Mozart, Maçonaria e Viena – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Jun 6 2017 

PARAMENTOS MAÇÓNICOS DE MOZART

Na Rua Domgasse, n.º 5, encontra-se a casa em Viena de Mozart, a única que se conserva da dezena que possuiu nesta cidade austríaca. Esta casa (Mozarthaus) onde o compositor residiu com a sua família de 1784 a 1787, consta de seis salas, sendo na terceira que se podem ver objectos maçónicos comprovando a ligação profunda de Mozart à Maçonaria.

Vê-se exposta uma bonita faixa de fundo azul decorada com fios de ouro onde se bordou um triângulo com o Nome de Deus em hebraico, como seja, Yod – He – Vau – Heth = Jehovah, o Grande Arquitecto do Universo. Da faixa pende uma jóia constituída de um pelicano alimentando os seus sete filhotes. São as insígnias do Grau 18 de Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosacruz na Maçonaria Escocesa, sendo que o pelicano é a representação simbólica do sacrifício piedoso a favor do próximo em Humanidade, o que confere com a natureza mística deste Grau maçónico de característica essencialmente cristã, onde a mesma ave também aparece na simbologia eclesiástica como indicativa da Paixão de Cristo e da Eucaristia. É, em suma, o símbolo heráldico da piedade. Sob a faixa paramental aparece o avental maçónico do Grau Rosacruz de Mozart, obra bordada à mão com grande mestria onde se vê a Rosa no centro da Cruz, esta expressiva da personalidade e da matéria abrilhantada, iluminada pela flor da individualidade e do Espírito, conferindo a Paz corporal e espiritual que é o que representam os ramos de oliva em volta.

Aparece ainda um outro avental, também bordado à mão ricamente trabalhado. Nele vê-se um Templo ladeado por duas colunas tendo por cima o esquadro e o compasso com o M ao centro, que será indicativa tanto de Maçonaria como de Mozart. Trata-se do avental do Grau 16 de Príncipe de Jerusalém na Maçonaria Escocesa. É um Grau Capitular concedido por comunicação – ao contrário do anterior que é conferido por iniciação – pelo Capítulo Rosacruz ou a Maçonaria Vermelha, cor associada ao sangue do martírio em prol do Bem da Humanidade, da sua evolução moral e intelectual, a favor de uma maior ética e um mais amplo conhecimento que possa transformar o homem de simples profano e neófito em Iniciado e Mestre, assim podendo finalmente penetrar o Templo da Sabedoria Divina que é o que significa o Templo de Salomão retratado no avental.

Johannes Chrysostomus Wolfgang Theophilus Mozart nasceu em Salzburg, Áustria, em 27 de Janeiro de 1756, tendo falecido em Viena em 5 de Dezembro de 1791. Ele preferia ser chamado de Amadeus, pois o nome Theophilus, dado pelo seu padrinho Johannes Theophilus Pergmayr, que significa em grego “amigo de Deus”, tinha na sua forma latina um som mais agradável: Amadeus. Algumas vezes assinava com a forma francesa Amadè. Este incomparável génio da arte musical desde muito cedo andou de proximidades com a Ordem Maçónica, a qual jogou papel importante na sua vida e obra.

Wolfgang Amadeus Mozart foi admitido como Aprendiz na Loja Maçónica vienense Zur Wohltätigkeit (“A Beneficência”), em 14 de Dezembro de 1784. Foi elevado ao Grau de Companheiro em 7 de Janeiro de 1785, como “aumento de salário”, isto é, promoção ao nível imediato ao Aprendiz. E a sua exaltação a Mestre deverá ter acontecido pouco tempo depois, porque em 22 de Abril de 1785 ele figura já como Mestre Maçom nos arquivos da Loja. Mozart também assistiu a reuniões em uma outra Loja, chamada Zur Wahren Eintratcht (“A Concórdia Verdadeira”). Ambas as Lojas praticavam o Rito Zinnendorf, nome do seu fundador Johann Wilhelm von Zinnendorf (1731-1782), e que até hoje é o Rito mais popular no seio da Grande Loja Nacional dos Franco-Maçons da Alemanha (Große Landesloge der Freimaurer von Deutschland), próximo do Rito Sueco e do Rito Escocês Rectificado e da Estrita Observância. Este Rito Zinnendorf é explicitamente cristão e trinitário, pois não admite não cristãos nos seus altos Graus, no que explicita a crença nos Evangelhos como fonte revelada, assim como na Santíssima Trindade.

Segundo Otto Erich Deutsch, escritor e estudioso maçónico, a Loja Zur Wahren Eintratcht “era a maior e mais aristocrática de Viena. Mozart, como o melhor dos irmãos músicos, foi benvindo em todas as Lojas”. Foi apadrinhado pelo minerologista e metalúrgico Ignaz Edler von Born (Kalsburg, Transilvânia, 26 de Dezembro de 1742 – Viena, 24 de Junho de 1791). A própria Loja de Mozart, Zur Wohltätigkeit, uniu-se a outras duas em Dezembro de 1785, sob a reforma imperial da Maçonaria (o Freimaurerpatent, “Decreto Maçónico”) no mesmo mês, e foi assim que Mozart também chegou a pertencer a uma Loja chamada Zur Neugekrönten Hoffnung (“A Nova Esperança Coroada”), todas seguidoras do Rito Zinnendorf.

Após a sua Iniciação Maçónica, Amadeus Mozart compôs um “Cântico Solene para uma Loja de São João” (Lobgesang Auf Die Feierliche Johannisloge) e foi destinado à cerimónia “Cadeia de União”, que segundo o ritual em uso era como se encerravam todas as sessões das Lojas. Os primeiros versos desse cântico são:

Os sagrados laços que unem os verdadeiros irmãos,
Tal como a maior felicidade e delícias do Éden,
Para teus círculos sou sempre atraído,
Pois torna a vida bela e cheia de encantos.

LEOPOLD MOZART, MESTRE MAÇOM

Na casa de Mozart, em Viena, está exposto um singular livro maçónico do século XVIII que pertenceu ao pai do célebre compositor, Johann Georg Leopold Mozart (Augsburg, 14.11.1719 – Salzburg, 28.5.1787), ele próprio ígualmente músico e, afinal, também maçom como o filho.

Esse livro exposto na Mozarthaus é um manual contendo as fórmulas dos ritos maçónicos aprovados pela Grande Loja da Áustria (Grosse Landesloge von Österreich) e praticados pelas restantes Lojas da época, e que é dedicado ao imperador Leopold II que, entre 1790 e 1792, encabeçou um período muito favorável à expansão dos ideais maçónicos e da própria Maçonaria na Áustria.

Terá sido por influência directa do filho, Amadeus Mozart, que Leopold Mozart afiliou-se à Maçonaria, a qual já de si possuía forte influência nos meios culturais dessa época marcada pelo Iluminismo. Sob o malhete do Venerável Mestre Ignaz Edler von Born da Loja Zur Wohltätigkeit (“A Beneficência”), em Viena, Leopold Mozart foi iniciado Aprendiz Maçom em 6 de Abril de 1785, e nesse mesmo mês, no dia 16, passou ao segundo Grau de Companheiro Maçom, tendo o seu filho Amadeus comparecido a ambas as cerimónias. Por fim, em 22 de Abril desse mesmo ano, foi elevado a Mestre Maçom. Dois dias depois, pai e filho estiveram na Loja para uma homenagem ao seu Venerável Mestre, o responsável máximo da mesma, Ignaz Born, tendo Amadeus Mozart composto uma cantata para a ocasião, a K 471. No dia seguinte ao concerto, Leopold partiu para Salzburg. Nunca mais veria o filho.

Muita da obra musical de Leopold Mozart, com forte influência maçónica na sua composição, veio a perder-se ou a ser esquecida com o passar dos anos devido à sobrevalorização das obras de seu filho Amadeus Mozart, mas a Cassação em Sol para orquestra e a Sinfonia Brinquedo, atribuída no passado a Joseph Haydn, permanecem populares entre as suas sinfonias, assim como o seu Concerto para Trompete.

Leopold Mozart

Como nota de passagem, a letra K, seguida de um ou vários números, que aparece sempre nas obras de Amadeus Mozart, foi a forma que Ludwig von Kochel encontrou para organizar os seus trabalhos em 1862. O K (ou KV em alemão) é a inicial de Kochel, e os números indicam a ordem cronológica das composições. Ainda assim e transpondo o sentido da letra K para o seu significado esotérico, ela também aparece entre os cabalistas e maçons como a inicial hebraica de Kadosh e Kodesh, significando “consagrado” e “eleito”, no que é posta sob a influência sideral de Júpiter, por ser o planeta afim à mais elevada espiritualidade que, afinal, Mozart e seu pai expressaram através da música.

A Viena de Áustria do século XVIII fervilhava de ideais humanistas, nisto tendo a Maçonaria papel destacado. A Loja “A Beneficência” de Viena era uma dentre as 57 que haviam na ocasião (17 na Áustria, 7 na Boémia, 4 na Galícia, 12 na Hungria e 17 nos Países Baixos) filiadas à Grande Loja da Áustria, apoiadas pela poderosa Grande Loja da Alemanha. A Loja “A Beneficência” realizava as suas sessões no templo de uma Loja maior e mais influente, chamada “A Verdadeira Concórdia”. A Ordem floresceu principalmente pelo exemplo dado por Franz Stephen, duque de Lorraine e príncipe-consorte da imperatriz austríaca Maria Thereza. Ele tornara-se maçom em 1731, iniciado em Haia numa Loja ocasional, constituída por Theophilus Desaguiliers (que participara com John Anderson na elaboração da Constituição dos Maçons, por isso chamada Constituições de Anderson) que era Grão-Mestre da Grande Loja de Inglaterra, sediada em Londres.

Atribui-se a Franz Stephen a consolidação da primeira Loja maçónica de Viena, “Os Três Canhões” (Die Drei Kanonen), e também por ter convencido o falecido sogro e imperador, Carlos VI, a não aplicar nos seus territórios a bula papal In Eminenti, sancionada em 1738 por Clemente XII, que condenava os maçons. Desde os primórdios até 1739, a Maçonaria Austríaca desenvolveu-se de forma soberba, tornando-se o principal ponto de encontro da elite intelectual.

O Ritual adoptado para os trabalhos nas Lojas era sobretudo o Rito da Estrita Observância, ou Rito Escocês Retificado, criado em 1761 pelo barão Karl Gathen von Hundt, que compreendia três Graus Simbólicos: Aprendiz, Companheiro, Mestre, e quatro Graus Filosóficos: Mestre Escocês, Neófito, Templário e Cavaleiro Professo. A partir do início do ano de 1785, uma série de éditos desencadeou o ocaso da Maçonaria na Áustria. O Ministério da Polícia e o imperador Joseph II acreditaram nos boatos de que os maçons conjuravam a queda da Casa Real dos Habsburg e que haviam se tornado demasiado influentes, com Lojas cada vez mais ricas e poderosas. Foi então que se coibiu o crescimento acelerado das sociedades secretas e das correntes maçónicas ou paramaçónicas que proliferavam em todo o império austro-húngaro. Publicou-se um decreto de expurgo decretando que cada cidade só poderia ter, no máximo, três Lojas maçónicas.

Reorganizaram-se as nove Lojas de Viena e vários dos seus membros, por temor, afastaram-se. As exigências do imperador sobre listas de membros, cargos e outras informações, é que permitem hoje ter acesso a muitos documentos sobre a Maçonaria Austríaca, Amadeus Mozart, Leopold Mozart e a situação da Ordem no século XVIII.

CENÁRIO ORIGINAL DE “A FLAUTA MÁGICA”

Na Mozarthaus, em Viena, pode apreciar-se a maquete do cenário original da célebre ópera A Flauta Mágica (Die Zauberflöte) K 620, de Amadeus Mozart. Nele vê-se o frontispício de um templo em estilo grego, com as suas colunas, e adiante uma Deusa coroada cercada de estrelas vestida de azul erecta sobre a Lua crescente. Rapidamente pode ser associada ao figurino iconográfico de Nossa Senhora da Conceição, mas é um equívoco: trata-se da representação simbólica da “Rainha da Noite”, a Deusa Ísis, na qual se inspirou a iconografia cristã para criar a imagem tradicional da Virgem da Conceição, esta já de si, tal como Ísis, expressando a concepção ou o conceber do acto de transformação do espesso em subtil, do sólido em ígneo, do profano em iniciado pela conceição da ignorância em Sabedoria.

Essa é a Deusa da Sabedoria diante do Templo dos Sábios, cujo maior nesta ópera iniciática é Sarastro, representação esotérica de Cagliostro ou o itálico Cali Austrus, “Vento Sul” (nisto exposto como Sar Astro, palavra relacionada ao número 5 que os cabalistas afirmam ser afim ao planeta Vénus), o Adepto Maior a quem Mozart terá dedicado secretamente esta obra musical, indo assim retratar os antigos Mistérios Egípcios que, afinal, são reproduzidos na corografia ritualística da Maçonaria, pelo que na mesma ópera observa os seus conhecimentos e a via iniciática para o Conhecimento Superior magistralmente expostos.

Com efeito, a ópera em dois actos de A Flauta Mágica musicalmente é da autoria de Wolfgang Amadeus Mozart, mas o seu libreto alemão é de Emanuel Schikaneder, companheiro de Loja maçónica de Mozart. Estreou no Theater auf der Wieden, em Viena, no dia 30 de Setembro de 1791, ano da morte de Mozart.

A ópera baseia-se na filosofia do Iluminismo, e algumas das suas árias ficaram famosas, como o dueto de Papageno e Papagena, e as duas árias da Rainha da Noite. Os conceitos de Liberdade (livre-arbítrio), de Igualdade (de princípios) e de Fraternidade (universal) que assistiram à Revolução Francesa, transparecem em vários momentos da peça. Por exemplo, quando o valor de Tamino, protagonista da história, é questionado por ser um príncipe, e por tal motivo talvez não conseguisse suportar as duras provas exigidas para entrar no templo, mas vindo Sarastro em sua defesa respondendo: “Mais que um príncipe, é uma pessoa”.

Sarastro (1816)

No Acto I, A Flauta Mágica começa com uma terrível serpente perseguindo Tamino. Em termos ocultistas, trata-se da serpente do Astral ou Mundo Psíquico pondo à prova as emoções e paixões do candidato à Iniciação Espiritual. Cansado, Tamino desmaia. As Três Damas ou Virtudes (Sabedoria, Amor e Justiça) aparecem, dominam a serpente e vão avisar a Rainha da Noite (Ísis, a Verdade) da presença do jovem no seu reino. Ao recuperar os sentidos, Tamino vê Papageno cantar e tocar a sua flauta (expressiva do Som Criador pela Harmonia, Melodia e Ritmo). Papageno (o ser semi-fauno expressivo da Natureza elemental) mente a Tamino dizendo-lhe que o salvou da serpente. Mas imediatamente reaparecem as Três Damas para punir Papageno pela mentira. Elas entregam um retrato de Pamina (contraparte feminina de Pamino) a ele que logo se apaixona. A Rainha da Noite surge e pede para Tamino libertar a sua filha que está prisioneira de Sarastro. As Damas libertam Papageno e eles recebem um carrilhão (simbólico da alegria) e uma flauta com poderes mágicos (simbólica da felicidade). Tês Génios (Fortaleza, Ousadia e Coragem) irão guiá-los nos perigos da jornada (provas iniciáticas). No palácio de Sarastro (o Adepto Superior, o Hierofante), Pamina é vigiada por Monostatos (figuração do Minotauro que vivia no labirinto de Creta, criatura com corpo humano e cabeça de touro feroz). Papageno encontra Pamina e avisa-a que será libertada por Tamino, e saem felizes à sua procura. Os Três Génios guiam Tamino para o templo. No caminho toca a sua flauta, e magicamente os animais selvagens tornam-se mansos (estado edénico). Monostatos (representativo da Besta Astral que os ocultistas chamam Guardião do Umbral) e os seus escravos (os que fracassam na Iniciação e tornam-se vítimas escravas do mesmo Guardião) alcançam Pamina e Papageno, mas ao som do carrilhão eles põem-se a dançar e saem. Ao som de trombetas Sarastro chega imponente e divino, cercado de poderes invisíveis. Pamina (a Alma virgem) conta a Sarastro que fugiu por estar sendo importunada por Monostatos (as paixões ferozes, os vícios que dominam os profanos). Este entra trazendo Tamino preso (em provação). Sarastro expulsa Monostatos da Irmandade (dos Sábios ou Adeptos Perfeitos, os Superiores Incógnitos) e ordena que Pamina e Tamino realizem as provas regulares para entrarem na Irmandade Iniciática.

No Acto II, Sarastro comunica aos sacerdotes os seus planos de iniciar Tamino e pede aos deuses que iluminam o caminho dos jovens na sua demanda da Sabedoria. Pamina, sob a sua protecção deve tornar-se esposa de Tamino (união real da Alma com o Espírito, donde o conceito da Núpcia Filosófica dos antigos Rosacruzes). Pamina adormece (entorpecimento dos sentidos) enquanto Monostatos questiona a sua condição social e racial por não poder ter os mesmos direitos dos outros (alusão velada à condição feminina igualmente tida como apta a receber a Iniciação, independentemente da posição social e racial), mas é detido pela Rainha da Noite (a Sabedoria Divina, Ísis ou Sophia) que aparece. Ela entrega um punhal a Pamina e ordena-lhe que mate Sarastro (alegoria do “discípulo matar o Mestre”, como aconteceu no caso do Arquitecto fenício Hiram Abiff, mas que significa o discípulo tornar-se com o Mestre, fazer-se Adepto Perfeito por seus próprios esforços). Os sacerdotes de Sarastro conduzem Pamino e Papageno para iniciarem a prova do silêncio, onde não poderão conversar com nenhuma mulher (isto é, ceder às paixões). Pamina aparece e Tamino resiste à tentação, deixando-a desiludida. Papageno ao ver Papagena (o aspecto emocional do Mundo Psíquico), não resiste, fala com ela e fracassa na prova. Entretanto, desesperada Pamina resolve matar-se mas é salva pelos Três Génios que lhe explicam a situação (trata-se de “matar a morte”, conquistar a consciência de imortalidade tanto em corpo com em alma). Juntos, Pamina e Tamino realizam as últimas provas: a do fogo (princípio masculino, solar, criador) e a da água (princípio feminino, lunar, criação), sendo então admitidos na Irmandade (dos Filósofos, já de si Andróginos Perfeitos ou que fisicamente uniram a Alma com o Espírito). No final surgem a Rainha da Noite com as Três Damas e Monostatos, este numa última tentativa de apossar-se do poder de Sarastro, mas a Luz da Sabedoria transforma todo o Mal e acaba envolvendo a todos ao som da Flauta Mágica, dando por terminada a peça.

CRIPTA-CAPELA DE SÃO VIRGÍLIO

A cripta-capela de São Virgílio (cripta Virgilkapelle), próxima da catedral de Santo Estevão, é um dos interiores góticos melhor conservados em Viena, ainda que seja inusitado uma capela da Idade Média encontrar-se sobre uma estação de metropolitano, a Stephansplatz, por onde passam as linhas U1 e U3. Mas o facto é que esta cripta-capela esteve desaparecida durante séculos e só foi redescoberta em 1973 durante os trabalhos de construção de estação do metro, procedendo-se à remoção do entulho, ao seu restauro e finalmente a sua abertura ao público em Dezembro de 2015.

A história desta cripta-capela é ainda muito pouco conhecida. Sabe-se que datará de 1230-1246 e que foi concebida com subestrutura para a posterior construção de uma capela de estilo gótico primitivo. Estando doze metros abaixo da Praça de Santo Estevão (Stephansplatz), tem formato rectangular (aproximadamente seis metros de largura por dez de comprimento) e apresenta seis nichos, que cerca de 1246 foram decorados com pinturas de santos e cenas religiosas nas juntas e com cruzes greco-bizantinas nas absides, apresentando-se o tecto com nervuras simples. O espaço tem como centro o altar dedicado a São Virgílio, que veio a dar o nome ao espaço.

Apesar das crónicas do século XIII não mencionarem esta capela, dando origem à especulação de ter sido um projecto falhado, ainda assim atribui-se a sua construção à iniciativa de Friedrich der Streitbare (1211-1246), o último duque austríaco da Casa de Babenberg, que desejava que Viena fosse sede episcopal e para isso fez construir a cripta consagrando-a a St.º Coloman de Stockerau, destinado a patrono da nova diocese.

Este espaço subterrâneo aparece mencionado em crónicas do século XIV. É dito que no ano de 1307 a piedosa família vienense Chrannest, constituída por comerciantes cuja burguesia (donde burgomestre) detinha o poder da cidade ou burgo, adquiriu esta cripta transformando-a em capela funerária, dizendo-se ainda que o seu altar principal foi consagrado a St.º Vergilius de Salzburgo.

Capela da Madalena de Viena (1609)

Com a construção posterior da capela de St.ª Maria Madalena (Magdalenskapelle), talvez por volta de 1310-15, imediatamente acima da cripta, em 1473 Hans Viereck de Eisner mandou construir um mezanino semi-subterrâneo que se destinou a ossário, passando os serviços fúnebres e respectivas missas definitivamente para a pequena capela gótica da Madalena. Nessa época, o espaço da Stephansplatz era um vasto cemitério público murado ao lado da catedral. Daí a utilidade geral da capela de Santa Maria Madalena e da particular da cripta de São Virgílio, da família Chrannest, imediatamente abaixo daquela, hoje desaparecida mas cujo esboço em cor vermelha está desenhado no pavimento da Stephansplatz, ao lado da catedral de Santo Estevão, enquanto a cripta está esboçada em cor branca, dentro do esquisso da capela.

Com efeito, o cemitério em torno da Stephansplatz foi fechado em 1732, enquanto a capela de St.ª Maria Madalena foi destruída pela fogo em 1781 e não foi reconstruída, presumivelmente porque sem um cemitério não havia necessidade de uma capela funerária, cuja responsabilidade dos serviços e ofícios fúnebres passou a ser responsabilidade da catedral. Com o entulho da capela ardida encheu-se a cripta de São Virgílio e esta desapareceu na obscuridade e no esquecimento, até que com grande felicidade foi novamente redescoberta e mais recentemente aberta ao público como testemunha marcante e rara da cidade medieval, em pleno coração de Viena.

História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 22 2017 

APRESENTAÇÃO PÚBLICA E CONTEÚDO DO LIVRO

APRESENTAÇÃO PÚBLICA (ENTRADA LIVRE) DO LIVRO “HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL (FLOS SANCTORUM BRASILIAE)”, POR VITOR MANUEL ADRIÃO.

ESPAÇO MULTICULTURAL “ESPIRAL”, PRAÇA ILHA DO FAIAL 14 A, LISBOA. DIA 26 DE MAIO (6ª FEIRA) ÀS 19:30 H.

CONTAMOS CONSIGO. TRAGA UM(A) AMIGO(A). SAUDAÇÃO FRATERNA.

Livro com mais de meio milhar de páginas, profusamente ilustrado e documentado, composto em 22 capítulos (ficando em consonância com o Arcano XXII, “O Mundo”, que é o do Brasil).

PREFÁCIO – Por David Caparelli
INTRODUÇÃO – Por Vitor Manuel Adrião
CAPÍTULO I – BRASIL, O GIGANTE ADORMECIDO
CAPÍTULO II – BRASIL PRÉ-HISTÓRICO
CAPÍTULO III – BRASIL PROTO-HISTÓRICO
CAPÍTULO IV – BRASIL FENÍCIO
CAPÍTULO V – HY-BRAZIL: DELENDA PHOENICIA
CAPÍTULO VI – A “CÁRIA” BRASILEIRA
CAPÍTULO VII – BRASIL AMERÍNDIO
CAPÍTULO VIII – NAVEGAÇÕES PRÉ-CABRALINAS
CAPÍTULO IX – BRASIL IBERO-AMERÍNDIO
CAPÍTULO X – ILHAS PERDIDAS E CARTAS ACHADAS
CAPÍTULO XI – BRASIL NA ROTA DO CRUZEIRO
CAPÍTULO XII – BRASIL BANDEIRANTE
CAPÍTULO XIII – SÃO BENTO DE PIRATININGA
CAPÍTULO XIV – RIO DE JANEIRO, MOSAICOS DE HISTÓRIA INSÓLITA
CAPÍTULO XV – SÃO TOMÉ DAS LETRAS
CAPÍTULO XVI – MISTÉRIOS DA BANDEIRA DE SÃO LOURENÇO (MG)
CAPÍTULO XVII – SÃO LOURENÇO DE MINAS GERAIS (CAPITAL ESPIRITUAL DO BRASIL)
CAPÍTULO XVIII – ITAPARICA, BERÇO DO BRASIL
CAPÍTULO XIX – ODE AO RONCADOR (FUTURO DO GÉNIO BRASILEIRO)
CAPÍTULO XX – BRASÍLIA E O BRASIL FUTURO (ALVORADA DA NOVA ERA)
CAPÍTULO XXI – A MAÇONARIA E O BRASIL INDEPENDENTE
CAPÍTULO XXII – O BRASIL À LUZ DAS SUAS ARMAS

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Crenças sobrenaturais saloias – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 8 2017 

O espaço demográfico do Termo dos Saloios – mormente os Concelhos de Odivelas e Loures, como igualmente os de Sintra e Mafra – é prenhe de lendas e tradições que, quando interpretadas, não raro apresentam base no “pensamento mágico” de natureza quase inevitavelmente invocatória/petitória e sempre com fundo moral, mesmo havendo outras de natureza exclusivamente recreativo cujos enredos por norma envolvem-se num halo sobrenatural e que, igualmente, rematam em lição moral.

Dessas últimas lembro a Lenda do Senhor da Ribeira de Frielas, já descrita num livro meu editado pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Loures (Ode a Loures – Monografia Histórica, 1993), e ainda numa outra obra minha editada pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros” (Frielas – Memorial Histórico, 1996). Além dessa lenda, há ainda outras narrativas, a maioria orais, acerca de grutas mágicas e santões misteriosos, como aquela da pressuposta gruta do Conventinho da Mealhada (Loures) que ligava ao Mosteiro de Odivelas, ou então a da igreja matriz de Frielas comunicando subterraneamente com a ermida desfeita da Senhora do Monte da Ramada. Todos dizem que é verdade, sim senhor, porque “fulano ouviu de sicrano que já lá foi”, remetendo-se sempre para o passado e para outro, pouco importando que a improbabilidade prossiga.

Não sendo eu, por natureza e método de trabalho, só um teórico que se fica por respigos bibliográficos de outréns, senti necessidade de deslocar-me ao terreno onde se deram esses “factos fantásticos” que as lendas contam e afirmam terem realmente acontecido, indo tentar averiguar se acaso haveria “algum fogo no meio de tanto fumo”…

Respeitante à Lenda do Senhor da Ribeira, ainda hoje ela é atestada num pequeno silhar de azulejos coloridos e legendado (“Senhor da Ribeira”), junto ao Casal do Monte, no cimo da Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), entretanto tendo desaparecido a fonte de “água santa” que o mesmo silhar decorava. Ao lado, havia um aparelho de azenha medieval que cheguei a ver, mas agora está plantado sobre ele um prédio.

Outro vestígio é aquele das grutas da Idade do Cobre na Quinta das Gaitadas, cujas casas apresentam resquícios manuelinos. A quinta está no sopé da Serra de Montemor (Loures), dizendo-se que as grutas prolongam-se por toda a serra e sob a Cidade Nova – Santo António dos Cavaleiros. Isso não pude comprovar, apesar de ter adentrado uma dessas cavidades e avançado, cerca de um quilómetro e meio, com água pela cintura até esbarrar numa obstrução natural. De maneira que não posso afirmar a verdade ou a mentira da lenda… Mas posso afirmar que o Casal do Monte é a maior jazida paleolítica do Vale do Tejo (até agora poupada à inclemência da construção civil graças ao bom senso da edilidade, cujo presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Cavaleiros, na ocasião, aconselhou-se pessoalmente comigo nesse sentido, o da preservação desse espaço patrimonial), habitada por povos colectores, e inclusive havia aí até há pouco restos circulares do que pareciam templos dedicados a algum tipo de culto astrolátrico pré-histórico, como seja à Lua (nas grutas das Gaitadas) e ao Sol, deste os seus restos ficaram sob o centro comercial que se construiu no cimo da Cidade Nova, junto às Torres da Bela Vista e vizinho da estrada de Montemor.

Espólio arqueológico recolhido pelo autor em prospeções no Concelho de Loures

Para terminar, repasso um outro exemplo na chamada lenda “atlante” de Bucelas, a qual acabou levando-me à anta neo-calcolítica do Zambujal, onde realmente pude confirmar que “não há fumo sem fogo”… Essa estória bucelense, pouquíssimo conhecida, consta da Lenda dos Ferreiros e assim se passou em tempos esquecidos na memória dos homens (in Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por João Raymundo Alves. Lisboa, Instituto Geral das Artes Graphicas, Rua das Pretas, 17, 1911):

“Nas proximidades de Bucelas há dois montes bastante elevados e de forma mais ou menos cónica. É crença popular que dois ferreiros, dizem que irmãos, foram estabelecer as suas forjas cada um em seu monte, mas que possuindo ambos um só malho, dele se serviam alternadamente.

“Os montes, na sua parte superior, distam uns dois quilómetros um do outro, e quando o Melo (assim se chamava um dos ferreiros) precisava do malho, chegava à porta da forja e gritava pelo Jerumelo (assim se chamava o outro), para este lho atirar. Isso repetia-se todas as vezes que trabalhavam.

“Os dois ferreiros eram gigantes, porque só assim podiam ter força para arremessar o malho a tão grande distância.

“Uma vez zangou-se o Jerumelo com o companheiro, e atirou-lhe o malho com tanta violência que, desencravando-se este no ar, foi cair o ferro na encosta do monte Melo, e logo daí brotou uma fonte de água férrea, e o cabo, que era de madeira de zambujo, foi espetar-se na terra a mais de dois quilómetros de distância, reproduzindo-se um zambujo, que deu o nome a uma povoação que fica a quatro quilómetros dos referidos montes, e a que por isso se chama Zambujal.”

Gruta da Diaclase de Salemas, Loures

Deixando de lado a interpretação da lenda que remete para o deus ctónico Vulcano, passo de imediato às lendas de foro mágico, as quais têm origens diversas quase sempre inextrincavelmente misturadas: celtas, judaicas e árabes. O elemento celta está presente no culto dos elementos da Natureza; o judaico na magia talismânica aplicada à actividade agrícola das semeaduras, crescimento e colheitas, sempre dependentes dos humores climatéricos os quais a magia campesina pretende domá-los segundo a vontade do agricultor; e o árabe vê-se-o na espargiria ervanária, revelando-se base da medicina popular, campesina, através de unguentos, defumações, rezas, benzeduras, etc.

Esses elementos celtas, judaicos e árabes, de qualquer forma por norma entram juntos no imobiliário das lendas saloias, susceptível de explicar a vida e a morte num contexto marginal ao critério científico e ao crédito religioso, neste a religião por todos aceite mas “à maneira de cada um”, assim o plural presente sujeito ao singular assente.

O mouriscado çahroi (saloio) moçarábico

Imobiliário esse até há pouco tempo atrás sustentado pelos velhos da terra e pelas “pessoas com virtudes”, com dotes sobrenaturais capazes de falar com os “espíritos”, fazer quebrantos e enguiços, enfim, as bruxas d’aldeia. Elas eram o pilar-mor da religião popular, mais animista que espiritual, reunindo em um mesmo efeito causas divinas e causas diabólicas, sem mais preocupações senão que resultassem favoráveis aos seus intentos.

Em Loures, como em todo o território saloio, o que o padre-cura não resolvia consertava a bruxa ou a curandêra. Maria Rosa Lila Dias Costa (in Murteira – Uma Povoação do Concelho de Loures. Junta Distrital de Lisboa, 1961, com reedição em Dezembro de 1993) conta que na Murtêra não era estranho nem misterioso as pessoas, mais mulheres do que homens, consultarem pessoalmente a feitecêra.

Contudo, os saloios faziam distinção entre bruxa, a mulher que faz males ou bruxedos, e curandeira, que por meio de benzeduras vê e cura o mal que as bruxas fizeram.

As bruxas, geralmente médiuns ou sensitivas psíquicas, na magia campestre por norma representam o lado psíquico e lunar da Natureza, enquanto as curandeiras, não raro também “endireitas” dos ossos quebrantados e conhecedoras das plantas medicinais com que exerciam a sua medicina, agindo assim como as antigas druidisas, assinalam o lado espiritual e solar da Natureza. Talvez por isso o exercício de “endireitar ossos” fosse exercido maioritariamente por homens, pólo sexual positivo, activo ou solar, enquanto a actividade psíquica cabia sobretudo a mulheres, pólo sexual negativo, passivo ou lunar.

Essa distinção entre mulheres “de bem” e “de mal”, lembra o episódio homérico da perda do sentido de sacralidade pelas vestais, sibilas e pitonisas, acompanhando o declínio dessa civilização, a ponto de elas se transformarem em simples adivinhas animistas e sendo degredadas para fora das urbes por causa da sua influência nociva, o que ainda hoje se regista nas bruxas que vivem isoladas e marginalizadas da restante sociedade, principalmente nos lugares rurais onde a magia campesina disputa as almas ao par da religião de facto.

Sobre este tema tão interessante como aliciante, não deixo de aconselhar o interessante estudo de Amália Caetano, Medicina Popular na Região de Mafra, inserto no Boletim Cultural´94 publicado pela Câmara Municipal de Mafra.

Quanto aos exemplos que Maria Lila Costa dá da feitiçaria popular na Murteira, a verdade é que os mesmos aconteciam um pouco por todo o interior rural do Concelho de Loures, onde deparei com crenças idênticas em Bucelas, Lousa, Pinheiro, etc., para não falar em Odivelas, Sintra e Mafra.

Acreditava-se na existência de lobisomens, labisongos, meio-homens e meio-lobos que ficaram assim por serem munto pucadores, dando-lhes Deus como castigo transformarem-se em bestas demoníacas todas as meias-noites de Lua Cheia. Os fantasmas, pantasmas ou búltemos, eram outra crença. Com eles só os médiuns ou “intermediários” podiam comunicar directamente. Como não podia deixar de ser, numa sociedade rural fechada, tais médiuns, geralmente mulheres, eram muito concorridos pelo povo local e dos subúrbios, assediando-os com os mais diversos tipos de pedidos que, se fossem satisfeitos, lograriam para tal médium a fama de “pessoa de virtude” e “uma santa”, “não importando que a Igreja não aceite, porque o padre não sabe senão as rezas escritas no Livro que não me curaram dos males que a bruxa da vizinha me fez, mandando-me búltemos”…

De passagem mas com importância maior do que se possa presumir, anoto que o exercício da mediunidade e a prática de todo e qualquer culto animista encontra pela frente a desaprovação total da Tradição Espiritual assumida por toda e qualquer corrente religiosa tradicional (seja católica, islâmica, judaica, hindu, etc.), mas o desenvolvimento do por que não vem ao caso e, por conseguinte, prosseguirei o presente.

Rosa Lila refere ainda, para além das benzeduras e rezas utilizadas pelos endireitas dos ossos afectados e das más colheitas, havendo nisto, mais uma vez, certo sabor de nostalgia druídica, algumas regras de astrologia agrícola e mesmo cabalística. Por exemplo: os sentomas davam-se de 3 a 14 de Dezembro, quando os velhos, reparando no estado de tempo, prediziam que as condições meteorológicas de cada um dos doze dias corresponderia ao estado de tempo de cada mês do ano seguinte. Também se acreditava na influência magnética das fases da Lua, agindo nos diversos aspectos da vida quotidiana; assim, toda a novidade hortícola deveria ser semeada sempre em quarto minguante, e as galinhas recolhidas sempre em quarto crescente. Os números nonos, isto é, nunes ou ímpares, preferiam-se aos números pares: na quinta-feira da Ascensão guardavam-se, para dar sorte e ter pão todo o ano, 3, 5 ou 7 espigas de trigo; para o fabrico de chouriços, esperava-se que a carne estivesse de conserva 5, 7 ou 9 dias, para que ficasse bem curtivada e não se estragasse durante o ano.

Quando alguém tinha a espinhola caída, para se curar deveria estar deitado 3, 5, 7 ou 9 dias, conforme a gravidade da doença.

Em todas as benzeduras e rezas empregavam-se, como ingredientes de defumação, 3 ou 5 pedaços de certas plantas, sendo 3 as vezes que se repetia uma reza, em 3 (ou múltiplo de 3) dias sucessivos.

Outros costumes, fazendo parte das crenças sobrenaturais do saloio, sem dúvida supersticiosas desviadas e alteradas irremediavelmente de alguma tradição mais séria e menos absurda, mais espiritual e menos psíquica, e tomando por partida o lugar da Murteira, eram os seguintes: a partir do meio-dia não se devia deitar lixo nem água-vai para a rua. Também não se devia levantar a mesa logo que terminassem as refeições, porque os “inginhos tem fome e quer comer”.

Para que o leite não secasse nas vacas, nunca se devia queimar nas proximidades dos estábulos ou dos “palheiros”, onde elas viviam, madeira de figueira.

Sobre o simbolismo da figueira, aproveito para retificar aqui o que li algures acerca do mesmo: ao contrário do que li referente ao fruto da figueira simbolizar o Pai Eterno por Este se manifestar súbita e misteriosamente, tal qual a figueira que não dá flor e aparece o fruto sem que se espere, a verdade é que aparecem os bolbos a partir dos meados de Abril para que em Junho-Julho se colham os figos, que nos finais de Agosto já estão secos. Foi assim que os vi nas muitas figueiras que varejei em minha infância, no Algarve junto dos pais da minha mãe adoptiva. Portanto, essa interpretação do símbolo está incorrecta, não se devendo esquecer que a figueira ou kurma, em árabe, ajustando-se ao tema hindustânico karma, “acção”, e na cultura judaico-cristã ocidental estará sempre associada ao episódio bíblico de Jesus a ter amaldiçoado (Mateus, 21:19; Marcos, 2:12 s.). Segundo é tradição geral, o simbolismo da figueira tem dupla interpretação: como árvore viçosa, repleta de frutos, simboliza a Ciência Sagrada cujos frutos são os preferidos dos seus postulantes; como árvore seca, morta, expressa a heresia e o mal representados pelos seus ramos dissecados, num dos quais Judas herege terá se enforcado. De maneira que associar o símbolo do figo ao Pai e esquecer que Jesus amaldiçoou essa árvore, vale o mesmo que o absurdo do Salvador ter abjurado ao Progenitor da Criação…

Voltando aos saloios, no tratamento de certas doenças, como a erisipela, empregava-se para pincelar a parte do corpo afectada uma pena de galinha preta.

Quando o lume estava a fagulhar, era bom deitar-lhe algumas pedras de sal e de seguida voltar-lhe as costas.

Não era bom tocar caxa velha, pois acontecia alguma desgraça.

Era de mau agoiro ouvir piar os mochos, pois era sinal de morte no lugar.

Não era bom partir vidros.

Para que as bruxas não entrassem em casa, era conveniente colocar atrás da porta um banco de pernas para o ar, ou então uma vassoura (resquício alterado na memória popular das baguetas das primitivas druidisas) também de pernas para o ar.

Todo esse ritualismo crencista, supersticioso e pagão ou paissan, “camponês”, ainda assim não deixa de ter a sua razão de ser, o que me leva a deduzir, mais uma vez, tratarem-se de resquícios degenerados muitíssimo e irredutivelmente afastados de uma original, verdadeira e completa Tradição Iniciática, talvez moçarábica, mista de Cristianismo oriental com Arianismo ocidental, tudo com halo arábico, a qual seria ministrada no esconso reservado das caneças não raro anexas às mourarias, detentoras do supervisionamento. Com a posterior expulsão dos mouros para fora dos muros das cidades onde tinham os seus colégios, a cultura moçarábica seguiu-os e aos poucos foram extinguindo-se como etnias distintas, com eles a cultura e religião próprias, só ficando, como testemunho fragmentado ainda assim mantendo-se por herança genética alimentada por via oral de velhos a novos, as crenças sobrenaturais do Termo, resquício psíquico de um período áureo irrevogavelmente morto. Ao Homem cabe nascer, crescer, decrescer, morrer… assim também com as civilizações, logo, igualmente aos seus usos e costumes, sejam sagrados, sejam profanos, sejam ambas as coisas inter-relacionadas.

Para terminar esta ligeira abordagem às crenças sobrenaturais do saloio estremenho, desfecho com um breve glossário de termos saloios, extraído, com a devida vénia, do livro de Maria Rosa Lila Dias Costa (ob. cit.), dividido em duas partes: a primeira, sobre astros e fenómenos atmosféricos; a segunda, sobre superstições e crenças.

