria é uma modalidade da iniciação obtida após demanda ou peregrinação, donde ser uma iniciação activa ou “guerreira” (kshatriya, em sânscrito) própria para reis e cavaleiros, apodando-a indistintamente de Iniciação Real, Iniciação Senhorial e ainda Iniciação Mariana, posto ser Santa Maria quem assiste ao cavaleiro de demanda cuja profissão de armas dá-lhe como vizinha constante a morte, motivo pare ele A invocar constantemente: “Santa Maria, Mãe de Cristo, rogai (intercedei) por mim na hora da minha morte”! É este o motivo que assiste à criação medieval da tradição iconográfica dos “santos caçadores”, como São Thelo, São Conrado, Santo Eustáquio, Santa Genoveva, São Frutuoso de Braga, São Mamede e Santo Huberto, o mais famoso de todos, não esquecendo a lenda templária (aliás retratada dentro da capela da Quinta da Regaleira de Sintra) do sítio da Nazaré, quando o almirante-mor da frota marítima da Ordem do Templo, D. Fuas Roupinho, ao perseguir um veado foi salvo de cair no precipício pela própria Virgem Maria, que lhe apareceu, fazendo o cavalo estacar. Lá está até hoje o sítio da “Memória” e as marcas dos “cascos” da besta freada pela Mãe de Deus.

Uma das práticas mais interessantes da Alquimia também era chamada, na Idade Média, de Arte Real. Partindo da ideia de imperfeição e decadência dos seres da Natureza, a Grande Obra Alquímica (Obra Mística, Obra da Fénix, Via do Absoluto, etc.) era procurar reintegrar o Homem na sua dignidade primordial, divina. Encontrar a Pedra Filosofal era descobrir o Absoluto, era possuir o Conhecimento Perfeito (Gnose). Esta via principal devia conduzir por uma vida mística na qual, pela extirpação das raízes do pecado, o homem se tornaria generoso, doce, piedoso, crente e temente a Deus[13].

Por essa razão, a Arte Real era “Arte de Guerra” (expressada em tempo de paz, na Idade Média e chegando à Renascença, pelas supraditas artes venatórias da montaria e falcoaria) afim a reis e príncipes, devendo em princípio guerrear a sua própria natureza inferior, com isso cultivando as maiores virtudes de justiça e perfeição que lhes cabia exercer junto dos povos sob o seu domínio. Mas também se associava constantemente à Arte Sacerdotal exercida por religiosos praticantes das artes herméticas, alguns deles tendo subido aos altares de santidade, como, por exemplo, Santo Alberto Magno, reconhecido alquimista.

De algum monteiro caçador, porventura próximo da Ordem de São João do Hospital, sairia a família Monteiro, sobre quem diz o Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica):

“MONTEIRO. Dizem os genealogistas que esta família provém de Rui Monteiro, fidalgo do tempo de D. Afonso Henriques, morador em Penaguião, em cujo concelho possuiu bens. Teve o padroado de Santa Ovaia de Andufe, foi muito rico e poderoso e recebeu-se com Elvira Gonçalves, filha de D. Gonçalo Moniz e de sua mulher, Maria Anes. Parece, porém, pelo exame da sua descendência e dos reinados em que esta viveu, não ser Rui Monteiro tão antigo como dizem. O apelido parece provir de alcunha, certamente tirada de ofício. Do mencionado casamento houve vários filhos que continuaram o apelido. O bispo de Malaca, D. João Ribeiro Gaio, dedicou a esta família os seguintes versos:

O que se chamou Monteiro

foi D. Payo de Peleja,

deste apelido primeiro

casou com D. Thereja

foi um grande cavaleiro.

“As armas dos Monteiros são: De prata, com três trompas de caça de negro, embocadas e viroladas de ouro, os cordões de vermelho. Timbre: duas trompas do escudo, passadas em aspa, atadas de prata.”

D. Manuel I saindo do Paço de Sintra em montaria com o falcoeiro em destaque (aparelho de azulejaria na Quinta da Regaleira)

D. Manuel I saindo do Paço de Sintra em montaria com o falcoeiro em destaque (aparelho de azulejaria na Quinta da Regaleira)

Monteiro foi Francisco Augusto Mendes, o ilustre lagoense que nunca esqueceu a sua origem e muito fez e deu à terra que o viu nascer cerca de 1825. Procurando a fortuna no Brasil promissor, ainda jovem fez-se emigrante instalando-se no Rio de Janeiro, e a pulso foi conquistando fortuna ganha no comércio onde começou como escriturário, a qual aumentou incomensuravelmente quando conheceu e se casou com Ana Teresa Carolina de Carvalho, nascida no mesmo ano que ele, herdando o negócio de família dela: a exclusividade do transporte marítimo Rio de Janeiro – Lisboa de cafés e pedras preciosas[14]. Desde então, graças à sua volumosa fortuna que o tornou um dos homens mais ricos do país, ficou alcunhado de “Monteiro, o Milhões”, apodo que o seu filho António Augusto também herdaria, “Monteiro, dos Milhões”, e alguns mais desabridos na verborreia enciumada até o alcunhando de “caga-milhões”.

Católico e monárquico assumido, de convicções profundas, Francisco Monteiro abraça a “religião pátria” (que o filho prosseguiria), reconhecendo em Santa Maria Coroada a suprema Rainha de Portugal, oferecendo ricos presentes à Régia Confraria de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, cujo Santuário Nacional nasceu de uma primitiva ermida gótica que nos finais do século XIV o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira fez consagrar à Senhora da Conceição, sendo o primeiro templo desta devoção pátria (devotionis patriae) em toda a Península Ibérica, antecedendo assim em quase 500 anos a definição dogmática de 1854 sobre a Imaculada. Esta imagem de Nossa Senhora de Vila Viçosa, apresentando punções e a data de 1406, terá sido oferta da Casa Real inglesa na pessoa não do rei D. João I mas do próprio Santo Condestável. Grata pelos serviços prestados por Francisco Augusto Mendes Monteiro, a Régia Confraria deu-lhe o título de comendador em 19 de Janeiro de 1856, como consta no seu Livro 8: “Francisco Augusto Mendes Monteiro = Carta de Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa = De 19 de Janeiro de 1856. Livro 8.”[15]

Nesse mesmo ano, em guisa de agradecimento pelo sacro e régio título recebido, Francisco Augusto Mendes Monteiro iria deixar o seu nome ligado à primeira grande ampliação e renovação da igreja paroquial de Lagos da Beira. Para o efeito, ofereceu à Junta da Paróquia a quantia de um conto e duzentos mil réis em metal sonante, para o fim de ser aplicada na construção da fachada e de uma torre no edifício. Tão valiosa oferta teve lugar na sessão extraordinária de 7 de Dezembro de 1856, em cuja acta consta: “Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e cinquenta e seis. Aos sete dias do mês de Dezembro reunida a Junta de Paróquia na Sacristia da Igreja Matriz [de] S. João Baptista de Lagos da Beira […], compareceu neste acto o Exm.º Senhor Comendador Francisco Augusto Mendes Monteiro oferecendo generosamente a esta Junta a quantia de um conto e duzentos mil réis, metal sonante, para o fim de se aplicarem a fazer a frente e uma Torre no edifício da Igreja Matriz desta Paróquia que se acha em grande precisão”.

Na acta constam ainda cláusulas requeridas pelo mecenas que especifica a maneira como deseja que a torre e a fachada da igreja sejam construídas (iniciativa singular em jeito de mestre arquitecto que também Carvalho Monteiro tomaria, tanto nesta aldeia como em Sintra), escolhendo para a execução da obra o mestre pedreiro Bernardo de Sousa Gouveia, do lugar de S. Sebastião da Feira, do concelho de Oliveira do Hospital, exigindo ainda que o risco da fachada fosse o da ordem Toscana. Esta ordem, que foi desenvolvida na época romana, é a simplificação da ordem Dórica, de origem grega, geralmente empregada no exterior de templos consagrados a divindades masculinas, e aqui é masculino o Orago da paroquial: S. João Baptista, aparelhando com S. Miguel Arcanjo também cultuado nesta igreja desde que a pequenina ermida da sua evocação foi desactivada.

Francisco Augusto Mendes Monteiro (Lagos da Beira, 9.3.1816 - Lisboa, 1.11.1890)

Francisco Augusto Mendes Monteiro (Lagos da Beira, 9.3.1816 – Lisboa, 1.11.1890)

Com efeito, houve a Irmandade de São Miguel das Almas importante nesta aldeia, que hoje está desactivada mas a que terá pertencido Francisco Augusto Mendes Monteiro, eventualmente retratado entre os oito principais irmãos, com o Arcanjo Quis ut Deus flutuando sobre eles, num painel processional dos fins do século XIX que está na sacristia da paroquial. Possivelmente o seu filho António Augusto Carvalho Monteiro também terá pertencido a esta irmandade de sufrágio, cuja função psicopompa ou intermediária só poderia ter como Orago o primeiro dos Arcanjos, São Miguel, intercessor das almas junto do Trono de Deus. O ofício de sufrágio pelos falecidos tem o nome grego de panikhida ou parastás, significando precisamente “intercessão”, traduzidos em português como “sufrágio”, na linguagem eclesiástica significando o acto litúrgico ou a oração comunitária de intercessão pelos falecidos. Este ofício de sufrágio pelos mortos segue o roteiro do Ofício de Matinas do Rito Bizantino, celebrado principalmente ao sábado quando não é festivo, sendo dedicado à comemoração dos mortos. O Rito Romano segue o roteiro das “estações” ou momentos, parando o cortejo para reflectir e orar pelos falecidos, desde a igreja até ao cemitério, junto das chamadas “alminhas”. Também a celebração do Ofício Exequial possui vários momentos, sendo o dia consagrado aos santos e aos falecidos precisamente o de Todos-os-Santos e dos Finados no início de Novembro. Assim, a Parastás ou Sufrágio pode celebrar-se de duas formas: a completa, mais solene, e a abreviada. A forma plena é reservada às ocasiões especiais nos dias de finados designados como universais, e a forma abreviada é a que se usa nas ocasiões comuns, nas igrejas, nos cemitérios ou nos lares. Esta última forma é a mais comum por motivos práticos, podendo sempre variar conforme o costume particular de cada igreja, mantendo porém o esquema original do Ofício de Matinas[16]. A Irmandade de São Miguel das Almas servia de extensão e apoio do clero junto da comunidade, dando assistência corporal às famílias enlutadas e assistência espiritual às almas partidas.

Os irmãos de São Miguel das Almas, conforme está apresentado no painel referido, além de se mostrarem acompanhados da vara da Irmandade, espécie de báculo pastoral, tinham sobre os ombros a capa branca, muito semelhante àquelas primitivas dos cavaleiros templários e mesmo dos cistercienses, o que remete para o sentido primacial da Cristandade assumida pela Ordem do Templo e prosseguida depois pela Ordem de Cristo. Sendo o Arcanjo São Miguel o Assistente da Igreja e da Sinagoga, Henri Corbin lembra que “uma aparição de Miguel equivale a uma aparição da Shekinah”[17], valendo-se para isso de uma citação do Sepher-Ha-Zohar: Ubicumque inveneris Michaelem qui est primus illorum [angelorum], ibi subintellige Schechinam (“Sempre que encontrares mencionado Miguel, que é o primeiro dos Anjos, subentende a Shekinah”).

Painel da Irmandade de São Miguel das Almas, conservado na sacristia da igreja paroquial de Lagos da Beira

Painel da Irmandade de São Miguel das Almas, conservado na sacristia da igreja paroquial de Lagos da Beira

A Shekinah equivale à manifestação real de Deus em forma feminina na Terra, revelada por intermédio de Mikael à comunidade dos crentes. Revela-se nisso a Actividade Universal do Logos Eterno no acto de Criação, que por sua função similar à da Mulher em gestação foi pelos antigos cabalistas judaico-cristãos ligado à fácies materna de Deus, à Mãe de Deus assumida Espírito Santo movendo-se sobre as “águas etéricas” ou do Além-Akasha antes da Criação, para logo “soprar” ou “alentar” a mesma como o Espírito de Deus portador do Hálito Divino, acto primordial da génese universal que leva o nome hebreu Meracha Phath.

A doutrina oculta da Shekinah para os hebreus, ou Sakinah para os árabes, tem o seu principal ponto de referência no Antigo Testamento, nas passagens em que se trata da instituição de um centro religioso e espiritual: a construção do Tabernáculo, a edificação dos Templos de Salomão e de Zorobabel. Tal centro, constituído em condições regularmente definidas, devia ser efectivamente o lugar da Manifestação Divina, da “Presença Real de Deus”, Shekinah, sempre representada como “Luz” (Domus Lucis, Portae Lucis, Janua Lux…). É curioso observar que a expressão “mais iluminada e mais regular” que a Maçonaria tem conservado, parece ser a memória da antiga ciência sacerdotal que presidia à construção dos Templos, o que de resto não era exclusividade particular da Raça de Judah. Neste sentido, S. Miguel ou Mikael corresponde ao sacerdote do Templo Celeste e ao instaurador do Templo Terrestre, prerrogativas pressupostamente conhecidas de Francisco Monteiro e de seu filho Carvalho Monteiro ao assumirem o encargo de arquitectos súbitos, querendo que os edifícios mandados fazer por eles ficassem exclusivamente de acordo com o querer do seu entendimento particular, nisto parecendo reproduzir os moldes directores da primitiva ciência sacerdotal assistida pelo Arcanjo S. Miguel, que é o veículo de corporificação do Verbo, tal qual o Templo é a corporificação canónica do Corpo de Deus. Na Shekinah está a causa da Influência Espiritual, presidindo a todas as modalidades de Iniciação e Iluminação. Ainda que a Igreja cristã lhe chame Bênção, o sentido exacto é Influência Espiritual, como se traduz do termo hebraico original, berakoth, e do árabe barakah.

Mas é o Sepher-Ha-Zohar, obra do rabino ibérico Moisés de Leon (século XIII), quem aprofunda e explana mais a doutrina oculta da Shekinah. Toda ela se inscreve numa Fede de Amor em referência ao amor do Homem por Deus e ao sentimento recíproco da Divindade. Aí postula-se a identidade entre o temor de Deus e o amor mais puro, traduzido como fé. O Zohar, na descrição da longa viagem que a alma executa ao deixar o corpo, fala na assunção da mesma na sua peregrinação até ao “Palácio do Amor”, onde ela deixa cair o último véu ao apresentar-se diante do seu Mestre, ou seja, ao alcançar o derradeiro e supremo estado de Consciência Espiritual. Para Moisés de Leon só houve um que, enquanto vivo na Terra, se mostrou ligado à Presença Real de Deus, à Shekinah: o Patriarca Moisés. Deste, e unicamente deste, é dita a sentença: “Esteve unido intimamente com Shekinah[18]. Pela primeira vez, a união mística entre o mortal e o imortal foi representada em termos de casamento terreno, tendo este por resultado natural a geração familiar, cuja tradição é sempre o encargo mais importante do patriarca da família que normalmente transmite o seu saber por via oral ao varão primogénito, de maneira a ficar assegurada tanto a continuação da progénie como a ininterrupção da transmissão da herança familiar que, neste particular, será a de um núcleo eleito, como parece ter sido o caso da família Carvalho Monteiro, cujas origens remotas estão envoltas na bruma da lenda teimando no mito maravilhado de Melusina, também esta prefiguração simbólica da Virgem Mãe.

O autor na igreja paroquial de Lagos da Beira

O autor na igreja paroquial de Lagos da Beira

A Shekinah apresenta-se sob múltiplos aspectos, dos quais dois são os principais: o interno e o externo, assinalados tão claramente quanto possível na tradição cristã pelas frases Gloria in excelsis Deo e in terra Pax hominis bonae voluntatis. A palavra Gloria refere-se ao aspecto interno relacionado com o Princípio Espiritual, com o Espírito Santo, promanando, através dos 7 Anjos Diante do Trono (Malakim), os 7 Influxos ou Raios Espirituais no aspecto externo ou Mundo manifestado pela mesma Shekinah, indo caber-lhe a palavra Pax. Pax et Gloria são os atributos da Shekinah como Terceiro Trono, manifestado e manifestando ao Eterno representado em cima por Metraton, o Arcanjo intermediário ou psicopompo no Plano do Segundo Trono, logo, só por Aquela o Pai e o Filho se tornam possíveis de idealizar e alcançar pelas criaturas humanas.

A Shekinah contém-se, pois, na tríplice fórmula de Lux – Gloria – Pax, Divina, Celeste e Humana, e para a sua preanunciação a iconologia judaico-cristã destinou-lhe o símbolo alvo da Pomba, que expressando ao Espírito Divino de Santidade traz consigo a Boa-Nova do Pai na forma avatárica do Messiah, do Filho Incarnado ou dado à Luz do Mundo pela Divina Mãe, para Glória das Almas e Paz dos Povos. Ainda no simbolismo tradicional, a Luz da Shekinah, que é Kundalini ou o Fogo Criador do Espírito Santo irrompendo do seio da Terra, representa-se pela amendoeira florida, cuja cor branca expressa a Pureza e a Virtude[19], enquanto a sua antítese é a figueira seca, expressiva da Heresia e o Pecado extirpados por Cristo (Marcos, 11:12-14), o Vinhateiro de Deus, figurando a longanimidade do Espírito Santo expressivo da Clemência e da Eleição.

Certamente S. Miguel assistirá igualmente à noção de “religião pátria” desenvolvida em volta da promessa de Advento de Cristo que terá Portugal como a sua peanha, ideia sebástica perfilhada por Carvalho Monteiro da qual deixou sinais óbvios na sua Quinta da Regaleira. Diz Manuel J. Gandra[20]:

“Compreende-se isto em vista da tradição bíblica que faz de Melki-Tsedek, rei e sacerdote, e modelo do Preste João, Rei de Justiça (LEX) e de Salém (PAX), cujos atributos são a balança e a espada, também distintivos de Mikael (Quis ut Deus?).

“A manifestação de Mikael assinala sempre a glória da Shekinah, a Grande PAZ e LUZ do Messias, sendo representado na décima Sephira: Malkuth, com o significado de o REINO e o JUSTO (Tsedek).

“Portugal assume-se, assim, desde os primórdios da sua existência, e com a cobertura de Cister e do Templo, como ungido de Deus, pois que o sacerdócio de Melki-Tsedek, compatível com o conceito de realeza divina, corresponde ao de El-Elion e este ao de Emmanuel, razão fundante para que, no século XVI, o rei D. Manuel, Emmanuel de seu nome e, não menos curiosamente, o décimo quarto Rei de Portugal (aliás como a própria profecias de Isaías exigia), se apresentasse como «Rei de Portugal e do resto», isto é, como Rei do Mundo.

“Corroborando a justeza da nossa reflexão o facto de, através do mesmo monarca, ter sido concedida a Portugal a prerrogativa de invocar S. Miguel como seu Anjo Custódio[21].”

Por tudo isso, quiçá ou decerto, ademais correspondendo ao período áureo da Gesta Dei per Portucalensis, não terá sido por acaso que Carvalho Monteiro escolheu o neomanuelino como estilo de eleição dominante na sua propriedade da Regaleira de Sintra, abundando os símbolos manuelinos sem faltar no palácio o retrato pintado de D. Manuel I, o Venturoso.

António Augusto Carvalho Monteiro prossegue a obra benemérita iniciada por seu pai em Lagos da Beira. Como os quinhentos mil réis cedidos pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital em 22 de Abril de 1908 para a construção da estrada Lageosa – Lagos da Beira não chegasse para pagar as obras e já estando os terrenos expropriados, na sessão de 1 de Maio de 1911 da Câmara Municipal foi apreciado um ofício da Comissão Paroquial de Lagos da Beira datado de 27 de Abril último, participando estar habilitada a custear as despesas necessárias para a conclusão da dita estrada graças à generosidade do dr. António Carvalho Monteiro a quem aquela Comissão se dirigira, expondo-lhe os graves prejuízos que resultavam da paralisação daquela obra. A Câmara Municipal agradeceu em nome de todo o concelho ao ilustre benfeitor, e na acta da sessão da Junta da Paróquia lagoense, de 15 de Outubro de 1911, consta que a conclusão da estrada de Lageosa a Lagos da Beira foi adjudicada ao empreiteiro Luciano Albino Gonçalves pela quantia de seiscentos e quarenta mil réis[22].

Carvalho Monteiro amava Lagos da Beira e o seu povo como poucos. A sua natureza boa e generosa levava-o a tomar atitudes próprias de um rei ou de um senhor feudal com terra sua, como essa de no dia da festa do santo local, S. João Baptista (24 de Junho), da varanda da casa de seus pais (na actual Rua Dr. Carvalho Monteiro) arrojar “à rebatina”, com uma medida de peso de cereal, enormes quantidades de moedas sobre o povo em baixo, logo apanhadas pelos pobres infortunados da vida. A gratidão geral para com o seu benfeitor não foi esquecida até hoje e creio que nunca será.

Casa de Francisco Augusto Mendes Monteiro na actual Rua Dr. Carvalho Monteiro, em Lagos da Beira

Casa de Francisco Augusto Mendes Monteiro na actual Rua Dr. Carvalho Monteiro, em Lagos da Beira

Quando Carvalho Monteiro quis ampliar a sua propriedade de Quintais deparou-se com o obstáculo da capela de S. Roque, antiquíssima (talvez do século XV ou anterior) mas em estado lastimoso de ruína, situada no largo ou imediações da antiga Praça de S. Roque de que sobra a Travessa do mesmo nome. Então, ele requereu da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, sendo presidente António Freire de Carvalho Albuquerque, autorização para demolir a capela e construir uma nova onde hoje está, fora dos muros de Quintais defronte a esta. A requisição consta na acta da sessão de 9 de Julho de 1897. A autorização foi concedida.

A população lagoense não se opôs, antes agradeceu a demolição da capela arruinada e abandonada pela construção de uma outra da mesma evocação. No Inventário dos prédios e outros bens pertencentes à Junta da Paróquia da Freguesia de Lagos da Beira, consta o seguinte com a data de 6 de Maio de 1870: “Capela de S. Roque – Uma capela em sofrível estado material, em Lagos da Beira, e composta de um altar e sacristia; tem um adro e um campanário com um sino pequeno. Não tem bens”. Não era bem assim, pois no Inventário dos paramentos, vasos sagrados e mais utensílios destinados ao culto, datado de 29 de Setembro de 1872, consta o seguinte: “Um cálice de estanho com copa e patena de prata usada, que pesa 687 gramas; um véu do cálice branco, usado; um dito, encarnado, usado; uma bolsa dos Corporais, branca e encarnada, usada; duas alvas com seus pertences, muito usadas; seis castiçais e Cruz de pau dourado, muito deterioradas; três toalhas do altar muito usadas, e dois manustérgios[23]; uma lâmpada velha e um Missal muito usado; uma galheta com seu prato de estanho; uma campainha de tocar a Santos”. A capela tinha o necessário à celebração da missa, mas tudo muito desgastado, envelhecido e retirando dignidade à celebração. Talvez por isso, na época já não se realizava aí.

Dando cumprimento ao prometido, em substituição da que havia mandado demolir o dr. Carvalho Monteiro mandou edificar um novo templo, também consagrado a S. Roque, encarregando do projecto o seu amigo projectista do Hotel-Palácio do Buçaco, o famoso cenógrafo-arquitecto italiano Luigi Manini, que executou uma verdadeira obra de arte a que não falta o tipo simbológico cristão-hermético peculiar ao pensamento de Carvalho Monteiro. Os trabalhos foram iniciados e concluídos entre 1900 e 1910. Todavia, inexplicavelmente o novo templo demorou a ser entregue, a tal ponto que na sessão de 23 de Março de 1919 o presidente da Junta de Freguesia de Lagos da Beira propôs que a mesma se dirigisse ao dr. Carvalho Monteiro, pedindo-lhe, com todo o respeito, que se dignasse entregar a nova capela à Igreja e ao povo. Apesar de não constar no Livro de Actas da Junta de Freguesia, Tarquínio Hall (in ob. cit.) presume que a capela foi inaugurada em 1921, portanto, já tendo falecido no ano anterior o ilustre mecenas (20.10.1920), ou talvez mesmo nesse ano da sua morte.

Capela de S. Roque de Lagos da Beira, mandada construir por António Augusto Carvalho Monteiro

Capela de S. Roque de Lagos da Beira, mandada construir por Carvalho Monteiro

A demora na entrega da capela às autoridades eclesiásticas e ao poder local, poder-se-á explicar pelo facto do período conturbado que varria o país, a ponto de a Carbonária, através de um tal Buíça, consumar o regicídio em 1.2.1908 na pessoa de D. Carlos, amigo pessoal de Carvalho Monteiro, e do príncipe real D. Luís Filipe, tendo sido o primeiro passo para a queda da Monarquia e a instauração da República em 5.10.1910, com as consequentes convulsões político-sociais, cuja violência carbonária e republicana se abateu sobre os católicos e monárquicos em todo o país, não escapando Carvalho Monteiro, entretanto preso e julgado à revelia no Tribunal da Boa-Hora, Lisboa, em 1913. De certa maneira, o povo trabalhador e ordeiro de Lagos da Beira, mais católico e conservador que liberal e jacobino, passou incólume à tempestade que varreu Portugal nas duas primeiras décadas do século XX e com o quinto Presidente da República, almirante João do Canto e Castro da Silva Antunes (Lisboa, 19.5.1862 – Lisboa, 14.3.1934), que aliás era Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa desde 1891, houve um período de acalmia e pazes com a Igreja Católica, que certamente foi aproveitado para entregar a capela de S. Roque de Lagos da Beira em 1920 ou 1921 aos seus legítimos destinatários.

Este pequeno templo é uma jóia do imobiliário artístico português merecendo visita obrigatória, o qual Virgílio Correia já catalogou mas com imprecisão no verbete respectivo (talvez por não ter visitado a localidade, talvez por ter se informado mal, talvez, o que não é raro, por ter encomendado o texto a um seu aluno que para agradar ao professor apressou-se a escrevê-lo, mesmo quase de certeza desconhecendo a história local)[24]: “LAGOS DA BEIRA. CAPELA DE S. JORGE – Substitui uma outra que ficava em ponto mais baixo. É dos começos do século XIX, mandada fazer pelo colecionador Carvalho Monteiro, sob projecto de Luigi Manini. Miniatura de um templo de categoria, a capela é um interessante documento, no qual o autor procurou um marcado efeito cenográfico. Os tectos são de madeira, pintados”.

Ora a capela não é dos começos do século XIX mas do XX e tampouco é consagrada a S. Jorge, equívoco óbvio com S. Miguel, cuja capela, próxima desta, era onde se celebravam os ofícios fúnebres antes da ampliação do cemitério cuja entrada ficava defronte a ela.

Interior da Capela de S. Roque, Lagos da Beira

Interior da Capela de S. Roque, Lagos da Beira

A pintura do tecto de madeira pentagonal, irradiando por cima do altar, dá ao espaço um sentido de amplidão maior do que possui, em guisa de basílica renascentista, efeito feliz procurado por Carvalho Monteiro e realizado por Luigi Manini. As figuras pintadas são no estilo da Renascença e do Barroco italianos, vendo-se aos pares, em cada caixilho, duas cabeças de Anjos, uma lateral e outra frontal, desta saindo a Taça Eucarística por certo prefigurativa do Santo Graal, simbólico do repositório das mais elevadas influências espirituais. Também aos pares, noutros dois caixilhos, revela-se uma cabeça de Anjo frontal sobre a qual domina uma cornucópia com frutos e flores, símbolo da abundância e da riqueza tanto material como sobretudo espiritual. O conjunto de taça e cornucópia, mantido pelas cabeças angélicas simbólicas da consciência sobrehumana, consequentemente da noção superior que dirigiu o pensamento tanto do artista como do encomendador, significa a influência absoluta do Espírito Santo tanto no Céu (taça) como na Terra (cornucópia), posto que a Taça Sagrada é sempre indicativa da presença da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Finalmente, no caixilho central vê-se o pelicano alimentando os seus três filhotes e que é o emblema franciscano da Eucaristia preanunciado o derradeiro Sacrifício do Senhor, com isso expressando à máxima virtude cardeal da Caridade ou Amor, tema acaso transportando para o sentido da Igreja do Amor com que foi conhecida a corrente gnóstica portuguesa nos séculos XIV a XVI.

O simbolismo do Sacro Pelicano ou Pelicano Eucarístico alimentando os seus sete filhotes (os números destes variam nas várias peças expostas do mesmo teor, mas o número exacto é sete) com a sua própria carne, foi adoptado pelos franciscanos a partir do século XIII como representação da Abnegação, da Caridade e do Amor Paternal. Por esta razão, a iconografia cristã medieval fez dele um símbolo do Cristo Pascal, ainda que exista uma outra razão mais profunda. Símbolo da natureza húmida que, segundo a Física antiga, desaparecia sob o efeito do calor solar e renascia no Inverno, o pelicano foi assumido como figurativo do sacrifício e morte de Cristo e da sua ressurreição, assim como da de Lázaro. Por isto, é que a sua imagem às vezes equivale à da fénix, a ave mítica que morre no fogo e renasce das próprias cinzas. Todo este simbolismo ligado ao Cristo também se funde na chaga do coração donde manam sangue e água, seivas da vida, o que levou o poeta místico Angelus Silesius, no século XVII, a escrever: “Desperta, cristão morto, vê: o nosso Pelicano rega-te com o seu sangue e com a água do seu coração. Se a recebes bem, de imediato ficarás vivo e salvo”[25].

Sagrado Coração de Jesus aureolado com a Cruz Pátea da Ressurreição (pintura na sacristia da paroquial de Lagos da Beira)

Sagrado Coração de Jesus aureolado com a Cruz Pátea da Ressurreição (pintura na sacristia da paroquial de Lagos da Beira)

Esse simbolismo de morte e ressurreição do crente em sábio, do confessional em racional, porque todo o que sabe é superior ao que quer entender, transfere para o significado hermético da Páscoa disposta no plano da Alquimia. Inúmeros textos e gravuras medievais e renascentistas fazem eco desse tema, como por exemplo Arnaldo de Vilanova, médico da Rainha Santa Isabel de Aragão e Portugal[26], que na sua obra Os Segredos da Natureza ou O Segredo dos Segredos dá uma descrição dos processos de fabrico da Pedra Filosofal usando a terminologia cristã referente à Paixão de Cristo. Também Basílio Valentino fala da Pedra criada pela Santíssima Trindade. Já no século XV o dogma da Trindade e a Paixão de Cristo foram igualmente empregues no texto alquímico Livro da Trindade[27]. A Argiopeia ou fabrico da Prata, correspondente à Iluminação da Alma, representa-se no Sagrado Coração de Maria, enquanto a Crisopeia ou fabrico do Ouro, correspondente à Imortalidade do Espírito, assinala-se no Sagrado Coração de Jesus, ambas imagens pascais presentes em duas pinturas conservadas na sacristia da paroquial de Lagos da Beira, com toda a certeza coevas de Francisco Monteiro e de seu filho, Carvalho Monteiro.

Carvalho Monteiro mandou fazer as imagens seguintes para a capela de S. Roque: nos nichos laterais, Santa Teresa de Jesus, a carmelita de Ávila, com o livro aberto talvez sendo o seu Caminho da Perfeição, talvez sendo o seu Livro da Vida ou talvez as suas Moradas – Castelo Interior. Num contexto mais particular, acaso poderá ser uma homenagem de Carvalho Monteiro a sua mãe Teresa, homónima daquela, assim sacralizando a sua progenitora. Defronte apresenta-se S. Sebastião, flechado com duas setas e tendo o elmo militar aos pés, indicativo da sua condição de militar mártir que a Cristandade adoptou como sinónimo do ideal de Cavalaria e da própria casta militar cujo chefe supremo era o rei. Por isso Sebastião santo e Sebastião rei emulam-se e confundem-se, como sucede no tema sebástico, vulgo sebastianismo, dispondo Sebastião na linha hermética da Iniciação Senhorial ou Real (curiosamente a toalha do altar é decorada por flores-de-lises), representada pelos Kshatriyas ou ”Cavaleiros” guardiões da Terra Santa, imagem figurativa da Agharta ou Paraíso Terreal, este que Carvalho Monteiro por certo quis dispor idealmente na própria Lagos da Beira. Nos nichos frontais tem-se à direita St.º António com o hábito e o cordão franciscano, contemplando Cristo no Crucifixo entre as suas mãos. No contexto particular poderá muito bem ser a homenagem de António Augusto a seu pai Francisco, homónimo daquele, assim sacralizando o  progenitor[28]. Isto reporta novamente ao significado da sigla ACL no portão de Quintais. Finalmente, tem-se à esquerda o Orago desta capela, S. Roque. Trajado de peregrino com bordão e sacola, ostenta a rótula chagada da lepra que o cão aos pés lambe e cura o mal. A “lepra maligna” deixa a dúvida se se trata de uma doença corporal ou de uma doença moral, acaso ambas, registando-se a segunda pela primeira, pois na Idade Média era sinónima de heresia, de crença heterodoxa em conflito com a ortodoxa vigente. Aqui, a cabaça, também aos pés de S. Roque, acaso poderá significar o repositório de algum saber ocultado, impondo uma dupla interpretação que nem por isso suscitará contradição por o racional ser explicativo do confessional, a crença elevada à fé. Se assim é, estar-se-á perante o Iniciado na Tradição Primordial, cujo Caminho é velado pelo cão, eterno companheiro e guia de todo o Adepto da Filosofia Hermética. Sobre isto a ver com S. Roque, diz Juan Garcia Atienza[29]:

“Encontramo-nos perante um dos santos mais equívocos e misteriosos do santoral cristão, perante um autêntico mito a quem parece haver-se escamoteado a realidade palpável da sua existência para configurar uma imagem que, por pouco que se analise, aparece cheia de contradições e, sobretudo, de suspeitas. Contemplando as abundantes imagens de S. Roque que há em inúmeras igrejas, colegiadas, ermidas e catedrais, observa-se em primeiro lugar que é um santo facilmente reconhecível sem que seja necessário perguntar. Aparece sempre vestido de peregrino, aparece sempre acompanhado por um cão, tem sempre uma rótula desnuda, preferencialmente a esquerda, que aponta ostensivamente com o dedo. Nessa rótula luze uma chaga sanguinolenta nas imagens pintadas ou esculpidas depois do Renascimento. Esses três detalhes – peregrino com cão e que assinala a rótula – merecem uma análise sumária.

Imagem de S. Roque na capela lagoense da sua evocação (encomenda de António Augusto Carvalho Monteiro)

Imagem de S. Roque na capela lagoense da sua evocação (encomenda de António Augusto Carvalho Monteiro)

“O peregrino – pensemos em que nenhum outro santo, com a excepção insólita de Santiago, é representado assim, ainda que muitos tenham sido peregrinos – é a imagem do buscador do Conhecimento, do que percorre um caminho iniciático em busca de um saber que irá descobrindo ao longo das distintas etapas.

“O cão é, na linguagem iniciática, o animal-guia do sábio, o companheiro que concede a Divindade ao adepto para encontrar o caminho a que se propôs. Recordemos que o cão, o lobo, acompanham S. Francisco de Assis, S. Bernardo de Claraval, Tobias, Santa Quitéria e os santos caçadores (que também são considerados buscadores ou rastreadores da Verdade).

“A rótula esquerda desnuda é sinal inequívoco de iniciação na linguagem esotérica. Uma iniciação que eventualmente – sobretudo entre as irmandades de construtores – está relacionada com a rótula do compasso que serve para traçar os planos da Casa de Deus e que, em todo o caso, desde as primitivas sociedades iniciáticas até ao ritual maçónico serve para que os adeptos reconheçam quem recebeu a iniciação. Assinalá-la é chamar a atenção do que sabe sobre a condição de quem a exibe. Neste sentido, a chaga é um aditamento totalmente espúrio, posta ali precisamente pelos que desconheciam o significado real da rótula desnuda… ou por aqueles queria dissimulá-lo a todo o custo.”

Tão grata memória deixou António Augusto Carvalho Monteiro em Lagos da Beira que tanto o povo quanto a edilidade e o eclesiástico nunca esqueceram o seu grande amigo benfeitor. Por motivo da sua morte, em 28 de Outubro de 1920 foi convocada uma sessão extraordinária da Comissão Paroquial com o fim exclusivo de prestar culto de homenagem à sua memória, falecido três dias antes. Referindo-se à sua morte, o presidente da Comissão Paroquial, professor José João da Fonseca, afirmou ter-se perdido uma das maiores glórias desta sua terra adoptiva que lhe deve tantos benefícios. Traçando o perfil do ilustre benemérito e amigo incondicional de Lagos da Beira, José João da Fonseca acrescentou: “Sua Excelência era não só um carácter filantrópico e altruísta, que albergava uma alma generosa e franca, mas também um sincero amigo da humanidade enferma e desprotegida”[30].

Sob o Sol que se despede ao cair da tarde, Lagos da Beira enche-se de beleza despendida do céu onde o poente de fogo e o verde do campo se acasalam em nuances azuis antes de se despedirem do dia. Além, no horizonte, recorta-se na paisagem a Serra do Caramulo que esconde atrás o Buçaco e seus mistérios, de onde um dia Carvalho Monteiro para aqui trouxe o arquitecto Manini que também sabia gizar na Terra as belezas do Céu.

Lagos da Beira é terra que deslumbra e entontece, desafia os sentidos engalanando a imaginação esperando da noite um novo dia com o mesmo Sol e as mesmas tintas do entardecer que finda. Com Tarquínio Hall o digo: “Um por todos e todos por um”! É a grei que faz lei em terras lagoenses, pois o espírito de entreajuda é regra de ouro, bem como o amor ao próximo, o civismo sempre presente nas relações sociais. Por isso, como o poeta e ensaísta desta terra também acredito que se Cristo descesse novamente à Terra, como nos tempos bíblicos, na sublime missão de espiritualizar e apaziguar as almas humanas, por certo visitaria esta humilde paróquia que Deus sabe ser povoada de gente profundamente crente, pacífica, trabalhadora e hospitaleira.

NOTAS

[1] Alexandre Herculano, História de Portugal, desde o começo até ao fim do reinado de D. Afonso III, revista e anotada por José Mattoso, 4 volumes. Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1981.

[2] Tarquínio Hall, Lagos da Beira – Subsídios para a sua História. Edição da autarquia, Oliveira do Hospital, 1997.

[3] Tarquínio Hall, Concelho de Oliveira do Hospital – Subsídios para a sua História. Edição da autarquia, Oliveira do Hospital, 1998. O autor noticiou a descoberta da lápide pela primeira vez no Jornal A Comarca de Arganil, 9.6.1992.

[3] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2011. Com o mesmo título esta obra foi editada anteriormente pela Via Occidentalis Editora Lda. em Setembro de 2007, Lisboa.

[4] As têmporas eram dias de jejum religioso nos quais os católicos portugueses não comiam carne, substituindo-a por panados fritos de legumes e peixes.

[5] Saint Andrew of Crete, texto inserto na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia. The Encyclopedia Press, Washington.

[6] Fr. Lucas de Santa Catarina, Malta Portugueza: Memorias da nobilíssima e sagrada Ordem dos Hospitalarios de S. João de Jerusalem, especialmente do que pertence à Monarchia Portugueza. Lisboa, Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1734.

[7] Rui Pinto de Azevedo, Algumas achegas para o estudo das origens da Ordem de S. João do Hospital em Jerusalém, depois chamada de Malta, em Portugal. Revista Portuguesa de História, tomo IV, pp. 317-327.

[8] Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal. Edição dirigida por Damião Peres, volume I, Portucalense Editora, Porto, 1967.

[9] António de Vasconcelos, Oliveira do Hospital e o seu Escudo de Armas. Coimbra Editora, 1931.

[10] Vários, Breviário Bracarense de 1494. Edição fac-similada do exemplar da Biblioteca Nacional de Lisboa com introdução de Pedro Romano Rocha. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1989.

[11] Armando de Sacadura Falcão, Subsídios genealógicos para o estudo de algumas famílias da Beira Baixa. Carvalho Daun e Lorena, volume I. Separata de Estudos, Castelo Branco, 1964.

[12] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita e Secreta. Editorial Jonglez, Versailles, Abril 2010.

[13] Pelo testemunho dado pelos familiares e amigos de António Augusto Carvalho Monteiro, essas eram precisamente as suas principais qualidades que causavam admiração a todos.

[14] Leonor Figueiredo, Palácio de Fadas espera em Sintra um multimilionário. Jornal “Correio da Manhã”, 29.1.1985.

[15] Registo Geral de Mercês, D. Pedro V, Liv. 8, fl. 83. Carta de Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa passada a Francisco Augusto Mendes Monteiro, 19.1.1856. Documento simples, código de referência PT/TT/RGM/1/244443.

[16] Catecismo da Igreja Católica. Gráfica de Coimbra, Lda. – Libreria Editrice Vaticanna, para a edição portuguesa. Coimbra, 1993.

[17] Henri Corbin, Necessité de l´angeologie in L´Anje et l´Homme. “Cahiers de l´Hermetisme”, Albin Michel, Paris, 1978.

[18] António Castaño Ferreira, Egipto – Grécia – Bíblia. Aulas reservadas do autor cerca de 1950. Edição privada da Sociedade Teosófica Brasileira.

[19] René Guénon, O Rei do Mundo. Editorial Minerva, Lisboa, 1978.

[20] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal in Cavalaria Espiritual e Conquista do Mundo. Gabinete de Estudos de Simbologia, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986.

[21] Só S. Miguel Arcanjo poderia ter sido investido na função de Anjo Custódio de Portugal, pois a ele compete por missão velar pela Terra dos Vivos e pelo Oceano dos Mortos, visto ser o Guardião do Umbral entre a Vida e a Eternidade. Ao solicitar ao Papa o Breve vinculando esse Arcanjo a Portugal, D. Manuel deu consistência legal e oficial a um costume certamente bastante antigo, de que a misteriosa Ordem da Ala de S. Miguel (presumivelmente criada por Afonso Henriques para comemorar a intervenção daquela entidade na expugnação de Santarém) constituía uma reminiscência. Embora de âmbito nacional, o Breve papal não se aplicou em todo o país. Boa parte dos missais e breviários impressos em Portugal nos séculos XVI, XVII e XVIII não traz nem a missa nem o ofício do Anjo Custódio. Apenas em Coimbra, Évora e Braga são postas em prática as determinações daquele documento pontifício (breviários de 1531, 1548 e 1549, respectivamente; o primeiro missal que traz a missa do Anjo Custódio do Reino é o de Braga, impresso em Lião de França em 1558 por ordem de D. Fr. Baltasar Limpo). O culto expandiu-se como resultado do envio de ordens do monarca a todos os municípios. Conhecem-se dois alvarás dirigidos às Câmaras de Évora e Coimbra. No de Évora (7 de Junho de 1504), autógrafo, é manifesto o cabal conhecimento da «Doutrina dos Génios»: «(…) Fazemos-vos saber que havendo respeito a como Nosso Senhor Deus, por salvação de nossas almas, conservação e alongamento de nossas vidas, quis ordenar em cada reino, cidade e lugar, e assim a cada um de nós outro(s), anjos que nos guardassem de todo o mal, e nos provocassem a bem fazer; e sentindo-o assim por serviço de Deus, Nós, com os Prelados de nossos reinos, ordenamos ora novamente, que em todos nossos reinos e senhorios (…) em cada um ano, em o terceiro domingo do mês de Julho, se faça solene memória deste Anjo, nosso guardador (…)» (Arq. Mun. de Évora, Livro III dos Originais, doc. n.º 17 a fl. 22, «ap.» Biblioteca Pública de Évora/Casa Forte: Est. I, n.º 73).

[22] Tarquínio Hall, Lagos da Beira – Subsídios para a sua História. Edição da autarquia, Oliveira do Hospital, 1997.

[23] Manustérgio (do latim, manutergiu) ou tersol: pequena toalha de linho, geralmente bordada, com que o celebrante enxuga os dedos após o momento do lavabo.

[24] Virgílio Correia, Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Coimbra, pp. 168-169. Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1953.

[25] Vitor Manuel Adrião, Paris Méconnu. Éditions Jonglez, Versailles, 2012.

[26] Significativamente a imagem da Rainha Santa Isabel está presente na igreja matriz de Lagos da Beira, para onde se dirige a procissão anual saindo da capela de S. Roque no dia festivo do santo da terra, S. João Baptista.

[27] J. Van Lennep, Arte e Alquimia. Editora Nacional, Madrid, 1978.

[28] É muito sintomático que o Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro para o ano de 1853, organizado e redigido por Eduardo Laemmert, ordenado com o retrato da Sereníssima Princesa D. Maria Amélia, refira na página 269 Francisco Augusto Mendes Monteiro como irmão leigo da Irmandade e Hospital da Santa Casa da Misericórdia da Ordem Terceira de S. Francisco na capital carioca, onde é apresentado como tesoureiro e com domicílio na Rua Direita, n.º 23. Essa Irmandade fora fundada em 14 de Janeiro de 1738 por Fr. Romão de Matos Duarte e tinha a sua sede na Rua de Santa Teresa, n.º 7, estando sob a protecção perpétua do imperador.

[29] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S. A. Barcelona, 1988.

[30] Tarquínio Hall, ob. cit., página 117.

Navegações ao Brasil Pré-Cabralino – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Nov 1 2016 

O período preparatório do Ciclo das Descobertas Marítimas recua a muito antes do Infante D. Henrique de Borgonha, fundador da Escola Náutica de Sagres. Já no tempo de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, se arquitectava tamanho projecto, coisa que qualquer estudioso medianamente informado sabe. Atribui-se esse projecto à Ordem do Templo, cuja frota marítima compunha-se já de navios de porte próprios para longos cursos, sabendo-se pela documentação coeva da primeira Dinastia que a armada Templária não se destinou só à defesa da costa e das zonas ribeirinhas mas também a viagens prolongadas mar adentro, distinguindo-se neste projecto o senhor de Óbidos e almirante D. Fuas Roupinho, professo da Ordem do Templo e meio-irmão do rei D. Afonso Henriques (1). Já D. Sancho I ou o II, em “regimento” não datado, promulga  a assistência e protecção à Marinha do Reino: “… e proíbo que ninguém se atreva a maltratar os meus marinheiros.” – In Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, I, 6.

Ora, se a futura Epopeia Marítima começou a ser delineada já no reinado de D. Afonso I e se os templários tinham por tutores espirituais os cistercienses, então poderá suspeitar-se da intenção última do exaustivo e frutuoso apoio desses clérigos-agricultores à classe campesina, encarregando-se de arborizar vastas zonas antes largos pântanos insípidos e cuja madeira seria aplicada na construção naval. Com a abolição da Ordem do Templo, em 1312 por bula papal no Concílio de Viena, mas que logo reaparece em 15 de Março de 1319 no chão português de Santarém (que se destinaria a última morada de Pedro Álvares Cabral) como Ordem de Cristo, o projecto de Expansão Marítima foi prosseguido quase sem nenhuma interrupção, graças à inigualável acção política do rei D. Dinis junto do Papado e das cortes europeias, quase de imediato mandando plantar os pinhais da Azambuja e de Leiria, cuja madeira veio a destinar-se à construção naval (2), ao mesmo tempo que contratava para a Ordem de Cristo um sucessor do almirante templário D. Nuno Fernandes Cogominho, recentemente falecido; o contrato caiu no experiente navegador genovês Manuel Pessanha ou Pezagno, em princípios de 1317, o qual veio a ser o primeiro detentor do título de “almirante-mor”.

Portanto, posteriormente o Infante D. Henrique “apenas” deu consecução a um projecto que já vinha dos seus reais antepassados, aproveitando todas as condições político-sociais favoráveis da época ao mesmo tempo que, como Governador Apostólico e 8.º Mestre Geral da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, legítima herdeira directa dos valores espirituais e temporais da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo do Templo de Salomão, aplicou o tesouro desta, mais que o da Coroa, na criação da Escola de Navegação que haveria de levar Portugal a todos os cantos da Terra, na mais espantosa Gesta Dei per Portucalensis correspondendo à Conquista Espiritual do Mundo pela Gesta Lusa.

O Infante Navegador (Nautonnier) reuniu em seu torno os mais entendidos em marinhagem, fossem de que nacionalidade e religião fossem; congregou os diversos saberes em um só saber; deu forma a uma nova cartografia e à invenção de instrumentos náuticos quase mágicos para a época, inclusive indo inventar um novo tipo de embarcação, mais ligeira, rápida e fácil de manobrar: a caravela, substituta da nau de porte. Simultaneamente, aplicou os conhecimentos náuticos herdados da Ordem do Templo sobre as viagens marítimas “de longo” pelos antigos navegadores, e sobre os mesmos, aconselhado ajuizadamente, traçou rotas que haveriam de levar, mar adentro, a outras terras, a outras civilizações… para espanto das cortes europeias e do vulgo que, ainda hoje, considera tudo isso dever-se quer à “boa fortuna”, quer ao “acaso”. A verdade é que nunca os navegadores da Escola do Infante velejaram ao acaso, o que não invalida a sua coragem quase sobre-humana para enfrentarem nas longas distâncias os caprichos constantes dos oceanos não raro temíveis e fatais.

Posto isso, impõem-se duas questões pertinentes, irritantes na contradição de um qualquer plano marítimo prévio nascido de uma qualquer e hipotética conjectura de diáspora templária: 1.ª) Se os navegadores eventualmente possuíam tais conhecimentos, onde os foram buscar e porque a historiografia não fala deles? 2.ª) Se havia um pretenso projecto templário sobre o mar oceano, por que não foi ele propalado abertamente? Pois bem, analisarei a primeira questão, já de si implicando a segunda, começando por reportar-me à mentalidade e conhecimentos do tempo, pois só assim se poderão entender as coisas e nunca, jamais, à luz dos avanços tecnológicos adquiridos na modernidade.

Para obter bom êxito nas suas empresas marítimas gizando rotas certas, o Infante de Sagres socorreu-se das fontes literárias dos antigos clássicos: valeu-se dos escritos árabes, romanos, gregos, fenício-cartagineses e até da própria Bíblia, no que o Velho Testamento possui de descrições geográficas do mundo mediterrâneo. Nisso, auxiliou-o imensamente o seu irmão D. Pedro, trazendo das suas viagens muitas informações geográficas e um mapa-mundi, com a certeza do império oriental da Índia e a sua localização terrestre. Por meio da Ordem de Cristo, por tradição Templária, o Infante D. Henrique teria conhecimento das explorações do franciscano João de Montecorvino (3); também se inteirara das viagens de Marco Polo, cujo livro lhe fora trazido e traduzido pelo seu irmão D. Pedro. Estava, portanto, ciente da situação geográfica aproximada da Índia onde reinaria um suposto rei cristão pertencente à Igreja do Apóstolo Tomé – o Preste João.

