Lenda de Santiago barqueiro e Caio náufrago – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Jul 25 2016 

A lenda que vou contar anda ligada a uma antiga família de Portugal, os Pimentéis de Trás-os-Montes[1]. Consta que este apelido procedeu de uma alcunha imposta pelo rei Afonso III, por volta do ano 1260, a um moço fidalgo chamado Vasco Martins de Novais, que se evidenciou pela esperteza e celeridade que em tudo mostrava. No brasão da família Pimentel estão incluídas as conchas (vieiras) da nossa lenda, que também estão representadas na torre do castelo de Bragança. Por outro lado, e como conta a história, as vieiras são o distintivo dos servos de Santiago, e os peregrinos que se dirigiam antigamente em peregrinação a Compostela levavam-nas como indicativo da finalidade da sua jornada.

Passou-se a história que vou contar no ano 44 da Era de Jesus Cristo.

Certa manhã, saiu a passear um ilustre cavaleiro da Maia chamado Caio Carpo Palenciano. Com ele ia a mulher, que desposara há pouco tempo, a nobre Claudina Lopo Zalenco, e vários outros parentes e amigos. Estava-se no Verão e, por esta razão, saíram cedo da vila, tentando aproveitar o fresco da manhã. Era uma cavalgada vistosa a que se dirigia à praia de Matosinhos: um pouco à frente iam Caio e Claudina, conversando calmamente, e seguindo-os ia um grupo animado do qual por vezes sobressaía um jovem fazendo caracolar o cavalo à volta de alguma dama. Era realmente um belo espectáculo, reluzente de armas, colorido de tecidos finos.

Cavalgavam pelo areal quando alguém avistou no mar uma barca, navegando com proa ao norte. Pararam todos para observar a majestosa beleza da embarcação, que vogava calmamente com todo o pano desfraldado. Estavam assim, um pouco esquecidos do tempo, entretidos a olhar o mar quando, repentinamente, o cavalo de Caio correu para a água. O cavaleiro tentou refrear o animal, mas este, obedecendo a uma força desconhecida, mergulhou no mar e desapareceram. Ambos voltaram à tona, entretanto, à beira da embarcação, e o cavalo, dando um impulso, subiu para bordo. Estavam os dois cobertos de vieiras.

Caio, espantado com tantas maravilhas, perguntou aos marinheiros quem eram e porque lhes aconteciam tais coisas.

Responderam os navegantes:

– Somos cristãos, discípulos de um homem santo chamado Tiago. Vimos de muito longe, fugidos ao ódio de homens que perseguem os seguidores de Cristo e trazemos aqui, nesta barca, o corpo do nosso Mestre Tiago.

– E porque vos dirigis para estas bandas? Foi o vento que vos trouxe ou fostes vós que traçastes a rota?

– Vamos para terras da Galiza, senhor, onde o nosso Mestre pregou o Evangelho de Jesus Cristo. Aí esperamos encontrar irmãos nossos e conseguir dar descanso ao corpo deste Apóstolo.

– E como explicais o prodígio operado pelo meu cavalo?

– Isso, senhor, significa que sois um escolhido de Nosso Senhor! As conchas de que vos vedes coberto são o sinal de Santiago, que quer ver-vos na lei de Jesus Cristo. A partir de hoje, distinguirão os servos deste santo homem!

Caio estava profundamente comovido pelo que ouvia, pelos milagres que via. Dentro de si sentia crescer um sentimento desconhecido, uma espécie de paz total que o levou a pedir aos marinheiros que o considerassem um dos seus. Foi assim que Caio Carpo Palenciano recebeu o baptismo da água, sobre as ondas, segurando as rédeas de um cavalo coberto de conchas.

E uma vez desembarcado e novamente reunido à esposa e aos amigos, converteu-os a todos com a narração de tão pasmoso caso.

"Fuente del Carmen", Padrón, mostrando o baptismo do peregrino e a barca fúnebre de Santiago

“Fuente del Carmen”, Padrón, mostrando o baptismo do peregrino e a barca fúnebre de Santiago

Esta lenda jacobeia portuguesa, inspirada na Lenda Áurea coluna dorsal de toda a tradição santiaguista, coloca os seus personagens no período gallo-romano (cerca 40-45 d. C.) e assinala o início da evangelização peninsular a partir do actual território português. Três elementos circunstanciais compõem a mesma, remetendo para o sentido profundo do simbolismo tradicional: a barca com os discípulos do Apóstolo finado; o cavaleiro Caio e a sua montada mergulhando nas águas; o cavaleiro e o cavalo saindo das águas para bordo da embarcação.

Segundo René Guénon[2], dentre os emblemas que foram outrora os do deus romano Janus [bicéfalo], o Papado herdou e conservou, além das duas chaves, a barca, atribuída paralelamente a S. Pedro e tornada a figura da Igreja[3] com o  Sumo Pontífice à proa da mesma: o carácter «romano» de Janus e do Papado exigiu essa transmissão dos símbolos, sem a qual ele não teria representado senão um simples facto geográfico sem conteúdo real e efectivo, marcando o Papado, desde a sua origem, como predestinado a ser «romano» na razão da situação de Roma como capital do Ocidente, desde a primeira hora amancebada ao Império, o que lhe deu esse estatuto dominante. No entanto tem-se aqui, na lenda, a deslocação da barca para o extremo ocidente da Europa, como designando o Apostolado de Tiago superior ao de Pedro ao ir mais avante na sua marcha cíclica e assim os seus tripulantes possuírem conhecimentos mais profundos que os da barca «romana», o que transfere para o seu sentido da Igreja ministrante e a Igreja ministrada, o Primaz e a Cúria, o que sabe e o que crê. Na primeira situação está a Igreja braco-galaica; na segunda, está a Igreja romano ou latina. É nisto que entra o sentido da “Grande Barca” (Maha-Yana) de Tiago Maior, indicativa da Tradição Primordial exercida como Arte Sacerdotal por via do Ministério e Instrução, superiores aos exercícios ministeriais e catequeses romanas indicadas pela “Pequena Barca” (Hina-Yana) de Pedro, esta destinada a pescar almas para a Igreja dos crentes, aquela vocacionada a salvar almas para a Igreja dos perfeitos. Tem-se nessas duas modalidades o Sacerdócio de Aarão (exotérico) e o Sacerdócio de Melkitsedek (esotérico), este cuja santidade e sabedoria exigidas fá-lo incorruptível e logo inviolável, facto figurado pelo sentido supremo da Terra Santa a quem os hindustânicos chamam Agharta, cujo símbolo é a próprio barca d´ouro do deus Osíris, oposto daquela barca d´prata da deusa Ísis.

A imagem da navegação foi frequentemente utilizada na Antiguidade greco-latina, tendo-se como exemplos mais notáveis a expedição marítima dos Argonautas à conquista do Tosão de Ouro no Jardim das Hespérides ou Hispânias e a viagem de Ulisses, vindo do mar da Grécia fundar Ulisipa (Lisboa), não esquecendo as referências feitas por Virgílio e Ovídio. Igualmente na Índia se encontra por vezes esta imagem, e no texto sagrado Atmã-Budha tem-se uma expressão singularmente semelhante à utilizada por Dante na Divina Comédia (Paradiso, II, 1-18): “O Yogui, diz Shankaracharya, tendo atravessado o mar das paixões, está unido com a tranquilidade e possui o “Ser” na plenitude”. O “mar das paixões” é evidentemente a mesma coisa que as “ondas da cupidez” e nos dois textos aparece o tema da “tranquilidade”, a qual representa o final da navegação simbólica e a conquista da Grande Paz[4]. Desde logo esta pode entender-se de dois modos, segundo se reporte ao Paraíso Terrestre ou ao Paraíso Celeste: neste último caso identifica-se à Luz de Glória e à Visão Beatífica; no outro, é a Paz propriamente dita, no sentido restrito, mas ainda assim diferente do significado profano[5]. Na lenda jacobeia aqui narrada, a barca do Apóstolo deve conduzir a humanidade dos crentes ao Paraíso Celeste, assim fazendo o papel do Papado (ou Sacerdócio, função dos Brahmanes, “sacerdotes”), enquanto o Cavaleiro sagrado, dessa maneira fazendo o papel do Imperador (ou Realeza, função dos Kshatriyas, “cavaleiros”), deve guiá-la ao Paraíso Terrestre, o que também não deixa de ser uma navegação[6]. Eis porque a Terra Santa das diversas tradições não é outra coisa senão o Paraíso Terrestre, frequentemente representado por uma ilha elevada, indicadora do núcleo de santidade e sabedoria privado das agitações públicas, imutável no meio das ondas da cupidez passional, e por isso é o “Santuário da Paz”, a “Montanha da Paz” ou, em termos bem jacobeos da peregrinação com Compostela à vista, o Monte do Gozo[7].

Falei em dois tipos de baptismo, como sejam o da água e o do fogo, o da catequese e o da gnose, manifestação de duas modalidades distintas, apesar de interligadas, de entender e viver o tema jacobeo como forma dinâmica de Iniciação, expressada pela peregrinação, facto retratado numa pintura medieval representando três pessoas montadas num cavalo branco, simbólico da própria Tradição Espiritual: Santiago Maior de permeio a Teodoro (aspecto esotérico) e Atanásio (aspecto exotérico), os seus discípulos tradicionais, todos com trajes de peregrinos, portanto, em pleno acto de Iniciação votiva ou móvel.

Pintura medieval de Santiago e seus Apóstolos montados num só cavalo

Pintura medieval de Santiago e seus Apóstolos montados num só cavalo

O sacramento do Baptismo, revelador da Espírito Santo ao crente, torna-o parte efectiva do corpo místico da Igreja ministrante (Clero) à Igreja ministrada (Assembleia). Os antigos gnósticos cristãos de Alexandria por vezes utilizavam o termo bafé métous (que os romancistas dos séculos XVIII-XIX transformaram no filólogo baphometh) para traduzir a ideia de “baptismo da sabedoria”, o do Fogo Sagrado do Espírito Santo, aferidor da condição de “Filho do Homem” ou Imortal e não mais de “Mulher” ou mortal, este relacionado com o Baptismo pela Água após o nascimento físico de todo o ser humano, aquele ultrapassando a condição material pela consciencial do Baptismo de Fogo cuja Iniciação Gnóstica, para não dizer Teosófica, confere não aos muitos chamados mas aos raros Eleitos o lume da Imortalidade, equivalente da posse efectiva da consciência integral do Tudo no Todo e do Todo (Divino) no Tudo (Humano).

