O Tesouro dos Templários – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Out 27 2015 

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É praticamente certo que na temática sobre a Ordem dos Templários o assunto mais propício a desencadear teorias e opiniões fantásticas e fantasistas, tanto lúdicas como positivistas, afirmativas ou negativas, por norma quase todas desencontradas entre si, será a do seu pressuposto tesouro. Sobre este, já consultei e li alguns milhares de páginas de centenas de autores com uns negando abertamente a sua existência e outros abertamente afirmando que existiu, ainda assim ambas as facções manifestando a carência de provas efectivas confirmatórias das suas opiniões assertivas. Em ambos os casos acaba ressaltando a nota comum: incerteza quanto à existência do tesouro dos Templários, e mesmo que tivesse existido o que seria ele realmente? Bens pecuniários, móveis e imóveis, saberes ocultados, mistérios encriptados, o que teria ele sido, se alguma vez foi?…

A verdade indesmentível é que os Templários eram fabulosamente ricos, indo os dízimos e doações de todas as Províncias parar à casa-forte do Templo em Paris, assim como os dinheiros confiados por reis, bispos e nobres à grande banca que a Ordem também foi. É igualmente indesmentível que a Igreja de Roma e a Coroa de França só conseguiram, após a extinção da Milícia, apropriar-se de parte dos seus bens imóveis, mas de nenhuns pecuniários (dinheiro, ouro, prata, jóias, etc.) dos quais não viu nem um centavo. Onde estava essa fabulosa reserva aurífera? Quando a tropa do rei Filipe IV invadiu a casa-forte do Templo em Paris, nada encontrou, pouco menos que paredes nuas. Que aconteceu e como terá acontecido?

Certo é que o monarca francês viu goradas as suas pretensões de apropriar-se das riquezas do Templo, é facto comprovado, como também está documentalmente provada a maneira sádica de através da tortura descarregar a sua fúria nos Templários aprisionados, tentando a todo o custo extorquir-lhes a confissão do paradeiro das suas riquezas. Mas ninguém sabia de nada, ou melhor, pouco sabia!… Isso leva a supor que talvez os Templários, por informações dos seus espiões infiltrados na corte e na cúria, prevendo a eventualidade da sua prisão eminente, tivessem antecipadamente feito sair do país os seus bens pecuniários, sabendo que o rei Filipe os ambicionava, e em seguida esperassem a detenção, entregando-se pacificamente talvez por acreditarem no julgamento imparcial do papa, seu chefe supremo e o único a quem deviam prestar contas e obediência. Nisso foram enganados, pois não foi o papa mas o rei a julgá-los e condená-los à revelia da autoridade eclesiástica[1].

E o tesouro? Existiu?

Moeda cunhada pelos Templários do Condado de Trípoli na época de Boemundo VII (1275-1287)

Moeda cunhada pela Ordem do Templo no Condado de Tripoli, na época de Boemundo VII (1275-1287)

Gérard de Sède[2] informa sobre um texto existente na Biblioteca Nacional de Paris, intercalado nas cartas de Clemente V, com o título: Aqui estão os nomes dos Irmãos que fugiram (à prisão decretada pelo rei de França)[3]. Contém a lista de doze dignitários da Ordem e a indicação da direcção tomada por alguns deles, aparecendo os nomes de Hugues de Châlons e de Gérard Villiers, este “que armou quarenta Irmãos”. Esse documento vem comprovar a veracidade da declaração feita no final de Junho de 1308 diante do próprio papa pelo 46.º interrogado, o Templário Jean de Chalon, da igreja de Nemours, diocese de Troyes. Declarou que na véspera da rusga, a 12 de Outubro de 1307, viu três carros carregados de palha deixarem, ao cair da noite, o Templo de Paris conduzidos por Hugues de Chalôns e Gérard Villiers que levavam 50 cavalos. Nos carros estavam dissimulados cofres contendo todo o tesouro do Grande Visitador de França, Hugues de Pairaud (totum thesaurum Hegenis Peraldi), e tomaram a direcção da costa norte para aí serem embarcados para o estrangeiro a bordo de 18 navios da Ordem[4].

Tantos navios supõem uma esquadra fortemente armada pronta para qualquer eventualidade hostil. Deduzo disso que implicaria a protecção a algo de muito valor, no caso, a muitos valores…

Gérard de Sède diz que os fugitivos dirigiram-se com o espólio para Inglaterra. Mas como a Coroa inglesa hostilizava a francesa e também carecia de bens necessários para sustentar as despesas das suas campanhas militares contra França, havia o risco da notícia da presença do tesouro aí suscitar novas ambições com consequências imprevisíveis para os Templários, pelo que não me parece ter sido esse o país para onde se dirigiram, apesar de estar mais próximo por lhes bastar atravessar o Canal da Mancha.

Certamente prefeririam um país amigo, costeiro, cujo rei perfilhasse do ideal Templário e onde este nunca seria perseguido, e o único nessas condições era… Portugal.

Parece-me muitíssimo mais plausível a opinião Maurice Guinguand e Beatrice Lanne[5] quando afirmam que os fugitivos dirigiram-se para o norte em direcção ao Monte de Saint-Michel, no extremo cabo-mar da Normandia fronteira da Bretanha das anteriores aventuras iniciáticas e inculcações telúricas do Templo, aí onde se fincou, através dos Beneditinos do Santuário de Saint-Michel, o culto a Notre-Dame Sous-Terre (Nossa Senhora Subterrânea, venerada na cripta dessa abadia românica, terminada em 1084, envolvente do Santuário)[6]. Esses autores afirmam que na baía do Monte de Saint-Michel aguardavam os fugitivos barcos portugueses, nos quais foi carregada a preciosa carga (bens e arquivos). Depois rumaram para Portugal indo desembarcar no bastião portuário da Serra de El-Rei, propriedade do Templo, daí tendo seguido para Tomar passando por Alcobaça.

Navios templários, possivelmente portugueses. Gravura francesa do século XIV.

Navios templários, possivelmente portugueses. Gravura francesa do século XIV.

Esse considerando é muito interessante e tem fundamento, como se irá verificar, a começar pela protecção declarada que D. Dinis deu a quantos Templários fugitivos procurassem refúgio seguro no Reino.

Sendo assim, então o tesouro do Templo talvez fosse aplicado em Portugal através de uma nova Milícia Templária, fundada a instâncias do mesmo monarca, ou seja, a Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, na diáspora das Descobertas, e daí o aparecimento súbito da fartura de bens que seriam aplicados, durante mais de dois séculos, na empresa marítima que tornou Portugal a primeira potência do mundo. Fartura de riqueza aparecida tão subitamente num país pequeno e pobre, na altura com pouco mais de um milhão de habitantes, é enigma que até hoje a historiografia não decifrou.

Os restos do castelo templário da Serra de El-Rei ainda existem: estão sobre o morro da Vela (e vela de navio…), defronte para a igreja da Atouguia da Baleia, ainda que o mar que beijou as suas muralhas tenha recuado do interior cerca de três quilómetros nos últimos séculos, só deixando como memória a toponímica “Várzea de Fora”, “Quinta dos Salgados” e “Porto Salgado”. Coevo da Nacionalidade acaso tendo jogado na trama do ouro do Templo, há dentro do pequeno castelo, bastante desmontado e que é hoje propriedade privada, um poço de grande fundura que se prolongará, por alguma galeria subterrânea, ao interior da igreja próxima de São Leonardo (celebrado em 6 de Novembro), monumento romano-gótico do século XIII com planta do tipo mendicante, por isso chamado gótico paroquial[7].

Castelo da Atouguia da Baleia

Castelo da Atouguia da Baleia

A Atouguia (ou atalaia, como porto de mar avançado disposto na linha defensiva da costa das incursões inimigas, igualmente entreposto comercial tal qual faziam os antigos fenícios que por aqui também andaram, e isso não ingerindo no facto de Atouguia ou Touguia ser corruptela toponímica da latina Tauria, donde Touril e Touro, o ex-líbris local evocativo das manadas de touros selvagens que existiam na região) foi doada em 1158 por D. Afonso Henriques ao cruzado Templário D. Guilherme Corni ou Licorne, francês provindo do Poitou, região da lenda nobiliárquica da fada Melusina, posteriormente cristianizada como a apóstola Madalena[8]. Como esse faleceu sem deixar descendência, sucedeu-lhe o seu irmão, D. Roberto de Licorne, no senhorio e alcaidaria-mor da vila. Na confirmação do foral de D. Afonso I aos Francos da Atouguia, D. Sancho I reitera em 1187 a doação do lugar a Guilherme de Licorne, estando presentes como testemunhas à lavra do documento homens notáveis do Reino, dentre eles o Grão-Mestre Provincial do Templo, D. Gualdim Pais[9].

Cruz do Templo junto à porta da sacristia da igreja de S. Leonardo da Atouguia

Cruz do Templo junto à porta da sacristia da igreja de S. Leonardo da Atouguia

A documentação histórica disponível induz que os primeiros Templários franceses desembarcados em Portugal aportaram junto à ilha (hoje península) de Peniche, no porto da Serra de El-Rei que servia o povoado da Atouguia, tudo propriedade do Templo. E que os Templários fugidos à perseguição no estrangeiro também aqui aportaram, recebendo protecção imediata.

Mas por que a Atouguia? Porque não outro porto?

