A Maçonaria e o Brasil Independente – Por Vitor Manuel Adrião Sexta-feira, Abr 7 2017 

A presença da Maçonaria na Independência do Brasil é facto histórico incontornável. Desde a Inconfidência Mineira até ao Grito do Ipiranga – Independência ou Morte! – passando pelo corte político de subordinação às Cortes de Lisboa e a Abolição da Escravatura, a Maçonaria teve papel determinante na formação do Brasil Independente. Não se pode deixar de falar dela.

Para uma nação a ser em toda a sua potencialidade, tal como o filho em relação ao progenitor, precisa libertar-se da dependência paterna, no caso, Portugal. O pai ensinou o filho, depois o filho teve que seguir o seu curso natural na vida, livre e independente, evoluindo pelos seus próprios esforços e méritos, e se possível até ajudar o velho pai, como este o ajudou em sua infância e adolescência. Foi assim que a Maçonaria Luso-Brasileira, em seus primórdios e aparte todas as vicissitudes psicossociais próprias de qualquer movimento novo, inexperiente nas madurezas da vida sociopolítica independente, entendeu essa acção determinante da que é hoje a maior potência nacional da América do Sul rivalizando mesmo com as potências socioeconómicas mundiais: o Brasil, o jovem filho mais querido de seu pai ancião, Portugal.

Tanto assim é que os primeiros maçons em solo brasileiro eram portugueses, depois naturalizando-se e assumindo-se de corpo e alma inteiros maçons brasileiros. De maneira que, apesar das relações tempestuosas com as Cortes de Lisboa havidas nesse conturbado período de transição, elas não foram tanto assim no seio da Maçonaria, encoberta e calmamente lavrando o terreno da pátria livre, inclusive com a Maçonaria Brasileira, criada a partir de Portugal, influenciando depois a Portuguesa, prova clara do intercâmbio entre as duas partes que se complementavam, que nunca estiveram separadas e só distintas no processo de Independência, nisto naturalmente implicando crises político-social ameaçando com a militar que, também graças à Maçonaria, nunca descambou em conflito bélico com Portugal. Isso mesmo diz Oliveira Marques[1], num breve resumo da História da Maçonaria Brasileira, que transcrevo por inteiro:

“BRASIL – Embora tivesse havido maçons em terras brasileiras desde meados do século XVIII – na sua maior parte vindos de Portugal – só em 1800 surgiu na América Portuguesa a primeira Loja maçónica, devidamente estruturada. Foi a Loja União, instalada nesse ano perto do Rio de Janeiro, em Niterói (ao tempo chamada Vila Real da Praia Grande). Seguia o Rito Adoniramita e extinguiu-se logo em 1801, sem nunca se ter integrado em qualquer Obediência.

“Em 1801, apareceu uma segunda Loja do mesmo Rito, de nome Reunião, talvez por transformação da primeira. Funcionou no Rio de Janeiro e colocou-se, a partir de 1803, sob os auspícios do Oriente da então Ilha de França (hoje Maurícia). Durou até 1805.

“Por seu turno, em 1802, foi instalada na Bahia, a Loja Virtude e Razão, do Rito Francês.

“A intervenção do Grande Oriente Lusitano verificou-se pouco depois da sua criação em Lisboa, em 1803. No ano imediato, patrocinou a instalação no Rio de Janeiro, sob a sua égide, das duas Lojas Constância e Filantropia, que considerou as únicas legítimas e que logo entraram em competição com as restantes. Mas, em 1806, a perseguição desencadeada pelo Vice-Rei, Conde dos Arcos, levou ao encerramento das duas Lojas, sobrevivendo apenas a da Bahia.

“A partir de 1807-08, a Maçonaria pôde renascer, graças ao regime de maior tolerância alcançado. A presença da Corte Portuguesa e de numerosos maçons vindos de Portugal ajudou a alicerçar as sucessivas Lojas que se foram constituindo: no Rio de Janeiro, a Beneficência, a Emancipação, a S. João de Bragança e, mais tarde, a Comércio e Artes; na Bahia, a Virtude e Razão Restaurada (depois chamada Humanidade) e a União; em Pernambuco, onde a Maçonaria teve enorme desenvolvimento, a Regeneração, a Guatomosim, a Iguarassu, a Firme União, a Universidade Democrática, a União Campista, a Pernambuco do Oriente, a Pernambuco do Ocidente, a Filantropia e Moral, a Restauração e a Patriotismo, muitas delas efémeras; e em Niterói, a Distintiva. Seguiam quer o Rito Adoniramita, quer o Rito Francês. Em 1813, constituiu-se um primeiro Grande Oriente Brasileiro, restrito às três Lojas da Bahia Virtude e Razão, União e Razão Restaurada e à Loja Beneficência do Rio de Janeiro. Como Grão-Mestre, foi escolhido António Carlos Ribeiro de Andrada[2].

“Por seu turno, o Grande Oriente Lusitano conseguiu colocar sob a sua Obediência as Lojas Emancipação e Comércio e Artes, do Rio de Janeiro.

“A perseguição de 1817-18, no rescaldo dos acontecimentos de Portugal, fez encerrar momentaneamente todas as Lojas maçónicas no Brasil e extinguir o Grande Oriente Brasileiro.

“A partir de 1820-21, as medidas tomadas pelas Cortes de Lisboa e o regresso de D. João VI a Portugal provocaram um renascimento da Maçonaria que adoptou uma política claramente anti-portuguesa e independentista. As Lojas Comércio e Artes (renascida) e União e Tranquilidade, do Rio de Janeiro, juntamente com a Esperança de Niterói, de Niterói, fundaram, em 1822, sob o supremo malhete de José Bonifácio de Andada e Silva, o Grande Oriente do Brasil, cujo papel se mostrou relevante na proclamação da Independência, ocorrida em 7 de Setembro desse ano.

“A Maçonaria Brasileira, criada a partir de Portugal, veio depois a ter alguma influência na Portuguesa e, em especial, nos dois pontos seguintes:

“1. O primeiro Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite foi constituído em Portugal, em 1841, integrado no Grande Oriente do Rito Escocês, por carta do Supremo Conselho do Brasil – ao tempo já regularmente constituído – a que presidia o Soberano Grande Comendador Montezuma[3], e o segundo, anexo ao Grande Oriente Lusitano, surgiu também por carta patente de 1841, concedida por outro Supremo Conselho do Brasil, de que era Soberano Grande Comendador o Conde de Lajes[4].

“2. Entre os primeiros guias e rituais usados na Maçonaria Portuguesa do Rito Escocês Antigo e Aceite contaram-se alguns vindos do Brasil, editados em 1833 (Cathecismo dos tres primeiros gráos do R∴ Escocez, Rio de Janeiro, 5833, 64 pp.) e 1834 (Guia dos Maçons Escocezes ou Reguladôres dos tres gráos symbolicos no rito antigo e acceito, Rio de Janeiro).

“As relações entre as Maçonarias dos dois Países foram sempre cordiais, tendo havido tratados entre o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente do Brasil em 1865 e 1907.”

Por sua vez, Joaquim Gervásio de Figueiredo também faz uma resenha histórica do surgimento e desenvolvimento da Maçonaria no Brasil, cujo texto completo transcrevo, pelo seu grande interesse histórico ao entendimento sociopolítico da Arte Real actuando em prol da independência e na formação do país independente[5]:

“BRASIL, I – Período Colonial. Permanecem algo nebulosos e caóticos os primórdios da Maçonaria no Brasil; todavia não resta dúvida de que a sua introdução neste país deve ter ocorrido no século dezoito, em consonância com o despertar da consciência nacional brasileira e o seu crescente desejo de independência, avolumados depois das derrotas que desde o começo desse século vinham os brasileiros infligindo aos seus colonizadores estrangeiros, mormente os holandeses, e não raro com a ajuda mínima de seus colonizadores lusos. Para agravar, estes se mostravam implacáveis e cruéis em estrangular qualquer sentimento nativista de emancipação política do jugo estrangeiro. Segundo insuspeitos historiadores (ver A Maçonaria e a Grandeza do Brasil, de A. T. Cavalcanti[6], uma obra bem documentada), não só Tiradentes, o protomártir de nossa Independência, como outros inconfidentes, eram todos maçons. O alferes Joaquim José Xavier (o Tiradentes) chegou mesmo a fundar uma Loja maçónica no Tijuco (hoje Diamantina), Minas Gerais[7]. No Norte, os primeiros passos decisivos para a implantação da Maçonaria no país foram dados em Pernambuco e Bahia pelo Grande Oriente da França, com o Rito Moderno ou Francês, e no Sul, isto é, no Estado do Rio de Janeiro, pelo Grande Oriente de Portugal, com o Rito Adoniramita. Em 1801 e 1802 havia maçons dispersos em Olinda, Salvador, Rio de Janeiro, Campos, Niterói e Minas Gerais. Em 1801 fundou-se em Salvador a Loja Virtude e Razão, que todavia teve curta duração, devido às perseguições do governo português, enquanto que em Pernambuco, beirando a mesma época, foram fundadas as Lojas Guatimosim, Firme União, União Campista e Filantropia e Moral. Alguns membros remanescentes da Loja Virtude e Razão fundaram em 30 de Março de 1807 a Loja Virtude e Razão Restaurada, que passou a denominar-se Loja Humanidade, e a seguir surgiu a Loja União. Com essas Lojas se fundou o primeiro Grande Oriente Brasileiro, com sede na Bahia, porém teve vida efémera, por ter desaparecido com as Lojas na voragem punitiva que se seguiu à fracassada Revolução Pernambucana de 1817. Ao passo que no Sul, em 1804, fundou-se a primeira Loja no Rio de Janeiro, denominada Reunião, filiada ao Grande Oriente Lusitano e funcionando no Rito Adoniramita, atraindo os maçons até então dispersos. Nesse mesmo ano chegou ao Rio de Janeiro um delegado do Grande Oriente Lusitano, portador da Constituição e Regulamento dessa Ordem, com o fim de obrigar todos os maçons brasileiros a se filiarem àquele Grande Oriente. Frustrado em seu intento, esse delegado enviou um mensageiro a Lisboa, a expor ali os motivos da recusa dos brasileiros em aceitarem aquela Obediência. Ante a impossibilidade de um acordo com a Loja Reunião, o delegado português fundou no Rio de Janeiro as Lojas Constância e Filantropia, e Emancipação, também filiadas ao Grande Oriente Lusitano. Com o advento das cortes portuguesas para o Brasil, em 1808, surgiu depois a Loja S. João de Bragança, da qual fizeram parte muitos funcionários do Paço. Seguiu-se-lhe a Distintiva em 1812, a qual em seu selo tinha por emblema um índio de olhos vendados e em cadeias, qual um génio prestes a libertar-se. Em 1815 fundou-se a Loja Comércio e Artes que, após cair em letargia, foi reerguida em 1821, e ainda subsiste. Esta Loja chegou a contar 94 membros activos em 1822, pelo que se decidiu criar duas Lojas suplementares: a União e Tranquilidade e a Esperança de Niterói. A principal tarefa dessas Lojas consistiu então em promover a campanha de libertação política do Brasil. A 2 de Agosto desse mesmo ano, o príncipe D. Pedro é iniciado ritualisticamente na Loja Comércio e Artes, sob o nome histórico de Guatimosim, e a 5 do mesmo mês é exaltado a Mestre maçom. Em 17 de Junho de 1822, convocou-se uma Assembleia Geral, que criou e instalou o Grande Oriente do Brasil, com o fim de tornar completamente autónoma a Maçonaria no país. As primeiras potências maçónicas a reconhecê-lo foram a França, a Inglaterra e os Estados Unidos da América do Norte.

“II – Período Monárquico. O Grande Oriente do Brasil foi fechado pelo seu Grão-Mestre, o imperador D. Pedro I, quatro meses após a sua instalação. Mas em 1827 alguns irmãos iniciaram outro movimento para reacender a Maçonaria no país, e em 1828 criaram um corpo director denominado Grande Oriente Brasileiro, porém, apenas simbólico e com uma Loja funcionando no Rito Escocês Antigo e Aceito. Em 1831, depois da abdicação de D. Pedro I, abriu-se nova pugna entre maçons brasileiros, pois, com a reinstalação, em 23 de Novembro desse ano, do anterior Grande Oriente Brasileiro, passaram os dois Orientes a tratar-se como inimigos, não obstante trabalharem ambos no Rito Moderno ou Francês. O Grande Oriente do Brasil esteve quase sempre em luta com outras potências maçónicas, e em funcionamento irregular, a não ser nos breves períodos em que viveu à sombra do Supremo Conselho para os Estados Unidos do Brasil. Em 12 de Novembro de 1832 o antigo embaixador brasileiro Montezuma, munido de plenos poderes do Supremo Conselho da Bélgica, fundou um Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, no Rio de Janeiro, onde instalou uma Loja a que denominou Educação e Moral. Este ilustre irmão era filiado a uma Loja do Grande Oriente do Brasil e a uma outra do anterior Grande Oriente Brasileiro, e com o advento desta nova situação, passaram os dois Grandes Orientes a criar Capítulos e Consistórios, cada qual com um Supremo Conselho. Em 23 de Fevereiro de 1834, foi celebrado em Paris o Traité d’Union d’Alliance et Confédération Maçonnique entre os Supremos Conselhos dos Estados Unidos da América do Norte, França e Brasil, este último representado pelo Grande Lugar-Tenente Comendador Machado E. Silva. Em 23 de Outubro de 1835, alguns membros do Supremo Conselho do Brasil, reunidos irregularmente em Supremo Conselho, sem processo e em sua ausência, demitiram de suas funções o Soberano Grande Comendador Montezuma. Este reagiu contra acto tão irregular, sancionando os rebeldes, e continuou a exercer suas funções até 18 de Fevereiro de 1844, quando cessou de o ser por força do Tratado de Paris, em razão do afastamento de grande número de irmãos, segundo o manifesto do Supremo Conselho da França. Por esse Tratado, o Supremo Conselho do Brasil, então mais conhecido por Supremo Conselho Montezuma, deixou de fazer parte da Federação de Paris. Do verdadeiro Supremo Conselho do Brasil, assim feito adormecer, surgiram três novos Supremos Conselhos, dois dos quais, de vida efémera, fundiram-se no Grande Oriente do Brasil. O outro grupo, emanado do Supremo Conselho de Montezuma desde 1842, reuniu-se ao anterior Grande Oriente Brasileiro, tomando o nome de Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito do Grande Oriente Brasileiro, o qual aboliu inteiramente o Rito Moderno ou Francês. Rompido o Tratado de União de 1842, apareceu um Grande Oriente e Supremo Conselho sob a direcção do Marquês de Caxias, que, porém, logo aconselhou sua extinção. Depois, surgiu um outro Supremo Conselho, presidido pelo Conde de Lajes, com dezassete membros, mas também teve pouca duração. Reinando a anarquia em todas estas Ordens, cada multiplicação sua redundava em novo fracasso. Em 1843, foi fundada a Companhia Glória de Lavradio, com novo Grande Oriente, que também acabou se cindindo em dois grupos. Um dos grupos aclamou seu Grão-Mestre de Lavradio o Barão de Cairu, ao passo que um dos dignitários do outro grupo, tendo monopolizado todos os poderes, provocou o afastamento de mais de 1.500 maçons, os quais, sob a direcção do grande irmão Dr. Joaquim Saldanha Marinho, fundaram em 1863 o Grande Oriente e Supremo Conselho dos Beneditinos. Em 1865 os Grandes Orientes da França e de Portugal resolveram reconhecer o Grande Oriente dos Beneditinos como o único legal, e renovaram o Tratado de Aliança de 16 de Maio de 1865; graças aos esforços de seu Grão-Mestre, o Grande Oriente e Supremo Conselho dos Beneditinos chegaram a contar 49 Lojas em 1869. O Grande Oriente do Vale do Lavradio promulgou em 20 de Abril de 1865 a sua Constituição e Estatutos Gerais, e o do Vale dos Beneditinos promulgou a sua em 25 de Setembro de 1866, ambas admitindo o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Moderno ou Francês, e o Adoniramita, e mesmo “todos os Ritos que estejam em harmonia com os princípios maçónicos e disposições da presente Constituição”. Em 1870, o Visconde do Rio Branco foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Lavradio, ao passo que Saldanha Marinho sempre deteve esse cargo na Ordem dos Beneditinos. Em 1872, mercê dos esforços do Grande Oriente de Lisboa, esses dois Grandes Orientes foram reunidos sob a denominação de Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil, e a sua Constituição provisória foi promulgada em 23 de Setembro de 1872, no Vale do Lavradio. Na ocasião da fusão havia 122 Lojas, das quais 68 Capitulares: 99 eram do Rito Escocês Antigo e Aceito, 11 do Rito Moderno ou Francês, 9 do Rito Adoniramita, 1 da Grande Loja de Hamburgo, 1 de York e 1 de Adopção (mulheres). Delas, 51 provinham do Grande Oriente dos Beneditinos, 31 dos de Lavradio e 40 cujas colunas foram erguidas depois da constituição do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil. A família maçónica brasileira estava de novo pacificada e a Ordem prosperou até à reeleição do Grão-Mestre, a qual decorreu acidentada, pois o candidato dos Beneditinos obteve grande maioria de votos sobre o do Grande Oriente do Brasil. Então o Grande Oriente de Lavradio declarou nula a unificação dos dois Grandes Orientes, feita em Setembro de 1872. Este caso foi submetido às potências estrangeiras, as quais, por grande maioria, decidiram que o Visconde do Rio Branco não se achava qualificado para anular uma fusão e deram ganho de causa a Saldanha Marinho. Como nenhum acordo fora obtido entre os dois ex-Grandes Orientes, Saldanha retornou aos Beneditinos, mas continuando a dirigir o Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil, e desta vez com o reconhecimento de quase todas as potências mundiais. Saldanha Marinho deteve esse primeiro malhete até 1880, e o Visconde do Rio Branco permaneceu Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil até 1878, quando o sucedeu o Grão-Mestre Adjunto, Dr. F. J. C. Júnior.