Acerca-se do sentido de bafé métous a função do botafumeiro, o maior incensário do mundo que é o elemento histórico mais popular da catedral de Santiago de Compostela e que, balançando sobre as cabeças, cruza o espaço da nave enorme purificando espiritualmente as almas dos crentes com o fumo de incenso sagrado que, assim, também não deixa de ser uma espécie de Baptismo de Fogo em rolos de fumo perfumado.

O gigantesco incensário balançando na nave durante as missas dos peregrinos e outros actos importantes, além do referido significado transcendente tem um outro mais humilde e prático[8]. O início do rito do botafumeiro datará dos meados do século XIII, quando a peregrinação a Santiago já se convertera numa verdadeira rota e chegavam milhares de pessoas, saturando a catedral, indo provocar no seu interior um odor desagradável motivado pelo cheiro das roupas sujas dos peregrinos impregnadas da sua transpiração durante a caminhada. Foi quando se inventou e passou a utilizar-se o botafumeiro, para aspergir com perfumes (do latim perfumum, “pelo fumo, através do fumo”) a multidão, purificando-a espiritualmente mas também fisicamente, diminuindo os maus odores[9].

Para ser movido, o botafumeiro necessita de um grupo de oito homens conhecidos como tiraboleiros (do latim thuribulum, “lançador de fumo”), que se vestem de vermelho e são treinados para efectuar o referido manuseio através de cordas. No século XVI, o rei Luís XI de França presenteou a catedral com um incensário construído em prata no estilo renascentista e foi nesse século que, para facilitar a sua utilização, construiu-se sob a cúpula da igreja um mecanismo de polias, desenhado por Juan Bautista Celma, que permite o perfeito funcionamento do botafumeiro. Uma vez o mesmo desgastado pelo seu uso, é recolhido ao museu catedralício. O mais antigo deles que se conserva data de 1851, e outro de 1971, presente da Irmandade de Alféreces Provisionales.

Ritual do botafumeiro na catedral de Santiago de Compostela

Ritual do botafumeiro na catedral de Santiago de Compostela

O botafumeiro actual é de latão banhado em prata, pesa 62 kg vazio (originalmente pesava 60 kg, mas em 2006 acrescentou-se um banho de prata que fez aumentar a sua massa para o peso actual) e chega a pesar 80 kg quando está cheio de combustível, medindo 1,60 m de altura. Esta peça sacra foi criada em Santiago de Compostela pelo ourives Xosé Losada, em 1851. A corda que a suspende, atada do cruzeiro da catedral, é actualmente de um material sintético, mede 65 m, tem 5 cm de diâmetro e pesa 90 kg. Anteriormente as cordas eram feitas de cânhamo ou de esparto[10].

Voltando ao Baptismo no Noûs, a Mónada Divina, seja um Baptismo na Água da Geração ou no Vinho da Transmissão, ou ainda um Baptismo de Fogo no crisma do mesmo Espírito, comporta sempre uma metamorfose ou transformação, a metanoia, do iniciado por uma completa realização gnóstica ou teosófica. Por isso está escrito no Tratado IV do Corpus Hermeticum – De Hermes a Tat: o Vaso ou a Mónada: “Os que escutaram a proclamação e foram baptizados pelo Noûs, participam da Gnose e se tornam Homens Perfeitos, por terem recebido o Noûs[11].

Foi assim que na lenda jacobeia, após receber o Baptismo da Água, o cavaleiro Caio se tornou puro ou “branco”, que é o que significa o seu nome, e o pulo com a sua montada para bordo da barca e a bênção que lhe foi concedida pela apostólica tripulação, equivaleu ao Baptismo do Fogo, assinalado nas vieiras indicativas da luz esplendorosa de Vénus, a Stella Maris.

Tem-se, pois, a Cavalaria como Arte Real (Império), reconhecida e sagrada pela Apostólica como Arte Sacerdotal (Pontificado)[12]. Contém-se nesta lenda portuguesa, enfim, no prefigurado cavaleiro Caio tão-só o sinal de reconhecimento sagrado da própria Ordem Militar e Religiosa de Santiago, custódia dos caminhos jacobeos para o centro comum de Compostela, em plena terra galaica, solar e sagrada que uma vez pertenceu a Portugal.

NOTAS

[1] Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, 6 volumes. Edições Amigos do Livro, Lisboa, 1988.

[2] René Guénon, Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. Éditions Véga, Paris, 1984.

[3] A barca simbólica de Janus podia deslocar-se nos dois sentidos, quer para a frente, quer para trás, o que corresponde aos dois rostos do próprio deus, assinalados pela chave de prata (passado) e pela chave de ouro (futuro), que para a tradição hindustânica são referências às duas Leis Universais do Karma (chave de prata) e do Dharma (chave de ouro) incarnadas na pessoa do Brahmatmã, com função análoga à do Chakravarti ou Melkitsedek, isto é, Imperador e Pontífice Universal.

[4] Esta mesma conquista por vezes é representada sob a figura de uma guerra santa, como se encontra no Bhagavad-Gîta e na literatura árabe apologética da Jihad, havendo um simbolismo do mesmo género nos romances de cavalaria da Idade Média que embeberam de religiosidade as armas cristãs. Vem a ser sobretudo a luta espiritual do homem inferior, mortal, consigo mesmo, o Homem Superior, imortal.

[5] É isto que indicam muito claramente os diferentes sentidos da palavra hebraica Shekinah, “Presença Real de Deus”, como indicativa do próprio Espírito Santo manifestado sobre as Águas geradoras da Criação, configuradas nas funções psico-orgânicas femininas, o que vem a configurá-la na imagem da Mãe Divina. Os dois modos ou aspectos referenciados são aqueles que as palavras latinas Gloria et Pax designam na fórmula: Gloria in excelsis Deo, et in terra Pax hominibus bonae voluntatis. Na catedral de Santiago de Compostela, a Luz de Glória está exposta no pórtico da Glória, do Mestre Mateo, e a Grande Paz no pórtico das Pratarias, com o crisma central.

[6] Isso reporta ao simbolismo dos dois oceanos, o das “águas superiores” e o das “águas inferiores”, o do conhecer e o do crer, e igualmente aos dois tipos de baptismo comuns a todas as doutrinas tradicionais. Já o chuvisco é associado ao sentido de “influência espiritual” (baraqa, em árabe), e por isso se diz que o peregrino é abençoado pela chuva que caia em Santiago de Compostela, Cidade Santa marcada pela presença da Shekinah na forma da Arcam Majorem.

[7] Juan G. Atienza, Los Peregrinos del Camino de Santiago. Editorial Edaf, S.A., Madrid, 2004.

[8] Juan R. Sanmartín, O Botafumeiro: Parametric pumping in the Middle Ages. In American Journal of Physics, volume 52, Issue 10, Outubro 1984.

[9] Após a Missa do Peregrino, durante séculos foi tradição os peregrinos subirem ao terraço da catedral e lançarem nos queimadores que aí estão as vestes gastas e sujas que utilizaram durante a jornada. De maneira que viam-se rolos espessos de fumo subirem permanentemente do alto da catedral. Até neste costume, muito pouco conhecido actualmente, vê-se a presença do elemento ígneo que é o afim e constante do Apóstolo São Tiago Maior, o “Filho do Trovão”.

[10] O botafumeiro em toda a sua história, caiu apenas quatro vezes sem nunca ter ocorrido acidente de ordem pessoal. Uma das quedas foi no ano de 1499, na presença de D. Catarina, que ia a caminho de Inglaterra para casar-se com o Príncipe de Gales, e uma outra queda em 23 de Maio de 1622, tendo o botafumeiro se desprendido das cordas projectando-se pela porta das Pratarias indo despenhar-se na praça defronte, sem tocar em alguém da imensa multidão de pessoas presentes, o que desde logo foi considerado milagre.

[11] Frithjof Schuon, Gnosis Divine Wisdom. Ed. World Wisdom. Inc., Bloomington, 2006.

[12] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição Dinapress, Lisboa, Maio de 2011.

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Barcelos, Terra do Galo – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Jul 22 2016 

Ao cruzeiro ou padrão quatrocentista integrado no espólio do Museu Arqueológico de Barcelos[1], anda associada a curiosa lenda do galo e do enforcado[2], e apesar  dessa ave não ser o ex libris oficial de Portugal mesmo assim destaca a sua natureza predominantemente jacobeia e o próprio símbolo do Caminho Jacobeo Português[3].

De forma resumida, a lenda conta que os habitantes do burgo andavam alarmados com um crime de morte e, mais ainda, por não se ter descoberto o criminoso que o cometera. Certo dia, apareceu um galego que se tornou suspeito. As autoridades prenderam-no e, apesar dos seus protestos, ninguém acreditou nele. Não houve quem julgasse crível que o galego se dirigisse a São Tiago de Compostela em cumprimento de uma promessa, que ele fosse devoto fervoroso do santo que ali se venera, como também o fosse de São Paulo e de Nossa Senhora. Por isso foi condenado à forca. Mas antes de ser enforcado rogou que o levassem à presença do juiz que o condenara. Concedida a autorização levaram-no à residência do magistrado, nesse momento num banquete com alguns amigos. O galego voltou a reafirmar a sua inocência e, face à incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a mesa, sentenciando: “É tão certo eu estar inocente como certo é esse galo cantar quando me enforcarem”. Risos e sarcasmos não se fizeram esperar, mas, pelo sim e pelo não, não fosse o diabo tecê-las, ninguém tocou no galo. O que parecia impossível tornou-se, porém, realidade! Quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo assado ressuscitou, ergueu-se na mesa e cantou. Caíram por terra as suspeitas sobre o condenado. Correu o juiz à forca e viu o desgraçado de corda ao pescoço, mas o nó lasso, impedindo o estrangulamento. Imediatamente solto, foi mandado em paz. Passados anos, voltou a Barcelos e fez erguer o monumento em louvor à Virgem e a São Tiago.

Cruzeiro de "o galo e o enforcado", Barcelos

Cruzeiro de “o galo e o enforcado”, Barcelos

Esta lenda velhinha (contada em diferentes versões mas sendo igual no desfecho com a salvação miraculosa de São Tiago que suportou o inocente não deixando que fosse estrangulado) é das muitíssimas do espólio oral medieval que corriam entre os peregrinos jacobeos ao longo caminho português, que passa por Barcelos, quase todas elas, senão todas, abrigando valiosas referências míticas ou herméticas à Tradição Primordial, assim impondo o sagrado ao profano, a peregrinação complexa ao simples passeio, ao andar por andar sem outro sentido ou nexo.

