A Pomba do Espírito Santo – Por Henrique José de Souza (Laurentus) Segunda-feira, Jun 20 2011 

Cavalga a AVE DA VIDA se queres saber.

Abandona a tua VIDA se queres viver.

 A Voz do Silêncio

 

O Espírito Santo manifestado em forma de AVE não se firma apenas nas belíssimas páginas do Cristianismo, inclusive nas duas conhecidas passagens em que o mesmo “Espírito Santo, em forma de POMBA, desce sobre Jesus, no momento em que João Baptista o consagra nas águas tranquilas do Rio Jordão”, e no Dia de Pentecostes, “em forma de línguas de fogo (Fogo Alado) sobre os Apóstolos”, dando-lhes o dom do conhecimento de todas as línguas e de tudo o mais quanto faz parte da MENTE UNIVERSAL.

A AVE é, pois, o símbolo da SABEDORIA ou Conhecimento Divino, por outro nome, TEOSOFIA. Ela é a expressão, digamos, ideoplástica do TERCEIRO LOGOS, que o mesmo Cristianismo reconhece como “Terceira Pessoa da Santíssima Trindade”, dando-lhe mesmo o nome de “ESPÍRITO SANTO”, isto é, Pai, Filho e Espírito Santo, cuja expressão em forma humana é aquela da SAGRADA FAMÍLIA ou JOSÉ, JESUS e MARIA.

Todas essas maravilhosas interpretações da TRINDADE DIVINA em nada diferem das escrituras orientais, seja na TRIMURTI (“Três Corpos”, ou Brahma – Vishnu – Shiva), seja naquela “Ave de HAMSA chocando SETE OVOS”, que outros não são, senão, os SETE DHYAN-CHOANS idênticos aos SETE ARCANJOS ou Anjos da Presença diante do TRONO, iniciaticamente alegorizados nos candelabros de SETE VELAS que figuram nos altares dos Templos do Cristianismo. O mesmo termo tibetano CHOAN equivale a CISNE, outra AVE SAGRADA que figura nas lendas escandinavas. É o SWAN inglês, o SCHWAN germânico, o ZWAN dinamarquês, sempre a referida AVE no seu excelso e iniciático sentido ARCANGÉLICO, ao qual a mesma TEOSOFIA denomina de SÉTIMO PRINCÍPIO ou “Princípio Crístico”, e os gnósticos de AUGOEIDES, o mesmo deus CUPIDO, no seu virginal sentido de AMOR UNIVERSAL, atingindo o “coração” dos verdadeiros filhos da Parelha Divina.

Em uma das estâncias do LIVRO DE DZIAN (Dzin, Djin ou JINA), como um dos mais antigos livros do Oriente, e hoje não mais figurando em nenhuma das suas bibliotecas, encontram-se estas reveladoras palavras, que também concordam com as da teologia da supracitada Igreja: “Do UNO-TRINO surgiram os SETE AUTO-GERADOS”, isto é, aqueles mesmos Arcanjos ou Dhyan-Choans, necessitando apenas que se seja um Iniciado para saber interpretar o “Espírito que vivifica por baixo da letra que mata”.

A UNIDADE, o TERNÁRIO e o SEPTENÁRIO formam o cabalístico numerou 137, a que somos os primeiros a dar a maior importância, além do mais, porque a sua soma cabalística ONZE significa: “a Volta ao Divino”. Sim, a UNIDADE que é, ao mesmo tempo, TRINA em Essência e SÉPTUPLA em Manifestação ou Evolução. A Ilha de Itaparica, na Bahia, é caracterizada por esse número: 1 – a Ilha por inteiro; 3 – a largura; 7 – a extensão (em léguas).

A famosa bailarina Pavlowa possuía sete cisnes brancos, no lago da sua residência, aos quais prodigalizava carinhos inexcedíveis. Tem-se a impressão de que a grande intérprete da arte de TERPSICORE era entendida em assuntos ocultistas ou teosóficos. Depois da sua morte, um a um foram morrendo todos eles. Como se sabe, um dos bailados mais famosos da referida artista, é: A MORTE DO CISNE.

Na Mitologia, JÚPITER traz consigo a ÁGUIA, como símbolo da Sabedoria. Do mesmo modo que, entre os povos da América Central (Maias, Quichuas, Toltecas, Astecas, INCAS, etc.), o FALCÃO, por exemplo, era considerado “ave sagrada”. O COLIBRI, por sua vez, ao lado da “Serpente IRISIFORME alada”, entre os Nahoas possuía um simbolismo dos mais transcendentes. O termo irisiforme quer dizer “com forma de arco-íris”, isto é, com as sete cores do espectro solar, que a bem dizer são as mesmas dos TATVAS ou “forças subtis da Natureza”. E consequentemente, as cores dos sete Planetas, cujos “Anjos tutelares”, segundo a Astrologia (Miguel, Gabriel, Samael, Rafael, Saquiel, Anael e Cassiel), são os mesmos Arcanjos ou Dhyan-Choans já falados anteriormente.

A TEOSOFIA ensina que “cada um dos SETE DHYAN-CHOANS dirige um dos sete estados de consciência que a Mónada tem de percorrer em toda a sua trajectória evolucional durante uma Ronda ou Ciclo”. Na arte musical – como expressão de tamanha verdade – a escala é formada de SETE NOTAS. E quantas vezes a mesma seja repetida (digamos 7×7 = 49, na razão de sete Raças-Mães e sete sub-raças para cada uma delas), um ACORDE – composto de três notas – que aí também pode ser repetido como se fora a referida Mónada deslizando do Divino (o Agudo) ao Terreno (o Médio) e ao Infraterreno (o Grave), ou seja, ao SEIO DA TERRA, ao SANCTUM-SANCTORUM onde se acha o grande Mistério espiritual do nosso Globo, pouco importando opiniões contrárias… É o LUGAR onde elaboram as chamas do Fogo Sagrado, o FOGO SERPENTINO ou KUNDALINI. Aquele mesmo Fogo que, “através da sarça ardente, falou a Moisés, ordenando-lhe que se descalçasse, pois estava pisando em terra sagrada”…

No magnífico livro místico A VOZ DO SILÊNCIO, da autoria da Sr.ª Helena Petrovna Blavatsky, por ela compilado de um outro antiquíssimo com o título de O Livro dos Preceitos de Ouro, encontram-se os profundos e iniciáticos ensinamentos que aqui transcrevemos:

“Olha as hostes das Almas. Vê como pairam elas sobre o mar tempestuoso da vida humana. E como, exaustas, sangrando, de ASAS QUEBRADAS, vão caindo uma após outra, nas ondas encapeladas. Batidas pelos ventos ferozes, perseguidas pelos vendavais, são arrastadas para os sorvedouros e somem pelo primeiro grande vórtice que encontram.

“Se, passando pela Sala da SABEDORIA, queres chegar ao VALE DA FELICIDADE, fecha, discípulo, os teus sentidos à grande e cruel heresia da “SEPARAÇÃO”, que é aquela que te separa dos demais.

“Que aquilo que em ti e de ORIGEM DIVINA não se separe, engolfando-se no mar de MAYA (ilusão dos sentidos), do Pai Universal (a Alma), mas que o PODER DO FOGO se retire para a câmara do coração e o domínio da Mãe do Mundo.”

Sim, dizemos nós, o “Poder de Fogo” e a “Mãe do Mundo” são nomes dados a KUNDALINI, como um dos poderes místicos, digamos, o principal que faz do discípulo um ADEPTO ou Homem Perfeito. A sua câmara é o “coração”, mas a sua “morada” está no chakra MULADHARA, situado no cóccix (uma espécie de “Bela Adormecida ou Branca de Neve à espera do Príncipe Encantado, em seu túmulo de cristal…”). Tal centro de força ou CHAKRA se acha em oposição ao situado no vértice ou alto da cabeça, com o nome de chakra CORONAL (Sahasrara, Brahmananda, etc.). A coroa dos sacerdotes, dos reis, donde “reis divinos”, do mesmo modo que a auréola dos santos da supracitada Igreja, têm a sua origem em tudo quanto acabamos de dizer.

Conhece-se aquela maravilhosa passagem da vida de António Vieira, quando ele diante do Altar da Virgem Maria (com o seu papel também de Ave ou Espírito Santo) sente um ESTALO na cabeça, e perde os sentidos… Daquela hora em diante o discípulo IGNORANTE passou a MESTRE, ADEPTO, Homem Perfeito ou Iluminado. Começou a ter “o conhecimento perfeito das coisas”. Trata-se do fenómeno da “manifestação de Kundalini”, aquele mesmo que, no Dia de Pentecostes, se manifestou sobre as cabeças dos DOZE APÓSTOLOS DO CRISTO.

Na seita dos Quakers (ou tremedores) na América do Norte, os seus adeptos quando recebem o “espírito santo” põem-se a tremer convulsivamente, para não dizer, em forma epiléptica. Do mesmo modo, entre os adeptos da “macumba” (ou baixo africanismo), ao receberem o “santo”. Tanto estes como os médiuns do espiritismo não são mais do que formas grosseiras dessa manifestação superior do Eu ou Consciência Universal (agindo em cada um como fracção do Grande Todo), pois que, de outro modo, não passa de “manifestação momentânea” (quando não de embuste, como na maioria dos casos) muitas vezes de entidades astrais, larvas ou micróbios dessa natureza, em actividade por conta do mau lastro existente no ambiente ou ovo áurico de semelhantes pessoas, que, a bem dizer, não passam de “passivos” ou doentes. O homem deve ser consciente dos seus actos para que seja, também, responsável pelos mesmos perante a Lei que a tudo e a todos rege (ou Dharma, a Lei Justa). O próprio termo “irresponsável” define o indivíduo que pensar e agir de modo contrário.

Tal como os Dhyan-Choans ou Arcanjos, os sete Astros por Eles dirigidos, etc., o Homem possui sete “centros de forças” ou CHAKRAS. E isto, além do mais, para provar que “ele deve percorrer os sete estados de consciência, a fim de se tornar aquele mesmo Adepto ou Homem Perfeito”. Para tanto se lhe apontam os 3 iniciáticos caminhos: JNANA (Conhecimento), BHAKTI (Amor, Devoção, etc.) e KARMA, que é o do meio, através do qual ele palmilha na vida, sujeitando-se a todos os obstáculos por ele mesmo criados nesta e em outras encarnações anteriores.

Citemos outras passagens de A Voz do Silencio, para comprovarem as bem nossas de hoje:

“Então, do coração (como câmara de Kundalini) esse PODER subirá à SEXTA região média, ao lugar entre os OLHOS (chakra frontal ou AJNA, onde os faraós egípcios traziam o UREUS mágico, e na Índia, “o olho de Shiva” para as castas elevadas, sacerdotais, etc.), quando se torna a respiração da ALMA ÚNICA, a Voz que enche tudo, a Voz do MESTRE”.

E isto porque, segundo as mesmas escrituras orientais, “quando o discípulo está preparado, o MESTRE aparece”, que outro não é, senão, a própria Consciência. “Busca dentro de ti mesmo o que procuras fora”, é outra sentença das referidas escrituras.

“É só – continua A Voz do Silêncio – quando poderás ser UM que anda nos céus, que pisa os ventos por cima das ondas, cujos passos não tocam nas águas” (como naquela passagem da vida de Jesus, em que Pedro, por não ter a devida fé em si mesmo e na palavra do MESTRE, quase se afoga. “Ó homem de pouca fé…!”).

“Antes que ponhas o pé sobre o degrau superior da escada, a escada dos sons místicos, tens de ouvir de SETE MANEIRAS, a VOZ DE TEU DEUS INTERIOR.

“A primeira, é como a VOZ SUAVE DO ROUXINOL cantando à sua companheira uma canção de despedida (“o canto do CISNE na hora da morte”).

“A segunda, vem como o SOM de um címbalo de prata dos DHYANIS, acordando as ESTRELAS RUTILANTES.

“A terceira, é como o lamento melodioso de um espírito do oceano prisioneiro na sua concha.

“A quarta, é seguida pelo CANTO DA VINA (espécie de ALAÚDE).

“A quinta, é como o sem de uma flauta de bambu gritando aos teus ouvidos. Muda depois para um clamor de TROMPA.

“A sexta, vibra como o rumor surdo de uma nuvem de trovoada.

“A sétima, absorve todos os outros sons. Eles morrem e não tornam a ouvir-se.

“E quando estão mortos e postos aos pés do MESTRE, então o discípulo se entrega ao ÚNICO com Ele, nele, portanto, vivendo.”

“Viver a Vida Una” é termo conhecido por Teósofos e Ocultistas.

Em resumo, mais uma vez dizemos, o Espírito Santo manifestado em todas as religiões, lendas e tradições, é a AVE SAGRADA da Sabedoria Divina. E como tal, representa o TERCEIRO LOGOS. É a Voz que vem dos Céus e se manifesta na Terra como PALAVRA. Segundo foi dito em outros lugares, a sua Morada é o Sanctum-Sanctorum (que no homem é figurado no Muladhara) da Mãe-Terra, MATER-RHEA ou Matéria. Algo assim como se disséssemos que o Espírito (Purusha) aí se une com a Matéria (Prakriti).

Em nosso artigo dedicado a Colombo (número 110 da revista Dhâranâ), ao estudarmos a sua sigla e brasão, citámos a saudação que o mesmo nela fazia, seja ao ESPÍRITO SANTO, em forma de Pomba, como a MARIA, em forma de Água, Mar, etc. Mesmo porque MARIA provém de Mar, as Águas, etc. E a prova é que, nas pias de água benta, dois MM entrelaçados encontram-se por cima, não apenas para simbolizar o nome de Maria mas, também, para expressar o signo de AQUARIUS.

E como Colombo pertencesse à Ordem de Avis (anteriormente houve uma outra mais secreta ainda, vide o supracitado número de Dhâranâ, com o nome de MARIZ), o que nos obrigou a fazer os “iniciáticos trocadilhos” que se seguem: Ave, Maria! Ave, Espírito Santo! –dizia Colombo na referida SIGLA. Enquanto nós outros: Avis-Maris, Aves-Marinhas. AVIS RARIS IN TERRIS. De facto, “o grande Navegador Aghartino ou Jina” não passava de AVE RARA na Terra. O seu nome provém de COLUMBA, a POMBA de todas Iniciações, o ESPÍRITO SANTO das Homenagens Divinas. Do mesmo modo que, em grego, chamando-se ele CHRISTOFERENS-COLUMBUS, “é aquele que carrega consigo o Cristo”. Donde a lenda de S. Cristóvão que “carregava, de um lado a outro do rio, as pessoas que dele necessitassem, até que um dia carregou o próprio Menino Jesus”. O sentido verdadeiro, entretanto, dessa passagem “de um lado a outro”, é aquele de salvar as almas, conduzindo-as ao Céu, ao outro lado da Vida. Donde o termo PONTÍFICE ou “construtor de pontes”, que é muito mais antigo que o Cristianismo.

Passemos a narrar um fato memorável que se passou no próprio Rio de Janeiro (antiga capital brasileira):

“A imagem de N.ª Sr.ª de Copacabana (cópia da que existe no Santuário de Copacabana, às margens do Titicaca, na Bolívia. Copacabana também foi um dos Chefes ou Manus da Raça Inca, etc.) foi trazida ao Brasil por uma comissão de senhoras bolivianas. Na solenidade da entrega, feita na praça da Matriz de Copacabana, após o temporal que se desencadeou naquele momento, uma POMBA BRANCA veio pousar na cabeça (chacra coronal, donde coroa, etc.) de Nossa Senhora. O facto causou uma sensação tão grande que a multidão se atirou de joelhos diante da imagem… E o académico Pedro Calmon aproveitou a sublime apoteose divina para o seu brilhantíssimo discurso (os jornais da época noticiaram largamente o facto – 1943). É curioso assinalar que a imagem de N.ª Sr.ª de Copacabana primitivamente possuía uma COROA com uma pomba nela pousada, segundo narrou o Major Ugarteche em conferência realizada no auditório do Ministério da Educação.”

E tudo isto, prezado e ilustre leitor, para falarmos no caso que vem empolgando toda a imprensa brasileira – principalmente a paulista e a carioca – do mesmo modo que as pessoas que o assistiram no momento e posteriormente: “Uma POMBA BRANCA, sem que se soubesse de onde veio, pousou na FRONTE de uma jovem professora (facto também idêntico ao do momento de expirar a “virgem de Orleans”, na inquisitorial fogueira…), de nome Otília Dias de Almeida Ferraz. Além de “muito amiga dos seus discípulos”, era devota do ESPÍRITO SANTO e de São Jorge. Muitos dias antes de morrer, começou a ver uma POMBA BRANCA sobre a cabeça. Logo depois da sua morte, o quarto encheu-se de um perfume estranho de rosas. A pomba que não a deixava um só instante, bicava as mãos das pessoas que procuravam tocar no cadáver… E acompanhou o enterro, postando-se num dos braços da CRUZ da sepultura da morta, onde aí esteve muitas horas, para depois as pessoas da família da morta a trazerem para casa onde se acha até hoje”…

Como sabem os Ocultistas e Teósofos, o TERCEIRO LOGOS é assinalado por “um círculo com uma CRUZ no centro”. Do mesmo modo que o chakra MULADHARA ou Raiz, possuindo QUATRO pétalas, forma uma CRUZ PERFEITA. O perfume da ROSA e a excelsitude da CRUZ, apresentam um outro símbolo, que é aquele da ROSACRUZ.

A mesma “protegida do Espírito Santo e de São Jorge”, além da visão que teve muitos dias antes de morrer, não mais quis tomar nenhum alimento, pedindo mesmo a MORTE, isto é, desejando ir para o mesmo LUGAR donde viera a misteriosa AVE, a ARCA, BARCA ou AGHARTA. Sim, como aquela do NOÉ bíblico (que lido anagramaticamente dá o ÉON grego, como “a manifestação da Divindade na Terra”), que voltou “trazendo no bico o ramo de oliveira”. Sim, o “Ramo Racial Árico”, após a grande Catástrofe Atlante…

Do ARCO, ARCA, BARCA ou AGHARTA também era JEANNE D´ARC, pois, como afirma o seu próprio nome, o ARCO (arco-íris) é “a ponte que conduz as almas de um lado para outro”, em busca da IMORTALIDADE. A “Barca de Osíris” tinha a mesma função, ao navegar no rio NILO. Nilo, Nihil ou Nada, do aniquilamento da vida terrena pela permanência eterna no Tudo… da Vida Divina.

Jeanne D´Arc, a Jina da Arca, mas também, um dos seus Kshatriyas ou Guerreiros.

Tomé de Souza, primeiro governador do Brasil, adoptou para a sua bandeira o símbolo da POMBA DE NOÉ, com a conhecida frase latina: SIC ILLA AD ARCAM REVERSA EST. “Assim voltou ela para a ARCA”. A Prefeitura da capital baiana até hoje tem por Brasão e Armas a mais bela de todas as alegorias ao Divino Espírito Santo. Não fosse ela a CIDADE DO SALVADOR, a Terra de SANTA CRUZ e de Todos os Santos. E como tal, dos Mistérios da sua própria DESCOBERTA…

Em nosso Colégio Iniciático, uma JOVEM que vivia mais “no mundo da razão que no da ilusão”, mal acabou de exalar o último suspiro, TRÊS POMBAS BRANCAS existentes na casa de seus pais, desapareceram, rumando para lugar ignorado…

O seu nome, que era LUCÍLIA, obriga-nos à uma interpretação mais que verdadeira: LUCÍLIA é aquela que se dirige para a “Ilha da LUZ”.

E com isto, só nos resta afirmar que, mesmo nesta hora trágica por que atravessa o mundo, nele ainda existem SERES cuja ORIGEM nos obriga a aclamá-los do mesmo modo que o fizemos a COLOMBO:

AVIS RARIS IN TERRIS.

 

(Revista Dhâranâ n.os 142 a 144 – Abril de 1951 – Ano XXVI)

 

 

 

 

 

 

 

 

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Símbolos e Brasões – Por Henrique José de Souza Sexta-feira, Jun 17 2011 

É este tríplice carácter de instrução, audácia e longa paciência que temos de salientar em Cristóvão Colombo.

No começo de uma nova era, sobre o limite incerto em que se confundem a Idade Média e os tempos modernos, esta grande figura domina o século, cujo movimento recebeu e que por sua vez vivifica. – HUMBOLDT.

 

MAIS UMA VEZ, COLOMBO…

 

A ninguém, por mais ilustre que seja, é dado fazer estudo aprofundado sobre certas personagens históricas, muito menos quando a própria História é a primeira a ignorar os menores detalhes das suas vidas, como no caso de Colombo, a sua pátria e filiação.

Quanto ao que do mesmo dissemos em nosso artigo anterior intitulado Colombo e Cabral – verdadeira Introdução aos outros dois que o seguiram, ou sejam, Paracelso e Cagliostro e S. Germano, para provar sua “origem aghartina” e, como tal, “Arauto da Missão Y”, ou seja aquela em que a S.T.B. há longos anos se acha empenhada e que abrange todo o continente americano – não passam de «fantasias teosóficas», como disseram muitos, a começar por alguém de responsabilidade que assim taxou os nossos estudos sobre os Lugares Jinas do Brasil, incluindo a Serra do Roncador que tantas vítimas tem ocasionado, não por lhe quererem descobrir os valores históricos mas pela ganância de todos os tempos por parte de certos desbravadores, do mesmo modo que de “missionários religiosos, propagadores da fé cristã, catequizadores, enfim, dos índios”. Pobres índios! Torpemente explorados por semelhante gente… em busca, sim, de ouro, diamantes e outros “achados”, por isso mesmo dignos de ser rebuscados pelas autoridades competentes…

Obrigados somos, porém, a volver a tão delicado quão precioso assunto, devido a pequenas falhas notadas no referido trabalho, dentre elas, a falta de comentário ao brasão de Colombo, mesmo que fazendo parte do texto original, mas que no entanto foi descurado devido ao excesso de trabalho, quer na composição, quer na revisão de dois números de grande responsabilidade, como foram os anteriores desta revista, o que permitiu que o mesmo “ficasse no rol do esquecimento”… Errare humanum est!

Mas, como não haja mal algum que não traga certas vantagens, aí está o presente e sacrificial esforço, que obriga o autor, embora doente, a volver à cena de uma peça mais do que fraca, para ser talvez vaiado por uma meia dúzia de exigentes, em tão selecta plateia, como é a formada pelos leitores desta revista. Acontece, porém, que o seu papel neste segundo acto da mesma peça é apenas de comentador da própria História, representada em mãos mais provectas como são as do ilustre poliglota e hebraísta português G. L. Santos Ferreira, e as do não menos ilustre genealogista António Ferreira de Serpa (há pouco falecido em Lisboa), por sua vez, comentadores da obra de Dom Tivisco intitulada SALVADOR GONSALVES ZARCO, e isso possa valer de “defesa”, de protecção ao confronto que de certos trechos o mesmo faz com as suas «petulantes e teosóficas afirmativas» que, a bem dizer, «não passam de fantasias».

Nesse caso, aproveitará ainda o autor tão generosa oportunidade para atingir outros pontos que, embora ligados estando à vida do Descobridor do Novo Mundo, vão alcançar a Obra em que a S. T. B. se acha empenhada. Razão, portanto, do presente estudo – segundo e último acto da peça COLOMBO E CABRAL – possuir o seguinte título: Símbolos e Brasões.

Comecemos pelo trecho principal do capítulo I, ao qual o autor dá o nome de Servindo de Introdução:

“Uma grande preocupação dominou o espírito do famoso descobridor do Novo Mundo até à hora da sua morte: a de ocultar qual era a sua pátria e o seu nome. E se uma vez afirmou “haver saído de Génova e ter nascido nela”, não deve concluir-se daí que fosse genovês, ou mesmo italiano de nação; pois, nesse caso, teria de admitir-se que, ao passo que cercava do maior mistério a sua personalidade e origem (ambos os grifos são nossos), ele próprio as denunciava espontaneamente, por inconcebível leviandade.”

Não se deve esquecer que ambos os comentadores do livro por nós citado procuram provar que Salvador Gonsalves Zarco era de origem portuguesa, por isso mesmo – embora tão valioso trabalho que a outros supera, além do mais, por se servir da mais preciosa de todas as chaves que é a filológica – bem longe está de expressar toda a verdade, ou seja aquela por nós apontada no nosso primeiro trabalho: que Colombo era de “origem aghartina”, no que diz respeito à sua maternidade, pouco importa que o pai tivesse sido um nobre de sangue ao mesmo tempo português e castelhano, para fazer jus “à descida das Mónadas ibéricas” – através do chamado “Itinerário de Io” – que deveriam formar a nova civilização ameríndia, cujo fenómeno é completado por uma outra misteriosa Personagem, também de estirpe aghartina (pouco importa o que diga a História a seu respeito), ou seja, Pedro Álvares Cabral. Donde intitularmos a sua missão de “codicilo do espiritual testamento de Colombo, legado ao mundo”.

Já nos referimos, em outros trabalhos, ao “fenómeno das trocas de certas crianças privilegiadas”, que variam de Hierarquia segundo o valor desses mesmos trabalhos que têm a desempenhar no mundo. Assim, existem os directamente provindos da Agharta, aos quais poderíamos denominar de “deuses”, os imediatamente inferiores, ou de trabalhos de origem mais terrena do que divina, como, por exemplo, o dos “descobridores”, etc., “semi-deuses” ou super-homens, se o quiserem, por isso mesmo, um pai terreno para uma mulher ou mãe aghartina. O mesmo termo Srinagar – já o dissemos em outros trabalhos – além dos seus sete sentidos cabalísticos (a chave filológica, portanto, figurando entre eles…), quer dizer: Sri ou senhor, do mesmo modo que senhora, e Agar, que bem claro se apresenta para o já conhecido termo Agharta. Nesse caso, o Templo Budista onde estivemos em 1899/1900 (ao Norte da Índia), compõe-se de “seres positivamente aghartinos”, além do mais, por as suas galerias subterrâneas alcançarem certas regiões da mesma Agharta 1, senão mesmo, a chamada “Ilha Imperecível ou Shamballah”, para muitos, infelizmente, apenas um mito, uma tradição de tempos remotos. Sim, “tempos remotos”, em que a Humanidade foi dirigida pelos próprios deuses. Haja vista, na Atlântida, sete regiões ou cidades para uma oitava, representando na Terra um Sistema Planetário, e que eram dirigidas pelos tradicionais “Sete Reis de Edom” (Dhyan-Choans ou Espíritos Planetários), enquanto na oitava, “por detrás de altíssimas muralhas”, a manifestação da própria Divindade, na sua Tríplice Forma

Como Lohengrin, ocultando o seu nome e pátria, segundo as lendas escandinavas, Colombo fazia o mesmo, embora certa vez forçado, como afirma a História, a dizer que “havia saído de Génova e nela ter nascido”. Acaso ou não, o facto é que o Conde de Cagliostro dizia a mesma coisa, acrescentando, porém, que “a sua mãe o havia abandonado na sarjeta de uma das ruas de Génova”. Tal cidade – do mesmo modo que Veneza – foi outrora escolhida para residência profana de vários Adeptos, dentre eles, o conhecido no mundo teosófico como “o Veneziano”. Veneziano ou Venusiano, tanto vale, na razão de Venésia ou Venúsia, Velúsia ou Véu de Vénus, Véu de Akasha, etc. As escrituras sagradas do Oriente afirmam que “os Fundadores da grande Família Humana vieram de Vénus” (“Senhores de Vénus”, como são chamados), por sinal que “portadores de três valiosas ofertas ao mundo: Trigo, Mel e Formiga”, com a interpretação até hoje desconhecida, a não ser através de trabalhos anteriores por nós oferecidos ao mundo: Trigo, como alimento humano ou terreno; Mel, como alimento divino, a própria Teosofia ou Sabedoria dos Deuses, dos Super-Homens, Génios ou Jinas, também chamado “Licor de Shukra” (ou de Vénus), “Ambrósia dos Deuses”, etc. E quanto a Karma – o próprio Karma Universal ou aquele que provém de Cima, dos Céus (“Queda dos Anjos”, etc.), depois aumentado pelos homens, na razão do individual e do colectivo – nenhum animal mais apropriado para simbolizar o humano Karma do que a Formiga, se é justamente aquele que destrói, que aniquila o seu esforço, o seu suor, o seu trabalho. Sim, Karma, o mesmo que obriga o homem a renascer tantas vezes quantas sejam necessárias para esgotar, redimir, as suas faltas passadas…

Em resumo, o que ambos os autores do livro que estamos comentando desejam provar, é que o Descobridor do Novo Mundo era de origem portuguesa.

