Matemática dos Quadrantes Astrais (Idades do Mundo e do Homem) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Ago 16 2017 

Os hemisférios e quadrantes incidindo nas casas signatárias do mapa astrológico de qualquer nativo é assunto relativamente conhecido de qualquer astrólogo, sendo talvez já menos ou nada conhecido esse tema derivar tanto da quadratura da Terra (⊕) quanto dos hemisférios que demarcam as Idades do Mundo, o Corpo do Logos Planetário de quem os seres humanos são “células”.

O mapa astrológico poderá ser o “bilhete de identidade” da evolução realizada e a realizar por qualquer pessoa ou personalidade manifestada, cinge-se a esta, nunca à Mónada ou Essência Divina que está além do Mundo das Formas mentais, emocionais, etéricas e físicas de que se compõe a dita personalidade, que muda de vida em vida, nisto subentendendo-se que na leitura séria de qualquer carta astrológica “a excepção ser a regra”, posto a evolução de toda e qualquer pessoa estar sujeita aos mais inesperados acontecimentos durante a sua vida, provocados pelas samskaras ou “impressões” kármicas, lastro misto de benigno e maligno (bom ou/e mau karma) que carrega consigo ao longo do rosário das vidas sucessivas, nas quais em cada uma muda a personalidade perecível mas jamais a Individualidade imperecível.

No mapa ou carta astrológica – seja de pessoa, país ou continente – as casas são divididas em quatro hemisférios e quatro quadrantes. Os signos do Zodíaco também são divididos em positivos e negativos ou, em termos astrológicos, activos e passivos, também chamados masculinos e femininos. Todos os signos ímpares (de Fogo e Ar) são considerados activos (Rajas). Todos os signos pares (de Água e Terra) são considerados passivos (Tamas). As casas são agrupadas em angulares (1.ª, 4.ª, 7.ª e 10.ª casas), sucedentes (2.ª, 5.ª, 8.ª e 11.ª casas) e cadentes (3.ª, 6.ª, 9.ª e 12.ª casas).

O Hemisfério Norte ou Nocturno, lado do Fundo do Céu, vai da primeira à sexta casa. Quantos mais planetas o nativo tiver nele mais voltado está para si mesmo, podendo ser capaz de se conhecer melhor, apesar do excesso de planetas só indicar uma pessoa introvertida. Expressa o temperamento linfático.

O Hemisfério Sul ou Diurno, lado do Meio do Céu, vai da sétima à décima segunda casa. Quanto mais planetas o nativo tiver nele, mais possibilidades haverão de projectar-se no mundo social e adquirir fama. Mas também o excesso de planetas aí poderá dificultar a capacidade de parar, de reflectir no que está fazendo, enfim, da pessoa olhar para dentro de si mesma na procura da resolução dos seus problemas. Expressa o temperamento nervoso.

O Hemisfério Leste, lado do Ascendente, ocupa o espaço da décima, décima primeira, décima segunda, primeira, segunda e terceira casas. Quanto mais planetas houverem nelas mais a pessoa poderá revelar-se ambiciosa, decidida, egocêntrica, gostar de agir por conta-própria, usando o seu livre-arbítrio como entender. Reflecte o temperamento bilioso.

O Hemisfério Oeste, lado do Descendente, abrange as casas quarta, quinta, sexta, sétima, oitava e nona. Quantos mais planetas o nativo tiver nele, mais estará voltado para os outros e dependente deles, indo aprender que muitas vezes na vida é envolvido em situações nas quais não poderá ingerir nem as resolver seja de que maneira for. O mapa pessoal indicará quanto fácil é ou não aprender essa lição. Expressa o temperamento sanguíneo.

O Primeiro Quadrante é composto de uma parte inferior Norte e uma parte esquerda Leste. Abrange as casas 1, 2, 3 que se ligam ao “eu”, à personalidade própria, aos valores pessoais, ao meio ambiente do próprio. A pessoa que possui muitos planetas neste quadrante, expressa-se de forma mais voltada para tudo quanto é próxima de si mesma. Preocupa-se muito consigo própria, não costuma cultivar a intimidade com outros, é independente e egocêntrica.

O Segundo Quadrante compõe-se de uma parte inferior Norte e uma parte direita Oeste. Abrange as casas 4, 5, 6 que são as do lar e da família, dos filhos e dos amores, do trabalho e da saúde. O nativo que tem a maioria dos planetas neste quadrante é introspectivo e, ao mesmo tempo, voltado para o exterior. Preocupa-se com experiências transpessoais mais íntimas com segurança emocional através de relacionamentos.

O Terceiro Quadrante é composto de uma parte superior Sul e de uma parte direita Oeste.  Compõe-se das casas 7, 8, 9 responsáveis pelos relacionamentos com os outros, com as crises e transformações, com o meio ambiente mais distante. Este quadrante relaciona-se com o envolvimento impessoal, com as experiências dos outros, com a vida exterior e com os relacionamentos mais abrangentes.

O Quarto Quadrante compõe-se de uma parte superior Sul e de uma parte esquerda Leste. É composto pelas casas 10, 11, 12 que se relacionam ao social, ao controle do seu destino, à autodeterminação, à produtividade e ao sucesso, aos grupos, aos amigos e às instituições de caridade e ajuda ao próximo. A pessoa que tem a maioria dos planetas neste quadrante possui a necessidade de concretizar, os seus interesses são mais impessoais e voltados para o colectivo.

As casas astrológicas, sucintamente, expressam:

Casa 1 – Identidade.

Casa 2 – Valores.

Casa 3 – Percepção.

Casa 4 – Segurança.

Casa 5 – Criatividade.

Casa 6 – Dever.

Casa 7 – Cooperação.

Casa 8 – Regeneração.

Casa 9 – Aspiração.

Casa 10 – Honra.

Casa 11 – Consciência social.

Casa 12 – Subconsciente.

Agora, em conexão com a prática de Astrologia Médica, o seguinte e mais importante que todo o astrólogo, independentemente dos seus conhecimentos e valores, deve fixar em letras de fogo e ter sempre presente na mente como postura conscienciosa de boa-fé:

Nunca dizer a um enfermo algo que o desencoraje;

Nunca dizer aos seus pacientes quando acontecerão as crises que se avizinham;

Nunca predizer uma enfermidade para determinado momento;

Nunca, nunca predizer a morte.

É um grave equívoco, quase ou mesmo um crime, dizer às pessoas enfermas alguma coisa que as desanime, porque isso rouba-lhes a fortaleza que deve ser estimulada tanto quanto possível e com o maior cuidado, para facilitar o restabelecimento. Também é equívoco grave sugerir enfermidades a uma pessoa sã, porque isso focaliza a mente numa enfermidade específica num dado momento, e tal sugestão é capaz de produzir a enfermidade psicossomática, posto que a energia segue o pensamento, como disse Kut-Humi.

É um facto bastante conhecido que muitos estudantes de Medicina sentem ou notam os sintomas das doenças que estudam e sofrem imenso como consequência dessa auto-sugestão. A ideia de ser contagiado por uma doença inculcada por um enfermo que nele deposita toda a sua esperança, torna-se assim muito mais perigosa. Por tudo isso, todo o astrólogo, todo o médico, todo o médico astrólogo deve ser muito prudente e precavido. Se não poder dizer nada que dê ânimo e alento, o que deve fazer é guardar silêncio. Basta um sorriso, basta um afago em guisa de consolação, e o doente poderá sentir recrescer a esperança na cura.

Reportando-me agora às Idades do Mundo afins à evolução do Homem dentro da Esfera Mundanal repartida em quatro quadrantes, cada um afim ao desenvolvimento de um estado de consciência global, verifica-se com precisão impressionante, a partir do calendário tamil que os brahmanes hindus chamam Tirukanda Panchanga, que a relação existente entre os números das respirações e pulsações cardíacas humanas é idêntica, à escala microcósmica, à macrocósmica do tempo de duração dos Kalpas, “Idades Cósmicas”, e das Yugas, “Idades Planetárias”.

As medidas do tempo entre os hindus, relativamente aos seus valores entre os ocidentais, são as seguintes:

Uma Cadeia Planetária, Manuântara, Manvantara ou Maha-Yuga, corresponde a 4.320.000.000 anos terrestres, período de tempo incomensurável para qualquer criatura humana, uma verdadeira eternidade de objectivação do espaço, que a Tradição Iniciática das Idades chama de Kalpa (“Dia”, em sânscrito). Já um Maha-Kalpa, Cadeia Cósmica ou Sistema de Evolução Universal – composto de sete Cadeias Planetárias – equivale à duração terrestre 30.240.000.000 anos.

Aos Luzeiros (Ishvaras) que “encarnam” através dos Planetários (Kumaras) as Rondas ou “Rodas” de Vida, a Tradição Iniciática das Idades consigna-os de Kalpadhikârins, “Senhores dos Kalpas”. À Aurora ou Início de um Kalpa chama-se Kâlya, e ao seu Crepúsculo ou Final de Kalpânta, os respectivos períodos de saída e reentrada no Maha-Pralaya, o “Período de Assimilação Passiva ou Repouso Cósmico” entre Kalpas. Por isso se lê no Bhagavad-Gïta, 9:17, as palavras do Verbo Solar: “No final de um Kalpa, todos os seres desaparecem da minha natureza material (Prakriti) e de Mim (Purusha) emanam novamente, ao iniciar-se um novo Kalpa”.

Cada Cadeia Planetária porta em si, seminalmente, os atribu-tos específicos de um Kalpa e da respectiva Guna ou “qualidade subtil da matéria cósmica” (Mulaprakriti), assim mesmo sendo a semente (bijam) de uma Cadeia Maior ou Cósmica (Sistema de Evolução) que lhe é afim em natureza, exercendo os restantes Kalpas e Gunas uma condição subsidiária de reforço ou complemento à predominante. Desta maneira, temos para o nosso Esquema de Evolução Terrestre (faltando manifestar-se três Cadeias ou Globos Cósmicos para ficar completo):

1.ª CADEIA DE SATURNO

KRITA ou SATYA-KALPA (“Dia de Ouro”) – MAHA-SATVA
ou ITABALALAI PURUSHA TATVA.
1.º PARDA ou “Rio Verde” Celeste. Duração: 1.728.000.000 anos.

2.ª CADEIA DO SOL

TRETA-KALPA (“Dia de Prata”) – MAHA-RAJAS
ou ASBALZAMUR PURUSHA TATVA.
2.º PARDA ou “Rio ou Mar Vermelho” Celeste. Duração: 1.296.000.000 anos.

3.ª CADEIA DA LUA

DWAPARA-KALPA (“Dia de Bronze”) – MAHA-TAMAS
ou AMBALMARE PURUSHA TATVA.
3.º PARDA ou “Rio Violeta” Celeste. Duração: 864.000.000 anos.

4.ª CADEIA DA TERRA

KALI-KALPA (“Dia (Cósmico) de Ferro”) – Predomínio complexo ou auto-neutralização das três MAHA-GUNAS, mesmo assim predominando a parte mais “grosseira” de MAHA-TAMAS como ORBALTARA PURUSHA TATVA.
4.º PARDA ou “Rio Laranja” Celeste. Duração: 432.000.000 anos.

É no Kali-Kalpa que as Idades Planetárias ou Yugas se manifestam influindo em cada Ronda do Globo Planetário, que por sua vez influi na Raça-Mãe afim na matemática do Ciclo em manifestação. Tem-se:

1.ª RONDA DE SATURNO

KRITA ou SATYA-YUGA (“Idade de Ouro”) – SATVA (Energia Centrífuga)
Duração: 1.728.000 anos.

PERÍODO RACIAL AFIM:

RAÇAS-MÃES POLAR E HIPERBÓREA
Afim à CASTA OU VARNA BRAHMANE (SACERDOTAL)
Sete vezes menos a duração da 1.ª Ronda.
KRITA ou SATYA-YUGA. SATVA. Duração: 172.000 anos.

2.ª RONDA DO SOL

TRETA-YUGA (“Idade de Prata”) – RAJAS (Energia Rítmica)
Duração: 1.296.000 anos.

PERÍODO RACIAL AFIM:

RAÇA-MÃE LEMURIANA
Afim à CASTA OU VARNA KSHATRIYA (MILITAR)
Sete vezes menos a duração da 2.ª Ronda.
TRETA-YUGA. RAJAS. Duração: 129.600 anos.

3.ª RONDA DA LUA

DWAPARA-YUGA (“Idade de Bronze”) – TAMAS (Energia Centrípeta)
Duração: 864.000 anos.

PERÍODO RACIAL AFIM:

RAÇA-MÃE ATLANTE
Afim à CASTA OU VARNA VAISHYA (COMERCIAL)
Sete vezes menos a duração da 3.ª Ronda.
DWAPARA-YUGA. TAMAS. Duração: 86.400 anos.

4.ª RONDA DA TERRA

KALI-YUGA (“Idade de Ferro”) – TRÊS GUNAS (Triguna)
Duração: 432.000 anos.

PERÍODO RACIAL AFIM:

RAÇA-MÃE ÁRIA ou ARIANA
Afim à CASTA OU VARNA SHUDRA (BRAÇAL)
Sete vezes menos a duração da 4.ª Ronda.
KALI-YUGA. TRIGUNA. Duração: 43.200 anos.

Por sua vez, cada Sub-Raça – sete Sub-Raças perfazem uma Raça-Mãe – dura sete vezes menos a duração da Raça-Matriz de que faz parte, donde se calcular o valor aproximado de cada Sub-Raça:

POLAR E HIPERBÓREA
Duração de cada Sub-Raça: 17.280 anos.

LEMURIANA
Duração de cada Sub-Raça: 12.960 anos.

ATLANTE
Duração de cada Sub-Raça: 8.640 anos.

ARIANA
Duração de cada Sub-Raça: 4.320 anos.

O actual Ciclo Ariano, também chamado Adâmico, os seus períodos de evolução de vida, consciência e forma, são assinalados pelos doze signos do Zodíaco de maneira seguinte:

Ainda acerca da Yuga, ela é precedida de um período chamado, nos Puranas hindus, Sandhyâ (“Aurora” ou período de pós-transição), seguido por um outro de igual duração denominado Sandhyânza (“Crepúsculo” ou fase de ante transição para nova etapa cíclica). Corresponde, respectivamente, ao início do Cosmos (Actividade, Dia Universal, Manvantara) e à entrada no Caos (Repouso, Noite Universal, Pralaya). Cada um deles é igual à décima parte do valor esotérico da Yuga que, quanto mais espiritual ou dévica (sátvica), maior é o seu valor numérico, portanto, de 1000 para 4000. O grupo das quatro Yugas é computado primeiro pelos Anos Divinos ou Anos dos Devas, cada um deles sendo igual a 360 anos no cômputo humano.

Um Ano Dévico (Matra-Dévico ou Matra-Akasha, a “Medida do Akasha” em tempo e espaço, correlacionando-se aos Matra-Devas ou Devas do Além-Akasha, o Segundo Mundo Celeste) possui 360 dias e noites equivalendo aos 360 anos terrestres, assim valendo um grau do Zodíaco Cósmico relacionado exclusivamente às constelações mais além das doze tradicionais do Zodíaco Planetário. Dessa maneira, tem-se em Anos Divinos:

Expresso em anos terrestres, isso equivale a:

Resumindo a matemática das Idades do Mundo, proferiu o Professor Henrique José de Souza:

“Segundo a doutrina dos Kalpas ou Ciclos, que são a chave das pasmosas e astronómicas cronologias brahmânicas – isto é, os Dias e Noites, Idades, Vida e Morte do Criador do Universo (Brahma) – a Maha-Yuga dura 4.320.000 anos, e é a soma de quatro Yugas menores que se sucedem na seguinte ordem:

“Idade de Ouro ou de Paz e Verdade (Satya-Yuga) = 1.728.000
“Idade de Prata (Treta-Yuga) = 1.296.000
“Idade de Bronze (Dwapara-Yuga) = 864.000
“Idade de Ferro ou Negra ou Idade da Dor (Kali-Yuga) = 432.000
“Total dos anos = 4.320.000

“Na Idade Negra, o Bem e o Mal lutam como forças quase iguais (senão iguais, dizemos nós), e é a chamada Idade da Dor. Este último período, que é múltiplo de outros menores reconhecidos pela Astronomia ocidental como “ciclo de precessão equinocial”, “ciclo de mudança ou variação do periélio” e “ciclo de excentricidade da órbita terrestre”, torna-se um módulo ou unidade de medida para as cronologias brahmânicas. Por isso, a Kali é a metade da Dwapara, o terço da Treta, o quarto da Satya ou Krita e o décimo da Maha-Yuga, pois como se viu a Maha-Yuga (ou Grande Idade) é de 4.320.000 anos (razão porque a Kali é de 432.000 anos ou a décima parte daquela).

“A nossa actual Idade (Kali-Yuga) começou há uns cinco mil anos atrás, quando se deu a morte do Avatara Krishna, e como em todas Idades grandes e pequenas da História, ela tem a sua epopeia, resumo das suas glórias, a saber: o Mahabhârata de Vyasa, ou Canto da “Raça Solar” (Filhos dos Pitris).

“A epopeia da Idade de Bronze (Dwapara-Yuga) é o Ramayana de Valmiki, com as façanhas da “Raça Lunar”. Raciocinando por analogia, é possível que existam outras duas epopeias mais gigantescas ainda, para as outras duas Idades. As quatro Idades, ou o Ciclo de Precessão Equinocial, eram e são reproduzidas em miniatura no Ciclo de Iniciação.

“Pelo que se vê, faltam ainda 427.000 anos para acabar a Kali-Yuga. À medida que os seus pequenos ciclos forem acabando, menos será a intensidade da sua acção dolorosa sobre o Mundo.”

O retorno à Jerusalém Ideal, protótipo do Paraíso Terrestre, na espiral lenta mas segura da evolução marcada pelos quadrantes astrais, tem a sua representação simbólica num tanto esfíngico mas significativo antigo calendário hebraico que circulou entre os sefarditas ibéricos.

Segundo a afirmação do Professor Henrique José de Souza relativamente às quatro Idades ou o Ciclo de Precessão Equinocial relacionar-se directamente ao Ciclo da Iniciação Humana, tem-se naquele o pulsar rítmico do Logos do Mundo e neste, seu reflexo directo, o pulsar do ritmo cardíaco numa numeração exactamente igual, à escala microcósmica, à daquela.

Com efeito, é facto conhecido que o Sol nasce todos os anos 50,1 segundos atrás do ponto em que nasceu no ano anterior no Equinócio da Primavera, fenómeno afim à precessão dos equinócios que ocorrem a cada 21 a 27.000 anos como já comprovou a Astronomia. Se dividir-se uma circunferência em doze partes e dado que a circunferência tem 360 graus, verifica-se que cada parte (a que corresponde um signo do Zodíaco) tem 30 graus. Ao cabo de aproximadamente 25.920 a 27.000 anos, o eixo do Pólo Terrestre realiza uma ronda completa por todo o Zodíaco, percorrendo em cerca de 2.160 anos, prolongando-se a 2.250 anos a transição definitiva de uma casa para outra, um signo zodiacal (30º). Na razão de 1º por cada 72 anos (360º x 72 = 25.920).

Esses valores cósmicos têm eco na dimensão humana, dando fé ao que diz própria ciência médica quando indica para um indivíduo saudável a média de quatro pulsações por cada respiração integral (inspiração – retenção – expiração – retenção), permitindo estabelecer o cômputo seguinte: 1 minuto = 72 pulsações e 18 respirações. 1 hora = 4.320 pulsações e 1.080 respirações. 1 dia = 103.780 pulsações e 25.920 respirações.

Se o ano, pequeno período zodiacal do Logos do Sol, tem quatro estações, também a pulsação e respiração humana têm quatro períodos (o “compasso quaternário” da evolução da Terra) correspondentes a essas mesmas estações anuais, como sejam:

1.ª Pulsação – Inspiração – Outono
2.ª Pulsação – Retenção – Inverno
3.ª Pulsação – Expiração – Primavera
4.ª Pulsação – Retenção – Verão

O Homem, feito à imagem e semelhança do Logos do Universo (Sistema Planetário), possui duas medidas afins ao seu estado Jiva ou de “Vida-Energia individualizada”: as 72 pulsações cardíacas e as 18 respirações por minuto; multiplicando as 18 respirações por minuto pelos 1.440 minutos do dia, obtém-se o valor do Éon ou Ciclo anual do Sol: 1.440 x 18 = 25.920.

Se dividir-se o número 25.920 por 72 (25.920 ÷ 72 = 360), ter-se-á o valor da circunferência em graus.

A Tradição Iniciática do Oriente transferida ao Ocidente, mede o tempo pela ciência dos Tatvas, os “estados subtis de matéria”: 1 Tatva = 432 respirações; 1 hora = 4.320 pulsações, valor microcósmico ou humano do macrocósmico (432.000) da Kali-Yuga em que todos vivemos.

Os sábios hindus formaram as suas cronologias com dois factores: as 72 pulsações e as 18 respirações do Homem por minuto. A partir disso, matematicamente alcançaram os resultados seguintes:

Satya-Yuga, 4 vezes 72, igual a 288 graus;
Treta-Yuga, 3 vezes 72, igual a 216 graus;
Dwapara-Yuga, 2 vezes 72, igual a 144 graus;
Kali-Yuga, 1 vez 72, igual a 72.

288 é a pulsação em 4 minutos;
216 é 120 avos (10×20) da precessão;
144 são as pulsações de um minuto duplo;
72 é o numero chave de todos os ciclos.

O grau é a unidade e o minuto é o quádruplo; a respiração é os 72 avos da unidade e a pulsação é o quádruplo dos 72 avos.

Prana, o Alento de Vida, manifesta-se pelos cinco Elementos subtis, Tatvas, cada um deles actuando numa parte específica do corpo humano, a saber:

1.º Pritivi (Terra) – Influi da planta dos pés aos joelhos.
2.º Apas (Água) – Influi dos joelhos aos órgãos genitais.
3.º Tejas (Fogo) – Influi dos órgãos genitais ao umbigo.
4.º Vayu (Ar) – Influi do umbigo ao coração.
5.º Akasha (Éter) – Influi do coração ao alto da cabeça.

Esses cinco Elementos relacionam-se com os cinco sentidos, como sejam:

a) O tacto relaciona-se com o sólido (Terra).
b) O paladar relaciona-se com o líquido (Água).
c) A visão relaciona-se com o gasoso (Fogo).
d) O olfacto relaciona-se com o aéreo (Ar).
e) A audição relaciona-se com o etérico (Éter).

Cada hora da respiração é preenchida por cinco ciclos durante os quais cada um desses Elementos exerce a sua influência:

1.º – A Terra durante 20 minutos.
2.º – A Água durante 16 minutos.
3.º – O Fogo durante 12 minutos.
4.º – O Ar durante 8 minutos.
5.º – O Éter durante 4 minutos.

Durante cada ciclo respiratório, as correspondências orgânicas, emocionais e mentais humanas vibram segundo o impulso da classe de energias que prevalece nesse tempo, indo determinar o estado de ânimo correspondente:

O Éter faz os homens emotivos (inspirados);
O Ar faz os homens inquietos (impetuosos);
O Fogo faz os homens ardentes e fogosos (apaixonados);
A Água faz os homens dóceis (ternos);
A Terra faz os homens egoístas (ambiciosos).

Por fim, falarei da firmação do 1.º Quadrante Cósmico no seio da Obra do Eterno na Face da Terra (Teurgia), abrindo todas as possibilidades de solução da evolução futura do Género Humano com a Manifestação Divina (Avatara) no Novo Ciclo do Aquário à sua dianteira. Acontecimento da maior transcendência e importância para o Mundo, ele aconteceu em Fevereiro de 1962. Dias antes da fundação do 1.º Quadrante Cósmico, dois grupos de Ciganos (Kara-Maras) haviam visitado JHS – Henrique José de Souza – na sua residência Vila Helena, em São Lourenço do Sul de Minas Gerais, Brasil, um primeiro grupo de 13 e um segundo grupo de 98 Ciganos (13+98 = 111), sendo as suas Almas errantes salvas e encaminhadas para o Mundo de Duat pelo Venerável Mestre.

Depois, no dia 24 de Fevereiro de 1962, data do Nascimento Aghartino do Avatara Maitreya, ocorreu a visita dos dois Bodhisattvas do Ciclo de Aquarius – Akdorge e Akgorge – na representação dos dois Budhas da Nova Era – Mitra-Deva e Apavana-Deva. Foram conduzidos pela Excelsa Helena Iracy na representação de Adamita, Mãe Terrena dos Sete Dhyanis-Budhas, e por Pietrus Christi (Pio XII), representante do Vigilante Silencioso em Agharta. Visitaram e defrontaram-se com JHS (Akbel) na Vila Helena, formando e firmando o 1.º Quadrante Cósmico de Agharta na Face da Terra.

Isso aconteceu durante 15 minutos, enquanto a Venerável Mestrina Helena Jefferson de Souza (veiculando a Consciência de Allamirah, Mãe Celeste dos Dhyanis-Kumaras) dirigia um Ritual no Templo de Maitreya, o Cristo Universal, na mesma cidade de São Lourenço, às 8:30 h. Depois, para perpetuar a memória do acto sacrossanto transcorrido, JHS pediu que fossem colocadas três fitas nas cadeiras onde se sentaram Helena Iracy e os dois Budhas: D. Helena J. Souza colocou uma fita amarela na cadeira do centro, onde estivera H. Iracy; D. Consuelo Scalfaro colocou uma fita azul na cadeira da direita, onde se sentara o Budha Humano; D. Carmen Portella colocou uma fita vermelha onde estivera o Budha Terreno.

Em consequência desse facto, o Mestre JHS deu a Prece Evocatória Aghartina, para ser proferida nos Rituais da Ordem dos Tributários.

Com a realização do 1.º Quadrante Cósmico, JHS transferiu o Bastão de Comando da Obra do Eterno aos seus legítimos representantes do Ciclo de Aquarius, Dois em Três como Um só – MAITREYA.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Henrique José de Souza, Idade Negra ou Idade do Ferro ou Idade da Dor ou Kali-Yuga. Revista Aquarius, n.º 33, Ano 13, Rio de Janeiro, 1987.

João Roque Gomez, Parábola. Revista Dhâranâ, n.º 9, Ano LV, Série Transformação, São Paulo, 1980.

Paulo Albernaz, A Grande Maiá – Os Mistérios do Homem. Indústria Gráfica Bentivegna Editora Ltda., São Paulo, 1991.

Jorge Adoum, As Chaves do Reino Interno. Editora Pensamento, São Paulo, 1980.

Max Heindel, El Mensaje de las Estrellas. Editorial Kier, Buenos Aires, 1946.

André Barbault, Manual Prático de Astrologia. Publicações Europa-América, Mem Martins, 1986.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, Textos Internos. Sintra, Portugal.

Deuses, Astros e Destino (Aspectos superiores e inferiores) – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Ago 3 2017 

Para os opositores da Astrologia esta apresenta contradições aparentemente insuperáveis, nisso insuportáveis à lógica do raciocínio humano. Os argumentos apresentados contra essa “pseudociência” têm forte peso dialéctico no racional do Mundo dos Efeitos, difíceis de contrariar para muitos astrologistas, até impossíveis de contrapor aos factos concretos da Astronomia, que não descarece da Física e da Química, ao par da Matemática, para argumentar com solidez contrapondo às crenças da Astrologia. Verdade se diga que o mal de muitos astrologistas está em não possuírem bases científicas sólidas para contra-argumentarem, ficando-se pelo imaginário da crença, nisto pela escravidão à influência fatal dos astros, sem mais raciocínio; se acaso a discussão agravar-se com o evoco da Teosofia afim à Astrosofia, então fatalmente se revelará o limite mental daqueles, algo semelhante a explicar álgebra a um analfabeto.

Falo, obviamente, da astrolatria, a mesma que já no século IV, na sua obra Civitas Dei, Agostinho de Antioquia censurava com palavras incisivas: “Todo o homem livre que consulta os adivinhos e lhes paga para descobrirem o seu destino nos astros, sai escravo de Marte, de Vénus e de outros mais…” Mesmo com isso, no entanto Agostinho, o neo-platónico elevado Doutor da Igreja, foi um exímio estudioso da Astrologia como ciência tradicional, certamente sabendo dar-lhe entendimento superior muito além do comum divinatório, inevitavelmente falível tanto em premissas como em previsões.

Obviamente que Agostinho de Antioquia saberia e aceitaria a exactidão das previsões astrológicas quando fossem asseguradas por um astrólogo nato, um sábio experiente nessa ciência empírica da época. Mas decerto não era a esse que ele se referia nas suas palavras citadas. Previsões astrológicas que resultaram certas conta-as a História Antiga e Moderna com fartura, de que o episódio ocorrido com Domiciano, imperador romano, será o mais ilustrativo:

Roma, meia-noite de 17 para 18 de Setembro do ano 96 d. C. O imperador Domiciano agitava-se no leito coberto de suor, ansioso, não conseguindo dormir. Isso porque de acordo com uma previsão astrológica feita quando ainda era criança, a hora do seu fim estava próxima: às cinco horas da manhã ele estaria morto, vítima de uma punhalada fatal. Domiciano levantou-se e tentou manter a calma. Lembrou-se da vez em que tentou provar que a Astrologia era mentira, quando chamou à sua corte o astrólogo Ascletário e lhe ordenou: “Adivinhe a causa da sua própria morte”. Ascletário consultou os planetas e concluiu que acabaria devorado por cães. Para contrariar a previsão e mostrar que controlava o destino, Domiciano matou-o ali mesmo e enviou o seu corpo para a pira funerária. O que o imperador não esperava é que os cães fossem atraídos pelo cheiro de carne queimada e devorassem os restos mortais de Ascletário, como este previra. Daí a insónia de Domiciano. Quando o Sol raiou, perguntou as horas: eram seis da manhã. Respirou aliviado: tinha sobrevivido à profecia! Animado, recebeu um amigo que trazia uma mensagem. Enquanto a lia, esse amigo apunhalou-o pelas costas e ele morreu. Eram cinco da manhã. Um conspirador havia mentido sobre as horas.

A ciência empírica afirma que a influência das doze constelações do Zodíaco sobre as criaturas humanas é absolutamente impossível por o aro da influência magnética das mesmas estar imensamente distante da Terra, e mesmo os planetas associados às mesmas também estarem demasiado longe para exercerem uma efectiva atracção gravitacional sobre os corpos e temperamentos humanos, além de que a passagem do Sol, da Lua e dos planetas por constelações aleatórias, formadas por estrelas aleatórias, ser aleatoriamente uma divisão inventada pela pequenez humana para justificar e dar sentido à pequeneza fatal da Terra, aos enlaces e desenlaces da vida de um e de todos.

Nisso também a ciência se revela manca, e até parece fazê-lo de propósito por notórios preconceitos intelectuais, “metendo tudo no mesmo saco”, revelando a mentalidade típica de uma sociedade dessacralizada como é a desta Idade Sombria que os hindus chamam Kali-Yuga. As noções da Astronomia moderna foram herdadas dos sábios astrólogos da Babilónia, sobretudo, que dividiram o empíreo em doze casas dando início, ao par dos assírios, fenícios, etc., à ciência dos astros (astro+logia, em grego, donde astrologia, o estudo dos astros”, e sobretudo astro+logos, a “palavra ou entendimento da lei dos astros”) que calcula e deduz dos movimentos e influências dos corpos siderais, a qual chegou até hoje desde a Idade do Bronze (3000 a. C.).

Agora o principal: independentemente das distâncias das constelações a anos-luz da Terra, o tempo e o espaço não são mensuráveis exclusivamente pelas três dimensões de comprimento, largura e altura de qualquer sólido, pois igualmente existem outras dimensões afins à profundidade, à plasticidade, etc., como é o caso da 4.ª dimensão que corresponde ao Mundo Astral do nosso Globo e é afim, como “extensão”, ao Astral Cósmico (Kama-Fohat) do Universo, que é o Plano natural dos Logos Planetários. É daí que provêm as influências siderais e planetárias para a Terra e quanto nela vive, atraídas pelo seu poderoso “imã” que é o Núcleo Electromagnético que a sustenta. O “segredo” das influências astrológicas reside nisso, nas várias dimensões de espaço-tempo além daquela das distâncias físicas e do espaço limite da influência física dos corpos celestes.

