Mistério da Transfiguração (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Jan 21 2021 

Bodhisattva (sânscrito). Literalmente: “Aquele cuja Essência (Sattva) tornou-se Inteligência (Bodhi)”. Aquele a quem falta apenas uma encarnação para chegar a ser um Budha Perfeito, isto é, para ter direito ao Nirvana (Atmã Universal, Espaço Sem Limites, Além de todas as Formas). Aquele que possui o dom ou qualidade de Bodhi (Inteligência Suprema ou Iluminação). Na ordem hierárquica, o Bodhisattva é inferior ao “Budha Perfeito”. Na linguagem exotérica, esses dois termos são muito confundidos. Contudo, o inato e justo sentimento popular, em razão do grande sacrifício que o Bodhisattva fez de Si mesmo, em sua respeitosa estima, coloca-o em lugar mais eminente que o de Budha. Nos países budistas do Norte da Ásia, cada novo Bodhisattva, o Grande Adepto Iniciado, recebe o nome de “Libertador da Humanidade” (Voz do Silêncio, III). – Helena Petrovna Blavatsky, Glossário Teosófico.

Conforme a ordem hierárquica, o Bodhisattva (बोधिसत्त, em sânscrito, “Espírito Misericordioso”) é um Ser possuidor da 7.ª Iniciação Real que se situa entre o Mundo das Formas (Segundo Logos) e o Mundo Sem Formas (Primeiro Logos), que por sua imensa Compaixão e Amor à Humanidade pode manifestar-se ciclicamente acompanhando a Evolução das Raças Humanas. E fá-lo agindo por um veículo físico de antemão preparado para tanto, como foi o caso de Jesus veiculado consciencialmente pelo divino Christus vibrando no seu Corpo Áurico Vital, afectando positivamente além do Físico denso as Emoções e Pensamentos, tudo graças ao estabelecimento do antahkarana ou elo de Vida-Consciência entre o Eu Superior e a Personalidade, agindo o Supremo Instrutor do Mundo por aquele nesta.

Já o Budha reserva-se de manifestar-se no Mundo das Formas por ter transposto o limiar além dele e se integrado ao Absoluto Informe, ao Mahaparanirvana ou Plano Divino. Daí Budha significar, em devanagari e sânscrito (बुद्ध), “Iluminado”, “Desperto” no Além-Nirvana. Na ordem hierárquica possui a 8.ª Iniciação e igualmente pode se projectar ciclicamente no Mundo Humano, mas através do Bodhisattva, o “Ungido” (Khristôs, em grego), o também “Iluminado” na Luz do Paranirvana ou Mundo Monádico.

Isso significa, na sequência das Raças já manifestadas e por manifestar, que o Cristo, aclamado Maitreya pelos povos da Ásia, age através do Raio Espiritual de Vénus nesta 5.ª Raça-Mãe Ariana da qual é o Bodhisattva, para assumir a condição de Budha na vindoura 6.ª Raça-Mãe Bimânica ou Dourada sob o influxo espiritual de Mercúrio. Daí se falar no vindouro Budha-Mercúrio ou Budha Branco por advir no Ocidente.

Conforme as informações disponibilizadas pelo Professor Henrique José de Souza e as constantes da obra clássica do Budhismo Tibetano referentes a Shamballah, o Sol Interno da Terra no centro das sete cidades de Agharta, como seja o Kalachakra-Tantra, são os seguintes os Budhas e Bodhisattvas regentes das sete Raças-Mães da actual 4.ª Ronda Terrestre, neste 8.º Ramo da 5.ª Sub-Raça Teutónica da 5.ª Raça-Mãe Ariana em que todos estamos:

Acerca dos termos gregos Christos e Chrestus, repasso a palavra ao Professor Henrique José de Souza que escreve sob o pseudónimo Laurentus[1]:

“Quanto ao termo Cristo, procede do grego Chrestus (ou Krestus), que tem o significado de Ungido, Sábio, Iluminado, etc. Na mesma razão está o termo Bodhisattwa, que significa “essência áurea de Sattwa transformada em Sabedoria”. Quem atinge este estado, não necessita mais do que uma encarnação para se tornar um Budha (ou Buda). Determinado número de Bodhisattwas, e mais o de um Manu, acrescido do de um Budha ou Oitavo Ramo Racial (fenómeno que está acontecendo agora), equivale a um Avatara.

“O Chrestus de todas essas lutas terrenas, prévias e indispensáveis para ser alcançada a Perfeição absoluta, ao chegar ao fim do Caminho (o da Evolução) recebe o nome de Christos, termo que, como diz a incomparável Helena Petrovna Blavatsky no seu Glossário Teosófico, foi empregado no século V (a.C.) por Ésquilo, Heródoto e outros. Os manteumata pythocresta, “oráculos transmitidos por um deus Pítio” através de uma pitonisa, são mencionados pelo primeiro (Ésquilo, cap. 901); e pythocrestus é derivado de crao. Chresterion não é apenas o “testemunho de um oráculo”, mas também um “oferecimento ao oráculo”. Chrestes é aquele que explica os oráculos, um “profeta e adivinho”. O primeiro escritor cristão, Justino Mártir, em sua Primeira Apologia, chama a seus correligionários de chrestians. “O facto de os homens se chamarem a si mesmos cristãos, é a maior das ignorâncias”, diz Lactâncio (Livro IV, cap. VII). Os termos Cristo, Cristãos, escritos originalmente Chrest, Chrestians, foram extraídos do vocabulário dos templos dos pagãos. Nele Chrestos significa “discípulo posto à prova” (donde as “provas” iniciáticas da antiga Maçonaria e de outras Ordens Secretas), candidato que aspirava à dignidade de hierofante, e que, depois de haver alcançado esse grau por meio da Iniciação, através de duras provas e sofrimentos, depois de ser ungido (ou “untado com azeite”, como o eram os iniciados e ídolos dos deuses, segundo a prática da última cerimónia do rito, que ainda hoje é usado pela Igreja nos baptismos, etc.), transformava-se em Christos, “o Purificado, o Ungido, o Iluminado”, em linguagem esotérica. Realmente, em simbologia mística, Christes ou Christos significava que “o Caminho, a Vereda, havia sido percorrido e a meta alcançada”; que os frutos do trabalho penoso para unir a Personalidade de barro (ou o “pote de argila” bíblico), passageira, com a indestrutível Individualidade, a transformava no Ego Imortal. No fim do Caminho, de facto, se encontra o Christos, o Purificador. Uma vez levada a cabo essa União (com vistas ao termo Yoga, já por nós explicado), o Chrestes, o “Homem da Dor”, converte-se no mesmo Christus. Paulo, o Iniciado (que também poderia ser chamado de Budha ou Cristo…), conhecia todas essas coisas, como prova quando diz, em linguagem velada e de tão má interpretação pelos que nada entendem do assunto: “Padeço de dores de parto até que seja formado o Cristo em vós” (Gálatas IV, 19), cujo verdadeiro significado é: “até que tenhais formado o Cristo dentro de vós”. Os profanos, porém, que sabiam unicamente, naquela época, que Chrestus estava, de certo modo, relacionado com os profetas e sacerdotes, ignorando, portanto, o significado oculto de Christos, insistiam – como o fize-ram Lactâncio e Justino Mártir – em ser chamados Chrestians em vez de Christians (crestãos em vez de cristãos).

“Como se vê, “todo o ser bom pode falar ao Cristo em seu Homem Interno”, seja judeu, cristão, budista, muçulmano, etc.”

Com isto, descarta-se o zelo segregador e ignorante da frase comum num certo neo-espiritualismo confessional sobremaneira evangelista, interrogando em modo de obrigar os seus prosélitos a escolher entre  “Budha OU Christus?”, apostasia que antes devera ser “Budha E Christus!”, por se tratar do Sétimo Princípio Espiritual, o Jivatmã ou verdadeiro Homem Interno, que todo o Jiva ou simples crente deverá formar em seu âmago.

É assim que o Budhismo Esotérico ao par do Cristianismo Esotérico identificam o “Homem das Dores” ao Chrestus ou Arhat, o elevado Iniciado portador da 4.ª Iniciação Real, às portas do Adeptado ou prestes a tomar a condição de Mestre Perfeito detentor da 5.ª Iniciação Real, a de Jivanmukta. Enquanto ao Misericordioso “Senhor de Amor-Sabedoria”, o Christus, reconhecem na função de Bodhisattva.

Para haver avatarização é necessária a sincronicidade total entre as Três Vestes (Trikaya) do Chrestus identificado ao seu Augoeides ou Espírito Divino (Atmã), o Cristo Interno, e as universais do Cristo Externo, o Christus assim vibrando por elas indo escoar a Sua Vida, Consciência e Substância no “Regato Vital” ou Corpo Etérico daquele. Tais Santas Vestes, são:

Assim, o Eterno Logos em Seu Segundo Aspecto através do Trikaya do Cristo Universal fecundou, ou antes, avatarizou as Três Vestes de Jesus,  o Cresto  Humano.  Vem daí,  também,  o nome Maitreya como “Senhor dos Três Mundos”[2].

Os poderes taumaturgicos demonstrados pelo Cristo junto dos seus mais próximos e da plebe provavam à saciedade ter plenamente desenvolvidas as faculdades superiores do seu Sagrado Coração, o Vibhutî (Chakra Cardíaco Inferior ou abaixo do Superior, Chakra Anahata), “Pêndulo Místico” da Vida-Consciência pleniluminado característico de todo o Adepto Perfeito senhor dos “Oito Poderes do Yoga”, como sejam os sidhis do Eu Divino pelos quais realizou os «milagres» e feitos sobre-humanos descritos pelas escrituras sagradas.

As oito “pétalas”, raios ou linhas do Vibhutî estão ordenadas da forma seguinte (com os seus nomes tradicionais contidos no Gheranda-Samnhita, obra clássica da tradição hindu, além de levarem outros nomes ocultos, aghartinos, revelados pelo Insigne Mestre JHS, Professor Henrique José de Souza) e correspondem aos seguintes poderes transcendentais do Adepto Perfeito:

1. LAGHIMA (LAYA, segundo JHS) – O poder de levitar, realizado através da anulação da inércia e consequente eliminação da força gravitacional. Este poder desperto através da vibração da 1.ª “pétala” destrói a inércia, esta tomada no sentido de inércia que prende ao passado e ao ser destruída liberta o Iniciado, permitindo-lhe progredir de forma efectiva.

2. MANANA (MAHIMÃ, segundo JHS) – O “poder bioplástico” de mudar a estatura e a aparência para qualquer forma que se deseje. Aqui também com o sentido de transformação ao nível do carácter e da natureza interna, ou seja, da Personalidade pela Individualidade.

3. VASHUTA (VASHITA, segundo JHS) – O poder de criar ou de destruir mayas-vadas, ou seja, ilusões e fascínios afectando as pessoas. É também a capacidade, mesmo em forma reduzida, de manipular a Energia Electromagnética Cósmica chamada Kundalini. Os Adeptos Reais podem utilizar este sidhi para ressuscitar um indivíduo que tenha falecido há poucas horas, ou seja, com o duplo etérico intacto ainda ligado ao corpo físico inerte.

4. ANIMAN (HANAMAN, segundo JHS) – O poder de focar a consciência em qualquer ponto ou região desejada, esteja próxima ou longínqua. Quando o Yogui alcança o estado de Dhâranâ, “concentração absoluta”, coloca imediatamente em actividade este 4.º sidhi (“faculdade, dom ou poder psicomental”… activado pelo próprio Espírito agindo sobre a Alma e o Corpo).

5. PRAPTI (PARAMAN, segundo JHS) – O poder de transferir a consciência para qualquer ponto do Universo. Corresponde também ao Samadhi que é o estado de “Êxtase Supremo” ou comunhão absoluta com o Eterno, no qual o Yogui pode afirmar com toda a legitimidade: “Eu e o Pai somos Um”!

6. PRAKAMYA (PARANTAPA, segundo JHS) – O poder absoluto da Vontade, ou melhor, da Supra-Vontade como Vontade Superior ou Divina, a que distingue o liberal do ditador, seja ele grande ou pequeno, pois este sidhi caracteriza a natureza interior e exterior de todo e qualquer Iniciado verdadeiro que realizou a Suprema Renúncia.

7. ISHITA (SHAMA, segundo JHS) – O poder de alcançar a supremacia sobre todos os seres manifestados. O Venerável Mestre JHS disse que o poder deste 7.º sidhi refere-se, na realidade, à supremacia de poder decidir, de forma totalmente independente, o que se deseja ser, possuindo o nome oculto de Shama.

8. KAMA-VASHAYTA (SHUHAN, segundo JHS) – O poder de dominar o desejo passional, destruindo-o. É também a capacidade de ficar indiferente a toda e qualquer emoção, seja ela de alegria ou de tristeza. Comportando o nome oculto Shuhan, segundo JHS, este sidhi transposta o Yogui para o estado de consciência mais elevado possível, o qual antecede o grande mergulho no Absoluto, só ao alcance dos Grandes Iluminados, dos Seres Perfeitos da natureza de um Krishna, de um Budha, de um Cristo, de um JHS…

A relação dos sidhis superiores ou poderes prânicos (vitais) com o sistema glandular do Homem, dispõe-se da seguinte maneira:

Em guisa de remate, o Professor Henrique José de Souza sintetiza[3]:

“O 7.º Princípio (Espírito ou Atmã) é a Primeira Emanação do Absoluto. É o Unigénito Filho de seu Pai e da mesma Idade que o Pai, porque o Absoluto manifestado só poderia fazer-se “PAI” com o nascimento do FILHO. É o Verbo Vivo. É o Homem em quem o Filho de Deus se manifesta. É um Cristo. É o Eu Divino de cada homem; a sua própria semelhança etérea original, sem fragilidade alguma, porque esta pertence à FORMA. Não é uma personalidade, porém, pode individualizar-se no Homem e permanecer também como a sua Essência impessoal. É um Princípio Vivo, omnipresente, incorruptível e imortal…”

Torna-se, pois, indissociável o Cristo histórico do Cristo místico, como bem apercebeu Annie Besant[4] e bem soube desenvolver depois António de Macedo[5].

Após a realização do Baptismo o Senhor internou-se sozinho no Deserto da Judeia indo jejuar 40 dias e 40 noites, período durante o qual Satan ou Shaitan, “Adversário”, lhe apareceu, no episódio canónico que ficou conhecido como Tentação de Jesus, prólogo do desfecho apoteótico da Transfiguração de Cristo.

Os evangelhos sinópticos relatam o acontecimento: Mateus 4:1-11, Marcos 1:12-13 e Lucas 4:1-13, sendo Marcos muito breve no relato, enquanto os outros dois descrevem com mais pormenores o confronto entre o Homem-Deus e o Homem-Diabo. É tradicionalmente considerado como o local exacto desse encontro, mesmo não havendo provas precisas, o Monte Quarantania, situado entre Jerusalém e Jericó.

Cabe anotar que “deserto” é também sinónimo de “lugar aparte”, afastado do mundo profano reservando-se aos que levam vida espiritual, vocacionada ao estudo e culto dos Mistérios Divinos, portanto, uma comunidade fechada ou Ordem Espiritual, talvez Essénia, aonde Jesus se recolheria pelas mãos benfazejas de insignes Adeptos Vivos, a fim da sua consciência humana (psicomental e física) se ajustar, adaptar ao tremendo impacto das energias do Bodhisattva vibrando nele. Ao mesmo tempo, acontecia o derradeiro confronto entre a sua Individualidade espiritual e a sua Personalidade material, aquela expressada por Akbel, o Sexto Luzeiro manifestando a Mercúrio ou o Sol Oculto, o Futuro no Presente, e esta por Luzbel, o Terceiro Luzeiro opositor do Eterno na já morta Cadeia da Lua, o Passado no Presente. É, pois, o embate entre as skandhas – virtudes, tendências – e as nidhanas – vícios, desejos.

Tal como Moisés permaneceu no Monte Sinai 40 dias e 40 noites (Êxodo 24:18), por igual período Jesus se recolheu no Monte Quarantania. Vale o 44 com a exclusão dos zeros. A Tradição Iniciática informa que aos 44º (graus) a Força Criadora de Kundalini despoleta no Homem, de baixo para cima, do cóccix para a corona, indo queimar todas as escórias físicas e psicomentais à sua passagem, mas também todas as demais, sendo então necessária a Energia Encausadora de Fohat descendo de cima para baixo, encontrando-se ambas no ventre (omphalos do corpo) cujo atrito fá-las recuar ao Centro Cardíaco onde a Luz Vital de Prana as tempera, dando Energia à Força e Força à Energia justamente equilibradas, arredando qualquer perigo mental e psicossomático, assim transformando o Ser em Cristóforo.

O pão dos Anjos alimento do Cristo que eles lhe traziam, é sinónimo de Caridade para com os infortunados da vida, portanto, da Compaixão característica do Avatara. Mas o Adversário escusa a humanidade espiritual e tenta com a oferta da mundanidade material, no alto, no meio e embaixo em três provas decisivas para o mental, o emocional e o físico.

1.ª prova (física) – O Opositor desafia Jesus a transformar pedras (petra) em pães (panem) para mitigar a sua fome. Moralmente significa a tornar-se de altruísta em egoísta. Com isso, o Senhor iria perder-se no deserto, neste caso interpretado pelo vulgo como fora dos limites da sociedade, marginal à mesma, região estéril e vazia de moral e virtude, lar árido de almas penantes e de demónios como Azazel (Levítico 16:10). Jesus recusou e venceu.

2.ª prova (emocional) – O Tentador, por processo de maya-vada ou “ilusão dos sentidos”, dispõe Jesus no topo da torre principal do Templo (de Jerusalém, segundo Lucas) e incita-o a saltar para que os Anjos o salvem da queda fatal. Põe à prova a sua fé no Poder Invisível citando Salmos 91:11-12, onde se afirma que Deus nunca falta a quem Nele crê. Trata-se do conflito emocional entre crença e fé, entre o sacrifício sacerdotal (rito) e a letra da confissão (dogma). Cristo, em princípio, paira sobre o Templo, é o Espírito do mesmo, não precisa provar nada, o próprio Peshiqta Rabbati o diz: “Os nossos rabis relataram que quando o Messias for revelado, Ele virá e permanecerá no cume do Templo”. Acudiram os Anjos e a ilusão presunçosa de Luzbel foi desfeita, talvez pelo próprio Arcanjo Mikael chefe das Milícias Celestes na sua guerra contra o Mal, como narra o Rolo de Guerra, texto essénio achado no sítio arqueológico de Khirbet Qumran. Jesus recusou e venceu.

3.ª prova (mental) – O Adversário leva Jesus ao topo de um monte muito alto donde se avistavam todos os reinos da Terra, segundo Mateus, e oferece-lhe o senhorio do mundo que fora seu em troca da sua vassalagem a ele, como descreve Lucas. Luzbel fora Senhor, Planetário da Terra Lunar na respectiva Cadeia findada abruptamente aquando da sua Revolta contra o Trono de Deus, mas já não o era, portanto, na presente Cadeia Terrestre. Essa sua tentação espicaçando a vaidade e a cobiça não passava de ilusão enganadora que nada tinha para oferecer. A recusa em o vassalar também é sinal de que Cristo (Akbel) como Sol Humano está à dianteira de Ashaverus (Luzbel) indo atrás, na sua traseira lunar (vadre retro satana, praemisit ad meMc. 8:33). Jesus recusou e venceu.

Vencidas as tentações, o Bodhisattva inicia a sua Missão pública com as maiores demonstrações do seu poder taumaturgico, ressuscitando mortos, expulsando demónios, devolvendo a visão e a audição a cegos e surdos, etc. Mas sempre desaconselhando os cultos animistas como é das Regras da Grande Fraternidade Branca – Sudha Dharma Mandalam – desde o estabelecimento das mesmas logo ao início da presente Raça Ária, donde ir ao encontro de igual desaconselhamento dos Grandes Iluminados que o antecederam (Krishna, Budha, etc.), por se tratarem formas de culto lemuriano-atlantes afins ao Mundo Psíquico ou Astral (Kama-Loka), onde se agitam multivariadas formas de vida não poucas de evolução precária, contrastando com a serenidade do Mundo Mental (Manas-Loka), o Devakan dos hindus, o Céu dos cristãos. Cristo actuou como sábio mediador, dominando as forças visíveis e invisíveis mercê do seu poder espiritual supra-desenvolvido pela disciplina iniciática e o conhecimento exacto dos poderes ocultos da Natureza, jamais como um impotente e indisciplinado médium sensitivo sujeito aos caprichos das forças cegas da Natureza, tanto elementais como elementares, tanto “espíritos da Natureza” (devas inferiores) como almas humanas de parca evolução (kama-rupas)[6].

Nas célebres Cartas dos Mahatmas datadas do quartel final do século XIX, em uma delas pode ler-se:

“Felizes, três vezes felizes, em comparação, são as entidades desencarnadas que dormem um longo sono e vivem em sonho no seio do Espaço! E infelizes daquelas que trishna (“desejo de viver”) atrai aos médiuns, e infelizes destes últimos que as tentam por um upadana (“meio material”) tão fácil. Porque apoderando-se delas e satisfazendo-lhes a sua sede de viver, o médium contribui para lhes desenvolver um novo grupo de skandhas – um novo corpo de tendências e de paixões bem piores que aquelas que tiveram no corpo que perderam. De facto, ele é a causa dessas skandhas (“tendências”) e desse novo corpo. E todo o futuro daquelas será determinado não somente pelo karma (“causa e efeito” ou “lei de retribuição”) de demérito do conjunto ou grupo precedente, mas ainda pelo novo grupo da futura criatura encarnada. Se os médiuns e os espiritistas somente soubessem, como já disse, que por cada “anjo-guia” que acolhem entusiasticamente lançam sobre ele um upadana que será gerador de uma quantidade de males indizíveis para o novo Ego que nascerá sob a sua sombra funesta, e que em cada sessão (sobretudo de materialização) eles multiplicam as causas de miséria (causas que mancharão o nascimento espiritual do infortunado Ego e o farão renascer numa existência pior que nunca), poderia ser que fossem menos pródigos na sua hospitalidade.

“No Devakan […] o Espírito está inteiramente absorvido na sua beatitude pessoal, sem dar atenção alguma aos elementos que lhe sejam intrusos. Já afirmei que ele não pode regressar.

“Lamento contradizer-vos. Eu não tenho conhecimento dos “melhores espíritos” que aparecem nos círculos espiritistas e “ensinam a moral mais elevada”, e desde logo seguramente não conheço nenhum círculo “perfeitamente puro”. A verdade obriga-me a declarar que Allan Kardec não é um ser vivente totalmente imaculado, pelo que, desde logo, não é um Espírito muito puro. No que respeita ao ensinamento da “moral mais elevada”, vive não muito longe da minha residência um shamar dugpa (“feiticeiro”) que é um homem verdadeiramente notável, pouco poderoso como feiticeiro, mas sendo-o excessivamente como bêbado, ladrão, mentiroso e orador. Neste último papel, ele pode bater aos pontos Mrs. Glastone e Bradlaugh, e mesmo o reverendo H. W. Beacher, como o mais eloquente predicador moralista e o maior transgressor dos mandamentos do presidente dos Estados Unidos da América. Quando tem sede, esse lama Shapa-toung pode extrair de um largo auditório de “barretes amarelos” laicos toda a sua reserva anual de lágrimas, ao contar-lhes pela manhã o seu arrependimento e os seus sofrimentos, depois de se ter embebedado durante a noite e roubado todos os habitantes da povoação após tê-los, por mesmerismo, imerso num sono profundo. Portanto, pregar e ensinar a moral com um objectivo interesseiro, não prova grande coisa.”

A diferença abissal entre mediador e médium está notavelmente assinalada nos textos canónicos no episódio de Jesus exorcizando o possesso geraseno (cf. Marcos 5:1-20, Mateus 8:28-34 e Lucas 8:26-39).

Em Gérasa, actual Jerash, na Galileia, havia um necromante possesso de cascões e larvas astrais que invocara sem que as conseguisse esconjurar, as quais em legião infectavam o seu ovo áurico etérico-astral fazendo dele um farrapo humano arrastando-se mirrado e demente, rindo, chorando, uivando, gritando entre as quadras do cemitério e a lixeira pública. Não havia sossego nem de dia e nem de noite, todos o temiam. Sentindo a presença próxima do divino Taumaturgo, saiu do seu covil imundo e gemendo acercou-se dele que se apiedou e ordenou à legião dos harbim de garbal (“fantasmas dos ossos”, restos putrefactos de duplos etéricos deixados por almas humanas subidas ao Mundo Celeste) que abandonasse essa criatura, por certo já arrependida de ter pretendido violar as leis da Natureza.

A legião dos harbim de garbal que o devorava em vida dirigiu-se então para uma vara de porcos (dizem os textos canónicos que cerca de 2.000, número parecendo-me exagerado, antes parecendo menos número e mais palavra: “duplo”) que pastava próxima, passando a vibrar subitamente nos duplos astrais dos animais de imediato enlouquecendo, correndo a precipitar-se de um penhasco abaixo, como que querendo libertar-se daqueles intrusos súbitos.

O significado disso é bem mais profundo do que o simples acto «miraculoso» tão do agrado dos simples. Toda esta história provavelmente inspira-se em Isaías 65:4, onde aparece o paralelo entre os túmulos e os porcos. Em sânscrito, porco é pisâcha, “espectro”, tanto como vara ser legião, estando isso mais consentâneo com a realidade oculta: Cristo desintegrou-os ao expulsá-los da aura humana. Mas porco é também sinónimo de profano, do que está à margem dos Mistérios Sagrados, logo, é alheio aos princípios e leis da Sabedoria Divina, motivo para a sentença do Senhor: nolite mittere margaritas ante porcos.

A separação distintiva entre a celebração espiritual e o culto animista fica definitivamente marcada no episódio bíblico daquele homem que, na sua impuberdade psicofísica, enlevado com as palavras de Cristo, queria segui-Lo mas primeiro teria de ir enterrar o seu falecido pai, ao que o Senhor lhe replicou: “Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos” (Lucas 9:57-60, Mateus 8:19-22).

Parece haver alguma confusão lexical em termos da Vulgata, como seja entre o hebreu qavar, “enterrar”, e o latim cultu, cultuar”, pois só assim destitui-se a frase do Mestre de intransigência, de desafecto e desrespeito pelo finado e o órfão ao aparentemente opor-se ao funeral, Ele que sempre se mostrou cumpridor das leis e costumes hebraicos. O significado será antes este: – Deixa os mortos fisicamente serem cultuados pelos mortos espiritualmente e segue-Me, no sentido de Eu Superior, Divino.

O conjunto de nidhanas ou “desejos” inferiores a que Cristo chama de “vimes soltos”, é quem realmente atrai almas poucos evoluídas e sensitivos humanos afins a elas à manutenção do desaconselhável, em termos evolutivos, medianimismo. Com a fomentação e crescimento do grupo de skandhas ou “tendências” superiores, a que Cristo chama de “feixe de vimes”, aumenta o “Tesouro do Céu” da Consciência Superior, apreendendo-se de vez por todas que um e todos, corpóreos e incorpóreos, têm por Lei Suprema o de não regredirem, descerem, mas subirem aos páramos da Imortalidade, onde usufruem de infinitamente mais do que poderá dar o limitado estado terreno.

Segue-se a maldição da figueira, relatada por Mateus 21:18-22, e por Marcos 11:12-14 e 11:20-25, logo após a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém e antes da limpeza do Templo, ou seja, da expulsão dos cambistas que fizeram do altar sagrado balcão de negócios. Segundo a narrativa, o Senhor amaldiçoou uma figueira por estar sem frutos maduros, e logo a árvore definhou. Isso estimulou-o a falar do poder da oração, sinónimo de possibilidades espirituais.

Sendo a figueira (teenah, em hebreu, e atten, em árabe) considerada sagrada na tradição mesopotâmica partilhada por judeus e árabes, ela é símbolo de fortificação (sukon, em grego), no caso, a “fortificação da fé” assinalada no Grande Templo muralhado de Jerusalém. Dentre os significados dados a esta planta, pode-se apontar o de paz e abundância entre os judeus, e o de Árvore do Paraíso entre os árabes, com os predicados de sabedoria e integridade[7], motivo dos antigos astrólogos terem atribuído a esta planta a influência de Júpiter, o Zyaus-Dyaus, donde Zeus como Deus ou Pai, o Princípio, o Primeiro.

A maldição da figueira configura a denúncia da pouca fé dos que serviam no Templo, vivendo em comodidade e abundância material com detrimento da sabedoria e integridade, donde o seu apelo às práticas espirituais e o viver conforme as mesmas, rematada pela acção de expulsão dos cambistas ou falsos sacerdotes que haviam tornado a Casa do Pai (Dyaus) descarado mercado de negócios. Essa acção coube a Jairo, Poder Temporal, enquanto o Sermão da Montanha caberia a Jesus, Autoridade Espiritual, inspirado por Cristo.

Falando em Jairo, logo acode à mente o episódio ocorrido imediatamente após o exorcismo de Gérasa, ou seja, quando Cristo ressuscitou a filha de Jair (em aramaico) ou Jairo (na variante grega) em Cafarnaum. O seu nome é referido em Mateus 9:18-26, Marcos 5:21-43 e Lucas 8:40-56.

O episódio foi o seguinte: a filha única de Jairo caiu doente e ele apelou para Jesus. Mas este quando chegou já ela, com doze anos de idade, falecera. Jesus diz a Jairo para crer sem temer e “acorda” a jovem (Mc. 5:36). O elo vital, fio de vida, “cordão prateado” ou antahkarana psicomental que ligava a alma ao corpo da “adormecida” ainda não se havia rompido, motivo oculto por que Jesus pelo poder do seu magnetismo, pegando as mãos da menina (contrariando a lei judaica de não tocar em pessoas mortas), pôde fazer com que a alma voltasse a animá-la corporalmente, após ordenar: – Talitá cumi! Ou seja, “Menina, acorda!” Assim foi, para espanto de todos, despertando ela com grande apetite pedindo que lhe dessem de comer. Para o crente comum o acontecimento extraordinário era efectivamente um «milagre de ressuscitar a morta».

Nos evangelhos sinópticos Jairo é identificado como chefe de sinagoga, portanto, um rabino maior. Fora isso, não se sabe mais nada sobre ele. Mateus apenas diz que ele era “um chefe”, sem explicar que tipo de chefia exercia e nem mesmo dar o seu nome (Mt. 9:18). Marcos e Lucas aprofundam as informações e qualificam o tipo de chefia de Jairo, dizendo que era “um dos principais da sinagoga” (Mc. 5:22, Lc. 8:41). Essa é a tradução do grego archisynagogos, que não o identifica como “principal” mas como “príncipe da sinagoga”. Isto é, como Príncipe de Israel e Principal da mesma na Religião e na Lei, donde ser identificado na etimologia hebraica à “Luz de Jehovah”, Jess, Iss, Issa, Jair, Jairo, Jeseu, Iesus, Ioshua, Jeoshua, Jesus. Isto dispõe ambos em grau familiar no que a jovem poderia ser sobrinha do próprio Jesus Nazareno.

Tantas foram as voltas e reviravoltas que os evangelhos sofreram em quase dois mil anos de traduções e retraduções que tudo acabou redundando num conto pio em catequese de simples.

Tanto quanto as Bodas de Caná, perícola (episódio) bíblica narrada exclusivamente no Evangelho de João (2:1-11), aquando Jesus transformou a água em vinho, o que transfere para a exegética de elevar a catequese a gnose. Considerado como o primeiro milagre de Jesus pelos sinópticos, teria ocorrido em Caná, actual cidade de Kafr Kanna, a cerca de sete quilómetros a nordeste de Nazaré, na Galileia.

Na perícola, há uma surpreendente contradição: apesar de Jesus e sua mãe serem convidados na boda, o facto é que ela comporta-se como senhora da casa e ele como dono da mesma, ao informar Jesus que o vinho havia acabado e ele tomado providências de imediato. Sobre o que diz João 2:9-10: “O mestre-sala provou a água transformada em vinho, sem que soubesse a sua origem, apesar dos serventes saberem por terem sido eles quem trouxeram a água, e chamou o esposo, dizendo-lhe: Todo o homem serve primeiro o vinho bom, e só depois de muito bebidos é que serve o mau; porém, tu, reservaste o vinho bom para agora”. Conclui-se dessas palavras que Jesus e o esposo aparentam ser a mesma pessoa.

Resta saber se a boda seria a sua própria ou a do seu gémeo, como teima em afirmar a Tradição Iniciática, e se o seu gémeo seria “príncipe da sinagoga”, então era obrigatório por lei ser homem casado, já para não dizer que todo o Adepto em missão entre os homens necessita da sua contraparte feminina como completar, a mesma a quem os Vedas chamam de Shakti (“contraparte criadora”), enquanto ele é o Kartri (“princípio originador”), elementos caríssimos à doutrina do shaktismo que, é sabido, choca frontalmente com os princípios pietistas da catequese puritana ocidental. Mesmo hoje, a tradição da Igreja Copta mantém que o evangelista Marcos foi um dos servos nas Bodas de Caná, o que despejou a água que Jesus transformou em vinho. Ora, “servo” era efectivamente um dos graus da hierarquia da Ordem Essénia, conforme já foi dito, o que pressupõe os convivas desse festim como personagens importantes muito chegados à Missão do Cristo e à pessoa de Jesus. Assim, é muito natural que a boda fosse na sua própria casa, ademais, conformando-se ao ideal zadoquita essénio, a perícola estabelece a ligação entre esse acontecimento e o de Moisés transformando, como praga, as águas do Nilo em sangue aquando do êxodo hebraico da escravidão do Egipto, enquanto a água agora transformada em vinho indicava o Sangue Real de Cristo como Salvador da Humanidade, já não para um só povo escolhido mas para todo o Género Humano eleito.

A presença da Mulher é constante na Obra do Divino Bodhisattva, tanto em Maria de Nazaré como em Maria de Magdala ou Madalena, como as mais destacadas de muitas outras. Constantemente ambas aparecem juntas nos textos canónicos, para não falar dos apócrifos, onde Maria Madalena corrobora, em palavras e actos, a Maria Nazarena, bem lhe cabendo o título de Odighitria, “Aquela que indica o caminho” às “mulheres de Jerusalém”, início do Marialis Cultus.

Pode-se objectar: como poderia Maria Madalena ser personagem tão distinta se não passava de prostituta arrependida diante do Salvador, ungindo os seus pés com bálsamo e secando-os com os cabelos, portanto, uma mulher ordinária, vulgar? Ainda hoje diz-se, na vox populi, “chorar como uma Madalena arrependida”…

Poderei opor: em parte alguma dos evangelhos Maria Madalena é descrita como prostituta. Gregório I, o Magno (c. 540 – 12. 3.604), na sua compilação dos Sete Pecados Capitais, feita a partir das oito tentações descritas pelo monge Euagrios Pontikos dois séculos antes, e a Igreja Latina, que a celebra a 22 de Julho, é que a identificaram à pecadora anónima de Lucas (7:36-50) e a Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro. Um capítulo antes de falar de Madalena ou Magdala (cidade da Galileia), Lucas alude a uma mulher que ungiu Jesus. No evangelho de Marcos há uma unção parecida, feita por uma mulher cujo nome não indica. Nem Lucas nem Marcos identificam explicitamente essa mulher como sendo Maria Madalena. No entanto, Lucas diz tratar-se de uma “mulher caída”, de uma “pecadora”. Comentadores e exegetas posteriores supuseram que fosse Madalena, dado que, segundo parece, tendo saído dela “sete demónios” (no texto grego: “sete génios (gigno, “dado à luz”), sete forças (dynamis)”, algo assim como os sete atributos da Energia Criadora latente no Homem a que os hindus chamam Kundalini) só poderia ser uma pecadora. Com base nisso, a mulher que unge Jesus e Madalena foram consideradas a mesma pessoa. Na realidade, é possível que fossem. Se Maria Madalena tinha a ver com um culto pagão, marginal ao dos fariseus, saduceus e levitas da capital Jerusalém, onde estava o Grande Templo, culto esse possivelmente essénio, com fundamentos mitraicos e já na época ostracizado, certamente por isso haveriam de a converter em “pecadora” aos olhos não só de Lucas como também dos autores posteriores.

A verdade é que as crenças essénias andavam próximas das fenícias no tocante à astrolatria, sendo que no tempo de Jesus os cananeus davam o nome da deusa fenícia Astarte às prostitutas e às hereges, estas as mulheres contestadoras do ministério oficial exercido pelos levitas junto do povo. Recebiam o dito epíteto ou um outro pelo qual também se conhece AstarteAstoreth, feminino de Astaroth, o “deus da perdição”, na realidade, o Deus da Inteligência, das “diáblicas interjeições mentais” que obrigam à Pureza e à Inteligência, ou seja, à posse efectiva da Gnose.

Se Madalena era uma pecadora, está muito claro que também era algo mais que a prostituta vulgar da tradição popular. Salta à vista que era uma mulher de bens. Diz Lucas, por exemplo, que entre as suas amizades se contava a esposa de um alto dignitário da corte de Herodes e que ambas as mulheres, juntas com várias outras, utilizavam os seus recursos económicos para apoiar Jesus e os seus discípulos. Também a mulher que ungiu a Jesus era pessoa de posses. No evangelho de Marcos insiste-se que o unguento aromático que ela utilizou na unção de Jesus era muito caro.

Madalena, por vezes a “mulher anónima”, é quem acompanha Jesus na Morte e quem testemunha a sua Ressurreição. Na função de ungir com ricos e raros óleos ao Salvador, de todos a única com autoridade para isso, e sendo esse um rito de passagem e autenticação, ela faz então o papel de pontífice, testemunhando a sua presença na Morte e Ressurreição. É, pois, a Odighitria, função que prossegue após a Ascensão de Cristo aos Céus, instruindo os Apóstolos nos mistérios da doutrina que o Senhor confiara a ela e a João. Ademais, a unção era a prerrogativa tradicional dos reis sagrados, neste caso, a do Messias legítimo, ou seja, do Ungido, palavra que traduzida do grego dá exactamente Cristo (Kristós e Christus, em grego e latim). Disto se depreende que Jesus foi reconhecido Messias autêntico em virtude da sua unção. E a mulher que o consagrou em tão excelso papel impossivelmente poderia ser insignificante. Por isso mesmo seria associada à Torre da Fé, o resguardo e suporte da acção pastoral posterior, sobretudo no Ocidente europeu, onde o sobrenome da sua origem galileia, Magdala, foi associado ao diminutivo hebraico Migdal, precisamente significando Torre.

A Tradição Iniciática dá Maria e Madalena como contrapartes do Jesus Espiritual e do Jesus Humano, como sejam:

Jairo   – Madalena
Jesus  – Maria

Esses últimos como Jeffersus e Moriah, na Tradição Aghartina, reconhecidos nos Vedas como Bodhisattva e Lakshami, identificados no Cristianismo como Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria. Isto sem esquecer os anteriores Krishna e Krishnaya e o Budha e a Budhai.

O Coração expressando o Graal-Consciência que é sempre representado pelo Graal-Objecto, a Taça Sagrada – Saint Vaisel, o Santo Vaso Eucarístico ou Eu-Crístico – repositório das mais elevadas essências espirituais.

Para a efectivação da sua Missão, Cristo seleccionou doze personagens distintos, todos piscatores ad anima, “pescadores de almas”, portanto, versados nos saberes superiores de Israel, destinando-os a seus Apóstolos, termo grego para “emissários, arautos, obreiros”. Seriam, pois, Nahas, em hebraico, equivalente do hindustânico Nagas, nomes formados da raiz camito-asiânica na, “água”, e aha, “santa”, à letra, “água santa”, equivalente ao fluido vital discorrendo serpentariamente ao longo da coluna vertebral, donde naha e naga também se associarem a naja, a “serpente” real, vista no uréus ou adorno na fronte dos faraós egípcios e a mes-ma que protegeu Gotama Budha das investidas do Mal. É sinónima de Iniciado Perfeito.

Esses doze discípulos iniciais do Mashiach, “Messias”, informa a Tradição, estavam hierarquizados da seguinte maneira:

3 Perfeitos

(João Zebedeu, o Evangelista, e seu irmão Tiago, o Maior, filhos de Zebedeu e de Maria Salomé, e Simão Pedro)

8 Irmãos

(André, irmão de Simão Pedro, Filipe, Bartolomeu, Tomé, dito o “gémeo”, Mateus Levi, o Publicano, Tiago Alfeu, o Menor, Judas Tadeu e Simão, o Zelota)

1 Zelador

(Judas Iscariotes, natural de Querioth, na Judeia)

Os 12 Apóstolos ou Adeptos em volta do Bodhisattva como Sol Espiritual constituíam um Zodíaco Vivo, tal qual acontecera com as 12 Tribos de Jacob a quem Jehovah chamou Israel (Gen. 49). Tudo isso em conformidade às palavras canónicas do Talmude: Malchuta deará ke´en malchuta derakiá – “O Reino na Terra é reflexo do Reino do Céu”.

Associando os 4 Animais da Esfinge (Tetramorfos, em grego, “quatro formas) aos 4 Evangelistas, tem-se:

Anjo ou Homem Alado (Gemini) – Mateus;
Leão (Leo) – Marcos;
Touro (Taurus) – Lucas;
Águia (Scorpio) – João.

Afins às respectivas seguintes Hierarquias Criadoras: Assuras (Arqueus – Águia), Agnisvattas (Arcanjos – Leão), Barishads (Anjos – Touro), Jivas (Homens – Homem).

Informam os escritos mais reservados da Tradição Iniciática que além dos 12 Apóstolos houveram mais 111 Essénios, dirigidos por Jesus, e 777 Nazireus, chefiados por Jairo, os Bem-Aventurados ou Makarioi (termo grego traduzido do hebraico Asrë, remetendo para os fonemas védicos Makara e Assura) directamente implicados na Missão do Cristo Universal.

Chegou finalmente a hora do Baptismo de Fogo ou da Luz. Acompanhado de João, Tiago e Pedro, Jesus encaminhou-se ao Monte Tabor, no Vale de Jizreel, 17 km a oeste do Mar da Galileia. É também conhecido como Har Tavor, Itabyrium, Jebel et-Tur ou Monte da Transfiguração.

Aí, diante dos três discípulos, conforme a narrativa de Mateus 17:1-9, Marcos 9:2-8, Lucas 9:28-36 e Epístola II de Pedro 1:16-18, a forma humana de Jesus transfigurou-se revelando o Glorioso Corpo Espiritual do Bodhisattva, do Salvador de Vidas, como seja o Augoeides, dizendo que “o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a Luz”, tendo os Apóstolos “visto a sua Glória”. Tal como no Mistério do Baptismo, ressoou a Voz do Espírito de Verdade proclamando: “Este é o meu Filho, o meu Eleito, ouvi-o e seguiu-o!” Os discípulos ajoelhados, hirtos de divino temor, viram projectar-se ao lado do Cristo as imagens etéreas de Moisés e Elias entabulando conversa com Ele, não que fossem os próprios Patriarcas em presença mas as suas projecções luminosas Aquém-Akasha, isto é, no Akasha ou Éter inferior, que pouco depois se desvaneceriam como que absorvidas pelo Corpo de Glória do Senhor.

Isso estaria em conformidade com a Tradição, pois Moisés representava a Lei (Torah) e Elias a Profecia (Neviim) tomando forma viva no próprio Mashiach.

Exaltado, Pedro propôs “armar três barracas para Cristo, Moisés e Elias”. Mas a frase é desconforme e contraria a possibilidade de Pedro possuir conhecimentos superiores, aliás, apresenta-o ingénuo, simples, rendido. Contudo, o texto aramaico transposto para o greco-latino não fala em “barraca” mas em tenda, ou num derivado filológico desta. Como termo afectivo, “armar a tenda” representa a própria pessoa, sendo que na tradição talmudística hit ohel mo´ed é a “tenda do encontro”, com fim sagrado, tal qual o latim tabernaculum, “tabernáculo”, donde proveio a simples tendere, “tenda”. A tenda abrigo comum nos povos do deserto, chamada obel em hebraico, skene em grego e tendere em latim, são sentidos ordinários ou vulgares incabíveis em tamanho Mistério e nos escolhidos para testemunhar a sua Revelação, assim só sobrando hit ohel mo´ed e tabernaculum. A pretensão seria exclusivamente a seguinte: Pedro quis levantar um tabernáculo em honra do Mistério revelado.

Primitivo lugar de culto dos povos cananeus, considerado Mons Sacer pelas tribos de Zabulão, Issacar e Neftali, com a altura de 300 metros, cuja forma cónica faz lembrar um vulcão apesar da sua origem calcária, revela-se de uma grande beleza natural onde, entre lírios e açucenas primaveris, parece ainda descortinar-se dentre as brumas da memória sagrada a presença sublime do Avatara do Ciclo de Peixes transfigurado, revelando o seu Corpo de Luz à Humanidade inteira, ressoando as divinas palavras:

– Eu sou o Caminho do Mestre, a Verdade do Discípulo e a Vida da Obra!

 

NOTAS

 

[1] Laurentus, Ocultismo e Teosofia. Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro, 1983.

[2] Sebastião Vieira Vidal, Série Juventude. Edição Sociedade Teosófica Brasileira, São Lourenço, Brasil.

[3] Henrique José de Souza, Livro Síntese da Missão dos Sete Raios de Luz. Obra reservada constando de 52 capítulos terminada em 28 de Setembro de 1935.

[4] Annie Besant, O Cristianismo Esotérico. Editora Pensamento, São Paulo, 1978.

[5] António de Macedo, Cristianismo Iniciático. Ésquilo Edições e Multimédia Lda., Lisboa, Março de 2011.

[6] H. P. Blavatsky, Isis Sin Velo, tomo II. Editorial Sirio, S.A., Málaga, 1988.

[7] Sarita Leonel e Aloísio Costa Sampaio (Orgs.), A Figueira. Editora Unesp, São Paulo, 2011.

Mistério do Baptismo (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jan 13 2021 

O edomita Herodes I governou a Judeia deste o ano 37 a 4 a.C., região anexada à província romana da Síria depois da tomada de Jerusalém em 63 a.C. Quando o edomita soube pelos Reis Magos do Nascimento do Menino que, segundo as profecias contidas na Escritura Velha, seria o Rei legítimo de Israel, debalde procurou o seu paradeiro por todos os meios, primeiro porque ainda não tinha nascido, pois nessa ocasião, em sua longa viagem, os Magos apenas estavam seguindo os sinais dos astros preanunciando o Nascimento próximo, e depois de nascido ter ficado ocultado no seio das Ordens Espirituais que lhe serviram de cobertura protectora.

Flávio Josefo deixou o testemunho de Herodes, o Grande, ser propenso a cometer actos assassinos, fossem sobre religiosos, fossem sobre a sua própria família, fossem sobre quem fosse onde concebesse um rival. Tendo os Reis Magos iludido as suas pretensões de saber quem era a criança escolhida para o destronar, e evitando-o no seu regresso de Belém da Galileia, “seguindo por outro caminho” (Mt. 2:12), portanto, contornando Jerusalém, acabaria por ordenar o famoso infanticídio na mesma Belém. De maneira que Herodes também reproduzia aqueloutro massacre dos inocentes ocorrido três mil anos antes (hoje cinco mil anos) com Ieseus Krishna, como descreve Helena Petrovna Blavatsky[1]:

“O rei Herodes é a representação de Kansa, tirano de Mathurâ e tio materno de Krishna. Os astrólogos haviam prognosticado a Kansa que um filho de sua sobrinha Devakî arrebatar-lhe-ia a coroa e tiraria a sua vida; em vista disso, o tirano mandou matar o menino (Krishna); porém, graças à protecção de Mahadêva, seus pais conseguiram colocá-lo a salvo. Então, Kansa quis assegurar-se da morte do verdadeiro menino e, com este fim, ordenou uma matança geral dos meninos do seu reino.”

Atendendo ao carácter brutal de Herodes, como o descreve Flávio Josefo dizendo que “ele nunca parou de vingar e punir diariamente os que tinha escolhido estar ao lado dos seus inimigos”[2], não tenho dificuldade de aceitar a veracidade do massacre dos inocentes, aparte os exageros posteriores dos exegetas dos textos canónicos, certamente tendo-o feito por motivo de apologética catequética.

Mas o qualificativo ou sobrenome Inocentes ou Puros também era dado aos Iniciados na Sabedoria Arcaica no Médio Oriente antes da era cristã, como aponta H. P. Blavatsky (ob. cit.). Herodes e os seus partidários fariseus desgostavam abertamente esses Magos Iniciados, indiscriminadamente perseguindo a todos a despeito das distinções feitas pelo Profeta Daniel (2:2) entre Magos ou Sábios (Hakhammin) e adivinhos e feiticeiros (Hartummim), estes como cultores do Mundo Psíquico ou Lunar e aqueles do Mundo Mental ou Solar, conforme o indicado pelo Profeta Ezequiel (8:14-17). Ademais, juntando a tudo isso e mais que motivo para evitar os arremedos tresloucados de Herodes, os Reis Magos teriam igualmente presente a perseguição aos cultores da Arte Magna no tempo de Dário (século VI a.C.), quando os Magos ou Inocentes foram perseguidos e apunhalados em suas casas e nas ruas, tendo esse dia de matança se tornado festivo para o poder político, mediante a festa chamada Magofania [3].

No texto canónico, o massacre dos inocentes só aparece no Evangelho de Mateus (2:16-18) onde dá confirmação ao cumprimento da profecia de Jeremias (31:15). Em mais nenhuma parte dos livros canónicos aparece esse episódio do infanticídio perpretado por Herodes, ainda que apareça no Pseudo-Mateus (XVII, 1-2) e no Proto-Evangelho de Tiago (escrito cerca de 150 d.C.), neste, ao contrário daquele, com exclusão da fuga para o Egipto da Sagrada Família e trocar o foco central da história de Jesus pelo Menino João Baptista:

“E quando Herodes soube que havia sido enganado pelos Magos, furioso enviou assassinos, dizendo-lhes: “Matem as crianças de até dois anos de idade”. E Maria tendo ouvido que as crianças estavam sendo mortas, ficou com medo, tomou o menino e enfaixou-o, escondendo-o num curral. E Isabel (sua prima), tendo ouvido que eles estavam procurando por João (seu filho), tomou-o e levou-o para as montanhas, procurando um lugar para escondê-lo. Mas não encontrava nenhum. Então, Isabel, suplicando em voz alta, disse: “Ó Montanha de Deus, recebe esta mãe e seu filho”. E imediatamente a montanha abriu-se e recebeu-os. E uma luz brilhou sobre eles, pois um Anjo do Senhor estava com eles, vigiando-os.”

Em boa Teosofia e Ocultismo, isso equivale ao recolhimento de mãe e filho em alguma Fraternidade Iniciática no interior de uma Montanha Sagrada, talvez o próprio Monte de Ein Karem, no declívio ocidental de Jerusalém, referido pelo profeta Jeremias dirigindo-se aos benjamitas: “No cume de Bet-Acarem erguei uma bandeira” (Jr. 6:1). Isabel encontrava-se aí, enquanto Maria estava em Belém.

A primeira referência não cristã ao massacre só apareceu quatro séculos depois, em Macróbio (c. 395 – 423 d.C.), que escreveu na sua Saturnalia:

“Quando ele [imperador Augusto] ouviu que entre os meninos da Síria com menos de dois anos de idade que Herodes, o rei dos judeus, tinha mandado matar, também se contava o seu filho, disse: ‘Melhor seria que tivesse sido o porco de Herodes que o seu filho’.”

Esta história assumiu um papel importante na tradição cristã posterior. A liturgia bizantina estimou em 14.000 os santos inocentes degolados, enquanto uma lista síria de santos afirmou que o número seria 64.000. As fontes coptas subiram esse número para 144.000 e dataram-no em 28 de Dezembro[4] (Santos Inocentes). Tomando a narrativa ao pé da letra e estimando a população de Belém na época, a Enciclopédia Católica (1913) sugeriu que esses números estavam inflacionados e que provavelmente teriam sido entre seis a vinte crianças assassinadas na povoação e cerca de uma dúzia nas redondezas.

Dando como certo o infanticídio, aparte o número incerto de vítimas, Mateus retoma o relato dizendo que o acontecimento foi antecipado por um Anjo – possivelmente Gabriel – ou um Jina, Ser Superior de alguma dessas Fraternidades Iniciáticas Secretas da época que avisou José, num sonho profético, a fugir depressa com a sua esposa Maria e o filho para o Egipto (Mt. 2:13-23). Assim fez, indo a Sagrada Família escapulir-se na escuridão da noite tendo por montada um burrico[5].

Existiam dois itinerários principais para chegar ao Egipto. Um, mais cómodo mas também o mais frequentado, descia pela margem do Mediterrâneo e atravessava a cidade de Gaza. Deverão ter evitado esse. O outro, menos utilizado, passava por Hebrom e Bersabé, antes de atravessar o deserto de Idumeia e entrar no Sinai. Terão escolhido esse, como aconselhou o Anjo, segundo o Pseudo-Mateus. Tratava-se de uma longa viagem, de várias centenas de quilómetros, que deve ter durado de dez a catorze dias.