No estudo da sigla do grande navegador, revelam que ele na sua juventude cometera um crime, e foi a razão de usar desse processo para ocultar o seu nome e origem. Senão, vejamos:

“Vê-se que a assinatura se presta a duas leituras distintas: a do nome suposto que o navegador assumiu, e a de uma sentença, que foi a regra ou o programa da sua nova vida. A primeira poderia ser declarada, em caso de necessidade; a segunda, subentendida por uma forma misteriosa, reservava-a só para si, e a ninguém a terá revelado excepto aos seus confessores.

“Examinemos uma e outra. Se algum dia fosse obrigado a explicar a sua firma (e a Inquisição teve, por vezes, curiosidades semelhantes e bons argumentos para as apoiar), Colombo poderia responder: – Cristo, Maria e José são os meus patronos espirituais. Saúdo-os sempre antes de escrever o meu nome: Christo, salvé; Maria, salvé; Josephe, salvé; Xpo ferens é o santo de meu nome; o ponto e a vírgula, que são o cólon gramatical, representam o meu apelido Colón.

“Mas, lá no íntimo da sua alma, a interpretação era outra. Ele via a sentença que o condenara à morte civil, e voluntariamente se impusera: XPO FERENS, criptograma de Salvador; os SSS, passando em claro os nomes dos três patronos – Cristo salvo, Maria salva, Josephe salvo –, o criptograma de Consalvis; e o S, que fica isolado superiormente, criptograma de Zarco, por ter o acento zarco, da escrita hebraica, exactamente a forma do nosso S. As palavras

completavam o texto: “Salvador Gonsalves Zarco, aquele que roubou, desapareça”!

“E o leitor vai ver, no decurso deste pequeno estudo, quanto esta dolorosa confissão era tristemente verdadeira. Salvador Gonsalves Zarco morrera no dia em que saiu de Génova e nela nasceu o vagabundo Cristobal Colón, o homem sem pátria e sem família – mais tarde o maior do mundo, no seu tempo.

“Tudo quanto deixo escrito seria apenas uma série de conjecturas – honestamente deduzidas, sim, mas em todo o caso, uma série de conjecturas – se a feliz inspiração do Sr. Ferreira Serpa não houvesse chamado a minha atenção para o misterioso livro de D. Tivisco.”

De facto, mais adiante, comentando tal livro cita o texto hebraico que, “para o autor, concorre para tais conjecturas se tornarem mais ou menos prováveis. Transformavam-se numa realidade histórica”. E vem a tradução do referido texto:

“Este ímpio, tendo sido colocado em governador (magnificus) na ilha de Chios, maltratou e defraudou o seu príncipe, e fugiu vestido como jornaleiro do arrabalde e fingindo-se mudo; e correu mundo; mas envergonhado e arrependido, emendou-se e voltou para o seu país natal, e tomou o nome de Cristobal Colón.”

E depois de inúmeras páginas, procurando desvendar outros tantos textos hebraicos (extraídos do Teatro Genealógico que contém as Árvores de Costados das principais Famílias do Reino de Portugal e suas conquistas, tomo I do referido livro do prior D. Tivisco de Nasao), cita o seguinte: “Levanta-te, levanta-te, Salvador Gonsalves Zarco” (como valor numeral ou cabalístico de 1112). Para dizer logo abaixo:

“Não tenho, pois, dúvida em afirmar, e nisso convirá seguramente o crítico de boa fé, que o ano de 1692, segundo centenário do descobrimento da América, foi escolhido para a sensacional revelação, pelo facto de se prestar a esta interpretação profética: “O Mundo dirá: Retira-te, Colón. Levanta-te, levanta-te, Salvador Gonsalves Zarco”!

“Falhou o oráculo, como vimos, em razão de um caso imprevisto; mas, o ano da Justiça aproxima-se.”

E, contudo, dizemos nós, mesmo com o auxílio do Sr. Ferreira Serpa, tais conjecturas continuam de pé, pois que a ambos faltavam certos conhecimentos que, muitas vezes, para o mundo profano não passam – como já tivemos ocasião de dizer – de «meras fantasias teosóficas», ou mesmo ocultistas, se o quiserem.

Cagliostro também passou por ter roubado o “Colar da Rainha”, com o pseudónimo de José Bálsamo, de que se serviu alguém que lhe era contrário, ou mesmo que fosse um tulku (espécie de sósia) seu, para despistar, salvar situações, como aquelas em que poderia, também, cair o grande navegador, desde que, sendo “filho da Agharta”, não podia dizer, de facto, a sua pátria e filiação. O verdadeiro sentido esotérico já o demos em nosso estudo anterior, e dele não nos afastamos um só milímetro, em que pese as opiniões contrárias. Não é por simples prazer que terminamos os nossos trabalhos de maior responsabilidade com a frase latina VITAM IMPENDERE VERO, para não ter de dizer, embora sem arrogâncias nem humanas vaidades: Quod scripsi, scripsi.

Repetimos: por mais lógicas que sejam tais provas, não passam de meras suposições, para não dizer, especulações de quem não conhece a fundo os mistérios que envolvem a Vida Humana, muito mais as de certas Personagens, que a própria História é a primeira a desconhecer, chamem-se Colombo, Cabral, Paracelso, Cagliostro, S. Germano e até mesmo Napoleão Bonaparte, “o Leão do Naipe” (espadas, por ser um guerreiro) que desejava ter uma Buona ou Boa Parte nos destinos do Mundo, com a “formação dos Estados Unidos da Europa, como lhe foi encomendada sob juramento solene, nas galerias subterrâneas da Pirâmide de Gizeh…” E que hoje os “monstros do fim do ciclo” desejam, criminosamente, imitá-lo. Por isso mesmo, destruídos, aniquilados serão pelos próprios albores do Novo Ciclo, portador de melhores dias para o Mundo. Ninguém poderia acreditar que o apoteótico fenómeno cíclico (fim do século XV, ou Colombo, e começo do XVI, ou Cabral) dos respectivos descobrimentos da América e do Brasil, estivesse sujeito à “velha civilização europeia” e também à afro-asiática, se com o referido fenómeno se dava, justamente, a fusão racial do humano Passado com o Presente, para a realização do Futuro: o advento, quase simultâneo, da 6.ª e 7.ª Sub-Raças do Ciclo Ário, cujo espiritual movimento está nas mãos da S.T.B. desde o ano 1924, para não apontar o de 1900, quatro séculos justos depois do Descobrimento do Brasil.

Já em pleno século IX, a Península Ibérica encontrava-se sob o domínio (ou fusão) árabe, que tanto concorreu para a cultura de que ela mesma serviu de portadora aos povos ameríndios.

E séculos e mais séculos antes, ainda, o Manu Ur-Gardan (Ur, Fogo; Gardan, donde provém o Garden ou Jardim, na língua anglicana) conduzia um Ramo celta para o litoral europeu, ou seja, o “velho Portugal” – PORTUS-GALLIAE, de galos ou gauleses – que a intuição do insigne poeta lusitano cognominou de “Jardim da Europa à beira-mar plantado”.

E por termos falado dos “monstros do fim do ciclo”, seguidos por outros monstros ou degenerados que lhes são simpáticos, pouco importa a que país pertençam… tivemos ocasião de dizer, em velho estudo nosso publicado nesta revista, à guisa de profecia, que “em breve o imperador Hailé Selassié faria uma vilegiatura ao país donde fora destronado”, por conhecermos melhor do que outros a sua verdadeira origem… e, consequentemente, que o “Leão de Judá (que figura em vários brasões, inclusive no de Colombo…) acabaria apor vencer a Loba itálica”, o que de facto se deu, podendo ele mesmo cumprir o que havia prometido, isto é (servindo de eco à nossa voz…), “substituir a Loba itálica, da praça principal de Adis-Abeba, pelo Leão de Judá”, graças ao poder do “Cavalo alado”, ou seja, S. Jorge, precioso símbolo aghartino, ou do Cavaleiro Akdorge, Maitri ou Maitreya, como décimo Avatara de Vishnu, ou o Redentor-Síntese da Humanidade. E como S. Jorge também seja patrono da velha Albion, a velha Gália… tal acontecimento se deu com o valioso auxílio do referido país: a Inglaterra.

Quanto a Hailé Selassié, sempre protegido, viveu pelas duas iniciais de seu nome, ou sejam H e S, desde que o J que lhe falta ao termo Judá pertence… – Judá, Jove, Jeove ou Jehovah

Infelizmente, o precioso símbolo da velha Romakapura, ou seja, “a loba que amamenta Romulus e Remulus”, pseudo-fundadores de Roma, por mais sagrado que seja acabou por cair em mãos profanas, para não dizer, indignas… Mãos cobertas de crepe, ou de negra musseline… luto pesado sobre uma nação de génios, de artistas, e até de Adeptos…

Romulus e Remulus, Castor e Pollux, Helios e Selene, Gémeos Espirituais, amamentados com o precioso leite que deu nome ao continente Pushkara (o sétimo ou o nosso), ou seja, o de “mar de leite, de manteiga clarificada”, como dizem as velhas escrituras orientais. Sem falar do lugar em que a nossa Obra nasceu, “Montanha Sagrada”, projecção granítica da Serra da Mantiqueira ou “manteigueira”, como objecto que é de guardar tão precioso alimento…

Eram pais de Romulus e Romulus (pouco importa que o não saiba a História) Romulus e Kapura, donde provém o próprio nome da velha cidade atlante, mais acima apontada, ROMAKAPURA.

Passemos agora à decifração das suas Armas, segundo o livro que estamos comentando, no capítulo intitulado Um pouco de Heráldica, para podermos, por nossa vez, dar a sua verdadeira interpretação esotérica ou oculta:

“Investigadores modernos, no empenho de apurarem a verdadeira origem de Cristobal Colón, têm estudado, sob os mais variados aspectos, o Brasão de Armas que julgam ter ele usado, unânimes na esperança de encontrarem, no quarto quartel desse escudo, ou ainda num quinto quartel, que lhe supõem embutido em ponta, alguma indicação que os conduza à descoberta do seu verdadeiro nome de família. Ainda até hoje nenhum resultado satisfatório foi obtido neste sentido (mais uma prova da sua “origem aghartina”, dizemos nós), apesar de um desses investigadores – Patrocínio Ribeiro – haver estado muito próximo de descobrir a verdade; e não a descobriu, talvez, por só ver em Cristobal Colón, como rudemente confessa, um plebeu enfatuado, desejoso de ostentar em público atributos de nobreza a que não tinha direito (embora, dizemos nós, “o seu reino não fosse deste mundo”!!!).

“O documento autêntico, que tem sido base do estudo de tais investigadores, é a Provisão de Isabel, a Católica, de 20 de Maio de 1493, reproduzida por Navarrete no 2.º volume da sua Colección de los viajes y descubrimientos que hicieron por mar los españoles desde fines del siglo XV, na qual se lê:

“… un Castillo es un Leon, que nós vos damos por Armas: conviene a saber, el Castillo de color dorado en campo verde, en el cuadro del escudo de nuestras Armas, en lo alto a mano derecha, y en a otro cuadro alto a Ia mano izquierda un León de púrpura en campo blanco rampando de verde, y en otro cuadro bajo a la mano derecha unas islas doradas en ondas de mar, y en outro cuadro bajo, a la mana izquierda las Armas vuestras que sabiades tener, las cuales sean conocidas por vuestras Armas y de vuestros hijos y descendientes para siempre, jamás…” etc.

“Conquanto seja um pouco confusa a redacção deste documento”, continua o autor citado, “é bem compreensível o seu sentido: concede-se ao primeiro almirante do Mar Oceano, por acrescentamento às Armas que ele sabia pertencer-lhe, um quartel de Castela, um quartel de Leão e um quartel comemorativo do descobrimento das Índias Ocidentais.

“Os quartéis de Castela e de Leão foram concedidos com alteração nos respectivos esmaltes, por não ser permitido em Espanha, naquela época, usar tais quartéis con los colores reales: assim, o de Castela (que é de vermelho com castelo de ouro) ficou de verde com castelo de ouro, e o de Leão (que é de prata com leão rampante de púrpura) ficou de prata com leão rampante de verde. O quartel comemorativo era azul, ondado de prata, semeado de ilhas de ouro, como deve dizer-se em boa linguagem heráldica.

“Consideremos agora o quarto e último quartel. Em primeiro lugar, é a existência deste quarto quartel que nos dá a ideia de se limitar a régia concessão a um simples acrescentamento de Armas, dado, portanto, à pessoa reconhecidamente nobre e que tinha Armas próprias, ficando assim posta de parte a hipótese de mercê nova concedida a um plebeu, com o fim de o nobilitar. Não descreve essas Armas a Provisão, nem tinha que descrevê-las, e deixa ao cuidado do agraciado debuxá-las como devessem ser debuxadas. Isso seria tarefa bem grata e bem fácil para qualquer outro; para Colón era, porém, uma verdadeira impossibilidade, visto haver muitos anos que deixara de ter pátria e família (?). Como poderia agora denunciar uma e outra, no escudo de suas Armas, se tinha o máximo empenho em ocultá-las? (é nosso o grifo).

“E foi talvez, por isso mesmo, que ele não se aproveitou da régia concessão, pois não consta que, em tempo ou lugar algum, usasse tais Armas. Mas se não as usou, nem por isso deixou de fornecer aos seus descendentes indicações precisas sobre os esmaltes e peças do seu quarto quartel, que uniformemente aparece em todos os armoriais como sendo de azul com cinco ancorotes de ouro postos em sautor. Digo ancorotes e não âncoras, por serem realmente ancorotes e não âncoras as peças ali representadas. O ancorote difere da âncora não somente por ser de menor dimensão, mas pela ausência do cepo transversal perpendicular à haste: é a empennete dos franceses, o kedger dos ingleses.

“Vejamos como este quarto quartel representa um dos cinco escudetes das Armas Reais de Portugal (não esqueçamos que o autor defende a ideia de Colombo ser português, quando ele está para Espanha como Cabral para Portugal, embora que ambos sejam “aghartinos”…). É de azul, como esses escudetes, e tem, como eles, cinco peças postas em sautor. As cinco peças são de prata no escudo real (Fig. A) e eram de ouro no de Salvador Gonsalves (Fig. B) por diferença de esmalte, pois não era menos rigorosa em Portugal do que em Espanha a proibição de usar qualquer quartel das armas reais sem diferença.

“As peças são, nos escudetes das armas reais, cinco besantes ou dinheiros, e no escudo do Almirante cinco ancorotes (Fig. C), palavra equívoca de agoroth ou angoroth, que na língua hebraica também significa dinheiros, moedas e, portanto, besantes. Mediante este artifício iludia Colón, sem faltar à verdade, a curiosidade que, aliás, não podia evitar, dos que lhe perguntavam como era o quartel das suas Armas a que a Provisão se referia.

“A estampa colorida representa, pois, o escudo de Armas de Salvador Gonsalves, como lho concedia a Provisão Régia de acrescentamento e assim se brasona:

Esquartelado: 1 de verde com um castelo de ouro, que é de Castela; 2 de prata com um leão de verde, que é de Leão; 3 de azul aguado de prata, semeado de ilhas de ouro, que é comemorativo do descobrimento das Antilhas, 4 de azul, com cinco besantes de ouro, postos em sautor, que é de Portugal. Timbre: um dragão de vermelho, que é dos Infantes do Reino.

“Pelo que respeita a um famoso quinto quartel, “embutido em ponta”, no qual se tem pretendido ver as Armas de variados Colomos, Colombos, etc. (ainda bem, dizemos nós, que aparecem diversos Colombos “sósias ou tulkus do verdadeiro”…), de não menos variadas Plasencias e outras terras de Itália e de Espanha (e não sei mesmo se de Portugal), não vale a pena discuti-lo (lá isso, dizemos nós, está certo, pois discutir o que se não conhece… é coisa bem difícil!); em primeiro lugar, e decisivamente, porque a Provisão lhe não faz a menor referência; e depois, porque o seu valor probativo – se algum lhe pudesse ser atribuído – correria parelhas com o de certos documentos supostamente autênticos, que aparecem inesperadamente nos arquivos públicos (todo o grifo é nosso), e com os quais se pretende dar como resolvidos graves problemas da História ou da Arte (apoiado!).”

Vejamos, agora, a revelação esotérica das Armas de Salvador Gonsalves Zarco, com o seu pseudónimo da mesma natureza ou de Cristos-Columbus – com o vero sentido exposto em nosso estudo anterior, sendo que o de Cristobal equivale a Cristos e Baal, ou o “Deus-Cristo”, o 7.º Princípio teosófico, a Consciência Universal, etc., etc.

O Dragão Vermelho, Dragão Tamásico ou Terreno, equivale ao do Seio da Terra das tradições transhimalaias (vide, por exemplo, a obra de Marques de Riviére, A l’ombre des monastères thibétains), “o Dragão Celeste” ou aquele que caiu do Céu arrastando com a sua cauda tudo quanto encontrou no caminho, até mesmo 22 Estrelas, que desde então se apagaram… e que na Cabala equivalem aos 22 Arcanos Maiores, etc. Simboliza, também, o Dragão da Sabedoria, pouco importa se alado ou marinho.

Por isso que tal Dragão pousa sobre o capacete de todos os Cavaleiros ou Guerreiros juramentados, pouco importa a Ordem a que pertençam. E tendo como armas de defesa a espada e a lança, por sua vez preciosos símbolos iniciáticos encontrados em todas as velhas lendas e tradições, dentre elas, a “lança de Longino ou Longuinho”, da qual se serviu a Igreja para a sua Tragédia do Gólgota. Sim, Lohan ou Chohan e Gina ou Jina, como se fora o próprio filho (um dos sete) alanceando ou fazendo sangrar o coração de seu Pai, o Cristo, Mitra, Maitri, o Sol, etc. Tradição esta que já provém dos tempos imemoriais da Atlântida… “Imemoriais”, sim, para o mundo profano, o vulgo, o que ignora a sua própria origem, os erros passados, até os dos próprios deuses… homens-dragões, centauros… deuses infundidos em homens, por sua vez, positivamente animais.

Dragões de Sabedoria, Leões de Fogo, Agnisvattas, Pitris Solares e também Kumaras. Não tem por origem a Humanidade a árvore Genealógica dos Cabiras ou Kumaras? Nesse caso, Dragões Marinhos os Barishads, como Pitris (ou Pais) Lunares.

Por isso que tanto o Brasão de Colombo como o de Cabral são cercados de ramos partidos do mesmo Tronco. Tronco Divino e não Humano. Tronco Deífico ou Aghartino. Cabral, Capris, Capricórnio, Cumara, etc. Cristóvão Colombo simbolizando a 3.ª Pessoa (que ele mesmo saudava de modo velado) da Trindade ou Espírito Santo, por isso mesmo, Colombina ou Pomba.

Razão porque, cinco dias antes de encontrar terra, ao ver alguns pássaros, sinal da sua proximidade, escreveu no diário de bordo: “que as mais ilhas que têm os portugueses, pelas aves as descobriram”. Sim, como aquela pomba solta por Noé, da sua Arca ou Barca (Agharta), para ver se as águas haviam secado, vindo ela ter novamente a bordo, portadora de um ramo de oliveira, “símbolo da Paz e da Esperança. Esperança de Porto e Salvamento”. Sic illa ad arcam reversa est!

Como já dissemos em nosso estudo anterior: Aves ou Avis, tanto vale. Por isso, Colombo (ou Colombina) outra coisa não foi senão AVIS RARIS IN TERRIS

Quanto aos cinco ancorotes, em substituição a cinco dinheiros, moedas, etc., a sua vida em jogo estava – como no jogo de dados – no descobrimento do Novo Mundo.

E cinco por estarmos em franco quinto Sub-Ramo ou Sub-Raça da 5.ª Raça-Mãe (a Ária), donde deveriam sair, respectivamente, como foi dito antes, os 6.º e 7.º Ramos sub-raciais… no quinto continente. Por isso ele, o grande clarividente aghartino, os contava pelos cinco dedos, como tivemos ocasião de dizer em nosso artigo anterior. Sim, Europa, Ásia, África, Oceânia e América… “Ovo de Colombo” ou Colombina, que dá ao Mundo a forma esférica…

E quanto ao termo ancorote (ou pequena âncora), de que o famoso hebraista se socorre, com muita propriedade, dos termos agoroth ou angoroth, estes mesmos, provenientes do termo grego ANGOS, que na antiga Medicina queria dizer “útero”, mas em verdade, “Seio da Terra” (Materno ou da Matéria, Mater Rhea). Sim, o Lugar donde o mesmo procedia. Nesse caso, a verdadeira e única Arca ou Barca para onde os Manus conduzem o seu Povo, tanto nas ocasiões de seleccionar as sementes, como nas horas trágicas, para que ele não sucumba com o restante, a plebe, os componentes de um velho ciclo… Não fez o mesmo Noé, conduzindo para a Arca a sua Família, o seu Povo, a Semente escolhida, pouco importa a falsa interpretação da Igreja?

Anchora-vitae ou âncora da vida é um velho símbolo que já provém da Atlântida, servindo sempre para designar algo que possa salvar seja a quem for, principalmente o Mundo. Donde o termo, SALVADOR, que se tem como verdadeiro de Colón ou Colombo, ou seja, Salvador Gonsalves Zarco.

A Âncora equivale, também, à Cruz e ao Coração. Neste caso, ela por si só, Esperança, Fé e Caridade!

Que dizer das oito ilhas de ouro em vagas oceânicas? Sete Dvipas ou Continentes, mais um, para representar a Evolução total da Ronda, como também um “Sistema Geográfico”, como fomos os primeiros a cognominar a cada um daqueles que formam as sete mais uma Embocaduras Aghartinas na face da Terra, por outro nome, Montanhas Sagradas… Sim, na descida de Norte a Sul, “Itinerário de Io”, das Mónadas ou Sementes de que são formadas todas as sete Raças-Mães e respectivas Sub-Raças, Ramos e Famílias.

Os vários Colombos de que falam, por sua vez, diversos escritores, dentre eles Harrisse, possuíam pais chamados Doménicos, Domingos, melhor dito, o Demiurgos, o Criador do Mundo entre os gnósticos, para não dizer desde logo, o Sol Espiritual, aquele mesmo Aton, o Disco Solar, do qual Amenophis IV tomou o nome, fazendo-se chamar Kunaton, ou seja, “o amado de seu Pai Aton”…

Falta falar no “castelo de ouro” com os seus 3 torreões, todos terminados em tríplice forma ou a da letra Shin, que o grande hebraista esqueceu de citar, senão ambos os autores do precioso livro que estamos comentando. Se ele mesmo reproduz os SSS da sigla do grande navegador, embora que lhe dando um sentido bem diverso do nosso.

Eis aí, mais uma vez, a comprovação do que denominamos de Governo Oculto (ou Espiritual) do Mundo, que, como agora o conhece o leitor, é composto de 3 Pessoas, simbolizando a própria manifestação da Divindade na Terra. Em vez de dizer: Salve, Jesus (ou Cristo), Salve, Maria, e Salve, Josephe (ou José) (que é, de facto, uma cobertura, um disfarce para a sua própria origem, e em nome de quem agia ele na face da Terra, e não que “fosse um criminoso a disfarçar, a encobrir seu crime passado”, como querem ambos os ilustres escritores), sim, deveria dizer: Salve, Pai, Salve, Filho, Salve, Mãe ou Espírito Santo. Mas, no escrínio de seu coração, três nomes bem diversos, que não podem ser aqui divulgados… Nesse caso, se o quiserem, apenas: Salve, L! Salve, P! Salve, D! Iniciais de tão preciosos Nomes que desde tempos imemoriais, através de mil transmutações e espirituais movimentos, vão tomando vários sentidos, na razão das sete chaves cabalísticas

Em relação à Trindade que envolve a vida de todos os Seres evoluídos, constata-se, por exemplo, que foi a 3 de Agosto de 1492 que Colombo partiu de Palos (sem falar nas 3 famosas caravelas) e em 12 (se o quiserem, soma reduzida novamente: 3…) de Outubro avista terra, a ilha do Guanay, Guanahan ou Guanahani 2, uma das Lucaias, dando-lhe o seu próprio nome (?) – Salvador (San Salvador): “A la primera que yo falle puso nombre de San Salvador a comemoración de su alta magestad (que majestade? Perguntamos nós…) el qual maravillosamente todo este andado (há dado?); los indios la llaman Guanahan”, assim deixou escrito no diário de bordo.

Interessante, ainda, que fosse um tal Lorenzo Girardi (florentino), negociante em Lisboa, como quer a História, quem apresenta Colombo a Toscanelli, que a este faz entrega da sua carta pedindo informações geográficas… Outro termo que, por sua vez, se repete a cada passo na História, especialmente na da nossa Obra, como o leitor já deve estar farto de o saber.