Em primeiro lugar e antes de tudo o mais, o sentido moral desta lenda é o da advertência para o respeito e consolo que se deve dar a todo o peregrino de Santiago, ou seja, o de nunca lhe recusar a hospitalidade como cumprimento do voto maior do amor caridoso, repetindo as palavras do Codex Calixtino que o Papa Calixto II (que fora abade de Cluny e irmão do conde regente da Galiza, Raimundo de Borgonha) escreveu no século XII: “Todo o mundo deve receber com caridade e respeito os peregrinos, pobres ou ricos, que venham ou vão ao solar de Santiago, pois todo o que os recebe e hospeda com esmero terá como hóspede não só a Santiago mas ao próprio Senhor, segundo as suas palavras no Evangelho: O que a vós receber, a Mim recebe“.

Por sua aura de mistério e segredo, durante séculos o peregrino jacobeo foi visto como um ser sagrado, espécie de anacoreta santo num constante vaivém por rotas maravilhadas, traçadas numa cartografia sobrenatural pontilhada pelas estrelas da estrada celeste e pelos rios, vales e montanhas dos caminhos da terra assim abençoada com sua presença peregrina, espargindo do mais profundo do seu ser ao espírito do próprio Apóstolo São Tiago Maior.

Atentar contra o peregrino era o mesmo que atentar contra o próprio Apóstolo de Cristo, era atentar contra Cristo cujos membros são os seus apóstolos e sub-apóstolos. Daí o respeito que os caminhantes da Fé infundiram e desfrutaram em toda a religiosidade europeia da Idade Média e Renascença. Eles eram os padrões volantes ou caminhantes, o homo viator, homens representativos do espírito original do Evangelho nestas plagas lusitanas, tomando Barcelos ou Bar+Cellis como o “Monte do Céu”, o que está mais pertinho da Santa Cruz que um dia, nos alvores da Cristandade, o Apóstolo Tiago aqui fincou. Culto cristão substituto do primitivo fenício-romano, de importação egípcia, de Serapis, o deus ctónico mesopotâmico cultuado em Barcelos antes da implantação do Cristianismo, cujo busto ainda se pode ver no Museu Arqueológico desta cidade.

Contudo, bem se sabe, sempre houveram “ovelhas ranhosas” em todos os tempos e imensas vezes os peregrinos foram molestados e desdenhados na caridade por gentes sem fé nem humanidade, vindo após as lendas e narrativas afirmar que esses acabavam pagando caro e dolorosamente os seus actos indignos, por sinais manifestos da ira de Deus, intervindo por fogos e outros poderes ígneos castigadores afins à própria natureza do “Filho do Trovão” (Boanerges), Sant´Iago Zebedeu[4]. A Protecção Celeste nunca descarecia – jamais descarece! – o caminheiro da Grande Via, bem assinalada na “viande” ou vieira (que com a cabaça estão esculpidas nas colunas interiores na igreja-matriz de Barcelos, ponto de encontro dos peregrinos desde o século XIV 81325-1328), que antes era na capela da Senhora da Ponte, na  margem oposta do Cávado, pertencente à freguesia de Galegos de Santa Maria[5]).

Ponte sobre o Rio Cávado, em Barcelos, passagem obrigatório dos peregrinos de Santiago de Compostela

Ponte sobre o Rio Cávado, em Barcelos, passagem obrigatório dos peregrinos de Santiago de Compostela

Palmilhar a Grande Via em solo português ou Porto-Graal expressa exactamente isso: a Realização do Graal, a Taça Sagrada expressiva do estado de Consciência Espiritual, meta última do viandante, conquistando-a paulatinamente nas etapas do Caminho Iniciático que é sempre Solar, no sentido de expansivo e evolucional, nisto se enquadrando no próprio perfil do Gallo ou Homo Gallaeci inserido no que em sânscrito se apelida Surya-Vansa, “Linhagem Solar”, tendo à sua dianteira os Mestres de Espiritualidade, guias dos homens, palmilhando esse mesmo Caminho da Iniciação Verdadeira, aqui prefigurado pela rota jacobeia. É nisto que entra o sentido mais restrito do nome Tiago, a quem Louis Charpentier atribui o significado de Sábio, ao associá-lo ao Maxa-Jaun da mitologia basca[6] possuído do sentido de “Mestre da Natureza”, igual ao Jaunak galego, o primitivo Tuatha de Danand destas partes ibéricas chamado Tuatha de Gaedhil, indo dar em Jaun, Jacques, Jaime, Jacobo, Iacobo, Iago e finalmente Tiago. Ora, Jaun é Jina ou “Génio”, em sânscrito, sobre quem a Tradição Iniciática das Idades adianta que Jinas vêm a ser os Mestres da Humanidade, Santos e Sábios, Homens Perfeitos ocultados no próprio seio da Mãe-Terra, uma vez por outra, ciclicamente, aflorando à face do Globo para transmitir a sua Sabedoria Divina aos homens e assim impulsionar avante o progresso universal[7]. Bem parece que a nós, ibéricos, particularmente aos luso-galaicos, transmitiram-nos a Tradição do Santo Graal sob a forma da Lenda Áurea de Santiago Maior. Ao encontro disto parece vir o próprio Charpentier, quando escreve na sua obra citada: “Desde a partida no caminho de Compostela, que a cor é “anunciada”. Trata-se de um caminho iniciático de pessoas que vão procurar, no seu ofício e mediante o seu ofício, um conhecimento superior ao mesmo tempo que uma transformação profunda de si próprios… e iniciando-se nessa procura através de não se sabe que cerimónias, primitivamente no próprio seio da Mãe-Terra de onde vem todo o saber e toda a transformação”.

As estrelas envolventes da Taça Eucarística símile do Santo Graal, em Santiago de Compostela

As estrelas envolventes da Taça Eucarística símile do Santo Graal, em Santiago de Compostela

Sendo a Rota do Graal velada pelo Caminho Jacobeo e tendo este sido fundada na própria Galiza, então esta só poderá significar a Terra do Caminho Santo. Com efeito, aquando do domínio romano o Noroeste ibérico era conhecido por Gallicia, no natural galo-céltico, e Calaecia em latim, sendo os seus habitantes – os gallaici ou calaicos, posteriormente o aportuguesado galegos – a principal tribo céltica da Lusitânia. Calaecia é a prosódia latina do original celta Calacia, nome aglutinante dos termos cala e aku, respectivamente, “caminho” e “santo”. O nome Calaecia ou Gallicia significa, portanto, Terra do Caminho Santo.

A rota vem a ser assinalada no étimo Rãs, em cuja igreja está o Senhor dos Caminhos, que é o Orago dos caminhos jacobeos portugueses. Rota ou, anagramaticamente, Taro. Desta palavra Taro, em língua semita e usando-se o método da temurah ou permuta de letras, resulta Tora(h), a quem os rabinos denominam de “Lei”. Taro (ou Tarot) acha-se composto dos vocábulos tar, “via, caminho”, e ro (ros, rog…), “rei, real”, traduzindo-se o conjunto como o Caminho Real da Vida (As-taroth), que é onde se processa a dinâmica da Iniciação Verdadeira de tudo e todos, tão bem assumida e assinalada no nome de aldeia próxima de Barcelos: Mariz, berço genealógico da família deste nome da qual alguns membros entrecruzariam os seus destinos com aquela Ordem Iniciática Secreta de étimo igual, fundada no mesmo século XII da aparição borgonhesa dessa família mas desta feita em São Lourenço de Ansiães,  consignada Ordem Espiritual Portuguesa que, informa a Tradição Iniciática das Idades, a mesma Tradição Primordial, em guisa de encoberta todavia permanentemente activa, esteve por detrás por principais lances da Portugalidade no Mundo.

Assim, voltando à lenda ex libris do romanceiro barcelense, a quem se deve o famoso “galo de Barcelos” (ex libris do artesanato local), parece ter sido ela quem fez derivar o nome da cidade dum latim tardio: Barcalus, que decomposto em bar e calus significa “Filho do Monte Celeste ou Sagrado”[8], título este que se perpetuou na famosa Festa das Cruzes local (talvez as mesmas estrelas de Santiago mas aqui transformadas em cruzeiros sinaléticos da rosta costeira), de medieva idade também andando associada à belíssima lenda que liga Barcelos a Matosinhos e à Praia de Fão, por causa de três cruzes saídas do mar por divinais intentos, uma delas, a de Barcelos, reza a lenda, coberta de vieiras.

Sendo os Mestres Espirituais Homens Solares no sentido já descrito, obviamente que o seu símbolo só poderia ser o galo, a ave simbólica do Sol Levante incarnado no Cristo, ou seja, da madrugada esplendorosa que esconjura as trevas da noite. O facto de no conto ele ter ressuscitado, não deixa de induzir a ideia da Fénix mítica que “renasce das próprias cinzas”, e é assim mesmo que aparece, num aparelho de azulejaria no antigo convento das beneditinas de Santa Escolástica de Barcelos, como galo-fénix contemplando-se no speculum magicum, como atesta a legenda sob ele: “Só se compõe bem quem se vê ao Divino Espelho”. Ao ser associado ao Enforcado na lenda, com esta designa um rito de passagem marcado por uma iniciação martirial, ou seja, a entrega dócil e incondicional à Divina Providência, aqui, a fé na certeza absoluta no socorro final de Santiago.

Isso mesmo é relevado numa das faces do padrão de “o galo e o enforcado”: Santiago, trajando de peregrino, suporta o enforcado, e logo acima apresenta-se o galo a que se sobrepõe o Senhor Crucificado. O significado da alegoria será: a crucificação iniciática do iniciado jacobeo cuja aurora da ressurreição espiritual o galo anuncia. Equivale ao estado de consciencial de Chrestus ou Arhat, em grego e sânscrito.

A providência de Santiago presente na lenda de "o galo e o enforcado"

A providência de Santiago presente na lenda de “o galo e o enforcado”

Com efeito, sendo o galo considerado universalmente um símbolo solar, por o seu canto anunciar o nascimento do Sol, a tradição hindu atribui-lhe a personificação de Skandha e Prana, ou seja, a Virtude e a Energia Vital provinda do mesmo Astro-Rei. Por ser também um emblema do Cristo, nele recai a ênfase do seu simbolismo solar: Luz e Ressurreição. Já no Livro de Job o galo é símbolo da inteligência recebida de Deus, cuja sabedoria é atributo exclusivo do Homem[9]. Como o Messias (Messiah ou Avatara), o galo anuncia o nascer do dia do esclarecimento espiritual que sucede às trevas da noite da ignorância das coisas divinas[10]. Por sua função de arauto – como o foi S. João Baptista, cuja cabeça degolada é venerada na igreja matriz de Barcelos – cabe ao galo ser colocado no lugar mais alto, nas flechas das igrejas e nas torres das catedrais. Essa posição, no cimo dos templos, evoca a supremacia da influência espiritual na vida humana, a origem celeste da iluminação salvífica, a vigilância da alma atenta para perceber, nas trevas da noite que morre, os primeiros clarões do Espírito que se levanta. Por isto, o Talmud faz do galo um mestre de polidez, porque ele apresenta o seu Senhor, o Sol, anunciando-o com o seu canto.