As três dimensões de espaço onde é possível qualquer movimento – comprimento, largura e altura – são admitidas desde Euclides na Grécia 300 a.C., o matemático platónico, deixando o pressuposto da possibilidade de haverem outras dimensões além dessas. Isso veio a ser provado já no século XX, em 1905, por Albert Einstein, provocando uma verdadeira revolução nas teorias da Física: demonstrou que o espaço e o tempo não são fixos e imutáveis, pelo contrário, são flexíveis e mutáveis, e que sob certas condições é possível encolher o tamanho de um centímetro ou esticar a duração de um segundo, que a modificação de um está ligada à transformação do outro; ou seja, o tempo é, do ponto de vista físico, indistinguível do espaço. Isso foi ao encontro do que Platão afirmou milénios antes: “O tempo é a parte móvel da eternidade”. Em 1915, Einstein aprofundou essa sua Teoria da Relatividade. Às três dimensões conhecidas acrescentou mais uma: ao estudar os movimentos acelerados, ele percebeu que a gravidade era uma distorção da geometria de quatro dimensões, e procurou unificar toda a Física em um só conjunto de equações. Essa sonhada unificação foi feita entre a relatividade (que explicava a gravidade) e o electromagnetismo (responsável pelos fenómenos eléctricos e magnéticos, relacionados à partícula atómica electrão). Os esforços de Einstein inspiraram outros físicos como Theodor Kaluza e Oskar Klein, que cerca de 1926 reescreveram a relatividade geral para cinco dimensões invés das quatro, de maneira que as equações do electromagnetismo brotaram naturalmente dela.

Na realidade, o Universo não possui três, quatro ou cinco dimensões mas sete, de acordo com a “tese das cordas” segundo a Física e que nada mais são que as espírulas do átomo visto na Química Oculta, conformadas às sete dimensões de espaço-tempo correspondentes aos sete Planos do Universo, que não estão encavalitados uns nos outros e sim interpenetrados, onde a matéria mais densa é penetrada e animada pela mais subtil. Assim se explica o axioma de Lavoisier da “matéria penetrar a matéria”, igualmente assim se explicando a causa da influência invisível dos corpos celestes na Terra.

Outro motivo causa de contradição palmar apontada pelos adversários da Astrologia, é a de um nativo de dado signo diferir totalmente de outro nativo do mesmo signo, quando deveriam possuir iguais temperamentos, interesses, etc. E mesmo que se contraponha com ascendentes, influências intermédias de outros signos e planetas no horóscopo, etc., não explica tudo e o essencial mantém-se: a instabilidade e incerteza do signo. Isto regista-se até nos próprios astrólogos que se forem dois para um mesmo consulente, quase por norma resultam dois horóscopos diferentes. Agrava a situação quando se diz, por exemplo, que Marte é belicoso e colérico, acompanhando Escorpião como signo das insatisfações sexuais, por exemplo. Poderá ser, mas também acontece que muitos nativos desse signo são linfáticos, passivos, nada coléricos e até assexuados. Então, em que se fica?

Fica-se no óbvio da explicação teosófica: na Vaga de Vida Humana não há duas Mónadas iguais em experiência e evolução, nas realizações cumpridas e naquelas a cumprir, tanto quanto as empatias siderais variarem ao infinito na sua correlação com os aspectos superiores e inferiores dos signos e planetas, as suas “individualidades” e “personalidades” afins às respectivas naturezas humanas, onde a personalidade tem mais força e presença na matéria que a individualidade espiritual. Se ao nível sideral a “individualidade” é animada pelo Logos, a “personalidade” é manifestada pelo Planetário. A sua influência sobre as naturezas humanas é caracterizada pelo desenvolvimento das skandas e a transformação das nidanas, como sejam as tendências superiores em estado virtual e os defeitos ou vícios em predomínio corporal. É o Kumara ou Planetário quem age sobre as nidanas obrigando o Homem a redimir-se do seu Karma, enquanto o Ishvara ou Luzeiro inspira as skandas levando à tomada de consciência do Dharma, do Dever Universal que é a característica básica de todo o Adepto Perfeito.

Disso conclui-se que os signos apresentam em traços gerais o perfil psicológico da personalidade dos nativos, mas lhes é impossível definir com rigor e minúcia a personalidade dos mesmos, tão diversificada e numerosa quanto o número de estrelas que há no céu e que independem de signos e horóscopos por mais precisos que possam ser, porque tudo depende dos fios misteriosos do karma com que se teceu e encadeia o destino de cada um.

Também nisso o princípio de Paracelso de que “os astros inclinam mas não obrigam” tem justificação, motivo da astrologia divinatória, ou antes, a astrolatria ser desapreciada tanto por Adeptos Independentes como por Ordens Iniciáticas, e até mesmo religiosas, a qual é naturalmente falível nos seus prognósticos apesar de ser procurada por milhões de crentes, ausentes dos conhecimentos superiores mas presentes nas superstições e temores filhos da ignorância. Realmente, a quantidade difere da qualidade. Quando a qualidade de uma ciência tradicional se vulgariza, ela torna-se popular por via da quantidade, é psíquica nos seus métodos divinatórios mas jamais espiritual, iniciática. Como todas as ciências divinatórias, o chamado “ocultismo popular”, é até obstáculo, “pedra de tropeço e escândalo” como dizia Jesus (I Pedro, 2:8), à evolução verdadeira de qualquer um(a).

Os aspectos superiores e inferiores dos signos e planetas afins eram conhecidos dos sábios astrólogos árabes e judeus. Segundo o Sepher Yetzirah, o “Livro da Criação”, obra prima da Kaballah judaica, os signos e planetas ingerem directamente no temperamento do Homem, nas suas virtudes como nos seus vícios (skandas e nidanas), dependendo essas influências da evolução já conquistada pelo mesmo Homem, o que determina e separa os seus interesses, como sejam os mais refinados dos mais grosseiros. Assim, tem-se:

ÁRIES (NISSAN). Representa verdade ou mentira.

TAURUS (IYAR). Representa obediência ou agressividade.

GEMINI (SIVAN). Representa concentração ou dispersão.

CÂNCER (TAMUZ). Representa imaginação ou alienação.

LEO (AV). Representa disciplina ou indisciplina.

VIRGO (ELUL). Representa sabedoria ou ignorância.

LIBRA (TISHREL). Representa harmonia ou desarmonia.

SCORPIO (CHESHVAN). Representa autoridade ou desmando.

SAGITARIUS (KISLEV). Representa ordem ou desordem.

CAPRIS (TEVET). Representa abnegação ou ambição.

AQUARIUS (SHEVAT). Representa desprendimento ou apego.

PISCIS (ADAR). Representa compreensão ou incompreensão.

Ainda segundo o Sepher Yetzirah:

SOL (SHEMESH) representa vida ou morte, ou fé ou orgulho.

LUA (YAREACH) representa paz ou desgraça, ou esperança ou avareza.

MARTE (MA´ADIM) representa domínio ou servidão, ou força ou cólera.

MERCÚRIO (KOCHAV CHAMA) representa semente ou esterilidade, ou prudência ou preguiça.

JÚPITER (TZEDEK) representa riqueza ou pobreza, ou justiça ou inveja.

VÉNUS (NOGAH) representa amor ou ódio, ou caridade ou luxúria.

SATURNO (SHABTAY) representa ciência ou ignorância, ou temperança ou gula.

PLUTÃO, URANO e NEPTUNO, representando a Tríade Superior, são identificados pelos nomes PLUTO, URON e RAHAV.

Zodíaco hebraico com o Criador (Eloha) ao centro ladeado pelos quatro Anjos do Destino (Elohim)

O Supremo Demiurgo no centro do Zodíaco expressando o Sol Central do Universo, tem a incarná-lo o quinto Anjo do Destino, o Andrógino Celeste representado por Urano, sendo os restantes quatro os que incarnam as Forças do Sol (Leão) oposto completar de Mercúrio (Virgem), e da Lua (Caranguejo) oposto complementar de Marte (Carneiro), conforme o Mestre JHS revelou no seu Livro da Pedra. Refiro-me, obviamente, a Ardha-Narisha, Manu, Yama, Karuna, Astaroth (AN.M.Y.K.A.).

São essas cinco Potências celestes os “filtros” para a Terra das Energias do Raio Divino manifestadas como Raio Primordial. Sem elas as poderosas energias cósmicas promanadas de Centros Siderais específicos seriam impossíveis a que a Vida subsistisse no nosso Globo, e pelas mesmas os Raios Espirituais promanando do Centro deste Sistema de Evolução Universal como Tatvas Cósmicos, transformam-se em Tatvas Planetários, estes que no conjunto do Plano Físico Cósmico definem a “Personalidade” (Paceka-Yana) do Logos Planetário, tal como aqueles expressam a sua “Individualidade” (Amata-Yana), ou seja, o Luzeiro e o Planetário.

Isso remete-me ao episódio seguinte: estando António Castaño Ferreira, a Coluna J de JHS, sob a influência do Raio Espiritual do Quinto Theo, Arabel, um dia perguntaram ao Mestre que aconteceria ao Ferreira se fosse directamente avatarizado por aquela Potência. Resposta pronta de JHS: “Seria imediatamente fulminado”! Por isto existem “filtros” das Consciências Maiores que são outras tantas imediatamente menores até chegar à condição humana, assim capacitada a suportar tão poderosa vibração cósmica que se manifestaria absolutamente arrasadora sem esses mesmos “filtros”, tanto ao nível humano como até celeste. As seriações e adaptações tulkuísticas explicam o fenómeno que vale para astros e homens.

Acerca das tendências positivas e negativas que cada um e todos carregam, relacionadas com o seu passado e o presente, elas acham-se impressas no átomo-semente astral do respectivo corpo. Na Índia, às tendências positivas – vulgarmente virtudes – denominam-se de skandas ou skandhas. A sua fixação e ampliação propícia a manifestação da inspiração divina e do altruísmo, e viabiliza a realização da transformação da criatura humana em ser divino. Elas são gravadas na sensibilidade pela sua prática e vivência imediatas, contando ainda com o auxílio de certas técnicas especiais de meditação sobre as mesmas.

Face aquelas também existem as tendências inferiores, as nidanas ou nidhanas, como também são denominados na Índia os vulgarmente apodados vícios. Resultado do karma negativo de evoluções passadas elas impedem, quantas e quantas vezes, o homem comprometido no progresso espiritual de alcançar regiões mais sublimes de sua vivência interior. São as nidanas quem inibem a sensibilidade humana e uma completa pacificação do corpo emocional.

Para se pacificar o astral torna-se, contudo, necessário o freio da mente, do poder do pensamento, daquilo que Patanjali denominou estado de Dhâranâ. Corresponde à “perfeita concentração do pensamento num determinado ponto com abstracção total dos restantes sentidos”. Trata-se de um dos passos fundamentais de toda a prática de Yoga.

Convém esclarecer melhor o conceito de nidana, assim definido por Ernst Johann Eitel, missionário alemão do século XIX, no seu Dicionário de Sânscrito – Chinês:

“NIDANAS (sânscrito) – As doze causas da existência. Uma cadeia de causas, um encadeamento de causas e efeitos durante todo o transcurso da existência, através de doze elos. Este é o dogma fundamental da doutrina budista, cuja compreensão resolve o enigma da vida, revelando o vazio da existência e preparando a mente para o Nirvana.”

Esses doze elos, expressivos das casas do Zodíaco, são:

1.º) JATI. O nascimento que coloca o ser humano num dos seis GÁTIS, ou condições de nascimento.

2.º) JARÂMARANA. A morte.

3.º) BHAVA. O agente kármico que conduz cada ser a nascer numa determinada conjuntura objectiva.

4.º) UPADANA. O apego à vida.

5.º) TRICHNÃ. O amor.

6.º) VEDANA. A sensação, a percepção.

7.º) SPARZA. Corresponde ao sentido do tacto.

8.º) CHANDAYATANA. Os órgãos da sensação.

9.º) KAMA-RUPA. A personalidade, isto é, uma forma com o seu nome.

10.º) VIJNÂNA. Conhecimento.

11.º) SAMSKÂRA. Acção no plano da ilusão.

12.º) AVIDYA. Ignorância.

As doze nidanas propriamente ditas, no fundo expressando os “aspectos inferiores” dos signos e planetas afins, enumeram-se na ordem seguinte:

1.ª) SAMKHARA. Acção causal ou KARMA.

2.ª) VINANA. Consciência da personalidade.

3.ª) KAMA-RUPA. Nome e forma.

4.ª) SALAYATANA. Os sentidos.

5.ª) PHASSA. Contacto.

6.ª) VEDANA. Sensação.

7.ª) TANHA. Desejo de prazer.

8.ª) UPADANA. Apego.

9.ª) BHAVA. Existência individualizante.

10.ª) JATI. Nascimento.

11.ª) JARA. Decrepitude, morte.

12.ª) UPAYASA. Desespero, lamento, dor.

Grande parte do esforço de todo aquele que almeja trilhar o Caminho da Verdadeira Iniciação consiste em firmar e desenvolver as skandas e transformar as nidanas em skandas.

As skandas estão alegorizadas no Novo Testamento como “o feixe de vimes unidos que ninguém consegue quebrar”, e as nidanas como “os vimes isolados que qualquer um pode quebrar facilmente”… desde que se disponha a isso.

Aumentando as skandas aumenta-se e alimenta-se a Individualidade, o Homem Real, e diminuindo as nidanas diminui-se e desnutre a Personalidade, o Homem Ilusório. Sobre esta diferença ou dicotomia do próprio Homem, pronunciou-se o Mestre Koot Hoomi Lal Sing em uma das suas Cartas a Alfred Percy Sinnett (1840-1921):

“Falo de “Individualidade” e “Personalidade”, de Amata-Yana e Paceka-Yana. Estes dois nomes são a tradução fiel e literal dos termos técnicos páli, sânscrito e mesmo sino-tibetano atribuídos às numerosas entidades personais fundidas numa única individualidade, ao longo das vidas emanando da mesma e imortal Mónada. Deve lembrar-se:

“1.º O Amata-Yana (em sânscrito, Amrita) é traduzido como o “Veículo Imortal” ou a Individualidade. O Ego Espiritual ou Mónada imortal, combinação dos quinto, sexto e sétimo princípios. Enquanto que:

“2.º O Paceka-Yana (em sânscrito, Pratyeka) significa literalmente o “Veículo Personal” ou Alma pessoal, a combinação dos quatro princípios inferiores.”

AMATA-YANA (Individualidade, Tríade Superior): ESPIRITUAL, INTUICIONAL, MENTAL SUPERIOR ou CAUSAL.

PACEKA-YANA (Personalidade, Quaternário Inferior): MENTAL INFERIOR, EMOCIONAL, VITAL, FÍSICO.

Os corpos ou veículos de consciência interpenetram-se por seu grau de subtilidade e diferenciam-se por seu grau de densidade, correspondendo à vibração dos diversos estados ou Planos que lhes são fins em energia, dentro de um estado limite ou “círculo não se passa” imposto pelo karma pessoal e colectivo.

No Livro dos Dhyanis, de natureza estritamente esotérica, nas suas Estâncias o Dhyani-Kumara Mikael (Michael) diz que “existem, na realidade, sete Hierarquias Primordiais e sete Hierarquias Secundárias”. As Primordiais são as Forças auto-envolventes da Força Una e Sem Causa, constituindo o que ele chama de Raio Divino. As Secundárias compõem o que ele denomina Raio Primordial, fornecendo os veículos necessários à manifestação das Hierarquias do Raio Divino.

Desde já fique assinalado que as Hierarquias dos Raios Divino e Primordial não podem existir separadamente, por expressarem os pólos espiritual (Purusha) e material (Prakriti) da Manifestação Universal (Manvantara). De maneira que as Hierarquias do Raio Divino não são mais do que a parte interna das Hierarquias do Raio Primordial.

O Raio Divino de Purusha é composto de:

1. Sete Logos Solares ou Logoi

Revestidos e projectando o Adi Cósmico – ZAITBALASHIM

2. Sete Raios do Pramantha

Revestidos e projectando o Anupadaka Cósmico – BAALEDIR

3. Sete Forças, Energias ou Shaktis

Revestidos e projectando o Akasha Cósmico – AKBALALIM

4. Sete Dhyan-Choans Superiores ou Logos Planetários

Revestidos e projectando o Vayu Cósmico – ITABALALAI

5. Sete Construtores Maiores ou Dhyan-Choans Inferiores

Revestidos e projectando o Tejas Cósmico – ASBALZAMUR

6. Sete Espíritos diante do Trono

Revestidos e projectando o Apas Cósmico – AMBALMARE

7. Sete Anjos da Presença ou da Face

Revestidos e projectando o Pritivi Cósmico – ORBALTARA

Todas essas representam no conjunto, como disse o Dhyani Mikael, as sete Forças auto-envolventes da Força Una Sem Causa, que hipostaticamente é tríplice.

As Hierarquias do Raio Primordial de Prakriti, veículos das anteriores, compreendem três Hierarquias Arrúpicas ou “Informais”, e quatro Hierarquias Rúpicas ou “Formais”. Nas escrituras sagradas, as Arrúpicas são conhecidas pelos nomes de:

1. Leões de Fogo

Revestidos e projectando o Adi-Tatva – ATÓMICO

2. Olhos e Ouvidos Alerta

Revestidos e projectando o Anupadaka-Tatva – SUBATÓMICO

3. Virgens da Vida

Revestidos e projectando o Akasha-Tatva – ÉTER

Essas três Hierarquias Arrúpicas não vem ser concebidas como legiões de Seres separados ou individualizados. Formam, conjuntamente, a Tríplice Flama, e têm a direcção activa e a duração de uma Cadeia Planetária, agindo através das quatro Hierarquias Rúpicas. Estas constituem, propriamente falando, as Hierarquias Criadoras dos Mundos e seres que têm nome e forma. São elas:

4. Assuras

Revestidos e projectando o Vayu-Tatva – AR

5. Agnisvattas

Revestidos e projectando o Tejas-Tatva – FOGO

6. Barishads

Revestidos e projectando o Apas-Tatva – ÁGUA

7. Jivas

Revestidos e projectando o Pritivi-Tatva – TERRA

Observe-se agora, mais de perto, os elementos constitutivos do Raio Divino projectado de Si mesmo como 8.º MAHA-DHYANI-TATVA no imo e pico da Cadeia Cósmica que é este 4.º Sistema de Evolução Universal formado de sete Cadeias Planetárias.

Os Sete Logos Solares assistem ao Poder Criador do Absoluto na cumeeira do Universo. São as “projecções de Swabhâvat”, segundo os Vedas. Deles o 4.º Logoi é o que está em manifestação absorvendo os Mundos que constituem o seu Corpo, dos quais a Terra é um. Os Sete Raios que projectam vêm a ser os particulares estados de consciência dos mesmos Logos Solares, definindo, determinando, gerando o Pramantha ou Ciclo de Manifestação Universal. Isso origina-se por cada um desses Raios emanar uma Energia específica – Sete Energias – que é respectiva Shakti, a “contraparte”.  As Sete Shaktis são as seguintes:

1.ª) ADI-SHAKTI – A Força Primordial relacionada com o 1.º Logoi Cósmico e o 1.º Logos Planetário do 1.º Raio e que expressa o Poder da Vontade.

2.ª) PARA-SHAKTI – A Força, Energia e Radiação Suprema na Substância; é a Energia específica do Logos do 2.º Raio de Amor-Sabedoria.

3.ª) JNANA-SHAKTI – A Força da Mente, o Aspecto sintético que resume os quatro Raios subsidiários, é a Energia do Logos do 3.º Raio da Inteligência Activa ou Actividade Inteligente.

4.ª) MANTRIKA-SHAKTI – A Força latente no Som e na Palavra, a Energia do Logos do 4.º Raio da Harmonia Universal, vulgarmente chamado Arte da Harmonia ou Harmonia Artística, o que se coaduna ao sentido oculto de “Elias Artista” na Kaballah, que é o mesmo Logos – Logoi.

5.ª) ICHCHA-SHAKTI – O Poder ou Força do Desejo ao produzir a Manifestação; é a Energia do Logos do 5.º Raio da Inteligência Concreta ou Conhecimento Científico.

6.ª) KRIYA-SHAKTI – A Força que materializa o Ideal, a Energia do Logos do 6.º Raio da Devoção ou Idealismo.

7.ª) KUNDALINI-SHAKTI – A Força que ajusta as relações internas às externas, que adapta, uma à outra, a forma e a essência no Plano Físico; é a Energia do Logos do 7.º Raio ou da Magia Cerimonial.

É das três primeiras Hierarquias do Raio Divino que surgem as Energias conscientes que vão dar vida aos respectivos Mundos. Nas quatro Hierarquias restantes não se encontram particularidades funcionais relacionadas com a sua constituição setenária, mas apenas, para cada uma delas, uma especial função cósmica. Assim, os Sete Dhyan-Choans Superiores são os Logos Planetários, os “Sete Imortais”, os “Filhos de Aditi”, enfim, os Sete Autogerados que influem particularmente, cada um deles, numa Cadeia Planetária, dando-lhe a sua especial tónica de Vida. Com isto, são as Inteligências encarregadas do Plano Arquetipal a ser executado, por isso mesmo, as Inteligências que orientam as Energias específicas dos Sete Raios no trabalho de plasmar os Mundos de acordo com esse Plano. Os Sete Construtores Maiores auxiliam os Dhyan-Choans Superiores a realizar essa tarefa cósmica. Os Sete Anjos diante do Trono são os Vigilantes que, do mais alto dos Mundos, procuram observar como a Lei de Evolução se processa, a fim de, se necessário, modificar directrizes e introduzir correcções adequadas. Os Sete Anjos da Face são os Mensageiros divinos que, do imo de cada um dos Logos Solares e afins Logos Planetários, levam aos Mundos da Matéria as instruções destinadas aos Seres que dirigem esses Mundos.

Tem-se assim, na cumeeira do Sistema de Evolução Universal, o Logos Solar deste Universo que vem a diferenciar-se na manifestação em 7+7 tónicas específicas, que os antigos egípcios representavam como os “14 pedaços de Osíris (Purusha) recolhidos por Ísis (Prakriti)”. Assim como a vibração física, que parte do Sol para difundir-se pelo espaço como luz, pode decompor-se em sete cores diferentes, assim também o Poder Criador que do Logos Único promana faz dele sete Potestades distintas, as quais constituem a verdadeira razão da composição setenária de tudo quanto existe no Universo. Os Sete Logoi são o Princípio sintético, que é dizer, são a síntese de todos os Princípios expressos pelas sete Hierarquias do Raio Divino, que empós se desdobram nas sete Hierarquias do Raio Primordial “espelho” daquele.

Convém ressaltar que o Sistema de Evolução não é o Sistema Solar. Este é composto de sete Sistemas de Evolução, tal qual um Logos Solar é formado dos esforços de sete Logos Planetários, e um Logos Planetário constitui-se das experiências de sete Planetários de Ronda. O nosso Sistema Solar encontra-se na sua 2.º Manifestação e o nosso Sistema de Evolução – composto de 7 Cadeias Planetárias – está na 4.ª Manifestação na respectiva 4.ª Cadeia Planetária (com 7 Globos e respectivas Rondas), e nesta na 4.ª Ronda do 4.ª Globo, que é a Terra, em plena 5.ª Raça-Mãe com realce para a 5.ª Sub-Raça das sete que a compõem.

Segundo as escrituras teosóficas, o Sistema Solar está disposto conforme o esquema seguinte:

Finalmente, procurarei dar uma visão sintética do que significa o Raio Divino em relação com o Raio Primordial a que está ligado de maneira necessária e indissolúvel. A Tradição Iniciática das Idades diz que o Logos Oculto, ao manifestar-se, desdobra-se nos dois pólos da Manifestação chamados de Espírito e Matéria. O Raio Divino é, justamente, a expressão espiritual do Universo que se manifesta, a Consciência que surge no acto da Manifestação, a que se dá o nome tradicional de Purusha. O Raio Primordial é constituído pelo véu da Matéria Cósmica (Mulaprakriti) que, formando o Logos Criador, serve de veículo à manifestação de Purusha. Da inter-relação dos dois pólos surgem os Sete Autogerados, os Sete Logos Planetários, procurando-se dar uma ideia geral no esquema abaixo onde se simboliza o Logos Oculto do Universo, hipostaticamente tríplice, o Logos Dual do Sistema (Purusha-Prakriti, Zain-Zione, Pai-Mãe, Raio Divino e Raio Primordial) e os Sete Logos Planetários que formam, colectivamente, o Logos Criador.

Cada um dos Logos Planetários é um Homem Celeste, é um Ser Cósmico com consciência e veículo de manifestação que lhe são próprios, aquela da natureza do Raio Divino, esta da natureza do Raio Primordial. É assim que um Homem Celeste (Adam-Kadmon), considerado internamente, é uma síntese dos sete Princípios de Vida, Energia e Consciência. O primeiro Homem Celeste, por exemplo, representa um particular estado de consciência (Vontade) que projecta uma energia específica (Adi-Shakti), a qual, orientada pela sua Inteligência Dhyan-Choânica, com o auxílio das hostes de Construtores activos (formando colectivamente o primeiro Construtor Maior), das hostes de Vigilantes (o primeiro Anjo diante do Trono) e das hostes de Mensageiros divinos (o primeiro Anjo da Face), vai trabalhar a Matéria para a consecução do plano evolutivo que lhe cabe pôr em prática.

O mesmo procedimento dá-se com os restantes Logos Planetários nas suas correspondências com os sete níveis de Purusha e os sete níveis de Prakriti, no todo constituindo o Logos Criador que caminha de Globo em Globo, de Cadeia em Cadeia até à Suprema Realização Universal, que é dizer, a realização do Esquema de Evolução em que tudo e todos estamos, assim mesmo indo o Logos Planetário tornar-se Logos Solar, na escalada das estrelas.

Tudo isso para explicar porque os “aspectos inferiores” de todo o signo e planeta afins à comum personalidade mortal não existem no Homem Realizado, desafim aos mesmos, surdo e mudo aos ecos mundanos, porque também ele conscientemente seguindo um roteiro o mais grácil na escalada das estrelas.

OBRAS CONSULTADAS

Henrique José de Souza, Livro da Pedra, 1951.

Henrique José de Souza, Livro das Cadeias – A e B, 1953-54.

Helena P. Blavatsky, Glossário Teosófico. Editora Ground Ltda., São Paulo, 1995.

António Castaño Ferreira, Aulas de Cosmogénese e Antropogénese. Sociedade Teosófica Brasileira, 1952.

Paulo Machado Albernaz, a Grande Maiá – Mistérios do Universo. Indústria Gráfica Bentivegna Editora Ltda., São Paulo, 1987.

Curuppumullage Jinarajadasa, Fundamentos de Teosofia. Editora Pensamento, São Paulo, 1991.

Papus, ABC do Ocultismo. Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, Novembro de 1987.

Aryeh Kaplan, Sefer Yetzirah – O Livro da Criação em Teoria e Prática. Publisher Wheel/Samuel Weiser Books, Newburyport, Massachusetts, 1997.

Dragão Celeste e Astrologia Kármica – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 21 2017 

As Revelações dizem que em 1921 “o Dragão voltou a cauda do Ocidente para o Oriente e a cabeça do Oriente para o Ocidente”, alusão à transferência cíclica dos valores espirituais e humanos de um para outro hemisfério do Globo. Neste sentido de trasladação implicando movimento, acção vital, tem-se o Dragão d´Ouro como figurativo do Governo Oculto do Mundo (G.O.M.), a partir dessa data focando a sua dinâmica desde o Sul da Europa até ao Sul da América, o “Novo Mundo”, como seja de Portugal ao Brasil, acelerando o fenecimento do Ciclo de Peixes e o nascimento do imediato Ciclo do Aquário, processo iniciado desde 1899, ano que marcou o final dos primeiros 5.000 anos da Kali-Yuga ou Idade do Ferro.

Com efeito, informa a Tradição Iniciática das Idades, o Governo Oculto do Mundo, agindo desde Agharta, sempre necessitou de uma representação viva na Face da Terra, de um elo de ligação. Este elo estabeleceu-se nos últimos séculos por intermédio de um Governo Trino existente no Tibete. No topo do mesmo estava o Bogdo-Gheghen, o Budha-Vivo da Mongólia, tendo por Colunas Vivas na sua representação um Chefe Temporal, o Dalai-Lama, e um Chefe Espiritual, o Teshu-Lama. Esta Tríade representou, até 1921, o Governo Oculto do Mundo. Dali irradiavam as energias espirituais que, através de determinadas organizações, controlavam a evolução da Humanidade. Com o desaparecimento do 31.º Budha-Vivo da Mongólia e o aparecimento do 32.º Budha-Vivo e 1.º do Ocidente, Baal-Bey, acompanhado de sua contraparte Baal-Mirah, de 1924 em diante começou a firmar-se sobre a Terra o Ex Occidens Lux acompanhando o Ex Oriens Umbra. Tudo em rigorosa conformidade à Lei dos Ciclos que rege o mapa da Evolução Universal, cumprindo-se na Terra o que é programado nos Céus a fim de dar realização ao princípio hermético de “o que está em cima é como o que está em baixo, e vice-versa, para ser consumada a Grande Obra dos Deuses”.

A escolha da imagem do dragão para figurar o Governo Oculto do Mundo, não foi de modo algum arbitrária. No Hinduísmo, esse animal mítico representa o Princípio Divino assinalado no deus Agni, figurativo do Fogo Sagrado. Com isso, associa-se ao significado que lhe é dado no Taoísmo chinês, assinalando-o como a Omnipresença da Potência Celeste na Terra, que na figura do imperador – representante do Imperador do Mundo, o Chakravarti, Supremo Dirigente do G.O.M. – ordena e regula a evolução geral dos seres.

A figura do dragão também está presente no simbolismo aquático. Se os dragões vivem no alto de montanhas intransponíveis, igualmente vivem na água, fazem brotar as fontes; se o Rei-Dragão é o Rei dos Nagas, os “Homens Serpentes” ou Iniciados Perfeitos, logo identifica-se também à serpente figurativa da força hidrotelúrica, donde o dragão estar sobretudo ligado à produção da chuva e da tempestade, manifestações da actividade celeste sobre a Terra. Unindo a terra e a água, ele é o símbolo da chuva celeste fecundando a terra. Nas sociedades rurais, as danças do dragão, a exposições de dragões de cor apropriada – ora amarelos para a legislação e a erudição, ora azuis para as águas, ora vermelhos para as terras – permitem obter a chuva, bênção do céu. Em consequência, o dragão é um sinal de bom augúrio, a sua aparição é a consagração dos reinados felizes, podendo acontecer que da sua goela saiam folhagens, símbolo de germinação.

As tradições chinesas narram a seguinte lenda:

“A água que na terra corre assemelha-se à nuvem que voa no céu; ambas têm a mesma natureza. Só diferem na aparência. A humidade fecunda o Universo, como o caminho do céu fecunda o pensamento dos homens.

“Nada melhor mais fugitivo, mais activo, mais universal que a água; mas se as suas acções não se unem, a água do céu nada pode na Terra e a água da Terra nada pode na nuvem do céu. Por isso, na água da Terra, o peixe, e na água do céu, a ave Hae, vivem separados e são imperfeitos. Mas, se a tempestade elevar as águas ou o calor do dia as evaporar, e se um leve nevoeiro descer sobre a Terra, então se fará a união das duas águas, a terrestre e a celeste. A ave Hae baixará à terra como as nuvens; o peixe elevar-se-á pelos céus como a água do rio; quando se encontrarem, a ave Hae emprestará ao peixe as suas asas e o peixe emprestará à ave o seu corpo e as suas escamas. Surgirá, então, o Grande Peixe, que traz escrito no dorso os preceitos da Lei. E logo que o seu dorso tocar as nuvens baixadas, tornar-se-á o Dragão.”

Dessa lenda podem-se extrair os seguintes conceitos: a água simboliza a Substância Primordial (Svabhâvat, Ain-Suph), que se polariza em água do céu (Espírito, Purusha) e água da terra (Matéria, Prakriti). Constitui o Pai-Mãe Celeste (Adam-Kadmon, Zain-Zione) das tradições iniciáticas e que é figurada pelo entrelaço do dragão verde celeste e do dragão vermelho terrestre. O peixe do mar e a ave do céu, isolados, são imperfeitos. Da sua união surge, então, o Dragão Cósmico, figurativo do Demiurgo ou o Logos Criador, que como Deus, Zyaus ou o Logos dos platónicos, expressa também a própria Lei Divina, Dharma, corporizada na Terra na Terra como corporação Shuda-Dharma-Mandalam, a Grande Fraternidade Branca, o Governo Oculto do Mundo.