ASTROS E FENÓMENOS ATMOSFÉRICOS

Acoitar – Abrigar do tempo.

Alando d´auga – Grande quantidade de chuva.

Amolinhar – Chuviscar ou chover com pouca intensidade.

Andar numa ruvadoura – Diz-se dos dias ventosos e frios.

Arco-Novo – Arco-íris; meteoro luminoso, em forma de arco, que apresenta as sete cores do espectro solar.

Arco-da-Velha – O mesmo que arco-íris.

Armar uma trevoada – Tornar-se o céu escuro para trovejar.

Auga à granela – O mesmo que alando d´auga.

Aventar – Fazer muito vento.

Barbas-de-gato – Diz-se do aspecto do céu quando o Sol aparece por detrás de nuvens leves.

Biquêras – Pingos de água que caem dos telhados.

Biquêra-morta – Pingos de água barrenta caindo das telhas.

Borriçar – O mesmo que amolinhar.

Borriços – Chuva leve e pouca intensa.

Cair um banquete – Chover abundantemente.

Carmêlo branco – Gelo que se forma à superfície da água deixada ao relento durante o Inverno.

Carmêlo negro – Gelo de cor terrosa, que se forma sobre as novedades e as encarquilha e queima.

Casacada d´auga – Grande bátega de chuva grossa.

Chover borriços – O mesmo que amolinhar.

Chover molinha – Chover com pouca abundância.

Choverão – O mesmo que casacada d´auga.

Corisco – Designação vulgar de algumas pedras polidas da Idade Neolítica; o mesmo que pedra-de-raio.

Derremunho – Encontro de ventos opostos em rajada, movendo-se circularmente.

Dia de amores – Dia de sol.

Dia cerrado – Dia enevoado.

Dia de cravos – O mesmo que dia de amores.

Dia desnorteado – Dia de chuva e vento.

Escurecer a noite – Anoitecer.

Estar de boiça – O mesmo que amolinhar.

Estar brabo – Dia de chuva e vento.

Estar d´estoirões – Chover abundantemente e trovejar.

Estar de nèvoêro – Diz-se do dia cerrado, com nevoeiro.

Estar à panga – Estar à chuva sem se recolher.

Estrada-de-Santiaugo – Estrada de Santiago, nebulosa ou mancha esbranquiçada que se vê no céu, em noites claras; Via Láctea.

Estrela-boiante – Estrela de alva, ao nascer da qual os vaqueiros se levantam para ir tratar do gado.

Estrela-da-madrugada – O mesmo que estrela boiante.

Estrela-da-manhã – Vénus, o mesmo que estrela boiante.

Fazer sol – Diz-se quando já despontou o sol.

Forrar o escuro – Amanhecer.

Geada – Orvalho congelado que forma camada branca sobre os telhados, solos, plantas, etc.

Inchente – Cheia dos cursos de água.

Invernêra – O mesmo que dia brabo.

Luzir o buraco – Nascer o dia.

Mingante – Fase da Lua; quarto minguante.

Mudar o tempo – Deixar de chover. Ou deixar de fazer sol.

Néuva – Nevoeiro.

Nuve encarnada – Nuvem avermelhada indicadora de bom tempo.

Orruvalho – Camada de humidade que, sob a forma de pequenas gotas, se deposita, durante a noite, sobre os corpos expostos ao ar livre.

Panção d´auga – O mesmo que alando d´auga.

Porrada d´auga – O mesmo que alando d´auga.

Relampo – Relâmpago.

Restelazinha de sol – Pequeno raio ou rástea de sol.

Revalho – O mesmo que o orruvalho.

Sete-estrelos – Constelação, o mesmo que Plêiades.

Tempo arriba – Tempo mau com tendência para melhorar.

Tempo péssemo – o mesmo que dia desnorteado.

Tempo vil – Mau tempo.

Ventanêra – Vento forte e contínuo, ventania.

Vintinho – Vento fraco e agradável.

Xaroco – Vento frio que sopra da ponta do mar.

SUPERSTIÇÕES E CRENÇAS

Aime – Qualidade que uma pessoa tem de interrogar os espíritos.

Aperseguir – Acção de atormentar, por parte dos maus espíritos.

Bruxa – Mulher que faz pactos com o demónio e realiza sortilégios malfazejos.

Búltemo – Suposta aparição de silhueta imprecisa, fantasmagórica, que se atribui a artes mágicas, aparecendo de noite.

Cubrante – Resultado mórbido produzido pelo mau-olhado.

Curadêra – Curandeira, mulher a que o povo atribui supostos poderes para curar certas doenças.

Espirtos – Entes imaginados e malignos que vêm habitar o coração das pessoas.

Estoiro – Estampido forte provocado pelos lobisomens.

Fadoiro – Encanto que uma pessoa possui dado por um poder sobrenatural.

Feitecêra – Feiticeira, mulher possuidora de artes maléficas.

Figa – Acto de fechar a mão, metendo o dedo polegar entre o indicador e o médio; emprega-se para afugentar os maus espíritos.

Hora mortal – Hora tardia da noite em que aparecem os vultos fantasmagóricos e os lobisomens.

Incruzilhada – Cruzamento de caminhos, onde as bruxas e os lobisomens costumam passar.

Labisome – Homem que se transforma em animal para cumprir um fadoiro.

Labisongo – O mesmo que labisome.

Males – Bruxedos.

Mestero – Mistério, acontecimento estranho e inexplicável.

Mardomo – O mesmo que labisome.

Nonos – Diz-se de dias ímpares, julgados benfazejos e propícios à realização de certos trabalhos, tanto agrícolas, como medicinais e mesmo mágicos.

Pantasma – Fantasma, imagem ilusória de aspecto macabro; abantesma.

Penar – Cumprir um fadoiro.

Remorsos – Pressentimento.

Sumo – Desaparecimento atribuído a causas fantásticas.

Terpel – Tropel, barulho intenso e medonho que se supõe provocado por entes sobrenaturais.

Falar Saloio – As Gentes do Termo (de Lisboa) – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 8 2017 

O falar típico do çaloio, o “homem do campo”, que com o tempo tem vindo a degenerar e desaparecer por perda do sentido territorial face ao avanço do estado urbano absorvendo a condição campesina, e com isso o falecimento dos seus usos e costumes sui generis como imobiliário imaterial das tradições etnográficas do Termo, ainda assim sobrevivem aqui e ali, muito dispersas, essas modalidades de expressão sobretudo entre os mais idosos da Murteira, mas também nos de Caneças, de Bucelas e de Loures.

Apesar de parecer estranha ao ouvido contudo é linguagem não-algaraviada, antes alterada pela vocabularização do português arcaico possuído tanto de verbos gregos e latinos como, sobretudo, árabes. Originalmente este linguarejar seria puro arábico, tendo após a Reconquista posto com o latinismo borgonhês, portanto, franco, indo tornar-se arcaico face às novas falas na urbe tomada pelo estrangeiro.

Todavia e enfrentando os posteriores séculos de civilização, o saloio manteve-se fiel às raízes arábicas e a sua linguagem hoje rústica é bem um monumento mudéjar, cujo apogeu teria sido a primeira metade do século XVI, aquando o “homem do campo” entrou na literatura e nas falas da cidade através do teatro vicentino.

A língua saloia terá passado do árabe ao mudéjar, incorporando elementos menos gregos e mais latinos, indo chegar ao arcaicismo. No seu vocabulário ainda se encontram termos arábigos, como azebro, ou mudéjares, como almácega, almácica ou almaça.

A vastíssima literatura de cordel do século XIX deu ao falar saloio um efeito cómico, pela estropiação de palavras e incorrecções sintáticas a par de alterações fonéticas. Vale por ter trazido a terreno termos já há muito caídos em desuso, com intenção de reproduzir o falar meridional ou estremenho do saloio.

Por essa literatura também se vislumbra a sabedoria do camponês saloio, orbitando entre o jocoso e o grave, a par do seu espírito de independente dos costumes do homem urbano, apesar de comparticipar da vida (comercial) da cidade, e isso como se fosse resquício subconsciente da marginalidade original a que foi remetido o árabe após a Reconquista, atirando-o para os campos além das muralhas da urbe. Na comédia O Saloio cidadão, de Carlos Francisco Moura (1790), impresso várias vezes em Lisboa, alinham-se, entre muitos, os seguintes desaparecidos ou hoje transformados ditos: “galinha de monturo não quer covo; por linha lhe vem a tinha; filho de burro não pode ser cavalo; ao médico, ao confessor e ao letrado deve-se falar toda a verdade”.

Ou então a bem gostosa anedota: um taful da cidade, ao encontrar uma saloia alcandorada no seu jumento, com um longo cortejo deles atrás carregados de trouxas de roupas, atirou-lhe o seguinte remoque, ao que ela ripostou com a maior compostura e desembaraço:

– Adeus, mãe de burros!

– Adeus, meu filho!

Com essa parece-se uma outra: caminhava um saloio com o seu jumento. Encontrou-o um janota que lhe perguntou por caçoada: – Onde ides vós ambos? Respondeu o rústico: – Buscar palha para nós três.

Hoje tudo está em mudança acelerada. A saída das raparigas para a cidade, como empregadas domésticas, e dos rapazes primeiro para a tropa, depois para pequenos empregos no comércio e na indústria, fotram imbuindo os saloios de novos costumes e de novas formas de vida, de tal maneira que hoje passam totalmente despercebidos.

Memória do passado ainda se mantém o vastíssimo património artístico-cultural, etnológico e etnográfico, do Termo dos Saloios (Loures, Cascais, Sintra, Mafra indo quase até Óbidos), reclamando a preservação a todo o custo.

Do falar arcaico, rústico, rural do Termo, em defecho, recolhi alguns termos orais e escritos (recorrendo parcialmente ao interessante estudo de Maria Isabel Ribeiro, O Saloio de A a Z, em Boletim Cultural´93 da Câmara Municipal de Mafra. Ele baseia-se nos estudos anteriores de João de Almeida Lucas, O Falar Saloio, em A Língua Portuguesa: revista de Filologia: publicação mensal para o estudo, divulgação e defesa da Língua Portuguesa, vol 2, págs. 65-72, 1930-31; e de João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e carácter: fisiologia, psicologia, etnografia, Porto, 1948), com os quais compus um pequeno glossário como homenagem ao mais singular ramo étnico que já conheci: o Saloio.

Abafar = Tornar mais confortável a casa, e por extensão, resguardar e aquecer o fermento para que levede. Ou ainda, nivelar o terreno com a grade.

Aboticado = Hipotecado.

Abrincadura = Brincadeira.

Acanho = Acanhamento.

Àcenha e cênha = Azenha.

Acólitos = Incógnitos.

Acolhia-se = Tirava-se.

Acostumar = Costumar.

Ajeitivado = Ajeitado, acomodado, posto a jeito.

Alembranças = Lembranças.

Alembrar = Lembrar.

Alemões = Alemães.

Alimais = Animais.

Álinterna = Lanterna.

Almaça = Tanque.

Almácega = Pequeno tanque ou lavadouro particular.

Amanhem = Amanhã.

Amerdois = Ambos os dois.

Almuinha = Horta.

Andar na maltosinha = Andar com a malta, ou na brincadeira, referindo-se a garotos.

Antoino = António.

Apartar = Dividir.

Aplique de proplexe = Ameaça de apoplexia.

Apolinhado = Pálido.

Assistir = Morar.

Atamoiçado = Adoentado.

Azebro = Tabuado que serve de divisória numa casa. Do árabe azzarbe, “a sebe”.

Bailharito = Bailharico.

Balaizo = Balázio, no sentido de pedregulho.

Balizar = Pensar.

Balhar = Bailar.

Baltizado = Batizado.

Baltizar = Batizar. Empregam-se também os derivados baltismo e baltizado.

Bonecrêro = Saltimbancos que corriam de aldeia em aldeia apresentando os bonecros.

Bi caúdo = Expressão intimidando ao silêncio, “boca fechada”.

Breçozinho = Berçozinho.

Brincar = Dançar.

Botou = Deitou.

Buscari = Buscar.

Cabedulho = Trato de terreno entre a estrada ou caminho público e a terra cultivada.

Cabidela = Cabimento.

Cabrêro = Cabreiro.

Cacetim = Moca.

Cadino e cadinar = O termo cadino aparece formando expressão com guloso, dizendo-se guloso cadino, talvez no sentido de inveterado. Daí o sentido que o verbo cadinhar tomou, exprimindo o facto de se andar às frutas nas herdades, roubando por guloseima.

Cachaporrada = Pancada com pau.

Calçães = Calções.

Caganeiroso = Presumido, afectado.

Calibre = Clima.

Cal-te = Cala-te.

Caminhito = Caminho.

Campicho = Indivíduo canejo ou que possui deformação nas pernas.

Campou = ganhou.

Canêra = Caneira.

Capitões = Capitães.

Carronca (levar) = Levar pancada.

Catacismos = Sinapismos.

Catramalhos = Sinapismos.

Cedade = Cidade.

Charficar = Mortificar.

Chafurdas = Etimólogo popular do francês chauffeur.

Chaparrão = Mal-educado, grosseiro. Exemplo: Aquèl home é mêmo chaparrão.

Cinzêro = Barriga, buxo, papo. Exemplo: Onde tà a ânha marenda? Já cá tá no cinzêro.

Claustro = Cáustico.

Confurtativo = Facultativo.

Conspirar = Transpirar.

Córteirão = Quarteirão.

Delgado = Delegado.

Desenxugar = Enxugar.

Déspio = Déspota.

Eclesiástico = Entusiasmo.

Eiva = Doença da fruta.

Emplamação = Inflamação.

Engulhos = Vómitos.

Enha = Minha. Pode também pronunciar-se ánha.

Enodada = Suja.

Ensabocar = Estrangular, estrafogar.

Entulhar = Enjoar.

Esganerelo = Casamento por força.

Estar em pensamentos = Estar moribundo.

Estar vestido = Estar bem arranjado; em gíria, estar lichado (estar linchado).

Estarraçar-se = Cair de chapa, estampar-se.

Estragação = Diz-se de qualquer coisa estragada. Exemplo: Uma estragação de sopas.

Estragador do Concelho = Administrador do Concelho.

Espinhola = Espinhela. Exemplo: Ter a espinhola caída.

Faliseu = Xergão.

Fanado = Doente.

Faniquito = Desmaio.

Fartão = Termo que exprime uma grande porção de qualquer coisa. Exemplo: Um fartão de gente.

Flautenta = Flatulenta.

Foro = Foram.

Franfantão = Indivíduo que mete vista, por ter um perfeito tipo de beleza ou por vestir bem.

Friâmulos = Porcos.

Galera = Carro puxado por muares ou bois, destinado a transportar produtos hortícolas ou as trouxas de roupas.

Gomitoiro = Vomitório.

Graçôna = Galinhas de pescoço pelado. Deve derivar do termo francês garçonne.

Graviel = Gabriel.

Humanidade = Unanimidade.

Hume = Homem.

Intrépio = Adversário.

Joelheira = Espécie de caixote sobre o qual a lavadeira se ajoelhava à beira-rio.

Juiz espanadeiro = Juiz pedâneo.

Juro = Júri.

Lavandêra = Lavadeira.

Lídico = Líquido.

Liquori = Licor.

Lisbom = Lisboa.

Loires = Loures.

Mafrão = Mafrense.

Ma-lo = Mais.

Manchita = Mão-cheia.

Mané = Manuel. Exemplo: Mané Bimbas, Mané Manso.

Marjabantes = Bonecos.

Maroiço d´imparar = Bloco construído de pedra e areia, junto das paredes das casas mais antigas.

Matchecar = Comer, patuscar; escarnecer, amesquinhar.

Matrona = Seio.

= Meu.

Mecê = Você.

Memoira = Memória.

Mentéus = Toalha de mesa.

Merca = Compra.

Milordens = Milordes.

Murta e murtar = Multa e multar.

Murtêra = Murteira.

= Não.

Noa = Nódoa.

Ofa = Cansaço.

Ofender = Magoar, tocar, ferir.

Olivél = Libelo.

Orate = Louco.

Orfo = Órfão.

Órina = Urina.

Passeira = Útero.

Pedra-lavadiça = Pedra negra e grande dos rios, boleada pela acção mecânica das águas.

Pescuradores = Procuradores.

Piano de cavalariça = Harmónica, realejo.

Pilémica = Polémica.

Piloto = Galo.

Piscalhar = Piscar, mas em sentido irónico. Exemplo: Piscalhar o olho.

Planta forma = Plataforma.

Palateia = Plateia.

Plefice = Superfície.

Polucia = Polícia.

Ponto de palaio ou ponto de orela = Ponto que remata as bainhas das saias de baixo.

Pós lombrigatigos = Pós para lombrigas.

Pra = Para.

Prove = Pobre.

Pulga = Purga.

Ràpaterrão = Exprime uma limpeza geral, de cima a baixo, por exemplo, quando se está a lavar uma casa muito suja, diz-se que vai de ràpaterrão.

Ratinho = O bombo da festa.

Reizes = Reis.

Riba = Ripa.

Rio = Pode também ser o lavadouro público.

Rustigo = Forte.

Saibo = Sábio.

Sansodorninho = São Saturnino, significando também beato falso.

Se = Senhor. Exemplo: Se Tònho.

Senhora = Nome dado à freguesa.

Sintrão = Sintrense.

Sismatura = Cisma, cismar.

Solitos = Solicitações.

Suscetivle = Susceptível.

Suspiração = Respiração.

Tenica = Ténue.

Testães = Tostões.

Tiorgo = Órgão.

Tocador = Músico.

Toicinho mastrunçado = Toucinho esmigalhado com pão.

Tolã = Logro, burla.

Toque = Stock, no sentido de loja. Exemplo: na avenida há um grande toque com muita fazenda.

Tosse confúcia = Tosse convulsa.

Treatro = Teatro.

Tresler = delirar com febre.

Trouxa = Embrulho.

Tu = Tua. Exemplo: Tu mãe, tu horta, etc.

Vei = Vê.

Verdigairo = Verde-gaio.

Vesionário = Revolucionário.

Vitro = Vitorioso, Vitor.

NOMES

Também as corruptelas não deixam de ser expressão da verdade. Elas variam de lugar para lugar. Assim: José deu Jzé e Zé; Manuel, Manel e M´nel; Joaquim, Jaquim, Jequim e Quim; Francisco, Fracisco, Farcisco, Frecisco e Fercisco; Inácio, Nácio; Jerónimo, Jerolmo e Jarolimo; Isabel, Zabel; Gertrudes, Estrudes. Assim por diante.

Gnosiologia Filosófica e Gnose Teosófica – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Maio 1 2017 

A Gnosiologia (também chamada Gnosilogia) é o ramo da Filosofia preocupado com a validade do conhecimento em função do sujeito cognoscente, ou seja, daquele que conhece o objecto. Este, o objecto, por sua vez é questionado pela Ontologia que é o ramo da Filosofia que se preocupa com o ser. Fazem-se necessárias algumas observações para evitar confusões. A Gnosiologia não pode ser confundida com Epistemologia, termo empregado para referir-se ao estudo do conhecimento relativo ao campo de pesquisa, em cada ramo das ciências. A Metafísica também não pode ser confundida com Ontologia, por ambas se preocuparem com o ser, porém, com a Metafísica pondo em questão a própria essência e existência do ser limitado e mortal. Em outras palavras, a grosso modo a Ontologia insere-se na teoria geral do conhecimento, ou Ontognosiologia, preocupando-se com a validade do pensamento e das condições do objecto e da sua relação com o sujeito cognoscente, enquanto que a Metafísica procura a verdadeira essência e condições de existência do ser.

A Teoria do Conhecimento tem por objectivo buscar a origem, o valor e os limites do conhecimento, da faculdade de conhecer. Os principais problemas da Teoria do Conhecimento, são:

– A possibilidade do conhecimento (possível);

– A origem do conhecimento (fundamento);

– A essência do conhecimento (princípio);

– As formas do conhecimento (expressões);

– O valor do conhecimento (veracidade).

Havendo conhecimento humano existe verdade em si mesma, até na mentira ou na falsificação do conhecimento observado, pelo que a verdade e a mentira são expressões da inteligência racional e da inteligência afectiva em adequação proporcional à coisa observada e/ou analisada (segundo a concepção Aristotélica-Tomista). Com a existência da verdade, há consequentemente a existência da certeza, que é transferir a inteligência, seja racional ou afectiva, à verdade conhecida. A inteligência humana tende a fixar-se na verdade conhecida, seja ela qual for e que esteja em simpatia com a sua apercepção sensorial do meio ambiente circundante, pelo que todas as verdades racionais e afectivas são relativas, pois são apercebidas e apreendidas segundo as capacidades cognoscentes de cada ser singular. Metodologicamente, há primeiramente o conhecimento, depois a verdade e finalmente a certeza.

Tal tomada de posição perante o primeiro problema da crítica ante a verdade expressa, é chamado de dogmatismo, sempre defendido por filósofos realistas como, por exemplo, Aristóteles e Tomás de Aquino. Se, ao contrário, sustentar-se que a inteligência permanece, em tudo e sempre, sem nada afirmar e sem nada negar, isto é, sem admitir nenhuma verdade e nenhuma certeza, sendo a dúvida universal e permanente o resultado normal da inteligência humana, está se defendendo o cepticismo.

O problema crítico representa um passo além do dogmatismo e do cepticismo. Uma vez que se admite a existência da verdade (valor do conhecimento) e da certeza, pergunta-se então onde está a essência das coisas (o princípio das mesmas): só na inteligência, como querem Platão, Kant e Hegel (Idealismo); só na matéria, como ensina Marx (Materialismo); no intelecto humano e na matéria, como dizem Aristóteles e Tomás de Aquino (Realismo); ou só na razão, como afirma Descartes (Racionalismo).

Para o Idealismo, o ente, isto é, o ente transcendental, compõe-se somente de ideias. Para o Materialismo, unicamente de matéria. Para o Realismo, de ideias e matéria. Para o Racionalismo, é só razão.

Investigando os fundamentos de todo o conhecimento apresentado ou manifestado nas suas multivariadas expressões, nunca aceitando ou recusando a priori em simples manifestações de credulidade ou cepticismo que é sempre irracional e incognoscio, a crítica é a base indispensável de todo o saber científico e filosófico, inclusive da própria Ontologia. Por isto não se pode substituir Gnosiologia por Epistemologia, uma vez que a Epistemologia está contida na Gnosiologia.

Igualmente não se deverá confundir a razão da crítica com a malícia da censura, aquela “a mais poderosa tribuna do aperfeiçoamento humano”, no dizer do Professor Henrique José de Souza, e esta a manifestação afectada da inteligência afectiva, que é a visível e hodierna condição psicológica mais predominante tanto na classe desenvolvida intelectualmente como na condição subdesenvolvida e quase autista. Pelo que se demonstra do menor pessoal ao maior impessoal do ser, isto é, do incognoscente ao cognoscente: malícia > censura > crítica > auto-crítica > supra-crítica.

A supra-crítica encontra equivalentes no “conhece-te a ti mesmo” de Jesus e Platão. É a Gnosiologia Platónica que se encontra em empatia filosófica com a Tradição Espiritual, mormente entre os Espirituais portugueses, que na Idade Média e inícios da Renascença manifestaram-se através de várias Ordens religiosas, particularmente a Franciscana, dando forma e conteúdo à Filosofia Portuguesa consubstanciada na Formula Mentis Lusitanea.

Pois bem, a Gnosiologia Platónica manifesta-se por dois ramos principais chamados Maiêutica e Hermenêutica. Criada por Platão, servindo-se do heterónimo Sócrates, no século IV a. C., a Maiêutica é o momento do “parto” mental da procura da Verdade no interior (ser transcendente) do Homem. Ela é formada de dois momentos: 1.º – Platão/Sócrates levava os seus discípulos (ou interlocutores) a pôr em dúvida o seu próprio conhecimento de determinado assunto em questão; 2.º – Platão/Sócrates levava os interlocutores a ter uma nova ideia, uma nova opinião sobre o assunto em questão. E é por isto que Maiêutica significa o “parto das ideias”, do grego maiêutiké, a “arte de assistir aos partos”, a “arte de parturejar”. Pelo que na espiritualidade tradicional se parturejam os arquétipos, os atributos e tendências da natureza psicomental tanto de uma unidade particular como de uma colectividade singular, quer estejam ou não afins com a mesma.

A auto-reflexão, expressa no grego nosce te ipsum, “conhece-te a ti mesmo”, dispõe o Homem na demanda das verdades universais que são o caminho para a prática do Bem e da Virtude, ideia implícita nas próprias palavras de Jesus: “Faze por ti que Eu te ajudarei”. Assim, se Maiêutica é o método que consiste em gerar ideias novas a partir de perguntas simples articuladas dentro de um contexto ou assunto conhecido, e assumido como resolvido ou explicado até ao momento, ela tem o seu equivalente na Filosofia Oriental chamado de Maya Budista. Esta é o método utilizado para promover, através da motivação, o despertar para as realizações, para o estudo, para a pesquisa de algo.

Será importante proceder à análise da palavra Maiêutica, aplicando a Cabala Fonética importando a Etimologia, na explicação (des)velada do sentido original dos termos.

MAI, MAIA ou MAYA – termo sânscrito, significa “ilusão”, o “relativo”, mas também “força expressa”. É o poder do nómeno ou essência transcendente que permite a manifestação do fenómeno, como substância gerada aparecendo ao Homem como a aparência, a realidade objectiva ou visível e tangível.

EU – termo grego, expressivo do Ego, do Eu ou Deus Interior, o Génio ou Daimon de Sócrates.

TICA ou ÉTICA – termo português, a ciência da moral, do comportamento, dos códigos de conduta. Porém, a Ética tem muito pouco a ver com a Moral comum. Tem-se de compreender a Ética como uma ciência normativa em consonância com as leis patronímicas do Universo e com as regras estabelecidas por uma dada civilização, sociedade, época, tantas vezes falsas, hipócritas, egoístas, farisaicas.

O segundo ramo da Gnosiologia Platónica é a Hermenêutica. Este termo provém do grego hermeneuein e significa “declarar, anunciar, interpretar, esclarecer” e, por último, “traduzir”. Significa que alguma coisa é “tornada compreensível” ou “levada à compreensão”. Este ramo da Filosofia é o que se debate com a compreensão humana e a interpretação dos textos escritos. Atribuiu-se a fonte da palavra ao nome do deus grego Hermes, o mensageiros dos deuses, a quem os antigos gregos atribuíam a origem da linguagem e da escrita, considerando-o patrono da comunicação e do entendimento humano.

Ciência voltada para a interpretação dos símbolos gráficos e pictóricos (Neose), a Hermenêutica foi aplicada durante séculos nas primitivas academias portuguesas que eram as casas mosteirais, detentoras do saber. Ela é vulgarizada nos séculos XVII e XVIII e aplicada no sentido de uma interpretação correcta e objectiva da Bíblia, sendo Spinoza um dos precursores da Hermenêutica bíblica. Com Friedrich Scheleiermacher (1768-1834), no início do século XIX a Hermenêutica recebe a reformulação germânica e é assim que entra definitivamente no âmbito da Filosofia clássica, muito diferente do seu sentido original.

Com o seu sistema gnosiológico, Platão visionou um tipo de sociedade humana fundada na dignidade, no amor e na sabedoria, registo deixado na sua obra magistral República. Platão foi um “Filho da Sabedoria” (Philosophus) no seu tempo, viveu a sua Filosofia. Por isso, disse Hume: “A Filosofia é Platão e Platão é a Filosofia, posto que nenhum sábio latino pode acrescentar uma só ideia às suas maravilhosas categorias”. Emerson chamava-o de Homem Representativo por excelência.

As bases do sistema filosófico de Platão são de proveniência asiática, daí o nome de Filosofia Académica. Esta, que se vem repetindo desde há muitos séculos, deriva dos Jardins de Academus, os jardins onde era ministrada a filosofia da vida, onde eram discutidos os problemas da época e onde se reflectia sobre o sentido filosófico das coisas. Os gregos e latinos clássicos que descuraram a pesquisa das línguas à luz da ciência etimológica, julgaram ser Academus o onomástico de um homem, não se apercebendo do facto de Cadm significar Oriente. As ciências orientais foram as primeiras a criar e a utilizar o alfabeto escrito. Por ter ido beber nas fontes da Ásia e volvido à Grécia, todo o sábio, durante muito tempo, era considerando um oriental, um cadmus, e todo o lugar consagrado à instrução a Cadmia ou Academia.

Cadmus, o grego, associado ao deus Hermes, poderá ter a sua origem no termo hebraico Kadmon, o suposto inventor das letras do alfabeto na Europa e na Ásia Menor. Na língua sânscrita da Índia existe o termo Cadana, muito anterior àqueles, para designar os preceitos ritualísticos, os mandamentos religiosos grafados.

Chegado a este ponto, requer-se a abordagem, mesmo que sucinta, da teoria dos processos de estudo, aprendizagem e ensino no Conhecimento tradicional que constitui um triângulo dialéctico cujos ângulos são: Filosofia > Teosofia > Sabedoria, ou, Sendo, Ser, É!

Filosofia (do grego, philo+sophia, “Amizade, Amor à Sabedoria”) – Como antítese da Filodoxia (do grego, philo+doxos, “Amizade, Amor à Opinião”), é a ciência da aprendizagem e culturação intelectual. Informa e ensina sobre os processos de estudar a Didáctica, aos discentes e docentes – é o Método; a comparar escolher e julgar – é o Juízo; a medir, analisar e definir – é o Valor; a raciocinar, perquirir, conhecer e convencer – é a Lógica; a afirmar o critério na verificação da verdade – é a Crítica; e a alcançar uma finalidade – Mística.

Filosofia é, portanto, a arte de estudar, aprender e tomar consciência da Teosofia, ou seja, a viver com Sabedoria Divina.

Teosofia (do grego, theo+sophia, “Sabedoria Divina”) – É a Sabedoria decorrente da Lei Única promanada do Logos Eterno como Três Hipóstases ou Princípios: a Periodicidade Universal (o Eterno criando o Universo), a Harmonia Universal (o Ritmo do Eterno imposto no Universo) e a Analogia Universal (em que no Universo tudo é idêntico ao Eterno).

Da Filosofia à Sabedoria discorre-se da maneira seguinte:

Sabedoria (do grego Sophia, “Saber, Consciência”) – Adquire-se quando se eleva o mental intelectivo ao mental intuitivo, tornando-o consciência da Divindade Eterna nos Planos do Espírito e da Matéria, logo, possui-se a Consciência Integral.

A Consciência Integral ou Sabedoria Divina pode ser adquirida através de dois caminhos ou meios: pela Meditação (técnica mística, coracional) ou pela Filosofia (técnica intelectiva, mental).

É a Teosofia quem unifica o binómio Amor e Sabedoria, o ponto de fusão ou metástase intuitio – intelectus como Iluminação Coracional e Iniciação Mental. Assim tem-se o santo e o sábio em uma só pessoa: o Perfeito, no Oriente chamado Dwija, “duas vezes nascido”: pelo Corpo ou Maternidade e pelo Espírito ou Iniciação Espiritual, Perfeita.

Sendo a Filosofia um processo de ensino dedutivo, é igualmente indutivo no método de alcançar a Verdade como Sabedoria Divina, ao longo da sua aprendizagem.

O método indutivo é espiritual (Purusha) e desce da essência à existência por via da consciência; o método dedutivo é material (Prakriti) e sobe da existência à essência por via da consciência.

Filosofia é, em suma, um sistema de princípios e leis de raciocínio – lógica; um processo racional indutivo e dedutivo (ciência) de aprendizagem – método; e destina-se a agrupar, logicamente, uma ordem de fenómenos (arte) para os estudar (cultura), verificando a certeza (crítica) e conferindo a verdade (certeza).

Sendo a lógica o primeiro patamar da Filosofia, interessa saber o que seja. Lógica, do grego logos, significa razão. Razão é a relação matemática entre a consciência e a inteligência; entre o conhecido e o por conhecer; entre o certo e o errado; entre o bem e o mal; entre o útil e o inútil, enfim, a relação consciencial das polaridades dialécticas. A razão é, assim, a balança discriminativa do Homem no que deve e não deve fazer. Em suma, é o poder que o mental confere de auto-análise e autodeterminação.

Lógica, em Filosofia, é a ciência das leis ideais do pensamento e a arte de aplicar o raciocínio correctamente, e assim demonstrar a exactidão dos conceitos na cogitação da verdade. A aplicação do raciocínio apresenta-se como:

A lógica teórica cogita sobre as ideias e conceitos nas suas inter-relações naturais, concordantes entre si, e nos seus princípios e regras que têm aplicação prática. A lógica prática concebe, analisa e julga essas ideias e conceitos mediante os seus princípios particulares e regras específicas. Instrumentos da lógica:

Conceito, do latim concipere, é a ideia definida e relacionada com o objecto ou forma objectiva. Noção, do latim noscere, é a ideia suscitada na mente por sensações externas dadas pelos sentidos. Ideia, do latim eidos, “imagem”, é a expressão própria da mente, como órgão energético possuído da faculdade de pensar, elaborar ideias e reflecti-las em imagens como imaginação (do latim, imaginicere, “mente em acção”) pelo órgão energético emocional.

Termo é a expressão verbal de uma ideia, noção ou conceito; a expressão de uma ideia pode comportar várias palavras. Juízo é a operação mental que determina, decide e julga as relações entre ideias, noções e conceitos, e as expressa por outros termos. Proposição é a expressão verbal do juízo. O juízo comporta três elementos: um sujeito, do qual se cogita; um predicado, aquilo que se cogita do sujeito; um verbo, a decisão ou afirmação verbal. Raciocínio é o encadeamento discursivo de ideias, noções e conceitos. O raciocínio é o instrumento fundamental da inteligência na indagação e aquisição de conhecimentos através dos sentidos, e acumulados como ideias, noções, conceitos e imagens na estrutura psicomental do Homem. Argumento é a expressão verbal do raciocínio, sendo o silogismo a aplicação lógica do mesmo raciocínio no processo de aprendizagem do conhecimento.

O silogismo é o processo de raciocínio de três proposições dispostas de maneira que a terceira, chamada conclusão, deriva logicamente das duas primeiras, chamadas premissas. O silogismo baseia-se no princípio de que: duas ideias que convêm a uma terceira, convêm entre si. Este princípio, por sua vez, firma-se no axioma matemático do Teorema de Pitágoras: duas quantidades iguais a uma terceira, são iguais entre si.

Silogismo comporta o método (do grego meta-odos, “caminho para”), que é a orientação adequada e criteriosa a seguir nos processos de aprendizagem, aquisição e transmissão do conhecimento. Quanto à orientação da consciência, ou inteligência, o método pode ser indutivo ou dedutivo.

A indução (“levar a”) parte da essência, do conhecimento sintético das premissas que estipulam a lei para o estudo e determinação qualitativa e quantitativa da forma. É o método de Filosofia Mística, Indutiva ou Intuitiva, Platónica.

A dedução (“aperceber a”) parte da análise e conhecimento da natureza e constituição das formas para a legítima definição da lei. É o método de Filosofia Analítica, Dedutiva ou Racional, Aristotélica.

Quanto às etapas a seguir, o método, ou melhor, os processos mentais, podem ser: a) inventivo; b) sistemático; c) didáctico. O primeiro, pesquisa as verdades; o segundo, sistematiza os resultados; o terceiro, transmite o conhecimento adquirido.

O processo inventivo, pode ser: a) intuitivo ou sintético; b) inspirado ou analítico. O processo sintético corresponde ao método indutivo, filosófico, consistindo em explicar os efeitos considerando o estudo das causas. O processo analítico corresponde ao método dedutivo, científico, o qual consiste em explicar as causas pelo estudo do conhecimento e compreensão lógica e analógica dos efeitos.

O processo sistemático tem por finalidade definir com clareza e precisão os conceitos e proposições na descoberta e afirmação de uma verdade, comprovando-a, e seguidamente classificá-la no quadro de conhecimentos sucessivos e analógicos, em progressividade e reciprocidade.

O método didáctico, pode ser: a) esotérico, “reservado”; b) exotérico, “vulgarizado”. O processo de aplicação poderá ser sintético ou sistemático, expositivo. Também pode ser feito pelo processo analítico-sintético, como sucede na pedagogia teosófica.

Quando existe a pretensão de escrever ideias reservadas, de foro sagrado ou transcendente, por exemplo, recorre-se à parábola, que contém um outro sentido além do aparente, e a línguas originais cujo sentido ainda não esteja adulterado pelo vocabulário ordinário destituído de sentido e com perda do sentido original dos termos. Tais línguas prístinas, raras hoje em dia, são chamadas de Linguagem Subjectiva ou Purushica (Espiritual), enquanto a maioria é chamada de Linguagem Objectiva ou Prakritica (Material). Isto vai bem com a composição geral da escrita:

Dentro das línguas da primeira categoria, forçosamente expressando-se pelas da segunda, está o Português, como das línguas mais faladas no mundo, e em português se pensou, escreveu e expressou a Filosofia Portuguesa, tendo quase na cumeeira, se não mesmo na cumeeira dos autores antes de Portugal o ser mas que o pensaram ou idealizaram, Paulo Orósio de Braga, no século IV expressando-se num límpido latim  eclesiástico entremesclados a termos da cultura celto-galaica local e que viria a estar na raiz da nossa Língua Mãe.

Com efeito, a língua portuguesa desenvolveu-se na parte ocidental da Península Ibérica a partir do latim falado, chamado latim vulgar, trazido pelas legiões romanas desde o século III a. C., indo a insuflar no falar ibérico da Lusitânia e da Galécia, que veio a coincidir com o território político do Reino Suevo, e só posteriormente, com a Reconquista, foi avançando pelo que é actualmente o Centro-Sul de Portugal. Porém, a configuração actual da língua foi largamente influenciada por dialectos moçárabes falados no Sul. Durante muito tempo, o dialecto latino da Província Romana da Lusitânia e depois do Reino Suevo, desenvolveu-se apenas como uma língua falada, ficando o latim reservado para a língua escrita.

Os registos mais antigos da língua portuguesa aparecem em documentos notariais do século IX d. C., escritos em latino-romance, língua escrita de base tardo-latina com muitas interferências do vernáculo. O mais antigo documento latino-português conhecido, datado de 870 d. C., é a Doação à Igreja de Souselo. E o mais antigo documento latino-português original conhecido é a Carta de Fundação e Dotação da Igreja de S. Miguel de Lardosa, datada de 882 d. C. (escrita em letra visigótica cursiva).

A Notícia de Fiadores, de 1175, é, segundo vários autores, o documento datado em escrita portuguesa mais antigo conhecido. Trata-se de uma pequena lista de nomes que termina com uma única frase que apresenta sintaxe e morfologia portuguesas. Todavia, a caracterização da Notícia de Fiadores como o “documento mais antigo” não é consensualmente aceite na comunidade de filólogos portugueses.

Segundo outros estudiosos, o Pacto de Gomes e Ramiro Pais deve ser considerado o texto mais antigo escrito em português. No entanto, é apenas datável por conjectura (possivelmente anterior a 1173) e contém muitas formas gráficas latinas.

Outro importante documento, a Notícia de Torto, não datado, terá sido escrito entre 1211 e 1216: é uma longa narrativa dos agravos que o nobre Lourenço Fernandes da Cunha sofreu às mãos de outros senhores. Permanece o mais antigo documento particular datável conhecido, escrito em português.

O Testamento de D. Afonso II de Portugal, datado de 1214, é o texto em escrita portuguesa mais antigo que se conhece (é consensualmente aceite como tal pela comunidade científica). Conservam-se dois testemunhos deste documento, um em Lisboa e outro em Toledo. Foi o primeiro de três testamentos que o monarca lavrou, mas apenas este foi redigido na scripta portuguesa que na época se estava a desenvolver na corte. Estes documentos estão conservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

O vernáculo escrito passou gradualmente para uso geral a partir do final do século XIII. Com a independência nacional em 1139, com o rei D. Afonso I, a separação política entre Portugal-Galiza e Castela (mais tarde, Espanha) permitiu a evolução linguística em direcções opostas do latim vernáculo presente nos dois países. Em 1290, o rei D. Dinis criou a primeira Universidade portuguesa (o Estudo Geral) em Lisboa e decretou que o português, que então era chamado “linguagem”, fosse usado em vez do latim no contexto administrativo, e em 1296 o português foi adoptado pela Chancelaria Real. A partir desse momento, a língua portuguesa passou a ser usada não só na poesia mas também na redacção das leis e nos notários.

