A Festa Popular do Império do Divino no lugar do Penedo, Sintra, consignada “aldeia do Espírito Santo”, recua nas suas origens franciscanas quase ao início da Monarquia Portuguesa, sendo todos os passos da mesma escrupulosamente cumpridos.

Já na época dos primeiros reis de Portugal o Festejo do Divino Império Popular – no que remete para o conceito de “Quinto Império do Mundo ou da Humanidade”, conforme o Padre António Vieira nas suas Esperanças de Portugal (1659) – era realizado em Lisboa, no sítio de São Sebastião da Pedreira (onde tinha início a Estrada Real de Sintra), e que depois foi oficializado pela Rainha Santa Isabel em Alenquer, incentivada pela Ordem dos Franciscanos. Em Quatrocentos, ele teve especial relevo em Lisboa e arredores. Na capital existia a poderosa Irmandade de Nossa Senhora dos dos Remédios e Hospital do Divino Espírito Santo dos Pescadores e Navegadores, em Alfama[1], cuja fundação ocorrera precisamente na época de Quatrocentos. De uma outra agremiação de homens do mar – a Irmandade dos Mareantes e Pescadores do Alto da Confraria do Espírito Santo – instalada na igreja de São Miguel de Alfama, ficou igualmente notícia.

Ambas as confrarias, celebradoras do Divino Império Popular revivendo e reavivando antigas tradições céltico/moçarábicas, exaltando a mística pátria e sobretudo suspendendo ou quebrando por alguns dias a opressiva dogmática político-religiosa do clero vigente dominante, foram notícia do alvará Seiscentista de reformulação de compromisso “para bom governo della por estar o uelho em alguas couzas mui demenuto”[2].

A censura e o ostracismo cultivadas pelo Tribunal do Santo Ofício mostravam-se impotentes perante a força colectiva da Festa do Divino Império, nada mais sendo que a pura e poderosa manifestação da vontade da alma popular, caracterizada por uma espiritualidade original pela qual requeria, exigia o retorno às origens ancestrais dos deuses “pagãos” ou do “campo” (é no campo que se inicia toda a forma de civilização, transformando-se gradualmente de nómada em sedentária, com as suas modalidades religiosas  afins ao culto e cultura dos chamados deuses paisans, ou sejam os “campestres”, em que se assenta, em todas as suas vertentes de manifestação, a chamada religião popular, de origem genuinamente campesina), e que a Roma eclesial tentou pelo terror da repressão apagar da memória colectiva, contudo recuando ante as ameaças ferozes, prestes a cumprir-se, do mesmo colectivo popular. Nisto, recordo a resposta brutal e directa que há alguns anos me deu a guardadora das alfaias do Culto e Festa do Divino no Penedo, quando lhe perguntei que fariam se o padre da paróquia recusasse ir aí, à igreja de Santo António, celebrar a Missa de Pentecostes ou da Páscoa Rosada[3]: “Nesse caso, iremos buscá-lo. E se não vier a bem, virá a mal!”

D. Manuel I, o Rei Venturoso, concedeu a aprovação régia ao festejo popular do Pentecostes e autorizou o povo de Cascais e Sintra a recolher madeira nas suas matas para as fogueiras do Bodo, segundo revelou em 1895 Pedro de Azevedo através da publicação de uma carta da Chancelaria de D. Manuel a qual, embora não referindo expressamente a instituição do Império em Sintra, contudo indica a existência da Festa do Pentecostes, com a consequente solenidade do Bodo.

No reinado de D. Sebastião o festejo atinge o extremo do mais febril misticismo entrecruzado de apocalíptico e messiânico: implora-se a São João, roga-se a São Sebastião, clama-se ao Anjo Custódio, São Miguel “nosso Anjo guardador”. O jovem monarca vem a ser aclamado pela “arraia miúda”, mas também por alguma letrada, cansadas de Roma e dos seus capatazes exploradores e tiranos físicos, morais e intelectuais, como messias nacional. A fantasia confunde-se com a realidade. D. Sebastião participa dos festejos do Império, revoga o consentimento deles se realizarem em Sintra, no Palácio Real da Vila, propriamente no Paço dos Infantes, autorização concedida anteriormente por D. Manuel I.

A tradição veste-se de povo e salta à rua, ufana e quisitadora, alegre e grave. Os reis, até à dinastia de Avis, são tidos de casta divina, da cepa de Cristo como Este garantira a Afonso Henriques em Ourique, e no avesso a Igreja Romana é associada à “besta escarlate” do Apocalipse!… O povo, sufocado por séculos de cleptocracia senhorial e de batina, suplica a D. Sebastião a fundação do reinado de justiça, equidade e fraternidade em que consiste o Império Universal do Divino em quem ele era, como acreditava o simples nebulado pela fantasia religiosa e inflamado pelo desespero da injustiça social fazendo crescer o delírio febril, e com tantas vozes implorando o monarca, tocado já na sua fértil imaginação, assumiu o delírio e acreditou-se messias salvador, e logo volvendo a atenção para o império ultramarino português em franco declínio desde D. João III, encara África como o reduto do demo, aparelha armada contra ele e, contra os conselhos ajuizados da corte e até do seu tio D. Filipe II de Espanha, avança quixotescamente para Alcácer-Quibir, onde é desafrontado com a derrota fatal indo desaparecer no meio da refrega, com isso aumentando mais ainda a crise por que Portugal passava. Apesar de tudo, é justo dizê-lo, foi em Alcácer-Quibir que se impediu a invasão da Europa pelos turcos, preparando-se para a tomar pelo Sul de Espanha.

Eivado com estava do espírito messiânico, se acaso D. Sebastião vencesse em Alcácer-Quibir por certo avançaria pelo interior da África até Jerusalém, possivelmente o seu propósito principal nessa “cruzada santa”, e após a eventualidade de conquistar esse centro das três religiões do Livro, a consequência seria se autocoroar monarca universal por graça e direito, isto é, assumir-se “rei do mundo”. Contudo, sabe-se, esse seu propósito de domínio espiritual e temporal do mundo não passou de intenção aventureira levada insensatamente à prática, a qual o país teve de pagar e bem caro.