Igualmente no Islão o galo de goza de uma veneração sem igual em relação aos outros animais, e o Profeta Mahometh em pessoa dizia (Alcorão, sura 8:60): “O galo branco é meu amigo. Ele é o inimigo do inimigo de Deus… O seu canto assinala a presença do Anjo”. Atribui-se, da mesma maneira, ao Profeta a proibição de maldizer o galo que convida à oração. Mahometh ter-lhe-á conferido uma dimensão cósmica: “Dentre as criaturas de Deus – teria dito ele – há um galo cuja crista está debaixo do trono, os pés assentados na terra inferior e as asas no ar. Quando passarem dois terços da noite e só restar um terço a passar, ele bate as asas e diz: ‘Louvor ao Rei Santíssimo, digno de exaltação e santidade, e que não tem associado’. Nesse momento, todos os animais batem as asas e todos os galos cantam”[11].

Na outra face do padrão vê-se o Senhor Crucificado sobre um dragão, significando tanto a esconjuração das heresias quanto a saída da treva para a Luz, da noite para o dia. Aparecem também Santa Maria e São Paulo, além de uma Lua e um Sol. Maria é a Mater Mundi, e Paulo, com a espada e o livro, expressa a Pacis Cognoscio, a “Paz do Conhecedor”, este que expressa a Igreja Claustral, a da pastoral apostólica afim à própria natureza heterodoxa ou livre de Maria, corporificação do Espírito Santo ou Espírito Livre, cuja condição andrógina ou lunissolar (Sol e Lua), no fim de contas, é desde o primeiro momento prerrogativa do próprio caminho jacobeo, palmilhado por todas as condições humanas sem distinção de sexos, raças e credos.

Ressurreição e elevação é, afinal, a mensagem implícita no padrão velhinho de que nasceu a lenda agora tratada, passada às margens do Cávado ou Gab-Atu mesopotâmico, o parda ou rio das “Águas Celestes”, sobre o qual anuncia a aurora triunfante o galo cristóforo, ave sacralizada que faz de Barcelos jóia singular de Portugal que não é “cauda” mas cabeça de uma Europa orgânica constituída meio milénio após ele[12].

Enfim, paragem obrigatória no caminho jacobeo, visitar e peregrinar por esta linda cidade é, sobretudo, percorrer a via-sacra que leva da Cruz ao Monte e deste ao Céu, sendo tão-só o que significa Barcelos.

NOTAS

[1] Teotónio da Fonseca, O Concelho de Barcelos Aquém e Além-Cávado, volume I de II. Reprodução fac-similada da edição de 1948. Barcelos, 1987.

[2] Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas, 6 volumes. Edições Amigos do Livro, Lisboa, 1988.

[3] Vitor Manuel Adrião, Santiago de Compostela (Mistérios da Rota Portuguesa). Edição Dinapress, Lisboa, 2011.

[4] Juan G. Atienza, Leyendas del Camino de Santiago. Editorial Edaf, S.A., Madrid, 1998.

[5] Ernesto Amorim Magalhães, Barcelos no Passado e no Presente. Barcelos, 1958.

[6] Louis Charpentier, Santiago de Compostela, enigma e tradição. Editorial Minerva, Lisboa, 1973.

[7] Na Bíblia, no Livro de Job (28: 3-4, 20-23 e 27-28), lê-se: “O homem põe um limite às trevas, e esquadrinha, com exactidão, as rochas que estão em densa obscuridade. Abre galerias longe dos lugares habitados, que são ignoradas pelos pés dos transeuntes, porque estão em lugares inacessíveis. […] Donde vem, pois, a sabedoria? Onde está o lugar da inteligência? Está oculta aos olhos de todos os viventes, e até às aves do céu está escondida. O inferno e a morte dizem: Apenas ouvimos falar dela. Deus é quem conhece os seus caminhos e sabe da sua morada. […] Ele viu-a e descreveu-a, penetrou-a e conheceu-a ao fundo. Depois, disse ao homem: O temor do Senhor é a sabedoria, e fugir do mal é a inteligência”.

[8] Batalha Gouveia, A origem etimológica de Barcelos. “Jornal do Incrível”, Lisboa, 1983.

[9] Job, 38:36 – Quem pôs a sabedoria no coração do homem? Ou quem deu inteligência ao galo?

[10] Também a Maçonaria veio a adoptar o simbolismo do galo, dispondo-o na sua “câmara de reflexões” que antecede a entrada do neófito no templo, pondo-o como signo da vigilância e do advento da luz espiritual por via da transmissão iniciática. Na Alquimia, corresponde ao mercúrio hermético.

[11] Toufic Fahn, La naissance du monde selon l´Islam. In Sources Orientales, Paris, 1959.

[12] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

Cultura céltica na Ordem dos Templários – Por Vitor Manuel Adrião Domingo, Jul 10 2016 

A cultura céltica, nomeadamente a hispânica celtibera (celta e ibera), pelos dados históricos disponíveis, dá a entender que marcou decisivamente a organização Templária desde o Sul de França até para cá dos Pirinéus, como igualmente a sua actuação numa sociedade essencialmente rural, o que irá ser motivo de análise neste estudo.

Assim, além das culturas romana e árabe, quase nos primórdios do Período Histórico encontra-se a civilização celta incorporada à autóctone ibérica de que sairiam os lusitanos ou lugsignan, identificados aos ligures da Península Itálica que terão sido povo com sangue atlante descendente directo dos mais míticos que mitológicos Tuatha de Danand, os quais estão na origem da tradição e civilização ibérica e hibérnica (irlandesa)[1].

De raízes neolíticas, os lugsignan (mistura de celtas e iberos) certamente foram os arquitectos da monumentalidade lítica que hoje é testemunha dos primórdios da presença humana nesta nossa Península, eles os intuídos que cedo souberam estabelecer uma simbiose telúrica entre o espaço sideral e a Terra, a sua estrutura vital aflorada à superfície por campo de nódulos e correntes energéticas envolvendo todo o Globo. O celtibero e o lusitano conectaram a sua vivência com a disposição desse espaço energético, sacralizaram-no plantando monumentos (cromeleques, tholos, dólmens, antas, antelas, menires, etc.) onde eram mais intensa a afluência telúrica, e assim deram nascimento ao culto da Grande Deusa, a Deusa-Mãe, afinal, a própria Terra, fecundada pelo Sol e fecundante pelo poder das suas energias vitais, o que se revelava nas boas águas para beber e pescar, nos bons terrenos para semeadura e colheita, nos ares saudáveis e nos espaços verdejantes para pastorícia e saúde do gado. Essa foi a primitiva religião agrária, nómada por um lado, por se mover sob o pretexto de busca constante de terras e águas boas, e sedentária por outro, indo plantar castros e citânias para habitação em lugares oferecendo essas condições indispensáveis à manutenção da vida, as quais só poderiam atribuir à Grande Deusa, Mãe Primordial de todos os demais deuses zoomórficos e antropomórficos em que se constituía o seu monopanteísmo original, de que deixaram testemunho à posteridade nesses lugares, repito, previamente demarcados por basta e variada monumentalidade lítica.

Nascem assim os bosques sagrados, os lagos sagrados, as montanhas sagradas, as grutas sagradas, etc., sempre assentes em confluências de telurismo intenso, como acontece no aro megalítico do Alentejo, que junto com Sagres e Sintra formam o espaço telúrico de maior intensidade do país[2]. Esses conhecimentos geomânticos primitivos viriam a ser recuperados pelos Templários para se instalarem em espaços já anteriormente demarcados e consignados sagrados pela religiosidade celta, os quais vieram a dar no que hoje se convencionou chamar de “enclaves mágicos” do Templo, tão celebrizados por uma cultura marginal “pop new age” mais urbana que rural, campesina, paisan ou “pagã” como era na origem.

Herança desse dominador mágico celta herdado pelo Saber Templário em meio de uma sociedade predominantemente rural, tem-se:

1 – As bases geométricas da Arquitectura, como se repara, por exemplo, na composição dos cromeleques “quadrados” com o menir fálico, da pujança viril, cravado ao centro, que viriam a estar na inspiração geométrica do “quadrado da terra” e do “padrão” ou mundus da arquitectura românica nascida dos colegia fabrorum ou de artífices da Roma antiga. Há mesmo casos repetidos de antas primitivas terem sido posteriormente adaptadas a ermidas e capelas cristãs, como também o do aproveitamento do espaço de antigos cromeleques para sobre eles se assentarem as bases de igrejas e castelos, e assim igualmente o aproveitamento de muitas mamoas para “mães d’água”.

2 – O conhecimento geomântico exacto do movimento das linhas telúricas da Terra e os pontos de encontro de várias delas como nódulos telúricos, assim sabendo onde estavam as terras e águas boas para semeadura e consumo, como igualmente o lugar preciso para plantar um edifício, sacro ou não, que ficasse isolado das correntes negativas afectando o espaço ambiental e meteorológico, e assim aos temperamentos humanos e dos restantes seres vivos (animais, vegetais e minerais).

3 – O conhecimento exacto das propriedades medicinais das plantas e minerais, ou seja, a farmacognosia, aplicada como farmacologia natural sendo claramente um saber taumatúrgico herdado dos celtas. Foram os médicos do Templo quem descobriram a causa da lepra negra (assim chamada por deixar os corpos enegrecidos, em putrefacção ainda vivos, contaminando de imediato outros): estaria no centeio (com que se fazia o pão) plantado em zonas pantanosas próximas do mar, contaminado pelo salitre e pelos insectos.

Esses são exemplos da recolha feita do saber celta pelos mais doutos do Templo, e que tanto a religião como a medicina populares, do conhecimento dos mais antigos, ainda preserva[3].

Cromeleque "quadrado" do Xarez em Reguengos de Monsaraz, Alentejo

Cromeleque “quadrado” do Xarez em Reguengos de Monsaraz, Alentejo

Bem antes da presença celta regista-se na Península Ibérica a existência dos ligures, a quem Saint-Yves d’Alveydre (nos seus Arqueómetro e Missão dos Judeus) chama de “mestres do mar”, ao decompor a palavra em li+guru, o que lhes atribui origem além-Atlântica, isto é, atlante, cujos conhecimentos de navegação igualmente se reflectiram naqueles outros fenícios proto-históricos. Os ligures ter-se-ão mesclado aos iberos e dado essa etnia nova dos lugsignan ou lusitanos, cuja existência longa iria atravessar vários milénios a ponto de virem a fundir-se depois tanto nos celtas, dando os celtiberos, como nos romanos, dando os luso-romanos.