Astrologicamente, o Dragão Celeste é configurado pela órbita da Terra em torno do Sol e pela órbita da Lua em volta da Terra, esta última órbita geocêntrica periodicamente cruzando aquela heliocêntrica, sendo o ponto mais elevado da órbita geocêntrica chamado Nodo ou Nódulo Lunar Norte, figurado como Caput Draconis (Cabeça do Dragão); o ponto mais baixo dessa órbita chama-se Nódulo Lunar Sul e corresponde à Cauda Draconis (Cauda do Dragão). Em eterna mas complementar oposição, Cabeça e Cauda do Dragão relacionam-se aos Hemisférios Norte e Sul (Câncer e Capris) da Terra, enquanto o seu Corpo perpassa o Equador (Libra). Por seu sentido hidrotelúrico, os nódulos lunares do Dragão Celeste são determinantes na ciência tradicional da geomancia. O primeiro autor a desenvolver este tema foi o hindu Maharishi Parasara no Brihat Parashara Hora Shastra, obra básica da Astrologia hindu escrita no século sétimo ou oitavo da Era Comum. À Cabeça do Dragão ou Nódulo Norte chamou Rahu, e à Cauda do Dragão ou Nódulo Sul deu o nome Ketu, o que também se relaciona a Pravriti-Marga – descida da Mónada ou Anupadaka à Matéria – e a Nivriti-Marga – subida da Mónada ao Espírito – e que por igual não deixa de relacionar-se ao simbolismo solsticial cristão do São João Batista (Caminho Veraneal, Câncer) e do São João Evangelista (Caminho Invernal, Capris).

Com efeito, o simbolismo das festividades do duplo São João é herança das festas solsticiais de Jano que os antigos colégios de artífices romanos, Collegia Fabrorum, cultuaram e transmitiram à posteridade, nomeadamente ao Cristianismo. João ou Johanan é tanto o Arauto pré-Cristo como pós-Cristo, sendo que hanan em hebraico tanto significa misericórdia como louvor, sendo que a misericórdia é evidentemente “descendente” e o louvor “ascendente”, o que se relaciona às duas faces alegre e triste de Jano, ou seja, o “João que chora”, que implora a misericórdia de Deus, é João Batista, e o “João que ri”, que lhe dirige louvores, é João Evangelista. Há nisto uma relação com o simbolismo solsticial do ciclo anual (agrícola, litúrgico ou qualquer outro) expressivo do Grande Ciclo de descensão e ascensão da Essência Divina. Assim, segundo a cosmologia hindu, tem-se a fase descendente afim ao Pitri-Yana ou “Porta das Homens” (correspondendo ao Solstício de Verão, quando se celebra São João Batista), marcada por Câncer; a fase ascendente relacionada ao Deva-Yana ou “Porta dos Deuses” (afim ao Solstício de Inverno, quando se festeja São João Evangelista), é assinalada por Capris. A esses portais celestes está relacionado o sentido axial das duas portas e das “portas santas” nos templos da Cristandade.

O Caminho para o Sol apontado por Rahu demarcando os planetas luminosos ou Lokas, é o das Almas Superadas, libertas do Karma individual e colectivo, viventes do Dharma pessoal e universal. Representa o Dragão d´Oiro da mais elevada espiritualidade e sabedoria, cujo guardião vem a ser o próprio Arcanjo Mikael – expressão de Akbel – à dianteira dos Munis luminosos. Em oposição, o Caminho ou Cone da Lua, o sinistro “Portal de Dante”, é assinalado por Ketu, para onde vão as almas perdidas, escravas do seu próprio e insuperável Karma que invés de o terem debelado, aumentaram-no imensuravelmente vida após vida. Representa o Dragão Negro Gezebruth, a Egrégora colectiva da mais baixa bestialidade humana, e para que nenhuma alma escape ao seu destino fatal na Roda ou Ronda da Evolução, o Arcanjo Samael – expressão de Luzbel – à dianteira dos Todes, veda-lhes qualquer possibilidade de fuga. O Karma Cósmico gerado na Cadeia Lunar e repassado à presente Cadeia Terrestre, com todas as consequências dramáticas e até fatais que até hoje se registam, tudo isso tem a ver com a existência de Ketu desde que a Lua se separou da Terra e sucedeu a batalha no Akasha Médio entre os Assuras Luminosos e os Suras Sombrios, com a derrota e queda destes na Geração Humana. As crenças e práticas anticivilizacionais do chamado “satanismo” ou goécia, como ciência proibida por Lei de Evolução, que dão especial ênfase ao culto do Dragão Sinistro e aos planetas sombrios que são as Talas ou regiões infernais para onde vão as almas perdidas, os seus prosélitos deveriam dar maior atenção ao que o Destino fatal lhes reserva, e ter maior conhecimento dos mistérios do Dragão Celeste, inclusive da estrela Algol que um dia fez parte do Cruzeiro do Sul, por onde a Mãe Celeste – Allamirah – se manifesta como Mãe da Humanidade – Adamita. Mas estes são mistérios interditos os prosélitos das trevas e aos seus empáticos. Ignorância é afim à cegueira, e nenhum cego pode ver a Luz, quanto muito só a pressentir… Fica o alerta a quem o quiser tomar, com isso tomando consciência dos seus actos sinistros que numa vida podem perder por toda a eternidade, pois que a duração de uma Ronda ou Cadeia é verdadeira eternidade em tempo. Procure-se conquistar o Samadhi na Terra para chegar aos gozos do Céu, invés de se procurar o Avitchi caótico que leva às penas do Inferno.

Os nódulos lunares são fáceis de explicar. Eles são pontos que representam não um corpo celeste qualquer mas a relação entre Terra, Lua e Sol, os três pontos mais importantes do mapa astrológico, associáveis ao Corpo, à Alma e ao Espírito, assim mesmo ao Filho, à Mãe e ao Pai, tanto os Cósmicos como os físicos de todo o indivíduo, revelando o seu projecto de vida, de onde vem e para onde vai ou deve ir. A Cabeça e a Cauda do Dragão estão sempre fazendo uma oposição exacta no horóscopo, ou seja, estão ocupando signo/grau exactamente opostos entre si. Consequentemente, estarão sempre ocupando casas opostas.

Geralmente é aceite que os nódulos lunares são os elementos principais para o entendimento de cada vida como parcela de um tecido contínuo. Há até astrólogos que acreditam terem os nódulos lunares mais importância que o resto na carta natal. Para um conhecedor experimentado, sobretudo iniciado nos Mistérios do Universo, a interpretação do Sol, da Lua e das posições dos nódulos lunares podem revelar os lances da vida passada e os feitos da vida presente deixando antever as causas-efeitos que tecerão a vida futura.

A Cauda Draconis representa sempre o passado do Homem e a sua natureza material como personalidade manifestada, consequência da reencarnação anterior. É sempre uma combinação de eventos, ideias, atitudes, pensamentos e emoções, cujos efeitos acumulados e não resolvidos deram origem ao que se é e pode na vida actual. Se, por isto, o Nódulo Sul é limitador, contudo as suas fundações no passado, firmes e amplas, são o motivo que traz à vida actual a fruição da possibilidade de realização.

A Caput Draconis expressa o futuro, a realização de novas experiências ampliando a vida e a consciência. Todo o homem, cada qual à sua maneira, o apercebe e alguns até o vislumbram intuitivamente. Mas no comum das gentes não deixa de gerar apreensões pelo desconhecido, pelo risco de novas experiências nunca tentadas, ainda assim esta posição nodal exercendo curiosa atracção magnética atraindo a alma para o seu futuro de maior crescimento. O Nódulo Norte representa a área de expressão mais elevada a ser atingida na vida presente, portanto, deve ser interpretado pelas mais altas qualidades do signo e da casa onde estiver localizado na carta natal. É assim um novo problema por resolver: revela o descontentamento de todo o homem que anseia novas e maiores realidades permanentes ante a impermanência dos modos antigos e insuficientes de viver que marcavam o seu passado, levando-o ao desejo de descobrir e explorar os potenciais do seu futuro. Este Nódulo identifica-se à natureza espiritual como individualidade em formação.

No desenvolvimento horoscópico dos nódulos lunares se consubstancia a chamada Astrologia Kármica. Resta saber o que seja o Karma e como actua no colectivo e no individual, Lei indissociável daquela outra Lei da Reencarnação.

Independentemente de quaisquer mecanismos astrológicos, que somente servem para ajudar a compreender mas que não são a compreensão, tal qual o conhecer não é o saber e assim mesmo a especulação teórica difere da certeza da vivência, o que será o destino futuro da pessoa só a própria o decide no presente, sobre o que o diz o Professor Henrique José de Souza: “Quem semeia um pensamento colherá um facto; semeia um facto e terá um hábito; semeia um hábito e formará um carácter; semeia um carácter e obterá um destino”.

Se não se admitir a reencarnação jamais se poderá compreender a trama da Vida, com as suas complexidades e incoerências aparentes. Mas também é preciso ter uma noção muito clara do que seja a reencarnação.

O que reencarna não é a pessoa, a personalidade, e sim o Ego Superior, pois o Mental Abstracto ou Corpo Causal é quem cria um quaternário novo (intelectivo, emocional, vital e denso) em cada nova manifestação, a partir dos respectivos átomos-sementes. Pode-se fazer uma comparação com um actor e os papéis que ele representa. O Ego Superior é o Actor. Cada vida é um papel por Ele representado. Quando o actor hoje representa Hamlet, ele lembra-se que antes representou Fausto. Mas o Hamlet da peça ignora a existência de Fausto. A experiência adquirida num papel permite ao actor melhorar a sua representação na peça seguinte. Por esta comparação simples, pode-se ter uma ideia de como de uma para outra reencarnação do mesmo Ego se propagam os resultados das experiências, mas não a lembrança dessas experiências. É como quem estudou piano e acabou esquecendo os exercícios, mas ficando com a técnica adquirida por meio deles. Assim acontece com o homem, com o desenvolvimento das suas virtudes ou defeitos provenientes das reencarnações anteriores do seu Ego, mas sem a lembrança dessas vidas anteriores. Quando, porém, pelo desenvolvimento espiritual expande a sua consciência física e consegue ligar-se à consciência causal e intuicional do Ego, pode obter a noção de todas as suas reencarnações passadas. Quem consegue isso torna-se um Iluminado, adquirindo o direito de afirmar: “Eu sou quem sou”. Estando identificado à Consciência do seu Espírito Divino, com o qual é Um, possui na sua memória imediata, física, a soma total dos acontecimentos adquiridos em todas as suas vidas anteriores. Os raros Seres que alcançam esse desenvolvimento supra-humano não necessitam reencarnar mais na face da Terra, pois nada mais têm a aprender e a debitar nela. Tornam-se centrífugos e Eles, sim, podem partir à demanda de novos Globos, de novas Estrelas povoando o espaço deste Quarto Sistema de Evolução Universal. Os que ficam voluntariamente em Missão na Terra, a favor da Evolução desta, recolhem-se aos seus Mundos Interiores de onde passam a vigiar e encaminhar avante a marcha da Humanidade e demais seres viventes.

Quanto a preconizar o período de tempo ou intervalo mediando entre duas reencarnações da alma humana, tal é muitíssimo difícil e mesmo controverso, por causa da duração desse período estar condicionado pelo karma pessoal de cada um, acrescentando-se o facto das vidas astral e mental serem multivariadas e não haver duas almas com experiências literalmente iguais; ademais, deve-se estar ciente de que o tempo e o espaço nos Planos Internos não são idênticos aos do Plano Físico. Já algum poeta intuído afirmava que “um ano na Terra é uma eternidade no Céu, mas também no Inferno”…

Tão-só se poderá dizer que após a morte física, em que o homem abandona para sempre os corpos denso e etérico, passa ao Mundo Astral onde permanece algum tempo até passar pela segunda morte, quando se liberta desse corpo e penetra o Plano Mental Concreto (o Céu ou Paraíso Celeste das religiões ocidentais, o Devakan ou Bardo das religiões orientais), onde encontra o repouso espiritual antes de nova reencarnação, quando passa pela terceira morte – a de livrar-se do corpo Mental Concreto para criar um outro, por acção do átomo-semente causal contido no corpo Mental Superior, que irá projectar uma nova personalidade numa nova reencarnação.

Pelo acúmulo de experiências conscientizadoras e a sua consequente espiritualização, a alma demora mais tempo a reencarnar e usufrui cada vez mais dos Planos Superiores, o que é indício claro da sua evolução verdadeira e do esgotamento do seu karma. Com a alma menos evoluída, logicamente, o processo é inverso: demora menos tempo a reencarnar e pouco usufrui dos Planos Superiores, por não ter ligação ou simpatia consciencial com eles. Mas ambos os tipos de almas, repito, colhem no presente o que semearam no passado.

Sendo o Karma, como Lei da Justiça Universal, representado por uma balança, ele não deve ser encarado dogmaticamente como “olho por olho” ou “dente por dente”. Se se der em alguém 21 chicotadas, não significa que se vá receber de volta 21 chicotadas. O processo é o seguinte: se se der em alguém 21 chicotadas, ir-se-á provocar nesse alguém uma dor de intensidade X, portanto, por Lei de Retribuição, ir-se-á passar por uma dor de intensidade X, e essa dor poderá ser causada por uma doença, por um desgosto moral, etc. Além disso, o homem é julgado pela intenção e não pela acção. O importante é o móbil que levou à acção. Por exemplo: matar alguém é crime, mas é importante saber se o crime foi voluntário ou involuntário. Além disso, o tipo de punição vai depender do grau de consciência do criminoso.

O problema moral do certo e do errado está ligado ao grau de consciência do homem. Quando a mente e a emoção se equilibram ele alcança Deus. Quanto maior for a sua consciência, que só o conhecimento pode facultar, maiores danos vão-lhe causar os seus erros; já para o homem pouco evoluído, um grande erro pode lhe causar apenas uma pequena dor. Tudo depende do grau de consciência já alcançado.

No Universo tudo tem de caminhar dentro de um equilíbrio, mas o homem usando do seu livre-arbítrio faz o que quer. Ora, fazendo o que quer, ele tem em si mil possibilidades de errar e uma de acertar, e errando ele provoca um desequilíbrio. Existem leis para os pensamentos, para as emoções e para os actos, logo, o homem erra quando pensa, emociona-se e age negativa ou inaturalmente. E errando provoca desequilíbrio. Portanto, errar significar desequilibrar algo no tom do ritmo cósmico, e tem-se de “pagar” por esse desequilíbrio. A Lei não aceita que o homem o desconheça. É claro que quanto maior for o conhecimento do homem, maior é a sua responsabilidade. A Lei cumpre-se nos seus mínimos detalhes para que o equilíbrio se processe.

O jogo de luzes difusas do Bem e do Mal, esse xadrez cujo enigma do lance a fazer que é o do jogo do Karma, é afinal o jogo do Perfeito Equilíbrio, esse da Justiça Suprema que cobra ou premeia. Se todo o homem quando pensa, emociona-se ou age desequilibra o ritmo da Lei, tem de responder pelo retorno do equilíbrio, advindo daí a dor e os sofrimentos consequentes. Ora, a dor e o sofrimento são causados pelo Karma – tanto pessoal como colectivo – e indicam o retorno ao equilíbrio.

Se não houvesse um sistema de reajustamento kármico, certamente a Humanidade se destruiria. Tal reajustamento é determinado por quatro Deuses Cósmicos chamados Anjos do DestinoSuras-Lipikas ou Devas-Lipikas, os Senhores do Karma Planetário através das suas respectivas Hostes. Eles são os Reguladores Kármicos para que cada homem possa suportar o retorno ao equilíbrio, ou seja, suportar o karma negativo que criou cujas impressões são registadas ou plasmadas na sua matéria mental e que irão determinar a acção futura do átomo-semente causal na formação de um novo corpo em uma nova vida, enfim, irão tecer um bom ou mau destino. São Eles quem, com a sua Sabedoria, fazem um escalonamento de maneira à dor do retorno ao equilíbrio ser suportável e educativa. Portanto, o Karma não é mecanismo cego nem tampouco insensível.

Para que haja equilíbrio é muito importante o cultivo das virtudes, pois um karma negativo só pode ser destruído por uma vida virtuosa.

Na balança simbólica do Karma, o prato de prata é o das emoções que impulsionam a acção, enquanto o prato de ouro é o da mente ou conhecimento de como agir. Quando se vive sob o domínio das emoções, erra-se mais, e esse prato torna-se mais pesado, desce, logo, o outro sobe, ficando ambos em desequilíbrio. E quando se paga um karma e logo se adquire outro, por falta de conhecimentos, o prato das emoções mantém-se o mais pesado. Para que haja equilíbrio entre os dois pratos, é necessária a aquisição do conhecimento ou o desenvolvimento da mente, pois só pelo prato do conhecimento se pode dominar as emoções.

A transformação das nidanas em skandas, dos vícios em virtudes, do Karma em Dharma relativamente à evolução da Onda de Vida Humana, tem ainda a ver com a Lua e as “pegadas deixadas pelos Dragão”, poeticamente falando, ou seja, os chamados asterismos lunares cujo enigma profundo tanto tem a ver com o desenvolvimento do Jiva quanto do Jina, o Homem da Face e do Seio da Terra (Bhumi).

De maneira resumida, os asterismos lunares explicam-se da maneira seguinte: na sua órbita em redor da Terra, a Lua leva hoje 28 dias para a completar. Esses dias são chamados, precisamente, de asterismos lunares, os quais nem sempre duraram o mesmo número de dias. Nos zodíacos hindus ancestrais apareciam apenas 27 asterismos ou dias para a Lua completar uma volta em redor da Terra. Certamente nessa época a Lua seria mais rápida na sua órbita ao redor da Terra, realizando a volta em 27 dias. Hoje, em vista da mesma ter perdido velocidade através dos milénios, realiza a mesma órbita em 28 dias, não atingindo ainda os 29 dias.

Portanto, em cada um dos doze signos haviam apenas 27 asterismos lunares, e não 28 como hoje acontece, o que significa que o mês lunar era mais curto. Veja-se, agora, os seus nomes sânscritos e posições nos signos segundo a Astrologia Védica ou Jyotisha, a mais próxima da Sabedoria Arcaica de Assuramaya, o Rishi atlante fundador original do sistema de Astrosofia e Astrologia.

O facto de se começar pelo signo de Peixes e não do Carneiro, dividindo o mês lunar em 27+1 asterismos, comprova a grande antiguidade do Zodíaco hindu na Jyotisha, ciência instrucional do Rig-Veda e da mesma forma um Vedanga, ou “parte separada” dos Vedas, por certo para a destacar como ciência de Tradição Ancestral. Comprova também o conhecimento exacto da Hierarquia Jiva ou Hominal ser regida por Piscis, sendo que é pela Onda Humana que inicia sempre e incontornavelmente toda a evolução para maiores e mais vastos estados de Ser e Consciência.

A precessão dos equinócios aponta hoje para a Era de Peixes astrologicamente já finada a favor do dealbar da Era de Aquário às 15 horas de quarta-feira (dia de Mercúrio) de 28 de Setembro de 2005. Também daí o início dos signos zodiacais em Carneiro, que é o signo precedente de Peixes, e do qual provém a tradição da festa móvel judaico-cristã do Cordeiro pascal, a Pessah ou Páscoa.

A relação do Grande Dragão Celeste que acaba mordendo a própria cauda formando o Zero (O) do Infinito abstracto que se torna concreto ao ser povoado e delimitado pelas constelações dos doze signos em torno do Sol Central deste Universo centralizando o foco de atenção na própria Terra em que todos estamos, dizia, essa relação chama-se Quadrante Cósmico constituído por quatro Quadrantes Planetários, segundo o sistema de Astrologia Esotérica, portanto, Astrosofia hindu, donde derivam todos os sistemas de astrologia e astronomia ocidentais, inclusive o simbolismo da parábola (para-bola) para contextualizar a Roda de Ezequiel (Zodíaco) em que assenta o sistema cabalístico da Merkabah no presente Quarto Sistema de Evolução Universal.

O círculo zodiacal, já se sabe, representa o esquema de Evolução geral no presente Sistema Planetário, desde a descida da Vida-Consciência (JivatmãPurusha) do seio do Eterno (Svabhâvat) até à sua manifestação na Espaço Com Limites como Vida-Energia (JivaPrakriti), e o consequente retorno ao Espaço Sem Limites do mesmo Eterno, já não em estado indiferenciado mas diferenciado e sublimado.

Portanto, o círculo ou ciclo zodiacal representa sempre o ritmo da Vida-Consciência no acto da manifestação como Vida-Energia, esta que se vai depurando e apurando no palco do Teatro da Vida pelo acúmulo de experiências, dilatando o campo da sua consciência transformando a sua natureza íntima de virginal em potestade. Essas experiências realizadas, em realização ou a realizar estão indicadas de maneira geral na “carta astrológica” de cada Mónada renascida num novo ciclo de manifestação, seja humana ou cósmica, esta no sentido de Logos Planetário encarnado num Planeta ou Globo que é o seu Corpo.

Na realidade, o círculo zodiacal é um segmento da Esfera celeste cortado pelo plano da Eclíptica. As linhas de direcção que formam as suas divisões são os quadrantes, os decanatos e os graus são os raios emanados do ponto central de concentração, ou seja, donde se expande a Energia Criadora promanada da Substância Única (Svabhâvat). Os 12 raios definidores dos 12 signos são aquelas 12 energias cósmicas correspondentes às 12 Hierarquias Criadoras ou Consciências Universais, precisamente assinaladas nas constelações que ali se encontram.

Cada uma das 12 constelações tem a sua morada natural em um dos 12 signos, os quais são denominados de casas signatárias ou mansões astrais (no sentido de astros). Se considerar-se as relações entre os signos, os planetas e as casas, encontra-se a mesma divisão ternária baseada nas Gunas ou “qualidades subtis da matéria”. Senão, observe-se: os signos correspondem a Satva (energia expansiva, espiritual), ou seja, aos elementos essenciais da Manifestação; os planetas estão relacionados a Rajas (energia rítmica, equilibrante, psíquica), isto é, ao desenvolvimento daqueles elementos naturais no decorrer do factor Tempo; as casas têm a ver com Tamas (energia centrípeta, física), o que vale dizer: têm a ver com as circunstâncias e resultados desse desenvolvimento no Espaço ou Plano da Matéria (Prakriti). Cada signo é, desde logo, uma combinação de cada um desses elementos com outros afins, chamados em Astrologia de quadruplicidades e triplicidades (em sânscrito, respectivamente, kandrakonam e trinokonam). Esses elementos (Tatvas) identificam-se respectivamente aos Tan-Mâttras (“medidas vibratórias dos elementos”) e às Gunas da Filosofia Esotérica em que afinal assenta a Astrologia Védica. Influem no Homem como geradores dos cinco sentidos físicos de que o mais subtil, audição, ainda está em formação, tal qual a 5.ª Ronda Planetária em projecção para as outras quatro já projectadas nesta 4.ª Cadeia Planetária.

Em termos de Astrologia, as Gunas produzem e regem as três quadruplicidades e os Tan-Mâttras as quatro triplicidades. Segundo as Gunas, os signos classificam-se em cardeais, variáveis e fixos (em sânscrito, angulares, sucedentes e cadentes – kendra, parana, apokalima). Os cardeais representam a essencialidade dos quatro elementos, os quais constituem as 12 energias cósmicas que se conhecem pelo nome de signos.

SIGNOS CARDEAIS – SATVA

AR – BALANÇA
FOGO – CARNEIRO
ÁGUA – CARANGUEJO
TERRA – CAPRICÓRNIO

Os signos variáveis representando a modalidade da transformação, são os seguintes:

SIGNOS VARIÁVEIS – RAJAS

AR – GÉMEOS
FOGO – SAGITÁRIO
ÁGUA – PEIXES
TERRA – VIRGEM

Os signos fixos representam a modalidade da realização:

SIGNOS FIXOS – TAMAS

AR – AQUÁRIO
FOGO – LEÃO
ÁGUA – ESCORPIÃO
TERRA – TOURO

De acordo com as Gunas, os signos agrupam-se em quatro triplicidades. Cada elemento (Tatva) rege então três signos:

AR (VAYU) = BALANÇA, GÉMEOS, AQUÁRIO

FOGO (TEJAS) = CARNEIRO, SAGITÁRIO, LEÃO

ÁGUA (APAS) = CARANGUEJO, PEIXES, ESCORPIÃO

TERRA (PRITIVI) = CAPRICÓRNIO, VIRGEM, TOURO

O mistério criador das três Gunas e dos quatro Tatvas está representado em um gesto muito conhecido dos cristãos, como seja o do sinal da Cruz. Ao persignar-se tocando em quatro pontos do seu corpo, o cristão pronuncia o nome da Trindade: Pai, Filho, Espírito Santo. É justamente da combinação dos quatro elementos (Tatvas) e da sua tríplice modalidade de manifestação (Gunas) que nasceram os signos. O carácter de cada signo é determinado pelo seguinte:

1.º) Elemento ao qual ele pertence, seja o Ar, o Fogo, a Água ou a Terra.

2.º) A modalidade da Guna à qual ele pertence, seja Satva (essencial), Rajas (transformador) ou Tamas (realizador).

3.º) A sua orientação, isto é, a sua colocação ou situação em um dos quadrantes do Zodíaco relacionados aos quatro reinos da Natureza: Humano, Animal, Vegetal, Mineral.

A Astrologia Védica é de procedência antiquíssima, herança directa dos Rishis ou Reis atlantes, como tal difere muito das modalidades de processamento da actual Astrologia ocidental. Um dos pontos mais difíceis de ajustamento entre esses dois sistemas, é precisamente a falta de dados suficientes para determinar a diferença exacta entre o primeiro ponto das constelações zodiacais, que os astrólogos hindus chamam Nirayama-Sphutam, e o Equinócio da Primavera no começo da Eclíptica, por eles chamado Sayana-Sphutam. Essa diferença chamam-na ayanamsa. Em vez de partirem do primeiro ponto do signo do Carneiro, os brahmanes iniciados iniciam desde a posição da estrela Revati, que actualmente alguns astrólogos ocidentais identificam como sendo a estrela Zeta na constelação de Peixes, para a sua classificação zodiacal.

Conforme o Quadrante Cósmico apresentado mais atrás, os Vedas fornecem dados que permitem atribuir aos signos zodiacais as influências seguintes:

MINAM (PEIXES)

Fusão mística: passagem da curva direita para a esquerda, fora do círculo de manifestação.
Tatva: Apas, Água, dissolução fecundante.
Guna: Rajas, actividade rítmica, transformação.
Transição do Quadrante: Sublimação das Energias ao Quadrante da Involução, dentro da Indiferenciação ou Identificação com o Absoluto.

MESCHAM (CARNEIRO)

Impulso criador e de transmutação: Curva descendente ou Involutiva.
Tatva: Tejas, Fogo, expansão transmutativa criadora.
Guna: Satva, Essencialidade ou o Espírito como Essência Prima.
1.º Quadrante: Energias Cósmicas indiferenciadas.

VRISHABHA (TOURO)

Receptividade magnética bioplástica, indiferenciada: Curva esquerda, descendente, Involutiva.
Tatva: Pritivi, Terra, receptividade bioplástica formadora.
Guna: Tamas, realização na Matéria.
1.º Quadrante: Energias Cósmicas indiferenciadas.

MITHUNA (GÉMEOS)

Fusão: Concepção.
Curva descendente: Involutiva.
Tatva: Vayu, Ar, elemento fluídico móvel.
Guna: Rajas, actividade transitiva de união.
Transição do Quadrante: das Energias indiferenciadas para aquelas da individualização.

KATAKAM (CARANGUEJO)

Gestação: Nascimento.
Curva esquerda descendente: Involutiva.
Tatva: Apas, Água, elemento dissolvente, fecundante.
Guna: Satva, essencialidade.
2.º Quadrante: Individualização.

SIMHAM (LEÃO)

Individualização: Vontade.
Curva esquerda: Descendente, involutiva.
Tatva: Tejas, Fogo, elemento impulsivo, expansivo, transmutador.
Guna: Tamas, realização na Matéria.
2.º Quadrante: Individualização.

KANYA (VIRGEM)

Disposição: Inteligência.
Passagem da 1.ª Curva: Involutiva para a 2.ª Curva, Evolutiva.
Tatva: Pritivi, Terra, receptividade bioplástica formal.
Guna: Rajas, união transitiva.
Transição do Quadrante: Individualização, dissociação ao Quadrante, associação, síntese.

TULAM (BALANÇA)

Equilíbrio: Associativo, intuitivo.
Curva ascendente: Evolutiva.
Tatva: Vayu, Ar, elemento fluídico móvel.
Guna: Satva, essencialidade.
Quadrante das Energias: Associativas, sintéticas, coordenativas.

VRISCHIKA (ESCORPIÃO)

Histólise: Metamorfose.
Curva da direita: Ascendente, evolutiva.
Tatva: Apas, Água, dissolução, fecundação.
Guna: Tamas, realização na Matéria.
3.º Quadrante: Associação coordenadora sintética.

DHANUS (SAGITÁRIO)

Coordenação: Síntese.
Curva direita ascendente: Evolutiva.
Tatva: Tejas, Fogo, elemento impulsivo, expansivo, transmutador.
Guna: Rajas, associação, coordenação.
Transição ao Quadrante: Síntese ao Quadrante, sublimação.

MAKARAM (CAPRICÓRNIO)

Ascetismo: Busca da Perfeição.
Curva ascendente: Evolutiva.
Tatva: Pritivi, Terra, receptividade bioplástica formal.
Guna: Satva, essencialidade.
4.º Quadrante: Sublimação.

KUMBHA (AQUÁRIO)

Iluminação: Superação de si mesmo.
Curva ascendente: Evolutiva.
Tatva: Vayu, Ar, elemento fluídico móvel.
Guna: Tamas, realização na Matéria física.
Quadrante: Das Energias sublimadas.

Foi a partir do Quadrante Cósmico que veio a desenvolver-se o Quadrante Terrestre o qual, por via da matemática e da geometria, transpôs-se o seu elevado sentido esotérico ao prático do quadrante da ciência náutica, instrumento indispensável aos marujos lusos de Quinhentos navegando por mares ignotos. No mais, resta saber os nomes dados pela Astrologia Védica aos sete Planetas tradicionais correspondentes às vibrações dos sete Tatvas que presentes nos sete dias da semana:

SURYA (SOL) – PRITIVI – LARANJA – DOMINGO

CHANDRA ou CHENDRA (LUA) – APAS – VIOLETA – SEGUNDA-FEIRA

MANJALA ou KUJA (MARTE) – TEJAS – VERMELHO – TERÇA-FEIRA

BUDDHA (MERCÚRIO) – ANUPADAKA – AMARELO – QUARTA-FEIRA

BAKASPALI ou KURA (JÚPITER) – ADI – PÚRPURA – QUINTA-FEIRA

SHUKRA ou ÇUCRA (VÉNUS) – AKASHA – AZUL – SEXTA-FEIRA

SANI ou SHANI (SATURNO) – VAYU – VERDE – SÁBADO

Desde tempos imemoriais que se fala e estuda, no escrínio dos Colégios Iniciáticos, da relação íntima existente entre o Cosmos, a Terra e o Homem. Isso quer dizer que há afinidade total e correlação entre o Macrocosmos, o Universo, e o Microcosmos, o Homem. Há no entanto um ponto intermediário, justamente o Planeta em que vivemos, neste caso a Mãe que desune/une o Pai (Universo) e o Filho (Homem). Em todas as catequeses religiosas, em todas as teogonias prevalece o princípio de que o Homem só alcança o Criador através do Aspecto Feminino da Divindade, a Sua Shakti, que no fundo vem a ser a Mater-Rhea, a Mãe-Terra ou Matéria, a Eva de todas as tradições como Prima Mater de todos os seres vivos. Esta é a chave do Grande Arcano que permite, de facto, compreender a verdadeira razão das influências zodiacais na Terra, nos deuses, nos homens, nos animais, nos vegetais e minerais, enfim, em toda a Natureza visível e invisível.