Não irei descrever neste estudo os lugares idos e presentes de realização da Festa Popular do Império Divino. Acerca deles, a bibliografia é vasta e riquíssima, o que é muito natural por ser esta festa pagã/religiosa genuína e exclusivamente portuguesa[4].

Mas seria imperdoável não transcrever aqui o texto comprovativo da oficialização da Festa do Espírito Santo em Alenquer, dado à estampa por D. Rodrigo da Cunha[5]:

E por estarmos em Alenquer, razão será não saiamos dela sem apontar o que achámos escrito em certo memorial, que os do governo da mesma vila ofereceram a Felipe II na ocasião que queria desanexar da sua coroa este lugar para o dar ao conde de Salinas D. Diogo da Silva, vice-rei, que foi deste reino. Ali se diz, como vivendo ainda a Rainha St.ª Isabel e andando com pensamentos de fundar nela uma igreja sumptuosa ao Espírito Santo, achou pela manhã lançados os fundamentos por mãos de Anjos e a obra em altura que já se podia nela ver a mesma traça, pela qual a Santa Rainha a determinava edificar.

Ela e El-Rei D. Dinis seu marido foram os autores da festa que se chama do Espírito Santo, cuja solenidade foi tão célebre por todo o reino e mais nos maiores e mais populosos lugares dele, como ouvimos contar os antigos: a que hoje dura em Alenquer tinha a mesma celebridade pelo reino, isto é, eleger-se e constituir-se imperador, que na primeira oitava do Espírito Santo, com majestade real, assistisse aos ofícios divinos, andasse na procissão, condecorasse com sua presença as mesas, honrasse as festas e invenções, em que o povo procurava alegrar-se.

Aqui em Alenquer se celebra ainda esta acção, que chamam do Império, com grande aparato. Levam três coroas e uma delas, que foi da Rainha St.ª Isabel. Servem pessoas nobres, e de qualidade ao imperador, que está em trono, debaixo do dossel, onde se assenta depois de haver oferecido junto do altar uma daquelas coroas, na mão do sacerdote, que diz a missa. E mandaram estes Senhores Reis, que assistindo o príncipe herdeiro do reino nesta ocasião em Alenquer ele fosse o que levasse a coroa, da igreja do Espírito Santo à do mosteiro de S. Francisco, onde se dá princípio à festa: cuja parte principal é que no sábado, véspera de Pentecostes se cerca com uma coroa ou rolo de cera benta tudo o que há na vila, começando do mosteiro de S. Francisco até à igreja do Espírito Santo, assistindo toda ela em procissão, no que viram já por vezes milagrosos efeitos, porque fazendo-se esta cerimónia em tempo de grande peste foi Deus servido acabar-se o mal e tornar-se a serenidade.

Abordarei neste estudo, sobretudo, o pouco ou nada conhecido aspecto esotérico do corpus simbólico do Festejo, e, desde já, impõe-se uma questão: se está por advir um Quinto Império Português, sendo os anteriores o Persa, o Assírio, o Grego e o Romano[6], acaso haverá alguma relação matemática quanto à duração das dinastias portuguesas com o momento do seu Jubileu adventício?

A resposta só pode ser positiva. Com efeito, se se dispuser o quadro cronológico das 4 dinastias, indo de 1128 até 1978 (ano que para Fernando Pessoa encerra o ciclo da existência do império temporal português, iniciando um outro marcado pela transição do Sol da 4.ª para a 5.ª casa do seu “Horóscopo de Portugal”), distam 850 anos perfazendo exactamente 50 ciclos de 17 anos, distribuídos organicamente no decurso da História Nacional, conforme o quadro seguinte composto por Manuel Gandra e inserido num seu estudo[7]:

Cinquenta é o número do Jubileu e consequente retorno ao Estado Primordial, o número da instauração definitiva da Era Messiânica antecedida pela República, a qual tão-só configura a fermentação básica do 5.º Ciclo ou Império, e pela qual as políticas nacionais e estrangeiras importadas concorrem, de uma ou de outra maneira (“escrever direito por linhas tortas”…), para o advento do Império do Espírito Santo, tanto valendo por Parúsia Universal.

Essa Parúsia Universal tendo como expressão a religião nacional do Advento, expressa pela função Folia ou Império, obviamente só podia ter na Terra por modelo paradigmático da Jerusalém Celeste um lugar que unisse os dois Pólos do Mundo, e esse lugar escolhido foi precisamente Alenquer, sobre o qual já escrevi[8]: “Mas Alenquer significa também, etimologicamente, além e quer, ker ou kar, em celta, “pedra”, isto é, Pedra do Além, Pedra Divina, o mesmo que Lusa, nome primitivo da Belém hebraica onde nasceu o Cristo, incarnando o Espírito Santo no seu dualismo Celestial-Terreal, e aqui a Mãe, a Terra, a Lua, a encantada Moura fatímida está em [Santa Quitéria de] Meca, complemento de Alenquer, de que dista parcos quilómetros. Não é por acaso que a Rainha Santa Isabel oficializou, à testa dos franciscanos, a celebração do Império Popular do Divino Espírito Santo precisamente em Alenquer[9], com Meca à vista! Enfim, coisas de história que a História vela…” como essa da mártir bracarense Quitéria (século II) remeter para o sentido islâmico de Khalwâ, “retiro” espiritual.