Os lusitanos, já então celtiberos, receberam o legado cultural e mágico dos primitivos lugares (isto é, lug+ara, “altar de Lug”) consagrados ao culto desse deus supremo do panteão ligure, a par de sua esposa Lusina, destinada à eleição de padroeira dos construtores-livres no período cristão, tanto sob a feição de Santa Madalena como de Santa Luzia. São marcas indeléveis da presença de Lug os referidos lugares “Lug” ou “Lux”, no contexto geral a Lusitânia inteira, como “Terra de Luz”, e no mais particular Lisboa, Logroño e Lugo, por exemplo, no caminho da peregrinação a Santiago de Compostela e nos caminhos encobertos da Intra-História peninsular. Lug (depois assumido como deus Endovélico pelos celtiberos e que o judaico-cristianismo identificaria a Mikael ou São Miguel, tudo em conformidade à sucessão dos ciclos religiosos nas respectivas antropologias civilizacionais), obreiro universal, demiurgo, mestre de artes e alquimista, músico, guerreiro e mago, o poderoso deus tutelar da Lusitânia que os ligures e os celtas transportaram consigo na sua marcha para onde o Sol se põe, as Occidens, com os olhares fixos no caminho estelar de Santiago ou a Via Láctea e tendo por guia o Canis Majorem, a estrela do Cão (símbolo jacobeo do guia, guardião e protector do peregrino viandante ou itinerante), chegando finalmente as finis Terrae, onde toda uma civilização megalítica e castreja foi plantada junto à orla atlântica ornando o espaço do que é hoje Portugal[4].

O caminho tortuoso da Iniciação Ligure ficou assinalado nos labirintos decorando o espaço interior de várias catedrais cristãs, como a de Chartres[5] e a de Santiago de Compostela, nesta última palmilhado pelo peregrino que a adentra indo prestar homenagens ao Apóstolo, desde o Pórtico da Glória com a Coluna de Jessé até à descida na cripta onde repousam os pressupostos restos mortais de São Tiago Maior, encerrados num sarcófago de prata. Este labrys ou redondo para o ponto central de si mesmo, é representado em uma escala simples e lúdica pelo simbolismo do Jogo da Glória ou do Ganso, “oca” em espanhol, e que foi o emblema de Lusina adoptado como insígnia dos construtores-livres medievais, pois, como se vê nas estelas funerárias do antigo cemitério de Iria Flávia,  a maioria deles assinava as suas obras com um pé de ganso, forma estilizada simples da flor-de-lis, esta considerada na Tradição Iniciática símbolo da Consciência Universal como lótus sagrado de Agharta.

Rafael Alarcón[6], acerca do Jogo do Ganso ou da Pata (a pata do ganso, a meu ver, já que o pato é a expressão mais doméstica do ganso, aquele mais passivo e aquático e este mais irreverente e ígneo), diz o seguinte:

“Há um complicado puzzle de símbolos ancestrais que querem significar algo muito mais distinto do que representam: um cisne e uma pata têm três filhos, dois pequenos cisnes e uma pequena pata; a pequena pata é raptada por um herói grego, já cinquentão, que havia conseguido entrar e sair do labirinto de Minos vencendo os seus perigos graças aos ensinos dum centauro; os irmãos cisnes vão resgatá-la para evitar que Helena-pata sofra a sorte de Ariadne, abandonada pelo seu herói pouco depois de ter sido raptada. Anos mais tarde a pequena pata, já crescida, será raptada por um troiano; serão então todos os gregos a quererem-na resgatar, provocando a conseguinte guerra no transcurso da qual se inventará o Jogo da Pata.

“É desde logo uma mitologia “labiríntica”, plena de símbolos com duplo e triplo sentido, que só pode ser desmascarada seguindo um fio subtil. Talvez o fio de Ariadne, levando à porta do labirinto? Labirinto espiralado que os Companheiros puderam percorrer, indistintamente, no lombo da Jaca-Cábala, a pé com as suas patas palmeadas, ou cavalgando sobre um caracol…

“Retornando aos nossos Companheiros medievais, há certos signos ou elementos simbólicos que lhes são próprios correspondendo-se paralelamente com elementos do Caminho Jacobeo e do Caminho da Pata, ainda que seja, quiçá, mais acertado dizer que determinadas casas do Jogo da Pata estão marcadas, definidas, pelos simbólicos elementos ocultos do Caminho de Santiago…

“A entrada, podemos comprovar em todos os tabuleiros, antigos e modernos, fica assinalada pela pessoa “mágica” do personagem que, sobre o desenho, vai realizar a peregrinação. O dito personagem, que pode aparecer tanto numa casa especial sem número como na número um, adopta as mais variadas características: um jogral, um gnomo, um mago ou astrólogo, um peregrino, etc., o qual costuma aparecer numa destas duas posturas: ou está em atitude de lançar os dados para começar o jogo, ou então conduz uma pequena bandada de patas incitando-as com a sua vareta a caminhar pelo caminho espiralado. Em qualquer dos casos fica claro que o nosso personagem simboliza o Mestre Iniciador, disposto a guiar-nos pelo caminho com a ajuda da sua vareta mágica ou com as instruções contidas nas medidas harmónicas dos dados, verdadeiras pedras angulares do jogo, como de toda a construção teórica.”

Realmente, a disposição desse jogo é muito significativa. O tabuleiro compõe-se de 63 casas, valor que reduzido teosoficamente dá 9, número dos ciclos da Terra (e a cada 9 casas dá-se novo período de jogo), e à divisão do círculo em “9” os monges-construtores chamavam de “pata de ganso”, sendo daí que o jogo recebeu esse nome. Na casa 58 (valor que somado e reduzido dá o Arcano 13) tem-se a “Morte”, e quem a vencer ou transpor fica a 5 casas de chegar à Glória, à Vitória, à Perfeição Humana que é o que o 5 alegoriza.

Sobre a Iniciação Ligure praticada pelos Lusitanos, tive oportunidade de descrevê-la na minha História Oculta de Portugal (cap. 15, pp. 300-302):

“Voltando aos dólmens, eram formados por uma câmara octogonal, interiormente da altura de um homem e com um pequeno corredor de acesso, com cerca de 1,2 m de altura. Assim constituído teria o formato de um útero, o útero da Mãe-Terra onde só podiam entrar, logicamente, pessoas do sexo masculino, devido aos opostos macho-fêmea.

“A câmara octogonal devia situar-se sobre o cruzamento de dois lençóis de água subterrâneos, ponto nevrálgico para onde o telurismo converge fazendo se sentir mais. O formato em octógono, para os Lugsignan, permitia a recepção máxima dessa força e a sua reflexão para o centro da câmara onde o iniciado, nos momentos propícios ao acto solene, mantinha-se de pé 24 horas[7].

“O dólmen possuía tradicionalmente uma tríplice porta, duas entradas laterais e uma central, todas com cerca de 1,6 m de altura, o que forçava, a quem a transpunha, baixar a cabeça – sinal de veneração e humildade perante a cerimónia de iniciação que se iria desenrolar. O momento escolhido era decidido em função do posicionamento dos astros, no instante em que as forças telúricas atingissem, no entendimento esotérico dos druidas, o máximo de fixação e irradiação local[8].

“Depois disso o iniciado era obrigado a inclinar o tronco para atravessar o pequeno corredor, de 1,2 m de altura, até à câmara. Acreditavam os druidas (termo oriundo do celto-bretão dru-vid, “o que possui a sabedoria e o poder”) que essa posição forçada lhes permitia a valorização do nível emocional do corpo humano. Eles acreditavam existir 3 níveis – o mental para o cérebro, o emocional para o coração e o impulsivo para o baixo-ventre –, quase se anulando o primeiro e o último níveis naquela posição. Havia mesmo dólmens (como o de Torres Novas, por exemplo) em que o corredor só podia ser transposto rastejando… como a serpente, simbólica das sinuosas correntes telúricas, facilitando assim uma comunhão mais íntima com as forças interiores da Mãe-Terra.

“Em conformidade sintónica com o momento ideal de recepção do máximo de telurismo vibrante, entravam na câmara octogonal e durante 24 horas mantinham-se de pé no seu centro, o tempo necessário para a rotação completa da Terra. Estavam prontos, depois, já devidamente instruídos, para desempenhar a missão que lhes iria ser confiada como novos druidas.”[9]

O "tellus draconis" celta no Castelo Templário de Tomar

O “tellus draconis” celta no Castelo Templário de Tomar

Pois bem, quando os celtas, vindos da Gália e da Bretanha, atravessaram os Pirinéus e se instalaram na Península Ibérica, incorporaram o elemento autóctone ibero-lusitano o qual, por sua parte, também os incorporou, e assim nasceram os celtiberos.

O nome celta ou kelta tem a sua raiz no etimólogo ligúrico eld, ald ou oold, que encontramos na kaldeia ou aldêia, a comunidade hindu, e igualmente na aldeia, a comunidade rural portuguesa. O termo celta ou ka-eld indica, pois, a “assembleia dos anciãos”, ou sejam os druidas, cujo colégio constituía o poder central da pequena sociedade rural que era a aldeia e cujo modelo serviu, depois, para os Templários organizarem e dirigirem o espaço social inserto no território sob a sua jurisdição com o governo centralizado em alguma Casa sua.

Esses eram os primitivos galos oriundos da Gália, aos quais a Galiza deve o nome, dizendo Jorge Ramos[10] que os seus condutores espirituais, os druidas, não só tinham como centro referencial do seu culto o Sol, Oiw, como igualmente cultuavam a Ísis céltica, Ceres ou Ceridwen, afinal, a Natura Naturante et Naturata.

Júlio César dedica aos druidas três capítulos dos seus Comentários, e Estrabão e Artemido comparam os seus ritos aos de Samotrácia, apesar de Dionísio de Halicarnasso (8. a. C.) os equiparar aos de Baco, ainda que, em boa verdade, possuíssem todas as características do Rito Mitraico. Por Diógenes Laércio e Júlio César sabe-se que o método druida de instrução era por símbolos, enigmas e alegorias, sendo a explicação só oral, enquanto por escrita era proibida (coisa que os Templários também terão feito, e daí a dificuldade em encontrar hoje documentação de sua própria lavra). Também se diz que as suas cerimónias de iniciação admitiam tanto homens como mulheres (tal qual como entre os Templários), e exigiam muita purificação física, moral e mental. A iniciação dividia-se em períodos trimestrais, celebrando-se durante os Equinócios (para as mulheres) e os Solstícios (para os homens), compreendendo três graus em que se dividia a hierarquia druida, cujo conselho dos 12 anciães estava organizado em torno de um 13.º, o arquidruida.