OBRAS CONSULTADAS

Henrique José de Souza, O Simbolismo do Dragão Celeste. Revista O Luzeiro, Ano I, n.º 3, Agosto 1952, São Paulo.

Paulo Albernaz, As Estrelas do Céu. Edição do autor, São Paulo, 2003.

Martin Schulman, Os Nódulos Lunares. Editora Ágora Ltda, São Paulo, 1975.

Max Heindel, El Mensaje de las Estrellas. Editorial Kier, Buenos Aires, 1946.

René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo, 1990.

Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1990.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, Textos Internos. Sintra, Portugal.

O Sagrado Português: Género e Ser (Cabala da Língua, do Género e da Geografia) – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jul 16 2017 

Fala-se amiúde do português mais como europeu e género antropológico caldeado e saído de várias etnias do Passado, caracterizando-o como raça distinta que, longe de ser ultramontana “orgulhosamente só”, é naturalmente expansiva afim a diáspora onde os cinco continentes revelam-se o limite. Durante o Estado Novo fez-se a propaganda da Raça Lusa ou Género Português, hoje interpretado como patrioteiro e modalidade de afirmação nacionalista do antigo regime caracterizado pelo sistema de ditadura romana. Até poderá ser, mas não está errada a premissa do português como género singular na Europa e de Portugal como o país mais antigo da mesma em quase meio milénio.

Característica do Sagrado Português, justificação apologética do mesmo, é a tripeça da Língua, do Género e da Geografia por que a Formula Mens Lusitanea tem se manifestado ao longo dos séculos pela Arte e a Filosofia Portuguesa, inclusive pelo singular da religiosidade nacional, onde a pia devotioni não raro aparece aparelhando com os encómios patrióticos aos feitos d´armas dos seus maiores.

Comece-se pela Língua. A fala de um povo é a manifestação em sons vocais, conjugados pelo sopro e a pausa, da Ideia Original, arquetípica que o assiste e distingue de outros povos dando a perceber a sua condição psicomental e consequente evolução. Trata-se da Ideia Raiz da potência do Logos dirigindo o Corpo Nacional pela qual a Língua, distinta das outras, faz com que aqueles que a falam agreguem-se em núcleo antropológico cultural e social distinto manifestando pelo sopro e o som, no estado imediato visível, o Arquétipo invisível que os assiste, tal qual a ideia manifestando-se pelo cérebro tomando forma através dos órgãos sensoriais como verbum facundus.

Raciocine-se sobre o fenómeno da linguagem; pense-se um pouco sobre o fenómeno da palavra. Alguém tem uma ideia, uma imagem lhe vem ao cérebro, os órgãos vocais são movimentados e pronuncia-se um som convencional. A vibração transmite-se pelo ar, atinge o ouvido de outro homem, dá-se uma série de fenómenos ainda não bem explicados e aquela vibração, aquele som é interpretado pelo outro homem com a mesma ideia que havia surgido no cérebro do primeiro. Pois bem, nas chamadas sagradas, purushicas, línguas primevas, havia uma correlação directa do som com o objecto, ou seja, o som era a expressão sonora directa e consciente do objecto ou pensamento. Com a decorrer dos tempos e o avanço da Kali-Yuga, a presente Idade do Ferro marcada pelo materialismo sombrio, as línguas foram se deteriorando indo perder o seu sentido original, tomando a condição prakritica de línguas dessacralizadas pelo rompimento do arquétipo com o protótipo, do pensamento com o som, pelo que hoje em dia são raros os idiomas que ainda mantêm essa ligação. As que a mantém são utilizadas na ciência sacerdotal das diversas religiões do mundo como forma de expressão e intercomunicação directa entre o Divino e o Humano. O latim antigo, o grego arcaico, o sânscrito, o hebraico original e até o tupi e o português galaico, são algumas das línguas que ainda mantêm algo desse poder. Daí a razão da Cabala, no seu vector gemátrico de estudo do poder do alfabeto hebreu, onde se combinam as suas letras como se combinam os símbolos da Química indo obter-se ideias e significados.

Como disse, a Língua Portuguesa ainda contém muito desse Poder de Espírito Santo – Verbum Creator – pelo que se a pode considerar Língua Sagrada ou de Purusha em sua essência, muito mais sendo uma fusão fonética e gramatical de várias línguas de veneranda ancestralidade (grego, latim, semita, eslavo, bretão e galaico), onde igualmente se apresentam vocábulos fenícios que durante a Idade do Bronze na Península Ibérica foram parentes do alfabeto mais antigo da Europa e, quiçá, do Mundo, como seja o cónio, cúneo ou cinete, povo que subiu do Sul ao Norte do que é hoje Portugal, inclusive tendo fundado Conimbriga, berço proto-histórico da actual Coimbra.

Posto assim, a Língua Portuguesa revela-se como idioma sintético com a potência do flogístico ou espiritual na sua derradeira essência, em sua relação não rompida de arquétipo – protótipo, de objecto – expressão. Apesar da Língua Portuguesa conter 40.000 verbos, ela possui apenas dez potências que estão na raiz ou no fundo de todos os fonemas, repartindo-se em quatro grandes géneros afins às quatro forças naturais Fogo, Ar, Água Terra[1]. Assim, tem-se:

a) O das explosivas: G – K; D – T; B – P.

b) O das sopradas: Z – S; V – F; J – X.

c) O das líquidas: N – Nh; M ~ (m – n); L – Lh – l.

d) O das vibrantes: R – Rr – r.

No conjunto das “explosivas” está-se, de facto, perante explosões de sons; além disso, são explosões descontínuas, o que se verifica proferindo-as repetidamente.

O que caracteriza o conjunto seguinte (fricativas) é a continuidade própria de qualquer som. Por outro lado, são proferíveis sem som vocálico auxiliar, o que não acontece com as primeiras.

O terceiro grupo é muito mais complexo. Não, como aqueles, isomórfico. Há aspectos que aproximam as potências, outros que as distanciam. Essa é, porém, a natureza própria deste lugar, líquida com as ondas da maré num perpétuo ir-vir.

O R é com as sopradas, proferível sem auxílio de vogal, mas distingue-se delas por ser intermitente. Tríplice na forma, é a vibrante por excelência.

Sendo as letras potências que se idealizam conjugadas como palavras e se exprimem como frases, a referida tétrade fonética se dispõe por três colunas, de acordo com a Árvore das Sephiroths da Cabala. À direita as labiais, à esquerda as dentais e ao centro as pálato-guturais.

Diz Vulliud[2]: “A definição dos sephiroths varia consoante a ordem na qual venham a ser considerados. Na ordem do conhecimento, são dez luzes que iluminam a inteligência. Na ordem dos nomes, são dez atributos do Santo, bendito seja. Na ordem da revelação, são dez aspectos pelos quais a Essência Divina se dá a conhecer, as dez vestes em que aparece, os dez degraus proféticos para as comunicações do Alto. Na ordem cosmogónica, são as dez “palavras” por meio das quais Deus criou o Mundo, os dez sofrimentos que movem o Mundo e o vivificam, os dez números com que o nomeia, mede e pesa. Na ordem beatífica, sãs as dez espécies de glória que fruem as almas e os espíritos puros. Enfim, como o Universo é uma harmonia, é fácil estabelecer a série de correspondências alquímicas, astrológicas, etc.”

Demonstra-se assim, por este meio de Tradição ancestral, que o alfabeto da Língua Portuguesa é também ele uma Cabala Gemátrica cuja estrutura sagrada afim às potências naturais possibilita atingir o mais verídico Conhecimento. Motivo para o Professor Henrique José de Souza (1883-1963), fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, reiterar constantemente que a Língua Portuguesa haverá de ser o Idioma geral do Futuro, da Nova Sociedade Humana encabeçada pela Raça Ibero-Ameríndia[3].

A Língua plasmou-se na Literatura Portuguesa que cedo se dimanou e universalizou, ela também explanando-se por três épocas distintas comportando sete períodos distintos, que devido à grandeza e vultos dos seus verbos contribuiu notavelmente para o desenvolvimento vocabular de outras línguas europeias, inclusive as hoje consideradas mais apuradas como as de origem anglo-saxónica. Tem-se:

I – ÉPOCA TARDO-MEDIEVAL (séculos X – XV)

1.º Período (séculos X – XV):

Crónicas, cronicões e lais mosteirais (séculos X – XII); poesia dos trovadores e prosa dos jograis, anónimos ou não (séculos XII – XIV);

2.º Período (séculos XIII – XV):

Poesia palaciana, prosa didáctica e crónicas.

II – ÉPOCA CLÁSSICA (séculos XVI – XVIII)

3.º Período (século XVI):

Influência italiana; Maneirismo (exemplo, Os Lusíadas); Renascimento.

4.º Período (século XVII):

Cultismo e Conceptismo.

5.º Período (século XVIII):

Iluminismo, Arcadismo e Arcaicismo.

III – ÉPOCA CONTEMPORÂNEA (séculos XIX – XX)

6.º Período (1825 – 1870):

Romantismo e Neoclássico.

7.º Período (desde 1870):

Realismo e Abstraccionismo.

Foi sobretudo pela palavra oral e escrita, geralmente por ambas[4], que Portugal se alavancou na Civilização e se impôs, partindo de diáspora – gesta dei per portucalensis, divisa manuelina – para a criação de império, nisto afim ao sentido cabalístico de Malkuth, “O Reino ou o Mundo” (Assiah)[5], pois que no Mundo se projectou e dominou nos cinco continentes, como seja: Portugal = Brasil, Guiné, Moçambique, Angola, Cabo Verde, S. Tomé, Príncipe, Índia, Macau e Timor. A diáspora da lusofonia serviria de fermento à constituição da futura Raça Humana agregando todos os povos do Mundo onde também convivem, sob uma forma sintética todos os representantes do Passado, colectiva e paulatinamente empenhados na edificação da Concórdia Universal[6], independentemente das crises psicossociais próprias de qualquer período interciclos que é o actual.

Passo assim ao Género. A natureza sui generis e a idiossincrasia do Homem Ibérico fazem dele um Manu, um Guia civilizacional de dupla fácies, introvertido (português intuitivo, pisciano) e extrovertido (espanhol mental, sagitário), dando um tipo psicológico único que só para cá dos Pirenéus se encontra. Isto tem levado antropólogos e sociólogos a afirmar que se a Península Ibérica cessasse, cessaria toda a Europa. Segundo Francisco da Cunha Leão e de maneira genérica, são os seguintes os modos comportamentais do espanhol – português[7]:

1 E.) Religiosidade imediata. Relação directa do Homem com Deus, na Mística, excluindo o termo médio. Firmeza na crença, inseparável da expressão prática. Carmelitanismo.

1 P.) Religiosidade imediata, através da Natureza e da Saudade, e pelo amor às criaturas. Franciscanismo.

2 E.) Homem como agente de ideal. Primazia da acção. Militantismo. Flamenco.

2 P.) Homem como estado de alma. Tendência para o sonho. Desigualdade temperamental: ledícia e dor de viver. Fado.

3 E.) Indiferença à Natureza cósmica. Natureza lugar-onde, palco da História. Realismo antropológico.

3 P.) Sensibilidade à Natureza vista animadamente, e ao mistério. Naturalismo transcendente e saudosista.

4 E.) Vida, afirmação e luta. Valorização do pessoal. Dramatismo. Código de honra. Morte – acesso à glória.

4 P.) Vida – afirmação pelo sentimento e assimilação humana. Gosto da aventura. Espírito de missão.

5 E.) Extremação entre o amor e a sexualidade. Amor natural, sem intrincamento.

5 P.) Amor-adoração. Supervivência amorosa. Carácter absorvente, complexo. Insegurança, queixa, transcendência.

6 E.) Ironia cortante, ácida. Apreensão realista do tipo humano. O picaresco. Ludismo verbal.

6 P.) Ironia sentimental. Agudeza ao ridículo. Realismo emotivo e crítico.

7 E.) Solidariedade contra as intervenções alheias. Orgulho e hermetismo nacional.

7 P.) Solidariedade pela comunhão dos afectos e transmissão do sangue. Coesão pela saudade.

8 E.) Reacção perante a adversidade pelo refúgio no foro individual – isento de derrota. Soledade. Senequismo. Alternância com o desespero colectivo expresso em luta e aniquilamento iconoclasta.

8 P.) Resistência à adversidade pela esperança e crença nos imponderáveis. Sebastianismo. Desespero confinadamente individual.

9 E.) Tendência para o categórico. Nitidez dos contrastes, menosprezo dos valores intermediários. Firmeza das opiniões, pouco permeáveis à dúvida.

9 P.) Sentido das cambiantes e das sombras. Hesitação alternada com o ímpeto e o heroísmo das execuções supremas, geralmente ponderadas, amadurecidas.

10 E.) Desinteresse pelo mundo.

10 P.) Interesse pelo exótico.

11 E.) Teimosia aberta: obstinação. Desapego das comodidades.

11 P.) Teimosia surda, aquosa. Plasticidade. Antinomias profundas.

Finalmente, tem-se a Geografia. A cartografia antiga sempre privilegiou Portugal dispondo-o na cabeça da Europa apresentada como figura humana, assim mesmo contextualizada como Geosofia ou Geografia Sagrada onde no mapa continental ele ocupa o lugar cimeiro.

Se Europa como filólogo provém do celta Ur-Rope, “Região do Fogo”, segundo outros vem a ter a sua formação no vocábulo euro, o “vento de leste”, conhecido já por helénicos e latinos, varrendo águas, poeiras e sementes para o lado “onde o Sol se põe”, o Occidis ou “Lugar da Morte”, esta entendida como o molinete da transformação da alma inerte dos elementos e do Homem na vida activa, espiritualizada, logo harmonizada com a Suprema Lei Universal que a tudo a todos rege.

A Europa teve, entre os rios Reno e Volga, como dirigentes os acadianos e os celtas na sua origem, encontrando-se colocada entre dois grandes blocos continentais: o asiático e o “quinto continente”, realçando-se neste a América do Sul. Por isso é a “ponte” antropológica que a Vaga Humana, “empurrada” pelo Vento de Leste, atravessa num crucial Itinerário, hoje entre o Oriente, espiritualmente falido como também socioeconomicamente, e o urgente Grande Ocidente ibero-americano do Sul que começa a brilhar como “Luz das Nações”, parafraseando os Actos dos Apóstolos, 13:47, promessa tomada de Isaías, 49:6.

A Europa, o quarto continente, do ponto de vista mítico, ou melhor, esotérico, é realmente a expressão física ou incarnada de poderosa divindade criadora, um Arqueu ou Assura, segundo as cosmogonias tradicionais do Ocidente e do Oriente. E sendo a Europa um Corpo, então Fernando Pessoa não usou de “blague” ao dizer que Portugal era o rosto da mesma. Este conceito geosófico antiquíssimo da corporalidade continental, veio a ser ressuscitado pelo cognoscio vivaz de autor contemporâneo, Manuel Joaquim Gandra[8], seguindo o primaz igualmente contemporâneo desta tese, o mesmo Fernando Pessoa, como se verifica na primeira parte, “Brasão”, e primeiro poema, “O dos castelos”, da sua Mensagem.

Certamente Fernando Pessoa inspirou-se em autores mais antigos e de nomeada hermética para esse seu belíssimo poema, assim constando:

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é um ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Acordando com o conceito pessoano, escreveu Manuel J. Gandra[9]:

“Com efeito, encontramo-nos perante a ideia tradicional: a Europa é detentora de um corpo com cabeça, tronco e membros. Ela é o palco para a actuação da Lei matriz que concerne à Era Adâmica e tem por desígnio a rubificação, ou seja, a incorporação consciente da Luz de Glória (Xvarnah para os persas, o Espírito Santo para os cristãos) por todos e cada um dos seres humanos.”

No século XIV (1335-37) a tal ideia foi dada forma gráfica, ou melhor, cartográfica, visto tratar-se de uma carta, da qual são pelo menos conhecidas três versões, da autoria de Opicinus de Canestris. Posteriormente, o franciscano de Basileia, Sebastian Münster, inspirado nessa carta medieval editará uma semelhante em 1544, na sua Cosmographia. A carta de Münster receberia, poucos anos depois, acréscimos de um seu colega conterrâneo, Heinrich Bünting, que a publicaria em 1581 na sua obra principal, Itinerarium Sacrae Scripturae, contendo as correcções feitas em 1544 à obra de Münster pelo humanista português Damião de Góis, no seu trabalho intitulado Pro Hispaniae Defensio[10]. No século XVII (1624), Julião de Castilho, em sua Historia de los Godos, faz da Europa uma mulher de que a Espanha é a cabeça e Portugal a coroa, indo suscitar em 1631 o comentário de António de Souza Macedo nas Flores de España, Excelencias de Portugal, página 6: “(…) en lo que dá a Portugal la mayor honra, porque si bien ay cabeças que honran coronas, vulgarmente las coronas honran las cabeças”. E o próprio Luís de Camões perfilha da mesma ideia que expõe no Canto III, estâncias 17 e 20, do seu poema imortal, Os Lusíadas:

Eis aqui se descobre a nobre Espanha
Como cabeça ali da Europa toda
Em cujo senhorio e glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda (…)

Eis aqui, quase cume da cabeça
Da Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa (…)

Posto assim, tem-se a Península Ibérica como a cabeça da Europa; a Península Itálica (em forma de bota) são os pés da Europa (de tal maneira que até a Igreja do ciclo precessional de Peixes lá está situada). A cabeça e os pés da Europa quase se tocam, enquanto os braços estão lançados para trás, como se aprestasse a lançar nas águas do Atlântico com o “rosto” Português fitando gravemente a América do porvir. Posto desta maneira, verifica-se que a Europa possui cabeça, tronco e membros e, portanto, cada nação é como se de um órgão se tratasse. De qualquer modo, todos os órgãos são indispensáveis. Contudo, o coordenador de todos eles é a cabeça que estabelece todas as directrizes, que coordena todos os movimentos. A cabeça, neste caso, é a Península Ibérica. Portugal e Espanha são um todo, embora hajam certas especificidades nas respectivas culturas demarcando as respectivas independências nacionais.

Por isso, não é por acaso que se diz que a cultura helénica é o pai e a mãe da Europa e dela se estudam duas facetas: a jónica (feminina) em Atenas, e a dórica (masculina) em Espanha. Por isto, pode-se afirmar que a Europa é um corpo hermafrodita (macho-fêmea).

Contudo, não estou falando da propagação do povo jónico (jónio) por toda a Grécia e Europa, nem da disseminação igualmente antropológica do povo dórico (dório) nas ilhas gregas e daí à Península Hispânica, coisa que não aconteceu (e se aconteceu foi em escala demasiado reduzida para poder ser contabilizada), e sim da propagação da cultura etnológica, com as suas modalidades científicas, plásticas, filosóficas e religiosas, dos primeiros em toda a Grécia, e dos segundos da Grécia à nossa Península e desta expandida a toda a Europa. Falo, pois, de surto cultural e não de surto civilizacional, apesar de ambos não estarem separados de todo graças à dominante influência helénica.

Voltando ao corpo da Europa e começando por baixo, seguindo a descrição feita por Manuel Gandra, tem-se os pés e as pernas na Península Itálica, a região genital nos Balcãs. A base da coluna vertebral está situada aí, relacionada com o Leste europeu, exactamente aquela zona da Europa donde procede a Energia vermelha chamada pelos orientais de Kundalini, o serpentino Fogo do seio da Terra. A Austro-Hungria, o plexo solar, a zona do umbigo, dos intestinos, ainda relacionada com o Leste. Os pulmões relacionados com a Suíça, com a Europa do Centro e que é a zona de circulação fiduciária (o dinheiro, o capital) que faz funcionar todo o organismo social; o coração, a França e o Luxemburgo (tanto a palavra Lusitânia como a palavra Luxemburgo, significam o mesmo: “Lugar da Luz”, e o curioso é que do Luxemburgo vieram os fundadores do Condado Portucalense), onde todas as doutrinas se fundem de uma forma harmónica. Os braços estão na zona industrial da Europa, o Norte da Europa, Alemanha, Países Baixos, Inglaterra, Escandinávia e que é a Europa braçal. A cabeça é a zona que vem desde os Pirenéus até ao Extremo Ocidental da Península Ibérica, sendo Portugal (incluindo a Galiza) o rosto e a fronte coroada de todo o organismo europeu. Disto conclui-se ser um completo absurdo pretender forçar Portugal a reger-se pela bitola político-social das potências económicas europeias (como estas têm sido sujeitas pelo império económico norte-americano) quando, na realidade e para maior harmonia de tudo e de todos, antes deveriam ser elas a sustentar a Cultura que é o Espírito de Portugal e a seguir o Cruzeiro Lusitano. Ademais, desde quando os órgãos inferiores dominam o cérebro? Quanto muito podem afectá-lo, mas sabe-se de sobejo que com a sua morte todo o organismo se extingue.

Quando se diz à “boca-cheia” que Portugal socioeconomicamente sempre foi um país quase subdesenvolvido e assim está na “cauda” da Europa, não é de todo verdade, ainda que haja nisso uma verdade oculta: sendo o Mental Arquetipal ou Causagístico, não deixa de reflectir em si os fortúnios e infortúnios do restante corpo de que é cabeça, ou seja, as virtudes e os vícios, as pazes e as crises, etc., tudo por sua natureza bioplástica, adaptável, assimiladora. Mas também é ele quem dimana as ideias e os ideais superiores, como aquele de criar o V Império do Mundo (e não “no Mundo”, que tal coisa o P.e António Vieira jamais grafou), logo, Universal, não colonialista mas civilizacionalmente Espiritual. Por tudo isto, garante a Profecia de Sintra revelada por um dos Maiores da Lusophia: – Quem nasce em Portugal é por Missão ou Castigo!

OBRAS CONSULTADAS

[1] António Telmo, Gramática Secreta da Língua Portuguesa. Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1981.

[2] Paul Vulliud, La Kaballe Juive, Histoire et Doctrine. Émile Nourry, Éditeur, Paris, 1923. Cf. Sepher Yetzirah (O Livro da Criação), na versão do Rev. Dr. Isidor Kalisch. Editora Renes, Rio de Janeiro, 1978.

[3] Henrique José de Souza, O Verdadeiro Caminho da Iniciação. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1 de Março de 1978.

[4] Alberto Pinto Gouveia, O Português, Língua Sagrada e Cabalística. Revista Dhâranâ, ano 68, n.º 10, 1994.

[5] João Roque, Cabala. Revista Dhâranâ, ano 59, n.º 1, 1985.

[6] Carlos Lucas de Souza, Civilização Eubiótica. Brasília, Junho 1968.

[7] F. da Cunha Leão, O Enigma Português. Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 1973.

[8] Manuel J. Gandra, Da Face Oculta do Rosto da Europa (Prolegómenos a uma História Mítica de Portugal), em A Europa tem rosto? Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1997.

[9] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal, em Cavalaria Espiritual e Conquista do Mundo. Gabinete de Estudos de Simbologia, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986.

[10] Rainer Daehnhardt, Páginas Secretas da História de Portugal, volume I. Edições Nova Acrópole, Lisboa, Maio 1993.

Mozart, Maçonaria e Viena – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Jun 6 2017 

PARAMENTOS MAÇÓNICOS DE MOZART

Na Rua Domgasse, n.º 5, encontra-se a casa em Viena de Mozart, a única que se conserva da dezena que possuiu nesta cidade austríaca. Esta casa (Mozarthaus) onde o compositor residiu com a sua família de 1784 a 1787, consta de seis salas, sendo na terceira que se podem ver objectos maçónicos comprovando a ligação profunda de Mozart à Maçonaria.

Vê-se exposta uma bonita faixa de fundo azul decorada com fios de ouro onde se bordou um triângulo com o Nome de Deus em hebraico, como seja, Yod – He – Vau – Heth = Jehovah, o Grande Arquitecto do Universo. Da faixa pende uma jóia constituída de um pelicano alimentando os seus sete filhotes. São as insígnias do Grau 18 de Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosacruz na Maçonaria Escocesa, sendo que o pelicano é a representação simbólica do sacrifício piedoso a favor do próximo em Humanidade, o que confere com a natureza mística deste Grau maçónico de característica essencialmente cristã, onde a mesma ave também aparece na simbologia eclesiástica como indicativa da Paixão de Cristo e da Eucaristia. É, em suma, o símbolo heráldico da piedade. Sob a faixa paramental aparece o avental maçónico do Grau Rosacruz de Mozart, obra bordada à mão com grande mestria onde se vê a Rosa no centro da Cruz, esta expressiva da personalidade e da matéria abrilhantada, iluminada pela flor da individualidade e do Espírito, conferindo a Paz corporal e espiritual que é o que representam os ramos de oliva em volta.

Aparece ainda um outro avental, também bordado à mão ricamente trabalhado. Nele vê-se um Templo ladeado por duas colunas tendo por cima o esquadro e o compasso com o M ao centro, que será indicativa tanto de Maçonaria como de Mozart. Trata-se do avental do Grau 16 de Príncipe de Jerusalém na Maçonaria Escocesa. É um Grau Capitular concedido por comunicação – ao contrário do anterior que é conferido por iniciação – pelo Capítulo Rosacruz ou a Maçonaria Vermelha, cor associada ao sangue do martírio em prol do Bem da Humanidade, da sua evolução moral e intelectual, a favor de uma maior ética e um mais amplo conhecimento que possa transformar o homem de simples profano e neófito em Iniciado e Mestre, assim podendo finalmente penetrar o Templo da Sabedoria Divina que é o que significa o Templo de Salomão retratado no avental.

Johannes Chrysostomus Wolfgang Theophilus Mozart nasceu em Salzburg, Áustria, em 27 de Janeiro de 1756, tendo falecido em Viena em 5 de Dezembro de 1791. Ele preferia ser chamado de Amadeus, pois o nome Theophilus, dado pelo seu padrinho Johannes Theophilus Pergmayr, que significa em grego “amigo de Deus”, tinha na sua forma latina um som mais agradável: Amadeus. Algumas vezes assinava com a forma francesa Amadè. Este incomparável génio da arte musical desde muito cedo andou de proximidades com a Ordem Maçónica, a qual jogou papel importante na sua vida e obra.

Wolfgang Amadeus Mozart foi admitido como Aprendiz na Loja Maçónica vienense Zur Wohltätigkeit (“A Beneficência”), em 14 de Dezembro de 1784. Foi elevado ao Grau de Companheiro em 7 de Janeiro de 1785, como “aumento de salário”, isto é, promoção ao nível imediato ao Aprendiz. E a sua exaltação a Mestre deverá ter acontecido pouco tempo depois, porque em 22 de Abril de 1785 ele figura já como Mestre Maçom nos arquivos da Loja. Mozart também assistiu a reuniões em uma outra Loja, chamada Zur Wahren Eintratcht (“A Concórdia Verdadeira”). Ambas as Lojas praticavam o Rito Zinnendorf, nome do seu fundador Johann Wilhelm von Zinnendorf (1731-1782), e que até hoje é o Rito mais popular no seio da Grande Loja Nacional dos Franco-Maçons da Alemanha (Große Landesloge der Freimaurer von Deutschland), próximo do Rito Sueco e do Rito Escocês Rectificado e da Estrita Observância. Este Rito Zinnendorf é explicitamente cristão e trinitário, pois não admite não cristãos nos seus altos Graus, no que explicita a crença nos Evangelhos como fonte revelada, assim como na Santíssima Trindade.

Segundo Otto Erich Deutsch, escritor e estudioso maçónico, a Loja Zur Wahren Eintratcht “era a maior e mais aristocrática de Viena. Mozart, como o melhor dos irmãos músicos, foi benvindo em todas as Lojas”. Foi apadrinhado pelo minerologista e metalúrgico Ignaz Edler von Born (Kalsburg, Transilvânia, 26 de Dezembro de 1742 – Viena, 24 de Junho de 1791). A própria Loja de Mozart, Zur Wohltätigkeit, uniu-se a outras duas em Dezembro de 1785, sob a reforma imperial da Maçonaria (o Freimaurerpatent, “Decreto Maçónico”) no mesmo mês, e foi assim que Mozart também chegou a pertencer a uma Loja chamada Zur Neugekrönten Hoffnung (“A Nova Esperança Coroada”), todas seguidoras do Rito Zinnendorf.

Após a sua Iniciação Maçónica, Amadeus Mozart compôs um “Cântico Solene para uma Loja de São João” (Lobgesang Auf Die Feierliche Johannisloge) e foi destinado à cerimónia “Cadeia de União”, que segundo o ritual em uso era como se encerravam todas as sessões das Lojas. Os primeiros versos desse cântico são:

Os sagrados laços que unem os verdadeiros irmãos,
Tal como a maior felicidade e delícias do Éden,
Para teus círculos sou sempre atraído,
Pois torna a vida bela e cheia de encantos.

LEOPOLD MOZART, MESTRE MAÇOM

Na casa de Mozart, em Viena, está exposto um singular livro maçónico do século XVIII que pertenceu ao pai do célebre compositor, Johann Georg Leopold Mozart (Augsburg, 14.11.1719 – Salzburg, 28.5.1787), ele próprio ígualmente músico e, afinal, também maçom como o filho.

Esse livro exposto na Mozarthaus é um manual contendo as fórmulas dos ritos maçónicos aprovados pela Grande Loja da Áustria (Grosse Landesloge von Österreich) e praticados pelas restantes Lojas da época, e que é dedicado ao imperador Leopold II que, entre 1790 e 1792, encabeçou um período muito favorável à expansão dos ideais maçónicos e da própria Maçonaria na Áustria.

Terá sido por influência directa do filho, Amadeus Mozart, que Leopold Mozart afiliou-se à Maçonaria, a qual já de si possuía forte influência nos meios culturais dessa época marcada pelo Iluminismo. Sob o malhete do Venerável Mestre Ignaz Edler von Born da Loja Zur Wohltätigkeit (“A Beneficência”), em Viena, Leopold Mozart foi iniciado Aprendiz Maçom em 6 de Abril de 1785, e nesse mesmo mês, no dia 16, passou ao segundo Grau de Companheiro Maçom, tendo o seu filho Amadeus comparecido a ambas as cerimónias. Por fim, em 22 de Abril desse mesmo ano, foi elevado a Mestre Maçom. Dois dias depois, pai e filho estiveram na Loja para uma homenagem ao seu Venerável Mestre, o responsável máximo da mesma, Ignaz Born, tendo Amadeus Mozart composto uma cantata para a ocasião, a K 471. No dia seguinte ao concerto, Leopold partiu para Salzburg. Nunca mais veria o filho.

Muita da obra musical de Leopold Mozart, com forte influência maçónica na sua composição, veio a perder-se ou a ser esquecida com o passar dos anos devido à sobrevalorização das obras de seu filho Amadeus Mozart, mas a Cassação em Sol para orquestra e a Sinfonia Brinquedo, atribuída no passado a Joseph Haydn, permanecem populares entre as suas sinfonias, assim como o seu Concerto para Trompete.

Leopold Mozart

Como nota de passagem, a letra K, seguida de um ou vários números, que aparece sempre nas obras de Amadeus Mozart, foi a forma que Ludwig von Kochel encontrou para organizar os seus trabalhos em 1862. O K (ou KV em alemão) é a inicial de Kochel, e os números indicam a ordem cronológica das composições. Ainda assim e transpondo o sentido da letra K para o seu significado esotérico, ela também aparece entre os cabalistas e maçons como a inicial hebraica de Kadosh e Kodesh, significando “consagrado” e “eleito”, no que é posta sob a influência sideral de Júpiter, por ser o planeta afim à mais elevada espiritualidade que, afinal, Mozart e seu pai expressaram através da música.

A Viena de Áustria do século XVIII fervilhava de ideais humanistas, nisto tendo a Maçonaria papel destacado. A Loja “A Beneficência” de Viena era uma dentre as 57 que haviam na ocasião (17 na Áustria, 7 na Boémia, 4 na Galícia, 12 na Hungria e 17 nos Países Baixos) filiadas à Grande Loja da Áustria, apoiadas pela poderosa Grande Loja da Alemanha. A Loja “A Beneficência” realizava as suas sessões no templo de uma Loja maior e mais influente, chamada “A Verdadeira Concórdia”. A Ordem floresceu principalmente pelo exemplo dado por Franz Stephen, duque de Lorraine e príncipe-consorte da imperatriz austríaca Maria Thereza. Ele tornara-se maçom em 1731, iniciado em Haia numa Loja ocasional, constituída por Theophilus Desaguiliers (que participara com John Anderson na elaboração da Constituição dos Maçons, por isso chamada Constituições de Anderson) que era Grão-Mestre da Grande Loja de Inglaterra, sediada em Londres.