Até 1350, a língua galaico-portuguesa permaneceu apenas como língua nativa da Galiza e Portugal. Mas em meados do século XIV, o português tornou-se uma língua elaborada, dotada de uma tradição literária riquíssima, e inclusive foi adoptada por muitos poetas e prosadores leoneses, castelhanos, aragoneses e catalães. Durante essa época, a língua na Galiza começou a ser influenciada pelo castelhano (raiz do espanhol moderno), tendo-se iniciado a sua introdução como única forma de língua culta. Em Portugal, a fixação da corte em Lisboa, o surgimento da imprensa e a profunda textualização das classes predominantes (aristocracia, clero e burguesia), levaram, a partir dos séculos XV-XVI, ao desenvolvimento e elaboração de uma língua padrão de características centro-meridionais e à “exportação” de variedades linguísticas, despojadas das marcas setentrionais, para os novos territórios descobertos e povoados pelos portugueses. Por fim, as sucessivas reformas e mudanças ortográficas trouxeram à actual maneira de falar e escrever a língua portuguesa.

Para terminar, de volta à Filosofia Portuguesa, dá o remate final o axioma magistral do Professor Henrique José de Souza:

Gramática é a ciência da linguagem.
Linguagem é a expressão da ideia.
Ideia é a manifestação da inteligência.
A Inteligência é o Espírito de Deus no Homem.
No futuro, a IDEIA será permanente no Homem.

A Maçonaria e o Brasil Independente – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Abr 7 2017 

A presença da Maçonaria na Independência do Brasil é facto histórico incontornável. Desde a Inconfidência Mineira até ao Grito do Ipiranga – Independência ou Morte! – passando pelo corte político de subordinação às Cortes de Lisboa e a Abolição da Escravatura, a Maçonaria teve papel determinante na formação do Brasil Independente. Não se pode deixar de falar dela.

Para uma nação a ser em toda a sua potencialidade, tal como o filho em relação ao progenitor, precisa libertar-se da dependência paterna, no caso, Portugal. O pai ensinou o filho, depois o filho teve que seguir o seu curso natural na vida, livre e independente, evoluindo pelos seus próprios esforços e méritos, e se possível até ajudar o velho pai, como este o ajudou em sua infância e adolescência. Foi assim que a Maçonaria Luso-Brasileira, em seus primórdios e aparte todas as vicissitudes psicossociais próprias de qualquer movimento novo, inexperiente nas madurezas da vida sociopolítica independente, entendeu essa acção determinante da que é hoje a maior potência nacional da América do Sul rivalizando mesmo com as potências socioeconómicas mundiais: o Brasil, o jovem filho mais querido de seu pai ancião, Portugal.

Tanto assim é que os primeiros maçons em solo brasileiro eram portugueses, depois naturalizando-se e assumindo-se de corpo e alma inteiros maçons brasileiros. De maneira que, apesar das relações tempestuosas com as Cortes de Lisboa havidas nesse conturbado período de transição, elas não foram tanto assim no seio da Maçonaria, encoberta e calmamente lavrando o terreno da pátria livre, inclusive com a Maçonaria Brasileira, criada a partir de Portugal, influenciando depois a Portuguesa, prova clara do intercâmbio entre as duas partes que se complementavam, que nunca estiveram separadas e só distintas no processo de Independência, nisto naturalmente implicando crises político-social ameaçando com a militar que, também graças à Maçonaria, nunca descambou em conflito bélico com Portugal. Isso mesmo diz Oliveira Marques[1], num breve resumo da História da Maçonaria Brasileira, que transcrevo por inteiro:

“BRASIL – Embora tivesse havido maçons em terras brasileiras desde meados do século XVIII – na sua maior parte vindos de Portugal – só em 1800 surgiu na América Portuguesa a primeira Loja maçónica, devidamente estruturada. Foi a Loja União, instalada nesse ano perto do Rio de Janeiro, em Niterói (ao tempo chamada Vila Real da Praia Grande). Seguia o Rito Adoniramita e extinguiu-se logo em 1801, sem nunca se ter integrado em qualquer Obediência.

“Em 1801, apareceu uma segunda Loja do mesmo Rito, de nome Reunião, talvez por transformação da primeira. Funcionou no Rio de Janeiro e colocou-se, a partir de 1803, sob os auspícios do Oriente da então Ilha de França (hoje Maurícia). Durou até 1805.

“Por seu turno, em 1802, foi instalada na Bahia, a Loja Virtude e Razão, do Rito Francês.

“A intervenção do Grande Oriente Lusitano verificou-se pouco depois da sua criação em Lisboa, em 1803. No ano imediato, patrocinou a instalação no Rio de Janeiro, sob a sua égide, das duas Lojas Constância e Filantropia, que considerou as únicas legítimas e que logo entraram em competição com as restantes. Mas, em 1806, a perseguição desencadeada pelo Vice-Rei, Conde dos Arcos, levou ao encerramento das duas Lojas, sobrevivendo apenas a da Bahia.

“A partir de 1807-08, a Maçonaria pôde renascer, graças ao regime de maior tolerância alcançado. A presença da Corte Portuguesa e de numerosos maçons vindos de Portugal ajudou a alicerçar as sucessivas Lojas que se foram constituindo: no Rio de Janeiro, a Beneficência, a Emancipação, a S. João de Bragança e, mais tarde, a Comércio e Artes; na Bahia, a Virtude e Razão Restaurada (depois chamada Humanidade) e a União; em Pernambuco, onde a Maçonaria teve enorme desenvolvimento, a Regeneração, a Guatomosim, a Iguarassu, a Firme União, a Universidade Democrática, a União Campista, a Pernambuco do Oriente, a Pernambuco do Ocidente, a Filantropia e Moral, a Restauração e a Patriotismo, muitas delas efémeras; e em Niterói, a Distintiva. Seguiam quer o Rito Adoniramita, quer o Rito Francês. Em 1813, constituiu-se um primeiro Grande Oriente Brasileiro, restrito às três Lojas da Bahia Virtude e Razão, União e Razão Restaurada e à Loja Beneficência do Rio de Janeiro. Como Grão-Mestre, foi escolhido António Carlos Ribeiro de Andrada[2].

“Por seu turno, o Grande Oriente Lusitano conseguiu colocar sob a sua Obediência as Lojas Emancipação e Comércio e Artes, do Rio de Janeiro.

“A perseguição de 1817-18, no rescaldo dos acontecimentos de Portugal, fez encerrar momentaneamente todas as Lojas maçónicas no Brasil e extinguir o Grande Oriente Brasileiro.

“A partir de 1820-21, as medidas tomadas pelas Cortes de Lisboa e o regresso de D. João VI a Portugal provocaram um renascimento da Maçonaria que adoptou uma política claramente anti-portuguesa e independentista. As Lojas Comércio e Artes (renascida) e União e Tranquilidade, do Rio de Janeiro, juntamente com a Esperança de Niterói, de Niterói, fundaram, em 1822, sob o supremo malhete de José Bonifácio de Andada e Silva, o Grande Oriente do Brasil, cujo papel se mostrou relevante na proclamação da Independência, ocorrida em 7 de Setembro desse ano.

“A Maçonaria Brasileira, criada a partir de Portugal, veio depois a ter alguma influência na Portuguesa e, em especial, nos dois pontos seguintes:

“1. O primeiro Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite foi constituído em Portugal, em 1841, integrado no Grande Oriente do Rito Escocês, por carta do Supremo Conselho do Brasil – ao tempo já regularmente constituído – a que presidia o Soberano Grande Comendador Montezuma[3], e o segundo, anexo ao Grande Oriente Lusitano, surgiu também por carta patente de 1841, concedida por outro Supremo Conselho do Brasil, de que era Soberano Grande Comendador o Conde de Lajes[4].

“2. Entre os primeiros guias e rituais usados na Maçonaria Portuguesa do Rito Escocês Antigo e Aceite contaram-se alguns vindos do Brasil, editados em 1833 (Cathecismo dos tres primeiros gráos do R∴ Escocez, Rio de Janeiro, 5833, 64 pp.) e 1834 (Guia dos Maçons Escocezes ou Reguladôres dos tres gráos symbolicos no rito antigo e acceito, Rio de Janeiro).

“As relações entre as Maçonarias dos dois Países foram sempre cordiais, tendo havido tratados entre o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente do Brasil em 1865 e 1907.”

Por sua vez, Joaquim Gervásio de Figueiredo também faz uma resenha histórica do surgimento e desenvolvimento da Maçonaria no Brasil, cujo texto completo transcrevo, pelo seu grande interesse histórico ao entendimento sociopolítico da Arte Real actuando em prol da independência e na formação do país independente[5]:

“BRASIL, I – Período Colonial. Permanecem algo nebulosos e caóticos os primórdios da Maçonaria no Brasil; todavia não resta dúvida de que a sua introdução neste país deve ter ocorrido no século dezoito, em consonância com o despertar da consciência nacional brasileira e o seu crescente desejo de independência, avolumados depois das derrotas que desde o começo desse século vinham os brasileiros infligindo aos seus colonizadores estrangeiros, mormente os holandeses, e não raro com a ajuda mínima de seus colonizadores lusos. Para agravar, estes se mostravam implacáveis e cruéis em estrangular qualquer sentimento nativista de emancipação política do jugo estrangeiro. Segundo insuspeitos historiadores (ver A Maçonaria e a Grandeza do Brasil, de A. T. Cavalcanti[6], uma obra bem documentada), não só Tiradentes, o protomártir de nossa Independência, como outros inconfidentes, eram todos maçons. O alferes Joaquim José Xavier (o Tiradentes) chegou mesmo a fundar uma Loja maçónica no Tijuco (hoje Diamantina), Minas Gerais[7]. No Norte, os primeiros passos decisivos para a implantação da Maçonaria no país foram dados em Pernambuco e Bahia pelo Grande Oriente da França, com o Rito Moderno ou Francês, e no Sul, isto é, no Estado do Rio de Janeiro, pelo Grande Oriente de Portugal, com o Rito Adoniramita. Em 1801 e 1802 havia maçons dispersos em Olinda, Salvador, Rio de Janeiro, Campos, Niterói e Minas Gerais. Em 1801 fundou-se em Salvador a Loja Virtude e Razão, que todavia teve curta duração, devido às perseguições do governo português, enquanto que em Pernambuco, beirando a mesma época, foram fundadas as Lojas Guatimosim, Firme União, União Campista e Filantropia e Moral. Alguns membros remanescentes da Loja Virtude e Razão fundaram em 30 de Março de 1807 a Loja Virtude e Razão Restaurada, que passou a denominar-se Loja Humanidade, e a seguir surgiu a Loja União. Com essas Lojas se fundou o primeiro Grande Oriente Brasileiro, com sede na Bahia, porém teve vida efémera, por ter desaparecido com as Lojas na voragem punitiva que se seguiu à fracassada Revolução Pernambucana de 1817. Ao passo que no Sul, em 1804, fundou-se a primeira Loja no Rio de Janeiro, denominada Reunião, filiada ao Grande Oriente Lusitano e funcionando no Rito Adoniramita, atraindo os maçons até então dispersos. Nesse mesmo ano chegou ao Rio de Janeiro um delegado do Grande Oriente Lusitano, portador da Constituição e Regulamento dessa Ordem, com o fim de obrigar todos os maçons brasileiros a se filiarem àquele Grande Oriente. Frustrado em seu intento, esse delegado enviou um mensageiro a Lisboa, a expor ali os motivos da recusa dos brasileiros em aceitarem aquela Obediência. Ante a impossibilidade de um acordo com a Loja Reunião, o delegado português fundou no Rio de Janeiro as Lojas Constância e Filantropia, e Emancipação, também filiadas ao Grande Oriente Lusitano. Com o advento das cortes portuguesas para o Brasil, em 1808, surgiu depois a Loja S. João de Bragança, da qual fizeram parte muitos funcionários do Paço. Seguiu-se-lhe a Distintiva em 1812, a qual em seu selo tinha por emblema um índio de olhos vendados e em cadeias, qual um génio prestes a libertar-se. Em 1815 fundou-se a Loja Comércio e Artes que, após cair em letargia, foi reerguida em 1821, e ainda subsiste. Esta Loja chegou a contar 94 membros activos em 1822, pelo que se decidiu criar duas Lojas suplementares: a União e Tranquilidade e a Esperança de Niterói. A principal tarefa dessas Lojas consistiu então em promover a campanha de libertação política do Brasil. A 2 de Agosto desse mesmo ano, o príncipe D. Pedro é iniciado ritualisticamente na Loja Comércio e Artes, sob o nome histórico de Guatimosim, e a 5 do mesmo mês é exaltado a Mestre maçom. Em 17 de Junho de 1822, convocou-se uma Assembleia Geral, que criou e instalou o Grande Oriente do Brasil, com o fim de tornar completamente autónoma a Maçonaria no país. As primeiras potências maçónicas a reconhecê-lo foram a França, a Inglaterra e os Estados Unidos da América do Norte.

“II – Período Monárquico. O Grande Oriente do Brasil foi fechado pelo seu Grão-Mestre, o imperador D. Pedro I, quatro meses após a sua instalação. Mas em 1827 alguns irmãos iniciaram outro movimento para reacender a Maçonaria no país, e em 1828 criaram um corpo director denominado Grande Oriente Brasileiro, porém, apenas simbólico e com uma Loja funcionando no Rito Escocês Antigo e Aceito. Em 1831, depois da abdicação de D. Pedro I, abriu-se nova pugna entre maçons brasileiros, pois, com a reinstalação, em 23 de Novembro desse ano, do anterior Grande Oriente Brasileiro, passaram os dois Orientes a tratar-se como inimigos, não obstante trabalharem ambos no Rito Moderno ou Francês. O Grande Oriente do Brasil esteve quase sempre em luta com outras potências maçónicas, e em funcionamento irregular, a não ser nos breves períodos em que viveu à sombra do Supremo Conselho para os Estados Unidos do Brasil. Em 12 de Novembro de 1832 o antigo embaixador brasileiro Montezuma, munido de plenos poderes do Supremo Conselho da Bélgica, fundou um Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, no Rio de Janeiro, onde instalou uma Loja a que denominou Educação e Moral. Este ilustre irmão era filiado a uma Loja do Grande Oriente do Brasil e a uma outra do anterior Grande Oriente Brasileiro, e com o advento desta nova situação, passaram os dois Grandes Orientes a criar Capítulos e Consistórios, cada qual com um Supremo Conselho. Em 23 de Fevereiro de 1834, foi celebrado em Paris o Traité d’Union d’Alliance et Confédération Maçonnique entre os Supremos Conselhos dos Estados Unidos da América do Norte, França e Brasil, este último representado pelo Grande Lugar-Tenente Comendador Machado E. Silva. Em 23 de Outubro de 1835, alguns membros do Supremo Conselho do Brasil, reunidos irregularmente em Supremo Conselho, sem processo e em sua ausência, demitiram de suas funções o Soberano Grande Comendador Montezuma. Este reagiu contra acto tão irregular, sancionando os rebeldes, e continuou a exercer suas funções até 18 de Fevereiro de 1844, quando cessou de o ser por força do Tratado de Paris, em razão do afastamento de grande número de irmãos, segundo o manifesto do Supremo Conselho da França. Por esse Tratado, o Supremo Conselho do Brasil, então mais conhecido por Supremo Conselho Montezuma, deixou de fazer parte da Federação de Paris. Do verdadeiro Supremo Conselho do Brasil, assim feito adormecer, surgiram três novos Supremos Conselhos, dois dos quais, de vida efémera, fundiram-se no Grande Oriente do Brasil. O outro grupo, emanado do Supremo Conselho de Montezuma desde 1842, reuniu-se ao anterior Grande Oriente Brasileiro, tomando o nome de Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito do Grande Oriente Brasileiro, o qual aboliu inteiramente o Rito Moderno ou Francês. Rompido o Tratado de União de 1842, apareceu um Grande Oriente e Supremo Conselho sob a direcção do Marquês de Caxias, que, porém, logo aconselhou sua extinção. Depois, surgiu um outro Supremo Conselho, presidido pelo Conde de Lajes, com dezassete membros, mas também teve pouca duração. Reinando a anarquia em todas estas Ordens, cada multiplicação sua redundava em novo fracasso. Em 1843, foi fundada a Companhia Glória de Lavradio, com novo Grande Oriente, que também acabou se cindindo em dois grupos. Um dos grupos aclamou seu Grão-Mestre de Lavradio o Barão de Cairu, ao passo que um dos dignitários do outro grupo, tendo monopolizado todos os poderes, provocou o afastamento de mais de 1.500 maçons, os quais, sob a direcção do grande irmão Dr. Joaquim Saldanha Marinho, fundaram em 1863 o Grande Oriente e Supremo Conselho dos Beneditinos. Em 1865 os Grandes Orientes da França e de Portugal resolveram reconhecer o Grande Oriente dos Beneditinos como o único legal, e renovaram o Tratado de Aliança de 16 de Maio de 1865; graças aos esforços de seu Grão-Mestre, o Grande Oriente e Supremo Conselho dos Beneditinos chegaram a contar 49 Lojas em 1869. O Grande Oriente do Vale do Lavradio promulgou em 20 de Abril de 1865 a sua Constituição e Estatutos Gerais, e o do Vale dos Beneditinos promulgou a sua em 25 de Setembro de 1866, ambas admitindo o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Moderno ou Francês, e o Adoniramita, e mesmo “todos os Ritos que estejam em harmonia com os princípios maçónicos e disposições da presente Constituição”. Em 1870, o Visconde do Rio Branco foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Lavradio, ao passo que Saldanha Marinho sempre deteve esse cargo na Ordem dos Beneditinos. Em 1872, mercê dos esforços do Grande Oriente de Lisboa, esses dois Grandes Orientes foram reunidos sob a denominação de Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil, e a sua Constituição provisória foi promulgada em 23 de Setembro de 1872, no Vale do Lavradio. Na ocasião da fusão havia 122 Lojas, das quais 68 Capitulares: 99 eram do Rito Escocês Antigo e Aceito, 11 do Rito Moderno ou Francês, 9 do Rito Adoniramita, 1 da Grande Loja de Hamburgo, 1 de York e 1 de Adopção (mulheres). Delas, 51 provinham do Grande Oriente dos Beneditinos, 31 dos de Lavradio e 40 cujas colunas foram erguidas depois da constituição do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil. A família maçónica brasileira estava de novo pacificada e a Ordem prosperou até à reeleição do Grão-Mestre, a qual decorreu acidentada, pois o candidato dos Beneditinos obteve grande maioria de votos sobre o do Grande Oriente do Brasil. Então o Grande Oriente de Lavradio declarou nula a unificação dos dois Grandes Orientes, feita em Setembro de 1872. Este caso foi submetido às potências estrangeiras, as quais, por grande maioria, decidiram que o Visconde do Rio Branco não se achava qualificado para anular uma fusão e deram ganho de causa a Saldanha Marinho. Como nenhum acordo fora obtido entre os dois ex-Grandes Orientes, Saldanha retornou aos Beneditinos, mas continuando a dirigir o Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil, e desta vez com o reconhecimento de quase todas as potências mundiais. Saldanha Marinho deteve esse primeiro malhete até 1880, e o Visconde do Rio Branco permaneceu Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil até 1878, quando o sucedeu o Grão-Mestre Adjunto, Dr. F. J. C. Júnior.

“III – Período Republicano. Daí em diante a Maçonaria no Brasil prosseguiu mais ou menos normalmente suas actividades, sem lances historicamente notáveis, a não ser algumas alterações em sua Constituição, tendentes a definir, restringir ou ampliar poderes, até que em Junho de 1927 o Supremo Conselho, convocado pelo Grande Comendador Dr. Otávio Kelly, resolveu romper o Tratado de União com o Grande Oriente do Brasil, que havia sido firmado em 1864, para constituir-se uma potência maçónica mista. Este acto provocou a fundação de Grandes Lojas Soberanas em vários Estados do Brasil, com jurisdição nas Lojas de seu território: Lojas de Perfeição, Capítulos, Conselho de Kadosh e Consistórios de Príncipes do Real Segredo, obedientes ao Supremo Conselho. Todas as Grandes Lojas fundadas trocaram representantes com as Grandes Lojas do Mundo, muitas das quais deixaram de reconhecer o Grande Oriente do Brasil como potência maçónica regular. Ao passo que o Supremo Conselho, funcionando no Grande Oriente do Brasil, fundado ao arrepio das Grandes Constituições e Resoluções da Confederação dos Supremos Conselhos, é julgado espúrio e irregular pelos demais Supremos Conselhos, não tendo por isso sido recebido no Congresso dos Supremos Conselhos, realizado em Paris, em 1928, e em Bruxelas, em 1935. Por esses motivos, o Grande Oriente do Brasil tem sofrido contínuas fragmentações, pois muitas Lojas têm se retirado de sua jurisdição para fundar novas potências, umas regulares e outras não.”

Quanto ao que no presente seja o vigor da Maçonaria Brasileira, Kent Henderson e Tony Pope descrevem[8]:

“A Arte Real no Brasil parece um pot-pourri. A maior e mais antiga Grande Loja no Brasil é o Grande Oriente do Brasil, com um Grande Oriente subordinado em cada Estado. Além disso, há 27 Grandes Lojas, baseadas nos limites dos Estados brasileiros; e 17 Grandes Orientes Estaduais Independentes; mais uma Grande Loja Distrital sob a Grande Loja Unida da Inglaterra; e alguns outros Corpos não reconhecidos por qualquer dos anteriores. Há, portanto, três ramos da Maçonaria Simbólica no Brasil, representados pelo Grande Oriente do Brasil; as várias Grandes Lojas baseadas nos Estados brasileiros; e os Grandes Orientes Independentes baseados nos Estados.

“A mais antiga das Grandes Lojas Estaduais foi composta por Lojas que saíram do Grande Oriente depois de 1927, durante vários períodos de problemas internos. Estas, por sua vez, certificaram Lojas em outras partes do país e, progressivamente, cada Estado ganhou a sua própria “Grande Loja”. Desnecessário dizer que o Grande Oriente não viu com bons olhos esse desenvolvimento. Claramente havia um problema territorial, com o Grande Oriente reivindicando a autoridade maçónica por todo o país. Porém, seguindo um “conclave” geral de todas as Grandes Lojas existentes em 1957, foram assinados Tratados de Amizade Fraternal entre a maioria delas. Isto não inferia no completo reconhecimento mútuo, mas permitia intervisitação e diálogo contínuos. Actualmente, o Grande Oriente do Brasil mantém Tratados de Amizade com todas as Grandes Lojas e, ao que tudo indica, excepto com as Grandes Lojas do Acre e do Amapá.

“O Grande Oriente do Brasil é algo como uma Grande Loja “ápice”, controlada por um “Grão-Mestre Geral” e Grandes Oficiais, com suas Lojas em cada Estado brasileiro sob uma “Federação” (análogo ao estilo britânico de Grande Loja Provincial), cada uma com o seu Grão-Mestre Estadual e seus Grandes Oficiais Estaduais.

“Além disso, há um “terceiro ramo” da Maçonaria Brasileira na forma de Grandes Orientes independentes baseados nos Estados (GOIs). Todos descendem de cismas com o Grande Oriente do Brasil ou das Grandes Estaduais. Os GOIs existem em 17 Estados brasileiros: Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Em pelo menos alguns Estados, todos os três Grandes Corpos (o Grande Oriente local do Brasil “Federado”, a Grande Loja Estadual e o GOI) geralmente estão em boas condições e os maçons podem, comumente, transferir-se de um a outro sem refazer Graus.

“Fora do Brasil, outras Grandes Lojas têm sido reconhecidas. A situação é que a maioria das Grandes Lojas dos EUA e das Grandes Lojas canadianas reconhecem uma variedade de Grandes Lojas Estaduais, mas não o Grande Oriente do Brasil (em 1996, somente dez Grandes Lojas dos EUA do Grupo Principal mantinham relações fraternais com elas), enquanto as Grandes Lojas inglesas, irlandesas e escocesas só reconhecem o Grande Oriente. Os GOIs normalmente não são reconhecidos fora do Brasil. As várias Grandes Lojas europeias, na maior parte, reconhecem o Grande Oriente e várias das Grandes Lojas Estaduais. Assim, depende unicamente da Grande Loja de onde o visitante vem para saber qual das Lojas brasileiras pode visitar legalmente.

“Além das anteriores, há várias Lojas no Brasil mantendo Cartas Constitutivas da Grande Loja Unida da Inglaterra, resultado de um Tratado entre a Inglaterra e o Grande Oriente do Brasil.

“Embora o Grande Oriente do Brasil tenha Lojas em todos os cantos do país, a sua concentração maior de Lojas está no Rio de Janeiro e São Paulo, as duas maiores cidades do Brasil. O magnífico Palácio Maçónico do Rio de Janeiro está tombado pelo Departamento do Património Histórico Nacional Brasileiro, por seu valor histórico.

“A vestimenta para todas as Lojas brasileiras é um terno social escuro, e os visitantes são convidados a usar os seus próprios paramentos. As Lojas do Grande Oriente reúnem-se semanalmente, ou bimensalmente, com algumas tendo uma reunião mensal. O Grande Oriente reconhece oficialmente o uso de sete Rituais de Loja Simbólica: os Graus Simbólicos do Rito Escocês (aproximadamente 80% de todas as Lojas), o Rito Adonhiramita, o Rito Moderno (Francês), o Rito Brasileiro, o Rito de York, o Rito de Schroeder e o Rito Lusitano. O Rito de York é o Ritual de Emulação inglês traduzido para o português.”

As fontes históricas para o Rito Brasileiro dispõem a sua origem no Rito Maçónico Adoniramita ou Adonhiramita, com especial ênfase para o 12.º Grau de Príncipe Rosa+Cruz, estágio Místico ou Crístico como o mais afim à Tradição Esotérica Ocidental. Ainda assim, quase emulava com ele o Rito Moderno ou Francês, igualmente presente na origem histórica da Maçonaria no Brasil.

O Rito Adonhiramita foi exportado pelos maçons lusitanos para Vera Cruz, nesta em breve adaptado ao peculiar simbolismo esotérico brasileiro mas cuja Tradição Primordial recapitulou, ao tomar por assento e início Niterói, pomo de venustas tradições recuando à Pré e Proto-História do Brasil. Contudo, a Potência Suprema da Maçonaria Brasileira, seguidora inicial do Rito Adonhiramita, esteve durante larguíssimos anos instalada no Rio de Janeiro.

Além de outros escritores de nomeada da História da Maçonaria Brasileira, com especial enfoque para o dr. Rizzardo da Camino, com obras publicadas de grande valia ao entendimento do tema, cito ainda a interessante colecção em cinco volumes, dedicada a “Hiram e Adonhiram”, do caríssimo dr. Orlando Soares da Costa[9], revelando-se-me “Mestre Instalado, Deputado Federal e Deputado Constituinte perante a Soberana Assembleia Federal Legislativa do Grande Oriente Brasileiro, onde exerço a Presidência da Comissão de Educação e Cultura. Sou decorado Sublime Iniciado e Grande Preceptor – Grau 31.º, sendo Presidente do Insigne Sodalício de Sublimes Iniciados e Grandes Preceptores do Grande Vale Central do Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita para o biénio 1998/ 2000”.

Também Joaquim Roberto Pinto Cortez[10] e Eleutério Nicolau da Conceição[11], sem esquecer Morivalde Calvet Fagundes[12], João Ferreira Durão[13], José Castellani e William Almeida de Carvalho[14], dedicaram estudos de grande utilidade à presença e acção da Maçonaria no Brasil, reiterando ser o Rito primitivo o Adonhiramita, usando na argumentação dialéctica sustentada na documentação, até desfechar na data da famosa reunião em que a Independência do Brasil foi ultimada: 20 de Agosto, desde então passando a ser o dia nacional do Maçom.

O Ritual do Adonhiramita (Adam, Hiram e Ita, Mita ou Mitra), por sua natureza Solar ou Crística acaba tendo severas vizinhanças a esse outro Rito de Melki-Tsedek, exercido pela Ordem do Santo Graal. Tal Rito é o que ainda possui mais de simbologia tradicional herdada dos grimórios medievais de Kaballah judaico-cristã, que no século XVIII foi compilada pelo escocês Andrew Michael Ramsay (1686-1743), escritor religioso ex-quietista convertido ao catolicismo romano[15].

Foi Ramsay o criador do Sistema Maçonista Escocês, tendo impresso forte cunho cabalístico aos graus superiores do mesmo, notoriamente inspirados na literatura gnóstica referente às antigas tradições heterodoxas dos Patriarcas de Israel. Por sua vez, o também escocês James Anderson (1679-1739), pastor presbiteriano e maçom desde cedo, escreveu a Constituição dos Maçons ou Livro das Constituições, entre 1721 e 1723, ano da sua edição, e nessa “bíblia” da Maçonaria Especulativa ele dá esta como inspirada na fonte judaico-cristã[16].

Contudo, o Ritual de Adoniram ou Adonhiram revela algum parentesco simbológico e ritualístico com aquele outro, onde acaso poderá ter reconhido a sua inspiração, Egípcio ou Copta instituído por Cagliostro no século XVIII, cerca de 1762, em Paris, França, quando fundou o Rito de Adopção sob a presidência de sua esposa, Serafina Feliciani, e depois ele mesmo o Rito Andrógino na sua Loja Sabedoria Triunfante, em 1786, em Lyon, no sul desse país, de certa forma adoptado por Martinets de Pasquallys adaptando-o ao seu Rito dos Elus-Cohens (“Sacerdotes Eleitos”), prosseguido depois por Louis Claude de Saint-Martin sob o designativo de Martinismo, linha para-maçonista, mista de cabalística e mágica que no século XIX foi reformulada por Gerard Encausse (Papus), ainda assim influenciando em muitos aspectos o sistema maçónico contemporâneo[17].

Dá-se como data oficial de nascimento da Maçonaria Adonhiramita o ano 1744, quando o abade Leonard Gabanon editou em França a sua obra Cathécisme des Francs Maçons ou Le Secret des Francs Maçons, contendo as bases desse Rito que seria desenvolvido pelo barão Théodore de Tschoudy em 1787, já tendo sido antes editada a compilação com o título Recuil Précieus de la Franc-Maçonnerie Adonhiramite, que se diz ter sido escrita por ele ou em parceria com outro famoso maçom francês, Louis Guillaume Saint-Victor[18].

Ilustração do Rito Adonhiramita por Louis Guillaume Saint-Victor (1785)

Segundo Jules Boucher[19], a Maçonaria Adonhiramita baseia o seu Grau de Mestre na lenda do chefe de obreiros do Templo de Salomão, Adonhiram ou Adon-Hiram. Em conformidade ao texto na Bíblia prosseguido pela tradição dos construtores-livres (liberi muratori), foram três os Hirams envolvidos no processo de construção do Templo de Jerusalém, como sejam:

1.º) Hiram de Tiro, rei da Fenícia, filho de Abchal, contemporâneo e aliado de David e Salomão;

2.º) Hiram Abiff, o arquitecto fenício ao serviço de Salomão, originário de Tiro, capital da Fenícia, e filho de Abda, da tribo de Dan;

3.º) Adon-Hiram ou Adonhiram, intendente e chefe dos operários encarregados da construção do Templo, vassalo do rei Salomão mas às ordens do mestre Hiram Abiff.

A Bíblia, no 1.º Livro de Reis, cap. IV, dá a lista dos altos funcionários ao serviço do rei Salomão, mencionando: “Adoniram, filho de Abda, preposto às corveias”. Mais adiante, no mesmo Livro, cap. VII, vers. 27, têm-se outros detalhes: “O rei Salomão escolheu entre todos os israelitas homens de corveia, e os homens de corveia eram em número de trinta mil. Ele os mandou ao Líbano, dez mil por mês alternadamente; eles ficavam um mês no Líbano e dois meses em suas casas; Adoniram era preposto sobre os homens de corveia”.

Sendo-lhe dado por tradição o parentesco de irmão do arquitecto Hiram Abiff, Adonhiram (“Consagrado pelo Senhor”) vem a ser o fundador ou iniciador da Linha de Companheiros, enquanto aquele outro, cabeça da Linha dos Mestres, será o seu inspirador por deter os segredos da Arte Real. Consequentemente, não haverá diferença maior entre adonhiramitas e hiramitas senão a especulada por alguns teóricos dos séculos XIX-XX, posto uns esquissarem (hiramitas) e outros aplicarem (adonhiramitas) o conhecimento d´Arte.

Aventa-se a hipótese do Rito Adonhiramita ter sido o inicial praticado pelas Lojas portuguesas antes da introdução do Rito Moderno (Francês) em 1801, na época constituído de somente treze Graus. Somente após a separação da Maçonaria Brasileira, onde os Graus Simbólicos ficaram sob a jurisdição do Grande Oriente do Brasil e os Altos Graus jurisdicionados às respectivas Oficinas Chefes dos Ritos, em 2 de Junho de 1973, é que os 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite foram introduzidos pelo governo das Oficinas Litúrgicas do Rito Adonhiramita, antes exercido pelo Grande Capítulo, ao ficarem afectos ao Supremo Conselho da Maçonaria Adonhiramita.

Os treze Graus originais do Rito Adonhiramita, eram:

1 – Aprendiz
2 – Companheiro
3 – Mestre
4 – Antigo Mestre
5 – Eleito dos Nove
6 – Eleito de Pérignan
7 – Eleito dos Quinze
8 – Pequeno Arquitecto
9 – Grande Arquitecto
10 – Mestre (ou Cavaleiro) Escocês
11 – Cavaleiro do Oriente
12 – Rosa+Cruz
13 – Noaquita ou Cavaleiro Prussiano

É possível que o 13.º Grau não se praticasse em Portugal, terminando a escala no Rosa+Cruz, como mais tarde veio a acontecer com o Rito Francês, permitindo uma fácil fusão entre os dois[20]. No Rito Francês esse Grau é o 18.º do Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosa+Cruz reconhecido pelo sinal e palavra sagrada: mãos cruzadas sobre o peito, pronunciando Emmanuel[21].

Isso se relacionará a essa Igreja Invisível ou Secreta de Melki-Tsedek, o Rei do Mundo, lapidada no significado cabalístico da própria sigla do arquitecto fenício H.I.R.A.M., com o sentido latino de HIC JACET REX ADVENTURUS MUNDI, que é dizer, “Aqui jaz o futuro Rei do Mundo”. Neste caso, o futuro Emmanuel que é Akdorge.

Legalmente foi o juiz Sebastião José de Sampaio e Melo e Castro Luzignano, ou Lusignan (Lisboa, 13.2.1764 – Lisboa, 2.2.1826), neto do marquês de Pombal e segundo filho do 1.º conde de Sampaio, o tenente-general António de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignan, governador das Armas de Trás-os-Montes, e de D. Teresa Violante Eva Judite Van Daun, filha do 1.º Marquês de Pombal, dizia, foi ele, com o nome simbólico Epicteto depois mudado para Egas Moniz, mercê do Tratado de Amizade entre o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente Francês, o 1.º Grão-Mestre da 1.ª Loja estabelecida em Lisboa nos inícios de 1804, funções que exerceu até 1809, possivelmente seguindo o Rito Simbólico Regular, nome dado ao Rito onde se reconheciam apenas os 3 primeiros Graus, portanto, Maçonaria Azul. Em 1816, o tenente-general Gomes Freire de Andrade foi nomeado Grão-Mestre do Grémio Oriente Lusitano, fixando a Obediência no Rito Escocês Antigo e Aceite.

No Brasil, entretanto, o imperador D. Pedro I, filho de D. João VI, rei de Portugal, já havia sido iniciado maçom pela mão do seu ministro José Bonifácio de Andrada e Silva (com o nome simbólico Pitágoras), o “patriarca da Independência” e a quem a Maçonaria Brasileira tanto deve, senão tudo, a começar pela Constituição do Grande Oriente Brasileiro[22].

Constituição do Mestre Maçom José Bonifácio de Andrada e Silva

Tudo começou no dia 17 de Junho de 1822, quando os maçons cariocas reunidos em sessão magna e extraordinária presidida por João Mendes Viana (Graccho), Venerável Mestre da Loja Comércio e Artes, decidiram da criação e instalação do Grande Oriente Brasílico ou Grande Oriente do Brasil, tendo escolhido José Bonifácio de Andrada e Silva (Pitágoras) para seu Grão-Mestre. Estavam lançados os dados: José Bonifácio assumia o poder da potência mas destinava-o a D. Pedro de Alcântara, príncipe-regente, para que tomando as rédeas do país o tornasse independente e assegurasse a “República Maçónica”. Só a primeira parte aconteceu, a segunda não, pois D. Pedro até chegou depois a suspender temporariamente a Maçonaria no país, por motivos menos ideológicos e mais políticos, garantindo a separação de poderes e a neutralidade na “coisa pública” ou respública.

Da acta da nona sessão do Grande Oriente do Brasil, realizada em 2 de Agosto de 1822, consta “ter o Grão-Mestre da Ordem proposto para ser iniciado nos mistérios da Ordem, Sua Alteza D. Pedro de Alcântara, Príncipe Regente do Brasil e seu defensor perpétuo. Aprovada de forma unânime, D. Pedro foi imediata e convenientemente comunicado, que dignando-se aceitá-la, compareceu na mesma sessão, e sendo iniciado conforme prescrevia a liturgia maçónica, prestou juramento e adoptou o nome heróico de Guatimozim”.

Para a historiografia maçónica, a 17.ª sessão do Grande Oriente do Brasil reveste-se de um significado particular. Realizada em 4 de Outubro de 1822, na Loja Comércio e Artes, D. Pedro foi aclamado Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil em substituição a José Bonifácio, tendo a sessão sido presidida pelo Grão-Mestre Adjunto Joaquim Gonçalves Ledo (Diderot). Isso consta na acta da mesma sessão: “… e logo expôs o 1.º Grande Vigilante que o objectivo da presente convocação da Assembleia Maçónica era a prestação do Juramento do nosso muito amável e muito amado Irmão Guatimozim, eleito Grão-Mestre da Maçonaria Brasileira, por geral Aclamação, em plena reunião do Povo Maçónico, e sendo conduzido do Oriente, onde estava, ao sólio, por uma deputação de Irmãos Cavaleiros Rosa+Cruzes, prestou o Juramento da Ordem e imediatamente recebendo o Grande Malhete, subiu ao sólio e tomou a direcção dos trabalhos”.

Talvez menos da parte de José Bonifácio e mais da de Joaquim Ledo, interessado em manipular os interesses gerais da política nacional restringindo-os aos particulares da Maçonaria através do imperador D. Pedro já agora “irmão maior” da Ordem, contudo entende-se que este não se deixou manipular e, talvez devido aos jogos e influências de poder naquela, determinou, ainda nesse mesmo mês, em 21 de Outubro de 1822, a suspensão das actividades maçónicas, afiançando a Ledo que a suspensão seria breve: “Meu Ledo. Convindo fazer certas averiguações, tanto públicas como particulares, na Maçonaria. Mando: primo como Imperador, segundo como Grão-Mestre, que os trabalhos Maçónicos se suspendam até segunda ordem minha. É o que tenho a participar-vos; agora resta-me reiterar os meus protestos como Irmão – Pedro Guatimozim Grão-Mestre. P.S. Hoje mesmo deve ter execução e espero que dure pouco tempo a suspensão, porque em breve conseguiremos o fim que deve resultar das averiguações”.

De facto, quatro dias depois, em 25 de Outubro de 1822, Pedro Guatimozim, como o imperador assinava a sua correspondência maçónica, deixando marcada a sua posição de líder político neutro, determinou o fim da suspensão dos trabalhos em função do término das averiguações: “São Cristóvão, 25.10.1822. Meu Irmão – tendo sido outro dia suspendido nossos augustos trabalhos pelos motivos que vos participei, e achando-se hoje concluídas as averiguações, vos faço saber que segunda-feira que vem, os nossos trabalhos devem recobrar o seu antigo vigor, começando a abertura pela Loja em Assembleia Geral. É o que tenho a participar-vos para que, passando as necessárias ordens, assim o executeis. Queira o Supremo Arquitecto do Universo dar-vos fortunas imensas como vos deseja o – Vosso Irmão – Pedro Guatimozin – Grão-Mestre – Rosa Cruz”.

A adopção do nome simbólico Guatimozim por D. Pedro I merece o registo de figurar entre os nomes dos paladinos da independência e liberdade, sobretudo como homenagem ao último imperador asteca do México, Guatimozim, que resistiu em 1522 ao conquistador espanhol Hernando Cortez[23]. Mas Guatimozim também era o nome histórico adoptado por Martim Francisco Ribeiro de Andrada, irmão carnal e maçónico de José Bonifácio, que perfilava ao lado de Falkland (António Carlosn Ribeiro de Andrada), Tibiriçá (José Bonifácio de Andrada e Silva), Caramuru (António Telles da Silva), Aristides (Caetano Pinto de Miranda Montenegro) e Claudiano (Frei Sampaio – Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio) nas alas maçónicas e registos do Apostolado e Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz. Além disso, no Recife existiu uma Loja Maçónica denominada Guatimozim, fundada em 1816 e que em 1821 mudou o seu nome para Loja 6 de Março de 1817, em homenagem aos maçons sacrificados na Revolução Pernambucana de 1817, movimento emancipacionista que opôs iluministas e absolutistas, tendo estes conseguido vencer aqueles mas não os dominar em sua vontade de independência, a qual aconteceria poucos anos depois por iniciativa de D. Pedro I.

