A Vida Oculta de Sintra (Estudo Teosófico) – Por Vitor Manuel Adrião Sábado, Mar 10 2018 

Fevereiro de 2003

A Intuição é mais atrevida que a Inteligência.

Prof. Henrique José de Souza

A Vida Oculta, psicomental e espiritual, é um “Véu de Ísis” que se desvela apresentando maravilhosa e maravilhada realidade que queda a palavra humana ante a vastidão e abrangência que perpassa os limites dos cinco sentidos comuns da criatura humana; é o mundo das infinitas possibilidades e das mais gratas surpresas ao homem e à mulher consagrados de mente e coração ao seu aprimoramento interior, espiritual, consequentemente, ao desenvolvimento da sua vida-consciência, mas isso sem forçar coisa alguma, quer em si mesmos quer perante o próximo, procurando viver o melhor que souberem e puderem em conformidade com as Leis da Natureza, percebendo na essência do fenómeno universal da mecânica dos efeitos o nómeno espiritual em que estão as suas causas, estas que na mais prístina expressão são Bem, Bom e Belo, nisto a Beleza da Mãe Universal cuja Divindade desvela-se nos vários Planos em que a Natureza se apresenta, cada vez mais amplos e abrangentes numa vibração indefinível de Amor envolvente do Todo no Tudo.

Sei bem que este estudo (realizado muito antes da data assinalada, pois recua aos anos 80 da centúria passada tendo sido publicado várias vezes, inclusive enviado para edição na revista Dhâranâ da ex-S.T.B., no Brasil) foi aguardado com expectativa por larga plêiade de discípulos, estudantes e pupilos da Obra do Eterno na Face da Terra, esta mesma Teurgia de Akbel, mas, caríssimos amigos e Veneráveis Irmãos de Ideal, revela-se bem pouco quanto tenho a oferecer sobre a Vida Oculta de Sintra, tema tão vasto que perpassa largamente a minha humilde pessoa… muito mais por não ser de maneira alguma um Adepto, Mahatma, Guru ou coisa que o valha. Tão-só me tenho na conta de Munindra ou Discípulo de Bhante-Jaul, algures no trilho do Caminho da Iniciação, membro efectivo de uma comunidade espiritualista de que tenho sido eco nesta parte do mundo, e por estar aqui à dianteira da mesma sou quem mais fica exposto ao juízo público por via da comunicação social e outros meios de informação. Mas não sou nem actuo como “caso isolado”, antes sendo parcela activa de um colectivo cultural-espiritualista de que tomei a dianteira em Portugal, nesta função representativa o propagado desde 1978, ciente de ter contribuído muitíssimo na divulgação do já chamado, impropriamente, “Ocultismo Português”. Essa Instituição fonte de minha iniciação espiritual, é a antiga Sociedade Teosófica Brasileira, cujo programa de informação e formação actualmente é prosseguido pela Comunidade Teúrgica Portuguesa.

Quanto sei ao Pensamento Iluminado, Manas Taijasi, do Professor Henrique José de Souza (para teúrgicos e teósofos, o Mestre JHS) o devo, inclusive a eventual possibilidade de alguma vivência junto ao mundo encantado da decantada Maya astral, esse mesmo dos deuses Jinas… Mas como quereis este pobre decanto de letras astrais, antes, psicomentais, pois seja, prossigamos avante, não sem antes advertir que o Astral, Psíquico ou Anímico é uma coisa e o Espiritual, bem outra. Tanto como os dotes psíquicos, sidhis, jamais foram sinónimo de espiritualidade, muito pelo contrário, vezes imensas revelam-se empecilhos do desenvolvimento da verdadeira espiritualidade e levam a confundir o ilusório com o real.

Posto isso, inicio com duas premissas básicas acerca da constituição sinergética, psicomental, da velhinha Kurat-Avarat, Kala-Shista ou Sishita, hoje Sintra: as influências energéticas planetárias do raio púrpura de Júpiter (como Luzeiro ou Princípio Celeste, a Divina Essência – Adi) e do raio azul de Vénus (como Planetário ou Princípio Terrestre, o Chakra – Vishuda). Estas são as linhas de forças fundamentais deste Quinto Posto Representativo Internacional, todo ele ligado ao Mistério dos Assuras ou Arqueus – Senhores do Mental – e ao correspondente Arcano “A Casa de Deus”, assim também vinculando-se aos Mistérios do Quinto Bodhisattva Jepher-Sus (Jesus) e da Mãe Divina Moriah (Maria), o que me faz reverter à carta da saudosa Grã-Mestrina (desta Obra Divina) D. Helena Jefferson de Souza (avatara da Budhai Adamita), endereçada aos teósofos portugueses em 28 de Janeiro de 1977.

Nela a Venerável Grã-Mestrina refere as Ordens de Avis e de Cristo como antigas colunas de apoio e guardas avançadas, protectoras ou “Escudo de Resistência”, da Quinta Rama do Governo Oculto do Mundo (G.O.M.), a mesma Excelsa Fraternidade Branca dos Sete Raios de Luz (Shuda-Dharma-Mandalam), ou seja, a Ordem de Mariz chancelada e soberana no território português, e isto em relação ao Passado. Reportando-me ao Presente, de acordo com as prerrogativas do Venerável Mestre JHS para a Obra Divina, tem-se:

Pelo Quinto Centro de Vida, por outra, pelo Quinto Sol que alumiará o futuro Quinto Sistema ou Ronda de Evolução sob a égide do Senhor do Esplendor (Arabel) geograficamente incidindo por esta Embocadura de Sintra – a Sura-Loka relacionada à Fala, ao Verbo Criador como Âmbula de Evolução Universal escoando-se a todo o Mundo – no final de contas por ele se escoa o vapor ígneo ou purpúreo de Kundalini, cuja natureza interior ou feminina expressa a venusta Mãe Divina da Criação e a quem a fecundou, cosmogonicamente falando: o poderoso Thor, Zeus ou Júpiter, o que leva a rematar em modo de saudação: Ave Mariz Nostra!

“Tudo quanto se passa na Obra, no Brasil, tem a ver com Portugal, e vice-versa”, afirmou repetidas vezes o Professor Henrique José de Souza, palavras corroboradas naquelas outras em carta datada de 1956 que endereçou aos teósofos portugueses de então:

“A Obra, no Brasil e em Portugal, corresponde a duas Ramas da mesma Árvore, que devem desenvolver-se em harmónico equilíbrio, como os braços de uma Balança, na qual o Fiel é a Grande Fraternidade Branca, vibrando no peito do Monarca Universal, de cujo centro mesmo irradiam para as quatro direcções os quatro Animais da Esfinge, expressão ideoplástica da Suprema Hierarquia Assúrica. Eu estou em Verdade e Espírito nessas plagas (Portugal), origem da Obra, porque, aí, sou exaltado com fé e amor. Eu sempre estou onde Me amam e com aqueles que crêem em Mim…”

O Venerável Mestre Henrique, El Rike ou Maha-Rishi sempre teve o grupo teosófico português na maior das considerações e nele apostou fortemente, sei-o de fonte segura e a mais próxima dele. O que o futuro depois trouxe, essa já é outra história!… Acabado de se firmar nesse já afastado ano de 1956, logo no ano imediato, em 14 de Abril de 1957, o Quinto Senhor Arabel inaugurou o Quinto Sistema de Evolução e após Ritual Nobre no Templo do Mekatulam, capital do Mundo de Badagas, desceu a Agharta e peregrinou por todas as suas cidades, da 1.ª à 7.ª, volvendo depois à superfície (em Badagas, o mundo semi-subterrâneo) pelo Templo de Jara-Khan-Lhagpa, em diminutivo Jara-Lagpa, a 50 graus de latitude norte a oeste do Tibete, passando a visitar os 7 Postos Representativos da Sistema Geográfico Internacional avatarizado nos principais 7 Adeptos das 7 Linhas do Pramantha ou Ciclo de Manifestação.

No 5.º Posto de Sintra esteve três dias, desde o dia 23 a 26 de Maio de 1957, na pessoa do Muito Venerável Thomas Vaughan (Ara-Amu-Cabayu, seu nome esotérico), representante do Teshu-Lama, antes, de Takura-Bey, Supremo Dirigente da Maçonaria Universal Construtiva dos Três Mundos ou a dos Tachus-Marus ou Traichus-Marutas. Ora, o Excelso Deus do Pentalfa Flamejante, Arabel, aqui deixou um Tode da Corte de Samael ou Luzbel: Jina-Maruth. Também aqui deixou um Muni da Corte de Akbel representada em Rabi-Muni, “Senhor das Sete Montanhas Sagradas”: Apta-Muni, expressando a Quinta Veste Mental Superior ou Venusiana do Eterno – Astar-Muni – de quem o mesmo Rabi-Muni é a Sétima Veste Nirvânica ou Jupiteriana. Apta-Muni é o Guardião da Obra Divina em que se cria o Novo Presépio (Apta, Família Espiritual) em plagas lusas. Jina-Maruth é o Guardião da Embocadura Sagrada e da Instituição Maruta, Maçónica no sentido de “Construtiva” (mas também “Destrutiva” das formas velhas, podres e gastas do despreparo do Passado ante o Presente projectando o Futuro), agindo com as forças elementares e elementais da Natureza, ou seja, com almas humanas e com “espíritos” naturais.