Portanto, tem-se:

Joaquim Gervásio de Figueiredo[11] diz que os principais mandamentos impostos aos druidas, eram: “Obediência à Lei Divina. Interesse pelo bem-estar da comunidade. Suportar com fortaleza todos os males da vida”. Adianta o mesmo autor que terminando o seu período probatório, vestiam o candidato com uma túnica de estrias brancas, azuis e verdes, cores da Verdade, Devoção e Simpatia, alegorizando os Mundos Espiritual, Psíquico e Material; encerravam-no numa tumba com o formato interior de um corpo humano e aí ficava deitado durante três dias em transe profundo (que nada tem a ver com os famosos “estados catalépticos” da confusa psicanálise e nem, tampouco, com os “transes animistas” do deplorável espiritismo, ou melhor, animismo psíquico, mas mais com a consciência desdobrada da forma física em projecção ao nível espiritual). Após despertar, o iniciado mantinha-se sob as ordens do Iniciador e este fazia-o dar nove voltas no santuário, com um passo comedido no começo mas aumentando até terminar numa carreira rápida. Enquanto fazia essas circunvalações, ouviam-se instrumentos musicais e recitações em louvor daqueles que foram heróicos na guerra, corteses na paz e amigos na religião. Terminada essa cerimónia, o neófito jurava guardar segredo e passava por diversos actos nos quais representava vários personagens, exclamando entre outras coisas: “Eu morri” e “Eu ressuscitei”, em alusão à morte e ressurreição místicas. A este respeito comenta o dr. Olivier na sua History of Initiation, pág. 146: “Nisto consistiam a morte e o sepultamento celebrados nos Mistérios Druídicos. Ao terminar os nove meses, dizia-se que o aspirante havia nascido de novo do ventre da deusa Ceridwen e declarava-se que, por isso, era agora uma pessoa regenerada, purificada de suas antigas impurezas”.

Desconheço a existência de algum documento coevo dos Templários explicitando que também eles realizavam o rito da morte e ressurreição, mas conheço vários monumentos funerários seus nos quais os interiores dos túmulos estão cavados em forma humana, como se verifica, por exemplo, em Monsanto e em Vila Franca de Xira, domínios que foram seus.

Tanto nas Gálias como na Bretanha, os druidas foram tratados com o máximo rigor pelos invasores romanos depois de uma heróica e tenaz resistência, devido ao poder da sua influência política e religiosa sobre o povo, como relata Tácito e outros. Mas no norte de Inglaterra eles subsistiram ainda até 714 d. C., aquando os monges de Iona foram expulsos da Escócia pelo rei picto Nechtan, e o seu lugar foi em grande parte ocupado pelos culdeus da Irlanda, que parece terem seguido a mesma tradição até ao século XIV, quando desapareceram dos anais históricos da Europa, mas não sem antes terem infundido na religiosidade cristã e rural esses cultos e crenças pré-cristãs, cuja fase mais notória da sua infusão foi precisamente a páleo-cristã (visigótica).

Todo o itinerário lusitano e celtibero desde Sagres a Finisterra está sulcado de testemunhos megalíticos assinalando a sua presença, e nesses mesmos espaços telúricos onde estão não raro os Templários construíram próximos a eles castelos, conventos, igrejas, capelas e ermidas, como que assimilando a potência antiga Druida à novel Templária[12].

O autor junto ao Menir do Outeiro ou Penedo Comprido, em Monsaraz, o maior da Península Ibérica

O autor junto ao Menir do Outeiro ou Penedo Comprido, em Monsaraz, o maior da Península Ibérica

Chega-se mesmo a ver dólmens convertidos em capelas, o que dá continuidade à tradição do megalitismo agora no terreno da Cristandade que a recebeu em boa parte graças, decerto, à influência do saber geomântico dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão. Um caso notável tem-se no limiar da povoação de Alcobertas, junto da Serra de São Bento, a caminho de Rio Maior. Vê-se aí a singular igreja de Santa Maria Madalena com um dólmen do Paleolítico transformado em ermida adossada a ela. E diz a lenda que foi a própria santa quem transportou à cabeça todas aquelas pedras para ali, impondo assim a construção da igreja arrimada ao dólmen e destruindo todas as noites as tentativas de edificação noutro lugar[13].

A «pecadora» galileia, Myriam Ben Magdala, é bem a versão cristã e cortês de Melusina ou Lusina (a mesma Atégina celto-lusitana)[14], a Deusa-Mãe dos povos proto-históricos destinada a ser Orago dos construtores-livres. Esposa do deus Lug, observa-se este na nova versão tanto do Apóstolo Lucas como do mártir Lourenço, o santo que, por «acaso», está sempre presente nos enclaves mágicos dos Templários, lugares igualmente propícios à observação dos fenómenos celestes como esse das “chuvas de estrelas”, às quais o povo chama de “lágrimas de São Lourenço”. Santo solar ou ígneo, indicia sempre um itinerário da mesma natureza pelo que, com as devidas e raras excepções, marca  presença no começo ou final deste, razão de ser dessas capelas de São Lourenço em Tomar, de Carnide em Lisboa, junto à Pontinha desta, de Azeitão, às portas da Serra da Arrábida, ou ainda de Budens, a caminho do Promontório de Sagres pouco antes da “Vila” do Infante D. Henrique, ou seja, a Quinta da Guadalupe.

O saudoso amigo Juan Garcia Atienza, não hesita em atribuir a São Lourenço a “advocação graálica”[15], cuja lenda hagiográfica é claramente decalcada das tradições gahélicas dos Tuatha-de-Danand transmitidas pelos monges culdeus irlandeses dos primeiros séculos da Idade Média, por cujas narrativas acabaram transformando o céltico Caldeirão de Daghda no cristão Santo Cálice assumido o da Última Ceia e do Calvário.

Já Maria Madalena é identificada simbolicamente ao Útero Materno da Terra, à Cripta, ao Hipogeo, rezando as tradições provençais que após a sua chegada à Europa recolheu-se numa caverna no Sul de França, conhecida como Saint Baume (“Gruta Santa”), onde diariamente orava as sete Horas canónicas[16]. Este episódio encontro-o repetido tanto em São Bento da Porta Aberta, no Minho, como na Gruta do Monge, no Parque da Pena de Sintra, transformada de dólmen em oratório de um anacoreta jerónimo da Serra da Lua[17].

Assim como Santa Madalena e São Lourenço foram personagens caríssimos no Santoral Templário, igualmente não se deve esquecer Santa Brígida.

Brígida nada mais é que Brigite, a divindade céltica reverenciada em todo o Ocidente europeu. Era filha de Daghda, o mítico deus-rei dos Tuatha-de-Danand, e esposa de Bress, rei do povo Fomoré. Dele teve três filhos: Brian, Iuchar e Uar, que foram tidos por génios da inspiração. E o embróglio mítico-simbólico desfeche com o feito dos três engendrarem um só filho de todos eles a quem chamaram Ecné (cujo fonema soa Hermé ou Hermes), significando “saber, ciência ou poesia”. A Brigite também chamaram Dana, donde os Tuatha-de-Danand terem sido o “povo de Dana” ou Brigite. Houve mesmo cidades que foram levantadas em honra desta divindade feminina, como Braccara (Braga) e Brigantium (Bragança)[18].

Além da Santa Brigida da Suécia canonizada pelo Papa Bonifácio IX em 1401, que viveu entre 1303 e 1373 e foi fundadora da Ordem do Santíssimo Salvador e mãe da também Santa Catarina de Siena, não devendo ser confundida com aquela de Alexandria no século IV, a homóloga Santa Catarina (do grego Katharós, “Puríssima”, cuja derivante é Katter, raiz de Cátara como “Pura”, caríssima à devoção Templária, e que estará na génese do ramo familiar Costo ou Costa), aparece uma outra mais obscura Santa Brígida decalcada directamente da Brigite celta, sobre quem pouco se sabe excepto que viveu entre os séculos X-XI, era natural da Escócia ou da Irlanda e filha dum tal Duptaco (Daghda?). Para se consagrar inteiramente a Deus sem que fosse incomodada pelos apetites carnais dos homens, já que era muito bela, Ele desfigurou-lhe um olho e assim tornou-a feia; dessa maneira pôde começar um rol de milagres em nome do Altíssimo, um deles o de fazer brotar fontes de água cristalina para dessedentar os caminhantes sedentos[19].

É esta última Santa Brígida que se vai encontrar no Santoral Templário, achando-se notícia exacta da mesma em Lisboa, na parede exterior lateral à entrada da igreja de São João Baptista do Lumiar (termo de raiz Lug ou LuzAlumiar, reforçado por outros tantos nomes de localidades vizinhas com igual sentido luminoso: Odivelas e Loures), estando encrostadas nela três sepulturas, lendo-se na terceira a epigrafia lapidar seguinte:

Os ditos três Cavaleiros (parecendo apontar à sugestão do mito hibérnico ou irlandês dos três filhos de Brigite) seriam Templários, pois que a igreja de São João do Lumiar estava antanho dentro dos terrenos do lugar da Ameixoeira que era pertença da Ordem do Templo e que a Ordem de Cristo herdou como “comenda velha”, conforme informam as Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, na parte IV, Título II, “Das Comendas e Fazendas da Ordem”, página 147, Lisboa, 1746: “Os bens que a Ordem tem na Ameixoeira, também estão dados por emprazamento”.

Em 1283 era Grão-Mestre Provincial do Templo em Portugal D. Frei João Fernandes, que andou de ligações estreitas com D. Dinis e D. Afonso, o Sábio, tendo detido três Mestrados: os de Portugal, de Leão e de Castela, quase tendo obtido também o da Catalunha, como informa Frei José de Brito nas suas Memórias da Ordem do Templo (inédito existente na Biblioteca Nacional de Lisboa).

Não deixa de ter interesse para o caso o facto dos saloios da Ameixoeira serem precisamente apodados de “catalões”. Terá isso a ver com alguma emigração hispânica para aí promovida pelos Templários? Seriam catalões os cavaleiros que trouxeram para aqui a cabeça de St.ª Brígida da Hibérnia ou Ibérnia, a Irlanda, a mando do Grão-Mestre D. João Fernandes?

Mas, mais importante, por que só a cabeça? Há em tudo isto uma forte sugestão bafomética, atendendo a quanto já se disse anteriormente, o mesmo acontecendo com a cabeça de St.ª Iria. Ainda hoje se cultua nesta igreja de São João Baptista do Lumiar a relíquia de Santa Brígida da Irlanda: uma parte do crânio, depositada numa urna de prata dourada, elegantíssima, estilo D. João V, que se diz ter vindo do Mosteiro de São Dinis de Odivelas.