Da passagem e rápida ascensão de D. Pedro pela Maçonaria, ficaram alguns dos seus objectos maçónicos na posse da família Cavalcanti, os quais D. Amélia Machado de Coelho e Castro (1852-1946), viscondessa de Cavalcanti, fez oferta ao Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro, em 15 de Novembro de 1927, constando de uma faixa, um avental, um malhete e uma espada, dentre os principais objectos doados[24]. Nas fichas técnicas do acervo, constam[25]:

Faixa maçónica – Confecionada em seda e fios de ouro, 69 x 60 cm, apresenta a águia bicéfala coroada, com espada nas garras e um delta luminoso, símbolos que compõem o emblema do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite.

Faixa maçónica de D. Pedro I

Avental maçónico – Manufaturado em seda e veludo, 34 x 36 cm, apresenta, bordado na abeta, um delta luminoso; abaixo, ostenta um pelicano alimentando os seus filhotes encimado por uma cruz com a rosa mística no centro, ladeado por símbolos e palavras do Grau. Portanto, poderá ser um avental do Grau 7 de Cavaleiro Rosa+Cruz do Rito Moderno na época.

Avental maçónico de D. Pedro I

Malhete maçónico – Fabricado em bronze dourado, 25 x 13,5 x 2,5 cm, apresenta as iniciais “P. 1º” (Pedro I) gravadas em relevo.

Malhete maçónico de D. Pedro I

Espada maçónica – Acompanhada da respectiva bainha. Trata-se de um espadim, 9 larg. x 89,50 cm comp., de aço e cobre cuja lâmina e punho foram trabalhados em metal dourado e filigrana. O pomo circular, tem num lado o triângulo raiado com um olho inscrito, e no outro o compasso e o esquadro circundados por coroa de louros. O punho raiado com o número 33 inscrito; na outra face, a águia bicéfala coroada e pousada sobre espada. Guarda-mão em cruzeta, tendo num dos lados martelo e trave ladeados por decoração fitomorfa; no outro lado, a estrela de cinco pontas ladeada por decoração fitomorfa tendo ao centro a letra G. A lâmina é de três faces côncavas, e a bainha apresenta bocal com decoração fitomorfa. O corpo é de forma triangular com ponteira com decoração semelhante à do bocal, sendo a sapata esferóide.”

Espada e restantes alfaias maçónicas de D. Pedro I

Também o imperador D. Pedro II (Rio de Janeiro, 2.12.1821 – Paris, 5.12.1891) andou de proximidades com a Maçonaria, mesmo não sendo maçom, por certo reconhecendo ela conter a potencialidade necessária ao desenvolvimento sociocultural do país. Daí as relações havidas entre ele e o G.O.B., inclusive tendo feito várias ofertas a diversas Lojas do Estado do Rio de Janeiro: à Loja Independência e à Loja Luz de Barra Mansa, no Vale do Paraíba, ofereceu uma espada a cada uma, nessa última tendo gravada na empunhadura a inscrição “P. II” (Pedro II), e à Loja Lealdade de Brio de Resende, então província do Rio de Janeiro, em 1874 presenteou-a com um lindo florete da sua Guarda Real.

Florete oferecido por D. Pedro II à Loja maçónica Lealdade de Brio de Resende (1874)

Tendo a Maçonaria Especulativa sido fundada em 24 de Junho de 1717 com a criação da Grande Loja de Londres, Inglaterra, cedo ela se instalou no Brasil. Neste, de maneira alguma a Loja Comércio e Artes, do Rio de Janeiro, foi a sua Loja primaz, tendo sido fundada sem Carta Constitutiva em 1815 trabalhando de forma irregular até 1818, quando foi fechada; somente quando do seu reerguimento, em 1821, ela se filiou ao Grande Oriente Lusitano. Até mesmo a Loja União, também fundada no Rio em 1800, era irregular, e só após a adesão de algumas autoridades públicas foi refundada aparentemente de forma regular, modificando o seu nome para Loja Reunião. O próprio Areópago de Itambé, Pernambuco, fundado em 1796 e que alguns autores consideram a primeira Loja do Brasil, apareceu de forma irregular e foi mais uma associação maçonista simpática ao Rito Francês do que propriamente uma Loja justa e perfeita, tendo sido fundada por Manuel Arruda Câmara, ex-frade carmelita, botânico e médico formado em França na Faculdade de Medicina de Montpellier[26]. Essa Loja irregular veio a depender da primeira Loja regularmente estabelecida no Brasil, em 1797, como seja a dos Cavaleiros da Luz, fundada em São Salvador da Bahia e que foi a principal chama da Conjuração Baiana, indo influenciar o nordestino Estado vizinho de Pernambuco[27]. Em 1809, na mesma cidade do Salvador, atendendo às inúmeras Lojas que já existiam, foi fundado o Governo Supremo ou simplesmente Grande Oriente, a primeira Obediência Maçónica brasileira.

A influência maçónica no Brasil foi tão grande que chegou a influenciar a constituição do tecido urbano de certas cidades, sendo Paraty, no Estado do Rio de Janeiro, o exemplo mais notável. Ainda no século XVIII, as portas e janelasda maioria das suas casas foram pintadas em branco e azul, o chamado azul-hortência da Maçonaria Simbólica (constituída dos três primeiros Graus de Mestre, Compa-nheiro, Aprendiz). O seu arruador, António Fernandes da Silva, apesar de informar ter feito esse traçado “para evitar o vento encanado das casas e distribuir equitativamente o sol nas residências”, o facto é que deixou inúmeros sinais da presença e influência maçónica[28].

Nas ruas de Paraty, encontram-se em algumas esquinas três pilares (cunhais) de pedra lavrada indo formar o triângulo maçónico, o que explicará as ruas “entortadas” do arruador. Também as colunas das suas ruas formam um pórtico, uma à direita e outra à esquerda da porta de entrada das casas, em guisa de informar o visitante que essas eram moradas de maçons, e através da simbologia exposta poderia até saber-se do grau do maçom de cada residência. Outro exemplo típico é a proporção dos vãos entre as janelas, em que o segundo espaço é o dobro do primeiro, e o terceiro é a soma dos dois anteriores, isto é, A+B=C, ou seja, a soma das partes é igual ao todo, que se resume no rectângulo áureo da concepção maçónica.

Até as plantas das casas, feitas na escala 1:33.33, têm a marca da simbologia maçónica, desta feita da Ordem Filosófica cujo Grau máximo é o 33.º.

Por fim, Paraty possui 33 quarteirões e, na administração municipal da época, existia o cargo de Fiscal de Quarteirão, exercido por 33 fiscais.

A Loja União e Beleza, de Paraty, apesar de fundada em 1983, a lenda assegura que a sua fundação recua a 1700, ano em que ainda não existia a Maçonaria Especulativa ou Moderna mas que dispõe essa em estado ideal pré-criador da mesma encomiando a condição operática da Ordem, que o projecto da urbe tão bem testemunha.

Casa de Paraty (RJ)

Com tudo o dito, observa-se, pois, a Teosofia e a Maçonaria como as duas Colunas mantendo firme e resistente o majestoso Templo da Verdade, como esclarece o Professor Henrique José de Souza[29]:

“A Teosofia é a Sabedoria dos Deuses, no seu duplo aspecto de Amor e de Verdade. A Maçonaria, por sua vez, é a gloriosa Mensageira da Verdade e do Bem, que através dos séculos vem abrindo largo sulco de Caridade e de Justiça. Ambas se fundem numa só Força e Poder, porquanto representam as mais valiosas correntes para a organização do edifício social, os meios mais eficientes para a realização do sublime ideal da Hierarquia Oculta, a Fraternidade Humana, e ainda, o poder mágico e infalível de cada homem poder decifrar o misterioso enigma da sua Esfinge interna.”

Depois, em 28 de Setembro de 1962, em magnífica alocução oral voltou a referir-se ao assunto:

“Os Grandes Seres que dirigem o destino da Humanidade, principalmente Aquele que se acha à frente da Grande Obra para a América Latina, servem-se de todos os grandes centros de actividade espiritualista. A Maçonaria será, talvez, a que maiores serviços prestará à Causa que nos empolga, porém… já está entendido, passando pela grande reforma de que se vem ressentindo há tanto tempo…”

A preparação do Ecce Occidens Lux, a irromper com as futuras Independências dos países do continente americano, muito particularmente do Brasil, neste foi processo iniciado com o exílio de D. João VI para aí, indo estabelecer no Rio de Janeiro a capital do Império Português, substituindo temporariamente Lisboa, e com isso o Ex Oriens Lux tornando-se cada vez mais Umbra… Soerguia-se a Luz ou Sol do Ocidente, cujo eco maior ficaria no Grito do Ipiranga pelo futuro imperador do Brasil, desfecho de todos os esforços no país da Maçonaria: Independência ou Morte!

Independência de todas as formas de esclavagismo, sobretudo de si mesmo, desse “podre e gasto” homem velho, pelo ressuscito do Homem Novo, mais Justo e Perfeito, construtor e povoador de uma Nova Raça mais Fraterna e Humana, capaz de unir o Mundo numa Concórdia Universal. Este foi, é e será sempre, até à sua realização, o sonho dos Maiores da Raça desejando-a divinamente humana e humanamente divina. Utopia? Talvez seja. Mas também a maioria das utopias do Passado são hoje realidades usufruídas que ninguém as discute, nem sequer pensa quanto foi difícil e moroso realizá-las.

Para realização maior caminha hoje o Brasil Independente, e aparte todos as convulsões sociais próprias de um ciclo recém-finado, sem dúvida o seu destino último será a de realizar e partilhar a maior a maior das utopias: a Felicidade Humana.

NOTAS

[1] A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. I, pp. 208-212. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[2] De nome completo António Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva – São Paulo, 1.1.1773 – Rio de Janeiro, 5.12.1845. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, advogado, escritor e político, deixou publicados escritos de economia, poesia, política, etc. Partidário da separação entre o Brasil e Portugal, participou na Revolução Republicana de 1817, tendo estado preso até 1821. Deputado pelo Brasil às Cortes de 1821, teve papel de relevo na preparação da Independência do Brasil, vindo a ser, neste seu país natal, deputado, senador e ministro. Iniciado em Loja e data desconhecidas, foi o Grão-Mestre do primeiro Grande Oriente Brasileiro (1813-1818).

[3] De nome completo Francisco Gomes Brandão Montezuma (Bahia, 1794 – 1870). Jornalista e político, foi perseguido e expulso do Brasil por D. Pedro, tendo regressado em 1831 e vindo a desempenhar posteriormente funções diplomáticas em Inglaterra, e a ser senador e conselheiro de Estado. Recebeu o título de Visconde de Jequitinhonha. Em 1822, mudou o nome para Francisco Gé Acayaba de Montezuma. Fundou no Brasil (1832) o Supremo Conselho do Grau 33, reconhecido pela França no ano imediato e uma das potências signatárias do Tratado de Paris (1834). Desempenhou o cargo de Soberano Grande Comendador de 1832 a 1844, resistindo, durante nove anos, à cisão que instaurou no Brasil um segundo Supremo Conselho (1835) e mantendo o seu em regular funcionamento. Por decretos de 28.7.1840, concedeu o Grau 33 a Silva Carvalho, autorizou-o a fundar um Supremo Conselho em Portugal e confirmou o Consistório que por aquele acabara de ser instalado.

[4] João Vieira de Carvalho, Conde de Lajes (Olivença, 1781 – 1847). Oficial do Exército e fidalgo da Casa Real, foi educado no Colégio dos Nobres em Lisboa, e emigrou durante a 1.ª invasão francesa para o Brasil aonde se fixou e veio a atingir o posto de marechal de campo. Interveio na vida política brasileira, sendo senador e várias vezes ministro. Recebeu o título de 1.º Conde e 1.º Marquês (1845) de Lajes. Como Soberano Grande Comendador de um dos Supremos Conselhos do Grau 33 existentes no Brasil, autorizou (Novembro de 1840) Joaquim Elias Rodrigues da Costa, membro do Supremo Conselho a que presidia, a conferir o Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite aos maçons portugueses que o merecessem, “a fim de fundar um Supremo Conselho do Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite no Reino de Portugal”. Do facto resultou o Supremo Conselho Costa Cabral (junto ao Grande Oriente Lusitano), cujos trabalhos tiveram início em 1844.

[5] Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria, pp. 80-84. Editora Pensamento, São Paulo, 1974.

[6] A. T. Cavalcanti Dalbuquerque, A Maçonaria e a Grandeza do Brasil. Editora Aurora, Rio de Janeiro, 1955.

[7] Esta informação carece de comprovação, e a ter acontecido essa fundação maçónica da parte do Tiradentes seria só por benfeitoria e afeição ao patriotismo da Maçonaria, pois como maçom filiado ele não consta nos Anais do Grande Oriente do Brasil (nota VMA).

[8] Kent Henderson e Tony Pope, Maçonaria Universal (Um novo Guia para o Mundo Maçónico – As Américas). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2001.

[9] Orlando Soares da Costa, Maçonaria Adonhiramita, cinco volumes. Editora Europa, Rio de Janeiro, 1999.

[10] Joaquim Roberto Pinto Cortez, Fundamentos da Maçonaria. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2001.

[11] Eleutério Nicolau da Conceição, A Maçonaria na História e no Mundo (Origens-Lutas-Actuação). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004.

[12] Morivalde Calvet Fagundes, A Maçonaria e as Forças Secretas da Revolução. Editora Aurora, Rio de Janeiro, 1982.

[13] João Ferreira Durão, Pequena História da Maçonaria no Brasil. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2008.

[14] José Castellani, William Almeida de Carvalho, História do Grande Oriente do Brasil. A Maçonaria na História do Brasil. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2009.

[15] George David Henderson, Chevalier Ramsay. Ed. Thomas Nelson e Filhos, Londres, 1952.

[16] James Anderson, As Constituições dos Franco-Maçons. Editora do Grande Oriente do Brasil, Brasília, 1997.

[17] Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.

[18] Louis Guillaume Saint-Victor, Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite. Contenant les trois Points de la Maçonnerie Ecossaise, le Chevalier de l´Orient e le vrai Rose-Croix, qui n´ont jamais été imprimes. Philarethe, Philalelphie, 1785.

[19] Jules Boucher, A Simbólica Maçónica (Segundo as regras da Simbólica Esotérica e Tradicional). Editora Pensamento, São Paulo.

[20] . H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. II. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[21] Michel Monereau, Les Secretes Hermétiques de la Franc-Maçonnerie e les Rites de Misraim & Memphis, suivi de Crata Repoa – Initiations aux anciens mystères des prêtes d’Egypte. Éditions Axis Mundi, Paris, 1989.

[22] José Bonifácio de Andrada e Silva, Manifesto do Grande Oriente Brasileiro (Constituição). Rio de Janeiro, 1832.

[23] Isa Ch´an (Kurt Prober), Achegas para a História da Maçonaria no Brasil, volume I de III. Edição do autor, Paquetá, São Paulo, 1968.

[24] Gustavo Barroso, O Imperador e a Maçonaria. Revista O Cruzeiro, Dezembro de 1955.

[25] Maria Laura Ribeiro, D. Pedro I e a Maçonaria, volume VIII. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, 1972.

[26] Micheline de Souza Lira, A Confraria Maçónica de Itambé. Goiana, 1999.

[27] Sérgio Corrêa da Costa, As quatro coroas de D. Pedro I. Casa do Livro, Rio de Janeiro, 1972.

[28] Diuner José de Mello, Paraty: Roteiro Histórico do Visitante. Edição do autor, Paraty, 1976.

[29] Henrique José de Souza, A Minha Mensagem ao Mundo Espiritualista. Revista Dhâranâ, n.º 25 a 28, p. 40, 1928.

Brasília e o Brasil Futuro (Alvorada da Nova Era) – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Abr 4 2017 

Deste Planalto Central, desta solidão que será em breve o cérebro de onde partirão as altas decisões nacionais, lanço um olhar, mais uma vez, sobre o futuro do meu País e antevejo essa Alvorada com a fé inquebrantável e confiança sem limites na grandeza do seu destino. – Proféticas e vibrantes palavras do grande homem Juscelino Kubitschek de Oliveira, Presidente da República Federativa do Brasil, ao contemplar, em visão do porvir, as terras onde iria ser fundada a nova capital brasileira.

Foi a Ideia, o Ideal que se materializou, a concretização da Esperança tomando forma, plasmada pela decisão firme de um realizador intrépido, indo corporificar um sonho há tanto acalentado, imortalizando-se numa obra de titã aliada à de um obreiro ciclópico para quem o impossível ou difícil não passava de letra morta, criando em plena selva o Brasil Futuro, caminho aberto para a melhor das esperanças da Humanidade.

O Brasil, em momento tão avassalador como o actual, na encruzilhada intercíclica entre o Passado tenebroso e o Amanhã radioso, não traiu o seu destino, não renegou a sua vocação. Efectivamente, ele entrou pelo portal das angústias e dificuldades na grande estrada que o conduzirá ao Tabor das transfigurações históricas e ao Olimpo das galas e das glórias, que hão-de coroar a juventude, o vigor e a beleza de uma civilização que desponta no alvorecer de um Novo Ciclo.

Teve o grande presidente a intuição iluminada dos Iniciados que se desdobram, que avançam para além de si mesmos, para além do tempo, conquistando novos rumos para um povo que acredita no seu destino último. Esta realização rasgou para a Humanidade o proscénio de novos mundos, e para a civilização espaços geográficos onde ela poderá criar raízes, brotar, florescer, frutificar, na benesse das ideias que as Idades transformam, para servir de veste espiritual às raças que se sucedem no plano evolutivo da Vida Universal.

Era o anseio de várias gerações convertido em realidade viva, a afirmação cabal de um povo que confia na pujança da sua capacidade criadora, que desde as mais remotas Eras tinha já o seu encontro marcado com o Futuro, vaticínio que se projecta de modo velado nas próprias cores da sua bandeira, onde a cor vermelha (tamásica ou da matéria densa) se omite por determinação mesma da Divindade.

A constelação do Cruzeiro do Sul – portal celeste das excelsas manifestações da Lei Suprema na Terra de Vera Cruz – que inspirou um povo confiante na vontade férrea do seu timoneiro a plantar naquele vasto planalto, onde o sertão cerrado tinha a morte à espreita atrás de cada tronco e de cada rocha, uma cidade fascinante para servir de capital política, servindo também de inspiração ao grande poeta Cassiano Ricardo, que no seu poema Sinal do Céu teve a premonitória visão do que representará a pátria brasileira ante o Homem do porvir[1]:

E uma cruz misteriosa de estrelas
abriu no céu os seus braços de luz
como uma enorme profecia:
… quatro raças virão, algum dia,
de quatro caminhos distantes
marcados por estas estrelas
que ficam nas pontas da cruz
p’ra constituir uma só raça
marcada por outra estrela
que é a que fica no centro da cruz.
Eu sou a cruz do firmamento!
O cruzeiro do amor universal.
E nos dias de sol, na glória da colheita,
Os homens que virão dos pontos mais
[distantes
se reunirão aqui, nativos e emigrantes,
para a festa nupcial de uma outra
[humanidade
que será feita de alegria e de bondade!
Porque eu sou o caminho ainda obscuro
Por onde finalmente
desfilará a humanidade do futuro!

Essas são palavras proféticas indicativas das quatro raças (europeia, africana, asiática, oceânica) reunidas em uma só (brasileira americana) no centro da Cruz, como seja o Planalto Central onde nasceria de Brasília, destinada a irradiar ao Mundo o espírito de Paz no alvorecer do Novo Ciclo, onde “sobre as ruínas materiais da força bruta pairará o Direito apoiado na Justiça”[2].

Chega o momento tão esperado. É a Hora da Alvorada!

20 de Abril de 1960. São 17 horas, a 15º47´de latitude Sul e 45º55´de longitude Oeste: “Aqui onde só havia, há 43 meses, a solidão e o grito dos jaguares na noite…”, no Planalto de Goiás, o presidente da República Juscelino Kubitschek recebe das mãos do prefeito, senhor Israel Pinheiro, as chaves simbólicas de uma cidade nova.

Às 23.30 h desse dia, aos pés da Vera Cruz diante da qual o Padre Henrique Soares de Coimbra rezou, no ano de 1500, a primeira missa celebrada em terra brasílica, o legado do Papa João XXIII, o cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, patriarca de Lisboa, celebra uma missa solene, enquanto do Vaticano o próprio Papa dirige saudações efusivas à Nação Brasileira. Toda a cidade está mergulhada na obscuridade. Apenas um raio de luz ilumina o altar.

No instante da elevação eucarística, quanto o cardeal-patriarca eleva acima da multidão a hóstia consagrada, subitamente todas as luzes se acendem, os holofotes percorrem o céu, o Hino Nacional do Brasil ressoa empolgando os corações: “E o sol da Liberdade… Brilhou no céu da Pátria nesse instante… Ó Pátria amada, idolatrada… E o teu futuro espelha essa grandeza”!

Brasília nasceu! Zero hora, 21 de Abril de 1960. O Brasil mudava de capital ao mesmo tempo que o Sol mudava de signo e entrava em Taurus, indicador de fecundidade psicossocial, fertilidade na fundação dos alicerces políticos de uma Nova Civilização urgindo como urgiu Brasília, conformada à marcha precessional do Sol do Oriente ao Ocidente no que se intui o prenúncio do V Império do Mundo[3], por certo Juscelino Kubitschek sabedor disso ao dar a notícia alvissareira, nesse mesmo dia da inauguração da cidade nova, ao Presidente da República de Itália:

“Eu inauguro hoje a nova capital do Brasil, na mesma data em que se comemora a fundação de Roma; a mais jovem cidade do Mundo se volta, neste momento, para contemplar a mais antiga cidade da Terra, centro e berço da latinidade, onde o génio dos romanos fixou as raízes da civilização ocidental.”

Dessa maneira ia ao encontro da consumação da profecia pressupostamente atribuída a esse mesmo Papa João XXIII, no vaticínio de haver de aparecer “[…] a terceira Itália. Hoje, Roma já não tem este nome. É uma recordação. Os seus palácios estão no Norte. Aqui há ruínas, ruínas de homens e de coisas”[4]. “Ruínas de homens e de coisas” poderá valer por desmoralização, e quanto aos “palácios do Norte” e não se tratando da Península Itálica, obviamente que só poderão ser os do Norte do Brasil, a “Nova Itália”, neste caso, a cidade de Brasília, a quem João XXIII endereçou encómios apologéticos como se fosse um filho da terra, um “Jina Antigo” (Xavantino) do escol dos desses ocultados nas entranhas do Roncador, como diria o Professor Henrique José de Souza.

Os antecedentes histórico-políticos para a edificação de Brasília vão desde José Bonifácio de Andrada e Silva, em 1823, apresentando à Assembleia Constituinte um projecto para a necessidade de mudança da capital, a Holanda Cavalcanti, que, em projecto apresentado ao Senado, em 1825, escolhia para tal mudança o Planalto goiano entre os paralelos 15º e 20º, até que, em 1891, a Primeira Constituição da República estabeleceu: “Fica pertencendo à União, no Planalto Central da República, uma área de 14.400 quilómetros quadrados, que será demarcada para nela se estabelecer a futura Capital Federal”. Em 1892, Floriano Peixoto constituiu comissão para estudar e demarcar a área da futura capital federal; em 1920, o Presidente Epitácio Pessoa assinou o decreto prevendo o início da construção; em 1940, o Presidente Getúlio Vargas lançou a cruzada rumo ao Oeste; em 1955, o Presidente Café Filho aprovou a área da nova capital; finalmente, em 1957, o Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira deu início à construção de Brasília, o que terminou em 1960, portanto, cinco anos a partir de 1955, ano em que aprovou a construção de Brasília e a mudança da capital para o Planalto Central, dando concretização à profecia de Tiradentes, quando escreveu em seu testamento: “A capital será no coração do Brasil, longe das populações e dos portos marítimos.”[5]

Também o cristão-novo Gonçalo Anes, o Bandarra (Trancoso, Portugal, 1500 – Trancoso, 1556), acaso terá previsto em suas trovas proféticas a aparição futura da cidade nova do Ocidente, aquando se refere obscuramente à “semente no Poente”, como se depreende nas suas quadras seguintes[6]:

70

Vem de mui alta a semente
De todos quatro costados,
Todos reis, de primos grados
Do Levante até ao Poente.

71

Serão os reis concorrentes
Quatro serão e não mais,
Todos quatro principais
Do Levante ao Poente.

72

Os outros reis mui contentes
De o verem Imperador,
E havido por Senhor
Não por dádivas nem presentes.

Os “quatro costados principais do Poente” para um único “Imperador”, poderão ser as quatro Bandeiras que no Passado se encontraram em Xavantina ou “Nova Brasília” já como augúrio das quatro nações ou continentes que se iriam reunir aqui, em Brasília, unidas em uma única Bandeira Federal expressiva da Raça Brasileira Americana agregada pelo esforço do “Imperador”, neste caso, o Presidente da República Federativa do Brasil como “quinto princípio”, com isso expressando esotericamente os Quatro Senhores da Lei Única que a tudo e a todos rege agindo pelos quatro elementos ou princípios universais (Ár, Fogo, Água, Terra) animados pelo quinto príncipio (Éter), síntese e ánima deles e sintetizado na Pessoa do Imperador Universal ao centro, como seja Ardha-Narisha ou o mesmo Chakravarti ou Melkitsedek, que geograficamente predispõe-se ideal-mente em Brasília (capital política a fim ao Governo Oculto do Mundo) para outros dois eixos geográficos vertical e horizontal, cujo ponto de intercessão ficará sobre Minas Gerais, propriamente São Lourenço (capital espiritual a fim à Grande Fraternidade Branca), a saber:

De maneira que na região central do Brasil tem-se Brasília constituída como centro de um sistema geográfico social e político-administrativo. À sua volta, em pequeno raio, surgem as cidades satélites, e em grande raio, as capitais dos Estados da Federação. Brasília é um Sol Central gerador, um Núcleo magnético de atracção e irradiação da tónica da Vida Humana no Grande Ocidente face ao grande movimento externo da acção social colectiva, tal como São Lourenço é o Sol Oculto da acção espiritual colectiva, na mística complementação dual de uma só coisa: a Nova Civilização, disposta sob a égide de Melki-Tsedek em seu Aspecto Temporal ao Norte e Espiritual ao Sul, completando-se entre si o que gera o sacrossanto nome de Maitreya, “Senhor dos Três Mundos”, identificado ao Cristo Universal precisamente na cúspide da Nova Raça Dourada, e que já hoje se aponta figurado na estátua colossal do Cristo Redentor no Rio de Janeiro.

Para essa realização sublime abarcando a toda a Humanidade numa unidade, é que a antiga Sociedade Teosófica Brasileira edificou os seus três Templos de São Lourenço (Pai – 1), de Itaparica (Mãe – 2) e de Xavantina (Filho – 3), configurando um triângulo de realização no mapa do Brasil sinalético da Obra do Eterno à Face da Terra, em actividade permanente para o ambicionado dealbar do Grande Dia de Maitreya e a consequente Vitória da Obra de Deus, o que depende de todos os homens e mulheres de boa e firme vontade em criar o Bem, o Bom e o Belo.

Duas linhas de forças estão intimamente relacionadas a essa triangulação: o Paralelo 15 ao Norte, e a Latitude Sul, nos 22 para 23 graus no Trópico de Capricórnio. Toda a região norte do Brasil, cujo Paralelo 15 atravessa a zona do Planalto Central de Goiás onde se fundou Brasília, pomo venturoso de inúmeras profecias vaticinando-a berço da Nova Civilização, está sob a influência vitalizadora de Kundalini, o Fogo Quente Terrestre ascendida do ventre da Terra ao seio jucundo do Céu – todo o Norte é vermelho fogo (assinalado na sua terra vermelha pujante) até ao ponto meridiano ou separador que é a Bahia. Desta para o Sul é todo verde esmeralda (assinalado na sua vasta área florestal) como o Fogo Frio Celeste, Fohat descendido do Céu à Terra, até ao Rio Grande do Sul.

Volvendo aos “quatro costados” da profecia bandárrica incarnando os “quatro princípios universais”, igualmente poderão representar os quatro Sistemas Geográficos já realizados no Brasil e desfechados em Brasília, como Quinto.

Por outra parte, desfolhando o volume das profecias de Michael de Nostradamus[7], encontra-se a seguinte centúria que parece ter a ver com o presidente Juscelino Kubitschek e a fundação de Brasília:

XCII

Depois do trono mantido dezassete anos,
Cinco mudarão em tal volvido termo:
Depois será eleito de mesmo tempo,
Quem dos Romanos não estará muito conforme.

A última linha da quadra terá a ver com a transferência dos valores espirituais de Roma ao Brasil, o Grande Ocidente, a quem cabe a afirmação do verdadeiro Catolicismo, que no seu significado etimológico é Universalismo, tendo-se que em princípio Brasília é cidade destinada à universalidade do Pensamento Humano. A segunda linha poderá referir-se aos cinco anos necessários à concretização de Brasília, em conformidade ao lema pessoal de JK: “50 anos em 5”. Por fim, aquele “do trono mantido dezassete anos” pode muito bem indicar o próprio Kubitschek, como o 17.º Presidente da República desde Deodoro da Fonseca[8]. Nisto é agraciado pela Estrela dos Magos do Tarot, o Arcano 17 a ver com o biorritmo de Portugal. Também por isto a Terra Portuguesa teve papel predominante na consagração espiritual de Brasília, e na planta da sua arquitectura foi-lhe igualmente dada relevância meritosa. De maneira que Brasília é o desfecho do ciclo ibero-ameríndio e o início do período universalista ou transcontinental.

Acerca do Arcano 17 – a “Estrela dos Magos” para São Germano, “As Sete Trombetas, como Voz do Logos Criador” para JHS, sendo “A Imortalidade” no Tarot Sacerdotal – tal número não deixa de apresentar grande importância simbólica. Na tradição islâmica, 17 é o número de rak’as (gestos ritualísticos), sendo também o número das palavras (17) que compõem o chamado à oração (salah). Nas alegorias muçulmanas, o simbolismo do número 17 aparece em vários delas, principalmente na dos “17 conselhos murmurados ao ouvido do rei quando da sua coroação” e nos “17 componentes do estandarte”.

É sobretudo no Xiismo – e por influência dele na literatura épico-religiosa dos turcos da Anatólia – que é dada uma importância quase mágica ao número 17. Os místicos xiitas possuem desde priscas eras uma autêntica veneração pelo número 17, e tal veneração tem origem nas antigas especulações pitagóricas que se fundavam nas letras do alfabeto grego, sendo que 17 representava o número daqueles que seriam ressuscitados. Cada um desses “ressuscitados” deveria receber uma das 17 letras do alfabeto, das que compõem o Nome de Deus, não deixando de ter relação com o Arcano 17 cuja lâmina evoca a transformação, o renascimento e a libertação kármica. Por outro lado, segundo o Livro da Balança, de Gabir Ibn Hayyan, místico e alquimista árabe, a forma (sura) de todas as coisas do mundo assenta no valor 17, número que representa a própria base da teoria da Balança, sendo co nsiderado cânone do equilíbrio de toda e qualquer coisa.

Ainda no Islão, o número 17 tem importância particular na tradição das corporações de ofícios, que reconhecem 17 companheiros iniciados por Ali, 17 patronos dos fundadores das corporações muçulmanas iniciados por Selman-i-Farsi, e 17 corporações maiores. É o número-mor do Companheirismo, a original Maçonaria Operativa, essa mesma construtora dos mais sumptuosos e significativos, sobretudo no plano iniciático, templos e palácios da Antiguidade europeia e mediterrânea.

Para os antigos gregos, 17 representava o número das consoantes do alfabeto. Ele divide-se, por sua vez, em 9 (número das consoantes mudas) e em 8 (número das semivogais e semiconsoantes). Esses números estavam igualmente em estreita relação com a teoria musical e a da Harmonia das Esferas.

Já a Antiguidade latina considerava este número funesto, necrolático a fim aos manes, por isso o receava, ademais porque as letras que o compõem, XVII, são as que, mudada a sua ordem, dão a palavra VIXI, eu vivi. Tem nisso uma função fúnebre indicadora do vir-a-ser além-túmulo e de qual o motivo ou fim da existência humana, como seja a da libertação da peia de encadeamentos de causas-efeitos e todo o homem finalmente se tornar imortal, fim a que se destinava a celebração dos Mistérios na Antiguidade.

Estão exclusivamente nomeados os presidentes da República que exerceram funções efectivas no cargo, estando excluídos todos aqueles de governos de transição e os que não tomaram posse efectiva do cargo, embora empossados no mesmo, como Tancredo Neves, por exemplo.

A ver com o soerguimento futuro de Brasília, a grande profecia, porém, continua a ser o sonho-visão ou sonho profético que Dom Bosco teve[9], na noite de 3 para 4 de Setembro de 1883. O Presidente Juscelino Kubitschek conhecia de antemão a profecia, como diz nas suas memórias[10], reportando-se a episódio passado consigo no início de 1958, num momento da madrugada em que estava à janela do Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro:

A PROFECIA DE DOM BOSCO

“Eram duas horas da manhã. O Laranjeiras estava em silêncio. Ouvia-se apenas o ranger dos passos do guarda na areia do jardim. Cansado, guardei a papelada, preparando-me para me recolher ao leito. Mas, antes de deixar o gabinete, abri uma janela para ver a noite. Não sei porque lembrei-me de repente da profecia de Dom Bosco: No dia 30 de Agosto de 1883, tive um sonho-visão. Mas isso não era tudo. Entre os paralelos 15º e 20º havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago. Então uma voz disse repentinamente: “Quando escavarem as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a Grande Civilização, a Terra Prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível! E essas coisas acontecerão na terceira geração.”

“Recordei, palavra por palavra, o que lera no volume XVI das Memórias Biográficas[11]. Era a famosa profecia sobre a Grande Civilização que iria surgir entre os paralelos 15º e 20º – a área em que Brasília estava sendo construída. O lago, da visão do santo, já figurava no Plano-Piloto de Lúcio Costa.

“Ainda debruçado à janela, ergui os olhos e contemplei a luz vermelha que brilhava no alto da torre da Igreja da Glória. E veio-me à mente, outra vez, a frase do santo de Becchi: “E essas coisas acontecerão na terceira geração”. Dom Bosco falecera em 1888. Computando-se o período de vinte anos para cada geração, era óbvio que a década dos 50 seria a da “terceira geração”. As forças misteriosas que regem o mundo haviam agido no sentido de que as circunstâncias se articulassem e criassem a “oportunidade” para que o velho sonho se convertesse em realidade. Justamente na década dos 50 a ideia havia chegado à maturação, requerendo execução.

“Naquela madrugada, olhando as árvores do Parque Guinle, procurava tirar ilações da profecia de Dom Bosco. Existia uma curiosa coincidência de local e de datas. O importante, porém, era que a construção da nova capital estava em andamento. Foi aí, mergulhado no devaneio imposto pelo silêncio da noite, que concebi a ideia de denominar a construção de Brasília – ‘Meta-Síntese’.”

Foi para essa “Meta-Síntese”, para o dealbar do Brasil Ibero Ameríndio e depois desfechar com o soerguimento de Brasília, que as navegações portuguesas concorreram, em Quatrocentos e Quinhentos, para a “Terra Prometida” na pressuposta execução secreta do Plano Sinárquico Templário, de que a Ordem de Cristo era herdeira. Sobre isto, diz com muita propriedade Manuel Joaquim Gandra[12]:

“A expansão portuguesa não foi fruto do acaso, nem um feito político do Rei: antes uma tarefa de Ordens Iniciáticas.

“A Península Ibérica – Cabeça da Europa – foi preparada para realizar as grandes descobertas (ou redescobertas) da Terra, tendo, para esse efeito, afluído a ela almas escolhidas, ondas de vida heterogéneas, povos das mais diversas raças, que, em torno de Centros Iniciáticos protegidos por Ordens monásticas religiosas e guerreiras – guardiãs de conhecimentos transcendentais que, na época, não possuíam condições para sobreviverem fora dos templos -, desenvolviam a sua actividade.

“Atingir a Índia, numa viagem de regresso à Casa do Pai, constituía um dos objectivos, pois não era nessas paragens que habitava o Preste João, Rei e Sacerdote, Presbítero da Igreja Oculta e Paraclética de João? Porém, para além da abertura de um caminho a Oriente, interessava confirmar a existência de um mundo a Ocidente, conhecido desde “sempre”[13], e campo de futuras vivências com particular importância para toda a Humanidade.

“A (re)descoberta do Brasil insere-se na actividade missionária Franciscana e da Ordem de Cristo, cujo fito principal era: descobrir o paradeiro das tribos perdidas de Israel[14], encontrar o Paraíso Terreno[15], renovar a Europa e instaurar, à face da Terra, a Sinarquia Universal, ou Reino do Espírito Santo (o Quinto Império).

“A “certidão de nascimento” do Brasil, a Carta de Pêro Vaz de Caminha, foi redigida em presença dos ideais dos fraticelli franciscanos[16].

“Os escritos de Gerónimo Mendieta provam que os franciscanos consideravam os nativos americanos superiores aos europeus, atitude que se reflectiu no seu procedimento, de perto seguido pelo dos jesuítas, apenas com algumas dissemelhanças[17].”

Estou em crer que o ponto de aproximação entre judeus, jesuítas e franciscanos está precisamente nisso mesmo: a identificação das tribos perdidas de Israel nos reminiscentes humanos do continente americano, mormente na sua parte sul. Daí, talvez, o cuidado dos judeus sefarditas, dos jesuítas e dos franciscanos portugueses no trato dado aos autóctones ameríndios, como que reconhecendo neles os sobreviventes humanos do povo de Deus. Menasseh Ben Israel, por exemplo, estava atento aos sinais gerais sem desprezar os singulares. Sinal singular foi o acontecimento, ocorrido em Amsterdão, de 18 de Julho de 1644. Um judeu marrano de Vila Flor, Aarão Levi, aliás, António de Montezinos (m. 1647), tinha chegado da América do Sul e dava parte, na sinagoga, do que vira, com enorme gáudio do auditório. Numa Europa perplexa e perturbada, Montezinos trazia uma boa nova.

Ele narrou as viagens que fizera nas Índias, onde fora cativo da Inquisição, até encontrar a tribo de Ruben consubstanciada em uma tribo de índios da América do Sul, na região entre o Yukatan e o Brasil, que além de falar uma língua incorporando vocabulário deuteronómico, praticava rituais hebraicos, como a circuncisão. O que Bandarra prognosticara, do aparecimento prévio da tribo de Ruben, vinha a conformar-se no relatório de Montezinos. Menasseh decidiu registar o relato e assumir a defesa da autenticidade e veracidade do testemunho, em ordem ao finalismo soteriológico do seu messianismo[18]. O movimento messiânico judaico mostrava-se, uma vez mais e cada vez mais intensamente, inteiramente favorável à colonização espiritual do Ocidente, à derradeira fundação da Nova Israel, do Terceiro Templo da Nova Idade, na “Índia do Ocidente”[19].

Manasseh dispôs-se a atender o testemunho do judeu de Vila Flor, com o propósito de demonstrar que as dez tribos perdidas da antiga Israel tinham transmigrado para as Índias Ocidentais pelo Norte, tomando como provas as analogias relatadas por Montezinos, relato este que ocupa a primeira parte do capítulo I da sua Spes Israelis (“Esperanças de Israel”), contendo 72 capítulos, a qual tinha o propósito de animar os judeus na esperança de advento do Messiah, o Messias, e no reencontro com a Pátria Perdida, o Paraíso Terreal a “Ocidente da Jerusalém Celeste”. A verdade é que o marranismo norte-americano, florescente desde o século XVIII, tem uma forte base sefardita e tradicionalista, inicialmente reconhecendo a mais que discutível origem judaica dos índios americanos, reconhecimento esvanecendo-se com o tempo e ficando esse legado de descendência bíblica exclusivo ao próprio judaísmo hispano-americano dos marranáticos puritanos e ultraconservadores, povoadores e dominadores da espiritualidade actual norte-americana, com isso não raro inflectindo no desrespeito a outras etnias e crenças. Trata-se da prevalecência ambígua do espírito rácico judaízante.