Certamente também estaria de posse das cartas e informações da existência de terras no Oceano Atlântico, cartas e informações essas todas de certeza de origem Templária Portuguesa mas que, posteriormente, seriam copiadas ou surripiadas por navegadores genoveses, talvez por altura da extinção turbulenta da Província Templária de Itália, contudo cheias de imprecisões propositadas para desviar as atenções, coisa que os cartógrafos templários fabricaram por temor justificado do seu eventual desvio, boa parte delas legendadas com referências a monstros diabólicos que viviam no meio do mar e engoliam de um só trago as embarcações e os embarcados, com o propósito claro de incutir terror e levar a que não se navegasse em mar alto. Era assim que a Marinha Templária protegia os seus interesses, reservando exclusivamente para a sua Ordem a posse de tais “terras incógnitas” que, para os outros, afinal não existiam e só havia mar repleto de monstros horrendos.

Afirma Roberto Costa Pinho que “o primeiro registro da Ilha Brasil encontra-se na Carta Náutica do cartógrafo genovês Angel Dalorto, elaborada em 1325, onde ela figura a oeste da costa sul da Irlanda, 175 anos antes do Brasil ser oficialmente descoberto” (4). Essa Ilha O’Brazil viria a ser reconhecida e transposta para a lenda sagrada, figurativa da navegação mística, pelos culdeus irlandeses, como “A Venturosa Ilha de São Brandão”, este santo e marinheiro que afinal nunca existiu a não ser nas lendas hagiográficas, e não ser que seja, afinal, o navegador português da Ordem de Cristo, Sancho Brandão, que em 1343, estando ao serviço de D. Afonso IV, chegou à Insula Brasil, conforme regista Felipe Cocuzza: “Sancho Brandão foi o navegador português que, a mando de D. Afonso IV, chegou ao Brasil na Idade Média, conforme atesta Assis Cintra, em seu livro Revelações Históricas para o Centenário, em 1923. Essa informação foi transmitida por D. Afonso IV ao Papa Clemente VI em carta de 12 de Fevereiro de 1343, acompanhada de um mapa com a inscrição de “Insula do Brasil ou de Brandam”. O nome Sancho, de Sanctis, o mais santo, ajudou à convergência para São Brandão” (5).

Segundo esse mesmo autor, mapas e textos europeus da Idade Média, entre eles o célebre The Canterbury Tales, de Geolfroy Chaucer (1380), ligam sempre o nome do Brasil ao de Portugal, às vezes dando a ideia inequívoca de posse: Brasil de Portugal.

Exemplo disso é a carta parcial do Atlântico, copiada por um tal Buache de Neuville de um original de 1367 atribuído a Pizigano, navegador genovês ao serviço do Templo. Nesse original aparecem duas naus templárias e um templário erguendo um gládio sobre uma legenda, numa má redacção latina, referindo a existência de seres malignos postados no oceano para impedirem toda a navegação para Oeste. O Arquipélago dos Açores está representado por uma única ilha: Braçir. Será interessante registar-se que na Ilha Terceira (Açores), onde aportaram tanto Colombo como Cabral na sua marcha marítima para Oeste, junto à cidade de Angra há um elevado monte precisamente chamado Brasil, antes do Brasil continente ser descoberto. Não é isto significativo?

Cópia simplificada da Carta de Pizigano, de 1367

Cópia simplificada da Carta de Pizigano, de 1367

É de referir igualmente a Carta n.º 5 do Atlas de Andrea Bianco, de 1436, onde referencia ainda a Ilha Brazil e coloca no lugar da América a Lanosatanasio (ou Manosatanasio, “Mão de Satanás”), lenda esta que os navegadores árabes propalaram entre os templários, cujos primeiros navegadores de alto mar eram portugueses, além da única frota naval templária devidamente organizada existente ser portuguesa, que a cedia às outras Províncias. Terá sido dessa maneira que os genoveses terão aprendido, em primeira mão, marinhagem e técnicas de navegação dos portugueses.

Carta n.º 5 do Atlas de Andrea Bianco, de 1436

Carta n.º 5 do Atlas de Andrea Bianco, de 1436

Na Carta do Oceano Atlântico (parcial), de Bartolomeo Pareto, de 1455, novamente aparece a Ilha Brazil, situada sobre a Insula Afortunada de São Brandão, na direcção da Antília, Atlante-ilha ou, simplesmente, América (6).

Carta de Bartolomeo Pareto, de 1455

Carta de Bartolomeo Pareto, de 1455

Foi durante o reinado de D. Afonso IV que a frota marítima da Ordem de Cristo fez o “Achamento” das ilhas Canárias, cerca de 1341, decerto graças às pistas deixadas pelos clássicos da Antiguidade aos templários que já aí tinham Casa e Comenda, antes de serem desalojados por motivo de extinção da Ordem, mas deixando ao culto posterior a imagem da Virgem Negra da Candelária (Tenerife), desaparecida em 1826 (7).

As Canárias, ilhas atlânticas situadas ao largo do Cabo Juby, na costa africana, podem ser consideradas prolongamento insular da cordilheira do Atlas, mais precisamente sequência marítima do limite ocidental do maciço Anti-Atlas, numa linha vulcânica em forma de crescente aberto. Os mais antigos navegadores greco-fenícios, cujo legado passaram aos romanos e aos árabes, conheciam muito bem as Canárias ao ponto de Sertório, um dos heróis das campanhas dos lusitanos contra o domínio romano na Península Ibérica, sucessor do grande chefe Viriato (8), depois de vencido pelo general Metello ter procurado retirar para as Ilhas Afortunadas (9). Essas Afortunadas ou Atlântidas como os cartagineses lhes chamavam, e que os gregos denominavam Hespérides ocidentais ou Gorgónias (por estarem defronte do território africano habitado por gorgones, depois chamados guanches que viriam a aparecer, por alguma migração que a História carece conhecer, no tipo morfológico e cultural dos guaranis do litoral brasileiro), ou ainda Purpurinas (por lá se achar, em abundância, o molusco murex do qual os fenícios extraíam a tinta púrpura), sendo conhecidas dos árabes por volta de 1067 (10). O étimo Canárias deverá provir de Canarii, povo das montanhas do Atlas estabelecido no arquipélago, já que este, como disse, é prolongamento daquela cordilheira.

Para lá das Canárias e em conformidade às informações legadas pelos antigos nautas, principalmente os fenícios e depois os árabes, o Infante D. Henrique possuía a certeza de aí estar a lendária Ilha da Bem-Aventurança ou A Ventura, como os portugueses da Idade Média a denominavam e que veio depois a ser identificada a Vera Cruz, a O’Brasis dos ogams irlandeses, topónimo que serviria para batizar a árvore Brasil que deu nome à actual Pátria Gémea de Portugal. Da casca e lenho da árvore desse nome, os portugueses obtinham tinta para a conservação das linhas e redes de pesca.

As cartas de navegação portuguesas dos séculos XIII a XV foram tão bem escondidas que hoje ninguém as acha, mas sabe-se que Pedro Vaz da Cunha, o “Bizagudo”, partindo da Mina no Golfo de Benim, dirigiu-se às terras do Brasil, em 1487; o mesmo fez, no ano seguinte, João Fernandes de Andrade, largando da Guiné. Dessas duas viagens pré-cabralinas só há conhecimento do rumo tomado, mas devem ter sido coroadas de êxito, visto que ambos os navegadores voltaram a Portugal e receberam mercês (11). Já em 1498, quando os navios de Vasco da Gama passaram os ilhéus atlânticos de S. Pedro e S. Paulo (29º22’ long. O; 0º56’ lat. N) a cerca de 1300 km da costa brasileira e 1500 km da costa da Guiné – o que representa uma larguíssima volta pelo interior do oceano para quem vai descobrir a Índia! – realizaram uma festa a bordo, por se acharem em frente de terra portuguesa (12). Só depois inflectiram o rumo para Oriente.

Dois anos depois, sendo Pedro Álvares Cabral “enviado também à Índia” (já descoberta por Gama), com 13 navios e 1200 homens, levou tudo preparado para assinalar um novo descobrimento (13), inclusive uma das naus (a naveta dos mantimentos) era tão velha que logo se percebeu não se destinar à Índia, pois não poderia arrostar o mar do Cabo das Tormentas, defronte à actual África do Sul. Durante a viagem para Oeste, não sofrera a menor tempestade e ancorou em frente de Vera Cruz, no dia 23 de Abril de 1500. Logo depois da «descoberta» oficial do Brasil, Cabral de lá mandou regressar ao Reino aquela velha naveta com as boas novas em missiva escrita por “Mestre” João endereçada a D. Manuel I, cujas palavras são flagrantes:

“… Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-mundi que tem Pero Vaz Bizagudo, e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-mundi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa-mundi antigo, e ali achará Vossa Alteza escrita também a palavra Mina.” (14)

Seria, portanto, uma carta geográfica anterior a 1471, pois já indicava a Mina africana descoberta nessa data; mesmo assim tão-só seria um traçado da costa, visto ainda não indicar se o Brasil era habitado. Obviamente, tratar-se-ia de um mapa executado em 1487 sobre aquele, quando da viagem para Oeste de Pedro, o “Bizagudo”, e da carta de “Mestre” João deduz-se claramente terem sido feitas outras viagens, nas quais se verificara ser o Brasil habitado.

Finalmente, tem-se o manuscrito do “Aquiles Lusitano”, Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, datado entre 1505 e 1508, que no capítulo segundo da primeira parte assim se dirige ao rei D. Manuel I falando do descobrimento do Brasil:

“Como no terceiro ano de Vosso Reinado do ano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e oitenta e oito, donde nos Vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do mar Oceano, onde é achada e navegada uma tam grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela e é grandemente povoada. Tanto se dilata sua grandeza e corre com muita longura, que de uma arte nem da outra não foi visto nem sabido o fim e cabo dela. É achado nela muito e fino brasil com outras muitas cousas de que os navios nestes Reinos vem grandemente povoados.” (15)

Duarte Pacheco Pereira (1460 - 1533)

Duarte Pacheco Pereira (1460 – 1533)

Com tanta e profícua informação é impossível conceber que o Infante D. Henrique de Sagres e os seus pares ignorassem as fontes que os antecederam nas rotas do mar, de que citei uma parte mínima, e se quase por norma a historiografia actual não fala delas não significa que acaso as desconheça.

Sendo Portugal pioneiro nas viagens transatlânticas e por outros mares também, possuído de conhecimentos exactos por tradição e herança Templária, e querendo manter o segredo dos mesmos ante a ambição doutros países e assim conservando o pioneirismo, cedo impôs a lei do sigilo, não só sobre as rotas marítimas como igualmente sobre o fabrico do sal, em que Portugal também foi pioneiro (16).

O sal foi durante muito tempo a principal moeda forte de troca: ele era o verdadeiro motor macro-económico do país, virado que estava, quase exclusivamente, para a exploração do mar, de cuja linfa extraía esse ouro marinho. A ciência salineira teve primazia em Portugal e era daquelas guardada a “sete chaves”, completamente interdita a estrangeiros, ciência esta aproveitada e desenvolvida já pela Ordem dos Templários, que também foi a maior empresa bancária da Idade Média entre os séculos XII-XIV. A capacidade técnica dos salineiros portugueses era considerável, pelo menos até finais de Seiscentos. D. Pedro II, por alvará régio de 15 de Fevereiro de 1695, determinou que nenhum oficial das marinhas passasse “a reino estranho a ensinar a fabricar marinhas nem a trabalhar na cultura do sal sob pena de morte e confiscação de bens”. Por outro alvará, do mesmo soberano, estabelecia-se que nenhum estrangeiro pudesse trabalhar nas marinhas, nem fosse ver nem aprender a fábrica delas, sob pena de ser publicamente açoitado e degredado por cinco anos para as galés.

O mesmo regime aplicou-se à mareação: proibição total de divulgar cartas, mapas, rotas e, inclusive, o fabrico e venda de caravelas portuguesas ao estrangeiro, proibição promanada do próprio Infante Henrique de Sagres – e legalizada por D. João II – coincidindo com a formação do monopólio do comércio da Guiné, pelo que se organizou um sistema de defesa da navegação e tráfico respectivos (17). De todos os testemunhos escritos da altura sobre a lei do sigilo ou do segredo, talvez o mais eloquente, e tão autorizado, seja o de Garcia de Resende, no capítulo XXV da sua Crónica de D. João II, aquando relata a fundação do castelo da Mina:

“E porque em todo o mar Oceano não há navios latinos, senão as caravelas de Portugal e do Algarve, el-Rei por ninguém ousar de ir àquelas partes fez crer a todos que da Mina não podiam tornar navios redondos por causa das correntes. E para isso toda a pedra, cal, telha, madeira, pregadura, ferramenta e mantimentos mandou tudo em urcas velhas para lá se desfazerem e dizerem que por caso das grandes correntes não puderam tornar; e assim se fez com muito segredo e grandes juramentos e houveram todos por tão certo que em vida del-Rei sempre pareceu que navios redondos não podiam vir de lá e com isto sempre teve a Mina mui guardada.”

Recorrendo ao velho estratagema dos templários, D. João II espalhou, através dos seus espiões, lendas e boatos falsos de maneira a afastar os países interessados do monopólio das riquezas que das terras além vinham. Nasceram assim as fábulas terríficas dos monstros marinhos e outras coisas mais, e que um navio que se afastasse demasiado da costa seria de imediato sorvido nas goelas insaciáveis do terrível Neptuno, sempre à espreita… O espantoso de tudo isso é que a maioria dos historiadores contemporâneos levou à letra essas fábulas de maneira a justificar a ignorância geral que antanho se tinha do mar. O rei mandou espalhar essas lendas proibitivas de modo a tornar inacessíveis aos navegadores estrangeiros as novas terras descobertas e, particularmente, o tráfico rico, monopolizado pela Coroa.

Também D. Manuel I, por alvará de 13 de Novembro de 1504, proibiu a elaboração de cartas de marear e de globos que abrangessem a parte do planeta para além do que já era do conhecimento geral, ou seja, o rio Manicongo, no Zaire. E também em ano incerto do seu reinado proibiu, por carta de ordenação, que pilotos, mestres e marinheiros portugueses servissem nações estrangeiras, sob pena de confiscação de bens e degredo para a ilha de Santa Helena (18), quando não o açoite e a morte, como D. João II aplicou não raras vezes, como naquele episódio de mandar perseguir e capturar um piloto e dois marinheiros portugueses que haviam fugido para Castela com o objectivo de revelarem o que sabiam. Capturados em terras de Castela, aos dois marinheiros foram logo cortadas as cabeças e ao piloto, levado vivo para Évora, na frente do rei foi esquartejado (19).

Realmente, a Escola de Sagres deteve o conhecimento universal dos oceanos até época tardia. A sua política de segredo praticamente atravessou toda a Dinastia de Avis. Durante largo tempo só os Mestres Gerais e os oficiais da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo mais chegados ao processo, conheciam com todo o rigor as cartas das rotas marítimas. Durante largo tempo nem os reis e nem os bispos sabiam mais do que lhes era comunicado, e só em instâncias excepcionais face à iminência de nova empresa. Todos sabiam que a Escola Náutica de Sagres (mas sita em Lagos, Algarve) sabia, mas nem todos sabiam o que a Escola de Sagres sabia.

Mais e para concluir: os capitães de armada iam comunicando gradualmente aos pilotos as rotas a seguir. Nunca as davam por inteiro, de uma só vez. A tripulação restante era mantida na maior das ignorâncias, à mercê do destino incógnito, restando-lhe rezar aos bons fados e assim tendo de confiar inteiramente no saber escondido do capitão. Depois, vinha o “milagre da descoberta”… e tudo fruto do “acaso e da sorte”, como considera sem mais delonga racional – exceptuando raros e honrosos investigadores – a historiografia contemporânea, assim se tornando, por carência do mesmo cognoscio racional, extemporânea.

Composição da nau portuguesa

O projecto de expansão de Portugal no Mundo não se deveu unicamente ao propósito de evangelização das terras aonde chegou e se impôs a soberania portuguesa. Creio que isto é óbvio. Há a contar, ainda, com os factores geopolítico, acarretando o militar, e sócio-económico, imprescindíveis à difusão da Diáspora e consequente formação do Império Lusitano nas várias partes da Terra. O projecto Templário de que a Ordem de Cristo era difusora, implicava o exercício dos dois Poderes: o Espiritual e o Temporal.

Tais Poderes eram assim aplicados em todas as terras virgens, despovoadas, ou não, onde Portugal chegou ao longo do Período das Descobertas, de maneira a firmar a sua presença e direito legal sobre as mesmas, só depois disso rompendo a lei do sigilo face às outras potências europeias:

AUTORIDADE ESPIRITUAL

– Presença missionária, ao início exclusivamente franciscana, ao serviço da Ordem de Cristo.

– Fundação de dioceses matrizes de redes paroquiais.

– Manutenção de excelentes relações sociais e religiosas com os povos das terras aonde chegassem:

– Concórdia e respeito mútuos.

– Difusão do espírito fraternal.

– Reconhecimento de um Deus Único: – Diáspora Espiritual.

PODER TEMPORAL

– Presença contratada de mesteres e serventes, mão d’obra especializada, ao serviço da Ordem de Cristo.

– Presença emigratória, destinada a povoamento, de jornaleiros (trabalhadores à jorna), assoldadados rurais que antes não tendo património próprio, tinham a oportunidade de lavrar terra sua e apascentar gado seu.

– Contingência militar que deveria ser simultaneamente política e diplomática:

– Defesa do seu património,

– Respeitando o património alheio.

– Intercâmbio político-diplomático e comercial para sobrevalorização da economia: Diáspora Temporal.

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IMPÉRIO PORTUGUÊS NO MUNDO

Essas são as linhas gerais do processo da Diáspora. A partir delas podem desenvolver-se outras múltiplas, inclusive as que levaram a usos e abusos colonialistas, até xenófobos de alguns, mas sendo excepções mínimas se atender-se à regra geral de concórdia e respeito de Portugal para com os outros povos (convém não confundir partes com o todo), e certamente por isso esses mesmos povos ainda hoje o procuram, o que não aconteceu nem acontece com outras potências colonialistas da Europa. A tentativa de desfigurar a História dos Descobrimentos por parte de alguns historiadores contemporâneos eivados de tendências políticas, assim tendendo a politizar os factos concretos da História, peca e falha nisto mesmo: o tendencioso pessoal pretendendo converter factos históricos aos limites de políticas particulares, desenquadradas das épocas em que aqueles se deram e dos momentos que eram verdadeiramente universais por implicarem a toda a Terra, logo implicando, na religião e na política, ecumenismo ou universalismo. Se assim não tivesse sido, como é que um pequeno país, em Quatrocentos com cerca de um milhão de habitantes, poderia ter se imposto no Mundo?!

Para perceber melhor como se começou a formar, no esconso da política internacional, o projecto de instauração do Império Português no Mundo, ter-se-á de recuar ao ano de 1497 em que se deram três acontecimentos importantes para Portugal, reinando D. Afonso V. O primeiro foi a ratificação do Tratado de Amizade de Saint-Jean de Luz, realizado entre os Reis Católicos de Castela, Fernando e Isabel, e Luís XI de França, representando o termo das pretensões portuguesas à coroa castelhana. O segundo foi o Tratado das Terçarias de Moura, base preliminar do tratado de paz luso-castelhano, assinado na vila de Alcáçovas. Por fim o terceiro, em 4 de Setembro, foi a assinatura do Tratado de Alcáçovas, que pôs fim à Guerra da Sucessão de Castela. D. Afonso V reconheceu aos Reis Católicos a realeza e a independência de Castela e abandonou definitivamente a pretensão sobre o antigo domínio português das Canárias. Em contrapartida, esse Tratado atribui a Portugal o senhorio da Guiné, Madeira, Açores, Cabo Verde e a conquista do reino africano de Fez, e à Espanha o senhorio das Canárias e a conquista do reino muçulmano de Granada, no Sul da Península Ibérica. O paralelo das Canárias passou então a ser a linha divisória da expansão portuguesa e castelhana (Norte para Espanha, com excepção dos Açores e da Madeira, e Sul para Portugal).

Logo a seguir, desde 1480 a 1485, são elaborados secretamente pela Escola Náutica de Sagres os primeiros guias ou manuais de navegação por latitudes, contendo o regimento do Norte e o regimento da declinação solar com as respectivas tábuas. Ainda em 1480, foi apresado um navio castelhano surpreendido na Mina a traficar ilicitamente, e logo D. Afonso V ordenou que fossem lançadas ao mar as tripulações de navios estrangeiros encontrados ao sul das Canárias. Isto não se explica só pela política de corso praticada em toda a Europa mas, principalmente, por Portugal querer esconder da sua rival próxima, Castela, o grande tesouro que a Sul se achava: a vasta região do Brasil.

Para evitar a deflagração de nova guerra com Portugal, em 6 de Março de 1480 efectuou-se a ratificação espanhola do Tratado de Alcáçovas em Toledo, e só meses depois, em 8 de Setembro, fez-se a ratificação portuguesa, fazendo esperar as cortes de Castela, sinal claro de que o poderio português era já dominante.

Reinando D. João II, o Tratado de Alcáçovas foi seriamente perturbado pela chegada de Cristóvão Colombo, ao serviço dos Reis Católicos, às Antilhas. O monarca português, que antes e depois (1491 e 1493) da descoberta da actual América do Norte se entrevistara com o grande navegador em cujo projecto não acreditara, pelo que foi cedido pela Escola de Sagres a Castela, vê seriamente ameaçada a soberania portuguesa dos oceanos e ameaça com a guerra. Os Reis Católicos apelam à intervenção do Papa Alexandre VI, em Roma. Este promulga duas bulas sucessivas em 1493, marcando uma nova linha divisória para a partilha do mundo não cristão, mas inclinando a balança para o lado de Castela, usando uma linguagem muito pouco definida. A reacção dos Reis Católicos foi nesse mesmo ano promoverem a segunda viagem de Cristóvão Colombo à América.

As coisas iam de mal a pior. Corria-se o risco sério de serem abandonados todos os tratados de paz e soberania mútuas, territorial e marítima, anteriores. Entra em acção a diplomacia portuguesa tentando desvalorizar uma arbitragem papal que a Coroa portuguesa não pedira. De conferência em conferência, chega-se ao ano de 1494: a 7 de Junho, após longas e complexas negociações, Portugal e Espanha (Castela) chegam a acordo no Tratado de Tordesilhas, nome de pequena cidade espanhola onde foi concluído esse novo arranjo.

Rui de Pina, cronista da época também ele interventor no processo, informa que os representantes de D. João II enviados a Espanha foram: como chefe Rui de Sousa, senhor de Sagres e Beringel (Berlenga, incluída no primitivo espaço fenício de Phoenix, isto é, Peniche), capitão e navegador de extremado valor e o mais experimentado dos diplomatas portugueses, João de Sousa, seu filho, Aires de Almada e Estevão Vaz, escrivão – “pessoas do reino de bom saber, grande confiança e muita autoridade” (20). A competência e o prestígio davam, na realidade, um grande realce à embaixada, a qual foi acompanhada, como era costume para missões mais solenes, por uma comitiva de fidalgos, entre os quais D. Garcia de Albuquerque, filho do conde de Penamacor, e Pêro Moniz. Assistiram igualmente aos embaixadores e assinaram o tratado, como testemunhas, João Soares de Sequeira, Rui Leme (relacionado aos Lem da cidade e catedral de Bruges, os quais viriam a ter papel determinante no começo do Brasil Ibero-Ameríndio) e Duarte Pacheco Pereira, o navegador das rotas ocidentais do Atlântico, avisado e prudente conselheiro da embaixada portuguesa (21).

Do lado dos Reis Católicos assinaram o tratado, como seus representantes: D. Anrique Anriquez, mordomo-mor; D. Gueterre de Cárdenas, comendador-mor de Leão e contador-mor; e o doutor Rodrigo Maldonado de Talavera, todos do conselho real, com muita experiência teórica de marinhagem e nenhuma prática de navegação em alto mar, logo desconhecendo o que nele poderia haver no tocante a terras firmes e amplas, coisa dominada na teoria e prática do saber velado dos portugueses, desta maneira em vantagem avassaladora sobre os outros, “trunfo” que de maneira alguma estariam interessados em perder a favor do adversário. Ainda que se ignore os títulos recomendados aos dois primeiros, sabe-se que o último foi um dos membros da célebre Junta de Salamanca, composta de “sábios, letrados y marineros”, que examinou, cerca de 1487, o projecto de Colombo de descobrir a “Índia do Ocidente”. Os Reis Católicos também haviam convocado para o efeito “muchas personas, que sabian de cosmografia y astrologia, puesto que habia harto pocos entonces en aquellos reynos, e las personas del mar que se pudieron haber”, segundo Las Casas em sua Historia de las Indias, acrescentando em tom de confissão no capítulo LXXXVII: “Y alli envió el-Rey de Portugal las suyas, que debian tener, a lo que yo juzgué, más experiência de aquellas artes, ao menos de las cosas del mar que las nuestras” (22).

Com o Tratado de Tordesilhas criou-se uma linha divisória de pólo a pólo que dividia o Mundo em duas partes aparentemente iguais: a parte Norte ficaria para Espanha e a parte Sul caberia a Portugal. Para Espanha, a fronteira seria as Canárias; para Portugal, o arquipélago de Cabo Verde, definitivamente integrado nos bens da Coroa em 1495. Para que esse convénio se firmasse, os Reis Católicos tiveram de ceder à imposição do Rei português: que a linha divisória ficaria 370 léguas além das ilhas de Cabo Verde e a favor de Portugal (o que açambarcava o Brasil), e não as 270 da bula pontifícia de 1493, assim anulada. Dessa maneira Portugal ficou senhor do Brasil e de boa parte do território sul-americano que conhecia de há muito, ao contrário de Espanha, eterna dependente das costas e navegações portuguesas. Por isso disse que o Mundo foi dividido aparentemente em duas partes iguais por uma linha limite… proposta pela embaixada de D. João II.

Que Portugal quis antecipar em Tordesilhas a posse legal sobre o Brasil, é facto facilmente apercebível na redacção do próprio tratado: os navios continuariam dali (Canárias) o seu caminho para as ilhas de Cabo Verde, donde “tomariam sua derrota (descida) direita ao Poente (Ocidente) até as ditas 370 léguas”, e se “for caso se topar em alguma ilha ou terra firme, que ao começo de tal ilha ou terra firme se faça algum sinal ou torre e que em direito do tal sinal ou torre se continuem daí em diante outros sinais pela tal ilha ou terra em direito da dita raia, os quais partam o que a cada uma das partes pertencer dela. E que os súbditos das partes não sejam ousados uns de passar à parte dos outros” (23).

Quanto ao restante território do Brasil que pertencia à Coroa espanhola e que acabou na posse dos portugueses, a saga dessa transação é narrada pela professor Agostinho da Silva filosofando entre o sarcasmo e a sátira mas com a certeza do que diz (24):

“É curiosíssimo ver hoje tantos portugueses assustados com a Espanha e os espanhóis tão seguros de si. Quando efectivamente os portugueses puderem agir à vontade, como foi na América Latina (chamada latina, provavelmente pelos franceses, porque ela, o que é, é hispânica; mas os nossos amigos procuram sempre chamar a qualquer coisa «latina» para Paris ter uma voz) aí quem procedeu em grande, quem triunfou plenamente, foi o português: em primeiro lugar porque todo o Brasil ou quase todo o Brasil que existe hoje, era legalmente espanhol, mas como, coitados dos espanhóis, continuavam na ignorância da matemática e os portugueses além de a saberem muito bem tinham consigo uma capacidade de manha, a que eu chamarei respeitosamente diplomacia, bem como outras grandes habilidades, foram avançando no terreno e construindo, com um gosto enorme, mapas falsos em cima de mapas falsos, sempre com muito cuidado de os ter exactos ao norte do Amazonas e ao sul do Prata, porque podia algum espanhol não ignorante fazer também as suas observações e verificar se o mapa estava errado ou não. Durante 200 anos houve mapas falsos, sabendo-se perfeitamente que para fazer alguma coisa falsa é preciso ter a noção do que é verdadeiro.

“Mas nessa América foram os portugueses que ganharam a partida e com uma tal audácia, uma tal segurança da sua ciência e da sua capacidade de falsear as coisas, que propuseram ao rei de Espanha que era tempo, por causa dos casamentos reais, das suas famílias estarem unidas na empresa de se conseguir dominar, civilizar, como se dizia, toda aquela América, a tal América Latina, a América portuguesa e a América espanhola. Dizia o rei que, efectivamente, até ali tinha havido sempre mapas pouco correctos: eram uns mapas incorretíssimos, todos puxados para Cabo Verde de maneira que as 370 léguas caíssem bem dentro do Brasil, bem junto dos Andes; mas que era tempo de terminar isso e que então mandavam ali, pela primeira vez, ao rei, um mapa verdadeiro, exacto; não diziam que os outros eram falsos: os outros eram apenas mapas que, em virtude da ciência pouco exacta, não eram também exactos; agora não, agora ia um mapa exacto e, em cima desse mapa exacto, o que propunham ao rei era uma troca: davam mais ou menos o que é hoje o Uruguai (ali se fazia um grande contrabando porque grande parte da prata que vinha do Potosi entrava nos cofres de Portugal no Brasil, por meio de contrabando; há no Brasil uma quantidade enorme de exemplares de moeda do Carcop III recarimbadas, com o cunho português, circulando como moeda portuguesa) em troca de territórios para Oeste, que realmente convinham também aos portugueses, em virtude de minas que já exploravam e de prelazias que aí tinham montado. O rei de Espanha olhou o mapa; o mapa era tentador para ele. Ofereciam-lhe o Uruguai em troca daquele território de Oeste que ele mal conhecia, assinou o Tratado. O território que os portugueses cediam, era, como disse, o território do Uruguai, enorme no tal mapa, 3 ou 4 vezes o Uruguai de hoje; e o que é que pediam em troca? Pediam apenas Mato Grosso, uma tirinha de terra no mapa, Mato Grosso que é do tamanho de Angola; pediam também Goiás, uma coisa bem pequenina no mapa, quando Goiás tem de Norte a Sul mais de 2000 km de extensão. O rei de Espanha assinou o Tratado e assim ficou constituído o Brasil. O Brasil é talvez a maior proeza mundial de ligação da ciência mais exacta que era possível conhecer no tempo com a maior capacidade de enganar.”

É uma maneira simples e directa de expor as coisas, certa mas ainda assim não tão simples no palco das acções imediatas como narra o filósofo amigo. Seja como for, Portugal ficara com a “parte de leão” na “partilha” do Mundo em Tordesilhas, em 1494. Como se não bastasse, era a Escola de Sagres quem formava e dirigia a marinha espanhola. Espanha fora “vítima” da diplomacia portuguesa de Mare Clausum abrangida pela política de silêncio. Estavam abertas as vias para se chegar oficialmente à Índia, às Antilhas e ao Brasil. Portugal acabara de passar a potência máxima do mundo ocidental e assim reconhecido em todas as partes do Mundo aonde chegou – iniciara-se a Gesta Dei per Portucalenses.

As demandas marítimas da Índia e do Brasil pelos almirantes portugueses, tornou Portugal soberano dos oceanos unindo aos dois hemisférios do Globo, à Terra inteira, através da Mareação que é Arte de Espírito Santo e assim, sob a égide de Mariz, a todo Mar tomámos – Maris Nostrum.

Como disse e procurei demonstrar até aqui, os navegadores portugueses já sabiam com bastante antecedência das rotas marítimas e onde elas levavam, antes de serem tornadas públicas, por conhecimentos herdados da tradição Templária. Que homens e de que Ordens os herdaram, de maneira a tornar a Diáspora completa? Segundo o ilustre professor António Castaño Ferreira (numa das suas aulas teosóficas em 16.06.1952), três Ordens Iniciáticas concorreram para a difusão da Sabedoria e da Mística do Médio Oriente ao Extremo Ocidente:

1.ª – ORDEM DO SANTO GRAAL

(Do Médio Oriente à Europa)

– Acção de São Bernardo de Claraval –

2.ª – ORDEM DA ROSA+CRUZ

(Da Europa ao Norte América)

– Acção de Cristóvão Colombo –

3.ª – ORDEM DE MARIZ

(Da Europa ao Sul América)

– Acção de Pedro Álvares Cabral –

Devo afirmar agora que o objectivo de toda a Fraternidade Esotérica verdadeira sempre foi e sempre será um só: o de levar o ser humano a se conscientizar e a viver a sua realidade interna, os seus verdadeiros e, em última análise, únicos objectivos na vida. O ser humano deverá se adaptar às suas características originais, essenciais e primordiais. Não apenas a uma vida vegetativa mas a uma vida plena, universal, em que a vida como energia se acresce, transforma em mais vida, energia e consciência (25).

Como a evolução individual completa-se na colectiva e como tudo está em movimento avante, tal correlaciona-se à Marcha das Civilizações através dos tradicionais Postos Representativos da Evolução do Género Humano os quais, por suas posições geográficas, representam as duas linhas evolucionais:

De Oriente para Ocidente: Austrália, Índia, Egipto e Portugal.

De Norte para Sul: América do Norte, México, Peru e Brasil.

O propósito essencial, hoje em dia, está em coligar o Ocidente ao Sul, Sudoeste que é a rota da realização integral da Mónada Ibero-Ameríndia. O próprio Almada Negreiros, quiçá inspirado por Fernando Pessoa, escreveu sobre isso:

“Se existe um pilar-mestre em torno do qual volteja a orientação de Ocidente-Sul, ele tem sido, mais ou menos exteriorizadamente, a teimosia de se afirmar que se Portugal simbolizou ou cumpriu (talvez ainda hoje o faça) a ânsia, tantas vezes em busca de condições mais condignas, o Brasil não menos simboliza e cumpre a Missão de absorver e integrar toda a diversidade existente no Mundo, que aí adquire, por força da sua poderosa gravidade continental, uma dinâmica de integração completamente insuspeitada, a caminho de uma Raça-Síntese que consiga erguer uma Civilização mais perfeita e humana do que aquelas que conhecemos até hoje.” (26)

Por isso o caríssimo professor António Telmo, quando leccionava na Universidade de Brasília, ter chamado ao Brasil o “Novo Oriente”, a Nova Ásia ou Assiah, que é dizer o Novo Mundo, e desde logo o Novo Grande Ocidente como prolongamento lusófono ou do Verbo Criador de Portugal.

Reflectido no formato do astrolábio náutico, o Quadrante Planetário, absorvendo os 7+1 quadrantes geográficos, prefigura um círculo com duas hastes cruzadas no seu interior (27) .O círculo é a expressão planisférica do próprio Globo Terrestre, a haste horizontal da cruz representa o Equador, e a haste vertical um dos inúmeros Meridianos que o cruzam, no caso, o quarto, estando de acordo com o presente 4.º Sistema de Evolução Universal, a caminho do 5.º… representado no Brasil. O Quadrante Terrestre assim se apresenta, representado o Brasil, como “8.ª coisa” a realizar, no próprio círculo planetário, assim identificado à próxima Idade do Mundo, a Quinta, a do V Império Universal cujo Imperador será o divino Emmanuel detentor da Quinta Essência Divina:

Assim se formou a primacial cruz direcional dos chamados quatro pontos cardiais – Norte, Sul, Este, Oeste. Estabelecido esse esquema, foram procurados processos mais fáceis e expeditos para a sua determinação em qualquer circunstância. Nem sempre o Sol ou a Lua, por se acharem ocultos ou invisíveis em razão das neblinas ou das nuvens, podiam servir de guias. Houve assim que encontrar no céu a Estrela Polar como indicadora da direcção Norte, e o Cruzeiro do Sul como indicador desse outro ponto cardial. Vieram depois outras direcções intermediárias mas também úteis, e com tudo isso nasceu a bússola, “filha” do quadrante que, com o sextante e principalmente a balestilha e o astrolábio, estiveram na base das rotas oceânicas da Gesta Henriquina, cuja meta suprema e como ficou provada, era unir, espiritual e consanguineamente, a Humanidade num todo, servir já então de bojo à futura Era de Aquarius, a da Concórdia Universal que se desenhava e pressentia no horizonte do Homem.

Astrolábio náutico, peça do século XVI. Com ele era permitido calcular a altura de um astro sobre o horizonte e assim determinar a latitude do lugar onde era feita a observação.

Astrolábio náutico, peça do século XVI. Com ele era permitido calcular a altura de um astro sobre o horizonte e assim determinar a latitude do lugar onde era feita a observação.

Já o gnómon do relógio solar, como se vê no Promontório de Sagres, em Portugal, direccionado 17º sudoeste a Cabo Verde e a Porto Seguro, no Brasil, portanto ao Extremo Ocidente do Globo para onde o Infante D. Henrique dirigiu a sua atenção da demanda da “Terra da Ventura” que ele bem sabia existir por conhecimentos herdados secretamente dos navegadores anteriores, alguns da Proto-História que pisaram o Brasil, dizia, o gnómon no sentido Sudoeste marca a marcha precessional do Sol no planisfério terrestre, assim se dispondo no Quadrante quadripartido pelos 7+1 Centros de Vida e de Consciência do Globo:

Neste contexto, pode observar-se a marcha precessional do Mónada Humana descer de Norte para Sul, ao par da mesma marcha cíclica de Este para Oeste, cujo pomo da Concórdia Universal, o ponto central de encontro das coordenadas apontadas por Surya, o Sol mesmo, será o Brasil, tradicional berçário da Raça Dourada, não tanto pela epiderme mas muito mais pelo Espírito que a iluminará em conformidade ao seu tempo, o da Satya-Yuga ou Idade de Ouro (Sul), cada vez mais sobressaindo no palco antropológico do Mundo quanto maior for a acção catalisadora dos Lusos para aí dirigindo o seu foco de atenção (Oeste).

A vulgarização dos sentidos dos pontos cardiais tomou tal feição que, não raro, significa não uma direcção geográfica mas sim uma determinação psicomental do comportamento humano. Assim se diz que alguém se desorientou ao praticar determinado acto, ou que a sua vida se orienta num certo sentido. Por outro lado, quem é que nunca se desnorteou procurando depois nortear os seus passos na direcção certa?…

Coordenadas cíclicas, coordenadas geográficas, coordenadas comportamentais levando a Humanidade a unir-se num todo, arredada de vez do erro e da superstição, nas quais o nacionalismo patrioteiro, não raro, pouco ou mesmo nada tem a ver com o verdadeiro Patriotismo, assente na dinâmica permanente da Evolução do Tudo e do Todo. Sim, amor à pátria terrena por Amor à Pátria espiritual, é bem uma coisa; pretender essa pátria terrena soberana político-psíquica sobre as outras nações e paradoxalmente apartada delas, atitude próprio de senhorio ditatorial, é bem outra coisa…

Que tenham, pois, um e todos a coragem de se irmanar e assumir o sacrossanto Trabalho de Reconstrução do Homem, de lutar com as Armas da Razão, do Amor e da Justiça pela Sinarquia Universal, a mesma Concórdia Global, rejeitando de vez a anarquia deste Interregno Cíclico em todas as suas formas caóticas, para que o passado dia 28 de Setembro de 2005 tenha realmente sido o marco do início da Nova Idade de Ouro, ou do tão falado e tão pouco entendido Quinto Império, esse do Espírito Santo cujo Corpo é a Humanidade inteira, cujo desejo último e supremo é que se una fraternalmente num abraço deveras universal.

É o próprio Fernando Pessoa quem o diz no seu Manifesto sobre o Atlantismo, presumivelmente de 1913, em que trata de O Império Espiritual (28):

“Todo o Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de pé, um Cadáver mandando. Só pode realizar utilmente o Império Espiritual a nação que for pequena, e em quem, portanto, nenhuma tentativa de absorção territorial pode nascer, com o crescimento do ideal nacional, vindo por fim a desvirtuar e desviar do seu destino espiritual o original imperialismo psíquico. Criando uma Civilização Espiritual própria, subjugaremos todos os povos; porque contra as artes e forças do Espírito não há resistência possível, sobretudo quando elas sejam bem organizadas, fortificadas por almas de generais do Espírito. Criemos um Imperialismo andrógino, reunidor das qualidades masculinas e femininas: Imperialismo que seja cheio de todas as subtilezas do domínio feminino e de todas as forças e estruturações do domínio masculino. Realizemos Apolo espiritualmente. Esta é a primeira Nau que parte para as Índias Espirituais, buscando-lhes o Caminho Marítimo através dos nevoeiros da alma, que os desvios, erros e atrasos da actual civilização lhe ergueram!”

Tamanha Diáspora de roteiro certo Sudoeste, primeiro conclamada e depois cumprida pelo Infante Henrique de Sagres, como projectista primaz da mesma que os seus paradigmas fiéis concluíram dando forma ao mapa geoestratégico do Ideal Parúsico por Maris Nostrum, devo reiterar não ter sido obra do acaso em momento algum, tanto que este Insigne Luso I. ou J.H.S. era afim às Ciências Herméticas de que já dei notícia na minha História Oculta de Portugal (Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo), dada à estampa pela Editora Madras, cujas estrelas do seu mapa astral apontavam-lhe A Ventura do Futuro com “Marte em Aquário”, portanto, indicando que a sua Obra só seria plenamente entendida pela Civilização na então ainda distante Era de Aquarius, já hoje despontando do horizonte consciencial da Raça Luso-Brasileira, por outra, Ibero-Ameríndia.

O cronista do Infante D. Henrique de Borgonha, Gomes Eanes de Zurara (29), homem douto dado às ciências da Kaballah e da Astrologia de que deixou provas claras dispersas pelas suas várias crónicas impressas, possivelmente sendo de ascendência cristã-nova, possível conhecedor do ano, mês, dia e hora de nascimento do Infante, impossível hoje em dia por só se conhecer o lugar e o ano (Porto, 1394) por informação do mesmo cronista, ele empenha-se na sua Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné ao levantamento do horóscopo de D. Henrique, o Navegador: “Porém vos quero aqui escrever como ainda por pungimento de natural influência, este honrado Príncipe se inclinava a estas coisas (esotéricas). E isto é porque o seu ascendente foi Áries, que é casa de Mars, e é exaltação do Sol. E porquanto o dito Mars foi em Aquário, que é casa de Saturno, e em casa de Esperança, significou que este Senhor se trabalhasse de conquistas altas e fortes, especialmente de buscar as coisas que eram cobertas aos outros homens, e secretas, segundo a qualidade de Saturno, em cuja casa ele é. E por ser acompanhado do Sol, como disse, e o Sol ser em casa de Júpiter, significou todos os seus tratos e conquistas serem lealmente feitos, e a prazer de seu Rei e Senhor.”

Ifante D. Henrique em iluminura na "Crónica dos Feitos do Descobrimento e Conquista da Guiné", de Gomes Eanes de Zurara. Folha 5 verso, códice da Biblioteca Nacional de Paris.

Infante D. Henrique em iluminura na “Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné”, de Gomes Eanes de Zurara. Folha 5 verso, códice da Biblioteca Nacional de Paris.

Portanto, segundo o cronista Zurara o Infante Henrique de Sagres nascera sob o signo de Aquário – Saturno, estivera sob o auspício de Sol – Júpiter e tivera por ascendente Carneiro – Marte em Aquário, no seu mapa natal. Este horóscopo veio a ser motivo de pintural parietal no lado direito da escadaria de acesso ao andar superior do Palácio-Hotel do Buçaco, vizinho da vila de Luso.

Horóscopo do Infante Henrique de Sagres

Horóscopo do Infante Henrique de Sagres

Marte ou Makon (heb.), correspondente ao respectivo “Céu” da classificação Ptolomaica, esse em Aquário, sendo planeta do signo de Áries, o Carneiro associado ao Nisan hebraico, correspondendo à festa móvel da Pesah ou Páscoa, exactamente como “passagem” de um estado a outro, implicando ser maior ou mais lato para a “coisa” envolvida (seja consciencial, geográfica, pessoal, colectiva, etc.), corresponde no Hemisfério Norte à elevação do Sol, a passagem do frio ao calor, da treva à luz, o que não deixa de se relacionar ao simbolismo sideral dos doze argonautas (signos) da nau “Argos” (Zodíaco) navegando na demanda do Velocino de Ouro (Sol), tradição esta também evocada pelo carneiro servindo de montaria à divindade hindu Kuvera, guardiã dos tesouros do seio da Terra. Mas a demanda do Velocino de Ouro é sobretudo, por ele se associar à Copa Sagrada (o Saint Vaisel ou o mesmo Santo Graal), a de um tesouro espiritual, ou seja, o da Sabedoria Divina, onde se torna ordálio real. Ora, na China antiga o carneiro participava dos ordálios judiciários, nos quais desempenhava o mesmo papel do unicórnio. Na mesma época e na mesma área cultural, o carneiro também é, por vezes, a montaria de um Imortal (Ko Yeou), e na Índia é a metamorfose do próprio Imortal no Fogo Sacrificial, Agni, o que bem se associa ao Cordeiro Sacrificial hebraico-latino da PesahAgnus Dei.

Na Gália havia numerosos cães de lareira (peça utilizada para apoiar a lenha no lume, para evitar que role para fora) com cabeças de carneiro, em terracota e em pedra, o que se relaciona com o simbolismo ígneo do animal e a fecundidade familiar.

Depois do Velocino (ou Tosão: velo de carneiro), é o chifre do animal de ouro (afinidade solar) que fica carregado de um valor simbólico, fonte de inumeráveis costumes, tradições e imagens derivadas do mesmo simbolismo original, sendo que, de todos, o mais forte é sem dúvida a cornucópia, a taça da abundância, pelo que evoca a esta tanto no material como no espiritual, aqui designando a Iniciação. Certamente Iniciação Real, Guerreira ou Kshatriya, também chamada de Iniciação Senhorial ou Mariana, por todo o Cavaleiro eleger por Orago a Santa Maria na hora da armação e no momento grave do combate a Ela se encomiar. A Iniciação Mariana como ideal e execução hermética liga-se por inteiro a Maris, ao Mar ou a Via Marítima (Húmida ou Andrógina) da Alquimia, Arte Real de Espírito Santo, na época do Infante de Sagres assumida pela própria Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo de que ele era o Administrador e 8.º Mestre Geral.  Por certo, também, expressando a abundância material, indo-a buscar na “Ilha” Brasil, para isso ordenando aos seus Cavaleiros do Mar, nóveis Argonautas, o navegarem para Ocidenteas finis Terrae.

Cabalisticamente, mas interpretando essa velhinha e esgotada tradição esotérica judaico-cristã à luz da Teurgia Aghartina, se assim me é dado exprimir sem escapar à verdade, posto no tempo em questão e de acordo com a mentalidade vigente a Encoberta Ordem de Mariz serviu-se tanto da Gnose, como da Cabala e da Alquimia para expressar os mais transcendentes preceitos dessa mesma Teurgia, Marte associa-se à sephiroth Geburah, “Força”, por sua vez associada ao estado de Consciência Budhi Taijasi, isto é, o Intuicional (Christusiluminado pelo Espiritual (Paeternus). Essa condição consciencial é assumida cosmogonicamente pelas “Serpentes de Fogo” (Sarafs), os Serafins portando em seu imo a Purificação, a Iluminação e o Amor. De Salém, a Shamballah, à Face da Terra, por eles se manifesta Deus Espírito Santo conferindo o Amor ao seu Eleito e à Igreja de sua Eleição, a dos Fiéis do Amor, antes, a da lustríssima Mãe Santíssima como Virgo Mariz, por decreto do Ínclito Infante do Mar trasladada do extremo-ocidental da Europa ao extremo-ocidental do Mundo – o Brasil – motivo patente na imagem da Virgem no altar maior da igreja de São Sebastião de Lagos, Algarve, que veio milagrosamente de Vera Cruz para aí, próxima à Confraria do Espírito Santo apadrinhada pelo mesmo Infante.

Também nisso entra a influência benfazeja do Sol do Solo ou Seio da Terra, lugar ascendente do Infante D. Henrique daí descendente: Saraf, Seraf, Serafim, Serapis… a 7.ª Linha Teúrgica do Novus Phalux a Luzir, sim, o Cruzeiro Mágico de Cordo Mariz sob a égide de Surya, o Sol mesmo. Remata a tradição hermética que se está na presença de um vocábulo cujas sonoridades são em vermelho e ouro, de afinidades astrais a Marte e o Sol.

Seguindo a antiga classificação Ptolomaica, o alquimista português Anselmo Caetano Munhoz de Abreu coloca Marte como o quinto dos sete planetas tradicionais e assim o classifica no seu Oráculo Profético: “(…) subindo mais alto a procurar a protecção de Marte, que é o Planeta Quinto, e tão ilustrado de luzes, que tem a luz do Sol por centro. Como Marte é o Quinto entre os Planetas, e também o Deus da Guerra entre os Indigentes, posto que também seja Infortuna menor, por estes mesmos três motivos lhe consagro este Oráculo Profético, em que alegoricamente discorro sobre o Quinto Império do Mundo; porque o Império Quinto pertence ao Quinto Planeta, a conquista do Mundo ao Deus Marte, e à Infortuna menor a maior Fortuna. Lisboa Ocidental, 31 de Julho de 1733.”

Também as lâminas divinatórias do tipo português (que no século XIX passaram a ser impressas na Bélgica e na Alemanha, já alteradas), vulgo “cartas do dragão”, apontam a influência oculta de Marte. Com efeito, nas ditas cartas ele aparece sobressaindo de um “graal” na forma de um dragão carregando uma espada, símbolo esotérico tanto de Marte como de São Jorge ou Akdorge – segundo a Tradição Iniciática, o futuro Rei do Mundo portador do Santo Graal. Isso além de designar tanto a Linha Serapis como representar emblematicamente a cidade de Coimbra, antiga Sede Externa da Soberana Ordem de Mariz. A esse baralho genuinamente português, poderei com justeza o batizar de Tarot Lusitano. A sua criação inspirou-se naquele outro Tarot Marselhês que os ciganos – esse “judeus errantes” sem Pátria certa e sem Norte definido… – importaram para a Península Ibérica e que já em 1420 circulava nas rotas de peregrinação a Santiago de Compostela, pois que em 1490, reinando D. João II, a sua difusão era tamanha que o monarca proibiu severamente o seu uso (30).

Inspirado nesse baralho cigano é que Garcia de Resende (1470-1536), sob encomenda de D. Manuel I, criou o tipo português de baralho ou as 48 “cartas do dragão”, notícia inserta no seu Cancioneiro Geral (31), divididas em dois grupos de 24 Damas ou de Louvor, e de 24 Cavaleiros ou de Deslouvor.