Em Hebrom ou em Bersabé (esta última cidade situada a 60 quilómetros de Belém), deverão ter comprado provisões antes de enfrentar a travessia do deserto. É provável que nessa parte da viagem se tivessem incorporado a alguma caravana, senão mesmo já se incorporando a uma caravana de Adeptos prevenidos ainda em Belém, que seria quem os guiaria ao destino certo.

Esse destino certo, para a Tradição Iniciática, era a arábica Miṣr (مصر) ou al-Qâhirah, donde Cairo, oitava cidade principal dentre outras sete representadas por igual número de Ordens Iniciáticas Secretas lideradas por Adeptos Vivos vindo a corporizar o Sistema Geográfico Egípcio, que se distende a vários países do Médio-Oriente e África intrinsecamente ligados à Vida e Obra de Jeoshua Ben Pandira e sua Família, tanto a Espiritual (apostólica) como a Humana (consanguínea).

À sombra benfazeja da Pirâmides do Egipto se recolheu a Sagrada Família beneficiando dos suaves eflúvios da Sabedoria Primordial, resguardada por Santas Criaturas da chamada Linha Serapis encabeçada pelo seu Bey ou Senhor.

Ainda assim, os historiadores contemporâneos não são unânimes em fixar o lugar de residência da Sagrada Família: Menfis, Heliopólis, Leontópolis… havendo no amplo delta do Nilo a florescência de muitas comunidades de essénios hebreus[6]. São muitos os lugares assinalados que reivindicam para si o pressuposto da Família ter estado neles. Destaca-se, sem dúvida, Abu Serghis, no Cairo, onde se encontra a igreja copta de São Sérgio e São Baco, datada do século IV, isso depois do Apóstolo Marcos ter feito a sua pastoral evangelizadora na Terra Negra de Al-Khemî, o Egipto.

Passado cerca de um ano, o Anjo ou Jina – senão mesmo a decerto informada Ordem Iniciática que acolhera a Sagrada Família – informou José que podiam regressar em segurança a Nazaré da Galileia, que Herodes I morrera. Assim fizeram.

Os evangelhos sinópticos levantam uma cortina de silêncio acerca da infância de Jesus, nada dizem sobre onde esteve e o que fez dos 13 aos 30 anos. O único episódio ocorrido nesse período da sua vida é o narrado por Lucas (2:42-51), quando durante os festejos pascais em Jerusalém o jovem se afastou dos seus pais que aflitos o procuraram por toda a parte, acabando por encontrá-lo entre os doutores (rabinos) discutindo as Escrituras entre pares no Grande Templo. A história difere ligeiramente no texto apócrifo Evangelho da Infância de Tomé (19:1-12). Seja como for, a idade dos treze anos é a fixada para a realização da cerimónia do Bar Mitzvá, “filho do Mandamento”, aquando o jovem é considerado maduro para aprender e seguir os mandamentos da Lei escrita. Mas tanto no texto canónico como no apócrifo Jeoshua não é apresentado como simples ouvinte passivo da palavra dos anciãos, antes discute activamente com eles e até se lhes sobrepõe. Então, onde terá aprendido tais e superiores conhecimentos da Lei que emudeceram os doutores no Grande Sinédrio do Templo?

Para responder a isso, tem-se o recurso aos textos tradicionais da Tradição Iniciática ao par dos apócrifos de que boa parte são escoados dela, via tradição gnóstica, além de outros tantos testemunhos que a Arqueologia tem trazido à luz.

O Evangelho de Lucas termina dizendo que depois desse episódio no Sinédrio, os pais de Jesus levaram-no de volta a casa em Nazaré. Seguiu-se o manto de silêncio, com o evangelista só dizendo que Jesus cresceu em sabedoria e em estatura (Lc. 2:52).

Os evangelhos sinópticos nada dizem da vida de Jesus entre os 13 e os 30 anos de idade. Por eles mantém-se o enigma total. Contudo, no Apocalipse de Elias [7], texto apócrifo como continuação do Apocalipse de Sofonias, dá-se Jesus vindo da “Cidade do Sol”, em Menfis, Egipto[8], na qual eram celebrados os apolíneos Mistérios de Osíris, para a comunidade essénia do Monte Karmel (Carmelo), no norte de Israel, que era cultora do messianismo bicéfalo, ou seja, do Messias e do/como Rei. Depois, em 1923, munido de autorização especial para pesquisar na Biblioteca Secreta Vaticana, o húngaro Edmond Bordeaux Szekely encontrou entre outras raridades o chamado Evangelho Essénio da Paz [9], pressupostamente escrito pelo próprio São João Evangelista, descrevendo passagens da vida desconhecida de Jesus que o davam como líder essénio. Também o Professor Henrique José de Souza indica um documento com quase dois mil anos descoberto no Monte Carmelo, levando de cabeçalho: Jesus esteve … entre os Essénios, faltando uma palavra que ele repôs: Jesus esteve AQUI entre os Essénios [10]. Igualmente Raymond E. Brown expõe a proximidade do Cristo aos essénios e nazarenos tomando por base os escritos canónicos e apócrifos, num discurso que convence mais do que desmente[11].

Atendendo aos dois Irmãos Gémeos, Jesus e Jairo, a Tradição Iniciática desloca Jesus para o seio da Ordem Nazireia e Jairo para o redil privilegiado da Ordem Essénia, enfocando nesse último o privilégio de Rex aguardado, como já haviam feito os Magos.

Sobre esse último aspecto, Pinharanda Gomes, na sua monografia Memória acerca dos Reis Magos (Braga, 2012), escreveu:

“Herodes chamou os Magos e apoiou a sua ida a Belém, pedindo que, tendo encontrado o Rei, o informassem, para também ele lá se deslocar e adorar. Os Magos foram, fizeram o que tinham a fazer, e regressaram às suas terras, mas avisados por um Anjo, evitaram passar por Jerusalém (Mt. 2, 12). O Evangelho Arménio da Infância, apócrifo do séc. VI, dedica o capítulo X à minuciosa descrição dos Magos a Jerusalém, concitando a curiosidade de Herodes, que os questionou: – Quem vos informou dessas coisas e como as soubestes?

“Os Magos responderam que tinham recebido um testemunho escrito, guardado e selado, durante anos e anos, e que um Anjo lhes revelou esse testemunho, não por ser humano, mas por desígnio divino. Logo Herodes os interpelou sobre o paradeiro de tal livro, e os Magos replicaram que nenhuma nação, excepto a deles, tinha conhecimento directo ou indirecto desse documento, e narraram a história de Seth, constante do Livro da Caverna dos Tesouros [12].

“Numa das mais antigas histórias orientais, sobre a viagem dos Magos, aparece este Livro que estivera guardado na caverna do Monte das Vitórias[13], estando relacionado com o Pecado Original. De acordo com a narrativa nele contida, e num acto sacrificial messiânico, Adão, após a queda, escondeu os dons (ouro, incenso e mirra) na “Caverna dos Tesouros”, aí ficando enquanto gerações e gerações passavam, até que, cumprindo as instruções de Adão ao filho Seth, os Magos os levaram a Belém onde reconheceram o Deus Menino como o esperado Messias, tudo isto sendo também narrado por um dos apócrifos árabes, o Evangelho Árabe da Infância (cap. VII), embora os escrituristas modernos considerem que tal narrativa é de origem siríaca[14]. Era o termo de uma longa viagem que durara apenas treze dias (segundo uns) e nove meses segundo outros.

“Segundo um monge carmelita do século XIV, João de Hildesheim[15], que terá herdado algumas catequeses do tempo em que os seus confrades do Monte Carmelo ainda haviam registado tradições orais, e que também se serviu dos apócrifos, os três Magos foram depois evangelizados pelo apóstolo Tomé, que evangelizou a Índia até ao Malabar. Tomé baptizou os Magos, que se tornaram apóstolos, sendo consagrados bispos. Faleceram já muito idosos, segundo a lenda áurea.”

Desse trecho do insigne e saudoso amigo (Jesué Pinharanda Gomes, Quadrazais, Riba-Côa, 16.7.1939 – Santo António dos Cavaleiros, Loures, 27.7.2019) destaco três apontamentos: 1.º) O Livro da Caverna do Tesouro, que aponta a condição primacial do Género Humano, portanto, recambia para as suas origens antropogénicas, sendo tal fólio uma espécie de Livro ou Memória da Natureza, os chamados Registos Akáshicos ou Livro do Kâmapa; 2.º) A Caverna do Tesouro é epíteto igualmente dada a Agharta, o Mundo Subterrâneo dos Deuses “celeiro monádico das raças humanas do passado, presente e porvir”, segundo Henrique José de Souza; 3.º) A lenda áurea dos três Reis Magos baptizados por Tomé, o “Gémeo”[16], possui o sentido diverso do reconhecimento de Jairo Ben Panthera como Rex, ainda na cena presepial, pelos três principais representantes do Governo Oculto do Mundo, cujo destino deveria ser a restauração do Império Sinárquico da antiga Israel distendendo-o ao Ocidente, com o seu aspecto espiritual em Jeoshua Ben Panthera como Messias redentor do Karma Semita desde os evos finais da Raça Atlante.

A pregação e obra de Jeoshua Ben Panthera teve como centro principal a opulenta cidade de Cafarnaum, a noroeste do Lago Genesaré, cujo norte e oeste desse era ocupado por tribos descendentes de Zabulon e Neftali, portanto, mais além do Rio Jordão[17]. “Galileia dos gentios” (Mt. 4:15) era chamada essa parte do território por nele coabitarem gentes de várias origens com os seus cultos próprios mas entremescladas aos hebreus. A Síria abrangia as regiões ao norte da Galileia. A Decápole, “dez cidades”, situava-se a nordeste da Galileia e era habitada por povos de origens diversas, sobretudo asiáticas hindustânicas, explicação do facto de Jairo ter entrado em contacto com os mesmos e depois, após o Mistério do Calvário, ter encetado viagem para o Norte da Índia, para a região de Srinagar, na província de Cachemira, onde ficaria conhecido como Santo Issa, segundo o documento depositado na biblioteca do mosteiro lamaísta de Himis, em Leh, capital do Ladack, o “Pequeno Tibete”, conforme a informação disponibilizada pelo jornalista viajante Nicolas Notovitch[18]. O facto é que a maior comunidade judaica na Índia está em Srinagar, como também o santuário de Rozabal onde se encontra o túmulo do Santo Issa, venerado unanimemente sem distinguir hindus, judeus, cristãos[19] ou islâmicos, estes que lhe chamam Yuz Asaf (Youza Asouph), como seja, “Mestre dos Terapeutas”[20].

Retomando o relato dos textos sinópticos, neles aparece Jesus já com trinta anos predicando Aquém e Além Jordão, em cujas margens deste um outro Iluminado com inúmeros seguidores predicava e baptizava em nome do que haveria de vir: João Baptista, o Anunciador ou Arauto (Yokanan), cujo verbo inflamado convulsionava as consciências ouvintes provocando autênticos “golpes de estado” mentais e morais, tanto políticos como religiosos.

João era filho de Isabel, prima de Maria, e do sacerdote Zacarias. Nasceu na vizinhança da data do nascimento de Jesus e faleceu em 28 d.C., aproximadamente. O seu nome Iohanan Ab Kerem, em aramaico, remete para o local onde terá nascido: Ein Kerem, aldeia a cerca de seis quilómetros de distância ao oeste de Jerusalém. Segundo o Evangelho de Lucas era nazireu de nascimento, enquanto outros textos dão-no como integrado na Ordem Nazirita ou Nazarena na puberdade, sendo considerado unanimemente um homem consagrado ou eleito (kadosh).

O único relato sobre o nascimento de João Batista está no Evangelho de Lucas (1:5-25) que não é pródigo em pormenores, ao contrário do Proto-Evangelho de Tiago. Não tendo Zacarias e Isabel filhos, já sendo de idade avançada, durante um serviço no Templo de Jerusalém ele foi escolhido para incensar o altar dourado do Santo dos Santos. Foi então que aí lhe apareceu o Anjo Gabriel e lhe predisse que a sua esposa – pertencente à Ordem das Filhas de Aarão, Sacerdócio Menor – iria dar à luz um menino (Lc. 1:8-23). Zacarias não acreditou no Anjo e foi-lhe retirada a voz (simbolismo remetendo para a perda da Palavra Primordial assim se tornando Palavra Perdida). Com o nascimento de seu filho os parentes quiseram dar-lhe o nome do pai, mas Zacarias, sem poder falar, contestou escrevendo: “O seu nome é João”, significando “Deus é propício”. Tendo obedecido à ordem divina, recuperou a voz, recebeu o dom da profecia e previu o futuro do seu filho, no que os exegetas o tomaram como protótipo do sacerdócio cristão. O cântico que Zacarias cantou em seguida, chamado Benedictus, é utilizado até hoje na liturgia católica.

Ao oitavo dia de nascido João, o seu pai Zacarias procedeu à cerimónia da circuncisão, o brit milá, na qual o prepúcio do recém-nascido é cortado como símbolo da aliança entre Deus e o seu povo, cerimónia post-atlante dos povos do deserto alcançando a África profunda onde a letra substituiu o espírito ou real significado da cerimónia, como seja a simbólica da pureza emocional pelo domínio passional, elevando as energias criadoras do sexo à subtilidade puramente mental. Ser casto não é o mesmo que castrado, pois um castrado apesar disso poderá nunca ser casto por as paixões continuarem a dominá-lo. A disciplina interior nada tem em comum com a mutilação exterior. Foi assim, tal como em muitos outros povos orientais e africanos, que o espírito da tradição foi substituído pela letra do costume.

A partir dos seis anos de idade, João iniciou a sua escolaridade pelas mãos de seus pais, tendo-o ensinado a ler e escrever. Aos treze anos deu-se uma mudança no ensino, e os progenitores entregaram a sua educação à comunidade nazarita de Ein Gedi, actual Qumram junto ao Mar Morto, que nada mais era que um ramo da Ordem Essénia. A sua educação ficou ao cuidado do sábio líder da comunidade chamado Ebner.

Tendo efectuado os votos nazaritas de essénio, a disciplina implicava a abstenção de bebidas alcoólicas, o regime naturalista ou vegetariano e, sobretudo, o não tocar nos mortos, isto é, não se entregar às funestas práticas necromantes características dos hartummim, cujas práticas psiquistas roçavam e até adentravam a involucional goécia ou magia negra, razão por que Moisés e os Profetas os condenaram, perseguiram ou ostracizaram remetendo-os para a condição de leprosos, isto é, de ímpios psicofísicos contrários à Lei de Evolução. Entre o Teurgo medianeiro e o médium animista a distância entre eles, em palavras e actos, é maior que a da Terra à Eternidade. Os primeiros são partícipes dos Mistérios, os segundos cevam à margem dos Mistérios.

Segundo o relato bíblico (Mateus 3:4) que despertou as imaginações plasmadas na iconografia piedosa, João trajava de maneira simples (uma veste de pele de camelo com um cinto de couro cingindo-a) e alimentava-se de maneira igualmente simples: “mel silvestre e gafanhotos”, palavra esta que antes poderá ser alfarrobas, possível confusão na tradução do texto aramaico para o grego e depois o latim devido à similitude dos termos hebraicos hagavim, “gafanhoto”, e haruvim, “alfarrobeira”. Esta é árvore (Ceratonia siliqua) nativa da região mediterrânica e médio-oriental de fruto adocicado comestível, chamado em hebraico charuv, “semente”, completado pelo árabe al-karrub, “vagem”, sendo ainda conhecida como Pão de João, Pão de São João, Figueira de Pitágoras e Figueira do Egipto [21].

Mas não deixa de ser verdade que os povos do deserto arábico e africano, devido à escassez de alimentos na aridez imensa, comem gafanhotos levemente torrados no fogo ou secos ao sol e salgados, depois de lhes tirarem a cabeça, asas e intestinos. Nisto, a palavra gafanhoto remete igualmente para o significado de broto, a ponta ou extremidade da videira, mais uma vez recambiando para o sentido de regime naturalista ou vegetariano.

Igualmente no Talmude é feita menção à alfarrobeira, na parábola de altruísmo conhecida como “Honi e a árvore de alfarroba”, mencionando que uma alfarrobeira leva setenta anos para dar frutos, o que é interpretado como o plantador não ir beneficiar do seu trabalho mas agindo no interesse das gerações futuras, apesar de na realidade a frutificação das alfarrobeiras variar.

João exercia o rito do baptismo considerado como de passagem para uma vida nova (Mc. 10:38 e Lc. 24:49), em consciência e vivência, e consequente aceitação entre-pares no seio da comunidade e da Ordem. Rito egípcio adoptado pelos mitríacos e depois pelos hebreus, tanto por levitas herdeiros do Tabernáculo do Deserto como, sobretudo, por essénios, interpretado como ritual de purificação, a ablusão do baptismo realiza-se com água sobre o iniciado por imersão, efusão ou aspersão. O termo português baptismo é a transliteração do grego baptismö para o latim baptismus, conforme se lê na Vulgata Latina em Colossenses 2:12. Este substantivo também se apresenta como baptisma e baptismós, derivado do verbo baptizö, podendo ser traduzido por “baptizar, imergir, banhar, lavar, derramar, cobrir, tingir ou purificar”, conforme se utiliza na Escritura Nova e na Septuaginta, a versão da Bíblia hebraica traduzida para o grego koiné. Através da discussão entre os discípulos de João e os discípulos de Jesus (João 3:25:26) observa-se que as purificações ou katharismós são utilizadas como sinónimas de baptismo.

No baptismo cristão é utilizado um de dois modos: por aspersão ou efusão, como nos ritos de purificação na Escritura Velha, onde se aspergia o óleo e o sangue crismando no reconhecimento de novo filho de Israel, agora crismando com óleo e água purificando o sangue no espírito do Sangue de Cristo. Ou por imersão, não deixando de haver derramamento de óleo sobre o baptizado, expressando o derramar e lavar do Espírito Santo, afundando para a velha vida pecaminosa ou profana e emergindo como nova criatura revestida da presença de Cristo.

Foi no modo de imersão que Jesus foi baptizado no Jordão, aonde se deslocou e requereu ser baptizado, apesar dos protestos iniciais de João considerando-se seu Arauto e não o Anunciado, conforme repetia aos seus seguidores naziritas e outros, assinalando a sua reforma moral consolidar-se pelo baptismo na água (Iniciação Lustral ou Astral), enquanto a daquele pelo baptismo de fogo (Iniciação Ígnea ou Mental) na Sabedoria contida no Espírito de Santidade.

“Então Paulo lhes explicou: O baptismo realizado por João foi um baptismo de arrependimento. Ele ordenava ao povo que cresse naquele que viria depois dele, ou seja, em Jesus!”Actos 19:4.

“Então João esclareceu a todos: Eu, de facto, vos baptizo com água. Entretanto, chegará alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno sequer de desamarrar as correias das suas sandálias. Ele sim, vos baptizará com o Espírito Santo e com fogo.”Lucas 3:16.

Jesus adverte João que a Lei tem de cumprir-se escrupulosamente, para ficar o seu registo às gerações futuras.

E João cede… Jesus acede à ribeira, junto com aquele, que agarrando-lhe suavemente a cabeça fá-lo mergulhar no Jordão.

Momento electrizante, os camelos param, serpentes e chacais do deserto também, os pássaros quedam seu canto, seu voo, os homens contraem-se tensos, a Natureza retrai-se sustendo o hálito vital… Angústia e aguardo de um momento único… só o rio corre, mansamente, rompendo o silêncio geral ante o Mistério anunciado pelos profetas e sibilas nos evos da memória.

Então, num frémito de luz qual pomba branca irrompe do Céu o Espírito de Cristo indo fundir-se vitalmente no Cresto, solene e poderoso erguendo-se da água e caminhando vagaroso e só, imponente para o Deserto do Mundo, com a Natureza erguendo-se em tons de glória e os homens ajoelhando rendidos ao Mistério Vivo.

Manifestara-se o Avatara, o Messias, o Bodhisattva Compassivo, a Luz do Segundo Trono, o Senhor dos Três Mundos, chame-se-Lhe Christus ou Maitreya, tanto vale, pois é O Sem Nome por os ter a todos.

Esse é o significado derradeiro de “o Espírito do Senhor repousa sobre mim” (Lc. 4:18), tendo Apolinário de Laodiceia (c. 310 – c. 390) classificado o acontecimento como a União Hipostática, descrevendo-a como a união da natureza divina do Cristo e da natureza humana de Jesus em uma só Essência ou Substância, esta que é a do Logos no seu Segundo Aspecto humanizada, manifestada como Terceiro Aspecto.

Teodoro de Mopsuéstia ou de Antióquia (350 – 428) também argumentou que em Jesus, o Cristo, coabitavam em simultâneo duas naturezas e duas substâncias divina e humana, o que posteriormente a Igreja Ortodoxa Oriental aceitou no Concílio de Calcedónia, no ano 451, mas insistindo que essa definição não seria tanto de natureza mas mais de pessoa, no que concordava com o conceito trinitário de Deus como Três Hipóstases ou Prosapas, teosoficamente Imanifesto – Gerado – Manifestado. Assim, o Concílio declarou que no Messias há duas naturezas, cada qual com as suas próprias propriedades, juntas, unidas numa substância e numa pessoa.

Ainda assim, houve rejeições motivando até a separação das Igrejas Síria e Alexandrina (Copta). Os que rejeitam o Credo de Calcedónia são monofisistas, só aceitam Cristo como tendo uma única natureza, enquanto os restantes são diofisistas, aceitando a União Hipostática de Cristo.

Como a simples teologia carecendo de conhecimento teosófico não consegue explicar o significado da Encarnação ou Manifestação Divina (Avatarização), e de que forma se realiza a união das duas substâncias de Purusha e Prakriti (Espírito e Matéria), remete a União Hipostática para o conceito de União Mística, mesmo nisso tendo o Transcendente o o Imanente se unido e manifestado, condição dispondo o Cristo Universal como Senhor dos Anjos e Homens e de todas formas manifestadas nos Três Mundos (Céu, Coeli, Terra, Terris, e Inferno, Inferius, ou Mundo Subterrâneo)[22], consequentemente, o legítimo possuidor do trirregnum na soberania de Supremo Instrutor do Mundo.

 

NOTAS

 

[1] Helena P. Blavatsky, Glossário Teosófico, pág. 250. Editora Ground Ltda., São Paulo, 2012. Edição da versão original, publicada por G.R.S. Mead em Londres, 1892.

[2] Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro XV.

[3] Heródoto, Os Nove Livros da História, III, 79.

[4] E. Porcher, Patrologia Orientalis, Paris, 1915, tradução e edição de Histoire d´Isaac, patriarche Jacobite d´Alexandrie de 686 à 689, écrite par Mina, évêque de Pchati (em árabe, grego e siríaco), t. 11, p. 526.

[5] O burrico ou asno, montada dos Seres Divinos, irá aparecer inúmeras vezes ao longo da vida do Meigo Nazareno. É animal simbólico da paz, inocência, desapego, pobreza, humildade e também da coragem. A Tradição Iniciática não hesita em atribuir-lhe o símbolo do Conhecimento, da Sabedoria das Idades. Ele está presente sobretudo na segunda fase da vida de todo o Avatara, a Consumação, enquanto na primeira, a Manifestação, por norma aparece montado num fogoso alazão branco.

[6] A proximidade entre israelitas e egípcios está confirmada na famosa Estela de Israel depositada no Museu Arqueológico do Cairo, descoberta em 1896 por Flinders Petrie no primeiro piso do templo mandado construir em Tebas por Merenptha, décimo terceiro filho e sucessor de Ramsés II. Cf. Jean-Pierre Corteggiani, L´Egypte des Pharaons au Musée du Caire. Éditions Aimery Somogy para a 1.ª edição, Paris, 1979, reeditado, revisto e corrigido pelas Éditions Hachett, Paris, 1986.

[7] Mila Antares, Apocalipse de Elias – Textos apócrifos. São Paulo, 2020.

[8] Nesse caso, será Heliopólis, “Cidade do Sol” ou Aton, referência destinada a reforçar o carácter solar ou superior do Cristo como Avatara, a apolínea “Manifestação da Divindade”.

[9] Edmond Bordeaux Szekely, O Evangelho Essénio da Paz. Editora Pensamento, São Paulo, 1997.

[10] Henrique José de Souza, O Verdadeiro Caminho da Iniciação. São Paulo, 1966.

[11] Raymond E. Brown, The Birth of the Messiah: A Commentary on the Infancy Narratives in Matthew and Luke. G. Chapman, London, 1977.

[12] Pat. Graeca, 56, cols. 611-946.

[13] Título dado ao Monte Carmelo, do siríaco Kerem, “jardim, horto, vinhedo”, desde que aí o profeta Elias vencera os sacerdotes de Baal e depois foi triunfalmente arrebatado aos céus, segundo o I Livro de Reis. Também aí viveu o profeta Eliseu e foi fundada a Escola de Profetas, El Hader, em árabe. Na parte oeste do monte existem numerosas cavernas, mais de mil, com aberturas estreitas mas muito amplas.

[14] Aurélio dos Santos Otero, Los Evangelios Apocrifos. Ed. bilingue crítica, Madrid, BAC, 1988, pp. 303-306. Antes: P. Peeters, Évangiles Apocriphes II: L´Évangile de l´Enfance. Redactions syriaque, arabe et arménienne, traduites et annotées, Paris, 1914.

[15] João de Hildesheim, O Livro dos Magos, trad. port., da versão italiana, Lx.ª, Principia, 2004. Cf. outrossim, Reis Magos, História, Arte, Tradições. Fontes e referências, de A.M. Furtado da Silva, Ed. Léo Christiano, 2006.

[16] Segundo vários exegetas interpretando os textos canónicos à luz dos apócrifos, sobretudo do Evangelho da Natividade da Virgem Maria, da História de José, o Carpinteiro, e da Vida da Virgem e a Morte de José, do seu casamento com ela tiveram sete filhos: Jesus, Tomé, Efraim, Simão, Elisabeth, André e Ana.

[17] No tempo de Jesus Cristo a Palestina estava dividida em quatro partes: Judeia, Samaria, Galileia e Pereia, sendo esta última vulgarmente chamada “Além Jordão”.

[18] Nicolas Notovitch, A vida desconhecida de Jesus Cristo na Índia e no Tibete. Edição original em 1894, reedição por Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Fevereiro de 2006.

[19] Holger Kersten, Jesus viveu na Índia. Madras Editora, São Paulo, 2004.

[20] Cf. Nicholas Roerich, Heart of Asia. Roerich Museum Press, New York, 1930.

[21] António Houaiss, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, vol. IX. Temas & Debates, Lisboa, 2005.

[22] Pinharanda Gomes, Dicionário de Filosofia Portuguesa, Messianismo, pp. 147-155. Ed. Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1990.

Mistério do Natal (Vita et Opera Christi) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jan 6 2021 

Sintra, Reis Magos de 2021

“Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo nos nossos tempos um homem, o qual vive actualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado o Profeta da Verdade, e os seus discípulos dizem que é Filho de Deus, Criador do Céu e da Terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, ó César, a cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus: ressuscita os mortos, cura os enfermos, em uma palavra, é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto, e há tanta majestade no rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou temê-lo. Tem os cabelos da cor de amêndoa bem madura, são distendidos até às orelhas, e das orelhas até às espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes.

“Tem no meio de sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos nazarenos, o seu rosto é cheio, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face, de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis. A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio, o seu olhar é muito afectuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza, faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade.

“Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar. Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra, contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele se aproxima, verifica-se que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo, jamais, visto por estas partes uma mulher tão bela, porém, se a Majestade Tua, ó César, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível. De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram. Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, não se ouviram, jamais, tais conselhos, de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei de Tua Majestade; e eu sou grandemente molestado por estes malignos hebreus.

“Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, porém à tua obediência estou prontíssimo, aquilo que Tua Majestade ordenar será cumprido. Vale, da Majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo…

“Publius Lentulus, Legado de Tibério na Judeia.
Indizione settima, luna seconda.”

Esse documento, absolutamente apócrifo, foi encontrado no Fasti Arvalium (actas de registo da Ordem Sacerdotal romana cultora da deusa Dea Dia) que integrava o arquivo do duque de Cesadini, em Roma, acompanhado do retrato físico e moral de Jesus, pressupostamente enviados pelo legado Públio ou Publius Lentulus ao imperador Tibério César, em Roma.

Inclinando para a invenção da carta por algum piedoso sentimental dos séculos XVIII-XIX, a sua autenticidade é questionada sobretudo por três pontos incontornáveis: 1.º) historicamente não é conhecido nenhum governador de Jerusalém ou procurador da Judeia chamado Lentulus no tempo de Jesus, ademais um procurador romano nunca poderia encaminhar uma correspondência desse tipo ao senado; 2.º) um escritor romano não empregaria a expressão “que pelo povo é inculcado o Profeta da Verdade”, típica do idioma hebraico falado no tempo de Jesus, o aramaico; 3.º) apesar de tudo, a Res Gestae Divi Augusti menciona um “Publius Corneluis Lentulus” como cônsul romano durante o reinado de Augustus, de 27 a.C. a 14 d.C., mas não como legado e menos ainda governador[1].

Seja como for, não andará longe da verdade a descrição feita de Jesus e das suas obras, da beleza singular de sua aparência, sinal da sua espiritualidade moldando o corporal e neste, para sempre, ficaria assinalado derradeiro Avatara do Ciclo de Peixes.

ΔΔΔ

O Médio Oriente distendendo-se ao Mediterrâneo – Media Terris, “Meio da Terra” – durante milénios, e até hoje, foi a ponte de ligação sócio-política, económica, cultural e religiosa, sem descuro da ingerência militar com intenções de conquista e domínio, entre o Oriente e o Ocidente, entre o monoteísmo moisaico e o panteísmo greco-romano, facto assinalado ocultamente pela grande Pirâmide de Gizeh marcando a linha divisória dos dois hemisférios do Globo, fincada em solo africano ligando a Ásia à Europa.

Há dois mil e alguns anos a Judeia era província vassala de Roma, desde que em 63 a.C. o general Pompeu a conquistara anexando-a ao domínio do Lácio. Deslocando-se a influência do Egipto para Jerusalém, nesta se fixava a fina-flor semita descendente, no cômputo teosófico, da 6.ª Sub-Raça Semita dentre as sete que constituíram a desaparecida Civilização Atlante. Aliada do protectorado romano, a monarquia hebraica tinha na poderosa facção farisaica o seu “braço-de-ferro” que implacável juntava a política à religião não deixando espaço vago para quaisquer outras modalidades político-religiosas que, quando surgiam aqui e acolá, eram de imediato reprimidas violentamente.

A repressão político-social e religiosa conheceu foros de rara crueldade com Herodes, o Grande (c. 74-73 a.C. – Jericó, 4. a.C.), edomita judeu romano, rei cliente de Israel entre 37 a.C. e 4 a.C., descrito por Flávio Josefo como “um louco que assassinou a sua própria família e inúmeros rabis (rabinos)”[2], ficando também conhecido pelos seus projectos colossais, dentre eles o ter ordenado a reconstrução megalómana, “farisaica”, do segundo Templo de Jerusalém sobre o original mandado construir por Salomão. Ficaria conhecido por “Templo de Herodes”. Colocou o clero fariseu na sua direcção e governou o país numa teocracia absolutista.

O seu filho Herodes Arquelau tornou-se etnarca da Samaria, Judeia e Edom de 4 a 6 d.C., mas foi considerado incompetente pelo imperador romano Augusto, que preferiu o filho mais novo de Herodes I, Herodes Antipas I (c. 20 a.C. – 39 d.C.), nascido da samaritana Maltace (Malthake), uma das dez esposas daquele. Nomeado soberano da Galileia e da Pereia, alimentava a cobiça secreta, mal-escondida, de se tornar rei da Judeia, mas não passou do cargo de tetrarca, governando a quarta parte do reino. Em 39 d.C. envolveu-se em intrigas com o seu sobrinho, Herodes Agripa I, foi denunciado como conspirador e banido da sua tetrarquia pelo imperador Calígula, sendo exilado para a Gália onde morreria algum tempo depois[3]. Desde a morte Herodes I a sucessão legítima dos reis de Israel perdera-se nos atropelos entre os vários descendentes, onde filhos indirectos e filhos mais novos assassinavam ou desterravam os mais velhos para ocupar o trono. Motivo suficiente para os temores fundados do mesmo Herodes, seguido por seu filho Antipas, quando lhe apontaram Jesus como “Rei dos Judeus”, e o início da sua perseguição ao mesmo desde o berço. Mas lá irei.

Quanto ao poderoso partido fariseu, este tem origem no movimento religioso dos hassidim, os “piedosos”, que apoiou a revolta dos macabeus (168 a 142 a.C.) contra Antíoco IV Epifânio, rei do império seleucida, que incentivou a eliminação de toda a cultura não-grega pela assimilação forçada e a proibição de qualquer fé particular. Mas o povo revoltou-se contra isso tendo o líder dos hassidim, Yehudah Makkabi (Judas Macabeu), a encabeçá-lo. A revolta venceu e esse movimento veio a transformar-se no século II a.C. no dos fariseus, os pherusin ou prushim, palavra derivada de parash, “separados”. Essa separação não remete a qualquer modalidade anacorética mas tão-só a se isolarem da população geral para se dedicar ao estudo do Pentateuco constitutivo da Torah[4], como sejam os cinco primeiros livros da Bíblia. Organizadores da instituição sinagogal, fundada pelo Profeta Samuel, foram os iniciadores do judaísmo rabínico, limitando-se exclusivamente à letra da Escritura, tomando a crença na lei oral junta à lei escrita.

Convém ainda dizer que os fariseus eram cerca de 6.000 no tempo de Jesus, e distintos pelos modos religiosos no culto de “raça eleita” pelo sangue escolhido pelo Deus de Israel, como acreditavam, tratavam-se entre si como haberim, “companheiros”, e por evitarem contacto com os gentios de outras raças e crenças, distanciando-se do próprio povo, receberam o apodo de pherusin e foi esquecido o original de hassidim. Diz-se mesmo que os fariseus se teriam originado, durante a escravidão no Egipto, dos conúbios de escravas hebreias com nobres próximos dos faraôni ou faraós, e que o próprio nome Is-Ra-El teria a sua origem em “os da Realeza de Ísis”. Fica o curioso, igualmente significativo, da informação.

Rivalizavam com os saduceus, sadoquitas ou zadoquitas, os Sëdûquîm bnê Sadôq, descendentes de Zadoque, hierarca e grão-sacerdote do Primeiro Templo, igualmente surgidos no século II a.C. com a construção do Segundo Templo, cuja manutenção espiritual estava a seu cargo, donde o seu nome ser sinónimo de “estirpe sacerdotal dominante”. Diferiam dos fariseus por não aceitarem a tradição oral, sendo que a controvérsia entre eles proviria já do tempo dos macabeus com as hostilidades entre helenizantes e judaízantes. Os conflito entre ambos os partidos foi o desastre dos últimos anos da Jerusalém judaica, tendo os saduceus desaparecido com a destruição do Templo no ano 70 d.C., sendo seus descendentes os caraítas que defendem unicamente a autoridade das Escrituras como fonte da Revelação Divina, postulando a crença única em Jehovah e que a sua Revelação única foi dada através de Moisés na Torah (não admitindo adições nem subtrações) e dos Profetas da Tanach (com excepção dos livros de Daniel e de Esdras), o texto massorético da Mikra ou Bíblia hebraica como conjunto canónico dos textos judaicos, fonte do cânone cristão do Antigo Testamento.

Além dos fariseus e saduceus, existiam outros movimentos que se destacaram nessa época com papel saliente na vida de Jesus, o Cristo: a Ordem dos Nazarenos e a Ordem dos Essénios, gozando de grande estima pelo povo pela fama do halo de santidade e justiça que as envolvia.

Tendo o seu centro em Nazaré da Galileia, nazareno ou nazireu, da raiz nazar, significa “consagrado” a Deus (Núm. 6:1-21). Helena Petrovna Blavatsky, em A Doutrina Secreta, Livro III, página 124, define os nazireus como “uma categoria de Teurgos caldeus, ou Iniciados”, familiares da Ordem dos Essénios de quem seriam um ramo autóctone.

Os essénios ou issi´im, “unidos”, têm a origem do seu nome na raiz asah, “terapeuta”, ainda que outros afirmem derivar de hassidim, alterado tsenu´in, donde proviria o grego essaioi derivado do sírio essenoi ou essaya, e este do aramaico chasajja, “piedoso”. Constituíram-se como organização cerca do ano 168 a.C., no tempo dos macabeus, e estabeleceram-se desde o Monte Sinai até às orlas do Mar Morto. Acreditavam-se descendentes directos de David e Salomão, auguravam o Advento do Messias e caracterizam-se pela vida comunitária fechada. Conhecidos pelos seus dotes intelectuais e morais, praticavam a agricultura, pastoreio e pesca de que subsistiam, exerciam gratuitamente a medicina, donde essénio ser também sinónimo de terapeuta, e davam-se às práticas heretodoxas das ciências tradicionais, como a Teurgia, a Astrologia, a Profecia, etc. O exército romano dizimou-os no ano 68 d.C. com a destruição do seu povoamento em Qunram, junto ao Mar Morto, não muito longe dos túmulos lendários de Abraão, Isaac e Jacob, a que a crença popular juntou as tumbas de Adão e Eva. O significado disso será tão-só que os essénios testemunhavam a sua posse da tradição original de Israel. Também estiveram instalados em Engadi, no lado ocidental do Mar Morto, e nas margens do Lago Maoris, no Egipto, onde eram conhecidos como os “terapeutas”, os que praticam a Taumaturgia como Medicina Universal.

As informações que há acerca dos essénios devem-se a Fílon de Alexandria, o Judeu, também ao historiador judeu Josefo e a Plínio, o Velho, todos seus contemporâneos, e por fim ao Documento de Damasco descoberto numa genizah (gruta) no Cairo, no começo do século XX, publicado por Salomon Schechter em 1910 após o apresentado à Universidade de Cambridge com o título Fragments of a Zadokite Work, assim como também uns rolos descobertos por uns beduínos pastores, em 1947, numa gruta junto ao Mar Morto – o Finis Terrae essénio – e dos quais o principal é o Manual da Disciplina. Ambos esses documentos remontam, no mínimo, ao segundo século antes de Cristo.

Sabe-se por essas fontes que a religião dos essénios adoptava o Rito Mitraico, aceitava as Ordens Angélicas – Hierarquias Criadoras – e praticava a cerimónia do lava-pés e o ritual do pão, vinho e azeite (óleo). Repartiam-se em três Graus Iniciáticos: Isarins, Naziritas e Kenitas, isto é, Perfeitos, Irmãos e Servos. Segundo o Documento de Damasco, a Ordem Essénia questionava a legitimidade da autoridade espiritual dos sadoquitas ou saduceus, ao considerar-se a verdadeira descendente de Zadoque a quem, diz a Tradição, Koro-Tsedek se revelara, indo suceder a Abiatar mandado para o exílio pelo rei Salomão, que assim o nomeou sumo-sacerdote de Israel e o primeiro a servir no seu Templo (I Reis 2:35)[5].

Tendo desaparecido no ano 68 d.C., como disse, os essénios sobreviventes reapareceram em Roma como “os do Caminho” (nome dado originalmente aos cristãos, segundo a confirmação do protomártir Santo Estêvão), com vários deles constituindo os primitivos Padres Apostólicos, que eram os discípulos directos dos Apóstolos e os garantes da Sucessão Apostólica que vem até hoje.

Familiar dos essénios e nazireus, porventura um deles, seria o patriarca José, Ioseph ou Iodzet (iod e zayin), que o pietismo teológico interpreta como “Deus acrescenta”. Segundo o Evangelho de Mateus, era filho de Jacó Pandira ou Panthera, nome de família (in Epifânio, Panarion, Adversus Haereses, escrito em grego entre 374 e 375 d.C.) e de Estha, possivelmente oriundos da Galileia, de Cafarnaum, a antiga “cidade de Naum” (Kephar Nahum), e nisto estará o motivo do Esoterismo cristão identificar o patriarca como Ioseph Ben Naum. Os Protoevangelhos são ricos em pormenores acerca da vida do progenitor de Jesus, informando o Protoevangelho de Tiago (do século II) que José era viúvo de Melcha, para outros Débora, que lhe dera cinco filhos: Tiago, o Menor (“o irmão – indirecto – de Jesus”), Matias, Cleofas, Judas e Eleazer. A sua viuvez ocorrera quando teria entre os 36 e os 40 anos de idade. Depois, ainda segundo o mesmo evangelho apócrifo, Zacarias, o Sumo Sacerdote do Templo de Jerusalém, fez reunir os varões viúvos, todos da linhagem de David, a fim de escolher dentre eles qual haveria de desposar a jovem Myriam (Maria), órfã de Elli (Joaquim) e Ana, que vivia à guarda do Templo desde os três anos de idade. Todos os pretendentes empunhavam os seus cajados ou bastões de patriarcas, e sujeitos a interrogatório cerrado sobre a sua moral e conduta esperou-se que um qualquer prodígio assinalasse o escolhido. A escolha recaiu sobre José quando do seu cajado floriu um lírio e uma pomba branca voou sobre a sua cabeça, lírio e pomba sinais de pureza e eleição. Por essa altura Maria teria entre os 14 e os 16 anos de idade. O episódio miraculoso é reelaborado com mais detalhes num outro texto apócrifo do século VI, o Pseudo-Mateus, onde se dá a entender que Maria foi desposada por José, por o Sumo Sacerdote dizer a ela: “Deves saber que não podes contrair matrimónio com nenhum outro” (VIII, 4). Por outro lado, o Livro da Natividade de Maria – uma espécie de resumo do Pseudo-Mateus – e a História de José, o Carpinteiro (IV, 4-5), dizem claramente que José desposou Maria.

Quanto ao episódio nos evangelhos sinópticos de “José ter repudiado em segredo (em consciência) Maria que entretanto engravidara sem ele a ter esposado”, é fácil de explicar sem negar o texto grego na parte onde referente à virgem aparece a palavra µνηστευθείσης, genitivo absoluto para “prometida, comprometida”, que no uso hebraico não era uma simples promessa de matrimónio mas o seu perfeito contrato legal, ou seja, o verdadeiro matrimonium ratum [6]. Por conseguinte, a mulher prometida já era o oficialmente esposa, apesar do desposório se celebrar em duas etapas, o quiddushim, ou “compromisso”, e o nissuin, ou “matrimónio” propriamente dito. Em princípio, na primeira etapa não havia relações conjugais íntimas (em alguns lugares, o clero proibia-as), e passado um ano (segunda etapa) celebrava-se a festa do casamento. A noiva, ao cair da tarde (a meio da semana, de preferência a uma terça-feira[7]), rodeada pelas amigas, com as lâmpadas acesas, aguardava o prometido que chegava, trazendo pela arreata um burrito ricamente aparelhado. Com vestido de púrpura, cingido com cinturão nupcial, ataviada com brilhantes adereços e perfumada, a prometida recebia o prometido, de olhos baixos. Ele sentava-a sobre o burrito e conduzia-a, no meio de festejos, com música, canto e flores, para a sua casa. Aí, um sacerdote ou um ancião lia os textos sagrados que falavam dos amores de Sara e Tobias. Os manjares e o vinho completavam a alegria de todos[8].

Acontece o seguinte: durante o quiddushim, apesar da proibição em alguns lugares, a esposa podia manter relações matrimoniais com o esposo, e isso terá acontecido com José procurando Maria, engravidando dele antes do nissuin, prova de verdadeiro afecto entre ambos e explicação da sua gravidez súbita. Entre o repudiar na escritura latina, repudiare, e o arrepender na grega, metanoia, a diferença é total[9]. Inclino-me a José ter se arrependido da sua fogosidade e pensado no divórcio por seu excesso de zelo na ortodoxia do costume.

O conselho espiritual do Anjo da Anunciação e Natividade, ou antes, do Dhyani-Kumara Gabriel ou Jîbrail (em árabe), projectando-se num sonho profético insistente, impediu que José consumasse o divórcio. Ademais, nenhum texto aponta que José e Maria não estivessem consolidados no amor que une as almas até mais que os corpos. Portanto, o seu acto correspondeu sobretudo ao que os brahmanes ou sacerdotes hindus classificam de União Mística Nárada.

Quanto ao seu ofício de carpinteiro, também merece observação. Nas produções apócrifas José é identificado pelo latinismo faber ignarius, “artesão da madeira”, seguindo a tradução grega de tektön, “artífice”, vertida para o nominativo latino fäbër, fabri, “artesão”, que junto com ignarius se interpretou como “carpinteiro”. Todavia, tektön é sobretudo indicativo menos de artesão e mais de artífice, daquele experiente na arte de talhar a madeira e arquitecturar a sua forma, um magister carpentarius como aqueles que estiveram presentes na construção da Grande Templo de Salomão e depois, na Idade Média, nos que juntaram as traves às pedras com que se construíram as grandes catedrais europeias. Joseph seria, portanto, um magister carpentarius ou arke-tektön, consequentemente, um Iniciado distinto na Arte Operática. Isto é o que fica subentendido no Evangelho da Natividade da Virgem Maria, na História de José, o Carpinteiro, e na Vida da Virgem e a Morte de José.

Nove meses depois do matrimónio, José e Maria viajaram de Nazaré de regresso a Jerusalém a fim de se recensear como o censo romano obrigava, e ao passarem por Belém ou Beth-Lhem – a “Casa do Pão” para São Bernardo de Claraval, que após a Natividade seria a “Boca da Palavra”, Beth-Lehem – a jovem esposa começou a sentir as dores do parto próximo. Ele inquietou-se e debalde procuraram alojamento. As hospedarias estavam cheias, não tinham mais espaço tantos eram os viajantes como eles a caminho da capital; por piedade do pobre casal, talvez, alguém lhe indicou uma gruta à saída da povoação, onde os pastores guardavam o seu gado.

Ali foi nascer Jeoshua Ben Pandira (sobrenome da família de José)[10], o Menino Jesus, Jess, Iess, o “Sol” do Seio da Terra tomando forma humana, ou seja, a Alma de elevado gabarito espiritual subida dos Mundo dos Deuses, a Agharta, à gruta presepial de Belém nascendo da Vestal, Vesta[11] ou Virgem Maria com um seu gémeo (Dydhimos, em grego, em latim, Thomas, em português, Tomé) trocado à nascença, Jasius, Jairus ou Jairo, duas crianças confundidas como uma só. Uma como Jeffersus, animada pela Essência Divina, outra, após o final da sua Missão, marcada como Krivatza, “o que traz a chaga no peito”[12].

Nascera o Rei de Israel da descendência em linha directa de David – Jairo – ao par do Messias a quem Salomão destinara o seu Templo – Jesus. As sortes estavam lançadas – alea jacta est.

Por essa altura as legiões romanas festejavam o nascimento de Mitra, o deus solar, Sol Invictus, coincidindo com o dia mais curto do ano e a noite mais longa, indo dar começo ao Inverno no respectivo Solstício, em 21 ou 22 de Dezembro, culto esse fortemente enraizado no Médio Oriente e em toda a Ásia Menor, abraçado pelos expedicionários do Lácio empáticos ao carácter militar de Mitra (trazido para a Europa no século IV a.C. quando Alexandre, o Grande, conquistou o Médio Oriente, logo tendo se fundado mitreos subterrâneos ou em criptas um pouco por toda a parte[13]), celebrando-o durante doze dias, como acontecia em toda a Mesopotâmia.

A fim de substituir o Mitraísmo pelo Cristianismo, o historiador romano cristão Sextus Julius Africanus, em 221 d.C., inculcou o nascimento de Jesus no dia 25 de Dezembro, e com o Édito de Milão, promulgado pelo Papa Julius I no ano 313, em 25 de Dezembro de 336 celebrou-se o Natal pela primeira vez em Roma, quando a Igreja já se tornara a religião oficial do império[14].

Os Centros Iniciáticos da época estavam alerta, sabiam estar próximo o nascimento do Messias – Mâsîah – ou o Avatara do Ciclo dos Peixes, a “Manifestação da Divindade” na Terra. Perscrutavam os sinais dos céus com cujas estrelas Deus escreve os seus desígnios, e viam chegada a hora.

Com efeito, sobre o céu da Judeia cintilava intensa a Estrela do Natal, constituída pelo alinhamento e aproximação – criando um halo esplendoroso – dos três planetas J.úpiter, H.ermes ou Mercúrio e S.aturno, elevando-se a constelação da Virgem (Virgo) a Oriente, sinalética estelar lida como a do Nascimento do Senhor dos Três Mundos (Céu, Terra e Inferno ou Mundo Subterrâneo) dado à manifestação por sua Mãe Celeste.

Numa monografia de escassa tiragem (150 exemplares) mas das mais preciosas para mim que Pinharanda Gomes escreveu[15], ele assim descreve a Estrela:

“No ano 752 da fundação de Roma, e ano 42 da era de César, os Magos foram guiados por uma Estrela, a que na tradição se dá o nome de Estrela do Oriente e, com mais ênfase, Estrela de Belém. Respondendo a Herodes, a quem explicaram o motivo da viagem, disseram terem visto uma “astera èn tê anatolê”, o que a Vulgata traduziu na frase “vidimus stellam eius in Oriens” (Mateus 2, 2). Em ambos os casos, o ponto cardeal de referência é o Oriente, sendo os complementos circunstanciais, em latim, declinados no ablativo e, em grego, no dativo. Por isso, tanto se pode dizer Estrela no, como Estrela do. Quando se considera que os Magos proviriam do Oriente profundo, Belém não lhes ficaria a Oriente, mas a Ocidente. Èn tê fica traduzido por sobre, em, o (no). Se, além disso, considerarmos que anatolê serve de fundamento ao topónimo Anatólia, esta é a terra situada a Oriente, mas a oeste da Ásia Menor, numa península entre os Mares Negro, Mármara e Mediterrâneo, a oriente de Constantinopla. Restam-nos, portanto, a Sul a Arábia e, a Norte, o Irão ou Pérsia. A partir de ambos os lados se poderia dizer Oriente, ou “vimos uma estrela no Oriente”, ou “sobre o Oriente”. A expressão de Mateus é exactamente a mesma constante do mais antigo apócrifo grego, escrito, segundo parece, nos finais do séc. II, o Proto Evangelho de S. Tiago, em que, entrevistados por Herodes, os Magos dizem ter visto um sinal (astro) muito grande, cuja luz eclipsava os demais, e que por isso souberam ter nascido o Messias; e também no mais tardio (séc. IV) Pseudo Mateus, nos capítulos XVI e XXI. Do ponto de vista profético, a Estrela de Belém é a Estrela de Jacob, ou de David, profetizada no oráculo de Balaão (Números 24, 17).

“Aliás, o ponto cardeal pode ser o próprio cognome de Jesus, considerado ‘Sol Nascente’, ou seja, “Oriens ex alto” (Lucas 1, 78), expressão constante do cântico Benedictus, também conhecido por “Cântico de Zacarias”. Também se admite que, tal como hoje, em toda a parte do mundo, o nome de Oriente é sempre atribuído, ou ao Próximo Oriente, ou ao Distante (China, etc.).

“Qual a forma da estrela, eis o que geralmente se acha omisso. Segundo os intérpretes literalistas, consistiria numa espécie de cometa, ou estrela cadente, já que as estrelas são fixas. Se foi realmente uma estrela, em aberto fica a questão de saber: a) se era a Estrela de David, com seis pontas, símbolo do abraço do Espírito e da Matéria; b) se era a estrela de cinco pontas, ou pentagrama do selo de Salomão, que significa regeneração e deveio símbolo do internacionalismo; c) ou de sete pontas, símbolo do ser humano, entrosamento do quadrado e do triângulo e, finalmente, d) se era a estrela mística, de oito pontas, quatro relativas à natureza divina de Deus e quatro relativas à sua encarnação humana, todas as oito presentes em Deus humanado, apresentado aos Magos, na gruta, ou no estábulo, se é que o estábulo estava instalado na gruta, como era costume dos camponeses. A ideia da gruta crê-se ter surgido no 2.º século, apenas.

“Tal como na explicação de certos fenómenos meteorológicos, é sempre possível alinhar pelo menos duas diferentes teses, a mística e a física. Místico é o ponto de vista de S. João Crisóstomo, para quem a estrela era um Anjo de forma estelar. A imagem remete-nos para o trecho em que, na morte de Ozias, rei de Judá, à sua volta estavam uns Serafins, cada um de seis asas, que clamavam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor do Universo. A sua glória enche toda a Terra” (Isaías 6,2-3). A estrela simboliza o Anjo? Nesse caso, ela teria seis pontas, tal como a Estrela David ou de Israel. Físico foi o ponto de vista de Kepler, que explicou tratar-se de um meteoro ocorrido na camada inferior da atmosfera.

