Iconologia Mítica (Do Dragão dos Lusos à Virgem de Portugal) – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Mar 7 2017 

A mitologia greco-romana outorga fundação divina à Lusitânia e ao seu natural, o lusitano, pretendendo-o descendente de Luso (pressuposto filho do deus Baco ou Dioniso e da semi-deusa Ariadne), que com a sua progénie veio povoar as actuais terras do Centro de Portugal e da Estremadura espanhola.

Esta suposta existência genesíaca do deus Luso deriva da expressão lusum enim Liberi patris contida na obra Naturalis Historia, de Plínio, o Velho (Como, 23 – Stabia, 79 a.C.). Muitos autores contemporâneos consideram errada a interpretação lusum ou lusus como nome próprio, em vez de um simples substantivo que significa “jogo”. Mas Marco Terêncio Varrão (116 – 27 a.C.), numa interpretação livre dessa obra, informa que “(…) o nome Lusitânia deriva dos jogos (lusus) do Padre Baco, ou da fúria (lyssa) dos seus acólitos frenéticos, e que era o governador de toda a região” (1). Isto teria sido lido por André de Resende como “(…) o nome Lusitânia deriva de Luso do Padre (pai ou mestre) Baco (…)” (2), e portanto foi interpretado que Luso seria um companheiro ou filho do furioso deus. É esta a leitura contida na estrofe XXII do Canto III de Os Lusíadas, de Camões:

Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os Íncolas primeiro.

Mas para a mitologia romana foi Baco quem conquistou a Ibéria, dizendo o grego Plutarco (46 – 119 d.C.): “Depois de Baco ter conquistado a Ibéria, deixou a governar como seu representante, que deu o seu nome à região, chamando-a de Pania, que por corruptela se tornou em Hispânia”.

Quanto à expressão grega lyssa, literalmente “fúria frenética” ou “loucura”, típicas de Baco/Dioniso, será alusão ao estado exaltado dos participantes dos Mistérios (“Jogos”) de Lusus, mistos de guerreiros e apologéticos entre os lusitanos, que os romanos associaram ao culto dos Faunos filhos de o filho de Baco, donde atribuírem origem báquica à Lusitânia e tomarem como o seu governador sobrenatural. Os Mistérios de Lusus eram em Roma os de Baco, e na Grécia os Dionisianos de que saíram os Órficos, de Orfeu.

Se Zeus/Júpiter é pai de Baco/Dioniso, associado a Hermes ou Mercúrio, e este o progenitor de Pã ou Saturno jovem (contrário ao Saturno velho que é Cronos, deus do Tempo), então o Luso é topónimo mítico que os autóctones da Ibéria receberam da cultura greco-romana mercê desta confundir a religião natural daqui com os deuses antropomórficos da sua própria mitologia religiosa.

Isso por os deuses lusitanos terem estado em sintonia tanto com os do panteão celta como do romano, assimilando elementos cultuais de ambas as etnias, que influenciariam as crenças locais; por sua vez, várias divindades lusitanas foram assimiladas pelos romanos.

O panteão dos deuses lusitanos e calaicos ou galaicos foi bastante rico, apesar de hoje só existir cerca de uma centena de registos acerca deles. Todavia, acredita-se que no Passado da Lusitânia houveram mais de mil divindades, sendo a sua maioria relacionada com lugares de incidência geotelúrica como, por exemplo, bosques, grutas, montanhas e rios.

Na Lusitânia e Callaeci o culto era politeísta, excepto na tribo Cónia que era monoteísta. O deus único dos Cónios era Elohim, mas as restantes tribos veneravam vários deuses sistematizados numa cosmogonia plural sui-generis, que tornava os cultos diversos entre si, de tribo para tribo. No entanto haviam pontos em comum, como os dos cultos solar e lunar e o necrolático da memória dos ancestrais. Igualmente existiam cultos tutelares de tribos e de locais distintos. Nesses locais havia adoração natural a certas árvores, rios, ribeiros, lagos, montanhas, grutas, etc. Na prática religiosa e de forma a apaziguar os deuses, estes povos praticavam a imolação. Era comum sacrificarem cabras, ovelhas ou touros, sendo mais incomum o sacrifício de cavalos e de homens, estes  que por norma eram prisioneiros de guerra. Uma das características principais das religiões da Lusitânia eram os presságios ou augúrios, e para isto consultavam os astros, consultavam as entranhas dos animais, observavam o voo das aves e o crepitar do fogo nos actos divinatórios.

Os deuses lusitanos e calaicos teriam essencialmente três funções: de poderes infinitos (justiça, bem), de guerra (bravura, força física, soberania) e de fecundidade e bem-estar. De entre os deuses mais venerados, sobreviveram até ao presente os nomes de alguns deles: Quangueio (o criador, a fecundidade), Arência e Arêncio (guerreiro, a força), e Trebaruna (a soberania), pelos lusitanos; Bande (a soberania), Nabia (a fecundidade) e Reve (a força), pelos calaicos; Endovélico (o poder civil), Atégina (a produção social, a fecundidade) e Runesius (a classe militar) pelos celtiberos; finalmente os cónios, que adoravam o deus único Elohim. Acreditavam que a morada divina dos deuses seria a constelação da Barca ou a Ursa Maior.

Na obra épica de Luís de Camões, Os Lusíadas (dedicada aos mesmos lusos, com primeira impressão em 1572), Luso foi o progenitor dos lusitanos e o fundador da Lusitânia. Para os portugueses do século XVI, era importante olhar para o passado anterior ao domínio árabe e encontrar as origens da Nacionalidade. Os visigodos não seriam os antepassados ideais, devido ao arianismo que professavam, considerado herético pelas autoridades eclesiásticas desse século. Assim, olhou-se para a mais alta cultura de Roma, origem de um catolicismo puro, e para o povo que habitava o território de Portugal antes e durante o domínio desse império.

Com o impulso da obra literária de Camões, e posteriormente com a ênfase que lhe foi dada durante o Estado Novo, ter-se-á popularizado pelo mundo a interpretação da existência de Luso como personagem mitológica entrada no domínio histórico.

Da mitologia e etnografia religiosa lusitana ficou, para sempre, a figura principal do seu bestiário cedo aproveitada para encimar as Armas portuguesas: o dragão. Popularizou-se a tradição mítica desse animal fantástico ter estado no pano da pressuposta bandeira do caudilho lusitano Viriato, e que continuou sendo a dos lusos mesmo depois daquele ter sido assassinado, enquanto dormia, pelos seus três companheiros subornados por Cipião, governador romano da Lusitânia, corria o ano 140 a.C., ou sejam, Audax, Ditalkon e Minuros.

Segundo a mesma lenda patrológica, a bandeira dos lusitanos era muito simples: um pano branco com um dragão verde ao centro. O branco ficou como cor síntese realçando o verde do dragão, cujos pés de leão significam a fortaleza, as asas de águia a sabedoria e a velocidade, e a cauda de serpente a astúcia, a estratégia e a vigilância. O verde foi inspirado não só por causa dos bosques exuberantes da Lusitânia mas sobretudo como indicativo do poder telúrico da mesma Natureza, ao qual os celtas davam essa forma dracónica chamando-lhe wyvern, topónimo adoptado na cultura popular portucalense como coca e serpe, a quem a cidade alentejana de Serpa deve o nome, enquanto a cidade do Porto mantém nas suas Armas o mesmo dragão telúrico dos celtas e calaicos. Quanto ao verde, ele permanece na última versão da Bandeira portuguesa e na actual do Brasil.

Seja como for, convém ressalvar, não há nenhum registo escrito contendo a forma correcta da bandeira dos lusitanos, havendo divergência entre os autores sobre a forma do dragão e o seu posicionamento no pano da mesma. A versão aqui apresentada é a mais aceite.

Muito cedo o dragão verde passou a figurar na heráldica nacional e com ele figurando na bandeira dos cavaleiros da Ala dos Namorados, chefiados por D. Nuno Álvares Pereira, Portugal garantiu a sua independência com a vitória na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de 1385.

Com efeito, no campo mitológico português o dragão é o maior exemplo de difusão ancestral, com o duplo significado de domínio e protecção, e por ser verde os antigos associaram-no ao planeta Vénus, o Lúcifer dos latinos e a Stella Matutina dos povos pastores. Além de pressupostamente ter figurado na bandeira dos lusitanos, o dragão figurou igualmente na dos suevos e hoje é representado na dança da coca, no Minho, propriamente na vila de Monção, por isto mesmo conhecida como a “terra da coca”, esta chamada de “santa coca” ou “coca rabixa”. Com referências recuando ao século XVI, mas possivelmente sendo muito anterior, ela é realizada no dia da Festa do Corpus Christi, sendo a coca o dragão que luta com S. Jorge a cavalo, e aqui trata-se do domínio do Homem sobre a força bruta ou indomada da terra, dando ao dragão o sentido “maléfico”, luciferino. Por isto, nas iluminuras sagradas medievais, como a da coroação da Virgem Maria por Cristo, aparece a trombeta celeste avisando do perigo do dragão “maléfico”, e por isso havia o cuidado de rodeá-las de um escudo, de uma ovalização ou de uma quadratura celeste. Tal prática é similar na sustentação das Armas, chamando-se tenentes às figuras sacras e suportes às figuras terrenas.

Na heráldica portuguesa a serpe aparece como um dragão de duas patas e é distinta da forma clássica dracónica (que na figuração ocidental possui sempre quatro patas); no lugar das patas dianteiras apresenta duas asas, e também não possui a habilidade de cuspir fogo (simbolismo dracónico dos fogos vulcânicos ou do seio da Terra), embora às vezes seja retratada fazendo-o. Outra característica que a diferencia do dragão é a falta ou menor número de escamas, conferindo-lhe uma aparência mais “lisa”. Portanto, a serpe vem a ser a “forma simplificada” do dragão. Os testemunhos etnográficos e filológicos da mesma predominam mais no Sul de Portugal, enquanto no Norte tem-se a coca.

A coca é representada por um dragão escamado. De todas a mais célebre é a supradita coca de Monção, que consiste numa estrutura de madeira com um homem no interior e a qual vai lutar com um cavaleiro representando S. Jorge, com capa vermelha, elmo e lança. A coca é empurrada pelos populares, vestidos de verde, contra o cavalo, enquanto o cavaleiro desfere golpes contra a carapaça. Finalmente S. Jorge vence com um golpe sobre a orelha da coca, que sem a mesma perde a força. Assim, mais uma vez, o Mal é vencido pelo Bem, ficando garantidas as boas colheitas do ano agrícola.

Festa da Coca em Monção, no início do século XX

Na Galiza a coca é igualmente representada por um dragão e também celebrada no dia do Corpus Christi, em Redondela. A representação da coca, com uma abóbora iluminada, faz parte do património imaterial galaico-português. Na Galiza é tema na festa das caliveras ou samhain e assume vários nomes: calacús, caveiras de melón, calabazotes, colondros, etc. (3)

Na literatura oral a coca é tema das cantigas de embalar, tal como o bicho-papão que rouba criancinhas ou a Maria-da-Manta que tem fogo nos olhos, é um ser que assusta as crianças, que está sempre à espreita (está sempre à coca) e impede que o sono chegue. O sono é muitas vezes personificado por outro ser mítico, o João Pestana (4).

Vai-te coca, vai-te coca
Para cima do telhado.
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado.

No Auto da Barca do Purgatório (1518), de Gil Vicente, um menino identifica o diabo como o “coco”:

Mãe: E o coco está ali
queres vós estar quedo co´ele?
Demo: Passa passa tu per i.
Menino: E vós quereis dar em mi
Ó demo que o trouxe ele.

Nas Décadas da Ásia (1563), João de Barros descreve como o nome do coco (fruto) teve origem na tradição dracónica que o povo transpôs para a “coisa fantástica e medonha” assustadora da infância: “(…) por razão da qual figura, sem ser figura, os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer cousa, com que querem fazer medo às crianças, o qual nome assi lhe ficou (…)”.

Na Catalunha, este ser fantástico é chamado de cuca ou cucafera e é frequentemente representado por um dragão. De modo que o mito do coco também se espalhou no país vizinho tendo origem no fantasma português, como consta no Dicionário da Real Academia Espanhola, chamando-lhe “el coco” e “el cuco”: “Del port. coco, fantasma que lleva una calabaza vacía, a modo de cabeza. Fantasma con que se mete miedo a los niños”.

A popularização da figura do dragão na Idade Média, através dos bestiários da Igreja Católica, foi a forma que esta encontrou para, narrando histórias de dragões malignos enfrentados e vencidos por nobres heróis cristãos, fazer a sua própria apologia contra as antigas tradições locais, mormente celtiberas. Pode-se fazer até mesmo um paralelo entre as famosas armas de sopro draconianas e a pregação dessa religião: um dragão que sopra nuvens venenosas, por exemplo, pôde e pode ser usado como metáfora para blasfémias “venenosas” proferidas por falsos profetas pagãos.

A tenaz e impiedosa perseguição eclesial às tradições e cultos locais maioritariamente de origem celta, indistintamente malignos para Igreja, poderá ser a explicação para a procissão dos diabos, cortejo que tem lugar no dia 24 de Agosto celebrando o regresso dos “Diabos de Amarante” (um diabo e uma diaba) a essa cidade.

Na segunda metade do século XIX os “Diabos de Amarante” foram adquiridos por um inglês que os expôs, em 1889, na Feira Internacional de Paris. Depois de diversos esforços diplomáticos, os diabos devolvidos e à sua chegada recebidos em massa pela população, e desde então é feita uma procissão até ao Largo de S. Gonçalo. Durante as celebrações são transportados em andores e no cortejo seguem mais de 300 mascarados de diabos e diabas, com trajes vermelhos ou negros, depois tendo lugar o baile dos mafarricos, que termina à meia-noite com uma queimada.

O “Diabo e a Diaba” são estátuas em madeira talhadas no início do século XIX e estiveram, até 1809, no Mosteiro de S. Gonçalo de Amarante, fazendo parte do culto da fertilidade, apresentando-se com trajes sacerdotais. Danificados pelos soldados franceses durante as invasões, foram depois roubados ao mosteiro. O “Diabo”, de falo ostensivo, foi castrado por ordem do bispo de Braga. No dia 24 de Agosto a população local acreditava que o Diabo andava à solta, não trabalhava e fazia-lhe oferendas.

Casal de “Diabos de Amarante”

Vizinho da coca ou “bicho-papão” é esse outro mito rural do gambuzino cuja existência deve-se à pareidolia, fenómeno psicológico envolvendo um estímulo vago e aleatório, geralmente uma imagem ou um som, sendo percebido como algo distinto e com significado, como se regista, por exemplo, no fenómeno ‘pop’ urbano de “new age”, onde a alucinação onírica é tomada como realidade, valendo mais a imagem fantasiada que a ideia reflectida.

Os gambuzinos são criaturas imaginárias que, segundo a superstição popular, vivem no campo, embora algumas espécies também habitem locais sombrios e húmidos nos parques das cidades. No Dicionário são descritos como uma espécie de pássaros ou peixes, mas outros pensam serem parecidos com o pirilampo ou o ouriço. Há quem acredite serem vegetais e viverem debaixo da terra, pelo que no princípio do século XX eram descritos como pequenos bolbos da espécie do lírio e comestíveis.

A caça aos gambuzinos faz-se geralmente à noite, sendo popular em Portugal e em várias regiões da Espanha, sobretudo na Galiza, onde a estação de caça está aberta o ano inteiro e não exige licença especial para a sua prática. Tradicionalmente, são usados sacos de serapilheira para os capturar, sem esquecer o apito ou um pau para bater no saco atraindo para dentro dele a discreta e esquiva criatura. É costume organizar caçada aos gambuzinos  convidando pessoas ingénuas para irem junto, sendo frequentemente amigos, irmãos ou sobrinhos mais novos.

No Entre Douro e Minho, esse animal imaginário é conhecido por pio-pardo. No Baixo Alentejo, conhecem-no por gramutilho. Na Galiza, é chamado de biosbardo, gazafello ou cocerello. Na Catalunha é apelidado de gambosí ou gambutzí; na Estremadura de gangüezno; nas Astúrias de  cordobeyo; em Aragão de bambosino. Não se conhece exactamente a origem do significado gambuzino. No entanto, poderá ter alguma relação com as palavras gambito (ardil para prostar o adversário) e gambina (perna), no sentido de “passar a perna”, de acordo com o folclorista catalão Joan Amades, em sua obra Costumari Català (1950), dando como origem do nome o provençal gambosí ou gabuzo (“engano”).

Gambuzino

Aparte isso e volvendo ao simbolismo do dragão dos lusos, ele aparece também nas figuras das cartas de jogar portuguesas. Com efeito, as lâminas divinatórias do tipo português (que no século XIX passaram a ser impressas na Bélgica e na Alemanha, já alteradas), vulgo cartas do dragão, apontam a influência oculta de Marte. Com efeito, nas ditas cartas ele aparece sobressaindo de um “graal” na forma de um dragão carregando uma espada, símbolo esotérico do mesmo Marte e de São Jorge ou Akdorge – segundo a Tradição Iniciática, o futuro Rei do Mundo portador do Santo Graal. Isso além de designar tanto a Linha Serapis como representar emblematicamente a cidade de Coimbra que, diz a Tradição, nela estava instalada a antiga Sede Externa da Soberana Ordem de Mariz. A esse baralho genuinamente português, poderei com justeza batizá-lo de Tarot Lusitano. A sua criação inspirou-se naquele outro Tarot Marselhês que os ciganos – esse “judeus errantes” sem Pátria certa e sem Norte definido… – importaram para a Península Ibérica e que em 1420 já circulava nas rotas de peregrinação a Santiago de Compostela, sendo que em 1490, reinando D. João II, a sua difusão era tamanha a ponto do monarca proibir severamente o seu uso (5).

“Proibição do vício do jogo de cartas”. Tábua de altar da igreja da Virgem do Carmo de Évora

Inspirado no baralho cigano é que Garcia de Resende (1470-1536), sob encomenda de D. Manuel I, criou o tipo português de baralho ou as 48 “cartas do dragão”, notícia inserta no seu Cancioneiro Geral (6), divididas em dois grupos de 24 Damas ou de Louvor, e de 24 Cavaleiros ou de Deslouvor.

Apesar da aparência de sua finalidade lúdica imediata, como inocente jogo de salão que D. Manuel I terá dedicado a uma sua pretensa concubina, D. Joana de Mendonça, a verdade parece ir muito além disso e ser muito mais dignificante e séria. O primeiro indicativo está no próprio Dragão dos Lusos atravessado pela espada e saindo da taça, de que já falei. O segundo indicativo está no Louvor ou Vitória assinalada na Dama, o que dá ao baralho característica feminina, matricial, bem conformada ao tempo do Rei Venturoso – o de Maris Nostrum sob a apologése de Santa Maria. O terceiro indicativo está no número 24, o apocalíptico indicativo dos 24 Anciãos da Revelação acompanhados das sibilas suas contrapartes femininas, as almas augures, as do vaticínio da boa ou má sorte que o Destino reserva. O quarto indicativo será o valor final 48, acrescido de mais 1 como o próprio jogador(a), indo dar 49, este o número cabalístico ou canónico que corresponde ao de Adeptos Independentes da Grande Loja Branca ou os Apóstolos da Igreja de Melkitsedek, 7 para cada Raio de Luz, logo, 7×7 = 49.

Ases das “cartas do dragão”, o Tarot Português

Com a fundação de Portugal em Guimarães, o culto primitivo do tellos draconis (dragão telúrico) tem o seu espaço ocupado pelo do Spiritus Sanctus a quem o Reino é consagrado, na pessoa de Maria propagada pela escolástica eclesial assegurando o Marialis Cultus, que na sua expressão erudita vem a ser a Iniciação Senhorial característica da Honra e da Ordem de Cavalaria, na qual eram iniciados os futuros cavaleiros que deviam ser tão puros e honrados quanto pudessem à semelhança do que é a Mãe Celeste, esta que dá de si a Matéria-Prima com que se faz o Mundo e, no particular, Portugal. Razão de se dizer que o Espírito Santo toma forma feminina em Maria, mesmo que, essencialmente, Ele participe das duas naturezas do Filho e da Mãe, esta que iconograficamente O traz sempre em Seus braços, no regaço ou colo, como demonstrativo velado da dupla natureza ou estado andrógino do Santo Espírito.

Cristo fica participando da natureza do Pai como Espírito e Maria, como Mãe ou Matéria, em estado Santo ou de Santidade participa da natureza de Seu Filho, a quem oferece ao Mundo. Donde se conclui:

Se o Conde D. Henrique de Borgonha sonhou ou visionou a Divindade precipitar-se em forma cometária no rio separando a Galiza do Minho, que o levou e à progénie que para aqui trazia, no mesmo sonho ou visão, a exclamar: “Porto Graal! Porto Graal! Porto Graal!”, este o símbolo maior do Divino Espírito Santo, tanto como objecto como estado de consciência, já o seu filho Afonso Henriques oferece o Reino sonhado ao Divino mas não à humanidade de Roma, tendo Cristo no Cruzeiro lhe aparecido em vésperas da Batalha de Ourique, decisiva para a independência definitiva da terra sua e de Deus que lhe garantiu os favores do Céu e a Bênção eterna à gente portucalense.

Mais tarde, a Rainha Santa Isabel de Portugal e Princesa de Aragão, oficializa o culto do Divino acompanhado das prerrogativas sobrehumanas da Páscoa Rosada em que se traduz o célebre “Milagre das Rosas”. Independência ameaçada, “Terra de Luz” (Luxcitânia, Lusitânia) perigando apagar-se, eis aí no século XIV, o “Galaaz de Portugal”, o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, depois Frei Nuno de Santa Maria, levando D. João I, em vésperas da Batalha de Aljubarrota, a ter a visão exaltada de Nossa Senhora da Oliveira acompanhada de S. Bernardo de Claraval. Mais uma vez, o Céu abençoou a Terra Pátria por Deus escolhida, e o perigo foi vencido. Finalmente, após os “60 anos fatais” da profecia, correspondendo ao tempo de ocupação Filipina de Portugal, D. João IV liberta o país da mesma e oferece a Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, a coroa dos reis portugueses, investindo-a, além de Mãe dos Céus que já era, Rainha de Portugal. Desde então, nunca mais as nossas rainhas (e até os reis) tornaram a usar coroa, que dignidade não concebiam para tanto comparando a sua míngua humana à grandeza Divina da Mãe Soberana.

Conclui-se que desde a primeira hora Portugal está consagrado ao Divino Espírito Santo em Cristo e Maria sob o evoco Conceição, e, seja por qual e misteriosa maneira for, a Sua protecção nunca escusou aos seus filhos desta “Terra de Luz”, a caminho de um Império de Espírito que também é o Seu, abraçando a toda a Terra numa unidade de Amor e Graça.

O dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria foi proclamado pelo Papa Pio IX, em 1854, com a bula Ineffabilis Deus. Esta solene definição pontifícia foi resultado do desenvolvimento da devoção popular aliada a intervenções papais e infindáveis debates teológicos. O calendário romano já incluíra a festa em 1476. Contudo, no sétimo século esta celebração já existia na Igreja Oriental e cedo entrou na Hispânia através do rito visigótico ou paleocristão. Em 1570, Pio V publicou o novo Ofício e em 1708 Clemente XI estendeu a festa, tornando-a obrigatória a toda a Cristandade.

Em Portugal, o culto foi oficializado sob feição patrística por D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança assim aclamado no 1.º de Dezembro de 1640, quando se iniciava a Festa da Imaculada Conceição. Seis anos depois, com a aprovação das Cortes de Lisboa, o monarca dedicou à Virgem Imaculada todo o Portugal e seu vasto Império de então, fazendo-a sua Rainha e Padroeira, e fê-lo através da Ordem honorífica por si fundada no Alentejo: a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em cuja igreja matriz está a imagem do Orago e celeste Soberana da pátria comum à lusitana gente (7).

O acto de D. João IV foi confirmado pelo Papa Clemente X, que aprovou a solene declaração régia de 25 de Março de 1646. Esta fora rezada de joelhos e em voz alta pelo monarca, na capela real dos Paços da Ribeira, em Lisboa, nos termos seguintes:

Dom João, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, de aquém e de além mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia, etc., faço saber aos que esta provisão virem, que sendo ora restituído por mercê muito particular de Deus nosso Senhor à Coroa destes meus Reinos e senhorios de Portugal.

Considerando que o Senhor Rei Dom Afonso Henriques meu progenitor e primeiro Rei deste Reino, sendo aclamado e levantado por Rei, em reconhecimento de tão grande mercê, de consentimento de seus vassalos, tomou por especial advogada sua a Virgem Mãe de Deus Senhora nossa, e debaixo de sua sagrada protecção e amparo Lhe ofereceu todos seus sucessores, Reino e vassalos com particular tributo em sinal de feudo e vassalagem.

Desejando eu imitar seu santo zelo, e a singular piedade dos Senhores Reis meus predecessores, reconhecendo ainda em mim avantajadas e contínuas mercês e benefícios da liberal e poderosa Mãe de Deus nosso Senhor, e por intercessão da Virgem Nossa Senhora da Conceição.

Estando ora juntos em Cortes com os três Estados do Reino, lhes fiz propor a obrigação que tínhamos de renovar e continuar esta promessa, e venerar com muito particular afecto e solenidade a festa de sua Imaculada Conceição. E nelas, com parecer de todos, assentamos de tomar por Padroeira de nossos Reinos e senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição, na forma dos Breves do Santo Padre Urbano VIII, obrigando-me a haver confirmação da Santa Sé Apostólica, e Lhe ofereço… à sua Santa Casa da Conceição sita em Vila Viçosa, por ser a primeira que houve em Espanha desta invocação, cinquenta cruzados de ouro em cada ano, em sinal de tributo e vassalagem.

E da mesma maneira prometemos e juramos com o Príncipe e Estados, de confessar e defender sempre (até dar a vida sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original… esperando com grande confiança… que por meio desta Senhora (Deus) nos ampare e defenda de nossos inimigos para glória de Cristo nosso Deus, exaltação da nossa Santa Fé Católica Romana, conversão das gentes e redução dos hereges.

E se alguma pessoa intentar coisa alguma contra esta nossa promessa… queremos que seja logo lançado fora do Reino; e se for Rei (o que Deus não permita) haja a sua e nossa maldição, e não se conte entre nossos descendentes… e esta minha provisão se guarde no Cartório da Casa de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, e na nossa Torre do Tombo.

Dada nesta nossa cidade de Lisboa, a 25 de Março de 1646 – El-Rei.

NOTAS

(1) Lorenzo Hervás, Catálogo de las Lenguas de las Naciones conocidas, y numeracion, division, y classes de estas, segun la diversidad de sus idiomas y dialectos, vol. IV., trat. III, pt. II. Madrid, 1804.

(2) André de Resende, As Antiguidades da Lusitânia, Lisboa, 1593. Reedição pela Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996.

(3) Teófilo Braga, Romanceiro Geral Português, três volumes. Ed. Vega, Lisboa, 1982.

(4) José Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, volumes XX e XXXII. Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1934.

(5) Fernanda Frazão, No tempo em que jogar às cartas era proibido. Apenas Livros Ltda., 2003.

(6) Garcia de Resende, Cancioneiro Geral, Lisboa, 1516, com edição póstuma em 1554. Mendes dos Remédios, Obras de Garcia de Resende, 5 volumes, Coimbra, 1917. A. de Pimpão e Aida Fernanda Dias, Obras de Garcia de Resende, 2 volumes, Coimbra, 1973.

(7) Pe. Miguel de Oliveira, Pe. Moreira das Neves, A Padroeira de Portugal. Edições Letras e Artes, Lisboa, 1940.

D. Fernando II, Rei-Artista e Rei-Iluminado – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Fev 13 2017 

Se D. Pedro o Infante das Sete Partidas – irmão do Infante Henrique de Sagres – foi um português europeu, D. Fernando II – marido de D. Maria II, pai de D. Pedro V e de D. Luís I e avô de D. Carlos I – foi um europeu português (1).

D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha (Viena de Áustria,  29.10.1816 – Lisboa, 15.12.1885) marcou decisivamente meio século da sociedade portuguesa do século XIX e  ora por ingerência directa, ora por mecenato projectou-se magnificamente na História da Arte em Portugal (desde a cerâmica ao desenho e à pintura, passando pela arquitectura, sem nunca descurar o teatro, a ópera e o belo canto), como igualmente nas Letras (tendo sido mecenas de muitos e exímios escritores, dentre eles Alexandre Herculano), mostrando aqui e ali, igualmente, a sua feição velada de esoterista que escolheu Sintra para morada ideal. Assim se conjuga a sua natureza de Rei-Artista e Rei-Iluminado!… Se ele não teve necessidade de nascer português para como português os portugueses o aceitarem entre os Maiores, o facto de não nascer português fê-lo europeu de adopção portuguesa e grato levou  Portugal  a ser assinalado nas Letras e Artes, igualmente na Tradição Hermética, como a provável alavanca primaz do Pensamento que move o Mundo… decididamente arrancando o País da semiobscuridade da Europa culta para cabeça dela toda, como sempre fora mas sem o devido reconhecimento unânime.

Johann Wolfgang von Goethe (Frankfurt am Main, 28.8.1749 – Weimar, 22.3.1832), o grande escritor considerado “pai” Romantismo germânico, estava morto há apenas quatro anos quando D. Fernando de Saxe Coburgo-Gotha avistou a Serra de Sintra e entrou no Tejo, avistou a Torre de Belém e desembarcou em Lisboa – em 8 de Abril de 1836. Desde “6 de Dezembro, mas com a data de 1” está assinada a convenção matrimonial que o trazia a Portugal; casado por procuração com D. Maria II desde o primeiro dia de Ano Novo e em pessoa no dia seguinte ao da sua chegada a Portugal, na Sé Patriarcal de Lisboa, cerimónia fixada em tela por Tony de Bergue. Foi o conde de Lavradio – negociador desse casamento – “o primeiro portuguez” que conheceu esse jovem de dezanove anos de idade recém-chegado a Portugal, e a ele se referiu em plena Câmara dos Dignos Pares: “Elevado caracter, excellente educação, e distinctas qualidades e virtudes” – “um decidido amor da justiça e da verdade”.

Mas quem era D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha? Com o nome completo de Ferdinand August Franz Anton von Sachsen-Coburg-Gotha, como disse nasceu em 29 de Outubro de 1816 e foi o primeiro filho do príncipe Ferdinand Georg August, Duque de Sachsen-Coburg-Gotha e de sua mulher, a princesa de Kohary, Marie Antoinette Gabrielle, filha e herdeira do príncipe Franz Joseph de Kohary, senhor de Casabrag e de outras terras na Hungria, casados em 2 de Janeiro de 1816 em Viena de Áustria.

Fernando chegava a Portugal numa altura em que a Dinastia Brigantina se havia quebrado e fechado ao francesismo. Receava-se agora que se abrisse ao germanismo. Mas, nem uma coisa nem outra: o príncipe de Saxe pegou na cultura germânica, sim, mas moldou-a à natureza de Portugal, respeitando as suas tradições e a sua Tradição. O seu consórcio com D. Maria II permitiu restabelecer a Dinastia de Bragança e dar início venturoso a uma segunda “Ínclita Geração”.

D. Maria II, a Educadora e a Boa Mãe, reinou de 1826 a 1853, em período fortemente conturbado por mudanças radicais políticas, económicas, sociais e eclesiásticas. Nasceu no Rio de Janeiro em 14 de Abril de 1819, filha de D. Pedro IV e de D. Maria Leopoldina. A seguir à abdicação do pai, é aclamada rainha de Portugal em 1826 mas só assumiu a função régia em 1834. É aceite como noiva (casamento por palavra de futuro) por seu tio D. Miguel, mais tarde rejeitando-a como noiva e como rainha. Enquanto D. Miguel é sucessivamente regente e rei em Portugal, D. Maria, em Paris e em Londres, tem a servi-la uma regência colegial, com sede nos Açores, nomeada por D. Pedro IV e presidida pelo futuro duque de Palmela (1830). Após a vitória liberal, o seu pai (como regente) e o Governo realizam profundas reformas no País. Em 18 de Setembro de 1834, D. Pedro pede escusa da regência por doença grave e, por sua sugestão, as Cortes declaram a rainha antecipadamente maior. D. Maria nomeou o duque de Palmela para seu primeiro presidente do Conselho, e em 26 de Janeiro de 1835 casou com o príncipe Augusto de Leuchtenberg, que faleceu pouco tempo depois. Em 1836, em plena crise dinástica e com os ventos da Revolução Francesa ameaçando o nosso País, casou com o príncipe consorte da Casa de Saxe, que viria a ser D. Fernando II.

Do casamento de D. Maria II com D. Fernando II, houveram os seguintes filhos:

Pedro (D. Pedro V);
Luís (D. Luís I);
João;
Maria Ana (casada em 1859 com Jorge de Saxe);
Maria Antónia (casada em 1851 com Leopoldo Hohenzollern);
Fernando;
Augusto;
Maria;
Leopoldo (morto em criança);
Maria (morta em criança);
Eugénio (morto em criança).

O casamento político de D. Maria com D. Fernando depressa se tornou um casamento por amor recíproco, que durou até à morte da rainha, por parto, em 15 de Novembro de 1853. Isso depreende-se da correspondência trocada entre ambos durante a fase, direi, de namoro oficial: “J’attends avec impatience le moment qui doit nous unir.” – Príncipe D. Fernando em carta a D. Maria II. Bruxelas, 16.II.1836. “Parece-me que já gosto delle sem o conhecer porque me parece pellas informações que tenho delle que hade fazer tanto a felecidade da Nação portuguesa como a minha.” – Rainha D. Maria II em carta ao conde do Lavradio. Lisboa, 20.II.1836.

D. Maria II

D. Maria II

A maior prova está nas cartas dolorosas que o recém-viúvo escreveu após a morte da esposa. Esse momento de despedida final é narrado, com toda a tragédia inerente ao acontecimento, por José Teixeira (2):

A rainha Vitória, que conhecia por ela própria os problemas da gravidez, fez remessa a D. Fernando II de certas quantidades de clorofórmio, que vinha sendo estudado pelos melhores médicos ingleses, pensando mitigar ou evitar a repetição de complicações agudas. Mas tudo se tornou pesadelo, e a duquesa de Ficalho, que chegara ao Paço à meia-noite do dia 14 de Novembro, tanto mais que testemunhara a boa disposição da rainha durante toda a tarde, pôde contar que até de manhã a augusta senhora esteve assistida pelo dr. Manuel Carlos Teixeira, e depois, também, pelo dr. Kessler, chamados ao Paço às onze. Veio mais tarde a restante equipa, mas os seus esforços foram vãos para lhe dar a salvação.

Presente estava a imperatriz D. Maria Amélia, que, vendo a iminente catástrofe, confidenciou a D. Fernando II: “A Rainha deve-se confessar” (3). Este ordenou que com toda a urgência se chamasse o Patriarca. “Não é nada como das outras vezes”, desabafava ainda D. Maria II, e às onze e meia daquela manhã, fazendo sinal que queria repousar “descançou a cabeça sobre a almofada e deo o ultimo suspiro”.

O rei D. Fernando assistia no seu posto à tragédia, “apoiado a um dos balaustres do leito deixando cahir as lagrimas sobre o mesmo leito e contemplando a triste scena”. Alguém presenciou o impressionante quarto de hora em que se abraçou em estado de choque à sua finada esposa. Os príncipes choravam convulsivamente assaltados pelos acontecimentos, e a maior consternação pairava na avalanche dos presentes.

Sem excepção a imprensa fez coro nos lamentos da perda irreparável, e todas as grandes qualidades de Mãe e de Educadora foram louvadas até à saciedade:

Povo! Uma prece de christãos, uma lagrima das mães
Um ramo de myrto dos seus velhos companheiros de desterro
à memória de D. Maria II, que foi rainha de Portugal!
(4)

Milhares de pessoas desfilaram na capela-ardente, esperando largas horas para o poderem fazer. Foi preciso uma das noites voltar a abrir as portas porque a multidão não arredava pé – “o povo entrou em massa na capella e salas adjacentes e alli ficou até alto dia”.

O préstito saiu do Palácio das Necessidades para o panteão da Casa de Bragança em S. Vicente de Fora, e intermináveis filas de pessoas bordejavam as ruas e engrossaram o pomposo cortejo de dor.

Eis que acontece o inesperado: a descida do Céu à Terra do Espírito Santo, abençoando a Casa de Bragança na pessoa real da falecida e como que dando legitimidade divina a D. Fernando II. Emoção electrizante se gerou quando uma pomba branca veio pousar sobre o coche da Coroa que transportava a urna, só levantando voo quando iniciou o regresso ao Paço.

Ocorrência que estimulou o lirismo de diverso leque de poetas, mas sendo a obra do ultra-romântico João de Lemos, O Funeral e a Pomba, a tornar-se o hino da derradeira homenagem a D. Maria II (5). Eis alguns versos:

I

E eil-a que ali vae sem vida
que inda era há pouco viçosa
como a flor;
E, flor do tufão perdida,
Agora da Mãe, da Esposa
Resta a dor!

II

Baixou mais perto; e, pairando, vê-se
Mimosa pomba, que dos ceus voou,
Eil-a veloz se precipita agora
e sobre um carro funeral poisou!

III

É sobre o carro que levava a c’roa!
De susto isenta, como poisa assim?!
E quêda, quêda… mas de novo o carro
Segue o cortejo… levantou por fim.

O rei D. Fernando entrou na regência do Reino em virtude do articulado da lei de 7 de Abril de 1846 e do Acto Adicional à Carta Constitucional de 1852, e jurou entregar o governo logo que o príncipe D. Pedro atingisse a maioridade. Foram actos de Estado que teve de despachar em plena dor.

Se foi grande o amor de D. Fernando II por D. Maria II, extremado o terá sido por Elise Friedericke Hensler, com quem casou após ter enviuvado de sua real esposa.

De origem suíço-alemã filha de Friederich Conrad Hensler e de sua mulher, Louise Hensler, nasceu a 22 de Maio de 1836 em La Chaux-de-Fonds, no Jura, perto de Neuchâtel. Aos doze anos de idade, Elise Hensler emigrou com os seus pais para Boston, na América do Norte. Recebeu especiais cuidados na educação, não faltando o cultivo das Letras e das Artes. Tendo os seu estudos sido orientados para o belo canto, viria a completar a sua formação na Europa.

Acompanhada da mãe e integrada na Companhia de Ópera de Laneuville, cerca de 2 de Fevereiro de 1860 chegou a Portugal, estreando-se no Teatro S. João, no Porto. Depois seria escriturada para o Real Teatro de S. Carlos, em Lisboa, a fim de cantar no “Propheta” e no “Roberto do Diabo”, nos papéis de Bertha e Elisabeth. Estreava-se assim em Lisboa a 12 de Outubro desse mesmo ano.

Elise Friedericke Hensler

Elise Friedericke Hensler

Melómano de gostos refinados, D. Fernando II não perdeu uma só das actuações de “o luminoso meteoro” nos dois grandes teatros portugueses. Da Música e do Teatro nasceria o Amor que iluminaria toda a actuação de duas vidas fadadas à união eterna pelos laços da divina Arte. Seria a Infanta D. Isabel Maria, tia de D. Maria II, a mediadora e madrinha nos laços afectivos entre a actriz e o rei, uma feita no Teatro da Vida e outro na Escola da Humanidade.

Com efeito, a 10 de Junho de 1869 celebrou-se o inevitável consórcio real no Palácio Devisme, em Benfica, tendo o príncipe Ernesto de Saxe Coburgo-Gotha agraciado Elise Hensler com o título de Condessa d’Edla. Os Contemporâneos Ilustres, tomo II, p. 282, 1878, assim retrata a Condessa:

“A condessa d’Edla estava de certo modo fadada para ser a esposa de um homem como D. Fernando, tão protector das artes e dos artistas e ao mesmo tempo tão ilustrado!

“Possuindo uma educação esmeradíssima, conhecendo a fundo e falando perfeitamente sete dos principais idiomas da Europa cultivando as artes com ardor, apaixonada pelo belo, amado o retiro e vivendo sem ostentação, a condessa d’Edla é uma senhora de muita consideração pública, porque alia ao seu género artístico um coração benfazejo.”

Para além de cantora e actriz, a condessa d’Edla era ainda música, escultora, ceramista, pintora, arquitecta, floricultora e, muito provavelmente, ocultista, tal como o seu real esposo. Enfoque-se nesta ilustre senhora a dedicação da sua vida a um rei companheira inseparável da sua presença, continuando num caminho de ausência, até ao seu falecimento em 1929 no seu palácio de Santa Marta, em Lisboa, aos 93 anos, sempre honrando a memória do seu “bon et cher Roi Ferdinand”.

Condessa d´Edla e D. Fernando II

Condessa d´Edla e D. Fernando II

Depressa D. Elise interessou-se pelos trabalhos do Palácio da Penha, vulgo Pena, em Sintra, começados por impulso de D. Fernando em 1839 e que apenas terminariam com a sua morte, em 1885. As plantações do Parque, já muito importantes entre 1840 e 1850, intensificaram-se a partir de 1869, como por exemplo as das “Feteiras da Condessa”. É a ela que se deve, nessa altura, a introdução de certas espécies arbóreas da América do Norte, onde passara quase toda a sua juventude, como conta Mário de Azevedo Gomes na sua Monografia do Parque da Pena, escrita cerca de 1910.

No meio desse parque tão amado pelo par real, a condessa morganática levou a efeito, a partir de 1869, com o mestre de obras Gregório, a construção de um chalet, antecipando assim uma moda que conheceria grande sucesso alguns anos depois, na costa do Estoril e de Cascais, tendo aqui neste último, em 1873, e sobre o antigo Forte da Conceição, Thomas Henry Wyatt construído o primeiro chalet da costa para os Palmela.

Tendo em consideração a cultura humanista de D. Elise, acompanhada da influência cerrada do imaginário cavaleiresco contido nas óperas dos maiores clássicos (Verdi, Meyerbeer, etc., nas quais actuou), e não ignorando o acentuado pendor Rosa+Cruz como grau maçónico de D. Fernando, acrescido da conceição imaginária neo-“céltica” e neo-“arábica”, inscritas no programa corográfico escultural do Parque da Pena, incluindo o Palácio, tudo recriando a saga da Quête ou Demanda do Santo Graal, não me custa admitir que a ilustre senhora fosse também ela afecta a tamanhos Mistérios Iniciáticos!… Aliás, os pratos que pintou e estão expostos no Palácio da Pena, repletem-se de alegorias e símbolos ocultistas insertas no tema Sebástico-Nacional através do figurino mitológico greco-romano mas na feição neo-barroca,  sempre realçando a Mulher, o Mar e a Barca, simbolismo matrístico transpirando tanto ao venusto Duat ou Hades quanto a Cordo Mariz.

Sempre que fitei aquele singelo chalet, tão cheio de candura e sentimento, que o conheço há tantos anos por dentro e fora, ele nunca me pareceu um vulgar edifício  feito por pessoa vulgar, por não o serem (6). Letizia Rattazzi o reconhece (7): “Um Chalet de um gosto inimitável. É a Arcádia, uma Arcádia civilizada onde de bom grado se pode viver e morrer. Sente-se que a vida, a saúde e a felicidade residem ali”.

Do muito a dizer sobre D. Fernando II, conter-me-ei em dois aspectos que considero indispensáveis ao entendimento mais aprofundado da sua pessoa e dos seus actos aparentemente díspares: a sua acção política em Portugal face à restante Península Ibérica e ao Mundo, e a sua filiação esotérica, sobre o que muitos «amigos de Sintra» têm especulado.

Devo informar, antes de tudo o mais, que a Família Saxe Coburgo-Gotha era daquelas, em conformidade às necessidades gerais do momento, directamente protegida pelas chamadas “forças secretas” do Governo Oculto do Mundo. É o Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, quem o diz (8): “Abra-se um livro, que raramente se consulta na época actual, e em cada trono da Europa se encontrará um Saxe Coburgo-Gotha. A família desse príncipe é protegida em segredo por todas as Sociedades Iniciáticas, por lhes ter permitido dar “o primeiro tiro de canhão maçónico”. Além disso, por se tratar de uma família real, também tem o apoio do clero”.

Canhão "maçónico" de D. Fernando II no Palácio da Pena de Sintra, que disparava ao meio-dia.

Canhão “maçónico” de D. Fernando II no Palácio da Pena de Sintra, que disparava ao meio-dia.

Com efeito, a família de D. Fernando II na época estava instalada nos tronos mais proeminentes da Europa. Sendo filho do duque Fernando Jorge Augusto, era irmão do duque reinante de Saxe Coburgo-Gotha, Ernesto I (1784-1844), cuja influência se estendia por todo o norte europeu, e de outros dois poderosamente colocados: o rei Leopoldo (1790-1865), primeiro monarca da Bélgica, designado em 1831, casado em primeiras núpcias com a princesa Charlotte (+ 1817), filha de Jorge V, rei de Inglaterra, e em segundas núpcias com a princesa Luísa Maria de Orleães, filha do rei dos franceses Luís Filipe I; e ainda Maria Luísa Vitória (1786-1861), casada em segundas núpcias (1818) com o duque de Kent, e mãe da futura rainha Vitória (1819-1901), vindo esta a desposar um seu primo, Alberto (1819-1861), filho de Ernesto I (9).

As circunstâncias documentadas levam a acreditar consistir a política secreta dos Saxe Coburgo-Gotha no acto de manter as soberanias nacionais da Europa correndo o risco de dissolver-se em algum novo “sacro” Império Romano, exclusivamente temporal, depois das experiências redundadas em fracasso total com o imperialismo napoleónico e germânico. Rainer Daehnardt vem ao encontro dessas minhas palavras quando escreve (10): “O sonho francês de criar uma Europa unida, por baixo do seu ceptro imperial, teve, como resultado imediato, o acordar geral do patriotismo e nacionalismo adormecido da maioria das nações submetidas, que se levantaram contra o jugo estrangeiro, reconhecendo a sua própria identidade como resultado da necessária autodefesa.

“A destruição do Santo Império Romano da Nação Germânica e a sua tentativa de substituição por um novo império, de estilo romano clássico mas centrado em Paris, teve, como consequência, a divisão da Alemanha em trinta e três estados independentes. O lema “dividir para reinar” tinha sido aplicado in extremis e a falta de visão de muitos dos reinantes, que só procuravam o mais rápido e directo conforto próprio, impossibilitava a saída da miséria em que vivia grande parte da população do centro da Europa, ainda flagelada pela recente guerra. Começou, então, a grande onda migratória da Europa para a América.”

Certa influência jacobina e carbonária esteve presente e gizou o europeísmo feudalista do “dividir para reinar”,  distopia avessa à utopia da Sinarquia, nesta onde todos os povos entre si se identificam sem implicar perderem as suas soberanias e consequentes identidades nacionais, quer vistas no estritamente temporal ou quer no amplexo espiritual. A Fraternidade Universal dos Povos, da Humanidade em que se traduz a Sinarquia, implica respeito comum na diversidade das nações. Esta terá sido, por certo, a mensagem maior do Romantismo português com D. Fernando II à testa. Mas lá irei. Primeiro e para entendimento mais aprofundado da época em questão, devo transcrever novo e deveras singular excerto do estudo já citado do Professor Henrique José de Souza, que diz após descrever a tragédia de Napoleão Bonaparte I e a queda de França:

“Eis aí, a França desmembrada. Os maçons começam a fazer a sua pequena história de libertação das inteligências pelo ateísmo. Agindo assim, eles, por sua vez, vão contra a Maçonaria Universal, por isso mesmo, são posto de lado, aparecendo então a Franco-Maçonaria, que mesmo assim não deve ser confundida com aquela.

“A seguir, aparece um outro homem na Itália. O seu nome é Louis Napoleon Bonaparte. Iniciado no Carbonarismo, jurou lançar o Papa por terra. Note-se bem que era livre tanto em o fazer como em não o fazer… Jura, ainda, “sem que ninguém lho pedisse”, que tudo fará para aniquilar o Papado, se lhe dessem o Poder. Ele sobe ao trono por meio de um golpe de Estado, que se qualificou de irregular mas que se tornou regularíssimo, como sempre, por parte daquele que sai vitorioso. Uma vez no poder, Napoleão III esqueceu tudo quanto, de “motu próprio”, prometeu. Não pensa que existe um Papa, nem uma Itália. Então, se lhe enviam vários bilhetes (uma espécie de “bilhete azul”… em nossos dias), que ele encontra atravessados, sempre, por um punhal. E como continuasse a não ligar importância, se lhe envia um tal Orsini, que antes lhe dirigiu uma mensagem toda especial. Desta vez, ele compreendeu. Tropas francesas são mobilizadas e enviadas para a Itália. O Papa é privado do seu poder temporal (que nunca deveria ter, diga-se de passagem, como o mesmo António Vieira foi o primeiro a demonstrar… “que o Poder Temporal é um, e o Espiritual bem outro”). Napoleão III esquece de novo a sua promessa. Foi então que se passaram os seguintes factos que, em síntese, vamos relatar:

“A missão de formar um grupo com todos os Estados da Europa foi confiada a um novo soberano. Era Guilherme I, rei da Prússia. Comprometido, por juramento, a constituir a Federação dos Estados Alemães, e mais tarde a dos Estados da Europa, foi admiravelmente auxiliado na primeira etapa por um chanceler sagaz e um tanto brutal, mesmo em seu modo diplomático de arranjar as coisas … e também de “golpe de punho um tanto fácil”. Chamava-se Bismarck, como o mundo inteiro o sabe. Com semelhante auxiliar, foi capaz de cumprir a sua promessa. Poderia ter colocado os membros de sua família em todos os tronos da Alemanha, e no entanto não o fez. Poderia ter escolhido melhor alguns personagens de mérito, para esses mesmos lugares. Se errou, não o fez por maldade. Do mesmo modo, não se deixou conduzir, como outros o fizeram, pelas famílias reinantes da Alemanha. Todos conhecem a que ponto chegou o referido país, no que diz respeito ao seu formidável poder industrial, como comercial… e até militar, e finalmente ninguém ignora a rivalidade existente entre ele e a Inglaterra, que já em 1914 mediam forças, ao lado da França, etc. Em tal época, a Alemanha sob o férreo pulso de Guilherme II, que “acaba por morrer no exílio, no seu castelo em Endem, na Holanda”, e que por sua vez, embora o mundo ignore, também estava ligado por um Juramento idêntico ao de Napoleão, com certas Associações Secretas… acabou por se sentir tão poderoso que não mais quis dar ouvidos a nenhuma delas… e o resultado foi aquele que se viu…”

D. Fernando II veio dessa época imperial de autoritarismo absolutista, com um pé atrás na idade velha (representada pela submissão ao antigo poder,  estabelecido desde longa data, que muitos preferiam simplesmente para manter a paz e o sossego, ou por medo do desconhecido), e com o outro pé adiante já na idade nova (representada pela industrialização crescente, pela liberdade de expressão e de criatividade e pela representatividade de todas as correntes de opinião no acesso ao poder legislativo). Aprendeu com os erros do passado e alinhou no dever, sentido por todo o meio estudantil alemão da época, de criar um mundo mais igualitário. O Romantismo vem ao encontro disso, tendo como foco inicial o sentimento cavaleiresco ideal e cavalheiresco social, recriando a ambiência psicossocial (neo)medieval em que se reflectisse a justiça e a perfeição almejadas para o Género Humano, sentimento partilhado pela maioria estudantil manifestamente disposta a sacrificar-se pelo seu ideal. D. Fernando vibrava com as obras de Schiller (sinónimo da revolução estudantil) e meditava com as de Goethe. Compartilhava dessa abstrata Saudade – palavra só portuguesa – que os poetas e líricos alemães sentiam em relação aos países do sul da Europa, a maioria por Itália, mas ele por Portugal, ademais informado como estava da sua Missão cíclica conformada à marcha precessional do Sol no esteiro do Zodíaco: de Jerusalém (Áries – Ciclo do Pai) a Roma (Piscis – Ciclo do Filho) e desta a Lisboa (Aquarius – Ciclo do Espírito Santo), implicando Sintra. Por certo isto não seria novidade para D. Fernando II, erudito como era decerto conhecia a obra-prima de Camões, a “Bíblia dos Lusos”, e o que esse escrevera em Os Lusíadas, VI-7:

Via estar todo o céu determinado
De fazer de Lisboa nova Roma;
Não no pode estorvar, que destinado
Está doutro Poder que tudo doma.

Avisado como estava ante o fracasso total dos imperialismos franco e germânico, igualmente do britânico, e sabendo do perigo que daí adviria para a Europa e o Mundo por se tratar dum gigantesco sistema feudalista assim mesmo governado por um soberano único, que fatalmente acabaria propenso à execução de uma política xenófoba, chauvinista e retrógrada ao progresso psicossocial colectivo, logo avessa ao que se idealizava de uma Idade de Ouro em que o Espírito norteasse a Matéria e todos os povos fossem concordes entre si, D. Fernando, já príncipe regente de Portugal, recusou quatro coroas que lhe ofereceram para ocupar os respectivos tronos: a da Grécia, a da Itália, a do México e a de Espanha. Certamente pelas razões referidas, opôs-se vivamente a quaisquer uniões políticas de Estados europeus, notoriamente a união ibérica, onde ele percebia a implicação directa de Napoleão III pretendendo influenciá-lo através do duque de Saldanha. Isto mesmo transparece em carta sua ao seu filho, o rei D. Luís (11): “Não receio tanto a republica como o Saldanha e o Imperador dos Franceses que por força ha de fallar como falou”. Decorrido pouco mais de um ano, o momento político agudizou-se desencadeando a reacção violenta de D. Fernando, traduzida em outra carta a D. Luís (12): “Li com toda a atenção a carta do Imperador dos Franceses e peço-lhe que lhe responda da minha parte que não cederei nunca a minha firmíssima resolução, de não aceitar o throno de Espanha. Pode acrescentar que sou o maior antagonista da união ibérica e que serei inabalavelmente fiel a esta minha crença venha o que vier“.

É crível que meses depois fosse o próprio imperador de França a promover a anuência ou a resignação de D. Fernando, na sequência de um jogo diplomático notável, quer através de Olozaga, em Paris, quer de Montholon, ministro francês em Lisboa, embora conhecesse a posição inglesa assente no corolário inflexível de que seria acordado solenemente que as coroas de Espanha e Portugal jamais se unissem sob o mesmo rei. E foi esta condição inglesa a utilizada pelo rei D. Fernando motu próprio, como cavalo de batalha para a sua recusa. Veja-se que o programa mínimo dos requisitos que estabeleceu para o caso de vir “a dar tal passo”, expresso em Julho de 1870, em novo quadro conjuntural, considerava:

1.º – É preciso, para que eu possa ser rei de Hespanha, que immediatamente se combine a sucessão, ou que, pelo menos, se estipule bem claramente que as duas corôas de Hespanha e Portugal jamais possam cahir na mesma cabeça.

2.º – Egualmente me parece necessario que a votação em cortes não seja inferior a três quartas partes, pelo menos, dos deputados que compõem a Assembléa Constituinte.

3.º – No estado actual das coisas, parece-me da maior conveniência que as quatro nações occidentaes, Inglaterra, França, Hespanha e Portugal estejam de acordo na minha candidatura.

4.º – Por ultimo devo acrescentar que nada resolverei definitivamente neste negócio sem intervenção do governo portuguez.

5.º – Em caso de abdicação ou d’outra qualquer eventualidade, que me forçe a retirar-me à vida particular, eu fique com a mesma dotação, garantida pela Hespanha, que actualmente tenho em Portugal.

6.º – Emquanto à Condessa d’Edla, é do meu decoro que tenha a alta posição que lhe compete como minha esposa em todos os actos que não sejam officiaes.

Favorável à política francesa para Espanha, pondo no trono desta D. Fernando e assim ficando livre para assumir a regência de Portugal, o duque de Saldanha de há muito andava em conflito aberto com o príncipe regente que, desconfiado das suas intenções, avisou claramente D. Luís (13):

“Não penso que a loucura criminosa de um homem octogenário chegue a este ponto, eu porem lhe digo solenemente é que eu, se só um indício palpavel tiver, de taes tenções, pela minha parte heide fazer um protesto à face de toda a nação portuguesa.”

Os acontecimentos atingiram tal ponto extremo que se abriu conflito militar entre o Ministro do Reino, o conde de Tomar, com as suas forças no Porto, e o duque de Saldanha, Chefe do Estado Maior General, com as suas forças em Lisboa, donde saiu a dar combate àquelas. Estava anunciada e iminente a guerra civil: o Norte contra o Sul de Portugal. Ia correr sangue português; ia perigar a soberania nacional. O francesismo oportunista do jacobino Saldanha ia bater-se com o portuguesismo tradicional do Ministro do Reino. A borrasca sangrenta estava por horas!… Então, o Governo da Nação decidiu entrar na campanha nomeando D. Fernando para Comandante-Chefe. Apesar de estrangeiro D. Fernando “sentia-se português e não desejava abdicar de ser português” (palavras suas quando lhe ofereceram a Coroa da Grécia em 1862), mas ele era um homem bom, culto, amigo da paz e amante das belas artes, a sua índole pacífica dispunha-o a não desejava ser o iniciador de uma guerra civil em Portugal, país que tanto amava. Ainda assim lá partiu à frente de poderoso exército, mas sem pressa, devagar, pesaroso, indo alcançar as forças militares, muitíssimo inferiores às suas em homens e poder bélico, do duque de Saldanha em Coimbra, junto às margens do Mondego. Os homens e peças do exército real ocuparam posições, e ante a desproporção do adversário antecipava-se a vitória certa!

Os estudantes de Coimbra juntaram-se aos revoltosos, as populações arredor também, sentindo o mesmo entusiasmo pela causa de Saldanha. Vendo isso, D. Fernando II não mandou abrir fogo e, apesar de estar em vantagem, encetou negociações. Foi insultado e viu-se desamparado de toda a sua divisão, a maioria fugindo para o Porto, deixando-o só. Regressou a Lisboa, tristemente, com escasso grupo de militares fiéis que não o quiseram abandonar. D. Maria II (isto passou-se com ela ainda viva, desde 8 de Outubro até Junho de 1847 e que correspondeu à Patuleia, esta o prolongamento da Revolta de Maria da Fonte, no Minho, em Abril de 1846) viu-se obrigada a ceder, a demitir o conde de Tomar e a encarregar o duque de Saldanha de organizar novo Governo. Entregou-lhe também o comando do exército, que pertencera a seu marido.

Por causa dessa sua atitude que ninguém compreendeu, D. Fernando II passou à História como “o pior militar que Portugal já teve”, e Rafael Bordalo Pinheiro, artista ceramista, cartonista e crítico, taxou-o de “Zé Nabo”. Nada mais injusto! O príncipe regente foi humilhado na altura, mas pode-se afirmar que quem venceu essa terrível batalha interior foi o amor de D. Fernando a Portugal. Não se disparou um só tiro! Não morreu ninguém! Não houve reacender de ódios nem vinganças! Sofreu em silêncio, sem esperar gratidão ou reconhecimento de alguém, tendo como único conforto a consciência de ter feito o que tinha de fazer, o de cumprir a missão de salvar Portugal da guerra civil “com o primeiro tiro do seu canhão”. Ainda hoje poucos se apercebem que ele não via a sua posição de militar com os mesmos olhos com que muitos políticos gostam de a ver: como simples braços executores de uma vontade governativa! Para D. Fernando ser militar tinha mais a ver com o juramento da Bandeira (onde se jura defender a Pátria) que com um governo que acaso os ventos políticos hajam momentaneamente dado à terra. Ser militar significava, para ele, ser defensor do destino do País, independentemente da compreensão ou não da geração que o rodeava (14).

Caricatura de D. Fernando II por Rafael Bordalo Pinheiro

Caricatura de D. Fernando II por Rafael Bordalo Pinheiro

É depois disso que D. Fernando II se recolhe cada vez mais ao cultivo das Belas Artes, cuja Escola fundou e financiou. Dela saíram os maiores românticos da época, muitos deles passando ao exercício das artes arquitectónica e pictórica em Sintra, mudando decididamente a sua paisagem, cuja serra desde então era morada quase permanente do rei, só indo à capital quando os deveres de Estado assim lho exigiam. Afastou-se cada vez mais das intrigas da corte, mas sempre vigilante às investidas dos adversários. Ele que inicialmente, antes das querelas políticas os separarem, fora muito amigo do duque de Saldanha, havendo mesmo notícias de várias vezes passearem juntos pela Serra de Sintra. Será muito natural que assim seja, pois ambos perfilhavam do ideal da Maçonaria, um mais pelo seu aspecto político (Saldanha), outro mais e exclusivamente pelo seu aspecto simbólico e esotérico (D. Fernando) (15), também isso, “fraternidade entre irmãos”, tendo contribuído para o recuo militar do rei contrariando a sua vitória certa.

Muitos dos amigos mais chegados e alguns parentes de D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha mantinham relações e até afiliações à Maçonaria, inclusive o seu preceptor Dietz, iniciado no Grande Oriente Irlandês ou Prussiano, que se estabeleceu em Lisboa pouco depois da chegada de D. Fernando. Dietz poderia, pois, corroborar que a “actividade maçónica” circulava em casa de seus amos. É igualmente conhecida a protecção neste período dada à Maçonaria pelo arquiduque João, Grão-Mestre da Ordem de Cavalaria Zur Blauen Erde, de que passaram a fazer parte o príncipe Guilherme da Prússia, o arquiduque Carlos Augusto de Weimar e o príncipe Leopoldo de Saxe-Coburgo (tio de D. Fernando e futuro rei dos belgas). Perante tão solene e ilustre envolvência, D. Fernando não caminhou imune e sabe-se que em Lisboa mantinha as melhores relações com a fina flor da botânica maçónica, que acolhia intimamente o embaixador do Brasil, tido como “bom mação”, e que já afastado das lides políticas ainda era conhecedor actualizado, por tais fontes, das movimentações e planos no que respeitava a ataques contra a Coroa ou golpes de ambição político-militar. Conta a imprensa, com muitos erros, que por conflitos insanáveis lhe retiraram o malhete de Grão-Mestre, mas inequívoco é ter recebido votos em eleição para aquele cargo (16).

Realmente D. Fernando II de Saxe-Coburgo Gotha foi Maçom do Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite, tendo concorrido no Grande Oriente Lusitano Unido, para seu primeiro Grão-Mestre no Supremo Conselho do Grau 33.º, em 30 de Outubro de 1869, eleição que perdeu a favor do 2.º conde de Paraty, D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha (31.7.1820 – Lisboa, 22.4.1884), o qual tomou posse a 16 de Dezembro do mesmo ano. cargo que ocupou até 1881. Antes, entre 1859 e 1869, o conde de Paraty fora o 17.º (ou 1.º e único depois da sua reunificação) Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, e o 12.º Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho afecto ao G.O.L.

D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha, 2.º Conde de Paraty, com o traje e insígnias maçónicas.

D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha, 2.º Conde de Paraty, com o traje e insígnias maçónicas.

Pelas relações conceituais, simbológicas e falerísticas com a tradição hermética judaico-cristã do Grau maçónico de Príncipe Rosa+Cruz, o de maior prestígio na maçonaria da época, D. Fernando II acabaria por ser associado a esse título iniciático, motivo porque entre teúrgicos e teósofos afins à mística Sintra, que foram os primeiros a criá-la e propalá-la nos últimos decénios,  ele ser cognominado Principis Rosea+Crucis, reconhecido pelo Sinal e Palavra Sagrada do 18.º Grau de Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosa+Cruz no Rito Escocês Antigo e Aceite: pés em esquadria, mãos cruzadas sobre o peito, pronunciando Emmanuel… que é dizer: Manuel ou El Manu, o Legislador e Condutor de Raça, neste particular afim ao de Sintra, Portugal, considerado um dos sete Centros de Vida (Qtubs ou Chakras, em árabe e sânscrito, respectivamente) do Mundo e o único na Europa,   destacando-se a figura régia de D. Fernando II, que mais que Rei-Artista  expressou ao Elias Artista (o Logos Criador) da Kaballah e Alquimia, ou seja, Rei-Iluminado pela Graça e Sabedoria do Divino Espírito Santo, que é dizer, da Avis raris in Terris (17).