Apesar da aparência da sua finalidade imediata lúdica como inocente jogo de salão que D. Manuel I terá dedicado a uma sua pretensa concubina, D. Joana de Mendonça, a verdade vai muito além disso e é muito mais dignificante e séria. O primeiro indicativo está no próprio Dragão dos Lusos atravessado pela espada e saindo da taça, de que já falei. O segundo indicativo está no Louvor ou Vitória assinalada na Dama, o que dá ao baralho característica feminina, matricial, bem conforme o tempo do Rei Venturoso – o de Maris Nostrum sob a égide apologética de Santa Maria. O terceiro indicativo é o valor 24, logo apocalíptico por indicar os 24 Anciãos do Apocalipse acompanhados das suas contrapartes femininas, ou almas augures, as do vaticínio da boa ou má sorte que o Destino reserva. O quarto indicativo será o valor 48, acrescido de mais 1 como o próprio jogador(a), indo dar 49, este o número cabalístico ou canónico dos Adeptos Independentes da Grande Loja Branca ou os Apóstolos da Igreja de Melkitsedek, 7 para cada Raio de Luz, logo, 7X7 = 49.

Finalmente, segundo um texto restrito datado de 1937, cuja escritura vela o ouro pressentido na sua linguagem críptica, o Deus Akbel em Nome do Eterno pôs o Carneiro a falar, e este assim baliu ou falou:

“Com ou sem igual sacrifício, meu Pai limitou-se, separou-se de Si mesmo… a fim de que o Universo existisse. E desde então, eu comecei a ser “sacrificado” com Ele!

Tenho a fonte do conhecimento do Bem e do Mal. Ordeno e meu Verbo se encarna. Ponho em movimento a Acção e logo aparece o KARMA. Eu sou, ao mesmo tempo, o Pai e o Filho, por isso que faço mover a Grande Roda da Vida! Chakravarti!

Meus cornos involutivos ocultam uma serpente de fogo, o aguilhão da Vida e da Morte.

Procedo de Brahmã! Eu sou o Senhor, o Deus do Exército das Forças: AKDORGE! RAJAS e CHIT estão comigo. Irascível, não tenho repouso, mas a Fé se acha comigo.

Não seria conveniente que eu estivesse só… e assim, procurei o Touro. Marte e Vénus serão meus Pais até ao Grande Dia do Sede Connosco, quando meu Pai for MERCÚRIO.

Mas o Dia finalmente raiou e continuará raiando por mais SETE ETERNIDADES.”

Alguns autores credenciados ouvintes directos do mais excelso paradigma da Sabedoria Iniciática das Idades no século XX que foi o Professor Henrique José de Souza (J.H.S. noutra versão, noutro corpo…), afirmam que o Infante D. Henrique foi um Avatara de Shiva ou o Espírito Santo como Terceiro Logos da Terra, desde logo na sequência desse pensamento parúsico, terá sido um Avatara Momentâneo portador de 50% de todo o potencial da Divindade, Shiva ou Siva, anagramaticamente Avis, sim, a Avis Raris In Terris!… Isso se detecta em Áries, o Nisan, AgnusAgni o Fogo Sagrado como Cordeiro Sacrificial ou Mitra-Deva expressando ao próprio Deus Filho, ao Cristo Universal “levitando” sobre as atlânticas águas promissivas do Futuro que o seu Infante ou Delfim rasgou… rumo à Tebaida Ocidental – A Ventura, a Esperança do Arcano XVII da Portugalidade inteira cujo hodierno Porto-Graal é já hoje soerguido no Brasil!

Tenho infinita pena daqueles – demasiados… – que arredados do Pensamento original da Tradição de Akbel, alguns carregando conhecimentos nada assimilados tampouco conscientizados como testemunho mas não aponto ninguém, deixando a tarefa de Integração verdadeira a cada um e cada qual demore quanto demorar no esteio do tempo e do espaço, adianto que para não cessar a Evolução Universal entra o mistério da conjunção planetária de Júpiter e Saturno, de cujo movimento se originou a Cruz Swástika, expressando precisamente a Divindade em Acção.

Essa conjunção do 1.º e 7.º Planetas do nosso Sistema de Evolução (como sejam Saturno e Júpiter), leva de nome, em aghartino, Asga-Laxa, Asga-Lacha, Asga-Vatza ou Asga-Ladack, e tem precisamente o significado de “Esplendor do Céu”, cujo símbolo representa o Movimento sobre e sob a Terra, portanto a acção do Pramantha ou “Cruzeiro Locomovedor da Evolução do Ciclo presente” no Segundo e Terceiro Tronos, no Céu e na Terra, sob o impulso do Imanifestado, o Primeiro Trono. Desde logo denota-se a acção primordial da Hierarquia Celeste (Matra-Devas – Querubins, Senhores da Sabedoria) e da Hierarquia Terrestre (Manasaputras – Serafins, Senhores do Amor) na Humanidade mesma, cuja cúspide são os “Filhos da Luz”, os Lusos, os Assuras humanos que, ao tempo, tiveram por Grão-Mestre o próprio Infante Henrique de Sagres, então Supremo Dirigente da Encoberta mas Soberana e Augusta Ordem de Mariz (Xvarnah-Al-Massiah, “Iluminados por Deus Criador”, em persa, ou, em árabe, Dâr Allath As-Muridj ou Maridj, “Perfeitos da Tebaida da Deusa-Mãe”, já que Murîd, a par de Akbar, significa “Grande Alma”, equivalente ao hindustânico Mahatma, ou seja, o Adepto Perfeito) (32).

Júpiter expressa a Geração relativa ao Segundo Trono, a Geração Matrátmica ou a do ponto de vista mais elevado. Daí a expressão enigmática do Professor Henrique José de Souza: “O Tetragramaton como expressão ideoplástica do Homem Cósmico, que é Jehovah, Jove, Júpiter”

Saturno expressa tudo quanto tem a ver com o Seio da Terra, o Terceiro Trono. Daí as expressões Sabaoth, Sabath, Sábado, Saturninas, Saturno

Juntando Júpiter e Saturno (aliás, os dois símbolos), tem-se a palavra Asgar-Laxa, “Senhor do Governo dos Dois Mundos”, o Celeste e o Terrestre, o que vale por Melki-Tsedek ou Chakra-Varti, mas que sendo Asga-Laxa é Akbel!

Como se vê, Júpiter domina a haste superior e Saturno a inferior da Cruz Mundanal. Consoante a polaridade da Manifestação Universal, poder-se-á dizer que Júpiter é masculino e Saturno é feminino. Pelo Asga-Laxa tem-se também a Força Centrípeta (Tamas) do Universo em que se condensa a Quadratura do Círculo, representada arquitectonicamente pelo Templo e antropomorficamente pelo Manasaputra. E igualmente a Força Centrífuga (Satva) do Universo por que se dá a Circulatura do Quadrado, o que se representa pelo Obelisco e pelo Matra-Deva (33).

Essas duas Energias e Consciências tomaram forma una na figura magistral do Infante Henrique de Sagres, bifurcada ou dual em seus dois Ministros ou Colunas Vivas: Cristóvão Colombo, para a Luz Celeste, e Pedro Álvares Cabral, para o Fogo Terrestre (34).

Para explicar tamanha arquitectura do Desígnio de Deus do Ciclo de Peixes para o de Aquário, de nada valem “nacionalismos transcendentais”, pueris de raiz, tampouco “cabalas nacionalistas”, gastas de raiz, ante a magnitude universal do mesmo Desígnio em que “a nação e a cabala” foram instrumentais de arranque e expressão de um Saber mais vasto e actual: o de Akbel, Luzeiro de Mercúrio cujo Amor-Sabedoria tem a expressão mais lídima no próprio Cristo Universal, dê-se-lhe o nome que se lhe der, desde que corresponda à medida e consciência exactas (35).

Ante tanto e farto talento na virtude e no saber, na prática levada à execução feliz, reconhecendo o Divino no Humano Infante Navegador, Gomes Eanes de Zurara não lhe excusa o encómio apologético, antes lhe dirige a exaltação em molde de prece ou invocação por ter dado tanto à Lusitânia, a começar pela mais bela safira da Assiah Ocidental que é o Brasil (36):

“Oh tu Príncipe pouco menos que divinal!

“Eu rogo às tuas sagradas virtudes, que elas suportem com toda a paciência o falecimento de minha ousada pena, querendo tentar uma tão alta matéria como é a declaração de tuas virtuosas obras, dignas de tanta glória, cuja eternal duração, sob proveitoso fim, alevantará a tua fama com grande honra de tua memória, não sem proveitoso ensino de todos os príncipes que seguirem o teu exemplo; cá por certo, não sem causa, eu demando perdão às tuas virtudes, conhecendo minha pouca suficiência para abarcar tamanha soma quando com mais justa razão espero ser repreendido por minguar do que devo, que pasmado por falar sobejo. Tua glória, teus louvores, tua fama, enchem assim as minhas orelhas e ocupam minha vista, que não sei a qual parte acuda primeiro.

“Vejo aqueles (…) que vivem (…) sob o opósito do auge do Sol (Ocidente), o qual sendo na cabeça de Capricórnio, e a eles em estranha quentura, segundo se mostra pelo movimento do centro de seu excêntrico, ou por outra maneira quando vizinham com a cinta queimada (o Equador próximo ao Brasil); e os Índios, maiores e menores, que requerem que escreva tantas dádivas de (…) quanto de ti receberam aqueles que, por visitação do Apóstolo, ou cobiçosos de ver a formosura do Mundo, chegaram aos (con)fins da nossa Hispânia (Península).

“E que fez isto se não a largueza de tuas despesas, e o trabalho de teus servidores, movidos por teu virtuoso engenho, no qual transmudaste nos fins do Oriente as coisas criadas e feitas no Ocidente.

“(…) Por direito e peso tudo o que pertence a Grande Príncipe, (…) Templo de todas as Virtudes!

“E assim concluo meu começo, que se as tuas grandes virtudes, com a excelência de teus nobres e grandes feitos, suportarem alguma míngua pela ignorância de minha ciência e rudeza de meu engenho, que eu peço à tua magnânima grandeza que, com cara piedosa, passes por minha culpa.”

Por sua vez, o inestimável e saudoso amigo Roberto Lucíola, discípulo do Professor Henrique José de Souza com quem conviveu quase diariamente na última década da vida deste, endereçou-me de São Lourenço do Sul de Minas Gerais, Brasil, uma carta com palavras preciosas (datada de 27.05.2002) de que transcrevo uns poucos excertos em guisa de desfecho:

– Todos os sete Postos Representativos espalhados pelo Mundo encerram em si um grande potencial da mais alta vibração de energia subtil, no sentido espiritual, pois são Centros irradiadores das mais sublimes forças. Sob a égide espiritual de Sintra, estão sete importantes capitais europeias, tais como: Roma, Londres, Paris, Madrid, Copenhaga, etc. Estas capitais estão na órbita portuguesa segundo nos ensinam os mais sagrados e misteriosos ensinamentos ocultos. Não esquecer que cada Posto Representativo abriga em seu seio uma determinada Ordem Secreta composta por um Dirigente, que é o próprio Kumara e mais 111 Adeptos, totalizando o cabalístico número 777, ou seja, 111 X 7 = 777.

Portugal sempre foi grande desde a gloriosa Era das Descobertas encetadas pelos desbravadores dos “mares nunca Dante navegados”, na expressão poética de Camões. Portanto, glória e muita glória aos inesquecíveis Colombo, Cabral, Vasco da Gama, Magalhães e outros. Não foi por acaso que Portugal abrigou em seu seio a direcção suprema da Ordem de Cristo, que substituiu a Ordem Templária. Foi o recurso financeiro dessa Ordem que financiou as explorações e descobertas do Novo Mundo. Não podemos esquecer o papel de suma importância desempenhado por D. Dinis e sua esposa Isabel a Rainha Santa que, diga-se de passagem, eram também Templários.

O Infante D. Henrique de Sagres foi uma expressão da Divindade encarnada entre os homens para implantar uma nova etapa na Civilização. Só este facto é suficiente para glorificar a sua Pátria e ser motivo de orgulho de pertencer a uma Região escolhida por Deus para glorificar a sua Obra. Outrossim, coisa que muita gente ignora, o Império Lusitano não foi fruto de impulsos expansionistas ou obra do acaso, como querem os materialistas que ignoram os desígnios de Deus. O Império Lusitano foi uma imposição da Lei Divina que a tudo preside. Assim sendo, ele jamais foi destruído devido às suas origens.

Na realidade, o Império Lusitano é o Império da Luz, ou seja, da Luz espiritual, e como tal é eterno. Esse Império da Luz foi recolhido (…) para emergir em tempo oportuno, jamais ele foi destruído, porque o que é sagrado não pode ser destruído pela maldade humana. Houve diversas tentativas para se implantar esse Quinto Império Encoberto, de que nos fala Fernando Pessoa. Pois Portugal é um Povo fruto de uma grande mescla racial, por isso, somente os Portugueses podiam descobrir o Brasil, devido serem um Povo genuinamente povoador, portanto, isento de qualquer preconceito racial. Graças a isso é que o Brasil é o País onde se realiza a maior miscenização que já houve na História, onde todas as raças convivem pacificamente.

NOTAS

1) Mariano Calado, Peniche na História e na Lenda. 4.ª edição, Peniche, 1991.

2) Abade Correia da Serra, Os verdadeiros sucessores dos Templários e o seu estado em 1805 (com notas de Manuel J. Gandra). Revista “Graal”, Ano I, N.º 2/3, Verão/Outono, Sintra, 1982.

3) Frei João de Montecorvino nasceu cerca de 1247 e morreu na China em 1328.

4) Roberto Costa Pinho, Museu Aberto dos Descobrimentos – Portugal Mito e História em Busca da Outra Banda da Terra. Editado por Fundação Quadrilátero dos Descobrimentos, FIESP, São Paulo.

5) Felipe Cocuzza, A Mística da Amazónia. Zohar Editora, São Paulo, 1992.

6) Mascarenhas Barreto, O Português Cristovão Colombo (Agente secreto do rei Dom João II). Edições Referendo, Ltda., Lisboa, 1988.

7) Rafael Alarcón Herrera, La última Virgen Negra del Temple (El enigma templario de Candelaria). Ediciones Martínez Roca, S. A., Barcelona, 1991.

8) Referido por Estrabão, Eutrópio e Aurélio Victor. Vd. Fragmentos relativos à História e Geografia da Península Ibérica, de Adolf Shulten.

9) In Historiae, de Caius Sallustius Crispus, referindo o Discurso do Cônsul C. Cotta ao povo, no qual se cita Servius. Foi este Sallustius historiador latino, nascido em 86 a. C. e falecido em 34. Tendo sido governador de África em 46 a. C., escreveu depois, na sua faustosa propriedade do Quirinal, além daquela obra a Conjuração de Catilina e a Vida de Zugarta.

10) Não é feita referência ao périplo de Hanon (cerca de 270-190 a. C.), porque a Ilha de Cerné onde teriam fundado uma colónia, a ser uma das Canárias, ficaria a ocidente da costa africana e não a oriente.

11) Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses – III. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa.

12) Mascarenhas Barreto, ob. cit.

13) Diz-se “achamento” quando as ilhas (“trobadas” ou encontradas) foram vistas e aportadas por acaso; “reachamento” quando delas já havia conhecimento lendário ou histórico, quer através de obras da Antiguidade Clássica quer pela tradição Árabe, quer ainda por terem surgido no itinerário de pescadores portugueses que as não souberam localizar geograficamente; “descobrimento”, propriamente dito, quando se tratava de ilhas ou terras que o homem europeu ignorava totalmente, mas procurava intencionalmente encontrar.

14) Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

15) Este manuscrito, produzido pelo próprio Duarte Pacheco Pereira, montado em cinco partes com duzentas páginas no total, D. Manuel I considerou tão valiosas as informações nele constantes sobre náutica, geografia e economia que jamais permitiu que ele fosse tornado público. Até no título, o documento revela o seu carácter cifrado. “Esmeraldo” é um anagrama que associa as iniciais, em latim, dos nomes de Manuel (Emmanuel), o rei, e Duarte (Eduardus), o navegador. “De Situ Orbis” significa “Dos sítios da Terra”. Portanto, “Esmeraldo de Situ Orbis” era “O Tratado dos novos lugares da Terra, por Manuel e Duarte”. Esta obra andou desaparecida por quase quatro séculos. De facto, o documento era tão precioso que uma cópia foi contrabandeada em 1573 para a Espanha por um espião italiano, Giovanni Gesio, que o rei Felipe II mantinha ao seu serviço na embaixada de Castela em Lisboa. Pelo trabalho ratoneiro, Gesio foi regiamente recompensado. O recibo do pagamento dos seus serviços encontra-se hoje na Biblioteca do Mosteiro do Escurial, próximo a Madrid. Depois que o espião contrabandeou um exemplar para Castela, o manuscrito só reapareceu em 1982, a partir da localização de duas cópias, a primeira numa biblioteca de Lisboa e outra na cidade de Évora.

16) Vitor Manuel Adrião, Frielas (Memorial Histórico). Edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas – Loures, 1996.

17) Jaime Cortesão, ob. cit.

18) Assunto tratado por Jaime Cortesão em Pauliceae Lusitana Monumenta Historica, I vol., pp. 21-25, Lisboa, 1992.

19) Garcia de Resende, Crónica del-Rei D. João II, capítulo CLXXXVIII.

20) Garcia de Resende, Crónica de D. João II, capítulos CLXXII e CLXXIII.

21) Luciano Pereira da Silva, Duarte Pacheco, precursor de Cabral, in História da colonização portuguesa do Brasil, t. I; Duarte Leite, Duarte Pacheco e o Brasil e Os limites primitivos do Brasil, in Descobridores do Brasil, Porto, 1931.

22) Jaime Cortesão, ob. cit.

23) O texto do Tratado de Tordesilhas, em português, foi publicado pela primeira vez, mas em péssima transcrição paleográfica, em Coleccion general de documentos relativos a las islas Filipinas en el Archivo de Indias, editado pela Compañia General de Tabacos de Filipinas, Barcelona, 1918-1923, t. I, pp. 22 a 40; mais tarde por Joaquim Bensaúde, em Estudos sobre D. João II. V. Anais da Academia Portuguesa de História, 2.ª série, vol. I, pp. 244 a 254; em 1949 por Silva Marques, em Descobrimentos Portugueses, t. II, pp. 432-440; e em 1956 por Jaime Cortesão, em Pauliceae Lusitana Monumenta Historica, I vol. (1494-1600), pp. 3-21. O mesmo Tratado, em castelhano, foi pela primeira vez publicado em Alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, pp. 69-80, Lisboa, 1892.

24) Agostinho da Silva, Um modo de entender Portugal. In A Identidade Portuguesa – Cadernos Políticos 2, Instituto Dom João de Castro, Lisboa, 1988.

25) Vitor Manuel Adrião, À guisa de desabafo… Revista PAX, órgão informativo da Comunidade Teúrgica Portuguesa, n.º 24 (3.ª Série), Janeiro-Fevereiro-Março, 2000.

26) Almada Negreiros dirigiu por algum tempo a revista SW – Sudoeste, onde publicou importantes textos sobre a sua definição da vida portuguesa. Cf. Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Séculos XX em Obras Completas, vol. 6 – Textos de Intervenção, de José Almada Negreiros. Editorial Estampa, Lisboa, 1972.

27) Alberto Pinto Gouveia, Quadrantes Geográficos. Revista “Dhâranâ”, ano 67, n.º 9, 1993, São Paulo.

28) Textos de Fernando Pessoa organizados por António Quadros em Portugal, Sebastianismo e Quinto Império. Publicações Europa-América, Ltda, Mem Martins, Portugal.

29) Gomes Eanes de Zurara. Filho de um cónego, nasceu entre 1410 e 1420 e faleceu em 1473 ou 1474. Educado na Casa do rei D. João I, ascendeu depois aos cargos de guarda-mor das escrituras da Torre do Tombo e cronista régio, em que sucedeu a Fernão Lopes. Escreveu a Crónica da Tomada da Cidade de Ceuta, ou 3.ª parte da Crónica de D. João I (edição posterior de F. M. Esteves Pereira, Coimbra, 1915), a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, a Crónica de D. Duarte de Meneses (ambos os tomos na edição única dos “Ineditos de Historia Portugueza”, 1792-93) e a Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné (edição posterior de A. Dias Dinis, Lisboa, 1949). Muito apoucado pela generalidade dos autores modernos no confronto com Fernão Lopes, Zurara tem, no entanto, um enorme mérito como cronista se o situar no seu tempo e o equiparar aos congéneres estrangeiros. As suas crónicas mantêm uma metodologia sólida e a capacidade de captar situações e sentimentos colectivos. As duas crónicas dos Meneses, interessantíssimas como fontes, aguardam o historiador que delas se ocupe e lhes dê edição moderna e crítica.

30) Fernanda Frazão, No tempo em que jogar às cartas era proibido. Apenas Livros Ltda., 2003.

31) Garcia de Resende, Cancioneiro Geral. Lisboa, 1516, e edição póstuma em 1554. Mendes dos Remédios, Obras de Garcia de Resende, 5 volumes. Coimbra, 1917. A. de Pimpão e Aida Fernanda Dias, Obras de Garcia de Resende, 2 volumes. Coimbra, 1973.

32) Vd. Sura 70 do Alcorão: Allah Dhu´l-ma`arij, o “Senhor da Escada” (do Céu e da Terra).

33) Comunidade Teúrgica Portuguesa, Matemática dos Ciclos – A Conjunção Asga-Laxa, Grau Munindra (Modelador ou Integração), Apostila n.º 77.

34) Henrique José de Souza, Colombo e Cabral. Revista “Dhâranâ”, n.º 110, Outubro-Dezembro de 1941, São Paulo.

35) Henrique José de Souza, Livro dos Makaras. Inédito de 78 folhas originais escrito de Dezembro de 1951 a Fevereiro de 1952.

36) Gomes Eanes de Zurara, Crónica dos Feitos da Guiné, cap. II, pp. 8-14. Edição de A. Dias Dinis, Lisboa, 1949.

Pedro Álvares Cabral, o Homem e a Obra na Demanda do Grande Ocidente – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Out 4 2016 

Com a firmação do Tratado de Tordesilhas e a chegada à América de Cristóvão Colombo ao serviço dos reis de Espanha, o rei de Portugal apressou-se a reclamar e a oficializar como pertença da sua Coroa as terras mais a Sul do dito continente. Para tanto enviou em 1500, já morto D. João II e reinando D. Manuel I, uma poderosa armada com destino oficial a Calicute, Índia, mas cuja missão principal era aportar no Brasil e protestar a oficialização da sua descoberta para a Coroa portuguesa. Comandava-a o capitão-mor D. Pedro Álvares Cabral, cujas Armas familiares eram das mais ilustres do Reino.

Com efeito, em 9 de Março de 1500, os navios da esquadra de Pedro Álvares Cabral zarparam da praia do Restelo, defronte à ermida da Memória de Santa Maria de Belém, coeva do Infante D. Henrique de Sagres, e tomaram a rota sudoeste. Ao todo partiram cerca de 1200 homens repartidos por 13 embarcações, 11 das quais pertenciam ao rei de Portugal, uma a um fidalgo português e outra ao banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni (1).

Na hora da partida, quando já todos pisam a areia umedecida pelo mar de Lisboa, o rei D. Manuel, o Venturoso, pára e encara o grupo dos seus responsáveis nomeados e de nomeada. São eles: Gaspar de Lemos, comandante da nau dos mantimentos, que voltará da Terra de Vera Cruz com a nova do “achamento”, estando o monarca em Sintra; Luís Pires, que morrerá ao largo do Cabo da Boa Esperança no naufrágio da sua nau; Pedro de Ataíde, que Pedro Álvares encarregará da primeira façanha militar dos Portugueses no Índico; Diogo Dias, irmão e tantas vezes companheiro de Bartolomeu Dias, que na tempestade do Cabo se perderá da armada, à qual só voltará a reunir-se já na viagem de regresso, em pleno Atlântico, depois de ter aportado à costa oriental da Ilha de Madagáscar e errar pelo Mar da Arábia; Nuno Leitão da Cunha, que no massacre dos Portugueses na feitoria de Calicute salvará a vida do filho de Aires Correia, de doze anos de idade; Nicolau Coelho, companheiro de Vasco da Gama na viagem do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, e que trouxera a D. Manuel I a esperançosa notícia a bordo da Bérrio; Simão de Pina, que será outro dos quatro capitães tragados pela tempestade no Cabo da Boa Esperança; Aires Gomes da Silva, que comanda a nau Anunciada (2), armada conjuntamente pelo conde de Portalegre, por D. Álvaro de Bragança e pelo banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni; Vasco de Ataíde, cuja nau será, de toda a armada, a primeira a desaparecer, a única que não participou do “achamento”; Bartolomeu Dias, o pré-descobridor do caminho marítimo para a Índia, o melhor caravelista português do Atlântico, que embarcava para a sua última viagem: depois de ter deslumbrado os índios tupis do litoral, ou seja, os tupinambás, com a proeza de apanhar um tubarão que depois lhes ofereceu, morreria também, com toda a sua equipagem, no naufrágio no Cabo da Boa Esperança, a que ele pusera o nome de Cabo das Tormentas; Simão de Miranda, genro do feitor-mor da Índia, Aires Correia; o castelhano Sancho de Tovar, soto-capitão da armada; por fim, é a vez do capitão-mor (3).

A Armada de Pedro Álvares Cabral no "Livro das Armadas". Códice quinhentista pertencente à Academia das Ciências de Lisboa

A Armada de Pedro Álvares Cabral no “Livro das Armadas”. Códice quinhentista pertencente à Academia das Ciências de Lisboa

Pedro Álvares Cabral pertencia a família que estava dispensada de prestar vassalagem aos Reis de Portugal, os quais tinham os Cabrais em tal plano de honradez e devoção à causa da Coroa e do Reino que não lhes eram exigida a correntia formalidade do juramento de fidelidade ao monarca. Foi nesta linhagem de fidalgos ilustres, sempre mesclada aos principais acontecimentos portugueses durante a Dinastia de Avis – e até anteriores a ela – que veio a nascer o “Grande Caprino” que lançou a “Pedra de Fundação” do Brasil Ibero-Ameríndio.

Nasceu em plena Beira Baixa, em Belmonte, vila situada num cabeço – o Monte da Esperança, ou de Nossa Senhora da Esperança – onde ainda lá estão as ruínas do castelo dos Cabrais, próxima da igreja-panteão familiar sob o Orago Santiago. Aí terá nascido Pedro Álvares, em 1467 ou 68. Esse castelo talvez seja tão antigo como a Nacionalidade, porém, sofreu remodelações e reedificações, como tantos outros, no reinado de D. Dinis. A povoação recebeu foral de D. Sancho I, em 1188, quando florescia aí a comunidade judaica sujeita à jurisdição da Ordem dos Templários no lugar; esse foral foi confirmado por D. Dinis e renovado pelo Rei Venturoso (1510). As tradições da vila fundem-se com as da família dos Cabrais, seus alcaides-mores e adiantados (fronteiros) da Beira. O primeiro varão ilustre desse nome foi Aires Pires Cabral, que teve várias mercês de D. Afonso III. Relembra-se ainda os feitos de Fernão Cabral, o Gigante da Beira, que usava como arma uma maça de ferro com o peso de uma arroba (15 quilos). (4)

Belmonte, “Belo Monte” ou “Monte de Bel”, o Caprino ou Cumara, vai bem com o brasão de Armas desta família. O lugar também vai bem com a missão futura de Cabral ante o Ex Occidens Lux. Além de estar situado a leste da vila levando o significativo nome de Caria ou Cária, nos arredores de Belmonte está o estranho e antiquíssimo edifício de Centum Cellas, com dois andares e cantaria bem aparelhada, cuja origem e utilização não foram até hoje determinadas, mas pessoalmente atribuo a obra fenício-romana ligada à exploração de estanho de que o concelho é rico.

Dos Cabrais diz o Armorial Lusitano (5):

“CABRAL. Família antiga cuja origem se ignora. O mais antigo do apelido de que se encontra menção é Pedro Anes Cabral (ou Aires Pires Cabral?), porteiro e reposteiro-mor de D. Afonso III no ano de 1271. Os Cabrais principiaram a tornar-se mais conhecidos na História com o bispo da Guarda D. Gil Cabral e com Álvaro Gil Cabral, que se recebeu com a filha única e herdeira de Diogo Afonso de Figueiredo e de sua mulher, Constança Rodrigues Pereira, esta terceira neta por bastardia de D. Afonso III. Daquele matrimónio nasceram filhos, continuando na sua linha primogénita o senhorio de Azurara e a alcaidaria-mor de Belmonte.

“De Álvaro Gil Cabral e sua mulher foi terceiro neto Pedro Álvares Cabral, o Navegador, e Diogo Fernandes Cabral, o qual teve de Maria de Macedo a Jorge Dias Cabral, que serviu o Imperador Carlos V. Pelos actos de valor deu-lhe o Imperador novas Armas, que D. João III lhe confirmou em 22-7-1530.

“João Rodrigues de Sá, senhor de Matosinhos, nas suas coplas, não se esqueceu dos Cabrais, escrevendo a seu respeito as seguintes:

“Aludem os últimos versos à prerrogativa que tiveram de, pela sua muita lealdade, não prestarem menagem da alcaidaria. Igualmente D. João Ribeiro Gaio, bispo de Malaca, os cantou nesta quintanilha:

“As Armas que usam os desta linhagem são: De prata, com duas cabras de púrpura, uma sobre a outra. Timbre: uma das cabras.”

A origem do Nome e das Armas Cabralinas não deixa, ainda, de estar ligada a uma lenda de fundação correndo em Belmonte, em plena Beira Baixa, a qual me parece de origem judaica. Resumidamente, conta que um pastor teve um sonho premonitório de que em Belém da Serra da Estrela descobriria um tesouro, sonho esse que se repetiu por três vezes: “Vai a Belém e lá encontrarás o teu bem”. Mas não deu com tesouro algum… desanimado regressou a casa. Pelo caminho cruzou-se com um almocreve, entabularam conversa acabando o pastor por desabafar a sua saga infrutífera. Então, o almocreve revelou-lhe: “Eu também sonhei que no sítio de Belo-Monte, nas bandas da Serra da Estrela, há uma penha à boca de uma caverna onde uma cabra amarela se deita todos os dias com o seu cabrito, e que a cabra e o cabrito são de ouro”. Despediram-se, e cada qual seguiu o seu caminho. Logo o pastor correu ao sítio do sonho do almocreve e, para sua grande satisfação, descobriu dentro de umas fragas o tesouro maravilhoso de uma cabra e de um cabrito de ouro. Com tão extraordinário tesouro em sua posse, decidiu oferecer ao rei de Portugal o cabrito de ouro, ficando com a cabra para si. Assim fez. Mas o rei, apesar de encantado com tão generosa oferta, preferiu a cabra de ouro. Então o pastor ofereceu-lhe as duas peças. Como recompensa, o monarca ofereceu-lhe o senhorio das terras de Belo-Monte e as Armas de Nobreza distinguidas com um nome: Cabral.

Cabral ou Caprino, como o Cumara Real saído de alguma caverna privilegiada no cume da Serra da Estrela, é bem verdade conforme a lenda. Mas o nome Cabral, segundo outra origem filológica, também se liga a Calmão ou “Rabino”, porque segundo uma crença da época, divulgada mais ou menos por todo o país, os rabinos judeus “teriam cauda”, isto é, estariam pactuados com o Calmão ou Demo, seriam mesmo da sua corte, “demónios com cauda e chifres”, pois o seu saber em tanto transcendia a catequese da religião oficial, “única e verdadeira”, que ele só poderia provir do Anjo maldito. Isto poderá muito bem indicar que os Cabrais andaram de ligações à Sabedoria Hermética da Sinagoga, a mesma Kaballah como a Ciência Secreta “Calmã” ou Rabínica. Acaso estará nisto o inexplicável ostracismo a que Pedro Álvares Cabral foi tão ingrata e injustamente votado pela Coroa e restantes autoridades oficiais, subjugadas pelo peso da cúria romana, após o seu regresso da Índia em cuja viagem, e muito por «acaso» (!!!), deu ao Mundo o conhecimento oficial do Brasil, “acontecimento tão fortuito ou fugaz de menor importância que só provocou coisa mínima”: a mudança radical do mapa geopolítico do Mundo, de há 500 anos a esta parte! Realmente, é «coisa mínima»… para um Ser Divino com porte de Kumara ou Cumara (Cuma-Mara, Cume-Mara, Cume-Maris…).

Com a subida ao trono de D. João I, o novo rei de Portugal galardoou, por sua fidelidade à sua causa enquanto Mestre de Avis, o citado D. Álvaro Gil Cabral com a “doação de juro e herdade das terras da Coroa de Azurara da Beira, Valhelhas, Manteigas e Tavares” (6).

É perfeitamente conhecida a confirmação, na pessoa de seu filho, Luís Álvares Cabral, de todos os seus privilégios, rendas e haveres – documento assinado pelo próprio rei D. João I, datado de 6 de Outubro de 1385.

Luís Álvares Cabral, mencionado como herdeiro de sua tia Maria Gil e alcaide-mor de Belmonte, bisavô de Pedro Álvares Cabral, foi vedor do Infante D. Henrique. É, pois, o mais antigo que se conhece na relação entre a família Cabral e as Navegações Portuguesas – mas outros surgirão ainda, anteriores à escolha de Pedro Álvares para comandar as naus da Índia que, pelo caminho, “acharam” a Terra de Vera Cruz.

Luís Álvares casou duas vezes: a primeira, com a sua prima, D. Constança Eanes de Loureiro, de quem teve três filhos: Fernão Álvares Cabral, D. Isabel e D. Brites. Pela segunda vez, casou com Leonor Domingues, de quem não teve descendência.

Em 1433, o rei D. Duarte confirma toda a Casa, haveres e privilégios dos Cabrais a Fernando Álvares Cabral, cavaleiro e criado do Infante D. Henrique, de quem era vedor – persiste, como se vê, a ligação da família Cabral com o cérebro das explorações marítimas portuguesas. Fernando Álvares casou com D. Tereza de Novaes, ou de Andrade, avó de Pedro Álvares, que era viúva de um Mello – Estevam Soares de Mello – e neta paterna de D. Nuno Freyre de Andrade, vassalo do rei D. Fernando; este fidalgo foi aio de D. João, bastardo de D. Pedro, que viria a ser Mestre de Avis, “defensor do Reino”, e D. João I, o rei de Boa Memória. O avô paterno de Pedro Álvares morreu em combate no cerco de Tânger.

Fernão Cabral, pai de Pedro Álvares, devia ser ainda muito novo quando o seu progenitor, Fernando Álvares, morreu a combater nos muros de Tânger. Em 1464, era fidalgo da Casa Real de D. Afonso V, o Africano, e regedor da justiça na comarca e correição da Beira; em 1486, era adiantado da comarca da Beira, e o rei escrevia dele que “era do nosso conselho”. Nesse mesmo ano foi-lhe atribuída uma tença, que em 1492 passou para o seu filho primogénito, o morgado dos Cabrais, irmão mais velho de Pedro Álvares, João Fernandes Cabral, “fidalgo da Casa do Duque” – o Duque de Beja, primo de D. João II, mais tarde D. Manuel I, o Venturoso.

Era casado com D. Isabel de Gouveia, mãe de Pedro Álvares, filha de João de Gouveia, senhor de Almendra e alcaide-mor de Castelo Rodrigo, e de Leonor Gonçalves, colaça do rei D. Duarte (7).

Panteão da família Cabral na igreja de Santiago, Belmonte

Panteão da família Cabral na igreja de Santiago, Belmonte

Por fim, no ano 1467 ou 68, ao que tudo indica no solar dos Cabrais ou no castelo de Belmonte, nasceu Pedro Álvares de Gouveia, filho segundo de Fernão Cabral e de D. Isabel de Gouveia, que tiveram onze filhos (8).

Era a esse nobilíssimo Pedro Álvares Cabral que D. Manuel I, naquele dia de 9 de Março 1500, no areal da praia do Restelo, fitava longo e gravemente confiando-lhe a missão secreta de trazer o Brasil para o conhecimento do Mundo sob o bom fado da tutela Lusitana.

A certa distância, toda a corte assistia à despedida do rei aos capitães. Pedro Álvares Cabral ajoelha e beija a mão do Venturoso. Estão os dois sozinhos à beira da água. Majestoso, D. Manuel ergue a mão beijada por Pedro Álvares e lentamente com ela desenha no ar, sobre o busto ainda curvado do servidor, o gesto solene da sua bênção real. Todas as músicas, todas as palavras, todos os sons se calaram nesse instante – só a voz do mar murmura, marulhando na areia arrendada de branco aos pés do rei e do seu capitão-mor. E quando este se reergue, ungido, fica um pouco perplexo, como surpreendido por esse momento há muito esperado; afasta-se devagar nos primeiros passos, mas logo lestamente embarca no batel oscilante, onde a bandeira real drapeja ao vento que do mar sopra para terra. Respira-se por toda a praia uma emoção que dói. E quando os remadores começam a impelir os batéis para o meio do Tejo, a artilharia das naus rebenta em salvas festivas, que ficam reboando pelo ar, e a cada estampido surge um novo novelo branco entre os azuis do rio e do céu.

Junto das espumas brancas, a jusante, negreja o povo acenando para bordo da armada. Há muitas mulheres que choram e riem. Mães, esposas e filhas dos que vão partir – tanto daqueles que hão-de voltar como dos outros, que vão para morrer. E nem sabem ainda quais dentre elas é que ficarão de luto quando regressar a armada – mas sabem que haverá então muitas órfãs, muitas viúvas, e muitas mães pranteando um filho morto. Por isso choram umas pelas outras, sem saberem exactamente por quem estão chorando, se por elas próprias, se pelas companheiras – mas setenta anos de Descobrimentos já tinham ensinado às mulheres portuguesas que cada armada que sai do Tejo nas miragens do longe representa um muito maior número de mortos sem sepultura que de velas tenha essa armada. Por saberem isso é que elas nunca deixam de ir à beira d’água, dizer adeus aos homens que partem a cumprir o destino de Portugal.

É como canta doloroso Fernando Pessoa na Mensagem, no poema Mar Português:

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral

De maneira e segundo João de Barros, “e não somente se assentou no conselho o número das naus e gente de armas, que havia de ir nesta armada, mas ainda o capitão mor dela, que por as qualidades de sua pessoa foi escolhido – Pedro Álvares Cabral, filho de Fernão Cabral”. Acrescentando sobre a data da partida e para onde se dirigiam: “Ao dia seguinte, que eram nove do mês de Março, desferindo suas velas que estavam a pique, saiu Pedro Álvares com toda a frota, fazendo sua viagem às ilhas de Cabo Verde, para aí fazer aguada, onde chegou em treze dias” (9).

De facto, conforme a descrição da viagem Cabralina por Pêro Vaz de Caminha, por Mestre João e pelo Piloto Anónimo (10), a esquadra passou ao largo das Canárias e foi aportar na ilha de S. Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde, o que descreve ao rei de Portugal o talentoso escrivão Pêro Vaz de Caminha com a sua costumada precisão: “A partida de Belém foi na segunda-feira, 9 de Março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e as 9 horas, nós nos achámos entre as Canárias, mais perto da Grã-Canária. E ali andámos todo aquele dia em calma, coisa de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às 10 horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber, da ilha de S. Nicolau, segundo disse o piloto Pêro Escobar” (11).

No dia seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, perdeu-se da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem que houvesse vento forte ou contrário, e apesar das diligências para o encontrar não apareceu mais! (12) Este desaparecimento da nau de Vasco de Ataíde com toda a sua tripulação, desquitadas as hipóteses de tempo desfavorável que o justificasse ou de deserção ou motim a bordo, é um dos muitos pontos obscuros da empresa Cabralina. Avento indagando: acaso terá Vasco de Ataíde ficado propositadamente para trás a fim de proteger na retaguarda os seus companheiros de eventuais espiões doutros países que seguissem à distância a sua rota secreta? (13)

Prossegue Pêro Vaz de Caminha: “E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 de Abril, estando da dita ilha (S. Nicolau) obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topámos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira, pela manhã, topámos aves a que chamam fura-buxos”.

É por esse excerto da carta de Caminha que se confirma não ter sido acidental a descoberta do Brasil. Combinando a estimativa do caminho percorrido até Porto Seguro (690 léguas) com as latitudes arbitradas pelos portugueses a S. Nicolau (16º 40’ N) e a Porto Seguro (17º S) e o valor linear que atribuíam ao grau terrestre (17,5 léguas), conclui-se que ao afastar-se a frota de Sul para Oeste, não tendo havido qualquer tempestade que a forçasse nessa direcção, o desvio só podia ser intencional, tanto que a navegação fora de longo, isto é, sem voltas, “seguindo o nosso caminho” (14).

Sabiam e bem aonde se dirigiam, tanto que nesta armada ia, entre outros mareantes experimentados, o próprio Duarte Pacheco Pereira, a quem D. Manuel I, dois anos antes, mandara descobrir “a parte ocidental, que fica além do mar-oceano”. Tanto que “navegar de longo”, ou seja, a direito, só poderá ser para Ocidente, por estarem “obra de 660 ou 670 léguas além da ilha de S. Nicolau, onde avistaram sinais de terra”, os quais só existem precisamente a Oeste. Ademais, na linguagem dos marinheiros, navegar de longo é o mesmo que a direito, e navegar de largo é o mesmo que circular na vastidão oceânica (15).

Continuando a seguir o caminho de longo por esse mar, após os primeiros sinais de terra próxima, resultou: “Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o Capitão pôs nome – o Monte Pascoal – e à terra – a Terra de Vera Cruz.” – In Caminha.

Isso aconteceu no dia 22 de Abril, e a 23 ancoraram em frente da terra a que chamaram Vera Cruz, dando-se o primeiro contacto dos Portugueses com os Índios, no maior dos prazeres e com muita festa. Acabara de nascer o BRASIL IBERO-AMERÍNDIO!

A esse respeito, Francisco A. Silva e Pedro A. Bastos (16), escrevendo sobre a posterior etnia brasileira vêm a dividi-la em três grandes grupos, formados no período do Brasil Ibero-Ameríndio:

“Fundamentalmente, três grandes grupos étnicos – o Branco, o Negro e o Índio – entraram na formação do Povo Brasileiro num longo e lento processo. Como resultado da miscigenação (cruzamento) entre estes três grupos, originaram-se vários tipos de mestiço: o Mulato: mestiço de branco com negro; o Mameluco (caboclo): mestiço de branco com índio; e o Cafuso: mestiço de negro com índio.

“1.º) O Elemento Branco: pelo menos até meados do século XIX, o principal elemento branco foi o Português, considerado como o mais qualificado para colonizar uma região como o Brasil, devido à sua facilidade de miscigenação e aclimatação a regiões tropicais. Dele herdamos quase a totalidade das nossas instituições sociais, políticas e económicas.

“2.º) O Elemento Negro: de origem africana, os negros, que já conheciam o trabalho agrícola, o uso dos metais e o pastoreio, eram comprados por bugigangas de vidro, facões, fumo e cachaça. Foram trazidos para o Brasil em navios negreiros (tumbeiros) e desembarcados principalmente em Salvador, Recife e Rio de Janeiro.

“Dos grupos de negros trazidos para o Brasil, os principais eram:

“– Sudaneses: oriundos da Nigéria, Daomei, Costa do Ouro (iorubas, geges, fanti-ashantis);

“– Bantos: divididos em dois grupos: angola-congaleses e moçambiques;

“– Malés: sudaneses islamizados.

“3.º) O Elemento Índio: de acordo com uma classificação tradicional, baseada em critérios linguísticos, os índios do Brasil foram divididos em quatro grandes nações:

“– Tupi: espalhados por toda a costa atlântica e várias áreas do interior;

“– ouTapuia: ocupa o Planalto Central brasileiro;

“– Nuaruaque: ocupa a Bacia Amazónica até aos Andes;

“– Caraíba: ocupa o norte da Bacia Amazónica.”

Todavia, deve-se notar que, conforme já foi assinalado, além dessas quatro grandes nações indígenas, existe um grande número de nações menores. Assim, destaco a importância da pesquisa dos autores citados e não desprezo nenhuma informação que sirva para maior e melhor esclarecimento. Sobre a caldeação racial, remata feliz mas incompleto o pensamento de Gilberto Freyre (17): “Todo o brasileiro, mesmo alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo (…), a sombra ou, pelo menos, a pinta do negro”, e do índio, completo eu.

Vítimas da política económica do corso negreiro, os africanos roubados a sua terra como se fossem gado inumano, viram-se postos à venda no mercado de escravos que foi primeiramente a Capitania de São Salvador da Bahia. Esta é a cidade do negro, do caboclo hoje livre e que alinda o mapa turístico brasileiro por via do folclore e etnografia baianas trazidas de África a bordo dos porões inumanos da escravatura, lei abominável que Portugal e as suas Cortes do Brasil foram os primeiros do mundo civilizado a banir do mapa da condição humana. Ao Liberalismo iluminado pelo pensamento humanista da Maçonaria, reconheça-se, deve-se grandemente a Lei da Abolição, visto a maioria dos liberais e abolicionistas da época serem maçons, contrários ao secularismo jesuíta, já não tanto amancebado em Oitocentos à Coroa Portuguesa mas, sim e abertamente, aos interesses comerciais franco-holandeses! Os próprios primeiros navios negreiros, assim como a maioria deles durante quase três séculos, convém não esquecer para não estropiar os factos da História, eram holandeses. Além disso, as feitorias e engenhos no Brasil que empregavam a mão d´obra da escravatura, mais africana que ameríndia, relacionavam-se directamente aos interesses imediatos do Geral da Companhia de Jesus que se encontrava em Lima, no Peru, mesmo aqueles sendo protestantes. Foi ela quem acirrou os holandeses do Brasil a empreenderem o triste período da “caça ao índio”, aproveitando o momento de fraqueza de Portugal sob o domínio da Espanha Filipina.

Com efeito, a Companhia das Índias Ocidentais que actuou no Brasil no século XVII, era holandesa e flamenga de comerciantes calvinistas. Dedicava-se à exploração das riquezas naturais e ao comércio de escravos. Os índios aliaram-se aos portugueses e expulsaram-nos do Brasil, onde se cobriu de glória nas armas D. Diogo de Menezes na vitória militar de Pernambuco. Por outro lado, a Companhia Britânica das Índias Orientais, fundada por comerciantes de Londres em 1600, fazia comércio de chá contrabandeado dos holandeses para a América do Norte, tendo recebido um golpe fatal em Boston, em 16 de Dezembro de 1773. Ambas as Companhias desapareceram faz muito tempo.

Mas se o negro foi escravo no corpo, a sua alma continuou livre e deu continuidade, ludibriando o algoz escravizador, quando não fugia para o sertão e fundava quilombos, às suas crenças e tradições ocultas sob a capa do catolicismo. Assim nasceu o candomblé, associado ao culto dos deuses naturais ou forças primárias da Natureza, posteriormente prosodiado umbanda, quimbanda, macumba, etc., etc., designativos tardios resultantes da associação com elementos de crenças não africanas, estudo antropológico de foro neuro-onírico que deixo para os especialistas.

O que se sabe é que muitos aspectos das culturas ocidentais africanas chegaram ao Brasil e afectaram facetas da vida deste grande país, entre elas a expressão religiosa de largo sector do povo brasileiro, a qual me interessa focar aqui, impondo uma cultura religiosa própria à oficial católica, adoptando os santos e símbolos desta, tornando-se autóctone e vingando-se dos antigos senhores, assim encontrando justificativa plena a afirmação do frequentador do terreiro, descendente do escravo africano: Kosi mi fara alejo – Não há nada que possa contra mim, nem mesmo os estrangeiros! (18)

Nessas culturas africanas predominavam elementos religiosos comuns, destacadamente um panteão de divindades originalmente pertencentes ao povo Ioruba. Essas divindades, um tanto semelhantes aos deuses, heróis e semideuses clássicos da Grécia e da Roma antigas, tinham, como eles, relações sociais e familiares entre si e dispunham de largos poderes diversificados, apresentando-se com características e atributos próprios. Ora, toda essa corte celestial mitológica foi transferida através do Oceano Atlântico da costa ocidental da África para o Brasil, este onde na altura só havia uma religião oficial – o catolicismo. Porém, os credos e as divindades africanas resistiram ao impacto que essa transferência forçada causou, e também a todas as tentativas de supressão por parte das autoridades locais, nomeadamente os jesuítas interessados em integrar os africanos na sua cultura religiosa europeia.

A repressão dessas religiões milenares africanas, recuando ao longínquo período lemuriano-atlante, se assim me posso exprimir, acabou por ser um tanto superficial e muitas das suas divindades integraram-se no santoral católico, assumindo assim os aspectos exteriores dos santos cujas imagens povoavam os altares das igrejas, capelas e oratórios das mansões senhoriais da cidade e de imponentes fazendas no mato. Num compromisso típico, essas divindades sobreviveram desse modo e o seu culto manteve-se, com as compreensíveis inconsistências de uma tal extrapolação. Desta maneira, a transferência foi feita mais ou menos dentro destes moldes:

O Pai dos deuses da religião do povo Ioruba, Olurum, também chamado Elemi – Senhor da Vida – é uma espécie de Zeus – Júpiter Todo-Poderoso, que vive rodeado por uma corte de múltiplas divindades – os orixás. Olurum ocupou o lugar de Jeová, o Deus Todo-Poderoso dos católicos, e a sua corte celeste foi logo assimilada à concepção católica dos Céus, tendo nela os orixás assumido as funções de anjos e arcanjos, santos, beatos e bem-aventurados. Os orixás servem de intermediários entre Deus e os crentes, tendo os mais importantes missões específicas, variadas, patrocinando aspectos da vida humana e possuindo um passado e até mesmo uma complexa vivência colorida.

De todos os orixás, o mais importante é Iemanjá, mãe de numerosas divindades, do Sol, da Lua e deusa das águas. De facto, Yeye significa “mãe”, e eja, “água”; daí ela ser a deusa dos peixes, dos pescadores e protectora daqueles que andam sobre as águas do mar.

É, pois, fácil de inferir que todos os africanos que cruzavam o Atlântico a caminho do Brasil, nas piores condições imagináveis, ao sobreviverem à travessia se tornavam, com a lógica da sua fé, fervorosos devotos da grande Iemanjá, indo depois transmitir o seu culto aos  descendentes e familiares, o que explica a larga popularidade que Iemanjá goza hoje no Brasil.

Como os africanos, ao chegar, viam-se na impossibilidade de lhe prestar culto nos seus moldes tradicionais, optaram por considerar a Virgem Maria – vestida de azul e branco, com a Lua aos pés, tida pelos católicos como Mãe de todos – a expressão local de Iemanjá, confundindo assim a imagem da Virgem com a divindade africana. Passaram, pois, a ser profundamente devotos da Virgem Maria, prestando-lhe culto e venerando-A à sua maneira.