Mais além do Lumiar e passando a ermida de S. Sebastião, tem-se a escassos quilómetros a igreja e convento de Nossa Senhora da Luz que foram da Ordem de Cristo, tendo a primeira sido fundada no reinado de D. Afonso V em 8 de Setembro de 1464, então uma simples ermida votiva em memória da Virgem ter aparecido em “Luz” aí, junto à chamada Fonte da Machada, ao cavaleiro Pêro Martins. Mas já antes, em 13 de Setembro de 1442, o rei doara ao seu sobrinho, o Infante D. Henrique, essa mesma paróquia de Carnide[20].

Paulo Pereira diz com muito acerto[21]: “Deve registar-se, neste caso, a proximidade de um topónimo com conotações “luminosas” idênticas: Lumiar. E é quase certo que entre a Luz e o Lumiar, através da ermida de São Sebastião e até à igreja de São João Baptista, se perpetue um antigo “caminho dos mortos” ou “estrada do Sol”, segundo a tradição das leys”[22]. Sem dúvida, porque a igreja de S. João Baptista está anexa ao cemitério da Ameixoeira, e a de N.ª Sr.ª da Luz está próxima do cemitério de S. Lourenço de Carnide, cuja igreja e adro anexo ainda conservam alguma memória da presença Templária.

Além disso e indo à sua filologia, Carnide é nome comportando o tema egeu-anatólico car ou kar, “pedra”, aproveitado pela língua celta, enquanto o feminino ker encerra o sentido de “morte”, pelo que se poderá interpretar o etimólogo Carnide com o significado de “caminho da morte”, ademais sendo Ker a divindade feminina psicopompa que conduz as almas dum lado ao outro do caminho da vida, a qual, com a advento do Cristianismo, foi substituída por N.ª Sr.ª da Boa Morte, Hipóstase da Mãe de Deus que todos esperamos venha a rogar, a interceder por nós na hora de nossa morte e nos leve em Luz ao seu Divino Filho, para Este nos julgar em conformidade às nossas acções neste vale de lágrimas. Por esta razão necrolática, Carnide tem por Orago Nossa Senhora da Luz, reforçado pelo igualmente luminoso ou solar São Lourenço, ambos anunciados logo à entrada do “caminho das almas” por São João Baptista, o que transporta o etimólogo Carnide à aproximação daquele outro asiânico, Aragata, “Cordeiro Santo”, tanto valendo por Agnus Dei, afinal, atributo iconográfico do Anunciador.

Vestígios templários no adro da igreja de São Lourenço de Carnide

Vestígios templários no adro da igreja de São Lourenço de Carnide

A igreja de N.ª Sr.ª da Luz, mandada fazer pelo cavaleiro de Cristo Pêro Martins e inaugurada na supradita data de 8 de Setembro de 1464, pela Festa da Natividade de Nossa Senhora, recebeu então na sua capela a miraculosa do Orago, a cujo acto estiveram presentes o bispo de Lisboa, D. Afonso Nogueira, o rei D. Afonso V, a corte e muito povo, como descreveu Frei Roque do Soveral[23].

A imagem da Virgem miraculosa foi descoberta em 1463 por Pêro Martins, na pequena gruta sobre que assenta a igreja e cujo altar-mor ergue-se precisamente sobre a fonte de águas santas ou miraculosas, o que denuncia uma arquitectura de características geomânticas e levando, pelos atributos de luz ou fogo e água, a associar o Orago à própria deusa primitiva dos construtores-livres, Lusina, enquanto Lug está mais adiante, assinalado em São Lourenço na sua capela.

Com efeito, a imagem morenada da Senhora, junta ao seu atributo, Luz, não deixam de sugerir tratar-se da encapotada Virgem Negra Lusina, assim como a fonte milagrosa a capacidade miraculosa de Santa Brígida em fazer irromper nascentes, ambas ligadas a um tipo de culto notoriamente linfo-matriártico e cripto-lunar.

Pêro Martins deu com a imagem depois da Virgem lhe ter aparecido em sonhos repetidamente durante um mês, na altura em que estava prisioneiro dos mouros em Tânger, numa data incerta, talvez 1437, talvez 1459. As palavras consoladoras de Nossa Senhora ao desgraçado cavaleiro cativo, são reproduzidas pelo mesmo Frei Roque do Soveral:

“Filho, consola-te. Eu te livrarei do cativeiro em que ora estás. E como te livrar, ainda que sejas pobre e de parentes necessitados, não deixarás de fazer o que agora te digo. Irás ao lugar de Carnide no Termo de Lisboa, donde és natural, e fazer-me-ás sobre a Fonte da Machada uma ermida como tu puderes. E será a invocação de Santa Maria da Luz, por ser este o nome que me convém e de que meu Filho é servido me chame. Nesse lugar há-de ser meu nome glorificado, honrado e aumentado com muitas maravilhas e milagres que nele serão feitos por minha intercessão em muitas pessoas devotas. E quando chegares, já lá acharás de minha luz e claridade os sinais, que teus naturais hoje vêem sobre a mesma Fonte da Machada. Aí acharás (buscando-a) uma imagem minha, a que farás o que te digo, e nela mostrarei o que sou.”

Liberto o cavaleiro de seu cativeiro, graças à intercessão da Ordem dos Trinos ou da Trindade, logo se apressou a achar a imagem e dar início à construção do templo sobre a cripta donde, narram todos os autores, irradiava uma luz semelhante ao arco-íris, o que veio a ser grafado no topónimo actual do sítio e da titular: Luz. A própria fala lendária da Senhora ao cativo mais parece um incitamento à conquista do V.I.T.R.I.O.L.: Visita Interiora Terris Rectificando Invenies Occultum Lapidem – “Visita o Interior da Terra e rectificando encontrarás a Pedra Oculta”.

Como disse, Pêro Martins deu com a imagem na gruta donde irrompe a água milagrosa que vai alimentar a anexa Fonte do Machado ou da Machada, como já aparece grafada num documento de 27 de Maio de 1311. A sobredita era Urraca Martins Machado ou Machada, donatária de Chelas e freira cisterciense no mosteiro de São Bernardo em Carnide, cujos votos abandonou optando pela vida civil[24].

Regista-se a notícia de já em 1325 haver “casa religiosa” de freiras da Ordem de São Bernardo nesta freguesia de Carnide[25]. Igualmente os freires bernardos (cistercienses após a reforma da Ordem) aqui tiveram “casa religiosa” anexa à igreja de São Lourenço, os quais vieram do mosteiro de Seiça (Montemor-o-Velho, Coimbra), conforme noticiaram Frei Bernardo de Brito (in Crónica de Cister, pp. 854-855, Lisboa, 1720) e o Dr. Baltazar de Faria (in Corpo Diplomático Português, V, p. 242, Lisboa, 1874).

Como já foi dito, a hierarquia tradicional de valores dos Druidas celtiberos terá influenciado a posterior hierarquia Templária numa sociedade, repito, mais rural que urbana, desde a herança de conhecimentos tradicionais à respectiva ordenação escatológica. Inclusive pode fixar-se uma tabela de similitudes nas principais funções de ambas as estruturas, como sejam:

Igualmente encontra-se na arquitectura uma proximidade que liga por sua disposição de forte sentido simbólico a megalítica à medieval do Templo, como se regista principalmente na feitura dos kraks ou castelos deste, os quais originalmente englobavam a cidadela, tal qual os fortificados celtas incluíam a citânia, simbolismo denotado nas cidades lídias caracterizando-se por uma tríplice cintura muralhada que, aquém do sentido iniciático, as protegiam das investidas inimigas, como se verificou nas antigas cidades gregas de Lerna, Tirinto, Micenas, etc., e nas portuguesas de Leiria, Tomar, etc.[26]

Essa cintura muralhada tríplice, entre os citas que deram nos celtas, possuía um grande sentido simbólico, apresentando-se a disposição geral formada por três quadrados concêntricos ligados entre si por quatro linhas em ângulo recto, expressando as artérias principais.

Para Paul Le Cour e René Guénon[27], trata-se do simbolismo da “tríplice muralha” dos castros fortificados celtas cujo significado metafísico, além do utilitário imediato, os sacerdotes dessa raça, os druidas, vieram a propagar de tal maneira que acabou vulgarizando-se em várias formas de jogo, como o “jogo do moinho” e até, com menos traços mas não deixando de ser, na marcação dos campos de futebol.

Com efeito, para os druidas a “tríplice muralha” representaria os três graus da sua hierarquia sacerdotal: druida, vate e bardo, isto é, sacerdote, profeta e instrutor. O candidato ia subindo na hierarquia até chegar ao grau supremo, equivalente ao “Grande Centro” ou Pantheon dos Heróis dessa primitiva religião europeia, como já tive ocasião de dizer quando analisei figura idêntica à que está acima, gravada na parede lateral à entrada na Escola de San Rocco, em Veneza[28].

É assim que René Guénon classifica o significado esotérico das três muralhas como expressivo dos três graus básicos do sistema de iniciação, de tal maneira que o seu conjunto pode muito bem ser, de certo modo, a representação da hierarquia druídica como expressão tradicional do ensinamento iniciático. Com essa mesma explicação, o sentido das quatro linhas dispostas em cruz, que ligam as três muralhas, torna-se de imediato muito claro: serão os canais por meio dos quais o ensinamento da doutrina tradicional se comunica de cima a baixo, a partir do grau supremo, que é o depositário legal desse mesmo ensinamento, repartindo-se hierarquicamente pelos demais graus. A parte central da figura corresponderá, portanto, à “Fonte da Tradição”, de que falam Dante e os Fidelli della Amore, e a disposição crucial dos quatro canais que dela partem identifica-se aos quatro rios do Pardes ou Paraíso. Nesse caso, o centro da figura, como “Fonte da Tradição”, corresponde à Autoridade Espiritual ou Sacerdotal, e os canais subalternos expressam o Poder Temporal ou Real, onde a interacção entre os dois poderes é permanente mas com o primeiro revelando-se pelo segundo, tal qual o Paraíso Celeste se manifesta no Paraíso Terrestre, assim como o Centro Supremo do Mundo (Salém, Shamballah, etc.) se revela nos Centros Sagrados esparsos pelo mesmo Mundo.