Por isso mesmo, acaso ou por certo ele teria perfilado entre os membros incógnitos ou secretos dessa misteriosa mas soberana Ordem dos Marizes (Marus, Maurus, Mouros, Moryas…), a qual possuía por alter-ego a mesma Sintra, diz a Tradição Iniciática; também  por isso mesmo terá querido quis fazer dela (de certa maneira fê-lo) Capital Espiritual e Temporal do V Império Lusitano de toda a Terra, ideia soberana e transcendente igualmente indiciada na conversão que fez ou mandou do antigo convento jerónimo de Nossa Senhora da Pena em espécie ideal de Palácio do Rei do Mundo, que com a chave “apocalíptica” (esculpida sobre o arco de entrada no espaço palaciano) parece destinada a abrir o novo Império – o do Espírito Santo como Terceira Pessoa assinalada nas três rosas sobre a clave, igualmente sinaléticas tanto de Maria como Mãe Trina (donde Maitreya…) do Céu, da Terra e do Inferno, como ainda de Mestre ou Adepto Perfeito – ou a nova Idade (Ciclo) de Demanda, nisto a cumprir-se desde serrania paradisíaca da venusta Cynthia, destinada a espiritualmente alimentar a Humanidade “arrancando mel das suas próprias pedras”, parafraseando São Bernardo de Claraval.

O (neo)Templarismo renascentista e romântico reavivou-se em Sintra e nela teve o auge.  No topo da serra, o Palácio de Saxe (ao qual Richard Strauss, na sua visita aí, extasiado chamou de “Palácio do Santo Graal”) é como o Templo fundado por Titurel no cume do Mons Salvat,  para aí nele depor o Santo Cálice e as Sagradas Relíquias, tendo sido o próprio Mago Merlim a dirigir essa construção misteriosa. A Fede Santa da Cavalaria Espiritual do Santo Graal torna-se aqui a Massenia, ou seja, a Maçonaria Ascética cujos membros se chamam os Templários, ligados ao Centro Supremo representado por esse Templo ideal que se quis entronizado nesta barda e sibilina Montanha Sagrada de Sintra, já de si consignada o Quinto Centro Jina do Planeta que assim vai cumprindo A REALIZAÇÃO DE DEUS.

Posto tudo o dito, agora será mais fácil entender por que D. Fernando II quis Sintra Capital Espiritual da Europa?

Sintra de quem o rei era apaixonado incondicional, dizendo da serra em uma das suas inúmeras cartas (c. 1844):

“Sintra é de facto um sítio magnífico, que não se deixa comparar facilmente com outras regiões. A minha querida Pena é, conforme o meu critério, a coroa da região sintrense. Ainda ontem passámos lá uma das tardes mais maravilhosas que se podem imaginar e regressámos a casa ao luar. Não existe algo de mais belo do que uma das calmas tardes locais, porque a luz é quase sempre serenamente bela e todas as coisas se mostram numa nitidez muito especial.”

E fitando todo Portugal, quiçá desde as altas penedias da sua “querida Pena”, este Português por adopção remata num arrebate de graças  em uma das suas primeiras cartas enviada de Lisboa a Coburgo:

“Portugal, criado verdadeiramente pelo Céu para ser unicamente feliz”!

NOTAS


(1)
Lopes Rodrigues, D. Fernando II e a Toponímia, in Romantismo – Figuras e factos da época de D. Fernando II. Ed. Instituto de Sintra, 1988.

(2) José Teixeira, D. Fernando II – Rei-Artista, Artista-Rei. Edição Fundação da Casa de Bragança, 1986.

(3) Conde do Lavradio, Memórias, vol. III, parte II, p. 330.

(4) O Portuguez, 19.XI.1853.

(5) O Funeral e a Pomba, 13.ª edição do Poema em 5 Cantos do Sr. João de Lemos, Lisboa, 1853.

(6) Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada. Sintra, 1990, 1994, 1998, finalmente a última edição em 2007 pela Dinapress, Lisboa.

(7) Marie Letizia Rattazzi, Portugal de Relance. Lisboa, 1881.

(8) Henrique José de Souza, Cagliostro e São Germano. Revista Dhâranâ, 28.9.1941.

(9) O rei Leopoldo houvera já escrito a seu irmão o duque Fernando Jorge manifestando-lhe “um grande desejo de ver concluída a projectada aliança”. – ANTT, Estrangeiros, Cx. 22, n.º 3, ofício de 18.IX.1825 do conde do Lavradio.

(10) Rainer Daehnhardt, Páginas Secretas da História de Portugal, vol. I. Ed. Nova Acrópole, Lisboa, Maio 1993.

(11) AHMF, Cartório da Casa Real, Maço 9, doc. 128-6, carta datada de Mafra de 24.VIII.1836.

(12) Ibidem, Maço 9, doc. 128-9, de 27.VII.1847.

(13) Ibidem, 18.IX.1837.

(14) Rainer Daehnhardt, ob. cit.

(15) Victor Mendanha entrevista Vitor Adrião, Seguindo o caminho de D. Fernando II na procura do Santo Graal. Matutino Correio da Manhã, 5 e 6 de Janeiro de 1986. E ainda pelo mesmo jornalista no mesmo jornal, caixilho com pequena entrevista de Vitor Adrião acerca do Tesouro Escondido de Sintra, em 17.7.1987.

(16) AHMF, Cartório da Casa Real, maço 12, doc. 305-27, carta do rei D. Fernando II a seu filho o rei D. Luís de 25.VIII.1870. E Diário de Notícias, 15.VI.1869.

(17) Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual na Igreja e na Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.

O Sagrado e Secreto do Jazigo da Família Carvalho Monteiro – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jan 15 2017 

O jazigo monumental da família Carvalho Monteiro encontra-se no Cemitério dos Prazeres, Lisboa, com o número 1382 na rua 11, lado esquerdo. É o segundo jazigo desta família, cuja responsabilidade da sua manutenção foi confiada em 1863 por Francisco Augusto Mendes Monteiro ao seu filho António Augusto Carvalho Monteiro, cujo despojo mortal entrou nele a 2 de Abril de 1922 transladado do anterior, onde entrara às 17 horas do dia 27 de Outubro de 1920[1].

Nascido em 27 de Novembro de 1848 segundo a sua certidão de baptismo em 1849 no Rio de Janeiro[2], capital do Brasil por decreto do marquês de Pombal, substituindo a anterior de São Salvador da Bahia, após uma vida bastante preenchida António Augusto Carvalho Monteiro veio a falecer na sua Quinta da Regaleira de Sintra, vítima de hemorragia cerebral, às 00:15 horas da noite de domingo para segunda-feira de 25 de Outubro de 1920, portanto, com a idade de 72 anos. No dia imediato, o Diário de Notícias (26.10.1920) anunciou na sua primeira página o falecimento do culto milionário e mecenas, dizendo que a causa da morte havia sido “[…] uma comoção […] de tal ordem […] que a ciência não conseguiu dominar, a despeito dos esforços do senhor Dr. (Francisco José de Jesus) Cambournac”.

Também o jornal O Século (26.10.1920), na sua primeira página, deu a notícia do falecimento do “abastado capitalista e proprietário” em Sintra, acompanhando o artigo com uma fotografia de Carvalho Monteiro, de longas barbas brancas e chapéu alto. Fazendo o elogio fúnebre, o articulista escreveu: “O sr. Carvalho Monteiro era extremamente económico, no que não dissesse respeito às suas colecções ou à protecção que dispensava à pobreza envergonhada e aos artistas que a ele recorriam”. O mesmo jornal informou ainda, na sua edição de 28.10.1020, quando fez a descrição do serviço fúnebre no dia anterior, que duas grandes coroas de crisântemos e malmequeres brancos foram depostas sobre a urna, uma da família e outra dos “antigos joalheiros da Coroa” da Casa Leitão & Irmão.

O funeral religioso do Dr. Carvalho Monteiro foi organizado pelo seu genro, D. Francisco de Assis Nazaré de Almeida, e no seu velório na Regaleira participaram, além dos familiares, os artífices que trabalharam na quinta, os empregados, os pobres da vila (acompanhando chorosos o seu benfeitor à última morada), os bombeiros voluntários de Sintra e da Amadora (também muito beneficiados por ele) e inúmeras personalidades da vida cultural e social do país. A urna foi coberta com a bandeira da Sociedade de Geografia de Lisboa, notícia atestada por Vasco Callixto[3]. Houve mesmo um comboio especial para os convidados, amigos e restante povo que quiseram acompanhar o cortejo fúnebre até ao Cemitério de Nossa Senhora dos Prazeres, que tendo partido do Rossio para Sintra repleto de rostos amigos entristecidos voltou ainda mais cheio para Lisboa no fim da manhã de 27.

Notícia das exéquias fúnebres de António Augusto Carvalho Monteiro publicada na "Illustração Portuguesa" nos fins de Outubro de 1920

Notícia das exéquias fúnebres de António Augusto Carvalho Monteiro publicada na “Illustração Portuguesa” nos fins de Outubro de 1920

Já Francisco Augusto Mendes Monteiro faleceu, devido a problemas de fígado, no seu Palácio da Rua do Alecrim, em Lisboa, em 1 de Novembro de 1890, tendo deixado a sua Quinta da Torre ou do Vadre de São Domingos de Benfica, a qual o padre Álvaro Proença não deixou de assinalar[4], como que apercebendo ou suspeitando da intenção oculta do proprietário: “Em meados do século XIX aparece-nos nas mãos do doutor Carvalho Monteiro, com um pórtico acastelado e rodeado por um muro cheio de ameias, tudo de gosto […] tresandando a pretensões”. Ainda cheguei a conhecer esta Quinta do Vadre e a sua torre neomedieval antes de serem demolidas. Ficavam nas traseiras do Instituto Militar dos Pupilos do Exército, à beira da antiga e já também desaparecida estação ferroviária de Cruz da Pedra.

Pai e filho repousam com a restante família no citado jazigo, edificado de acordo com o projecto de Luigi Manini em 1907, escolhido e aprovado por Carvalho Monteiro, mas que só seria concretizado nos inícios de 1922, não esquecendo o artista de insculpir a assinatura de Manini no lado esquerdo da entrada dianteira. Durante muitos anos, a donatária responsável pelo jazigo foi a 7.ª marquesa de Pombal, que conheci e entrevistei, Sr.ª D. Maria Nazaré Monteiro de Almeida Carvalho Daun e Lorena, informando-me que a chave que abre o jazigo abria igualmente as das portas do Palácio da Rua do Alecrim e do Palácio da Quinta da Regaleira, facto insólito carregado de significados escondidos.

Esquisso do jazigo da Família Carvalho Monteiro feito por Luigi Manini

Planta do Jazigo da Família Carvalho Monteiro gizado por Luigi Manini

Sendo a família Lorena de origem franco-helvética, veio a unir-se por via de núpcias com a família Carvalho e, depois, com a Carvalho Monteiro. Isto é atestado pela presença de dois jazigos subterrâneos neste cemitério que ostentam o brasão dos Carvalho, ou seja, os túmulos de D. Francisca Maria de Lorena, 3.ª marquesa de Pombal, nascida em 28 de Novembro de 1758 e falecida em 12 de Setembro de 1837, que se distinguiu pelas suas virtudes e extraordinária caridade com os pobres; e de D. Maria Francisca de Carvalho e Lorena, filha dos 4.os marqueses de Pombal, falecida em 23 de Fevereiro de 1870, com treze anos.

Parte da família Carvalho e Melo emigrou para o Brasil aquando da administração de Sebastião José de Carvalho e Melo, o 1.º marquês de Pombal, e até um pouco depois, já durante a regência de D. João VI, tendo tido papel determinante na História Brasileira dos séculos XVIII-XIX, donde se verem vários personagem distintos do mesmo ramo familiar à dianteira dos destinos dessa nossa Pátria-Gémea: durante o período regencial do imperador D. Pedro II, vê-se um José da Costa Carvalho (1842) participando permanentemente do governo trino do Brasil; vê-se ainda um contra-almirante Custódio de Melo à frente da revolta da Armada em 1891, juntamente com o almirante Mariz e Barros, contra a Assembleia Constituinte. Também se vê antes, em 1823, D. Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos, favorita do imperador D. Pedro I, como a principal opositora à política liberal do ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, este representando a facção jacobina e progressista e aquela, como os outros afins, favorável à facção católica e conservadora[5].

D. Maria Nazaré Monteiro de Almeida Carvalho Daun e Lorena, 7.ª marquesa de Pombal, neta do dr. Carvalho Monteiro em entrevista a Vitor Manuel Adrião

D. Maria Nazaré Monteiro de Almeida Carvalho Daun e Lorena, 7.ª marquesa de Pombal, neta do dr. Carvalho Monteiro em entrevista a Vitor Manuel Adrião

O ano do nascimento de António Augusto Carvalho Monteiro, 1848, correspondeu ao período da fase de pacificação e conciliação (1840-1856) do reinado de D. Pedro II, tendo vindo para Portugal (1859) em plena fase de apogeu do Império (1856-1870), portanto, antes da decadência do regime monárquico no Brasil (1870-1889)[6]. Em 1873, ele casou com D. Perpétua Augusta Pereira de Melo (1852-1913).

A escolha do Cemitério dos Prazeres para última morada da família Carvalho Monteiro, não foi por acaso e houve dois motivos para a mesma, um social e outro, talvez o principal, religioso, de expressão mítica e milagreira. Começando pelo primeiro motivo, direi que o Cemitério dos Prazeres foi construído em 1833 depois de em Junho desse ano uma terrível epidemia de cholera morbus (cólera mórbida) ter assolado Lisboa, causando milhares de mortos, o que obrigou as autoridades sanitárias ao estabelecimento de dois cemitérios (este o do Alto de São João, na zona oriental da cidade) e à proibição dos enterramentos nos espaços religiosos, como tradicionalmente se realizavam. A legislação do governo de Costa Cabral regulamentou essa interdição (leis da saúde de 1844) que levaria à revolta popular da Maria da Fonte ou Revolta do Minho[7], em Maio de 1846, sublevação que se propagou a todo o país desembocando na guerra civil, a Patuleia, durante oito meses, só terminando em 30 de Junho de 1847. Servindo o lado ocidental de Lisboa, onde se implantavam os bairros das residências aristocráticas, desde o primeiro momento o Cemitério dos Prazeres tornou-se o das famílias dominantes da cidade, e uma personalidade com o peso social de António Augusto Carvalho Monteiro não poderia ter outro lugar para última morada. Assim nasceu uma cidade dos mortos dentro da cidade dos vivos.

O segundo motivo da escolha, o religioso, é muito mais atractivo e inclusive explica o sentido do onomástico Prazeres, relacionado com a Fonte Santa que está entre os números 111-D e 13 na curva da Rua Coronel Ribeiro Viana, quase escondida entre os prédios modernos que modificaram por completo a paisagem. Esta fonte que deu nome ao lugar, Prazeres, é constituída por um espaldar liso de cor ocre, tendo na base inferior uma verga de mármore branco a toda a largura. Por debaixo desta verga fica o tanque, que ainda é o primitivo mas restaurado diversas vezes, dentro do qual se vê um bloco de pedra para descanso das bilhas, ainda com as marcas dos encaixes dos suportes de ferro. No espaldar, rematado por uma cruz, também ainda se vê, ao centro, uma pedra esculpida com uma nau cuja proa termina em cabeça de serpente. É uma pedra quinhentista colocada aqui em 1835, aquando das obras de restauro. A água que corre na fonte através de uma torneira metálica com mola já não é, porém, a da nascente que a alimentou e teve fama de curar enfermidades. A nascente, que parece ter secado devido às obras de construção dos edifícios nas proximidades, foi substituída pela água canalizada da EPAL.

Essa fonte anda ligada à lenda que reza ter aparecido a imagem da Senhora dos Prazeres sobre ela, muito antes de 1599, motivo para ter sido baptizada, bem como o sítio, com o nome de Fonte Santa, pelas grandes virtudes que a Virgem comunicou à água que ali corria e curava todas as enfermidades. O Senado da Câmara de Lisboa encarregou-se depois de mandar fazer a arca e o tanque, pondo na gárgula as Armas da cidade. Essa imagem de Nossa Senhora dos Prazeres foi depois colocada numa ermida construída para o efeito, mas que hoje já não existe. Permanece, sim, próxima dela a igreja quinhentista de Nossa Senhora do Paraíso e Senhor Jesus do Triunfo, epítetos alusivos à Ressurreição como derrota da Morte.

A ermida desaparecida estava dentro e deu o nome da Orago à Quinta dos Prazeres, na qual veio a talhar-se o actual cemitério. Era muito concorrida todos os domingos, principalmente no domingo e segunda-feira depois da oitava da Páscoa, pois todas as irmandades, clérigos e irmãos do Santíssimo da freguesia de Santos ali iam em procissão, de cruzes alçadas, cantar uma missa solene dentro dela. Estava situada um pouco acima da Fonte Santa, na actual Rua Coronel Ribeiro Viana e antes da Travessa dos Prazeres, onde hoje é o n.º 27.

A barca serpentária da Fonte Santa e o título Prazeres da Senhora, remetem para a conceição da felicidade post-mortem por um ritual hídrico ou lustral de águas santas, portadoras de propriedades minerais invulgares marcadas pela intensidade telúrica dos veios subterrâneos do lugar, que no entendimento simples popular eram sanadoras do corpo e da alma, das doenças corporais e morais[8].

Fonte Santa dos Prazeres

Fonte Santa de Nossa Senhora dos Prazeres

Pois bem, tem-se nesta cidade dos mortos da freguesia de Campo de Ourique o jazigo monumental da família Carvalho Monteiro, feito de mármore fino de Carrara sobre o esquisso de Luigi Manini, garante a visibilidade grandiosa por estar na esquina da rua principal com a “praça pública” do Cemitério dos Prazeres. A composição assemelha-o a um catafalco-monumento mantendo a espetacularidade celebrativa e ganhando o carácter de permanência[9]. Manini encena a posse e a celebração através de uma composição simbológica de cariz cemiterial cuja interpretação mais uma vez dispõe o pensamento religioso do encomendante, Carvalho Monteiro, conciliando o confessional e o racional católico, neste último revelando a tendência gnóstico-sebástica onde os símbolos cemiteriais estão adaptados ao conceito de ressurreição e advento. A planta do jazigo configura um triângulo em lança, quase sugerindo a forma de uma borboleta saindo do casulo, este aqui o fúnebre transmitindo a ideia da alma alada e subtil ressuscitando para a vida eterna, motivo central da fé católica que é a de Cristo Ressuscitado. Assemelhando-se a uma “barca vogando sobre as águas da eternidade” (a mesma de São Pedro que é a Igreja), o conjunto configura um templo funerário, espécie de capela do culto ao além-vida, como se completasse aquela outra da Quinta da Regaleira, essa destinada ao alimento das almas no esforço dos corpos, e esta ao repouso dos corpos na evolação das almas. Ambas exprimindo os três Mundos de Causas, Leis e Efeitos pelos três patamares da sua composição arquitectónica:

Com efeito, no todo o jazigo parece um templo de imortais, uma capela só para almas que os corpos ficam no repouso eterno, composto por três corpos: Arcanjo Custódio, o Guardião das Almas de espada em guarda a assinalar a função psicopompa ou medianeira do próprio São Miguel sentado no Trono da Glória, assim representando o Céu, o Supramundo; o jazigo superior, com um pequeno altar ao fundo, onde se vê sobre a aldraba da porta a borboleta sobre a ampulheta, representação da transmigração da alma humana, do evolar da Terra, do Mundo; e o jazigo inferior, que é a cripta, o lugar subterrâneo dos imortais ou Submundo.

Dianteira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

Dianteira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

No topo deste monumento está a figura augusta do Anjo da Guarda desta família (o seu Genius Loci), o Arcanjo Custódio – o mesmo da Confraria de São Miguel das Almas de Lagos da Beira, terra natal do progenitor do dr. Carvalho Monteiro – de asas abertas e espada em guarda, erecta, encostada ao ombro direito, com as chaves na outra mão, sentado no Trono da Glória, expressivo da Merkabah, sobre o dossel, postura expressiva do domínio (sentado no trono) e da revelação (sobre o dossel), mas também da protecção que é o que significa o dossel ou pálio. Este assenta sobre quatro colunas dóricas e tem ao centro a urna funerária igualmente figurativa da Tebah, isto é, da Arca da Aliança de Deus com o Homem, mas aqui na expressão póstuma de aliança da alma do crente com Deus Único e Verdadeiro, o mesmo que Se revelou a Moisés no Monte Sinai através de São Miguel ou Mikael (“O Anjo no qual é Deus”, em hebreu, Maleak-Ha-Elohim)[10], já antes tendo sido o Guardião das portas do Paraíso, de onde foram expulsos Adão e Eva para darem a progénie humana, segundo as escrituras bíblicas. Mas aqui é o Guardião zeloso com as chaves da entrada no Céu, as do retorno eterno ao Éden, ao Paraíso como Parnaso de além-túmulo, a Jerusalém Celeste. Quatro tocheiros em volta da urna ao centro, assentes sobre colunas coríntias (estilo arquitectónico tradicionalmente preferido para o tipo de monumentos funerários), dão-na como urna ardente, assinalando a presença da alma imortal e assegurando o perdurar da luz de vigília, no aguardo da ressurreição final das almas familiares (manes) de Carvalho Monteiro. A toda a volta do pálio estende-se um listel decorado com flores de pétalas abertas em cruz, alegóricas da “fina-flor” da alma cristã que corporalmente animou aqueles cuja memória jacente é assinalada na própria urna.

Essa sinalética igualmente evoca São Miguel Arcanjo (Qui ust Deus, em latim, “Quem é Deus”) como padroeiro da antiga Ordem dos Templários no País e a sua aclamação como Anjo Custódio ou da Guarda – que é o seu significado literal neste jazigo dos Prazeres, repito – de Portugal e da Igreja, sendo igualmente o Orago da Sinagoga (Mikael) e da Mesquita (Mirrail), portanto, com a dupla função psicopompa de guardião e guia dos crentes e da “Terra da Luz” (Luxcitânia). Sobre isto, diz Pinharanda Gomes[11]:

“Um dos mais ricos documentos literários e teológicos do século XVII é o Tratado do Anjo da Guarda, do jesuíta António de Vasconcelos. Aí, a par de uma catequese angiológica, o autor documenta a natureza e a evolução do culto em Portugal, demonstrando a sua antiguidade e dignidade. Com efeito, embora a crença no Anjo da Guarda venha de longe, pelo menos dos Salmos, a festa desta invocação só aparece em Espanha no século XVII, sendo aprovada (1608) por Paulo V. Festa imperial da Casa de Áustria, tornou-se extensiva a toda a Igreja (1670), por decisão de Clemente X, e a festa ocorria inicialmente em 29 de Setembro e 8 de Maio (no Ocidente e no Oriente, respectivamente).

“Regressando ao plano do nosso país, esta fé e esta liturgia desenvolvem-se primordialmente em relação ao Anjo Custódio de Portugal, cujo culto se nos evidencia em duas fases: o início, até à decadência, e a revivescência, mediante as aparições de Fátima.

“Segundo António de Vasconcelos, na conquista de Santarém, D. Afonso Henriques invocou S. Miguel Arcanjo, aí tendo instituído a Ordem de S. Miguel da Ala. A insígnia desta Ordem era uma asa vermelha em campo branco, cercado a ouro. A devoção ao Anjo cresceu de tal modo que D. Manuel I o invocava como “anjo nosso guardador”, tendo-se antecipado ao movimento do culto em Espanha. De facto, D. Manuel solicitou (6-6-1504) de Leão X a instituição da festa do Anjo Custódio de Portugal, a celebrar no terceiro domingo de Julho, dando aso a uma tradição que ainda se mantém em várias localidades do país. Anteriormente (1480), ao fundir num só vários ofícios litúrgicos, o prior de Odivelas, Fr. António Castanheira, já encontrara o ofício do Anjo Custódio, pelo que o gesto de D. Manuel corresponde a um sancionamento de uma tendência cultual anterior, depois incorporada nas Ordenações Manuelinas (Liv. I, tit. 78), onde se determinam os actos da festa: procissão solene, missa e ofício particular em Lisboa e noutras terras. O estatuto passaria para as Ordenações Filipinas (Liv. I, tit. 66, & 48), mas antes alvarás foram expedidos por D. Manuel a várias câmaras do país para instituírem a festa, que obteve maior brilho nas dioceses de Braga, Coimbra e Évora, sobretudo nos séculos XVII e XVIII. A partir de então, o culto decaiu, mas por decreto (28-6-1952) da Sagrada Congregação dos Ritos, a festa foi restaurada em todas as dioceses portuguesas (em Braga continuou a fazer-se em 9 de Julho), e fixada em 21 do mesmo mês. O decreto de 27-7-1952 trasladou-a para 10 de Junho e fixou o novo próprio de Portugal.”

As paredes laterais sob o dossel estão forradas por três lápides com inscrições evocativas das memórias jacentes de Francisco Augusto Mendes Monteiro e sua esposa, Teresa Carolina de Carvalho, e também de um seu filho falecido. Pelo interesse biográfico que importam ao conhecimento desta família cuja maioria dos dados cronológicos hoje são praticamente desconhecidos dos historiadores, transcreverei essas inscrições lapidares cujas letras foram pintadas a negro originalmente mas que hoje estão muito deterioradas, quase apagadas.

Primeira lápide

Ao lado dos restos mortais do filho descansam também aqui os da sua extremosa mãe D. Teresa Carolina de Carvalho Monteiro nascida no Rio de Janeiro a 1 de Outubro de 1810 e falecida em Coimbra a 2 de Abril de 1871 com 60 anos, 6 meses e 29 dias de idade. Foi na vida filha querida, esposa a mais dedicada, mãe extremosíssima e protectora dos pobres. A sua alma gozará de certo da bem-aventurança celeste, assim o crêem o seu desolado esposo Francisco Augusto Mendes Monteiro e os seus consternados filhos António Augusto de Carvalho Monteiro e José António de Carvalho Monteiro que à memória da finada tributam uma eterna saudade.

Segunda lápide

Ao lado dos restos mortais da esposa e mãe descansam também os do seu desvelado marido e pai Francisco Augusto Mendes Monteiro nascido em Lagos da Beira, Concelho de Oliveira do Hospital, em 9 de Março de 1816 e falecido em sua casa em Lisboa na Rua do Alecrim, Freguesia da Encarnação, no dia 1 de Novembro de 1890 contando 74 anos, 8 meses e 8 dias. Um português modelar, exemplar chefe de família, marido dedicado e pai extremoso praticando o bem esforçado à sua pátria. Para aqui foram os seus restos mandados trasladar pelo seu saudoso filho António Augusto de Carvalho Monteiro. Que eles descansem em paz juntos dos entes queridos que na vida teve.

Terceira lápide

Francisco Augusto Mendes Monteiro e a sua esposa D. Theresa Carolina, mandaram erigir este monumento de indelével saudade à memória do seu querido filho Francisco, que nasceu no Rio de Janeiro aos 23 de Dezembro de 1847, e faleceu na Vila da Figueira aos 5 de Outubro de 1860, com 12 anos, 9 meses e 13 dias de idade. Foram trasladadas as suas cinzas do Cemitério d´Moutela Vila para este jazigo em 13 de Outubro de 1868. Sob a guarda do R. P. Manoel Marouf Per. Ribeiro da cidade de Coimbra. Olatium obi in aeternum pax filli domi Domine.

Nos lados da porta frontal do jazigo, em guisa de “figuras de convite” cemiteriais, apresentam-se as esculturas de duas virtudes teologais: à esquerda (de quem olha de frente) a , carregando a Cruz, e à direita a Esperança, portando o Cálice, esta com a cabeça descoberta e aquela coberta, por ser a algo íntimo, feita só daquilo que o crente sabe, e a Esperança a sua suprema e derradeira afirmação.

A virtude (virtus, em latim) é uma qualidade moral particular, como a inclinação natural para praticar o bem, e o conjunto virtuoso expressa todas as qualidades essenciais que constituem a natureza do chamado homem de bem, quer individualmente, quer colectivamente. Como disse Aristóteles, as virtudes são a disposição adquirida, pelo seu cultivo permanente, para praticar o bem, o bom e o belo, aperfeiçoando-se e desenvolvendo-se cada vez mais com o hábito. As virtudes ou skandhas, em sânscrito, são as normas, regras ou râgas como cimento moral da vida e em particular da ciência sacerdotal. Sem elas, o distinto sagrado do sacerdócio não poderá distinguir-se do vulgar profano e ordinário, como tampouco a sociedade humana se distinguirá do bruto irracional. Há dois grupos de virtudes: as virtudes teologais, cuja origem e objecto são o próprio Deus Espírito Santo revelado como Fé (Fides), Esperança (Spes) e Caridade (Charitas), ausente neste jazigo mas que poderá assinalar-se no Arcanjo caridoso protegendo a urna. E as virtudes cardeais, consideradas as principais dentre as virtudes humanas: Justiça (Iustitia), Prudência (Sapientia), Fortaleza (Fortitudo), Temperança (Temperantia), e mais a Obediência (Hobedientia) que, no caso de António Carvalho Monteiro, seria tanto à Igreja como à Coroa, ambas seculares. Disso conclui-se que até o bem-fazer não é feito sem ordem nem regra, e sim com a discriminação prudente que cada caso exige.

Como há quem veja, a meu ver imprudentemente, nessas esculturas do jazigo algum simbolismo esotérico de carácter maçónico ou afim[12], por bem adiantarei que a noção de virtude na Maçonaria não é exactamente igual à do Catolicismo. Sendo qualidades positivas próprias do homem, as virtudes são “forças” ou skandhas, que integradas ou assimiladas por ele entram na formação superior ou elevada do seu carácter. Como já disse, chama-se assim todos os hábitos constantes que levam o homem para a prática de operações honestas, tendentes para o bem comum. Podem ser classificadas como virtudes morais e virtudes mentais. As que são aplicadas para o bem honesto são morais, e as que são aplicadas para a verdade são mentais ou intelectuais. Aquelas são operativas, estas são especulativas, cuidam da cultura, enquanto as outras cuidam do carácter. Por exemplo, a caridade é uma virtude moral, enquanto a sabedoria é uma virtude mental. Como também já disse, a formação das virtudes acontece pela repetição de uma série de actos da mesma espécie, cujos exercício constante e perseverante os converte em hábitos. Por esta razão, a virtude é uma conquista pessoal em que não há interferência hereditária. Para o comportamento pessoal se transformar numa virtude, implica essencialmente duas condições: o conhecimento do dever a ser cumprido, e a disposição firme e perseverante em cumpri-lo. Conceitualmente, para a moral da Maçonaria a virtude é disposição habitual para a prática do bem e do que é justo, por isso é tida como prova da perfeição que deve caracterizar todo o maçom, culto e moral, mesmo não participando da profissão de crente e ficando-se só pelo exercício humanitário.

Desde Platão e Aristóteles que a Filosofia reúne toda a Moral em quatro virtudes cardeais ou principais, em torno das quais todas as outras gravitam ou dependem, e que são: Justiça, Prudência, Fortaleza, Temperança, as três últimas sendo apenas qualidades de quem as possui e não virtudes relacionadas com o próximo, porque só a Justiça é uma virtude útil aos outros, mas não bastando ser justo porque também é preciso ser benfazejo. A Maçonaria reconhece e incentiva a prática das quatro virtudes cardeais, além das três virtudes teologais, representando-as por borlas pendentes nos quatro cantos da Loja.

Ao contrário das virtudes cardeais, adquiridas pelo hábito constante, as virtudes teologais não são adquiridas pelo esforço do homem. São as virtudes ensinadas na teologia de São Paulo e é por isso que se chamam teologais (prevenientes de Deus), as mesmas Fé, Esperança, Caridade. Através delas o homem poderá superar-se a si mesmo no intento de alcançar a suprema perfeição que o identifique ou iguale ao Divino. Para a Teologia, a representa a expressão da crença esclarecida como acto lógico e fundamental da razão humana; a Esperança e a Caridade ou Amor andam juntas e representam o sentimento amorável para com o próximo, que se deve a uma disposição muito viva da alma, seja nas concepções filosóficas e morais, seja nos ideais religiosos e espirituais. Para a Moral, distinguem-se os deveres da Justiça e os deveres da Caridade: os primeiros consistem em respeitar os direitos de outrem; os segundos consistem em socorrer o próximo por todos os meios ao dispor. Posto tudo, concluiu-se que o mal é a antítese da virtude. E é ao mal do fanatismo, da ignorância e da superstição que, afinal, todo o maçom verdadeiro deve combater sempre e em toda a parte com tolerância, prudência e sabedoria, seja por motivo religioso ou, o mais comum como laico e até ateu, só pelo bem-fazer à sociedade geral[13].

De ambos os lados da porta do jazigo estão duas tochas tombadas sobre papoilas dormideiras (envolventes do edifício). Representam o finis vitae, o fim da vida, anunciando o período de dormição, o sono profundo do justo que dorme na paz eterna. Adiante do óculo por cima da entrada, configura-se uma coroa funerária entrecruzada por uma cruz florlisada tíbia em esplendor. É sinalética indicativa do próprio como jazigo desta família que morreu crente na Luz e Triunfo da Cruz, vencendo a hora fatal da morte com a ressurreição em Cristo, motivo assinalado na cabeça do Querubim mais acima.

Motivos necroláticos na porta dianteira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

Motivos necroláticos na porta dianteira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

A aldraba da porta é decorada pelos motivos, tudo em ferro forjado, das papoilas dormideiras nos lados de um ampulheta em que assenta uma borboleta de asas abertas com um crânio no dorso, o que levou Manuel Joaquim Gandra a chamá-la de Esfinge da Morte. Não é só pelo facto de Carvalho Monteiro ter sido um grande borboletário que ela está representada aqui[14], mas sobretudo pelo seu significado transcendente afim ao simbolismo cemiterial. Este insecto existe realmente e chama-se acherontia atropos, mais conhecido como “borboleta-caveira”, por apresentar no seu dorso uma figura semelhante ao crânio humano. É uma borboleta nocturna (nisto tornando-se afim à associação simbólica da noite com a morte) que se alimenta, no estado adulto, de certas flores como o jasmim, a folha de tabaco e a folha de batata. Nas crenças populares, a presença da “borboleta-caveira” é sinal de notícias nefastas ou da morte de alguém, mas no simbolismo tradicional enuncia a transmigração da alma, acompanhando os ciclos da sua evolução, marcada pela ampulheta de Cronos ou Saturno, motivo por que a Antiguidade greco-romana dava à alma que deixava o corpo morto a forma de uma borboleta, e assim as borboletas passaram a ter o sentido de “espíritos viajantes”. Nos afrescos de Pompeia, Psique é representada como uma menina alada semelhante a uma borboleta. Um outro aspecto do seu simbolismo fundamenta-se nas suas metamorfoses: a crisálida é o ovo que contém a potencialidade do ser e a borboleta que sai dele torna-se símbolo de ressurreição, ou por outra, da saída do túmulo.

Traseira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

Traseira do Jazigo da Família Carvalho Monteiro

Na traseira, descendo poucos degraus, penetra-se na cripta, onde jazem os despojos mortais de alguns membros da família Carvalho Monteiro. Por cima da porta abre-se um óculo com cruz florlisada de ferro, e um pouco abaixo, dos lados, duas cabeças de Anjo com as asas fechadas, em oposição aos mochos laterais de asas abertas, espécie de vigias ladeando a entrada. Na cimalha desta estão três papoilas entrelaçadas por uma fita, e mais acima uma caveira sobre duas tíbias cruzadas, sinal da presença da morte. As três papoilas dormideiras representam o tríplice aspecto do Homem, como o seu Espírito subido, a sua Alma evolada e o seu Corpo falecido, além de representar a terra onde se operam as transmutações vitais: nascimento, morte, esquecimento e reaparecimento, segundo o simbolismo eleusino condizendo com a frase das Escrituras Sagradas: “da terra vieste e à terra voltarás” (Génese, 2:7; Eclesiastes, 3:20). De modo que a papoila dormideira oferecida a Deméter representa a força do sono e do esquecimento que toma os homens depois da morte e antes do renascimento. O mocho faz as vezes de guardião do Hades, o mundo subterrâneo onde volvem as almas dos vivos, e nessa função cemiterial está de asas abertas, vigilante, enquanto acima os Anjos estão de asas fechadas, assinalando que a alma volveu à eternidade, não está presente na matéria por o seu ciclo de vida corporal ter findado. Consequentemente, o Sol, o Espírito, representado pelo Anjo, está recolhido, e fica só a Lua, a Matéria, representada pelo mocho que é a ave de augúrio, como tal aquela que na noite da morte augura o dia da vida que será o da ressurreição final.

NOTAS

[1] Esta e outras informações afins constam dos registos de óbito e de entrada em jazigo do citado e seus familiares, as quais me foram cedidas pela Administração do Cemitério dos Prazeres.

[2] Vários autores dão com data de nascimento de Carvalho Monteiro o ano de 1850, induzidos no erro por Christopher C. Lund em O manuscrito caligráfico, único, de Os Lusíadas, feito por Manuel Nunes Godinho para o seu patrão António Augusto de Carvalho Monteiro. Leituras de Camões, São Paulo, 1982. Também o “de” Carvalho está a mais, ele não consta no registo de baptismo e só António Augusto Carvalho Monteiro.

[3] Vasco Callixto, As terras e os homens: onde nasceram, viveram e morreram. Lisboa: Universitária, 1999.

[4] Padre Álvaro Proença, Benfica através dos tempos. Depositária União Gráfica – Lisboa, 1964.

[5] João Ferreira Durão, Pequena História da Maçonaria no Brasil (1720-1882). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2008.

[6] Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004.

[7] A verdadeira Maria da Fonte, na Póvoa de Lanhoso, era a natural da terra chamada Maria Luísa Balaio, proprietária de uma hospedaria, “Maria da Fonte”, onde acorriam as mulheres que tomaram parte activa na revolta feminina que incendiou o país. Mas como a revolta eclodiu em Fontarcada, no Minho, o povo daqui identifica-a como Maria Angélica de Simães, ou uma outra mulher de nome Maria. Creio que Maria da Fonte são todas as Marias e demais mulheres que encabeçaram a revolta popular contra o governo liberal e cartista de António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889), o famigerado “mata-frades” por ter sido quem assinou o decreto-lei de extinção das Ordens religiosas em Portugal.

[8] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita e Secreta. Editorial Jonglez, Versailles, Abril de 2010.

[9] Paula André, Modos de pensar e construir os cemitérios públicos oitocentistas em Lisboa: o caso do Cemitério dos Prazeres. Revista “História de Arte”, n.º 2, Lisboa, 2006.

[10] Esta última observação recorda igualmente as palavras adaptadas do texto de Isaías, 6:3, cantadas no Sanctus precedendo a Comunhão (Eucaristia) na liturgia romana: Benedictus qui venit in nomine Domine, “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Elas são aplicadas ao Cristo, cujos predicados os gnósticos cristãos e posteriormente os cabalistas igualmente cristãos revelavam idênticos aos do Arcanjo Mikael, compreendendo a relação existente entre o Messias e a Shekinah ou “Revelação Divina”. O Cristo é também designado por “Príncipe da Pax”, sendo, ao mesmo tempo, o “Juiz dos vivos e dos mortos”.

[11] J. Pinharanda Gomes, Povo e Religião no Termo de Loures. Paróquia de Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1982.

[12] Pedro de Carvalho Daun e Lorena, Vida e Obra de Carvalho Monteiro na Métrica e Simbólica – Jazigo da Família Carvalho Monteiro. Dissertação apresentada para obtenção de grau de Mestre em Reabilitação da Arquitectura e Núcleos Urbanos. Universidade Técnica de Lisboa – Faculdade de Arquitectura de Lisboa, 11 de Fevereiro de 2004.

[13] Vitor Manuel Adrião, Guide de Milan Insolite et Secrète. Editions Jonglez, Versailles, 2012.

[14] Nuno Rodrigues, Descrição e análise do jazigo da família Carvalho Monteiro, no Cemitério dos Prazeres. Revista “Lusíada: Arqueologia, História da Arte e Património”, série I, números 2-4, 2004, Universidade Lusíada, Lisboa.

Os subterrâneos da Quinta da Regaleira de Sintra – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jan 12 2017 

Se há lugar em Portugal onde se apresenta com toda a pujança o mito ou a realidade do Mundo Subterrâneo, o Reino encantado teimando em não se descobrir sob o seu nome Agharta, que é a Paradhesa ou Paraíso Terreal universalmente tomado como a derradeira esperança de um porvir melhor para o Género Humano, esse lugar está exactamente aqui, na Quinta da Regaleira de Sintra, esta que já de si é reconhecida como Serra Sagrada desde os alvores da civilização humana, inclusive pela sua relação ctónica com a mesma Terra Oca de que falam com relativa abundância as crónicas e lendas locais, das mais antigas às mais recentes[1].

Com efeito, um intrincado complexo de túneis e grutas perfaz as artérias sobre que assenta este complexo monumental. Além da cripta da capela, do lago subterrâneo próximo à alameda das estátuas mitológicas, da torre levantada aos céus com a estátua de Leda-Melusina no seu interior, há ainda dois pressupostos «poços» que de tal nada têm, antes sendo torres subterrâneas levantadas no ventre da serra.

A entrada na torre mandada construir pelo dr. António Augusto Carvalho Monteiro, a dita maior, mais profunda e completa, faz-se pelo cimo da quinta, atravessando um dólmen artificial (a roche surprise, “rocha surpresa”, no plano original de Lusseau), também mandado fazer por aquele, para logo transpor um pesado portão de pedra, cujo mecanismo de tão secreto que era não havia outro igual no país[2]. Por certo este monumento no mínimo insólito fazia parte de um cenário mítico antecipadamente concebido por Carvalho Monteiro, muito antes de aceitar o projecto de Manini, posto que num dos desenhos aguarelados de esquissos de Henri Lusseau destinados ao jardim da Regaleira, surge a seguinte indicação: Porte surprise – ouvre pour descendre (“Porta surpresa – abre para descer”)[3]. Com a altura aproximada de 33 metros repartidos por 9 patamares, terminando no lanternim, cada um deles com 15 degraus, perfazendo o total de 135, no fundo da torre vê-se configurada no seu chão ladrilhado a estrela heráldica constante no brasão da família Carvalho, mas que alguns identificam ora como uma “cruz templária”, ora como uma “rosa-dos-ventos”. A cerca de um terço da altura da torre há duas entradas para ela, sendo a mais significativa aquela que se faz junto à fonte onde estão duas esculturas de dragões, crocodilos ou lagartos enleados. No fundo da torre abre-se uma galeria de portal em arco de pedra suportado por quatro colunelos, junto ao qual está, à direita, uma fonte esculpida em forma de bilha, possível alusão à Fons de Sée (donde Sagesse ou Sabedoria) da lenda de Melusina, como consta no seu romance medieval. Prosseguindo por essa galeria, a dado momento ela bifurca-se na direcção da entrada oriental, onde está o lago que tinha uma linda cascata, havendo antes uma outra bifurcação à direita que vai dar à segunda torre subterrânea menor, aparentemente incompleta, possivelmente mandada fazer após 1830 pelo proprietário da Quinta da Regaleira anterior a Carvalho Monteiro, ou seja, Manuel Bernardo Fernandes, que é o único interveniente neste espaço a ser claramente identificado como maçom[4]. Por certo pretenderia com a construção inacabada dessa torre reproduzir a ideia hermética do V.I.T.R.I.O.L. adoptada pela Maçonaria desde a primeira hora da sua fundação. Mas as fundações do terreno seriam aproveitadas por Carvalho Monteiro para completar a obra, todavia com sentido diverso do pressuposto de Manuel Bernardo.

As galerias subterrâneas estão forradas com pedras de coral para aqui trazidas das proximidades de Peniche, segundo Maria Regina Anacleto, ou das proximidades da Boca do Inferno em Cascais, segundo Manuel Joaquim Gandra, ou talvez de ambas as partes, segundo me parece. Carvalho Monteiro quis iluminá-las electricamente e dar-lhes animação com uns bonecos maquinados vestidos de mouros, como conta a sua neta Maria de Nazaré: “As grutas para o meu avô eram os contos das mil e uma noites. Ele “sonhou” tudo aquilo e depois concretizou. Numa das grutas – a das Moiras Encantadas – ele queria pôr autómatas vestidas de moiras, que se levantassem e cumprimentassem o visitante”[5].

Esse “sonho” de Carvalho Monteiro parece ter nascido da mitologia nacional de carácter sebástico inspirada em determinados trechos das escrituras sagradas, temas que serviriam a alguns escritores cristãos para dispor no Centro do Mundo o conceito sinárquico de sociedade perfeita, a Quinta Monarquia ou Império, e o próprio Messias também aí. O sebástico frei Sebastião de Paiva é talvez o principal a desenvolver o tema em 1641, e quiçá tenha sido nele que Carvalho Monteiro se inspirou para transformar a alegoria sagrada em realidade cenográfica. Com efeito, o religioso trinitário diz[6]:

“[…] a qual cláusula é de notar se não cumpriu em tempo de nenhum dos nomeados nas outras exposições, e que se cumprirá, sem dúvida, em o justo governo da Quinta Monarquia; e acho particular mistério em se pintar este que há-de sair da raiz da cobra ou serpente, de quem sabemos que diz o mesmo Isaías, cap. 11, n. 8, que faz sua morada em escondidas cavernas: “in caverna reguli”; e Jeremias diz destes bichos, “quibus non est encantatio”, que não se deixam enganar.

“Sinais com que atrás fica qualificada esta pessoa, que com tantos rodeios e hieroglíficos nas Divinas Letras se nos pinta. E já por esta razão Esdras, lib. 4 e 5, n. 6: “Regnabit quem non sperant, qui habitant super terram”, que reinará aquele que os moradores da terra não esperam, porque como se há-de esperar uma cousa ao parecer tão repugnante a toda a prudência; pois esta tal que dá princípio a obra tão insigne, se diz que há-de ser abatido, pobre, necessitado, escondido falto de forças. Traças certo que só no abismo da divina sabedoria e no pego inexausto da divina providência se abonam.”

O tema é retomado por Lusitanus, pseudónimo de Abel de Sousa Vasconcelos (1865-1937), autor da obra sebástica Sinais dos Tempos[7], onde diz no capítulo com o sugestivo título “Ilha Encoberta”:

“Esdras indica-nos o nome da região (Arezareth) – paradeiro das 10 tribos de Israel – e refere que a sua entrada foi no Eufrates, secando-se este, miraculosamente, na sua passagem, devendo secar-se, novamente, no seu regresso (Isaías, no cap. XI, faz idêntico vaticinio). Essa região é desconhecida, devendo estar oculta, aos nossos olhos. Vaticina também que um Filho de Deus, conservado por seu poder há muitos anos – qui conservat multibus temporibus – e que surgirá, por esse mesmo poder, do coração do mar – ascendens corde maris – para chefiar as 10 tribos de Israel, no combate contra os exércitos dos reis da Terra coligados, implantando depois o Reino de Deus na Terra.

“Esdras não indica a situação geográfica dessa região marítima. Ressalta do seu vaticínio que essa criatura já pisou a crosta terrestre, e vive numa ilha ou cidade marítima, visto sair de corde maris.

“Ora, tendo de reaparecer as 10 tribos de Israel, desaparecidas há 29 séculos, fenómeno extraordinariamente maravilhoso, não é maior maravilha conservar Deus mais esse seu “Filho Macho” ou Varão em lugar oculto e invisível a nossos olhos, para executar todos esse plano grandioso da conversão geral da Humanidade, ou do estabelecimento do seu Reino na Terra convertendo-a num Céu, como diz Isaías?

“Não poderá Deus, por seu poder infinito e para quem não existem impossíveis, conservar nessa ilha esse seu “Filho”, que há-de sair de corde maris para ser instrumento da grandiosa Obra que tem em vista, assim como hão-de reaparecer as 10 tribos de Israel, desaparecidas há 29 séculos, para serem cooperadoras dessa mesma Obra?”

Talvez por esse motivo da insula occulta de que o mar ou maris é símbolo das águas genesíacas referentes ao Centro Primordial originador da Vida, é que Carvalho Monteiro terá escolhido as pedras de coral para forrar as galerias subterrâneas da Regaleira, por serem pedra marinha formada no fundo do oceano. Por tudo isso, também Helena Petrovna Blavatsky proferiu as palavras flagrantes[8]:

“O reino das trevas e da ignorância desaparece rapidamente, mas há ainda regiões inexploradas pelos sábios e que são tão negras quanto a noite do Egipto. Os clérigos benévolos que, sob a menor das provocações, estão sempre prontos a mandar-nos ao Tártaro e às regiões infernais, não suspeitam o bom voto formulado a nosso respeito, e qual o grau de santidade que deveremos adquirir para poder entrar num local tão sagrado. Falar-se, por conseguinte, de alguém que houvesse descido aos Infernos equivalia, na Antiguidade, a designá-lo como um Iniciado Perfeito.”

Nisso e na mais restrita ortodoxia da doutrina católica, Jesus Cristo foi um Iniciado Perfeito porque também ele desceu aos Infernos, como diz S. Mateus, 12:40: “O Cristo ficou três dias e três noites (isto é, desde o alvorecer da quinta-feira até ao do domingo) no coração da Terra, com a porta do túmulo fechada”. O Cristo havia descido não “à terra” e sim “às partes baixas da Terra” que são o seu Centro (Efésios, 4:9), e isto traz à memória o significativo encabeçamento dos títulos das Cartas Paulistas (Epístolas de S. Paulo) vertidas para a Vulgata Latina por S. Jerónimo: Agharta-al-Galatim, Agharta-al-Ephesim, Agharta-al-Romin, etc., ou seja, “Agharta aos Gálatas”, “Agharta aos Efésios”, “Agharta aos Romanos”[9].

Subterrâneos da Quinta da Regaleira de Sintra

Subterrâneos da Quinta da Regaleira de Sintra

O retorno ou viagem espiritual ao Centro Primordial – chame-se-lhe Salém, Shamballah, Walhalah ou simplesmente Agharta – está representado na Regaleira na própria ordenação labiríntica das suas galerías subterrâneas, dizendo René Guénon[10]: “O labirinto tem uma dupla razão de ser, no sentido de que permite ou impede, segundo o caso, o acesso a um certo lugar no qual nem todos devem penetrar indistintamente. Apenas os que estão “qualificados” poderão percorrê-lo até ao fim, enquanto os demais serão impedidos de penetrá-lo ou se extraviarão no caminho. Vê-se de imediato que existe aí a ideia de uma “selecção” que se refere de modo evidente à admissão na iniciação. O percurso do labirinto é exactamente, sob esse ângulo, uma representação das provas iniciáticas. E é fácil conceber que, quando servia de facto como meio de acesso a certos santuários, podia estar disposto de tal forma que os ritos correspondentes fossem cumpridos durante o próprio percurso. Além disso, encontra-se nele ainda a ideia de “viagem”, na medida em que está associada às próprias provas (…)[11]. Outro simbolismo equivalente é o da “peregrinação”. Podemos lembrar a propósito os labirintos traçados antigamente sobre o pavimento de certas igrejas, e cujo percurso era considerado como um “substituto” da peregrinação à Terra Santa. Afinal, se o ponto em que termina esse percurso representa um lugar reservado aos “eleitos”, ele é na verdade uma “Terra Santa” no sentido iniciático da expressão, ou seja, esse ponto nada mais é que a imagem de um Centro Espiritual, da mesma forma que todo o local de iniciação”.

A origem mitológica do labirinto é o palácio cretense de Minos, onde estava encerrado o minotauro e donde Teseu só conseguiu sair com a ajuda do fio de Ariadne. O minotauro representa a natureza animal, o labirinto a caminho tortuoso da Iniciação a ser percorrido por Teseu, o Iniciado, e sair triunfalmente do mesmo graças ao fio de Ariadne, ou seja, à ligação permanente à sua Alma ocultada sob a veste carnal. Vencer a besta animal em si mesmo equivalia a alcançar o Centro e triunfar na Iniciação, neste caso, sair incólume do labirinto equivalia a ser Cristóforo, ou seja, a Luz Crística revelada no Iluminado verdadeiro. Relacionados com isto e ao mesmo tempo, os labirintos traçados no chão de algumas igrejas medievais eram a assinatura das confrarias iniciáticas de construtores livres, servindo também aos que não tinham posses para viajar para substituir a peregrinação efectiva à Terra Santa. Por isto, às vezes encontram-se no centro do labirinto as figuras ou do próprio arquitecto ou do Templo de Jerusalém, expressando o Eleito que chega ao Centro do Mundo representado pelo mesmo Templo salomónico. Assim, o crente que não podia realizar a peregrinação real fazia-a em imaginação através do labirinto, até chegar ao ponto central, ao lugar santo: era peregrino sem sair do lugar, fazendo devotamente o trajecto de joelhos.

Na tradição cabalística, retomada pelos alquimistas, o labirinto preencheria uma função mágica, que seria dos segredos atribuídos ao rei Salomão. É por esta razão que o labirinto das catedrais (sendo uma série de círculos concêntricos interrompidos em certos pontos de modo a formar um trajecto bizarro e inextrincável) era chamado de labirinto de Salomão. Aos olhos dos alquimistas, tratava-se de uma imagem do trabalho inteiro da Grande Obra Hermética com as suas dificuldades principais: o caminho estreito mas seguro que o alquimista devia percorrer para alcançar o Centro, representando a Pedra Filosofal, sinónima de Iluminação ou Realização Espiritual, com a sua natureza superior (representada nos metais nobres, como o ouro e a prata) dando combate à sua natureza inferior (assinalada nos metais impuros, como o chumbo e o ferro); esses conhecimentos equivaliam a vencer e sair incólume do intrincado labirinto da Iniciação. Esta interpretação ia ao encontro da professada na doutrina ascética de alguns místicos cristãos e árabes: concentrar-se em si mesmo, em meio dos mil rumos incertos das sensações, das emoções e das ideias, eliminando todo o obstáculo à intuição pura, e volver-se à Luz espiritual sem se deixar prender nos desvios das veredas sensoriais e mentais. A ida e volta no labirinto eram o símbolo da morte e da ressurreição espiritual.

Labirinto da Catedral de Chartres, França

Labirinto da Catedral de Chartres, França

De maneira que o labirinto expressa o caminhar do homem para o interior de si mesmo, para uma espécie de santuário ou cripta misteriosa, expressando o que há de mais misterioso e sagrado nele. É aí, nessa cripta, verdadeiro templo do Espírito Santo na alma em estado de Graça, que se reencontra a unidade perdida do Ser, entretanto dispersado na multidão dos desejos. A chegada ao centro do labirinto, como no fim de uma iniciação, introduz o iniciado numa cela invisível, que os artistas dos labirintos sempre deixaram envolta em mistério, ou melhor, que cada um podia imaginar segundo a sua própria intuição ou afinidades pessoais.

O emaranhado aracnídeo das galerias subterrâneas da Quinta da Regaleira (esquema cenográfico encomendado por Carvalho Monteiro a Luigi Manini e que por volta de 1904 já estava feito[12], quase de certeza tendo o artista italiano se inspirado no formato daquela outra torre subterrânea de S. Patrício em Orvieto, Umbria, Itália, para construção da idêntica na Quinta da Regaleira) sugere a configuração de uma suástica ou swástika, a cruz jaina ou jina que na Ásia é reconhecida como insígnia do próprio Chakravarti, o “Rei do Mundo”.

Esquisso da torre subterrânea de S. Patrício (1527), em Orvieto, Umbria, Itália, o interior desta e a sua semelhança com o da torre maior subterrânea da Regaleira de Sintra

Esquisso da torre subterrânea de S. Patrício (1527), em Orvieto, Umbria, Itália, o interior desta e a sua semelhança com o da torre maior subterrânea da Regaleira de Sintra

Não afirmo que o complexo subterrâneo configure uma swástika, porque não a configura, antes digo que a sugere… e, sugerindo-a, torna-se forçoso saber o significado real desse símbolo tão mal entendido no Ocidente e de triste memória desde as usurpações hitlerianas, e por isso começo citando Laurentus, pseudónimo de Henrique José de Souza (1883-1963)[13]: “Raros são também aqueles que sabem interpretar os símbolos conhecidos pelos nomes de suástica e sovástica, pois a maioria chega ao ponto de confundi-los. O primeiro representa o movimento da esquerda para a direita, que é o dos astros em torno do Sol, a maneira de se abrir uma porta ou dar corda em u´a máquina. Em suma, é o símbolo do movimento, da evolução. Já o segundo, que gira na direcção contrária, é tido por jainos e budistas, na Índia, como “nefasto e perigoso”. Foi este último, justamente, o escolhido por Adolf Hitler, por ser o génio da destruição e da morte. É um símbolo, pois, de involução e decadência”.

Como o itinerário nas grutas se realiza do Ocidente para o Oriente, ou seja, da esquerda para a direita, isso vem a simbolizar o movimento destrocêntrico (pradakshina, em sânscrito, e dextroversum, em latim) que é o mesmo dos astros em torno do Sol, e igualmente o da própria descida pelas torres maior e menor da Regaleira.

Mário Roso de Luna corrobora o conceito de swástika e itinerário quando diz[14]:

“O misterioso IT jina, que não é outro senão a cruz jaina, svástica ou molinete eléctrico, símbolo da Vida Universal, que no fundo de tudo late, por sua vez é radical de palavras importantíssimas, tais como as de IT em latim, de ITer, itineris, “caminho, senda”, ou seja, o nosso típico itinerário.”

Adiantando numa outra obra[15]:

“A esvástica, como é sabido, consta de uma cruz ordinária cujos quatro braços iguais estão dobrados em ângulo recto. O equivalente da sua figura é o chamado “molinete eléctrico” que pode ver-se em todos os tratados de Física, e ela mesma em si não é senão um quádruplo agregado de esquadros ou ângulos rectos, ou melhor, um quádruplo conjunto de outros tantos triângulos rectângulos que se une no centro dela com os quatro dobrados extremos, extremos que se curvam e prolongam convenientemente podendo chegar a descrever uma circunferência, passando assim o símbolo ao consabido da cruz no círculo, de onde ele é originário. Na realidade, não há uma mas duas esvásticas contrapostas e de sinal contrário, masculino-feminino, segundo a maneira de estarem dobrados os braços: em sentido dextorsum (segundo a marcha aparente das estrelas no céu e das agulhas de um relógio) ou em sentido sinistorsum (marcha contrária do Sol e dos planetas ao longo do Zodíaco). O primeiro símbolo é o da Magia Branca, solar, do fogo ou positiva, e o segundo o da Magia Negra, lunar, negativa ou da água, anulando-se entreambas quando se sobrepõem na figura de um quadrado perfeito. Para pontualizar ambas as esvásticas, basta recordar que a positiva está representada por um homem com o braço direito dobrado para cima, a cabeça para a esquerda, o braço esquerdo dobrado para baixo e a perna esquerda dobrada para a direita. Na realidade, a esvástica, como cruz primitiva, é o símbolo do homem espiritual crucificado na cruz do seu corpo, porque, como disse Annie Besant, nos primitivos templos o simbolismo da cruz e do crucificado eram uma e mesma coisa, e a cruz do nosso corpo o sublime instrumento da nossa glorificação pela boa obra que aqui realizamos, tomando o nosso corpo como o melhor dos instrumentos de luta e triunfo.

“Dentro do inesgotável de todo o simbolismo, como o presente, cabe derivar do da esvástica ensinamentos de alto valor relativos ao enlace do Jainismo, que a adoptou, com as demais religiões troncais que, mais ou menos, deduziram deste simbolismo fundamental uma infinidade de outros que podem servir-nos para depurar tais nexos, a saber: pelos quatro esquadros com o martelo de Thor, Thot ou Hermes, tanto símbolo troncal do Hermetismo egípcio, quanto do primitivo Paganismo nórdico dos Eddas proto-semitas; pelos quatro triângulos rectângulos com o célebre símbolo de “os Desposórios”, vulgarmente conhecido por “Teorema de Pitágoras”, e com todo o Pitagorismo; por sua cruz interior com o mito da Crucificação, tanto dos primitivos mexicanos quanto dos cristãos modernos, etc., etc.”

Sendo a swástika o sinal do Pólo Primordial como ponto fixo no centro da Roda do Mundo, marcando a sua rotação, esse mesmo Pólo poderá estar marcado pela torre erecta ao céu da Quinta da Regaleira, enquanto as duas outras subterrâneas poderão igualmente associar-se ao simbolismo do eixo solsticial (torre maior) e do eixo equinocial (torre menor), motivo representado pela cruz clavígera ou dupla swástika de sentidos opostos entrelaçados, dizendo René Guénon[16]: “Tem-se, desse modo, duas chaves opostas segundo um eixo vertical, e duas outras segundo um eixo horizontal. Em relação ao ciclo anual, cuja relação com o simbolismo de Jano se conhece, o primeiro desses dois eixos é um eixo solsticial, e o segundo um eixo equinocial. Aqui, o eixo vertical ou solsticial relaciona-se com a função sacerdotal, e o eixo horizontal ou equinocial com a função real”.

Com efeito, a partir da swástika saíram todas as cruzes conhecidas. Ela contém em si a quadratura do círculo formando o octógono, como forma mediadora entre o quadrado e o círculo, que é dizer, entre a Terra e  o Céu, na linguagem muda dos símbolos. A quadratura do círculo é igualmente representada pelo emblema da Rosa+Cruz, igualmente  símbolo hermético da Pedra Filosofal, de maneira indirecta assinalada na estrela heráldica do brasão da família Carvalho patente no fundo da torre maior da Regaleira. Redimir coagulando a prata da Terra e solvendo o ouro do Céu, é o seu sentido velado, sim, a quadratura da Terra no círculo do Céu, na maior Alquimia mediante a qual se obtém o Elixir da Vida Eterna: o estado de imortalidade do Homem Perfeito.

Torre da Quinta da Regaleira, simbólica do Pólo Primordial

Torre da Quinta da Regaleira, simbólica do Pólo Primordial

De todas as entradas para o mundo subterrâneo da Regaleira, a mais interessante e simbólica é sem dúvida a da fonte monumental situada a cerca de um terço da altura da torre maior, e que está defronte para outra torre parecida com um zigurat caldaico no lado oposto do pátio. O conjunto escultórico apresenta duas grandes estátuas de dragões acorrentados de cujas cadeias sobressaem folhas de hera. Seguram um búzio que é lucerna de onde escorre água para um vaso hexagonal cujo frontíspicio, aos pés dos dragões, é decorado por uma cabeça de golfinho aureolada por chamas.

Bem se sabe que o dragão foi sempre o animal mitológico elegido para representar o Fogo da Sabedoria Divina e que no Reino Animal é representado pela salamandra, réptil vivendo junto a águas e em cavidades subterrâneas havendo-o com fartura nesta serra, tal como rãs de volume considerável, pois ambas as espécies já vi e toquei muitas vezes nos caminhos serranos.

Mas há quem considere que essas figuras fantásticas esculpidas são crocodilos ou jacarés e inclusive faça um exercício de Cabala Fonética associando o termo jacaré ao jaccara, de joccari, “jogar, simular”, e nisto está muito certo! Sim, porque toda a alegoria esotérica reserva sempre alguma mensagem iniciática, tornando-se necessário jogar com os elementos simbólicos apresentados para apreender o sentido simulado. No simbolismo tradicional, o crocodilo é tomado como o animal psicopompo representativo do Caos Primordial, o Leviathan da Bíblia, facto assinalado nas trevas cavernosas que levam ao interior da torre subterrânea da qual estes animais são os guardiões da entrada. Além disso, teosoficamente o crocodilo também simboliza o Makara – assinalado no mapa estelar por Marte e o Escorpião – associado ao sentido cosmogónico do Kama-Deva hindu que, por sua vez, equivale ao Cúpido latino, o deus tanto do Amor como da Paixão, esse mesmo Fogo subtil alegoricamente escorrendo da lucerna para resplandecer no coração ou arder no ventre.