Por sua vez em Sintra, no Palácio Real da Vila, tem-se o Paço dos Infantes de Portugal defronte para o Terreiro de Meca, tal qual a aldeia do Penedo franciscano está defronte para a morabitana aldeia de Almoçageme (al-Masjide, “a Mesquita”). Estes são factos provocados pela causa profunda de quem sabia, e bem, o que fazia: conformar no mapa estremenho os dois Pólos do Mundo “unindo o Oriente ao Ocidente” conforme o lapidado na Profecia de Sintra, pela graça do Divino Espírito Santo que une às nações como reza nos Actos dos Apóstolos, tudo em conformidade à natureza e condição centrífuga, universalista de Portugal, antes, Porto-Graal, como consta no selo afonsino da vila, indo-se às veladas origens Marizes em Afonso Henriques, desde São Lourenço de Ansiães de Trás-os-Montes até São Lourenço das Azenhas do Mar, na Estremadura litoral. Sim, a de Maris Nostrum

Quanto à transição de Neptuno-Peixes para Urano-Aquário, no “Horóscopo de Portugal” feito por Fernando Pessoa[10] e que depois António Telmo voltou a publicar[11], também se relaciona aos festejos latinos do bicéfalo Janus, em feminino Janas. Janus era entre os romanos o deus da iniciação aos Mistérios, com isso o patrono dos Collegia Fabrorum, corporações de artífices e artesãos que atravessaram toda a Idade Média, e pelo Companheirismo até aos tempos modernos, onde a memória perdura nas chamadas “Lojas de São João”. Com efeito, esse deus bicéfalo veio a ter correspondência simbólica, com a implantação do Cristianismo, com o São João Veraneal e o São João Invernal, o Batista e o Evangelista, correspondendo cosmogonicamente aos Solstícios de Verão e de Inverno, assim dividindo o ano em duas partes[12]:

A Fase Ascendente (Nivriti-Marga) corresponde ao signo do Caranguejo e a São João Batista corporificando Deva-Yana, o Anunciador da Luz, do Pentecostes ou Páscoa Rosada quando o Sol brilha no auge, tal qual os Impérios Populares extravasando a sua alegria nas folias que são a popularização de ritos solares, como se verá mais adiante.

A Fase Descendente (Pritivi-Marga) corresponde ao signo do Capricórnio e a São João Evangelista expressando Pitri-Yana, o Anunciador da Natividade, da descida à Gruta, ao Útero Materno, mas renascendo das “Trevas Primordiais”, o Nihil ab Chao, quando o Batista pronuncia o Fiat Lux, pela Festa da Ressurreição, isto é, quando a Natureza irrompe viva e colorida do ventre da Mãe-Terra para a alegria da luz do dia, pela Primavera, pelas Maias. Daí o espaço de celebração da Missa de Pentecostes estar na ocasião tapetado com flores de cores variadas, onde se destacam as amarelas, azuis e vermelhas numa mistura simbiótica, configurando formas geométricas de beleza ímpar. Representa, o tapete floral, o Divino Espírito Santo plenamente manifestado na Natureza como Bem, Bom e Belo expressando o Amor Divino.

Os São Joões representam igualmente a energia centrífuga (Satva, amarela) e a energia centrípeta (Tamas, vermelha) opositoras, degladiadoras entre elas como forças opostas vitais a toda a Natureza que as equilibra com o seu ritmo ou Rajas, princípio azuláceo permeio às anteriores. Por isto, todos os templos exclusivamente consagrados ao Divino Espírito Santo (como o de Santo António do Penedo) estão pintados de azul celeste. Ainda sobre essa “oposição” Joanina, não deixa de estar assinalada zodiacalmente em Câncer-Capris, opostos vitais ou complementares um do outro.

São as traves-mestras da Criação, as colunas siderais do Espírito Santo que é o Supremo Arquitecto (Vishwakarman, em sânscrito) projectando-se como Avatara na função de Paràklitôs ou “Advogado” das Nações, com Deva-Yana à destra e Pitri-Yana à sinistra.

Nesses dois últimos parágrafos estará a chave oculta d´alguns dos Mistérios da Tradição Iniciática das Idades, e também estará a razão da origem dos Impérios que, se se seguir o fio quase subtil das tradições histórico-religiosas, acaso remontarão aos cultos lunissolares dos Atlantes ibéricos, como muito bem disse Mário Roso de Luna em Gentes del Otro Mundo.

Assim, dotado desses elementos, poderei compor o esquema seguinte:

Na folia do Império, o ritual de imolação do touro pelo povo, num improvisado toureio, sugere-me a ressurreição do culto bodivo de Ísis, venerada em quase todo o território nacional durante o período luso-romano, tendo-se divinizado esse animal, característica que depois a Igreja soube logo assimilar. Nesta tendência se enquadram as bênçãos de animais e a tolerância para a sua participação em festejos de índole religiosa, como o boi de São Marcos, em Alter do Chão, o boi bento de São João de Braga e os bois consagrados junto à igreja circular ou votiva (formato identificado por Francisco de Holanda, no século XVI, à Hóstia Eucarística, e por mim ao Rodel do Espírito Santo, tanto valendo por Tur-Zin-Muni – “o touro alado cavalgado por Akbel”) de São Mamede de Janas (perto do qual o pintor teve casa ou “monte”), em Sintra, e que é o maior templo votivo ou circular da Península Ibérica.

Ísis era apodada piedosamente de “Vaca Divina” e “Nutridora Celeste”. Conforme esse último epíteto, virá a ser a carne do touro imolado que alimentará todos quantos, sem distinção de posições sociais, políticas e religiosas, se sentarem à mesa comum do Bodo.

Tal qual se pratica na Ilha Terceira, Açores, e se praticava na Lisboa quinhentista[13], fazia-se na aldeia do Penedo a tourada à corda, amarrando duas extensas cordas às hastes emboladas do cornúpeto, e dois ranchos de homens, puxando cada qual para o seu lado, procuravam sofrear-lhe o ímpeto. Lentamente, a multidão ia comprimindo-se em torno do animal até este não se poder mover. Então, junto ao chafariz, o matador, manejando habilmente a choupa sobre o cachaço da rês, à frente de todos, abatia-a, sem que ninguém esboçasse um gesto de dor ou de repugnância. Era apenas um ritual milenar que se cumpria.

O touro simboliza a Mãe-Terra, a “Vaca Sagrada” Bhumi. Tradicionalmente, os ranchos que seguravam pelas cordas as hastes da rês eram de seis homens para cada banda. Representavam os doze signos do Zodíaco num fatalismo cósmico ligados aos destinos da Terra, encadeada pelo Cordão de Ariadne, com seis signos Terra-Água ligados ao Passado, à Fase Descendente, e outros seis signos Fogo-Ar ligando-se ao Futuro, à Fase Ascendente. O matador, como 13.º personagem, não participava dos ranchos limitando-se a aguardar o momento fatal, pelo que assinalava o Sol sacrificando a Terra, ou seja, determinando pelo relógio das constelações o final de um Ciclo, para que outro possa urgir como novo Período ou Império.