Atribui-se a Franz Stephen a consolidação da primeira Loja maçónica de Viena, “Os Três Canhões” (Die Drei Kanonen), e também por ter convencido o falecido sogro e imperador, Carlos VI, a não aplicar nos seus territórios a bula papal In Eminenti, sancionada em 1738 por Clemente XII, que condenava os maçons. Desde os primórdios até 1739, a Maçonaria Austríaca desenvolveu-se de forma soberba, tornando-se o principal ponto de encontro da elite intelectual.

O Ritual adoptado para os trabalhos nas Lojas era sobretudo o Rito da Estrita Observância, ou Rito Escocês Retificado, criado em 1761 pelo barão Karl Gathen von Hundt, que compreendia três Graus Simbólicos: Aprendiz, Companheiro, Mestre, e quatro Graus Filosóficos: Mestre Escocês, Neófito, Templário e Cavaleiro Professo. A partir do início do ano de 1785, uma série de éditos desencadeou o ocaso da Maçonaria na Áustria. O Ministério da Polícia e o imperador Joseph II acreditaram nos boatos de que os maçons conjuravam a queda da Casa Real dos Habsburg e que haviam se tornado demasiado influentes, com Lojas cada vez mais ricas e poderosas. Foi então que se coibiu o crescimento acelerado das sociedades secretas e das correntes maçónicas ou paramaçónicas que proliferavam em todo o império austro-húngaro. Publicou-se um decreto de expurgo decretando que cada cidade só poderia ter, no máximo, três Lojas maçónicas.

Reorganizaram-se as nove Lojas de Viena e vários dos seus membros, por temor, afastaram-se. As exigências do imperador sobre listas de membros, cargos e outras informações, é que permitem hoje ter acesso a muitos documentos sobre a Maçonaria Austríaca, Amadeus Mozart, Leopold Mozart e a situação da Ordem no século XVIII.

CENÁRIO ORIGINAL DE “A FLAUTA MÁGICA”

Na Mozarthaus, em Viena, pode apreciar-se a maquete do cenário original da célebre ópera A Flauta Mágica (Die Zauberflöte) K 620, de Amadeus Mozart. Nele vê-se o frontispício de um templo em estilo grego, com as suas colunas, e adiante uma Deusa coroada cercada de estrelas vestida de azul erecta sobre a Lua crescente. Rapidamente pode ser associada ao figurino iconográfico de Nossa Senhora da Conceição, mas é um equívoco: trata-se da representação simbólica da “Rainha da Noite”, a Deusa Ísis, na qual se inspirou a iconografia cristã para criar a imagem tradicional da Virgem da Conceição, esta já de si, tal como Ísis, expressando a concepção ou o conceber do acto de transformação do espesso em subtil, do sólido em ígneo, do profano em iniciado pela conceição da ignorância em Sabedoria.

Essa é a Deusa da Sabedoria diante do Templo dos Sábios, cujo maior nesta ópera iniciática é Sarastro, representação esotérica de Cagliostro ou o itálico Cali Austrus, “Vento Sul” (nisto exposto como Sar Astro, palavra relacionada ao número 5 que os cabalistas afirmam ser afim ao planeta Vénus), o Adepto Maior a quem Mozart terá dedicado secretamente esta obra musical, indo assim retratar os antigos Mistérios Egípcios que, afinal, são reproduzidos na corografia ritualística da Maçonaria, pelo que na mesma ópera observa os seus conhecimentos e a via iniciática para o Conhecimento Superior magistralmente expostos.

Com efeito, a ópera em dois actos de A Flauta Mágica musicalmente é da autoria de Wolfgang Amadeus Mozart, mas o seu libreto alemão é de Emanuel Schikaneder, companheiro de Loja maçónica de Mozart. Estreou no Theater auf der Wieden, em Viena, no dia 30 de Setembro de 1791, ano da morte de Mozart.

A ópera baseia-se na filosofia do Iluminismo, e algumas das suas árias ficaram famosas, como o dueto de Papageno e Papagena, e as duas árias da Rainha da Noite. Os conceitos de Liberdade (livre-arbítrio), de Igualdade (de princípios) e de Fraternidade (universal) que assistiram à Revolução Francesa, transparecem em vários momentos da peça. Por exemplo, quando o valor de Tamino, protagonista da história, é questionado por ser um príncipe, e por tal motivo talvez não conseguisse suportar as duras provas exigidas para entrar no templo, mas vindo Sarastro em sua defesa respondendo: “Mais que um príncipe, é uma pessoa”.

Sarastro (1816)

No Acto I, A Flauta Mágica começa com uma terrível serpente perseguindo Tamino. Em termos ocultistas, trata-se da serpente do Astral ou Mundo Psíquico pondo à prova as emoções e paixões do candidato à Iniciação Espiritual. Cansado, Tamino desmaia. As Três Damas ou Virtudes (Sabedoria, Amor e Justiça) aparecem, dominam a serpente e vão avisar a Rainha da Noite (Ísis, a Verdade) da presença do jovem no seu reino. Ao recuperar os sentidos, Tamino vê Papageno cantar e tocar a sua flauta (expressiva do Som Criador pela Harmonia, Melodia e Ritmo). Papageno (o ser semi-fauno expressivo da Natureza elemental) mente a Tamino dizendo-lhe que o salvou da serpente. Mas imediatamente reaparecem as Três Damas para punir Papageno pela mentira. Elas entregam um retrato de Pamina (contraparte feminina de Pamino) a ele que logo se apaixona. A Rainha da Noite surge e pede para Tamino libertar a sua filha que está prisioneira de Sarastro. As Damas libertam Papageno e eles recebem um carrilhão (simbólico da alegria) e uma flauta com poderes mágicos (simbólica da felicidade). Tês Génios (Fortaleza, Ousadia e Coragem) irão guiá-los nos perigos da jornada (provas iniciáticas). No palácio de Sarastro (o Adepto Superior, o Hierofante), Pamina é vigiada por Monostatos (figuração do Minotauro que vivia no labirinto de Creta, criatura com corpo humano e cabeça de touro feroz). Papageno encontra Pamina e avisa-a que será libertada por Tamino, e saem felizes à sua procura. Os Três Génios guiam Tamino para o templo. No caminho toca a sua flauta, e magicamente os animais selvagens tornam-se mansos (estado edénico). Monostatos (representativo da Besta Astral que os ocultistas chamam Guardião do Umbral) e os seus escravos (os que fracassam na Iniciação e tornam-se vítimas escravas do mesmo Guardião) alcançam Pamina e Papageno, mas ao som do carrilhão eles põem-se a dançar e saem. Ao som de trombetas Sarastro chega imponente e divino, cercado de poderes invisíveis. Pamina (a Alma virgem) conta a Sarastro que fugiu por estar sendo importunada por Monostatos (as paixões ferozes, os vícios que dominam os profanos). Este entra trazendo Tamino preso (em provação). Sarastro expulsa Monostatos da Irmandade (dos Sábios ou Adeptos Perfeitos, os Superiores Incógnitos) e ordena que Pamina e Tamino realizem as provas regulares para entrarem na Irmandade Iniciática.

No Acto II, Sarastro comunica aos sacerdotes os seus planos de iniciar Tamino e pede aos deuses que iluminam o caminho dos jovens na sua demanda da Sabedoria. Pamina, sob a sua protecção deve tornar-se esposa de Tamino (união real da Alma com o Espírito, donde o conceito da Núpcia Filosófica dos antigos Rosacruzes). Pamina adormece (entorpecimento dos sentidos) enquanto Monostatos questiona a sua condição social e racial por não poder ter os mesmos direitos dos outros (alusão velada à condição feminina igualmente tida como apta a receber a Iniciação, independentemente da posição social e racial), mas é detido pela Rainha da Noite (a Sabedoria Divina, Ísis ou Sophia) que aparece. Ela entrega um punhal a Pamina e ordena-lhe que mate Sarastro (alegoria do “discípulo matar o Mestre”, como aconteceu no caso do Arquitecto fenício Hiram Abiff, mas que significa o discípulo tornar-se com o Mestre, fazer-se Adepto Perfeito por seus próprios esforços). Os sacerdotes de Sarastro conduzem Pamino e Papageno para iniciarem a prova do silêncio, onde não poderão conversar com nenhuma mulher (isto é, ceder às paixões). Pamina aparece e Tamino resiste à tentação, deixando-a desiludida. Papageno ao ver Papagena (o aspecto emocional do Mundo Psíquico), não resiste, fala com ela e fracassa na prova. Entretanto, desesperada Pamina resolve matar-se mas é salva pelos Três Génios que lhe explicam a situação (trata-se de “matar a morte”, conquistar a consciência de imortalidade tanto em corpo com em alma). Juntos, Pamina e Tamino realizam as últimas provas: a do fogo (princípio masculino, solar, criador) e a da água (princípio feminino, lunar, criação), sendo então admitidos na Irmandade (dos Filósofos, já de si Andróginos Perfeitos ou que fisicamente uniram a Alma com o Espírito). No final surgem a Rainha da Noite com as Três Damas e Monostatos, este numa última tentativa de apossar-se do poder de Sarastro, mas a Luz da Sabedoria transforma todo o Mal e acaba envolvendo a todos ao som da Flauta Mágica, dando por terminada a peça.

CRIPTA-CAPELA DE SÃO VIRGÍLIO

A cripta-capela de São Virgílio (cripta Virgilkapelle), próxima da catedral de Santo Estevão, é um dos interiores góticos melhor conservados em Viena, ainda que seja inusitado uma capela da Idade Média encontrar-se sobre uma estação de metropolitano, a Stephansplatz, por onde passam as linhas U1 e U3. Mas o facto é que esta cripta-capela esteve desaparecida durante séculos e só foi redescoberta em 1973 durante os trabalhos de construção de estação do metro, procedendo-se à remoção do entulho, ao seu restauro e finalmente a sua abertura ao público em Dezembro de 2015.

A história desta cripta-capela é ainda muito pouco conhecida. Sabe-se que datará de 1230-1246 e que foi concebida com subestrutura para a posterior construção de uma capela de estilo gótico primitivo. Estando doze metros abaixo da Praça de Santo Estevão (Stephansplatz), tem formato rectangular (aproximadamente seis metros de largura por dez de comprimento) e apresenta seis nichos, que cerca de 1246 foram decorados com pinturas de santos e cenas religiosas nas juntas e com cruzes greco-bizantinas nas absides, apresentando-se o tecto com nervuras simples. O espaço tem como centro o altar dedicado a São Virgílio, que veio a dar o nome ao espaço.

Apesar das crónicas do século XIII não mencionarem esta capela, dando origem à especulação de ter sido um projecto falhado, ainda assim atribui-se a sua construção à iniciativa de Friedrich der Streitbare (1211-1246), o último duque austríaco da Casa de Babenberg, que desejava que Viena fosse sede episcopal e para isso fez construir a cripta consagrando-a a St.º Coloman de Stockerau, destinado a patrono da nova diocese.

Este espaço subterrâneo aparece mencionado em crónicas do século XIV. É dito que no ano de 1307 a piedosa família vienense Chrannest, constituída por comerciantes cuja burguesia (donde burgomestre) detinha o poder da cidade ou burgo, adquiriu esta cripta transformando-a em capela funerária, dizendo-se ainda que o seu altar principal foi consagrado a St.º Vergilius de Salzburgo.

Capela da Madalena de Viena (1609)

Com a construção posterior da capela de St.ª Maria Madalena (Magdalenskapelle), talvez por volta de 1310-15, imediatamente acima da cripta, em 1473 Hans Viereck de Eisner mandou construir um mezanino semi-subterrâneo que se destinou a ossário, passando os serviços fúnebres e respectivas missas definitivamente para a pequena capela gótica da Madalena. Nessa época, o espaço da Stephansplatz era um vasto cemitério público murado ao lado da catedral. Daí a utilidade geral da capela de Santa Maria Madalena e da particular da cripta de São Virgílio, da família Chrannest, imediatamente abaixo daquela, hoje desaparecida mas cujo esboço em cor vermelha está desenhado no pavimento da Stephansplatz, ao lado da catedral de Santo Estevão, enquanto a cripta está esboçada em cor branca, dentro do esquisso da capela.

Com efeito, o cemitério em torno da Stephansplatz foi fechado em 1732, enquanto a capela de St.ª Maria Madalena foi destruída pela fogo em 1781 e não foi reconstruída, presumivelmente porque sem um cemitério não havia necessidade de uma capela funerária, cuja responsabilidade dos serviços e ofícios fúnebres passou a ser responsabilidade da catedral. Com o entulho da capela ardida encheu-se a cripta de São Virgílio e esta desapareceu na obscuridade e no esquecimento, até que com grande felicidade foi novamente redescoberta e mais recentemente aberta ao público como testemunha marcante e rara da cidade medieval, em pleno coração de Viena.

História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 22 2017 

APRESENTAÇÃO PÚBLICA E CONTEÚDO DO LIVRO

APRESENTAÇÃO PÚBLICA (ENTRADA LIVRE) DO LIVRO “HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL (FLOS SANCTORUM BRASILIAE)”, POR VITOR MANUEL ADRIÃO.

ESPAÇO MULTICULTURAL “ESPIRAL”, PRAÇA ILHA DO FAIAL 14 A, LISBOA. DIA 26 DE MAIO (6ª FEIRA) ÀS 19:30 H.

CONTAMOS CONSIGO. TRAGA UM(A) AMIGO(A). SAUDAÇÃO FRATERNA.

Livro com mais de meio milhar de páginas, profusamente ilustrado e documentado, composto em 22 capítulos (ficando em consonância com o Arcano XXII, “O Mundo”, que é o do Brasil).

PREFÁCIO – Por David Caparelli
INTRODUÇÃO – Por Vitor Manuel Adrião
CAPÍTULO I – BRASIL, O GIGANTE ADORMECIDO
CAPÍTULO II – BRASIL PRÉ-HISTÓRICO
CAPÍTULO III – BRASIL PROTO-HISTÓRICO
CAPÍTULO IV – BRASIL FENÍCIO
CAPÍTULO V – HY-BRAZIL: DELENDA PHOENICIA
CAPÍTULO VI – A “CÁRIA” BRASILEIRA
CAPÍTULO VII – BRASIL AMERÍNDIO
CAPÍTULO VIII – NAVEGAÇÕES PRÉ-CABRALINAS
CAPÍTULO IX – BRASIL IBERO-AMERÍNDIO
CAPÍTULO X – ILHAS PERDIDAS E CARTAS ACHADAS
CAPÍTULO XI – BRASIL NA ROTA DO CRUZEIRO
CAPÍTULO XII – BRASIL BANDEIRANTE
CAPÍTULO XIII – SÃO BENTO DE PIRATININGA
CAPÍTULO XIV – RIO DE JANEIRO, MOSAICOS DE HISTÓRIA INSÓLITA
CAPÍTULO XV – SÃO TOMÉ DAS LETRAS
CAPÍTULO XVI – MISTÉRIOS DA BANDEIRA DE SÃO LOURENÇO (MG)
CAPÍTULO XVII – SÃO LOURENÇO DE MINAS GERAIS (CAPITAL ESPIRITUAL DO BRASIL)
CAPÍTULO XVIII – ITAPARICA, BERÇO DO BRASIL
CAPÍTULO XIX – ODE AO RONCADOR (FUTURO DO GÉNIO BRASILEIRO)
CAPÍTULO XX – BRASÍLIA E O BRASIL FUTURO (ALVORADA DA NOVA ERA)
CAPÍTULO XXI – A MAÇONARIA E O BRASIL INDEPENDENTE
CAPÍTULO XXII – O BRASIL À LUZ DAS SUAS ARMAS

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Crenças sobrenaturais saloias – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 8 2017 

O espaço demográfico do Termo dos Saloios – mormente os Concelhos de Odivelas e Loures, como igualmente os de Sintra e Mafra – é prenhe de lendas e tradições que, quando interpretadas, não raro apresentam base no “pensamento mágico” de natureza quase inevitavelmente invocatória/petitória e sempre com fundo moral, mesmo havendo outras de natureza exclusivamente recreativo cujos enredos por norma envolvem-se num halo sobrenatural e que, igualmente, rematam em lição moral.

Dessas últimas lembro a Lenda do Senhor da Ribeira de Frielas, já descrita num livro meu editado pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Loures (Ode a Loures – Monografia Histórica, 1993), e ainda numa outra obra minha editada pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros” (Frielas – Memorial Histórico, 1996). Além dessa lenda, há ainda outras narrativas, a maioria orais, acerca de grutas mágicas e santões misteriosos, como aquela da pressuposta gruta do Conventinho da Mealhada (Loures) que ligava ao Mosteiro de Odivelas, ou então a da igreja matriz de Frielas comunicando subterraneamente com a ermida desfeita da Senhora do Monte da Ramada. Todos dizem que é verdade, sim senhor, porque “fulano ouviu de sicrano que já lá foi”, remetendo-se sempre para o passado e para outro, pouco importando que a improbabilidade prossiga.

Não sendo eu, por natureza e método de trabalho, só um teórico que se fica por respigos bibliográficos de outréns, senti necessidade de deslocar-me ao terreno onde se deram esses “factos fantásticos” que as lendas contam e afirmam terem realmente acontecido, indo tentar averiguar se acaso haveria “algum fogo no meio de tanto fumo”…

Respeitante à Lenda do Senhor da Ribeira, ainda hoje ela é atestada num pequeno silhar de azulejos coloridos e legendado (“Senhor da Ribeira”), junto ao Casal do Monte, no cimo da Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), entretanto tendo desaparecido a fonte de “água santa” que o mesmo silhar decorava. Ao lado, havia um aparelho de azenha medieval que cheguei a ver, mas agora está plantado sobre ele um prédio.

Outro vestígio é aquele das grutas da Idade do Cobre na Quinta das Gaitadas, cujas casas apresentam resquícios manuelinos. A quinta está no sopé da Serra de Montemor (Loures), dizendo-se que as grutas prolongam-se por toda a serra e sob a Cidade Nova – Santo António dos Cavaleiros. Isso não pude comprovar, apesar de ter adentrado uma dessas cavidades e avançado, cerca de um quilómetro e meio, com água pela cintura até esbarrar numa obstrução natural. De maneira que não posso afirmar a verdade ou a mentira da lenda… Mas posso afirmar que o Casal do Monte é a maior jazida paleolítica do Vale do Tejo (até agora poupada à inclemência da construção civil graças ao bom senso da edilidade, cujo presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Cavaleiros, na ocasião, aconselhou-se pessoalmente comigo nesse sentido, o da preservação desse espaço patrimonial), habitada por povos colectores, e inclusive havia aí até há pouco restos circulares do que pareciam templos dedicados a algum tipo de culto astrolátrico pré-histórico, como seja à Lua (nas grutas das Gaitadas) e ao Sol, deste os seus restos ficaram sob o centro comercial que se construiu no cimo da Cidade Nova, junto às Torres da Bela Vista e vizinho da estrada de Montemor.

Espólio arqueológico recolhido pelo autor em prospeções no Concelho de Loures

Para terminar, repasso um outro exemplo na chamada lenda “atlante” de Bucelas, a qual acabou levando-me à anta neo-calcolítica do Zambujal, onde realmente pude confirmar que “não há fumo sem fogo”… Essa estória bucelense, pouquíssimo conhecida, consta da Lenda dos Ferreiros e assim se passou em tempos esquecidos na memória dos homens (in Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por João Raymundo Alves. Lisboa, Instituto Geral das Artes Graphicas, Rua das Pretas, 17, 1911):

“Nas proximidades de Bucelas há dois montes bastante elevados e de forma mais ou menos cónica. É crença popular que dois ferreiros, dizem que irmãos, foram estabelecer as suas forjas cada um em seu monte, mas que possuindo ambos um só malho, dele se serviam alternadamente.

“Os montes, na sua parte superior, distam uns dois quilómetros um do outro, e quando o Melo (assim se chamava um dos ferreiros) precisava do malho, chegava à porta da forja e gritava pelo Jerumelo (assim se chamava o outro), para este lho atirar. Isso repetia-se todas as vezes que trabalhavam.

“Os dois ferreiros eram gigantes, porque só assim podiam ter força para arremessar o malho a tão grande distância.

“Uma vez zangou-se o Jerumelo com o companheiro, e atirou-lhe o malho com tanta violência que, desencravando-se este no ar, foi cair o ferro na encosta do monte Melo, e logo daí brotou uma fonte de água férrea, e o cabo, que era de madeira de zambujo, foi espetar-se na terra a mais de dois quilómetros de distância, reproduzindo-se um zambujo, que deu o nome a uma povoação que fica a quatro quilómetros dos referidos montes, e a que por isso se chama Zambujal.”

Gruta da Diaclase de Salemas, Loures

Deixando de lado a interpretação da lenda que remete para o deus ctónico Vulcano, passo de imediato às lendas de foro mágico, as quais têm origens diversas quase sempre inextrincavelmente misturadas: celtas, judaicas e árabes. O elemento celta está presente no culto dos elementos da Natureza; o judaico na magia talismânica aplicada à actividade agrícola das semeaduras, crescimento e colheitas, sempre dependentes dos humores climatéricos os quais a magia campesina pretende domá-los segundo a vontade do agricultor; e o árabe vê-se-o na espargiria ervanária, revelando-se base da medicina popular, campesina, através de unguentos, defumações, rezas, benzeduras, etc.

Esses elementos celtas, judaicos e árabes, de qualquer forma por norma entram juntos no imobiliário das lendas saloias, susceptível de explicar a vida e a morte num contexto marginal ao critério científico e ao crédito religioso, neste a religião por todos aceite mas “à maneira de cada um”, assim o plural presente sujeito ao singular assente.

O mouriscado çahroi (saloio) moçarábico

Imobiliário esse até há pouco tempo atrás sustentado pelos velhos da terra e pelas “pessoas com virtudes”, com dotes sobrenaturais capazes de falar com os “espíritos”, fazer quebrantos e enguiços, enfim, as bruxas d’aldeia. Elas eram o pilar-mor da religião popular, mais animista que espiritual, reunindo em um mesmo efeito causas divinas e causas diabólicas, sem mais preocupações senão que resultassem favoráveis aos seus intentos.

Em Loures, como em todo o território saloio, o que o padre-cura não resolvia consertava a bruxa ou a curandêra. Maria Rosa Lila Dias Costa (in Murteira – Uma Povoação do Concelho de Loures. Junta Distrital de Lisboa, 1961, com reedição em Dezembro de 1993) conta que na Murtêra não era estranho nem misterioso as pessoas, mais mulheres do que homens, consultarem pessoalmente a feitecêra.

Contudo, os saloios faziam distinção entre bruxa, a mulher que faz males ou bruxedos, e curandeira, que por meio de benzeduras vê e cura o mal que as bruxas fizeram.

As bruxas, geralmente médiuns ou sensitivas psíquicas, na magia campestre por norma representam o lado psíquico e lunar da Natureza, enquanto as curandeiras, não raro também “endireitas” dos ossos quebrantados e conhecedoras das plantas medicinais com que exerciam a sua medicina, agindo assim como as antigas druidisas, assinalam o lado espiritual e solar da Natureza. Talvez por isso o exercício de “endireitar ossos” fosse exercido maioritariamente por homens, pólo sexual positivo, activo ou solar, enquanto a actividade psíquica cabia sobretudo a mulheres, pólo sexual negativo, passivo ou lunar.

Essa distinção entre mulheres “de bem” e “de mal”, lembra o episódio homérico da perda do sentido de sacralidade pelas vestais, sibilas e pitonisas, acompanhando o declínio dessa civilização, a ponto de elas se transformarem em simples adivinhas animistas e sendo degredadas para fora das urbes por causa da sua influência nociva, o que ainda hoje se regista nas bruxas que vivem isoladas e marginalizadas da restante sociedade, principalmente nos lugares rurais onde a magia campesina disputa as almas ao par da religião de facto.

Sobre este tema tão interessante como aliciante, não deixo de aconselhar o interessante estudo de Amália Caetano, Medicina Popular na Região de Mafra, inserto no Boletim Cultural´94 publicado pela Câmara Municipal de Mafra.

Quanto aos exemplos que Maria Lila Costa dá da feitiçaria popular na Murteira, a verdade é que os mesmos aconteciam um pouco por todo o interior rural do Concelho de Loures, onde deparei com crenças idênticas em Bucelas, Lousa, Pinheiro, etc., para não falar em Odivelas, Sintra e Mafra.

Acreditava-se na existência de lobisomens, labisongos, meio-homens e meio-lobos que ficaram assim por serem munto pucadores, dando-lhes Deus como castigo transformarem-se em bestas demoníacas todas as meias-noites de Lua Cheia. Os fantasmas, pantasmas ou búltemos, eram outra crença. Com eles só os médiuns ou “intermediários” podiam comunicar directamente. Como não podia deixar de ser, numa sociedade rural fechada, tais médiuns, geralmente mulheres, eram muito concorridos pelo povo local e dos subúrbios, assediando-os com os mais diversos tipos de pedidos que, se fossem satisfeitos, lograriam para tal médium a fama de “pessoa de virtude” e “uma santa”, “não importando que a Igreja não aceite, porque o padre não sabe senão as rezas escritas no Livro que não me curaram dos males que a bruxa da vizinha me fez, mandando-me búltemos”…

De passagem mas com importância maior do que se possa presumir, anoto que o exercício da mediunidade e a prática de todo e qualquer culto animista encontra pela frente a desaprovação total da Tradição Espiritual assumida por toda e qualquer corrente religiosa tradicional (seja católica, islâmica, judaica, hindu, etc.), mas o desenvolvimento do por que não vem ao caso e, por conseguinte, prosseguirei o presente.

Rosa Lila refere ainda, para além das benzeduras e rezas utilizadas pelos endireitas dos ossos afectados e das más colheitas, havendo nisto, mais uma vez, certo sabor de nostalgia druídica, algumas regras de astrologia agrícola e mesmo cabalística. Por exemplo: os sentomas davam-se de 3 a 14 de Dezembro, quando os velhos, reparando no estado de tempo, prediziam que as condições meteorológicas de cada um dos doze dias corresponderia ao estado de tempo de cada mês do ano seguinte. Também se acreditava na influência magnética das fases da Lua, agindo nos diversos aspectos da vida quotidiana; assim, toda a novidade hortícola deveria ser semeada sempre em quarto minguante, e as galinhas recolhidas sempre em quarto crescente. Os números nonos, isto é, nunes ou ímpares, preferiam-se aos números pares: na quinta-feira da Ascensão guardavam-se, para dar sorte e ter pão todo o ano, 3, 5 ou 7 espigas de trigo; para o fabrico de chouriços, esperava-se que a carne estivesse de conserva 5, 7 ou 9 dias, para que ficasse bem curtivada e não se estragasse durante o ano.

Quando alguém tinha a espinhola caída, para se curar deveria estar deitado 3, 5, 7 ou 9 dias, conforme a gravidade da doença.

Em todas as benzeduras e rezas empregavam-se, como ingredientes de defumação, 3 ou 5 pedaços de certas plantas, sendo 3 as vezes que se repetia uma reza, em 3 (ou múltiplo de 3) dias sucessivos.

Outros costumes, fazendo parte das crenças sobrenaturais do saloio, sem dúvida supersticiosas desviadas e alteradas irremediavelmente de alguma tradição mais séria e menos absurda, mais espiritual e menos psíquica, e tomando por partida o lugar da Murteira, eram os seguintes: a partir do meio-dia não se devia deitar lixo nem água-vai para a rua. Também não se devia levantar a mesa logo que terminassem as refeições, porque os “inginhos tem fome e quer comer”.

Para que o leite não secasse nas vacas, nunca se devia queimar nas proximidades dos estábulos ou dos “palheiros”, onde elas viviam, madeira de figueira.

Sobre o simbolismo da figueira, aproveito para retificar aqui o que li algures acerca do mesmo: ao contrário do que li referente ao fruto da figueira simbolizar o Pai Eterno por Este se manifestar súbita e misteriosamente, tal qual a figueira que não dá flor e aparece o fruto sem que se espere, a verdade é que aparecem os bolbos a partir dos meados de Abril para que em Junho-Julho se colham os figos, que nos finais de Agosto já estão secos. Foi assim que os vi nas muitas figueiras que varejei em minha infância, no Algarve junto dos pais da minha mãe adoptiva. Portanto, essa interpretação do símbolo está incorrecta, não se devendo esquecer que a figueira ou kurma, em árabe, ajustando-se ao tema hindustânico karma, “acção”, e na cultura judaico-cristã ocidental estará sempre associada ao episódio bíblico de Jesus a ter amaldiçoado (Mateus, 21:19; Marcos, 2:12 s.). Segundo é tradição geral, o simbolismo da figueira tem dupla interpretação: como árvore viçosa, repleta de frutos, simboliza a Ciência Sagrada cujos frutos são os preferidos dos seus postulantes; como árvore seca, morta, expressa a heresia e o mal representados pelos seus ramos dissecados, num dos quais Judas herege terá se enforcado. De maneira que associar o símbolo do figo ao Pai e esquecer que Jesus amaldiçoou essa árvore, vale o mesmo que o absurdo do Salvador ter abjurado ao Progenitor da Criação…

Voltando aos saloios, no tratamento de certas doenças, como a erisipela, empregava-se para pincelar a parte do corpo afectada uma pena de galinha preta.

Quando o lume estava a fagulhar, era bom deitar-lhe algumas pedras de sal e de seguida voltar-lhe as costas.

Não era bom tocar caxa velha, pois acontecia alguma desgraça.

Era de mau agoiro ouvir piar os mochos, pois era sinal de morte no lugar.

Não era bom partir vidros.

Para que as bruxas não entrassem em casa, era conveniente colocar atrás da porta um banco de pernas para o ar, ou então uma vassoura (resquício alterado na memória popular das baguetas das primitivas druidisas) também de pernas para o ar.

Todo esse ritualismo crencista, supersticioso e pagão ou paissan, “camponês”, ainda assim não deixa de ter a sua razão de ser, o que me leva a deduzir, mais uma vez, tratarem-se de resquícios degenerados muitíssimo e irredutivelmente afastados de uma original, verdadeira e completa Tradição Iniciática, talvez moçarábica, mista de Cristianismo oriental com Arianismo ocidental, tudo com halo arábico, a qual seria ministrada no esconso reservado das caneças não raro anexas às mourarias, detentoras do supervisionamento. Com a posterior expulsão dos mouros para fora dos muros das cidades onde tinham os seus colégios, a cultura moçarábica seguiu-os e aos poucos foram extinguindo-se como etnias distintas, com eles a cultura e religião próprias, só ficando, como testemunho fragmentado ainda assim mantendo-se por herança genética alimentada por via oral de velhos a novos, as crenças sobrenaturais do Termo, resquício psíquico de um período áureo irrevogavelmente morto. Ao Homem cabe nascer, crescer, decrescer, morrer… assim também com as civilizações, logo, igualmente aos seus usos e costumes, sejam sagrados, sejam profanos, sejam ambas as coisas inter-relacionadas.

Para terminar esta ligeira abordagem às crenças sobrenaturais do saloio estremenho, desfecho com um breve glossário de termos saloios, extraído, com a devida vénia, do livro de Maria Rosa Lila Dias Costa (ob. cit.), dividido em duas partes: a primeira, sobre astros e fenómenos atmosféricos; a segunda, sobre superstições e crenças.

ASTROS E FENÓMENOS ATMOSFÉRICOS

Acoitar – Abrigar do tempo.

Alando d´auga – Grande quantidade de chuva.

Amolinhar – Chuviscar ou chover com pouca intensidade.

Andar numa ruvadoura – Diz-se dos dias ventosos e frios.

Arco-Novo – Arco-íris; meteoro luminoso, em forma de arco, que apresenta as sete cores do espectro solar.

Arco-da-Velha – O mesmo que arco-íris.

Armar uma trevoada – Tornar-se o céu escuro para trovejar.

Auga à granela – O mesmo que alando d´auga.

Aventar – Fazer muito vento.