Dispostos como se vêem, os dragões vêm a ser alegóricos do solve et coagula hermético, ficando o solve para a escultura à direita do observador, e o coagula à esquerda. As folhas de hera entrelaçadas nas cadeias, representam a própria Era a cujo início de manifestação os sobreditos Makaras ficaram encadeados, passando a servir de intermediários entre o Mundo manifestado (Cosmos, Luz) e o Mundo imanifestado (Caos, Treva), ou por outros palavras, entre o Espaço Sem Limites e o Espaço Com Limites, que é dizer, Purusha e Prakriti, “Espírito e Matéria”.

Portanto, neste figurino os “Dragões de Sabedoria” ou Makaras representados serão a imagem do Pralaya, do Caos ou Período Cósmico e Humano de absoluto repouso exterior, só havendo a absoluta actividade interior. Pralaya esse assinalado pelo búzio ou shanka, em sânscrito, tradicionalmente representado como contendo as sementes (as “águas genesíacas da Criação”) do futuro Manvantara, Cosmos ou Período Cósmico e Humano de absoluta actividade exterior, só existindo o absoluto repouso interior. Segundo René Guénon[17], “o búzio encerra o Som Primordial e Imperecível (Akshara), o monossílabo Om”. Consequentemente, o búzio representa o Som ou Verbo que deu início à manifestação da Vida, como assinala a frase latina Fiat Lux, e de imediato jorraram as águas celestes de que se alimenta a mesma Criação.

A cabeça de golfinho na fácies do vaso, com auréola chamejante, representa Sat, o “Ser Puro”, como individualização da Substância Única (Svabhavat) acompanhando a manifestação da Vida, e por este motivo de pureza absoluta como Criação directa de Deus, o Demiurgo, além de ser sinónima da Pedra Filosofal a “cabeça de delfim” equivalia entre os antigos hermetistas à Suprema Realização. Esta realiza-se sempre num espaço interior, que é tanto o seio da Terra como o lugar do coração. Este motivo terá levado a que se desse forma hexagonal ao vaso ou vaisel onde as águas caem, representativo do coração cujo “ar vital” é soprado por Saturno de quem a folha de hera copada foi o símbolo para os hermetistas medievais. Mas para Carvalho Monteiro, possivelmente ciente de todo esse simbolismo e que acaso transpôs para o seu “nacionalismo gnóstico” afim à noção que tinha de “religião pátria”, o delfim chamejante inscrever-se-ia no tema sebástico do Infante destinado a cabeça toda iluminada da Quinta Monarquia ou V Império do Mundo a irromper da “ilha encoberta”, designação dada ao Mundo Subterrâneo, que misteriosos dragões ou crocodilos guardam.

Ainda sobre o “coração e a caverna”, há a conhecida expressão tradicional “caverna do coração” de que fala René Guénon (in revista Études Traditionnelles, Paris, Dezembro de 1937). Com efeito, a palavra sânscrita guhâ é geralmente utilizada para designar uma “caverna”, mas também sendo aplicada à cavidade interna do coração, por conseguinte, ao próprio coração. A “caverna do coração” é o centro vital onde reside não só o Jivatmã ou “Espírito Condicionado” mas também o Atmã ou “Espírito Incondicionado”, idêntico a Brahma como Deus Supremo, equivalendo ao Pai. De maneira que a caverna indica a entrada para a Satya-Loka, “Lugar de Luz”, tal qual o coração aponta a embocadura para a Satya-Yuga, “Idade de Fulgor”.

A palavra guhâ deriva da raiz guh, com o sentido de “encobrir” ou “ocultar”, do mesmo modo que a raiz similar gup, de onde vem gupta, aplicada a tudo o que tem carácter “secreto” e não se manifesta exteriormente; é o equivalente do grego kryptos, origem da palavra “cripta”, também podendo ser sinónima de caverna. Essas definições filológicas referem-se ao Centro, na medida em que é considerado como o ponto mais interior e, portanto, o mais oculto. Ao mesmo tempo, referem-se ainda ao segredo iniciático, seja em si mesmo, seja enquanto simbolizado pela disposição do lugar onde se realiza a iniciação, lugar sempre oculto ou encoberto, isto é, inacessível aos profanos, defendido por uma estrutura “labiríntica” ou por qualquer outra forma, mas sempre considerando-o imagem do Centro Primordial, que como “caverna da montanha” e “caverna do coração” como acessos para a “caverna do céu”, podem ser figuradas da maneira seguinte:

Por outro lado, é importante observar que o carácter oculto ou secreto, no que diz respeito aos Centros Espirituais ou à sua figuração, implica que a Verdade ou a Sabedoria verdadeira (Sanatana-Dharma) desde há muito não é acessível indiscriminadamente, o que implica atravessar-se uma época de “obscurecimento” ou “trevas” (Kali-Yuga), cuja relatividade é superada pela iniciação verdadeira e consequente transmissão iniciática, reservada à elite ou os eleitos que pelos seus próprios esforços acabam recebendo a graça da sua Luz. Isto permite “situar” o sentido do simbolismo no decurso do processo cíclico, ou seja, da passagem da Idade da Treva à Idade da Luz.

Na Teosofia, o Mundo Subterrâneo e o Espírito Santo são conceitos interligados, como se depreende das palavras do Professor Henrique José de Souza[18]: “Ao próprio seio da Terra se denomina “Laboratório do Espírito Santo”, por ser o lugar onde vive em actividade o Fogo Cósmico que tanto vale por Kundalini. É ainda esta a razão por que se dá a tal região o nome de “ônfalo” ou umbigo, seio, útero, etc., da Terra. A força Kundalini achando-se “na extremidade inferior da coluna vertebral”, ou cóccix do homem, está em relação com o chakra ou “centro de força” Muladhara (“chakra raiz”, como sede dos demais), o qual possui 4 pétalas, ou melhor, é dividido em forma de cruz, na mesma razão da Terceira Emanação Divina ou Espírito Santo”.

A passagem das trevas à luz parece ser figurada, na Regaleira, atravessando por cima de quinze pedras intervaladas num percurso serpenteante sobre o lago onde estava a cascata, o que reproduz as cenas de iniciação entre os antigos egípcios e hindus que se encaminhavam para o Centro Oculto onde finalmente recebiam a Luz, algo idêntico ao recebimento da Graça do Divino Espírito Santo para os cristãos. Diz ainda o Professor Henrique José de Souza, desta vez sob o pseudónimo Laurentus[19], com que desfechamos este estudo:

“A Teosofia ensina que “cada um dos sete Dhyan-Choans (Luzeiros, Logos Planetários) dirige um dos sete estados de consciência que a Mónada tem de percorrer em toda a sua trajectória evolucional durante uma Ronda ou Ciclo”. Na arte musical – como expressão de tamanha verdade – a escala é formada de sete notas. E quantas vezes a mesma seja repetida (digamos 7×7 = 49, na razão de sete Raças-Mães e sete sub-raças para cada uma delas), um acorde – composto de três notas – também aí pode ser repetido, como se fora a referida Mónada deslizando do Divino (o Agudo) ao Terreno (o Médio) e o Infraterreno (o Grave), ou seja, o seio da Terra, o Sanctum-Sanctorum, onde se acha o Grande Mistério Espiritual do nosso Globo, pouco importando as opiniões contrárias… É o Lugar onde elaboram as chamas do Fogo Sagrado, o Fogo Serpentino ou Kundalini. Aquele mesmo “Fogo que, através da sarça ardente, falou a Moisés, ordenando-lhe que se descalçasse, pois estava pisando em terra sagrada”…

Lago da Cascata atravessado por quinze pedras serpenteando. Quinta da Regaleira de Sintra

Lago da Cascata atravessado por quinze pedras em trajecto serpenteante. Quinta da Regaleira de Sintra.

“O “Poder do Fogo” e a “Mãe do Mundo” são nomes dados a Kundalini, como um dos poderes místicos, digamos, o principal que faz do discípulo um Adepto ou Homem Perfeito. A sua “câmara” é o coração, mas a sua “morada” está no chakra Muladhara, situado no cóccix (uma espécie de “Bela Adormecida ou Branca de Neve à espera do Príncipe encantado, em seu túmulo de cristal”…). Tal “centro de força” ou chakra acha-se em oposição ao situado no vértice ou alto da cabeça, com o nome de chakra Coronal (Sahasrara, Brahmananda, etc.). A “coroa” dos sacerdotes, dos reis, donde “reis divinos”, do mesmo modo que a auréola dos santos da supracitada Igreja, tem a sua origem em tudo quanto acabamos de dizer.

“Conhece-se aquela maravilhosa passagem da vida do Padre António Vieira, quando ele diante do altar da Virgem Maria (com o seu papel também de Ave ou Espírito Santo) sente um estalo na cabeça, e perde os sentidos… Daquela hora em diante o discípulo ignorante passou a Mestre, Adepto, Homem Perfeito ou Iluminado. Começou a ter “o conhecimento perfeito das coisas”. Trata-se do fenómeno da “manifestação de Kundalini”, aquele mesmo que, no Dia de Pentecostes, manifestou-se sobre as cabeças dos doze Apóstolos do Cristo.

“Em resumo, mais uma vez dizemos: o Espírito Santo manifestado em todas as religiões, lendas e tradições, é a Ave Sagrada da Sabedoria Divina. E como tal, representa o Terceiro Logos. Segundo foi dito em outros lugares, a sua Morada é o Sanctum-Sanctorum (que no homem é figurado no Muladhara) da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria. Algo assim como se disséssemos que o Espírito (Purusha) aí se une com a Matéria (Prakriti).”

NOTAS

[1] Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, Abril de 2007.

[2] Leonor Figueiredo, Palácio de Fadas espera em Sintra um multimilionário. Jornal “Correio da Manhã”, 29.1.1985.

[3] Quinta da Regaleira – Luigi Manini (Imaginário & Método – Arquitectura & Cenografia). Edição da Fundação Cultursintra, 2006.

[4] A. H. Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal (das Origens ao Triunfo), três volumes. Editorial Presença, Lisboa, 1990.

[5] Leonor Figueiredo, Monteiro Milhões, o nosso “Luís da Baviera” – Quem era o homem que queria fazer de Sintra terra das mil e uma noites. Jornal “Correio da Manhã”, 30.1.1985.

[6] Frei Sebastião de Paiva, Tratado da Quinta Monarquia, pp. 242-243. Colecção Pensamento Português, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2006.

[7] Lusitanus, Sinais dos Tempos (Fim das Nações – Império Universal – Triunfo da Cruz – Fim do Mundo), pp. 261-262. Imprensa Lucas & C.ª, Lisboa, 1924.

[8] Helena Petrovna Blavatsky, As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo.

[9] Saint-Yves d´Alveydre, La Misión de la India en Europa. Luis Cárcamo, Editor, Madrid, 1988.

[10] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo.

[11] Sobre isto, Maria Regina Anacleto (in Arquitectura neomedieval Portuguesa, 1780-1924, Coimbra, 1997) conta uma estória relacionada com a Regaleira que me parece fábula «iniciática» a acrescentar ao número das muitas lendas urbanas que correm sobre a quinta. Diz: “Na casa estava instalado um gerador eléctrico que permitia inundar de luz não só o palacete, como toda a quinta e até, parcialmente, as galerias. Conta a tradição que Carvalho Monteiro inundava o salão da “catedral” de água, transformando-o num lago e que, seguidamente, ele e os seus convidados, efectuavam a travessia de barco. Seria nessa altura, possivelmente, que se processavam os ritos iniciáticos”.

[12] Na Regaleira, as grutas aparecem materializadas a partir das belíssimas maquetes cenográficas que Manini produziu para as óperas Mefistófeles, de Arrigo Boito, Macbeth, de Giuseppe Verdi, e Carmen, de Georges Bizet.

[13] Laurentus, Ocultismo e Teosofia. Edições em 1949, 1966, 1983, 2003. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro.

[14] Mário Roso de Luna, De Gentes del Otro Mundo. Librería de la Viuda de Pueyo, Madrid, 1917.

[15] Mário Roso de Luna, El Simbolismo de las Religiones del Mundo y El Problema de la Fidelidad (Comentários a “La Doctrina Secreta” de H. P. Blavatsky, fundadora de la Sociedad Teosófica). Editorial Eyras, Madrid, 1977.

[16] René Guénon, A Grande Tríade. Editora Pensamento, São Paulo, 1989.

[17] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, São Paulo.

[18] Henrique José de Souza, O Verdadeiro Caminho da Iniciação. Edições em 1939, 1957, 1966, 1978, 2001. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro.

[19] Laurentus, Ocultismo e Teosofia. Edições em 1949, 1966, 1983, 2003. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro.

Carvalho Monteiro e a Peninha de Sintra – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Dez 7 2016 

A Peninha da Serra é um pedestal de penhas donde se abarca vasta visão de Sintra à Arrábida. Um ninho de águias feito por titânicos e misteriosos desígnios.

Ela marca o final ou o início, depende de como se começa o itinerário, do Sistema Geográfico Sintriano. Na base do seu morro está a capela de São Saturnino, tosca de traça românica muito alterada e em estado adiantado de degradação, cuja origem recua aos primórdios da Nacionalidade pois “dizia-se ter sido fundada por Pêro Pais, um dos companheiros de D. Afonso Henriques”[1].

Pêro Pais pertencia à linhagem dos Maias com origem em familiares próximos de D. Ramiro II, rei de Leão, havia desempenhado o cargo de signifer ou signífero (“porta-bandeira”) de D. Afonso I de Portugal e “deixara a Corte retirando-se para a Serra a fim de fazer penitência”, segundo o Visconde de Juromenha[2]. Com efeito, os conquistadores cristãos de Colares (cerca de 10 kms distante de Sintra) haviam sido comandados por Pedro ou Pêro Pais, alferes-mor e “porta-bandeira” de D. Afonso Henriques, que veio a abraçar a vida eremita na serra, aqui mesmo em São Saturnino da Peninha, onde fundou uma cella ou ermida onde viveu largo tempo, a qual nos fins do século XV foi ampliada para capela e hoje é o templo cristão mais antigo de toda a Sintra e arrabaldes[3]. Passado algum tempo, Pêro Pais acabou abandonando o seu eremitério e desceu para Colares onde fundou outra cella, que veio a dar na ermida de Nossa Senhora de Milides, termo significando “olhos de mocho”, a ave da prudência e do saber, o que relaciona Milides com Minerva, a deusa grega da sabedoria. A prova de que o antigo guerreiro era eremita famoso, encontra-se na doação que D. Sancho I lhe faz de Cellas ou Colares em 1192: “Petro heremite de Sintria”.

Ruína da Capela de São Saturnino da Serra de Sintra

Ruína da Capela de São Saturnino da Serra de Sintra

Muito possivelmente, Pêro Pais andaria próximo das doutrinas sufis da heterodoxia corânica ministradas na carvoaria, espécie de mosteiro de recoletos do Islão, da Azóia ou az-zawiya, vizinha de Almoçageme (al-mesjide, “a mesquita”), junto ao Cabo da Roca ou da Serpente (serpens ou cola, donde também colir, o colar serpentário possível indicativo de pressupostos cultos ctónicos neste lugar), na qual, a par do estudo e entendimento das escrituras sagradas, se preparavam as milícias da Crescentada para a jihad, igual na Cruzada à guerra justa, temas desenvolvidos tanto por Becre David Al-Xintari como por São Bernardo de Claraval, padroeiro da Ordem do Templo e pai espiritual de Portugal, dando prosseguimento ao que enunciara Santo Agostinho de Antioquia, um dos Doutores da Igreja sem deixar de ser neoplatónico.

O primeiro historiador de Colares foi o árabe Abu Ibne Mahmud Al-Qazwini (1203-1283), na sua geografia Ajâ´ib al-Buldân (“Maravilhas dos Países”), tecendo as maiores loas a Colares equiparando-a a um “paraíso maravilhoso”, certamente não só pelas suas fartas riquezas naturais mas também por ser lugar de paz e onde em paz se podia aprofundar a praxis litúrgica no respectivo mosteiro ou azóia, junto ao cabo-mar na extensão da Serra Sagrada reconhecida e assumida pelos Iluminados Maridjs a Qut-Xvarnah, o Pólo do Espírito Santo algo idêntico ao Chakra Vishuda dos hindus, correspondendo ao lugar do Laríngeo por onde escoa o Verbo inflamado pelo Fogo Criador do Espírito de Santidade (chamado Kundalini e que é representada pela mesma serpente, cola ou colir, que nesta parte colarense, em São Saturnino – Cabo da Roca, está representada na víbora cornuda, a vípera latastei).

Víbora cornuda (vípera latastei) da serra de Sintra

Víbora cornuda (vípera latastei) da serra de Sintra

No século XVI, a veneranda imagem de Nossa Senhora da Peninha era motivo de culto e romaria anual pela população de Sintra, Colares, Cascais e Milharado, organizada em confraria, e cerca de 1579 a ermida foi elevada a capela – com direito a capelão – tendo recebido melhoramentos e ampliações. Ela veio a possuir um rico altar cujo painel frontal era em azulejo policromado do século XVII, segundo José Azevedo[4], o qual está hoje no Museu do Azulejo, em Lisboa. A sua composição é a seguinte: dentro de um ornato circular está uma fita acompanhando o círculo, com a legenda: “Esta obra mandaram fazer os oficiais da nau Nossa Senhora da Oliveira”, e noutra fita horizontal, tangente à primeira na sua parte inferior: “De Gimarois – Era de 1636”. Segundo Virgílio Correia[5], o painel fora oferecido à Senhora de São Saturnino pelos marinheiros da nau Gimarois que esteve em risco de naufragar defronte ao Cabo da Roca, de onde se avista esta capela cuja Orago os assistiu e salvou na aflição do mar tormentoso.

“Gimarois” é, bem entendido, Guimarães, onde está a linda igreja de Nossa Senhora da Oliveira, sede da mais antiga confraria católica portuguesa, sendo ainda a oliveira simbólica da Árvore da Vida e do Presbiterianismo na cultura mediterrânea. Esse frontal azulejado de altar mostra ainda, no cimo, uma fita circular cortada por uma flor-de-lis ladeada por dois ramos de oliveira levantados, e em baixo também é também cortada por outro ramo da mesma árvore, tombado; ao centro, domina uma mitra episcopal levantada um báculo pastoral deitado. O conjunto representa a sumidade pontifical incarnando a Autoridade Espiritual, sinónima de Tradição e Conhecimento. No conjunto, o frontal é um quadrado com oito azulejos de cada lado e não se sabe quando foi retirado daqui, contudo sabendo-se que em 1673 ainda se oficiava o culto a Virgem da Peninha nesta capela. O seu imobiliário litúrgico também devia ser rico, pois há notícia de haver nela uma mitra de prata ornada com pedras preciosas, datada de 1764. Essa igualmente não se perdeu: está no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa[6].

Quanto ao onomástico São Saturnino, a sua pessoa figurando na hagiografia cristã possivelmente terá sido inspirada na greco-romana do pai de Júpiter, Saturno, o deus que se retirou para a Lácia e ali construiu a Idade de Ouro, como igualmente António Augusto Carvalho Monteiro se retiraria para este lugar inóspito em guisa de aqui reviver o espírito anacorético dos inícios do Cristianismo, mandando construir uma “Regaleira pequena” onde, quiçá, discreto e isolado, pudesse dedicar-se a misteriosas e alquímicas fábricas auríferas.

Enquanto Júpiter, como “Pai” do Céu, é o aspecto superior de Saturno, como “Pai” da Terra”, nisto o mesmo Saturnino como Saturno também é Cronos, o deus do Tempo que demarca os Ciclos tradicionais da Vida Universal, alegorizado naquele gigante mitológico devorador dos seus próprios filhos[7], isto é, o que regula fatalmente o período de existência corporal de um e de todos os seres viventes, saídos da existência intemporal para um dia volverem engolidos nas entranhas do Pai Eterno. Com toda a certeza Carvalho Monteiro conhecia esse mito grego[8], ou não teria mandado esculpir um relógio solar numa penha sob o seu palácio, ademais sendo possuidor do relógio mais completo e complexo do mundo em seu tempo. Sim, para um estudioso como ele era da filosofia clássica, certamente não lhe era desconhecido o elementar de Cronos ser o deus do Tempo e o padroeiro dos relojoeiros cuja arte é ofício tradicional.

Cemitério para nados-mortos, marcado pela cruz franciscana, lateral à capela de S. Saturnino de Sintra

Cemitério para nados-mortos, assinalado pela cruz franciscana, lateral à capela de São Saturnino de Sintra

A propósito do interesse saturnino ou cronosiano de Carvalho Monteiro, transcrevo a notícia publicada por Leonor Figueiredo faz alguns anos[9]:

“DAR AS HORAS DE 125 LOCAIS… – Um relógio ultracomplicado está hoje exposto no museu de Besançon, em França. Relógio esse que pertenceu e, segundo os netos, foi idealizado pelo próprio Carvalho Monteiro.

“Trata-se dum exemplar em ouro executado em Besançon e Paris de 1897 a 1901. Foi o próprio rei D. Carlos que o trouxe da capital francesa. A autoria é dada ao relojoeiro L. Leroy no livro “Evolution de L´Horlogerie” de Lucien Balvay, onde nem sequer o nome de Carvalho Monteiro é referido.

“É notável o número de informações que fornece. A hora, o minuto, o segundo, os dias do mês, os anos bissextos, as estações do ano, solstícios e equinócios.

“Também por este objecto se pode saber a fase da Lua e o estado do céu nos hemisférios boreal e austral. A parte que representa o céu está animada de movimento sideral.

“Um mostrador indica a hora de 125 cidades do Mundo, onde se inclui Lisboa. Indicando também, nesta última, a hora do nascer e pôr do sol.”

relógio de sol mandado insculpir por António Carvalho Monteiro numa penha sob o seu Palácio da Peninha de Sintra

Relógio de sol mandado insculpir por António Carvalho Monteiro numa penha sob o seu palácio da Peninha de Sintra

Marcando o espírito de colecionador de Carvalho Monteiro, também Regina Anacleto faz referência ao famoso relógio e ao que lhe sucedeu depois da morte do seu proprietário, nisto devendo registar que a autora serviu-se de informações imprecisas provavelmente oriundas de fonte obscura que vincasse algum tipo de tese jacobina. Diz[10]:

“Colecionava moedas, armas, relógios, borboletas, mobiliário, pratas e livros, a par de um bricabraque vultuoso, como ainda era uso e costume na época. O seu conhecido relógio de fabrico francês que marcava, para além das horas, os meses, dias, anos, fases da Lua, eclipses e outros fenómenos deste tipo até ao ano dez mil, foi transacionado pelo filho a um cigano por 200$00; este, com o seu espírito de negociante, vendeu-o, pouco tempo depois, a um museu suíço, onde presentemente se encontra, por 200.000$00.”

A história deste relógio, identificado como Leroy 01, começa em 1867 quando o moscovita conde Nicolas Nostitz encomendou à famosa casa de relojoaria Le Roy & Fils, mais tarde L. Roy & Cie., um relógio com onze complicações, que veio a ser exposto na Exposição Universal de Paris de 1878 antes de ser entregue ao conde. Com a morte deste, em 1897 o dr. António Carvalho Monteiro adquiriu o relógio, porém, mandou acrescentar-lhe mais complicações. Com efeito, enviou-o a Louis Leroy acompanhado de uma carta dando instruções resumidas no seguinte: fabricar um relógio que reunisse tudo o que a ciência e a mecânica da época pudessem reunir num objecto portátil. Assim foi feito, e essa obra única da arte relojoeira veio a admiração geral na Exposição Universal de Paris de 1900, catalogada como Leroy 01 – ultracomplicado. O resultado de três anos de pesquisas reuniu 24 sistemas (complicações), 975 peças, num mecanismo de 4 níveis contidos numa caixa de ouro (com tampa gravada com ilustração mitológica encomendada por Carvalho Monteiro a Luigi Manini) decorada com pérolas, esmeraldas e rubis, com 228 gramas de peso e 7 cm de diâmetro. Desenvolvido e aperfeiçoado pelo especialista e célebre relojoeiro de La Vallé de Joux (localidade suíça célebre pela concentração de relojoeiros famosos), Charles Piguet au Brassus, o relógio foi concluído e montado nos ateliers de L. Leroy na Square St. Amour. Mas ele só chegou a Portugal em 1905 trazido pelo próprio rei D. Carlos, fiel cliente da marca que entretanto estava em Paris, tendo-o entregue pessoalmente a Carvalho Monteiro no Palácio das Necessidades, em Lisboa. A obra custou 20.000 francos.

Além dos mecanismos das horas, minutos e segundos, o Leroy 01 oferece ainda: 1) dia da semana; 2) dia do mês; 3) calendário perpétuo dos meses e dos anos bissextos; 4) milésimo por cem anos; 5) fases da Lua; 6) estações do ano, solstícios e equinócios; 7) equação do tempo; 8) cronógrafo; 9) contador de minutos com retorno a zeros; 10) contador de horas; 11) mecanismo de mola; 12) toque regulável em som forte, médio e silencioso; 13) repetição da hora, dos quartos e dos minutos, com três timbres, tocando como um carrilhão; 14) estado do tempo no hemisfério boreal, no momento do dia, indicado pela data (o céu estando animado pelo movimento sideral, isto é, avançando 3 minutos e 56 segundos por dia sobre o tempo médio; a representação do céu e do horizonte de Paris, com 236 estrelas; a representação do céu e do horizonte de Lisboa, com 560 estrelas); 15) estado do céu no hemisfério austral (no meio de um mecanismo de recarga que anima o céu por um movimento de rotação de oeste para este, a representação do céu e do horizonte do Rio de Janeiro, com 611 estrelas); 16) hora de 125 cidades do mundo; 17) hora do nascer do sol em Lisboa; 18) hora do pôr do sol em Lisboa; 19) termómetro metálico centígrado; 20) higrómetro de cabelo; 21) barómetro; 22) altímetro para 5000 metros; 23) sistema de acerto do relógio sem abri-lo; 24) bússola.

Leroy 01, o relógio de Carvalho Monteiro. Fotografia sem data, produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. Biblioteca de Arte – Fundação Calouste Gulbenkian

A chegada do Leroy 01 a Portugal não passou desapercebida e foi motivo de notícia num número do Diário de Notícias de Janeiro de 1905, com o título: “Um relógio de 4 contos de réis do exm.º sr. dr. Carvalho Monteiro”, artigo ilustrado com duas fotos do relógio que é descrito com minúcia. Só 33 anos depois da morte de Carvalho Monteiro, em 1953, em vista das dificuldades económicas que passavam, os seus herdeiros demonstraram interesse em vender essa peça, entretanto adquirida por um joalheiro português que a levou a Besançon, na França. As autoridades francesas locais mostraram interesse em adquirir o “relógio mais complicado do mundo”, e lançaram uma subscrição pública nacional para recolher os dois milhões de francos pedidos pelo vendedor. A 26 de Março de 1955 foi finalmente adquirido e passou a figurar no Museu do Tempo do Palácio Granvelle, em Besançon, sendo actualmente conhecido por Lucie, em homenagem à sua conservadora Lucie Cornillot que foi quem fechou o negócio da compra do relógio. A peça voltaria por breves dias a Lisboa em Novembro de 1967, por motivo da ocorrência no Hotel Ritz da “Jornada do Relógio Francês”, sendo nessa ocasião exposto “o relógio mais complicado do mundo, o L1”[11].

Esse relógio de bolso mandado executar por Carvalho Monteiro com desenho decorativo de Luigi Manini no tampo; no cimo deste vê-se a letra grega ômega envolvendo uma coroa de conde, por certo evocativa do titular anterior da peça, o conde Nicolas Nostitz, mas também e alinhando com o Brasão Nacional no fundo do tampo, alusivo ao Condado Portucalense, e possivelmente ao tempo de um ciclo português que finda para outro que haverá de dealbar. Com efeito, tem-se em baixo o deus Cronos ou Saturno prostrado sobre as Armas de Portugal, com o braço esquerdo cruzando o monograma CM (Carvalho Monteiro) no centro do conjunto, em guisa de apontar a intemporalidade do nome da família na temporalidade de que ele é deus alado, expressando a libertação das almas do cativeiro carnal; por cima dele, representam-se as três Parcas romanas ou Moiras gregas, as tecelãs do destino: no topo, Átropos ou Morta, ameça cortar com a tesoura o fio da vida que cerca o redondo do tampo e marca o ciclo da existência, com isso assinalando a morte que é o futuro fatal de todos os seres vivos; Cloto ou Nona, à esquerda, segura a roca de onde sai o fio da vida, correspondendo ao nascimento e ao momento presente; Láquesis ou Décima, à direita, enrola o fio no fuso, remetendo todas as coisas e seres para o passado e o olvido[12]. Ainda nos lados, à esquerda está a Cruz da Ordem de Cristo e à direita a Cruz da Ordem de Avis, emblemáticas do Poder Temporal e da Autoridade Espiritual assinalando o ciclo de Portugalidade, aliás, assinalada nas Armas com quinas em cruz no fundo do tampo.

No ermo de São Saturnino, que insolitamente Carvalho Monteiro elegeu para si, muito antes do culto paleocristão a esse santo terá havido aqui ou nas proximidades algum santuário rupestre da cultura oestriminide ou ligúrica ao deus (Endo)belos, o mesmo Baal da cultura púnica, e como testemunho litolátrico do passado remoto vêem-se nas penhas no alto do morro da Peninha uma série de covinhas possivelmente destinadas a algum tipo de culto votivo, além de não muito longe estarem o tholos chamado “do Monge” e a anta de Adrenunes (André Nunes), esta em alinhamento directo à ponta extrema do Cabo da Roca. Isto levou Paulo Pereira a considerar[13]: “Por detrás da Capela de São Saturnino, alcandorada no âmago de pedras deste monte, encontra-se a Capela da Peninha. É certo que o local, de onde se avista todo o arco da barra do Tejo, deveria ter sido precedido por um santuário pré-histórico cuja memória se perpetuou nesta humilde capela. O invulgar orago remete para cultos saturnianos, em tudo semelhantes aos que se podem encontrar nos Cabos de Sagres e de São Vicente, este dedicados também a divindades saturnianas ou ligadas ao Tempo, entendido como ciclo e sucessão vital face à disposição astral dos corpos celestes – neste caso o Sol poente (Baal, Hércules, Kronos, Saturno). Será pois uma manifestação típica dos cultos das finisterras, neste caso a do próprio Cabo da Roca, que dali se avista”.

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O Cabo da Roca, pela sua clara importância geográfica, não poderia deixar de suscitar forte temor e veneração aos marinheiros fenícios da Proto-História, época em que terão elevado aqui um santuário consagrado a Baal-Saturno, o mesmo Cronos-Saturno[14], hipótese muito verosímil apesar de faltarem as comprovações arqueológicas. Saturno representava o princípio masculino da luz, do fogo e do calor, motivo para o associarem ao “Sol da Meia-Noite”, mas também o de deus da fertilidade agrícola e da renovação cíclica das energias da Terra, nisto sendo representado por um touro que lhe era consagrado e sacrificado, animal que tem papel central na hagiografia de São Saturnino[15].

Com efeito, é dito que São Saturnino viveu no século III e atribuem-se-lhe muitos milagres e numerosas conversões, dentre elas destacando-se a de um fazendeiro de Nimes, chamado Honesto, a quem ordenaria sacerdote e o qual, desde então, se tornaria, com São Papul, o seu fiel companheiro. Foi também São Saturnino quem, em Navarra, baptizou São Firmino, futuro bispo de Ambiano (Gália), hoje Amiens. Em Tolosa, por ser firme na sua fé, os gentios amarraram-no a um touro que em grande correria o arrastou pelas ruas da cidade, causando-lhe morte horrorosa[16]. Por isso, o atributo iconográfico de São Saturnino passou a ser o touro. Signo venusto, aceite como emblema de energia vital e fonte de fertilidade entre os povos primitivos, participa, tal como outros animais cornúpetos, porém representando-os a todos, de todo o tipo de cultos. Com isso, o taurobólio – que viria a dar nas vulgares touradas – veio a representar o sacrifício da Era de Taurus, a imolação da Divindade às mãos do Homem que almeja alcançar o Seu poder e significado transcendente, deicídio esse expressado pela sujeição corporal às penas agrestes da Natureza característica da vivência eremita, no pretenso de absorver-se na condição incorporal que lhe dará acesso e posse da Consciência de Deus, facto interpretado como o «sacrifício» simbólico do Criador mãos da Sua criatura que assim se torna igual a Ele.

Quanto à imagem milagrosa da Virgem deposta na capela no alto no monte da Peninha, já não é a original que datava do século XVI. Quanto a quem erigiu o templo, foi Pedro da Conceição, “canteiro de seu ofício e homem iluminado”[17]. Tinha 28 anos de idade na altura em que construiu a capela (1690) custeada pelas esmolas recebidas do povo devoto dos lugares arredores (Malveira da Serra, Azóia, Almoçageme, Colares, etc., e até quase ao início de 1990 fez-se aqui romaria de importante Círio saloio à Senhora da Peninha[18]), tendo contado ainda com a ajuda directa do rei D. Pedro II. Faleceu no dia 18 de Setembro de 1726, notícia atestada pela inscrição tumular vista a meio da coxia da ermida e que assim reza:

Sª DO IRMITA.

O. Pº DA CÕCE

ÇÃO PEDE HV

P. N. E HVA. A

VE. Mª PELOS

BE. FEITORS

FALº EM. 18. DE

SETRº D. 1726. Ã.

Traduzida:

Sepultura do ermitão

Pedro da Conceição pede

um Padre Nosso e uma

Avé Maria pelos benfeitores.

Faleceu em 18 de Setembro

do ano 1726.

Por cima do arco triunfal lê-se, em círculo, esta legenda:

O I. Pº FES ESTA. OBRA.

COM ESMOLAS. DOS. FIEIS.

ANº DE 1690.

O Irmão Pedro fez esta obra com esmolas dos fiéis. Ano de 1690.

Após a morte de Pedro da Conceição, tendo gasto na obra todo o dinheiro que possuía e vivido 35 anos numa gruta ou cella próxima daqui, sucedeu-lhe o ermitão João Francisco, que ao falecer em 1766 foi sucedido por Sebastião Nabo, com quem termina a sucessão de eremitas neste lugar que, posto assim, parece ter funcionado como Deserto. Em 19 de Abril de 1779 o padre Pedro Rodrigues Pereira é nomeado capelão do santuário da Peninha, numa altura em que a capela e a cerca estavam a ser administradas abusivamente por Francisco Xavier Stokler, como dá conta o beneficiado da igreja de São Martinho de Sintra, padre Francisco de Albuquerque. A querela prolongou-se até 1892, quando a Peninha foi adquirida pelo conde de Almedina, e em 1918 veio finalmente a ser adquirida pelo dr. António Augusto Carvalho Monteiro.

Os azulejos que revestem a nave da ermida são lindíssimos e datam do século XVIII. Espelham os 44 Passos da Vida da Virgem Maria – Vitam Maria – recheados de símbolos referentes à mesma, muitos deles de origem carmelita o que deixa pressupor a influência e presença aqui da Ordem do Carmelo, possivelmente a sediada em Cascais que se trasladaria para Colares, reparando o professor Virgílio Correia[19] que “são do estilo de António de Oliveira Bernardes, azulejista e decorador do século XVIII, e que atendendo à sua data (1711) e a outras afinidades, a atribuição é verosímil”. António de Oliveira Bernardes nasceu no terceiro quartel do século XVII e morreu em 1732. O professor Virgílio Correia chama ainda especial atenção para o painel que se encontra na parte interna do tímpano, “em que se divisam quatro anjos de movimentação muito elegante e graciosa, os quais envolvem uma data escrita no próprio azulejo: 1711”.

A capela-mor é toda forrada de um tapete de mármores da região, de várias cores (branco, negro, rosado e amarelo), e o altar, tal como o púlpito, é revestido por belos embutidos do mesmo material e com as mesmas cores.

Como já foi dito, a imagem que santificava o altar-mor já não era a primitiva do Orago, pois essa era “tosca”, como está relatada na lenda do sítio sobre a aparição da Virgem, nos finais do século XVI, a uma moça surda e muda guardadora de ovelhas[20]. A veneranda imagem da Senhora da Peninha, mais recente, muito bem trabalhada e de rosto muito expressivo, possivelmente dataria dos inícios do século XX.

Ainda sobre a lenda mariana relatada por frei Agostinho de Santa Maria, ela quase que serve de “lenda de fundação” ao supradito Círio à Senhora da Peninha, como descreve com muita propriedade Manuel J. Gandra[21]:

“A Serra de Sintra, que avançava muitas centenas de quilómetros para Sudoeste, sofreu grande afundamento, originando-se com ele o actual estuário do Tejo, o qual antes (Miocénico) desembocava com o Sado num extenso delta comum, que abrangeria a região desde Ferreira do Alentejo a Alenquer. O santuário de Nossa Senhora da Peninha alcandora-se num penhasco da Serra de Sintra, situando-se sobranceiro ao mar, na freguesia de Colares. (…) Na Azóia atribui-se a fundação do santuário a seis marinheiros que, por andarem perdido no mar, haviam feito promessa de construir uma igreja na primeira terra que avistassem, versão que é seguida em Atalaia e Malveira da Serra, onde corre que “a Senhora da Peninha era advogada dos marítimos”, o que parece crível, atendendo a três ex-votos, um dos quais naviforme, provenientes do templo (no Museu Regional de Sintra); em Almoçageme, além de se afirmar que a menina “veio dos Milheirados [Milharado] trabalhar para a Malveira [da Serra]”, indo pastar o gado para a serra, onde ocorreu o episódio tal como o Santuário Mariano o narra (motivo por que “os dos Milheirados fizeram uma festa – no mês de Setembro – e vinham em círio festejar a Nossa Senhora da Peninha”), conta-se que “a Senhora da Peninha tem sete irmãs, por isso quis ir para o alto do penhasco, porque aí avistava as sete irmãs, que são: a Senhora da Atalaia, a Senhora da Pena, a Senhora da Penha de França (Quinta da Arriaga, próxima de Almoçageme), Santa Eufémia, Santa Quitéria de Meca – a advogada dos cães danados[22] –, Santa Baziliza (Guia, Cascais) e a Senhora do Cabo (Espichel)”. Do Círio há notícias desde 1579. Uma inscrição patente na fonte da Peninha refere-se a uma romaria proveniente de Lisboa, no ano de 1739, porém, segundo Frei Agostinho de Santa Maria, a primeira confraria de Nossa Senhora da Peninha foi instituída por devotos do Milharado, tradição corroborada por afirmações como: “A Peninha era dos milharandos, eles é que faziam a festa; o’pois deixaram de vir e os azoianos ficaram com a Peninha; o’pois acabou” (Amélia Maria, Malveira da Serra); ou “Os milharandos faziam lá na Capela de Nossa Senhora da Peninha a festa – o Círio – todos os anos, e deixavam as louças de uns anos para os outros, louças lindas! E foram lá da Azóia e roubaram as louças, o manto e as toalhas[23]. Os ladrões morreram todos empenados (curvados), foi um espelho para as pessoas verem quem tinha roubado a Senhora” (António Manuel Rodrigues, Azóia). Na Cintra Pinturesca (p. 160) lê-se que em 1905 ainda vinha um círio do Milharado, reportando-se, contudo, ao ano de 1909 (3-6 Set.) a derradeira notícia documentada acerca de tal evento.”

Mas ele prosseguiu para além dessa data, como está documentado fotograficamente no livro citado, O Trabalho e as Tradições Religiosas no Distrito de Lisboa, com fotografias da romaria à Senhora da Peninha datadas de 1986, informando ainda que “a romagem e Círio provinham de Colares, Sintra, Milharado, Malveira da Serra, Azóia e São João das Lampas”.

Fonte no caminho para o Santuário da Peninha

Fonte dos romeiros no caminho para o Santuário da Peninha

No altar-mor da ermida, além do Orago existiram mais cinco imagens: Santa Rita de Cássia, São Miguel Arcanjo, São José, Santo Agostinho e São Brás. Ainda no altar, tinha-se a imagem do Senhor na Cruz cujas extremidades dos palos desfechavam em flores-de-lises prateadas, e era assim mesmo que a tomavam como emblemática das suas agremiações operáticas os monges construtores medievais, e depois as confrarias de mestres canteiros organizados em guirlandas de ofícios nos inícios da Renascença. Para eles, Santa Maria era a sua padroeira universal e tomando-a como exemplo da incarnação do Divino Espírito Santo na Matéria, serviam-se desta para deixar o testemunho, através das artes de pedreiro e carpinteiro, da Perfeição Divina com que foi feito o Mundo todo resumido na Casa do Senhor, o templo. Por isso, o frontal do altar apresenta as cinco letras do nome de Maria, cada uma inscrita dentro de uma estrela de sete pontas, e por cima a coroa imperial. Trata-se de heráldica falante, designando Maria Regina Mundi, espécie da Cabala Gemátrica que igualmente se revela no famoso relógio de António Carvalho Monteiro, também ele cultor mariano.

Além do título auferido por Maria como “Rainha do Mundo”, o seu nome inscrito dentro das estrelas igualmente designa-a Stella Maris, evocação presente na ladainha assinalando-a com o predicado celeste da Estrela d´Alva e do Crepúsculo, Vénus, levantando-se e pondo-se sobre o Mar Incógnito (Mare Incognitus) adiante deste ermo marcando o Finis Terrae, lugar dos saberes ocultados que os marinheiros do vasto oceano de Espírito desocultaram fazendo-o Mare Nostrum, epíteto hermético dado ao “Mercúrio dos Sábios”. Nisto, na mais pura e franca heterodoxia, o tema sebástico igualmente faz-se presente, sem dúvida encoberto mas patente neste frontal de altar. A profecia bíblica em Números (24:17), principal influência da simbólica messiânica, levou a exegese a interpretar a estrela como uma imagem ou o nome do Messias aguardado[24], tema transposto para a fórmula mental lusitana do V Império e do Imperador Universal, donde a coroa imperial presente no frontispício da mesa dos sacrifícios. Revelando-se a estrela de sete pontas, simboliza a Criação absoluta, como também a totalidade do Tempo e a totalidade do Espaço repartidos em ciclos, com estes abrindo uma janela de oportunidade para que Maria novamente dê à luz ou revele o Divino Espírito Santo, ou seja, a nova Parúsia na qual o Messias se revelará à Humanidade, contando a hora da Sua revelação a partir do momento que é anunciado.

Em volta do morro havia até há pouco tempo várias casas arruinadas: elas foram construídas nos séculos XVIII-XIX pelos romeiros aqui vindos prestar culto à milagrosa Virgem da Peninha. Mas por volta de 1918, quando o Dr. Carvalho Monteiro comprou este espaço com a possível intenção de também ele fazer aqui as suas reclusões, mandou demolir um grupo de três casas e no seu lugar ordenou a construção de um edifício apalaçado sob projecto de Júlio da Fonseca, vendo-se de fora, do lado sul, o seu vasto terraço ou loggia de paredes ameadas dando-lhe o aspecto de castelo.

Vindo a morte recolher Carvalho Monteiro em 1920, o seu Palácio da Peninha não ficou concluído, mas tendo ele se acautelado antecipadamente, certamente por causa dos interesses cobiçosos que já então haviam para este lugar, deixou expressa a sua vontade que dentre os principais interessados em adquiri-lo se preferisse o seu advogado, dr. José Maria Ferreira Rangel de Sampaio. Assim aconteceu, e de imediato o novo proprietário procurou o artista sintrense Júlio da Fonseca para fornecer-lhe novo projecto a fim de poder acabar a obra, o que também aconteceu, mas esse novo projecto era praticamente idêntico ao anterior que esquissara para o dr. Carvalho Monteiro. Por disposição testamentária do dr. Rangel, todo o conjunto da Peninha passou para a posse da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e assim se manteve até 1991, quando foi comprado pelo Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza por 90 mil contos.

Assentando no formato cúbico ameado encostado ao templo, penetrando-o mesmo, o palácio sugere tanto a ideia da Caaba árabe quanto a da Rabita moçárabe, além de também parecer querer unir a Autoridade Espiritual (representada na capela) com o Poder Temporal (assinalado no palácio). Tendo sofrido obras há poucos anos que alteraram severamente a sua feição interior, o traçado deste imóvel era deveras intrigante, com os seus dois acessos à capela, um pela porta dianteira lateral à daquela, e outro interior passando para meio da coxia próximo do púlpito.

Entrando pela porta principal do palácio, alonga-se uma sala relativamente estreita (“estreito é o Caminho…”) seccionada em três arcarias (ou “Idades”…), havendo logo à entrada de quem entra, em jeito de “figuras de convite”, dois painéis de azulejos nos lados, retratando um Anjo Turibulário e um Anjo Turiferário (motivos por demais estranhos para uma habitação que se pretendia civil, deixando a suspeita de originalmente querer-se destiná-la a fins herméticos só do conhecimento de Carvalho Monteiro). A decoração das paredes prossegue com outros belos exemplares de azulejos azuis e brancos, possivelmente do século XVIII resgatados de outro lugar e trazidos para aqui, com motivos florais, de vida campestre e de vida religiosa entremeada com simbologia hermética. Nisto observava-se, por exemplo, um pavão entre rosas[25], ou então uma greta, espécie de vulva vaginal ou virginal igualíssima à da entrada na caverna nas traseiras do edifício (hoje cimentada), que leva à mina d´água subterrânea que alimenta São Saturnino da Serra de Sintra. Na parede lateral direita junto ao terraço abre-se uma lareira onde estava uma salamandra envelhecida muito deteriorada, possivelmente coeva de Carvalho Monteiro, que pelo seu formato de vaso fazia lembrar o vaso hermético utilizado nas operações de Alquimia com o respectivo forno ou athanor. Não afirmo que o fosse, mas que o sugeria lá isso sugeria…

A salamandra sugestiva do "vaso hermético" no Palácio da Peninha

A salamandra sugestiva do “vaso hermético” no Palácio da Peninha

Todo o edifício estava disposto em espiral descendente, como tendente a mergulhar nas entranhas da Mãe-Terra. Além de uma escadinha pela qual se sobe ao terraço no fundo da sala-corredor, num outro espaço destinado a sala de estar há uma outra escadaria, a meio da sala de entrada, que levava a um aposento quadrangular subterrâneo, aberto ao lado de uma cisterna cuja fundura perdia-se nos abismos da Terra. Uma porta de grade de ferro, caída e enferrujada, por sua vez dava acesso a outro aposento mais pequeno, que tinha num dos cantos uma espécie de altar em triângulo montado pela própria rocha viva.

A citada sala-corredor que tem janelas mas não tinha vidros e onde estranhamente não entrava o vento – sabendo-se quanto furiosamente ventosa é a Peninha – foi concebida como prolongamento lateral da capela, espécie de “costela” desta, evocativa de Adão parindo Eva, ou por outra, da parte devocional assistindo à laboratorial, donde o ora et labora origem do termo laboratorium, laboratório. Isto reconduz à capela, ou antes, à sacristia onde está – ou esteve, quiçá – uma belíssima fonte barroca feita de mármore da região, possivelmente obra do século XVIII, de onde jorrava água destinada a ser benta. A sua ornamentação é muito sugestiva: mostra no topo uma cruz latina branca (adoptada pelos franciscanos como Cruz Patrística[26] e da Igreja  Primacial, como seja a da Regra do Ocidente centrado em Roma) com uma rosa vermelha em cada extremo da trave horizontal, e uma terceira rosa no centro. Mais abaixo, nova cruz branca em espigão floral, tendo cada pétala uma rosa vermelha, e ao centro a boca d´água. Toda a peça tem por fundo a cor azul e vem a assinalar a “Água da Fonte de Maria”, Fons Acqua Maria ou Fons Maris, vindo as rosas e as cruzes, donde Rosa+Cruz, a ser sinaléticas da presença próxima da Pedra Filosofal – também chamada “Cabeça de Bode” ou “de Caprino”, indicativo do Planetário do Ciclo ou o Cumara – ou da Iluminação Espiritual seja a que nível for, porque nesta heterodoxia o confessional confunde-se com o racional, ou por outra, a catequese dos simples com a teologia dos eruditos. Por isto, Maria é Mãe de todos os crentes, e Saturnino o Oráculo das realizações próximas.

Fonte na sacristia da Capela de Nossa Senhora da Peninha de Sintra

Fonte na sacristia da Capela de Nossa Senhora da Peninha de Sintra

Realmente, a Peninha e São Saturnino marcam o fim da marcha iniciática sintrã, onde os corpos encontram o repouso final e as almas se evolam ao seio da Eternidade. Por certo terá sido o que aqui procurou, com tudo indicando que achou, António Augusto Carvalho Monteiro (ele que queria comprar toda a serra, como disseram os seus netos) e os anteriores ermitões com fama de santões deste ermo, onde tem lugar a morte profana, corporal, mas também onde tem lugar a ressurreição iniciática, espiritual. Este facto transcendente é, para o povo simples morador arredor daqui, a “maldição” da Peninha… mas bênção para quem sabe e acha.

NOTAS

[1] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, volume 29, página 226. Esta enciclopédia compõe-se 40 volumes publicados entre 1936 e 1960 em Lisboa e no Rio de Janeiro, pela Editorial Enciclopédia Lda.

[2] Visconde de Juromenha, Cintra Pinturesca. Lisboa, 1838.

[3] A. de Silva Pereira, Cintra, Collares e seus arredores. Lisboa, 1888.

[4] José Alfredo da Costa Azevedo, Velharias de Sintra, volume I. Publicação da Câmara Municipal de Sintra, 1980.

[5] Virgílio Correia, Azulejos datados. Lisboa, 1922. Do mesmo autor, Azulejos. Livraria Gonçalves, Coimbra, 1956.

[6] Carlos de Azevedo, Julieta Ferrão, Adriano de Gusmão, Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, volume II, página 23. Lisboa, 1963.

[7] Estando de certa forma relacionada com a lenda mitológica de Cronos devorando os filhos, não deixa de ser curioso existir lateral à capela de S. Saturnino um cemitério onde eram enterrados os nados-mortos, estando gravada numa fraga, próxima da cisterna romano-árabe em meia-lua, uma cruz franciscana, possivelmente feita pelos monges do Convento dos Capuchos próximo.

[8] Há uma curiosa fotografia dos finais do século XIX onde se vê a família Carvalho Monteiro pousando para o retrato junto às portas e escadaria das Termas de Vidago ou Pedras Salgadas, onde aparece o tio e padrasto de Perpétua Augusta Pereira de Melo, ou seja, Gaspar José Viana, um homem de fato branco, de longas barbas e cabelos brancos, na pose singular de segurar uma enorme foice numa mão e uma ampulheta na outra, como alusão óbvia a Cronos-Saturno. Esta fotografia esteve em exposição na Quinta da Regaleira durante algum tempo, e talvez ainda lá esteja junto às escadarias para o primeiro andar do palácio, à saída da primitiva sala do bilhar.

[9] Leonor Figueiredo, Monteiro Milhões, o nosso “Luís da Baviera” – Quem era o homem que queria fazer de Sintra terra das mil e uma noites. Jornal “Correio da Manhã”, 30.1.1985.

[10] Regina Anacleto, Arquitectura Neomedieval Portuguesa, 1880-1924, volume I, página 327, nota 3. Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Coimbra, 1997.

[11] Fernando Correia de Oliveira, História do Tempo em Portugal. Elementos para uma História do Tempo, da Relojoaria e das Mentalidades. Diamantouro, Lisboa, Novembro de 2003.

[12] Quinta da Regaleira – Luigi Manini (Imaginário & Método – Arquitectura & Cenografia). Edição da Fundação Cultursintra, 2006.

[13] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Cabos do Mundo e Finisterras. Edição Círculo de Leitores, Lisboa, Janeiro de 2005.

[14] André de Resende, As Antiguidades da Lusitânia, Évora, 1593. Reedição da Fundação Calouste Gulbenkian, com introdução, tradução e comentário de R. M. Rosado Fernandes, Lisboa, 1996.

[15] José Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1989.

[16] Omer Englebert, Vida dos Santos, volume II, página 621. União Gráfica, Lisboa, 1953.

[17] Raul Proença, Guia de Portugal, volume I. Lisboa, 1924.

[18] O Trabalho e as Tradições Religiosas no Distrito de Lisboa. Exposição de Etnografia. Governo Civil de Lisboa, 1991.

[19] Virgílio Correia, Azulejos datados. Lisboa, 1922.

[20] Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, t. I, liv. I, tit. 16, pp. 53-55. Lisboa, 1707.

[21] Manuel J. Gandra, Os Círios ou aspectos do culto da Grande Deusa na Estremadura. Texto inserto em Comunicações – Jornadas sobre Cultura Saloia, 2 e 3 de Dezembro de 1994, nas quais, passo a informação, igualmente intervi com a alocução Mitos e tradições saloias. Edição Câmara Municipal de Loures – Departamento Sócio-Cultural, Divisão do Património Cultural.

[22] “Cães danados”, digo eu, também podendo ser sinónimos dos que professam heresias para o clero vigente.

[23] Para mim, essas denúncias justificam-se exclusivamente por “rivalidades bairristas” entre os do Milharado e da Azóia.

[24] “Eu o vejo, mas não no presente; eu o contemplo, mas não de perto; de Jacó procederá uma estrela, de Israel se levantará um ceptro que ferirá os termos de Moabe, e destruirá todos os filhos de orgulho.” – Quarta profecia de Balaão, Números, 24:17.

[25] O pavão é um dos símbolos mais caros da Alquimia, por expressar o “arco-íris” ou as sete cores da Grande Obra antes do processo chamado “Composto”, já se sabendo que aos tratados de Alquimia, na Idade Média e nos inícios da Renascença, se chamavam “Roseiras dos Filósofos” ou “Roseiral da Filosofia”.

[26] Há diferenças entre Patrística e Patrologia. A Patrística ocupa-se do pensamento teológico dos Padres da Igreja, e a Patrologia ocupa-se da vida e dos escritos dos mesmos. In Patrologia-Patrística – Diccionario Patristico y de la Antigüedad cristiana, Verdad y Imagen, Salamanca, 1998.

Lagos da Beira e a Família Carvalho Monteiro – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Nov 17 2016 

cabecalho

“Lagos da Beira é uma verdadeira pérola para o conhecimento e compreensão da figura singular que foi António Augusto Carvalho Monteiro. Esta aldeia singela mas com tanto para contar, é o ponto de partida de toda a minha investigação sobre esta família. Aqui é a origem. Foi aqui que tudo começou com o seu pai, Francisco Augusto Mendes Monteiro (cuja árvore genealógica recuando até ao século XVI, dá todos os seus antecedentes como naturais da região de Lagos da Beira – Oliveira do Hospital), marcando decisivamente o carácter e pessoa do filho. O Brasil, a fortuna colossal, a Quinta da Regaleira de Sintra e tudo o mais, vieram depois”. Isto mesmo disse ao ilustre lagoense senhor Vitor Fernandes, responsável da Biblioteca-Museu Tarquínio Hall, quando visitei Lagos da Beira em 8 de Maio de 2012.

Nesta freguesia do concelho de Oliveira do Hospital, na Beira Alta, nasceu Francisco Augusto Mendes Monteiro em 9 de Março de 1816, vindo a falecer com 74 anos de idade em 1 de Novembro de 1890 no seu Palácio da Rua do Alecrim, Lisboa, depois de uma vida cheia e próspera. O filho herdaria do pai a natureza suave e devotada do beirão, com a têmpera rija daquele criado junto a fragas ásperas levantadas ao céu e a águas ora intrépidas, ora mansas correndo para o Mondego distante, enriquecendo a imensidade tortuosa e telúrica dos campos beirões, como atestam os seus inúmeros lençóis de água subterrânea donde por certo lhe advirá o topónimo Lagos.

O seu nome aparece no Livro IV das Inquirições de D. Afonso III em 1258, onde um dito Pedro Garcia responde à inquirição real afirmando-se natural desta terra então chamada S. João de Lagos, cuja vila e igreja eram reguengo da Coroa, estando aforado à Ordem de S. João do Hospital[1]. Em 15 de Março de 1514, D. Manuel I concedeu foral a S. João de Lagos elevando-a à categoria de vila e sede de concelho, devido à sua prosperidade económica por via da agricultura e vinicultura, ficando como padroeira da Casa do Infantado. Nessa ocasião, também por foral régio, a poderosa comenda hospitalária de Ulveira do Espital (Oliveira do Hospital) torna-se sede de concelho vizinho de Lagos. Como consequência da extinção da Casa do Infantado por decreto-lei de 18 de Março de 1834, o mapa geopolítico do país foi consideravelmente modificado. Já no ano anterior, o decreto-lei de 28 de Março de 1833 alterara o nome S. João de Lagos para o topónimo que ficou até hoje, Lagos da Beira, tendo o decreto-lei de 18 de Julho de 1835 inserido o concelho no distrito de Coimbra e, finalmente, o decreto-lei de 6 de Novembro de 1836 extinguiu o concelho de Lagos da Beira, anexando-o ao concelho de Oliveira do Hospital (vila erigida em cabeça de comarca por decreto-lei de 23 de Dezembro de 1875), perdendo com isso a povoação a categoria de vila e ficando só a de aldeia[2].

Independente do mapa geopolítico, o mapa canonical dispõe Lagos da Beira como fazendo parte da vasta e rica comenda da Ordem de S. João do Hospital, que tinha a Casa-Mãe em Leça do Bailio. Com efeito, Tarquínio Hall descobriu na Quinta do Boco desta aldeia um bloco de granito rectangular, com 148 cm de comprimento e 40 de largura, completamente preenchido com a seguinte inscrição: “Este cazal e seos terragedos S. [ão] do Espital de Jerusalém da Sagrada R. [eligião] de Malta conforme foral deste concelho… he militar… Joam Pinto de Aragam – 1787”[3].

Conclui-se pelo texto da lápide que Lagos da Beira ainda no século XVIII era um casal, granja ou fazenda da Ordem Hospitalária (depois Maltesa), fazendo parte da grande Província do Hospital, iniciada no reinado de D. Teresa (século XII), repartida em espaços maiores ou menores dentro da sua jurisprudência e geografia. As possessões maiores chamavam-se Priorados ou Preceptorias (como veio a ser Leça do Bailio, que com a elevação do seu mosteiro e importância que teve para a região passaria a este estatuto); as menores, Bailios ou Comendas (comendadorias ou comandadorias regionais, como foi a de Oliveira do Hospital); e as ínfimas, Granjas ou Fazendas (casais, como terá sido Lagos da Beira). À cabeça da Província estava o Mestre ou Provincial da Ordem, representado na Preceptoria pelo respectivo Preceptor, coadjuvado por um Prior nomeado pelo Mestre Geral, pelo que nesse espaço teria de haver obrigatoriamente uma igreja que fosse matre ou matriz do Priorado. Nos Bailios a mesma coisa, mas sendo o Preceptor representado por um Comandante ou Comendador de Província e, finalmente, nas Fazendas esse Comendador nomeando seu auxiliar ou “lugar-tenente” o Comendador de Cavaleiros, geralmente defendendo o espaço com uma esquadra de dez cavaleiros[3].

A dependência canonical de Lagos da Beira relativamente a Oliveira do Hospital é provada nas Inquirições de D. Dinis (1288), quando a sua igreja paroquial, consagrada a S. João Baptista (Orago da Ordem do Hospital), aparece com novo patrono: “Santa Cruz de Ulveira do Sprital” – hoje Exaltação da Santa Cruz, que significa o mesmo. Observa-se assim o nome da povoação ligada a Oliveira do Hospital. Por isso, o brasão da freguesia de Lagos da Beira aparece com a Cruz Hospitalária (que se repete no interior e exterior da sua igreja) que, por ser semelhante, é confundida muitas vezes com a Cruz Templária. Seja como for, o santo padroeiro de Lagos da Beira mantém-se desde os alvores da Nacionalidade como sendo S. João Baptista.

Cruz Hospitalária no exterior da igreja paroquial de Lagos da Beira

Cruz Hospitalária no exterior da igreja paroquial de Lagos da Beira

A Festa da Exaltação ou Triunfo da Santa Cruz foi a principal das celebrações litúrgicas dos hospitalários, também chamada de Festa da Cruz Gloriosa. Segundo a tradição, a Vera Cruz foi descoberta no ano 326 por Helena de Constantinopla, mãe do imperador Constantino I, durante uma peregrinação a Jerusalém. No local da descoberta mandou construir a igreja do Santo Sepulcro, que no século XII, depois da Segunda Cruzada (1147-1149) e conquista da cidade santa aos muçulmanos, passaria a ficar à guarda da Ordem de S. João do Hospital. Enquanto a Sexta-Feira Santa é dedicada à Paixão e Crucificação, a Festa da Exaltação da Santa Cruz, em 14 de Setembro, celebra o Cruzeiro como instrumento de Salvação, fonte de Santidade e símbolo revelador da vitória de Cristo sobre o pecado, a morte e o demónio. De acordo com as regras litúrgicas da Igreja Católica Romana, neste dia o presbítero deve utilizar vestimentas vermelhas. Se a celebração ocorrer num domingo, a Festa tem precedência sobre a liturgia do tempo comum. Até 1969, a quarta-feira, a sexta-feira e o sábado após 14 de Setembro eram considerados como um dos quatro conjuntos de dias de têmporas[4]. A Exaltação da Santa Cruz constitui a festa principal dos Cónegos Regulares da Ordem da Santa Cruz, como o foi em Coimbra com esses regrantes agostinhos e que por certo António Augusto Carvalho Monteiro terá conhecido de perto em sua juventude, quando estudou nesta cidade do Mondego. Em Lagos da Beira mantém-se o cruzeiro como sinal eterno do triunfo da vida sobre a morte.

Tendo os hospitalários instalado-se em Chipre (entre 1290 e 1309) após a perda da Terra Santa para o Islão, ficou o registo das suas relações próximas com a Casa Real dos Lusignan de Nicósia que cedo abraçaram e divulgaram na Ilha a particular celebração cristã que a Ordem para aí levara: a Festa da Exaltação da Santa Cruz, que ainda hoje é das mais celebradas pelos cipriotas cristãos ortodoxos sustentados na autoridade episcopal de Santo André de Creta ou de Jerusalém, que nos séculos VII-VIII ficara célebre pelos seus sermões e hinografia encomiando as virtudes salvíficas da Vera Cruz[5].

A partir de 1309-1310, a Ordem de São João do Hospital instalou-se na Ilha de Rodes, onde adquiriu uma feição “insular”, no dizer de Fr. Lucas de Santa Catarina[6], mantendo-se aí até 1522, quando a ilha foi tomada pelos turcos. Finalmente, a partir de 1530 por doação de Carlos V instalou-se na Ilha de Malta, fixando o seu Mestrado residência em La Valeta, e desde então até hoje ficou conhecida por Ordem Soberana de Malta, nunca deixando de exercer a vocação hospitalar de socorro aos carecidos e doentes como virtude cardeal de caridade ou amor que foi o motivo da sua fundação em 1099, quando alguns cristãos mercadores de Amalfi fundaram em Jerusalém, sob a Regra de S. Bento e com a indicação de Santa Maria Latina, uma casa religiosa para recolha de peregrinos. Anos depois construíram junto dela um hospital que recebeu de Godofredo de Bouillon doações que lhe asseguraram a existência, desligando-se da igreja de Santa Maria e passando a formar congregação especial sob o Orago de São João Baptista. Em 1113, o Papa Pascoal II reconheceu-a Ordem de São João do Hospital e deu-lhe Regra própria. Em 1120, o cavaleiro francês Raimundo de Puy, nomeado Mestre Geral, acrescentou ao cuidado com os doentes o serviço militar[7].

Em Portugal, a Ordem do Hospital manteve-se independente. Não recebeu os bens da Ordem dos Templários como pretendia o papa Clemente V, que habilmente o rei D. Dinis fez transferir para a Ordem de Cristo então criada (1319). Também não foi incorporada na Coroa em 1551 com as Ordens de Avis, de Cristo e de Santiago, apesar da dignidade de Prior do Crato ser atribuída aos Infantes D. Luís, filho de D. Manuel I, e mais tarde a seu filho D. António, mantendo assim o carácter singular e o epíteto de “Soberana” que lhe foi atribuído quando passou a designar-se de Malta[8].