“III – Período Republicano. Daí em diante a Maçonaria no Brasil prosseguiu mais ou menos normalmente suas actividades, sem lances historicamente notáveis, a não ser algumas alterações em sua Constituição, tendentes a definir, restringir ou ampliar poderes, até que em Junho de 1927 o Supremo Conselho, convocado pelo Grande Comendador Dr. Otávio Kelly, resolveu romper o Tratado de União com o Grande Oriente do Brasil, que havia sido firmado em 1864, para constituir-se uma potência maçónica mista. Este acto provocou a fundação de Grandes Lojas Soberanas em vários Estados do Brasil, com jurisdição nas Lojas de seu território: Lojas de Perfeição, Capítulos, Conselho de Kadosh e Consistórios de Príncipes do Real Segredo, obedientes ao Supremo Conselho. Todas as Grandes Lojas fundadas trocaram representantes com as Grandes Lojas do Mundo, muitas das quais deixaram de reconhecer o Grande Oriente do Brasil como potência maçónica regular. Ao passo que o Supremo Conselho, funcionando no Grande Oriente do Brasil, fundado ao arrepio das Grandes Constituições e Resoluções da Confederação dos Supremos Conselhos, é julgado espúrio e irregular pelos demais Supremos Conselhos, não tendo por isso sido recebido no Congresso dos Supremos Conselhos, realizado em Paris, em 1928, e em Bruxelas, em 1935. Por esses motivos, o Grande Oriente do Brasil tem sofrido contínuas fragmentações, pois muitas Lojas têm se retirado de sua jurisdição para fundar novas potências, umas regulares e outras não.”

Quanto ao que no presente seja o vigor da Maçonaria Brasileira, Kent Henderson e Tony Pope descrevem[8]:

“A Arte Real no Brasil parece um pot-pourri. A maior e mais antiga Grande Loja no Brasil é o Grande Oriente do Brasil, com um Grande Oriente subordinado em cada Estado. Além disso, há 27 Grandes Lojas, baseadas nos limites dos Estados brasileiros; e 17 Grandes Orientes Estaduais Independentes; mais uma Grande Loja Distrital sob a Grande Loja Unida da Inglaterra; e alguns outros Corpos não reconhecidos por qualquer dos anteriores. Há, portanto, três ramos da Maçonaria Simbólica no Brasil, representados pelo Grande Oriente do Brasil; as várias Grandes Lojas baseadas nos Estados brasileiros; e os Grandes Orientes Independentes baseados nos Estados.

“A mais antiga das Grandes Lojas Estaduais foi composta por Lojas que saíram do Grande Oriente depois de 1927, durante vários períodos de problemas internos. Estas, por sua vez, certificaram Lojas em outras partes do país e, progressivamente, cada Estado ganhou a sua própria “Grande Loja”. Desnecessário dizer que o Grande Oriente não viu com bons olhos esse desenvolvimento. Claramente havia um problema territorial, com o Grande Oriente reivindicando a autoridade maçónica por todo o país. Porém, seguindo um “conclave” geral de todas as Grandes Lojas existentes em 1957, foram assinados Tratados de Amizade Fraternal entre a maioria delas. Isto não inferia no completo reconhecimento mútuo, mas permitia intervisitação e diálogo contínuos. Actualmente, o Grande Oriente do Brasil mantém Tratados de Amizade com todas as Grandes Lojas e, ao que tudo indica, excepto com as Grandes Lojas do Acre e do Amapá.

“O Grande Oriente do Brasil é algo como uma Grande Loja “ápice”, controlada por um “Grão-Mestre Geral” e Grandes Oficiais, com suas Lojas em cada Estado brasileiro sob uma “Federação” (análogo ao estilo britânico de Grande Loja Provincial), cada uma com o seu Grão-Mestre Estadual e seus Grandes Oficiais Estaduais.

“Além disso, há um “terceiro ramo” da Maçonaria Brasileira na forma de Grandes Orientes independentes baseados nos Estados (GOIs). Todos descendem de cismas com o Grande Oriente do Brasil ou das Grandes Estaduais. Os GOIs existem em 17 Estados brasileiros: Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Em pelo menos alguns Estados, todos os três Grandes Corpos (o Grande Oriente local do Brasil “Federado”, a Grande Loja Estadual e o GOI) geralmente estão em boas condições e os maçons podem, comumente, transferir-se de um a outro sem refazer Graus.

“Fora do Brasil, outras Grandes Lojas têm sido reconhecidas. A situação é que a maioria das Grandes Lojas dos EUA e das Grandes Lojas canadianas reconhecem uma variedade de Grandes Lojas Estaduais, mas não o Grande Oriente do Brasil (em 1996, somente dez Grandes Lojas dos EUA do Grupo Principal mantinham relações fraternais com elas), enquanto as Grandes Lojas inglesas, irlandesas e escocesas só reconhecem o Grande Oriente. Os GOIs normalmente não são reconhecidos fora do Brasil. As várias Grandes Lojas europeias, na maior parte, reconhecem o Grande Oriente e várias das Grandes Lojas Estaduais. Assim, depende unicamente da Grande Loja de onde o visitante vem para saber qual das Lojas brasileiras pode visitar legalmente.

“Além das anteriores, há várias Lojas no Brasil mantendo Cartas Constitutivas da Grande Loja Unida da Inglaterra, resultado de um Tratado entre a Inglaterra e o Grande Oriente do Brasil.

“Embora o Grande Oriente do Brasil tenha Lojas em todos os cantos do país, a sua concentração maior de Lojas está no Rio de Janeiro e São Paulo, as duas maiores cidades do Brasil. O magnífico Palácio Maçónico do Rio de Janeiro está tombado pelo Departamento do Património Histórico Nacional Brasileiro, por seu valor histórico.

“A vestimenta para todas as Lojas brasileiras é um terno social escuro, e os visitantes são convidados a usar os seus próprios paramentos. As Lojas do Grande Oriente reúnem-se semanalmente, ou bimensalmente, com algumas tendo uma reunião mensal. O Grande Oriente reconhece oficialmente o uso de sete Rituais de Loja Simbólica: os Graus Simbólicos do Rito Escocês (aproximadamente 80% de todas as Lojas), o Rito Adonhiramita, o Rito Moderno (Francês), o Rito Brasileiro, o Rito de York, o Rito de Schroeder e o Rito Lusitano. O Rito de York é o Ritual de Emulação inglês traduzido para o português.”

As fontes históricas para o Rito Brasileiro dispõem a sua origem no Rito Maçónico Adoniramita ou Adonhiramita, com especial ênfase para o 12.º Grau de Príncipe Rosa+Cruz, estágio Místico ou Crístico como o mais afim à Tradição Esotérica Ocidental. Ainda assim, quase emulava com ele o Rito Moderno ou Francês, igualmente presente na origem histórica da Maçonaria no Brasil.

O Rito Adonhiramita foi exportado pelos maçons lusitanos para Vera Cruz, nesta em breve adaptado ao peculiar simbolismo esotérico brasileiro mas cuja Tradição Primordial recapitulou, ao tomar por assento e início Niterói, pomo de venustas tradições recuando à Pré e Proto-História do Brasil. Contudo, a Potência Suprema da Maçonaria Brasileira, seguidora inicial do Rito Adonhiramita, esteve durante larguíssimos anos instalada no Rio de Janeiro.

Além de outros escritores de nomeada da História da Maçonaria Brasileira, com especial enfoque para o dr. Rizzardo da Camino, com obras publicadas de grande valia ao entendimento do tema, cito ainda a interessante colecção em cinco volumes, dedicada a “Hiram e Adonhiram”, do caríssimo dr. Orlando Soares da Costa[9], revelando-se-me “Mestre Instalado, Deputado Federal e Deputado Constituinte perante a Soberana Assembleia Federal Legislativa do Grande Oriente Brasileiro, onde exerço a Presidência da Comissão de Educação e Cultura. Sou decorado Sublime Iniciado e Grande Preceptor – Grau 31.º, sendo Presidente do Insigne Sodalício de Sublimes Iniciados e Grandes Preceptores do Grande Vale Central do Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita para o biénio 1998/ 2000”.

Também Joaquim Roberto Pinto Cortez[10] e Eleutério Nicolau da Conceição[11], sem esquecer Morivalde Calvet Fagundes[12], João Ferreira Durão[13], José Castellani e William Almeida de Carvalho[14], dedicaram estudos de grande utilidade à presença e acção da Maçonaria no Brasil, reiterando ser o Rito primitivo o Adonhiramita, usando na argumentação dialéctica sustentada na documentação, até desfechar na data da famosa reunião em que a Independência do Brasil foi ultimada: 20 de Agosto, desde então passando a ser o dia nacional do Maçom.

O Ritual do Adonhiramita (Adam, Hiram e Ita, Mita ou Mitra), por sua natureza Solar ou Crística acaba tendo severas vizinhanças a esse outro Rito de Melki-Tsedek, exercido pela Ordem do Santo Graal. Tal Rito é o que ainda possui mais de simbologia tradicional herdada dos grimórios medievais de Kaballah judaico-cristã, que no século XVIII foi compilada pelo escocês Andrew Michael Ramsay (1686-1743), escritor religioso ex-quietista convertido ao catolicismo romano[15].

Foi Ramsay o criador do Sistema Maçonista Escocês, tendo impresso forte cunho cabalístico aos graus superiores do mesmo, notoriamente inspirados na literatura gnóstica referente às antigas tradições heterodoxas dos Patriarcas de Israel. Por sua vez, o também escocês James Anderson (1679-1739), pastor presbiteriano e maçom desde cedo, escreveu a Constituição dos Maçons ou Livro das Constituições, entre 1721 e 1723, ano da sua edição, e nessa “bíblia” da Maçonaria Especulativa ele dá esta como inspirada na fonte judaico-cristã[16].

Contudo, o Ritual de Adoniram ou Adonhiram revela algum parentesco simbológico e ritualístico com aquele outro, onde acaso poderá ter reconhido a sua inspiração, Egípcio ou Copta instituído por Cagliostro no século XVIII, cerca de 1762, em Paris, França, quando fundou o Rito de Adopção sob a presidência de sua esposa, Serafina Feliciani, e depois ele mesmo o Rito Andrógino na sua Loja Sabedoria Triunfante, em 1786, em Lyon, no sul desse país, de certa forma adoptado por Martinets de Pasquallys adaptando-o ao seu Rito dos Elus-Cohens (“Sacerdotes Eleitos”), prosseguido depois por Louis Claude de Saint-Martin sob o designativo de Martinismo, linha para-maçonista, mista de cabalística e mágica que no século XIX foi reformulada por Gerard Encausse (Papus), ainda assim influenciando em muitos aspectos o sistema maçónico contemporâneo[17].

Dá-se como data oficial de nascimento da Maçonaria Adonhiramita o ano 1744, quando o abade Leonard Gabanon editou em França a sua obra Cathécisme des Francs Maçons ou Le Secret des Francs Maçons, contendo as bases desse Rito que seria desenvolvido pelo barão Théodore de Tschoudy em 1787, já tendo sido antes editada a compilação com o título Recuil Précieus de la Franc-Maçonnerie Adonhiramite, que se diz ter sido escrita por ele ou em parceria com outro famoso maçom francês, Louis Guillaume Saint-Victor[18].

Ilustração do Rito Adonhiramita por Louis Guillaume Saint-Victor (1785)

Segundo Jules Boucher[19], a Maçonaria Adonhiramita baseia o seu Grau de Mestre na lenda do chefe de obreiros do Templo de Salomão, Adonhiram ou Adon-Hiram. Em conformidade ao texto na Bíblia prosseguido pela tradição dos construtores-livres (liberi muratori), foram três os Hirams envolvidos no processo de construção do Templo de Jerusalém, como sejam:

1.º) Hiram de Tiro, rei da Fenícia, filho de Abchal, contemporâneo e aliado de David e Salomão;

2.º) Hiram Abiff, o arquitecto fenício ao serviço de Salomão, originário de Tiro, capital da Fenícia, e filho de Abda, da tribo de Dan;

3.º) Adon-Hiram ou Adonhiram, intendente e chefe dos operários encarregados da construção do Templo, vassalo do rei Salomão mas às ordens do mestre Hiram Abiff.

A Bíblia, no 1.º Livro de Reis, cap. IV, dá a lista dos altos funcionários ao serviço do rei Salomão, mencionando: “Adoniram, filho de Abda, preposto às corveias”. Mais adiante, no mesmo Livro, cap. VII, vers. 27, têm-se outros detalhes: “O rei Salomão escolheu entre todos os israelitas homens de corveia, e os homens de corveia eram em número de trinta mil. Ele os mandou ao Líbano, dez mil por mês alternadamente; eles ficavam um mês no Líbano e dois meses em suas casas; Adoniram era preposto sobre os homens de corveia”.

Sendo-lhe dado por tradição o parentesco de irmão do arquitecto Hiram Abiff, Adonhiram (“Consagrado pelo Senhor”) vem a ser o fundador ou iniciador da Linha de Companheiros, enquanto aquele outro, cabeça da Linha dos Mestres, será o seu inspirador por deter os segredos da Arte Real. Consequentemente, não haverá diferença maior entre adonhiramitas e hiramitas senão a especulada por alguns teóricos dos séculos XIX-XX, posto uns esquissarem (hiramitas) e outros aplicarem (adonhiramitas) o conhecimento d´Arte.

Aventa-se a hipótese do Rito Adonhiramita ter sido o inicial praticado pelas Lojas portuguesas antes da introdução do Rito Moderno (Francês) em 1801, na época constituído de somente treze Graus. Somente após a separação da Maçonaria Brasileira, onde os Graus Simbólicos ficaram sob a jurisdição do Grande Oriente do Brasil e os Altos Graus jurisdicionados às respectivas Oficinas Chefes dos Ritos, em 2 de Junho de 1973, é que os 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite foram introduzidos pelo governo das Oficinas Litúrgicas do Rito Adonhiramita, antes exercido pelo Grande Capítulo, ao ficarem afectos ao Supremo Conselho da Maçonaria Adonhiramita.

Os treze Graus originais do Rito Adonhiramita, eram:

1 – Aprendiz
2 – Companheiro
3 – Mestre
4 – Antigo Mestre
5 – Eleito dos Nove
6 – Eleito de Pérignan
7 – Eleito dos Quinze
8 – Pequeno Arquitecto
9 – Grande Arquitecto
10 – Mestre (ou Cavaleiro) Escocês
11 – Cavaleiro do Oriente
12 – Rosa+Cruz
13 – Noaquita ou Cavaleiro Prussiano

É possível que o 13.º Grau não se praticasse em Portugal, terminando a escala no Rosa+Cruz, como mais tarde veio a acontecer com o Rito Francês, permitindo uma fácil fusão entre os dois[20]. No Rito Francês esse Grau é o 18.º do Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosa+Cruz reconhecido pelo sinal e palavra sagrada: mãos cruzadas sobre o peito, pronunciando Emmanuel[21].

Isso se relacionará a essa Igreja Invisível ou Secreta de Melki-Tsedek, o Rei do Mundo, lapidada no significado cabalístico da própria sigla do arquitecto fenício H.I.R.A.M., com o sentido latino de HIC JACET REX ADVENTURUS MUNDI, que é dizer, “Aqui jaz o futuro Rei do Mundo”. Neste caso, o futuro Emmanuel que é Akdorge.

Legalmente foi o juiz Sebastião José de Sampaio e Melo e Castro Luzignano, ou Lusignan (Lisboa, 13.2.1764 – Lisboa, 2.2.1826), neto do marquês de Pombal e segundo filho do 1.º conde de Sampaio, o tenente-general António de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignan, governador das Armas de Trás-os-Montes, e de D. Teresa Violante Eva Judite Van Daun, filha do 1.º Marquês de Pombal, dizia, foi ele, com o nome simbólico Epicteto depois mudado para Egas Moniz, mercê do Tratado de Amizade entre o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente Francês, o 1.º Grão-Mestre da 1.ª Loja estabelecida em Lisboa nos inícios de 1804, funções que exerceu até 1809, possivelmente seguindo o Rito Simbólico Regular, nome dado ao Rito onde se reconheciam apenas os 3 primeiros Graus, portanto, Maçonaria Azul. Em 1816, o tenente-general Gomes Freire de Andrade foi nomeado Grão-Mestre do Grémio Oriente Lusitano, fixando a Obediência no Rito Escocês Antigo e Aceite.

No Brasil, entretanto, o imperador D. Pedro I, filho de D. João VI, rei de Portugal, já havia sido iniciado maçom pela mão do seu ministro José Bonifácio de Andrada e Silva (com o nome simbólico Pitágoras), o “patriarca da Independência” e a quem a Maçonaria Brasileira tanto deve, senão tudo, a começar pela Constituição do Grande Oriente Brasileiro[22].