Da mesma forma, e por processo idêntico, o orixá Orixalá ou Oxalá foi confundido com Jesus Cristo, sucedendo o mesmo com outros orixás importantes.

Oxum e Oiá, deusas de rios, foram confundidas com St.ª Bárbara e St.ª Catarina (e também com St.ª Maria Madalena, St.ª Joana d’Arc e St.ª Ana, cujas imagens partilhavam, frequentemente, os altares com aquelas primeiras). Ogum, deus da guerra e dos ferreiros, tinha a sua representação adequada na popular imagem de S. Jorge, emplumado, a cavalo, matador do temível dragão. Oxossi, deus da caça e orientador do tiro das flechas, encontrou a sua réplica em S. Sebastião, soldado e mártir, que tem como atributo as flechas do seu martírio. Omolu, deus protector de doenças causadoras de chagas, foi prontamente identificado com a imagem de S. Roque, chagado e sofredor. Com idêntica razão, os deuses gémeos Ibeji foram tomados pelas inseparáveis imagens de S. Cosme e S. Damião. Até Ifa ou Exu, o deus mensageiro, rápido, malicioso e vivo, da mitologia Ioruba, foi transformado numa versão do Demónio judaico-cristão, tornando-se mesmo merecedor dum culto respeitoso e acautelado (19).

Esse esquema de devoções transpostas não passou despercebido à Igreja Católica, que fez e faz esforços por contrariar essas iniciativas, mas os condicionamentos da vivência local e a enorme dificuldade em desfazer a confusão impediram e impedem uma destrinça efectiva ao nível do culto popular. E, assim, por esses processos um tanto irregulares é hoje possível encontrar imagens de santos católicos que, em certas circunstâncias, representam entidades onde se reflectem as divindades da África longínqua…

Brasil! Pátria ecuménica do Pensamento Humano. Desde há muito assinalado com encómios apologéticos como “Ilha da Bem-Aventurança”, “Ilha dos Bem-Aventurados”, “Ilha Venturosa” ou a “Terra da Ventura”, não raro associado à “Ilha da Utopia” de Thomas Moore, à “Ilha de São Brandão” e à própria Agharta no que esta tem de “intransponível e inviolável” como Paraíso Terral, Locus Amoenus, cedo o Brasil foi considerado prolongamento ou desfecho apologético de Portugal, tendo Pedro de Mariz (20) lhe reservado talvez o maior dos encómios exaltantes de sua singular e promissora condição:

“Todavia chamar-lhe-ia eu a NOVA LUSITÂNIA. Ali também a Província de Santa Cruz, que é terra no mundo nova, e NOVAMENTE acrescentada à Coroa de Portugal, que antigamente, e ainda hoje se chama Lusitânia.”

Já ao núcleo inicial de Belém do Pará os portugueses batizaram de Feliz Lusitânia.

Prossegue Pêro Vaz de Caminha: “E fomos ao longo da costa (…), para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nos demorássemos, para aqui tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertamos.”

Esse trecho, junto a um outro facto, comprova que Cabral não navegou ao acaso nem descobriu acidentalmente o Brasil. Se a água e a lenha “não minguavam” na armada, por que mesmo assim fizeram, naquela escala, quatro abastecimentos de água e lenha, só para “nos acertarmos”, isto é, só para as renovarem? Se a nau de mantimentos, de que dependia a sorte de toda a armada em sua longa viagem, fora classificada de “velha e imprestável” para afrontar o Cabo das Tormentas, por que mesmo assim fora escolhida para missão tão crucial ao bom êxito da empresa? Só se pode explicar que se destinava a chegar ao Brasil e nunca a transpor o Cabo africano com toda a probabilidade de naufragar, inviabilizando assim a chegada à Índia da frota de Pedro Álvares Cabral dela dependente. Portanto, a renovação das provisões estaria prevista antecipadamente, quando chegassem à costa brasileira e a nau de mantimentos voltasse para trás, indo dar a boa nova ao rei D. Manuel I, no seu Paço de Sintra. Talvez, mais uma vez avento por carência atroz de documentação coeva do acontecimento, a nau de Vasco de Ataíde a aguardasse entre Cabo Verde e as Canárias, para lhe dar escolta até Lisboa, sabendo-se pela sua aparição que a missão tivera êxito.

A frota navegando ao longo da costa ancorou e desembarcou a tripulação no ilhéu da Coroa Vermelha no Porto Seguro, actual Baía Cabrália, no sul do litoral baiano: “O Capitão (…) saiu, ele com todos nós, em um ilhéu grande, que na baía está e que na baixa-mar fica mui vazio.” – In Caminha.

Gráfico da fundeação da Armada de Pedro Álvares Cabral (estudo e documento do autoria do professor Jaime Cortesão)

Gráfico da fundeação da Armada de Pedro Álvares Cabral (estudo e documento do autoria do professor Jaime Cortesão)

Seguiu-se a primeira Missa da Oitava da Páscoa (Domingo in Albis), cuja Palavra tem-se no Evangelho de São João, sendo o paramental branco (in albis, ou da deposição das vestes brancas) e depondo-se no altar cuidado a imagem navegante de Nossa Senhora da Esperança, que segurando o Menino fitando uma Pomba branca na destra materna, a qual era da devoção particular de Pedro Álvares Cabral que a trouxe de seu domínio de Belmonte, de cuja vila é Orago e aí está hoje na igreja de Santiago.

Nossa Senhora da Esperança no igreja de Santiago em Belmonte

Nossa Senhora da Esperança no igreja de Santiago em Belmonte

Foi oficiante o frei sacerdote Henrique Soares de Santa Cruz de Coimbra, franciscano ao serviço da Ordem de Cristo e geral da companhia dos cinco franciscanos, contando com ele, que iam na armada. Como nota breve, frei Henrique Soares foi o primeiro bispo de Olivença (terra portuguesa perdida para o país vizinho em 6 de Junho de 1801, em consequência da curta Guerra das Laranjas que opôs Portugal a Espanha e à França) e o seu túmulo encontra-se na capela de Jesus Crucificado na antiga igreja matriz de Santa Maria Madalena desta cidade.

Mais uma vez e para descrever bem o acontecimento sagrado da primeira Missa, recorro à Carta de Pêro Vaz de Caminha, ela que é o primeiro Codicilo Espiritual do Brasil:

“Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. Mandou a todos os Capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperavel (dossel), e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali, com todos nós outros, fez dizer missa, a qual foi dita pelo Padre Frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

“Ali era com o Capitão a bandeira (da Ordem) de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho.

“Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos (ao serviço da Ordem de Cristo), o que foi muito a propósito e fez muita devoção.

“Enquanto estivemos à missa e à pregação, seria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como a de ontem, com os seus arcos e setas, a qual andava folgando. E olhando-nos, sentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e a dançar um pedaço.

“Acabada a pregação, voltou o Capitão, com todos nós, para os batéis, com a nossa bandeira alta. Embarcámos e fomos todos em direcção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo, na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife (…).”

Desembarque de pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500. Pintura a óleo de Óscar Pereira da Silva (1867-1939)

Desembarque de pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500. Pintura a óleo de Óscar Pereira da Silva (1867-1939)

A segunda Missa com o antecedente soerguimento da Vera Cruz, feita de pau-brasil, aconteceu a 1 de Maio de 1500, tendo Lusos e Tupis comungado juntos na Coroa Vermelha (do Espírito Santo). Para não fugir à regra, também desta vez me valho da Carta de Caminha a D. Manuel I:

“Sexta-feira, 1 de Maio:

“E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de Maio, pela manhã, saímos em terra, com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar (assentar, implantar) a Cruz, para melhor ser vista. Ali assinalou o Capitão o lugar, onde fizessem a cova para a chantar.

“Enquanto o ficaram fazendo, ele (Cabral) com todos nós fomos pela Cruz abaixo do rio, onde ela estava. Dali a trouxemos com esses religiosos e sacerdotes, cantando em maneira de procissão.

“Eram já aí alguns deles, obra de setenta ou oitenta (índios); e, quando nos viram assim vir, alguns se foram meter debaixo dela, para nos ajudar. Passámos o rio, ao longo da praia, e fomo-la pôr onde havia de ficar, que será do rio obra de dois tiros de besta (cerca de trezentos metros). Andando-se ali nisto, vieram bem cento e cinquenta, ou mais.

“Chantada a Cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiramente lhe pregaram, armaram altar ao pé dela.

“Ali disse missa o Padre Frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos (freires sacerdotes). Ali estiveram connosco a ela obra de cinquenta ou sessenta deles, assentados todos de joelhos, assim como nós.

“E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram connosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornando-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como nós estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção.

“Estiveram assim connosco até acabada a comunhão, depois da qual comungaram esses religiosos e sacerdotes e o Capitão com alguns de nós outros.

“Alguns deles, por o sol ser grande, quando estávamos comungando, levantaram-se, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinquenta ou cinquenta e cinco anos, continuou ali com aqueles que ficaram. Esse, estando nós assim, ajuntava estes, que ali ficaram, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles falando, lhes acenou com o dedo para o altar e depois apontou o dedo para o Céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomámos.

“Acabada a missa, tirou o Padre a vestimenta de cima e ficou em alva; e assim se subiu, junto com o altar, em uma cadeira. Ali nos pregou do Evangelho e dos Apóstolos, cujo é o dia, tratando, ao fim da pregação, deste vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, o que nos aumentou a devoção.

“Esses, que estiveram sempre à pregação, quedaram-se como nós olhando para ele. E aquele que digo chamava alguns que viessem para ali. Alguns vinham e outros iam-se. E, acabada a pregação, como Nicolau Coelho trouxesse muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda, houveram por bem que se lançasse uma ao pescoço de cada um. Pelo que o Padre Frei Henrique se assentou ao pé da Cruz e ali, a um por um, lançava a sua cruz atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha primeiro beijar e alevantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançaram-na todas que havia, que seriam obra de quarenta ou cinquenta.

“Acabado isto (segundo o cronista, perto das treze da tarde), fomos assim perante eles beijar a Cruz, despedimo-nos e viemos comer.”

A primeira missa no Porto Seguro de Vera Cruz. Pintura de Vítor Meirelles, exposta no Museu Nacional de Belas Artes

A primeira missa no Porto Seguro de Vera Cruz. Pintura de Vítor Meirelles, exposta no Museu Nacional de Belas Artes

Por seu turno e para agravar a causalidade da chegada de Cabral a Porto Seguro, escreveu Roberto Lucíola com a lucidez que lhe era peculiar (21):

E por falar em “índios”, bem poucos conhecem o facto de que as cores de nosso pavilhão são as mesmas que ornavam o sagrado MARACÁ (pendão, estandarte, símbolo de uma Nação indígena) da tribo dirigida por TIBIRIÇÁ, o másculo chefe dos TUPINAMBÁS. Esse MARACÁ era tecido com arte e gosto, com linhas e raras penas de arara, nas cores Verde e Amarelo, encimado por um campo formado com uma esfera Azul anil e “comboíras” brancas (comboíras ou contas, feitas de sementes). TIBIRIÇÁ, com o concurso do Sumo Sacerdote SAIXÊ e do Chefe dos Guerreiros, ICARAÍ, coordenou a recepção a CABRAL. As 10 tribos que participaram de tão importante acontecimento foram as seguintes:

Realmente as cores da actual Bandeira do Brasil estavam presentes nos tocares dos chefes das tabas que receberam Cabral: “Outros traziam carapuças de penas amarelas; outros de vermelhas; e outros de verdes», descreveu Caminha. Por seu turno, Icaraí também foi assinalado pelo mesmo escrivão: “Andava aí um que falava muito com os outros que se afastassem, mas não que a mim me parecesse que lhe tinham acatamento ou medo”. Já Saixê poderá ser o índio que apontou o altar e depois o Céu, como se dissesse “algo de bem” aos seus, talvez: – Vede, os recém-chegados amam a nós os Tupis desta Taba de Tupã!

O certo é que “andavam mais mansos e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles. Neste dia, enquanto por ali andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril dos nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus.” – In Caminha.

Para se chegar a tamanho evento e consolidação do Sangue Real Luso com o Sangue Nobre Tupi, para sempre modificando a História da Humanidade antevendo já uma Nova Era de Promissão para o Mundo a partir do Brasil, três factores primordiais, mais ou menos registados historiograficamente, terão concorrido para tal:

1.º) A América Índia inteiramente preparada para receber os Iberos em 1500;

2.º) A sua promoção pela Escola de Navegação de Sagres;

3.º) A Ordem de Mariz, detrás de todo o processo ecuménico, cujo Grão-Chefe era o próprio Infante Henrique de Sagres, tendo lateralmente por Colunas Vivas a Colombo e a Cabral.

Assim como Frei Henrique Soares, franciscano enviado em missão pastoral pelo Geral do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, foi o primeiro representante vivo da Autoridade Espiritual de Mariz em solo brasileiro, igualmente Pedro Álvares Cabral foi o primeiro representante vivo do Poder Temporal de Mariz na mesma Terra Venturosa de Vera Cruz, assim se outorgando por correspondência simbólica os três Caprinos das suas Armas aos descendentes da antiga Cária e presentes sumos dignitários da Nação Tupi: TIBIRIÇÁ (Rei e Sacerdote – PAI) – SAIXÊ (Sacerdote – FILHO) – ICARAÍ (Rei – ESPÍRITO SANTO), atributos notáveis de MELKI-TSEDEK, o “Planetário da Ronda”, como Caprino ou Cumara Primordial, de maneira que poderei conformar:

Nada disto se estranhará se atender-se a que Pedro Álvares Cabral herdou de seu pai, Fernão Cabral, a erudição da Corte Hermética de D. Afonso V, o Rei-Alquimista que inclusive chegou à fábrica do Ouro Filosófico (22), e terá convivido de perto com os saberes cabalísticos da Sinagoga de Belmonte (cuja comunidade se instalou aí, mantendo diáspora prolongada até além do século XVIII, altura em a sua judiaria, alfama ou colónia judaica passou a ser identificada com o nome de bairro de “Marrocos”), onde terá aprendido o sentido oculto da Navegação Hermética, dentre outras coisas; a comunidade judaica beirã foi afamada em todo o país pela promoção dada às livrarias especializadas em Kaballah e Alquimia, inclusive tendo sido procurada e professada pelos mais doutos da Península Ibérica. É constante a presença nela de Isaac Abarnavel, rabi-mor do Reino e conselheiro particular de D. Afonso V, o Africano, além de músico, poeta e hermetista afamado.

Com tudo, pode deduzir-se que a cultura de Cabral não seria unicamente a vulgar de cátedra mas sobretudo a iniciática de Ordem, e talvez seja essa a razão do desprezo ostracista a que foi votado após o seu regresso da Índia pelo caminho de ida “achando” o Brasil, numa época em que já se sentiam os ecos da Contra-Reforma próxima (encetada após o Concílio de Trento realizado entre os anos de 1545 e 1563) e estava declarada a perseguição aberta ao judaísmo e demais modalidades consideradas heréticas. Contudo, ante tantos indícios que o tempo não conseguiu apagar, a par do homem de armas e do grande navegador tem-se também e sobretudo o Grande Iniciado. O Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira (1928-1969) e notável pedagogo, não se escusou apontá-lo nesse último sentido (23):

A missão de Cabral não é mais do que um codicilo para o espiritual Testamento de Cristóvão Colombo. Foi ele – como Pedro – a Pedra fundamental, ao raiar do século XVI (1500), do Grande Edifício Humano.

Por isso a capital baiana de Cristóvão Colombo traz o nome de Cristo ou Salvador, enquanto a do outro, BAÍA CABRÁLICA ou VERA CRUZ.

1500! Ano de Cristo ou Cristiano, como o verdadeiro ROSACRUZ. Sim, a rubra (ou ensanguentada) FLOR Crística (cor da referida Ordem – de CRISTO – em Portugal) cercada de espinhos… no centro de uma CRUZ.

Um século que finda: Colombo. Outro século que começa: Cabral. Séculos XV e XVI. O Kumara, a Casa de Deus, segundo os mesmos Arcanos.

Tanto o Brasão de Colombo como o de Cabral são cercados de ramos partidos do mesmo tronco. Tronco divino e não humano, Tronco deífico ou Aghartino. Cabral, Capris, Capricórnio, Kumara, etc. Cristóvão Colombo simbolizando a 3.ª Pessoa (que ele mesmo saudava de modo velado) da Trindade ou Espírito Santo.

O facto de alguém se chamar Pedro Álvares Cabral e adoptar por Brasão vários ramos de uma Árvore (a Árvore Genealógica dos Kumaras ou Cabires), tendo em baixo, no escudo, dois CABRITOS, e em cima ou no cume, na cúspide, etc., um outro, um pouco menor, na razão de uma Trindade Kumárica ou Pai, Mãe e Filho, denota superiores conhecimentos esotéricos que não os podem ter homens vulgares, por mais ilustres que sejam. Bastava isso para confirmar tudo quanto dissemos a seu respeito.

Salve, Árvore Genealógica dos Cabires, honrada nos preciosos nomes Cristóvão Colombo e Pedro Álvares CABRAL!

A verdade é que, segundo a obra secreta Livro das Vidas, lavrada sobre o mais profundo esoterismo pelo mesmo Professor Henrique José de Souza em 1933, ele indica Pedro Álvares Cabral como a 3.ª Alma Peregrina ou “Vida Esparsa” do 3.º Sub-Aspecto do 7.º Aspecto da Linha dos SERAPIS, ou seja, inserido no 3.º Sub-Raio dos 7 que compõem o 7.º Raio (cada Raio é composto de 7 Sub-Raios, em guisa de decomposição cromática das promanações solares do respectivo Logos ou Divindade Central do Sistema Solar em torno do qual orbitam 7 Logos Planetários).

Cavando um pouco mais fundo na procura esotérica do que fosse a natureza oculta tanto da pessoa como da missão de Cabral, informa a Tradição Iniciática das Idades que os Serapis (Seres Divinos, Ser+Apis) estão profundamente ligados aos mistérios do Seio da Mãe-Terra, caracterizando-se essa Linha pelos atributos seguintes:

– 7.º LOGOS – 7.º RAIO.

– A ORDEM dos RITMOS naturais.

– O Poder ou Força que ajusta as relações internas às externas, adaptando umas às outras, dando forma à Essência no Plano Físico.

– A Essência adaptada ou revestida de matéria apropriada a poder agir no campo da Matéria.

– ESPÍRITO e MATÉRIA.

– ORDEM na acção física ou o agir correctamente no Plano Físico.

– A MAGIA como Cerimonial ou Acto Ordenado.

– Todas as Energias relacionadas com o Plano Físico denso, fazendo parte deste prodigioso Logos. Portanto, o novo Sol nascente que deve percorrer o seu Zodíaco ou Ciclo evolucional através dos signatados “12 Trabalhos” de Hércules ou Herakles.

– O Físico denso contendo em si o Vital ou Etérico – FÍSICO NO FÍSICO.

– Mundo das Formas – Reencarnação.

– SOL (no Solo, Seio da Terra) – Kumara MIKAEL.

– Linha SERAPIS – MANU (Legislador).

Assim, a Linha dos SERAPICOS ou SERAPIS constitui-se na representação vertical do Pai Eterno. São os “Ferreiros” do Seio da Terra, os que laboram directamente com o Fogo Terrestre ou Kundalini, logo, com o Fogo de Marte, assim fixando Saturno (SAT-OM) na Terra. A tónica desta Linha é a Magia Cerimonial como caminho espiritual e método de acção. Por serem Seres votados à manipulação das forças naturais e sociais, construindo e destruindo sociedades e civilizações em conformidade aos seus ciclos de duração e karma ou dividendos acumulados, estes Seres Divinos como Agentes dinâmicos dos Senhores do Karma na Terra estão por isso isentos de qualquer Karma, mesmo quando aparentemente se mostram implacavelmente destruidores, pois não fazem senão cumprir as Ordens da Face do Rigor da Divindade. Por isso aos Serapis também se lhes chama Atikarmas. Profundamente relacionados aos 3.º e 5.º Raios, eles são os detentores da Alta Magia Divina, os TEURGOS e TAUMATURGOS por excelência.

Já as 4.ª e 7.ª Linhas dando consecução ao Trabalho Vertical da Grande Fraternidade Branca de Agharta para a Face da Terra, constitui assim a objectivação da Autoridade Espiritual (Tsedek) na Terra, o que se relaciona com toda a Obra Templária da Ordem do Santo Graal, preparando o Advento do Espírito de Verdade por sobre o mesmo Mundo (24).

Desfecham os Maiores da Raça o vaticínio de caber ao Brasil, sendo primeiro eco ou arauto Cabral, ser a Terra Venturosa escolhida por Deus para seu Trono.

Após a fundação gloriosa do Brasil Ibero-Ameríndio por Pedro Álvares Cabral – Tibiriçá, o Grande Navegador realizou a sua missão oficial em Calicute e Cochim, na Índia, e regressou ao Reino onde D. Manuel I, parecendo embriagado pelo prestígio imenso e a enorme agitação internacional à sua volta, mal o onerou e depressa o esqueceu, apesar dos protestos junto do monarca mal-agradecido dos amigos e admiradores de Cabral, dentre eles o vice-rei da Índia, D. Afonso de Albuquerque (25).

Sem talentos para adulador, discreta mas decididamente Pedro Álvares retira-se da Corte e da Lisboa febris e fixa residência na Quinta do Rosário, perto de Santarém, refugiando-se na vida agrícola onde passa o resto dos seus dias, no sossego merecido do Herói em terras e mares distantes e na memória contemplativa da Grandeza feita, morrendo quase anónimo em 1520 (26).

Diz-se ter sido sepultado na capela de S. João Evangelista da igreja de Nossa Senhora da Graça dessa cidade escalabitana, cuja legenda tumular, em caracteres góticos, com referência brevíssima a ele mostra bem a censura inquisitorial sobre a sua pessoa, parecendo mesmo querendo-a apagar da memória da História da maneira mais infame possível: “AQUI JAZ PEDRALVAREZ CABRAL…” – e é só. Mas a legenda tumular prossegue com referências à sua esposa D. Isabel de Castro que mereceu maiores encómios, não por ser a mulher do Grande Navegador mas tão-só por ter sido a camareira-mor de D. Maria Manuela de Portugal, filha do rei papista D. João III que odiava tudo quanto tivesse a ver com judeus, árabes e outras raças e crenças que não estritamente as apostólicas romanas (27).

Ainda assim, resta saber se os despojos mortais de Pedro Álvares estarão realmente aí. Isto porque a sepultura foi aberta em Agosto de 1882, para confirmar a sua presença, tendo sido encontradas três ossadas humanas, duas masculinas e uma feminina. Causou ainda forte estranheza a presença do esqueleto de uma cabra no interior do túmulo, mas para muitos isso provava que aí jazia Pedro Álvares Cabral: o escudo dos Cabrais ostenta três cabras. Para todo o efeito, dou interpretação absolutamente diversa ao caso, do género aqui “charada” iniciática: fica a cabra e vai o Cumara… Para onde? Eis o busílis da questão. Para agravar a questão, por volta de 1903 o túmulo foi reaberto, e dessa vez continha oito corpos, cinco ossadas masculinas, uma feminina e duas de crianças. Mesmo tendo sido utilizado como depósito sepulcral, o facto é que assim o enigma adensa-se e, para mim, acaba só tendo maior valor o sentido velado da cabra no lugar do Cumara.

Túmulo de Pedro Álvares Cabral na igreja da Graça, Santarém

Túmulo de Pedro Álvares Cabral na igreja da Graça, Santarém

Seja como for, é impressionante a cortina de silêncio lançada sobre o nome e a pessoa de Pedro Álvares Cabral, logo após o seu regresso triunfal da Índia em 1501.

As únicas duas cartas que o apresentam como retirado da Corte e com residência fixa em Santarém, onde pretende alargar as suas propriedades, são datadas de 1509. E o nome de Pedro Álvares só volta a aparecer nos documentos com relação ao ano de 1518, já perto da data da sua morte, onde consta do Livro de matrícula dos moradores da Casa del-Rei D. Manuel como cavaleiro do seu Conselho, com a pensão mensal de 2437 reais.

Segundo Metzner Leone (in ob. cit.), tudo o que se conhece como remuneração régia para os serviços prestados por Pedro Álvares Cabral é de uma exiguidade que chega a envergonhar quem concedeu mercês tão mesquinhas por tão altos serviços recebidos: em 4 de Abril de 1502 são mandadas pagar a Pedro Álvares duas importâncias, uma de 13 mil reais e outra de 30 mil reais, “de sua tença”; em 6 de Março de 1504, mais 30 mil reais; e há um recibo, assinado pelo próprio Pedro Álvares em 10 de Janeiro de 1515, que lhe conferia a importância de 200 mil reais, da tença anual.

Reparando em toda essa anormalidade, dá vontade de supor que não foi Pedro Álvares Cabral quem fez a mais extraordinária e a mais significativa viagem marítima de toda a Gesta Henriquina e consequente Período das Descobertas – pois tal suposição seria a única hipótese de inocentar quem assim o recompensou como homem, e quem assim o inutilizou como português ao serviço da sua terra e da sua gente. Mas não há dúvida nenhuma de que o mesmo Pedro Álvares Cabral nomeado, por uma carta régia, Capitão-mor da armada da Índia é o mesmíssimo a quem Caminha chama simplesmente o Capitão, a quem o Piloto Anónimo chama Pedro Álvares, e a quem a História Universal chama apenas Cabral.

Não importa, é a sina fatal de todo o Grande Iniciado cujos feitos épicos, imortais, vulgarmente são pagos com desdém e abandono. Não importa, é sempre assim o mundo vulgar, profano… cuja sobrevivência depende inteiramente, contudo e anacronicamente, daquele, tanto em riquezas humanas quanto espirituais.

Importa, sim, saber “Qual dos Gigantes morto rolará?”, Portugal ou o Brasil, na interrogação incómoda que faz o imortal Castro Alves, no final da sua Ode ao Dois de Julho.

Nenhum deles rolou nem rolará, respondo eu, pela razão de se tratar de um fenómeno cíclico da maior transcendência na História, como seja a da descida das Mónadas ibéricas para se fundirem na Raça Autóctone brasileira, ou seja, “a Raça nobre e guerreira dos Tupis”. Com isto se consolidaram os laços humanos e espirituais que até hoje unem estreitamente as duas privilegiadas Pátrias-Gémeas: PORTUGAL E BRASIL.

Assim se cumpriu o Ciclo Luso-Ameríndio no Quinto Continente, berçário de um Quinto Império Universal da Humanidade, na mais excelsa e arrojada iniciativa cabrálica ou cumárica na Nova Lusitânia unida à progenitora desde Praia Grande de Sintra a Mar Grande de Itaparica. Pelo que:

NOTAS

1) António G. Mattoso, Compêndio de História Universal. Depositária Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1962.

2) Dos treze navios da Armada de Pedro Álvares Cabral, apenas se conhecem os nomes de três: Anunciada, El-Rey e S. Bento.

3) Metzner Leone, Pedro Álvares Cabral. Editorial Aster, Lisboa.

4) Raúl Proença, Guia de Portugal – II Beira Baixa e Beira Alta, volume III. Edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

5) Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Lisboa, 1961.

6) António Pedro de Sousa Leite, Novos Elementos para o Estudo da Grande Família dos Gouveias Humanistas. Braga, 1965.

7) Luís Peter Clode, Genealogia da Família Cabral. Funchal, 1968.

8) Metzner Leone, ob. cit.

9) João de Barros, Décadas. Com selecção, prefácio e notas de António Baião. Vol. I, livro 5, cap. I, p. 102. Colecção de Clássicos Sá da Costa, Lisboa.

10) Foi Mestre João quem primeiro representou, em carta cosmográfica, a constelação do Cruzeiro do Sul. Não só era cosmógrafo como cartógrafo, físico, cirurgião e sábio em leis.

11) Jaime Cortesão, A Carta de Pêro Vaz de Caminha. Rio de Janeiro, 1943.

12) Fernão Lopes de Castanheda (1500? – 1559), História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, em 10 tomos cobrindo toda a história do Império Português no Oriente, desde as suas origens até à década de 1540. Episódio citado no liv. IV, cap. XXXVII, pp. 439-441 da edição de Pedro de Azevedo e P. M. Laranjo Coelho, Coimbra, 1928.

13) Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora, São Paulo, 2004.

14) Jaime Cortesão, A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil. Lisboa, 1922.

15) Joaquim Ribeiro, Carta de Pêro Vaz de Caminha. Edição crítica. Rio de Janeiro, 1928.

16) Francisco Silva e Pedro Bastos, História do Brasil. Editora Moderna, São Paulo.

17) Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala. Pernambuco, 1933.

18) Teresa Mesquitela, Os deuses que vieram de África. In revista História, n.º 76, Fevereiro de 1985, Lisboa.

19) Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão – Editores, Porto, 1990.

20) Pedro de Mariz, Diálogos de Vária História (Dedicados aos Diogo Soares), Diálogo V, p. 454. Editados por António Craesbeek de Mello, impressor da Casa Real, Lisboa, 1672.

21) Roberto Lucíola, Brasil desconhecido. Revista Aquarius, Ano I, n.º 3, 1975, Rio de Janeiro.

22) Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2003.

23) Henrique José de Souza, Colombo e Cabral. Revista Dhâranâ, n.º 110, Out./Dez. 1941, São Paulo.

24) Comunidade Teúrgica Portuguesa, Apostilas 57 e 58 da Série Interna do Munindra ou Integração.

25) Luiz Bivar Guerra, Pedro Álvares Cabral e a sua representação de facto e de direito. Lisboa, 1960.

26) Jaime Cortesão, A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil. Lisboa, 1922.

27) Alberto de Carvalho, Memória a respeito da sepultura rasa do descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral, na igreja da Graça, em Santarém. Lisboa, 1902.

A Demanda do Reino do Preste João – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Set 16 2016 

A demanda de um desejado Reino de felicidade, prosperidade e justiça ininterruptas, vedado a qualquer espécie de corrupção, civilização supraperfeita subjacente ao inconsciente colectivo dos povos como Amor e Saudade, originou na Idade Média, adentrando a Renascença, o mito do Preste João, prolongamento da tradição do Santo Graal, da Quête, da Demanda cuja “pedra-angular” mental era a consolidação à face da Terra dum Império Utópico ou “por realizar”, filosófico de pura Cristandade capaz de unir aos dois hemisférios de civilização do Globo, cuja penúltima tentativa foi a Odisseia Templária, e a última o Ecumenismo das Descobertas Marítimas promovidas pela Ordem de Cristo, em que se tomou por “alavanca de Arquimedes” a busca da Terra Prometida do Patris Iohannes.

Assim o quis o Infante Henrique de Sagres, e assim o quiseram todos os seus capitães de mar posteriores, ou pelo menos a maioria deles, e nesse sentido encetaram medidas, pelo que há notícias, umas verdadeiras e outras fictícias, de embaixadas das cortes de Portugal a serem recebidas pelo Preste João. Foram os casos de Bartolomeu Dias, D. Cristóvão da Gama e Francisco Álvares, dentre outros, havendo igualmente documentação ou cartas enviadas pelo Preste João a D. João II e a D. Manuel I[1]. Já antes, conforme consta na Chancelaria de D. Afonso V, este havia recebido em 1453 um certo Jorge, “embaixador do Preste João”[2].

Ainda que comumente se acredite que a lenda do Presbítero João teve início na corte de Luís XI de França, a verdade é que ela foi importada do Oriente para o Ocidente pelos Templários[3], e mais tarde exportada para França pela Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de Pêro da Covilhã quando acompanhou a visita de D. Afonso V à corte do seu primo Carlos, o Temerário, coevos do Infante D. Henrique e da Escola Náutica de Sagres com a sua ala reservada: a Confraria do Espírito Santo, composta de Iniciados da Ordem de Cristo que, por sua vez, nos séculos XV-XVI andava de relações com uma outra do Oriente, a Ordem de Santa Catarina do Monte Sinai.

Reza a tradição popular dos coptas, certamente para enaltecerem a sua génese superior, pelo que é lenda áurea ou mito de fundação, que o Mosteiro de Santa Maria e Santa Catarina do Monte Sinai fora fundado pelo rei-pastor Jethro, o pressuposto iniciador do próprio Moisés que veio a casar com a filha daquele, Séfora. Posteriormente, essa Confraternidade teve à dianteira o “Ancião da Montanha Primordial” ou Alborj, Bey Al Bordi, manifestação deifica do Arcanjo Mikael, que era o Grão-Mestre dos Assacis xiitas e o próprio Mestre Secreto dos Templários joanitas, ou pelo menos de parte deles afins à gnose oriental. Mais tarde, essa misteriosa mas venerada personagem seria identificada, pelos Lusos de Quatrocentos e Quinhentos, com o Preste João, ou, pelo menos, com uma das suas quatro faces.

Nos finais do século XIII, a Regra da Ordem dos Reclusos de Monte Sinai terá servido de inspiração à fundação da Ordem dos Drusos, esta que, informa a Tradição, tornar-se-ia o “Escudo Defensivo” de uma outra Ordem Iniciática muitíssimo mais fechada ao exterior: a Fraternidade Tuaregues Azuis de Kaleb, instalada algures no Deserto da Líbia com jurisdição espiritual e humana para todo o Médio Oriente.

 Tal como no Mosteiro do Monte Sinai e na Confraria do Espírito Santo de Lagos, também os filósofos herméticos das cortes de Luís XI e de Carlos o Temerário apelidavam o “Velho da Montanha” (Cheik al-Djebel) de Navegador (Nautonnier)… na Ciência de Maria, isto é, na Via Húmida ou Mareante da Alquimia. O último a deter esse título foi precisamente o Infante Henrique de Sagres.

Mosteiro de Santa Maria e Santa Catarina do Monte Sinai

Mosteiro de Santa Maria e Santa Catarina do Monte Sinai

Para os Templários a Mãe Divina, de quem brotou o Divino Filho, possuía maior importância na sua catequese e gnose que as outras Hipóstases da Santíssima Trindade, talvez por se identificar ao seu espírito de Cavalaria ou Demanda como Iniciação activa ou votiva, particularizada na Arte Real da Alquimia, como conquista de si mesmo, da feitura do Ouro Crístico partindo da Mater-Rhea ou Matéria-Prima; por isso mesmo, a Mãe era mais velha e sábia que o Filho a Ela devendo a geração. Razão porque os pressupostos Estatutos Internos do Templo afirmam: “Nossa Senhora está no começo e no fim da nossa religião, porque Ela existia antes que houvesse montanhas ou terra”[4]. Motivo para René Guénon considerar a existência de duas correntes iniciáticas distintas[5]:

As duas cadeias iniciáticas. – Uma é histórica, a outra espontânea. A primeira comunica-se nos santuários estabelecidos e conhecidos, sob a direcção de um Sheikh (Guru) vivo, possuindo as chaves do mistério. Tal é El-Talîmurrijâl, ou a instrução dos homens ou dominical. A outra é El-Talîmur-rabbâni, a instrução senhorial, que me permito chamar “Iniciação Mariana”, porque foi essa que recebeu a Santa Virgem, a Mãe de Jesus, filho de Maria. Nesta há sempre um Mestre, mas ele pode estar ausente e mesmo já ter falecido há muitos séculos. Nesta Iniciação retira-se no Presente a mesma substância espiritual que os outros retiraram na Antiguidade. Actualmente ela é muito frequente na Europa, pelo menos em seus graus inferiores, mas quase desconhecida no Oriente.”

Tudo isso de maneira alguma significa que a Ordem do Templo tivesse sido uma sociedade secreta (muitíssimo menos a Ordem de Cristo), ou seja, erigida e funcionando à margem do conhecimento universal e da autoridade oficial, a do Papa e mesmo do Rei, pois de modo algum em tempo nenhum tal aconteceu. Isto a nível colectivo. Quanto ao pessoal, neste sim, há provas indiscutíveis de alguns raros Iluminados da Milícia terem agido com “segundas intenções” ante o geral, ou seja, com pretensões secretas só conhecidas deles e dos que das mesmas partilhavam.

Isso também é válido para o mito do Preste João, cujo Reino tinha tantas e tão fartas riquezas, segundo a ampla propaganda dos Templários e Freires de Cristo, que assim levavam as gentes comuns a embarcar ambiciosas de novas terras e fortunas certas, indo encetar diáspora civilizacional que era o motivo prático da difusão desse mito. De outro modo, certamente ninguém embarcaria em aventuras tão perigosas só tendo por certo o desfecho incerto…

Nessa relação dos Portugueses com o Preste João, sabe-se ainda que Pêro da Covilhã (professo da Ordem de Cristo) havia recebido as suas informações acerca do Monarca misterioso por intermédio de dois judeus cabalistas ou bandarras: o rabi Abraão de Beja, e o sapateiro Joseph de Lamego. Ora, para Fernando Pessoa[6] “Bandarra era o nome do Grau Profético da Ordem de Cristo, e da qual o Padre António Vieira veio a ser o Grão-Mestre”. Não haja dúvida que o sentido da assertiva não é histórico mas iniciático, sendo isso assaz interessante porque a Iniciação Mariana ou Cavaleiresca (Kshatriya) está profundamente relacionada ao Profetismo e ao Messianismo, como já tive ocasião de dizer[7]:

“A Iniciação Mariana ou Cavaleiresca, presentemente, encontra o seu pedestal sagrado na Ordem do Santo Graal, Templária, e na Maçonaria Copta ou Egípcia, esta que tem por fundação o mistério isíaco dos seus três MMM, que também são o seu “santo-e-senha”: Menfis – Misraim – Maisim, em alusão aos três grandes Templos da época de Akenaton ou Amenófis IV, um solar, um lunar e outro lunissolar ou andrógino, mas também e fundamentalmente à Luz Tríplice do Governo Interno do Mundo.

“Essas três Luzes aludem igualmente as três Aspectos de Shiva, Siva ou Avis anagramaticamente, como seja o Espírito Santo, a Terceira Hipóstase Logoidal influindo na criatura humana que, quando receptiva à Sua influência iluminadora, pode tornar-se um profeta ou “porta-voz” da Sabedoria Divina, e isto através da mesma Sabedoria (Budhi) – Inspiração (Bodhi) – Revelação (Badhi), tanto valendo por Jnana (Conhecimento), Jneia (Conhecedor) e Jnata (Conhecido).

esquema-1

“O Espírito Santo é o Patrono dos Profetas, e a Sua face oriental, Shiva, designa-O como Senhor dos Kshatriyas ou Cavaleiros defensores de toda a Ordem social, cujo elaboramento sinárquico é feito como Arte Real, visando humanamente o bem-estar e a elevação moral dos povos sob a égide de um Governo Único: o do Rei do Mundo, Melkitsedek, a mais viva e próxima Expressão do Terceiro Logos.”

Quanto ao primeiro documento conhecido do reportado aqui, trata-se da famosa Carta do Preste João endereçada em 1165 a Manuel Comneno, imperador bizantino de Constantinopla, assim como a Barba-Ruiva, imperador da Alemanha, e ao papa Alexandre III, parecendo o documento ter a sua origem em Portugal. Isto porque a sua versão original encontra-se no cartório do Mosteiro de Alcobaça, datada dos finais do século XIV, mas que, por voltas do destino, em 1478 aparece pela primeira vez impressa em língua italiana, em Veneza, na qual se inspiraram outras obras, também na mesma língua, como a versão rimada do Trattato del maximo Prete Janni (Veneza?, 1494), de Giuliano Dati. No mesmo teor de inspiração na Carta, irá aparecer em 1515 uma edição espanhola de um certo Libro del Infante Don Pedro de Portugal, da autoria de Gomez Santisteban (editado em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian, 1962). Por fim, esta Carta veio a ser publicada por Domingos Maurício em 1961, em Lisboa, na separata da revista Brotéria, n.º 72, a qual já a transcrevi e publiquei na íntegra no meu livro Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo).

Nessa carta, o Prestes João apresenta-se como Soberano máximo das “Três Índias”, o que vai bem com o conceito geográfico medieval, pois essas subdividiam-se em Próxima Índia, Extrema Índia e Média Índia, correspondendo respectivamente às partes Norte e Sul do subcontinente indiano e à região africana hoje denominada Etiópia. Após a chegada ao continente americano de Cristóvão Colombo e de Pedro Álvares Cabral – ambos pilotos portugueses formados na Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres, e até se dizendo terem sido as suas Colunas Vivas – nos séculos XV-XVI, as Américas do Norte e do Sul passaram a ser denominadas de Índias Ocidentais, contrapondo-as às Orientais, mas sempre realçando o designativo de Ásia, tanto com o sentido imediato de território longínquo e exótico, para o viajante europeu, como, principalmente, com o de Assiah ou “Mundo”, cuja conquista espiritual teve a primazia da Gesta Dei Per Portucalensis.

Com tudo, a Tradição acabou sendo envolta pelo «véu diáfano da fantasia», parafraseando o romancista, e o mito transformou-se em quimera nostálgica e poética mais ou menos confusa, acrescida de informações desconexas e contraditórias que invadiram a Europa de Quinhentos sobre tão sibilino quão fugidio Reino, para uns sito na Índia, para outros na Etiópia ou no Egipto, e para outros ainda na Mongólia ou no Tibete…

Segundo a Tradição Iniciática das Idades e de acordo com o proferido sobre o tema pelo Professor Henrique José de Souza,  esses quatro lugares consignados como Reino do Preste João vêm a expressar outros tantos aspectos ou faces do mesmo assim associando-o ao Jano Tetrafonte que, em si mesmo, é o Quinto como Rei do Mundo (Melkitsedek em hebreu e Chakravarti em védico), cuja Morada Central vem a ser o Centro do Globo (Salém, Walhallah, Shamballah…). Ele tem como Colunas Vivas laterais ou Ministros um Aspecto Masculino no Egipto para um Aspecto Feminino na Índia, e um Aspecto Masculino na Mongólia para um Aspecto Feminino no Tibete, como sejam Polidorus InsurenusMama Sahib, Takura BeyBelmira, para o Central como Pentamorfo.

Os raros Iluminados conhecedores do mistério haviam deixado transbordar do escrínio dos seus Colégios rumores saídos da Tradição Iniciática para que o povo e demais gente, repito, inflamados pela imaginação e cobiça de um “Paraíso Perdido repleto de grandes riquezas”, encetassem a sua demanda por terra e mar indo dar início a um novo fluxo migratório de pessoas e culturas, de maneira a ser alavanca psicossocial de um novo ciclo de progresso.

Essa Tradição Iniciática estabelecia a união da Dinastia do Santo Graal com o Preste João, que também pertencia a ela, como já antes Wolfram Von Eschenbach descrevera de maneira absolutamente simbólica no seu Parzival[8]. A trama desse romance resume-se ao seguinte:

Gahmuret, filho do rei de Anjou, vai para o Oriente onde casa com Belacane, rainha de Zazamac. Da união nasce Feirefiz, o cavaleiro cujo corpo era branco e negro. Gahmuret volta para a Inglaterra e casa-se de novo, dessa vez com Herzeloyde, de quem nasce Parzival. Gahmuret é morto numa batalha e, temendo pela sorte do filho, Herzeloyde retira-se para a floresta onde o herói cresce ignorando tudo quanto diga respeito à Cavalaria. Neste livro de Eschenbach acontece o mesmo que havia acontecido com Perceval no outro de Chrétien de Troyes, ou seja, Parzival descobre a existência da Cavalaria e sai em busca da corte do rei Artur, acção que tem como resultado a morte de sua mãe. Repetem-se várias aventuras até que Parzival chegue ao Castelo do Santo Graal. Contrariamente ao que se passa na obra de Chrétien, o Graal é aqui uma Pedra que havia sido confiada pelas Potências Celestes à guarda de Titurel e seus descendentes. Era sobre essa Pedra que a Fénix renascia periodicamente, e ainda sobre ela, toda a Sexta-Feira Santa, descia do Céu uma Hóstia consagrada. De tempos a tempos os nomes dos Cavaleiros, destinados a experimentar as maravilhas do Santo Graal, apareciam milagrosamente gravados na Pedra. O ferimento do rei inválido (Amfortas), é atribuído ao facto dele se ter disposto a lutar por uma causa mundana (amor adúltero, paixão cega). Parzival apaixona-se por Condwiramur, que irá se reunir a ele no Castelo do Santo Graal após ter vencido todas as provas, inclusive a da espada quebrada. No final Parzival e Feirefiz vão juntos para o Castelo do Santo Graal, mas Feirefiz não pôde ver o Graal em virtude de não ser baptizado. Parzival fica Rei do Santo Graal e Feirefiz, depois de receber o baptismo, casa-se com a Donzela do Santo Graal e retira-se para o Oriente onde estabelece o Cristianismo que será mantido por seu filho, Preste João. Parzival e Condwiramur têm um filho, Lohengrin, o qual, guiado por um cisne branco, vai em auxílio da Duquesa de Brabante. Ele casa-se com ela sob a condição dela não lhe perguntar coisa alguma a respeito da sua origem, e quando inadvertidamente o fez, o cisne levou-o embora.

Como se vê, aparte o mito necessário para que o símbolo se expresse, a Dinastia do Santo Graal – aliás, mantida em sigilo pelos Templários portugueses e franceses – tem ligação à mais pura essência do Cristianismo, e nesta observa-se a manutenção ininterrupta da Tradição Iniciática de Melki-Tsedek, ou por outra, do Rei-Sacerdote João, o Presbítero, este último termo designando o Ancião, o possuidor da Sabedoria das Idades, consequentemente, reconhecendo-o o mais Sábio e Supremo Dirigente, Pai Espiritual da Igreja Invisível ou Secreta de João, apóstolo pré e apocalíptico que “permanecerá até ao Fim dos Tempos”, nas palavras da própria Escritura.

Curiosamente, fala-se em Preste João da Ásia, mas creio que esse último termo peca por imprecisão ortográfica, pois originalmente escrevia-se Assiah, o “Mundo” em hebraico, cuja doutrina esotérica, a Kaballah, estrutura o Universo e o Homem em quatro grandes Planos, a saber:

Por sua vez e com a magistralidade que lhe era própria, o Professor Henrique José de Souza compôs o esquema seguinte a que chamou O Tetragramaton Sagrado e o seu desenvolvimento[9], o qual exponho sem comentários oferecendo-o ao cuidado do leitor:

esquema-3

Também sobre este tema palpitante do Preste João versus Melki-Tsedek, o Professor Henrique José de Souza teve oportunidade de escrever sobre ele, e é com um trecho precioso de um seu antigo estudo consagrado ao assunto[10] que dou por encerrado o tema que aqui me traz:

[…] Tudo quanto dissemos anteriormente a respeito dessa mais que sublime Organização, que tanto se pode chamar, como já foi dito, de Culto de Melquisedec, como de Excelsa Fraternidade, Sudha-Dharma-Mandalam (para o Oriente), mas hoje com outro nome ocidental.

Falemos de preferência dessa “fraternal Ceia ou Comunhão”, em que vivem os preclaros Membros da Excelsa Fraternidade, quer do ponto de vista mental (e a prova é que até hoje se exige, em nosso Colégio Iniciático, o termo sânscrito PAX, que quer dizer “comunhão mental ou de pensamento”, atingindo os confins da Terra, através dos mesmos Seres, e não, apenas, o sentido restrito do “pax” latino, que é, como se sabe, PAZ, essa mesma que deve existir entre todos os seres da Terra), dizíamos, quer do espiritual, ou sejam esses felizes instantes que convivem juntos, em qualquer parte do Globo para onde os conduza a sua própria missão…

Daí nasceu a chamada Ceia do Senhor, levada a efeito entre Jeoshua Ben Pandira (o “Filho do Homem”…) e seus apóstolos ou discípulos.

Era a “comunhão reservada aos maiores pontífices em todos os Mistérios Antigos”. Logo que um Adepto, um Ser qualquer de categoria mais ou menos elevada, ia visitar o Dalai-Lama, este dividia ao meio o pão, lançando-lhe a sua Benção, e ambos comiam a parte que lhes era reservada. Tal ritual, além dos seus sentidos cabalísticos, abrange, ainda, o do Androginismo Perfeito (um pão dividido em dois, como aconteceu no começo das coisas…), o do Pai-Mãe das Escrituras, na razão de Adam-Kadmon para o Divino, Adam-Heve para o Humano e Adam-Chevaoth para o Inferior… que nada tem a ver, como pensa a maioria, com o famoso “inferno” das Escrituras ocidentais.

Em seguida, dois copos contendo o mais precioso vinho ou licor, que, depois de abençoados, cada qual se servia do seu[11]. Não é isso uma espécie de Eucaristia, na razão do “este é o meu corpo, comei-o; este é o meu sangue, bebei-o”? Uma reminiscência, ainda, da “Taça do Santo Graal”[12].

Melquisedec, Rei de Salém, fez trazer pão e vinho, por ser Ele Sacerdote do Altíssimo (El Elion). E abençoou a Abrahão, dizendo: “Abençoado sejas, Abrahão, em nome do Deus Altíssimo, possuidor dos Céus e da Terra. Abençoado o Deus Altíssimo, que entregou os inimigos em tuas mãos. E Abrahão lhe entregou o dízimo de tudo quanto havia tomado” (Génese, XIX, 18-20)[13].

Como dissemos em outros lugares, Jeoshua (Jesus) distribui entre os seus discípulos pão e vinho, o que deu razão ao termo “Ceia do Senhor”, pois, como um Iluminado, Adepto ou Homem Perfeito, conhecia todos esses ensinamentos da Igreja de Melquisedec. Essa mesma “Igreja” que até hoje ensina aos homens que para Ela se acham atraídos, a se religarem ou tornarem a ligar-se, como o estiveram em tempos afastados da História, e consequentemente à sua Origem, na razão da sábia sentença de St.º Agostinho, ao dizer que “vimos da Divindade e a Ela havemos de ir”, que tanto vale pela incompreendida “Parábola do Filho Pródigo que volta à Casa Paterna”… Fenómeno esse comparável ao da Teofania entre os neo-platónicos, e o verdadeiro sentido do termo TEOSOFIA, como “Sabedoria Divina”, dos Deuses, dos Super-Homens, Mahatmas, Génios ou Jinas.

NOTAS

[1] Francisco Álvares, Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias. Publicações Europa-América, Algueirão, 1989.

[2] Elaine Sanceau, Em Demanda do Preste João. Livraria Civilização Editora, Porto, 1956.

[3] Com efeito, as primeiras notícias chegaram à Europa em 1145, quando Hugo de Gebel, bispo da colónia cristã do Líbano, informou o Papa da existência de um reino cristão situado “para lá da Pérsia e da Arménia”, governado por um Rei-Sacerdote chamado Iohannes Presbyter (João, o Presbítero, isto é, Sacerdote, Ancião) e que seria descendente de um dos Reis Magos que visitaram o Menino Deus em Belém. – Cf. Padre Baltazar Teles, História Geral de Etiópia a Alta, 1660. Publicações Alfa, Lisboa, 1989.