“Os escrituristas de vocação anagógica preferem a Estrela de Belém como um símbolo, um sinal espiritual, que o redactor do Evangelho de Mateus utilizou, talvez como uma espécie de catequese, ou midrash agádico, ampliando o significado da Epifania, em concessão destinada a cativar a teogonia oriental.

“Todas as notícias acerca da Estrela são concordes, incluindo a do Liber de Infantia Salvatoris, onde os Magos dizem a José: “Vidimus in coelo stellam Regis Iudaeorum et venimus adorare eum”. A liturgia das horas celebra este mistério num belo Hino do Lucernário:

“Ibant Magi, qua vénerant
Stellam sequentes praeviam,
Lumen requirunt lumine
Deum paténtur múnere.”

“Foram os Magos seguindo
A estrela do Oriente,
E com presentes confessam
A glória de Deus nascente.”

A conjunção de Júpiter – Saturno, como Pai e Avô do Universo (Sistema Solar), ficando o Filho para Mercúrio como ponto de encontro e intercâmbio entre os dois, além de gerar um halo estelar extraordinário assinala o Nascimento do Avatara, o que se configura geometricamente na junção desses dois signos com o nome sagrado de Asga-Latza, “Esplendor Celeste” sobre a Terra, cabendo Saturno ao Rei de Israel, assinalado em Jairo, e Júpiter ao Messias, apontado em Jesus. Sobre e em ambos a Essência Divina, Crística, Mercuriana do próprio Logos da Terra expressando directamente ao Solar.

São os “Anjos da Natividade” quem anunciam o Nascimento do Mâsîah, o Emmanuel, “Deus Connosco”, como “Medidas de Deus” – Matra-Devas – abrindo o sulco estelar à manifestação na Terra do Resplendor do Divino assim se Humanizando – Gloria in excelsis Deo et in terra pax in Electus Unus!

Os “Anjos da Natividade” serão depois complementados pelos “Anjos Pascais ou da Ressurreição” – Manasaputras, “Filhos da Mente Divina” – quando saem das suas tumbas subterrâneas enquanto Cristo desce em Espírito do Gólgota ao seio da Terra, rasgando-se o Véu do Sanctum Sanctorum do Grande Templo, sinal de um Novo Tempo de Revelação à Humanidade.

Querubins e Serafins, Senhores da Sabedoria e do Amor, Matra-Devas e Manasaputras afins às constelações de Áries e Taurus, não deixam de estar assinalados no cordeiro e na vaca do presépio, ao lado do jumento, animal de mensageiro da Paz, tal como o cordeiro igualmente assinala a mansidão do que se entrega ao Sacrifício, enquanto a Vaca indica a Nutrição pela Palavra (Dogma) e a Liturgia (Rito), conforme o texto canónico de I Isaías 1, 3: “O boi conhece o dono e o jumento o estábulo do seu senhor”.

Os pastores e camponeses de joelhos em adoração ao Nascimento de Deus Menino, cena rural, representam exactamente os povos pastores, nómadas, como era toda a civilização antes de se sedentarizar, sobretudo no Médio Oriente. São Francisco de Assis, no século XIII, recriaria com personagens vivos a cena piedosa do presépio, indo dar início à tradição anual de recriá-lo nos lares e nas igrejas com pequenas figuras coloridas de barro, não esquecendo o musgo evocativo daquele que nasce na humidade das cavernas.

E os Reis Magos? Quem eram e como surgiram nas escrituras? Diz Pinharanda Gomes (ob. cit.):

“O trecho canónico do Evangelho segundo Mateus, trecho esse o único constante do Novo Testamento, relatando a peregrinação dos Magos a Belém, no tempo de Herodes o Grande (ano 42 da era de César), é omisso quanto aos nomes e ao número dessas personagens [idou Magoi / ecce Magi]. Nas versões usuais utiliza-se o proenome numeral indefinido “uns” e, em diferentes tradições seriam dois, no mínimo, e quinze, no máximo, embora o número mais frequente e confirmado na recepção eclesiológica, seja o de três.

“O Evangelho Árabe da Infância, um dos apócrifos, também usa a expressão “uns magos”, avisados por um anjo, segundo a antiga profecia de Zaradust (Zoroastro) e idêntica expressão consta do Proto Evangelho de S. Tiago. Outro apócrifo, o Pseudo Mateus, menciona apenas três, mas omite os respectivos nomes.

“Identificativo é o Evangelho Arménio da Infância (capítulo V, 10), que se afasta das remotas tradições latinas dos quatro e dos doze da versão siríaca, fixando o número três, e nominando cada um dos Magos, já chamados Reis: Melkon (= Melchior ou Belchior), rei dos Persas, Baltazar, rei das Índias, e Gaspar, que dominara os povos da Arábia. Em hebraico estes nomes equivalem a Magalath, Galgalath e Serakin, havendo outras designações próprias em outras línguas, incluindo as versões gregas dos apócrifos orientais.

“Melchior era um ancião, Gaspar um jovem, e Baltazar um negro, segundo o registo do Venerável Beda, do já tardio século VI/VII, que exerceu grande influência no registo das tradições, nas suas obras de exegese bíblica.

“Quanto à origem, são várias as sentenças, incluindo a mais complexa ideia das três Índias, mas consta que Melchior provinha da Núbia, Baltazar de Sabá e Gaspar de Társis, pelo que na piedade popular se imaginou Belchior como representante da raça branca, Gaspar da raça asiática e Baltazar da raça negra. A menção de Núbia não deixa de animar a conjectura de que as notícias de Cristo tivessem chegado à Etiópia através de registos rudimentares, porventura herdados pelo Preste João, originados na época apostólica.

“O nominativo do atributo Reis ligado ao nome dos Magos deriva de fontes alheias ao cânone. Em alguns apócrifos, v. g. o Evangelho Arménio da Infância manciona os Magos como Reis (cap. V, 10), enquanto o Evangelho Árabe se limita a chamar-lhes Magos, sem o título de Reis, o que acontece também no Proto Evangelho de Tiago (cap. XXI). A cognominação régia não derivou do Evangelho de Mateus, nem sequer da Vulgata que, uma vez confeccionada por S. Jerónimo, veio a ser a fonte doutrinal primacial, abrogando a influência dos apócrifos, nem sempre de modo fácil, tendo-se vivido uma polémica entre os seguidores da Vulgata e os que continuaram a valorizar os Apócrifos, como aliás sabemos da literatura priscilianista.

“No prólogo ao Livro dos Reis, S. Jerónimo verteu Malachim para latim na forma genitiva do plural (Regum), cuja forma nominativa singular é Malachot. Ora, o autor do Evangelho de Mateus tê-lo-á escrito em aramaico, cujo original se perdeu, portanto ignoramos se o redactor escreveu Magos ou Reis Magos. Versões posteriores, apócrifas, em várias línguas orientais, registam apenas o nome Magos, que, por exemplo, na versão etíope são chamados adoradores (Proskunêtés). A versão mais antiga desse Evangelho presume-se que date de entre os anos 75-80 d.C., já depois da destruição do Templo, no ano 70, por Tito, numa época em que só se conheciam algumas Epístolas de Paulo e o Evangelho de S. Marcos, mas de Mateus só recebemos a versão em língua grega, conforme a fórmula dos Setenta.

“Nesta versão do Evangelho de Mateus lê-se idou Magoi (eis que Magos) forma plural do singular magós, e foi com esta palavra que as igrejas de língua grega se governaram. No Ocidente, na versão jeronimita, o cognome reis não aparece, o autor escreve apenas ecce magi ab Oriens (Mateus 2, 1). Também o substantivo mago sugere uma breve divagação. Considerando o original grego, quem introduziu no léxico cristão a palavra foram os gregos, que também davam tal nome aos sacerdotes de Religião de Zaratustra, sacerdotes esses que, no Mazdeísmo, eram chamados athravan ou mogh (origem de mago e, no latim, também possível origem de magnus), sacerdotes ou servidores do Fogo (Agni).

“Os hermeneutas consideram, enfim, que o cognome Reis é uma interpolação apócrifa que deveio popular, decerto por influência de lições canónicas, como os versículos salomónicos: “Os reis de Társis e das Ilhas oferecerão tributos; / Os Reis de Sabá trarão suas oferendas; / Todos os Reis se prostrarão diante dele; / Todas as nações o servirão” (Salmos. 72 (71), 10-11), versículos estes confirmados ou redivivos na profecia do III Isaías: “De Sabá virão todos trazendo ouro e incenso” (III Isaías, 60, 6). No rito romano pontifical, e também no particular bracarense, na festa chamada Epiphania Domini, celebrava-se Missa com vigília (Statio et Sanctum Patrum), lia-se a Epístola contendo as perícopas de Isaías e, ao Ofertório, o trecho do já indicado Salmo 72 (71). No essencial, estas leituras continuam vigentes na nossa idade.”

Se foram mais de três os Reis Magos ou Rishis, em védico, detentores da Sabedoria Real ou Divina, a seguir a conjunção estelar até à gruta de Belém, indo visitar e prestar tributo ao fruto bendito de José e Maria, pouco importa, ficarei só por esses registados na tradição apócrifa e canónica.

Prostraram-se reverentes ante a trindade presepial representativa da Trindade Logoidal, como seja:

José para o Pai, o 1.º Logos (Divino);
Maria para a Mãe, o 2.º Logos (Celeste);
Jesus para o Filho, o 3.º Logos (Terreno ou Humano).

Sendo eles, Reis Magos, os Seres Representativos da Trindade Aghartina[16] que dirige os destinos do Mundo, ou o Supremo Soberano e suas duas Colunas Vivas, como seja:

Melchior para o Brahmatma (Melki-Tsedek), Rei de Salém e Sacerdote do Altíssimo – cf. Génesis 14:18-20 ;
Gaspar para Mahinga (Kohen ou Koro-Tsedek), Sacerdote de Deus – cf. Salmo 110:4;
Baltazar para Mahanga (Adonai-Tsedek), Rei em Deus – cf. Josué 10:1-3.

Algo assim como o Planetário da Ronda (Kumara) para o Logos da Cadeia (Ishvara), aquele a “personalidade” da “individualidade” deste.

Melchior representando a própria Raça Ariana assim como a Fraternidade de Kaleb, Líbia, oferece ao divino Infante mirra, planta de Vénus, bálsamo da incorruptibilidade e da Profecia[17], como tal o aclamando Profeta de Deus, Pytiochrestus.

Gaspar depõe aos seus pés incenso, saudando-o como Sacerdote, representando a Raça Atlante assinalada na Fraternidade de El-Kairo, no Egipto.

Finalmente, Baltazar oferece-lhe ouro dando-o como Rei, em representação da Raça Lemuriana ou Primordial representada pela Fraternidade dos Jinas de Srinagar, Índia.

Nesse piedoso o mais grácil quadro humano ficava firmado o reconhecimento pelo próprio Governo Oculto do Mundo, a Igreja de Melki-Tsedek ou Excelsa Fraternidade Branca, do Nascimento do futuro Senhor do Ciclo de Piscis.

Cumpria-se o desígnio cíclico da Lei. Ia abrir-se uma nova e brilhante página na História da Evolução Humana.

Nem depois faltaria o pinheiro de Natal a assinalar a data, árvore resinosa enfeitada com bolas coloridas simbólicas das pérolas da Sabedoria como símbolos da Verdade manifesta. Foi D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha quem implantou em Portugal, no século XIX, a tradição nórdica do pinheiro natalício, acerca do qual o Professor Henrique José de Souza escreveu[18]:

“Quanto à dadivosa árvore do Natal, ela simboliza a Árvore Sefirotal, a Árvore dos Avataras, o Bijã ou a Semente dos Avataras plantada no quaternário da Terra, e que ciclicamente floresce. É a Árvore de Bodhi ou da Sabedoria, cujos ramos representam aspectos da Verdade Única, ou esses mesmos Avataras cíclicos manifestados.”

Na noite fria e estrelada de há dois mil e alguns anos, por sobre a Sagrada Família, Presépio ou Apta na Manjedoura onde o Fogo Sagrado refulgia, ecoavam nos éteres os acordes triunfais das trombetas dos Dharanis juntando-se aos cânticos de júbilo dos Dhyanis:

– Hossanah! Nasceu Iesus Homnibus Salvatorem. Glória a Deus nas Alturas e Pax na Terra aos Eleitos!

 

NOTAS

 

[1] Manuel Martiniano Marrecas, Antiguidades romanas. Imprensa Nacional, Lisboa, 1872. Dictionnaire de la Bible, tomo IV,  F. Vigouroux et al., Letouzay & Ané Éditeurs, Paris, 1908.

[2] Flávio Josefo, La Guerra de los Judíos, Livro II, capítulo 11. Biblioteca Clásica Gredos, Madrid, 1999.

[3] John Allegro, The Chosen People. Hodder and Stoughton Ltd., London, 1971.

[4] “Tábuas da Lei”. A Torah compreendia a lei e a tradição de fundamento de Israel, cujo corpo externo (exotérico) constituía-se da Mashora, destinada a retirar das Escrituras as fórmulas confessionais de interpretação fácil e imediata da letra da Torah; o seu corpo interno (esotérico) era a Mischna, interpretativa da tradição de Moisés e dos Profetas. Os comentários à lei e a tradição compunham a Gemurah. Esses três vectores da Torah constituem o Talmude, o código geral da lei e tradição judaica.

[5] A. Cody, Heavenly Sanctuary and Liturgy in the Epistle to the Hebrews. St. Meinrad, Grail, 1960.

[6] Sponsalia tantum valente quantum matrimonium, é um precioso testemunho de Fílon, contemporâneo de Jesus (De Special. legibus, III, 12.72). Cf. Strack-Billerbeck, Kommentar zum N.T. aus Talmud und Midrach, II, 372-400. München, 1922-28.

[7] A relatar a história da Criação, o terceiro dia, terça-feira, é o único em que a Torah diz duas vezes: “E Deus viu que era bom”. Os rabinos interpretam isso como significando que esse é duplamente bom, “bom para o Céu e bom para as criações”.

[8] P. C. Landucci, Maria Santíssima no Evangelho. Editora Pinus, Brasília, 2018.

[9] Não se afigura bem traduzido o texto da Vulgata Latina de São Jerónimo da Versão Grega. Aparenta corrupção do texto a tradução bíblica para inglês de Jaime I, no século XVII, e para português pelo calvinista João Ferreira de Almeida, tradutor do Novo Testamento publicado em 1681, seguido do padre oratoriano António Pereira de Figueiredo, que a partir da Vulgata Latina traduziu a Bíblia publicada em 1819 e 1821.

[10] Houve muitos Jesus (Jeoshua, Ioshuah) antes e depois de José e Maria, tanto que o nome não era nem é invulgar na Palestina e Judeia. Muitas obras literárias de historiografia e de ocultismo, umas propositadamente e outras desprevenidamente, confundem o Mestre em questão com um indivíduo que viveu no ano 106 antes dele com o mesmo nome de Jeoshua Ben Panthera, filho de uma bordadeira ou modista, também chamada Myriam, que engravidara de um tal Pantos ou Panthera, legionário romano. Esse Jeoshua teria sido um Iniciado nos Mistérios Egípcios, acusado pelos judeus de feitiçaria e de conspurcar o “Santo dos Santos” do Grande Templo, sendo condenado á morte em Lyda, ou Lüd, apedrejado e crucificado numa árvore, nas véspera da Páscoa judaica. Helena P. Blavatsky apontou o caso na sua Doutrina Oculta (Hemus – Livraria Editora, 1977), como igualmente Henrique José de Souza no seu artigo de 1941, H.P. Blavatsky e seus detractores. A fonte dessa informação é Celsus, filósofo grego do século II d.C., fortemente contestado por Orígenes (in John Patrick, The Apology of Origen in Reply to Celsus, 2009), o qual terá bebido na fonte talmudística anticristã onde Jesus é referido como filho de uma prostituta judia engravidada por um legionário romano, fonte de inspiração daquela obra judaica que na Idade Média iria fazer vingar essa teoria anticristã, o Sepher Toledot Yeshu ou Toledoth Jeschu, invenção asquenaze destinada a parodiar os evangelhos e a retirar-lhes autoridade.

[11] Vestal é designativo latino dada às Virgens do Templo que provém do grego Vesta, a Deusa-Sol esposa de Elion, o Deus-Sol, portanto, referente às sacerdotisas encarregadas da manutenção dos perfumes e do Fogo Sagrado nos Templos, assegurando o Oráculo e a Virtude.

[12] Vitor Manuel Adrião, Portugal, Sagrado e Mistério (Memória Histórica), cap. IX, Escalhão: saberes ocultados. Euedito, Lisboa, 2018.

[13] Franz Cumont, Textes et monuments relatifs aux Mystères de Mithra. Bruxelas, 1896-1899.

[14] Manfred Clauss, The Roman Cult of Mithras: The God and His Mysteries. Edinburgh, 2000.

[15] J. Pinharanda Gomes, Memória acerca dos Reis Magos, Braga, 2012.

[16] Saint-Yves d´Alveydre, La Misión de la India en Europa. Luis Cárcamo, Editor, Madrid, 1988.

[17] René Guénon, O Rei do Mundo, com comentários de Henrique José de Souza. Espiral Editora, Sintra, 2019.

[18] Henrique José de Souza, O Simbolismo do Natal. Revista O Luzeiro, Ano I, N.º 7, Dezembro – 1952, São Paulo.

Fernando, que Pessoa? Um caso clínico ou um acaso génio? – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Dez 2 2020 

Fernando a Pessoa de andar saltitante e nervoso dobra em três passos incertos e velozes a esquina do Chiado de Lisboa e, sibilino, desaparece algures na cidade, talvez a caminho do Martinho da Arcada, talvez para as bandas da Gare Central, aquela onde está o D. Sebastião à entrada, para tomar o comboio que o leve ao xadrez serrano e paradisíaco de Sintra!… Maneira de deslocar-se, entre o calmo e o inquieto, o devagar e o veloz, numa mudança súbita de humor, revela o psíquico potencial, o que lida mais com as coisas do Espírito para maior desprazer das coisas da matéria, para ele simples objectos de prazer e de ilusão efêmeros. Os seus olhos, brilhando inquietos, falam do que lhe vai dentro, do ardor de génio que o consome sem parar. O seu corpo alto e delgado, quase seco mas tendendo a engordar nos últimos anos de vida, as suas mãos de intuitivo potencial, de dedos finos e longos, o trejeito tímido e desajeitado que nunca olhava as pessoas de frente, tudo isso, psicologicamente, revela os traços do Homem Psicomental em potência e integralidade, ou seja, o Jina, o escritor iluminado pela barda e profética Voz da Intuição, tendo feita da pena espada sagrada e do papel campo de lide, onde a Verdade impressa se oculta sob o véu diáfano da aparente “fantasia” do poeta.

Todo ele [re]velava a discreta compostura de quem vive plenamente a intensidade da disciplina interior, esotérica, auto-imposta por necessidade de Perfeição e não por alguma e moralista imposição religiosa.

Foi esse esoterismo que reflectiu na sua vasta obra feita além, muito além dos póstumos rótulos ou etiquetas impostos pelos intelectos preconceituosos, subversivos e surrealistas, espécie naïf dita avant-gard, de alguns, felizmente não todos, auto-assumidos “especialistas pessoanos”, indo complicar o que não era complicado, indo interpretar e firmar tese aquilo que, afinal, foi inteiramente estranho ao poeta e à sua intenção tanto manifesta como íntima. Esses líteros e intelectuais, repletos de manias e preconceitos (pré-conceito), envergonhados de assumir a vida simples do poeta e que nela o mistério é constante e fala a Lisboa dos pregões, das tabernas de má fama, de quem passou fome e só não morreu dela porque os amigos não deixaram, acabam dando a perceber que a fama pública de que gozam como “inteligências pessoanas”, de barriguinha cheia e bem vestidos, saltitando de festa para festa de jet-set e achando piroso os menos favorecidos pela vida andarem de saco de plástico na mão por ser sinal de mediocridade – esquecendo que talvez ou decerto esses não tenham posses para adquirir sacos ou maletas mais condignas às marcas da moda do momento – revela-os, ao contrário das aparências, “os maiores inimigos de Fernando Pessoa”, como desabafava na minha presença, há alguns anos atrás em sua casa de Estremoz, o professor António Telmo (falecido em 21 de Agosto de 2010).

Enquanto esse tipo de críticos se autossatisfaz com a sua “intelectualidade superior”, os demais observam-nos sem perceber patavina do que pretendem dizer e onde afinal querem chegar, tal o uso e abuso de um vocabulário forçado e inventado no momento, clientela do bas-fond dando ares surrealistas e abstractos ao que é bem real e concreto, simples em si mesmo; essas atitudes anacrónicas bem, ou mal, mais me parecem campanha de marketing, de autopromoção pessoal à custa do nome e obra de Fernando Pessoa.

De maneira que “o Pessoa como moda é uma característica deste tipo de sociedade e deste tipo de informação”, disse Pedro Teixeira da Mota ao semanário Expresso (sábado, 4 de Junho de 1988), adiantando Yvette Kace Centeno na mesma reportagem: “Fala-se hoje de usar óculos `à Pessoa´, mas também há `cintos à Elvis´. Quando alguém de repente cai na moda e os `media´ tomam conta desse alguém, a dita figura automaticamente se banaliza e comercializa. É óbvio que agora, por altura do centenário, se alguém resolver produzir t-shirts ou camisas com a figura do Pessoa elas se venderão às centenas, mas se as fizerem com o carimbo do Eusébio vendem-se na mesma. São fenómenos que têm a ver com o típico da vida moderna, que é o de facilmente banalizar e comercializar as suas estrelas. Mas isso nada tem a ver com a profundidade ou a genialidade da obra”.

Deve-se ao moderno fenómeno psicossocial do consumismo e uso fácil para após utilizado ser facilmente esquecido, a visão anacrónica, senão mesmo falaz, dada ao poeta, à sua vida e à sua obra, de quem a maioria desses “especialistas” revela-se completamente ausente de veracidade ou realidade da mesma, isto tanto para Fernando Pessoa como também para outros personagens da nossa História (Afonso Henriques, Luís de Camões, D. Manuel I, etc.). Falta-lhes o Espírito, que é tudo. Foi por isso que num concurso televisivo, no início de 2007, todos os personagens da História de Portugal – de quem hoje em dia cada vez mais se sabe menos, mas se sabe cada vez mais de ficções novelísticas e de concursos medíocres impostos pelos meios audiovisuais brutalizando, petrificando ou estupidificando a mente colectiva, mantendo-a arredada da reflexão sobre o sentido verdadeiro do por que existe – perderam a favor da vitória do dr. António de Oliveira Salazar, que lhe foi dada pelos votos públicos de alguns milhares de cidadãos. Seriam todos salazaristas? Não creio. Mas creio que todos exerceram o voto de protesto ao estado caótico em que está a sociedade portuguesa, onde os líderes partidários e todos os respectivos partidos políticos, em nome da democracia constantemente exercida como “bur[r]ocracia” e “abusocracia”, desprezam o povo, arrogantes atiram-no no desemprego condenando-o à fome e à miséria, e ameaçam com o despedimento os ainda empregados sem deixar de os crivar com impostos sobre impostos à boa maneira feudal, parecendo mesmo querer reduzi-los à condição de escravos sem quaisquer direitos, achando um abuso terem férias e até receberem salário, como transparece nos seus subentendidos, ou seja, roubam-lhes da boca o pão nosso de cada dia para encherem as suas e as dos seus, sempre insaciáveis como Moloch, sempre querendo mais e mais; fecham hospitais e maternidades, obrigam os pobres a pagar o que não têm quando têm a infelicidade de adoecer; cobram impostos absurdos e desumanos à velhice nos seus últimos dias; aos pais que oferecem prendas aos filhos, acirram os filhos a denunciar os pais ao fisco; os alunos contra os professores, os aprendizes contra os mestres; roubam a autoridade aos adultos e dão-na aos meninos, não raro soltando criminosos e condenando quem os prendeu; condenam o fumo do tabaco e promovem as drogas «leves» dando subsídios a quem prove ser toxicodependente, indo assim alimentar a perpetuidade do vício; e neste caos satânico, anarquia campeando, sonham sempre com empreendimentos megalómanos, para que por eles os seus nomes fiquem imortalizados no meio da miséria geral que semearam. Até quando este estado caótico das coisas?… Realmente, é bem verdade que “quem nasce em Portugal é por missão ou castigo”, mas, Senhor, não bastará já de tanto castigo? Até quando permitirás, Senhor, que os lobos assassinos continuem a devorar os cordeiros inocentes? Onde está o Pastor, guia e protector do seu rebanho? Que liberdade podre é esta?! Quanto libertinismo desvairado corre a jorros no mais que estropiado tecido psicossocial…

Moderno “problema socrático” insolúvel? Não, antes questão de Vida e Morte: carece-se da mudança de mentalidade, de uma verdadeira revolução mental a favor de novos e mais amplos valores e hábitos que façam o Homem mais Homem e Deus mais Deus, acabando-se de vez com tudo quanto tenha a ver com um ciclo velho, podre e gasto. Em suma, para afastar de vez qualquer tipo de rótulo político, useiro e vezeiro, que alguns, lendo estas palavras, sintam necessidade para também rotular em modo de desculpar a indignidade desumana dos seus actos, seja à “esquerda” ou à “direita”, logo parcelares e não totais: tudo pela Sinarquia, nada pela Anarquia!

Liberdade também para taxar Fernando Pessoa com as maiores displicências, mas que só podem caber a quem as emite. Repete-se, mais uma vez, a história de São Germano e Cagliostro. Depois de desaparecidos, urge raivosa a torrente difamatória vomitando impropérios muitíssimo abaixo da crítica, o que leva a exclamar: aprés moi le déluge!

A obra escrita de Fernando Pessoa assenta toda ela em bases ocultistas, pelo menos mais de 90% da mesma, as quais não foram um interesse lúdico e passageiro na sua vida, antes um processo de entendimento e aplicação permanentemente assumido em toda a sua existência. Esse equívoco deve-se à carência atroz de informação e formação dos “media” e “especialistas pessoanos” sobre o que seja o Ocultismo – que não é, nem aproximadamente, ciências divinatórias de feirantes que “volta sim e volta sim” aparecem nos jornais e nas televisões contribuindo para o aumento da ignorância, da superstição e do autismo espiritual, como se observa no flagrante do fenómeno psicossocial urbano de “new age”, revelando-se, como “espiritualismo a la carte”, na definição do professor Eduardo Lourenço, antes de tudo e em termos clínicos, “paranóia mística” mista de ingenuidade, superstição e irracionalidade, sempre teimando em “construir a casa pelo telhado”, com cujos simpatizantes e aparte a simpatia pessoal nutrida por alguns deles, variadíssimas vezes confirmou-se-me ser quase ou mesmo impossível dialogar racionalmente, inclusive em termos metafísicos, tal o estado de alucinação psicomental de quem prefere o facilitismo de que já “não há segredo nem secreto em uma nova era”, manifestação ingénua de cultura “pop” com isso contribuindo para a anarquia alternativa à ordem psicossocial, por regra preferindo o que já se publicou e é público ao esforço nobre da conquista pela criação pessoal; assim mesmo, sendo igualmente quase regra apostolada, nada sabendo da orgânica das Religiões Tradicionais, do sacramental base das suas teologias, das Ordens Iniciáticas, das suas Egrégoras e dos Mistérios da Iniciação que encerram e resguardam dos desatentos e despreparados física e psicomentalmente, para que não profanem o Sagrado com a sua ingenuidade não raro deprimente ante a verdadeira Espiritualidade, ao pretenderem saltar degraus na Evolução avante e, não raro com vaidade e presunção, encapotadas ou desveladas, ainda por cima julgarem sábias e perfeitas as suas noções delirantes apostas de qualquer Ordem e Regra. Os que andaram na escola primária ou no liceu, acaso também terão e sem mais passado subitamente da 1.ª para a 4.ª classe, assimilando tudo de uma assentada sem qualquer disciplina mental e física? É, de facto, muito constrangedor… mas a Lei Suprema se encarregará de ir refreando tais precipitações indisciplinadas que, de momento, nem sequer é possível apontar fraternalmente a quem delas é acometido. Também nisto o caos e a anarquia campeiam, e nisto volto igualmente a repetir o lema de Henrique José de Souza (JHS), aqui adoptado como se fosse meu: tudo pela Sinarquia, nada pela Anarquia!

Neste enquadramento bestial próprio de um ciclo mais que podre e gasto onde tudo de mau e pior é possível aparecer, há uns anos atrás não deixou de ter o seu momento na ribalta pública certo senhor Mário Saraiva, médico psiquiatra arvorado “especialista pessoano”, pretensão avulsa com a qual se deu ao diagnóstico psiquiátrico desse mais alto baluarte contemporâneo da Literatura Portuguesa e, inclusive, do Ocultismo Nacional, que foi Fernando Pessoa. O pasquim – que outro nome não merece – por ele escrito e editado, O caso clínico de Fernando Pessoa (Edições Referendo, Lisboa, 1990), anda hoje quase esquecido do leitorado geral mas não o seu conteúdo, aliás, aceite e defendido por muitos “especialistas” que sempre temeram um confronto televisivo comigo, vá-se lá saber por que… Para um materialista convicto, mistura de psiquiatra com várias outras coisas que a oportunidade traz e se revela oportunismo, antes de tudo o mais tenho a declarar o seguinte: é completamente impossível a um profano fazer o diagnóstico clínico de um Iniciado!

É o próprio Fernando Pessoa quem o diz: “Os psiquiatras sabem (às vezes) como trabalha o espírito doente, mas não como trabalha o espírito são” (in Fernando Pessoa Aforismo e Afins, edição e prefácio de Richard Zenith. Editora Assírio & Alvim, Lisboa).

O carácter do Iniciado é algo muito distinto e profundo que só a Psicologia Esotérica – ou seja, aquela manipulada por alguém conhecedor dos mistérios ocultos da natureza humana – pode dar resposta satisfatória, isto porque ele move-se nas camadas superiores do Pensamento e obedece às regras de uma conduta que poderei chamar de Dever Universal, ou o Dharma no seu sentido mais lato, para com a evolução da Vida e da Consciência. Disciplina que constrói o Espírito, eleva a Alma e faz sábio o Corpo (os sentidos) através das experiências colhidas nas agruras quotidianas que são as provas kármicas, os “escolhos” no Caminho da Verdadeira Iniciação, onde a criatura que o cursa busca cada vez mais a Perfeição de Ser, e cada vez mais o é.

“O esforço é grande e o homem é pequeno.
A alma é divina e a obra é imperfeita.”

Mensagem in “Padrão”

O facto de taxar Fernando Pessoa de “mórbido, paranoico, homossexual”, etc., o senhor psiquiatra – entretanto já falecido – parece transmitir por fenómeno mórbido e inconsciente os seus próprios males, isto por o seu quod reflectir a quantidade no quid essencial mas desconhecido do analisado ausente, assim supondo e pressupondo mas nunca certeiro e com certeza.

De maneira que há uma consciência física (quod) e outra psíquica (quid), uma de vigília e outra de sonho. Como geralmente as duas consciências estão desarmonizadas ou desencontradas entre si, é raro ter-se a lembrança nítida do sonho vivido. Apenas se sabe que sonhou. Mas que se sonhou? Há uma ideia nebulosa dos acontecimentos que se passaram em sonho ou que foram vivenciados na consciência psíquica. O subconsciente fica como um ecrã de televisão descontrolado. O desajuste desses dois tipos de consciência traz à criatura humana muita angústia. Ela vive psiquicamente torturada, cheia de problemas. Faz de todo o acto “bicho de sete cabeças”, coisas monstruosas, vive imaginando dificuldades que realmente não existem. Antes de tomar uma atitude positiva, vê na sua frente muitas muralhas que imagina estarem ali para a dificultar. De uma coisa simples promove uma tempestade num copo d´água. Está sempre desanimada, é depressiva e neurótica, o intelecto não lhe dá a satisfação completa e vem a neurastenia e a paranoia. Eis o retrato, evidentemente com as devidas e honrosas excepções, da maioria dos “especialistas pessoanos”.

O corpo físico humano não é perfeito: possui lesões, deficiências, carências, intolerâncias, cicatrizes, atrofias e hipertrofias de órgãos, má circulação, enfim, uma série de anomalias causadoras de distúrbios psicossomáticos, de pequenos e grandes desequilíbrios orgânicos. Os médicos indicam os medicamentos que vão ajustar as disfunções orgânicas, e de modo análogo acontece o mesmo às almas imperfeitas, com as suas consciências física e psíquica desajustadas, cabendo aos psicólogos e aos psiquiatras, com conhecimento verdadeiro do mecanismo oculto da Alma, Anima ou Vida, fazerem as funções dos medicamentos nesse ajuste consciencial. Esse é, com efeito, um estudo importante para compreender, isentado dos erros oriundos dos preconceitos da personalidade, a vida biológica e psicomental dos Iniciados.

A consciência psíquica do ser humano começa a ser deformada, ferida, triturada logo na infância, “em conformidade ao seu karma”, diriam os sábios orientais, mantendo-se assim a infecção psicomental pela vida afora. Muitas vezes torna-se doença crónica e acontecem as neuroses. Recorre-se ao psicólogo, ao psiquiatra ou ao psicanalista, mas como por norma esse não é Iniciado, age só sobre o cérebro e não sobre a mente, cura o efeito com o efeito e como a causa se mantém, a doença mental também. De maneira que o paciente melhora mas não fica sanado, pelo que vez por outra sobrevém nova crise e assim até à morte, doente toda a vida, do berço ao túmulo, sem que a cura seja descoberta por se desprezar o Espírito e confundir o mecanismo físico cerebral com o mental subtil que por ele age.

Essa foi razão mais que suficiente para René Guénon (in Formas Tradicionais e Ciclos Cósmicos) afirmar com muitíssima propriedade: “[…] a psicanálise inverte as relações normais do “consciente” e do “subconsciente”, como também se apresenta, em muitos aspectos, como uma espécie de “religião invertida”, o que demonstra em que fonte pode estar inspirada, e a função pedagógica que pretende desempenhar e a sua infiltração nos diversos métodos chamados de “nova educação”, também são algo bastante significativo…”.

Nesse sentido, uma Escola Iniciática verdadeira, com verdadeiros dirigentes espirituais à dianteira, colocando os interesses da Humanidade acima dos seus, assim não correndo o risco de se tornar uma Escola Negra ambicionando o poder do Mundo e a soberania sobre as mentes humanas, dizia, nesse sentido uma Escola Iniciática poderá ser comparada a um “Hospital Psiquiátrico”, por ser onde se cura a enfermidade (kármica) da alma humana.

Todas as Escolas Iniciáticas verdadeiras, credenciadas pela Tradição Iniciática das Idades de quem são fiéis depositárias, têm por finalidade precípua curar a enfermidade psicomental dos que a elas chegam e se tornam discípulos indo postular e evoluir através dos seus Graus, dos seus diversos tipos de Iniciação e pelos vários modos que os conduzam diante do Altar de Deus, ou seja, da Realização Integral do Corpo, da Alma e do Espírito.

De maneira que não há Colégio de Iniciação que não advogue junto dos seus afiliados o exercício físico de práticas de cariz psicomental e espiritual, de maneira a realinharem as diversas expressões da consciência indo conhecer-se a si mesmos ao, gradualmente, despertarem sentidos e sensações que jamais pensaram haver neles. Este é o objectivo da meditação e de toda a práxis estipulada ao sanctum privado (lugar do lar reservado aos estudos e práticas espirituais) de um e de todos esses afiliados. A inibição do exercício regular do mesmo inevitavelmente afastará da Egrégora (“secará a Fonte oculta”, diria alguém) indo arrastar à dúvida e suspeição face ao imediatismo das coisas; nem poderia resultar de outra maneira, posto tratar-se do método pessoal da descoberta última de si mesmo, consequentemente, do levantar dos véus dos Mistérios da Natureza. Isto é a verdadeira Iniciação.

A constituição física comum possui os micróbios orgânicos, enquanto a alma tem os seus miasmas psíquicos, de natureza análoga à daqueles, os quais devoram e destroem essa mesma alma psicomental, ou seja, a personalidade tanto dos discípulos desatentos das Escolas Iniciáticas como de qualquer outra criatura humana.

O desajuste da personalidade, a neurose, a hidrofobia e a hipocondria – pode-se dizer sem receio de errar – são contagiosas e não raro carecem de isolamento. Donde o provérbio popular sentenciar: “Uma má ovelha perde todo o rebanho”. Assim, também, quando numa colectividade há uma ou mais pessoas desajustadas, toda ela não vive em paz. Por isso, disse Aurobindo: “A infelicidade humana é uma questão de desequilíbrio”.

O Professor Henrique José de Souza (JHS), afirmou: “Cada um nasce na família com a qual tem afinidades ou qualquer ligação kármica”. Se o discípulo desequilibrar a sua vida cometendo actos contrários à Lei da Evolução, ao Perfeito Equilíbrio, tem necessariamente de nascer em uma família desajustada, para que pela Iniciação possa ajustar-se e igualmente ajustar o agregado familiar. Nesses casos a Lei do Karma, ou da Causa e Efeito, é severa. O Homem tem livre-arbítrio, pode fazer o que quiser, para o bem ou para o mal, mas se a sua inclinação for para esse último contrariando o ritmo harmónico da Natureza, esta irá depois procurar o reequilíbrio, o que equivale ao resgate doloroso por efeitos de causas geradas.

Qual a terapêutica usada por JHS a fim de ajustar os seus discípulos? Utilizou o método natural ou eubiótico da harmonia simbiótica do Homem consigo mesmo e o seu semelhante, da Humanidade com a Terra e da Terra com o Universo. Para auxiliar nesse trabalho de verdadeira Iniciação outorgou aos mesmos discípulos Mantrans, Visualizações, Formas-Pensamento, Yogas especiais, Rituais, Revelações (Conhecimentos do Futuro) e, não raro, aconselhando-os a trabalhar sempre pelo Mundo, e sempre recomendando a autocrítica. Por Lei ou por efeito da Lei, é que comumente se diz: “Os semelhantes atraem os semelhantes”, logo, os desajustados atraem os desajustados e os ajustados atraem os ajustados. Por via de regra, os desajustados unem-se para dar combate aos ajustados. Desse desajuste universal é que surgiu a eterna luta entre magos brancos e magos negros, a qual vem atravessando os milénios feitos de séculos infindos.

Sem dúvida que os desajustados temem a Verdade, por terem pavor de A contemplar face a face. O que é o mago negro? É o mago branco desajustado. Quando a sua estrutura psíquica é invadida por grande quantidade de miasmas, acontece a doença da neurose e até mesmo a loucura. Esta pode ser encapotada por sanidade aparente, inclusive por algum cabedal de lógica e retórica, mas serão essas mesmas palavras e actos quem a irão revelar. É assim que surge o fenómeno “pop” dos “canalizadores cósmicos”, “reikis siderais”, “conspiradores extraterrestres” e outras coisas mais e más do género à solta por não haver, afinal de contas, quem tenha mão nesses pobres de espírito e piedosamente os conduza ao internato clínico a fim de receberem o tratamento necessário, visto que a alucinação mística por excesso de cultivo onírico em tempo algum ser sinónima de Iluminação Espiritual. Ademais, a maioria dessa literatura revelando-se esquizofrénica e paranoica, delirante como é todo o estado onírico ou psíquico, insere-se em um dos tratamentos psiquiátricos advogados aos doentes neuro-depressivos: que escrevam, desenhem ou pintem para assim desenvolverem, exteriorizarem as suas capacidades psicomentais e psicomotoras e superarem os estados de neurose depressiva capaz de, em condição extrema, deixar o cérebro empedernido em total estado vegetativo, quando não indutor mórbido de ideias suicidárias. Isso faz parte do tratamento, não têm outra valia nem utilidade senão essa. Jamais um médico irá pensar que o seu doente é um escritor, desenhador ou pintor… e de facto jamais um escritor, desenhador ou pintor pensará estar a lidar com os seus pares sempre que se depara com redacções grotescas, desenhos infantis e pinturas alucinadas vazadas, por exemplo, no moderno meio de comunicação virtual de multiusos chamado internet.

Essa minha opinião, que reconheço ser um tanto agreste e rumar contra a maré da opinião geral aceite, ainda assim não será exclusiva, inclusive para o próprio Fernando Pessoa que pelo heterónimo Alberto Caeiro, em O Guardador de Rebanhos – Poema XXVIII (1.ª publicação in revista Athena, n.º 4, Lisboa, Janeiro de 1925), diz:

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.

Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

É necessário compreender o por que das fantasias delirantes assumidas realidades extraordinárias por certas pessoas que, umas mais que as outras, fazem fé piamente nelas, no produto do seu subconsciente. Por isso é que se torna necessário entender o mecanismo da consciência física a qual, nesses casos, está em choque ou atrito com a consciência psíquica, sendo que no homem comum a inteligência imediata é o produto resultante das suas emoções e pensamentos, o que se chama consciência psicomental ou, em bom sânscrito, kama-manásica. Por esta razão é que o cérebro, com a sua semiconsciência orgânica, só age após estimulado por imagens provindas do veículo emocional, nascidas de ideias suscitadas pelo corpo mental. Os três interagem quase em simultâneo. A consciência física dota-se de algumas propriedades específicas, as quais passo descrever:

1.ª – Dispõe de grande autonomia.

2.ª – Parece incapaz de apanhar uma ideia excepto sob a forma em que ela mesma seja a autora, donde resulta que todos os estímulos provindos do exterior ou do interior sejam imediatamente traduzidos em imagens. É incapaz de apreender as ideias abstractas, as quais ela transforma logo em percepções imaginárias.

3.ª – Todo o pensamento dirigido para qualquer lugar afastado torna-se para ela um deslocamento para esse lugar. Por exemplo, um pensamento sobre a Grécia imediatamente transporta a consciência em imaginação para a Grécia.

4.ª – Não tem nenhum poder de julgar a sequência, o valor ou a realidade objectiva das imagens que lhe aparecem. Ela aceita-as como se apresentam e jamais se surpreende com o que lhe acontece, por mais absurdo que seja.

5.ª – Acha-se submetida à associação de ideias, e por isso uma série de imagens sem outro laço que a sua associação no tempo pode baralhá-las, dando como resultado a mais espantosa confusão.

6.ª – É singularmente sensível às mais fracas influências exteriores, tais como os sons e os contactos.

7.ª – Tem a propensão para aumentar e deformar as ideias, em proporções enormes.

É assim, pois, que o cérebro físico é capaz de levar à confusão, ao exagero tanto no estado de vigília como no de sono com sonhos. Quando em estado de vigília, o cérebro é afectado por todo o tipo de pensamentos provindos do exterior, mas quando se dorme essa influência é ainda maior, pois a parte etérica do cérebro é muito mais sensível que o órgão físico em si mesmo, assim dominando o cérebro “paralisado” ou “desligado” do estado imediato. Todo o pensamento errático que se acha no cérebro do adormecido, qualquer coisa que esteja em harmonia ou simpatia com ele, com as suas apetências pessoais, aloja-se nesse órgão e põe em movimento toda uma série de ideias e de imagens quase por norma desencontradas, logo desconexas, sendo por isso que um homem de cérebro não controlado está sujeito, quando dorme, a todo o tipo de influências, as quais não o atingiriam se o Espírito controlasse a mente.

A enfermidade psíquica – onde o foro psiquiátrico deve agir com conhecimento exacto das causas provocadoras dos efeitos – traduz-se por conflito interior, dor de consciência, sofrimentos morais, sentimento de culpa, o martelar constante da consciência inquieta. A sua cura está evidentemente no ajuste, no equilíbrio das duas consciências física e psíquica, o qual irá promover a paz interior e a consequente cura psicomental reagindo positivamente sobre a cerebral. Nesse ponto do equilíbrio consciencial, começa então a funcionar a razão pura, a ponderação, a madureza e a maturidade psicofísica.

Voltando ao facto de quão tenebrosos são certos movimentos psicanalistas de cunho e alcunha “trilogia, dianética, cientologia, etc.”, muito aparentados a hodiernas seitas carismáticas ditas “igrejas universais”, lembro que os seus métodos são muito semelhantes aos que foram utilizados contra Helena Petrovna Blavatsky na América do Norte e na Índia pelos missionários evangélicos, os metodistas e os jesuítas, visto os modelos dos seus métodos servirem agora ao modus operandi dos modernos movimentos psicanalíticos transformados em “novas religiões”, mexendo directamente com aquilo que é mais sensível à criatura humana: o sistema endócrino-cerebral, a ponto de destruírem-lhe completamente as defesas psicossomáticas, e isto é pura magia negra aberta e descarada. Sim, porque dominando a mente humana dominam o mundo.

A psicanálise sem qualquer base verdadeiramente espiritual acaba sendo, sob o encapotado da cura clínica ou médica, vampirizadora da psique individual e colectiva, tema que remeto novamente à consideração avalizada de René Guénon, desta feita no capítulo 34 do seu livro O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos:

“… Fazendo apelo ao “subconsciente”, a psicologia, tal como a “filosofia nova”, tende cada vez mais a juntar-se à “metapsíquica”; e, na mesma medida, aproxima-se inevitavelmente (…) do espiritismo e de outras coisas mais ou menos semelhantes, todas apoiadas nos mesmos elementos obscuros do psiquismo inferior.

“… Os psicanalistas podem naturalmente, na maior parte dos casos, estar tão inconscientes como os espíritas sobre aquilo que se encontra por detrás disso tudo; (…) uns e outros são “levados” por uma vontade subversiva (…) que corresponde às intenções, sem dúvida diferentes, de tudo quanto possam imaginar aqueles que são os seus instrumentos inconscientes, pelos quais se exerce a sua acção.

“Nessas condições, (…) o (…) uso da psicanálise (…) é extremamente perigoso para aqueles que a ela se submetem, e até para os que a exercem, porque essas coisas são daquelas que nunca se manipulam impunemente; não seria exagerado ver nela um dos meios especialmente utilizados para aumentar o mais possível o desequilíbrio do mundo moderno.

“Falamos em “falsificação”, esta impressão é grandemente reforçada por outras constatações, como a desnaturação do simbolismo (…), desnaturação que tende, aliás, a estender-se a tudo que comporta essencialmente elementos “supra-humanos”, tal como mostra a atitude a respeito da religião e até de doutrinas de ordem metafísica e iniciática (…), que também não escapam a esse género de interpretação, a tal ponto que alguns chegam mesmo a assimilar os seus métodos de “realização” espiritual aos processos (…) da psicanálise.”

A desnaturação do simbolismo sagrado trata de levar para estados psicológicos imediatos, misto de oníricos e lúdicos, assim como para a adulteração ou perversão da condição vivencial puramente espiritual de santos, sábios e até de preceitos de ordem estritamente iniciática, logo, espiritual, reduzindo-a a “fantasia poética” que procura justificação nos mesmos estados oníricos e lúdicos, a despeito do simbolismo sagrado e da vivência espiritual serem absolutamente estranhos a quaisquer e controversas análises psiconeurológicas com presunção de diagnosticar o comportamento da colectividade, do indivíduo e das coisas animadas, a começar pelas sagradas (a psicanálise resume-se a isto); indivíduo que ela, psicanálise manceba da psiquiatria, considera um doente contínuo cingido a traumas sexuais ocorridos na infância arrastando-se pela vida afora (onde os seus sonhos e ambições servem como chave de interpretação e diagnóstico do seu “estado imediato”), por isso que, ainda para ela, a psicanálise, ele, o “doente contínuo”, não raro procura a “solução ao seu estado mórbido” na “cura pela religião”, logo, assumindo nova e retumbante “paranoia erótico-religiosa”, ficando ainda “mais doente” do que já estava. É assim, dizia, que a Tradição Primordial, Universal, e até mesmo qualquer tradição religiosa local, popular, são disformadas em uma crença francamente subversiva, satânica. Portanto, caríssimo leitor, sugiro acautelar-se ante o que lhe oferecem, porque “quando a esmola é grande o pobre desconfia”: em meio de uma sociedade materialista dessacralizada como é a actual, é bem verdade que as trevas são mais insinuantes que a Luz.

Voltando a Fernando Pessoa, pois tudo quanto disse atrás anda em volta dele, a sua natureza tímida e reservada abstinha-o no plano imediato das multidões e dos convívios de salão entre distintos e famosos (hoje chamar-se-ia jet-set), mas para todos quantos em Lisboa o conheceram na “Brasileira do Chiado”, no “Nicola”, no “Martinho da Arcada”, em Cascais ou em Sintra, era um Mestre de Pensamento, um homem lúcido, ponderado, calmo, entendedor da natureza humana e, sobretudo, o Iniciado por excelência. A comprovar isso, têm-se os testemunhos directos dos que com ele conviveram, dentre muitos outros João Gaspar Simões, Costa Brochado, Almada Negreiros e Agostinho da Silva, mas também os testemunhos fidedignos de Carlos Blanc Portugal, Josué Pinharanda Gomes, Leonardo Coimbra, António Telmo e António Quadros, entre tantos mais, boa parte deles do meu convívio pessoal o que muito me honrou e honra.

Acerca da homossexualidade do poeta – que hoje é coisa que assenta bem em qualquer artista ou intelectual e se deve aplaudir, seja-se ou não homofóbico – a sua relação com Ofélia Queiróz (a sua “menina Ofelinha”) desmente categoricamente tal, além de nunca ter se mostrado avesso ao belo sexo, muito pelo contrário, e se rompeu com Ofélia, a sedentária e casadoira jovem secretária de escritório, cujos interesses não passavam do comum e vulgar indo chocar e destoar inteiramente daqueles muitíssimo mais elevados de Pessoa, que ela não compreendia e até a aterrorizava, razões mais altas se levantaram. Estão claramente expostas na carta do poeta a Ofélia, datada de 29 de Novembro de 1929:

“Que isto de “outras afeições” e de “outros caminhos” é consigo, Ofelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.”

Esse vínculo secreto e muito pessoal aos Adeptos da Boa Lei, os Superiores Incógnitos da Humanidade com Posto Representativo em Sintra (Serra Sagrada a quem dedicou alguns dos seus poemas), como um certo Henry Moore referido em fugaz “nota psicográfica” (modalidade linguística usual que não passava disso, pois a acção oculta dispunha-se fora de qualquer mecânica mediúnica, passiva e inconsciente, no sentido comum do termo), já antes Fernando Pessoa o expressara em carta dirigida a Corte Real, escrita em 19 de Novembro de 1915:

“[…] De modo que, à minha sensibilidade cada vez mais profunda, e à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade literária, mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. […] Ter uma acção sobre a Humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a Civilização vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida.”

Quanto ao pretexto de carência ou mesmo ausência afectiva materna e empós, já adulto feito, conjugal, terem sido o motivo principal do seu desajuste psicofísico, revelado como ânsia permanente e abstrata ou de alguma coisa indefinida por adquirir, que o deixava num estado constante de insatisfação e reclusão hipocondríaca quase maníaca, a verdade factual mostra-se muito diferente dessa análise supérflua e equivocada quanto baste. A “carência afectiva”, bem vistas as coisas, terá apenas sido a alavanca psíquica e sofrível – por a sua transformação psicomental apartá-lo consciencialmente do comum das gentes dispondo-o num permanente estado de solidão interior, onde o seu entendimento do mundo não obtinha a reciprocidade desse mesmo mundo o entender –  necessária para projectar Fernando Pessoa a esse outro Amor encoberto, Amor espiritual retratado idealmente na Dama desejada (a sua “Bebé”), afinal não sendo Ofélia nem a sua mãe mas unicamente, como veio a compreender na carne pelo desejo inexplicável de uma sexualidade superlibídica, rarefeita e mental, a sua Alma encoberta, o seu Outro, o Eu Superior que assinalou no “Guardador de Rebanhos” (os vários “eus” insublimados, o mesmo que nidhanas ou “vícios” para os místicos orientais) do heterónimo Alberto Caeiro, o Mestre, e desta maneira Ofélia, como feminino derivado de Orfeu, tão-só representaria a Divina Mãe Sabedoria.

Essa sublimação da libido é factor caríssimo à psicanálise, todavia cingindo-se ao limite estreito das imagens afectivo-sexuais retidas no subconsciente afim ao passado, e que por as considerar indicadoras de factores imediatos não resolvidos vêm a oprimir, a condicionar o consciente presente porque se molda o perfil, a personalidade, e esta é interpretação completamente profana, por conseguinte, naturalmente equivocada por, mais uma vez, pretender sanar os efeitos com os efeitos. A mesma “libido sublimada” será sobretudo não a pretendida sublimação afectiva mas a superação da consciência pelo despertar interior, pela subtilização dos sentidos grosseiros imediatos, por essa Energia Ígnea que os orientais chamam Kundalini e os ocidentais Fogo Criador do Espírito Santo, discorrendo da base da coluna vertebral ao alto da cabeça e daí volvendo abaixo, num eterno sobe-desce (de que o episódio bíblico do “sonho de Jacob”, com os Anjos subindo e descendo a Escada do Céu à Terra e desta àquele, é uma alegoria das mais significativas), com o qual o líquido encéfalo-radiquiano tem ligação profunda por nele se encontrar a explicação médica e científica, sobretudo iniciática, tanto do factor sexual como da actividade mental e da ligação entre ambos.