Mas também, como disse, no sentido de “Destrutiva”, ao remeter para as Talas sombrias ou regiões demoníacas e infernais do “Cone da Lua” (Baixo Astral) todos quantos por Sintra, neste particular, ousam afrontar a Sentença de Deus (Karma) e a Realização de Deus (Dharma), pretendendo impor às Cidades ou Lokas luminosas de Agharta a presença das sombras nefastas das astralinas cavernas tenebrosas sob elas, e por aí ao mundo inteiro. É assim que a Loja Negra e os seus maiorais dos curros astrais agem secretamente nos cérebros e nos peitos dos alucinados psíquicos transviados, vítimas desvairadas na constante agitação mental e psicomotora envoltas no crepe mortal da Maya serrana. Por isso, entre 1998-2000, usando da Face do Rigor em Nome da Grande Loja Branca, em Nome da Lei impus-me às trevas destruidoras, e bem se vê hoje as coisas estarem muitíssimo melhores na Serra Sagrada de Sintra. Também muitos impúberes psíquicos se salvaram dessa maneira, quase boçal (e que quase me custou a vida), a que fui obrigado a fazer recurso, cuja intenção última bem poucos compreenderam e menos ainda me ajudaram numa batalha declarada e decisiva aos olhos do mundo, cuja vox populi já desde muito antes profetizava: “A 2000 chegarás, de 2000 não passarás”… Mas se passou, mesmo sem o apoio desses que se dizem “discípulos dos Mestres de Luz, quando não eles mesmos os próprios Mestres”. Dizem-se? Deixe-se que digam…

Ainda assim, algo mais tenho a dizer: na Estremadura ou o Portugal Central existe um triângulo de forças psicomentais composto por Sintra – Mafra – Lisboa. A primeira está para as Lokas, a terceira para as Talas, a segunda para o jogo equilibrante entre elas, tal qual Fohat e Kundalini no “diabolô” verde-vermelho entre Akbel e Arabel. Tanto que se a hindustânica Mahara, “Grande Altar”, é hoje Mafra, este topónimo revela-se antítese de Rafak, se se deitar ou prostrar o M, por extenso Arfak, a sede mundial da Loja Negra, na Papua, Nova Guiné. Em Mafra, neste particular do triângulo de forças, tanto se pode encaminhar o Mental para o “Cone do Sol” (Evolução) quanto para o “Cone da Lua” (Involução), este tão bem representado na lenda das “ratazanas nos subterrâneos do convento”, o que ocultamente exprime as almas em extinção…

De maneira que foi graças a Arabel que firmaram presença em Sura-Loka um Muni e um Tode, expressando a Quinta Veste Divina, e firmando mais ainda, ante o Novo Ciclo que já despontou (às 15 horas de 28 de Setembro de 2005), a ligação deste Quinto Posto ao Quinto Sub-Posto de Tassu (São Thomé das Letras, Sul de Minas Gerais, Brasil), por via de um Cabayu (Linha Morya) e de um Gará (Linha Kut-Humi) aí instalados montando guarda lateral ao Templo Sedote ou Badagas sob o Pico do Leão (Leo…nel) reflexo geográfico do de aqui, sob o Pico do Graal (Cruz Alta).

De maneira que se tem a exposição seguinte das 7 Linhas do Novo Pramantha e dos 7 Postos Representativos assinalados nos respectivos países por onde o Augusto Senhor Arabel transitou, em guisa de antecipar a abertura do Mundo Jina a este mesmo novel Ciclo de Evolução Universal.

Nota: – Os Dhyanis-Kumaras (Deuses) estão para os Raios Planetários (provindos do Logos Solar ao Logos Planetário) e os Dhyanis-Jivas (Adeptos) para a adaptação dos mesmos Raios a Tatvas ou “estados de vibração subtil da matéria”, os quais irão determinar as vibrações particulares dos respectivos Chakras e estados de Consciência, tanto do Globo como do Homem.

Sabido é que nestes lugares serranos luxuriantes de flora, de água, vento e sol, os devas menores ou elementais, vulgo “espíritos da Natureza”, encontram neles ambiente perfeito para habitarem e se reproduzirem.

Os elementais da Terra, são os gnomos; da Água, as ondinas; do Fogo, as salamandras; do Ar, os silfos; do Éter ou Quinto Elemento (Quintessência), os Anjos. Os primeiros actuam no corpo físico do Homem; as segundas no corpo etérico; as terceiras no corpo astral; os quartos no corpo mental concreto; os quintos no corpo mental abstracto ou causal, ou seja, o encausador dos elementos à contextura do quaternário inferior humano, como expressão ou reflexo microcósmico do processo idêntico ou macrocósmico com o quaternário inferior do Logos. Os elementais agregados aos veículos de manifestação do Jiva (Homem) chamam-se, precisamente, devas encadeados; os demais, subjacentes à Natureza, devas libertos.

O Quinto Sol produz e alimenta os elementos da Natureza sintriana. Este Sol chama-se Avarat, termo que se traduz cosmogonicamente como “Força Maior”, e antropogonicamente como “Tradição dos nossos Maiores”, e o bijam é Krol entoado de maneira especial ou secreta de maneira a atrair e encadear o Fogo Criador do Espírito Santo (Kundalini).

Acerca da origem do Reino Elemental, não tenho senão que passar a palavra à consideração sábia da Coluna CAF do Venerável Mestre JHS, o Eng.º António Castaño Ferreira, numa aula realizada no Rio de Janeiro, em 1948, destinada à antiga Série D da Sociedade Teosófica Brasileira:

“Antes da Vida manifestar-se na Forma e expressar o estado de Consciência que chamamos Mineral, ela atravessou um outro que poderemos chamar de Elemental. O próprio tipo de Evolução do nosso Sistema conduz a que, no seu desenvolvimento, apenas possam existir consciências do tipo Elemental nos três últimos Planos (Mental, Astral e Físico). Isso força a consciência elemental a surgir apenas nesses mesmos Planos. No entanto, vimos que existem sete tipos de Consciência, sendo a Mineral a menos evoluída. Como compreender, então, a existência de um estágio paralelo? A resposta poderá ser dada nos seguintes termos: as consciências elementais não são consciências individualizadas como as outras, mas antes forças vivas da Natureza, plenamente cegas e inconscientes, orientadas pelas Consciências mais elevadas que para tal possuem aptidões. Elas são, no fundo, o resultado da animação da actividade dos três Planos inferiores pelas Energias Cósmicas que dimanam dos Três Logos ou Tronos.”

Pela regularidade dos exercícios espirituais prescritos para o Munindra pelo Mestre JHS, visando o aprimoramento corporal (mental, emocional, vital, físico), ele vai, vector a vector, grau a grau num processo de Iniciação verdadeira, subtilizando os seus devas encadeados indo influindo nos soltos ou libertos – assinalados no meio-ambiente que o rodeia, assim cada vez mais a Natureza lhe obedecendo… – de maneira a alcançar, por seus próprios esforços permanentes na transformação da vida-energia em vida-consciência, esse estado de Superação a que alguns chamam Reino Angélico, outros Quinto Reino Espiritual, sempre representado na Terra pelo próprio Reino de Agharta, o Mundo dos Seres Viventes.

Sintra, consignada “Serra da Lua” (astrosoficamente elevada a Vénus), é uma lomba que se distende do Algueirão / Rio de Mouro até ao Capum Lunarum ou Serpens, hoje da Roca (Rocha), o ponto mais ocidental da Europa, como é do conhecimento geral.

Poderei assemelhar esta lomba a uma cordilheira (semelhante à que cerca a cidade de São Lourenço do Sul de Minas Gerais, Brasil, conforme confirmei in situ, como sendo a extensão da Serra da Mantiqueira, mas aí como Montanha Sagrada Moreb, “Montanha que Fala” para aquela “Montanha que Ruge”, Ararat), cujo ápice é o pico da Cruz Alta, o Pico do Graal ou Pico dos Kurats, onde em tempos remotos aí se levantou grandioso templo de culto matriarcal ou feminino por sacerdotisas atlantes afins à Hierarquia Angélica ou Barishad e que era consagrado ao lunar astro nocturno (Chandra ou Chendra), do qual hoje mesmo sobeja a memória repleta de lenda e resta o testemunho arqueológico solto ou esparso.

 

Pois bem, diz a Tradição que quando um pico é parte de uma cordilheira toda esta, por sua vez, é presidida por um Ser de bem maior evolução, da mesma ordem dos Deuses dos picos isolados, só que mais evoluído ainda. É o Anjo da Montanha, o Deva Regente de todos os elementos que nela vivem como corpúsculos celulares de Seu corpo de expressão, a mesma Montanha… Ele influi em toda a sua natureza: terra, água, etc., etc., e mesmo nos humanos que junto ou dentro da Aura de Sintra (que é o seu Ovo Áurico) habitam, assim influenciando com o seu carácter e particularidades as dos sintrenses, estes com comportamento semelhante ao dos Todes e Badagas da Nilgiria e do Ceilão, ou seja, pessoas pouco ou nada nocturnas, caseiras e um tanto taciturnas, no sentido de pouco faladoras, como se uma parte sua estivesse permanentemente recolhida sobre si mesma.