[4] Cf. Gérard de Sède, Os Templários estão entre nós, pág. 134. Editorial Estúdio Cor, Lisboa, 1974.

[5] René Guénon, Initiation et Réalisation Spirituelle. Éditions Traditionnelles, Paris.

[6] Fernando Pessoa, Portugal, Sebastianismo e Quinto Império, in “Obras em prosa de Fernando Pessoa” coligidas por António Quadros. Edições Europa-América, Lda., Algueirão.

[7] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz, Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006.

[8] Cf. Almir de Campos Bruneti, A lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português. Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1974.

[9] Sebastião Vieira Vidal, Série O.S.G. Edição privada da Sociedade Teosófica Brasileira, 1968. Edição privada da Comunidade Teúrgica Portuguesa, 2009.

[10] Henrique José de Souza, Cagliostro e São Germano. Revista “Dhâranâ”, 1942, Brasil.

[11] Os árabes mais ilustres só compartilham da refeição de “tâmaras, sal e uvas” com pessoas que lhes mereçam a maior consideração. É, ao mesmo tempo, uma tradição religiosa e “pacto de amizade”.

[12] Não era, antigamente, o Dalai-Lama a representação, na face da Terra, juntamente com o Trachi-Lama, dos dois tradicionais Ministros do “Rei do Mundo”, por sua vez, representado pelo Buda-Vivo da Mongólia, na cidade de Urga, cujo nome correcto é Takura?… Melquisedec e o Rei do Mundo são uma só e mesma Pessoa. Vive Ele, justamente, na “Terra das Libações”, que tanto vale por Agharta, como por Shamballah, a tradicional “Ilha imperecível, pois que nenhum cataclismo a pode destruir”. Shamballah tanto vale por Taça do Licor de Shoma ou lunar, como do de Shukra ou venusiano. Existe, na Índia, a lenda do “Cálice (ou Taça) de Buda”, que será encontrado, novamente, quando se aproximar o tempo de “Shamballah”. Vejamos tal lenda:

Purushapura ou Peshawar foi, durante muito tempo, a “Cidade do Cálice de Buda”. Depois da morte do Mestre, o Cálice foi levado para aí, onde, por muitos anos, tornou-se objecto de veneração. Nos tempos do viajante chinês Fah-sien, aí pelos 40 anos a.C., encontrava-se ele, ainda, no templo que lhe foi dedicado, isto é, Peshawar. Possuía ele diversas cores, predominando, entretanto, o preto. Quanto ao perfil de “quatro cálices” que o compunham, eram vistos claramente.

Porém nos dias de Hsuan-tsang, outro viajante chinês, pelos 650 anos de nossa Era, afirma já não mais se encontrar tal Cálice em Peshawar. Uns dizem achar-se na Pérsia, enquanto outros, em Karashahr.

No Oriente não se pode desdenhar a ideia de um Cálice. Mas, no entanto, as lendas de todos os países a conhecem a seu modo: ora é a “Taça de Lohengrin”, Taça Crística, que interfere nas “rosacrucianas”, ora a da “amargura sorvida no Horto”, e dezenas de outras de que já nos temos ocupado por várias vezes.

O “Cálice de Buda”, segundo as lendas transhimalaias, era milagroso e inesgotável: um verdadeiro “Cálice de Vida”.

Recordemos o “Cálice de Aritha” e a luta por sua posse, tal como o relata, de modo tão poético, o Mahabârata:

“Indra apoderou-se do Cálice do Rei dos Nagas (Nagas ou Serpentes: SRINAGAR ou “Homens-Serpentes, Semideuses, Adeptos, Seres Aghartinos”, etc.) e o levou para o Céu.”

Segundo as tradições persas, «quando Jenishid começou a lançar as bases da cidade de Istaker (ou da “deusa Ísis”…), encontrou-se um cálice milagroso, Jina-Jenshid. O cálice era de turquesa e estava cheio do precioso néctar da vida».

As lendas do mosteiro de Solovetz, ao tratarem dos personagens do Antigo Testamento, mencionam o “Cálice do Rei Salomão” (Salém-Omar, Salo-Omar, etc.):

“Grande é o Cálice de Salomão, feito de uma só pedra preciosa. No cálice existem três versos gravados em caracteres sumérios, que ninguém pode explicar”. Com certeza, são os mesmos a que se refere o famoso Livro de Kiu-Té, no capítulo XXXV, que aqui aparecem pela primeira vez ao mundo profano:

“Tantas vezes beberei neste Cálice

Quantas o mundo exigir a minha presença,

Como “Espírito de Luz e de Justiça”…”

Por mais veladas que sejam tais palavras, são claríssimas para os que já possuem a mente iluminada. Queira o leitor dedicar-se a meditar sobre elas… e grandes coisas acabará descobrindo.

No referido Livro, só conhecido dos Adeptos, também existe uma outra passagem, onde se compara “o Cálice com a Balança”, embora mais longa que o primeiro versículo:

“Dois pesos desiguais para duas medidas iguais…

Assim está separado o meu corpo

Nas conchas da Balança,

Até que as mesmas se fundam

Naquele Cálice onde tenho bebido

Do Sangue que é mais Dele do que Meu!

Até lá, outros O sorverão por Mim!”

Muito mais difícil que o primeiro para ser desvendado, no entanto, daremos aqui uma pequena insinuação:

Balança não é o signo de Vénus? E não se fala num “Cálice ou Taça de Shukra”, na razão do mesmo planeta, pois que o de Shoma é representado pela Lua? Fica o restante para ser descoberto pelo leitor…

Os muçulmanos de Khandakhar, possuem também o seu “Cálice Sagrado”:

Em Kharran, também há um Cálice, denominado Faq-faga. Desse “Cálice” bebem aqueles que tomam parte nos Grandes Mistérios. No sétimo dia, anunciam:

“Ó Mestre! O Maravilhoso tem que se manifestar!”

Nas cerimónias da Vedanta, do Budismo e do Mazdeísmo, utiliza-se sempre o sagrado símbolo do “Cálice de Vida”.

Jataka conta a origem do “Cálice de Buda”:

“[…] Então, das quatro Terras vieram os quatro Custódios do Mundo e ofereceram 4 cálices de safira. Porém, Buda os repeliu. Voltaram a oferecer 4 cálices de pedra negra (muggavana) e Ele, movido de compaixão pelos 4 Génios, os aceitou.

“Colocou um dentro do outro, e ordenou:

“Que se tornem Um só!

“E as bordas dos 4 cálices se tornaram visíveis como desenhos. E todos os 4 cálices se fizeram Um.

“O Buda aceitou alimento no Cálice recém-formado e havendo provado do que nele se continha, rendeu graças.”

O Lalita Vistara, descrevendo os Sacramentos do “Cálice de Buda”, atribui ao Bem-Aventurado este significativo discurso, dirigido aos “4 Reis” que trouxeram os cálices:

“Tributa respeito a Buda em nome do Cálice, e este será para ti como um Vaso de Sabedoria (“Vaso, também, de Eleição”. O mesmo “Vas insignis devotionis”, de que a Igreja se apropriou).

“Se ofereceres o Cálice aos teus iguais, não permanecerás nem em memória, nem em juízo.

“Mas, quem oferecer o Cálice ao Buda, não será esquecido, nem em memória, nem em Sabedoria.

“Esse Cálice, Arca de Vida (“Arca de Aliança”…), Cálice de Salvação, de novo há-de ser descoberto…”

Assim dizem as lendas tibetanas. Resta aos Iniciados nos Grandes Mistérios a decifração de tão misteriosas palavras. Lembramos, apenas, “as 4 Jerarquias em actividade na Terra”… que um dia se farão Uma só, como o Cálice de Buda… o resto é fácil descobrir, na razão da “letra que mata para o espírito que vivifica”… principalmente no que diz respeito à “pedra negra da segunda oferta dos 4 cálices” que o Buda, movido de compaixão, aceitou.

Quem versado for nas tradições esotéricas do Tibete, lembrar-se-á da “pedra negra” enviada pelo “Rei do Mundo” ao Dalai-Lama, a qual foi depois transportada a Urga (ou Takura), capital da Mongólia, ao Buda-Vivo. E assim, também com as tradições das várias “pedras negras”, desde aquela que era símbolo de Cibele até há que foi engastada na Kaaba de Meca. Outrossim, que “o Buda-Vivo possuía o anel de Gengis-Khan, sobre o qual se achava gravada uma Svástika (não confundir com a Sovástika nazista, considerada “símbolo nefasto” por Jainos e Budistas) e uma placa de cobre” (metal de Vénus…).

Paremos, entretanto, aqui tão longa anotação, para… não fatigar o querido leitor.

[13] O nome Melquisedec, ou antes, Melki-Tsedek, como já dissemos, refere-se ao mesmo “Rei do Mundo”, embora designado dessa maneira na tradição judaico-cristã.

 O sacrifício de Melquisedec (o pão e o vinho, etc.) deve ser olhado como “uma prefiguração da Eucaristia”. E o próprio sacerdócio cristão se aplica, em princípio, ao de Melquisedec, segundo a aplicação das seguintes palavras do Psalmo feitas ao Cristo: “TU ES SACERDOS IN AETERNUM SECUNDUM ORDINEM MELCHISEDECH” (Ps. CIX, 4).

A tradição judaico-cristã distingue 2 sacerdócios: um, “segundo a Ordem de Aarão”; outro, “segundo a de Melquisedec”. E este, superior àquele, como o próprio Melquisedec o é a Abrahão, do qual nasceu a tribo de Levi e, por conseguinte, a família de Aarão. Não diz o Grande Iluminado, que foi S. Paulo, “o mesmo Levi que recebe o dízimo (sobre o povo de Israel) pagou, por assim dizer, por Abrahão”?

Saint Bernard, por sua vez, diz que «o Pontífice, como indica a etimologia, é uma espécie de ponte entre Deus e o Homem» (Tractatus de Moribus et Officio Episcoparum, III). Há na Índia um termo que é próprio aos Jainos, equivalente ao Pontífice latino: é a palavra Tirtânkara, literalmente, “aquele que fez um VAU ou passagem”. A referida “passagem”, é a de Moksha ou “Libertação”, Redenção, Salvação, etc. Os Tirtânkaras são em número de 24, como os “Velhos” do Apocalipse, que de certo modo constituem um outro Colégio. Estão na mesma razão os Maha-Choans, na Índia, para os Ptahmers (sacerdotes do Deus Ptah, o “3.º Aspecto da Trindade”), no Egipto.

As duas chaves, de oiro e prata, usadas pelo Brahmatma indiano, e pela Igreja depois copiadas para as do “Santo Papa”, além de outros sentidos, possuem os das duas referidas Iniciações, empregando a terminologia hindu: a dos Brahmanes (ou Sacerdotes, Jinas) e a dos Kshatriyas (ou Guerreiros). Porém, no vértice ou cume (donde o termo Cumara), se acha a Fonte de toda a autoridade legítima, em qualquer domínio que ela se exerça. Por isso que os “Iniciados de Agharta” têm o nome de Ativarnas, isto é, “além das castas” (Jerarquia, portanto, superior às que se conhecem na Terra).

Semelhante Trindade hierárquica já foi apontada anteriormente, na razão do Buda-Vivo da Mongólia, representando até ao ano de 1924 o próprio “Rei do Mundo”, Melquisedec, etc., tendo por Colunas ou Ministros, o Dalai-Lama e o Trachi-Lama. Os dois Poderes em separado (o Temporal e o Espiritual), e os dois juntos, no centro. “Três Trombetas para uma Boca só”, como rezam as tradições mais secretas.

Outro sentido não possuem, além de mais seis segundo as sete chaves interpretativas da Mercabah, os “Três Reis Magos” da Bíblia, pois que, Mahinga (nome de um dos referidos Ministros do “Rei do Mundo”) oferece ao Cristo o oiro e a Salvação, como Rei; o Mahima (o outro Ministro do mesmo Ser) oferece-lhe o incenso e a Salvação, como Sacerdote; o Brahmatma, enfim, oferece-lhe a mirra (perfume de Vénus), o bálsamo da incorruptibilidade, imagem da Amrita dos hindus e da “Ambrósia” dos gregos, o Soma védico, o Haoma mazdeísta, notando, ao mesmo tempo, que em hebreu os termos “iain”, vinho, e “sod”, mistério, se encontram nas várias tradições do vinho, do licor sagrado, etc. A Salvação oferecida pelo Brahmatma ou Mestre Espiritual (o Grão-Mestre entre as duas Colunas do Templo de Salomão, ou Jakin e Bohaz), ele o faz como Profeta, Oráculo do deus-Pithio (ou Pythocrestos). Essa Trindade, ao mesmo tempo Real e Sacerdotal, como se conhece, recebeu os nomes (na Bíblia): Gaspar, Melchior e Baltazar, embora que somente o de Melki-or possua, de facto, um sentido iniciático, pois que, em hebreu, que dizer “Rei de Luz”. Os outros dois, correm por conta da Igreja…

Do mesmo modo que as duas referidas “chaves” que se procurou arrancar das mãos do Brahmatma para as de S. Pedro, tinham o mesmo significado das duas referidas Iniciações, além de representarem os Grandes e os Pequenos Mistérios. Os mesmos termos Maha-Yana e Hina-Yana, que são dados às duas Escolas do Budismo (do Norte e do Sul) – como Grande e Pequena Barcas – não representam, também, os Grandes e Pequenos Mistérios? Mas logo aparece a “Barca de S. Pedro”, arranjada com as tábuas das duas… e também com as de “Osíris”, no velho Egipto, para se meter no caminho…

Havia na Idade Média uma expressão muito interessante para definir o “Reino de Agharta”, o Governo Espiritual do Mundo, etc., a qual não teve, até hoje, a devida interpretação. Referimo-nos à do “Reino do Pai João”, que era o termo que se poderia consignar como a “cobertura exterior” (chamemos de “escudo defensivo de algo que fica oculto por trás ou que não deve aparecer”, etc.) do culto em questão, formado, em boa parte, pelos Nestorianos e os Sabeus. E principalmente este últimos, que davam a si mesmos o nome de Mendayeh de Yahia, ou “discípulos de João”. No Oriente, vemos do mesmo modo os Ismaelitas ou “discípulos do Velho da Montanha”, os Drusos do Líbano, “defensores da Terra Santa”, mas que a criminosa corrupção de certos escritores que vendem a sua pena a quem melhor lhes paga, ousa descarregar sobre um Ser de tão elevada Hierarquia toda a baba peçonhenta da sua maldade e ignorância…

Inútil dizer que o tradicional “Velho da Montanha” (no Líbano), estreitamente ligado ao Governo Espiritual do Mundo, famoso no tempo das Cruzadas, foi iniciador de Hugues de Payens e de Godofredo de Saint-Omer, fundadores, como é sabido, da Ordem dos Templários, que chegou quase a ser senhora do mundo medieval cristão, até ao momento da sua ruidosa queda; queda essa tão dramática como a foi a dos pitagóricos de outrora e, por sua vez, a dos jesuítas ao finalizar do século XVIII.

No Ocidente, todas essas Ordens de Cavalaria, quer militares, quer religiosas, não se fizeram “Guardiãs da Terra Santa”?

Para que ninguém se admire da expressão “cobertura exterior”, empregada nas velhas escrituras, em relação com a parte exotérica ou profana dos “Centros Iniciáticos”, apontamos um termo, muito bem aplicado, de que fez uso Saint-Yves d’Alveydre, em uma das suas obras, ao falar nos “Templários de Agharta”. Sim, porque todas as Iniciações, cavaleirescas ou não, têm por origem a referida Região Aghartina, de que tanto nos ocupámos em vários dos nossos estudos. Donde, por exemplo, falarmos nos “22 Templos (donde Templários) dos Trachi-Marus (ou Tachu-Marus)”. Por isso mesmo, forças “exteriores”, se bem que “inferiores” por viverem no seio da Terra, em defesa de uma Obra da mais elevada Espiritualidade. O mesmo termo Maruth ou Marutha, em sânscrito, quer dizer “força”. E o Maru japonês, equivalente a “vapor”, dá a ideia, ainda, desse termo tão antigo quão precioso, isto é, Tachu-Maru… Equivale, ainda, a certa Ordem Secreta – dentre as 3 denominadas de Dragões: o de Oiro ou Amarelo, o de Prata ou Azul e o de Ferro ou Vermelho. Existem aí outros Dragões que, a bem dizer, por sua vez já são outras “coberturas exteriores” para os que acabamos de apontar.

“Pai João, Joam, Jim ou Jina”, outro não é, senão, o “Mundo Jina” ou aquela Região antes referida com o nome de “Agharta”, se inúmeros são os nomes que A definem nas diversas tradições ainda existentes na face da Terra.

Em certas representações de Janus (Johanus, Jinas, etc.) não são, também, os dois referidos Poderes simbolizados por “uma chave e um ceptro”? O Poder Temporal e o Poder Espiritual. Do mesmo modo, no Tarot, o Imperador e o Papa, com os aspectos femininos: a Imperatriz e a Papisa.

Volvendo ao termo “Pai João”, procede ele, mais ou menos… da época de S. Luís, nas viagens de Carpino e de Rubruquis. O que mais complica o assunto, é que, segundo alguns, teriam havido “4 personagens portadoras do título”, na razão, dizemos nós, dos 4 referidos Arcanos do Tarot, de que falámos anteriormente, das 4 Jerarquias em função na Terra e de outras coisas mais, que não vêm ao caso apontar. Encontravam-se elas: no Tibete (ou melhor, no PAMIR…) na Mongólia, na Índia e na Etiópia; preferimos, entretanto, apontar para essa última o Egipto… Questão apenas de «opinião». Também poderiam ser 4 representantes do mesmo Poder, mas, em verdade, “um aspecto masculino no Egipto para um feminino na Índia”, tendo por Formas Laterais, Colunas Vivas ou Ministros, o aspecto masculino na Mongólia e o feminino… em Palmira, se o quiserem… uma Rainha que, por se ter afastado um pouco das suas funções, faltou-lhe o “Verbo Divino”… Outro assunto que não pode ser discutido, embora o conheçam os membros mais avançados do nosso Colégio Iniciático.

Dizem, também, que Gengis-Khan “quis atacar o Reino do Pai João”, porém – o que é muito natural por ser o interior da Terra “Lugar das Forças Cósmicas ou Laboratório do Espírito Santo”, como o indicam as escrituras teosóficas – aquele o repeliu despedindo raios contra os seus exércitos. E como Gengis-Khan ao lado de Tamerlão e Átila, mesmo que em épocas diferentes, representassem uma Trindade caótica ou maldita para a Divina, Excelsa, que agora os leitores já A conhecem – também soará a Hora em que o “Reino do Pai João” se manifestará, justamente, quando “tiver terminado tão trágica maneira de se “separar o bom trigo do joio”, isto é, a semente seleccionada para o Novo Ciclo portador de melhores dias para o Mundo, da semente apodrecida, que não poderia germinar e produzir bons frutos em terreno por demais cansado…

A referida Região do “Pai João” não é a mesma do “Preste João”, o grande viajante por terras misteriosas. Mesmo assim, também se acha ligada à Terra Sagrada, a Agharta, ou seja a AVALON da lenda do Rei Artus e os Doze Cavaleiros da Távola Redonda, podendo-se desdobrar tal nome em AVA (avô, antepassado, etc.) e LON, Lohan, Choan, etc., na mesma razão de Elohim, que, como se sabe, são os mesmos Dhyan-Choans das escrituras sagradas do Oriente, e no Cristianismo, os Arcanjos, etc. Assim, Avalon, por exemplo, é “a Terra Sagrada dos Deuses, dos nossos Antepassados, dos Jinas ou Génios, Choans”, etc., pois que o mesmo termo Lohengrin (Lohan-grin ou Jin) não possui outro significado.

E para terminar, o mesmo termo “Preste” pode ser uma corruptela de Pitri, Pai, Padre, Pêtre (francês) ou Presbítero, nome este com que a lenda nos diz ter sido designado pelo próprio Papa o fabuloso personagem que se dizia imperador duma vaga região no Oriente.

Posto isto, encerramos fazendo votos que a Paz volte a reinar na face da Terra, em nome do Amor, da Verdade e da Justiça!

D. Sancho I e os Cátaros occitanos – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Set 1 2016 

15.8.2016

O reinado de D. Sancho I, sucessor de D. Afonso Henriques seu pai, ficou marcado por polémicas acesas com a Santa Sé, incluindo a acusação de vizinhança a crenças hereges, ele com comportamento herege que levaria à sua excomunhão. Diz-se mesmo que terá dado guarida em Portugal à heresia cátara através da nobreza de Aragão a que estava ligado familiarmente. Se assim foi como defendem hoje alguns com erudito e engenhoso argumentário[1], abrindo janela de oportunidades a especulações dos variados géneros da ambiência própria do “realismo fantástico”, então obrigatoriamente ter-se-á de rever a tanto a história político-social como a religiosa dos primeiros tempos da Monarquia e da Igreja no País de tenra idade ainda.

Para poder enquadrar essa possibilidade extraordinária de relação D. Sancho I – Cátaros, indo aos prós e aos contras segundo a documentação disponível coeva dessa época, antes de tudo o mais devo fazer uma breve resenha do que foi o catarismo e por que motivo a ortodoxia eclesiástica romana se lhe opôs de forma tão violenta e sangrenta. Recuo, pois, a esse período pouco estudado da História Medieval europeia.

Desde cedo a Igreja entrou em colisão doutrinária consigo mesma, criando-se dois partidos que, verdade seja dita, nunca se reconciliaram efectivamente: o pró-judaico e o pró-grego, este assumido por Paulo e aquele por Pedro. Isso deu aso ao surgimento de heresiarcas contestadores de que Jesus tivesse realmente existido como homem ou figura histórica e até mesmo pondo em dúvida que Jehovah fosse o Deus de Israel, e se o fosse então os judeus estariam prestando culto ao “Príncipe do Mal” que subsistia do espírito de vingança e guerra dos seus filhos. Isso era justificado pelo que o próprio Isaías deixara escrito na Escritura Velha. Foi assim que apareceu o controverso Marcião de Sinope, um dos muitos heresiarcas do Cristianismo dos primeiros tempos, saído do chamado “gnosticismo pagão ou naturalista”, simpatizante parcial da corrente paulista pró-grega oposta da judaica a que se opunha, o qual, como muitos outros, acabou por ser expulso da Igreja e ir fundar a sua filosofia apocalíptica e política própria, o Marcionismo. Este, o Priscilianismo, o Arianismo de Ário, etc., contribuíram para a cisão eclesiástica no século IX com a criação da Igreja pró-grega (bizantina) e a Igreja pró-romana (de herança judaica)[2]. A citação de Isaías 45:7 (“Eu o que formo a luz, e crio as trevas, o que faço a paz, e crio o mal; eu sou o Senhor que faço todas estas coisas”), é a afirmação da Divindade Única como Todo presente em todas as acções humanas, boas ou más, sendo que o livre-arbítrio cabe ao Homem, mas a Justiça a Deus como Consciência Absoluta assistindo a um e todos. A ad littera sem a exegética interpretativa só poderá resvalar para o equívoco ignorando a parábola – para-bola – e metáfora do texto sagrado, que vem a reunir em um só os vários deuses cultuados na então religião animista das tribos semitas. O mesmo processo seguiu Mahometh no Alcorão.

É no ambiente heresiarca contestatório que nem o Concílio de Nicéia (século IV), onde foram estabelecidos os princípios da teologia oficial da Igreja, sossegou, que Paulo de Samósata, bispo de Antioquia no século III, fundou o movimento Pauliciano desde logo acusado de gnóstico e próximo do Maniqueísmo de Maniqueu, filósofo cristão coevo desse bispo. Seita adopcionista ou monarquianista, enfatizava a Unidade Absoluta de Deus entrando em conflito aberta com a doutrina da Trindade, sendo os modelos propostos pelo monarquianismo rejeitados como heréticos pela Igreja[3]. Todavia, os paulicianos sobreviveram e floresceram entre os anos 650 e 872 na Arménia e nas partes orientais do Império Bizantino, sobretudo na Anatólia e nos Balcãs, dizendo-se descenderem em linha directa dos Apóstolos e terem o seu início no primeiro século depois de Cristo, contudo faltando os registos comprovatórios de tal afirmação que mais parece “lenda de fundação”. Em 668 começaram a ser perseguidos sendo o seu líder Constantino apedrejado até à morte, e o sucessor desse queimado vivo. Durante o século VIII receberam protecção esporádica de Leão III, o Isáurio, nos Balcãs ocidentais, e também do seu filho Leão III. Mas logo a imperatriz Teodósia de Bizâncio, no século IX, moveu-lhes perseguição tenaz provocando a morte de 100.000 paulicianos[4]. Com isso, eles dispersaram-se pelos Balcãs indo originar novo movimento, o dos bogomilos.

O Bogolimismo, movimento gnóstico e maniqueísta descendente do Pauliciano, foi fundado pelo padre Bogomilo no século X, durante o reinado de Pedro I da Bulgária. Os bogomilos são referidos como babuni em diversos documentos, nome originado de topónimos macedónios (Rio Babuna, Montanha Baguna, Aldeia Bogomila, etc.), em cuja região o movimento foi muito activo[5]. Também conhecido como de “amigos de Deus”, ele surgiu como uma resposta à estratificação social ocorrida como resultado da introdução do Feudalismo e como forma acção política opositora ao Estado búlgaro e a Igreja. Os bogomilos eram sobretudo dualistas adeptos do conceito maniqueísta: o Deus Criador do Espírito diferenciava-se claramente do Deus Criador da Matéria. Tal como os paulicianos, pregavam a igualdade social e acusavam abertamente o afastamento da Igreja e da Nobreza das classes mais desfavorecidas. Na Itália, sobretudo em Milão, no século XI os religiosos pobres aderiram a esse movimento reformista vindo a ser conhecidos pelo nome da rua milanesa mais frequentada por eles, Pataria, donde o seu apodo patarini ou patarinos, “andrajosos”[6]. Enfim, o Bogolimismo difundiu-se em toda a região dos Balcãs chegando até à fronteira com Bizâncio, vindo a ser fortemente perseguido pelos soberanos búlgaros e pelos imperadores bizantinos, e a despeito da repressão tenaz das autoridades católicas espalhou-se por toda a Europa Central e Ocidental, antes de desaparecer e reaparecer sob a forma de Catarismo.

O Catarismo (do grego katharós, καϑαρός, “puro”) entre os anos 1100 e 1200 estabeleceu-se e dominou o pensamento espiritual da Europa Ocidental e do Sul, sendo que no sul de França foi onde teve maior impacto e domínio sobretudo na Occitânia, a qual compreende as regiões históricas da Provença, o Limusino, o Auvérnia, a Gasconha, o Languedoque e o Delfinado na França. Ao diassistema linguístico-cultural do occitano também estão incluídos alguns vales alpinos na Itália e o Vale de Aran, na Catalunha, vizinha de Aragão. A Occitânia é até hoje uma nação sem Estado da Europa, sobretudo desde a Cruzada contra os Cátaros que os exterminou como movimento religioso contestatário do absolutismo papal. Papel menor mas não menos significativo teve o movimento fundador por Pedro Valdo, em 1173, o dos Valdenses, também conhecidos como “Pobres de Lyon” que se espalharam pelo Sul da França e ela Lombardia, acusando a corrupção da Igreja vendida a César, na pessoa do imperador Constantino, desde que o Papa Silvestre adquirira a primeira possessão temporal para o eclesiástico. Apesar de fortemente perseguidos na Itália nos séculos XIII e XIV, ainda hoje subsistem algumas comunidades isoladas valdenses nos Alpes.

No espaço occitano, foi na região do Languedoque que o Catarismo ficou e dominou completamente a partir de cidade de Albi, donde também se chamarem albigenses aos cátaros, cuja catedral de Santa Cecília em breve transformou-se num centro dominado pelo pensamento reformista cátaro. Assim também Toulouse e Montpellier, respectivamente capitais alta e baixa do Languedoque ou Languedoc, referindo-se à língua vernácula da região, a langue d´oc, em oposição à vernácula do Norte, a langue d´oil.

Os cátaros adoptaram por símbolo a cruz occitana desde logo assinalando um estado de independência político-geográfica e moral-religiosa apartados da ortodoxia político-religiosa romana, o que agradou à nobreza occitana desejosa de um Estado independente, possivelmente sendo o principal motivo da protecção política e militar que dispensou aos cátaros desde a primeira hora, convertendo-se mesmo à sua religião caracterizada por uma visão peculiar de docetismo cristológico, segundo a qual Jesus Cristo só viveu na Terra como imagem aparente, ilusória, assim não aceitando a sua compreensão trinitária católica, assumindo que o seu corpo real era invisível aos olhos carnais por ser imagem de um Anjo. A maior parte dos católicos actuais que não acreditam que Cristo se manifeste com vestes tecidas no Céu e com sandálias fabricadas pelos Anjos, são docetistas sem o saberem[7].

No Catarismo revelava-se a primitiva polémica pró-judaica e pró-grega que tomaria forma maniqueísta irreversível, opondo o Deus “bom” do Novo Testamento, criador do Reino Espiritual, ao Deus “mau” do Antigo Testamento, criador do Mundo Físico, que identificavam como Satanás. Para os cátaros, toda a matéria visível foi criada por Satanás, sendo contaminada pelo pecado que incluía o corpo físico. Este conceito oponha-se ao monoteísmo da Igreja Católica que considera haver um só Deus criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Os cátaros também consideravam as almas humanas serem almas sem sexo de anjos aprisionados dentro da criação física de Satanás obrigadas à reencarnação, mas que podiam alcançar a libertação ou salvação através do ritual chamado Consolamento (Consolamentum), ministrado de forma muito simples consistindo na imposição das mãos, na leitura do Evangelho de São João (onde é revelado que “o Consolador manifestou-se em forma de Pomba soprando o Espírito Santo ao Homem Bom Jesus Cristo”, motivo da Pomba ter sido símbolo do Consolamento cátaro) e consequente imposição do Livro sobre a cabeça do crente, terminando com a oração dominical do Senhor, o Pater Nostrum. A ministração deste sacramento convertia o simpatizante ou crente, o “bom homem” ou “boa dona”, em “bom cristão”, mas isso só depois de ter realizado o “melhoramento” que consistia na prática moral do exigido na rigorosa catequese cátara, assim extirpando o pecado carnal e alcançando a perfeição. Perfeitos eram os ministros da Igreja cátara, com hierarquia própria dividida em filhos maiores e filhos menores: os bispos eram assistidos pelos “filhos maiores”, candidatos ao bispado, e os diáconos eram os “filhos menores”, assumindo tarefas semelhantes às do clero paroquial. Viajavam em missão pastoral sempre aos pares como clerici vagantes. A hierarquia cátara incluía o sexo feminino no ministério, sendo escolhida a mulher mais velha e de bom juízo, a anciã, para o cargo em cada “igreja paroquial” cátara, dando como exemplo Maria Madalena que foi a primeira a ser reabilitada de Satanás por Jesus Cristo. Daí o ênfase cátaro dispensado à pessoa magdálica, expressiva da libertação psicossocial da Mulher em plena Idade Média, o que já se fazia sentir um pouco por toda a parte mas sobretudo no Catarismo, aliás, considerando aberrante o casamento como obrigação perpétua, sem direito a divórcio, assim como a repressão sexual e o obrigar a estados celibatários os que não possuíam tais inclinações, e mesmo possuindo uma hierarquia ela era “livre”, quase se poderia dizer em termos actuais “democrática e socialista”, mas o mais certo seria chamá-la de “proto-protestante” revindicando a comunicação directa com o Divino ao alcance de qualquer um(a) sem dogmas nem mistérios, no que destoava completamente da tradicional eclesiástica católica, a começar por negar todos os sacramentos católicos desde logo o da Eucaristia (recusando a mais-valia sacerdotal da Taça Eucarística, endossada miraculosa familiar ou mesmo a mesma sob o aspecto cavaleiresco do Santo Graal, o Kratter provençal) assim como o Batismo, tal como a descrença tanto no Purgatório como na ressurreição dos mortos no Dia do Juízo Final, além de condenarem a usura e defenderem o direito de propriedade. A endura, “privação”, como espécie de suicídio místico também não era condenável para os cátaros: geralmente consistia em deixar-se morrer de inanição ou, mais raramente, de frio. Se bem que nunca fosse estimulada nem imposta pelos Perfeitos, também não era recusada, sobretudo quando a Inquisição tornou a vida impossível aos cátaros no condado de Foix. Mas isso era o contrário da posição da doutrina católica sobre o suicídio. Tudo motivos mais que suficientes para o agrado geral da Occitânia, sobretudo da sua aristocracia local, e desagrado total da Igreja Católica, vendo estar perdendo a sua cristianíssima filha, a “França fidelíssima”, apesar de cátaros e católicos conviverem em paz e até aqueles frequentarem os templos destes, mesmo não comungando sem parte activa na missa, assim respeitando a assembleia (ecclesia) mas demonstrando participarem de diferente daquela.

Sobre os supostos textos sagrados cátaros, a sua catequese apresentava-se além de no Novo Testamento nos textos maniqueístas O Evangelho da Ceia Secreta ou o Interrogatório de João, e O Livro dos dois Princípios[8].

Inicia-se cruzada pastoral, ou seja, o envio à Occitânia de vários delegados papais a fim de demover e remover a heresia cátara pelo esgrimir de argumentos teológicos, o que redundou em fracasso total[9]. Já desde 1119, no Concílio de Toulouse, que o Catarismo fora notado pelo seu desenvolvimento crescente e condenado oficialmente. Isto por na realidade ser uma religião dotada de doutrina, organização e princípios próprios, em muitos aspectos radicalmente diferentes da Igreja Católica Romana. Se, de facto, a palavra grega hairesis significa “escolher”, herege será o que “escolhe” para si alternativas distintas daquelas estabelecidas e declaradas pela religião oficial romana[10], que na época era igualmente dominadora absoluta dos estados, reinos e feudos europeus.

Inocêncio II, que pontificou de 1130 a 1143, designou seu legado no Midi o bispo de Óstia, o cluniense Henri Albéric, para combater a heresia com as armas da doutrina, mas era tarefa superior às capacidades físicas e mentais do bispo. Então, pediu a ajuda de Geoffroy, bispo de Chartres, e do próprio abade Bernardo de Claraval. Entretanto, Inocêncio II morre e em 1145 Eugénio III sobe ao sólio papal (pontificando de 1145 a 1153), ano em que Bernardo de Claraval aparece no Languedoque e confronta o bispo cátaro Henrique de Lausanne, assim como exorta Alfonso Jourdain, conde de Toulouse, a colaborar com a Igreja Católica na extirpação dos erros. Contudo, não deixou de reconhecer virtuosismo cristão nas ideias e práticas cátaras, admoestando no seu Sermão 64: “Sejam os hereges conquistados não pelas armas, mas pelos argumentos”. Adiantando no Sermão 65 sobre o Cânticos dos Cânticos: “Se questionar a heresia sobre a sua fé, nada é mais cristã; se sobre a sua conversão diária, nada é mais inocente, e o que ela diz ela provará por suas acções… No que diz respeito à sua vida e conduta, ela não engana a ninguém, não se sobrepõe a ninguém, não pratica violência com ninguém. As suas faces são pálidas de jejum, ela não come o pão da preguiça, ela trabalha com as suas mãos, e assim faz a sua vida. As mulheres deixam os seus maridos, os homens deixam as suas mulheres, e todos eles emigram para a heresia. Clérigos e padres, jovens e adultos entre eles, estão deixando as suas congregações e são encontrados na companhia de tecelões (cátaros) de ambos os sexos.”[11]

A opinião de Bernardo de Claraval, futuro santo da Igreja, terá tido repercussão na Ordem do Templo de que era inspirador e mentor perpétuo desde que entre 1128 e 1129 redigira o Louvor e a Regra da mesma (De Laude Novae Militiae ad Milites Templi), primeiro em latim e depois transcritos para o francês do Norte, a langue d´oil. Certamente por esse motivo, os monges-cavaleiros templários não participaram em nenhum acção bélica contra os cátaros e mantiveram postura de neutralidade ao longo de todo o processo, facto que ultimamente tem dado aso a inúmeras elucubrações fantásticas, de engenhosidade mais ou menos esotericista, mas que poderá explicar-se pelo simples dos seus estatutos no tocante à vocação militar interditar guerra a cristãos e somente ao árabe infiel, fosse na Europa ou no Ultramar. Eram Milites do Pelágio, Bellatores do Chark e do Gharb na Península Ibérica, protegiam cristãos, fosse qual fosse a sua índole, não os perseguiam nem matavam. Razão de possivelmente terem dado guarida, em nome da caridade cristã, a alguns pobres cátaros perseguidos no Languedoque, sem por isso deixarem de ser católicos romanos e Milícia de Roma. A pressuposta inter-relação teológica e cultural cátaros – templários não parece ter implicado em espécie alguma de conversão desses últimos, tampouco dos primeiros. Poderá vir daí a posterior acusação dos templários serem maus cristãos e sonegarem palavras sacramentais na santa missa e até mesmo não celebrarem a eucaristia, acusação tão infundada que não sobreviveu às primeiras alegações no Processo contra o Templo, tendo caído por terra e esquecida de imediato[12].

As palavras prudentes, de diplomática tolerância, de Bernardo de Clavaral, parecem não ter tido repercussão prática, as posições extremaram-se ainda mais: em 1178 Henri de Marcy, legado papal, qualificou as povoações de implantação cátara de sedes Satanae, “sedes de Satanás”, e por sua vez os cátaros, definindo-se a si próprios como a Gleisa de Bons Homes et Bons Cristians, ou simplesmente Gleisa de Dio, Igreja de Deus, respondiam pela voz do Perfeito Peire Authié: “Realmente há duas Igrejas: uma Igreja que persegue, condena e mata, e outra Igreja que foge, perdoa e morre. Digam em qual acreditam que seja a Igreja de Deus”[13].

O objectivo da cruzada pastoral (onde chegou a intervir Fernando de Bulhões, o nosso St.º António de Lisboa e Pádua, investido na missão pelo próprio S. Francisco de Assis em 1221, indo pregar debalde no Sul de França pela conversão dos albigenses e patarinos[14], donde nasceria a célebre lenda da “pregação aos peixes”) era levar os cátaros a abjurarem dos seus erros e reconciliarem-se com a Igreja. Foi com essa intenção que em 1203 uma missão de monges letrados cistercienses, chefiados pelo próprio abade de Cister, Arnaldo Amauri, acompanhou o legado papal Pedro de Castelnau a fim de pressionar o conde de Toulouse, Raimundo VI, a extirpar a “pestilência herética” disseminada nas suas terras, e ao mesmo tempo converter as populações simpáticas a ela. No ano seguinte (1204), dois importantes religiosos espanhóis, Diego, bispo de Osma, e Domingos de Gusmão, vice-prior do capítulo de Osma, juntaram-se aos demais na missão de converter as “almas desgarradas” do condado de Toulouse. Domingos, posteriormente canonizado com S. Domingos, foi o fundador do Convento de Prouille em Toulouse, e da Ordem dos Predicadores, mais conhecida com Ordem dos Dominicanos. Foi ele o primeiro a propor que na luta contra os hereges a conversão se fizesse não apenas pelas palavras mas também pelo exemplo[15]. Com efeito, foram os dominicanos a iniciar as inquisições episcopais os quais tiveram actuação importantíssima durante todo o período no conflito armado no Languedoque, tendo criado a Inquisição com tribunais destinados a inquirir e julgar os cátaros detidos. Empós os interrogatórios onde a tortura desumana era praticamente “obrigatória”, levantaram-se os autos-de-fé e as fogueiras com os condenados ao lume eterno enrubesceram o chão occitano no holocausto que se seguiu[16].

Com efeito, a cruzada pastoral fracassada em breve transforma-se em cruzada bélica. Os acontecimentos precipitam-se. Dá-se o casus belli. No dia 15 de Janeiro de 1208, o legado papal Pierre de Castelnau, cisterciense famoso pela suas incontidas vociferações ofensivas dos cátaros e dos condes da Occitânia, ao regressar de uma reunião em Saint-Gilles, quando se dispunha a atravessar o Rio Ródano, foi assassinado. As culpas caíram sobre o conde Raimundo VI de Toulouse, e debalde este protestou a sua inocência[17]. Mas esse foi pretexto bem-vindo para o Papa Inocêncio III – pontificando desde 8.1.1198 a 16.7.1216 – convocar a Cruzada Albigense, que aliás vinha preparando desde anos antes. Convoca os barões de França para a “cruzada baronial”, mas o êxito da chamada foi muito relativo; então, convoca o rei Filipe Augusto de França, mas este andava em guerra com a Inglaterra e não se mostrava disposto a iniciar nova guerra no seu próprio país.

Para obter êxito nos seus intentos de conseguir uma “cruzada real” com o envolvimento de Filipe Augusto, reunindo poderoso exército recrutado não só em França mas um pouco por toda a Europa católica, o Papa declarou livre e ofereceu à turba armada, com isenção pontifícia de pecado assim transformando mercenários em cruzados, o saque e a matança dos cátaros e dos seus protectores, os condes occitanos[18]. Com efeito, em 9 de Março de 1208 o Sumo Pontífice dirigiu uma carta a todos os bispos do Languedoque e a todos os condes, barões e senhores feudais do reino de França, onde a dado trecho diz: “Despojai os hereges das suas terras. A fé desapareceu, a paz morreu, a peste herética e a cólera guerreira tomaram novo alento. Prometo-vos a remissão dos vossos pecados se puserdes fim a tão grandes perigos. Ponde todo o vosso empenho em destruir a heresia por todos os meios que Deus vos inspirará. Com mais firmeza ainda que com os sarracenos, pois são mais perigosos, combatei os hereges com mão dura”[19]. Já antes o Papa Gregório VII (pontificando de 1073 a 1085) havia declarado que “a matança de hereges não é crime”, porque “a heresia é um golpe no rosto de Deus, e é dever de cada católico exterminar os hereges”. Maneira singular de assegurar a continuidade do domínio temporal absoluto da Igreja.

A campanha começa no dia 22 de Julho de 1209, dia da festa de Santa Maria Madalena, com o cerco da cidade de Béziers por um contingente de cavaleiros armados vindos do Norte de França, da Bélgica, da Alemanha e da Inglaterra. Fala-se no número prodigioso de vinte mil homens a cavalo e duzentos mil peões. Talvez o número seja exagerado, posto as guerras naquele tempo não envolverem mais de cinco mil combatentes, mas também poderá não ser exagerado à vista do apetecível saque que o, sendo dever de cada cristão próprio Papa oferecia com todas as indulgências pontifícias. O objectivo militar não deixava dúvidas: derrotar os hereges que campeavam nas cidades e fortalezas situadas no viscondado de Béziers e Carcassonne e no condado de Toulouse. Simão de Montfort, à frente do exército cruzado, devastou a cidade de Béziers e exterminou a maioria da população (fala-se em 40.000 vítimas mortais), sem levar em conta a sua filiação religiosa, tendo pronunciado, segundo a Crónica de Cesáreo de Heisterbach, a sinistra frase: “Matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus”! Assim fizeram, nada poupando, tudo arrasando, saqueando e assassinando, fosse católico ou cátaro, como diz um dos testemunhos contemporâneos[20]: “Nada pôde salvá-los, nem cruz, nem altar, nem crucifixo. Os mercenários mataram clérigos, mulheres e crianças; ninguém escapou. Se Deus quiser, receberá as suas almas no Paraíso. Não creio ter havido tal massacre desde o tempo dos sarracenos”.

Mas os condes e barões occitanos não se renderam, pelo contrário, opuseram resistência tenaz, inclusive tendo apelado para os reis e senhores feudais dos países amigos geopoliticamente relacionados ao Languedoque, que nos primórdios do século XIII estava sob o domínio dos seguintes:

O condado de Toulouse, governado por Raimundo VI, dominava a região compreendida entre os vales de Garona, Rouergue e Quercy, a que se acrescentavam as suas posses na Alta Provença.

O condado de Cominges, sob o governo de Bernardo IV, conde de Cominges e de Bigorra, por parte paterna primo do conde de Toulouse e vassalo do mesmo enquanto senhor de Samatan e Muret.

O condado de Foix, cujo titular era Raimundo Roger I, vassalo do conde de Toulouse.

O viscondado de Béarn.

O viscondado de Carcassone, Béziers, Albi e Limoux, cujo senhor feudal era Raimundo Roger Trencavel, sobrinho de Raimundo VI. Possuía o principado que abrangia de Carcassone a Béziers. A família Trencavel era vassala da Corte de Aragão desde 1179, e também vassala do Condado de Toulouse. Esta dinastia feudal Trencavel igualmente mantinha aliança com o viscondado de Minerve.

À Coroa de Aragão, domínio do rei D. Pedro II (1178-1213), prestavam vassalagem os condes de Toulouse. D. Pedro II, rei de Aragão, conde de Barcelona e senhor de Montpellier, morreu na batalha de Muret, em 12 de Setembro de 1213, defendendo os seus vassalos occitanos da agressão dos cruzados. Seria vingado por seu filho Jaime I, o Conquistador (Montpellier, 2.2.1208 – Valência, 27.7.1276), que conseguiu derrotar Simão de Montfort, líder da cruzada albigense e general inimigo das forças aragonesas. Montfort prosseguiu a campanha albigense e acabou morto quando cercava Toulouse, em 25 de Junho de 1218, pelas forças de Raimundo VII (1197-1249). Como nota curiosa, a educação de Jaime I na sua menoridade esteve a cargo da Ordem dos Templários, no castelo de Monzón, sendo então o regente de Aragão o conde Sancho Raimundes, filho de Raimundo Berengário IV de Barcelona e tio-avô de Jaime. Essa Ordem religiosa e militar, por todos os seus reconhecidos predicados morais e castrenses, era a preferida das cortes peninsulares e sul europeias para educar os príncipes futuros reis.

O ocaso cátaro dá-se em 16 de Março de 1244, com a tomada do castelo de Montségur e o conseguinte holocausto de duzentos cátaros, cinquenta deles Perfeitos encabeçados por Bertrand Marty, queimados vivos na fogueira, junto à fortaleza no depois chamado camp dels cremats, “campo dos queimados”, e os restantes quatrocentos foram levados para Carcassone onde seriam queimados vivos uns e enforcados outros, para servirem de exemplo à população geral. Em 1255, caiu o derradeiro baluarte cátaro de Quéribus, tendo os situados conseguido escapar. No mesmo ano de 1244, apesar de todos os abusos da Inquisição provocando numerosas revoltas e sublevações urbanas e campesinas, e mesmo contando com o apoio da Coroa inglesa e dos condes de Lusignan, Raimundo VII de Toulouse foi forçado a abdicar da pretensão da Occitânia como Estado independente a favor do Tratado de Meaux-Paris de 1229, apoiado pelo Papa Honório III, onde foi pactuada a integração do território occitano na Coroa francesa. Finalmente, em Fevereiro de 1231, o Papa Gregório IX pela bula Excommunicamus instituiu formalmente a Inquisição, que continuaria a actuar na região occitana durante os três quartéis de século seguintes até “extirpar completamente a heresia”, ditando assim o fim do movimento cátaro.

O Catarismo foi se apagando aos poucos na Occitânia, a ausência de Perfeitos e Perfeitas – alvos da perseguição inquisitorial – terminaria com o movimento mas não com a sua memória perdurando até hoje nas tradições e costumes occitanos, o que deu aso a uma espécie de ressurgimento neo-cátaro durante o século XX, exportado para várias partes da Europa e até das Américas, mas reconhecidamente estranho ao original medievo tanto na estrutura como na doutrina, apesar de alguns germanófilos terem-no assumido como reacção e contrapeso, mais uma vez, à ordem estabelecida católica[21]. Parece até uma vingança póstuma dos cátaros…

Por outra parte, muitos cátaros procuram refúgio na Catalunha e sobretudo em Aragão, de cujos senhores eram vassalos que prontamente receberam protecção. Entre esses contavam-se vários Perfeitos e Perfeitas. Sem dúvida o seu pensamento terá participado na corte aragonesa e até exercido alguma influência nos ideários religiosos da nobreza local, ainda assim limitadamente por a religião postulada ser a católica romana encabeçada pela Ordem de Cister próxima da Ordem do Templo. Será mais crível o intercâmbio de ideias num meio culto como reconhecidamente foi a corte aragonesa ao longo de várias regências dando origem a “cortes de amor” e ao culto do “amor cortês”, prosado e cantado pelos trovadores occitanos (e depois pelos galaicos e portucalenses que também criaram escola). Uma vez mais, não se encontra conversões de parte a parte, tão-só tolerâncias e conversões com pontos de encontro comuns: a necessidade premente de reforma moral e social da Igreja Católica. A Ordem Franciscana seria a derradeira esperança nesse sentido moral avivando e vivendo a noção evangélica da Pobreza, tal qual o fazia socialmente a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ou seja, a dos Templários.

Dessas duas últimas Ordens, sobretudo da primeira (de quem eram dissidentes os fraticelli, “irmãozinhos”, pregadores da pobreza extrema tanto sua como da Igreja, exigentes do despojamento das riquezas mundanas e da justiça social em que o eclesiástico minguava), andou próxima a princesa Isabel de Aragão que se tornaria rainha de Portugal por desposório com D. Dinis I. Além de princesa e rainha, cobriu-a a fama de santa ainda em vida. A Rainha Santa Isabel nasceu em Saragoça em 4.1.1271 e faleceu em Estremoz em 4.7.1336. Era filha de Pedro III de Aragão e senhor de Barcelona e de Constança de Hohenstaufen II da Sicília. O paço real em Saragoça situava-se próximo da Casa do Templo, e não será de descartar o pressuposto da princesa ter recebido alguma influência teológica templária a par de outras, inclusive corteses, durante a sua infância, sobretudo num ambiente tão esclarecido como era o da corte de seu pai, ele próprio patrono das artes e letras, sendo particularmente favorável à poesia trovadoresca tendo mesmo escrito dois sirventeses, modalidade de poesia satírica provençal[22].

A influência cátara na rainha D. Isabel, católica confessa e franciscana laica (uma rainha, ou um rei, não pode abraçar a religião tornando-se professa ou professo, a não ser que abjure à Coroa e respectivas funções de Estado, o que ela não fez), não terá ido além da cultural que ainda assim marcou o seu pensamento já de si heterodoxo no respeitante à religião onde centrava a sua devoção no Divino, culto que oficializaria em Portugal, na vila de Alenquer próxima de santa Quitéria de Meca (em guisa de proximidade e até união dos dois hemisférios religiosos), através da Ordem Franciscana dos Frades Menores em 1323, como Festejo Popular do Divino Espírito Santo. A sua entrada no país, em 11 de fevereiro de 1282, para casar com D. Dinis, também se faria num lugar já de si hierático como centro judaico sefardita, ou seja, Trancoso, na beira Interior Norte.