Haja vista: S. Lourenço dos Ermitãos ou Ansiães, no concelho de Bragança, e também em Sintra, em Portugal. S. Lourenço de Goa, ponto de passagem do “adolescente das 16 primaveras” para alcançar Ceilão, Calcutá e finalmente o Norte da Índia, ou Srinagar. E 21 anos depois, S. Lourenço no Sul de Minas, em cuja Montanha Sagrada nasceu espiritualmente a Obra em que a S.T.B. se acha empenhada. Sem falar naquele acidente em que o mesmo adolescente, com 3 anos apenas de idade, cai sobre uma grelha candente, ou seja, o conhecido martírio a que foi submetido o Santo da Igreja que traz o mesmo nome, e a quem Filipe II faz construir, como seu patrono, o Escurial, em forma de grelha. O mesmo Rei que possuía duas Colunas ou Ministros, ou seja, como J, Jnana, Conhecimento, Iluminação, etc., o grande Árias Montano (o Ário do Monte ou da Montanha), e o B ou Bhakti, como Justiça, ou aquela que traz a Espada, o famoso Duque d´Alba…

S. Lourenço a estância de águas minerais como a de Portugal, foi fundada por Lourenço da Veiga. E para que a causalidade fosse mais adiante, o construtor da Vila Helena, sede da Presidência Geral da S.T.B., se chama Vicente Lorenzo, e ainda continua na referida localidade o seu papel de “construtor ou obreiro”, mesmo que não seja um Iniciado

 

AS ARMAS DA CIDADE DO SALVADOR

 

No artigo anterior dedicado a Colombo e Cabral, já tivemos ocasião de falar sobre as Armas actuais da cidade fundada por Tomé de SOUZA, na razão da pomba que traz no bico o ramo da oliveira, cercada pelo conhecido lema Sic illa ad arcam reversa est (Assim voltou ela para a ARCA).

Resta-nos fazer o mesmo com as velhas Armas, que agora nos chegam às mãos pela gentileza de um grande Irmão e amigo, o Dr. Jaddo Couto Maciel (o mesmo que enviou as usadas actualmente), ilustre e digníssimo funcionário da Prefeitura da mesma cidade, além de incomparável propagandista da Paz Universal, como fundador do Núcleo Pacifista Vínculo Internacional de Amizade, cultuado através do Esperanto, por toda a parte do Globo. Por isso mesmo, um nome de grande projecção no mundo espiritualista, inclusive na Índia, através do Mahatma Gandhi, que lhe dedica a maior consideração, respeito e amizade. A ele, pois, se deve o comentário que vamos fazer das referidas Armas:

Os mesmos torreões do Brasão de Colombo são aí vistos, sendo que para formar o central ou do meio, é substituído pela mesma âncora: a anchora-vitae a que nos referimos anteriormente, na descrição, por sua vez esotérica, das Armas do grande descobridor da América. O símbolo actual da cidade já figurava no centro, sem falar nos mesmos ramos da Árvore dos Cumaras, dos Cabiras, dos Caprinos ou Cabralinos… existentes tanto no Brasão de Colombo como no de Cabral. De envolto aos referidos ramos e alongando-se para fora, dois golfinhos, por sinal que encontrados não só em velhas fontes daquela cidade, como em outras do mundo. Haja vista, as duas fontes de S. Lourenço dos Ansiães, como já tivemos ocasião de descrevê-las. Aquela de certa praça de S. Lourenço de Goa e, finalmente, à direita da praça principal de Srinagar, província de Cachemira, no Norte da Índia, onde uma jovem – espécie de Samaritana – nos oferece e aos demais da comitiva, em seu púcaro de barro, um pouco do precioso liquido saído da boca dos referidos animais. Golfinhos, no Zodíaco exclusivamente animal, correspondem ao Geminis do Zodíaco misto ou vulgarmente conhecido. Os “Gémeos nascidos das águas”, como são todos os Manus que se apresentam sempre em forma-dual (“irmãos-esposos”, como dizem as lendas). Por isso também tidos como Peixes ou PISCIS. Nessa razão, Manco-Capac e Mama-Oclo ou Coya, fundadores de Cuzco, ou seja, a primeira dinastia inca. O mesmo termo Manchu ou Machu-Pichu que se dá à cordilheira ali existente, já o dissemos em vários estudos nossos, provém do mesmo étimo, isto é, Manu-Piscus ou Piscis, Peixes, etc.

Pelo que se vê, as velhas Armas da cidade fundada por Tomé de Souza possuem ensinamentos grandiosos, por isso que muito maiores do que julgam os profanos, ou aqueles que se atrevem a falar de assuntos que lhes são completamente desconhecidos.

Uma outra causalidade interessante, que figura no nome de Tomé de Souza:

O Souza da família de quem estas linhas escreve (a família humana ou terrena…) e o T, que também ressalta do nome de “Dom Tivisco de Nasao Zarco e Colona, apelidos do 1.º donatário do Funchal”. Sendo que Tivisco de Nasao é anagrama de Jacinto de Souza (nome já conhecido do avô de JHS), dando a um dos ii de Tivisco o valor de J, o que então era vulgar, como se pode ver na página 99 do livro de que tivemos de comentar alguns trechos, por serem capazes de testemunhar as nossas próprias afirmativas, no rápido estudo que fizemos no número anterior desta revista, sobre Colombo e Cabral, servindo, como foi dito, de Introdução aos demais que o seguiram: Paracelso e Cagliostro e S. Germano.

Em resumo, BAHIA – TOMÉ DE SOUZA, na razão anagramática para SRINAGAR – TEMPLO BUDISTA, no Norte da Índia onde estivemos, ou então S.T.B. – SOCIEDADE TEOSÓFICA BRASILEIRA.

 

A BANDEIRA OU AS ARMAS DA S.T.B.

 

Qualquer pupilo do nosso Colégio Iniciático, sem tergiversação alguma, responderia imediatamente a quem lhe perguntasse sobre as cores e as Armas da Bandeira da S.T.B.:

Amarelo e azul, na razão da própria Missão Y em que está empenhada a mesma S.T.B. Sim, o azul de Budhi e o amarelo ouro de Atmã, desde que os dois não se podem manifestar em separado. É o Budhi-Taijasi, ou o Mental Iluminado pelo 7.º Princípio teosófico, o Cristo, se assim o quiserem, de todas as religiões, desde que não concebido apenas como individualidade, mas o maior grau de elevação a que qualquer pessoa pode chegar na vida. Já dizia S. Paulo que “todo o ser bom pode falar ao Cristo, em seu homem interno”, e não especificava religião alguma. Nesse caso, as duas doutrinas, a do Olho (ou da Mente) e a do Coração (o Carácter), bastantes para ser alcançado o referido grau, ou sejam as duas conchas da Balança da Vida, em fiel ou equilíbrio.

Não são, ainda, essas duas cores agindo no ovo áurico de cada indivíduo, na parte superior da cabeça, que indicam essa mesma elevação? O azul sobrepujando o lado esquerdo ou “olho de Vénus” ligado à narina do mesmo lado ou lunar, enquanto o amarelo ouro do lado direito sobre o “olho de Budhi”, este, por sua vez, relacionado com a narina do mesmo lado ou solar, na razão secreta de que “Budhi ou Mercúrio é o Sol Espiritual que se oculta por trás daquele que se eleva e declina, diariamente, no horizonte celeste”. Oriente e Ocidente!… Dia e Noite! Luz e Sombra! Espírito e Matéria! Em se fundindo ambos, a Vida Una, a Consciência Universal, o Hálito Divino fazendo pulsar o Coração do Mundo!…

Sete régias coroas, todas elas terminadas em tríplice forma, como os torreões dos mais famosos brasões, inclusive o de Colombo, além de representarem as sete Raças-Mães, os sete estados de Consciência por que a Mónada tem de passar durante uma Ronda completa, multiplicando-se por si mesmas formam o precioso número 21, ou seja, a letra Shin hebraica, de que tanto se falou neste trabalho. Salvador, Srinagar, Souza… e outros termos. Para formar o número 22, o Thau, o Mundo, a Laurenta, etc., ou seja, a 8.ª Coisa, Cidade, Dvipa, o nome que lhe quiserem dar, todo o conjunto central do Brasão: em cima, o tradicional Dragão, já antes explicado no de Colombo, porém, o nosso Dragão amarelo, de Ouro ou Átmico… sobrepujando as 3 iniciais JHS, tantas vezes reveladas e discutidas para termos de falar a seu respeito. Por baixo, a Flor-de-Lis, com as suas 3 pétalas, Lírio ou Loto Sagrado dos Lagos Iniciáticos, da própria Shamballah, e não “o lírio do brejo” da profecia de Paracelso, que foi destruído com a Bastilha, com os Bourbons de França, com a Revolução Francesa, para que fossem “lançados os alicerces do novo Templo de Jerusalém”, que nada tem de comum com a actual cidade da Palestina, mas com a própria Shamballah, “Cidade da Luz”, Morada dos Deuses, por isso mesmo, interdita aos mortais, aos homens vulgares, àqueles cujo coração está repleto de maldade, e a mente envolta nos densos véus da ignorância.

Quanto ao LPD 3, que enfeixa ou serve de remate a tão excelso quão misterioso Brasão, os preciosos Nomes com que, desde tempos imemoriais, é conhecido o Governo Oculto ou Espiritual do Mundo, como já foi dito, passando por diversas metamorfoses de acordo com a própria Evolução Humana, inclusive aquelas da nossa última Revelação no número anterior desta revista, que servem para expressar o Manu da 7.ª Sub-Raça: LOURENÇO-PRABASHA-DHARMA.

E quanto aos Pupilos, como preciosa SEMENTE figurada no lema SPES MESSIS IN SEMINE, por sua vez revelado na mesma ocasião: LAUDATE PUERI DOMINE.

Terminada a peça, pouco importa se fraca, não há como repetir mais uma vez, em lugar do Ridi pagliacci, mesmo que a chorar:

VITAM IMPENDERE VERO!

 

NOTAS

 

1) Vários jornais acabam de publicar o seguinte telegrama proveniente de Barca de Amieira (e logo Barca!…), em Portugal:

“Perto da povoação de S. Jorge (?) das Matas, existem uns terrenos denominados “Algarve da Sobreira” pertencentes ao Sr. João Gonçalves. Há nesses terrenos um buraco largo e profundo – coisa para quatro metros de boca – cuja origem nem as pessoas mais idosas do sítio sabem explicar.

“O Sr. João Gonçalves, curioso e decidido, já por várias vezes convidara alguns indivíduos para descerem com ele ao fundo do misterioso buraco, mas todos recusavam.

“Há dias foi mais feliz. Perto de 160 pessoas reunidas, munidas de cordas, baldes, roldanas e luzes, dirigiram-se com o Sr. João Gonçalves para junto da grande abertura. O Sr. João Gonçalves desceu e com ele, outros. A trinta metros de profundidade encontraram uma sala espaçosa, cavada na rocha, e de onde partem diversas galerias em diferentes direcções, muito compridas e terminando junto de grandes lagos.”

São as tais “regiões jinas” a que nos referimos em vários artigos desta revista, inclusive as do Brasil em Mato Grosso (Serra do Roncador, das Ararinhas ou, simplesmente, Araras, etc.), no Paraná (Vila Velha, Ponta Grossa) e em Minas Gerais (S. Lourenço, S. Tomé das Letras, etc., etc.).

2) Em tupi, Guanandi é uma árvore que dá precioso leite, um tanto viscoso como a mangabeira. Neste caso, mais uma vez fazemos lembrar o termo Pushkara, do nosso continente, ou aquele que as escrituras orientais denominam de “mar de leite, de manteiga clarificada”, etc.

3) O mistério do L.P.D. é tão antigo que se perde na noite dos tempos e relacionava-se, no ciclo anterior da Evolução Humana, com as iniciais de LORENZO PAOLO DOMICIANI e com as da sua esposa de todos os tempos, LORENZA FELICIANI DOMICIANI, sendo a diferença do P (masculino) para o F (feminino) simbolizada pelas duas formas da CRUZ ANSATA (das quais, diga-se de passagem, apenas uma é conhecida do mundo profano, a masculina…), representadas a seguir:

Com efeito, a significação verdadeira da CRUZ ANSATA ou CRUZ DE ANKH, símbolo dos mais preciosos do velho Egipto, onde, reza a tradição, tiveram origem todos os Movimentos em prol da Redenção Humana, nos tempos áureos de KUNATON e NEFERTITI, é o CAMINHO, a ROTA, apontada pelo Espírito de Verdade, periodicamente, e seguido por todos quantos Lhe são fiéis.

Efectivamente, o símbolopode ser decomposto em

que são dois hierogramas sagrados dos egípcios, denominados e Tau, significando, respectivamente, a boca por onde se manifesta o Verbo e o caminho que esta Voz Divina aponta.

Desse modo, pode ser traduzido, como vocábulo, pela palavra ROTA (associação de e Tau), que em nossa própria língua significa “Caminho”. Além deste sentido, lendo anagramaticamente a palavra ROTA, vamos encontrar, entre outras, TARO E ATOR, palavras sobejamente conhecidas dos leitores desta revista e de quantos se dedicam ao estudo da Teosofia, para que tenhamos necessidade de insistir sobre o seu valor oculto.

 

(Revista Dhâranâ n.º 111 – Janeiro a Março de 1942 – Ano XVII)

 

 

 

 

 

Colombo e Cabral (estudo esotérico) – Por Henrique José de Souza Domingo, Jun 12 2011 

“Com três caravelas conquistarei um reino que não é o meu.” – Palavras de Colombo, que o mundo desconhece.

 

Em antigos estudos nossos, quando nesta mesma revista tivemos que falar das duas prodigiosas figuras que foram Colombo e Cabral, não podíamos deixar de aplicar a “chave filológica”, como uma das mais preciosas com que se iniciam os homens.

Assim, ao tratarmos de Colombo, por exemplo, desdobrámos o seu pseudónimo em Cristo e Colombo, Columbus, Colombina, etc., que no final de contas vai ter à Pomba – como símbolo da Terceira Pessoa da Trindade Cristã que tanto vale pela “Terceira Manifestação do Logos”, chamem-lhe de Espírito Santo ou outro nome qualquer.

Por isso que se punha ele sob a protecção dessa mesma Trindade, porém, disfarçada como Cristo, Maria e José ou Yoseph (como se diz em hebraico), mas, em verdade, ocultando uma outra Chave, que não poderiam descobrir os mais conspícuos filólogos.

Em brilhante artigo assinado por um nome ilustre que é o de Lindolfo Collor, por sinal que ao lado de um outro, por sua vez da autoria de alguém muito querido em nosso País, ou seja, o Almirante Gago Coutinho, transparece a famosa sigla constante do codicilo do testamento de Colombo, transmitida como a autêntica ao seu filho e herdeiro D. Diogo.

Não podemos deixar de ficar extasiados diante das decifrações criptográficas do filólogo português major Santos Ferreira, pois que sem ser um versado em Ocultismo, para não dizer, em Teosofia, desvendou a parte mais terrena ou humana da referida sigla. Nem sequer é leitor desta revista, embora ela já conte dezasseis anos de existência, correndo todo o Brasil e alcançando mesmo diversos países do mundo, principalmente, na Europa, Portugal e Espanha, e em nosso continente, todo ele, quer ao Norte quer ao Sul, cujos museus, instituições culturais e pessoas ilustres disputam a sua posse.

Parabéns, pois, não só ao ilustre poliglota e hebraísta português Santos Ferreira, como ao autor do precioso trabalho publicado em O Jornal, de 12 de Outubro, dedicado à Descoberta da América, lastimando outro tanto não podermos fazer com o eminente genealogista António Ferreira de Serpa, por ter falecido há pouco em Lisboa.

Procuremos, nós outros, pois, revelar o que de mais secreto (ou esotérico) faz parte da referida sigla e os possíveis pontos de vista do mesmo Colombo, e também de Cabral, diante de outros estudos que lhes temos dedicado no decorrer dos 17 anos de existência da Instituição que dirigimos, e 16 desta revista, como o seu órgão oficial desde 1925, ou seja um ano depois da fundação material da primeira.

É por essa sigla encontrada no codicilo do testamento do grande Almirante que diversos países, tanto tempo depois do mesmo ter morrido – como Cabral – na maior das misérias e abandonado por amigos e pelo próprio rei Fernando, por ter dado crédito aos seus caluniadores, agora fazem questão de o “terem como filho” (1).

Fac-símile da escrita e da SIGLA de Colombo, reproduzido da obra Amerika, de Rudolf Cronau

Cristóvão Colombo e seu brasão

Já tivemos ocasião de dizer que o Grande Iniciado, que era Colombo, colocava-se sob a protecção da “Sagrada Família”, como são chamados Jesus, Maria e José (note-se que ele preferiu substituir o nome da Jesus pelo de Cristo… e isso tem muita importância esotérica), mas, em verdade, ocultando uma outra Chave, referente ao que todo o Iniciado reconhece como “Governo Espiritual do Mundo” formado por “Três Pessoas distintas e Uma só verdadeira”, na razão da Tríade Superior teosófica, a Mónada ou Consciência Universal. Com outras palavras, “o Rei do Mundo e os seus Dois Ministros ou Colunas Vivas”. Note-se mesmo que em tal sigla figura um S no vértice da pirâmide formada com as 7 referidas letras, e nas duas filas inferiores ou por baixo da primeira figuram também 3 letras, na razão do mesmo Governo Espiritual do Mundo.

No entanto, o S superior (que tanto vale por Salvador, como algo mais ainda) relaciona-se à Linha SERAPIS de Adeptos, que naquela época não estava ainda formada na face da Terra, por isso mesmo, falava e agia Ele, Colombo, ao mesmo tempo como um Serapis (reportem-se ao deus Serapis egípcio e seus sacerdotes, etc.) e como “Sumo-Sacerdote Aghartino”, tal como Nostradamus, Paracelsus e outros mais, cada qual com a sua missão ou papel no mundo, isto é, quer como “profetas, teurgos, terapeutas”, etc., quer como navegadores ou descobridores. Muito mais interessante sabendo que o mesmo Colombo, descobrindo o Novo Mundo, estava trabalhando pelo Advento de dois Ramos raciais: o 6.º no Norte-América, e o 7.º no Sul-América, e cujos Ramos no futuro se interpenetrarão ou formarão um só. Sim, daqui a alguns milénios, quando justamente a 5.ª Raça-Mãe ou Ária tiver alcançado o máximo da sua evolução (2).

E a prova de tudo isso acha-se no restante da mesma sigla: S A S, para “Sumo-Sacerdote Aghartino”, sendo que como homenagem à sua verdadeira Pátria – a AGHARTA – a inicial desta fica no meio e os dois SS em lateralidade, na mesma razão, aliás, do referido Governo Espiritual do Mundo, isto é, o Rei no centro e os dois Ministros nas referidas extremidades. Foi de tão transcendente mistério que saíram as Duas Colunas do Templo de Salomão, até hoje adoptadas pela Maçonaria, embora esta bem longe esteja de saber, com exactidão, o verdadeiro significado dos seus símbolos. Uma Coluna de Ouro ou Solar, e outra de Prata ou Lunar. Na Vedanta, são os dois Caminhos: Jakin ou Jnana, Conhecimento, Iluminação, etc., e Bohaz ou Bhakti, Devoção, Mística, Amor, mas, em verdade, Justiça. A expressão, portanto, do mesmo Rei Salomão: Justo e Sábio, como o são todos os Iluminados. Tais iniciais figuram nos nomes e nas vidas de muitos dos referidos Seres. Haja vista João Baptista, anunciador de Jesus (ou Jeoshua Ben Pandira). E este tem por palco cénico da sua vida: Jerusalém e Belém. José Bálsamo foi o pseudónimo de Cagliostro, até ao dia em que um “charlatão”, ou antes, Mago Negro, se assenhoreou, muito propositadamente, de semelhante nome, para… destruir os transcendentais esforços do Grande Iniciado.

O Grão-Mestre, nas Sociedades Secretas, representa o terceiro Caminho da Vedanta, que é o de Karma. Por isso, toma lugar entre as duas Colunas. É, ainda, a haste central da Balança, cujas duas conchas (Amor e Sabedoria ou Justiça) devem estar equilibradas, sob pena de não ser um Adepto ou Homem Perfeito.

Vejamos, agora, a segunda série de 3 letras, ou sejam, K, M Y. Qualquer membro da S.T.B. (também 3 iniciais) diria imediatamente: Cristo – Missão Y, nome por que é conhecido o nosso Trabalho, justamente por abranger os dois referidos “Ramos raciais” para cujo Advento, como foi dito anteriormente, veio Colombo descobrir o novo ou 5.º continente. Ele os contava pelos cinco dedos da mão, pelos cinco sentidos, pelos Tatvas ou “forças subtis da Natureza”, que também são cinco, etc. Por isso mesmo, não podia enganar-se. Assim, toma como exemplo um ovo, para ser colocado de pé em cima da mesa em Morno, em torno da qual estavam aqueles que o contestavam, como fizeram com Jesus, no Templo, os sacerdotes ou doutores… Além disso, o ovo – como um embrião – representa um por venir ou porvir: o futuro que ali estava lançado ou jogado… em cima de uma mesa. Não uma profecia vulgar, mas… a Ciência dos Magos, Adeptos, Iluminados, etc. No Tarot (cartas de jogar ou Arcanos Maiores e Menores em número de 78, ou sejam, 22 Maiores e 56 Menores), o Arcano 7 ou o número total da sigla (1+3+3 igual a 7…) é representado pelo Carro ou Merkabah. Hieroglificamente, é uma flecha, com a ideia de arma, de instrumento que se emprega para governar (não era Colombo um grande navegador, a ponto de dominar a tripulação revoltada e vir ter aos umbrais do Novo Mundo?…), dirigir, vencer, etc., a todas as coisas na vida. Duas flechas põe ele na sua assinatura (Christoferens), uma apontando para o Céu e outra para o Seio da Terra, referindo-se o ponto que às duas separa à própria Terra, o seu eixo, etc. Esotericamente falando, como um Iluminado que era vencedor se fez dos 3 Mundos: o Divino, o Humano e o do Seio da Terra, para os ignaros, o Inferno, mas, em verdade, “Reinos Inferiores”, por se originar do termo In-fera.

Astronomicamente falando, tal Arcano e letra correspondem ao signo de Gémeos… e só isso daria para escrever um compêndio, inclusive no que diz respeito à Direcção da referida Missão Y, em tudo e por tudo, em forma-dual.

Quem conhece o Tarot, sabe muito bem que tal Arcano é representado por um Rei que dirige o Carro… onde se acham atreladas duas Esfinges, ou Andróginos em separado: o Pai-Mãe dirigido pelo Filho. Nesse caso, Cristo, Maria e José ou Yoseph, mas no seu verdadeiro sentido… e não naquele mayávico ou “ilusório”, que muito propositadamente lhe deu o Grande Iniciado, numa época em que quem não fosse cristão, melhor dito, católico (não foi Isabel, a Católica, quem lhe ofereceu as 3 caravelas?…), não arranjava coisa alguma na vida, facto que ainda hoje muitas vezes acontece.

Quanto à sua própria assinatura (em cima, a razão de ser do seu trabalho, ou em nome de quem Ele, Colombo, levava avante semelhante Missão na face da Terra. E por baixo, de modo velado, quem Ele era…), CRISTOFERENS, ou “aquele que conduz, que leva o Cristo”, não só em seu nome (como uma das interpretações), mas, também, “o que conduz o Cristo” ao Novo Mundo. Por isso mesmo, “com três caravelas conquistarei um Reino que não é o meu”, na mesma razão das palavras atribuídas a Jeoshua, como um outro Cristo: “o meu Reino não é deste mundo” (3).

O Ermitão ou HOMEM PERFEITO

Note-se, ainda, que a palavra CRISTOFERENS, escrita como se vê na sigla, ou do modo greco-latino, possui 9 letras. E o Arcano 9, no mesmo Tarot, é representado pelo ERMITÃO, Iluminado ou Homem Perfeito. Razão de trazer na mão uma lanterna acesa, “iluminando o caminho” a quantos o quiserem seguir.

A sua letra é o Teth hebraico, representado hieroglificamente por um TECTO, telhado ou cumeeira. Símbolo, portanto, de protecção. Não implorava a protecção de uma Trindade (3 vezes 3 igual a 9…) o mesmo Colombo, digamos, aquela sob cuja égide ele mesmo se encontrava, com semelhante Missão?

Astronomicamente, corresponde ao signo do Ledo. Esse mesmo “Leão ou Dragão de Ouro” da famosa profecia de Paracelso (além daquela da Flor-de-Lis que seria destruída, da qual falamos neste mesmo número na Secção dedicada a São Lourenço, na razão da queda dos Bourbons, ou seja a mesma Monarquia, para a implantação da República francesa), dizíamos, serviria de símbolo para um Henrique que deveria vir do Oriente, e, embora mal interpretada pelos “profetas” de hoje que, diga-se de passagem, “proliferam como erva daninha”… baralhando o verdadeiro sentido das coisas. Não é também interessante que o Brasil tenha essa conformação geográfica? (4)

A soma total da sigla é 16, isto é, 7+9 = 16: A Casa de Deus, como é chamado semelhante Arcano. Como Terra da Promissão ou Nova Canaã, todo o Continente Americano representa a “Casa de Deus”, como prova ter sido até agora poupado pela grande destruição por que está passando o mundo…

Não fomos também, embora nada sejamos (na razão do Ego sum qui sum, ou “Eu sou quem sou”…), improvisado navegador, indo da cidade do Salvador, que passa por ser a do nosso nascimento, a Portugal… e dali a São Lourenço de Goa, depois a Ceilão, Calcutá, a caminho do Norte da Índia?

Por uma dessas interessantes causalidades, o emblema da prefeitura da referida cidade é “a pomba solta por Noé que volve conduzindo no bico o ramo de oliveira”, e por baixo a conhecida frase latina, SIC ILLA AD ARCAM REVERSA EST (assim voltou ela para a Arca ou Barca). Barca, Arca, Caravela, o quer que seja, tanto se refere ao próprio termo Cristo, Salvador, etc., como ao de Colombo, Colombina ou Pomba… do Espírito Santo.

As Armas da velha cidade de THOMÉ DE SOUZA

Donde, a Maha-Yana ou “Grande Barca de Salvação” do Budismo do Norte, em um de cujos Templos estivemos, do mesmo modo que, antes de chegarmos a Calcutá tocando em Ceilão, estivemos em contacto com a Hina-Yana ou “Pequena Barca de Salvação” do Budismo do Sul, em cujo lugar vieram juntar-se à comitiva Dois misteriosos Seres, para formarem um TERNÁRIO com alguém da comitiva, se os outros (mais quatro…) completavam o iniciático número 7. Sem temor de fazer cair sobre nós a “Ira de Jehovah”, chamá-los-íamos de KUMARAS, pois um deles, além do mais, possuía “pés tão pequeninos” que pareciam de cabrito… Mas paremos aqui, por ser vedado dizer o resto.

Quanto à Salve ou Ave-Maria, etc., que se encontra em tal sigla, faz-nos lembrar também, na nossa tão simples maneira de interpretar as coisas, o de Ave-Mare (Maria provém de Mare, o Mar, etc., estamos fartos de ensinar), nesse caso, uma “ave marinha”, se era Colombo era um grande navegador, sem falar no resto, que é muito mais importante ainda: Ave ou Avis (Avis Raris in Terris”, que ele também era…), se do mesmo Colombo se diz “ser um filho bastardo de um príncipe da Casa de Avis, e… o último dos rebentos de D. Henrique”. Com vista à Ordem de Avis que, muito antes, chamava-se de Mariz.