Primeiro talvez por ser esse um porto da Ordem do Templo relativamente isolado, propício à discrição, e o mais próximo de Tomar, onde estava a sua Sede peninsular, e depois por os Templários também terem aqui exploração aurífera de várias minas abertas outrora pelos fenícios e depois pelos romanos, de que há vastos vestígios na região e recolha arqueológica abundante exposta no Museu Municipal de Peniche, cidade com primazia política sobre este lugar e cuja origem andará ligada à própria Fenícia[10], mesmo que na época não passasse de uma ilha cuja importância estratégica, política, económica e militar coubesse ao Porto da Atouguia da Baleia (onomástico este oriundo da caça à baleia que se fez até muito tarde ao longo da costa local, conservando-se vestígios do facto em ossadas da mesma dentro da própria igreja de São Leonardo, deixando o subentendido do evoco bíblico de “Jonas e a baleia”, que aparece com toda a clareza retratado em azulejos na igreja paroquial da Nazaré próxima).

Em França, os Templários chegaram mesmo a mandar vir da Germânia mineiros e fundidores que trabalhavam em segredo, formando uma colónia isolada e estreitamente vigiada, num local denominado Les Charbonnières, enquanto em Portugal o porto da Serra de El-Rei está próximo do Cabo Carvoeiro. Tratar-se-á do mesmo lugar e de uma truncagem documental posterior, de maneira a afastar as atenções desta parte de Portugal? Apesar da carência documental não acredito no simples acaso ante tanto caso a ver aqui exclusivamente com o Templo, este que já no reinado de D. Sancho I possuía “não só uma marinha de comércio mas também de guerra, devidamente organizada”, segundo Jaime Cortesão[11], e que o almirante-mor da Marinha de Guerra Templária, D. Fuas Roupinho, era natural e donatário de Óbidos, distado escassos 20 quilómetros da Atouguia.

A reforçar tudo isso, tem-se que o Orago da Atouguia é São Leonardo (nome de raiz Leo, o Leão que como 5.º signo se associa ao Sol e ao mais nobre metal, o ouro), precisamente padroeiro dos prospectores de ouro, e no pórtico de entrada na sua igreja tem-se à direita as figuras de dois touros defronte para dois leões coroados, à esquerda. Representam a pujança (touros) e a riqueza (leões), além de expressarem o Poder Real ou Soberano do Espírito (os mesmos leões coroados) impondo-se à Força Fecundante da Matéria (os mesmos touros), assim se transformando os esculpidos em mensagem indicadora da fecundação tanto do corpo como sobretudo da alma, sinal de castidade (agnus castus) ou iluminação interior, fonte de toda a riqueza. Esses mesmos cornúpetos olham o castelo dos Templários mais adiante, e com isso acode-me à memória aquele dito enigmático do Hermetismo: “Para onde olha o touro está o tesouro”!

"Para onde olha o touro está o tesouro". Colunas exteriores da igreja de S. Leonardo da Atouguia.

“Para onde olha o touro está o tesouro”. Capitéis das colunas exteriores da igreja de S. Leonardo da Atouguia (século XIII)

Touro esse, patente no brasão desta vila, aceite como símbolo de energia vital e fonte de fertilidade entre os povos primitivos, pelo que participa, tal como os outros animais cornudos porém representando-os a todos, de todos os tipos de cultos. O taurobólio – que veio a ser vulgarizado nas já profanas touradas, e há neste lugar um “touril” que foi usado por D. Pedro I – acaba sendo o sacrifício da Era de Taurus, a imolação da Divindade às mãos do Homem que almeja alcançar o Seu poder e significado celeste[12].

Pelo que também e fundamentalmente esse será tesouro espiritual, ou seja, a Gnose como a mesmíssima Teosofia na versão e entendimento medieval da mesma, o que se assinala dentro desta igreja no baixo-relevo do século XIV representativo da “Natividade”, que já foi frontão de altar e originalmente oferecido à Rainha Santa Isabel: vê-se nele a Virgem deitada entregando um livro ao Menino sentado no seu ventre, passando-se tudo sob o olhar atento de São José sentado numa coluna e apoiando as mãos num tau, desta maneira assumindo-se como Arche-Tekton ou Grande Arquitecto. O Livro ou Missal será o da Sabedoria Divina que nasceu do ventre ou seio da Mãe Soberana, feito assim indicativo de Iniciação Mariana ou Cavaleiresca cujo melhor Cavaleiro será o Infante Divino, o Galaaz ou Cristo apresentando na sinistra o pomo de ouro, indicativo edénico da Árvore da Vida e da Sabedoria, logo, sinal de Mistério ou Mistérios que a Cristandade medieval tomaria posse pela Ordem do Templo e os Monges-Construtores, os nóveis Ioses ou “Josés” dando nascimento a um novo ciclo de cultura e espiritualidade na civilização ocidental.

Baixo-relevo da "Natividade" (século XIV). Igreja de S. Leonardo da Atouguia da Baleia

Baixo-relevo da “Natividade” (século XIV). Igreja de S. Leonardo da Atouguia da Baleia

Escassos quilómetros adiante da Atouguia da Baleia está a aldeia da Serra de El-Rei (D. Pedro I), com a sua igreja paroquial consagrada a São Sebastião, onde aparece numa pintura em madeira a figura magistral de Melki-Tsedek, o maior dos Soberanos no culto Templário e Cisterciense do Mosteiro de Alcobaça que trazia este lugar incorporado nos seus bens[13]. Com efeito, essa pintura em caixotão de madeira (século XVII) está sobre o vestíbulo de entrada na igreja de São Sebastião da Serra de El-Rei, edifício com a particularidade de ter pertencido à Ordem do Templo, vendo-se no seus cunhais exteriores marcos com o selo páteo da Cruz Templária dispostos nos quatro pontos angulares formando o quadrado da terra, constituindo a raiz do edifício como exemplar raro sobrevivente  da primitiva arquitectura assente na geometria sagrada, cujos artífices afiliados em corporações operativas, apadrinhadas e protegidas pelo Templo, eram tanto construtores como monges (sobretudo beneditinos e cistercienses). Na pintura em questão, a figura régia coroada junto à árvore seca aspada, indica o Céu com o indicador direito e a Palavra com o indicador esquerdo, assinalada no Livro dos Salmos (118, “Elogio da Lei”, e 119, “Cântico das Ascensões”) e num letreiro escrito em latim remetendo para o Salmo 31. Este Salmo 31 atribuído ao rei David – pressupostamente retratado na pintura mas aqui «nacionalizado» como pai de uma Nova Ish-Ra-Elli (Israel) sefardita em solo lusitano aclamado Terra do Soberano Universal, donde o epíteto e identificação pictórica da peça a Melki-Tsedek, “Rei de Salém e Sacerdote do Altíssimo”, nisto sobretudo “Rei de Salém” como Adonay-Tsedek, o que vai bem com a prerrogativa guerreira da Ordem do Templo, consequentemente, com o exercício do Poder Temporal – é considerado Salmo de Libertação. A Tradição Espiritual dá-lhe o seguinte significado cabalístico: “Remissão dos pecados. Escolha de um estado. Amor ao estudo. Paralisação dos sortilégios”…. “Felizes daqueles que nas iniquidades são perdoados…” (David, Ps. 31).

O rei David corporificando Melki-Tsedek na igreja templária de S. Sebastião da Serra de El-Rei

O rei David corporificando Melki-Tsedek na igreja templária de S. Sebastião da Serra de El-Rei

Indubitavelmente foram os Monges-Construtores beneditinos, depois cistercienses ou os bernardos com Casa-Mãe em Alcobaça, protegidos e predilectos do Templo, os principais divulgadores do mito salvífico do Santo Graal e da escatologia sagrada das Idades do Mundo, tão do agrado de São Bernardo de Claraval e de Joaquim de Flora. O próprio Mosteiro alcobacense assumia-se idealmente uma Tebaida de Irmãos do Santo Sangue (Saint Greal, San Grial, Santo Graal), o que é confirmado pelas graalísticas Cruzes de Avis fechadas por círculos formando, duas a duas em cada lado das paredes nave da igreja, o quadrado do chão sagrado da assembleia indo dar aso à justificativa do culto solar ao Arcanjo São Miguel, investido na função dupla de Custódio das Almas (balança) e Custódio do Reino (espada), Porto-Graal, competindo-lhe por missão velar pela Terra dos Vivos e pelo Oceano dos Mortos, função psicopompa essa retratada em pintura medieval na Charola de Tomar.

De entre os 4 Arcanjos principais – Miguel, Gabriel, Rafael, Anjo Custódio – dispostos nos 4 Mundos da Kaballah – Atziluth, Briah, Yetzirah, Assiah – o “mais elevado”, ou seja Miguel como arquétipo, manifesta-se pelo “menos elevado”, o Anjo Custódio seu protótipo, por sua vez arquétipo de toda a Terra como primaz desta em lugar cimeiro, fonte terreal de toda a Luz, que é dizer, a Lusitânia.

Foi por inspiração Bernardina que D. Afonso Henriques fundou em Santarém a Ordem de São Miguel da Ala (ou da Asa), após a tomada da cidade aos mouros em 1171. Diz a lenda que como reconhecimento do Céu, durante o ardor da luta em volta do estandarte real e a pelejar pelo rei, brandindo a sua espada apareceu o braço alado de São Miguel Arcanjo, de quem D. Afonso Henriques era muito devoto cujo auxílio invocara antes da batalha, e por isso após a vitória cristã ele instituiu a Ordem de São Miguel da Ala pelo documento Constituitiones Militiuns S. Michaekis Sive de Ala. Depois o Papa Alexandre III, por bula de 14/1/1177, reconheceu a Ordem Equitum S. Michaelis Sive de Ala, que se manteve por largos séculos e, enquanto durou a Ordem do Templo, serviu de medianeira entre ela e a Coroa de Portugal.