Esse processo alquímico de transcendência interior, levou o poeta a desabafar, como revela José Amaro Dionísio em Os passos da morte (in semanário Expresso, sábado, 4 de Junho de 1988): “A solidão desola-me, a companhia oprime-me”.

Confrontando o Amor Ideal com o amor passional, que ele sabia distinguir, confessa-se em tom de desabafo à casta e casadoira Ofélia Queiróz – que ora se deixava seduzir, ora lhe fazia as cruzes – em carta de 29 de Setembro de 1929:

“Resta saber se o casamento, o lar (ou o que quer que lhe queiram chamar) são cousas que se coadunem com a minha vida de pensamento. Duvido.”

Se por isso ele procurou a “prata da casa”, o conforto nos braços de um homem preferido à mulher, como sugere o psiquiatra autor do intragável pasquim, então também se poderá dizer que “o intestino delgado da formiga está onde o senhor doutor devia ter a massa encefálica”. Considero que o próprio Fernando Pessoa responde neste outro excerto da carta por último citada:

“É preciso que todos, que lidam comigo, se convençam de que sou assim, e que exigir-me os sentimentos […] de um homem vulgar e banal, é como exigir-me que tenha os olhos azuis e cabelo louro. E estar a tratar-me como se eu fosse outra pessoa não é a melhor maneira de manter a minha afeição.”

Isso mesmo é testemunhado pelo seu companheiro de tertúlias no Café Montanha, Francisco Peixoto de Bourbon, quando afirma com a certeza de quem sabe porque o conheceu em vida (in semanário Expresso, sábado, 4 de Junho de 1988): “Há muitas ideias feitas à sua volta que não correspondem à verdade, e insinuam-se coisas, como um pretenso homossexualismo, que não passam de calúnias. No que respeita à sua maneira de ser e de estar na vida, o Fernando Pessoa era a antítese de tudo o que se tem dito dele”.

Quanto às alegações prescritas no dito pasquim candidato a raridade literária (e de facto a é no mau sentido): “1.ª) morbidez psíquica, 2.ª) alucinações, 3.ª) fobias, 4.ª) obsessões”, vistas à luz das causas geradoras dos efeitos, na realidade elas serão:

1.ª – O homem triste por estar no mundo não sentindo apetência a participar na vida comum do mesmo, das suas alegrias e gozos mundanos, sentindo-se morrer diariamente para viver mais eternamente, isto é, cada vez mais se sentindo morrer mundanamente e renascer espiritualmente. Esse é o estado psicomental de quem transcendeu os interesses useiros e vezeiros do vulgo e comum, estando com a sua consciência em plena travessia da ponte ou condição interior que separa um mundo do outro. Consequentemente, o epíteto “morbidez psíquica” não corresponde à realidade por Fernando Pessoa não se manifestar neurótico nem hidrofóbico em momento algum (tirando os seus “escapes” literários em curtas notas soltas, que direi por que mais adiante), razão porque não necessitou, em toda a sua vida, de espécie nenhuma de tratamento (seja receituário, seja internato) em alguma Casa de Saúde Mental. Angústia existencial certamente a teve, como todos quantos estão no Caminho da Verdadeira Iniciação a têm vez por outra, mas isso é muito diferente da morbidez d´alma.

2.ª – As “alucinações” de Fernando Pessoa são as mesmas de todos os psíquicos potenciais, mas isso nada tem a ver com estados alterados de consciência física misturados caoticamente aos da consciência psíquica, como acontece com a maioria dos doentes mentais incapazes de distinguir o real do irreal. Nestes últimos casos, é costume recorrer-se à intervenção medicamentosa com base opiácea, os psicotrópicos, o que deixa o doente num estado alterado de sonolência induzida ausente de vontade própria. Também se recorre à hipnose clínica e, em casos extremos, aos choques eléctricos e aos banhos de água fria. É desnecessário dizer que esses métodos são desumanos e completamente impróprios no tratamento eficaz de qualquer doente, por o deixarem num estado semivegetativo não raro para sempre. Felizmente a Medicina tem evoluído, além de haverem outros métodos muito mais eficazes e… eubióticos, para restaurar a saúde psicomental desvalida.

Como Buda, Cristo, Maomé e outros mais Grandes Iluminados que têm feito avançar o Progresso da Humanidade, seguidos pelos melhores desta sustentando uma moral impeditiva da queda do Homem no selvagismo puro e simples, não passam de “paranóicos religiosos” e “místicos alucinados” para a classe dos psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, com as devidas e honrosas excepções, contrariando o Princípio da Incerteza de Heisenberg onde todos os factos são indesmentíveis até prova em contrário, então é “natural” que esses mesmos se alucinem nas suas próprias taras psicossomáticas e desdenhem o básico das “alucinações” metafísicas serem, tão-só, a visão supra-sensorial das várias camadas dimensionais de Espaço e Tempo, de que a Ciência Físico-Química só conhece três – comprimento, largura e altura / passado, presente e futuro, mas faltando a profundidade e a intemporalidade. Contudo, hoje mesmo a Ciência Experimental já conclui, com êxito, a probabilidade de haver outros espaços e energias dotadas de automatismo e consciência próprias, além do clássico espaço tridimensional a que o Homem está limitado. Desde logo se fala em quarta e mais dimensões, na curvatura do Tempo e do Espaço e na avenção experimental comprovativa de outros sentidos latentes além dos cinco comuns ao mesmo Homem, possíveis de o transportar a esse Espaço/Tempo ultradimensional e nele vivenciar estados de consciência impossíveis de outro modo. As experiências parapsicológicas realizadas nas universidades russas e norte-americanas, por exemplo, provaram cabalmente que o pensamento influi sobre a matéria e esta pode ser profundamente alterada por ele. Vários cientistas reputados desses países concluíram que os fenómenos paranormais, ou parapsicológicos, por eles observados após levarem à sua provocação experimental (o que está muitíssimo documentado), assemelhavam-se (não que fossem idênticos, que é coisa diversa de semelhantes) em tudo aos dos santos da Igreja Cristã, aos dos yoguis da Índia, aos dos hierofantes do Antigo Egipto ou aos dos teurgos e taumaturgos celebrizados nos anais da História e nos textos sagrados de todas as religiões tradicionais.

Chegado a este ponto, é notório e risível que o médico em questão apesar de “escuro-vidente” assumiu-se “psiquiatra do Além”, ao fazer o diagnóstico clínico de quem faleceu há mais de 50 anos e nunca conheceu de parte alguma, a não ser por folhas soltas do seu espólio literário. Mas que Fernando Pessoa era clarividente prova-o bem na sua carta à Tia Anica [D. Ana Luísa Nogueira de Freitas], redigida em Lisboa a 24 de Junho de 1916, da qual extraio alguns excertos deveras elucidativos para uma clara compreensão do seu verdadeiro perfil psicológico:

“Há momentos, por exemplo, em que tenho perfeitamente alvoradas de “visão etérica” – em que vejo a “aura magnética” de algumas pessoas, e, sobretudo, a minha ao espelho, e, no escuro, irradiando-me das mãos. Não é alucinação porque o que eu vejo outros vêem-no, pelo menos, um outro, com qualidades destas mais desenvolvidas. Cheguei, num momento feliz de visão etérica, a ver, na Brasileira do Rossio, de manhã, as costelas de um indivíduo através do fato e da pele. Isto é que é a visão etérica no seu pleno grau.

“[…] Às vezes, de noite, fecho os olhos e há uma sucessão de pequenos quadros, muito rápidos, muito nítidos (tão nítidos como qualquer cousa no mundo exterior). Há figuras estranhas, desenhos, sinais simbólicos, números (também tenho visto números), etc.

“[…] Há mais curiosidade do que susto, ainda que haja às vezes cousas que metem um certo respeito, como quando, várias vezes olhando para o espelho, a minha cara desaparece e me surge um fácies de homem de barbas, ou um outro qualquer (são quatro, ao todo, os que assim me aparecem).”

Esses rasgos de visão extrafísica seriam reafirmados pelo professor António Telmo o qual, em tertúlia privada em sua casa, contou o seguinte episódio ocorrido com Pessoa, que pela primeira vez reproduzo conforme ouvi dele:

Em Lisboa, vindo Fernando Pessoa, acompanhado do seu amigo Francisco de Bourbon, da Rua 1.º Dezembro para a Praça do Rossio, depararam-se com o sururu de uma multidão em volta de um eléctrico acidentado. Saltara dos carris após colher mortalmente um transeunte. Ainda lá estava o corpo trucidado debaixo dos rodados. “O homem morreu!”, diziam uns para os outros. Pessoa, que de repente ficara pálido com os olhos fixos na cena trágica, replicou a Bourbon o espantoso que lhe arrancou calafrios: “Mas o duplo ainda aí está, e ao seu lado há três outros…”. E calou-se.

Segue-se, naquela mesma carta à Tia Anica, o fundamental quanto ao despertar interior de Fernando Pessoa, quase ou de certeza desfechado com a sua aceitação no seio da Fraternidade dos Mestres Ocultos do Mundo, de que o indicativo Marid, Maridj, Maris ou Mariz não é alheio em vários textos esparsos do poeta:

“O que me incomoda um pouco é que eu sei um pouco mais ou menos o que isto significa. Não julgue que é a loucura. Não é: dá-se até o facto curioso de, em matéria de equilíbrio mental, eu estar bem como nunca estive. É que tudo isto não é o vulgar desenvolvimento de qualidades de médium. Já sei o bastante das ciências ocultas para reconhecer que estão sendo acordados em mim os sentidos chamados superiores para um fim qualquer que o Mestre desconhecido, que assim me vai iniciando, ao impor-me essa existência superior, me vai dar um sofrimento muito maior do que até aqui tenho tido, e aquele desgosto profundo de tudo que vem com a aquisição destas altas faculdades. Além disso, já o próprio alvorecer dessas faculdades é acompanhado de uma misteriosa sensação de isolamento e de abandono que enche de amargura até ao fundo da alma.

“Enfim, será o que tiver de ser.

Eu não digo tudo, porque nem tudo se pode dizer. […] Estas cousas são anormais sim, mas não antinaturais.”

Ainda sobre a Tia Anica, tia materna do poeta e médium afamada de Lisboa. Em sua casa realizava sessões de espiritismo e Fernando Pessoa assistiu a algumas delas, mas que eram muito mal vistas pela vizinhança em breve descambando numa avalanche de boatos: ali faziam-se orgias de todo o tipo e consumia-se cocaína e ópio a rodos. O “diz que disse” pegou até hoje: vem daí a ideia abstrusa de Fernando Pessoa além de “homossexual” ser também “drogado” em cocaína e ópio, o que lhe afectou sobremaneira o sistema neurológico, ou seja, o ser mais alucinado do que lúcido. O próprio poeta pegou nessa invenção da má-língua e, como bom “blagueur”, gozou com ela glosando-a no papel, mas em boa verdade não passando disso mesmo: pura e simples “blague”. Agora, pergunto eu: como é possível a alguém que se tenha por pessoa de bons princípios, fazer um levantamento biográfico e psicológico minimamente credível só baseado em boatos populares, nascidos da ignorância e da superstição temerosa?

3.ª – As “fobias” de Fernando Pessoa já as expliquei, ele próprio foi suficientemente claro na sua carta citada por último, pelo que desnecessito repetir-me. Ainda assim, algo mais tenho a acrescentar em continuação da alínea 2.ª: antes de tudo, convém não ignorar que a Humanidade reparte-se por vários escalões de consciência em conformidade ao temperamento e apetência individual afectando o colectivo – bem conformado ao estado evolucional já alcançado, o que é comprovável, visível e tangivelmente, em cada pessoa pela sua inteligência e pelo seu sentimento, maiores ou menores, mais ou menos grosseiros, com estes ou aqueles interesses, sim, porque o interesse imediato não deixa de ser a causa de um efeito produzido anteriormente e subjacente à sua “psique” ou “ego” (Freud chamar-lhe-ia “super-ego”).

É nesse mesmo “ego” que a hodierna análise e diagnóstico clínico (da psicologia, psiquiatria, psicanálise, etc.) procura as respostas para o comportamento humano, individual e colectivo. Como a acção mental leva à reacção corporal, logo a sintomatologia clínica conclui que o cérebro é a “alma” das religiões e a “libido” o leitmotiv desencadeador do fenómeno da exteriorização dos interesses humanos, e esta é, sucintamente, a bula clínica explicadora dos fenómenos do comportamento humano (sejam quais forem, onde sobretudo a psicanálise realça sempre, quase maníaca-compulsiva, a fenomenologia religiosa como “inimiga adversária” a abater), e como o cérebro se secciona em multivariadas “especialidades” mentais, logo, quando uma dessas secções está mais activa o interesse correspondente impõe-se aos restantes. Se a coisa for levada ao extremo em detrimento da restante actividade cerebral, então apelida-se de paranoia sem mais delongas, não separando o factor interesse místico, resultante da actividade cerebral normal afim a esse interesse, nem subtraindo o indicativo de boa saúde mental da alteração cerebral provocada por enfermidade de um ou de todos os sentidos, geradora de alucinação psicomental que induz, esta sim, a paranoia, ou seja, literalmente “fora de “Si”, do normal”, ficando assim praticamente explicado todo o fenómeno religioso e místico. De maneira que, para tais analistas clínicos, todos os religiosos e místicos são “visionários e paranoicos”. Por que? Clinicamente, por uma ou mais secções cerebrais falharem ou embotarem provocando as anomalias dos sentidos e consequentemente do comportamento. A psicanálise pretende explicar isso muito bem (???) no pretenso (inglório) de esventrar os comportamentos psicológicos de Cristo, de Buda ou de Krishna, por exemplo, através da sua interpretação profana, anti-tradicional e contra-iniciática, dos textos sagrados das religiões afins aos mesmos. Mas estarão a psicanálise e a sua associada, a psiquiatria, correctas? Estará assim tão certo e tão redutivo, tão niilista e tão deprimente esse levantamento clínico do comportamento humano, em que a “alma” não passa de um pedaço de carne animada por sangue e nervos, agindo por hábito mecânico que é a inteligência repetitiva como sendo a própria razão do Homem? Duvido, e muito.

Dessa maneira explicam-se clinicamente os fenómenos místicos e religiosos, admitindo-se as religiões não passarem de criações humanas produtos de simples devaneios lúdicos dos sentidos, assim se inventando uma razão maior para a causa da existência e das suas contradições flagrantes sem explicações aparentes mas fazendo parte da mecânica cega do Universo e dos seus organismos vivos formados do acaso, que é a única ordem havendo no caos. Por tão grande positivismo o mais pedante possível e que realmente é negativismo, porque relativamente ao ser humano considera-o em contínuo estado de negação e culpabilização, ante as evidências imediatas acabo induzido a diagnosticar, mesmo não sendo médico, o grave factor paranoia em muitos clínicos de ciência neurológica. Por que “pedantismo clínico”?

Por de antemão saber-se que o pensamento não é um objecto físico, nem as correntes eléctricas que percorrem, se chocam e animam o cérebro e o cerebelo poderem ser provocadas pelo sistema neuro-espinal, por ser este quem é animado por aquelas, facto facilmente comprovável num bebé que já manifesta guturalmente os seus interesses mas não tem qualquer domínio sobre o corpo tenro. Isto leva a deduzir que a mente ou o pensamento é distinta do cérebro, seu veículo, e que as correntes e descargas eléctricas deste só poderão ter uma causa originadora: aquele, o pensamento. Tanto assim é que hoje até um clínico medíocre sabe que o pensamento antecede o impulso electrocerebral. Mesmo na morte clínica ou paragem cardíaca, sabe-se que ainda não aconteceu a morte cerebral ou, como se diz em psicanálise, o desligar da mente (grande verdade, apesar dos que a proferem desconhecerem o seu verdadeiro sentido). É assim que quando há a morte cerebral ou apartamento mental e mantém-se a restante vida orgânica, o corpo não responde, fica num estado vegetativo, mesmo com o sistema nevro-sanguíneo mantendo-se vivo mas não activo por lhe faltar o impulsor neuro-cerebral, tal como a este falta o pensamento ou inteligência por estar incapaz de manifestar-se no órgão danificado.

O mesmo pode-se dizer das emoções em relação ao coração. Será o órgão nobre quem as provoca após a reacção química suscitada por um qualquer reconhecimento simpático ou antipático dos sentidos, principalmente da visão que é o sentido da luz reflectora, sabendo-se que nem todos vêem da mesma maneira e que há espécimes animais que vêem o que o Homem não consegue ver, mas nem por isso deixando de ser real? Ou serão corpos distintos para os quais os sentidos não passam de agentes ao invés de princípios?

Tanto mais que hoje em Medicina Legal aplica-se ao cadáver o designativo “casco”, no sentido de “casca vazia”. Logo, significa que o seu “morador” original já não está lá. De maneira que, em princípio, pressupõe-se a existência de duas entidades distintas: o “casco” e o “morador”… que partiu. Para onde? Só a Teosofia, “Mãe de todos os saberes” por ter saber e experiência armazenados desde há milhares de anos, poderá responder com maior amplidão e lógica.

Também não será pedagógico nem razoável exigir da vasta e diversificada Humanidade que acompanhe de maneira igual os passos avante dos mais adiantados do seu Género. Isso nunca poderá resultar positivo, pois o que acaso sejam imperfeições para o mais adiantado no desenvolvimento da consciência, poderão ser perfeições para o restante comum. Mesmo assim, deve-se saber separar o estado normal dos menos adiantados mental ou espiritualmente do estado anormal dos que estão humanamente doentes. Isto é fundamental. É dever soberano do homem superior respeitar e até aceitar como normais as crenças e actos dos seus irmãos em Humanidade menos adiantados, não se imiscuindo no livre-arbítrio alheio, pois todos têm as suas experiências e vivências a fazer, o que leva a concluir que todas as verdades humanas são relativas!… Se, acaso, um homem superior presume-se com um pouco mais de consciência (eis uma outra palavra complicada, mas que resulta da essência do pensamento e do sentimento), então será seu dever ante a mesma Humanidade, na medida das suas possibilidades e oportunidades, colaborar de maneira não ostensiva e não impositiva na sua evolução ou desenvolvimento consciencial. Foi sempre assim a acção de todas as Escolas de Psicologia Esotérica em todos os tempos e, igualmente, de todos os verdadeiros Iniciados.

Uns mais depressa e outros mais devagar todos evoluem no seu espécime, o Hominal, e todos chegarão ao objectivo último, este aparentemente uma melhor condição humana e desde logo social, ainda que não seja somente isso. A experiência que cria maior consciência, essa sim é tão diversificada quanto é o Homem no individual e no colectivo. É muito natural que seja assim, visto ele ser a soma de toda a Natureza manifestada.

Dos últimos 500 anos para hoje, assistiu-se a um grande avanço intelectual e tecnológico por parte da Humanidade. Falta-lhe só equilibrar o intelecto com a moral. Por isso apareceu no século XIX o grande surto espiritualista para dar resposta ao maior mistério, ao gigantesco dilema do Homem: conhecer-se a si mesmo, encontrando a solução final para o magno problema da Vida, o da Felicidade Humana.

4.ª – A “obsessão” de Fernando Pessoa terá a ver com a “fobia” e a “paranoia” constantes que demonstrava através de um supranacionalismo e de um sebastianismo com que entendia Portugal, mas não passando de quimera obsessiva por não ser mais do que dar realidade à expressão literária imaginária dos antigos. Isto, é claro, no considerando do tal psiquiatra supracitado, assim parecendo pedante ao pretender ter domínio da História e do que realmente pensavam os sábios passados. Postas as coisas desse modo, concluo pelo cabal demonstrativo de senilidade por esse senhor e deste modo autorizo-me ao diagnóstico, mesmo não sendo médico, repito, de fortes e graves indícios de paranoia obsessiva apercebida na sua escrita esquizofrénica, demasiado apressada, acelerada em concluir, pelo que à sua paranoia mito-psiquiátrica creio ser muitíssimo mais saudável a mítica-espiritual de Pessoa, que bem preferia o seu patrono Padre António Vieira a um Sigmund Freud esquizofrénico de, diz-se, paixão solapada pelas sobrinhas, parecendo dotado de taras pedófilas como se denota em diversas passagens da sua biografia.

O V Império Lusitano de Fernando Pessoa e de todos os adeptos do Sebastianismo Branco, teosófico, esclarecido, bem o definiu o seu amigo e companheiro do Orfeu, Raul Leal, como o cita António Quadros em Fernando Pessoa e o “Império da Cultura” (no semanário Tempo, 28.4.1983): “A aliança de D. Sebastião, Imperador do Mundo, e do Papa Angélico, figura esta íntima aliança essa fusão do material e do espiritual. É o próprio Segundo Advento ou nova encarnação do mesmo Adepto em quem outrora Deus projectou o seu Símbolo, ou Filho, não faz senão figurar d´outro modo essa mesma aliança suprema. Não é pois para uma absorção mística que avançamos, sendo para a conjunção clara dos dois poderes da Força, dos dois lados do Conhecimento. Far-se-á a aparente conquista da inteligência material pela espiritual e da espiritual pela material. De aí ser o Império Português ao mesmo tempo um Império da Cultura e o mesmo Império Universal, que é outra coisa”.

O psiquiatra que me serve de mote à defesa humana, cultural e espiritual de Fernando Pessoa, consequentemente da Tradição Iniciática Portuguesa, para não dizer Universal, agiu sinistramente como um mago negro ao desrespeitar inteiramente as três coisas com que um espírito nobre nunca brinca, muito mais sendo ele médico, logo atraiçoando o Juramento de Hipócrates que fez para ter direito ao diploma de Medicina, como muito adequadamente ao presente, em palavras lembradas por José Amaro Dionísio (ob. cit.), o poeta diz: “Há três coisas com que um espírito nobre nunca brinca: os deuses, a morte e a loucura”.

Utilizando como dialéctica e retórica instrumentos mentais desconexos, esse psiquiatra vale-se de uma carta escrita por Fernando Pessoa mas assinada com o nome feminino Maria José, endereçada a um António que nunca existiu a não ser ele próprio. É neste documento que baseia toda a sua teoria anacrónica sobre o “homossexual paranoico” que considera ter sido o vate e poeta. Desde logo, duas impressões saltam-me à vista:

1.ª) Maria – José – António, este provindo do radical filológico Aton, o Sol Espiritual, o Filius. De maneira que Fernando Pessoa evoca prosaicamente a Santíssima Trindade (estando José para o Pai e Maria para a Mãe) na sua maneira peculiar de escrever, e 2.ª) faz a sua confissão ou autocrítica lançando no papel as suas nidhanas, as suas vicissitudes ou defeitos, livrando-se, desse modo muito seu, delas. Daí a dureza dos termos “hipocondríaco, esquizofrénico, paranoico, etc.” que emprega na carta em relação a si mesmo.

“Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim mesmo…”

Álvaro de Campos in Obras Completas

É uma forma de desabafar, de lançar para fora o peso enorme das inquietações e agruras quotidianas sem que, necessariamente, tenha de ser tudo de quanto se acusa. No fundo, trata-se do queixume íntimo de Pessoa à sua Individualidade Fernando, procurando o lenitivo interior, o estímulo superior, e fê-lo através da escrita que era a sua maneira de combater o “stress” psicossomático.

Ademais muitos, a maioria dos escritos contidos na pessoana “arca” são rascunhos, anotações e ideias do momento que o poeta anotou decerto para não se esquecer depois, umas suas e outras que ouviu de outros. É assim que se chafurda nas coisas mais íntimas e impublicáveis de um homem falecido, com o único fito interesseiro de se conseguir prestígio social e regalias económicas à custa de quem tão nobre, anónima e pobremente em seu tempo serviu a Língua Portuguesa sua Pátria, acabando por morrer só, abandonado na cama fria do Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, às 20:00 horas da tarde triste de 30 de Novembro de 1935, na única presença de Jaime de Andrade Neves, seu primo e médico, depois de anos, dias e noites seguidas, intermináveis de solidão e angústia pela feitura de uma Obra que se quer Divina.

As suas últimas palavras premonitórias ou de pressentimento da passagem próxima, escritas em inglês já no hospital no dia 29 vésperas de morrer, resultaram fatalmente certeiras: I know not what tomorrow will bring – “Eu não sei o que o amanhã trará”.

Sepultado no jazigo de família (Seabra Pessoa), no Cemitério dos Prazeres em 2 de Dezembro desse ano, em cujas exéquias Luís de Montalvor, em nome dos sobreviventes do Orpheu, proferiu um breve discurso, o féretro de Fernando Pessoa foi depois, em 16 de Outubro de 1985, trasladado com toda a justiça, e é onde deve ficar para todo o sempre, para o claustro do Mosteiro dos Jerónimos, onde ficou deitado junto à coluna tumular legendada, verificando-se na altura que o corpo mantinha-se incorrupto, estava tal qual quando falecera (talvez por ser inumado em caixão de chumbo, conforme a saúde pública obrigava, demorando o corpo longuíssimo tempo a “voltar ao pó”), ele que proclamara próximo das vésperas da sua morte: “Neófito, não há morte!”, e “nunca te deixes vencer pelos incompetentes”.

Será por tudo isso que o Pensamento de Pessoa “está deteriorado pelo seu perturbado estado mental”, o que “lhe impossibilitou possuir uma personalidade íntegra”?… Realmente, é preciso ser-se muito mau, nada saudável e imensamente ignorante para se afirmar e publicar calúnias dessa monta que só podem provir de um espírito doente, obsedado. A integridade de Fernando Pessoa como homem, escritor ensaísta e poeta, e sobretudo Iniciado, nada tem que se lhe aponte. Pode-se discordar da sua maneira de estar e agir, é natural e legítimo, mas querer destruir insanamente só por não se gostar dessa maneira de estar e agir, isso já não é natural.

Recordo as palavras de um Mestre Vivo (Morya Rajput), escritas na segunda metade do século XIX, acerca de uma outra incompreendida e injustiçada, Helena Petrovna Fadeef Hahan Blavatsky, as quais adaptam-se bem ao caso presente de Fernando António Nogueira Pessoa:

“Nós, pelo contrário, descobrimos diariamente na sua natureza interior traços muito delicados e refinados, que um psicólogo não-Iniciado nunca conseguirá descobrir nas profundezas desse mistério tão subtil – o mental humano – e um dos mecanismos mais complexos – o mental de H.P.B. – senão após muitos anos de observação constante e penetrante, acompanhada pelos esforços de análises cerradas; tal trabalho permitiria a esse psicólogo aprender a conhecer o verdadeiro Ser Interior de H.P.B.”

É claro que no caso do poeta o supradito psiquiatra não o fez, nem jamais poderia fazê-lo, porque Fernando Pessoa não existe entre nós há oito decénios e um ano. De maneira que enxovalhou a memória universal do Homem e demonstrou-se incapaz até em respeitar os mortos, pelo que, se eu fosse médico de carteira passada, diagnosticava-lhe traumas de um passado infeliz e a necessidade premente do seu inconsciente confessar publicamente a sua natureza doentia, como que pedindo desculpa por a ter.

Quanto à “ciclotimia” de que acusa Fernando Pessoa, ela se desdiz e desfaz perante o facto comprovado, pelos testemunhos dos que conviveram com ele, da sua tranquilidade e lucidez, como pessoa pouco excitável ou deprimível conforme as impressões e reacções emocionais do momento, visto a característica da sua natureza ser sobretudo mental. Seja como for e levando a coisa para o nível da psique humana, isso terá a ver com os estados de busca, de angústia e anseio mentais pelo encontro de soluções para problemas de índole metafísica, esta que foi o timão e norte de toda a vida do poeta. De maneira que ainda que todos os Iniciados não sejam “ciclotímicos”, serão ciclotímidos, se assim posso dizer, porque sabem e calam.

É assim que a “paranoia mítica” do poeta é largamente superada pela paranoia psiquiátrica de quem, certamente, pouco ou nada sabia sobre a verdadeira personalidade de Fernando Pessoa.

Não termino sem assinalar um outro ponto controverso que até ao momento tem servido para denegrir o poeta por parte de alguns dotados de um moralismo primário, puritano e castrante, como se fossem “a perfeição em pessoa”: o uso excessivo que fazia das bebidas alcoólicas.

Seja como for e mesmo nisso, não deixa de haver sabor a “blague” no alcoolismo excessivo de Fernando Pessoa. Lá que ele bebia, bebia… “Bebo como uma esponja, não. Como uma loja de esponjas, e com armazém anexo!”, gracejava confessando a Luís Moitinho de Almeida, filho do dono da firma comercial onde trabalhava. Que pretendia ele com afirmações degradantes desse género? Será que já não distinguia a realidade lúcida da alucinação alcoólica, por estar em fase adiantada de delirium tremens? Não creio. A resposta flagrante dá-a um seu parente afastado que com ele conviveu, o professor Calvet de Magalhães, um dos fundadores da Cooperativa de Ensino Árvore, no Porto: “Unanimidade há apenas em torno do facto de que “nunca ninguém o viu bêbado”, […] não bebia tanto assim, cultivava era essa fama, para chocar as pessoas, “blagueur” como sempre foi”. E remata o seu velho companheiro de tertúlias nos cafés da Baixa de Lisboa, Francisco Peixoto de Bourbon, definindo numa só frase concisa o perfil de Fernando Pessoa: “Um aristocrata no verdadeiro sentido da palavra, um puritano, um estóico e um espartano”. Por sua vez, a sua sobrinha “Mimi”, Maria Manuela Nogueira, questionada sobre a morte do seu tio “ter sido repentina ou por já estar doente?”, respondeu: “Não. As coisas que inventam agora — que foi do vinho, que foi daquilo — é tudo mentira. Não foi nada disso. Ele teve uma coisa que se chama “volvo”, que é um nó no intestino. Se fosse hoje em dia, era operado e ficava óptimo. Naquela altura não havia meios de diagnóstico, não se percebeu de onde vinham as dores que ele tinha. Deram-lhe remédios para as dores no hospital.”

Contudo, como causa da morte do poeta foi diagnosticada uma cólica hepática em adiantado estado crítico, originada pelo álcool consumido. Se bem que do ponto de vista clínico o diagnóstico acaso possa estar correcto, todavia deve-se também observar o diagnóstico oculto, e este só poderá ser feito à luz da ciência dos chakras, os “centros vitais” subtis do corpo humano, manifestando-se pelos plexos e as glândulas.

Sendo a cólica hepática doença de fígado, logo ligada ao aparelho intestinal e ao correspondente plexo solar, gástrico, além do álcool consumido, talvez e principalmente, ela tenha sido originada em Pessoa pela tensão nervosa da sua procura, intensa e permanente, em transmutar as energias do centro gástrico de maneira a elevá-las ao centro cardíaco. O seu adiantado estado psíquico motivado por uma vivência psicomental constante, conduzia o seu chakra gástrico, relacionado ao sistema emocional, a estados de congestionamento que ele procuraria desbloquear através de uma descarga ou catarse pela escrita, funcionando assim como método de “higienização psíquica”, o que lhe possibilitava um alívio temporário. Daí a razão e causa ocultas das suas confissões, referidas mais atrás.

Portanto, transmutava as suas emoções de fatalismo e angústia em ideais estéticos e místicos aportados dos níveis superiores do corpo emocional, este exprimindo-se por imagens, enquanto o corpo mental se exprime por ideias, o que também já foi dito. Quanto à sublimação da emoção em sentimento puro de Amor, tanto valendo por elevação do psíquico ao intuicional sito no centro cardíaco, tal processo pode ser extremamente doloroso para a alma que se vê despojada, desnudada, de todas as suas nidhanas ou “desejos” inferiores, passionais, provocando uma verdadeira “dor de parto” místico que o poeta procuraria atenuar através da bebida e recuperar parte da consciência orgânica, de facto já totalmente perdida e, anacronicamente, substituída por uma maior lucidez mental.

“Dêem-me de beber, que não tenho sede!” – dizia em vésperas da sua morte.

Terá Fernando Pessoa conseguido essa transmutação alquímica interior e consequente elevação redentora da energia inferior da Anima ao Animus espiritual? Os seus sinais psicológicos dizem que sim: a sua serenidade face ao inevitável, os momentos lúcidos antecedendo o seu passamento assumindo a tranquilidade de um sábio, do seu “Outro” Alberto Caeiro com o qual, finalmente, partia.

Tanto a sua vida como a sua obra assinalam que conseguiu a tríplice elevação dos “centros vitais” inferiores aos superiores, a despeito do sofrimento e solidão constantes na sua vida de Adepto que junto aos homens se pode gabar apenas de ser também ele homem, logo sujeito como qualquer um às angústias e incertezas podendo surgir inesperadas numa esquina qualquer da vida.

Essa tríplice elevação, é:

1.ª – A elevação das energias do centro gástrico ao centro cardíaco, ou seja, a sublimação da emoção passional em Amor Espiritual.

2.ª – A elevação das energias do centro esplénico ao centro laríngeo, ou seja, a sublimação da sexualidade em Criatividade Espiritual.

3.ª – A elevação das energias do centro sacral ao centro cranial, ou seja, a sublimação da autoafirmação em Vontade Espiritual.

Nessa transformação de Pessoa pela superação de Fernando e consequente metástase com o “Outro”, nessa derradeira, suprema e sublime vitória, muitíssimo mais importante que todas as vitórias de povos em guerra ou triunfos sociais por atropelos ao próximo, remata ele, o “Supra-Camões”, o Vencedor do Adamastor como matador da própria morte:

“Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.”

Alberto Caeiro in Obras Completas

Para fechar, com texto recolhido por Pedro Teixeira da Mota, endereço a todos os detratores presentes e futuros de Fernando Pessoa estas suas próprias palavras magistrais:

Deseja ardentemente a Luz, conhecendo-te a ti próprio nela.
Priva-te do Egoísmo, Vaidade e Orgulho.
Pensa fraternalmente, não alojes pensamentos maus
E tem o menos possível de pensamentos materiais.

CONHECE-TE A TI PRÓPRIO

Tríade Jina e Sistema Geográfico – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Out 8 2020 

A primeira frase do Mestre JHS – Prof. Henrique José de Souza – dirige-se à concepção dos sete Lugares Jinas que compõem um Sistema Planetário em volta do Sol Central, cada um desses Lugares com outros tantos subsidiários que em si perfazem, em volta do principal, igualmente um “micro”-Sistema Geográfico, consequentemente, sendo sete distintos no todo vêm a ser a universalização de sete Sistemas Planetários, ou por outra, de um Sistema Solar completo.

Revela-se “o que está em cima ser como o que está em baixo”, conforme o axioma de Hermes o “Três Vezes Grande” (Trismegisto), pelo Espírito, pela Alma, pelo Corpo. Assim, tal como os Chakras são as Embocaduras Anatómicas pelas quais o Jivatmã se manifesta no Corpo Humano, igualmente as Embocaduras Geográficas são as “Bocas” pelas quais se manifestam a Divindade Planetária (Logos) no Palco Terreno, e até mesmo sideralmente os sete planetas tradicionais (Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus, Saturno) vêm a ser as expressões da Consciência Una do Logos Solar agindo pelas mesmas. De facto, o Tudo está no Todo, e vice-versa.

Tem-se isso no Sistema Geográfico Sintrense e igualmente no Sanlourenciano, com Sete Postos em volta de um Oitavo Central, que não será demais relembrar.

A segunda frase, respigada da Carta-Revelação de 28.04.1958 inserida no Livro-Revelação com o título Livro do Ciclo de Aquarius, vem na sequência, como seja a dos Sistemas definitivos do Sistema Geográfico Internacional (Sintra, Cairo, Srinagar, etc.) terem por complementares os Sub-Sistemas em formação (São Thomé das Letras, Conceição do Rio Verde, Aiuruoca, etc.) para que também eles se tornem definitivos, como se observa em dois outros Sistemas Geográficos brasílicos que juntamente com São Lourenço compõem o Triângulo Mágico do Mapa do Brasil, como sejam o da Ilha de Itaparica (Bahia) e de Nova Xavantina (Mato Grosso). O primeiro para o Pai (Akbel, Futuro, Satva, 6.º Sistema), o segundo para a Mãe (Allamirah, Passado, Rajas, 4.º Sistema), e o Terceiro para o Filho (Arabel, Presente, Tamas, 5.º Sistema).

As Tríades Jinas dirigentes dos três Sistemas Geográficos brasileiros, segundo o Professor Henrique José de Souza, dispõem-se na ordem seguinte: São Lourenço (MG) = Lourenço Prabasha Dharma – Jonas Tulan – Cafarnaum; Itaparica (BH) = Lorenza – Krivatza – São Germano; Xavantina (MT) = Akdorge – Akadir – Kadir. No centro da Primeira Tríade está Akbel tendo por veículo Maitreya; no centro da Segunda Tríade está Allamirah tendo por veículo Apavana-Deva; no centro da Terceira Tríade está Arabel tendo por veículo Mitra-Deva.

Esses Seres do mais alto gabarito tinham como representações e veículos 9 Yokanans ou Arautos vindos do Mundo de Badagas para a Face da Terra, como sejam: para São Lourenço, Daniel – Jefferson – Hermes; para Itaparica, Hélio – José – Henrique; para Xavantina, Saulo – Tarso – Basílio. Saulo serviu de veículo a Rabi-Muni. Sobre o que diz JHS em Carta-Revelação de 14.5.1961: “Foi fundado o 5.º Sistema, parte externa, 7 dias depois da inauguração da Embocadura Luz de Chaitânia (São Lourenço), quando os dois Yokanans do Roncador, Saulo e Basílio, a fim de reforçarem os do Bairro Carioca (na mesma São Lourenço), para aí foram com 49 Adeptos de Duat, tendo ambos ficado 49 dias nessa posição. Os dois Yokanans do Roncador mais os três do Mekatulan (sob São Lourenço), formam um pentágono vivo, expressando o 5.º Sistema Geográfico”. Portanto, os Yokanans são um Saque contra o Futuro, enquanto os Adeptos são um Saque ao Passado, todos se reunindo no Presente a favor da Evolução geral.

Pois bem, desde 14 de Abril de 1957 – “Dia do Equilíbrio, Renascimento de Akbel” –, com maior intensidade desde 25 de Fevereiro de 1963 – “Novo Pramantha começa a Luzir” – e desde 23 de Março de 1963 – “Triunfo do Trono de Deus” – que os Sete Poderes ou Arcontes Humanos chamados Dhyanis-Budhas estão no escrínio subterrâneo do Roncador, dirigidos por Akdorge, donde irradiam sobre todos os Postos do Mundo alavancando avante a Evolução geral, acção essa corporificada pela Ordem dos Tributários (de Melkitsedek, o Rei do Mundo, o mesmo Akdorge) fundada por JHS na 6.ª feira de 23 de Outubro de 1954, destinada a guarnecer a Família Humana e Espiritual JHS e consequentemente a Família Espiritual Maitreya através dos representantes humanos dos Dhyanis-Budhas, dos Chefes das Embocaduras e das próprias Embocaduras, assim tomando forma e sentido imediato os Sistemas Geográficos, os seus Postos e os Deuses regentes dos mesmos. Por esta razão se diz que a Obra de JHS, desde o mais transcendente ao mais imediato, está corporificada sobre a Terra. Donde o designativo Obra do Eterno na Face da Terra, que é o que significa Teurgia, Obra Divina.

Assim se constrói a Nova Civilização, a Raça Dourada, Cristina, Crística ou de Maitreya, e com este o seu Reinado de 10.000 anos correspondendo ao desfechar do actual Ciclo Ariano.

Até lá, desde o escrínio profundo do Roncador que “Ronca a Dor” do parto do Homem Futuro, Bimânico, assim dando início ao Quinto Sistema de Evolução, o do Império das Almas Salvas que parturejam o Presente com o Futuro no crisol da Evolução, cabe primeiro esgotar o Karma da Raça e integrá-la ao seu Dharma ou Dever supremo, como seja o de tomar consciência de si mesma, ampliando os sentidos a novas e mais amplas modalidades de ser e acção. Nisso se tem a apresentação objectiva da Lei da Polaridade, no caso primeiro como erro para do mesmo sair o certo. Vê-se agora a pandemia sanitária que aflige o mundo contribuir para isso, levando o Género Humano, em pleno pandemónio de paranóia geral, a afastar-se do Passado e a acercar-se de um ainda incógnito mas pressentido estado psicossocial absolutamente diferente do que houve até hoje. Neste ruir de um ciclo apodrecido e gasto, de que não ficará pedra sobre pedra em coisa alguma do passado, cada vez mais se “cerrando as portas da morada do Mal”, aí se tem a Recta-Acção do “Ceifador de Vidas”, Akdorge, a favor da manifestação futura do seu Augusto Irmão o “Salvador das Almas”, Akgorge, dando voz e consumação às palavras proferidas pelo Rei do Mundo em Narabanchi-Kure (“tombarão os tiranos, cairão as nações, errarão os povos, antes do advento da Nova Raça Encoberta”, etc.) no século XIX, a caminho não de uma nova República ou de uma nova Monarquia mas de um Estado Geral de Concórdia Colectiva, como seja a Sinarquia. Nisto valem as palavras proféticas do Professor Henrique José de Souza, mais preciosas e válido do que nunca na Hora actual do Mundo:

“Reconstruir! É o brado que nos compete.

“Sim, reconstruir o Homem, o pensamento, a moral, os costumes; reconstruir o lar, a escola, o carácter, para que o cérebro se transmude ao lado do coração. Só assim a Humanidade se tornará digna do estado de consciência que é exigido pela Nova Civilização.”

Para essa derradeira consecução tem-se a actuação encoberta mas vive e sensível dos Excelsos Dhyanis-Budhas na sua função coordenadora agindo nos Postos Representativos Internacionais irradiando sobre os correspondentes Postos Nacionais dispostos em estado receptivo, em cujo crisol amalgamam as forças sinergéticas imprimindo-as psicomentalmente na Humanidade, deste modo paulatinamente se adaptando e organizando ao novo biorritmo que já vibra no Mundo, e por ser novo gera as naturais tensões e ânsias próprias da adaptação mental e psicofísica à intensidade de estado vibrátil na consciência e vida nunca antes sonhado pelo Homem. Trata-se da aproximação colectiva à condição do Quinto Sistema. Portanto, tudo está conforme a Lei que a tudo e a todos rege.

A Augusta Ordem do Santo Graal é quem representa e corporiza na Face da Terra os valores dos Postos do Interior da Terra, numa orgânica tríplice afim à dos mesmos intercambiando as suas energias, adaptando-as ao estado humano positivamente alcançado pelas mesmas.

Conforme o Venerável Mestre JHS quis e dispôs, como Supremo Dirigente da Missão dos Sete Raios de Luz e o Único Revelador do Ciclo, cada Cidade de Agharta possui três Templos, um de natureza Assura (Andrógina), outro de natureza Agnisvatta (Masculina) e outro de natureza Barishad (Feminina), no todo 7 Cidades x 3 Templos em cada uma = 21 Templos, mais o 22.º que é a Capital Shamballah, perfazendo os valores tanto do conjunto dos 22 Arcanos Maiores do Tarot como o da própria Maçonaria dos Traichus-Marutas, a Construtiva dos Três Mundos – Celeste (Agharta) – Humano (Duat) – Terrestre (Badagas – Face da Terra).

Tem-se assim:

1.ª Cidade Aghartina: Jambu, “País de Inverno”.
Veste do Eterno: Ag-Zin-Muni (“Essência Mineral”).
Imperador: Bhur-Tan.
Reis: Astério e Azamore.
Arcanos 1, 2, 3 (“O Unilateral”, “A Expansão”, “A Realização”).
 País afim: Peru.
 Planeta: Sol (Leão).

2.ª Cidade Aghartina: Plaska, “País das Águas”.
Veste do Eterno: Mag-Zin-Muni (“Essência Vegetal”).
Imperador: Avar-Tan.
Reis: Azaloth e Azoleth.
Arcanos: 4, 5, 6 (“O Reflexo”, “A Inteligência”, “A Beleza”).
País afim: México.
Planeta: Lua (Caranguejo).

3.ª Cidade Aghartina: Shalmali, “País dos Tempos Incertos”.
Veste do Eterno: Tur-Zin-Muni (“Essência Animal”)
 Imperador: Swar-Tan.
Reis: Ariaster e Azilum.
Arcanos: 7, 8, 9 (“O Vencedor”, “A Lei”, “A Superação”).
País afim: Estados Unidos da América.
Planeta: Marte (Carneiro e Escorpião).

4.ª Cidade Aghartina: Kusha, “País do Outono”.
Veste do Eterno: Aki-Muni (“Essência Alada”).
Imperador: Kho-Tan.
Reis: Arténius e Arténis.
Arcanos: 10, 11, 12 (“A Necessidade”, “A Coragem”, “O Sacrifício”).
País afim: Austrália.
Planeta: Mercúrio (Gémeos e Virgem).

5.ª Cidade Aghartina: Kraunka, “País de Verão”.
Veste do Eterno: Astar-Muni (“Essência Flogística”).
Imperador: Jina-Khotan.
Reis: Aziluth e Azimar.
Arcanos: 13, 14, 15 (“A Grande Mãe”, “O Equilíbrio”, “A Grande Luz”).
País afim: Portugal.
Planeta: Júpiter (Peixes e Sagitário).

6.ª Cidade Aghartina: Shaka, “País dos Destemidos”.
Veste do Eterno: Ara-Muni (“Essência Andrógina”).
Imperador: Rigden-Khotan.
Reis: Ariomester e Ariania.
Arcanos: 16, 17, 18 (“A Rebeldia Celeste”, “A Imortalidade”, “O Caos”).
País afim: Egipto.
Planeta: Vénus (Touro e Balança).

7.ª Cidade Aghartina: Pushkara, “País da Eterna Primavera”.
Veste do Eterno: Rabi-Muni (“Essência Humana”).
Imperador: Rigden-Djyepo.
Reis: Artésius e Artémis.
Arcanos: 19, 20, 21 (“A Realeza”, “O Julgamento”, “A Libertação”).
País afim: Índia.
Planeta: Saturno (Capricórnio e Aquário).

8.ª Cidade Aghartina: Shamballah, “Mansão do Amanhecer”.
Veste do Eterno: Ishvara-Muni (“Essência Eterna”).
Imperador: Baal-Bey.
Reis: Asgartock e Baal-Mirah.
Arcano: 22 (“A Vitória”).
País afim: Brasil.
Planeta: Sol Central (Surya-Suryaj).

No Mundo de Badagas em consonância com o de Duat, cada Cidade possui um Coordenador (Coluna Central), um Sacerdote (Coluna J) e um Governador (Coluna B), além dos demais integrantes da Hierarquia dirigente.

Pois bem, essa expressão triológica está perfeitamente expressada na Ordem do Santo Graal, dispondo o Sistema Geográfico regido pelo Regimento Interno da Coordenação Geral do Sistema Geográfico Sul-Mineiro, estabelecido pelo próprio Professor Henrique José de Souza. Assim, em São Lourenço há o representante do Grão-Mestre da Ordem, incubido na função de coordenar e nortear os membros da Institituição e Obra que desenvolvem trabalhos nas sete cidades em volta dessa oitava central. É chamado de Coordenador Geral, ladeado por um Grão-Sacerdote e um Grão-Governador, tendo como assessor em cada cidade um Coordenador Regional, este, por sua vez, sendo auxiliado por um Sacerdote e um Governador, os quais encabeçam a respectiva equipa directiva.

Ao Coordenador Regional, como Director, compete: presidir às solenidades ritualísticas (abri-las e fechá-las), desincumbir da actividade administrativa do Departamento, da Loja ou do Capítulo, ficando de fora a Representação por sua infimidade humana; cumprir e fazer cumprir as directrizes emanadas da Coordenação Geral; prestar assistência, coordenar e orientar as equipas de trabalho. No sector esotérico é auxiliado pelas Colunas J e B; quando solicitado, apresenta o relatório das suas actividades.

Ao Sacerdote compete: dirigir os rituais; realizar conferências em guisa de conscientização do trabalho ritualístico, ou então dando algum tema relacionado com a Obra; seguir o programa de ensino da Instituição como Instrutor e adjunto de Instrutores; cumprir as orientações do Grão-Sacerdote, do Governador e do Coordenador Gerais.

Ao Governador compete: no sector interno, zelar pela manutenção da disciplina e da ordem. Aplica a Política Sinárquica como organização baseada na Ética Iniciática, da qual saíram os Estatutos da Instituição e os Regulamentos para as Ordens constituintes da Ordem do Santo Graal, inclusive o próprio Regulamento do Sistema Geográfico. Esotericamente falando, o trabalho desta Coluna B é “maçónico”, secreto, assumindo posição correspondente à de um Vigilante Silencioso. Por exemplo, ele dá cobertura ao trabalho da Obra, tanto dentro da Instituição como fora dela, e justamente por isso o Governador deve estar alerta e esclarecido a respeito da Filosofia de JHS e da sua aplicação, para não haver distorções, mal-entendidos, abusos ou falhas de comunicação que venham a desviar das directrizes traçadas pelo Venerável Mestre. Desta maneira entende-se por que se chamava “Desmancha Confusão” à Coluna TAG (B) de JHS, o Comandante Tancredo de Alcântara Gomes, sempre “advertindo sem melindrar”. No sector externo, incumbe-se das actividades sociais estabelecendo contacto com as autoridades locais e ouvindo povo em geral. Por isso, JHS advertia sempre: “Quando chegardes a uma cidade do Sistema Geográfico, fazei por entender-vos de imediato com o prefeito (temporal) e o pároco (espiritual)”. Mas nem sempre o conselho foi seguido.

No tocante à Ritualística do Quinto Posto Representativo de Sintra (Sishita), a Trindade externa acessorando o Altar vem a estar em consonância com a Trindade interna acessorando a Embocadura (Laisin), na mais harmónica e recíproca reverberação trespassando as paredes quer do Templo, quer do granito da Serra Sagrada, justificando assim o sentido primaz de “Três Luzes” tão bem expressas no Shime (candelabro de três tramos ardentes) e na letra-mãe hebraica Shin, expressiva do Filho, do Senhor dos Três Mundos, Kyrios Pantokrator.

É assim que no Ritual dos Bandeiras anual com a duração oito dias (um para cada Embocadura) o Bandeireiro masculino carrega à dianteira a Bandeira Nacional do Posto Representativo do dia, ladeado pela Bandeireira com a Bandeira Regional do Sub-Posto afim ao mesmo, reunindo-se no oitavo dia todas as Bandeiras Nacionais e Regionais centralizadas pela do Brasil – Coração do Mundo, Vibhutî – e da Obra – Cabeça do Mundo, Manava –, nisto também se vendo assinalada a presença matematicamente perfeita dos Sistemas e Sub-Sistemas conforme o estabelecido pelo Venerável Mestre JHS, não deixando nada de fora do seu compósito o mais belo e perfeito dando corpo ao Mundo dos Deuses em pleno mundo dos homens imperfeitos. É a Solução do Futuro em Recta-Acção. Não foi por acaso que Ele pronunciou às portas da morte no Hospital São Lucas na cidade de São Paulo, em 1963: “Fiz numa vida o trabalho de uma Ronda inteira”.

Aqui chegado, é o momento de dar uma pequena súmula da criação dos Mundos Subterrâneos pouco antes da queda da Raça Atlante do desaparecimento do seu vasto continente que abrangia praticamente todo o Globo. Antes da catástrofe o Deus Baal-Bey – hoje Rei da Agharta – ordenou aos “Ferreiros da Terra”, ou seja, aos Preclaros Membros da Linha Serapis a construção dos Mundos Interiores para ocultar e resguardar a Divindade e seus Tesouros das ímpias mãos do Homem comum. A partir daí, foram sendo colocados vários véus – sete, de acordo com as sete Ciências Humanas – que encobriram a Verdade pura, fundaram-se os Mistérios. Tiveram então origem as Revelações e os véus ilusórios da Iniciação outorgada aos homens mental, psíquica (moral) e fisicamente preparados pelos Seres da Excelsa Fraternidade Branca, entretanto recolhida ao seio da Mãe-Terra.

Assim, da Atlântida interiorizada, constituindo o que se denomina de Mundos Interiores, provém o poderoso influxo para a Evolução na Face da Terra, onde tudo e todos aos poucos transformam a Vida-Energia (Jiva) em Vida-Consciência (Jivatmã). Esta é a meta suprema da Iniciação verdadeira.

Tem-se:

Badagas, Físico-Etérico, o Mundo da Recapitulação das vidas na Face da Terra para novamente reencarnarem nela os que ali vão. Nesse Mundo estão sediadas as sete grandes Fraternidades Iniciáticas dirigidas por verdadeiros Super-Homens, portanto, constituídas do escol do melhor que a Humanidade possui.