Barbas-de-gato – Diz-se do aspecto do céu quando o Sol aparece por detrás de nuvens leves.

Biquêras – Pingos de água que caem dos telhados.

Biquêra-morta – Pingos de água barrenta caindo das telhas.

Borriçar – O mesmo que amolinhar.

Borriços – Chuva leve e pouca intensa.

Cair um banquete – Chover abundantemente.

Carmêlo branco – Gelo que se forma à superfície da água deixada ao relento durante o Inverno.

Carmêlo negro – Gelo de cor terrosa, que se forma sobre as novedades e as encarquilha e queima.

Casacada d´auga – Grande bátega de chuva grossa.

Chover borriços – O mesmo que amolinhar.

Chover molinha – Chover com pouca abundância.

Choverão – O mesmo que casacada d´auga.

Corisco – Designação vulgar de algumas pedras polidas da Idade Neolítica; o mesmo que pedra-de-raio.

Derremunho – Encontro de ventos opostos em rajada, movendo-se circularmente.

Dia de amores – Dia de sol.

Dia cerrado – Dia enevoado.

Dia de cravos – O mesmo que dia de amores.

Dia desnorteado – Dia de chuva e vento.

Escurecer a noite – Anoitecer.

Estar de boiça – O mesmo que amolinhar.

Estar brabo – Dia de chuva e vento.

Estar d´estoirões – Chover abundantemente e trovejar.

Estar de nèvoêro – Diz-se do dia cerrado, com nevoeiro.

Estar à panga – Estar à chuva sem se recolher.

Estrada-de-Santiaugo – Estrada de Santiago, nebulosa ou mancha esbranquiçada que se vê no céu, em noites claras; Via Láctea.

Estrela-boiante – Estrela de alva, ao nascer da qual os vaqueiros se levantam para ir tratar do gado.

Estrela-da-madrugada – O mesmo que estrela boiante.

Estrela-da-manhã – Vénus, o mesmo que estrela boiante.

Fazer sol – Diz-se quando já despontou o sol.

Forrar o escuro – Amanhecer.

Geada – Orvalho congelado que forma camada branca sobre os telhados, solos, plantas, etc.

Inchente – Cheia dos cursos de água.

Invernêra – O mesmo que dia brabo.

Luzir o buraco – Nascer o dia.

Mingante – Fase da Lua; quarto minguante.

Mudar o tempo – Deixar de chover. Ou deixar de fazer sol.

Néuva – Nevoeiro.

Nuve encarnada – Nuvem avermelhada indicadora de bom tempo.

Orruvalho – Camada de humidade que, sob a forma de pequenas gotas, se deposita, durante a noite, sobre os corpos expostos ao ar livre.

Panção d´auga – O mesmo que alando d´auga.

Porrada d´auga – O mesmo que alando d´auga.

Relampo – Relâmpago.

Restelazinha de sol – Pequeno raio ou rástea de sol.

Revalho – O mesmo que o orruvalho.

Sete-estrelos – Constelação, o mesmo que Plêiades.

Tempo arriba – Tempo mau com tendência para melhorar.

Tempo péssemo – o mesmo que dia desnorteado.

Tempo vil – Mau tempo.

Ventanêra – Vento forte e contínuo, ventania.

Vintinho – Vento fraco e agradável.

Xaroco – Vento frio que sopra da ponta do mar.

SUPERSTIÇÕES E CRENÇAS

Aime – Qualidade que uma pessoa tem de interrogar os espíritos.

Aperseguir – Acção de atormentar, por parte dos maus espíritos.

Bruxa – Mulher que faz pactos com o demónio e realiza sortilégios malfazejos.

Búltemo – Suposta aparição de silhueta imprecisa, fantasmagórica, que se atribui a artes mágicas, aparecendo de noite.

Cubrante – Resultado mórbido produzido pelo mau-olhado.

Curadêra – Curandeira, mulher a que o povo atribui supostos poderes para curar certas doenças.

Espirtos – Entes imaginados e malignos que vêm habitar o coração das pessoas.

Estoiro – Estampido forte provocado pelos lobisomens.

Fadoiro – Encanto que uma pessoa possui dado por um poder sobrenatural.

Feitecêra – Feiticeira, mulher possuidora de artes maléficas.

Figa – Acto de fechar a mão, metendo o dedo polegar entre o indicador e o médio; emprega-se para afugentar os maus espíritos.

Hora mortal – Hora tardia da noite em que aparecem os vultos fantasmagóricos e os lobisomens.

Incruzilhada – Cruzamento de caminhos, onde as bruxas e os lobisomens costumam passar.

Labisome – Homem que se transforma em animal para cumprir um fadoiro.

Labisongo – O mesmo que labisome.

Males – Bruxedos.

Mestero – Mistério, acontecimento estranho e inexplicável.

Mardomo – O mesmo que labisome.

Nonos – Diz-se de dias ímpares, julgados benfazejos e propícios à realização de certos trabalhos, tanto agrícolas, como medicinais e mesmo mágicos.

Pantasma – Fantasma, imagem ilusória de aspecto macabro; abantesma.

Penar – Cumprir um fadoiro.

Remorsos – Pressentimento.

Sumo – Desaparecimento atribuído a causas fantásticas.

Terpel – Tropel, barulho intenso e medonho que se supõe provocado por entes sobrenaturais.

Falar Saloio – As Gentes do Termo (de Lisboa) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 8 2017 

O falar típico do çaloio, o “homem do campo”, que com o tempo tem vindo a degenerar e desaparecer por perda do sentido territorial face ao avanço do estado urbano absorvendo a condição campesina, e com isso o falecimento dos seus usos e costumes sui generis como imobiliário imaterial das tradições etnográficas do Termo, ainda assim sobrevivem aqui e ali, muito dispersas, essas modalidades de expressão sobretudo entre os mais idosos da Murteira, mas também nos de Caneças, de Bucelas e de Loures.

Apesar de parecer estranha ao ouvido contudo é linguagem não-algaraviada, antes alterada pela vocabularização do português arcaico possuído tanto de verbos gregos e latinos como, sobretudo, árabes. Originalmente este linguarejar seria puro arábico, tendo após a Reconquista posto com o latinismo borgonhês, portanto, franco, indo tornar-se arcaico face às novas falas na urbe tomada pelo estrangeiro.

Todavia e enfrentando os posteriores séculos de civilização, o saloio manteve-se fiel às raízes arábicas e a sua linguagem hoje rústica é bem um monumento mudéjar, cujo apogeu teria sido a primeira metade do século XVI, aquando o “homem do campo” entrou na literatura e nas falas da cidade através do teatro vicentino.

A língua saloia terá passado do árabe ao mudéjar, incorporando elementos menos gregos e mais latinos, indo chegar ao arcaicismo. No seu vocabulário ainda se encontram termos arábigos, como azebro, ou mudéjares, como almácega, almácica ou almaça.

A vastíssima literatura de cordel do século XIX deu ao falar saloio um efeito cómico, pela estropiação de palavras e incorrecções sintáticas a par de alterações fonéticas. Vale por ter trazido a terreno termos já há muito caídos em desuso, com intenção de reproduzir o falar meridional ou estremenho do saloio.

Por essa literatura também se vislumbra a sabedoria do camponês saloio, orbitando entre o jocoso e o grave, a par do seu espírito de independente dos costumes do homem urbano, apesar de comparticipar da vida (comercial) da cidade, e isso como se fosse resquício subconsciente da marginalidade original a que foi remetido o árabe após a Reconquista, atirando-o para os campos além das muralhas da urbe. Na comédia O Saloio cidadão, de Carlos Francisco Moura (1790), impresso várias vezes em Lisboa, alinham-se, entre muitos, os seguintes desaparecidos ou hoje transformados ditos: “galinha de monturo não quer covo; por linha lhe vem a tinha; filho de burro não pode ser cavalo; ao médico, ao confessor e ao letrado deve-se falar toda a verdade”.

Ou então a bem gostosa anedota: um taful da cidade, ao encontrar uma saloia alcandorada no seu jumento, com um longo cortejo deles atrás carregados de trouxas de roupas, atirou-lhe o seguinte remoque, ao que ela ripostou com a maior compostura e desembaraço:

– Adeus, mãe de burros!

– Adeus, meu filho!

Com essa parece-se uma outra: caminhava um saloio com o seu jumento. Encontrou-o um janota que lhe perguntou por caçoada: – Onde ides vós ambos? Respondeu o rústico: – Buscar palha para nós três.

Hoje tudo está em mudança acelerada. A saída das raparigas para a cidade, como empregadas domésticas, e dos rapazes primeiro para a tropa, depois para pequenos empregos no comércio e na indústria, fotram imbuindo os saloios de novos costumes e de novas formas de vida, de tal maneira que hoje passam totalmente despercebidos.

Memória do passado ainda se mantém o vastíssimo património artístico-cultural, etnológico e etnográfico, do Termo dos Saloios (Loures, Cascais, Sintra, Mafra indo quase até Óbidos), reclamando a preservação a todo o custo.

Do falar arcaico, rústico, rural do Termo, em defecho, recolhi alguns termos orais e escritos (recorrendo parcialmente ao interessante estudo de Maria Isabel Ribeiro, O Saloio de A a Z, em Boletim Cultural´93 da Câmara Municipal de Mafra. Ele baseia-se nos estudos anteriores de João de Almeida Lucas, O Falar Saloio, em A Língua Portuguesa: revista de Filologia: publicação mensal para o estudo, divulgação e defesa da Língua Portuguesa, vol 2, págs. 65-72, 1930-31; e de João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e carácter: fisiologia, psicologia, etnografia, Porto, 1948), com os quais compus um pequeno glossário como homenagem ao mais singular ramo étnico que já conheci: o Saloio.

Abafar = Tornar mais confortável a casa, e por extensão, resguardar e aquecer o fermento para que levede. Ou ainda, nivelar o terreno com a grade.

Aboticado = Hipotecado.

Abrincadura = Brincadeira.

Acanho = Acanhamento.

Àcenha e cênha = Azenha.

Acólitos = Incógnitos.

Acolhia-se = Tirava-se.

Acostumar = Costumar.

Ajeitivado = Ajeitado, acomodado, posto a jeito.

Alembranças = Lembranças.

Alembrar = Lembrar.

Alemões = Alemães.

Alimais = Animais.

Álinterna = Lanterna.

Almaça = Tanque.

Almácega = Pequeno tanque ou lavadouro particular.

Amanhem = Amanhã.

Amerdois = Ambos os dois.

Almuinha = Horta.

Andar na maltosinha = Andar com a malta, ou na brincadeira, referindo-se a garotos.

Antoino = António.

Apartar = Dividir.

Aplique de proplexe = Ameaça de apoplexia.

Apolinhado = Pálido.

Assistir = Morar.

Atamoiçado = Adoentado.

Azebro = Tabuado que serve de divisória numa casa. Do árabe azzarbe, “a sebe”.

Bailharito = Bailharico.

Balaizo = Balázio, no sentido de pedregulho.

Balizar = Pensar.

Balhar = Bailar.

Baltizado = Batizado.

Baltizar = Batizar. Empregam-se também os derivados baltismo e baltizado.

Bonecrêro = Saltimbancos que corriam de aldeia em aldeia apresentando os bonecros.

Bi caúdo = Expressão intimidando ao silêncio, “boca fechada”.

Breçozinho = Berçozinho.

Brincar = Dançar.

Botou = Deitou.

Buscari = Buscar.

Cabedulho = Trato de terreno entre a estrada ou caminho público e a terra cultivada.

Cabidela = Cabimento.

Cabrêro = Cabreiro.

Cacetim = Moca.

Cadino e cadinar = O termo cadino aparece formando expressão com guloso, dizendo-se guloso cadino, talvez no sentido de inveterado. Daí o sentido que o verbo cadinhar tomou, exprimindo o facto de se andar às frutas nas herdades, roubando por guloseima.

Cachaporrada = Pancada com pau.

Calçães = Calções.

Caganeiroso = Presumido, afectado.

Calibre = Clima.

Cal-te = Cala-te.

Caminhito = Caminho.

Campicho = Indivíduo canejo ou que possui deformação nas pernas.

Campou = ganhou.

Canêra = Caneira.

Capitões = Capitães.

Carronca (levar) = Levar pancada.

Catacismos = Sinapismos.

Catramalhos = Sinapismos.

Cedade = Cidade.

Charficar = Mortificar.

Chafurdas = Etimólogo popular do francês chauffeur.

Chaparrão = Mal-educado, grosseiro. Exemplo: Aquèl home é mêmo chaparrão.

Cinzêro = Barriga, buxo, papo. Exemplo: Onde tà a ânha marenda? Já cá tá no cinzêro.

Claustro = Cáustico.

Confurtativo = Facultativo.

Conspirar = Transpirar.

Córteirão = Quarteirão.

Delgado = Delegado.

Desenxugar = Enxugar.

Déspio = Déspota.

Eclesiástico = Entusiasmo.

Eiva = Doença da fruta.

Emplamação = Inflamação.

Engulhos = Vómitos.

Enha = Minha. Pode também pronunciar-se ánha.

Enodada = Suja.

Ensabocar = Estrangular, estrafogar.

Entulhar = Enjoar.

Esganerelo = Casamento por força.

Estar em pensamentos = Estar moribundo.

Estar vestido = Estar bem arranjado; em gíria, estar lichado (estar linchado).

Estarraçar-se = Cair de chapa, estampar-se.

Estragação = Diz-se de qualquer coisa estragada. Exemplo: Uma estragação de sopas.

Estragador do Concelho = Administrador do Concelho.

Espinhola = Espinhela. Exemplo: Ter a espinhola caída.

Faliseu = Xergão.

Fanado = Doente.

Faniquito = Desmaio.

Fartão = Termo que exprime uma grande porção de qualquer coisa. Exemplo: Um fartão de gente.

Flautenta = Flatulenta.

Foro = Foram.

Franfantão = Indivíduo que mete vista, por ter um perfeito tipo de beleza ou por vestir bem.

Friâmulos = Porcos.

Galera = Carro puxado por muares ou bois, destinado a transportar produtos hortícolas ou as trouxas de roupas.

Gomitoiro = Vomitório.

Graçôna = Galinhas de pescoço pelado. Deve derivar do termo francês garçonne.

Graviel = Gabriel.

Humanidade = Unanimidade.

Hume = Homem.

Intrépio = Adversário.

Joelheira = Espécie de caixote sobre o qual a lavadeira se ajoelhava à beira-rio.

Juiz espanadeiro = Juiz pedâneo.

Juro = Júri.

Lavandêra = Lavadeira.

Lídico = Líquido.

Liquori = Licor.

Lisbom = Lisboa.

Loires = Loures.

Mafrão = Mafrense.

Ma-lo = Mais.

Manchita = Mão-cheia.

Mané = Manuel. Exemplo: Mané Bimbas, Mané Manso.

Marjabantes = Bonecos.

Maroiço d´imparar = Bloco construído de pedra e areia, junto das paredes das casas mais antigas.

Matchecar = Comer, patuscar; escarnecer, amesquinhar.

Matrona = Seio.

= Meu.

Mecê = Você.

Memoira = Memória.

Mentéus = Toalha de mesa.

Merca = Compra.

Milordens = Milordes.

Murta e murtar = Multa e multar.

Murtêra = Murteira.

= Não.

Noa = Nódoa.

Ofa = Cansaço.

Ofender = Magoar, tocar, ferir.

Olivél = Libelo.

Orate = Louco.

Orfo = Órfão.

Órina = Urina.

Passeira = Útero.

Pedra-lavadiça = Pedra negra e grande dos rios, boleada pela acção mecânica das águas.

Pescuradores = Procuradores.

Piano de cavalariça = Harmónica, realejo.

Pilémica = Polémica.

Piloto = Galo.

Piscalhar = Piscar, mas em sentido irónico. Exemplo: Piscalhar o olho.

Planta forma = Plataforma.

Palateia = Plateia.

Plefice = Superfície.

Polucia = Polícia.

Ponto de palaio ou ponto de orela = Ponto que remata as bainhas das saias de baixo.

Pós lombrigatigos = Pós para lombrigas.

Pra = Para.

Prove = Pobre.

Pulga = Purga.

Ràpaterrão = Exprime uma limpeza geral, de cima a baixo, por exemplo, quando se está a lavar uma casa muito suja, diz-se que vai de ràpaterrão.

Ratinho = O bombo da festa.

Reizes = Reis.

Riba = Ripa.

Rio = Pode também ser o lavadouro público.

Rustigo = Forte.

Saibo = Sábio.

Sansodorninho = São Saturnino, significando também beato falso.

Se = Senhor. Exemplo: Se Tònho.

Senhora = Nome dado à freguesa.

Sintrão = Sintrense.

Sismatura = Cisma, cismar.

Solitos = Solicitações.

Suscetivle = Susceptível.

Suspiração = Respiração.

Tenica = Ténue.

Testães = Tostões.

Tiorgo = Órgão.

Tocador = Músico.

Toicinho mastrunçado = Toucinho esmigalhado com pão.

Tolã = Logro, burla.

Toque = Stock, no sentido de loja. Exemplo: na avenida há um grande toque com muita fazenda.

Tosse confúcia = Tosse convulsa.

Treatro = Teatro.

Tresler = delirar com febre.

Trouxa = Embrulho.

Tu = Tua. Exemplo: Tu mãe, tu horta, etc.

Vei = Vê.

Verdigairo = Verde-gaio.

Vesionário = Revolucionário.

Vitro = Vitorioso, Vitor.

NOMES

Também as corruptelas não deixam de ser expressão da verdade. Elas variam de lugar para lugar. Assim: José deu Jzé e Zé; Manuel, Manel e M´nel; Joaquim, Jaquim, Jequim e Quim; Francisco, Fracisco, Farcisco, Frecisco e Fercisco; Inácio, Nácio; Jerónimo, Jerolmo e Jarolimo; Isabel, Zabel; Gertrudes, Estrudes. Assim por diante.

Gnosiologia Filosófica e Gnose Teosófica – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 1 2017 

A Gnosiologia (também chamada Gnosilogia) é o ramo da Filosofia preocupado com a validade do conhecimento em função do sujeito cognoscente, ou seja, daquele que conhece o objecto. Este, o objecto, por sua vez é questionado pela Ontologia que é o ramo da Filosofia que se preocupa com o ser. Fazem-se necessárias algumas observações para evitar confusões. A Gnosiologia não pode ser confundida com Epistemologia, termo empregado para referir-se ao estudo do conhecimento relativo ao campo de pesquisa, em cada ramo das ciências. A Metafísica também não pode ser confundida com Ontologia, por ambas se preocuparem com o ser, porém, com a Metafísica pondo em questão a própria essência e existência do ser limitado e mortal. Em outras palavras, a grosso modo a Ontologia insere-se na teoria geral do conhecimento, ou Ontognosiologia, preocupando-se com a validade do pensamento e das condições do objecto e da sua relação com o sujeito cognoscente, enquanto que a Metafísica procura a verdadeira essência e condições de existência do ser.

A Teoria do Conhecimento tem por objectivo buscar a origem, o valor e os limites do conhecimento, da faculdade de conhecer. Os principais problemas da Teoria do Conhecimento, são:

– A possibilidade do conhecimento (possível);

– A origem do conhecimento (fundamento);

– A essência do conhecimento (princípio);

– As formas do conhecimento (expressões);

– O valor do conhecimento (veracidade).

Havendo conhecimento humano existe verdade em si mesma, até na mentira ou na falsificação do conhecimento observado, pelo que a verdade e a mentira são expressões da inteligência racional e da inteligência afectiva em adequação proporcional à coisa observada e/ou analisada (segundo a concepção Aristotélica-Tomista). Com a existência da verdade, há consequentemente a existência da certeza, que é transferir a inteligência, seja racional ou afectiva, à verdade conhecida. A inteligência humana tende a fixar-se na verdade conhecida, seja ela qual for e que esteja em simpatia com a sua apercepção sensorial do meio ambiente circundante, pelo que todas as verdades racionais e afectivas são relativas, pois são apercebidas e apreendidas segundo as capacidades cognoscentes de cada ser singular. Metodologicamente, há primeiramente o conhecimento, depois a verdade e finalmente a certeza.

Tal tomada de posição perante o primeiro problema da crítica ante a verdade expressa, é chamado de dogmatismo, sempre defendido por filósofos realistas como, por exemplo, Aristóteles e Tomás de Aquino. Se, ao contrário, sustentar-se que a inteligência permanece, em tudo e sempre, sem nada afirmar e sem nada negar, isto é, sem admitir nenhuma verdade e nenhuma certeza, sendo a dúvida universal e permanente o resultado normal da inteligência humana, está se defendendo o cepticismo.

O problema crítico representa um passo além do dogmatismo e do cepticismo. Uma vez que se admite a existência da verdade (valor do conhecimento) e da certeza, pergunta-se então onde está a essência das coisas (o princípio das mesmas): só na inteligência, como querem Platão, Kant e Hegel (Idealismo); só na matéria, como ensina Marx (Materialismo); no intelecto humano e na matéria, como dizem Aristóteles e Tomás de Aquino (Realismo); ou só na razão, como afirma Descartes (Racionalismo).

Para o Idealismo, o ente, isto é, o ente transcendental, compõe-se somente de ideias. Para o Materialismo, unicamente de matéria. Para o Realismo, de ideias e matéria. Para o Racionalismo, é só razão.

Investigando os fundamentos de todo o conhecimento apresentado ou manifestado nas suas multivariadas expressões, nunca aceitando ou recusando a priori em simples manifestações de credulidade ou cepticismo que é sempre irracional e incognoscio, a crítica é a base indispensável de todo o saber científico e filosófico, inclusive da própria Ontologia. Por isto não se pode substituir Gnosiologia por Epistemologia, uma vez que a Epistemologia está contida na Gnosiologia.

Igualmente não se deverá confundir a razão da crítica com a malícia da censura, aquela “a mais poderosa tribuna do aperfeiçoamento humano”, no dizer do Professor Henrique José de Souza, e esta a manifestação afectada da inteligência afectiva, que é a visível e hodierna condição psicológica mais predominante tanto na classe desenvolvida intelectualmente como na condição subdesenvolvida e quase autista. Pelo que se demonstra do menor pessoal ao maior impessoal do ser, isto é, do incognoscente ao cognoscente: malícia > censura > crítica > auto-crítica > supra-crítica.

A supra-crítica encontra equivalentes no “conhece-te a ti mesmo” de Jesus e Platão. É a Gnosiologia Platónica que se encontra em empatia filosófica com a Tradição Espiritual, mormente entre os Espirituais portugueses, que na Idade Média e inícios da Renascença manifestaram-se através de várias Ordens religiosas, particularmente a Franciscana, dando forma e conteúdo à Filosofia Portuguesa consubstanciada na Formula Mentis Lusitanea.

Pois bem, a Gnosiologia Platónica manifesta-se por dois ramos principais chamados Maiêutica e Hermenêutica. Criada por Platão, servindo-se do heterónimo Sócrates, no século IV a. C., a Maiêutica é o momento do “parto” mental da procura da Verdade no interior (ser transcendente) do Homem. Ela é formada de dois momentos: 1.º – Platão/Sócrates levava os seus discípulos (ou interlocutores) a pôr em dúvida o seu próprio conhecimento de determinado assunto em questão; 2.º – Platão/Sócrates levava os interlocutores a ter uma nova ideia, uma nova opinião sobre o assunto em questão. E é por isto que Maiêutica significa o “parto das ideias”, do grego maiêutiké, a “arte de assistir aos partos”, a “arte de parturejar”. Pelo que na espiritualidade tradicional se parturejam os arquétipos, os atributos e tendências da natureza psicomental tanto de uma unidade particular como de uma colectividade singular, quer estejam ou não afins com a mesma.

A auto-reflexão, expressa no grego nosce te ipsum, “conhece-te a ti mesmo”, dispõe o Homem na demanda das verdades universais que são o caminho para a prática do Bem e da Virtude, ideia implícita nas próprias palavras de Jesus: “Faze por ti que Eu te ajudarei”. Assim, se Maiêutica é o método que consiste em gerar ideias novas a partir de perguntas simples articuladas dentro de um contexto ou assunto conhecido, e assumido como resolvido ou explicado até ao momento, ela tem o seu equivalente na Filosofia Oriental chamado de Maya Budista. Esta é o método utilizado para promover, através da motivação, o despertar para as realizações, para o estudo, para a pesquisa de algo.

Será importante proceder à análise da palavra Maiêutica, aplicando a Cabala Fonética importando a Etimologia, na explicação (des)velada do sentido original dos termos.

MAI, MAIA ou MAYA – termo sânscrito, significa “ilusão”, o “relativo”, mas também “força expressa”. É o poder do nómeno ou essência transcendente que permite a manifestação do fenómeno, como substância gerada aparecendo ao Homem como a aparência, a realidade objectiva ou visível e tangível.

EU – termo grego, expressivo do Ego, do Eu ou Deus Interior, o Génio ou Daimon de Sócrates.

TICA ou ÉTICA – termo português, a ciência da moral, do comportamento, dos códigos de conduta. Porém, a Ética tem muito pouco a ver com a Moral comum. Tem-se de compreender a Ética como uma ciência normativa em consonância com as leis patronímicas do Universo e com as regras estabelecidas por uma dada civilização, sociedade, época, tantas vezes falsas, hipócritas, egoístas, farisaicas.

O segundo ramo da Gnosiologia Platónica é a Hermenêutica. Este termo provém do grego hermeneuein e significa “declarar, anunciar, interpretar, esclarecer” e, por último, “traduzir”. Significa que alguma coisa é “tornada compreensível” ou “levada à compreensão”. Este ramo da Filosofia é o que se debate com a compreensão humana e a interpretação dos textos escritos. Atribuiu-se a fonte da palavra ao nome do deus grego Hermes, o mensageiros dos deuses, a quem os antigos gregos atribuíam a origem da linguagem e da escrita, considerando-o patrono da comunicação e do entendimento humano.

Ciência voltada para a interpretação dos símbolos gráficos e pictóricos (Neose), a Hermenêutica foi aplicada durante séculos nas primitivas academias portuguesas que eram as casas mosteirais, detentoras do saber. Ela é vulgarizada nos séculos XVII e XVIII e aplicada no sentido de uma interpretação correcta e objectiva da Bíblia, sendo Spinoza um dos precursores da Hermenêutica bíblica. Com Friedrich Scheleiermacher (1768-1834), no início do século XIX a Hermenêutica recebe a reformulação germânica e é assim que entra definitivamente no âmbito da Filosofia clássica, muito diferente do seu sentido original.

Com o seu sistema gnosiológico, Platão visionou um tipo de sociedade humana fundada na dignidade, no amor e na sabedoria, registo deixado na sua obra magistral República. Platão foi um “Filho da Sabedoria” (Philosophus) no seu tempo, viveu a sua Filosofia. Por isso, disse Hume: “A Filosofia é Platão e Platão é a Filosofia, posto que nenhum sábio latino pode acrescentar uma só ideia às suas maravilhosas categorias”. Emerson chamava-o de Homem Representativo por excelência.

As bases do sistema filosófico de Platão são de proveniência asiática, daí o nome de Filosofia Académica. Esta, que se vem repetindo desde há muitos séculos, deriva dos Jardins de Academus, os jardins onde era ministrada a filosofia da vida, onde eram discutidos os problemas da época e onde se reflectia sobre o sentido filosófico das coisas. Os gregos e latinos clássicos que descuraram a pesquisa das línguas à luz da ciência etimológica, julgaram ser Academus o onomástico de um homem, não se apercebendo do facto de Cadm significar Oriente. As ciências orientais foram as primeiras a criar e a utilizar o alfabeto escrito. Por ter ido beber nas fontes da Ásia e volvido à Grécia, todo o sábio, durante muito tempo, era considerando um oriental, um cadmus, e todo o lugar consagrado à instrução a Cadmia ou Academia.

Cadmus, o grego, associado ao deus Hermes, poderá ter a sua origem no termo hebraico Kadmon, o suposto inventor das letras do alfabeto na Europa e na Ásia Menor. Na língua sânscrita da Índia existe o termo Cadana, muito anterior àqueles, para designar os preceitos ritualísticos, os mandamentos religiosos grafados.

Chegado a este ponto, requer-se a abordagem, mesmo que sucinta, da teoria dos processos de estudo, aprendizagem e ensino no Conhecimento tradicional que constitui um triângulo dialéctico cujos ângulos são: Filosofia > Teosofia > Sabedoria, ou, Sendo, Ser, É!

Filosofia (do grego, philo+sophia, “Amizade, Amor à Sabedoria”) – Como antítese da Filodoxia (do grego, philo+doxos, “Amizade, Amor à Opinião”), é a ciência da aprendizagem e culturação intelectual. Informa e ensina sobre os processos de estudar a Didáctica, aos discentes e docentes – é o Método; a comparar escolher e julgar – é o Juízo; a medir, analisar e definir – é o Valor; a raciocinar, perquirir, conhecer e convencer – é a Lógica; a afirmar o critério na verificação da verdade – é a Crítica; e a alcançar uma finalidade – Mística.

Filosofia é, portanto, a arte de estudar, aprender e tomar consciência da Teosofia, ou seja, a viver com Sabedoria Divina.

Teosofia (do grego, theo+sophia, “Sabedoria Divina”) – É a Sabedoria decorrente da Lei Única promanada do Logos Eterno como Três Hipóstases ou Princípios: a Periodicidade Universal (o Eterno criando o Universo), a Harmonia Universal (o Ritmo do Eterno imposto no Universo) e a Analogia Universal (em que no Universo tudo é idêntico ao Eterno).

Da Filosofia à Sabedoria discorre-se da maneira seguinte:

Sabedoria (do grego Sophia, “Saber, Consciência”) – Adquire-se quando se eleva o mental intelectivo ao mental intuitivo, tornando-o consciência da Divindade Eterna nos Planos do Espírito e da Matéria, logo, possui-se a Consciência Integral.

A Consciência Integral ou Sabedoria Divina pode ser adquirida através de dois caminhos ou meios: pela Meditação (técnica mística, coracional) ou pela Filosofia (técnica intelectiva, mental).

É a Teosofia quem unifica o binómio Amor e Sabedoria, o ponto de fusão ou metástase intuitio – intelectus como Iluminação Coracional e Iniciação Mental. Assim tem-se o santo e o sábio em uma só pessoa: o Perfeito, no Oriente chamado Dwija, “duas vezes nascido”: pelo Corpo ou Maternidade e pelo Espírito ou Iniciação Espiritual, Perfeita.

Sendo a Filosofia um processo de ensino dedutivo, é igualmente indutivo no método de alcançar a Verdade como Sabedoria Divina, ao longo da sua aprendizagem.

O método indutivo é espiritual (Purusha) e desce da essência à existência por via da consciência; o método dedutivo é material (Prakriti) e sobe da existência à essência por via da consciência.

Filosofia é, em suma, um sistema de princípios e leis de raciocínio – lógica; um processo racional indutivo e dedutivo (ciência) de aprendizagem – método; e destina-se a agrupar, logicamente, uma ordem de fenómenos (arte) para os estudar (cultura), verificando a certeza (crítica) e conferindo a verdade (certeza).

Sendo a lógica o primeiro patamar da Filosofia, interessa saber o que seja. Lógica, do grego logos, significa razão. Razão é a relação matemática entre a consciência e a inteligência; entre o conhecido e o por conhecer; entre o certo e o errado; entre o bem e o mal; entre o útil e o inútil, enfim, a relação consciencial das polaridades dialécticas. A razão é, assim, a balança discriminativa do Homem no que deve e não deve fazer. Em suma, é o poder que o mental confere de auto-análise e autodeterminação.

Lógica, em Filosofia, é a ciência das leis ideais do pensamento e a arte de aplicar o raciocínio correctamente, e assim demonstrar a exactidão dos conceitos na cogitação da verdade. A aplicação do raciocínio apresenta-se como:

A lógica teórica cogita sobre as ideias e conceitos nas suas inter-relações naturais, concordantes entre si, e nos seus princípios e regras que têm aplicação prática. A lógica prática concebe, analisa e julga essas ideias e conceitos mediante os seus princípios particulares e regras específicas. Instrumentos da lógica:

Conceito, do latim concipere, é a ideia definida e relacionada com o objecto ou forma objectiva. Noção, do latim noscere, é a ideia suscitada na mente por sensações externas dadas pelos sentidos. Ideia, do latim eidos, “imagem”, é a expressão própria da mente, como órgão energético possuído da faculdade de pensar, elaborar ideias e reflecti-las em imagens como imaginação (do latim, imaginicere, “mente em acção”) pelo órgão energético emocional.