Os cultos bodivos ou taurobólios eram na Atlântida, informa a Tradição, praticados por sacerdotes e sacerdotisas de Mu-Ísis, implorando em suas antífonas e litanias aos deuses siderais da constelação do Boieiro, Pai da Mãe-Terra, através de Vénus-Balança (signo regente da Atlântida, esta a da “Raça Equilibrante” entre as três passadas e as três futuras), protecção e alimento para si e o seu povo.

No final, os oficiantes do templo de Neptuno, deus supremo do panteão atlante, representado por Atlas, adormeciam com uma beberagem mágica uma vaca branca e sacrificavam-na. O seu sangue era colocado numa imensa pira no pedestal do ponto mais elevado do templo. Faziam uma fogueira ritual e ofereciam o sangue à Deusa-Mãe, derramando-o no fogo (tradição esta que os levitas hebreus herdaram dos semitas atlantes e praticaram com o sacrifício de animais do Altar dos Holocaustos ou Oferendas no Templo de Salomão, e a Igreja cristã repete no acto da ingestão da hóstia).

Os restos da rês eram distribuídos pelo povo, cada qual guardando um pedaço da carne sagrada (essa primitiva hóstia cujo formato veio a ser associado simbolicamente aos templos votivos ou circulares), como se tratasse de um poderoso talismã propício à protecção da Lua, de Mu-Ísis, Alma Psíquica da Terra, e desfrutar até ao próximo rodel imperial (assim se chamava o ritual praticado no templo circular ou votivo de Neptuno) das suas benesses e graças.

O bodivo ou bodo são vocábulos assentes na palavra boi com que se designava os antigos ágapes, “refeições rituais”, que nos primórdios do Cristianismo se realizavam no interior dos templos[14].

Viterbo diz que, em Portugal, “não há dúvida alguma que estes ágapes se continuaram e com a moderação possível, durante o jugo dos sarracenos”, portanto, durante o período moçárabe sob jugo árabe. Após a vitória dos cristãos, a piedade religiosa fez aumentar estes “bodivos que, ao depois, se disseram bodos, isto é, refeição, jantar ou comedoria, que aos pobres se dava pelas almas dos defuntos”[15].

Ainda acerca dessa cerimónia do “rodel imperial”, ela teve um especial relevo entre os vascos ou bascos da Península Ibérica, gente lunar de descendência atlante adoradora da Vaca, em oposição aos gallaici ou galegos adoradores do Sol, de Mu-Ká do Templo de Jehovah, Io-Pithar, Júpiter ou Zeus, o Pai dos Deuses que veio a ser o Lug  dos lígures e celtas e depois o Endovélico dos lusitanos, e com a implantação definitiva do Cristianismo peninsular e a fundação da Monarquia Lusitana, tomou a nova forma de Arcanjo Custódio de Portugal, Mikael ou Metraton (Orago protector da Igreja ao par do da Sinagoga e da Mesquita).

Ora, por razões causais traçadas no Arquétipo da Natureza, precisamente Portugal está sob a custódia ou influência astrológica de Peixes-Neptuno, tal como toda a Península Ibérica é influenciada por Sagitário-Júpiter, o que não deixa de ser significativo.

Poderá ser essa a razão fundamental das touradas terem a sua origem na Península Ibérica, e tanto o rodel atlante como o actual acabam não sendo senão um Zodíaco em cujo constelado se senta o público; o Iniciador, Hierofante ou Mestre, é o Cavaleiro; os bandarilheiros são os Companheiros, e os forcados, por sua vez, os Aprendizes. Os primeiros vão sobre o cavalo (símbolo perfeito do Sagitário), significando a natureza superior do homem domina a natureza inferior do animal ou a anímica. Os Companheiros, ao cravarem as bandarilhas ou bastões, já começam a sentir-se superiores à fera, algo à semelhança do Arjuna do Bhagavad-Gïta perseguindo o inimigo, enquanto o Mestre-toureiro com a capa vermelha tamásica da ilusão, domina Maya, e com a Espada do Conhecimento Iniciático resulta, ao modo do deus Krishna do acima citado Poema, não o perseguidor mas o matador da fera, da simbólica besta bramadora, enquanto os Aprendizes ou forcados, ainda indefesos na arte de bem-domar, a enfrentam com as mãos nuas sujeitando-se às incertezas da sorte.

Há uma diferença crucial entre touro e vaca: o touro representa o Fogo, o Solstício do Verão, o Deva-Yana (“Anjo da Sabedoria”) afim ao 5.º Mundo Espiritual, à plenitude fecundante da Natureza. A vaca assinala a Água, o Solstício do Inverno, o Pitri-Yana (“Pai da Sabedoria”) empático ao V Império Terreal, à gestação da Natureza fecundada, destinada a dar á luz pelas Maias de Maio, por enquanto recolhido ou interiorizada durante o frio gélido do Inverno. Ora, se nas touradas são as vacas que conduzem os touros ao recolhimento do redil, no Bodo da folia do Divino são as mulheres que preparam as suas carnes, e a elas, as de Sintra, se deve a invenção de um bolo especialmente originalmente feito para a ocasião mas que depressa se generalizou graças ao seu sucesso comercial: os bolos da lua, tornados as tradicionais e saborosas queijadas.

Segundo a Sabedoria Iniciática, as Estações são regidas por quatro poderosos Arcanjos, para uns os “Quatro Anjos Coroados” mas para a Tradição Teúrgica os “Quatro Maharajas” (Grandes Reis, postados nos quatro pontos cardeais do Universo). O Solstício de Verão é regido pelo Arcanjo Mikael (Fogo); durante os três meses do seu Império tem por símbolo a imagem da Pomba, associando à cor azul celeste da Mãe Natureza o vermelho vivo da aura humana enrubescida pelo enxofre veraneal, onde tem destaque a aurífera acção substancial do Pai Eterno, o Logos Solar. Entre o Pai e a Mãe contempla-se o Filho. O Império do Espírito Santo nasce assim. O fundo sobre o qual se destaca é dado pela figura de Mikael, “Quem é Deus” (Quis ut Deus), que sendo o “Primeiro em Deus” (Primus Divinus) é o próprio Deus como Solus Vitae, representado na aldeia do Penedo pelo seu Orago: St.º António (do radical Akton, o Sol) do Espírito Santo.