Na Idade Média e um pouco por toda a Europa, também foram construídos castelos com tríplice muralha em lugares previamente assinalados pela Tradição Primordial como sendo propícios a uma maior proximidade ao Mundo Espiritual por via das poderosas energias telúricas aí concentradas, e igualmente das boas conjunções dos astros auspiciando esses assim consignados “lugares mágicos”, o que se conformava às primitivas regras das leys.

A “tríplice muralha” medieval acabou assimilando o significado que tinha entre os celtas e veio a assinalar a hierarquia da Cavalaria: cavaleiro, escudeiro e pajem, cuja evolução do candidato à nobreza das armas começava do mais exterior para o “Grande Centro”, este representado pelo rei do país ou pelo governador do lugar.

Também na Idade Média mas para a espiritualidade judaico-cristã, essa figura geométrica sintetizava o sentido do bétilo, ou seja, da “pedra sagrada, considerada como morada de um deus”. É assim que aparece a figurar o próprio Templo de Salomão, em Jerusalém, como o descreve a Bíblia (I Reis, 7:12), com a sua tríplice cintura que separava o povo dos levitas e estes do sumo-sacerdote, o único com acesso ao centro onde estava o “Santo dos Santos” (Sanctum Sanctorum), lugar reservado à Arca da Aliança. Como o Templo de Salomão representava o próprio Paraíso Terrestre, então o simbolismo geométrico da “tríplice muralha” será, em última análise, figurativo desse mesmo Éden Primordial.

A haver Paraíso Terreal haverá Paraíso Celestial como seu modelo, o qual é indicado no Apocalipse (21, 11:22) como a Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados. Para que a figura geométrica a represente, deve colocar-se diagonalmente as quatro linhas em cruz em relação aos dois quadros extremos, a fim do espaço compreendido entre eles ficar dividido em doze triângulos rectângulos iguais, simbolizando as doze portas do Paraíso Celeste.

Do ponto de vista do simbolismo numérico, o conjunto dos três quadrados forma o duodenário, e dispostos da forma assinalada por último em relação à Jerusalém Celeste, vêm a constituir a figura pela qual os antigos inscreviam o Zodíaco (como se vê numa inscultura junto às “escadinhas dos clérigos (trinos)”, em Sintra), o que vai muito bem por a mesma Jerusalém Celeste expressar o Universo inteiro, tal qual o Zodíaco.

Essa figura também era considerada como a da Jerusalém Celeste com as suas doze portas, três em cada um dos lados, o que possui uma relação evidente com o significado que se indicou para a figura quadrangular da tríplice muralha, a qual  significa o Paraíso Terrestre. É exactamente esta formação geométrica de sentido astronómico que se repara numa inscultura Templária à entrada da igreja de S. Pedro em Óbidos, terra natal do almirante-mor do Templo, D. Fuas Roupinho.

Para denominaram as supracitadas muralhas, os latinos dispunham de um termo de origem iraniana: pari, o qual aparece no composto pari-daiza, ou seja, “cintura” (pari) e “modelo” (daiza). Paridaiza ou Paradhesa é a arquetípica das palavras hindu-europeias indicativas de Paraíso.

Tudo leva a crer que no interior dos seus kraks os Templários terão criados núcleos sinárquicos no esforço imediato de reproduzirem o Paraíso de Deus, de qual fala o inspirado St.º Agostinho na sua magistral Civitas Dei, e decerto por isso regiam-se no seu meio por regras muito suas, sem darem satisfações detalhadas do que faziam a ninguém de fora, inclusive ao papa e ao rei.

De maneira que a simbiose entre a Jerusalém Celeste e o Paraíso Terrestre, representado no plano imediato da Tradição pela Jerusalém Terrestre, tem a sua expressão efectiva no relacionamento entre a Autoridade Espiritual e o Poder Temporal, entre o Sacerdócio e a Realeza, esta encontrando a legitimação por aquela. Isto mesmo pode ser lido no Midrash Tankhuma, obra teológica judaica que trata da relação entre os dois Poderes Espiritual e Temporal, simbolizados pela Jerusalém “axis coeli” e a Jerusalém “axis terris”, na qual São Bernardo acaso terá se inspirado para o seu Louvor à Nova Milícia e inclusive ingerir na escritura da Regra. Diz esse texto judaico:

“Vós vereis que existe uma Jerusalém do alto que corresponde à Jerusalém de baixo. Por amor da Jerusalém terrestre, Deus fez uma no alto. Eu não entrarei na Jerusalém Celeste antes de ter entrado na Jerusalém Terrestre.”

Por essa razão primaz da divindade e universalidade da simbólica Jerusalemita, é que os Templários cunharam moeda com a efígie do Templo de Salomão de que se assumiam, afinal, guardiães, certamente não tanto das suas ruínas mas mais da Tradição Primordial representada pelo mesmo, indo reflectir-se no binómio sinárquico Autoridade-Poder, o qual certamente conheciam e exerciam, como se observa no testemunho deixado nas figuras decorativas de vários edifícios que construíram, por exemplo, a igreja de São Pedro de Rates, no Minho, onde junto à pia baptismal lavraram na pedra duas figuras: um bispo com o báculo na mão esquerda faz o sinal hierático com a destra a um rei coroado, com uma mão no peito e a outra empunhando a espada. Cena de sagração e investidura: bispo e báculo dominando = Autoridade Espiritual; rei e espada dominado = Poder Temporal. Algo idêntico a Purusha originando Prakriti, ou seja, o Espírito dar de si a Matéria, o que reverte novamente ao conceito da Jerusalém Celeste e Terrestre, paradigmas máximos da Autoritas e da Potens.

Para terminar e volvendo ao celticismo, a corrente celta pôde sobreviver culturalmente através do Templo e continuar, em boa parte através da cultura rural, após esse dar desenvolvimento aos Monges-Construtores, por um lado, e aos Rosa+Cruzes, por outro. Destes últimos brotaram as posteriores Correntes Iniciáticas do Ocidente, com o propósito único de restaurar os laços psicossociais e espirituais rompidos, após a destruição do Templo, entre o Oriente e o Ocidente, e assim contribuírem universalmente para a restauração da Tradição Primordial e consequente edificação de uma Sociedade Humana mais justa e perfeita.

NOTAS

[1] Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal (Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2000 e 2002.

[2] Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição da Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

[3] Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal (Ser, Identidade, Pensamento). Edição Academia de Letras e Artes, Estoril, 2009.

[4] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta (Capital do V Império). Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Abril de 2007.

[5] Sonja Ulrike Klug, Catedral de Chartres (A Geometria Sagrada do Cosmos). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2002.

[6] Rafael Alarcón, A la Sombra de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1986.

[7] Rudolf Steiner, Centres Iniciatiques (Origines-Influences). Editions Anthroposophiques Romandes, 13, Rue Verdaine, 1204 Genève/Suisse, 1977. T.G.E. Powell, Os Celtas. Editora Verbo, Lisboa, 1965.

[8] Acerca do culto lunissolar Lusitano, transcrevo uma passagem importante do livro do professor Adriano Vasco Rodrigues, Os Lusitanos, Mito e Realidade. Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998:

“O culto solar, saído das épocas mais remotas do Neolítico e do Bronze, aparece testemunhado em documentos arqueológicos do período romano. Prende-se às festividades solsticiais, expressas nas orvalhadas da manhã de S. João, e aos festejos desse dia, inclusive as danças de purificação, que originariamente só incluíam a passagem do gado pelo meio de filas de fogueiras. O sacrifício do cordeiro sobrevive na imolação do anho, que serve as ceias da noite de S. João, entre os povos do Norte, com particular relevo para o Porto. Liga-se ao Solstício. Sabemos que os Lusitanos efectuavam danças religiosas nas noites de plenilúnio. Os planetas Marte, Vénus e Lua seriam motivadores de danças rituais. O culto da Lua, nas populações lusitanas, prende-se à estrutura económica ganadeira, e no Norte da Península, ao matriarcado, por influência daquela nos ciclos menstruais.”

[9] Raymundo de Burlet, Pitágoras e os Druidas. Revista “Dhâranâ”, Ano XII, n.º 103, Janeiro-Março 1940, Rio de Janeiro. Ten. L. Verdera Franco, Galicia, celta. Revista “Ejército”, Março, 1969.

[10] Jorge Ramos, O que é a Maçonaria. Editorial Minerva, Lisboa, 1983.

[11] Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria. Editora Pensamento, São Paulo, 1974.

[12] Cf. Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Paisagens Arcaicas, vol. I. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Março de 2004.

[13] Cf. Francisco Hipólito Raposo, Estremadura e Ribatejo em passeio de braço dado. Edição da Mobil Oil Portuguesa, Março de 1987.

[14] Vitor Manuel Adrião, Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Via Occidentalis Editora, Lda., Lisboa, Março de 2007.

[15] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1988.

[16] As sete Horas canónicas distribuíam-se ao longo do dia do seguinte modo: 1.ª Matinas (24 horas) e Laudes (3 horas); 2.ª Prima (6 horas); 3.ª Terça (9 horas); 4.ª Sexta (12 horas); 5.ª Nona (15 horas); 6.ª Vésperas (18 horas) e 7.ª Completas (21 horas).

[17] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006. E Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Livros Dinapress, Lisboa, 2007.

[18] D´Arbois de Jubainville, El Ciclo Mitológico Irlandés. Vision Libros, Barcelona, 1981.

[19] Alonso de Villegas, Flos Sanctorum. Barcelona, 1775.

[20] In Místicos, Livro 3.º, fl. 138 vº, A.N.T.T., citado por José Baptista Pereira, Memórias de Carnide, 1914, pág. 169.

[21] Paulo Pereira, Lugares Mágicos de Portugal – Idades do Ouro, vol. III. Edição Círculo de Leitores, Rio de Mouro, Agosto de 2004.

[22] Na Idade Média e durante a Renascença, as leys consistiam em padrões ou alinhamentos de faixas ou linhas invisíveis cuja potência teoriza, demarca e liga entre si determinados espaços sagrados e naturais como lugares mágicos. Hoje essa teoria antiga já perdeu o seu foro de ciência tradicional e é apresentada pelas hodiernas crenças neo-espiritualistas que a popularizam como radiestesia, energia psíquica ou mística, etc.

[23] Frei Roque do Soveral, História do insigne aparecimento de N. Senhora da Luz e suas obras. Lisboa, 1610.

[24] Pedro A. de Azevedo, Urraca Machado, Dona de Chelas, in Archivo Histórico Portuguez, III (1905), p. 10, documento VII.

[25] Pedro A. de Azevedo, ob. cit.

[26] Juan G. Atienza, la mística solar de los Templarios. Ediciones Martínez Roca, S.A., Barcelona, 1983.

[27] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora Pensamento, S. Paulo, Brasil.

[28] Vitor Manuel Adrião, Guia de Veneza Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2010.