Por que havia Colombo de ter por nome exotérico Salvador Gonçalves Zarco?

Quanto ao termo Salvador, já se falou por demais. Sobre o de Gonçalves ou Consalves, os dois ilustres filólogos portugueses disseram o que lhes foi possível dizer. E de modo sem igual, do ponto de vista profano ou exotérico. Quanto ao Alves final do segundo nome, faz ainda lembrar o de Avis, o de Álvares, e, por que não dizer?, de um outro Ser muito mais misterioso ainda, que se chamou Nun´Álvares (o Condestável).

Albor ou Alvor (a alvorada de um Novo Ciclo com a descoberta, por sua vez, de um Novo Mundo), também provém de ALBOREA, Al-Bordi (Montanha Primordial, etc.), e finalmente Albion que possui a mesma AGHARTA, dentre os diversos nomes que as tradições de vários países lhe dão. A “velha Albion” é a mesma Inglaterra, como um dos pedaços da Atlântida poupados pela grande catástrofe…

Quanto ao termo ZARCO, desdobra-se em Z (Zeus, Zero, Zoro ou Goro, donde o termo “Goro ou Sacerdote do Rei do Mundo”, que se encontra nas escrituras transhimalaias) e ARCO, pois que ao mesmo “arco-íris” se denomina de “ponte de fio de navalha”, que conduz de um Mundo a outro, na razão do “Mundo de Duat, Mundo Jina, Astral”, etc., que separa o Humano do Aghartino; do mesmo modo que, em sentido contrário ou de subida, elevação, etc., o ponto de partida é o Humano ou Terreno, ficando o Astral em relação com o “Véu Akáshico ou de Maya”, ou seja, o mesmo que a Cabala, na sua linguagem velada, denomina de Quod superius, sicut quod inferius… justamente por separar o Terreno do Divino. Zero-arco ou astro (astral, etc.) foi o nome de um dos Seres da série dos ZOROASTROS, que em verdade, como “religião do Fogo ou Solar”, demonstra que ZERO-ASTRO não é outro senão o próprio Sol. E a prova é que o grande faraó Kunaton instituiu o culto ao “disco (ou zero) solar”. E Aton equivale ao mesmo Sol (5).

Outrora, escrevia-se Espanha com H, por isso mesmo, as 3 letras que compõem o nome de Helena Petrovna Blavatsky, mesmo porque a sua Missão, ao lado de Olcott, para a América do Norte ocultava aos nomes dos países donde vieram para aí as Mónadas (a Península Ibérica), isto é, Hespanha e Portugal, firmando-se muito especialmente no Brasil. Depois de fundada a nossa Obra, passam tais letras a significar: HOJE PELO BRASIL!

Não são os dois idiomas usados na América do Sul? Isso, além do mais, vem provar que, exotericamente falando, Colombo, por adopção ou escolha de pátria, era espanhol, enquanto Cabral era português, mas na verdade a sua verdadeira Pátria, como foi dito, tanto se acha no Gonçalves de Colombo, como no Álvares de Cabral.

Pedro Álvares Cabral e seu brasão

Se se traçar uma linha recta de Porto Seguro (Atlântico) até alcançar o lado oposto ou Pacífico, atingiremos Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, algo assim como uma “marcha para Oeste”, ou de se unirem os dois “mares-oceanos”, como se dizia antigamente. Outrossim, traçando-se uma vertical partindo da Serra do Roncador, em Mato Grosso, da qual tanto falamos em nossos escritos, vai-se ter a Vila Velha, em Ponta Grossa, no Estado do Paraná. Razão de se dizer de modo velado, mesmo agora ainda o estamos fazendo, que… numa transcendental geminidade, alguém vem ao mundo, à nossa Obra, de Mato Grosso, enquanto um outro do Paraná, e a seguir mais um, de Porto Seguro, no Sul da Bahia, e finalmente um último ou quarto, de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, para dar razão de ser a um CRUZEIRO Mágico, que embora traçado na face da Terra tem a forma idêntica em seu seio, e nos céus a esplendorosa constelação possuidora do mesmo nome, que a bem dizer é o precioso símbolo estelar da Pátria Brasileira. Donde possuir ela a Ordem do Cruzeiro, como a mais alta distinção que se pode conceder a um homem ilustre, um herói, um benemérito, enfim, seja nacional ou estrangeiro (6).

Volvendo às 3 iniciais H.P.B. no que diz respeito a Helena Petrovna Blavatsky, foi ela, ao lado de Olcott, uma espécie de Yokanan ou Anunciadora – além do seu papel, como já foi dito, para a 6.ª Sub-Raça no Norte-América – de um par verdadeiro, cujos nomes são completamente idênticos, ou sejam, Henrique e Helena. Uma simples casualidade, e não que tenha algo a ver uma forma-dual com a outra.

JHS, como se viu, sai da cidade do Salvador indo a Portugal, onde, além do mais, existe uma estância hidromineral (como a Sul-Mineira) denominada S. Lourenço dos Ansiães, região essa onde há muitos anos se reuniam os primeiros Membros de uma Ordem Secreta denominada dos Marizes (dos Morias, dos Mouros, etc.), dos quais existem ainda muitos ramos familiares no velho Portugal com esse nome, e por sinal que José de Alencar, no seu imortal romance O Guarani, ao pai e irmão de Ceci deu os nomes de António e Diogo de Mariz. Pouco importa que o contestem, mas foi dessa mesma Ordem que surgiu a mais conhecida, ou seja, a de Avis. Não se deve esquecer que a dos Templários, por sua vez, se transformou na Ordem de Cristo. A cor da fita e do emblema dos Avises era Verde, enquanto a de Cristo, Vermelha. A união entre ambas forma a cor da primitiva Ordem donde ambas saíram: a dos Marizes. Sim, com essas mesmas cores (verde e vermelho) surgiu o Pavilhão da Pátria Portuguesa… Mistérios que o mundo profano não sabe nem pode descobrir…!

Assim, o “Sumo-Sacerdote Aghartino KRISTOFERENS COLUMBUS”, se assim o quiserem, também era Grão-Mestre dos Taichús-Marús (7), relacionados com os 22 Templos Aghartinos (os mesmos Arcanos Maiores) de que fala Saint-Yves d´Alveydre numa de suas obras ocultistas, embora de modo velado. Cada Sumo-Sacerdote Aghartino forma lateralidade com um outro Ser, para um de maior categoria que fica no centro, pois sendo 7 as Cidades da referida Região, na razão de 3 Templos para cada uma delas, dirigidas por essa mesma Trindade (a Trindade de Colombo e de todos os Grandes Iniciados…), formam o número 21, que unidos a uma Síntese de todas as 7 Cidades (ou uma 8.ª, tal como na Atlântida) completam o número 22. A tal Cidade daremos, de preferência, o nome SHAMBALLAH, por ser o mais conhecido de todos, embora tenha o seguinte significado: SHAMBA, SHOMA, etc., e ALLAH, isto é, “a Cidade Lunar, a Cidade dos Deuses”, etc., por ser uma Ilha. Sim, a chamada “Ilha Imperecível”, pois que nenhum cataclismo a pode destruir…

Da mesma maneira que a palavra constituída por sete letras, que é também a chave da Franco-Maçonaria, ou seja VITRIOL (termo alquímico muito conhecido, para a famosa frase latina VISITA INTERIORA TERRAE RECTIFICANDO INVENIES OMNIA LAPIDEM, tantas vezes por nós empregada), apontava essa Região Sagrada a que acabamos de nos referir, assim também as sete letras superiores da sigla de Colombo, como já o dissemos e provámos tanto quanto é possível fazer-se através de uma revista como esta, ligadas se acham com a mesma Região antes apontada, com a missão do grande navegador, e até ao futuro, ao porvir para o qual estava ele trabalhando… Sim, pois o mesmo S, que serve de cúspide a semelhante pirâmide, tanto pode ser o de Salvador, como de Srinagar e até de São Lourenço, deixando de parte o A, que possui um outro sentido que não vem ao caso apontar. Nesse caso, 3 SSS como os que figuram entre as sete letras da sigla de Colombo.

A missão de Cabral não é mais do que um codicilo para o espiritual Testamento de Cristóvão Colombo. Foi ele – como Pedro – a pedra fundamental, ao raiar do século XVI (1500), do Grande Edifício Humano.

Por isso, a capital baiana de Cristóvão Colombo traz o nome de Cristo ou SALVADOR, enquanto do outro o de BAÍA CABRÁLICA ou VERA CRUZ.

1500! Ano de Cristo ou Cristiano, como o verdadeiro ROSACRUZ. Sim, a rubra (ou ensanguentada) Flor Crística (cor da referida Ordem em Portugal) cercada de espinhos… no centro de uma CRUZ.

Um século que se finda: Colombo. Outro século que começa: Cabral. Séculos XV e XVI. O Kumara, a Casa de Deus, segundo os mesmos Arcanos.

No XVII, o Ocultismo da Renascença. A Revolução de Oliver Cromwell na Inglaterra, a Francesa no século imediato. Cem anos justos antes de ser implantada a República Brasileira. Do mesmo modo que a misteriosa passagem dos Condes de Cagliostro e São Germano na face da Terra…

As 3 iniciais LPD (sempre 3…) que o mesmo Cagliostro trazia no peito, como Grão-Copta de certa Fraternidade Egípcia, com o significado de LILIA PEDIBUS DESTRUE, e com a qual foi, de facto, “destruída a Flor-de-Lis dos Bourbons” (vide o nosso estudo neste número, na Secção dedicada a São Lourenço), para não dizer, implantada a República Francesa, e um século e meio depois, de modo caótico (ou oposto), foram as mesmas que a destruíram, já então servindo de nomes a certas personagens, chamem-se elas Laval (Leon Blum), Petain, Daladier, ou mesmo Darlan…

Nós outros, de há muito já as tínhamos exaltado em nossa própria Obra, isto é, na parte do Globo onde se dá a Construção e não a Destruição… através do termo LAUDATE PUERI DOMINE, “louvai, crianças, ao Senhor”. Sim, porque é nelas que se acham todas as esperanças da SEMENTE que há-de germinar e produzir os frutos de uma Nova Civilização, ou não fosse o nosso lema Spes Messis in Semine, “a esperança da colheita está na SEMENTE”.

Sim, a Obra começou – desta vez – em SRINAGAR, para se consolidar ou objectivar em São Lourenço através daquele “par” que, para o mundo, passa por ter nascido na “Cidade do Salvador”.

LORENZO PAOLO DOMICIANI, por sua vez, era o nome secreto do Conde de São Germano, pouco importa que ninguém o saiba ou ouse contestar as nossas palavras…

São Germano representava o CONSTRUENS, enquanto Cagliostro o DESTRUENS. O equilíbrio entre ambos, equilibra também a Evolução geral do Mundo. LOURENÇO PRABASHA DARMA – pouco importa que todos agora o saibam – é o nome do Manu. Sim, o Manu da 7.ª Sub-Raça…

Repetimos: LOURENÇO PRABASHA DHARMA, sim, porque o Oriente aí está representado no sânscrito como língua sagrada na velha Aryavartha. Enquanto o Ocidente no português do termo LOURENÇO. Língua, por sua vez, Sagrada, pelo privilégio de ser a adoptada nas duas Pátrias Irmãs, que melhor seria dizer, Mãe (Portugal) e Filho (Brasil). Não exigiu a Lei que o Oriente se fundisse no Ocidente?

Quanto à Língua Portuguesa, ressoa como o canto dos Devas (Anjos) no Heptacórdio Celeste. No Grande Concerto Universal da Cadeia Septenária, não foi ela a escolhida para a Civilização conhecida sob o nome de “7.ª Sub-Raça do Ciclo Ário”? Por isso que a Missão da S.T.B., no que diz respeito ao continente sul-americano, é denominada de Missão dos Sete Raios de Luz.

Dizer as afinidades que o referido termo (LOURENÇO) tem com a Obra em que a S.T.B. se acha empenhada, não fica bem em semelhante trabalho, e, sim na Secção dedicada a ele mesmo, que é sempre a “Chave que fecha o portal de cada um dos números do seu órgão oficial, a revista DHÂRAN”.

LAURENTA é o nome que tem o 22.º ou último Arcano Maior, também chamado O MUNDO. É sua letra o Thau hebraico, que tem por hieróglifo o seio. Seio da Mulher ou Mãe, que amamenta o seu filho na primeira das 4 idades da vida. Seio, também, da Mãe-Terra, para todos os seres que nela habitam, por isso mesmo, seus filhos. “Seio da Terra” ou “Laboratório do Espírito Santo”, como o denominam as escrituras sagradas do Oriente. Espírito Santo, como se disse em outros lugares, simbolizado pela Ave (Avis) solta por Noé (lido anagramaticamente, é o ÉON grego, com o significado de: “Manifestação da Divindade na Terra”), e que volta com o esperançoso ramo de oliveira no bico (Ramo racial, entretanto, se todo o Manu, seja Moisés ou outro qualquer, vem sempre à frente de uma nova Raça ou Civilização…).

Nos primitivos alfabetos hebraicos, tal letra era representada por uma cruz, embora até hoje ignorado fosse tão obscuro simbolismo, que outro não é senão o Thau, como 22.ª letra do referido alfabeto, relacionar-se, cabalisticamente, com O Mundo. Não é esse o significado do Arcano 22? Uma cruz tanto vale pelo número 4 (4 braços, etc.), e a prova é que, astronomicamente falando, possui o seguinte símbolo:

ou seja, o mesmo Mundo… com o seu pesado madeiro kármico às costas. Enquanto Vénus, como seu reflexo nos céus, é justamente o contrário:

Por isso que da mesma vieram Aqueles que dirigem a Terra: os “Senhores de Vénus”.

Como Manifestação Divina ou Terceiro Logos, é inscrito de outro modo:

  Sim, a cruz passa para o centro do círculo, ou, antes, para “o seio da Terra”. Símbolo, portanto, do Espírito Santo, como Terceira Pessoa dessa mesma Trindade.

Júpiter, assinalado do seguinte modo:

equivale a um “quatro”. E quando se coloca sobre seu divino Trono, o mesmo número fica aí invertido:

Trono ou Cadeira, tanto vale.

Não é a mesma Terra o 4.º Globo do nosso Sistema? E tudo nele não se regula por um “compasso quaternário”? As 4 Idades, Ciclos ou Yugas, como lhes chamam as mesmas escrituras orientais; as 4 fases lunares, as 4 marés, os quatro tempos respiratórios (inspirar, guardar o ar nos pulmões, expirar e conservá-lo fora); as 4 idades da vida humana (infância, adolescência, maturidade e velhice). O lema da Esfinge, é: SABER-OUSAR-QUERER-CALAR. E assim tudo o mais…

Razão porque a última lâmina do Tarot é representada por “uma Jovem a quem se dá o nome de LAURENTA”, além do mais, por estar cercada de louros ou lauréis… Em cada canto da referida lâmina, um dos 4 Animais da Esfinge, simbolizando também os 4 pontos cardeais, que são dirigidos cosmicamente pelos 4 Maharajas (ou “Grandes Reis”…). No baralho de jogar, quatro não são esses mesmos Reis, na razão dos 4 naipes que o compõem?… Do mesmo modo, os 4 elementos: Terra, Água, Fogo e Ar. E na sua parte mais transcendente a Palavra Sagrada, por sua vez, é composta de 4 letras: IOD-HE-VAU-HE, embora o segundo He tenha uma pronúncia bem diferente da que julgam os mais conspícuos hebraístas.

E, como prova material e indiscutível de tudo isso, não foi em São Lourenço, sobre o cume duma Montanha, que começou o trabalho de arregimentar as Mónadas que, em torno de LOURENÇO PRABASHA DHARMA, irão constituir, nas terras descoberta por Colombo e Cabral, as civilizações dos últimos Ramos raciais?

Montanha Sagrada como o Monte Merú, o Monte Sinai, o Gólgota, o Tabor, o Albordi, o Moria e tantas outras mais…

O mistério insondável das Montanhas! Nelas nascem os rios que fogem em cristalinos coleios (semelhantes à marcha de Kundalini, o Fogo Serpentino) para os “mares-oceanos”, como eram outrora chamados os grandes mares. Nelas nascem todas as Obras de carácter divino! E nelas são sacrificados os Mártires dessas mesmas Missões… (oito)

O facto de alguém se chamar Pedro Alvares Cabral e adoptar por brasão vários ramos de uma Árvore (a Árvore Genealógica dos Kumaras ou Cabiras), tendo em baixo, no escudo, dois CABRITOS, e em cima ou no “cume”, na cúspide, etc., um outro um pouco menor, na razão de uma Trindade Kumárica, ou Pai, Mãe e Filho, denota superiores conhecimentos esotéricos que não os podem ter homens vulgares, por mais ilustres que sejam. Bastava isso para confirmar tudo quanto dissemos a seu respeito.

Por isso mesmo vamos parar aqui, por já termos falado demais, embora direitos nos facultasse a Lei para tanto, justamente quando dois “fronts” completamente distintos se apresentam aos olhos do mundo: o das Forças do Mal dirigindo o Ciclo agonizante, e o das Forças do Bem, por sua vez, dirigindo o Ciclo que ressurge das cinzas do Passado, para fazer jus ao precioso conceito do sociólogo mexicano José Vasconcelos, ao dizer: “É dentre as bacias do Amazonas e do Prata que sairá a Raça Cósmica realizadora da Concórdia Universal, por ser filha das dores e das esperanças de toda a Humanidade”.

Salve, Árvore Genealógica dos Cabiras, honrada nos preciosos nomes Cristóvão COLOMBO e Pedro Alvares CABRAL!

 

Vitam impendere Vero!

 

NOTAS 

 

(1) Já tivemos ocasião de dizer em um dos referidos artigos: “Fiquem com as glórias, mas ao menos deixem ao homem… as suas misérias, além do mais porque outra foi a sua verdadeira Pátria”…

(2) Vide O Verdadeiro Caminho da Iniciação, e outros estudos nossos por esta revista, onde tratamos com maior profundeza do magno problema dos ciclos raciais.

(3) Sobre o verdadeiro significado do termo Cristo, veja-se o longo estudo que fizemos no nosso livro O Verdadeiro Caminho da Iniciação e em várias publicações desta revista.

(4) Todos os países possuem a sua, tal como o exige a Lei. Um até em forma de botaBota difícil de descalçar diante de um outro Leão, que é aquele de Judá, que volveu à praça de Adis-Abeba em lugar da Loba… como tanto o desejava o imperador Heilé Selassié com as suas duas enigmáticas iniciais, só faltando um J, se é que não o possui em seu nome secreto…

(5) KUNATON lido anagramaticamente, ou seja, NOTANUK, quer dizer: “o doador de favores, o que empresta a vida a todas as coisas”, etc., embora até hoje ninguém tenha decifrado semelhante mistério… O mesmo deus Ptah do Egipto, note-se bem, representa o Terceiro Aspecto daquela mesma Trindade a quem implorava Colombo, etc. Do mesmo modo, é “o distribuidor de favores”!…

(6) A Ordem do Cruzeiro possui cinco graus: 1.º Grã-Cruz, 2.º Grande Oficial, 3.º Comendador, 4.º Oficial e 5.º Cavaleiro.

(7) Em artigo nosso publicado nesta revista em 1927, dissemos sobre o assunto as seguintes palavras:

“A AGHARTA mantém 22 Templos ou os 22 Arcanos Maiores de Hermes, que são ainda as 22 letras de vários alfabetos, inclusive o hebreu, e representa o ZERO místico (Zero Astro ou Sol, tanto vale, donde o nome ZOROASTRO, etc.) ou o Incognoscível. O Zero é Tudo ou Nada. Tudo para a Unidade harmónica. Nada sem Ela. Tudo pela Sinarquia, Nada pela Anarquia.

“Um outro Templo encobre essa (serve de escudo, de “círculo de resistência”, etc.): é o da Maçonaria dos Taichús-Marús, cujos ramos se estendem, secretamente, na Ásia e em muitos países cristãos.

“Esta Maçonaria, melhor dito, Fraternidade Secreta, cujo Templo é mais conhecido, dizemos hoje, como o dos Bhante-Yaul ou Jaul (na razão das duas iniciais das Colunas do Templo de Salomão, ou J e B, Jakin e Bohaz, etc.) compõe-se de 30 Lojas, e cada Loja, por sua vez, compõe-se de um Mestre e 33 Obreiros (deixemos passar a numeração, que não é bem essa, aparte opiniões contrárias), e cada Obreiro tem 33 Discípulos. Ela possui por detrás das suas 33 Lojas um Conselho, presidido por um Ser de Hierarquia elevada (o mesmo “Rei do Mundo”, Melkitsedek, o nome que lhe quiserem dar).”

(oito) Cuidado, porém, com os “messias guerreiros”, que sendo também 3 na agonia de um Ciclo para o nascimento de outro… mais parecem “avataras” demoníacos, como aqueles 3 flagelos de Deus: Átila, Gengis-Khan e Tamerlão.

 

(Revista Dhâranâ n.º 110 – Outubro a Dezembro de 1941 – Ano XVI)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O misterioso Cristóvão Colombo – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jun 8 2011 

Com três caravelas conquistarei um reino que não é o meu.

(Palavras de Cristóvão Colombo, reveladas por Henrique José de Souza)

Assim foi, com a esquadra formada pela nau capitania Santa Maria (com 100 tonéis e 40tripulantes), a nau Pinta (com 55 tonéis e 26 tripulantes) e a nau Niña (com 60 tonéis – tonel é a medida náutica de capacidade – e 24 tripulantes), em 1492 apresentando o Novo Mundo ao Mundo.

Sobre a Epopeia Marítima dos Portugueses em Quinhentos, pela documentação historiográfica e iconográfica dada à luz por eminentes investigadores, muito já se sabe. Ainda assim, permanece obscuro um personagem insistindo em manter-se no contraditório da mesma documentação historiográfica, motivo da sua envolvência na bruma espessa do mistério, documentação essa referente ao mesmo não raro inconsistente e contraditória, quando não inventada, como foi o caso dos tristemente famosos «documentos» de Pontevedra, Galiza, forjados em 1914 por Enrique de Arribas y Turull. Refiro-me a Cristóvão Colombo (1451-1506).

Do muitíssimo que sobre ele já se disse e escreveu, permeio a polémicas acesas e apaixonadas, em que entram genoveses, espanhóis, galegos e portugueses desde os finais do século XIX, com a introdução recente dos estudiosos ingleses e norte-americanos na discussão colombina, a verdade é que, apesar de todos esses esforços, mantém-se aparentemente indecifrável a origem ou naturalidade e os lances principais, não raro controversos e contraditórios, sobre quem era e que missão teria Cristóvão Colombo, pois que os seus dados biográficos são escassos, e o que se respiga aqui e ali sobre os mesmos é susceptível de leituras diversas e igualmente, não raro, controversas e contraditórias. Com tudo isso, mesmo assim teima em permanecer sobre os demais factores o halo de sobrenatural e misterioso da pessoa e vida do almirante, indo inflamar ainda mais a polémica.

Primeiro acreditou-se ter ele nascido em Génova, Itália, de origens humildes; depois em Castela, de raízes judaicas e com foros tardios de nobreza, hipótese que logo passou à Galiza e veio a ser desmentida, quando se provou que os documentos sobre a mesma haviam sido inventados no começo do século XX. Logo que foi denunciado o logro, a autoria galega ficou desacreditada, como igualmente as hipóteses castelhana e genovesa, graças ao douto e creditado português da época o dr. Patrocínio Ribeiro, que foi quem iniciou a escola portuguesa de estudos colombinos. Com tudo isso, em plena confusão documental, a forjada e a não forjada, em que o dédalo dos políticos dos vários países interessados pretendia para si a origem da pessoa de Cristóvão Colombo, exclusivamente por razões de prestígio nacional em conformidade às políticas do momento, os investigadores do tema acabaram chegando a nenhuma conclusão definitiva.

Manteve-se o enigma, qual esfinge irritante ante a impaciência contínua do inquirido não sabendo que resposta dar. Qual era a origem de Cristóvão Colombo? Qual era a sua verdadeira missão? E, sobretudo, quem ele era realmente?

Esboçarei neste estudo algumas pinceladas contributivas, sem pretensões a definitivas mas tão-só contributivas, à decifração do “mistério Cristóvão Colombo”. Mais que a historiografia cronológica irei abordar a sua fácies oculta, mítica, iniciática, pois que nela decerto estará, como tentarei comprovar, a interpretação deste enigma secular.

Começo pelo elogio e referência obrigatória ao primeiro autor português que iniciou escola colombina: o já citado dr. Patrocínio Ribeiro, que em 1927 publicou um livro precioso referente ao tema e, por quanto sei, foi o primeiro devidamente ordenado em letras impressas pelo sistema bilíngue português-inglês, iniciativa do autor decerto para universalizar a sua tese. É obra rara mas que foi reeditada posteriormente (1).

No ano imediato, 1928, um seu condiscípulo nesta temática colombina, Pestana Júnior, antigo Ministro das Finanças, também publicou um livro dedicado ao tema, muito pouco conhecido mas do qual me satisfaço em possuir um exemplar rubricado pelo autor (2).

Essas duas obras pioneiras viriam a ser rematadas magistralmente pelo professor Mascarenhas Barreto em 1988, num livro de grossura razoável no qual procura provar, por exaustivo cardápio documental e assentando a sua tese na Kaballah judaico-cristã, nomeadamente a Gematria (3), ter sido português o almirante Cristóvão Colombo (4).

Contudo, para que o reconhecimento merecido vá para o seu legítimo donatário, quem mais aprofundou e clareou o esoterismo colombino, em três textos magistrais, foi o luso-brasileiro (ou que descende de portugueses, nomeadamente de Tomé de Souza, 1.º Vice-Rei do Brasil) Professor Henrique José de Souza (São Salvador da Bahia, 15 de Setembro de 1883 – São Paulo, 9 de Setembro de 1963) (5), polígrafo de raro talento com uma vida toda ela ao serviço incondicional da Cultura e do Espírito.