Isso significa que a Comenda de Oliveira do Hospital e a Fazenda de Lagos da Beira mantiveram-se sempre na posse dos cavaleiros hospitalários até praticamente 1834. Por este motivo, ainda em 1910 a Cruz de Malta figurava no Brasão de Armas na fachada do Paço do Concelho de Oliveira do Hospital, como descreve o dr. António de Vasconcelos num precioso e raro estudo[9].

Antigo Brasão d´Armas de Oliveira do Hospital

Antigo Brasão d´Armas de Oliveira do Hospital

Um dos santos caríssimos aos hospitalários foi São Paio (Pelaio, Pelágio), e sob a sua evocação formaram o Pelágio, aparentemente destinado a socorrer os peregrinos cristãos que iam e vinham de Santiago de Compostela venerar o túmulo do Apóstolo, motivo porque São Paio é celebrado no dia imediato ao de São Tiago Maior, ou seja, 26 de Junho. A par disso, dedicavam-se à guerra ao Islão – cuja resistência e ofensiva foi iniciada por Pelaio (718-733), fundador do Reino das Astúrias – abrindo caminho à Reconquista e à cristianização das vias celto-romanas tendo início ou fim na mesma cidade capital da Galiza[10]. Por outro lado, o Pelágio apresentava igualmente um aspecto cultural e inclusive hermético onde os saberes gnóstico, cabalístico e alquímico das três grandes religiões do Livro (judaica, cristã e islâmica) comungavam juntas da mesma demanda de realização espiritual, independente das contingências temporais da geopolítica da época, motivo do Pelágio ser igualmente sinónimo de pressuposta existência de uma Ordem Iniciática fechada ou secreta porventura na primazia da assistência à génese histórica e ao percurso evolutivo da Nacionalidade, desde a primeira hora posta sob a advocação da Virgem Santíssima. Deste Pelágio terá participado o cultíssimo António Augusto Carvalho Monteiro, ao observar-se a sua inclinação para a simbologia hermética em que não foi avaro na decoração dos imóveis que foram seus. Possivelmente os seus antecedentes beirões, particularmente o seu pai, igualmente não seriam alheios ao Pelágio espiritual que, a par do temporal, deu nome a família portuguesa ligada aos Lusignan nacionais (Sampaio de Luzignano) e assim também ficou como topónimo de várias localidades vizinhas de Lagos da Beira: São Paio de Gramaços, São Paio do Mondego, São Paio de Gouveia[11].

O facto é que na herdade de Quintais, que foi do dr. Carvalho Monteiro em Lagos da Beira, aparece no seu portão de ferro forjado uma estranha sigla permeio ao signo salomónico (pentagrama) que acaba por remeter para o tema do Pelágio e da eventual presença Lusignan. A sigla tem sido interpretada como as iniciais do dono da propriedade depois de Carvalho Monteiro, e poderia muito bem ser se o portão não fosse coevo do proprietário original. Apesar da sigla apresentar claramente as letras ACL, mesmo assim há quem veja nelas invés do C um G para conferir com o nome António Gomes Lobo, que por volta de 1929/30 comprou Quintais por trinta contos de réis ao dr. Pedro Augusto de Melo de Carvalho Monteiro, filho de António Augusto Carvalho Monteiro. Natural de S. Paio, concelho de Oliveira do Hospital, António Gomes Lobo era de origem humilde, emigrou para a África onde trabalhou na construção civil e fez fortuna. Autodidacta de cultura feita às suas custas por gosto à mesma, regressou à terra natal e estabeleceu-se em Lagos da Beira, vindo a casar com Carminda Chaves Maia, licenciada em farmácia, natural de Aradas, Chaves. Por essa altura comprou a quinta para dedicar-se à agricultura e a sua progénie crescer calma e feliz. Actualmente vive aí uma filha de António Gomes Lobo, Isabel Chaves Maia Lobo, com o marido, partilhando a propriedade com o seu irmão João Chaves Maia Lobo, residente em Lisboa.

O portão em causa tem severas semelhanças com um outro existente na Quinta da Regaleira de Sintra, ao qual também não falta o signo salomónico, e que é aquele vedando o caminho subterrâneo de saída ou acesso à cripta da capela da quinta. Ao lado deste aqui também não faltam as torres ameadas ao gosto (neo)medieval, uma servindo de depósito de água e outra como chaminé com torreão central, motivo sugerindo severamente a presença da Alquimia, em cujo programa iconográfico aparece igualmente a torre simbólica do athanor ou “forno alquímico”. Duas torres, tal qual como na Regaleira, em guisa de evocação hermética do solve et coagula, sendo ainda a Torre da Fé aquela mesma que dessedenta o crente com a Água da Vida que é a Palavra Viva da Igreja de Cristo.

Na heráldica falante, é marcante a presença da torre no imobiliário da família Carvalho Monteiro posta em relação severa com a famosa torre do mito de Melusina, mãe da progénie Lusignan. Neste sentido, o ACL gravado no portão poderá muito bem ser António Carvalho Lagoense, por afeição, posto em relação com a sereia dos lagos de Lusignan.

Portão de Quintais, Lagos da Beira

Portão de Quintais, Lagos da Beira

A estrela de cinco pontas ou pentagrama (o símbolo salomónico aqui representado em duplicado para condizer esteticamente com a duplicidade do portão) terá aqui um significado muito especial atendendo ao especial “gnosticismo católico” de Carvalho Monteiro: a iconologia cristã utiliza-a como referência às cinco chagas do Cristo Crucificado, mas também como um signo que pela sua forma fechada corresponde ao círculo, indo representar a união do princípio e fim em Cristo. Curioso que entre os monges construtores medievais o pentagrama significava ainda a realização, a expressão do perfeito, tendo chegado a ser usado como sinal de reconhecimento entre os membros das confrarias de construtores, que traçavam este símbolo nas suas cartas como forma de saudação, equivalendo à palavra latina vale: passe bem. Era então conhecido como higia, nome grego de Higia ou Higeia, a deusa da saúde. É igualmente signo mágico de exorcismo e protecção contra as influências malignas, tanto visíveis quanto invisíveis, considerado na Idade Média o talismã com mais poder por representar o próprio Cristo Todo-Poderoso, senão o próprio Deus Vivo ante o qual as trevas malignas revelam a sua impotência. Com isso, dispondo os pentagramas à entrada da sua propriedade, por certo Carvalho Monteiro quis exorcizá-la das forças das trevas, protegendo-a de gente e almas malignas.

Como se viu, o pentagrama é a estrela composta por cinco linhas rectas e que possui cinco pontas. Na língua portuguesa, pentagrama significa uma palavra com cinco letras. Na música, indica as cinco linhas paralelas que compõem a partitura. Originalmente era o símbolo da deusa romana Vénus (figurada na mesma Melusina), e assim é associado a este planeta cuja órbita, vista da Terra, descreve aparentemente uma estrela de cinco pontas, como já informava a astronomia ptolemaica. Na Natureza, o pentagrama é o signo do quinto elemento, o Éter, assinalado na sua ponta superior, enquanto nas demais pontas inferiores se assinalam os restantes quatro elementos naturais: Ar, Fogo, Água, Terra. O pentagrama (ou pentalfa) também é símbolo do Infinito: dentro do pentágono no centro do pentagrama é possível fazer outro pentagrama menor, e assim sucessivamente. Possui simbologia múltipla sempre fundamentada no número 5, que representa o casamento unindo o masculino (o 3) e o feminino (o 2), desta forma simbolizando a união dos contrários necessária para a realização espiritual e também a fundação da progénie familiar. Por todos esses motivos, na matemática com origem na Escola Pitagórica, o pentagrama (emblema dessa instituição grega) anda ligado ao número de ouro (1.618): composto por um pentágono regular e cinco triângulos isósceles, a razão entre o lado do triângulo e a sua base (lado do pentágono) é o número de ouro. A Cabala judaica, através dos seus rabinos mais eruditos, considera o pentagrama símbolo da Vontade de Deus e da Sua Protecção. No Cristianismo é a Estrela do Natal, a do Nascimento de Cristo preanunciando a Ressurreição, tanto do Espírito no Corpo (Nascimento) como do Corpo no Espírito (Ressurreição).

Na Maçonaria é a Estrela Flamejante da Iniciação, plantada ao Oriente da Loja, assim também simbolizando a Ressurreição, após a Morte, do profano como novo Iniciado. Quando o pentagrama se apresenta invertido, geralmente assumido símbolo do Mal contrário ao do Bem que é o pentagrama ao alto, quer dizer que o Espírito mergulhou na cegueira da Matéria e nos padecimentos carnais da alma humana[12].

Parentes do Pelágio em tempo de paz e cortesia são as artes venatórias, particularmente as da falcoaria e montaria, exclusivas na nobreza e por isso chamadas de Arte Real. Pois bem, no seu significado transcendente a montaria é uma modalidade da iniciação obtida após demanda ou peregrinação, donde ser uma iniciação activa ou “guerreira” (kshatriya, em sânscrito) própria para reis e cavaleiros, apodando-a indistintamente de Iniciação Real, Iniciação Senhorial e ainda Iniciação Mariana, posto ser Santa Maria quem assiste ao cavaleiro de demanda cuja profissão de armas dá-lhe como vizinha constante a morte, motivo pare ele A invocar constantemente: “Santa Maria, Mãe de Cristo, rogai (intercedei) por mim na hora da minha morte”! É este o motivo que assiste à criação medieval da tradição iconográfica dos “santos caçadores”, como São Thelo, São Conrado, Santo Eustáquio, Santa Genoveva, São Frutuoso de Braga, São Mamede e Santo Huberto, o mais famoso de todos, não esquecendo a lenda templária (aliás retratada dentro da capela da Quinta da Regaleira de Sintra) do sítio da Nazaré, quando o almirante-mor da frota marítima da Ordem do Templo, D. Fuas Roupinho, ao perseguir um veado foi salvo de cair no precipício pela própria Virgem Maria, que lhe apareceu, fazendo o cavalo estacar. Lá está até hoje o sítio da “Memória” e as marcas dos “cascos” da besta freada pela Mãe de Deus.

Uma das práticas mais interessantes da Alquimia também era chamada, na Idade Média, de Arte Real. Partindo da ideia de imperfeição e decadência dos seres da Natureza, a Grande Obra Alquímica (Obra Mística, Obra da Fénix, Via do Absoluto, etc.) era procurar reintegrar o Homem na sua dignidade primordial, divina. Encontrar a Pedra Filosofal era descobrir o Absoluto, era possuir o Conhecimento Perfeito (Gnose). Esta via principal devia conduzir por uma vida mística na qual, pela extirpação das raízes do pecado, o homem se tornaria generoso, doce, piedoso, crente e temente a Deus[13].

Por essa razão, a Arte Real era “Arte de Guerra” (expressada em tempo de paz, na Idade Média e chegando à Renascença, pelas supraditas artes venatórias da montaria e falcoaria) afim a reis e príncipes, devendo em princípio guerrear a sua própria natureza inferior, com isso cultivando as maiores virtudes de justiça e perfeição que lhes cabia exercer junto dos povos sob o seu domínio. Mas também se associava constantemente à Arte Sacerdotal exercida por religiosos praticantes das artes herméticas, alguns deles tendo subido aos altares de santidade, como, por exemplo, Santo Alberto Magno, reconhecido alquimista.

De algum monteiro caçador, porventura próximo da Ordem de São João do Hospital, sairia a família Monteiro, sobre quem diz o Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica):

“MONTEIRO. Dizem os genealogistas que esta família provém de Rui Monteiro, fidalgo do tempo de D. Afonso Henriques, morador em Penaguião, em cujo concelho possuiu bens. Teve o padroado de Santa Ovaia de Andufe, foi muito rico e poderoso e recebeu-se com Elvira Gonçalves, filha de D. Gonçalo Moniz e de sua mulher, Maria Anes. Parece, porém, pelo exame da sua descendência e dos reinados em que esta viveu, não ser Rui Monteiro tão antigo como dizem. O apelido parece provir de alcunha, certamente tirada de ofício. Do mencionado casamento houve vários filhos que continuaram o apelido. O bispo de Malaca, D. João Ribeiro Gaio, dedicou a esta família os seguintes versos:

O que se chamou Monteiro

foi D. Payo de Peleja,

deste apelido primeiro

casou com D. Thereja

foi um grande cavaleiro.

“As armas dos Monteiros são: De prata, com três trompas de caça de negro, embocadas e viroladas de ouro, os cordões de vermelho. Timbre: duas trompas do escudo, passadas em aspa, atadas de prata.”

D. Manuel I saindo do Paço de Sintra em montaria com o falcoeiro em destaque (aparelho de azulejaria na Quinta da Regaleira)

D. Manuel I saindo do Paço de Sintra em montaria com o falcoeiro em destaque (aparelho de azulejaria na Quinta da Regaleira)

Monteiro foi Francisco Augusto Mendes, o ilustre lagoense que nunca esqueceu a sua origem e muito fez e deu à terra que o viu nascer cerca de 1825. Procurando a fortuna no Brasil promissor, ainda jovem fez-se emigrante instalando-se no Rio de Janeiro, e a pulso foi conquistando fortuna ganha no comércio onde começou como escriturário, a qual aumentou incomensuravelmente quando conheceu e se casou com Ana Teresa Carolina de Carvalho, nascida no mesmo ano que ele, herdando o negócio de família dela: a exclusividade do transporte marítimo Rio de Janeiro – Lisboa de cafés e pedras preciosas[14]. Desde então, graças à sua volumosa fortuna que o tornou um dos homens mais ricos do país, ficou alcunhado de “Monteiro, o Milhões”, apodo que o seu filho António Augusto também herdaria, “Monteiro, dos Milhões”, e alguns mais desabridos na verborreia enciumada até o alcunhando de “caga-milhões”.

Católico e monárquico assumido, de convicções profundas, Francisco Monteiro abraça a “religião pátria” (que o filho prosseguiria), reconhecendo em Santa Maria Coroada a suprema Rainha de Portugal, oferecendo ricos presentes à Régia Confraria de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, cujo Santuário Nacional nasceu de uma primitiva ermida gótica que nos finais do século XIV o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira fez consagrar à Senhora da Conceição, sendo o primeiro templo desta devoção pátria (devotionis patriae) em toda a Península Ibérica, antecedendo assim em quase 500 anos a definição dogmática de 1854 sobre a Imaculada. Esta imagem de Nossa Senhora de Vila Viçosa, apresentando punções e a data de 1406, terá sido oferta da Casa Real inglesa na pessoa não do rei D. João I mas do próprio Santo Condestável. Grata pelos serviços prestados por Francisco Augusto Mendes Monteiro, a Régia Confraria deu-lhe o título de comendador em 19 de Janeiro de 1856, como consta no seu Livro 8: “Francisco Augusto Mendes Monteiro = Carta de Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa = De 19 de Janeiro de 1856. Livro 8.”[15]

Nesse mesmo ano, em guisa de agradecimento pelo sacro e régio título recebido, Francisco Augusto Mendes Monteiro iria deixar o seu nome ligado à primeira grande ampliação e renovação da igreja paroquial de Lagos da Beira. Para o efeito, ofereceu à Junta da Paróquia a quantia de um conto e duzentos mil réis em metal sonante, para o fim de ser aplicada na construção da fachada e de uma torre no edifício. Tão valiosa oferta teve lugar na sessão extraordinária de 7 de Dezembro de 1856, em cuja acta consta: “Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e cinquenta e seis. Aos sete dias do mês de Dezembro reunida a Junta de Paróquia na Sacristia da Igreja Matriz [de] S. João Baptista de Lagos da Beira […], compareceu neste acto o Exm.º Senhor Comendador Francisco Augusto Mendes Monteiro oferecendo generosamente a esta Junta a quantia de um conto e duzentos mil réis, metal sonante, para o fim de se aplicarem a fazer a frente e uma Torre no edifício da Igreja Matriz desta Paróquia que se acha em grande precisão”.

Na acta constam ainda cláusulas requeridas pelo mecenas que especifica a maneira como deseja que a torre e a fachada da igreja sejam construídas (iniciativa singular em jeito de mestre arquitecto que também Carvalho Monteiro tomaria, tanto nesta aldeia como em Sintra), escolhendo para a execução da obra o mestre pedreiro Bernardo de Sousa Gouveia, do lugar de S. Sebastião da Feira, do concelho de Oliveira do Hospital, exigindo ainda que o risco da fachada fosse o da ordem Toscana. Esta ordem, que foi desenvolvida na época romana, é a simplificação da ordem Dórica, de origem grega, geralmente empregada no exterior de templos consagrados a divindades masculinas, e aqui é masculino o Orago da paroquial: S. João Baptista, aparelhando com S. Miguel Arcanjo também cultuado nesta igreja desde que a pequenina ermida da sua evocação foi desactivada.

Francisco Augusto Mendes Monteiro (Lagos da Beira, 9.3.1816 - Lisboa, 1.11.1890)

Francisco Augusto Mendes Monteiro (Lagos da Beira, 9.3.1816 – Lisboa, 1.11.1890)

Com efeito, houve a Irmandade de São Miguel das Almas importante nesta aldeia, que hoje está desactivada mas a que terá pertencido Francisco Augusto Mendes Monteiro, eventualmente retratado entre os oito principais irmãos, com o Arcanjo Quis ut Deus flutuando sobre eles, num painel processional dos fins do século XIX que está na sacristia da paroquial. Possivelmente o seu filho António Augusto Carvalho Monteiro também terá pertencido a esta irmandade de sufrágio, cuja função psicopompa ou intermediária só poderia ter como Orago o primeiro dos Arcanjos, São Miguel, intercessor das almas junto do Trono de Deus. O ofício de sufrágio pelos falecidos tem o nome grego de panikhida ou parastás, significando precisamente “intercessão”, traduzidos em português como “sufrágio”, na linguagem eclesiástica significando o acto litúrgico ou a oração comunitária de intercessão pelos falecidos. Este ofício de sufrágio pelos mortos segue o roteiro do Ofício de Matinas do Rito Bizantino, celebrado principalmente ao sábado quando não é festivo, sendo dedicado à comemoração dos mortos. O Rito Romano segue o roteiro das “estações” ou momentos, parando o cortejo para reflectir e orar pelos falecidos, desde a igreja até ao cemitério, junto das chamadas “alminhas”. Também a celebração do Ofício Exequial possui vários momentos, sendo o dia consagrado aos santos e aos falecidos precisamente o de Todos-os-Santos e dos Finados no início de Novembro. Assim, a Parastás ou Sufrágio pode celebrar-se de duas formas: a completa, mais solene, e a abreviada. A forma plena é reservada às ocasiões especiais nos dias de finados designados como universais, e a forma abreviada é a que se usa nas ocasiões comuns, nas igrejas, nos cemitérios ou nos lares. Esta última forma é a mais comum por motivos práticos, podendo sempre variar conforme o costume particular de cada igreja, mantendo porém o esquema original do Ofício de Matinas[16]. A Irmandade de São Miguel das Almas servia de extensão e apoio do clero junto da comunidade, dando assistência corporal às famílias enlutadas e assistência espiritual às almas partidas.

Os irmãos de São Miguel das Almas, conforme está apresentado no painel referido, além de se mostrarem acompanhados da vara da Irmandade, espécie de báculo pastoral, tinham sobre os ombros a capa branca, muito semelhante àquelas primitivas dos cavaleiros templários e mesmo dos cistercienses, o que remete para o sentido primacial da Cristandade assumida pela Ordem do Templo e prosseguida depois pela Ordem de Cristo. Sendo o Arcanjo São Miguel o Assistente da Igreja e da Sinagoga, Henri Corbin lembra que “uma aparição de Miguel equivale a uma aparição da Shekinah”[17], valendo-se para isso de uma citação do Sepher-Ha-Zohar: Ubicumque inveneris Michaelem qui est primus illorum [angelorum], ibi subintellige Schechinam (“Sempre que encontrares mencionado Miguel, que é o primeiro dos Anjos, subentende a Shekinah”).

Painel da Irmandade de São Miguel das Almas, conservado na sacristia da igreja paroquial de Lagos da Beira

Painel da Irmandade de São Miguel das Almas, conservado na sacristia da igreja paroquial de Lagos da Beira

A Shekinah equivale à manifestação real de Deus em forma feminina na Terra, revelada por intermédio de Mikael à comunidade dos crentes. Revela-se nisso a Actividade Universal do Logos Eterno no acto de Criação, que por sua função similar à da Mulher em gestação foi pelos antigos cabalistas judaico-cristãos ligado à fácies materna de Deus, à Mãe de Deus assumida Espírito Santo movendo-se sobre as “águas etéricas” ou do Além-Akasha antes da Criação, para logo “soprar” ou “alentar” a mesma como o Espírito de Deus portador do Hálito Divino, acto primordial da génese universal que leva o nome hebreu Meracha Phath.

A doutrina oculta da Shekinah para os hebreus, ou Sakinah para os árabes, tem o seu principal ponto de referência no Antigo Testamento, nas passagens em que se trata da instituição de um centro religioso e espiritual: a construção do Tabernáculo, a edificação dos Templos de Salomão e de Zorobabel. Tal centro, constituído em condições regularmente definidas, devia ser efectivamente o lugar da Manifestação Divina, da “Presença Real de Deus”, Shekinah, sempre representada como “Luz” (Domus Lucis, Portae Lucis, Janua Lux…). É curioso observar que a expressão “mais iluminada e mais regular” que a Maçonaria tem conservado, parece ser a memória da antiga ciência sacerdotal que presidia à construção dos Templos, o que de resto não era exclusividade particular da Raça de Judah. Neste sentido, S. Miguel ou Mikael corresponde ao sacerdote do Templo Celeste e ao instaurador do Templo Terrestre, prerrogativas pressupostamente conhecidas de Francisco Monteiro e de seu filho Carvalho Monteiro ao assumirem o encargo de arquitectos súbitos, querendo que os edifícios mandados fazer por eles ficassem exclusivamente de acordo com o querer do seu entendimento particular, nisto parecendo reproduzir os moldes directores da primitiva ciência sacerdotal assistida pelo Arcanjo S. Miguel, que é o veículo de corporificação do Verbo, tal qual o Templo é a corporificação canónica do Corpo de Deus. Na Shekinah está a causa da Influência Espiritual, presidindo a todas as modalidades de Iniciação e Iluminação. Ainda que a Igreja cristã lhe chame Bênção, o sentido exacto é Influência Espiritual, como se traduz do termo hebraico original, berakoth, e do árabe barakah.

Mas é o Sepher-Ha-Zohar, obra do rabino ibérico Moisés de Leon (século XIII), quem aprofunda e explana mais a doutrina oculta da Shekinah. Toda ela se inscreve numa Fede de Amor em referência ao amor do Homem por Deus e ao sentimento recíproco da Divindade. Aí postula-se a identidade entre o temor de Deus e o amor mais puro, traduzido como fé. O Zohar, na descrição da longa viagem que a alma executa ao deixar o corpo, fala na assunção da mesma na sua peregrinação até ao “Palácio do Amor”, onde ela deixa cair o último véu ao apresentar-se diante do seu Mestre, ou seja, ao alcançar o derradeiro e supremo estado de Consciência Espiritual. Para Moisés de Leon só houve um que, enquanto vivo na Terra, se mostrou ligado à Presença Real de Deus, à Shekinah: o Patriarca Moisés. Deste, e unicamente deste, é dita a sentença: “Esteve unido intimamente com Shekinah[18]. Pela primeira vez, a união mística entre o mortal e o imortal foi representada em termos de casamento terreno, tendo este por resultado natural a geração familiar, cuja tradição é sempre o encargo mais importante do patriarca da família que normalmente transmite o seu saber por via oral ao varão primogénito, de maneira a ficar assegurada tanto a continuação da progénie como a ininterrupção da transmissão da herança familiar que, neste particular, será a de um núcleo eleito, como parece ter sido o caso da família Carvalho Monteiro, cujas origens remotas estão envoltas na bruma da lenda teimando no mito maravilhado de Melusina, também esta prefiguração simbólica da Virgem Mãe.

O autor na igreja paroquial de Lagos da Beira

O autor na igreja paroquial de Lagos da Beira

A Shekinah apresenta-se sob múltiplos aspectos, dos quais dois são os principais: o interno e o externo, assinalados tão claramente quanto possível na tradição cristã pelas frases Gloria in excelsis Deo e in terra Pax hominis bonae voluntatis. A palavra Gloria refere-se ao aspecto interno relacionado com o Princípio Espiritual, com o Espírito Santo, promanando, através dos 7 Anjos Diante do Trono (Malakim), os 7 Influxos ou Raios Espirituais no aspecto externo ou Mundo manifestado pela mesma Shekinah, indo caber-lhe a palavra Pax. Pax et Gloria são os atributos da Shekinah como Terceiro Trono, manifestado e manifestando ao Eterno representado em cima por Metraton, o Arcanjo intermediário ou psicopompo no Plano do Segundo Trono, logo, só por Aquela o Pai e o Filho se tornam possíveis de idealizar e alcançar pelas criaturas humanas.

A Shekinah contém-se, pois, na tríplice fórmula de Lux – Gloria – Pax, Divina, Celeste e Humana, e para a sua preanunciação a iconologia judaico-cristã destinou-lhe o símbolo alvo da Pomba, que expressando ao Espírito Divino de Santidade traz consigo a Boa-Nova do Pai na forma avatárica do Messiah, do Filho Incarnado ou dado à Luz do Mundo pela Divina Mãe, para Glória das Almas e Paz dos Povos. Ainda no simbolismo tradicional, a Luz da Shekinah, que é Kundalini ou o Fogo Criador do Espírito Santo irrompendo do seio da Terra, representa-se pela amendoeira florida, cuja cor branca expressa a Pureza e a Virtude[19], enquanto a sua antítese é a figueira seca, expressiva da Heresia e o Pecado extirpados por Cristo (Marcos, 11:12-14), o Vinhateiro de Deus, figurando a longanimidade do Espírito Santo expressivo da Clemência e da Eleição.

Certamente S. Miguel assistirá igualmente à noção de “religião pátria” desenvolvida em volta da promessa de Advento de Cristo que terá Portugal como a sua peanha, ideia sebástica perfilhada por Carvalho Monteiro da qual deixou sinais óbvios na sua Quinta da Regaleira. Diz Manuel J. Gandra[20]:

“Compreende-se isto em vista da tradição bíblica que faz de Melki-Tsedek, rei e sacerdote, e modelo do Preste João, Rei de Justiça (LEX) e de Salém (PAX), cujos atributos são a balança e a espada, também distintivos de Mikael (Quis ut Deus?).

“A manifestação de Mikael assinala sempre a glória da Shekinah, a Grande PAZ e LUZ do Messias, sendo representado na décima Sephira: Malkuth, com o significado de o REINO e o JUSTO (Tsedek).

“Portugal assume-se, assim, desde os primórdios da sua existência, e com a cobertura de Cister e do Templo, como ungido de Deus, pois que o sacerdócio de Melki-Tsedek, compatível com o conceito de realeza divina, corresponde ao de El-Elion e este ao de Emmanuel, razão fundante para que, no século XVI, o rei D. Manuel, Emmanuel de seu nome e, não menos curiosamente, o décimo quarto Rei de Portugal (aliás como a própria profecias de Isaías exigia), se apresentasse como «Rei de Portugal e do resto», isto é, como Rei do Mundo.

“Corroborando a justeza da nossa reflexão o facto de, através do mesmo monarca, ter sido concedida a Portugal a prerrogativa de invocar S. Miguel como seu Anjo Custódio[21].”

Por tudo isso, quiçá ou decerto, ademais correspondendo ao período áureo da Gesta Dei per Portucalensis, não terá sido por acaso que Carvalho Monteiro escolheu o neomanuelino como estilo de eleição dominante na sua propriedade da Regaleira de Sintra, abundando os símbolos manuelinos sem faltar no palácio o retrato pintado de D. Manuel I, o Venturoso.

António Augusto Carvalho Monteiro prossegue a obra benemérita iniciada por seu pai em Lagos da Beira. Como os quinhentos mil réis cedidos pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital em 22 de Abril de 1908 para a construção da estrada Lageosa – Lagos da Beira não chegasse para pagar as obras e já estando os terrenos expropriados, na sessão de 1 de Maio de 1911 da Câmara Municipal foi apreciado um ofício da Comissão Paroquial de Lagos da Beira datado de 27 de Abril último, participando estar habilitada a custear as despesas necessárias para a conclusão da dita estrada graças à generosidade do dr. António Carvalho Monteiro a quem aquela Comissão se dirigira, expondo-lhe os graves prejuízos que resultavam da paralisação daquela obra. A Câmara Municipal agradeceu em nome de todo o concelho ao ilustre benfeitor, e na acta da sessão da Junta da Paróquia lagoense, de 15 de Outubro de 1911, consta que a conclusão da estrada de Lageosa a Lagos da Beira foi adjudicada ao empreiteiro Luciano Albino Gonçalves pela quantia de seiscentos e quarenta mil réis[22].

Carvalho Monteiro amava Lagos da Beira e o seu povo como poucos. A sua natureza boa e generosa levava-o a tomar atitudes próprias de um rei ou de um senhor feudal com terra sua, como essa de no dia da festa do santo local, S. João Baptista (24 de Junho), da varanda da casa de seus pais (na actual Rua Dr. Carvalho Monteiro) arrojar “à rebatina”, com uma medida de peso de cereal, enormes quantidades de moedas sobre o povo em baixo, logo apanhadas pelos pobres infortunados da vida. A gratidão geral para com o seu benfeitor não foi esquecida até hoje e creio que nunca será.

Casa de Francisco Augusto Mendes Monteiro na actual Rua Dr. Carvalho Monteiro, em Lagos da Beira

Casa de Francisco Augusto Mendes Monteiro na actual Rua Dr. Carvalho Monteiro, em Lagos da Beira

Quando Carvalho Monteiro quis ampliar a sua propriedade de Quintais deparou-se com o obstáculo da capela de S. Roque, antiquíssima (talvez do século XV ou anterior) mas em estado lastimoso de ruína, situada no largo ou imediações da antiga Praça de S. Roque de que sobra a Travessa do mesmo nome. Então, ele requereu da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, sendo presidente António Freire de Carvalho Albuquerque, autorização para demolir a capela e construir uma nova onde hoje está, fora dos muros de Quintais defronte a esta. A requisição consta na acta da sessão de 9 de Julho de 1897. A autorização foi concedida.

A população lagoense não se opôs, antes agradeceu a demolição da capela arruinada e abandonada pela construção de uma outra da mesma evocação. No Inventário dos prédios e outros bens pertencentes à Junta da Paróquia da Freguesia de Lagos da Beira, consta o seguinte com a data de 6 de Maio de 1870: “Capela de S. Roque – Uma capela em sofrível estado material, em Lagos da Beira, e composta de um altar e sacristia; tem um adro e um campanário com um sino pequeno. Não tem bens”. Não era bem assim, pois no Inventário dos paramentos, vasos sagrados e mais utensílios destinados ao culto, datado de 29 de Setembro de 1872, consta o seguinte: “Um cálice de estanho com copa e patena de prata usada, que pesa 687 gramas; um véu do cálice branco, usado; um dito, encarnado, usado; uma bolsa dos Corporais, branca e encarnada, usada; duas alvas com seus pertences, muito usadas; seis castiçais e Cruz de pau dourado, muito deterioradas; três toalhas do altar muito usadas, e dois manustérgios[23]; uma lâmpada velha e um Missal muito usado; uma galheta com seu prato de estanho; uma campainha de tocar a Santos”. A capela tinha o necessário à celebração da missa, mas tudo muito desgastado, envelhecido e retirando dignidade à celebração. Talvez por isso, na época já não se realizava aí.

Dando cumprimento ao prometido, em substituição da que havia mandado demolir o dr. Carvalho Monteiro mandou edificar um novo templo, também consagrado a S. Roque, encarregando do projecto o seu amigo projectista do Hotel-Palácio do Buçaco, o famoso cenógrafo-arquitecto italiano Luigi Manini, que executou uma verdadeira obra de arte a que não falta o tipo simbológico cristão-hermético peculiar ao pensamento de Carvalho Monteiro. Os trabalhos foram iniciados e concluídos entre 1900 e 1910. Todavia, inexplicavelmente o novo templo demorou a ser entregue, a tal ponto que na sessão de 23 de Março de 1919 o presidente da Junta de Freguesia de Lagos da Beira propôs que a mesma se dirigisse ao dr. Carvalho Monteiro, pedindo-lhe, com todo o respeito, que se dignasse entregar a nova capela à Igreja e ao povo. Apesar de não constar no Livro de Actas da Junta de Freguesia, Tarquínio Hall (in ob. cit.) presume que a capela foi inaugurada em 1921, portanto, já tendo falecido no ano anterior o ilustre mecenas (20.10.1920), ou talvez mesmo nesse ano da sua morte.

Capela de S. Roque de Lagos da Beira, mandada construir por António Augusto Carvalho Monteiro

Capela de S. Roque de Lagos da Beira, mandada construir por Carvalho Monteiro

A demora na entrega da capela às autoridades eclesiásticas e ao poder local, poder-se-á explicar pelo facto do período conturbado que varria o país, a ponto de a Carbonária, através de um tal Buíça, consumar o regicídio em 1.2.1908 na pessoa de D. Carlos, amigo pessoal de Carvalho Monteiro, e do príncipe real D. Luís Filipe, tendo sido o primeiro passo para a queda da Monarquia e a instauração da República em 5.10.1910, com as consequentes convulsões político-sociais, cuja violência carbonária e republicana se abateu sobre os católicos e monárquicos em todo o país, não escapando Carvalho Monteiro, entretanto preso e julgado à revelia no Tribunal da Boa-Hora, Lisboa, em 1913. De certa maneira, o povo trabalhador e ordeiro de Lagos da Beira, mais católico e conservador que liberal e jacobino, passou incólume à tempestade que varreu Portugal nas duas primeiras décadas do século XX e com o quinto Presidente da República, almirante João do Canto e Castro da Silva Antunes (Lisboa, 19.5.1862 – Lisboa, 14.3.1934), que aliás era Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa desde 1891, houve um período de acalmia e pazes com a Igreja Católica, que certamente foi aproveitado para entregar a capela de S. Roque de Lagos da Beira em 1920 ou 1921 aos seus legítimos destinatários.

Este pequeno templo é uma jóia do imobiliário artístico português merecendo visita obrigatória, o qual Virgílio Correia já catalogou mas com imprecisão no verbete respectivo (talvez por não ter visitado a localidade, talvez por ter se informado mal, talvez, o que não é raro, por ter encomendado o texto a um seu aluno que para agradar ao professor apressou-se a escrevê-lo, mesmo quase de certeza desconhecendo a história local)[24]: “LAGOS DA BEIRA. CAPELA DE S. JORGE – Substitui uma outra que ficava em ponto mais baixo. É dos começos do século XIX, mandada fazer pelo colecionador Carvalho Monteiro, sob projecto de Luigi Manini. Miniatura de um templo de categoria, a capela é um interessante documento, no qual o autor procurou um marcado efeito cenográfico. Os tectos são de madeira, pintados”.

Ora a capela não é dos começos do século XIX mas do XX e tampouco é consagrada a S. Jorge, equívoco óbvio com S. Miguel, cuja capela, próxima desta, era onde se celebravam os ofícios fúnebres antes da ampliação do cemitério cuja entrada ficava defronte a ela.

Interior da Capela de S. Roque, Lagos da Beira

Interior da Capela de S. Roque, Lagos da Beira

A pintura do tecto de madeira pentagonal, irradiando por cima do altar, dá ao espaço um sentido de amplidão maior do que possui, em guisa de basílica renascentista, efeito feliz procurado por Carvalho Monteiro e realizado por Luigi Manini. As figuras pintadas são no estilo da Renascença e do Barroco italianos, vendo-se aos pares, em cada caixilho, duas cabeças de Anjos, uma lateral e outra frontal, desta saindo a Taça Eucarística por certo prefigurativa do Santo Graal, simbólico do repositório das mais elevadas influências espirituais. Também aos pares, noutros dois caixilhos, revela-se uma cabeça de Anjo frontal sobre a qual domina uma cornucópia com frutos e flores, símbolo da abundância e da riqueza tanto material como sobretudo espiritual. O conjunto de taça e cornucópia, mantido pelas cabeças angélicas simbólicas da consciência sobrehumana, consequentemente da noção superior que dirigiu o pensamento tanto do artista como do encomendador, significa a influência absoluta do Espírito Santo tanto no Céu (taça) como na Terra (cornucópia), posto que a Taça Sagrada é sempre indicativa da presença da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Finalmente, no caixilho central vê-se o pelicano alimentando os seus três filhotes e que é o emblema franciscano da Eucaristia preanunciado o derradeiro Sacrifício do Senhor, com isso expressando à máxima virtude cardeal da Caridade ou Amor, tema acaso transportando para o sentido da Igreja do Amor com que foi conhecida a corrente gnóstica portuguesa nos séculos XIV a XVI.

O simbolismo do Sacro Pelicano ou Pelicano Eucarístico alimentando os seus sete filhotes (os números destes variam nas várias peças expostas do mesmo teor, mas o número exacto é sete) com a sua própria carne, foi adoptado pelos franciscanos a partir do século XIII como representação da Abnegação, da Caridade e do Amor Paternal. Por esta razão, a iconografia cristã medieval fez dele um símbolo do Cristo Pascal, ainda que exista uma outra razão mais profunda. Símbolo da natureza húmida que, segundo a Física antiga, desaparecia sob o efeito do calor solar e renascia no Inverno, o pelicano foi assumido como figurativo do sacrifício e morte de Cristo e da sua ressurreição, assim como da de Lázaro. Por isto, é que a sua imagem às vezes equivale à da fénix, a ave mítica que morre no fogo e renasce das próprias cinzas. Todo este simbolismo ligado ao Cristo também se funde na chaga do coração donde manam sangue e água, seivas da vida, o que levou o poeta místico Angelus Silesius, no século XVII, a escrever: “Desperta, cristão morto, vê: o nosso Pelicano rega-te com o seu sangue e com a água do seu coração. Se a recebes bem, de imediato ficarás vivo e salvo”[25].

Sagrado Coração de Jesus aureolado com a Cruz Pátea da Ressurreição (pintura na sacristia da paroquial de Lagos da Beira)

Sagrado Coração de Jesus aureolado com a Cruz Pátea da Ressurreição (pintura na sacristia da paroquial de Lagos da Beira)

Esse simbolismo de morte e ressurreição do crente em sábio, do confessional em racional, porque todo o que sabe é superior ao que quer entender, transfere para o significado hermético da Páscoa disposta no plano da Alquimia. Inúmeros textos e gravuras medievais e renascentistas fazem eco desse tema, como por exemplo Arnaldo de Vilanova, médico da Rainha Santa Isabel de Aragão e Portugal[26], que na sua obra Os Segredos da Natureza ou O Segredo dos Segredos dá uma descrição dos processos de fabrico da Pedra Filosofal usando a terminologia cristã referente à Paixão de Cristo. Também Basílio Valentino fala da Pedra criada pela Santíssima Trindade. Já no século XV o dogma da Trindade e a Paixão de Cristo foram igualmente empregues no texto alquímico Livro da Trindade[27]. A Argiopeia ou fabrico da Prata, correspondente à Iluminação da Alma, representa-se no Sagrado Coração de Maria, enquanto a Crisopeia ou fabrico do Ouro, correspondente à Imortalidade do Espírito, assinala-se no Sagrado Coração de Jesus, ambas imagens pascais presentes em duas pinturas conservadas na sacristia da paroquial de Lagos da Beira, com toda a certeza coevas de Francisco Monteiro e de seu filho, Carvalho Monteiro.

Carvalho Monteiro mandou fazer as imagens seguintes para a capela de S. Roque: nos nichos laterais, Santa Teresa de Jesus, a carmelita de Ávila, com o livro aberto talvez sendo o seu Caminho da Perfeição, talvez sendo o seu Livro da Vida ou talvez as suas Moradas – Castelo Interior. Num contexto mais particular, acaso poderá ser uma homenagem de Carvalho Monteiro a sua mãe Teresa, homónima daquela, assim sacralizando a sua progenitora. Defronte apresenta-se S. Sebastião, flechado com duas setas e tendo o elmo militar aos pés, indicativo da sua condição de militar mártir que a Cristandade adoptou como sinónimo do ideal de Cavalaria e da própria casta militar cujo chefe supremo era o rei. Por isso Sebastião santo e Sebastião rei emulam-se e confundem-se, como sucede no tema sebástico, vulgo sebastianismo, dispondo Sebastião na linha hermética da Iniciação Senhorial ou Real (curiosamente a toalha do altar é decorada por flores-de-lises), representada pelos Kshatriyas ou ”Cavaleiros” guardiões da Terra Santa, imagem figurativa da Agharta ou Paraíso Terreal, este que Carvalho Monteiro por certo quis dispor idealmente na própria Lagos da Beira. Nos nichos frontais tem-se à direita St.º António com o hábito e o cordão franciscano, contemplando Cristo no Crucifixo entre as suas mãos. No contexto particular poderá muito bem ser a homenagem de António Augusto a seu pai Francisco, homónimo daquele, assim sacralizando o  progenitor[28]. Isto reporta novamente ao significado da sigla ACL no portão de Quintais. Finalmente, tem-se à esquerda o Orago desta capela, S. Roque. Trajado de peregrino com bordão e sacola, ostenta a rótula chagada da lepra que o cão aos pés lambe e cura o mal. A “lepra maligna” deixa a dúvida se se trata de uma doença corporal ou de uma doença moral, acaso ambas, registando-se a segunda pela primeira, pois na Idade Média era sinónima de heresia, de crença heterodoxa em conflito com a ortodoxa vigente. Aqui, a cabaça, também aos pés de S. Roque, acaso poderá significar o repositório de algum saber ocultado, impondo uma dupla interpretação que nem por isso suscitará contradição por o racional ser explicativo do confessional, a crença elevada à fé. Se assim é, estar-se-á perante o Iniciado na Tradição Primordial, cujo Caminho é velado pelo cão, eterno companheiro e guia de todo o Adepto da Filosofia Hermética. Sobre isto a ver com S. Roque, diz Juan Garcia Atienza[29]:

“Encontramo-nos perante um dos santos mais equívocos e misteriosos do santoral cristão, perante um autêntico mito a quem parece haver-se escamoteado a realidade palpável da sua existência para configurar uma imagem que, por pouco que se analise, aparece cheia de contradições e, sobretudo, de suspeitas. Contemplando as abundantes imagens de S. Roque que há em inúmeras igrejas, colegiadas, ermidas e catedrais, observa-se em primeiro lugar que é um santo facilmente reconhecível sem que seja necessário perguntar. Aparece sempre vestido de peregrino, aparece sempre acompanhado por um cão, tem sempre uma rótula desnuda, preferencialmente a esquerda, que aponta ostensivamente com o dedo. Nessa rótula luze uma chaga sanguinolenta nas imagens pintadas ou esculpidas depois do Renascimento. Esses três detalhes – peregrino com cão e que assinala a rótula – merecem uma análise sumária.

Imagem de S. Roque na capela lagoense da sua evocação (encomenda de António Augusto Carvalho Monteiro)

Imagem de S. Roque na capela lagoense da sua evocação (encomenda de António Augusto Carvalho Monteiro)

“O peregrino – pensemos em que nenhum outro santo, com a excepção insólita de Santiago, é representado assim, ainda que muitos tenham sido peregrinos – é a imagem do buscador do Conhecimento, do que percorre um caminho iniciático em busca de um saber que irá descobrindo ao longo das distintas etapas.

“O cão é, na linguagem iniciática, o animal-guia do sábio, o companheiro que concede a Divindade ao adepto para encontrar o caminho a que se propôs. Recordemos que o cão, o lobo, acompanham S. Francisco de Assis, S. Bernardo de Claraval, Tobias, Santa Quitéria e os santos caçadores (que também são considerados buscadores ou rastreadores da Verdade).

“A rótula esquerda desnuda é sinal inequívoco de iniciação na linguagem esotérica. Uma iniciação que eventualmente – sobretudo entre as irmandades de construtores – está relacionada com a rótula do compasso que serve para traçar os planos da Casa de Deus e que, em todo o caso, desde as primitivas sociedades iniciáticas até ao ritual maçónico serve para que os adeptos reconheçam quem recebeu a iniciação. Assinalá-la é chamar a atenção do que sabe sobre a condição de quem a exibe. Neste sentido, a chaga é um aditamento totalmente espúrio, posta ali precisamente pelos que desconheciam o significado real da rótula desnuda… ou por aqueles queria dissimulá-lo a todo o custo.”

Tão grata memória deixou António Augusto Carvalho Monteiro em Lagos da Beira que tanto o povo quanto a edilidade e o eclesiástico nunca esqueceram o seu grande amigo benfeitor. Por motivo da sua morte, em 28 de Outubro de 1920 foi convocada uma sessão extraordinária da Comissão Paroquial com o fim exclusivo de prestar culto de homenagem à sua memória, falecido três dias antes. Referindo-se à sua morte, o presidente da Comissão Paroquial, professor José João da Fonseca, afirmou ter-se perdido uma das maiores glórias desta sua terra adoptiva que lhe deve tantos benefícios. Traçando o perfil do ilustre benemérito e amigo incondicional de Lagos da Beira, José João da Fonseca acrescentou: “Sua Excelência era não só um carácter filantrópico e altruísta, que albergava uma alma generosa e franca, mas também um sincero amigo da humanidade enferma e desprotegida”[30].

Sob o Sol que se despede ao cair da tarde, Lagos da Beira enche-se de beleza despendida do céu onde o poente de fogo e o verde do campo se acasalam em nuances azuis antes de se despedirem do dia. Além, no horizonte, recorta-se na paisagem a Serra do Caramulo que esconde atrás o Buçaco e seus mistérios, de onde um dia Carvalho Monteiro para aqui trouxe o arquitecto Manini que também sabia gizar na Terra as belezas do Céu.

Lagos da Beira é terra que deslumbra e entontece, desafia os sentidos engalanando a imaginação esperando da noite um novo dia com o mesmo Sol e as mesmas tintas do entardecer que finda. Com Tarquínio Hall o digo: “Um por todos e todos por um”! É a grei que faz lei em terras lagoenses, pois o espírito de entreajuda é regra de ouro, bem como o amor ao próximo, o civismo sempre presente nas relações sociais. Por isso, como o poeta e ensaísta desta terra também acredito que se Cristo descesse novamente à Terra, como nos tempos bíblicos, na sublime missão de espiritualizar e apaziguar as almas humanas, por certo visitaria esta humilde paróquia que Deus sabe ser povoada de gente profundamente crente, pacífica, trabalhadora e hospitaleira.

NOTAS

[1] Alexandre Herculano, História de Portugal, desde o começo até ao fim do reinado de D. Afonso III, revista e anotada por José Mattoso, 4 volumes. Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1981.

[2] Tarquínio Hall, Lagos da Beira – Subsídios para a sua História. Edição da autarquia, Oliveira do Hospital, 1997.

[3] Tarquínio Hall, Concelho de Oliveira do Hospital – Subsídios para a sua História. Edição da autarquia, Oliveira do Hospital, 1998. O autor noticiou a descoberta da lápide pela primeira vez no Jornal A Comarca de Arganil, 9.6.1992.

[3] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora Ltda, São Paulo, 2011. Com o mesmo título esta obra foi editada anteriormente pela Via Occidentalis Editora Lda. em Setembro de 2007, Lisboa.

[4] As têmporas eram dias de jejum religioso nos quais os católicos portugueses não comiam carne, substituindo-a por panados fritos de legumes e peixes.

[5] Saint Andrew of Crete, texto inserto na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia. The Encyclopedia Press, Washington.

[6] Fr. Lucas de Santa Catarina, Malta Portugueza: Memorias da nobilíssima e sagrada Ordem dos Hospitalarios de S. João de Jerusalem, especialmente do que pertence à Monarchia Portugueza. Lisboa, Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1734.

[7] Rui Pinto de Azevedo, Algumas achegas para o estudo das origens da Ordem de S. João do Hospital em Jerusalém, depois chamada de Malta, em Portugal. Revista Portuguesa de História, tomo IV, pp. 317-327.

[8] Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal. Edição dirigida por Damião Peres, volume I, Portucalense Editora, Porto, 1967.

[9] António de Vasconcelos, Oliveira do Hospital e o seu Escudo de Armas. Coimbra Editora, 1931.

[10] Vários, Breviário Bracarense de 1494. Edição fac-similada do exemplar da Biblioteca Nacional de Lisboa com introdução de Pedro Romano Rocha. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1989.

[11] Armando de Sacadura Falcão, Subsídios genealógicos para o estudo de algumas famílias da Beira Baixa. Carvalho Daun e Lorena, volume I. Separata de Estudos, Castelo Branco, 1964.

[12] Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita e Secreta. Editorial Jonglez, Versailles, Abril 2010.

[13] Pelo testemunho dado pelos familiares e amigos de António Augusto Carvalho Monteiro, essas eram precisamente as suas principais qualidades que causavam admiração a todos.

[14] Leonor Figueiredo, Palácio de Fadas espera em Sintra um multimilionário. Jornal “Correio da Manhã”, 29.1.1985.

[15] Registo Geral de Mercês, D. Pedro V, Liv. 8, fl. 83. Carta de Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa passada a Francisco Augusto Mendes Monteiro, 19.1.1856. Documento simples, código de referência PT/TT/RGM/1/244443.

[16] Catecismo da Igreja Católica. Gráfica de Coimbra, Lda. – Libreria Editrice Vaticanna, para a edição portuguesa. Coimbra, 1993.

[17] Henri Corbin, Necessité de l´angeologie in L´Anje et l´Homme. “Cahiers de l´Hermetisme”, Albin Michel, Paris, 1978.

[18] António Castaño Ferreira, Egipto – Grécia – Bíblia. Aulas reservadas do autor cerca de 1950. Edição privada da Sociedade Teosófica Brasileira.

[19] René Guénon, O Rei do Mundo. Editorial Minerva, Lisboa, 1978.

[20] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal in Cavalaria Espiritual e Conquista do Mundo. Gabinete de Estudos de Simbologia, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986.

[21] Só S. Miguel Arcanjo poderia ter sido investido na função de Anjo Custódio de Portugal, pois a ele compete por missão velar pela Terra dos Vivos e pelo Oceano dos Mortos, visto ser o Guardião do Umbral entre a Vida e a Eternidade. Ao solicitar ao Papa o Breve vinculando esse Arcanjo a Portugal, D. Manuel deu consistência legal e oficial a um costume certamente bastante antigo, de que a misteriosa Ordem da Ala de S. Miguel (presumivelmente criada por Afonso Henriques para comemorar a intervenção daquela entidade na expugnação de Santarém) constituía uma reminiscência. Embora de âmbito nacional, o Breve papal não se aplicou em todo o país. Boa parte dos missais e breviários impressos em Portugal nos séculos XVI, XVII e XVIII não traz nem a missa nem o ofício do Anjo Custódio. Apenas em Coimbra, Évora e Braga são postas em prática as determinações daquele documento pontifício (breviários de 1531, 1548 e 1549, respectivamente; o primeiro missal que traz a missa do Anjo Custódio do Reino é o de Braga, impresso em Lião de França em 1558 por ordem de D. Fr. Baltasar Limpo). O culto expandiu-se como resultado do envio de ordens do monarca a todos os municípios. Conhecem-se dois alvarás dirigidos às Câmaras de Évora e Coimbra. No de Évora (7 de Junho de 1504), autógrafo, é manifesto o cabal conhecimento da «Doutrina dos Génios»: «(…) Fazemos-vos saber que havendo respeito a como Nosso Senhor Deus, por salvação de nossas almas, conservação e alongamento de nossas vidas, quis ordenar em cada reino, cidade e lugar, e assim a cada um de nós outro(s), anjos que nos guardassem de todo o mal, e nos provocassem a bem fazer; e sentindo-o assim por serviço de Deus, Nós, com os Prelados de nossos reinos, ordenamos ora novamente, que em todos nossos reinos e senhorios (…) em cada um ano, em o terceiro domingo do mês de Julho, se faça solene memória deste Anjo, nosso guardador (…)» (Arq. Mun. de Évora, Livro III dos Originais, doc. n.º 17 a fl. 22, «ap.» Biblioteca Pública de Évora/Casa Forte: Est. I, n.º 73).

[22] Tarquínio Hall, Lagos da Beira – Subsídios para a sua História. Edição da autarquia, Oliveira do Hospital, 1997.

[23] Manustérgio (do latim, manutergiu) ou tersol: pequena toalha de linho, geralmente bordada, com que o celebrante enxuga os dedos após o momento do lavabo.

[24] Virgílio Correia, Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Coimbra, pp. 168-169. Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1953.

[25] Vitor Manuel Adrião, Paris Méconnu. Éditions Jonglez, Versailles, 2012.

[26] Significativamente a imagem da Rainha Santa Isabel está presente na igreja matriz de Lagos da Beira, para onde se dirige a procissão anual saindo da capela de S. Roque no dia festivo do santo da terra, S. João Baptista.

[27] J. Van Lennep, Arte e Alquimia. Editora Nacional, Madrid, 1978.

[28] É muito sintomático que o Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro para o ano de 1853, organizado e redigido por Eduardo Laemmert, ordenado com o retrato da Sereníssima Princesa D. Maria Amélia, refira na página 269 Francisco Augusto Mendes Monteiro como irmão leigo da Irmandade e Hospital da Santa Casa da Misericórdia da Ordem Terceira de S. Francisco na capital carioca, onde é apresentado como tesoureiro e com domicílio na Rua Direita, n.º 23. Essa Irmandade fora fundada em 14 de Janeiro de 1738 por Fr. Romão de Matos Duarte e tinha a sua sede na Rua de Santa Teresa, n.º 7, estando sob a protecção perpétua do imperador.

[29] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S. A. Barcelona, 1988.

[30] Tarquínio Hall, ob. cit., página 117.

Navegações ao Brasil Pré-Cabralino – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Nov 1 2016 

O período preparatório do Ciclo das Descobertas Marítimas recua a muito antes do Infante D. Henrique de Borgonha, fundador da Escola Náutica de Sagres. Já no tempo de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, se arquitectava tamanho projecto, coisa que qualquer estudioso medianamente informado sabe. Atribui-se esse projecto à Ordem do Templo, cuja frota marítima compunha-se já de navios de porte próprios para longos cursos, sabendo-se pela documentação coeva da primeira Dinastia que a armada Templária não se destinou só à defesa da costa e das zonas ribeirinhas mas também a viagens prolongadas mar adentro, distinguindo-se neste projecto o senhor de Óbidos e almirante D. Fuas Roupinho, professo da Ordem do Templo e meio-irmão do rei D. Afonso Henriques (1). Já D. Sancho I ou o II, em “regimento” não datado, promulga  a assistência e protecção à Marinha do Reino: “… e proíbo que ninguém se atreva a maltratar os meus marinheiros.” – In Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, I, 6.

Ora, se a futura Epopeia Marítima começou a ser delineada já no reinado de D. Afonso I e se os templários tinham por tutores espirituais os cistercienses, então poderá suspeitar-se da intenção última do exaustivo e frutuoso apoio desses clérigos-agricultores à classe campesina, encarregando-se de arborizar vastas zonas antes largos pântanos insípidos e cuja madeira seria aplicada na construção naval. Com a abolição da Ordem do Templo, em 1312 por bula papal no Concílio de Viena, mas que logo reaparece em 15 de Março de 1319 no chão português de Santarém (que se destinaria a última morada de Pedro Álvares Cabral) como Ordem de Cristo, o projecto de Expansão Marítima foi prosseguido quase sem nenhuma interrupção, graças à inigualável acção política do rei D. Dinis junto do Papado e das cortes europeias, quase de imediato mandando plantar os pinhais da Azambuja e de Leiria, cuja madeira veio a destinar-se à construção naval (2), ao mesmo tempo que contratava para a Ordem de Cristo um sucessor do almirante templário D. Nuno Fernandes Cogominho, recentemente falecido; o contrato caiu no experiente navegador genovês Manuel Pessanha ou Pezagno, em princípios de 1317, o qual veio a ser o primeiro detentor do título de “almirante-mor”.

Portanto, posteriormente o Infante D. Henrique “apenas” deu consecução a um projecto que já vinha dos seus reais antepassados, aproveitando todas as condições político-sociais favoráveis da época ao mesmo tempo que, como Governador Apostólico e 8.º Mestre Geral da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, legítima herdeira directa dos valores espirituais e temporais da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo do Templo de Salomão, aplicou o tesouro desta, mais que o da Coroa, na criação da Escola de Navegação que haveria de levar Portugal a todos os cantos da Terra, na mais espantosa Gesta Dei per Portucalensis correspondendo à Conquista Espiritual do Mundo pela Gesta Lusa.

O Infante Navegador (Nautonnier) reuniu em seu torno os mais entendidos em marinhagem, fossem de que nacionalidade e religião fossem; congregou os diversos saberes em um só saber; deu forma a uma nova cartografia e à invenção de instrumentos náuticos quase mágicos para a época, inclusive indo inventar um novo tipo de embarcação, mais ligeira, rápida e fácil de manobrar: a caravela, substituta da nau de porte. Simultaneamente, aplicou os conhecimentos náuticos herdados da Ordem do Templo sobre as viagens marítimas “de longo” pelos antigos navegadores, e sobre os mesmos, aconselhado ajuizadamente, traçou rotas que haveriam de levar, mar adentro, a outras terras, a outras civilizações… para espanto das cortes europeias e do vulgo que, ainda hoje, considera tudo isso dever-se quer à “boa fortuna”, quer ao “acaso”. A verdade é que nunca os navegadores da Escola do Infante velejaram ao acaso, o que não invalida a sua coragem quase sobre-humana para enfrentarem nas longas distâncias os caprichos constantes dos oceanos não raro temíveis e fatais.

Posto isso, impõem-se duas questões pertinentes, irritantes na contradição de um qualquer plano marítimo prévio nascido de uma qualquer e hipotética conjectura de diáspora templária: 1.ª) Se os navegadores eventualmente possuíam tais conhecimentos, onde os foram buscar e porque a historiografia não fala deles? 2.ª) Se havia um pretenso projecto templário sobre o mar oceano, por que não foi ele propalado abertamente? Pois bem, analisarei a primeira questão, já de si implicando a segunda, começando por reportar-me à mentalidade e conhecimentos do tempo, pois só assim se poderão entender as coisas e nunca, jamais, à luz dos avanços tecnológicos adquiridos na modernidade.

Para obter bom êxito nas suas empresas marítimas gizando rotas certas, o Infante de Sagres socorreu-se das fontes literárias dos antigos clássicos: valeu-se dos escritos árabes, romanos, gregos, fenício-cartagineses e até da própria Bíblia, no que o Velho Testamento possui de descrições geográficas do mundo mediterrâneo. Nisso, auxiliou-o imensamente o seu irmão D. Pedro, trazendo das suas viagens muitas informações geográficas e um mapa-mundi, com a certeza do império oriental da Índia e a sua localização terrestre. Por meio da Ordem de Cristo, por tradição Templária, o Infante D. Henrique teria conhecimento das explorações do franciscano João de Montecorvino (3); também se inteirara das viagens de Marco Polo, cujo livro lhe fora trazido e traduzido pelo seu irmão D. Pedro. Estava, portanto, ciente da situação geográfica aproximada da Índia onde reinaria um suposto rei cristão pertencente à Igreja do Apóstolo Tomé – o Preste João.

Certamente também estaria de posse das cartas e informações da existência de terras no Oceano Atlântico, cartas e informações essas todas de certeza de origem Templária Portuguesa mas que, posteriormente, seriam copiadas ou surripiadas por navegadores genoveses, talvez por altura da extinção turbulenta da Província Templária de Itália, contudo cheias de imprecisões propositadas para desviar as atenções, coisa que os cartógrafos templários fabricaram por temor justificado do seu eventual desvio, boa parte delas legendadas com referências a monstros diabólicos que viviam no meio do mar e engoliam de um só trago as embarcações e os embarcados, com o propósito claro de incutir terror e levar a que não se navegasse em mar alto. Era assim que a Marinha Templária protegia os seus interesses, reservando exclusivamente para a sua Ordem a posse de tais “terras incógnitas” que, para os outros, afinal não existiam e só havia mar repleto de monstros horrendos.

Afirma Roberto Costa Pinho que “o primeiro registro da Ilha Brasil encontra-se na Carta Náutica do cartógrafo genovês Angel Dalorto, elaborada em 1325, onde ela figura a oeste da costa sul da Irlanda, 175 anos antes do Brasil ser oficialmente descoberto” (4). Essa Ilha O’Brazil viria a ser reconhecida e transposta para a lenda sagrada, figurativa da navegação mística, pelos culdeus irlandeses, como “A Venturosa Ilha de São Brandão”, este santo e marinheiro que afinal nunca existiu a não ser nas lendas hagiográficas, e não ser que seja, afinal, o navegador português da Ordem de Cristo, Sancho Brandão, que em 1343, estando ao serviço de D. Afonso IV, chegou à Insula Brasil, conforme regista Felipe Cocuzza: “Sancho Brandão foi o navegador português que, a mando de D. Afonso IV, chegou ao Brasil na Idade Média, conforme atesta Assis Cintra, em seu livro Revelações Históricas para o Centenário, em 1923. Essa informação foi transmitida por D. Afonso IV ao Papa Clemente VI em carta de 12 de Fevereiro de 1343, acompanhada de um mapa com a inscrição de “Insula do Brasil ou de Brandam”. O nome Sancho, de Sanctis, o mais santo, ajudou à convergência para São Brandão” (5).

Segundo esse mesmo autor, mapas e textos europeus da Idade Média, entre eles o célebre The Canterbury Tales, de Geolfroy Chaucer (1380), ligam sempre o nome do Brasil ao de Portugal, às vezes dando a ideia inequívoca de posse: Brasil de Portugal.

Exemplo disso é a carta parcial do Atlântico, copiada por um tal Buache de Neuville de um original de 1367 atribuído a Pizigano, navegador genovês ao serviço do Templo. Nesse original aparecem duas naus templárias e um templário erguendo um gládio sobre uma legenda, numa má redacção latina, referindo a existência de seres malignos postados no oceano para impedirem toda a navegação para Oeste. O Arquipélago dos Açores está representado por uma única ilha: Braçir. Será interessante registar-se que na Ilha Terceira (Açores), onde aportaram tanto Colombo como Cabral na sua marcha marítima para Oeste, junto à cidade de Angra há um elevado monte precisamente chamado Brasil, antes do Brasil continente ser descoberto. Não é isto significativo?

Cópia simplificada da Carta de Pizigano, de 1367

Cópia simplificada da Carta de Pizigano, de 1367

É de referir igualmente a Carta n.º 5 do Atlas de Andrea Bianco, de 1436, onde referencia ainda a Ilha Brazil e coloca no lugar da América a Lanosatanasio (ou Manosatanasio, “Mão de Satanás”), lenda esta que os navegadores árabes propalaram entre os templários, cujos primeiros navegadores de alto mar eram portugueses, além da única frota naval templária devidamente organizada existente ser portuguesa, que a cedia às outras Províncias. Terá sido dessa maneira que os genoveses terão aprendido, em primeira mão, marinhagem e técnicas de navegação dos portugueses.

Carta n.º 5 do Atlas de Andrea Bianco, de 1436

Carta n.º 5 do Atlas de Andrea Bianco, de 1436

Na Carta do Oceano Atlântico (parcial), de Bartolomeo Pareto, de 1455, novamente aparece a Ilha Brazil, situada sobre a Insula Afortunada de São Brandão, na direcção da Antília, Atlante-ilha ou, simplesmente, América (6).

Carta de Bartolomeo Pareto, de 1455

Carta de Bartolomeo Pareto, de 1455

Foi durante o reinado de D. Afonso IV que a frota marítima da Ordem de Cristo fez o “Achamento” das ilhas Canárias, cerca de 1341, decerto graças às pistas deixadas pelos clássicos da Antiguidade aos templários que já aí tinham Casa e Comenda, antes de serem desalojados por motivo de extinção da Ordem, mas deixando ao culto posterior a imagem da Virgem Negra da Candelária (Tenerife), desaparecida em 1826 (7).

