A Teosofia e a Lei da Polaridade – Por Zélia Scorza Pires Quarta-feira, Out 18 2017 

Quando uma obra de caridade é criada, frequentemente encontra ela muitos interessados; mas, se o seu progresso depender de estudos e pesquisas da parte de seus membros, o número dos adeptos da mesma obra diminuirá sensivelmente. Poucos são, na verdade, aqueles que, dentro de uma fraternidade, sentem atracção pelos estudos. O que se nota, para tristeza dos Deuses e atraso da Evolução Humana, é um permanente interesse pelos fenómenos psíquicos, chamados muito erradamente, por alguns, de “milagres”, e que em nada colaboram para o progresso espiritual da criatura humana.

Os verdadeiros milagres são sempre fenómenos naturais, realizados por Seres estudiosos das forças da Natureza. São os TAUMATURGOS – Seres que agem, verdadeiramente, dentro das Leis da Teosofia. Há, também, seres que, mesmo ignorando (aparentemente) as forças da Natureza, nascem com a missão de serem “canais” por onde o Poder Divino pode fazer fluir parte da sua força, a fim de aliviar o sofrimento humano.

Ora, estamos num ciclo em que os fenómenos psíquicos não mais deveriam ser encarados com tanto interesse. O que deve ser objecto de atracção para uma criatura humana interessada em evoluir, é o desenvolvimento da Inteligência, o despertar da Mente Superior, que é aquela que nos liga, definitivamente, ao nosso Deus Interior ou Centelha Divina. É esta Mente que fará de cada um de nós um Ser teosófico.

É, sem dúvida, um atraso imperdoável essa atracção pelos fenómenos psíquicos, pois isso significa permanecer num estado de consciência anímico, que foi o atributo desenvolvido na Raça Lemuriana, anterior à Raça Atlante, portanto. Ora, nós já estamos no final da Raça Ariana, quando deveria sobressair o Mental Abstracto, a Mente Superior, que é a Mente do raciocínio superdesenvolvido, do discernimento apurado, das ideias, da percepção das coisas subjectivas, das coisas dos Céus… No entanto, o que se vê é algo inteiramente diferente. Vê-se a quase totalidade das pessoas sentirem-se atraídas pelo animismo, cooperando, dessa forma, para um enorme e irrecuperável atraso na Evolução Humana. A Nova Era, que se aproxima a passos gigantescos, exige desta mesma Humanidade que dê, também, passos agigantados, no que se refere ao seu adiantamento espiritual, sob pena de não ser aproveitada para o Novo Ciclo uma grande parte desta mesma Humanidade. A Terra, segundo nos ensina o Mestre J.H.S., está com a sua rotação mais rápida. O tempo urge, portanto. É necessário que acompanhemos esta nova velocidade ou dimensão… Não há em tal exigência qualquer excesso, como poderia parecer aos não estudiosos do assunto. Trata-se da realização de um trabalho cósmico, que não pode ser prejudicado ou atrasado, pois abrange a tudo e a todos. Estamos no ciclo do rigor, do “ajuste das contas”… A época das súplicas e dos alertas dos Deuses já passou, pois que, lamentavelmente, tais súplicas e alertas não foram atendidas pelos homens, que, insensíveis, persistem nos erros. Referimo-nos aqui aos erros prejudiciais à colectividade, uma vez que os erros restritos, relativos a cada ser humano em particular, são, de certa forma, naturais, já que a Vida é “um perene cair e levantar”… à semelhança da Via Crucis de Jeoshua Ben Pandira, o Jesus bíblico, que mostrou, no seu trajecto até ao Gólgota, o que a própria Humanidade tem que passar para evoluir. Todos os nossos erros (desde que neles não reincidamos deliberadamente), após conscientizados, servem, admiravelmente, de experiências valiosas para a Evolução Humana. Há, porém, actos que são tão desastrosamente nocivos que chegam a atingir a toda uma colectividade, ao povo, à nação, à Humanidade e, finalmente, ao próprio planeta.

É o que se vê actualmente, com as sucessivas e catastróficas experiências nucleares, afectando a segurança da própria Terra e fazendo-a sofrer. Como diz o nosso Mestre, “sofrem até os animais no fundo dos mares”…

Será terrível o que vem por aí como consequência das nossas “brincadeiras” perigosas e irresponsáveis… Sobre tudo isso o nosso Mestre fartou-se de alertar, de suplicar mesmo… Nesse sentido, foram enviadas mensagens até mesmo à ONU, chamando a atenção para o perigo do degelo dos pólos, da energia nuclear “roubada” do Núcleo da Terra… Mas, a face da Terra continua a ser castigada impiedosamente. O tributo a ser pago por nós, por todos esses males impostos à Mãe Natureza, será pesado e doloroso, sem dúvida. Dele ninguém poderá escapar, pois o tempo da tolerância já se esgotou. De facto, atravessamos o ciclo dos efeitos, relativos às causas por todos nós geradas. Estamos num ciclo totalmente lunar, e a Lei do Rigor (KARMA) impõe ao Mundo a sua Justiça perfeita! É o Quinto Planetário agindo com o Rigor que lhe compete, em todo o orbe terrestre, a fim de realizar a selecção da SEMENTE ou dos “Eleitos do Novo Ciclo”!

Os Seres que já têm despertada a Mente Superior, Abstracta, não são compreendidos pelos medíocres e, como consequência, são sempre combatidos, perseguidos até, pois raciocinam muito além do nível da massa comum. Os grandes Génios (ou Jinas) são Seres Solares que raciocinam dentro das leis da TEOSOFIA e, por isso mesmo, sofrem ataques dos lunares, sendo por eles ridicularizados, escarnecidos e caluniados.

O mundo ainda está longe de ser um mundo teosófico, mas em todas as épocas, por mais difícil que tenha sido, sempre houve Seres que vivenciaram a TEOSOFIA, que tentaram, à custa de muitos sacrifícios, propagá-la. Graças a esses primorosos Seres, a TEOSOFIA, como uma rosa desfolhada, deixou, em várias partes do mundo, um pouco do seu precioso perfume…

Um dos aspectos mais importantes da MISSÃO do nosso Mestre, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, foi o de “despertar” a Humanidade para a TEOSOFIA, através do Movimento que , em sua primeira fase, tomou o nome de DHÂRANÂ, e que, em sua segunda fase, ficou conhecido como SOCIEDADE TEOSÓFICA BRASILEIRA, em homenagem à incomparável mártir do século passado, que foi Helena Petrovna Blavatsky, de cujo trabalho foi o nosso Mestre, neste século, o continuador, mas no sentido de ir adiante, ir além, vindo por isso a dar-lhe a designação própria de Teosofia Eubiótica, ao criar o neologismo EUBIOSE. Aliás, toda a vida do nosso Mestre constitui-se num exemplo incomparável de “vivência eubiótica”, razão por que ela só foi compreendida por aqueles que alcançaram, realmente, a condição de discípulos verdadeiros. Discípulos verdadeiros de J.H.S. são aqueles que aceitam e vivem a TEOSOFIA EUBIÓTICA. Ora, viver a EUBIOSE é transformar o Eu inferior, animal, em Eu Superior ou Divino. O homem educado, desde pequenino, eubioticamente, viverá sempre em harmonia com as Leis da Natureza e será, no futuro, um homem superior (ou “super-homem”, no sentido filosófico). Eis porque a Humanidade do Futuro será uma Humanidade feliz, harmónica, perfeita…

Todos nós somos uma miniatura do Universo e, também, um espelho que o reflecte. Enquanto não vivermos em sintonia perfeita com ele, seremos como um espelho partido, a reflectir imagens deformadas. Eis uma das razões para a crença popular que afirma “dar azar” o espelho partido. Sim, porque enquanto a Personalidade reflectir imagens defeituosas, não estará adequada a ser veículo de expressão do nosso próprio Ego Divino ou Deus Interior. A palavra EUBIOSE é composta pelo prefixo grego EU, que quer dizer “bem, belo, excelente”, e BIOSE, “vida, vivência”, de fácil adaptação, próspero (na mais alta acepção espiritual), de fácil adaptação às Leis do Universo!

Como todos devem saber, nas escolas e nas faculdades os estudos não são de natureza teosófica, pois estão muito distanciados da Lei Universal e da Ciência Iniciática, além de contrariarem, na maioria das vezes, as verdadeiras tendências e anseios dos alunos pela forma como são apresentados. Os estudos num verdadeiro Colégio Iniciático, como é o nosso, obedecem a uma outra sistemática, sendo dados, em grande parte, de modo teatralizado, pois que são encenados ritualisticamente, para que haja a vivenciação, pelo discípulo, dos ensinamentos do nosso Mestre. Tem-se, neste caso, a educação e a instrução, simultaneamente. Conforme afirma um Grande Ser (Dr. Maurus), a Instrução refere-se à Inteligência e a Educação refere-se à Emotividade. Diz Ele ainda que “uma instrução que cansa, uma educação que oprime, não é eubiótica… Deve-se pôr o educando em condições de continuar aperfeiçoando-se por si mesmo, quando já não esteja sob a direcção dos seus mestres”… Foi justamente isso que o nosso Mestre, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, fez com os seus discípulos.

Dando-nos as necessárias “ferramentas”, resta agora manejá-las com equilíbrio, sem fanatismos, pois o exagero, em tudo, é sempre nocivo, prejudicial, doentio. Por isso mesmo, é preferível não se crer em coisa alguma a se tornar um fanático. Continuando, diz o mesmo Grande Ser que “é desbiótica (e, portanto, nociva) a preguiça, a avareza, o orgulho, a vaidade, e muito pior que todas elas, o egoísmo”.

Com a teatralização do ensino em nosso Colégio Iniciático, o aluno sincero aprimora o físico, o emocional e o mental. Aprimora o físico porque as músicas (mantrans) e as yogas da nossa Obra têm o poder de transformar, aos poucos, os órgãos físicos, de modo a torná-los mais sensíveis à espiritualidade. Esta transformação não se opera só visivelmente, mas sobretudo internamente. Vai ocorrendo uma lenta e progressiva sublimação desses órgãos, cujos resultados se fazem notar na parte emocional ou psíquica. Por seu lado, as emoções grosseiras, banais, fúteis, inferiores (e sempre prejudiciais), vão sendo transmutadas em emoções nobres, subtis, delicadas, superiores, dando como resultado um aumento considerável do potencial do intelecto, transformando-o em Inteligência Superior, em Sabedoria Divina.

A Mente passa, então, a raciocinar abstractamente, ou seja, passa a usar a Razão superior, que é o elo que nos permite o desenvolvimento de atributos ainda mais subtis dos estados de consciência mais elevados, ligando-nos de vez ao TODO, a DEUS, do qual, um dia, todos viemos, o que nos comprova que a TEOSOFIA sempre existiu em nosso próprio interior, tendo sido por nós esquecida, ficando adormecida, entorpecida pelos múltiplos aromas emanados dos vários Planos em que se manifesta a Vida Universal. Com o despertar da Mente Superior ou Abstracta, realiza-se uma espécie de “Eucaristia Mental e Coracional”, fazendo com que se transborde, aos poucos, o Conhecimento Divino, que é a mesma TEOSOFIA, e que todo o ser humano traz, latente, dentro de si… Esta Sabedoria Divina já existe, portanto, como uma “enciclopédia orgânica”, impressa dentro de cada ser humano, faltando apenas, a cada um, abri-la, folheá-la, o que se consegue fazer através dos vários renascimentos e mortes, ou seja, das sucessivas reencarnações. É a chamada Roda da Vida.

Dentro do simbolismo da nossa Obra, a POLARIDADE (ou Dualidade) manifesta-se como “Face do Rigor” e “Face da Misericórdia” ou “Face do Amor”… Para seguir as Leis da Teosofia Eubiótica, a criatura humana tem que expressar, em si mesma, essas duas “Faces”, equilibrando-as. A do “Rigor”, para consigo mesma, para com os seus pensamentos, as suas atitudes, solicitações íntimas, etc., mantendo-se, em consequência, sempre respeitosa para com as coisas divinas, ou seja, trabalhando com dedicação para a rápida realização dos planos da Lei. Sim, porque nem todo o trabalho é eubiótico. A esse propósito, diz o mesmo Grande Ser que há pouco mencionámos que “não é eubiótico o trabalho que desperdiça as faculdades em vez de desenvolvê-las; não é eubiótico o que esgota as forças além do reparável; não é eubiótico o trabalho que não deixa uma sensação de prazer ou de felicidade”… Quanto à “Face da Misericórdia” (ou do Amor), devemos manifestá-la para com todas as pessoas e coisas, mesmo quando recebemos ofensas e calúnias. Assim foi HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA; assim é a TEOSOFIA, que pode ser resumida nas três palavras: Trabalhar, Amor e Perdoar… Esse é o lema do nosso Mestre e é o que Ele espera dos seus discípulos. A “Face do Rigor” expressa a Justiça, o Poder Temporal, o Poder realizador, o Poder de comando, o Poder guerreiro (mas o verdadeiro, que é o da luta contra a ignorância), e a “Face da Misericórdia” (ou do Amor) expressa a Redenção, a Bênção, a Salvação, a Compaixão, a verdadeira Mística, a Revelação, etc.

A Consciência Cósmica (ou Deus), em sua função criadora, é sempre dual ou polarizada.

Assim sendo, a POLARIDADE é o aspecto básico da Manifestação, do Demiurgo! As Centelhas, saídas da Consciência Universal dual ou polarizada, constituem as Mónadas Humanas. Seguindo o caminho evolucional, as Centelhas atravessam os vários Planos da Forma, atraindo para si os elementos materiais de cada Plano. Desse modo, elas atraem para si a matéria chamada RAJAS, que representa a Emoção, formando a Alma ou Corpo Psíquico. Uma vez formada a Alma, as Centelhas continuam a sua trajectória evolucional e atraem a matéria denominada TAMAS, que é a mais densa, constituindo com ela o Corpo Físico. Essas matérias (ou energias), chamadas RAJAS e TAMAS, representam-se de forma mais subtil ou menos subtil, conforme os Planos e subplanos em que é repartida a Vida Universal. Na marcha da Evolução, a polaridade “latente” nas Centelhas ou Mónadas Humanas se desprende e cada parte adquire corpos adequados à sua vibração, sendo cada qual contraparte perfeita do outro, isto é, conformando pares ou casais, que devem se identificar nos vários Planos da Matéria. É a essa união espiritual (ou “casamento cósmico”) que se refere a conhecida frase: “O que Deus uniu, o Homem não pode separar”… Esse é o significado da tradição de Adão e Eva.

É a “maçã inteira”, que pode simbolizar a Centelha Divina ou Mónada Humana, e a “maçã partida” ou “provada”, que pode simbolizar a polaridade, ou os casais.

Apesar da frequência vibratória dessas Centelhas ou Mónadas ir-se modificando à medida que atravessam Planos mais densos, no entanto, elas mantêm intactos os dons divinos que lhes são próprios. No Plano da face da Terra, podemos considerar esse dom divino como sendo a Voz da Consciência ou o Deus Interior. Cada Mónada Humana (completa, isto é, polarizada) tem uma finalidade de ser e de existir que lhe é dada pela Consciência Universal: é a missão de cada um… seja ela grande ou pequena, pouco importa, pois todas fazem parte dos planos divinos. No interior de cada um pulsa o verdadeiro Ser, que no seu aspecto universal é chamado de Homem Cósmico, e que é o mesmo JEHOVAH das Escrituras Sagradas. Em seu aspecto polarizado esse Homem Cósmico é o mesmo ADAM-KADMON das tradições cabalistas, o qual, na face da Terra, é conhecido como ADAM-HEVE ou Adão e Eva!

O DEVER de cada ser humano é procurar conhecer esta Lei que vive dentro de si mesmo, e cumprir a missão para a qual foi destinado. Por isso, a Iniciação realizada num verdadeiro Colégio Iniciático, como é o nosso, concede aos discípulos as preciosas “ferramentas” para uma rápida conscientização. Sem a Iniciação Real, a ampliação da consciência processa-se lentamente, podendo até ocorrer que o total dos renascimentos concedidos pela LEI não seja suficiente para certas criaturas. De certa forma, a Humanidade passa, actualmente, por uma Iniciação Real, que é a do sofrimento, a do chamado “resgate kármico colectivo”, como prestação das dívidas acumuladas em vidas passadas.

Eis, pois, a razão do existir: sabermos quem somos, de onde viemos e para onde vamos. São as três enigmáticas questões da Esfinge propostas a todos os Peregrinos da Vida, que somos todos nós. Essas perguntas, no entanto, deixam de ser enigmáticas para todos os que se iniciam nos Grandes Mistérios! A própria LEI estabelece, na Suprema Perfeição, que o ser humano que não lograr se conscientizar plenamente da razão do existir, ao longo das 777 encarnações previstas, ficará fora da Roda da Evolução. Uma famosa sentença, de grande sabedoria, afirma que “a caravana passa, embora ladrem os cães”… Ela demonstra a dinâmica da Evolução, pois a “caravana” é a própria Lei Evolucional em sua marcha para o Infinito, e os “cães” representam os seres que falam muito mas que não resolvem nada, que não querem esforçar-se para evoluir. Os valores espirituais são, pois, os únicos que seguem connosco após a morte do corpo físico. Para que haja um acúmulo de tais valores (como verdadeiras pérolas no colar da Divina Mãe), a LEI concede a cada ser humano a oportunidade de 777 vidas (ou renascimentos), para que no final desse prazo (que abrange milhões e milhões de anos) cada um tenha se encontrado, isto é, tenha despertado o seu Deus Interior.

O Eu Superior (ou Divino) à medida que vai descendo nos Planos Inferiores ou Humanos, vai perdendo a noção da sua realeza em virtude da crescente densidade dos Planos, por isso mesmo chamados de “Planos tenebrosos da Matéria”… e que facilmente iludem a todos e mais ainda aos que não mantêm a Vigilância dos Sentidos, como bem diz a nossa Grã-Mestrina D. Helena Jefferson de Souza.

Para escapar dessas mayas (ou ilusões) há que se praticar o “Vigiai e Orai” recomendado por Jeoshua Ben Pandira, o Cristo, e que é a mesma Vigilância dos Sentidos.

O processo de Evolução, que é representado pela Roda da Evolução ou a divina Cruz Suástica (a positiva, portanto), consiste em fazer voltar ao seu ponto de origem as Mónadas Humanas (ou Centelhas Divinas), porém trazendo as experiências acumuladas durante os milénios e milénios de existência nos vários Planos em que é repartida a Vida Universal.

Vimos, anteriormente, que a POLARIDADE é a Lei da Manifestação. Assim, temos os mais variados pares de opostos, como por exemplo: o dia e a noite, a sabedoria e a ignorância, o espírito e a matéria, o bem e o mal, o quente e o frio, o positivo e o negativo, a luz e a treva, o homem e a mulher, a força centrífuga e a força centrípeta, a alegria e a tristeza, o oriente e o ocidente, a sinarquia e a anarquia, o amor e o ódio, o movimento e o repouso, o nascer e o morrer, o inspirar e o expirar, o fogo e a água, o plantar e o colher, a suástica e a sovástica, a vigilância e o sono, o círculo e o quadrado, o anjo e o assurim, o Amor de Deus e a Ira de Deus, a paz e a guerra, , a Luz de Deus e a Sombra de Deus, Deus e Diabo, etc., etc.

Todos esses pares de opostos filosóficos que citámos são apenas alguns exemplos da Lei da Polaridade manifestada em todo o Universo. A frequência vibratória e o estado de consciência de todos os elementos existentes, variam conforme os Planos a que pertencem. Os elementos fogo e água nos Planos mais subtis, por exemplo, não podem ser comparados com os elementos fogo e água que conhecemos no nosso Plano, pois são reflexos daqueles. Assim também o é em relação ao Sol que nós vemos, que é reflexo ou espelho de um outro Sol, o SOL CENTRAL existente no interior da Terra, conforme ensina o nosso Mestre J.H.S.

O homem teosófico é um Homem Verdadeiro, no seu alto sentido, e é assim definido pelo Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA: “O Homem Verdadeiro, estando colocado no centro, não participa mais do movimento das coisas, mas na realidade dirige esse movimento, por sua simples presença, porque nele se reflecte a Actividade do Céu”… Tal Ser usa, com assiduidade, a Linguagem do Segundo Trono (Céu), que é doce e branda. Foi esta Linguagem que deu origem à poesia, à música, ao ritmo, à harmonia, ao bailado sagrado, à divina estética e à delicadeza de costumes. Tal Linguagem fica gravada no espaço sonoro do AKASHA Médio, que é uma espécie de biblioteca do Universo. Se os cientistas, dentro da avançada tecnologia moderna, descobrissem um aparelho capaz de captar o que vibra no AKASHA Médio, poderiam ouvir a Voz dos Grandes Mestres do Passado, dos Avataras, que são “Manifestações de Deus” ou a “Descida da Lei” em corpo físico, humano.

A nossa Obra é um Trabalho Universal.

Revista Aquarius, Ano 3, N.º 12, 1977

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Padre António Vieira, o Paiaçú da Cultura Luso-Brasileira – Por Hugo Martins Terça-feira, Out 3 2017 

No passado dia 23.6.2017, no Largo Trindade Coelho junto à igreja de São Roque, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi inaugurada a estátua do padre António Vieira, única no País, da autoria do escultor Marco Fidalgo. Local marcado por forte carga simbólica e pela intensidade dos sermões proferidos pelo religioso nesta igreja, Vieira foi o jesuíta aclamado pelos tupinambás, tupis, aimarés, etc., autóctones do Brasil, o Manu ou Paiaçú, “Grande Pai”, carinhoso protector dos índios, dos escravos, dos negros, dos judeus, das crianças desamparadas, enfim, dos desprotegidos da sorte, ao par de escritor profícuo de verbo inflamado propagador do ideal português de Quinto Império, eivado de conceitos herméticos tendo-lhe valido a prisão várias vezes, sob suspeita de heresia, nos cárceres da Inquisição em Coimbra e Lisboa; também por isso, foi consignado vate e “Imperador da Língua Portuguesa” pelo grande poeta Fernando Pessoa. É no encontro com esta personagem singular marcante da religiosidade e cultura luso-brasileira, iluminado por excelência no conceito salvífico de iluminação espiritual do Mundo no seu derradeiro V Império ou Tempo de Espírito Santo, que hoje celebramos e honramos a sua vida profícua, o seu ideal de vida e a sua vida intelectual cujo legado deixado nos seus inúmeros escritos é património da Humanidade, dedicando-lhe este pequeno artigo, em guisa de bosquejo biográfico,  ficando para memória pública do leitorado geral.

A Companhia de Jesus e o Sacerdócio

O Padre António Vieira (Lisboa, Bairro da Sé, 6.2.1608 – São Salvador da Bahia, Mosteiro de Jesus Salvador, 18.7.1697), numa abordagem simplificada, pode se definir como orador e escritor, nisto sendo também patriótico, simpático incontestável do partido do duque de Bragança, futuro rei D. João IV, filantropo e caritativo na execução constante da maior das virtudes teologais, a caridade, e sebastianista possuído de ideais heterodoxos afins à “transladação imperial” (translatio imperii) de cunho lusíada que chocaram frontalmente, inúmeras vezes, com a ortodoxia romana vigente. Filho de pais de condição modesta, as suas origens surgem dos percalços de um amor proibido que se sobrepôs à visão moralista e segregacionista da sociedade de então. O seu avô, criado dos condes de Unhão, enamorara-se de uma mulata que também os servia. Expulsos da casa senhorial, foram depois readmitidos nela, porque o “pecado” do amor acabara tendo no casamento a sua sagração aceite pela Igreja. Este episódio dá a Vieira origem africana e inclusive herdando ele próprio o aspecto mulato, se bem que na sua biografia sejam incertas e mínimas as referências ao facto, mesmo com isso dando-lhe a força vigorante de um crisol de raças que defenderia calorosamente da prepotência dos poderes políticos e religiosos instituídos, como foram os judeus segregacionados na Europa, os negros escravizados de África e os índios perseguidos no Brasil.

Em 1614, com 6 anos de idade, partiu com a sua família para o Brasil, instalando-se na então capital São Salvador da Bahia, por o seu pai servir na Relação então criada, o que o obrigou a vir buscar a família. Foi nessa cidade, no colégio dos jesuítas, que António Vieira passou de aluno aplicado a noviço dedicado, com 15 anos de idade. Relata-se que isso relaciona-se com o episódio de certa noite, fortemente impressionado com o que ouvira no sermão de padre Fernando Cardim acerca do Inferno, o rapaz fugira da casa paterna para ir pedir aos religiosos que o admitissem como noviço na Companhia.

Às prodigiosas capacidades do estudante não faltavam as virtudes que melhor as poderiam fecundar. Era faminto de saber e ainda mais do prazer de agir, a ponto de – conforme declara na sua defesa perante a Inquisição – numa fase do seu noviciado ter feito voto de dedicar-se exclusivamente à actividade de catequizador dos índios, renunciando à exclusividade da ortodoxia do sacerdócio indo aprofundar-se no conhecimento das línguas indígenas, necessárias para essa missão. Os seus superiores quiseram desviá-lo desse propósito e demovê-lo de tal voto. Os talentos do jovem estudante eram demasiado elevados e raros para serem despendidos em misteres que outros, de bem mais modestas capacidades, bem o podiam substituir. Mas sem o desviar inteiramente dessa devotado vocação pela actividade pastoral junto dos menos favorecidos, a quem tantos e generosos esforços haveria de consagrar, desde cedo foram-lhe confiadas missões onde as suas elevadas aptidões tiveram oportunidade de brilhar. Mesmo antes de receber a ordenação sacerdotal, em 1635, estreou-se como diácono no púlpito e na catequese dos índios. Em 1640, na igreja de Nossa Senhora da Ajuda de Salvador da Bahia, pregou o célebre Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, abominando a perseguição aos índios pelos holandeses, protestando a ilegitimidade da sua presença no solo português da colónia, defendendo a legitimidade soberana de D. João IV de Portugal, revelando assim o seu alto senso patriótico.

A Corte de Lisboa e a Defesa dos Fracos – Índios e Judeus

De 1641 a 1652 ocorreu a sua primeira estadia na Europa, e no ano de 1644, retido pelo rei, António Vieira vem a Portugal acompanhando D. Fernando de Mascarenhas, filho do vice-rei, para prestar homenagem ao novo monarca, D. João IV. Este a quem ele próprio, no seu Sermão dos Bons Anos, transferiu a fé e a incarnação que os sebastianistas depositavam no rei perdido, D. Sebastião, em Alcácer Quibir. Ganhou o prestígio e a protecção do monarca que o elegeu pregador da corte, e a sua influência foi intensa a ponto de mover o clero, a nobreza e o povo na contribuição, em móveis, imóveis e pessoas para a Guerra da Independência do jugo filipino de Espanha, teimosa em manter-nos numa forçada união que durante 60 anos procurou transformar em sujeição: Vos estis sal terrae (“Vós sois o sal da terra”), foi o termo impulsionador que utilizou em 13 de Junho de 1654 no seu Sermão de Santo António aos Peixes, como exórdio aos homens, pregado na igreja de S. Luís do Maranhão, no qual revela grande sagacidade no manejo e aplicação da simbólica aos conhecimentos teológicos e cosmográficos da época, aplicando-a, por exemplo, numa analogia dos três elementos naturais com os três estratos sociais: fogo/clero, ar/nobreza, e água/povo. Além de pregador real, também foi confessor e conselheiro do rei, que o nomeou embaixador do reino, encarregado de espinhosas missões, em França, Holanda e Itália.

De 1652 a 1661, António Vieira está no Brasil, por licença régia, não para repousante trégua da sua pugnacidade mas para retomar a vida missionária, aplicando-a a nova luta. Levou consigo um decreto real para a libertação dos índios. Esta luta seria agora contra os colonos ricos, donos de fazendas e roças, cuja economia não podia evitar as entradas no sertão, a caça aos índios para os fazer escravos necessários aos trabalhos forçados dos engenhos de açúcar, dos cafezais e de quanto mais se cultivava na terra. Provocou as reacções violentíssimas violentas dos colonos – momento alto foi quando pregou os então famosos Sermões do Rosário e de Santo António aos Peixes. Sobre a escravatura do índio, colocou na sua defesa as seguintes palavras:

“O que não são [os índios], sem embargo de tudo isto, senão escravos […], nem ainda vassalos. Escravos não, porque não são tomados em guerra justa; e vassalos também não, porque, assim como o espanhol ou o genovês cativo em Argel, contudo é vassalo do seu rei e da sua república, [também] assim o não deixa de ser o índio, posto que forçado e cativo, como membro que é do corpo e da cabeça política da sua nação, importando igualmente para a soberania da liberdade, tanto a coroa de penas como a de oiro, e tanto o arco como o ceptro.”

Adiantando dirigindo-se directamente à aristocracia agrária do Maranhão: “Só resta a última razão, ou sem razão, por que os senhores desprezam os escravos, que é a vileza e miséria da sua fortuna. Oh fortuna! […] Virá tempo, e não tardará muito, em que esta roda dê volta, e então se verá qual é a melhor fortuna, se a vil e desprezada dos escravos ou a nobre e honrada dos senhores”. Rematando: “[…] solteis as ataduras da injustiça, e que deixais ir livres os que tendes captivos”.

Nessa sua acção missionária, marcadamente revolucionária, despendeu enorme esforço pastoral na tentativa de mudar as mentalidades, tendo até conseguido do rei dispositivos legais contra os excessos inumanos do colonato, num autêntico apostolado em nome da Companhia de Jesus. Isto gerou-lhe a antipatia feroz não só dos senhores escravocratas, mas igualmente de outras ordens religiosas, como a Dominicana e a do Carmo, rivais do Apostolado Inaciano, às quais não se estenderam os privilégios e vantagens feitos à Companhia. A oposição sobretudo político-económica chegou ao ponto de depois, no século XVIII, os jesuítas serem expulsos do Brasil, ao grito de: Abaixo os urubus! Fora os urubus!

Na sua segunda estadia na Europa (1661-1681), marcada pelo Sermão da Epifania perante a rainha regente de Portugal D. Luísa de Gusmão e da sua corte na Capela Real de Lisboa, em 1662, Vieira defenda a Missão no Maranhão como lugar onde ocorreu a Segunda Criação e onde ocorrerá a Segunda Epifânia. Prova a responsabilidade da Coroa Lusitana com a propagação da Fé mediante três alegorias factuais: a alegoria da Criação do Mundo, a alegoria da conversão dos Reis Magos e a alegoria do Bom Pastor. Nessa sua transposição do texto bíblico ao messianismo nacional, Vieira revela abertamente a sua afeição ao milenarismo hierático que haveria de atirá-lo nos cárceres da Inquisição em Coimbra (1665-1667).

António Vieira, na metrópole, já não possuía a mesma protecção que tivera antes de D. João IV, antes encontrava uma corte hostil inteiramente diferente daquela que o favorecera e que se formara em torno do novo rei D. Afonso VI, sob a administração do Conde de Castelo Melhor, primeiro ministro plenipotenciário. Mas o bom padre jesuíta não tinha contra si apenas o ódio dos escravocratas de aquém e além-Atlântico: contava ainda com a oposição dos inimigos do judaísmo, enfurecidos por tudo quanto ele obtivera de D. João IV a favor da gente-de-nação – os judeus batizados – cujos recursos económicos e fiduciários haviam contribuído, e esperava-se obter maior contribuição ainda, para a defesa da Monarquia e da Independência Nacional em perigo. Sobretudo, eram contra ele os dominicanos do Santo Oficio, alarmados, na rigidez da sua teologia segregacionista, com a proclamada ideia do Quinto Império Português, a qual naturalmente acolheria os hebreus, os africanos, os árabes e os índios do Brasil, todos convertidos no batismo em Cristo. O grande missionário, nos longos e místicos solilóquios durante as suas andanças pelo sertão brasílico, lendo o Livro de Horas e lembrando as profecias bíblicas ajustadas ao conceito de Quinto Império Universal que partiria de Portugal, reconhecia que essas promessas divinas haveriam de cumprir-se, por serem o único meio legítimo na Palavra de, num prazo compatível com a Vontade de Deus, poder realizar-se a cristianização da Humanidade inteira. Mas por meios exclusivamente humanos ou ordinários, dizia-lhe a experiência ser impossível tal sonho, tamanha utopia tornar-se realidade. Mas quem seria o Soberano desse Quinto Império? Cristo assegurado por São Bento alumiado pelo Divino Espírito Santo? Poderia ser, a escritura sagrada o assegurava. D. Sebastião assegurado por seu homónimo S. Sebastião? Também poderia ser, já que no Quinto Império do Mundo o trono (rei) estará colado ao altar (santo). O Soberano do Quinto Império é o Rei do Povo (Humanidade) que, mais do que nenhum outro, em lonjura de tempo e largueza de espaço, empenha-se em colaborar com Deus Pai (Patris) na efectivação do seu Reino (Pátria). Sobretudo o Povo que os profetas nacionais – Gonçalo Anes o Bandarra, principalmente – indicavam como o Eleito de Deus para tal Missão, ou seja, o Português de Porto-Graal, conforme está no sinal redondo afonsino.

Processo de Inquisição e Processo de Defesa

É neste ponto que gostávamos de deixar ao leitor, antes de descrever o processo, a homenagem ao grande historiador e ensaísta Hernâni António Cidade, responsável pelo estudo e divulgação do processo inquisitorial de António Vieira publicado em edições sob o título Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, na Universidade Federal de Salvador, Bahia, 1957, e depois em dois grossos volumes pela Editora Arcádia, Lisboa, insertos na colecção “A Obra e o Homem”, 1979. Posto isso, avancemos para o Processo de Inquisição ou Inquirição ao padre António Vieira.