Duat, Etérico-Astral, o Mundo dos Deuses activos e de todo o Conhecimento Humano existente, arquivado em imponentes bibliotecas, constituído por sete enormes galerias subterrâneas partindo de uma oitava central possuída do nome Caijah. Este Mundo é móvel, acompanha a Evolução da Mónada Humana sobre a Terra, e cada uma das suas galerias ou secções ou cidades possui um Templo onde está instalado um dos sete Dhyanis-Budhas, tendo por Colunas Vivas um Governador e um Sacerdote. O Caijah firma-se sob onde a Mónada Humana deve alcançar o máximo da sua evolução peregrina pelo Itinerário dela mesma, IO. Hoje, está em alinhamento directo com São Lourenço nas Lavras de Minas Gerais.

Agharta, Astro-Mental, é o Mundo onde estão as Sementes Monádicas das Civilizações passadas, presentes e futuras. Constituído por sete Cidades com um Templo central e dois laterais, nos mesmos encontra-se a forma espectral – Estátua Viva que Fala – de Baal-Bey neles projectados desde Shamballah, ladeada por um Agnisvatta e um Barishad. Este Mundo é fixo e não móvel como o de Duat – Sistema Planetário em movimento no seio da Terra – e nele há a Luz eterna.

Shamballah, Mental-Espiritual, é o Mundo dos Deuses passivos ou adormecidos, é o Sol Interno da Terra que por sua imensa luz parece Treva eterna. Liga-se a Agharta pela sua sétima extensão, em guisa de portal, que é sétima Cidade de Pushkara. Aqui está o Rei do Mundo, hoje Akdorge (Asgartock), Filho de Baal-Bey e Baal-Mirah, os Reis de Agharta. Aqui está o Anjo Maliak dirigindo 608.000 Devas ou Anjos que animarão as crianças do futuro 5.º Sistema. Aqui se encontram os Manasaputras, Vasos de Eleição, os mesmos criados com o concurso das duas primeiras Raças Humanas e a Essência Espiritual dos Kumaras, na terceira Raça, através da Esfinge que era o Animal “mitológico” de que Akbel se serviu para se manifestar na Terra, cedendo-o depois ao seu Irmão Arabel mas logo se petrificando, quando tomou as formas humanas de Baal-Bey – Baal-Mirah, nos evos esquecidos da Evolução Humana.

Finalmente, como desfecho, evoco agora as palavras apoteóticas de JHS proferidas na Fazenda Arabutan, Nova Xavantina, Mato Grosso, em 24 de Junho de 1959, como Saudação a todos os Deuses que desse Lugar privilegiado dirigem a Evolução do Mundo:

– Chamas de Fogo que se erguem desta Fogueira, chamas sagradas que aos Céus se elevam, reverberando pictoricamente a cerúlea abóbada do firmamento, confundindo-se com o Manto Azul da Mãe Divina, tonalizando no etéreo Manto Azul em esplendoroso Arco-Íris as silhuetas dos Sete Luzeiros.

Chamas de Fogo que aos Céus atriradas foram, uma, três, hoje sete vezes ao Deus Único e Verdadeiro, respondendo pela glorificação e privilégios dados aos gloriosos Filhos da Obra.

Chamas de Fogo em forma de ígneas e sonoras Palavras, ao Espaço infindo foram atiradas pelo Budha Terreno, atingindo as raias do infinito, a celestial Fronte do Eterno, rogando-Lhe para que a Terra em Deus Vivo se torne.

Glorificadas sejam as chamas sagradas que se elevam deste majestoso madeiro, em guisa das Sete Trombetas dos Reis de Édon, atingindo todo o Orbe Terráqueo.

BIJAM

Carvalho Monteiro e o Jardim do Éden – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Out 5 2020 

A GÉNESE DO ZOO OLISIPONENSE

O Jardim Zoológico de Lisboa está entre os três melhores do mundo e é o único onde animais em cativeiro, inclusive as espécies mais difíceis e raras, reproduzem-se regularmente; é igualmente o mais belo e melhor composto de toda a Europa por sua graciosidade herdada da mentalidade naturalista e neopagã decorrente do Romantismo do século XIX, nisto é único no mundo[1].

Bonito, bem cuidado e administrado, com vasta equipa de manutenção que mostra gostar do que faz, ninguém dará por perdido o tempo na visita demorada a este jardim edénico, parque zoológico que veio a ser o principal até tornar-se o único pelo desaparecimento gradual dos outros parques que haviam dispersos por Lisboa e arredores e que para ele contribuíram com o que possuíam. O rei D. Fernando II, por exemplo, contribuiu com os espécimes animais e vegetais precariamente instalados no jardim do seu Palácio das Necessidades, em Lisboa[2]; a família Carvalho Monteiro legou dispositivos económicos e vasta colecção de espécimes vegetais do mundo inteiro, sobretudo do Brasil; outros personagens distintos também contribuíram, como os condes de Palhavã, o conde de Farrobo, etc.

Com efeito, foi por patrocínio de D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha que a ideia da constituição do Jardim Zoológico avançou, primeiro por iniciativa do médico holandês Peter van der Laan, que vindo em 1869 para Portugal em busca de um clima melhor para os seus pulmões doentes, dedicou-se a formar uma colecção de aves, reunindo espécies preciosas, no que recebeu o apoio do barão de Kessler; logo foi seguido de José Tomas de Sousa Martins, o famoso médico português, e do dr. Bento de Sousa.

O jardim foi instalado primeiro no Parque de São Sebastião da Pedreira (cedido gratuitamente por cinco anos), próximo de onde está hoje a Fundação Calouste Gulbenkian, e aí, em 1883, o secretário particular de D. Fernando II, o barão Frederico Kessler, formado em engenharia, dirigiu as obras necessárias à ampliação do parque zoológico. No ano seguinte, em 28 de Maio de 1884, ele foi inaugurado como um acontecimento de grande relevo nacional. O próprio Francisco de Almeida Grandella, coevo dos primeiros tempos do Zoo de Lisboa, diz ter sido aí que ele nasceu[3]:

“Quando começaram os Makavenkos, há já os seus trinta e tantos anos, iniciaram-se as reuniões em Santa Isabel, no palacete do conde das Antas, no quintal em que se achavam instalados vários animais, denominado Parque Zoológico. Ali tinha tido origem o actual Jardim Zoológico por nele ter instalado o sábio Dr. Vanderland muitos animais que foram mais tarde o começo do jardim de S. Sebastião da Pedreira.”

Segundo Jorge M. Rodrigues Ferreira[4], a família real, cujo dedicado concurso para a fundação do Zoo fora assim precioso, compareceu em peso à cerimónia de inauguração. Entre os sócios-fundadores contavam-se os reis D. Luís e D. Fernando, este que foi o seu primeiro presidente de honra. Estiveram presentes também o príncipe D. Carlos e o infante D. Augusto. Quase todo o Governo, presidido então por Fontes Pereira de Melo, acompanhou os régios visitantes. O ministro da Marinha e do Ultramar, no momento da fundação, era o sábio naturalista José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907), que fazia parte da comissão iniciadora. No Ministério das Obras Públicas estava então António Augusto de Aguiar, também sócio-fundador do Jardim Zoológico.

A imponente cerimónia foi largamente publicitada na imprensa, informando o Diário de Notícias de 29 de Maio de 1884, ou seja, no dia a seguir ao da abertura solene do Jardim:

“Foi, com efeito, ontem, a inauguração deste Jardim, com uma concorrência tão extraordinária, que excedeu o que razoavelmente se poderia esperar num dia de semana (…) vai-se animando Lisboa; vai entrando com a sua actividade e com o seu entusiasmo na participação das cousas úteis e proveitosas, e mostrando que não lhe são indiferentes os esforços empregados, as dificuldades vencidas, para realizar certos melhoramentos, que são preenchimento de lacunas numa cidade de primeira ordem de uma nação culta.”

Escritura de 15 de Maio de 1884 do Jardim Zoológico e de Aclimação em Portugal

Em 1892, por morte dos proprietários do Parque de São Sebastião da Pedreira (onde se dava início à Estrada Real para Sintra), os seus herdeiros informaram a Direcção de que “findo o prazo da escritura da concessão não renovaria esta e tomaria posse imediata do Parque”. Sucedia o que não tinha deixado de se prever.

Assim, em 1894 fez-se a mudança, um pouco atribulada, do Jardim para uns terrenos escalvados em Palhavã (onde hoje passa a Avenida de Berna), delineados e arborizados à pressa. A nova instalação numa charneca era o oposto do aprazível parque que acolhera o Jardim nos primeiros dez anos de vida.

O ano de 1904 marcou a viragem decisiva na história do Jardim. Ficou resolvida a sua mudança para as Laranjeiras, ou seja, desta vez um lugar privilegiado para o seu poiso definitivo. Tratava-se, pois, de um desfecho feliz no problema da localização do parque.

Como disse, D. Fernando II de Saxe-Coburgo Gotha foi presidente de honra do Zoo de 1884 a 1885, ano da sua morte nesta cidade de Lisboa, o mesmo período em que o comendador Francisco Augusto Mendes Monteiro foi presidente da Assembleia Geral de 1886 a 1890, ano do seu falecimento, tendo o seu filho, dr. António Augusto Carvalho Monteiro, ocupado esse cargo de 1891 a 1916. Os retratos de ambos figuram no Salão Nobre do Jardim Zoológico de Lisboa.

A família Carvalho Monteiro possuía herdade junto à Cruz da Pedra (que melhor ficaria de Pedra), em São Domingos de Benfica: a Quinta do Vadre, de pórtico acastelado rodeada por um muro com ameias, motivo porque também era conhecida por Quinta da Torre. O padre Álvaro Proença escreveu sobre ela[5]:

“QUNTA DO VADRE. Já em pleno lugar da Cruz da Pedra, onde depois se ergueria uma sumptuosa casa apalaçada com capela privativa, existia em princípios do século XVIII uma quinta em cuja residência habitava Vicente Rebelo do Vadre que nela vivia com sua mãe D. Maria do Vadre, uma sua irmã, D. Mariana do Vadre, mais uma criada e dois pretos escravos.

“Em meados do mesmo século, habitava-a António Rebelo do Vadre que nela vivia com Francisco Xavier do Vadre e mais oito criados. A casa cada vez mais deve ir crescendo em riqueza e bem-estar, pois, em 1763, ali vivia José António Vieira do Vadre com nove criados. Três anos depois aparece-nos casado com D. Ana Joaquina de Almeida Castelo Branco e então já familiares e criados atingem o numero de quinze pessoas, mais um escudeiro, um boleeiro, uma ama de casa e um escravo menor. Este pessoal denota não só avantajados meios de fortuna mas também uma vida faustosa. Talvez por isso mesmo hajam trocado os ares de Benfica pelos da cidade, pois a partir de 1770 só encontramos na quinta um caseiro estrangeiro, de apelido Grondona.

“Em meados do século XIX aparece-nos em mãos do doutor Carvalho Monteiro, com um pórtico acastelado e rodeada com um muro cheio de ameias, tudo de gosto muito duvidoso, tresandando a pretensões. A casa de habitação é que continuava a ser linda, o jardim, o lago, ao gosto da época, não deixavam mal colocados os proprietários que podiam regalar-se com os ricos e apetitosos frutos do pomar e da horta.”

Na foto abaixo do desaparecido apeadeiro ferroviário da Cruz da Pedra, o círculo assinala o espaço onde estava a Quinta da Torre de Francisco Mendes Monteiro, pai de António Augusto Carvalho Monteiro (senhor da Quinta da Regaleira de Sintra), muralhada com ameias, jardim com lago e uma torre também ameada que se subia por uma escada de ferro espiralada interior, como ainda vi e subi em pessoa, com risco de queda devido ao seu adiantado estado de degradação, antes de desaparecer tudo.

Não muito distante da propriedade dos Carvalho Monteiro, encontrava-se no vale das Laranjeiras a quinta dos condes de Farrobo, cujo palácio fora esquissado pelo Padre Bartolomeu Quintela, da Congregação do Oratório. Antiga coutada de caça do 1.º barão de Quintela, Joaquim Pedro Quintela (Lisboa, 28.8.1748 – Lisboa, 1.10.1817), veio o 2.º barão de Quintela e 1.º conde de Farrobo, com o mesmo nome do seu pai, a introduzir-lhe inúmeros melhoramentos. Mandou pintar os tectos do palácio a António Manuel da Fonseca e construir, em 1820, o Teatro Tália, com capacidade para 560 espectadores, tendo-o mandado restaurar em 1842, sob risco de Fortunato Lodi, e na mesma ocasião o iluminado a gás, o que constituiu uma novidade extraordinária na época. A essa situação não foi alheio o facto de o conde de Farrobo estar ligado à indústria dos gasómetros. Interiormente, o teatro possuía luxuosos camarins e um opulento salão de baile com as paredes revestidas com valiosos espelhos de Veneza, nos quais se reflectiam as luzes de numerosos e ricos lustres, produzindo efeitos deslumbrantes.

No Teatro Tália estreou-se Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, e subiram à cena 18 óperas entre 1834 e 1853. O rei D. Fernando II e a rainha D. Maria II eram frequentadores assíduos deste espaço cultural-recreativo. Por morte da monarca, de quem o conde de Farrobo era grande amigo, a vida social e artística no palácio e no teatro foram interrompidas. Em 1856, retomaram-se as actividades teatrais com ópera italiana e comédias em português e francês. Mas em 9 de Setembro de 1862 um incêndio casual, motivado por descuido de uns operários, consumiu totalmente este templo de arte, cuja reconstrução não se fez por a fortuna do conde de Farrobo começar a dissipar-se. E assim ficou até às obras iniciadas em Maio de 2010.

Esse não era um teatro qualquer, transparecia um forte simbolismo esotérico que Joaquim Pedro Quintela (1801-1869) lhe imprimiu graças à influência maçónica em cuja Ordem era iniciado de alto grau. A fachada exterior do edifício, a que se acede por quatro degraus, é sustentada por quatro colunas toscanas que têm adiante outras tantas esfinges egípcias, com rostos e bustos de mulheres e corpos de leões, deitadas sobre as patas. Estas simbolizam o Teatro da Iniciação, em estado passivo ou receptivo de quem entra nele, marcando o compasso quaternário da Terra onde cada um é actor da sua evolução. No topo do frontão triangular está a estátua de Érato, a Musa da Poesia Lírica, segurando a lira na mão esquerda, apoiada na coxa do mesmo lado, e sob o tímpano corria a todo o comprimento a frase latina: Hic mores hominum castigantur (“Aqui serão castigados os costumes dos homens”), isto é, expostos a público os vícios humanos através da arte cénica.

O palácio dos condes de Farrobo, incluindo os jardins, o teatro e o chafariz fronteiro, foi declarado Imóvel de Interesse Público por Decreto n.º 735/74, de 21 de Dezembro. Também conhecida por Quinta das Laranjeiras (de que ainda subjaz o edifício do século XVIII com curto espaço ajardinado, quando originalmente expandia-se por todo este vale das Laranjeiras indo praticamente até São Domingos, antes do terreno ser retalhado e comprado em parcelas, uma delas a do conde de Farrobo), era um espaço cuidado de grande beleza cénica: possuía labirintos, lagos, estufas, jaulas para animais ferozes e aves raras, inúmeras estátuas, etc. Cerca de 1873, a propriedade entrou na posse do conde Henrique de Burnay (1837-1909), também ele um dos fundadores do Zoo de S. Sebastião da Pedreira, tendo exercido cargo directivo de 1884 a 1885, substituído nessa função por Francisco Augusto Mendes Monteiro. A ambos se juntaria António Augusto Carvalho Monteiro, e das conversações e acordos estabelecidos entre as partes, sobretudo graças aos esforços desse último, o Jardim Zoológico pôde finalmente transferir-se, em 1904, de Palhavã para as Laranjeiras.

Jardim Zoológico de Aclimação na Palhavã, 1884

Com efeito, a inauguração do Jardim Zoológico de Aclimação fez-se em 28 de Maio de 1905 na parte mais grandiosa da Quinta das Laranjeiras – velho e lendário domínio do conde de Farrobo, protector das Artes e Letras – ocupando ainda a Quinta das Águas Boas e a Quinta de Barbacena[6].

A lápide comemorativa do acto, postada junto à entrada principal no jardim pela Estrada de Benfica e que desagua na traseira ajardinada do Palácio Farrobo, dá testemunho dos principais interventores na fundação do Jardim Zoológico de Lisboa:

A 1.ª DIRECÇÃO DO JARDIM
(INAUGURADO EM 28 DE MAIO DE 1884)
EL-REI D. FERNANDO
PRESIDENTE DE HONRA
VISCONDE DE S. JANUÁRIO
PRESIDENTE
DR. ANTÓNIO AUGUSTO CARVALHO MONTEIRO,
BARÃO DE ALMEIDA SANTOS, BARÃO DE KESSLER, DR.
CARLOS MAY FIGUEIRA, CONDE DE FICALHO, DR.
EDUARDO BURNAY, EDUARDO COELHO, FRANCISCO
 ISIDORO VIANA, FRANCISCO REBELO DE ANDRADE,
DR. JOSÉ TOMÁS DE SOUSA MARTINS, ENGº MIGUEL
CARLOS CORREIA PAIS, DR. FERNANDO MATOSO SANTOS,
DR. PEDRO ADRIANO VAN-DER-LAAN, DR. VICENTE
RODRIGUES MONTEIRO.

António Augusto Carvalho Monteiro teve o mérito incontestável de concluir o projecto sonhado pelo rei D. Fernando II: a recriação do Paraíso bíblico na forma singular de um Jardim Zoológico.

Mas a sua instalação no luxuriante Parque das Laranjeiras não se fez, porém, sem sobressaltos. Os herdeiros do conde de Burnay, que havia cedido explicitamente o terreno para esse fim, insistiam em cumprir judicialmente um mandato de despejo. O assunto só ficaria resolvido de vez em 2 de Julho de 1920 com a publicação da Lei n.º 988, aprovada pelo Parlamento que autorizava o Jardim “a expropriar por utilidade pública e urgente a Quinta das Águas Boas e a parte da Quinta das Laranjeiras que tomou do arrendamento ao conde de Burnay”. Essa Lei ia ao encontro da estrutura administrativa e da finalidade do Jardim Zoológico, por ela ser uma sociedade anónima de responsabilidade limitada, constituída por escritura de 5 de Setembro de 1883, e considerada instituição de Utilidade Pública por Decreto-Lei de 12 de Março de 1913 à qual foi, posteriormente, em 1952, atribuída a Medalha de Ouro da cidade de Lisboa[7].

A maior parte das actuais instalações do Zoo deve-se ao traço e imaginação do arquitecto Raul Lino, cuja obra, iniciada em 1912 e prosseguida no decurso dos anos seguintes, não lhe feriram o equilíbrio nem lhe desvirtuaram a estrutura.

De então para cá, com mais ou menos sobressaltos, o Jardim Zoológico de Aclimação evoluiu de tal maneira bem, fruto da dedicação extremada que até custa a acreditar, comove mesmo, que ficou como exemplo a seguir por outros e muitos imóveis históricos de interesse público, grande parte deles inscritos no roteiro turístico e cultural tanto de Lisboa como de todo o país, cuja fama alastra-se aos cinco continentes.

SETE RIOS DESEMBOCAM NO PARAÍSO

Com a instalação do Jardim Zoológico em Sete Rios, dentro do Parque das Laranjeiras, António Augusto Carvalho Monteiro e os seus pares conseguiram recriar decisivamente, num ambiente propício, o mito do Paraíso edénico, certamente inspirados nas Escrituras Sagradas, principalmente no Livro Velho ou Antigo Testamento, e nos clássicos greco-latinos.

Juntaram os elementos simbológicos, arquitectónicos e até toponímicos num mesmo lugar idílico de que resultou, seguindo uma intenção transcendente que passa desapercebida à maioria, neste belíssimo parque zoológico, dos mais aptos do mundo, a sua conversão em pousada obrigatória do lazer comum.

A afirmação de querer-se recriar aqui o Paraíso bíblico, a mesma “Floresta Encantada” da fada Melusina, como conta a lenda medieval, não a dou insubstanciada, posto a prova estar à vista de todos, nas inscrições latinas das duas lápides encrustadas nos torreões da entrada principal no jardim.

Numa está escrito:

PRIMA CERES FERRO MORTALES VERTERE TERRAM
INSTITUIT, CUM JAM GLANDES ATQUE ARBUTA SACRAE
DEFICERENT SILVAE, ET VICTUM DODONA NAGARET.

O que em tradução livre dá o seguinte:

“Primeiro Ceres com golpes mortais ordenou e plantou a Terra,
mas se esqueceu do carvalho, a árvore sagrada, faltando
na floresta, e logo Dodona negaria a sua superioridade.”

Noutra se escreve:

ERGO RITE SUUM BACCHO DICEMUS HONOREM
CARMINIBUS PATRIIS, LANCESQUE, ET LIBA FEREMUS,
ET DUCTUS CORNU STABIT SACER HIRCUS AD ARAM.

O que em tradução livre dá o seguinte:

“Ao rito de Baco honramos solenemente nestes versos pátrios,
humildemente, e libações faremos, e guiados pela trombeta
decididos sacrificaremos um bode na ara.”

Baco apresenta-se num recanto discreto do jardim sobre uma piscina, tendo dos lados silhares de azulejos com alegorias alquímicas e por cima as Armas de Portugal. Ora, na mitologia grega, Baco ou Dionísio (a quem nos finais de Novembro, após uma procissão solene, sacrificava-se um bode) é pai de Luso, que por sua vez é o pai da Raça mais a Ocidente da Europa, a dos Lusos, assim se podendo dar ao conjunto o sentido de Jardim do Éden Lusitano.

O nome Dodona, na outra lápide, assinala essa cidade da Caónia onde havia um oráculo de Júpiter, planeta afim ao carvalho, que como deus principal do seu panteão naturalmente recusaram a superioridade de Ceres. Ora essas divindades mitológicas acabam representando a civilização grega, mãe cultural da Europa, cujo substractum na figura de Luso um outro carvalho humano, Carvalho Monteiro, disporia metaforicamente na velha Ulisipa (Lisboa), promovendo a fundação do Jardim do Paraíso Terreal aqui mesmo, fazendo uso dos seus vastos recursos sociais e económicos. Como a cultura grega cedo originou a latina, nisto também se poderá deduzir estar-se em presença, ainda que de forma encoberta, da ideia da translatio imperii, ou seja, importar a quintessência dos Impérios Grego e Romano para o seio do V Império Lusitano em formação, assim antecipando a fundação paradísica da Nova Idade do Mundo. Com isto acertará bem o sentido do Canto XXVIII (109-114, 118-120, 127-132) da “Viagem ao Paraíso” (Terrestre) por Dante[8]:

Mas as plantas batidas têm tão grandes dons
Que elas impregnam o ar com suas virtudes;
E o ar vibrando as sacode em volta;
E a terra habitada, tanto como é digno
Por si e por seu céu, concebe e proporciona
Diversas virtudes, diversas plantas.

E saberás que a santa campina
Ao teu redor de todo o germe é repleta,
E dá frutos que na terra não colhes.

Deste lado seu fluxo tem o poder
De eliminar dos corações memória do pecado;
Do outro, ele proporciona do bem a plena memória.

Eis aí razão de eu ter dito a Fernando Dacosta, quando me entrevistou em 1993, acerca deste Jardim Zoológico: “A sua matriz teria, assim, sido inspirada no Jardim das Delícias, ou seja, nos Paraísos bíblico, assírio-caldaico e até hindu, onde os quatro Reinos da Natureza, Mineral, Vegetal, Animal e Humano, se religam, se harmonizam. O Mineral está representado pelas águas e granitos da zona, o Vegetal pela variedade de flora, o Animal pelas espécies zoológicas conseguidas, e o Humano pelos visitantes, sobretudo crianças, promessa de futuro, que o procuram em número crescente.”

Ter-se escolhido Sete Rios para decisivamente instalar nele o Jardim Zoológico, é igualmente consentâneo com a prerrogativa de Paraíso ou Paradhesa, em persa. Com efeito, os Rios Sagrados ou Pardas que corriam do Éden desaguavam na Mesopotâmia, e este nome significa precisamente “Entre-Rios”, tal qual era conhecido primitivamente este vale das Laranjeiras, primeiro chamado “Entre ou Sem Rios”, origem do apodo “Sete [ou Sem] Rios”.

Foram vários os autores consultados capazes de explicar a origem hídrica do topónimo Sete Rios, mas tais explicações vieram a revelar-se insuficientes. Deles, destaco as monografias de Gabriel Pereira, São Domingos de Benfica e De São Domingos à Quinta do Correio-Mor, ambas de 1905, e também A. Vieira da Silva, Origens e motivos dos topónimos de Lisboa, 1949. Foi frei Luís de Sousa (sepultado na igreja de São Domingos de Benfica) quem me pareceu mais significativo, consentâneo com uma geografia sagrada, quando na sua História de São Domingos (cerca de 1623-1626) descreve esta zona com as seguintes palavras:

“Fazem o vale dous outeiros deziguais em corpo: hum humilde, que servindo só de lhe encubrir a vista da estrada que dissemos, não lh´a a de muitos que ao longe fazem dilatado Orizonte. O outro levanta muito, estendendo-se pola parte d´onde o sol se poem de Inverno, e vai rodeando contra o Sul, de maneira que ameaça querer fechar o vale, e hir serrar com o monte contrario: tolhe a determinação um Rio, que atravessa o vale, faz garganta por entre ambos pera inviar seu tributo ao mar.”

O rio era fraco no Verão e caudaloso no Inverno, desembocando nele sete ribeiros mais fracos ou regos – donde a origem toponímica do Bairro do Rego – descendo as encostas dos ditos outeiros, e nisto estará a origem do nome Sete Rios, que antes era Entre Rios, ou seja, entre os dois braços ou regos do rio. Portanto, a sua origem hídrica deste filólogo assentará nas águas do Monte Santo (Mons Sacer, em latim, donde Monsanto) aproveitadas pela freiria próxima do convento dominicano, cuja igreja de Nossa Senhora do Rosário de Benfica era muito concorrida pelo povo local, dizendo ainda frei Luís de Sousa:

“A huma piquena legoa da cidade, pola estrada que corre pera Cintra, pouco desviado d`ella pera a parte do Poente, fica como escondido, e furtado a communicação da gente hum pequeno vale, que sendo naturalmente aprazível, por frescura de fontes e arvoredo, mereceo, ao que se pode crer, o nome que tem de Benfica. (…) Na ladeira do monte maior, está situado o Convento, e d´ella se estende com sua cerca até hir beber no Rio.”

Foi grande a devoção popular a São Domingos, padroeiro da freguesia, cuja protecção sobrenatural andava ligada à presença das águas, como descreve o Annuario do Archivo Pittoresco (volume III, n.º 21, 1860, Lisboa): “A devoção e romaria dos domingos de Benfica ou de Maio, ao convento onde se venera S. Domingos, advogado e protector dos que andam sobre as águas do mar, foi das mais populares que houve nos arredores de Lisboa”.

Do rio de Monte Santo corriam quatro regos para o vale das Laranjeiras, dois envolventes e outros dois seguindo na direcção de Campolide e Neudel, pelo que aquele ficou Entre Rios, tal qual no Paraíso Terrestre o Jardim do Éden ou “Lugar das Delícias” era regado por um rio dividido em quatro braços ou regos: Pison, Gion, Tigre e Eufrates[9].

A canalização em aqueduto das águas da ribeira da mata de S. Domingos de Benfica

Com os exemplares animais, vegetais e minerais disponíveis, o rei que mais que artista era um iluminado, D. Fernando II, como idealizador original do mito edénico terá procurado a realização deste buscando a inspiração nos Mistérios Egípcios da Maçonaria do seu tempo na qual era afiliado, posto ter sido Maçom do Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite e mantido relações próximas com o Rito Adonhiramita, no qual um dos seus temas mais caros é o da fundação na Terra do Paraíso original. Parece mesmo que D. Fernando II já pressentia que o destino do Zoo haveria de ser a Quinta das Laranjeiras, sua conhecida dos famosos saraus nos domínios de Farrobo[10]. Ainda sobre a afiliação maçónica do rei, escrevi noutro lugar[11]:

“Quanto a D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha (Baviera, 29.10.1816 – Lisboa, 15.12.1885), de nome completo Ferdinand Augustus Franz Anton, de quem Francisco Augusto Mendes Monteiro, pai de António Augusto Carvalho Monteiro, foi amigo pessoal, tendo o filho mantido relação próxima com D. Carlos I, foi maçom do Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite no Grande Oriente Lusitano Unido, tendo recebido votos para primeiro Grão-Mestre do Supremo Conselho do Grau 33.º no mesmo Grémio, em 3c de Outubro de 1869, eleição que perdeu a favor do 2.º conde de Paraty, D. João Inácio Francisco de Paula de Noronha (31.7.1820 – Lisboa, 22.4.1884), o qual tomou posse a 16 de Dezembro do mesmo ano. Por sua educação (judaico-)cristã, D. Fernando II veio a ligar-se ao Rito Adonhiramita, estabelecendo-se no 12.º Grau de Rosa+Cruz. Daí porque, entre os Iniciados de Sintra, ele ser conhecido como Frater Rosea+Crucis cujo reconhecimento é feito através do sinal e palavra sagrada do 18.º Grau (do R.E.A.E.): mãos cruzadas sobre o peito, pés em esquadria, pronunciando-se Emmanuel.”

Pois bem, só aqui, neste espaço delicioso que também foi um laranjal dos franciscanos vizinhos, poderia conceber-se um jardim zoológico posto sob a evocação do Divino Espírito Santo como criador do Éden original. Este que como o Paraíso latino é a mesma Paradhesa hindu e a Paradaîza caldaica, enfim, o “Jardim das Delícias” como lhe chama a Bíblia, tendo no seu centro o Monte Meru, o Monte Santo do igual onomástico Monsanto, este que aqui tem a sua nascente na Ribeira de São Domingos, isto é, Domingos ou Domini, o Senhor, o Sol que anima a manifestação do Parda ou “Rio Sagrado”.

Por conseguinte e conforme a Cabala judaica[12], o Sol do Espírito Santo é assumido por Binah, prefiguração da Mãe Divina de cujo seio fecundo irrompem as águas da criação dos seres viventes, inicialmente tudo e todos convivendo em amplo entendimento entre si, reinando tão-só o Bem, o Bom e o Belo. A esse estado original de pureza e harmonia quiseram retornar, assim parece, quantos idealizaram e fizeram o Jardim Zoológico de Lisboa.

PARAÍSO FRANCISCANO

Nem Francisco Augusto Mendes Monteiro, nem o seu filho António Augusto Carvalho Monteiro foram alguma vez maçons ou sequer empatizaram com a correnteza jacobina, apesar de terem lidado de perto com a fina-flor da botânica maçónica da época[13], certamente por conveniências sociais relacionadas com a cultura, a economia, a política, etc., em que estiveram envolvidos, e daí a sua proximidade a maçons como, além de D. Fernando II e o conde de Farrobo, o conde de Burnay e o próprio dr. Sousa Martins. Pela obra feita, confirma-se que parte da Maçonaria serviu o propósito da Espiritualidade Portuguesa, mas também se confirma que a Espiritualidade Portuguesa nunca se confinou ao propósito da Maçonaria.

A empatia realenga e católica, particularmente pela catequese franciscana tanto por Mendes Monteiro como por Carvalho Monteiro, também terá pesado nas suas opções pela Quinta das Laranjeiras à qual esteve anexado o Convento de Santo António da Convalescença, hospital de apoio ou recobro dos frades capuchos enfermos das Casas da Ordem em volta da cidade, o qual servia o principal Convento dos Capuchos que ainda hoje é hospital. Neste das Laranjeiras está hoje instalada a Universidade Internacional.

Fundado em 1640, segundo o testemunho de Frei Apolinário da Conceição, só cerca de dez anos mais tarde teriam entrado aí os primeiros religiosos enfermados. Num documento existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, cuja data se situa, segundo Godofredo Ferreira, entre 1720 e 1735, pode ler-se:

“Teve princípio em uma quinta com sua Ermida, situada na freguesia de São Sebastião da Pedreira, junto donde chamam Cruz de Pedra, que o arcediago Duarte Gomes da Mata, movido da muita devoção que tinha aos religiosos desta Província, lhes deu para nela convalescerem os enfermos, depois de curados na enfermaria que têm no seu Convento de Santo António dos Capuchos desta cidade de Lisboa.”

Convento de Santo António da Convalescença, na Estrada de Benfica

Em 1779, poucos anos depois do terrível terramoto de 1755 que alterou profundamente a feição geográfica da zona, o desembargador Luís Rebelo Quintela adquiriu a Quinta de Santo António (então um extenso laranjal cercado de arvoredo e mato rasteiro onde abundavam animais de caça miúda: coelhos, perdizes, etc.) defronte do convento. Diz Godofredo Ferreira[14]:

“O novo proprietário da quinta – depois chamada das Laranjeiras – e do magnífico palácio que ali se construiu sob o risco do irmão do desembargador, o padre oratoriano Bartolomeu Quintela, foi desvelado protector do convento fronteiro, como igualmente o foi seu sobrinho e herdeiro o 1º barão de Quintela, Joaquim Pedro Quintela, e depois o filho deste, do mesmo nome, o faustoso conde de Farrobo.”

O Convento de Santo António da Convalescença foi extinto em 1834.

Já no século XVI existiria aqui um eremitério que possivelmente seria a origem do convento franciscano no século seguinte, facto atestado pela preexistência de um formoso cruzeiro de pedra manuelino que inclusive deu nome ao sítio, Cruz de Pedra, sobre o qual diz ainda Godofredo Ferreira: “Este cruzeiro (…) não poderá considerar-se apêndice do convento, mas, muito pelo contrário, o convento é que foi dele complemento. Ora vejamos. O sítio em que, em 1640, se começou a construir a Casa da Convalescença dos franciscanos tinha já naquele tempo o nome de Cruz de Pedra, que veio até aos nossos dias; e chamava-se assim, por certo, em consequência da existência no local de uma cruz feita de pedra, de devoção popular”.

Após a ruína do Conde de Farrobo, a Quinta das Laranjeiras foi vendida e passou de mão em mão até ser adquirida pelo poderoso argentário conde de Burnay, que a alugou em 1904 para instalação do Jardim Zoológico, o que ficou concluído no ano seguinte. Com a morte da condessa de Burnay, última proprietária da quinta e palácio de que fora expropriada em 1920, o processo da expropriação arrastou-se nos tribunais até 1940, altura em que o Estado adquiriu definitivamente a propriedade liquidando o seu preço com os herdeiros dos condes de Burnay. Quanto ao cruzeiro, que estava guardado há muito tempo numa arrecadação do Palácio Farrobo, um tanto desmantelado pelos efeitos do tempo e dos maus tratos infligidos, entrou na posse da senhora dona Teresa de Melo Breyner Pinto da Cunha, neta materna dos condes de Burnay. Esta ilustre senhora e seu marido tiveram a feliz ideia de trazê-lo novamente para a luz do dia e plantaram-no no jardim do seu Palácio Vimioso no Campo Grande, onde o fui encontrar.

Assim o descreve o Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portugueses, 4.ª Série – Tomo X, 1905:

“CRUZEIRO DA QUINTA DAS LARANJEIRAS. Seguindo a Estrada de Benfica, no extremo da Quinta das Laranjeiras, próximo do chafariz da Convalescença, descortina-se através das grades e a pouca distância delas, um objecto de pedra, que nos parece ter passado até agora indiferente à atenção dos arqueólogos. Data de longas eras, conta mais de quatrocentos anos, pois deve remontar-se indubitavelmente ao século XV. É ele um cruzeiro, devido, como tantos outros, à piedade de um indivíduo, que o mandou construir, ou por algum acto expiatório, ou por simples devoção, obedecendo ao sentimento religioso da época. O letreiro guarda silêncio sobre a causa que motivou semelhante voto. A nossa convicção é que o monumentozinho estaciona no terreno em que foi erecto, sendo ele quem deu a denominação, ainda hoje conservada, ao lugar próximo – “Cruz da Pedra”. A área da Quinta das Laranjeiras, dilatando-se, absorveu e anexou o terreiro público, ficando o cruzeiro encravado no recinto dela. O cruzeiro assenta sobre dois degraus com colarete. A cruz é floreada. na face anterior está a imagem de Cristo e na posterior a imagem de Nossa Senhora com o menino Jesus descansando sobre o braço esquerdo. O capital da coluna, sobre o qual se eleva a cruz, é gótico e faz corpo com esta. A Virgem está de pé sobre uma pequena mísula, que assenta no ábaco do capitel. A inscrição, contornando este, por cima da ornamentação gótica, diz o seguinte em caracteres também góticos: pedreanes morador lisboa madou fazer este cruz a hôra d´ds j da uirjm (“Pedro Eanes, morador em Lisboa, mandou fazer esta cruz em honra desta e da Virgem”).”

A cruz florlisada (Cruz de Avis ou, anagramaticamente, Siva ou Shiva, o mesmo Espírito Santo na teologia hindu) que coroa o capitel gótico é adornada na face anterior pelo Cristo Crucificado, e na posterior pela Virgem com o Menino descansando no seu braço esquerdo, sobre uma mísula que poisa no ábaco contornado pela legenda gótica da fundação. Esta obra foi mandada fazer por Pedro Eanes, morador em Lisboa, em honra de Cristo-Maria. O fuste da coluna é de mármore de Carrara, a base e os degraus de pedra lioz e a parte superior de calcário branco. Cristo-Maria (cujas iniciais são igualmente, por feliz acaso, as de Carvalho Monteiro) assinala o estado andrógino do Divino Espírito Santo na expressão conjunto do Filho dado à Terra pela Mãe do Céu, motivo caríssimo à espiritualidade franciscana que em todas as suas Casas sempre primou por ter uma cerca ajardinada que reproduzisse a condição edénica do jardim do Paraíso Terreal.

Ainda no tempo do barão de Quintela o cruzeiro existia no extremo da Quinta das Laranjeiras, voltado para a Serra de Monsanto, dando testemunho da origem toponímica do sítio (Cruz de Pedra), aqui onde se quis fundar, antecipando os Templos da Nova Jerusalém ou Idade do Espírito Santo, o Paraíso Terreal, ensejo levado a cabo por uns quantos largos de espírito graciosamente atrevidos, vindo fazer a delícia dos deuses e dos mortais neste taliano lugar idílico.

UM JARDIM MUITO ESOTÉRICO

Na entrada principal (até 1910) para o jardim do conde de Farrobo, na Estrada de Benfica, os seus dois torreões ilustrados com as estátuas laterais de um casal de faunos, o macho com a flauta, como também a primitiva entrada lateral, defronte para o vale de Sete Rios, com as águias enormes de asas abertas em guisa de protegerem a propriedade, revela-se a pretensão do destino que quis dar-se à mesma desde o seu início: o de parque zoológico que reproduzisse o ambiente do Paraíso original.

Isso deixa-se adivinhar pelo próprio carácter divinatório que a mitologia atribui aos faunos, havendo mesmo na Antiguidade clássica um tipo de versos oraculares chamados fauni, onde eram expostas as suas profecias. Fauno era filho de Pico, neto de Saturno e pai do próprio rei Latino. O seu equivalente feminino era a sua mulher Bona Dea. Os principais centros do culto a Fauno situavam-se nas regiões campestres latinas, e as suas festas, chamadas faunalias, eram a 5 de Dezembro, ocasião em que se sacrificavam bodes e faziam abundantes libações de leite e vinho. Em Roma, a 5 de Fevereiro, celebrava-se a festa das lupercalias, de tradição antiquíssima, perto do templo de Fauno Lupercus, instalado numa gruta do Monte Palatino. Essa gruta chamava-se precisamente Lupercal e era a mesma que Avandro, chefe da colónia dos arcádios, ao chegar ao Lácio e sendo bem acolhido pelo rei da região, chamado Fauno, consagrou a Pan, a divindade grega das florestas com a sua flauta encantada. O rito da celebração das lupercalias exigia o sacrifício inicial de bodes, com cujas peles se vestiam os sacerdotes de Fauno, e logo a seguir percorriam as ruas de Roma golpeando os transeuntes que encontravam à sua passagem. Esse acto era considerado uma purificação, além de atrair a prosperidade e a fortuna. Dizia-se também que as mulheres estéreis golpeadas pelas tiras dos luperci tornavam-se fecundas, pelo que elas mesmas ofereciam-se para serem golpeadas (o que faz lembrar a tradição pagã dos “caretos” em Portugal). O dia da realização dessa cerimónia de purificação chamava-se Februatos, que quer dizer “purgado”, o qual depois deu nome ao mês que passou a chamar-se Fevereiro. Posteriormente, acreditou-se que numerosos faunos habitavam nas florestas, e foram confundidos com os sátiros que faziam parte do turbulento cortejo de Baco[15]. Dispondo-se acima do figurino mitológico, a Tradição Primordial dá sentido diverso ao simbolismo fáunico, indiciando-o como figuração do pressuposto “Bode de Mendes”, ou melhor, de Memphis, assinalando-o como “o Caprino no topo da Montanha (da Iniciação)”, isto é, o saturnino Kumara, divindade hindu tradicionalmente reproduzida com a forma de um bode ou cabra.

Quanto à águia, ave solar cuja forma Júpiter ou Zeus, pai dos deuses, muitas vezes tomou para se manifestar aos mortais, numa antevisão mítica assinala assim o carácter imperial da supremacia deste parque sobre a cidade e o mundo, nisto submisso à intenção lusitana da recriação do Paraíso na antecipação de um futuro Império Terreal que trará a toda a Terra a condição edénica plenamente frutificada. As asas abertas dessas aves esculpidas, numa atitude agressiva de defesa, dispõem-nas como guardiãs da porta do Éden, defendendo e isolando o espaço interior de qualquer acometimento rapace do exterior.

No jardim, onde não falta um obelisco mandado plantar pela família Quintela, é no Grande Roseiral de Lisboa, por onde se entra atravessando uma ponte pênsil (tudo do tempo de Joaquim Pedro Quintela, reconhecido maçom[16]), que podem encontrar-se os elementos mais significativos afins à Tradição Primordial sob o aspecto egípcio-caldaico.

O tabuleiro semi-arqueado da ponte pênsil, própria dos jardins tebanos, é suportado por quatro colunas coríntias, cada uma tendo no cimo a estátua de um artífice egípcio erecto sobre uma pedra burilada, desta maneira assinalando os Guardiões das 4 direcções do Paraíso, numa postura hierática semelhante à adoptada na Maçonaria pelos “Mestres de Cerimónias” do Rito Adonhiramita, como se observa no Manual do 2.º Grau de Companheiro[17].

Tais artífices correspondem no plano simbólico aos “construtores de pontes”, os pontífices que fazem o vau ou “ponte” a Humanidade e a Divindade, motivo por que nos Mistérios Gregos eram associados aos thesmosphoros, guardiões do portal da imortalidade, que após transposto, descendo quatro degraus, dava acesso à barca de Caronte que levava à ilha dos imortais onde estava a caverna sagrada[18]. Hoje, o sorriso aflora aos lábios ao ver os visitantes despreocupados passearem de barquinha no lago sob essa ponte, assim mesmo, na inocência do recreio, reproduzindo o cenário sagrado dos Mistérios de outrora.

No Grande Roseiral de Lisboa, ex-libris deste jardim talhado ao estilo Le Nòtre, aparece a estátua de um dragão assírio-caldaico cujo significado prolonga o anterior da ponte pênsil com os artífices egípcios, e sobre ele diz Paulo Machado Albernaz[19]:

“O nome dragão, na Caldeia, não era escrito foneticamente e sim representado por dois monogramas, significando provavelmente, segundo os orientalistas, “o escamoso”. Podemos acrescentar que, sob um aspecto, aplica-se à Hierarquia dos Makaras. Em sânscrito, Makara designa um animal anfíbio desconhecido, geralmente chamado de “crocodilo”, mas que na realidade significa algo mais.

“O simbolismo do dragão tem significado séptuplo, e desses sete significados pode expor-se o mais elevado e o mais inferior. O primeiro é idêntico ao “nascido por si mesmo”, o Logos. Entre os gnósticos cristãos derivados dos essénios, ou adoradores da Serpente, era a Segundo Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho. O seu símbolo era a constelação do Dragão. H. Lezaray, em sua obra Trinité Chrétienne Devoillé, escreve que estando o Dragão colocado entre o Pai imutável (Purusha, o Espírito) e a Matéria mutável (Prakriti, a Mãe), ele transmite a esta última as influências que recebe do primeiro, donde provém o seu nome: o Verbo. As suas sete estrelas são as mesmas que estão na mão Daquele que é o Alfa e o Ômega, no Apocalipse. No seu significado mais terreno, o termo dragão foi aplicado aos Homens Sábios.”

Avista-se também um par de esfinges tetramorfas egípcias. Com efeito, o tetramorfo (do grego tetra, “quatro”, e morphé, “forma”) é comumente chamado de “esfinge” (do grego sphigx, “animal fabuloso”). A Bíblia cita-o várias vezes: em Ezequiel, cap. 1, vers. 5-14, e no Apocalipse, cap. 4, vers. 6-8. Mas foi Santo Irineu, na sua obra volumosa Contra as Heresias[20], o primeiro a relacionar os quatro “animais” compositórios da esfinge com os quatro evangelistas sinópticos:

O Homem com São Mateus;
O Leão com São Marcos;
O Touro com São Lucas;
A Águia com São João.

Desde então, a iconologia cristã passou a fazer uso desse simbolismo. Explica-se a escolha dessas atribuições pelas razões seguintes:O Homem ou Anjo representa Gabriel anunciando a incarnação do Salvador entre os homens, episódio natalício descrito mais especialmente por São Mateus. De forma mais profunda, representa o estado de Anjo expresso na Paradhesa, Paradaîza ou Paraíso pelo 2.º “Rio Sagrado”, Parde ou Parda de cor “violácea”, manifestando o elemento natural Água (Apas, em sânscrito).

O Leão de São Marcos é alusão ao deserto, em cujo primeiro capítulo do seu Evangelho é descrito São João Baptista pregando a penitência ao povo, baptizando-o e ao próprio Cristo, com a água santa do Rio Jordão ungindo-o como “Leão do Deserto” e “Rei de Judah”, descendente de David e Salomão. De maneira mais esotérica, expressa o estado de Arcanjo e o 3.º “Rio Sagrado” ou Parda “avermelhado”, cor do Fogo (Tejas, em sânscrito).

O Boi ou o Touro lembra, na sua qualidade de vítima escolhida para os principais sacrifícios da antiga Lei, o sacerdócio, cujas funções são desempenhadas por Zacarias assinaladas no primeiro capítulo do Evangelho de São Lucas, quando ele é advertido pelo Anjo acerca do nascimento de João Baptista. Teosoficamente, indica o estado de Homem e consequentemente o 4.º Parda de águas “alaranjadas”, relacionadas ao elemento Terra (Pritivi, em sânscrito).

A Águia indica a sublime elevação da narrativa de São João. Representa, afinal, a descida do Logos ou Verbo Vivo à Terra pelo caudal celeste do 1.º Parda de tons “verdes”, expressivo do elemento Ar (Vayu, em sânscrito), igualmente assinalando o estado de Arqueu como o mais elevado presente na Manifestação Universal.

Os quatro “animais” dispostos em torno de Cristo (representando o 5.º Parda central de cor “azul”, indicativo do Éter (Akasha, em sânscrito) como Quintessência da Natureza), devem ocupar, cada um, lugar preestabelecido: o Anjo ocupa a direita, ao lado da cabeça de Cristo; a Águia fica à esquerda da mesma cabeça; aos pés, na mesma ordem, o Leão e o Touro, segundo o Padre Auber[21].

Quanto ao significado do corpo animal da esfinge estar em posição de repouso mas mantendo a cabeça humana erguida, expressa a influência activa do Espírito sobre a natureza passiva da Matéria, facto assumido nas sociedades tradicionais da Europa no acto da Autoridade Sacerdotal (Altar – Oratore) reconhecer e investir o Poder Real (Trono – Belatore), tal qual o influxo de Purusha (Espírito) age sobre Prakriti (Matéria), neste caso, a sabedoria sacerdotal dirigindo a força real, presidencial, etc.

Ainda no Grande Roseiral de Lisboa, admiram-se duas belas estufas em casas chãs de arquitectura maneirista de risco amouriscado ao gosto possível de Raul Lino. Cada uma com três arcarias com belos vitrais policromados, a sua visão sugere-me os sinais encobertos da presença daquela misteriosa Milícia chamada Ordem de Mariz, que a Teosofia designa de Linha Morya sobre a qual Roberto Lucíola escreveu[22]:

“Na Tradição são denominados de Adeptos da Linha Morya (Mouros, Marus, etc.) os ligados à Mãe Divina. São os que impulsionam a Evolução por meio do desenvolvimento da Ciência. Estão ligados ao poder do raciocínio. Concretizam com o mental objectivo a Sabedoria Abstracta. Consolidam o Saber Superior na mente humana comum. Difundem o Conhecimento para que ele chegue ao alcance de todos. Desvendam os segredos da Natureza.”

Pois bem, nisso D. Fernando II e Carvalho Monteiro, por certo à cabeça dos demais intervenientes, desvendaram os segredos da Natureza ao realizarem o sonho edénico: a fundação cénica do Paraíso Terreal que se seguiu aos Dias da Criação[23].

Espécimes minerais juntos a raridades vegetais, aves valiosas e raras em convívio com animais de todas as partes do mundo[24], todos são admirados pelo humano visitante que, mesmo sem se aperceber, toma parte activa na recriação paradisíaca do Éden donde saímos e onde volveremos.

Para não se perder a memória viva, aí está o Zoo de Lisboa onde subjaz o apelo profundo, mensagem de esperança simples na fórmula de recreação dos sentidos, à reintegração final das criaturas viventes num Mundo Novo desejado de Concórdia Universal.

 

NOTAS

 

[1] Fernando Dacosta entrevista Vitor Manuel Adrião, Jardim Zoológico de Lisboa – A imitação do Paraíso bíblico. “Público Magazine”, separata do jornal “Público”, n.º 157, 7/3/93.

[2] José Teixeira, D. Fernando II. Rei-Artista. Artista-Rei. Edição da Casa de Bragança, 1986.

[3] Francisco de Almeida Grandella, Memórias e receitas culinárias dos Makavenkos, pp. 40-41, Lisboa, 1919. Reedição pela Marginália Editora, Lisboa, 1994.

[4] Jorge M. Rodrigues Ferreira, com a colaboração de Carlos Biscaya, São Domingos de Benfica (Roteiro). Edição da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, Lisboa, 1991.

[5] P. Álvaro Proença, Benfica através dos tempos. Depositária União Gráfica, Lisboa, 1964.

[6] Raul Proença, Guia de Portugal – I (Lisboa e Arredores), pp. 434-435. Reedição integral pela Fundação Calouste Gulbenkian da 1.ª edição pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1924.

[7] Fernando Emygdeo da Silva, História do Jardim Zoológico de Lisboa. Os movimentados 80 anos da sua meritória existência – 1884-1964. Lisboa, 1965.

[8] Robert Bonnell, Dante o Grande Iniciado. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2006.

[9] Bíblia Sagrada, Génesis, 2:10-14.

[10] D. Fernando II inclusive comprara ao conde de Farrobo o camarote deste no Teatro Real de S. Carlos, em Lisboa, para a sua esposa morganática D. Elise Hensler, a condessa d´Edla. Cf. Teresa Rebelo, Condessa d´Edla. A cantora de ópera quase Rainha de Portugal e de Espanha (1836-1929). Alétheia Editores, Lisboa, 2006. Vd. ainda E. de Noronha, O conde de Farrobo. Memórias da sua vida e do seu tempo. Editora Romano Torres, Lisboa, 1945.

[11] Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Editora Dinapress, Lisboa, 2002. A mesma notícia já a dera publicamente anos antes, aquando das duas entrevistas concedidas ao jornalista sr. Victor Mendanha, do jornal Correio da Manhã, que as publicaria nas páginas centrais: Seguindo o caminho de D. Fernando II na procura do Santo Graal. In Correio da Manhã, domingo e segunda-feira de 5 e 6 de Janeiro de 1986.

[12] Knorr Von Rosenroth, A Kaballah Revelada (Filosofia Oculta e Ciência). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2005.