Ora, as cores tradicionais do Paracleto são, precisamente, vermelho entremesclado ou chamejado com dourado sobre fundo azul céu. Quanto aos “Quatro Maharajas”, na nomenclatura judaico-cristã são:

Três santos são os padroeiros tradicionais do culto e festa do Império do Divino Espírito Santo: São João Baptista, São Sebastião e o Anjo Custódio.

De São João, tanto o que fala anunciando como o que escreve prognosticando, ambos profetizando o Advento que inaugurará o Reinado de Pax et Lex (Justitiae) no Mundo, já falei. Por certo, afim à promessa de primícias, será essa a principal razão do Evangelho de São João ser o eleito na Missa do Divino, além de possuir a preferência heterodoxa ou “livre” das tradições espirituais e religiosas do Ocidente, por ser quem melhor exprime o espírito da Religião do Verbo, da Palavra Criadora, Primordial e Solar.

Segundo Rudolf Steiner[16], foi Lázaro quem escreveu o Evangelho de João. Realmente, Lázaro recebeu do próprio Cristo a 4.ª Iniciação Real (a de Arhat ou Chrestus, equivalente à Crucificação ou Morte) indo descer à cripta, sinónima de Crypta Ferrata indicativa de Mundos Inferiores ou Interiores, mas ressuscitando ao terceiro dia – de uma espécie de estado cataléptico como desdobramento consciente da alma do invólucro carnal – vindo a tornar-se um Dwija ou “duas vezes nascido” (a primeira vez da Mulher ou pelo Corpo, e a segunda vez do Homem ou pelo Espírito), ou seja, um Iniciado Perfeito. Ora, os Preclaros Membros da Linhagem dos Arautos ou Yokanans, os São Joões, Escudeiros da Obra do Avatara de Piscis, o Christus, eram todos eles Grandes Iniciados que haviam atravessado e vencido a crise da 4.ª Iniciação, desse modo tornando-se Crestados (como São Lourenço passado vivo pela grelha incandescente), Chrestus ou Arhats de Fogo, de que Lázaro se tornou o símbolo vivo dessa colectividade de Iluminados por obra e graça do Espírito Santo – o Terceiro Logos, Shiva ou Adam-Chevaoth na Terra para o Celeste Adam-Kadmon, este o Andrógino Primordial que ao manifestar-se em separado toma forma na Parelha Humana Adam-Heve.

Fazendo recurso da “chave filológica” acerca do significado de Lázaro, tem-se:

Lázaro ou Lahzar = O Iniciado bíblico.

Lazarim = A colectividade dos Iniciados aramaicos (os Lazareth, que viviam em       Nazar-Heth (Nazaré), então uma comunidade espiritual dos Nazar, que se tornavam Lazareth quando passavam da 3.ª para a 4.ª Iniciação. Esta companhia ficou conhecida na História como Ordem dos Essénios (dividida em Puros e Terapeutas), que tinha por Instrutores os Nazar, por Iniciadores os Lazareth e por Patriarcas ou Perfeitos os Lazarinos. Os Lazarinos ou Lazarim eram os “duas vezes nascidos”, possuidores da 5.ª Iniciação Real, pelo que se haviam reintegrado ao 5.º Reino Espiritual (assinalado na Terra pelo Mundo de Agharta); viviam em isolamento quase total ao longo das margens do Mar Morto, orbitando entre a Palestina, a Judeia e o Egipto. João Batista, João Evangelista, Jesus, Lázaro, Paulo e uns quantos mais eram Lazareth, vindo depois a ser, pelo processo de Iniciação Real, Lazarim.

O topónimo jina Lazarim é, inclusive, o de uma localidade na margem sul do Rio Tejo, próxima de Cruz de Pau, que neste contexto tanto vale pelos palos do Madeiro Santo inflamado dos Arhats de Fogo, os Lazareth.

O Cristo ou Christus era o Messias (Messiah), o Enviado de Helli (Helius ou Elion) o Sol Espiritual, no que era o Chefe Supremo de todos os Lazarinos ou Adeptos Reais. Para terminar, distinguindo o conceito mistérico do confessional, apercebe-se que a fraqueza teológica da catequese católica é não saber distinguir entre o Imanente e o Transcendente, entre o Jesus-Homem e o Cristo-Deus. São Entidades perfeitamente distintas, apesar de interligadas.

São Sebastião, incarnando a paradigmática do Cavaleiro, Guerreiro ou Kshatriya, tendo morrido mártir atravessado por três flechas, o seu nome em hebreu escreve-se SBSH, equivalente ao Telo-Gens (Ente Telúrico) ou Homo Serpens (Homem Serpente), recambiando-o para a condição de Iniciado na e da Cripta Secreta (Crypta Ferrata), e por extenso para a energia telúrica encadeada num lugar ou ente, ou em ambos simultaneamente. No seu significado esotérico ou velado, as flechas vêm a representar as três qualidades básicas da Matéria (Mater-Rhea, Mãe Terra): Satva, Rajas e Tamas, ou sejam, Energia Centrífuga, Energia Rítmica e Energia Centrípeta. Nas igrejas que têm por Orago São Sebastião, é costume verem-se representadas as três flechas enlaçadas por uma coroa: designa a Matéria Coroada, ou melhor, a Alma do Mundo Coroada (Anima Mundi Coronata), como derradeiro resultado do martiriológio transcendente de Sebastião. Mesmo não o sendo, ainda assim no Festejo do Divino Império Sebastião é assumido português, confundindo-se os predicados do Sebastião-santo com os do Sebastião-rei, e vai bem assim, porque afinal Portugal é país sebástico cuja apologética destina-o a consolador das nações.