Os atributos de São Miguel ou Mikael (“O Primeiro no qual é Deus”, e também “Quem é Deus”) são os mesmos de Melki-Tsedek, a balança e a espada, como distintivos do Rei de Justiça (Lex) e Senhor de Salém (Pax), aquele modelo de Deus, este émulo de Deus (Quis ut Deus).

Arcanjo São Miguel. Escola de Escultura de Coimbra (século XV)

Arcanjo São Miguel. Escola de Escultura de Coimbra (século XV)

A manifestação de Mikael assinala sempre a glória da Shekinah, a Grande Paz e Luz do Messias, o que se representa na Árvore Sephirótica da Kaballah pela décima sephiroth (esfera): Malkuth, com o significado de o “Reino” (Melki) e o “Justo” (Tsedek).

A Shekinah, “Presença Real de Deus”, representa-se sephiroticamente por Sandalphon, raiz da Árvore da Vida e do Saber (Otz Chaim) cuja copa é Metraton, ambos o mesmíssimo Mikael como Guardião dos homens e das almas, dos vivos e dos mortos, o mesmo que aparece no início (Kether, a “Coroa”) e no final da Manifestação Divina e Humana a qual é representada por Malkuth, cujo Nome Divino é Adonai-Ha-Aretz, “Rei e Senhor da Terra”.

O primeiro tratado cabalístico aparecido na Península Ibérica referente a este assunto, Kether-Malkuth, consagrado ao Altíssimo Adonai e sendo parte integrante do Fons Vitae pertencente ao espólio literário do Mosteiro de Alcobaça, logo certamente do conhecimento dos Templários mais ilustrados, foi escrito pelo primeiro judeu filósofo da Hispânia no século XI, Salomão Ibn Gabirol. Este Avicebrão dos latinos, natural de Málaga, veio a radicar-se em Portugal onde faleceu em 1070.

O culto ao Anjo Custódio de Portugal foi celebrado com toda a pompa e devoção desde muito cedo em todo o país, mormente na região saloia do Termo de Lisboa. Segundo António de Vasconcelos e como já disse, D. Afonso Henriques, na conquista de Santarém, invocou São Miguel Arcanjo, tendo aí instituído a Ordem de São Miguel da Ala, cuja insígnia é uma asa vermelha em campo branco cercado a ouro. A devoção ao Arcanjo cresceu de tal modo que D. Manuel I o invocava como “nosso anjo guardador”, tendo-se antecipado ao movimento do culto em Espanha. Com efeito, D. Manuel solicitou (6/6/1504) do Papa Leão X a instituição do Anjo Custódio de Portugal, a celebrar no 3.º domingo de Julho, dando aso a uma tradição que ainda se mantém. Anteriormente (1480), ao fundir num só vários ofícios litúrgicos, o prior de Odivelas, Fr. António Castanheira, já encontrara o ofício do Anjo Custódio, pelo que o gesto de D. Manuel corresponde ao sancionamento de uma tendência cultual anterior, de raiz judaica (pois Mikael é o Orago da Sinagoga), depois incorporada nas Ordenações Manuelinas (Liv. I, tit. 78), onde se determinam os actos da festa: procissão solene, missa e ofício particular em Lisboa e noutras terras[14].

De maneira que o culto a Mikael ou Metraton está profundamente enraizado tanto no catecismo popular da Torah como no esoterismo judaico da Kaballah, esta que significa tanto Tradição como Conhecimento. Na sinagoga Ele ocupa o “Lugar do Altíssimo”, e na igreja bizantina situa-se no “Trono de Salomão”, correspondendo na igreja romana à “Cadeira do Sumo Pontífice”.

Dentro da Kaballah podem-se distinguir duas tendências que confluiriam, com o decorrer dos tempos, em duas correntes de pensamento tradicional: o Kabalismo Profético, atribuído a Abrahão Abulafia, e o Kabalismo Rabínico, atribuído a Isaac Luria[15]. Das duas correntes, é no Kabalismo Profético que se encontra o domínio da intuição e inspiração sobre a Tradição e a Comunicação. Esta faceta kabalística originou-se na região Oeste da Europa por volta do ano 1200 d. C., estendendo-se ao Centro-Sul de França e daí passando para cá dos Pirinéus descendo para a Estremadura e Andaluzia espanholas, por um lado, e por outro deslocando-se através das Astúrias para a Galiza e daí, pela linha costeira, descendo ao Sul com forte implantação e difusão sinagogal no Centro-Oeste de Portugal, quase sempre dando primazia ao sentido messiânico da Palavra. De maneira que é também conhecida pelo nome de Kaballah Sefardita ou Ibérica, base do movimento de Messianismo hispânico, indo contrapor-se à Kaballah de Safed, cidade da Palestina onde viveu Luria.

A finalidade da doutrina de Abulafia, segundo as suas próprias palavras, é “desvelar a alma, desatar os nós que a amarram”. Para conseguir esse fim, estabeleceu um objecto absoluto de meditação: a teoria da contemplação mística das letras e das suas formas como sendo as constituintes do Nome de Deus. Partindo deste conceito, Abrahão Abulafia desenvolveu uma disciplina particular que chamou Hokmath Ma-Tseruf, isto é, a “ciência da combinação das letras”. Assim, introduziu uma forma de iniciação pelo raciocínio visando ir além deste, ao desenvolvimento da faculdade intuitiva pela Gematria. De maneira que para interpretar um nome deveria, primeiro, fazer a combinação das letras e dos números, e depois a transposição das letras para números até chegar àquele que correspondesse ao respectivo nome.

Para compreender a Kaballah deve-se ter presente as três espécies de operações que comporta, a saber:

1.ª – O Notarikon ou a arte dos signos;

2.ª – A Gematria ou a comutação e combinação das letras e dos números;

3.ª – A Temurah ou as transposições.

Pela proximidade do Templo à Sinagoga e aos seus mistérios doutrinais, é de aceitar que os Templários mais ilustrados e vocacionados à Mística pelo Saber, devotionis per inteligere, detivessem esses conhecimentos e mesmo os tenham infundido na civilização ocidental. Nisto é muito sintomático o artigo 9 da 2.ª parte dos pressupostos Estatutos Secretos do Mestre Roncelin: “Sendo a ignorância a fonte de muitos erros, ninguém será admitido entre os Eleitos se não conhecer, pelo menos, o Trivio e o Quadrivio“. Sabe-se que estas concepções designavam as sete artes liberais que dominaram a cultura medieval e até a da Renascença: Gramática, Retórica, Lógica, por um lado, e Aritmética, Geometria, Astronomia e Música, por outro. Através da Gramática e da Retórica seria dada ao postulante a arte de falar para convencer pela Lógica. Em seguida o Número Divino seria matematicamente compreendido, acompanhado do estudo da Geometria. A Astronomia dar-lhe-ia o entendimento perfeito da máquina celeste e do Poder Supremo. Finalmente a Música, derradeira arte em aprofundar-se, iria desenvolver-lhe o sentido da harmonia interior, sem o que jamais compreenderia a Harmonia Universal. Depois vinha a Gnose, antes, a Teosofia[16].

Sete Artes Liberais

Sete Artes Liberais

Observando a heterodoxia dos interesses espirituais de vários dos Templários tanto no Médio-Oriente como na Europa, e juntando as várias correntes de Tradição com quem o Templo conviveu e recebeu influências notórias, concluo que a Teosofia Templária se constituiria de cinco grupos de corrente gnóstica: o asiático, o egípcio, o hebraico, o árabe e o celta.

António Carlos Boin diz que os Templários possuíam na sua vertente interna uma hierarquia privada – que pressuponho ter sido um Colégio Magisterial formado exclusivamente por interessados pelo Hermetismo na época, desconhecido mas rumorado sem se saber bem o que era, à margem da autoridade Papal e até do Mestrado oficial da Milícia, donde acredito Jacques de Molay ter sido sincero quando afirmou aos inquisidores “nunca ter havido uma Ordem Secreta dentro da Ordem” – distribuída em sete graus iniciáticos: três elementares – Adepto, Companheiro e Mestre Perfeito; três filosóficos – Cavaleiro da Cruz, Intendente da Caverna Sagrada e Cavaleiro do Oriente; e um grau cabalístico, o de Grande Pontífice da Montanha Sagrada. Transmito esta informação confessando sérias dúvidas sobre terem existido tanto uns pressupostos “Estatutos Secretos” como a pressuposta existência de uma “Ordem Secreta” do género descrito, pois a escatologia desse modelo é claramente apropriada do maçonismo moderno. Mas não tenho dúvidas quanto aos interesses herméticos de alguns Templários e à intensidade hermética assistindo ao simbolismo cerimonial das suas recepções aos que se afiliavam na Ordem. Também não as tenho quanto ao sentido axial da Regra e dos Estatutos do Templo referentes à Montanha e à Caverna Sagradas, o que lhes confere significado profundamente hermético ou iniciático muito além da vulgar catequese.

A “Caverna Sagrada”, reproduzida tanto em Hipógeo como em Sala de Capítulo e Recepção, por norma tradicional era em formato quadrilátero e aí se reuniam os Cavaleiros Iniciados na gnose e na catequese da doutrina única constituindo o Corpo de Eleitos ou a Elite, em conformidade às palavras evangélicas: “Muitos serão os chamados e poucos os escolhidos” ou eleitos, e “o Mestre ensinava ao povo por parábolas e aos discípulos falava tudo abertamente”, revelando o binómio esotérico/exotérico do Seu ensinamento, e isso certamente para não confundir mentes despreparadas em receber conhecimentos muito além das suas capacidades assim descartando o risco sempre presente de profanação dos Mistérios Sagrados que têm a sua origem na Sabedoria Primordial ou Tradição Iniciática das Idades. Quem os quisesse aprofundar, iria responsável e paulatinamente realizando os Graus de Iniciação até chegar ao domínio pleno da Sabedoria Divina e tornar-se, pela conscientização dela, não “um prenhe de Cristo”, como diria S. Paulo, mas “Cristo Vivo em si mesmo”, segundo o mesmo Apóstolo Iluminado. Este é o sentido primaz da existência e objectivo de quantas Ordens Iniciáticas e Secretas houveram na Antiguidade, algumas raras perdurando até ao Presente.