Ainda segundo Mascarenhas Barreto, prosseguindo a tese iniciada por Patrocínio Ribeiro, Cristóvão Colombo era filho [bastardo? – pergunto eu] do Infante D. Fernando, Duque de Viseu e de Beja, Mestre da Ordem de Cristo, e terá nascido no Baixo Alentejo, na herdade do Monte dos Columbais, perto das vila de Colos e Cuba, no actual concelho de Odemira, suspeição já levantada muito antes, cerca de 1926, pelo eminente galego D. Ricardo Beltran y Róspice, presidente da Comissão da Casa das Índias e da Academia Real de História, na sua obra Cristóbal Colon, Genovez?: «que o descobridor da América não nasceu em Génova e que foi oriundo de algum lugar da terra hispânica, situada na banda ocidental da Península, entre os Cabos Ortegal e São Vicente», isto é, entre o extremo Norte da Galiza e o extremo Sul do Algarve. Os autores portugueses instalam Colombo, com provas exaustivas, precisamente na citada herdade alentejana. O próprio Paolo Toscanelli, célebre cosmógrafo italiano que se correspondeu com Cristóvão Colombo, em carta dirigida de Génova a Lisboa, datada de 1474, exalta Portugal entusiasticamente e trata o almirante por português. Diz: «Não me surpreende, pois, por estas e muitas outras coisas que sobre o assunto poderiam ainda dizer-se, que tu, que és dotado de uma tão grande alma, e a mui nobre Nação Portuguesa, que em todos os tempos tem sido sempre enobrecida pelos mais heróicos feitos de tantos homens ilustres, tenhais tão grande interesse em que essa viagem se realize».

Dos seus dois filhos, Diogo e Fernando Colombo (em castelhano, Diego e Hernan Colon), este último, radicado em Espanha, manifesta o estranhíssimo do desconhecimento absoluto da naturalidade de seu pai, e tem as seguintes palavras flagrantes na sua obra biográfica Vida del Almirante: «Ele quis que fosse desconhecida e incerta a sua origem e pátria». Dentre outras razões, adianto eu agora, certamente por causa da lei do segredo de Estado que vingava em razão das políticas controversas e hostis entre portugueses, espanhóis e genoveses, os principais interessados na descoberta e conquista marítima de novas terras, consequentemente tomando para si ainda maiores riquezas. Como Portugal estava à dianteira do processo, e logo tudo quanto fosse português era francamente hostilizado pelos adversários, decerto conviu ao almirante esconder, por motivos políticos, essa sua pressuposta naturalidade portuguesa, para isso inclusive criando “blagues” à volta da sua origem verdadeira, tendo adoptado a língua castelhana como oficial pela mesma razão estatal da lei do sigilo, como também por ter sido bem acolhido na corte dos reis católicos, Fernando e Isabel, a cujo serviço esteve após ter fixado domicílio no país vizinho, em 1486. Em casa alheia adoptam-se os costumes dos hospedantes, assim mandam as regras da boa educação e ética nos países civilizados, o que prevalece até hoje. Tendo o retratado em 1479 contraído matrimónio com Filipa Perestrelo, filha do navegador Bartolomeu Perestrelo, como informam os autores portugueses, descobre-se que:

a) Pedro Álvares Cabral, redescobridor oficial do Brasil, casou-se com Isabel de Castro, neta de Isabel Perestrelo (mãe de Filipa Perestrelo), pelo que, por afinidade, era primo de Cristóvão Colombo;

b) Luís Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas, era bisneto de João Vaz de Camões, irmão de Gonçalo Vaz de Camões, avô do marido de Inês Dias da Câmara, e como esta era meia-irmã de Cristóvão Colombo, este era, por afinidade, em terceiro grau ascendente parente do poeta épico;

c) Vasco da Gama era bisneto de Estêvão da Gama, tio de Guiomar Vaz da Gama, portanto, seria tio-avô de Luís Vaz de Camões, que o tornou personagem principal da sua obra épica. E como a mesma Guiomar Vaz da Gama era tia-avó de Lopo Vaz de Camões, casado com Inês Dias da Câmara (meia-irmã de Cristóvão Colombo), o descobridor do caminho marítimo para as Índias Orientais era parente do almirante das Índias Ocidentais (6).

A famosa sigla com que Colombo se assinava na carta ao seu filho Diogo, fechada em Sevilha a 29 de Abril de 1498, parece ser a que contém, dentre outros elementos mais, o seu nome e a sua origem verdadeiros, tanto históricos como sagrados, usando da criptografia cabalística que, por si só, inquestionavelmente assinala o almirante como um hermetista.

O ilustre investigador Afonso Dornelas (possível descendente de um irmão do navegador João Gonçalves Zarco), ao examinar a sigla do almirante, verificou que o traço oblíquo terminal precedido de um ponto se chama colon, tanto em português como em castelhano. É o sinal gráfico de pontuação separador de frases num mesmo período, a que os antigos chamavam separador “imperfeyto” e os modernos chamam correntemente de “ponto e vírgula”, sendo o “perfeyto” os “dois pontos”.

Como Xpo, em grego, significa “Cristo”, e como Ferens, em latim, significa “aquele que leva, que transporta”, Afonso Dornelas concluiu que a sigla criptográfica deveria indigitar um nome. Traduzindo “Cristo-ferens” por Cristóvão e juntando-lhe o sinal colon (./), obteve: Cristóvão Colon (7).

Na continuação dessa análise mais criptográfica que paleográfica, o investigador Saul Santos Ferreira, ilustre poliglota e hebraísta português, verificou que o caracter gráfico ./ (colon ou “ponto e vírgula”) correspondia ao sinal < (aspa) da escrita hebraica, denominado zarga, zargo ou zarco.

Ora Zarco é o apelido português celebrizado pelo já referido navegador João Gonçalves Zarco que, ao serviço do Infante D. Henrique, juntamente com Tristão Teixeira descobriu o Arquipélago da Madeira (1419), vindo a ser nobilitado com o sobrenome de Câmara.

Um dos mais íntegros genealogistas do século XVII, Alão de Morais (8), alude a um rumor de que o nome zarco poderia provir da mutação da palavra zargo, significando “vesgo”, pelo que o apelido se deveria a uma alcunha, resultante dum defeito ocular.

Essa dedução, com base num rumor não fundamentado, está vazia de base filológica, pois ainda que a palavra significativa de “vesgo” ou “zarolho” seja zargo, já zarco adjectiva expressamente um homem que “tem os olhos azuis claros ou garços”, provindo do étimo árabe zarcá (9).

O investigador Saul Santos Ferreira considerou, coerentemente, que Cristoferens nada tinha a ver com São Cristóvão, o qual, segundo a lenda hagiográfica, transportara aos ombros o Menino Jesus de uma margem para outra dum rio caudaloso. Concluiu que, na linguagem da primitiva Igreja Moçárabe da Hespanha, a palavra Cristóbal significava “Cristo Senhor”, correspondente à própria pessoa do Salvador. Para ele, a sigla deveria exprimir:

“Cristo salve, Maria salve, José salve”, é expressão equivalente a “Cristo, Maria et Joseph consalvis”. Desta maneira, deparava-se-lhe a palavra consalves, ou seja, gonçalves.

Santos Ferreira considerou Xpo Ferens como sendo Salvador, os três SSS como Gonçalves, e ./ como Colon, Zarco, obtendo assim o nome civil do almirante das Índias Ocidentais: Salvador Gonçalves Zarco (10).

X M Y exprime, como se viu, Cristo-Maria-Yoseph, Joseph ou José, servindo de “santo-e-senha” entre os trinitários fundados por São João da Matha e São Félix de Valois em 17 de Dezembro de 1198, e que inicialmente antes de terem Regra própria adoptaram a de São Bento, dos quais seria donato ou irmão leigo o próprio Cristóvão Colombo (e nisto encontra justificativa o seu nome no grego Kolon, “membro, parte, participe”), pois que é a Cruz Trinitária que enfuna as velas das naus capitaneadas por ele na rota certa do continente americano. Além disso terá, tal como a Ordem da Santíssima Trindade ou, em diminutivo, Trinitária, perfilhado a ideia messiânica das três Idades do Mundo já propalada no século XIII por um outro beneditino mas da Regra de Cister: o abade Joachim do mosteiro de Fiore, na Calábria. Colombo chega mesmo a assumir-se joaquimita confesso, como bem atestam os seus escritos, ou melhor, os documentos que fez reunir para servirem de prova aos seus pontos de vista. Constituíam-nos trechos de João Rupescissa da Roca Talhada, condenado por heresia (11).

Os trinitários, cujo ideal paraclético e parúsico, futurista portanto, avizinhavam-nos ideologicamente dos bernardos e dos franciscanos “beguinos”, e até mesmo dos carmelitas no que têm de hipertúlico, e por seu pendor de expansão, centrífugo próprio a criar diáspora extracontinental, mesmo reservando-se na desculpa da sua principal missão ser resgatar cristãos escravos na África, desde muito cedo travaram-se de boas relações com a Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, vulgo Ordem de Cristo (sucessora directa e herdeira universal da Ordem dos Templários), e a própria insígnia do seu Instituto era muitíssima idêntica à Cruz pátea da Milícia Templária, esta que também portou o nome de “Cavaleiros Pobres de Cristo e da Santíssima Trindade” (Pauperes Comilitones Christi Santaeque Trinitatis). Tanto mais que quando do processo de legalização da Ordem de Cristo, quem o coordenou foi o trinitário Frei Estevão de Santarém, pregador e confessor da rainha D. Isabel e do monarca seu marido, D. Dinis. Aos seus conselhos, intercessão e indústria, escreveu Frei Manuel da Esperança, se atribui justamente parte notável da glória que rendeu a Portugal a fundação desta Ordem (12).

Translatio Trinitatis (Porto)

Não terá sido mero acaso, perante as evidências já expostas, o facto das primeiras ilhas norte-americanas avistadas pelo almirante serem baptizadas com os significativos nomes de San Salvador, Cuba e a cidade de Trinidad, além de a uma enseada e a um rio recém-descobertos baptizá-los com estes dois nomes inconfundíveis: Puerto de Santa Maria de Belen e Rio de Belen, que é dizer, Rio Tejo defronte a Santa Maria de Belém, por esse tempo um pequeno povoado ao ocidente de Lisboa.

Em outras e vastas toponímias dadas às terras recém-descobertas, há ainda mais indícios da origem portuguesa do almirante. Por exemplo: Vale del Paraizo – foi em Vale de Paraíso, povoação próxima de Vila Franca de Xira, que Cristóvão Colombo foi recebido por D. João II de Portugal e onde esteve hospedado três dias em Março de 1493, quando, vindo de regresso da descoberta do Novo Mundo, intencionalmente arribou a Lisboa. Isla de San Juan Bautista – São João Baptista, paróquia de Beja desde 1320. Castelo Verde foi a primeira fortaleza fundada por Colombo na América – indo identificar-se à toponímica de Castro Verde, ao sul de Beja. Cabo de San Vicente – Cabo de São Vicente, no extremo ocidental da província do Algarve. Por aqui fico, para não me alongar demasiado na similitude das toponímias lusa e castelhana e correr o risco de maçar o leitor…

Cristóvão Colombo – “Aquele que transporta a Pomba do Cristo” – tão-somente é o nome sacramental e não cartorial, portanto simbólico, do Iniciado que foi, ficando assim conhecido para a posteridade, enquanto o nome baptismal ficaria oculto em cifra gemátrica que, solucionada, desvelaria o seu de joaquimita confesso, muito possivelmente ligado ainda a um Instituto muitíssimo mais secreto: a Ordem de Mariz, a quem em Espanha a de Montesa (de função idêntica à de Cristo portuguesa) deu cobertura exterior.

Referindo-se a Saul Santos Ferreira e ao ilustre genealogista António Ferreira Serpa, comentadores da obra de Dom Tivisco intitulada Salvador Gonsalves Zarco, o Professor Henrique José de Souza adiantou (13):

«Não se deve esquecer que ambos os comentadores do livro por nós citado procuram provar que Salvador Gonçalves Zarco era de origem portuguesa, por isso mesmo, embora tão valioso trabalho que a outros supera, além do mais por se servir da mais preciosa de todas as chaves, que é a filológica, bem longe está de expressar toda a verdade, ou seja, aquela por nós apontada: a de que Colombo era de “origem aghartina”, no que diz respeito à sua maternidade, pouco importando que o pai tivesse sido um nobre de sangue ao mesmo tempo português e castelhano, para fazer jus à “descida das Mónadas ibéricas”, através do chamado “Itinerário de Ió”, que deveriam formar a nova civilização ameríndia, cujo fenómeno é completado por uma outra misteriosa personagem, também de “estirpe aghartina” (pouco importando o que diga a História a seu respeito), ou seja, Pedro Álvares Cabral. Donde intitularmos a sua missão de “Codicilo do Testamento Espiritual de Colombo ao Mundo”.»

Quanto à relação do almirante com a presença do Divino Espírito Santo, o Professor H. J. Souza também a refere com a sua rara e preciosa pena (14):

«O Espírito Santo, manifestado em todas as religiões, lendas e tradições, é a Ave Sagrada da Sabedoria Divina. E, como tal, representa o Terceiro Logos. É a Voz que vem dos Céus e se manifesta na Terra como Palavra. A sua Morada é o Sanctum-Sanctorum da Mãe-Terra, Mater-Rhea ou Matéria. Algo assim como se disséssemos que o Espírito aí se une com a Matéria.

«Em nosso artigo dedicado a Colombo, ao estudarmos a sua sigla e brasão, citámos a saudação que o mesmo nela fazia, seja ao Espírito Santo (em forma de Pomba), como a Maria, em forma de Água, Mar, etc. Mesmo porque Maria provém de Mar, as Águas, etc. E a prova é que, nas pias de água benta, dois MM entrelaçados se encontram por cima delas, não apenas para simbolizar o nome de Maria mas também para expressar o signo de Aquário.

«E como Colombo pertencesse à Ordem de Avis (anteriormente houve uma outra mais secreta ainda, com o nome de Maris), o que nos obrigou a fazer os “iniciáticos trocadilhos” que se seguem: Ave, Maria! Ave, Espírito Santo! – dizia Colombo na referida sigla. Enquanto nós outros: Ave Maris, Aves Marinhas, Avis raris in Terris! De facto, o “Grande Navegador Aghartino ou Jina” não passava de Ave rara na Terra. O seu nome provém de Columba, a Pomba de todas as Iniciações, o Espírito Santo das homenagens divinas. Do mesmo modo que em grego chamando-se ele Christoferens Columbus, é “aquele que carrega consigo o Cristo”. Donde a lenda de São Cristóvão “que carregava, de um lado ao outro do rio, as pessoas que dele necessitassem, até que um dia carregou o próprio Menino Jesus”. O sentido verdadeiro, entretanto, dessa passagem “de um lado ao outro”, é aquele de salvar as almas, conduzindo-as ao Céu, do outro lado da Vida. Donde o termo pontífice, ou “construtor de pontes”, que é muito mais antigo que o Cristianismo.»

Esses dois excertos de estudos do Professor Henrique José de Souza poderão explicar muita coisa acerca de Cristóvão Colombo, a começar por querer manter incógnita a sua verdadeira origem, apesar de em dado momento se ter declarado natural de Génova, todavia ocultando os nomes do seu pai e da sua mãe, que não se sabe quem foram. Não creio que tenha mentido, mas antes criado não uma nova “blague” e sim “charada iniciática”, feita não em Génova, onde afinal não há qualquer sinal plausível da sua presença aí, mas possivelmente em Lisboa e com o encobrimento de um italiano seu amigo radicado na capital do país: Lorenzo Giraldi, comerciante e intermediário entre ele e Paolo Toscanelli, comerciante e cartógrafo que cedeu várias cartas marítimas a Colombo, que assim soube quanto os italianos conheciam do mar de longo e das ilhas que nele haviam. Quanto ao pressuposto da sua «origem genovesa», tal é expressamente alegórico e de sentido iniciático, senão repare-se: Génova fica, obviamente, na Itália, e sendo a Itália os «pés» da Europa, essa parte do corpo continental e humano é astrologicamente regida pelo signo dos Peixes, afinal, sendo o signo natal de Portugal. Génova é vizinha de Veneza ou Vénus que, só por «acaso», é planeta de natureza feminina e logo representa a Mãe Divina, Universal. Também, só por «acaso», Vénus rege Lisboa e Sintra, esta a Montanha de Eleição da Soberana Ordem de Mariz, ela mesma vinculada aos Arqueus ou venustos Kumaras com os quais Colombo era um, assim como Cabral… cuja espiritual Essência de ambos, desde Quinhentos, coroa o cume da árvore genealógica dos deuses, santos e heróis da Raça dos Lusos.

Ainda sobre Veneza, tive ocasião de proferir numa carta reservada escrita para São Lourenço de Minas Gerais do Sul, Brasil, em 7.06.2005: «Veneza tem relações íntimas com Lisboa, inclusive no aspecto astrológico. Ambas as cidades estão sob a égide de Vénus, ainda assim Veneza tendo por ascendente o Leão (de São Marcos, em latim, o mesmo Makara sânscrito… “omphalo” ou ponto central da cidade), enquanto Lisboa a Júpiter (em Peixes… os mesmos do Tejo).

«Durante muito tempo a gôndola foi o principal meio de locomoção pelas canais de Veneza (em Portugal, e da mesma maneira, temos Aveiro…), todos eles desaguando na grande laguna a que se liga a lenda do misterioso dragão ou crocodilo habitando nas suas profundezas. Mas esse último é simbólico de Makara, por habitar tanto na terra como na água, o que vai bem com a natureza psicomental do mesmo Makara de 1.ª categoria, vários deles dando protecção feroz (este termo fica bem com a lenda…) ao maior Dhyani português enquanto aí esteve, na segunda metade do século XIX, cujo nome também era leonino.

«O onomástico gôndola divide-se em gundu (alemão), “intrépido”, e dôia ou gôla, do alemão wurm, “serpente”. Portanto, representa a “serpente intrépida” vogando sobre as profundezas drágonas da laguna, na realidade e pelo formato da barquinha, expressando a própria Lua com a sua órbita serpenteante em volta da Terra a cujas águas e emoções ela assiste, transformando-as nas etéreas e no amor de Vénus, de cujas energias ela é ainda «espelho» para a mesma Terra. Mas gundu ou guntu também significa “guerreiro”, no mesmo dialecto alemão. Esse “guerreiro” é representado pelo gondoleiro com a sua espada, antes, remo arrastando a barquinha por águas seguras… para que não encalhe… no lodo doutros remos ou Ramos de Raças lunares, mais passionais que mentais. Assim, o conjunto expressa o Divino Kartikeya ou “Guerreiro Celeste” na sua Barca levando ao casal Enamorado (Arcano VI, o Andrógino em separado) ao Porto Seguro da Felicidade de um novo 5.º Sistema de Evolução Universal… exactamente o de Vénus, consequentemente, assenhoreado por Arabel

A sua devoção e culto ao Divino Espírito Santo, a Maria, ou melhor – por que não dizer? –, a obediência que devia à Ordem de Mariz, levou o almirante a conduzir a sua esquadra chefiada pela nau Santa Maria, para grande estranheza da maioria dos expedicionários, invés de directamente às ilhas Canárias sob domínio de Castela, ao arquipélago dos Açores, domínio português. Aqui, na ilha de Santa Maria, entrevistou-se com o seu governador, o capitão D. João Castanheira, antigo cavaleiro da Ordem de Avis passado à de Cristo, quase de certeza protector dos trinitários e franciscanos, pois que foram estes a povoar em primeira mão os Açores, levando o Evangelho Eterno guarnecido pelas Armas Temporais de Cristo. Há, inclusive, uma ilha açoreana dedicada à memória dos trinitários: a Terceira, não só por ser a terceira ilha do arquipélago a ser descoberta mas também, sobretudo, por evocar a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade: o Espírito Santo.

Em Santa Maria, onde ordinariamente se diz que o almirante foi mal recebido, na realidade foi mal percebido pelos seus pares de Castela que o acompanhavam na aventura, feitas as saudações, feitos os relatórios à Ordem de Cristo, abonada de provisões e água de novo a esquadra se fez ao largo, em rota só conhecida do almirante que a soubera na Escola Náutica do Infante Henrique de Sagres, onde aprendera as “primeiras letras” da navegação de longo, e foi engolfar-se propositadamente, após passar as ilhas de Cabo Verde, nas correntes e ventos de noroeste, hoje conhecidas de todos quantos andam no mar, que inevitavelmente levariam às costas das Índias Ocidentais, assim chegando à actual América do Norte. Processo semelhante aplicou Pedro Álvares Cabral para alcançar a América do Sul, navegando um pouco mais de largo transversalmente indo aportar, ontem como hoje e inevitavelmente, ao areal de Porto Seguro na costa da Bahia brasileira.

Alguns, senão a maioria dos historiadores, poderão contrapor que durante largo tempo Cristóvão Colombo acreditou ter chegado à Índia Oriental, e depois passado a acreditar, com igual firmeza, que chegara ao Japão, e aí procurado avidamente o contacto com os indianos ou os japoneses. Pois sim, mas deveria não se esquecer ou ignorar que tais informações não são coevas do tempo da vida do almirante: foram escritas após a sua morte – para desacreditar a sua grande figura intentando mostrar o quão pouco afinal sabia de cartografia e navegação – por aqueles mesmos ingratos que o meteram a ferros e o deixaram morrer na doença e na miséria: os inquisidores da Igreja em Espanha, apoiados por uma nobreza enciumada, despótica e oportunista ávida das riquezas imensas do Novo Mundo.

Ademais, a prerrogativa “Três Índias” vai bem com o conceito geográfico medieval que adentrou a Renascença, pois essas subdividiam-se em Próxima Índia, Extrema Índia e Média Índia, correspondendo, respectivamente, às partes Norte e Sul do subcontinente indiano e à região africana hoje denominada Etiópia. Após a chegada ao continente americano por Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral, nos séculos XV-XVI, essas terras passaram a ser denominadas de Índias Ocidentais, contrapondo-as às Orientais, mas sempre realçando o designativo Ásia, tanto com o sentido imediato de território longínquo e exótico, para o viajante europeu, como, principalmente, com o de Assiah ou “Mundo”, cuja conquista espiritual teve a primazia da Gesta Dei per Portucalensis.

O professor Mascarenhas Barreto – assim como os seus seguidores portugueses, o último mas não menos valoroso professor Manuel da Silva Rosa em parceria com Eric J. Steele (15) – acredita no seu livro, que é a sua tese, ter sido Salvador Gonçalves Zarco um espião português de D. João II posto ao serviço dos reis católicos de Espanha. Não penso assim, pois nem os acontecimentos da época, com cronologia provada e documentada, e tampouco o direito canónico me permitem admitir essa ideia. Porque se Colombo pertencia à Ordem de Cristo, então só o Geral da mesma poderia decidir sobre o aprazar ou emprestar a prazo o navegador à Coroa, mas nunca o rei, pelo menos legitimamente, pelo que os conhecimentos detidos pelo almirante à Ordem os devia e à Ordem, na pessoa do seu Geral, devia prestar contas detalhadas, ou seja, os relatórios com todos os pormenores, e nunca à pessoa do monarca: este ficaria a par do indispensável, a fim de saber se o seu «investimento» corria ou não bem, e pouco mais. Foi sempre assim ao longo do processo das Descobertas Marítimas, pelo que a posição de independência de Cristóvão Colombo ante a Coroa não era excepcional. Por isso, tive ocasião de dizer algures: todos sabiam que a Escola de Sagres sabia, mas nem todos sabiam o que a Escola de Sagres sabia.

Mesmo assim e sabendo-se que a legitimidade do Instituto Militar de Cavalaria e Religião estava sujeita, por um lado, ao Governador e Mestre Geral, que era quem se correspondia directamente com o Rei, e por outro lado, à Mesa Bispal e logo ao Papa, ela veio a ser ostensivamente anulada e apropriada por D. João II, quando assassinou nos paços de Setúbal o seu cunhado D. Diogo, Mestre da Ordem de Cristo e 4.º Duque de Viseu, por pertencer ao partido da Casa de Bragança que o rei detestava e acabou extinguindo (só sendo restaurada no reinado de D. João IV), e por ambicionar o domínio da Ordem, então senhora dos mares e terras conhecidas, o que significava um incomensurável poder e uma indescritível riqueza exclusivos à sua real pessoa. Decepando a linhagem bragantina que conduzia até ao primeiro rei de Portugal, ordenando a execução em 1483 do duque de Bragança e levando à fuga do marquês de Montemor, do conde de Faro e de outros acusados; amordaçando o clero que se opunha a tal política de “quero, posso e mando”, ficando como exemplo geral a decapitação pública do bispo de Évora, D. Garcia de Meneses, em 1484, e executados, presos ou mandados para o degredo muitos outros; dominada a Ordem de Cristo pelo assassinato do seu Mestre e Governador, também em 1484, o qual também era irmão de D. Leonor, mulher do rei, declaradamente favorável ao partido da Casa de Bragança, ficava assim D. João II com o terreno político-social livre de opositores, inteiramente aberto para fazer o que quisesse e como entendesse… e com tudo isso não se livrou a morrer de forma estranha, diz-se, por envenenamento, ele que repetia constantemente do alto de sua prepotência e domínio: «Eu sou o senhor dos senhores, não o servo dos servos».

Foi nesse ambiente que se encetaram as negociações entre Cristóvão Colombo e D. João II, as quais continuaram depois dele já estar aprazado aos reis católicos, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela. Estou mais em crer que terá havido uma concordata sobre o empréstimo do almirante português aos reis do país vizinho, negociações essas levadas a cabo com a ingerência directa, ainda assim discreta, das Ordens de Cristo e de Montesa, cujos embaixadores negociavam em nome dos seus administradores, e cuja ambição maior, secreta mas que se apercebe em várias partes dos escritos do almirante, seria a realização do velho sonho sinárquico dos antigos Templários, de quem eram descendentes directos: o de unir o Oriente ao Ocidente e neste edificar o Templo ou Casa da Jerusalém Celeste, visão propícia à III Idade, e o espaço da sua inauguração só podia ser numa terra virgem, livre e desconhecendo o que fosse mal e pecado, logo, num novo mundo, e a tanto ficou destinado o quinto continente – a América.

Provável retrato de Cristóvão Colombo. Pormenor do quadro “Virgen de los Navegantes” pintado por Alejo Fernández entre 1505 e 1536, exposto na “Sala de los Almirantes” do Alcazar Real, Sevilha.

Aliás, ainda em Baza o almirante teria assegurado a Fernando e a Isabel que a sua façanha seria consagrada «à reconstrução do Templo» (16). Adiantou mais na sua obra muito curiosa, que deixou inédita, intitulada Libro de las Profecias, em que se jacta de ter sido o escolhido do Céu para descobrir o Novo Mundo. Nesse livro de revelação divina escrito por Colombo há períodos interessantíssimos, como, por exemplo, os dois seguintes que traduzo do castelhano para português: «Quem duvida que este lume não foi do Espírito Santo, assim como de mim, o qual com raios de claridade maravilhosa consolou com a sua santa e sacra Escritura a voz muito alta e clara com 44 livros do Velho Testamento, e 4 Evangelhos com 23 Epístolas daqueles bem-aventurados Apóstolos, avivando-me a que eu prosseguisse, e de contínuo sem cessar um momento me avivam com grande pressa?» – «… e digo que não somente o Espírito Santo revela as coisas por vir às criaturas racionais, mas que no-las mostra por sinais do céu, do ar e das bestas quando lhe apraz.»