Quanto ao Arcanjo dito Anjo Custódio, já se sabe ser São Miguel, ou seja, Mikael, prerrogativa concedida por D. Manuel I ao país de O invocar como Guardião Nacional (que é dizer, o Espírito da Egrégora ou “Alma Sinergética” de Portugal), pois a ele compete por missão velar pela Terra dos vivos e pelo Oceano dos mortos, na sua função psicopompa de medianeiro e Guardião do Umbral entre a Morte e a Imortalidade. Por isso, possuía também o nome Bérrio, por separar os viventes dos não-viventes e demarcar a fronteira entre os Mundos Espiritual e Material, este assinalado pelos descrentes perdidos e aquele nos eleitos ou viventes na alegria ou folia do Divino Espírito Santo.

Mikael tem por atributos a balança e a espada: uma pesa as almas separando os justos dos injustos, impondo a Lei da Justiça Suprema, representada por Vénus; a outra designa a Harmonia Universal, a Ordem, o Verbo, a Paz assinalada por Mercúrio. Nisso, dá-se a identificação de Mikael com o Melkitsedek bíblico, Rei e Sacerdote, modelo do Preste João, Rei de Justiça (Lex) e de Salém (Pax)[17].

A manifestação do Arcanjo Primeiro, Custódio do Reino, assinala sempre a glória da Shekinah, a Grande Paz e Luz do Messias, representada pela 10.ª Sephiroth ou “Emanação Divina”, Malkuth, com o significado de o “Reino” (Assiah) e o “Justo” (Tsedek), remetendo para a prerrogativa de “Rei do Mundo”, Melkitsedek.

Portugal assume-se, assim, desde os primórdios da sua existência como país estruturado, com a cobertura de Cister, de Avis e do Templo, como Anunciado e Ungido de Deus, confirmado no Milagre Cristológico de Ourique, pois nele o Sacerdócio de Melkitsedek, conceptualmente compatível com o ministério de Realeza Sagrada, corresponde ao de El-Elion e este ao de Emmanuel, razão de não pouco peso para no século XVI o Rei D. Manuel I, Emmanuel de batismo, que fora antes Mestre da Ordem de Cristo e depois, não menos curiosamente, o 14.º Rei de Portugal (como aliás a Profecia de Isaías exigia), ter se apresentado como “Rei de Portugal e do resto”, isto é, como Rei do Mundo, conforme está gravado no seu túmulo no Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa. O que lhe conferia, inclusive, legitimidade para convocar a cruzada contra o turco, como se depreende das suas cartas ao Cardeal de Cisneros[18].

O próprio nascimento desse Rei Venturoso é rodeado de mistério sobrenatural e prognóstico aventurado, como relata Damião de Góis[19]:

E parece que houve em seu nascimento mistério, porque havia já alguns dias que a Infanta Dona Beatriz sua mãe andava com dores, sem puder parir, e quis Nosso-Senhor alumiá-la com o Santo Sacramento, chegando à porta da sua casa, por onde passava a procissão, e por o dia em que nasceu ser o da invocação do venerável Sacramento, lhe puseram o nome de Emmanuel, o qual é um dos grandes do Senhor Deus, cuja festa se celebrava naquele dia, em quem lhe aprouve dar ser tão exaltado e glorificado como ao presente é por todo o universo, onde por meio, indústria e despesa deste magnânimo Rei a Nação Portuguesa por armas, ou por amor pôde penetrar.

Até aqui falei do significado do sentido do Divino Império Popular, da sua origem mítica e do posterior desenvolvimento pagão/religioso, e também do toureio e dos santos da invocação do Pentecostes. Falarei, agora, do Imperador e da tríplice Coroação durante a cerimónia do Divino Império.

O Menino-Imperador, empunhando com as ambas as mãos o ceptro, símbolo do Poder Temporal do Mundo e, consequentemente, do Monarca Universal, vem ladeado por outro par de meninos: à esquerda, o imperador do ano transacto carregando a bandeira do Império, religiosamente guardada na igreja durante o tempo que medeia entre duas festas. Representa o Império ou Ciclo passado e o Guardião da Tradição. À direita, o condestável com o espadim real ou faim, palavra que Bluteau considera já muito antiga[20], encostado ao ombro esquerdo (o lado passivo, subjectivo do homem, indicativo do que está por cumprir), será também coroado para reger no Império do ano seguinte. Designa o Garante da Tradição no Império ou Ciclo futuro.

A designação Império, nesta tradição popular, equivale à Festividade Pentecostal, sendo a Casa do Império o lugar onde se guardam as alfaias, a Igreja do Império onde se celebra a Missa do Pentecostes e se faz a Coroação, o Terreiro do Império, espaço aberto fronteiro ao templo, onde tem lugar a morte do touro e o bodo, a Cabeça do Império, finalmente, é a Confraria do Espírito Santo local encarregada de escolher o Imperador pelos dotes de “bem e virtude” da sua família, pelo que esta nomeação é a maior honra que ela pode almejar.

A tríplice Coroação dos três Meninos ou Delfins (todos juntos valendo pelo hindustânico Maitreya, o “Senhor dos Três Mundos”, Céu – Terra – Inferno, no Ocidente identificado ao próprio Cristo), ela não deixa de estar associada à tríplice tiara, o triregnum de São Pedro (o Penedo, a Pedra Angular da Igreja iluminada pelo helíaco Santo António) e de São Bernardo, referindo-se ao Governo Supremo, Temporal e Espiritual, encabeçado pelo Brahmatmã, Chakravarti, Melkitsedek ou o mesmo Rei do Mundo, cumeira da Hierarquia Espiritual da Terra  e que tem por emblema duas chaves cruzadas sobre a tiara, representando os Três Mundos. Por isso se diz que Ele é o Senhor do Céu, da Terra e do Inferno. Nisso, há uma analogia com a tríplice Coroação dos Infantes e os Tempos existenciais:

Nos Açores, o Menino-Imperador é conduzido, vestindo os trajes tradicionais (capa vermelha, jaqueta e calção em ouro misturado com azul e calçando sapatos brancos), montado num cavalo branco, para e da Missa do Pentecostes, com os imperadores dos anos ido e porvir atrás, a pé.