O quadrilátero liga-se simbolicamente às quatro fases da existência: o Oriente para o Nascimento, o Sul para a Adolescência, o Ocidente para a Maturidade, e o Norte para a Velhice. Há o Nadir e o Zénite, o ponto onde se está e o ponto para onde se dirige, representando a ante-manifestação e a pós-manifestação, ou seja, antes de nascer e depois de morrer.

Ora, é precisamente essa geometria que se encontra na estrutura da Sala do Capítulo e Recepção defronte  para a Charola do Convento de Cristo, em Tomar. Situada no piso inferior ou cave deitando para a Horta dos Frades (ou Laranjal dos Freires), há uma outra sala com a pressuposta mesma finalidade da Capitular mas convertida em adega no século XVII, a qual fazia parte do extenso piso longitudinal onde suportam todo o edifício por cima colunas com capitéis decorados com cabeças d´Anjos ou Querubins (de Cherub ou Kerub, em hebreu, significando “Tesouro”). Essa sala não existia até aos meados dos anos 70 do século passado, mas as obras então realizadas deram-lhe duas paredes de cimento e assim foi convertida em compartimento, com alguns mais ligeiros depressa interpretando-a como “câmara de reflexão”, “sala de iniciação” e outros epítetos afins a finalidades esotéricas inscritas no hodierno imobiliário “templário-maçónico”. Aí está uma laje enorme tapando um pressuposto “poço da iniciação” mas que é o poço de rega da horta, e sobre ele um medalhão com o Sol radiante, e nisto, sim, há esoterismo: o Sol e a Água representam os dois elementos primordiais sustentando a Vida e sendo mesmo expressivos dos Divinos Pai (Sol, Fogo) e Mãe (Lua, Água), sendo o Filho (Terra, Comunidade dos Fiéis) representado por toda esta mesma Domus Domini, Casa do Senhor.

Coluna dos Anjos e adega na cave do Convento de Cristo, Tomar

Coluna dos Anjos e adega na cave do Convento de Cristo, Tomar

Ainda neste Convento de Cristo, sob o claustro da Micha, estão os depósitos de água cujo espaço interior demonstra bem que não seria essa a sua finalidade original: trata-se de uma enorme sala subterrânea quadrilátera suportada por colunas donde irrompem palmeirais de nervuras da abóbada ligadas por medalhões colocados nos entrecruzados da mesma. Sobre o significado esotérico do espaço como se apresenta já me manifestei, ainda que sob anonimato, em reportagem realizada pelo jornalista Victor Mendanha[17]:

“As nervuras de entrelaçamento triangular, sustentando o céu da cripta, designam os veios da Terra, as correntes telúricas que circundam e animam a vida planetária, sendo de três qualidades: telurismo eléctrico, telurismo magnético e telurismo electromagnético. São como que as veias sanguíneas de um homem visto por dentro, aqui, as da Terra vistas esotericamente no seu interior ou útero.

“Os medalhões são como que selos teúrgicos e assim representam os plexos psico-nevro-sanguíneos ligando numa unidade as nervuras do tecto, assim criando um estado de tensão ou concentração da força telúrica no espaço e no iniciado, acabando os dois por tornar-se um e, dessa maneira, Terra-Mãe, Templo e Cavaleiro convertem os três para uma só unidade.

“As colunas, além da função óbvia de sustentarem a abóbada, igualmente possuem a função de ligar as correntes telúricas das 12 constelações tradicionais às correntes geopsíquicas da Terra. A base dessas colunas é quadrada e, teosoficamente, o 4 designa a Terra, a cripta, a harmonia dos sólidos.”

Segundo Eugénio de Figueiredo e Silva[18], este claustro da Micha está na área da alcáçova, próxima da desaparecida igreja de Santa Maria do Castelo, que foi das freiras Templárias. Sendo micha uma palavra feminina oriunda do francês miche que é um “farináceo”, neste caso talvez alusão à hóstia, posso aventar a hipótese de acaso ter ocorrido nesta cripta alguma espécie de celebração hipogeica pelas Tempreiras nabantinas, ou tão-só a celebração benta da Água como simbólica da Mãe de Deus em que assenta a Criação cuja raiz está na fundura da Terra, no Centro do Mundo que por isto mesmo também leva a consignação Laboratório do Espírito Santo.

Bem sei que aparte o pressuposto do eventual e ctónico culto feminino, micha possui uma explicação mais plausível e nada transcendente: miche ou micha era no século XVI o pão redondo que se cozinhava no forno comunitário vizinho deste claustro que os monges davam como esmola de pão e caldo aos pobres, e também era neste claustro, o único com saída à direita para o exterior do convento, que se cobravam os dízimos dos impostos aos agricultores que traziam aforradas terras de cultivo da Ordem de Cristo.

Mas também nada me desdiz que antes das reformas radicais impostas na feição original do edifício pelo arquitecto João de Castilho, a quem se deve os claustros da Micha e do Corvo onde mais claramente se reflecte o Maneirismo, por ordem de D. João III e do seu capataz da Mesa Censória, Fr. António de Lisboa, no século XVI, as criptas não tenham servido para fins mais reservados que profanos e esses claustros tenham sido feitos sobre as mesmas, tanto que a sua feição interior delas não é da época dessas reformas mas propriamente dos meados do século XIV ou, com toda a certeza, do século XV. Lembro que assim como houveram Templárias igualmente houveram Freiras de Cristo, estas só terminando a sua existência no convento aquando da reforma da Ordem de Cristo em 1529, acometida por D. João III a Fr. António Moniz, de Lisboa, que expulsou daí os antigos freires e freiras, colocou outros novos (só homens) que mandou vir de várias partes do país e lhes impôs o regime de clausura, elaborando novos estatutos baseados na Regra de S. Bento mas à maneira do real inquisidor.

No interior da Cripta da Micha há uma abertura comunicando directamente com a adjacente Cripta do Corvo, situada sob o claustro que lhe leva o nome, de formato igual à anterior e talvez também do uso das mesmas Tempreiras, como era uso chamá-las em Portugal. Sobre o simbolismo do corvo, tive ocasião de dizer na citada reportagem no Correio da Manhã, tomando por inspiração um brilhante artigo do esoterista Olímpio Neves Gonçalves[19]:

“A lenda do corvo, ligada à hagiografia de S. Vicente, beatificação cristã do deus céltico Lug a quem os romanos chamavam Lúcifer, a Estrela d’Alva, anda ligada às iniciações crípticas, e tem paralelismo nos mitos e nas tradições dos povos mais antigos. O deus escandinavo Odin era frequentemente representado com dois corvos simbolizando a Memória e o Espírito. Diziam que os corvos adejavam em torno da deusa Saga e lhe murmuravam nos ouvidos o passado e o futuro. De um modo geral, encontramos o corvo representado nas mitologias dos maias e dos celtas como sendo o mensageiro dos deuses. Tudo isto, já de si, é deveras singular, mas que o corvo – emblema da Sabedoria Divina, ave profética e mensageira dos deuses, ave sagrada, totem do deus Lug – se denomine, em linguagem lígure, com o vocábulo Lu, que daria no latino Lux, não será este facto excepcionalmente significativo na trama secreta que subjaze à fenomenologia da História?”[20]

Cripta do Corvo no Convento de Cristo, Tomar

Cripta do Corvo no Convento de Cristo, Tomar

Volto assim à questão principal deste estudo, o suposto tesouro dos Templários e o trajecto que terá seguido, resumindo tudo nos itens seguintes:

– O tesouro material seria constituído pelos bens móveis depositados na ocasião na casa-forte do Templo, em Paris, constando de dinheiro, jóias e documentos.

– O tesouro espiritual seria constituído pelos conhecimentos tanto gerais como reservados dos mais doutos e espirituais da Ordem.

– O tesouro material seria salvo da fúria rapace do rei de França embarcando-o em segredo para Portugal e desembarcado em segredo no Porto da Atouguia, daí sendo levado para o Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça e finalmente para Tomar, onde ficaria ao encargo do Mestre Geral português sob a protecção do rei de Portugal, D. Dinis.

– Já antes o tesouro espiritual começara a trasladar-se cada vez mais ao Extremo-Ocidente da Europa, ou seja, Portugal, demonstrado tanto no geral cumprimento fiel da Regra e do Estatuto da Milícia, como no reservado e criterioso de preservação da Tradição Primordial, detida por pressuposto Colégio Magisterial ou, o que é mais certo, por alguns dos mais doutos e espirituais da Ordem, cujo ecletismo inter-racial e inter-religioso os vocacionava a uma missão política de carácter sinárquico e a uma missão espiritual de carácter católico no mais amplo e puro sentido do termo, “universalista”, tudo em conformidade aos paradigmas sagrados da mesma Tradição Primordial, a do Centro do Mundo, dê-se-lhe o nome que se der desde que corresponda à proporção exacta.

– O tesouro material seria aplicado no desenvolvimento de Portugal, neste caso, o Portugal Templário cuja missão ecuménica de chegar a todos os povos do Mundo teria consumação com a Diáspora dos Mares, projecto já iniciado no reinado de D. Afonso Henriques, protector dos Templários e fundando uma outra Ordem Templária, a de São Miguel da Ala, juntamente com a de São Bento de Avis, sendo esse projecto ecuménico prosseguido por D. Dinis e concretizado pelo Infante D. Henrique, gastando-se em tal empresa o tesouro herdado séculos antes.