Face a quanto disse até aqui, não deixa de opor-se o que será o busílis da questão: se Cristóvão Colombo era português, por que optou por Espanha em vez, como seria natural, do seu próprio país?

Certamente em razão das ideias egocêntricas e das atitudes repressivas de D. João II e à maior aceitação do seu projecto por parte dos reis católicos, principalmente de D. Isabel, os quais certamente queriam tomar parte na diáspora marítima e respectivo empório que até então Portugal detinha como único donatário universal. De maneira que a concordata de ceder Cristóvão Colombo a Espanha só podia ser feita em primeira mão pelas Ordens de Cristo e de Montesa (17), vindo depois as Coroas interessadas. Assim se refrearia também a desmesurada ambição de D. João II e se abriria caminho para firmar, como esse acto legítimo, a posterior partilha do Mundo entre Portugal e Espanha pelo Tratado de Tordesilhas (1494). Tanto assim é que, após a chegada de Cristóvão Colombo às Antilhas em 1492, no ano seguinte iniciam-se de imediato conversações em Madrid sobre o domínio dos mares, requeridas pela Coroa portuguesa.

De acordo com Manuel J. Gandra (18), o conflito entre Colombo e D. João II deveu-se ao facto deste soberano entender controlar e orientar todo o processo para seu próprio proveito. Contudo, durante o reinado cesarista deste “Príncipe Perfeito”, como o alcunhou a História, ainda assim não deixando de ser assassino mesmo alegando razões de Estado, é incontestável que brilharam firmes as luzes de Cultura e Conquista, não tanto por mérito real mas mais por iniciativa da corte, resultado exclusivo das ideias “humanistas e iluministas” provindas de Itália, abrindo a Renascença, entradas em Portugal reinando ainda D. Afonso V.

As represálias contra a nobreza que se lhe opunha, paralelamente à supressão dos concelhos e à espoliação da Ordem de Cristo (19), que se transforma no centro de reacção antiprincipesca, de cujas caravelas as suas insígnias são substituídas pelas armas reais – das quais já eliminara também a Cruz de Avis –, enfraqueceram substancialmente as energias nacionais. D. João II não entendeu o simbolismo expresso nas Armas portuguesas, determinando a modificação da disposição dos escudetes dentro do Escudo de Armas de Portugal, na denominada “Operação de endireitar o Escudo”, efectuada em 1485.

O monarca deseja que Cristóvão Colombo o sirva incondicionalmente; sabe da sua sabedoria de mar e que, ademais, é conterrâneo alentejano pertencente à melhor cepa da árvore genealógica nacional. Isto mesmo explicita ele em carta ao almirante (20):

«Cristóbal Colon.

«Nós D. João […] vos enviamos muito saudar. […] E quanto à vossa vinda cá, certo, assim pelo que apontais como por outros respeitos para que vossa indústria e bom engenho nos será necessário e prazer nos há muito de virdes porque o que a vós toca se dará tal forma de que vós deveis ser contente. […] E por tanto vos rogamos e encomendamos que vossa vinda seja logo e para isso não tenhais pejo algum e vos agradeceremos e teremos muito em serviço. Avis, 20 de Março de 1488. A Cristóvam Colom nosso especial amigo em Sevilha.»

O certo é que Cristóvão Colombo (grafado na carta de dois modos diferentes, o último notoriamente em português arcaico) não atendeu ao pedido do monarca, pois ao dirigir-se a D. João II, escreveu-lhe: «Vós recebestes a Cristóvão Colombo como amigo, desejastes vê-lo, e o agasalhastes no princípio com muita humanidade. Depois disto não cometeu delito algum, e deliberais sobre tirar-lhe a vida: proceder assim é faltar ao direito das gentes, e querer atropelar sem pejo as leis mais santas da sociedade» (carta transcrita por D. Diogo de Souza em sua História de Portugal, p. 697, Lisboa, 1852). Referindo-se a este rei, Colombo já afirmara antes: «[…] digo milagrosamente, porque fui ter a Portugal, cujo rei entendia de descobrimentos mais do que nenhum outro: Ele (Deus) lhe atalhou a vista, ouvidos e todos os sentidos, que quase em 14 anos não lhe pude fazer compreender o que digo».

Carta de Cristóvão Colombo (21.3.1502)

Contudo também não foi fácil ao navegador tornar aceites os seus projectos na corte de Castela, como desabafa numa carta endereçada aos monarcas castelhanos: «Já sabem vossas Altezas que andei sete anos em vossa corte importunando-vos por isto; nunca em todo esse tempo se achou piloto nem marinheiro, nem filósofo, nem de outra ciência que todos não dissessem que a empresa era falsa; que nunca eu encontrei ajuda de ninguém salvo de Frei António de Marchena, depois daquela de Deus eterno».

Esse Frei António de Marchena professaria no mosteiro de La Rabida da Ordem Terceira de São Francisco na Província de Espanha, sendo português de nação, cujo nome nos documentos mais recentes não condiz com o nos mais antigos, que confirmam o na carta de Colombo, como demonstra com todo o rigor a resposta que lhe deu Isabel, a Católica: «Parece-nos que seria bom que levásseis convosco um bom astrólogo e parece-nos que seria bom para isso Frei António de Marchena, porque é bom astrólogo, e sempre nos pareceu que se conformava com o vosso parecer» (21).

Por seu turno, Las Casas também diz (22):

«Segundo parece por algumas cartas de Cristóbal Colon escritas por sua mão (que eu tive nas minhas) aos Reis desta Isla Espaniola, um religioso que tinha por nome Frei António de Marchena foi quem muito o ajudou, para que a Rainha se persuadisse e aceitasse a petição. Nunca soube a que Ordem pertenceu, mas creio que fosse a de São Francisco, por conhecer que Cristóbal Colon, depois de Almirante, sempre foi devoto daquela Ordem. Tampouco consegui saber quando, nem em que ponto, nem como o favoreceu ou que entrada teve com os Reis o já dito Padre Frei António de Marchena.»

É muito natural que o consignado autor desconheça que tipo de intervenção exerceu o religioso português junto da corte castelhana, e também não será de admirar que tivesse sido ele o intermediário nas negociações do aprazamento de Cristóvão Colombo entre a Ordem de Cristo, o rei português e os reis de Aragão e Castela. A verdade é que ele acompanhou sempre o almirante nas suas viagens ao Novo Mundo. Na primeira, e pela lista incompleta da equipagem que chegou até aos nossos dias, também figuravam os nomes de dois grumetes portugueses: «João Arias, filho de Lopo Arias, de Tavira, e Bernaldim, criado de Afonso, marinheiro do piloto João Rodrigues, de Mafra». Também a transacção comercial com os naturais fez-se em moeda portuguesa, como relata Colombo aos soberanos espanhóis: «Vi dar 16 novelos de algodão por três ceotis de Portugal, que é uma branca de Castela…» O ceotil (nome derivado de Ceuta) foi mandado cunhar por D. João I, em comemoração exclusiva da primeira empresa marítima dos portugueses em África no ano 1415, de que resultou a conquista dessa praça africana para o domínio português. Ademais, nos escritos que deixou à posteridade, em latim e castelhano, verifica-se nos escritos do almirante nessa última língua, bastando uma análise muito superficial, que a ortografia castelhana é arrevesada e a maioria dos termos são portugueses ou, então, aportuguesados, pois que muitos vocábulos pertencem, a rigor, à língua portuguesa, e a construção sintáxica, como era na época, é positivamente lusitana.

Ainda que tenha oferecido a Espanha a glória inigualável da descoberta do caminho marítimo para a América, assim iniciando um novo ciclo da Civilização, contudo, os louros da vitória foram depostos na cabeça do mercador italiano Américo Vespúcio, que afinal, ao contrário do que é crença geral aceite, nem sequer deu o seu nome, Américo, ao continente descoberto, América, porque o seu nome verdadeiro era Alberico (23), e os naturais da costa americana onde Colombo chegou, os Amariques. Mas o poder do vil metal agitado pela política viciosa de sempre, fez cair o justo e levantar o injusto… De maneira que Vespúcio nada teve a ver com o processo marítimo, apenas o secundou ou menos que isso, se levar-se em conta que mesmo antes de Colombo os portugueses da Escola Naval de Sagres já haviam chegado à Terra Nova e ao Labrador (24). Vespúcio não era português nem de Sagres, mas Colombo era, e aí recolheu as informações necessárias ao sucesso da sua empresa. O italiano genovês (a quem alguns historiadores posteriores deram gratuitamente parentesco com Cristóvão Colombo, ponto de partida da ideia insubstanciada do almirante ter sido genovês) não passou de um comerciante fretador de navios, para ir sacar o que não lhe pertencia, perseguindo de longe a esquadra expedicionária, como também fez com a de Pedro Álvares Cabral. Como homem de negócios num país governado pelo papado, convinha aos reinos vassalos de Roma manter com esta as melhores relações político-económicas. O mais que Vespúcio fez foi aproveitar-se (deixando-se aproveitar…) de tudo quanto os outros fizeram, inclusive de boa parte do conhecimento de navegação e instrumentos náuticos. A sua fama assenta nisso, e nada mais!… Cristóvão Colombo, por sua vez, foi votado ao ostracismo e à miséria, que geralmente é a recompensa dada aos Grandes Homens pelos pobres de espírito cujo agradecimento nunca vai além do interesse imediato, e é assim que escreve no seu Diário esta frase dolorida, referindo-se a si próprio: «O que te está sucedendo agora é a recompensa dos serviços que prestaste a outros amos». Outros amos eram os reis de Aragão e Castela, o que desmente formalmente a origem espanhola de Colombo, porque o seu verdadeiro amo era o rei de Portugal.

Rei de Portugal repressor e narcisista, portanto, tirano e egocêntrico, cuja última fase da repressão foi preparada pelo Concílio de Tentro e executada pelos “cães de fila” da ortodoxia oficial cesarista, os dominicanos (domini canes), através da Inquisição.

A carta do monarca português ao almirante, citada anteriormente, era um “salvo-conduto” para ele entrar no reino «sem que sejais preso, retido, acusado, citado, nem demandado por nenhuma causa, ora cível, ora crime de qualquer qualidade». Isto demonstra que Colombo não andaria nas melhores relações tanto com D. João II como nas boas graças do Santo Ofício, talvez por suspeita de partidário da Casa de Bragança, e talvez também por suspeita de heresia por simpatia às ideias cabalísticas dos sefarditas judeus. Seja como for, o certo e que ele não atendeu ao convite do rei e ficou-se por Sevilha. Tudo isso leva-me a deduzir que terá sido com grande contrariedade que D. João II viu-se forçado a ceder “Cólon-Zarco” ao reino vizinho, só o tendo feito talvez por motivos políticos que as leis da diplomacia internacional impunham, assim não podendo dispor do almirante para espantalho dos seus «espalhafatos de navegação», ele que não era da Ordem de Cristo e tampouco alguma vez fora ao mar. «Só o estar em Sintra e sentir o cheiro do mar, causa-me náuseas», confessou uma vez quando, por razões de Estado, contrariado teve que ir aos paços de Sintra, pois que a detestava…

Pela leitura esotérica, antes, teosófica da sua sigla, Cristóvão Colombo desvela-se o Adepto Real que foi. Os três SSS da sua assinatura criptográfica são os mesmos da celebração pentecostal do Paracleto, que tanto os cátaros como os templários e os descendentes destes, os freires cavaleiros de Cristo, evocavam como Sanctus Spiritus Salvatorem, que inscreviam em listeis e representavam por três SSS. Essa celebração também esteve presente na Ordem Livery Collar, no País de Gales, colar esse formado por 18 letras S, numa sequência senária das iniciais do lema templário Sanctus Spiritus Salvatorem. Ela foi introduzida em Portugal pelo príncipe plantageneta John of Gaunt, ou João de Gante (25). O primeiro português a granjear a distinção do Livery Collar foi D. Afonso Furtado de Mendonça, em pleno reinado de D. João I.

Essa Milícia gália era para os ingleses o que a de Cristo era para nós, portugueses, e a de Montesa para os espanhóis. E tanto uma como as outras possuíam raízes joaquimitas, logo, parúsicas ou vocacionadas ao Advento.

Outra Ordem da mesma natureza e também gália, era a Rose Collar, colar esse constituído por 24 letras S, numa sequência senária do mesmo lema templário, tendo suspensa a “Rosa de cinco pétalas” (dobradas) a quem os ingleses chamam Tudor. Foi Grão-Mestre desta Ordem sir Thomas Moore (26), que ainda viveu no mesmo século de Cristóvão Colombo, este que, ao colaborar com a Coroa espanhola salvou a Aliança luso-britânica de dissolver-se, num subtil jogo diplomático, ao interferir junto da Coroa inglesa por intermédio dos reis espanhóis, evitando assim que D. João II causasse mal ainda maior à paccis política ibérica e europeia, e Portugal pudesse ter parte activa e a “parte de leão” na “partilha do Mundo”, que foi o resultado do Tratado de Tordesilhas entre os monarcas ibéricos.

A empresa marítima de Colombo foi, pois, planejada em Portugal e encetada em Espanha. Ele uniu a Península Ibérica e foi seu pontífice ante a América, o quinto continente, sob o signo de Aquarius, anunciando já o Ex Occidens Lux pelo prenúncio do Ex Oriens Umbra!

Igualmente é comum acreditar-se, nos meios de historiografia, que Cristóvão Colombo foi um converso judeu aventureiro (27), um marrano, castiço ou “cristão-novo”, por causa da sua documentação conhecida estar recheada de elementos mais judaicos que cristãos, de notórias características messiânicas, pelo que, sem mais nenhuma outra análise e aprofundamento necessário, é remetido para a Kaballah Sefardita, a hispânica.

Está provado que no sangue de Salvador Gonçalves Zarco corria a fina essência da Nobreza de Portugal, e também o facto dos judeus terem tido uma importância inquestionável nos vectores cultural, religioso, político e económico da Idade Média e Renascença. A tradição rabínica, patrística, era o elo de ligação entre a Sinagoga e a Igreja, entre as Escrituras Velha e Nova, como também o assento do Cognoscio Secretum que era a Tradição Iniciática Ocidental: a Kaballah, acasalada indissociavelmente com a Gnose, assim sendo o “espírito encoberto” tanto do dogma e magistério eclesial como sinagogal.

Decerto Cristóvão Colombo, pelas provas apresentadas nos seus documentos que sobreviveram aos cinco séculos, terá sido um marejador ou dominador dos arcanos mais profundos e sigilosos da Kaballah, certamente pela sua intimidade ao meio sinagogal de Beja e de Sevilha, lugares em cujas proximidades viveu. O seu mundo ideal, espiritual tão mal-entendido, o seu valor profético e teúrgico, davam-lhe um aspecto sobre-humano. Colombo não foi tão-somente o homem e o navegador, foi igualmente o génio inspirador advido, certamente, dessa mesma tão lendária quanto impenetrável Agharta, Terra Proibida (a profanos) e Terra Modelo do Paraíso Terreal (em que se inspira a famosa lenda do “Ovo de Colombo”), a Pátria de Eleição do tetramorfo Preste João.

Dela, Agharta, escreveu o almirante: «Não é possível a ninguém alcançar esse Paraíso Terrestre, salvo por Vontade Divina» (28).

Uma outra ideia sugestiva sobre o carácter cabalístico de Cristóvão Colombo reside nos seus livros predilectos e nas cartas que escreveu ao seu filho Hernan Colon, ou Fernando Colombo. É visível o seu grande interesse pelo Livro dos Profetas, que foi por ele copiado em grande parte, principalmente as Profecias de Isaías, que citava frequentemente nas cartas e no diário, conforme o seu biógrafo ulterior, o espanhol Las Casas (29). Depois (todos expostos no Museu Colombino de Sevilha) o livro do cardeal Pietro D´Aille, Imago Mundi; um livro de Plutarco publicado em Sevilha, em 1491; a Naturalis Historia, de Plínio, anotada por ele em português, em espanhol e um pouco de italiano (bem ao gosto de mostrar erudição como era costume na época, e que no século XVII Frei Jerónimo Munster demonstrou na sua Virgo Aurea); um Marco Polo latino, De Consuetudinibus et Conditionibus Orientalium Regionum; a Tragédia, de Séneca; um Tratado de Santo António de Florença e a Filosofia Natural de Santo Alberto Magno. Ainda um livro com muitas anotações sobre a vida do Papa Pio II, um Almanaque de Navegação e um livro de Abraão Zacuto, judeu português praticante de Astrologia cabalística e quem D. Manuel I deverá a inspiração de adoptar a Esfera Armilar, símbolo do deus egípcio Thot-Hermes, padroeiro do Hermetismo.

De maneira que a sigla criptografada de Cristóvão Colombo não deixa de possuir diversos segredos bem ocultados, todos eles de conteúdo iniciático profundo que se completam entre si como peças de um puzzle. Eles elevam o almirante muito acima das hipóteses, dos infundamentos e dos perjúrios, tão-só assinalando-o Ser de grandeza rara.

Nesse sentido, tal sigla mostra-se mais que simples assinatura criptográfica: possui características de mandala, isto é, “forma geométrica de função mágica”. Agora irei dar o meu contributo, à luz da Sabedoria Divina e segundo entendo, à descodificação do sentido hermético da mesma.

Pela Kaballah, termo hebraico significando “Tradição” e “Livro cerrado”, logo, sinónimo de “Tradição Secreta” judaico-cristã, Maurice Privat (30) afirma que o S repetido três vezes é igual a 15 vezes 3 (45), ou 4 mais 5 igual a 9, número cabalístico da Terra representada pelo… “Ovo de Colombo”, que se mantém erecto após cortar-se uma das extremidades, que no Globo equivale ao Pólo Sul em que o mesmo assenta.

Em Aritmosofia 45 exprime a herança, o legado. Com esse sentido, a Missão do Templo foi, consequentemente, legada a Cristóvão Colombo pela sua herdeira Ordem de Cristo. Por outro lado, 15 dividido por 3 dá 5, correspondendo no Tarot caldaico de São Germano ao Mestre dos Arcanos, o Grande Hierofante que está entre as duas tradicionais Colunas salomónicas (a da SabedoriaJnana ou Jakin – e a do AmorBhakti ou Bohaz), portanto, sendo o Iniciador.

Por conseguinte, Colombo expõe o seu título o grau sem rodeios com a letra A (alephe) ao centro da sigla, o que vale dizer: “Eu sou o primeiro de minha Ordem”.

Ele terá sido o continuador da Missão Templária na Península Ibérica levando-a ao Novo Mundo extremo-ocidental, ao Norte e Centro da América, tal como o seu primo, Pedro Álvares Cabral, também ligou a Península Ibérica ao Centro e Sul da mesma América, tomando por ponto de expansão ibero-ameríndia o Brasil.

De maneira que Colombo devia as cartas e os mapas, que lhe permitiram navegar de longo até ao Novo Mundo, não a Toscanelli (que alguns, por interesses pessoais, desde o início do século XX afirmam ter sido roubado por ele…) e sim à Ordem de Cristo e à Escola de Sagres, mas sempre sujeito à política inviolável da lei do sigilo.

Postas as coisas assim, é muito natural que se pergunte porque terá o almirante «roubado» as cartas náuticas de Toscanelli, que presumidamente indicavam a rota para as ilhas do extremo-ocidente, se após isso deu tantos passos para encontrar documentos seguros? É lógico que se responda, assim mesmo, que tudo isso terá sido uma invenção caluniosa urdida muitos séculos depois da sua morte, para se poder atribuir a origem do almirante à glória e prestígio deste ou aquele país sem glória e prestígios provados nas Descobertas Marítimas, aqui, claramente a Itália.

Quanto à sigla, como se viu, está assim predisposta:

Pelo que uma das suas interpretações iniciáticas, exclusiva de minha lavra, será:

1.º S = Salvador.

2.º S = Salvo, Consalo, Gonçalo, Gonçalves.

3.º S = Sarco, Çarco, Zarco.

A = Asgardi, Agharta, Terra Modelo, Omphalo do Mundo.

X = Xesed, Chesed, a 4.ª sephiroth, “esfera” ou “emanação divina” correspondendo ao “Governo ou Domínio Espiritual do Mundo”.

M = Metraton, o Primeiro Criador, o Senhor do Mundo.

Y= Yahvé, a Divindade.

Xpõ Ferens = “Portador da Pomba de Cristo”, Cristóvão Colombo.

No que resulta a mensagem seguinte:

Salvador Gonçalves Zarco, de Agharta!

Deus conceda o Senhorio Espiritual do

Mundo ao seu

Cristóvão Colombo.

Visto assim, trata-se, pois, da saudação laudativa dum dignitário eleito do Rei do Mundo, Melki-Tsedek, pois que deste Cristóvão Colombo teria sido uma projecção tulkuística ou “representação viva” no Mundo Humano destinada à Obra Maior da sementeira de futura e nova Civilização em novo Continente.

Essa não é uma afirmação “dada de barato”, pois por volta de 1480 Colombo escreveu aos monarcas espanhóis uma carta expressiva na qual se apresentava como o Príncipe do Mundo, o próprio Metraton: «Deus, que fez Ele de mais a Moisés ou a David?» E falando de si mesmo, adiantou: «Desde que nasceste sempre Ele (Deus) se preocupou contigo… Deu ao teu nome um maravilhoso eco sobre a Terra» (31).

Uma outra interpretação iniciática da sigla, completando-se com a primeira, será:

Que se traduz por:

Salve, Salve Deus Lustríssimo, Salve!

Deus Supremo Criador do Mundo,

A Ti o teu

Portador da Pomba do Cristo.

Adonai-Shadai é a fórmula evocatória da “Protecção Divina”, muito corrente entre cabalistas e templários afeiçoados à Gnose, e inclusive entre os hermetistas da Rosacruz.

«Ainda hoje – escreve Jean Marquès de Rivière – alguns judeus utilizam o chamado Shadai, que todas as crianças israelitas usam no momento da cerimónia dita Bar-Mitzwah. É uma medalha redonda na qual está inscrito o Nome Divino Shadai, cujo uso é de tradição imemorial. Este Nome Divino encontra-se, de resto, em muitos textos mágicos e simbólicos.» (32)

Finalmente, uma terceira interpretação da sigla, complementar das anteriores, será:

Assim se desvela, mais uma vez, o “santo-e-senha” de Joaquim de Flora, em cujo “Evangelho do Futuro” beberam várias correntes da Cristandade, nomeadamente os cistercienses, os templários, os trinitários e os franciscanos “beguinos”, sendo crível para judeus e cristãos que o III Templo de Salomão, correspondente à Jerusalém Celeste, deveria corresponder à III Idade do Espírito Santo, com começo na Península Ibérica, nomeadamente Portugal, mas estendendo as suas ramas frondosas a algum continente virgem, desconhecido mas não ignorado, de todos os males humanos criados durante as I e II Idades (33).

Com estas minhas hipóteses, cimentadas na documentação colombina disponível, as quais constituem a minha tese de Cristóvão Colombo ter sido um grande Navegador corporalmente nascido português e espiritualmente aghartino, creio deixar ao respeitável leitorado uma série de pistas historiográficas e de revelações iniciáticas, destarte coadjuvando em tornar a “História velada” História desvelada à Raça de quantos por este mundo afora mantêm viva a chama gloriosa da Portugalidade.

NOTAS

1) Patrocínio Ribeiro, A Nacionalidade Portuguesa de Cristóvão Colombo – The Portuguese Nationality of Christopher Columbus (Solução do debatidíssimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica). Livraria Renascença, Joaquim Cardoso, 1927. Reedição pela Fundação Lusíada, cerca de 1992, na “Colecção Lusíada Documentos”, I.

2) Pestana Júnior, D. Cristóbal Colom ou Symam Palha, na História e na Cabala. Composto e impresso na Imprensa Lucas & Cia., Lisboa. A edição terá sido feita cerca de 26 de Maio de 1928.

3) A Kaballah compreende literalmente três espécies de operações, a saber: o Notarikon, ou a arte dos signos; a Gematria, consistindo nas comutações e combinações das letras e palavras; a Temurah, ou as transposições das letras, das palavras e dos números.

4) Mascarenhas Barreto, O Português Cristóvão Colombo (Agente secreto do rei Dom João II). Edições Referendo, Lisboa, 1988.

5) Henrique José de Souza, Colombo e Cabral, revista “Dhâranâ”, n.º 110, 1941, Brasil. Símbolos e Brasões, revista “Dhâranâ”, n.º 111, 1942, Brasil. A Pomba do Espírito Santo, revista “Dhâranâ”, n.os 142/144, 1951, Brasil.

6) Mascarenhas Barreto, ob. cit.

7) Afonso Dornelas, Elementos para o estudo etimológico do apelido Colon. In “Boletim da Academia das Ciências de Lisboa”, Classe Letras, vol. XX, pp. 407-422.

oito) Cristóvão Alão de Morais, Pedatura. Lisboa, 1670.

9) António de Morais Silva, Dicionário da Língua Portuguesa, vol. II. Rio de Janeiro/Lisboa, 1891.

10) Saul Santos Ferreira, Salvador Gonçalves Zarco (Cristóbal Colon). Os Livros de Dom Tivisco. Lisboa, 1930.

11) John Leddy Phelan, The Millenial Kingdom of the Franciscans in the New World – A Study of the writings of Gerónimo Mendietta (1525-1604). Berkeley and Los Angeles, Univ. of California Press, 1956.

12) Abade Correia da Serra, Os verdadeiros sucessores dos Templários e o seu estado em 1805. In “Archives de l´Europe”, tomo VIII, 1805. Texto reeditado em Sintra, na revista “Graal”, Verão/Outono de 1982, com notas de Manuel J. Gandra.

13) Henrique José de Souza, Símbolos e Brasões. Revista “Dhâranâ”, n.º 111, 1942, Brasil.

14) Henrique José de Souza, A Pomba do Espírito Santo. Revista “Dhâranâ”, n.os 142/144, 1951, Brasil.

15) Manuel da Silva Rosa, Eric J. Steele, O Mistério Colombo Revelado. Ésquilo – Edições e Multimédia, Lisboa, 1.ª edição Outubro de 2006.

16) Salvador de Madariaga, Christophe Colombe. Ed. Calmann-Lévy, Paris.

17) A Ordem Militar de Montesa, no país vizinho do nosso, teve desempenho público semelhante ao da Ordem Militar de Cristo, em Portugal. Extintos os Templários, Jaime II de Aragão, temeroso de que os imensos bens dessa Ordem caíssem em mãos estranhas ao seu reino, solicitou de Clemente V autorização para constituir um Instituto que substituísse aquela e tomasse a seu cargo as propriedades da mesma. Nada conseguiu desse papa, porém sim do seu sucessor, João XXII, que para tal fim expediu uma bula em 1317, adjudicando à Ordem de Santa Maria de Montesa todos os bens que os Templários possuíram nos domínios do monarca aragonês. O castelo de Montesa, no reino de Valência, foi a sede da Ordem nascente, motivo do nome adoptado. Os seus componentes deram muitos exemplos de heroísmo e esplendor, lutando em campanhas, tanto dentro como fora da Península Ibérica. A insígnia usada, após várias vicissitudes, é a de Alcântara, em sabre, carregada com uma cruz plana de goles.