[13] Tanto assim é que o próprio Palácio da Rua do Alecrim, em Lisboa, fora comprado directamente por Francisco Augusto Mendes Monteiro ao barão de Quintela e conde de Farrobo, talvez por motivo de mudança residencial deste paras as Laranjeiras. Este palácio da Rua do Alecrim, no Largo do Quintela, foi erigido no sítio onde antes se elevava o dos condes de Vimioso, depois marqueses de Valença, que um incêndio destruiu em 1726. Neste mesmo edifício, que viria a pertencer à família Carvalho Monteiro, chegou a hospedar-se o general Junot, quando da invasão francesa de 1805, e nele também se celebraram importantes reuniões políticas além de festas que ficaram memoráveis. Carvalho Monteiro iniciou por fazer deste palácio um verdadeiro museu particular, reunindo uma rica colecção de relógios, outra de borboletas, que foi das primeiras do mundo, e uma preciosa livraria em que avultava um raro núcleo de espécies camonianas. Aquando da comemoração do terceiro centenário da morte de Camões, em 10 de Junho de 1880, ela foi particularmente subsidiada pelo mesmo, tendo sido considerada uma manifestação régio-patriótica antijacobina, o que naturalmente suscitou a contra-reacção violenta ao longo dos vários trechos do trajecto do cortejo, por parte de membros da Academia de Ciências de Lisboa ligados à Maçonaria, e sobretudo por parte da Carbonária, que incitou o povo a igual e nada cívico procedimento mas que, exceptuando alguns arruaceiros dos bairros mal-afamados da cidade misturados na multidão à caça da bolsa do próximo desatento, não lhes deu o aval nem a atenção pretendidas. O povo entendia o seu rei, aclamado unanimemente, entendia o acto pátrio que lhe tocava fundo, expressando o espírito comum de Portugal, mas já não entendia uns agitadores palavrosos misturados com arruaceiros mal-afamados. O interessante de tudo isso é que esse cortejo cívico, ilustrado com carros alegóricos, ter programado o seu itinerário de modo que passasse diante do palácio de Carvalho Monteiro, seguindo um trajecto aparentemente desajustado mas possivelmente com a intenção de homenagear o seu patriótico mecenas anónimo: o desfile organizou-se e começou na Praça do Comércio, passou à Rua Augusta, Rua Áurea, Rua do Arsenal, Largo do Município, Rua Nova do Almada e Chiado até à Praça Camões, depois desceu pela Rua do Alecrim vindo a dispersar no Cais do Sodré. – Cf. Dicionário da História de Lisboa, dirigido por Francisco Santana e Eduardo Sucena. Carlos Quintas & Associados – Consultores, Lda., Lisboa, 1994. E também António Filipe Pimentel, O cortejo cívico das comemorações camonianas de 1880, Lisboa, 1988.

[14] Godofredo Ferreira, O Convento de Santo António da Convalescença – Padroado dos Correios-Mores do Reino. Lisboa, 1962.

[15] J. C. Escobedo, Diccionario Enciclopédico de la Mitología. Editorial de Vecchi, Barcelona, 1985.

[16] “QUINTELA (BARÃO DE) – Joaquim Pedro Quintela, Lisboa, 20.8.1748 – Lisboa, 1.10.1817. Fidalgo da Casa Real, grande proprietário rural, comerciante e opulento capitalista, desempenhou as funções de contratador dos contratos reais de tabaco, diamantes, azeite, peixe e baleia, investindo igualmente na indústria de lanifícios da Beira Baixa. Recebeu o título de 1.º Barão de Quintela em 1805. Liberal, protegeu ao longo da sua vida numerosos correligionários. Foi iniciado em data e Loja desconhecidas.” – In A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, volume II, página 1183. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[17] José Martins Jurado, Maçonaria Adonhiramita (Apontamentos). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004. E também Crata Repoa ou Initiations aux Anciens Mystères des Prêtes d´Egypte. Traduzida do original alemão de 1785 e publicada em Paris por Ant. Bailleul, 1821.

[18] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Edições Gallimard, Paris, 1962. Obra reeditada em português pela Editora “O Pensamento”, São Paulo.

[19] Paulo Machado Albernaz, A Nova Raça – Os Dragões e as Serpentes na Simbologia Arcaica. Revista Dhâranâ, ano XLI, n.º 28/29, Janeiro-Dezembro de 1966, São Paulo.

[20] Irineu de Lyon (c. 130 – 202 d. C.) escreveu no ano 180 (século II) Sobre a detecção e derrota da assim chamada Gnosis, mais conhecida como Adversus haereses, “Contra as Heresias”, obra em cinco volumes na qual o autor transcreve o pensamento gnóstico e contrasta a sua crença com o cristianismo católico, refutando a Gnose de Valentim (c. 100 – 160 d. C.), que chegou a ser candidato a bispo, observando-se ao longo das suas páginas um ataque minucioso a favor da ortodoxia episcopal, o que é visto como uma primeira evidência da primazia papal.

[21] Charles Auguste Auber, Histoire et théorie du symbolisme religieux, 4 volumes. Volume IV, pp.112-113, Féchoz et Letouzy, Paris, 1871.

[22] Roberto Lucíola, Manifestação Avatárica. Revista “Aquarius”, ano 5, n.º 18, 1979, Rio de Janeiro. Vd. também Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz, Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum Novalis, Carcavelos, 2006. E ainda, de Vitor Manuel Adrião, Ordem de Mariz – Iniciação e Segredo, Euedito, Lisboa, 2019.

[23] A pretensão de (re)criar o Paraíso ou Éden em Portugal é, de facto, muito antiga. Por exemplo, quando escrevi sobre a aldeia saloia de Frielas, concelho de Loures, onde o rei D. Dinis teve casa de campo com pretensões a paçal, tive oportunidade de dizer: “Por estas bandas saloias havia e com fartura caça miúda: coelhos, perdizes, raposas, ginetes, etc., cuja caçada era muito apreciada pelos reis e cortesãos nas horas de ócio. Terá sido Frielas, em tempo de D. Dinis, Real Couto de Caça; Frielas que foi cenário do primeiro Jardim Zoológico havido em Portugal, remontando ao século XIV e devendo-se a sua constituição à vontade (real e sonho paradisíaco, depois perseguido por outros monarcas portugueses) de D. Dinis, com instalação na sua quinta e paço de Frielas. Segundo a documentação existente na Torre do Tombo respeitante ao Paçal de Frielas, D. Dinis começou nesta sua propriedade por aclimar um urso, de grande corpulência, que fora apanhado a laço e oferecido ao rei. Seguiu-se um lobo. A família real e a corte encontravam na apreciação dessas duas espécies expostas agradáveis momentos de recreio, demonstrados por manifestações de grande divertimento. Em breve foram acrescidos de falcões.” – Vitor Manuel Adrião, Frielas (Memorial Histórico), edição do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros”, Frielas, 1996.

[24] Victor Luís Eleutério, Histórias de jardins com animais ao fundo. Separata do jornal “Correio da Manhã”, n.º 5644, 16/10/94.

António Augusto Carvalho Monteiro e a Saúde Pública – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Out 2 2020 

A Europa do século XIX ficou marcada pelo surto epidémico da tuberculose como principal causa das mortes devido aos poucos cuidados profilácticos por parte das populações e aos ainda rudimentares avanços da ciência médica, preocupada em combater e travar a doença. Só em Portugal, em 1899, o total de mortes por tuberculose era estimado entre 15 a 20.000, equivalente a uma taxa de 297 a 396 por 100.000 habitantes. Apesar de todos os esforços despendidos a Medicina, entre os finais do século XIX até à década de 40 do seguinte, não possuía quaisquer recursos farmacológicos para combater a tuberculose, e em Portugal voltou-se para o reforço das únicas medidas realmente eficazes: isolamento e prevenção, não só através da criação de centros hospitalares e sanatoriais, como também pela implementação de regras e estratégias sociais conducentes a melhorar as condições de vida, alimentação e higiene física e psicomental das populações[1].

Não obstante o velho conhecimento, mais que assente, entre os praticantes da medicina hipocrático-galénica, e provavelmente entre os antigos egípcios que também sofreram essa “praga faraónica”, de que o clima de altitude é favorável à cura da tuberculose, só em 1854 Francisco António Barral publicaria o primeiro trabalho científico português sobre O clima do Funchal e a sua influência no tratamento da tuberculose, seguido de Brehmer que em 1856 divulgaria os seus estudos de carácter científico sobre os benefícios do arejamento, do repouso em estabelecimentos fechados e da sobrealimentação no tratamento da tuberculose. Assim, a partir do último quartel de Oitocentos os sanatórios vieram a assumir um importante papel na luta antituberculose, e um pouco por todo o país foram sendo construídos e postos a funcionar[2].

Essa iniciativa sanatorial partiu da própria rainha D. Amélia, de nome completo Maria Amélia Luísa Helena de Orleães (1865-1951), esposa do rei D. Carlos I, que há muito alimentava a ideia de fundar a Assistência Nacional aos Tuberculosos, mas a aparente indiferença dos responsáveis pela política de Saúde Nacional impediam-na de realizar o seu desejo. Por fim, o professor Moreira Júnior, reconhecido parlamentarista, conseguiu fazer-se ouvir no Parlamento em 1899, ousando “chamar a atenção do governo” para a “situação cruciante” desencadeada pela doença e para a urgente necessidade de se tomarem as adequadas medidas preventivas. Segundo João Frada (in Portal de Saúde Pública, 2009), essa chamada de atenção no Parlamento foi o empurrão decisivo para o arranque da Assistência Nacional aos Tuberculosos (A.N.T.), a qual reflectiria a vontade e as ideias, o projecto, em suma, da magnânima rainha D. Amélia.

A monarca apresentou então, em 11 de Junho de 1899, na Sala das Sessões do Conselho de Estado do Ministério do Reino por si presidida, um conjunto de intenções resumidas em quatro pontos:

1.º – Construir hospitais marítimos.

2.º – Fundar sanatórios em clima de montanha e de altitude.

3.º – Estabelecer em todas as capitais de distrito institutos que serviriam, não só para o estudo e tratamento da tísica, mas também de socorro aos doentes (mais aligeirados, que ainda não careciam de isolamento e) que têm de trabalhar para sustentar as suas famílias.

4.º – Criar os hospitais para tísicos, destinados aos incuráveis.

Nessa sessão foram estabelecidas diversas estratégias consideradas fundamentais para se poderem atingir os elevados objectivos, quer imediatos, quer a médio prazo, da A.N.T., que viriam a concretizar-se através de várias iniciativas[3]:

– Criação de um subsídio anual de 20.000$00 assumido pelo Governo.

– Subsídios, obrigatoriamente suportados pelas Câmaras Municipais, incluídos nos respectivos orçamentos.

– Utilização dos fundos correspondentes a “1% das quotas dos sócios das sociedades ou associações de recreio onde se realizassem jogos” e do “produto das multas que por leis ou regulamentos fossem destinadas a esse fim”.

– Isenção de direitos alfandegários sobre os materiais fabricados no estrangeiro, destinados ao serviço de dispensários, sanatórios e hospitais.

– Angariação de fundos resultantes de quermesses, peditórios e subscrições efectuados junto de emigrantes portugueses no estrangeiro, de leitores de vários jornais publicados em Portugal, de instituições bancárias, bem como de doações e quantias obtidas através da cooperação de regedores, de párocos e de paroquianos.

– Recolha de dádivas e de receitas provenientes da realização de festas e espectáculos.

A proposta da rainha D. Amélia foi aprovada e no mês seguinte o Parlamento reconheceu a existência legal da Assistência Nacional aos Tuberculosos sob a designação Instituto da Rainha D. Amélia, com a publicação da Lei de 17 de Agosto de 1899. Esse movimento de beneficência e socorro social exigia uma grande responsabilidade e um enorme sentido de gestão, face à complexidade de acções a desenvolver e a controlar em todo o País, e naturalmente implicou a formação de uma “Comissão de Propaganda”, bem como de subcomissões com a missão de levarem a efeito as múltiplas estratégias definidas a nível da Comissão Central. Foram então nomeadas as referidas subcomissões:

– Dos Zeladores, destinada a zelar pelos interesses da Sociedade em todos os campos de acção, presidida pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa.

– Das Festas, com a missão de promover e realizar festas remuneradas, cujas receitas seriam destinadas à Sociedade, sob a presidência do Conde de Sabugosa.

– Das Quetes, responsável pela realização de campanhas de esmolas e donativos para a Sociedade, sob a presidência do Arcebispo de Mitilene.

– De Estudo e Estatística, com o objectivo de recolha de dados, informações e análise da tuberculose no País e o seu desenvolvimento, em termos de morbilidade e mortalidade, sob a direcção do Dr. Manuel António Moreira.

– De Profilaxia, necessariamente voltada para o estudo e implementação das necessárias medidas higiénicas e sanitárias destinadas ao combate da tuberculose, presidida pelo Dr. Ricardo Jorge.

– De Divulgação, concentrando todo o trabalho de publicidade e alerta social contra a doença, bem como a difusão dos respectivos intuitos e programas sanitários da A.N.T. nessa luta, sob a orientação e direcção do Dr. Curry Cabral.

Com sede no então designado Instituto da Rainha D. Amélia, na Avenida 24 de Julho em Lisboa, num edifício vizinho do Mercado da Ribeira, só em 1906 ele tomaria o nome definitivo de Assistência Nacional aos Tuberculosos. À sua Comissão Central, como membro fundador e mecenas próximo, com amizade quase ou mesmo íntima, da família real, pertenceu o Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, presente em quase todas as reuniões da A.N.T. presididas pela rainha D. Amélia.

Até 1912 a Assistência Nacional aos Tuberculosos, instituição de iniciativa privada actuando no continente, ilhas adjacentes e colónias, inaugurou os seguintes sanatórios mandados edificar por D. Amélia:

Sanatório Marítimo de Outão, inaugurado em 1900.

Sanatório de Carcavelos, inaugurado em 1902.

Sanatório de Sousa Martins (Guarda), inaugurado em 1907.

Sanatório de Portalegre, inaugurado em 1909.

Sanatório do Lumiar (Lisboa), inaugurado em 1912.

Quem mandou edificar esse último sanatório no Lumiar (então zona rural arejada) foi a rainha D. Amélia em 1909, na época designado por Hospital do Repouso de Lisboa[4]. Com a implantação da República em 1910, em 1912 alterou-se o seu nome para Sanatório Popular de Lisboa, e em 1975 foi novamente rebaptizado, desta vez em homenagem ao Professor Doutor Francisco Pulido Valente.

O esforço nacional da rainha e seus pares não foi, porém, bem percebido nem acolhido pela facção republicana da época, talvez encarando-o como acto encapotado de enaltecimento das virtudes sociais da monarquia, talvez sentindo-se ultrapassada no seu humanitarismo laico restrito a grupos sócio-recreativos dispersos, talvez ambas as coisas como se depreende na carta do conhecido escritor e jornalista republicano Alfredo Gallis (1859-1910)[5]:

Il.mo e Ex.mo Sr.

Em resposta ao convite de V. Ex.ª tenho a declarar o seguinte: Aplaudindo e considerando no mais alto, a filantrópica iniciativa de Sua Majestade, a Rainha D. Amélia, para proteger os tuberculosos, em carta aberta escrevi no “Tempo” um artigo dirigido à mesma Augusta Senhora, explicando que essa simpática e benemérita campanha é contrariada nas fontes do mal pelo arquiestúpido procedimento dos nossos governos, carregando de impostos impossíveis as classes pobres, como são do domínio público o facto dos pobres vendedores da feira da ladra, dos feirantes do Lumiar, dos miseráveis donos dos quiosques do capilé, e tudo o mais que se segue. Assim, quanto maiores dificuldades cercarem a vida dos pobres não os deixando alimentar regularmente, respirarem ar de outras moradias e proverem até ao asseio do corpo, mais tuberculosos hão-de haver. O Estado desmancha com a garra esquerda o que a carinhosa Rainha de Portugal constrói com a mão direita. Podem-se curar os tuberculosos que de novo adoecerão da mesma moléstia, apenas regressem à sua vida usual até morrerem.

O meu bom senso diz-me que em frente d´um fisco rapace e cruel, que nada vê e nada atende porque o que quer é dinheiro para gastar em inconfessáveis despesas, não há esforço que sirva, nem caridade que preste. É mesmo muito de crer que os tuberculosos ainda sejam obrigados a selarem o jeito na Receita Eventual.

Ex.mo Sr., conheço o meu país e, pior ainda, a política e os políticos do mesmo.

Sou pobre e trabalho sem descanso. Uma quota anual seria um sacrifício dado de má vontade, porque revolta que o Estado não pense que o pobre tem direito a alimentar-se e a ganhar a vida.

N´estes termos não quero inscrever-me porque não tenho fé nos resultados da alevantada ideia de Sua Majestade, que bem podia dizer ao Governo que nem só os políticos comem carne e precisam de se alimentar na razão directa do que trabalham.

E pedindo desculpa desta rude franqueza

Sou de V. Ex.ª At.to, V.er e Admirador.

Alfredo Gallis.

A carta foi dirigida a um membro da Comissão Central da A.N.T., possivelmente o Dr. Curry Cabral, que convidara o jornalista a tornar-se sócio da mesma, que como se viu recusou. Contudo, e perante o surto imparável da tuberculose que o povo chamava “gripe espanhola”, a República deu continuidade ao projecto preventivo iniciado pela rainha D. Amélia, e fê-lo através do humanitarismo social independente da virtude religiosa, surgindo assim vários institutos oficiais e grupos privados, liderados por capitalistas abastados a maioria afins aos ideais da República e da Maçonaria, que prosseguiram a acção beneficente de assistência à Saúde Pública.

 

NOTAS

 

[1] Augusto da Silva Carvalho, História da Medicina Portuguesa. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1929.

[2] Apesar da grande campanha de conscientização sobre os perigos da tuberculose e as medidas de prevenção assumida pela Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, a partir de 1901, foi em Coimbra que se realizou em 1895 o 1.º Congresso dedicado à terrível epidemia, durante o qual o professor Augusto Rocha, realçando a eficácia dos “ares” na cura dessa doença, citou uma frase de Florence Nightingale, suficientemente elucidativa dessa importância: “Para os tísicos, respirar um ar puro é simplesmente respirar a vida”. – In La lutte contre la tuberculose au Portugal. Aperçu historique, Boletim da A.N.T., 4.ª série, volume I, página 17, Setembro de 1937.

[3] Costa Sacadura, A Obra da A. N. aos Tuberculosos e a Rainha D. Amélia através de algumas cartas inéditas. Lisboa, 1949.

[4] António Gonçalves Santiago, A Tuberculose e os Dispensários. Dissertação inaugural na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Impresso pela Casa dos Tipógrafos, Lisboa, 1911.

[5] Alfredo Gallis, Os Decadentes – Tuberculose Social, IV. Livraria Central, Lisboa, 1902.

Deuses da Evolução (Matradevas e Manasaputras) – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Set 30 2020 

Conforme a Lei da Gravitação estabelecida por Newton, ela deve-se à força de atracção entre todas as partículas com massa no Universo, o que subentende a preexistência do electromagnetismo característico de Kundalini, portanto, sendo a atracção provocada do interior para o exterior dos corpos o que igualmente subentende a sua ocacidade e não espessura total, pois se fossem absolutamente espessos a sustentação gravitacional seria impossível devido ao peso da massa fazendo-a cair no vácuo impossibilitando assim a existência tanto da gravitação como da órbita dos corpos sobre si mesmos ou exercendo força de atracção sobre outros menores circulando em seu redor. Mas tal como dois corpos se atraem igualmente se repelem na razão inversa das suas massas, nisto subentendendo-se a pré-existência da electricidade característica de Fohat, esta que dinamiza os corpos e Kundalini que os compacta, atraindo-os e repelindo-os de acordo com a natureza dos seus elementos constitutivos afins ou desafins entre si. Atracção-repulsão como tensão estabelecida é o princípio oculto da gravidade e mesmo do estado gravídico dos corpos geradores de outros da mesma natureza, assim estabelecendo a linha de desenvolvimento e evolução do átomo ao planeta, do Sistema Planetário ao Sistema Solar, deste à constelação e desta à galáxia, mega-galáxia, etc.

As linhas de forças que interligam determinado número de corpos vizinhos todavia mantendo a sua corporalidade distinta, estabelecendo entre eles um limite – “círculo-não-se-passa” – a partir de um ponto central estabelecedor da atracção-repulsão, é definição valendo tanto para um Sistema Planetário em torno do Sol Central como para um Sistema Geográfico irradiado a partir de um Oitavo Centro, por sua vez irradiando para o mesmo, tal qual no corpo humano os sete chakras têm como oitavo o chamado “cardíaco inferior” ou vibhutî. Afinal, o que está em cima é como o que está em baixo, e vice-versa, para a consumação da Grande Obra Universal.

Na cosmovisão dos antigos teólogos greco-latinos que beberam nas fontes teúrgicas de Proclo e Jâmblico, o Universo, a Terra e o Homem são assistidos por nove Coros ou Cortes Espirituais, conceito cosmológico que se mantém no seio cristão das Igrejas Ocidental e Oriental. A sua fonte literária é Dionísio, o Aeropagita, o ateniense membro do Areópago no século I convertido por São Paulo (Actos, 17:34). A sua obra máxima, magnus opus, que cedo tomou foros apostólicos em toda Cristandade, foi o Corpus Aeropagiticum (compreendendo quatro tratados e dez cartas), onde expõe a filosofia cristã pela perspectiva mística e neoplatónica:

1.º Tratado – De Coloesti Hierarchia (Da Hierarquia Celeste). Composto de quinze capítulos, trata das Hierarquias Celestes seguindo um esquema semelhante ao da Theologia Platonica de Proclo, mas tudo devidamente cristianizado.

2.º Tratado – De Ecclesiastica Hierarchia (Da Hierarquia Eclesiástica). Com sete capítulos, descreve e interpreta alegoricamente a liturgia.

3.º Tratado – De Divinis Nominibus (Dos Nomes Divinos). O mais longo dos livros do Corpus, em treze capítulos trata dos Nomes atribuídos a Deus nas Escrituras.

4.º Tratado – De Mystica Theologia (Da Teologia Mística). Em cinco capítulos, refere-se ao conhecimento místico.

1.ª Carta   – Sobre o conhecimento místico.

2.ª Carta – Sobre como Deus está acima do Divino e do Bem.

3.ª Carta   – Trata da divindade oculta de Jesus.

4.ª Carta   – Sobre a encarnação de Jesus, o Homem verdadeiro e Supra-Essencial.

5.ª Carta   – As Trevas Divinas.

6.ª Carta   – Exorta a firmeza na Verdade.

7.ª Carta   – Crítica a alguns sofistas.

8.ª Carta   – Sobre a mansidão.

9.ª Carta   – O simbolismo das Escrituras.

10.ª Carta – A São João Evangelista, no seu exílio na Ilha de Patmos.

A análise crítica desta obra no seu conjunto e o estudo das fontes e influências sofridas, faz com hoje os analistas afastem a hipótese primitiva do autor situar-se no século I da nossa Era como primeiro bispo de Atenas, deslocando-o antes para os finais do século V ou inícios do século VI. Talvez possa ser, ou talvez não, se atender-se à possibilidade de uma obra colectiva de uma Escola de Teurgia Cristã, possivelmente gnóstica neoplatónica, que se imbuiu de inspiração católica desde o século I ao V, sendo Dionísio como assinante o encabeçador de um colectivo anónimo. Motivo po que hoje se chama à sua obra magna de Pseudo-Dionísio. As dúvidas em relação ao autor e à sua inserção cronológica num tempo exacto não invalidam, no entanto, nem atenuam o significado da sua obra, de influência ímpar, que percorre toda a Idade Média, sobretudo a partir da chamada Renascença Carolíngia, e permanece como referência ainda na modernidade.

De Coloesti Hierarchia veio a ser a primeira obra cristã a des-crever os nove Coros Celestes ou Hierarquias Criadoras, muito possivelmente como herança adaptada da religião judaica, já de si saída da egípcia e esta derivada da influência hindu, cujas plagas alcançou durante o seu império. Com tudo, convém frisar que a versão teológica não corresponde inteiramente à descrição teosófica, apesar de ter sido a clássica da espiritualidade e religiosidade medieval greco-latina conformadas ao nócio de Universo Divino. Também convém frisar que mesmo essa absolutamente nada tem em comum com as hodiernas e (sub)urbanas teorias ateístas – por vezes misticistas – do «realismo fantástico», do «conspiracionismo», etc. Fazendo recurso ao Pseudo-Dionísio, foi neste que Dante Alighieri se inspirou para a sua Divina Comédia e Luís de Camões em Os Lusíadas para a “Ilha dos Amores”, sendo os nove Coros Celestes, na versão teológica clássica, os seguintes:

Primeira Esfera ou Ordem (Divina)

Tronos (Serafins)
Querubins
Serafins (Tronos)

Segunda Esfera ou Ordem (Celeste)

Dominações, Domínios ou Senhorios
Virtudes
Potestades, Poderes ou Autoridades

Terceira Esfera ou Ordem (Terrestre)

Arqueus, Principados ou Governantes
Arcanjos ou Arcontes
Anjos ou Mensageiros

A Humanidade no Reino ou Malkuth, Terra, está em formação com mais três Ordens de Vida – Animal, Vegetal, Mineral – dirigidas pelas precedentes Hierarquias Superiores.

Dentro da Ordem das Hierarquias Criadoras presentes no actual Sistema Solar – frutos de evoluções em outros Universos até alcançarem o estado actual em que surgiram no nosso Universo – tem-se na cúspide das mesmas a Tríade constituída pelos Leões de Fogo, Olhos e Ouvidos Alerta e Virgens da Vida, a mesma que o judaico-cristianismo identifica pelos nomes Tronos, Querubins e Serafins (Elohim, “Deuses”), coadjuvando o Logos da Terra em parceria com o Logos Solar (Eloha, “Deus”). Esses Deuses são quem estabelecem as linhas de forças que interligam o nosso Globo – Corpo do Logos – aos restantes Globos do Sistema.

Como Senhores da Vontade ou Poder, os Leões de Fogo identificados aos Tronos eram retratados na forma do leão alado nos templos mesopotâmicos, chamado shedu ou lamassu, geralmente sendo apresentados aos pares (expressivos de Satva, “força centrífuga”, e de Tamas, “força centrípeta”), e assim foram identificados na tradição hebraica como Shedu Araiot, ou seja, Leões de Fogo. A angeologia cristã chamou-os Sede Dei, “Sedes de Deus”, Tronos, como os mais próximos do Logos Criador cuja Grandeza acolhem e transmitem às Hierarquias subsequentes o Esplendor da Divina Omnipotência.

Senhores do Amor-Sabedoria são os Olhos e Ouvidos Alerta ou Querubins, Kuruvins em hebraico. No Tanakh ou Antiga Escritura, assim como também em diversa literatura apócrifa judaica, eles são referidos como representados no figurino do Templo de Jerusalém e na própria Arca da Aliança (Tebah) de Deus com o Homem, e vice-versa, designadamente em I Reis 6:29, I Reis 6:32, I Reis 6:35. A sua tradição remontaria aos Kirub assírios, nome dado aos “touros alados”. Segundo a visão de Ezequiel, os Querubins são Espíritos Cósmicos com quatro asas, duas acima e duas abaixo, e quatro rostos, de touro, de homem, de leão e de águia. Encontram-se imediatamente abaixo dos Tronos e, segundo Ezequiel I:6-23, os seus corpos estão repletos de olhos. Considerados Guardiões e Mensageiros dos Mistérios Divinos, são os transmissores da Sabedoria e como tal expressam a Omnisciência do Eterno. Participando dessa Ominisciência manifestada pelas Quatro Faces Divinas que são os Quatro Maharajas ou Senhores do Karma ou Acção Universal, os Olhos e Ouvidos Alerta, juntamente com as outras duas Hierarquias Superiores, no início da 3.ª Ronda Lunar da presente 4.ª Cadeia Terrestre originaram, estabeleceram por acção de Fohat no Mundo das Leis ou Segundo Trono Celeste 777 formações “corpusculares”, “dévicas” ou “angélicas” que seriam as “Medidas de Deus” desde aí em diante na Cadeia, garantindo a Ordem e a Harmonia no Sistema Planetário até à sua consumação no 7.º Globo da respectiva Ronda, ou sejam os Matra-Devas.

A visão moderna dos Querubins originada no Renascimento (século XVI), dá-os como meninos alados, aspecto anacrónico em parte devendo-se à perda do conhecimento tradicional pelo Judaísmo, facto apontado pelo historiador judeu Flávio Josefo dizendo que a representação dos Querubins estava esquecida já no século I d. C.

Aos Virgens da Vida como Senhores da Actividade Inteligente o judaico-cristianismo dá-os como Serafins, do hebraico Seraf ou Saraf, termos traduzidos de várias maneiras: “Serpente Ardente”, “Áspide Flamejante Alada”, ou então simplesmente “Ser Exaltado ou Altíssimo”. Isso em conformidade à descrição de Isaías 6.1-2: “Cada um tinha seis asas: com duas cobriam o rosto, com duas cobriam os pés e com duas voavam. Um dos Serafins voou para mim trazendo na mão uma brasa viva que tirara do altar”. Imediatos aos Querubins participam da Glória, Majestade e Grandeza do Eterno como Omnipresença. É assim que na angeologia o Serafim aparece não só como um Ser que “queima” mas também que “consome” no Amor do Sumo Bem que é o Eterno. No início da 3.º Raça-Mãe Lemuriana da presente 4.ª Ronda Terrestre os Virgens da Vida por acção de Kundalini influíram sobre os Senhores da Mente ou Kumaras que assim geraram 777 Manasaputras, “Filhos da Mente Universal”, destinados a Vasos Insignes de Eleição.

Por tudo isso, os Matra-Devas e Manasaputras são igualmente associados aos Querubins e Serafins, que não o sendo também o são. Estão igualmente presentes no figurino ritualístico da missa católica como Anjo Turiferário (Matra-Deva – Fohat), “o que maneja o turíbulo ou incensório”, e Anjo Turibulário (Manasaputra – Kundalini), “o que porta o fogo do turíbulo”.

Como criações celestiais no Segundo Trono os Matra-Devas vêm a ser as Aves de Arribação destinadas a povoar o Sexto Sistema de Evolução (Ronda) Mercuriano, dos quais já são hoje os Vigilantes Silenciosos desde o mesmo Trono sobre a Terra, motivo porque pertencem à Corte Celeste do Sexto Luzeiro que tomará forma quando o nosso Globo ocupar o espaço hoje ocupado por Mercúrio, ou seja, quando o mesmo Luzeiro Akbel se manifestar nesse futuro Ciclo Cósmico. São os Deuses Alados a quem o Venerável Mestre JHS denominou de Devas do Além-Akasha e Inter-Ishwaras, nisto por no seu conjunto constituírem a Sexta Essência Divina, ou por outras palavras, serem os viáticos, os portadores da Essência do Sexto Ishwara ou Luzeiro para a Terra, assim personificando os raios do Sol Sóis que vibra no Centro do Oitavo Sistema Planetário repercutindo no Oitavo Sistema Geográfico.

Isso mesmo tem assento no ensinamento do Mestre JHS quando disse:

“Matra-Devas são os Seres do Sexto Sistema de Evolução, são Consciências do Sexto Sistema. Eles descem e sobem ciclicamente sob o comando do Excelso Mitra-Deva. São Seres Celestiais. São os Vigilantes Silenciosos do Sexto Sistema. Eles são os viáticos da Essência Divina. No espaço intermediário ou de passagem do trabalho do Quinto para o Sexto Sistemas, os seus corpos físicos permanecerão na região onde se encontra o Centro do Sexto Sistema, senão, no Sistema Geográfico Sul-Mineiro, no Templo do Caijah.”

Em número de 777+111 manifestam-se ciclicamente sobre na Cadeia Terrestre – “estando o Céu na Terra” – logo volvendo ao Pombal Celeste, como aconteceu já nesta 4.ª Ronda às 15 horas de 9 de Maio de 1948, onde em revoada majestosa de Anjos desceram do Céu perpassando a Face da Terra em São Lourenço no Sul de Minas Gerais, Brasil, impactando nos Munindras seus representantes, indo pousar no Seio da Terra, no Templo de Caijah no Duat, cuja vibração repercutiu nos Manasaputras que despertaram momentaneamente do seu Sono Espiritual (Paranispânico) em Shamballah. Com isso, deu-se um tremendo e sensível impulso na evolução planetária tendo como consequência positiva a definitiva firmação da 4.ª Hierarquia Humana (Jiva) na Terra, às 18:15 horas de 1 de Julho de 1948, podendo desde aí considerar-se definivamente formada fisicamente e começar a formar-se espiritualmente, ou seja, a desenvolver a sua Tríade Superior Atmã – Budhi – Manas Arrupa, princípios afinal constituindo a imperecível Mónada Humana.

Eis o Trabalho dos Deuses Alados do futuro Sexto Sistema Atabimânico (Atmã-Budhi-Manas) no presente Quarto Sistema Jiva, garantindo a evolução deste para os futuros páramos da condição celestial. Tudo graças à acção dos Matra-Devas como produções das três primeiras Hierarquias Criadoras que dentre as novas subsequentes (com três formação – Animal, Vegetal e Mineral) a nona é a mesma Humana, mesmo sendo a quarta dentre as quatro em manifestação no 4.º Sistema que dão as suas substâncias à constituição dessa última: os Assuras (Arqueus) fornecendo a substância aérea mental, os Agnisvattas (Arcanjos) a substância ígnea emocional, os Barishads (Anjos) a substância aquosa vital, e finalmente os Jivas (Homens) como produto físico das três.

O maravilhoso acontecimento da manifestação periódica dos Matra-Devas levado a bom termo no ano citado, tem importante significado cabalístico. Com efeito, o 9 do dia, mais o 5 do mês e mais o 22 da soma dos algarismos do ano, é igual a 36, ou seja, a 9.ª Hierarquia Criadora Humana agindo em 4 Planos ou Mundos (Mental, Emocional, Vital, Físico) dá 36. Juntando os algarismos 3 e 9 (a Suprema Tríade comandando a Nona Hierarquia Criadora) tem-se o número 39, sagrado para os cabalistas judeus como se repara quando os rabinos o referem: 38+1 ou 40-1 = 39.

Segundo Sebastião Vieira Vidal (Séries Cadete e Vida Interna), o significado filológico sânscrito de Matra-Deva é o seguinte:

MATRA – Medida, igualmente brevíssimo período de tempo aplicado à duração de um som. Assim, significa tanto a medida como o limite de duração. Expressa a manifestação da Divindade em três Medidas ou Planos correspondentes a Atmã – Budhi – Manas, equivalentes aos vedantinos Adi-Bhuta – Adi-Daiva – Adi-Yajna, respectivamente o “Primeiro Ser”, a “Suprema Divindade”, o “Supremo Sacrifício”, correspondendo à manifestação do Mundo da Forma.

DEVA – da raiz Div, “brilhante”, resplandecente, luminoso, etc. Referindo-se a um Ser Superior, Deva como adjectivo tem o sentido de divino, glorioso, magnífico, etc.

MITRA-DEVA – Corresponde ao Aspecto mais denso do Budha Celeste Maitreya, como seja o Budha Terrestre Mitra-Deva à dianteira da Corte de Matra-Devas, ainda que a Maya Budhista leve a confundi-Lo com o próprio Maitreya, que mesmo o sendo na Essência não o é na Manifestação. Trata-se do mesmo Muira Curuç Idathã dos antigos tupis-guaranis.

Donde um Livro Oracular da Biblioteca do Mundo de Badagas, como seja o Livro do Ciclo dos Avataras, dizer:

“Mitra-Deva virá cercada de Assuras Luminosos (Matra-Devas). E se reflectirá nas três Regiões que se completam, por serem o Ninho onde dorme a Ave de Hamsa. No começo nem todos O reconhecerão, mas depois o seu Irmão Terreno tomará o seu lugar para que o Trono de Deus se firme na Terra.”

Esse Irmão ou Aspecto inferior de Mitra-Deva será o Bodhisattva Akdorge, o mais próximo de Rabi-Muni que é o Chefe dos Manasaputras Adormecidos em Shamballah, os mesmos Filhos da Mente Universal.

Criações dos Kumaras pelo Poder Místico Psicomental de Kriya-Shakti na terceira Raça-Mãe Lemuriana, os 777+111 Manasaputras foram inicialmente destinados a Vasos de Eleição das Mónadas Numeradas dos Makaras que entretanto se manifestavam no Plano Físico e para isso necessitavam de veículos da natureza do mesmo, eles como os Eus Superiores dos Munindras suas personalidades, filhos futuros discípulos daqueles Bhante-Jauls, “Irmãos de Pureza”, que viriam a constituir a antiga Ordem do Dragão de Ouro, a Sudha-Dharma-Mandalam ou Grande Loja Branca, por outra, o Governo Oculto do Mundo (G.O.M.).

O Venerável Mestre JHS identificou os Manasaputras como Devas do Aquém-Akasha e Inter-Planetários, isto é, os que se acham entre os Ishwaras (Logos das Cadeias) e os Kumaras (Planetários das Rondas), exercendo grande influência na grande massa humana, na Humanidade através dos Mahatmas ou Adeptos Perfeitos, os “Grandes Espíritos” (Maha+Atma) humanizados. São eles quem constroem o Quinto Sistema de Evolução Bimânico (Budhi-Manas), e para os impulsionar, ao mesmo tempo edificando o Sexto Sistema, manifestam-se periodicamente os Matra-Devas, estes as “Medidas de Fohat”, aqueles as “Medidas de Kundalini” – a Luz Celeste e o Fogo Terrestre – com que se reveste o Quinto Luzeiro Arabel, o Deus da “Ara de Luz”, Logos da futura Cadeia de Vénus imediata à da Terra.

De maneira que os Matra-Devas manifestaram-se depois dos Kumaras e dos Manasaputras, em guisa de reforço a esses. Manifestaram-se primeiro 111 na Lemúria, os demais tendo-o feito noutros ciclos, acompanhando o Sexto Senhor Akbel indo constituir, como disse, a primitiva Ordem do Dragão de Ouro, animal mítico no caso associado à Esfinge, outro animal mitológico na ocasião animado pelo mesmo Senhor antes o abandonar à petrificação nas areias quentes do deserto hoje africano, narram as crónicas ocultas.

Esses 111 logo se desdobraram em 222 como aspectos duais acompanhando o seu Senhor Sexto-Theo, dando início à Árvore Genealógica dos Kabires ou Kumaras, descritiva da Família Espiritual agindo na Terra por Mónadas Humanas Numeradas previamente selecionadas por suas evolução e aprimoramento.

Na Atlântida, quando ainda não haviam Sistemas Geográficos e tão-só um esboço dos mesmos nos sete mais um cantões dessa 4.ª Raça-Mãe, os Matra-Devas passaram a vibrar nos Manasaputras desde o Segundo Mundo Celeste no Terceiro Mundo Terrestre, o que geometricamente equivale à circulação do quadrado, à utilização plena da Matéria sob o nócio do Espírito. Sobre isto, há um sublime trecho do Livro dos Manus-Reis, da Biblioteca de Badagas, que diz:

“Os “Filhos da Luz” são assim chamados porque se engendram e emanam daquele Oceano Infinito de Luz (Substância Universal, Svabhâvat), do qual um dos Pólos é o Espírito Puro (Purusha), perdido no Absoluto do Não-Ser, e o outro dele é a Matéria (Prakriti) na qual se condensa, cristalizando-se, à medida que desce, no tipo mais grosseiro.”

Conclui-se que “os Devas do Além-Akasha, os Matra-Devas, expressam a Essência, o Espírito, e os Manasaputras os Corpos Físicos. Por isso, despertam quando aqueles descem. Os demais Devas são os mensageiros, os elementos inspiradores de demais seres em evolução. O Devas expressam o Poder de Fohat e os Corpos Físicos Eucarísticos desses Seres o Poder de Kundalini”, disse o teósofo Sebastião Vieira Vidal. E acrescentou: “De maneira análoga, existem também Seres de categorias diferentes fazendo a ligação entre Shamballah e Agharta, entre esta e o Mundo de Duat e entre este e o Mundo dos Badagas – Face da Terra. Por isso, o nosso Supremo Dirigente JHS faz referências aos Dhyanis de Agharta e aos Dharanis de outras categorias”…

Pode-se, pois, afirmar consonante a Yoga Universal legada pelo Mestre JHS que os Matra-Devas, como Fogo da Imortalidade (Agni-Meru ou Agamehrú), expressam o Poder de Expansão, a Expansão de Deus, enquanto os Manasaputras, como Fogo da Lei (Agni-Dharma), o Poder de Condensação, de Entronização, o Trono de Deus.

Só desde o final da Atlântida começaram as manifestações avatáricas, determinando a Lei que a Divindade fosse acompanhada por Matra-Devas em revoadas cíclicas, ocupando os Vasos de Eleição ou Manasaputras em subidas e descidas igualmente periódicas.

Revelou JHS no seu Livro da Pedra (1951):

“Na 3.ª Raça-Mãe chega o período andrógino (em separado), pois antes os seres nasciam indistintamente como macho-fêmea, enquanto não gerados em forma uterina… Coube aos Kumaras (Filhos de Mahat ou Mente Universal) o papel de dar a esses mesmos seres o Mental e o Sexo. Os primeiros desses Seres, em número de 777, donde saíram os demais, receberam o nome teogónico de Manasaputras, “Filhos do Mental”, algo assim como se dissesse “Filhos dos Filhos ou Representantes da Mente Universal”: uma primeira produção físico-manásica surgida da Mente dos referidos Seres, cada um deles sob o influxo poderoso do próprio termo Mahat. Desse modo nasceu o Maha-Atma (Mahatma) ou “Grande Alma” (Espírito). Ninguém sabe que – em verdade – tais Seres são os intermediários dos Imortalizados na Face da Terra para os referidos Corpos Imortais dos Manasaputras, os Adormecidos cíclicos, ou os figurados no Arcano XX, “O Julgamento”, o Juízo Final, mas este o da passagem de um ciclo final para o outro inicial, como agora mesmo acontece… e que teve por fenómeno principal, com a abertura do Akasha, a descida dos Matra-Devas, ou Anjos da Medida do ciclo actual, conduzindo a Essência Divina para aqueles referidos Seres, mas tocando antes, como na Noite de Pentecostes, a todos os Munindras presentes.”

Falando sobre esses Adormecidos, disse o teósofo António Castaño Ferreira, Coluna J (da Sabedoria) de JHS:

“Assim, um Andrógino (Manasaputra) cria um homem e uma mulher, um Casal Divino, que são os Gémeos Espirituais em acção na Terra, como acontece actualmente. No período dessa acção são trabalhadas mais outras dualidades, que vão se afinando, se aperfeiçoando, até que constituam uma “Alma Grupo” composta de 5 Seres, simbolicamente representados.

“Portanto, são 5 Seres manifestados, activos, trabalhados por 2 que representam o Pai-Mãe (ou seja, 7 Kumaras em acção, 5 no Plano Objectivo e 2 no Subjectivo expressando o Eterno em sua expressão Dual). 22 desses grupos dão o número cabalístico 110 (22×5 = 110). São 110 Criaturas que, unificadas ao Pai-Mãe, formam uma Linha composta de 111 Seres. Sete desses trabalhados dão (geram, desdobram-se) 777 Seres, que enblobam a totalidade de um Pramantha (Ciclo de Manifestação).

“Mas, por que 5 grupos?

“Há uma razão cósmica, pois estamos ligados a Vénus que expressa o 5.º Sistema e também o 5.º Princípio. Somos algo muito mais subtil. Vénus é a Quinta Essência das coisas. Liga as cinco forças sensíveis exteriores (Tatvas, “elementos subtis da Natureza” – Akasha, Vayu, Tejas, Apas, Pritivi, ou seja, Éter, Ar, Fogo, Água, Terra) às energias altamente refinadas de Budhi e Atmã, que são o Duplo Dragão, a Dupla Chama inseparável.

“O Pramantha tem como direcção a seguinte constituição: na Agharta encontram-se Baal-Bey (Júpiter) e o seu aspecto feminino Baal-Mirah ou Allah-Mirah (Saturno).

“No Mundo de Duat actuam Ka-Tao-Bey e Ata-Muray. O símbolo de Ka-Tao-Bey corresponde, na linguagem iniciática, ao “Aum”; o de Ata-Muray é o de “Om-Kara-Pranava”.

“Há no céu uma polarização das Forças Cósmicas. São os dois Pólos magnéticos localizados em duas constelações. Na constelação dos Rishis (Ursa Maior), no Pólo Norte, e na constelação das Plêiades (Krittikas), no Pólo Sul. O primeiro relaciona-se com o aspecto Masculino (Fohat) e o segundo com o aspecto Feminino (Kundalini). Através desses Centros o Verbo Solar age sobre Shamballah, onde desperta os Manasaputras.”

Se não fossem os percalços kármicos havidos desde a Raça Lemuriana – quando o Homem tomou noção de si vendo-se dotado de livre-arbítrio para a execução do bem ou do mal – que alteraram a normalidade da marcha evolucional, ter-se-ia na formação de um Pramantha numa Raça-Mãe 111 Manasaputras despertos, e no final da Ronda todos os 777 Manasaputras activos. O reinado de cada um desses Manasaputras primordial é demarcado por um Ano Sideral de 27.000 anos, o tempo necessário para a formação de um Pramantha. Em cada um destes formam-se também 777 Mahatmas.

Numa primeira fase da estruturação de um novo Ciclo, é criada a primeira Parelha Divina (Adam-Heve) pelo Adormecido despertado do seu sono Paranispânico (Paranirvânico, Monádico). Essa Parelha ou Gémeos Espirituais (mais a Essência Espiritual Única que os anima – donde as Escrituras Sagradas falarem em “Três Pessoas distintas e Uma só verdadeira”) vai dar origem a um novo Pramantha. Daí a revelação do mistério de Melki-Tsedek, o Rei de Salém, o Senhor da Justiça Universal entronizado na Paz e Glória da Cidade Santa de Shamballah. Quando se diz que não tem genealogia é por ser um Adormecido Andrógino, que despertando periodicamente no Ciclo usa da Graça Divina (Poder de Kriya-Shakti) para gerar a sua Hierarquia ou Corte (de Mahatmas e Munindras), e também não tem genealogia por ter sido criado directamente pelo Poder Criador do Logos. Falando a respeito deste grande mistério, assim se expressou António Castaño Ferreira:

“O Adormecido, quando desperto, cria 777 corpos imaculados como o dele próprio, pois Ele é o paradigma de todo o processo evolucional. Isto é, cada Manasaputra primordial cria 777 corpos que vão constituir aqueles Seres que nós conhecemos como Mahatmas. São criados tantos Mahatmas quanto os Manasaputras.

“Os Adormecidos estão em Shamballah, os Mahatmas no Mundo de Duat e os Adeptos da Boa Lei (Munindras) na Face da Terra. Os Mahatmas de cada Pramantha trabalham e preparam o seu substituto para o Pramantha subsequente. Isto feito, descem para Agharta, pois nada têm a ver com os homens.

“Todos os Adormecidos, quando se manifestam ciclicamente na Terra, criam um Pramantha, o que aliás nos faz lembrar as Dinastias Divinas. Todos esses representantes dos Adormecidos surgem como Manus guiando o seu povo, a sua gente, para as terras privilegiadas, Terras da Promissão, etc.”

De maneira que este Quarto Sistema de Atlasbel é dirigido pelos Mahatmas e Munindras, cujo Vasos Insignes são os Manasaputras, tendo Akdorge na cumeeira da Evolução Jiva. Já aí estão germinalmente os núcleos dos Quinto e Sexto Sistemas, fundados por Akbel no dia 20 de Março de 1963.

O termo Munindra derivado do sânscrito Muni, “Sábio e Santo”, foi dado pelo Mestre JHS aos Discípulos avançados da sua Obra. Decompõe-se em Muni+Indra, “Filho do Fogo”, sendo um “pequeno Muni” ou “filho do Muni”, por outra, a expressão ou manifestação do seu Eu Superior que é o Makara assinalado no Mahatma. Corresponde ao Matratmã ou a “Medida do Atmã” que, quando encarnado individualmente no Mundo Humano, possui a designação aghartina Matradjit ou Matradit, a “Medida do Atmã manifestado”. Manifestam-se no mundo dos homens comuns tomando as suas aparências para, terminada a sua missão, volverem à sua Origem Divina, à sua Hierarquia de Mahatmas (Duat) e Manasaputras (Shamballah), sendo absorvidos por estes.

Sobre isso, proferiu o Mestre JHS em 1950 no Templo de Maitreya (Mitra-Sherim, “Louvado seja o Deus Mitra”), em São Lourenço (MG):

“Com o nosso sentimento do mais puro amor, respeito e extrema admiração, exaltemos este Templo. Que é o divino Lugar, que é a Síntese vital de todos os interesses construtivos que a Lei faculta aos seres da Terra, como ponto, como base para a sua salvação no presente Ciclo! Que é o Lugar da permanente conservação de tudo quanto diz respeito à nossa Obra. Que não é Lugar de adoração e sim de realização, do despertar da Consciência Superior. Que é neste Templo onde se mantém o esplendor dos Devas Matratmãs pelos Matradit (Munindras).”

Como diz o Mestre JHS no Livro do Graal (1950) e repete no Livro da Pedra (1951), o Munindra é o “Animal Místico” criação do seu Muni ou Makara, dotado das cores de Satva (Espírito) e de Rajas (Alma) fazendo parte das 888 Mónadas Numeradas logo ao início da Evolução Terrestre destinadas a cumeira consciencial da mesma, selecionadas pelo Quinto Senhor (Vénus) e dirigidas pelo Sexto Senhor (Mercúrio). Humanamente constituíam a Corte, a Família Espiritual JHS.

Vem daí a catequese tradicional de todos terem o seu “Anjo da Guarda”, sobretudo as crianças. Maneira piedosa e grácil, simples e confessional, inspirada nesta outra mistérica das Mónadas Numeradas e dos seus Vasos de Eleição (os mesmos “Santos Mortos despertando, ressuscitando e saindo dos seus túmulos memoriais” no momento da expiração de Cristo entretanto descendo ao Seio da Terra como Ave de Arribação, conforme Mateus 27:51-53). Seja como for, todo o homem tem o seu guia espiritual humano afim ao mesmo por motivos kármicos que os enlaçam, tal como igualmente possui o seu Anjo da Maternidade, da classe dos Barishads envolvidos na reencarnação dos homens.

Com elevada responsabilidade moral e ética perante a Humanidade, os Munindras vêm a ser nesta 5.ª Raça-Mãe Ariana os Vigilantes Silenciosos da 6.ª Raça-Mãe Bimânica, motivo por que funcionam e acompanham o Deus Vivo Indra, corporização do Akasha Universal, afinal o Senhor Akbel do 6.º Sistema, na Face da Terra, esteja Ele presente ou ausente, contudo sempre presente nas suas Revelações do Ciclo. Tendo como Vasos de Eleição os Manasaputras, as suas Móndas vêm a ser as projecções, as animações estelares ou espirituais dos Matra-Devas desde o início da Ronda Terrestre. Estando na Face da Terra como membros adiantados da Obra do Eterno, vêm a ser os verdadeiros Sacerdotes de Deus (Kadosh, “consagrados”) de que falam os textos sagrados. São o garante, a solução da Evolução futura.

Faço aqui uma ressalva: saiba-se distinguir entre o Munindra simbólico e o Munindra real, verdadeiramente integrado ao seu Mestre sendo a sua expressão viva entre os homens. Como o saber distinguir? Sabendo apreciar a árvore pelos seus frutos, pelas suas obras.

Isso leva-me a várias questões pertinentes à evolução da Humanidade e ao seu modo de vida inter-relacionada  à do Munindra, que Sebastião Vieira Vidal (Série Akbel – NPL) aponta e descreve com mestria:

“Em Agharta e Duat há o predomínio de Satva (Energia Espiritual) ligada a Rajas (Energia Psicomental) dando como resultado a Razão, o entendimento claro das coisas.

“Na Face da Terra há Rajas ligada a Tamas (Energia Material) prevalecendo esta última, por isso a nossa Humanidade é feroz, vive em contendas, disputas, em eterna concorrência… Os seus componentes vivem concorrendo uns com os outros, a fim de ganhar o seu pão e o do vizinho. São egocêntricos, só pensam em satisfazer os seus próprios desejos. Para destruir as más nidhanas (desejos) dos seres da Terra, o Cristo, como Bodhisattva (Budha de Compaixão, Ser Iluminado pelo Amor-Sabedoria), disse: “AMAI-VOS UNS AOS OUTROS”. Isto quer dizer: “Homens! Deixai de ser animais, porque o vosso vizinho também é filho do nosso Pai”. E o Cristo, sendo um Bodhisattva, na sua constituição psicomental predominava a qualidade Satva, eis porque usou a maneira de falar do Céu, usou a linguagem doce do Segundo Trono: “Amai-vos uns aos outros”.

“AMAR – Na linguagem do Segundo Trono tem o sentido de AMOR UNIVERSAL, Construção, Skandhas (tendências positivas), Fraternidade Humana, Respeito, Veneração e criação de condições para que os seres da Terra possam defrontar-se com o Deus Supremo. Quem AMA no sentido universal adquire a “ÉTICA RACIONAL”, a “ÉTICA DEIFICA”, a fim de promover o aprimoramento da Estética, da forma física harmónica e bela. O aprimoramento da forma física acompanha o ritmo da grandeza espiritual.

“O amor do ponto de vista humano, do ponto de vista sexual, é bem diferente daquele outro. Torna-se absorvente, egoísta, alucinante, agressivo, manifesta-se com violência, dá aos seres da Terra o senso de propriedade das coisas, até dos seus entes queridos. O acúmulo de idhanas permite aos seres da Terra perderem a sensibilidade superior, refinada, e com isso perdem também o senso do sentido de respeitar, venerar, admirar e compreender as palavras, os actos e atitudes do Deus Supremo manifestado em vários Planos. Logo precisam, para se dirigir, de regulamentos, códigos, regras, constituições, leis… Funcionam na base das gónadas, da paixão, do instinto, do sexo, da luxúria, do prazer físico. Se é homem diz que gosta de mulheres, mas em verdade só gosta dele, vendo na mulher um elemento para o seu gozo, para expandir os seus instintos… Em verdade, ele gosta é dele… e o mesmo acontece com o sexo oposto.