Mas o valor desse acontecimento anunciado por Montezinos é enorme, por confirmar o pensamento de Manasseh Bem Israel – de quem o padre António Vieira retomaria as ideias da translatio imperii dando-lhes a forma nova dos cinco Impérios do Mundo, o derradeiro o Português – de que a restauração de Israel só seria possível com a reunião do mundo judaico num Mundus Novus, como o consignou Américo Vespúcio em 1502, o que era um sinal claro da proximidade do Messias. No seu entender, a Bíblia estava certa, porém, a interpretação falhara. Com efeito, os Setenta haviam traduzido a palavra Hamat por “Oriente”, e com razão, porque Hamat é o mesmo que Hamah, o “Sol” ou o “Oriente”. O profeta fala dos judeus esparzidos no Oriente e na Terra Santa, na Ásia, nas Índias Orientais e na China, enquanto Isaías assegura que os judeus sairão das ilhas do mar, tal como traduzem vários intérpretes.

“Ilhas do Mar” é, no entanto, termo a traduzir por “Ilha do Ocidente”, desse modo referindo os judeus que habitavam certa porção da América, livres do jugo inquisitorial, e que só podia ser o Brasil onde a Inquisição inexistiu, porque todas as tentativas de aí a instalarem redundaram em fracasso, em grande parte graças ao bandeirante piratininga. De maneira que a convergência da Israel Bandárrica e do Portugal Sebástico para a América do Sul, denodadamente o Brasil, era o derradeiro Finisterra, a Quezê-ha-Arez, a alcançar antes do último sinal do Encoberto, do Messias. Não será demais apontar esse “último sinal” do Redentor do Mundo como o possível e ultra-simbólica soerguimento de Brasília, em pleno Planalto Central do país, donde discorre para as sete partes do continente.

O facto é que antes de António de Montezinos um outro cristão-novo português, Ambrósio Fernandes Brandão (1555-1618), que viajou pelo Brasil durante vinte e cinco anos tendo-se estabelecido em Olinda e depois na Paraíba, perfilhou da mesma tese da presença judaica na Antiguidade brasileira a qual noticiou no seu livro Diálogos das Grandezas do Brasil, datado de 1618, tendo permanecido ignorado no acervo da Biblioteca de Leiden, Holanda, até ser descoberto por Francisco Adolfo de Varnhagen. A cópia desse manuscrito, composta em 1874, serviu para a edição brasileira de 1930, iniciativa da Academia Brasileira de Letras, com introdução de Capistrano de Abreu e notas de Rodolfo Garcia[20]. Escreveu Ambrósio Fernandes Brandão:

“Confesso que os primeiros pais deveram de mostrar e ensinar a seus filhos e netos o uso das artes e policia que tinham; mas essa como havia de ser ensinada de palavra, não podia passar à memória de tão comprida geração, em gentes a que lhe faltaram logo as escrituras e o mais necessário para a conservação das artes e policia, em terras tão remotas e incógnitas, como eram as que habitavam, e assim como a continuação do tempo se lhe havia de ir varrendo da memória o que os seus avós lhes tinham amostrado, como ficarem do estado em que de presente os conhecemos. Mas, contudo, ainda hoje em dia se acha entre eles muitas palavras e nomes pronunciados na língua hebreia e da mesma maneira, costumes como é tomarem as suas sobrinhas por suas verdadeiras mulheres, que nem uma coisa nem outra fariam se os não houvessem aprendido de quem os sabia. E com toda a sua barbaridade têm conhecimento das estrelas dos céus de que nós temos notícia, posto que lhes aplicassem nomes diferentes, pelo que tenho por sem dúvida, descenderem estes moradores naturais do Brasil daqueles israelitas que navegaram primeiro pelos seus mares.”

Antes disso, em 1581, o dominicano espanhol frei Diego Durán igualmente deixara afirmado na sua crónica Historia de las Indias de la Nueva España y Islas de Tierra Firme que os indígenas sul-americanos eram de origem hebraica[21]. Diz ele:

“Para tratar da correcta e verdadeira relação da origem e início destas nações indígenas, a nós abscondida e duvidosa, que para pôr a mera verdade é necessária alguma revelação divina, o Espírito do Eterno que ensine e dê a entender; faltando isto, será necessário chegarmos a suspeitas e conjecturas, à demasiada ocasião onde esta gente não dá com o seu baixíssimo modo e maneira de tratar, e de sua conversa tão baixa, tão própria dos judeus, que poderíamos ultimamente serem naturalmente judeus e gente hebreia, […] o seu modo de viver, as suas cerimónias, os seus ritos e superstições, os seus agouros e hipocrisias, tão parecidas e próprias dos judeus, que em nenhuma coisa diferem. […] Com a qual confirmo a minha opinião que estes naturais sejam aquelas dez tribos de Israel, que Salmaneser, rei dos assírios, levou cativas… […] Outra autoridade da Sagrada Escritura se pode trazer para provar esta opinião, é que a estas dez tribos, que abaixo deixo dito, teria o Eterno prometido por Oseias, cap. I-XIII, que as iria multiplicar como as areias do mar, o qual claro e obviamente se vê quão grande se multiplicou, pois tem ocupado grande parte do mundo…”

Apesar da valoração geográfica e positivista, o termo Novo Mundo redunda em simbólica sobretudo na origem. O Mundus Novus, mencionado na carta de 1502 do controverso Américo Vespúcio, não é apenas um continente, é o suposto Oriente, de onde o nome de Índias. Em 1513, a América é a Terra Incógnita e, para Pedro Anghiera, é o Alter Orbis, enquanto, em 1569, América se lê sive Índia Nova. Para os judeus da diáspora, inicialmente “policiados” pela Ordem de Cristo, a designação Mundo Novo acarreta a sinalética messianológica, na medida em que o descobrimento do Finisterra permitiria o encontro inevitável com as tribos perdidas e o advento do Messias.

Todas essas suspeições formalizadas crenças vêm ao encontro da pressuposta presença fenício-hebraica na Proto-História brasileira. Quase de certo também iriam ao encontro do que saberia Juscelino Kubitschek de Oliveira, muito mais pelas suas intimidades com a antiga Sociedade Teosófica Brasileira, com alguma troca epistolar com o fundador e dirigente, Professor Henrique José de Souza. Como se não bastasse e em guisa de visitação de algum membro do Governo Oculto do Mundo ao então Presidente da República, deu-se o caso insólito do frade misterioso, como é narrado no interessante livro de Miguel Henrique Borges, escritor, jornalista, cineasta e secretário pessoal do ex-Presidente da República Fernando Collor de Melo[22]:

“Impressionante, o caso do frade que misteriosamente entrou no Palácio das Mangabeiras numa certa noite pachorrenta de 1954.

“O Governador é avisado de que um religioso veio visitá-lo e se encontra lá embaixo à espera. Juscelino, que estava relaxado, descansando, resolve ir conferir. Não há nada marcado pelo cerimonial, nem sequer agendado pessoalmente. Desce as escadas e eis a figura. Já não se fazem frades como antigamente. Aquele era dos bons, usando hábito completo com morrinha e tudo. JK dá-lhe corda, convida-o a se sentar, mas a conversa é rápida. A figura só quer que ele nunca deixe de pensar no bem da Humanidade, do País. E que se prepare para ser Presidente da República, pois vai chegar lá. Diante do pré-candidato perplexo, o do hábito se levanta, abençoa-o, despede-se e se retira, enquanto o Governador continua naquele enleio. Refeito, manda verificar o que houve. A guarda e a portaria garantem que não entrou nem saiu ninguém.

“O episódio foi ouvido do próprio Juscelino e hoje é repassado pelo Coronel Afonso Heliodoro, actual Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Brasília, aos 85 anos de idade. Ele e o Presidente foram da Polícia Militar de Minas Gerais, tornaram-se amigos da vida toda, tinham grande intimidade. O Coronel não tem dúvida de que aquilo aconteceu.

“Mas se alguém duvida, há uma confirmação que, sendo indirecta, não deixa de ser categórica. Decorre de outra lembrança do Coronel Afonso Heliodoro e não veio propositalmente como apoio à primeira. Apenas, como se refere ao início de 1955, veio depois da insólita visita, tratando afinal do mesmo assunto.

“Novamente no Palácio das Mangabeiras, JK foi procurado por um político amigo que mineiramente lhe manifestou dúvidas sobre a oportunidade de sua candidatura à Presidência, já então consumada. A visita insinua que Juscelino devia abrir mão de concorrer à eleição. Conversa vai, conversa vem, finalmente o próprio candidato, para sair do desconforto daquela conversa constrangida, toma a iniciativa de explicitar e fechar o assunto que tinha sido apenas tangenciado. Aponta para o belo céu estrelado que fazia na ocasião e diz: “Não adianta, Zé. Está escrito nas estrelas”.

“Afinal, o frade inesperado já lhe tinha dado o toque.

“Ambos os episódios constam do depoimento do Coronel Heliodoro a Costa Couto, publicado no livro deste[23]. Embora fosse desnecessário, o autor do presente trabalho confirmou as informações junto do Coronel.”

Segundo informação recolhida pelo já falecido Miguel Henrique Borges, um dentre inúmeros com quem tive o privilégio de relacionar-me, na sua obra citada “JK era místico, mas um místico prático, objectivo. Ele nasceu para ser Presidente da República, para ser Governador. Um homem extraordinário e, no entanto, de origem humilde”. Corroborando com informações esse sentimento, regista o livro Presidentes do Brasil (De Deodoro a FHC), organizado por Fábio Koifman, editado em São Paulo no ano 2002:

“PAI

“Diz a lenda que, quando Juscelino nasceu, o caixeiro-viajante João César de Oliveira enviou bilhete a um amigo de Araguari, Eufrosino de Oliveira, no qual dizia: “Não posso encontrar-me com você, porque a Júlia deu à luz o futuro Presidente da República”.

“Não viveu para ver a realização da profecia. João César de Oliveira morreu com 34 anos de tuberculose em 1904, quando o filho tinha apenas dois anos. Trabalhou no garimpo, foi delegado de polícia e fiscal de rendas, mas, na maior parte de sua vida, ganhou o sustento como caixeiro-viajante.

“Grande boémio, gostava muito de dançar, características que foram comuns ao filho Juscelino.

“MÃE

“Júlia Kubitschek, de quem JK herdou o sobrenome que adoptou na vida política, era professora primária e leccionou no distrito de Palha, Minas Gerais. Ela só teve dois filhos: Maria da Conceição, conhecida como Naná, e Juscelino, o Nonô.”

Juscelino Kubitschek de Oiveira, formado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1927, nasceu em Diamantina em 12 de Setembro de 1902 e faleceu em Resende, num trágico acidente de viação, em 22 de Agosto de 1976.

Como já disse, estabeleceu-se amizade recíproca, fincada no ideal de amor comum à mesma Pátria-Mãe, entre o Presidente Juscelino Kubitschek e o Professor Henrique José de Souza. Por volta de 1963, tendo aquele já saído do cargo de dirigente supremo da República, e estando este seriamente acamado, ainda assim combinou-se um encontro pessoal entre os dois, em São Lourenço, na residência do segundo, a Vila Helena, o que não veio a acontecer por o Professor ter falecido dias antes da data marcada. Por essa altura, Henrique José de Souza recebeu um exemplar de oferta do livro A Marcha do Amanhecer[24], com uma dedicatória do punho do próprio JK: “Ao caro amigo, Professor Henrique José de Souza, a homenagem da admiração e do apreço de Juscelino Kubitschek. Rio, 1-6-1963”. Na mesma época, o Professor recebeu o Diploma de Amigo de Brasília, em reconhecimento do seu combate à ideia de retorno da capital federal ao Rio de Janeiro.

Mas já vinha muito de detrás a relação JK – JHS, este que o considerava um “Ser Aghartino”, antes, um “enviado da Agharta com Missão especial para o Brasil”. Eles interagiam intensamente, embora nunca chegasse a haver um encontro pessoal entre ambos. Desfolhando as antigas cartas pessoais do Professor em minha posse, observo que ele se referia aos actos e factos pertinentes a JK na segunda pessoa do plural: “Nós fizemos isto, nós estamos fazendo aquilo, alguém disse algo de nós”, etc. Contam os discípulos ainda vivos do Professor que, certa vez, diante da notícia de um ataque de Carlos Lacerda na tribuna da Câmara Federal, num discurso onde afirmou que o próximo presidente não prosseguiria com as obras de JK, o Professor replicou rindo:

– Nós vamos inaugurar Brasília no nosso Governo, e passaremos o cargo ao sucessor lá!

Realmente, o Professor Henrique José de Souza tinha grande apreço pela figura de Juscelino Kubitschek. Este, por sua vez, tanto na presidência como depois, na fase de desgraça civil da cassação e da perseguição militar, também denotava alta consideração por aquele. Tanto que o Professor tratou de enviar àquele, que as recebeu com agrado e interesse, mensagens de estímulo conceitual e político, no plano objectivo, e de potencialização espiritual. Ou seja, à distância JHS iniciou JK!

A primeira dessas mensagens foi em Setembro de 1958, saudando e apoiando a Operação Pan-Americana, por representar “uma convocação dos esforços de todos os países para a solução dos seus mais prementes problemas sociais e económicos”. E principalmente porque “dá ao Brasil a prioridade política de uma tentativa em larga escala de coordenação dos ideais, sentimentos e interesses da formação democrática”.

Por fim, no final de 1960 ao apagar das luzes do Governo de Kubitschek, o Grão-Mestre Henrique José de Souza decidiu homenageá-lo, conferindo-lhe a Comenda e Grã-Cruz da Ordem do Santo Graal, fundada por ele, e que é a mais alta condecoração outorgada pela mesma a um Chefe de Estado, pelos relevantes serviços prestados ao País e à Humanidade.

No impedimento da presença do Professor Henrique José de Souza por motivo de saúde, a Comenda e o respectivo Diploma foram entregues pelo Director-Social da Sociedade Teosófica Brasileira, Dr. César do Rego Monteiro Filho, tendo a cerimónia de entrega sido realizada no Palácio Laranjeiras, Rio de Janeiro, no dia 9 de Setembro de 1960.

Em nome de JHS, da STB e da OSG, falou o Dr. Pizarro Loureiro, denotando-se em várias partes do seu discurso indícios históricos e esotéricos relacionados à Missão de Portugal ante o Brasil Futuro, transcontinental, por fim plasmado em Brasília:

– Vem à presença de Vossa Excelência, por meio desta delegação, a Sociedade Teosófica Brasileira, Sociedade Nacional sem fronteiras políticas, religiosas, sociais ou raciais, fundada há quase quatro décadas. (…) Com uma Missão a cumprir, a Sociedade honra a Tradição milenária que informa a estrutura de seu trabalho espiritual e constitui o objectivo principal colimado pelas suas doutrinas patrióticas e fraternas. Corroboramos, desta forma, o conceito do grande sociólogo mexicano José de Vasconcelos ao afirmar que das bacias do Amazonas e do Prata sairia a Raça Cósmica do Futuro, fruto das dores e das esperanças de toda a Humanidade; a palavra do grande polígrafo espanhol Roso de Luna, ao assinalar a cidade de São Lourenço, sede da nossa Instituição, como a Capital Espiritual do Mundo; e a profecia do Presidente Teodoro Roosevelt ao declarar, quando nos visitou, que o século XXI pertenceria ao Brasil.

Pregamos ao povo brasileiro, Senhor Presidente, todas essas verdades, buscando criar nele a consciência cívica e espiritual do histórico papel que lhe caberá desempenhar amanhã, quando a sua liderança mundial será bênção de paz e fraternidade para todas as nações. Temos a certeza dessa liderança, certeza que se baseia na nossa fé nos destinos da Pátria e na Sabedoria das Idades, na Tradição milenária que nos aponta como Povo Eleito – fruto dos cruzamentos de todas as raças e de todas as virtudes humanas – para dar, pelo exemplo, as linhas estruturais de uma nova sociedade, num mundo que amanhece sobre os horizontes da Humanidade.

A nossa Missão tem, por isto, dado o seu carácter iniciático, as características da triplicidade, que está na base de todos os mistérios e de todas as doutrinas que comandam a Evolução Humana através dos tempos. Não têm outra significação as tríades sagradas das culturas antigas, das tradições que vieram a objectivar-se na Trimurti indiana e a servir de matriz à Trindade cristã: Pai, Mãe, Filho – Pai, Filho e Espírito Santo.

Essa triangulação, Senhor Presidente, está impressa na Missão e retratada na actividade nacional de nossa Sociedade. Tivemos nossa primeira sede em Niterói, cobrindo a etapa inicial de nosso Movimento, ou seja, o lançamento, há quarenta anos, das primeiras sementes do nosso trabalho. A segunda sede coube ao Rio de janeiro, quando ampliámos e demos corpo orgânico à Instituição e maior densidade e harmonia à nossa mensagem. E a actual, em São Lourenço, Minas Gerais, onde levantámos um Templo dedicado a todas as religiões e raças do Mundo, numa síntese luminosa da nossa Obra anunciadora de uma sociedade nova, espelho fiel do Brasil de amanhã.

Mas a nossa Obra devia ser um espelho fiel da evolução do Brasil. Tivemos também uma primeira capital, na cidade do Salvador, Bahia, que presidiu ao início da expansão geográfica do Brasil e da integração técnico-linguística do povo brasileiro. A segunda, no Rio de Janeiro, que presidiu a três eventos da maior importância histórica para os destinos do País: a Independência Política, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República.

Faltava, porém, uma terceira capital que fechasse o triângulo mágico da destinação brasileira, que fosse o fulcro de um novo bandeirismo, dando base física para a grande arrancada do Brasil rumo ao Futuro, para empunhar o facho da sua mensagem e a dádiva do seu poder na gloriosa tarefa de liderar o Mundo do Futuro. Essa terceira capital, Senhor Presidente, tem sido um dos pontos principais da nossa evangelização cívico-espiritual, de quase quarenta anos (…).

Felizmente para todos os brasileiros, surgiu no cenário nacional a figura de Vossa Excelência, o homem providencial que realizaria a imortal tarefa da terceira capital – Brasília – concretizando o nosso sonho, a esperança de milhões de patrícios e completando, no cenário do século XX, aquilo que está escrito para milénios no Livro da Eterna Sabedoria. Vossa Excelência, não medindo sacrifícios, não poupando energias, sem desfalecimentos, arrostando ainda a incompreensão, a injustiça e até a injúria, meteu ombros à Obra e construiu Brasília, a empresa do século – numa prodigiosa aventura que pode emular com as façanhas mitológicas do Hércules grego.

E ainda agora, Senhor Presidente, durante a visita que fez a Portugal, para participar, como co-anfitrião, nas comemorações do V Centenário do imortal Génio dos Descobrimentos, o Infante D. Henrique, teve ocasião Vossa Excelência de dar o toque final na estrutura da comunidade luso-brasileira, com a qual ampliamos a área geográfica e política em quatro continentes.

A nossa Missão, Senhor Presidente, objectiva-se na Sociedade Teosófica Brasileira; mas tem os seus alicerces subjectivos na Ordem do Santo Graal, que perpétua e revive uma Tradição que está na raiz dos grandes Movimentos Espirituais que comandam a Evolução do Homem e da Sociedade.

Quis o nosso Grão-Mestre, Professor Henrique José de Souza, que fosse Vossa Excelência a primeira personalidade a receber a consagração honorífica da nossa Ordem no seu mais alto grau: a Grã-Cruz, pelos notáveis serviços prestados ao Brasil, à Humanidade e ao Mundo, ao lançar-se à imortal empresa de Brasília. Desejamos que Vossa Excelência sinta, no ouro e nas pedras preciosas que ornam esta condecoração, não o valor material de uma jóia, mas o símbolo da gratidão e do reconhecimento de todos os brasileiros, de todos aqueles que, como nós, da Sociedade Teosófica Brasileira, antecipamos no tempo a semente que frutificará em Brasília, na certeza de que está inaugurada a jornada final que nos levará à meta da grandeza do Brasil, que queremos seja farol de luz intensíssima a iluminar os caminhos da paz, da fraternidade, da justiça e da liberdade para todos os povos do Mundo.

Sensibilizado, o Presidente Juscelino Kubitschek agradeceu de forma eloquentemente concisa:

– Dentre as inúmeras manifestações que recebi pela construção de Brasília, nenhuma me tocou mais ao coração do que esta, por partir de uma Instituição que não se acha vinculada a nenhum grupo político ou religioso, nem possui nenhuma discriminação racial, e por ter sido talvez aquela que melhor entendeu o meu esforço na consecução desta grande obra.

Finalmente, no dia 25 de Fevereiro de 1972, Juscelino Kubitschek de Oliveira é consagrado no Templo de Maitreya, em São Lourenço (MG), pela viúva do Professor Henrique José de Souza, D. Helena Jefferson de Souza, tendo JK pouco antes da consagração falado num improviso brilhante:

– Eu me sinto, neste momento, profundamente emocionado, porque vejo em torno de mim homens, mulheres e crianças que me saúdam com um afecto especial, afecto que se tem transformado numa verdadeira protecção contra os temporais que me assaltaram neste mundo e na minha vida pública.

(…) erguemos a cidade que vai ser a Sede Espiritual da Civilização no Terceiro Milénio. Considero-me feliz porque pude realizar, em vida, a profecia de um santo, feita em 1883, na qual afirmava que, na terceira geração, surgiria naquele Planalto, entre os paralelos onde justamente se encontra Brasília, a cidade que viria a ser a capital do mundo latino no Terceiro Milénio. Toda a área espiritual, não só do Brasil mas também do Mundo, acompanhou-me naquela grande, audaciosa e sagrada aventura de transportarmos para o centro do País a chama que há quatro séculos procurava atravessar as cortinas difíceis que isolavam o Brasil da sua integração e do seu contacto com todo o seu território.

Ao chegar certa vez a Paris, fui procurado por pessoas da mais alta responsabilidade, que me convidavam para uma reunião de cunho espiritual. Compareci. E lá me disseram eles que vinham estudando a marcha da Civilização no Mundo. Da Grécia, de Roma, da França, e que, num determinado momento, esta Civilização saltaria o Atlântico e desabrocharia num território até então desconhecido, inteiramente misterioso para eles. Suponham que eles estavam errados nas previsões que haviam feito, mas, subitamente, aparece um homem que anuncia a construção de uma cidade e, mais do que uma cidade – diziam eles – é esta área que vai conter toda a Espiritualidade no Terceiro Milénio, e que esta cidade era Brasília. Verificaram então que eles tinham razão nos estudos. Nas suas pesquisas, nas suas preocupações, e ali estavam para saudar o homem que havia realizado uma aspiração de tantos e tantos milhões de pessoas distribuídas não apenas no Brasil, mas em toda a superfície da Terra.

A minha vida pública, movimentada como foi, tomava-me inteiramente o tempo e só depois que a adversidade interveio no meu caminho é que eu pude sentir todas estas Forças Espirituais se reunindo em torno de mim, para me confortar e para me ajudar na caminhada difícil. Em todos os pontos do Mundo em que estivemos, de há oito anos para cá, fui sempre procurado por pessoas, como as que aqui se encontram, e que estão reunidas apenas por um elo espiritual que as torna fortes, poderosas, porque sonham, acima de tudo, com o bem-estar, com a paz e com a tranquilidade da Humanidade. Ao ser recebido hoje, percorro o caminho que fiz em toda a minha vida e posso evocar aqui uma figura que desapareceu o ano passado, na idade de 98 anos, e que viveu uma vida pura e espiritual – foi a minha mãe – que durante 50 anos, todas as manhãs se levantava para ir à missa, comungar e rezar em homenagem e intenção do seu filho.

Eu acredito sinceramente no primado dessas Forças Espirituais que são mais poderosas do que as estruturas de ferro e de aço ou de cimento. Porque elas têm em si essa força imanente que vem das idades mortas, vicejam hoje e prosseguirão até ao fim dos tempos e, quando me vejo cercado por pessoas que assim pensam, eu me dou verdadeiramente por feliz e com a minha missão plenamente cumprida, porque o poder é um instrumento extraordinário para se fazer o bem ou para se fazer o mal. Tive sempre a preocupação, quando nas minhas mãos empunhava o ceptro do Brasil, de ter a maior atenção e o maior cuidado com as liberdades, com os direitos dos meus concidadãos e sobretudo com aquela ideia que vem de longe, que vem da Grécia, de que não se deve praticar uma injustiça, e repetia sempre, como Platão fazia, que preferia receber uma injustiça antes do que praticá-la. Esta foi uma norma que procurei seguir. Devo ter praticado inúmeros erros, mas a minha intenção foi sempre generosa no sentido de respeitar estas Forças imanentes do Espírito que aqui agora estão reunidas, no momento em que vamos praticar esse acto simbólico com o filho de um nosso ilustre companheiro, querido amigo e velho companheiro que é Adriano (Climério Sidney). Eu agradeço esta oportunidade que Deus me proporcionou, de aqui estar no meio de todos os senhores e senhoras da Ordem do Santo Graal, e volto para o Rio de Janeiro mais fortalecido no meu íntimo, convencido de que estas Forças que aqui estão, estas palavras que aqui ouvi, não vão ser em vão. Elas vão desabrochar em frutos e flores, não só para mim mas para todos aqueles que querem servir ao Brasil, querem fazer o bem e proporcionar a paz à Humanidade.

Agradeço muito pelas magníficas palavras que acabo de ouvir e podem estar certos, meus caros amigos, que eu estava evocando ali há pouco, ali fora, um acontecimento comigo em Washington, no ano de 1963, quando, durante um banquete no Departamento de Estado do Governo Americano, o Ministro de Estado, que me saudava, dizia que a letra mais poderosa no Mundo no momento, era a letra K, que ela representava três homens que tinham nas suas mãos quase que o destino da Humanidade: Kennedy, Kruschev e Kubitschek.

Um ano depois, Kennedy já não existia, Kruschev já estava apeado do poder e eu estava no caminho da minha adversidade, com todos os temporais que os senhores conhecem. Mas nem um momento sequer eu senti a tristeza ou a dor de me sentir divorciado do meu País, porque onde vou, aqui, no norte, no sul, no centro e onde chego, sempre encontro estes corações generosos que me procuram, me dão o conforto da sua palavra, o estímulo da sua amizade e a esperança do que eles querem para mim.

De modo que ao deixar São Lourenço, depois de uma solenidade tão encantadoramente espiritual, eu levo mais uma vez a convicção de que vale a pena a gente lutar para não errar, ter sempre a intenção de praticar o bem, porque teremos connosco e atrás de nós estas filas de corações amigos que estarão sempre diante da sua consciência e diante de Deus, pedindo para ajudar a gente nas lutas, nas dificuldades e nos temporais de que é tão fértil a existência.

Independentemente das ideologias pouco ou nada espiritualistas da maioria dos arquitectos de Brasília, ainda assim a espiritualidade fez-se inspirar na concepção urbanística e arquitectural da cidade, com muitos dos seus projectistas e arquitectos confessando não saberem donde lhes vinham esses rasgos súbitos de inspiração iluminada. Acerca disto, é dito que os preclaros Membros do G.O.M. (Governo Oculto do Mundo) têm como melhores para serem por Eles guiados, com total desconhecimento disso e consequentemente sem perigos físicos e sobretudo psicomentais, assim descartando deturpações lesivas do pretendido em arquétipo, são os “intelectuais materialistas crónicos”. Nisso, lá terão as suas razões, como essa da casta mais elevada (brahmane ou sacerdotal) inspirar directamente a casta menos elevada (shudra ou popular), evitando assim, devido ao mental quase virgem, alterações psicomentais do que pretendem induzir.

Adazir Martins Ortiz escreveu um estudo valioso descritivo da planta e arquitectura da cidade de Brasília[25], que me irá servir de guia pelas artérias e monumentos desta Capital Federal do Brasil Presente-Futuro, vibrando sob a égide do Arcano 15 (A Grande Luz, Astaroth) a ver com o paralelo do mesmo número, e igualmente com o valor do ano da chegada dos lusos ao Porto Seguro de Vera Cruz (nome que se quis dar a Brasília em 1956, depois substituído por este).

Inicio pela análise do seu plano urbanístico, chamado Plano Piloto. Em 1957 (soma Arcano 22), Lúcio Costa venceu, com verdadeiros rabiscos, o concurso para a construção do plano urbanístico da cidade, concorrendo contra projectos caríssimos minuciosamente apresentados. O número de inscrição do seu projecto foi o 22 (novamente aparece o Arcano 22, indicativo de A Vitória, de o Poder no sentido elevado da consciência e da inteligência, portanto, significa aquele que possui todo o Poder, só limitado pela sabedoria e a inteligência).

A letra hebraica desse Arcano tem o valor 400, é o Thau, que nesse alfabeto primitivamente se representava por uma cruz, e foi assim que Lúcio Costa explicou o seu projecto: “Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse; dois eixos cruzando-se em ângulo recto, ou seja, o próprio sinal da cruz”. Cabalisticamente, a Cruz é a signa da Terra.

Lúcio Costa imaginou para Brasília o formato de um avião. Seria, sem o saber, uma antevisão do Homem Alado do futuro Quinto Sistema de Evolução Universal?

Colocou as suas asas no eixo Norte-Sul, com a frente para o Leste; levando-se em consideração o movimento de rotação da Terra, poderá dizer-se que esse Homem Alado caminha, antes, voa em demanda do seu grande destino. Colocou a suprema direcção do país – Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal de Justiça – na cabeça do projecto, pois é do cérebro que partem todas as directrizes. Essas três construções, dispostas estrategicamente, formam um triângulo perfeito, sendo a primeira vez no Brasil que o funcionamento das suas instituições políticas encontrou no urbanismo e na arquitectura a harmonia que a própria Constituição estabeleceu entre os Três Poderes da República.

Chegando-se à Praça dos Três Poderes, ninguém fica insensível, ante o conjunto dos seus edifícios, à mais alta expressão do Poder emanado para todo o Povo brasileiro. A praça firma a consciência cívica do cidadão e leva-o a sentir toda a plenitude, a força e a majestade do Governo que, apercebe-se, não é só física.

Eixo Monumental, que parte da Praça dos Três Poderes, tem 12 quilómetros de extensão, com o seu início na Esplanada dos Ministérios. Ao longo do trajecto estão o Palácio do Itamari, a Catedral, o Teatro Nacional, o cruzamento com o Eixo Rodoviário, sectores de diversões, sectores hoteleiros, Torre da TV, Cruzeiro de Brasília e finalmente a Estação Rodoferroviária. Em 1960, existiam onze ministérios. A Catedral, embora esteja no Eixo Monumental, está localizada numa praça particular, como a indicar que a Igreja e o Estado devem estar separados, porque a Autoridade Espiritual (a Formação) é uma e o Poder Temporal (a Direcção), bem outro. Quando, invés de estarem equilibrados entre si e, todavia, distintos, misturam-se confundindo-se caoticamente, inevitavelmente acontecem as ditaduras político-sociais, onde o povo é quem mais sofre. Portugal e o Brasil conhecem bem essa triste realidade de um passado recente, para ser necessário adiantar mais alguma coisa a respeito.

Em frente à Catedral, porém do outro lado do Eixo, encontra-se o Teatro Municipal, e um pouco mais adiante, na asa Norte, tem-se a Universidade Federal – isso para completar a tríade iniciática Escola, Teatro, Templo.

O Eixo Rodoviário, que abrange as asas de avião levemente curvas, tem 11 quilómetros de extensão e destina-se à parte residen-cial. Em que melhor lugar Lúcio Costa poderia ter colocado o povo, visto que são as asas que mantêm o vôo e é o povo que faz um país?

Em cada asa tem-se 4 grupos de 16 superquadras, e nisso se tem 16×4 = 64 e 6+4 = 10. Este algarismo é considerado o do Mundo Perfeito na Kaballah judaico-cristã. Em cada superquadra existem 11 prédios, cujos andares são sempre divisões de 12. Desde logo se realça a presença destacada dos Arcanos 11 e 12, respectivamente, A Coragem e O Sacrifício segundo o Tarot Sacerdotal.

Se no plano urbanístico está plantada simbologia esotérica, na arquitectura ela se firma definitivamente. Oscar Niemeyer, notável projectista nada afeito a metafísicas e ainda assim por certo veículo inconsciente de Forças Inspiradoras bem mais elevadas na excelsitude da Sabedoria Iniciática das Idades, deixou à posteridade os mais significativos sinais esotéricos. A mais importante arquitectura do Planalto é, sem dúvida, o Congresso Nacional, transformado no emblema-mor de Brasília, conhecido no Mundo inteiro.

O corpo dessa construção é composto de dois edifícios gémeos, voltados um para o outro (como se expressassem o simbolismo dos Gémeos Espirituais). Cada um possui 28 andares (este o número prodigioso dos asterismos lunares, ou duas vezes 14 do mistério solar; 12+2 signos ocultos do Zodíaco, representados por Urano e Neptuno = ao mito iniciático dos 14 “pedaços” de Osíris). 28+28 = 56, o número dos Arcanos Menores; 5+6 = 11, o Arcano Maior expressando a Força, a Energia, o Trabalho e a Acção sob a égide do Sol. É o edifício mais alto de Brasília, nenhum outro pode ser mais elevado do que ele, para que nada esteja acima do Poder Maior. Esses dois edifícios ligam-se nos andares 13, 14 e 15 formando um H, representativo do Homem Divino, do Plano Vertical da Evolução. Tais prédios centrais são ladeados por duas conchas: o Senado e a Câmara dos Deputados. Se se unir essas conchas, ter-se-á o círculo, simbólico do Eterno, de “Aquele que não tem Princípio nem Fim”. Se traçarem-se rectas em função das conchas, ter-se-á dois triângulos opostos configurando o hexalfa, indicativo da manifestação dos Mundos Espiritual e Material neste mesmo último plano horizontal. Isso para significar que as decisões do Congresso Nacional devem estar baseadas na interligação dos Planos Espiritual (Purusha) e Material (Prakriti). Segundo Niemeyer, as conchas representam: a virada para cima a Câmara, como seja o recebimento da Luz Divina e do calor do Sol; a virada para baixo o Senado, e onde se deposita a Luz Divina e o calor do Sol sobre o povo que aqui habita. Para a Tradição Iniciática, elas também representam a Lei da Polaridade que, juntamente com o H, expressa o Homem Primordial no Terceiro Trono na sua plenitude de “Andrógino em Separado”, Adam-Heve.

Tudo isso tem como base um andar no subsolo, representando os Mundos Subterrâneos, alicerce de toda a estrutura do imóvel e, mais que isso, alicerce Aghartino donde deve afluir toda a inspiração coordenadora ao Governo Político do Brasil. Esses edifícios gémeos parecem boiar sobre um espelho de água adiante, onde deveriam vivem cisnes brancos e negros. A água é simbólicas das “Águas Celestes” ou Akáshicas (quinto elemento, quintessência) da Divindade do Segundo Trono, Adam-Kadmon, e os cisnes nas cores branca e negra expressam a natureza dual dessa mesma Divindade: a Polaridade criada a partir do momento em que a Evolução foi impulsionada, em que a própria Divindade se sacrificou ao projectar-se a si mesma como Espírito, no acto de criar a Matéria, simultaneamente participando das duas naturezas: a Mãe no Filho e o Filho na Mãe – eis o Mistério do Espírito Santo!

A Cosmogénese e a Antropogénese do Deus Akbel subentendem-se acharem-se gravadas nas linhas dessa arquitectura. Expressa o Mundo das Leis (Segundo Trono), ou segundo as palavras de Juscelino Kubitschek: “É o cérebro das mais altas decisões nacionais”. Posto assim, é o Deus feito Homem Uno-Trino.

Ao candango, trabalhador braçal de Brasília, para distinguir essa construção das demais, deu-se-lhe o número 10 – número do Mundo Perfeito, aqui Brasília ou “Pequeno Brasil”, semente da original Política Sinárquica perante o Futuro do Mundo. Como Arcano é essa mesma Necessidade, o que expressa a Roda da Fortuna ou Samsara, fortuna essa representada na felicidade do ser que se imortalizou ao superar essa mesma roda ou ciclo dos renascimentos e mortes e passado a viver na felicidade contínua dos Mundos Interiores.

Atrás do Congresso, na Praça dos Três Poderes, vão-se encontrar novamente os Gémeos Espirituais, na escultura de Bruno Giorgi, Os Guerreiros. Segundo o autor, representam os pioneiros que, atendendo a JK, construíram Brasília. Mas bem posso acrescentar: que melhor nome poderiam ter senão Os Guerreiros, os Gémeos Espirituais brasílicos que, atendendo ao apelo cíclico do Eterno, vêm construindo a Humanidade, vêm preparando a Mónada Humana desde a Alvorada dos Tempos?

Isso mesmo é assinalada nesta mesma praça por um imenso pombal, posto a Pomba do Santo Graal expressar-se como símbolo do Espírito Santo criador de Helius e Selene, Sol e Lua, como sejam Adam e Heve, para não dizer, El Rike e El Lena.

Como não podia deixar de ser, a Bandeira Nacional tremula nesta Praça dos Três Poderes. O mastro é feito com 24 hastes metálicas dispostas em círculo (2+4 = 6, Arcano A Beleza). Tem também o sentido de “União ou Desunião dos dois Poderes”; é sinalético do Amoroso Akbel, cujo Amor em favor da Evolução da Humanidade por meio da sua Sabedoria conduz a esta de volta à Suprema Unidade, à “Casa do Pai”, o Primeiro Trono. Que melhor Arcano poderia vibrar na Bandeira desta Taba de Brasília? É o símbolo do diálogo de convergência de todas as unidades federais do país e dos três poderes da República, esta que é, apesar de todas as suas insuficiências, “uma Sinarquia exotérica” (JHS). A mensagem no mastro diz: “Sob a guarda do Povo Brasileiro, nesta Praça dos Três Poderes, a Bandeira, sempre do alto, visão permanente da Pátria”.

É bem verdade por expressar a integridade do Poder Nacional, uno, trino e sétuplo, a saber:

Segundo os caríssimos Lupércio Gonçalves e Aulus Ronald Cirillo[26], na Bandeira do Brasil contém-se todos os princípios sinergéticos e meios psicossociais constituintes do mesmo, como elementos indispensáveis à sua Ordem e Progresso como Nação independente. Todo esse maravilhoso metabolismo está realmente ajustado nas proporções do símbolo máximo do país, como se pode observar:

Em Brasília, a bandeira é hasteada no primeiro dia de cada mês por meio de torpedos e de um tubo-guia de 86 metros de altura (afim ao valor do Arcano 14 que assinala O Equilíbrio: Transformação, Superação, Metástase), o qual apoia-se em 10 dobradiças que permitem um ângulo de 160º. A Bandeira tem 286 metros quadrados, com tal valor também assinalando o Arcano 16: A Rebeldia Celeste, esta que é um processo dinâmico de romper a inércia universal, tanto colectiva como singular.

A bandeira de Brasília, criada por Guilherme de Almeida e oficializada no dia 26 de Agosto de 1969, é assim descrita pelo seu idealizador: “Sobre um campo branco, símbolo de paz, nas auras dos tempos que hão-de vir, opõe-se escudo quadrangular de sinople, com uma caderna de setas de ouro em cruz, farpadas e emplumadas moventes do centro”. As quatro setas representam os pontos cardeais, como a dizer que tudo se emanará de Brasília, a Capital do III Milénio, a Cidade do Futuro no Presente e, segundo o Professor Henrique José de Souza, igualmente significativo do arranque do 5.º Sistema de Evolução Universal em formação já assinalado pela futura 5.ª Ronda da Terra, afinal o V Império do Mundo aqui tendo a sua arrancada, como bem demonstra ou tão-só sugere o seu lema: Venturis ventis! – Aos Ventos que virão!

Foi de quatro pontos cardeais que vieram os pioneiros, os candangos – palavra africana que significa “homem branco”, mas para o brasileiro, “bandeirante moderno”. Eles vieram do Norte, Nordeste, Sul, Oeste e Sudeste atrás da grande esperança, chamados por uma voz interna para que em Brasília se desse o mesmo fenómeno que construiu o Brasil: o caldeamento racial, já não somente luso-tupi mas de todos os povos da Terra.

Deve observar-se também o Memorial JK, construído na Praça do Cruzeiro, no mesmo lugar onde foi rezada a primeira missa em Brasília, em 3 de Maio de 1957. O Memorial é sem dúvida o melhor lugar para o descanso eterno de JK, na Praça que possui o símbolo sideral brasileiro: o Cruzeiro do Sul. Ele é uma pirâmide truncada repousando sobre um espelho de água. A sua placa comemorativa diz: “Aos 12 dias do mês de Setembro de 1981…”, dia do aniversário de Juscelino, pelo que nasceu sobre a influência do Arcano 12, O Sacrifício, a expiação que é bem patente na difícil arte de governar. Dirigir um país é dar-se em sacrifício, é renunciar a si mesmo, é ter preocupações constantes, é ter vitórias e derrotas. Este Arcano vale no sentido Divino e Humano. A Divindade em forma Humana sacrifica-se mais do que se possa imaginar.