Padre António Vieira (quadro em óleo sobre tela, 90 x 66 cm, autor desconhecido). Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Após a morte de D. João IV, seu protector, a vida do padre António Vieira complicou-se pelo número de inimizades geradas, não só pelo humanismo e senso de justiça social da sua acção missionária, incansável e sincera, mas também pelo idealismo hierático com que encarava e expunha, à luz das visões proféticas da Bíblia e dos biblicistas, a História do Mundo. O leitmotiv da acusação contra ele foram as cartas que enviara ao seu amigo e irmão de Companhia, o bispo do Japão, André Fernandes, nas quais expusera a sua tese acerca do já referido Quinto Império Universal, considerada próxima ou mesmo herética por sua proximidade às ideias messiânicas do judaísmo. Denunciada essa correspondência incriminatória e sem alternativa para proteger o seu amigo, o bispo André Fernandes foi obrigado a entregá-la ao censo do Tribunal do Santo Oficio, vindo a constituir a base de acusação de heresia ao padre Vieira que na ocasião estava em Coimbra onde foi detido.

A Inquisição, convocando-o à mesa do Santo Tribunal, sabendo-o já sem a protecção do rei e da corte, deu largas ao seu ódio contra o santo padre. Durante dois anos têm-no detido com residência fixa numa casa de repouso ou retiro da Companhia, nos arredores da cidade coimbrã. Depois encarceram-no e retêm-no mais dois anos, sob a acusação de heresia e conspurcação da fé tomando ad litteram o texto de Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda Vida de el rei D. João o Quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo Padre António Vieira. Acusaram-no de anunciar a ressurreição de D. João IV, entretanto morto, com base no judaísmo de Bandarra, e augurar para esse rei um império ao mesmo tempo espiritual e temporal, de grandeza jamais sonhada, cuja cabeça seria Portugal. Tomando a sua própria defesa perante o Tribunal do Eclesiástico, António Vieira fê-la vigorosamente demonstrando profundo conhecimento teológico, político-social, argúcia e técnica retórica; o inquisidor Alexandre Silva, encarregado dos interrogatórios, teve de aceitar a sua derrota perante aquela inteligência lúcida servida por poderosa dialética, que a doença não chegava para destruir. Só em 1667, velho achacado já cansado de lutar, aceitou as censuras e confiou na piedade do Sacro Tribunal, na estreita cela da sua prisão, doente, cada vez mais enfraquecido por hemoptises frequentes, agravadas por sangrias, normais na medicina do tempo; desdenhando isso, constantemente, várias vezes por dia, os “santos” inquisidores arrancavam-no do cárcere, arrastavam-no para a mesa da inquirição e, à vista da ameaça dos instrumentos de tortura, sujeitavam-no a cerrados e longos interrogatórios, procurando obrigá-lo a reconhecer de viva voz e por escrito que as suas proposições eram de heresia, ao que ele contrapunha sempre que as mesmas não eram heréticas por não transgredirem a ortodoxia da escritura sagrada, tanto na parte velha como na nova. Por fim, ao ouvir que o próprio Sumo Pontífice Clemente X declarara a sua doutrina como confusa da fé, sucumbiu, deu-se por derrotado, mas não sem antes entregar ao Conselho Geral do Sacro Tribunal a sua Representação ou Defesa que foi escrevendo no cárcere, sem outro auxilio senão não o da memória. A leitura da própria Bíblia fora-lhe proibida, só lhe sendo consentido o manuseio do Breviário. Apesar de tudo, foram numerosíssimos os sábios convocados ao conclave teológico que, ao apelo da sua memória, em espírito se reuniram no seu cárcere, dando-lhe apoio e fornecendo-lhe argumentos. A defesa de António Vieira é densíssima em erudição e poderosíssima em dialética. Nela há surtos admiráveis de eloquência, às vezes veemente, às vezes lírica, sempre certeira. Também não faltam as amargas reacções contra a injustiça dos homens e, segundo o providencialismo de Vieira, o abandono de Deus…

“Mas é Deus tão bom e liberal, que os prémios com que paga uma pequena faísca de zelo, ao mais indigno operário desta vinha, são, como diz o mesmo S. Paulo, vincula et carceres!”

Apesar de tudo, o grande jesuíta, o genuíno apóstolo de Jesus, foi condenado na tarde de sexta-feira de 25 de Dezembro de 1667 (in Torre do Tombo, Lisboa, Manuscritos da Livraria, n.º 2453). Ele sucumbira dando-se por vencido, quando foi informado de que a sua alegada teimosia já não era apenas contra os juízes da mesa do Tribunal mas também contra o próprio Sumo Pontífice. Resignou-se, cessou de opor-se, aceitou o destino a que os homens, no seu abandono de Deus, o condenavam. Quando foi mandado levantar para ouvir a leitura da sentença, deu-se um episódio curioso. Todos os seus irmãos em religião, presentes, levantaram-se com ele. Todos sentiram que o golpe atingia a Companhia inteira, assim desferido pela rivalidade dos dominicanos. A condenação privava-o de voz activa e passiva, fixava-lhe residência em Colégio da Companhia, que a Inquisição escolhesse, que seria a Casa do Noviciado em Lisboa, e sobretudo proibia-o de escrever e pregar!

Processo Inquisitorial do padre António Vieira. 1659-04-29 / 1668-06-30. Portugal, Torre do Tombo, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 1664.

Mas a pena condenatória não duraria muito tempo. Durante esse período ocorreu o golpe de Estado que repusera no poder os seus amigos – Infante D. Pedro e seus partidários – e fizera de D. Afonso VI o prisioneiro do Palácio de Sintra, e de Castelo Melhor o exilado de Inglaterra e de Milão. Esse acontecimento veio abreviar-lhe a condenação. Logo que foi posto em liberdade, não tardou a procurar, em Roma, refúgio contra o recrudescimento das oposições provocadas, e num Breve Pontifício a isenção pessoal da jurisdição inquisitorial portuguesa. Por súplica do Provincial da Companhia de Jesus, dirigida ao Santo Ofício, foi solicitada a anulação e perdão das penas que foram impostas ao padre Vieira. O pedido foi aceite por despacho do Conselho Geral do Santo Ofício, em 12.6.1668. Em 30.6.1668, o réu foi chamado à Casa do Despacho da Inquisição de Lisboa, onde lhe comunicaram o respectivo perdão e assinou o seu termo. Meses depois, com licença régia, em Agosto de 1669, o padre António Vieira partiu para Roma.

Ei-lo de novo na posse de si mesmo e da liberdade para os seus voos de águia. Viveu em Roma, Itália, de 1669 a 1675, pregando então algumas das suas melhores peças oratórias. Fulgurou nos púlpitos, pregando já em italiano, já em português, e não deixou de manobrar junto da Cúria a favor das pretensões que os cristãos-novos apresentavam contra o Santo Ofício português. A rainha Cristina, da Suécia, que para a cidade eterna havia transferido a sua corte, teve-o como pregador régio, e nos seus salões o sábio e santo jesuíta encontrou o melhor acolhimento da sua pessoa e os maiores aplausos ao seu génio.

Regressou a Portugal em 1675, logo encetando a publicação dos seus Sermões. Mas não se reteve muito tempo na corte lisboeta, que, sob regência de D. Pedro II, e apesar de escandalosamente lhe ter lisonjeado o casamento com a cunhada e a rapidez do aparecimento do primeiro filho, já não lhe dava já o acolhimento a que D. João IV o habituara.

Em 1681, iniciou a sua última estadia no Brasil: no retiro da Quinta do Tanque, na Bahia, preparou as suas obras para a impressão. Entre 1688 a 1691, apesar dos anos, ainda exerceu alto cargo de Visitador do Brasil. Dessa maneira, em Salvador prosseguiu a actividade pastoral e literária que a velhice, em crescimento acelerado, não conseguia pôr cobro. Preparou a publicação dos seus Sermões e continuou escrevendo as suas Cartas, sempre interessado pelas coisas deste mundo, no seu espírito missionário de homem feito para a acção, ele que um dia, já distante, escrevera:

“Sabei, amigo, que a melhor vida é esta (a que lhe decorria na actividade missionária no Brasil). Ando vestido de um pano grosseiro cá da terra, mais pesado que forte; como farinha de pau, durmo pouco, trabalho de pela manhã à noite […]. Finalmente, ainda que com grandes imperfeições, nenhuma coisa faço que não seja com Deus, por Deus e para Deus, e para estar na bem-aventurança só me resta vê-Lo, que seria mais grata, mas [se]não maior felicidade”.

Faleceu quase nonagenário, com 89 anos em 18 de Junho de 1697, no Colégio da Companhia em S. Salvador da Bahia.

V Império e Sebastianismo “Branco” ou Intelectual

Foi o padre António Vieira, orbitando entre o Sebastianismo Intelectual (“branco”) e o Sebastianismo Político (“vermelho”, como definiu António Sardinha), acaso ou decerto sabedor do sentido último ou primaz da doutrina messiânica, quem teve maior e mais destacado papel no contexto político-social português após a Restauração de 1640. Depois da morte de D. João IV, em 6 de Novembro de 1656, o padre António Vieira afirmou, no já citado sermão pregado no Maranhão, que D. João IV haveria de ressuscitar para operar prodígios, e para isso apoiou-se na autoridade profética do sapateiro Bandarra. Essa ideia já a expusera, aliás, num sermão ainda em vida do rei, que posteriormente ficaria documentada no escrito intitulado Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda Vida de el rei D. João o Quarto, escritas por Gonçalianes Bandarra e comentadas pelo Padre António Vieira. Falou, portanto, na “segunda vida” de D. João IV, e citou como principal autoridade o Bandarra.

O propalado Quinto Império no escrito citado de António Vieira (integrando pequeno escol de jesuítas iluminados no saber esotérico rabínico, simultaneamente imbuído de forte pendor nacional ou patriótico, assim se distando largamente das regras ordinárias constituintes da Companhia), é simultaneamente espiritual e temporal, sacerdotal e real, com cabeça em Portugal, e a partir deste ir alcançar-se a unidade universal da Humanidade. Passa, portanto, de um sebastianismo bragantino e político para uma mais lata e pura sebástica universal e intelectual, cuja retórica é sempre profética feliz das premissas do Futuro. No Quinto Império inscrevem-se indiscriminadamente gentios, pagãos, judeus, mouros, africanos, cristãos, etc., todos em adoração ao mesmo Senhor Soberano. Esse também o desejo comum de uma Cristandade ou Espiritualidade Universal encabeçada pelo Messias cumpridor da Parúsia ou Segunda Volta, o Avatara único que haverá de reinar sobre todos os povos da Terra. A escatologia mítica do Quinto Império enlevou António Vieira, sobre ele dissertou largamente e quis fazer da Utopia uma plenirealidade feliz. Os seus textos sebástico-messiânicos ocuparam quase toda a sua vida e hoje são considerados o principal da sua obra. Nos escritos (incompletos) que constituem a sua História do Futuro, o iluminado padre sebástico anuncia o advento de um V Império Português ao Mundo indo suceder, lógica e necessariamente, aos quatro anteriores: Império Assírio-Babilónico, Império Persa, Império Grego e Império Romano, cujos prolongamentos romanos ou latinos ainda se viviam intensamente em seu tempo. Baseou-se sempre na autoridade dos textos sagrados:

“Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida, tiradas de diferentes lugares de textos sagrados que vão citados à margem, e o não pusemos no corpo da História para não embaraçar o desenho dela, […] o que resta e importa mostrar he que haja de aver sem duvida este novo e prometido Império a que chamamos Quinto.”

António Vieira, aliás, sublinhou sempre a autoridade dos Profetas, ao par do poder dos Patriarcas, dos quais detinha largo conhecimento claramente demonstrado nos seus inúmeros sermões. A profecia encerra, para ele, a verdade histórica mais pura. Assim, na literatura messiânico-politica do século XVII, o padre António Vieira não foi o exclusivo intérprete do sebastianismo bragantino. Nisto mesmo tendo sido, em rigor, um joanista, cuja importância política para a época realçaria assumindo a sua real natureza de sebastianista. Mas o padre António Vieira não foi só joanista, foi sobretudo sebastianista e como tal assim começou. Prova-o o seu Sermão de S. Sebastião, pregado na igreja do mesmo santo em Acupe (Bahia), em 1634, repleto de alusões ao vencido de Alcácer-Quibir comparando o seu desaparecimento fatal ao sacrifício do homónimo no santoral. Para terminar, através do mito e da mítica do Quinto Império Universal dos Lusos, para cuja criação setecentista apoiou-se no seu profundo saber teológico e no vasto conhecimento bíblico ao par do grande conhecimento da História do Mundo, o padre António Vieira é por excelência aquele que inaugura o ciclo do Sebastianismo Intelectual, para isso estabelecendo a aliança da Profecia com a História.

Pensamento de António Vieira e o seu Património Cultural

No espólio de António Vieira, destacamos como obras publicadas: Sermões, 1679-1748, em 15 volumes, Livro Anteprimeiro da História do Futuro, 1718, História do Futuro, 1718, e Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício, 1957, em dois volumes, mas continua inédita a sua obra, deixada incompleta na qual trabalhou largos anos, intitulada Clavis Prophetarum (“Chave dos Profetas”). Como orador, contemporâneo de alguns (nomeadamente Bossuet e Bourdaloue) dos maiores vultos da oratória sacra de todos os tempos, se não iguala a majestade da construção harmoniosa dos sermões de Bossuet nem a força apostólica da lógica implacável na eloquência de Bourdaloue, supera-os na opulência da imaginação e na agudeza de uma inteligência posta ao serviço de uma ideia que ele como ninguém soube expor, desenvolver e fundamentar num encadeamento envolvente de imagens, conceitos e argumentos, que, cativando a atenção deslumbrada pelo jogo dos raciocínios, arrebatava tanto o universo humano de Portugal e do Brasil como o requintado mundo dos cardeais da cúria romana. Índice da perene actualidade dos sermões do padre António Vieira, é o facto de em 1960 terem sido editados em Milão quatro, apresentados como lição político-social aos homens de Estado. Pouco antes disso, o arcebispo local (depois Paulo VI) fizera publicar o Sermão da Sexagésima, como modelo para os pregadores que iam participar numa missão pastoral na sede da arquidiocese. Expoente da oratória sacra portuguesa e um dos maiores da oratória universal, foi político, missionário, defensor dos fracos, crítico audaz dos poderosos e patriota de visão transcendente. A sua inteligência excepcional proporcionou-lhe numa nitidez implacável como moralizador, ao encarar a vida nos seus mais ínfimos pormenores. O seu visionário talvez não excessivo casava-se com o dinamismo desmedido no campo da acção imediata. Apesar de ter sido, ao que parece, tuberculoso crónico, atravessou sete vezes o Atlântico e percorreu milhares e milhares de quilómetros, muitas vezes a pé ou em fracos meios de locomoção. Dessa raríssima conjunção, por vezes quase atingindo as raias da divina loucura, resultou uma clarividência singular, a qual lhe permitiu retratar ao vivo os actores do grande “teatro” do mundo com uma ironia finíssima, frequentemente tocada pela embriaguez da subtileza, mas certeira em escalpelizar os vícios dos homens seus contemporâneos e de todos os tempos.

São todas essas definições extraordinárias do vulto magnânimo de António Vieira, que sobreviveram ao ordinário do tempo como uma onda gigantesca levantada após maremoto, chegando como espuma do mar ao Modernismo Português na belíssima poética de Fernando Pessoa, batizando-o como “Imperador da Língua Portuguesa”, igualmente nas famosas Conversas Vadias, transmitidas em canal público, RTP1, nos idos anos 90 pelo filósofo e ensaísta Agostinho da Silva, e nas longas-metragens cinematográficas do realizador, internacionalmente reconhecido, Manoel de Oliveira, com os filmes da Palavra e Utopia, o V Império e Non ou a Vã Glória de Mandar. Que a robustez do bronze da estátua do padre António Vieira erigida em Lisboa, faça com que ele permaneça fixo na memória e no imaginário colectivo português, e que a mensagem do grande homem oriente por bons caminhos os destinos da Humanidade na sua nova Diáspora para a construção do tão almejado Quinto Império Espiritual do Mundo.

Adveniat Regnum Tuum

 Obras consultadas

Hernâni Cidade e Carlos Selvagem, Cultura Portuguesa, volume nº9. Empresa Nacional de Publicidade, 1972.

Hernâni Cidade, Padre António Vieira: a Obra e o Homem. Editora Arcádia, Lisboa, 1979.

J. Lúcio de Azevedo, História de António Vieira, vol. 1. Clássica Editora, Lisboa, 1992.

Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

Sinopse da estrutura sideral – Por Vitor Manuel Adrião Sábado, Set 23 2017 

No princípio era o Verbo e o Verbo era Deus e o Verbo estava com Deus. Sem Ele (o Verbo) nada existia do que foi feito.João 1:1.

Está subentendido nesse versículo bíblico que não só com o Verbo os Mundos foram criados, pois na realidade ao início nem sequer era o Verbo, mas o Nada dos positivistas, o Caos dos gregos, o Pralaya dos hindus, equivalente à Proto-Matéria indiferenciada anterior à manifestação das coisas e que a Filosofia Oriental chama de Shakti. No que se tem esse outro versículo com que inicia o texto bíblico:

No princípio, Deus criou o Céu e a Terra. A Terra era informe e vazia; as Trevas cobriam o Abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as Águas. Deus disse: “Faça-se a Luz”! E a Luz foi feita. Deus viu que a Luz era boa, e separou a Luz das Trevas. Génese 1:1.

Pralaya, o período antecedente do ciclo de Manifestação, não é o Nada no sentido consciencial, mas sim o da desagregação da Matéria organizada. Pralaya é, antes, o período de assimilação subjectiva das experiências dos ciclos de Manifestação e Vida, o período de repouso que sucede à vigília. Contudo, o Pralaya em que a Matéria se dilui no estado de Shakti não corresponde ao Nada, no sentido de não-existência, pois se o Infinito é Nada tal não pode ser, por qualquer latitude empírica ou não que seja vista.

No Pralaya, a massa de energia mantém-se indiferenciada, apenas em estado de latência, mas contendo em si o gérmen dos universos. Shakti, a Energia Cósmica ou Poder Divino, durante o Pralaya permanece inactiva, abstraída em si mesma. Mas nela jazem potencialmente as três qualidades básicas da Matéria, a Triguna, como sejam Satva, Rajas e Tamas, respectivamente as energias subtis da Actividade, do Ritmo e da Inércia inerentes à Matéria Primordial ou Prakriti.

São elas, as Gunas, que permitem as infinitas combinações na ordem da Manifestação e da Vida, que impregnam todos os aspectos do Universo manifestado, uma vez acordadas do seu sono letárgico no seio da divina Shakti. Esta, tal como a princesa adormecida, só pode ser despertada do seu sono profundo pela Voz amorosa do seu príncipe e senhor: Kartri, ou seja, o Verbo poderoso e omnisoante.

Na visão tântrica, é o Som, enquanto vibração da inteligência focalizada, o catalisador que activa os átomos proteicos do Caos indiferenciado e põe em marcha a evolução do Cosmos manifestado. Uma vibração encausadora (Som Primordial) emitida pela Vontade do Logos rompe o equilíbrio inerte de Shakti pelo despertamento de Satva, o princípio activo, móbil da criação das múltiplas formas e estados de manifestação.

Os hindus possuem no Ramayana uma bela frase poética para expressar a Criação pelo Grande Demiurgo:

O Grande Cantor construiu os Mundos.
O Universo é a sua Canção.

Assim, quando o Grande Demiurgo do nosso Mega-Sistema, e por analogia com o Supremo Senhor do nosso Universo ou Sistema Solar, decidiu manifestar-se como um Sol Central, como um Logos de um Oitavo Sistema, escolheu um certo espaço, uma certa zona do Cosmos, e entoou a sua “Canção”, isto é, emitiu o Mantram da Criação, animando com a sua frequência vibratória os átomos desse espaço. Ele, que emitiu o Grande Mantram, mesmo sendo Uno em Essência não deixa de ser Trino em Aspecto, manifestando-se de forma Sétupla. Daí o seu número cabalístico: 1 (I) 3 (E) 7 (L).

Através do primeiro Som, o Logos utilizou o Primeiro Aspecto qualitativo de Brahma, irradiando de Si mesmo a primeira Energia centrífuga, Satva; depois, emitindo a segunda nota musical, agiu com o Segundo Aspecto qualitativo de Vishnu, o da segunda Energia rítmica, Rajas, com que estabeleceu um vórtice de força preliminar que levou, por fim, à diferenciação através do Terceiro Aspecto de Shiva, agindo com a Energia centrípeta ou diferenciadora, Tamas.

A Manifestação foi possível porque o Princípio Trino diferenciou-se nos Sete Raios distintos do espectro do Raio Único do Logos do Oitavo Sistema (Mahaparabrahma), o qual, sendo Uno em Essência e Trino em Aspecto, se refractou em Sete Sonoridades com colorações diferentes.

Nos escritos de Platão e de outros mais Iniciados da Antiguidade, são frequentes as referências aos Sete Éons ou Emanações, nada mais sendo que os Sete Raios de Energia ou Correntes de Forças emanando dessa Potestade ou Energia Central, o Logos do Oitavo Sistema, depois do vórtice de energia ter sido animado pela acção de Rajas.

Foi mediante o pronunciamento das sete sílabas sagradas (OEAOHOO) do Mantram original que o Logos Central do nosso Mega-Sistema proporcionou a manifestação de outros Sete Logoi ou Vidas, que têm como expressão física os Sete Sóis que orbitam em torno Dele mesmo como Oitavo.

Essas potentíssimas Entidades – se “Entidades” se lhes pode chamar, mesmo estando nós no Mundo das Formas – são conhecidas como os Sete Construtores Maiores, os Elohim, que por sua vez plasmaram a Vontade, a Energia e a Força do Logos Central, organizando e construindo os Sistemas Planetários dentro das suas esferas de actividade.

Os Logos Planetários, também chamados pela Tradição de “Os Sete Espíritos diante do Trono”, reuniram em si a substância de que necessitavam e modelaram as formas e aparências mais adequadas à expressão das suas qualidades inatas.

Tem-se, assim, que Bhumi, a Terra, insere-se num Sistema Solar, o de Helion ou Helius, que por sua vez faz parte, com outros seis Sistemas Solares, de um Mega ou Maha-Sistema tendo por Núcleo Central um Oitavo Sistema, sendo que a Vida deriva, no dizer do Adepto Djwal Khul, da síntese da actividade de todos, pois ela não é senão a fusão de incontáveis energias, posto a Vida ser a soma total das energias dos sete sistemas solares que compõem a nossa «pequeníssima» constelação, com outros tantas constituindo o Mega-Sistema da Via Láctea.

Mas até este Mega-Sistema a que pertencemos, ele mesmo se integra num Sistema maior (Maha-Mega-Sistema) composto de sete Mega-Sistemas ou galáxias, de quem nada se sabe porque ainda mal se começou a compreender, quanto mais a aperceber, a grandeza da Criação Divina de quem o nosso Mega-Sistema tão-só é uma minúscula parcela de todo o Universo que, parecendo infinito aos limitados sentidos humanos, no entanto é finito no espaço e no tempo.

Tal como a criança arranca para a vida com o primeiro hausto de respiração, também o Logos, na sua expressão demiúrgica, trouxe à manifestação e à Vida os Mundos através da Respiração ou do Hálito Vital. Sabe-se que a Vida obedece a ciclos bem determinados por esquemas preestabelecidos pelo Logos. O Logos respira e em cada exalação os Mundos expandem-se. Do mesmo modo, em cada inspiração os astros contraem-se nas suas trajectórias concentracionárias em direcção ao Ponto Laya ou Bindú, semente potencial de uma nova Manifestação.

Ao expirar, ao proferir o grande Mantram da Criação, o Logos com o seu “Hálito” põe em expansão o seu Universo, qualquer que seja; para a Humanidade haverá de chegar o dia, ainda na noite dos tempos, em que a Vida e todas as formas que a suportam refluirão num movimento centrípeto, absorvidos pela inspiração da Grande Entidade, essa gigantesca e omnipresente diástole que reduz toda a existência ao estado de subjectividade absoluta, o Pralaya, o Não Ser, o Nada.

Ocorre, agora, perguntar: no ciclo actual de Vida, o Universo expande-se ou contrai-se? Por outras palavras, o Demiurgo expira ou inspira?

Existe um círculo natural (“círculo-não-se-passa”), um limite gnosiológico de investigação que a restrita capacidade humana não consegue franquear. Ainda assim, a Ciência e a sua tecnologia alcançaram um nível tão espectacular de percepção da realidade que bem se pode aventurar por especulações razoáveis, em função de certos dados adquiridos.

Hoje, com a Radioastronomia, através de poderosos e sofisticados radiotelescópios, é-se capaz de observar astros à distância de mais de dez mil milhões de anos-luz. Se se lembrar que a luz percorre 300.000 quilómetros por segundo, pode-se supor bem (ou mal) a distância a que se encontram esses objectos estelares.

Pois bem, Edwin Powell Hubble, o grande astrónomo norte-americano (1889-1953), pôde constatar o seguinte: quanto mais afastada se encontra uma galáxia, mais acentuado é o fenómeno das suas linhas espectrais para o vermelho. É o chamado fenómeno de recessão das galáxias. Devido ao efeito de Doppler (fenómeno físico observado nas ondas quando emitidas ou reflectidas por um objecto que está em movimento em relação ao observador), Hubble interpretou esse fenómeno concluindo que tal facto corresponde à velocidade de afastamento.

Foi possível a Hubble inferir dessa relação uma constante (constante de Hubble), a qual permite estabelecer uma relação entre a distância de um grupo local de galáxias e um aglomerado de galáxias afastadas e a velocidade com que o aglomerado se afasta.

Tudo isso foi verificado, aliás, por resultados obtidos posteriormente pelos possantes meios radioastronómicos hoje disponíveis, e confirmado pela formulação da Teoria da Relatividade de Albert Einstein.

Com base na velocidade de afastamento, foi possível calcular que há cerca de 13 a 15 mil milhões de anos a matéria e o espaço do Cosmos deveriam estar concentrados num ponto. Trata-se da Teoria do Universo em Expansão, a qual postula que, no princípio, toda a massa estava concentrada. Houve, depois, uma expansão sucessiva. Dada a constante de expansão, as galáxias mais afastadas de nós ainda se afastam mais. A partir disso, aventou-se como hipótese possível o modelo explicativo seguinte: a Criação teria começado com uma gigantesca explosão de Matéria original, na temperatura de cerca de quinze mil milhões de graus centígrados. É a conhecida Teoria do “Big-Bang” ou da explosão original.

Ora, tal como no acto da respiração quando se exala a expiração vai afrouxando no tempo, assim também foi possível deduzir da similaridade do Processo Divino, pois a Astronomia assevera muito significativamente que a velocidade de afastamento das nebulosas está em abrandamento e que dia virá em que o seu limite de expansão atingirá o auge.

O que acontecerá, então, quando a Exalação Divina se esgotar?

É lógico sustentar-se que a expansão do Universo se deterá. A gravitação irá actuar como factor de impulso rompendo a estabilidade e originará o aumento progressivo de velocidade no sentido inverso centrípeto, provocando um movimento de retorno. Trata-se da diástole divina ou contracção do Universo. Então, os milhares de milhões de galáxias e os milhares de milhões de estrelas refluirão para o seio do Logos da Maha Mega-Galáxia, reduzindo-se à condição de Matéria Original, o Vazio Primordial de que já se falou, essa Proto-Matéria (Substância Única) anterior à Criação, à Manifestação do Todo no Tudo.

Quando se afirma que o Homem é um Microcosmos, um Cosmos em miniatura, ou quando se lê nas escrituras sagradas de todas as religiões tradicionais que o Homem foi feito à semelhança de Deus, não se trata de mera figura de retórica, pois o Universo, o Cosmos como manifestação da Divindade é vivo, pulsátil. Respira, dilata-se, cresce, contrai-se, envelhece, morre e torna a nascer…

Os cientistas conseguiram mesmo proceder a cálculos matemáticos sobre a duração dessa pulsação divina, estimando que o período de tempo entre duas Criações seja de cerca de oitenta mil milhões de anos e que o Cosmos possui um raio de curvatura de catorze mil milhões de anos-luz, um volume de 1070 km3 e uma massa total de 1,2 x 1056 gramas. Nisto, ao contrário do que certas catequeses religiosas asseveram e defendem, o Universo não é infinito nem eterno.

A Ciência calcula o número de galáxias para cima de 100 mil milhões, com cerca de 100 mil milhões de estrelas cada uma. A galáxia em que nos encontramos, a Via Láctea de que só se apercebe uma parte da sua espiral, constitui uma das galáxias deste complexo Universo (Maha Mega-Galáxia), nebulosa «ínfima» com um diâmetro «apenas» de 100 mil anos-luz e uma espessura no núcleo com cerca de 16 mil anos-luz.

Mas nem sempre se dá conta da ordem, da beleza e da magnificência do Universo. Diz-se que o Universo é Geometria Divina, e é esta a razão porque a letra G se transformou num dos símbolos mais sagrados da Maçonaria em todos os tempos, pois corresponde à primeira letra dos Demiurgos, os Grandes Geómetras Construtores de Universos.

Na estrutura sideral, toda a configuração cósmica assenta numa ordem estrita de obediência à Lei que subjaz ao Plano Arquetipal do Supremo Arquitecto. Assim, a distribuição dos sistemas planetários em sistemas solares, destes maha-sistemas, constelações, galáxias, mega-galáxias e maha mega-galáxias, determina-se segundo o Esquema Original.

Uma fonte da Sabedoria Divina, afirma que uma galáxia não é constituída exactamente como os cientistas supõem. Segundo essa fonte, uma galáxia compõe-se de 144 milhões de sistemas solares e 30 mil complementares (em estado fluídico, ou seja, em estado de plasmação para a terceira dimensão); de 10 a 15 mil, no máximo 21 mil sistemas alienígenos, vindos de outras galáxias para estágio no equilíbrio evolucional.

No centro de uma galáxia, na mais perfeita ordem harmónica, matemática e geométrica, estão 12 mil sistemas solares, os quais se encontram em maior estágio evolutivo e vibratório. É este centro de sistemas em conjunto que forma, por assim dizer, um sol galáctico.

Mas existem, além disso, ainda que dificilmente se possam conceber, as mega-galáxias, também chamadas ramargontes. Estas compõem-se de 145 milhões de galáxias complementares e 1.444.000 galáxias alienígenas, enfim, a vertigem para o infinito… finito.

Observou-se anteriormente os aspectos científicos relativos aos sistemas solares, galáxias e ramargontes, realçando que as estrelas, como seres vivos que são, estão sujeitas à lei do nascimento e da morte, inseridas em ciclos de evolução bem determinados.

Na nossa galáxia, uma espiróide cuja idade os astrónomos calculam em cerca de dez a doze mil milhões de anos, existem miríades de estrelas, umas novas e outras velhas, e outras, ainda, já mortas. O destino da Vida pode, pois, ser explicado por essa estrela de tamanho médio que se encontra numa das suas espirais, afastada do núcleo cerca de trinta e três mil anos-luz, e que é o centro do nosso Sistema Solar, a estrela Helion, o Sol do mesmo.

Segundo as informações disponibilizadas pelas fontes da Sabedoria Divina, o nosso Sistema Solar realiza a sua segunda “encarnação”. Ele emergiu de um grande Pralaya anterior para prosseguir a sua evolução neste segundo Maha-Kalpa que terá a duração de 100 Anos de Brahma, que a Ciência Tradicional computa em 311.040.000.000.000 anos.

Para avaliar o que terá se passado na génese do nosso Sistema Solar, porventura idêntica à de outros Sistemas, posto a mesma Lei aplicar-se ao mesmo Universo, não será necessário remontar a processo genesíaco tão longínquo no tempo, ou seja, ao início da “encarnação” do nosso Sistema Solar no presente Maha-Kalpa. Para tanto, bastará proceder a uma análise do processo de manifestação do Sistema Solar no actual Manvantara, cuja duração é «apenas» de um Dia de Brahma, isto é, de 4.320.000.000 anos.

No final de cada Manvantara, o nosso Sol recolhe-se num Pralaya menor (com duração igual à do período de Manifestação) reassimilando e recapitulando no plano subjectivo as experiências vívidas, processo que se desenrola entre dois Manvantaras. Tal como o microcósmico ser humano, que no termo de cada vigília diária adormece, também o Macrocosmos, o Sistema entra em dormência para depois despertar numa nova vigília, num novo Dia Cósmico, o Dia de Brahma, em que todo o processo se repete, mas de maneira mais desenvolvida até à absorção final no Ponto Bindú do Cosmos.

A problemática dos ciclos de Vida do nosso planeta, Bhumi, equaciona-se e soluciona-se pelos chamados períodos planetários de Cadeias, Rondas, etc. Para se compreender a última manifestação do nosso Sistema Solar, socorro-me dos ciclos de manifestação da própria Terra, ou seja, passo a referir os eventos do ponto de vista do Género Humano em função das Cadeias Planetárias de Saturno, Solar e Lunar, respectivamente.