Constituição do Mestre Maçom José Bonifácio de Andrada e Silva

Tudo começou no dia 17 de Junho de 1822, quando os maçons cariocas reunidos em sessão magna e extraordinária presidida por João Mendes Viana (Graccho), Venerável Mestre da Loja Comércio e Artes, decidiram da criação e instalação do Grande Oriente Brasílico ou Grande Oriente do Brasil, tendo escolhido José Bonifácio de Andrada e Silva (Pitágoras) para seu Grão-Mestre. Estavam lançados os dados: José Bonifácio assumia o poder da potência mas destinava-o a D. Pedro de Alcântara, príncipe-regente, para que tomando as rédeas do país o tornasse independente e assegurasse a “República Maçónica”. Só a primeira parte aconteceu, a segunda não, pois D. Pedro até chegou depois a suspender temporariamente a Maçonaria no país, por motivos menos ideológicos e mais políticos, garantindo a separação de poderes e a neutralidade na “coisa pública” ou respública.

Da acta da nona sessão do Grande Oriente do Brasil, realizada em 2 de Agosto de 1822, consta “ter o Grão-Mestre da Ordem proposto para ser iniciado nos mistérios da Ordem, Sua Alteza D. Pedro de Alcântara, Príncipe Regente do Brasil e seu defensor perpétuo. Aprovada de forma unânime, D. Pedro foi imediata e convenientemente comunicado, que dignando-se aceitá-la, compareceu na mesma sessão, e sendo iniciado conforme prescrevia a liturgia maçónica, prestou juramento e adoptou o nome heróico de Guatimozim”.

Para a historiografia maçónica, a 17.ª sessão do Grande Oriente do Brasil reveste-se de um significado particular. Realizada em 4 de Outubro de 1822, na Loja Comércio e Artes, D. Pedro foi aclamado Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil em substituição a José Bonifácio, tendo a sessão sido presidida pelo Grão-Mestre Adjunto Joaquim Gonçalves Ledo (Diderot). Isso consta na acta da mesma sessão: “… e logo expôs o 1.º Grande Vigilante que o objectivo da presente convocação da Assembleia Maçónica era a prestação do Juramento do nosso muito amável e muito amado Irmão Guatimozim, eleito Grão-Mestre da Maçonaria Brasileira, por geral Aclamação, em plena reunião do Povo Maçónico, e sendo conduzido do Oriente, onde estava, ao sólio, por uma deputação de Irmãos Cavaleiros Rosa+Cruzes, prestou o Juramento da Ordem e imediatamente recebendo o Grande Malhete, subiu ao sólio e tomou a direcção dos trabalhos”.

Talvez menos da parte de José Bonifácio e mais da de Joaquim Ledo, interessado em manipular os interesses gerais da política nacional restringindo-os aos particulares da Maçonaria através do imperador D. Pedro já agora “irmão maior” da Ordem, contudo entende-se que este não se deixou manipular e, talvez devido aos jogos e influências de poder naquela, determinou, ainda nesse mesmo mês, em 21 de Outubro de 1822, a suspensão das actividades maçónicas, afiançando a Ledo que a suspensão seria breve: “Meu Ledo. Convindo fazer certas averiguações, tanto públicas como particulares, na Maçonaria. Mando: primo como Imperador, segundo como Grão-Mestre, que os trabalhos Maçónicos se suspendam até segunda ordem minha. É o que tenho a participar-vos; agora resta-me reiterar os meus protestos como Irmão – Pedro Guatimozim Grão-Mestre. P.S. Hoje mesmo deve ter execução e espero que dure pouco tempo a suspensão, porque em breve conseguiremos o fim que deve resultar das averiguações”.

De facto, quatro dias depois, em 25 de Outubro de 1822, Pedro Guatimozim, como o imperador assinava a sua correspondência maçónica, deixando marcada a sua posição de líder político neutro, determinou o fim da suspensão dos trabalhos em função do término das averiguações: “São Cristóvão, 25.10.1822. Meu Irmão – tendo sido outro dia suspendido nossos augustos trabalhos pelos motivos que vos participei, e achando-se hoje concluídas as averiguações, vos faço saber que segunda-feira que vem, os nossos trabalhos devem recobrar o seu antigo vigor, começando a abertura pela Loja em Assembleia Geral. É o que tenho a participar-vos para que, passando as necessárias ordens, assim o executeis. Queira o Supremo Arquitecto do Universo dar-vos fortunas imensas como vos deseja o – Vosso Irmão – Pedro Guatimozin – Grão-Mestre – Rosa Cruz”.

A adopção do nome simbólico Guatimozim por D. Pedro I merece o registo de figurar entre os nomes dos paladinos da independência e liberdade, sobretudo como homenagem ao último imperador asteca do México, Guatimozim, que resistiu em 1522 ao conquistador espanhol Hernando Cortez[23]. Mas Guatimozim também era o nome histórico adoptado por Martim Francisco Ribeiro de Andrada, irmão carnal e maçónico de José Bonifácio, que perfilava ao lado de Falkland (António Carlosn Ribeiro de Andrada), Tibiriçá (José Bonifácio de Andrada e Silva), Caramuru (António Telles da Silva), Aristides (Caetano Pinto de Miranda Montenegro) e Claudiano (Frei Sampaio – Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio) nas alas maçónicas e registos do Apostolado e Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz. Além disso, no Recife existiu uma Loja Maçónica denominada Guatimozim, fundada em 1816 e que em 1821 mudou o seu nome para Loja 6 de Março de 1817, em homenagem aos maçons sacrificados na Revolução Pernambucana de 1817, movimento emancipacionista que opôs iluministas e absolutistas, tendo estes conseguido vencer aqueles mas não os dominar em sua vontade de independência, a qual aconteceria poucos anos depois por iniciativa de D. Pedro I.

Da passagem e rápida ascensão de D. Pedro pela Maçonaria, ficaram alguns dos seus objectos maçónicos na posse da família Cavalcanti, os quais D. Amélia Machado de Coelho e Castro (1852-1946), viscondessa de Cavalcanti, fez oferta ao Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro, em 15 de Novembro de 1927, constando de uma faixa, um avental, um malhete e uma espada, dentre os principais objectos doados[24]. Nas fichas técnicas do acervo, constam[25]:

Faixa maçónica – Confecionada em seda e fios de ouro, 69 x 60 cm, apresenta a águia bicéfala coroada, com espada nas garras e um delta luminoso, símbolos que compõem o emblema do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite.

Faixa maçónica de D. Pedro I

Avental maçónico – Manufaturado em seda e veludo, 34 x 36 cm, apresenta, bordado na abeta, um delta luminoso; abaixo, ostenta um pelicano alimentando os seus filhotes encimado por uma cruz com a rosa mística no centro, ladeado por símbolos e palavras do Grau. Portanto, poderá ser um avental do Grau 7 de Cavaleiro Rosa+Cruz do Rito Moderno na época.

Avental maçónico de D. Pedro I

Malhete maçónico – Fabricado em bronze dourado, 25 x 13,5 x 2,5 cm, apresenta as iniciais “P. 1º” (Pedro I) gravadas em relevo.

Malhete maçónico de D. Pedro I

Espada maçónica – Acompanhada da respectiva bainha. Trata-se de um espadim, 9 larg. x 89,50 cm comp., de aço e cobre cuja lâmina e punho foram trabalhados em metal dourado e filigrana. O pomo circular, tem num lado o triângulo raiado com um olho inscrito, e no outro o compasso e o esquadro circundados por coroa de louros. O punho raiado com o número 33 inscrito; na outra face, a águia bicéfala coroada e pousada sobre espada. Guarda-mão em cruzeta, tendo num dos lados martelo e trave ladeados por decoração fitomorfa; no outro lado, a estrela de cinco pontas ladeada por decoração fitomorfa tendo ao centro a letra G. A lâmina é de três faces côncavas, e a bainha apresenta bocal com decoração fitomorfa. O corpo é de forma triangular com ponteira com decoração semelhante à do bocal, sendo a sapata esferóide.”

Espada e restantes alfaias maçónicas de D. Pedro I

Também o imperador D. Pedro II (Rio de Janeiro, 2.12.1821 – Paris, 5.12.1891) andou de proximidades com a Maçonaria, mesmo não sendo maçom, por certo reconhecendo ela conter a potencialidade necessária ao desenvolvimento sociocultural do país. Daí as relações havidas entre ele e o G.O.B., inclusive tendo feito várias ofertas a diversas Lojas do Estado do Rio de Janeiro: à Loja Independência e à Loja Luz de Barra Mansa, no Vale do Paraíba, ofereceu uma espada a cada uma, nessa última tendo gravada na empunhadura a inscrição “P. II” (Pedro II), e à Loja Lealdade de Brio de Resende, então província do Rio de Janeiro, em 1874 presenteou-a com um lindo florete da sua Guarda Real.

Florete oferecido por D. Pedro II à Loja maçónica Lealdade de Brio de Resende (1874)

Tendo a Maçonaria Especulativa sido fundada em 24 de Junho de 1717 com a criação da Grande Loja de Londres, Inglaterra, cedo ela se instalou no Brasil. Neste, de maneira alguma a Loja Comércio e Artes, do Rio de Janeiro, foi a sua Loja primaz, tendo sido fundada sem Carta Constitutiva em 1815 trabalhando de forma irregular até 1818, quando foi fechada; somente quando do seu reerguimento, em 1821, ela se filiou ao Grande Oriente Lusitano. Até mesmo a Loja União, também fundada no Rio em 1800, era irregular, e só após a adesão de algumas autoridades públicas foi refundada aparentemente de forma regular, modificando o seu nome para Loja Reunião. O próprio Areópago de Itambé, Pernambuco, fundado em 1796 e que alguns autores consideram a primeira Loja do Brasil, apareceu de forma irregular e foi mais uma associação maçonista simpática ao Rito Francês do que propriamente uma Loja justa e perfeita, tendo sido fundada por Manuel Arruda Câmara, ex-frade carmelita, botânico e médico formado em França na Faculdade de Medicina de Montpellier[26]. Essa Loja irregular veio a depender da primeira Loja regularmente estabelecida no Brasil, em 1797, como seja a dos Cavaleiros da Luz, fundada em São Salvador da Bahia e que foi a principal chama da Conjuração Baiana, indo influenciar o nordestino Estado vizinho de Pernambuco[27]. Em 1809, na mesma cidade do Salvador, atendendo às inúmeras Lojas que já existiam, foi fundado o Governo Supremo ou simplesmente Grande Oriente, a primeira Obediência Maçónica brasileira.

A influência maçónica no Brasil foi tão grande que chegou a influenciar a constituição do tecido urbano de certas cidades, sendo Paraty, no Estado do Rio de Janeiro, o exemplo mais notável. Ainda no século XVIII, as portas e janelasda maioria das suas casas foram pintadas em branco e azul, o chamado azul-hortência da Maçonaria Simbólica (constituída dos três primeiros Graus de Mestre, Compa-nheiro, Aprendiz). O seu arruador, António Fernandes da Silva, apesar de informar ter feito esse traçado “para evitar o vento encanado das casas e distribuir equitativamente o sol nas residências”, o facto é que deixou inúmeros sinais da presença e influência maçónica[28].

Nas ruas de Paraty, encontram-se em algumas esquinas três pilares (cunhais) de pedra lavrada indo formar o triângulo maçónico, o que explicará as ruas “entortadas” do arruador. Também as colunas das suas ruas formam um pórtico, uma à direita e outra à esquerda da porta de entrada das casas, em guisa de informar o visitante que essas eram moradas de maçons, e através da simbologia exposta poderia até saber-se do grau do maçom de cada residência. Outro exemplo típico é a proporção dos vãos entre as janelas, em que o segundo espaço é o dobro do primeiro, e o terceiro é a soma dos dois anteriores, isto é, A+B=C, ou seja, a soma das partes é igual ao todo, que se resume no rectângulo áureo da concepção maçónica.

Até as plantas das casas, feitas na escala 1:33.33, têm a marca da simbologia maçónica, desta feita da Ordem Filosófica cujo Grau máximo é o 33.º.

Por fim, Paraty possui 33 quarteirões e, na administração municipal da época, existia o cargo de Fiscal de Quarteirão, exercido por 33 fiscais.

A Loja União e Beleza, de Paraty, apesar de fundada em 1983, a lenda assegura que a sua fundação recua a 1700, ano em que ainda não existia a Maçonaria Especulativa ou Moderna mas que dispõe essa em estado ideal pré-criador da mesma encomiando a condição operática da Ordem, que o projecto da urbe tão bem testemunha.

Casa de Paraty (RJ)

Com tudo o dito, observa-se, pois, a Teosofia e a Maçonaria como as duas Colunas mantendo firme e resistente o majestoso Templo da Verdade, como esclarece o Professor Henrique José de Souza[29]:

“A Teosofia é a Sabedoria dos Deuses, no seu duplo aspecto de Amor e de Verdade. A Maçonaria, por sua vez, é a gloriosa Mensageira da Verdade e do Bem, que através dos séculos vem abrindo largo sulco de Caridade e de Justiça. Ambas se fundem numa só Força e Poder, porquanto representam as mais valiosas correntes para a organização do edifício social, os meios mais eficientes para a realização do sublime ideal da Hierarquia Oculta, a Fraternidade Humana, e ainda, o poder mágico e infalível de cada homem poder decifrar o misterioso enigma da sua Esfinge interna.”

Depois, em 28 de Setembro de 1962, em magnífica alocução oral voltou a referir-se ao assunto:

“Os Grandes Seres que dirigem o destino da Humanidade, principalmente Aquele que se acha à frente da Grande Obra para a América Latina, servem-se de todos os grandes centros de actividade espiritualista. A Maçonaria será, talvez, a que maiores serviços prestará à Causa que nos empolga, porém… já está entendido, passando pela grande reforma de que se vem ressentindo há tanto tempo…”

A preparação do Ecce Occidens Lux, a irromper com as futuras Independências dos países do continente americano, muito particularmente do Brasil, neste foi processo iniciado com o exílio de D. João VI para aí, indo estabelecer no Rio de Janeiro a capital do Império Português, substituindo temporariamente Lisboa, e com isso o Ex Oriens Lux tornando-se cada vez mais Umbra… Soerguia-se a Luz ou Sol do Ocidente, cujo eco maior ficaria no Grito do Ipiranga pelo futuro imperador do Brasil, desfecho de todos os esforços no país da Maçonaria: Independência ou Morte!

Independência de todas as formas de esclavagismo, sobretudo de si mesmo, desse “podre e gasto” homem velho, pelo ressuscito do Homem Novo, mais Justo e Perfeito, construtor e povoador de uma Nova Raça mais Fraterna e Humana, capaz de unir o Mundo numa Concórdia Universal. Este foi, é e será sempre, até à sua realização, o sonho dos Maiores da Raça desejando-a divinamente humana e humanamente divina. Utopia? Talvez seja. Mas também a maioria das utopias do Passado são hoje realidades usufruídas que ninguém as discute, nem sequer pensa quanto foi difícil e moroso realizá-las.

Para realização maior caminha hoje o Brasil Independente, e aparte todos as convulsões sociais próprias de um ciclo recém-finado, sem dúvida o seu destino último será a de realizar e partilhar a maior a maior das utopias: a Felicidade Humana.

NOTAS

[1] A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. I, pp. 208-212. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[2] De nome completo António Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva – São Paulo, 1.1.1773 – Rio de Janeiro, 5.12.1845. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, advogado, escritor e político, deixou publicados escritos de economia, poesia, política, etc. Partidário da separação entre o Brasil e Portugal, participou na Revolução Republicana de 1817, tendo estado preso até 1821. Deputado pelo Brasil às Cortes de 1821, teve papel de relevo na preparação da Independência do Brasil, vindo a ser, neste seu país natal, deputado, senador e ministro. Iniciado em Loja e data desconhecidas, foi o Grão-Mestre do primeiro Grande Oriente Brasileiro (1813-1818).

[3] De nome completo Francisco Gomes Brandão Montezuma (Bahia, 1794 – 1870). Jornalista e político, foi perseguido e expulso do Brasil por D. Pedro, tendo regressado em 1831 e vindo a desempenhar posteriormente funções diplomáticas em Inglaterra, e a ser senador e conselheiro de Estado. Recebeu o título de Visconde de Jequitinhonha. Em 1822, mudou o nome para Francisco Gé Acayaba de Montezuma. Fundou no Brasil (1832) o Supremo Conselho do Grau 33, reconhecido pela França no ano imediato e uma das potências signatárias do Tratado de Paris (1834). Desempenhou o cargo de Soberano Grande Comendador de 1832 a 1844, resistindo, durante nove anos, à cisão que instaurou no Brasil um segundo Supremo Conselho (1835) e mantendo o seu em regular funcionamento. Por decretos de 28.7.1840, concedeu o Grau 33 a Silva Carvalho, autorizou-o a fundar um Supremo Conselho em Portugal e confirmou o Consistório que por aquele acabara de ser instalado.

[4] João Vieira de Carvalho, Conde de Lajes (Olivença, 1781 – 1847). Oficial do Exército e fidalgo da Casa Real, foi educado no Colégio dos Nobres em Lisboa, e emigrou durante a 1.ª invasão francesa para o Brasil aonde se fixou e veio a atingir o posto de marechal de campo. Interveio na vida política brasileira, sendo senador e várias vezes ministro. Recebeu o título de 1.º Conde e 1.º Marquês (1845) de Lajes. Como Soberano Grande Comendador de um dos Supremos Conselhos do Grau 33 existentes no Brasil, autorizou (Novembro de 1840) Joaquim Elias Rodrigues da Costa, membro do Supremo Conselho a que presidia, a conferir o Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite aos maçons portugueses que o merecessem, “a fim de fundar um Supremo Conselho do Grau 33.º do Rito Escocês Antigo e Aceite no Reino de Portugal”. Do facto resultou o Supremo Conselho Costa Cabral (junto ao Grande Oriente Lusitano), cujos trabalhos tiveram início em 1844.