Cautelosamente, Maria Máxima Vaz profere sobre o assunto[23]:

“Não houve na Europa um único rei que se tivesse atrevido a defender os cátaros a não ser o rei de Aragão e havia cátaros em vários países, sendo o maior número na França, predominantemente no Sul, na região e cidade de Albi. O maior massacre aconteceu mesmo dentro da catedral, onde se refugiaram. Um monarca que corre o risco de enfrentar o papado, certamente acredita que é uma causa justa e sente-se solidário com os valores cátaros. Isabel foi criada na corte de seu avô Jaime I, conhecedor da doutrina e viver dos cátaros.

“De Isabel de Aragão dizia o seu avô Jaime que era a mais bela flor de Aragão. Viveu com ele até à morte do rei Jaime e acredito que os valores dos cátaros não tivessem deixado de a influenciar. Reconhecemos a prática destes valores na vida da Rainha Santa quando tratava dos doentes, protegia os pobres, os idosos e as crianças. É conhecido o desejo de ser virgem. Não lhe sendo dado escolher, aceitou, obedientemente, casar com D. Dinis, mas seria vontade sua seguir a vida monástica.

“Eu admito que tenha abordado esta questão com seu marido. Teria admitido dar um herdeiro ao rei e aceitaria ele que depois disso levasse uma vida de castidade como ela desejava? É uma leitura possível, a meu ver. Admitindo que poderia ter sido assim, e o desenrolar dos factos assim permite que pense, poderemos continuar a dizer que D. Dinis foi infiel? E que foi um mau marido? Não estaremos a emitir um juízo errado?

“Parece-me provável e até evidente, a influência da moral cátara na educação de Isabel de Aragão. A biografia da Rainha Santa será a fonte onde se foram buscar os juízos que culpam o rei de infidelidade e o acusam de ser mau, mas a biografia é um escrito apócrifo, de um autor anónimo, possivelmente um frade e não pode ser considerado um documento com rigor histórico. Não devemos aceitá-lo acriticamente.”

Se houve fuga de cátaros para Aragão, teria também havido para Portugal no reinado de D. Sancho I? A hipótese é fascinante, mas a crítica histórica observa nela prós e contras, logo ao começo ressaltando o facto elementar de Toulouse e o Languedoque serem súbditos da Coroa de Aragão, e Portugal estar alheado dessa geopolítica no extremo oposto da Península Ibérica. Ainda assim, poderiam haver migrações cátaras para cá sob protecção templária, devido aos laços familiares reais portugueses à Coroa aragonesa, indo estabelecer comunidades nas Beiras e nos Alentejos ao longo da raia ou linha de separação dos dois países. Realmente, a hipótese é fascinante mas tem muitos contras, desde logo a ausência completa de iconografia e simbologia cátaras em toda a raia beirã e alentejana, só restando a toponímia que se observará mais adiante. Além disso, os usos e costumes na raia luso-espanhola são manifestamente herança tanto judaica como cristã, nesta alguma templária, outra franciscana e sobretudo beneditina, e proto-cristã, visigótica, rareando a árabe, abundando a ibera, celta e lusitana, a par da romana e pré-romana, como se observa na adaptação do culto oriental mitríaco com o rito da morte do touro à rijeza das touradas das gentes daí.

D. Sancho I, o Povoador, reinou de 1185 a 1211. Nasceu em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, filho de D. Afonso Henriques e de D. Mafalda. Foi armado cavaleiro em 15 de Agosto de 1170 e associado à governação. Em 1174 casou com D. Dulce de Aragão e Barcelona (Aragón, c. 1160 – Coimbra, 1.8.1198), filha do conde Raimundo Berenguerário IV com a rainha Petrolina de Aragão. Em testamento feito por D. Sancho I em 1188, doou à esposa o senhorio de Alenquer, de terras do Vouga, de Santa Maria e do Porto[24]. De 1184 a 1190, quando começou a usar o título de Rei de Portugal e do Algarve, distinguiu-se nas campanhas de Reconquista cristã do Sul de Portugal e na Andaluzia[25]. Foi Rex Bellator do Gharb. Em 1192, criou bolsas de estudo subsidiando cónegos agostinhos para irem de Santa Cruz de Coimbra estudar nos Estudos Gerais de Paris. Promoveu o intercâmbio intelectual entre Portugal e França, sobretudo nos estudos teológicos e de direito romano. Em 1199, com o apoio jurídico e militar da Ordem do Templo, sobretudo, fundou Guarda, que passou a cidade em 1202 com a transferência da Diocese da Egitânia (Idanha-a-Velha). Em 1210, fez as pazes com o bispado português e com o papado, com quem mantivera sérios conflitos a ponto de ser excomungado. Morreu em Coimbra a 26 de Março de 1211, jazendo ao lado do pai no Mosteiro da Santa Cruz dessa cidade[26].

D. Sancho I procurou seguir a política de independência e expansão iniciada por seu pai, D. Afonso Henriques. Independência relativamente aos Estados vizinhos, sobretudo Leão e Castela, e mais ainda face ao domínio temporal da Igreja pretendendo de transformar o país recém-nascido num satélite geopolítico e religioso seu subordinado. Vem daí a controvérsia dos protelados tributos ao sumo vigário romano e dos sonegados imóveis ao bispado português. Expansão dilatando o território para Oriente da Península e para Sul da mesma, participando activa e intensamente da Reconquista aos árabes da Ibéria ocidental, o Gharb, povoando e repovoando o interior do País recente com emigrações vindas de Borgonha – terra natal de seu avô, o conde D. Henrique – e da Flandres, facilitando a instalação das Ordens religiosas, sobretudo a Beneditina e a de Cister, em terrenos férteis propício à agricultura e pastoreio, além de reforçar as fronteiras através das Ordens militares do Templo e do Hospital, mais que todas mas sem excluir as de Avis e de Santiago, a quem fez generosas doações móveis e imóveis. Promulgou forais de cidades, vilas e concelhos, e confirmou outros passados por seu pai[27]. Ao mesmo tempo, procurou letrar o país estabelecendo através dos agostinhos relações com várias universidades europeias, com destaque para Bolonha e Paris, a partir do centro geopolítico que então era Coimbra (as finis Galliciae).

O prosseguimento da mesma linha política, militar, religiosa e geográfica de D. Afonso Henriques por seu filho, ao mesmo tempo assegurando a sua dependência filial à iniciada dinastia borgonhesa, já a assegurara quando, em 1170, cingiu com as armas D. Sancho na igreja de Santa Cruz de Coimbra, manifestando suficientemente os intentos que tinha a seu respeito: não quis que Sancho as levantasse por si do altar, e em dia de Pentecostes, e que com elas se ornasse, como ele próprio fizera na catedral de Zamora em 1125, pois isso significaria independência completa; interveio ele na cerimónia, celebrada no dia da Assunção da Virgem, para fazer constar que o novo cavaleiro lhe ficava associado no governo, com a subordinação conveniente ao bom andamento das coisas públicas[28].

A Igreja tentou ingerir na fazenda pública reclamando-a propriedade sua através do bispo D. Pedro da Sé de Coimbra, mas D. Sancho I recusou e pelo contrário exigiu que o prelado pagasse à Coroa os direitos senhoriais, chamados procurações, desprezando as imunidades eclesiásticas e até mandando deter clérigos em prisões públicas, sendo julgados em tribunais seculares invés de eclesiásticos e condenando-os ao serviço militar[29]. O próprio censo ou tributo pecuniário à Igreja para que o país não caísse em banimento tornando-se pária proscrito à mercê de quaisquer invasões sem apoio de nenhum país cristão por desautorização da Santa Sé, foi inúmeras vezes protelado por D. Sancho I, só pagando o mínimo tributário sempre contrafeito e no último instante. Com efeito, nas cartas de Inocêncio III há a demonstração peremptória de que o censo dos cem áureos, devido desde 1179, estava por pagar em 1198, porque os mil áureos oferecidos por Afonso I haviam sido dádiva extraordinária. É certo que Inocêncio III exigiu o censo a D. Sancho, e provou-lhe que estava em dívida. Mas, como se ele esquivasse, como já tinha feito com Celestino III, deixou de insistir; e ainda que depois teve ocasião de escrever-lhe bastantes cartas, não voltou a tocar no assunto, que aos dois se tinha tornado ingrato[30]. D. Sancho I manifestava assim política dura no tocante a Roma provando que quem mandava no País era ele, não o Papa e seus prelados, separando o Estado da Igreja ambiciosa de além do poder espiritual também deter o temporal, o que em Portugal não conseguiu.

As relações entre o eclesiástico e a coroa deterioravam-se em crescendo parecendo irreversível. D. Sancho pagava os censos tardiamente, quando os pagava, sempre contrafeito, para que Portugal não fosse banido do privilégio dos países da Cristandade sujeita a Roma. O país não sofreu banimento, mas o rei sofreu excomunhão. Por queixas dos bispos de Coimbra e do Porto a Inocêncio III – observando-se pela correspondência trocada entre o monarca português e o sumo pontífice que aquele desapreciava largamente este, por variadas razões e talvez a maior a do processo da Occitânia onde os seus familiares aragoneses estavam envolvidos – em litígio com D. Sancho I por este tomar a defesa do Cabido contra o Bispado, devido à indefinição dos poderes temporais da Igreja, inclusive tendo mando prender esses dois bispos, cerca de 1205 o Papa incumbiu o bispo de Samora de excomungar o rei[31]. Só próximo da sua morte é que D. Sancho I se reconciliou com a Igreja, sendo abolida a excomunhão. Como se vê, o litígio com a Igreja vem desde os primórdios da Nacionalidade e só terminaria com a Concordata de 1940.

Sobre esse assunto da heresia régia castigada com excomunhão, diz D. Diogo de Souza[32]: “O bispo de Coimbra aventurou-se a interpelar o rei não só a respeito do seu modo de proceder para com alguns prelados, como também sobre várias circunstâncias da sua vida privada. Como Sancho continuasse nas repreensões sem respeito à hierarquia deles, não deixasse impune nenhuma ofensa, nem consentisse que se lhe faltasse ao respeito, a mútua irritação subiu até ao último ponto. O bispo lançou na sua diocese o anátema contra o rei, e apelou para o poder papal, a fim de o arcebispo de Braga não ter força de a suspender. Não pôde contudo ir pessoalmente queixar-se porque o rei o havia mandado prender. Por isso foram mais instantes as acusações que o bispo conseguiu levar à presença do papa. Expôs-lhe que o rei tinha concedido prebendas a quem lhe parecesse, tirando-as a quem o bispo as concedera na sua diocese; que fazia alojar nos conventos que nenhum rendimento tinham, ou então era muito escasso, caçadores, cavalos, cães e pássaros, sob obrigação de os sustentarem; que mandava prender os eclesiásticos, e que os obrigava a pleitearem ante ele ou juízes leigos; que protegia pessoas excomungadas; que proibia aos eclesiásticos entrarem ou saírem livremente do reino, dando-se-lhe unicamente essa permissão depois de prestarem juramento de não irem à corte do papa; e que sem este juramento tinham tudo sequestrado, e eram arremessados a cárceres públicos.”

Instalar “caçadores, cavalos, cães e pássaros” em edifícios religiosos que “nenhum rendimento tinham”, isto é, estavam praticamente abandonados pelo eclesiástico, fazia parte de uma estratégia legal do rei que assim, instalando homens e alimárias nesses imóveis, alegava direito predial por os mesmos serem habitados com conhecimento e consentimento da Coroa, ficando sua dona. A justificação legal seria do género: se esse imóvel desabitado é agora habitado por cavalos que o rei mandou aí ocupar, e posto as bestas serem súbditas reais, então ao rei pertence o imóvel. Isso exasperava a Igreja vendo limitadas as suas posses e poderes em Portugal. É especialmente claro o trecho de “uma perfídia cheia de heresia” que Inocêncio III recebeu de D. Sancho I: “Que naqueles onde a religião estava cheia de hipocrisia, e especialmente nos prelados e pessoas da Igreja, não se podia aniquilar ou destruir o orgulho e a moleza senão tirando-lhes o supérfluo dos bens temporais, que deviam à liberalidade dele e do rei seu pai, com grande detrimento do reino e dos seus sucessores, dando-os aos seus filhos e aos defensores da pátria, que estavam pobres”[33].

Adianta Luiz Gonzaga de Azevedo[34]: “A tendência manifestada por D. Sancho, desde os princípios do seu governo, para se intrometer em questões eclesiásticas, não podia deixar de produzir, cedo ou tarde, desavenças, que antes teriam surgido, se o mais autorizado dos prelados portugueses de então, o arcebispo de Braga, Martinho Pires, não fosse, por índole, homem conciliador, condescendente e inimigo de lutas[35].

“Na epístola 8.ª do livro XIV (Epistolarum Innocentii III, edição de Balúzio, Paris, 1682), fornece-nos Inocêncio III bastantes notícias sobre o modo como D. Sancho se havia com as igrejas, particularmente com as da diocese da sua capital, que era Coimbra, e também sobre a sua fisionomia moral. Nessa epístola, Inocêncio III repreende, severa mas paternalmente, o rei de Portugal, por alguns dos seus desvarios, que lhe vai enumerando, e fá-lo com uma elevação moral, soberana independência, espírito de justiça e, ao mesmo tempo, fervor de caridade, bem dignos de um dos maiores homens que se sentaram no sólio pontifício. Em suma, D. Sancho era autoritário no modo como governava; quando lhe parecia, ignorava o que fossem imunidades da Igreja, e dispunha das suas pessoas e coisas a inteiro arbítrio seu; deste modo, destituía os clérigos canonicamente colados, e fazia reverter, em proveito de apaniguados seus, as rendas dos benefícios; aboletava pelos presbitérios pobres os seus besteiros, com os animais, de que se servia na caça, como cães, aves e cavalos, para aí receberem sustento; fazia prender os clérigos na cadeia pública, como quaisquer malfeitores; obrigava-os a responder nos tribunais seculares, sem respeito a privilégios que lhes costumavam guardar, segundo o direito; compelia-os, sem as devidas restrições, ao serviço militar; finalmente, com certo espírito sarcástico e algo jacobino, que se não julgaria daqueles tempos, tinha por encontro de mau agouro o dos religiosos ou sacerdotes, quando acaso lhe ocorriam.

“Como quem vivia apartado das práticas religiosas verdadeiras, fizera-se supersticioso, e trazia consigo uma bruxa, ou mulher de virtude, a quem consultava; tomava a seu cargo defender os excomungados, usurários e quantos eram adversos à Igreja; compelia ao casamento viúvas, que queriam professar continência; proibia aos sacerdotes entrarem ou saírem do reino, a não ser que antes jurassem que não vinham, nem intentavam dirigir-se à Sé Apostólica, sob pena, no caso de transgressão, de serem espoliados e presos na cadeia pública.

“Isto diz Inocêncio, no lugar citado, reportando-se ao testemunho de D. Pedro, bispo de Coimbra, o qual não exagerava no que escrevia ao Papa. Como D. Sancho tinha a capital em Coimbra, é de crer que D. Pedro fosse o prelado mais agravado e queixoso.”

O historiador citado é reconhecido católico romano, mas não invalida o relato que faz Inocêncio III usando das palavras do bispo de Coimbra, mesmo admitindo que o discurso foi fortemente empolgado pelo queixoso. Que D. Sancho I foi rex haeresis, não restam dúvidas. Que D. Sancho I tinha sido mau cristão e pior católico, há muitas dúvidas. A sua luta foi contra a prepotência eclesiástica, não foi contra a Ecclesia. Apoiou quem achou dever apoiar nessa sua luta de independência moral e racional, incluindo hereges e excomungados, ou seja, gente sobretudo judaica e moçárabe cujo eclesial hispânico era reprimido pelo romano, como testemunha a perseguição ao clero moçárabe instalado na igreja de S. Cristóvão de Lisboa. Possivelmente a tal «bruxa» falada no texto seria uma judia sefardita ou, o mais certo, a sua confidente e concubina D. Maria Pais de Ribeira, de alcunha a “Ribeirinha” (c. 1170 – Grijó, 1258), primeira filha do nobre D. Paio Moniz de Ribeira e de D. Urraca Nunes de Bragança[36]. “Afirma-se que era branca de pele, de fulvos cabelos, bonita, sedutora”, qualidades que encantaram o rei e cativaram os nobres da sua corte. Em 1198, inspirou o nobre e trovador Paio Soares de Taveirós a compor a Cantiga da Ribeirinha, primeiro texto literário em língua galaico-portuguesa aparecido nesta época.

Se D. Sancho I aprendera as lides das armas junto dos cavaleiros da Ordem do Templo e dos seus priores recebera a catequese cristã ao par dos Cónegos Regrantes de St.º Agostinho que lhe deram a educação intelectual e o gosto pela literatura e a arte a ponto de ele mesmo ter composto trovas, como a famosa cantiga de amigo Ay eu coitada, integrada no Cancioneiro da Biblioteca Nacional que é uma colectânea lírica do Trovadoresco galaico-português composta de cantigas de Santa Maria, de amigo, de amor e de escárnio e maldizer, dizia, tudo isso nada prova que ele fosse mau cristão, muito pelo contrário: prova sobretudo que possuía uma erudição superior à de muitos clérigos onde não rareavam analfabetos, e mesmo acaso havendo hermetismo no seu modo de questionar e interpretar o Cristianismo, só reforça a sua superioridade mental e espiritual no captar e afirmar-se católico. Isso regista-se na sua famosa Cruz Processional que idealizou e mandou fazer destinando-a ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a qual sobreviveu às vicissitudes do tempo e está hoje exposta no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, constituindo o mais belo e raro exemplar da ourivesaria medieval portuguesa.

Com efeito, no testamento de D. Sancho I, datado de 1210, consta o seguinte: “Ao Mosteiro de Santa Cruz, em que mando sepultar o meu corpo, […] dou a minha copa de ouro para que façam dela uma cruz”.

Peça em ouro maciço, de excelente execução, com pedras preciosas e pérolas encastoadas, esta cruz foi mandada lavrar pelo monarca, sendo cruz real assinalada pelos tramos florlisados, apresentando vestígios de haver contido, na face anterior do cruzamento dos braços, a relíquia do Santo Lenho (hoje desaparecida, mas que se diz ter pertencido ao Conde D. Henrique, avô de D. Sancho) deixada aos crúzios de Coimbra pelo seu fundador, D. Afonso Henriques. O reverso é delicadamente aberto a buril, tendo ao centro, inserido numa rosácea lobulada (no que reverte à Rosa+Cruz simbólica da Luz e Imortalidade), o Agnus Dei – o Cordeiro de Deus símbolo do Martírio e Morte do Redentor, figurado de pé porque Ressuscitado. Nas extremidades dos braços, apresentam-se os símbolos dos quatro Evangelistas: a águia de S. João, o leão de S. Marcos, o touro de S. Lucas e o anjo de S. Mateus. Ostenta a data de 1214 incisa no ouro. A cruz fazia parte de um elaborado programa de relíquias que se guardavam na cripta do mosteiro. Nela fora reconstituído o Calvário tendo ao centro o Santo Lenho, ladeado por relíquias de S. João Evangelista e da Virgem Maria, tendo na base pedras do Monte Gólgota.

“A prodigalidade que o monarca revelou no fim da sua vida, fazendo opulentas dádivas ao clero, em sinal de apaziguamento após os acesos conflitos que mantivera com a Santa Sé, prende-se igualmente com a preocupação de garantir a salvação da sua alma. A entrada desta alfaia no Mosteiro de Santa Cruz veio enriquecer o vultuoso tesouro de relíquias e preciosidades do opulento mosteiro e preencher uma lacuna do culto que aí devia ser prestado ao Santo Lenho. D. Afonso Henriques, ao fundar a instituição com D. Telo, dedica o culto dos Cónegos Regrantes à invocação da Cruz de Cristo e deixa ao mosteiro uma relíquia da Santa Cruz. De acordo com a tradição, tinha-a tomado em 1128 ao seu primo Afonso VII de Castela, na batalha da Veiga de Valdevez, depositando-a posteriormente na igreja de Grade, guardando para si um fragmento que dividiu em duas partes. Um dos fragmentos foi incrustado numa pequena cruz peitoral em ouro, pertença do monarca, e que depois veio a integrar a Cruz em ouro que D. Sancho irá doar testamentalmente a Santa Cruz de Coimbra, e o outro fragmento foi oferecido a São Teotónio, cofundador do mosteiro e primeiro santo português. Santa Cruz passa assim a funcionar como repositório dos despojos mortais dos primeiros reis de Portugal, e ainda como tesouro dos objectos-símbolos do Reino: como a espada do rei fundador, aí se passa a guardar também a relíquia do Santo Lenho. Neste contexto, a Cruz de D. Sancho proporciona o enquadramento condigno à relíquia que o monarca herdara de seu pai e dignifica o Orago de uma instituição tão intimamente ligada à Monarquia Portuguesa.”[37]

Posto isso, coloca-se a questão principal: houveram hereges (cátaros) em Portugal reinando D. Sancho I? D. Pedro, bispo de Coimbra, apoiando as leis censórias de Fr. Sueiro Gomes, prior da Ordem dos Dominicanos no país reinando já D. Afonso II, filho de D. Sancho, afirmam que sim. A despeito do desagrado declarado e público de ambos pelo monarca, ainda assim haverá algum fundo de verdade na notícia transmitida por Luiz Gonzaga de Azevedo[38]:

“O que naqueles anos preocupava a S. Domingos e a seu discípulo (Fr. Sueiro), que em tudo o procuraria imitar, era a integridade da fé e a repressão da heresia. Do mesmo Santo Patriarca se sabe que, quando no sul da França, reconciliava, com autoridade recebida dos legados pontifícios, os hereges no foro externo, lhes impunha penitências exteriores, como prolongados jejuns e rigorosas abstinências. E parece que, quando eles eram obdurados no erro, os entregava também ao braço secular, que os punia, até com a pena última[39].

“Tinha ordenado o cânone terceiro do IV Concílio de Latrão (1215), como antes o dispusera o segundo do de Avinhão (1209), que os príncipes, condes e magistrados fossem diligentes na repressão da heresia[40], podendo os bispos obrigá-los a isso por meio das censuras. A natureza do castigo era determinada pela lei civil, ainda que o Concílio de Latrão fale expressamente do confisco. Ora, sendo tal doutrina geral na Cristandade, e estando ela em prática, sobretudo desde que começaram as pregações e cruzada contra os albigenses, não admira que Fr. Sueiro, que muito bem sabia o que se passava no sul da França, em chegando a Portugal vulgarizasse, nalguns preceitos de redacção sua, o que cumpria fazer aos magistrados quantos aos hereges, segundo a doutrina admitida e então vigente. É, pois, por isso que Afonso II […] declara que os preceitos propostos por Fr. Sueiro eram desconhecidos entre nós, no tempo de Afonso Henriques, de D. Sancho e também no seu, o que é muito exacto, quanto às determinações conciliares repressivas da heresia; deixa, contudo, entrever que os preceitos mencionados eram relativos à pureza da religião e da fé, quando afirma que, apesar de nós desconhecidos, os Papas Alexandre III, Clemente III, Inocêncio e Honório III, que tinham por obrigação defendê-la, não deixaram de confirmar o reino e a coroa de Portugal aos seus monarcas; e, finalmente, quando manda que nada se compre ou venda no reino, contra o que é ordenado em tais decretos, como seriam escritos heréticos, bíblias em vulgar, estátuas, etc., etc.[41]

“Versando os estatutos de Fr. Sueiro sobre a repressão das heresias, urgindo neste sentido as disposições, embora Afonso II os abrogasse, não deixava de reconhecer que tal matéria, como abrangida já pelos costumes ou leis do reino, devia ser respeitada. Portanto, coisas relativas à heresia que serviriam, porventura, para a propagar, só podiam ser vendidas furtivamente (ad furtum), e o rei declara nulas essas vendas. Esta interpretação está, pois, confirmada pelo decreto de Afonso II contra os estatutos ou decretos de Fr. Sueiro Gomes.

“Contra o que fica dito, uma dúvida ocorre: existiam então, em Portugal, heresias, contra as quais D. Pedro incitasse o zelo do dominicano Fr. Sueiro?

“Quem diz que elas existiam é o bispo de Coimbra, nas palavras transcritas: facilius ad fidem catholicam vos valeant perducere. E ainda que não o dissesse, há razões que mostram que deviam existir, porque não faltavam no Aragão, em Castela e em Leão, países confinantes com o nosso. Além disso, as causas que concorriam para as despertar ou introduzir nesses estados, como era o contacto imediato com sarracenos, e as frequentes relações comerciais, políticas e literárias com os países europeus, e particularmente com a Aquitânia e com a Provença, em que elas se divulgaram, também nos não faltavam.

“A razão, que o arcebispo de Toledo e os bispos de Palência e Zamora invocam perante Inocêncio III, contra o interdito posto em Leão pelo legado Rainério, para obrigar o rei a separar-se de Berengária, era que dele se valiam os hereges, para divulgar mais seguramente, com o silêncio imposto aos pastores das almas, as suas heresias (Epistolae Inocentii III, Liv. II-75).

“As relações de Portugal com Inglaterra e com a França inglesa eram frequentes; basta dizer que uma das fontes mais seguras, melhor e mais informadas para escrever a nossa História dos fins do século XII, é o cronista inglês Rogério de Hoveden. Por isso, não deviam por aqui faltar precursores do célebre heresiarca Thomas Escoto, a que se refere Álvaro Pais no seu Collyrium contra haereses[42].

“Da existência de hereges por fins do século XII e nos princípios do imediato, em Aragão e Castela, existem provas claras e directas[43].

“O documento, conservado por Fr. Luís de Sousa, tem grande importância, pois não só nos aponta qual o intuito que Fr. Sueiro teve em vista com a publicação das suas leis, e qual a natureza delas, mas também nos dá a razão da cruel perseguição movida por Afonso II contra o bispo de Coimbra, porque foi com ele muito mais severo do que com o prior dos dominicanos.

“D. Pedro, em 1218, ainda tinha coragem para excomungar mestre Julião, deão da sua Sé e protegido do rei; mas depois apoucou-se, até mentalmente, e nem ousava sair do paço com medo a D. Afonso, que o ameaçava dizendo-lhe que lhe havia de fazer como o falcão à garça[44].

“Pondere-se que o referido documento, nas suas palavras finais, contém a retratação das concessões anteriormente dadas pelo bispo aos dominicanos. Ora, tal retratação não podia deixar de ser imposta pelo rei ao bispo, para que Fr. Sueiro se não julgasse autorizado a publicar outros decretos.”

Conclui-se que a “heresia” cátara era desconhecida em Portugal – aparte grupos heterodoxos sobretudo judaicos procurados por cristãos desafins com a doutrina oficial da Igreja, criando movimentos opositivos alguns de carácter hermético de que alguma arte e a literatura marginais deixariam testemunho – mas sendo pretexto para o bispo de Coimbra poder introduzir os dominicanos (domini canis, ordini canis, fideli canis…) em Portugal, com doações a eles que só o rei as poderia fazer mas com isso pretendendo diminuir o poder régio. Sem dúvida que D. Afonso II procurou justiça póstuma para o seu pai ante as afrontas continuadas do bispo de Coimbra, e ao que dizem as crónicas só não o matou por falta de oportunidade. Por outra parte, conclui-se também a possibilidade de D. Sancho I ter facilitado a entrada no país de refugiados albigenses, sobretudo de Aragão por sua familiaridade com esse reino, mas sem que tal implicasse transgredir a lei do direito romano e o canónico romano oficiais em Portugal, por não existir notícia em contrário e tão-só modernas conjecturas analógicas com mais ou menos engenho teórico. Possivelmente esses “hereges” fugidos viriam entre as grandes migrações de francos da Borgonha e de flamengos da Flandres para cá promovidas por D. Sancho I, acabando por se diluir na massa populacional e adoptando um Catolicismo “português”, já de si também não longe da heresia em muitos aspectos. Este será o motivo de não haverem signos cátaros em Portugal, tão-só signos sobretudo astrolátricos passíveis de adopção pela ideia preconcebida de crença cátara, a despeito da descontextualização no panorama geral da simbólica religiosa e da religião professada. A feição mais próxima do Catarismo em Portugal foi o Protestantismo, nele entrando tímida e secretamente no século XVI, através de famílias inglesas, mas só vindo a ter realce público no século XIX.

Contudo, a isso opõe-se um outro elemento favorável à hipótese de os cátaros occitanos terem se instalado em Portugal indo alterar a feição de vários espaços urbanos: a toponímia de lugares beirões e alentejanos aparentemente serem idênticos a outros tantos occitanos. Por exemplo, Albi Castrum (Castelo Branco) será derivado de Albi, Nisa de Nice, Tolosa de Toulouse, Arez de Arles, Montalvão de Montauban, Proença de Provence, Segura de Montsegur, etc. Esta extrapolação onomástica poderá encontrar justificativa em dois autores portugueses consignados, um deles, Veríssimo Serrão que diz: “Nos fins do século XII chegaram mais francos a Portugal, auxiliando D. Sancho I na política de fomento. […] É indiscutível que no início do século XIII se deu a chegada de uma nova vaga de colonos que contribuíram para o povoamento do Alto Alentejo. […] O nome de várias povoações, como Montalvão, Nisa, Tolosa e Arez, supõe a existência de topónimos do sul da França que se prendem ao seu inicial povoamento”[45].

O outro autor, Celso Cunha, em parceria com Lindley Cintra, avançam na mesma direcção: “Temos uma extensa área da Beira Baixa e do Alto Alentejo […] em que se regista uma profunda alteração do timbre das vogais. Os traços mais salientes são: a) a articulação do u tónico como [ü] (próximo do u francês), por exemplo, , müla, por tu, mula; b) a representação do antigo ditongo ou por [ö] (também semelhante ao som correspondente do francês), por exemplo, pöca por pouca; c) queda da vogal átona final grafada o – ou a sua redução ao som [ә], por exemplo, cop(ә), cop(ә)s, por copo, copos; tüd(ә) por tudo[46].

O primeiro autor citado, não parece ir além das aparências toponímicas, deixando vaga a probabilidade da presença albigense. Os segundos, parecem encontrar nos francos a ligação linguística francesa ao linguarejar luso beirão e alentejano, o que terá origem nos colonos vindos de Borgonha pelo Sul de França a convite de D. Sancho I, igualmente sem nenhuma afirmativa de influência linguística occitana. Diz Jorge Rosa com bastante pertinência[47]:

«Os Francezes, e os Hespanhoes, passaram o rio… no primeiro deste mez, e no mesmo dia se rendeu a Cidade de Nizza, levando o seu Magistrado as chaves ao Infante D. Filipe. No dia seguinte começaram a bater o Forte de Montalvam, que dista 16 mil passos de Villa-Franca e defende o porto da dita Cidade.»

“Quem, em Portugal, lesse apenas esse extracto de uma notícia publicada pela Gazeta de Lisboa, n.º 20, de 19 de Maio de 1744, pensaria, certamente, estar a ler um relato de um qualquer combate na região entre Nisa e Montalvão. Na verdade, trata-se da região do Piemonte em Itália.

“Vem isto a propósito da teoria, várias vezes difundida, que Nisa, Montalvão e Tolosa, devem os seus nomes a colonos franceses que, em dada época e no âmbito das políticas de repovoamento de Portugal, aqui se teriam fixado. Assim, Nisa derivaria de Nice, Montalvão de Montauban e Tolosa de Toulouse. A teoria até parece fazer sentido porque, na verdade, houve colonos franceses que se fixaram em Portugal, nomeadamente na região de Montalvo, mas tem um senão. Nisa, Montalvão e Tolosa existem em França, mas também na Itália.

“Perante esta realidade, teríamos que admitir que a origem dos nomes destas terras portuguesas poderia ser tanto francesa como italiana ou espanhola, e então que os nomes das localidades italianas e espanholas também tiveram origem francesa.

“Não sabemos o verdadeiro significado de Nisa ou Tolosa, mas Montalvão é um aumentativo de Monte Alvo (branco), tal como existe o diminutivo Montalvinho. Logo, em qualquer lugar habitado por gente com língua de origem latina, era possível ter surgido, e de forma independente, qualquer um dos nomes referentes a um monte branco, possivelmente um monte sujeito a nevões.

“Um bom exemplo do surgimento do mesmo nome em vários lugares e países sem ligação entre si é o de Vila Franca, também referido na notícia da Gazeta de Lisboa. Este nome existe em França, Itália e Espanha. Em Portugal podemos apontar, entre outros, Vila Franca de Xira, do Campo, do Centro, do Rosário, etc. Apesar do termo franca poder remeter para França (francos), a verdade é que a sua origem deriva do facto de, nessas terras, se realizarem feiras francas (livres).

“Estamos, pois, em crer que a teoria da origem francófona dos nomes das terras do Nordeste Alentejano é, no mínimo, questionável. Se, quanto a Nisa e Tolosa, não há dados que permitam estabelecer, com segurança, uma fundação anterior ao nascimento de Portugal, já quanto a Montalvão não restam dúvidas de que o seu castelo existia já durante a dominação árabe.

“Em função do exposto, parece-nos muito mais útil buscar uma origem mais remota para estas localidades, com raízes no seu próprio povo, em vez de duvidosas hipóteses migratórias.”[48]

Mas o prof. Carlos Cebola contrapõe com a seguinte conclusão[49]:

“Em 1199, D. Sancho I doa a Herdade da Açafa à Ordem do Templo. Este território era delimitado, de modo muito sumário, a norte pelo Rio Tejo e a sul detinha parte do território dos actuais concelhos de Nisa, Castelo de Vide e parte do território espanhol junto à actual fronteira. Estas doações tinham como objectivo fixar moradores em zonas ermas e despovoadas e consequentemente defender o território.

“Os Templários edificaram uma fortaleza que os defendesse dos infiéis e sinalizava a posse desses territórios. Ao mesmo tempo, o monarca anuncia a vinda de colonos franceses, que chegaram de forma faseada, sendo o último grupo destinado ao povoamento do território da Açafa.

“Instalaram-se junto das fortalezas construídas pelos monges guerreiros e aí ergueram habitações, fundaram aglomerados populacionais a que deram o nome das suas terras de origem. É neste sentido que surge possivelmente o de Nisa, ou seja, sendo os primeiros habitantes oriundos de Nice, ergueram aqui a sua “Nova Nice”, ou melhor dizendo, a Nisa a Nova, que encontramos nos documentos, e quando surge o termo Nisa a Velha, este refere-se à sua antiga terra de origem, a Nice francesa.

“Assim terão nascido Arez (de Arles), Montalvão (de Montauban), Tolosa (de Toulouse), cidades do Sul de França…”

Mas o topónimo Montalvão também existe noutras localidades portuguesas, como o de Montalvão em Setúbal ou a Cruz de Montalvão em Castelo Branco, por exemplo. Além disso, tem-se Montalban em Teruel (Aragão), Puebla de Montalbán em Toledo, Montalvan em Córdova, tudo em Espanha, enquanto na França tem-se Mont´Auban, Montauban ou Monte Albano, e ainda Montalbano na Itália. Significa isto a extrema dificuldade em associar e provar a exclusividade toponímica da localidade alentejana com alguma migração albigense.

Ainda a propósito da designação italiana de Montalvão, repara-se que ela é utilizada na carta geográfica La Spagna com o nome M. Alban, associada à figuração de uma fortificação. Montalvão poderá ser associado a “Monte Forte” ou fortificado, cujo castelo constituiu uma das guardas avançadas da fronteira luso-espanhola a cargo da Ordem do Templo e depois da Ordem de Cristo. Neste sentido também pode estar a origem do topónimo latino Albi Castrum, Castelo Branco, com origem em Vila Franca da Cardosa, que em 1212 foi doada metade dela à Ordem do Templo por D. Fernando Sanches, possível filho de D. Sancho I, e em 1214 a sua totalidade por doação real D. Afonso II. Um ano antes, em 1213, com a elevação do castelo templário e o subimento da importância geopolítica de herdade (aldeia) a vila, o Mestre do Templo D. Pedro Alvito deu foral à povoação no qual aparece a denominação Castel-Branco, posse confirmada pelo Papa Inocêncio III em 1215, dando-lhe o nome de Castelobranco.

Ainda que a origem filológica Castelo Branco pareça recuar ao grego Cattaleucos, significando ad albos, a verdade é que Ptolomeu identificava essa entre o Tejo e o Guadiana, portanto, no Alentejo, e não nas ruínas da Cardosa albicastrense, como aliás aponta Joaquim de Santa Rosa de Viterbo[50]. Antes de Castelo Branco o povoado era chamado Moncarche e Castraleuca, possível forma popular corrompida da Cattaleuca celto-grega, acaso também tendo sido nome de povo local deslocado do Sul para o Centro, como era normal nas migrações de povos pastores nos alvores da História.

A fim aos primeiros ecos de civilização na Península Ibérica, também andará o topónimo Nisa. Leite de Vasconcelos aponta para a sua origem grega por serem vários os nomes helénicos em que entra a palavra Nisa. Está neste caso a adopção do teónimo Nusa, corrupção helénica da deusa egípcia Nuta, ou simplesmente Nut. Como deusa da noite, Nuta, a Lua, foi considerada como a guia e protectora das almas. Daí a dupla cor com que é representada: branca, da vida, e negra, da morte. Nuta revestia-se assim com a dupla natureza de promotora da vida e protectora dos mortos. Os povos pré-cristãos escolhiam as eminências dos montes para erguerem templos a Nuta, montes esses que assentavam a base em terrenos negros, como é o caso do barro de Nisa, cuja olaria era depositada nos monumentos sepulcrais. O teónimo egípcio Nuta entrou nas falas egeias sob a prosódia Nussa, que entre os dóricos soava Nusa e que no Lácio tomou a grafia Nysa e a pronúncia Nisa. Como corolário do referido, a antiga Nisa foi consagrada àquele astro que tanto encanta as noites luarentas do Alentejo. Foram, indubitavelmente, colonos da área egeia que se estabeleceram no outeiro de Nisa (a Velha), erigindo no cume um templo hoje transformado em graciosa capela consagrada a Nossa Senhora da Graça, santa que embeleza a vida e protege da morte.

Por algum motivo que a razão desconhece, crê-se haver sinais albigenses no interior da Misericórdia de Arez (topónimo derivado de Ares ou Aires, já assim conhecido no tempo de D. Afonso I[51]), uma das mais antigas freguesias do concelho de Nisa e também consagrada a Nossa Senhora da Graça. Trata-se de capela franciscana da evocação do Espírito Santo datada do século XVI, tendo em 28 de Novembro de 1592 recebido o alvará régio autorizando-a a usar o Compromisso da Misericórdia de Lisboa[52]. A capela está hoje em fase de restauro e brilha pelo seu valor tanto religioso como artístico, nisto sobressaindo as pinturais parietais (frescos) que apesar de danificadas revelam cenas da devoção franciscana. Possui três altares: o altar-mor com a imagem do Divino Espírito Santo, o da parte do Evangelho (lado esquerdo, visto da entrada) com a imagem de Santo Amaro, e o da parte da Epístola (lado direito) com a imagem do Senhor Crucificado. Recuando na História, convirá não ignorar que os terços de S. Francisco fizeram cruzada pastoral contra os albigenses[53], pelo que não se percebe onde haja catarismo neste templo, nem mesmo na ilusão óptica (de perto vê-se que não são) das pressupostas cruzes cátaras que aparecem nos lados dos frescos murais, ou de alguma Arles occitana figurada no ambiente mediterrâneo onde Jerusalém surge retratada.

Deixo, enfim, de parte outras leituras toponímicas pertinentes ao tema que as já feitas chegam para questionar a conversão linguística albigense em filólogos aportuguesados, coisa que nem mesmo o douto Luís Chaves se lembrou de fazer[54].

Sem dúvida a geopolítica de povoamento e expansão territorial executada por D. Sancho I, o Povoador, desse modo agindo como se fosse, em termos orientais, um Manu, Legislador ou condutor de povo em guisa de um novo Moisés encetando êxodo para a Terra Prometida, facilitando a vinda e instalação de emigrações de várias proveniências europeias nas terras portuguesas reconquistadas ao Islão, além da sua relação familiar a Aragão relacionado à Occitânia, deu aso à avenção erudita do Catarismo português em terras beirãs e alentejanas, o que acriticamente tem sido adoptado por alguma cultura marginal urbana desafeita aos intrincados da História.

Num bosquejo rápido da acção geopolítica de D. Sancho I, para terminar, repasso a palavra a D. Diogo de Souza[55], que assim descreve:

“Tornava-se, pois, necessário repovoar os burgos que estavam desabitados, e fazer cultivar os campos que jaziam abandonados. Para este fim, distribuiu D. Sancho pelos cultivadores pobres os terrenos incultos. Os campos abandonados foram igualmente cultivados, graças às providências que o mesmo monarca adoptou. Não se contentou o rei só com estas providências, porque concedeu aos agricultores quantos favores e liberalidades lhe foi possível, recompensando o trabalho e animando aqueles que se mostravam laboriosos. A animação que prestou aos agricultores mais inteligentes e activos, recompensando-lhes o trabalho e animando-os a prosseguir, serviu de muita utilidade ao país e de estímulo aos homens que se entregavam a esta laboriosa ocupação, porque viam no rei um amigo e um protector, a quem com orgulho davam o epíteto de Lavrador.

“Não se entregou com menos ardor à reparação das cidades e vilas destruídas pela guerra com os infiéis. Da reparação e reconstrução destas, viram surgir-se mais belas e formosas que d´antes, Covilhã, Torres Novas, Viseu, Pinhel, e fundarem-se Monte Mor Novo (1201) e Valença. Estes cuidados, porém, d´el-rei D. Sancho seriam ineficazes se a par destas providências ele não concedesse direitos e franquias aos homens que, andando isolados e dispersos, viessem habitar aquelas povoações reconstruídas, encerrando-se dentro dos seus muros. Foi a estas franquias e direitos locais a que se deu o nome de forais, e esses privilégios são de um carácter particular daquela época, no qual o sistema de comunas se desenvolveu e tornou florescente. Estes forais não eram só concedidos pelos reis: os grandes do reino, os grão-mestres das Ordens e os prelados também os dispensavam àqueles territórios que lhes eram sujeitos. Muitas vezes o rei dava um foral conjuntamente com o senhor da vila ou da cidade, e em certas ocasiões confirmava os privilégios concedidos por aqueles senhores territoriais.

“É digna de notar-se uma das concessões feitas no foral de Covilhã. “Um servo que ali habitasse pelo tempo de um ano, ficava livre e ingénuo, como se nascesse de pais livres”. Diz Brandão que com estes e outros privilégios a vila dentro em pouco cresceu notavelmente. De feito cortando assim pelas peias que então paralisavam os braços, D. Sancho criou novos meios de actividade e indústria, como escreveu Schoeffer, e fez desenvolver forças que até então estavam inactivas. “Quanto mais penosas eram as obrigações dos habitantes de um lugar, quanto mais a sua situação os expunha aos perigos, mais o rei lhes franqueava privilégios para os prender ao lar doméstico e ao trono. Foi por isso que ele concedeu a Pinhel, situada na fronteira do reino e que se podia considerar como um dos seus baluartes, o foral de Évora, já antes dado por Afonso Henriques, para lhes compensar serviços passados, libertando os seus habitantes da obrigação de construírem as muralhas do castelo, de pagarem ao rei a Pedida, a Colheita e a Portagem em todo o Portugal, franquias extraordinárias, das quais os habitantes depois se tornaram perfeitamente dignos”.

“Assentemos aqui uma relação das terras ás quais Sancho I concedeu forais. Figueiró e Covilhã, em 1186; Viseu e Folgosinho, em 1187; Penacova, em 1192; Marmelar, em 1194; Penadono e Leiria, em 1195; Souto Maior, Soverosa e Souto, em 1196; Sortelha, Bragança, Seia, Gouveia, Penela, S. João da pesqueira, Paredes, Linhares e Anciães, em 1198; Guarda, em 1199; Sesimbra, em 1201; Taboadelo, Fontes, Crastelo, em 1202; Monte Mor Novo, em 1203; Reguengos de S. Julião e S. Cipriano, em 1205; Reguengo de Vila Nova, em 1205; Ranaldo e Andranes, em 1208, e Vila Franca, que o rei deu em 1200 ao cavaleiro flamengo Rollin e seus companheiros.

“Vejamos como o sr. Alexandre Herculano resumidamente descreve os motivos que forçaram D. Sancho a não cessar de actividade no meio desta forçada paz: “Temia, e com razão, que os almuhades renovassem as tentativas contra Portugal, tentativas que a julgá-las pelos sucessos passados, podiam levar a assolação ao interior do país: era necessário, portanto, multiplicar os lugares fortes, povoar de gente aguerrida as fronteiras, e coligir todos os recursos possíveis para repelir os inimigos. Assim, novas preceptorias ou mosteiros das Ordens militares se estabeleceram nas povoações mais importantes da margem direita do Tejo, e fizeram-se doações a estas Ordens de vários castelos, ou de vastas porções de terra, com obrigação de aí os fundarem. A povoação da Beira Baixa mereceu também sérios cuidados, e a antiga Egitânia (Idanha) começou a surgir das suas ruínas. Às colónias estrangeiras que no tempo de Afonso I tinham vindo povoar a Estremadura e que haviam prosperado, aumentou-se o território, dando-se-lhe Pontével e o seu termo, o que por este lado as aproximava da margem direita do Tejo”.

“Estas doações às Ordens de Cavalaria estão hoje comprovadas por documentos de toda a excepção. À Ordem de Évora, ou Avis, doou Mafra (1193); à de Santiago, além das vilas que já mencionámos, a torre e paços da alcáçova de Santarém (1193), o edifício de Santos o Velho junto a Lisboa (1194); à do Hospital, a herdade de Guidimtesta para fundar o castelo de Belver (1194); à do Templo, Idanha Velha (1197). Por esta praça, que então era muito importante, cederam os templários ao rei os burgos de Mogadouro e Penas Róias, e nove anos depois também Idanha Nova.

“Vejamos agora como o sr. Alexandre Herculano descreve os acontecimentos que nesta época tinham lugar em Portugal.

“No meio destas negociações que lhe asseguravam o protecção de Roma, Sancho I dedicava-se activamente a organizar a defesa do reino. Tinha ele doado já em 1197 aos templários a Idanha e seus termos, fronteiros aos últimos domínios leoneses para o sudoeste. Neste ano, porém, ajuntou a mais avultada dádiva da Açafa, território vastíssimo que se dilatava ao longo da margem direita do Tejo desde esse distrito da Idanha, anteriormente doado, para o ocidente até aos limites do castelo de Belver que pertencia aos hospitalários, e cujas extremas opostas se avizinhavam das dependências da preceptoria ou comenda de Tomar. Nesta doação da Açafa compreendia-se também uma extensa porção do Alto Alentejo, que parece ter sido aquela que os cristãos iam gradualmente povoando. Que Sancho fizesse uma dádiva tão importante, só porque os templários lhe cediam o padroado das igrejas de Mogadouro e Penas Róias, castelos a troco dos quais dera Idanha àquela Ordem, é o que apenas se pode aceitar como um pretexto, posto que assim se diga no respectivo diploma. Estas doações importantes feitas às Ordens militares, tinham evidentemente motivos políticos. Quantos e porquantos modos os templários (ou ainda os outros institutos monástico-militares, que formavam associações independentes das divisões geográficas da Hespanha cristã, ou por outra, que eram ao mesmo tempo portugueses, leoneses, castelhanos e aragoneses) podiam pela influência fazer pender a balança para esta ou para aquela parte nas dissensões dos diversos Estados, é coisa de que se pode fazer conceito, posto que seja dificultoso apreciar toda a força dessa influência e todas as hipóteses que se verificariam na aplicação. Removendo estas Ordens, principalmente os tão belicosos templários, dos castelos do norte para as fronteiras do sul, Sancho colocava-os na sua situação natural, isto é, na vanguarda da reacção cristã contra os sarracenos. Acrescia que com estas amplíssimas mercês de terras não só os chefes do Templo em Portugal, mas ainda os de Leão e Castela, lhe ficariam uns gratos, outros afeiçoados. Finalmente, o estabelecimento das preceptorias no sul do reino era, em relação à economia interna, o mesmo que a fundação dos mosteiros, um dos grandes meios de povoar os lugares desertos; porque em volta das residências monásticas ou monástico-militares, a população e a cultura cresciam rapidamente. Semelhantes instituições eram a fórmula adequada à época, com que actuava nas sociedades o fecundo princípio da associação.

“Apenas ordenara estas coisas na Beira Baixa, Sancho partiu para Trás-os-Montes, cuja fonteira é provável se ocupasse em fortificar…”

Com tudo, em desfecho, mantém-se a interrogação de como misteriosos hereges occitanos teriam se convertido em singulares beirões e alentejanos? Fica ao futuro a resposta definitiva, se a houver, posto o presente aparentar só divagar no engenho.

NOTAS

[1] Manuel J. Gandra, Cátaros para um Languedoque português. Instituto Mukharajj Brasilian, 2013.

[2] Joan O´grady, Heresia – O Jogo de Poder das Seitas Cristãs no Primeiros Séculos depois de Cristo. Editora Mercuryo, São Paulo, 1994.

[3] José Orlandis, História breve do Cristianismo. Tradução de Osvaldo Aguiar. Ed. Reis dos Livros, Lisboa, 1993.

[4] Pierre Pierrard, Histoire de l´Eglise Catholique. Desclée & Cie. Paris, 1978.

[5] A. Lombard, Pauliciens, Bulgares et Bons-hommes. Geneva, 1879.

[6] Eugen Roll, Ketzer zwischen Orient und Okzident: Patarener, Paulikianer, Bogomilen. Mellinger Verlag, Stuttgart, 1978.

[7] René Nelli, Les cathares. Ed. Culture, Art, Loisirs, Paris, 1972.

[8] Alex Amorim de Sousa, O segundo Deus. Redes Editora, Porto Alegre, 2009.

[9] Ilarino da Milano, Eresie Mediovali; Scritti Minori. Maggioli Editore, Rimini, 1983.

[10] Marie-Humble Vicaire, Le catharisme: une religion. In Historiographie du catharisme – Cahiers de Fanjeaux, n.º 14. Édouard Privat, Toulouse, 1979.

[11] The Letters of St. Bernard of Clairvaux. Sutton Publishing Ltd, London, 1998.

[12] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2011.

[13] Charles Molinier, L´Inquisition dans le Midi de la France au XIIIe et au XIVe siècle. Etude sur les sources de son histoire. Toulouse, 1880.