Que teria se passado no início da primeira Cadeia Planetária do actual Manvantara Sistémico ou Sistema de Evolução Universal (Cadeia Cósmica), ou seja, a de Saturno? Como se apresentou o Sol Saturnino nos primórdios da presente Manifestação?

Devo adiantar, desde já, que embora essa primeira Manifestação Planetária seja chamada de Saturno, nada tem a ver com o planeta do nosso Sistema Solar com esse nome. Seria preferível utilizar outra denominação, mas é a que existe tradicionalmente adoptada pela terminologia teosófica e ocultista, e talvez haja uma razão profunda para isso acontecer.

Segundo os cientistas, ter-se-á formado um núcleo espesso (globulus), uma nuvem interestelar da galáxia há cerca de cinco mil milhões de anos, que se transformou, por rotação e aquecimento, numa estrela avermelhada. Quando a temperatura no seu interior atingiu os vinte milhões de graus, iniciou-se o processo de nucleação. O Sol tornou-se luz.

Sob o ponto de vista da Sabedoria Tradicional, convirá ir mais devagar. No início da Cadeia de Saturno, o Sol Saturnino apresentava-se como um gigantesco globo de calor, porém, obscuro. Imagine-se um corpo cósmico, de que o nosso Sol seria o centro, estendendo-se pelo espaço até englobar a órbita do planeta Saturno, e ter-se-á uma ideia justa da grandeza do Sol Saturnino. Na verdade, ultrapassava em extensão todo o nosso Sistema Solar.

Frequentemente são feitas referências a três teorias científicas correntes, cujos modelos tentam explicar o nascimento e posterior evolução do Sistema Solar. O primeiro aspecto do Sol, o Sol Saturnino, poder-se-á comparar com a teoria da nebulosa primitiva de Kant – Laplace, mas apenas aproximadamente, pois essa apresenta como ponto de partida do Sistema Solar uma espécie de massa globular gasosa, quando efectivamente trata-se de um corpo de calor obscuro. Um corpo de calor gigantesco, eis o que era inicialmente o Sol na fase de Saturno.

Segundo a hipótese de Kant e de Laplace, essa massa globular ter-se-ia posto a girar sobre si mesma, como movimento de rotação, por acção centrífuga, tendo expelido pouco a pouco os planetas exteriores. Primeiramente em forma de anéis, os quais se contraíram, depois em forma de globos, tendo finalmente assumido a configuração normal, com o Sol ao centro e os planetas em translação orbital.

Não obstante tratar-se de uma teoria muito próxima do que ensina a Cosmogénese teosófica, contudo não deixa de ser puramente mecanicista, de pura força cega e casual ou acidental na origem do Universo. Em contrapartida, o teósofo e ocultista evocando a acção das Hierarquias Criadoras no Sistema Solar, conclui facilmente não ser possível vencer um estado de inércia sem um impulso, e este impulso terá sido dado por essas Hierarquias.

Quando, pois, a massa globular, pela acção da Consciência do Segundo Aspecto do Logos Solar, pelo Poder do Verbo e pela Actividade das Hierarquias Criadoras, se transformou num vórtice de força preliminar em movimento, nesse Sol Saturnino já existiam em gérmen todos os astros que fazem parte do Sistema.

As Hierarquias exercendo a sua acção sobre o globo de fogo negro ou calórico do Sol Saturnino, diversificaram, pouco a pouco, essa substância calórica, o que provocou a formação em redor do globo de “ovos de calor”, dado que tinham efectivamente forma ovóide. Esses “ovos de calor” entraram em rotação descrevendo círculos em torno do Sol Saturnino.

De resto, as teorias modernas, na esteira de C. F. Von Weissäcker e G. Kuiper, confirmam isso: os planetas e as luas serão produtos secundários da formação do Sol. Este ter-se-ia formado de uma nuvem de gás de formação lenta, a qual se condensou por acção de poderosas forças de gravitação. A rotação do núcleo e das nuvens que o rodeavam, foi aumentando consideravelmente com a condensação crescente. Simultaneamente, foram-se formando redemoinhos secundários entre as camadas de matéria (os quais giravam rapidamente na parte interna e lentamente na parte externa), tendo entre eles surgido aglomeração de gases que viriam a originar os planetas e as luas.

Ora, a imensa esfera original, à medida que foi se comprimindo, foi se tornando mais densa e esta condensação provocou a existência, além da substância calórica, da substância gasosa, aérea. Como disse o teósofo António Castaño Ferreira, “(…) em dado momento do seu desenvolvimento, a concentração de gases, atingindo o seu limite crítico, provocou o aparecimento da radiação sob forma luminosa. Um verdadeiro Sol, fonte de calor e luz, surgiu então no firmamento, marcando assim definitivamente a passagem da Cadeia de Saturno à Cadeia Solar (…)”.

A elevada velocidade desse Sol Solar (perdoe-se o pleonasmo) provocou a expulsão no seu plano equatorial, por fases sucessivas, dos planetas que constituem hoje o nosso Sistema. Nessa fase, aconteceu uma nova contracção do Sistema Solar, de modo que o Sol, nessa etapa, abarcava o espaço que ia até à actual órbita de Júpiter. Esse era o seu limite de expansão.

No ciclo seguinte, o da Cadeia Lunar, verificou-se novamente uma grande retracção por condensação do Sistema. A substância gasosa do Sol Solar condensou-se em estado líquido, o qual se juntou ao calor do Sol Saturnino. Por outro lado, o Sol Lunar ao contrair-se restringiu o seu limite até à órbita do planeta Marte.

Aconteceu algo de curioso quando a fase lunar sucedeu à fase solar: uma parte da substância densa foi expulsa e dois corpos celestes surgiram. Um deles transportou os seres e as substâncias mais subtis (tornou-se no Sol actual, o da Cadeia Terrestre), a chamada transmigração das Vagas de Vida, e o outro tornou-se satélite daquele, a Lua, desde logo mais densa.

Como se vê, o nosso Sol figurava já como um astro particularizado na Cadeia Lunar. Mais, a Tradição Iniciática assevera que ele se manterá particularizado na próxima Cadeia, a de Vénus, a que se seguirão as de Mercúrio e de Júpiter.

Entretanto, à medida que o Logos Solar se dilata em sua evolução cósmica o seu corpo, o Sistema de Planetas, envelhece cada vez mais até à exaustão. Alcançando o limiar do arco evolutivo do Sistema, os planetas irão sendo absorvidos pelo astro-rei nessa diástole cósmica que é o eterno movimento de Retorno, ou seja, o da Volta ao Divino.

“Os homens constroem os deuses”, diz-se. Com efeito, uma vez alcançada a Cadeia de Mercúrio todos os seres que hoje vivem na Terra serão absorvidos pelo Sol. Ele próprio ascenderá a um nível superior de desenvolvimento, tendo se enriquecido com a substância e a consciência, nessa altura evoluídas, de tudo quanto havia expulso.

Quando a fase de Júpiter chegar, terá lugar a última Cadeia Planetária desta Cadeia Cósmica, e todos os seres que promanaram dos primeiros gérmens ou “ovos de calor” do Sol Saturnino, estarão totalmente “salvos”, integrados na condição de deuses.

Realizada a Vontade o Plano do Logos do Sistema para este ciclo de Manifestação Universal, o Sol entrará em Pralaya dissolvendo-se, para na futura “encarnação” surgir como novo Sol portador da Essência de Júpiter (actualmente passa-se o contrário). “Por toda a eternidade, como no dia e na noite, o Universo expande-se na matéria para depois contrair-se, na sua forma original de energia”, diz um texto sagrado.

Num Sistema deste género, quando um Sol nascido de um Centro ou Ponto Laya adquire módulos de matéria mais grosseira, ele expulsa-os, dando nascimento aos planetas, a fim dele mesmo poder progredir. Esse é o momento de expansão. No momento de contracção, retoma os planetas e os seres nele, indo alcançar o estado de Júpiter. É então, depois, que tudo se dissolve, acrescendo-se à energia mais energia, à consciência mais consciência.

Como vê a Ciência, sob o ponto de vista mecanicista, o envelhecimento e a morte do nosso Sol? Com outros termos, mas de modo semelhante ao da Cosmogénese. O Sol queima, actualmente, 650 milhões de toneladas de hidrogénio por segundo, o que significa que já transformou cerca de metade do hidrogénio em hélio. Quando o hidrogénio for totalmente consumido, daqui a cinco mil milhões de anos, o núcleo do Sol irá contrair-se e aquecerá até 108 (= 100.000.000) graus Kelvin.

Num segundo processo nuclear, o hélio arderá transformando-se em carbono. Este evento produzirá uma nova fonte de calor e o Sol se dilatará transformando-se numa “gigante vermelha” que assimilará sucessivamente os planetas (absorção em si mesmo do Sistema).

De seguida, o Sol, por acção da gravitação na formação de energia, atrofiar-se-á, transformando-se numa “anã branca” do tamanho da Terra. Atingirá tal estado de densidade que um centímetro cúbico da sua matéria equivalerá a várias toneladas do nosso planeta.

É, então, que o Sol, após o inevitável arrefecimento, passará a “escória espacial” (ou seja, ao estado de indiferenciação no Caos ou Shakti), girando no espaço como uma “anã negra”, invisível, sem vida.

Segundo o Adepto Djwal Khul, no término do Maha-Manvantara o Logos, abstraindo os seus princípios de vida (as diferenciações básicas ou tipos de energia), procederá a uma gradual inalação até ter recolhido tudo em si mesmo, o seu corpo de manifestação, o Sol e os planetas. Chegará, enfim, a Obscuridade, o Pralaya, o ciclo cósmico de descanso e assimilação na realidade da esfera subjectiva.

“A reverberação da Palavra se extinguirá e o Silêncio das Alturas reinará supremo.”

Assim reza o Antigo Comentário:

“O Som foi reverberado entre diversos turbilhões de matéria incriada e eis que o Sol e todos os turbilhões menores apareceram. A Luz luzia através dos diversos turbilhões e assim brilhavam as numerosas formas de Deus, os aspectos variados da sua Veste radiosa.

“As Rodas vibrantes e palpitantes giravam. A Vida, em seus numerosos estados e em todos os seus graus, iniciava o seu processo de desenvolvimento, e eis que a Lei começava a agir. Apareceram as Formas, depois desapareceram, mas a Vida continuava. Produziram-se os Reinos, contendo numerosas Formas, que se aproximaram, rodaram juntos e se separaram de seguida, mas a Vida prosseguiu a sua rota.

“A Humanidade ocultando o Filho de Deus, o Verbo Incarnado, avançou na Luz da Redenção. Surgiram as Raças, depois desapareceram. As Formas, velando a Alma radiosa, emergiram, alcançaram o seu objectivo, depois dissiparam-se na Noite, mas eis que a Vida avançava sempre, desde vez fundida com a Luz. A Vida aliava-se à Luz. Uniam-se a fim de revelar a Beleza e o Poder, a Força activa da Libertação, da Sabedoria e do Amor a quem chamamos um Filho de Deus.

“Através dos numerosos Filhos de Deus, que não são senão Um no seu Centro mais íntimo, Deus foi conhecido na sua Paternidade. E sempre esta Vida Iluminada prosseguiu o seu caminho rumo a um tremendo Ponto de Poder, das Forças Criadoras de quem dizemos: é o Todo, o Reservatório do Universo, o persistente Centro das Esferas, o Uno.”

Terminando, o texto do Antigo Comentário encontra-se ou justifica-se em uns outros trechos de Livros Jinas depositados na Biblioteca do Mundo de Duat, como naquele que aponta o Oitavo do Futuro para os Sete do Presente.

Livro A Estrela Mater – Secção 1 – Cod. 24 – Pantólitos:

… O Elo que une e desune uma Cadeia das demais, é o TRONO onde assenta o “imediato” entre os SETE SENHORES do Lampadário Celeste…

Concluindo naquele outro excerto do Livro Shastrastha, uma das mais antigas obras literárias da Índia hoje retirada da face da Terra:

… Sete Coisas se fundem numa Oitava – a Causa das Causas. Esta é o Maha-Ishwara, o Ishwara do Sistema que é formado pelos Sete Planetários a fim de realizar os futuros trabalhos!… Do término de um Sistema para outro há um interregno ou espaço. Nessa passagem se forma um Ishwara. Portanto, um Ishwara é formado dos Planetários. Isto é, os Planetários de um Sistema vão dar o Ishwara de outro Sistema que se segue. O Ishwara, no começo, dá a sua tónica e esta se projecta através dos Sete Planetários, até à sua formação no futuro…

Desfechando a frase lapidar do Livro de Duat:

O Supremo Arquitecto caminha de Globo em Globo, de Cadeia em Cadeia, de Sistema em Sistema, até alcançar o fim da Sua grande jornada.

CONSUMMATUM EST

Planetas e eclipses psíquicos – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Set 20 2017 

Os eclipses! Fadário agourento dos povos desde sempre, simples na superstição temerosa das luminárias celestes desaparecerem nas trevas siderais arrastando consigo a Terra. Motivo de profecias, previsões, pressentimentos, augúrios apocalípticos entremesclados a outros tantos messiânicos, crentes de uma qualquer salvação no derradeiro momento fatal. Os eclipses! Sinais misteriosos dos movimentos cósmicos de poderosos Deuses que os Iniciados de todos os tempos lêem e interpretam no livro do Empíreo, augurando bons fados no revigoro psíquico da Natureza.

Os eclipses… como o da Lua quando passa defronte ao radiante disco solar, escondendo-o, causando o eclipse do mesmo. Também quando a Lua passa pela sombra da Terra a luz do Sol é interrompida, acontecendo o eclipse lunar. Durante este, o astro da noite não desaparece completamente porque a atmosfera terrestre age como uma lente e refracta a luz do astro do dia, permitindo que parte dela alcance o seu satélite.

Quando o Sol é completamente obscurecido pela Lua, tem-se o eclipse total solar. Os eclipses totais são muito raros e bastante interessantes para os astrónomos, especialmente se esses também forem teósofos e ocultistas. Como a distância entre a Terra e a Lua varia um pouco devido ao movimento elíptico de rotação, onde Chandra, a Lua, aproxima-se durante a Lua Cheia e afasta-se na Lua Nova de Bhumi, a Terra, às vezes aparece menor que Surya, o Sol, defronte a este e pode acontecer um eclipse momentâneo ou anular, ficando visível a periferia brilhante do astro-rei.

É mais comum a Lua cobrir parte do Sol, tendo-se então um eclipse parcial solar. Ao inverso, dão-se os eclipses totais, momentâneos e parciais lunares.

Fenómeno raro mas que também acontece é o denominado passagens de Mercúrio e Vénus frente ao Sol, portanto, também havendo eclipses mercurianos e venusianos.

Qual será, afinal, a mecânica oculta, esotérica, dos misteriosos eclipses do Sol e da Lua?

Segundo a Tradição Iniciática das Idades, quando se dão tais acontecimentos celestes atribuem-se a eles o designativo alinhamento astral. Quando a Lua fica entre o Sol e a Terra provoca um eclipse solar, cuja origem oculta dever-se-á ao alinhamento do Logos Planetário com o Logos Solar, elevando a sua Consciência a Ele através de Chandra que é o ponto-limite da sua aura etérica. A Lua fica então ofuscada, ensombrada ou encadeada pela erecção da Kundalini Planetária ao Seio Fohático Solar. É, enfim, a integração momentânea, parcial ou total do Terceiro com o Segundo Trono em suas respectivas Hipóstases.

Quando o Logos Planetário se sintoniza com o Plano Kama-Fohat do Logos Central do Sistema Solar, origina um eclipse solar momentâneo; quando eleva a sua Consciência a Mahat, provoca um eclipse solar parcial; finalmente, quando comunga com Alaya, o Búdhico ou Crístico Cósmico, logo com o Atmã Universal, acontece o eclipse solar total. Este, como já se disse, infelizmente é muito raro, devido à grande turbulência que agita as células (a Humanidade) do Corpo do Logos Planetário, chegando mesmo a provocar sérios entraves ao seu desenrolar normal. É o Cristo carregando a Cruz da Terra, é o “Homem das Dores”… Por isso existe, como contraposição profiláctica no seio da Humanidade, a acção benéfica e benfeitora da Grande Loja Branca, constituída pelo escol mais evoluído da mesma.

Daí a importância vital da espiritualização do Género Humano, sinónima de transformar a Vida-Energia em Vida-Consciência colectiva, para que não mais se perturbe o Desígnio Divino e Deus se torne mais Deus, com Ele o Homem se torne mais Homem, tudo e todos elevando-se imperturbáveis ao seio eterno do Incognoscível, o Todo Absoluto.

Eclipse, do grego ékleipsis, “desaparecer”, significa exactamente eclipsar, envolver em si mesmo o corpo contrário, transmitindo-lhe o seu alento, o seu calor, a sua energia. Esta é a função geral de todo o eclipse.

No eclipse do Sol, o Dragão Vermelho de Kundalini “engole-o”, para logo o “vomitar” após o alinhamento de Bhumi com Surya, ficando ela mais leve, etérea, o que se deve à demanda da energia interna despendida e volvida acrescida daquela da sua “oitava superior”, a do Logos Solar promanando Fohat como “alma”, antes, como essência de Kundalini, esta a Força Electromagnética e aquela a Luz Eléctrica, o “Raio Solitário dos Céus”, como descrevem as Estâncias de Dzyan.

Quando a Terra fica entre o Sol e a Lua, a sombra ou o duplo de Bhumi envolve o seu satélite originando o eclipse lunar.

É o momento solene da resposta do Logos Solar à evocação do Logos Planetário, enviando o seu Dragão Verde de Fohat que “engole”, antes, envolve o Plano Físico Cósmico numa unidade. Esse é o momento precioso onde as almas em sofrimento nas Talas do Baixo Astral recebem o influxo misericordioso de Deus, que como bênção salvífica as poderá elevar aos páramos luminosos das Lokas celestes, devakânicas ou Mundo Mental. Isso é feito por Mikael, Senhor dos Tálamos ou Perdões, “estendendo a mão” a seu Irmão Samael, Senhor das Talas ou Castigos, ou seja, Akbel a Luzbel.

Quando acontece o eclipse lunar momentâneo, a “resposta” do Logos Solar (Parabrahman) ao Logos Planetário (Brahman) não desce mais baixo que o Astral; no eclipse lunar parcial ela baixa até o Etérico, e só no eclipse lunar total penetra o Físico denso, indo provocar impacto tremendo na evolução e alimentação psíquica da Terra e de quanto nela vive, que nos seres comuns desalinhados consigo mesmos em suas várias expressões de consciência poderá ser pomo de tensões psicológicas e conflitos físicos.

Nessa ocasião, o Chakra Manipura, Gástrico ou Umbilical de Bhumi recebe de Kama-Fohat, o Astral Cósmico, uma extraordinária revigoração influindo no respectivo chakra humano, sobretudo no Plano Astral da Terra e nos seres que o habitam, iluminando os devas e purificando as almas em sofrimento nas suas regiões mais baixas, em termos de padrões vibratórios. “O eclipse total da Lua espelha o eclipse do karma astral do Logos da Terra e da Alma do Homem”, afirmou o Excelso Quinto Dhyani-Budha J∴ do Posto Representativo de Sintra, já tendo antes descrito em termos simbólicos o chakra umbilical no Livro dos Dhyanis e Dharanis: “Com estes olhos abertos e vivos podemos salvar os nossos irmãos do mundo mayávico e trevoso das almas penadas”.

Obviamente que essa acção em benefício das almas em sofrimento implica a destruição da fauna kama-rupa astral e a criação de um poderoso dique à actividade maléfica da Grande Loja Negra, que assim verá a sua influência rapace e a sua influência maligna decrescer consideravelmente. Tratando-se da sua extinção, por isso mesmo ela reage violentamente, o que se sente e regista no Plano Físico, geralmente através de estados psicológicos alterados do comportamento humano e/ou de fenómenos telúricos propiciadores de catástrofes naturais, o que leva a vox populi a atribuir aos eclipses um carácter maléfico, quando é precisamente o contrário.

Essa é a razão do preclaro Adepto Mário Roso de Luna ter proferido em desabafo as enigmáticas palavras: “O eclipse, pedra angular da minha evolução psíquica”.

Como disse, no eclipse da Lua o Dragão Verde de Fohat “engole-a” para logo a “vomitar”, ficando a Terra mais vitalizada pela imensa energia recebida, o que demonstra estar sempre a Lua como permeio psíquico atenuador entre a Terra e o Céu ou Sol.

Também pode acontecer um eclipse entre o Sol, a Terra e um qualquer planeta do Sistema. Nesse caso, sucede o alinhamento de Bhumi com um Logos Planetário, se se tratar do eclipse solar de Júpiter, Saturno, Marte, etc., em relação à Terra. Se for o caso do eclipse lunar de Júpiter, Saturno, Marte, etc., em relação à Terra, resulta então que um Dhyan-Choan, Ishvara ou Luzeiro entra em sintonia total, parcial ou momentânea com Bhumi.

Quando Mercúrio passa ou transita pelo Sol, a Mónada “masculina” (Kartri) deste Sistema Hélio é tremendamente revitalizada por repercussão vibratória dentro do seu “círculo-não-se-passa”, com isso significando que a essência “masculina” ou criadora das Mónadas de todos os Sistemas Planetários são afectadas, positivando a sua evolução.

Se for Vénus a passar ou transitar pelo Sol, a Mónada “feminina” (Shakti) deste Sistema já como Selene receberá esse impacto revitalizador, o que afectará positivamente a essência “feminina” ou geradora das Mónadas de todos os Sistemas Planetários.

Quando é Júpiter a transitar pelo Sol, acontece então a revitalização da Mónada em seu aspecto único, “andrógino”. Com isto, todas as Mónadas dos Sistemas Planetários recebem o influxo da Substância Única que as impulsiona positivamente em seu progresso para o predestinado estado Dhyan-Choânico.

Como se sabe, a Mónada é a Divindade tanto no Homem como no Logos. É o Deus Único e Verdadeiro, e os eclipses psíquicos são o seu alimento. Destrói o profano perecível (por isso, repito, os eclipses eram considerados de mau agouro, maléficos mesmo nas tradições exotéricas, repletas de superstições, ainda assim algumas fundamentadas, como o de se lhes atribuir a aparição visível do sinistro “Cone da Luna” ou Zero Dimensão, o dantesco “Portal do Inferno”, dos povos da Antiguidade, e mesmo no mundo rural até hoje) e garante o sagrado imperecível, ou seja, a imortalidade.

A Mónada Cósmica é Una, universal, indivisa, ilimitada, se bem que os seus Raios formem o que a limitada concepção humana chama de Mónada individual de cada homem. Segundo uma sábia analogia, a Mónada é como a electricidade, que é una em todos os lugares. Daí não ser lícito afirmar-se que “esta electricidade é minha”, devido à sua universalidade.

O termo sânscrito Anupadaka significa “sem pais”, “nascido sem progenitores”. Designa o segundo Plano Cósmico. É lá que as Mónadas têm a sua verdadeira morada, onde o Universo se apresenta em sua eterna condição arrúpica ou “sem forma”, onde predomina o processo da indivisibilidade monádica, sem formas ou veículos que as individualizem. Só o processo evolucional na condição rúpica ou “com forma” forjará as Mónadas individuais que, mesmo assim, em essência permanecem sempre na Unidade da sua Origem Divina, apenas projectam os seus Raios no Mundo das Formas.

Nas escrituras sagradas do mundo, a Mónada leva diversas designações:

– O Homem Eterno

– Fragmento Divino

– Fragmento do Eterno

– Centelha na Chama

– Deus Oculto

– Deus em mim

– Filho de Deus feito à Sua imagem

– Centro de Força no Logos

Para encerrar, respigo o seguinte excerto do Livro de L∴ – “Laude de Sakiel” (Fólio 14 – Sishita) com que brindo o leitor em derradeira saudação ao Eterno em quem tudo e todos somos:

– Honra o Pensamento de Deus, que, não obstante tenebroso e cerrado, se ilumina em resposta ao brado de todo o justo ansiando a Libertação eterna.

Preita respeito e entendimento aos divinos Dragões arrastando o carro triforme do Supremo Arquitecto na penumbra sideral, ainda assim alumiada por flamas incolores, avistadas ou apercebidas pelo Espírito, mesmo na Casa do Homem.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Henrique José de Souza, Os Mistérios do Sexo. Edição da Sociedade Teosófica Brasileira, Rio de Janeiro, 1941. Reedição Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1995.

Henrique José de Souza, A Harmonia Universal, 1956. Edição da Comunidade Teúrgica Portuguesa, Sintra, 2016.

Henrique José de Souza, Ocultismo e Teosofia. Edição da Sociedade Teosófica Brasileira, Rio de Janeiro, 1949. Reedição Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1983.

Roberto Lucíola, Mónadas. Caderno Fiat Lux n.º 4, São Lourenço (MG), Agosto 1995.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, Textos Internos. Sintra, Portugal.

Mistério cosmogénico dos cometas, astros errantes – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Set 18 2017 

Tal como a polaridade luni e solar, parte activa e parte passiva, é inerente ao próprio Logos do nosso Universo ou Sistema Solar, também os planetas, corpos de expressão dos Logos Planetários em relação directa com o do Sol, são, entre si, de carácter ígneo ou positivo, como andróginos activos, e de carácter aquoso ou negativo, como andróginos passivos.

Consequentemente, existe natureza binária ou dupla entremesclada em cada planeta gerada pelo seu próprio Tan-Mâttra e respectivo pulsar do Tatva, sobressaindo num Globo mais a sua natureza receptiva e noutro mais a sua natureza emissiva, ou mesmo o equilíbrio entre as duas condições geradoras do estado neutro.

Isso observa-se no Zodíaco, onde tradicionalmente se apresentam as três divisões principais em duas polaridades (positiva e negativa) e três modalidades (cardinal, fixo e dual), expressando aos quatro elementos naturais Ar, Fogo, Água, Terra.

Os signos dos elementos Ar e Fogo expressam as qualidades mais positivas ou masculinas, activas, enquanto os de Água e Terra possuem natureza mais negativa ou feminina, passiva. Dotados de natureza dinâmica e expansiva, os signos masculinos são, em geral, extrovertidos e necessitam de actividade e mudanças. Por sua vez, os signos femininos costumam ser mais passivos, reflexivos e receptivos. Muitos planetas posicionados em signos masculinos num horóscopo ou carta astral, revelam alguém com muita iniciativa que não precisa de motivação externa para empreender alguma acção. Se, ao contrário, a maioria dos seus planetas estiver em signos femininos, será mais passivo e dependente dos estímulos externos.

Os signos cardinais ou cardeais (centrífugos, expansivos afins a Satva), como sejam Carneiro, Caranguejo, Balança e Capricórnio, correspondem aos quatro pontos da bússola, Norte, Sul, Leste e Oeste. Representando o início das estações anuais, os nativos destes signos costumam ser activos e independentes, mas são também impacientes e poderão ter tendência a forçar as situações.

Os signos duais ou mutáveis (equilibrantes, rítmicos empáti-cos a Rajas), como sejam Gémeos, Virgem, Sagitário e Peixes, têm nos seus nativos pessoas versáteis, adaptáveis e flexíveis, sabendo como contornar os acontecimentos e tirar proveito das situações. Costumam ter mente engenhosa, mas também propensão à dispersão.

Os signos fixos ou estáveis (centrípetos, centralizando para si como é da natureza de Tamas), Touro, Leão, Escorpião e Aquário, revelam nos seus nativos pessoas determinadas, disciplinadas e resolutas. Dotadas de poder de concentração e de mente penetrante, são bastante obstinadas e muito apegadas às suas próprias opiniões, estejam certas ou erradas, e pouco permeáveis às alheias. Nisto, em certos casos, resistem a mudanças e demonstram dificuldade em abandonar velhos hábitos.

Posto isso e penetrando directamente o espaço da Cosmogénese, assim como os Globos da anterior Cadeia Lunar projectaram a sua vida kama-manásica (astral e mental) para a formação dos Globos constituintes da presente Cadeia Terrestre, e assim como os três Globos anteriores das três Rondas realizadas na nossa Cadeia os seus Núcleos Internos ou Sóis Ocultos (Mental, Astral e Etérico) serviram para originar este 4.º Globo Físico denso, e tal como o homem fecunda a mulher depositando em seu óvulo (gameta, donde o “homem ter nascido do ovo” e que é a ovulogénese) os espermatozóides a fim de gerar o filho, igualmente o Logos do Sol Central da Galáxia – Brahma-Nirguna – fecunda os Universos enviando a eles os seus “espermatozóides cósmicos” que são os cometas.

Deles, escreveu o Professor Henrique José de Souza:

“Os cometas! Que sabe a Ciência oficial a seu respeito? Saberá ela, por acaso, que aos mesmos incumbe o papel de “fecundadores dos Universos”? E que o termo “astros errantes, vagabundos”, pelo facto de só se apresentarem em determinados ciclos, outras vezes desaparecendo com que por encanto, não lhes cabe bem? Sim, pois eles possuem directrizes próprias, embora se comportem de uma maneira tão estranha, dando a impressão de que pertencem ao nosso Sistema, para logo deste se afastarem e, como aconteceu com Encke, Pons e Halley que aparecem com regularidades planetárias, provocando até desilusões e surpresas aos mais famosos astrónomos! Tal foi o caso de Biela que, em vez de aparecer como da última vez, trazia uma dupla forma, como se fora o seu próprio cadáver acompanhado do duplo ou corpo etérico, assim como acontece com a alma humana acompanhando o corpo físico, pois o Espírito é a Essência vital que tanto vibra no cometa, no homem, como em tudo que se manifesta na Natureza. É que esse cometa, tendo terminado a sua missão de “fecundador dos Universos” (a Via Láctea é o mais frisante de todos os exemplos), morreu, e já estava se desfazendo.

“Os cometas são, portanto, positivos ou machos (os de cauda) e negativos ou fêmeas (os de cabeleira). Ao contrário do que julga muita gente, inclusive astrónomos e outros cientistas, nem eles poderiam chocar-se com a Terra, nem a passagem de suas caudas ou projecções ambientais provocar qualquer dano ao nosso planeta, mas, ao contrário, no que diz respeito a essa última hipótese, só lhe poderia trazer vantagens, por se tratar de uma substância formada de verdadeiros “espermatozóides cósmicos”…”

Os cometas são transportadores da Energia Vital ou Prana aos Sistemas Solares e Planetários. Seguindo trajectórias fixas delineadas pelo Supremo Logos – Brahma-Nirguna ou Mahaparabrahman – eles alentam Globos e Cadeias e estão destinados a gerar novos Universos, como “sementes benditas derramadas do seio fecundo do Logos Eterno”, no dizer do Dhyani Mikael.

O cometa porta na sua constituição genética as directrizes de Brahma-Nirguna para os seus futuros Universos, delineadas em sua Mente (Mahat), tal como os espermatozóides do Homem portam, em seu curso, já os genes que darão forma e tessitura à nova criatura.

Os cometas são, como se disse, positivos ou machos (os de cauda) e negativos ou fêmeas (os de cabeleira), havendo ainda os neutros ou dupla natureza com essa dupla forma (cauda e cabeleira). Os primeiros alimentam os Sistemas Solares e Planetários emissivos (Satva), os segundos os Sistemas receptivos (Tamas), e os terceiros os Sistemas neutros (Rajas), como sejam os simultaneamente emissivos e receptivos (Rajsattama, isto é, Rajas, Satva, Tamas).

Eles são os genes necessários à fecundação de futuros Sistemas, Cadeias, Globos e Rondas, tanto cósmicas como planetárias.

A forma dos planetas mais que redonda é oval, assume o aspecto aproximado de um ovo (porque tudo nasceu do Ovo Cósmico, o “ovo d´oiro” do conto infantil, como seja Hiranyagharba), enquanto a dos cometas é alongada, com a cauda imensa espargindo no espaço nuvem de poeira como pólen proliferante…

convida à soma de um polinómio de evolução algébrica futurista, cuja soma ou o soma se consome como os cometas disseminados como os peixes, sem contacto.

Isso lembra o zangão no voo nupcial das abelhas o qual morre na sua aventura amorosa, ressurgindo no filho. Ou ainda a valisnéria, no mundo das plantas, elevando-se do fundo das águas para depois se desfolhar em mil pedaços, indo o seu cadáver – qual lacrimário de rosas – surgir na margem do lago, enquanto a sua bem-amada, levando no seio o fruto de um amor heróico, desaparece no fundo das águas, como se fora, no conto infantil, a Branca de Neve adormecida no seu leito de cristal à espera do Príncipe encantador, que neste caso é o Pai ressurgindo no Filho, tal qual no mito egípcio de Osíris ressuscitado em Hórus.

Os cometas são visíveis e gasosos mas não sólidos, por isto, devido serem altamente rarefeitos, não perturbam as órbitas dos planetas por que se cruzam, nem aos mesmos a passagem das suas caudas ou “projecções ambientais” pode provocar-lhes quaisquer danos, muito pelo contrário pelas razões já descritas.

O diâmetro médio de um cometa é de mais de 100.000 km – incluindo a coma (gasosa) e o núcleo (minério ígneo) que origina o rasto luminoso ou cauda. Esta pode ter milhões de quilómetros de comprimento.

Quando o cometa se acerca do Sol liberta gases que formam a coma ou cabeleira, cercando o núcleo. A pressão da radiação solar retira as pequenas partículas do cometa e distribui-as pelos espaços planetários fecundando-os, dando origem à cauda que, devido a essa pressão magnética, tem sempre orientação contrária à direcção do Sol.