É a representação clássica do Cavaleiro da Promessa de Advento, Akdorge ou São Jorge, para todo o efeito, Aquele que instaurará finalmente na Pátria por Deus escolhida o 5.º e derradeiro Império Universal dos Justos e Perfeitos, desses que são as verdadeiras Crianças do Senhor!…

Falando nisso, na preferência em um menino por reflectir a castidade e pureza, igualmente terá a ver com algo novo a criar que, para o Bandarrismo judaico-cristão, toma a figura do divino Delfim do Advento, tema enquadrado no lema sebástico e graalístico, Adveniat Regnum Tuum, “Advenha Vosso Reino”, pelo que também se identifica como indicando um novo Movimento Espiritual. pessoalmente, creio representar o Menino-Messias, o Cristo de uma Nova Idade, à dianteira do Movimento dos seus Apóstolos que são os Mestres e Iniciados da Excelsa Loja Branca do Mundo, essa mesma Igreja de Melkitsedek.

Os Impérios foram levados do continente para a Madeira e os Açores a bordo das caravelas da Ordem de Cristo, onde iam embarcados franciscanos beguinos aos quais se deve, inegavelmente, a disseminação das folias do Império, base popular da celebração pentecostal nas ilhas atlânticas onde Portugal chegou primeiro. Daí trasladaram-se para o quinto continente, para o Canadá e Américas. Destas destaca-se o Brasil, onde os bandeirantes e cabouclos propagaram e fincaram a sua tradição dando forma ao Divino Império Luso-Brasileiro, a mesma Nova Lusitânia assim consignada por Pedro de Mariz nos seus seiscentistas Diálogos de Vária História.

Da exportação do Divino Império de Portugal para o Brasil elevando-se soberano de todas as demais festividades religiosas, falam inúmeros autores brasileiros irmanados aos portugueses pela mesma Pátria que é a Língua Portuguesa, nas palavras vaticínias de Fernando Pessoa.

Diz Alceu Maynard de Araújo[21]: “A Festa do Pentecostes, que no meio rural é conhecida pelo nome de Festa do Divino Espírito Santo, é uma das mais antigas tradições religioso-profanas que possuímos. Oriunda de Portugal, pois foi introduzida pela Rainha Isabel, aqui aportou nos primórdios da colonização”.

Já antes, Benedicto Pires de Almeida havia escrito[22]: “A origem desta tradição sob o céu do Brasil é contada por Melo Morais Filho em seu apreciado livro “Festas e Tradições do Brasil”, em que diz: “Referem antigos cronistas que as Festas do Divino foram instituídas em Portugal pela Rainha Santa Isabel”…”.

Por seu turno, Câmara Cascudo reitera[23]: “Desde o século XVI foi festa divulgada no Brasil, dizendo-se que datava em Portugal de El-Rei D. Dinis e da Rainha Santa Isabel”.

Finalmente, Walter Spalding diz[24]: “As Festas Populares do Espírito Santo foram instituídas pela Rainha Santa Isabel de Aragão e El-Rei Dom Diniz lá pelo ano de mil duzentos e tantos, logo após seu casamento com a Rainha Santa. Teve essa Festa por berço a então vila de Alenquer, de onde se irradiou para todo o continente português, instalando-se definitivamente e com raízes profundas, no arquipélago dos Açores desde o início de seu povoamento regular”.

Assim, também por festejo misto de profano e sagrado, para todo o efeito, chancelado pelo Divino Espírito Santo, Portugal-Brasil se unem Pátria-Gémea onde impera uma só Língua, um só Valor, um só Espírito que haverá, na maior das Promessas de Advento, imperar sobre todos os impérios fatais do Mundo.

Resta terminar, e com palavras respigadas às ilustres de Elísio Gala[25], as quais bem servem de encerramento a quanto disse e sugeri, não pouco entrelinhas: – Portugal sempre foi um país católico, isto é, ecuménico. Um dos nossos paradigmas, o V Império supõe que haverá lugar para todos os homens pelos quais cada homem e cada povo invoca o nome de Deus. O convívio experienciado de três tradições filosóficas e teológicas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – serve de testemunho aos construtores do V Império. Com o vindouro Infante de Sagres, o Espírito passará.

Em jubilosa esperança fica-se aguardando por entre as três colunas do Templo do Espírito Santo: a Saudade, o V Império, o Messias. Como preconiza Pinharanda Gomes: “Nesse dia celebraremos a missa sobre o mundo. No altar do mundo, a missa de louvor de toda a humanidade. A liturgia já não celebrará os mistérios da paixão e da morte. A literatura litúrgica arquivará as orações de súplica. Tudo será liturgia de louvor. Cantaremos e adoraremos, ter-nos-emos associado para amar e, desse modo, já desnecessário será pedir, suplicar. Só louvaremos, pela liturgia do louvor, como anjos reboando, pombas brancas, no azul celeste, entoando glórias à Vida”.

 

NOTAS

 

[1] Eduardo Freire de Almeida, Elementos para a História do Município de Lisboa, t. V, pp. 86-87, 1882.

[2] Chancelaria de D. João IV, livro 15, p. 53, 1640-1656. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa.

[3] Pentecostes, do hebreu, “Quinquagésima”. Festa celebrada pela Igreja cristã 50 dias após a Páscoa da Ressurreição, porque em tal dia – segundo lemos nos Actos (II) – o Espírito Santo desceu, sob a forma de línguas de fogo, sobre os apóstolos, que então começaram a falar em diversas línguas. Esta mesma festa é também celebrada pelos judeus, com grande solenidade, 50 dias depois da Páscoa do Cordeiro, em memória da lei dada a Moisés no Sinai, 50 dias depois da saída do Egipto, razão pela qual era também denominada de “Festa das Semanas”, porque era celebrada 7 semanas depois da Páscoa. Era chamada ainda de “Festa das Primícias”, porque em tal dia os israelitas levavam ao templo as primícias dos frutos de seus campos. – In Glossário Teosófico, de Helena Petrovna Blavatsky. Editora Ground Ltda., 1995, São Paulo, Brasil.

A “Festa Popular do Culto do Império do Divino Espírito Santo”, genuinamente portuguesa, realiza-se nos primeiros dias de Junho, iniciando-se a uma quinta-feira e culminando na terça-feira seguinte, sendo uso na aldeia do Penedo o programa seguinte:

1.º dia – 5.ª feira (Júpiter): Manhã = Alvorada pirotécnica / Tarde = Arraial / Noite = Baile.