[5] Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria, pp. 80-84. Editora Pensamento, São Paulo, 1974.

[6] A. T. Cavalcanti Dalbuquerque, A Maçonaria e a Grandeza do Brasil. Editora Aurora, Rio de Janeiro, 1955.

[7] Esta informação carece de comprovação, e a ter acontecido essa fundação maçónica da parte do Tiradentes seria só por benfeitoria e afeição ao patriotismo da Maçonaria, pois como maçom filiado ele não consta nos Anais do Grande Oriente do Brasil (nota VMA).

[8] Kent Henderson e Tony Pope, Maçonaria Universal (Um novo Guia para o Mundo Maçónico – As Américas). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2001.

[9] Orlando Soares da Costa, Maçonaria Adonhiramita, cinco volumes. Editora Europa, Rio de Janeiro, 1999.

[10] Joaquim Roberto Pinto Cortez, Fundamentos da Maçonaria. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2001.

[11] Eleutério Nicolau da Conceição, A Maçonaria na História e no Mundo (Origens-Lutas-Actuação). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004.

[12] Morivalde Calvet Fagundes, A Maçonaria e as Forças Secretas da Revolução. Editora Aurora, Rio de Janeiro, 1982.

[13] João Ferreira Durão, Pequena História da Maçonaria no Brasil. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2008.

[14] José Castellani, William Almeida de Carvalho, História do Grande Oriente do Brasil. A Maçonaria na História do Brasil. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2009.

[15] George David Henderson, Chevalier Ramsay. Ed. Thomas Nelson e Filhos, Londres, 1952.

[16] James Anderson, As Constituições dos Franco-Maçons. Editora do Grande Oriente do Brasil, Brasília, 1997.

[17] Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa, 2002.

[18] Louis Guillaume Saint-Victor, Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite. Contenant les trois Points de la Maçonnerie Ecossaise, le Chevalier de l´Orient e le vrai Rose-Croix, qui n´ont jamais été imprimes. Philarethe, Philalelphie, 1785.

[19] Jules Boucher, A Simbólica Maçónica (Segundo as regras da Simbólica Esotérica e Tradicional). Editora Pensamento, São Paulo.

[20] . H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. II. Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[21] Michel Monereau, Les Secretes Hermétiques de la Franc-Maçonnerie e les Rites de Misraim & Memphis, suivi de Crata Repoa – Initiations aux anciens mystères des prêtes d’Egypte. Éditions Axis Mundi, Paris, 1989.

[22] José Bonifácio de Andrada e Silva, Manifesto do Grande Oriente Brasileiro (Constituição). Rio de Janeiro, 1832.

[23] Isa Ch´an (Kurt Prober), Achegas para a História da Maçonaria no Brasil, volume I de III. Edição do autor, Paquetá, São Paulo, 1968.

[24] Gustavo Barroso, O Imperador e a Maçonaria. Revista O Cruzeiro, Dezembro de 1955.

[25] Maria Laura Ribeiro, D. Pedro I e a Maçonaria, volume VIII. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, 1972.

[26] Micheline de Souza Lira, A Confraria Maçónica de Itambé. Goiana, 1999.

[27] Sérgio Corrêa da Costa, As quatro coroas de D. Pedro I. Casa do Livro, Rio de Janeiro, 1972.

[28] Diuner José de Mello, Paraty: Roteiro Histórico do Visitante. Edição do autor, Paraty, 1976.

[29] Henrique José de Souza, A Minha Mensagem ao Mundo Espiritualista. Revista Dhâranâ, n.º 25 a 28, p. 40, 1928.

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Brasília e o Brasil Futuro (Alvorada da Nova Era) – Por Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Abr 4 2017 

Deste Planalto Central, desta solidão que será em breve o cérebro de onde partirão as altas decisões nacionais, lanço um olhar, mais uma vez, sobre o futuro do meu País e antevejo essa Alvorada com a fé inquebrantável e confiança sem limites na grandeza do seu destino. – Proféticas e vibrantes palavras do grande homem Juscelino Kubitschek de Oliveira, Presidente da República Federativa do Brasil, ao contemplar, em visão do porvir, as terras onde iria ser fundada a nova capital brasileira.

Foi a Ideia, o Ideal que se materializou, a concretização da Esperança tomando forma, plasmada pela decisão firme de um realizador intrépido, indo corporificar um sonho há tanto acalentado, imortalizando-se numa obra de titã aliada à de um obreiro ciclópico para quem o impossível ou difícil não passava de letra morta, criando em plena selva o Brasil Futuro, caminho aberto para a melhor das esperanças da Humanidade.

O Brasil, em momento tão avassalador como o actual, na encruzilhada intercíclica entre o Passado tenebroso e o Amanhã radioso, não traiu o seu destino, não renegou a sua vocação. Efectivamente, ele entrou pelo portal das angústias e dificuldades na grande estrada que o conduzirá ao Tabor das transfigurações históricas e ao Olimpo das galas e das glórias, que hão-de coroar a juventude, o vigor e a beleza de uma civilização que desponta no alvorecer de um Novo Ciclo.

Teve o grande presidente a intuição iluminada dos Iniciados que se desdobram, que avançam para além de si mesmos, para além do tempo, conquistando novos rumos para um povo que acredita no seu destino último. Esta realização rasgou para a Humanidade o proscénio de novos mundos, e para a civilização espaços geográficos onde ela poderá criar raízes, brotar, florescer, frutificar, na benesse das ideias que as Idades transformam, para servir de veste espiritual às raças que se sucedem no plano evolutivo da Vida Universal.

Era o anseio de várias gerações convertido em realidade viva, a afirmação cabal de um povo que confia na pujança da sua capacidade criadora, que desde as mais remotas Eras tinha já o seu encontro marcado com o Futuro, vaticínio que se projecta de modo velado nas próprias cores da sua bandeira, onde a cor vermelha (tamásica ou da matéria densa) se omite por determinação mesma da Divindade.

A constelação do Cruzeiro do Sul – portal celeste das excelsas manifestações da Lei Suprema na Terra de Vera Cruz – que inspirou um povo confiante na vontade férrea do seu timoneiro a plantar naquele vasto planalto, onde o sertão cerrado tinha a morte à espreita atrás de cada tronco e de cada rocha, uma cidade fascinante para servir de capital política, servindo também de inspiração ao grande poeta Cassiano Ricardo, que no seu poema Sinal do Céu teve a premonitória visão do que representará a pátria brasileira ante o Homem do porvir[1]:

E uma cruz misteriosa de estrelas
abriu no céu os seus braços de luz
como uma enorme profecia:
… quatro raças virão, algum dia,
de quatro caminhos distantes
marcados por estas estrelas
que ficam nas pontas da cruz
p’ra constituir uma só raça
marcada por outra estrela
que é a que fica no centro da cruz.
Eu sou a cruz do firmamento!
O cruzeiro do amor universal.
E nos dias de sol, na glória da colheita,
Os homens que virão dos pontos mais
[distantes
se reunirão aqui, nativos e emigrantes,
para a festa nupcial de uma outra
[humanidade
que será feita de alegria e de bondade!
Porque eu sou o caminho ainda obscuro
Por onde finalmente
desfilará a humanidade do futuro!

Essas são palavras proféticas indicativas das quatro raças (europeia, africana, asiática, oceânica) reunidas em uma só (brasileira americana) no centro da Cruz, como seja o Planalto Central onde nasceria de Brasília, destinada a irradiar ao Mundo o espírito de Paz no alvorecer do Novo Ciclo, onde “sobre as ruínas materiais da força bruta pairará o Direito apoiado na Justiça”[2].

Chega o momento tão esperado. É a Hora da Alvorada!

20 de Abril de 1960. São 17 horas, a 15º47´de latitude Sul e 45º55´de longitude Oeste: “Aqui onde só havia, há 43 meses, a solidão e o grito dos jaguares na noite…”, no Planalto de Goiás, o presidente da República Juscelino Kubitschek recebe das mãos do prefeito, senhor Israel Pinheiro, as chaves simbólicas de uma cidade nova.

Às 23.30 h desse dia, aos pés da Vera Cruz diante da qual o Padre Henrique Soares de Coimbra rezou, no ano de 1500, a primeira missa celebrada em terra brasílica, o legado do Papa João XXIII, o cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, patriarca de Lisboa, celebra uma missa solene, enquanto do Vaticano o próprio Papa dirige saudações efusivas à Nação Brasileira. Toda a cidade está mergulhada na obscuridade. Apenas um raio de luz ilumina o altar.

No instante da elevação eucarística, quanto o cardeal-patriarca eleva acima da multidão a hóstia consagrada, subitamente todas as luzes se acendem, os holofotes percorrem o céu, o Hino Nacional do Brasil ressoa empolgando os corações: “E o sol da Liberdade… Brilhou no céu da Pátria nesse instante… Ó Pátria amada, idolatrada… E o teu futuro espelha essa grandeza”!

Brasília nasceu! Zero hora, 21 de Abril de 1960. O Brasil mudava de capital ao mesmo tempo que o Sol mudava de signo e entrava em Taurus, indicador de fecundidade psicossocial, fertilidade na fundação dos alicerces políticos de uma Nova Civilização urgindo como urgiu Brasília, conformada à marcha precessional do Sol do Oriente ao Ocidente no que se intui o prenúncio do V Império do Mundo[3], por certo Juscelino Kubitschek sabedor disso ao dar a notícia alvissareira, nesse mesmo dia da inauguração da cidade nova, ao Presidente da República de Itália:

“Eu inauguro hoje a nova capital do Brasil, na mesma data em que se comemora a fundação de Roma; a mais jovem cidade do Mundo se volta, neste momento, para contemplar a mais antiga cidade da Terra, centro e berço da latinidade, onde o génio dos romanos fixou as raízes da civilização ocidental.”

Dessa maneira ia ao encontro da consumação da profecia pressupostamente atribuída a esse mesmo Papa João XXIII, no vaticínio de haver de aparecer “[…] a terceira Itália. Hoje, Roma já não tem este nome. É uma recordação. Os seus palácios estão no Norte. Aqui há ruínas, ruínas de homens e de coisas”[4]. “Ruínas de homens e de coisas” poderá valer por desmoralização, e quanto aos “palácios do Norte” e não se tratando da Península Itálica, obviamente que só poderão ser os do Norte do Brasil, a “Nova Itália”, neste caso, a cidade de Brasília, a quem João XXIII endereçou encómios apologéticos como se fosse um filho da terra, um “Jina Antigo” (Xavantino) do escol dos desses ocultados nas entranhas do Roncador, como diria o Professor Henrique José de Souza.

Os antecedentes histórico-políticos para a edificação de Brasília vão desde José Bonifácio de Andrada e Silva, em 1823, apresentando à Assembleia Constituinte um projecto para a necessidade de mudança da capital, a Holanda Cavalcanti, que, em projecto apresentado ao Senado, em 1825, escolhia para tal mudança o Planalto goiano entre os paralelos 15º e 20º, até que, em 1891, a Primeira Constituição da República estabeleceu: “Fica pertencendo à União, no Planalto Central da República, uma área de 14.400 quilómetros quadrados, que será demarcada para nela se estabelecer a futura Capital Federal”. Em 1892, Floriano Peixoto constituiu comissão para estudar e demarcar a área da futura capital federal; em 1920, o Presidente Epitácio Pessoa assinou o decreto prevendo o início da construção; em 1940, o Presidente Getúlio Vargas lançou a cruzada rumo ao Oeste; em 1955, o Presidente Café Filho aprovou a área da nova capital; finalmente, em 1957, o Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira deu início à construção de Brasília, o que terminou em 1960, portanto, cinco anos a partir de 1955, ano em que aprovou a construção de Brasília e a mudança da capital para o Planalto Central, dando concretização à profecia de Tiradentes, quando escreveu em seu testamento: “A capital será no coração do Brasil, longe das populações e dos portos marítimos.”[5]

Também o cristão-novo Gonçalo Anes, o Bandarra (Trancoso, Portugal, 1500 – Trancoso, 1556), acaso terá previsto em suas trovas proféticas a aparição futura da cidade nova do Ocidente, aquando se refere obscuramente à “semente no Poente”, como se depreende nas suas quadras seguintes[6]:

70

Vem de mui alta a semente
De todos quatro costados,
Todos reis, de primos grados
Do Levante até ao Poente.

71

Serão os reis concorrentes
Quatro serão e não mais,
Todos quatro principais
Do Levante ao Poente.

72

Os outros reis mui contentes
De o verem Imperador,
E havido por Senhor
Não por dádivas nem presentes.

Os “quatro costados principais do Poente” para um único “Imperador”, poderão ser as quatro Bandeiras que no Passado se encontraram em Xavantina ou “Nova Brasília” já como augúrio das quatro nações ou continentes que se iriam reunir aqui, em Brasília, unidas em uma única Bandeira Federal expressiva da Raça Brasileira Americana agregada pelo esforço do “Imperador”, neste caso, o Presidente da República Federativa do Brasil como “quinto princípio”, com isso expressando esotericamente os Quatro Senhores da Lei Única que a tudo e a todos rege agindo pelos quatro elementos ou princípios universais (Ár, Fogo, Água, Terra) animados pelo quinto príncipio (Éter), síntese e ánima deles e sintetizado na Pessoa do Imperador Universal ao centro, como seja Ardha-Narisha ou o mesmo Chakravarti ou Melkitsedek, que geograficamente predispõe-se ideal-mente em Brasília (capital política a fim ao Governo Oculto do Mundo) para outros dois eixos geográficos vertical e horizontal, cujo ponto de intercessão ficará sobre Minas Gerais, propriamente São Lourenço (capital espiritual a fim à Grande Fraternidade Branca), a saber:

De maneira que na região central do Brasil tem-se Brasília constituída como centro de um sistema geográfico social e político-administrativo. À sua volta, em pequeno raio, surgem as cidades satélites, e em grande raio, as capitais dos Estados da Federação. Brasília é um Sol Central gerador, um Núcleo magnético de atracção e irradiação da tónica da Vida Humana no Grande Ocidente face ao grande movimento externo da acção social colectiva, tal como São Lourenço é o Sol Oculto da acção espiritual colectiva, na mística complementação dual de uma só coisa: a Nova Civilização, disposta sob a égide de Melki-Tsedek em seu Aspecto Temporal ao Norte e Espiritual ao Sul, completando-se entre si o que gera o sacrossanto nome de Maitreya, “Senhor dos Três Mundos”, identificado ao Cristo Universal precisamente na cúspide da Nova Raça Dourada, e que já hoje se aponta figurado na estátua colossal do Cristo Redentor no Rio de Janeiro.

Para essa realização sublime abarcando a toda a Humanidade numa unidade, é que a antiga Sociedade Teosófica Brasileira edificou os seus três Templos de São Lourenço (Pai – 1), de Itaparica (Mãe – 2) e de Xavantina (Filho – 3), configurando um triângulo de realização no mapa do Brasil sinalético da Obra do Eterno à Face da Terra, em actividade permanente para o ambicionado dealbar do Grande Dia de Maitreya e a consequente Vitória da Obra de Deus, o que depende de todos os homens e mulheres de boa e firme vontade em criar o Bem, o Bom e o Belo.

Duas linhas de forças estão intimamente relacionadas a essa triangulação: o Paralelo 15 ao Norte, e a Latitude Sul, nos 22 para 23 graus no Trópico de Capricórnio. Toda a região norte do Brasil, cujo Paralelo 15 atravessa a zona do Planalto Central de Goiás onde se fundou Brasília, pomo venturoso de inúmeras profecias vaticinando-a berço da Nova Civilização, está sob a influência vitalizadora de Kundalini, o Fogo Quente Terrestre ascendida do ventre da Terra ao seio jucundo do Céu – todo o Norte é vermelho fogo (assinalado na sua terra vermelha pujante) até ao ponto meridiano ou separador que é a Bahia. Desta para o Sul é todo verde esmeralda (assinalado na sua vasta área florestal) como o Fogo Frio Celeste, Fohat descendido do Céu à Terra, até ao Rio Grande do Sul.

Volvendo aos “quatro costados” da profecia bandárrica incarnando os “quatro princípios universais”, igualmente poderão representar os quatro Sistemas Geográficos já realizados no Brasil e desfechados em Brasília, como Quinto.

Por outra parte, desfolhando o volume das profecias de Michael de Nostradamus[7], encontra-se a seguinte centúria que parece ter a ver com o presidente Juscelino Kubitschek e a fundação de Brasília:

XCII

Depois do trono mantido dezassete anos,
Cinco mudarão em tal volvido termo:
Depois será eleito de mesmo tempo,
Quem dos Romanos não estará muito conforme.

A última linha da quadra terá a ver com a transferência dos valores espirituais de Roma ao Brasil, o Grande Ocidente, a quem cabe a afirmação do verdadeiro Catolicismo, que no seu significado etimológico é Universalismo, tendo-se que em princípio Brasília é cidade destinada à universalidade do Pensamento Humano. A segunda linha poderá referir-se aos cinco anos necessários à concretização de Brasília, em conformidade ao lema pessoal de JK: “50 anos em 5”. Por fim, aquele “do trono mantido dezassete anos” pode muito bem indicar o próprio Kubitschek, como o 17.º Presidente da República desde Deodoro da Fonseca[8]. Nisto é agraciado pela Estrela dos Magos do Tarot, o Arcano 17 a ver com o biorritmo de Portugal. Também por isto a Terra Portuguesa teve papel predominante na consagração espiritual de Brasília, e na planta da sua arquitectura foi-lhe igualmente dada relevância meritosa. De maneira que Brasília é o desfecho do ciclo ibero-ameríndio e o início do período universalista ou transcontinental.