– O tesouro espiritual seria herdado pela sucessora do Templo, a Ordem Militar de Nosso-Senhor Jesus Cristo, depositária da Tradição Primordial, e prevenindo-se de dos eventuais imprevistos que infelizmente vieram a acontecer, indo reparti-la por duas outras correntes tradicionais entretanto surgidas em Portugal: a Ordem Mística da Rosa+Cruz, inicialmente formada por franciscanos beguinos, e a Confraria dos Mestres-Canteiros, primariamente constituída de artífices esclarecidos franceses.

– Tesouro espiritual esse irrompido de Portugal ao Médio-Oriente e a França, e a ele volvido, como Tradição Iniciática das Idades, de que era depositária e representante legítima e directa a Secreta e Soberana Ordem de Mariz, ligada aos Mistérios de Melki-Tsedek e do Santo Graal, aqui mesmo, no Porto-Graal, segundo o sinal rodado de D. Afonso Henriques, cujas colunas defensivas teriam sido na época a Ordem do Templo e a Ordem de Avis, e depois a Ordem de Cristo e a Ordem de Montesa, mais uma vez, unindo toda a Hispânia na Diáspora dos Lusos no Mundo, abrindo um novo ciclo de progresso ao Género Humano.

NOTAS

[1] Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário – Vida e Obra da Ordem do Templo. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2011.

[2] Gérard de Sède, Os Templários estão entre nós. Edições Estúdios Cor, S.A.R.L., Lisboa, 1974.

[3] Biblioteca Nacional de Paris, manuscrito latino 10919, vol. 84, verso.

[4] O documento dessa declaração figura nos Arquivos Secretos do Vaticano com a quota “Regito Aven. N.º 48, Benedicti XII, tomo I, fólios 448-451”.

[5] Maurice Guinguand e Beatrice Lanne, O Ouro dos Templários (Gisors ou Tomar?). Livraria Bertrand, Lisboa, 1978.

[6] Lucien Bély, El Mont Saint-Michel. Versão espanhola. Éditions Ouest-France, Rennes, 1993.

[7] Agostinho Correia Faustino, S. Leonardo de Atouguia da Baleia. Edição da Junta de Freguesia das Gaeiras, 1991.

[8] Vitor Manuel Adrião, Quinta da Regaleira (Sintra, História e Tradição). Editora Dinapress, Abril de 2013, Lisboa.

[9] Mariano Calado, Peniche na História e na Lenda. 4.ª edição, 1991, Peniche.

[10] A Peniche os fenícios chamavam Phoenix, situando-a a sul da Ilha de Creta, conforme descreveu João O. Coelho em Origem e significado de Peniche, Figueira da Foz, 1947: “Ao sul desta Ilha [Creta] existe uma cidade com o seu porto marítimo numa enseada notável, que se denominava Phoenix ou Phenix ainda nos tempos do apóstolo S. Paulo, como pode ver-se no Novo Testamento, Act. XXVII, 12, e muito próximo se encontra também um promontório [Carvoeiro] designado pelo nome de Erytreia! Curiosamente, Osberno, guerreiro-historiador que acompanhou os cruzados na conquista de Lisboa aos Mouros, escreveu referindo-se a Peniche: “Os Tírios [Fenícios naturais de Tiro, capital política do país] chamaram-na Eritreia”…”

[11] Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, vol. I. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa.

[12] Tão importante foi o simbolismo hermético do touro para os Templários que estes o esculpiram e pintaram nos diversos lugares do país por onde passaram (Tomar, Santiago do Cacém, etc.), sendo talvez o caso mais notável o seu antigo domínio de Vila do Touro, concelho do Sabugal, distrito da Guarda, Beira Interior Norte.

[13] In O Domingo Illustrado, página 654, Lisboa, Maio de 1899.

[14] Pinharanda Gomes, Povo e Religião no Termo de Loures. Paróquia de Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1982.

[15] António Castaño Ferreira, Mistérios e Misticismos da Bíblia. Artigo publicado originalmente na revista Dhâranâ n.os 32 e 33, edições de 1969 e 1970/73, São Paulo, Brasil.

[16] António Carlos Boin, A Ordem de Malta e a Embocadura de Karana-Loka. Revista Aquarius, ano 8, n.º 26, 1982, Rio de Janeiro.

[17] Victor Mendanha, Os Subterrâneos do Convento de Cristo em Tomar. Matutino Correio da Manhã, 6.ª feira, 1 de Novembro de 1985.

[18] Eugénio Sobreiro de Figueiredo e Silva, O Convento de Cristo nos fins do Séc. XIX e nos princípios do Séc. XX, vol. III, pág. 6. Separata dos Anais dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo, Tomar, 1958.

[19] Olímpio Neves Gonçalves, Lisboa à luz dos seus Arcanos. Revista Graal, Ano I, N.º 2/3, Verão-Outono 1982, Sintra.

[20] Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império. Nova Vega, Lda., Lisboa, 2015.

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O Tesouro da Caparica – Por Vitor Manuel Adrião Segunda-feira, Out 12 2015 

Senhora do Monte

Por convite da almadense Associação “Dias de Passeio”, representada pela sr.ª dr.ª Patrícia Freire, no domingo de 23 de Setembro de 2007 dirigi uma visita de estudo à Basílica Real da Senhora do Cabo Espichel, tendo-se iniciado o itinerário em Belém, pois que aqui sempre foi o ponto de encontro dos peregrinos do Termo (dos Saloios) para tomarem a embarcação que os levaria à outra banda do Tejo, ao Porto Brandão, onde o Círio tomaria o caminho do Cabo.

Com efeito, para Belém confluíam os Círios do Aro de Sintra-Lisboa, representados pelas freguesias do Termo das quais já dei notícia num outro estudo (O Giro do Círio dos Saloios, in Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa), Livros Dinapress, Lisboa, Abril de 2007, em seguimento do que publiquei igualmente em Introdução à Portugalidade, Cascais, 2002, e História Secreta do Brasil, São Paulo, 2004), ficando assim Belém como o “Lugar do Nascimento” assinalado pela venusta Estrela, isto é, Restelo, logo se iniciando a Viagem Marítima transpondo o Mistério Atlante tagano rumo ao sadino, apontado nesse outro Aro de Sesimbra-Caparica, com início no Porto Brandão, figurando a feliz chegada à “Ilha Afortunada” desse outro nauta irlandês São Brandão; início e trajecto marítimo esse cujo sentido hermético transposto vai muito bem com a Via Húmida da Alquimia da Alma assinalada em Nossa Senhora da Pedra de Mua ou Mu, este também o nome da Atlântida, o “País de Mu”.

Essa razão seria mais que suficiente para os iluminados esclarecidos da corte do rei D. João V impelirem este a oferecer à Confraria de Nossa Senhora do Cabo uma linda e luxuosa berlinda processional (na realidade, são duas) destinada ao transporte da imagem do Orago entre as freguesias do Giro do Círio Saloio, a qual sobreviveu até hoje e faz parte do espólio do Museu Nacional dos Coches, instalado em Belém junto ao Palácio levando o nome da freguesia e o qual chegou a ser morada dos Condes de São Lourenço.

A visita de estudo teve início no interior do Museu dos Coches, onde se pôde apreciar o real carro transportador da Santa Virgem Mãe. A berlinda é viatura cujo tipo parece ter sido inventado em 1660, em Berlim, na Alemanha, donde lhe adviria o nome. Sendo um género de veículo mais alto que o coche, era, porém, mais estável, virando-se menos. Muito usado em viagens longas e na cidade, devido à grande mobilidade que lhe vinha de não ter varal único, denotava um avanço técnico em relação ao coche. A caixa é montada sobre um par de varais laterais a que se liga por meio de correias, duas das quais seguem também por baixo e lateralmente, ao longo da viatura, de modo a ampará-la e dar-lhe a dita maior estabilidade (in João Castel-Branco Pereira, Viaturas de aparato em Portugal, Coches, Berlindas, Carruagens. Editora Bertrand, Lisboa, 1987, e Monsenhor J. M. Pereira Botto, Promptuario Analytico dos Carros Nobres da Casa Real Portuguesa e das Carruagens de Gala. Tomo I (único), Imprensa Nacional, Lisboa, 1909).

José Leite de Vasconcelos (in Etnografia Portuguesa, volume X, pp. 307-308), ao falar do Círio Real do Termo refere também a função da berlinda:

“Na frente vai quem puxa o círio; é sempre um dos principais (homens) da região festejante, montado em bom e ajaezado cavalo. A seguir, e a dois e dois, vão os mordomos e festeiros, também a cavalo e emparelhados. Segue-se o juiz do círio empunhando a bandeira, e ladeado por dois festeiros. Segue-se a berlinda, e a carruagem na qual vai o capelão e o sacristão. Segue-se a carruagem na qual vão os anjos ou pajens que deitam loas (recitam clamorosa e espaçadamente as loas ante os templos onde o círio costuma parar). Param para tomar as refeições em sítios já sabidos. Vem o pároco da freguesia onde é a paragem receber a imagem e leva-a processionalmente para o altar. Terminada a refeição e posta na sua berlinda a imagem, tudo solenemente, segue o círio até à igreja ou capela onde se há-de celebrar a festa. A volta para os lares tem o mesmo cerimonial da ida.”