Os cometas são “astros errantes”, “vagabundos do espaço”, fecundadores de mundos para que destes nasçam novos mundos, novas estrelas, novos sóis. São representados no mito do “Judeu Errante” ou no de “Édipo de pés inchados” de tanto caminhar… caminhando para novas direcções na vida em busca de um sublime amor… por nascer.

Os cometas são, portanto, também eles andróginos latentes e andróginos patentes, aparecendo com regularidades planetárias cuja “excentricidade orbital” provoca desilusões e surpresas até aos mais experientes astrónomos.

Foi o caso do cometa de Biela. Este astro errante consumava a sua revolução periódica em torno do Sol de seis em seis anos, vindo do espaço exterior do Sistema Solar, até que em 1866 apareceu dividido em duas partes, com dupla forma, como se fosse o seu próprio cadáver acompanhado do duplo ou corpo etérico, tal como acontece com a alma humana acompanhando o corpo físico, pois, reitero, o Espírito é a Essência imortal que vibra tanto no cometa como no homem, como em tudo quanto existe na Natureza. É que esse cometa estava terminando a sua função de “fecundador dos Universos” (de que a Via Láctea, repito, é o mais frisante de todos os exemplos, cruzada e alimentada em todas as direcções por esses “vagabundos celestes”).

Quando mais tarde Biela retornou, em 1872, já não eram dois mas sim seis os fragmentos nucleares, e por último, ao corresponder-lhe o novo retorno no periélio em 1878, viu-se no seu afélio ter aparecido sem rasto algum do primeiro núcleo, e observou-se uma chuva de estrelas (as “lágrimas de S. Lourenço” derramadas das bandas de Leónidas comuns no mês de Agosto, o da celebração desse santo no dia 10) causada pela desintegração total do cometa em milhares de pedaços ou meteoros, que por sua vez também se desintegraram em milhões de chispas ou meteoritos, estes as benfazejas estrelas candentes quando penetram a atmosfera terrestre, pois diariamente entram nela cerca de 100 milhões desses corpúsculos, como pequenos grãos de areia ou pólen fertilizador.

Previsão apocalíptica igual a outras tantas de ontem e hoje: publicação de 1899 anunciando o fim do Mundo provocado pela colisão do cometa Biela com a Terra.

Os meteoros mais pequenos chamam-se, pois, meteoritos, e cerca de 300 deles caem diariamente na Terra. Os meteoritos são de duas classes: aerólitos, compostos essencialmente de pedra, e sideritos, formados de níquel e ferro. Há ainda os tectitos, pedaços redondos de matéria vítrea.

Os aerólitos meteoríticos ou pedras negras caídas do céu são os derradeiros despojos desses astros errantes mortos, que com a sua queda contínua em nosso planeta incrementam a sua massa, alimentando-a com a substância que trazem consigo.

Acerca da relação meteorítica com a nossa Terra, o Mestre Koot Homi Lal Sing escreveu em Outubro de 1882, antecipando todos os conhecimentos académicos da época e mesmo os actuais:

“Para nós, é um facto estabelecido ser o magnetismo da Terra quem produz o vento, as nuvens e a chuva. O que a Ciência parece conhecer não são senão os sintomas secundários sempre determinados por esse magnetismo, sendo ele quem fará que proximamente ela se aperceba dos seus erros presentes.

“A atracção magnética exercida pela Terra sobre a poeira meteorítica e a influência directa desta sobre as mudanças bruscas de temperatura, especialmente no respeitante ao calor e ao frio, não é, creio, ainda um assunto aclarado. É posto em dúvida o facto da passagem da Terra em uma região do espaço onde haja mais ou menos massa meteorítica puder ter alguma influência sobre a altura da nossa atmosfera, aumentando-a ou diminuindo-a, ou mesmo sobre o estado do tempo. Contudo, nós pensamos poder provar isso facilmente; e porque se admite o facto de que a proporção relativa de água e terra, e a sua repartição sobre o nosso Globo, pode dever-se à grande acumulação de poeira meteorítica, estando a neve (sobretudo nas regiões setentrionais) cheia de ferro meteorítico e de partículas magnéticas, sendo os despojos desses últimos encontrados mesmo no fundo dos oceanos, admiro-me por a Ciência não ter ainda compreendido que todas as mudanças e perturbações atmosféricas devem-se ao magnetismo combinado das duas grandes massas entre as quais a nossa atmosfera está comprimida! Chamo a essa poeira meteorítica de “massa” porque na realidade a é. A uma altitude acima da superfície da nossa Terra, o ar está impregnado e o espaço repleto de uma poeira magnética ou meteórica que nem sequer pertence ao nosso Sistema Solar.

“Tendo a Ciência feito a feliz descoberta que a nossa Terra, em curso através do espaço em companhia doutros planetas, recebe uma maior proporção dessa matéria poeirenta sobre o seu hemisfério boreal que sobre o hemisfério austral, sabe que isso se deve ao número muito importante de continentes e à grande abundância de neve no primeiro desses hemisférios.

“Vários milhões de tais meteoros e mesmo de partículas muito finas atingem-nos anual e diariamente, e todas as espadas dos nossos Templos são feitas com esse ferro “celeste” que nos chega sem ter sofrido nenhuma alteração, provocando então o magnetismo terrestre a coesão.

“A matéria gasosa é continuamente acrescentada à nossa atmosfera pela queda incessante de matéria meteorítica fortemente magnética, mas, no entanto, os sábios parecem não ter ainda a certeza das condições magnéticas possuírem ou não alguma relação com a precipitação da chuva! Em todo o caso, todos nós sabemos que o calor recebido pela Terra por radiação do Sol é mais ou menos o terço, se não menos, da quantidade recebida directamente por ela dos meteoros.”

Os cometas são, pois, enxames grupais de mónadas que, a dado momento, disseminam-se pelos planetas, por intercessão do Sol Central, em meteóricas chuvas de estrelas ou mónadas particularizando-se, destinadas a manifestarem-se como Ondas de Vida em futuros Sistemas de Evolução.

Despojam-se dos seus naturais ingredientes físicos ao penetrarem as crostas dos planetas, indo assim nutrir as suas massas globais.

Na Terra, as Essências dessas potenciais e futuras Ondas de Vida são “armazenadas” em Agharta, a fim de se manifestarem nos próximos Manvantaras do Globo como Reinos Mineral, Vegetal, etc.

Daí o carácter sagrado, mesmo divino, que os povos antigos davam aos cometas, como acontece na Pedra Kaaba em Meca, pelo Islão, tida como um aerólito negro caído do céu, e no mesmo sentido cometário ia o culto às Virgens Negras na Antiguidade.

Mário Roso de Luna, o “Adepto de Logrosán”, também não deixou de comentar este tema com as palavras seguintes:

“Os cometas são astros misteriosíssimos porque eles são gérmens de mundos, e gérmen equivale etimologicamente a mistério. Ademais, eles são astros fatídicos, não no respeitante à raça semita, lunar, que os crê vindos somente para ela, e sim a respeito de si mesmos, porque ao serem, como dissemos, “sementes de mundos futuros”, semeadas nas zonas planetárias onde têm os seus periélios (dada, enfim, a correlação analógica que estabelecemos entre o cometa como “gérmen masculino astronómico” e o anel planetário feminino ou zona “pré-planetária”, como “óvulo astronómico” ou “centro laya”, todo o cometa periódico acaba por morrer nesse anel, tal como morre o espermatozóide no óvulo ao fecundá-lo), os seus destinos, como o de toda a semente, é o de se dissolverem e morrerem, ora para serem destruídos como tantos outros gérmens de vida ao serem incorporados a outras formas suas destruidoras, ora pela mesma lei de germinação pressupondo a correspondente morte da semente que germina.”

Morte e ressurreição, esse é um dos significados do mito de “Saturno devorando os seus filhos”: devorado para originar – tal é a função do cometa.

Volvo agora à questão das “órbitas excêntricas” dos cometas que deixam os astrónomos de “nervos em franjas”, por não conseguirem dar-lhes uma definição exacta e baralharem os seus cálculos, questionando todo o empirismo teórico e experimental científico.

Tal como nas moléculas compostas de dois ou mais átomos, por sua vez estes formados de protões e electrões, tendo-se oportunidade de verificar que alguns electrões fazem parte de dois núcleos simultaneamente, assim também os cometas, os “vagabundos do espaço” ou “espermatozóides cósmicos”, tendo os astrónomos calculado as suas órbitas como sendo parabólicas. Para eles, enquanto os planetas descrevem órbitas elípticas em torno do Sol, as órbitas cometárias são tidas como parabólicas. No entanto, muitos cometas retornam periodicamente para junto do Sol após saírem do nosso Sistema Planetário, provando assim que as suas órbitas são fechadas e não abertas, ao contrário do que pretendem alguns astrónomos.

Com uma órbita aberta ou parabólica, o cometa jamais retornaria ao nosso Sistema Solar. Após “beijarem” o Sol os cometas saem do nosso Sistema e, tal como as abelhas que vão de flor em flor, procuram igualmente “beijar outros Sóis próximos”, como por exemplo o da estrela Alfa Centauro, cujos Sistemas Planetários, por meio de tais cometas, se entrelaçam na maior Harmonia das Esferas. Embora tal fenómeno ainda não tenha sido constatado, pode ser inferido pela Matemática, à semelhança da zona dos asteróides, pois, pelos cálculos astronómicos, naquele lugar deveria existir um planeta. De facto, as observações espaciais acharam não o planeta mas os seus restos fragmentados, indicadores de ter explodido no passado longínquo do Sistema Solar.

A razão do esquema cósmico desenrolar-se num só plano, quase exclusivamente, terá origem no sentido de rotação tomado pelo conglomerado estelar primitivo, o que propiciou o nascimento de sistemas galácticos e posteriormente, no mesmo plano, dos sistemas solares e planetários. Como se poderia entender, por exemplo, o facto dos cometas não serem rapidamente absorvidos pelo Sol quando são atraídos para ele, aumentando incrivelmente as suas velocidades orbitais? Como poderia explicar-se esse facto uma vez que os cometas acercam-se tanto do Sol?

O que se constata é facto digno de nota: o cometa, em órbita aparentemente parabólica, aproxima-se perigosamente do Sol, chegando até a ultrapassar a área delimitada pela órbita de Mercúrio; a sua cauda projecta-se sempre na direcção oposta ao Sol; ao aproxima-se a cauda deve ficar-lhe atrás, como é lógico supor-se. No entanto, por mais absurdo que pareça, o cometa ao afastar-se do Sol a sua cauda vai à frente, como se a sua luz fosse refracção dos raios solares atravessando a massa cometária que, neste caso, será translúcida. Dá até a impressão dos cometas serem unicamente formados de matéria cristalina.

Qual a força que impede o cometa de penetrar e desaparecer nas chamas solares? Pois bem, tanto o Sol como a Terra e outros astros “vivos” possuem em seu redor uma espécie de cinturão ou escudo de irradiação magnética (que em termos teosóficos é tão-só o círculo-não-se-passa do espaço delimitativo tanto de um Sistema Solar como de um Planetário, vindo a ser a expressão ambiental do ovo áurico dos respectivos Logos), sendo tanto maior quanto maior for o astro e a sua actividade, indo demarcar a maior ou menor liberdade do mesmo conformada à sua evolução cósmica. A Lua, considerada “cadáver” no espaço, apenas possui os resquícios de tal cinturão, como já foi constatado pelos aparelhos levados a bordo das sondas lunares. A Terra possui o já famoso cinturão “Van Allen”, aliás, o dr. Bruno Rossi, do Instituto de Tecnologia Espacial de Massachusetts, USA, comunicou que o “Explorer X” descobriu por detrás do nosso planeta uma imensa “sombra (Cone da Lua) formada pela barreira do campo magnético terrestre”, o qual envolve a sua superfície repelindo o plasma solar, ou seja, aquela enorme massa de radiação que o Sol projecta em todas as direcções no espaço. A Terra também é bombardeada por uma corrente de partículas constituídas de electrões e protões, a corrente electroprotáica que forma o chamado vento solar, cuja velocidade calcula-se em cerca de 320 km por segundo. O “Explorer X”, lançado em Maio de 1961, descobriu que o vento solar é desviado pelo campo magnético terrestre, formando atrás da Terra um vulto que assume o aspecto de uma “sombra” ou “cone sombrio” do próprio Globo, o seu duplo etérico ou astral.

O Sol possui a sua coroa de tamanho imensurável e a sua capa de protecção magnética será dotada de força poderosíssima para repelir os objectos que se acerquem dele a grande velocidade, atraídos pela força gravitacional. Um objecto para conseguir varar tal protecção terá que orbitar muito tempo a baixa altitude, até encontrar uma “porta”, uma falha ou um ponto onde o cinturão seja menos potente ou inócuo, como nos pólos. O cometa, vindo das profundezas siderais com grande velocidade, resvala nesse escudo magnético, contorna-o devido à atracção gravitacional solar e pela sua velocidade é novamente arrojado ao espaço, num incrível movimento semelhante ao de uma funda.

Assim também acontece com os planetas dotados de escudo de irradiação magnética (soma das energias telúricas planetárias ou electromagnéticas a que se dá o nome de Kundalini). Um corpo estranho ao planeta que se aproxime a grande velocidade, igualmente resvala no seu cinturão magnético, e se for compacto retorna ao espaço; se for manos resistente, esfacela-se e os seus fragmentos, em menor velocidade, passam a contornar o cinturão. Não será essa a razão da massa de um satélite ao abater-se sobre o seu planeta, atraído pela maior gravidade deste, ir formar anéis semelhantes aos de Saturno? O planeta terá, nesse caso, possibilidade de ir absorvendo aos poucos tal massa na forma de meteoros, com muito menor impacto sem afectar desastrosamente a sua vida (não se devendo confundir com asteróides, restos rochosos de planetas entretanto se desfazendo como cadáveres que um dia tiveram vida, e que poderão penetrar o cinturão magnético de um corpo planetário pelo seu ponto mais inócuo, como aconteceu com o asteróide que embateu na Terra, na região da Península de Yukatan, México, indo extinguir a vida dos dinossáurios e iniciar a primeira Idade do Gelo). É certo que não deixam de acarretar grandes convulsões telúricas, porém, suportáveis. Nesse caso é mais uma órbita em forma de parábola que se converte em elipse, e depois numa espiral vertiginosa. Com isso ocorre ao pensamento aquelas cometárias palavras de S. João no Apocalipse, 12-4:

– Eu vi Lúcifer caindo dos céus, em espiral vertiginosa, arrastando consigo a cauda do dragão.

Relacionada com essa misteriosa frase do Apocalipse aparece a não menos obscura tradição cometária do Coluber tortuosus (“Serpente tortuosa”) encontrada em Job, 26-13, apodo dado pelos antigos hebreus ao “Anjo Caído” Luzbel, o 3.º Dhyan-Choan que dirigiu a Cadeia Lunar dotado dos predicados de Marte com que se transferiu à actual 4.ª Cadeia Terrestre, que teria um significado puramente astronómico antes das deturpações teológicas e demonológicas. À “Serpente” caída do Alto (deorsum fluens) imputava-se a posse das chaves do Império da Morte (Mors, Mars ou Marte regendo as Talas ou “regiões sombrias” do “Cone Lunar” da Terra, no antípoda das “regiões luminosas” do “Cone Venusiano ou Solar” da mesma Terra), até ao dia em que Jesus a viu “cair do céu como um raio” (Lucas, 10-18), não obstante a interpretação católica romana dada às palavras cadebat ut fulgor. Quer isso dizer que até “os demónios (Assuras revoltados que caíram na Geração Humana com Luzbel ou Maha-Sura) estão sujeitos ao Logos”, este que é a Sabedoria ou Sophia adversária da Ignorância ou Satan, em termos teológicos, o que se retrata no Apocalipse como a Virgem Coroada de Luz sobre o Dragão Negro. Esta observação entende-se como a Sabedoria Divina caindo como um relâmpago sobre o intelecto dos que lutam contra os demónios da ignorância e da superstição, assim tornando mais activo e amplo o mental humano. O Apêndice de O Segredo de Satan, de A. Kingsford, citado por H. P. Blavatsky no volume III de A Doutrina Secreta, acrescenta que “Deus pôs um cinturão nos lombos de Satan (em guisa dos anéis de Saturno), e o nome do cinturão (ou anel) era Morte…”.

Outro fenómeno que tem, no decorrer dos últimos séculos, intrigado os homens de ciência e que se acha estreitamente ligado ao cinturão de irradiação, hoje chamado de “Van Allen”, é o das auroras boreais e austrais, que nada mais são do que a super-ionização das correntes magnéticas desse escudo envolvente e protector da Terra do fluxo de plasma solar activadas pela incidência da luz, produzindo efeitos luminosos e de ultrassom, tendo a sua origem no Sol Interno do Globo provocando o fenómeno pelo impacto com a atmosfera exterior.

O Professor Henrique José de Souza deu expressão trina ao mistério dos “astros errantes”, que como se viu relacionam-se ao “sexo cosmogenético” (união de Deus Pai-Cósmico) como arquétipo da “família cosmogenética” (geração das Hierarquias Criadoras). Desta é que saiu a “família antropogenética” ou humana no Reino Hominal da Terra. Essa expressão trina do Eterno Brahma-Nirguna é o cometa, a gameta e o planeta.

O PAI: COMETA

Tem a auto e supra-consciência do 1.º Logos deste 4.ª Sistema de Evolução Universal, na sua elevada função de Criador de Universos.

É um “astro cosmogenético” autoguiado, supra-cósmico de natureza sátvica e masculina com “cauda luminosa”.

É portador do “espermatozoário cósmico” com o potencial dos sete mais um Princípios Universais em seus “genes flogísticos”, miniaturas de sóis, pontículos luminosos em enorme quantidade visíveis no panorama celeste, constituindo aquele fenómeno que os astrónomos denominam de “poeira cósmica”.

A MÃE: GAMETA

Tem a auto e supra-consciência do 2.º Logos deste 4.º Sistema de Evolução Universal, na sua elevada função de Criador de Planetas.

É um “astro cosmogenético” supra-cósmico, radiante, rajásico e feminino, com “cabeleira luminosa” e sem cauda.

É portadora do “ovário cósmico” com o potencial dos sete mais um Princípios Universais nas “gamas matizes” que o Filho Planeta herda com o potencial de Andrógino.

O FILHO: PLANETA

Tem a auto e supra-consciência do 3.º Logos deste 4.º Sistema de Evolução Universal, na sua elevada função de Criador das Formas proporcionando os recursos materiais que permitem a cristalização da Ideação Cósmica, através da continuidade da Obra do Eterno (Logos Único) pelos Luzeiros e Planetários acompanhados das respectivas Hierarquias Criadoras.

É portador do potencial dos sete mais um Princípios Universais e dos princípios polares do Androginismo, donde se observarem Globos mais de natureza masculina (sátvica) e outros mais de natureza feminina (rajásica).

Como Filho ou “Globo Terrestre” traz consigo o “Aspecto Masculino Paterno”, mas como Mãe-Terra traz consigo o “Aspecto Feminino Materno”, a Mater-Rhea ou Matéria, plena de Vida e sempre fértil, dando continuidade à Criação ou Obra do Eterno desde as suas funduras até à face do Globo.

É um “astro cósmico” tamásico, denso e opaco na sua “superfície externa”, porém, subtil na sua “superfície interna” ou mundo interior, com luz difusa e permanente.

Isso deve-se ao “Sol Oculto” ou Núcleo Central, Shamballah, o “Laboratório do Espírito Santo”, a “Mansão dos Deuses” ou “Berço Ígneo” dos “Embriões Flogísticos”, os Manasaputras, “Filhos do Mental Cósmico”, acalentados pelos Luzeiros e Planetários para a prossecução da Obra do Eterno neste Globo, sempre avante na Senda da Evolução.

É o “Corpo Vivo do Eterno” onde se cristaliza a Ideação Cósmica do Supremo Arquitecto do Universo, a fim de “o que está em baixo ser como o que está em cima”.

Sim, o “Planeta Terra” já foi “Lua e Marte”, doravante será “Vénus e Mercúrio”, desenvolvendo o seu “Androginismo”, esses últimos com “Sol e Lua à sua frente”, como diz a letra do Hino Exaltação ao Graal.

Tal como na formação do Planeta assim também na formação do Homem, este com a Mulher em consórcio amoroso à semelhante da União Cósmica do Logos como Kartri (Vontade) e Shakti (Actividade) dando origem a novo Ser, a novo Globo. Tem-se assim a fusão do cometa ou gameta masculino (espermatozóide) com o gameta feminino (óvulo) indo gerar a célula inicial zigoto origem do feto humano, que em nível macrocósmico poderia ser um corpo planetário, posto “o que está em cima ser como o que está em baixo”, ressalvando as devidas proporções.

Em conformidade a quanto já se disse, o tema mereceu desenvolvimento acurado pelo eminente teósofo brasileiro António Castaño Ferreira, cerca de 1952:

“Como ficou dito, o cometa tem um comportamento “esquisito e misterioso” que desafia as leis da mecânica celeste como é conhecida pela ciência astronómica, enchendo de “pontos de interrogação” os cérebros dos mais conspícuos e eruditos astrónomos. Porém, os Grandes Iluminados de todas as épocas e tradições conheciam bem a “ciência astrológica e cosmogenética” da Teosofia, a qual não deve ser confundida com a “ciência astronómica e mayávica” do conhecimento humano.

“O ovário cósmico fecundado internamente pela “Mãe Gameta” contém em cada óvulo cósmico as gamas matizes dos oito Princípios universais (Shaktis), tal como acontece com o espermatozoário cósmico do “Pai Cometa”, contendo em cada gene os mesmos oito Princípios universais (Raios) em potencial, porém, em forma de “genes flogísticos”, portanto, luminosos, miniaturas de sóis.

“Quando os óvulos ou ovos cósmicos são fecundados pelos genes flogísticos, dá-se a fusão dos dois princípios polares: Masculino e Feminino, Fohat e Kundalini, a Essência luminosa e a Essência energética, ou Luz e Força.

“A “enorme quantidade” dos ovos cósmicos fecundados, os quais tornam-se pontículos luminosos, formam aquele fenómeno celeste que os astrónomos chamam de “poeira cósmica”, nas águas akáshicas ou etéricas.

“Este fenómeno da criação cosmogenética é repetido no Reino Animal, na maior parte das espécies de peixes. Com efeito, o peixe fêmea faz a postura dos ovos em determinado lugar escolhido e, no devido momento, o peixe macho cobre os ovos com o líquido seminal, surgindo posteriormente os “novos cardumes” de peixinhos, tal como acontece com a “poeira cósmica” nas águas akáshicas.”

Devido a essa identidade do processo criador, o peixe passou a ser símbolo universal do sexo, representando o signo zodiacal dos dois Piscis aos dois princípios polares: Fohat e Kundalini, Macho e Fêmea ou Pai e Mãe. Foi justamente por esse motivo que o Avatara Jesus Cristo desenhou na areia o signo de Piscis, aquando da perseguição à “mulher adúltera”, apontando e inquirindo as consciências: Quem está livre deste pecado?

Nessa época, obviamente não existiam os avanços tecnológicos da actual Astronomia, mas existia a Astrologia Teosófica com a qual se difundia ao povo o conhecimento dos signos zodiacais, possuídos dos seus significados mentais e morais. Por isso, é que os apedrejadores entenderam o significado profundo da “pergunta e sentença feitas” pelo próprio Avatara de Piscis, o do “Ciclo do Sexo”, tendo as pedras sido largadas pelas mãos nervosas dos falsos puritanos e julgadores falazes, que os há e com fartura em todas as épocas.

Esse conhecimento astrológico foi o mesmo que norteou os três Reis Magos até à gruta do Presépio ou Apta onde o Menino Deus acabara de nascer há dois mil e alguns anos. Perseguiram a luz sideral da “estrela” formada pela conjunção planetária de Júpiter – Hermes (Mercúrio) – Saturno incidindo sobre esse lugar ignoto de Belém, na Palestina.

Enfim, os princípios polares da Criação são padrão universal uniforme em todo o Universo: Fohat e Kundalini! Porém, os processos de união desses dois princípios diferem numa multiplicidade divergente em todo o Universo.

Dos múltiplos exemplos de consórcio sexual na Natureza apontados pelo Professor Henrique José de Souza, já foi referido aquele acontecido no Reino Animal com os peixes, sem esquecer o caso do mamoeiro no Reino Vegetal.

A mamoeira fêmea tem os frutos ou mamões incrustados no tronco, no Reino Vegetal, tal como os seios no corpo da mulher, no Reino Hominal, enquanto o mamoeiro macho tem os frutos ou mamões pendurados em hastes alongadas separando-os do corpo, tal qual acontece com os testículos ou escrotos no corpo do homem. Também as folhas apresentam características polares ou diferenciadas, como pode observar-se facilmente.

A união dos “princípios polares” entre os mamoeiros macho e fêmea processa-se na 4.ª Dimensão, o Plano Astral, através da inter-relação energética dos dois pólos que assistem à sua respectiva Alma Grupal, vista a impossibilidade do “contacto físico”, sendo porém necessário que ambos se defrontem livremente sem haver entre eles algum outro corpo com ovo áurico, pois isso impediria a união dos princípios através da “interferência estranha”.

Quando o mamoeiro macho se defronta livremente com a sua contraparte, a mamoeira fêmea, sem interferências estranhas (facto que entre o homem e a mulher poderá registar-se física e psicologicamente no seu matrimónio com a ingerência anormal de um ou de uma possível amante, como “interferência estranha”), a união dos princípios polares dá-se normalmente, resultando para ambos belos e bons frutos, muito bem sazonados. Ao contrário, quando há uma interferência estranha impedindo a união, ou quando o mamoeiro está solitário sem uma contraparte na área de sintonia, os seus frutos surgem incompletos, ressequidos, descoloridos e insabores.

Todos os processos de união derivados das leis naturais normais, nos Reinos Vegetal e Animal, são sempre surpreendentes, umas vezes maravilhosos, outras vezes assustadores. Nisto, por exemplo, como acontece com a valisnéria, pagando com a vida um amor único e heróico. Também no Reino Animal, com o zangão mais apto entre os demais concorrentes, e com o escorpião que antecipadamente está condenado à morte, pois mesmo que escape com vida da sua amante ela o perseguirá sem tréguas, até o matar.

No entanto, se por um lado o processo de união como efeito varia em multiplicidade infinita, por outro lado os princípios polares da Criação, Fohat e Kundalini, são uniformes e a causa única de toda a existência no Universo, obedecendo sempre ao mesmo padrão como arquétipo tanto para o Criador ou Deus como para a Criação ou Natureza, e também para o criado ou criatura do 4.º Reino, o Homem e a Mulher, feitos à imagem e semelhança do Criador que macho e fêmea os criou, como Ele mesmo é Pai-Mãe Cósmico originador do “criai, crescei e multiplicai-vos”, dando solução de futuro à existência da Humanidade e de outras Vagas de Vida em evolução na Terra.

Desfecha o Professor Henrique José de Souza:

– O cometa é o protótipo do “Judeu Errante” e do Édipo grego (Édipo significa “pés inchados”, sim, de tanto caminhar), embora o termo “errante” não anule o sentido da sua marcha ou direcção, como acontece ao homem guiado por sua Consciência afastada do corpo e da alma, e, portanto, seguindo uma nova direcção na vida, em busca do “perdido”, como Psique – na mitologia grega – em busca do seu bem-amado que outro não é senão o Espírito, simbolizado por Eros.

De facto, o cometa erra naquele ambiente que por Lei lhe foi traçado. O homem, por sua vez, poderia errar (no sentido de caminhar, vagar) através do que ele mesmo traçou, seja nesta existência como noutras passadas, e não plagiando Camões, “por mares nunca d´antes navegados”, ou novas direcções na vida, chamemos de castigo ou direcções kármicas, sempre certas e infalíveis.

SPES MESSIS IN SEMINE

“A Esperança da Colheita está na Semente”

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Henrique José de Souza, Os Mistérios do Sexo. Edição da Sociedade Teosófica Brasileira, Rio de Janeiro, 1941. Reedição Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1995.

Henrique José de Souza, A Harmonia Universal, 1956. Edição da Comunidade Teúrgica Portuguesa, Sintra, 2016.

Henrique José de Souza, Ocultismo e Teosofia. Edição da Sociedade Teosófica Brasileira, Rio de Janeiro, 1949. Reedição Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1983.

Mário Roso de Luna, Conferencias Teosóficas en América del Sur. Edição original pela Librería de Pueyo, Madrid, 1911. Reedição por José Rubio Sanchez, Valência, Setembro de 2015.

António Castaño Ferreira, Aulas de Cosmogénese e Antropogénese. Sociedade Teosófica Brasileira, 1952.

Paulo Albernaz, A Grande Maiá – Mistérios do Universo. Indústria Gráfica Bentivegna Editora Ltda., São Paulo, 1987.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, Textos Internos. Sintra, Portugal.

A propósito de Mavalankar nas Escrituras Teosóficas – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Set 12 2017 

O nome ou sobrenome Mavalankar tem dado origem a discussões infrutíferas acerca da verdadeira identidade de Damodar Karhâda Mavalankar confundido com Djwal Khul Mavalankar, ou de Mavalankar, dito Mestre Tibetano. Será que um é o outro ou será que por má interpretação das informações disponíveis confundiu-se um com o outro? Ou será que nas Cartas dos Mahatmas endereçadas a Helena Petrovna Blavatsky e seus pares da época (Henry Stell Olcott, Alfred Percy Sinnett, William Judge e uns poucos mais), é exactamente por esse pormenor que se poderá provar a falsidade dessas cartas e que afinal os ditos Mahatmas ou são tão falíveis como qualquer mortal, ou simplesmente não passam de uma gigantesca invenção, monstruosa impostura da mesma Blavatsky? É nisto que crêem os cépticos da Teosofia de todos as crenças positivistas e religiosas, todos unidos como inimigos declarados da mesma Mestra, sempre à cata de pormenores somenos onde a possam flagrar em contradição e mentira.

Déjà vu… sim, porque algo semelhante encontrei na Sociedade Teosófica de Adyar em Portugal quando cheguei a ela no início dos anos 80 do século findado, onde o colectivo do Ramo Alvorada andava acalorado de “candeias às avessas” sem se entender acerca do Karma, se ele provoca ou não dor física e moral, e se alguém pode ter uma vida inteiramente isenta de dor? Discussões inúteis, infrutíferas que respondi conforme sabia. Após, a discussão amainou e aos poucos regressou-se ao miolo invés de catar as possíveis fissuras da casca. Nisso, agora também aqui entra o sobrenome Mavalankar sobre que direi algumas palavras.

Primeiro que tudo: não discuto a Palavra dos Mestres de Sabedoria e não me atrevo a pô-la em causa, acredito neles como a principal razão da minha vida, provas pessoais não me faltam mas ficam só para mim que são minhas, e com isso sei que uma aparente incongruência ou um talvez equívoco da parte dos Mestres seja afinal o meu equívoco, a minha incongruência. O que parece, pode não ser, e que pode não ser, pode parecer. Razão para H. P. Blavatsky afirmar aos do Círculo Interno da S. T. fundado por ela e H. Olcott em moldes budistas (dogma) e maçónicos (ritual): “Por mais absurda que vos pareça uma ordem dos Mestres, não hesiteis em cumpri-la!” No mesmo sentido, isso reafirmou o Professor Henrique José de Souza, sobretudo durante o período de 1924-1928, quando dirigiu Dhâranâ – Sociedade Mental-Espiritualista em Niterói, Brasil. Nunca o discípulo, ou tão-só o candidato a tal, de sentidos limitados, poderá perceber as intenções animando o pensamento superior de um Adepto Independente cujas alturíssimas mentais e tirocínio certeiro está sempre muito além do imediatismo dos factos aparentes, indo prever os lances do futuro conformando a eles o presente.

Pois bem, Damodar Karhâda (Karada) Mavalankar nasceu em Setembro de 1857 em Ahmedabad, no Gujarat indiano, numa família rica de casta hindu superior, brahmane. Sobre a sua morte, a última notícia que se sabe dele é ter partido para os Himalaias em 1885 em busca dos Mestres de Sabedoria, desaparecendo para sempre nas entranhas do mistério. Em 1879 conheceu Helena P. Blavatsky e Henry S. Olcott em Bombaim, e ficou de tal modo fascinado pelos ensinamentos teosóficos que se afiliou à Sociedade Teosófica desistindo da sua casta em 1880, abraçando o budismo quando estava no Sri Lanka junto com o casal fundador da S. T. Essas suas atitudes e cortes radicais com a ortodoxia hindu familiar geraram conflito insanável com esta, sobretudo com o seu avô, o seu pai e o seu sogro que adiantara uma renda de 50.000 rupias como dote de casamento (combinado entre os progenitores masculinos) da sua filha ainda de tenra idade com ele. Damodar desistiu da herança, da segurança familiar e acabou deserdado, indo definitivamente viver e trabalhar com os fundadores da S. T. até ao momento de partir para o Tibete onde desapareceu misteriosamente (in Henry S. Olcott, Folhas de um Velho Diário – História Autêntica da Sociedade Teosófica, vol. II, 1900).