As Canárias, ilhas atlânticas situadas ao largo do Cabo Juby, na costa africana, podem ser consideradas prolongamento insular da cordilheira do Atlas, mais precisamente sequência marítima do limite ocidental do maciço Anti-Atlas, numa linha vulcânica em forma de crescente aberto. Os mais antigos navegadores greco-fenícios, cujo legado passaram aos romanos e aos árabes, conheciam muito bem as Canárias ao ponto de Sertório, um dos heróis das campanhas dos lusitanos contra o domínio romano na Península Ibérica, sucessor do grande chefe Viriato (8), depois de vencido pelo general Metello ter procurado retirar para as Ilhas Afortunadas (9). Essas Afortunadas ou Atlântidas como os cartagineses lhes chamavam, e que os gregos denominavam Hespérides ocidentais ou Gorgónias (por estarem defronte do território africano habitado por gorgones, depois chamados guanches que viriam a aparecer, por alguma migração que a História carece conhecer, no tipo morfológico e cultural dos guaranis do litoral brasileiro), ou ainda Purpurinas (por lá se achar, em abundância, o molusco murex do qual os fenícios extraíam a tinta púrpura), sendo conhecidas dos árabes por volta de 1067 (10). O étimo Canárias deverá provir de Canarii, povo das montanhas do Atlas estabelecido no arquipélago, já que este, como disse, é prolongamento daquela cordilheira.

Para lá das Canárias e em conformidade às informações legadas pelos antigos nautas, principalmente os fenícios e depois os árabes, o Infante D. Henrique possuía a certeza de aí estar a lendária Ilha da Bem-Aventurança ou A Ventura, como os portugueses da Idade Média a denominavam e que veio depois a ser identificada a Vera Cruz, a O’Brasis dos ogams irlandeses, topónimo que serviria para batizar a árvore Brasil que deu nome à actual Pátria Gémea de Portugal. Da casca e lenho da árvore desse nome, os portugueses obtinham tinta para a conservação das linhas e redes de pesca.

As cartas de navegação portuguesas dos séculos XIII a XV foram tão bem escondidas que hoje ninguém as acha, mas sabe-se que Pedro Vaz da Cunha, o “Bizagudo”, partindo da Mina no Golfo de Benim, dirigiu-se às terras do Brasil, em 1487; o mesmo fez, no ano seguinte, João Fernandes de Andrade, largando da Guiné. Dessas duas viagens pré-cabralinas só há conhecimento do rumo tomado, mas devem ter sido coroadas de êxito, visto que ambos os navegadores voltaram a Portugal e receberam mercês (11). Já em 1498, quando os navios de Vasco da Gama passaram os ilhéus atlânticos de S. Pedro e S. Paulo (29º22’ long. O; 0º56’ lat. N) a cerca de 1300 km da costa brasileira e 1500 km da costa da Guiné – o que representa uma larguíssima volta pelo interior do oceano para quem vai descobrir a Índia! – realizaram uma festa a bordo, por se acharem em frente de terra portuguesa (12). Só depois inflectiram o rumo para Oriente.

Dois anos depois, sendo Pedro Álvares Cabral “enviado também à Índia” (já descoberta por Gama), com 13 navios e 1200 homens, levou tudo preparado para assinalar um novo descobrimento (13), inclusive uma das naus (a naveta dos mantimentos) era tão velha que logo se percebeu não se destinar à Índia, pois não poderia arrostar o mar do Cabo das Tormentas, defronte à actual África do Sul. Durante a viagem para Oeste, não sofrera a menor tempestade e ancorou em frente de Vera Cruz, no dia 23 de Abril de 1500. Logo depois da «descoberta» oficial do Brasil, Cabral de lá mandou regressar ao Reino aquela velha naveta com as boas novas em missiva escrita por “Mestre” João endereçada a D. Manuel I, cujas palavras são flagrantes:

“… Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-mundi que tem Pero Vaz Bizagudo, e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-mundi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa-mundi antigo, e ali achará Vossa Alteza escrita também a palavra Mina.” (14)

Seria, portanto, uma carta geográfica anterior a 1471, pois já indicava a Mina africana descoberta nessa data; mesmo assim tão-só seria um traçado da costa, visto ainda não indicar se o Brasil era habitado. Obviamente, tratar-se-ia de um mapa executado em 1487 sobre aquele, quando da viagem para Oeste de Pedro, o “Bizagudo”, e da carta de “Mestre” João deduz-se claramente terem sido feitas outras viagens, nas quais se verificara ser o Brasil habitado.

Finalmente, tem-se o manuscrito do “Aquiles Lusitano”, Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, datado entre 1505 e 1508, que no capítulo segundo da primeira parte assim se dirige ao rei D. Manuel I falando do descobrimento do Brasil:

“Como no terceiro ano de Vosso Reinado do ano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e oitenta e oito, donde nos Vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do mar Oceano, onde é achada e navegada uma tam grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela e é grandemente povoada. Tanto se dilata sua grandeza e corre com muita longura, que de uma arte nem da outra não foi visto nem sabido o fim e cabo dela. É achado nela muito e fino brasil com outras muitas cousas de que os navios nestes Reinos vem grandemente povoados.” (15)

Duarte Pacheco Pereira (1460 - 1533)

Duarte Pacheco Pereira (1460 – 1533)

Com tanta e profícua informação é impossível conceber que o Infante D. Henrique de Sagres e os seus pares ignorassem as fontes que os antecederam nas rotas do mar, de que citei uma parte mínima, e se quase por norma a historiografia actual não fala delas não significa que acaso as desconheça.

Sendo Portugal pioneiro nas viagens transatlânticas e por outros mares também, possuído de conhecimentos exactos por tradição e herança Templária, e querendo manter o segredo dos mesmos ante a ambição doutros países e assim conservando o pioneirismo, cedo impôs a lei do sigilo, não só sobre as rotas marítimas como igualmente sobre o fabrico do sal, em que Portugal também foi pioneiro (16).

O sal foi durante muito tempo a principal moeda forte de troca: ele era o verdadeiro motor macro-económico do país, virado que estava, quase exclusivamente, para a exploração do mar, de cuja linfa extraía esse ouro marinho. A ciência salineira teve primazia em Portugal e era daquelas guardada a “sete chaves”, completamente interdita a estrangeiros, ciência esta aproveitada e desenvolvida já pela Ordem dos Templários, que também foi a maior empresa bancária da Idade Média entre os séculos XII-XIV. A capacidade técnica dos salineiros portugueses era considerável, pelo menos até finais de Seiscentos. D. Pedro II, por alvará régio de 15 de Fevereiro de 1695, determinou que nenhum oficial das marinhas passasse “a reino estranho a ensinar a fabricar marinhas nem a trabalhar na cultura do sal sob pena de morte e confiscação de bens”. Por outro alvará, do mesmo soberano, estabelecia-se que nenhum estrangeiro pudesse trabalhar nas marinhas, nem fosse ver nem aprender a fábrica delas, sob pena de ser publicamente açoitado e degredado por cinco anos para as galés.

O mesmo regime aplicou-se à mareação: proibição total de divulgar cartas, mapas, rotas e, inclusive, o fabrico e venda de caravelas portuguesas ao estrangeiro, proibição promanada do próprio Infante Henrique de Sagres – e legalizada por D. João II – coincidindo com a formação do monopólio do comércio da Guiné, pelo que se organizou um sistema de defesa da navegação e tráfico respectivos (17). De todos os testemunhos escritos da altura sobre a lei do sigilo ou do segredo, talvez o mais eloquente, e tão autorizado, seja o de Garcia de Resende, no capítulo XXV da sua Crónica de D. João II, aquando relata a fundação do castelo da Mina:

“E porque em todo o mar Oceano não há navios latinos, senão as caravelas de Portugal e do Algarve, el-Rei por ninguém ousar de ir àquelas partes fez crer a todos que da Mina não podiam tornar navios redondos por causa das correntes. E para isso toda a pedra, cal, telha, madeira, pregadura, ferramenta e mantimentos mandou tudo em urcas velhas para lá se desfazerem e dizerem que por caso das grandes correntes não puderam tornar; e assim se fez com muito segredo e grandes juramentos e houveram todos por tão certo que em vida del-Rei sempre pareceu que navios redondos não podiam vir de lá e com isto sempre teve a Mina mui guardada.”

Recorrendo ao velho estratagema dos templários, D. João II espalhou, através dos seus espiões, lendas e boatos falsos de maneira a afastar os países interessados do monopólio das riquezas que das terras além vinham. Nasceram assim as fábulas terríficas dos monstros marinhos e outras coisas mais, e que um navio que se afastasse demasiado da costa seria de imediato sorvido nas goelas insaciáveis do terrível Neptuno, sempre à espreita… O espantoso de tudo isso é que a maioria dos historiadores contemporâneos levou à letra essas fábulas de maneira a justificar a ignorância geral que antanho se tinha do mar. O rei mandou espalhar essas lendas proibitivas de modo a tornar inacessíveis aos navegadores estrangeiros as novas terras descobertas e, particularmente, o tráfico rico, monopolizado pela Coroa.

Também D. Manuel I, por alvará de 13 de Novembro de 1504, proibiu a elaboração de cartas de marear e de globos que abrangessem a parte do planeta para além do que já era do conhecimento geral, ou seja, o rio Manicongo, no Zaire. E também em ano incerto do seu reinado proibiu, por carta de ordenação, que pilotos, mestres e marinheiros portugueses servissem nações estrangeiras, sob pena de confiscação de bens e degredo para a ilha de Santa Helena (18), quando não o açoite e a morte, como D. João II aplicou não raras vezes, como naquele episódio de mandar perseguir e capturar um piloto e dois marinheiros portugueses que haviam fugido para Castela com o objectivo de revelarem o que sabiam. Capturados em terras de Castela, aos dois marinheiros foram logo cortadas as cabeças e ao piloto, levado vivo para Évora, na frente do rei foi esquartejado (19).

Realmente, a Escola de Sagres deteve o conhecimento universal dos oceanos até época tardia. A sua política de segredo praticamente atravessou toda a Dinastia de Avis. Durante largo tempo só os Mestres Gerais e os oficiais da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo mais chegados ao processo, conheciam com todo o rigor as cartas das rotas marítimas. Durante largo tempo nem os reis e nem os bispos sabiam mais do que lhes era comunicado, e só em instâncias excepcionais face à iminência de nova empresa. Todos sabiam que a Escola Náutica de Sagres (mas sita em Lagos, Algarve) sabia, mas nem todos sabiam o que a Escola de Sagres sabia.

Mais e para concluir: os capitães de armada iam comunicando gradualmente aos pilotos as rotas a seguir. Nunca as davam por inteiro, de uma só vez. A tripulação restante era mantida na maior das ignorâncias, à mercê do destino incógnito, restando-lhe rezar aos bons fados e assim tendo de confiar inteiramente no saber escondido do capitão. Depois, vinha o “milagre da descoberta”… e tudo fruto do “acaso e da sorte”, como considera sem mais delonga racional – exceptuando raros e honrosos investigadores – a historiografia contemporânea, assim se tornando, por carência do mesmo cognoscio racional, extemporânea.

Composição da nau portuguesa

O projecto de expansão de Portugal no Mundo não se deveu unicamente ao propósito de evangelização das terras aonde chegou e se impôs a soberania portuguesa. Creio que isto é óbvio. Há a contar, ainda, com os factores geopolítico, acarretando o militar, e sócio-económico, imprescindíveis à difusão da Diáspora e consequente formação do Império Lusitano nas várias partes da Terra. O projecto Templário de que a Ordem de Cristo era difusora, implicava o exercício dos dois Poderes: o Espiritual e o Temporal.

Tais Poderes eram assim aplicados em todas as terras virgens, despovoadas, ou não, onde Portugal chegou ao longo do Período das Descobertas, de maneira a firmar a sua presença e direito legal sobre as mesmas, só depois disso rompendo a lei do sigilo face às outras potências europeias:

AUTORIDADE ESPIRITUAL

– Presença missionária, ao início exclusivamente franciscana, ao serviço da Ordem de Cristo.

– Fundação de dioceses matrizes de redes paroquiais.

– Manutenção de excelentes relações sociais e religiosas com os povos das terras aonde chegassem:

– Concórdia e respeito mútuos.

– Difusão do espírito fraternal.

– Reconhecimento de um Deus Único: – Diáspora Espiritual.

PODER TEMPORAL

– Presença contratada de mesteres e serventes, mão d’obra especializada, ao serviço da Ordem de Cristo.

– Presença emigratória, destinada a povoamento, de jornaleiros (trabalhadores à jorna), assoldadados rurais que antes não tendo património próprio, tinham a oportunidade de lavrar terra sua e apascentar gado seu.

– Contingência militar que deveria ser simultaneamente política e diplomática:

– Defesa do seu património,

– Respeitando o património alheio.

– Intercâmbio político-diplomático e comercial para sobrevalorização da economia: Diáspora Temporal.

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IMPÉRIO PORTUGUÊS NO MUNDO

Essas são as linhas gerais do processo da Diáspora. A partir delas podem desenvolver-se outras múltiplas, inclusive as que levaram a usos e abusos colonialistas, até xenófobos de alguns, mas sendo excepções mínimas se atender-se à regra geral de concórdia e respeito de Portugal para com os outros povos (convém não confundir partes com o todo), e certamente por isso esses mesmos povos ainda hoje o procuram, o que não aconteceu nem acontece com outras potências colonialistas da Europa. A tentativa de desfigurar a História dos Descobrimentos por parte de alguns historiadores contemporâneos eivados de tendências políticas, assim tendendo a politizar os factos concretos da História, peca e falha nisto mesmo: o tendencioso pessoal pretendendo converter factos históricos aos limites de políticas particulares, desenquadradas das épocas em que aqueles se deram e dos momentos que eram verdadeiramente universais por implicarem a toda a Terra, logo implicando, na religião e na política, ecumenismo ou universalismo. Se assim não tivesse sido, como é que um pequeno país, em Quatrocentos com cerca de um milhão de habitantes, poderia ter se imposto no Mundo?!

Para perceber melhor como se começou a formar, no esconso da política internacional, o projecto de instauração do Império Português no Mundo, ter-se-á de recuar ao ano de 1497 em que se deram três acontecimentos importantes para Portugal, reinando D. Afonso V. O primeiro foi a ratificação do Tratado de Amizade de Saint-Jean de Luz, realizado entre os Reis Católicos de Castela, Fernando e Isabel, e Luís XI de França, representando o termo das pretensões portuguesas à coroa castelhana. O segundo foi o Tratado das Terçarias de Moura, base preliminar do tratado de paz luso-castelhano, assinado na vila de Alcáçovas. Por fim o terceiro, em 4 de Setembro, foi a assinatura do Tratado de Alcáçovas, que pôs fim à Guerra da Sucessão de Castela. D. Afonso V reconheceu aos Reis Católicos a realeza e a independência de Castela e abandonou definitivamente a pretensão sobre o antigo domínio português das Canárias. Em contrapartida, esse Tratado atribui a Portugal o senhorio da Guiné, Madeira, Açores, Cabo Verde e a conquista do reino africano de Fez, e à Espanha o senhorio das Canárias e a conquista do reino muçulmano de Granada, no Sul da Península Ibérica. O paralelo das Canárias passou então a ser a linha divisória da expansão portuguesa e castelhana (Norte para Espanha, com excepção dos Açores e da Madeira, e Sul para Portugal).

Logo a seguir, desde 1480 a 1485, são elaborados secretamente pela Escola Náutica de Sagres os primeiros guias ou manuais de navegação por latitudes, contendo o regimento do Norte e o regimento da declinação solar com as respectivas tábuas. Ainda em 1480, foi apresado um navio castelhano surpreendido na Mina a traficar ilicitamente, e logo D. Afonso V ordenou que fossem lançadas ao mar as tripulações de navios estrangeiros encontrados ao sul das Canárias. Isto não se explica só pela política de corso praticada em toda a Europa mas, principalmente, por Portugal querer esconder da sua rival próxima, Castela, o grande tesouro que a Sul se achava: a vasta região do Brasil.

Para evitar a deflagração de nova guerra com Portugal, em 6 de Março de 1480 efectuou-se a ratificação espanhola do Tratado de Alcáçovas em Toledo, e só meses depois, em 8 de Setembro, fez-se a ratificação portuguesa, fazendo esperar as cortes de Castela, sinal claro de que o poderio português era já dominante.

Reinando D. João II, o Tratado de Alcáçovas foi seriamente perturbado pela chegada de Cristóvão Colombo, ao serviço dos Reis Católicos, às Antilhas. O monarca português, que antes e depois (1491 e 1493) da descoberta da actual América do Norte se entrevistara com o grande navegador em cujo projecto não acreditara, pelo que foi cedido pela Escola de Sagres a Castela, vê seriamente ameaçada a soberania portuguesa dos oceanos e ameaça com a guerra. Os Reis Católicos apelam à intervenção do Papa Alexandre VI, em Roma. Este promulga duas bulas sucessivas em 1493, marcando uma nova linha divisória para a partilha do mundo não cristão, mas inclinando a balança para o lado de Castela, usando uma linguagem muito pouco definida. A reacção dos Reis Católicos foi nesse mesmo ano promoverem a segunda viagem de Cristóvão Colombo à América.

As coisas iam de mal a pior. Corria-se o risco sério de serem abandonados todos os tratados de paz e soberania mútuas, territorial e marítima, anteriores. Entra em acção a diplomacia portuguesa tentando desvalorizar uma arbitragem papal que a Coroa portuguesa não pedira. De conferência em conferência, chega-se ao ano de 1494: a 7 de Junho, após longas e complexas negociações, Portugal e Espanha (Castela) chegam a acordo no Tratado de Tordesilhas, nome de pequena cidade espanhola onde foi concluído esse novo arranjo.

Rui de Pina, cronista da época também ele interventor no processo, informa que os representantes de D. João II enviados a Espanha foram: como chefe Rui de Sousa, senhor de Sagres e Beringel (Berlenga, incluída no primitivo espaço fenício de Phoenix, isto é, Peniche), capitão e navegador de extremado valor e o mais experimentado dos diplomatas portugueses, João de Sousa, seu filho, Aires de Almada e Estevão Vaz, escrivão – “pessoas do reino de bom saber, grande confiança e muita autoridade” (20). A competência e o prestígio davam, na realidade, um grande realce à embaixada, a qual foi acompanhada, como era costume para missões mais solenes, por uma comitiva de fidalgos, entre os quais D. Garcia de Albuquerque, filho do conde de Penamacor, e Pêro Moniz. Assistiram igualmente aos embaixadores e assinaram o tratado, como testemunhas, João Soares de Sequeira, Rui Leme (relacionado aos Lem da cidade e catedral de Bruges, os quais viriam a ter papel determinante no começo do Brasil Ibero-Ameríndio) e Duarte Pacheco Pereira, o navegador das rotas ocidentais do Atlântico, avisado e prudente conselheiro da embaixada portuguesa (21).

Do lado dos Reis Católicos assinaram o tratado, como seus representantes: D. Anrique Anriquez, mordomo-mor; D. Gueterre de Cárdenas, comendador-mor de Leão e contador-mor; e o doutor Rodrigo Maldonado de Talavera, todos do conselho real, com muita experiência teórica de marinhagem e nenhuma prática de navegação em alto mar, logo desconhecendo o que nele poderia haver no tocante a terras firmes e amplas, coisa dominada na teoria e prática do saber velado dos portugueses, desta maneira em vantagem avassaladora sobre os outros, “trunfo” que de maneira alguma estariam interessados em perder a favor do adversário. Ainda que se ignore os títulos recomendados aos dois primeiros, sabe-se que o último foi um dos membros da célebre Junta de Salamanca, composta de “sábios, letrados y marineros”, que examinou, cerca de 1487, o projecto de Colombo de descobrir a “Índia do Ocidente”. Os Reis Católicos também haviam convocado para o efeito “muchas personas, que sabian de cosmografia y astrologia, puesto que habia harto pocos entonces en aquellos reynos, e las personas del mar que se pudieron haber”, segundo Las Casas em sua Historia de las Indias, acrescentando em tom de confissão no capítulo LXXXVII: “Y alli envió el-Rey de Portugal las suyas, que debian tener, a lo que yo juzgué, más experiência de aquellas artes, ao menos de las cosas del mar que las nuestras” (22).

Com o Tratado de Tordesilhas criou-se uma linha divisória de pólo a pólo que dividia o Mundo em duas partes aparentemente iguais: a parte Norte ficaria para Espanha e a parte Sul caberia a Portugal. Para Espanha, a fronteira seria as Canárias; para Portugal, o arquipélago de Cabo Verde, definitivamente integrado nos bens da Coroa em 1495. Para que esse convénio se firmasse, os Reis Católicos tiveram de ceder à imposição do Rei português: que a linha divisória ficaria 370 léguas além das ilhas de Cabo Verde e a favor de Portugal (o que açambarcava o Brasil), e não as 270 da bula pontifícia de 1493, assim anulada. Dessa maneira Portugal ficou senhor do Brasil e de boa parte do território sul-americano que conhecia de há muito, ao contrário de Espanha, eterna dependente das costas e navegações portuguesas. Por isso disse que o Mundo foi dividido aparentemente em duas partes iguais por uma linha limite… proposta pela embaixada de D. João II.

Que Portugal quis antecipar em Tordesilhas a posse legal sobre o Brasil, é facto facilmente apercebível na redacção do próprio tratado: os navios continuariam dali (Canárias) o seu caminho para as ilhas de Cabo Verde, donde “tomariam sua derrota (descida) direita ao Poente (Ocidente) até as ditas 370 léguas”, e se “for caso se topar em alguma ilha ou terra firme, que ao começo de tal ilha ou terra firme se faça algum sinal ou torre e que em direito do tal sinal ou torre se continuem daí em diante outros sinais pela tal ilha ou terra em direito da dita raia, os quais partam o que a cada uma das partes pertencer dela. E que os súbditos das partes não sejam ousados uns de passar à parte dos outros” (23).

Quanto ao restante território do Brasil que pertencia à Coroa espanhola e que acabou na posse dos portugueses, a saga dessa transação é narrada pela professor Agostinho da Silva filosofando entre o sarcasmo e a sátira mas com a certeza do que diz (24):

“É curiosíssimo ver hoje tantos portugueses assustados com a Espanha e os espanhóis tão seguros de si. Quando efectivamente os portugueses puderem agir à vontade, como foi na América Latina (chamada latina, provavelmente pelos franceses, porque ela, o que é, é hispânica; mas os nossos amigos procuram sempre chamar a qualquer coisa «latina» para Paris ter uma voz) aí quem procedeu em grande, quem triunfou plenamente, foi o português: em primeiro lugar porque todo o Brasil ou quase todo o Brasil que existe hoje, era legalmente espanhol, mas como, coitados dos espanhóis, continuavam na ignorância da matemática e os portugueses além de a saberem muito bem tinham consigo uma capacidade de manha, a que eu chamarei respeitosamente diplomacia, bem como outras grandes habilidades, foram avançando no terreno e construindo, com um gosto enorme, mapas falsos em cima de mapas falsos, sempre com muito cuidado de os ter exactos ao norte do Amazonas e ao sul do Prata, porque podia algum espanhol não ignorante fazer também as suas observações e verificar se o mapa estava errado ou não. Durante 200 anos houve mapas falsos, sabendo-se perfeitamente que para fazer alguma coisa falsa é preciso ter a noção do que é verdadeiro.

“Mas nessa América foram os portugueses que ganharam a partida e com uma tal audácia, uma tal segurança da sua ciência e da sua capacidade de falsear as coisas, que propuseram ao rei de Espanha que era tempo, por causa dos casamentos reais, das suas famílias estarem unidas na empresa de se conseguir dominar, civilizar, como se dizia, toda aquela América, a tal América Latina, a América portuguesa e a América espanhola. Dizia o rei que, efectivamente, até ali tinha havido sempre mapas pouco correctos: eram uns mapas incorretíssimos, todos puxados para Cabo Verde de maneira que as 370 léguas caíssem bem dentro do Brasil, bem junto dos Andes; mas que era tempo de terminar isso e que então mandavam ali, pela primeira vez, ao rei, um mapa verdadeiro, exacto; não diziam que os outros eram falsos: os outros eram apenas mapas que, em virtude da ciência pouco exacta, não eram também exactos; agora não, agora ia um mapa exacto e, em cima desse mapa exacto, o que propunham ao rei era uma troca: davam mais ou menos o que é hoje o Uruguai (ali se fazia um grande contrabando porque grande parte da prata que vinha do Potosi entrava nos cofres de Portugal no Brasil, por meio de contrabando; há no Brasil uma quantidade enorme de exemplares de moeda do Carcop III recarimbadas, com o cunho português, circulando como moeda portuguesa) em troca de territórios para Oeste, que realmente convinham também aos portugueses, em virtude de minas que já exploravam e de prelazias que aí tinham montado. O rei de Espanha olhou o mapa; o mapa era tentador para ele. Ofereciam-lhe o Uruguai em troca daquele território de Oeste que ele mal conhecia, assinou o Tratado. O território que os portugueses cediam, era, como disse, o território do Uruguai, enorme no tal mapa, 3 ou 4 vezes o Uruguai de hoje; e o que é que pediam em troca? Pediam apenas Mato Grosso, uma tirinha de terra no mapa, Mato Grosso que é do tamanho de Angola; pediam também Goiás, uma coisa bem pequenina no mapa, quando Goiás tem de Norte a Sul mais de 2000 km de extensão. O rei de Espanha assinou o Tratado e assim ficou constituído o Brasil. O Brasil é talvez a maior proeza mundial de ligação da ciência mais exacta que era possível conhecer no tempo com a maior capacidade de enganar.”

É uma maneira simples e directa de expor as coisas, certa mas ainda assim não tão simples no palco das acções imediatas como narra o filósofo amigo. Seja como for, Portugal ficara com a “parte de leão” na “partilha” do Mundo em Tordesilhas, em 1494. Como se não bastasse, era a Escola de Sagres quem formava e dirigia a marinha espanhola. Espanha fora “vítima” da diplomacia portuguesa de Mare Clausum abrangida pela política de silêncio. Estavam abertas as vias para se chegar oficialmente à Índia, às Antilhas e ao Brasil. Portugal acabara de passar a potência máxima do mundo ocidental e assim reconhecido em todas as partes do Mundo aonde chegou – iniciara-se a Gesta Dei per Portucalenses.

As demandas marítimas da Índia e do Brasil pelos almirantes portugueses, tornou Portugal soberano dos oceanos unindo aos dois hemisférios do Globo, à Terra inteira, através da Mareação que é Arte de Espírito Santo e assim, sob a égide de Mariz, a todo Mar tomámos – Maris Nostrum.

Como disse e procurei demonstrar até aqui, os navegadores portugueses já sabiam com bastante antecedência das rotas marítimas e onde elas levavam, antes de serem tornadas públicas, por conhecimentos herdados da tradição Templária. Que homens e de que Ordens os herdaram, de maneira a tornar a Diáspora completa? Segundo o ilustre professor António Castaño Ferreira (numa das suas aulas teosóficas em 16.06.1952), três Ordens Iniciáticas concorreram para a difusão da Sabedoria e da Mística do Médio Oriente ao Extremo Ocidente:

1.ª – ORDEM DO SANTO GRAAL

(Do Médio Oriente à Europa)

– Acção de São Bernardo de Claraval –

2.ª – ORDEM DA ROSA+CRUZ

(Da Europa ao Norte América)

– Acção de Cristóvão Colombo –

3.ª – ORDEM DE MARIZ

(Da Europa ao Sul América)

– Acção de Pedro Álvares Cabral –

Devo afirmar agora que o objectivo de toda a Fraternidade Esotérica verdadeira sempre foi e sempre será um só: o de levar o ser humano a se conscientizar e a viver a sua realidade interna, os seus verdadeiros e, em última análise, únicos objectivos na vida. O ser humano deverá se adaptar às suas características originais, essenciais e primordiais. Não apenas a uma vida vegetativa mas a uma vida plena, universal, em que a vida como energia se acresce, transforma em mais vida, energia e consciência (25).

Como a evolução individual completa-se na colectiva e como tudo está em movimento avante, tal correlaciona-se à Marcha das Civilizações através dos tradicionais Postos Representativos da Evolução do Género Humano os quais, por suas posições geográficas, representam as duas linhas evolucionais:

De Oriente para Ocidente: Austrália, Índia, Egipto e Portugal.

De Norte para Sul: América do Norte, México, Peru e Brasil.

O propósito essencial, hoje em dia, está em coligar o Ocidente ao Sul, Sudoeste que é a rota da realização integral da Mónada Ibero-Ameríndia. O próprio Almada Negreiros, quiçá inspirado por Fernando Pessoa, escreveu sobre isso:

“Se existe um pilar-mestre em torno do qual volteja a orientação de Ocidente-Sul, ele tem sido, mais ou menos exteriorizadamente, a teimosia de se afirmar que se Portugal simbolizou ou cumpriu (talvez ainda hoje o faça) a ânsia, tantas vezes em busca de condições mais condignas, o Brasil não menos simboliza e cumpre a Missão de absorver e integrar toda a diversidade existente no Mundo, que aí adquire, por força da sua poderosa gravidade continental, uma dinâmica de integração completamente insuspeitada, a caminho de uma Raça-Síntese que consiga erguer uma Civilização mais perfeita e humana do que aquelas que conhecemos até hoje.” (26)

Por isso o caríssimo professor António Telmo, quando leccionava na Universidade de Brasília, ter chamado ao Brasil o “Novo Oriente”, a Nova Ásia ou Assiah, que é dizer o Novo Mundo, e desde logo o Novo Grande Ocidente como prolongamento lusófono ou do Verbo Criador de Portugal.

Reflectido no formato do astrolábio náutico, o Quadrante Planetário, absorvendo os 7+1 quadrantes geográficos, prefigura um círculo com duas hastes cruzadas no seu interior (27) .O círculo é a expressão planisférica do próprio Globo Terrestre, a haste horizontal da cruz representa o Equador, e a haste vertical um dos inúmeros Meridianos que o cruzam, no caso, o quarto, estando de acordo com o presente 4.º Sistema de Evolução Universal, a caminho do 5.º… representado no Brasil. O Quadrante Terrestre assim se apresenta, representado o Brasil, como “8.ª coisa” a realizar, no próprio círculo planetário, assim identificado à próxima Idade do Mundo, a Quinta, a do V Império Universal cujo Imperador será o divino Emmanuel detentor da Quinta Essência Divina:

Assim se formou a primacial cruz direcional dos chamados quatro pontos cardiais – Norte, Sul, Este, Oeste. Estabelecido esse esquema, foram procurados processos mais fáceis e expeditos para a sua determinação em qualquer circunstância. Nem sempre o Sol ou a Lua, por se acharem ocultos ou invisíveis em razão das neblinas ou das nuvens, podiam servir de guias. Houve assim que encontrar no céu a Estrela Polar como indicadora da direcção Norte, e o Cruzeiro do Sul como indicador desse outro ponto cardial. Vieram depois outras direcções intermediárias mas também úteis, e com tudo isso nasceu a bússola, “filha” do quadrante que, com o sextante e principalmente a balestilha e o astrolábio, estiveram na base das rotas oceânicas da Gesta Henriquina, cuja meta suprema e como ficou provada, era unir, espiritual e consanguineamente, a Humanidade num todo, servir já então de bojo à futura Era de Aquarius, a da Concórdia Universal que se desenhava e pressentia no horizonte do Homem.

Astrolábio náutico, peça do século XVI. Com ele era permitido calcular a altura de um astro sobre o horizonte e assim determinar a latitude do lugar onde era feita a observação.

Astrolábio náutico, peça do século XVI. Com ele era permitido calcular a altura de um astro sobre o horizonte e assim determinar a latitude do lugar onde era feita a observação.

Já o gnómon do relógio solar, como se vê no Promontório de Sagres, em Portugal, direccionado 17º sudoeste a Cabo Verde e a Porto Seguro, no Brasil, portanto ao Extremo Ocidente do Globo para onde o Infante D. Henrique dirigiu a sua atenção da demanda da “Terra da Ventura” que ele bem sabia existir por conhecimentos herdados secretamente dos navegadores anteriores, alguns da Proto-História que pisaram o Brasil, dizia, o gnómon no sentido Sudoeste marca a marcha precessional do Sol no planisfério terrestre, assim se dispondo no Quadrante quadripartido pelos 7+1 Centros de Vida e de Consciência do Globo:

Neste contexto, pode observar-se a marcha precessional do Mónada Humana descer de Norte para Sul, ao par da mesma marcha cíclica de Este para Oeste, cujo pomo da Concórdia Universal, o ponto central de encontro das coordenadas apontadas por Surya, o Sol mesmo, será o Brasil, tradicional berçário da Raça Dourada, não tanto pela epiderme mas muito mais pelo Espírito que a iluminará em conformidade ao seu tempo, o da Satya-Yuga ou Idade de Ouro (Sul), cada vez mais sobressaindo no palco antropológico do Mundo quanto maior for a acção catalisadora dos Lusos para aí dirigindo o seu foco de atenção (Oeste).

A vulgarização dos sentidos dos pontos cardiais tomou tal feição que, não raro, significa não uma direcção geográfica mas sim uma determinação psicomental do comportamento humano. Assim se diz que alguém se desorientou ao praticar determinado acto, ou que a sua vida se orienta num certo sentido. Por outro lado, quem é que nunca se desnorteou procurando depois nortear os seus passos na direcção certa?…

Coordenadas cíclicas, coordenadas geográficas, coordenadas comportamentais levando a Humanidade a unir-se num todo, arredada de vez do erro e da superstição, nas quais o nacionalismo patrioteiro, não raro, pouco ou mesmo nada tem a ver com o verdadeiro Patriotismo, assente na dinâmica permanente da Evolução do Tudo e do Todo. Sim, amor à pátria terrena por Amor à Pátria espiritual, é bem uma coisa; pretender essa pátria terrena soberana político-psíquica sobre as outras nações e paradoxalmente apartada delas, atitude próprio de senhorio ditatorial, é bem outra coisa…

Que tenham, pois, um e todos a coragem de se irmanar e assumir o sacrossanto Trabalho de Reconstrução do Homem, de lutar com as Armas da Razão, do Amor e da Justiça pela Sinarquia Universal, a mesma Concórdia Global, rejeitando de vez a anarquia deste Interregno Cíclico em todas as suas formas caóticas, para que o passado dia 28 de Setembro de 2005 tenha realmente sido o marco do início da Nova Idade de Ouro, ou do tão falado e tão pouco entendido Quinto Império, esse do Espírito Santo cujo Corpo é a Humanidade inteira, cujo desejo último e supremo é que se una fraternalmente num abraço deveras universal.

É o próprio Fernando Pessoa quem o diz no seu Manifesto sobre o Atlantismo, presumivelmente de 1913, em que trata de O Império Espiritual (28):

“Todo o Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de pé, um Cadáver mandando. Só pode realizar utilmente o Império Espiritual a nação que for pequena, e em quem, portanto, nenhuma tentativa de absorção territorial pode nascer, com o crescimento do ideal nacional, vindo por fim a desvirtuar e desviar do seu destino espiritual o original imperialismo psíquico. Criando uma Civilização Espiritual própria, subjugaremos todos os povos; porque contra as artes e forças do Espírito não há resistência possível, sobretudo quando elas sejam bem organizadas, fortificadas por almas de generais do Espírito. Criemos um Imperialismo andrógino, reunidor das qualidades masculinas e femininas: Imperialismo que seja cheio de todas as subtilezas do domínio feminino e de todas as forças e estruturações do domínio masculino. Realizemos Apolo espiritualmente. Esta é a primeira Nau que parte para as Índias Espirituais, buscando-lhes o Caminho Marítimo através dos nevoeiros da alma, que os desvios, erros e atrasos da actual civilização lhe ergueram!”

Tamanha Diáspora de roteiro certo Sudoeste, primeiro conclamada e depois cumprida pelo Infante Henrique de Sagres, como projectista primaz da mesma que os seus paradigmas fiéis concluíram dando forma ao mapa geoestratégico do Ideal Parúsico por Maris Nostrum, devo reiterar não ter sido obra do acaso em momento algum, tanto que este Insigne Luso I. ou J.H.S. era afim às Ciências Herméticas de que já dei notícia na minha História Oculta de Portugal (Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo), dada à estampa pela Editora Madras, cujas estrelas do seu mapa astral apontavam-lhe A Ventura do Futuro com “Marte em Aquário”, portanto, indicando que a sua Obra só seria plenamente entendida pela Civilização na então ainda distante Era de Aquarius, já hoje despontando do horizonte consciencial da Raça Luso-Brasileira, por outra, Ibero-Ameríndia.

O cronista do Infante D. Henrique de Borgonha, Gomes Eanes de Zurara (29), homem douto dado às ciências da Kaballah e da Astrologia de que deixou provas claras dispersas pelas suas várias crónicas impressas, possivelmente sendo de ascendência cristã-nova, possível conhecedor do ano, mês, dia e hora de nascimento do Infante, impossível hoje em dia por só se conhecer o lugar e o ano (Porto, 1394) por informação do mesmo cronista, ele empenha-se na sua Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné ao levantamento do horóscopo de D. Henrique, o Navegador: “Porém vos quero aqui escrever como ainda por pungimento de natural influência, este honrado Príncipe se inclinava a estas coisas (esotéricas). E isto é porque o seu ascendente foi Áries, que é casa de Mars, e é exaltação do Sol. E porquanto o dito Mars foi em Aquário, que é casa de Saturno, e em casa de Esperança, significou que este Senhor se trabalhasse de conquistas altas e fortes, especialmente de buscar as coisas que eram cobertas aos outros homens, e secretas, segundo a qualidade de Saturno, em cuja casa ele é. E por ser acompanhado do Sol, como disse, e o Sol ser em casa de Júpiter, significou todos os seus tratos e conquistas serem lealmente feitos, e a prazer de seu Rei e Senhor.”

Ifante D. Henrique em iluminura na "Crónica dos Feitos do Descobrimento e Conquista da Guiné", de Gomes Eanes de Zurara. Folha 5 verso, códice da Biblioteca Nacional de Paris.

Infante D. Henrique em iluminura na “Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné”, de Gomes Eanes de Zurara. Folha 5 verso, códice da Biblioteca Nacional de Paris.

Portanto, segundo o cronista Zurara o Infante Henrique de Sagres nascera sob o signo de Aquário – Saturno, estivera sob o auspício de Sol – Júpiter e tivera por ascendente Carneiro – Marte em Aquário, no seu mapa natal. Este horóscopo veio a ser motivo de pintural parietal no lado direito da escadaria de acesso ao andar superior do Palácio-Hotel do Buçaco, vizinho da vila de Luso.

Horóscopo do Infante Henrique de Sagres

Horóscopo do Infante Henrique de Sagres

Marte ou Makon (heb.), correspondente ao respectivo “Céu” da classificação Ptolomaica, esse em Aquário, sendo planeta do signo de Áries, o Carneiro associado ao Nisan hebraico, correspondendo à festa móvel da Pesah ou Páscoa, exactamente como “passagem” de um estado a outro, implicando ser maior ou mais lato para a “coisa” envolvida (seja consciencial, geográfica, pessoal, colectiva, etc.), corresponde no Hemisfério Norte à elevação do Sol, a passagem do frio ao calor, da treva à luz, o que não deixa de se relacionar ao simbolismo sideral dos doze argonautas (signos) da nau “Argos” (Zodíaco) navegando na demanda do Velocino de Ouro (Sol), tradição esta também evocada pelo carneiro servindo de montaria à divindade hindu Kuvera, guardiã dos tesouros do seio da Terra. Mas a demanda do Velocino de Ouro é sobretudo, por ele se associar à Copa Sagrada (o Saint Vaisel ou o mesmo Santo Graal), a de um tesouro espiritual, ou seja, o da Sabedoria Divina, onde se torna ordálio real. Ora, na China antiga o carneiro participava dos ordálios judiciários, nos quais desempenhava o mesmo papel do unicórnio. Na mesma época e na mesma área cultural, o carneiro também é, por vezes, a montaria de um Imortal (Ko Yeou), e na Índia é a metamorfose do próprio Imortal no Fogo Sacrificial, Agni, o que bem se associa ao Cordeiro Sacrificial hebraico-latino da PesahAgnus Dei.

Na Gália havia numerosos cães de lareira (peça utilizada para apoiar a lenha no lume, para evitar que role para fora) com cabeças de carneiro, em terracota e em pedra, o que se relaciona com o simbolismo ígneo do animal e a fecundidade familiar.

Depois do Velocino (ou Tosão: velo de carneiro), é o chifre do animal de ouro (afinidade solar) que fica carregado de um valor simbólico, fonte de inumeráveis costumes, tradições e imagens derivadas do mesmo simbolismo original, sendo que, de todos, o mais forte é sem dúvida a cornucópia, a taça da abundância, pelo que evoca a esta tanto no material como no espiritual, aqui designando a Iniciação. Certamente Iniciação Real, Guerreira ou Kshatriya, também chamada de Iniciação Senhorial ou Mariana, por todo o Cavaleiro eleger por Orago a Santa Maria na hora da armação e no momento grave do combate a Ela se encomiar. A Iniciação Mariana como ideal e execução hermética liga-se por inteiro a Maris, ao Mar ou a Via Marítima (Húmida ou Andrógina) da Alquimia, Arte Real de Espírito Santo, na época do Infante de Sagres assumida pela própria Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo de que ele era o Administrador e 8.º Mestre Geral.  Por certo, também, expressando a abundância material, indo-a buscar na “Ilha” Brasil, para isso ordenando aos seus Cavaleiros do Mar, nóveis Argonautas, o navegarem para Ocidenteas finis Terrae.

Cabalisticamente, mas interpretando essa velhinha e esgotada tradição esotérica judaico-cristã à luz da Teurgia Aghartina, se assim me é dado exprimir sem escapar à verdade, posto no tempo em questão e de acordo com a mentalidade vigente a Encoberta Ordem de Mariz serviu-se tanto da Gnose, como da Cabala e da Alquimia para expressar os mais transcendentes preceitos dessa mesma Teurgia, Marte associa-se à sephiroth Geburah, “Força”, por sua vez associada ao estado de Consciência Budhi Taijasi, isto é, o Intuicional (Christusiluminado pelo Espiritual (Paeternus). Essa condição consciencial é assumida cosmogonicamente pelas “Serpentes de Fogo” (Sarafs), os Serafins portando em seu imo a Purificação, a Iluminação e o Amor. De Salém, a Shamballah, à Face da Terra, por eles se manifesta Deus Espírito Santo conferindo o Amor ao seu Eleito e à Igreja de sua Eleição, a dos Fiéis do Amor, antes, a da lustríssima Mãe Santíssima como Virgo Mariz, por decreto do Ínclito Infante do Mar trasladada do extremo-ocidental da Europa ao extremo-ocidental do Mundo – o Brasil – motivo patente na imagem da Virgem no altar maior da igreja de São Sebastião de Lagos, Algarve, que veio milagrosamente de Vera Cruz para aí, próxima à Confraria do Espírito Santo apadrinhada pelo mesmo Infante.

Também nisso entra a influência benfazeja do Sol do Solo ou Seio da Terra, lugar ascendente do Infante D. Henrique daí descendente: Saraf, Seraf, Serafim, Serapis… a 7.ª Linha Teúrgica do Novus Phalux a Luzir, sim, o Cruzeiro Mágico de Cordo Mariz sob a égide de Surya, o Sol mesmo. Remata a tradição hermética que se está na presença de um vocábulo cujas sonoridades são em vermelho e ouro, de afinidades astrais a Marte e o Sol.

Seguindo a antiga classificação Ptolomaica, o alquimista português Anselmo Caetano Munhoz de Abreu coloca Marte como o quinto dos sete planetas tradicionais e assim o classifica no seu Oráculo Profético: “(…) subindo mais alto a procurar a protecção de Marte, que é o Planeta Quinto, e tão ilustrado de luzes, que tem a luz do Sol por centro. Como Marte é o Quinto entre os Planetas, e também o Deus da Guerra entre os Indigentes, posto que também seja Infortuna menor, por estes mesmos três motivos lhe consagro este Oráculo Profético, em que alegoricamente discorro sobre o Quinto Império do Mundo; porque o Império Quinto pertence ao Quinto Planeta, a conquista do Mundo ao Deus Marte, e à Infortuna menor a maior Fortuna. Lisboa Ocidental, 31 de Julho de 1733.”

Também as lâminas divinatórias do tipo português (que no século XIX passaram a ser impressas na Bélgica e na Alemanha, já alteradas), vulgo “cartas do dragão”, apontam a influência oculta de Marte. Com efeito, nas ditas cartas ele aparece sobressaindo de um “graal” na forma de um dragão carregando uma espada, símbolo esotérico tanto de Marte como de São Jorge ou Akdorge – segundo a Tradição Iniciática, o futuro Rei do Mundo portador do Santo Graal. Isso além de designar tanto a Linha Serapis como representar emblematicamente a cidade de Coimbra, antiga Sede Externa da Soberana Ordem de Mariz. A esse baralho genuinamente português, poderei com justeza o batizar de Tarot Lusitano. A sua criação inspirou-se naquele outro Tarot Marselhês que os ciganos – esse “judeus errantes” sem Pátria certa e sem Norte definido… – importaram para a Península Ibérica e que já em 1420 circulava nas rotas de peregrinação a Santiago de Compostela, pois que em 1490, reinando D. João II, a sua difusão era tamanha que o monarca proibiu severamente o seu uso (30).

Inspirado nesse baralho cigano é que Garcia de Resende (1470-1536), sob encomenda de D. Manuel I, criou o tipo português de baralho ou as 48 “cartas do dragão”, notícia inserta no seu Cancioneiro Geral (31), divididas em dois grupos de 24 Damas ou de Louvor, e de 24 Cavaleiros ou de Deslouvor.

Apesar da aparência da sua finalidade imediata lúdica como inocente jogo de salão que D. Manuel I terá dedicado a uma sua pretensa concubina, D. Joana de Mendonça, a verdade vai muito além disso e é muito mais dignificante e séria. O primeiro indicativo está no próprio Dragão dos Lusos atravessado pela espada e saindo da taça, de que já falei. O segundo indicativo está no Louvor ou Vitória assinalada na Dama, o que dá ao baralho característica feminina, matricial, bem conforme o tempo do Rei Venturoso – o de Maris Nostrum sob a égide apologética de Santa Maria. O terceiro indicativo é o valor 24, logo apocalíptico por indicar os 24 Anciãos do Apocalipse acompanhados das suas contrapartes femininas, ou almas augures, as do vaticínio da boa ou má sorte que o Destino reserva. O quarto indicativo será o valor 48, acrescido de mais 1 como o próprio jogador(a), indo dar 49, este o número cabalístico ou canónico dos Adeptos Independentes da Grande Loja Branca ou os Apóstolos da Igreja de Melkitsedek, 7 para cada Raio de Luz, logo, 7X7 = 49.

Finalmente, segundo um texto restrito datado de 1937, cuja escritura vela o ouro pressentido na sua linguagem críptica, o Deus Akbel em Nome do Eterno pôs o Carneiro a falar, e este assim baliu ou falou:

“Com ou sem igual sacrifício, meu Pai limitou-se, separou-se de Si mesmo… a fim de que o Universo existisse. E desde então, eu comecei a ser “sacrificado” com Ele!

Tenho a fonte do conhecimento do Bem e do Mal. Ordeno e meu Verbo se encarna. Ponho em movimento a Acção e logo aparece o KARMA. Eu sou, ao mesmo tempo, o Pai e o Filho, por isso que faço mover a Grande Roda da Vida! Chakravarti!

Meus cornos involutivos ocultam uma serpente de fogo, o aguilhão da Vida e da Morte.

Procedo de Brahmã! Eu sou o Senhor, o Deus do Exército das Forças: AKDORGE! RAJAS e CHIT estão comigo. Irascível, não tenho repouso, mas a Fé se acha comigo.

Não seria conveniente que eu estivesse só… e assim, procurei o Touro. Marte e Vénus serão meus Pais até ao Grande Dia do Sede Connosco, quando meu Pai for MERCÚRIO.

Mas o Dia finalmente raiou e continuará raiando por mais SETE ETERNIDADES.”

Alguns autores credenciados ouvintes directos do mais excelso paradigma da Sabedoria Iniciática das Idades no século XX que foi o Professor Henrique José de Souza (J.H.S. noutra versão, noutro corpo…), afirmam que o Infante D. Henrique foi um Avatara de Shiva ou o Espírito Santo como Terceiro Logos da Terra, desde logo na sequência desse pensamento parúsico, terá sido um Avatara Momentâneo portador de 50% de todo o potencial da Divindade, Shiva ou Siva, anagramaticamente Avis, sim, a Avis Raris In Terris!… Isso se detecta em Áries, o Nisan, AgnusAgni o Fogo Sagrado como Cordeiro Sacrificial ou Mitra-Deva expressando ao próprio Deus Filho, ao Cristo Universal “levitando” sobre as atlânticas águas promissivas do Futuro que o seu Infante ou Delfim rasgou… rumo à Tebaida Ocidental – A Ventura, a Esperança do Arcano XVII da Portugalidade inteira cujo hodierno Porto-Graal é já hoje soerguido no Brasil!

Tenho infinita pena daqueles – demasiados… – que arredados do Pensamento original da Tradição de Akbel, alguns carregando conhecimentos nada assimilados tampouco conscientizados como testemunho mas não aponto ninguém, deixando a tarefa de Integração verdadeira a cada um e cada qual demore quanto demorar no esteio do tempo e do espaço, adianto que para não cessar a Evolução Universal entra o mistério da conjunção planetária de Júpiter e Saturno, de cujo movimento se originou a Cruz Swástika, expressando precisamente a Divindade em Acção.

Essa conjunção do 1.º e 7.º Planetas do nosso Sistema de Evolução (como sejam Saturno e Júpiter), leva de nome, em aghartino, Asga-Laxa, Asga-Lacha, Asga-Vatza ou Asga-Ladack, e tem precisamente o significado de “Esplendor do Céu”, cujo símbolo representa o Movimento sobre e sob a Terra, portanto a acção do Pramantha ou “Cruzeiro Locomovedor da Evolução do Ciclo presente” no Segundo e Terceiro Tronos, no Céu e na Terra, sob o impulso do Imanifestado, o Primeiro Trono. Desde logo denota-se a acção primordial da Hierarquia Celeste (Matra-Devas – Querubins, Senhores da Sabedoria) e da Hierarquia Terrestre (Manasaputras – Serafins, Senhores do Amor) na Humanidade mesma, cuja cúspide são os “Filhos da Luz”, os Lusos, os Assuras humanos que, ao tempo, tiveram por Grão-Mestre o próprio Infante Henrique de Sagres, então Supremo Dirigente da Encoberta mas Soberana e Augusta Ordem de Mariz (Xvarnah-Al-Massiah, “Iluminados por Deus Criador”, em persa, ou, em árabe, Dâr Allath As-Muridj ou Maridj, “Perfeitos da Tebaida da Deusa-Mãe”, já que Murîd, a par de Akbar, significa “Grande Alma”, equivalente ao hindustânico Mahatma, ou seja, o Adepto Perfeito) (32).

Júpiter expressa a Geração relativa ao Segundo Trono, a Geração Matrátmica ou a do ponto de vista mais elevado. Daí a expressão enigmática do Professor Henrique José de Souza: “O Tetragramaton como expressão ideoplástica do Homem Cósmico, que é Jehovah, Jove, Júpiter”

Saturno expressa tudo quanto tem a ver com o Seio da Terra, o Terceiro Trono. Daí as expressões Sabaoth, Sabath, Sábado, Saturninas, Saturno

Juntando Júpiter e Saturno (aliás, os dois símbolos), tem-se a palavra Asgar-Laxa, “Senhor do Governo dos Dois Mundos”, o Celeste e o Terrestre, o que vale por Melki-Tsedek ou Chakra-Varti, mas que sendo Asga-Laxa é Akbel!

Como se vê, Júpiter domina a haste superior e Saturno a inferior da Cruz Mundanal. Consoante a polaridade da Manifestação Universal, poder-se-á dizer que Júpiter é masculino e Saturno é feminino. Pelo Asga-Laxa tem-se também a Força Centrípeta (Tamas) do Universo em que se condensa a Quadratura do Círculo, representada arquitectonicamente pelo Templo e antropomorficamente pelo Manasaputra. E igualmente a Força Centrífuga (Satva) do Universo por que se dá a Circulatura do Quadrado, o que se representa pelo Obelisco e pelo Matra-Deva (33).

Essas duas Energias e Consciências tomaram forma una na figura magistral do Infante Henrique de Sagres, bifurcada ou dual em seus dois Ministros ou Colunas Vivas: Cristóvão Colombo, para a Luz Celeste, e Pedro Álvares Cabral, para o Fogo Terrestre (34).

Para explicar tamanha arquitectura do Desígnio de Deus do Ciclo de Peixes para o de Aquário, de nada valem “nacionalismos transcendentais”, pueris de raiz, tampouco “cabalas nacionalistas”, gastas de raiz, ante a magnitude universal do mesmo Desígnio em que “a nação e a cabala” foram instrumentais de arranque e expressão de um Saber mais vasto e actual: o de Akbel, Luzeiro de Mercúrio cujo Amor-Sabedoria tem a expressão mais lídima no próprio Cristo Universal, dê-se-lhe o nome que se lhe der, desde que corresponda à medida e consciência exactas (35).

Ante tanto e farto talento na virtude e no saber, na prática levada à execução feliz, reconhecendo o Divino no Humano Infante Navegador, Gomes Eanes de Zurara não lhe excusa o encómio apologético, antes lhe dirige a exaltação em molde de prece ou invocação por ter dado tanto à Lusitânia, a começar pela mais bela safira da Assiah Ocidental que é o Brasil (36):

“Oh tu Príncipe pouco menos que divinal!

“Eu rogo às tuas sagradas virtudes, que elas suportem com toda a paciência o falecimento de minha ousada pena, querendo tentar uma tão alta matéria como é a declaração de tuas virtuosas obras, dignas de tanta glória, cuja eternal duração, sob proveitoso fim, alevantará a tua fama com grande honra de tua memória, não sem proveitoso ensino de todos os príncipes que seguirem o teu exemplo; cá por certo, não sem causa, eu demando perdão às tuas virtudes, conhecendo minha pouca suficiência para abarcar tamanha soma quando com mais justa razão espero ser repreendido por minguar do que devo, que pasmado por falar sobejo. Tua glória, teus louvores, tua fama, enchem assim as minhas orelhas e ocupam minha vista, que não sei a qual parte acuda primeiro.

“Vejo aqueles (…) que vivem (…) sob o opósito do auge do Sol (Ocidente), o qual sendo na cabeça de Capricórnio, e a eles em estranha quentura, segundo se mostra pelo movimento do centro de seu excêntrico, ou por outra maneira quando vizinham com a cinta queimada (o Equador próximo ao Brasil); e os Índios, maiores e menores, que requerem que escreva tantas dádivas de (…) quanto de ti receberam aqueles que, por visitação do Apóstolo, ou cobiçosos de ver a formosura do Mundo, chegaram aos (con)fins da nossa Hispânia (Península).

“E que fez isto se não a largueza de tuas despesas, e o trabalho de teus servidores, movidos por teu virtuoso engenho, no qual transmudaste nos fins do Oriente as coisas criadas e feitas no Ocidente.

“(…) Por direito e peso tudo o que pertence a Grande Príncipe, (…) Templo de todas as Virtudes!

“E assim concluo meu começo, que se as tuas grandes virtudes, com a excelência de teus nobres e grandes feitos, suportarem alguma míngua pela ignorância de minha ciência e rudeza de meu engenho, que eu peço à tua magnânima grandeza que, com cara piedosa, passes por minha culpa.”

Por sua vez, o inestimável e saudoso amigo Roberto Lucíola, discípulo do Professor Henrique José de Souza com quem conviveu quase diariamente na última década da vida deste, endereçou-me de São Lourenço do Sul de Minas Gerais, Brasil, uma carta com palavras preciosas (datada de 27.05.2002) de que transcrevo uns poucos excertos em guisa de desfecho:

– Todos os sete Postos Representativos espalhados pelo Mundo encerram em si um grande potencial da mais alta vibração de energia subtil, no sentido espiritual, pois são Centros irradiadores das mais sublimes forças. Sob a égide espiritual de Sintra, estão sete importantes capitais europeias, tais como: Roma, Londres, Paris, Madrid, Copenhaga, etc. Estas capitais estão na órbita portuguesa segundo nos ensinam os mais sagrados e misteriosos ensinamentos ocultos. Não esquecer que cada Posto Representativo abriga em seu seio uma determinada Ordem Secreta composta por um Dirigente, que é o próprio Kumara e mais 111 Adeptos, totalizando o cabalístico número 777, ou seja, 111 X 7 = 777.

Portugal sempre foi grande desde a gloriosa Era das Descobertas encetadas pelos desbravadores dos “mares nunca Dante navegados”, na expressão poética de Camões. Portanto, glória e muita glória aos inesquecíveis Colombo, Cabral, Vasco da Gama, Magalhães e outros. Não foi por acaso que Portugal abrigou em seu seio a direcção suprema da Ordem de Cristo, que substituiu a Ordem Templária. Foi o recurso financeiro dessa Ordem que financiou as explorações e descobertas do Novo Mundo. Não podemos esquecer o papel de suma importância desempenhado por D. Dinis e sua esposa Isabel a Rainha Santa que, diga-se de passagem, eram também Templários.

O Infante D. Henrique de Sagres foi uma expressão da Divindade encarnada entre os homens para implantar uma nova etapa na Civilização. Só este facto é suficiente para glorificar a sua Pátria e ser motivo de orgulho de pertencer a uma Região escolhida por Deus para glorificar a sua Obra. Outrossim, coisa que muita gente ignora, o Império Lusitano não foi fruto de impulsos expansionistas ou obra do acaso, como querem os materialistas que ignoram os desígnios de Deus. O Império Lusitano foi uma imposição da Lei Divina que a tudo preside. Assim sendo, ele jamais foi destruído devido às suas origens.

Na realidade, o Império Lusitano é o Império da Luz, ou seja, da Luz espiritual, e como tal é eterno. Esse Império da Luz foi recolhido (…) para emergir em tempo oportuno, jamais ele foi destruído, porque o que é sagrado não pode ser destruído pela maldade humana. Houve diversas tentativas para se implantar esse Quinto Império Encoberto, de que nos fala Fernando Pessoa. Pois Portugal é um Povo fruto de uma grande mescla racial, por isso, somente os Portugueses podiam descobrir o Brasil, devido serem um Povo genuinamente povoador, portanto, isento de qualquer preconceito racial. Graças a isso é que o Brasil é o País onde se realiza a maior miscenização que já houve na História, onde todas as raças convivem pacificamente.

NOTAS

1) Mariano Calado, Peniche na História e na Lenda. 4.ª edição, Peniche, 1991.

2) Abade Correia da Serra, Os verdadeiros sucessores dos Templários e o seu estado em 1805 (com notas de Manuel J. Gandra). Revista “Graal”, Ano I, N.º 2/3, Verão/Outono, Sintra, 1982.

3) Frei João de Montecorvino nasceu cerca de 1247 e morreu na China em 1328.

4) Roberto Costa Pinho, Museu Aberto dos Descobrimentos – Portugal Mito e História em Busca da Outra Banda da Terra. Editado por Fundação Quadrilátero dos Descobrimentos, FIESP, São Paulo.

5) Felipe Cocuzza, A Mística da Amazónia. Zohar Editora, São Paulo, 1992.

6) Mascarenhas Barreto, O Português Cristovão Colombo (Agente secreto do rei Dom João II). Edições Referendo, Ltda., Lisboa, 1988.

7) Rafael Alarcón Herrera, La última Virgen Negra del Temple (El enigma templario de Candelaria). Ediciones Martínez Roca, S. A., Barcelona, 1991.

8) Referido por Estrabão, Eutrópio e Aurélio Victor. Vd. Fragmentos relativos à História e Geografia da Península Ibérica, de Adolf Shulten.

9) In Historiae, de Caius Sallustius Crispus, referindo o Discurso do Cônsul C. Cotta ao povo, no qual se cita Servius. Foi este Sallustius historiador latino, nascido em 86 a. C. e falecido em 34. Tendo sido governador de África em 46 a. C., escreveu depois, na sua faustosa propriedade do Quirinal, além daquela obra a Conjuração de Catilina e a Vida de Zugarta.

10) Não é feita referência ao périplo de Hanon (cerca de 270-190 a. C.), porque a Ilha de Cerné onde teriam fundado uma colónia, a ser uma das Canárias, ficaria a ocidente da costa africana e não a oriente.

11) Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses – III. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa.

12) Mascarenhas Barreto, ob. cit.

13) Diz-se “achamento” quando as ilhas (“trobadas” ou encontradas) foram vistas e aportadas por acaso; “reachamento” quando delas já havia conhecimento lendário ou histórico, quer através de obras da Antiguidade Clássica quer pela tradição Árabe, quer ainda por terem surgido no itinerário de pescadores portugueses que as não souberam localizar geograficamente; “descobrimento”, propriamente dito, quando se tratava de ilhas ou terras que o homem europeu ignorava totalmente, mas procurava intencionalmente encontrar.

14) Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

15) Este manuscrito, produzido pelo próprio Duarte Pacheco Pereira, montado em cinco partes com duzentas páginas no total, D. Manuel I considerou tão valiosas as informações nele constantes sobre náutica, geografia e economia que jamais permitiu que ele fosse tornado público. Até no título, o documento revela o seu carácter cifrado. “Esmeraldo” é um anagrama que associa as iniciais, em latim, dos nomes de Manuel (Emmanuel), o rei, e Duarte (Eduardus), o navegador. “De Situ Orbis” significa “Dos sítios da Terra”. Portanto, “Esmeraldo de Situ Orbis” era “O Tratado dos novos lugares da Terra, por Manuel e Duarte”. Esta obra andou desaparecida por quase quatro séculos. De facto, o documento era tão precioso que uma cópia foi contrabandeada em 1573 para a Espanha por um espião italiano, Giovanni Gesio, que o rei Felipe II mantinha ao seu serviço na embaixada de Castela em Lisboa. Pelo trabalho ratoneiro, Gesio foi regiamente recompensado. O recibo do pagamento dos seus serviços encontra-se hoje na Biblioteca do Mosteiro do Escurial, próximo a Madrid. Depois que o espião contrabandeou um exemplar para Castela, o manuscrito só reapareceu em 1982, a partir da localização de duas cópias, a primeira numa biblioteca de Lisboa e outra na cidade de Évora.

16) Vitor Manuel Adrião, Frielas (Memorial Histórico). Edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas – Loures, 1996.

17) Jaime Cortesão, ob. cit.

18) Assunto tratado por Jaime Cortesão em Pauliceae Lusitana Monumenta Historica, I vol., pp. 21-25, Lisboa, 1992.

19) Garcia de Resende, Crónica del-Rei D. João II, capítulo CLXXXVIII.

20) Garcia de Resende, Crónica de D. João II, capítulos CLXXII e CLXXIII.

21) Luciano Pereira da Silva, Duarte Pacheco, precursor de Cabral, in História da colonização portuguesa do Brasil, t. I; Duarte Leite, Duarte Pacheco e o Brasil e Os limites primitivos do Brasil, in Descobridores do Brasil, Porto, 1931.

22) Jaime Cortesão, ob. cit.

23) O texto do Tratado de Tordesilhas, em português, foi publicado pela primeira vez, mas em péssima transcrição paleográfica, em Coleccion general de documentos relativos a las islas Filipinas en el Archivo de Indias, editado pela Compañia General de Tabacos de Filipinas, Barcelona, 1918-1923, t. I, pp. 22 a 40; mais tarde por Joaquim Bensaúde, em Estudos sobre D. João II. V. Anais da Academia Portuguesa de História, 2.ª série, vol. I, pp. 244 a 254; em 1949 por Silva Marques, em Descobrimentos Portugueses, t. II, pp. 432-440; e em 1956 por Jaime Cortesão, em Pauliceae Lusitana Monumenta Historica, I vol. (1494-1600), pp. 3-21. O mesmo Tratado, em castelhano, foi pela primeira vez publicado em Alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, pp. 69-80, Lisboa, 1892.

24) Agostinho da Silva, Um modo de entender Portugal. In A Identidade Portuguesa – Cadernos Políticos 2, Instituto Dom João de Castro, Lisboa, 1988.