Acerca do Arcano 17 – a “Estrela dos Magos” para São Germano, “As Sete Trombetas, como Voz do Logos Criador” para JHS, sendo “A Imortalidade” no Tarot Sacerdotal – tal número não deixa de apresentar grande importância simbólica. Na tradição islâmica, 17 é o número de rak’as (gestos ritualísticos), sendo também o número das palavras (17) que compõem o chamado à oração (salah). Nas alegorias muçulmanas, o simbolismo do número 17 aparece em vários delas, principalmente na dos “17 conselhos murmurados ao ouvido do rei quando da sua coroação” e nos “17 componentes do estandarte”.

É sobretudo no Xiismo – e por influência dele na literatura épico-religiosa dos turcos da Anatólia – que é dada uma importância quase mágica ao número 17. Os místicos xiitas possuem desde priscas eras uma autêntica veneração pelo número 17, e tal veneração tem origem nas antigas especulações pitagóricas que se fundavam nas letras do alfabeto grego, sendo que 17 representava o número daqueles que seriam ressuscitados. Cada um desses “ressuscitados” deveria receber uma das 17 letras do alfabeto, das que compõem o Nome de Deus, não deixando de ter relação com o Arcano 17 cuja lâmina evoca a transformação, o renascimento e a libertação kármica. Por outro lado, segundo o Livro da Balança, de Gabir Ibn Hayyan, místico e alquimista árabe, a forma (sura) de todas as coisas do mundo assenta no valor 17, número que representa a própria base da teoria da Balança, sendo co nsiderado cânone do equilíbrio de toda e qualquer coisa.

Ainda no Islão, o número 17 tem importância particular na tradição das corporações de ofícios, que reconhecem 17 companheiros iniciados por Ali, 17 patronos dos fundadores das corporações muçulmanas iniciados por Selman-i-Farsi, e 17 corporações maiores. É o número-mor do Companheirismo, a original Maçonaria Operativa, essa mesma construtora dos mais sumptuosos e significativos, sobretudo no plano iniciático, templos e palácios da Antiguidade europeia e mediterrânea.

Para os antigos gregos, 17 representava o número das consoantes do alfabeto. Ele divide-se, por sua vez, em 9 (número das consoantes mudas) e em 8 (número das semivogais e semiconsoantes). Esses números estavam igualmente em estreita relação com a teoria musical e a da Harmonia das Esferas.

Já a Antiguidade latina considerava este número funesto, necrolático a fim aos manes, por isso o receava, ademais porque as letras que o compõem, XVII, são as que, mudada a sua ordem, dão a palavra VIXI, eu vivi. Tem nisso uma função fúnebre indicadora do vir-a-ser além-túmulo e de qual o motivo ou fim da existência humana, como seja a da libertação da peia de encadeamentos de causas-efeitos e todo o homem finalmente se tornar imortal, fim a que se destinava a celebração dos Mistérios na Antiguidade.

Estão exclusivamente nomeados os presidentes da República que exerceram funções efectivas no cargo, estando excluídos todos aqueles de governos de transição e os que não tomaram posse efectiva do cargo, embora empossados no mesmo, como Tancredo Neves, por exemplo.

A ver com o soerguimento futuro de Brasília, a grande profecia, porém, continua a ser o sonho-visão ou sonho profético que Dom Bosco teve[9], na noite de 3 para 4 de Setembro de 1883. O Presidente Juscelino Kubitschek conhecia de antemão a profecia, como diz nas suas memórias[10], reportando-se a episódio passado consigo no início de 1958, num momento da madrugada em que estava à janela do Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro:

A PROFECIA DE DOM BOSCO

“Eram duas horas da manhã. O Laranjeiras estava em silêncio. Ouvia-se apenas o ranger dos passos do guarda na areia do jardim. Cansado, guardei a papelada, preparando-me para me recolher ao leito. Mas, antes de deixar o gabinete, abri uma janela para ver a noite. Não sei porque lembrei-me de repente da profecia de Dom Bosco: No dia 30 de Agosto de 1883, tive um sonho-visão. Mas isso não era tudo. Entre os paralelos 15º e 20º havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago. Então uma voz disse repentinamente: “Quando escavarem as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a Grande Civilização, a Terra Prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível! E essas coisas acontecerão na terceira geração.”

“Recordei, palavra por palavra, o que lera no volume XVI das Memórias Biográficas[11]. Era a famosa profecia sobre a Grande Civilização que iria surgir entre os paralelos 15º e 20º – a área em que Brasília estava sendo construída. O lago, da visão do santo, já figurava no Plano-Piloto de Lúcio Costa.

“Ainda debruçado à janela, ergui os olhos e contemplei a luz vermelha que brilhava no alto da torre da Igreja da Glória. E veio-me à mente, outra vez, a frase do santo de Becchi: “E essas coisas acontecerão na terceira geração”. Dom Bosco falecera em 1888. Computando-se o período de vinte anos para cada geração, era óbvio que a década dos 50 seria a da “terceira geração”. As forças misteriosas que regem o mundo haviam agido no sentido de que as circunstâncias se articulassem e criassem a “oportunidade” para que o velho sonho se convertesse em realidade. Justamente na década dos 50 a ideia havia chegado à maturação, requerendo execução.

“Naquela madrugada, olhando as árvores do Parque Guinle, procurava tirar ilações da profecia de Dom Bosco. Existia uma curiosa coincidência de local e de datas. O importante, porém, era que a construção da nova capital estava em andamento. Foi aí, mergulhado no devaneio imposto pelo silêncio da noite, que concebi a ideia de denominar a construção de Brasília – ‘Meta-Síntese’.”

Foi para essa “Meta-Síntese”, para o dealbar do Brasil Ibero Ameríndio e depois desfechar com o soerguimento de Brasília, que as navegações portuguesas concorreram, em Quatrocentos e Quinhentos, para a “Terra Prometida” na pressuposta execução secreta do Plano Sinárquico Templário, de que a Ordem de Cristo era herdeira. Sobre isto, diz com muita propriedade Manuel Joaquim Gandra[12]:

“A expansão portuguesa não foi fruto do acaso, nem um feito político do Rei: antes uma tarefa de Ordens Iniciáticas.

“A Península Ibérica – Cabeça da Europa – foi preparada para realizar as grandes descobertas (ou redescobertas) da Terra, tendo, para esse efeito, afluído a ela almas escolhidas, ondas de vida heterogéneas, povos das mais diversas raças, que, em torno de Centros Iniciáticos protegidos por Ordens monásticas religiosas e guerreiras – guardiãs de conhecimentos transcendentais que, na época, não possuíam condições para sobreviverem fora dos templos -, desenvolviam a sua actividade.

“Atingir a Índia, numa viagem de regresso à Casa do Pai, constituía um dos objectivos, pois não era nessas paragens que habitava o Preste João, Rei e Sacerdote, Presbítero da Igreja Oculta e Paraclética de João? Porém, para além da abertura de um caminho a Oriente, interessava confirmar a existência de um mundo a Ocidente, conhecido desde “sempre”[13], e campo de futuras vivências com particular importância para toda a Humanidade.

“A (re)descoberta do Brasil insere-se na actividade missionária Franciscana e da Ordem de Cristo, cujo fito principal era: descobrir o paradeiro das tribos perdidas de Israel[14], encontrar o Paraíso Terreno[15], renovar a Europa e instaurar, à face da Terra, a Sinarquia Universal, ou Reino do Espírito Santo (o Quinto Império).

“A “certidão de nascimento” do Brasil, a Carta de Pêro Vaz de Caminha, foi redigida em presença dos ideais dos fraticelli franciscanos[16].

“Os escritos de Gerónimo Mendieta provam que os franciscanos consideravam os nativos americanos superiores aos europeus, atitude que se reflectiu no seu procedimento, de perto seguido pelo dos jesuítas, apenas com algumas dissemelhanças[17].”

Estou em crer que o ponto de aproximação entre judeus, jesuítas e franciscanos está precisamente nisso mesmo: a identificação das tribos perdidas de Israel nos reminiscentes humanos do continente americano, mormente na sua parte sul. Daí, talvez, o cuidado dos judeus sefarditas, dos jesuítas e dos franciscanos portugueses no trato dado aos autóctones ameríndios, como que reconhecendo neles os sobreviventes humanos do povo de Deus. Menasseh Ben Israel, por exemplo, estava atento aos sinais gerais sem desprezar os singulares. Sinal singular foi o acontecimento, ocorrido em Amsterdão, de 18 de Julho de 1644. Um judeu marrano de Vila Flor, Aarão Levi, aliás, António de Montezinos (m. 1647), tinha chegado da América do Sul e dava parte, na sinagoga, do que vira, com enorme gáudio do auditório. Numa Europa perplexa e perturbada, Montezinos trazia uma boa nova.

Ele narrou as viagens que fizera nas Índias, onde fora cativo da Inquisição, até encontrar a tribo de Ruben consubstanciada em uma tribo de índios da América do Sul, na região entre o Yukatan e o Brasil, que além de falar uma língua incorporando vocabulário deuteronómico, praticava rituais hebraicos, como a circuncisão. O que Bandarra prognosticara, do aparecimento prévio da tribo de Ruben, vinha a conformar-se no relatório de Montezinos. Menasseh decidiu registar o relato e assumir a defesa da autenticidade e veracidade do testemunho, em ordem ao finalismo soteriológico do seu messianismo[18]. O movimento messiânico judaico mostrava-se, uma vez mais e cada vez mais intensamente, inteiramente favorável à colonização espiritual do Ocidente, à derradeira fundação da Nova Israel, do Terceiro Templo da Nova Idade, na “Índia do Ocidente”[19].

Manasseh dispôs-se a atender o testemunho do judeu de Vila Flor, com o propósito de demonstrar que as dez tribos perdidas da antiga Israel tinham transmigrado para as Índias Ocidentais pelo Norte, tomando como provas as analogias relatadas por Montezinos, relato este que ocupa a primeira parte do capítulo I da sua Spes Israelis (“Esperanças de Israel”), contendo 72 capítulos, a qual tinha o propósito de animar os judeus na esperança de advento do Messiah, o Messias, e no reencontro com a Pátria Perdida, o Paraíso Terreal a “Ocidente da Jerusalém Celeste”. A verdade é que o marranismo norte-americano, florescente desde o século XVIII, tem uma forte base sefardita e tradicionalista, inicialmente reconhecendo a mais que discutível origem judaica dos índios americanos, reconhecimento esvanecendo-se com o tempo e ficando esse legado de descendência bíblica exclusivo ao próprio judaísmo hispano-americano dos marranáticos puritanos e ultraconservadores, povoadores e dominadores da espiritualidade actual norte-americana, com isso não raro inflectindo no desrespeito a outras etnias e crenças. Trata-se da prevalecência ambígua do espírito rácico judaízante.

Mas o valor desse acontecimento anunciado por Montezinos é enorme, por confirmar o pensamento de Manasseh Bem Israel – de quem o padre António Vieira retomaria as ideias da translatio imperii dando-lhes a forma nova dos cinco Impérios do Mundo, o derradeiro o Português – de que a restauração de Israel só seria possível com a reunião do mundo judaico num Mundus Novus, como o consignou Américo Vespúcio em 1502, o que era um sinal claro da proximidade do Messias. No seu entender, a Bíblia estava certa, porém, a interpretação falhara. Com efeito, os Setenta haviam traduzido a palavra Hamat por “Oriente”, e com razão, porque Hamat é o mesmo que Hamah, o “Sol” ou o “Oriente”. O profeta fala dos judeus esparzidos no Oriente e na Terra Santa, na Ásia, nas Índias Orientais e na China, enquanto Isaías assegura que os judeus sairão das ilhas do mar, tal como traduzem vários intérpretes.

“Ilhas do Mar” é, no entanto, termo a traduzir por “Ilha do Ocidente”, desse modo referindo os judeus que habitavam certa porção da América, livres do jugo inquisitorial, e que só podia ser o Brasil onde a Inquisição inexistiu, porque todas as tentativas de aí a instalarem redundaram em fracasso, em grande parte graças ao bandeirante piratininga. De maneira que a convergência da Israel Bandárrica e do Portugal Sebástico para a América do Sul, denodadamente o Brasil, era o derradeiro Finisterra, a Quezê-ha-Arez, a alcançar antes do último sinal do Encoberto, do Messias. Não será demais apontar esse “último sinal” do Redentor do Mundo como o possível e ultra-simbólica soerguimento de Brasília, em pleno Planalto Central do país, donde discorre para as sete partes do continente.

O facto é que antes de António de Montezinos um outro cristão-novo português, Ambrósio Fernandes Brandão (1555-1618), que viajou pelo Brasil durante vinte e cinco anos tendo-se estabelecido em Olinda e depois na Paraíba, perfilhou da mesma tese da presença judaica na Antiguidade brasileira a qual noticiou no seu livro Diálogos das Grandezas do Brasil, datado de 1618, tendo permanecido ignorado no acervo da Biblioteca de Leiden, Holanda, até ser descoberto por Francisco Adolfo de Varnhagen. A cópia desse manuscrito, composta em 1874, serviu para a edição brasileira de 1930, iniciativa da Academia Brasileira de Letras, com introdução de Capistrano de Abreu e notas de Rodolfo Garcia[20]. Escreveu Ambrósio Fernandes Brandão:

“Confesso que os primeiros pais deveram de mostrar e ensinar a seus filhos e netos o uso das artes e policia que tinham; mas essa como havia de ser ensinada de palavra, não podia passar à memória de tão comprida geração, em gentes a que lhe faltaram logo as escrituras e o mais necessário para a conservação das artes e policia, em terras tão remotas e incógnitas, como eram as que habitavam, e assim como a continuação do tempo se lhe havia de ir varrendo da memória o que os seus avós lhes tinham amostrado, como ficarem do estado em que de presente os conhecemos. Mas, contudo, ainda hoje em dia se acha entre eles muitas palavras e nomes pronunciados na língua hebreia e da mesma maneira, costumes como é tomarem as suas sobrinhas por suas verdadeiras mulheres, que nem uma coisa nem outra fariam se os não houvessem aprendido de quem os sabia. E com toda a sua barbaridade têm conhecimento das estrelas dos céus de que nós temos notícia, posto que lhes aplicassem nomes diferentes, pelo que tenho por sem dúvida, descenderem estes moradores naturais do Brasil daqueles israelitas que navegaram primeiro pelos seus mares.”

Antes disso, em 1581, o dominicano espanhol frei Diego Durán igualmente deixara afirmado na sua crónica Historia de las Indias de la Nueva España y Islas de Tierra Firme que os indígenas sul-americanos eram de origem hebraica[21]. Diz ele:

“Para tratar da correcta e verdadeira relação da origem e início destas nações indígenas, a nós abscondida e duvidosa, que para pôr a mera verdade é necessária alguma revelação divina, o Espírito do Eterno que ensine e dê a entender; faltando isto, será necessário chegarmos a suspeitas e conjecturas, à demasiada ocasião onde esta gente não dá com o seu baixíssimo modo e maneira de tratar, e de sua conversa tão baixa, tão própria dos judeus, que poderíamos ultimamente serem naturalmente judeus e gente hebreia, […] o seu modo de viver, as suas cerimónias, os seus ritos e superstições, os seus agouros e hipocrisias, tão parecidas e próprias dos judeus, que em nenhuma coisa diferem. […] Com a qual confirmo a minha opinião que estes naturais sejam aquelas dez tribos de Israel, que Salmaneser, rei dos assírios, levou cativas… […] Outra autoridade da Sagrada Escritura se pode trazer para provar esta opinião, é que a estas dez tribos, que abaixo deixo dito, teria o Eterno prometido por Oseias, cap. I-XIII, que as iria multiplicar como as areias do mar, o qual claro e obviamente se vê quão grande se multiplicou, pois tem ocupado grande parte do mundo…”

Apesar da valoração geográfica e positivista, o termo Novo Mundo redunda em simbólica sobretudo na origem. O Mundus Novus, mencionado na carta de 1502 do controverso Américo Vespúcio, não é apenas um continente, é o suposto Oriente, de onde o nome de Índias. Em 1513, a América é a Terra Incógnita e, para Pedro Anghiera, é o Alter Orbis, enquanto, em 1569, América se lê sive Índia Nova. Para os judeus da diáspora, inicialmente “policiados” pela Ordem de Cristo, a designação Mundo Novo acarreta a sinalética messianológica, na medida em que o descobrimento do Finisterra permitiria o encontro inevitável com as tribos perdidas e o advento do Messias.

Todas essas suspeições formalizadas crenças vêm ao encontro da pressuposta presença fenício-hebraica na Proto-História brasileira. Quase de certo também iriam ao encontro do que saberia Juscelino Kubitschek de Oliveira, muito mais pelas suas intimidades com a antiga Sociedade Teosófica Brasileira, com alguma troca epistolar com o fundador e dirigente, Professor Henrique José de Souza. Como se não bastasse e em guisa de visitação de algum membro do Governo Oculto do Mundo ao então Presidente da República, deu-se o caso insólito do frade misterioso, como é narrado no interessante livro de Miguel Henrique Borges, escritor, jornalista, cineasta e secretário pessoal do ex-Presidente da República Fernando Collor de Melo[22]:

“Impressionante, o caso do frade que misteriosamente entrou no Palácio das Mangabeiras numa certa noite pachorrenta de 1954.