Ora, essas são particularidades lunares ou de alma, de expressão interiorizada tal qual a Lua que só surge, timidamente, quando tudo se recolhe ao descanso do Sol.

A própria serra se feche em si mesma e necessita-se muito da consciência superior feminina, a intuitiva, para aperceber a sua natureza real. Tudo nela é mistério, sortilégio, magia… Os sussurros do vento nas copas das árvores, o borbulhar dos riachos, os templos perdidos entre as sombras fantásticas das folhagens, as mansões principescas ocultas ou coroadas pelas penhas verdejantes, enfim, tudo, mas tudo possui um quê de sibilino e fugidio, como se os deuses se escondessem na esquina de qualquer fraga ou árvore à aproximação do homem ignaro…

O Deva da Serra Sagrada de Sintra, diz a Sabedoria Divina pelos olhos e a boca de quem sabe, possui uma deslumbrante Aura púrpura rósea e, onde se situa a sua cabeça, parece rodear a fronte um hausto de luz clara azul marinha, salpicada de pontos estrelados dourados, estes os seus “devas” ou formas-pensamento espécie de “abelhas” douradas projectando-se na serra. Como criação do Segundo Logos em evolução Dévica paralela à Humana, é um Ser enorme com cerca de 17 metros de altura, maravilhosamente esbelto, e se bem que pareça masculino a sua contextura interior é bem mais feminina, denotando-se pelos movimentos esguios, lânguidos e centrípetos.

Os serranos o têm como aquela cultuada na parte oriental da serra, St.ª Eufémia (isto é, Eu+Fêmea = a Boa Fêmea, a Boa Mulher, a Boa Mãe), mas o intuo como Ab-Sin – “Filho da Lua”… alimentada por Vénus… fecundada por Júpiter. O que vale dizer: a Energia Flogística do Centro da Terra e a Energia Luminosa do Segundo Logos ou Seio do Céu ao Centro da Terra, formando a Cruzeta Ígnea (Pramantha) sobre a Face da mesma.

Possui às suas ordens uma corte de Anjos de tons púrpuras e de Anjos de tons azuis, os quais dirigem as obras dos elementais de Sintra (“os obreiros silenciosos do Templo de Salomão”). Os Anjos “púrpuras” são mais perceptíveis nas zonas do Castelo dos Mouros, Cruz Alta e Capuchos. Os Anjos “azuis” na Torre do Lago dos Passarinhos, Lagoa Azul e já nas proximidades do mar oceano. Silfos e ondinas estão às ordens dos Anjos “azuis”; salamandras e gnomos dos Anjos “púrpuras”. Estes maravilhosos Anjos possuem de três a cinco metros de altura e os seus aspectos, embora graves e profundos (mais nos “purpurados”), igualmente demonstram alegria e felicidade (mais nos “azuláceos”).

São eles que intuem o viandante solitário pelos trilhos incógnitos da serra, verdadeiro Peregrino da Vida se Iniciado for, o protegem e o conduzem pelo maravilhoso Mundo de Aladino, Allah-Djin ou dos Jinas, graças ao despertar das suas adormecidas virtualidades.

Um breve parêntesis. O Professor Henrique José de Souza dá o termo aura como verbo masculino, o que não deixa de ser singular mas, como ele disse, originalmente era assim considerado. O termo aura provém do grego αύρα, “sopro”, exportado ao latim aura, “brisa”. Em espanhol o termo é aplicado muitas vezes como masculino “un aura”, mas em português aparece sempre no feminino como expressivo de “ar vital”, oriundo da raiz indo-europeia awer, “envelar, envolver”, e wer, “vento, ar”, portanto, “ar envolvente”, podendo ser este o motivo do Professor Henrique lhe dar o sentido masculino.

Os silfos têm a seu cargo a direcção dos ventos, das correntes aéreas, distribuindo pelo éter-ambiente as partículas douradas do Prana vitalizador, a Energia Vital que torna os “bons ares” da serra os melhores do país e da Europa.

Por sua vez, as ondinas captam, por afinidade simpática, grande parte dessas partículas para seu alimento, vitalizando de tal modo as águas de riachos e fontes que as tornam quase (ou mesmo) medicinais.

Os silfos de Sintra são de cor branca leitosa de 5 a 6 centímetros de altura, e geralmente manifestam-se através do sussurro da ramagem, até então quieta, ao viandante que passa. Ou então como fugazes flashs de luz adiante dos olhos. São criaturas simpatizando com os sábios e repelindo os ignorantes e cruéis dos seus territórios. Esses últimos ficam sujeitos aos caprichos das súbitas variações climáticas: à ramagem que se agita furiosa, às lufadas violentas de vento no rosto, aos assobios arrepiantes, enfim, é ver tais indesejáveis escapulirem-se nem sabem por e para onde…

As ondinas serranas são deveras graciosas, de azul claro com laivos marinhos, emanam uma coloração cristalina e é vê-las deslizarem dolentes nos riachos e nascentes onde nascem, vivem e morrem, sintoma este reflectindo-se no apodrecimento, enlameamento e secagem desses mesmos riachos e nascentes. Inspiram melodia, melancolia, saudade, romance, amor e paixão. De 2 a 3 centímetros de altura, movimentam-se em grupo e tendem a acercar-se dos de firme carácter e forte vontade em bem fazer, dos que respeitam e amam a Natureza-Mãe. Fogem aterrorizadas ao impacto com a aura dos que vibram em emoções violentas e passionais. Ou então, se com estes se afinizam, vampirizam as suas energias psíquicas e físicas indo desenvolvem-lhes a mediunidade com todas as suas mayas-vadas sensoriais e consequentes prejuízos psico-orgânicos.

As salamandras movimentam-se em cascatas turbilhonantes pelo éter-ambiente da serra, principalmente nas zonas altas e ensolaradas durante os meses de Verão. São criaturinhas ígneas de cor vermelha purpurada, por vezes com laivos dourados, medindo entre 8 a 10 centímetros de altura. Se provocadas e agitadas, desencadeiam incêndios que rapidamente se descontrolam, ainda assim, na finalidade última, indo purificar essas zonas da serra onde foram provocadas e afrontadas. Já diz o povo: “Quem brinca com o lume, acaba… queimando-se”! Vezes imensas se reparou haver um intercâmbio estreito entre elas e os silfos, originando correntes de ar frias e quentes destinadas a vitalizar e purificar determinados pontos da floresta. Quando as salamandras e os silfos, através da atracção magnética dos ventos, atraem as ondinas dos lagos e riachos, formam-se vapores, nevoeiros que são autênticas cortinas dimensionais por que se podem manifestar os misteriosos Traichus-Marutas (cujas iniciais, T. M., também as podem ser de Tributários de Melkitsedek), etéreos Guardiões dos Lugares e Templos Sagrados pertencentes à Agharta, os quais sendo de natureza masculina e feminina, Arcangélica e Angélica, que é dizer, Agnisvatta e Barishad, ficam os Arqueus ou Assuras permeio, demonstrando assim a natureza andrógina desta Hierarquia Jupiteriana. Ainda que raras, as salamandras são a projecção do chákrico Sol Interior de Sintra (o Quinto dentre os Sete que o Logos Planetário possui em seu Corpo que é a Terra) e agem como servidoras fiéis dos Anjos “púrpuras”. Ocorrem à ordem divina dos Quatro e Um Maharajas pronunciados no Ritual Teúrgico, sendo elas quem purificam com a sua radiação o ambiente serrano.

Aquando em rituais, yogas e meditações comunicam com o executante através do seu chakra frontal possibilitando-lhe, assim, adentrar clarividentemente a luz astro-mental, isto se a vibração entre ambos for simpática e o considerar de ousada mas nobre intenção, em sintonia com os ritmos naturais da Natureza-Mãe.

Se, pelo contrário e contrariando esses mesmos ritmos ou pulsares naturais, for um feiticeiro de alguma das muitas seitas mais que tenebrosas que faziam da serra (ainda há pouco haviam casos esporádicos no cruzamento para o Convento dos Capuchos e em São Saturnino da Peninha… mas que a breve trecho acabarão, porque as Forças da Lei não dormem) palco de mixórdias macumbeiras, aí as salamandras unem-se às ondinas – que por sua natureza linfática e bioplástica, como todo o Reino Elemental, são verdadeiras imitadoras de tudo quanto vêem nos humanos, seja bom ou mau – e desencadeiam nele estados febris de ansiedade e neurastenia, podendo até mesmo provocar a cegueira e o cancro, como soube ter acontecido a alguns… Por outras palavras, vampirizam-no até ao completo esgotamento sanguíneo e nervoso, linfático e bilioso.

Como ilustração e exemplo de triste memória, para que doravante se aprenda com os erros alheios a no passado próximo não os cometer, narro dois casos de que tive conhecimento directo. Certa vez, um desses ajuntamentos feiticistas eivado da mais pura e anímica fantasia mórbida, misturando práticas de Escolas diversas sem serem de nenhuma pois que as apreenderam exclusivamente em literatura pública, foi surpreendido em pleno acto ritualístico por um grupo de escuteiros que passeava na serra. Estes acharam tanta piada, em sua santa ingenuidade, ao que viram que, dias depois, foram eles os surpreendidos, dessa vez por mim. Que estavam fazendo? Simplesmente a dar a iniciação da praxe escutista a um novato (“lobito”) dentro de uma gruta, seguindo “a rigor” os preceitos de um ritual… franco-maçónico!!!