25) Vitor Manuel Adrião, À guisa de desabafo… Revista PAX, órgão informativo da Comunidade Teúrgica Portuguesa, n.º 24 (3.ª Série), Janeiro-Fevereiro-Março, 2000.

26) Almada Negreiros dirigiu por algum tempo a revista SW – Sudoeste, onde publicou importantes textos sobre a sua definição da vida portuguesa. Cf. Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Séculos XX em Obras Completas, vol. 6 – Textos de Intervenção, de José Almada Negreiros. Editorial Estampa, Lisboa, 1972.

27) Alberto Pinto Gouveia, Quadrantes Geográficos. Revista “Dhâranâ”, ano 67, n.º 9, 1993, São Paulo.

28) Textos de Fernando Pessoa organizados por António Quadros em Portugal, Sebastianismo e Quinto Império. Publicações Europa-América, Ltda, Mem Martins, Portugal.

29) Gomes Eanes de Zurara. Filho de um cónego, nasceu entre 1410 e 1420 e faleceu em 1473 ou 1474. Educado na Casa do rei D. João I, ascendeu depois aos cargos de guarda-mor das escrituras da Torre do Tombo e cronista régio, em que sucedeu a Fernão Lopes. Escreveu a Crónica da Tomada da Cidade de Ceuta, ou 3.ª parte da Crónica de D. João I (edição posterior de F. M. Esteves Pereira, Coimbra, 1915), a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, a Crónica de D. Duarte de Meneses (ambos os tomos na edição única dos “Ineditos de Historia Portugueza”, 1792-93) e a Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné (edição posterior de A. Dias Dinis, Lisboa, 1949). Muito apoucado pela generalidade dos autores modernos no confronto com Fernão Lopes, Zurara tem, no entanto, um enorme mérito como cronista se o situar no seu tempo e o equiparar aos congéneres estrangeiros. As suas crónicas mantêm uma metodologia sólida e a capacidade de captar situações e sentimentos colectivos. As duas crónicas dos Meneses, interessantíssimas como fontes, aguardam o historiador que delas se ocupe e lhes dê edição moderna e crítica.

30) Fernanda Frazão, No tempo em que jogar às cartas era proibido. Apenas Livros Ltda., 2003.

31) Garcia de Resende, Cancioneiro Geral. Lisboa, 1516, e edição póstuma em 1554. Mendes dos Remédios, Obras de Garcia de Resende, 5 volumes. Coimbra, 1917. A. de Pimpão e Aida Fernanda Dias, Obras de Garcia de Resende, 2 volumes. Coimbra, 1973.

32) Vd. Sura 70 do Alcorão: Allah Dhu´l-ma`arij, o “Senhor da Escada” (do Céu e da Terra).

33) Comunidade Teúrgica Portuguesa, Matemática dos Ciclos – A Conjunção Asga-Laxa, Grau Munindra (Modelador ou Integração), Apostila n.º 77.

34) Henrique José de Souza, Colombo e Cabral. Revista “Dhâranâ”, n.º 110, Outubro-Dezembro de 1941, São Paulo.

35) Henrique José de Souza, Livro dos Makaras. Inédito de 78 folhas originais escrito de Dezembro de 1951 a Fevereiro de 1952.

36) Gomes Eanes de Zurara, Crónica dos Feitos da Guiné, cap. II, pp. 8-14. Edição de A. Dias Dinis, Lisboa, 1949.

Pedro Álvares Cabral, o Homem e a Obra na Demanda do Grande Ocidente – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Out 4 2016 

Com a firmação do Tratado de Tordesilhas e a chegada à América de Cristóvão Colombo ao serviço dos reis de Espanha, o rei de Portugal apressou-se a reclamar e a oficializar como pertença da sua Coroa as terras mais a Sul do dito continente. Para tanto enviou em 1500, já morto D. João II e reinando D. Manuel I, uma poderosa armada com destino oficial a Calicute, Índia, mas cuja missão principal era aportar no Brasil e protestar a oficialização da sua descoberta para a Coroa portuguesa. Comandava-a o capitão-mor D. Pedro Álvares Cabral, cujas Armas familiares eram das mais ilustres do Reino.

Com efeito, em 9 de Março de 1500, os navios da esquadra de Pedro Álvares Cabral zarparam da praia do Restelo, defronte à ermida da Memória de Santa Maria de Belém, coeva do Infante D. Henrique de Sagres, e tomaram a rota sudoeste. Ao todo partiram cerca de 1200 homens repartidos por 13 embarcações, 11 das quais pertenciam ao rei de Portugal, uma a um fidalgo português e outra ao banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni (1).

Na hora da partida, quando já todos pisam a areia umedecida pelo mar de Lisboa, o rei D. Manuel, o Venturoso, pára e encara o grupo dos seus responsáveis nomeados e de nomeada. São eles: Gaspar de Lemos, comandante da nau dos mantimentos, que voltará da Terra de Vera Cruz com a nova do “achamento”, estando o monarca em Sintra; Luís Pires, que morrerá ao largo do Cabo da Boa Esperança no naufrágio da sua nau; Pedro de Ataíde, que Pedro Álvares encarregará da primeira façanha militar dos Portugueses no Índico; Diogo Dias, irmão e tantas vezes companheiro de Bartolomeu Dias, que na tempestade do Cabo se perderá da armada, à qual só voltará a reunir-se já na viagem de regresso, em pleno Atlântico, depois de ter aportado à costa oriental da Ilha de Madagáscar e errar pelo Mar da Arábia; Nuno Leitão da Cunha, que no massacre dos Portugueses na feitoria de Calicute salvará a vida do filho de Aires Correia, de doze anos de idade; Nicolau Coelho, companheiro de Vasco da Gama na viagem do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, e que trouxera a D. Manuel I a esperançosa notícia a bordo da Bérrio; Simão de Pina, que será outro dos quatro capitães tragados pela tempestade no Cabo da Boa Esperança; Aires Gomes da Silva, que comanda a nau Anunciada (2), armada conjuntamente pelo conde de Portalegre, por D. Álvaro de Bragança e pelo banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni; Vasco de Ataíde, cuja nau será, de toda a armada, a primeira a desaparecer, a única que não participou do “achamento”; Bartolomeu Dias, o pré-descobridor do caminho marítimo para a Índia, o melhor caravelista português do Atlântico, que embarcava para a sua última viagem: depois de ter deslumbrado os índios tupis do litoral, ou seja, os tupinambás, com a proeza de apanhar um tubarão que depois lhes ofereceu, morreria também, com toda a sua equipagem, no naufrágio no Cabo da Boa Esperança, a que ele pusera o nome de Cabo das Tormentas; Simão de Miranda, genro do feitor-mor da Índia, Aires Correia; o castelhano Sancho de Tovar, soto-capitão da armada; por fim, é a vez do capitão-mor (3).

A Armada de Pedro Álvares Cabral no "Livro das Armadas". Códice quinhentista pertencente à Academia das Ciências de Lisboa

A Armada de Pedro Álvares Cabral no “Livro das Armadas”. Códice quinhentista pertencente à Academia das Ciências de Lisboa

Pedro Álvares Cabral pertencia a família que estava dispensada de prestar vassalagem aos Reis de Portugal, os quais tinham os Cabrais em tal plano de honradez e devoção à causa da Coroa e do Reino que não lhes eram exigida a correntia formalidade do juramento de fidelidade ao monarca. Foi nesta linhagem de fidalgos ilustres, sempre mesclada aos principais acontecimentos portugueses durante a Dinastia de Avis – e até anteriores a ela – que veio a nascer o “Grande Caprino” que lançou a “Pedra de Fundação” do Brasil Ibero-Ameríndio.

Nasceu em plena Beira Baixa, em Belmonte, vila situada num cabeço – o Monte da Esperança, ou de Nossa Senhora da Esperança – onde ainda lá estão as ruínas do castelo dos Cabrais, próxima da igreja-panteão familiar sob o Orago Santiago. Aí terá nascido Pedro Álvares, em 1467 ou 68. Esse castelo talvez seja tão antigo como a Nacionalidade, porém, sofreu remodelações e reedificações, como tantos outros, no reinado de D. Dinis. A povoação recebeu foral de D. Sancho I, em 1188, quando florescia aí a comunidade judaica sujeita à jurisdição da Ordem dos Templários no lugar; esse foral foi confirmado por D. Dinis e renovado pelo Rei Venturoso (1510). As tradições da vila fundem-se com as da família dos Cabrais, seus alcaides-mores e adiantados (fronteiros) da Beira. O primeiro varão ilustre desse nome foi Aires Pires Cabral, que teve várias mercês de D. Afonso III. Relembra-se ainda os feitos de Fernão Cabral, o Gigante da Beira, que usava como arma uma maça de ferro com o peso de uma arroba (15 quilos). (4)

Belmonte, “Belo Monte” ou “Monte de Bel”, o Caprino ou Cumara, vai bem com o brasão de Armas desta família. O lugar também vai bem com a missão futura de Cabral ante o Ex Occidens Lux. Além de estar situado a leste da vila levando o significativo nome de Caria ou Cária, nos arredores de Belmonte está o estranho e antiquíssimo edifício de Centum Cellas, com dois andares e cantaria bem aparelhada, cuja origem e utilização não foram até hoje determinadas, mas pessoalmente atribuo a obra fenício-romana ligada à exploração de estanho de que o concelho é rico.

Dos Cabrais diz o Armorial Lusitano (5):

“CABRAL. Família antiga cuja origem se ignora. O mais antigo do apelido de que se encontra menção é Pedro Anes Cabral (ou Aires Pires Cabral?), porteiro e reposteiro-mor de D. Afonso III no ano de 1271. Os Cabrais principiaram a tornar-se mais conhecidos na História com o bispo da Guarda D. Gil Cabral e com Álvaro Gil Cabral, que se recebeu com a filha única e herdeira de Diogo Afonso de Figueiredo e de sua mulher, Constança Rodrigues Pereira, esta terceira neta por bastardia de D. Afonso III. Daquele matrimónio nasceram filhos, continuando na sua linha primogénita o senhorio de Azurara e a alcaidaria-mor de Belmonte.

“De Álvaro Gil Cabral e sua mulher foi terceiro neto Pedro Álvares Cabral, o Navegador, e Diogo Fernandes Cabral, o qual teve de Maria de Macedo a Jorge Dias Cabral, que serviu o Imperador Carlos V. Pelos actos de valor deu-lhe o Imperador novas Armas, que D. João III lhe confirmou em 22-7-1530.

“João Rodrigues de Sá, senhor de Matosinhos, nas suas coplas, não se esqueceu dos Cabrais, escrevendo a seu respeito as seguintes:

“Aludem os últimos versos à prerrogativa que tiveram de, pela sua muita lealdade, não prestarem menagem da alcaidaria. Igualmente D. João Ribeiro Gaio, bispo de Malaca, os cantou nesta quintanilha:

“As Armas que usam os desta linhagem são: De prata, com duas cabras de púrpura, uma sobre a outra. Timbre: uma das cabras.”

A origem do Nome e das Armas Cabralinas não deixa, ainda, de estar ligada a uma lenda de fundação correndo em Belmonte, em plena Beira Baixa, a qual me parece de origem judaica. Resumidamente, conta que um pastor teve um sonho premonitório de que em Belém da Serra da Estrela descobriria um tesouro, sonho esse que se repetiu por três vezes: “Vai a Belém e lá encontrarás o teu bem”. Mas não deu com tesouro algum… desanimado regressou a casa. Pelo caminho cruzou-se com um almocreve, entabularam conversa acabando o pastor por desabafar a sua saga infrutífera. Então, o almocreve revelou-lhe: “Eu também sonhei que no sítio de Belo-Monte, nas bandas da Serra da Estrela, há uma penha à boca de uma caverna onde uma cabra amarela se deita todos os dias com o seu cabrito, e que a cabra e o cabrito são de ouro”. Despediram-se, e cada qual seguiu o seu caminho. Logo o pastor correu ao sítio do sonho do almocreve e, para sua grande satisfação, descobriu dentro de umas fragas o tesouro maravilhoso de uma cabra e de um cabrito de ouro. Com tão extraordinário tesouro em sua posse, decidiu oferecer ao rei de Portugal o cabrito de ouro, ficando com a cabra para si. Assim fez. Mas o rei, apesar de encantado com tão generosa oferta, preferiu a cabra de ouro. Então o pastor ofereceu-lhe as duas peças. Como recompensa, o monarca ofereceu-lhe o senhorio das terras de Belo-Monte e as Armas de Nobreza distinguidas com um nome: Cabral.

Cabral ou Caprino, como o Cumara Real saído de alguma caverna privilegiada no cume da Serra da Estrela, é bem verdade conforme a lenda. Mas o nome Cabral, segundo outra origem filológica, também se liga a Calmão ou “Rabino”, porque segundo uma crença da época, divulgada mais ou menos por todo o país, os rabinos judeus “teriam cauda”, isto é, estariam pactuados com o Calmão ou Demo, seriam mesmo da sua corte, “demónios com cauda e chifres”, pois o seu saber em tanto transcendia a catequese da religião oficial, “única e verdadeira”, que ele só poderia provir do Anjo maldito. Isto poderá muito bem indicar que os Cabrais andaram de ligações à Sabedoria Hermética da Sinagoga, a mesma Kaballah como a Ciência Secreta “Calmã” ou Rabínica. Acaso estará nisto o inexplicável ostracismo a que Pedro Álvares Cabral foi tão ingrata e injustamente votado pela Coroa e restantes autoridades oficiais, subjugadas pelo peso da cúria romana, após o seu regresso da Índia em cuja viagem, e muito por «acaso» (!!!), deu ao Mundo o conhecimento oficial do Brasil, “acontecimento tão fortuito ou fugaz de menor importância que só provocou coisa mínima”: a mudança radical do mapa geopolítico do Mundo, de há 500 anos a esta parte! Realmente, é «coisa mínima»… para um Ser Divino com porte de Kumara ou Cumara (Cuma-Mara, Cume-Mara, Cume-Maris…).

Com a subida ao trono de D. João I, o novo rei de Portugal galardoou, por sua fidelidade à sua causa enquanto Mestre de Avis, o citado D. Álvaro Gil Cabral com a “doação de juro e herdade das terras da Coroa de Azurara da Beira, Valhelhas, Manteigas e Tavares” (6).

É perfeitamente conhecida a confirmação, na pessoa de seu filho, Luís Álvares Cabral, de todos os seus privilégios, rendas e haveres – documento assinado pelo próprio rei D. João I, datado de 6 de Outubro de 1385.

Luís Álvares Cabral, mencionado como herdeiro de sua tia Maria Gil e alcaide-mor de Belmonte, bisavô de Pedro Álvares Cabral, foi vedor do Infante D. Henrique. É, pois, o mais antigo que se conhece na relação entre a família Cabral e as Navegações Portuguesas – mas outros surgirão ainda, anteriores à escolha de Pedro Álvares para comandar as naus da Índia que, pelo caminho, “acharam” a Terra de Vera Cruz.

Luís Álvares casou duas vezes: a primeira, com a sua prima, D. Constança Eanes de Loureiro, de quem teve três filhos: Fernão Álvares Cabral, D. Isabel e D. Brites. Pela segunda vez, casou com Leonor Domingues, de quem não teve descendência.

Em 1433, o rei D. Duarte confirma toda a Casa, haveres e privilégios dos Cabrais a Fernando Álvares Cabral, cavaleiro e criado do Infante D. Henrique, de quem era vedor – persiste, como se vê, a ligação da família Cabral com o cérebro das explorações marítimas portuguesas. Fernando Álvares casou com D. Tereza de Novaes, ou de Andrade, avó de Pedro Álvares, que era viúva de um Mello – Estevam Soares de Mello – e neta paterna de D. Nuno Freyre de Andrade, vassalo do rei D. Fernando; este fidalgo foi aio de D. João, bastardo de D. Pedro, que viria a ser Mestre de Avis, “defensor do Reino”, e D. João I, o rei de Boa Memória. O avô paterno de Pedro Álvares morreu em combate no cerco de Tânger.

Fernão Cabral, pai de Pedro Álvares, devia ser ainda muito novo quando o seu progenitor, Fernando Álvares, morreu a combater nos muros de Tânger. Em 1464, era fidalgo da Casa Real de D. Afonso V, o Africano, e regedor da justiça na comarca e correição da Beira; em 1486, era adiantado da comarca da Beira, e o rei escrevia dele que “era do nosso conselho”. Nesse mesmo ano foi-lhe atribuída uma tença, que em 1492 passou para o seu filho primogénito, o morgado dos Cabrais, irmão mais velho de Pedro Álvares, João Fernandes Cabral, “fidalgo da Casa do Duque” – o Duque de Beja, primo de D. João II, mais tarde D. Manuel I, o Venturoso.

Era casado com D. Isabel de Gouveia, mãe de Pedro Álvares, filha de João de Gouveia, senhor de Almendra e alcaide-mor de Castelo Rodrigo, e de Leonor Gonçalves, colaça do rei D. Duarte (7).

Panteão da família Cabral na igreja de Santiago, Belmonte

Panteão da família Cabral na igreja de Santiago, Belmonte

Por fim, no ano 1467 ou 68, ao que tudo indica no solar dos Cabrais ou no castelo de Belmonte, nasceu Pedro Álvares de Gouveia, filho segundo de Fernão Cabral e de D. Isabel de Gouveia, que tiveram onze filhos (8).

Era a esse nobilíssimo Pedro Álvares Cabral que D. Manuel I, naquele dia de 9 de Março 1500, no areal da praia do Restelo, fitava longo e gravemente confiando-lhe a missão secreta de trazer o Brasil para o conhecimento do Mundo sob o bom fado da tutela Lusitana.

A certa distância, toda a corte assistia à despedida do rei aos capitães. Pedro Álvares Cabral ajoelha e beija a mão do Venturoso. Estão os dois sozinhos à beira da água. Majestoso, D. Manuel ergue a mão beijada por Pedro Álvares e lentamente com ela desenha no ar, sobre o busto ainda curvado do servidor, o gesto solene da sua bênção real. Todas as músicas, todas as palavras, todos os sons se calaram nesse instante – só a voz do mar murmura, marulhando na areia arrendada de branco aos pés do rei e do seu capitão-mor. E quando este se reergue, ungido, fica um pouco perplexo, como surpreendido por esse momento há muito esperado; afasta-se devagar nos primeiros passos, mas logo lestamente embarca no batel oscilante, onde a bandeira real drapeja ao vento que do mar sopra para terra. Respira-se por toda a praia uma emoção que dói. E quando os remadores começam a impelir os batéis para o meio do Tejo, a artilharia das naus rebenta em salvas festivas, que ficam reboando pelo ar, e a cada estampido surge um novo novelo branco entre os azuis do rio e do céu.

Junto das espumas brancas, a jusante, negreja o povo acenando para bordo da armada. Há muitas mulheres que choram e riem. Mães, esposas e filhas dos que vão partir – tanto daqueles que hão-de voltar como dos outros, que vão para morrer. E nem sabem ainda quais dentre elas é que ficarão de luto quando regressar a armada – mas sabem que haverá então muitas órfãs, muitas viúvas, e muitas mães pranteando um filho morto. Por isso choram umas pelas outras, sem saberem exactamente por quem estão chorando, se por elas próprias, se pelas companheiras – mas setenta anos de Descobrimentos já tinham ensinado às mulheres portuguesas que cada armada que sai do Tejo nas miragens do longe representa um muito maior número de mortos sem sepultura que de velas tenha essa armada. Por saberem isso é que elas nunca deixam de ir à beira d’água, dizer adeus aos homens que partem a cumprir o destino de Portugal.

É como canta doloroso Fernando Pessoa na Mensagem, no poema Mar Português:

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral

De maneira e segundo João de Barros, “e não somente se assentou no conselho o número das naus e gente de armas, que havia de ir nesta armada, mas ainda o capitão mor dela, que por as qualidades de sua pessoa foi escolhido – Pedro Álvares Cabral, filho de Fernão Cabral”. Acrescentando sobre a data da partida e para onde se dirigiam: “Ao dia seguinte, que eram nove do mês de Março, desferindo suas velas que estavam a pique, saiu Pedro Álvares com toda a frota, fazendo sua viagem às ilhas de Cabo Verde, para aí fazer aguada, onde chegou em treze dias” (9).

De facto, conforme a descrição da viagem Cabralina por Pêro Vaz de Caminha, por Mestre João e pelo Piloto Anónimo (10), a esquadra passou ao largo das Canárias e foi aportar na ilha de S. Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde, o que descreve ao rei de Portugal o talentoso escrivão Pêro Vaz de Caminha com a sua costumada precisão: “A partida de Belém foi na segunda-feira, 9 de Março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e as 9 horas, nós nos achámos entre as Canárias, mais perto da Grã-Canária. E ali andámos todo aquele dia em calma, coisa de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às 10 horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber, da ilha de S. Nicolau, segundo disse o piloto Pêro Escobar” (11).

No dia seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, perdeu-se da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem que houvesse vento forte ou contrário, e apesar das diligências para o encontrar não apareceu mais! (12) Este desaparecimento da nau de Vasco de Ataíde com toda a sua tripulação, desquitadas as hipóteses de tempo desfavorável que o justificasse ou de deserção ou motim a bordo, é um dos muitos pontos obscuros da empresa Cabralina. Avento indagando: acaso terá Vasco de Ataíde ficado propositadamente para trás a fim de proteger na retaguarda os seus companheiros de eventuais espiões doutros países que seguissem à distância a sua rota secreta? (13)

Prossegue Pêro Vaz de Caminha: “E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 de Abril, estando da dita ilha (S. Nicolau) obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topámos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira, pela manhã, topámos aves a que chamam fura-buxos”.

É por esse excerto da carta de Caminha que se confirma não ter sido acidental a descoberta do Brasil. Combinando a estimativa do caminho percorrido até Porto Seguro (690 léguas) com as latitudes arbitradas pelos portugueses a S. Nicolau (16º 40’ N) e a Porto Seguro (17º S) e o valor linear que atribuíam ao grau terrestre (17,5 léguas), conclui-se que ao afastar-se a frota de Sul para Oeste, não tendo havido qualquer tempestade que a forçasse nessa direcção, o desvio só podia ser intencional, tanto que a navegação fora de longo, isto é, sem voltas, “seguindo o nosso caminho” (14).

Sabiam e bem aonde se dirigiam, tanto que nesta armada ia, entre outros mareantes experimentados, o próprio Duarte Pacheco Pereira, a quem D. Manuel I, dois anos antes, mandara descobrir “a parte ocidental, que fica além do mar-oceano”. Tanto que “navegar de longo”, ou seja, a direito, só poderá ser para Ocidente, por estarem “obra de 660 ou 670 léguas além da ilha de S. Nicolau, onde avistaram sinais de terra”, os quais só existem precisamente a Oeste. Ademais, na linguagem dos marinheiros, navegar de longo é o mesmo que a direito, e navegar de largo é o mesmo que circular na vastidão oceânica (15).

Continuando a seguir o caminho de longo por esse mar, após os primeiros sinais de terra próxima, resultou: “Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o Capitão pôs nome – o Monte Pascoal – e à terra – a Terra de Vera Cruz.” – In Caminha.

Isso aconteceu no dia 22 de Abril, e a 23 ancoraram em frente da terra a que chamaram Vera Cruz, dando-se o primeiro contacto dos Portugueses com os Índios, no maior dos prazeres e com muita festa. Acabara de nascer o BRASIL IBERO-AMERÍNDIO!

A esse respeito, Francisco A. Silva e Pedro A. Bastos (16), escrevendo sobre a posterior etnia brasileira vêm a dividi-la em três grandes grupos, formados no período do Brasil Ibero-Ameríndio:

“Fundamentalmente, três grandes grupos étnicos – o Branco, o Negro e o Índio – entraram na formação do Povo Brasileiro num longo e lento processo. Como resultado da miscigenação (cruzamento) entre estes três grupos, originaram-se vários tipos de mestiço: o Mulato: mestiço de branco com negro; o Mameluco (caboclo): mestiço de branco com índio; e o Cafuso: mestiço de negro com índio.

“1.º) O Elemento Branco: pelo menos até meados do século XIX, o principal elemento branco foi o Português, considerado como o mais qualificado para colonizar uma região como o Brasil, devido à sua facilidade de miscigenação e aclimatação a regiões tropicais. Dele herdamos quase a totalidade das nossas instituições sociais, políticas e económicas.

“2.º) O Elemento Negro: de origem africana, os negros, que já conheciam o trabalho agrícola, o uso dos metais e o pastoreio, eram comprados por bugigangas de vidro, facões, fumo e cachaça. Foram trazidos para o Brasil em navios negreiros (tumbeiros) e desembarcados principalmente em Salvador, Recife e Rio de Janeiro.

“Dos grupos de negros trazidos para o Brasil, os principais eram:

“– Sudaneses: oriundos da Nigéria, Daomei, Costa do Ouro (iorubas, geges, fanti-ashantis);

“– Bantos: divididos em dois grupos: angola-congaleses e moçambiques;

“– Malés: sudaneses islamizados.

“3.º) O Elemento Índio: de acordo com uma classificação tradicional, baseada em critérios linguísticos, os índios do Brasil foram divididos em quatro grandes nações:

“– Tupi: espalhados por toda a costa atlântica e várias áreas do interior;

“– ouTapuia: ocupa o Planalto Central brasileiro;

“– Nuaruaque: ocupa a Bacia Amazónica até aos Andes;

“– Caraíba: ocupa o norte da Bacia Amazónica.”

Todavia, deve-se notar que, conforme já foi assinalado, além dessas quatro grandes nações indígenas, existe um grande número de nações menores. Assim, destaco a importância da pesquisa dos autores citados e não desprezo nenhuma informação que sirva para maior e melhor esclarecimento. Sobre a caldeação racial, remata feliz mas incompleto o pensamento de Gilberto Freyre (17): “Todo o brasileiro, mesmo alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo (…), a sombra ou, pelo menos, a pinta do negro”, e do índio, completo eu.

Vítimas da política económica do corso negreiro, os africanos roubados a sua terra como se fossem gado inumano, viram-se postos à venda no mercado de escravos que foi primeiramente a Capitania de São Salvador da Bahia. Esta é a cidade do negro, do caboclo hoje livre e que alinda o mapa turístico brasileiro por via do folclore e etnografia baianas trazidas de África a bordo dos porões inumanos da escravatura, lei abominável que Portugal e as suas Cortes do Brasil foram os primeiros do mundo civilizado a banir do mapa da condição humana. Ao Liberalismo iluminado pelo pensamento humanista da Maçonaria, reconheça-se, deve-se grandemente a Lei da Abolição, visto a maioria dos liberais e abolicionistas da época serem maçons, contrários ao secularismo jesuíta, já não tanto amancebado em Oitocentos à Coroa Portuguesa mas, sim e abertamente, aos interesses comerciais franco-holandeses! Os próprios primeiros navios negreiros, assim como a maioria deles durante quase três séculos, convém não esquecer para não estropiar os factos da História, eram holandeses. Além disso, as feitorias e engenhos no Brasil que empregavam a mão d´obra da escravatura, mais africana que ameríndia, relacionavam-se directamente aos interesses imediatos do Geral da Companhia de Jesus que se encontrava em Lima, no Peru, mesmo aqueles sendo protestantes. Foi ela quem acirrou os holandeses do Brasil a empreenderem o triste período da “caça ao índio”, aproveitando o momento de fraqueza de Portugal sob o domínio da Espanha Filipina.

Com efeito, a Companhia das Índias Ocidentais que actuou no Brasil no século XVII, era holandesa e flamenga de comerciantes calvinistas. Dedicava-se à exploração das riquezas naturais e ao comércio de escravos. Os índios aliaram-se aos portugueses e expulsaram-nos do Brasil, onde se cobriu de glória nas armas D. Diogo de Menezes na vitória militar de Pernambuco. Por outro lado, a Companhia Britânica das Índias Orientais, fundada por comerciantes de Londres em 1600, fazia comércio de chá contrabandeado dos holandeses para a América do Norte, tendo recebido um golpe fatal em Boston, em 16 de Dezembro de 1773. Ambas as Companhias desapareceram faz muito tempo.

Mas se o negro foi escravo no corpo, a sua alma continuou livre e deu continuidade, ludibriando o algoz escravizador, quando não fugia para o sertão e fundava quilombos, às suas crenças e tradições ocultas sob a capa do catolicismo. Assim nasceu o candomblé, associado ao culto dos deuses naturais ou forças primárias da Natureza, posteriormente prosodiado umbanda, quimbanda, macumba, etc., etc., designativos tardios resultantes da associação com elementos de crenças não africanas, estudo antropológico de foro neuro-onírico que deixo para os especialistas.

O que se sabe é que muitos aspectos das culturas ocidentais africanas chegaram ao Brasil e afectaram facetas da vida deste grande país, entre elas a expressão religiosa de largo sector do povo brasileiro, a qual me interessa focar aqui, impondo uma cultura religiosa própria à oficial católica, adoptando os santos e símbolos desta, tornando-se autóctone e vingando-se dos antigos senhores, assim encontrando justificativa plena a afirmação do frequentador do terreiro, descendente do escravo africano: Kosi mi fara alejo – Não há nada que possa contra mim, nem mesmo os estrangeiros! (18)

Nessas culturas africanas predominavam elementos religiosos comuns, destacadamente um panteão de divindades originalmente pertencentes ao povo Ioruba. Essas divindades, um tanto semelhantes aos deuses, heróis e semideuses clássicos da Grécia e da Roma antigas, tinham, como eles, relações sociais e familiares entre si e dispunham de largos poderes diversificados, apresentando-se com características e atributos próprios. Ora, toda essa corte celestial mitológica foi transferida através do Oceano Atlântico da costa ocidental da África para o Brasil, este onde na altura só havia uma religião oficial – o catolicismo. Porém, os credos e as divindades africanas resistiram ao impacto que essa transferência forçada causou, e também a todas as tentativas de supressão por parte das autoridades locais, nomeadamente os jesuítas interessados em integrar os africanos na sua cultura religiosa europeia.

A repressão dessas religiões milenares africanas, recuando ao longínquo período lemuriano-atlante, se assim me posso exprimir, acabou por ser um tanto superficial e muitas das suas divindades integraram-se no santoral católico, assumindo assim os aspectos exteriores dos santos cujas imagens povoavam os altares das igrejas, capelas e oratórios das mansões senhoriais da cidade e de imponentes fazendas no mato. Num compromisso típico, essas divindades sobreviveram desse modo e o seu culto manteve-se, com as compreensíveis inconsistências de uma tal extrapolação. Desta maneira, a transferência foi feita mais ou menos dentro destes moldes:

O Pai dos deuses da religião do povo Ioruba, Olurum, também chamado Elemi – Senhor da Vida – é uma espécie de Zeus – Júpiter Todo-Poderoso, que vive rodeado por uma corte de múltiplas divindades – os orixás. Olurum ocupou o lugar de Jeová, o Deus Todo-Poderoso dos católicos, e a sua corte celeste foi logo assimilada à concepção católica dos Céus, tendo nela os orixás assumido as funções de anjos e arcanjos, santos, beatos e bem-aventurados. Os orixás servem de intermediários entre Deus e os crentes, tendo os mais importantes missões específicas, variadas, patrocinando aspectos da vida humana e possuindo um passado e até mesmo uma complexa vivência colorida.

De todos os orixás, o mais importante é Iemanjá, mãe de numerosas divindades, do Sol, da Lua e deusa das águas. De facto, Yeye significa “mãe”, e eja, “água”; daí ela ser a deusa dos peixes, dos pescadores e protectora daqueles que andam sobre as águas do mar.

É, pois, fácil de inferir que todos os africanos que cruzavam o Atlântico a caminho do Brasil, nas piores condições imagináveis, ao sobreviverem à travessia se tornavam, com a lógica da sua fé, fervorosos devotos da grande Iemanjá, indo depois transmitir o seu culto aos  descendentes e familiares, o que explica a larga popularidade que Iemanjá goza hoje no Brasil.

Como os africanos, ao chegar, viam-se na impossibilidade de lhe prestar culto nos seus moldes tradicionais, optaram por considerar a Virgem Maria – vestida de azul e branco, com a Lua aos pés, tida pelos católicos como Mãe de todos – a expressão local de Iemanjá, confundindo assim a imagem da Virgem com a divindade africana. Passaram, pois, a ser profundamente devotos da Virgem Maria, prestando-lhe culto e venerando-A à sua maneira.

Da mesma forma, e por processo idêntico, o orixá Orixalá ou Oxalá foi confundido com Jesus Cristo, sucedendo o mesmo com outros orixás importantes.

Oxum e Oiá, deusas de rios, foram confundidas com St.ª Bárbara e St.ª Catarina (e também com St.ª Maria Madalena, St.ª Joana d’Arc e St.ª Ana, cujas imagens partilhavam, frequentemente, os altares com aquelas primeiras). Ogum, deus da guerra e dos ferreiros, tinha a sua representação adequada na popular imagem de S. Jorge, emplumado, a cavalo, matador do temível dragão. Oxossi, deus da caça e orientador do tiro das flechas, encontrou a sua réplica em S. Sebastião, soldado e mártir, que tem como atributo as flechas do seu martírio. Omolu, deus protector de doenças causadoras de chagas, foi prontamente identificado com a imagem de S. Roque, chagado e sofredor. Com idêntica razão, os deuses gémeos Ibeji foram tomados pelas inseparáveis imagens de S. Cosme e S. Damião. Até Ifa ou Exu, o deus mensageiro, rápido, malicioso e vivo, da mitologia Ioruba, foi transformado numa versão do Demónio judaico-cristão, tornando-se mesmo merecedor dum culto respeitoso e acautelado (19).

Esse esquema de devoções transpostas não passou despercebido à Igreja Católica, que fez e faz esforços por contrariar essas iniciativas, mas os condicionamentos da vivência local e a enorme dificuldade em desfazer a confusão impediram e impedem uma destrinça efectiva ao nível do culto popular. E, assim, por esses processos um tanto irregulares é hoje possível encontrar imagens de santos católicos que, em certas circunstâncias, representam entidades onde se reflectem as divindades da África longínqua…

Brasil! Pátria ecuménica do Pensamento Humano. Desde há muito assinalado com encómios apologéticos como “Ilha da Bem-Aventurança”, “Ilha dos Bem-Aventurados”, “Ilha Venturosa” ou a “Terra da Ventura”, não raro associado à “Ilha da Utopia” de Thomas Moore, à “Ilha de São Brandão” e à própria Agharta no que esta tem de “intransponível e inviolável” como Paraíso Terral, Locus Amoenus, cedo o Brasil foi considerado prolongamento ou desfecho apologético de Portugal, tendo Pedro de Mariz (20) lhe reservado talvez o maior dos encómios exaltantes de sua singular e promissora condição:

“Todavia chamar-lhe-ia eu a NOVA LUSITÂNIA. Ali também a Província de Santa Cruz, que é terra no mundo nova, e NOVAMENTE acrescentada à Coroa de Portugal, que antigamente, e ainda hoje se chama Lusitânia.”

Já ao núcleo inicial de Belém do Pará os portugueses batizaram de Feliz Lusitânia.

Prossegue Pêro Vaz de Caminha: “E fomos ao longo da costa (…), para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nos demorássemos, para aqui tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertamos.”

Esse trecho, junto a um outro facto, comprova que Cabral não navegou ao acaso nem descobriu acidentalmente o Brasil. Se a água e a lenha “não minguavam” na armada, por que mesmo assim fizeram, naquela escala, quatro abastecimentos de água e lenha, só para “nos acertarmos”, isto é, só para as renovarem? Se a nau de mantimentos, de que dependia a sorte de toda a armada em sua longa viagem, fora classificada de “velha e imprestável” para afrontar o Cabo das Tormentas, por que mesmo assim fora escolhida para missão tão crucial ao bom êxito da empresa? Só se pode explicar que se destinava a chegar ao Brasil e nunca a transpor o Cabo africano com toda a probabilidade de naufragar, inviabilizando assim a chegada à Índia da frota de Pedro Álvares Cabral dela dependente. Portanto, a renovação das provisões estaria prevista antecipadamente, quando chegassem à costa brasileira e a nau de mantimentos voltasse para trás, indo dar a boa nova ao rei D. Manuel I, no seu Paço de Sintra. Talvez, mais uma vez avento por carência atroz de documentação coeva do acontecimento, a nau de Vasco de Ataíde a aguardasse entre Cabo Verde e as Canárias, para lhe dar escolta até Lisboa, sabendo-se pela sua aparição que a missão tivera êxito.

A frota navegando ao longo da costa ancorou e desembarcou a tripulação no ilhéu da Coroa Vermelha no Porto Seguro, actual Baía Cabrália, no sul do litoral baiano: “O Capitão (…) saiu, ele com todos nós, em um ilhéu grande, que na baía está e que na baixa-mar fica mui vazio.” – In Caminha.

Gráfico da fundeação da Armada de Pedro Álvares Cabral (estudo e documento do autoria do professor Jaime Cortesão)

Gráfico da fundeação da Armada de Pedro Álvares Cabral (estudo e documento do autoria do professor Jaime Cortesão)

Seguiu-se a primeira Missa da Oitava da Páscoa (Domingo in Albis), cuja Palavra tem-se no Evangelho de São João, sendo o paramental branco (in albis, ou da deposição das vestes brancas) e depondo-se no altar cuidado a imagem navegante de Nossa Senhora da Esperança, que segurando o Menino fitando uma Pomba branca na destra materna, a qual era da devoção particular de Pedro Álvares Cabral que a trouxe de seu domínio de Belmonte, de cuja vila é Orago e aí está hoje na igreja de Santiago.

Nossa Senhora da Esperança no igreja de Santiago em Belmonte

Nossa Senhora da Esperança no igreja de Santiago em Belmonte

Foi oficiante o frei sacerdote Henrique Soares de Santa Cruz de Coimbra, franciscano ao serviço da Ordem de Cristo e geral da companhia dos cinco franciscanos, contando com ele, que iam na armada. Como nota breve, frei Henrique Soares foi o primeiro bispo de Olivença (terra portuguesa perdida para o país vizinho em 6 de Junho de 1801, em consequência da curta Guerra das Laranjas que opôs Portugal a Espanha e à França) e o seu túmulo encontra-se na capela de Jesus Crucificado na antiga igreja matriz de Santa Maria Madalena desta cidade.

Mais uma vez e para descrever bem o acontecimento sagrado da primeira Missa, recorro à Carta de Pêro Vaz de Caminha, ela que é o primeiro Codicilo Espiritual do Brasil:

“Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. Mandou a todos os Capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperavel (dossel), e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali, com todos nós outros, fez dizer missa, a qual foi dita pelo Padre Frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

“Ali era com o Capitão a bandeira (da Ordem) de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho.

“Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos (ao serviço da Ordem de Cristo), o que foi muito a propósito e fez muita devoção.

“Enquanto estivemos à missa e à pregação, seria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como a de ontem, com os seus arcos e setas, a qual andava folgando. E olhando-nos, sentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e a dançar um pedaço.

“Acabada a pregação, voltou o Capitão, com todos nós, para os batéis, com a nossa bandeira alta. Embarcámos e fomos todos em direcção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo, na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife (…).”

Desembarque de pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500. Pintura a óleo de Óscar Pereira da Silva (1867-1939)

Desembarque de pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500. Pintura a óleo de Óscar Pereira da Silva (1867-1939)

A segunda Missa com o antecedente soerguimento da Vera Cruz, feita de pau-brasil, aconteceu a 1 de Maio de 1500, tendo Lusos e Tupis comungado juntos na Coroa Vermelha (do Espírito Santo). Para não fugir à regra, também desta vez me valho da Carta de Caminha a D. Manuel I:

“Sexta-feira, 1 de Maio:

“E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de Maio, pela manhã, saímos em terra, com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar (assentar, implantar) a Cruz, para melhor ser vista. Ali assinalou o Capitão o lugar, onde fizessem a cova para a chantar.

“Enquanto o ficaram fazendo, ele (Cabral) com todos nós fomos pela Cruz abaixo do rio, onde ela estava. Dali a trouxemos com esses religiosos e sacerdotes, cantando em maneira de procissão.

“Eram já aí alguns deles, obra de setenta ou oitenta (índios); e, quando nos viram assim vir, alguns se foram meter debaixo dela, para nos ajudar. Passámos o rio, ao longo da praia, e fomo-la pôr onde havia de ficar, que será do rio obra de dois tiros de besta (cerca de trezentos metros). Andando-se ali nisto, vieram bem cento e cinquenta, ou mais.

“Chantada a Cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiramente lhe pregaram, armaram altar ao pé dela.

“Ali disse missa o Padre Frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos (freires sacerdotes). Ali estiveram connosco a ela obra de cinquenta ou sessenta deles, assentados todos de joelhos, assim como nós.

“E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram connosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornando-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como nós estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção.

“Estiveram assim connosco até acabada a comunhão, depois da qual comungaram esses religiosos e sacerdotes e o Capitão com alguns de nós outros.

“Alguns deles, por o sol ser grande, quando estávamos comungando, levantaram-se, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinquenta ou cinquenta e cinco anos, continuou ali com aqueles que ficaram. Esse, estando nós assim, ajuntava estes, que ali ficaram, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles falando, lhes acenou com o dedo para o altar e depois apontou o dedo para o Céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomámos.

“Acabada a missa, tirou o Padre a vestimenta de cima e ficou em alva; e assim se subiu, junto com o altar, em uma cadeira. Ali nos pregou do Evangelho e dos Apóstolos, cujo é o dia, tratando, ao fim da pregação, deste vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, o que nos aumentou a devoção.

“Esses, que estiveram sempre à pregação, quedaram-se como nós olhando para ele. E aquele que digo chamava alguns que viessem para ali. Alguns vinham e outros iam-se. E, acabada a pregação, como Nicolau Coelho trouxesse muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda, houveram por bem que se lançasse uma ao pescoço de cada um. Pelo que o Padre Frei Henrique se assentou ao pé da Cruz e ali, a um por um, lançava a sua cruz atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha primeiro beijar e alevantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançaram-na todas que havia, que seriam obra de quarenta ou cinquenta.

“Acabado isto (segundo o cronista, perto das treze da tarde), fomos assim perante eles beijar a Cruz, despedimo-nos e viemos comer.”

A primeira missa no Porto Seguro de Vera Cruz. Pintura de Vítor Meirelles, exposta no Museu Nacional de Belas Artes

A primeira missa no Porto Seguro de Vera Cruz. Pintura de Vítor Meirelles, exposta no Museu Nacional de Belas Artes

Por seu turno e para agravar a causalidade da chegada de Cabral a Porto Seguro, escreveu Roberto Lucíola com a lucidez que lhe era peculiar (21):

E por falar em “índios”, bem poucos conhecem o facto de que as cores de nosso pavilhão são as mesmas que ornavam o sagrado MARACÁ (pendão, estandarte, símbolo de uma Nação indígena) da tribo dirigida por TIBIRIÇÁ, o másculo chefe dos TUPINAMBÁS. Esse MARACÁ era tecido com arte e gosto, com linhas e raras penas de arara, nas cores Verde e Amarelo, encimado por um campo formado com uma esfera Azul anil e “comboíras” brancas (comboíras ou contas, feitas de sementes). TIBIRIÇÁ, com o concurso do Sumo Sacerdote SAIXÊ e do Chefe dos Guerreiros, ICARAÍ, coordenou a recepção a CABRAL. As 10 tribos que participaram de tão importante acontecimento foram as seguintes:

Realmente as cores da actual Bandeira do Brasil estavam presentes nos tocares dos chefes das tabas que receberam Cabral: “Outros traziam carapuças de penas amarelas; outros de vermelhas; e outros de verdes», descreveu Caminha. Por seu turno, Icaraí também foi assinalado pelo mesmo escrivão: “Andava aí um que falava muito com os outros que se afastassem, mas não que a mim me parecesse que lhe tinham acatamento ou medo”. Já Saixê poderá ser o índio que apontou o altar e depois o Céu, como se dissesse “algo de bem” aos seus, talvez: – Vede, os recém-chegados amam a nós os Tupis desta Taba de Tupã!

O certo é que “andavam mais mansos e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles. Neste dia, enquanto por ali andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril dos nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus.” – In Caminha.

Para se chegar a tamanho evento e consolidação do Sangue Real Luso com o Sangue Nobre Tupi, para sempre modificando a História da Humanidade antevendo já uma Nova Era de Promissão para o Mundo a partir do Brasil, três factores primordiais, mais ou menos registados historiograficamente, terão concorrido para tal:

1.º) A América Índia inteiramente preparada para receber os Iberos em 1500;

2.º) A sua promoção pela Escola de Navegação de Sagres;

3.º) A Ordem de Mariz, detrás de todo o processo ecuménico, cujo Grão-Chefe era o próprio Infante Henrique de Sagres, tendo lateralmente por Colunas Vivas a Colombo e a Cabral.

Assim como Frei Henrique Soares, franciscano enviado em missão pastoral pelo Geral do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, foi o primeiro representante vivo da Autoridade Espiritual de Mariz em solo brasileiro, igualmente Pedro Álvares Cabral foi o primeiro representante vivo do Poder Temporal de Mariz na mesma Terra Venturosa de Vera Cruz, assim se outorgando por correspondência simbólica os três Caprinos das suas Armas aos descendentes da antiga Cária e presentes sumos dignitários da Nação Tupi: TIBIRIÇÁ (Rei e Sacerdote – PAI) – SAIXÊ (Sacerdote – FILHO) – ICARAÍ (Rei – ESPÍRITO SANTO), atributos notáveis de MELKI-TSEDEK, o “Planetário da Ronda”, como Caprino ou Cumara Primordial, de maneira que poderei conformar:

Nada disto se estranhará se atender-se a que Pedro Álvares Cabral herdou de seu pai, Fernão Cabral, a erudição da Corte Hermética de D. Afonso V, o Rei-Alquimista que inclusive chegou à fábrica do Ouro Filosófico (22), e terá convivido de perto com os saberes cabalísticos da Sinagoga de Belmonte (cuja comunidade se instalou aí, mantendo diáspora prolongada até além do século XVIII, altura em a sua judiaria, alfama ou colónia judaica passou a ser identificada com o nome de bairro de “Marrocos”), onde terá aprendido o sentido oculto da Navegação Hermética, dentre outras coisas; a comunidade judaica beirã foi afamada em todo o país pela promoção dada às livrarias especializadas em Kaballah e Alquimia, inclusive tendo sido procurada e professada pelos mais doutos da Península Ibérica. É constante a presença nela de Isaac Abarnavel, rabi-mor do Reino e conselheiro particular de D. Afonso V, o Africano, além de músico, poeta e hermetista afamado.

Com tudo, pode deduzir-se que a cultura de Cabral não seria unicamente a vulgar de cátedra mas sobretudo a iniciática de Ordem, e talvez seja essa a razão do desprezo ostracista a que foi votado após o seu regresso da Índia pelo caminho de ida “achando” o Brasil, numa época em que já se sentiam os ecos da Contra-Reforma próxima (encetada após o Concílio de Trento realizado entre os anos de 1545 e 1563) e estava declarada a perseguição aberta ao judaísmo e demais modalidades consideradas heréticas. Contudo, ante tantos indícios que o tempo não conseguiu apagar, a par do homem de armas e do grande navegador tem-se também e sobretudo o Grande Iniciado. O Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira (1928-1969) e notável pedagogo, não se escusou apontá-lo nesse último sentido (23):

A missão de Cabral não é mais do que um codicilo para o espiritual Testamento de Cristóvão Colombo. Foi ele – como Pedro – a Pedra fundamental, ao raiar do século XVI (1500), do Grande Edifício Humano.

Por isso a capital baiana de Cristóvão Colombo traz o nome de Cristo ou Salvador, enquanto a do outro, BAÍA CABRÁLICA ou VERA CRUZ.

1500! Ano de Cristo ou Cristiano, como o verdadeiro ROSACRUZ. Sim, a rubra (ou ensanguentada) FLOR Crística (cor da referida Ordem – de CRISTO – em Portugal) cercada de espinhos… no centro de uma CRUZ.

Um século que finda: Colombo. Outro século que começa: Cabral. Séculos XV e XVI. O Kumara, a Casa de Deus, segundo os mesmos Arcanos.

Tanto o Brasão de Colombo como o de Cabral são cercados de ramos partidos do mesmo tronco. Tronco divino e não humano, Tronco deífico ou Aghartino. Cabral, Capris, Capricórnio, Kumara, etc. Cristóvão Colombo simbolizando a 3.ª Pessoa (que ele mesmo saudava de modo velado) da Trindade ou Espírito Santo.

O facto de alguém se chamar Pedro Álvares Cabral e adoptar por Brasão vários ramos de uma Árvore (a Árvore Genealógica dos Kumaras ou Cabires), tendo em baixo, no escudo, dois CABRITOS, e em cima ou no cume, na cúspide, etc., um outro, um pouco menor, na razão de uma Trindade Kumárica ou Pai, Mãe e Filho, denota superiores conhecimentos esotéricos que não os podem ter homens vulgares, por mais ilustres que sejam. Bastava isso para confirmar tudo quanto dissemos a seu respeito.

Salve, Árvore Genealógica dos Cabires, honrada nos preciosos nomes Cristóvão Colombo e Pedro Álvares CABRAL!

A verdade é que, segundo a obra secreta Livro das Vidas, lavrada sobre o mais profundo esoterismo pelo mesmo Professor Henrique José de Souza em 1933, ele indica Pedro Álvares Cabral como a 3.ª Alma Peregrina ou “Vida Esparsa” do 3.º Sub-Aspecto do 7.º Aspecto da Linha dos SERAPIS, ou seja, inserido no 3.º Sub-Raio dos 7 que compõem o 7.º Raio (cada Raio é composto de 7 Sub-Raios, em guisa de decomposição cromática das promanações solares do respectivo Logos ou Divindade Central do Sistema Solar em torno do qual orbitam 7 Logos Planetários).

Cavando um pouco mais fundo na procura esotérica do que fosse a natureza oculta tanto da pessoa como da missão de Cabral, informa a Tradição Iniciática das Idades que os Serapis (Seres Divinos, Ser+Apis) estão profundamente ligados aos mistérios do Seio da Mãe-Terra, caracterizando-se essa Linha pelos atributos seguintes:

– 7.º LOGOS – 7.º RAIO.

– A ORDEM dos RITMOS naturais.

– O Poder ou Força que ajusta as relações internas às externas, adaptando umas às outras, dando forma à Essência no Plano Físico.

– A Essência adaptada ou revestida de matéria apropriada a poder agir no campo da Matéria.

– ESPÍRITO e MATÉRIA.

– ORDEM na acção física ou o agir correctamente no Plano Físico.

– A MAGIA como Cerimonial ou Acto Ordenado.

– Todas as Energias relacionadas com o Plano Físico denso, fazendo parte deste prodigioso Logos. Portanto, o novo Sol nascente que deve percorrer o seu Zodíaco ou Ciclo evolucional através dos signatados “12 Trabalhos” de Hércules ou Herakles.

– O Físico denso contendo em si o Vital ou Etérico – FÍSICO NO FÍSICO.

– Mundo das Formas – Reencarnação.

– SOL (no Solo, Seio da Terra) – Kumara MIKAEL.

– Linha SERAPIS – MANU (Legislador).

Assim, a Linha dos SERAPICOS ou SERAPIS constitui-se na representação vertical do Pai Eterno. São os “Ferreiros” do Seio da Terra, os que laboram directamente com o Fogo Terrestre ou Kundalini, logo, com o Fogo de Marte, assim fixando Saturno (SAT-OM) na Terra. A tónica desta Linha é a Magia Cerimonial como caminho espiritual e método de acção. Por serem Seres votados à manipulação das forças naturais e sociais, construindo e destruindo sociedades e civilizações em conformidade aos seus ciclos de duração e karma ou dividendos acumulados, estes Seres Divinos como Agentes dinâmicos dos Senhores do Karma na Terra estão por isso isentos de qualquer Karma, mesmo quando aparentemente se mostram implacavelmente destruidores, pois não fazem senão cumprir as Ordens da Face do Rigor da Divindade. Por isso aos Serapis também se lhes chama Atikarmas. Profundamente relacionados aos 3.º e 5.º Raios, eles são os detentores da Alta Magia Divina, os TEURGOS e TAUMATURGOS por excelência.

Já as 4.ª e 7.ª Linhas dando consecução ao Trabalho Vertical da Grande Fraternidade Branca de Agharta para a Face da Terra, constitui assim a objectivação da Autoridade Espiritual (Tsedek) na Terra, o que se relaciona com toda a Obra Templária da Ordem do Santo Graal, preparando o Advento do Espírito de Verdade por sobre o mesmo Mundo (24).

Desfecham os Maiores da Raça o vaticínio de caber ao Brasil, sendo primeiro eco ou arauto Cabral, ser a Terra Venturosa escolhida por Deus para seu Trono.

Após a fundação gloriosa do Brasil Ibero-Ameríndio por Pedro Álvares Cabral – Tibiriçá, o Grande Navegador realizou a sua missão oficial em Calicute e Cochim, na Índia, e regressou ao Reino onde D. Manuel I, parecendo embriagado pelo prestígio imenso e a enorme agitação internacional à sua volta, mal o onerou e depressa o esqueceu, apesar dos protestos junto do monarca mal-agradecido dos amigos e admiradores de Cabral, dentre eles o vice-rei da Índia, D. Afonso de Albuquerque (25).

Sem talentos para adulador, discreta mas decididamente Pedro Álvares retira-se da Corte e da Lisboa febris e fixa residência na Quinta do Rosário, perto de Santarém, refugiando-se na vida agrícola onde passa o resto dos seus dias, no sossego merecido do Herói em terras e mares distantes e na memória contemplativa da Grandeza feita, morrendo quase anónimo em 1520 (26).

Diz-se ter sido sepultado na capela de S. João Evangelista da igreja de Nossa Senhora da Graça dessa cidade escalabitana, cuja legenda tumular, em caracteres góticos, com referência brevíssima a ele mostra bem a censura inquisitorial sobre a sua pessoa, parecendo mesmo querendo-a apagar da memória da História da maneira mais infame possível: “AQUI JAZ PEDRALVAREZ CABRAL…” – e é só. Mas a legenda tumular prossegue com referências à sua esposa D. Isabel de Castro que mereceu maiores encómios, não por ser a mulher do Grande Navegador mas tão-só por ter sido a camareira-mor de D. Maria Manuela de Portugal, filha do rei papista D. João III que odiava tudo quanto tivesse a ver com judeus, árabes e outras raças e crenças que não estritamente as apostólicas romanas (27).

Ainda assim, resta saber se os despojos mortais de Pedro Álvares estarão realmente aí. Isto porque a sepultura foi aberta em Agosto de 1882, para confirmar a sua presença, tendo sido encontradas três ossadas humanas, duas masculinas e uma feminina. Causou ainda forte estranheza a presença do esqueleto de uma cabra no interior do túmulo, mas para muitos isso provava que aí jazia Pedro Álvares Cabral: o escudo dos Cabrais ostenta três cabras. Para todo o efeito, dou interpretação absolutamente diversa ao caso, do género aqui “charada” iniciática: fica a cabra e vai o Cumara… Para onde? Eis o busílis da questão. Para agravar a questão, por volta de 1903 o túmulo foi reaberto, e dessa vez continha oito corpos, cinco ossadas masculinas, uma feminina e duas de crianças. Mesmo tendo sido utilizado como depósito sepulcral, o facto é que assim o enigma adensa-se e, para mim, acaba só tendo maior valor o sentido velado da cabra no lugar do Cumara.

Túmulo de Pedro Álvares Cabral na igreja da Graça, Santarém

Túmulo de Pedro Álvares Cabral na igreja da Graça, Santarém

Seja como for, é impressionante a cortina de silêncio lançada sobre o nome e a pessoa de Pedro Álvares Cabral, logo após o seu regresso triunfal da Índia em 1501.

As únicas duas cartas que o apresentam como retirado da Corte e com residência fixa em Santarém, onde pretende alargar as suas propriedades, são datadas de 1509. E o nome de Pedro Álvares só volta a aparecer nos documentos com relação ao ano de 1518, já perto da data da sua morte, onde consta do Livro de matrícula dos moradores da Casa del-Rei D. Manuel como cavaleiro do seu Conselho, com a pensão mensal de 2437 reais.

Segundo Metzner Leone (in ob. cit.), tudo o que se conhece como remuneração régia para os serviços prestados por Pedro Álvares Cabral é de uma exiguidade que chega a envergonhar quem concedeu mercês tão mesquinhas por tão altos serviços recebidos: em 4 de Abril de 1502 são mandadas pagar a Pedro Álvares duas importâncias, uma de 13 mil reais e outra de 30 mil reais, “de sua tença”; em 6 de Março de 1504, mais 30 mil reais; e há um recibo, assinado pelo próprio Pedro Álvares em 10 de Janeiro de 1515, que lhe conferia a importância de 200 mil reais, da tença anual.

Reparando em toda essa anormalidade, dá vontade de supor que não foi Pedro Álvares Cabral quem fez a mais extraordinária e a mais significativa viagem marítima de toda a Gesta Henriquina e consequente Período das Descobertas – pois tal suposição seria a única hipótese de inocentar quem assim o recompensou como homem, e quem assim o inutilizou como português ao serviço da sua terra e da sua gente. Mas não há dúvida nenhuma de que o mesmo Pedro Álvares Cabral nomeado, por uma carta régia, Capitão-mor da armada da Índia é o mesmíssimo a quem Caminha chama simplesmente o Capitão, a quem o Piloto Anónimo chama Pedro Álvares, e a quem a História Universal chama apenas Cabral.

Não importa, é a sina fatal de todo o Grande Iniciado cujos feitos épicos, imortais, vulgarmente são pagos com desdém e abandono. Não importa, é sempre assim o mundo vulgar, profano… cuja sobrevivência depende inteiramente, contudo e anacronicamente, daquele, tanto em riquezas humanas quanto espirituais.

Importa, sim, saber “Qual dos Gigantes morto rolará?”, Portugal ou o Brasil, na interrogação incómoda que faz o imortal Castro Alves, no final da sua Ode ao Dois de Julho.

Nenhum deles rolou nem rolará, respondo eu, pela razão de se tratar de um fenómeno cíclico da maior transcendência na História, como seja a da descida das Mónadas ibéricas para se fundirem na Raça Autóctone brasileira, ou seja, “a Raça nobre e guerreira dos Tupis”. Com isto se consolidaram os laços humanos e espirituais que até hoje unem estreitamente as duas privilegiadas Pátrias-Gémeas: PORTUGAL E BRASIL.

Assim se cumpriu o Ciclo Luso-Ameríndio no Quinto Continente, berçário de um Quinto Império Universal da Humanidade, na mais excelsa e arrojada iniciativa cabrálica ou cumárica na Nova Lusitânia unida à progenitora desde Praia Grande de Sintra a Mar Grande de Itaparica. Pelo que:

NOTAS

1) António G. Mattoso, Compêndio de História Universal. Depositária Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1962.

2) Dos treze navios da Armada de Pedro Álvares Cabral, apenas se conhecem os nomes de três: Anunciada, El-Rey e S. Bento.

3) Metzner Leone, Pedro Álvares Cabral. Editorial Aster, Lisboa.

4) Raúl Proença, Guia de Portugal – II Beira Baixa e Beira Alta, volume III. Edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

5) Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Lisboa, 1961.

6) António Pedro de Sousa Leite, Novos Elementos para o Estudo da Grande Família dos Gouveias Humanistas. Braga, 1965.

7) Luís Peter Clode, Genealogia da Família Cabral. Funchal, 1968.

8) Metzner Leone, ob. cit.

9) João de Barros, Décadas. Com selecção, prefácio e notas de António Baião. Vol. I, livro 5, cap. I, p. 102. Colecção de Clássicos Sá da Costa, Lisboa.

10) Foi Mestre João quem primeiro representou, em carta cosmográfica, a constelação do Cruzeiro do Sul. Não só era cosmógrafo como cartógrafo, físico, cirurgião e sábio em leis.

11) Jaime Cortesão, A Carta de Pêro Vaz de Caminha. Rio de Janeiro, 1943.

12) Fernão Lopes de Castanheda (1500? – 1559), História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, em 10 tomos cobrindo toda a história do Império Português no Oriente, desde as suas origens até à década de 1540. Episódio citado no liv. IV, cap. XXXVII, pp. 439-441 da edição de Pedro de Azevedo e P. M. Laranjo Coelho, Coimbra, 1928.

13) Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil (Flos Sanctorum Brasiliae). Madras Editora, São Paulo, 2004.

14) Jaime Cortesão, A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil. Lisboa, 1922.

15) Joaquim Ribeiro, Carta de Pêro Vaz de Caminha. Edição crítica. Rio de Janeiro, 1928.

16) Francisco Silva e Pedro Bastos, História do Brasil. Editora Moderna, São Paulo.

17) Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala. Pernambuco, 1933.

18) Teresa Mesquitela, Os deuses que vieram de África. In revista História, n.º 76, Fevereiro de 1985, Lisboa.

19) Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos. Lello & Irmão – Editores, Porto, 1990.

20) Pedro de Mariz, Diálogos de Vária História (Dedicados aos Diogo Soares), Diálogo V, p. 454. Editados por António Craesbeek de Mello, impressor da Casa Real, Lisboa, 1672.

21) Roberto Lucíola, Brasil desconhecido. Revista Aquarius, Ano I, n.º 3, 1975, Rio de Janeiro.

22) Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2003.

23) Henrique José de Souza, Colombo e Cabral. Revista Dhâranâ, n.º 110, Out./Dez. 1941, São Paulo.

24) Comunidade Teúrgica Portuguesa, Apostilas 57 e 58 da Série Interna do Munindra ou Integração.

25) Luiz Bivar Guerra, Pedro Álvares Cabral e a sua representação de facto e de direito. Lisboa, 1960.

26) Jaime Cortesão, A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil. Lisboa, 1922.

27) Alberto de Carvalho, Memória a respeito da sepultura rasa do descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral, na igreja da Graça, em Santarém. Lisboa, 1902.

A Demanda do Reino do Preste João – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Set 16 2016 

A demanda de um desejado Reino de felicidade, prosperidade e justiça ininterruptas, vedado a qualquer espécie de corrupção, civilização supraperfeita subjacente ao inconsciente colectivo dos povos como Amor e Saudade, originou na Idade Média, adentrando a Renascença, o mito do Preste João, prolongamento da tradição do Santo Graal, da Quête, da Demanda cuja “pedra-angular” mental era a consolidação à face da Terra dum Império Utópico ou “por realizar”, filosófico de pura Cristandade capaz de unir aos dois hemisférios de civilização do Globo, cuja penúltima tentativa foi a Odisseia Templária, e a última o Ecumenismo das Descobertas Marítimas promovidas pela Ordem de Cristo, em que se tomou por “alavanca de Arquimedes” a busca da Terra Prometida do Patris Iohannes.

Assim o quis o Infante Henrique de Sagres, e assim o quiseram todos os seus capitães de mar posteriores, ou pelo menos a maioria deles, e nesse sentido encetaram medidas, pelo que há notícias, umas verdadeiras e outras fictícias, de embaixadas das cortes de Portugal a serem recebidas pelo Preste João. Foram os casos de Bartolomeu Dias, D. Cristóvão da Gama e Francisco Álvares, dentre outros, havendo igualmente documentação ou cartas enviadas pelo Preste João a D. João II e a D. Manuel I[1]. Já antes, conforme consta na Chancelaria de D. Afonso V, este havia recebido em 1453 um certo Jorge, “embaixador do Preste João”[2].

Ainda que comumente se acredite que a lenda do Presbítero João teve início na corte de Luís XI de França, a verdade é que ela foi importada do Oriente para o Ocidente pelos Templários[3], e mais tarde exportada para França pela Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de Pêro da Covilhã quando acompanhou a visita de D. Afonso V à corte do seu primo Carlos, o Temerário, coevos do Infante D. Henrique e da Escola Náutica de Sagres com a sua ala reservada: a Confraria do Espírito Santo, composta de Iniciados da Ordem de Cristo que, por sua vez, nos séculos XV-XVI andava de relações com uma outra do Oriente, a Ordem de Santa Catarina do Monte Sinai.