O episódio da deserdação familiar aparece igualmente num outro personagem que alguns confundem com Damodar, a ponto dos Adeptos também o apodarem nas suas Cartas, escritas em inglês, The Disinherited, “O Deserdado”. Refiro-me a Djwal Khul, dito o Tibetano. O Mahatma Koot Hoomi Lal Sing, brahmane de Cachemira, escreveu na Carta nº VIII datada de cerca de 20 de Fevereiro de 1881, recebida por Madame Blavatsky mas endereçada a Douglas Hume, que viria a preterir a Teosofia pelo mediunismo espiritista: “E agora, passemos a assuntos mais importantes. O tempo é precioso e os materiais (de que me sirvo para escrever) ainda mais. Sendo agora a “precipitação” proibida no que lhe respeita, a falta de tinta e papel não tem mais hipóteses de ser superada por tamasha, e estando muito longe de minha residência, em lugar onde uma papelaria é menos necessária que o ar respirável, a nossa correspondência ameaça cessar bruscamente, a menos que utilize judiciosamente a reserva que disponho. Um amigo prometeu fornecer-me, em caso de grande necessidade, algumas folhas separadas, relíquias do testamento de seu avô, no qual este o deserdou, fazendo assim a sua “fortuna”. Mas como nunca escreveu uma linha, salvo uma vez, declarou ele, nestes últimos onze anos…” o que não confere com Damodar e sim com Djwal Khul, que nessa mesma carta escreve uma curta nota assinando o Deserdado. Por seu turno, Damodar mantinha uma relação epistolar intensa com William Q. Judge, de que transcrevo trecho da sua carta endereçada àquele datada de 24 de Janeiro de 1880, descrevendo a sua apreciação de H. P. Blavatsky e a sua deslocação em corpo astral ao interior do Templo de seu Mestre:

“Sei que Madame Blavatsky, que eu venero como minha Guru, estimo como minha benfeitora e amo mais que uma mãe, e outros cuja simples recordação dá ao meu coração uma emoção que me faz tremer de veneração, faz-me favores de que não tenho o menor merecimento… Cerca de um mês depois de eu aderir à Sociedade, ouvi uma voz interior que me sussurrava que Madame Blavatsky não é o que descrevem ser… Eu penso que seja algum grande Adepto indiano que tomou essa forma ilusória.

“O Irmão ∴ ordenou-me para segui-lo. Após uma curta distância de meia milha, nós entrámos por uma passagem subterrânea natural que fica sob o Himalaia. O caminho é muito perigoso. Há um caminho natural que discorre por baixo do Rio Indo com toda a sua fúria. Somente uma pessoa de cada vez pode passar por ele, e um passo em falso marca o destino do viajante. Acima do caminho há vários vales a serem cruzados. Depois de andar uma distância considerável por esta passagem subterrânea, surge uma planície aberta em L—K. Há aí uma grande construção maciça com milhares de anos. Em frente dela um enorme Tau egípcio. O edifício apoia-se em sete grandes pilares em forma de pirâmides. A porta de entrada tem um grande arco triangular. No interior há vários compartimentos. O edifício é tão grande que eu penso que possa conter 20.000 pessoas. Foram-me mostrados alguns dos compartimentos. Este é a principal localização central onde todos os da nossa secção que foram preparados para a Iniciação nos Mistérios têm de ir para a cerimónia final, e ali permanecer durante o período requerido para isso. Eu entrei com o meu Guru no enorme salão. A grandiosidade e a serenidade do lugar é o suficiente para impressionar alguém, impondo-lhe respeito. A beleza do Altar que está na parte central e no qual cada candidato toma os seus votos no momento da sua Iniciação, certamente deslumbra o mais brilhante dos olhares. O esplendor do Trono do Senhor é incomparável. Todas as coisas estão estabelecidas num princípio geométrico e contendo vários símbolos que são explicados somente aos Iniciados. Mas não posso falar mais, agora que eu fiquei com a obrigação de Segredo que ∴ me fez tomar.”

Damodar voltava frequentemente ao assunto dos Adeptos, “porque é o único assunto em que estou interessado”, discorrendo longamente sobre eles mas sem admitir entusiasmos que o colocassem fora da sua discrição e devoção natural. Ainda em carta a W. Judge, conta a visita que lhe fez o seu Mestre em Maio de 1880, quando estava no Ceilão em companhia de Blavatsky e Olcott, tendo se instalado numa pousada onde havia lugar apenas para duas pessoas, tendo ele ficado na poltrona da sala de jantar. Mal se acomodara, ouviu uma batida leve na porta:

“Eu abri-a, e que grande alegria senti quando vi ∴ novamente! Num sussurro muito baixo, ele ordenou-me que me vestisse e o seguisse. Defronte à porta dos fundos da pousada está o mar. Eu seguiu-o, como me ordenou. Ele levou-me pela porta dos fundos da residência e andámos cerca de três quartos de hora pela beira do mar. Então nos dirigimos em direcção ao mar. Tudo à volta era água, mas por onde caminhávamos estava bem seco. Ele caminhava na frente e eu seguia-o. Assim andámos cerca de sete minutos, quando chegámos a um local que parecia uma pequena ilha. (…) Lá, num pequeno jardim em frente, encontrámos um dos Irmãos sentado. Eu o havia visto antes na Sala do Conselho, e é a ele que esse lugar pertence. ∴ sentou-se próximo dele e eu fiquei em pé defronte deles. Estivemos lá cerca de meia hora. (…) O Mestre desse lugar, cujo nome não sei, colocou a sua abençoada mão sobre a minha cabeça, e ∴ e eu viemos embora. Regressámos até perto da pousada onde eu iria dormir, e de imediato ele desapareceu subitamente.”

Esse Mestre de Damodar era o próprio Koot Hoomi Lal Sing, o mesmo de Djwal Khul, como aparece descrito nas Cartas de H. P. Blavatsky a A. P. Sinnett e ainda no volume III das Folhas de um Velho Dário, de H. Olcott, que inclusive dá a descrição física de Djwal Khul acrescentando que não era tibetano e sim hindu (tibetano será mais por adopção do lugar onde viveu e não do país onde nasceu) como o seu Mestre:

“Depois de esperar um pouco, ouvimos e vimos um Hindu de estatura alta aproximando-se pelo lado da planície aberta. Chegou a uns quantos metros de nós e fez sinais a Damodar para ir até junto dele, o que ele fez. Disse-lhe que o Mestre se apresentaria dentro de poucos minutos e que tinha alguns assuntos a tratar com Damodar. Era um aluno do Mestre K. H. Finalmente vimos chegar o Mestre proveniente da mesma direcção, passando junto ao seu aluno que se havia retirado para pouca distância. (…) Mais tarde, antes de deitar-me, encontrava-me na minha tenda de campanha quando o aluno, antes mencionado, de K. H. levantando a cortina da porta fez-me sinais para que eu saísse da tenda, apontando com o dedo para o Mestre que encontrava do lado de fora, esperando por mim debaixo da luz das estrelas.”

Adiantando: “Já encontrei o artigo que a Sociedade Teosófica publicou na sua revista narrando esse encontro, e por duas vezes estipula que o discípulo que acompanhou o Mahatma Kuthumi era efectivamente Djwal Khul: “O Mestre estava sendo acompanhado em pessoa pelo Irmão Djwal Khul” (p. 22); “O mensageiro de que falam era Djwal Khul” (p. 30)”. – In revista The Theosophist, Vol. V, n.º 351, 1883, artigo transcrito em The Blavatsky Collected Writings, Vol. VI, p. 21, 1883-1885.

Tem-se, pois, Damodar Mavalankar e Djwal Khul como duas personalidades distintas discípulas de um único Mestre. E duas personalidades distintas com dois factos iguais nas suas vidas, o de serem deserdados das respectivas famílias. Ambos da Corte de Arhats do Budismo do Norte – Mahayana – que cerceou Upasika (H.P.B.), onde Djwal Khul apoiou o despertar na infância espiritual de Damodar Mavalankar, servindo-lhe assim como prolongamento do Mestre e como Mestre ou Tutor, no que se sabe que a vida do discípulo reproduz sempre, ao seu nível, os principais lances daquela corporal do Mestre. Esta poderá muito bem ser a explicação iniciática para o deserdo familiar sofrido por ambos. Sabe-se que o discípulo quando se idêntica ao Mestre adopta tanto os seus hábitos como até os seus traços psicológicos e fisionómicos, sofrendo uma autêntica transformação interior e exterior. É natural, pois, que ele venha a reproduzir nos lances de sua vida os principais daquela do Mestre.

Por fim, o sobrenome Mavalankar, tanto para Damodar que assina com o nome inteiro a Carta 142 b do Mestre K. H. que o incumbira de o representar, como para Djwal Khul, cujo nome aparece por inteiro na Carta n.º XXXVII recebida em Allahabad, Janeiro de 1882, após assinar “O Deserdado”: “Se deseja escrever-lhe, se bem que não possa escrever por si mesmo, o Mestre receberá com prazer as suas cartas (as de A. P. Sinnett). Pode fazê-lo por intermédio de D. K. Mavalankar”. Algumas outras cartas também são assim assinadas, como a Carta n.º CXXV, “Djwal Khul M. XXX”.

Além dos laços espirituais entre Damodar e Djwal, que poderá explicar a adopção do sobrenome familiar Mavalankar do primeiro pelo último, não fica nisso o significado mais importante do termo, e para entendê-lo no sentido iniciático devo recorrer aos comparativos filológicos sânscritos: tem-se Mava e Lankar presentes em Mavalankar, sendo que Mava deriva de Maula provindo do radical Mûla, designativo de “Raça Pura”, Superior, Jina ou Jinashastra, moradora em Lankar ou Lanka, ilha do Ceilão que a Bhagavata Purana diz ser o primitivo cume do Monte Meru, a Montanha Primordial onde se formou a Raça dos Puros ou Bhante-Jauls, Irmãos de Pureza. Nisto, aparece Mauna, derivada de Muni, significando a “condição do Muni”, o Sábio, sendo que Mauna-Vrata é literalmente o “voto de silêncio do Muni”, enquanto Maunim é “o silencioso, o asceta ou retirado que pratica o silêncio”.

E retirado do palco do mundo profano foi Damodar Karhâda Mavalankar, místico abnegado da Causa dos Mestres de Sabedoria que desapareceu nas entranhas do Tibete, tal como o explorador inglês Percy Fawcett desapareceu misteriosamente no sertão brasileiro em busca da Cidade dos Deuses, desaparecimentos que interrogam severos os conhecimentos humanos do mundo que se crê de todo conhecido e, mais que isso, garantindo que a Fraternidade dos Santos e Sábios existe, só faltando ao comum das gentes saber o caminho para ela após conquistar os méritos por seus próprios esforços para chegar ao diapasão igual do Eldorado, a Shangri-La dos mais doces e esperançosos sonhos da Humanidade.

Sol Central berço do Universo – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Set 11 2017 

Com isso refiro-me ao mistério do Sol Oculto ou Central da Via Láctea, que a lenda chinesa do Dragão Celeste, já descrita aquando se falou de Astrologia Kármica, igualmente retrata, por nela se conter o conceito de Água Celeste (Aqua Coeli) simbólica de Svabhâvat, a Substância Primordial, indo polarizar-se em Água do Céu (Purusha, Espírito) e Água da Terra (Prakriti, Matéria). Constitui a natureza do Pai-Mãe Cósmico (na cumeeira deste Sistema de Evolução Universal), como descreve a Tradição Iniciática das Idades. Conforme a lenda, o peixe do mar e a ave do céu, separados, são imperfeitos. Mas quando se unem surge o dragão celeste, como seja o Demiurgo, o Logos Criador que, como o Deus dos platónicos, expressa a própria Ideação Cósmica, a Lei Divina ou Dharma.

Isso leva a expor o princípio seguinte: o ímpar é o andrógino latente, o par é o andrógino patente, separado.

Dou assim entrada no tema do Sol Oculto. Pode-se afirmar com toda a segurança que logicamente o Sol visível (“branco”) não é o Sol oculto (“negro”), tal qual a luz branca não é a luz negra, nem o corpo é o anticorpo, apesar dos primeiros terem sido gerados pelos segundos, como afirma a própria Bíblia logo ao início da Génese: “No princípio era treva e da treva saiu a luz”…

O Logos Único, o Sol Átmico Oculto, através do seu Tríplice Aspecto Hipostático, é, no dizer do Dhyani Mikael em suas Estâncias, “um Nucléolo, uma seteira aberta na fortaleza sombria do Espaço”, com a função de transformar, ciclicamente, durante os Pralayas ou Repousos de Rondas, Cadeias, Sistemas, etc., a Energia Passiva em Energia Activa, e fá-lo através dos Mamo-Choans ou “Dhyans de Assimilação, de Colheita” durante o Caos, que é dizer, durante a Noite Cósmica; durante os Manvantaras ou Actividades dos mesmos períodos cósmicos assinalados, essa Energia Activa é transformada em Energia Consciência pela acção dos Dhyan-Choans ou “Dhyans de Aplicação, de Sementeira” no Cosmos ou Dia Cósmico.

Assim, o Sol visível no seu aspecto ígneo, como usina geradora de energias eléctricas e magnéticas, vem a ser a mais poderosa e perfeita expressão mayávica e hipostática do Sol Negro, Oculto, Central ou Espiritual do nosso Sistema de Evolução Planetária e de todos os demais componentes do Sistema Solar.

De maneira que o Sol Helion, Helius ou Surya foi o Sol Negro entre o anterior e o actual Sistema Solar. Ao nível da nossa Cadeia Cósmica (com as suas sete Cadeias Planetárias), presentemente Mercúrio ocupa o lugar de Sol Oculto e Vénus o lugar de Sol visível. Quando Mercúrio se manifestar como Sol visível, Vénus será uma Lua Negra ou invisível, e Júpiter um Sol Negro ou imanifestado, o que significa que Júpiter poderá ser o Sol visível do próximo Sistema Solar.

Em cada Sistema orgânico do Cosmos, o Sol em actividade ocupa um dos pólos de uma elipse na qual se movem os planetas gerados por esse Sol. O outro pólo da elipse é ocupado por um Sol latente, não patente, como seja um aglomerado de matérias em estado fluídico ou etéreo, sendo as “sementes” das experiências por que terá de passar esse Sistema Solar, “sementes” lançadas ao campo do Universo pelo Sol visível mas que o oculto irá recolher quando frutificarem, isto é, quando esse Universo alcançar o máximo de evolução prescrita a ele pelos Senhores da Evolução da Vida, da Consciência e da Forma, os Maharajas. Desta maneira, o Sol visível é centrífugo, expansivo, enquanto o invisível é centrípeto, acumulativo, semente potencial de um futuro Universo.

O Sol Oculto, espiritual, de cada Sistema está destinado a brilhar, com o seu novo grupo de planetas, presentemente também etéreos como arquétipos dos respectivos protótipos ou manifestados, quando o Sol visível, material, extinguir-se no final do seu Ciclo de Manifestação (Maha-Manvantara), sendo esta Lei igual, diz a Sabedoria Divina, tanto para sóis como para planetas e até homens, posto que o Atmã individual de cada homem vem a ser o seu Sol Oculto para o manifestado que é o Mental (Manas).

De maneira que Bhumi, a Terra d´hoje, foi o Sol Oculto de Chendra ou Chandra, a Lua, como Núcleo potencial vibrando no seu interior durante a terceira Cadeia Lunar. Após o Pralaya entre Cadeias, Bhumi exteriorizou-se como planeta e Chandra tornou-se seu satélite, um corpo estéril, melhor dito, morto por já não possuir Núcleo interno activo.

Por sua vez, Bhumi possui o seu Sol interior activo, Shamballah, o qual possui todas as qualidades de Shukra ou Vénus, e também as embrionárias de Budha ou Mercúrio. Na futura quinta Cadeia Bhumi será uma lua ou satélite de Shukra, esta que como quinta Terra ou Globo será um Sol visível velando Mercúrio.

O Logos Planetário da Terra tem por Centro de expressão e expansão o Laboratório do Espírito Santo, este nosso Sol Electromagnético de natureza flogística como a mesmíssima Shamballah, Valhalah ou Salém, nos textos sagrados chamada Mansão do Amanhecer (de um novo ciclo planetário e cósmico). Sobre o assunto, o insigne teósofo António Castaño Ferreira proferiu:

“Como Deus Móvel, cria. É o Eterno Artista, porque Ele está participando da sua Criação, ainda que a sua Essência interior, como Lei, seja de natureza Imóvel. Daquele que contempla, que testemunha, sem participar das transformações.

“É o Verbo que sustém e mantém o Mundo na sua órbita e que mantém a Vida, sem que haja, portanto, outra força capaz de manter as criaturas, a não ser este Hálito, que vibra incessantemente no nosso Globo desde a Cidade Eterna de Shamballah, que é o Centro Cósmico onde Ele se faz sentir em seu próprio Plano. Ele se manifesta pelos Avataras.”

Shamballah, a Cidade Eterna, é o Trono Celeste, o Segundo que na Terra assenta como Terceiro Trono. Portanto, ela é quem separa o Mundo Divino do Mundo Terreno, motivo de dizer-se que “os Avataras advindos de Shamballah têm o seu Bijam (Semente) no Segundo Trono Celeste”.

Portanto, em cada órgão solar e planetário há uma secção em inércia (pralaya) e uma secção em actividade (manvantara), esta semeando e aquela colhendo, funções cabíveis aos respectivos Maharajas e Devas Lipikas, estes os Tulkus ou Expressões daqueles na Terra, Dritarasthra – Manu (Manu Semente) e Virudaka – Yama (Manu Colheita).

As Noites Cósmicas ou Pralayas entre Manifestações são os períodos de volvimento ao repouso físico enquanto o oculto, espiritual, inicia a sua obra, absorvendo o que resta do Sol, planeta ou homem que finou indo preparar-se para reaparecer com novo aspecto, novo corpo, com maior experiência evolutiva acumulada de vivências passadas.

É nessa realidade que se inscrevem os Sóis negros porque ausentes de luz, assim também os famosos buracos negros que são os mesmos Sóis como poderosíssimos vórtices ou Centros Layas de antimatéria (estado etérico) que atraem toda a matéria física (estado sólido) circundante dissolvendo-a, tornando-a igualmente anti ou antítese de si mesma, partícipe da Matéria Cósmica (Mulaprakriti) animada directamente pela Substância Universal (Svabhâvat). Esta é a causa de na constelação de Cygnus (Cisne), distada cerca de 6.000 anos-luz do nosso Sistema Solar, um buraco negro estar engolindo uma estrela gigantesca de diâmetro vinte vezes maior que o nosso Sol Helius. Em termos teosóficos, dir-se-ia tratar-se de um Sistema de Evolução que terminou o seu Manvantara e está entrando em Pralaya.

Assim como o dia é o período de manifestação do Sol branco ou visível, a noite é a da manifestação do Sol negro ou invisível. Para o Homem, o dia é igualmente o período de actividade e a noite o de repouso no Plano Físico, enquanto no Plano Kama-Manásico ou Psicomental dá-se exactamente o contrário. Motivo de dizer-se que “nada” não existe e que nada está parado.

O dirigente da Linha Kut-Humpa, o Mestre Koot Hoomi Lal Sing, referiu-se ao assunto em uma das suas cartas preciosas (datada de Outubro de 1882):

“O Sol visto por nós não é de todo o Globo central do nosso pequeno Universo, mas somente o seu véu ou reflexo neste planeta. O facto é que o que se chama de Sol é simplesmente o reflexo do enorme “depósito” do nosso Sistema, onde todas as suas forças são geradas e conservadas. O Sol invisível é composto daquilo que não tem nome (isto é, a Substância Única) e não pode ser comparado ao que quer que seja sobre a Terra conhecido da Ciência, e o seu “reflexo” nada contém que se pareça aos gases, à matéria mineral ou ao fogo, ainda que, para falarmos em linguagem perceptível, sejamos obrigados a utilizar expressões tais como “vapor” e “matéria magnética”. O Sol não é um sólido, nem um líquido e nem mesmo vários gases incandescentes, mas um gigantesco Globo de forças electromagnéticas, o Reservatório da Vida e do Movimento universais, irradiando em pulsações unidireccionalmente, alimentando desde o mais pequeno átomo até ao maior génio com a mesma substância até ao final da Maha-Yuga.”

A essas radiações omnidirecionais de Vida e Movimento universais, o Mahatma K.H. chama-as de akáshicas ou etéricas, como plasmação da Substância Única, as quais irão diferenciar os diversos elementos químicos componentes do organismo do nosso Sistema Solar.

Ao encontro das palavras do Mahatma vem o trecho seguinte do Livro de Kiu-Tê:

“Subi à mais elevada montanha da Terra, e nem assim podereis vislumbrar o menor raio do Sol que se oculta por detrás daquele que percebeis com os vossos olhos físicos. Este é o mediador plástico entre a Terra e o referido Sol situado atrás daquele que se vê.”

O Sol oculto é a Shakti de seu Kartri, o Sol visível de quem aquele é a antítese como modelador de um novo, mais vasto e perfeito Sistema de Evolução Universal.

Sempre que se fala em Sol oculto fica subentendida a existência de uma Lua oculta, negra, como fundamentos abstractos dos concretos Sol e Lua visíveis, brancos, expressados pelo Homem e a Mulher como manifestações polares do Espírito e da Matéria, o Atmã ou Purusha – Prakriti como estados limites ou alpha e ômega deste incomensurável esquema evolucional.

Se Vénus representa para a Terra, da qual é alter-ego, o Sol visível, relativamente a Mercúrio ela é uma Lua negra – simbolizada por Lilith dos cabalistas judeus – e quando Mercúrio tornar-se Sol visível, a sua contraparte Vénus tornar-se-á Lua branca – a Heve dos cabalistas judeus – satélite daquele.

Posteriormente, conforme ensina a Tradição Iniciáticas das Idades, após a manifestação cósmica de um Sol visível este será uma Lua central oculta, depois uma Lua central visível, seguindo-se a fase de Sol central oculto (o Atmã ou Purusha de um Sistema de Evolução), e por fim a de Sol central visível (a Prakriti de um Sistema de Evolução) antes de tomar novos rumos além de tudo quanto se possa conceber humanamente, as gradações de Luas e Sóis invisíveis e visíveis galácticos e megagalácticos.

O Sol negro (representado na Terra por Samael, consorte de Lilith) assimila as experiências acumuladas de todo o Sistema Solar, tal como a Lua negra (representada na Terra por Lilith, contraparte de Samael) as do planeta a que está vinculada, agindo como sementes de futuros Sistemas de Evolução.

Assim, a Terra também possui a sua Lua oculta que é o Mundo de Duat (sendo que no Homem é a Alma) centralizado no Haiah ou Caijah, seu Atmã Universal canalizando as energias de Vénus. E quando Shamballah, corporizando Júpiter mas canalizando as energias de Mercúrio para o Mundo de Agharta, passar de Sol oculto a visível, Caijah tomará o seu lugar.

A Samael e Lilith se relacionam as Talas ou “regiões sombrias” da Terra, que em termos astronómicos corresponde ao Cone da Lua para onde vão as “almas perdidas” que os Todes, chefiados pelo mesmo Samael, o “Porteiro dos Infernos”, não deixam escapar. Em oposição, tem-se o Cone do Sol que conduz ao Céu das Lokas ou “regiões luminosas” para onde se dirigem as “almas salvas”, apoiadas pelos Munis dirigidos por Rabi-Muni e Tara-Muni.

Esse mistério das Lokas e Talas com origem na Atlântida, está directamente relacionado à constelação do Cruzeiro do Sul (Crux) e da nebulosa escura Saco de Carvão. Vizinha desta é a estrela Algol, a Beta Persei na constelação de Perseus, estrela enganadora que ora brilha como se fosse de primeira grandeza e logo quase se apaga como se não existisse, indo perder os viajantes que por ela acaso se guiassem. É, pois, estrela-tipo binária ou eclipsante, algólida, sendo que Algol em árabe é Al Ghul, o “Demónio”, donde provém a tradução árabe de álcool alusivo às beberagens entorpecentes que alguns ocultistas sinistros utilizam para as suas operações físico-astrais.

Nebulosa escura Saco de Carvão

O que raros sabem é que Algol é o Aspecto Cósmico de Luzbel e que o Eterno ao desterrar este para a Cadeia da Terra no fim precoce da terceira Cadeia Lunar, retirou-lhe os poderes retendo-os em Algol, também passando a “desterrada dos céus”. Quando se viu desterrado na Terra sem poderes, o Terceiro Luzeiro apelou para o mesmo Eterno a quem sonegara a ordem dele prosseguir a marcha da Evolução, e a Divindade, Oitavo Logos, apiedada enviou em seu auxílio o Sexto Luzeiro, que sendo algo do Futuro abstracto necessitava de meios para poder manifestar-se. Então, foram retirados os poderes de Algol e repassados à quinta estrela de Crux, a Shakti do Sexto Luzeiro com o nome de Allamirah, “Olhar Celeste”. Assim pôde ele manifestar-se com toda a pujança, a ponto de inclusive resgatar para si a corte decaída do Terceiro Senhor. Isso ficou representado na mitologia pelo “rapto” de Andrómeda que Perseu salvou de ser devorada pelo dragão infernal Gezebruth, a “Pedra Bruta”. Daí a Revolta de Luzbel e a sua avatarização sinistra do Quarto Senhor Atlasbel na Raça Atlante, para poder agir com os poderes deste, indo provocar a ruína dessa civilização como repercussão da revolta celeste, que os textos bíblicos representam como Mikael (Akbel) dando combate e derrotando Samael (Luzbel) arrojando-o para as funduras sombrias da gehenna da matéria.

Quando o Sexto Senhor derrotou o Quinto Senhor (antigo Terceiro) no Akasha Médio, a Consciência Superior deste passou para o Sexto, ficando o Quinto com a consciência sombria ou obscura de si mesmo, gerando o não entendimento perfeito das coisas e consequente revolta contra a Lei. Tal facto ocorrido em cima, o do Sexto ficar com a Consciência Luminosa do Quinto, demonstrava que em baixo só haveria um Aspecto Feminino para ambos, porque a Consciência Luminosa de um passara a pertencer ao outro. Assim, quando Luzbel manifestou-se no corpo de Atlasbel que então era Rigden-Djyepo, a sua contraparte Algol expressou o seu lado subjectivo obscuro, e foi ela quem fez a Atlântida cair. Algol surgiu vibrando na rainha atlante Goberum e relacionada à princesa atlante, sua filha, Katsbeth ou Kali-Beth. Enquanto isso, Allamirah permanecia no céu, fulgurante vibrando em seu consorte na Terra assim obstruindo aquela desterrada, de poderes limitados.

Como a formação da estrela Algol deu-se em relação com esse episódio da Evolução Humana, a sua influência sobre a Humanidade não foi das melhores. Mas ocorreu com o passar do tempo que Allamirah também se manifestou na Terra, na rainha atlante Mu-Ísis, e a partir desta aos poucos foi se encetando a paulatina retomada de Consciência Superior do Quinto Senhor, graças aos sucessivos resgates kármicos levados a efeito pela acção sacrificial do Sexto Senhor e sua Excelsa Contraparte, sendo assim a luminosidade da estrela Algol transferida aos poucos para a Terra. Finalmente, com a Redenção de Arabel e as Pazes feitas com o seu Irmão Akbel, em 23 de Março de 1958 o Atmã original de Algol passou a vibrar perenemente em Adamita, a antiga rainha Goberum, definitivamente ao lado do Senhor Arabel. Com a recuperação da dignidade primitiva, Algol apagou-se no céu e iluminou-se em Goberum na Terra.

As práticas conscientes do Bem e do Mal na Raça Atlante originaram a criação dos Cones do Sol e da Lua, com a alteração dos hemisférios do Globo ficando uma parte iluminada e outra obscura, a formação da Hierarquia dos Munis e Todes e a tomada de veículos ou corporização dos deuses Rabi-Muni e Tara-Muni ao lado de Samael e Lilith, que passaram a ser executores da Lei Suprema junto da Hierarquia Humana separando as almas justas das definitivamente perdidas por seus próprios deméritos, elevando aquelas ao Devakan (Céu, Mundo Mental) e estas ao Avitchi (Inferno, Baixo Astral). Tem-se:

É do conhecimento geral que a camada da Terra possui várias placas tectónicas sobre as quais estão os diversos continentes, mas já não é tanto do conhecimento geral que esses continentes na anterior Cadeia Lunar eram os satélites do Sol Planetário de Chandra, e que devido à sua maturação adiantada foram incorporados ao corpo do novo Globo, a Terra actual, vindo a constituir as vestes físicas (sete são os continentes –Oceânia, Ásia, África, Europa, América, Ártico, Antártico) desta quarta Bhumi. Em suma, passaram de satélites inanimados a continentes vivos, dessarte comprovando-se que tudo tem aproveitamento, pela transformação, na Natureza. Cada continente está sob o influxo do raio espiritual de determinado planeta do Sistema Solar, e todos os sete estão sintetizados ou unificados em Agharta como “Celeiro Monádico das Civilizações passadas, presentes e futuras”, como revelou o Professor Henrique José de Souza.

A Lua oculta está para a Terra tal como a Alma está para o Corpo, e assim o Sol negro está para o Sol branco como a Mónada está para o Espírito; quando um Sol Espiritual, Purushico, brilha, um Sol Material, Prakritico, apaga-se. Também quando um continente sobre a Terra (que possui a sua direita e a sua esquerda para o centro que é o equador, como sejam os hemisférios ocidental e oriental) torna-se solar (ocidental) e director desse hemisfério, logo no hemisfério lunar contrário (oriental) desaparece o predomínio do seu principal continente indo tornar-se satélite selenita daquele primeiro.

Ainda segundo a Cosmogénese, os continentes que tiverem maior aproveitamento evolucional serão unificados (este é o fundamento cósmico da Sinarquia) destinando-se a constituírem não próximos continentes mas o próprio Corpo ou Globo da futura encarnação do Logos Planetário.

O esquema dispõe-se na ordem seguinte:

Tudo quanto se disse até aqui está resumido num texto magnífico do Professor Henrique José de Souza, onde diz a dado trecho:

“Em cada Sistema orgânico do grande Cosmos, o Sol em actividade ocupa um dos focos de uma elipse, no qual se movem ou giram os planetas desse mesmo Sol. O outro pólo da elipse é ocupado por um conglomerado de matérias em estado fluídico ou etérico; é o Sol Negro de cada Sistema, destinado a iluminar-se com o seu novo grupo de planetas, actualmente também etéricos, quando o Sol Branco de todo se extinguir. Desse modo, realiza-se em cada Sistema o equilíbrio perfeito que impede a ruptura do equilíbrio geral, por isso mesmo exigindo dos seres humanos equilíbrio que, uma vez atingido, significa o resgate final de suas dívidas como habitantes da Terra. Em cada órgão-Sol há duas secções, uma em sono (Pralaya) e outro em actividade (Manvantara); uma desperta, enquanto a outra dorme por períodos tão longos que equivalem a verdadeiras eternidades. A Lei é igual para todos os planetas. Quando o Sol Negro se ilumina, recolhe os elementos ainda não totalmente evoluídos do Sol Branco do qual ele, portanto, depende, e conduz ao termo a sua evolução.

“Analogamente, cada planeta é formado por diversos continentes, que passam por seus períodos de sono e actividade. E cada continente se origina de um planeta anterior (portanto, satélite do posterior), razão porque as Escrituras tanto denominam de dwipa a um continente com a um globo, facto que tem dado lugar a discussões inúteis entre teósofos e ocultistas, unicamente por desconhecerem este particular. Há, necessariamente, um substracto para a antilogia entre solares e lunares. O nosso planeta possui uma direita e uma esquerda, cujas leis de evolução se sucedem. Nelas está implícito o fenómeno do dia e noite que se observa simultaneamente em toda a superfície do Globo, a face-dia iluminada pelo Sol e a face-noite pela Lua. Seria pueril querer aplicar ao continente asiático, por exemplo, as mesmas leis que regem a América. Já o Sol nos aponta, a seu modo, que as leis, neste caso não sendo diferentes, são no entanto sucessivas em sua aplicação. A Terra é, pois, constituída pela reunião no mesmo Globo de alguns continentes que foram outrora satélites de outro Sol (vibrando no seio de outro Globo). Assim, do mesmo modo que um Sol Negro se ilumina e um Sol Branco se extingue, na Terra um continente se torna solar e dirigente dos demais, e no hemisfério oposto outro continente desaparece ou se torna satélite do que lhe sucede.

“A colossal torrente de Vida-Energia que flui, como o sangue arterial, através do Sol visível impulsionado pelo coração do Sistema que é o Sol oculto, a cujo pulsar sempre se referiram os Adeptos, projecta-se no Oceano da Vida manifestada e percorre todo o Sistema, após o que volve à fonte original, o pulmão do mesmo que é o Sol visível, como o sangue venoso que é a causa das manchas solares, ou sejam ocultamente os miasmas e formas kama-manásicas do Sistema que cabe ao Sol dissolver, transformar de novo naquela que foi ao início Energia pura. Há assim como que uma sucessão de sístoles e diástoles, ou sejam as Ondas de Vida e os Ciclos de Vida, em seus movimentos pêndulo-circulares.”

De maneira que os Sóis visíveis são apenas reflexos, no Plano Kama-Fohat, do Sol Central Oculto (que é a Mente e o Coração do Sistema, formado de sete Sóis visíveis do Sistema anterior), e não propriamente astros mas “focos”, condensações de energia electromagnética, o famoso flogístico dos alquimistas.