O outro caso é o daquele impúbere psíquico, já de si possuído dos dotes congénitos dum mago negro, que, acompanhado do amigo de nome homónimo, pegou nuns quaisquer grimórios de magia invocatória, dirigiram-se à serra, acenderam umas velas e, ele de espadalhão em riste que dava “um vistão”, não a fez por menos: apontou-o ao céu e ordenou a aparição submissa dum… Arcanjo. A resposta não se fez tardar: em plena noite fria, estrelada, de súbito um raio trovejante irrompeu das Alturas e arremessou-o pelo ar, velas, grimório e espadalhão juntos, contra uma árvore, donde foi recolhido inconsciente pelo amigo de índole igual à sua. Conclusão: durante mais de um mês sofreu de absoluta insanidade mental – de que nunca se curou inteiramente, mantendo-se a obesidade mórbida que o arrasta na penúria d´corpo e alma – e com tudo não tenho a certeza se acaso terá aprendido a dura lição, pois apesar de conseguir enganar pessoas de boa-fé o mesmo já não acontece com… um Arcanjo!

Esses episódios lastimáveis podem muito bem servir de ilustração para alguns tresloucados d´hoje que, querendo imitar-me in argumentum ad nauseam, ficando-se pela aparência que a essência é inimitável por ser condição natural do possuidor, intransmissível e inalcançável a outrem que não o próprio, tal qual uma operação ao cérebro não devolve o juízo a quem nunca o possuiu, porque o juízo não é físico mas produto da consciência diversa do órgão físico veículo daquela, se os vê arrastarem outros tantos afins por perigosos atalhos na negra floresta da existência, levando-os a perder-se em dores e infortúnios ou “azares de vida” desnecessários.

Os gnomos são seres bem pequenos hostis a quase todos os humanos. São eles quem originam os estados de tensão e, mais que medo, terror, em determinados pontos e épocas na serra, podendo, no curioso profano que afronta e insiste em desafiar com o afloramento das suas energias internas, nidhanas, pondo-as em conflito com as exteriores, descambar em crise nervosa, histeria e até mesmo num eventual colapso cardíaco.

Só o Iniciado pode captar a sua simpatia e até mesmo amizade, o que não é fácil. Várias vezes se os viu, com contornos faciais semelhantes aos do humano, actuarem através de uma penha gigante ou de uma simples pedra musgada, nisto também estando na origem dos famosos fenómenos psicológicos de pareidolia. De cor castanha terrosa, possuem de 4 a 6 centímetros de altura, aspecto atarracado e envelhecido. Têm uma propensão natural para os fenómenos psíquicos, para eles estados naturais de ser, originando as alterações climáticas e os bem famosos estados de tensão ou quebra da mesma na criatura humana.

Habitam nas cavernas, poços, minas e demais lugares subterrâneos, havendo uma grande movimentação de gnomos junto a esses lugares quase sempre de natureza hidrotelúrica. Tenazes e perigosos guardiões de Embocaduras, não raro recorrendo a “ilusões dos sentidos” (as ditas mayas-vadas ou mayas budistas, por outra, espelhismos) e a outras formas de manifestação, incluindo até répteis venenosos, para as defender, protegem as suas entradas feroz e ferreamente, dessa maneira sendo a guarda elemental (sob a direcção de Jina-Maruth) da Fraternidade Oculta de Sintra. Muitos curiosos e magos de índole mais que duvidosa têm sido vítimas dos gnomos ou Povo Gob(i) que os faz cair nas mais variadas armadilhas, algumas delas resultando fatais, ou, quando com sorte, apenas ridículas, como aconteceu com aquele exótico personagem que à dianteira dos seus próximos, todos juntos, entraram numa gruta que era “caminho directo para Agharta”. As suas lanternas tremulando nas mãos nervosas apontaram brilho ao fundo e, felizes, três vezes felizes, apressaram o passo para caírem, todos juntos, os infelizes… num imenso lodaçal subterrâneo.

Mas Agharta, fixe-se bem, não é física… tampouco o Duat! Os pormenores… os Iniciados da Obra do Eterno os conhecem, sempre conformados, sem poluições ou ingerências de correntezas alheias à mesma Obra, aos ensinamentos do Mestre JHS.

Os gnomos simpatizam com os fortes de carácter decidido, franco e honesto, atentos e sinceros buscadores dos espirituais tesouros da Mãe-Terra. Dos que sabem ouvir mais e calar muito, porque o silêncio é d´ouro.

Durante a Primavera os silfos acasalam com as ondinas e nascem as fadas. É vê-las esvoaçar em bando multicolorido e airoso pelas faldas da Serra Sagrada como lusco-fuscos graciosos. As fadas sintrianas são muito belas, de matiz azul céu parecendo revestidas de uma capa branca rósea. São elas quem vão trabalhar as sementes a fim da Natureza germinar e brotar a sua vegetação prodigiosa, policrómica e multivariada. Não medem mais que 3 a 3,5 centímetros de altura. Quando o Verão atinge o pino as fadas começam a fenecer e a desvanecer-se nos ares, isto é, integram-se na natureza dos silfos.

Quando caem as primeiras chuvas, é deveras fascinante observar o bailado mais grácil das ondinas em doce sinfonia caindo como “lágrimas” policrómicas do regaço dos Anjos “azuis”, indo fecundar as fontes, regatos e solos, alimentando aos gnomos e aos devas das árvores, portando consigo o éter líquido necessário à vida da Natureza.

Como cada região possui o seu tipo particular de “espíritos da natureza” que é próprio ao clima e características da mesma, no século XIX o Rei Iluminado D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha pretendeu acasalar elementais de todos os géneros do mundo com os sui generis sintrãos, e para tanto mandou plantar no parque florestal do Palácio da Pena exemplares da flora de todas as regiões do Globo. Daí resultou uma simbiose alquímica-natural originando tipos bem singulares de elementais, inéditos em todo o planeta, fazendo do Mundo Oculto Sintrão o alter-ego do Mundo Elemental Planetário.

Não se deverá ignorar que D. Fernando II era um Iniciado no Conhecimento Hermético e reconhecido preclaro Membro da Fraternidade Oculta de Sintra, juntamente com a sua esposa morganática, D. Elise Hensler, a Condessa de Edla.

Também no sentido de simbiose vegetal mandou, na sua Quinta da Torre da Regaleira, o Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, o último reminiscente Lusignan de tronco português e igualmente Grande Iniciado nos Mistérios de Mariz, nos inícios do século XX plantar uma exótica “árvore-serpente” escandinava à entrada do seu palácio. As folhas em ponta dessa árvore só caem quando outras novas ocupam o seu lugar, algo semelhante à muda de pele da serpente, que, neste particular iniciático, pode muito bem ser indicativa da “Serpente Irisiforme” – KINEMELAROTOZUS – de que já falava o Professor Henrique José de Souza quando definia “Sintra como uma Serpente composta de sete substâncias” (Tatvas). Essa árvore é um reservatório natural, também catalisador, da Energia Kundalini, como Fogo Terrestre, da qual Carvalho Monteiro se servia para as suas operações espagíricas e alquímicas. Aliás, ele era um profundo conhecedor da flora, sabendo de botânica aos mais ínfimos pormenores, conforme atestam os testemunhos de seus netos, António Potiers e Maria Nazaré Carvalho Monteiro van Daun Lorena e Lusignan, Marquesa de Pombal, com os quais me entrevistei em pessoa.

Sintra hoje é algo parecida com São Thomé das Letras, no tocante a instalar-se no “roteiro turístico esoterológico”, com muitíssima bizarria exótica característica hippie dos movimentos “new age”, cuja última moda é a de destituir o Homem do antropocentrismo e desclassificar as espécies naturais mandando às urtigas a evolução das mesmas, parecendo incapazes de perceber o elementaríssimo dos animais só raciocinarem e falarem como gente na banda desenhada. Assim, observa-se o fenómeno psicossocial de agrupamentos, mais ou menos numerosos, dotados de misticismo animista francamente impúbere – recordo o encontro com uma dessas pessoas que forçou a entrevista comigo na serra, e após lhe ter perguntado o que fazia na vida, respondeu-me com a maior das ingenuidades que “tinha a honrosa profissão de… falar com os mortos”!!! – concorrerem para pontos diversos da serra onde, imitando os seus líderes medianímicos ou clarividentes involuntários manobrados a bel-prazer pelos silfos, inventam teorias as mais extravagantes, desconexas e fantásticas, do tipo haver em dado sítio uma “base de óvnis”, um “templo de espíritos superiores”, o “túmulo encantado dum mago atlante”, de que “em dada data e hora ali e acolá vai ocorrer um evento mundial, que até pode redundar no fim do mundo”, etc., etc. Mesmo que acaso possa haver algum fundo de verdade no mínimo disso, já é descaso ser a aparência verdade… porque tudo isso deve-se à influência psico-anímica dos elementais, dispondo as receptivas mentes agitadas num estado febril propenso à invenção das mais variadas (e tresloucadas) fantasias (próprias da inteligência emocional mais afim aos folclores astrais que ao estudo sério e criterioso das Leis da Vida e da Natureza), por isto mesmo sendo a realidade e a consciência psicofísica imediata afogada pelos turbilhões psicomentais, kama-manásicos, infundidos do exterior ao interior do receptor.