Imagem 18

Também Mendes Leal (in Portugal Antigo e Moderno, pp. 205-207), descreve a presença da berlinda no Círio de Odivelas em 6 de Junho de 1875:

“O Círio que seguiu até Odivelas, era ordenado deste modo: uma carroça da casa real, com foguetes, um carro armado em forma de coreto, conduzindo uma filarmónica, quarenta festeiros montados em bons e ajaezados cavalos, um carro puxado por três juntas de bois, conduzindo outra música, um carro puxado por uma junta de bois, conduzindo 3 anjos, o juiz e 2 festeiros, o juiz levava a bandeira da Senhora, berlinda da casa real com o pároco de Odivelas, 50 trens conduzindo as principais pessoas da freguesia que festeja. O círio atravessa três freguesias: Belém, Benfica e Odivelas. Nesta última estavam preparados grandes festejos, que hão-de prolongar-se durante a entrada da Senhora naquele sítio. Houve bodo, arraial, fogo-de-artifício, etc.”

O Círio era, pois, uma festa mista, onde o sagrado e o profano se entremesclavam de forma indissolúvel.

O formato desta berlinda real oferecida à Mãe Soberana da Nação por D. João V, seu devoto e ilustrado graças à corte hermética que o cercava, configura no conjunto um M, de Maria, e as alegorias marianas decorativas do carro transferem a esse outro sentido de querer-se com ele figurar a Merkabah, o “Carro da Tradição” assumida pela Real Presença Feminina de Deus, consequentemente, a expressão dinâmica e processional da própria Shekinah. Esta representada na imagem da Virgem, e aquela no próprio carro que a transposta, consequentemente, Mariae Virginis Carrus Gloriam ou Lucem Marialis Carrum, o que remete para o sentido hermético do “Orvalho Celeste” (Maris Coelum) preanunciado pela “Luz” ou “Estrela” d´Alva (Vénus), consequentemente, Stella Maris.

Berlinda processional (século XVIII) oferecida por D. João V à Confraria de Nossa Senhora do Cabo Espichel (Museu Nacional dos Coches, Lisboa).

Berlinda processional (século XVIII) oferecida por D. João V à Confraria de Nossa Senhora do Cabo Espichel, a Virgem de Mu (Museu Nacional dos Coches, Lisboa)

Em 1784 coube a D. João VI apresentar-se como Juiz do Círio de Queluz: “Os festeiros embarcavam em Belém nas galeotas e faluas reais e desembarcavam em Porto Brandão onde o povo os esperava com foguetes e morteiros. Enquanto a Torre de Belém dava as salvas de estilo, o cortejo dirigia-se à Capela onde os “Anjos”, três crianças vestidas à romana, cantavam as “loas”. Em seguida organizava-se o cortejo a caminho do Cabo ao som de música, foguetes e repicar do sino pela seguinte ordem: à frente seguia no meio de grande cavalgada o juiz da festa empunhando a bandeira do círio, depois os três “Anjos” montados em cavalos brancos. Atrás seguia a berlinda com a Imagem da Santa cercada por cavaleiros empunhando velas, depois ia o carro com os Padres, outro com procuradores e finalmente a galera da música. Na cauda seguia o povo em dezenas de carros de toda a espécie com os mais variados ornamentos que formavam uma alegre e extensa fila” (in Praia do Sol, ano III, n.º 46, 1952, citado por Paulo Pereira em Cabos do Mundo e Finisterras, edição Círculo de Leitores, Lisboa, Janeiro de 2005).

Além das galeotas e faluas reais, havia outros meios para atravessar o Tejo, pois esse era negócio assente desde há muito, como consta de um documento de 1284 assinalando um encontro entre as autoridades de Almada e Lisboa, para “discussão dos preços da travessia do Tejo a cobrar a homens, bestas e cestos”.

No século XIX e boa parte do seguinte haviam três tipos de embarcações comerciais que faziam a travessia (in Luís Chaves, Os Transportes Populares em Portugal. Carros e Barcos. INATEL, Lisboa, 1958):

Botes cacilheiros = ligando Lisboa a Cacilhas;

Botes catraios = ligando Belém a Porto Brandão;

Faluas = ligando Lisboa ao Montijo.

Visita feita à berlinda processional no Museu Nacional dos Coches, de Belém – onde começou a minha viagem nostálgica à infância passada, e que teve maior crivo interior na “outra banda” por ter passado largo tempo nos lugares visitados – encetámos a travessia do Tejo indo directamente para Porto Brandão.

Era aqui, no Porto Brandão, que o Círio se reunia e começava a peregrinação em direcção ao Cabo Espichel, mas antes indo à próxima estação sacra, gnoseológica, do Monte da Caparica.

Logo no Porto Brandão está a igreja de São Luís de França, onde se celebrava missa aquando da chegada do Círio Mariano, e nela esteve um rico trono oferecido pelo rei D. Pedro II ao pároco do Monte da Caparica.

Lugar e igreja altercam-se metonimicamente cujo resultado supera largamente o simples sentido de passagem obrigatória de festeiros devotos…

Com efeito, o Rei São Luís de França insere-se naquela linhagem de reis sagrados pelo Divino Espírito Santo cuja primazia europeia cabe a D. Afonso Henriques de Portugal. Logo, transpondo o coração da Europa, a França, para o mental da mesma, a Lusitânia, temos figurativamente São Luís integrado à primeira Linhagem Sagrada do continente, facto dado aquando do Milagre Cristológico de Ourique, nas planícies do Baixo Alentejo. Para que o Poder Real fosse efectivamente reconhecido pela Autoridade Sacerdotal, cabia-lhe prestar o dízimo da sua vassalagem ortodoxa, conforme era uso em sociedade tradicional. Nisto, acaso estará a oferta do trono pelo rei ao sacerdote caparicano.

Mas o reconhecimento espiritual do temporal, o seu crisma, só teria efectivação numa “Terra Bem-Aventurada”, neste caso, o Portus Brandonis da “Ilia” Brandonis aonde chegou o nauta irlandês da saga lendária medieval, toda ela remetendo para a tradição hindu-europeia desse outro mítico e misterioso “Reino de Agharta”, para todo o efeito, Paraíso Terreal.

A Ilha utópica de São Brandão ficou conhecida em Portugal através de um texto de que existe a versão latina no cartório de Alcobaça: Vitam S. Brandani Abbatis clumniacensis in Hybernia, mas que foi objecto de inúmeras traduções na Europa. São Brandão seria bispo e abade de Clonfert, na Irlanda (Hibérnia), e terá vivido no século XI. A sua viagem marítima irá recobrir inúmeros aspectos podendo-se atribuir ao deus Bran céltico e à sua viagem. Os nautas companheiros de São Brandão, em número de catorze, passam na odisseia marítima diversas provações num esquema progressiva de carácter claramente iniciático, percorrendo diversas estâncias com nomes sugestivos, tais como “Planície do Prazer”, a “Terra da Felicidade” e a “Terra dos Bem-Aventurados” (in Paulo Pereira, Paraísos Perdidos e Terras Prometidas. Edição Círculo de Leitores, Lisboa, Dezembro de 2004).

Nesta metonímia a Hibérnia se encontra aqui com a Ibéria, sua colonizadora proto-histórica, assim como a França com Portugal, o Coração com a Mente, e, transpondo as provações dos nautas irlandeses da lenda para o circuito do Giro, temos então que elas são vencidas graças à intervenção materna e divina da Shekinah, a melhor Timoneira para conduzir com segurança a Barca dos Fiéis pelo Ignoto Mar Atlante (o Tejo) até à “Outra Banda” ou novo aspecto da Existência, assinalado no Porto Seguro de Brandão.

Barca ou Agharta, tanto vale. Mesmo assim coaduna-se com esse sentido velado do episódio ocorrido cerca de 1900, quando chegou ao Porto Brandão o cortejo do Círio: os seus marinheiros integraram esse cortejo com um outro levando um dos seus “botes catraios”, devidamente pintado e ornamentado, em cima de uma galera puxada por animais. Na embarcação seguia a filarmónica da Sociedade Marítima do Porto Brandão.

Mas a história corrente entremeslada à lendária, por uma e outra cultivarem dúvidas sobre a origem deste porto fluvial, não é isso que contam.

É facto que o lugar já era conhecido dos romanos e árabes. Destes ainda há a herança toponímica dos lugares próximos de Murfacém, nome oriundo de Mo-ha-cem, “filho de barbeiro”, onde também sobrevive o testemunho de trinta cisternas árabes, e da Banática, corruptela de Ben-Ataija, “paço do príncipe”. Entre os latinos o Porto Brandão era a Equabona, remetendo para as águas medicinais brotando de nascentes sobre o casario e que, por suas propriedades curativas, depressa os achacados e lazaretos ou agafados (leprosos) do sítio propagaram a sua fama de “santas”. Aí está o povoado da Fonte Santa por cima do Porto Brandão, referido desde o século XVI como “Fontes Santas”, indicando a existência de nascentes de águas medicinais. O fontanário que se encontra no Largo Carlos da Maia foi reconstruído no século XIX, passando a localidade a chamar-se Fonte Santa. A água que brota desta fonte não é potável, tendo sido esquecidas as suas propriedades curativas (in Patrícia Freire, Lugares da Caparica. Centro de Arqueologia de Almada, edição da Junta de Freguesia da Caparica, Novembro de 2005).