É com o Sol visível no Plano Astral Cósmico que o Sol interno da Terra, no Astral Planetário, se identifica e une ao nível imediato, provocando o famoso fenómeno das auroras boreais motivado pelo encontro da Luz de cima (Fohat) com a Força de baixo (Kundalini) entrechocando no ambiente do Akasha terrestre.

É também a acção do Sol Oculto da Terra (saído do Astral Cósmico à manifestação em Prakriti, o Físico Cósmico) quem proporciona os fenómenos solsticiais de Verão e Inverno. No primeiro, recebe grande influxo energético pelo Pólo Norte magnético; no segundo, após a assimilação rejeita os elementos não digeridos que recebeu no Verão, isso pelo Pólo Sul magnético. Este fenómeno gera as quatro estações anuais da Natureza e os quatro temperamentos do Homem.

Um outro apontamento para terminar. Após um Ano Solar como período de duração da travessia do Sol pelos doze signos do Zodíaco, a Estrela Polar muda, passa a ser outra. Ocultamente, trata-se da projecção da Mónada do Logos Planetário, a sua “Estrela Guia”, acompanhando a sua evolução no Plano Físico Cósmico, mudando de posição e formas mas mantendo, sempre, a mesmíssima Essência.

O Divino e o Terreno se confundem no vasto palco da Evolução Universal, nada morre antes tudo se transforma, do mais ínfimo ao mais grandioso. Será como diz Fra Diávolo em O Livro do Selo – Secção 6 – Códice 22:

… Não há ciência terrena que perdure. Nem filosofia que não esteja errada!… Somente UM possui a BOCA CELESTE por onde deslizam as verdadeiras palavras, transformadas em sentenças. Este UM é aquele que se confunde com a própria Divindade!…

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Henrique José de Souza, Os Mistérios do Sexo. Edição da Sociedade Teosófica Brasileira, Rio de Janeiro, 1941. Reedição Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1995.

Henrique José de Souza, A Harmonia Universal, 1956. Edição da Comunidade Teúrgica Portuguesa, Sintra, 2016.

António Castaño Ferreira, Aulas de Cosmogénese e Antropogénese. Sociedade Teosófica Brasileira, 1952.

Papus, ABC do Ocultismo. Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, Novembro de 1987.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, Textos Internos. Sintra, Portugal.

Evolução e Grandeza das Estrelas (Mistério da Estrela Guia) – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Set 5 2017 

Observou-se anteriormente quais os constelados estelares que ornaram as abóbadas das Cadeias de Saturno, Solar e Lunar e hoje refulgem na abóbada da Cadeia Terrestre, em evolução nesta galáxia Via Láctea. Agora serão observadas as estrelas fixas de grandezas diversas do Empíreo que vêm a ser – conforme revelam os Mestres de Sabedoria e os livros sagrados reservados na Biblioteca do Mundo de Duat que vem a ser, à escala planetária, o Arquivo Secreto da Grande Loja Branca – a projecção das Mónadas constituintes da Hierarquia Jiva (Humana) no Akasha Médio ou Segundo Mundo Celeste, “fragmentos estelares” reflectidos na trepidação akáshica da Grande Maya sideral onde se avista o que não existe ou já deixou de existir como reflexo de estrelas longínquas que um dia tiveram a sua vida, ou ainda têm, e que vêm a ser, relativamente ao Homem, a sua projecção monádica individualizada irrompida do Absoluto ou Divino pelo processo cíclico da Manifestação; assim também com as demais Hierarquias, cujas experiências conquistadas ciclicamente tornam-nas “frutos deíficos” de uma Cadeia para a outra, e para outra a outra… até finalizar ou completar o Sistema de Evolução Universal ao longo de sete Zodíacos.

Nisso se contém o mistério da “estrela guia” de cada ser humano, como seja a sua Mónada reflectida no espaço sideral quando está em manifestação corporal, a qual se apaga se apaga no céu quando cessa essa manifestação, ou seja, quando volta à absorção no Absoluto incognoscível. Donde o Mestre JHS dizer: “Quando o homem encarna, acende-se uma estrela no céu; quando o homem morre, apaga-se uma estrela no céu”.

Sobre o assunto, assim se pronuncia o A-Fo-Hi-Chang, cuja tradução livre do chinês é O Livro do Universo (“O Livro do Dragão Luminoso”) – Biblioteca de Duat – Secção 2 – Códice 4:

“… Todas as Vidas são Estrelas. Todas as Estrelas surgiram das Sete, assim como estas da Estrela Única, o Sol radioso entronizado no seio do Universo… As Estrelas não são mais que fragmentos cósmicos das experiências de uma Cadeia, reflectidos na seguinte!… Cada Planeta do nosso Sistema dirige ou interfere em 777 biliões de Estrelas. Os Devas do Espaço compreendido entre um Zodíaco e outro, são frutos deíficos desses mesmos fragmentos estelares de uma Cadeia para outra. Os seus espectros são os ofídios negros (cometas), os quais perambulam raivosos, querendo dar combate àquelas. Elas (as estrelas) bailam para morrerem depois e ressuscitarem em seu lugar!…”

Não se queira concretizar, antes, formar hipóteses erróneas com esse número fabuloso de estrelas… longíssimo de ser aquele que a visão física consegue aperceber. Pense-se apenas no cálculo a fazer, como seja: 777 biliões de estrelas para cada um dos sete planetas, dá o número prodigioso de 5.439 triliões de estrelas. Como o resultado da soma desse número cabalístico seja 21, vemos aí o valor do Arcano desse mesmo número, que é o do Logos da Cadeia – reflectido no Planetário da Ronda – “carregando o saco das experiências no ombro”, que são as da sua jurisdição e função dessa natureza sobre as diversas Hierarquias e Vagas de Vida manifestadas, cujas Mónadas projectam-se no Akasha cerúleo – o “Manto Estrelado” da Mãe Divina – como “Devas ou frutos deíficos das estrelas”.

Relativamente ao Jiva da 4.ª Hierarquia Criadora manifestada, como lhe chamou o Dhyani Mikael nas suas Estâncias, as estrelas do firmamento são as expressões celestiais do mesmo, ou seja, as expressões cintilantes das Mónadas Humanas manifestadas na Terra. Representam os corpos siderais dos Jivas com maior ou menor potência em conformidade à evolução alcançada; por isso, há estrelas de 1.ª, 2.ª, 3.ª, 4.ª, 5.ª, 6.ª e 7.ª grandezas, podendo resumir-se nas três primeiras grandezas de acordo com as categorias humanas. Estão em relação com as 7 categorias de Jivas, sobretudo com as 3 superiores – Dwija, Dharani, Dhyani – que receberam no presente ciclo o valioso nome sintético de Java-Agats ou Atabimânicos, por neles refulgir consciente, patente e potencialmente a Tríade Superior constitutiva da Mónada – Atmã, Budhi, Manas.

Quando os astrónomos chamam poeticamente ao Universo de “berçário de estrelas”, estão se referindo àquelas novas que surgem misteriosamente no Empíreo em guisa de “estrelas bailando, de anjos rezando em torno do Fogo que a Vida alimenta”. Às estrelas velhas que se apagam ou morrem, pelo contrário, nisso alguns numa lúdica um tanto agourenta apodam o Universo de “esquife de estrelas”. Pelo que se disse e ir-se-á dizer, perceber-se-á facilmente o sentido mais profundo desses apodos poéticos.

Quando a estrela de um homem passa a brilhar no “diamante cristalino”, no Ponto Bindu ou Brahma-Bindu que é o “Sol do Coração”, logo, igual a Brahma-Vishnu-Bindu, o Centro Cardíaco refulgente da Vontade do Pai na Consciência do Filho que é o Jiva, este adquire potência espiritual e humana idêntica à dos Manus, idêntica à dos Gémeos Espirituais Akbel – Allamirah. Idêntico ao Pai-Mãe Cósmico, Brahma-Saravasti, eleva-se à categoria de Adepto Perfeito (Jivatmã, a Vida-Consciência potente e patente), Ser idêntico, portanto, aos que irão constituir a Humanidade da quinta Ronda, da quinta Cadeia, senão, o ponto de partida para o quinto Sistema de Evolução Universal, onde se vivenciará a Quintessência Divina (Akasha Superior, donde o nome tradicional Asheka dado a esse Homem Representativo) e se viverá dotado do estado de consciência do quinto Plano Cósmico, Mahat. Realiza-se assim o trajecto do Akasha ao Causal e deste ao Mental Cósmico.

Dessa maneira, de Jiva transforma-se Jivatmã, como seja a transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência, na magistral definição do Mestre Kut-Humi, assim mesmo a vital e consciente humanização das estrelas. Vem depois o Jiva Sideral ou Inter-Planetário afim à Ronda Humana, e finalmente o Jivatmã Sideral ou Inter-Ishvara correlacionado com a Cadeia da Humanidade. Tal como o Adepto Perfeito é a expressão manifestada de um Jivatmã Sideral e o Iniciado a de um Jiva Sideral, também todo o homem comum é um género de projecção inconsciente, desapurada, do mesmo Jiva Sideral. Na sua manifestação terrena, se tiver propensão para evoluções passadas, consequentemente para Globos esgotados ou mortos (a Lua, por exemplo, irá agir como “ofídio negro” dando combate às estrelas do céu manifestadas naqueles. Esses evoluirão ou “bailarão” durante toda uma Cadeia até morrerem, entrarem em Pralaya sideral, e reaparecerem ou ressuscitarem em um novo Manvantara sideral, nos lugares que lhes estão destinados por Lei de Evolução, formando novo Empíreo, novo Zodíaco.

Veja-se agora esse outro trecho do Livro “As Pedras Gémeas de Allah-Zir” – Biblioteca de Duat – Secção 1 – Códice 32.

(Allah-Zir é o nome de velhas ruínas na Meseta do Pamir – Secção indica a Embocadura – Códice indica a Estante)

“… Ó mísero mortal que passas diante desta Pedra! Não tentes decifrar o que Ela significa, porque somente os Deuses que já beberam na TAÇA DA IMORTALIDADE serão capazes de o fazer. Esta TAÇA para ti, ó incréo da tua própria Essência, está completamente vazia, quando, no entanto, o seu conteúdo provém do Céu – no seu mágico consórcio entre VÉNUS E MERCÚRIO, realizando o deífico himeneu ENTRE AS ESTRELAS E OS SERES HUMANOS, transformando-os em JÓIAS PRECIOSAS FAÍSCANTES DE LUZ!… Se outro tu fosses, esta Pedra se abriria de PAR EM PAR!… E em vez de Estrelas tu encontrarias o próprio Sol ao lado da Lua, no seu Trono Celeste, edificado no Seio da Terra!…”

A última frase do texto é assaz enigmática, contudo encerra o mistério da uno-triplicidade humana (Mónada = Espírito, Alma, Corpo) na sua relação com os Mundos Subterrâneos da Terra, a que se ligam as vestes do Iniciado. Assim, o seu Corpo Físico está para a Face da Terra, cuja substância vital deverá volver a Badagas, o Submundo (“da Terra vieste e à Terra voltarás”, diz a oração fúnebre). A sua Alma Psicomental são como duas conchas da Balança de Duat, Mundo a que se liga. O seu Espírito contém-se em Agharta mas projectando-se pela “Seteira Cósmica” de Shamballah no Céu do Segundo Logos, como Estrela, como Mónada refulgente, cujo Espírito está em baixo e o Corpo-Alma no meio, em pleno campo de lide, campo de honra de Kurukshetra ou do “Jina em molinete, em acção”.

O texto desse Livro Jina respeita, pois, ao “Mistério das Estrelas”, que neste Empíreo relacionam-se à Onda Jiva e cujas grandezas são tipificadas pela não menor grandeza dos Sete Planetas Sagrados, os quais exteriorizam a potência sétupla dos Dhyan-Choans Superiores atraindo a si a potestade dos Logos Cósmicos ordenados numeral e cabalisticamente, assim mesmo em miríades de estrelas que, mais uma vez, são cada uma a expressão celeste de uma Mónada Humana, a qual quando se ilumina na Terra se apaga no Céu, ou quando se apaga na Terra se ilumina no Céu. Se essa Mónada alcançou a Iluminação Divina na Terra, apagar-se-á em grandeza no firmamento… para subir em grau a grandeza maior. Se não, essa Mónada passará a resplandecer no Céu do Akasha Médio, de Cruziat ou o Segundo Trono. Ou então, transformada por seu próprio karma em “saco de carvão”, apagar-se-á para sempre na Terra e no Céu, sendo projectada no fatídico Umbral ou Astral Inferior, a Zero Dimensão ou Cone da Lua, acabando por volver precocemente à informe Substância Absoluta.

Isso também justifica a certeza de Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794) quanto à lei da conservação da massa, mas que perpassa ou é muito mais profunda e vasta, por se tratar do Plano Físico Cósmico, que o sentido físico-químico dos elementos imediatos dado na sua famosa frase: “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Mercúrio e Vénus (Hermes e Afrodite, donde Hermafrodita), planetas definidores junto da Humanidade da sua polaridade sexual, não deixam de “realizar o deífico himeneu entre as estrelas e os seres humanos, transformando-os em jóias faiscantes de luz”. Fundamentalmente, as estrelas tripartem-se em grandezas vistas da Terra, como não podia deixar de ser ante o mistério, donde a Tradição Iniciática das Idades dispor:

ESTRELAS DE 1.ª GRANDEZA: Jivatmãs ou Homens Perfeitos. Os Adeptos Independentes SEMI-DEUSES.

ESTRELAS DE 2.ª GRANDEZA: Jinas ou Iniciados Reais. Os Chrestus, Arhats ou SUPER-HOMENS.

ESTRELAS DE 3.ª GRANDEZA: Jivas ou HOMENS vulgares. São os mesmos cujas estrelas, ou “pontos de interferência cósmica”, estão sujeitas a se apagarem. Isto não quer dizer que as outras também não o estejam, mas é muito mais raro, geralmente para um padrão maior.

Por isso diz o “Livro da Lei” (Dharma-Sutra) – Secção 5 – Códice 18: “Se a tua luz se apagou, não busques a segunda e a terceira”.

Fica aqui desvelado o mistério da estrela guia de cada homem, facto generalizado poeticamente entre o povo que, num misto de receio e respeito, perscruta a sua estrela mestra entre as infindas cintilando na sidérea Estrada de Santiago, a Via Láctea tracejando com estrelas o Itinerário de Io, a Mónada Peregrina cujo fim da rota ao Norte celeste é alumiado pela estrela alpha da constelação do Cão Maior – Sirius, Sothis, Kaliba.

Poderá entender-se agora o sentido profundo da resposta agreste que certo nadjorpa ou asceta tibetano deu à senhora Alexandra David-Néel quando esta lhe perguntou porque estava remexendo nas fezes de animais: “Vivo de transformar esterco de cães em estrelas luminosas”! Que é dizer, era a alegoria viva do transformar almas imundas em almas puras de luz.

Todo esse encanto e enigma das estrelas, dos planetas e dos homens, está maravilhosamente resumido na letra do hino Santuário do Brasil (Prefixo do Cruzeiro do Sul), da autoria do Professor Henrique José de Souza, o Venerável Mestre JHS.

Um jacto de luz,
Projectado do céu,
A Terra vem beijar, feliz,
Terra de Santa Cruz bem diz,
Nós te saudamos assim, Brasil!
Desenhando num céu de anil
O teu símbolo: Cruzeiro do Sul.

Glória à nossa Obra
Santuário do Brasil
Símbolo de Paz e de Justiça
Esplendendo num céu,
Num céu de anil… (*)

Na rutilância das estrelas (**)
Num bailado o mais grácil,
Sol eterno de esperança,
Onde a vista mais alcança…

Esplendendo num céu,
Num céu de anil…

(*) “… E o céu de anil outro não é senão “o manto estrelado do Akasha”… onde se reflecte a VÉNUS-URÂNIA, a mesma que se MIRA (Allah-Mirah ou Lua transformada em Vénus) no espelho do Segundo Trono, ou das (suas) águas azuladas, vendo a sua face em baixo… no lago sombrio da Terra.” – Carta Revelação de JHS, 23.05.1950.

(**) “… E como a Mónada seja a “Centelha na Chama”, nós vemos como ela rutila nas estrelas, para fazer jus, também, ao nosso glorioso Prefixo.” – Carta-Revelação de JHS, 16.08.1950.

Vêm agora as palavras preciosas de Louis Claude de Saint-Martin que se estendem a este estudo: “Há-de chegar o dia em que o Homem saberá ler no Livro aberto do Firmamento o seu passado, presente e futuro”. Isto em relação ao Livro do Kamapa ou Memória (Akáshica) da Natureza, quando desenvolver os sentidos embrionários da clarividência e clauriaudiência, que são a visão e a audição elevadas à sua máxima potência psicomental; quanto ao sentido puramente astrológico desse trecho, o melhor será citar as palavras do 1.º Budha-Vivo do Ocidente, Baal-Bey, insertas no Livro do Graal do Senhor JHS:

“A ASTROLOGIA só se aplica aos planetas, e nada mais. No entanto, as estrelas a eles se acham subordinadas em essência, ou espiritualmente falando. Sim, porque os Dhyan-Choans dirigindo cada Globo (como seu “Corpo Físico”, como diz certa Estância de Dzyan na Doutrina Secreta de Blavatsky), cada um desses Sete também representa um Raio, um estado de Consciência, na Evolução Setenária de cada Globo. Assim, como se se dissesse que cada um deles é a tónica do respectivo astro, como para a Terra o 4.ª é JÚPITER, contando da Lua (Cadeia anterior) ou 2.ª feira, como o foi no MISTÉRIO DOS DRAGÕES e seus companheiros auxiliando o mistério da Evolução completa de uma Ronda, Cadeia, etc. E foi a razão de ter tido ocasião de falar, em relação à Terra, dos 4 SENHORES que cercam AKBEL no Segundo Trono. E tais palavras em forma de verso:

“Upa, upa meu Jinete
Correm QUATRO
Mas são SETE…”

“As estrelas se ligando aos Jivas, ipso facto, estão subordinadas aos planetas, como estes estão aos seus dirigentes espirituais, mais conhecidos como ARCANJOS: GABRIEL, SAMAEL, RAFAEL, SAQUIEL, ANAEL, CASSIEL e MIKAEL, isto é, de segunda a domingo, como os referidos Dragões.

“Um homem, como todos eles (os Jivas), nasce sob a influência deste ou daquele planeta, cuja conjunção, boa ou má, provém do seu próprio karma. No entanto, a estrela que lhe é afim… só ele a pode designar através da sua evolução. Mário Roso de Luna, por sua vez, ao dizer que “los astros inclinam pero no obligan”, dizia sem o saber que nas estrelas está o arbitrismo ou direito de escolha… de uma das duas estradas apontadas, por exemplo, na Divina Comédia. E nos astros o Karma, pelo facto de serem os Espíritos Planetários os Sete Guias da Evolução, também, setenária da Mónada.

“Pelo que ficou dito, pela razão dos “astros inclinarem mas não obrigarem”… o Homem deve procurar a sua própria Estrela Guia na Terra, para ser também igual ao seu Planeta ou Astro, Dhyan, etc. Cada um deles, seja qual for, é um 7.º estado de Consciência (Atmã está presente em todas as coisas, da mínima à máxima, embora sem deixar de ser o que Ele é…), pouco importando a forma numeral que ocupe. O 8.º ou Sol Central do Sistema, como Triângulo Indeformável, como Supremo Arquitecto, em nosso próprio Templo exaltado, é ao mesmo tempo O AMOR E A MENTE UNIVERSAL reflectidos no Segundo Trono ou Logos.

“Mas a vox populi aí continua até hoje a afirmar que “cada homem tem a sua estrela”, e os astrólogos confundem-na com planetas apenas… De facto, cada planeta ou astro possui um determinado número de estrelas sob a sua tutela. E não é raro se ouvir dizer aos mais conspícuos astrónomos que “a estrela tal ou qual desapareceu, mas também foi descoberta uma outra”. E vão, nessa contagem astronómica de estrelas… dizer o seu número integral. O facto, no entanto, é que “o frio manto de estrelas bordado”, como cantou o poeta, muito se assemelha com o manto akáshico crivado de DEVAS minúsculos, que eu mesmo comparei com uma “colmeia de abelhas doiradas” no Altar do Caijah. E na sonância ininterrupta da Música do Logos, como acontece, também, em SHAMBALLAH.”

Pois bem, face à Face da Terra desde Shamballah existem Três Dragões ou Triângulo Dragonado, que são Akbel – Ashim – Beloi (as Brumas Celestes encarregadas da formação dos futuros três Globos de Evolução) avatarizando três Entidades distintas, as quais canalizam os fluxos de forças provenientes do Segundo Logos até á mesma Shamballah, a “Mansão do Amanhecer” (do novo Manuântara), para que assim de cima para baixo e de baixo para o meio ou Face da Terra o Cristo Universal um dia possa se manifestar integralmente.

Essas Entidades distintas envoltas pelas Brumas do Céu, assim se dispõem: Akbel avatarizando Yul-Tab, Chefe da Ordem do Dragão de Ouro ou Satva, regendo os destinos de Shamballah (Peixes em Júpiter), capital do Mundo de Agharta (Virgem em Mercúrio). Propicia o Espírito e a Vontade. Ashim avatarizando Lo-Hitang, Chefe da Ordem do Dragão Azul ou Rajas, dirigindo os destinos do Caijah, capital do Mundo de Duat (Balança em Vénus). Confere a Alma e o Amor-Sabedoria. Beloi avatarizando Tamas-Tuang, Chefe da Ordem do Dragão Vermelho ou Tamas, norteando os destinos do Mekatulam, capital do Mundo de Badagas (Escorpião em Marte), indo alcançar a Face da Terra onde o Caranguejo e a Lua ainda predominam na natureza física e psicomental da maioria dos homens. Expressa o Corpo e a Actividade Inteligente. Todos os Três corporizam e encabeçam os três círculos zodiacais dos Assuras, Agnisvattas e Barishads.

Imediatos às Três Brumas Celestes tem-se os Sete Dhyan-ChoansInter-Ishvaras – ou Logos Planetários, os quais através dos Inter-Planetários – Planetários de Rondas ou Kumaras Primordiais – no dia 3 de Agosto de 1924, no Santuário de Dhâranâ – Sociedade Mental-Espiritualista, Niterói, Brasil, vieram prestar a sua homenagem ao Senhor El Rike (Henrique). Nessa ocasião, o Mestre havia composto uma música com o título Fantasia Musical dedicada aos Sete Espíritos Planetários, a qual foi gravada num aparelho do Mundo de Duat chamado Pleurocósmico, em guisa do original que se acha em Agharta (pelo qual os Dhyan-Choans comunicam com a Face da Terra), a fim de que tal música repercutisse aí como sendo uma reprodução do Akasha Médio, uma recapitulação dos acontecimentos que ela traduziu.

Então, representando o Inter-Planetário, passou a falar o imediatamente abaixo em Hierarquia Dhyani-Kumara Gabriel, em combinação e em nome de Anael, este que representa na Terra todos os Dhyan-Choans ou Sete Dragões Celestes:

– Esta música a MIM dedicada faz com que me cumpra dizer que os Dhyanis também sofrem, como Eu ao ver partir, no encadeamento de uma tragédia, Aquela que preparei para ser o “ASPECTO FEMININO DO GRANDE SENHOR, O ASPECTO FEMININO DA DIVINDADE”…

Sinto-me feliz por essa homenagem tão grande que Ele me fez, lembrando-se do papel que Eu tive na Obra, que é o do cumprimento da Lei, a que procuramos servir a nosso modo, de acordo com o ambiente e elementos que possuímos. Por isso, redundou numa espécie de fracasso para que o ETERNO se manifestasse, desse vida e forma a um SER tão magnificente, modificando a Essência mas não o EMBRIÃO. Esta música expressa todas as passagens de nossa Obra, evocando os Génios do passado, personagens desaparecidas.

É doloroso que a tivesse feito, intensivamente, numa hora tão triste, porque nela estão impressas as notas doridas das nossas angústias. Vivemos, hoje, angustiados quando nos lembramos daquela tragédia consumada (a do “Acidente de Lisboa” na Rua Augusta, em 1899, ocorrida com os Gémeos Espirituais Henrique e Helena, esta sendo recolhida como morta da Face da Terra)… que não se consumou.

Exalto AQUELE que é o próprio SOM, e posso pintá-Lo, como tenho feito num processo de dignificar as minhas telas.

Quero aproveitar-me da oportunidade para dizer que os Dhyanis, em corpos, também se comovem. A comoção é a face oposta da alegria, alegria de Schiller, que Beethoven intuiu ao escrever a sua Nona Sinfonia, Nona Epopeia. Ele era um Ser, também, angustiado.

Sou portador de uma grande nova para todos vós, Bhante-Jauls: nós queremos pedir alegria para nosso Pai, a única maneira de salvá-Lo à realidade. Ele (JHS) representa todos, não como a Voz do Akasha mas como sendo a VOZ DE MAITREYA. Sim:

COMO LUA – Ele representa a Arte, a impressionabilidade, a sensibilidade do mundo. A única alegria que Ele tem é a Obra. Mesmo assim lhe falta nos dias que Ele julga não puder vir aqui para levar avante a sua Obra, que é a “das Leis” através de sua Voz.

COMO MARTE – É o Guerreiro, o Revoltado contra a maldade, tal como diz o seu horóscopo.

COMO MERCÚRIO – É a Voz de Deva Vani, o Sol Espiritual, o Deus Mercúrio, o Supremo Senhor da Revelação do Ciclo; é o Budha Mercúrio, o Patrono da Inteligência Universal. Como Budha Mercúrio criou os seus Sete Tulkus. O Excelso senhor Akbel tem um Avatara como sendo ou com o nome de “Budha Mercúrio”.

COMO JÚPITER – É Aquele que se assenta nos Três Tronos, nos Três Mundos, com as suas admiráveis Colunas ao lado. É a representação dos Três Reis ao mesmo tempo. Eis, também, o jupiteriano Senhor que completa, diante do Portal de Shamballah, o Trono Celeste. O que está em cima é o mesmo que está em baixo.

COMO VÉNUS – É o Amor feminil, tal como com as crianças a fazer brincadeiras para alegrá-las, atendendo, com efeito, ao seu estado de CONSCIÊNCIA. Faz brincadeiras com crianças, com gnomos, com os portadores da consciência, ainda, virgem.

COMO SATURNO – É a Ampulheta da Vida que traz consigo; é o Grande Senhor, os reflexos do próprio Akdorge, do Senhor das Idades, o ETERNO.

COMO SOL – É o Sol Espiritual anunciando ao mesmo tempo que Ele, como sendo o Oitavo Arauto dos Sete Raios de Luz do Grande Dia que se aproxima. É, pois, SURYA, o Sol Místico, com o qual se uniu a Ele a Grande Mãe, na União Mística “Narada”. Baal-Bey é o Homem-Deus; Baal-Mirah é a Mulher-Deusa, o Aspecto Feminino de Brahma. O seu Filho será o Nono Logos, porque virá depois do Oitavo e nasceu Dele.

Cerrai fileiras para que Ele (Akbel) possa vir nestes dias que faltam, sem ter que vir com o cruzeiro às costas.

Como desfecho final e deixando como tema de meditação, transcrevo precioso trecho do Livro Chandra-Baga-Vishnu – Biblioteca de Duat – Secção 5 – Códice 22:

“Não estudes sem ler. Não aspires o perfume das flores sem o sentires na cabeça e no coração. Teus ouvidos devem estar abertos aos menores ruídos na Natureza, para que possas aperceber as tuas próprias necessidades espirituais, postadas naquela mesma cabeça e naquele mesmo coração. Não comas sem degustares, para não comeres aquilo que te possa fazer mal, ao mesmo tempo, ao Corpo, à Alma e ao Espírito. Do mesmo modo, não deves pronunciar coisa alguma que possa envergonhar essas Três Vestes que cobrem o teu verdadeiro Corpo, que é o da tua Consciência Imortal. Olhando para o céu verifica se as estrelas estão paradas ou tremeluzentes, procurando – elas mesmas – perscrutar os anseios da tua mente e do teu coração. Bem pode ser que uma delas se apague bruscamente, por haver morrido com a tua própria morte espiritual. Esta, em verdade, é a tua Estrela Guia. Mas se, ao contrário, ela te sorri alegre e feliz, aumentando cada vez mais de brilho, tu jamais morrerás, e ela também…”

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Henrique José de Souza, A Voz do Manu. Sociedade Teosófica Brasileira, 1937.

Henrique José de Souza, Cartas-Revelações do Ano 1941. Sociedade Teosófica Brasileira.

Henrique José de Souza, Livro do Graal. Sociedade Teosófica Brasileira, 1950.

Henrique José de Souza, Livro da Pedra. Sociedade Teosófica Brasileira, 1951.

Henrique José de Souza, Livro do Perfeito Equilíbrio. Sociedade Teosófica Brasileira, 1954.

Helena P. Blavatsky, Glossário Teosófico. Edição original inglesa em 1892, reeditada na língua portuguesa pela Editora Ground Ltda., São Paulo, 1988.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, Textos Internos. Sintra, Portugal.

Mistério dos Três Zodíacos (Subsídio à Astrologia Aghartina) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Ago 30 2017 

A maioria dos astrólogos e astrónomos da Idade Média e da Renascença pressupôs nos seus tratados a existência de três Zodíacos – sintetizados pelo quarto da Terra – na formação do Empíreo, opinião partilhada por Opicinus de Canistris (1256-1353), também conhecido por Anonymous Ticinensis, ao lado de Nicole Oresme (1323-1382) e de outros.

O tema não era desconhecido, mas o seu conhecimento profundo era-o. O mais longe que se pôde ir, foi respigar aqui e ali alguma informação reservada respigada dos arquivos dos Colégios Iniciáticos das épocas em que viveram, e assim apareceram nos seus escritos e iluminuras que hoje provocam escárnio e descrença nos positivistas acreditando saberem a estrutura físico-química completa do Empíreo. Com tanta presunção temperada no preconceito, mostram-se pobres de espírito ausentes da mentalidade sagrada que caracterizou as sociedades tradicionais do passado.

O assunto era de tal modo importante, fundamental à compreensão metafísica do Cosmos, que desde a primeira hora o estudo da Astrosofia e Astrologia figurou obrigatoriamente nas disciplinas das Ordens Iniciáticas e Religiosas, vindas da mais remota antiguidade até aos dias de hoje. Com efeito, disso dá testemunho a própria Igreja Católica pelos seus doutores aclamados (desde Agostinho de Antioquia a Dionísio Areopagita e Tomás de Aquino, por exemplo), e até o corpus simbológico da Maçonaria assenta em base astrosóficas, sendo as suas principais datas de celebração assentes em períodos equinociais e solsticiais e, inclusive, a estrutura da Loja vem a reflectir os mistérios do Empíreo na decoração e disposição dos seus símbolos, graus e oficiais.

Resta saber o que seja o Empíreo, tema abordado por Dante Alighieri na sua Divina Comédia (1304) que Gustave Doré ilustrou (1861). A palavra empíreo provém do latim medieval empireus, adaptação do grego antigo empyrus (ἔμπυρος), “dentro ou sobre o fogo (pira)”. A palavra é utilizada tanto como substantivo como adjectivo. Têm a mesma origem grega as palavras científicas empyreuma e empireumático, aplicadas ao cheiro característico da queima ou carbonização de matéria vegetal ou animal.

Na primitiva cosmologia cristã herdada dos textos e mitos judaicos e gregos, além daqueles dos povos antigos afro-mediterrâneos, o Empíreo era o lugar mais elevado do Paraíso Celeste reservado aos anjos, deuses, santos e seres abençoados, acreditando-se ser animado pelo Fogo Celeste (o Fohat das tradições védicas) ou o Éter como Pater Aether Omnipotens (elemento principal da Filosofia Natural de Aristóteles, relacionado ao seu conceito de “motor imóvel”, como seja, Tudo participando da sua natureza sem que ele, como Todo, participe do Tudo, conceito figurado na tradição védica no designativo Chakra-Varti, possuído de atributos iguais àqueles da figura judaico-cristã de Melki-Tsedek).

O Empíreo era assim, na literatura cristã, o nome dado ao que está acima do firmamento. Tomás de Aquino, na Summa Theologiae, identifica-o como o lugar onde Deus criou os anjos, não porque estes, criaturas espirituais que são, necessitem de um lugar físico, mas para manifestar isso às criaturas corporais de que eles o presidem, sendo excelentes do que elas. Na Divina Comédia, de Dante, é o Morada de Deus e dos abençoados, seres celestiais tão divinos que são feitos de pura Luz, usufruindo directamente da Fonte da Luz e da Criação (o Logos Único, o Absoluto).