O Memorial tem 120 metros de comprimento (ainda o Arcano 12). Sobre a plataforma de 28 metros (o prodigioso número), Juscelino acena para a cidade. Essa escultura tem 4,5 metros de altura, o que transpondo dá o Arcano 9, A Superação, designativo da Perfeição Humana, e mesmo que Juscelino como ser humano não tenha alcançado a Perfeição deste Arcano, todavia ele ouviu a voz que lhe segredou, lhe inspirou e induziu a realizar tão gigantesca obra; a escultura pesa 1,5 tonelada (o que transfere ao Arcano 15 de A Grande Luz ou a Inteligência em acção). A entrada no Memorial é subterrânea, lá está a sua biblioteca (lembrando aquelas outras Bibliotecas do Mundo de Duat, diria um teósofo) com mais de três mil volumes; no primeiro andar está a câmara mortuária, e ao alcançá-la tem-se a sensação de se ter mudado de Plano, tal é o impacto que oferece ao visitante com a sua penumbra, somente quebrada pelas luzes das vitrines onde se encontram as suas condecorações, dentre elas a Grã-Cruz da Ordem do Santo Graal.

Observe-se agora a Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida, com altura e capacidade para quatro mil pessoas (como Arcano 4 é O Reflexo de Deus). Possui a forma de um cálice emergindo da terra, com parte subterrânea ligando a Cúria, a Sacristia e o Baptistério. A sua entrada é feita por um túnel escuro e ao chegar-se à nave, fantasticamente iluminada por luz natural, fica subentendido o significado do V.I.T.R.I.O.L. (Visita Interiora Terris Rectificando Ocultum Lapidem): o homem deixa o mundo de treva para penetrar no Mundo da Luz. A sua forma circular é sustentada por 16 colunas (novamente o Arcano 16, como A Casa de Deus) que, por sua vez, sustentam no alto um círculo menor (é o Infinito, o Macrocosmos, como sustentáculo do Finito, do Microcosmos), onde está plantada uma cruz, símbolo astrolático da Terra indicativo do o Templo ser a expressão estática do Homem Cósmico Adam-Kadmon, o Segundo Trono projectado na Terra como Terceiro, o Adam-Heve caído no “pecado original” ou a mortal contracção do Karma ou Débito que leva, desde então, o Homem a peregrinar pela Terra e a conquistar sabedoria, maior consciência, pelas experiências do sofrimento.

Toda a estrutura repousa sobre um espelho de água, como as águas azuis e doces do Akasha, que se reflecte, pelas paredes envidraçadas, para dentro da nave (é o próprio Reflexo de Deus do Arcano 4 que aí se faz materializado). Ela possui no tecto, dependurados, três Anjos em alturas diferentes, representativos das Hierarquias Criadoras – Arqueus, Arcanjos, Anjos – cada uma em seu Plano – Mental, Emocional, Vital – expressando a Trindade Eterna de que o Homem é a síntese, ou, segundo o seu idealizador Oscar Niemeyer, representam os Mistérios da Anunciação, Ressurreição e Redenção (da Humanidade) e os três Arcanjos: Miguel, Rafael, Gabriel. Fora do Templo, no seu portal, como Guardiões da Palavra, estão os quatro Evangelistas: à esquerda Mateus, Lucas e Marcos, que escreveram sobre a vida pública de Jesus, e à direita está João, que escreveu sobre a individualidade espiritual do Cristo.

O santuário de Nossa Senhora de Fátima, de formato triangular, foi o primeiro templo de Brasília, mandado erguer para pagamento de uma promessa feita por D. Sara Kubitschek, esposa do Presidente. Foi construído em 400 dias (de novo o Arcano 4, também fazendo lembrar os 40 anos da peregrinação de Moisés e o seu povo pelo deserto; os 40 dias sobre o Monte Sinai em meditação para trazer os Mandamentos do Deus Manu; os 40 dias de jejum de Jesus, meditando no deserto sobre o sofrimento que O esperava como Ele sabia antecipadamente; os 40 dias e as 40 noites do Dilúvio a que sobreviveu Noé e os seus… Quarenta, ainda, é a idade da razão, em que se determina a criação activa, o poder da vontade). Foi inaugurado no dia 28 de Junho de 1958. Para esse templo o Papa Pio XII enviou uma bênção especial, dada a importância da relação entre Brasília e Nossa Senhora de Fátima. Em Brasília, é interessante notar que na rua onde ela está é a única que ganhou um nome, visto aí todas as restantes terem números: Rua da Igrejinha, assim chamada pelo povo.

A igreja de Dom Bosco destaca-se por sua incrível beleza. Tem a forma quadrangular e as paredes são compostas por 80 vitrais (o Arcano 8 é A Lei, o Equilíbrio, é a Justiça emanada de Deus, a reacção equilibrante que constitui a ordem entre o Direito e o Dever. Segundo o Professor Henrique José de Souza, é “a luta da cegueira contra a iluminação”). Esses vitrais estão confeccionados em 16 tons de azul e em 16 tons de púrpura. No final da tarde, em dias límpidos quando Brasília se cobre de dourado da luz do Sol poente, a igreja torna-se azul luminosa. Este templo de Dom Bosco, construído em homenagem ao padroeiro no lugar por ele predeterminado – entre os paralelos 15º e 20º, às margens do lago Paranoá, como na sua visão – é de construção simples, obedecendo a linhas piramidais.

De entre todos os palácios de Brasília, responsáveis pelo surgimento da arquitectura moderna brasileira (pois são de padrões vocacionados ao Futuro), o Palácio da Alvorada é sem dúvida o que mais chama a atenção, de imediato pelas suas 22 colunas com a forma de asas de cisnes. E com a mesma leveza com que eles nadam, o palácio parece pousado sobre a relva. É a residência oficial do Presidente da República e foi erguida em apenas 14 meses. Consta de três pavimentos: subsolo, térreo e superior (sinaléticos de Inferno, Terra, Céu); o hall de entrada mede 22×11 metros. A respeito dele, Lúcio Costa disse: “Casa grande com varanda corrida e capela anexa; tomou conta do lugar e lhe marcou, de saída, os tonos: cidade moderna, voltada para o futuro, mas com raízes na tradição”. Isto para confirmar que todo o avanço só subsistirá se conservar as suas bases na experiência do Passado.

Na parte posterior do palácio encontra-se uma escultura, de Maria Martins, intitulada Ritmo dos Ritmos, o que lembra o Ritmo do Universo – o Ritmo dos Ciclos, o Ritmo sem fim dos Tempos, e, por analogia, faz pensar na Melodia das melodias, na Harmonia das harmonias, o que leva à Música das Esferas, que é a Música das músicas.

O Arcano 22 significa A Vitória, é a síntese de todos os Arcanos Maiores, a Mónada Vitoriosa a caminho da Unificação ou “Retorno à Casa do Pai”, donde havia saído como “Filho pródigo” para as experiências do Mundo. O Arcano 14 leva à Transformação, Superação, Metástase. O Arcano 11 é força, energia, trabalho, acção, vitalidade e coragem, todas estas qualidades necessárias para ser um bom governante.

Mas o facto mais interessante é que, embora quase todos os palácios tenham espelhos d´água, somente aí surgiu o costume de atirar moedas na água. Este facto é encontrado em Roma, na Fonte de Trevi, e ele conduz directamente ao Arcano XXI, A Libertação, onde se vê o Criador lançando as pelotas, monedas, moedas ou Mónadas inconscientes ao palco da Manifestação Universal, para as recolher, conscientes, no final dos Tempos.

O Memorial Tancredo Neves, o último a ser construído, é um projecto de Oscar Niemeyer. O prédio todo tem a forma de uma pomba alçando vôo, todo branco, no mais puro mármore. Forma o quarto elemento da Praça dos Três Poderes, é o próprio símbolo do Espírito Santo descendo sobre a Terra Brasileira. E, para completar a simbologia do lugar, foi construída, ao lado, uma Pira, onde o Fogo Sagrado da Pátria arde sem nunca se apagar. Para se alcançar a Pira, deve-se subir 57 degraus (5+7 = 12, novamente o Arcano 12, que fala de Sacrifício, a Divindade sacrificada para impulsionar a Evolução da Humanidade que, sem o Seu Amor e Sabedoria, jamais evoluiria. Sacrifício humano daquele que se dispôs a alcançar a Iluminação e, alcançando-a, sacrifica-se novamente por seus irmãos em Humanidade, como também aspecto todo o político deve sacrificar-se pela “coisa pública”, pelo bem comum dos seus concidadãos).

O cemitério de Brasília é espiralado. Espiral é símbolo do que se evola na evolução, é símbolo dinâmico, sempre em movimento. As suas avenidas formam um “Y” sobre a espiral, e nisso tem-se o Itinerário de YO ou a Mónada evoluinte através do corolário de vidas sucessivas, de raça em raça, de continente em continente, até desembocar finalmente na brasílica São Lourenço, de que Brasília é o seu aspecto político-temporal.

Defronte ao Palácio Itamarati existe uma escultura que bem demonstra a função do Brasil neste III Milénio: é o Meteoro, de Bruno Giorgi, cujas cinco partes representam os cinco continentes, estando sobre a água. É interessante notar que essa, como símbolo da Divindade em sua expressão Feminina, é o único elemento possuidor dos três estados: gasoso (humidade), líquido (água), sólido (gelo), assim representando a Trindade Eterna (gasoso = a Mãe no Pai; líquido = a Mãe na Mãe; sólido = a Mãe no Filho) assinalada em nome de mulher BRA-SÍ-LIA.

Existem mais dois monumentos significativos, como sejam o Mercúrio, que está no Colégio La Salle, como uma homenagem a Brasília, e o Monumento ao Infante Dom Henrique situado na Praça Portugal, sendo o monumento (da autoria do escultor português Salvador Barata Feyo) inaugurado em 13 de Novembro de 1960, em homenagem aos 500 anos do Infante D. Henrique, pelo Presidente Juscelino Kubitschek e o Embaixador de Portugal, Manuel Rocheta. A praça seria inaugurada quase doze anos depois, em 25 de Abril de 1972, pelo Presidente da República Portuguesa, Américo Thomaz.

Por fim, como cidade monumental de vocação futurista, deu-se o tombamento de Brasília como Património da Humanidade no dia 7 de Dezembro de 1987, o que vem provar que a Lei Maior zela pela preservação da capital do país assim a defendendo da especulação imobiliária e a preservando intacta em sua originalidade.

É neste lugar privilegiado que mais se sentem e calam fundo na alma as palavras proféticas de Henrique José de Souza:

– BRASIL! TU ÉS O SANTUÁRIO DA INICIAÇÃO MENTAL E MORAL DO GÉNERO HUMANO, A CAMINHO DA SOCIEDADE FUTURA. TEU NOME O DIZ: É EM TEU SEIO, NAS PROFUNDEZAS DO TEU SOLO, QUE SE MANTÊM VIVAS E CREPITANTES AS BRASAS DE AGNI, O FOGO SAGRADO!

NOTAS

[1] Cassiano Ricardo, Meu caminho até ontem (poemas escolhidos). Edição Saraiva, São Paulo, 1955.

[2] Valdemar H. Portela e Hernani Monteiro Portella, Brasília, Capital da Era de Aquário. Revista Dhâranâ, ano LVII, n.º 12, 1982, São Paulo.

[3] Yves Christiaen, La Mutation du Monde (De nouveaux cieux… Une nouvelle Terre – Essai d´une nouvelle conscience historique. La Roue Celeste, Dervy-Livres, Paris, 1978. Esta obra foi editada em português no mesmo ano, A Mutação do Mundo. Editora O Pensamento, São Paulo, 1978.

[4] Pier Carpi, As Profecias do Papa João XXIII. Edições António Ramos, Lisboa, 1977.

[5] Ronaldo Costa Couto, Brasília Kubitschek de Oliveira. Edições Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2001.

[6] Profecias e Trovas de Gonçalo Annes de Bandarra, Sapateiro de Trancoso. 2.ª edição – actualizada. Livraria Universal, Lisboa, 1942.

[7] Nostradamus, Profecias. Editorial Vega, Lisboa, 1978.

[8] Fábio Koifman (organizador), Presidentes do Brasil (De Deodoro a FHC). Rio: Universidade Estácio de Sá / Editora Rio. São Paulo: Cultura. 2002.

[9] João Bosco, homenageado pela Igreja a 31 de Janeiro. Filho de humildes camponeses, nasceu em Becchi, Itália, em 1815, e morreu em Turim em 1888. Ordenado sacerdote em 1841, interessou-se pela sorte dos jovens pobres e pela sua formação profissional, fundando para eles, em 1851, a Congregação dos Padres de S. Francisco (Salesianos), e em 1862 a das Filhas de Maria Auxiliadora (Salesianas). É o padroeiro dos operários aprendizes, e considerado o apóstolo da juventude. Foi canonizado em 1934. – In Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos, 2.ª edição. Lello & Irmão Editores, Porto, 1990.

[10] Juscelino Kubitschek, Meu caminho para Brasília, volume III – 50 anos em cinco, p. 171. Edições Bloch, Rio de Janeiro, 1974.

[11] “Tras il grado 15 e il 20 grado vi era un seno assai lungo e assai largo que partiva di un punto che formava un lago. Allora unna você disse ripetutamente, quando si verrano a scavare le miniere nascoste in mezzo a questi monti di quel seno apparitirà qui la terra promessa fluente latte e miele, sarà una ricchezza inconcebilie. – Memorie Biografiche, t. XVI, p. 385-394. Giovanni Battista Lemoyne, Memorie Biografiche di Don Bosco, 20 v. Escuela Tipográfica Salesiana, San Benigno Canavese, 1898-1948.

[12] Manuel Joaquim Gandra, Martinets de Pasquallys e a Tradição Quinto-Imperial. Prefácio ao livro de Martinets de Pasquallys, Tratado da Reintegração dos Seres Criados. Edições 70, Lisboa, 1979.

[13] Jean de Varende, no seu livro Les Gentilhommes, afirma que desembarcavam em La Rochelle os metais preciosos provenientes da América, com a qual os Templários mantinham contactos comerciais e culturais. A credibilidade do facto fica atestada pelas Cartas de Piris Reis. Cf. Teoria Nova da Antiguidade, Ed. Minerva, Lisboa, onde Sampaio (Bruno) traça a rota de Ulisses, de acordo com a Odisseia, passando pelas Américas…

[14] Menasseh Ben Israel (Manuel Dias Soeiro) escreveu uma obra intitulada Esperanças de Israel, ex Jerm. 14, 8 – publicada em Amsterdão em 1698 e reeditada, em edição limitada de Santiago Perez Junquera, em Madrid em 1881 – baseando-se no relato de um português que viajou pelas Américas nos princípios do séc. XVII, e que de lá regressou, perseguido por Judaísmo, afirmando ter encontrado, entre os indígenas, descendentes das tribos perdidas de Israel…

[15] O Paraíso Terreno, associado à Ilha Encoberta, foi um tema persistente, que tomou forma cristianizada na lenda de S. Brandão: cf. Miguel Asín Palacios, Dante y el Islam, Madrid, 1927. As mais remotas lendas irlandesas, e não esqueçamos as relações entre a Península Ibérica e a Irlanda desde as épocas mais recuadas, falam de uma ilha encantada, situada a Ocidente – que ora era visível, ora o não era –, denominada O’Brazil.

[16] Cf. Margarida Barradas de Carvalho, L’Ideologie religieuse dans la “Carta de Pêro Vaz de Caminha”, in Bolletin des Études Portugaises et de l’Institut Français au Portugal, n.º 22, 1960, pp. 24 e segs.

[17] Cf. José António Maravall, La Utopia político-religiosa de los Franciscanos en Nueva España, in Estudios Americanos, 1 (1949), pp. 197-227. Não esqueçamos a extraordinária actividade desenvolvida pelo Padre António Vieira, arauto do Reino de Deus à face da Terra, cujo anúncio fez na História do Futuro, in Obras Escolhidas, Col. Clássicos Sá da Costa, vols. VIII e IX.

[18] Pinharanda Gomes, História da Filosofia Portuguesa – A Filosofia Hebraico-Portuguesa. Lello & Irmão – Editores, Porto, 1981.

[19] Benjamin Schmidt, A esperança dos Países Baixos: Menasseh Ben Israel e o Ideal Holandês da América. Em Paolo Bernardini e Norman Fiering (editores), Os judeus e a expansão da Europa para o Ocidente, 1400-1800. Nova York, 2001.

[20] Ambrósio Fernandes Brandão, Diálogos das Grandezas do Brasil, 1618. Edição com introdução de Capistrano de Abreu e notas de Rodolfo Garcia, Livraria Progresso Editora, Rio de Janeiro, 1930.

[21] Fray Diego Durán, Historia de las Indias de la Nueva España y Islas de Tierra Firme. Conaculta, México, 2007.

[22] Miguel Henrique Borges, JK JK! A Conexão Esotérica. Editora Aquarius 2005, Rio de Janeiro, 2002.

[23] Afonso Heliodoro, JK exemplo e desafio. Edições Thesaurus, Brasília, 1991.

[24] Juscelino Kubitschek, A Marcha do Amanhecer. Bestseller, São Paulo, 1962.

[25] Adazir Martins Ortiz, Brasília e seus Mistérios. Revista Dhâranâ n.º 4, ano LXIII, 1989, São Paulo.

[26] Lupércio Gonçalves e Aulus Ronald Cirillo, A Doutrina da Escola Superior de Guerra à luz das Leis e Princípios Universais. Edição dos autores, São Paulo, 1978.

Iconologia Mítica (Do Dragão dos Lusos à Virgem de Portugal) – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Mar 7 2017 

A mitologia greco-romana outorga fundação divina à Lusitânia e ao seu natural, o lusitano, pretendendo-o descendente de Luso (pressuposto filho do deus Baco ou Dioniso e da semi-deusa Ariadne), que com a sua progénie veio povoar as actuais terras do Centro de Portugal e da Estremadura espanhola.

Esta suposta existência genesíaca do deus Luso deriva da expressão lusum enim Liberi patris contida na obra Naturalis Historia, de Plínio, o Velho (Como, 23 – Stabia, 79 a.C.). Muitos autores contemporâneos consideram errada a interpretação lusum ou lusus como nome próprio, em vez de um simples substantivo que significa “jogo”. Mas Marco Terêncio Varrão (116 – 27 a.C.), numa interpretação livre dessa obra, informa que “(…) o nome Lusitânia deriva dos jogos (lusus) do Padre Baco, ou da fúria (lyssa) dos seus acólitos frenéticos, e que era o governador de toda a região” (1). Isto teria sido lido por André de Resende como “(…) o nome Lusitânia deriva de Luso do Padre (pai ou mestre) Baco (…)” (2), e portanto foi interpretado que Luso seria um companheiro ou filho do furioso deus. É esta a leitura contida na estrofe XXII do Canto III de Os Lusíadas, de Camões:

Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os Íncolas primeiro.

Mas para a mitologia romana foi Baco quem conquistou a Ibéria, dizendo o grego Plutarco (46 – 119 d.C.): “Depois de Baco ter conquistado a Ibéria, deixou a governar como seu representante, que deu o seu nome à região, chamando-a de Pania, que por corruptela se tornou em Hispânia”.

Quanto à expressão grega lyssa, literalmente “fúria frenética” ou “loucura”, típicas de Baco/Dioniso, será alusão ao estado exaltado dos participantes dos Mistérios (“Jogos”) de Lusus, mistos de guerreiros e apologéticos entre os lusitanos, que os romanos associaram ao culto dos Faunos filhos de o filho de Baco, donde atribuírem origem báquica à Lusitânia e tomarem como o seu governador sobrenatural. Os Mistérios de Lusus eram em Roma os de Baco, e na Grécia os Dionisianos de que saíram os Órficos, de Orfeu.

Se Zeus/Júpiter é pai de Baco/Dioniso, associado a Hermes ou Mercúrio, e este o progenitor de Pã ou Saturno jovem (contrário ao Saturno velho que é Cronos, deus do Tempo), então o Luso é topónimo mítico que os autóctones da Ibéria receberam da cultura greco-romana mercê desta confundir a religião natural daqui com os deuses antropomórficos da sua própria mitologia religiosa.

Isso por os deuses lusitanos terem estado em sintonia tanto com os do panteão celta como do romano, assimilando elementos cultuais de ambas as etnias, que influenciariam as crenças locais; por sua vez, várias divindades lusitanas foram assimiladas pelos romanos.

O panteão dos deuses lusitanos e calaicos ou galaicos foi bastante rico, apesar de hoje só existir cerca de uma centena de registos acerca deles. Todavia, acredita-se que no Passado da Lusitânia houveram mais de mil divindades, sendo a sua maioria relacionada com lugares de incidência geotelúrica como, por exemplo, bosques, grutas, montanhas e rios.

Na Lusitânia e Callaeci o culto era politeísta, excepto na tribo Cónia que era monoteísta. O deus único dos Cónios era Elohim, mas as restantes tribos veneravam vários deuses sistematizados numa cosmogonia plural sui-generis, que tornava os cultos diversos entre si, de tribo para tribo. No entanto haviam pontos em comum, como os dos cultos solar e lunar e o necrolático da memória dos ancestrais. Igualmente existiam cultos tutelares de tribos e de locais distintos. Nesses locais havia adoração natural a certas árvores, rios, ribeiros, lagos, montanhas, grutas, etc. Na prática religiosa e de forma a apaziguar os deuses, estes povos praticavam a imolação. Era comum sacrificarem cabras, ovelhas ou touros, sendo mais incomum o sacrifício de cavalos e de homens, estes  que por norma eram prisioneiros de guerra. Uma das características principais das religiões da Lusitânia eram os presságios ou augúrios, e para isto consultavam os astros, consultavam as entranhas dos animais, observavam o voo das aves e o crepitar do fogo nos actos divinatórios.

Os deuses lusitanos e calaicos teriam essencialmente três funções: de poderes infinitos (justiça, bem), de guerra (bravura, força física, soberania) e de fecundidade e bem-estar. De entre os deuses mais venerados, sobreviveram até ao presente os nomes de alguns deles: Quangueio (o criador, a fecundidade), Arência e Arêncio (guerreiro, a força), e Trebaruna (a soberania), pelos lusitanos; Bande (a soberania), Nabia (a fecundidade) e Reve (a força), pelos calaicos; Endovélico (o poder civil), Atégina (a produção social, a fecundidade) e Runesius (a classe militar) pelos celtiberos; finalmente os cónios, que adoravam o deus único Elohim. Acreditavam que a morada divina dos deuses seria a constelação da Barca ou a Ursa Maior.

Na obra épica de Luís de Camões, Os Lusíadas (dedicada aos mesmos lusos, com primeira impressão em 1572), Luso foi o progenitor dos lusitanos e o fundador da Lusitânia. Para os portugueses do século XVI, era importante olhar para o passado anterior ao domínio árabe e encontrar as origens da Nacionalidade. Os visigodos não seriam os antepassados ideais, devido ao arianismo que professavam, considerado herético pelas autoridades eclesiásticas desse século. Assim, olhou-se para a mais alta cultura de Roma, origem de um catolicismo puro, e para o povo que habitava o território de Portugal antes e durante o domínio desse império.

Com o impulso da obra literária de Camões, e posteriormente com a ênfase que lhe foi dada durante o Estado Novo, ter-se-á popularizado pelo mundo a interpretação da existência de Luso como personagem mitológica entrada no domínio histórico.

Da mitologia e etnografia religiosa lusitana ficou, para sempre, a figura principal do seu bestiário cedo aproveitada para encimar as Armas portuguesas: o dragão. Popularizou-se a tradição mítica desse animal fantástico ter estado no pano da pressuposta bandeira do caudilho lusitano Viriato, e que continuou sendo a dos lusos mesmo depois daquele ter sido assassinado, enquanto dormia, pelos seus três companheiros subornados por Cipião, governador romano da Lusitânia, corria o ano 140 a.C., ou sejam, Audax, Ditalkon e Minuros.

Segundo a mesma lenda patrológica, a bandeira dos lusitanos era muito simples: um pano branco com um dragão verde ao centro. O branco ficou como cor síntese realçando o verde do dragão, cujos pés de leão significam a fortaleza, as asas de águia a sabedoria e a velocidade, e a cauda de serpente a astúcia, a estratégia e a vigilância. O verde foi inspirado não só por causa dos bosques exuberantes da Lusitânia mas sobretudo como indicativo do poder telúrico da mesma Natureza, ao qual os celtas davam essa forma dracónica chamando-lhe wyvern, topónimo adoptado na cultura popular portucalense como coca e serpe, a quem a cidade alentejana de Serpa deve o nome, enquanto a cidade do Porto mantém nas suas Armas o mesmo dragão telúrico dos celtas e calaicos. Quanto ao verde, ele permanece na última versão da Bandeira portuguesa e na actual do Brasil.

Seja como for, convém ressalvar, não há nenhum registo escrito contendo a forma correcta da bandeira dos lusitanos, havendo divergência entre os autores sobre a forma do dragão e o seu posicionamento no pano da mesma. A versão aqui apresentada é a mais aceite.

Muito cedo o dragão verde passou a figurar na heráldica nacional e com ele figurando na bandeira dos cavaleiros da Ala dos Namorados, chefiados por D. Nuno Álvares Pereira, Portugal garantiu a sua independência com a vitória na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de 1385.

Com efeito, no campo mitológico português o dragão é o maior exemplo de difusão ancestral, com o duplo significado de domínio e protecção, e por ser verde os antigos associaram-no ao planeta Vénus, o Lúcifer dos latinos e a Stella Matutina dos povos pastores. Além de pressupostamente ter figurado na bandeira dos lusitanos, o dragão figurou igualmente na dos suevos e hoje é representado na dança da coca, no Minho, propriamente na vila de Monção, por isto mesmo conhecida como a “terra da coca”, esta chamada de “santa coca” ou “coca rabixa”. Com referências recuando ao século XVI, mas possivelmente sendo muito anterior, ela é realizada no dia da Festa do Corpus Christi, sendo a coca o dragão que luta com S. Jorge a cavalo, e aqui trata-se do domínio do Homem sobre a força bruta ou indomada da terra, dando ao dragão o sentido “maléfico”, luciferino. Por isto, nas iluminuras sagradas medievais, como a da coroação da Virgem Maria por Cristo, aparece a trombeta celeste avisando do perigo do dragão “maléfico”, e por isso havia o cuidado de rodeá-las de um escudo, de uma ovalização ou de uma quadratura celeste. Tal prática é similar na sustentação das Armas, chamando-se tenentes às figuras sacras e suportes às figuras terrenas.

Na heráldica portuguesa a serpe aparece como um dragão de duas patas e é distinta da forma clássica dracónica (que na figuração ocidental possui sempre quatro patas); no lugar das patas dianteiras apresenta duas asas, e também não possui a habilidade de cuspir fogo (simbolismo dracónico dos fogos vulcânicos ou do seio da Terra), embora às vezes seja retratada fazendo-o. Outra característica que a diferencia do dragão é a falta ou menor número de escamas, conferindo-lhe uma aparência mais “lisa”. Portanto, a serpe vem a ser a “forma simplificada” do dragão. Os testemunhos etnográficos e filológicos da mesma predominam mais no Sul de Portugal, enquanto no Norte tem-se a coca.

A coca é representada por um dragão escamado. De todas a mais célebre é a supradita coca de Monção, que consiste numa estrutura de madeira com um homem no interior e a qual vai lutar com um cavaleiro representando S. Jorge, com capa vermelha, elmo e lança. A coca é empurrada pelos populares, vestidos de verde, contra o cavalo, enquanto o cavaleiro desfere golpes contra a carapaça. Finalmente S. Jorge vence com um golpe sobre a orelha da coca, que sem a mesma perde a força. Assim, mais uma vez, o Mal é vencido pelo Bem, ficando garantidas as boas colheitas do ano agrícola.

Festa da Coca em Monção, no início do século XX

Na Galiza a coca é igualmente representada por um dragão e também celebrada no dia do Corpus Christi, em Redondela. A representação da coca, com uma abóbora iluminada, faz parte do património imaterial galaico-português. Na Galiza é tema na festa das caliveras ou samhain e assume vários nomes: calacús, caveiras de melón, calabazotes, colondros, etc. (3)

Na literatura oral a coca é tema das cantigas de embalar, tal como o bicho-papão que rouba criancinhas ou a Maria-da-Manta que tem fogo nos olhos, é um ser que assusta as crianças, que está sempre à espreita (está sempre à coca) e impede que o sono chegue. O sono é muitas vezes personificado por outro ser mítico, o João Pestana (4).

Vai-te coca, vai-te coca
Para cima do telhado.
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado.

No Auto da Barca do Purgatório (1518), de Gil Vicente, um menino identifica o diabo como o “coco”:

Mãe: E o coco está ali
queres vós estar quedo co´ele?
Demo: Passa passa tu per i.
Menino: E vós quereis dar em mi
Ó demo que o trouxe ele.

Nas Décadas da Ásia (1563), João de Barros descreve como o nome do coco (fruto) teve origem na tradição dracónica que o povo transpôs para a “coisa fantástica e medonha” assustadora da infância: “(…) por razão da qual figura, sem ser figura, os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer cousa, com que querem fazer medo às crianças, o qual nome assi lhe ficou (…)”.

Na Catalunha, este ser fantástico é chamado de cuca ou cucafera e é frequentemente representado por um dragão. De modo que o mito do coco também se espalhou no país vizinho tendo origem no fantasma português, como consta no Dicionário da Real Academia Espanhola, chamando-lhe “el coco” e “el cuco”: “Del port. coco, fantasma que lleva una calabaza vacía, a modo de cabeza. Fantasma con que se mete miedo a los niños”.

A popularização da figura do dragão na Idade Média, através dos bestiários da Igreja Católica, foi a forma que esta encontrou para, narrando histórias de dragões malignos enfrentados e vencidos por nobres heróis cristãos, fazer a sua própria apologia contra as antigas tradições locais, mormente celtiberas. Pode-se fazer até mesmo um paralelo entre as famosas armas de sopro draconianas e a pregação dessa religião: um dragão que sopra nuvens venenosas, por exemplo, pôde e pode ser usado como metáfora para blasfémias “venenosas” proferidas por falsos profetas pagãos.

A tenaz e impiedosa perseguição eclesial às tradições e cultos locais maioritariamente de origem celta, indistintamente malignos para Igreja, poderá ser a explicação para a procissão dos diabos, cortejo que tem lugar no dia 24 de Agosto celebrando o regresso dos “Diabos de Amarante” (um diabo e uma diaba) a essa cidade.

Na segunda metade do século XIX os “Diabos de Amarante” foram adquiridos por um inglês que os expôs, em 1889, na Feira Internacional de Paris. Depois de diversos esforços diplomáticos, os diabos devolvidos e à sua chegada recebidos em massa pela população, e desde então é feita uma procissão até ao Largo de S. Gonçalo. Durante as celebrações são transportados em andores e no cortejo seguem mais de 300 mascarados de diabos e diabas, com trajes vermelhos ou negros, depois tendo lugar o baile dos mafarricos, que termina à meia-noite com uma queimada.

O “Diabo e a Diaba” são estátuas em madeira talhadas no início do século XIX e estiveram, até 1809, no Mosteiro de S. Gonçalo de Amarante, fazendo parte do culto da fertilidade, apresentando-se com trajes sacerdotais. Danificados pelos soldados franceses durante as invasões, foram depois roubados ao mosteiro. O “Diabo”, de falo ostensivo, foi castrado por ordem do bispo de Braga. No dia 24 de Agosto a população local acreditava que o Diabo andava à solta, não trabalhava e fazia-lhe oferendas.

Casal de “Diabos de Amarante”

Vizinho da coca ou “bicho-papão” é esse outro mito rural do gambuzino cuja existência deve-se à pareidolia, fenómeno psicológico envolvendo um estímulo vago e aleatório, geralmente uma imagem ou um som, sendo percebido como algo distinto e com significado, como se regista, por exemplo, no fenómeno ‘pop’ urbano de “new age”, onde a alucinação onírica é tomada como realidade, valendo mais a imagem fantasiada que a ideia reflectida.

Os gambuzinos são criaturas imaginárias que, segundo a superstição popular, vivem no campo, embora algumas espécies também habitem locais sombrios e húmidos nos parques das cidades. No Dicionário são descritos como uma espécie de pássaros ou peixes, mas outros pensam serem parecidos com o pirilampo ou o ouriço. Há quem acredite serem vegetais e viverem debaixo da terra, pelo que no princípio do século XX eram descritos como pequenos bolbos da espécie do lírio e comestíveis.

A caça aos gambuzinos faz-se geralmente à noite, sendo popular em Portugal e em várias regiões da Espanha, sobretudo na Galiza, onde a estação de caça está aberta o ano inteiro e não exige licença especial para a sua prática. Tradicionalmente, são usados sacos de serapilheira para os capturar, sem esquecer o apito ou um pau para bater no saco atraindo para dentro dele a discreta e esquiva criatura. É costume organizar caçada aos gambuzinos  convidando pessoas ingénuas para irem junto, sendo frequentemente amigos, irmãos ou sobrinhos mais novos.

No Entre Douro e Minho, esse animal imaginário é conhecido por pio-pardo. No Baixo Alentejo, conhecem-no por gramutilho. Na Galiza, é chamado de biosbardo, gazafello ou cocerello. Na Catalunha é apelidado de gambosí ou gambutzí; na Estremadura de gangüezno; nas Astúrias de  cordobeyo; em Aragão de bambosino. Não se conhece exactamente a origem do significado gambuzino. No entanto, poderá ter alguma relação com as palavras gambito (ardil para prostar o adversário) e gambina (perna), no sentido de “passar a perna”, de acordo com o folclorista catalão Joan Amades, em sua obra Costumari Català (1950), dando como origem do nome o provençal gambosí ou gabuzo (“engano”).

Gambuzino

Aparte isso e volvendo ao simbolismo do dragão dos lusos, ele aparece também nas figuras das cartas de jogar portuguesas. Com efeito, as lâminas divinatórias do tipo português (que no século XIX passaram a ser impressas na Bélgica e na Alemanha, já alteradas), vulgo cartas do dragão, apontam a influência oculta de Marte. Com efeito, nas ditas cartas ele aparece sobressaindo de um “graal” na forma de um dragão carregando uma espada, símbolo esotérico do mesmo Marte e de São Jorge ou Akdorge – segundo a Tradição Iniciática, o futuro Rei do Mundo portador do Santo Graal. Isso além de designar tanto a Linha Serapis como representar emblematicamente a cidade de Coimbra que, diz a Tradição, nela estava instalada a antiga Sede Externa da Soberana Ordem de Mariz. A esse baralho genuinamente português, poderei com justeza batizá-lo de Tarot Lusitano. A sua criação inspirou-se naquele outro Tarot Marselhês que os ciganos – esse “judeus errantes” sem Pátria certa e sem Norte definido… – importaram para a Península Ibérica e que em 1420 já circulava nas rotas de peregrinação a Santiago de Compostela, sendo que em 1490, reinando D. João II, a sua difusão era tamanha a ponto do monarca proibir severamente o seu uso (5).

“Proibição do vício do jogo de cartas”. Tábua de altar da igreja da Virgem do Carmo de Évora

Inspirado no baralho cigano é que Garcia de Resende (1470-1536), sob encomenda de D. Manuel I, criou o tipo português de baralho ou as 48 “cartas do dragão”, notícia inserta no seu Cancioneiro Geral (6), divididas em dois grupos de 24 Damas ou de Louvor, e de 24 Cavaleiros ou de Deslouvor.

Apesar da aparência de sua finalidade lúdica imediata, como inocente jogo de salão que D. Manuel I terá dedicado a uma sua pretensa concubina, D. Joana de Mendonça, a verdade parece ir muito além disso e ser muito mais dignificante e séria. O primeiro indicativo está no próprio Dragão dos Lusos atravessado pela espada e saindo da taça, de que já falei. O segundo indicativo está no Louvor ou Vitória assinalada na Dama, o que dá ao baralho característica feminina, matricial, bem conformada ao tempo do Rei Venturoso – o de Maris Nostrum sob a apologése de Santa Maria. O terceiro indicativo está no número 24, o apocalíptico indicativo dos 24 Anciãos da Revelação acompanhados das sibilas suas contrapartes femininas, as almas augures, as do vaticínio da boa ou má sorte que o Destino reserva. O quarto indicativo será o valor final 48, acrescido de mais 1 como o próprio jogador(a), indo dar 49, este o número cabalístico ou canónico que corresponde ao de Adeptos Independentes da Grande Loja Branca ou os Apóstolos da Igreja de Melkitsedek, 7 para cada Raio de Luz, logo, 7×7 = 49.

Ases das “cartas do dragão”, o Tarot Português

Com a fundação de Portugal em Guimarães, o culto primitivo do tellos draconis (dragão telúrico) tem o seu espaço ocupado pelo do Spiritus Sanctus a quem o Reino é consagrado, na pessoa de Maria propagada pela escolástica eclesial assegurando o Marialis Cultus, que na sua expressão erudita vem a ser a Iniciação Senhorial característica da Honra e da Ordem de Cavalaria, na qual eram iniciados os futuros cavaleiros que deviam ser tão puros e honrados quanto pudessem à semelhança do que é a Mãe Celeste, esta que dá de si a Matéria-Prima com que se faz o Mundo e, no particular, Portugal. Razão de se dizer que o Espírito Santo toma forma feminina em Maria, mesmo que, essencialmente, Ele participe das duas naturezas do Filho e da Mãe, esta que iconograficamente O traz sempre em Seus braços, no regaço ou colo, como demonstrativo velado da dupla natureza ou estado andrógino do Santo Espírito.

Cristo fica participando da natureza do Pai como Espírito e Maria, como Mãe ou Matéria, em estado Santo ou de Santidade participa da natureza de Seu Filho, a quem oferece ao Mundo. Donde se conclui:

Se o Conde D. Henrique de Borgonha sonhou ou visionou a Divindade precipitar-se em forma cometária no rio separando a Galiza do Minho, que o levou e à progénie que para aqui trazia, no mesmo sonho ou visão, a exclamar: “Porto Graal! Porto Graal! Porto Graal!”, este o símbolo maior do Divino Espírito Santo, tanto como objecto como estado de consciência, já o seu filho Afonso Henriques oferece o Reino sonhado ao Divino mas não à humanidade de Roma, tendo Cristo no Cruzeiro lhe aparecido em vésperas da Batalha de Ourique, decisiva para a independência definitiva da terra sua e de Deus que lhe garantiu os favores do Céu e a Bênção eterna à gente portucalense.

Mais tarde, a Rainha Santa Isabel de Portugal e Princesa de Aragão, oficializa o culto do Divino acompanhado das prerrogativas sobrehumanas da Páscoa Rosada em que se traduz o célebre “Milagre das Rosas”. Independência ameaçada, “Terra de Luz” (Luxcitânia, Lusitânia) perigando apagar-se, eis aí no século XIV, o “Galaaz de Portugal”, o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, depois Frei Nuno de Santa Maria, levando D. João I, em vésperas da Batalha de Aljubarrota, a ter a visão exaltada de Nossa Senhora da Oliveira acompanhada de S. Bernardo de Claraval. Mais uma vez, o Céu abençoou a Terra Pátria por Deus escolhida, e o perigo foi vencido. Finalmente, após os “60 anos fatais” da profecia, correspondendo ao tempo de ocupação Filipina de Portugal, D. João IV liberta o país da mesma e oferece a Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, a coroa dos reis portugueses, investindo-a, além de Mãe dos Céus que já era, Rainha de Portugal. Desde então, nunca mais as nossas rainhas (e até os reis) tornaram a usar coroa, que dignidade não concebiam para tanto comparando a sua míngua humana à grandeza Divina da Mãe Soberana.

Conclui-se que desde a primeira hora Portugal está consagrado ao Divino Espírito Santo em Cristo e Maria sob o evoco Conceição, e, seja por qual e misteriosa maneira for, a Sua protecção nunca escusou aos seus filhos desta “Terra de Luz”, a caminho de um Império de Espírito que também é o Seu, abraçando a toda a Terra numa unidade de Amor e Graça.

O dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria foi proclamado pelo Papa Pio IX, em 1854, com a bula Ineffabilis Deus. Esta solene definição pontifícia foi resultado do desenvolvimento da devoção popular aliada a intervenções papais e infindáveis debates teológicos. O calendário romano já incluíra a festa em 1476. Contudo, no sétimo século esta celebração já existia na Igreja Oriental e cedo entrou na Hispânia através do rito visigótico ou paleocristão. Em 1570, Pio V publicou o novo Ofício e em 1708 Clemente XI estendeu a festa, tornando-a obrigatória a toda a Cristandade.