Mas certamente não estavam esquecidas para os festeiros do Círio que saindo da igreja de São Luís de França subiam a estrada e aí se detinham, alguns deles para se banhar, como se tratasse de uma espécie de baptismo ou banho lustral purificador, para que puros de corpo e alma (tanto que a lepra antanho era considerada sobretudo uma doença de alma, de karma contagioso…) pudessem subir o Monte Pio de Santa Maria da Caparica, assim tomando-o como verdadeiro Mons Sacer, “Monte Sagrado”. Mas já lá irei!…

O nome actual do sítio surgiu entre 1472 e 1519, altura em que existia a Quinta da Azenha, de Francisco Sá Menezes, bisneto de Diogo Brandão, responsável pelas obras públicas de Lisboa, por sua vez filho de Pedro Brandão, cujo apelido deu origem ao Porto Brandão. Esta é a explicação historiográfica da genealogia que deu origem ao lugar. Mas também há a lendária, que é uma verdadeira tragédia de amor entre enamorados caparicanos. Ela conta assim:

Havendo estaleiro naval aqui um jovem operário do mesmo, Brandão, apaixonou-se por uma linda rapariga de nome Paulina, filha de um negociante rico que se encontrava na Índia. Quando soube do namoro, o pai opôs-se ao casamento e mandou que a filha fosse para junto dele. Então Brandão tentou raptar a jovem já no navio que a iria levar à Índia. A tripulação descobriu-o, matou-o e atirou o corpo ao rio à vista de Paulina. Desgostosa, também ela se atirou ao rio e morreu afogada. Diz a lenda que o cadáver de Brandão deu à praia neste Porto, daí em diante levando o seu nome, enquanto o corpo de Paulina deu à costa numa pequena praia ali perto, passando a chamar-se Praia da Paulina, hoje Praia do Larazeto (in Carla Figueiredo, Porto Brandão – O Porto dos Amantes. Jornal da Região de Almada, n.º 5, 12.11.97, e também, com ligeiras diferenças no conto, À Descoberta de Portugal, p. 327, edição das Selecções do Reader´s Digest, Lisboa, 1982).

O possível significado dessa lenda remeterá para a relação afastada ou ausente, por receio do perigo iminente de contágio, entre a população marítima do Porto, representada por Brandão, e os lázaros ou lazaretos, representados por Paulina, instalados no sítio do Lazareto, a nascente da Torre de S. Sebastião da Caparica. Para substituir o Larazeto Velho ali instalado, o Lazareto Novo destaca-se pelas soluções arquitectónicas utilizadas (planta radial) e pela dimensão do edifício. Construídos seis blocos distintos no interior, separando os doentes dos visitantes e funcionários, possuía também estruturas de desinfecção, armazenamento e um cemitério privativo. Tendo sofrido várias vicissitudes, desde 1989 que o edifício encontra-se fechado.

Galgado o sítio da Fonte Santa, chegou-se ao antigo Largo da Torre do Conde, hoje Largo Bulhão Pato, onde ainda se pode observar o que resta da casa de habitação, armazéns agrícolas e um lagar, pertencentes à Quinta da Torre. Tudo isolado em desoladoras ruínas num desolado e minguo pedaço de terra cercado pelo complexo da nova estrada e o campus universitário. Apertou-se-me o coração, custei a reconhecer o sítio onde passei parte da minha infância, de onde saía para ir aprender as primeiras letras e números na escola primária do Monte Caparica. A ganância perdulária de alguns construtores civis destruiu por completo páginas irrecuperáveis da nossa História Pátria. E, ao que sei, ninguém fez nada… Se no meu tempo passado aí era muita a miséria social, que bem senti na pele, bem parece que nada mudou, pois que miséria continua. “Sinais do progresso”, dizem. Qual progresso? Quando se apaga a memória, fica só o retrocesso.

Como muito bem diz Patrícia Freire (in ob. cit.), a Quinta da Torre foi das mais importantes do Reguengo da Caparica, quer pela produção agrícola, que pela proximidade das “Fontes Santas” e pelas relações dos seus proprietários com a família real e nobreza da corte. A 24 de Janeiro de 1570, após alvará passado por D. Sebastião (outro real devoto do Círio da Senhora do Cabo), é instituído por D. Tomás de Noronha, antepassado dos Condes dos Arcos que possuíram esta propriedade até finais do século XX, um morgado de capela, cuja principal propriedade é a Quinta da Torre. O seu topónimo terá origem na existência de uma torre medieval, possivelmente mandada erguer ou pelos Templários de Cristo ou pelos Espatários de Santiago, pois que ambas as Milícias por aqui andaram (como atesta uma pedra de cabeceira funerária templária encrostada no exterior da parede frontal da igreja do Monte Caparica), desaparecida após o terramoto de 1755.

No século XVI foi construída no pomar da Quinta uma ermida dedicada a S. Tomás de Aquino. Aí se realizaram, no século XVIII, matrimónios entre as famílias dos Condes dos Arcos e dos Condes de S. Miguel, cerimónias às quais compareceu parte da corte de D. João V. Arruinada pelo terramoto de 1755, a ermida esteve ao abandono até 1980, altura em que foram tomadas algumas medidas para a sua preservação, nomeadamente a remoção das terras acumuladas no interior, consolidação das paredes e colocação de uma cobertura. Apesar de actualmente se encontrarem em zona de difícil acesso, a ermida de S. Tomás de Aquino e o poço rectangular com duas colunas de pedra, nas suas proximidades, constituem exemplares únicos da arquitectura Manuelina no Concelho de Almada.

Ruínas da ermida de S. Tomás de Aquino (Monte de Caparica)

Ruínas da ermida de S. Tomás de Aquino (Monte da Caparica)

Encostada à Quinta da Torre, havia umas casas onde na n.º 3 uma lápide assinalava aquela onde viveu Bulhão Pato, poeta, gastronómico, makavenko e maçom de alto Grau. Foi autor do famoso e belo Livro do Monte, editado em 1896. Faleceu em 24 de Agosto de 1912, repousando os seus restos mortais no cemitério do Monte da Caparica.

Finalmente, chegou-se ao largo da igreja de Nossa Senhora do Monte, no topo deste assinalando o centro axial da povoação. Contando com 17 localidades (que vai bem com o número igual do biorritmo de Portugal), ele incluído, o Monte Pio de Santa Maria da Caparica, ou Monte Pio de Nossa Senhora do Cabo, foi instituído sede de freguesia da Caparica desde a sua fundação em 20 de Novembro de 1472, por bula do Papa Sisto IV. Foi elevada a vila em 27 de Setembro de 1895, tomando a designação oficial de Monte da Caparica.

A igreja foi fundada em 24 de Maio de 1482 e sagrada por D. Nuno, bispo de Tânger, tendo sido erigida sobre uma ermida consagrada a Santa Maria, que não me custa muito admitir fosse de fábrica Templária, devido aos elementos achados em volta deste espaço relacionados com essa Ordem medieval. O terramoto de 1755 arruinou o templo, mas D. José I mandou reconstruí-lo, decorrendo as obras entre 1756 e 1760, dando ao edifício a traça actual, mantida através de várias obras de manutenção e restauro de que tem sido alvo.

Medalhão com Cruz da Ordem do Templo no exterior da igreja paroquial do Monte da Caparica

Medalhão com Cruz da Ordem do Templo no exterior da igreja paroquial do Monte da Caparica

De destacar, por sua importância para a história da freguesia, o episódio da rainha D. Carlota Joaquina ter oferecido à Senhor do Cabo uma capa rica, muito valiosa, que esteve exposta nesta igreja durante algum tempo. Daí adviria, para a memória local, a origem do topónimo Caparica, isto é, Capa-Rica. Mas, segundo os eruditos, o nome provém do árabe Al-Kabbara, derivado do latim Capparis, por sua vez oriundo do grego Kapparis, “Alcaparra” (Caparis Espinosa).

Realmente, as alcaparras abundam nestas partes marítimas do Concelho de Almada. Mas adaptando o significado dessa planta ao que subjaze, qual Tesouro da Caparica, nesta parte, mormente na igreja do Monte Pio ou Sagrado, tem-se a alcaparra como sinónima “de embuste, de engano”, ou melhor, do que vela o real sob a ilusão da aparência, o que transfere ao sentido de enigma. E grande, valoroso e valioso enigma há nesta igreja paroquial…

Apresentando exteriormente fachada de estilo “chão” ou neoclássico, com um frontão triangular e torre com campanário e relógio, o interior do templo é composto por uma nave única com tecto em abóbada de berço e capela-mor. No altar-mor, o retábulo é de talha dourada neoclássica e nele se admira uma escultura em madeira policrómica de Nossa Senhora do Monte. Nos restantes altares laterais existem vários retábulos, barrocos, e na capela do lado da Epístola está uma tela do século XVIII, representando a “Última Ceia”. Permeio aos altares laterais, nas paredes de ambos os lados, patenteiam-se enormes painéis de azulejos neoclássicos setecentistas, legendados em latim, oriundos da Fábrica do Rato, Lisboa, historiando em forma de enigma cortesão, quase desinteressante ao contexto sagrado do espaço, os passos bíblicos do Cântico dos Cânticos.

Silhar de azulejos (século XVIII) com cenas cortesãs "sagradas" por legendas do Cânticos dos Cânticos (igreja paroquial do Monte da Caparica).

Silhar de azulejos (século XVIII) com cenas cortesãs “sagradas” por legendas do “Cântico dos Cânticos” (igreja paroquial do Monte da Caparica)

Mas é precisamente o Cântico dos Cânticos ou Livro dos CantaresCântico Superlativo – atribuído a Salomão cerca de 400 a. C., o ponto de encontro e concórdia entre o Judaísmo e o Cristianismo, este nunca esquecendo o encómio exaltado do Rabi Akivá, perto do ano 100 d. C.: “O mundo inteiro só foi criado, por assim dizer, por causa do dia em que o Cântico dos Cânticos seria dado a ele. Pois se todas as Escrituras são Santas, o Cântico dos Cânticos é o Santo dos Santos”!