O Empíreo de Opicinus de Canistris desenhado entre 1335-1350 em Avinhão, França

Seria o Professor Henrique José de Souza, consignado Venerável Mestre JHS, quem no século XX traria à luz da Sabedoria Iniciática as minúcias astrosóficas do Empíreo e dos misteriosos três mais um Zodíacos, na sua relação com a Obra do Eterno na Face da Terra de que ele foi o líder supremo de 1883 a 1963, expressando ao Supremo Revelador – Deva-Vani, Anjo da Palavra – de nome Akbel, o Anupadaka-Deva tomando forma e expressão nesse mesmo fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, revelando o que no passado era interdito à Humanidade por não possuir desenvolvimento mental para tanto, e nem mesmo hoje os pormenores mais importantes dessas revelações devem vir a lume. O Género Humano como tal é ainda muito imaturo no seu desenvolvimento físico, psíquico e mental, além do risco óbvio da ceiva nefasta dos falsos profetas e messias mancos que campeiam por toda a parte. Não é a esses a quem dirijo este e outros estudos da minha lavra, nunca foi e jamais será. Esses que tais o mais que fazem é plagiar ou tão-só furtar para mais ainda auto-galvanizarem-se em elogios da sua própria pessoa. Sabidos conheço-os a mãos cheias, pródigos na ignorância compensada pela fantasia em que se perdem e levam a perder quantidade de afins pelos laços misteriosos do Karma. Neste deserto estéril de confusões e autossuficiências onde todos se manifestam sábios e perfeitos, onde todos querem mandar em tudo, mesmo não tendo mando sobre si mesmos no desgoverno dos sentidos, onde todos à boca cheia falam de Deus mas não O querem ouvir, mais uma vez pergunto: em que fica e onde fica JHS? O próprio responde pela Voz do Espírito de Verdade: – Cada um constrói o seu mundo para que o Meu permaneça ignorado!

Posto isso, dirigindo-me sobretudo aos Discípulos do Novo Pramantha a Luzir sob o Pendão de Akbel, transcrevo alguns trechos de um manuscrito secreto a respeito de Astrologia Iniciática dado ao conhecimento dos mesmos Munindras pelo Professor Henrique José de Souza (JHS).

“De todos os ciclos astronómicos, o mais directamente ligado ao Homem é o ano sideral que, para a ciência oficial, equivale, sob o nome de precessão, a 28.400 anos médios, e segundo a ciência esotérica, a 27.000 anos.

“Precessão do Equinócio – Este período de precessão equinocial representa um ano para a nossa Cadeia Planetária, é como se o Zodíaco desse uma volta completa sobre si mesmo. Os astrónomos explicam a precessão pelo recuo aparente do ponto vernal através das constelações zodiacais. Os ocultistas, porém, afirmam que há, de facto, em torno da nossa Cadeia a rotação de verdadeira Esfera zodiacal, constituída pelas constelações do Zodíaco, girando em volta de um eixo polar de Norte-Sul.

“Rotação das Estrelas Fixas – Ao redor dessa Esfera zodiacal, move-se ainda uma terceira Esfera. Daí os livros ocultos falarem, paradoxalmente, na rotação das Estrelas Fixas.

“Da precessão dos equinócios resulta que as constelações zodiacais não coincidem com as casas do Zodíaco. Quando o Sol entra em zero grau de Áries, faz com que esse ponto no céu já não coincida com a constelação de Carneiro.

“Como sabemos, o ponto vernal vai recuando cinquenta segundos por ano, de maneira a fazer uma revolução completa de 27.000 anos. Actualmente, o ponto vernal está no fim da constelação de Piscis, mas o Equinócio da Primavera ainda é marcado, tradicionalmente, por Áries. Tornemos a acentuar: as constelações não coincidem com as casas do Zodíaco. Este facto tem servido de base à crítica impiedosa da Astrologia.

“As Constelações e as Hierarquias Criadoras – Os ocultistas sabem que as constelações zodiacais visíveis são pontos de apoio, são polarizadoras das energias oriundas das Hierarquias Criadoras, e que estas reflectem os atributos das Hierarquias Arrúpicas. Mas, onde ficam, realmente, as Hierarquias Criadoras? Estão além do cinturão zodiacal visível.

“Podemos presumir, assim, a concepção oculta: ao centro, o Universo material com as suas cadeias de mundos; em torno dele, gira um Orbe sideral com centros de forças muito mais complexos, distribuídos em doze categorias, que podem, por sua vez, conforme a sua natureza essencial, serem repartidos em quatro triplicidades; por fim, ao redor do Orbe sideral gira outro mais subtil, que poderemos chamar de Empíreo.

“No Empíreo encontramos 14 centros subtis de acção; é o que poderemos chamar de Zodíaco espiritual. Mas esses catorze centros apenas se reflectem, no Segundo Mundo, como um setenário (animado por um ternário – nota VMA) que, por sua vez, só age tangivelmente nos mundos materiais através dos quatro Planos da Forma…

“Há, pois, necessariamente, para que surja a existência activa, um conjugado de movimentos dessas três Esferas, que só os astrólogos iniciados podem conhecer. Com efeito, a rotação do segundo Zodíaco é muito mais lenta do que a do nosso Mundo, pois equivale a 27.000 dos nossos anos solares médios. Mais lenta ainda é a rotação do terceiro Zodíaco (espiritual), completando-se em 108.000 anos. Agora podemos compreender porque, na base desse conjugado de movimentos relativos, podem haver estrelas fixas, de influência em nosso redor, não dependentes de constelações visíveis.

“Interdependência dos três Zodíacos – espiritual, sideral e material. Quando, por exemplo, a Hierarquia dos Agnisvattas está vivendo no Orbe sideral, essas vibrações podem corresponder, para determinado ponto da Terra, à constelação ascendente, à triplicidade do Fogo. Daí a possibilidade de desarmonia. As desarmonias cósmicas marcam os ciclos de desequilíbrios, em que forças de uma natureza passam através de centros de naturezas diversas. Note-se que as Esferas de influência superior não têm forma (Hierarquias Arrúpicas). Quando essas Hierarquias se reflectem nos centros de forças ou chakras das Hierarquias Criadoras (Rúpicas), surge o segundo Zodíaco. Quando, finalmente, esse septenário cósmico se condensa na matéria, surge o terceiro Mundo. Eis a grande chave da Astrologia Oculta, a chave dos três Mundos (Espírito, Alma, Corpo).

“Influência astrológica e a Kali-Yuga – Em escala cósmica, uma conjunção de forças antagónicas pode reger um lapso de 108.000 anos ou mesmo quatro vezes isso (432.000 anos), que é o período da Kali-Yuga actual. Uma força da natureza da Água agindo através de outra da natureza, por exemplo, do Fogo, provocará uma Idade Negra, uma Kali-Yuga. Círculo de desarmonia cósmica. Haverá luta e não paz, sofrimento e não bonança.

“O aparecimento do Avatara está, como sabemos, intimamente ligado a esses ciclos registados pelo relógio cósmico. Todos os que, de há dois mil anos e tantos a esta data, têm surgido na Terra sob a égide de Piscis. O Cristo é o Peixe Salvador. O peixe era o emblema de reconhecimento entre os cristãos, a palavra de passe dessa Maçonaria antiga. Todos os Avataras nascem sempre dentro da Lei do Ciclo. Em 27.000 anos, surgem 12 Grandes Avataras, cada um regendo um período de, aproximadamente, 2.225 anos.

“O Karma e os Astros – Se é verdade que os astros inclinam mas não obrigam, não é menos verdade que o Karma é poderoso e age através deles, e que são poucos os que se libertam das contingências kármicas… Se, porém, conhecermos toda essa complexa combinação de forças, poderemos evitar males e sobreviver. Caso contrário, a sorte está escrita e será inexorável.

“O Homem é, em verdade, o Microcosmos. Nele estão os Zodíacos (os planetas) e também o Mundo mais celeste. O Olho Espiritual, o Empíreo. O Homem é um Universo vivo e a natureza humana é tão profunda que todas as criaturas estão indissoluvelmente ligadas, a ponto de dificilmente acontecer qualquer coisa numa pessoa sem se reflectir nas demais.”

Respeitante a esse texto cuja autoria é atribuída ao Adepto Vivo de pseudónimo Fra Diávolo, o Mestre JHS proferiu na sua Carta-Revelação de 27 de Outubro de 1949:

“Isto se relaciona com o mistério do Zodíaco que, hoje, compreende apenas 12 constelações. 12 signos solares sobre 28 signos lunares. A verdade é que há três Zodíacos, embora só percebamos um. Há mais dois. E toda a Vida Universal decorre do movimento e das relações desses três Zodíacos. Só poderemos conhecer o nosso Sistema quando conhecermos a nossa posição em face de cada um deles. Um rege o Físico, outro a Alma e o terceiro o Espírito. Tudo isso em torno dos três Sóis. O que está escondido tem os dois signos que alguns conhecem, Leo e Câncer, substituindo dois planetas diferentes.

“Cada Zodíaco rege um aspecto da Vida Humana. Só o astrólogo iniciado pode determinar a relação. Os cálculos conhecidos só se baseiam no Zodíaco físico, relacionado às tendências patológicas, etc. O resto não é conhecido. Para conhecer o destino dos homens precisamos conhecer os três estados. Faltam dois. O nosso Zodíaco conhecido tem uma mistura de homens, animais e vegetais, para velar os outros dois Zodíacos.

“Esta é apenas uma pequena ideia para irmos nos ambientando com o que se passa em cada dia. Ontem falámos a respeito dos 22 Arcanos, relacionados às Cadeias e Hierarquias do Futuro. Essas três, 5.ª, 6.ª e 7.ª, estão em relação com as Arrúpicas. Há duas coisas importantes: precisamos armar os problemas, para sentirmos as soluções.”

Assim, tal como há Três Tronos ou Logos cuja projecção desde o Centro da Terra ao Espaço Cósmico são neste assinalados por Órion – Cruzeiro do Sul – Sirius, consignados Pai –Mãe – Filho manifestados nos três Zodíacos que respectivamente assessoram ou encarnam. Esses projectam-se de cima, do Mundo Celeste ao Sideral e finalmente o Terrestre indo ao Omphalo do Mundo, conforme revelou o Senhor JHS e no que se pode compor o esquema seguinte:

Depreende-se desse esquema de três círculos concêntricos reflectindo os três Zodíacos neste 4.º Sistema de Evolução Universal, que do primeiro ao terceiro são afins às manifestações das 1.ª, 2.ª e 3.ª Cadeias Planetárias com as respectivas Hierarquias de Assuras, Agnisvattas e Barishads, estando a 4.ª Cadeia actual em formação inserta no respectivo Zodíaco Planetário cujos doze signos repartem-se pelos três Zodíacos e que também ele está ainda em formação (nisto entrando Urano e Neptuno, o Divino e a Mónada, Fogo e Água, Zain e Zione, os Gémeos Espirituais como padrão e modelo do Género Humano), por ser o da 4.ª Hierarquia Humana (Jiva) ainda a formar-se na sua infância consciencial, decisivamente constituída só em 4 de Outubro de 1937, correspondendo à liquidação do Karma Humano relativo ao seu Passado, como seja o da Redenção da Atlântida, acto desenrolado pelo próprio JHS em plena região fenício-atlante, como seja o Rio de Janeiro. Nessa ocasião, na sede da Sociedade Teosófica Brasileira, em plena sessão, ele proferiu: “Falei do meu Trono Divino na Língua dos Deuses. Falei do meu Trono Infernal numa Língua estranha. Agora falo do meu Trono Humano: a Atlântida está redimida!”

Esse acontecimento transcendente relaciona-se ao terceiro Zodíaco Planetário, o da Face da Terra e do seu Submundo, Badagas, posto em relação com o Terceiro Trono ou Hipóstase do Logos Único, Shiva (Espírito Santo). O Zodíaco Sideral encadeia as suas influências ao Mundo Intermediário de Duat, e por ser intermediário entre a superfície e o interior correlaciona-se ao Varão Celeste de Dupla Face, Vishnu-Lakshami (Filho). Finalmente o Empíreo, expressa o Sanctum Sanctorum, Agharta com suas sete Lokas ou regiões luminosas em torno da oitava Shamballah expressando a Tríade Superior, com isso é o primeiro Zodíaco afim ao Imanifestado Brahma (Pai).

No esquema, o círculo exterior (3.º) envolve, rodeia o Sol etéreo-psíquico, o Sol do nosso Sistema Solar – alinhado com Sirius, estrela alfa da constelação do Cão Maior – com 12 horas diurnas e outras tantas nocturnas. O círculo intermediário (2.º) envolve a constelação do Cruzeiro do Sul (Cruziat ou Ziat) afim ao Segundo Logos, relacionado ao Mundo de Duat com 18 horas de actividade e 18 horas de repouso, como seja 18+18 = 36. O número 36 corresponde ao resultado da soma dos signos dos três Zodíacos (10+12+14 = 36). Em Shamballah-Agharta, alinhada com Órion e o Sol Central, Oculto ou Espiritual do Empíreo, onde evolui o nosso Sistema de Evolução Universal tendo naquele o Oitavo Logos ou Absoluto, há duas fases: a Agharta é eternamente dia, clara, luz; Shamballah é eternamente noite, escura, treva, por ausência de luz, ou melhor, por conter toda a luz (“No princípio era a treva e da treva saiu a luz”, diz o Génesis). O mistério da Evolução é sempre mantido pela Lei da Polaridade das coisas, Lei que rege os corpos manifestados.

Foi baseado nesta chave astrológica que o Mestre JHS afirmou: “A Obra possui três círculos, relacionados com os três Zodíacos”. Ou sejam:

1 – O primeiro círculo, central, é constituído pelos Makaras, Assuras e Arhats de Fogo, os “Dignos”, sendo íntimos do mistério dos Gémeos Espirituais.

2 – O segundo círculo, intermediário, é formado pelos que possuem as possibilidades, as skandhas em predomínio às nidhanas, de ingressarem na Obra Divina, nas fileiras da Instituição que escuda aquela, já que a Obra só se objectiva pela Instituição, tal qual Purusha necessita de Prakriti para manifestar-se.

3 – O terceiro círculo, externo, abarca os que não possuem as possibilidades, as nidhanas predominando sobre as skandhas, de ingressarem na Obra Divina, nas fileiras da Instituição representativa ou JHS ou El Rike. De maneira que, nesta e quiçá em vidas futuras, ante a Mente Universal de Akbel as suas Mónadas manifestadas encontram-se falidas das possibilidades de alcançarem os páramos da Consciência Superior, efectiva e real, por lhes carecer a evolução necessária à apreensão justa e perfeita do Desígnio e respectivo Plano de Deus, o Supremo Arquitecto do Universo. Um dia recuperarão o tempo malgasto no passado e notoriamente no presente, onde muitos dando o primeiro dos primeiros passos logo se julgam colossos de saber, poder e pureza, superiores a tudo e a todos, insensíveis e egolátricos, Grande Maya que os faz perder no Caminho da Verdadeira Iniciação.

Para que não se perca a Tradição, mesmo correndo o risco inevitável de plágio e adulteração fatal pelos impúberes do ciclo, mas sabendo que a quintessência do que direi permanecerá ocultada, dirigindo-me mais que tudo aos Munindras de JHS, revelo de seguida os nomes das constelações dos três Zodíacos e dos Seres Superiores afins presentes na Obra do Eterno na Face da Terra como preclaros Membros da Shuda-Dharma-Mandalam, a Grande Fraternidade Branca.

Sendo representados, junto da Evolução Planetária, por 10 Signos Vivos ou Colunas Vivas.

Os signos do Zodíaco Humano (Jiva) em formação, representando o 1.º Zodíaco, na língua latina e aghartina, são: Áries (Astel ou Astla-Tel), Taurus (Turib), Leo (Silag), Capris (Kab-Irel).

Essas constelações são representadas, junto da Evolução Planetária, por 12 Signos Vivos ou Colunas Vivas, corporizadas pelos Yokanans de 1.ª Categoria e pelas Sibilas ou Grãs-Sacerdotisas, aos quais se dá os nomes gregos ou da tradição com que se os consigna.

Os signos do Zodíaco Humano (Jiva) em formação, representando o 2.º Zodíaco, na língua latina e aghartina, são: Aquarius (Kaliman), Libra (Mer-Eb), Virgo (Jak-El), Gemini (Goreb).

Essas constelações são representadas, junto da Evolução Planetária, por 14 Signos Vivos ou Colunas Vivas, assumidas pelos Dharanis de 1.ª Categoria em torno dos Dhyanis-Budhas dispostos estrategicamente no Sistema Geográfico Internacional. Esses últimos veiculam as energias espirituais dos sete planetas do nosso Sistema de Evolução, desde que tomaram vida e forma objectiva no ano 1900, frutos benditos do consórcio amoroso de Akbel e Allamirah no Céu expressos na Terra por Arabel e Goberum ou Adamita. Dispõem-se em conformidade aos dias da semana assinalados pelos ditos sete planetas tradicionais: Saturno – Vénus – Júpiter – Mercúrio – Marte – Lua – Sol, ou em língua aghartina: Satadak – Anadak – Jevadak – Reifadak – Samadak – Isadak – Muladak.

A “Oitava Coisa”, o Substractum ou Princípio Originador como síntese dos sete, como se fosse a semana por inteiro, fixa-se em São Lourenço do Sul de Minas Gerais, e tem na direcção a Mãe Soberana desses Homens Representativos, Adamita, assegurada ritualisticamente pela Ordem do Santo Graal assente em quatro patamares de Iniciação e Realização: Templários (Astaroth), Filhas de Allamirah (Karuna), Tributários (Yama), Pupilos (Manu).

Para terminar, os signos do Zodíaco Humano (Jiva) em formação, representando o 3.º Zodíaco, na língua latina e aghartina, são: Scorpio (Sib-Sib), Sagitarius (Zig-Tag), Piscis (Naho-Ab), Câncer (Tal-El).

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Henrique José de Souza, Livro Síntese (da Missão dos Sete Raios de Luz). Sociedade Teosófica Brasileira, 1935.

Henrique José de Souza, Cartas-Revelações do Ano 1941. Sociedade Teosófica Brasileira.

Henrique José de Souza, Livro dos Makaras. Sociedade Teosófica Brasileira, 1951.

Henrique José de Souza, Livro “Vitória dos Bhante-Yaul”. Sociedade Teosófica Brasileira, 1962.

Sebastião Vieira Vidal, Série Q. S. G. Sociedade Teosófica Brasileira, 1968.

Conde de Saint-Germain, A Santíssima Trinosofia. Introdução e comentários de Manly P. Hall. Editora Mercuryo Ltda., São Paulo, 2003.

Comunidade Teúrgica Portuguesa, Textos Internos. Sintra, Portugal.

O Giro do Círio dos Saloios (Senhora da Pedra de Mua) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Ago 23 2017 

Hoje[1], Dia de Portugal, que é dizer do início da Portugalidade no Mundo como País soberano cerca de 500 anos á dianteira dos demais europeus, que estruturados em feudos com os seus duques e condes isentavam-se de um poder central, é, pois, neste velhinho rectângulo pátrio que irrompe a diáspora da fé, do saber e das armas assinaladas, inicialmente a todas as partes da Europa, e depois às do Mundo. Ser português é uma maneira de estar, de sentir, pensar e ser… sempre duvidoso das suas capacidades reais de realizar e, anacronicamente, sempre ansioso de as realizar.

Em um aspecto particular isso mesmo regista-se no saloio, etnia arábica provinda de Saleh, cidade marítima da Mauritânia, nos finais do século VIII para estas bandas ocidentais da Europa, depressa miscenizando-se aos cristãos submetidos ao jugo árabe ocupante, pelo que em breve eles mesmos se tornariam moçárabes, “como que árabes”, desde logo mal vistos pelos de puro sangue árabe, não corrompido pela mistura ao de outras etnias consideradas inferiores, assim remetidos ao desprezo das fainas mais humildes, contudo essenciais à vida, do cultivo dos campos arredores das grandes urbes estremenhas, particularmente de Lisboa.  De maneira que ao natural de Saleh deverá depois a sua origem o “homem do campo”, o saloio.

A origem da designação saloio tem sido motivo de estudo desde há largo tempo. Apesar de eu considerar a sua marginalização fora dos muros das urbes ainda durante o período árabe, o Padre Rafael Bluteau remonta a sua origem aos tempos de D. Afonso Henriques: “(…) deixando el-Rei Dom Afonso Henriques ficar no termo de Lisboa os Mouros, em suas fazendas, e lugares (…), a estes chamaram Saloios ou Çaloyos, que quer dizer gente de Çalaa, e daquela seita de Mouros”[2].

Já Frei João de Sousa[3] associa a denominação saloio a três significados distintos, todos eles com origem árabe: (1) Çala – Salah, que significa “oração, deprecação”, por derivação do verbo sálla, “orar, rezar, deprecar”; (2) Çalá Ben Çala – Saléh Ben Saléh, nome próprio que significa “o justo” ou “filho do justo”, por derivação do verbo Saleha, de “ser justo, perfeito ou completo”; (3) Çaloyo – Çalauio, referente ao “Çalatino, homem natural de Çalé, cidade marítima da Mauritânia, donde creio que se deriva o dito nome em razão de alguns dos seus habitantes terem vindo talvez povoar os subúrbios de Lisboa”.

Nisso, David Lopes[4] considera que o termo saloio deriva de Çala, no sentido atribuído por frei João de Sousa (“oração, seita de mouros”) ou de Salé, e introduz a referência ao pão cozido, considerando que o vocábulo çalaio era o “tributo que se pagava do pão cozido na cidade e Patriarcado de Lisboa. (…) Ainda hoje, como é sabido, se vende pão saloio pela cidade, trazida a ela em burros e dentro de alforges. Çalaio é, cremos, a mesma palavra que saloio, mas romanizada”[5].

Devo informar que o nome moçárabe, aliás escrito na forma plural, aparece pela primeira vez no foral que Afonso VI (1101) concedeu à cidade de Toledo, onde o monarca refere os súbditos quos vulgo mozarabes vocitant, de onde se infere que o nome carecia de uso nas instituições culturais e jurídicas[6]. Essencialmente, como já disse, o moçárabe é o “como que árabe”, ou seja, o árabe miscenizado ao cristão e o cristão inserido e subordinado à estrutura social muçulmana, excepto na religião, ainda que a Cruz e o Crescente em muito se identifiquem através dele[7].

Durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, o Estado islâmico limitou a propagação judaica e cristã a guetos ou lugares de delimitação fixa. Assim, a paróquia é o gueto dos cristãos, como a alfama ou aljama é o asilo ou gueto dos judeus (e após a Reconquista cristã criar-se-ia, imitando o modelo islâmico, o gueto da moirama, isto é, a mouraria), com a diferença de que a paróquia – nome gótico – se designa, no direito muçulmano, por al-kenîssah, ou kulicia. Al-kenîssah não é apenas um templo, nem uma capela, nem uma ermida no monte. É, mesmo na forma evolutiva da palavra (kenîssah, caniça, caneça), uma cabeça de assembleia cristã: a sede paroquial[8], que na cidade de Al-Usbuna (Lisboa) situava-se em São Cristóvão de Alfama que na época era Santa Maria de Alcamim, de “Entre-Hortas”[9].

O desenvolvimento da rede paroquial durante a Reconquista cristã alerta para a função da freguesia nas acções da conquista e da consolidação do domínio das caneças contra as assembleias mesquitais. Algumas dessas caneças feneceram, ocupadas pela moirama e logo transformadas em mesquitas e mesquitelas, enquanto outras vingaram durante os séculos de ocupação. Caneça, ou caneças, é uma igreja paroquial onde ocorrem semanalmente as populações circunvizinhas, as populações desse gueto cristão tornado mais importante em regime de hábito disperso, como sucedia em toda a região da Estremadura, mormente nas terras saloias de Loures, Mafra, Sintra e Cascais, as quais se estendiam etnologicamente, por um lado, até Torres Vedras[10], inclusive registando-se vestígios da cultura saloia em Óbidos; por outro lado, ia até à região sadina de Setúbal, Arrábida, Sesimbra e Espichel[11].

Dentro da caneça o moçárabe é cidadão de pleno direito, freguês, felgrês, feligrês ou filius Ecclesia, “filho da Igreja” (donde a freguesia ser extensão da paróquia, tal qual, numa sociedade tradicional, o Poder Temporal é justificado e confirmado pela Autoridade Espiritual), mesmo que a mulher sirva de lavadeira ao califa.

O modelo jurídico islâmico, por sua perfeição aristotélica, serviria de inspiração ao senado latino dos cristãos, reformulado por D. João I mas cuja origem recuará a D. Afonso II. O senado islâmico era a shari’a, o tribunal no qual o cadi ou juiz actuava como representante do califa. Por via de regra, era um muçulmano do sexo masculino, de bom carácter e comprovado saber. Embora a sua jurisdição abrangesse ao mesmo tempo a lei civil e a lei penal, na prática o Estado encarregava-se da maior parte da última. Ora, era exactamente isso que o senado latino fazia: mantinha a lei civil e só aplicava a penal após ordens expressas do Estado vigente[12].

Com tudo isso, premissas indispensáveis ao entendimento da génese do Círio dos Saloios à Virgem de Mu ou Espichel, tema que aqui me traz, pretendo agora afirmar que, com a maior das possibilidades, tal Círio Votivo ou Giro seria já cardápio do devocional do saloio moçárabe no tempo da ocupação árabe, cuja lei era permissiva e não repressiva da fé cristã submetida, desde que a mesma não se convertesse em política anti-estatal subversiva. Ficar-se pela fé, respeitava-se; extravasar-se para a política, reprimia-se[13].

Tanto assim é que não raros autores de obras consignadas a leitura obrigatória nesta área historiográfica, como Frei Bernardo de Brito (in Monarquia Lusitana, Parte I, Livro IV) e Manuel de Faria e Sousa (in Europa Portuguesa, cap. I, IX), afirmam que a devoção a Nossa Senhora da Pedra de Mua, de Mu ou do Cabo é remotíssima e muitíssimo anterior a 1410 [14] e até mesma mesmo a 1215 [15] e 1275 [16], cujo primeiro registo documental consta na Chancelaria de D. Pedro I,  em sua carta régia de 14 de Abril de 1366: os lugares do Termo de Sesimbra “jazem em huu dos cabos do mundo e fora de todo o caminho salvo os que vaão em romeria a Sancta Maria do cabo”. 1414 é o ano em que D. João I doou ao Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, terrenos no sítio do Cabo Espichel para ele, devoto confesso de Nossa Senhora do Carmelo, dar ao povo Casa condigna à devoção da Virgem, sendo edificada a Ermida de Santa Maria da Pedra de Mua, vulgo Ermida da Memória, humilde resto de formato kaábico do antigo espaço carmelita do qual ainda sobejam as ruínas ao lado da actual basílica (1701-1707)[17]. A pequena ermida, mais sendo oratório de ermitão ou homem do deserto, como Santo Antão que lá está em azulejo fazendo o sinal de silêncio, foi restaurada em 1758, data dos seus painéis de azulejos que indicam ser esse o “próprio lugar onde a milagrosa imagem de Nossa Senhora do Cabo se manifestou aos venturosos velhos de Caparica e Alcabideche e em que primeiro foi venerada”, segundo Frei Bernardo de Brito.

Ermida da Memória, Cabo Espichel

Ora, o primitivo culto celta estremenho (Estremadura, Oestrymnia) à Grande Deusa-Mãe prolongou-se até ao período visigótico e depois moçárabe, já aqui na forma hagiográfica da Mãe Divina, fixando-se definitivamente, por via do Santo Condestável D. Fr. Nuno Álvares de Santa Maria, na popularização da romaria, giro ou bodo à Virgem Santíssima, esta mesma Santa Maria do Cabo, a Stella Maris inspirada no episódio bíblico protagonizado pelo Profeta Elias (I Reis, 18) onde aparece como “homem de fogo”, abrasado pelo amor de Deus, e que faz parte do imobiliário simbológico da Ordem do Carmelo, inclusive associando Espichel a novel Carmelo Lusitano, nisto corporificando a oração trecentista do Flos Carmeli (“Flor do Carmelo”):

Do Carmo a Flor
vide florida
do Céu esplendor.
Virgem fecunda,
singular,
Mãe sem par
de homem ignorada!
Ao Carmo vem dar
a tua ajuda,
Ó Estrela do Mar!

Foi grande a devoção popular ao Santo Condestável, devotadíssimo de Santa Maria do Cabo, a ponto da devoção feminina saloia ter-lhe dedicado várias danças e cantares mouriscos, chacóinas ou chaconas, de natureza apologética abertamente matricial, inclusive atribuindo-lhe o “poder de ressuscitar os mortos”, o que vai bem com igual atributo da Deusa-Mãe agora corporificada na pessoa do “Cavaleiro Santo”, do “Galaaz do Carmelo”, no dizer de Pinharanda Gomes, tanto mais que a Iniciação Cavaleiresca, Senhorial, é sinónima de Iniciação Mariana. Convém, sim, não confundir Cavalaria Espiritual com Cavalaria Militar. A propósito da Chacona do Condestável, de origem medieval, ela foi recolhida e integrada no reportório do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, que gentilmente cedeu-ma pela mão do seu presidente na ocasião, senhor José Henriqueta. Passo a descrevê-la[18]:

DANÇA: É somente dançada por mulheres. Tem a sua origem na Procissão ao Carmo de Lisboa, organizada em primeira mão pelo próprio D. Nuno Álvares Pereira. Para esta dança, tal como na judenga, era obrigatória a comparência, em caso de falta haveria castigo de multa.

MÚSICA: É baseada em quatro notas que procedem por graus unidos, sobre os quais se fazem muitas consonâncias e coplas sempre com a mesma volta.

LETRA (ortografia semi-medieval):

A CHACONA

Do Restelo a Sacavém
Nem ningola nem ninguém
Tem semelho ao Condestabre
Que le prouge e que le preze
Ho fazermos tanto bem.

E BEM E BEM

O rapaz das coberturas
Que mórre, e cahe pra tráz,
Já não vai à sepultura
Que outra vez, vive o rapaz:
E ho Conde le fizo o bem.

E BEM E BEM

Á filha de Joana estés
Que finou por non mamar
Ao do moinho do Cubo
Que finou por se afogar
Viventa o Conde também.

E BEM E BEM

O mal daquela alfayata
O gram dor de Lopo Afonso
Nos les chega aos corações
Que o Santo Conde los guarde:
Y todo por fazer bem.

E BEM E BEM

E bem Condestabre Santo
Cobrimos com nosso manto
Com nosso manto de Galés
Defendimentos dos males
E fagamos muito bem.

E BEM E BEM

É ainda a Arqueologia a comprovar quanto antigo é o culto à Grande Deusa-Mãe, independentemente dos nomes que adopte de acordo com a ciclicidade dos movimentos religiosos imperantes na mentalidade do tempo de dado espaço histórico, no Cabo Espichel, outrora conhecido dos cronistas gregos e árabes como Promontório Barbárico, e dos latinos como Capresicum Lugum, isto é, Cabo de Capris ou da Cabra[19].

Cabo Espichel, Sesimbra

Com efeito, as Lapas do Bugio e do Fumo, ambas de muito difícil acesso pela alcantilada escarpa costeira sesimbrense, forneceram descobertas surpreendentes dentre vário espólio eneolítico (c. 300 a.C.): junto à entrada da Lapa do Bugio encontrou-se um esqueleto cujo crânio fitava o mar, tendo sido intencionalmente desmembrado e os ossos serrados[20], o que sugere um tipo de ritual funerário isíaco, o que aliás indaga Manuel Joaquim Gandra[21]. Na outra Lapa do Fumo, encontraram-se mais ossadas humanas intencionalmente serradas, e cerâmica de fabrico demasiado esmerado para poder considerar-se de carácter meramente utilitário, campaniforme, argárica, com ornatos a cores, datável da Idade do Ferro e Medieval, designadamente do Período Muçulmano, este também representado por oitenta quirates (moedas) cunhados em Silves, que se verificou haverem sido lançados sobre as sepulturas de presumíveis homens santos (çalás ou “justos” nos cargos de mulâs (ملا) ou “mestres” na teologia e na lei maométicas) venerados pelo Islão[22]. Que terá o mulâ a ver com a mula com que no cabo Nossa Senhora subiu escarpa acima, segundo a lenda sagrada? Ou mesmo com essa outra mula (buraq, termo árabe familiar de baraqa, “bênção”) com que Mahometh subiu ao Céu? Haveria algum ponto de encontro entre o Islão xiita e o Cristianismo heterodoxo, onde a Virginis Aeternis, a mesma Marah corânica, seria o pólo comum?

A acrescer tudo isso, a existência de diversas pistas de dinossáurios, com maior realce nas escarpas da enseada da praia dos Lagosteiros, pretexto para as pegadas deixadas na Pedra de Mua pela burrinha (mula ou muar) que transportou a Senhora encosta acima[23], transpondo-se assim o óbvio geológico para a maior valia da aparição sobrenatural da Virgem, o que recata à finalidade consagratória desse mais um finis-terrae ou lugar sagrado. Assim quis o povo e assim está muito bem, na sua maneira simples e ingénua mas sincera de pensar e sentir o sobrenatural, insensível à discussão científica esclarecida mas sensível à simplicidade da fé iluminada pela graça da Virgem Mãe, a Stella Maris, o que reporta à devoção ao Divino Espírito Santo, soprando onde quer sobre o Oceano da Vida, por aqueles homens e mulheres que dados às fainas do mar caprichoso a Ele e a Ela tantas vezes recorrem nas horas de aflição, ou esses camponeses dependentes, também eles, das boas colheitas que os caprichos da Mãe-Natureza lhes concede. São motivos mais que suficientes para cultuar a Senhora do Cabo, Orago dos saloios que vivem da terra, mas também daqueles que vivem do rio e do mar.

É assim que nasce a fruição hagiográfica da aparição da Senhora da Mua, que os velhos contavam oralmente e que depois Frei Agostinho de Santa Maria transpôs literalmente ao seu Santuário Mariano (liv. II, tit. 72), tendo por personagem central o nauta irlandês S. Brandão, o que coloca o Cabo de Mu na rota marítima das “ilhas perdidas ou encantadas” de algum finado e mítico continente da Atlântida, aqui reachado[24] e até confirmado pelo achado da Tábua Árabe na Lapa 4 de Maio (dia do Senhor das Chagas), na Serra da Azóia, no ano 2000 pelos espeleólogos Rui Francisco e Miguel Amigo, na qual está escrita dois dois lados a Sura 39.ª do Alcorão, prometendo aos justos que “Ele (Allah) o introduzirá em jardins, abaixo dos quais correm os rios”[25].