Termo é a expressão verbal de uma ideia, noção ou conceito; a expressão de uma ideia pode comportar várias palavras. Juízo é a operação mental que determina, decide e julga as relações entre ideias, noções e conceitos, e as expressa por outros termos. Proposição é a expressão verbal do juízo. O juízo comporta três elementos: um sujeito, do qual se cogita; um predicado, aquilo que se cogita do sujeito; um verbo, a decisão ou afirmação verbal. Raciocínio é o encadeamento discursivo de ideias, noções e conceitos. O raciocínio é o instrumento fundamental da inteligência na indagação e aquisição de conhecimentos através dos sentidos, e acumulados como ideias, noções, conceitos e imagens na estrutura psicomental do Homem. Argumento é a expressão verbal do raciocínio, sendo o silogismo a aplicação lógica do mesmo raciocínio no processo de aprendizagem do conhecimento.

O silogismo é o processo de raciocínio de três proposições dispostas de maneira que a terceira, chamada conclusão, deriva logicamente das duas primeiras, chamadas premissas. O silogismo baseia-se no princípio de que: duas ideias que convêm a uma terceira, convêm entre si. Este princípio, por sua vez, firma-se no axioma matemático do Teorema de Pitágoras: duas quantidades iguais a uma terceira, são iguais entre si.

Silogismo comporta o método (do grego meta-odos, “caminho para”), que é a orientação adequada e criteriosa a seguir nos processos de aprendizagem, aquisição e transmissão do conhecimento. Quanto à orientação da consciência, ou inteligência, o método pode ser indutivo ou dedutivo.

A indução (“levar a”) parte da essência, do conhecimento sintético das premissas que estipulam a lei para o estudo e determinação qualitativa e quantitativa da forma. É o método de Filosofia Mística, Indutiva ou Intuitiva, Platónica.

A dedução (“aperceber a”) parte da análise e conhecimento da natureza e constituição das formas para a legítima definição da lei. É o método de Filosofia Analítica, Dedutiva ou Racional, Aristotélica.

Quanto às etapas a seguir, o método, ou melhor, os processos mentais, podem ser: a) inventivo; b) sistemático; c) didáctico. O primeiro, pesquisa as verdades; o segundo, sistematiza os resultados; o terceiro, transmite o conhecimento adquirido.

O processo inventivo, pode ser: a) intuitivo ou sintético; b) inspirado ou analítico. O processo sintético corresponde ao método indutivo, filosófico, consistindo em explicar os efeitos considerando o estudo das causas. O processo analítico corresponde ao método dedutivo, científico, o qual consiste em explicar as causas pelo estudo do conhecimento e compreensão lógica e analógica dos efeitos.

O processo sistemático tem por finalidade definir com clareza e precisão os conceitos e proposições na descoberta e afirmação de uma verdade, comprovando-a, e seguidamente classificá-la no quadro de conhecimentos sucessivos e analógicos, em progressividade e reciprocidade.

O método didáctico, pode ser: a) esotérico, “reservado”; b) exotérico, “vulgarizado”. O processo de aplicação poderá ser sintético ou sistemático, expositivo. Também pode ser feito pelo processo analítico-sintético, como sucede na pedagogia teosófica.

Quando existe a pretensão de escrever ideias reservadas, de foro sagrado ou transcendente, por exemplo, recorre-se à parábola, que contém um outro sentido além do aparente, e a línguas originais cujo sentido ainda não esteja adulterado pelo vocabulário ordinário destituído de sentido e com perda do sentido original dos termos. Tais línguas prístinas, raras hoje em dia, são chamadas de Linguagem Subjectiva ou Purushica (Espiritual), enquanto a maioria é chamada de Linguagem Objectiva ou Prakritica (Material). Isto vai bem com a composição geral da escrita:

Dentro das línguas da primeira categoria, forçosamente expressando-se pelas da segunda, está o Português, como das línguas mais faladas no mundo, e em português se pensou, escreveu e expressou a Filosofia Portuguesa, tendo quase na cumeeira, se não mesmo na cumeeira dos autores antes de Portugal o ser mas que o pensaram ou idealizaram, Paulo Orósio de Braga, no século IV expressando-se num límpido latim  eclesiástico entremesclados a termos da cultura celto-galaica local e que viria a estar na raiz da nossa Língua Mãe.

Com efeito, a língua portuguesa desenvolveu-se na parte ocidental da Península Ibérica a partir do latim falado, chamado latim vulgar, trazido pelas legiões romanas desde o século III a. C., indo a insuflar no falar ibérico da Lusitânia e da Galécia, que veio a coincidir com o território político do Reino Suevo, e só posteriormente, com a Reconquista, foi avançando pelo que é actualmente o Centro-Sul de Portugal. Porém, a configuração actual da língua foi largamente influenciada por dialectos moçárabes falados no Sul. Durante muito tempo, o dialecto latino da Província Romana da Lusitânia e depois do Reino Suevo, desenvolveu-se apenas como uma língua falada, ficando o latim reservado para a língua escrita.

Os registos mais antigos da língua portuguesa aparecem em documentos notariais do século IX d. C., escritos em latino-romance, língua escrita de base tardo-latina com muitas interferências do vernáculo. O mais antigo documento latino-português conhecido, datado de 870 d. C., é a Doação à Igreja de Souselo. E o mais antigo documento latino-português original conhecido é a Carta de Fundação e Dotação da Igreja de S. Miguel de Lardosa, datada de 882 d. C. (escrita em letra visigótica cursiva).

A Notícia de Fiadores, de 1175, é, segundo vários autores, o documento datado em escrita portuguesa mais antigo conhecido. Trata-se de uma pequena lista de nomes que termina com uma única frase que apresenta sintaxe e morfologia portuguesas. Todavia, a caracterização da Notícia de Fiadores como o “documento mais antigo” não é consensualmente aceite na comunidade de filólogos portugueses.

Segundo outros estudiosos, o Pacto de Gomes e Ramiro Pais deve ser considerado o texto mais antigo escrito em português. No entanto, é apenas datável por conjectura (possivelmente anterior a 1173) e contém muitas formas gráficas latinas.

Outro importante documento, a Notícia de Torto, não datado, terá sido escrito entre 1211 e 1216: é uma longa narrativa dos agravos que o nobre Lourenço Fernandes da Cunha sofreu às mãos de outros senhores. Permanece o mais antigo documento particular datável conhecido, escrito em português.

O Testamento de D. Afonso II de Portugal, datado de 1214, é o texto em escrita portuguesa mais antigo que se conhece (é consensualmente aceite como tal pela comunidade científica). Conservam-se dois testemunhos deste documento, um em Lisboa e outro em Toledo. Foi o primeiro de três testamentos que o monarca lavrou, mas apenas este foi redigido na scripta portuguesa que na época se estava a desenvolver na corte. Estes documentos estão conservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

O vernáculo escrito passou gradualmente para uso geral a partir do final do século XIII. Com a independência nacional em 1139, com o rei D. Afonso I, a separação política entre Portugal-Galiza e Castela (mais tarde, Espanha) permitiu a evolução linguística em direcções opostas do latim vernáculo presente nos dois países. Em 1290, o rei D. Dinis criou a primeira Universidade portuguesa (o Estudo Geral) em Lisboa e decretou que o português, que então era chamado “linguagem”, fosse usado em vez do latim no contexto administrativo, e em 1296 o português foi adoptado pela Chancelaria Real. A partir desse momento, a língua portuguesa passou a ser usada não só na poesia mas também na redacção das leis e nos notários.

Até 1350, a língua galaico-portuguesa permaneceu apenas como língua nativa da Galiza e Portugal. Mas em meados do século XIV, o português tornou-se uma língua elaborada, dotada de uma tradição literária riquíssima, e inclusive foi adoptada por muitos poetas e prosadores leoneses, castelhanos, aragoneses e catalães. Durante essa época, a língua na Galiza começou a ser influenciada pelo castelhano (raiz do espanhol moderno), tendo-se iniciado a sua introdução como única forma de língua culta. Em Portugal, a fixação da corte em Lisboa, o surgimento da imprensa e a profunda textualização das classes predominantes (aristocracia, clero e burguesia), levaram, a partir dos séculos XV-XVI, ao desenvolvimento e elaboração de uma língua padrão de características centro-meridionais e à “exportação” de variedades linguísticas, despojadas das marcas setentrionais, para os novos territórios descobertos e povoados pelos portugueses. Por fim, as sucessivas reformas e mudanças ortográficas trouxeram à actual maneira de falar e escrever a língua portuguesa.

Para terminar, de volta à Filosofia Portuguesa, dá o remate final o axioma magistral do Professor Henrique José de Souza:

Gramática é a ciência da linguagem.
Linguagem é a expressão da ideia.
Ideia é a manifestação da inteligência.
A Inteligência é o Espírito de Deus no Homem.
No futuro, a IDEIA será permanente no Homem.

A Maçonaria e o Brasil Independente – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Abr 7 2017 

A presença da Maçonaria na Independência do Brasil é facto histórico incontornável. Desde a Inconfidência Mineira até ao Grito do Ipiranga – Independência ou Morte! – passando pelo corte político de subordinação às Cortes de Lisboa e a Abolição da Escravatura, a Maçonaria teve papel determinante na formação do Brasil Independente. Não se pode deixar de falar dela.

Para uma nação a ser em toda a sua potencialidade, tal como o filho em relação ao progenitor, precisa libertar-se da dependência paterna, no caso, Portugal. O pai ensinou o filho, depois o filho teve que seguir o seu curso natural na vida, livre e independente, evoluindo pelos seus próprios esforços e méritos, e se possível até ajudar o velho pai, como este o ajudou em sua infância e adolescência. Foi assim que a Maçonaria Luso-Brasileira, em seus primórdios e aparte todas as vicissitudes psicossociais próprias de qualquer movimento novo, inexperiente nas madurezas da vida sociopolítica independente, entendeu essa acção determinante da que é hoje a maior potência nacional da América do Sul rivalizando mesmo com as potências socioeconómicas mundiais: o Brasil, o jovem filho mais querido de seu pai ancião, Portugal.

Tanto assim é que os primeiros maçons em solo brasileiro eram portugueses, depois naturalizando-se e assumindo-se de corpo e alma inteiros maçons brasileiros. De maneira que, apesar das relações tempestuosas com as Cortes de Lisboa havidas nesse conturbado período de transição, elas não foram tanto assim no seio da Maçonaria, encoberta e calmamente lavrando o terreno da pátria livre, inclusive com a Maçonaria Brasileira, criada a partir de Portugal, influenciando depois a Portuguesa, prova clara do intercâmbio entre as duas partes que se complementavam, que nunca estiveram separadas e só distintas no processo de Independência, nisto naturalmente implicando crises político-social ameaçando com a militar que, também graças à Maçonaria, nunca descambou em conflito bélico com Portugal. Isso mesmo diz Oliveira Marques[1], num breve resumo da História da Maçonaria Brasileira, que transcrevo por inteiro:

“BRASIL – Embora tivesse havido maçons em terras brasileiras desde meados do século XVIII – na sua maior parte vindos de Portugal – só em 1800 surgiu na América Portuguesa a primeira Loja maçónica, devidamente estruturada. Foi a Loja União, instalada nesse ano perto do Rio de Janeiro, em Niterói (ao tempo chamada Vila Real da Praia Grande). Seguia o Rito Adoniramita e extinguiu-se logo em 1801, sem nunca se ter integrado em qualquer Obediência.

“Em 1801, apareceu uma segunda Loja do mesmo Rito, de nome Reunião, talvez por transformação da primeira. Funcionou no Rio de Janeiro e colocou-se, a partir de 1803, sob os auspícios do Oriente da então Ilha de França (hoje Maurícia). Durou até 1805.

“Por seu turno, em 1802, foi instalada na Bahia, a Loja Virtude e Razão, do Rito Francês.

“A intervenção do Grande Oriente Lusitano verificou-se pouco depois da sua criação em Lisboa, em 1803. No ano imediato, patrocinou a instalação no Rio de Janeiro, sob a sua égide, das duas Lojas Constância e Filantropia, que considerou as únicas legítimas e que logo entraram em competição com as restantes. Mas, em 1806, a perseguição desencadeada pelo Vice-Rei, Conde dos Arcos, levou ao encerramento das duas Lojas, sobrevivendo apenas a da Bahia.

“A partir de 1807-08, a Maçonaria pôde renascer, graças ao regime de maior tolerância alcançado. A presença da Corte Portuguesa e de numerosos maçons vindos de Portugal ajudou a alicerçar as sucessivas Lojas que se foram constituindo: no Rio de Janeiro, a Beneficência, a Emancipação, a S. João de Bragança e, mais tarde, a Comércio e Artes; na Bahia, a Virtude e Razão Restaurada (depois chamada Humanidade) e a União; em Pernambuco, onde a Maçonaria teve enorme desenvolvimento, a Regeneração, a Guatomosim, a Iguarassu, a Firme União, a Universidade Democrática, a União Campista, a Pernambuco do Oriente, a Pernambuco do Ocidente, a Filantropia e Moral, a Restauração e a Patriotismo, muitas delas efémeras; e em Niterói, a Distintiva. Seguiam quer o Rito Adoniramita, quer o Rito Francês. Em 1813, constituiu-se um primeiro Grande Oriente Brasileiro, restrito às três Lojas da Bahia Virtude e Razão, União e Razão Restaurada e à Loja Beneficência do Rio de Janeiro. Como Grão-Mestre, foi escolhido António Carlos Ribeiro de Andrada[2].

“Por seu turno, o Grande Oriente Lusitano conseguiu colocar sob a sua Obediência as Lojas Emancipação e Comércio e Artes, do Rio de Janeiro.

“A perseguição de 1817-18, no rescaldo dos acontecimentos de Portugal, fez encerrar momentaneamente todas as Lojas maçónicas no Brasil e extinguir o Grande Oriente Brasileiro.

“A partir de 1820-21, as medidas tomadas pelas Cortes de Lisboa e o regresso de D. João VI a Portugal provocaram um renascimento da Maçonaria que adoptou uma política claramente anti-portuguesa e independentista. As Lojas Comércio e Artes (renascida) e União e Tranquilidade, do Rio de Janeiro, juntamente com a Esperança de Niterói, de Niterói, fundaram, em 1822, sob o supremo malhete de José Bonifácio de Andada e Silva, o Grande Oriente do Brasil, cujo papel se mostrou relevante na proclamação da Independência, ocorrida em 7 de Setembro desse ano.

“A Maçonaria Brasileira, criada a partir de Portugal, veio depois a ter alguma influência na Portuguesa e, em especial, nos dois pontos seguintes:

“1. O primeiro Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite foi constituído em Portugal, em 1841, integrado no Grande Oriente do Rito Escocês, por carta do Supremo Conselho do Brasil – ao tempo já regularmente constituído – a que presidia o Soberano Grande Comendador Montezuma[3], e o segundo, anexo ao Grande Oriente Lusitano, surgiu também por carta patente de 1841, concedida por outro Supremo Conselho do Brasil, de que era Soberano Grande Comendador o Conde de Lajes[4].

“2. Entre os primeiros guias e rituais usados na Maçonaria Portuguesa do Rito Escocês Antigo e Aceite contaram-se alguns vindos do Brasil, editados em 1833 (Cathecismo dos tres primeiros gráos do R∴ Escocez, Rio de Janeiro, 5833, 64 pp.) e 1834 (Guia dos Maçons Escocezes ou Reguladôres dos tres gráos symbolicos no rito antigo e acceito, Rio de Janeiro).

“As relações entre as Maçonarias dos dois Países foram sempre cordiais, tendo havido tratados entre o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente do Brasil em 1865 e 1907.”

Por sua vez, Joaquim Gervásio de Figueiredo também faz uma resenha histórica do surgimento e desenvolvimento da Maçonaria no Brasil, cujo texto completo transcrevo, pelo seu grande interesse histórico ao entendimento sociopolítico da Arte Real actuando em prol da independência e na formação do país independente[5]:

“BRASIL, I – Período Colonial. Permanecem algo nebulosos e caóticos os primórdios da Maçonaria no Brasil; todavia não resta dúvida de que a sua introdução neste país deve ter ocorrido no século dezoito, em consonância com o despertar da consciência nacional brasileira e o seu crescente desejo de independência, avolumados depois das derrotas que desde o começo desse século vinham os brasileiros infligindo aos seus colonizadores estrangeiros, mormente os holandeses, e não raro com a ajuda mínima de seus colonizadores lusos. Para agravar, estes se mostravam implacáveis e cruéis em estrangular qualquer sentimento nativista de emancipação política do jugo estrangeiro. Segundo insuspeitos historiadores (ver A Maçonaria e a Grandeza do Brasil, de A. T. Cavalcanti[6], uma obra bem documentada), não só Tiradentes, o protomártir de nossa Independência, como outros inconfidentes, eram todos maçons. O alferes Joaquim José Xavier (o Tiradentes) chegou mesmo a fundar uma Loja maçónica no Tijuco (hoje Diamantina), Minas Gerais[7]. No Norte, os primeiros passos decisivos para a implantação da Maçonaria no país foram dados em Pernambuco e Bahia pelo Grande Oriente da França, com o Rito Moderno ou Francês, e no Sul, isto é, no Estado do Rio de Janeiro, pelo Grande Oriente de Portugal, com o Rito Adoniramita. Em 1801 e 1802 havia maçons dispersos em Olinda, Salvador, Rio de Janeiro, Campos, Niterói e Minas Gerais. Em 1801 fundou-se em Salvador a Loja Virtude e Razão, que todavia teve curta duração, devido às perseguições do governo português, enquanto que em Pernambuco, beirando a mesma época, foram fundadas as Lojas Guatimosim, Firme União, União Campista e Filantropia e Moral. Alguns membros remanescentes da Loja Virtude e Razão fundaram em 30 de Março de 1807 a Loja Virtude e Razão Restaurada, que passou a denominar-se Loja Humanidade, e a seguir surgiu a Loja União. Com essas Lojas se fundou o primeiro Grande Oriente Brasileiro, com sede na Bahia, porém teve vida efémera, por ter desaparecido com as Lojas na voragem punitiva que se seguiu à fracassada Revolução Pernambucana de 1817. Ao passo que no Sul, em 1804, fundou-se a primeira Loja no Rio de Janeiro, denominada Reunião, filiada ao Grande Oriente Lusitano e funcionando no Rito Adoniramita, atraindo os maçons até então dispersos. Nesse mesmo ano chegou ao Rio de Janeiro um delegado do Grande Oriente Lusitano, portador da Constituição e Regulamento dessa Ordem, com o fim de obrigar todos os maçons brasileiros a se filiarem àquele Grande Oriente. Frustrado em seu intento, esse delegado enviou um mensageiro a Lisboa, a expor ali os motivos da recusa dos brasileiros em aceitarem aquela Obediência. Ante a impossibilidade de um acordo com a Loja Reunião, o delegado português fundou no Rio de Janeiro as Lojas Constância e Filantropia, e Emancipação, também filiadas ao Grande Oriente Lusitano. Com o advento das cortes portuguesas para o Brasil, em 1808, surgiu depois a Loja S. João de Bragança, da qual fizeram parte muitos funcionários do Paço. Seguiu-se-lhe a Distintiva em 1812, a qual em seu selo tinha por emblema um índio de olhos vendados e em cadeias, qual um génio prestes a libertar-se. Em 1815 fundou-se a Loja Comércio e Artes que, após cair em letargia, foi reerguida em 1821, e ainda subsiste. Esta Loja chegou a contar 94 membros activos em 1822, pelo que se decidiu criar duas Lojas suplementares: a União e Tranquilidade e a Esperança de Niterói. A principal tarefa dessas Lojas consistiu então em promover a campanha de libertação política do Brasil. A 2 de Agosto desse mesmo ano, o príncipe D. Pedro é iniciado ritualisticamente na Loja Comércio e Artes, sob o nome histórico de Guatimosim, e a 5 do mesmo mês é exaltado a Mestre maçom. Em 17 de Junho de 1822, convocou-se uma Assembleia Geral, que criou e instalou o Grande Oriente do Brasil, com o fim de tornar completamente autónoma a Maçonaria no país. As primeiras potências maçónicas a reconhecê-lo foram a França, a Inglaterra e os Estados Unidos da América do Norte.

“II – Período Monárquico. O Grande Oriente do Brasil foi fechado pelo seu Grão-Mestre, o imperador D. Pedro I, quatro meses após a sua instalação. Mas em 1827 alguns irmãos iniciaram outro movimento para reacender a Maçonaria no país, e em 1828 criaram um corpo director denominado Grande Oriente Brasileiro, porém, apenas simbólico e com uma Loja funcionando no Rito Escocês Antigo e Aceito. Em 1831, depois da abdicação de D. Pedro I, abriu-se nova pugna entre maçons brasileiros, pois, com a reinstalação, em 23 de Novembro desse ano, do anterior Grande Oriente Brasileiro, passaram os dois Orientes a tratar-se como inimigos, não obstante trabalharem ambos no Rito Moderno ou Francês. O Grande Oriente do Brasil esteve quase sempre em luta com outras potências maçónicas, e em funcionamento irregular, a não ser nos breves períodos em que viveu à sombra do Supremo Conselho para os Estados Unidos do Brasil. Em 12 de Novembro de 1832 o antigo embaixador brasileiro Montezuma, munido de plenos poderes do Supremo Conselho da Bélgica, fundou um Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, no Rio de Janeiro, onde instalou uma Loja a que denominou Educação e Moral. Este ilustre irmão era filiado a uma Loja do Grande Oriente do Brasil e a uma outra do anterior Grande Oriente Brasileiro, e com o advento desta nova situação, passaram os dois Grandes Orientes a criar Capítulos e Consistórios, cada qual com um Supremo Conselho. Em 23 de Fevereiro de 1834, foi celebrado em Paris o Traité d’Union d’Alliance et Confédération Maçonnique entre os Supremos Conselhos dos Estados Unidos da América do Norte, França e Brasil, este último representado pelo Grande Lugar-Tenente Comendador Machado E. Silva. Em 23 de Outubro de 1835, alguns membros do Supremo Conselho do Brasil, reunidos irregularmente em Supremo Conselho, sem processo e em sua ausência, demitiram de suas funções o Soberano Grande Comendador Montezuma. Este reagiu contra acto tão irregular, sancionando os rebeldes, e continuou a exercer suas funções até 18 de Fevereiro de 1844, quando cessou de o ser por força do Tratado de Paris, em razão do afastamento de grande número de irmãos, segundo o manifesto do Supremo Conselho da França. Por esse Tratado, o Supremo Conselho do Brasil, então mais conhecido por Supremo Conselho Montezuma, deixou de fazer parte da Federação de Paris. Do verdadeiro Supremo Conselho do Brasil, assim feito adormecer, surgiram três novos Supremos Conselhos, dois dos quais, de vida efémera, fundiram-se no Grande Oriente do Brasil. O outro grupo, emanado do Supremo Conselho de Montezuma desde 1842, reuniu-se ao anterior Grande Oriente Brasileiro, tomando o nome de Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito do Grande Oriente Brasileiro, o qual aboliu inteiramente o Rito Moderno ou Francês. Rompido o Tratado de União de 1842, apareceu um Grande Oriente e Supremo Conselho sob a direcção do Marquês de Caxias, que, porém, logo aconselhou sua extinção. Depois, surgiu um outro Supremo Conselho, presidido pelo Conde de Lajes, com dezassete membros, mas também teve pouca duração. Reinando a anarquia em todas estas Ordens, cada multiplicação sua redundava em novo fracasso. Em 1843, foi fundada a Companhia Glória de Lavradio, com novo Grande Oriente, que também acabou se cindindo em dois grupos. Um dos grupos aclamou seu Grão-Mestre de Lavradio o Barão de Cairu, ao passo que um dos dignitários do outro grupo, tendo monopolizado todos os poderes, provocou o afastamento de mais de 1.500 maçons, os quais, sob a direcção do grande irmão Dr. Joaquim Saldanha Marinho, fundaram em 1863 o Grande Oriente e Supremo Conselho dos Beneditinos. Em 1865 os Grandes Orientes da França e de Portugal resolveram reconhecer o Grande Oriente dos Beneditinos como o único legal, e renovaram o Tratado de Aliança de 16 de Maio de 1865; graças aos esforços de seu Grão-Mestre, o Grande Oriente e Supremo Conselho dos Beneditinos chegaram a contar 49 Lojas em 1869. O Grande Oriente do Vale do Lavradio promulgou em 20 de Abril de 1865 a sua Constituição e Estatutos Gerais, e o do Vale dos Beneditinos promulgou a sua em 25 de Setembro de 1866, ambas admitindo o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Moderno ou Francês, e o Adoniramita, e mesmo “todos os Ritos que estejam em harmonia com os princípios maçónicos e disposições da presente Constituição”. Em 1870, o Visconde do Rio Branco foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Lavradio, ao passo que Saldanha Marinho sempre deteve esse cargo na Ordem dos Beneditinos. Em 1872, mercê dos esforços do Grande Oriente de Lisboa, esses dois Grandes Orientes foram reunidos sob a denominação de Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil, e a sua Constituição provisória foi promulgada em 23 de Setembro de 1872, no Vale do Lavradio. Na ocasião da fusão havia 122 Lojas, das quais 68 Capitulares: 99 eram do Rito Escocês Antigo e Aceito, 11 do Rito Moderno ou Francês, 9 do Rito Adoniramita, 1 da Grande Loja de Hamburgo, 1 de York e 1 de Adopção (mulheres). Delas, 51 provinham do Grande Oriente dos Beneditinos, 31 dos de Lavradio e 40 cujas colunas foram erguidas depois da constituição do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil. A família maçónica brasileira estava de novo pacificada e a Ordem prosperou até à reeleição do Grão-Mestre, a qual decorreu acidentada, pois o candidato dos Beneditinos obteve grande maioria de votos sobre o do Grande Oriente do Brasil. Então o Grande Oriente de Lavradio declarou nula a unificação dos dois Grandes Orientes, feita em Setembro de 1872. Este caso foi submetido às potências estrangeiras, as quais, por grande maioria, decidiram que o Visconde do Rio Branco não se achava qualificado para anular uma fusão e deram ganho de causa a Saldanha Marinho. Como nenhum acordo fora obtido entre os dois ex-Grandes Orientes, Saldanha retornou aos Beneditinos, mas continuando a dirigir o Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil, e desta vez com o reconhecimento de quase todas as potências mundiais. Saldanha Marinho deteve esse primeiro malhete até 1880, e o Visconde do Rio Branco permaneceu Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil até 1878, quando o sucedeu o Grão-Mestre Adjunto, Dr. F. J. C. Júnior.

“III – Período Republicano. Daí em diante a Maçonaria no Brasil prosseguiu mais ou menos normalmente suas actividades, sem lances historicamente notáveis, a não ser algumas alterações em sua Constituição, tendentes a definir, restringir ou ampliar poderes, até que em Junho de 1927 o Supremo Conselho, convocado pelo Grande Comendador Dr. Otávio Kelly, resolveu romper o Tratado de União com o Grande Oriente do Brasil, que havia sido firmado em 1864, para constituir-se uma potência maçónica mista. Este acto provocou a fundação de Grandes Lojas Soberanas em vários Estados do Brasil, com jurisdição nas Lojas de seu território: Lojas de Perfeição, Capítulos, Conselho de Kadosh e Consistórios de Príncipes do Real Segredo, obedientes ao Supremo Conselho. Todas as Grandes Lojas fundadas trocaram representantes com as Grandes Lojas do Mundo, muitas das quais deixaram de reconhecer o Grande Oriente do Brasil como potência maçónica regular. Ao passo que o Supremo Conselho, funcionando no Grande Oriente do Brasil, fundado ao arrepio das Grandes Constituições e Resoluções da Confederação dos Supremos Conselhos, é julgado espúrio e irregular pelos demais Supremos Conselhos, não tendo por isso sido recebido no Congresso dos Supremos Conselhos, realizado em Paris, em 1928, e em Bruxelas, em 1935. Por esses motivos, o Grande Oriente do Brasil tem sofrido contínuas fragmentações, pois muitas Lojas têm se retirado de sua jurisdição para fundar novas potências, umas regulares e outras não.”

Quanto ao que no presente seja o vigor da Maçonaria Brasileira, Kent Henderson e Tony Pope descrevem[8]:

“A Arte Real no Brasil parece um pot-pourri. A maior e mais antiga Grande Loja no Brasil é o Grande Oriente do Brasil, com um Grande Oriente subordinado em cada Estado. Além disso, há 27 Grandes Lojas, baseadas nos limites dos Estados brasileiros; e 17 Grandes Orientes Estaduais Independentes; mais uma Grande Loja Distrital sob a Grande Loja Unida da Inglaterra; e alguns outros Corpos não reconhecidos por qualquer dos anteriores. Há, portanto, três ramos da Maçonaria Simbólica no Brasil, representados pelo Grande Oriente do Brasil; as várias Grandes Lojas baseadas nos Estados brasileiros; e os Grandes Orientes Independentes baseados nos Estados.

“A mais antiga das Grandes Lojas Estaduais foi composta por Lojas que saíram do Grande Oriente depois de 1927, durante vários períodos de problemas internos. Estas, por sua vez, certificaram Lojas em outras partes do país e, progressivamente, cada Estado ganhou a sua própria “Grande Loja”. Desnecessário dizer que o Grande Oriente não viu com bons olhos esse desenvolvimento. Claramente havia um problema territorial, com o Grande Oriente reivindicando a autoridade maçónica por todo o país. Porém, seguindo um “conclave” geral de todas as Grandes Lojas existentes em 1957, foram assinados Tratados de Amizade Fraternal entre a maioria delas. Isto não inferia no completo reconhecimento mútuo, mas permitia intervisitação e diálogo contínuos. Actualmente, o Grande Oriente do Brasil mantém Tratados de Amizade com todas as Grandes Lojas e, ao que tudo indica, excepto com as Grandes Lojas do Acre e do Amapá.

“O Grande Oriente do Brasil é algo como uma Grande Loja “ápice”, controlada por um “Grão-Mestre Geral” e Grandes Oficiais, com suas Lojas em cada Estado brasileiro sob uma “Federação” (análogo ao estilo britânico de Grande Loja Provincial), cada uma com o seu Grão-Mestre Estadual e seus Grandes Oficiais Estaduais.

“Além disso, há um “terceiro ramo” da Maçonaria Brasileira na forma de Grandes Orientes independentes baseados nos Estados (GOIs). Todos descendem de cismas com o Grande Oriente do Brasil ou das Grandes Estaduais. Os GOIs existem em 17 Estados brasileiros: Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Em pelo menos alguns Estados, todos os três Grandes Corpos (o Grande Oriente local do Brasil “Federado”, a Grande Loja Estadual e o GOI) geralmente estão em boas condições e os maçons podem, comumente, transferir-se de um a outro sem refazer Graus.

“Fora do Brasil, outras Grandes Lojas têm sido reconhecidas. A situação é que a maioria das Grandes Lojas dos EUA e das Grandes Lojas canadianas reconhecem uma variedade de Grandes Lojas Estaduais, mas não o Grande Oriente do Brasil (em 1996, somente dez Grandes Lojas dos EUA do Grupo Principal mantinham relações fraternais com elas), enquanto as Grandes Lojas inglesas, irlandesas e escocesas só reconhecem o Grande Oriente. Os GOIs normalmente não são reconhecidos fora do Brasil. As várias Grandes Lojas europeias, na maior parte, reconhecem o Grande Oriente e várias das Grandes Lojas Estaduais. Assim, depende unicamente da Grande Loja de onde o visitante vem para saber qual das Lojas brasileiras pode visitar legalmente.

“Além das anteriores, há várias Lojas no Brasil mantendo Cartas Constitutivas da Grande Loja Unida da Inglaterra, resultado de um Tratado entre a Inglaterra e o Grande Oriente do Brasil.

“Embora o Grande Oriente do Brasil tenha Lojas em todos os cantos do país, a sua concentração maior de Lojas está no Rio de Janeiro e São Paulo, as duas maiores cidades do Brasil. O magnífico Palácio Maçónico do Rio de Janeiro está tombado pelo Departamento do Património Histórico Nacional Brasileiro, por seu valor histórico.