Em Portugal, o culto foi oficializado sob feição patrística por D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança assim aclamado no 1.º de Dezembro de 1640, quando se iniciava a Festa da Imaculada Conceição. Seis anos depois, com a aprovação das Cortes de Lisboa, o monarca dedicou à Virgem Imaculada todo o Portugal e seu vasto Império de então, fazendo-a sua Rainha e Padroeira, e fê-lo através da Ordem honorífica por si fundada no Alentejo: a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em cuja igreja matriz está a imagem do Orago e celeste Soberana da pátria comum à lusitana gente (7).

O acto de D. João IV foi confirmado pelo Papa Clemente X, que aprovou a solene declaração régia de 25 de Março de 1646. Esta fora rezada de joelhos e em voz alta pelo monarca, na capela real dos Paços da Ribeira, em Lisboa, nos termos seguintes:

Dom João, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, de aquém e de além mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia, etc., faço saber aos que esta provisão virem, que sendo ora restituído por mercê muito particular de Deus nosso Senhor à Coroa destes meus Reinos e senhorios de Portugal.

Considerando que o Senhor Rei Dom Afonso Henriques meu progenitor e primeiro Rei deste Reino, sendo aclamado e levantado por Rei, em reconhecimento de tão grande mercê, de consentimento de seus vassalos, tomou por especial advogada sua a Virgem Mãe de Deus Senhora nossa, e debaixo de sua sagrada protecção e amparo Lhe ofereceu todos seus sucessores, Reino e vassalos com particular tributo em sinal de feudo e vassalagem.

Desejando eu imitar seu santo zelo, e a singular piedade dos Senhores Reis meus predecessores, reconhecendo ainda em mim avantajadas e contínuas mercês e benefícios da liberal e poderosa Mãe de Deus nosso Senhor, e por intercessão da Virgem Nossa Senhora da Conceição.

Estando ora juntos em Cortes com os três Estados do Reino, lhes fiz propor a obrigação que tínhamos de renovar e continuar esta promessa, e venerar com muito particular afecto e solenidade a festa de sua Imaculada Conceição. E nelas, com parecer de todos, assentamos de tomar por Padroeira de nossos Reinos e senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição, na forma dos Breves do Santo Padre Urbano VIII, obrigando-me a haver confirmação da Santa Sé Apostólica, e Lhe ofereço… à sua Santa Casa da Conceição sita em Vila Viçosa, por ser a primeira que houve em Espanha desta invocação, cinquenta cruzados de ouro em cada ano, em sinal de tributo e vassalagem.

E da mesma maneira prometemos e juramos com o Príncipe e Estados, de confessar e defender sempre (até dar a vida sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original… esperando com grande confiança… que por meio desta Senhora (Deus) nos ampare e defenda de nossos inimigos para glória de Cristo nosso Deus, exaltação da nossa Santa Fé Católica Romana, conversão das gentes e redução dos hereges.

E se alguma pessoa intentar coisa alguma contra esta nossa promessa… queremos que seja logo lançado fora do Reino; e se for Rei (o que Deus não permita) haja a sua e nossa maldição, e não se conte entre nossos descendentes… e esta minha provisão se guarde no Cartório da Casa de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, e na nossa Torre do Tombo.

Dada nesta nossa cidade de Lisboa, a 25 de Março de 1646 – El-Rei.

NOTAS

(1) Lorenzo Hervás, Catálogo de las Lenguas de las Naciones conocidas, y numeracion, division, y classes de estas, segun la diversidad de sus idiomas y dialectos, vol. IV., trat. III, pt. II. Madrid, 1804.

(2) André de Resende, As Antiguidades da Lusitânia, Lisboa, 1593. Reedição pela Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996.

(3) Teófilo Braga, Romanceiro Geral Português, três volumes. Ed. Vega, Lisboa, 1982.

(4) José Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, volumes XX e XXXII. Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1934.

(5) Fernanda Frazão, No tempo em que jogar às cartas era proibido. Apenas Livros Ltda., 2003.

(6) Garcia de Resende, Cancioneiro Geral, Lisboa, 1516, com edição póstuma em 1554. Mendes dos Remédios, Obras de Garcia de Resende, 5 volumes, Coimbra, 1917. A. de Pimpão e Aida Fernanda Dias, Obras de Garcia de Resende, 2 volumes, Coimbra, 1973.

(7) Pe. Miguel de Oliveira, Pe. Moreira das Neves, A Padroeira de Portugal. Edições Letras e Artes, Lisboa, 1940.

D. Fernando II, Rei-Artista e Rei-Iluminado – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Fev 13 2017 

Se D. Pedro o Infante das Sete Partidas – irmão do Infante Henrique de Sagres – foi um português europeu, D. Fernando II – marido de D. Maria II, pai de D. Pedro V e de D. Luís I e avô de D. Carlos I – foi um europeu português (1).

D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha (Viena de Áustria,  29.10.1816 – Lisboa, 15.12.1885) marcou decisivamente meio século da sociedade portuguesa do século XIX e  ora por ingerência directa, ora por mecenato projectou-se magnificamente na História da Arte em Portugal (desde a cerâmica ao desenho e à pintura, passando pela arquitectura, sem nunca descurar o teatro, a ópera e o belo canto), como igualmente nas Letras (tendo sido mecenas de muitos e exímios escritores, dentre eles Alexandre Herculano), mostrando aqui e ali, igualmente, a sua feição velada de esoterista que escolheu Sintra para morada ideal. Assim se conjuga a sua natureza de Rei-Artista e Rei-Iluminado!… Se ele não teve necessidade de nascer português para como português os portugueses o aceitarem entre os Maiores, o facto de não nascer português fê-lo europeu de adopção portuguesa e grato levou  Portugal  a ser assinalado nas Letras e Artes, igualmente na Tradição Hermética, como a provável alavanca primaz do Pensamento que move o Mundo… decididamente arrancando o País da semiobscuridade da Europa culta para cabeça dela toda, como sempre fora mas sem o devido reconhecimento unânime.

Johann Wolfgang von Goethe (Frankfurt am Main, 28.8.1749 – Weimar, 22.3.1832), o grande escritor considerado “pai” Romantismo germânico, estava morto há apenas quatro anos quando D. Fernando de Saxe Coburgo-Gotha avistou a Serra de Sintra e entrou no Tejo, avistou a Torre de Belém e desembarcou em Lisboa – em 8 de Abril de 1836. Desde “6 de Dezembro, mas com a data de 1” está assinada a convenção matrimonial que o trazia a Portugal; casado por procuração com D. Maria II desde o primeiro dia de Ano Novo e em pessoa no dia seguinte ao da sua chegada a Portugal, na Sé Patriarcal de Lisboa, cerimónia fixada em tela por Tony de Bergue. Foi o conde de Lavradio – negociador desse casamento – “o primeiro portuguez” que conheceu esse jovem de dezanove anos de idade recém-chegado a Portugal, e a ele se referiu em plena Câmara dos Dignos Pares: “Elevado caracter, excellente educação, e distinctas qualidades e virtudes” – “um decidido amor da justiça e da verdade”.

Mas quem era D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha? Com o nome completo de Ferdinand August Franz Anton von Sachsen-Coburg-Gotha, como disse nasceu em 29 de Outubro de 1816 e foi o primeiro filho do príncipe Ferdinand Georg August, Duque de Sachsen-Coburg-Gotha e de sua mulher, a princesa de Kohary, Marie Antoinette Gabrielle, filha e herdeira do príncipe Franz Joseph de Kohary, senhor de Casabrag e de outras terras na Hungria, casados em 2 de Janeiro de 1816 em Viena de Áustria.

Fernando chegava a Portugal numa altura em que a Dinastia Brigantina se havia quebrado e fechado ao francesismo. Receava-se agora que se abrisse ao germanismo. Mas, nem uma coisa nem outra: o príncipe de Saxe pegou na cultura germânica, sim, mas moldou-a à natureza de Portugal, respeitando as suas tradições e a sua Tradição. O seu consórcio com D. Maria II permitiu restabelecer a Dinastia de Bragança e dar início venturoso a uma segunda “Ínclita Geração”.

D. Maria II, a Educadora e a Boa Mãe, reinou de 1826 a 1853, em período fortemente conturbado por mudanças radicais políticas, económicas, sociais e eclesiásticas. Nasceu no Rio de Janeiro em 14 de Abril de 1819, filha de D. Pedro IV e de D. Maria Leopoldina. A seguir à abdicação do pai, é aclamada rainha de Portugal em 1826 mas só assumiu a função régia em 1834. É aceite como noiva (casamento por palavra de futuro) por seu tio D. Miguel, mais tarde rejeitando-a como noiva e como rainha. Enquanto D. Miguel é sucessivamente regente e rei em Portugal, D. Maria, em Paris e em Londres, tem a servi-la uma regência colegial, com sede nos Açores, nomeada por D. Pedro IV e presidida pelo futuro duque de Palmela (1830). Após a vitória liberal, o seu pai (como regente) e o Governo realizam profundas reformas no País. Em 18 de Setembro de 1834, D. Pedro pede escusa da regência por doença grave e, por sua sugestão, as Cortes declaram a rainha antecipadamente maior. D. Maria nomeou o duque de Palmela para seu primeiro presidente do Conselho, e em 26 de Janeiro de 1835 casou com o príncipe Augusto de Leuchtenberg, que faleceu pouco tempo depois. Em 1836, em plena crise dinástica e com os ventos da Revolução Francesa ameaçando o nosso País, casou com o príncipe consorte da Casa de Saxe, que viria a ser D. Fernando II.

Do casamento de D. Maria II com D. Fernando II, houveram os seguintes filhos:

Pedro (D. Pedro V);
Luís (D. Luís I);
João;
Maria Ana (casada em 1859 com Jorge de Saxe);
Maria Antónia (casada em 1851 com Leopoldo Hohenzollern);
Fernando;
Augusto;
Maria;
Leopoldo (morto em criança);
Maria (morta em criança);
Eugénio (morto em criança).

O casamento político de D. Maria com D. Fernando depressa se tornou um casamento por amor recíproco, que durou até à morte da rainha, por parto, em 15 de Novembro de 1853. Isso depreende-se da correspondência trocada entre ambos durante a fase, direi, de namoro oficial: “J’attends avec impatience le moment qui doit nous unir.” – Príncipe D. Fernando em carta a D. Maria II. Bruxelas, 16.II.1836. “Parece-me que já gosto delle sem o conhecer porque me parece pellas informações que tenho delle que hade fazer tanto a felecidade da Nação portuguesa como a minha.” – Rainha D. Maria II em carta ao conde do Lavradio. Lisboa, 20.II.1836.

D. Maria II

D. Maria II

A maior prova está nas cartas dolorosas que o recém-viúvo escreveu após a morte da esposa. Esse momento de despedida final é narrado, com toda a tragédia inerente ao acontecimento, por José Teixeira (2):

A rainha Vitória, que conhecia por ela própria os problemas da gravidez, fez remessa a D. Fernando II de certas quantidades de clorofórmio, que vinha sendo estudado pelos melhores médicos ingleses, pensando mitigar ou evitar a repetição de complicações agudas. Mas tudo se tornou pesadelo, e a duquesa de Ficalho, que chegara ao Paço à meia-noite do dia 14 de Novembro, tanto mais que testemunhara a boa disposição da rainha durante toda a tarde, pôde contar que até de manhã a augusta senhora esteve assistida pelo dr. Manuel Carlos Teixeira, e depois, também, pelo dr. Kessler, chamados ao Paço às onze. Veio mais tarde a restante equipa, mas os seus esforços foram vãos para lhe dar a salvação.

Presente estava a imperatriz D. Maria Amélia, que, vendo a iminente catástrofe, confidenciou a D. Fernando II: “A Rainha deve-se confessar” (3). Este ordenou que com toda a urgência se chamasse o Patriarca. “Não é nada como das outras vezes”, desabafava ainda D. Maria II, e às onze e meia daquela manhã, fazendo sinal que queria repousar “descançou a cabeça sobre a almofada e deo o ultimo suspiro”.

O rei D. Fernando assistia no seu posto à tragédia, “apoiado a um dos balaustres do leito deixando cahir as lagrimas sobre o mesmo leito e contemplando a triste scena”. Alguém presenciou o impressionante quarto de hora em que se abraçou em estado de choque à sua finada esposa. Os príncipes choravam convulsivamente assaltados pelos acontecimentos, e a maior consternação pairava na avalanche dos presentes.

Sem excepção a imprensa fez coro nos lamentos da perda irreparável, e todas as grandes qualidades de Mãe e de Educadora foram louvadas até à saciedade:

Povo! Uma prece de christãos, uma lagrima das mães
Um ramo de myrto dos seus velhos companheiros de desterro
à memória de D. Maria II, que foi rainha de Portugal!
(4)

Milhares de pessoas desfilaram na capela-ardente, esperando largas horas para o poderem fazer. Foi preciso uma das noites voltar a abrir as portas porque a multidão não arredava pé – “o povo entrou em massa na capella e salas adjacentes e alli ficou até alto dia”.

O préstito saiu do Palácio das Necessidades para o panteão da Casa de Bragança em S. Vicente de Fora, e intermináveis filas de pessoas bordejavam as ruas e engrossaram o pomposo cortejo de dor.

Eis que acontece o inesperado: a descida do Céu à Terra do Espírito Santo, abençoando a Casa de Bragança na pessoa real da falecida e como que dando legitimidade divina a D. Fernando II. Emoção electrizante se gerou quando uma pomba branca veio pousar sobre o coche da Coroa que transportava a urna, só levantando voo quando iniciou o regresso ao Paço.

Ocorrência que estimulou o lirismo de diverso leque de poetas, mas sendo a obra do ultra-romântico João de Lemos, O Funeral e a Pomba, a tornar-se o hino da derradeira homenagem a D. Maria II (5). Eis alguns versos:

I

E eil-a que ali vae sem vida
que inda era há pouco viçosa
como a flor;
E, flor do tufão perdida,
Agora da Mãe, da Esposa
Resta a dor!

II

Baixou mais perto; e, pairando, vê-se
Mimosa pomba, que dos ceus voou,
Eil-a veloz se precipita agora
e sobre um carro funeral poisou!

III

É sobre o carro que levava a c’roa!
De susto isenta, como poisa assim?!
E quêda, quêda… mas de novo o carro
Segue o cortejo… levantou por fim.

O rei D. Fernando entrou na regência do Reino em virtude do articulado da lei de 7 de Abril de 1846 e do Acto Adicional à Carta Constitucional de 1852, e jurou entregar o governo logo que o príncipe D. Pedro atingisse a maioridade. Foram actos de Estado que teve de despachar em plena dor.

Se foi grande o amor de D. Fernando II por D. Maria II, extremado o terá sido por Elise Friedericke Hensler, com quem casou após ter enviuvado de sua real esposa.

De origem suíço-alemã filha de Friederich Conrad Hensler e de sua mulher, Louise Hensler, nasceu a 22 de Maio de 1836 em La Chaux-de-Fonds, no Jura, perto de Neuchâtel. Aos doze anos de idade, Elise Hensler emigrou com os seus pais para Boston, na América do Norte. Recebeu especiais cuidados na educação, não faltando o cultivo das Letras e das Artes. Tendo os seu estudos sido orientados para o belo canto, viria a completar a sua formação na Europa.

Acompanhada da mãe e integrada na Companhia de Ópera de Laneuville, cerca de 2 de Fevereiro de 1860 chegou a Portugal, estreando-se no Teatro S. João, no Porto. Depois seria escriturada para o Real Teatro de S. Carlos, em Lisboa, a fim de cantar no “Propheta” e no “Roberto do Diabo”, nos papéis de Bertha e Elisabeth. Estreava-se assim em Lisboa a 12 de Outubro desse mesmo ano.

Elise Friedericke Hensler

Elise Friedericke Hensler

Melómano de gostos refinados, D. Fernando II não perdeu uma só das actuações de “o luminoso meteoro” nos dois grandes teatros portugueses. Da Música e do Teatro nasceria o Amor que iluminaria toda a actuação de duas vidas fadadas à união eterna pelos laços da divina Arte. Seria a Infanta D. Isabel Maria, tia de D. Maria II, a mediadora e madrinha nos laços afectivos entre a actriz e o rei, uma feita no Teatro da Vida e outro na Escola da Humanidade.

Com efeito, a 10 de Junho de 1869 celebrou-se o inevitável consórcio real no Palácio Devisme, em Benfica, tendo o príncipe Ernesto de Saxe Coburgo-Gotha agraciado Elise Hensler com o título de Condessa d’Edla. Os Contemporâneos Ilustres, tomo II, p. 282, 1878, assim retrata a Condessa:

“A condessa d’Edla estava de certo modo fadada para ser a esposa de um homem como D. Fernando, tão protector das artes e dos artistas e ao mesmo tempo tão ilustrado!

“Possuindo uma educação esmeradíssima, conhecendo a fundo e falando perfeitamente sete dos principais idiomas da Europa cultivando as artes com ardor, apaixonada pelo belo, amado o retiro e vivendo sem ostentação, a condessa d’Edla é uma senhora de muita consideração pública, porque alia ao seu género artístico um coração benfazejo.”

Para além de cantora e actriz, a condessa d’Edla era ainda música, escultora, ceramista, pintora, arquitecta, floricultora e, muito provavelmente, ocultista, tal como o seu real esposo. Enfoque-se nesta ilustre senhora a dedicação da sua vida a um rei companheira inseparável da sua presença, continuando num caminho de ausência, até ao seu falecimento em 1929 no seu palácio de Santa Marta, em Lisboa, aos 93 anos, sempre honrando a memória do seu “bon et cher Roi Ferdinand”.

Condessa d´Edla e D. Fernando II

Condessa d´Edla e D. Fernando II

Depressa D. Elise interessou-se pelos trabalhos do Palácio da Penha, vulgo Pena, em Sintra, começados por impulso de D. Fernando em 1839 e que apenas terminariam com a sua morte, em 1885. As plantações do Parque, já muito importantes entre 1840 e 1850, intensificaram-se a partir de 1869, como por exemplo as das “Feteiras da Condessa”. É a ela que se deve, nessa altura, a introdução de certas espécies arbóreas da América do Norte, onde passara quase toda a sua juventude, como conta Mário de Azevedo Gomes na sua Monografia do Parque da Pena, escrita cerca de 1910.

No meio desse parque tão amado pelo par real, a condessa morganática levou a efeito, a partir de 1869, com o mestre de obras Gregório, a construção de um chalet, antecipando assim uma moda que conheceria grande sucesso alguns anos depois, na costa do Estoril e de Cascais, tendo aqui neste último, em 1873, e sobre o antigo Forte da Conceição, Thomas Henry Wyatt construído o primeiro chalet da costa para os Palmela.

Tendo em consideração a cultura humanista de D. Elise, acompanhada da influência cerrada do imaginário cavaleiresco contido nas óperas dos maiores clássicos (Verdi, Meyerbeer, etc., nas quais actuou), e não ignorando o acentuado pendor Rosa+Cruz como grau maçónico de D. Fernando, acrescido da conceição imaginária neo-“céltica” e neo-“arábica”, inscritas no programa corográfico escultural do Parque da Pena, incluindo o Palácio, tudo recriando a saga da Quête ou Demanda do Santo Graal, não me custa admitir que a ilustre senhora fosse também ela afecta a tamanhos Mistérios Iniciáticos!… Aliás, os pratos que pintou e estão expostos no Palácio da Pena, repletem-se de alegorias e símbolos ocultistas insertas no tema Sebástico-Nacional através do figurino mitológico greco-romano mas na feição neo-barroca,  sempre realçando a Mulher, o Mar e a Barca, simbolismo matrístico transpirando tanto ao venusto Duat ou Hades quanto a Cordo Mariz.

Sempre que fitei aquele singelo chalet, tão cheio de candura e sentimento, que o conheço há tantos anos por dentro e fora, ele nunca me pareceu um vulgar edifício  feito por pessoa vulgar, por não o serem (6). Letizia Rattazzi o reconhece (7): “Um Chalet de um gosto inimitável. É a Arcádia, uma Arcádia civilizada onde de bom grado se pode viver e morrer. Sente-se que a vida, a saúde e a felicidade residem ali”.

Do muito a dizer sobre D. Fernando II, conter-me-ei em dois aspectos que considero indispensáveis ao entendimento mais aprofundado da sua pessoa e dos seus actos aparentemente díspares: a sua acção política em Portugal face à restante Península Ibérica e ao Mundo, e a sua filiação esotérica, sobre o que muitos «amigos de Sintra» têm especulado.

Devo informar, antes de tudo o mais, que a Família Saxe Coburgo-Gotha era daquelas, em conformidade às necessidades gerais do momento, directamente protegida pelas chamadas “forças secretas” do Governo Oculto do Mundo. É o Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, quem o diz (8): “Abra-se um livro, que raramente se consulta na época actual, e em cada trono da Europa se encontrará um Saxe Coburgo-Gotha. A família desse príncipe é protegida em segredo por todas as Sociedades Iniciáticas, por lhes ter permitido dar “o primeiro tiro de canhão maçónico”. Além disso, por se tratar de uma família real, também tem o apoio do clero”.

Canhão "maçónico" de D. Fernando II no Palácio da Pena de Sintra, que disparava ao meio-dia.

Canhão “maçónico” de D. Fernando II no Palácio da Pena de Sintra, que disparava ao meio-dia.

Com efeito, a família de D. Fernando II na época estava instalada nos tronos mais proeminentes da Europa. Sendo filho do duque Fernando Jorge Augusto, era irmão do duque reinante de Saxe Coburgo-Gotha, Ernesto I (1784-1844), cuja influência se estendia por todo o norte europeu, e de outros dois poderosamente colocados: o rei Leopoldo (1790-1865), primeiro monarca da Bélgica, designado em 1831, casado em primeiras núpcias com a princesa Charlotte (+ 1817), filha de Jorge V, rei de Inglaterra, e em segundas núpcias com a princesa Luísa Maria de Orleães, filha do rei dos franceses Luís Filipe I; e ainda Maria Luísa Vitória (1786-1861), casada em segundas núpcias (1818) com o duque de Kent, e mãe da futura rainha Vitória (1819-1901), vindo esta a desposar um seu primo, Alberto (1819-1861), filho de Ernesto I (9).

As circunstâncias documentadas levam a acreditar consistir a política secreta dos Saxe Coburgo-Gotha no acto de manter as soberanias nacionais da Europa correndo o risco de dissolver-se em algum novo “sacro” Império Romano, exclusivamente temporal, depois das experiências redundadas em fracasso total com o imperialismo napoleónico e germânico. Rainer Daehnardt vem ao encontro dessas minhas palavras quando escreve (10): “O sonho francês de criar uma Europa unida, por baixo do seu ceptro imperial, teve, como resultado imediato, o acordar geral do patriotismo e nacionalismo adormecido da maioria das nações submetidas, que se levantaram contra o jugo estrangeiro, reconhecendo a sua própria identidade como resultado da necessária autodefesa.

“A destruição do Santo Império Romano da Nação Germânica e a sua tentativa de substituição por um novo império, de estilo romano clássico mas centrado em Paris, teve, como consequência, a divisão da Alemanha em trinta e três estados independentes. O lema “dividir para reinar” tinha sido aplicado in extremis e a falta de visão de muitos dos reinantes, que só procuravam o mais rápido e directo conforto próprio, impossibilitava a saída da miséria em que vivia grande parte da população do centro da Europa, ainda flagelada pela recente guerra. Começou, então, a grande onda migratória da Europa para a América.”

Certa influência jacobina e carbonária esteve presente e gizou o europeísmo feudalista do “dividir para reinar”,  distopia avessa à utopia da Sinarquia, nesta onde todos os povos entre si se identificam sem implicar perderem as suas soberanias e consequentes identidades nacionais, quer vistas no estritamente temporal ou quer no amplexo espiritual. A Fraternidade Universal dos Povos, da Humanidade em que se traduz a Sinarquia, implica respeito comum na diversidade das nações. Esta terá sido, por certo, a mensagem maior do Romantismo português com D. Fernando II à testa. Mas lá irei. Primeiro e para entendimento mais aprofundado da época em questão, devo transcrever novo e deveras singular excerto do estudo já citado do Professor Henrique José de Souza, que diz após descrever a tragédia de Napoleão Bonaparte I e a queda de França:

“Eis aí, a França desmembrada. Os maçons começam a fazer a sua pequena história de libertação das inteligências pelo ateísmo. Agindo assim, eles, por sua vez, vão contra a Maçonaria Universal, por isso mesmo, são posto de lado, aparecendo então a Franco-Maçonaria, que mesmo assim não deve ser confundida com aquela.

“A seguir, aparece um outro homem na Itália. O seu nome é Louis Napoleon Bonaparte. Iniciado no Carbonarismo, jurou lançar o Papa por terra. Note-se bem que era livre tanto em o fazer como em não o fazer… Jura, ainda, “sem que ninguém lho pedisse”, que tudo fará para aniquilar o Papado, se lhe dessem o Poder. Ele sobe ao trono por meio de um golpe de Estado, que se qualificou de irregular mas que se tornou regularíssimo, como sempre, por parte daquele que sai vitorioso. Uma vez no poder, Napoleão III esqueceu tudo quanto, de “motu próprio”, prometeu. Não pensa que existe um Papa, nem uma Itália. Então, se lhe enviam vários bilhetes (uma espécie de “bilhete azul”… em nossos dias), que ele encontra atravessados, sempre, por um punhal. E como continuasse a não ligar importância, se lhe envia um tal Orsini, que antes lhe dirigiu uma mensagem toda especial. Desta vez, ele compreendeu. Tropas francesas são mobilizadas e enviadas para a Itália. O Papa é privado do seu poder temporal (que nunca deveria ter, diga-se de passagem, como o mesmo António Vieira foi o primeiro a demonstrar… “que o Poder Temporal é um, e o Espiritual bem outro”). Napoleão III esquece de novo a sua promessa. Foi então que se passaram os seguintes factos que, em síntese, vamos relatar:

“A missão de formar um grupo com todos os Estados da Europa foi confiada a um novo soberano. Era Guilherme I, rei da Prússia. Comprometido, por juramento, a constituir a Federação dos Estados Alemães, e mais tarde a dos Estados da Europa, foi admiravelmente auxiliado na primeira etapa por um chanceler sagaz e um tanto brutal, mesmo em seu modo diplomático de arranjar as coisas … e também de “golpe de punho um tanto fácil”. Chamava-se Bismarck, como o mundo inteiro o sabe. Com semelhante auxiliar, foi capaz de cumprir a sua promessa. Poderia ter colocado os membros de sua família em todos os tronos da Alemanha, e no entanto não o fez. Poderia ter escolhido melhor alguns personagens de mérito, para esses mesmos lugares. Se errou, não o fez por maldade. Do mesmo modo, não se deixou conduzir, como outros o fizeram, pelas famílias reinantes da Alemanha. Todos conhecem a que ponto chegou o referido país, no que diz respeito ao seu formidável poder industrial, como comercial… e até militar, e finalmente ninguém ignora a rivalidade existente entre ele e a Inglaterra, que já em 1914 mediam forças, ao lado da França, etc. Em tal época, a Alemanha sob o férreo pulso de Guilherme II, que “acaba por morrer no exílio, no seu castelo em Endem, na Holanda”, e que por sua vez, embora o mundo ignore, também estava ligado por um Juramento idêntico ao de Napoleão, com certas Associações Secretas… acabou por se sentir tão poderoso que não mais quis dar ouvidos a nenhuma delas… e o resultado foi aquele que se viu…”

D. Fernando II veio dessa época imperial de autoritarismo absolutista, com um pé atrás na idade velha (representada pela submissão ao antigo poder,  estabelecido desde longa data, que muitos preferiam simplesmente para manter a paz e o sossego, ou por medo do desconhecido), e com o outro pé adiante já na idade nova (representada pela industrialização crescente, pela liberdade de expressão e de criatividade e pela representatividade de todas as correntes de opinião no acesso ao poder legislativo). Aprendeu com os erros do passado e alinhou no dever, sentido por todo o meio estudantil alemão da época, de criar um mundo mais igualitário. O Romantismo vem ao encontro disso, tendo como foco inicial o sentimento cavaleiresco ideal e cavalheiresco social, recriando a ambiência psicossocial (neo)medieval em que se reflectisse a justiça e a perfeição almejadas para o Género Humano, sentimento partilhado pela maioria estudantil manifestamente disposta a sacrificar-se pelo seu ideal. D. Fernando vibrava com as obras de Schiller (sinónimo da revolução estudantil) e meditava com as de Goethe. Compartilhava dessa abstrata Saudade – palavra só portuguesa – que os poetas e líricos alemães sentiam em relação aos países do sul da Europa, a maioria por Itália, mas ele por Portugal, ademais informado como estava da sua Missão cíclica conformada à marcha precessional do Sol no esteiro do Zodíaco: de Jerusalém (Áries – Ciclo do Pai) a Roma (Piscis – Ciclo do Filho) e desta a Lisboa (Aquarius – Ciclo do Espírito Santo), implicando Sintra. Por certo isto não seria novidade para D. Fernando II, erudito como era decerto conhecia a obra-prima de Camões, a “Bíblia dos Lusos”, e o que esse escrevera em Os Lusíadas, VI-7:

Via estar todo o céu determinado
De fazer de Lisboa nova Roma;
Não no pode estorvar, que destinado
Está doutro Poder que tudo doma.

Avisado como estava ante o fracasso total dos imperialismos franco e germânico, igualmente do britânico, e sabendo do perigo que daí adviria para a Europa e o Mundo por se tratar dum gigantesco sistema feudalista assim mesmo governado por um soberano único, que fatalmente acabaria propenso à execução de uma política xenófoba, chauvinista e retrógrada ao progresso psicossocial colectivo, logo avessa ao que se idealizava de uma Idade de Ouro em que o Espírito norteasse a Matéria e todos os povos fossem concordes entre si, D. Fernando, já príncipe regente de Portugal, recusou quatro coroas que lhe ofereceram para ocupar os respectivos tronos: a da Grécia, a da Itália, a do México e a de Espanha. Certamente pelas razões referidas, opôs-se vivamente a quaisquer uniões políticas de Estados europeus, notoriamente a união ibérica, onde ele percebia a implicação directa de Napoleão III pretendendo influenciá-lo através do duque de Saldanha. Isto mesmo transparece em carta sua ao seu filho, o rei D. Luís (11): “Não receio tanto a republica como o Saldanha e o Imperador dos Franceses que por força ha de fallar como falou”. Decorrido pouco mais de um ano, o momento político agudizou-se desencadeando a reacção violenta de D. Fernando, traduzida em outra carta a D. Luís (12): “Li com toda a atenção a carta do Imperador dos Franceses e peço-lhe que lhe responda da minha parte que não cederei nunca a minha firmíssima resolução, de não aceitar o throno de Espanha. Pode acrescentar que sou o maior antagonista da união ibérica e que serei inabalavelmente fiel a esta minha crença venha o que vier“.

É crível que meses depois fosse o próprio imperador de França a promover a anuência ou a resignação de D. Fernando, na sequência de um jogo diplomático notável, quer através de Olozaga, em Paris, quer de Montholon, ministro francês em Lisboa, embora conhecesse a posição inglesa assente no corolário inflexível de que seria acordado solenemente que as coroas de Espanha e Portugal jamais se unissem sob o mesmo rei. E foi esta condição inglesa a utilizada pelo rei D. Fernando motu próprio, como cavalo de batalha para a sua recusa. Veja-se que o programa mínimo dos requisitos que estabeleceu para o caso de vir “a dar tal passo”, expresso em Julho de 1870, em novo quadro conjuntural, considerava:

1.º – É preciso, para que eu possa ser rei de Hespanha, que immediatamente se combine a sucessão, ou que, pelo menos, se estipule bem claramente que as duas corôas de Hespanha e Portugal jamais possam cahir na mesma cabeça.

2.º – Egualmente me parece necessario que a votação em cortes não seja inferior a três quartas partes, pelo menos, dos deputados que compõem a Assembléa Constituinte.

3.º – No estado actual das coisas, parece-me da maior conveniência que as quatro nações occidentaes, Inglaterra, França, Hespanha e Portugal estejam de acordo na minha candidatura.

4.º – Por ultimo devo acrescentar que nada resolverei definitivamente neste negócio sem intervenção do governo portuguez.

5.º – Em caso de abdicação ou d’outra qualquer eventualidade, que me forçe a retirar-me à vida particular, eu fique com a mesma dotação, garantida pela Hespanha, que actualmente tenho em Portugal.

6.º – Emquanto à Condessa d’Edla, é do meu decoro que tenha a alta posição que lhe compete como minha esposa em todos os actos que não sejam officiaes.

Favorável à política francesa para Espanha, pondo no trono desta D. Fernando e assim ficando livre para assumir a regência de Portugal, o duque de Saldanha de há muito andava em conflito aberto com o príncipe regente que, desconfiado das suas intenções, avisou claramente D. Luís (13):

“Não penso que a loucura criminosa de um homem octogenário chegue a este ponto, eu porem lhe digo solenemente é que eu, se só um indício palpavel tiver, de taes tenções, pela minha parte heide fazer um protesto à face de toda a nação portuguesa.”

Os acontecimentos atingiram tal ponto extremo que se abriu conflito militar entre o Ministro do Reino, o conde de Tomar, com as suas forças no Porto, e o duque de Saldanha, Chefe do Estado Maior General, com as suas forças em Lisboa, donde saiu a dar combate àquelas. Estava anunciada e iminente a guerra civil: o Norte contra o Sul de Portugal. Ia correr sangue português; ia perigar a soberania nacional. O francesismo oportunista do jacobino Saldanha ia bater-se com o portuguesismo tradicional do Ministro do Reino. A borrasca sangrenta estava por horas!… Então, o Governo da Nação decidiu entrar na campanha nomeando D. Fernando para Comandante-Chefe. Apesar de estrangeiro D. Fernando “sentia-se português e não desejava abdicar de ser português” (palavras suas quando lhe ofereceram a Coroa da Grécia em 1862), mas ele era um homem bom, culto, amigo da paz e amante das belas artes, a sua índole pacífica dispunha-o a não desejava ser o iniciador de uma guerra civil em Portugal, país que tanto amava. Ainda assim lá partiu à frente de poderoso exército, mas sem pressa, devagar, pesaroso, indo alcançar as forças militares, muitíssimo inferiores às suas em homens e poder bélico, do duque de Saldanha em Coimbra, junto às margens do Mondego. Os homens e peças do exército real ocuparam posições, e ante a desproporção do adversário antecipava-se a vitória certa!

Os estudantes de Coimbra juntaram-se aos revoltosos, as populações arredor também, sentindo o mesmo entusiasmo pela causa de Saldanha. Vendo isso, D. Fernando II não mandou abrir fogo e, apesar de estar em vantagem, encetou negociações. Foi insultado e viu-se desamparado de toda a sua divisão, a maioria fugindo para o Porto, deixando-o só. Regressou a Lisboa, tristemente, com escasso grupo de militares fiéis que não o quiseram abandonar. D. Maria II (isto passou-se com ela ainda viva, desde 8 de Outubro até Junho de 1847 e que correspondeu à Patuleia, esta o prolongamento da Revolta de Maria da Fonte, no Minho, em Abril de 1846) viu-se obrigada a ceder, a demitir o conde de Tomar e a encarregar o duque de Saldanha de organizar novo Governo. Entregou-lhe também o comando do exército, que pertencera a seu marido.

Por causa dessa sua atitude que ninguém compreendeu, D. Fernando II passou à História como “o pior militar que Portugal já teve”, e Rafael Bordalo Pinheiro, artista ceramista, cartonista e crítico, taxou-o de “Zé Nabo”. Nada mais injusto! O príncipe regente foi humilhado na altura, mas pode-se afirmar que quem venceu essa terrível batalha interior foi o amor de D. Fernando a Portugal. Não se disparou um só tiro! Não morreu ninguém! Não houve reacender de ódios nem vinganças! Sofreu em silêncio, sem esperar gratidão ou reconhecimento de alguém, tendo como único conforto a consciência de ter feito o que tinha de fazer, o de cumprir a missão de salvar Portugal da guerra civil “com o primeiro tiro do seu canhão”. Ainda hoje poucos se apercebem que ele não via a sua posição de militar com os mesmos olhos com que muitos políticos gostam de a ver: como simples braços executores de uma vontade governativa! Para D. Fernando ser militar tinha mais a ver com o juramento da Bandeira (onde se jura defender a Pátria) que com um governo que acaso os ventos políticos hajam momentaneamente dado à terra. Ser militar significava, para ele, ser defensor do destino do País, independentemente da compreensão ou não da geração que o rodeava (14).

Caricatura de D. Fernando II por Rafael Bordalo Pinheiro

Caricatura de D. Fernando II por Rafael Bordalo Pinheiro

É depois disso que D. Fernando II se recolhe cada vez mais ao cultivo das Belas Artes, cuja Escola fundou e financiou. Dela saíram os maiores românticos da época, muitos deles passando ao exercício das artes arquitectónica e pictórica em Sintra, mudando decididamente a sua paisagem, cuja serra desde então era morada quase permanente do rei, só indo à capital quando os deveres de Estado assim lho exigiam. Afastou-se cada vez mais das intrigas da corte, mas sempre vigilante às investidas dos adversários. Ele que inicialmente, antes das querelas políticas os separarem, fora muito amigo do duque de Saldanha, havendo mesmo notícias de várias vezes passearem juntos pela Serra de Sintra. Será muito natural que assim seja, pois ambos perfilhavam do ideal da Maçonaria, um mais pelo seu aspecto político (Saldanha), outro mais e exclusivamente pelo seu aspecto simbólico e esotérico (D. Fernando) (15), também isso, “fraternidade entre irmãos”, tendo contribuído para o recuo militar do rei contrariando a sua vitória certa.

Muitos dos amigos mais chegados e alguns parentes de D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha mantinham relações e até afiliações à Maçonaria, inclusive o seu preceptor Dietz, iniciado no Grande Oriente Irlandês ou Prussiano, que se estabeleceu em Lisboa pouco depois da chegada de D. Fernando. Dietz poderia, pois, corroborar que a “actividade maçónica” circulava em casa de seus amos. É igualmente conhecida a protecção neste período dada à Maçonaria pelo arquiduque João, Grão-Mestre da Ordem de Cavalaria Zur Blauen Erde, de que passaram a fazer parte o príncipe Guilherme da Prússia, o arquiduque Carlos Augusto de Weimar e o príncipe Leopoldo de Saxe-Coburgo (tio de D. Fernando e futuro rei dos belgas). Perante tão solene e ilustre envolvência, D. Fernando não caminhou imune e sabe-se que em Lisboa mantinha as melhores relações com a fina flor da botânica maçónica, que acolhia intimamente o embaixador do Brasil, tido como “bom mação”, e que já afastado das lides políticas ainda era conhecedor actualizado, por tais fontes, das movimentações e planos no que respeitava a ataques contra a Coroa ou golpes de ambição político-militar. Conta a imprensa, com muitos erros, que por conflitos insanáveis lhe retiraram o malhete de Grão-Mestre, mas inequívoco é ter recebido votos em eleição para aquele cargo (16).

Realmente D. Fernando II de Saxe-Coburgo Gotha foi Maçom do Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite, tendo concorrido no Grande Oriente Lusitano Unido, para seu primeiro Grão-Mestre no Supremo Conselho do Grau 33.º, em 30 de Outubro de 1869, eleição que perdeu a favor do 2.º conde de Paraty, D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha (31.7.1820 – Lisboa, 22.4.1884), o qual tomou posse a 16 de Dezembro do mesmo ano. cargo que ocupou até 1881. Antes, entre 1859 e 1869, o conde de Paraty fora o 17.º (ou 1.º e único depois da sua reunificação) Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, e o 12.º Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho afecto ao G.O.L.

D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha, 2.º Conde de Paraty, com o traje e insígnias maçónicas.

D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha, 2.º Conde de Paraty, com o traje e insígnias maçónicas.

Pelas relações conceituais, simbológicas e falerísticas com a tradição hermética judaico-cristã do Grau maçónico de Príncipe Rosa+Cruz, o de maior prestígio na maçonaria da época, D. Fernando II acabaria por ser associado a esse título iniciático, motivo porque entre teúrgicos e teósofos afins à mística Sintra, que foram os primeiros a criá-la e propalá-la nos últimos decénios,  ele ser cognominado Principis Rosea+Crucis, reconhecido pelo Sinal e Palavra Sagrada do 18.º Grau de Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosa+Cruz no Rito Escocês Antigo e Aceite: pés em esquadria, mãos cruzadas sobre o peito, pronunciando Emmanuel… que é dizer: Manuel ou El Manu, o Legislador e Condutor de Raça, neste particular afim ao de Sintra, Portugal, considerado um dos sete Centros de Vida (Qtubs ou Chakras, em árabe e sânscrito, respectivamente) do Mundo e o único na Europa,   destacando-se a figura régia de D. Fernando II, que mais que Rei-Artista  expressou ao Elias Artista (o Logos Criador) da Kaballah e Alquimia, ou seja, Rei-Iluminado pela Graça e Sabedoria do Divino Espírito Santo, que é dizer, da Avis raris in Terris (17).