A lenda sagrada contada por Frei Agostinho de Santa Maria, é a seguinte:

“[Cerca] de 1215 pouco mais ou menos […] uma nau em direitura a Lisboa, no fim de alguns dias estando já na altura de Lisboa, não longe da costa lhe anoiteceu, e sobreveio juntamente uma tão terrível tormenta, e com uma cerração tão obscura que todos se davam por perdidos. A cada instante julgavam tocar em um baixo ou despedaçar-se a nau naquela brava costa; porque além de serem (como estrangeiros) pouco versados nela com a obscuridade da noite, não sabiam onde estavam, nem ainda que o soubessem, lhes podia aproveitar pelo desmalado furor dos ventos, e braveza dos mares, que não deixavam que a nau obedecesse ao leme. Todos os que vinham nesta nau eram cristãos e católicos, como o eram então todos os Ingleses e entre eles vinha um Religioso Eremita de meu Patriarca S. Agostinho chamado Haildebrant (isto é, Brandão), que devia ser Capelão da nau, ou de um fidalgo, que também ali vinha, chamado D. Bartolomeu. Trazia este bom Religioso consigo uma Imagem de Nossa Senhora, com que tinha especial devoção […] a foi buscar no seu camarote para se recomendar a ela, e a pedir-lhe que lhe valesse, e a todos os mais que vinham na nau. Mas não a achou no lugar em que a trazia […]: começou a dar vozes ao céu para que lhe valesse naquele grande aperto, em que ele, e todos se achavam pedindo-lhe valesse: o mesmo fizeram os mais desamparando o governo da nau, pondo-se de joelhos em oração e pedindo com lágrimas a Nosso Senhor que lhes acudisse interpondo o socorro de sua Santíssima Mãe. Eis que de improviso viram em um alto uma grande luz, que no meio daquela escura noite lhe alumia a nau e a viram como o podiam fazer com a luz do Sol em um dia claro. Após isto sossegaram os mares, abrandaram as ondas e se amansaram os ventos, quando a nau à Lua em tranquila bonança. Entenderam por estes sinais ser do Céu aquela luz, e aquela maravilha e assim animados e seguros navegaram para ela, até que vendo-se junto da costa lançaram ferro e se deixaram estar surtos até amanhecer o dia dando muitas graças a Deus, que de tão evidente perigo os havia livrado. Notaram que a luz os guiara e o lugar onde aparecera, para que tanto que fosse claro o dia, irem saber o que aquilo era. Chegou a manhã e saindo a terra Haildebrant (Brandão) com alguns dos principais da nau e subindo ao lugar notado, em que tendo visto a luz, descobriram a mesma Imagem da Rainha dos Anjos que o Religioso Padre Haildebrant trazia no seu camarote e que lhe havia falado dela na ocasião da tormenta em que [a] buscava. Admirados todos de tão grande maravilha e agradecidos juntamente à Senhora pelo singular benefício que lhes fizera, não cessavam de dar graças a Deus e também a sua Mãe Santíssima. Consideravam que o achar-se a Santa Imagem em aquele lugar milagrosamente era mostrar-lhes que tinha feito eleição dele, e que ali queria ser venerada, e assim se resolveram a não a tirar daquele sítio, sendo o principal voto desta deliberação o do nosso Eremita Haildebrant (Brandão), de quem era a Santa Imagem. E para que ficasse decentemente naquele lugar, com esmolas que juntou dos companheiros, e com licença do Bispo de Lisboa, lhe edificou boa Ermida em o mesmo lugar, e junto a ela uma cela, ou aposento para si, e para D. Bartolomeu, que os quis acompanhar naquela solidão tão áspera […].”

Desconheço se São Brandão acaso seja o capitão de mar-e-guerra Sancho Brandão, da mesma época, pertencente à Marinha de Guerra da Ordem do Templo e que, segundo Assis Cintra baseado nos escritos do padre jesuíta Manuel Fialho, terá chegado numa expedição de reconhecimento à “Ilha Perdida do Mar do Ocidente”, apontada como o Brasil, notícia comunicada pelo Rei de Portugal ao Papa Clemente VI, em 12 de Fevereiro de 1343 [26]. Igualmente desconheço se Sancho Brandão acaso será São Brandão… Para todo o efeito, tem-se a navegação sobrenatural afim à via húmida da Alquimia – Macho/Fêmea, Fohat/Kundalini, Sol/Lua, aliás, estes últimos pintados em painéis laterais à entrada interior da Basílica do Cabo, conferindo-lhe carácter astrolátrico correlacionado ao tema da lenda sagrada: Cristo para o Sol e Maria para a Lua, mas também Maria como Lua vestida de Sol; a heterodoxia da leitura iconográfica inclusive é aconselhada pela legenda do azulejo junto ao altar-mar: “Ver o outro sentido além do aparente” – e que é a Arte Magna de Espírito Santo. Assim, há igualmente a crença na presença discreta da Ordem do Templo na divulgação inicial deste santo lugar marítimo do Cabo Espichel[27], desconheço se tal aconteceu, até ao momento não obtive provas disso apesar de saber que os Templários ocuparam vários lugares da margem sul, inclusive povoados dentro do Giro do Círio, mas se isso aconteceu significa que só depois interviu a Ordem do Carmo, encarregada da propagação e popularização da Hipertúlia, do culto miraculoso à Virgem, as Virgini Maris.

A publicação em Lisboa em 1707 do acontecimento milagroso de salvação dos marinheiros ingleses e posterior aparição inexplicável da imagem da Virgem no cimo do cabo, veio a dispô-lo no ciclo e no circuito hipertúlico justificado pelas aparições miraculosas da Virgem. Mais que isso, veio corroborar o que antes, em 1409-10, acontecera com uma velha saveira do Monte da Caparica (a Capa-Rica, tanto quanto a que depois se depôs sobre a imagem) e com um velho saloio de Alcabideche, vizinho de Sintra e freguês de Cascais, que sem se conhecerem tiveram uma visão idêntica: viram uma brilhante estrela levantada sobre o Mar (Stella Maris), ao longe, alumiando sobre o Cabo Espichel, lugar que Nossa Senhora lhes revelara em sonhos, advertindo-os que ali achariam a sua imagem, escondida desde há séculos numa fraga pelo próprio S. Brandão pelo ano de 1215, reinando D. Afonso II de Portugal, tendo a Virgem acrescentado que os devotos lhe deveriam prestar culto[28]. O romeiro saloio e a velha caparicana viriam a encontrar-se em romaria ao Cabo, e depois de aí orarem, ambos fizeram uma ermidinha de alecrim, arbusto saturnino que vegeta abundantemente no lugar, e dentro colocaram a pequena imagem da Virgem Mãe achada entre fragas.

Quererá isso dizer, além do sentido imediato do acontecimento maravilhoso e maravilhado, que terá sido por essa data de 1410 que o Condestável Santo – novel “São Malaquias” da Gesta de Avis, Siva ou do Espírito Santo, empático ao Carmelo, que em egípcio se diz Espichel, tornando este um Carmelo Lusitano em Cabo de “Fim do Mundo” (Finis Terrae), tema aglutinador e revelador do Genius Loci (Espírito do Lugar), para onde confluíram as três grandes religiões monoteístas afro-mediterrâneas (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo) – começou a interessar-se pela fé popular dos saloios e saveiros na Virgem do Cabo, e, com o amplo apoio do mesmo povo, acrescido do real e do religioso carmelita, seria iniciada em 1414 a construção da Ermida da Memória do Milagre aí ocorrido em 1215, possivelmente o ano em que o culto à Virgem Celeste assumiu definitivamente o modelo cristão, e possivelmente largado o primitivo de feições arábicas, antes, moçarábicas.

Ambos esses acontecimentos da salvação da nau de Brandão e da construção da Ermida da Memória, constam nas crónicas posteriores às visões sobrenaturais dessas duas pessoas anciãs, que é dizer, de juízo formado, e serviram para publicitar o privilégio da «descoberta» do Santuário eleito pela Senhora, isto é, o seu enquadramento no Cristianismo, ou melhor, a aceitação e oficialização pelas autoridades eclesiásticas do culto mariano realizado  aí pelo povo desde, quiçá, muito antes da Nacionalidade, como narra a primeira das três lendas (duas já estão narradas, a do nauta S. Brandão e a dos velhos romeiros de visão comum) do Cabo Espichel, cuja origem poderá remontar ao período moçárabe, mesmo tendo forte sabor carmelitano. Diz ela[29]:

“Conta a lenda que na venturosa noite em que a Virgem Mãe deu à luz o Menino Deus, a Serra da Arrábida foi coberta por um clarão extraordinário, que iluminou por completo o Promontório Barbárico (Cabo Espichel). Viu-se então uma enorme nuvem, cheia de resplendores, a qual, como se fora o Sol no seu declínio, foi cair nas águas revoltas do oceano (Stella Maris), onde se sumiu […].”

De volta a Frei Agostinho de Santa Maria, ele é o único autor a dispor a Virgem montada numa jumentinha ou burrinha subindo a escarpa do Espichel, o que remete para tradição claramente moçarábica. Diz[30]: “[…] afirmam que a Senhora aparecera na praia (dos Lagosteiros) que lhe fica embaixo da mesma penha, onde se edificou a Ermidinha, e que aparecera sobre sua jumentinha, e que esta subira pela rocha acima, e que ao subir ia firmando as mãos, e os pés na mesma rocha, deixando impressos nela os vestígios das mãos, e pés. […] De ser isto assim o afirmava a tradição dos que viram estes mesmos sinais, que hoje tem gastado, e consumido o tempo”, acrescentando que a ermida “se fundou no lugar aonde a Senhora parou, naquela liteirinha vivente que a levava”, e que a capela “desfez muitas vezes o tempo; mas a devoção dos que a servem, a reformou outras tantas vezes, apesar dos seus rigores”.

Segundo documentação reservada na Biblioteca Nacional de Lisboa, a oficialização do Círio Saloio do Termo ou do Bodo, constituído pelo Giro entre freguesias (inicialmente 30) da margem norte do Tejo, com deslocação anual e rotativa ao Santuário da Senhora do Cabo,  terá tido início cerca de 1430, “21 anos depois do aparecimento da milagrosa imagem”[31], presume-se por acordo tácito popular, tendo sido canonicamente organizado com o passar do tempo: a Bula Apostólica confirmada em 15 de Maio de 1585, aprovada por Provisão do Cardeal Arcebispo de Lisboa, em 19 de Setembro de 1697, estabelecia que não se criaria aos romeiros “algum impedimento em os caminhos ou passagens de mar aos carreiros, almocreves, barqueiros e mais pessoas que os servirem pelo meirinho dos clérigos ou outras justiças”. O ano de 1606 será o da instituição da Confraria de Nossa Senhora do Cabo, estando o seu compromisso datado de 1671, aquando os “Giros” já se efectuavam há largo tempo[32]. Foi pouco depois dessa última data que D. Pedro II, em 1701, mandou construir a Basílica de Santa Maria de Mua, com traço do Arquitecto real João Antunes, obra terminada em 1707 e de imediato se transladou para a Real Basílica a imagem primitiva da Senhora. Entre 1715 e 1794 edificaram-se as casas destinadas a alojar os romeiros, as hospedarias sobre arcaria com terreiro (arraial) anexo. Também D. João V, D. José I e D. João VI mandaram fazer importantes obras aí, sendo que o primeiro encomendou ao cenógrafo Lourenço da Cunha a pintura monumental do tecto, em arquitectura perspectivada retratando a Assunção; o segundo mandou refazer os altares laterais e repintar o tecto.

O Círio do Termo à Senhora de Mu inclusive chegou, cerca de 1849, pela pompa e aparato que a realeza lhe devotou, a ser chamado de Real Círio dos Saloios, e a a fama de que usufrui até hoje provém sobretudo da protecção que a Coroa lhe deu. Com efeito, a rainha D. Carlota Joaquina confeccionou o manto riquíssimo (Capa-rica – posta em analogia com o Véu ou Manto de Ísis) que revestiu a imagem da Virgem, tendo antes disso o rei D. José I e a rainha D. Maria I oferecido à Confraria do Cabo a bandeira com a imagem de Nossa Senhora bordada a ouro, bem como a monarca D. Maria Pia oferecido, em 1887, a bandeira que os “anjos” usaram no Círio desse ano.

O Círio Real dos Saloios ainda resplandecia de importância no último quartel do século XIX, em todas as freguesias do Termo por onde ele girava. Tal era acompanhado da maior assistência aos romeiros. É como diz Luís Chaves[33]: “Hia antigamente ao Sítio do Cabo no Círio do Termo ou dos Saloios, hum cirurgião da Caza-Real, por conta do Infantado, e levava uma Botica (Farmácia) volante para acudir aos Romeiros em cazo de necessidade”.

Círio é a grande vela de cera acesa benzida e sagrada pela devoção a Orago comum, no caso, Santa Maria do Cabo, expressiva do Espírito Santo vogando sobre o Oceano da Vida justificativo dos predicados de votivo e itinerante em itinerário praviamente demarcado pelo qual vai gradualmente identificando-se com o Divino até á absorção Nele no final da jornada, ou tão-só a Sua aclamação como Pater Majorem dos fregueses, os filius Ecclesiae, dispondo a freguesia como fiel de Maria, Mater Prima, Sua protectora e consoladora, no que o Espírito Santo é Nela.  No fundo, o Círio não deixa de ser peregrinação, e peregrinação é sempre, não importa se consciente ou inconscientemente, uma iniciação móvel, neste caso particularizada como iniciação mariana popularizada na etnia saloia, esta que, acaso, pode não se gostar à primeira, vai-se aprendendo a gostar… Hoje mesmo ela é a nata do povo, simples e rude mas sincero e bom, sempre acreditando nas boas intenções de “seus senhores”, esses “mandantes lá de Lixbôa” que, desgraçadamente, acabam esquecendo a palavra dada com muitíssima mais facilidade que a capacidade de hoje separar o rural do urbano. De maneira que ambos sofrem na mesma medida.

O Giro do Círio à Senhora da Pedra de Mua tinha como cabeça dele a Freguesia de Belas, onde os procuradores se reuniam impreterivelmente a 25 de Março de cada ano para prestar contas e realizar eleições para os novos cargos. O prior de Belas era o juiz executor e o de Barcarena o seu tesoureiro perpétuo. Como disse, inicialmente o Giro compunha-se de 30 Freguesias do Termo dos Saloios, mas após o 10.º Giro 4 delas resolveram abandoná-lo: Bucelas (1709), Unhos (1711), Arranhó (1716) e Mafra (1722), ficando as restantes 26, número que se mantém até hoje. A sua ordenação e a data em que iniciaram o Giro é a seguinte:

1 – S. Vicente de Alcabideche (1431)
2 – S. Romão de Carnaxide, hoje Linda-a-Velha (1432)
3 – S. Julião do Tojalinho, hoje Tojal (1433)
4 – S. Pedro de Penaferrim de Sintra (1434)
5 – Nossa Senhora da Misericórdia de Belas (1435)
6 – Santa Maria de Loures (1436)
7 – S. Lourenço de Carnide (1437)
8 – Nossa Senhora da Purificação de Bucelas (1438)
9 – S. Pedro de Barcarena (1439)
10 – S. Pedro de Lousa (1440)
11 – S. Silvestre de Unhos (1441)
12 – Santo Antão do Tojal (1442)
13 – Nossa Senhora da Purificação de Oeiras (1443)
14 – Nossa Senhora do Amparo de Benfica (1444)
15 – S. Domingos de Rana (1445)
16 – S. João das Lampas (1446)
17 – S. Lourenço do Arranhol, hoje Arranhó (1447)
18 – Nossa Senhora da Purificação de Montelavar (1448)
19 – Nossa Senhora de Belém de Rio de Mouro (1449)
20 – Nossa Senhora da Ajuda de Belém (1450)
21 – Ascensão e Ressurreição de Cascais (1451)
22 – Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas (1452)
23 – S. Martinho de Sintra (1453)
24 – Santo André de Mafra (1454)
25 – S. Pedro de Almargem do Bispo (1455)
26 – Santo Estêvão das Galés (1456)
27 – Nossa Senhora da Conceição da Igreja Nova (1457)
28 – S. João Degolado da Terrugem (1458)
29 – S. Saturnino de Fanhões (1459)
30 – Santa Maria e S. Miguel de Sintra (1460)

Nos primeiros tempos do Círio, a passagem de testemunho de uma freguesia do Giro a outra, era feita no próprio Santuário do Cabo e concretizada através da entrega da bandeira da Confraria pelo juiz da freguesia que saía ao juiz da freguesia que entrava. Saliente-se que tendo em conta o número de freguesias participantes no Giro (26), cada uma delas só festeja a Senhora do Cabo de 26 em 26 anos. No ano de 1751, essa bandeira foi substituída por uma imagem da Virgem feita à semelhança da original – que nunca saiu do Santuário – e a partir dessa data começou a acompanhar os Círios.

Círio de S. Vicente de Alcabideche em 1909

Inicialmente, a procissão do Círio organizava-se segundo uma coreografia de cortejo, que abria com um friso de anjos, seguindo-se a música e os carros enfeitados transportando os romeiros – o que se ajustava a um ludismo que, situado na transição do popular folclórico para o ritmo sagrado, orientava a função colectiva para os Mistérios Iniciáticos.

Em 1893 e devido à pouca afluência de romeiros ao Cabo, foi necessário tomar novo compromisso, onde se consignou que os festeiros se limitariam a levar a imagem peregrina de freguesia em freguesia sem deslocação ao Cabo Espichel, e só quando chegasse a vez da última freguesia do Giro – St.ª Maria e S. Miguel de Sintra – todas elas iriam em procissão ao Santuário de Mua e aí seria entregue a imagem aos festeiros da primeira freguesia – Alcabideche –, recomeçando assim um novo Ciclo ou Giro (o que se enquadra naquele princípio teosófico do Terceiro Logos Criador das Rondas e Cadeias dos Planos de Matéria e peregrinando por elas, evoluindo e fazendo evoluir os seus seres viventes). O facto é que, desde essa data, a imagem peregrina nunca mais voltou ao Cabo, verificando-se assim uma adulteração do ritual primitivo, por ela passar directamente de freguesia para freguesia após 26 anos de ausência. Foi também nessa altura que se perdeu o hábito dos procuradores dos vários Círios se reunirem em Belas, no já referido dia 25 de Março de cada ano, para aí serem prestadas as contas.

Em 1910 e logo a seguir à promulgação da lei separativa do Estado e da Igreja, foi assaltada a igreja-matriz de Alcabideche onde se encontrava a imagem peregrina, provocando-lhe vários danos. A este facto sucedeu um interregno de 15 anos nos festejos a Nossa Senhora do Cabo, que recomeçaram em 1926 com Odivelas a ser a primeira freguesia a reclamar a imagem tomando a iniciativa de a ir buscar à Ressurreição de Cascais, onde fora recolhida do vendaval jacobino anti-eclesiástico, de maneira que foi o Círio do Santíssimo de Odivelas quem suscitou a retoma do Giro.

Comissão de Festeiros de Odivelas e carro dos “anjos” defronte ao Mosteiro de S. Dinis e S. Bernardo (1926)

Depois disso as romarias continuaram, mas já destituídas da grande pompa que possuíam outrora, até que, mais uma vez, foram interrompidas desde 1976 a 1979.

Até finais do século XIX o Círio durava cinco dias[34]. Saía da freguesia que tinha a imagem da Senhora na terça-feira que antecedia a Ascensão (40 dias após a Páscoa: quinta-feira da Ascensão ou da Espiga), e ia depositá-la na Capela de Nossa Senhora das Dores, em Belém. No dia seguinte atravessava o Tejo, enquanto as fortalezas davam salvas de 21 tiros, desembarcando de galeotas e bergantins da Casa Real em Porto Brandão (que herda o nome do santo da lenda descrita pelo supradito Frei Agostinho de Santa Maria).

Uma vez em terra, o cortejo reorganizava-se, fazendo paragem na Capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Daí seguia para a Ermida de Nossa Senhora do Cabo na Banática e para a homónima da Caparica (Quinta da Piedade de Domingos da Costa e Almeida, antiga propriedade de meus familiares), seguindo para o Cabo Espichel pela beira-mar, ao longo do areal. Os romeiros costumavam chegar ao Cabo na véspera da Ascensão, entrando o cortejo no terreiro e dando três voltas a este antes de se dirigir para o interior da basílica.

Os festejos iniciavam-se nessa quinta-feira, dia consagrado, com missa de Requiem, aos festeiros falecidos. No sábado havia solenidade consagrada a S. Joaquim (aludido pai da Virgem Maria), e no domingo acontecia a festa que faziam os que entregavam a imagem de Nossa Senhora. Nesse dia, à tarde, realizava-se a procissão, na qual se incorporavam os festeiros dessa freguesia e da que ali a iam receber. Seguia-se-lhe a entrega da bandeira, no interior do santuário, com Te Deum, Ladainha e Sermão. Os festeiros que entregavam, mais o respectivo prior, o juiz com a bandeira e três anjos, todos se colocavam do lado direito do altar-mor, e os que recebiam, do lado esquerdo. O mestre de cerimónias, que era o prior do santuário, tirava a capa de asperges dos ombros do prior da freguesia que entregava, pondo–a nos do que acompanhava a que recebia. Ao entregarem o Círio, os festeiros passavam todos para o lado esquerdo do altar. Concretizada a entrega era-lhes oferecido um copo de água (tradição que teve início, segundo Ribeiro Guimarães[35], apenas em 1752), ao qual sucedia a entrega das alfaias, lavrando-se acta do sucedido, assinada por todos os presentes. Conservavam-se os festeiros no local até a segunda-feira seguinte, dia em que ocorria o regresso.

Depois da travessia do Tejo para Belém, iniciava-se a caminhada para o respectivo destino, para a freguesia de eleição do Giro. Abria uma força de cavalaria, de imediato o carro do Fogo, seguido pelos juízes com a bandeira e acompanhantes, mais os ternos de chamarelas e três anjos a cavalo, vestidos de soldados romanos. A imagem peregrina era conduzida na sua berlinda puxada por duas parelhas, ladeadas por doze devotos com as tochas acesas. Após ela, os carros triunfais dos anjos das loas (louvores), do padre, dos procuradores, uma galera que levava a música e o habitualmente longo cortejo com a multidão dos festeiros[36].

Berlinda processional da Senhora de Mua chegando a Odivelas vinda de Cascais (2003)

Houve oito freguesias que não foram abrangidas pelo compromisso seiscentista, as quais organizaram os seus próprios Círios a Nossa Senhora do Cabo Espichel[37]: Lisboa (terceiro domingo após o Espírito Santo), Seixal e Arrentela (2.ª oitava do Espírito Santo), Almada (domingo da Trindade), Palmela (15 de Agosto), Azeitão e Sesimbra (primeiro domingo de Setembro). Os Círios organizados na Costa da Caparica possuíam uma organização semelhante à do Giro das freguesias do Termo de Lisboa. A Freguesia era dividida em 4 Varas: 1.ª – Monte da Caparica (onde vivi nove meses e fiz a 1.ª classe da primária escolar, cuja igreja da Capa Rica guarda, como quer a lenda, um tesouro, encobrindo igualmente o segredo que lhe dá acesso – são observáveis dois retábulos azulejares os quais, significativamente, têm por tema o Dilúvio Universal) e Porto da Caparica (Porto Brandão, onde, também infante, ia morrendo afogado e sem ninguém próximo para dar a mão de socorro, contudo “força misteriosa” ou “mão de anjo caridoso” empurrou-me para terra seca. São coisas que não se esquecem…); 2.ª – Trafaria; 3.ª – Costa da Caparica; 4.ª – Sobreda, as quais se revezavam anualmente na organização do Círio e na manutenção da bandeira numa ermida própria até à festa seguinte[38].

Hoje, tudo mudou e muito. Os usos e costumes, sem dúvida. A fé, acaso não. Como também não as freguesias do Giro, e assim também o Santuário do Círio do Termo dos Saloios[39]. Ele lá está, sentinela solene, debruado sobre o Mar Atlântico lavrando as escarpas de Mu. Nada falta, em remate final, para devolver à solenidade litúrgica a pompa mais que justificada merecida de outrora, não faz muito tempo, e que era prova tamanha da unidade social portuguesa reunida em torno de uma única Fé, de uma única Mãe: Santa Maria dos Saloios, do Espichel, de todo o Portugal que é dele este dia[40].

Honra e Glória, pois, à Pátria amada que nos é berço, Portugal, e a todos quantos, no rolar dos séculos idos, por certo votando naqueles do porvir, fizeram as suas grandezas que tão bem e imortalmente a Musa de Camões soube cantar, cujo eco abrasa o coração e empolga a mente. Portugal das Armas, Portugal da Fé, Portugal das Letras, Portugal do Povo que não tem casta e que é todo o Português no Mundo da nossa Diáspora. Morrer a Ideia e a Pátria, jamais! Transformar e Evoluir a Ideia e a Pátria, sempre!

Com esta oração, tenho dito.

 

NOTAS

 

[1] Conferência pública, aqui revista e aumentada, que proferi em 10 de Junho de 2003, no anfiteatro da antiga cisterna da cidadela militar de Cascais, perante as autoridades religiosas, militares e civis, além de vasto povo, por ocasião da chegada aí do Círio Real dos Saloios devotos da Virgem do Cabo Espichel, com a posterior ida para a paróquia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, sede de concelho.

[2] Raphael Bluteau, Vocabulario Portuguez e Latino. Coimbra, 1712.

[3] Frei João de Sousa, Vestigios da Lingoa Arabica em Portugal, ou Lexicon etymologico das palavras, e nomes portuguezes, que tem origem arábica. Lisboa, 1830.

[4] David Lopes, Cousas arábico-portuguesas: algumas etimologias. In Boletim da Segunda Classe da Academia das Ciências de Lisboa, 1917.

[5] Cf. Ana Lúcia Rodrigues Fernandes Vaz, A identidade e o património imaterial saloio: contributos para a criação de uma oferta turística sustentável. O caso do concelho de Mafra. Instituto Politécnico de Leiria – Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, Setembro 2015.

[6] Alexandre Herculano, Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, 84. Obra publicada em quatro secções pela Academia das Ciências de Lisboa entre 1856 e 1917.

[7] Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.

[8] Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

[9] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Sagrada e Profana. Euedito, Lisboa, 2016.

[10] Carlos Guardado da Silva, A estruturação e o povoamento da defesa na Estremadura Islâmica: elementos para o seu estudo. In Turres Veteras V: História Militar e da Guerra. Edição Câmara Municipal de Torres Vedras, 2003.

[11] Francisco Keil do Amaral, O Santuário de Nossa Senhora do Cabo no Espichel. Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1964.

[12] Augusto Vieira da Silva, Dispersos, volume I. Lisboa, 1968.

[13] A repressão aos cristãos moçárabes de Lisboa e a sua consequente chacina, a ponto de poucos vestígios da sua presença na cidade sobreviverem até hoje, deve-se anacronicamente aos cruzados cristãos que conquistaram a urbe e cujos legados papais depressa impuseram à força o direito da lei romana ao direito da lei hispânica. Com efeito, depois da conquista da cidade em 1147 pelas forças chefiadas por D. Afonso Henriques, houveram quezílias entre os católicos romanos e os cristãos moçárabes, talvez o mais grave a posse do senhorio da paróquia de S. Cristóvão, sinal da sua grande importância já na época, vindo o rito romano impor-se ao rito hispânico que aos poucos feneceu até desaparecer completamente. Mesmo assim, permanece a memória, pouco ou nada apercebida, da incorporação moçarábica do santoral arábico que passou ao romano, como seja exemplo a figura do próprio Cristóvão identificado àquela do Kadir por via Miracula (literatura hagiográfica relacionada ao culto histórico), sendo o principal pomo da discórdia histórica e teológica, inclusive litúrgica, entre moçárabes e católicos. Kadir é identificado pelos árabes como um dos companheiros de Moisés, dando a este o nome de Beliah Ibne Fáligue ou Ibne Nuh (Noé), indo encarnar um esoterismo islâmico onde se compreendem ou sintetizam tradições hebraicas relativas ao Patriarca Elias e ao Arcanjo S. Miguel, este o assistente da Sinagoga (Mikael) mas também da Mesquita (Mirrail), que como assistente da Igreja é Miguel. Segundo a lenda sagrada, Kadir terá descoberto a Fonte da Vida Eterna e bebido dela, pelo que não morreu e ainda é vivo, estando em parte incógnita aguardando o momento de ressurgir entre os fiéis. Se Kadir conduz o povo eleito a terra salva do Dilúvio Universal, por sua vez o gigante Cristóvão ou Christoferens é o que “carrega o Cristo” Menino, conduzindo-o a salvo através das águas caudalosas de um vau furioso à outra margem, lenda piedosa indicadora da fé que resiste a todos os caudais de descrença e mantém incólume a Igreja no caminho dos séculos. Por isto, tal como Kadir foi o condutor do seu povo, também Cristóvão é o padroeiro dos peregrinos e viajantes.

[14] Francisco Ildefonso dos Santos, Memórias sobre a Antiguidade das Romarias, e Romaria ao sítio de Nossa Senhora do Cabo. BNL, Ms. 98 da Colecção Pombalina, 1854-1857.

[15] Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, volume II, Lisboa, 1874. Raposo Botelho, Nossa Senhora do Cabo – Resumo Histórico, Lisboa, 1928.

[16] BNL, manuscrito 74, 1585, Apparições de Nossa Senhora da Luz, do Cabo Espichel, etc.

[17] INTT, Chancelaria de D. Afonso V, Livro 24, fl. 40-40v.

[18] Vitor Manuel Adrião, Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993. Vitor Manuel Adrião, Frielas (Memorial Histórico). Edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas, 1996.

[19] Vitor Manuel Adrião, Os trilhos da História Sadina. Revista Cidades, S. Pedro do Estoril, 1988.

[20] Agostinho F. Isidoro, A Lapa do Bugio (Necrópole pré-histórica da Azoia). Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. XIX, fasc. 1, Porto, 1963. José Luís Cardoso, A Lapa do Bugio. In Setúbal Arqueológico, vol. 9-10, pp. 82-225, 1992.

[21] Manuel Joaquim Gandra, Os Círios ou aspectos da Grande Deusa na Estremadura. In Comunicações, publicadas pela Câmara Municipal de Loures, das Jornadas sobre Cultura Saloia – 2 e 3 de Dezembro de 1994.

[22] Eduardo da Cunha Serrão, Cerâmica pré-histórica da Lapa do Fumo – Sesimbra – com ornatos coloridos e brunidos. In Zephyrus, 9, n.º 2, pp. 177-186, 1958.

[23] Miguel Telles Antunes, Dinossáurios Eocretácios de Lagosteiros. Lisboa, 1976.

[24] W. Scott-Elliot, Lendas da Atlântida e Lemúria. Madras Editora, São Paulo, 2002.

[25] Vd. Nova Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra. Edição Câmara Municipal de Cascais, 2011.

[26] St. Brendan´s Search for Paradise. In A brief history of the European Myth of the Garden. Press American Studies and the University of Virginia, 2001.

[27] Maria Clara de Almeida Lucas, A literatura visionária na Idade Média portuguesa. Biblioteca Breve, vol. 105, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1.ª edição – 1986.

[28] J. Raposo Botelho, Nossa Senhora do Cabo (Resumo Histórico), pp. 8-9. Sintra, 1928.

[29] J. Raposo Botelho, ob. cit., pp. 6-7.

[30] Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, t. 2, liv. II, tit. 34, pp. 348-353. Lisboa, 1707.

[31] BNL, Memórias, cod. Pombalina 98.

[32] Francisco Sousa, O Círio dos Saloios a Nossa Senhora do Cabo. In Aspectos Religiosos e Profanos das Festas Populares em Loures, edição do Museu Municipal de Loures, 1993.

[33] Luís Chaves, O Archeologo Portuguez, 21, 70 – 1916.

[34] Manuel Joaquim Gandra, ob. cit.

[35] Ribeiro Guimarães, Summario de Varia Historia. Lisboa, 1872.

[36] Olegário Paz, Loas a Nossa Senhora. In Jornal de Sintra, 12 de Setembro de 1986. Pinharanda Gomes, O Carmo em Loures. Edição da Comunidade Paroquial de Santo António dos Cavaleiros, Loures – 1979. O Trabalho e as Tradições Religiosas no Distrito de Lisboa. Exposição de Etnografia, Governo Civil de Lisboa – 1991.

[37] Frei Cláudio da Conceição, Memórias Prodigiosas de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa, 1817.

[38] Conde dos Arcos, Caparica através dos séculos. Cacilhas, 1974.

[39] Diogo Francisco da Piedade e Costa, História de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa, 1899.

[40] Tanto o Círio à Senhora de Mu – secundado por aquele à Virgem Negra da Nazaré – como a Festa Popular do Império do Divino Espírito Santo, não deixam de ter a influência secreta da pouca ou nada conhecida, pouco importa, Ordem de Mariz, para todo o efeito, bojo da Portugalidade no Mundo dando a este as sementes do seu Futuro que se deseja promissor.

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