Ordenando a Escritura Velha em três classes – Livros Históricos, Livros Sapienciais e Livros Proféticos – os teólogos consignam o Cânticos dos Cânticos no grupo dos Sapienciais. Constitui-se de uma colectânea de hinos nupciais ordenados em oito capítulos. Por detrás da forte carga erótica que apresenta no encontro entre dois jovens enamorados (parecendo estar aqui retratada na lenda caparicana de Brandão e Paulina…), o enigma sapiencial aponta sobretudo a hierogamia transcendente, ou seja, a união de uma deusa feminina com um deus masculino, para não dizer, a núpcia filosófica da Alma com o Espírito, Anima e Animus, Psike e Eros, Shakti e Kartri, e isto é a Alquimia da Alma, a Húmida ou Andrógina.

Na teologia cristã, o Cântico dos Cânticos é simbólico da núpcia da Igreja com Cristo. Já na teologia judaica, indica a união da Bem-Amada Shekinah, ou Requinah, com o Messiah, o “Novo Salomão”. Transpondo essa interpretação para o contexto setecentista português, significativamente D. João V foi justamente apodado de “Rei Sol” e “Novo Salomão” (Messiah), ele devotadíssimo da Virgem de Mu (Shekinah), e à presença e influência de ambos aqui se liga o Monte Pio da Caparica, a “alcaparra” ou segredo escondendo a mensagem de uma Nova Terra, de uma Nova Israel (“Realeza de Ísis”) a construir no Ocidente da Europa, tal qual a Paradhesa ou Paraíso Terreal estava a Ocidente do Mundo, essa mesma Atlântida em seus dias áureos, antes do Dilúvio Universal – assinalado em dois silhares de azulejos legendados junto ao baptistério, que é Sacramento de Espírito Santo – a afogar no Oceano que lhe leva o nome, Atlântico.

Há, pois, aqui duas leituras da tradição teológica judaico-cristã, a simples ou de catequese e a erudita ou teosófica. Elas se confrontam e, contudo, se interpenetram nas suas transliterações. Este facto é aqui patenteado no aparente conflito teológico entre dois personagens célebres da Igreja: João Escoto e Tomás de Aquino, este ortodoxo e aquele heterodoxo no contexto e entendimento da doutrina.

Se Tomás de Aquino é um dos doutores da Igreja Romana, a ele se devendo a introdução do celibato sacerdotal e a manutenção da letra da catequese, o que se mantém até hoje, já João Escoto Erígena (“nativo de Erim”, o que remete mais uma vez para a presença da Hibérnia nesta parte da Ibéria), nascido na Irlanda no ano 810 d. C. e falecido em Paris em 877, foi o expoente máximo do Renascimento Carolíngeo no século IX. Filósofo, teólogo e tradutor na corte de Carlos, o Calvo, aliou o Platonismo à teologia Agostinha, Neoplatónica, pelo método teúrgico-gnóstico de Dionísio, o “Aeropagita”. As suas principais obras literárias, foram: Sobre a Predestinação; Sobre a Divisão da Natureza; Exposições sobre a Hierarquia Celeste.

A João Escoto anda associada a tradição enfabulada dos reis visigóticos e merovíngios carregando para o mais Ocidente da Europa a pressuposta “Linhagem Perdida” gerada do Sangue Real do Messiah da Escritura Nova, a qual os iluminados esclarecidos da corte de D. João V pretenderam reachá-la neles mesmos, cedo passando da ideia à prática pela difusão, assente nas antigas ideias joaquimitas da translatio imperii,  do ideal universalista do V Império do Mundo, dirigido por uma Corte de Iluminados em torno do seu Rei Sagrado, o “Rei Sol” ou Novo Messias Salomónico: D. João V, como se o particularizou, aparte ser apenas partícula simbolizando o Reis dos Reis na pessoa de Cristo. Por todos os sinais discretos mas patentes, deixando o subentendido de mensagem ocultada, é de crer que boa parte de todo esse pressuposto ou então secreto plano sinárquico se terá desenrolado aqui, no Monte Pio da Caparica.

Aliás, já antes dessa época havia nesta igreja diversos objectos que eram motivo de escândalo para as mentes reguladas exclusivamente pelo ortodoxia da doutrina, sem mais e nenhum aprofundamento ou análise exegética da mesma. Tratava-se do culto da “letra pela letra”… esquecendo ou ignorando que “a letra mata e o espírito vivifica”. Seja como for, no século XVII, em 24 de Setembro de 1634, por ordem do padre Jorge Cabral, da Mesa da Inquisição, foram retiradas desta igreja várias peças que eram motivo de censura pelo pároco da Caparica, António Luís. De entre esses objectos contava-se um retábulo de quatro painéis pintados em 1627 por Domingos Vieira, de alcunha “O Escuro” (desconheço se pela cor da pele, se pela cor da crença…), domiciliado em Lisboa, a pedido do cura desta igreja caparicana, António Rodrigues das Neves, no tempo em que era oficial da Confraria de Nossa Senhora da Conceição.

Nesse retábulo constavam imagens consideradas considerada heréticas com os respectivos letreiros, também heréticos, num deles aparecendo S. Tomás de Aquino humilhado, vencido ante um muito alegre Escoto. Letras e imagens do retábulo foram escrupulosamente raspadas pelo padre António Luís. Essa peça preciosa da Pintura Portuguesa desapareceu após o terramoto de 1755, mas Sousa Viterbo dá notícia dela no seu livro Notícias de Alguns Pintores Portugueses, editado em 1909.

Também com a interpretação dúplice da única doutrina, seja simples ou erudita, tem a ver o significado da lenda do Monte da Caparica, na qual uma moça caparicana herdou de um velho (de Alcabideche, Sintra) uma capa rica, que guardou até aos últimos dias da sua velhice, tendo-a depois oferecido à Mãe de Deus indo cobrir a Sua imagem na Basílica Real do Cabo.

Silhar de azulejos retratando a aparição de Nossa Senhora da Mula (ermida da Memória, Cabo Espichel).

Silhar de azulejos retratando a aparição de Nossa Senhora da Mula (ermida da Memória, Cabo Espichel)

Para Emanuele Boaga, da Ordem Carmelita (in Para “ler” as lendas marianas da Idade Média. Revista Carmelo Lusitano, n.º 12, Lisboa, 1994), na descodificação das lendas religiosas é essencial ter presente estes critérios:

– Um facto miraculoso ou extraordinário na vida do santo ou do grupo para sublinhar a presença de Deus no mesmo;

– As referências bíblicas ou aos padres da Igreja servem para favorecer uma interpretação teológica da vida do santo, situando a sua missão na Igreja e na história da Salvação;

– Metáforas e símbolos usados para comunicar experiências indizíveis.

Entre os símbolos predominantes nesta literatura Mariana das miracula e exempla, temos:

Símbolos da Casa-Templo: lugar de encontro entre o Céu e a Terra, da nova Criação. Aplicados a Shekinah ou a Maria, indicam intimidade, vizinhança, familiaridade, protecção e surgimento de nova vida. Shekinah ou Maria torna-se arquétipo daquilo que o seu devoto deseja ser.

Símbolos Maternais: que exprimem protecção, misericórdia, ternura. O tema da Virgem que cobre com o seu manto exprime compaixão e protecção. Maria Patrona como Mãe de Misericórdia revela a “Face Materna de Deus” para o Homem. O tema da Mãe-Terra aplicado a Maria parece estar presente para indicar que Maria recorda-nos a Terra Natal (a Paradhesa), e estimula a saudade dela e a memória das origens.

Outros símbolos Marianos: são vários, com referência a aspectos vegetais, aquáticos, siderais, lunares, etc., símbolos cujos sentidos são atribuídos às funções do Espírito Santo e que, assim, correlacionam Maria com Ele. A “nuvenzinha” que traz a chuva é símbolo aquático da fertilidade e da maternidade. O Flos Mariae e a “videira florida” são símbolos vegetais da fecundidade, da regeneração, da beleza de Deus e de harmonia. A “estrela-do-mar”, stella maris, é símbolo sideral de Vénus, indicando Maria como ponto de referência para a Salvação.

Todos esses símbolos podem ser examinados interrelacionando-os entre si. Assim, descobre-se que a finalidade dos exempla e das miracula favorece o sentido genuíno e autêntico do Padroado Mariano sobre Portugal, o que é tão sensível neste Monte Pio de Santa Maria da Caparica.

Foi da Caparica para o Cabo Espichel que rumou de seguida a comitiva destes novos festeiros nesta nova peregrinação, certamente devota e pia, igualmente esclarecida.

O autor no Cabo Espichel, Sesimbra, após a visita à Senhora do Monte da Caparica, Almada.

O autor, VMA, no Cabo Espichel, Sesimbra, após a visita à Senhora do Monte da Caparica, Almada  

Aí, visitou-se o que havia a visitar: as casas dos romeiros sobre arcaria de ambos os lados (63 arcos do lado esquerdo, e 47 arcos do lado direito), a Basílica Real da Senhora de Mua, da Mula ou da Mulinha da lenda, a Ermida da Memória, etc. Sobre tudo isso já falei, escrevi e publiquei, pelo que desnecessito repetir-me, remetendo o respeitável leitor para a bibliografia da minha lavra ao início desta presente.

Após, deram-se as despedidas cordiais com todos aparentando satisfação por também terem o privilégio de honrar e seguir as passadas espirituais de tantos e tantos devotados a Santa Maria do Termo dos Saloios e dos Saveiros, cuja Bandeira e depois Imagem ambas sempre estiveram sob a legenda salvífica, luminosa e esperançosa de Stella Maris.