Reza a tradição popular dos coptas, certamente para enaltecerem a sua génese superior, pelo que é lenda áurea ou mito de fundação, que o Mosteiro de Santa Maria e Santa Catarina do Monte Sinai fora fundado pelo rei-pastor Jethro, o pressuposto iniciador do próprio Moisés que veio a casar com a filha daquele, Séfora. Posteriormente, essa Confraternidade teve à dianteira o “Ancião da Montanha Primordial” ou Alborj, Bey Al Bordi, manifestação deifica do Arcanjo Mikael, que era o Grão-Mestre dos Assacis xiitas e o próprio Mestre Secreto dos Templários joanitas, ou pelo menos de parte deles afins à gnose oriental. Mais tarde, essa misteriosa mas venerada personagem seria identificada, pelos Lusos de Quatrocentos e Quinhentos, com o Preste João, ou, pelo menos, com uma das suas quatro faces.

Nos finais do século XIII, a Regra da Ordem dos Reclusos de Monte Sinai terá servido de inspiração à fundação da Ordem dos Drusos, esta que, informa a Tradição, tornar-se-ia o “Escudo Defensivo” de uma outra Ordem Iniciática muitíssimo mais fechada ao exterior: a Fraternidade Tuaregues Azuis de Kaleb, instalada algures no Deserto da Líbia com jurisdição espiritual e humana para todo o Médio Oriente.

 Tal como no Mosteiro do Monte Sinai e na Confraria do Espírito Santo de Lagos, também os filósofos herméticos das cortes de Luís XI e de Carlos o Temerário apelidavam o “Velho da Montanha” (Cheik al-Djebel) de Navegador (Nautonnier)… na Ciência de Maria, isto é, na Via Húmida ou Mareante da Alquimia. O último a deter esse título foi precisamente o Infante Henrique de Sagres.

Mosteiro de Santa Maria e Santa Catarina do Monte Sinai

Mosteiro de Santa Maria e Santa Catarina do Monte Sinai

Para os Templários a Mãe Divina, de quem brotou o Divino Filho, possuía maior importância na sua catequese e gnose que as outras Hipóstases da Santíssima Trindade, talvez por se identificar ao seu espírito de Cavalaria ou Demanda como Iniciação activa ou votiva, particularizada na Arte Real da Alquimia, como conquista de si mesmo, da feitura do Ouro Crístico partindo da Mater-Rhea ou Matéria-Prima; por isso mesmo, a Mãe era mais velha e sábia que o Filho a Ela devendo a geração. Razão porque os pressupostos Estatutos Internos do Templo afirmam: “Nossa Senhora está no começo e no fim da nossa religião, porque Ela existia antes que houvesse montanhas ou terra”[4]. Motivo para René Guénon considerar a existência de duas correntes iniciáticas distintas[5]:

As duas cadeias iniciáticas. – Uma é histórica, a outra espontânea. A primeira comunica-se nos santuários estabelecidos e conhecidos, sob a direcção de um Sheikh (Guru) vivo, possuindo as chaves do mistério. Tal é El-Talîmurrijâl, ou a instrução dos homens ou dominical. A outra é El-Talîmur-rabbâni, a instrução senhorial, que me permito chamar “Iniciação Mariana”, porque foi essa que recebeu a Santa Virgem, a Mãe de Jesus, filho de Maria. Nesta há sempre um Mestre, mas ele pode estar ausente e mesmo já ter falecido há muitos séculos. Nesta Iniciação retira-se no Presente a mesma substância espiritual que os outros retiraram na Antiguidade. Actualmente ela é muito frequente na Europa, pelo menos em seus graus inferiores, mas quase desconhecida no Oriente.”

Tudo isso de maneira alguma significa que a Ordem do Templo tivesse sido uma sociedade secreta (muitíssimo menos a Ordem de Cristo), ou seja, erigida e funcionando à margem do conhecimento universal e da autoridade oficial, a do Papa e mesmo do Rei, pois de modo algum em tempo nenhum tal aconteceu. Isto a nível colectivo. Quanto ao pessoal, neste sim, há provas indiscutíveis de alguns raros Iluminados da Milícia terem agido com “segundas intenções” ante o geral, ou seja, com pretensões secretas só conhecidas deles e dos que das mesmas partilhavam.

Isso também é válido para o mito do Preste João, cujo Reino tinha tantas e tão fartas riquezas, segundo a ampla propaganda dos Templários e Freires de Cristo, que assim levavam as gentes comuns a embarcar ambiciosas de novas terras e fortunas certas, indo encetar diáspora civilizacional que era o motivo prático da difusão desse mito. De outro modo, certamente ninguém embarcaria em aventuras tão perigosas só tendo por certo o desfecho incerto…

Nessa relação dos Portugueses com o Preste João, sabe-se ainda que Pêro da Covilhã (professo da Ordem de Cristo) havia recebido as suas informações acerca do Monarca misterioso por intermédio de dois judeus cabalistas ou bandarras: o rabi Abraão de Beja, e o sapateiro Joseph de Lamego. Ora, para Fernando Pessoa[6] “Bandarra era o nome do Grau Profético da Ordem de Cristo, e da qual o Padre António Vieira veio a ser o Grão-Mestre”. Não haja dúvida que o sentido da assertiva não é histórico mas iniciático, sendo isso assaz interessante porque a Iniciação Mariana ou Cavaleiresca (Kshatriya) está profundamente relacionada ao Profetismo e ao Messianismo, como já tive ocasião de dizer[7]:

“A Iniciação Mariana ou Cavaleiresca, presentemente, encontra o seu pedestal sagrado na Ordem do Santo Graal, Templária, e na Maçonaria Copta ou Egípcia, esta que tem por fundação o mistério isíaco dos seus três MMM, que também são o seu “santo-e-senha”: Menfis – Misraim – Maisim, em alusão aos três grandes Templos da época de Akenaton ou Amenófis IV, um solar, um lunar e outro lunissolar ou andrógino, mas também e fundamentalmente à Luz Tríplice do Governo Interno do Mundo.

“Essas três Luzes aludem igualmente as três Aspectos de Shiva, Siva ou Avis anagramaticamente, como seja o Espírito Santo, a Terceira Hipóstase Logoidal influindo na criatura humana que, quando receptiva à Sua influência iluminadora, pode tornar-se um profeta ou “porta-voz” da Sabedoria Divina, e isto através da mesma Sabedoria (Budhi) – Inspiração (Bodhi) – Revelação (Badhi), tanto valendo por Jnana (Conhecimento), Jneia (Conhecedor) e Jnata (Conhecido).

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“O Espírito Santo é o Patrono dos Profetas, e a Sua face oriental, Shiva, designa-O como Senhor dos Kshatriyas ou Cavaleiros defensores de toda a Ordem social, cujo elaboramento sinárquico é feito como Arte Real, visando humanamente o bem-estar e a elevação moral dos povos sob a égide de um Governo Único: o do Rei do Mundo, Melkitsedek, a mais viva e próxima Expressão do Terceiro Logos.”

Quanto ao primeiro documento conhecido do reportado aqui, trata-se da famosa Carta do Preste João endereçada em 1165 a Manuel Comneno, imperador bizantino de Constantinopla, assim como a Barba-Ruiva, imperador da Alemanha, e ao papa Alexandre III, parecendo o documento ter a sua origem em Portugal. Isto porque a sua versão original encontra-se no cartório do Mosteiro de Alcobaça, datada dos finais do século XIV, mas que, por voltas do destino, em 1478 aparece pela primeira vez impressa em língua italiana, em Veneza, na qual se inspiraram outras obras, também na mesma língua, como a versão rimada do Trattato del maximo Prete Janni (Veneza?, 1494), de Giuliano Dati. No mesmo teor de inspiração na Carta, irá aparecer em 1515 uma edição espanhola de um certo Libro del Infante Don Pedro de Portugal, da autoria de Gomez Santisteban (editado em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian, 1962). Por fim, esta Carta veio a ser publicada por Domingos Maurício em 1961, em Lisboa, na separata da revista Brotéria, n.º 72, a qual já a transcrevi e publiquei na íntegra no meu livro Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo).

Nessa carta, o Prestes João apresenta-se como Soberano máximo das “Três Índias”, o que vai bem com o conceito geográfico medieval, pois essas subdividiam-se em Próxima Índia, Extrema Índia e Média Índia, correspondendo respectivamente às partes Norte e Sul do subcontinente indiano e à região africana hoje denominada Etiópia. Após a chegada ao continente americano de Cristóvão Colombo e de Pedro Álvares Cabral – ambos pilotos portugueses formados na Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres, e até se dizendo terem sido as suas Colunas Vivas – nos séculos XV-XVI, as Américas do Norte e do Sul passaram a ser denominadas de Índias Ocidentais, contrapondo-as às Orientais, mas sempre realçando o designativo de Ásia, tanto com o sentido imediato de território longínquo e exótico, para o viajante europeu, como, principalmente, com o de Assiah ou “Mundo”, cuja conquista espiritual teve a primazia da Gesta Dei Per Portucalensis.

Com tudo, a Tradição acabou sendo envolta pelo «véu diáfano da fantasia», parafraseando o romancista, e o mito transformou-se em quimera nostálgica e poética mais ou menos confusa, acrescida de informações desconexas e contraditórias que invadiram a Europa de Quinhentos sobre tão sibilino quão fugidio Reino, para uns sito na Índia, para outros na Etiópia ou no Egipto, e para outros ainda na Mongólia ou no Tibete…

Segundo a Tradição Iniciática das Idades e de acordo com o proferido sobre o tema pelo Professor Henrique José de Souza,  esses quatro lugares consignados como Reino do Preste João vêm a expressar outros tantos aspectos ou faces do mesmo assim associando-o ao Jano Tetrafonte que, em si mesmo, é o Quinto como Rei do Mundo (Melkitsedek em hebreu e Chakravarti em védico), cuja Morada Central vem a ser o Centro do Globo (Salém, Walhallah, Shamballah…). Ele tem como Colunas Vivas laterais ou Ministros um Aspecto Masculino no Egipto para um Aspecto Feminino na Índia, e um Aspecto Masculino na Mongólia para um Aspecto Feminino no Tibete, como sejam Polidorus InsurenusMama Sahib, Takura BeyBelmira, para o Central como Pentamorfo.

Os raros Iluminados conhecedores do mistério haviam deixado transbordar do escrínio dos seus Colégios rumores saídos da Tradição Iniciática para que o povo e demais gente, repito, inflamados pela imaginação e cobiça de um “Paraíso Perdido repleto de grandes riquezas”, encetassem a sua demanda por terra e mar indo dar início a um novo fluxo migratório de pessoas e culturas, de maneira a ser alavanca psicossocial de um novo ciclo de progresso.

Essa Tradição Iniciática estabelecia a união da Dinastia do Santo Graal com o Preste João, que também pertencia a ela, como já antes Wolfram Von Eschenbach descrevera de maneira absolutamente simbólica no seu Parzival[8]. A trama desse romance resume-se ao seguinte:

Gahmuret, filho do rei de Anjou, vai para o Oriente onde casa com Belacane, rainha de Zazamac. Da união nasce Feirefiz, o cavaleiro cujo corpo era branco e negro. Gahmuret volta para a Inglaterra e casa-se de novo, dessa vez com Herzeloyde, de quem nasce Parzival. Gahmuret é morto numa batalha e, temendo pela sorte do filho, Herzeloyde retira-se para a floresta onde o herói cresce ignorando tudo quanto diga respeito à Cavalaria. Neste livro de Eschenbach acontece o mesmo que havia acontecido com Perceval no outro de Chrétien de Troyes, ou seja, Parzival descobre a existência da Cavalaria e sai em busca da corte do rei Artur, acção que tem como resultado a morte de sua mãe. Repetem-se várias aventuras até que Parzival chegue ao Castelo do Santo Graal. Contrariamente ao que se passa na obra de Chrétien, o Graal é aqui uma Pedra que havia sido confiada pelas Potências Celestes à guarda de Titurel e seus descendentes. Era sobre essa Pedra que a Fénix renascia periodicamente, e ainda sobre ela, toda a Sexta-Feira Santa, descia do Céu uma Hóstia consagrada. De tempos a tempos os nomes dos Cavaleiros, destinados a experimentar as maravilhas do Santo Graal, apareciam milagrosamente gravados na Pedra. O ferimento do rei inválido (Amfortas), é atribuído ao facto dele se ter disposto a lutar por uma causa mundana (amor adúltero, paixão cega). Parzival apaixona-se por Condwiramur, que irá se reunir a ele no Castelo do Santo Graal após ter vencido todas as provas, inclusive a da espada quebrada. No final Parzival e Feirefiz vão juntos para o Castelo do Santo Graal, mas Feirefiz não pôde ver o Graal em virtude de não ser baptizado. Parzival fica Rei do Santo Graal e Feirefiz, depois de receber o baptismo, casa-se com a Donzela do Santo Graal e retira-se para o Oriente onde estabelece o Cristianismo que será mantido por seu filho, Preste João. Parzival e Condwiramur têm um filho, Lohengrin, o qual, guiado por um cisne branco, vai em auxílio da Duquesa de Brabante. Ele casa-se com ela sob a condição dela não lhe perguntar coisa alguma a respeito da sua origem, e quando inadvertidamente o fez, o cisne levou-o embora.

Como se vê, aparte o mito necessário para que o símbolo se expresse, a Dinastia do Santo Graal – aliás, mantida em sigilo pelos Templários portugueses e franceses – tem ligação à mais pura essência do Cristianismo, e nesta observa-se a manutenção ininterrupta da Tradição Iniciática de Melki-Tsedek, ou por outra, do Rei-Sacerdote João, o Presbítero, este último termo designando o Ancião, o possuidor da Sabedoria das Idades, consequentemente, reconhecendo-o o mais Sábio e Supremo Dirigente, Pai Espiritual da Igreja Invisível ou Secreta de João, apóstolo pré e apocalíptico que “permanecerá até ao Fim dos Tempos”, nas palavras da própria Escritura.

Curiosamente, fala-se em Preste João da Ásia, mas creio que esse último termo peca por imprecisão ortográfica, pois originalmente escrevia-se Assiah, o “Mundo” em hebraico, cuja doutrina esotérica, a Kaballah, estrutura o Universo e o Homem em quatro grandes Planos, a saber:

Por sua vez e com a magistralidade que lhe era própria, o Professor Henrique José de Souza compôs o esquema seguinte a que chamou O Tetragramaton Sagrado e o seu desenvolvimento[9], o qual exponho sem comentários oferecendo-o ao cuidado do leitor:

esquema-3

Também sobre este tema palpitante do Preste João versus Melki-Tsedek, o Professor Henrique José de Souza teve oportunidade de escrever sobre ele, e é com um trecho precioso de um seu antigo estudo consagrado ao assunto[10] que dou por encerrado o tema que aqui me traz:

[…] Tudo quanto dissemos anteriormente a respeito dessa mais que sublime Organização, que tanto se pode chamar, como já foi dito, de Culto de Melquisedec, como de Excelsa Fraternidade, Sudha-Dharma-Mandalam (para o Oriente), mas hoje com outro nome ocidental.

Falemos de preferência dessa “fraternal Ceia ou Comunhão”, em que vivem os preclaros Membros da Excelsa Fraternidade, quer do ponto de vista mental (e a prova é que até hoje se exige, em nosso Colégio Iniciático, o termo sânscrito PAX, que quer dizer “comunhão mental ou de pensamento”, atingindo os confins da Terra, através dos mesmos Seres, e não, apenas, o sentido restrito do “pax” latino, que é, como se sabe, PAZ, essa mesma que deve existir entre todos os seres da Terra), dizíamos, quer do espiritual, ou sejam esses felizes instantes que convivem juntos, em qualquer parte do Globo para onde os conduza a sua própria missão…

Daí nasceu a chamada Ceia do Senhor, levada a efeito entre Jeoshua Ben Pandira (o “Filho do Homem”…) e seus apóstolos ou discípulos.

Era a “comunhão reservada aos maiores pontífices em todos os Mistérios Antigos”. Logo que um Adepto, um Ser qualquer de categoria mais ou menos elevada, ia visitar o Dalai-Lama, este dividia ao meio o pão, lançando-lhe a sua Benção, e ambos comiam a parte que lhes era reservada. Tal ritual, além dos seus sentidos cabalísticos, abrange, ainda, o do Androginismo Perfeito (um pão dividido em dois, como aconteceu no começo das coisas…), o do Pai-Mãe das Escrituras, na razão de Adam-Kadmon para o Divino, Adam-Heve para o Humano e Adam-Chevaoth para o Inferior… que nada tem a ver, como pensa a maioria, com o famoso “inferno” das Escrituras ocidentais.

Em seguida, dois copos contendo o mais precioso vinho ou licor, que, depois de abençoados, cada qual se servia do seu[11]. Não é isso uma espécie de Eucaristia, na razão do “este é o meu corpo, comei-o; este é o meu sangue, bebei-o”? Uma reminiscência, ainda, da “Taça do Santo Graal”[12].

Melquisedec, Rei de Salém, fez trazer pão e vinho, por ser Ele Sacerdote do Altíssimo (El Elion). E abençoou a Abrahão, dizendo: “Abençoado sejas, Abrahão, em nome do Deus Altíssimo, possuidor dos Céus e da Terra. Abençoado o Deus Altíssimo, que entregou os inimigos em tuas mãos. E Abrahão lhe entregou o dízimo de tudo quanto havia tomado” (Génese, XIX, 18-20)[13].

Como dissemos em outros lugares, Jeoshua (Jesus) distribui entre os seus discípulos pão e vinho, o que deu razão ao termo “Ceia do Senhor”, pois, como um Iluminado, Adepto ou Homem Perfeito, conhecia todos esses ensinamentos da Igreja de Melquisedec. Essa mesma “Igreja” que até hoje ensina aos homens que para Ela se acham atraídos, a se religarem ou tornarem a ligar-se, como o estiveram em tempos afastados da História, e consequentemente à sua Origem, na razão da sábia sentença de St.º Agostinho, ao dizer que “vimos da Divindade e a Ela havemos de ir”, que tanto vale pela incompreendida “Parábola do Filho Pródigo que volta à Casa Paterna”… Fenómeno esse comparável ao da Teofania entre os neo-platónicos, e o verdadeiro sentido do termo TEOSOFIA, como “Sabedoria Divina”, dos Deuses, dos Super-Homens, Mahatmas, Génios ou Jinas.

NOTAS

[1] Francisco Álvares, Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias. Publicações Europa-América, Algueirão, 1989.

[2] Elaine Sanceau, Em Demanda do Preste João. Livraria Civilização Editora, Porto, 1956.

[3] Com efeito, as primeiras notícias chegaram à Europa em 1145, quando Hugo de Gebel, bispo da colónia cristã do Líbano, informou o Papa da existência de um reino cristão situado “para lá da Pérsia e da Arménia”, governado por um Rei-Sacerdote chamado Iohannes Presbyter (João, o Presbítero, isto é, Sacerdote, Ancião) e que seria descendente de um dos Reis Magos que visitaram o Menino Deus em Belém. – Cf. Padre Baltazar Teles, História Geral de Etiópia a Alta, 1660. Publicações Alfa, Lisboa, 1989.

[4] Cf. Gérard de Sède, Os Templários estão entre nós, pág. 134. Editorial Estúdio Cor, Lisboa, 1974.

[5] René Guénon, Initiation et Réalisation Spirituelle. Éditions Traditionnelles, Paris.

[6] Fernando Pessoa, Portugal, Sebastianismo e Quinto Império, in “Obras em prosa de Fernando Pessoa” coligidas por António Quadros. Edições Europa-América, Lda., Algueirão.

[7] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz, Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006.

[8] Cf. Almir de Campos Bruneti, A lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português. Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1974.

[9] Sebastião Vieira Vidal, Série O.S.G. Edição privada da Sociedade Teosófica Brasileira, 1968. Edição privada da Comunidade Teúrgica Portuguesa, 2009.

[10] Henrique José de Souza, Cagliostro e São Germano. Revista “Dhâranâ”, 1942, Brasil.

[11] Os árabes mais ilustres só compartilham da refeição de “tâmaras, sal e uvas” com pessoas que lhes mereçam a maior consideração. É, ao mesmo tempo, uma tradição religiosa e “pacto de amizade”.

[12] Não era, antigamente, o Dalai-Lama a representação, na face da Terra, juntamente com o Trachi-Lama, dos dois tradicionais Ministros do “Rei do Mundo”, por sua vez, representado pelo Buda-Vivo da Mongólia, na cidade de Urga, cujo nome correcto é Takura?… Melquisedec e o Rei do Mundo são uma só e mesma Pessoa. Vive Ele, justamente, na “Terra das Libações”, que tanto vale por Agharta, como por Shamballah, a tradicional “Ilha imperecível, pois que nenhum cataclismo a pode destruir”. Shamballah tanto vale por Taça do Licor de Shoma ou lunar, como do de Shukra ou venusiano. Existe, na Índia, a lenda do “Cálice (ou Taça) de Buda”, que será encontrado, novamente, quando se aproximar o tempo de “Shamballah”. Vejamos tal lenda:

Purushapura ou Peshawar foi, durante muito tempo, a “Cidade do Cálice de Buda”. Depois da morte do Mestre, o Cálice foi levado para aí, onde, por muitos anos, tornou-se objecto de veneração. Nos tempos do viajante chinês Fah-sien, aí pelos 40 anos a.C., encontrava-se ele, ainda, no templo que lhe foi dedicado, isto é, Peshawar. Possuía ele diversas cores, predominando, entretanto, o preto. Quanto ao perfil de “quatro cálices” que o compunham, eram vistos claramente.

Porém nos dias de Hsuan-tsang, outro viajante chinês, pelos 650 anos de nossa Era, afirma já não mais se encontrar tal Cálice em Peshawar. Uns dizem achar-se na Pérsia, enquanto outros, em Karashahr.

No Oriente não se pode desdenhar a ideia de um Cálice. Mas, no entanto, as lendas de todos os países a conhecem a seu modo: ora é a “Taça de Lohengrin”, Taça Crística, que interfere nas “rosacrucianas”, ora a da “amargura sorvida no Horto”, e dezenas de outras de que já nos temos ocupado por várias vezes.

O “Cálice de Buda”, segundo as lendas transhimalaias, era milagroso e inesgotável: um verdadeiro “Cálice de Vida”.

Recordemos o “Cálice de Aritha” e a luta por sua posse, tal como o relata, de modo tão poético, o Mahabârata:

“Indra apoderou-se do Cálice do Rei dos Nagas (Nagas ou Serpentes: SRINAGAR ou “Homens-Serpentes, Semideuses, Adeptos, Seres Aghartinos”, etc.) e o levou para o Céu.”

Segundo as tradições persas, «quando Jenishid começou a lançar as bases da cidade de Istaker (ou da “deusa Ísis”…), encontrou-se um cálice milagroso, Jina-Jenshid. O cálice era de turquesa e estava cheio do precioso néctar da vida».

As lendas do mosteiro de Solovetz, ao tratarem dos personagens do Antigo Testamento, mencionam o “Cálice do Rei Salomão” (Salém-Omar, Salo-Omar, etc.):

“Grande é o Cálice de Salomão, feito de uma só pedra preciosa. No cálice existem três versos gravados em caracteres sumérios, que ninguém pode explicar”. Com certeza, são os mesmos a que se refere o famoso Livro de Kiu-Té, no capítulo XXXV, que aqui aparecem pela primeira vez ao mundo profano:

“Tantas vezes beberei neste Cálice

Quantas o mundo exigir a minha presença,

Como “Espírito de Luz e de Justiça”…”

Por mais veladas que sejam tais palavras, são claríssimas para os que já possuem a mente iluminada. Queira o leitor dedicar-se a meditar sobre elas… e grandes coisas acabará descobrindo.

No referido Livro, só conhecido dos Adeptos, também existe uma outra passagem, onde se compara “o Cálice com a Balança”, embora mais longa que o primeiro versículo:

“Dois pesos desiguais para duas medidas iguais…

Assim está separado o meu corpo

Nas conchas da Balança,

Até que as mesmas se fundam

Naquele Cálice onde tenho bebido

Do Sangue que é mais Dele do que Meu!

Até lá, outros O sorverão por Mim!”

Muito mais difícil que o primeiro para ser desvendado, no entanto, daremos aqui uma pequena insinuação:

Balança não é o signo de Vénus? E não se fala num “Cálice ou Taça de Shukra”, na razão do mesmo planeta, pois que o de Shoma é representado pela Lua? Fica o restante para ser descoberto pelo leitor…

Os muçulmanos de Khandakhar, possuem também o seu “Cálice Sagrado”:

Em Kharran, também há um Cálice, denominado Faq-faga. Desse “Cálice” bebem aqueles que tomam parte nos Grandes Mistérios. No sétimo dia, anunciam:

“Ó Mestre! O Maravilhoso tem que se manifestar!”

Nas cerimónias da Vedanta, do Budismo e do Mazdeísmo, utiliza-se sempre o sagrado símbolo do “Cálice de Vida”.

Jataka conta a origem do “Cálice de Buda”:

“[…] Então, das quatro Terras vieram os quatro Custódios do Mundo e ofereceram 4 cálices de safira. Porém, Buda os repeliu. Voltaram a oferecer 4 cálices de pedra negra (muggavana) e Ele, movido de compaixão pelos 4 Génios, os aceitou.

“Colocou um dentro do outro, e ordenou:

“Que se tornem Um só!

“E as bordas dos 4 cálices se tornaram visíveis como desenhos. E todos os 4 cálices se fizeram Um.

“O Buda aceitou alimento no Cálice recém-formado e havendo provado do que nele se continha, rendeu graças.”

O Lalita Vistara, descrevendo os Sacramentos do “Cálice de Buda”, atribui ao Bem-Aventurado este significativo discurso, dirigido aos “4 Reis” que trouxeram os cálices:

“Tributa respeito a Buda em nome do Cálice, e este será para ti como um Vaso de Sabedoria (“Vaso, também, de Eleição”. O mesmo “Vas insignis devotionis”, de que a Igreja se apropriou).

“Se ofereceres o Cálice aos teus iguais, não permanecerás nem em memória, nem em juízo.

“Mas, quem oferecer o Cálice ao Buda, não será esquecido, nem em memória, nem em Sabedoria.

“Esse Cálice, Arca de Vida (“Arca de Aliança”…), Cálice de Salvação, de novo há-de ser descoberto…”

Assim dizem as lendas tibetanas. Resta aos Iniciados nos Grandes Mistérios a decifração de tão misteriosas palavras. Lembramos, apenas, “as 4 Jerarquias em actividade na Terra”… que um dia se farão Uma só, como o Cálice de Buda… o resto é fácil descobrir, na razão da “letra que mata para o espírito que vivifica”… principalmente no que diz respeito à “pedra negra da segunda oferta dos 4 cálices” que o Buda, movido de compaixão, aceitou.

Quem versado for nas tradições esotéricas do Tibete, lembrar-se-á da “pedra negra” enviada pelo “Rei do Mundo” ao Dalai-Lama, a qual foi depois transportada a Urga (ou Takura), capital da Mongólia, ao Buda-Vivo. E assim, também com as tradições das várias “pedras negras”, desde aquela que era símbolo de Cibele até há que foi engastada na Kaaba de Meca. Outrossim, que “o Buda-Vivo possuía o anel de Gengis-Khan, sobre o qual se achava gravada uma Svástika (não confundir com a Sovástika nazista, considerada “símbolo nefasto” por Jainos e Budistas) e uma placa de cobre” (metal de Vénus…).

Paremos, entretanto, aqui tão longa anotação, para… não fatigar o querido leitor.

[13] O nome Melquisedec, ou antes, Melki-Tsedek, como já dissemos, refere-se ao mesmo “Rei do Mundo”, embora designado dessa maneira na tradição judaico-cristã.

 O sacrifício de Melquisedec (o pão e o vinho, etc.) deve ser olhado como “uma prefiguração da Eucaristia”. E o próprio sacerdócio cristão se aplica, em princípio, ao de Melquisedec, segundo a aplicação das seguintes palavras do Psalmo feitas ao Cristo: “TU ES SACERDOS IN AETERNUM SECUNDUM ORDINEM MELCHISEDECH” (Ps. CIX, 4).

A tradição judaico-cristã distingue 2 sacerdócios: um, “segundo a Ordem de Aarão”; outro, “segundo a de Melquisedec”. E este, superior àquele, como o próprio Melquisedec o é a Abrahão, do qual nasceu a tribo de Levi e, por conseguinte, a família de Aarão. Não diz o Grande Iluminado, que foi S. Paulo, “o mesmo Levi que recebe o dízimo (sobre o povo de Israel) pagou, por assim dizer, por Abrahão”?

Saint Bernard, por sua vez, diz que «o Pontífice, como indica a etimologia, é uma espécie de ponte entre Deus e o Homem» (Tractatus de Moribus et Officio Episcoparum, III). Há na Índia um termo que é próprio aos Jainos, equivalente ao Pontífice latino: é a palavra Tirtânkara, literalmente, “aquele que fez um VAU ou passagem”. A referida “passagem”, é a de Moksha ou “Libertação”, Redenção, Salvação, etc. Os Tirtânkaras são em número de 24, como os “Velhos” do Apocalipse, que de certo modo constituem um outro Colégio. Estão na mesma razão os Maha-Choans, na Índia, para os Ptahmers (sacerdotes do Deus Ptah, o “3.º Aspecto da Trindade”), no Egipto.

As duas chaves, de oiro e prata, usadas pelo Brahmatma indiano, e pela Igreja depois copiadas para as do “Santo Papa”, além de outros sentidos, possuem os das duas referidas Iniciações, empregando a terminologia hindu: a dos Brahmanes (ou Sacerdotes, Jinas) e a dos Kshatriyas (ou Guerreiros). Porém, no vértice ou cume (donde o termo Cumara), se acha a Fonte de toda a autoridade legítima, em qualquer domínio que ela se exerça. Por isso que os “Iniciados de Agharta” têm o nome de Ativarnas, isto é, “além das castas” (Jerarquia, portanto, superior às que se conhecem na Terra).

Semelhante Trindade hierárquica já foi apontada anteriormente, na razão do Buda-Vivo da Mongólia, representando até ao ano de 1924 o próprio “Rei do Mundo”, Melquisedec, etc., tendo por Colunas ou Ministros, o Dalai-Lama e o Trachi-Lama. Os dois Poderes em separado (o Temporal e o Espiritual), e os dois juntos, no centro. “Três Trombetas para uma Boca só”, como rezam as tradições mais secretas.

Outro sentido não possuem, além de mais seis segundo as sete chaves interpretativas da Mercabah, os “Três Reis Magos” da Bíblia, pois que, Mahinga (nome de um dos referidos Ministros do “Rei do Mundo”) oferece ao Cristo o oiro e a Salvação, como Rei; o Mahima (o outro Ministro do mesmo Ser) oferece-lhe o incenso e a Salvação, como Sacerdote; o Brahmatma, enfim, oferece-lhe a mirra (perfume de Vénus), o bálsamo da incorruptibilidade, imagem da Amrita dos hindus e da “Ambrósia” dos gregos, o Soma védico, o Haoma mazdeísta, notando, ao mesmo tempo, que em hebreu os termos “iain”, vinho, e “sod”, mistério, se encontram nas várias tradições do vinho, do licor sagrado, etc. A Salvação oferecida pelo Brahmatma ou Mestre Espiritual (o Grão-Mestre entre as duas Colunas do Templo de Salomão, ou Jakin e Bohaz), ele o faz como Profeta, Oráculo do deus-Pithio (ou Pythocrestos). Essa Trindade, ao mesmo tempo Real e Sacerdotal, como se conhece, recebeu os nomes (na Bíblia): Gaspar, Melchior e Baltazar, embora que somente o de Melki-or possua, de facto, um sentido iniciático, pois que, em hebreu, que dizer “Rei de Luz”. Os outros dois, correm por conta da Igreja…

Do mesmo modo que as duas referidas “chaves” que se procurou arrancar das mãos do Brahmatma para as de S. Pedro, tinham o mesmo significado das duas referidas Iniciações, além de representarem os Grandes e os Pequenos Mistérios. Os mesmos termos Maha-Yana e Hina-Yana, que são dados às duas Escolas do Budismo (do Norte e do Sul) – como Grande e Pequena Barcas – não representam, também, os Grandes e Pequenos Mistérios? Mas logo aparece a “Barca de S. Pedro”, arranjada com as tábuas das duas… e também com as de “Osíris”, no velho Egipto, para se meter no caminho…

Havia na Idade Média uma expressão muito interessante para definir o “Reino de Agharta”, o Governo Espiritual do Mundo, etc., a qual não teve, até hoje, a devida interpretação. Referimo-nos à do “Reino do Pai João”, que era o termo que se poderia consignar como a “cobertura exterior” (chamemos de “escudo defensivo de algo que fica oculto por trás ou que não deve aparecer”, etc.) do culto em questão, formado, em boa parte, pelos Nestorianos e os Sabeus. E principalmente este últimos, que davam a si mesmos o nome de Mendayeh de Yahia, ou “discípulos de João”. No Oriente, vemos do mesmo modo os Ismaelitas ou “discípulos do Velho da Montanha”, os Drusos do Líbano, “defensores da Terra Santa”, mas que a criminosa corrupção de certos escritores que vendem a sua pena a quem melhor lhes paga, ousa descarregar sobre um Ser de tão elevada Hierarquia toda a baba peçonhenta da sua maldade e ignorância…

Inútil dizer que o tradicional “Velho da Montanha” (no Líbano), estreitamente ligado ao Governo Espiritual do Mundo, famoso no tempo das Cruzadas, foi iniciador de Hugues de Payens e de Godofredo de Saint-Omer, fundadores, como é sabido, da Ordem dos Templários, que chegou quase a ser senhora do mundo medieval cristão, até ao momento da sua ruidosa queda; queda essa tão dramática como a foi a dos pitagóricos de outrora e, por sua vez, a dos jesuítas ao finalizar do século XVIII.

No Ocidente, todas essas Ordens de Cavalaria, quer militares, quer religiosas, não se fizeram “Guardiãs da Terra Santa”?

Para que ninguém se admire da expressão “cobertura exterior”, empregada nas velhas escrituras, em relação com a parte exotérica ou profana dos “Centros Iniciáticos”, apontamos um termo, muito bem aplicado, de que fez uso Saint-Yves d’Alveydre, em uma das suas obras, ao falar nos “Templários de Agharta”. Sim, porque todas as Iniciações, cavaleirescas ou não, têm por origem a referida Região Aghartina, de que tanto nos ocupámos em vários dos nossos estudos. Donde, por exemplo, falarmos nos “22 Templos (donde Templários) dos Trachi-Marus (ou Tachu-Marus)”. Por isso mesmo, forças “exteriores”, se bem que “inferiores” por viverem no seio da Terra, em defesa de uma Obra da mais elevada Espiritualidade. O mesmo termo Maruth ou Marutha, em sânscrito, quer dizer “força”. E o Maru japonês, equivalente a “vapor”, dá a ideia, ainda, desse termo tão antigo quão precioso, isto é, Tachu-Maru… Equivale, ainda, a certa Ordem Secreta – dentre as 3 denominadas de Dragões: o de Oiro ou Amarelo, o de Prata ou Azul e o de Ferro ou Vermelho. Existem aí outros Dragões que, a bem dizer, por sua vez já são outras “coberturas exteriores” para os que acabamos de apontar.

“Pai João, Joam, Jim ou Jina”, outro não é, senão, o “Mundo Jina” ou aquela Região antes referida com o nome de “Agharta”, se inúmeros são os nomes que A definem nas diversas tradições ainda existentes na face da Terra.

Em certas representações de Janus (Johanus, Jinas, etc.) não são, também, os dois referidos Poderes simbolizados por “uma chave e um ceptro”? O Poder Temporal e o Poder Espiritual. Do mesmo modo, no Tarot, o Imperador e o Papa, com os aspectos femininos: a Imperatriz e a Papisa.

Volvendo ao termo “Pai João”, procede ele, mais ou menos… da época de S. Luís, nas viagens de Carpino e de Rubruquis. O que mais complica o assunto, é que, segundo alguns, teriam havido “4 personagens portadoras do título”, na razão, dizemos nós, dos 4 referidos Arcanos do Tarot, de que falámos anteriormente, das 4 Jerarquias em função na Terra e de outras coisas mais, que não vêm ao caso apontar. Encontravam-se elas: no Tibete (ou melhor, no PAMIR…) na Mongólia, na Índia e na Etiópia; preferimos, entretanto, apontar para essa última o Egipto… Questão apenas de «opinião». Também poderiam ser 4 representantes do mesmo Poder, mas, em verdade, “um aspecto masculino no Egipto para um feminino na Índia”, tendo por Formas Laterais, Colunas Vivas ou Ministros, o aspecto masculino na Mongólia e o feminino… em Palmira, se o quiserem… uma Rainha que, por se ter afastado um pouco das suas funções, faltou-lhe o “Verbo Divino”… Outro assunto que não pode ser discutido, embora o conheçam os membros mais avançados do nosso Colégio Iniciático.

Dizem, também, que Gengis-Khan “quis atacar o Reino do Pai João”, porém – o que é muito natural por ser o interior da Terra “Lugar das Forças Cósmicas ou Laboratório do Espírito Santo”, como o indicam as escrituras teosóficas – aquele o repeliu despedindo raios contra os seus exércitos. E como Gengis-Khan ao lado de Tamerlão e Átila, mesmo que em épocas diferentes, representassem uma Trindade caótica ou maldita para a Divina, Excelsa, que agora os leitores já A conhecem – também soará a Hora em que o “Reino do Pai João” se manifestará, justamente, quando “tiver terminado tão trágica maneira de se “separar o bom trigo do joio”, isto é, a semente seleccionada para o Novo Ciclo portador de melhores dias para o Mundo, da semente apodrecida, que não poderia germinar e produzir bons frutos em terreno por demais cansado…

A referida Região do “Pai João” não é a mesma do “Preste João”, o grande viajante por terras misteriosas. Mesmo assim, também se acha ligada à Terra Sagrada, a Agharta, ou seja a AVALON da lenda do Rei Artus e os Doze Cavaleiros da Távola Redonda, podendo-se desdobrar tal nome em AVA (avô, antepassado, etc.) e LON, Lohan, Choan, etc., na mesma razão de Elohim, que, como se sabe, são os mesmos Dhyan-Choans das escrituras sagradas do Oriente, e no Cristianismo, os Arcanjos, etc. Assim, Avalon, por exemplo, é “a Terra Sagrada dos Deuses, dos nossos Antepassados, dos Jinas ou Génios, Choans”, etc., pois que o mesmo termo Lohengrin (Lohan-grin ou Jin) não possui outro significado.

E para terminar, o mesmo termo “Preste” pode ser uma corruptela de Pitri, Pai, Padre, Pêtre (francês) ou Presbítero, nome este com que a lenda nos diz ter sido designado pelo próprio Papa o fabuloso personagem que se dizia imperador duma vaga região no Oriente.

Posto isto, encerramos fazendo votos que a Paz volte a reinar na face da Terra, em nome do Amor, da Verdade e da Justiça!

D. Sancho I e os Cátaros occitanos – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Set 1 2016 

15.8.2016

O reinado de D. Sancho I, sucessor de D. Afonso Henriques seu pai, ficou marcado por polémicas acesas com a Santa Sé, incluindo a acusação de vizinhança a crenças hereges, ele com comportamento herege que levaria à sua excomunhão. Diz-se mesmo que terá dado guarida em Portugal à heresia cátara através da nobreza de Aragão a que estava ligado familiarmente. Se assim foi como defendem hoje alguns com erudito e engenhoso argumentário[1], abrindo janela de oportunidades a especulações dos variados géneros da ambiência própria do “realismo fantástico”, então obrigatoriamente ter-se-á de rever a tanto a história político-social como a religiosa dos primeiros tempos da Monarquia e da Igreja no País de tenra idade ainda.

Para poder enquadrar essa possibilidade extraordinária de relação D. Sancho I – Cátaros, indo aos prós e aos contras segundo a documentação disponível coeva dessa época, antes de tudo o mais devo fazer uma breve resenha do que foi o catarismo e por que motivo a ortodoxia eclesiástica romana se lhe opôs de forma tão violenta e sangrenta. Recuo, pois, a esse período pouco estudado da História Medieval europeia.

Desde cedo a Igreja entrou em colisão doutrinária consigo mesma, criando-se dois partidos que, verdade seja dita, nunca se reconciliaram efectivamente: o pró-judaico e o pró-grego, este assumido por Paulo e aquele por Pedro. Isso deu aso ao surgimento de heresiarcas contestadores de que Jesus tivesse realmente existido como homem ou figura histórica e até mesmo pondo em dúvida que Jehovah fosse o Deus de Israel, e se o fosse então os judeus estariam prestando culto ao “Príncipe do Mal” que subsistia do espírito de vingança e guerra dos seus filhos. Isso era justificado pelo que o próprio Isaías deixara escrito na Escritura Velha. Foi assim que apareceu o controverso Marcião de Sinope, um dos muitos heresiarcas do Cristianismo dos primeiros tempos, saído do chamado “gnosticismo pagão ou naturalista”, simpatizante parcial da corrente paulista pró-grega oposta da judaica a que se opunha, o qual, como muitos outros, acabou por ser expulso da Igreja e ir fundar a sua filosofia apocalíptica e política própria, o Marcionismo. Este, o Priscilianismo, o Arianismo de Ário, etc., contribuíram para a cisão eclesiástica no século IX com a criação da Igreja pró-grega (bizantina) e a Igreja pró-romana (de herança judaica)[2]. A citação de Isaías 45:7 (“Eu o que formo a luz, e crio as trevas, o que faço a paz, e crio o mal; eu sou o Senhor que faço todas estas coisas”), é a afirmação da Divindade Única como Todo presente em todas as acções humanas, boas ou más, sendo que o livre-arbítrio cabe ao Homem, mas a Justiça a Deus como Consciência Absoluta assistindo a um e todos. A ad littera sem a exegética interpretativa só poderá resvalar para o equívoco ignorando a parábola – para-bola – e metáfora do texto sagrado, que vem a reunir em um só os vários deuses cultuados na então religião animista das tribos semitas. O mesmo processo seguiu Mahometh no Alcorão.

É no ambiente heresiarca contestatório que nem o Concílio de Nicéia (século IV), onde foram estabelecidos os princípios da teologia oficial da Igreja, sossegou, que Paulo de Samósata, bispo de Antioquia no século III, fundou o movimento Pauliciano desde logo acusado de gnóstico e próximo do Maniqueísmo de Maniqueu, filósofo cristão coevo desse bispo. Seita adopcionista ou monarquianista, enfatizava a Unidade Absoluta de Deus entrando em conflito aberta com a doutrina da Trindade, sendo os modelos propostos pelo monarquianismo rejeitados como heréticos pela Igreja[3]. Todavia, os paulicianos sobreviveram e floresceram entre os anos 650 e 872 na Arménia e nas partes orientais do Império Bizantino, sobretudo na Anatólia e nos Balcãs, dizendo-se descenderem em linha directa dos Apóstolos e terem o seu início no primeiro século depois de Cristo, contudo faltando os registos comprovatórios de tal afirmação que mais parece “lenda de fundação”. Em 668 começaram a ser perseguidos sendo o seu líder Constantino apedrejado até à morte, e o sucessor desse queimado vivo. Durante o século VIII receberam protecção esporádica de Leão III, o Isáurio, nos Balcãs ocidentais, e também do seu filho Leão III. Mas logo a imperatriz Teodósia de Bizâncio, no século IX, moveu-lhes perseguição tenaz provocando a morte de 100.000 paulicianos[4]. Com isso, eles dispersaram-se pelos Balcãs indo originar novo movimento, o dos bogomilos.

O Bogolimismo, movimento gnóstico e maniqueísta descendente do Pauliciano, foi fundado pelo padre Bogomilo no século X, durante o reinado de Pedro I da Bulgária. Os bogomilos são referidos como babuni em diversos documentos, nome originado de topónimos macedónios (Rio Babuna, Montanha Baguna, Aldeia Bogomila, etc.), em cuja região o movimento foi muito activo[5]. Também conhecido como de “amigos de Deus”, ele surgiu como uma resposta à estratificação social ocorrida como resultado da introdução do Feudalismo e como forma acção política opositora ao Estado búlgaro e a Igreja. Os bogomilos eram sobretudo dualistas adeptos do conceito maniqueísta: o Deus Criador do Espírito diferenciava-se claramente do Deus Criador da Matéria. Tal como os paulicianos, pregavam a igualdade social e acusavam abertamente o afastamento da Igreja e da Nobreza das classes mais desfavorecidas. Na Itália, sobretudo em Milão, no século XI os religiosos pobres aderiram a esse movimento reformista vindo a ser conhecidos pelo nome da rua milanesa mais frequentada por eles, Pataria, donde o seu apodo patarini ou patarinos, “andrajosos”[6]. Enfim, o Bogolimismo difundiu-se em toda a região dos Balcãs chegando até à fronteira com Bizâncio, vindo a ser fortemente perseguido pelos soberanos búlgaros e pelos imperadores bizantinos, e a despeito da repressão tenaz das autoridades católicas espalhou-se por toda a Europa Central e Ocidental, antes de desaparecer e reaparecer sob a forma de Catarismo.

O Catarismo (do grego katharós, καϑαρός, “puro”) entre os anos 1100 e 1200 estabeleceu-se e dominou o pensamento espiritual da Europa Ocidental e do Sul, sendo que no sul de França foi onde teve maior impacto e domínio sobretudo na Occitânia, a qual compreende as regiões históricas da Provença, o Limusino, o Auvérnia, a Gasconha, o Languedoque e o Delfinado na França. Ao diassistema linguístico-cultural do occitano também estão incluídos alguns vales alpinos na Itália e o Vale de Aran, na Catalunha, vizinha de Aragão. A Occitânia é até hoje uma nação sem Estado da Europa, sobretudo desde a Cruzada contra os Cátaros que os exterminou como movimento religioso contestatário do absolutismo papal. Papel menor mas não menos significativo teve o movimento fundador por Pedro Valdo, em 1173, o dos Valdenses, também conhecidos como “Pobres de Lyon” que se espalharam pelo Sul da França e ela Lombardia, acusando a corrupção da Igreja vendida a César, na pessoa do imperador Constantino, desde que o Papa Silvestre adquirira a primeira possessão temporal para o eclesiástico. Apesar de fortemente perseguidos na Itália nos séculos XIII e XIV, ainda hoje subsistem algumas comunidades isoladas valdenses nos Alpes.

No espaço occitano, foi na região do Languedoque que o Catarismo ficou e dominou completamente a partir de cidade de Albi, donde também se chamarem albigenses aos cátaros, cuja catedral de Santa Cecília em breve transformou-se num centro dominado pelo pensamento reformista cátaro. Assim também Toulouse e Montpellier, respectivamente capitais alta e baixa do Languedoque ou Languedoc, referindo-se à língua vernácula da região, a langue d´oc, em oposição à vernácula do Norte, a langue d´oil.

Os cátaros adoptaram por símbolo a cruz occitana desde logo assinalando um estado de independência político-geográfica e moral-religiosa apartados da ortodoxia político-religiosa romana, o que agradou à nobreza occitana desejosa de um Estado independente, possivelmente sendo o principal motivo da protecção política e militar que dispensou aos cátaros desde a primeira hora, convertendo-se mesmo à sua religião caracterizada por uma visão peculiar de docetismo cristológico, segundo a qual Jesus Cristo só viveu na Terra como imagem aparente, ilusória, assim não aceitando a sua compreensão trinitária católica, assumindo que o seu corpo real era invisível aos olhos carnais por ser imagem de um Anjo. A maior parte dos católicos actuais que não acreditam que Cristo se manifeste com vestes tecidas no Céu e com sandálias fabricadas pelos Anjos, são docetistas sem o saberem[7].

No Catarismo revelava-se a primitiva polémica pró-judaica e pró-grega que tomaria forma maniqueísta irreversível, opondo o Deus “bom” do Novo Testamento, criador do Reino Espiritual, ao Deus “mau” do Antigo Testamento, criador do Mundo Físico, que identificavam como Satanás. Para os cátaros, toda a matéria visível foi criada por Satanás, sendo contaminada pelo pecado que incluía o corpo físico. Este conceito oponha-se ao monoteísmo da Igreja Católica que considera haver um só Deus criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Os cátaros também consideravam as almas humanas serem almas sem sexo de anjos aprisionados dentro da criação física de Satanás obrigadas à reencarnação, mas que podiam alcançar a libertação ou salvação através do ritual chamado Consolamento (Consolamentum), ministrado de forma muito simples consistindo na imposição das mãos, na leitura do Evangelho de São João (onde é revelado que “o Consolador manifestou-se em forma de Pomba soprando o Espírito Santo ao Homem Bom Jesus Cristo”, motivo da Pomba ter sido símbolo do Consolamento cátaro) e consequente imposição do Livro sobre a cabeça do crente, terminando com a oração dominical do Senhor, o Pater Nostrum. A ministração deste sacramento convertia o simpatizante ou crente, o “bom homem” ou “boa dona”, em “bom cristão”, mas isso só depois de ter realizado o “melhoramento” que consistia na prática moral do exigido na rigorosa catequese cátara, assim extirpando o pecado carnal e alcançando a perfeição. Perfeitos eram os ministros da Igreja cátara, com hierarquia própria dividida em filhos maiores e filhos menores: os bispos eram assistidos pelos “filhos maiores”, candidatos ao bispado, e os diáconos eram os “filhos menores”, assumindo tarefas semelhantes às do clero paroquial. Viajavam em missão pastoral sempre aos pares como clerici vagantes. A hierarquia cátara incluía o sexo feminino no ministério, sendo escolhida a mulher mais velha e de bom juízo, a anciã, para o cargo em cada “igreja paroquial” cátara, dando como exemplo Maria Madalena que foi a primeira a ser reabilitada de Satanás por Jesus Cristo. Daí o ênfase cátaro dispensado à pessoa magdálica, expressiva da libertação psicossocial da Mulher em plena Idade Média, o que já se fazia sentir um pouco por toda a parte mas sobretudo no Catarismo, aliás, considerando aberrante o casamento como obrigação perpétua, sem direito a divórcio, assim como a repressão sexual e o obrigar a estados celibatários os que não possuíam tais inclinações, e mesmo possuindo uma hierarquia ela era “livre”, quase se poderia dizer em termos actuais “democrática e socialista”, mas o mais certo seria chamá-la de “proto-protestante” revindicando a comunicação directa com o Divino ao alcance de qualquer um(a) sem dogmas nem mistérios, no que destoava completamente da tradicional eclesiástica católica, a começar por negar todos os sacramentos católicos desde logo o da Eucaristia (recusando a mais-valia sacerdotal da Taça Eucarística, endossada miraculosa familiar ou mesmo a mesma sob o aspecto cavaleiresco do Santo Graal, o Kratter provençal) assim como o Batismo, tal como a descrença tanto no Purgatório como na ressurreição dos mortos no Dia do Juízo Final, além de condenarem a usura e defenderem o direito de propriedade. A endura, “privação”, como espécie de suicídio místico também não era condenável para os cátaros: geralmente consistia em deixar-se morrer de inanição ou, mais raramente, de frio. Se bem que nunca fosse estimulada nem imposta pelos Perfeitos, também não era recusada, sobretudo quando a Inquisição tornou a vida impossível aos cátaros no condado de Foix. Mas isso era o contrário da posição da doutrina católica sobre o suicídio. Tudo motivos mais que suficientes para o agrado geral da Occitânia, sobretudo da sua aristocracia local, e desagrado total da Igreja Católica, vendo estar perdendo a sua cristianíssima filha, a “França fidelíssima”, apesar de cátaros e católicos conviverem em paz e até aqueles frequentarem os templos destes, mesmo não comungando sem parte activa na missa, assim respeitando a assembleia (ecclesia) mas demonstrando participarem de diferente daquela.

Sobre os supostos textos sagrados cátaros, a sua catequese apresentava-se além de no Novo Testamento nos textos maniqueístas O Evangelho da Ceia Secreta ou o Interrogatório de João, e O Livro dos dois Princípios[8].

Inicia-se cruzada pastoral, ou seja, o envio à Occitânia de vários delegados papais a fim de demover e remover a heresia cátara pelo esgrimir de argumentos teológicos, o que redundou em fracasso total[9]. Já desde 1119, no Concílio de Toulouse, que o Catarismo fora notado pelo seu desenvolvimento crescente e condenado oficialmente. Isto por na realidade ser uma religião dotada de doutrina, organização e princípios próprios, em muitos aspectos radicalmente diferentes da Igreja Católica Romana. Se, de facto, a palavra grega hairesis significa “escolher”, herege será o que “escolhe” para si alternativas distintas daquelas estabelecidas e declaradas pela religião oficial romana[10], que na época era igualmente dominadora absoluta dos estados, reinos e feudos europeus.

Inocêncio II, que pontificou de 1130 a 1143, designou seu legado no Midi o bispo de Óstia, o cluniense Henri Albéric, para combater a heresia com as armas da doutrina, mas era tarefa superior às capacidades físicas e mentais do bispo. Então, pediu a ajuda de Geoffroy, bispo de Chartres, e do próprio abade Bernardo de Claraval. Entretanto, Inocêncio II morre e em 1145 Eugénio III sobe ao sólio papal (pontificando de 1145 a 1153), ano em que Bernardo de Claraval aparece no Languedoque e confronta o bispo cátaro Henrique de Lausanne, assim como exorta Alfonso Jourdain, conde de Toulouse, a colaborar com a Igreja Católica na extirpação dos erros. Contudo, não deixou de reconhecer virtuosismo cristão nas ideias e práticas cátaras, admoestando no seu Sermão 64: “Sejam os hereges conquistados não pelas armas, mas pelos argumentos”. Adiantando no Sermão 65 sobre o Cânticos dos Cânticos: “Se questionar a heresia sobre a sua fé, nada é mais cristã; se sobre a sua conversão diária, nada é mais inocente, e o que ela diz ela provará por suas acções… No que diz respeito à sua vida e conduta, ela não engana a ninguém, não se sobrepõe a ninguém, não pratica violência com ninguém. As suas faces são pálidas de jejum, ela não come o pão da preguiça, ela trabalha com as suas mãos, e assim faz a sua vida. As mulheres deixam os seus maridos, os homens deixam as suas mulheres, e todos eles emigram para a heresia. Clérigos e padres, jovens e adultos entre eles, estão deixando as suas congregações e são encontrados na companhia de tecelões (cátaros) de ambos os sexos.”[11]

A opinião de Bernardo de Claraval, futuro santo da Igreja, terá tido repercussão na Ordem do Templo de que era inspirador e mentor perpétuo desde que entre 1128 e 1129 redigira o Louvor e a Regra da mesma (De Laude Novae Militiae ad Milites Templi), primeiro em latim e depois transcritos para o francês do Norte, a langue d´oil. Certamente por esse motivo, os monges-cavaleiros templários não participaram em nenhum acção bélica contra os cátaros e mantiveram postura de neutralidade ao longo de todo o processo, facto que ultimamente tem dado aso a inúmeras elucubrações fantásticas, de engenhosidade mais ou menos esotericista, mas que poderá explicar-se pelo simples dos seus estatutos no tocante à vocação militar interditar guerra a cristãos e somente ao árabe infiel, fosse na Europa ou no Ultramar. Eram Milites do Pelágio, Bellatores do Chark e do Gharb na Península Ibérica, protegiam cristãos, fosse qual fosse a sua índole, não os perseguiam nem matavam. Razão de possivelmente terem dado guarida, em nome da caridade cristã, a alguns pobres cátaros perseguidos no Languedoque, sem por isso deixarem de ser católicos romanos e Milícia de Roma. A pressuposta inter-relação teológica e cultural cátaros – templários não parece ter implicado em espécie alguma de conversão desses últimos, tampouco dos primeiros. Poderá vir daí a posterior acusação dos templários serem maus cristãos e sonegarem palavras sacramentais na santa missa e até mesmo não celebrarem a eucaristia, acusação tão infundada que não sobreviveu às primeiras alegações no Processo contra o Templo, tendo caído por terra e esquecida de imediato[12].

As palavras prudentes, de diplomática tolerância, de Bernardo de Clavaral, parecem não ter tido repercussão prática, as posições extremaram-se ainda mais: em 1178 Henri de Marcy, legado papal, qualificou as povoações de implantação cátara de sedes Satanae, “sedes de Satanás”, e por sua vez os cátaros, definindo-se a si próprios como a Gleisa de Bons Homes et Bons Cristians, ou simplesmente Gleisa de Dio, Igreja de Deus, respondiam pela voz do Perfeito Peire Authié: “Realmente há duas Igrejas: uma Igreja que persegue, condena e mata, e outra Igreja que foge, perdoa e morre. Digam em qual acreditam que seja a Igreja de Deus”[13].

O objectivo da cruzada pastoral (onde chegou a intervir Fernando de Bulhões, o nosso St.º António de Lisboa e Pádua, investido na missão pelo próprio S. Francisco de Assis em 1221, indo pregar debalde no Sul de França pela conversão dos albigenses e patarinos[14], donde nasceria a célebre lenda da “pregação aos peixes”) era levar os cátaros a abjurarem dos seus erros e reconciliarem-se com a Igreja. Foi com essa intenção que em 1203 uma missão de monges letrados cistercienses, chefiados pelo próprio abade de Cister, Arnaldo Amauri, acompanhou o legado papal Pedro de Castelnau a fim de pressionar o conde de Toulouse, Raimundo VI, a extirpar a “pestilência herética” disseminada nas suas terras, e ao mesmo tempo converter as populações simpáticas a ela. No ano seguinte (1204), dois importantes religiosos espanhóis, Diego, bispo de Osma, e Domingos de Gusmão, vice-prior do capítulo de Osma, juntaram-se aos demais na missão de converter as “almas desgarradas” do condado de Toulouse. Domingos, posteriormente canonizado com S. Domingos, foi o fundador do Convento de Prouille em Toulouse, e da Ordem dos Predicadores, mais conhecida com Ordem dos Dominicanos. Foi ele o primeiro a propor que na luta contra os hereges a conversão se fizesse não apenas pelas palavras mas também pelo exemplo[15]. Com efeito, foram os dominicanos a iniciar as inquisições episcopais os quais tiveram actuação importantíssima durante todo o período no conflito armado no Languedoque, tendo criado a Inquisição com tribunais destinados a inquirir e julgar os cátaros detidos. Empós os interrogatórios onde a tortura desumana era praticamente “obrigatória”, levantaram-se os autos-de-fé e as fogueiras com os condenados ao lume eterno enrubesceram o chão occitano no holocausto que se seguiu[16].

Com efeito, a cruzada pastoral fracassada em breve transforma-se em cruzada bélica. Os acontecimentos precipitam-se. Dá-se o casus belli. No dia 15 de Janeiro de 1208, o legado papal Pierre de Castelnau, cisterciense famoso pela suas incontidas vociferações ofensivas dos cátaros e dos condes da Occitânia, ao regressar de uma reunião em Saint-Gilles, quando se dispunha a atravessar o Rio Ródano, foi assassinado. As culpas caíram sobre o conde Raimundo VI de Toulouse, e debalde este protestou a sua inocência[17]. Mas esse foi pretexto bem-vindo para o Papa Inocêncio III – pontificando desde 8.1.1198 a 16.7.1216 – convocar a Cruzada Albigense, que aliás vinha preparando desde anos antes. Convoca os barões de França para a “cruzada baronial”, mas o êxito da chamada foi muito relativo; então, convoca o rei Filipe Augusto de França, mas este andava em guerra com a Inglaterra e não se mostrava disposto a iniciar nova guerra no seu próprio país.

Para obter êxito nos seus intentos de conseguir uma “cruzada real” com o envolvimento de Filipe Augusto, reunindo poderoso exército recrutado não só em França mas um pouco por toda a Europa católica, o Papa declarou livre e ofereceu à turba armada, com isenção pontifícia de pecado assim transformando mercenários em cruzados, o saque e a matança dos cátaros e dos seus protectores, os condes occitanos[18]. Com efeito, em 9 de Março de 1208 o Sumo Pontífice dirigiu uma carta a todos os bispos do Languedoque e a todos os condes, barões e senhores feudais do reino de França, onde a dado trecho diz: “Despojai os hereges das suas terras. A fé desapareceu, a paz morreu, a peste herética e a cólera guerreira tomaram novo alento. Prometo-vos a remissão dos vossos pecados se puserdes fim a tão grandes perigos. Ponde todo o vosso empenho em destruir a heresia por todos os meios que Deus vos inspirará. Com mais firmeza ainda que com os sarracenos, pois são mais perigosos, combatei os hereges com mão dura”[19]. Já antes o Papa Gregório VII (pontificando de 1073 a 1085) havia declarado que “a matança de hereges não é crime”, porque “a heresia é um golpe no rosto de Deus, e é dever de cada católico exterminar os hereges”. Maneira singular de assegurar a continuidade do domínio temporal absoluto da Igreja.

A campanha começa no dia 22 de Julho de 1209, dia da festa de Santa Maria Madalena, com o cerco da cidade de Béziers por um contingente de cavaleiros armados vindos do Norte de França, da Bélgica, da Alemanha e da Inglaterra. Fala-se no número prodigioso de vinte mil homens a cavalo e duzentos mil peões. Talvez o número seja exagerado, posto as guerras naquele tempo não envolverem mais de cinco mil combatentes, mas também poderá não ser exagerado à vista do apetecível saque que o, sendo dever de cada cristão próprio Papa oferecia com todas as indulgências pontifícias. O objectivo militar não deixava dúvidas: derrotar os hereges que campeavam nas cidades e fortalezas situadas no viscondado de Béziers e Carcassonne e no condado de Toulouse. Simão de Montfort, à frente do exército cruzado, devastou a cidade de Béziers e exterminou a maioria da população (fala-se em 40.000 vítimas mortais), sem levar em conta a sua filiação religiosa, tendo pronunciado, segundo a Crónica de Cesáreo de Heisterbach, a sinistra frase: “Matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus”! Assim fizeram, nada poupando, tudo arrasando, saqueando e assassinando, fosse católico ou cátaro, como diz um dos testemunhos contemporâneos[20]: “Nada pôde salvá-los, nem cruz, nem altar, nem crucifixo. Os mercenários mataram clérigos, mulheres e crianças; ninguém escapou. Se Deus quiser, receberá as suas almas no Paraíso. Não creio ter havido tal massacre desde o tempo dos sarracenos”.

Mas os condes e barões occitanos não se renderam, pelo contrário, opuseram resistência tenaz, inclusive tendo apelado para os reis e senhores feudais dos países amigos geopoliticamente relacionados ao Languedoque, que nos primórdios do século XIII estava sob o domínio dos seguintes:

O condado de Toulouse, governado por Raimundo VI, dominava a região compreendida entre os vales de Garona, Rouergue e Quercy, a que se acrescentavam as suas posses na Alta Provença.

O condado de Cominges, sob o governo de Bernardo IV, conde de Cominges e de Bigorra, por parte paterna primo do conde de Toulouse e vassalo do mesmo enquanto senhor de Samatan e Muret.

O condado de Foix, cujo titular era Raimundo Roger I, vassalo do conde de Toulouse.

O viscondado de Béarn.

O viscondado de Carcassone, Béziers, Albi e Limoux, cujo senhor feudal era Raimundo Roger Trencavel, sobrinho de Raimundo VI. Possuía o principado que abrangia de Carcassone a Béziers. A família Trencavel era vassala da Corte de Aragão desde 1179, e também vassala do Condado de Toulouse. Esta dinastia feudal Trencavel igualmente mantinha aliança com o viscondado de Minerve.

À Coroa de Aragão, domínio do rei D. Pedro II (1178-1213), prestavam vassalagem os condes de Toulouse. D. Pedro II, rei de Aragão, conde de Barcelona e senhor de Montpellier, morreu na batalha de Muret, em 12 de Setembro de 1213, defendendo os seus vassalos occitanos da agressão dos cruzados. Seria vingado por seu filho Jaime I, o Conquistador (Montpellier, 2.2.1208 – Valência, 27.7.1276), que conseguiu derrotar Simão de Montfort, líder da cruzada albigense e general inimigo das forças aragonesas. Montfort prosseguiu a campanha albigense e acabou morto quando cercava Toulouse, em 25 de Junho de 1218, pelas forças de Raimundo VII (1197-1249). Como nota curiosa, a educação de Jaime I na sua menoridade esteve a cargo da Ordem dos Templários, no castelo de Monzón, sendo então o regente de Aragão o conde Sancho Raimundes, filho de Raimundo Berengário IV de Barcelona e tio-avô de Jaime. Essa Ordem religiosa e militar, por todos os seus reconhecidos predicados morais e castrenses, era a preferida das cortes peninsulares e sul europeias para educar os príncipes futuros reis.