Dessa maneira, tais pessoas – independentemente da boa índole e boas intenções que as possam dotar – revelam-se simples escravas das forças primárias da Natureza. Confundem-se e confundem tudo, e o eventual bem-estar que possam sentir acaso se deverá tanto à auto-catarse do fenómeno de grupo como, sobretudo, à evasão mental pelo preenchimento fenoménico, mesmo que não haja fenómeno algum e tão-só se o imagine, algo assim a “ver o mundo cor-de-rosa” sob alcoolemia ou quaisquer outros entorpecentes dos sentidos, estropiando a realidade.

A atracção que sentem pela serra, pode dever-se a dois factores básicos:

1.º –  Sendo médiuns ou sensitivos de escasso mental e muito emocional, dirigindo-se mais por imagens do que por ideias, por curtas frases poéticas sem outro significado profundo senão o básico colorido das imagens que transmitem, dizia, vivendo perto da serra o seu mundo elemental atrai-os para aí, a fim de se satisfazer com as energias kama-manásicas que o psíquico ou sensitivo pode facultar por via dos seus chakras inferiores (abaixo do cardíaco), anormalmente desenvolvidos mercê de alguma doença no passado, de algum acidente que lhe aconteceu ou, então, por patologia congénita do seu próprio karma, que o terá feito nascer com tais anomalias psíquicas, para todo o efeito, um doente. Essas energias são muito apreciadas pelos elementais, podendo ser comparadas ao chocolate que se oferece à criança gulosa.

2.º – Foram em vidas anteriores residentes em Sintra, amantes da sua terra mas ignorantes da sua Vida Oculta. Ou, então, simples pessoas que viveram nos dias atlantes de Sintra (Kurat) comparticipando do seu dia-a-dia. Mercê das suas samskaras ou “impressões mentais”, resíduos kármicos do passado gravados no seu átomo-semente búdhico ou intuicional, a que não têm acesso por sua parca evolução interior, instintivamente são psíquicamente atraídas para aí e logo misturam tudo numa algaraviada sem ordem nem regra, vendo-se claramente o recurso a bizarrias de psicologia e metodologia infantis no utilizo de métodos mais que incorrectos, sem sentido nenhum, com a ausência total do mínimo resquício de disciplina iniciática capaz de ordenar “cada coisa no seu devido lugar”.

Os elementais comunicam com os humanos por sons naturais: sopros para os silfos; borbulhar para as ondinas; crepitar para as salamandras; batuques ou toques para os gnomos; zumbidos para os Anjos. A todos une uma fórmula única de comunicação com os homens: a música, de preferência exclusiva a de conteúdo erudito, espiritual.

Os Anjos comunicam, ainda, por ideias e imagens como símbolos coloridos projectados na mente humana.

Há uma linguagem própria da Natureza que os homens desconhecem, e até se pode dizer que poucos deles realmente sabem falar. Os sons emitidos por um indivíduo palrador projectam-se no Astral numa catadupa de formas desconexas e absurdas, o que faz lembrar as vibrações emitidas pelo canário e pelo papagaio.

Os Anjos irradiam uma Paz profunda e um Amor permanente, ao par daquela Sabedoria que só de Deus pode advir directamente, e um Poder inexcedível próprio dos que Nele vivem.

Certa vez, numa “conversa” entre um Munindra e um Barishad “púrpura”, este assim falou:

A Montanha sempre foi o símbolo da elevação do Homem a Deus. Os Mestres vivem em seu topo, longe dos olhares perniciosos dos humanos conspurcados por si mesmos, usufruindo das energias suaves e puras do Deus da Montanha que lhes fornece os elementos necessários à sua vida e obra.

É bom que todos venham à Montanha, melhor seria que todos vivessem a Montanha. Todos recebem as nossas Bênçãos, Graças do Divino, e ai daqueles que ousam as macular. O Raio de Deus os fustigará.

Nós somos os conservadores da Glória da Mãe Divina. Queremos comungar com a Humanidade, mas sabemos que tal só é possível quando ela comungar de inteiro com a Mente de Deus.

Do Pico do Graal estamos prontos a levar a gema divina ao pico mental de cada homem. Rogamos, destas etéreas plagas, à Abundância Suprema Paz, Amor e Fraternidade para todos quanto se encadeiam nos quatros princípios: os homens, nossos irmãos, diferentes, mas nossos irmãos.

Já deve se ter percebido que as palavras deste estudo são válidas não só para Sintra mas também para São Lourenço e quantas mais Montanhas Sagradas brilham sobre a Terra como Jóias iridescentes da Coroa ou Cabeça Coroada do Logos Planetário.

Volvendo a Sintra – Portugal e aos seus três misteriosos Arcanjos ou Arcanos XIII, XIV, XV (“A Grande Mãe”, “O Equilíbrio”, “A Grande Luz”), dos quais o Dhyani Bey Al Bordi (Mikael) fazia sentir que “estavam no Seio da Terra, por debaixo do Fogo Sagrado em nosso Santuário”, logo, em correspondência com a Quinta Cidade Universal do Mundo de Badagas, com os seus dois Templos laterais para um terceiro central, na razão de um Coordenador, um Governador e um Sacerdotal, isso mesmo é sibilinamente apontado pelo nosso Venerável Mestre JHS na sua Carta-Revelação datada de 28.01.1953, escrita em São Paulo, com o título sugestivo: Sintra e seus Mistérios (para ser lido com os Olhos do Espírito), inserida no Livro-Revelações Chuva de Estrelas – A. É com um precioso trecho dessa carta que dou o arremate final a este estudo, oferecendo-o humildemente ao respeitável leitor e, especialmente, a todos os meus Irmãos da Obra Divina no Mundo, e se acaso pequei ou omiti algo, peço desculpa, mas, como disse ao início, grande é a Obra e pequeno é o obreiro.

– Para quê irmos mais adiante para provar que Portugal está repleto de mistérios, ao mesmo tempo, Atlantes e Ários?… Há um verso, basta dizer tal coisa, chamado Sendro-Vajra. E outro chamado Arya… Não falemos no termo Venestabela, para lembrar a Bela Vénus… já em outro idioma, que não o sânscrito. E assim por diante. Pelo que se vê, repetimos, Portugal, principalmente em Sintra, conserva vestígios indeléveis de várias civilizações, desde a Atlante à Ária, até chegar à Romana indo ter na Árabe. Principal razão, pois, de os Gémeos (Espirituais, Henrique-Helena) estarem ligados a Portugal.

Falam, em primeiro lugar, Três Anjos ou Arcanjos Cumáricos, prestando Homenagem à Mãe Divina:

Primeiro Anjo

Como apoz ruidosa porcella
Vem um dia sereno e formoso,
Apoz annos de horrores e crimes
Portugal é, enfim, venturoso!
Porque nos Céus, por elle
Orava a Mãe de Deus;
E um Anjo de Bondade
Davam à Terra os Céus;
E este Anjo, como a Virgem,
Maria se chamava;
E a Mão da Providência
Num Throno a colocava,
E esse Throno augusto,
De Glória rodeado,
Da Fé amparo e abrigo
Por nós é proclamado.
Honra e Glória à Rainha dos Anjos,
Que é nos Céus efficaz Protectora!
Glória à Imagem mais bella da Virgem,
A Maria da Fé salvadora!

Segundo Anjo

E vós, Excelso Esposo, que nascido
Longe de nós, a Terra do Occidente
Aceitastes por Pátria, e ser quizestes
Irmão e Pai da Lusitana Gente;
Vós, que entre nós não tendes Sceptro herdado,
Mas que sois, mais que Rei, amigo nosso,
Tendes Reino de Amor que vale muito,
E em nossos corações o Império vosso.

Terceiro Anjo

Tenro Príncipe, que um dia
Cingireis a antiga Cr´oa,
Cuja Glória ainda ressoa
Pela Europa, e além do mar,
Possais vós nunca esquecerdes
Que essa Herança vos tocou,
Porque Deus sempre a salvou
Para a Fé eternizar;
Que onde as Quinas tremulavam
(Desses reis que já lá vão)
Das conquistas por padrão
Uma Cruz se via alçar;
Pela Virgem conduzidas,
Nossas Armas se estenderam;
Foi assim que elas fizeram
Longes povos accurcar.

Possais vós a crença avita,
Nosso amor, nossa esperança,
Pura sempre, e sem mudança,
Entre nós fazer reinar.

Todos Três (formando a Divina Tríade, dizemos nós)

Consolação dos afflictos,
Virgem Pura e Immaculada,
Que nunca pelos humanos
Debalde sois invocada,
Alcançai para este Povo
A Divina Misericórdia.
Alcançai para Portugal
União, Paz e Concórdia.

AVE MARIS NOSTRA!

ADVENIAT REGNUM TUUM!

BIJAM!