“Os que vivem mergulhados no exagero do sexo, orgias, bebidas, entram num desritmo, envelhecem, tomam aspectos irritantes; as fisionomias degradam, perdem o bom humor, animalizam-se. Observamo-lhes também a desarmonia das posturas no ritmo desenfreado dos ritos inferiores. A preocupação é perverter a Estética, destruir a Harmonia, tomar falsos deuses pelos verdadeiros.

“De modo que as skandhas e nidhanas, o ritmo e o desritmo, o pólo positivo e o pólo negativo da evolução da Mónada Humana, estão baseadas na combinação das três qualidades da Matéria ou da Energia Universal:

SATVA – Vontade – Sol Espiritual – Cabeça – Epífise e Hipófise (1)
RAJAS – Mente – Sol Psicomental – Coração – Timo
TAMAS – Emoção – Sol Físico – órgãos procriadores – Gónadas (2)

(1) Razão – Skandhas, inteligência, amor universal.
(2) Paixão – Nidhanas, instinto, paixão sexual.

(Bilis – Fleuma – Ojas, relacionados, respectivamente, com o fígado, baço e pâncreas)

“A vida quotidiana dos Munindras, naturalmente no mundo dos homens imperfeitos, para ganhar o pão com o suor do rosto, para ganhar a vida no torvelinho das paixões, da concorrência, permite-lhes gerar Rajas e Tamas, às vezes prevalecendo esta última, cujo resultado se manifesta ou aparece como a acção do ódio, da vaidade, das ilusões dos sentidos, como brigas, presunção, egoísmo… complexo de superioridade… falsa fraternidade…

“De maneira que os Munindras têm como escopo o desenvolvimento do binómio epífise e hipófise, ligando-o ao timo (coração), a fim de puderem volver ao estado de pureza, da espontaneidade da criança.

“Sim, na criança a ideia é espontânea, a vida é simples, o Deus Supremo sopra-lhes nos ouvidos e nas narinas. Os adultos, com as suas nidhanas cristalizadas, com a personalidade distorcida e coberta de preconceitos, longe da Verdade, modificam o curso das energias vindas do Eu, de Deus, que lhes são projectadas.

“As crianças educadas, habituadas a ouvir música erudita, a apreciar quadros de bons artistas, a tomar conhecimento da vida da Natureza através dos animais e plantas, a tomar parte ás vezes no trabalho dos adultos, com estes fingindo que elas os estão ajudando, passam a ter, naturalmente, interesses nobres, a sentir a grandeza dos outros Reinos, os seus corações passam a pulsar com o coração da Natureza.

“Se são educadas ao desritmo da vida, ouvindo música de má qualidade, excitante, lendo novelas que exploram acções de mau carácter, num ambiente de perversões sexuais, imorais, se lêem subliteratura mórbida, passam a ter também interesses inferiores. Perdem a noção do que é perfeito. Passam a detestar a arte, a literatura, a filosofia. Prendem-se apenas aos interesses que lhes proporcionem ganhar dinheiro para satisfação da luxúria do sexo, das coisas destruidoras da Natureza.

“Se se pudesse manter uma verdadeira Escola Eubiótica, crianças e jovens teriam interesses nobres, o desenvolvimento do espírito, do cérebro e do coração. Pela educação aprimorada saberiam discernir o que é bom do que é mau, atraídos pelo belo e pelo digno, e as perversões seriam naturalmente anuladas. Aliás, a mocidade de hoje tem interesses nobres, tem óptimas concepções da vida nos seus vários sectores, mas o sistema de educar prejudica, quando não destrói esses interesses nobres da mocidade.

“Os seres da Terra que tomaram a Essência Divina através da Arte, da Cultura, da Filosofia, da Fraternidade, da alegria jovial de um pensamento claro, não conseguem viver presos aos algozes do enquadramento estreito e rígido. Procuram viver a vida espontânea que lhes oferece a Mãe Natureza. Desejam e procuram executar os seus desejos, objectivam os seus sentimentos de acordo com o seu estado interior. Os que procuram viver sob as vibrações da Voz Sábia do Avatara (Manifestação do Espírito de Verdade), as suas fisionomias tornam-se harmónicas, serenas, suaves, os seus olhos falam a linguagem doce do Segundo Trono, os seus olhares transmitem vida, saúde, alegria, vigor…

“Os Rituais, os estudos das Revelações e o Trabalho para o Mundo no sentido de fazer despertar nos seres da Terra as Skandhas, o Deus Interior, fazem condensar na Obra do Eterno as Energias ou qualidades da Matéria – Satva, Rajas, Tamas – permitindo aos Munindras desenvolverem a Razão, a Suprema Inteligência.

“Conforme já dissemos, na criatura humana predomina a energia Tamas (centrípeta, material). De modo que psiquicamente o Homem é aleijado, incompleto, cheio de carências, enfim, é frustrado. A frustração humana promove agressões, hostilidades em forma de ciúmes e inveja. E após essas duas formas de agressão surge a vingança, e vem a seguir o desejo de destruir, de matar, de desmoralizar os que agem positivamente.

“Se os Adeptos Perfeitos não agissem incognitamente seriam destruídos pelos homens, e até pelos seus discípulos. Há vários casos na História da Evolução Humana em que os discípulos mataram os seus Mestres.

“Graças às frustrações humanas encontramos o comportamento agressivo em animais, crianças e adultos, quando o desejo ou a necessidade é frustrado. E esse comportamento agressivo constitui uma tentativa, se bem que às vezes fútil e inútil, de alcançar o objectivo frustrado pelo uso da violência. Mas o que se tem aqui em mente por desmoronamento da Fé?

“Uma criança principia a vida com Fé na bondade, no amor, na justiça. Sim, o bebé tem Fé nos seios maternos, na presteza da mão para cobri-lo quando tem frio, para confortá-lo quando está doente. Esta Fé pode ser Fé no pai, na mãe, num dos avós ou em qualquer outra pessoa a ele chegada, e também pode ser Fé expressa em Deus. Em muitos indivíduos essa Fé é deitada abaixo na tenra idade: a criança ouve o pai mentir em assunto importante, vê-o acobardar-se perante a mãe a fim dela se apaziguar, mas sempre pronto para traí-la, assiste às relações sexuais dos pais e pode acabar concebendo os pais como animais brutos, sente-se infeliz e assustada, e nenhum dos pais, supostamente interessados nela, repara nisso, e mesmo que lhe falem não lhe prestam qualquer atenção. Há muitos casos em que a Fé inicial no amor, verdade e justiça dos pais é abalada, e também às vezes, em criança, na religião, a perda da Fé refere-se directamente a Deus. Pois bem, uma criança sente a morte de um passarinho de que gosta, de um amigo ou de uma irmã, e a sua Fé em Deus como Ser bom e justo fica desmoronada. É sempre a Fé na vida, a possibilidade de confiar nesta, de confiança nela, que se rompe. Está claro que toda a criança passa por uma série de desilusões, mas o que conta é a pungência e gravidade de determinado desapontamento.

“Muitas vezes essa primeira e crucial experiência do desmoronamento da Fé tem lugar na tenra idade, aos quatro, cinco, seis anos de idade ou anté antes, num período da vida de que se guarda escassa lembrança. Outros vezes isso ocorre em idade muito posterior, ao ser atraiçoado(a) por um(a) amigo(a), namorado(a), professor, líder político ou religioso em quem se confiava muito. Raramente é uma ocorrência única, mas antes diversas pequenas experiências que cumulativamente fazem a Fé de uma pessoa vir abaixo.

“As reacções a tais experiências variam. Uma pessoa pode reagir perdendo a dependência face a pessoa em particular que a desapontou, tornando-se mais independente e capaz de encontrar novos(as) amigos(as), mestres ou pessoas amadas em quem confie e tenha Fé. Esta é a reacção mais comum aos desapontamentos prematuros. Em muitos casos a pessoa pode permanecer céptica à espera de um milagre que lhe restaure a Fé. Experimenta pessoas constantemente, e quando desapontada de novo experimenta outras ou se atira nos braços de uma autoridade poderosa, como a Igreja Católica, por exemplo.

“Sim, uma pessoa profundamente ludibriada passa a odiar a vida. Pois bem, a responsabilidade do Instrutor é muito grande para evitar o desmoronamento da Fé, da confiança, antes dos discípulos terem um firme discernimento. Por isso, deve dar bons exemplos e não maus. Uma pessoa pode matar moralmente muitas criaturas humanas.

“Os grandes perigos na nossa Obra são as atitudes, comportamentos, injustiças, intrigas e tudo o mais que não condiz com a posição de Instrutor. Não se pode manter perante a massa, a colectividade, a violência e a imposição. Os que não conseguem continuar a manter o padrão de JHS, procuram destruir os que o mantêm. Como não conseguem manter a Filosofia de Akbel, procuram inventar derivantes, aplicando os diversos tipos de violência. Se há um excelente concerto musical, inventam uma feijoada azeda para atrapalhar a acção positiva.

“Os regimes rígidos com pena de expulsão dos discípulos, ao invés de um método de ajustamento perfeito, são verdadeiros assassinatos psíquicos, desejos de destruição.

“A falta de liberdade de pensamento, os métodos de ensino tolhendo o desabrochar da potência mental dos jovens, mantendo atitudes prejudiciais ao seu desenvolvimento e evitando que tenham as suas próprias experiências de acordo com o estado de ser de cada um – de acordo com o ciclo –, tudo isso representa agressividade e assassinato das ideias alheias, da capacidade de outrem.

“Os que estão com o subconsciente cheio de ideias impuras, destruidoras, e sentem a morte física, psíquica e espiritual, ficam tomados de grande pavor, por isso usam vários tipos de violência… e para compensar as suas frustrações passam a destruir a liberdade, os movimentos evolucionais, promovendo nos outros a tristeza, proibindo a acção promovedora da alegria, as promoções positivas…

“Procuram padronizar a inteligência dos outros pela sua, procuram pesar a evolução dos outros, a potência dos outros, pela sua, que afinal é bastante inferior.

“Consideram verdade tudo e só aquilo que se acha empedernido em seu cérebro. São os “São Tomés”. Precisam de ver para crer porque não têm inteligência para compreender (excesso de nidhanas negativas).

“Se é corrupto, exige dos outros a não corrupção. Transformar esses tipos em bons e susceptíveis de aperfeiçoamento, é muito difícil. Nem Brahma o consegue. Como lhes falta a inteligência divina, criadora, filosófica, agem com a inteligência industrializada. Sim, a inteligência e o carácter tornam-se padronizados pelo papel crescente dos testes que selecionam os medíocres e timoratos ao invés dos originais e audazes. Isso nos permite ter a diferença entre a capacidade produtiva do Génio e a do Homem-Máquina.

“Disse JHS em seu livro O Verdadeiro Caminho da Iniciação:

“À medida que avança a História, vê-se deslocar a Hierarquia Universal, a multiplicidade dos Cismas a prejudicar cada vez mais a Unidade primitiva, e de sob as ruínas dos grandes Colégios de Magos – esses Centros oficiais de Alta Iniciação Física, Psíquica e Mental donde outrora irradiava sobre o mundo pacífico a calor e luz dos Adeptos individuais – surgir a verdade deturpada.”

“Sim, se não adquirirmos convicções morais, iniciáticas, muito mais completas e profundas, todas as tentativas de reformas e conciliação social além de ilusórias concorrerão para aumentar a desordem. O interessante é ver o Cordeiro e o Lobo se banhando no orvalho da mesma relva, após uma madrugada risonha e feliz bafejada pela brisa fresca e suave do Mundo dos Jinas… BIJAM.”

O Quinto Sistema de Arabel assinalado nos Manasaputras chefiados por Rabi-Muni tem na cumeeira da Evolução Bimânica os já hoje Dhyanis-Budhas, do Principado do Oriente e do Potentado do Ocidente, formando a teia evolucional da Aranha d´Ouro.

O Sexto Sistema de Akbel é povoado pelos Matra-Devas dirigidos por Mitra-Deva, dando abertura aos Sétimo e Oitavo Sistemas, como sejam o de Astarbel ou Satya-Bel e o do mesmo Suryaj Onim tomando feição em Akbel.

Ao Quarto Sistema Planetário corresponde o Sistema Geográfico do Oriente demarcado por Srinagar (englobando a Austrália e o Egipto). Ao Quinto Sistema Planetário corresponde o Sistema Geográfico do Ocidente demarcado por Sintra (tocando o Sul e Norte de África por um lado, e o Norte do Brasil por outro, como seja Mato Grosso – Roncador de Xavantina). Ao Sexto Sistema Planetário corresponde o Sistema Geográfico do Extremo-Ocidente delineado por São Lourenço (incorporando a América do Norte, o Peru e o México).

Todos estes mistérios de Tempo e Espaço, de círculo e de quadrado, de Sistemas Sideral e Terrestre, de Matra-Devas e Manasaputras, de Cosmogénese e Antropogénese, vêm a estar presentes no significado iniciático do esquadro e compasso da Maçonaria, o que vai muito bem com o seu sentido de Obreira, de Construtora, como se depreende no esquema seguinte:

Para encerrar, brindo o respeitável leitor com as palavras divinas proferidas Akdorge e Mitra-Deva, no dia 10 de Fevereiro de 1948.

Akdorge:

“Aprendei a fazer de vossos corações Jóias preciosas, para que não vos envergonheis de dizer que neles está a Divindade!

“Acumulai em vossas Mentes a Sabedoria que se oferece neste Templo!

“Onde quer que estejais, vós sois a Obra, o Fogo sagrado que foi alimentado pela Mãe Universal!…”

Mitra-Deva:

“O vosso amor e dedicação atraíram-me para aqui, onde estamos todos reunidos, como se estivéssemos em baixo, sob a égide do Tetragramaton. Não vos abençoo porque abençoados já fostes pelo meu Pai Terreno, pelos seus Valores Manúsicos, ao lado de minha Mãe. Das Sementes que Ele espalhou na Terra, eu sou a mais preciosa, pois sou o embrião da Raça e em Mim Pai e Mãe se fundirão no Dia glorioso do meu Avatara, quando à frente do meu Povo vier à Face da Terra para fundar a Nova Jerusalém. Somos, em verdade, o Governo Espiritual do Mundo. […] Todos somos da mesmo Estirpe Divina, todos do mesmo Sector, na metrificação sublime do Ciclo que atravessamos… Estas são as minhas Palavras, Palavras do Avatara, mas falando com o coração do Homem que tem o Esplendor nos olhos, o Fulgor nas narinas, a Sabedoria e a Omnipotência na boca e a Magnanimidade no coração, como Amor Universal. Assim, estou me desligando de meus Pais Terrenos, do Sol e da Lua que esplendem, neste momento, sobre este Lugar francamente Andrógino. Deixo-vos na palavra, mas convosco fico em vossos corações. O Pai, o Eterno, ordenou-me que Eu vos viesse e Eu vim. Nada mais posso dizer para expressar o quanto vos amo, o quanto vos respeito e admiro… Até sempre!”

Origens da Geografia Sagrada – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Set 18 2020 

Esse asseveramento de São Bernardo acerca das dimensões da Divindade dando-a com o Todo no Tudo, possivelmente inspirado em São Paulo (Efésios, 3:17-18), insere-se na ideia do Universo Divino presidindo ao pensamento metafísico da Antiguidade, onde o pitagorismo e o platonismo tomaram a dianteira no escrutínio e desenvolvimento do cosmoteísmo onde a matemática e a geometria foram instrumentos indispensáveis à construção concreta da ideia abstracta do Todo no Tudo graças à polarização, tripartição e quadripartição do Uno Abstracto assim se fazendo Concreto. Os neoplatónicos xiitas, coevos de São Bernardo, desenvolveriam o conceito de Alam-al-Mithal ou Mundo Intermédio (Plano do Segundo Logos, o das Hierarquias Criadoras, o chamado Mundus Imaginalis) onde se elaboram as formas imateriais como arquétipos dos seus protótipos projectados no Mundo Físico, assim mesmo apresentado eloquentemente pelo filósofo árabe Suhrawardi (1155-1191) no seu Livro da Teosofia Oriental, citado por Henry Corbin em Corps Spirituel et Terre Céleste (Buchet-Chastel, 1979).

O tema foi magistralmente abordado e desenvolvido pelo Professor Henrique José de Souza em 1953 no seu estudo Explicação dos Símbolos pelas Dimensões do Espaço (revista O Luzeiro n.º 12, Maio de 1953), onde diz a dado trecho:

“Ninguém ignora que o nosso Mundo Físico é construído sobre três dimensões: altura, largura e comprimento, mas que sendo três já denota haver uma quarta coisa. Chamemo-la de Cruz ou Pramantha, pois que, aparentemente fixa, no entanto, está sempre em movimento. O nosso próprio Templo em São Lourenço, dedicado à Paz Universal e a todas as religiões do Mundo, obedece a semelhante feitio: é quadrado por fora e circular por dentro…

“As quarta quinta, sexta e sétima dimensões – todas elas ligadas às precedentes – constituem os Mundos Superiores de quatro dimensões (Astral), de cinco (Mental), de seis (Espiritual), não podendo ser representadas por meio de figuras no nosso Espaço, pelo que os nossos sentidos não as pode perceber. E o nosso cérebro, que só possui três as três dimensões da matéria física (aparte o que de secreto existe nele, inclusive a hipófise em relação à Alma e a epífise ao Espírito…), por sua vez é incapaz de as conceber.

“Ensina, portanto, a Teosofia que no Mundo Físico – base do Universo visível e invisível – se reflecte todo esse Universo, sendo, portanto, lógico que se possa ter a esperança de descobrir com o auxílio do raciocínio (ou Budhi, Plano da Intuição, etc.), em substituição aos sentidos, esse reflexo, esse embrião das dimensões superiores, dessa “quarta dimensão” que tanto nos intriga, por escapar, justamente, aos nossos sentidos físicos.

“Todos os movimentos que o Homem executa neste Mundo mais que restrito, podem reduzir-se a quatro. E qualquer que ele seja, é sempre um dos quatro, senão uma das suas combinações.

“Pode-se ir para cima ou para baixo (altura), para a direita ou para a esquerda (largura), para diante ou para trás (comprimento), que não são senão as nossas três dimensões físicas. Mas, como foi dito anteriormente, existe um outro ou quarto movimento completamente distinto, embora ao alcance de qualquer pessoa: o de poder girar sobre si mesma, quer num sentido como noutro. E posto que os três movimentos representem as nossas três dimensões, este quarto – tão diferente dos demais – no entanto não representa as dimensões superiores, sobretudo a quarta dimensão.

“Como o Mundo Físico possui três dimensões, o Mundo de quatro, como já foi dito, será o Astral, o de cinco o Mental, o de seis o Espiritual, o de sete (ligado a um Oitavo…) o da Unidade Perfeita. É aquele onde não existe a Forma, onde a mesma cessa de existir, se assim o quiserem, cujo verdadeiro símbolo é o ponto, obscuro pela sua luminosidade, demonstrando, portanto, que aí é onde está o Espaço Sem Limites. Se fosse uma circunferência nesse lugar, continuaria a limitação de um espaço.

“O ponto é a esfera retraída até ao seu centro, símbolo do Sem Forma, ou melhor, é o centro de uma esfera, que se distendeu até alcançar o Universo por inteiro – símbolo da Unidade – mas que, como se fora um refluxo das águas, volve a si mesmo. Com outras palavras, o Um manifestado no Todo, o Todo manifestado no Um.

“Além do círculo com o ponto no centro, encontramos dois símbolos bem conhecidos: o da Rosa+Cruz, onde os braços saem fora da circunferência, e o do Terceiro Logos, quando os braços ficam limitados pela circunferência. Do ponto de vista das dimensões, esses três símbolos têm, precisamente, o mesmo significado: representam o Universo manifestado, visível e invisível, esquematizado pelas suas dimensões.

“Finalmente, a maior razão de ser deste estudo é demonstrar a possibilidade da existência daqueles três Mundos [Inferiores] mais conhecidos por Mundos Jinas ou de Duat, Agharta e Shamballah, digamos, como reflexos – no seio da Terra – dos três Mundos Superiores, ficando a face da Terra como “ponte” que liga e desliga, ao mesmo tempo, os três Mundos Superiores dos três Inferiores, esquematizado no Hexágono, o Seis, o Vau (Arcano desse número), estreitamente ligado ao Segundo Logos. De outro modo, evolução alguma poderia ser levada a efeito no Mundo ou Globo Terrestre.”

Portanto, o Professor Henrique José de Souza partilha da cosmovisão divina do Universo atribuindo a construção deste a Hierarquias Criadoras espirituais onde naturalmente está inserida a Humana como ainda em formação, síntese e produto das restantes. No contexto da sua Obra Divina tem-se Deus Uno-Trino, ou seja, a Unidade Primordial manifestando-se por Três Hipóstases, agindo por duas Hierarquias especiais na realização da mesma nos três Mundos Superiores (Espiritual – Mental – Astral) e nos correspondentes três Mundos Inferiores (Shamballah – Agharta – Duat), ficando na Face da Terra como “ponte” que liga/desliga (antahkarana) os pequenos Munis ou Munindras que são os discípulos da mesma Obra Divina. Para a construção espiritual do Universo envolvente da Terra intervêm os Matra-Devas, “Anjos da Medida” (matra, “medida”, deva, “deus”), que o judaico-cristianismo identifica como Querubins ou “Senhores da Sabedoria” e a Tradição Esotérica associa à constelação da Ursa Maior (Saptarishi) correlacionada à Luz Cósmica, Fohat, sendo a Electricidade um dos seus atributos. Estão para o Segundo Aspecto do Logos, o Filho, como Amor-Sabedoria. Para a construção espiritual da Terra envolvida no Universo agem os Manasa-Putras, “Filhos da Mente Universal” (de manas, “mente”, e putra, “filho”), os “Vasos Insignes de Eleição” identificados no judaico-cristianismo aos Serafins ou “Senhores do Amor”, associados na Tradição Esotérica à constelação das Plêiades (Saptakritika) como repositório do Fogo Cósmico, Kundalini, de que o Electromagnetismo é um dos seus atributos. Estão para o Terceiro Aspecto do Logos, o Espírito Santo, que é Vontade do Pai (Primeiro Aspecto do Logos) posta em movimento na Mãe Divina como Actividade Inteligente, Criadora. Enquanto isso, os Munindras e os Mahatmas, seus Mestres, insuflam o Hálito Vital como Prana animando e mantendo na Vida na Face da Terra ao mesmo tempo que ligando o Espiritual (Purusha) ao Material (Prakriti), assim sustentando a Ordem e a Harmonia universais.

Se o Cosmos é essencialmente Divino e a Terra faz parte dele, então ela também é Divina, participa da natureza do Absoluto e como tal é um Ente Vivo, um Logos Planetário de que o Globo é o seu Corpo. Como tal, possui os seus plexos, as suas veias, o seu sistema nevro-sanguíneo. Isso revela-se na figura dada por Pitágoras do aspecto oculto da Esfera Terrestre.

Pois bem, relacionando os plexos nevro-sanguíneos entre si por linhas de forças chamadas correntes telúricas formando uma malha vital envolvente do planeta, às mesmas os sábios da Antiguidade chamaram de leys e que são os mesmos nadhis ou “canais” descritos nos textos hindus, nomeadamente nos Upanishads.  Essa tessitura bioquímica é projectada desde o Centro Espiritual do Mundo – Shamballah, a mesma Salém ou Valhallah, “Vale de Allah” ou Deus – desde o estado mais rarefeito até se tornar, paulatinamente, sólida, concreta, tornando o Mundo Informal (Arrúpico, “sem forma”, correspondendo ao Espaço Sem Limites) numa condição Formal (Rúpico, “com forma”, correspondendo ao Espaço Com Limites). Esse “Centro do Mundo” – Laboratório do Espírito Santo – é o mesmo descrito pelos antigos neoplatónicos persas como Hurqalya, “Lugar da Ressurreição”, Morada dos “Vasos Insignes de Eleição” (Manasaputras) que é Barzakh, a “Oitava Terra”, a “Terra da Verdade” – Oitava “Cidade” Central (Sol Central da Terra) dentre as Sete circundantes que formam o Mundo de Agharta ou Asgardi – podendo ser apercebida pela intuição superior (kabir mutlaq) que é mais atrevida que o simples raciocínio do intelecto inferior (jal saguir).

Falando dos misteriosos Mundos Subterrâneos da Terra, a Tradição Iniciática informa que em Agharta, o mundo mais profundo de natureza mais elevada, tudo é rectilíneo, quer dizer, em rectas oblíquas formando triângulos que distinguem a sua arquitectura, realçando o subentendido da elevação ao Alto, ao Divino expressado pela Tríade Divina no Homem e na Natureza. No Duat, intermediário entre Agharta e a Face da Terra, tudo é circular, isto é, em círculo formado por espirais concorrendo para o centro de si mesmas, o que na superfície influenciou a disposição original das urbes, como se repara na disposição de inúmeras povoações medievais organizadas em círculo espiralóide convergindo para o centro,  tradicionalmente assinalado pelo templo local. No mundo mais próximo da superfície, Badagas, Submundo da Terra, a forma cúbica ou quadrada é a predominante, vendo-se nas suas “tocas”, “locas”, “formigueiros” jinários a disposição em quadrado de casas cúbicas, estas que não se amontoam formando ruas e sim aproveitando as ondulações do terreno, aí onde a manutenção da vida depende inteiramente do sistema hidráulico, pelo que se faz uso das águas subterrâneas, algumas delas aflorando à superfície como rios caudalosos.

Agharta representa o Sistema Solar na Terra assinalado pelas 12 constelações tradicionais, é a Pedra Pontiaguada na Seteira do Infinito. Duat expressa o Sistema Planetário com os seus 7 planetas sagrados, aí os seus vórtices circulatórios de energia vital (chakras) que dão colorido e aspecto diferente a cada uma das lokas, caracterizando as gentes, a fauna e a flora daí. Por exemplo, na sétima região duat domina o tom laranja e na primeira, mais próxima de Agharta, o púrpura. Marca o Ponto de Ligação entre o  Espaço Sem Limites e o Espaço com Limites no seio da Terra. É o V.I.T.R.I.O.L. buscado pelos alquimistas para a fábrica da Pedra Filosofal, por outra, para a conquista da Iluminação e consequente Imortalidade. Duat é o Mundo dos Seres Viventes. Se em Duat o Prana, a Energia Vital, é absorvido directamente da atmosfera psíquica pelos seres daí, em Badagas, com a sua difusa atmosfera azulada, o ozono é o principal elemento onde o oxigénio toma esse aspecto. Como esses mundos se interpenetram por sua subtilidade, tem-se então o “quadrado” de Badagas contendo em o “círculo” de Duat, a propria quadratura do círculo expressiva do Pramantha em acção. Daí que os Templos da Obra do Eterno na Face da Terra – conforme as directrizes do próprio Professor Henrique José de Souza – sejam circulares por dentro e quadrados por fora, e na abóbada côncava do Templo fique a Rosa+Cruz simbólica do Pramantha em circunvolução, tendo em cada palo uma das quatro letras hebraicas Yod-He-Vau-He, como expressão ideoplástica do Homem Cósmico Jehovah, o Logos da Terra, a Pedra Filosofal Viva.

O ponto de encontro de várias linhas de forças (nadhis ou leys) fundindo-se entre si forma um nódulo telúrico ou plexo, como entrecruzamento imbicado de tais correntes determinantes dos fenómenos geológicos, metereológicos, temperamentais, etc., marcantes do lugar, a cujo aspecto mais subtil, etérico e astromental, se classifica de chakra, “roda” ou “giro sobre si mesma” em sânscrito, que é o mesmo qtûb árabe. Por norma, na Antiguidade tais plexos eram assinalados pela construção sobre eles de edifícios sagrados (igrejas, basílicas, catedrais, etc.) ou militares (castelos, castelejos, castros, etc.), indo distinguir tais lugares como “especiais”, como “enclaves mágicos” onde mais facilmente o Céu e a Terra se intercambiam, tendo a difusão dos plexos principais, por sua localização geoestratégica, fomentado as peregrinações aos mesmos, de que são exemplos Santiago de Compostela, Roma e Jerusalém no Ocidente, ou Meca, Varanasi e Lhasa no Oriente.  As vias (veias…) para os mesmos constituiriam as rotas da Tradição…

Um plexo maior para o qual concorrem as correntes de forças de sete plexos menores constitui um Sistema Geográfico, e pela idiossincrasia da sua espiritualidade influindo potente e patentemente no espaço físico atribuiu-se o sentido persa de Paradaîza, Paraíso, motivo central de quantas Terras Santas, Terrae Sanctae, hajam, por regra centralizadas em uma montanha, também sagrada por isso mesmo, por ser espécie de “pedúnculo” do plexo animado pelo chakra, como é o caso de Moreb, Ararat, Kurat, etc., todos elas imagens da Montanha Primordial tradicionalmente assinalada no Pólo Norte magnético do Mundo, Meru.

É assim que aparecem os lugares sagrados, locus sanctae, cujas cidades erguidas sobre tais nódulos acabam sendo cidades santas, urbis sanctae, nascidas a partir de uma ermida, depois capela, a seguir igreja, basílica, catedral…

A tradição dos “centros do mundo”, como se repara na igreja do convento dos capuchos de Santa Maria da Caridade, no Sardoal, na antiga igreja dos jesuítas do colégio de Évora, ou ainda na igreja basílica dos antigos templários de Santa Maria de Loures, por exemplo, assinala o ponto central a partir do qual se iniciou o templo e se desenvolveu a cidade. Na tradição judaico-cristã, nesse ponto bindú ou central era localizada a paradisíaca Árvore da Vida e da Sabedoria (Otz Chaim). Para ele concorrem duas linhas de forças que se entrecruzam, se fundem no centro, formando o símbolo geométrico da Rosa+Cruz, indicativo de Iluminação e Realização. Essas duas linhas têm os nomes de cardo (cardus) e decumano (decumanus).

O cardo é a linha de força máxima (cardus maximus, em latim) projectada na direcção Norte-Sul, enquanto o decumano como linha de força máxima (decumanus maximus, em latim) projecta-se na direcção Oriente-Ocidente, eixos que se intersectam no “centro do mundo”, o “eixo do mundo” ou o latino axis mundi. Era deste modo tradicionalmente regularizado o traçado linear das principais artérias ou vias da civitas (cidade) em cujo centro se situava o fórum envolvente da basílica, e depois o castelo do soberano local dentro de cujas muralhas ficava a igreja do tutor espiritual, em guisa da Autoridade Espiritual validar e por sua vez ser suportada pelo Poder Temporal. Tal é inevitavelmente válido para o Sistema Geográfico, que já de si é a plasmação do Sistema Planetário composto dos sete planetas tradicionais: Sol – Lua – Marte – Mercúrio – Júpiter – Vénus – Saturno. Aos três primeiros planetas e respectivos lugares geográficos cabe o eixo decumano, enquanto os três últimos planetas e afins lugares geográficos o segundo eixo cardo, ficando o “eixo do mundo” assinalado por Mercúrio, o planeta psicopompo ou intermediário entre a Terra e o Céu.

Como o Sistema Geográfico é projectado de dentro para fora – decumano – pela Força de Kundalini cuja expressão máxima está nos Manasaputras, representados com o esquadro por esquadrarem o espaço consignado geograficamente a Sistema de Evolução, por sua vez o mesmo é gizado, circunscrito de cima para baixo – cardo – pelos Matra-Devas, assinalados com o compasso por compassadamente irem marcando a evolução da Mónada Humana através dos Sistemas Geográficos onde evolui. Nisto, a Evolução é matematicamente perfeita e harmónica, além de justificar plenamente a derradeira frase fúnebre: “Da Terra vieste e à Terra voltarás”.

Esquadro e compasso, neste contexto da Massenia ou Maçonaria Angélica, igualmente evocam a misteriosa Maçonaria dos Traichus-Marutas que tanto vigor teve (e quiçá ainda tenha) na China, no Japão, na Índia e no Tibete, tendo chegado ao Ocidente no século XVIII pelas mãos de São Germano e Cagliostro, onde ficou conhecida como Maçonaria Construtiva dos Três Mundos, a de Agharta, sendo o seu Chefe Supremo o Traichu-Lama, alto dignitário do Lamaísmo tibetano, já de si e até hoje representativo de Akdorge, o Rei do Mundo.

Essa é a Ordem do Dragão de Ouro manifestando-se por iguais caminhos do Dragão animados pela intensidade das correntes de forças astro-geotelúricas, as leys ou nadhis, assunto que Roberto Lucíola – em prosseguimento do que aprendera do Professor Henrique José de Souza – abordaria em Fevereiro de 1998 no seu Caderno Fiat Lux n.º 14, “A Hierarquia Assura”:

“Na nossa 5.ª Raça-Mãe Ariana, a maravilhosa organização do Pramantha teve diversas designações, consoante a Vontade do Avatara do Ciclo, dentre elas: Sudha-Dharma-Mandalam, Grande Fraternidade Branca, Excelsa Hierarquia Oculta.

“Na Europa, o Pramantha actuou muito sob a égide dos Adeptos portugueses, na época encarregados da transferência dos valores espirituais do Oriente para o Ocidente, de acordo com os desígnios do Itinerário de IO. Destaca-se, dentre outros, o trabalho realizado pelo Grão-Mestre Barão Henrique da Silva Neves, Supremo Dirigente da Ordem de Mariz, a qual desempenhou importante papel na História Oculta da Humanidade no Ocidente, quando o Governo Oculto do Mundo teve diversas designações, entre elas a de Cruzeiro Mágico dos Marizes, e a seguir o nome sagrado Lourenço Prabasha Dharma (L.P.D.) e Missão dos Sete Raios de Luz, sendo que esta última designação foi dada a partir do dia 28 de Setembro de 1961. O auspicioso facto deu-se no lugar chamado de Morro da Esperança – São Lourenço, Estado de Minas Gerais, Brasil.

“O nome Lourenço Prabasha Dharma forma a sigla L.P.D. que está relacionada ao nome que São Germano usou maçonicamente durante a Revolução Francesa, em 1789. Essa sigla formava o seu nome Lorenzo Paolo Domiciani. Uma das Colunas Vivas de São Germano era o conhecido Conde de Cagliostro, que muitos confundiam com ele. Alexandre Dumas, na sua famosa obra Memórias de um Médico, relata que Cagliostro trazia pendente no pescoço uma medalha com essa misteriosa sigla, que por sinal tem inúmeras interpretações. Cagliostro costumava dizer: “Lorenzo Paolo Domiciani é meu Mestre, meu Governador. Sou a sua Coluna da Justiça. Sirvo ao Senhor das iniciais L.P.D.” Realmente, Cagliostro foi a Face do Rigor da Justiça, e por isso teve muito a ver com a decretação do Terror no período da Revolução, fase que levou muitas cabeças a serem decepadas na guilhotina.

“São Germano com a sigla L.P.D., que também significa Lilium Pedibus Destruens (”Destruir a Flor-de-Lis com os pés”, calcá-la, obviamente a falsa dos Bourbons), tentou realizar um Trabalho Amoroso de natureza transformadora, ou seja, um Movimento Espiritual Iluminista esclarecedor, com o objectivo de mudar o estado de consciência dos Assuras que ocupavam papéis preponderantes nas cortes europeias. Contudo e até certo ponto, eles ainda estavam sob o influxo vibratório da Queda do Tibete, ocorrida no ano 985 da nossa Era. Quando São Germano perdeu as esperanças de redimi-los pelo Amor, pelo Verbo ou Palavra esclarecedora, cedeu lugar a Cagliostro que funcionou como a Face do Rigor, cujas consequências trágicas estão registadas na História.

“Todo o Trabalho Iniciático é pautado por Leis bem definidas, inclusive pela Lei Numerológica esotérica. Assim sendo, São Germano trabalhou com 49×7 igual a 343 Seres de Hierarquia. Cagliostro, por sua vez, trabalhou com 62×7 igual a 434 Seres de Hierarquia. A soma dos dois valores totaliza 777, que é o número padrão ou do valor cabalístico do Ishwara manifestado (o Logos da Terra como Planetário). Sintetizando, temos:

“Como vemos por esses dados, os números que faziam parte do 1.º Pramantha na Lemúria (3.ª Raça-Mãe que foi quando o Homem se formou verdadeiramente) também estão presentes no trabalho do Pramantha na 5.ª Raça-Mãe Ariana. Portanto, “tudo está pesado, medido e contado”, conforme a sentença iniciática.”

Ainda ver com o cardo e o decumano, tem-se a tradição das Portas do Céu e das Portas do Inferno, que no Hinduísmo correspondem às sete Lokas luminosas e às sete Talas sombrias, mais as respectivas oitavas centrais, ao Devakan e ao Avitchi, ao Céu omnidimensional e ao Inferno zero-dimensional na Terra. Umas criadas pelos Assuras luminosos e outras Suras sombrios caídos nas malhas fatais do Karma da Geração Humana.
Conforme as Revelações do Professor Henrique José de Souza, repetidas pelo seu coadjuvante António Castaño Ferreira, as Lokas e Talas da Face da Terra, do Mundo de Duat, do Mundo de Agharta e das regiões etéreo-astrais inferiores sob a Agharta, assim desenvolvendo o antigo conceito hindu-budista de Céu, Purgatório e Inferno que a teologia cristã adoptaria, são:

SOL  (SURYA)

Face da Terra – Peru
Mundo de Duat – Jiva-Loka
Mundo de Agharta – Bhur-Loka
Região Infernal – Pâ-Tala

LUA  (CHANDRA)

Face da Terra – México
Mundo de Duat – Ananda-Loka
Mundo de Agharta – Bhurva-Loka
Região Infernal – Hina-Tala

MARTE (MANJALA)

Face da Terra – Estado Unidos da América
Mundo de Duat – Rishi-Loka
Mundo de Agharta – Swar-Loka
Região Infernal – Talâ-Tala

MERCÚRIO (BUDHA)

Face da Terra – Austrália
Mundo de Duat – Karana-Loka
Mundo de Agharta – Sapar-Loka
Região Infernal – Rasâ-Tala

JÚPITER (BAKASPALI)

Face da Terra – Portugal
Mundo de Duat – Sura-Loka
Mundo de Agharta – Janar-Loka
Região Infernal – Su-Tala

VÉNUS (SHUKRA)

Face da Terra – Egipto
Mundo de Duat – Jina-Loka
Mundo de Agharta – Tapar-Loka
Região Infernal – Vi-Tala

SATURNO (SHANI)

Face da Terra – Índia
Mundo de Duat – Ajur-Loka
Mundo de Agharta – Satya-Loka
Região Infernal – A-Tala

SOL CENTRAL (SURYAJ ONIM)

Face da Terra – Brasil
Mundo de Duat – Caijah (Haiah)
Mundo de Agharta – Maha-Loka
(Shamballah, Dragão Celeste, Mor-Eb)
Região Infernal – Maha-Tala
(Avitchi, Dragão Infernal, Geze-Bruth)

Por sua subtilidade os Plano interpenetram-se e por seu grau de vibração os Planos distinguem-se. Por tudo isso, diz o Livro de Duat depositado na Biblioteca Central do Caijah: “Sobre as cavernas tenebrosas riam e confabulavam os Deuses…”

Talvez o maior exemplo de Portas do Céu seja aquele encontrado na Bíblia no simbolismo da Torre de Babel (Génese, 11:1-9), cujo significado filológico hebraico, Bab-El, indica a “Porta do Céu”, oriundo do acadiano Bab-Ilu, “Portal de Deus”. Representa a elevação do Género Humano à Divindade, mas que quando tombou na degeneração mental, moral e física a mesma Divindade Planetária interrompeu a ligação com ele, ficou “interrompida a obra da torre”, e as sete nações da Terra viram-se cada qual a falar a sua própria língua, sem se entenderem umas com as outras, acabando por dispersar-se pelas sete partes do Mundo indo iniciar o povoamento dos Sistemas Geográficos, isto, diz a Tradição, na fase final de transição da finada 4.ª Raça-Mãe Atlante para a actual 5.ª Raça-Mãe Ariana. De maneira que ao entendimento do comum Babel não passa da hebraica Bavel, “confusão”, mas cujo significado é mais profundo, iniciático, base dos Mistérios Iniciáticos hebraicos como já referi no meu livro Portugal – Dimensão Oculta (Lisboa, 2015), no que descareço repetir-me preferindo indicar a leitura dessa obra.

Com respeito a Portas do Inferno, tem-se na Itália no exemplo notável em Lucca, Toscana, no interior da igreja de Santo Agostinho, onde existe uma entrada directa para o próprio Inferno, como é crença geral. Por um alçapão levando ao reino tenebroso do Príncipe das Trevas, as almas perdidas no mal aí vão padecer as chamas eternas por tempo indefinido. De maneira que todos evitam, por temor de contágio, passar junto desse poço, e menos ainda passar por cima da sua tampa em cruz, em guisa de selar a porta da morada do mal onde, vez por outra, até há quem diga ouvir os clamores e gemidos das almas condenadas nas entranhas da Terra.

A lenda popular dessa boca do Inferno recua à Idade Média, quando se iniciou nesse templo o culto a Santa Maria del Sasso ou da Rocha, cuja imagem apareceu milagrosamente aqui ao mesmo tempo que se abria no chão esse estranho e temido buraco, que está à sua direita. Conta-se que nessa época a imagem da Virgem da Rocha era considerada particularmente milagrosa, e foi quando um homem que devia uma grossa soma de dinheiro recorreu a Ela invocando o seu auxílio. Como ele era ambicioso e avarento e não gostava de saldar as suas dívidas, a Virgem não o atendeu e perdeu tudo. Então, revoltou-se agressivo contra Ela inculpando-a de toda a sua desgraça. Mas, de súbito, subiu do buraco um cheiro intenso de enxofre acompanhado de chamejantes formas demoníacas que logo se apoderaram dele, o qual, entre gritos de terror e súplicas desesperadas perante os olhares apavorados dos presentes, foi tragado para as profundezas do Inferno.

Essa entrada infernal foi definitivamente tapada com uma tampa de ferro, no século XVIII, e nunca mais ninguém teve coragem de voltar abri-la, nem mesmo quando o Rio Serchio saltou das margens ameaçando inundar a cidade e ir dar ao Inferno um pouco de frescura com a sua água.

Sobre o tema do Inferno ou Hades, as crenças antigas – egípcias, gregas e romanas – variaram muito, por isso na Antiguidade eram diversificadas e numerosas. Entre os gregos, Hades era o deus dos mortos que reinava no mundo subterrâneo ocultado aos que vivem sobre a Terra, por isso chamando a esse deus de o Invisível. Como ninguém ousasse pronunciar-lhe o nome, receando provocar a sua cólera, ele recebeu o apodo de Plutão, o Rico, nome que implica um terrível sarcasmo, mais que um eufemismo, para designar as riquezas subterrâneas da Terra que fazem parte do império dos mortos e são guardadas por estes. Nesta parte, a lenda do avarento afrontando a Misericórdia  da Virgem que o castiga com o exílio para o Inferno, está em conformidade com o sentido das “riquezas infernais inalcançáveis pela cobiça do homem vulgar”. Esse sarcasmo de o Rico, torna-se ainda mais macabro quando é colocada uma cornucópia da riqueza nas mãos de Plutão, ainda que, contudo, no simbolismo tradicional o subterrâneo indicativo das jazidas ricas represente o lugar supremo das metamorfoses dos seres, das passagens da morte à vida, da germinação mística das criaturas humanas e da germinação natural de toda a vida.

As características do Hades ou o Inferno, também chamado Tártaro, são as mesmas por toda a parte: lugar invisível, eternamente sem saída (salvo pela porta da reencarnação da alma num novo corpo humano, como prova da piedade divina assinalada na Virgem), com o ente perdido nas trevas geladas e no lume da consciência atormentada, assombrado por monstros e demónios, os quais castigam incessantemente, com prazer infernal, as almas dos defuntos que nas suas vidas terrenas caracterizaram-se pela maldade dos seus actos. No Egipto, conforme está ilustrado no túmulo de Ramsés VI em Tebas, o Inferno era simbolizado por cavernas tenebrosas (as mesmas Talas do Hinduísmo ou o Baixo Astral da Teosofia) repletas de almas danadas. Mas nem todos os mortos eram vítimas do Hades: os eleitos, os iniciados, os sábios e heróis conheciam outras moradas que não eram as regiões tenebrosas, pois dirigiam-se para as Ilhas Venturosas, os Campos Elíseos (as mesmas Lokas do Hinduísmo ou o Mundo Mental da Teosofia), onde a luz e a felicidade lhes eram prodigadas.

Alguns textos bretões da Idade Média mencionam o Inferno qualificando-o de an ifern yen, “o inferno gelado”. Esta expressão é de tal modo contrária às normas usuais que deve ser considerada como uma reminiscência das antigas concepções célticas relativas ao não-Ser ou a não manifestação da Vida na Forma. Para todo o efeito, na lenda do alçapão infernal desta igreja esse facto enquadra na ameaça de inundação pelas águas geladas do Serchio.

Segundo a crença dos povos turcos altaicos, chega-se perto dos espíritos dos Infernos quando se caminha do Oeste para o Este (anti-decumano), ou seja, no sentido inverso ao do percurso solar, que simboliza, ao contrário desse, o movimento vital progressivo. Essa caminhada no sentido oposto ao da luz, em vez de ir ao seu encontro, indica a regressão para as trevas.

Na tradição cristã, a conjunção luz-treva expressa os dois princípios opostos: o Céu e o Inferno. Plutarco já descrevia o Tártaro como privado de Sol. Se a luz se identifica com a Vida e com Deus, o Inferno tenebroso indica a privação de Deus e da Vida.

A essência íntima do Inferno é o próprio pecado mortal em que os danados morreram. É a perda da presença de Deus, e como já nenhum outro bem poderá jamais iludir a alma do defunto, separada do corpo e das realidades sensíveis, o Inferno é a desventura absoluta, a privação radical, tormento misterioso e insondável. É a derrota total, definitiva e irremediável de uma existência humana. A conversão do danado já não é mais possível; empedernido em seu pecado, ele está para sempre cravado na sua dor.

Para os cristãos, contudo, resta um ponto de apoio seguro para não tombar na danação eterna, esse ponto é a própria milagrosa Senhora da Rocha ou del Sasso, Maria Santíssima encarnando o mistério da Misercórdia Divina e a sua prática entre os homens. Concebida como envolta na Misericórdia infinita do Pai pelo Filho e Espírito Santo (preservada do pecado demoníaco), o seu agir está assinalado pelo amor efectivo à Humanidade, especialmente aos pecadores e sofredores, o que também aparece aqui numa cena escultórica onde se clama a intercessão da misericórdia da Virgem para não cair nas penas do Inferno. Oficialmente a Igreja Católica aprovou em 15 de Agosto de 1968 o formulário da Missa Votiva “Santa Maria, Rainha e Mãe de Misericórdia”, mas a invocação “Salve, Rainha de Misericórdia” encontra-se pela primeira vez no bispo Adhemar de Le Puy (+ 1098), que destaca a qualidade do olhar materno de Maria, “esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, e conclui com o sentido desta sua Misericórdia: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce, Virgem Maria”. Já o título “Mãe de Misericórdia” crê-se que foi dado pela primeira vez a Maria por Santo Odão (+ 942), abade de Cluny: Ego sum Mater misericordiae (“Eu sou a Mãe de Misericórdia”), ter-lhe-ia dito Maria em sonho. Na Igreja Oriental encontram-se testemunhos ainda mais antigos, tendo o padre ou pope Tiago de Sarug (+ 521) aplicado a Maria explicitamente o título de “Mãe de Misericórdia” (Sermo de transitu), o que é considerado por muitos como a sua primeira atribuição em absoluto.

A lenda do danado que culpou a Virgem e logo foi engolido pelo Inferno, também aparece na parede lateral no interior desta igreja, num fresco pintado em 1664 por Giacinto Gimignani (1606-1681), onde se vê um homem sendo engolido pelo fogo do Inferno ante o terror dos presentes. A cena da condenação eterna é apontada por Cristo Ressuscitado, depois da sua descida ao Inferno, num outro fresco, onde aparece ladeado pela Virgem Maria, São Pedro, Santo Agostinho, São André, Nicola da Tolentino e São Francisco de Assis. Além de uma pintura mural muito bela da Senhora del Sasso, a sua imagem é venerada na capela lateral direita.

Sendo um templo muito antigo e que fazia parte de um mosteiro agostinho, no século XIV foi reconstruído sobre a igreja de São Salvador in Muro, chamada assim por estar adossada à cinta muralhada romana. O seu interior é de uma só nave com três capelas absidais.

Testemunha incontornável da Geografia Sagrada é a cartografia antiga. Quem nunca se surpreendeu diante dos motivos decorativos de um mapa ou planisfério antigo, os quais parecem pretender conferir ao espaço geográfico sentido sagrado por via do sobrenatural, onde as figuras decorativas não são do convívio comum mas da imaginária astral? O não se ver essa população fantástica com os sentidos ordinários, de maneira alguma dispensa a sua negação a priori.

Plínio, na sua História Natural, parece ser fonte quase inesgotável de exemplos desse género, assim como Estrabão e outros autores da Antiguidade clássica greco-latina e árabe, para os quais a geografia dos continentes delineados pelos mares expressava a transcendência divina da Terra e assim mesmo dos seres nela habitando, encabeçados pelo Homem. Fernando Pessoa apercebeu isso e rematou com a frase feliz: “Todos os países são divinos, todos os países são mistério”.

A cartografia geográfica imprimia, reproduzia o figurino cósmico da cartografia sideral, em guisa de justificação do axioma hermético de “o que está em cima é como o que está em baixo, e vice-versa”, inclusive para atribuir influências planetárias a países e regiões considerados de influência determinante nessas épocas. Ou então, por entendimento sagrado, para lhes conferir a tributação ao Centro Espiritual Supemo, na época assinalado por Jerusalém, como é demonstrado na carta de Heinrich Bünting em Itinerarium Sacrae Scriptura, Magdeburg, 1581, onde a Europa, a Ásia e a África dispostas em trevo (simbólico da Trindade) cerceiam a Cidade Santa dos antigos hebreus.

Mas já no ano 623 Santo Isidoro de Sevilha descrevia a representação simbólica do Mundo nas suas Etimologias, uma espécie de enciclopédia de todo o saber herdado da Antiguidade, e baseado nessa descrição Günther Zeiner fez uma reprodução cartográfica da mesma publicada em 1472 em Ausburgo, para ilustrar o capítulo XIV das mesmas Etimologias. Essa descrição, cujo desenho original se perdeu, é considerada como o primeiro mapa mundi prévio das explorações geográficas que levaram o ser humano a conhecer outros continentes. Apresenta-se em T-O (Tao ou Tau, “Caminho”), o que está de acordo com o sistema de medição e estabelecimento de linhas rectas, com exactidão surpreendente, pelos agrimensores medievais.

De maneira que originalmente Geografia (“descrição da Terra”, do grego Geographein, donde Geographía, precedido pelo latim Geographïa) e Sagrado eram inseparáveis. Para entender a noção e visão geográficas da Antiguidade, é necessário atender à mentalidade da época e ao facto de muitas coisas descritas já terem desaparecido completamente do horizonte dos modernos, nisto bastando comparar as descrições dos geógrafos antigos com as do modernos para se interrogar se é possível umas e outras dizerem respeito ao mesmo país? Para constatar coisas desse género não é preciso ir além da Idade Média (séculos V-XV), não tendo havido, no intervalo que a separa da actualidade, nenhum cataclismo notável capaz de mudar radicalmente um país ou continente, pelo que se interroga como pôde mudar assim tanto e tão rapidamente a visão do mundo? É sabido que a maioria, senão a totalidade, dos geógrafos modernos atribui aos seus predecessores o terem visto mal ou transmitido mal o que viram, mas tal explicação significa que antes da nossa época os homens de saber sofriam de perturbações sensoriais por misturarem conhecimentos parcos com fartas imaginações, explicação simplista e negativa que imparcialmente pode reverter a desfavor dos coevos, a de compreenderem mal, verem mal ou nem verem certas coisas. A ausência da noção sagrada e o domínio da decoração intelectual fria e não vivida, explica os actuais preconceitos esvaziados de pensamento superior, transcendente, o único capaz de devolver o sentido da coerência lógica ao que agora só aparentemente é incoerência ilógica, por perda do sentido sagrado e correspondente pensamento vasado em actos afins. Ainda assim, a perda da noção de Geografia Sagrada não vai além do final do século XVII e o seu recuso fica-se pela centúria procedente.