O ocaso cátaro dá-se em 16 de Março de 1244, com a tomada do castelo de Montségur e o conseguinte holocausto de duzentos cátaros, cinquenta deles Perfeitos encabeçados por Bertrand Marty, queimados vivos na fogueira, junto à fortaleza no depois chamado camp dels cremats, “campo dos queimados”, e os restantes quatrocentos foram levados para Carcassone onde seriam queimados vivos uns e enforcados outros, para servirem de exemplo à população geral. Em 1255, caiu o derradeiro baluarte cátaro de Quéribus, tendo os situados conseguido escapar. No mesmo ano de 1244, apesar de todos os abusos da Inquisição provocando numerosas revoltas e sublevações urbanas e campesinas, e mesmo contando com o apoio da Coroa inglesa e dos condes de Lusignan, Raimundo VII de Toulouse foi forçado a abdicar da pretensão da Occitânia como Estado independente a favor do Tratado de Meaux-Paris de 1229, apoiado pelo Papa Honório III, onde foi pactuada a integração do território occitano na Coroa francesa. Finalmente, em Fevereiro de 1231, o Papa Gregório IX pela bula Excommunicamus instituiu formalmente a Inquisição, que continuaria a actuar na região occitana durante os três quartéis de século seguintes até “extirpar completamente a heresia”, ditando assim o fim do movimento cátaro.

O Catarismo foi se apagando aos poucos na Occitânia, a ausência de Perfeitos e Perfeitas – alvos da perseguição inquisitorial – terminaria com o movimento mas não com a sua memória perdurando até hoje nas tradições e costumes occitanos, o que deu aso a uma espécie de ressurgimento neo-cátaro durante o século XX, exportado para várias partes da Europa e até das Américas, mas reconhecidamente estranho ao original medievo tanto na estrutura como na doutrina, apesar de alguns germanófilos terem-no assumido como reacção e contrapeso, mais uma vez, à ordem estabelecida católica[21]. Parece até uma vingança póstuma dos cátaros…

Por outra parte, muitos cátaros procuram refúgio na Catalunha e sobretudo em Aragão, de cujos senhores eram vassalos que prontamente receberam protecção. Entre esses contavam-se vários Perfeitos e Perfeitas. Sem dúvida o seu pensamento terá participado na corte aragonesa e até exercido alguma influência nos ideários religiosos da nobreza local, ainda assim limitadamente por a religião postulada ser a católica romana encabeçada pela Ordem de Cister próxima da Ordem do Templo. Será mais crível o intercâmbio de ideias num meio culto como reconhecidamente foi a corte aragonesa ao longo de várias regências dando origem a “cortes de amor” e ao culto do “amor cortês”, prosado e cantado pelos trovadores occitanos (e depois pelos galaicos e portucalenses que também criaram escola). Uma vez mais, não se encontra conversões de parte a parte, tão-só tolerâncias e conversões com pontos de encontro comuns: a necessidade premente de reforma moral e social da Igreja Católica. A Ordem Franciscana seria a derradeira esperança nesse sentido moral avivando e vivendo a noção evangélica da Pobreza, tal qual o fazia socialmente a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ou seja, a dos Templários.

Dessas duas últimas Ordens, sobretudo da primeira (de quem eram dissidentes os fraticelli, “irmãozinhos”, pregadores da pobreza extrema tanto sua como da Igreja, exigentes do despojamento das riquezas mundanas e da justiça social em que o eclesiástico minguava), andou próxima a princesa Isabel de Aragão que se tornaria rainha de Portugal por desposório com D. Dinis I. Além de princesa e rainha, cobriu-a a fama de santa ainda em vida. A Rainha Santa Isabel nasceu em Saragoça em 4.1.1271 e faleceu em Estremoz em 4.7.1336. Era filha de Pedro III de Aragão e senhor de Barcelona e de Constança de Hohenstaufen II da Sicília. O paço real em Saragoça situava-se próximo da Casa do Templo, e não será de descartar o pressuposto da princesa ter recebido alguma influência teológica templária a par de outras, inclusive corteses, durante a sua infância, sobretudo num ambiente tão esclarecido como era o da corte de seu pai, ele próprio patrono das artes e letras, sendo particularmente favorável à poesia trovadoresca tendo mesmo escrito dois sirventeses, modalidade de poesia satírica provençal[22].

A influência cátara na rainha D. Isabel, católica confessa e franciscana laica (uma rainha, ou um rei, não pode abraçar a religião tornando-se professa ou professo, a não ser que abjure à Coroa e respectivas funções de Estado, o que ela não fez), não terá ido além da cultural que ainda assim marcou o seu pensamento já de si heterodoxo no respeitante à religião onde centrava a sua devoção no Divino, culto que oficializaria em Portugal, na vila de Alenquer próxima de santa Quitéria de Meca (em guisa de proximidade e até união dos dois hemisférios religiosos), através da Ordem Franciscana dos Frades Menores em 1323, como Festejo Popular do Divino Espírito Santo. A sua entrada no país, em 11 de fevereiro de 1282, para casar com D. Dinis, também se faria num lugar já de si hierático como centro judaico sefardita, ou seja, Trancoso, na beira Interior Norte.

Cautelosamente, Maria Máxima Vaz profere sobre o assunto[23]:

“Não houve na Europa um único rei que se tivesse atrevido a defender os cátaros a não ser o rei de Aragão e havia cátaros em vários países, sendo o maior número na França, predominantemente no Sul, na região e cidade de Albi. O maior massacre aconteceu mesmo dentro da catedral, onde se refugiaram. Um monarca que corre o risco de enfrentar o papado, certamente acredita que é uma causa justa e sente-se solidário com os valores cátaros. Isabel foi criada na corte de seu avô Jaime I, conhecedor da doutrina e viver dos cátaros.

“De Isabel de Aragão dizia o seu avô Jaime que era a mais bela flor de Aragão. Viveu com ele até à morte do rei Jaime e acredito que os valores dos cátaros não tivessem deixado de a influenciar. Reconhecemos a prática destes valores na vida da Rainha Santa quando tratava dos doentes, protegia os pobres, os idosos e as crianças. É conhecido o desejo de ser virgem. Não lhe sendo dado escolher, aceitou, obedientemente, casar com D. Dinis, mas seria vontade sua seguir a vida monástica.

“Eu admito que tenha abordado esta questão com seu marido. Teria admitido dar um herdeiro ao rei e aceitaria ele que depois disso levasse uma vida de castidade como ela desejava? É uma leitura possível, a meu ver. Admitindo que poderia ter sido assim, e o desenrolar dos factos assim permite que pense, poderemos continuar a dizer que D. Dinis foi infiel? E que foi um mau marido? Não estaremos a emitir um juízo errado?

“Parece-me provável e até evidente, a influência da moral cátara na educação de Isabel de Aragão. A biografia da Rainha Santa será a fonte onde se foram buscar os juízos que culpam o rei de infidelidade e o acusam de ser mau, mas a biografia é um escrito apócrifo, de um autor anónimo, possivelmente um frade e não pode ser considerado um documento com rigor histórico. Não devemos aceitá-lo acriticamente.”

Se houve fuga de cátaros para Aragão, teria também havido para Portugal no reinado de D. Sancho I? A hipótese é fascinante, mas a crítica histórica observa nela prós e contras, logo ao começo ressaltando o facto elementar de Toulouse e o Languedoque serem súbditos da Coroa de Aragão, e Portugal estar alheado dessa geopolítica no extremo oposto da Península Ibérica. Ainda assim, poderiam haver migrações cátaras para cá sob protecção templária, devido aos laços familiares reais portugueses à Coroa aragonesa, indo estabelecer comunidades nas Beiras e nos Alentejos ao longo da raia ou linha de separação dos dois países. Realmente, a hipótese é fascinante mas tem muitos contras, desde logo a ausência completa de iconografia e simbologia cátaras em toda a raia beirã e alentejana, só restando a toponímia que se observará mais adiante. Além disso, os usos e costumes na raia luso-espanhola são manifestamente herança tanto judaica como cristã, nesta alguma templária, outra franciscana e sobretudo beneditina, e proto-cristã, visigótica, rareando a árabe, abundando a ibera, celta e lusitana, a par da romana e pré-romana, como se observa na adaptação do culto oriental mitríaco com o rito da morte do touro à rijeza das touradas das gentes daí.

D. Sancho I, o Povoador, reinou de 1185 a 1211. Nasceu em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, filho de D. Afonso Henriques e de D. Mafalda. Foi armado cavaleiro em 15 de Agosto de 1170 e associado à governação. Em 1174 casou com D. Dulce de Aragão e Barcelona (Aragón, c. 1160 – Coimbra, 1.8.1198), filha do conde Raimundo Berenguerário IV com a rainha Petrolina de Aragão. Em testamento feito por D. Sancho I em 1188, doou à esposa o senhorio de Alenquer, de terras do Vouga, de Santa Maria e do Porto[24]. De 1184 a 1190, quando começou a usar o título de Rei de Portugal e do Algarve, distinguiu-se nas campanhas de Reconquista cristã do Sul de Portugal e na Andaluzia[25]. Foi Rex Bellator do Gharb. Em 1192, criou bolsas de estudo subsidiando cónegos agostinhos para irem de Santa Cruz de Coimbra estudar nos Estudos Gerais de Paris. Promoveu o intercâmbio intelectual entre Portugal e França, sobretudo nos estudos teológicos e de direito romano. Em 1199, com o apoio jurídico e militar da Ordem do Templo, sobretudo, fundou Guarda, que passou a cidade em 1202 com a transferência da Diocese da Egitânia (Idanha-a-Velha). Em 1210, fez as pazes com o bispado português e com o papado, com quem mantivera sérios conflitos a ponto de ser excomungado. Morreu em Coimbra a 26 de Março de 1211, jazendo ao lado do pai no Mosteiro da Santa Cruz dessa cidade[26].

D. Sancho I procurou seguir a política de independência e expansão iniciada por seu pai, D. Afonso Henriques. Independência relativamente aos Estados vizinhos, sobretudo Leão e Castela, e mais ainda face ao domínio temporal da Igreja pretendendo de transformar o país recém-nascido num satélite geopolítico e religioso seu subordinado. Vem daí a controvérsia dos protelados tributos ao sumo vigário romano e dos sonegados imóveis ao bispado português. Expansão dilatando o território para Oriente da Península e para Sul da mesma, participando activa e intensamente da Reconquista aos árabes da Ibéria ocidental, o Gharb, povoando e repovoando o interior do País recente com emigrações vindas de Borgonha – terra natal de seu avô, o conde D. Henrique – e da Flandres, facilitando a instalação das Ordens religiosas, sobretudo a Beneditina e a de Cister, em terrenos férteis propício à agricultura e pastoreio, além de reforçar as fronteiras através das Ordens militares do Templo e do Hospital, mais que todas mas sem excluir as de Avis e de Santiago, a quem fez generosas doações móveis e imóveis. Promulgou forais de cidades, vilas e concelhos, e confirmou outros passados por seu pai[27]. Ao mesmo tempo, procurou letrar o país estabelecendo através dos agostinhos relações com várias universidades europeias, com destaque para Bolonha e Paris, a partir do centro geopolítico que então era Coimbra (as finis Galliciae).

O prosseguimento da mesma linha política, militar, religiosa e geográfica de D. Afonso Henriques por seu filho, ao mesmo tempo assegurando a sua dependência filial à iniciada dinastia borgonhesa, já a assegurara quando, em 1170, cingiu com as armas D. Sancho na igreja de Santa Cruz de Coimbra, manifestando suficientemente os intentos que tinha a seu respeito: não quis que Sancho as levantasse por si do altar, e em dia de Pentecostes, e que com elas se ornasse, como ele próprio fizera na catedral de Zamora em 1125, pois isso significaria independência completa; interveio ele na cerimónia, celebrada no dia da Assunção da Virgem, para fazer constar que o novo cavaleiro lhe ficava associado no governo, com a subordinação conveniente ao bom andamento das coisas públicas[28].

A Igreja tentou ingerir na fazenda pública reclamando-a propriedade sua através do bispo D. Pedro da Sé de Coimbra, mas D. Sancho I recusou e pelo contrário exigiu que o prelado pagasse à Coroa os direitos senhoriais, chamados procurações, desprezando as imunidades eclesiásticas e até mandando deter clérigos em prisões públicas, sendo julgados em tribunais seculares invés de eclesiásticos e condenando-os ao serviço militar[29]. O próprio censo ou tributo pecuniário à Igreja para que o país não caísse em banimento tornando-se pária proscrito à mercê de quaisquer invasões sem apoio de nenhum país cristão por desautorização da Santa Sé, foi inúmeras vezes protelado por D. Sancho I, só pagando o mínimo tributário sempre contrafeito e no último instante. Com efeito, nas cartas de Inocêncio III há a demonstração peremptória de que o censo dos cem áureos, devido desde 1179, estava por pagar em 1198, porque os mil áureos oferecidos por Afonso I haviam sido dádiva extraordinária. É certo que Inocêncio III exigiu o censo a D. Sancho, e provou-lhe que estava em dívida. Mas, como se ele esquivasse, como já tinha feito com Celestino III, deixou de insistir; e ainda que depois teve ocasião de escrever-lhe bastantes cartas, não voltou a tocar no assunto, que aos dois se tinha tornado ingrato[30]. D. Sancho I manifestava assim política dura no tocante a Roma provando que quem mandava no País era ele, não o Papa e seus prelados, separando o Estado da Igreja ambiciosa de além do poder espiritual também deter o temporal, o que em Portugal não conseguiu.

As relações entre o eclesiástico e a coroa deterioravam-se em crescendo parecendo irreversível. D. Sancho pagava os censos tardiamente, quando os pagava, sempre contrafeito, para que Portugal não fosse banido do privilégio dos países da Cristandade sujeita a Roma. O país não sofreu banimento, mas o rei sofreu excomunhão. Por queixas dos bispos de Coimbra e do Porto a Inocêncio III – observando-se pela correspondência trocada entre o monarca português e o sumo pontífice que aquele desapreciava largamente este, por variadas razões e talvez a maior a do processo da Occitânia onde os seus familiares aragoneses estavam envolvidos – em litígio com D. Sancho I por este tomar a defesa do Cabido contra o Bispado, devido à indefinição dos poderes temporais da Igreja, inclusive tendo mando prender esses dois bispos, cerca de 1205 o Papa incumbiu o bispo de Samora de excomungar o rei[31]. Só próximo da sua morte é que D. Sancho I se reconciliou com a Igreja, sendo abolida a excomunhão. Como se vê, o litígio com a Igreja vem desde os primórdios da Nacionalidade e só terminaria com a Concordata de 1940.

Sobre esse assunto da heresia régia castigada com excomunhão, diz D. Diogo de Souza[32]: “O bispo de Coimbra aventurou-se a interpelar o rei não só a respeito do seu modo de proceder para com alguns prelados, como também sobre várias circunstâncias da sua vida privada. Como Sancho continuasse nas repreensões sem respeito à hierarquia deles, não deixasse impune nenhuma ofensa, nem consentisse que se lhe faltasse ao respeito, a mútua irritação subiu até ao último ponto. O bispo lançou na sua diocese o anátema contra o rei, e apelou para o poder papal, a fim de o arcebispo de Braga não ter força de a suspender. Não pôde contudo ir pessoalmente queixar-se porque o rei o havia mandado prender. Por isso foram mais instantes as acusações que o bispo conseguiu levar à presença do papa. Expôs-lhe que o rei tinha concedido prebendas a quem lhe parecesse, tirando-as a quem o bispo as concedera na sua diocese; que fazia alojar nos conventos que nenhum rendimento tinham, ou então era muito escasso, caçadores, cavalos, cães e pássaros, sob obrigação de os sustentarem; que mandava prender os eclesiásticos, e que os obrigava a pleitearem ante ele ou juízes leigos; que protegia pessoas excomungadas; que proibia aos eclesiásticos entrarem ou saírem livremente do reino, dando-se-lhe unicamente essa permissão depois de prestarem juramento de não irem à corte do papa; e que sem este juramento tinham tudo sequestrado, e eram arremessados a cárceres públicos.”

Instalar “caçadores, cavalos, cães e pássaros” em edifícios religiosos que “nenhum rendimento tinham”, isto é, estavam praticamente abandonados pelo eclesiástico, fazia parte de uma estratégia legal do rei que assim, instalando homens e alimárias nesses imóveis, alegava direito predial por os mesmos serem habitados com conhecimento e consentimento da Coroa, ficando sua dona. A justificação legal seria do género: se esse imóvel desabitado é agora habitado por cavalos que o rei mandou aí ocupar, e posto as bestas serem súbditas reais, então ao rei pertence o imóvel. Isso exasperava a Igreja vendo limitadas as suas posses e poderes em Portugal. É especialmente claro o trecho de “uma perfídia cheia de heresia” que Inocêncio III recebeu de D. Sancho I: “Que naqueles onde a religião estava cheia de hipocrisia, e especialmente nos prelados e pessoas da Igreja, não se podia aniquilar ou destruir o orgulho e a moleza senão tirando-lhes o supérfluo dos bens temporais, que deviam à liberalidade dele e do rei seu pai, com grande detrimento do reino e dos seus sucessores, dando-os aos seus filhos e aos defensores da pátria, que estavam pobres”[33].

Adianta Luiz Gonzaga de Azevedo[34]: “A tendência manifestada por D. Sancho, desde os princípios do seu governo, para se intrometer em questões eclesiásticas, não podia deixar de produzir, cedo ou tarde, desavenças, que antes teriam surgido, se o mais autorizado dos prelados portugueses de então, o arcebispo de Braga, Martinho Pires, não fosse, por índole, homem conciliador, condescendente e inimigo de lutas[35].

“Na epístola 8.ª do livro XIV (Epistolarum Innocentii III, edição de Balúzio, Paris, 1682), fornece-nos Inocêncio III bastantes notícias sobre o modo como D. Sancho se havia com as igrejas, particularmente com as da diocese da sua capital, que era Coimbra, e também sobre a sua fisionomia moral. Nessa epístola, Inocêncio III repreende, severa mas paternalmente, o rei de Portugal, por alguns dos seus desvarios, que lhe vai enumerando, e fá-lo com uma elevação moral, soberana independência, espírito de justiça e, ao mesmo tempo, fervor de caridade, bem dignos de um dos maiores homens que se sentaram no sólio pontifício. Em suma, D. Sancho era autoritário no modo como governava; quando lhe parecia, ignorava o que fossem imunidades da Igreja, e dispunha das suas pessoas e coisas a inteiro arbítrio seu; deste modo, destituía os clérigos canonicamente colados, e fazia reverter, em proveito de apaniguados seus, as rendas dos benefícios; aboletava pelos presbitérios pobres os seus besteiros, com os animais, de que se servia na caça, como cães, aves e cavalos, para aí receberem sustento; fazia prender os clérigos na cadeia pública, como quaisquer malfeitores; obrigava-os a responder nos tribunais seculares, sem respeito a privilégios que lhes costumavam guardar, segundo o direito; compelia-os, sem as devidas restrições, ao serviço militar; finalmente, com certo espírito sarcástico e algo jacobino, que se não julgaria daqueles tempos, tinha por encontro de mau agouro o dos religiosos ou sacerdotes, quando acaso lhe ocorriam.

“Como quem vivia apartado das práticas religiosas verdadeiras, fizera-se supersticioso, e trazia consigo uma bruxa, ou mulher de virtude, a quem consultava; tomava a seu cargo defender os excomungados, usurários e quantos eram adversos à Igreja; compelia ao casamento viúvas, que queriam professar continência; proibia aos sacerdotes entrarem ou saírem do reino, a não ser que antes jurassem que não vinham, nem intentavam dirigir-se à Sé Apostólica, sob pena, no caso de transgressão, de serem espoliados e presos na cadeia pública.

“Isto diz Inocêncio, no lugar citado, reportando-se ao testemunho de D. Pedro, bispo de Coimbra, o qual não exagerava no que escrevia ao Papa. Como D. Sancho tinha a capital em Coimbra, é de crer que D. Pedro fosse o prelado mais agravado e queixoso.”

O historiador citado é reconhecido católico romano, mas não invalida o relato que faz Inocêncio III usando das palavras do bispo de Coimbra, mesmo admitindo que o discurso foi fortemente empolgado pelo queixoso. Que D. Sancho I foi rex haeresis, não restam dúvidas. Que D. Sancho I tinha sido mau cristão e pior católico, há muitas dúvidas. A sua luta foi contra a prepotência eclesiástica, não foi contra a Ecclesia. Apoiou quem achou dever apoiar nessa sua luta de independência moral e racional, incluindo hereges e excomungados, ou seja, gente sobretudo judaica e moçárabe cujo eclesial hispânico era reprimido pelo romano, como testemunha a perseguição ao clero moçárabe instalado na igreja de S. Cristóvão de Lisboa. Possivelmente a tal «bruxa» falada no texto seria uma judia sefardita ou, o mais certo, a sua confidente e concubina D. Maria Pais de Ribeira, de alcunha a “Ribeirinha” (c. 1170 – Grijó, 1258), primeira filha do nobre D. Paio Moniz de Ribeira e de D. Urraca Nunes de Bragança[36]. “Afirma-se que era branca de pele, de fulvos cabelos, bonita, sedutora”, qualidades que encantaram o rei e cativaram os nobres da sua corte. Em 1198, inspirou o nobre e trovador Paio Soares de Taveirós a compor a Cantiga da Ribeirinha, primeiro texto literário em língua galaico-portuguesa aparecido nesta época.

Se D. Sancho I aprendera as lides das armas junto dos cavaleiros da Ordem do Templo e dos seus priores recebera a catequese cristã ao par dos Cónegos Regrantes de St.º Agostinho que lhe deram a educação intelectual e o gosto pela literatura e a arte a ponto de ele mesmo ter composto trovas, como a famosa cantiga de amigo Ay eu coitada, integrada no Cancioneiro da Biblioteca Nacional que é uma colectânea lírica do Trovadoresco galaico-português composta de cantigas de Santa Maria, de amigo, de amor e de escárnio e maldizer, dizia, tudo isso nada prova que ele fosse mau cristão, muito pelo contrário: prova sobretudo que possuía uma erudição superior à de muitos clérigos onde não rareavam analfabetos, e mesmo acaso havendo hermetismo no seu modo de questionar e interpretar o Cristianismo, só reforça a sua superioridade mental e espiritual no captar e afirmar-se católico. Isso regista-se na sua famosa Cruz Processional que idealizou e mandou fazer destinando-a ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a qual sobreviveu às vicissitudes do tempo e está hoje exposta no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, constituindo o mais belo e raro exemplar da ourivesaria medieval portuguesa.

Com efeito, no testamento de D. Sancho I, datado de 1210, consta o seguinte: “Ao Mosteiro de Santa Cruz, em que mando sepultar o meu corpo, […] dou a minha copa de ouro para que façam dela uma cruz”.

Peça em ouro maciço, de excelente execução, com pedras preciosas e pérolas encastoadas, esta cruz foi mandada lavrar pelo monarca, sendo cruz real assinalada pelos tramos florlisados, apresentando vestígios de haver contido, na face anterior do cruzamento dos braços, a relíquia do Santo Lenho (hoje desaparecida, mas que se diz ter pertencido ao Conde D. Henrique, avô de D. Sancho) deixada aos crúzios de Coimbra pelo seu fundador, D. Afonso Henriques. O reverso é delicadamente aberto a buril, tendo ao centro, inserido numa rosácea lobulada (no que reverte à Rosa+Cruz simbólica da Luz e Imortalidade), o Agnus Dei – o Cordeiro de Deus símbolo do Martírio e Morte do Redentor, figurado de pé porque Ressuscitado. Nas extremidades dos braços, apresentam-se os símbolos dos quatro Evangelistas: a águia de S. João, o leão de S. Marcos, o touro de S. Lucas e o anjo de S. Mateus. Ostenta a data de 1214 incisa no ouro. A cruz fazia parte de um elaborado programa de relíquias que se guardavam na cripta do mosteiro. Nela fora reconstituído o Calvário tendo ao centro o Santo Lenho, ladeado por relíquias de S. João Evangelista e da Virgem Maria, tendo na base pedras do Monte Gólgota.

“A prodigalidade que o monarca revelou no fim da sua vida, fazendo opulentas dádivas ao clero, em sinal de apaziguamento após os acesos conflitos que mantivera com a Santa Sé, prende-se igualmente com a preocupação de garantir a salvação da sua alma. A entrada desta alfaia no Mosteiro de Santa Cruz veio enriquecer o vultuoso tesouro de relíquias e preciosidades do opulento mosteiro e preencher uma lacuna do culto que aí devia ser prestado ao Santo Lenho. D. Afonso Henriques, ao fundar a instituição com D. Telo, dedica o culto dos Cónegos Regrantes à invocação da Cruz de Cristo e deixa ao mosteiro uma relíquia da Santa Cruz. De acordo com a tradição, tinha-a tomado em 1128 ao seu primo Afonso VII de Castela, na batalha da Veiga de Valdevez, depositando-a posteriormente na igreja de Grade, guardando para si um fragmento que dividiu em duas partes. Um dos fragmentos foi incrustado numa pequena cruz peitoral em ouro, pertença do monarca, e que depois veio a integrar a Cruz em ouro que D. Sancho irá doar testamentalmente a Santa Cruz de Coimbra, e o outro fragmento foi oferecido a São Teotónio, cofundador do mosteiro e primeiro santo português. Santa Cruz passa assim a funcionar como repositório dos despojos mortais dos primeiros reis de Portugal, e ainda como tesouro dos objectos-símbolos do Reino: como a espada do rei fundador, aí se passa a guardar também a relíquia do Santo Lenho. Neste contexto, a Cruz de D. Sancho proporciona o enquadramento condigno à relíquia que o monarca herdara de seu pai e dignifica o Orago de uma instituição tão intimamente ligada à Monarquia Portuguesa.”[37]

Posto isso, coloca-se a questão principal: houveram hereges (cátaros) em Portugal reinando D. Sancho I? D. Pedro, bispo de Coimbra, apoiando as leis censórias de Fr. Sueiro Gomes, prior da Ordem dos Dominicanos no país reinando já D. Afonso II, filho de D. Sancho, afirmam que sim. A despeito do desagrado declarado e público de ambos pelo monarca, ainda assim haverá algum fundo de verdade na notícia transmitida por Luiz Gonzaga de Azevedo[38]:

“O que naqueles anos preocupava a S. Domingos e a seu discípulo (Fr. Sueiro), que em tudo o procuraria imitar, era a integridade da fé e a repressão da heresia. Do mesmo Santo Patriarca se sabe que, quando no sul da França, reconciliava, com autoridade recebida dos legados pontifícios, os hereges no foro externo, lhes impunha penitências exteriores, como prolongados jejuns e rigorosas abstinências. E parece que, quando eles eram obdurados no erro, os entregava também ao braço secular, que os punia, até com a pena última[39].

“Tinha ordenado o cânone terceiro do IV Concílio de Latrão (1215), como antes o dispusera o segundo do de Avinhão (1209), que os príncipes, condes e magistrados fossem diligentes na repressão da heresia[40], podendo os bispos obrigá-los a isso por meio das censuras. A natureza do castigo era determinada pela lei civil, ainda que o Concílio de Latrão fale expressamente do confisco. Ora, sendo tal doutrina geral na Cristandade, e estando ela em prática, sobretudo desde que começaram as pregações e cruzada contra os albigenses, não admira que Fr. Sueiro, que muito bem sabia o que se passava no sul da França, em chegando a Portugal vulgarizasse, nalguns preceitos de redacção sua, o que cumpria fazer aos magistrados quantos aos hereges, segundo a doutrina admitida e então vigente. É, pois, por isso que Afonso II […] declara que os preceitos propostos por Fr. Sueiro eram desconhecidos entre nós, no tempo de Afonso Henriques, de D. Sancho e também no seu, o que é muito exacto, quanto às determinações conciliares repressivas da heresia; deixa, contudo, entrever que os preceitos mencionados eram relativos à pureza da religião e da fé, quando afirma que, apesar de nós desconhecidos, os Papas Alexandre III, Clemente III, Inocêncio e Honório III, que tinham por obrigação defendê-la, não deixaram de confirmar o reino e a coroa de Portugal aos seus monarcas; e, finalmente, quando manda que nada se compre ou venda no reino, contra o que é ordenado em tais decretos, como seriam escritos heréticos, bíblias em vulgar, estátuas, etc., etc.[41]

“Versando os estatutos de Fr. Sueiro sobre a repressão das heresias, urgindo neste sentido as disposições, embora Afonso II os abrogasse, não deixava de reconhecer que tal matéria, como abrangida já pelos costumes ou leis do reino, devia ser respeitada. Portanto, coisas relativas à heresia que serviriam, porventura, para a propagar, só podiam ser vendidas furtivamente (ad furtum), e o rei declara nulas essas vendas. Esta interpretação está, pois, confirmada pelo decreto de Afonso II contra os estatutos ou decretos de Fr. Sueiro Gomes.

“Contra o que fica dito, uma dúvida ocorre: existiam então, em Portugal, heresias, contra as quais D. Pedro incitasse o zelo do dominicano Fr. Sueiro?

“Quem diz que elas existiam é o bispo de Coimbra, nas palavras transcritas: facilius ad fidem catholicam vos valeant perducere. E ainda que não o dissesse, há razões que mostram que deviam existir, porque não faltavam no Aragão, em Castela e em Leão, países confinantes com o nosso. Além disso, as causas que concorriam para as despertar ou introduzir nesses estados, como era o contacto imediato com sarracenos, e as frequentes relações comerciais, políticas e literárias com os países europeus, e particularmente com a Aquitânia e com a Provença, em que elas se divulgaram, também nos não faltavam.

“A razão, que o arcebispo de Toledo e os bispos de Palência e Zamora invocam perante Inocêncio III, contra o interdito posto em Leão pelo legado Rainério, para obrigar o rei a separar-se de Berengária, era que dele se valiam os hereges, para divulgar mais seguramente, com o silêncio imposto aos pastores das almas, as suas heresias (Epistolae Inocentii III, Liv. II-75).

“As relações de Portugal com Inglaterra e com a França inglesa eram frequentes; basta dizer que uma das fontes mais seguras, melhor e mais informadas para escrever a nossa História dos fins do século XII, é o cronista inglês Rogério de Hoveden. Por isso, não deviam por aqui faltar precursores do célebre heresiarca Thomas Escoto, a que se refere Álvaro Pais no seu Collyrium contra haereses[42].

“Da existência de hereges por fins do século XII e nos princípios do imediato, em Aragão e Castela, existem provas claras e directas[43].

“O documento, conservado por Fr. Luís de Sousa, tem grande importância, pois não só nos aponta qual o intuito que Fr. Sueiro teve em vista com a publicação das suas leis, e qual a natureza delas, mas também nos dá a razão da cruel perseguição movida por Afonso II contra o bispo de Coimbra, porque foi com ele muito mais severo do que com o prior dos dominicanos.

“D. Pedro, em 1218, ainda tinha coragem para excomungar mestre Julião, deão da sua Sé e protegido do rei; mas depois apoucou-se, até mentalmente, e nem ousava sair do paço com medo a D. Afonso, que o ameaçava dizendo-lhe que lhe havia de fazer como o falcão à garça[44].

“Pondere-se que o referido documento, nas suas palavras finais, contém a retratação das concessões anteriormente dadas pelo bispo aos dominicanos. Ora, tal retratação não podia deixar de ser imposta pelo rei ao bispo, para que Fr. Sueiro se não julgasse autorizado a publicar outros decretos.”

Conclui-se que a “heresia” cátara era desconhecida em Portugal – aparte grupos heterodoxos sobretudo judaicos procurados por cristãos desafins com a doutrina oficial da Igreja, criando movimentos opositivos alguns de carácter hermético de que alguma arte e a literatura marginais deixariam testemunho – mas sendo pretexto para o bispo de Coimbra poder introduzir os dominicanos (domini canis, ordini canis, fideli canis…) em Portugal, com doações a eles que só o rei as poderia fazer mas com isso pretendendo diminuir o poder régio. Sem dúvida que D. Afonso II procurou justiça póstuma para o seu pai ante as afrontas continuadas do bispo de Coimbra, e ao que dizem as crónicas só não o matou por falta de oportunidade. Por outra parte, conclui-se também a possibilidade de D. Sancho I ter facilitado a entrada no país de refugiados albigenses, sobretudo de Aragão por sua familiaridade com esse reino, mas sem que tal implicasse transgredir a lei do direito romano e o canónico romano oficiais em Portugal, por não existir notícia em contrário e tão-só modernas conjecturas analógicas com mais ou menos engenho teórico. Possivelmente esses “hereges” fugidos viriam entre as grandes migrações de francos da Borgonha e de flamengos da Flandres para cá promovidas por D. Sancho I, acabando por se diluir na massa populacional e adoptando um Catolicismo “português”, já de si também não longe da heresia em muitos aspectos. Este será o motivo de não haverem signos cátaros em Portugal, tão-só signos sobretudo astrolátricos passíveis de adopção pela ideia preconcebida de crença cátara, a despeito da descontextualização no panorama geral da simbólica religiosa e da religião professada. A feição mais próxima do Catarismo em Portugal foi o Protestantismo, nele entrando tímida e secretamente no século XVI, através de famílias inglesas, mas só vindo a ter realce público no século XIX.

Contudo, a isso opõe-se um outro elemento favorável à hipótese de os cátaros occitanos terem se instalado em Portugal indo alterar a feição de vários espaços urbanos: a toponímia de lugares beirões e alentejanos aparentemente serem idênticos a outros tantos occitanos. Por exemplo, Albi Castrum (Castelo Branco) será derivado de Albi, Nisa de Nice, Tolosa de Toulouse, Arez de Arles, Montalvão de Montauban, Proença de Provence, Segura de Montsegur, etc. Esta extrapolação onomástica poderá encontrar justificativa em dois autores portugueses consignados, um deles, Veríssimo Serrão que diz: “Nos fins do século XII chegaram mais francos a Portugal, auxiliando D. Sancho I na política de fomento. […] É indiscutível que no início do século XIII se deu a chegada de uma nova vaga de colonos que contribuíram para o povoamento do Alto Alentejo. […] O nome de várias povoações, como Montalvão, Nisa, Tolosa e Arez, supõe a existência de topónimos do sul da França que se prendem ao seu inicial povoamento”[45].

O outro autor, Celso Cunha, em parceria com Lindley Cintra, avançam na mesma direcção: “Temos uma extensa área da Beira Baixa e do Alto Alentejo […] em que se regista uma profunda alteração do timbre das vogais. Os traços mais salientes são: a) a articulação do u tónico como [ü] (próximo do u francês), por exemplo, , müla, por tu, mula; b) a representação do antigo ditongo ou por [ö] (também semelhante ao som correspondente do francês), por exemplo, pöca por pouca; c) queda da vogal átona final grafada o – ou a sua redução ao som [ә], por exemplo, cop(ә), cop(ә)s, por copo, copos; tüd(ә) por tudo[46].

O primeiro autor citado, não parece ir além das aparências toponímicas, deixando vaga a probabilidade da presença albigense. Os segundos, parecem encontrar nos francos a ligação linguística francesa ao linguarejar luso beirão e alentejano, o que terá origem nos colonos vindos de Borgonha pelo Sul de França a convite de D. Sancho I, igualmente sem nenhuma afirmativa de influência linguística occitana. Diz Jorge Rosa com bastante pertinência[47]:

«Os Francezes, e os Hespanhoes, passaram o rio… no primeiro deste mez, e no mesmo dia se rendeu a Cidade de Nizza, levando o seu Magistrado as chaves ao Infante D. Filipe. No dia seguinte começaram a bater o Forte de Montalvam, que dista 16 mil passos de Villa-Franca e defende o porto da dita Cidade.»

“Quem, em Portugal, lesse apenas esse extracto de uma notícia publicada pela Gazeta de Lisboa, n.º 20, de 19 de Maio de 1744, pensaria, certamente, estar a ler um relato de um qualquer combate na região entre Nisa e Montalvão. Na verdade, trata-se da região do Piemonte em Itália.

“Vem isto a propósito da teoria, várias vezes difundida, que Nisa, Montalvão e Tolosa, devem os seus nomes a colonos franceses que, em dada época e no âmbito das políticas de repovoamento de Portugal, aqui se teriam fixado. Assim, Nisa derivaria de Nice, Montalvão de Montauban e Tolosa de Toulouse. A teoria até parece fazer sentido porque, na verdade, houve colonos franceses que se fixaram em Portugal, nomeadamente na região de Montalvo, mas tem um senão. Nisa, Montalvão e Tolosa existem em França, mas também na Itália.

“Perante esta realidade, teríamos que admitir que a origem dos nomes destas terras portuguesas poderia ser tanto francesa como italiana ou espanhola, e então que os nomes das localidades italianas e espanholas também tiveram origem francesa.

“Não sabemos o verdadeiro significado de Nisa ou Tolosa, mas Montalvão é um aumentativo de Monte Alvo (branco), tal como existe o diminutivo Montalvinho. Logo, em qualquer lugar habitado por gente com língua de origem latina, era possível ter surgido, e de forma independente, qualquer um dos nomes referentes a um monte branco, possivelmente um monte sujeito a nevões.

“Um bom exemplo do surgimento do mesmo nome em vários lugares e países sem ligação entre si é o de Vila Franca, também referido na notícia da Gazeta de Lisboa. Este nome existe em França, Itália e Espanha. Em Portugal podemos apontar, entre outros, Vila Franca de Xira, do Campo, do Centro, do Rosário, etc. Apesar do termo franca poder remeter para França (francos), a verdade é que a sua origem deriva do facto de, nessas terras, se realizarem feiras francas (livres).

“Estamos, pois, em crer que a teoria da origem francófona dos nomes das terras do Nordeste Alentejano é, no mínimo, questionável. Se, quanto a Nisa e Tolosa, não há dados que permitam estabelecer, com segurança, uma fundação anterior ao nascimento de Portugal, já quanto a Montalvão não restam dúvidas de que o seu castelo existia já durante a dominação árabe.

“Em função do exposto, parece-nos muito mais útil buscar uma origem mais remota para estas localidades, com raízes no seu próprio povo, em vez de duvidosas hipóteses migratórias.”[48]

Mas o prof. Carlos Cebola contrapõe com a seguinte conclusão[49]:

“Em 1199, D. Sancho I doa a Herdade da Açafa à Ordem do Templo. Este território era delimitado, de modo muito sumário, a norte pelo Rio Tejo e a sul detinha parte do território dos actuais concelhos de Nisa, Castelo de Vide e parte do território espanhol junto à actual fronteira. Estas doações tinham como objectivo fixar moradores em zonas ermas e despovoadas e consequentemente defender o território.

“Os Templários edificaram uma fortaleza que os defendesse dos infiéis e sinalizava a posse desses territórios. Ao mesmo tempo, o monarca anuncia a vinda de colonos franceses, que chegaram de forma faseada, sendo o último grupo destinado ao povoamento do território da Açafa.

“Instalaram-se junto das fortalezas construídas pelos monges guerreiros e aí ergueram habitações, fundaram aglomerados populacionais a que deram o nome das suas terras de origem. É neste sentido que surge possivelmente o de Nisa, ou seja, sendo os primeiros habitantes oriundos de Nice, ergueram aqui a sua “Nova Nice”, ou melhor dizendo, a Nisa a Nova, que encontramos nos documentos, e quando surge o termo Nisa a Velha, este refere-se à sua antiga terra de origem, a Nice francesa.

“Assim terão nascido Arez (de Arles), Montalvão (de Montauban), Tolosa (de Toulouse), cidades do Sul de França…”

Mas o topónimo Montalvão também existe noutras localidades portuguesas, como o de Montalvão em Setúbal ou a Cruz de Montalvão em Castelo Branco, por exemplo. Além disso, tem-se Montalban em Teruel (Aragão), Puebla de Montalbán em Toledo, Montalvan em Córdova, tudo em Espanha, enquanto na França tem-se Mont´Auban, Montauban ou Monte Albano, e ainda Montalbano na Itália. Significa isto a extrema dificuldade em associar e provar a exclusividade toponímica da localidade alentejana com alguma migração albigense.

Ainda a propósito da designação italiana de Montalvão, repara-se que ela é utilizada na carta geográfica La Spagna com o nome M. Alban, associada à figuração de uma fortificação. Montalvão poderá ser associado a “Monte Forte” ou fortificado, cujo castelo constituiu uma das guardas avançadas da fronteira luso-espanhola a cargo da Ordem do Templo e depois da Ordem de Cristo. Neste sentido também pode estar a origem do topónimo latino Albi Castrum, Castelo Branco, com origem em Vila Franca da Cardosa, que em 1212 foi doada metade dela à Ordem do Templo por D. Fernando Sanches, possível filho de D. Sancho I, e em 1214 a sua totalidade por doação real D. Afonso II. Um ano antes, em 1213, com a elevação do castelo templário e o subimento da importância geopolítica de herdade (aldeia) a vila, o Mestre do Templo D. Pedro Alvito deu foral à povoação no qual aparece a denominação Castel-Branco, posse confirmada pelo Papa Inocêncio III em 1215, dando-lhe o nome de Castelobranco.

Ainda que a origem filológica Castelo Branco pareça recuar ao grego Cattaleucos, significando ad albos, a verdade é que Ptolomeu identificava essa entre o Tejo e o Guadiana, portanto, no Alentejo, e não nas ruínas da Cardosa albicastrense, como aliás aponta Joaquim de Santa Rosa de Viterbo[50]. Antes de Castelo Branco o povoado era chamado Moncarche e Castraleuca, possível forma popular corrompida da Cattaleuca celto-grega, acaso também tendo sido nome de povo local deslocado do Sul para o Centro, como era normal nas migrações de povos pastores nos alvores da História.

A fim aos primeiros ecos de civilização na Península Ibérica, também andará o topónimo Nisa. Leite de Vasconcelos aponta para a sua origem grega por serem vários os nomes helénicos em que entra a palavra Nisa. Está neste caso a adopção do teónimo Nusa, corrupção helénica da deusa egípcia Nuta, ou simplesmente Nut. Como deusa da noite, Nuta, a Lua, foi considerada como a guia e protectora das almas. Daí a dupla cor com que é representada: branca, da vida, e negra, da morte. Nuta revestia-se assim com a dupla natureza de promotora da vida e protectora dos mortos. Os povos pré-cristãos escolhiam as eminências dos montes para erguerem templos a Nuta, montes esses que assentavam a base em terrenos negros, como é o caso do barro de Nisa, cuja olaria era depositada nos monumentos sepulcrais. O teónimo egípcio Nuta entrou nas falas egeias sob a prosódia Nussa, que entre os dóricos soava Nusa e que no Lácio tomou a grafia Nysa e a pronúncia Nisa. Como corolário do referido, a antiga Nisa foi consagrada àquele astro que tanto encanta as noites luarentas do Alentejo. Foram, indubitavelmente, colonos da área egeia que se estabeleceram no outeiro de Nisa (a Velha), erigindo no cume um templo hoje transformado em graciosa capela consagrada a Nossa Senhora da Graça, santa que embeleza a vida e protege da morte.

Por algum motivo que a razão desconhece, crê-se haver sinais albigenses no interior da Misericórdia de Arez (topónimo derivado de Ares ou Aires, já assim conhecido no tempo de D. Afonso I[51]), uma das mais antigas freguesias do concelho de Nisa e também consagrada a Nossa Senhora da Graça. Trata-se de capela franciscana da evocação do Espírito Santo datada do século XVI, tendo em 28 de Novembro de 1592 recebido o alvará régio autorizando-a a usar o Compromisso da Misericórdia de Lisboa[52]. A capela está hoje em fase de restauro e brilha pelo seu valor tanto religioso como artístico, nisto sobressaindo as pinturais parietais (frescos) que apesar de danificadas revelam cenas da devoção franciscana. Possui três altares: o altar-mor com a imagem do Divino Espírito Santo, o da parte do Evangelho (lado esquerdo, visto da entrada) com a imagem de Santo Amaro, e o da parte da Epístola (lado direito) com a imagem do Senhor Crucificado. Recuando na História, convirá não ignorar que os terços de S. Francisco fizeram cruzada pastoral contra os albigenses[53], pelo que não se percebe onde haja catarismo neste templo, nem mesmo na ilusão óptica (de perto vê-se que não são) das pressupostas cruzes cátaras que aparecem nos lados dos frescos murais, ou de alguma Arles occitana figurada no ambiente mediterrâneo onde Jerusalém surge retratada.

Deixo, enfim, de parte outras leituras toponímicas pertinentes ao tema que as já feitas chegam para questionar a conversão linguística albigense em filólogos aportuguesados, coisa que nem mesmo o douto Luís Chaves se lembrou de fazer[54].

Sem dúvida a geopolítica de povoamento e expansão territorial executada por D. Sancho I, o Povoador, desse modo agindo como se fosse, em termos orientais, um Manu, Legislador ou condutor de povo em guisa de um novo Moisés encetando êxodo para a Terra Prometida, facilitando a vinda e instalação de emigrações de várias proveniências europeias nas terras portuguesas reconquistadas ao Islão, além da sua relação familiar a Aragão relacionado à Occitânia, deu aso à avenção erudita do Catarismo português em terras beirãs e alentejanas, o que acriticamente tem sido adoptado por alguma cultura marginal urbana desafeita aos intrincados da História.

Num bosquejo rápido da acção geopolítica de D. Sancho I, para terminar, repasso a palavra a D. Diogo de Souza[55], que assim descreve:

“Tornava-se, pois, necessário repovoar os burgos que estavam desabitados, e fazer cultivar os campos que jaziam abandonados. Para este fim, distribuiu D. Sancho pelos cultivadores pobres os terrenos incultos. Os campos abandonados foram igualmente cultivados, graças às providências que o mesmo monarca adoptou. Não se contentou o rei só com estas providências, porque concedeu aos agricultores quantos favores e liberalidades lhe foi possível, recompensando o trabalho e animando aqueles que se mostravam laboriosos. A animação que prestou aos agricultores mais inteligentes e activos, recompensando-lhes o trabalho e animando-os a prosseguir, serviu de muita utilidade ao país e de estímulo aos homens que se entregavam a esta laboriosa ocupação, porque viam no rei um amigo e um protector, a quem com orgulho davam o epíteto de Lavrador.

“Não se entregou com menos ardor à reparação das cidades e vilas destruídas pela guerra com os infiéis. Da reparação e reconstrução destas, viram surgir-se mais belas e formosas que d´antes, Covilhã, Torres Novas, Viseu, Pinhel, e fundarem-se Monte Mor Novo (1201) e Valença. Estes cuidados, porém, d´el-rei D. Sancho seriam ineficazes se a par destas providências ele não concedesse direitos e franquias aos homens que, andando isolados e dispersos, viessem habitar aquelas povoações reconstruídas, encerrando-se dentro dos seus muros. Foi a estas franquias e direitos locais a que se deu o nome de forais, e esses privilégios são de um carácter particular daquela época, no qual o sistema de comunas se desenvolveu e tornou florescente. Estes forais não eram só concedidos pelos reis: os grandes do reino, os grão-mestres das Ordens e os prelados também os dispensavam àqueles territórios que lhes eram sujeitos. Muitas vezes o rei dava um foral conjuntamente com o senhor da vila ou da cidade, e em certas ocasiões confirmava os privilégios concedidos por aqueles senhores territoriais.

“É digna de notar-se uma das concessões feitas no foral de Covilhã. “Um servo que ali habitasse pelo tempo de um ano, ficava livre e ingénuo, como se nascesse de pais livres”. Diz Brandão que com estes e outros privilégios a vila dentro em pouco cresceu notavelmente. De feito cortando assim pelas peias que então paralisavam os braços, D. Sancho criou novos meios de actividade e indústria, como escreveu Schoeffer, e fez desenvolver forças que até então estavam inactivas. “Quanto mais penosas eram as obrigações dos habitantes de um lugar, quanto mais a sua situação os expunha aos perigos, mais o rei lhes franqueava privilégios para os prender ao lar doméstico e ao trono. Foi por isso que ele concedeu a Pinhel, situada na fronteira do reino e que se podia considerar como um dos seus baluartes, o foral de Évora, já antes dado por Afonso Henriques, para lhes compensar serviços passados, libertando os seus habitantes da obrigação de construírem as muralhas do castelo, de pagarem ao rei a Pedida, a Colheita e a Portagem em todo o Portugal, franquias extraordinárias, das quais os habitantes depois se tornaram perfeitamente dignos”.

“Assentemos aqui uma relação das terras ás quais Sancho I concedeu forais. Figueiró e Covilhã, em 1186; Viseu e Folgosinho, em 1187; Penacova, em 1192; Marmelar, em 1194; Penadono e Leiria, em 1195; Souto Maior, Soverosa e Souto, em 1196; Sortelha, Bragança, Seia, Gouveia, Penela, S. João da pesqueira, Paredes, Linhares e Anciães, em 1198; Guarda, em 1199; Sesimbra, em 1201; Taboadelo, Fontes, Crastelo, em 1202; Monte Mor Novo, em 1203; Reguengos de S. Julião e S. Cipriano, em 1205; Reguengo de Vila Nova, em 1205; Ranaldo e Andranes, em 1208, e Vila Franca, que o rei deu em 1200 ao cavaleiro flamengo Rollin e seus companheiros.

“Vejamos como o sr. Alexandre Herculano resumidamente descreve os motivos que forçaram D. Sancho a não cessar de actividade no meio desta forçada paz: “Temia, e com razão, que os almuhades renovassem as tentativas contra Portugal, tentativas que a julgá-las pelos sucessos passados, podiam levar a assolação ao interior do país: era necessário, portanto, multiplicar os lugares fortes, povoar de gente aguerrida as fronteiras, e coligir todos os recursos possíveis para repelir os inimigos. Assim, novas preceptorias ou mosteiros das Ordens militares se estabeleceram nas povoações mais importantes da margem direita do Tejo, e fizeram-se doações a estas Ordens de vários castelos, ou de vastas porções de terra, com obrigação de aí os fundarem. A povoação da Beira Baixa mereceu também sérios cuidados, e a antiga Egitânia (Idanha) começou a surgir das suas ruínas. Às colónias estrangeiras que no tempo de Afonso I tinham vindo povoar a Estremadura e que haviam prosperado, aumentou-se o território, dando-se-lhe Pontével e o seu termo, o que por este lado as aproximava da margem direita do Tejo”.

“Estas doações às Ordens de Cavalaria estão hoje comprovadas por documentos de toda a excepção. À Ordem de Évora, ou Avis, doou Mafra (1193); à de Santiago, além das vilas que já mencionámos, a torre e paços da alcáçova de Santarém (1193), o edifício de Santos o Velho junto a Lisboa (1194); à do Hospital, a herdade de Guidimtesta para fundar o castelo de Belver (1194); à do Templo, Idanha Velha (1197). Por esta praça, que então era muito importante, cederam os templários ao rei os burgos de Mogadouro e Penas Róias, e nove anos depois também Idanha Nova.

“Vejamos agora como o sr. Alexandre Herculano descreve os acontecimentos que nesta época tinham lugar em Portugal.

“No meio destas negociações que lhe asseguravam o protecção de Roma, Sancho I dedicava-se activamente a organizar a defesa do reino. Tinha ele doado já em 1197 aos templários a Idanha e seus termos, fronteiros aos últimos domínios leoneses para o sudoeste. Neste ano, porém, ajuntou a mais avultada dádiva da Açafa, território vastíssimo que se dilatava ao longo da margem direita do Tejo desde esse distrito da Idanha, anteriormente doado, para o ocidente até aos limites do castelo de Belver que pertencia aos hospitalários, e cujas extremas opostas se avizinhavam das dependências da preceptoria ou comenda de Tomar. Nesta doação da Açafa compreendia-se também uma extensa porção do Alto Alentejo, que parece ter sido aquela que os cristãos iam gradualmente povoando. Que Sancho fizesse uma dádiva tão importante, só porque os templários lhe cediam o padroado das igrejas de Mogadouro e Penas Róias, castelos a troco dos quais dera Idanha àquela Ordem, é o que apenas se pode aceitar como um pretexto, posto que assim se diga no respectivo diploma. Estas doações importantes feitas às Ordens militares, tinham evidentemente motivos políticos. Quantos e porquantos modos os templários (ou ainda os outros institutos monástico-militares, que formavam associações independentes das divisões geográficas da Hespanha cristã, ou por outra, que eram ao mesmo tempo portugueses, leoneses, castelhanos e aragoneses) podiam pela influência fazer pender a balança para esta ou para aquela parte nas dissensões dos diversos Estados, é coisa de que se pode fazer conceito, posto que seja dificultoso apreciar toda a força dessa influência e todas as hipóteses que se verificariam na aplicação. Removendo estas Ordens, principalmente os tão belicosos templários, dos castelos do norte para as fronteiras do sul, Sancho colocava-os na sua situação natural, isto é, na vanguarda da reacção cristã contra os sarracenos. Acrescia que com estas amplíssimas mercês de terras não só os chefes do Templo em Portugal, mas ainda os de Leão e Castela, lhe ficariam uns gratos, outros afeiçoados. Finalmente, o estabelecimento das preceptorias no sul do reino era, em relação à economia interna, o mesmo que a fundação dos mosteiros, um dos grandes meios de povoar os lugares desertos; porque em volta das residências monásticas ou monástico-militares, a população e a cultura cresciam rapidamente. Semelhantes instituições eram a fórmula adequada à época, com que actuava nas sociedades o fecundo princípio da associação.

“Apenas ordenara estas coisas na Beira Baixa, Sancho partiu para Trás-os-Montes, cuja fonteira é provável se ocupasse em fortificar…”

Com tudo, em desfecho, mantém-se a interrogação de como misteriosos hereges occitanos teriam se convertido em singulares beirões e alentejanos? Fica ao futuro a resposta definitiva, se a houver, posto o presente aparentar só divagar no engenho.

NOTAS

[1] Manuel J. Gandra, Cátaros para um Languedoque português. Instituto Mukharajj Brasilian, 2013.

[2] Joan O´grady, Heresia – O Jogo de Poder das Seitas Cristãs no Primeiros Séculos depois de Cristo. Editora Mercuryo, São Paulo, 1994.

[3] José Orlandis, História breve do Cristianismo. Tradução de Osvaldo Aguiar. Ed. Reis dos Livros, Lisboa, 1993.

[4] Pierre Pierrard, Histoire de l´Eglise Catholique. Desclée & Cie. Paris, 1978.

[5] A. Lombard, Pauliciens, Bulgares et Bons-hommes. Geneva, 1879.

[6] Eugen Roll, Ketzer zwischen Orient und Okzident: Patarener, Paulikianer, Bogomilen. Mellinger Verlag, Stuttgart, 1978.

[7] René Nelli, Les cathares. Ed. Culture, Art, Loisirs, Paris, 1972.

[8] Alex Amorim de Sousa, O segundo Deus. Redes Editora, Porto Alegre, 2009.

[9] Ilarino da Milano, Eresie Mediovali; Scritti Minori. Maggioli Editore, Rimini, 1983.

[10] Marie-Humble Vicaire, Le catharisme: une religion. In Historiographie du catharisme – Cahiers de Fanjeaux, n.º 14. Édouard Privat, Toulouse, 1979.

[11] The Letters of St. Bernard of Clairvaux. Sutton Publishing Ltd, London, 1998.

[12] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário (Vida e Obra da Ordem do Templo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2011.

[13] Charles Molinier, L´Inquisition dans le Midi de la France au XIIIe et au XIVe siècle. Etude sur les sources de son histoire. Toulouse, 1880.

[14] Isabel Maria Dâmaso de Azevedo Vaz dos Santos, Do altar ao palco – Santo António na tradição literária, artística e teatral em Portugal e em Espanha. Doutoramento em Estudos de Literatura e de Cultura, Universidade de Lisboa / Faculdade de Letras / Departamento de Literaturas Românicas, 2014.

[15] José Rivair Macedo, Um Grupo em busca de Perfeição espiritual: os Cátaros na França medieval. Conferência apresentada na VI Jornada de Estudos do Oriente Antigo, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 19.5.2000.

[16] Emmanuel de Roy Ladurie, Monttaillou. Cátaros e Católicos num Aldeia Francesa (1294-1324). Edições 70, Lisboa, 1984.

[17] Pierre des Vaux de Cernay, Histoire Albigeoise. Libreirie J. Vrin, Paris, 1951.

[18] Monique Zerner-Chardavoine, La Croisade des Albigeois. Ed. Gallimard, Paris. 1979.

[19] Maria Henriqueta Fonseca, O Catarismo e a Cruzada contra os Albigenses. Revista de História (USP), Volume VIII n.º 17-18, pp. 79-117, 1954.

[20] La Chanson de la Croisade Albigeoise, in Les Classiques de l´Histoire de France au Moyen Age, tomo I, estrofe 21, versos 15-18. Editado e traduzido do provençal por Eugene Martin-Chabot. Ancienne Honoré Champion, Paris, 1931.

[21] Otto Rahn, Cruzada Contra o Graal. Editora Via Occidentalis, Lisboa, 2007. Jean-Michel Angebert, Hitler e as Religiões da Suástica. Livraria Bertrand, Lisboa, 1974.

[22] E. Sarasa Sánchez, Las Cortes de Aragón en la Edad Media. Zaragoza, 1979.

[23] Maria Máxima Vaz, D. Dinis – bom poeta e mau marido? Capeia Arraiana, 20 de Outubro de 2013.

[24] Ana Rodrigues Oliveira, Rainhas medievais de Portugal. Dezassete mulheres, duas dinastias, quatro séculos de História. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010.

[25] Henrique Barrilaro Ruas, Augusto Ferreira do Amaral, João Aguiar, Cronologia e breve história dos reis de Portugal, in A Monarquia Portuguesa – Reis e Rainhas na História de um Povo. Edição Selecções do Reader´s Digest, Lisboa, Abril de 1999.

[26] Rui de Pina, Chronica do muito alto e muito esclarecido principe D. Sancho I, segundo rey de Portugal. Lisboa Ocidental, 1727.

[27] Pedro de Mariz, Dialogos de Varia Historia. Impressão de António Craesbeeck de Mello, Lisboa, 1674.

[28] Luiz Gonzaga de Azevedo, História de Portugal, volume quarto. Edições «Bíblion», Lisboa, 1942.

[29] Sidinei Galli, A Cruz, a Espada e a Sociedade Medieval Portuguesa. Editora Arte & Ciência/UNIP, São Paulo, 1997.

[30] Luiz Gonzaga de Azevedo, História de Portugal, volume quinto, p. 174. Edições «Bíblion», Lisboa, 1942.

[31] Fortunato de Almeida, História de Portugal, volume 1, p. 182. Imprensa da Universidade, Coimbra, 1922.

[32] D. Diogo de Souza, História de Portugal – Desde os Tempos primitivos até a fundação da Monarchia e d´esta epocha até hoje, p. 211. Typographia de José Carlos d´Aguiar Vianna, Lisboa, 1852.

[33] D. Diogo de Souza, ob. cit., p. 211.

[34] Luiz Gonzaga de Azevedo, ob. cit., pp. 34-36.

[35] Doação de Mafra, em Fr. Francisco Brandão, Monarchia Lusitana, V Parte, escritura 16, no Apêndice; João Pedro Ribeiro, Dissertações Chronologicas e Criticas, Tomo V, págs. 88 e segs.

[36] Albertino Alves Pardinhas, Monografia de Cortegaça: Apontamentos para História da Honra, do Couto e do Concelho (extinto) desta milenária povoação e outras memórias mais recentes. Junta de Freguesia de Cortegaça, Oliveira de Azeméis, 1997.

[37] Anísio Franco, A Cruz de D. Sancho I, história, função e forma. In Inventário do Museu Nacional de Arte Antiga – Colecção de Ourivesaria, 1.º volume: Do Românico ao Manuelino, pp. 50-55, 1995.

[38] Luiz Gonzaga de Azevedo, ob. cit., pp. 180-186.

[39] Acta Sanctorum, Tomo I, págs. 410, Augusti, Venetiis.

[40] «Chaque évêque devra exigir de ses contes, châtelains, bourgeois, etc., au besoin par les censures ecclésiastiques, le serment, dejá prêté par ceux de Montpellier, d´expulser les hérétiques, de punir les opiniâtres, d´eloigner les juifs de tous les emplois et de leur défendre d´avoir des domestiques chrétiens». «Damnati vero, saecularibus potestatibus praesentibus, aut eorum ballivis, relinquantur animadversione debita puniendi, clericis prius a suis ordinibus degradatis; ita quod bona hujusmodi damanatorum, si laici fuerint, confiscentur…». Hefele-Leclercq, Histoire des Conciles, Tome V, págs. 1283, 1330.

[41] «Item statuimus ne aliquis libros Veteris vel Novi Testamenti in Romancio habeat; et si aliquis habeat… tradat eos loci Episcopo comburendos». Das Constituições de Jaime, o Conquistador, contra os albigenses e valdenses.

[42] Marcelino Menéndez y Pelayo, História de los Heterodoxos Españoles, Tom. III, 1918, págs. CXXX e segs. (Apêndice).

[43] Doc. na España Sagrada, Tom. XXII, págs. 113 e segs.; págs. 285 e segs.; España Sagrada, Tom. XXXV, págs. 294; História de los Heterodoxos Españoles, Tom. III, págs. XXXVIII, Apêndice; Constituição de D. Pedro II de Aragão contra os valdenses, págs. XLII; Constituição de D. Jaime, o Conquistador, contra os albigenses e valdenses. «El celo de San Fernando no atajo en Castilla todo resabio albigense… En los fueros que aquel santo monarca dió á Córdoba, á Sevilla y á Carmona, impónense á los herejes penas de muerte y confiscación de bienes». História de los Heterodoxos Españoles, loc. cit., págs. 177-178; Anales Toledanos, ad aeram 1262, na España Sagrada, Tom. XXIII, págs. 407.

[44] “Ainda que a garça voe alto, o falcão a mata”, provérbio português.

[45] Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal, volume I: Estado, Pátria e Nação (1080-1415). Editorial Verbo, Lisboa, 1978.

[46] Celso Cunha & Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo. Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1984.

[47] Jorge Rosa, História – Nizza: A origem dos nomes de algumas terras do Nordeste Alentejano. In Portal de Nisa, 24.10.2013.

[48] Jorge Rosa, Montalvão, Ecos de uma História Milenar. Edições Colibri / Câmara Municipal de Nisa, 2001.

[49] Carlos Dinis Tomás Cebola, Nisa, A Outra História. Edições Colibri / Câmara Municipal de Nisa, 2005.

[50] Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Elucidário das Palavras, Termos e Frases que em Portugal antigamente se usaram, volume II. Lisboa, 1799.

[51] Obras referenciais sobre a Comenda (Velha) de Arez da Ordem de Cristo, onde o topónimo original aparece: Título da Comenda de Ares de 1505; Tombo da Comenda de St.ª Maria de Ares da Ordem de Cristo de 1638; Carta de Comenda de 1699 da Chancelaria de D. Pedro; Alvará Régio passado à Comanda de St.ª Maria de Ares de 1717 da Chancelaria de D. João V.

[52] Portugaliae Monumenta Misericordiarum, Vol. V, p. 259. Publicação da União das Misericórdias Portuguesas e do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica, 2006.

[53] Possidónio M. Laranjo Coelho, O Santo Ofício no Alto Alentejo. Separata “Memórias”, Academia de Ciências de Lisboa / Secretariado Diocesano da Catequese, 1956.

[54] Luís Chaves, Influências religiosas na formação da Antroponímia e da Toponímia em Portugal. In O Arqueólogo Português, 2.ª Série, Volume 3, 1956.

[55] D. Diogo de Souza, ob. cit., pp. 205-215.

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