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Santa Maria de Harun, hierática e eclética – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Mar 1 2018 

Quem, vindo do Patacão para entrar em Faro (actual capital do Algarve, a primeira havia sido Lagos no Período Árabe e a segunda Silves, durante a Reconquista), avista pouco antes de entrar na cidade, à sua direita, uma estranha casa das figuras que exibe em relevo no seu frontão de alvenaria, de margem ondulada, dois dragões cornudos com rostos humanos, tendo os corpos e as pernas cobertos de escamas e os pés em forma garras. De cada lado um delfim ou golfinho, em que se apoiam os braços de um guerreiro negro africano em meio corpo, sobrepondo-se ao centro no ornato concheado. Na base, três cartelas com os dizeres: “Qolein / Bois Marinos / Acaçalansada as feras / Mostros da Merica / Qolein”, isto é, “Delfim – Bois Marinhos – A caça lançada às feras – Monstros da América – Delfim”.

Situado na Estrada Nacional 125, à entrada da cidade, é um edifício do tipo barroco vernacular, de planta longitudinal simples e piso único. Terá sido mandado construir pelo desembargador Veríssimo de Mendonça Manuel nos meados do século XVIII, para servir de armazém agrícola ao solar da Quinta da Horta dos Ourives[1].

Casa das Figuras à entrada de Faro

É aqui que inicio o périplo mitosófico farense que desfecharei no celeiro da Horta de São Francisco, extra-muralhas com Olhão ao fundo.

Faro, feitoria que foi dos fenícios, vasto porto de mar de gregos e romanos, depois de árabes, judeus e cristãos, indubitavelmente tem o seu nome ligado à Rainha do Céu, título perpetuado pelos árabes e moçárabes farenses, ligando a imagem matricial a formosa lenda relacionada com a ria e o mar que vêm beijar suas margens.

Em Ossónoba (Faro) ter-se-á instalado um núcleo de cristãos logo no século I, e a presença da diocese nesta cidade é já assinalada no concílio de Elvira, nos primeiros anos do século IV. Contudo, a primeira catedral digna deste nome, só é elevada depois da chegada dos visigodos (ano 418) e consagrada a Santa Maria, Rainha do Céu. Isto é histórico. A lenda é a seguinte: com a presença árabe ocupante da cidade no ano 713, capital de principado independente no século IX, e andando esses de poucas amizades com os moçárabes, pegaram na imagem da sua padroeira e arrojaram-na ao mar. Consequência: toda a pesca desapareceu daquelas águas. Recuperada a imagem, os peixes voltaram em grande abundância e os árabes, agradecidos e temerosos, fizeram-lhe um nicho nas muralhas para que Ela, Santa Maria Ibne Harun (depois Harune, Faaron e Faaram, “povoação de cavaleiros”, donde Faro), protegesse sempre a ria e a sua fauna[2]. Talvez por isso, os cristãos não foram incomodados em Ossónoba.

Iluminura das cantigas de Santa Maria – Afonso X, o Sábio, 1280

Essa palavra Ossónoba, topónimo túrdulo, pré-romana referida por Pompónio Mela, Estrabão e Ptolomeu, para o professor Batalha Gouveia possui o mesmo sentido mariano de “Terra da Virgem”[3], decompondo o termo em osson, “terra”, e noba, “virgem”, donde provirá Harun até finalmente Faro.

Árabes e cristãos unem-se em torno da Rainha do Céu na terra por Ela escolhida. Mas também os judeus, instalados em Faro desde tempos antiquíssimos, no século I d. C. já aqui habitavam empós a sua diáspora da Palestina para o Ocidente da Europa nessa data[4], votaram culto à Mãe Divina, identificada na Escritura Velha a Ester, depois a Santa Ester dos criptojudeus, Mãe da Raça Abraâmica[5].

Capela de Nossa Senhora do Repouso dentro das muralhas de Faro

O actual cemitério judaico de Faro (na Estrada da Pena, junto ao Estádio de São Luís [de França]) data somente de 1820 (com funções até 1932), tendo sido comprado o seu terreno em 1851 por Joseph Sicsu, o Cantor, Moses Sequerra e Samuel Amram, subsidiados pela próspera comunidade judaica farense, composta de sessenta famílias, conhecida como “Pequena Jerusalém”. À entrada, por cima do portal, está a data de 5638, correspondente à data cristã de 1887, que terá sido aí colocada aquando da construção do muro envolvente[6]. Mas já no foral de D. Afonso III, de 12 de Julho de 1269, são referidos os judeus da cidade[7], sabendo-se que a aljama, alfama ou judiaria de Faaram, na Vila-Adentro muralhas, era das mais importantes na época de D. Manuel I, que em 1495 foi forçado pelas cláusulas do contrato do seu casamento com D. Maria de Aragão e Castela, filhas dos reis católicos, à expulsão deles do país, e a solicitar em 1515 a instalação da Inquisição em Portugal, o que só aconteceria no reinado seguinte de D. João III. Que D. Manuel I não desejava a expulsão dos judeus de Portugal, é facto facilmente detectável logo nas primeiras premissas do seu decreto, favorecendo-os, não lhes apressando a conversão, dando-lhes tempo para escaparem ou então engendrarem um qualquer procedimento capaz de contornar as leis que eram menos da coroa e mais do pontifício. Este assunto melindroso até hoje carece de abordagem isenta, descomprometida e despreconceituosa, dos historiadores e estudiosos da política diplomática, social e religiosa dessa época.

Seria imperdoável não referir Samuel Gacon, o tipógrafo quinhentista que na sua oficina farense, em 30 de Junho de 1487, imprimiu o primeiro incunábulo judaico no país, um Pentateuco. Desta obra religiosa o único exemplar conhecido está guardado na British Library, em Londres[8]. Foi roubado em Portugal aquando do saque à cidade de Faro pelos ingleses em 1596, quando sofríamos a ocupação filipina e a Inglaterra estava em guerra com a Espanha. Fez parte de um conjunto de 3.000 livros roubados em Faro nesse ano por Robert Devereux, 2.º conde de Essex e favorito da rainha Elisabeth I, que ofereceu esse saque ao seu amigo Thomas Bodley, a quem se deve a Bodleian Library of Oxford.

Pentateuco editado por Samuel Gacon

A maior prova da presença medieval dos judeus farenses será a lápide funerária do rabino Josef de Tomar, datada de 16 de Shebat do ano 5075 (23 de Janeiro de 1315), achada no Espaldão, Faro, e que foi incorporada no muro deste cemitério, onde hoje só existe uma cópia porque a lápide original foi removida para a sinagoga-museu de Tomar nos anos 30 do século XX. A tradução da legenda, feita por Samuel Schwartz, é a seguinte: “Na quinta-feira de dezasseis de Shebat do ano cinco mil e setenta e cinco, faleceu o respeitável Rabino Josef de Tomar. Que a sua alma descanse em paz. Foi sepultado neste sepulcro”[9].

Lápide funerária evocativa do rabino Josef de Tomar, no cemitério judaico de Faro

Com a fixação dos franciscanos em Faro no segundo quartel do século XVI, indo os frades capuchos da Província da Piedade, depois substituídos pelos observantes da Província de Portugal, fundar o Convento de S. Francisco em 1529, o culto à Rainha do Céu recresceu e por via do imobiliário simbólico vivificado pelo culto terá mesmo assumido a condição mítico-imperial do tema translatio imperii indicador do reinado futuro do Divino Espírito Santo, teoplasmado na figura hipertúlica da Santa Virgem, e na evocação franciscana do mártir S. Sebastião. No culto feminino estiveram presentes as clarissas de S. Francisco, com duas franciscanas de Beja, Maria das Chagas e Leonor da Trindade, na liderança da construção, em 1519, do Convento de Nossa Senhora da Assunção no lugar da antiga judiaria farense, contando com o apoio da rainha D. Leonor (1458-1525), mulher de D. João II, já que desde 1491 Faro estava integrado nos bens da Casa da Rainha. Esta foi profundamente marcada pela devotio moderna, movimento espiritual nascido no século XIV estreitamente ligado aos valores humanistas. No culto masculino na pessoa de S. Sebastião, encontra-se a presença franciscana na origem da ermida do santo nesta cidade, possivelmente fundada nos fins do século XV ou inícios do XVI, sabendo-se que em 1516 estavam instalados nela dois frades franciscanos, possivelmente capuchos do rol dos que viriam a fundar o Convento de S. Francisco[10].

A proximidade franciscana ao sefardismo farense, sem esquecer que esta antiga vila foi a teve maior número de escravos negros alforriados, que chegaram a ser mais que a população branca nos séculos XVI-XVII, marcando fortemente a presença de África aqui, sem esquecer de anexar a evocação da América, mormente do Brasil, em figuras decorativas de antigos imóveis históricos (na Casa das Figuras à entrada e também quase à saída da urbe, no Celeiro de S. Francisco junto ao resto da muralha seiscentista), dá foro eclético intercontinental a Santa Maria de Harun juntando os vários povos do Mundo aqui e reunindo em uma só assembleia os crentes das três religiões do Livro, assim A aclamando, além de Rainha do Céu, igualmente Mãe Soberana desta sua Terra – Ossónoba.

Revela-se em Faro a evocação do Império Ultramarino Portu-guês, na sua dupla fácies de Espiritual e Temporal, indo bem com a intenção inicial de demanda da “Terra do Preste João”, termo procedente da época do rei São Luís de França (cuja igreja está aqui próxima do cemitério judaico), das viagens de Carpino, missionário franciscano italiano do século XIII na Mongólia, e Rubruquis, religioso franciscano francês explorador da Ásia no século XIII. Constando na Europa que na “Terra do Preste João” a Autoridade Espiritual era exercida em simultâneo com o Poder Temporal, tais funções sendo as mesmas atribuídas a Melki-Tsedek, consignado Rei do Mundo, associariam o Presbítero Máximo do Oriente com esse misterioso personagem bíblico, como ilustra o episódio do dr. Luís Miguel Teixeira, Vigário Geral do Bispado de Faro, que em 1750, perante o Infante D. Pedro, refere-se a Melki-Tsedek como Aquele que une “o Sacerdócio com o Império”[11].