“O Governador é avisado de que um religioso veio visitá-lo e se encontra lá embaixo à espera. Juscelino, que estava relaxado, descansando, resolve ir conferir. Não há nada marcado pelo cerimonial, nem sequer agendado pessoalmente. Desce as escadas e eis a figura. Já não se fazem frades como antigamente. Aquele era dos bons, usando hábito completo com morrinha e tudo. JK dá-lhe corda, convida-o a se sentar, mas a conversa é rápida. A figura só quer que ele nunca deixe de pensar no bem da Humanidade, do País. E que se prepare para ser Presidente da República, pois vai chegar lá. Diante do pré-candidato perplexo, o do hábito se levanta, abençoa-o, despede-se e se retira, enquanto o Governador continua naquele enleio. Refeito, manda verificar o que houve. A guarda e a portaria garantem que não entrou nem saiu ninguém.

“O episódio foi ouvido do próprio Juscelino e hoje é repassado pelo Coronel Afonso Heliodoro, actual Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Brasília, aos 85 anos de idade. Ele e o Presidente foram da Polícia Militar de Minas Gerais, tornaram-se amigos da vida toda, tinham grande intimidade. O Coronel não tem dúvida de que aquilo aconteceu.

“Mas se alguém duvida, há uma confirmação que, sendo indirecta, não deixa de ser categórica. Decorre de outra lembrança do Coronel Afonso Heliodoro e não veio propositalmente como apoio à primeira. Apenas, como se refere ao início de 1955, veio depois da insólita visita, tratando afinal do mesmo assunto.

“Novamente no Palácio das Mangabeiras, JK foi procurado por um político amigo que mineiramente lhe manifestou dúvidas sobre a oportunidade de sua candidatura à Presidência, já então consumada. A visita insinua que Juscelino devia abrir mão de concorrer à eleição. Conversa vai, conversa vem, finalmente o próprio candidato, para sair do desconforto daquela conversa constrangida, toma a iniciativa de explicitar e fechar o assunto que tinha sido apenas tangenciado. Aponta para o belo céu estrelado que fazia na ocasião e diz: “Não adianta, Zé. Está escrito nas estrelas”.

“Afinal, o frade inesperado já lhe tinha dado o toque.

“Ambos os episódios constam do depoimento do Coronel Heliodoro a Costa Couto, publicado no livro deste[23]. Embora fosse desnecessário, o autor do presente trabalho confirmou as informações junto do Coronel.”

Segundo informação recolhida pelo já falecido Miguel Henrique Borges, um dentre inúmeros com quem tive o privilégio de relacionar-me, na sua obra citada “JK era místico, mas um místico prático, objectivo. Ele nasceu para ser Presidente da República, para ser Governador. Um homem extraordinário e, no entanto, de origem humilde”. Corroborando com informações esse sentimento, regista o livro Presidentes do Brasil (De Deodoro a FHC), organizado por Fábio Koifman, editado em São Paulo no ano 2002:

“PAI

“Diz a lenda que, quando Juscelino nasceu, o caixeiro-viajante João César de Oliveira enviou bilhete a um amigo de Araguari, Eufrosino de Oliveira, no qual dizia: “Não posso encontrar-me com você, porque a Júlia deu à luz o futuro Presidente da República”.

“Não viveu para ver a realização da profecia. João César de Oliveira morreu com 34 anos de tuberculose em 1904, quando o filho tinha apenas dois anos. Trabalhou no garimpo, foi delegado de polícia e fiscal de rendas, mas, na maior parte de sua vida, ganhou o sustento como caixeiro-viajante.

“Grande boémio, gostava muito de dançar, características que foram comuns ao filho Juscelino.

“MÃE

“Júlia Kubitschek, de quem JK herdou o sobrenome que adoptou na vida política, era professora primária e leccionou no distrito de Palha, Minas Gerais. Ela só teve dois filhos: Maria da Conceição, conhecida como Naná, e Juscelino, o Nonô.”

Juscelino Kubitschek de Oiveira, formado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1927, nasceu em Diamantina em 12 de Setembro de 1902 e faleceu em Resende, num trágico acidente de viação, em 22 de Agosto de 1976.

Como já disse, estabeleceu-se amizade recíproca, fincada no ideal de amor comum à mesma Pátria-Mãe, entre o Presidente Juscelino Kubitschek e o Professor Henrique José de Souza. Por volta de 1963, tendo aquele já saído do cargo de dirigente supremo da República, e estando este seriamente acamado, ainda assim combinou-se um encontro pessoal entre os dois, em São Lourenço, na residência do segundo, a Vila Helena, o que não veio a acontecer por o Professor ter falecido dias antes da data marcada. Por essa altura, Henrique José de Souza recebeu um exemplar de oferta do livro A Marcha do Amanhecer[24], com uma dedicatória do punho do próprio JK: “Ao caro amigo, Professor Henrique José de Souza, a homenagem da admiração e do apreço de Juscelino Kubitschek. Rio, 1-6-1963”. Na mesma época, o Professor recebeu o Diploma de Amigo de Brasília, em reconhecimento do seu combate à ideia de retorno da capital federal ao Rio de Janeiro.

Mas já vinha muito de detrás a relação JK – JHS, este que o considerava um “Ser Aghartino”, antes, um “enviado da Agharta com Missão especial para o Brasil”. Eles interagiam intensamente, embora nunca chegasse a haver um encontro pessoal entre ambos. Desfolhando as antigas cartas pessoais do Professor em minha posse, observo que ele se referia aos actos e factos pertinentes a JK na segunda pessoa do plural: “Nós fizemos isto, nós estamos fazendo aquilo, alguém disse algo de nós”, etc. Contam os discípulos ainda vivos do Professor que, certa vez, diante da notícia de um ataque de Carlos Lacerda na tribuna da Câmara Federal, num discurso onde afirmou que o próximo presidente não prosseguiria com as obras de JK, o Professor replicou rindo:

– Nós vamos inaugurar Brasília no nosso Governo, e passaremos o cargo ao sucessor lá!

Realmente, o Professor Henrique José de Souza tinha grande apreço pela figura de Juscelino Kubitschek. Este, por sua vez, tanto na presidência como depois, na fase de desgraça civil da cassação e da perseguição militar, também denotava alta consideração por aquele. Tanto que o Professor tratou de enviar àquele, que as recebeu com agrado e interesse, mensagens de estímulo conceitual e político, no plano objectivo, e de potencialização espiritual. Ou seja, à distância JHS iniciou JK!

A primeira dessas mensagens foi em Setembro de 1958, saudando e apoiando a Operação Pan-Americana, por representar “uma convocação dos esforços de todos os países para a solução dos seus mais prementes problemas sociais e económicos”. E principalmente porque “dá ao Brasil a prioridade política de uma tentativa em larga escala de coordenação dos ideais, sentimentos e interesses da formação democrática”.

Por fim, no final de 1960 ao apagar das luzes do Governo de Kubitschek, o Grão-Mestre Henrique José de Souza decidiu homenageá-lo, conferindo-lhe a Comenda e Grã-Cruz da Ordem do Santo Graal, fundada por ele, e que é a mais alta condecoração outorgada pela mesma a um Chefe de Estado, pelos relevantes serviços prestados ao País e à Humanidade.

No impedimento da presença do Professor Henrique José de Souza por motivo de saúde, a Comenda e o respectivo Diploma foram entregues pelo Director-Social da Sociedade Teosófica Brasileira, Dr. César do Rego Monteiro Filho, tendo a cerimónia de entrega sido realizada no Palácio Laranjeiras, Rio de Janeiro, no dia 9 de Setembro de 1960.

Em nome de JHS, da STB e da OSG, falou o Dr. Pizarro Loureiro, denotando-se em várias partes do seu discurso indícios históricos e esotéricos relacionados à Missão de Portugal ante o Brasil Futuro, transcontinental, por fim plasmado em Brasília:

– Vem à presença de Vossa Excelência, por meio desta delegação, a Sociedade Teosófica Brasileira, Sociedade Nacional sem fronteiras políticas, religiosas, sociais ou raciais, fundada há quase quatro décadas. (…) Com uma Missão a cumprir, a Sociedade honra a Tradição milenária que informa a estrutura de seu trabalho espiritual e constitui o objectivo principal colimado pelas suas doutrinas patrióticas e fraternas. Corroboramos, desta forma, o conceito do grande sociólogo mexicano José de Vasconcelos ao afirmar que das bacias do Amazonas e do Prata sairia a Raça Cósmica do Futuro, fruto das dores e das esperanças de toda a Humanidade; a palavra do grande polígrafo espanhol Roso de Luna, ao assinalar a cidade de São Lourenço, sede da nossa Instituição, como a Capital Espiritual do Mundo; e a profecia do Presidente Teodoro Roosevelt ao declarar, quando nos visitou, que o século XXI pertenceria ao Brasil.

Pregamos ao povo brasileiro, Senhor Presidente, todas essas verdades, buscando criar nele a consciência cívica e espiritual do histórico papel que lhe caberá desempenhar amanhã, quando a sua liderança mundial será bênção de paz e fraternidade para todas as nações. Temos a certeza dessa liderança, certeza que se baseia na nossa fé nos destinos da Pátria e na Sabedoria das Idades, na Tradição milenária que nos aponta como Povo Eleito – fruto dos cruzamentos de todas as raças e de todas as virtudes humanas – para dar, pelo exemplo, as linhas estruturais de uma nova sociedade, num mundo que amanhece sobre os horizontes da Humanidade.

A nossa Missão tem, por isto, dado o seu carácter iniciático, as características da triplicidade, que está na base de todos os mistérios e de todas as doutrinas que comandam a Evolução Humana através dos tempos. Não têm outra significação as tríades sagradas das culturas antigas, das tradições que vieram a objectivar-se na Trimurti indiana e a servir de matriz à Trindade cristã: Pai, Mãe, Filho – Pai, Filho e Espírito Santo.

Essa triangulação, Senhor Presidente, está impressa na Missão e retratada na actividade nacional de nossa Sociedade. Tivemos nossa primeira sede em Niterói, cobrindo a etapa inicial de nosso Movimento, ou seja, o lançamento, há quarenta anos, das primeiras sementes do nosso trabalho. A segunda sede coube ao Rio de janeiro, quando ampliámos e demos corpo orgânico à Instituição e maior densidade e harmonia à nossa mensagem. E a actual, em São Lourenço, Minas Gerais, onde levantámos um Templo dedicado a todas as religiões e raças do Mundo, numa síntese luminosa da nossa Obra anunciadora de uma sociedade nova, espelho fiel do Brasil de amanhã.

Mas a nossa Obra devia ser um espelho fiel da evolução do Brasil. Tivemos também uma primeira capital, na cidade do Salvador, Bahia, que presidiu ao início da expansão geográfica do Brasil e da integração técnico-linguística do povo brasileiro. A segunda, no Rio de Janeiro, que presidiu a três eventos da maior importância histórica para os destinos do País: a Independência Política, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República.

Faltava, porém, uma terceira capital que fechasse o triângulo mágico da destinação brasileira, que fosse o fulcro de um novo bandeirismo, dando base física para a grande arrancada do Brasil rumo ao Futuro, para empunhar o facho da sua mensagem e a dádiva do seu poder na gloriosa tarefa de liderar o Mundo do Futuro. Essa terceira capital, Senhor Presidente, tem sido um dos pontos principais da nossa evangelização cívico-espiritual, de quase quarenta anos (…).

Felizmente para todos os brasileiros, surgiu no cenário nacional a figura de Vossa Excelência, o homem providencial que realizaria a imortal tarefa da terceira capital – Brasília – concretizando o nosso sonho, a esperança de milhões de patrícios e completando, no cenário do século XX, aquilo que está escrito para milénios no Livro da Eterna Sabedoria. Vossa Excelência, não medindo sacrifícios, não poupando energias, sem desfalecimentos, arrostando ainda a incompreensão, a injustiça e até a injúria, meteu ombros à Obra e construiu Brasília, a empresa do século – numa prodigiosa aventura que pode emular com as façanhas mitológicas do Hércules grego.

E ainda agora, Senhor Presidente, durante a visita que fez a Portugal, para participar, como co-anfitrião, nas comemorações do V Centenário do imortal Génio dos Descobrimentos, o Infante D. Henrique, teve ocasião Vossa Excelência de dar o toque final na estrutura da comunidade luso-brasileira, com a qual ampliamos a área geográfica e política em quatro continentes.

A nossa Missão, Senhor Presidente, objectiva-se na Sociedade Teosófica Brasileira; mas tem os seus alicerces subjectivos na Ordem do Santo Graal, que perpétua e revive uma Tradição que está na raiz dos grandes Movimentos Espirituais que comandam a Evolução do Homem e da Sociedade.

Quis o nosso Grão-Mestre, Professor Henrique José de Souza, que fosse Vossa Excelência a primeira personalidade a receber a consagração honorífica da nossa Ordem no seu mais alto grau: a Grã-Cruz, pelos notáveis serviços prestados ao Brasil, à Humanidade e ao Mundo, ao lançar-se à imortal empresa de Brasília. Desejamos que Vossa Excelência sinta, no ouro e nas pedras preciosas que ornam esta condecoração, não o valor material de uma jóia, mas o símbolo da gratidão e do reconhecimento de todos os brasileiros, de todos aqueles que, como nós, da Sociedade Teosófica Brasileira, antecipamos no tempo a semente que frutificará em Brasília, na certeza de que está inaugurada a jornada final que nos levará à meta da grandeza do Brasil, que queremos seja farol de luz intensíssima a iluminar os caminhos da paz, da fraternidade, da justiça e da liberdade para todos os povos do Mundo.

Sensibilizado, o Presidente Juscelino Kubitschek agradeceu de forma eloquentemente concisa:

– Dentre as inúmeras manifestações que recebi pela construção de Brasília, nenhuma me tocou mais ao coração do que esta, por partir de uma Instituição que não se acha vinculada a nenhum grupo político ou religioso, nem possui nenhuma discriminação racial, e por ter sido talvez aquela que melhor entendeu o meu esforço na consecução desta grande obra.

Finalmente, no dia 25 de Fevereiro de 1972, Juscelino Kubitschek de Oliveira é consagrado no Templo de Maitreya, em São Lourenço (MG), pela viúva do Professor Henrique José de Souza, D. Helena Jefferson de Souza, tendo JK pouco antes da consagração falado num improviso brilhante:

– Eu me sinto, neste momento, profundamente emocionado, porque vejo em torno de mim homens, mulheres e crianças que me saúdam com um afecto especial, afecto que se tem transformado numa verdadeira protecção contra os temporais que me assaltaram neste mundo e na minha vida pública.

(…) erguemos a cidade que vai ser a Sede Espiritual da Civilização no Terceiro Milénio. Considero-me feliz porque pude realizar, em vida, a profecia de um santo, feita em 1883, na qual afirmava que, na terceira geração, surgiria naquele Planalto, entre os paralelos onde justamente se encontra Brasília, a cidade que viria a ser a capital do mundo latino no Terceiro Milénio. Toda a área espiritual, não só do Brasil mas também do Mundo, acompanhou-me naquela grande, audaciosa e sagrada aventura de transportarmos para o centro do País a chama que há quatro séculos procurava atravessar as cortinas difíceis que isolavam o Brasil da sua integração e do seu contacto com todo o seu território.

Ao chegar certa vez a Paris, fui procurado por pessoas da mais alta responsabilidade, que me convidavam para uma reunião de cunho espiritual. Compareci. E lá me disseram eles que vinham estudando a marcha da Civilização no Mundo. Da Grécia, de Roma, da França, e que, num determinado momento, esta Civilização saltaria o Atlântico e desabrocharia num território até então desconhecido, inteiramente misterioso para eles. Suponham que eles estavam errados nas previsões que haviam feito, mas, subitamente, aparece um homem que anuncia a construção de uma cidade e, mais do que uma cidade – diziam eles – é esta área que vai conter toda a Espiritualidade no Terceiro Milénio, e que esta cidade era Brasília. Verificaram então que eles tinham razão nos estudos. Nas suas pesquisas, nas suas preocupações, e ali estavam para saudar o homem que havia realizado uma aspiração de tantos e tantos milhões de pessoas distribuídas não apenas no Brasil, mas em toda a superfície da Terra.

A minha vida pública, movimentada como foi, tomava-me inteiramente o tempo e só depois que a adversidade interveio no meu caminho é que eu pude sentir todas estas Forças Espirituais se reunindo em torno de mim, para me confortar e para me ajudar na caminhada difícil. Em todos os pontos do Mundo em que estivemos, de há oito anos para cá, fui sempre procurado por pessoas, como as que aqui se encontram, e que estão reunidas apenas por um elo espiritual que as torna fortes, poderosas, porque sonham, acima de tudo, com o bem-estar, com a paz e com a tranquilidade da Humanidade. Ao ser recebido hoje, percorro o caminho que fiz em toda a minha vida e posso evocar aqui uma figura que desapareceu o ano passado, na idade de 98 anos, e que viveu uma vida pura e espiritual – foi a minha mãe – que durante 50 anos, todas as manhãs se levantava para ir à missa, comungar e rezar em homenagem e intenção do seu filho.