18) Manuel J. Gandra, Martinets de Pasquallys e a tradição Quinto Imperial. Texto inserido na sua tradução do livro Tratado da Reintegração dos Seres Criados, de Martinets de Pasquallys. Edições 70, Lisboa, 1979.

19) Não é demais repetir que a principal base de sustentação da Coroa, capaz de competir com ela, era a Ordem de Cristo, que se encontrava, quando D. João II subiu ao trono, solidamente ligada às mais nobres Casas do Reino. A sua administração andava, então, no ramo real que D. João II detestava. Como exemplo, repito, D. Diogo de Almeida, 4.º Duque de Viseu e Administrador da Ordem, foi apunhalado até à morte dentro dos paços de Setúbal pelo próprio rei, seu cunhado, com o apoio de três fidalgos desejosos dos favores reais, que seriam atendidos conforme descreve o teólogo Diogo Paiva de Andrade (1528-1575) nas suas Memórias inéditas: D. Pedro de Eça, alcaide-mor de Moura (em cujo Museu Municipal está hoje a adaga assassina de D. João II), homem forte que foi quem manietou o Mestre da Ordem de Cristo para o rei poder matá-lo à-vontade a punhaladas, Diogo da Azambuja e Lopo Mendes do Rio, todos agraciados com os favores reais depois do crime. Houveram outros mais implicados na armadilha fatal estendida ao Mestre da Ordem de Cristo, que pensava ir a uma entrevista amistosa com o rei quando, na realidade, o esperava uma fatídica câmara escura com o real assassino escondido num canto dela e os três comparsas prontos a agarrá-lo e dominá-lo. Cf. D. Diogo de Souza, História de Portugal desde os tempos primitivos até à fundação da Monarquia e desta época até hoje. Lisboa, 1852.

adaga

20) Esta carta, cuja autenticidade foi comprovada por diversos autores nacionais e estrangeiros, é transcrição parcial do texto completo inserto nos livros citados de Patrocínio Ribeiro e de Pestana Júnior. Cf. ainda o mesmo texto em Navarrete, Collecion de los viajes y descubrimientos, e em Teixeira de Aragão, Memória acerca do descobrimento da América, 1852; a mesma carta no opúsculo de Luciano Cordeiro, De la decouverte de l´Amerique, 1876, e em Henri Vignand nos Nouvelles etudes critiques sur la vie de Christophe Colombe, Paris, 1911.

21) In “Carta-mensageira” dirigida pelos reis católicos ao almirante, em 25 de Setembro de 1492, dando-lhe várias instruções para a sua viagem ao Novo Mundo, publicada por Navarrete nos Documentos Diplomáticos.

22) In Historia general de las Indias, parte 1.ª, capítulo XXXII.

23) Vitor Manuel Adrião, História Secreta do Brasil – Flos Sanctorum Brasiliae. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004. E A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição da Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

24) Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, vol. II, cap. “Viagens para Ocidente”. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, Dezembro de 1990.

25) Duque de Lencastre, quarto filho do rei Henrique III de Inglaterra e pai de D. Filipa de Lencastre que viria a casar com D. João I, rei de Portugal, matriz da “Ínclita Geração” e origem da Aliança Luso-Britânica, que hoje a mais antiga do mundo.

26) Sendo Lord Chanceler do rei Henrique VIII de Inglaterra, sir Thomas Moore recusou-se a reconhecer a autoridade do seu soberano como chefe supremo da Igreja inglesa, assim separada da Igreja romana, e também não dando o seu consentimento a que aquele monarca se divorciasse da rainha D. Catarina de Aragão. Por isso foi preso, tendo estado um ano na Torre de Londres, e depois decapitado, em 1535, sendo posteriormente canonizado como São Tomás Maurus, um dos mais ilustres pensadores do seu tempo, a quem se deve a obra literária, de inspiração Rosacruz, Utopia, onde na mesma coloca à cabeça do enredo um navegador português, Rafael Itlodeo.

27) Simon Wiesenthal, A Missão Secreta de Cristóvão Colombo. Editorial Futura, Lisboa, 1974.

28) Salvador de Madariaga, Christophe Colombe, p. 268. Editions Calman-Lévy, Paris.

29) Colombo era judeu, artigo não assinado. In revista “Planeta”, n.º 22, Junho 1974. Editora Três, Brasil.

30) In Le Grand Nostradamus, n.º 1, Maio, 1934. Esta revista deixou de publicar-se em 1936.

31) Salvador de Madariaga, ob. cit., p. 554.

32) Jean Marquès de Rivière, Amullettes, Talismans et Pantacles. Editions Payot, Paris.

33) Vitor Manuel Adrião, As Forças Secretas da Civilização (Portugal, Mitos e Deuses), capítulo “O misterioso Cristóvão Colombo”, pp. 171-190. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2003.

Brahman-Dharma, o Caminho da Verdadeira Iniciação – Por Vitor Manuel Adrião Quarta-feira, Jun 1 2011 

Sintra, 1980

 Asato ma sat gamaya                                   Guia-me do irreal ao Real

Tamaso ma yiotir-gamaya                             Da treva à Luz

Mritior-ma amritam gamaya.                        Da morte à Imortalidade.

 

Falar e escrever sobre o que seja um discípulo verdadeiro, avizinha-se tarefa árdua, quase impossível de descrever… É recordar a solidão, mesmo quando se está rodeado de gente, fidelíssima companheira de quem se desfez do mundo e procura a riqueza do Eterno; é lembrar amarguras, tristezas e injustiças morais e físicas, recompensa certa que o mundo dá a quem ao mundo tudo dá. É impossível descrever com exactidão o que seja um Iniciado verdadeiro, ou tão-só verdadeiro discípulo, que, em comparação com a consciência comum dos seus semelhantes em Humanidade, já está na cumeeira do seu Género.

Mesmo assim, com toda a dificuldade, tentarei descrever em linhas gerais o que seja o Iniciado e o Caminho da Verdadeira Iniciação, desde já pedindo desculpa por alguma insuficiência acaso apresentando-se no que se segue.

Como já se sabe, a 4.ª Vaga de Vida ou Expiração Monádica do Supremo Demiurgo, o Logos Planetário, é a Humana (Jiva). Processando a sua Evolução através do compasso quaternário, esta Vaga soprada da Boca do Eterno apresenta-se hoje em 4 tipos de consciência bem definidos de acordo com o seu maior ou menor progresso evolucional. Assim, tem-se:

A) Primitivos. Os seres recém-saídos da terceira Vaga de Vida, a Animal, e entrados no estado Humano. Consequentemente, possuem poucas reencarnações humanas estando, ao nível da personalidade ou “eu” inferior, completamente desligados consciencialmente do Eu Superior, Espiritual, sendo a sua principal função alinhar entre si os veículos dessa mesma personalidade, inteiramente desencontrados ou desalinhados uns dos outros. Estes seres foram, na ocasião, a vanguarda do Reino Animal, os mais adiantados no desenvolvimento interno quanto à passagem do Emocional para o Mental Concreto.

B) Civilizados. A vasta maioria humana, isto é, o homem que pensa no plano objectivo ou concreto com bastante potência podendo, vez por outra, ainda assim excepcional e rarissimamente, ter ténues vislumbres da Mente Superior, subjectiva, ou seja, do Corpo Causal. Neste estado, os sentimentos mais nobres do homem dirigem-se quase exclusivamente à sua família e amigos mais chegados, ainda que também possa ter, nos seus limites estreitos, acessos de compaixão pelos desconhecidos em sofrimentos que, mesmo não sendo seus familiares nem amigos chegados, em boa verdade são seus irmãos em Humanidade, pois que todos provêm e estão ligados monadicamente ao Deus Único, o Logos Soberano da Terra, e assim, na essência última, todos constituem uma verdadeira Família Planetária a qual hoje, aparentemente, anda dispersa ou desavinda entre si. Para o cultivo cada vez maior dessa compaixão ou amor ao próximo, inquestionavelmente as religiões verdadeiras, não as falsas que transformam os altares em “balcões de negócios”, através dos seus sistemas morais são imprescindíveis à manutenção do tecido social e a impedir que o Homem regrida à animalidade bestial. Para o homem desta condição a matéria objectiva, visível e tangível pelos sentidos físicos, constitui a mestra suprema nas suas realizações imediatas. Para ele, toda vida resume-se ao concreto do positivismo, inclusive a religião, onde para entender o subjectivo tem de o objectivar, assim só acreditando em Deus quando Ele tem forma semelhante à sua e age como ele agiria, pagando a uns com os carvões do eterno braseiro infernal e premiando a outros com as róseas e eternas nuvens celestiais. E assim, pacata e naturalmente, inconscientemente o homem vai palmilhando o caminho da sua evolução rumo ao destino incógnito mas, quiçá, promissor…

C) Idealistas. Os mais adiantados da Humanidade comum. Por norma, assumem os postos de chefia dos vários ramos da estrutura social (educação, filosofia, religião, artes e letras, política, ciência, força militar, economia, etc.). Muitos destes homens e mulheres já estão muito próximos da tomada de consciência da Divindade na Natureza Universal, consequentemente, da Divina Lei Suprema que a tudo e a todos rege, e, não raras vezes, os Mestres Soberanos da Humanidade, os Mahatmas ou “Grandes Almas”, servem-se deles inspirando-os, geralmente sem suspeitarem minimamente, a uma boa condução e educação da restante Família Humana no caminho do verdadeiro Progresso, sinónimo de Verdadeira Iniciação Colectiva, visto o Homem comum, devido à sua própria ignorância cega (avidya), como é natural quando a Vida-Energia (Jiva) predomina e a Vida-Consciência (Jivatmã) ainda está em semente, correr o risco permanente de cristalizar na matéria bruta, à semelhança do aconteceu a parte extensa da Humanidade na anterior Cadeia Lunar, acontecimento que a Bíblia simboliza no episódio da mulher de Lot (Lut ou Lupe, “Lua”) ter se transformado numa «estátua de sal», isto é, cristalizado na sua evolução lunar, passando à Cadeia seguinte, a actual Terrestre, com grande atraso, o que justifica ainda a presença de tribos humanas selvagens no Mundo de hoje.

D) Aspirantes. Sem me referir exclusivamente ao Aspirante à 1.ª Iniciação Espiritual, este tipo humano é o pico consciencial da Humanidade comum. No seu íntimo já soou o abstracto Chamado, a indescritível Saudade do Eterno invadiu-o e misteriosamente inflamou-o, e sentindo o cansaço dos preconceitos de uma vida sempre igual nos mesmos limites estreitos, a sua consciência agoniza para ela na noite mais escura da matéria e parte, parte só e sem um adeus, desafiando as suas incertezas e inquietações ante o que o espera mais além… na profundeza abissal do seu âmago profundo, partindo à demanda do Tesouro de Deus, o seu Deus Único e Verdadeiro, a Centelha Monádica do Grande Mar de Fogo Universal despendido do próprio Logos Eterno, «em cuja Presença existimos e temos o nosso ser», citando São Paulo.

É desse homem solitário sem pátria fixa nem leito certo, mesmo que se fixe em país certo e recoste em leitos de seda, num solilóquio permanente com o seu Deus, mais que num colóquio com os homens, que irei falar, e, quiçá, afinal também esteja falando de mim!…

O que acabei de descrever é referido na Escola Esotérica Oriental dos Arhats como as 4 castas raciais: Brahmane – Kshatriya – Vaíshia – Shudra, o que corresponde na organização medieval europeia ao Clero – Nobreza – Comércio – Povo. Mas deve acrescentar-se que, devido à crise francamente iniciática por que passa a Humanidade e tudo quanto na Terra vive hoje em dia, roncando as dores de parto de um Novo Estado de Consciência, os diversos tipos humanos estão completamente baralhados, misturados entre si recolhendo uns dos outros as mais diversas experiências necessárias à evolução do todo. Por isso se vê agora «um médico que daria um excelente sapateiro» ou «um padre com alma de mercador»… E também por isso o discípulo verdadeiro reencarna actualmente em meios completamente adversos à sua condição real, aos seus reais anelos interiores. É, afinal, como diz o Mestre Djwal Khul Mavalankar, o Tibetano, «a evolução pelo atrito»…

Esses diferentes estados de consciência humana dão razão à Lei da Hierarquia, quando diz: «os homens são iguais em essência, não tanto em potência, e desiguais em presença».

Mas, como pode um comum mortal enraizado em padrões intelectuais preestabelecidos e em preconceitos emocionais irrevogáveis, de súbito entrar em conflito aberto com essa condição psicomental ao começar a interessar-se e a dedicar-se inteiramente aos assuntos metafísicos, criando as condições interiores para vir a ser, doravante, um Gotrabhu ou “Aspirante ao Aspirantado”?

A Substância Universal preenche a Vida-Energia e esta reage cada vez mais sensivelmente por ciclos prévia e perfeitamente estabelecidos pelas Hierarquias Criadoras do Universo, cuja influência chega até ao metabolismo psico-biológico do Homem. Geralmente um Gotrabhu torna-se tal após completar um longo ciclo de reencarnações durante o qual recolheu as experiências necessárias à sua maior consciência e consequente amadurecimento interior, e assim acabando por despertar para a Vida do Espírito, ou seja, começar a predominar nele a Vida-Consciência. Contudo, logicamente que o tempo de duração até esse despertar interior varia de pessoa para pessoa, tudo dependendo do seu mais rápido ou mais lento amadurecimento consciencial, mesmo que tudo esteja conformado aos ritmos certos do relógio sideral que é o Zodíaco, corpo de manifestação das 12 Hierarquias Criadoras em torno do Logos Solar.

Os Grandes Mestres de Amor-Sabedoria são as provas cabais de que assim é. No esforço permanente de transformação, sublimação e assunção sobre si mesmos, na opera magna atravessando quantas vidas foram necessárias mas sem perderem o entusiasmo que os impelia avante – até aos pés do seu Mestre Interior reflectido nalgum Mestre Exterior que desde o início os encaminhava, os inspirava de fora, até se tornarem UM com o MESTRE, finalmente, também eles transformados em Adeptos Reais ou Verdadeiros –, por vezes elevaram-se em metade do tempo preestabelecido pela Lei Maior, para sempre se libertando da “lei da morte”, ou seja, das cadeias férreas do Ciclo de Necessidade da Roda do Destino que os condicionava à Lei de Prakriti, a Matéria original do Mundo das Formas, e que é a alavanca impulsionadora de Dharma, Karma e Samsara, isto é, da Consciência, do Discernimento e do Movimento.

Paulatina e pacientemente, Eles, Excelsos Mestres Soberanos da Humanidade, porque Ativarnas (“acima das castas”), quando foram simples mortais decerto também realizaram os seus pequenos exercícios espirituais aconselhados por seus Mentores. Aos poucos, sem desistirem e com uma confiança ilimitada “Naqueles que tudo sabem e podem”, foram realizando a sua Integração espiritual, o Alinhamento vital entre o seu “eu” inferior e o “Eu” Superior; primeiro da Personalidade material com a Individualidade espiritual, e a seguir desta com a Mónada Divina. Seguidamente, da Mónada com o Logos Planetário e, por fim, com o Solar, assim se tornando, efectivamente, Homens Divinos participes directos da Consciência do Universo.

Existe um “momentum” próprio para o despertar da consciência espiritual e a consequente satisfação das necessidades desta. De maneira que nada adianta o lamento comum do «porque não despertei mais cedo?», pois só quando a alma está suficientemente amadurecida, ela desperta. Antes disso… impossível. Por regra geral, há quatro meios para ingressar no Caminho do Progresso Interior ou da Verdadeira Iniciação:

1.º) Pela companhia daqueles que nele já entraram;

2.º) Ouvindo e lendo ensinamentos específicos sobre a Doutrina Oculta;

3.º) Pela reflexão esclarecida, isto é, pela própria força do pensamento constante e raciocínio cerrado pode chegar por si mesmo a parte da Verdade;

4.º) Pela prática da virtude, o que quer dizer que um longa série de vidas virtuosas, ainda que não implique necessariamente um aumento da intelectualidade, acaba por desenvolver num indivíduo a intuição suficiente para que ele compreenda a necessidade de entrar no Caminho, e veja qual a direcção que esse Caminho toma.

Quando o iniciante começa a estudar e a praticar os ensinamentos da Sabedoria Divina (Teosofia ou Gupta-Vidya), vivenciando-os o melhor que pode e sabe, por norma acontecem dois factos interessantes que são, por assim dizer, despoletados pelo arranque espiritual:

A) Aceleramento kármico. À sua volta o até então sólido e belo mundo social, desmorona-se como coisa velha, podre e gasta. A sua consciência agora interessada por mais altos e dignos valores dos que até então o possuíam, vai-lhe precipitar o desfazer das ilusões mundanas, portanto, advindo as desilusões dolorosas. Doravante, em seu íntimo, a sociedade profana depara-se-lhe um monte de cinzas, uma fogueira de paixões intensas nele já apagadas, de ilusões perdidas ou desfeitas. Os “bons e dedicados amigos” de antanho, fiéis companheiros de boémia e vida passional, passam a ser vistos com outros olhos ao aperceber-se que tal «amizade» é interesseira, finita e caduca, toda ela se prendendo à forma e não à totalidade do ser. Geralmente basta uma ligeira discordância, e pronto… fica-se sem o «bom e velho amigo». A família deixa de ter o exclusivo das suas atenções e interesses, quando dilata essas mesmas atenções e interesses ao restante Grupo Humano. Então, é praticamente certo, advêm os aborrecimentos: «Como é possível você, criatura sã e inteligente, acreditar em tais tolices?», reagem os familiares e «amigos» incapazes de entender o que a larga e horizontal mente humana, em que estão, jamais poderá responder, pois a resposta está um tom acima, na profunda e vertical mente espiritual. Aqui, neste conspecto social, para seu bem o discípulo deverá usar de muita discrição e prudência, visto a ostentação ou exibicionismo só servir para agravar a situação e, dessa maneira, acabar sendo marginalizado… por culpa sua. A sua profissão como “ganha-pão” certo, também tende a encará-la como uma monotonia «sem préstimo algum», o que está de todo errado e pode corrigir se encarar a profissão, seja ela qual for, como um contributo imprescindível para o bem geral da sociedade, sendo retribuído com o salário certo e merecido com que se sustentará e aos seus. Vista assim, a actividade profissional não deixa de ser uma perfeita meditação activa.

A Humanidade sofre por ter feito do amor um pecado e do trabalho um castigo. –  Disse o Professor Henrique José de Souza, ou seja, aquele que os Teúrgicos e Teósofos entendem como o Venerável Mestre JHS.

A vida do aspirante enche-se de problemas, vindo perturbar o seu sossego social até há pouco imperturbável. Se for pessoa ainda pouco segura, não deixará de perguntar-se: «Será a Teosofia e o Ocultismo uma manha diabólica?». Diga-se, de passagem, que muitos iniciantes convencem-se que de facto assim é, e pronto: exorcismo aos livros e textos teosóficos e ocultistas, ao fogo com eles e os seus diabolismos – vade retro Satanás! – juntamente com os diabólicos propagadores de tamanhas insanidades, e logo tratar de esquecer para sempre essa «loucura momentânea» que os arrastou por «interesses idiotas» que «só azar trazem». Se acaso algum deste género ainda estiver filiado na convencional religião estatal, por certo não deixará de procurar o padre-cura para obter a remissão do seu pecado capital em ter ambicionado, debalde… levantar o VÉU DE ÍSIS!

Ainda não chegaram os seus “momentuns”, e por isso acontece tal. Pressentem mas não arriscam… há que aguardar mais uns anos ou, então, uma próxima vida, sim, porque Natura non facit saltus, isto é, a Natureza não dá saltos.

Se a vida do aspirante se “enche de problemas” (na realidade eles sempre existiram, como factores psicossociais não resolvidos e que são o lastro nocivo da consciência remoendo-se, ou do remorso da alma), ainda assim é porque o seu karma pessoal foi acelerado pelos Anjos do Destino, a fim de se esgotar mais rapidamente, debitando numa vida o que normalmente levaria cinco ou seis a debitar, contudo sempre e matematicamente em conformidade com as  suas capacidades de suportar. Isto faz parte do Plano Iniciático proposto aos candidatos ao Adeptado, fenómeno a que o Professor Henrique José de Souza chamou de “Colapso da Velocidade”. A paciência, a humildade e a aceitação das provações, tudo isso temperado com a fé esclarecida nos Mestres e no Mestre Interno, juntamente com o amor dedicado a toda a Vida e o estudo aplicado das Causas, acabará levando o discípulo à superação da consciência ordinária e assim, passando a encarar as circunstâncias imediatas de uma maneira superior, conseguirá a força da energia necessária para vencer as tribulações diárias.

B) Superstição psicomental. Esta é uma verdadeira chaga viva para a maioria esmagadora dos estudantes dando os primeiros passos no estudo e compreensão da Teurgia e Teosofia, indo redundar manifestamente tanto num crencismo pueril quanto num puritanismo castrante, e isto porque o seu sistema psicomental ainda está muitíssimo dependente dos seculares padrões morais das religiões vigentes os quais, é forçoso reconhecer, limitam mais do que libertam. De maneira que ao início ainda se mantém uma série de condicionalismos, mais ou menos inconscientes, os quais são um rigoroso e intocável tabu para o neófito. Por exemplo, é quase comum vê-lo inibir-se de se afirmar e agir com rigor e determinação em certas situações conflituosas onde a sua presença é imprescindível, mas que escusa recusando assumir-se, assumindo assim a sua fraqueza, e isto tão-só por causa da sua tendência emocional em resvalar para o bem famoso puritanismo do não dever agir muito materialmente, em que situação for, porque simplesmente não é… espiritual. Pessoalmente, conheço inúmeras pessoas assim, auto-emparedadas psicomentalmente num tabu subtil rotulado de «espiritualismo» mas que é, em boa verdade, é um completo materialismo, mas muito mais falaz, por ser subtil, quase invisível ou despercebido aos sentidos imediatos: o materialismo «sentimentalista», fruto de uma mal cultivada religiosidade psíquica. É óbvio que deverá haver educação espiritual da pessoa, cultivando o carácter pela moral e a inteligência pela cultura, portanto, uma educação esclarecida, liberta de tabus e preconceitos sócio-religiosos, sempre aberta a novos horizontes de sabedoria e conhecimento porque, na Vida como ela é, realmente não existem padrões definitivos, visto tudo ser mutável e móvel, desde logo devendo o aspirante dotar-se de uma mente muito «elástica», sempre pronta a reconhecer e integrar horizontes cada vez mais vastos e esclarecedores.

O Iniciado ocidental, com a sua própria Tradição Espiritual, inserido num esquema de vida diária a mais profana que o força a afirmar-se a cada momento, tem de assumir a condição de verdadeiro guerreiro, sempre a favor do Espírito mas sem desprezar a Matéria, espalhando em redor, através do exemplo facultado pelo seu carácter e cultura firmes, a chama viva da espiritualidade, esta que não se acende com “fraquezas e medos” mas com ousadia e valentia ante uma civilização materialista e consumista, o mais supérflua possível, que não respeita nada nem ninguém… excepto os mais fortes, e estes devem ser os verdadeiros espiritualistas.

Dois grandes tabus ou congestionamentos psicológicos afligindo o principiante no Caminho da Iniciação são, sem dúvida, aqueles referentes ao sexo e à alimentação. Apesar do muito que já disse e escrevi sobre esses dois factores, repito mais uma vez que a função sexual não existe para ser reprimida, como coisa imunda e pecaminosa, nem abusada, como factor mentecapto e possessivo, antes encarada como função normal da Lei da Vida e que o seu uso devidamente enquadrado e regrado faz do sexo um acto santo, de preferência exercido a três: o homem, a mulher e Deus como Espírito Santo manifestando-se por eles, o que irá tornar a relação íntima uma espécie de santa eucaristia, na qual o homem depõe no altar ventre da mulher a semente da criação que ela alimenta com o amor que impele a ambos, para deles surgir o terceiro elemento: o filho, o fruto bendito do acto puro.

Sobre a alimentação, quase descarece dizer que o vegetarianismo integral só deve ser usado por quem dele necessita verdadeiramente, e não por alguma espécie de auto-imposição fanática, não profiláctica, na busca de uma qualquer «pureza física», exercício usualmente reparando-se naqueles que possuem mente vegetativa, o que lhes dá um forte pendor emocional. Na sua obra magistral, A Verdadeira Iniciação, o Professor Henrique José de Souza descreveu a complexidade alimentar ao distinguir as carências temperamentais dos linfático, bilioso, nervoso e sanguíneo, cada qual com as suas necessidades alimentares específicas.

De maneira nenhuma pretendo, clara ou encapotadamente, fazer alguma espécie de apologia a Pantagruel, mas sim tentar fazer perceber que as coisas dão-se no momento exacto ou próprio, em conformidade à necessidade natural que desponta, e nunca de outra maneira artificial nascida de alguma artificiosa imposição psico-física, mais ou menos religiosa-espiritualista cujas noções, apresentando-se pouco claras, inevitavelmente redundam numa distorção psicomental, não raro revelada como neurastenia e hipocondria, doenças de foro claramente psíquico. A melhor e única maneira de evitar essas gravidades será tentar não contornar ou enganar a sua própria natureza, e escusar-se a qualquer espécie de fanatismo puritano, este o eterno auto-castrador inibindo o Homem de viver-se perfeita e integralmente, pois que o “enjaula” centripetamente em si mesmo o que, mais uma vez, só pode desfechar em desânimo, em desespero e, inclusive, nas tristemente famosas afectações psíquicas.

A esse respeito, passo a citar o seguinte excerto de um texto interno da Escola Teúrgica, por o considerar bastante esclarecedor deste assunto do sexo e da alimentação:

«Algumas escolas de pensamento, de base esotérica, advogam como ponto fundamental para uma perfeita realização espiritual a completa e total subjugação do corpo humano, que estamos a tratar, quer pela absoluta proibição da ingestão de álcool ou de alimentos de origem animal, quer pela absoluta proibição de quaisquer contactos ou relações de tipo sexual.

«Neste particular a perspectiva da Escola Teúrgica é específica, dado o seu vínculo à Tradição Oculta Ocidental. Os discípulos que estão ligados à Grande Fraternidade Branca alcançaram a realização interior não pela repressão dos processos físicos vitais, mas sim pelo seu correcto enquadramento numa perspectiva superior de ordem espiritual. O problema não consiste na manutenção ou abolição da vida sexual, mas na perspectiva que o discípulo tem dela e do lugar e importância que lhe confere. A função sexual é uma função vital, tão vital como a respiração ou a nutrição. Reprimi-la, longe de conduzir à realização, poderá ocasionar no discípulo perturbações de ordem psicológica e, sobretudo, aquela cegueira ilusória que caracteriza o fanatismo.