No seu De statu et planctu ecclesie, frei Álvaro Pais, espiritual franciscano que foi bispo de Silves entre 1333 e 1348, atribui a Autoridade Espiritual ao Sacerdotium, “instituído por Deus e transmitido a determinados homens com o fim de conduzirem os fiéis à bem-aventurança eterna”, e o Poder Temporal ao Imperium “assumido pelos príncipes seculares, pelo qual os cidadãos são orientados para o bem comum”[12]. Sendo a Autoridade superior ao Poder, a Instrução maior que o Regime para Álvaro Pais, baseava-se assim nas ideias desenvolvidas pelo agostiniano Tiago de Viterbo (c. 1260-1308), antigo aluno de Egídio Romano, na sua famosa obra De Regime Christiano (1302), escrita no auge do áspero conflito entre o sumo-pontífice Bonifácio VIII e Filipe IV, o Belo, rei de França, na qual o Papa é apresentado como superior ao Imperador[13].

A Ordem Franciscana fundada por São Francisco de Assis em 1209, também é chamada Ordem dos Frades Menores (Ordo Fratum Minorum) e cedo destacou-se por suas proximidades aos ideais de pureza e pobreza do Cristianismo Primitivo, para cujo convencimento e recondução dos fiéis, visando a reforma moral e social da Igreja, fez uso e propaganda da literatura apocalíptica e messiânica, com severas proximidades às ideias joaquimitas do novo evangelho eterno conformado à translatio imperii afim às Idades do Mundo calculado em gerações, como sugere o Evangelho de S. Mateus (1:1) para o famoso abade de Flora.

A Ordem dos Frades Menores tem como ramos os Frades Franciscanos Conventuais (também de 1209), os Frades Franciscanos Observantes (com Regra simplificada pelo Papa Leão XIII na Reforma de 1368), os Frades Franciscanos Capuchinhos (de 1528, ramo reformado dos Franciscanos Observantes) e os Frades Franciscanos da Imaculada (ramo reformado, em 2.8.1970, dos Franciscanos Conventuais). A Regra da Ordem Franciscana – Regula non bullata em 1221, volumosa, e sucinta como Regula bullata, em 1223 – esteve na base da Terceira Ordem Regular de São Francisco (Tertius Ordo Regularis Sancti Francisci), fundada pelo próprio em 1221, saída da Terceira Ordem da Penitência cujos membros desejavam levar um estilo de vida mais próximo do rigor da Primeira Ordem, igualmente da Ordem das Clarissas, fundada por Santa Clara de Assis em 1212 para freiras, e também na base da Ordem Franciscana Secular (Ordo Franciscanus Saecularis) para leigos, sendo a actual denominação da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, ou Irmãos e Irmãs da Penitência.

Ainda que seja dada a presença de S. Francisco de Assis em Portugal em 1214, por via de tradição oral e menos documental, que os documentos que existem sobre o caso estão todos baseados na oralidade[14], o facto comprovado é que a presença franciscana no país só aconteceu três anos mais tarde, depois do Capítulo Geral de 1217. Após essa assembleia magna foram enviados frades por toda a Europa. A Crónica dos XXIV Gerais, compilada em 1370, tendo por base documentação mais antiga, refere os nomes dos dois franciscanos italianos que vieram para Portugal, frei Gualter, que fundou o convento de Guimarães, e frei Zacarias, que fundou o convento de Alenquer[15]. A mesma Crónica refere a passagem por Portugal de frei Berardo e companheiros, em 1220, a caminho de Marrocos onde foram mártires, com a entrada de santa António de Lisboa na Ordem Franciscana. Ele foi, talvez, o primeiro franciscano português.

Praticamente desde o seu início a Ordem Franciscana pretendeu, como disse, a restauração e social da Igreja, mormente do Eclesiástico, e ela mesma tendo se afastado da pobreza original que a caracterizou, houve em seu seio vozes que se levantaram e protestaram pelo restauro e volvimento à sua condição original como Cristo e o Irmão Francisco ditaram, invés da mancebia e partilha dos bens corporais com o clero secular em detrimento dos valores espirituais em que, afinal, a Ordem tinha as suas fundações. Isso gerou forte polémica no seu seio, houveram dissensões e formaram-se partidos, uns a favor das reformas seculares e outros a favor da manutenção da secularidade da Regra. Assim, no início do século XVI (1517-1525), com a aparição do Renascimento, houve grande atrito dentro da Ordem Franciscana, que se dividiu em duas facções: 1.ª) Frades Menores da Regular Observância, ou simplesmente Frades Menores, e Frades Menores Conventuais. Em Portugal essa separação deu origem à criação de duas Províncias: 1.ª) Província de Portugal da Regular Observância, com 27 conventos e sede no Convento de S. Francisco em Lisboa, perfilhando o ideal primitivo franciscano cimentado nos votos de pobreza, castidade e obediência; 2.ª) Província de Portugal dos Claustrais, com 22 conventos e sede no Convento de S. Francisco no Porto, adepta da Reforma e da abertura ao mundo exterior, ao pensamento humanista que então surgia por toda a Europa. As casas da Ordem nas Ilhas da Madeira e Porto Santo ficaram a pertencer aos observantes, e as dos Açores aos claustrais. A presença destes em Portugal e Espanha terminou em 1567, durante o pontificado do Papa dominicano Pio V. Um breve de 1567 obrigou os conventos da claustra a integrarem-se na observância. O breve foi executado no ano seguinte. Antes, em 1525, quando da nova reforma da observância deu-se origem aos Frades Menores Capuchinhos, aprovados pelo Papa Clemente VII em 1528.

Nos séculos XVI e XVII os franciscanos observantes tiveram grande desenvolvimento em Portugal estando organizados em dois grupos de Províncias e Custódias. Havia o grupo da Regular Observância, que era formada pela Província de Portugal, fundada em 1517, pela Província dos Algarves, fundada em 1532, pela Província de S. João Evangelista dos Açores, fundada em 1639, e pelas Custódias de S. Tiago Menor na Madeira, de 1683, e da Conceição dos Açores, de 1715.

Conclui-se que os franciscanos farenses eram observantes da Regra, esta que como espírito da letra dos Estatutos, assim é definida: “A Regra e a vida dos franciscanos seculares é esta: observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo o exemplo de São Francisco de Assis, que fez do Cristo o inspirador e o centro de sua vida com Deus e com os homens” – Rg. 4; 1 Cel. 18, 115).

A Ordem Primeira dos Frades Menores incumbia o apostolado de seguir os passos de Jesus Cristo e de exemplo de obediência para a Igreja. Contrai votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

A Ordem Segunda das Pobres Senhoras consagrava-se ao sacrifício, à oração e ao amor a Deus no Claustro. Contrai votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

A Ordem Terceira da Penitência tem a missão de reavivar nas consciências a honestidade dos costumes e os sentimentos cristãos de paz e caridade, destinada a homens e a mulheres que sem deserção da própria família e sem renunciar às suas propriedades, tentam alcançar a perfeição cristã. São adoptados os Estatutos como regra de vida, mas sem se contraírem os votos perpétuos da Regra da Ordem.

Com as atenções focadas no quinto continente cuja propaganda encomiantes os franciscanos farenses não deixaram em mãos alheias, unindo o Herático com a Tradição, para eles a “Terra Nova” do Preste João já não seria a Etiópia ou a Ásia e sim a América, particularmente o Brasil, a “Nova Lusitânia” de Pedro de Mariz nos seus Diálogos de Vária História, Brasil que até hoje se o reconhece com alma franciscana, desde que em 1500 o franciscano frei Henrique Soares celebrou a primeira Missa do Espírito Santo no areal de Vera Cruz. Terra Virgem destinada a um novo Tempo de uma nova Idade já em si trazendo o culto do Júbilo num novo Templo, o da Igreja do Amor, nisto não deixo de registar, num painel de azulejos na igreja de S. Francisco de Faro, o seu Orago amparando e levantando o edifício da Igreja, a Casa da Nova Igreja, por certo essa do futuro Reinado do Espírito Santo que corresponde ao V Império do Mundo.

S. Francisco impedindo de tombar o edifício da Igreja (painel de azulejos, séc. XVIII, igreja de S. Francisco de Faro)

Também por isso, como alegoria contendo a mensagem ocultada, se vê na cimalha da supracita Casa das Figuras, à entrada de Faro, os dois bois dragónicos americanos, designando a Força Temperadora de Kundalini, como seja o Fogo do Espírito Santo. “Força” como dragão, e “Temperança” como boi manso. Acima o Delfim Negro, a oculta Pedra Filosofal humanizada que é todo o Adepto Perfeito, esse o Makara das tradições iniciáticas portador da Quintessência Mental, logo, Espiritual, irrompido da linfa lustral do Lethes subterrâneo, aqui representado na área florestal da Ria Formosa próxima, o Ludo.