Eu acredito sinceramente no primado dessas Forças Espirituais que são mais poderosas do que as estruturas de ferro e de aço ou de cimento. Porque elas têm em si essa força imanente que vem das idades mortas, vicejam hoje e prosseguirão até ao fim dos tempos e, quando me vejo cercado por pessoas que assim pensam, eu me dou verdadeiramente por feliz e com a minha missão plenamente cumprida, porque o poder é um instrumento extraordinário para se fazer o bem ou para se fazer o mal. Tive sempre a preocupação, quando nas minhas mãos empunhava o ceptro do Brasil, de ter a maior atenção e o maior cuidado com as liberdades, com os direitos dos meus concidadãos e sobretudo com aquela ideia que vem de longe, que vem da Grécia, de que não se deve praticar uma injustiça, e repetia sempre, como Platão fazia, que preferia receber uma injustiça antes do que praticá-la. Esta foi uma norma que procurei seguir. Devo ter praticado inúmeros erros, mas a minha intenção foi sempre generosa no sentido de respeitar estas Forças imanentes do Espírito que aqui agora estão reunidas, no momento em que vamos praticar esse acto simbólico com o filho de um nosso ilustre companheiro, querido amigo e velho companheiro que é Adriano (Climério Sidney). Eu agradeço esta oportunidade que Deus me proporcionou, de aqui estar no meio de todos os senhores e senhoras da Ordem do Santo Graal, e volto para o Rio de Janeiro mais fortalecido no meu íntimo, convencido de que estas Forças que aqui estão, estas palavras que aqui ouvi, não vão ser em vão. Elas vão desabrochar em frutos e flores, não só para mim mas para todos aqueles que querem servir ao Brasil, querem fazer o bem e proporcionar a paz à Humanidade.

Agradeço muito pelas magníficas palavras que acabo de ouvir e podem estar certos, meus caros amigos, que eu estava evocando ali há pouco, ali fora, um acontecimento comigo em Washington, no ano de 1963, quando, durante um banquete no Departamento de Estado do Governo Americano, o Ministro de Estado, que me saudava, dizia que a letra mais poderosa no Mundo no momento, era a letra K, que ela representava três homens que tinham nas suas mãos quase que o destino da Humanidade: Kennedy, Kruschev e Kubitschek.

Um ano depois, Kennedy já não existia, Kruschev já estava apeado do poder e eu estava no caminho da minha adversidade, com todos os temporais que os senhores conhecem. Mas nem um momento sequer eu senti a tristeza ou a dor de me sentir divorciado do meu País, porque onde vou, aqui, no norte, no sul, no centro e onde chego, sempre encontro estes corações generosos que me procuram, me dão o conforto da sua palavra, o estímulo da sua amizade e a esperança do que eles querem para mim.

De modo que ao deixar São Lourenço, depois de uma solenidade tão encantadoramente espiritual, eu levo mais uma vez a convicção de que vale a pena a gente lutar para não errar, ter sempre a intenção de praticar o bem, porque teremos connosco e atrás de nós estas filas de corações amigos que estarão sempre diante da sua consciência e diante de Deus, pedindo para ajudar a gente nas lutas, nas dificuldades e nos temporais de que é tão fértil a existência.

Independentemente das ideologias pouco ou nada espiritualistas da maioria dos arquitectos de Brasília, ainda assim a espiritualidade fez-se inspirar na concepção urbanística e arquitectural da cidade, com muitos dos seus projectistas e arquitectos confessando não saberem donde lhes vinham esses rasgos súbitos de inspiração iluminada. Acerca disto, é dito que os preclaros Membros do G.O.M. (Governo Oculto do Mundo) têm como melhores para serem por Eles guiados, com total desconhecimento disso e consequentemente sem perigos físicos e sobretudo psicomentais, assim descartando deturpações lesivas do pretendido em arquétipo, são os “intelectuais materialistas crónicos”. Nisso, lá terão as suas razões, como essa da casta mais elevada (brahmane ou sacerdotal) inspirar directamente a casta menos elevada (shudra ou popular), evitando assim, devido ao mental quase virgem, alterações psicomentais do que pretendem induzir.

Adazir Martins Ortiz escreveu um estudo valioso descritivo da planta e arquitectura da cidade de Brasília[25], que me irá servir de guia pelas artérias e monumentos desta Capital Federal do Brasil Presente-Futuro, vibrando sob a égide do Arcano 15 (A Grande Luz, Astaroth) a ver com o paralelo do mesmo número, e igualmente com o valor do ano da chegada dos lusos ao Porto Seguro de Vera Cruz (nome que se quis dar a Brasília em 1956, depois substituído por este).

Inicio pela análise do seu plano urbanístico, chamado Plano Piloto. Em 1957 (soma Arcano 22), Lúcio Costa venceu, com verdadeiros rabiscos, o concurso para a construção do plano urbanístico da cidade, concorrendo contra projectos caríssimos minuciosamente apresentados. O número de inscrição do seu projecto foi o 22 (novamente aparece o Arcano 22, indicativo de A Vitória, de o Poder no sentido elevado da consciência e da inteligência, portanto, significa aquele que possui todo o Poder, só limitado pela sabedoria e a inteligência).

A letra hebraica desse Arcano tem o valor 400, é o Thau, que nesse alfabeto primitivamente se representava por uma cruz, e foi assim que Lúcio Costa explicou o seu projecto: “Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse; dois eixos cruzando-se em ângulo recto, ou seja, o próprio sinal da cruz”. Cabalisticamente, a Cruz é a signa da Terra.

Lúcio Costa imaginou para Brasília o formato de um avião. Seria, sem o saber, uma antevisão do Homem Alado do futuro Quinto Sistema de Evolução Universal?

Colocou as suas asas no eixo Norte-Sul, com a frente para o Leste; levando-se em consideração o movimento de rotação da Terra, poderá dizer-se que esse Homem Alado caminha, antes, voa em demanda do seu grande destino. Colocou a suprema direcção do país – Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal de Justiça – na cabeça do projecto, pois é do cérebro que partem todas as directrizes. Essas três construções, dispostas estrategicamente, formam um triângulo perfeito, sendo a primeira vez no Brasil que o funcionamento das suas instituições políticas encontrou no urbanismo e na arquitectura a harmonia que a própria Constituição estabeleceu entre os Três Poderes da República.

Chegando-se à Praça dos Três Poderes, ninguém fica insensível, ante o conjunto dos seus edifícios, à mais alta expressão do Poder emanado para todo o Povo brasileiro. A praça firma a consciência cívica do cidadão e leva-o a sentir toda a plenitude, a força e a majestade do Governo que, apercebe-se, não é só física.

Eixo Monumental, que parte da Praça dos Três Poderes, tem 12 quilómetros de extensão, com o seu início na Esplanada dos Ministérios. Ao longo do trajecto estão o Palácio do Itamari, a Catedral, o Teatro Nacional, o cruzamento com o Eixo Rodoviário, sectores de diversões, sectores hoteleiros, Torre da TV, Cruzeiro de Brasília e finalmente a Estação Rodoferroviária. Em 1960, existiam onze ministérios. A Catedral, embora esteja no Eixo Monumental, está localizada numa praça particular, como a indicar que a Igreja e o Estado devem estar separados, porque a Autoridade Espiritual (a Formação) é uma e o Poder Temporal (a Direcção), bem outro. Quando, invés de estarem equilibrados entre si e, todavia, distintos, misturam-se confundindo-se caoticamente, inevitavelmente acontecem as ditaduras político-sociais, onde o povo é quem mais sofre. Portugal e o Brasil conhecem bem essa triste realidade de um passado recente, para ser necessário adiantar mais alguma coisa a respeito.

Em frente à Catedral, porém do outro lado do Eixo, encontra-se o Teatro Municipal, e um pouco mais adiante, na asa Norte, tem-se a Universidade Federal – isso para completar a tríade iniciática Escola, Teatro, Templo.

O Eixo Rodoviário, que abrange as asas de avião levemente curvas, tem 11 quilómetros de extensão e destina-se à parte residen-cial. Em que melhor lugar Lúcio Costa poderia ter colocado o povo, visto que são as asas que mantêm o vôo e é o povo que faz um país?

Em cada asa tem-se 4 grupos de 16 superquadras, e nisso se tem 16×4 = 64 e 6+4 = 10. Este algarismo é considerado o do Mundo Perfeito na Kaballah judaico-cristã. Em cada superquadra existem 11 prédios, cujos andares são sempre divisões de 12. Desde logo se realça a presença destacada dos Arcanos 11 e 12, respectivamente, A Coragem e O Sacrifício segundo o Tarot Sacerdotal.

Se no plano urbanístico está plantada simbologia esotérica, na arquitectura ela se firma definitivamente. Oscar Niemeyer, notável projectista nada afeito a metafísicas e ainda assim por certo veículo inconsciente de Forças Inspiradoras bem mais elevadas na excelsitude da Sabedoria Iniciática das Idades, deixou à posteridade os mais significativos sinais esotéricos. A mais importante arquitectura do Planalto é, sem dúvida, o Congresso Nacional, transformado no emblema-mor de Brasília, conhecido no Mundo inteiro.

O corpo dessa construção é composto de dois edifícios gémeos, voltados um para o outro (como se expressassem o simbolismo dos Gémeos Espirituais). Cada um possui 28 andares (este o número prodigioso dos asterismos lunares, ou duas vezes 14 do mistério solar; 12+2 signos ocultos do Zodíaco, representados por Urano e Neptuno = ao mito iniciático dos 14 “pedaços” de Osíris). 28+28 = 56, o número dos Arcanos Menores; 5+6 = 11, o Arcano Maior expressando a Força, a Energia, o Trabalho e a Acção sob a égide do Sol. É o edifício mais alto de Brasília, nenhum outro pode ser mais elevado do que ele, para que nada esteja acima do Poder Maior. Esses dois edifícios ligam-se nos andares 13, 14 e 15 formando um H, representativo do Homem Divino, do Plano Vertical da Evolução. Tais prédios centrais são ladeados por duas conchas: o Senado e a Câmara dos Deputados. Se se unir essas conchas, ter-se-á o círculo, simbólico do Eterno, de “Aquele que não tem Princípio nem Fim”. Se traçarem-se rectas em função das conchas, ter-se-á dois triângulos opostos configurando o hexalfa, indicativo da manifestação dos Mundos Espiritual e Material neste mesmo último plano horizontal. Isso para significar que as decisões do Congresso Nacional devem estar baseadas na interligação dos Planos Espiritual (Purusha) e Material (Prakriti). Segundo Niemeyer, as conchas representam: a virada para cima a Câmara, como seja o recebimento da Luz Divina e do calor do Sol; a virada para baixo o Senado, e onde se deposita a Luz Divina e o calor do Sol sobre o povo que aqui habita. Para a Tradição Iniciática, elas também representam a Lei da Polaridade que, juntamente com o H, expressa o Homem Primordial no Terceiro Trono na sua plenitude de “Andrógino em Separado”, Adam-Heve.

Tudo isso tem como base um andar no subsolo, representando os Mundos Subterrâneos, alicerce de toda a estrutura do imóvel e, mais que isso, alicerce Aghartino donde deve afluir toda a inspiração coordenadora ao Governo Político do Brasil. Esses edifícios gémeos parecem boiar sobre um espelho de água adiante, onde deveriam vivem cisnes brancos e negros. A água é simbólicas das “Águas Celestes” ou Akáshicas (quinto elemento, quintessência) da Divindade do Segundo Trono, Adam-Kadmon, e os cisnes nas cores branca e negra expressam a natureza dual dessa mesma Divindade: a Polaridade criada a partir do momento em que a Evolução foi impulsionada, em que a própria Divindade se sacrificou ao projectar-se a si mesma como Espírito, no acto de criar a Matéria, simultaneamente participando das duas naturezas: a Mãe no Filho e o Filho na Mãe – eis o Mistério do Espírito Santo!

A Cosmogénese e a Antropogénese do Deus Akbel subentendem-se acharem-se gravadas nas linhas dessa arquitectura. Expressa o Mundo das Leis (Segundo Trono), ou segundo as palavras de Juscelino Kubitschek: “É o cérebro das mais altas decisões nacionais”. Posto assim, é o Deus feito Homem Uno-Trino.

Ao candango, trabalhador braçal de Brasília, para distinguir essa construção das demais, deu-se-lhe o número 10 – número do Mundo Perfeito, aqui Brasília ou “Pequeno Brasil”, semente da original Política Sinárquica perante o Futuro do Mundo. Como Arcano é essa mesma Necessidade, o que expressa a Roda da Fortuna ou Samsara, fortuna essa representada na felicidade do ser que se imortalizou ao superar essa mesma roda ou ciclo dos renascimentos e mortes e passado a viver na felicidade contínua dos Mundos Interiores.

Atrás do Congresso, na Praça dos Três Poderes, vão-se encontrar novamente os Gémeos Espirituais, na escultura de Bruno Giorgi, Os Guerreiros. Segundo o autor, representam os pioneiros que, atendendo a JK, construíram Brasília. Mas bem posso acrescentar: que melhor nome poderiam ter senão Os Guerreiros, os Gémeos Espirituais brasílicos que, atendendo ao apelo cíclico do Eterno, vêm construindo a Humanidade, vêm preparando a Mónada Humana desde a Alvorada dos Tempos?

Isso mesmo é assinalada nesta mesma praça por um imenso pombal, posto a Pomba do Santo Graal expressar-se como símbolo do Espírito Santo criador de Helius e Selene, Sol e Lua, como sejam Adam e Heve, para não dizer, El Rike e El Lena.

Como não podia deixar de ser, a Bandeira Nacional tremula nesta Praça dos Três Poderes. O mastro é feito com 24 hastes metálicas dispostas em círculo (2+4 = 6, Arcano A Beleza). Tem também o sentido de “União ou Desunião dos dois Poderes”; é sinalético do Amoroso Akbel, cujo Amor em favor da Evolução da Humanidade por meio da sua Sabedoria conduz a esta de volta à Suprema Unidade, à “Casa do Pai”, o Primeiro Trono. Que melhor Arcano poderia vibrar na Bandeira desta Taba de Brasília? É o símbolo do diálogo de convergência de todas as unidades federais do país e dos três poderes da República, esta que é, apesar de todas as suas insuficiências, “uma Sinarquia exotérica” (JHS). A mensagem no mastro diz: “Sob a guarda do Povo Brasileiro, nesta Praça dos Três Poderes, a Bandeira, sempre do alto, visão permanente da Pátria”.

É bem verdade por expressar a integridade do Poder Nacional, uno, trino e sétuplo, a saber:

Segundo os caríssimos Lupércio Gonçalves e Aulus Ronald Cirillo[26], na Bandeira do Brasil contém-se todos os princípios sinergéticos e meios psicossociais constituintes do mesmo, como elementos indispensáveis à sua Ordem e Progresso como Nação independente. Todo esse maravilhoso metabolismo está realmente ajustado nas proporções do símbolo máximo do país, como se pode observar:

Em Brasília, a bandeira é hasteada no primeiro dia de cada mês por meio de torpedos e de um tubo-guia de 86 metros de altura (afim ao valor do Arcano 14 que assinala O Equilíbrio: Transformação, Superação, Metástase), o qual apoia-se em 10 dobradiças que permitem um ângulo de 160º. A Bandeira tem 286 metros quadrados, com tal valor também assinalando o Arcano 16: A Rebeldia Celeste, esta que é um processo dinâmico de romper a inércia universal, tanto colectiva como singular.

A bandeira de Brasília, criada por Guilherme de Almeida e oficializada no dia 26 de Agosto de 1969, é assim descrita pelo seu idealizador: “Sobre um campo branco, símbolo de paz, nas auras dos tempos que hão-de vir, opõe-se escudo quadrangular de sinople, com uma caderna de setas de ouro em cruz, farpadas e emplumadas moventes do centro”. As quatro setas representam os pontos cardeais, como a dizer que tudo se emanará de Brasília, a Capital do III Milénio, a Cidade do Futuro no Presente e, segundo o Professor Henrique José de Souza, igualmente significativo do arranque do 5.º Sistema de Evolução Universal em formação já assinalado pela futura 5.ª Ronda da Terra, afinal o V Império do Mundo aqui tendo a sua arrancada, como bem demonstra ou tão-só sugere o seu lema: Venturis ventis! – Aos Ventos que virão!

Foi de quatro pontos cardeais que vieram os pioneiros, os candangos – palavra africana que significa “homem branco”, mas para o brasileiro, “bandeirante moderno”. Eles vieram do Norte, Nordeste, Sul, Oeste e Sudeste atrás da grande esperança, chamados por uma voz interna para que em Brasília se desse o mesmo fenómeno que construiu o Brasil: o caldeamento racial, já não somente luso-tupi mas de todos os povos da Terra.

Deve observar-se também o Memorial JK, construído na Praça do Cruzeiro, no mesmo lugar onde foi rezada a primeira missa em Brasília, em 3 de Maio de 1957. O Memorial é sem dúvida o melhor lugar para o descanso eterno de JK, na Praça que possui o símbolo sideral brasileiro: o Cruzeiro do Sul. Ele é uma pirâmide truncada repousando sobre um espelho de água. A sua placa comemorativa diz: “Aos 12 dias do mês de Setembro de 1981…”, dia do aniversário de Juscelino, pelo que nasceu sobre a influência do Arcano 12, O Sacrifício, a expiação que é bem patente na difícil arte de governar. Dirigir um país é dar-se em sacrifício, é renunciar a si mesmo, é ter preocupações constantes, é ter vitórias e derrotas. Este Arcano vale no sentido Divino e Humano. A Divindade em forma Humana sacrifica-se mais do que se possa imaginar.