2.º dia – 6.ª feira (Vénus): O mesmo que no dia anterior.

3.º dia – Sábado (Saturno): Manhã = Alvorada pirotécnica / Tarde = Passeio da banda filarmónica pela terra e redondezas / Corrida do touro à corda / Imolação do touro / Ladainhas ao Espírito Santo na igreja / Limpeza das carnes para o Bodo / Noite = Arraial e baile.

4.º dia – Domingo (Sol): Manhã = Alvorada pirotécnica / Confecção do Bodo / Cortejo do Espírito Santo e seu séquito / Coroação do Menino-Imperador na igreja de St.º António e do Divino Espírito Santo, evoco franciscano, pelo prior da freguesia, que fará a leitura do Evangelho de São João e dos Actos dos Apóstolos / Cortejo pelo Penedo do novo Imperador do Império do Espírito Santo / Tarde = Refeição oferecida na casa dos pais do Imperador, representando este, aos oficiais da confraria e às forças vivas do poder local / Cortejo do Espírito Santo com o Imperador à dianteira / Bodo aos pobres / Promessas ao Imperador e ao Divino Espírito Santo / Cortejo / Noite = Jantar dos festeiros / Arraial e baile.

5.º dia – 2.ª feira (Lua): Manhã = Alvorada pirotécnica / Missa do Espírito Santo na igreja / Tarde = Bodo dos peregrinos / Noite = Jantar dos festeiros / Arraial e baile.

Existe ainda um sexto dia, a 3.ª feira, em que oficialmente é dada por terminado o Festejo, mesmo que liturgicamente o tenha sido no dia anterior. Ainda assim, animado pelos festeiros, veja-se o que decorre ao longo dele:

6.º dia – 3.ª feira (Marte): Manhã = Alvorada pirotécnica / Tarde e noite = Arraial e baile, este encerrando com lançamento de foguetes, anunciando o fim da Festa.

[4] Aconselho a quem pouco saiba deste tema a leitura de três títulos básicos: Os Impérios Populares, por Maria Micaela Soares. “Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa”, III Série – N.º 88 – 1.º Tomo – 1982. Roteiro Lexical do Culto e Festas do Espírito Santo nos Açores, por Manuel Breda Simões. Instituto da Língua Portuguesa, Ministério da Educação, 1987. Contributos para o estudo das festividades populares em louvor do Divino Espírito Santo no lugar do Penedo (Colares-Sintra), por Maria Elisabeth Figueiredo Cabral e Maria Luísa Abreu Nunes. “Sintria”, I-II, Tomo I, 1982-1983, Gabinete de Estudos de Arqueologia, Arte e Etnografia. Museu Regional de Sintra – Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas.

[5] D. Rodrigo da Cunha, História Eclesiástica da Igreja de Lisboa, fl. 122. Lisboa, 1642.

[6] Padre António Vieira, As Esperanças de Portugal. Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa.

[7] Manuel Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal. Lisboa, 1986.

[8] Vitor Manuel Adrião, Estremadura, o Extremo Ibérico. Revista “Cidades”, Ano II, N.º 4, 1988.

[9] Não sendo consensual a data do seu começo nesta “vila presépio”: A. Rodrigues de Azevedo, baseado numa escritura que existiu na Câmara Municipal de Alenquer, adianta o ano 1280, enquanto Jaime Cortesão, adoptando a sugestão de Frei Manuel da Esperança e tendo à vista documentos do Arquivo de Alenquer, afirma ter sido o Mosteiro de São Francisco da mesma vila o palco da sua primeira realização, em 1323. A ser verdade, essa última data acaso viria na continuidade de D. Isabel de Araújo, em Alenquer, ter convocado no dia de Pentecostes de 1296 o clero, a nobreza e o povo para tomarem parte nas solenidades religiosas realizadas na inauguração de uma confraria, a que chamaram de Império.

[10] Portugal – Pessoa responde ao inquérito “Portugal, Vasto Império”. Primeira publicação em O Jornal do Comércio e das Colónias, 73.º ano, n.º 21693, Lisboa, 28-5-1926. Segunda publicação por Augusto da Costa em Portugal, Vasto Império. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1934.

[11] António Telmo, História Secreta de Portugal. Editorial Vega, Lisboa, 1977.

[12] René Guénon, Os Símbolos da Ciência Sagrada. Editora “O Pensamento”, São Paulo, 1993. E também do mesmo autor, Estudos sobre Franco-Maçonaria e Companheirismo, dois volumes, traduzidos da língua francesa por V. M. Adrião.

[13] Pedro de Azevedo, Costumes e Festas Populares dos Séculos XV e XVI. Revista Lusitana, vol. XV, p. 134, Lisboa, 1912.

[14] Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, vol. III, p. 432. Lisboa, 1711.

[15] Frei Agostinho de Santa Rosa de Viterbo, Elucidário das Palavras, Termos e Frases que em Portugal antigamente se usaram, vol. II. 2.ª edição, Lisboa, 1865.

[16] Rudolf Steiner, O Evangelho Segundo João. Edição da Associação Pedagógica “Rudolf Steiner”, São Paulo, 1981.

[17] Vitor Manuel Adrião, Portugal, Sagrado e Mistério (Memória Histórica). Euedito, Lisboa, 2018.

[18] Costa Brochado, A espiritualidade dos descobrimentos e conquistas dos portugueses. Revista Brotéria, vol. XL, pp. 25-42, 1945.

[19] Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel I. Lisboa, 1566.

[20] Rafael Bluteau, Vocabulário Português e Latino, vol. IV, p. 14. Coimbra, 1743.

[21] Alceu Maynard de Araújo, Festa do Divino Espírito Santo. Revista do Arquivo Municipal, 157, p. 63, São Paulo, 1954.

[22] Benedicto Pires de Almeida, A Festa do Divino. Revista do Arquivo Municipal, 59, p. 33, São Paulo, 1939.

[23] Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, p. 236. Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1954.

[24] Walter Spalding, A Festa do Divino Espírito Santo e sua Origem, em Tradições e Superstições do Brasil Sul, p. 176.  Rio Solimões, 1955.

[25] Elísio Gala, As Linhas Míticas do Pensamento Português. Fundação Lusíada, Lisboa, 1995.

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