Em paralelismo com o programa decorativo da Casa das Figuras tem-se na Rua Manuel Penteado aquele do Celeiro de São Francisco, próximo da igreja deste santo e da cerca seiscentista do respectivo convento[16]. Como aquela também foi mandado construir pelo desembargador Veríssimo de Mendonça Manuel – cujo brasão feito em massa está sobre a entrada deste torreão octogonal – que encomendou a feitura desta e aquela obras a famoso mestre-canteiro algarvio, o arquitecto Diogo Tavares de Ataíde (Faro, 1711 – Lagoa, 1765)[17]. Este espaço estava integrado na Quinta da Horta dos Cães e o edifício teria a função de celeiro, apesar de ultimamente alguns autores classificarem-no como espécie de casa de fresco de suposta quinta de recreio[18]. Sendo o conjunto de gosto rocaille, as obras do edifício foram completadas entre 1761 e 1789 pelo neto do desembargador, o capitão-mor Manuel Mascarenhas Figueiredo Manuel, que em 1780 vendeu a propriedade aos frades marianos que aí tencionavam construir um convento, cujo propósito não chegou a concretizar-se.

O edifício é de planta centralizada octogonal com dois pisos separados interiormente por abóbada de aresta oitavada. O piso térreo é rasgado por oito óculos, aos quais correspondem no interior os panos da abóbada. No piso superior abrem-se sete janelas rectangulares, também com molduras de massa, e uma porta, do lado oposto à entrada principal do piso anterior, à qual se acede por uma escada de ferro que substitui a original, de cantaria. Numa das faces foi rasgado o portal principal de volta perfeita, sobrepujado pelo brasão da família Manuel. À direita, aparece Hércules coberto com uma pele de leão, empunhando uma maça com que domina a Hidra de Lerna aos seus pés. À esquerda, um índio tupi com toucar, chefe indígena do Brasil, empunha uma vara afiada que enfia na goela de um crocodilo sob ele, acompanhado da inscrição “Cabo da Boa Esperança Adamastor”.

Celeiro de S. Francisco, Faro

Ambas as ilustrações assinalam a vitória da natureza humana sobre a condição animal, a derrota da condição anímica ou psíquica pela mental ou espiritual. Isto como o significado mais óbvio. Do ponto de vista geosófico e em comparação com aquelas ilustrações da Casa das Figuras onde um africano domina feras americanas, aqui um índio brasileiro dobra o crocodilo “Adamastor” do cabo africano, sobrando Hércules (Herakles) vencendo a Hidra (sinónima de Água) de Lerna (filologicamente empática a Lethes ou o Ludo), ficando assim como indicador dos saberes gregos, base da cultura europeia simbolicamente assinalada nesta região sul de Portugal. Com isso fica a sugestão de mensagem alegórica do inter-relacionamento espiritual e cultural triangulado entre África – América – Europa, feita desde aqui, de Santa Maria de Faro, empresa ultramarina de civilização na qual os franciscanos tiveram “parte de leão”.

Hércules matando a Hidra de Lerna é trabalho astrologicamente afim ao signo do Escorpião, o mesmo Makara védico associado no Ocidente ao deus Cúpido, que os orientais chamam Kama-Deva. Sendo o tupi a representação astral do Sol, tal como Hércules (ainda que este esteja mais para o Sol Mercurial), e como ambos como aspecto superior do Makara dominam o inferior do Escorpião, tem-se o Sol em Scorpio que designa, na oitava casa do Zodíaco, vencer anónimo a morte e o reconhecimento póstumo dessa vitória, acarretando a fama do ser imortal. Assinala o devir, o que está por cumprir, nisto e por todas as prerrogativas presentes, o V Império do Espírito Santo, Deus consumidor e renovador, atributos assinalados na função do próprio celeiro, onde se guarda e donde se distribui os cereais que alimentam a vida.

Nesse contexto de reservatório da seara da vida, o formato octogonal do torreão remete ainda para o simbolismo egípcio da cidade mitológica de Chemenu (em árabe, a actual Ashmun; em grego, Hermonópolis, a “Cidade dos Oito”, número da Perfeição), povoada de crocodilos e dragões que haviam nascido do barro original de que nascem todas as criaturas (Mulaprakriti ou a Matéria-Prima do Universo). Com esses seres, o deus Sol (Aton ou Hércules) erigiu a torre original que se tornou o celeiro de tudo quanto vive.

Esse mito egípcio de Chemenu parece enquadrar bem no significado hermético do Celeiro da Horta de São Francisco, onde o Escorpião (Makara), como Hierarquia dos Senhores do Mental Criador, cria os dispositivos necessários à criação do Homem Novo de Nova Idade do Mundo, segundo a tese iniciática, sendo o mais interessante de tudo o tecer-se tamanho plano ou desígnio em terras do Ocidente ou Al-Gharb (الغرب), o Algarve como Jardim de Allah (Allah-Garden), o mesmo Paraíso Terreal, Terra da Virgem, centralizado em Faro capital da extrema província sul de Portugal, na arrancada decisiva para um novo estado de Humanidade.

 

NOTAS

 

[1] José António Pinheiro e Rosa e António Centeno Serrano Santos, Monumentos e Edifícios Notáveis do Concelho de Faro. Edição da Câmara Municipal de Faro, 1984. Francisco Lameira, Faro Edificações Notáveis. Edição da Câmara Municipal de Faro, 1995.

[2] Rui Paula e Frederico Paula, Ossónoba, Santa Maria Ibne Harun. Edição Câmara Municipal de Faro, Novembro de 1993.

[3] Batalha Gouveia, O topónimo Faro. Jornal do Incrível, Lisboa, 12.1.1982.

[4] Manuel Viegas Guerreiro, Judeus, em Dicionário de História de Portugal, pág. 409, vol. III. Livraria Figueirinhas, Porto, 1981.

[5] Alberto Iria, Os Judeus no Algarve Medieval. Anais do Município de Faro, vol. XIV, 1984.

[6] Ralf Pinto, Cemitério Israelita de Faro e Museu, 1838-1932. Edição da Câmara Municipal de Faro, 1997.

[7] Frei Vicente Salgado, Memórias Eclesiásticas do Reino do Algarve, Tomo I (único publicado). Régia Oficina Tipográfica, Lisboa, 1786.

[8] Pentateuco – 1.º Livro Impresso em Portugal, com um estudo introdutório de Manuel Cadafaz de Matos, da Academia Portuguesa de História. Editora “Sul, Sol e Sal”, Faro, 2017.

[9] J. M. Santos Simões, Tomar e a sua Judiaria. Edição do Museu Luso-Hebraico, Tomar, 1943.

[10] Frei Jerónimo de Belém, Chronica Serafica da Santa Provincia dos Algarves da Regular Observancia de nosso Serafico Padre S. Francisco. Lisboa, 1755.

[11] Oração funebre que nas exéquias, à Magestade Fidelíssima do Muito Alto, e Poderoso Rey, e Senhor D. João V celebrou na Catedral de Faro em 29 de Agosto de 1750 o Excelentissimo, e Reverendissimo Senhor D. Ignacio de S. Teresa, Arcebispo Bispo daquela Diocese. Lisboa, 1751.

[12] João Morais Barbosa, O «de statu et planctu ecclesiae», Estudo crítico. Universidade Nova, Lisboa, 1982. Do mesmo autor, Álvaro Pais. Colecção Pensamento Português, Editorial Verbo, Lisboa, 1992.

[13] José António de Souza, As causas eficiente e final do poder espiritual na visão de D. Frei Álvaro Pais. Anales del Seminario de Historia de la Filosofia, Universidad Complutense de Madrid, 2008.

[14] O autor de uma das primeiras crónicas da Ordem, fr. Marcos de Lisboa, que escreveu a sua Crónica em 1557, aventa a hipótese de S. Francisco, na sua peregrinação a Compostela, ter passado por Guimarães e se ter encontrado com D. Urraca, esposa de D. Afonso II (Livro I, cap. xxxv). Sem apresentar documentos comprovativos, fr. Marcos de Lisboa refere simplesmente que é “segundo alguns dizem” e que “se acha escrito”. Esta tradição foi-se arraigando e fr. Manuel da Esperança, no primeiro volume da sua Crónica da Província Franciscana de Portugal, apresenta um trajecto completo dessa suposta viagem. Segundo ele, S. Francisco teria passado pela Guarda, Guimarães, Braga e Ponte do Lima, e no regresso teria passado por Bragança e aí fundado o primeiro convento da Ordem em Portugal. A falta de documentos históricos não permite afirmar a veracidade dessas tradições, que dão S. Francisco de Assis em terras portuguesas em 1214.

[15] Crónica da Ordem dos Frades Menores (1209-1285). Edição José Joaquim Nunes, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1918.

[16] José Victor Adragão, Algarve. Editorial Presença, Lisboa, 1985. Raul Proença, Guia de Portugal II (Estremadura, Alentejo, Algarve). Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Abril de 1991.

[17] Daniel Santana, Diogo Tavares e o acrescentamento da igreja de Nossa Senhora do Carmo de Faro (1742). Revista do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 7-8, 2009.

[18] José Eduardo Horta Correia, A Torre da Horta dos Cães. Em Monumentos 24: Faro, de vila a cidade. Lisboa, 2006.