O Memorial tem 120 metros de comprimento (ainda o Arcano 12). Sobre a plataforma de 28 metros (o prodigioso número), Juscelino acena para a cidade. Essa escultura tem 4,5 metros de altura, o que transpondo dá o Arcano 9, A Superação, designativo da Perfeição Humana, e mesmo que Juscelino como ser humano não tenha alcançado a Perfeição deste Arcano, todavia ele ouviu a voz que lhe segredou, lhe inspirou e induziu a realizar tão gigantesca obra; a escultura pesa 1,5 tonelada (o que transfere ao Arcano 15 de A Grande Luz ou a Inteligência em acção). A entrada no Memorial é subterrânea, lá está a sua biblioteca (lembrando aquelas outras Bibliotecas do Mundo de Duat, diria um teósofo) com mais de três mil volumes; no primeiro andar está a câmara mortuária, e ao alcançá-la tem-se a sensação de se ter mudado de Plano, tal é o impacto que oferece ao visitante com a sua penumbra, somente quebrada pelas luzes das vitrines onde se encontram as suas condecorações, dentre elas a Grã-Cruz da Ordem do Santo Graal.

Observe-se agora a Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida, com altura e capacidade para quatro mil pessoas (como Arcano 4 é O Reflexo de Deus). Possui a forma de um cálice emergindo da terra, com parte subterrânea ligando a Cúria, a Sacristia e o Baptistério. A sua entrada é feita por um túnel escuro e ao chegar-se à nave, fantasticamente iluminada por luz natural, fica subentendido o significado do V.I.T.R.I.O.L. (Visita Interiora Terris Rectificando Ocultum Lapidem): o homem deixa o mundo de treva para penetrar no Mundo da Luz. A sua forma circular é sustentada por 16 colunas (novamente o Arcano 16, como A Casa de Deus) que, por sua vez, sustentam no alto um círculo menor (é o Infinito, o Macrocosmos, como sustentáculo do Finito, do Microcosmos), onde está plantada uma cruz, símbolo astrolático da Terra indicativo do o Templo ser a expressão estática do Homem Cósmico Adam-Kadmon, o Segundo Trono projectado na Terra como Terceiro, o Adam-Heve caído no “pecado original” ou a mortal contracção do Karma ou Débito que leva, desde então, o Homem a peregrinar pela Terra e a conquistar sabedoria, maior consciência, pelas experiências do sofrimento.

Toda a estrutura repousa sobre um espelho de água, como as águas azuis e doces do Akasha, que se reflecte, pelas paredes envidraçadas, para dentro da nave (é o próprio Reflexo de Deus do Arcano 4 que aí se faz materializado). Ela possui no tecto, dependurados, três Anjos em alturas diferentes, representativos das Hierarquias Criadoras – Arqueus, Arcanjos, Anjos – cada uma em seu Plano – Mental, Emocional, Vital – expressando a Trindade Eterna de que o Homem é a síntese, ou, segundo o seu idealizador Oscar Niemeyer, representam os Mistérios da Anunciação, Ressurreição e Redenção (da Humanidade) e os três Arcanjos: Miguel, Rafael, Gabriel. Fora do Templo, no seu portal, como Guardiões da Palavra, estão os quatro Evangelistas: à esquerda Mateus, Lucas e Marcos, que escreveram sobre a vida pública de Jesus, e à direita está João, que escreveu sobre a individualidade espiritual do Cristo.

O santuário de Nossa Senhora de Fátima, de formato triangular, foi o primeiro templo de Brasília, mandado erguer para pagamento de uma promessa feita por D. Sara Kubitschek, esposa do Presidente. Foi construído em 400 dias (de novo o Arcano 4, também fazendo lembrar os 40 anos da peregrinação de Moisés e o seu povo pelo deserto; os 40 dias sobre o Monte Sinai em meditação para trazer os Mandamentos do Deus Manu; os 40 dias de jejum de Jesus, meditando no deserto sobre o sofrimento que O esperava como Ele sabia antecipadamente; os 40 dias e as 40 noites do Dilúvio a que sobreviveu Noé e os seus… Quarenta, ainda, é a idade da razão, em que se determina a criação activa, o poder da vontade). Foi inaugurado no dia 28 de Junho de 1958. Para esse templo o Papa Pio XII enviou uma bênção especial, dada a importância da relação entre Brasília e Nossa Senhora de Fátima. Em Brasília, é interessante notar que na rua onde ela está é a única que ganhou um nome, visto aí todas as restantes terem números: Rua da Igrejinha, assim chamada pelo povo.

A igreja de Dom Bosco destaca-se por sua incrível beleza. Tem a forma quadrangular e as paredes são compostas por 80 vitrais (o Arcano 8 é A Lei, o Equilíbrio, é a Justiça emanada de Deus, a reacção equilibrante que constitui a ordem entre o Direito e o Dever. Segundo o Professor Henrique José de Souza, é “a luta da cegueira contra a iluminação”). Esses vitrais estão confeccionados em 16 tons de azul e em 16 tons de púrpura. No final da tarde, em dias límpidos quando Brasília se cobre de dourado da luz do Sol poente, a igreja torna-se azul luminosa. Este templo de Dom Bosco, construído em homenagem ao padroeiro no lugar por ele predeterminado – entre os paralelos 15º e 20º, às margens do lago Paranoá, como na sua visão – é de construção simples, obedecendo a linhas piramidais.

De entre todos os palácios de Brasília, responsáveis pelo surgimento da arquitectura moderna brasileira (pois são de padrões vocacionados ao Futuro), o Palácio da Alvorada é sem dúvida o que mais chama a atenção, de imediato pelas suas 22 colunas com a forma de asas de cisnes. E com a mesma leveza com que eles nadam, o palácio parece pousado sobre a relva. É a residência oficial do Presidente da República e foi erguida em apenas 14 meses. Consta de três pavimentos: subsolo, térreo e superior (sinaléticos de Inferno, Terra, Céu); o hall de entrada mede 22×11 metros. A respeito dele, Lúcio Costa disse: “Casa grande com varanda corrida e capela anexa; tomou conta do lugar e lhe marcou, de saída, os tonos: cidade moderna, voltada para o futuro, mas com raízes na tradição”. Isto para confirmar que todo o avanço só subsistirá se conservar as suas bases na experiência do Passado.

Na parte posterior do palácio encontra-se uma escultura, de Maria Martins, intitulada Ritmo dos Ritmos, o que lembra o Ritmo do Universo – o Ritmo dos Ciclos, o Ritmo sem fim dos Tempos, e, por analogia, faz pensar na Melodia das melodias, na Harmonia das harmonias, o que leva à Música das Esferas, que é a Música das músicas.

O Arcano 22 significa A Vitória, é a síntese de todos os Arcanos Maiores, a Mónada Vitoriosa a caminho da Unificação ou “Retorno à Casa do Pai”, donde havia saído como “Filho pródigo” para as experiências do Mundo. O Arcano 14 leva à Transformação, Superação, Metástase. O Arcano 11 é força, energia, trabalho, acção, vitalidade e coragem, todas estas qualidades necessárias para ser um bom governante.

Mas o facto mais interessante é que, embora quase todos os palácios tenham espelhos d´água, somente aí surgiu o costume de atirar moedas na água. Este facto é encontrado em Roma, na Fonte de Trevi, e ele conduz directamente ao Arcano XXI, A Libertação, onde se vê o Criador lançando as pelotas, monedas, moedas ou Mónadas inconscientes ao palco da Manifestação Universal, para as recolher, conscientes, no final dos Tempos.

O Memorial Tancredo Neves, o último a ser construído, é um projecto de Oscar Niemeyer. O prédio todo tem a forma de uma pomba alçando vôo, todo branco, no mais puro mármore. Forma o quarto elemento da Praça dos Três Poderes, é o próprio símbolo do Espírito Santo descendo sobre a Terra Brasileira. E, para completar a simbologia do lugar, foi construída, ao lado, uma Pira, onde o Fogo Sagrado da Pátria arde sem nunca se apagar. Para se alcançar a Pira, deve-se subir 57 degraus (5+7 = 12, novamente o Arcano 12, que fala de Sacrifício, a Divindade sacrificada para impulsionar a Evolução da Humanidade que, sem o Seu Amor e Sabedoria, jamais evoluiria. Sacrifício humano daquele que se dispôs a alcançar a Iluminação e, alcançando-a, sacrifica-se novamente por seus irmãos em Humanidade, como também aspecto todo o político deve sacrificar-se pela “coisa pública”, pelo bem comum dos seus concidadãos).

O cemitério de Brasília é espiralado. Espiral é símbolo do que se evola na evolução, é símbolo dinâmico, sempre em movimento. As suas avenidas formam um “Y” sobre a espiral, e nisso tem-se o Itinerário de YO ou a Mónada evoluinte através do corolário de vidas sucessivas, de raça em raça, de continente em continente, até desembocar finalmente na brasílica São Lourenço, de que Brasília é o seu aspecto político-temporal.

Defronte ao Palácio Itamarati existe uma escultura que bem demonstra a função do Brasil neste III Milénio: é o Meteoro, de Bruno Giorgi, cujas cinco partes representam os cinco continentes, estando sobre a água. É interessante notar que essa, como símbolo da Divindade em sua expressão Feminina, é o único elemento possuidor dos três estados: gasoso (humidade), líquido (água), sólido (gelo), assim representando a Trindade Eterna (gasoso = a Mãe no Pai; líquido = a Mãe na Mãe; sólido = a Mãe no Filho) assinalada em nome de mulher BRA-SÍ-LIA.

Existem mais dois monumentos significativos, como sejam o Mercúrio, que está no Colégio La Salle, como uma homenagem a Brasília, e o Monumento ao Infante Dom Henrique situado na Praça Portugal, sendo o monumento (da autoria do escultor português Salvador Barata Feyo) inaugurado em 13 de Novembro de 1960, em homenagem aos 500 anos do Infante D. Henrique, pelo Presidente Juscelino Kubitschek e o Embaixador de Portugal, Manuel Rocheta. A praça seria inaugurada quase doze anos depois, em 25 de Abril de 1972, pelo Presidente da República Portuguesa, Américo Thomaz.

Por fim, como cidade monumental de vocação futurista, deu-se o tombamento de Brasília como Património da Humanidade no dia 7 de Dezembro de 1987, o que vem provar que a Lei Maior zela pela preservação da capital do país assim a defendendo da especulação imobiliária e a preservando intacta em sua originalidade.

É neste lugar privilegiado que mais se sentem e calam fundo na alma as palavras proféticas de Henrique José de Souza:

– BRASIL! TU ÉS O SANTUÁRIO DA INICIAÇÃO MENTAL E MORAL DO GÉNERO HUMANO, A CAMINHO DA SOCIEDADE FUTURA. TEU NOME O DIZ: É EM TEU SEIO, NAS PROFUNDEZAS DO TEU SOLO, QUE SE MANTÊM VIVAS E CREPITANTES AS BRASAS DE AGNI, O FOGO SAGRADO!

NOTAS

[1] Cassiano Ricardo, Meu caminho até ontem (poemas escolhidos). Edição Saraiva, São Paulo, 1955.

[2] Valdemar H. Portela e Hernani Monteiro Portella, Brasília, Capital da Era de Aquário. Revista Dhâranâ, ano LVII, n.º 12, 1982, São Paulo.

[3] Yves Christiaen, La Mutation du Monde (De nouveaux cieux… Une nouvelle Terre – Essai d´une nouvelle conscience historique. La Roue Celeste, Dervy-Livres, Paris, 1978. Esta obra foi editada em português no mesmo ano, A Mutação do Mundo. Editora O Pensamento, São Paulo, 1978.

[4] Pier Carpi, As Profecias do Papa João XXIII. Edições António Ramos, Lisboa, 1977.

[5] Ronaldo Costa Couto, Brasília Kubitschek de Oliveira. Edições Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2001.

[6] Profecias e Trovas de Gonçalo Annes de Bandarra, Sapateiro de Trancoso. 2.ª edição – actualizada. Livraria Universal, Lisboa, 1942.

[7] Nostradamus, Profecias. Editorial Vega, Lisboa, 1978.

[8] Fábio Koifman (organizador), Presidentes do Brasil (De Deodoro a FHC). Rio: Universidade Estácio de Sá / Editora Rio. São Paulo: Cultura. 2002.

[9] João Bosco, homenageado pela Igreja a 31 de Janeiro. Filho de humildes camponeses, nasceu em Becchi, Itália, em 1815, e morreu em Turim em 1888. Ordenado sacerdote em 1841, interessou-se pela sorte dos jovens pobres e pela sua formação profissional, fundando para eles, em 1851, a Congregação dos Padres de S. Francisco (Salesianos), e em 1862 a das Filhas de Maria Auxiliadora (Salesianas). É o padroeiro dos operários aprendizes, e considerado o apóstolo da juventude. Foi canonizado em 1934. – In Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos, 2.ª edição. Lello & Irmão Editores, Porto, 1990.

[10] Juscelino Kubitschek, Meu caminho para Brasília, volume III – 50 anos em cinco, p. 171. Edições Bloch, Rio de Janeiro, 1974.

[11] “Tras il grado 15 e il 20 grado vi era un seno assai lungo e assai largo que partiva di un punto che formava un lago. Allora unna você disse ripetutamente, quando si verrano a scavare le miniere nascoste in mezzo a questi monti di quel seno apparitirà qui la terra promessa fluente latte e miele, sarà una ricchezza inconcebilie. – Memorie Biografiche, t. XVI, p. 385-394. Giovanni Battista Lemoyne, Memorie Biografiche di Don Bosco, 20 v. Escuela Tipográfica Salesiana, San Benigno Canavese, 1898-1948.

[12] Manuel Joaquim Gandra, Martinets de Pasquallys e a Tradição Quinto-Imperial. Prefácio ao livro de Martinets de Pasquallys, Tratado da Reintegração dos Seres Criados. Edições 70, Lisboa, 1979.

[13] Jean de Varende, no seu livro Les Gentilhommes, afirma que desembarcavam em La Rochelle os metais preciosos provenientes da América, com a qual os Templários mantinham contactos comerciais e culturais. A credibilidade do facto fica atestada pelas Cartas de Piris Reis. Cf. Teoria Nova da Antiguidade, Ed. Minerva, Lisboa, onde Sampaio (Bruno) traça a rota de Ulisses, de acordo com a Odisseia, passando pelas Américas…

[14] Menasseh Ben Israel (Manuel Dias Soeiro) escreveu uma obra intitulada Esperanças de Israel, ex Jerm. 14, 8 – publicada em Amsterdão em 1698 e reeditada, em edição limitada de Santiago Perez Junquera, em Madrid em 1881 – baseando-se no relato de um português que viajou pelas Américas nos princípios do séc. XVII, e que de lá regressou, perseguido por Judaísmo, afirmando ter encontrado, entre os indígenas, descendentes das tribos perdidas de Israel…

[15] O Paraíso Terreno, associado à Ilha Encoberta, foi um tema persistente, que tomou forma cristianizada na lenda de S. Brandão: cf. Miguel Asín Palacios, Dante y el Islam, Madrid, 1927. As mais remotas lendas irlandesas, e não esqueçamos as relações entre a Península Ibérica e a Irlanda desde as épocas mais recuadas, falam de uma ilha encantada, situada a Ocidente – que ora era visível, ora o não era –, denominada O’Brazil.

[16] Cf. Margarida Barradas de Carvalho, L’Ideologie religieuse dans la “Carta de Pêro Vaz de Caminha”, in Bolletin des Études Portugaises et de l’Institut Français au Portugal, n.º 22, 1960, pp. 24 e segs.

[17] Cf. José António Maravall, La Utopia político-religiosa de los Franciscanos en Nueva España, in Estudios Americanos, 1 (1949), pp. 197-227. Não esqueçamos a extraordinária actividade desenvolvida pelo Padre António Vieira, arauto do Reino de Deus à face da Terra, cujo anúncio fez na História do Futuro, in Obras Escolhidas, Col. Clássicos Sá da Costa, vols. VIII e IX.

[18] Pinharanda Gomes, História da Filosofia Portuguesa – A Filosofia Hebraico-Portuguesa. Lello & Irmão – Editores, Porto, 1981.

[19] Benjamin Schmidt, A esperança dos Países Baixos: Menasseh Ben Israel e o Ideal Holandês da América. Em Paolo Bernardini e Norman Fiering (editores), Os judeus e a expansão da Europa para o Ocidente, 1400-1800. Nova York, 2001.

[20] Ambrósio Fernandes Brandão, Diálogos das Grandezas do Brasil, 1618. Edição com introdução de Capistrano de Abreu e notas de Rodolfo Garcia, Livraria Progresso Editora, Rio de Janeiro, 1930.

[21] Fray Diego Durán, Historia de las Indias de la Nueva España y Islas de Tierra Firme. Conaculta, México, 2007.

[22] Miguel Henrique Borges, JK JK! A Conexão Esotérica. Editora Aquarius 2005, Rio de Janeiro, 2002.

[23] Afonso Heliodoro, JK exemplo e desafio. Edições Thesaurus, Brasília, 1991.

[24] Juscelino Kubitschek, A Marcha do Amanhecer. Bestseller, São Paulo, 1962.

[25] Adazir Martins Ortiz, Brasília e seus Mistérios. Revista Dhâranâ n.º 4, ano LXIII, 1989, São Paulo.

[26] Lupércio Gonçalves e Aulus Ronald Cirillo, A Doutrina da Escola Superior de Guerra à luz das Leis e Princípios Universais. Edição dos autores, São Paulo, 1978.