«Da mesma maneira se coloca o problema dos regimes alimentares que poderão estar aconselhados aos discípulos. Não se nega, de forma alguma, a importância que pode ter em certos momentos específicos a não ingestão de alimentos animais ou bebidas alcoólicas e a não manutenção de relações sexuais, como propiciatórias a uma correcta integração em certas cerimónias de cunho ritualístico ou templário. O que se quer dizer é que a extrema concentração do discípulo sobre esses aspectos pode conduzi-lo à mais perigosa e insidiosa forma de materialismo, à concentração total sobre o corpo físico denso (sob disfarce espiritualista), quando outros aspectos importantes da realização espiritual são descurados.»

É assim que, natural e alegremente, o discípulo vai paulatinamente crescendo em sua consciência interior até que ele e o Eu Divino se absorvam um no outro, liberto de peias e tabus personalísticos como as clássicas características morais das religiões exotéricas e cultos afins claramente emocionais, ainda assim necessárias à condução da Humanidade comum mas não do discípulo, se acaso pretende integrar o escol privilegiado do número de eleitos ou a elite espiritual do Género Humano.

Informam ainda os Grandes Mestres da Humanidade que o desenvolvimento interior da pessoa isolada e não em grupo, por muito boa vontade que tenha, não deixa de acarretar o perigo de cair no desânimo, na inércia e na desistência.

Quando um indivíduo desperta para os interesses espirituais, geralmente começa a ler e a estudar sofregamente livros de Escolas diversas, cada qual com o seu método de preparação espiritual, consequentemente, sendo as suas informações dispersas, desencontradas de uma para as outras, por serem diferentes, mas ele, num misto de ingenuidade e inadvertido, por vezes chega a misturar todos esses métodos numa amálgama de conceitos que só podem resultar, inevitavelmente, numa complexidade de erros didácticos e técnicos. Sei, por experiência própria, quão dificílimo é persuadir alguém assim do seu erro, e, pior ainda, quando esse alguém pelo seu carisma tem aceitação pública, pois que irá transmitir preceitos, conceitos e métodos imprecisos junto do auditório e dos seus seguidores, havendo a forte possibilidade de quase todos eles, se não todos, ainda estarem dando os primeiros passos do primeiro passo no Caminho.

Outros, infelizes, apartam-se de qualquer Grupo Espiritual ou Ordem Esotérica e sós, por sua conta e risco, entregam-se a práticas de índole mentalista e mágica. No caso, sempre tão fácil de acontecer, do exercício ou operação correr mal, quem os salvará das forças ingratamente atraídas – se estão isolados – dessa maneira arriscando-se a doenças psicofísicas, à loucura e à indução ao suicídio (como aconteceu no século XIX com o famoso mago Eliphas Lévi, que após invocar de espada em punho o Espírito Imortal do Excelso Apolónio de Tiana, caiu inerte perdendo para sempre o juízo… mas acompanhando-o doravante e sempre a tendência suicidária. Acabou os seus dias pobre mendigando pelas ruas de Paris…), neste caso indício claro de perda da Alma, isto quando não tombam imediatamente fulminados de morte?

Também nesse último campo tenho experiência vivida, pelo que não deixo de alertar os principiantes no Caminho da Verdadeira Iniciação quanto aos perigos subjacentes aos métodos aplicados isoladamente, particularmente os mágico-animistas, perigos acrescidos quando se enfronham numa miscelânea medonha de técnicas de Escolas diversas que recolheram aqui e além na literatura pública, mas sem que, realmente, pertençam efectivamente a alguma.

Ademais, quer após a morte ou então durante o período de sono aquando a alma se liberta temporariamente da veste física, para onde irão as almas dessas pessoas? Para as «escolas astrais sintéticas», como afirmam alguns em sua defesa? Mas nada disso existe, pois é pura ignorância fruto da ingenuidade psíquica. Não há «escolas sintéticas astrais onde se ensina sabedoria esotérica cósmica feita de todas as fontes espiritualistas do mundo a qual aí se assume síntese cósmica», pois tal não condiz com nada, a começar pela Ordem e Harmonia Universal. O que há, sim, são os Santuários Espirituais ou Retiros Privados (Ashrams) dos Grandes Mestres da Humanidade, cada qual com a sua tónica de ministrar o Conhecimento Único, e todos tributando Àquela que os sintetiza como Fonte Suprema desse mesmo Conhecimento Universal: Shamballah, a “Mansão do Amanhecer”, também chamada “Santuário de Kundalini” e “Laboratório do Espírito Santo”.

Acontece que esses infelizes tão-só errarão no Astral ou Mundo Emocional, Psíquico, envolvidos em belos sonhos róseos, até que entendam que nesta Era de Globalização, de Fraternidade Universal do Género Humano cada vez mais se solidificando, não é mais possível nem faz parte das Regras da Grande Fraternidade Branca a evolução pessoal isolada.

Em princípio, como boas e genuínas existem 49 Escolas de Espiritualidade à semelhança dos 49 Raios de Luz do Logos Único, com esses coadunadas. Umas desenvolvem-se mais pelo aspecto “Amor” e outras mais pela “Sabedoria”, mas todas expressando o aspecto “Vontade” de Bem Fazer, sendo a Egrégora ou “Alma Colectiva” de cada uma e de todas unidas, “a trolha e o cinzel” dos Grandes Mestres na construção do Edifício da Perfeição Humana.

Como se sabe, cada Raio (constituído de 7 sub-raios, logo, 49 Raios, 7 principais cada qual com 7 subsidiários) representa um Aspecto do Logos Planetário o qual sendo um sub-aspecto do Logos Solar, Este manifesta-se por Ele. É assim que o 2.º Raio do Logos Solar – sendo o 2.º sub-raio do 1.º Raio do Logos Central do Sistema de Evolução Universal, ocultando-se por detrás daquele – se manifesta na Terra pelo 2.º sub-raio do 3.º Raio. De maneira algo similar, ao nível da evolução humana aquele que começa a destacar-se desta, primeiro reconhecendo as suas necessidades interiores e depois procurando uma Escola que as satisfaça, a qual esteja de acordo com a sua tónica, começa assim a realizar, paciente e abnegadamente, os graus que o levarão aos pés do seu Mestre, e ele mesmo acabando por se tornar Mestre, tal qual a borboleta saída do casulo.

O objectivo supremo de todas as verdadeiras Fraternidades Iniciáticas sempre foi e será um só: o de levar o ser humano a se auto-conscientizar e a viver a sua realidade interior, os seus verdadeiros e, em última análise, únicos objectivos na vida. Não apenas uma vida vegetativa, mas uma vida plena, universal, em que a vida como energia se acresce, transforma em mais vida, energia e CONSCIÊNCIA. Sim, porque a Verdadeira Iniciação é a da transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência… de um e todos no Todo.

Dentro e fora do esquema geral da Iniciação, existem dois tipos gerais de homens em evolução: o místico devocionalista e o ocultista mentalista.

O primeiro evolui pela linha vertical de menor resistência do Sistema de Evolução, ligando-se ao Aspecto “Amor” do Logos Planetário e realizando-se pela Doutrina do Coração. Reparte-se em dois aspectos:

A) O místico contemplativo. Aquele que vive única e exclusivamente de si para Si, a Mónada Divina, apartando-se da agitação psicomental da restante Humanidade indo introverter todas as suas capacidades psicofísicas, motoras e mentais, para isso se servindo das qualidades do 2.º Raio de Amor-Sabedoria e, principalmente, do 6.º Raio do Devocionalismo, este como sendo a “8.ª inferior” daquele. É o asceta, o anacoreta, o que vive num solilóquio permanente de si para Deus e nada mais, estabelecendo a ligação do veículo de consciência Emocional com o Intuicional e deste com o Monádico, a “Centelha na Chama”. Da absorção ou integração na Mónada Divina resulta o não mais voltar, o não mais reencarnar, ou então só a longo prazo, se ainda tiver débitos kármicos, caso excepcionalíssimo, pois o místico contemplativo purifica-se e ascende à Altura de Deus pelo rigor da Hatha e Bhakti Yogas, isto é, a do domínio físico, chegando a tomar feições de mortificação, e a do controle emocional, a quem dá combate permanente até anular toda e qualquer expressão de emotividade.

B) O místico activo. Aquele que apesar de integrado em algum mosteiro não vive em clausura mas em claustro, ou seja, não deixa de participar no serviço aos seus e à Humanidade através das qualidades do 2.º Raio de Amor-Sabedoria, do 4.º Raio da Harmonia Artística ou do 6.º Raio do Devocionalismo, esses que são precisamente as Linhas ou Tónicas dos seus respectivos Dirigentes Espirituais: Nagib, Hilarião e Kut-Humi. De modo que o místico activo aplica os métodos devocionais para também ele assumir-se em Deus mas pelo serviço ao Divino e aos Mestres – a “Assembleia dos Santos e Sábios”, de que fala a Igreja cristã – através da Humanidade desfavorecida.

Seja como for, em si só o método devocional não é de todo perfeito, pois o místico propende sempre para as inclinações psicomentais do exclusivismo e do fanatismo, este sob a forma de pietismo beato.

Quanto ao segundo aspecto, evolui em elíptica espiralada como linha de maior resistência do Sistema de Evolução, devido desenrolar-se com maior lentidão e o discípulo para evoluir fazer contacto directo com a Matéria, com o Mundo das Formas com todas as suas tramas, dramas e vitórias, acabando por recolher de tudo isso uma experiência inaudita e inédita postando-o, face às Hierarquias Universais, como JAVA-AGAT, o “Grande Mago da Matéria” em que se fez justo e perfeito pelo desenvolvimento do Mental, da “Sabedoria” do Logos ou Deus da Terra, característica fundamental da chamada Doutrina do Olho.

O ocultista, confundido na Humanidade comum, por ser seu dever servi-la impessoal e anonimamente, vai estabelecer a ligação consciencial do seu corpo Mental com o Espiritual e deste com o Divino. Este desenvolvimento é processado por meio das tónicas que lhe são especialmente afins, como sejam os sistemas da meditação ocultista e da ritualística. Repara-se nisso a aplicação dos métodos da Raja e da Jnana Yogas, ambas destinadas ao desenvolvimento do Mental, tanto humano como espiritual, e igualmente a influência na sua vida do 1.º Raio da Vontade ou Poder, do 3.º Raio da Actividade Inteligente, do 5.º Raio do Conhecimento Científico e do 7.º Raio da Ordem ou Magia Cerimonial, precisamente as Linhas de Forças por que se exprimem os seus Supremos Dirigentes, os Preclaros Adeptos Vivos Ab-Allah, São Germano, Morya e Serapis Bey.

Mas também a via mental do ocultista por si só é falha, por ele propender sempre às inclinações psicomentais do autoritarismo, não raro manifesto como xenofobismo, e do egoísmo intelectual, sob a forma de descompaixão por vezes encapotada no floreado vaidoso do que é simples narcisismo.

A Perfeição do Ser ou o seu Perfeito Equilíbrio está tão-só em desenvolver o Mental a par do Emocional, a Sabedoria acalentada pelo Amor, razão mais que suficiente para o Professor Henrique José de Souza ter proferido: «Quando o Homem na Terra colocar a Mente ao lado do Coração, alcançará as maiores venturas do Céu». E logo a seguir, adiantar: «A Humanidade só pode alcançar a Neutralidade vivendo em luta com o Bem e com o Mal. Porque é daí que nasce, justamente, a Neutralidade. Do ilusório conduz-me ao Real, das trevas à Luz, da morte à Imortalidade. A Imortalidade se acha na Neutralidade. Bendita seja a morte aparente das coisas terrenas para a morte-ressurreição das coisas divinas».

Esse Perfeito Equilíbrio ou Neutralidade Perfeita encontra-se no 4.º Raio sob a chancela do Mestre Hilarião, aliás, a Linha Andrógina que caracteriza a Vontade de Deus na hora presente da Manifestação e Evolução Universal.

Assim, “par e passo”, o discípulo iniciado nos Mistérios Menores conferidos por alguma Confraternidade Iniciática legalmente credenciada pela Grande Loja Branca dos Mestres Supremos da Humanidade, vai se acercando da 1.ª Iniciação Maior que é a do verdadeiro Aspirante, aquando envereda decisivamente no Caminho do Adeptado. Agora, chegados aqui, convém assinalar o seguinte que não é tão raro como possa parecer à primeira vista: um indivíduo pode ter todos os graus simbólicos de determinada Escola, mas não ter sequer a 1.ª Iniciação Real, ou, então, ter somente a 1.ª Iniciação Simbólica e no entanto deter já em sua natureza interna as 1.ª, 2.ª ou 3.ª Iniciações Reais auferidas junto da Loja dos Mahatmas. Isto demonstra como tudo é relativo e se descobre nas características culturais e morais da pessoa que, de facto, seja Iniciada verdadeira. De maneira que o mestre de grau de determinada escola espiritualista poderá não passar de simples aprendiz ante aquele que pela primeira vez está recebendo dela a respectiva iniciação simbólica…

Tudo depende do progresso espiritual ao longo do esteiro das vidas sucessivas, com o consequente esgotamento do karma pessoal. A evolução da Alma não se mede por graus escolásticos, sejam quais forem, mas sim pelo seu acercamento ao Augoeides, o Eu Divino, e quanto mais perto fica mais iluminada está. À Confraternidade cabe tão-somente ajudar nessa evolução e nada mais, visto NINGUÉM EVOLUIR POR ALGUÉM.

Contudo e para maior segurança humana e espiritual de todos, reafirmo que só em perfeita unidade auferida junto de uma Confraternidade verdadeiramente Espiritual se pode evoluir sem percalços desnecessários e até, quantas vezes, dramáticos!… Ademais, um Grupo Esotérico Humano é a manifestação de um Mestre Real, constituindo o seu Núcleo, tal qual toda a Hierarquia Planetária em volta do seu Logos é a manifestação da Hierarquia Universal tendo como Centro o Logos Solar, o Deus Supremo do nosso Universo Sistémico.

A analogia das coisas dispersas novamente reunidas, leva ao entendimento da Unidade Universal.

Acerca da aproximação do discípulo ao Altar do Fogo Sagrado da Iniciação, com a antecedente debastação dos seus “eus” inferiores como lhe é exigida para que possa penetrar a Luz, é assunto comentado, num misto de severidade e beleza, no Poema A Voz do Silêncio, inspirado no “Livro dos Preceitos de Ouro” da Escola Transhimalaia dos Arhats e dado ao Ocidente pela extraordinária Helena Petrovna Blavatsky (Upasika), cuja tradução para a língua portuguesa se deve a Fernando Pessoa. Diz:

«Há apenas um Caminho para o caminheiro, e só bem no seu final se pode ouvir a “Voz do Silêncio”. A escada pela qual ascende o candidato é formada de degraus de sofrimento e dor, que só podem ser aplacados pela voz da virtude. Ai de ti, discípulo, se em ti restar um só vício que não tenhas deixado para trás. Pois então a escada cederá e te deitará abaixo; o seu pé está apoiado no profundo lodo dos teus pecados e falhas, e antes que possas atravessar este largo abismo da matéria, tens que lavar os teus pés nas Águas da Renúncia. Cuida que não ponhas um pé ainda sujo no primeiro degrau da escada. Ai daquele que ouse macular um só degrau com pés lamacentos. A lama vil e viscosa secará, tornar-se-á pegajosa, e acabará por colar-lhe o pé ao degrau, e como uma ave presa no visco do caçador astuto, ele será afastado de todo o progresso ulterior. Os seus vícios tomarão forma e o arrastarão à queda. Os seus pecados levantarão a voz, como o riso e o soluço do chacal depois do sol posto; os seus pensamentos se tornarão um exército, e o levarão com escravo cativo.

«Mata os teus desejos, discípulo; torna impotentes os teus vícios antes de dares o primeiro passo na solene viagem.

«Estrangula os teus pecados, e emudece-os para sempre, antes de levantares o pé para subir a escada.

«Silencia os teus pensamentos e fixa toda a tua atenção em teu Mestre, que ainda não vês mas já sentes.

«Funde num só todos os teus sentidos, se queres estar seguro contra o inimigo. É só por meio desse sentido, oculto na cavidade de teu cérebro, que o íngreme caminho para o teu Mestre pode descortinar-se aos olhos turvos da tua alma.

«Longo e penoso é o Caminho diante de ti, ó discípulo! Um simples pensamento sobre o passado que deixaste para trás te arrastará para baixo, e terás que começar de novo a subida.

«A Luz do Único Mestre, a áurea e imarcescível Luz do Espírito, lança os seus fúlgidos raios sobre o discípulo desde o primeiro instante. Os seus raios penetram as espessas nuvens da matéria.»

Alcança, por fim, a 1.ª Iniciação Real. Unido ao seu Mestre Interno, é levado aos pés do seu Mestre pessoal que o consagra efectivo Aspirante ao Adeptado. Aqui o Discípulo adquire o poder equivalente ao do Reino Mineral, correspondendo – nesta 4.ª Cadeia Planetária dividida em 7 Rondas em cuja 4.ª estamos – à 1.ª Ronda de Saturno (Ar), pelo que este 1.º Grau do Aspirante ou Sotapati equivale ao Nascimento espiritual.

Passados alguns anos ou várias vidas – quiçá! – conquista a 2.ª Iniciação Real, que lhe é conferida, através do seu Mestre pessoal, pelo próprio Mestre do Mundo, o Bodhisattva, função hoje assumida pelo Cristo (JEPHER-SUS ou MAITREYA), indo adquirir poder equivalente ao do Reino Vegetal durante a 2.ª Ronda Solar (Fogo). Este é o Grau do Probacionário ou Sakadagamin, do que recebe o Baptismo espiritual e está destinado a passar as mais variadas provações como esgotamento kármico e adquirição da consciência necessária à superação da fatídica “Roda dos Renascimentos”.

Por norma, ainda que hajam raras excepções, até à 3.ª Iniciação pode acontecer que o Discípulo não tenha consciência imediata de que é realmente Iniciado, e isso só é detectável, aos olhos dos demais com lucidez e esclarecimento, pela suas virtudes, sapiência e vontade inquebrantável em prosseguir no Caminho da Evolução, mesmo “contra todos os ventos e marés” do tempestuoso mundo profano.

Na 3.ª Iniciação Real é finalmente Aceite pelo seu Mestre pessoal, criando este uma teia ou tela etérica (podendo ser destruída se o discípulo recuar no seu progresso) que ligará os dois como um só. Nesta fase e através do seu Mestre, o Discípulo é consagrado pelo Senhor do Mundo, o Rei do mesmo como Melkitsedek ou Chakravarti, acontecendo a Transfiguração ou Metástase da personalidade com o seu Eu Divino, e é chamado de Anagamin passando a deter poder semelhante ao do Reino Animal durante a 3.ª Ronda Lunar (Água).

Advém, finalmente, a 4.ª e última Iniciação Real no Caminho do Discipulado. Ele é já um semi-Mestre, um semi-deus. Neste período o Iniciado é Unido à Consciência do Logos Planetário, assumindo-se um Chresto ou Arhat, cuja Crucificação derradeira da sua personalidade permite-lhe o acesso, pelo domínio da Terra (4.ª Ronda – Reino Humano), ao Reino dos deuses e de Deus, ou seja, a própria Agharta–Shamballah. É, pois, repito, um Chresto, “Ungido ou Iluminado divino” porque Arhat de Fogo.

Só na 5.ª Iniciação se pode considerar o Discípulo um Mestre Verdadeiro, Mahatma ou Asheka. Equivale à Ressurreição na tomada de posse do 5.º Reino Espiritual, por sua consciência ir até o próprio Logos Solar e, consequentemente, ter o domínio pleno do 5.º Elemento ou Quintessência da Natureza – o Éter, com que já se tece a 5.ª Ronda de Vénus da actual Cadeia Planetária.

Mas falar do divino Adepto, do Dhyani-Jiva como Jivatmã, só se pode fazer por metáforas, pois que Ele é realidade misteriosa para além de toda e qualquer concepção finita do imperfeito intelecto humano. É falar de Deus Antropomórfico e, ao mesmo tempo, do Pai Interno… assim, em boa verdade, Deste não se pode falar com justeza e perfeição, não por ser dogma proibido e sim por limitação humana, só restando o essencial a um e a todos: procurar senti-Lo, ouvi-Lo, vivê-Lo!…

Mesmo assim, para um entendimento mais perfeito que o intelecto humano sempre exige, devo informar haverem ainda as 6.ª e 7.ª Iniciações, as de Choan e Mahachoan correspondentes à Assunção e ao Pentecostes, equivalentes à 6.ª Ronda de Mercúrio (Subatómico – Permeabilidade) e à 7.ª Ronda de Júpiter (Atómico – Plasticidade) com que desfechará a Cadeia actual.

Quando o Homem atinge o Adeptado, os Senhores do Karma Universal (Maharajas) apresentam-lhe e deixam à sua escolha um de 7 Caminhos por que doravante poderá prosseguir a sua evolução, como sejam:

1.º – Caminho do Logos Central (Mahaparabrahman)

2.º – Caminho do Logos Solar (Parabrahman)

3.º – Caminho do Logos Planetário (Brahman)

4.º – Caminho dos Arqueus (Assuras)

5.º – Caminho dos Arcanjos (Agnisvattas)

6.º – Caminho dos Anjos (Barishads)

7.º – Caminho dos Homens (Jivas)

Antes de prosseguir para o desfecho do presente capítulo, devo responder à seguinte questão que me foi colocada por um estudante e a qual é pertinente ao tema em causa: – Está o Espírito dentro ou fora do Homem? Entendendo a Centelha Divina como sendo de natureza subtil e não física, respondo que o Espírito localiza-se sobre o Homem e envolve-o como uma Cachoeira de Luz ou Aura Gloriosa, síntese de todas as demais, pelo que é vista como um maravilhoso arco-íris resplandecente, ainda assim sobressaindo o tom púrpura ou cor de sol-posto. À medida que os “centros vitais” (chakras) humanos são desenvolvidos em proporção crescente, mais a Luz Espiritual manifesta-se por eles na Alma e no Corpo, e com isso maior se torna a Consciência no Homem. Chama-se a isto Iluminação e Iniciação, ou seja, a Iluminação Interior que permite a Iniciação Exterior, para com isso chegar ao domínio pleno das Leis da Vida, ou seja, ao Adeptado.

De maneira que a disciplina que leva à Realização Integral do Homem, apresenta-se com três etapas:

1.ª – A Preparação, que desenvolve os sentidos espirituais;

2.ª – A Iluminação, que aviva a Luz Espiritual;

3.ª – A Iniciação, que permite a comunicação com Deus e os Deuses.

Para terminar este estudo, já longo, dou o remate final com um trecho de texto interno do Colégio Teúrgico, o qual se apresenta com a lucidez e a abertura mental que só a Sabedoria Iniciática das Idades pode conferir a um e a todos:

– A Via do Discipulado é algo extremamente difícil. A inflexibilidade dos Mestres perante a conduta dos Discípulos não deixa de ser acompanhada do maior amor, da mais profunda compreensão perante as suas grandezas e misérias. Também os Mestres foram um dia Discípulos, também Eles caíram e se levantaram nessa senda tortuosa, também Eles se viram abatidos, vezes sem conta, pelo destino, numa esquina qualquer da vida. É Camões quem maravilhosamente resume toda a tragédia contida nas vidas do Discípulo, nesta sibilina frase: “Erros meus, má fortuna, amor ardente”.

Mais do que ninguém sabem os Mestres dar o devido valor àquilo que custa ser Discípulo. Este é, na realidade, um guerreiro e cada vitória, cada sucesso, tirado a ferros, arrostado contra a dureza de um meio, que nada perdoa e de nada se compadece, é uma página imortal escrita quantas e quantas vezes com o sangue, o suor e as lágrimas dolorosamente arrancadas a uma condição que apenas se pode gabar de ser humana. O Discípulo é acima de tudo um homem humilde, palmilhando a vida sem nada ter de verdadeiramente seu porque tudo dá no serviço desinteressado aos outros, quantas vezes de rastos, o rosto contra o pó, pois só desse modo se pode olhar Deus face a Face. Ou não estivesse Ele no Centro da Terra… E assim se transforma o Discípulo um Homem Sábio.

O Homem Sábio não é aquele que faz tudo bem feito, mas sim o que tendo uma má atitude sabe corrigir o seu erro e humildemente pedir desculpa.

O Homem Sábio não é aquele que só tem pensamentos puros, mas sim o que, ao ter um pensamento impuro, consegue de imediato envolvê-lo numa onda de amor, neutralizando-o.

O Homem Sábio não é aquele que só tem certezas, mas sim o que sabe forjar na dúvida a força do seu carácter, a constância dos seus ideais.

Os Discípulos de Aquarius estão, de facto, hoje em dia, vivendo em condições interiores extremamente duras, mas também infinitamente promissoras.

Nada se consegue sem esforço e “quem quiser passar além do Bojador, tem de passar além da dor”.

 

OBRAS CONSULTADAS

 

Henrique José de Souza, A Verdadeira Iniciação. Reimpressão das edições de 1939, 1957 e 1969 em 1980 pela Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro. Última impressão: 2001, São Lourenço (MG).

Carlos Lucas de Souza, O Raiar de um Novo Mundo (Órgão Monumental da Civilização Eubiótica). Brasília, 1968.

Luzes da Iniciação Eubiótica, colectânea de textos de António Castaño Ferreira e Sebastião Vieira Vidal. Nova Brasil Gráfica e Editora Ltda, São Lourenço (MG), primeira edição em Fevereiro de 2006.

Coletânea de autores, Os Grandes Iluminados. Aquarius, Fundo Editorial, Rio de Janeiro, 1968.

Roberto Lucíola, Dhyanis. Caderno “Fiat Lux” – 17, Novembro de 1998, São Lourenço, Minas Gerais, Brasil.

Roberto Lucíola, Iniciação. Caderno “Fiat Lux” – 34, Fevereiro de 2003, São Lourenço, Minas Gerais, Brasil.

Helena Blavatsky,  A Voz do Silêncio. Versão portuguesa por Fernando Pessoa. Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro, 1969.

Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Editora Dinapress, Lisboa, 1.ª edição Setembro de 2002.

Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz (Portugal e o Futuro). Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006.

Vitor Manuel Adrião, Portugal, os Mestres e a Iniciação. Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, 2008.

Diálogos Agarthinos – Correspondência Epistolar entre Vitor M. Adrião e Luís A. W. Salvi, três volumes. Edições Agartha, Alto Paraíso de Goiás, 2008.

Coletânea de autores, A Teurgia e a Fraternidade Espiritual Portuguesa. Edição Comunidade Teúrgica Portuguesa, Sintra, 2011.

Alice A. Bailey, Iniciação Humana e Solar. Fundação Cultural Avatar, Niterói – Rio de Janeiro, 1975.

C. W. Leadbeater, Os Mestres e a Senda. Editora Pensamento, São Paulo, 1977.

Textos Internos da Comunidade Teúrgica Portuguesa.