Por isso mesmo, acaso ou por certo ele teria perfilado entre os membros incógnitos ou secretos dessa misteriosa mas soberana Ordem dos Marizes (Marus, Maurus, Mouros, Moryas…), a qual possuía por alter-ego a mesma Sintra, diz a Tradição Iniciática; também  por isso mesmo terá querido quis fazer dela (de certa maneira fê-lo) Capital Espiritual e Temporal do V Império Lusitano de toda a Terra, ideia soberana e transcendente igualmente indiciada na conversão que fez ou mandou do antigo convento jerónimo de Nossa Senhora da Pena em espécie ideal de Palácio do Rei do Mundo, que com a chave “apocalíptica” (esculpida sobre o arco de entrada no espaço palaciano) parece destinada a abrir o novo Império – o do Espírito Santo como Terceira Pessoa assinalada nas três rosas sobre a clave, igualmente sinaléticas tanto de Maria como Mãe Trina (donde Maitreya…) do Céu, da Terra e do Inferno, como ainda de Mestre ou Adepto Perfeito – ou a nova Idade (Ciclo) de Demanda, nisto a cumprir-se desde serrania paradisíaca da venusta Cynthia, destinada a espiritualmente alimentar a Humanidade “arrancando mel das suas próprias pedras”, parafraseando São Bernardo de Claraval.

O (neo)Templarismo renascentista e romântico reavivou-se em Sintra e nela teve o auge.  No topo da serra, o Palácio de Saxe (ao qual Richard Strauss, na sua visita aí, extasiado chamou de “Palácio do Santo Graal”) é como o Templo fundado por Titurel no cume do Mons Salvat,  para aí nele depor o Santo Cálice e as Sagradas Relíquias, tendo sido o próprio Mago Merlim a dirigir essa construção misteriosa. A Fede Santa da Cavalaria Espiritual do Santo Graal torna-se aqui a Massenia, ou seja, a Maçonaria Ascética cujos membros se chamam os Templários, ligados ao Centro Supremo representado por esse Templo ideal que se quis entronizado nesta barda e sibilina Montanha Sagrada de Sintra, já de si consignada o Quinto Centro Jina do Planeta que assim vai cumprindo A REALIZAÇÃO DE DEUS.

Posto tudo o dito, agora será mais fácil entender por que D. Fernando II quis Sintra Capital Espiritual da Europa?

Sintra de quem o rei era apaixonado incondicional, dizendo da serra em uma das suas inúmeras cartas (c. 1844):

“Sintra é de facto um sítio magnífico, que não se deixa comparar facilmente com outras regiões. A minha querida Pena é, conforme o meu critério, a coroa da região sintrense. Ainda ontem passámos lá uma das tardes mais maravilhosas que se podem imaginar e regressámos a casa ao luar. Não existe algo de mais belo do que uma das calmas tardes locais, porque a luz é quase sempre serenamente bela e todas as coisas se mostram numa nitidez muito especial.”

E fitando todo Portugal, quiçá desde as altas penedias da sua “querida Pena”, este Português por adopção remata num arrebate de graças  em uma das suas primeiras cartas enviada de Lisboa a Coburgo:

“Portugal, criado verdadeiramente pelo Céu para ser unicamente feliz”!

NOTAS


(1)
Lopes Rodrigues, D. Fernando II e a Toponímia, in Romantismo – Figuras e factos da época de D. Fernando II. Ed. Instituto de Sintra, 1988.

(2) José Teixeira, D. Fernando II – Rei-Artista, Artista-Rei. Edição Fundação da Casa de Bragança, 1986.

(3) Conde do Lavradio, Memórias, vol. III, parte II, p. 330.

(4) O Portuguez, 19.XI.1853.

(5) O Funeral e a Pomba, 13.ª edição do Poema em 5 Cantos do Sr. João de Lemos, Lisboa, 1853.

(6) Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada. Sintra, 1990, 1994, 1998, finalmente a última edição em 2007 pela Dinapress, Lisboa.

(7) Marie Letizia Rattazzi, Portugal de Relance. Lisboa, 1881.

(8) Henrique José de Souza, Cagliostro e São Germano. Revista Dhâranâ, 28.9.1941.

(9) O rei Leopoldo houvera já escrito a seu irmão o duque Fernando Jorge manifestando-lhe “um grande desejo de ver concluída a projectada aliança”. – ANTT, Estrangeiros, Cx. 22, n.º 3, ofício de 18.IX.1825 do conde do Lavradio.

(10) Rainer Daehnhardt, Páginas Secretas da História de Portugal, vol. I. Ed. Nova Acrópole, Lisboa, Maio 1993.

(11) AHMF, Cartório da Casa Real, Maço 9, doc. 128-6, carta datada de Mafra de 24.VIII.1836.

(12) Ibidem, Maço 9, doc. 128-9, de 27.VII.1847.

(13) Ibidem, 18.IX.1837.

(14) Rainer Daehnhardt, ob. cit.

(15) Victor Mendanha entrevista Vitor Adrião, Seguindo o caminho de D. Fernando II na procura do Santo Graal. Matutino Correio da Manhã, 5 e 6 de Janeiro de 1986. E ainda pelo mesmo jornalista no mesmo jornal, caixilho com pequena entrevista de Vitor Adrião acerca do Tesouro Escondido de Sintra, em 17.7.1987.

(16) AHMF, Cartório da Casa Real, maço 12, doc. 305-27, carta do rei D. Fernando II a seu filho o rei D. Luís de 25.VIII.1870. E Diário de Notícias, 15.VI.1869.

(17) Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual na Igreja e na Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.

O Sagrado e Secreto do Jazigo da Família Carvalho Monteiro – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jan 15 2017 

O jazigo monumental da família Carvalho Monteiro encontra-se no Cemitério dos Prazeres, Lisboa, com o número 1382 na rua 11, lado esquerdo. É o segundo jazigo desta família, cuja responsabilidade da sua manutenção foi confiada em 1863 por Francisco Augusto Mendes Monteiro ao seu filho António Augusto Carvalho Monteiro, cujo despojo mortal entrou nele a 2 de Abril de 1922 transladado do anterior, onde entrara às 17 horas do dia 27 de Outubro de 1920[1].

Nascido em 27 de Novembro de 1848 segundo a sua certidão de baptismo em 1849 no Rio de Janeiro[2], capital do Brasil por decreto do marquês de Pombal, substituindo a anterior de São Salvador da Bahia, após uma vida bastante preenchida António Augusto Carvalho Monteiro veio a falecer na sua Quinta da Regaleira de Sintra, vítima de hemorragia cerebral, às 00:15 horas da noite de domingo para segunda-feira de 25 de Outubro de 1920, portanto, com a idade de 72 anos. No dia imediato, o Diário de Notícias (26.10.1920) anunciou na sua primeira página o falecimento do culto milionário e mecenas, dizendo que a causa da morte havia sido “[…] uma comoção […] de tal ordem […] que a ciência não conseguiu dominar, a despeito dos esforços do senhor Dr. (Francisco José de Jesus) Cambournac”.

Também o jornal O Século (26.10.1920), na sua primeira página, deu a notícia do falecimento do “abastado capitalista e proprietário” em Sintra, acompanhando o artigo com uma fotografia de Carvalho Monteiro, de longas barbas brancas e chapéu alto. Fazendo o elogio fúnebre, o articulista escreveu: “O sr. Carvalho Monteiro era extremamente económico, no que não dissesse respeito às suas colecções ou à protecção que dispensava à pobreza envergonhada e aos artistas que a ele recorriam”. O mesmo jornal informou ainda, na sua edição de 28.10.1020, quando fez a descrição do serviço fúnebre no dia anterior, que duas grandes coroas de crisântemos e malmequeres brancos foram depostas sobre a urna, uma da família e outra dos “antigos joalheiros da Coroa” da Casa Leitão & Irmão.

O funeral religioso do Dr. Carvalho Monteiro foi organizado pelo seu genro, D. Francisco de Assis Nazaré de Almeida, e no seu velório na Regaleira participaram, além dos familiares, os artífices que trabalharam na quinta, os empregados, os pobres da vila (acompanhando chorosos o seu benfeitor à última morada), os bombeiros voluntários de Sintra e da Amadora (também muito beneficiados por ele) e inúmeras personalidades da vida cultural e social do país. A urna foi coberta com a bandeira da Sociedade de Geografia de Lisboa, notícia atestada por Vasco Callixto[3]. Houve mesmo um comboio especial para os convidados, amigos e restante povo que quiseram acompanhar o cortejo fúnebre até ao Cemitério de Nossa Senhora dos Prazeres, que tendo partido do Rossio para Sintra repleto de rostos amigos entristecidos voltou ainda mais cheio para Lisboa no fim da manhã de 27.

Notícia das exéquias fúnebres de António Augusto Carvalho Monteiro publicada na "Illustração Portuguesa" nos fins de Outubro de 1920

Notícia das exéquias fúnebres de António Augusto Carvalho Monteiro publicada na “Illustração Portuguesa” nos fins de Outubro de 1920

Já Francisco Augusto Mendes Monteiro faleceu, devido a problemas de fígado, no seu Palácio da Rua do Alecrim, em Lisboa, em 1 de Novembro de 1890, tendo deixado a sua Quinta da Torre ou do Vadre de São Domingos de Benfica, a qual o padre Álvaro Proença não deixou de assinalar[4], como que apercebendo ou suspeitando da intenção oculta do proprietário: “Em meados do século XIX aparece-nos nas mãos do doutor Carvalho Monteiro, com um pórtico acastelado e rodeado por um muro cheio de ameias, tudo de gosto […] tresandando a pretensões”. Ainda cheguei a conhecer esta Quinta do Vadre e a sua torre neomedieval antes de serem demolidas. Ficavam nas traseiras do Instituto Militar dos Pupilos do Exército, à beira da antiga e já também desaparecida estação ferroviária de Cruz da Pedra.

Pai e filho repousam com a restante família no citado jazigo, edificado de acordo com o projecto de Luigi Manini em 1907, escolhido e aprovado por Carvalho Monteiro, mas que só seria concretizado nos inícios de 1922, não esquecendo o artista de insculpir a assinatura de Manini no lado esquerdo da entrada dianteira. Durante muitos anos, a donatária responsável pelo jazigo foi a 7.ª marquesa de Pombal, que conheci e entrevistei, Sr.ª D. Maria Nazaré Monteiro de Almeida Carvalho Daun e Lorena, informando-me que a chave que abre o jazigo abria igualmente as das portas do Palácio da Rua do Alecrim e do Palácio da Quinta da Regaleira, facto insólito carregado de significados escondidos.

Esquisso do jazigo da Família Carvalho Monteiro feito por Luigi Manini

Planta do Jazigo da Família Carvalho Monteiro gizado por Luigi Manini

Sendo a família Lorena de origem franco-helvética, veio a unir-se por via de núpcias com a família Carvalho e, depois, com a Carvalho Monteiro. Isto é atestado pela presença de dois jazigos subterrâneos neste cemitério que ostentam o brasão dos Carvalho, ou seja, os túmulos de D. Francisca Maria de Lorena, 3.ª marquesa de Pombal, nascida em 28 de Novembro de 1758 e falecida em 12 de Setembro de 1837, que se distinguiu pelas suas virtudes e extraordinária caridade com os pobres; e de D. Maria Francisca de Carvalho e Lorena, filha dos 4.os marqueses de Pombal, falecida em 23 de Fevereiro de 1870, com treze anos.

Parte da família Carvalho e Melo emigrou para o Brasil aquando da administração de Sebastião José de Carvalho e Melo, o 1.º marquês de Pombal, e até um pouco depois, já durante a regência de D. João VI, tendo tido papel determinante na História Brasileira dos séculos XVIII-XIX, donde se verem vários personagem distintos do mesmo ramo familiar à dianteira dos destinos dessa nossa Pátria-Gémea: durante o período regencial do imperador D. Pedro II, vê-se um José da Costa Carvalho (1842) participando permanentemente do governo trino do Brasil; vê-se ainda um contra-almirante Custódio de Melo à frente da revolta da Armada em 1891, juntamente com o almirante Mariz e Barros, contra a Assembleia Constituinte. Também se vê antes, em 1823, D. Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos, favorita do imperador D. Pedro I, como a principal opositora à política liberal do ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, este representando a facção jacobina e progressista e aquela, como os outros afins, favorável à facção católica e conservadora[5].

D. Maria Nazaré Monteiro de Almeida Carvalho Daun e Lorena, 7.ª marquesa de Pombal, neta do dr. Carvalho Monteiro em entrevista a Vitor Manuel Adrião

D. Maria Nazaré Monteiro de Almeida Carvalho Daun e Lorena, 7.ª marquesa de Pombal, neta do dr. Carvalho Monteiro em entrevista a Vitor Manuel Adrião

O ano do nascimento de António Augusto Carvalho Monteiro, 1848, correspondeu ao período da fase de pacificação e conciliação (1840-1856) do reinado de D. Pedro II, tendo vindo para Portugal (1859) em plena fase de apogeu do Império (1856-1870), portanto, antes da decadência do regime monárquico no Brasil (1870-1889)[6]. Em 1873, ele casou com D. Perpétua Augusta Pereira de Melo (1852-1913).

A escolha do Cemitério dos Prazeres para última morada da família Carvalho Monteiro, não foi por acaso e houve dois motivos para a mesma, um social e outro, talvez o principal, religioso, de expressão mítica e milagreira. Começando pelo primeiro motivo, direi que o Cemitério dos Prazeres foi construído em 1833 depois de em Junho desse ano uma terrível epidemia de cholera morbus (cólera mórbida) ter assolado Lisboa, causando milhares de mortos, o que obrigou as autoridades sanitárias ao estabelecimento de dois cemitérios (este o do Alto de São João, na zona oriental da cidade) e à proibição dos enterramentos nos espaços religiosos, como tradicionalmente se realizavam. A legislação do governo de Costa Cabral regulamentou essa interdição (leis da saúde de 1844) que levaria à revolta popular da Maria da Fonte ou Revolta do Minho[7], em Maio de 1846, sublevação que se propagou a todo o país desembocando na guerra civil, a Patuleia, durante oito meses, só terminando em 30 de Junho de 1847. Servindo o lado ocidental de Lisboa, onde se implantavam os bairros das residências aristocráticas, desde o primeiro momento o Cemitério dos Prazeres tornou-se o das famílias dominantes da cidade, e uma personalidade com o peso social de António Augusto Carvalho Monteiro não poderia ter outro lugar para última morada. Assim nasceu uma cidade dos mortos dentro da cidade dos vivos.

O segundo motivo da escolha, o religioso, é muito mais atractivo e inclusive explica o sentido do onomástico Prazeres, relacionado com a Fonte Santa que está entre os números 111-D e 13 na curva da Rua Coronel Ribeiro Viana, quase escondida entre os prédios modernos que modificaram por completo a paisagem. Esta fonte que deu nome ao lugar, Prazeres, é constituída por um espaldar liso de cor ocre, tendo na base inferior uma verga de mármore branco a toda a largura. Por debaixo desta verga fica o tanque, que ainda é o primitivo mas restaurado diversas vezes, dentro do qual se vê um bloco de pedra para descanso das bilhas, ainda com as marcas dos encaixes dos suportes de ferro. No espaldar, rematado por uma cruz, também ainda se vê, ao centro, uma pedra esculpida com uma nau cuja proa termina em cabeça de serpente. É uma pedra quinhentista colocada aqui em 1835, aquando das obras de restauro. A água que corre na fonte através de uma torneira metálica com mola já não é, porém, a da nascente que a alimentou e teve fama de curar enfermidades. A nascente, que parece ter secado devido às obras de construção dos edifícios nas proximidades, foi substituída pela água canalizada da EPAL.

Essa fonte anda ligada à lenda que reza ter aparecido a imagem da Senhora dos Prazeres sobre ela, muito antes de 1599, motivo para ter sido baptizada, bem como o sítio, com o nome de Fonte Santa, pelas grandes virtudes que a Virgem comunicou à água que ali corria e curava todas as enfermidades. O Senado da Câmara de Lisboa encarregou-se depois de mandar fazer a arca e o tanque, pondo na gárgula as Armas da cidade. Essa imagem de Nossa Senhora dos Prazeres foi depois colocada numa ermida construída para o efeito, mas que hoje já não existe. Permanece, sim, próxima dela a igreja quinhentista de Nossa Senhora do Paraíso e Senhor Jesus do Triunfo, epítetos alusivos à Ressurreição como derrota da Morte.

A ermida desaparecida estava dentro e deu o nome da Orago à Quinta dos Prazeres, na qual veio a talhar-se o actual cemitério. Era muito concorrida todos os domingos, principalmente no domingo e segunda-feira depois da oitava da Páscoa, pois todas as irmandades, clérigos e irmãos do Santíssimo da freguesia de Santos ali iam em procissão, de cruzes alçadas, cantar uma missa solene dentro dela. Estava situada um pouco acima da Fonte Santa, na actual Rua Coronel Ribeiro Viana e antes da Travessa dos Prazeres, onde hoje é o n.º 27.

A barca serpentária da Fonte Santa e o título Prazeres da Senhora, remetem para a conceição da felicidade post-mortem por um ritual hídrico ou lustral de águas santas, portadoras de propriedades minerais invulgares marcadas pela intensidade telúrica dos veios subterrâneos do lugar, que no entendimento simples popular eram sanadoras do corpo e da alma, das doenças corporais e morais[8].

Fonte Santa dos Prazeres

Fonte Santa de Nossa Senhora dos Prazeres

Pois bem, tem-se nesta cidade dos mortos da freguesia de Campo de Ourique o jazigo monumental da família Carvalho Monteiro, feito de mármore fino de Carrara sobre o esquisso de Luigi Manini, garante a visibilidade grandiosa por estar na esquina da rua principal com a “praça pública” do Cemitério dos Prazeres. A composição assemelha-o a um catafalco-monumento mantendo a espetacularidade celebrativa e ganhando o carácter de permanência[9]. Manini encena a posse e a celebração através de uma composição simbológica de cariz cemiterial cuja interpretação mais uma vez dispõe o pensamento religioso do encomendante, Carvalho Monteiro, conciliando o confessional e o racional católico, neste último revelando a tendência gnóstico-sebástica onde os símbolos cemiteriais estão adaptados ao conceito de ressurreição e advento. A planta do jazigo configura um triângulo em lança, quase sugerindo a forma de uma borboleta saindo do casulo, este aqui o fúnebre transmitindo a ideia da alma alada e subtil ressuscitando para a vida eterna, motivo central da fé católica que é a de Cristo Ressuscitado. Assemelhando-se a uma “barca vogando sobre as águas da eternidade” (a mesma de São Pedro que é a Igreja), o conjunto configura um templo funerário, espécie de capela do culto ao além-vida, como se completasse aquela outra da Quinta da Regaleira, essa destinada ao alimento das almas no esforço dos corpos, e esta ao repouso dos corpos na evolação das almas. Ambas exprimindo os três Mundos de Causas, Leis e Efeitos pelos três patamares da sua composição arquitectónica:

Com efeito, no todo o jazigo parece um templo de imortais, uma capela só para almas que os corpos ficam no repouso eterno, composto por três corpos: Arcanjo Custódio, o Guardião das Almas de espada em guarda a assinalar a função psicopompa ou medianeira do próprio São Miguel sentado no Trono da Glória, assim representando o Céu, o Supramundo; o jazigo superior, com um pequeno altar ao fundo, onde se vê sobre a aldraba da porta a borboleta sobre a ampulheta, representação da transmigração da alma humana, do evolar da Terra, do Mundo; e o jazigo inferior, que é a cripta, o lugar subterrâneo dos imortais ou Submundo.

Dianteira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

Dianteira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

No topo deste monumento está a figura augusta do Anjo da Guarda desta família (o seu Genius Loci), o Arcanjo Custódio – o mesmo da Confraria de São Miguel das Almas de Lagos da Beira, terra natal do progenitor do dr. Carvalho Monteiro – de asas abertas e espada em guarda, erecta, encostada ao ombro direito, com as chaves na outra mão, sentado no Trono da Glória, expressivo da Merkabah, sobre o dossel, postura expressiva do domínio (sentado no trono) e da revelação (sobre o dossel), mas também da protecção que é o que significa o dossel ou pálio. Este assenta sobre quatro colunas dóricas e tem ao centro a urna funerária igualmente figurativa da Tebah, isto é, da Arca da Aliança de Deus com o Homem, mas aqui na expressão póstuma de aliança da alma do crente com Deus Único e Verdadeiro, o mesmo que Se revelou a Moisés no Monte Sinai através de São Miguel ou Mikael (“O Anjo no qual é Deus”, em hebreu, Maleak-Ha-Elohim)[10], já antes tendo sido o Guardião das portas do Paraíso, de onde foram expulsos Adão e Eva para darem a progénie humana, segundo as escrituras bíblicas. Mas aqui é o Guardião zeloso com as chaves da entrada no Céu, as do retorno eterno ao Éden, ao Paraíso como Parnaso de além-túmulo, a Jerusalém Celeste. Quatro tocheiros em volta da urna ao centro, assentes sobre colunas coríntias (estilo arquitectónico tradicionalmente preferido para o tipo de monumentos funerários), dão-na como urna ardente, assinalando a presença da alma imortal e assegurando o perdurar da luz de vigília, no aguardo da ressurreição final das almas familiares (manes) de Carvalho Monteiro. A toda a volta do pálio estende-se um listel decorado com flores de pétalas abertas em cruz, alegóricas da “fina-flor” da alma cristã que corporalmente animou aqueles cuja memória jacente é assinalada na própria urna.

Essa sinalética igualmente evoca São Miguel Arcanjo (Qui ust Deus, em latim, “Quem é Deus”) como padroeiro da antiga Ordem dos Templários no País e a sua aclamação como Anjo Custódio ou da Guarda – que é o seu significado literal neste jazigo dos Prazeres, repito – de Portugal e da Igreja, sendo igualmente o Orago da Sinagoga (Mikael) e da Mesquita (Mirrail), portanto, com a dupla função psicopompa de guardião e guia dos crentes e da “Terra da Luz” (Luxcitânia). Sobre isto, diz Pinharanda Gomes[11]:

“Um dos mais ricos documentos literários e teológicos do século XVII é o Tratado do Anjo da Guarda, do jesuíta António de Vasconcelos. Aí, a par de uma catequese angiológica, o autor documenta a natureza e a evolução do culto em Portugal, demonstrando a sua antiguidade e dignidade. Com efeito, embora a crença no Anjo da Guarda venha de longe, pelo menos dos Salmos, a festa desta invocação só aparece em Espanha no século XVII, sendo aprovada (1608) por Paulo V. Festa imperial da Casa de Áustria, tornou-se extensiva a toda a Igreja (1670), por decisão de Clemente X, e a festa ocorria inicialmente em 29 de Setembro e 8 de Maio (no Ocidente e no Oriente, respectivamente).

“Regressando ao plano do nosso país, esta fé e esta liturgia desenvolvem-se primordialmente em relação ao Anjo Custódio de Portugal, cujo culto se nos evidencia em duas fases: o início, até à decadência, e a revivescência, mediante as aparições de Fátima.

“Segundo António de Vasconcelos, na conquista de Santarém, D. Afonso Henriques invocou S. Miguel Arcanjo, aí tendo instituído a Ordem de S. Miguel da Ala. A insígnia desta Ordem era uma asa vermelha em campo branco, cercado a ouro. A devoção ao Anjo cresceu de tal modo que D. Manuel I o invocava como “anjo nosso guardador”, tendo-se antecipado ao movimento do culto em Espanha. De facto, D. Manuel solicitou (6-6-1504) de Leão X a instituição da festa do Anjo Custódio de Portugal, a celebrar no terceiro domingo de Julho, dando aso a uma tradição que ainda se mantém em várias localidades do país. Anteriormente (1480), ao fundir num só vários ofícios litúrgicos, o prior de Odivelas, Fr. António Castanheira, já encontrara o ofício do Anjo Custódio, pelo que o gesto de D. Manuel corresponde a um sancionamento de uma tendência cultual anterior, depois incorporada nas Ordenações Manuelinas (Liv. I, tit. 78), onde se determinam os actos da festa: procissão solene, missa e ofício particular em Lisboa e noutras terras. O estatuto passaria para as Ordenações Filipinas (Liv. I, tit. 66, & 48), mas antes alvarás foram expedidos por D. Manuel a várias câmaras do país para instituírem a festa, que obteve maior brilho nas dioceses de Braga, Coimbra e Évora, sobretudo nos séculos XVII e XVIII. A partir de então, o culto decaiu, mas por decreto (28-6-1952) da Sagrada Congregação dos Ritos, a festa foi restaurada em todas as dioceses portuguesas (em Braga continuou a fazer-se em 9 de Julho), e fixada em 21 do mesmo mês. O decreto de 27-7-1952 trasladou-a para 10 de Junho e fixou o novo próprio de Portugal.”

As paredes laterais sob o dossel estão forradas por três lápides com inscrições evocativas das memórias jacentes de Francisco Augusto Mendes Monteiro e sua esposa, Teresa Carolina de Carvalho, e também de um seu filho falecido. Pelo interesse biográfico que importam ao conhecimento desta família cuja maioria dos dados cronológicos hoje são praticamente desconhecidos dos historiadores, transcreverei essas inscrições lapidares cujas letras foram pintadas a negro originalmente mas que hoje estão muito deterioradas, quase apagadas.

Primeira lápide

Ao lado dos restos mortais do filho descansam também aqui os da sua extremosa mãe D. Teresa Carolina de Carvalho Monteiro nascida no Rio de Janeiro a 1 de Outubro de 1810 e falecida em Coimbra a 2 de Abril de 1871 com 60 anos, 6 meses e 29 dias de idade. Foi na vida filha querida, esposa a mais dedicada, mãe extremosíssima e protectora dos pobres. A sua alma gozará de certo da bem-aventurança celeste, assim o crêem o seu desolado esposo Francisco Augusto Mendes Monteiro e os seus consternados filhos António Augusto de Carvalho Monteiro e José António de Carvalho Monteiro que à memória da finada tributam uma eterna saudade.

Segunda lápide

Ao lado dos restos mortais da esposa e mãe descansam também os do seu desvelado marido e pai Francisco Augusto Mendes Monteiro nascido em Lagos da Beira, Concelho de Oliveira do Hospital, em 9 de Março de 1816 e falecido em sua casa em Lisboa na Rua do Alecrim, Freguesia da Encarnação, no dia 1 de Novembro de 1890 contando 74 anos, 8 meses e 8 dias. Um português modelar, exemplar chefe de família, marido dedicado e pai extremoso praticando o bem esforçado à sua pátria. Para aqui foram os seus restos mandados trasladar pelo seu saudoso filho António Augusto de Carvalho Monteiro. Que eles descansem em paz juntos dos entes queridos que na vida teve.

Terceira lápide

Francisco Augusto Mendes Monteiro e a sua esposa D. Theresa Carolina, mandaram erigir este monumento de indelével saudade à memória do seu querido filho Francisco, que nasceu no Rio de Janeiro aos 23 de Dezembro de 1847, e faleceu na Vila da Figueira aos 5 de Outubro de 1860, com 12 anos, 9 meses e 13 dias de idade. Foram trasladadas as suas cinzas do Cemitério d´Moutela Vila para este jazigo em 13 de Outubro de 1868. Sob a guarda do R. P. Manoel Marouf Per. Ribeiro da cidade de Coimbra. Olatium obi in aeternum pax filli domi Domine.

Nos lados da porta frontal do jazigo, em guisa de “figuras de convite” cemiteriais, apresentam-se as esculturas de duas virtudes teologais: à esquerda (de quem olha de frente) a , carregando a Cruz, e à direita a Esperança, portando o Cálice, esta com a cabeça descoberta e aquela coberta, por ser a algo íntimo, feita só daquilo que o crente sabe, e a Esperança a sua suprema e derradeira afirmação.

A virtude (virtus, em latim) é uma qualidade moral particular, como a inclinação natural para praticar o bem, e o conjunto virtuoso expressa todas as qualidades essenciais que constituem a natureza do chamado homem de bem, quer individualmente, quer colectivamente. Como disse Aristóteles, as virtudes são a disposição adquirida, pelo seu cultivo permanente, para praticar o bem, o bom e o belo, aperfeiçoando-se e desenvolvendo-se cada vez mais com o hábito. As virtudes ou skandhas, em sânscrito, são as normas, regras ou râgas como cimento moral da vida e em particular da ciência sacerdotal. Sem elas, o distinto sagrado do sacerdócio não poderá distinguir-se do vulgar profano e ordinário, como tampouco a sociedade humana se distinguirá do bruto irracional. Há dois grupos de virtudes: as virtudes teologais, cuja origem e objecto são o próprio Deus Espírito Santo revelado como Fé (Fides), Esperança (Spes) e Caridade (Charitas), ausente neste jazigo mas que poderá assinalar-se no Arcanjo caridoso protegendo a urna. E as virtudes cardeais, consideradas as principais dentre as virtudes humanas: Justiça (Iustitia), Prudência (Sapientia), Fortaleza (Fortitudo), Temperança (Temperantia), e mais a Obediência (Hobedientia) que, no caso de António Carvalho Monteiro, seria tanto à Igreja como à Coroa, ambas seculares. Disso conclui-se que até o bem-fazer não é feito sem ordem nem regra, e sim com a discriminação prudente que cada caso exige.

Como há quem veja, a meu ver imprudentemente, nessas esculturas do jazigo algum simbolismo esotérico de carácter maçónico ou afim[12], por bem adiantarei que a noção de virtude na Maçonaria não é exactamente igual à do Catolicismo. Sendo qualidades positivas próprias do homem, as virtudes são “forças” ou skandhas, que integradas ou assimiladas por ele entram na formação superior ou elevada do seu carácter. Como já disse, chama-se assim todos os hábitos constantes que levam o homem para a prática de operações honestas, tendentes para o bem comum. Podem ser classificadas como virtudes morais e virtudes mentais. As que são aplicadas para o bem honesto são morais, e as que são aplicadas para a verdade são mentais ou intelectuais. Aquelas são operativas, estas são especulativas, cuidam da cultura, enquanto as outras cuidam do carácter. Por exemplo, a caridade é uma virtude moral, enquanto a sabedoria é uma virtude mental. Como também já disse, a formação das virtudes acontece pela repetição de uma série de actos da mesma espécie, cujos exercício constante e perseverante os converte em hábitos. Por esta razão, a virtude é uma conquista pessoal em que não há interferência hereditária. Para o comportamento pessoal se transformar numa virtude, implica essencialmente duas condições: o conhecimento do dever a ser cumprido, e a disposição firme e perseverante em cumpri-lo. Conceitualmente, para a moral da Maçonaria a virtude é disposição habitual para a prática do bem e do que é justo, por isso é tida como prova da perfeição que deve caracterizar todo o maçom, culto e moral, mesmo não participando da profissão de crente e ficando-se só pelo exercício humanitário.

Desde Platão e Aristóteles que a Filosofia reúne toda a Moral em quatro virtudes cardeais ou principais, em torno das quais todas as outras gravitam ou dependem, e que são: Justiça, Prudência, Fortaleza, Temperança, as três últimas sendo apenas qualidades de quem as possui e não virtudes relacionadas com o próximo, porque só a Justiça é uma virtude útil aos outros, mas não bastando ser justo porque também é preciso ser benfazejo. A Maçonaria reconhece e incentiva a prática das quatro virtudes cardeais, além das três virtudes teologais, representando-as por borlas pendentes nos quatro cantos da Loja.

Ao contrário das virtudes cardeais, adquiridas pelo hábito constante, as virtudes teologais não são adquiridas pelo esforço do homem. São as virtudes ensinadas na teologia de São Paulo e é por isso que se chamam teologais (prevenientes de Deus), as mesmas Fé, Esperança, Caridade. Através delas o homem poderá superar-se a si mesmo no intento de alcançar a suprema perfeição que o identifique ou iguale ao Divino. Para a Teologia, a representa a expressão da crença esclarecida como acto lógico e fundamental da razão humana; a Esperança e a Caridade ou Amor andam juntas e representam o sentimento amorável para com o próximo, que se deve a uma disposição muito viva da alma, seja nas concepções filosóficas e morais, seja nos ideais religiosos e espirituais. Para a Moral, distinguem-se os deveres da Justiça e os deveres da Caridade: os primeiros consistem em respeitar os direitos de outrem; os segundos consistem em socorrer o próximo por todos os meios ao dispor. Posto tudo, concluiu-se que o mal é a antítese da virtude. E é ao mal do fanatismo, da ignorância e da superstição que, afinal, todo o maçom verdadeiro deve combater sempre e em toda a parte com tolerância, prudência e sabedoria, seja por motivo religioso ou, o mais comum como laico e até ateu, só pelo bem-fazer à sociedade geral[13].

De ambos os lados da porta do jazigo estão duas tochas tombadas sobre papoilas dormideiras (envolventes do edifício). Representam o finis vitae, o fim da vida, anunciando o período de dormição, o sono profundo do justo que dorme na paz eterna. Adiante do óculo por cima da entrada, configura-se uma coroa funerária entrecruzada por uma cruz florlisada tíbia em esplendor. É sinalética indicativa do próprio como jazigo desta família que morreu crente na Luz e Triunfo da Cruz, vencendo a hora fatal da morte com a ressurreição em Cristo, motivo assinalado na cabeça do Querubim mais acima.

Motivos necroláticos na porta dianteira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

Motivos necroláticos na porta dianteira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

A aldraba da porta é decorada pelos motivos, tudo em ferro forjado, das papoilas dormideiras nos lados de um ampulheta em que assenta uma borboleta de asas abertas com um crânio no dorso, o que levou Manuel Joaquim Gandra a chamá-la de Esfinge da Morte. Não é só pelo facto de Carvalho Monteiro ter sido um grande borboletário que ela está representada aqui[14], mas sobretudo pelo seu significado transcendente afim ao simbolismo cemiterial. Este insecto existe realmente e chama-se acherontia atropos, mais conhecido como “borboleta-caveira”, por apresentar no seu dorso uma figura semelhante ao crânio humano. É uma borboleta nocturna (nisto tornando-se afim à associação simbólica da noite com a morte) que se alimenta, no estado adulto, de certas flores como o jasmim, a folha de tabaco e a folha de batata. Nas crenças populares, a presença da “borboleta-caveira” é sinal de notícias nefastas ou da morte de alguém, mas no simbolismo tradicional enuncia a transmigração da alma, acompanhando os ciclos da sua evolução, marcada pela ampulheta de Cronos ou Saturno, motivo por que a Antiguidade greco-romana dava à alma que deixava o corpo morto a forma de uma borboleta, e assim as borboletas passaram a ter o sentido de “espíritos viajantes”. Nos afrescos de Pompeia, Psique é representada como uma menina alada semelhante a uma borboleta. Um outro aspecto do seu simbolismo fundamenta-se nas suas metamorfoses: a crisálida é o ovo que contém a potencialidade do ser e a borboleta que sai dele torna-se símbolo de ressurreição, ou por outra, da saída do túmulo.

Traseira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

Traseira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

Na traseira, descendo poucos degraus, penetra-se na cripta, onde jazem os despojos mortais de alguns membros da família Carvalho Monteiro. Por cima da porta abre-se um óculo com cruz florlisada de ferro, e um pouco abaixo, dos lados, duas cabeças de Anjo com as asas fechadas, em oposição aos mochos laterais de asas abertas, espécie de vigias ladeando a entrada. Na cimalha desta estão três papoilas entrelaçadas por uma fita, e mais acima uma caveira sobre duas tíbias cruzadas, sinal da presença da morte. As três papoilas dormideiras representam o tríplice aspecto do Homem, como o seu Espírito subido, a sua Alma evolada e o seu Corpo falecido, além de representar a terra onde se operam as transmutações vitais: nascimento, morte, esquecimento e reaparecimento, segundo o simbolismo eleusino condizendo com a frase das Escrituras Sagradas: “da terra vieste e à terra voltarás” (Génese, 2:7; Eclesiastes, 3:20). De modo que a papoila dormideira oferecida a Deméter representa a força do sono e do esquecimento que toma os homens depois da morte e antes do renascimento. O mocho faz as vezes de guardião do Hades, o mundo subterrâneo onde volvem as almas dos vivos, e nessa função cemiterial está de asas abertas, vigilante, enquanto acima os Anjos estão de asas fechadas, assinalando que a alma volveu à eternidade, não está presente na matéria por o seu ciclo de vida corporal ter findado. Consequentemente, o Sol, o Espírito, representado pelo Anjo, está recolhido, e fica só a Lua, a Matéria, representada pelo mocho que é a ave de augúrio, como tal aquela que na noite da morte augura o dia da vida que será o da ressurreição final.

NOTAS

[1] Esta e outras informações afins constam dos registos de óbito e de entrada em jazigo do citado e seus familiares, as quais me foram cedidas pela Administração do Cemitério dos Prazeres.

[2] Vários autores dão com data de nascimento de Carvalho Monteiro o ano de 1850, induzidos no erro por Christopher C. Lund em O manuscrito caligráfico, único, de Os Lusíadas, feito por Manuel Nunes Godinho para o seu patrão António Augusto de Carvalho Monteiro. Leituras de Camões, São Paulo, 1982. Também o “de” Carvalho está a mais, ele não consta no registo de baptismo e só António Augusto Carvalho Monteiro.

[3] Vasco Callixto, As terras e os homens: onde nasceram, viveram e morreram. Lisboa: Universitária, 1999.

[4] Padre Álvaro Proença, Benfica através dos tempos. Depositária União Gráfica – Lisboa, 1964.

[5] João Ferreira Durão, Pequena História da Maçonaria no Brasil (1720-1882). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2008.

[6] Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004.

[7] A verdadeira Maria da Fonte, na Póvoa de Lanhoso, era a natural da terra chamada Maria Luísa Balaio, proprietária de uma hospedaria, “Maria da Fonte”, onde acorriam as mulheres que tomaram parte activa na revolta feminina que incendiou o país. Mas como a revolta eclodiu em Fontarcada, no Minho, o povo daqui identifica-a como Maria Angélica de Simães, ou uma outra mulher de nome Maria. Creio que Maria da Fonte são todas as Marias e demais mulheres que encabeçaram a revolta popular contra o governo liberal e cartista de António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889), o famigerado “mata-frades” por ter sido quem assinou o decreto-lei de extinção das Ordens religiosas em Portugal.

[8] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita e Secreta. Editorial Jonglez, Versailles, Abril de 2010.

[9] Paula André, Modos de pensar e construir os cemitérios públicos oitocentistas em Lisboa: o caso do Cemitério dos Prazeres. Revista “História de Arte”, n.º 2, Lisboa, 2006.

[10] Esta última observação recorda igualmente as palavras adaptadas do texto de Isaías, 6:3, cantadas no Sanctus precedendo a Comunhão (Eucaristia) na liturgia romana: Benedictus qui venit in nomine Domine, “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Elas são aplicadas ao Cristo, cujos predicados os gnósticos cristãos e posteriormente os cabalistas igualmente cristãos revelavam idênticos aos do Arcanjo Mikael, compreendendo a relação existente entre o Messias e a Shekinah ou “Revelação Divina”. O Cristo é também designado por “Príncipe da Pax”, sendo, ao mesmo tempo, o “Juiz dos vivos e dos mortos”.

[11] J. Pinharanda Gomes, Povo e Religião no Termo de Loures. Paróquia de Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1982.

[12] Pedro de Carvalho Daun e Lorena, Vida e Obra de Carvalho Monteiro na Métrica e Simbólica – Jazigo da Família Carvalho Monteiro. Dissertação apresentada para obtenção de grau de Mestre em Reabilitação da Arquitectura e Núcleos Urbanos. Universidade Técnica de Lisboa – Faculdade de Arquitectura de Lisboa, 11 de Fevereiro de 2004.

[13] Vitor Manuel Adrião, Guide de Milan Insolite et Secrète. Editions Jonglez, Versailles, 2012.

[14] Nuno Rodrigues, Descrição e análise do jazigo da família Carvalho Monteiro, no Cemitério dos Prazeres. Revista “Lusíada: Arqueologia, História da Arte e Património”, série I, números 2-4, 2004, Universidade Lusíada, Lisboa.

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