[14] Isabel Maria Dâmaso de Azevedo Vaz dos Santos, Do altar ao palco – Santo António na tradição literária, artística e teatral em Portugal e em Espanha. Doutoramento em Estudos de Literatura e de Cultura, Universidade de Lisboa / Faculdade de Letras / Departamento de Literaturas Românicas, 2014.

[15] José Rivair Macedo, Um Grupo em busca de Perfeição espiritual: os Cátaros na França medieval. Conferência apresentada na VI Jornada de Estudos do Oriente Antigo, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 19.5.2000.

[16] Emmanuel de Roy Ladurie, Monttaillou. Cátaros e Católicos num Aldeia Francesa (1294-1324). Edições 70, Lisboa, 1984.

[17] Pierre des Vaux de Cernay, Histoire Albigeoise. Libreirie J. Vrin, Paris, 1951.

[18] Monique Zerner-Chardavoine, La Croisade des Albigeois. Ed. Gallimard, Paris. 1979.

[19] Maria Henriqueta Fonseca, O Catarismo e a Cruzada contra os Albigenses. Revista de História (USP), Volume VIII n.º 17-18, pp. 79-117, 1954.

[20] La Chanson de la Croisade Albigeoise, in Les Classiques de l´Histoire de France au Moyen Age, tomo I, estrofe 21, versos 15-18. Editado e traduzido do provençal por Eugene Martin-Chabot. Ancienne Honoré Champion, Paris, 1931.

[21] Otto Rahn, Cruzada Contra o Graal. Editora Via Occidentalis, Lisboa, 2007. Jean-Michel Angebert, Hitler e as Religiões da Suástica. Livraria Bertrand, Lisboa, 1974.

[22] E. Sarasa Sánchez, Las Cortes de Aragón en la Edad Media. Zaragoza, 1979.

[23] Maria Máxima Vaz, D. Dinis – bom poeta e mau marido? Capeia Arraiana, 20 de Outubro de 2013.

[24] Ana Rodrigues Oliveira, Rainhas medievais de Portugal. Dezassete mulheres, duas dinastias, quatro séculos de História. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010.

[25] Henrique Barrilaro Ruas, Augusto Ferreira do Amaral, João Aguiar, Cronologia e breve história dos reis de Portugal, in A Monarquia Portuguesa – Reis e Rainhas na História de um Povo. Edição Selecções do Reader´s Digest, Lisboa, Abril de 1999.

[26] Rui de Pina, Chronica do muito alto e muito esclarecido principe D. Sancho I, segundo rey de Portugal. Lisboa Ocidental, 1727.

[27] Pedro de Mariz, Dialogos de Varia Historia. Impressão de António Craesbeeck de Mello, Lisboa, 1674.

[28] Luiz Gonzaga de Azevedo, História de Portugal, volume quarto. Edições «Bíblion», Lisboa, 1942.

[29] Sidinei Galli, A Cruz, a Espada e a Sociedade Medieval Portuguesa. Editora Arte & Ciência/UNIP, São Paulo, 1997.

[30] Luiz Gonzaga de Azevedo, História de Portugal, volume quinto, p. 174. Edições «Bíblion», Lisboa, 1942.

[31] Fortunato de Almeida, História de Portugal, volume 1, p. 182. Imprensa da Universidade, Coimbra, 1922.

[32] D. Diogo de Souza, História de Portugal – Desde os Tempos primitivos até a fundação da Monarchia e d´esta epocha até hoje, p. 211. Typographia de José Carlos d´Aguiar Vianna, Lisboa, 1852.

[33] D. Diogo de Souza, ob. cit., p. 211.

[34] Luiz Gonzaga de Azevedo, ob. cit., pp. 34-36.

[35] Doação de Mafra, em Fr. Francisco Brandão, Monarchia Lusitana, V Parte, escritura 16, no Apêndice; João Pedro Ribeiro, Dissertações Chronologicas e Criticas, Tomo V, págs. 88 e segs.

[36] Albertino Alves Pardinhas, Monografia de Cortegaça: Apontamentos para História da Honra, do Couto e do Concelho (extinto) desta milenária povoação e outras memórias mais recentes. Junta de Freguesia de Cortegaça, Oliveira de Azeméis, 1997.

[37] Anísio Franco, A Cruz de D. Sancho I, história, função e forma. In Inventário do Museu Nacional de Arte Antiga – Colecção de Ourivesaria, 1.º volume: Do Românico ao Manuelino, pp. 50-55, 1995.

[38] Luiz Gonzaga de Azevedo, ob. cit., pp. 180-186.

[39] Acta Sanctorum, Tomo I, págs. 410, Augusti, Venetiis.

[40] «Chaque évêque devra exigir de ses contes, châtelains, bourgeois, etc., au besoin par les censures ecclésiastiques, le serment, dejá prêté par ceux de Montpellier, d´expulser les hérétiques, de punir les opiniâtres, d´eloigner les juifs de tous les emplois et de leur défendre d´avoir des domestiques chrétiens». «Damnati vero, saecularibus potestatibus praesentibus, aut eorum ballivis, relinquantur animadversione debita puniendi, clericis prius a suis ordinibus degradatis; ita quod bona hujusmodi damanatorum, si laici fuerint, confiscentur…». Hefele-Leclercq, Histoire des Conciles, Tome V, págs. 1283, 1330.

[41] «Item statuimus ne aliquis libros Veteris vel Novi Testamenti in Romancio habeat; et si aliquis habeat… tradat eos loci Episcopo comburendos». Das Constituições de Jaime, o Conquistador, contra os albigenses e valdenses.

[42] Marcelino Menéndez y Pelayo, História de los Heterodoxos Españoles, Tom. III, 1918, págs. CXXX e segs. (Apêndice).

[43] Doc. na España Sagrada, Tom. XXII, págs. 113 e segs.; págs. 285 e segs.; España Sagrada, Tom. XXXV, págs. 294; História de los Heterodoxos Españoles, Tom. III, págs. XXXVIII, Apêndice; Constituição de D. Pedro II de Aragão contra os valdenses, págs. XLII; Constituição de D. Jaime, o Conquistador, contra os albigenses e valdenses. «El celo de San Fernando no atajo en Castilla todo resabio albigense… En los fueros que aquel santo monarca dió á Córdoba, á Sevilla y á Carmona, impónense á los herejes penas de muerte y confiscación de bienes». História de los Heterodoxos Españoles, loc. cit., págs. 177-178; Anales Toledanos, ad aeram 1262, na España Sagrada, Tom. XXIII, págs. 407.

[44] “Ainda que a garça voe alto, o falcão a mata”, provérbio português.

[45] Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal, volume I: Estado, Pátria e Nação (1080-1415). Editorial Verbo, Lisboa, 1978.

[46] Celso Cunha & Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo. Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1984.

[47] Jorge Rosa, História – Nizza: A origem dos nomes de algumas terras do Nordeste Alentejano. In Portal de Nisa, 24.10.2013.

[48] Jorge Rosa, Montalvão, Ecos de uma História Milenar. Edições Colibri / Câmara Municipal de Nisa, 2001.

[49] Carlos Dinis Tomás Cebola, Nisa, A Outra História. Edições Colibri / Câmara Municipal de Nisa, 2005.

[50] Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Elucidário das Palavras, Termos e Frases que em Portugal antigamente se usaram, volume II. Lisboa, 1799.

[51] Obras referenciais sobre a Comenda (Velha) de Arez da Ordem de Cristo, onde o topónimo original aparece: Título da Comenda de Ares de 1505; Tombo da Comenda de St.ª Maria de Ares da Ordem de Cristo de 1638; Carta de Comenda de 1699 da Chancelaria de D. Pedro; Alvará Régio passado à Comanda de St.ª Maria de Ares de 1717 da Chancelaria de D. João V.

[52] Portugaliae Monumenta Misericordiarum, Vol. V, p. 259. Publicação da União das Misericórdias Portuguesas e do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica, 2006.

[53] Possidónio M. Laranjo Coelho, O Santo Ofício no Alto Alentejo. Separata “Memórias”, Academia de Ciências de Lisboa / Secretariado Diocesano da Catequese, 1956.

[54] Luís Chaves, Influências religiosas na formação da Antroponímia e da Toponímia em Portugal. In O Arqueólogo Português, 2.ª Série, Volume 3, 1956.

[55] D. Diogo de Souza, ob. cit., pp. 205-215.

“Guia de LISBOA SAGRADA E PROFANA” por Vitor Manuel Adrião – Edição Lusophia. Quarta-feira, Ago 3 2016 

Guia de LISBOA SAGRADA PROFANA

Por

Vitor Manuel Adrião

EDIÇÃO LUSOPHIA / EUEDITO

JULHO DE 2016

PREÂMBULO

Por que o escudo de Portugal está inclinado 17º sobre a fachada da Gare do Rossio? Onde foi tocada pela primeira vez em Portugal a “Flauta Mágica” de Mozart e porque Mozart dedicou-a ao seu Mestre Cagliostro? Por que sobre a ideia do Quinto Império Português encontram-se tantos sinais na geografia e monumentos da cidade? Onde se encontram os mais belos azulejos de Lisboa? Por que e como a Lusitânia se tornou Portugal (Porto do Graal), lugar de recolhimento do mítico Graal de Cristo? Onde se acha a cabeça do serial killer lisboeta conservada em formol? Onde está o “jardim mágico” de Bordalo Pinheiro? Por que a fachada sul do Mosteiro dos Jerónimos foi concebida segundo os princípios kabalísticos hebraicos? Quais são os símbolos ocultos do políptico nacional de Nuno Gonçalves no Museu Nacional de Arte Antiga? Quem são verdadeiramente esses sabastianistas que, à maneira dos muçulmanos xiitas, aguardam o retorno do rei encoberto assinalado em D. Sebastião?

Lisboa tem sido desde a Idade Média um terreno de predilecção excepcional para desenvolver e aplicar as ideias de reis que foram alquimistas, de ministros que também eram maçons, de poetas ocultistas, de adeptos do Hermetismo e dos conhecimentos secretos dos Templários que se refugiaram em Portugal, após a sua interdição no século XIV no resto da Europa.

Vitor Manuel Adrião, historiador e filósofo reputado, é o herdeiro em Portugal do conjunto desses saberes esotéricos. Ele revela aqui, neste verdadeiro guia iniciático sem descuro do profano, a sua sabedoria inédita e descreve de modo estupendo os arcanos de Lisboa que alguns pensaram estar destinada a capital espiritual da Europa.

Lisboa Sagrada e Profana destina-se a todo o género de público que quer saber e conhecer as maravilhas e os insólitos esquecidos ou ignorados da capital portuguesa. Um livro que é um guia excepcional.

LUSOPHIA

ÍNDICE

ALFAMA – GRAÇA – MOURARIA

Preâmbulo

Alfama, povo e tradição

Alfama das “águas boas”

A cisterna de S. Miguel de Alfama

Lisboa – Lix Bona – Água Boa

Varina da Conceição Velha

Por que para os antigos o Tejo era rio sagrado?

Arte e Mistério em Conceição Velha

Casa histórica da Fundação José Saramago

Um jardim de falos mortos…

A santidade impossível de Vicente

Panteão Real de S. Vicente

Adoração feminina na Graça

A cadeira dos partos de São Gens

O bairro maçónico “Estrela de Ouro”

A Aula da Esfera

Colégio dos Meninos Órfãos

Segredos e tesouros de S. Cristóvão

Memória artística no Palácio dos Távora

As “pedras negras” do Templo de Cibele

Deuses do Teatro romano

Tesouro artístico do Palácio Belmonte

Curiosidades da igreja do Menino-Deus

Sinais secretos no Castelo de S. Jorge

O motivo de S. Jorge ser apeado do cavalo

A relíquia esquecida de Santiago Maior

A milagrosa Cruz de Santiago

Ordem Militar de Santiago

Os símbolos “pagãos” de Santa Luzia

Lenda da vida de Santa Luzia

S. Brás cura os males de garganta

Por que S. Brás é um dos patronos da Ordem de Malta?

O milagre de Santo António na Sé

Dedicar uma quadra a Santo António como promessa de amor

Os capitéis insólitos da Sé de Lisboa

Mistérios e segredos de Santa Maria Maior

Os signos mágicos do claustro da Sé

Princípios da Arquitectura Sagrada

O capitel das aves no claustro da Sé

A coluna das almas na Sé

A “Porta Santa” da Sé Patriarcal

Simbolismo sagrado da flor-de-lis

O mistério do Santo Graal

Como a Lusitânia se fez Portugal

BAIXA – ROSSIO

Termas subterrâneas da Rua da Prata

O “Sagrado Esculápio”

Quem é o deus Esculápio?

O misterioso Cais das Colunas

As tágides do Tejo

Os símbolos da estátua equestre de D. José I

Transferência Imperial – Translatio Imperii

Vida e obra do padre António Vieira

A mensagem oculta do Terreiro do Paço

Hermes Trismegisto, fundador do Hermetismo

Símbolos do Arco do Triunfo

Portugal “cabeça” do “corpo” da Europa

O estranho relógio do Arco da Rua Augusta

A mesa de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa: “Se és maçom, sou mais do que maçom – eu sou templário.”

A águia flamejante de São Nicolau

Arquitectura sagrada da Baixa Pombalina

As sete colinas sagradas de Lisboa

Segredos nos Paços do Concelho

Os símbolos da estátua de D. Pedro IV

O áxis mundi

Bocage no Café Nicola

Tabacaria Mónaco, Arte escondida

Arte Nova no Animatógrafo do Rossio

Alto-relevo das mãos unidas

O cumprimento maçónico

Hospital das Bonecas

Auto-de-fé a S. Domingos

Os painéis do Palácio da Independência

A “arábica” Casa do Alentejo

Segredos da sede da Casa dos 24

Os segredos de D. Sebastião na Estação Central

D. Sebastião, o “rei-sonhador”

Arcano 17 e o Horóscopo de Portugal

Por que se “endireitou” o Escudo de Portugal?

Os painéis esotéricos de Lima de Freitas

As passagens secretas do Hotel Avenida Palace

O segredo do Obelisco dos Restauradores

A “abadia” subterrânea do Palácio Foz

Os símbolos de Arte Real na “abadia”

O que é o ágape maçónico?

BAIRRO ALTO – CARMO – SANTA CATARINA

Sagrado e profano nos Armazéns Grandella

Simbolismo do pentagrama, a estrela de cinco pontas

O alquimista do Convento do Carmo

O que significa Beguino?

A espada mágica do Santo Condestável

A porta real do Carmo

Ordem do Carmo e a influência do Hermetismo

Símbolos maçónicos na Rua da Trindade

Azulejos maçónicos da Cervejaria Trindade

O Olho dentro do Triângulo

Os túmulos dos sebastianistas

Messianismo e Sebastianismo

Pensão Amor, erotismo e burlesco

Tabernas e confrarias

As “linhas de força” da Praça de São Paulo

Banhos de São Paulo

Palácio do Manteigueiro avarento

Encanto e piedade no Convento dos Cardaes

Palácio do Marquês de Pombal

Grémio Lusitano e Museu Maçónico

Cagliostro no Palácio Sobral

Traços biográficos de Cagliostro, um Mestre do Oculto

Santa Catarina: miradouro dos aluados

Escultura do Adamastor

Padres do Deserto em Santa Catarina

O subterrâneo da Praça do Príncipe Real

O Lagartagis do Jardim Botânico

ALCÂNTARA – CAMPO DE OURIQUE – ESTRELA

O baixo-relevo dos Santos Mártires

Pureza ou cheiro de santidade

O esquecido Palácio Almada-Carvalhais

Fonte bicéfala manuelina

A maravilhosa Custódia de Belém

Os segredos do Políptico de Nuno Gonçalves

Quem são Melki-Tsedek e o Preste João?

Simbolismo do Obelisco das Necessidades

A ignorada Tapada das Necessidades

Memória da Quinta do Mineiro

Jardim interior do Palácio de São Bento

A Fonte Santa dos Prazeres

Jazigo maçónico do Duque de Palmela

Jazigo templário do Dr. Carvalho Monteiro

Os Templários: factos e fantasias

Condessa d´Edla, memória tumular

A primeira bomba da República

Odisseia das relíquias do Santo Condestável

Nuno Álvares Pereira, o Santo e Guerreiro

Jardim das Francesinhas, memória e olvido

Cemitério dos Ingleses, a Inglaterra em Lisboa

O Leão da Estrela

AJUDA – BELÉM – SANTO AMARO

A “Charola” de Santo Amaro

Quem era Santo Amaro?

O mistério da Charola dos Templários

Os cinco sólidos básicos e a Geometria Sagrada

A esquecida Quinta das Águias

O Salão Pompeia do Palácio da Ega

Palácio Burnay, delírio e fausto

A misteriosa fonte das 40 bicas

Saga do defunto Marquês de Pombal

O “Chão Salgado”

As berlindas de Santa Maria de Mua

A ermida “esquecida” de Boitaca

O Manuelino, arte de passagem

Os segredos da Torre de Belém

Significado da Cruz da Ordem de Cristo

Mosteiro dos Jerónimos e Tradição Primordial

Jerónimos e Kaballah

A Kaballah Ibérica

Infante Henrique de Sagres, iniciador da Gesta

As celas “hieráticas” dos Jerónimos

Joaquim de Flora e as três Idades do Mundo

O claustro “hierático” dos Jerónimos

Alquimia e Alquimistas portugueses

FORA DO CENTRO

Jardim imaginário de Bordalo Pinheiro

A “mão diafanizada” do Teatro Anatómico

A cabeça do serial killer Diogo Alves

O lugar onde está a “Cruz da Pedra”

História rara de Carriche

Inscrições templárias no Lumiar

Quem é verdadeiramente o Baphometh?

A gruta miraculosa da Senhora da Luz

Os fantasmas do Palácio Beau Sèjour

Enigmas do Palácio Marqueses de Fronteira

O paraíso do Jardim Zoológico

O resgatado Teatro Thalia

A relíquia de S. Sebastião da Pedreira

Os painéis do Pavilhão dos Desportos

Os símbolos da estátua do Marquês de Pombal

Maçonismo na estátua do Marquês de Pombal

Quem era o Marquês de Pombal?

Lápide do chafariz de Andaluz

O desconhecido Hospital de Arroios

Balneário D. Maria II e a saúde mental

As máscaras de pele do Museu de Dermatologia

O relógio de sol mais antigo de Portugal

Culto ao Dr. Sousa Martins

A antiga Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego

O “lagarto” da Penha de França

As obras de Santa Engrácia

Amores proibidos de Santa Engrácia

Quem era Santa Engrácia?

Santa Auta da Madre de Deus

Quem foi Santa Auta?

Simbologia hermética na Madre de Deus

A maravilha da igreja de S. Félix de Chelas

A odisseia do “Braço de Prata”

Lenda de Santiago barqueiro e Caio náufrago – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Jul 25 2016 

A lenda que vou contar anda ligada a uma antiga família de Portugal, os Pimentéis de Trás-os-Montes[1]. Consta que este apelido procedeu de uma alcunha imposta pelo rei Afonso III, por volta do ano 1260, a um moço fidalgo chamado Vasco Martins de Novais, que se evidenciou pela esperteza e celeridade que em tudo mostrava. No brasão da família Pimentel estão incluídas as conchas (vieiras) da nossa lenda, que também estão representadas na torre do castelo de Bragança. Por outro lado, e como conta a história, as vieiras são o distintivo dos servos de Santiago, e os peregrinos que se dirigiam antigamente em peregrinação a Compostela levavam-nas como indicativo da finalidade da sua jornada.

Passou-se a história que vou contar no ano 44 da Era de Jesus Cristo.

Certa manhã, saiu a passear um ilustre cavaleiro da Maia chamado Caio Carpo Palenciano. Com ele ia a mulher, que desposara há pouco tempo, a nobre Claudina Lopo Zalenco, e vários outros parentes e amigos. Estava-se no Verão e, por esta razão, saíram cedo da vila, tentando aproveitar o fresco da manhã. Era uma cavalgada vistosa a que se dirigia à praia de Matosinhos: um pouco à frente iam Caio e Claudina, conversando calmamente, e seguindo-os ia um grupo animado do qual por vezes sobressaía um jovem fazendo caracolar o cavalo à volta de alguma dama. Era realmente um belo espectáculo, reluzente de armas, colorido de tecidos finos.

Cavalgavam pelo areal quando alguém avistou no mar uma barca, navegando com proa ao norte. Pararam todos para observar a majestosa beleza da embarcação, que vogava calmamente com todo o pano desfraldado. Estavam assim, um pouco esquecidos do tempo, entretidos a olhar o mar quando, repentinamente, o cavalo de Caio correu para a água. O cavaleiro tentou refrear o animal, mas este, obedecendo a uma força desconhecida, mergulhou no mar e desapareceram. Ambos voltaram à tona, entretanto, à beira da embarcação, e o cavalo, dando um impulso, subiu para bordo. Estavam os dois cobertos de vieiras.

Caio, espantado com tantas maravilhas, perguntou aos marinheiros quem eram e porque lhes aconteciam tais coisas.

Responderam os navegantes:

– Somos cristãos, discípulos de um homem santo chamado Tiago. Vimos de muito longe, fugidos ao ódio de homens que perseguem os seguidores de Cristo e trazemos aqui, nesta barca, o corpo do nosso Mestre Tiago.

– E porque vos dirigis para estas bandas? Foi o vento que vos trouxe ou fostes vós que traçastes a rota?

– Vamos para terras da Galiza, senhor, onde o nosso Mestre pregou o Evangelho de Jesus Cristo. Aí esperamos encontrar irmãos nossos e conseguir dar descanso ao corpo deste Apóstolo.

– E como explicais o prodígio operado pelo meu cavalo?

– Isso, senhor, significa que sois um escolhido de Nosso Senhor! As conchas de que vos vedes coberto são o sinal de Santiago, que quer ver-vos na lei de Jesus Cristo. A partir de hoje, distinguirão os servos deste santo homem!

Caio estava profundamente comovido pelo que ouvia, pelos milagres que via. Dentro de si sentia crescer um sentimento desconhecido, uma espécie de paz total que o levou a pedir aos marinheiros que o considerassem um dos seus. Foi assim que Caio Carpo Palenciano recebeu o baptismo da água, sobre as ondas, segurando as rédeas de um cavalo coberto de conchas.

E uma vez desembarcado e novamente reunido à esposa e aos amigos, converteu-os a todos com a narração de tão pasmoso caso.

"Fuente del Carmen", Padrón, mostrando o baptismo do peregrino e a barca fúnebre de Santiago

“Fuente del Carmen”, Padrón, mostrando o baptismo do peregrino e a barca fúnebre de Santiago

Esta lenda jacobeia portuguesa, inspirada na Lenda Áurea coluna dorsal de toda a tradição santiaguista, coloca os seus personagens no período gallo-romano (cerca 40-45 d. C.) e assinala o início da evangelização peninsular a partir do actual território português. Três elementos circunstanciais compõem a mesma, remetendo para o sentido profundo do simbolismo tradicional: a barca com os discípulos do Apóstolo finado; o cavaleiro Caio e a sua montada mergulhando nas águas; o cavaleiro e o cavalo saindo das águas para bordo da embarcação.

Segundo René Guénon[2], dentre os emblemas que foram outrora os do deus romano Janus [bicéfalo], o Papado herdou e conservou, além das duas chaves, a barca, atribuída paralelamente a S. Pedro e tornada a figura da Igreja[3] com o  Sumo Pontífice à proa da mesma: o carácter «romano» de Janus e do Papado exigiu essa transmissão dos símbolos, sem a qual ele não teria representado senão um simples facto geográfico sem conteúdo real e efectivo, marcando o Papado, desde a sua origem, como predestinado a ser «romano» na razão da situação de Roma como capital do Ocidente, desde a primeira hora amancebada ao Império, o que lhe deu esse estatuto dominante. No entanto tem-se aqui, na lenda, a deslocação da barca para o extremo ocidente da Europa, como designando o Apostolado de Tiago superior ao de Pedro ao ir mais avante na sua marcha cíclica e assim os seus tripulantes possuírem conhecimentos mais profundos que os da barca «romana», o que transfere para o seu sentido da Igreja ministrante e a Igreja ministrada, o Primaz e a Cúria, o que sabe e o que crê. Na primeira situação está a Igreja braco-galaica; na segunda, está a Igreja romano ou latina. É nisto que entra o sentido da “Grande Barca” (Maha-Yana) de Tiago Maior, indicativa da Tradição Primordial exercida como Arte Sacerdotal por via do Ministério e Instrução, superiores aos exercícios ministeriais e catequeses romanas indicadas pela “Pequena Barca” (Hina-Yana) de Pedro, esta destinada a pescar almas para a Igreja dos crentes, aquela vocacionada a salvar almas para a Igreja dos perfeitos. Tem-se nessas duas modalidades o Sacerdócio de Aarão (exotérico) e o Sacerdócio de Melkitsedek (esotérico), este cuja santidade e sabedoria exigidas fá-lo incorruptível e logo inviolável, facto figurado pelo sentido supremo da Terra Santa a quem os hindustânicos chamam Agharta, cujo símbolo é a próprio barca d´ouro do deus Osíris, oposto daquela barca d´prata da deusa Ísis.

A imagem da navegação foi frequentemente utilizada na Antiguidade greco-latina, tendo-se como exemplos mais notáveis a expedição marítima dos Argonautas à conquista do Tosão de Ouro no Jardim das Hespérides ou Hispânias e a viagem de Ulisses, vindo do mar da Grécia fundar Ulisipa (Lisboa), não esquecendo as referências feitas por Virgílio e Ovídio. Igualmente na Índia se encontra por vezes esta imagem, e no texto sagrado Atmã-Budha tem-se uma expressão singularmente semelhante à utilizada por Dante na Divina Comédia (Paradiso, II, 1-18): “O Yogui, diz Shankaracharya, tendo atravessado o mar das paixões, está unido com a tranquilidade e possui o “Ser” na plenitude”. O “mar das paixões” é evidentemente a mesma coisa que as “ondas da cupidez” e nos dois textos aparece o tema da “tranquilidade”, a qual representa o final da navegação simbólica e a conquista da Grande Paz[4]. Desde logo esta pode entender-se de dois modos, segundo se reporte ao Paraíso Terrestre ou ao Paraíso Celeste: neste último caso identifica-se à Luz de Glória e à Visão Beatífica; no outro, é a Paz propriamente dita, no sentido restrito, mas ainda assim diferente do significado profano[5]. Na lenda jacobeia aqui narrada, a barca do Apóstolo deve conduzir a humanidade dos crentes ao Paraíso Celeste, assim fazendo o papel do Papado (ou Sacerdócio, função dos Brahmanes, “sacerdotes”), enquanto o Cavaleiro sagrado, dessa maneira fazendo o papel do Imperador (ou Realeza, função dos Kshatriyas, “cavaleiros”), deve guiá-la ao Paraíso Terrestre, o que também não deixa de ser uma navegação[6]. Eis porque a Terra Santa das diversas tradições não é outra coisa senão o Paraíso Terrestre, frequentemente representado por uma ilha elevada, indicadora do núcleo de santidade e sabedoria privado das agitações públicas, imutável no meio das ondas da cupidez passional, e por isso é o “Santuário da Paz”, a “Montanha da Paz” ou, em termos bem jacobeos da peregrinação com Compostela à vista, o Monte do Gozo[7].

Falei em dois tipos de baptismo, como sejam o da água e o do fogo, o da catequese e o da gnose, manifestação de duas modalidades distintas, apesar de interligadas, de entender e viver o tema jacobeo como forma dinâmica de Iniciação, expressada pela peregrinação, facto retratado numa pintura medieval representando três pessoas montadas num cavalo branco, simbólico da própria Tradição Espiritual: Santiago Maior de permeio a Teodoro (aspecto esotérico) e Atanásio (aspecto exotérico), os seus discípulos tradicionais, todos com trajes de peregrinos, portanto, em pleno acto de Iniciação votiva ou móvel.

Pintura medieval de Santiago e seus Apóstolos montados num só cavalo

Pintura medieval de Santiago e seus Apóstolos montados num só cavalo

O sacramento do Baptismo, revelador da Espírito Santo ao crente, torna-o parte efectiva do corpo místico da Igreja ministrante (Clero) à Igreja ministrada (Assembleia). Os antigos gnósticos cristãos de Alexandria por vezes utilizavam o termo bafé métous (que os romancistas dos séculos XVIII-XIX transformaram no filólogo baphometh) para traduzir a ideia de “baptismo da sabedoria”, o do Fogo Sagrado do Espírito Santo, aferidor da condição de “Filho do Homem” ou Imortal e não mais de “Mulher” ou mortal, este relacionado com o Baptismo pela Água após o nascimento físico de todo o ser humano, aquele ultrapassando a condição material pela consciencial do Baptismo de Fogo cuja Iniciação Gnóstica, para não dizer Teosófica, confere não aos muitos chamados mas aos raros Eleitos o lume da Imortalidade, equivalente da posse efectiva da consciência integral do Tudo no Todo e do Todo (Divino) no Tudo (Humano).

Acerca-se do sentido de bafé métous a função do botafumeiro, o maior incensário do mundo que é o elemento histórico mais popular da catedral de Santiago de Compostela e que, balançando sobre as cabeças, cruza o espaço da nave enorme purificando espiritualmente as almas dos crentes com o fumo de incenso sagrado que, assim, também não deixa de ser uma espécie de Baptismo de Fogo em rolos de fumo perfumado.

O gigantesco incensário balançando na nave durante as missas dos peregrinos e outros actos importantes, além do referido significado transcendente tem um outro mais humilde e prático[8]. O início do rito do botafumeiro datará dos meados do século XIII, quando a peregrinação a Santiago já se convertera numa verdadeira rota e chegavam milhares de pessoas, saturando a catedral, indo provocar no seu interior um odor desagradável motivado pelo cheiro das roupas sujas dos peregrinos impregnadas da sua transpiração durante a caminhada. Foi quando se inventou e passou a utilizar-se o botafumeiro, para aspergir com perfumes (do latim perfumum, “pelo fumo, através do fumo”) a multidão, purificando-a espiritualmente mas também fisicamente, diminuindo os maus odores[9].

Para ser movido, o botafumeiro necessita de um grupo de oito homens conhecidos como tiraboleiros (do latim thuribulum, “lançador de fumo”), que se vestem de vermelho e são treinados para efectuar o referido manuseio através de cordas. No século XVI, o rei Luís XI de França presenteou a catedral com um incensário construído em prata no estilo renascentista e foi nesse século que, para facilitar a sua utilização, construiu-se sob a cúpula da igreja um mecanismo de polias, desenhado por Juan Bautista Celma, que permite o perfeito funcionamento do botafumeiro. Uma vez o mesmo desgastado pelo seu uso, é recolhido ao museu catedralício. O mais antigo deles que se conserva data de 1851, e outro de 1971, presente da Irmandade de Alféreces Provisionales.

Ritual do botafumeiro na catedral de Santiago de Compostela

Ritual do botafumeiro na catedral de Santiago de Compostela

O botafumeiro actual é de latão banhado em prata, pesa 62 kg vazio (originalmente pesava 60 kg, mas em 2006 acrescentou-se um banho de prata que fez aumentar a sua massa para o peso actual) e chega a pesar 80 kg quando está cheio de combustível, medindo 1,60 m de altura. Esta peça sacra foi criada em Santiago de Compostela pelo ourives Xosé Losada, em 1851. A corda que a suspende, atada do cruzeiro da catedral, é actualmente de um material sintético, mede 65 m, tem 5 cm de diâmetro e pesa 90 kg. Anteriormente as cordas eram feitas de cânhamo ou de esparto[10].

Voltando ao Baptismo no Noûs, a Mónada Divina, seja um Baptismo na Água da Geração ou no Vinho da Transmissão, ou ainda um Baptismo de Fogo no crisma do mesmo Espírito, comporta sempre uma metamorfose ou transformação, a metanoia, do iniciado por uma completa realização gnóstica ou teosófica. Por isso está escrito no Tratado IV do Corpus Hermeticum – De Hermes a Tat: o Vaso ou a Mónada: “Os que escutaram a proclamação e foram baptizados pelo Noûs, participam da Gnose e se tornam Homens Perfeitos, por terem recebido o Noûs[11].

Foi assim que na lenda jacobeia, após receber o Baptismo da Água, o cavaleiro Caio se tornou puro ou “branco”, que é o que significa o seu nome, e o pulo com a sua montada para bordo da barca e a bênção que lhe foi concedida pela apostólica tripulação, equivaleu ao Baptismo do Fogo, assinalado nas vieiras indicativas da luz esplendorosa de Vénus, a Stella Maris.

Tem-se, pois, a Cavalaria como Arte Real (Império), reconhecida e sagrada pela Apostólica como Arte Sacerdotal (Pontificado)[12]. Contém-se nesta lenda portuguesa, enfim, no prefigurado cavaleiro Caio tão-só o sinal de reconhecimento sagrado da própria Ordem Militar e Religiosa de Santiago, custódia dos caminhos jacobeos para o centro comum de Compostela, em plena terra galaica, solar e sagrada que uma vez pertenceu a Portugal.

NOTAS

[1] Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, 6 volumes. Edições Amigos do Livro, Lisboa, 1988.

[2] René Guénon, Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. Éditions Véga, Paris, 1984.

[3] A barca simbólica de Janus podia deslocar-se nos dois sentidos, quer para a frente, quer para trás, o que corresponde aos dois rostos do próprio deus, assinalados pela chave de prata (passado) e pela chave de ouro (futuro), que para a tradição hindustânica são referências às duas Leis Universais do Karma (chave de prata) e do Dharma (chave de ouro) incarnadas na pessoa do Brahmatmã, com função análoga à do Chakravarti ou Melkitsedek, isto é, Imperador e Pontífice Universal.

[4] Esta mesma conquista por vezes é representada sob a figura de uma guerra santa, como se encontra no Bhagavad-Gîta e na literatura árabe apologética da Jihad, havendo um simbolismo do mesmo género nos romances de cavalaria da Idade Média que embeberam de religiosidade as armas cristãs. Vem a ser sobretudo a luta espiritual do homem inferior, mortal, consigo mesmo, o Homem Superior, imortal.

[5] É isto que indicam muito claramente os diferentes sentidos da palavra hebraica Shekinah, “Presença Real de Deus”, como indicativa do próprio Espírito Santo manifestado sobre as Águas geradoras da Criação, configuradas nas funções psico-orgânicas femininas, o que vem a configurá-la na imagem da Mãe Divina. Os dois modos ou aspectos referenciados são aqueles que as palavras latinas Gloria et Pax designam na fórmula: Gloria in excelsis Deo, et in terra Pax hominibus bonae voluntatis. Na catedral de Santiago de Compostela, a Luz de Glória está exposta no pórtico da Glória, do Mestre Mateo, e a Grande Paz no pórtico das Pratarias, com o crisma central.

[6] Isso reporta ao simbolismo dos dois oceanos, o das “águas superiores” e o das “águas inferiores”, o do conhecer e o do crer, e igualmente aos dois tipos de baptismo comuns a todas as doutrinas tradicionais. Já o chuvisco é associado ao sentido de “influência espiritual” (baraqa, em árabe), e por isso se diz que o peregrino é abençoado pela chuva que caia em Santiago de Compostela, Cidade Santa marcada pela presença da Shekinah na forma da Arcam Majorem.

[7] Juan G. Atienza, Los Peregrinos del Camino de Santiago. Editorial Edaf, S.A., Madrid, 2004.

[8] Juan R. Sanmartín, O Botafumeiro: Parametric pumping in the Middle Ages. In American Journal of Physics, volume 52, Issue 10, Outubro 1984.

[9] Após a Missa do Peregrino, durante séculos foi tradição os peregrinos subirem ao terraço da catedral e lançarem nos queimadores que aí estão as vestes gastas e sujas que utilizaram durante a jornada. De maneira que viam-se rolos espessos de fumo subirem permanentemente do alto da catedral. Até neste costume, muito pouco conhecido actualmente, vê-se a presença do elemento ígneo que é o afim e constante do Apóstolo São Tiago Maior, o “Filho do Trovão”.

[10] O botafumeiro em toda a sua história, caiu apenas quatro vezes sem nunca ter ocorrido acidente de ordem pessoal. Uma das quedas foi no ano de 1499, na presença de D. Catarina, que ia a caminho de Inglaterra para casar-se com o Príncipe de Gales, e uma outra queda em 23 de Maio de 1622, tendo o botafumeiro se desprendido das cordas projectando-se pela porta das Pratarias indo despenhar-se na praça defronte, sem tocar em alguém da imensa multidão de pessoas presentes, o que desde logo foi considerado milagre.

[11] Frithjof Schuon, Gnosis Divine Wisdom. Ed. World Wisdom. Inc., Bloomington, 2006.

[12] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição Dinapress, Lisboa, Maio de 2011.

Barcelos, Terra do Galo – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 22 2016 

Ao cruzeiro ou padrão quatrocentista integrado no espólio do Museu Arqueológico de Barcelos[1], anda associada a curiosa lenda do galo e do enforcado[2], e apesar  dessa ave não ser o ex libris oficial de Portugal mesmo assim destaca a sua natureza predominantemente jacobeia e o próprio símbolo do Caminho Jacobeo Português[3].

De forma resumida, a lenda conta que os habitantes do burgo andavam alarmados com um crime de morte e, mais ainda, por não se ter descoberto o criminoso que o cometera. Certo dia, apareceu um galego que se tornou suspeito. As autoridades prenderam-no e, apesar dos seus protestos, ninguém acreditou nele. Não houve quem julgasse crível que o galego se dirigisse a São Tiago de Compostela em cumprimento de uma promessa, que ele fosse devoto fervoroso do santo que ali se venera, como também o fosse de São Paulo e de Nossa Senhora. Por isso foi condenado à forca. Mas antes de ser enforcado rogou que o levassem à presença do juiz que o condenara. Concedida a autorização levaram-no à residência do magistrado, nesse momento num banquete com alguns amigos. O galego voltou a reafirmar a sua inocência e, face à incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a mesa, sentenciando: “É tão certo eu estar inocente como certo é esse galo cantar quando me enforcarem”. Risos e sarcasmos não se fizeram esperar, mas, pelo sim e pelo não, não fosse o diabo tecê-las, ninguém tocou no galo. O que parecia impossível tornou-se, porém, realidade! Quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo assado ressuscitou, ergueu-se na mesa e cantou. Caíram por terra as suspeitas sobre o condenado. Correu o juiz à forca e viu o desgraçado de corda ao pescoço, mas o nó lasso, impedindo o estrangulamento. Imediatamente solto, foi mandado em paz. Passados anos, voltou a Barcelos e fez erguer o monumento em louvor à Virgem e a São Tiago.

Cruzeiro de "o galo e o enforcado", Barcelos

Cruzeiro de “o galo e o enforcado”, Barcelos

Esta lenda velhinha (contada em diferentes versões mas sendo igual no desfecho com a salvação miraculosa de São Tiago que suportou o inocente não deixando que fosse estrangulado) é das muitíssimas do espólio oral medieval que corriam entre os peregrinos jacobeos ao longo caminho português, que passa por Barcelos, quase todas elas, senão todas, abrigando valiosas referências míticas ou herméticas à Tradição Primordial, assim impondo o sagrado ao profano, a peregrinação complexa ao simples passeio, ao andar por andar sem outro sentido ou nexo.

Em primeiro lugar e antes de tudo o mais, o sentido moral desta lenda é o da advertência para o respeito e consolo que se deve dar a todo o peregrino de Santiago, ou seja, o de nunca lhe recusar a hospitalidade como cumprimento do voto maior do amor caridoso, repetindo as palavras do Codex Calixtino que o Papa Calixto II (que fora abade de Cluny e irmão do conde regente da Galiza, Raimundo de Borgonha) escreveu no século XII: “Todo o mundo deve receber com caridade e respeito os peregrinos, pobres ou ricos, que venham ou vão ao solar de Santiago, pois todo o que os recebe e hospeda com esmero terá como hóspede não só a Santiago mas ao próprio Senhor, segundo as suas palavras no Evangelho: O que a vós receber, a Mim recebe“.

Por sua aura de mistério e segredo, durante séculos o peregrino jacobeo foi visto como um ser sagrado, espécie de anacoreta santo num constante vaivém por rotas maravilhadas, traçadas numa cartografia sobrenatural pontilhada pelas estrelas da estrada celeste e pelos rios, vales e montanhas dos caminhos da terra assim abençoada com sua presença peregrina, espargindo do mais profundo do seu ser ao espírito do próprio Apóstolo São Tiago Maior.

Atentar contra o peregrino era o mesmo que atentar contra o próprio Apóstolo de Cristo, era atentar contra Cristo cujos membros são os seus apóstolos e sub-apóstolos. Daí o respeito que os caminhantes da Fé infundiram e desfrutaram em toda a religiosidade europeia da Idade Média e Renascença. Eles eram os padrões volantes ou caminhantes, o homo viator, homens representativos do espírito original do Evangelho nestas plagas lusitanas, tomando Barcelos ou Bar+Cellis como o “Monte do Céu”, o que está mais pertinho da Santa Cruz que um dia, nos alvores da Cristandade, o Apóstolo Tiago aqui fincou. Culto cristão substituto do primitivo fenício-romano, de importação egípcia, de Serapis, o deus ctónico mesopotâmico cultuado em Barcelos antes da implantação do Cristianismo, cujo busto ainda se pode ver no Museu Arqueológico desta cidade.

Contudo, bem se sabe, sempre houveram “ovelhas ranhosas” em todos os tempos e imensas vezes os peregrinos foram molestados e desdenhados na caridade por gentes sem fé nem humanidade, vindo após as lendas e narrativas afirmar que esses acabavam pagando caro e dolorosamente os seus actos indignos, por sinais manifestos da ira de Deus, intervindo por fogos e outros poderes ígneos castigadores afins à própria natureza do “Filho do Trovão” (Boanerges), Sant´Iago Zebedeu[4]. A Protecção Celeste nunca descarecia – jamais descarece! – o caminheiro da Grande Via, bem assinalada na “viande” ou vieira (que com a cabaça estão esculpidas nas colunas interiores na igreja-matriz de Barcelos, ponto de encontro dos peregrinos desde o século XIV 81325-1328), que antes era na capela da Senhora da Ponte, na  margem oposta do Cávado, pertencente à freguesia de Galegos de Santa Maria[5]).

Ponte sobre o Rio Cávado, em Barcelos, passagem obrigatório dos peregrinos de Santiago de Compostela

Ponte sobre o Rio Cávado, em Barcelos, passagem obrigatório dos peregrinos de Santiago de Compostela

Palmilhar a Grande Via em solo português ou Porto-Graal expressa exactamente isso: a Realização do Graal, a Taça Sagrada expressiva do estado de Consciência Espiritual, meta última do viandante, conquistando-a paulatinamente nas etapas do Caminho Iniciático que é sempre Solar, no sentido de expansivo e evolucional, nisto se enquadrando no próprio perfil do Gallo ou Homo Gallaeci inserido no que em sânscrito se apelida Surya-Vansa, “Linhagem Solar”, tendo à sua dianteira os Mestres de Espiritualidade, guias dos homens, palmilhando esse mesmo Caminho da Iniciação Verdadeira, aqui prefigurado pela rota jacobeia. É nisto que entra o sentido mais restrito do nome Tiago, a quem Louis Charpentier atribui o significado de Sábio, ao associá-lo ao Maxa-Jaun da mitologia basca[6] possuído do sentido de “Mestre da Natureza”, igual ao Jaunak galego, o primitivo Tuatha de Danand destas partes ibéricas chamado Tuatha de Gaedhil, indo dar em Jaun, Jacques, Jaime, Jacobo, Iacobo, Iago e finalmente Tiago. Ora, Jaun é Jina ou “Génio”, em sânscrito, sobre quem a Tradição Iniciática das Idades adianta que Jinas vêm a ser os Mestres da Humanidade, Santos e Sábios, Homens Perfeitos ocultados no próprio seio da Mãe-Terra, uma vez por outra, ciclicamente, aflorando à face do Globo para transmitir a sua Sabedoria Divina aos homens e assim impulsionar avante o progresso universal[7]. Bem parece que a nós, ibéricos, particularmente aos luso-galaicos, transmitiram-nos a Tradição do Santo Graal sob a forma da Lenda Áurea de Santiago Maior. Ao encontro disto parece vir o próprio Charpentier, quando escreve na sua obra citada: “Desde a partida no caminho de Compostela, que a cor é “anunciada”. Trata-se de um caminho iniciático de pessoas que vão procurar, no seu ofício e mediante o seu ofício, um conhecimento superior ao mesmo tempo que uma transformação profunda de si próprios… e iniciando-se nessa procura através de não se sabe que cerimónias, primitivamente no próprio seio da Mãe-Terra de onde vem todo o saber e toda a transformação”.

As estrelas envolventes da Taça Eucarística símile do Santo Graal, em Santiago de Compostela

As estrelas envolventes da Taça Eucarística símile do Santo Graal, em Santiago de Compostela

Sendo a Rota do Graal velada pelo Caminho Jacobeo e tendo este sido fundada na própria Galiza, então esta só poderá significar a Terra do Caminho Santo. Com efeito, aquando do domínio romano o Noroeste ibérico era conhecido por Gallicia, no natural galo-céltico, e Calaecia em latim, sendo os seus habitantes – os gallaici ou calaicos, posteriormente o aportuguesado galegos – a principal tribo céltica da Lusitânia. Calaecia é a prosódia latina do original celta Calacia, nome aglutinante dos termos cala e aku, respectivamente, “caminho” e “santo”. O nome Calaecia ou Gallicia significa, portanto, Terra do Caminho Santo.

A rota vem a ser assinalada no étimo Rãs, em cuja igreja está o Senhor dos Caminhos, que é o Orago dos caminhos jacobeos portugueses. Rota ou, anagramaticamente, Taro. Desta palavra Taro, em língua semita e usando-se o método da temurah ou permuta de letras, resulta Tora(h), a quem os rabinos denominam de “Lei”. Taro (ou Tarot) acha-se composto dos vocábulos tar, “via, caminho”, e ro (ros, rog…), “rei, real”, traduzindo-se o conjunto como o Caminho Real da Vida (As-taroth), que é onde se processa a dinâmica da Iniciação Verdadeira de tudo e todos, tão bem assumida e assinalada no nome de aldeia próxima de Barcelos: Mariz, berço genealógico da família deste nome da qual alguns membros entrecruzariam os seus destinos com aquela Ordem Iniciática Secreta de étimo igual, fundada no mesmo século XII da aparição borgonhesa dessa família mas desta feita em São Lourenço de Ansiães,  consignada Ordem Espiritual Portuguesa que, informa a Tradição Iniciática das Idades, a mesma Tradição Primordial, em guisa de encoberta todavia permanentemente activa, esteve por detrás por principais lances da Portugalidade no Mundo.

Assim, voltando à lenda ex libris do romanceiro barcelense, a quem se deve o famoso “galo de Barcelos” (ex libris do artesanato local), parece ter sido ela quem fez derivar o nome da cidade dum latim tardio: Barcalus, que decomposto em bar e calus significa “Filho do Monte Celeste ou Sagrado”[8], título este que se perpetuou na famosa Festa das Cruzes local (talvez as mesmas estrelas de Santiago mas aqui transformadas em cruzeiros sinaléticos da rosta costeira), de medieva idade também andando associada à belíssima lenda que liga Barcelos a Matosinhos e à Praia de Fão, por causa de três cruzes saídas do mar por divinais intentos, uma delas, a de Barcelos, reza a lenda, coberta de vieiras.

Sendo os Mestres Espirituais Homens Solares no sentido já descrito, obviamente que o seu símbolo só poderia ser o galo, a ave simbólica do Sol Levante incarnado no Cristo, ou seja, da madrugada esplendorosa que esconjura as trevas da noite. O facto de no conto ele ter ressuscitado, não deixa de induzir a ideia da Fénix mítica que “renasce das próprias cinzas”, e é assim mesmo que aparece, num aparelho de azulejaria no antigo convento das beneditinas de Santa Escolástica de Barcelos, como galo-fénix contemplando-se no speculum magicum, como atesta a legenda sob ele: “Só se compõe bem quem se vê ao Divino Espelho”. Ao ser associado ao Enforcado na lenda, com esta designa um rito de passagem marcado por uma iniciação martirial, ou seja, a entrega dócil e incondicional à Divina Providência, aqui, a fé na certeza absoluta no socorro final de Santiago.

Isso mesmo é relevado numa das faces do padrão de “o galo e o enforcado”: Santiago, trajando de peregrino, suporta o enforcado, e logo acima apresenta-se o galo a que se sobrepõe o Senhor Crucificado. O significado da alegoria será: a crucificação iniciática do iniciado jacobeo cuja aurora da ressurreição espiritual o galo anuncia. Equivale ao estado de consciencial de Chrestus ou Arhat, em grego e sânscrito.

A providência de Santiago presente na lenda de "o galo e o enforcado"

A providência de Santiago presente na lenda de “o galo e o enforcado”

Com efeito, sendo o galo considerado universalmente um símbolo solar, por o seu canto anunciar o nascimento do Sol, a tradição hindu atribui-lhe a personificação de Skandha e Prana, ou seja, a Virtude e a Energia Vital provinda do mesmo Astro-Rei. Por ser também um emblema do Cristo, nele recai a ênfase do seu simbolismo solar: Luz e Ressurreição. Já no Livro de Job o galo é símbolo da inteligência recebida de Deus, cuja sabedoria é atributo exclusivo do Homem[9]. Como o Messias (Messiah ou Avatara), o galo anuncia o nascer do dia do esclarecimento espiritual que sucede às trevas da noite da ignorância das coisas divinas[10]. Por sua função de arauto – como o foi S. João Baptista, cuja cabeça degolada é venerada na igreja matriz de Barcelos – cabe ao galo ser colocado no lugar mais alto, nas flechas das igrejas e nas torres das catedrais. Essa posição, no cimo dos templos, evoca a supremacia da influência espiritual na vida humana, a origem celeste da iluminação salvífica, a vigilância da alma atenta para perceber, nas trevas da noite que morre, os primeiros clarões do Espírito que se levanta. Por isto, o Talmud faz do galo um mestre de polidez, porque ele apresenta o seu Senhor, o Sol, anunciando-o com o seu canto.

Igualmente no Islão o galo de goza de uma veneração sem igual em relação aos outros animais, e o Profeta Mahometh em pessoa dizia (Alcorão, sura 8:60): “O galo branco é meu amigo. Ele é o inimigo do inimigo de Deus… O seu canto assinala a presença do Anjo”. Atribui-se, da mesma maneira, ao Profeta a proibição de maldizer o galo que convida à oração. Mahometh ter-lhe-á conferido uma dimensão cósmica: “Dentre as criaturas de Deus – teria dito ele – há um galo cuja crista está debaixo do trono, os pés assentados na terra inferior e as asas no ar. Quando passarem dois terços da noite e só restar um terço a passar, ele bate as asas e diz: ‘Louvor ao Rei Santíssimo, digno de exaltação e santidade, e que não tem associado’. Nesse momento, todos os animais batem as asas e todos os galos cantam”[11].