Ao tornar-se Geosofia repara-se na História haverem duas ciências tradicionais, ainda assim divinatórias, com proximidades à noção sagrada da Geografia. Uma é a geomancia e outra, sua familiar, a radiestesia ou rabdomancia. Ambas eram aceites e praticadas nas religiões tradicionais antes do sua actual poluição onírica pela chamada cultura pop urbana do “new age” que, no dizer do professor Eduardo Lourenço, acaba sendo um “espiritualismo a la carte”, sem regra nem ordem, mais anárquico que democrático, onde a imagem e a sensação se sobrepõem à ideia e ao raciocínio.

A geomancia está para a Terra como a astrologia está para Céu. Como método de adivinhação pela terra, consiste em interpretar marcas no chão ou padrões formados por punhados de pedras, terras ou areia, donde deriva o método de adivinhação pelo lançamento de búzios ou seixos. Utiliza um conjunto de 16 figuras pontilhadas – donde derivaria o jogo do dominó – para a interpretação, juntando elementos astrológicos e angeológicos. É aqui que os Anjos Planetários entram na estrutura dos Sistemas Geográficos, cuja mais elevada leitura e interpretação estabelece o vínculo iniciático Céu-Terra, com desinteresse e abandono pelo iniciado da simples noção divinatória.

Essa arte de ciências ocultas sai fora da ciência iniciática do Ocultismo no século XVI quando se populariza na Pérsia e se estende a vários continentes, desde a China – onde é conhecida como Hing-Fa, “arte das formas e dos actos”, depressa se colando ao mais antigo I-Ching, “método das mutações” – e a Índia até a África, chegando à Europa. Deixa de ser ciência privada de místicos e iniciados para entrar no cardápio geral das simples ciências divinatórias. A sua propagação no continente europeu deve-se sobretudo a Cornélio Agrippa (1486-1535), tendo escrito um longo e grosso tratado sobre geomancia e que constitui a base de trabalho dos interessados no tema. Esse tratado seria editado na língua portuguesa sob o título Três Livros de Filosofia Oculta, por Henrique Cornélio Agrippa de Nettesheim, pela Madras Editora, São Paulo, 2008, compilado e anotado por Donald Tyson. No seguimento de Agrippa, Robert Fludd (1547-1637) no seu Tratado Primeiro inscreve a geomancia no rol “oficial” das ciências divinatórias, sendo que no ano da sua morte, 1637, Pisis, ocultista italiano, define as linhas de adivinhação das 16 figuras pontilhadas geomanticas associando-as aos quatro elementos da Natureza, facto na origem da alteração e popularização, para não dizer profanação e adulteração, do sentido original dos Tatvas ou “elementos subtis da Natureza”.

Como disse, antes do século XVI a geomancia já era conhecida nos círculos ilustrados da Europa, de que é exemplo notório Dante Alighieri (1265-1321) referindo-a na sua Divina Comédia, nomeadamente nas duas primeiras estrofes do Canto XIX de Purgatório. Quase de certeza terá recolhido esse conhecimento dos árabes praticantes da ´Ilm al-Raml, a “ciência da areia”, sendo raml, “areia”, palavra herdada da grega rhamplion ou rabolion, donde sairia a rabdomancia. Os árabes incluíram outros nomes para a geomancia, como Khatt al-Raml e Darb al-Raml.

Para Ibn Khaldun no seu Muqaddima (1377), a geomancia é um sistema pré-islâmico do conhecimento cuja epistemologia recua ao profeta Idris (Enoque) que a recebeu do Anjo Jibraîl (Gabriel) num sonho profético. Idris (igualmente associado a Hermes Trismegisto pelos egípcios e gregos) terá pedido a Jibraîl que o iluminasse, e então este começou a desenhar figuras geomanticas instruindo-o nessa arte. Em seguida, Idris viajou em segredo até à Índia onde se encontrou com Dahir al-Hindi, rei hindu, que sabia de geomancia e escreveu um livro sobre o assunto. Este episódio é igualmente alusivo à transferência do conhecimento tradicional do Extremo Oriente ao Médio Oriente. Essa obra circulou nos círculos fechados ou esotéricos da época pelas mãos de Khalaf al-Barbari, coevo do Profeta Mahometh que o converteu ao islão em Medina. Al-Barbari dizia conhecer essa arte divinatória e explicava que os profetas pré-islâmicos sabiam geomancia, e aprendendo-a podia-se “saber tudo o que o Profeta sabe”.

Em suma, a geomancia adivinhando através dos sinais da terra, como ciência herdada do Neolítico e conhecida, dos celtas, dos gregos, dos romanos e dos bizantinos, procura tirar partido das energias vitais subterrãneas – veios telúricos – procurando harmonizá-las com a disposição dos astros no céu, com a paisagem, com as características do operador e de quem vai usufruir do local. Implicando isto a captação das energias ctónicas, entra aqui a radiestesia ou rabdomancia, “adivinhação por meio de vareta”, esta associada tanto à bagueta mágica como à vara de Jacob ou ao bastão de Moisés, arte considerada como simples forma divinatória de procurar fontes de água e jazidas minerais, mesmo que unida à geomancia tivesse originalmente aplicação iniciática muitíssimo mais profunda, como a de gizar, delinear, demarcar um Sistema Geográfico onde a Mónada Humana processaria a sua respectiva evolução num determinado tempo, num assinalado ciclo.

A palavra radiestesia foi criada em 1892 pelo abade francês de Haderlot, Alexis Bouly, constando da união de dois termos: o latim radius, “radiação”, e o grego aisthesis, “sensibilidade”, indicando assim a sensibilidade às radiações. Segundo ela, as radiações energéticas benéficas e nocivas atravessam por igual os corpos humanos emanadas de corpos imóveis mas não inertes, visíveis e invisíveis, como as dos pensamentos e emoções influenciando a colectividade humana entre si, tal qual é afectada pelas radiações do Sol, da Lua, da Terra e demais corpos siderais.

É assim que a radiestesia ou radioestesia vem a ser a sensibilidade psíquica, quase mediúnica em alguns e mediúnica em muitos, o que não era originalmente nos povos antigos mas tão só sensibilidade psicofísica desenvolvida, a determinadas vibrações de energias emitidas por seres vivos e elementos da Natureza. As aplicações mais comuns referem-se às pessoas capazes de determinar os lugares exactos de mananciais de água subterrâneos apenas usando uma vareta de madeira de salgueiro em forma de forquilha ou Y com 30 cm de comprimento. Tem-se nisto a vulgarização do mágico e iniciático Y pitagórico como letra d´ouro, tão-só sinalético Itinerário da Mónada Humana, Yo ou Io, em sua Missão evolucional.

Na radiestesia igualmente faz-se uso de um pêndulo e um mapa para encontrar alguém desaparecido ou alguma jazida de minérios preciosos, sempre tomando por base a radiação emitida pelos corpos existentes, visíveis e invisíveis, porque, e isto é o mais importante, o campo magnético terrestre formado pela rede de linhas energéticas entrecruzadas – a malha etérica do Logos Terrestre, igualmente chamada “regato vital” – provoca intensa radiação no seu movimento telúrico estabelecendo linhas de forças entre elas, as mesmas leys ou nadhis da Sabedoria Antiga. São elas que permitem que na cartografia sejam traçadas as linhas vitais ligando e animando lugares, cidades, países e continentes, de que dou o seguinte exemplo:

Nesse mapa da Europa estabeleço o eixo central em Lisboa – Sintra, donde irradiam as várias linhas de forças – posto Portugal, na cartografia antiga, ser exposto não como cauda mas cabeça da Europa inteira – estando em alinhamento directo com Roma, esta na posição de dominada para a dominante, além de as restantes linhas estabelecidas terem tanto a ver com a História Oculta de Portugal como com a História da Obra Divina de JHS nos vários períodos em que se manifestou na Europa, deixando as suas marcas indeléveis, mesmo imperecíveis por serem genuinamente Divinas. O Quinto Império da Luz – Lusitânia – e dos seus Filhos (Lusos ou Assuras) preanunciando a Igreja do Amor e Sabedoria num Reinado de Concórdia Universal. Isto é Sinarquia, unir a Mente ao Coração, trazer a si o Quarto Império dos Homens (Jivas) indo divinamente realizar a Parúsia ou Advento do Senhor das Idades, o Avatara Síntese, a Divindade Ominisciente.

Tanto me traz à mente a antevisão profética de Luís de Camões em Os Lusíadas (VI, 7), com a qual termino:

Via estar todo o Céu determinado
De fazer de Lisboa nova Roma;
Não no pode estorvar, que destinado
Está doutro Poder que tudo doma.

Laurenta Sanlourenciana – Por Vitor Manuel Adrião Sábado, Set 5 2020 

As Sete Rosas que ornam a Régia Coroa de S. Lourenço – com esse título a revista Dhâranâ, órgão oficial da Sociedade Teosófica Brasileira, publicou um grande estudo iniciático a respeito do que até agora só podia ser dito por palavras veladas (mas claras para os Membros mais adiantados da Obra, como fazia Jesus falando aos profanos por meio de parábolas e aos seus discípulos às claras, tanto que lhes ensinava que “não deviam atirar pérolas aos porcos”, isto é, nolite mittere margaritas ante porcos, justamente para não se fazer mau uso das coisas sagradas…), mas agora aqueles Véus de outrora são rasgados, para que esse mesmo mundo profano possa compreender melhor os reais valores da nossa Obra. E isto porque “os Tempos são chegados”… – diz o Professor Henrique José de Souza na revista O Luzeiro n.os 18-19 de Novembro-Dezembro de 1953. E prossegue:

“Como sabem todos aqueles que pertencem às nossas fileiras, principalmente os das Séries mais adiantadas, em todos os tempos “ao Lugar onde a Mónada alcançou o máximo da sua evolução na Terra (segundo a Mitologia Grega, “pelo Itinerário de IO ou Ísis”, como Ésquilo o descreveu no seu Prometeu Encadeado) dá-se o nome de Sistema Geográfico, como reflexo do Planetário na abóbada celeste, isto é, um Sol Central, como Oitavo, em torno do qual giram Sete Astros ou Globos. O actual Sistema Geográfico, por ser “o limite máximo da Evolução Humana” (a Mónada como sua representação), encontra-se aos 23º graus de latitude Sul, no Trópico de Capricórnio. Esses graus compreendem toda a zona que abrange a Serra da Mantiqueira, nome que provém da mantica latina, ou manteigueira, por isso mesmo, “objecto para guardar o referido alimento”. Nas teogonias orientais, o termo sânscrito Pushkara quer dizer (como continente): “Mar de leite ou de manteiga clarificada”. E semelhante continente é bem o nosso, isto é, o americano. Esta chave filológica por nós expedida, ao falarmos do termo Mantiqueira ou “manteigueira” fazemos lembrar que todo o privilegiado Estado de Minas Gerais (pois traz engastado no seu coração a pérola preciosa que é S. Lourenço) se dedica ao fabrico dos lacticínios. Concorda, pois, com o referido termo.

“E é assim que vemos o supracitado Sistema Geográfico (de todos os Ciclos) tendo por Sol Central a estância hidromineral de S. LOURENÇO. E em seu redor os Sete Astros representados pelas seguintes e privilegiadas, também, cidades sul-mineiras: AYURUOCA (no tupi, a “Gruta da Luz”, e no sânscrito AJUR-LOKA, a “Caverna iluminada pelo Sol” – Espiritual, já se vê…), CONCEIÇÃO DO RIO VERDE (este termo figura no decorrer da História da nossa Obra inúmeras vezes, digamos, tanto no presente como no passado… Conceição Feliz é o nome da lancha ou BARCA que até hoje se acha encalhada nas areias itaparicanas, desde que ali estivemos até agora, como verdadeiro milagre), S. TOMÉ DAS LETRAS (“letras ou inscrições rupestres”, por nós reveladas como “roteiro ou guia para se alcançar, outrora, determinado lugar com o nome de “PICO DE LEÃO, onde existia uma Fraternidade Jina ou de Adeptos da Boa Lei”), MARIA DA FÉ (sim “Fé ou Confiança temos em MARIA”, mas com a interpretação bem nossa de Mãe Divina ou Aspecto Feminino da Divindade, cabalisticamente falando, “Véu de Ainsuph”, a VONTADE do Pai posta em ACTIVIDADE na Mãe ou Espírito Santo, a tudo velando e cobrindo… Donde o termo religioso, também aí empregado, de “Manto de Maria”, sob o qual os seus devotos se colocam. E que de ser imaculado ou virginal tanto basta para ser invisível aos olhos físicos, mas visibílissimo aos espirituais de quanto com a Mesma se afinizam…), CARMO DE MINAS, antiga SILVESTRE FERRAZ (nome de uma família ilustre que aí viveu, mas, esotericamente falando, “o que é silvestre passa a cultivado”. Neste caso, “as roseiras da espiritualidade no canteiro intelectual e coracional de certos Seres que aí secretamente viveram”, digamos, preparando o momento justo de DOIS MISTERIOSOS SERES poderem galgar a Montanha Sagrada sanlourenciana. E receberem do Céu – como aconteceu ao Manu inca Manco-Capac, em relação com a cidade de Cusco… – o espiritual Bastão de Dirigentes da Missão Y, também chamada de Era do Aquário), ITANHANDÚ (em tupi, a “encosta da Pedra”, na mesma razão de ITAMONTE, ou seja, uma pedra que é vista na parte mais alta da Mantiqueira, e muito semelhante à PEDRA DA GÁVEA, no Rio de Janeiro. Por sua vez, “Lugar Jina” como aquele de S. Tomé das Letras), e finalmente, como sétima ou última do referido Sistema Geográfico, POUSO ALTO (a “mais alta pousada que encontraram os grandes Bandeirantes do Passado, como incomparáveis desbravadores dos nossos sertões”. POUSADA ALTA, também, para nós no sentido espiritual de “alcançar os limites máximos da INTELIGÊNCIA ao par dos do CARÁCTER).

“Em resumo, semelhante Sistema Geográfico representa a Nova Canaã ou “Terra de Promissão” para onde o MANU – como em todos os Ciclos em que é repartida a Vida Universal – conduziu o seu POVO através daquele mesmo “Itinerário de IO ou ÍSIS”. Eis aí a razão do nosso Templo se firmar numa colina à qual o Dirigente da Missão Y achou por bem dar-lhe o nome de Vila Canaã.”

Como ficou dito, os Sistemas Geográficos são símeis dos Sistemas Planetários, estes como Usinas Cósmicas de Fohat – o Fogo Frio Celeste, Electricidade – e aqueles como Usinas Planetárias de Kundalini – o Fogo Quente Terrestre, Electromagnetismo. Portanto, a demarcação dos Sistemas Geográficos é feita em cima, no Segundo Mundo Celeste, ou antes, de cima para baixo, como seja, plasmando-se no Terceiro Mundo Terrestre ao abrirem-se os portais do Akasha Médio por onde os Deuses Matra-Devas se projectam no Seio da Terra na forma de Manasaputras, ou Querubins e Serafins da angeologia judaico-cristã, tangenciando a Evolução do Globo. Evidentemente que tais Seres se assentam ou utilizam formas condizentes com a Esfera ou Mundo donde se reflectem aqui. Daí a sentença hermética de “o Deus de cima é o mesmo Deus de baixo, mas que possuem nomes segundo a forma de que se revestem”. Nisto, fica Vishnu para o Segundo Logos e Shiva para o Terceiro, o que os cristãos identificam como o Filho ou Cristo Cósmico e o Espírito Santo na forma de Mãe Divina.

Acompanhando os Ciclos de Evolução em que se reparte a Vida Universal, houve Sistemas Geográficos activos no Passado, onde a Mónada Humana alcançou o máximo da sua evolução na época, há o Sistema Geográfico activo no Presente que de si projecta o Sistema Geográfico do Futuro onde a mesma Mónada alcançará o máximo da sua evolução no presente ciclo desta 5.º Raça-Mãe Ariana, a partir da qual se desenvolvem as futuras 6.ª e 7.ª Raças-Mães. Essa função dando a solução do Futuro cabe ao Sistema Geográfico Sul-Mineiro, que o Venerável Mestre JHS animou e revelou.

Passado – Sistemas Geográficos da Índia, Egipto, etc. – Quaternário Inferior;

Presente – Sistema Geográfico Português a partir de Sintra – Princípio Causal ou Mental Superior;

Futuro – Sistema Geográfico Brasileiro a partir de São Lourenço – dando de si os Princípios Intuicional e Espiritual, a Solução do Futuro.

Fica claro que um Sistema Geográfico tem como função precípua a disseminação de um novo estado de consciência. Com este, advêm novas possibilidades de progresso em todos os sectores da Vida Humana. E isso para que mudando a consciência da Esfera ou Mundo em que se está ela mesma ocupe o seu posto no Concerto Planetário ou, como diria Pitágoras, ocupe o seu lugar na Harmonia das Esferas. A semelhança entre os Sistemas Geográficos e os Sistemas Planetários é dada pelos Seres originários de cima e a disseminação da consciência a partir do escrínio do Sistema Geográfico onde estão. Isto pode se aperceber pelos seguintes esquemas que analogicamente valem tanto para São Lourenço como para Sintra:

Na sua Carta-Revelação de 11.08.1948, o Venerável Mestre JHS diz: “E a Voz do Eterno se fez ouvir dentro do Akasha (faço notar que esse Tubo atinge os 3 Mundos: Face, Meio e Interior da Terra… Tubo móvel ou cíclico, é francamente akáshico). Não podia ser outro o lugar que conduz a Shamballah. Amanhã, isto é, daqui a alguns séculos será em outro lugar, mas… Shamballah permanece a mesma”. Esse Tubo Cósmico (Tubu-Shin) outra coisa não é a ligação entre o Sistema Geográfico em baixo e o Sistema Planetário em cima que lhe deu origem, sendo que em termos funcionais o Tubo Cósmico – Antahkarana ligando a Personalidade do Logos (Planetário, Kumara) à sua Individualidade (Espírito, Ishvara) – liga os 3 Mundos, o Celeste, o da Face da Terra e o Infernal ou dos Mundos de Badagas, Duat e Agharta onde Shamballah – o Sol Oculto da Terra – se centraliza como Oitava. No Duat tem-se como seu Oitavo Princípio o Caijah (que se firma firma sob a Terra Santa – Sistema Geográfico – onde a Mónada Humana alcançou o maior grau de evolução no Ciclo em manifestação), que localizado no meio do Tubo Cósmico sob a superfície marca ou dá a gradação da consciência alcançada, motivo por que o Caijah é móvel. Analogicamente falando, pode-se dizer que o Tubo Cósmico é como um termómetro e que o Caijah é o mercúrio que ao movimentar-se marca ou acusa a temperatura atingida. No presente ciclo, demarca 22 para 23 graus de latitude Sul, no Trópico de Capricórnio, Capris ou Cumara.

Isso leva-me a evocar as palavras sagradas da Yoga Akbel que é a do Munindra: “Assim sou a Fogueira do Céu ateada na Face da Terra vibrando no divino diapasão de Shamballah”.

Para que o Sistema Geográfico Sul-Mineiro viesse a ser povoado, animado, dinamizado por membros da Instituição e Obra, dispondo 111 com as respectivas famílias em cada uma das cidades desse Sistema, e mais 222 com as respectivas famílias na central de São Lourenço, assim preparando o terreno humano e espiritual para o Advento do Avatara Síntese Maitreya, o Cristo Universal, na Terra Virgem – até no signo – do Brasil, desde o mesmo Sistema, a partir de 1957 o Professor Henrique José de Souza – Venerável Mestre JHS – começou a sugerir, nas sessões públicas e privadas da Sociedade Teosófica Brasileira, a deslocação de membros da entidade para essas cidades do interior. Sugeriu, propôs, não impôs. Uns pouco acataram a sua sugestão e transferiram-se para Minas Gerais. Outros, a maioria, habituados aos luxos e comodidades das grandes urbes como São Paulo ou o Rio de Janeiro, assustaram-se com a proposta de se verem atirados para condições de vida precaríssimas como eram as do interior brasileiro. Mas o Professor, adivinhando o pensamento da maioria, logo adiantou: “Não é obrigatório irem. Vão se puderem…” Ouviu-se um suspiro de alívio quase geral, isto contado por quem participou dessas reuniões, mesmo sabendo da importância crucial dessa decisão face ao futuro imediato do Mundo.

Com efeito, no dia 17 de Fevereiro de 1957, em conversa em família, o Professor Henrique José de Souza revelou:

“O dia 24 de Fevereiro de 1957 será muito sério. Será, sim, o do começo de um Equilíbrio na hora em que os Assuras subirem para o Sistema Geográfico Sul-Mineiro… Isso porque a Obra avançou muito, mas a Instituição está bastante vagarosa. Esses Assuras não deviam fazer esse trabalho, o papel deles deveriam ser outro… Ficarão ali como se fossem morcegos, ficarão em Samadhi… Deveriam permanecer na Agharta prosseguindo a supra-evolução. Mas, fui EU que pensei e resolvi tomar essa resolução.

“Os Assuras vêm trazer o Princípio Átmico para o Sistema Geográfico Sul-Mineiro. Sim, eles vêm com o Princípio Átmico para firmá-lo nos que vão para as Embocaduras. Tudo isso representa um grande esforço desses Adeptos a fim de salvarem a situação do Quinto Sistema em elaboração nas mãos do Sexto Senhor.

“Esses 777 são os Vitoriosos do último grupo que saiu da Face da Terra. São os 777 Seres do último Pramantha que se firmaram na Consciên-cia Átmica, são os que superaram o Karma Humano, os que conquistaram a Superação e a Metástase Avatárica.

“Quem são os Chefes dos 777 Assuras? São os Dhyani-Jivas. Sim, cada Dhyani-Jiva [que em 1949 se tornou Dhyani-Budha] dirige um grupo constituído de 111 Assuras luminosos. Temos: 111 vezes 7 igual ao número 777.

“Esses 777 Assuras que subiram para o Sistema Geográfico representam o esforço deificado ou divinizado da Terra, logo, os seus Chefes, os Dhyanis-Jivas, foram obrigados por Lei a se diplomarem nos sete Ramos da Ciência Positiva. Por exemplo:

“O 1.º – Diplomou-se em Medicina, profana e oculta, aghartina.
“O 2.º – Diplomou-se em Engenharia, aplicação da divina Matemática.
“O 3.º – Diplomou-se em Arte Sagrada, bailados, ritmos, harmonia, magia musical ou vibratória.
“O 4.º – Diplomou-se em Filosofia, Religião, Ética.
“O 5.º – Diplomou-se em Arte Guerreira.
“O 6.º – Diplomou-se em Mecânica, Ciências Físicas e Naturais.
“O 7.º – Diplomou-se em Astroquímica, Ciência Nuclear.

“Pois bem, se os representantes dos sete estados de Consciência foram diplomados nos sete Ramos da Ciência, é natural que a Lei também sugerisse ao Pai dos Dhyanis [Akbel], como portador do oitavo estado de Consciência, que possuísse um, dois ou mais diplomas, digamos, de médico, engenheiro, advogado… embora não os utilizasse como profissão, em virtude da sua missão salvadora dos Assuras não luminosos da Face da Terra.

“Por todas essas razões iniciáticas, devem figurar nos dizeres das placas do Monumento [Obelisco, defronte ao Templo da Obra em São Lourenço], além das efemérides da Obra, 24.6.1899, 28.9.1921 e 10.8.1924: – Glória Àqueles que chegaram a este Lugar que é de 23º de Latitude Sul – Trópico de Capricórnio, acompanhando os Gémeos Espirituais através do Itinerário de IO: Rio de Janeiro, São Paulo e São Lourenço.”

Afins às cidades do Sistema Geográfico Sul-Mineiro estão os Postos Representativos do Sistema Geográfico Internacional, com as quais eles trabalham em conjunto. Espalhados estrategicamente pelo Mundo, os Postos Representativos dão socialmente, politicamente, espiritualmente, etc., as Tónicas que lhes dizem respeito dentro do Grande Septenário. Assim, pode-se dizer que os Postos representativos são as trincheiras avançadas que disseminam pelo Mundo os valores em formação do Sistema Geográfico Sul-Mineiro, ao mesmo tempo animando-o com o enfoque global das suas sinergias, assim capultando a solução do Futuro imediato da Evolução Planetária.

Ora no presente momento evolucional, onde está em pauta encerrar o 4.º Sistema ou Ronda na sua 4.ª Cadeia Terrestre, tem-se o Trabalho do Quinto Senhor Arabel lado de Adamita chefiando a sua Corte de Assuras, mas tangenciado, supervisionado, norteado pelo Sexto Senhor Akbel ao lado de Allamirah chefiando a sua Corte de Makaras. Daí também o facto de dois Sistemas Geográficos em solo brasileiro, o de São Lourenço com o seu Monte Moreb e o do Roncador, em Mato Grosso, com o seu Monte Ararat. Os Postos Representativos têm por omphalo o Roncador, ligado subterranamente a Machu-Pichu, e é no seu escrínio que os Dhyanis-Jivas, chefiados pelo Bodhisattva Akdorge, Avatara do Budha Maitreya, se aninham projectados desde os respectivos Postos, sempre tutelados pelos Dhyanis-Kumaras, seus paraninfos, que do seio brasílico se projectam nos mesmos Postos, revezando-se de sete em sete anos desde 24 de Junho de 1950, aquando o Sistema Geográfico Sul-Mineiro foi povoado pelos Deuses do Novo Ciclo a Luzir. É assim que os Dhyanis-Jivas ou Budhas governam e dão a sua Tónica ao Mundo, sendo que a partir de 3005 – segundo JHS – serão os governantes ostensivos do mesmo Mundo ao lado do Quinto Senhor, já então eles com o galardão conquistado de Dhyanis-Kumaras, enquanto estes serão Kumaras Primordiais ou Planetários.

De maneira que os Dhyanis-Kumaras expressam o trabalho conclusivo desta 4.ª Ronda enquanto os Dhyanis-Budhas os da Quinta Ronda, a partir do Quinto Sistema Geográfico com centro no Roncador ou Matatu-Araracanga, “cabeceira dos Araras Vermelhas”, e por isso mesmo são o “Saque contra o Futuro” por se terem manifestado em de 1 a 8 de 1900 quando só o deveriam fazer em 24 de Fevereiro de 3005, assim  antecipando esse mesmo Futuro.

Isso mesmo diz o Venerável Mestre JHS na sua carta-Revelação de 16.05.1956:

“Não se deve esquecer que os Dhyanis Budhas ou Jivas vão se firmar no 7 Postos Mundiais ou Submundos dos Badagas, tendo por omphalos o Roncador ligado a Machu-Pichu.

“Os DHYANIS-KUMARAS (nascidos em 1789) representam o aproveitamento evolutivo do 4.º Sistema [Ronda] ou da 5.ª Raça Ariana, a ser vertido nas 6.ª e 7.ª Raças Bimânica e Atabimânica através dos DHYANIS-BUDHAS (nascidos em 1900), os quais representam a evolução do 5.º Sistema [Ronda].

“Para conhecimento completo e integração global, Eles fazem um revezamento entre si nos Postos Representativos e no Sistema Geográfico Sul-Mineiro. Quando os DHYANIS-BUDHAS estão no Sistema Geográfico, os DHYANIS-KUMARAS estão nos Postos Representativos, e vice-versa.

“Sendo o Sistema Geográfico Sul-Mineiro [SGSM] o local escolhido por Lei, no presente Ciclo da Evolução Humana, para dar início a uma nova Raça – um novo estado de consciência que deve ser absorvido pela Humanidade – necessário se faz prepará-lo para tal fim.

“Se esse trabalho for bem feito, melhores dias virão. Para isso, é necessário que os Irmãos, especialmente os da Série Interna e os do Grau Astaroth, visitem com frequência o SGSM, promovendo lá um movimento educacional que venha a mudar o estado de consciência daquele povo componente das sete cidades do Sistema Geográfico, mais a oitava cidade.

“Com a nossa presença nesses locais, serão arrastadas para a Face da Terra as vibrações que se fazem necessárias ao bom preparo do Sistema Geográfico. Os Rituais são de suma importância, pois preparam psíquica e espiritualmente a aura das cidades, propiciando o nascimento das Mónadas competentes.”

O Sistema Geográfico Sul-Mineiro foi iniciado no ano 1000 d.C. a partir das Mónadas selecionadas, devidamente evoluídas, do antigo Sistema Geográfico Fenício-Atlante de Teresópolis, atravessando a Serra dos Órgãos – actual Estado do Rio de Janeiro – indo instalar-se no actual Estado de Minas Gerais, precisamente em Aiuruoca, donde daria início às restantes tabas, hoje cidades, do Sistema Mineiro. Isto mesmo diz o Mestre JHS em Carta-Revelação de 14.05.1961: “A Embocadura de Aiuruoca foi fundada no ano 1000 d.C., como transbordo dos produtos evolutivos dado pelo Sistema Geográfico de Teresópolis”.

Aqui chegados, ultrapassado que está o ano de 2005 que marcou o início (28 de Setembro) do ciclo astrológico de Aquarius, sabemos que nessa mesma data os Dhyanis-Budhas passaram a ser designados pelos nomes dos Sete Elementos (Tatvas) que JHS, expressando Akbel, lhes deu em 15 de Agosto de 1959, passando à categoria de Dhyanis Planetários, para que efectivamente, em 3005, serem os Planetários do Quinto Senhor Arabel e do Quinto Sistema ou Ronda, conquistando, como “Deuses gerados na Terra”, um quantum de 75% da Consciência do Logos Planetário. Houve, então, um Equilíbrio geral decorrente do Grande Encontro, em 2005, no Mundo Sedote ou de Badagas, alcançando directamente a Face da Terra, de todas as Hierarquias implicadas no processo da Evolução Terrestre, realizando uma volta da Roda do Pramantha, ocasionando uma espécie de “promoção hierárquica”. Esses Homens Deuses Dhyânicos desde aí são USINAS VIVAS DA NATUREZA, das Forças Ocultas animando á mesma, cada qual marejando, amalgamando e projectando um Tatva ou “elemento subtil da matéria” que o caracteriza. Donde os seus nomes Adi-Bel, Anu-Bel, Akash-Bel, Vayu-Bel, Teja-Bel, Ap-Bel e Prithi-Bel, mais a Oitava Ana-Bel, conformados ao que JHS revelou no Livro de Herakles – Carta-Revelação de 9.08.1959:

“Os Dhyanis-Jivas deixarão os seus nomes de Souza e Brasil, etc., de 2005 em diante, para os dos Tatvas, seguidos do termo BEL, que é Deus, como se sabe, isto é, Deuses criados na Terra para o próximo Sistema… Assim, para os Dhyanis-Kumaras serão: Mikael, Gabriel, Samael, Rafael, Saquiel, Anael, Cassiel. Assim, para os Dhyanis-Jivas serão: Adi-Bel, Anu-Bel, Akash-Bel, Vayu-Bel, Teja-Bel, Ap-Bel e Prithi-Bel, sem as sílabas finais. Ninguém sabe nem poderia saber tal coisa, porque tais nomes foram dados no Ritual de 15 do referido mês por Mim, isto é, pelo Maha-Rishi ou El Rike, Akbel, etc. O Bel final de cada nome corresponde à sua origem, isto é, a do 5.º ou Arabel, e do 6.º ou Akbel, como Corpo e Essência de São Germano e Akbel. Quanto à Shakti ou Aspecto Feminino, na razão de Akbel – Ashim – Beloi, o dessa última, do mesmo modo que o foi Adamita como Tulku de Allamirah, será o de Ana-Bel (ou Anabela), etc.”

Na Carta-Revelação de 5.06.1954, JHS revela que Mitra-Deva, o Budha Terreno, Avatara do Planetário Arabel e avatarizando Akdorge, o Bodhisattva Terreno, é o Chefe como Oitavo dos Dhyanis-Budas. Ao seu lado possui Anabel (ou Adamita, Aspecto Terreno, Primeira Mãe, do mesmo Arabel ou Senhor da Ara de Luz), que em 1900, devido ao imprevisto Acidente de Lisboa ocorrido com os Gémeos Espirituais Henrique -Helena, serviu de contraparte do Sexto Senhor para gerar os Dhyanis-Jivas no Principado no Oriente (Leh – Srinagar). Daí que essa Oitava Dhyani esteja ligada ao Quinto, mas sendo “emprestada” momentaneamente ao Sexto, para a geração dos Dhyanis, conúbio onde a paixão sensual  inexistiu e só o puro estado paranisphânico ou paranirvânico, restaurando o hímen da Sempiterna Virgem Mãe dos Homens após o enlace do mais transcendente amor. Ele momentaneamente no corpo físico de Lorenzo (São Germano), ele no de Lorenza. Ana, em aghartino, significa Vénus, e então aí se tem o Hermafrodita Divino: Anabel como Vénus e Akbel como Mercúrio – Hermes-Afrodite, donde Hermafrodita. Por isso, Akbel é o Pai tanto do próprio Akdorge como dos Dhyanis-Budhas.

Anabel é, pois, a Taça Viva do Novo Ciclo, onde bebem as Duas Bocas, Akbel e Arabel, passando Ela também a assumir o Báculo da Autoridade Espiritual do Novo Pramantha, prosseguindo o ciclo feminino iniciado em 1962 (com Helena Iracy) e indo de 1963 a 2005 (Lorenza em Monte Airu, Itaparica), e após 2005 no Anabel (Adamita), Aspecto Feminino do Budha Terreno – Mitra-Deva ou Henrique – sendo a Senhora do Báculo do Amor Universal.

Tiara de Adamita

Passando os Dhyanis-Budhas à categoria de Dhyanis Planetários, os Arautos ou Yokanans de primeira categoria – chefiados por Cafarnaum – assumem a função de representantes directos dos Postos Representativos no Mundo, conforme JHS revelou na Carta-Revelação de 3.07.1940. As novas Tónicas do Novo Pramantha a Luzir, iniciado em 25 de Fevereiro de 1963, passaram a vibrar na Face da Terra.

Os Yokanans nos Postos Representativos são uma espécie de germens dos valores Dhyânicos do Quinto Sistema, é como se fossem a formação dos embriões dos Dhyanis do Quinto Sistema. No século XX houve o trabalho entre os Dhyanis-Kumaras e os Dhyanis-Budhas, sendo os primeiros Preceptores ou Mestres dos segundos. Por isso, muitas vezes houve um revezamento entre ambas as categorias nos Postos Representativos e no Sistema Geográfico Sul-Mineiro. Essa troca, além de impulsionar o Pramantha na Face da Terra, propiciava a interacção entre o Mestre e o Discípulo.

Essa mesma relação, conforme as Revelações, continuará existindo no Quinto Sistema, mas dessa vez os Dhyanis-Budhas Planetários serão os Preceptores dessa nova classe Dhyânica em formação, os Yokanans. Assim, os Dhyanis Planetários são os Senhores do Novo Pramantha, e os Yokanans igualmente actuam como interfaces entre o Pramantha Terreno e o Pramantha Celeste, criando assim a “Nova Jerusalém na Terra”, tendo por ponto central, de acordo com a Marcha Cíclica do Oriente ao Ocidente, a própria Meka (Tulan) Ocidental – São Lourenço, no Sul das Lavras de Minas Gerais. Ex Oriens Umbra! Ecce Occidens Lux!

Ainda que o Professor Henrique José de Souza seja universalmente considerado o fundador do Sistema Geográfico Sul-Mineiro, ainda assim a informação não está de todo correcta, pois em contrário teria inventado algo novo. O que ele fez foi somente remotar e readaptar as energias subjacentes a esse mesmo Sistema Geográfico que existe há um milhar de anos. Um Mestre verdadeiro não inventa sobre o nada e não fantasia ao sabor do delírio, antes cria algo novo no Presente retificando o que foi feito no Passado, tudo em conformidade à Evolução geral para o Futuro. É assim que acontece a marcha precessional do Género Humano com o seu Guia ou Manu à dianteira.

As sete mais uma cidades sagradas ou jinas do SGSM distam entre si numa distância igual, obviamente numa proporção maior, à que existe entre os sete planetas do Sistema Solar, configurando nas suas linhas os traços siderais da constelação de Orion (Zainat, em aghartino), ligada ao Primeiro Aspecto do Logos, portanto, ao Pai, tomando forma como Akbel, o Vigilante Silencioso da Terra. Ora, essa disposição não pode ser inventada por qualquer mortal, pois existe per se desde sempre, e o mais que há é a de um Adepto Vivo a revelar aos homens trazendo os Mistérios do Céu à Terra.

Cada uma dessas cidades-satélites de São Lourenço relaciona-se com uma cidade subterrânea do chamado Mundo de Badagas e sobretudo de Duat, onde se preparou este Sistema Geográfico desde há 1000 anos para esta Nova Idade do Espírito Santo tomando forma no Filho, no Cristo Universal ou Bem-Aventurado Nosso-Senhor Maitreya. E daqui, do cume da Montanha Sagrada Sanlourenciana, mais se abarca o Mundo e mais ressoa a frase de “quando o Christus, o Budha sorri, a Humanidade enxuga as lágrimas”.

Para essa activação da ligação entre os Mundos Jina (Deuses) e Jiva (Homens), servindo de caixa de ressonância as paredes graníticas do Seio da Terra trazendo à Face da mesma as suas benéficas vibrações, e desta ao mesmo Interior por meio das energias criadas no Templo, portanto, havendo intercâmbio para não ser só recebimento sem nenhum oferecimento, há três datas marcantes e determinantes da activação do Sistema Geográfico Sul-Mineiro:

1.ª – 9 de Setembro de 1942: JHS inaugura o Templo do Caijah, Oitavo Princípio ou Atmã do Mundo de Duat, para o Ciclo da Obra a caminho de Aquarius, e que é a Oitava Embocadura do SGSM – Coarací ou Zoroacy.

2.ª – 24 de Fevereiro de 1949: JHS inaugura na Face da Terra o Templo de Maitreya (Mitra-Sherim, “Louvado seja o Deus Mitra-Deva”), “dedicado a todos os povos e religiões do mundo”, no cimo do Monte Verde (cor de Vayu, mas também de Fohat electrificando aquele) dominando a cidade de São Lourenço.

3.ª – 7 de Maio de 1961: JHS inaugura a Embocadura Luz de Chaitânia (“Luz da Sabedoria”), ligando o Templo de São Lourenço ao Meka-Tulan, Capital do Reino de Badagas, e ainda a todo o Duat e Agharta.

Há ainda uma 4.ª data, para formar a Cruzeta Jina na Face da Terra:

4.ª – 14 de Maio de 1961: Inauguração da Embocadura Fogo de Arakunda (“Altar de Fogo”) no Roncador, ligando o Monte Ararat (“Altar do Arhat”) ao Monte Moreb (“Que Tudo Vê”), ou seja, o Mato Grosso do Quinto Senhor às Minas Gerais do Sexto Senhor.

Passo agora a descrever as sete mais uma cidades componentes do Sistema Geográfico Sul-Mineiro.

POUSO ALTO
CEÇARY, “Olhos que Choram”, antes MAMUCABA, “Abertura” (tupi)
EMBOCADURA FUNDADA EM 1934
TEMPLO DO SABER
ALQUIMIA E QUÍMICA
SOL
PRITHIVI (Terra)
LARANJA

MIDAL (aghartino)
ANTÓNIO JOSÉ BRASIL DE SOUZA (português)
PRITHI-BEL (cabalístico)
LAMPADAX (Cóccix)
MACHU-PICHU, Peru
JIVA-LOKA

Rasgando o véu líquido da cachoeira ocultando a Embocadura de Mamucaba, dela saiu Jeffersus o Christus em 13 de Maio de 1934 (“Dia da Ressurreição”) numa avatara momentâno feito por Akbel vindo abençoar o Mundo, logo retornando ao Mundo dos Deuses sendo declarada inaugurada esta Embocadura de Pouso Alto. Em 24 de Dezembro de 1940 recolhem-se por aqui ao Seio da Terra os Sete Dhyanis-Jivas, e inicia-se o nascimento dos Sete Yokanans. Esta cachoeira encontra-se pouco antes da cidade de Pouso Alto na floresta vizinha da Serra da Mantiqueira, não é vista da estrada principal, mas não deixa de ser significativo que sempre que a Coluna J de JHS, Eng.º António Castaño Ferreira, aí passava a caminho de São Lourenço, parava a viatura e afastava-se um pouco em recolhimento místico. Quando estive na cidade não cheguei à cachoeira sagrada porque entretanto ela viera a mim em forma de chuva torrencial, que só cessou a altas horas da noite.

ITANHANDÚ
INHACUNDÁ, “Corrente Sinuosa” (tupi)
EMBOCADURA FUNDADA EM 1883
TEMPLO DA BELEZA
ARTE E POESIA
LUA
APAS (ÁGUA)
VIOLETA
SI
SAMUS (aghartino)
BENTO JOSÉ BRASIL DE SOUZA (português)
AP-BEL (cabalístico)
VAMPADAX (Baço)
ITCHEN-ITZA, México
ANANDA-LOKA

Esta Embocadura é fundada em 15 de Setembro de 1883, precisamente no dia do nascimento dos Gémeos Espirituais Henrique – Helena, Ele saindo pela Mansão dos Barishads (Anjos) em Vila Velha, Paraná, contrabalançando o seu princípio masculino com o feminino do lugar, e Ela pela Mansão dos Agnisvattas (Arcanjos) em Nova Xavantina,  Mato Grosso.

CARMO DE MINAS, antiga SILVESTRE FERRAZ
ARAÇARANÃ, “Peito do Mundo” (tupi)
EMBOCADURA FUNDADA EM 1800
TEMPLO DA BONDADE
POLÍTICA, ÉTICA E ESTÉTICA MILITAR
MARTE
TEJAS (FOGO)
VERMELHO

RUD (aghartino)
CARLOS JOSÉ BRASIL DE SOUZA (português)
TEJA-BEL (cabalístico)
RAMPADAX (Gástrico)
EL MORO, América do Norte
RISHI-LOKA

A Embocadura de Carmo de Minas veio a ser fundada no mesmo ano da apresentação dos Gémeos Espirituais ao Mundo no Avatara Momentâneo da Serra de Sintra em 28 de Setembro de 1800, nos braços de Jesus (Jeffersus) e Maria (Moriah) sob a guarda poderosa dos Maiores da Raça Humana perfilando no Culto de Melki-Tsedek, o Rei do Mundo, sob o patronímico Ordem de Mariz. Nesta antiga Silvestre Ferraz viveu o Adepto Josué Mateus (Kadir), que com outros prepararam o Sistema Geográfico Sul-Mineiro para o Novo Ciclo de JHS. Viveu envolto numa grande maya entre essa cidade e a de São Lourenço, onde era conhecidos por todos, e foi assim que vindo eu de Carmo de Minas e já em São Lourenço, pessoas aparentemente alheias à Obra me apontaram a casa onde viveu Kadir, nome que utilizei em vez do profano quando perguntei isso, suspeitando do que iria se seguir perante a fartura de conhecimento de «estranhos» à Obra: quando voltei ao local de trabalho dessas pessoas nunca ninguém ouvira falar delas, e nem o espaço era igual… coisas do Mundo da Grande Maya ou Mundo Jina. Poderia passar por fantasia se eu não tivesse fotografado o momento, o lugar e as pessoas, portanto, está registado.

MARIA DA FÉ
IA-PASSÊ, “Terra do Meio” (tupi)
EMBOCADURA FUNDADA EM 1789
TEMPLO DA PUREZA
MECÂNICA E FÍSICA
MERCÚRIO
ANUPADAKA (SUBATÓMICO)
AMARELO
MI
ASSHAK (aghartino)
DANIEL JOSÉ BRASIL DE SOUZA (português)
ANU-BEL (cabalístico)
HAMPADAX (Frontal)
SIDNEY, Austrália
KARANA-LOKA

A data de fundação desta Embocadura de Maria da Fé é a mesma da do nascimento dos sete Dhyanis-Kumaras em 1789, filhos de Lorenzo Paolo Domiciani (São Germano) e de Lorenza Paola Domiciani, decorria a Revolução Francesa. Os responsáveis pelo Templo da Pureza mostraram-se de uma simpatia tal que não posso deixar de registar aqui a sua atitude que não esquecerei, como igualmente a bela cidade, familiar, acolhedora e generosa cujo povo tocou-me fundo.

SÃO THOMÉ DAS LETRAS
TASSÚ, “Mundo dos Deuses” (tupi)
EMBOCADURA FUNDADA EM 1500
TEMPLO DA RIQUEZA
LITERATURA, PROSA E HISTÓRIA
JÚPITER
ADI (ATÓMICO)
PÚRPURA
SOL
JOVAI (aghartino)
EDUARDO JOSÉ BRASIL DE SOUZA (português)
(Antigo Leonel da Silva Neves e Giuliano de Lorenzo)
ADI-BEL (cabalístico)
OMPADAX (Coronal)
SINTRA, Portugal
SURA-LOKA

São Thomé das Letras com as suas casas rústicas feitas de granito, com as suas calçadas também de pedra granítica, evocaram-me de imediato as ambiências rurais de Trás-os-Montes e das Beiras portuguesas. Tudo aí trescala força, energia de júpiteres humanos como são a sua gente rija, afã e acolhedora. O seu Pico do Leão é ainda marco geográfico para as funduras da Embocadura local, fundada no mesmo ano da chegada ao Brasil de Pedro Álvares Cabral em 1500. O São Tomé aqui venerado como Orago será sobretudo adaptação católica do Manu ameríndio Sumé, e gentes singulares de miraculosas ou tão-só desenvolvidas qualidades psicofísicas parecem hoje descender dele, como o famoso Chico Taquara ou o “Tatá” Noronha que me deixou saudades, ora fitando inquieto as  estrelas do Cruzeiro, ora amorável puxava do violão e soltava uma balada mineira com voz maviosa que fazia sonhar.

CONCEIÇÃO DO RIO VERDE
ITIQUIRÁ, “Água Vertente” (tupi)
EMBOCADURA FUNDADA EM 1200
TEMPLO DA VENTURA
FILOSOFIA E RELIGIÃO
VÉNUS
AKASHA (ÉTER)
AZUL

ENOI (aghartino)
FRANCISCO JOSÉ BRASIL DE SOUZA (português)
AKASH-BEL (cabalístico)
YAMPADAX (Laringe)
CAIRO, Egipto
JINA-LOKA

Inaugurada no ano 1200 da nossa Era, a Embocadura de Conceição do Rio Verde vai bem com o seu nome tupi, “Água Vertente”, que beija a cidade bela e harmoniosa com uma igreja matriz capaz de rivalizar com as mais imponentes catedrais da Europa. De todas as cidades do SGSM, parece que esta era da especial predilecção do Professor Henrique José de Souza, inclusive tendo-lhe dedicado um Hino, com letra e música sua, que além da grande beleza harmónica pauta igualmente o seu profundo significado iniciático. “Conceição do Rio Verde, / Um rio cor de esperança, / Rio Verde, Rio Verde, / Que não me sai da lembrança”.

AIURUOCA
AJUR-LOKA, “Caverna da Luz” (tupi e sânscrito)
EMBOCADURA FUNDADA NO ANO 1000
TEMPLO DA SUBLIMAÇÃO
TEURGIA E TAUMATURGIA COMO MEDICINA UNIVERSAL
SATURNO
VAYU (AR)
VERDE

KARIB (aghartino)
GODOFREDO JOSÉ BRASIL DE SOUZA (português)
VAYU-BEL (cabalístico)
PAMPADAX (Cardíaco)
SRINAGAR, Índia
AJUR-LOKA

Embocadura fundada no ano 1000 da nossa Era dando prossecução ao Sistema Geográfico de Teresópolis, causalmente esta cidade distingue-se causalmente seus médicos ilustres que muito contribuíram para a História da Medicina no Brasil e noutros países. Cidade hospitaleira, agradável e gentil, com o seu imponente Pico do Papagaio dominante no meio da Natureza virgem e da fauna selvagem, também a sua igreja matriz se replete de símbolos cuja linguagem muda fala alto do mundo iniciático de que participaram, e quiçá ainda participem, muitos filhos conhecidos e anónimos da terra. Até hoje aí mantenho amizades profundas cujas gentilezas prontas de dedicados aiuruocanos sempre me sensibilizam deixando-me sem jeito, ficando-me sempre o pleito de gratidão.

SÃO LOURENÇO
ZOROACY, “Sol Central” (tupi)
EMBOCADURA FUNDADA EM 1942
TEMPLO DO CONHECIMENTO UNIVERSAL
OS SETE RAMOS DO CONHECIMENTO HUMANO
SOL CENTRAL
MAHA-BUTHA (SETE ELEMENTOS)
BRANCO
SETE NOTAS MUSICAIS
ADAMITA (aghartino)
HELENA JOSÉ BRASIL DE SOUZA (português)
ANABEL (cabalístico)
LUZ DE CHAITÂNIA (CARDÍACO INFERIOR, VIBHUTÎ)
SÃO LOURENÇO, Brasil
ZOROACY OU COROACÍ.

JHS activa a Embocadura Sanlourenciana em 9 de Setembro de 1942, aquando estabelece a ligação do Templo do Caijah com a Montanha Sagrada Moreb, o que equivale ao Sol Interno do Mundo de Duat começar a vibrar na Face da Terra a partir do ponto bindú ou centro do Sistema Geográfico Sul-Mineiro. Fê-lo com a sua deslocação física ao Mundo Interno indo subterraneamente do Rio de Janeiro a São Lourenço, depois voltando novamente ao Rio saindo trôpego próximo da Rua do Catete. Nessa hora o relógio da Praça XV parou inesperadamente. Em 24 de Fevereiro de 1949, foi inaugurado o Templo de Maitreya – coincidindo com o Seu nascimento em Agharta – que abriria o novo ciclo de espiritualidade em toda a cidade de São Lourenço, apercebendo – graças à propaganda pública da Sociedade Teosófica Brasileira – a maioria da população que caminhava sobre telhados de fibra vítrica… São Lourenço –  terras de encantos mil, com crepúsculos apologéticos enchendo de místicas vibrações o peito de qualquer um; São Lourenço – onde o Cruzeiro do Sul mais brilha e se exalta o humano tirocínio; São Lourenço – saudade e amor, lágrima de gratidão caindo fugitiva ao lembrar enternecido Roberto Lucíola, sobretudo, mas também a tantos e a tantas mais de alma mineira que desde o coração do Brasil distendem seu frémito de amor à Terra inteira.

Posto isso, apresentam-se os Sete Dhyanis-Budhas chefiados pelo Augusto Akdorge na representação de Arabel, e imediatamente abaixo os Assuras humanos, como Corte desse Planetário mas ao serviço do Sexto, assumindo o trabalho de Guias da Nova Civilização, dessa mesma Raça Dourada do Futuro, mas por ora responsáveis pela condução da evolução da presente Humanidade rumo ao Quinto Sistema, como consta na Carta-Revelação de JHS de 15 15.04.1952. O Edital de 31.07.1954, adianta que os Jivas ou seres humanos estão ligados ao Budha Terreno, são dirigidos por Ele agindo pelos Dhyanis-Budhas. Assim, o Esplendor da Cadeia Terrestre vincula-se necessariamente à Realização da Hierarquia Jiva, à Vitória de Deus na Humanidade.

De modo que o trabalho actual dos Munindras apresenta-se com duas frentes. Uma, estritamente esotérica e oculta: suporta e apoia as Hierarquias Divinas laborando desde Agharta à Face da Terra, e da Face da Terra até Agharta-Shamballah, criando as condições necessárias ao Advento de Maitreya. A outra, é exotérica e expansiva: a da propagação de um novo estado de consciência para toda a Humanidade, através de novos valores, novas ideias, novo carácter e nova cultura. Este trabalho concreto no mundo constitui-se na alegórica Escada de Jacob que une a Terra ao Céu e por onde sobem e descem Seres Alados: sobem os homens até se tornarem na Divindade, e descem os Seres Divinos até alcançarem a Humanidade.

Com a Vitória da Obra de Deus em relação ao trabalho do actual Quarto Sistema ou Ronda, a derradeira fase desse trabalho a cumprir é a da Iluminação espiritual da Hierarquia Jiva como Hierarquia Criadora ainda em formação. A Era de Maitreya, ou os mil anos antes de 3005, é o período onde as atenções estão focadas nesse derradeiro trabalho da Hierarquia Humana, pelo que todo ele converge para a Humanidade.

Finalmente, cabe ressalvar que hoje o termo Assura refere-se a um estado de consciência diferenciado, ligado à Obra e ao trabalho do Pramantha, e não tanto aos Seres dessa Hierarquia que no tempo de JHS estavam na Face da Terra. Assim, para todo o efeito, todos somos humanos realizando um trabalho Divino, Assúrico. O objectivo principal é o Esplendor, a Realização da Hierarquia Jiva, e para tanto deve ser levado ao mundo o conhecimento legado pelo Avatara, para que o mundo dele usufrua e possa participar deste trabalho. “A Humanidade só será feliz quando reconhecer o Avatara”, afirmou JHS. Para haver esse reconhecimento, necessário se faz que Ele seja apresentado ao mundo. Este é o papel principal de todo o Munindra, de todo o Discípulo desta Nova Era de Promissão.

BIJAM

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