“A vestimenta para todas as Lojas brasileiras é um terno social escuro, e os visitantes são convidados a usar os seus próprios paramentos. As Lojas do Grande Oriente reúnem-se semanalmente, ou bimensalmente, com algumas tendo uma reunião mensal. O Grande Oriente reconhece oficialmente o uso de sete Rituais de Loja Simbólica: os Graus Simbólicos do Rito Escocês (aproximadamente 80% de todas as Lojas), o Rito Adonhiramita, o Rito Moderno (Francês), o Rito Brasileiro, o Rito de York, o Rito de Schroeder e o Rito Lusitano. O Rito de York é o Ritual de Emulação inglês traduzido para o português.”

As fontes históricas para o Rito Brasileiro dispõem a sua origem no Rito Maçónico Adoniramita ou Adonhiramita, com especial ênfase para o 12.º Grau de Príncipe Rosa+Cruz, estágio Místico ou Crístico como o mais afim à Tradição Esotérica Ocidental. Ainda assim, quase emulava com ele o Rito Moderno ou Francês, igualmente presente na origem histórica da Maçonaria no Brasil.

O Rito Adonhiramita foi exportado pelos maçons lusitanos para Vera Cruz, nesta em breve adaptado ao peculiar simbolismo esotérico brasileiro mas cuja Tradição Primordial recapitulou, ao tomar por assento e início Niterói, pomo de venustas tradições recuando à Pré e Proto-História do Brasil. Contudo, a Potência Suprema da Maçonaria Brasileira, seguidora inicial do Rito Adonhiramita, esteve durante larguíssimos anos instalada no Rio de Janeiro.

Além de outros escritores de nomeada da História da Maçonaria Brasileira, com especial enfoque para o dr. Rizzardo da Camino, com obras publicadas de grande valia ao entendimento do tema, cito ainda a interessante colecção em cinco volumes, dedicada a “Hiram e Adonhiram”, do caríssimo dr. Orlando Soares da Costa[9], revelando-se-me “Mestre Instalado, Deputado Federal e Deputado Constituinte perante a Soberana Assembleia Federal Legislativa do Grande Oriente Brasileiro, onde exerço a Presidência da Comissão de Educação e Cultura. Sou decorado Sublime Iniciado e Grande Preceptor – Grau 31.º, sendo Presidente do Insigne Sodalício de Sublimes Iniciados e Grandes Preceptores do Grande Vale Central do Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita para o biénio 1998/ 2000”.

Também Joaquim Roberto Pinto Cortez[10] e Eleutério Nicolau da Conceição[11], sem esquecer Morivalde Calvet Fagundes[12], João Ferreira Durão[13], José Castellani e William Almeida de Carvalho[14], dedicaram estudos de grande utilidade à presença e acção da Maçonaria no Brasil, reiterando ser o Rito primitivo o Adonhiramita, usando na argumentação dialéctica sustentada na documentação, até desfechar na data da famosa reunião em que a Independência do Brasil foi ultimada: 20 de Agosto, desde então passando a ser o dia nacional do Maçom.

O Ritual do Adonhiramita (Adam, Hiram e Ita, Mita ou Mitra), por sua natureza Solar ou Crística acaba tendo severas vizinhanças a esse outro Rito de Melki-Tsedek, exercido pela Ordem do Santo Graal. Tal Rito é o que ainda possui mais de simbologia tradicional herdada dos grimórios medievais de Kaballah judaico-cristã, que no século XVIII foi compilada pelo escocês Andrew Michael Ramsay (1686-1743), escritor religioso ex-quietista convertido ao catolicismo romano[15].

Foi Ramsay o criador do Sistema Maçonista Escocês, tendo impresso forte cunho cabalístico aos graus superiores do mesmo, notoriamente inspirados na literatura gnóstica referente às antigas tradições heterodoxas dos Patriarcas de Israel. Por sua vez, o também escocês James Anderson (1679-1739), pastor presbiteriano e maçom desde cedo, escreveu a Constituição dos Maçons ou Livro das Constituições, entre 1721 e 1723, ano da sua edição, e nessa “bíblia” da Maçonaria Especulativa ele dá esta como inspirada na fonte judaico-cristã[16].

Contudo, o Ritual de Adoniram ou Adonhiram revela algum parentesco simbológico e ritualístico com aquele outro, onde acaso poderá ter reconhido a sua inspiração, Egípcio ou Copta instituído por Cagliostro no século XVIII, cerca de 1762, em Paris, França, quando fundou o Rito de Adopção sob a presidência de sua esposa, Serafina Feliciani, e depois ele mesmo o Rito Andrógino na sua Loja Sabedoria Triunfante, em 1786, em Lyon, no sul desse país, de certa forma adoptado por Martinets de Pasquallys adaptando-o ao seu Rito dos Elus-Cohens (“Sacerdotes Eleitos”), prosseguido depois por Louis Claude de Saint-Martin sob o designativo de Martinismo, linha para-maçonista, mista de cabalística e mágica que no século XIX foi reformulada por Gerard Encausse (Papus), ainda assim influenciando em muitos aspectos o sistema maçónico contemporâneo[17].

Dá-se como data oficial de nascimento da Maçonaria Adonhiramita o ano 1744, quando o abade Leonard Gabanon editou em França a sua obra Cathécisme des Francs Maçons ou Le Secret des Francs Maçons, contendo as bases desse Rito que seria desenvolvido pelo barão Théodore de Tschoudy em 1787, já tendo sido antes editada a compilação com o título Recuil Précieus de la Franc-Maçonnerie Adonhiramite, que se diz ter sido escrita por ele ou em parceria com outro famoso maçom francês, Louis Guillaume Saint-Victor[18].

Ilustração do Rito Adonhiramita por Louis Guillaume Saint-Victor (1785)

Segundo Jules Boucher[19], a Maçonaria Adonhiramita baseia o seu Grau de Mestre na lenda do chefe de obreiros do Templo de Salomão, Adonhiram ou Adon-Hiram. Em conformidade ao texto na Bíblia prosseguido pela tradição dos construtores-livres (liberi muratori), foram três os Hirams envolvidos no processo de construção do Templo de Jerusalém, como sejam:

1.º) Hiram de Tiro, rei da Fenícia, filho de Abchal, contemporâneo e aliado de David e Salomão;

2.º) Hiram Abiff, o arquitecto fenício ao serviço de Salomão, originário de Tiro, capital da Fenícia, e filho de Abda, da tribo de Dan;

3.º) Adon-Hiram ou Adonhiram, intendente e chefe dos operários encarregados da construção do Templo, vassalo do rei Salomão mas às ordens do mestre Hiram Abiff.

A Bíblia, no 1.º Livro de Reis, cap. IV, dá a lista dos altos funcionários ao serviço do rei Salomão, mencionando: “Adoniram, filho de Abda, preposto às corveias”. Mais adiante, no mesmo Livro, cap. VII, vers. 27, têm-se outros detalhes: “O rei Salomão escolheu entre todos os israelitas homens de corveia, e os homens de corveia eram em número de trinta mil. Ele os mandou ao Líbano, dez mil por mês alternadamente; eles ficavam um mês no Líbano e dois meses em suas casas; Adoniram era preposto sobre os homens de corveia”.

Sendo-lhe dado por tradição o parentesco de irmão do arquitecto Hiram Abiff, Adonhiram (“Consagrado pelo Senhor”) vem a ser o fundador ou iniciador da Linha de Companheiros, enquanto aquele outro, cabeça da Linha dos Mestres, será o seu inspirador por deter os segredos da Arte Real. Consequentemente, não haverá diferença maior entre adonhiramitas e hiramitas senão a especulada por alguns teóricos dos séculos XIX-XX, posto uns esquissarem (hiramitas) e outros aplicarem (adonhiramitas) o conhecimento d´Arte.

Aventa-se a hipótese do Rito Adonhiramita ter sido o inicial praticado pelas Lojas portuguesas antes da introdução do Rito Moderno (Francês) em 1801, na época constituído de somente treze Graus. Somente após a separação da Maçonaria Brasileira, onde os Graus Simbólicos ficaram sob a jurisdição do Grande Oriente do Brasil e os Altos Graus jurisdicionados às respectivas Oficinas Chefes dos Ritos, em 2 de Junho de 1973, é que os 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite foram introduzidos pelo governo das Oficinas Litúrgicas do Rito Adonhiramita, antes exercido pelo Grande Capítulo, ao ficarem afectos ao Supremo Conselho da Maçonaria Adonhiramita.

Os treze Graus originais do Rito Adonhiramita, eram:

1 – Aprendiz
2 – Companheiro
3 – Mestre
4 – Antigo Mestre
5 – Eleito dos Nove
6 – Eleito de Pérignan
7 – Eleito dos Quinze
8 – Pequeno Arquitecto
9 – Grande Arquitecto
10 – Mestre (ou Cavaleiro) Escocês
11 – Cavaleiro do Oriente
12 – Rosa+Cruz
13 – Noaquita ou Cavaleiro Prussiano

É possível que o 13.º Grau não se praticasse em Portugal, terminando a escala no Rosa+Cruz, como mais tarde veio a acontecer com o Rito Francês, permitindo uma fácil fusão entre os dois[20]. No Rito Francês esse Grau é o 18.º do Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosa+Cruz reconhecido pelo sinal e palavra sagrada: mãos cruzadas sobre o peito, pronunciando Emmanuel[21].

Isso se relacionará a essa Igreja Invisível ou Secreta de Melki-Tsedek, o Rei do Mundo, lapidada no significado cabalístico da própria sigla do arquitecto fenício H.I.R.A.M., com o sentido latino de HIC JACET REX ADVENTURUS MUNDI, que é dizer, “Aqui jaz o futuro Rei do Mundo”. Neste caso, o futuro Emmanuel que é Akdorge.

Legalmente foi o juiz Sebastião José de Sampaio e Melo e Castro Luzignano, ou Lusignan (Lisboa, 13.2.1764 – Lisboa, 2.2.1826), neto do marquês de Pombal e segundo filho do 1.º conde de Sampaio, o tenente-general António de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignan, governador das Armas de Trás-os-Montes, e de D. Teresa Violante Eva Judite Van Daun, filha do 1.º Marquês de Pombal, dizia, foi ele, com o nome simbólico Epicteto depois mudado para Egas Moniz, mercê do Tratado de Amizade entre o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente Francês, o 1.º Grão-Mestre da 1.ª Loja estabelecida em Lisboa nos inícios de 1804, funções que exerceu até 1809, possivelmente seguindo o Rito Simbólico Regular, nome dado ao Rito onde se reconheciam apenas os 3 primeiros Graus, portanto, Maçonaria Azul. Em 1816, o tenente-general Gomes Freire de Andrade foi nomeado Grão-Mestre do Grémio Oriente Lusitano, fixando a Obediência no Rito Escocês Antigo e Aceite.

No Brasil, entretanto, o imperador D. Pedro I, filho de D. João VI, rei de Portugal, já havia sido iniciado maçom pela mão do seu ministro José Bonifácio de Andrada e Silva (com o nome simbólico Pitágoras), o “patriarca da Independência” e a quem a Maçonaria Brasileira tanto deve, senão tudo, a começar pela Constituição do Grande Oriente Brasileiro[22].

Constituição do Mestre Maçom José Bonifácio de Andrada e Silva

Tudo começou no dia 17 de Junho de 1822, quando os maçons cariocas reunidos em sessão magna e extraordinária presidida por João Mendes Viana (Graccho), Venerável Mestre da Loja Comércio e Artes, decidiram da criação e instalação do Grande Oriente Brasílico ou Grande Oriente do Brasil, tendo escolhido José Bonifácio de Andrada e Silva (Pitágoras) para seu Grão-Mestre. Estavam lançados os dados: José Bonifácio assumia o poder da potência mas destinava-o a D. Pedro de Alcântara, príncipe-regente, para que tomando as rédeas do país o tornasse independente e assegurasse a “República Maçónica”. Só a primeira parte aconteceu, a segunda não, pois D. Pedro até chegou depois a suspender temporariamente a Maçonaria no país, por motivos menos ideológicos e mais políticos, garantindo a separação de poderes e a neutralidade na “coisa pública” ou respública.

Da acta da nona sessão do Grande Oriente do Brasil, realizada em 2 de Agosto de 1822, consta “ter o Grão-Mestre da Ordem proposto para ser iniciado nos mistérios da Ordem, Sua Alteza D. Pedro de Alcântara, Príncipe Regente do Brasil e seu defensor perpétuo. Aprovada de forma unânime, D. Pedro foi imediata e convenientemente comunicado, que dignando-se aceitá-la, compareceu na mesma sessão, e sendo iniciado conforme prescrevia a liturgia maçónica, prestou juramento e adoptou o nome heróico de Guatimozim”.

Para a historiografia maçónica, a 17.ª sessão do Grande Oriente do Brasil reveste-se de um significado particular. Realizada em 4 de Outubro de 1822, na Loja Comércio e Artes, D. Pedro foi aclamado Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil em substituição a José Bonifácio, tendo a sessão sido presidida pelo Grão-Mestre Adjunto Joaquim Gonçalves Ledo (Diderot). Isso consta na acta da mesma sessão: “… e logo expôs o 1.º Grande Vigilante que o objectivo da presente convocação da Assembleia Maçónica era a prestação do Juramento do nosso muito amável e muito amado Irmão Guatimozim, eleito Grão-Mestre da Maçonaria Brasileira, por geral Aclamação, em plena reunião do Povo Maçónico, e sendo conduzido do Oriente, onde estava, ao sólio, por uma deputação de Irmãos Cavaleiros Rosa+Cruzes, prestou o Juramento da Ordem e imediatamente recebendo o Grande Malhete, subiu ao sólio e tomou a direcção dos trabalhos”.

Talvez menos da parte de José Bonifácio e mais da de Joaquim Ledo, interessado em manipular os interesses gerais da política nacional restringindo-os aos particulares da Maçonaria através do imperador D. Pedro já agora “irmão maior” da Ordem, contudo entende-se que este não se deixou manipular e, talvez devido aos jogos e influências de poder naquela, determinou, ainda nesse mesmo mês, em 21 de Outubro de 1822, a suspensão das actividades maçónicas, afiançando a Ledo que a suspensão seria breve: “Meu Ledo. Convindo fazer certas averiguações, tanto públicas como particulares, na Maçonaria. Mando: primo como Imperador, segundo como Grão-Mestre, que os trabalhos Maçónicos se suspendam até segunda ordem minha. É o que tenho a participar-vos; agora resta-me reiterar os meus protestos como Irmão – Pedro Guatimozim Grão-Mestre. P.S. Hoje mesmo deve ter execução e espero que dure pouco tempo a suspensão, porque em breve conseguiremos o fim que deve resultar das averiguações”.

De facto, quatro dias depois, em 25 de Outubro de 1822, Pedro Guatimozim, como o imperador assinava a sua correspondência maçónica, deixando marcada a sua posição de líder político neutro, determinou o fim da suspensão dos trabalhos em função do término das averiguações: “São Cristóvão, 25.10.1822. Meu Irmão – tendo sido outro dia suspendido nossos augustos trabalhos pelos motivos que vos participei, e achando-se hoje concluídas as averiguações, vos faço saber que segunda-feira que vem, os nossos trabalhos devem recobrar o seu antigo vigor, começando a abertura pela Loja em Assembleia Geral. É o que tenho a participar-vos para que, passando as necessárias ordens, assim o executeis. Queira o Supremo Arquitecto do Universo dar-vos fortunas imensas como vos deseja o – Vosso Irmão – Pedro Guatimozin – Grão-Mestre – Rosa Cruz”.

A adopção do nome simbólico Guatimozim por D. Pedro I merece o registo de figurar entre os nomes dos paladinos da independência e liberdade, sobretudo como homenagem ao último imperador asteca do México, Guatimozim, que resistiu em 1522 ao conquistador espanhol Hernando Cortez[23]. Mas Guatimozim também era o nome histórico adoptado por Martim Francisco Ribeiro de Andrada, irmão carnal e maçónico de José Bonifácio, que perfilava ao lado de Falkland (António Carlosn Ribeiro de Andrada), Tibiriçá (José Bonifácio de Andrada e Silva), Caramuru (António Telles da Silva), Aristides (Caetano Pinto de Miranda Montenegro) e Claudiano (Frei Sampaio – Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio) nas alas maçónicas e registos do Apostolado e Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz. Além disso, no Recife existiu uma Loja Maçónica denominada Guatimozim, fundada em 1816 e que em 1821 mudou o seu nome para Loja 6 de Março de 1817, em homenagem aos maçons sacrificados na Revolução Pernambucana de 1817, movimento emancipacionista que opôs iluministas e absolutistas, tendo estes conseguido vencer aqueles mas não os dominar em sua vontade de independência, a qual aconteceria poucos anos depois por iniciativa de D. Pedro I.

Da passagem e rápida ascensão de D. Pedro pela Maçonaria, ficaram alguns dos seus objectos maçónicos na posse da família Cavalcanti, os quais D. Amélia Machado de Coelho e Castro (1852-1946), viscondessa de Cavalcanti, fez oferta ao Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro, em 15 de Novembro de 1927, constando de uma faixa, um avental, um malhete e uma espada, dentre os principais objectos doados[24]. Nas fichas técnicas do acervo, constam[25]:

Faixa maçónica – Confecionada em seda e fios de ouro, 69 x 60 cm, apresenta a águia bicéfala coroada, com espada nas garras e um delta luminoso, símbolos que compõem o emblema do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite.

Faixa maçónica de D. Pedro I

Avental maçónico – Manufaturado em seda e veludo, 34 x 36 cm, apresenta, bordado na abeta, um delta luminoso; abaixo, ostenta um pelicano alimentando os seus filhotes encimado por uma cruz com a rosa mística no centro, ladeado por símbolos e palavras do Grau. Portanto, poderá ser um avental do Grau 7 de Cavaleiro Rosa+Cruz do Rito Moderno na época.

Avental maçónico de D. Pedro I

Malhete maçónico – Fabricado em bronze dourado, 25 x 13,5 x 2,5 cm, apresenta as iniciais “P. 1º” (Pedro I) gravadas em relevo.

Malhete maçónico de D. Pedro I

Espada maçónica – Acompanhada da respectiva bainha. Trata-se de um espadim, 9 larg. x 89,50 cm comp., de aço e cobre cuja lâmina e punho foram trabalhados em metal dourado e filigrana. O pomo circular, tem num lado o triângulo raiado com um olho inscrito, e no outro o compasso e o esquadro circundados por coroa de louros. O punho raiado com o número 33 inscrito; na outra face, a águia bicéfala coroada e pousada sobre espada. Guarda-mão em cruzeta, tendo num dos lados martelo e trave ladeados por decoração fitomorfa; no outro lado, a estrela de cinco pontas ladeada por decoração fitomorfa tendo ao centro a letra G. A lâmina é de três faces côncavas, e a bainha apresenta bocal com decoração fitomorfa. O corpo é de forma triangular com ponteira com decoração semelhante à do bocal, sendo a sapata esferóide.”

Espada e restantes alfaias maçónicas de D. Pedro I

Também o imperador D. Pedro II (Rio de Janeiro, 2.12.1821 – Paris, 5.12.1891) andou de proximidades com a Maçonaria, mesmo não sendo maçom, por certo reconhecendo ela conter a potencialidade necessária ao desenvolvimento sociocultural do país. Daí as relações havidas entre ele e o G.O.B., inclusive tendo feito várias ofertas a diversas Lojas do Estado do Rio de Janeiro: à Loja Independência e à Loja Luz de Barra Mansa, no Vale do Paraíba, ofereceu uma espada a cada uma, nessa última tendo gravada na empunhadura a inscrição “P. II” (Pedro II), e à Loja Lealdade de Brio de Resende, então província do Rio de Janeiro, em 1874 presenteou-a com um lindo florete da sua Guarda Real.

Florete oferecido por D. Pedro II à Loja maçónica Lealdade de Brio de Resende (1874)

Tendo a Maçonaria Especulativa sido fundada em 24 de Junho de 1717 com a criação da Grande Loja de Londres, Inglaterra, cedo ela se instalou no Brasil. Neste, de maneira alguma a Loja Comércio e Artes, do Rio de Janeiro, foi a sua Loja primaz, tendo sido fundada sem Carta Constitutiva em 1815 trabalhando de forma irregular até 1818, quando foi fechada; somente quando do seu reerguimento, em 1821, ela se filiou ao Grande Oriente Lusitano. Até mesmo a Loja União, também fundada no Rio em 1800, era irregular, e só após a adesão de algumas autoridades públicas foi refundada aparentemente de forma regular, modificando o seu nome para Loja Reunião. O próprio Areópago de Itambé, Pernambuco, fundado em 1796 e que alguns autores consideram a primeira Loja do Brasil, apareceu de forma irregular e foi mais uma associação maçonista simpática ao Rito Francês do que propriamente uma Loja justa e perfeita, tendo sido fundada por Manuel Arruda Câmara, ex-frade carmelita, botânico e médico formado em França na Faculdade de Medicina de Montpellier[26]. Essa Loja irregular veio a depender da primeira Loja regularmente estabelecida no Brasil, em 1797, como seja a dos Cavaleiros da Luz, fundada em São Salvador da Bahia e que foi a principal chama da Conjuração Baiana, indo influenciar o nordestino Estado vizinho de Pernambuco[27]. Em 1809, na mesma cidade do Salvador, atendendo às inúmeras Lojas que já existiam, foi fundado o Governo Supremo ou simplesmente Grande Oriente, a primeira Obediência Maçónica brasileira.

A influência maçónica no Brasil foi tão grande que chegou a influenciar a constituição do tecido urbano de certas cidades, sendo Paraty, no Estado do Rio de Janeiro, o exemplo mais notável. Ainda no século XVIII, as portas e janelasda maioria das suas casas foram pintadas em branco e azul, o chamado azul-hortência da Maçonaria Simbólica (constituída dos três primeiros Graus de Mestre, Compa-nheiro, Aprendiz). O seu arruador, António Fernandes da Silva, apesar de informar ter feito esse traçado “para evitar o vento encanado das casas e distribuir equitativamente o sol nas residências”, o facto é que deixou inúmeros sinais da presença e influência maçónica[28].

Nas ruas de Paraty, encontram-se em algumas esquinas três pilares (cunhais) de pedra lavrada indo formar o triângulo maçónico, o que explicará as ruas “entortadas” do arruador. Também as colunas das suas ruas formam um pórtico, uma à direita e outra à esquerda da porta de entrada das casas, em guisa de informar o visitante que essas eram moradas de maçons, e através da simbologia exposta poderia até saber-se do grau do maçom de cada residência. Outro exemplo típico é a proporção dos vãos entre as janelas, em que o segundo espaço é o dobro do primeiro, e o terceiro é a soma dos dois anteriores, isto é, A+B=C, ou seja, a soma das partes é igual ao todo, que se resume no rectângulo áureo da concepção maçónica.

Até as plantas das casas, feitas na escala 1:33.33, têm a marca da simbologia maçónica, desta feita da Ordem Filosófica cujo Grau máximo é o 33.º.

Por fim, Paraty possui 33 quarteirões e, na administração municipal da época, existia o cargo de Fiscal de Quarteirão, exercido por 33 fiscais.

A Loja União e Beleza, de Paraty, apesar de fundada em 1983, a lenda assegura que a sua fundação recua a 1700, ano em que ainda não existia a Maçonaria Especulativa ou Moderna mas que dispõe essa em estado ideal pré-criador da mesma encomiando a condição operática da Ordem, que o projecto da urbe tão bem testemunha.

Casa de Paraty (RJ)

Com tudo o dito, observa-se, pois, a Teosofia e a Maçonaria como as duas Colunas mantendo firme e resistente o majestoso Templo da Verdade, como esclarece o Professor Henrique José de Souza[29]:

“A Teosofia é a Sabedoria dos Deuses, no seu duplo aspecto de Amor e de Verdade. A Maçonaria, por sua vez, é a gloriosa Mensageira da Verdade e do Bem, que através dos séculos vem abrindo largo sulco de Caridade e de Justiça. Ambas se fundem numa só Força e Poder, porquanto representam as mais valiosas correntes para a organização do edifício social, os meios mais eficientes para a realização do sublime ideal da Hierarquia Oculta, a Fraternidade Humana, e ainda, o poder mágico e infalível de cada homem poder decifrar o misterioso enigma da sua Esfinge interna.”

Depois, em 28 de Setembro de 1962, em magnífica alocução oral voltou a referir-se ao assunto:

“Os Grandes Seres que dirigem o destino da Humanidade, principalmente Aquele que se acha à frente da Grande Obra para a América Latina, servem-se de todos os grandes centros de actividade espiritualista. A Maçonaria será, talvez, a que maiores serviços prestará à Causa que nos empolga, porém… já está entendido, passando pela grande reforma de que se vem ressentindo há tanto tempo…”

A preparação do Ecce Occidens Lux, a irromper com as futuras Independências dos países do continente americano, muito particularmente do Brasil, neste foi processo iniciado com o exílio de D. João VI para aí, indo estabelecer no Rio de Janeiro a capital do Império Português, substituindo temporariamente Lisboa, e com isso o Ex Oriens Lux tornando-se cada vez mais Umbra… Soerguia-se a Luz ou Sol do Ocidente, cujo eco maior ficaria no Grito do Ipiranga pelo futuro imperador do Brasil, desfecho de todos os esforços no país da Maçonaria: Independência ou Morte!

Independência de todas as formas de esclavagismo, sobretudo de si mesmo, desse “podre e gasto” homem velho, pelo ressuscito do Homem Novo, mais Justo e Perfeito, construtor e povoador de uma Nova Raça mais Fraterna e Humana, capaz de unir o Mundo numa Concórdia Universal. Este foi, é e será sempre, até à sua realização, o sonho dos Maiores da Raça desejando-a divinamente humana e humanamente divina. Utopia? Talvez seja. Mas também a maioria das utopias do Passado são hoje realidades usufruídas que ninguém as discute, nem sequer pensa quanto foi difícil e moroso realizá-las.

Para realização maior caminha hoje o Brasil Independente, e aparte todos as convulsões sociais próprias de um ciclo recém-finado, sem dúvida o seu destino último será a de realizar e partilhar a maior a maior das utopias: a Felicidade Humana.

NOTAS

[1] A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. I, pp. 208-212. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[2] De nome completo António Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva – São Paulo, 1.1.1773 – Rio de Janeiro, 5.12.1845. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, advogado, escritor e político, deixou publicados escritos de economia, poesia, política, etc. Partidário da separação entre o Brasil e Portugal, participou na Revolução Republicana de 1817, tendo estado preso até 1821. Deputado pelo Brasil às Cortes de 1821, teve papel de relevo na preparação da Independência do Brasil, vindo a ser, neste seu país natal, deputado, senador e ministro. Iniciado em Loja e data desconhecidas, foi o Grão-Mestre do primeiro Grande Oriente Brasileiro (1813-1818).

[3] De nome completo Francisco Gomes Brandão Montezuma (Bahia, 1794 – 1870). Jornalista e político, foi perseguido e expulso do Brasil por D. Pedro, tendo regressado em 1831 e vindo a desempenhar posteriormente funções diplomáticas em Inglaterra, e a ser senador e conselheiro de Estado. Recebeu o título de Visconde de Jequitinhonha. Em 1822, mudou o nome para Francisco Gé Acayaba de Montezuma. Fundou no Brasil (1832) o Supremo Conselho do Grau 33, reconhecido pela França no ano imediato e uma das potências signatárias do Tratado de Paris (1834). Desempenhou o cargo de Soberano Grande Comendador de 1832 a 1844, resistindo, durante nove anos, à cisão que instaurou no Brasil um segundo Supremo Conselho (1835) e mantendo o seu em regular funcionamento. Por decretos de 28.7.1840, concedeu o Grau 33 a Silva Carvalho, autorizou-o a fundar um Supremo Conselho em Portugal e confirmou o Consistório que por aquele acabara de ser instalado.

[4] João Vieira de Carvalho, Conde de Lajes (Olivença, 1781 – 1847). Oficial do Exército e fidalgo da Casa Real, foi educado no Colégio dos Nobres em Lisboa, e emigrou durante a 1.ª invasão francesa para o Brasil aonde se fixou e veio a atingir o posto de marechal de campo. Interveio na vida política brasileira, sendo senador e várias vezes ministro. Recebeu o título de 1.º Conde e 1.º Marquês (1845) de Lajes. Como Soberano Grande Comendador de um dos Supremos Conselhos do Grau 33 existentes no Brasil, autorizou (Novembro de 1840) Joaquim Elias Rodrigues da Costa, membro do Supremo Conselho a que presidia, a conferir o Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite aos maçons portugueses que o merecessem, “a fim de fundar um Supremo Conselho do Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite no Reino de Portugal”. Do facto resultou o Supremo Conselho Costa Cabral (junto ao Grande Oriente Lusitano), cujos trabalhos tiveram início em 1844.

[5] Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria, pp. 80-84. Editora Pensamento, São Paulo, 1974.

[6] A. T. Cavalcanti Dalbuquerque, A Maçonaria e a Grandeza do Brasil. Editora Aurora, Rio de Janeiro, 1955.

[7] Esta informação carece de comprovação, e a ter acontecido essa fundação maçónica da parte do Tiradentes seria só por benfeitoria e afeição ao patriotismo da Maçonaria, pois como maçom filiado ele não consta nos Anais do Grande Oriente do Brasil (nota VMA).

[8] Kent Henderson e Tony Pope, Maçonaria Universal (Um novo Guia para o Mundo Maçónico – As Américas). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2001.

[9] Orlando Soares da Costa, Maçonaria Adonhiramita, cinco volumes. Editora Europa, Rio de Janeiro, 1999.

[10] Joaquim Roberto Pinto Cortez, Fundamentos da Maçonaria. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2001.

[11] Eleutério Nicolau da Conceição, A Maçonaria na História e no Mundo (Origens-Lutas-Actuação). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004.

[12] Morivalde Calvet Fagundes, A Maçonaria e as Forças Secretas da Revolução. Editora Aurora, Rio de Janeiro, 1982.

[13] João Ferreira Durão, Pequena História da Maçonaria no Brasil. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2008.

[14] José Castellani, William Almeida de Carvalho, História do Grande Oriente do Brasil. A Maçonaria na História do Brasil. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2009.

[15] George David Henderson, Chevalier Ramsay. Ed. Thomas Nelson e Filhos, Londres, 1952.

[16] James Anderson, As Constituições dos Franco-Maçons. Editora do Grande Oriente do Brasil, Brasília, 1997.

[17] Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.

[18] Louis Guillaume Saint-Victor, Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite. Contenant les trois Points de la Maçonnerie Ecossaise, le Chevalier de l´Orient e le vrai Rose-Croix, qui n´ont jamais été imprimes. Philarethe, Philalelphie, 1785.

[19] Jules Boucher, A Simbólica Maçónica (Segundo as regras da Simbólica Esotérica e Tradicional). Editora Pensamento, São Paulo.

[20] . H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. II. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[21] Michel Monereau, Les Secretes Hermétiques de la Franc-Maçonnerie e les Rites de Misraim & Memphis, suivi de Crata Repoa – Initiations aux anciens mystères des prêtes d’Egypte. Éditions Axis Mundi, Paris, 1989.

[22] José Bonifácio de Andrada e Silva, Manifesto do Grande Oriente Brasileiro (Constituição). Rio de Janeiro, 1832.

[23] Isa Ch´an (Kurt Prober), Achegas para a História da Maçonaria no Brasil, volume I de III. Edição do autor, Paquetá, São Paulo, 1968.

[24] Gustavo Barroso, O Imperador e a Maçonaria. Revista O Cruzeiro, Dezembro de 1955.

[25] Maria Laura Ribeiro, D. Pedro I e a Maçonaria, volume VIII. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, 1972.

[26] Micheline de Souza Lira, A Confraria Maçónica de Itambé. Goiana, 1999.

[27] Sérgio Corrêa da Costa, As quatro coroas de D. Pedro I. Casa do Livro, Rio de Janeiro, 1972.

[28] Diuner José de Mello, Paraty: Roteiro Histórico do Visitante. Edição do autor, Paraty, 1976.

[29] Henrique José de Souza, A Minha Mensagem ao Mundo Espiritualista. Revista Dhâranâ, n.º 25 a 28, p. 40, 1928.

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