Na outra face do padrão vê-se o Senhor Crucificado sobre um dragão, significando tanto a esconjuração das heresias quanto a saída da treva para a Luz, da noite para o dia. Aparecem também Santa Maria e São Paulo, além de uma Lua e um Sol. Maria é a Mater Mundi, e Paulo, com a espada e o livro, expressa a Pacis Cognoscio, a “Paz do Conhecedor”, este que expressa a Igreja Claustral, a da pastoral apostólica afim à própria natureza heterodoxa ou livre de Maria, corporificação do Espírito Santo ou Espírito Livre, cuja condição andrógina ou lunissolar (Sol e Lua), no fim de contas, é desde o primeiro momento prerrogativa do próprio caminho jacobeo, palmilhado por todas as condições humanas sem distinção de sexos, raças e credos.

Ressurreição e elevação é, afinal, a mensagem implícita no padrão velhinho de que nasceu a lenda agora tratada, passada às margens do Cávado ou Gab-Atu mesopotâmico, o parda ou rio das “Águas Celestes”, sobre o qual anuncia a aurora triunfante o galo cristóforo, ave sacralizada que faz de Barcelos jóia singular de Portugal que não é “cauda” mas cabeça de uma Europa orgânica constituída meio milénio após ele[12].

Enfim, paragem obrigatória no caminho jacobeo, visitar e peregrinar por esta linda cidade é, sobretudo, percorrer a via-sacra que leva da Cruz ao Monte e deste ao Céu, sendo tão-só o que significa Barcelos.

NOTAS

[1] Teotónio da Fonseca, O Concelho de Barcelos Aquém e Além-Cávado, volume I de II. Reprodução fac-similada da edição de 1948. Barcelos, 1987.

[2] Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, 6 volumes. Edições Amigos do Livro, Lisboa, 1988.

[3] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição Dinapress, Lisboa, 2011.

[4] Juan G. Atienza, Leyendas del Camino de Santiago. Editorial Edaf, S.A., Madrid, 1998.

[5] Ernesto Amorim Magalhães, Barcelos no Passado e no Presente. Barcelos, 1958.

[6] Louis Charpentier, Santiago de Compostela, enigma e tradição. Editorial Minerva, Lisboa, 1973.

[7] Na Bíblia, no Livro de Job (28: 3-4, 20-23 e 27-28), lê-se: “O homem põe um limite às trevas, e esquadrinha, com exactidão, as rochas que estão em densa obscuridade. Abre galerias longe dos lugares habitados, que são ignoradas pelos pés dos transeuntes, porque estão em lugares inacessíveis. […] Donde vem, pois, a sabedoria? Onde está o lugar da inteligência? Está oculta aos olhos de todos os viventes, e até às aves do céu está escondida. O inferno e a morte dizem: Apenas ouvimos falar dela. Deus é quem conhece os seus caminhos e sabe da sua morada. […] Ele viu-a e descreveu-a, penetrou-a e conheceu-a ao fundo. Depois, disse ao homem: O temor do Senhor é a sabedoria, e fugir do mal é a inteligência”.

[8] Batalha Gouveia, A origem etimológica de Barcelos. “Jornal do Incrível”, Lisboa, 1983.

[9] Job, 38:36 – Quem pôs a sabedoria no coração do homem? Ou quem deu inteligência ao galo?

[10] Também a Maçonaria veio a adoptar o simbolismo do galo, dispondo-o na sua “câmara de reflexões” que antecede a entrada do neófito no templo, pondo-o como signo da vigilância e do advento da luz espiritual por via da transmissão iniciática. Na Alquimia, corresponde ao mercúrio hermético.

[11] Toufic Fahn, La naissance du monde selon l´Islam. In Sources Orientales, Paris, 1959.

[12] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

Cultura céltica na Ordem dos Templários – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jul 10 2016 

A cultura céltica, nomeadamente a hispânica celtibera (celta e ibera), pelos dados históricos disponíveis, dá a entender que marcou decisivamente a organização Templária desde o Sul de França até para cá dos Pirinéus, como igualmente a sua actuação numa sociedade essencialmente rural, o que irá ser motivo de análise neste estudo.

Assim, além das culturas romana e árabe, quase nos primórdios do Período Histórico encontra-se a civilização celta incorporada à autóctone ibérica de que sairiam os lusitanos ou lugsignan, identificados aos ligures da Península Itálica que terão sido povo com sangue atlante descendente directo dos mais míticos que mitológicos Tuatha de Danand, os quais estão na origem da tradição e civilização ibérica e hibérnica (irlandesa)[1].

De raízes neolíticas, os lugsignan (mistura de celtas e iberos) certamente foram os arquitectos da monumentalidade lítica que hoje é testemunha dos primórdios da presença humana nesta nossa Península, eles os intuídos que cedo souberam estabelecer uma simbiose telúrica entre o espaço sideral e a Terra, a sua estrutura vital aflorada à superfície por campo de nódulos e correntes energéticas envolvendo todo o Globo. O celtibero e o lusitano conectaram a sua vivência com a disposição desse espaço energético, sacralizaram-no plantando monumentos (cromeleques, tholos, dólmens, antas, antelas, menires, etc.) onde eram mais intensa a afluência telúrica, e assim deram nascimento ao culto da Grande Deusa, a Deusa-Mãe, afinal, a própria Terra, fecundada pelo Sol e fecundante pelo poder das suas energias vitais, o que se revelava nas boas águas para beber e pescar, nos bons terrenos para semeadura e colheita, nos ares saudáveis e nos espaços verdejantes para pastorícia e saúde do gado. Essa foi a primitiva religião agrária, nómada por um lado, por se mover sob o pretexto de busca constante de terras e águas boas, e sedentária por outro, indo plantar castros e citânias para habitação em lugares oferecendo essas condições indispensáveis à manutenção da vida, as quais só poderiam atribuir à Grande Deusa, Mãe Primordial de todos os demais deuses zoomórficos e antropomórficos em que se constituía o seu monopanteísmo original, de que deixaram testemunho à posteridade nesses lugares, repito, previamente demarcados por basta e variada monumentalidade lítica.

Nascem assim os bosques sagrados, os lagos sagrados, as montanhas sagradas, as grutas sagradas, etc., sempre assentes em confluências de telurismo intenso, como acontece no aro megalítico do Alentejo, que junto com Sagres e Sintra formam o espaço telúrico de maior intensidade do país[2]. Esses conhecimentos geomânticos primitivos viriam a ser recuperados pelos Templários para se instalarem em espaços já anteriormente demarcados e consignados sagrados pela religiosidade celta, os quais vieram a dar no que hoje se convencionou chamar de “enclaves mágicos” do Templo, tão celebrizados por uma cultura marginal “pop new age” mais urbana que rural, campesina, paisan ou “pagã” como era na origem.

Herança desse dominador mágico celta herdado pelo Saber Templário em meio de uma sociedade predominantemente rural, tem-se:

1 – As bases geométricas da Arquitectura, como se repara, por exemplo, na composição dos cromeleques “quadrados” com o menir fálico, da pujança viril, cravado ao centro, que viriam a estar na inspiração geométrica do “quadrado da terra” e do “padrão” ou mundus da arquitectura românica nascida dos colegia fabrorum ou de artífices da Roma antiga. Há mesmo casos repetidos de antas primitivas terem sido posteriormente adaptadas a ermidas e capelas cristãs, como também o do aproveitamento do espaço de antigos cromeleques para sobre eles se assentarem as bases de igrejas e castelos, e assim igualmente o aproveitamento de muitas mamoas para “mães d’água”.

2 – O conhecimento geomântico exacto do movimento das linhas telúricas da Terra e os pontos de encontro de várias delas como nódulos telúricos, assim sabendo onde estavam as terras e águas boas para semeadura e consumo, como igualmente o lugar preciso para plantar um edifício, sacro ou não, que ficasse isolado das correntes negativas afectando o espaço ambiental e meteorológico, e assim aos temperamentos humanos e dos restantes seres vivos (animais, vegetais e minerais).

3 – O conhecimento exacto das propriedades medicinais das plantas e minerais, ou seja, a farmacognosia, aplicada como farmacologia natural sendo claramente um saber taumatúrgico herdado dos celtas. Foram os médicos do Templo quem descobriram a causa da lepra negra (assim chamada por deixar os corpos enegrecidos, em putrefacção ainda vivos, contaminando de imediato outros): estaria no centeio (com que se fazia o pão) plantado em zonas pantanosas próximas do mar, contaminado pelo salitre e pelos insectos.

Esses são exemplos da recolha feita do saber celta pelos mais doutos do Templo, e que tanto a religião como a medicina populares, do conhecimento dos mais antigos, ainda preserva[3].

Cromeleque "quadrado" do Xarez em Reguengos de Monsaraz, Alentejo

Cromeleque “quadrado” do Xarez em Reguengos de Monsaraz, Alentejo

Bem antes da presença celta regista-se na Península Ibérica a existência dos ligures, a quem Saint-Yves d’Alveydre (nos seus Arqueómetro e Missão dos Judeus) chama de “mestres do mar”, ao decompor a palavra em li+guru, o que lhes atribui origem além-Atlântica, isto é, atlante, cujos conhecimentos de navegação igualmente se reflectiram naqueles outros fenícios proto-históricos. Os ligures ter-se-ão mesclado aos iberos e dado essa etnia nova dos lugsignan ou lusitanos, cuja existência longa iria atravessar vários milénios a ponto de virem a fundir-se depois tanto nos celtas, dando os celtiberos, como nos romanos, dando os luso-romanos.

Os lusitanos, já então celtiberos, receberam o legado cultural e mágico dos primitivos lugares (isto é, lug+ara, “altar de Lug”) consagrados ao culto desse deus supremo do panteão ligure, a par de sua esposa Lusina, destinada à eleição de padroeira dos construtores-livres no período cristão, tanto sob a feição de Santa Madalena como de Santa Luzia. São marcas indeléveis da presença de Lug os referidos lugares “Lug” ou “Lux”, no contexto geral a Lusitânia inteira, como “Terra de Luz”, e no mais particular Lisboa, Logroño e Lugo, por exemplo, no caminho da peregrinação a Santiago de Compostela e nos caminhos encobertos da Intra-História peninsular. Lug (depois assumido como deus Endovélico pelos celtiberos e que o judaico-cristianismo identificaria a Mikael ou São Miguel, tudo em conformidade à sucessão dos ciclos religiosos nas respectivas antropologias civilizacionais), obreiro universal, demiurgo, mestre de artes e alquimista, músico, guerreiro e mago, o poderoso deus tutelar da Lusitânia que os ligures e os celtas transportaram consigo na sua marcha para onde o Sol se põe, as Occidens, com os olhares fixos no caminho estelar de Santiago ou a Via Láctea e tendo por guia o Canis Majorem, a estrela do Cão (símbolo jacobeo do guia, guardião e protector do peregrino viandante ou itinerante), chegando finalmente as finis Terrae, onde toda uma civilização megalítica e castreja foi plantada junto à orla atlântica ornando o espaço do que é hoje Portugal[4].

O caminho tortuoso da Iniciação Ligure ficou assinalado nos labirintos decorando o espaço interior de várias catedrais cristãs, como a de Chartres[5] e a de Santiago de Compostela, nesta última palmilhado pelo peregrino que a adentra indo prestar homenagens ao Apóstolo, desde o Pórtico da Glória com a Coluna de Jessé até à descida na cripta onde repousam os pressupostos restos mortais de São Tiago Maior, encerrados num sarcófago de prata. Este labrys ou redondo para o ponto central de si mesmo, é representado em uma escala simples e lúdica pelo simbolismo do Jogo da Glória ou do Ganso, “oca” em espanhol, e que foi o emblema de Lusina adoptado como insígnia dos construtores-livres medievais, pois, como se vê nas estelas funerárias do antigo cemitério de Iria Flávia,  a maioria deles assinava as suas obras com um pé de ganso, forma estilizada simples da flor-de-lis, esta considerada na Tradição Iniciática símbolo da Consciência Universal como lótus sagrado de Agharta.

Rafael Alarcón[6], acerca do Jogo do Ganso ou da Pata (a pata do ganso, a meu ver, já que o pato é a expressão mais doméstica do ganso, aquele mais passivo e aquático e este mais irreverente e ígneo), diz o seguinte:

“Há um complicado puzzle de símbolos ancestrais que querem significar algo muito mais distinto do que representam: um cisne e uma pata têm três filhos, dois pequenos cisnes e uma pequena pata; a pequena pata é raptada por um herói grego, já cinquentão, que havia conseguido entrar e sair do labirinto de Minos vencendo os seus perigos graças aos ensinos dum centauro; os irmãos cisnes vão resgatá-la para evitar que Helena-pata sofra a sorte de Ariadne, abandonada pelo seu herói pouco depois de ter sido raptada. Anos mais tarde a pequena pata, já crescida, será raptada por um troiano; serão então todos os gregos a quererem-na resgatar, provocando a conseguinte guerra no transcurso da qual se inventará o Jogo da Pata.

“É desde logo uma mitologia “labiríntica”, plena de símbolos com duplo e triplo sentido, que só pode ser desmascarada seguindo um fio subtil. Talvez o fio de Ariadne, levando à porta do labirinto? Labirinto espiralado que os Companheiros puderam percorrer, indistintamente, no lombo da Jaca-Cábala, a pé com as suas patas palmeadas, ou cavalgando sobre um caracol…

“Retornando aos nossos Companheiros medievais, há certos signos ou elementos simbólicos que lhes são próprios correspondendo-se paralelamente com elementos do Caminho Jacobeo e do Caminho da Pata, ainda que seja, quiçá, mais acertado dizer que determinadas casas do Jogo da Pata estão marcadas, definidas, pelos simbólicos elementos ocultos do Caminho de Santiago…

“A entrada, podemos comprovar em todos os tabuleiros, antigos e modernos, fica assinalada pela pessoa “mágica” do personagem que, sobre o desenho, vai realizar a peregrinação. O dito personagem, que pode aparecer tanto numa casa especial sem número como na número um, adopta as mais variadas características: um jogral, um gnomo, um mago ou astrólogo, um peregrino, etc., o qual costuma aparecer numa destas duas posturas: ou está em atitude de lançar os dados para começar o jogo, ou então conduz uma pequena bandada de patas incitando-as com a sua vareta a caminhar pelo caminho espiralado. Em qualquer dos casos fica claro que o nosso personagem simboliza o Mestre Iniciador, disposto a guiar-nos pelo caminho com a ajuda da sua vareta mágica ou com as instruções contidas nas medidas harmónicas dos dados, verdadeiras pedras angulares do jogo, como de toda a construção teórica.”

Realmente, a disposição desse jogo é muito significativa. O tabuleiro compõe-se de 63 casas, valor que reduzido teosoficamente dá 9, número dos ciclos da Terra (e a cada 9 casas dá-se novo período de jogo), e à divisão do círculo em “9” os monges-construtores chamavam de “pata de ganso”, sendo daí que o jogo recebeu esse nome. Na casa 58 (valor que somado e reduzido dá o Arcano 13) tem-se a “Morte”, e quem a vencer ou transpor fica a 5 casas de chegar à Glória, à Vitória, à Perfeição Humana que é o que o 5 alegoriza.

Sobre a Iniciação Ligure praticada pelos Lusitanos, tive oportunidade de descrevê-la na minha História Oculta de Portugal (cap. 15, pp. 300-302):

“Voltando aos dólmens, eram formados por uma câmara octogonal, interiormente da altura de um homem e com um pequeno corredor de acesso, com cerca de 1,2 m de altura. Assim constituído teria o formato de um útero, o útero da Mãe-Terra onde só podiam entrar, logicamente, pessoas do sexo masculino, devido aos opostos macho-fêmea.

“A câmara octogonal devia situar-se sobre o cruzamento de dois lençóis de água subterrâneos, ponto nevrálgico para onde o telurismo converge fazendo se sentir mais. O formato em octógono, para os Lugsignan, permitia a recepção máxima dessa força e a sua reflexão para o centro da câmara onde o iniciado, nos momentos propícios ao acto solene, mantinha-se de pé 24 horas[7].

“O dólmen possuía tradicionalmente uma tríplice porta, duas entradas laterais e uma central, todas com cerca de 1,6 m de altura, o que forçava, a quem a transpunha, baixar a cabeça – sinal de veneração e humildade perante a cerimónia de iniciação que se iria desenrolar. O momento escolhido era decidido em função do posicionamento dos astros, no instante em que as forças telúricas atingissem, no entendimento esotérico dos druidas, o máximo de fixação e irradiação local[8].

“Depois disso o iniciado era obrigado a inclinar o tronco para atravessar o pequeno corredor, de 1,2 m de altura, até à câmara. Acreditavam os druidas (termo oriundo do celto-bretão dru-vid, “o que possui a sabedoria e o poder”) que essa posição forçada lhes permitia a valorização do nível emocional do corpo humano. Eles acreditavam existir 3 níveis – o mental para o cérebro, o emocional para o coração e o impulsivo para o baixo-ventre –, quase se anulando o primeiro e o último níveis naquela posição. Havia mesmo dólmens (como o de Torres Novas, por exemplo) em que o corredor só podia ser transposto rastejando… como a serpente, simbólica das sinuosas correntes telúricas, facilitando assim uma comunhão mais íntima com as forças interiores da Mãe-Terra.

“Em conformidade sintónica com o momento ideal de recepção do máximo de telurismo vibrante, entravam na câmara octogonal e durante 24 horas mantinham-se de pé no seu centro, o tempo necessário para a rotação completa da Terra. Estavam prontos, depois, já devidamente instruídos, para desempenhar a missão que lhes iria ser confiada como novos druidas.”[9]

O "tellus draconis" celta no Castelo Templário de Tomar

O “tellus draconis” celta no Castelo Templário de Tomar

Pois bem, quando os celtas, vindos da Gália e da Bretanha, atravessaram os Pirinéus e se instalaram na Península Ibérica, incorporaram o elemento autóctone ibero-lusitano o qual, por sua parte, também os incorporou, e assim nasceram os celtiberos.

O nome celta ou kelta tem a sua raiz no etimólogo ligúrico eld, ald ou oold, que encontramos na kaldeia ou aldêia, a comunidade hindu, e igualmente na aldeia, a comunidade rural portuguesa. O termo celta ou ka-eld indica, pois, a “assembleia dos anciãos”, ou sejam os druidas, cujo colégio constituía o poder central da pequena sociedade rural que era a aldeia e cujo modelo serviu, depois, para os Templários organizarem e dirigirem o espaço social inserto no território sob a sua jurisdição com o governo centralizado em alguma Casa sua.

Esses eram os primitivos galos oriundos da Gália, aos quais a Galiza deve o nome, dizendo Jorge Ramos[10] que os seus condutores espirituais, os druidas, não só tinham como centro referencial do seu culto o Sol, Oiw, como igualmente cultuavam a Ísis céltica, Ceres ou Ceridwen, afinal, a Natura Naturante et Naturata.

Júlio César dedica aos druidas três capítulos dos seus Comentários, e Estrabão e Artemido comparam os seus ritos aos de Samotrácia, apesar de Dionísio de Halicarnasso (8. a. C.) os equiparar aos de Baco, ainda que, em boa verdade, possuíssem todas as características do Rito Mitraico. Por Diógenes Laércio e Júlio César sabe-se que o método druida de instrução era por símbolos, enigmas e alegorias, sendo a explicação só oral, enquanto por escrita era proibida (coisa que os Templários também terão feito, e daí a dificuldade em encontrar hoje documentação de sua própria lavra). Também se diz que as suas cerimónias de iniciação admitiam tanto homens como mulheres (tal qual como entre os Templários), e exigiam muita purificação física, moral e mental. A iniciação dividia-se em períodos trimestrais, celebrando-se durante os Equinócios (para as mulheres) e os Solstícios (para os homens), compreendendo três graus em que se dividia a hierarquia druida, cujo conselho dos 12 anciães estava organizado em torno de um 13.º, o arquidruida.

Portanto, tem-se:

Joaquim Gervásio de Figueiredo[11] diz que os principais mandamentos impostos aos druidas, eram: “Obediência à Lei Divina. Interesse pelo bem-estar da comunidade. Suportar com fortaleza todos os males da vida”. Adianta o mesmo autor que terminando o seu período probatório, vestiam o candidato com uma túnica de estrias brancas, azuis e verdes, cores da Verdade, Devoção e Simpatia, alegorizando os Mundos Espiritual, Psíquico e Material; encerravam-no numa tumba com o formato interior de um corpo humano e aí ficava deitado durante três dias em transe profundo (que nada tem a ver com os famosos “estados catalépticos” da confusa psicanálise e nem, tampouco, com os “transes animistas” do deplorável espiritismo, ou melhor, animismo psíquico, mas mais com a consciência desdobrada da forma física em projecção ao nível espiritual). Após despertar, o iniciado mantinha-se sob as ordens do Iniciador e este fazia-o dar nove voltas no santuário, com um passo comedido no começo mas aumentando até terminar numa carreira rápida. Enquanto fazia essas circunvalações, ouviam-se instrumentos musicais e recitações em louvor daqueles que foram heróicos na guerra, corteses na paz e amigos na religião. Terminada essa cerimónia, o neófito jurava guardar segredo e passava por diversos actos nos quais representava vários personagens, exclamando entre outras coisas: “Eu morri” e “Eu ressuscitei”, em alusão à morte e ressurreição místicas. A este respeito comenta o dr. Olivier na sua History of Initiation, pág. 146: “Nisto consistiam a morte e o sepultamento celebrados nos Mistérios Druídicos. Ao terminar os nove meses, dizia-se que o aspirante havia nascido de novo do ventre da deusa Ceridwen e declarava-se que, por isso, era agora uma pessoa regenerada, purificada de suas antigas impurezas”.

Desconheço a existência de algum documento coevo dos Templários explicitando que também eles realizavam o rito da morte e ressurreição, mas conheço vários monumentos funerários seus nos quais os interiores dos túmulos estão cavados em forma humana, como se verifica, por exemplo, em Monsanto e em Vila Franca de Xira, domínios que foram seus.

Tanto nas Gálias como na Bretanha, os druidas foram tratados com o máximo rigor pelos invasores romanos depois de uma heróica e tenaz resistência, devido ao poder da sua influência política e religiosa sobre o povo, como relata Tácito e outros. Mas no norte de Inglaterra eles subsistiram ainda até 714 d. C., aquando os monges de Iona foram expulsos da Escócia pelo rei picto Nechtan, e o seu lugar foi em grande parte ocupado pelos culdeus da Irlanda, que parece terem seguido a mesma tradição até ao século XIV, quando desapareceram dos anais históricos da Europa, mas não sem antes terem infundido na religiosidade cristã e rural esses cultos e crenças pré-cristãs, cuja fase mais notória da sua infusão foi precisamente a páleo-cristã (visigótica).

Todo o itinerário lusitano e celtibero desde Sagres a Finisterra está sulcado de testemunhos megalíticos assinalando a sua presença, e nesses mesmos espaços telúricos onde estão não raro os Templários construíram próximos a eles castelos, conventos, igrejas, capelas e ermidas, como que assimilando a potência antiga Druida à novel Templária[12].

O autor junto ao Menir do Outeiro ou Penedo Comprido, em Monsaraz, o maior da Península Ibérica

O autor junto ao Menir do Outeiro ou Penedo Comprido, em Monsaraz, o maior da Península Ibérica

Chega-se mesmo a ver dólmens convertidos em capelas, o que dá continuidade à tradição do megalitismo agora no terreno da Cristandade que a recebeu em boa parte graças, decerto, à influência do saber geomântico dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão. Um caso notável tem-se no limiar da povoação de Alcobertas, junto da Serra de São Bento, a caminho de Rio Maior. Vê-se aí a singular igreja de Santa Maria Madalena com um dólmen do Paleolítico transformado em ermida adossada a ela. E diz a lenda que foi a própria santa quem transportou à cabeça todas aquelas pedras para ali, impondo assim a construção da igreja arrimada ao dólmen e destruindo todas as noites as tentativas de edificação noutro lugar[13].

A «pecadora» galileia, Myriam Ben Magdala, é bem a versão cristã e cortês de Melusina ou Lusina (a mesma Atégina celto-lusitana)[14], a Deusa-Mãe dos povos proto-históricos destinada a ser Orago dos construtores-livres. Esposa do deus Lug, observa-se este na nova versão tanto do Apóstolo Lucas como do mártir Lourenço, o santo que, por «acaso», está sempre presente nos enclaves mágicos dos Templários, lugares igualmente propícios à observação dos fenómenos celestes como esse das “chuvas de estrelas”, às quais o povo chama de “lágrimas de São Lourenço”. Santo solar ou ígneo, indicia sempre um itinerário da mesma natureza pelo que, com as devidas e raras excepções, marca  presença no começo ou final deste, razão de ser dessas capelas de São Lourenço em Tomar, de Carnide em Lisboa, junto à Pontinha desta, de Azeitão, às portas da Serra da Arrábida, ou ainda de Budens, a caminho do Promontório de Sagres pouco antes da “Vila” do Infante D. Henrique, ou seja, a Quinta da Guadalupe.

O saudoso amigo Juan Garcia Atienza, não hesita em atribuir a São Lourenço a “advocação graálica”[15], cuja lenda hagiográfica é claramente decalcada das tradições gahélicas dos Tuatha-de-Danand transmitidas pelos monges culdeus irlandeses dos primeiros séculos da Idade Média, por cujas narrativas acabaram transformando o céltico Caldeirão de Daghda no cristão Santo Cálice assumido o da Última Ceia e do Calvário.

Já Maria Madalena é identificada simbolicamente ao Útero Materno da Terra, à Cripta, ao Hipogeo, rezando as tradições provençais que após a sua chegada à Europa recolheu-se numa caverna no Sul de França, conhecida como Saint Baume (“Gruta Santa”), onde diariamente orava as sete Horas canónicas[16]. Este episódio encontro-o repetido tanto em São Bento da Porta Aberta, no Minho, como na Gruta do Monge, no Parque da Pena de Sintra, transformada de dólmen em oratório de um anacoreta jerónimo da Serra da Lua[17].

Assim como Santa Madalena e São Lourenço foram personagens caríssimos no Santoral Templário, igualmente não se deve esquecer Santa Brígida.

Brígida nada mais é que Brigite, a divindade céltica reverenciada em todo o Ocidente europeu. Era filha de Daghda, o mítico deus-rei dos Tuatha-de-Danand, e esposa de Bress, rei do povo Fomoré. Dele teve três filhos: Brian, Iuchar e Uar, que foram tidos por génios da inspiração. E o embróglio mítico-simbólico desfeche com o feito dos três engendrarem um só filho de todos eles a quem chamaram Ecné (cujo fonema soa Hermé ou Hermes), significando “saber, ciência ou poesia”. A Brigite também chamaram Dana, donde os Tuatha-de-Danand terem sido o “povo de Dana” ou Brigite. Houve mesmo cidades que foram levantadas em honra desta divindade feminina, como Braccara (Braga) e Brigantium (Bragança)[18].

Além da Santa Brigida da Suécia canonizada pelo Papa Bonifácio IX em 1401, que viveu entre 1303 e 1373 e foi fundadora da Ordem do Santíssimo Salvador e mãe da também Santa Catarina de Siena, não devendo ser confundida com aquela de Alexandria no século IV, a homóloga Santa Catarina (do grego Katharós, “Puríssima”, cuja derivante é Katter, raiz de Cátara como “Pura”, caríssima à devoção Templária, e que estará na génese do ramo familiar Costo ou Costa), aparece uma outra mais obscura Santa Brígida decalcada directamente da Brigite celta, sobre quem pouco se sabe excepto que viveu entre os séculos X-XI, era natural da Escócia ou da Irlanda e filha dum tal Duptaco (Daghda?). Para se consagrar inteiramente a Deus sem que fosse incomodada pelos apetites carnais dos homens, já que era muito bela, Ele desfigurou-lhe um olho e assim tornou-a feia; dessa maneira pôde começar um rol de milagres em nome do Altíssimo, um deles o de fazer brotar fontes de água cristalina para dessedentar os caminhantes sedentos[19].

É esta última Santa Brígida que se vai encontrar no Santoral Templário, achando-se notícia exacta da mesma em Lisboa, na parede exterior lateral à entrada da igreja de São João Baptista do Lumiar (termo de raiz Lug ou LuzAlumiar, reforçado por outros tantos nomes de localidades vizinhas com igual sentido luminoso: Odivelas e Loures), estando encrostadas nela três sepulturas, lendo-se na terceira a epigrafia lapidar seguinte:

Os ditos três Cavaleiros (parecendo apontar à sugestão do mito hibérnico ou irlandês dos três filhos de Brigite) seriam Templários, pois que a igreja de São João do Lumiar estava antanho dentro dos terrenos do lugar da Ameixoeira que era pertença da Ordem do Templo e que a Ordem de Cristo herdou como “comenda velha”, conforme informam as Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, na parte IV, Título II, “Das Comendas e Fazendas da Ordem”, página 147, Lisboa, 1746: “Os bens que a Ordem tem na Ameixoeira, também estão dados por emprazamento”.

Em 1283 era Grão-Mestre Provincial do Templo em Portugal D. Frei João Fernandes, que andou de ligações estreitas com D. Dinis e D. Afonso, o Sábio, tendo detido três Mestrados: os de Portugal, de Leão e de Castela, quase tendo obtido também o da Catalunha, como informa Frei José de Brito nas suas Memórias da Ordem do Templo (inédito existente na Biblioteca Nacional de Lisboa).

Não deixa de ter interesse para o caso o facto dos saloios da Ameixoeira serem precisamente apodados de “catalões”. Terá isso a ver com alguma emigração hispânica para aí promovida pelos Templários? Seriam catalões os cavaleiros que trouxeram para aqui a cabeça de St.ª Brígida da Hibérnia ou Ibérnia, a Irlanda, a mando do Grão-Mestre D. João Fernandes?

Mas, mais importante, por que só a cabeça? Há em tudo isto uma forte sugestão bafomética, atendendo a quanto já se disse anteriormente, o mesmo acontecendo com a cabeça de St.ª Iria. Ainda hoje se cultua nesta igreja de São João Baptista do Lumiar a relíquia de Santa Brígida da Irlanda: uma parte do crânio, depositada numa urna de prata dourada, elegantíssima, estilo D. João V, que se diz ter vindo do Mosteiro de São Dinis de Odivelas.

Mais além do Lumiar e passando a ermida de S. Sebastião, tem-se a escassos quilómetros a igreja e convento de Nossa Senhora da Luz que foram da Ordem de Cristo, tendo a primeira sido fundada no reinado de D. Afonso V em 8 de Setembro de 1464, então uma simples ermida votiva em memória da Virgem ter aparecido em “Luz” aí, junto à chamada Fonte da Machada, ao cavaleiro Pêro Martins. Mas já antes, em 13 de Setembro de 1442, o rei doara ao seu sobrinho, o Infante D. Henrique, essa mesma paróquia de Carnide[20].

Paulo Pereira diz com muito acerto[21]: “Deve registar-se, neste caso, a proximidade de um topónimo com conotações “luminosas” idênticas: Lumiar. E é quase certo que entre a Luz e o Lumiar, através da ermida de São Sebastião e até à igreja de São João Baptista, se perpetue um antigo “caminho dos mortos” ou “estrada do Sol”, segundo a tradição das leys”[22]. Sem dúvida, porque a igreja de S. João Baptista está anexa ao cemitério da Ameixoeira, e a de N.ª Sr.ª da Luz está próxima do cemitério de S. Lourenço de Carnide, cuja igreja e adro anexo ainda conservam alguma memória da presença Templária.

Além disso e indo à sua filologia, Carnide é nome comportando o tema egeu-anatólico car ou kar, “pedra”, aproveitado pela língua celta, enquanto o feminino ker encerra o sentido de “morte”, pelo que se poderá interpretar o etimólogo Carnide com o significado de “caminho da morte”, ademais sendo Ker a divindade feminina psicopompa que conduz as almas dum lado ao outro do caminho da vida, a qual, com a advento do Cristianismo, foi substituída por N.ª Sr.ª da Boa Morte, Hipóstase da Mãe de Deus que todos esperamos venha a rogar, a interceder por nós na hora de nossa morte e nos leve em Luz ao seu Divino Filho, para Este nos julgar em conformidade às nossas acções neste vale de lágrimas. Por esta razão necrolática, Carnide tem por Orago Nossa Senhora da Luz, reforçado pelo igualmente luminoso ou solar São Lourenço, ambos anunciados logo à entrada do “caminho das almas” por São João Baptista, o que transporta o etimólogo Carnide à aproximação daquele outro asiânico, Aragata, “Cordeiro Santo”, tanto valendo por Agnus Dei, afinal, atributo iconográfico do Anunciador.

Vestígios templários no adro da igreja de São Lourenço de Carnide

Vestígios templários no adro da igreja de São Lourenço de Carnide

A igreja de N.ª Sr.ª da Luz, mandada fazer pelo cavaleiro de Cristo Pêro Martins e inaugurada na supradita data de 8 de Setembro de 1464, pela Festa da Natividade de Nossa Senhora, recebeu então na sua capela a miraculosa do Orago, a cujo acto estiveram presentes o bispo de Lisboa, D. Afonso Nogueira, o rei D. Afonso V, a corte e muito povo, como descreveu Frei Roque do Soveral[23].

A imagem da Virgem miraculosa foi descoberta em 1463 por Pêro Martins, na pequena gruta sobre que assenta a igreja e cujo altar-mor ergue-se precisamente sobre a fonte de águas santas ou miraculosas, o que denuncia uma arquitectura de características geomânticas e levando, pelos atributos de luz ou fogo e água, a associar o Orago à própria deusa primitiva dos construtores-livres, Lusina, enquanto Lug está mais adiante, assinalado em São Lourenço na sua capela.

Com efeito, a imagem morenada da Senhora, junta ao seu atributo, Luz, não deixam de sugerir tratar-se da encapotada Virgem Negra Lusina, assim como a fonte milagrosa a capacidade miraculosa de Santa Brígida em fazer irromper nascentes, ambas ligadas a um tipo de culto notoriamente linfo-matriártico e cripto-lunar.

Pêro Martins deu com a imagem depois da Virgem lhe ter aparecido em sonhos repetidamente durante um mês, na altura em que estava prisioneiro dos mouros em Tânger, numa data incerta, talvez 1437, talvez 1459. As palavras consoladoras de Nossa Senhora ao desgraçado cavaleiro cativo, são reproduzidas pelo mesmo Frei Roque do Soveral:

“Filho, consola-te. Eu te livrarei do cativeiro em que ora estás. E como te livrar, ainda que sejas pobre e de parentes necessitados, não deixarás de fazer o que agora te digo. Irás ao lugar de Carnide no Termo de Lisboa, donde és natural, e fazer-me-ás sobre a Fonte da Machada uma ermida como tu puderes. E será a invocação de Santa Maria da Luz, por ser este o nome que me convém e de que meu Filho é servido me chame. Nesse lugar há-de ser meu nome glorificado, honrado e aumentado com muitas maravilhas e milagres que nele serão feitos por minha intercessão em muitas pessoas devotas. E quando chegares, já lá acharás de minha luz e claridade os sinais, que teus naturais hoje vêem sobre a mesma Fonte da Machada. Aí acharás (buscando-a) uma imagem minha, a que farás o que te digo, e nela mostrarei o que sou.”

Liberto o cavaleiro de seu cativeiro, graças à intercessão da Ordem dos Trinos ou da Trindade, logo se apressou a achar a imagem e dar início à construção do templo sobre a cripta donde, narram todos os autores, irradiava uma luz semelhante ao arco-íris, o que veio a ser grafado no topónimo actual do sítio e da titular: Luz. A própria fala lendária da Senhora ao cativo mais parece um incitamento à conquista do V.I.T.R.I.O.L.: Visita Interiora Terris Rectificando Invenies Occultum Lapidem – “Visita o Interior da Terra e rectificando encontrarás a Pedra Oculta”.

Como disse, Pêro Martins deu com a imagem na gruta donde irrompe a água milagrosa que vai alimentar a anexa Fonte do Machado ou da Machada, como já aparece grafada num documento de 27 de Maio de 1311. A sobredita era Urraca Martins Machado ou Machada, donatária de Chelas e freira cisterciense no mosteiro de São Bernardo em Carnide, cujos votos abandonou optando pela vida civil[24].

Regista-se a notícia de já em 1325 haver “casa religiosa” de freiras da Ordem de São Bernardo nesta freguesia de Carnide[25]. Igualmente os freires bernardos (cistercienses após a reforma da Ordem) aqui tiveram “casa religiosa” anexa à igreja de São Lourenço, os quais vieram do mosteiro de Seiça (Montemor-o-Velho, Coimbra), conforme noticiaram Frei Bernardo de Brito (in Crónica de Cister, pp. 854-855, Lisboa, 1720) e o Dr. Baltazar de Faria (in Corpo Diplomático Português, V, p. 242, Lisboa, 1874).

Como já foi dito, a hierarquia tradicional de valores dos Druidas celtiberos terá influenciado a posterior hierarquia Templária numa sociedade, repito, mais rural que urbana, desde a herança de conhecimentos tradicionais à respectiva ordenação escatológica. Inclusive pode fixar-se uma tabela de similitudes nas principais funções de ambas as estruturas, como sejam:

Igualmente encontra-se na arquitectura uma proximidade que liga por sua disposição de forte sentido simbólico a megalítica à medieval do Templo, como se regista principalmente na feitura dos kraks ou castelos deste, os quais originalmente englobavam a cidadela, tal qual os fortificados celtas incluíam a citânia, simbolismo denotado nas cidades lídias caracterizando-se por uma tríplice cintura muralhada que, aquém do sentido iniciático, as protegiam das investidas inimigas, como se verificou nas antigas cidades gregas de Lerna, Tirinto, Micenas, etc., e nas portuguesas de Leiria, Tomar, etc.[26]

Essa cintura muralhada tríplice, entre os citas que deram nos celtas, possuía um grande sentido simbólico, apresentando-se a disposição geral formada por três quadrados concêntricos ligados entre si por quatro linhas em ângulo recto, expressando as artérias principais.

Para Paul Le Cour e René Guénon[27], trata-se do simbolismo da “tríplice muralha” dos castros fortificados celtas cujo significado metafísico, além do utilitário imediato, os sacerdotes dessa raça, os druidas, vieram a propagar de tal maneira que acabou vulgarizando-se em várias formas de jogo, como o “jogo do moinho” e até, com menos traços mas não deixando de ser, na marcação dos campos de futebol.

Com efeito, para os druidas a “tríplice muralha” representaria os três graus da sua hierarquia sacerdotal: druida, vate e bardo, isto é, sacerdote, profeta e instrutor. O candidato ia subindo na hierarquia até chegar ao grau supremo, equivalente ao “Grande Centro” ou Pantheon dos Heróis dessa primitiva religião europeia, como já tive ocasião de dizer quando analisei figura idêntica à que está acima, gravada na parede lateral à entrada na Escola de San Rocco, em Veneza[28].

É assim que René Guénon classifica o significado esotérico das três muralhas como expressivo dos três graus básicos do sistema de iniciação, de tal maneira que o seu conjunto pode muito bem ser, de certo modo, a representação da hierarquia druídica como expressão tradicional do ensinamento iniciático. Com essa mesma explicação, o sentido das quatro linhas dispostas em cruz, que ligam as três muralhas, torna-se de imediato muito claro: serão os canais por meio dos quais o ensinamento da doutrina tradicional se comunica de cima a baixo, a partir do grau supremo, que é o depositário legal desse mesmo ensinamento, repartindo-se hierarquicamente pelos demais graus. A parte central da figura corresponderá, portanto, à “Fonte da Tradição”, de que falam Dante e os Fidelli della Amore, e a disposição crucial dos quatro canais que dela partem identifica-se aos quatro rios do Pardes ou Paraíso. Nesse caso, o centro da figura, como “Fonte da Tradição”, corresponde à Autoridade Espiritual ou Sacerdotal, e os canais subalternos expressam o Poder Temporal ou Real, onde a interacção entre os dois poderes é permanente mas com o primeiro revelando-se pelo segundo, tal qual o Paraíso Celeste se manifesta no Paraíso Terrestre, assim como o Centro Supremo do Mundo (Salém, Shamballah, etc.) se revela nos Centros Sagrados esparsos pelo mesmo Mundo.

Na Idade Média e um pouco por toda a Europa, também foram construídos castelos com tríplice muralha em lugares previamente assinalados pela Tradição Primordial como sendo propícios a uma maior proximidade ao Mundo Espiritual por via das poderosas energias telúricas aí concentradas, e igualmente das boas conjunções dos astros auspiciando esses assim consignados “lugares mágicos”, o que se conformava às primitivas regras das leys.

A “tríplice muralha” medieval acabou assimilando o significado que tinha entre os celtas e veio a assinalar a hierarquia da Cavalaria: cavaleiro, escudeiro e pajem, cuja evolução do candidato à nobreza das armas começava do mais exterior para o “Grande Centro”, este representado pelo rei do país ou pelo governador do lugar.

Também na Idade Média mas para a espiritualidade judaico-cristã, essa figura geométrica sintetizava o sentido do bétilo, ou seja, da “pedra sagrada, considerada como morada de um deus”. É assim que aparece a figurar o próprio Templo de Salomão, em Jerusalém, como o descreve a Bíblia (I Reis, 7:12), com a sua tríplice cintura que separava o povo dos levitas e estes do sumo-sacerdote, o único com acesso ao centro onde estava o “Santo dos Santos” (Sanctum Sanctorum), lugar reservado à Arca da Aliança. Como o Templo de Salomão representava o próprio Paraíso Terrestre, então o simbolismo geométrico da “tríplice muralha” será, em última análise, figurativo desse mesmo Éden Primordial.

A haver Paraíso Terreal haverá Paraíso Celestial como seu modelo, o qual é indicado no Apocalipse (21, 11:22) como a Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados. Para que a figura geométrica a represente, deve colocar-se diagonalmente as quatro linhas em cruz em relação aos dois quadros extremos, a fim do espaço compreendido entre eles ficar dividido em doze triângulos rectângulos iguais, simbolizando as doze portas do Paraíso Celeste.

Do ponto de vista do simbolismo numérico, o conjunto dos três quadrados forma o duodenário, e dispostos da forma assinalada por último em relação à Jerusalém Celeste, vêm a constituir a figura pela qual os antigos inscreviam o Zodíaco (como se vê numa inscultura junto às “escadinhas dos clérigos (trinos)”, em Sintra), o que vai muito bem por a mesma Jerusalém Celeste expressar o Universo inteiro, tal qual o Zodíaco.

Essa figura também era considerada como a da Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados, o que possui uma relação evidente com o significado que se indicou para a figura quadrangular da tríplice muralha, a qual  significa o Paraíso Terrestre. É exactamente esta formação geométrica de sentido astronómico que se repara numa inscultura Templária à entrada da igreja de S. Pedro em Óbidos, terra natal do almirante-mor do Templo, D. Fuas Roupinho.

Para denominaram as supracitadas muralhas, os latinos dispunham de um termo de origem iraniana: pari, o qual aparece no composto pari-daiza, ou seja, “cintura” (pari) e “modelo” (daiza). Paridaiza ou Paradhesa é a arquetípica das palavras hindu-europeias indicativas de Paraíso.

Tudo leva a crer que no interior dos seus kraks os Templários terão criados núcleos sinárquicos no esforço imediato de reproduzirem o Paraíso de Deus, de qual fala o inspirado St.º Agostinho na sua magistral Civitas Dei, e decerto por isso regiam-se no seu meio por regras muito suas, sem darem satisfações detalhadas do que faziam a ninguém de fora, inclusive ao papa e ao rei.

De maneira que a simbiose entre a Jerusalém Celeste e o Paraíso Terrestre, representado no plano imediato da Tradição pela Jerusalém Terrestre, tem a sua expressão efectiva no relacionamento entre a Autoridade Espiritual e o Poder Temporal, entre o Sacerdócio e a Realeza, esta encontrando a legitimação por aquela. Isto mesmo pode ser lido no Midrash Tankhuma, obra teológica judaica que trata da relação entre os dois Poderes Espiritual e Temporal, simbolizados pela Jerusalém “axis coeli” e a Jerusalém “axis terris”, na qual São Bernardo acaso terá se inspirado para o seu Louvor à Nova Milícia e inclusive ingerir na escritura da Regra. Diz esse texto judaico:

“Vós vereis que existe uma Jerusalém do alto que corresponde à Jerusalém de baixo. Por amor da Jerusalém terrestre, Deus fez uma no alto. Eu não entrarei na Jerusalém Celeste antes de ter entrado na Jerusalém Terrestre.”

Por essa razão primaz da divindade e universalidade da simbólica Jerusalemita, é que os Templários cunharam moeda com a efígie do Templo de Salomão de que se assumiam, afinal, guardiães, certamente não tanto das suas ruínas mas mais da Tradição Primordial representada pelo mesmo, indo reflectir-se no binómio sinárquico Autoridade-Poder, o qual certamente conheciam e exerciam, como se observa no testemunho deixado nas figuras decorativas de vários edifícios que construíram, por exemplo, a igreja de São Pedro de Rates, no Minho, onde junto à pia baptismal lavraram na pedra duas figuras: um bispo com o báculo na mão esquerda faz o sinal hierático com a destra a um rei coroado, com uma mão no peito e a outra empunhando a espada. Cena de sagração e investidura: bispo e báculo dominando = Autoridade Espiritual; rei e espada dominado = Poder Temporal. Algo idêntico a Purusha originando Prakriti, ou seja, o Espírito dar de si a Matéria, o que reverte novamente ao conceito da Jerusalém Celeste e Terrestre, paradigmas máximos da Autoritas e da Potens.

Para terminar e volvendo ao celticismo, a corrente celta pôde sobreviver culturalmente através do Templo e continuar, em boa parte através da cultura rural, após esse dar desenvolvimento aos Monges-Construtores, por um lado, e aos Rosa+Cruzes, por outro. Destes últimos brotaram as posteriores Correntes Iniciáticas do Ocidente, com o propósito único de restaurar os laços psicossociais e espirituais rompidos, após a destruição do Templo, entre o Oriente e o Ocidente, e assim contribuírem universalmente para a restauração da Tradição Primordial e consequente edificação de uma Sociedade Humana mais justa e perfeita.

NOTAS

[1] Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal (Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2000 e 2002.

[2] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[3] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

[4] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta (Capital do V Império). Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Abril de 2007.

[5] Sonja Ulrike Klug, Catedral de Chartres (A Geometria Sagrada do Cosmos). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2002.

[6] Rafael Alarcón, A la Sombra de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1986.

[7] Rudolf Steiner, Centres Iniciatiques (Origines-Influences). Editions Anthroposophiques Romandes, 13, Rue Verdaine, 1204 Genève/Suisse, 1977. T.G.E. Powell, Os Celtas. Editora Verbo, Lisboa, 1965.

[8] Acerca do culto lunissolar Lusitano, transcrevo uma passagem importante do livro do professor Adriano Vasco Rodrigues, Os Lusitanos, Mito e Realidade. Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998:

“O culto solar, saído das épocas mais remotas do Neolítico e do Bronze, aparece testemunhado em documentos arqueológicos do período romano. Prende-se às festividades solsticiais, expressas nas orvalhadas da manhã de S. João, e aos festejos desse dia, inclusive as danças de purificação, que originariamente só incluíam a passagem do gado pelo meio de filas de fogueiras. O sacrifício do cordeiro sobrevive na imolação do anho, que serve as ceias da noite de S. João, entre os povos do Norte, com particular relevo para o Porto. Liga-se ao Solstício. Sabemos que os Lusitanos efectuavam danças religiosas nas noites de plenilúnio. Os planetas Marte, Vénus e Lua seriam motivadores de danças rituais. O culto da Lua, nas populações lusitanas, prende-se à estrutura económica ganadeira, e no Norte da Península, ao matriarcado, por influência daquela nos ciclos menstruais.”

[9] Raymundo de Burlet, Pitágoras e os Druidas. Revista “Dhâranâ”, Ano XII, n.º 103, Janeiro-Março 1940, Rio de Janeiro. Ten. L. Verdera Franco, Galicia, celta. Revista “Ejército”, Março, 1969.

[10] Jorge Ramos, O que é a Maçonaria. Editorial Minerva, Lisboa, 1983.

[11] Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo, 1974.

[12] Cf. Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Paisagens Arcaicas, vol. I. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Março de 2004.

[13] Cf. Francisco Hipólito Raposo, Estremadura e Ribatejo em passeio de braço dado. Edição da Mobil Oil Portuguesa, Março de 1987.

[14] Vitor Manuel Adrião, Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Março de 2007.

[15] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1988.

[16] As sete Horas canónicas distribuíam-se ao longo do dia do seguinte modo: 1.ª Matinas (24 horas) e Laudes (3 horas); 2.ª Prima (6 horas); 3.ª Terça (9 horas); 4.ª Sexta (12 horas); 5.ª Nona (15 horas); 6.ª Vésperas (18 horas) e 7.ª Completas (21 horas).

[17] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006. E Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, 2007.

[18] D´Arbois de Jubainville, El Ciclo Mitológico Irlandés. Vision Libros, Barcelona, 1981.

[19] Alonso de Villegas, Flos Sanctorum. Barcelona, 1775.

[20] In Místicos, Livro 3.º, fl. 138 vº, A.N.T.T., citado por José Baptista Pereira, Memórias de Carnide, 1914, pág. 169.

[21] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Idades do Ouro, vol. III. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Agosto de 2004.

[22] Na Idade Média e durante a Renascença, as leys consistiam em padrões ou alinhamentos de faixas ou linhas invisíveis cuja potência teoriza, demarca e liga entre si determinados espaços sagrados e naturais como lugares mágicos. Hoje essa teoria antiga já perdeu o seu foro de ciência tradicional e é apresentada pelas hodiernas crenças neo-espiritualistas que a popularizam como radiestesia, energia psíquica ou mística, etc.

[23] Frei Roque do Soveral, História do insigne aparecimento de N. Senhora da Luz e suas obras. Lisboa, 1610.

[24] Pedro A. de Azevedo, Urraca Machado, Dona de Chelas, in Archivo Histórico Portuguez, III (1905), p. 10, documento VII.

[25] Pedro A. de Azevedo, ob. cit.

[26] Juan G. Atienza, la mística solar de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1983.

[27] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, S. Paulo, Brasil.

[28] Vitor Manuel Adrião, Guia de Veneza Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010.

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